{"id":92357,"date":"2017-01-04T09:32:07","date_gmt":"2017-01-04T11:32:07","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92357"},"modified":"2017-01-04T09:32:07","modified_gmt":"2017-01-04T11:32:07","slug":"negrinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/negrinha","title":{"rendered":"Negrinha"},"content":{"rendered":"<p>Negrinha era uma pobre \u00f3rf\u00e3 de sete anos. Preta? N\u00e3o; fusca, mulatinha escura, de cabelos ru\u00e7os e olhos assustados.<\/p>\n<p>Nascera na senzala, de m\u00e3e escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa n\u00e3o gostava de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no c\u00e9u. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balan\u00e7o na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vig\u00e1rio, dando audi\u00eancias, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma \u2014 \u201cdama de grandes virtudes apost\u00f3licas, esteio da religi\u00e3o e da moral\u201d, dizia o reverendo.<\/p>\n<p>\u00d3tima, a dona In\u00e1cia.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o admitia choro de crian\u00e7a. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Vi\u00fava sem filhos, n\u00e3o a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso n\u00e3o suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste crian\u00e7a, gritava logo nervosa:<br \/>\n\u2014 Quem \u00e9 a peste que est\u00e1 chorando a\u00ed?<\/p>\n<p>Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pil\u00e3o? O forno? A m\u00e3e da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo- lhe em caminho belisc\u00f5es de desespero.<\/p>\n<p>\u2014 Cale a boca, diabo!<\/p>\n<p>No entanto, aquele choro nunca vinha sem raz\u00e3o. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem p\u00e9s e m\u00e3os e fazem-nos doer&#8230;<\/p>\n<p>Assim cresceu Negrinha \u2014 magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. \u00d3rf\u00e3 aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontap\u00e9s. N\u00e3o compreendia a id\u00e9ia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase n\u00e3o andava. Com pretextos de que \u00e0s soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao p\u00e9 de si, num desv\u00e3o da porta.<\/p>\n<p>\u2014 Sentadinha a\u00ed, e bico, hein?<\/p>\n<p>Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.<\/p>\n<p>\u2014 Bra\u00e7os cruzados, j\u00e1, diabo!<\/p>\n<p>Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o rel\u00f3gio batia uma, duas, tr\u00eas, quatro, cinco horas \u2014 um cuco t\u00e3o engra\u00e7adinho! Era seu divertimento v\u00ea-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se ent\u00e3o por dentro, feliz um instante.<\/p>\n<p>Puseram-na depois a fazer croch\u00ea, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.<\/p>\n<p>Que id\u00e9ia faria de si essa crian\u00e7a que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo \u2014 n\u00e3o tinha conta o n\u00famero de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bub\u00f4nica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim \u2014 por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que n\u00e3o teria um gostinho s\u00f3 na vida \u2014 nem esse de personalizar a peste&#8230;<\/p>\n<p>O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, verg\u00f5es. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou n\u00e3o houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e belisc\u00f5es a mesma atra\u00e7\u00e3o que o \u00edm\u00e3 exerce para o a\u00e7o. M\u00e3os em cujos n\u00f3s de dedos comichasse um cocre, era m\u00e3o que se descarregaria dos fluidos em sua cabe\u00e7a. De passagem. Coisa de rir e ver a careta&#8230;<\/p>\n<p>A excelente dona In\u00e1cia era mestra na arte de judiar de crian\u00e7as. Vinha da escravid\u00e3o, fora senhora de escravos \u2014 e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo \u2014 essa indec\u00eancia de negro igual a branco e qualquer coisinha: a pol\u00edcia! \u201cQualquer coisinha\u201d: uma mucama assada ao forno porque se engra\u00e7ou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: \u201cComo \u00e9 ruim, a sinh\u00e1!\u201d&#8230; O 13 de Maio tirou-lhe das m\u00e3os o azorrague, mas n\u00e3o lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como rem\u00e9dio para os frenesis. Inocente derivativo:<\/p>\n<p>\u2014 Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!&#8230;<\/p>\n<p>Tinha de contentar-se com isso, judiaria mi\u00fada, os n\u00edqueis da crueldade. Cocres: m\u00e3o fechada com raiva e n\u00f3s de dedos que cantam no coco do paciente.<\/p>\n<p>Pux\u00f5es de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas m\u00e3os, o sacudido. A gama inteira dos belisc\u00f5es: do miudinho, com a ponta da unha, \u00e0 torcida do umbigo, equivalente ao pux\u00e3o de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontap\u00e9s e safan\u00f5es a uma \u2014 divertid\u00edssimo! A vara de marmelo, flex\u00edvel, cortante: para \u201cdoer fino\u201d nada melhor!<\/p>\n<p>Era pouco, mas antes isso do que nada. L\u00e1 de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o f\u00edgado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela hist\u00f3ria do ovo quente.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha \u2014 coisa de rir \u2014 um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A crian\u00e7a n\u00e3o sofreou a revolta \u2014 atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPeste?\u201d Espere a\u00ed! Voc\u00ea vai ver quem \u00e9 peste \u2014 e foi contar o caso \u00e0 patroa.<\/p>\n<p>Dona In\u00e1cia estava azeda, necessitad\u00edssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Eu curo ela! \u2014 disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.<br \/>\n\u2014 Traga um ovo.<\/p>\n<p>Veio o ovo. Dona In\u00e1cia mesmo p\u00f4-lo na \u00e1gua a ferver; e de m\u00e3os \u00e0 cinta, gozando-se na preliba\u00e7\u00e3o da tortura, ficou de p\u00e9 uns minutos, \u00e0 espera. Seus olhos contentes envolviam a m\u00edsera crian\u00e7a que, encolhidinha a um canto, aguardava tr\u00eamula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:<\/p>\n<p>\u2014 Venha c\u00e1!<\/p>\n<p>Negrinha aproximou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Abra a boca!<\/p>\n<p>Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, ent\u00e3o, com uma colher, tirou da \u00e1gua \u201cpulando\u201d o ovo e z\u00e1s! na boca da pequena. E antes que o urro de dor sa\u00edsse, suas m\u00e3os amorda\u00e7aram-na at\u00e9 que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas s\u00f3. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:<\/p>\n<p>\u2014 Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?<\/p>\n<p>E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vig\u00e1rio que chegava.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, monsenhor! N\u00e3o se pode ser boa nesta vida&#8230; Estou criando aquela pobre \u00f3rf\u00e3, filha da Ces\u00e1ria \u2014 mas que trabalheira me d\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 A caridade \u00e9 a mais bela das virtudes cristas, minha senhora \u2014murmurou o padre.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas cansa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem d\u00e1 aos pobres empresta a Deus.<\/p>\n<p>A boa senhora suspirou resignadamente.<\/p>\n<p>\u2014 Inda \u00e9 o que vale&#8230;<\/p>\n<p>Certo dezembro vieram passar as f\u00e9rias comSanta In\u00e1cia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas<\/p>\n<p>Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do c\u00e9u \u2014 alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de v\u00ea-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.<\/p>\n<p>Mas abriu a boca: a sinh\u00e1 ria-se tamb\u00e9m&#8230; Qu\u00ea? Pois n\u00e3o era crime brincar? Estaria tudo mudado \u2014 e findo o seu inferno \u2014 e aberto o c\u00e9u? No enlevo da doce ilus\u00e3o, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.<\/p>\n<p>Mas a dura li\u00e7\u00e3o da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Belisc\u00e3o no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: \u201cJ\u00e1 para o seu lugar, pestinha! N\u00e3o se enxerga\u201d?<\/p>\n<p>Com l\u00e1grimas dolorosas, menos de dor f\u00edsica que de ang\u00fastia moral \u2014sofrimento novo que se vinha acrescer aos j\u00e1 conhecidos \u2014 a triste crian\u00e7a encorujou-se no cantinho de sempre.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9, titia? \u2014 perguntou uma das meninas, curiosa.<\/p>\n<p>\u2014 Quem h\u00e1 de ser? \u2014 disse a tia, num suspiro de v\u00edtima. \u2014 Uma caridade minha. N\u00e3o me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus&#8230; Uma \u00f3rf\u00e3. Mas brinquem, filhinhas, a casa \u00e9 grande, brinquem por a\u00ed afora.<\/p>\n<p>\u2014 Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! \u2014 refletiu com suas l\u00e1grimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que at\u00e9 ali s\u00f3 brincara em imagina\u00e7\u00e3o com o cuco.<\/p>\n<p>Chegaram as malas e logo:<\/p>\n<p>\u2014 Meus brinquedos! \u2014 reclamaram as duas meninas.<\/p>\n<p>Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.<\/p>\n<p>Que maravilha! Um cavalo de pau!&#8230; Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim t\u00e3o galante. Um cavalinho! E mais&#8230; Que \u00e9 aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos&#8230; que falava \u201cmam\u00e3\u201d&#8230; que dormia&#8230;<\/p>\n<p>Era de \u00eaxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma crian\u00e7a artificial.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 feita?&#8230; \u2014 perguntou, extasiada.<\/p>\n<p>E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arruma\u00e7\u00e3o das meninas, Negrinha esqueceu o belisc\u00e3o,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de lou\u00e7a. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem \u00e2nimo de peg\u00e1-la.<\/p>\n<p>As meninas admiraram-se daquilo.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca viu boneca?<\/p>\n<p>\u2014 Boneca? \u2014 repetiu Negrinha. \u2014 Chama-se Boneca?<\/p>\n<p>Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 boba! \u2014 disseram. \u2014 E voc\u00ea como se chama?<\/p>\n<p>\u2014 Negrinha.<\/p>\n<p>As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o \u00eaxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:<\/p>\n<p>\u2014 Pegue!<\/p>\n<p>Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como cora\u00e7\u00e3o aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria poss\u00edvel? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relan\u00e7os de olhos para a porta. Fora de si, literalmente.. . era como se penetrara no c\u00e9u e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que n\u00e3o viu chegar a patroa, j\u00e1 de volta. Dona In\u00e1cia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.<\/p>\n<p>Mas era tal a alegria das h\u00f3spedes ante a surpresa ext\u00e1tica de Negrinha, e t\u00e3o grande a for\u00e7a irradiante da felicidade desta, que o seu duro cora\u00e7\u00e3o afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.<\/p>\n<p>Ao perceb\u00ea-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabe\u00e7a a imagem do ovo quente e hip\u00f3teses de castigos ainda piores. E incoerc\u00edveis l\u00e1grimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.<\/p>\n<p>Falhou tudo isso, por\u00e9m. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo \u2014 estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e3o todas brincar no jardim, e v\u00e1 voc\u00ea tamb\u00e9m, mas veja l\u00e1, hein?<\/p>\n<p>Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas n\u00e3o viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.<\/p>\n<p>Se alguma vez a gratid\u00e3o sorriu na vida, foi naquela surrada carinha&#8230;<\/p>\n<p>Varia a pele, a condi\u00e7\u00e3o, mas a alma da crian\u00e7a \u00e9 a mesma \u2014 na princesinha e na mendiga. E para ambos \u00e9 a boneca o supremo enlevo. D\u00e1 a natureza dois momentos divinos \u00e0 vida da mulher: o momento da boneca \u2014 preparat\u00f3rio \u2014, e o momento dos filhos \u2014 definitivo. Depois disso, est\u00e1 extinta a mulher.<\/p>\n<p>Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclos\u00e3o! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada \u00e0 altura de ente humano. Cessara de ser coisa \u2014 e doravante ser-lhe-ia imposs\u00edvel viver a vida de coisa. Se n\u00e3o era coisa! Se sentia! Se vibrava!<\/p>\n<p>Assim foi \u2014 e essa consci\u00eancia a matou.<\/p>\n<p>Terminadas as f\u00e9rias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerr\u00e3o habitual. S\u00f3 n\u00e3o voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.<\/p>\n<p>Dona In\u00e1cia, pensativa, j\u00e1 a n\u00e3o atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de cora\u00e7\u00e3o, amenizava-lhe a vida.<\/p>\n<p>Negrinha, n\u00e3o obstante, ca\u00edra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a express\u00e3o de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nost\u00e1lgicos, cismarentos.<\/p>\n<p>Aquele dezembro de f\u00e9rias, luminosa rajada de c\u00e9u trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.<\/p>\n<p>Brincara ao sol, no jardim. Brincara!&#8230; Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, t\u00e3o boa, t\u00e3o quieta, a dizer mam\u00e3, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imagina\u00e7\u00e3o. Desabrochara-se de alma.<\/p>\n<p>Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ningu\u00e9m morreu com maior beleza. O del\u00edrio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos&#8230; E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa far\u00e2ndola do c\u00e9u. Sentia-se agarrada por aquelas m\u00e3ozinhas de lou\u00e7a \u2014 abra\u00e7ada, rodopiada.<\/p>\n<p>Veio a tontura; uma n\u00e9voa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela \u00faltima vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.<\/p>\n<p>Mas, im\u00f3vel, sem rufar as asas.<\/p>\n<p>Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou&#8230;<\/p>\n<p>E tudo se esvaiu em trevas.<\/p>\n<p>Depois, vala comum. A terra papou com indiferen\u00e7a aquela carnezinha de terceira \u2014 uma mis\u00e9ria, trinta quilos mal pesados&#8230;<\/p>\n<p>E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impress\u00f5es. Uma c\u00f4mica, na mem\u00f3ria das meninas ricas.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cLembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?\u201d<\/p>\n<p>Outra de saudade, no n\u00f3 dos dedos de dona In\u00e1cia.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cComo era boa para um cocre!&#8230;\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Negrinha era uma pobre \u00f3rf\u00e3 de sete anos. Preta? N\u00e3o; fusca, mulatinha escura, de cabelos ru\u00e7os e olhos assustados. Nascera na senzala, de m\u00e3e escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa n\u00e3o gostava de crian\u00e7as. Excelente senhora, a patroa. 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