{"id":92355,"date":"2017-01-04T09:30:10","date_gmt":"2017-01-04T11:30:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92355"},"modified":"2017-01-04T09:30:10","modified_gmt":"2017-01-04T11:30:10","slug":"fitas-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/fitas-da-vida","title":{"rendered":"Fitas da Vida"},"content":{"rendered":"<p>Perambul\u00e1vamos ao sabor da fantasia, noite a dentro, pelas ruas feias do Br\u00e1s, quando nos empolgou a silhueta escura duma pesada mole tijol\u00e1cea, com apar\u00eancia de usina vazia de maquinismo.<\/p>\n<p>&#8211; Hospedaria dos imigrantes \u2013 informa o meu amigo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 aqui ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Paramos a contempl\u00e1-la era ali a porta do Oeste Paulista, essa Cana\u00e3 em que ouro espirra do solo, era ali a ante sala da Terra Roxa \u2013 essa Calif\u00f3rnia do rub\u00eddio, o\u00e1sis dor de sangue coalhado onde cresce a \u00e1rvore do Brasil de amanh\u00e3, uma coisa um pouco diferente do Brasil de ontem, luso e perro; era ali o ninho da nova ra\u00e7a, liga, am\u00e1lgama, justaposi\u00e7\u00e3o de elementos \u00e9tnicos que temperam o neobandeirante industrial, antijeca, antimodorra, vencedor da vida \u00e0 moda americana.<\/p>\n<p>Onde pairam os nossos Walt Whitmans, que n\u00e3o v\u00eaem estes aspectos do pa\u00eds e os n\u00e3o p\u00f5em em cantos? Que cr\u00f4nica, que poema n\u00e3o daria aquela casa da esperan\u00e7a e do Sonho! Por ela passaram milhares de criaturas humanas, de todos os pa\u00edses e de todas as ra\u00e7as miser\u00e1veis, sujas, com o estigma das priva\u00e7\u00f5es impresso nas faces \u2013 mas refloridas de esperan\u00e7a ao calor do grande sonho da Am\u00e9rica. No fundo, her\u00f3is, porque s\u00f3 os her\u00f3is esperam e sonham.<\/p>\n<p>Emigrar: n\u00e3o pode existir fortaleza maior. S\u00f3 os fortes atrevem-se a tanto. A mis\u00e9ria do torr\u00e3o natal cansa-os e eles se atiram \u00e0 aventura do desconhecido, fiando na paci\u00eancia dos m\u00fasculos a vit\u00f3ria da vida. E vencem.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m ai v\u00ea-los na hospedaria, prom\u00edscuo, humildades, quase mu\u00e7ulmanos na surpresa da terra estranha, imagina o potencial da for\u00e7a neles acumulado, \u00e0 espera de ambiente prop\u00edcio para explos\u00f5es magn\u00edficas.<\/p>\n<p>C\u00e9rebro e bra\u00e7o do progresso americano, gritam o S\u00e9samo \u00e0s nossas riquezas adormecidas. Estados Unidos, Argentina, S\u00e3o Paulo devem dois ter\u00e7os do que s\u00e3o a essa verredura humana, trazida a granel para aterrar os vazios demogr\u00e1ficos das regi\u00f5es novas. Mal cai no solo novo, transforma-se, floresce, d\u00e1 de si a apojadura farta com que se aleita a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aquela hospedaria&#8230; Casa do Amanh\u00e3, corredor do futuro&#8230;<\/p>\n<p>Por ali desfilam, inconscientes, os formadores duma ra\u00e7a nova.<\/p>\n<p>&#8211; Dei-me com um antigo diretor desta almanjarra \u2013 disse o meu companheiro -, ao qual ouvi muita coisa interessante acontecida c\u00e1 dentro. Sempre que passo por esta rua, avivam-me na mem\u00f3ria v\u00e1rios epis\u00f3dios sugestivos, e entre eles um, rom\u00e2ntico, pat\u00e9tico, que at\u00e9 parece arranjo para terceiro ato de dramalh\u00e3o lacrimog\u00eaneo. O romantismo, meu caro, existe na natureza, n\u00e3o \u00e9 inven\u00e7\u00e3o dos hugos; e agora que se faz cinema, posso assegurar-te que muitas vezes a vida plagia o cinema escandalosamente.<\/p>\n<p>Foi em 1906, mais ou menos. Chegara do Cear\u00e1, ent\u00e3o flagelado pela seca, uma leva de retirantes com destino \u00e0 lavoura de caf\u00e9, na qual havia um cego, velho de mais de sessenta anos. Na sua categoria dolorosa de indesej\u00e1vel, por que cargas d\u2019\u00e1gua dera com os costados aqui? Erro de expedi\u00e7\u00e3o, evidentemente. Retirantes que emigram n\u00e3o merecem grande cuidado dos propostos ao servi\u00e7o. V\u00eam a granel, como carga inc\u00f4moda que entope o navio e cheira mal. N\u00e3o s\u00e3o passageiros, mas fardos de couro vivo com carne magra por dentro, a triste carne de trabalho, irm\u00e3 da carne de canh\u00e3o.<\/p>\n<p>Interpelado o cego por um funcion\u00e1rio da hospedaria, explicou sua presen\u00e7a por engano de despacho. Destinavam-no ao Asilo dos Inv\u00e1lidos da P\u00e1tria, no Rio, mas pregaram-lhe \u00e0s costas a papeleta de \u201cPara o eito\u201d e l\u00e1 veio. N\u00e3o tinha olhar para guiar- se, nem teve olhos alheios que o guiassem. Triste destino o dos cacos de gente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por que para o Asilo dos Inv\u00e1lidos? \u2013 perguntou o funcion\u00e1rio. \u2013 \u00c9 volunt\u00e1rio da P\u00e1tria?<\/p>\n<p>&#8211; Sim \u2013 respondeu o cego &#8211; , fiz cinco anos de guerra no Paraguai e l\u00e1 apanhei a doen\u00e7a que me p\u00f4s a noite nos olhos. Depois que cheguei ca\u00ed no desamparo. Para que presta um cego? Um gato sarnento vale mais.<\/p>\n<p>Pausou uns instantes, revirando nas \u00f3rbitas os olhos esbranqui\u00e7ados. Depois:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 havia no mundo um homem capaz de me socorrer: o meu capit\u00e3o. Mas, esse, perdi-o de vista. Se o encontrasse \u2013 tenho a certeza! &#8211; , at\u00e9 os olhos me era ele capaz de reviver. Que homem! Minhas desgra\u00e7as todas v\u00eam de se ter perdido me capit\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem fam\u00edlia?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho uma menina que n\u00e3o conhe\u00e7o. Quando veio ao mundo, j\u00e1 meus olhos eram trevas.<\/p>\n<p>Baixou a cabe\u00e7a branca, como tomada de s\u00fabita amargura.<\/p>\n<p>&#8211; Daria o que me resta de vida para v\u00ea-la um instantinho s\u00f3. Se o meu capit\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o concluiu. Percebera que o interlocutor j\u00e1 estava longe, atendendo ao servi\u00e7o, e ali ficou, imerso na tristeza infinita da sua noite sem estrelas.<\/p>\n<p>O incidente, entretanto, impressionara o funcion\u00e1rio, que levou ao conhecimento do diretor. O diretor da imigra\u00e7\u00e3o era nesse tempo o major Carlos, nobre de paulista dos bons tempos, provid\u00eancia humanizada daquele departamento. Ao saber que o cego fora um soldado de 70, interessou-se e foi procur\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Encontrou-o im\u00f3vel, imerso no seu eterno cismar.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, meu velho, \u00e9 verdade que fez a campanha do Paraguai?<\/p>\n<p>O cego ergueu a cabe\u00e7a, tocado pela voz amiga.<\/p>\n<p>&#8211; Verdade sim, patr\u00e3o. Vim no 13, e logo depois de chegar ao imp\u00e9rio do Lopes entrei em fogo. Tivemos m\u00e1 sorte. Na batalha de tuiuti nosso batalh\u00e3o foi dizimado como milharal em tempo de chuva de pedra. Salvamo-nos eu e mais um punhado de camaradas. Fomos incorporados ao 33 paulista para preenchimento dos claros, e neles fiz o resto da campanha.<\/p>\n<p>O major Carlos tamb\u00e9m era veterano do Paraguai, e por coincid\u00eancia servira no 33.<\/p>\n<p>Interessou-se, pois, vivamente pela hist\u00f3ria de cego, pondo-se a interrog\u00e1-lo a fundo.<\/p>\n<p>&#8211; Quem era o seu capit\u00e3o?<\/p>\n<p>O cego suspirou.<\/p>\n<p>&#8211; Meu capit\u00e3o era um homem que, se eu o encontrasse de novo, at\u00e9 a vista me era capaz de dar! Mas n\u00e3o sei dele, perdi-o \u2013 para mal meu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como se chamava?<\/p>\n<p>&#8211; Capit\u00e3o Boucault.<\/p>\n<p>Ao ouvir esse nome o major sentiu eletrizarem-se-lhe as carnes num arrepio intenso; dominou-se, por\u00e9m, e prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Conheci esse capit\u00e3o, foi meu companheiro de regimento. Mau homem, por sinal, duro para com os soldados, grosseiro&#8230;<\/p>\n<p>O cego, at\u00e9 ali vergado na atitude humilde do mendigo, ergueu o busto e, com indigna\u00e7\u00e3o a fremir na voz, disse com firmeza:<\/p>\n<p>&#8211; Pare a\u00ed! N\u00e3o blasfeme! O capit\u00e3o Boucalt era o mais leal dos homens, amigo, pai do soldado. Perto de mim ningu\u00e9m o insulta. Conheci-o em todos os momentos, acompanhei- o durante anos como sua ordenan\u00e7a e nunca o vi praticar o menor ato de vileza.<\/p>\n<p>O tom firme do cego comoveu estranhamente o major. A mis\u00e9ria n\u00e3o conseguira romper no velho soldado as fibras da lealdade, e n\u00e3o h\u00e1 espet\u00e1culo mais arrebatador do que o de uma lealdade assim vivedoura at\u00e9 os limites extremos da desgra\u00e7a. O major, quase rendido, sobresteve-se por um instante. Depois, firmemente, prosseguiu na experi\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Engana-se, meu caro. O capit\u00e3o Boucalt era um cobarde&#8230;<\/p>\n<p>Um assomo de c\u00f3lera transformou as fei\u00e7\u00f5es do cego. Seus olhos anuviados pela catarata revolveram-se nas \u00f3rbitas, num horr\u00edvel esfor\u00e7o para ver a cara do infame detrator. Seus dedos crisparam-se; todo ele se retesou, como fera prestes a desferir o bote. Depois, sentindo pela primeira vez em toda plenitude a infinita fragilidade dos cegos, recaiu em si, esmagado.<\/p>\n<p>A c\u00f3lera transfez-se-lhe em dor, e a dor assomou-lhe aos olhos sob forma de l\u00e1grimas. E foi lacrimejado que murmurou em voz apagada:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o se insulta assim um cego&#8230;<\/p>\n<p>Mal pronunciara estas palavras, sentiu-se apertado nos bra\u00e7os do major, tamb\u00e9m em l\u00e1grimas, que dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Abrace, meu amigo, abrace o seu velho capit\u00e3o! Sou eu o antigo capit\u00e3o Boucalt&#8230;<\/p>\n<p>Na incerteza, aparvalhado ante o imprevisto desenlace e como receoso de ins\u00eddia, o cego vacilava.<\/p>\n<p>&#8211; Duvida? \u2013 exclamou o major. \u2013 Duvida de quem o salvou a nado na passagem do Tebiquari?<br \/>\n\u00c0quela palavras m\u00e1gicas a identifica\u00e7\u00e3o se fez e, esvanecido de d\u00favidas, chorando como crian\u00e7a, o cego abra\u00e7ou-se com os joelhos do major Carlos Boucalt, a exclamar num desvario:<\/p>\n<p>&#8211; Achei meu capit\u00e3o! Achei meu pai! Minhas desgra\u00e7as se acabaram!&#8230;<\/p>\n<p>E acabaram-se de fato.<\/p>\n<p>Metido num hospital sob os ausp\u00edcios do major, l\u00e1 sofreu a opera\u00e7\u00e3o da catarata e readquiriu a vista.<\/p>\n<p>Que impress\u00e3o a sua, quando lhe tiraram a venda dos olhos! N\u00e3o se cansava de \u201cver\u201d, de matar as saudades da retina. Foi a janela e sorriu para a luz que inundava a natureza. Sorriu para as \u00e1rvores, para o c\u00e9u, para as flores do jardim. Ressurrei\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu bem dizia! \u2013 exclamava a cada passo &#8211; , eu bem dizia que se encontrasse o meu capit\u00e3o estava findo o meu mart\u00edrio. Posso agora ver minha filha! Que felicidade, meu Deus!&#8230;<\/p>\n<p>E l\u00e1 voltou para a terra dos verdes mares bravios onde canta a jandaia. Voltou a nado \u2013 nadando em felicidade.<\/p>\n<p>A filha, a filha!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o dizia? Eu n\u00e3o dizia que se encontrasse o meu capit\u00e3o at\u00e9 a luz dos olhos me havia de voltar?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perambul\u00e1vamos ao sabor da fantasia, noite a dentro, pelas ruas feias do Br\u00e1s, quando nos empolgou a silhueta escura duma pesada mole tijol\u00e1cea, com apar\u00eancia de usina vazia de maquinismo. &#8211; Hospedaria dos imigrantes \u2013 informa o meu amigo. &#8211; \u00c9 aqui ent\u00e3o&#8230; Paramos a contempl\u00e1-la era ali a porta do Oeste Paulista, essa Cana\u00e3 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[378],"tags":[],"class_list":["post-92355","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-literatura-infantil"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - 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