{"id":92363,"date":"2017-01-04T09:55:32","date_gmt":"2017-01-04T11:55:32","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92363"},"modified":"2017-01-04T09:55:32","modified_gmt":"2017-01-04T11:55:32","slug":"o-drama-da-geada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/o-drama-da-geada","title":{"rendered":"O Drama da Geada"},"content":{"rendered":"<p><strong>Junho.<\/strong><\/p>\n<p>Manh\u00e3 de neblina. Vegeta\u00e7\u00e3o entanguida de frio. Em todas as folhas o recamo de diamantes com que as adere\u00e7a o orvalho.<br \/>\nPassam colonos para a ro\u00e7a, retransidos, deitando fuma\u00e7a pela boca.<\/p>\n<p>Frio. Frio de geada, desses que matam passarinhos e nos p\u00f5em sorvete dentro dos ossos.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos cedo a ver cafezais, e ali paramos, no viso do espig\u00e3o, ponto mais alto da fazenda. Dobrando o joelho sobre a cabe\u00e7a do socado, o major voltou o corpo para o mar de caf\u00e9 aberto ante nossos olhos e disse num gesto amplo:<\/p>\n<p>&#8211; Tudo obra minha, veja!<\/p>\n<p>Vi. vi e compreendi-lhe o orgulho, sentindo-me orgulhoso tamb\u00e9m de tal patr\u00edcio. Aquele desbravador de sert\u00f5es era uma for\u00e7a criadora, dessas que enobrecem a ra\u00e7a humana.<\/p>\n<p>&#8211; Quando adquiri estar gleba \u2013 disse ele &#8211; , tudo era mata virgem, de ponta a ponta. Rocei, derrubei, queimei, abri caminhos, rasguei valos, estiquei arame, constru\u00ed pontes, ergui casas, arrumei pastos, plantei caf\u00e9 \u2013 fiz tudo. Trabalhei como negro cativo durante quatro anos. Mas venci. A fazenda est\u00e1 formada, veja.<\/p>\n<p>Vi. vi o mar de caf\u00e9 ondulado pelos seios da terra, disciplinado em fileiras de absoluta regularidade. Nem uma falha! Era um ex\u00e9rcito em p\u00e9 de guerra. Mas bisonho ainda. S\u00f3 no ano vindouro entraria em campanha. At\u00e9 ali, os primeiros frutos n\u00e3o passavam de escaramu\u00e7as de colheita. E o major, chefe supremo do verde ex\u00e9rcito por ele criado, disciplinado, preparado para a batalha decisiva da primeira safra grande, q que liberta o fazendeiro dos \u00f4nus da forma\u00e7\u00e3o, tinha o olhar orgulhoso dum pai diante de filhos que n\u00e3o mentem \u00e0 estirpe.<\/p>\n<p>O fazendeiro paulista \u00e9 alguma coisa no mundo. Cada fazenda \u00e9 uma vit\u00f3ria sobre a fereza retr\u00e1til dos elementos brutos, coligados na defesa da virgindade agredida. Seu esfor\u00e7o de gigante paciente nunca foi cantado pelos poetas, mas muita epop\u00e9ia h\u00e1 por a\u00ed que n\u00e3o vale a destes her\u00f3is do trabalho silencioso. Tirar uma fazenda do nada \u00e9 fa\u00e7anha formid\u00e1vel. Alterar a ordem da natureza, venc\u00ea-la, impor-lhe uma vontade, canalizar-lhe uma vontade, canalizar-lhe as for\u00e7as de acordo com um plano preestabelecido, dominar a r\u00e9plica eterna do mato daninho, disciplinar os homens da lida, quebrar a for\u00e7a das pragas&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 batalha sem tr\u00e9guas, sem fim, sem momento de repouso e. o que \u00e9 pior, sem certeza plena da vit\u00f3ria. Colhe-a muitas vezes o credor, um onzeneiro que adiantou um capital car\u00edssimo e ficou a seu salvo na cidade, de c\u00f3coras num t\u00edtulo de hipoteca, espiando o momento oportuno para cair sobre a presa, como um gavi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Realmente, major, isto \u00e9 de enfunar o peito! \u00c9 diante de espet\u00e1culos destes que vejo a mesquinharia dos que l\u00e1 fora, comodamente, parasitam o trabalho do agricultor.<\/p>\n<p>&#8211; Diz bem. Fiz tudo, mas o lucro maior n\u00e3o \u00e9 meu. Tenho um s\u00f3cio voraz que me lambe, ele s\u00f3, um quarto da produ\u00e7\u00e3o: o governo. Sangram-na depois as estradas de ferro \u2013 mas destas n\u00e3o me queixo porque d\u00e3o muita coisa em troca. J\u00e1 n\u00e3o digo o mesmo dos tubar\u00f5es do com\u00e9rcio, esse cardume de intermedi\u00e1rios que come\u00e7a ali em Santos, no zang\u00e3o, e vai numa at\u00e9 ao torrador americano. Mas n\u00e3o importa! O caf\u00e9 da para todos, at\u00e9 para a besta do produtor&#8230; concluiu, pilheriando.<\/p>\n<p>Tocamos os animais a passo a passo, com os olhos sempre presos ao cafezal int\u00e9rmino. Sem um defeito de forma\u00e7\u00e3o, as paralelas de verdura ondeavam, acompanhando o relevo do solo, at\u00e9 se confundirem ao longe em massa uniforme. Verdadeira obra d\u2019arte em que, sobrepondo-se \u00e0 natureza, o homem lhe impunha o ritmo da simetria.<\/p>\n<p>&#8211; No entanto \u2013 continuou o major &#8211; , a batalha ainda n\u00e3o est\u00e1 ganha. Contra\u00ed d\u00edvidas; a fazenda est\u00e1 hipotecada a judeus franceses. N\u00e3o venham colheitas fartas e serei mais um vencido pela fatalidade das coisas. A natureza depois de subjugada \u00e9 m\u00e3e; mas o credor \u00e9 sempre carrasco&#8230;<\/p>\n<p>A espa\u00e7os, perdidas na onda verde, perobeiras sobreviventes erguiam fustes contorcidos, como galvanizadas pelo fogo numa convuls\u00e3o de dor. Pobres \u00e1rvores! Que destino triste verem-se um dia arrancadas \u00e0 vida em comum e insuladas na verdura rastejante do caf\u00e9, como rainhas prisioneiras \u00e0 cola de um carro de triunfo.<\/p>\n<p>\u00d3rf\u00e3s da mata nativa, como n\u00e3o h\u00e3o de chorar o conchego de outrora? Vende-as. N\u00e3o t\u00eam o desgarre, o frondoso de copa das que nascem em campo aberto. Seu engalhamento, feito para a vida apertada da floresta, parece agora grotesco; sua altura desmesurada, em despropor\u00e7\u00e3o com a fronde, provoca o riso. S\u00e3o mulheres despidas em p\u00fablico, hirtas de vergonha, n\u00e3o sabendo que parte do corpo esconder. O excesso de ar as atordoa, o excesso de luz as martiriza \u2013 afeitas que estavam ao espa\u00e7o confinado e \u00e0 penumbra solonenta do habitat.<\/p>\n<p>Fazendeiros desalmados \u2013 n\u00e3o deixeis nunca \u00e1rvores pelo cafezal&#8230; cortai-as todas, que nada mais pungente do que for\u00e7ar uma \u00e1rvore a ser grotesca.<\/p>\n<p>&#8211; Aquela perobeira ali \u2013 disse o major \u2013 ficou para assinalar o ponto de partida deste talh\u00e3o. Chama-se a peroba do Ludgero, um baiano valente que morreu ao p\u00e9 dela estrepado numa ju\u00e7ara&#8230;<\/p>\n<p>Tive a vis\u00e3o do livro aberto que seriam para o fazendeiro aquelas paragens.<\/p>\n<p>&#8211; Como tudo aqui h\u00e1 de falar \u00e0 mem\u00f3ria, major!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isso mesmo. Tudo me fala \u00e0 recorda\u00e7\u00e3o. Cada toco de pau, cada pedreira, cada volta de caminho tem uma hist\u00f3ria que sei, tr\u00e1gica \u00e0s vezes, como essa da peroba, \u00e0s vezes c\u00f4mica \u2013 pitoresca sempre. Ali&#8230; \u2013 est\u00e1 vendo aquele toco de jeriv\u00e1? Foi por uma tempestade de fevereiro. Eu abrigara-me num rancho coberto de sap\u00e9, e l\u00e1 em sil\u00eancio esper\u00e1vamos, eu e a turma, o fim do dil\u00favio, quando estalou um raio quase em cima das nossas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; \u201cFim do mundo, patr\u00e3o!\u201d \u2013 lembrou-me que disse, numa careta de pavor, o defunto Z\u00e9 Coivara&#8230; E parecia!&#8230; Mas foi apenas o fim de um velho coqueiro, do qual resta hoje \u2013 sic transit&#8230; esse pobre toco&#8230; cessada a chuva, encontramo-lo desfeito em ripas.<\/p>\n<p>Mais adiante abria-se a terra em bo\u00e7oroca vermelha, esbarronada em coleios at\u00e9 morrer no c\u00f3rrego. O major apontou-a, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Cen\u00e1rio do primeiro crime cometido na fazenda. Rabo-de-saia, j\u00e1 se sabe. Nas cidades e na ro\u00e7a, pinga e saia s\u00e3o o m\u00f3vel de todos os crimes. Esfaquearam-se aqui dois cearences.<\/p>\n<p>Um acabou no lugar; outro cumpre pena na correi\u00e7\u00e3o. E a saia, muito contente da vida, mora com o tertius. A historia de sempre.<\/p>\n<p>E assim, de evoca\u00e7\u00e3o em evoca\u00e7\u00e3o, \u00e0s sugest\u00f5es que pelo caminho iam surgindo, chegamos \u00e0 casa de moradia, onde nos esperava o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Almo\u00e7amos, e n\u00e3o sei se por boa disposi\u00e7\u00e3o criada pelo passeio matutino ou por m\u00e9rito excepcional da cozinheira, o almo\u00e7o desse dia ficou-me na mem\u00f3ria gravado para sempre. N\u00e3o sou poeta, mas se Apolo algum dia me der na cabe\u00e7a o estalo do padre Vieira, juro que antes de cantar Lauras e Nat\u00e9rcias hei de fazer uma beleza de ode \u00e0 ling\u00fci\u00e7a com angu de fub\u00e1 vermelho desse almo\u00e7o sem par, \u00fanica saudade gustativa com que descerei ao t\u00famulo&#8230;<\/p>\n<p>Em seguida, enquanto o major atendia \u00e0 correpond\u00eancia, sa\u00ed a espairecer pelo terreiro, onde me pus de conversa com o administrador.<\/p>\n<p>Soube por ele da hipoteca que pesava sobre a fazenda e da possibilidade de outro, n\u00e3o o major, vir a colher o fruto do penoso trabalho.<\/p>\n<p>&#8211; Mas isso \u2013 esclareceu o homem \u2013 s\u00f3 no caso de muito azar \u2013 chuva de pedra ou geada, daquelas que n\u00e3o v\u00eam mais.<\/p>\n<p>&#8211; Que n\u00e3o v\u00eam mais, por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; porque a \u00faltima geada grande foi em 1895. Da\u00ed para c\u00e1 as coisas endireitaram. O mundo, com a idade, muda, como agente. As geadas, por exemplo, v\u00e3o-se acabando.<\/p>\n<p>Antigamente ningu\u00e9m plantava caf\u00e9 onde o plantamos hoje. Era s\u00f3 de meio morro acima. Agora, n\u00e3o. Viu aquele cafezal do meio? Terra bem baixa; no entanto, se bate geada ali \u00e9 sempre coisinha \u2013 um tostado leve. De modo que o patr\u00e3o, com uma ou duas colheitas, apaga a d\u00edvida e fica o fazendeiro mais \u201cprepotente\u201d do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>&#8211; Assim seja, que grandemente o merece \u2013 rematei.<\/p>\n<p>Deixei-o. dei uma voltas, fui ao pomar, estive no chiqueiro vendo brincar os leit\u00f5ezinhos e depois subi. Estava um preto danado nas venezianas da casa a \u00faltima dem\u00e3o de tinta. Porque ser\u00e1 que as pintam sempre de verde? Incapaz por mim de solver o problema, interpelei o preto, que n\u00e3o se embara\u00e7ou e respondeu sorrindo:<\/p>\n<p>&#8211; Pois veneziana \u00e9 verde como o c\u00e9u e azul. \u00c9 da natureza dela&#8230;<\/p>\n<p>Aceitei a teoria e entrei.<\/p>\n<p>\u00c0 mesa a conversa girou em torno da geada.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o m\u00eas perigoso este \u2013 disse o major. \u2013 O m\u00eas da afli\u00e7\u00e3o. Por maior firmeza que tenha um homem, treme nesta \u00e9poca. A geada \u00e9 um eterno pesadelo. Felizmente a geada n\u00e3o \u00e9 mais o que era dantes. J\u00e1 nos permite aproveitar muita terra baixa em que os antigos, nem por sombras, plantavam um s\u00f3 p\u00e9 de caf\u00e9.<\/p>\n<p>Mas, apesar disso, um que facilitou, como eu, est\u00e1 sempre com a pulga atr\u00e1s da orelha. Vir\u00e1? N\u00e3o vir\u00e1? Deus sabe!&#8230;<\/p>\n<p>Seu olhar mergulhou pela janela, numa sondagem profunda ao c\u00e9u l\u00edmpido.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje, por exemplo, est\u00e1 com jeito. Este frio fino, este ar parado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vale a pena pensar nisto. O que tem de ser est\u00e1 gravado no livro do destino.<\/p>\n<p>&#8211; Livra-te dos ares!&#8230; \u2013 objetei.<\/p>\n<p>&#8211; Cristo n\u00e3o entendia de lavoura \u2013 replicou o fazendeiro sorrindo.<\/p>\n<p>E a geada veio! N\u00e3o geadinha mansa de todos os anos, mas calamitosa, geada c\u00edclica, trazida em ondas do sul.<\/p>\n<p>O sol da tarde. Morti\u00e7o, dera uma luz sem luminosidade, e raios sem calor nenhum. Sol boreal, tiritante. E a noite ca\u00edra sem pre\u00e2mbulos.<\/p>\n<p>Deitei-me cedo, batendo o queixo, e na cama, apesar de enleado em dois cobertores, permaneci entanguido uma boa hora antes que ferrasse no sono.<\/p>\n<p>Acordou-me o sino da fazenda, pela madrugada. Sentindo-me enregelado, com os p\u00e9s a doerem, ergui-me para um exerc\u00edcio violento. Fui para o terreiro.<\/p>\n<p>O relento estava de cortar as carnes \u2013 mas que maravilhoso espet\u00e1culo! Brancuras por toda parte. Ch\u00e3o, \u00e1rvores, gramados e pastos eram, de ponta a ponta, um s\u00f3 atoalhado branco. As \u00e1rvores im\u00f3veis, inteiri\u00e7adas de frio, pareciam emersas dum banho de cal. Rebrilhos de gelo pelo ch\u00e3o. \u00c1guas envidradas. as roupas dos varais, tesas, como endurecidas em goma forte. As palhas do terreiro. Os sabugos ao p\u00e9 do cocho, a telha dos muros, o topo dos mour\u00f5es, a vara das cercas o rebordo das t\u00e1buas \u2013 tudo polvilhado de brancuras, lactescentes, como chovido por um saco de farinha. Maravilhoso quadro! Invari\u00e1vel que \u00e9 a nossa paisagem, sempre nos mansos tons do ano inteiro, encantava sobremodo v\u00ea-la s\u00fabito mudar, vestir-se dum esplenderoso v\u00e9u de noiva \u2013 noiva da morte, ai!&#8230;<\/p>\n<p>Por algum tempo caminhei a esmo, arrastado pelo esplendor da cena. O maravilhoso quadro de sonho breve morreria, apagado pela esponja de ouro do sol. J\u00e1 pelos topes e faces de batedeira andavam-lhe os raios na faina de restaurar a verdura. Abriam manchas no branco da geada, dilatavam-nas, entremostrando nesgas do verde submerso.<\/p>\n<p>S\u00f3 nas baixadas, encostas noruegas ou s\u00edtios sombreados pelas \u00e1rvores, \u00e9 que a brancura persistia ainda, contrastando sua n\u00edtida frialdade com os tons quentes ressurretos. Vencera a vida, guiada pelo sol. Mas a interven\u00e7\u00e3o do fogoso Febo, apressada demais, transformara em desastre horroroso a nevada daquele ano \u2013 a maior de quantas deixaram marca nas embaubeiras de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A ressurei\u00e7\u00e3o do verde fora aparente. Estava morta a vegeta\u00e7\u00e3o, dias depois, por toda parte, a vestimenta do solo seria um bureli imenso, com s\u00e9pia a mostrar a gama inteira dos seus tons ressecos, pontilh\u00e1-lo-ia apenas, c\u00e1 e l\u00e1; o verde-negro das laranjas e o esmeraldino sem-vergonha da vassourinha.<\/p>\n<p>Quando regressei, sol j\u00e1 alto, estava a casa retransida do pavor das grandes cat\u00e1stofres. S\u00f3 ent\u00e3o me acudiu que o belo espet\u00e1culo, que eu at\u00e9 ali s\u00f3 encarara pela prisma est\u00e9tico, tinha um reverso tr\u00e1gico: a ru\u00edna do her\u00f3ico fazendeiro. E procurei-o ansioso.<\/p>\n<p>Tinha sumido. Passara a noite em claro, disse-me a mulher: de manh\u00e3, mal chegara, fora para a janela e l\u00e1 permanecera im\u00f3vel, observando o c\u00e9u atrav\u00e9s dos vidros. Depois sa\u00edra, sem ao menos pedir o caf\u00e9, como de costume. Andava a examinar a lavoura, provavelmente.<\/p>\n<p>Devia ser isso mas como retardasse a voltar \u2013 onze horas e nada \u2013 a fam\u00edlia entrou-se de apreens\u00f5es.<\/p>\n<p>Meio-dia. Uma hora, duas, tr\u00eas e nada.<\/p>\n<p>O administrador, que a mandado da mulher sa\u00edra a procur\u00e1-lo, voltou \u00e0 tarde sem not\u00edcias.<\/p>\n<p>&#8211; Bati tudo e nem rasto. Estou com medo dalguma coisa&#8230; vou espalhar gente por a\u00ed, \u00e0 cata.<\/p>\n<p>D. Ana, inquieta, de m\u00e3os enclavinhadas, s\u00f3 dizia uma coisa:<\/p>\n<p>&#8211; Que ser\u00e1 de n\u00f3s, santo Deus! Quincas \u00e9 capaz duma loucura&#8230;<\/p>\n<p>Pus-me em campo tamb\u00e9m, em companhia do capataz. Corremos todos os caminhos, varejamos grotas em todas as dire\u00e7\u00f5es \u2013 inutilmente.<\/p>\n<p>Caiu a tarde, caiu a noite \u2013 a noite mais l\u00fagubre de minha vida -, noite de desgra\u00e7a a afli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o dormi. Imposs\u00edvel conciliar o sono naquele ambiente de dor, sacudido de choro e solu\u00e7os. Certa hora os c\u00e3es latiram no terreiro, mas silenciaram logo.<\/p>\n<p>Rompeu a manh\u00e3, glacial como a da v\u00e9spera. Tudo apareceu geado novamente.<\/p>\n<p>Veio o sol. Repetiu-se a muta\u00e7\u00e3o da cena. Esvaiu-se a alvura, e o verde morto da vegeta\u00e7\u00e3o envolveu a paisagem num sud\u00e1rio de desalento.<\/p>\n<p>Em casa repetiu-se o corre-corre do dia anterior \u2013 o mesmo vaiv\u00e9m, o mesmo \u201cquem sabe?\u201d, as mesmas pesquisas in\u00fateis.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde, por\u00e9m \u2013 tr\u00eas horas -, um camarada apareceu esbaforido, gritando de longe, no terreiro:<\/p>\n<p>&#8211; Encontrei! Est\u00e1 perto da bo\u00e7oroca!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vivo? \u2013 perguntou o capataz.<\/p>\n<p>Vivo, sim, mas..<br \/>\nD. Ana surgira \u00e0 porta e ao ouvir a boa nova exclamou, chorando e sorrindo:<\/p>\n<p>&#8211; Bendito sejas, meu Deus!&#8230;<\/p>\n<p>Minutos depois partimos todos de rumo \u00e0 bo\u00e7oroca e, a cem passos dela, avistamos um vulto \u00e0s voltas com os cafeeiros requeimados. Aproximamo-nos.<\/p>\n<p>Era o major. Mas em que estado! Roupa em tiras, cabelos sujos de terra, olhos v\u00edtreos e desvairados. Tinha nas m\u00e3os uma lata de tinta e uma broxa \u2013 broxa do pintor que andava a olear as venezianas. Compreendi o latido dos c\u00e3es \u00e0 noite&#8230;<\/p>\n<p>O major n\u00e3o se deu conta da nossa chegada. N\u00e3o interrompeu o servi\u00e7o: continuou a pintar, uma a uma, do risonho verde esmeraldino das venezianas, as folhas requeimadas do cafezal morto&#8230;<\/p>\n<p>D. Ana, estarrecida, entreparou at\u00f4nita. Depois, compreendendo a trag\u00e9dia, rompeu em choro convulso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Junho. Manh\u00e3 de neblina. Vegeta\u00e7\u00e3o entanguida de frio. Em todas as folhas o recamo de diamantes com que as adere\u00e7a o orvalho. Passam colonos para a ro\u00e7a, retransidos, deitando fuma\u00e7a pela boca. Frio. Frio de geada, desses que matam passarinhos e nos p\u00f5em sorvete dentro dos ossos. 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