{"id":92359,"date":"2017-01-04T09:33:57","date_gmt":"2017-01-04T11:33:57","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92359"},"modified":"2017-01-04T09:33:57","modified_gmt":"2017-01-04T11:33:57","slug":"o-colocador-de-pronomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/o-colocador-de-pronomes","title":{"rendered":"O Colocador de Pronomes"},"content":{"rendered":"<p>Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gram\u00e1tica.<\/p>\n<p>Durante sessenta anos de vida terrena pererecou como um peru em cima da gram\u00e1tica.<\/p>\n<p>E morreu, afinal, v\u00edtima dum novo erro de gram\u00e1tica.<\/p>\n<p>Martir da gram\u00e1tica, fique este documento da sua vida como pedra angular para uma futura e bem merecida canoniza\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<p>Havia em Itaoca um pobre mo\u00e7o que definhava de t\u00e9dio no fundo de um cart\u00f3rio. Escrevente. Vinte e tr\u00eas anos. Magro. Ar um tanto palerma. Ledor de versos lacrimog\u00eaneos e pai duns acr\u00f3sticos dados \u00e0 luz no &#8220;Itaoquense&#8221; , com bastante sucesso.<\/p>\n<p>Vivia em paz com as suas certid\u00f5es quando o frechou venenosa seta de Cupido. Objeto amado: a filha mais mo\u00e7a do coronel Triburtino, o qual tinha duas, essa Laurinha, do escrevente, ent\u00e3o nos dezessete, e a do Carmo, encalhe da fam\u00edlia, vesga, madurota, hist\u00e9rica, manca da perna esquerda e um tanto aluada.<\/p>\n<p>Triburtino n\u00e3o era homem de brincadeira. Esguelara um vereador oposicionista em plena sess\u00e3o da c\u00e2mara e desd&#8217;a\u00ed se transformou no tut\u00fa da terra. Toda gente lhe tinha um vago medo; mas o amor, que \u00e9 mais forte que a morte, n\u00e3o receia sobrecenhos enfarruscados nem tufos de cabelos no nariz.<\/p>\n<p>Ousou o escrevente namorar-lhe a filha, apesar da dist\u00e2ncia hier\u00e1rquica que os separava. Namoro \u00e0 moda velha, j\u00e1 se v\u00ea, pois que nesse tempo n\u00e3o existia a gostorura dos cinemas. Encontros na igreja, \u00e0 missa, troca de olhares, di\u00e1logos de flores &#8211; o que havia de inocente e puro. Depois, roupa nova, ponta de len\u00e7o de seda a entremostrar-se no bolsinho de cima e medi\u00e7\u00e3o de passos na rua d&#8217;Ela, nos dia de folga. Depois, a serenata fatal \u00e0 esquina, com o Acorda, donzela&#8230;<\/p>\n<p>Sapecado a medo num velho pinho de empr\u00e9stimo. Depois, bilhetinho perfumado.<\/p>\n<p>Aqui se estrepou&#8230;<\/p>\n<p><strong>Escrevera nesse bilhetinho, entretanto, apenas quatro palavras, afora pontos exclamativos e retic\u00eancias:<\/strong><\/p>\n<p>Anjo adorado!<\/p>\n<p>Amo-lhe!<\/p>\n<p>Para abrir o jogo bastava esse movimento de pe\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, aconteceu que o pai do anjo apanhou o bilhetinho celestial e, depois de tr\u00eas dias de sobrecenho carregado, mandou cham\u00e1-lo \u00e0 sua presen\u00e7a, com disfarce de pretexto &#8211; para umas certid\u00f5esinhas, explicou.<\/p>\n<p>Apesar disso o mo\u00e7o veio um tanto ressabiado, com a pulga atr\u00e1s da orelha.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe erravam os pressentimentos. Mas o pilhou portas aqu\u00e9m, o coronel trancou o escrit\u00f3rio, fechou a carranca e disse:<\/p>\n<p>-A fam\u00edlia Triburtino de Mendon\u00e7a \u00e9 a mais honrada desta terra, e eu, seu chefe natural, n\u00e3o permitirei nunca &#8211; nunca, ouviu? &#8211; que contra ela se cometa o menor deslize. Parou. Abriu uma gaveta. Tirou de dentro o bilhetinho cor de rosa, desdobrou-o<\/p>\n<p>-\u00c9 sua esta pe\u00e7a de flagrante delito?<\/p>\n<p>O escrevente, a tremer, balbuciou medrosa confirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>-Muito bem! Continuou o coronel em tom mais sereno. Ama, ent\u00e3o, minha filha e tem a aud\u00e1cia de o declarar&#8230; Pois agora&#8230;<\/p>\n<p>O escrevente, por instinto, ergueu o bra\u00e7o para defender a cabe\u00e7a e relanceou os olhos para a rua, sondando uma retirada estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>-&#8230; \u00e9 casar! Concluiu de improviso o vingativo pai.<\/p>\n<p>O escrevente ressuscitou. Abriu os olhos e a boca, num pasmo. Depois, tornando a si, comoveu-se e com l\u00e1grimas nos olhos disse, gaguejante:<\/p>\n<p>-Beijo-lhe as m\u00e3os, coronel! Nunca imaginei tanta generosidade em peito humano!<\/p>\n<p>Agora vejo com que injusti\u00e7a o julgam a\u00ed fora!&#8230;<\/p>\n<p>Velhacamente o velho cortou-lhe o fio das expans\u00f5es.<\/p>\n<p>-Nada de frases, mo\u00e7o, vamos ao que serve: declaro-o solenemente noivo de minha filha!<\/p>\n<p>E voltando-se para dentro, gritou:<\/p>\n<p>&#8211; Do Carmo! Venha abra\u00e7ar o teu noivo!<\/p>\n<p>O escrevente piscou seis vezes e, enchendo-se de coragem, corrigiu o erro.<\/p>\n<p>-Laurinha, quer o coronel dizer&#8230;<\/p>\n<p>O velho fechou de novo a carranca.<\/p>\n<p>-Sei onde trago o nariz, mo\u00e7o. Vassunc\u00ea mandou este bilhete \u00e0 Laurinha dizendo que ama-&#8220;lhe&#8221;. Se amasse a ela deveria dezer amo-&#8220;te&#8221;. Dizendo &#8220;amo-lhe&#8221; declara que ama a uma terceira pessoa, a qual n\u00e3o pode ser sen\u00e3o a Maria do Carmo. Salvo se declara amor \u00e0 minha mulher&#8230;<\/p>\n<p>-Oh, coronel&#8230;<\/p>\n<p>-&#8230; ou a preta Luzia, cozinheira. Escolha!<\/p>\n<p>O escrevente, vencido, derrubou a cabe\u00e7a com uma l\u00e1grima a escorrer rumo \u00e0 asa do nariz. Silenciaram ambos, em pausa de trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Por fim o coronel, batendo-lhe no ombro paternalmente, repetiu a boa li\u00e7\u00e3o da gram\u00e1tica matrimonial.<\/p>\n<p>-Os pronomes, como sabe, s\u00e3o tr\u00eas: da primeira pessoa &#8211; quem fala, e neste caso vassunc\u00ea; da Segunda pessoa &#8211; a quem fala, e neste caso Laurinha; da terceira pessoa &#8211; de quem se fala, e neste caso do Carmo, minha mulher ou a preta. Escolha!<\/p>\n<p>N\u00e3o havia fuga poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O escrevente ergueu os olhos e viu do Carmo que entrava, muito lampeira da vida, torcendo acanhada a ponta do avental. Viu tamb\u00e9m sobre a secret\u00e1ria uma garrucha com espoleta nova ao alcance do maquiav\u00e9lico pai, submeteu-se e abra\u00e7ou a urucaca, enquanto o velho, estendendo as m\u00e3os, dizia teatralmente:<\/p>\n<p>-Deus vos aben\u00e7oe, meus filhos!<\/p>\n<p>No m\u00eas seguinte, e onze meses depois vagia nas m\u00e3os da parteira o futuro professor Aldrovando, o consp\u00edcuo sabedor de l\u00edngua que durante cinq\u00fcenta anos a fio co\u00e7aria na gram\u00e1tica a sua incur\u00e1vel sarna filol\u00f3gica.<\/p>\n<p>At\u00e9 aos dez anos n\u00e3o revelou Aldrovando pinta nenhuma. Menino vulgar, tossiu a coqueluche em tempo pr\u00f3prio, teve o sarampo da praxe, mas a cachumba e a catapora. Mais tarde, no col\u00e9gio, enquanto os outros enchiam as horas de estudo com inven\u00e7\u00f5es de matar o tempo &#8211; empalamento de moscas e moidelas das respectivas cabecinhas entre duas folhas de papel, coisa de ver o desenho que sa\u00eda &#8211; Aldrovando apalpava com er\u00f3tica emo\u00e7\u00e3o a gram\u00e1tica de Augusto Freire da Silva. Era o latejar do fur\u00fanculo filol\u00f3gico que o determinaria na vida, para mat\u00e1-lo, afinal&#8230;<\/p>\n<p>Deix\u00eamo-lo, por\u00e9m, evoluir e tom\u00eamo-lo quando nos serve, aos 40 anos, j\u00e1 a descer o morro, arcado ao peso da ci\u00eancia e combalido de rins. L\u00e1 est\u00e1 ele em seu gabinete de trabalho, fossando \u00e0 luza dum lampi\u00e3o os pronomes de Filinto El\u00edsio. Corcovado, magro, seco, \u00f3culos de lat\u00e3o no nariz, careca, celibat\u00e1rio impenitente, dez horas de aulas por dia, duzentos mil r\u00e9is por m\u00eas e o rim volta e meia a fazer-se lembrado.<\/p>\n<p>J\u00e1 leu tudo. Sua vida foi sempre o mesmo poento id\u00edlio com as vener\u00e1veis costaneiras onde cabeceiam os cl\u00e1ssicos lusitanos. Versou-os um por um com m\u00e3o diurna e noturna. Sabe-os de c\u00f3r, conhece-os pela morrinha, distingue pelo faro uma s\u00e9ca de Lucena duma esfalfa de Rodrigues Lobo. Digeriu todas as patranhas de Fern\u00e3o Mendes Pinto. Obstruiu-se da broa encruada de Fr. Pantale\u00e3o do Aveiro. Na idade em que os rapazes correm atr\u00e1s das raparigas, Aldrovando escabichava belchiores na pista dos mais esquecidos mestres da boa arte de ma\u00e7ar. Nunca dormiu entre bra\u00e7os de mulher. A mulher e o amor &#8211; mundo, diabo e carne eram para ele os alfarr\u00e1bios freir\u00e1ticos do quinhentismo, em cuja soporosa verborr\u00e9ia espapa\u00e7ava os instintos lerdos, como porco em lameiro.<\/p>\n<p>Em certa \u00e9poca viveu tr\u00eas anos acampado em Vieria. Depois vagabundeou, como um Robinson, pelas florestas de Bernardes.<\/p>\n<p>Aldrovando nada sabia do mundo atual. Desprezava a natureza, negava o presente. Passarinho conhecia um s\u00f3: o rouxinol de Bernadim Ribeiro. E se acaso o sabi\u00e1 de Gon\u00e7alves Dias vinha citar &#8220;pomos de Hesperides&#8221; na laranjeira do seu quintal, Aldrovando esfogueteava-o com apostrofes:<\/p>\n<p>-Salta fora, regionalismo de m\u00e1 son\u00e2ncia!<\/p>\n<p>A l\u00edngua lusa era-lhe um tabu sagrado que atingira a perfei\u00e7\u00e3o com Fr. Luiz de Sousa, e da\u00ed para c\u00e1, salvo lucila\u00e7\u00f5es espor\u00e1dicas, vinha chafurdando no ingranz\u00e9u barbaresco.<\/p>\n<p>-A ingresia d&#8217;hoje, declamava ele, est\u00e1 para a L\u00edngua, como o cad\u00e1ver em putrefa\u00e7\u00e3o est\u00e1 para o corpo vivo.<\/p>\n<p>E suspirava, condo\u00eddo dos nossos destinos:<\/p>\n<p>-Povo sem l\u00edngua!&#8230; N\u00e3o me sorri o futuro de Vera-Cruz&#8230;<\/p>\n<p>E n\u00e3o lhe objetassem que a l\u00edngua \u00e9 organismo vivo e que a temos a evoluir na boca do povo.<\/p>\n<p>-L\u00edngua? Chama voc\u00ea l\u00edngua \u00e0 garabulha bordalenga que estampam peri\u00f3dicos?<\/p>\n<p>C\u00e1 est\u00e1 um desses galic\u00edgrafos. Deletreemo-lo ao acaso.<\/p>\n<p><strong>E, baixando as cangalhas, lia:<\/strong><\/p>\n<p>-Teve lugar ontem&#8230; \u00c9 l\u00edngua esta espurc\u00edcia negral? \u00d3 meu ser\u00e1fico Frei Luiz, como te conspurcam o divino idioma estes sarrafa\u00e7ais da moxinifada!<\/p>\n<p>-&#8230; no Trianon&#8230; Por que, Trianon? Por que este perene barbarizar com alien\u00edgenos arrevesos? T\u00e3o bem ficava &#8211; a Benfica, ou, se querem neologismo de bom cunho o Lograt\u00f3rio&#8230;Tarelos \u00e9 que s\u00e3o, tarelos!<br \/>\nE suspirava deveras compungido.<\/p>\n<p>-In\u00fatil prosseguir. A folha inteira cacografa-se por este teor. A\u00ed! Onde param os boas letras d&#8217;antanho? Fez-se peru o n\u00edveo cisne. Ningu\u00e9m atende \u00e0 lei suma &#8211; Hor\u00e1cio! Impera o desprimor, e o mau gosto vige como suprema regra. A g\u00e1lica intrujice \u00e9 mar\u00e9 sem vazante. Quando penetro num livreiro o cora\u00e7\u00e3o se me confrange ante o p\u00e9lago de \u00f3peras barbarescas que nos vertem c\u00e1 mercadores de m\u00e1 morte. E \u00e9 de notar, outrossim, que a elas se v\u00e3o as prefer\u00eancias do vulgacho. Muito n\u00e3o faz que vi com estes olhos um gentil mancebo preferir uma sord\u00edcie de Oitavo Mirbelo, Canhenho duma dama de servir, (1) creio, \u00e0&#8230; advinhe ao que, amigo? A Carta de Guia do meu divino Francisco Manoel!&#8230;<\/p>\n<p>-Mas a evolu\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>-Basta. Conhe\u00e7o \u00e0s sobejas a escol\u00e1stica da \u00e9poca, a &#8220;evolu\u00e7\u00e3o&#8221; darwinica, os voc\u00e1bulos macacos &#8211; pitecofonemas que &#8220;evolveram&#8221;, perderam o pelo e se vestem hoje \u00e0 moda de Fran\u00e7a, com vidro no olho. Por amor a Frei Luiz, que ali daquela costaneira escandalizado nos ouve, n\u00e3o remanche o amigo na esquip\u00e1tica sesquipedalice.<\/p>\n<p>Um bi\u00f3grafo ao molde cl\u00e1ssico separaria a vida de Aldrovando em duas fases distingas: a est\u00e1tica, em que apenas acumulou ci\u00eancia, e a din\u00e2mica, em que, transfeito em ap\u00f3stolo, veio a campo com todas as armas para contrabater o monstro da corrup\u00e7\u00e3o. Abriu campanha com memor\u00e1vel of\u00edcio ao congresso, pedindo leis repressivas contra os \u00e1caros do idioma.<\/p>\n<p>-&#8220;Leis, senhores, leis de Drac\u00e3o, que diques sejam, e fossados, e alca\u00e7ares de granito prepostos \u00e0 defens\u00e3o do idioma. Mister sendo, a forca se restaure, que mais o bara\u00e7o merece quem conspurca o sacro patrim\u00f4nio da s\u00e3 vernaculidade, que quem ao semelhante a vida tira. V\u00eade, senhores, os pronomes, em que lazeira jazem&#8230;<\/p>\n<p>Os pronomes, a\u00ed! Eram a tortura permanente do professor Aldrovando. Do\u00eda-lhe como punhalada v\u00ea-los por a\u00ed pr\u00e9 ou pospostos contra-regras elementares do dizer casti\u00e7o. E sua representa\u00e7\u00e3o alargou-se nesse pormenor, flagelante, concitando os pais da p\u00e1tria \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dum Santo Of\u00edcio gramatical.<\/p>\n<p>Os ignaros congressistas, por\u00e9m, riram-se da mem\u00f3ria, e grandemente piaram sobre<\/p>\n<p>Aldrovando as mais cru\u00e9is chala\u00e7as.<\/p>\n<p>-Quer que instituamos pat\u00edbulo para os maus colocadores de pronomes! Isto seria auto-condenar-nos \u00e0 morte! Tinha gra\u00e7a!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m lhe foi \u00e0 pele a imprensa, com pilh\u00e9rias soezes. E depois, o p\u00fablico. Ningu\u00e9m alcan\u00e7ara a nobreza do seu gesto, e Aldrovando, com a mortifica\u00e7\u00e3o n&#8217;alma, teve que mudar de rumo. Planeou recorrer ao p\u00falpito dos jornais. Para isso mister foi, antes de nada, vencer o seu velho engulho pelos &#8220;galic\u00edgrafos de papel e graxa&#8221;. Transigiu e, breve, desses &#8220;pulm\u00f5es da p\u00fablica opini\u00e3o&#8221; apostrofou o pa\u00eds com o verbo tonante de Ezequiel. Encheu colunas e colunas de objurgat\u00f3rias ultra violentas, escritas no mais estreme vern\u00e1culo.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi entendido. Raro leitor metia os dentes naqueles intermin\u00e1veis per\u00edodos engrenados \u00e0 moda de Lucena; e ao cabo da asp\u00e9rrima campanha viu que pregara em pleno deserto. Leram-no apenas a meia d\u00fazia de Aldrovandos que vegetam sempre em toda parte, como notas rezinguentas da sinfonia universal.<\/p>\n<p>A massa dos leitores, entretanto, essa permaneceu alheia aos flam\u00edvomos pelouros da sua colubrina sem raia. E por fim os &#8220;peri\u00f3dicos&#8221; fecharam-lhe a porta no nariz, alegando falta de espa\u00e7o e coisas.<\/p>\n<p>-Espa\u00e7o n\u00e3o h\u00e1 para as s\u00e3s id\u00e9ias, objurgou o enxotado, mas sobeja, e pressuroso, para quanto recende \u00e0 podriqueira!&#8230; Gomorra! Sodoma! Fogos do c\u00e9u vir\u00e3o um dia alimpar-vos a gafa!&#8230; exclamou, prof\u00e9tico, sacudindo \u00e0 soleira da reda\u00e7\u00e3o o p\u00f3 das cambaias botinas de el\u00e1stico.<\/p>\n<p>Tentou em seguida a\u00e7\u00e3o mais direta, abrindo consult\u00f3rio gramatical.<\/p>\n<p>-T\u00eam-nos os f\u00edsicos (queria dizer m\u00e9dicos), os doutores em leis, os charlat\u00e3s de toda esp\u00e9cie. Abra-se um para a medica\u00e7\u00e3o da grande enferma, a l\u00edngua. Gratuito, j\u00e1 se v\u00ea, que me n\u00e3o move amor de bens terrenos.<\/p>\n<p>Falhou a nova tentativa. Apenas moscas vagabundas vinham esvoejar na salinha modesta do ap\u00f3stolo. Criatura humana nem uma s\u00f3 l\u00e1 apareceu afim de remendar-se filologicamente.<\/p>\n<p>Ele, todavia, n\u00e3o esmoreceu.<\/p>\n<p>-Experimentemos processo outro, mais suas\u00f3rio.<\/p>\n<p>E anunciou a montagem da &#8220;Ag\u00eancia de Coloca\u00e7\u00e3o de Pron\u00f4mes e Reparos Estil\u00edsticos&#8221;.<\/p>\n<p>Quem tivesse um aut\u00f3grafo a rever, um memorial a expungir de cincas, um calhama\u00e7o a compor-se com os &#8220;afeites&#8221; do l\u00eddimo vern\u00e1culo, fosse l\u00e1 que, sem remunera\u00e7\u00e3o nenhuma, nele se faria obra limpa e escorreita.<\/p>\n<p>Era boa a id\u00e9ia, e logo vieram os primeiros originais necessitados de ortopedia, sonetos a consertar p\u00e9s de verso, of\u00edcios ao governo pedindo concess\u00f5es, cartas de amor.<\/p>\n<p>Tais, por\u00e9m, eram as reformas que nos doentes operava Aldrovando, que os autores n\u00e3o mais reconheciam suas pr\u00f3prias obras. Um dos clientes chegou a reclamar.<\/p>\n<p>-Professor, v. s. enganou-se. Pedi limpa de enxada nos pronomes, mas n\u00e3o que me traduzisse a mem\u00f3ria em latim&#8230;<\/p>\n<p>Aldrovando ergueu os \u00f3culos para a testa:<\/p>\n<p>-E traduzi em latim o tal ingranz\u00e9u?<\/p>\n<p>-Em latim ou grego, pois que o n\u00e3o consigo entender&#8230;<\/p>\n<p>Androvando empertigou-se.<\/p>\n<p>-Pois, amigo, errou de porta. Seu caso \u00e9 al\u00ed com o alveitar da esquina.<\/p>\n<p>Pouco durou a Ag\u00eancia, morta \u00e0 m\u00edngua de clientes. Teimava o povo em permanecer empapado no chafurdeiro da corrup\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O ros\u00e1rio de insucessos, entretanto, em vez de desalentar exasperava o ap\u00f3stolo.<\/p>\n<p>-Hei-de influir na minha \u00e9poca. Aos tarelos hei de vencer. Fogem-me \u00e0 f\u00e9rula os mar\u00e1us de pau e corda? Ir-lhes-ei emp\u00f3s, fila-los-eis pela gorja&#8230; Salta rumor!<\/p>\n<p>E foi-lhes &#8220;emp\u00f3s&#8221;, Andou pelas ruas examinando d\u00edsticos e tabuletas com v\u00edcios de l\u00edngua. Descoberta a &#8220;asnidade&#8221;, ia ter com o propriet\u00e1rio, contra ele desfechando os melhores argumentos catequistas.<\/p>\n<p>Foi assim com o ferreiro da esquina, em cujo port\u00e3o de tenda uma tabuleta &#8211; &#8220;Ferra-se cavalos&#8221; &#8211; escoicinhava a santa gram\u00e1tica.<\/p>\n<p>-Amigo, disse-lhe pachorrentamente Aldrovando, natural a mim me parece que erre, alarve que \u00e9s. Se erram paredros, nesta \u00e9poca de ouro da corrup\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O ferreiro p\u00f4s de lado o malho e entreabriu a boca.<\/p>\n<p>-Mas da boa sombra do teu focinho espero, continuou o ap\u00f3stolo, que ouvidos me dar\u00e1s. Naquela t\u00e1bua um dislate existe que seriamente \u00e0 l\u00edngua lusa ofende. Venho pedir- te, em nome do asseio gramatical, que o expunjas.<\/p>\n<p>-? ? ?<\/p>\n<p>-Que reformes a tabuleta, digo.<\/p>\n<p>-Reformar a tabuleta? Uma tabuleta nova, com a licen\u00e7a paga? Estar\u00e1 acaso rachada?<\/p>\n<p>-Fisicamente, n\u00e3o. A racha \u00e9 na sintaxe. Fogem ali os dizeres \u00e0 s\u00e3 gramaticalidade.<\/p>\n<p>O honesto ferreiro n\u00e3o entendia nada de nada.<\/p>\n<p>-Macacos me lambam se estou entendendo o que v. s. diz&#8230;<\/p>\n<p>-Digo que est\u00e1 a forma verbal com eiva grave. O &#8220;ferra-se&#8221; tem que cair no plural, pois que a forma \u00e9 passiva e o sujeito \u00e9 &#8220;cavalos&#8221;.<\/p>\n<p>O ferreiro abriu o resto da boca.<\/p>\n<p>-O sujeito sendo &#8220;cavalos&#8221;, continuou o mestre, a forma verbal \u00e9 &#8220;ferram-se&#8221; &#8211; &#8220;ferram-se cavalos!&#8221;<\/p>\n<p>-Ahn! Respondeu o ferreiro, come\u00e7o agora a compreender. Diz v. s. que &#8230;<\/p>\n<p>-&#8230; que &#8220;ferra-se cavalos&#8221; \u00e9 um solecismo horrendo e o certo \u00e9 &#8220;ferram-se cavalos&#8221;.<\/p>\n<p>-V. S. me perdoe, mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu n\u00e3o sou plural. Aquele &#8220;se&#8221; da tabuleta refere-se c\u00e1 a este seu criado. \u00c9 como quem diz: Serafim ferra cavalos &#8211; Ferra Serafim cavalos. Para economizar tinta e t\u00e1bua abreviaram o meu nome, e ficou como est\u00e1: Ferra Se (rafim) cavalos. Isto me explicou o pintor, e entendi-o muito bem. Aldrovando ergueu os olhos para o c\u00e9u e suspirou.<\/p>\n<p>-Ferras cavalos e bem merecias que te fizessem eles o mesmo!&#8230; Mas n\u00e3o discutamos. Ofere\u00e7o-te dez mil r\u00e9is pela admiss\u00e3o dum &#8220;m&#8221; ali&#8230;<\/p>\n<p>-Se V. S. paga&#8230;<\/p>\n<p>Bem empregado dinheiro! A tabuleta surgiu no dia seguinte dessolecismada, perfeitamente de acordo com as boas regras da gram\u00e1tica. Era a primeira vit\u00f3ria obtida e todas as tardes Aldrovando passava por l\u00e1 para gozar-se dela<\/p>\n<p>Por mal seu, por\u00e9m, n\u00e3o durou muito o regalo. Coincidindo a entroniza\u00e7\u00e3o do &#8220;m&#8221; com maus neg\u00f3cios na oficina, o supersticioso ferreiro atribuiu a macaca \u00e0 altera\u00e7\u00e3o dos dizeres e l\u00e1 raspou o &#8220;m&#8221; do professor.<\/p>\n<p>A cara que Aldrovando fez quando no passeio desse dia deu com a vit\u00f3ria borrada! Entrou furioso pela oficina a dentro, e mascava uma ap\u00f3strofe de fulminar quando o ferreiro, \u00e0s brutas, lhe barrou o passo.<\/p>\n<p>-Chega de caraminholas, \u00f3 barata tonta! Quem manda aqui, no servi\u00e7o e na l\u00edngua, sou eu. E \u00e9 ir andando antes que eu o ferre com bom par de ferros ingleses!<\/p>\n<p>O m\u00e1rtir da l\u00edngua meteu a gram\u00e1tica entre as pernas e moscou-se.<\/p>\n<p>-&#8220;Sancta simplicitas!&#8221; ouviram-no murmurar na rua, de rumo \u00e0 casa, em busca das consola\u00e7\u00f5es ser\u00e1ficas de Fr. Heitor Pinto. Chegado que foi ao gabinete de trabalho, caiu de borco sobre as costaneiras venerandas e n\u00e3o mais conteve as l\u00e1grimas, chorou&#8230;<\/p>\n<p>O mundo estava perdido e os homens, sobre maus, eram impenitentes. N\u00e3o havia desvi\u00e1- los do ruim caminho, e ele, j\u00e1 velho, com o rim a rezingar, n\u00e3o se sentia com for\u00e7as para a continua\u00e7\u00e3o da guerra.<br \/>\n-N\u00e3o hei de acabar, por\u00e9m, antes de dar a prelo um grande livro onde compendie a muita ci\u00eancia que hei acumulado.<\/p>\n<p>E Aldrovando empreendeu a realiza\u00e7\u00e3o de um vast\u00edssimo programa de estudos filol\u00f3gicos. Encabe\u00e7aria a s\u00e9rie um tratado sobre a coloca\u00e7\u00e3o dos pronomes, ponto onde mais claudicava a gente de Gomorra.<\/p>\n<p>F\u00ea-lo, e foi feliz nesse per\u00edodo de vida em que, alheio ao mundo, todo se entregou, dia e noite, \u00e0 obra magn\u00edfica. Saiu trabuco volumoso, que daria tr\u00eas tomos de 500 p\u00e1ginas cada um, corpo mi\u00fado. Que proventos n\u00e3o adviriam dali para a lusitanidade. Todos os casos resolvidos para sempre, todos os homens de boa vontade salvos da gafaria! O ponto fraco do brasileiro falar resolvido de vez! Maravilhosa coisa&#8230;<\/p>\n<p>Pronto o primeiro tomo &#8211; Do pronome Se &#8211; anunciou a obra pelos jornais, ficando \u00e0 espera das chusmas de editores que viriam disput\u00e1-la \u00e0 sua porta. E por uns dias o ap\u00f3stolo sonhou as del\u00edcias da estrondosa vit\u00f3ria liter\u00e1ria, acrescida de gordos proventos pecuni\u00e1rios.<\/p>\n<p>Calculava em oitenta contos o valor dos direitos autorais, que, generoso que era, cederia por cinq\u00fcenta. E cinq\u00fcenta contos para um velho celibat\u00e1rio como ele, sem fam\u00edlia nem v\u00edcios, tinha a significa\u00e7\u00e3o duma grande fortuna. Empatados em empr\u00e9stimos hipotec\u00e1rios sempre eram seus quinhentos mil r\u00e9is por m\u00eas de renda, a pingarem pelo resto da vida na gavetinha onde, at\u00e9 ent\u00e3o, nunca entrara pelega maior de duzentos. Servia, servia!&#8230; E Aldrovando, contente, esfregava as m\u00e3os de ouvido alerta, preparando frases para receber o editor que vinha vindo&#8230;<\/p>\n<p>Que vinha vindo mas n\u00e3o veio, a\u00ed!&#8230; As semanas se passaram sem que nenhum representante dessa miser\u00e1vel fauna de judeus surgisse a chatinar o maravilhoso livro.<\/p>\n<p>-N\u00e3o me v\u00eam a mim? Salta rumor! Pois me vou a eles!<\/p>\n<p>E saiu em via sacra, a correr todos os editores da cidade.<\/p>\n<p>M\u00e1 gente! Nenhum lhe quis o livro sob condi\u00e7\u00f5es nenhumas. Torciam o nariz, dizendo &#8220;N\u00e3o \u00e9 vend\u00e1vel&#8221;; ou: &#8220;Porque n\u00e3o faz antes uma cartilha infantil aprovada pelo governo?<\/p>\n<p>Aldrovando, com a morte n&#8217;alma e o rim dia a dia mais derrancado, retesou-se nas \u00faltimas resist\u00eancias.<\/p>\n<p>-F\u00e1-la-ei imprimir \u00e0 minha custa! Ah, amigos! Aceito o cartel. Sei pelejar com todas<\/p>\n<p>as armas e irei at\u00e9 ao fim. Bof\u00e9!<\/p>\n<p>Para lugar era mister dinheiro e bem pouco do vil\u00edssimo metal possu\u00eda na arca o alquebrado Aldrovando. N\u00e3o importa! Faria dinheiro, venderia m\u00f3veis, imitaria Bernardo de Pallissy, n\u00e3o morreria sem ter o gosto de aca\u00e7apar Gomorra sob o peso da sua ci\u00eancia impressa. Editaria ele mesmo um por um todos os volumes da obra salvadora.<\/p>\n<p>Disse e fez.<\/p>\n<p>Passou esse per\u00edodo de vida alternando revis\u00e3o de provas com padecimentos renais. Venceu. O livro comp\u00f4s-se, magnificamente revisto, primoroso na linguagem como n\u00e3o existia igual.<\/p>\n<p>Dedicou-o a Fr. Luz de Souza:<\/p>\n<p>\u00c0 mem\u00f3ria daquele que me sabe as dores,<\/p>\n<p><strong>O Autor.<\/strong><\/p>\n<p>Mas n\u00e3o quis o destino que o j\u00e1 tr\u00eamulo Aldrovando colhesse os frutos de sua obra. Filho<\/p>\n<p>dum pronome impr\u00f3prio, a m\u00e1 coloca\u00e7\u00e3o doutro pronome lhe cortaria o fio da vida.<\/p>\n<p>Muito corretamente havia ele escrito na dedicat\u00f3ria: &#8230;daquele que me sabe&#8230; e nem poderia escrever doutro modo um t\u00e3o consp\u00edcuo colocador de pronomes.<\/p>\n<p>Maus fados intervieram, por\u00e9m &#8211; at\u00e9 os fados conspiram contra a l\u00edngua! &#8211; e por artimanha do diabo que os rege empastelou-se na oficina esta frase. Vai o tip\u00f3grafo e recomp\u00f5e-na a seu modo &#8230;d&#8217;aquele que sabe-me as dores&#8230; E assim saiu nos milheiros de c\u00f3pias da avultada edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o antecipemos.<\/p>\n<p>Pronta a obra e paga, ia Aldrovando receb\u00ea-la, enfim. Que gl\u00f3ria! Constru\u00edra, finalmente, o pedestal da sua pr\u00f3pria imortalidade, ao lado direito dos sumos cultores da l\u00edngua.<\/p>\n<p>A grande id\u00e9ia do livro, exposta no cap\u00edtulo VI &#8211; Do m\u00e9todo autom\u00e1tico de bem colocar os pronomes &#8211; engenhosa aplica\u00e7\u00e3o duma regra mir\u00edfica por meio da qual at\u00e9 os burros de carro\u00e7a poderiam zurrar com gram\u00e1tica, operaria como o &#8220;914&#8221; da sintaxe, limpando-a da avariose produzida pelo espiroqueta da pronominuria.<\/p>\n<p>A excel\u00eancia dessa regra estava em possuir equivalentes qu\u00edmicos de uso na farmacop\u00e9ia alopata, de modo que a um bom laborat\u00f3rio f\u00e1cil lhe seria reduz\u00ed-la a ampolas para inje\u00e7\u00f5es hipod\u00e9rmicas, ou a p\u00edlulas, p\u00f3s ou po\u00e7\u00f5es para uso interno.<br \/>\nE quem se injetasse ou engolisse uma p\u00edpula do futuro PRONOMINOL CANTAGALO, curar- se-ia para sempre do v\u00edcio, colocando os pronomes instintivamente bem, tanto no falar como no escrever. Para algum caso de pronomorreia agudo, evidentemente incur\u00e1vel, haveria o recurso do PRONOMINOL N\u00ba 2, onde entrava a estriquinina em dose suficiente para libertas o mundo do infame sujeito.<\/p>\n<p>Que gl\u00f3ria! Aldrovando prelibava essas del\u00edcias todas quando lhe entrou casa a dentro a primeira carro\u00e7ada de livros. Dois brutamontes de mangas arrega\u00e7adas empilharam-nos pelos cantos, em rumas que l\u00e1 se iam; e concluso o servi\u00e7o um deles pediu:<\/p>\n<p>-Me d\u00e1 um mata-bicho, patr\u00e3o!<\/p>\n<p>Aldrovando severizou o semblante ao ouvir aquele &#8220;Me&#8221; t\u00e3o fora dos mancais, e tomando um exemplo da obra ofertou-a ao &#8220;doente&#8221;.<\/p>\n<p>-Toma l\u00e1. O mau bicho que tens no sangue morrer\u00e1 asinha \u00e0s m\u00e3os deste verm\u00edfugo. Recomendo-te a leitura do cap\u00edtulo sexto.<br \/>\nO carroceiro n\u00e3o se fez rogar; saiu com o livro, dizendo ao companheiro:<\/p>\n<p>-Isto no &#8220;sebo&#8221; sempre render\u00e1 cinco tost\u00f5es. J\u00e1 serve!<\/p>\n<p>Mal se sumiram, Aldrovando abancou-se \u00e0 velha mesinha de trabalho e deu come\u00e7o \u00e0 tarefa de lan\u00e7ar dedicat\u00f3rias num certo n\u00famero de exemplares destinados \u00e0 cr\u00edtica. Abriu o primeiro, e estava j\u00e1 a escrever o nome de Rui Barbosa quando seus olhos deram com a horrenda cinca:<\/p>\n<p>&#8220;daquele QUE SABE-ME as dores&#8221;.<\/p>\n<p>-Deus do c\u00e9u! Ser\u00e1 poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Era poss\u00edvel. Era fato. Naquele, como em todos os exemplares da edi\u00e7\u00e3o, l\u00e1 estava, no hediondo relevo da dedicat\u00f3ria a Fr. Luiz de Souza, o horripilant\u00edssimo- &#8220;que sabe-me&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>Aldrovando n\u00e3o murmurou palavra. De olhos muito abertos, no rosto uma estranha marca de dor &#8211; dor gramatical inda n\u00e3o descrita nos livros de patologia &#8211; permaneceu im\u00f3vel uns momentos.<\/p>\n<p>Depois empalideceu. Levou as m\u00e3os ao abd\u00f4men e estorceu-se nas garras de repentina e violent\u00edssima \u00e2nsia.<\/p>\n<p>Ergueu os olhos para Frei Luiz de Souza e murmurou:<\/p>\n<p>-Luiz! Luiz! Lamma Sabachtani?!<\/p>\n<p>E morreu.<\/p>\n<p>De que n\u00e3o sabemos &#8211; nem importa ao caso. O que importa \u00e9 proclamarmos aos quatro ventos que com Aldrovando morreu o primeiro santo da gram\u00e1tica, o m\u00e1rtir n\u00famero um da Coloca\u00e7\u00e3o dos Pronomes.<br \/>\nPaz \u00e0 sua alma.<\/p>\n<p><strong>1924<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aldrovando Cantagalo veio ao mundo em virtude dum erro de gram\u00e1tica. Durante sessenta anos de vida terrena pererecou como um peru em cima da gram\u00e1tica. 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