{"id":92330,"date":"2017-01-04T08:32:18","date_gmt":"2017-01-04T10:32:18","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92330"},"modified":"2017-01-04T08:32:18","modified_gmt":"2017-01-04T10:32:18","slug":"a-policitemia-de-dona-lindoca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/a-policitemia-de-dona-lindoca","title":{"rendered":"A Policitemia de Dona Lindoca"},"content":{"rendered":"<p>Dona Lindoca n\u00e3o era feliz. Quarentona bem puxada, apesar dos trinta e sete anos em que fizera finca-p\u00e9, via pouco a pouco chegar a velhice com seu empaste de fei\u00e7\u00f5es, rugas e macacoas.<\/p>\n<p>N\u00e3o era feliz, porque nascera com o g\u00eanio da ordem e do asseio meticuloso \u2013 e agente assim passa a vida a amofinar-se com criados e coisinhas. E como tamb\u00e9m nascera casta e amorosa, n\u00e3o ia com o desamor e desrespeito do mundo. O marido jamais lhe retribu\u00edra o amor como os mimos entressonhados em noiva. N\u00e3o tinha \u201cca\u00eddos\u201d, nem usava para a sua sensibilidade, sempre menineira, desses pequeninos nada cariciosos que para certas criaturas constituem a suprema felicidade na terra.<\/p>\n<p>Isso, por\u00e9m, n\u00e3o traria a dona Lindoca mal de monta, excedente a suspiros e queixas \u00e0s amigas, se a certeza da infidelidade do Fernando n\u00e3o visse um dia estragar tudo. Estava a boa senhora a escovar-lhe o palet\u00f3 quando sentiu vago aroma suspeito. Foi logo aos bolsos \u2013 e apanhou o corpo de delito num lencinho perfumado.<\/p>\n<p>&#8211; Fernando, voc\u00ea deu agora para usar perfume? \u2013 indaga a santa esposa, aspirando o len\u00e7o comprometedor. E \u201cCoeur de Jeannette\u201d, inda mais&#8230;<\/p>\n<p>O marido, pegado de surpresa, armou a cara mais alvar de toda a sua cole\u00e7\u00e3o de \u201ccaras circunstanciais\u201d e murmurou o primeiro rebate sugerido pelo instinto de defesa: &#8211; voc\u00ea estar sonhado, mulher&#8230;<\/p>\n<p>Mais teve de render-se \u00e0 evid\u00eancia, logo que a esposa lhe chegou ao nariz o crime.<br \/>\nH\u00e1 coisas inexplic\u00e1veis, por mais l\u00e9pida que seja a presen\u00e7a de esp\u00edrito de um homem traquejado. Len\u00e7o cheiroso no bolso de marido que jamais usou perfume, eis uma. P\u00f5e em ti o caso, leitor, e vai estudando desde j\u00e1 uma sa\u00edda honrosa para a hip\u00f3tese de te suceder o mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Pilh\u00e9ria de mau gosto do Lopes &#8230;<\/p>\n<p>O melhor que lhe acudiu foi lan\u00e7ar \u00e0 conta do esp\u00edrito brincalh\u00e3o do seu velho amigo Lopes mais aquela. Dona Lindoca, est\u00e1 claro, n\u00e3o engoliu a grosseira p\u00edlula \u2013 e desde aquele dia entrou a suspirar suspiros de um novo g\u00eanero, com muita queixa \u00e0s amigas sobre a corrup\u00e7\u00e3o dos homens.<\/p>\n<p>Mais a realidade era diferente de tudo aquilo. Dona Lindoca n\u00e3o era infeliz; seu marido n\u00e3o era um mau marido; seus filhos n\u00e3o eram maus filhos. Gente toda ela muito normal, vivendo a vida que todas as criaturas normais vivem.<\/p>\n<p>Dava-se apenas o que se d\u00e1 sempre na exist\u00eancia da generalidade dos casais pac\u00edficos. A pe\u00e7a matrimonial \u201cMultiplicativos\u201d tem um segundo ato em excesso trabalhoso na procria\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o dos rebentos. \u00c9 uma doradoura de anos, na qual os atores principais mal t\u00eam tempo de cuidar de si, tanto lhes monopolizam as energias os cuidados absorventes da prole. Nesse per\u00edodo longo e rotineiro, quanto perfume vago n\u00e3o trouxe da rua o doutor Fernando! Mas o olfato da esposa, sempre saturado com o cheirinho das crian\u00e7as, jamais deu tento de nada.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, come\u00e7ou a dispers\u00e3o. Casaram-se as filhas e os filhos foram deixando o borralho um por um, como passarinhos que j\u00e1 sabem fazer uso das asas. E como o esvaziamento do lar ocorreu no per\u00edodo muito curto de dois anos, o v\u00e1cuo trouxe a dona Lindoca uma penosa sensa\u00e7\u00e3o de infelicidade.<\/p>\n<p>O marido n\u00e3o mudara em coisa nenhuma, mas como s\u00f3 agora dona Lindoca tinha tempo de dar-lhe aten\u00e7\u00e3o, parecia-lhe mudado. E queixava-se dos seus eternos neg\u00f3cios fora de casa, de sua indiferen\u00e7a, do seu \u201cdesamor\u201d. Certa vez, perguntou-lhe ao jantar:<\/p>\n<p>&#8211; Fernando, que dia \u00e9 hoje?<\/p>\n<p>&#8211; Treze, filha.<\/p>\n<p>&#8211; Treze, s\u00f3?<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que treze s\u00f3. Imposs\u00edvel que fosse treze e mais alguma coisa. \u00c9 da aritm\u00e9tica.<\/p>\n<p>Dona Lindoca arrancou um suspiro dos mais sugados.<\/p>\n<p>&#8211; Essa aritm\u00e9tica antigamente era bem mais am\u00e1vel.<\/p>\n<p>Pela aritm\u00e9tica antiga, hoje n\u00e3o seria treze s\u00f3 \u2013 e sim treze de julho&#8230;<\/p>\n<p>O doutor Fernando bateu na testa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, filha! N\u00e3o sei como me escapou que \u00e9 hoje dia dos teus anos. Esta cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Essa cabe\u00e7a n\u00e3o falha quando as coisas a interessam. \u00c9 que para voc\u00ea eu j\u00e1 passei&#8230; Mas console-se meu caro. N\u00e3o me ando sentindo bem e breve deixarei voc\u00ea livre no mundo. Poder\u00e1 ent\u00e3o, sem remorso, regalar-se com as Jeannettes&#8230;<\/p>\n<p>Como as recrimina\u00e7\u00f5es alusivas ao caso do len\u00e7o perfumado fossem uma \u201cScie\u201d, o marido adotara a boa pol\u00edtica de \u201cpassar\u201d, como no p\u00f4quer. \u201cPassava\u201d todas as alus\u00f5es da esposa, meio eficaz em torcer em germe o pepino de um debate t\u00e3o in\u00fatil qu\u00e3o indigesto. Fernando \u201cpassou\u201d a Jeannette e aceitou a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e9rio? Sente qualquer coisa, Lindoca?<\/p>\n<p>&#8211; Uma ansiedade, uma canseira, isto desde que vim de Teres\u00f3polis.<\/p>\n<p>&#8211; Calor. Estes ver\u00f5es cariocas derrancam at\u00e9 aos mais pintados.<\/p>\n<p>&#8211; Sei quando \u00e9 calor. O mal-estar que sinto deve ter outra causa.<\/p>\n<p>&#8211; Nervoso, ent\u00e3o. Por que n\u00e3o vai ao m\u00e9dico?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 pensei nisso. Mais, a qual m\u00e9dico?<\/p>\n<p>&#8211; Ao Lanson, filha. Que id\u00e9ia! Pois n\u00e3o \u00e9 o m\u00e9dico da casa?<\/p>\n<p>&#8211; Deus me livre. Depois que matou a mulher do Esteves? Isso quer voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o matou tal, Lindoca. \u00c9 tolice propalar essa maldade inventada por aquela caninana da Marocas. Ela \u00e9 que diz isso.<\/p>\n<p>&#8211; Ela e todos. Voz corrente. Al\u00e9m do mais, depois daquele caso da corista di Trianon&#8230;<\/p>\n<p>O doutor Fernando espirrou uma gargalhada.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o diga mais nada! \u2013 exclamou. \u2013 adivinho tudo. A eterna mania.<\/p>\n<p>Sim, era a mania. Dona Lindoca n\u00e3o perdoava a infidelidade do marido, nem do seu nem do das outras. Em mat\u00e9ria de moralidade sexual n\u00e3o cedia mil\u00edmetro.<\/p>\n<p>Como fosse de natural casta, exigia castidade de todo mundo. Da\u00ed o desmerecerem ante seus olhos todos os maridos que na voz das comadres andavam de amores fora do ninho conjugal. Aquele doutor Lanson perdera-se no conceito de dona Lindoca n\u00e3o porque houvesse \u201cmatado\u201d a mulher do Esteves \u2013 pobre tuberculosa que mesmo sem m\u00e9dico tinha de morrer \u2013, mas porque andara \u00e0s voltas com uma corista.<\/p>\n<p>A gargalhada do marido enfureceu-a.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00ednicos! S\u00e3o todos os mesmos&#8230; Pois n\u00e3o vou ao Lanson. \u00c9 um sujo. Vou ao doutor Lorena, que \u00e9 homem limpo, decente, um puro.<\/p>\n<p>&#8211; Vai filha. Vai ao Lorena. A pureza desse m\u00e9dico, que eu c\u00e1 chamo hipocrisia requintada, com certeza lhe h\u00e1 de ajudar muito a terap\u00eautica.<\/p>\n<p>&#8211; Vou sim, e nunca mais me h\u00e1 de entrar aqui outro m\u00e9dico. De Lovelaces ando eu farta<\/p>\n<p>\u2013 concluiu dona Lindoca sublinhando a indireta.<\/p>\n<p>O marido olho-a de soslaio, sorriu filosoficamente e, \u201cpassando\u201d o \u201cLovelaces\u201d, p\u00f4s-se a ler os jornais.<\/p>\n<p>No dia seguinte, dona Lindoca foi ao consult\u00f3rio do m\u00e9dico puritano e voltou radiante.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho uma policitemia \u2013 foi logo dizendo. \u2013 garante ele que n\u00e3o \u00e9 grave, embora requeira tratamento s\u00e9rio e longo.<\/p>\n<p>&#8211; Policitemia? \u2013 repetiu o marido com vincos na testa, sinal de que entendia suas pitadas de medicina.<\/p>\n<p>&#8211; Que espanto \u00e9 esse? Policitemia, sim, a doen\u00e7a da minha margarida e da gr\u00e3-duquesa Estef\u00e2nia, disse-me o doutor. Mas cura-me, assegurou \u2013 e ele sabe o que diz. Como \u00e9 fino o doutor Lorena! Como sabe falar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sobretudo falar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vem voc\u00ea. J\u00e1 come\u00e7a a implicar com o homem s\u00f3 porque \u00e9 um puro&#8230; Pois, quanto a mim, s\u00f3 sinto t\u00e9-lo conhecido agora. \u00c9 um m\u00e9dico decente, sabe? Fino, am\u00e1vel, muito religioso. Religioso, sim! N\u00e3o perde a missa das onze na Candel\u00e1ria.<\/p>\n<p>Diz as coisas de um modo que at\u00e9 lisonjeia agente. N\u00e3o \u00e9 um sujo como o tal Lanson, que anda metido com atrizes, que v\u00ea humores em tudo e p\u00f5e as clientes nuas para examin\u00e1-las.<\/p>\n<p>&#8211; E o teu Lorena como as examina? Vestidas?<\/p>\n<p>&#8211; Vestidas, sim, est\u00e1 claro. N\u00e3o \u00e9 nenhum libertino. E se o caso exige que a cliente se dispa em parte, ele aplica os ouvidos mas fecha os olhos. \u00c9 decente, ora a\u00ed est\u00e1! N\u00e3o faz do consult\u00f3rio casa de encontros.<\/p>\n<p>&#8211; Venha c\u00e1, minha filha. Noto que voc\u00ea fala com leviandade de sua doen\u00e7a. Tenho minhas no\u00e7\u00f5es de medicina e parece-me que essa tal policitemia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Parece nada. O doutor Lorena afirmou-me que n\u00e3o \u00e9 coisa de matar, embora de cura lenta. Doen\u00e7a at\u00e9 distinta, de fidalgos.<\/p>\n<p>&#8211; De rainha, gr\u00e3-duquesa,sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 que exige muito tratamento \u2013 sossego, regime alimentar, coisas imposs\u00edveis nesta casa.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa. Quer voc\u00ea que uma dona de casa possa cuidar de si tendo tanta coisa em olhar? V\u00e1 a pobre de mim deixar de matar-se na trabalheira para ver como isto vira de pernas para o ar. Tratamento na regra, s\u00f3 para essas que tomam o marido das outras. A vida \u00e9 para elas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixemos isso, Lindoca, at\u00e9 cansa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas voc\u00eas n\u00e3o se cansam delas.<\/p>\n<p>&#8211; Elas, elas! Que elas, mulher? \u2013 exclamou, j\u00e1 exasperado, o marido.<\/p>\n<p>&#8211; As perfumadas.<\/p>\n<p>&#8211; Bolas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o briguemos. Basta. O doutor&#8230; ia-me esquecendo. O doutor Lorena quer que voc\u00ea apare\u00e7a por l\u00e1, no consult\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Ele dir\u00e1. Das duas \u00e0s cinco.<\/p>\n<p>&#8211; Muita gente a essa hora?<\/p>\n<p>&#8211; Como n\u00e3o? Um m\u00e9dico daqueles&#8230;Mas a voc\u00ea n\u00e3o far\u00e1 esperar. \u00c9 neg\u00f3cio \u00e0 parte da cl\u00ednica. Vai?<\/p>\n<p>O doutor Fernando foi. O m\u00e9dico desejava adverti-lo de que a doen\u00e7a de dona Lindoca era grave, havendo perigo s\u00e9rio caso o tratamento que prescrevera n\u00e3o fosse seguido \u00e0 risca.<\/p>\n<p>&#8211; Muito sossego, nada de contrariedades, mimos. Principalmente mimos. Indo tudo a contento, num ano poder\u00e1 estar boa. Do contr\u00e1rio, teremos mais um vi\u00favo em pouco tempo.<\/p>\n<p>A possibilidade da morte da esposa, quando assim se antolha pela primeira vez ao marido de cora\u00e7\u00e3o sens\u00edvel, abala profundamente. O doutor Fernando deixou o consult\u00f3rio e rodando para casa ia a recordar o tempo r\u00f3seo do namoro, o noivado, o casamento, o enlevo dos primeiros filhos. N\u00e3o era meu marido. Podia at\u00e9 figurar entre os \u00f3timos, no ju\u00edzo dos homens que se perdoam uns aos outros os pequenos arranh\u00f5es no pacto conjugal, filhos da curiosidade ad\u00e2mica.<\/p>\n<p>J\u00e1 as mulheres n\u00e3o compreendem assim, e d\u00e3o demasiado vulto a borboleteios que muitas vezes s\u00f3 servem para valorizar as esposas aos olhos dos maridos. Assim \u00e9 que a not\u00edcia da gravidade da mol\u00e9stia de dona Lindoca despertou em Fernando um certo remorso, e o desejo de redimir com carinhos de noivos os anos de indiferen\u00e7a conjugal.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre Lindoca. T\u00e3o boa de cora\u00e7\u00e3o&#8230; Se azedou um bocado, a culpa foi s\u00f3 minha. O tal perfume&#8230; Se ela pudesse compreender a absoluta insignific\u00e2ncia do frasco donde emanou aquele perfume&#8230;<\/p>\n<p>Ao entrar em casa indagou logo da esposa.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 em cima \u2013 respondeu a criada.<\/p>\n<p>Subiu. Encontrou-a no quarto, numa pregui\u00e7osa.<\/p>\n<p>&#8211; Viva a minha doentezinha! E abra\u00e7ou-a e beijo-a na testa.<\/p>\n<p>Dona Lindoca espantou-se.<\/p>\n<p>&#8211; U\u00e9! Que amores esses agora? At\u00e9 beijos, coisas que me dizias fora da moda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vim do m\u00e9dico. Confirmou-me o diagn\u00f3stico. N\u00e3o h\u00e1 gravidade nenhuma, mas exige tratamento de rigor. Muito sossego, nada de amofina\u00e7\u00f5es, nada que abale o moral. Vou ser o enfermeiro da minha Lindoca e hei de p\u00f4-la s\u00e3zinha.<\/p>\n<p>Dona Lindoca arregalou os olhos. N\u00e3o reconhecia no indiferente Fernando de tanto tempo aquele marido am\u00e1vel, t\u00e3o perto do padr\u00e3o com que sempre sonhara.<\/p>\n<p>At\u00e9 diminutivos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim \u2013 disse ela \u2013, tudo isso \u00e9 f\u00e1cil de dizer, mas sossego de fato, repouso absoluto, como, nesta casa?<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Ora, voc\u00ea ser\u00e1 o primeiro a dar-me aborrecimentos.<\/p>\n<p>&#8211; Perdoe-me, Lindoca. Compreenda a situa\u00e7\u00e3o. Confesso que n\u00e3o fui contigo o esposo entressonhado. Mas tudo mudar\u00e1. Voc\u00ea est\u00e1 doente e isto vai fazer com que tudo renas\u00e7a \u2013 at\u00e9 o velho amos dos vinte e anos, que n\u00e3o morreu nunca, apenas encasulou- se. N\u00e3o imagina como me sinto cheio de ternura para com a minha mulherzinha. Estou todo lua-de-mel por dentro.<\/p>\n<p>&#8211; Os anjos digam am\u00e9m. S\u00f3 receio que com tanto tempo o mel j\u00e1 esteja azedo&#8230;<\/p>\n<p>Apesar de mostrar-se assim t\u00e3o incr\u00e9dula, a boa senhora irradiava. O seu amor pelo marido era o mesmo dos primeiros tempos, de modo que aquela ternura o fez logo reflorir, \u00e0 imita\u00e7\u00e3o das \u00e1rvores desfolhadas pelo inverno a um chuvisco de primavera.<\/p>\n<p>E a vida de dona Lindoca mudou. Os filhos passaram a vir v\u00ea-la com freq\u00fc\u00eancia \u2013 logo que o pai os advertiu da vida periclitante da boa m\u00e3e. E mostravam-se muito carinhoso e sol\u00edcitos. Os parentes mais chegados, tamb\u00e9m por influxo do marido, amiudaram as visitas, de tal jeito que dona Lindoca, sempre queixosa outrora de isolamento, se fosse queixar-se agora seria de solicitude excessiva.<\/p>\n<p>Veio uma tia pobre do interior tomar conta da casa, chamando a si todas as preucupa\u00e7\u00f5es amofinantes.<\/p>\n<p>Dona Lindoca sentia um certo orgulho da sua doen\u00e7a, cujo nome lhe soava bem aos ouvidos e fazia abrir a boca dos visitantes \u2013 policitemia&#8230; E como o marido e os demais lhe lisonjeassem a vaidade enaltecendo o chique das policitemias, acabou por considerar-se uma privilegiada.<\/p>\n<p>Falavam muito na rainha Margarida e na gr\u00e3-duquesa Estef\u00e2nia como se fossem pessoas de casa, havendo um dos filhos conseguido e posto na parede o retrato de ambas. E certa vez que os jornais deram um telegrama de Londres, noticiando achar-se enferma a princesa Mary, dona Lindoca sugeriu logo, convencidamente:<\/p>\n<p>&#8211; Vai ver que \u00e9 uma policitemia&#8230;<\/p>\n<p>A prima Elvira trouxa de Petr\u00f3polis uma novidade de sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Viajei com o doutor Maciel na barca. Contou-me que a baronesa de Pil\u00e3o Arcado tamb\u00e9m est\u00e1 com policitemia. E tamb\u00e9m aquela grandalhona loura, mulher do ministro Franc\u00eas \u2013 a Grouvion.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e9rio?<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e9rio, sim. \u00c9 doen\u00e7a de gente gra\u00fada, Lindoca. Este mundo!&#8230; at\u00e9 em quest\u00e3o de doen\u00e7a as bonitas v\u00e3o para os ricos e as feias para os pobres! Voc\u00ea, a Pil\u00e3o Arcado e a Grouvion, com policitemia \u2013 e l\u00e1 a minha costureirinha do Catete, que morre dia e noite em cima da m\u00e1quina de costura, sabe o que lhe deu? T\u00edsica mesent\u00e9rica&#8230;<\/p>\n<p>Dona Lindoca fez cara de nojo.<\/p>\n<p>Eu nem sei onde \u201cessa gente\u201d apanha tais coisas.<\/p>\n<p>Outra ocasi\u00e3o, ao saber que uma sua ex-criada de Teres\u00f3polis fora ao m\u00e9dico e viera com o diagn\u00f3stico de policitemia, exclamou, incr\u00e9dula, a sorrir com superioridade:<\/p>\n<p>&#8211; Duvido! A lindu\u00edna com policitemia? Duvido!&#8230; Vai ver que quem disse tal bobagem foi<\/p>\n<p>Lanson, aquela topeira.<\/p>\n<p>A casa virou perfeita maravilha de ordem. As coisas surgiam \u00e0 hora e no ponto, como se an\u00f5es invis\u00edveis estivessem a prover tudo. A cozinheira, \u00f3tima, fazia pit\u00e9us de arregalar o olho. A arrumadeira alem\u00e3 dava id\u00e9ia de uma abelha em forma de gente. A tia Gertrudes era uma nova governanta de casa como jamais existiu outra.<\/p>\n<p>E nenhum barulho, todos na ponta dos p\u00e9s, com \u201cpsius\u201d aos estouvados. E presentinhos. Os filhos e noras jamais esqueciam a boa mam\u00e3e, ora com flores, ora com os doces de que ela mais gostava. O marido fizera-se caseiro. Deu jeito aos neg\u00f3cios e pouco sa\u00eda, e \u00e0 noite nunca, passando a ler para a esposa os crimes dos jornais nas raras vezes em que n\u00e3o tinha visitas.<\/p>\n<p>Dona Lindoca come\u00e7ou a viver vida de c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>&#8211; como me sinto feliz agora! \u2013 dizia. \u2013 Mas para que nada haja perfeito, tenho a policitemia. Verdade \u00e9 que esta doen\u00e7a n\u00e3o me incomoda em nada. N\u00e3o a sinto absolutamente \u2013 al\u00e9m de que \u00e9 uma doen\u00e7a fina&#8230;<\/p>\n<p>O medico vinha v\u00ea-la ami\u00fade, mostrando boa cara \u00e0 doente e m\u00e1 ao marido.<\/p>\n<p>&#8211; Demora ainda, meu caro. N\u00e3o nos iludamos com apar\u00eancias. As policitemias s\u00e3o insidiosas.<\/p>\n<p>O curioso era que dona Lindoca realmente n\u00e3o sentia coisa nenhuma. O mal-estar, a ansiedade do come\u00e7o que a levara a consultar o m\u00e9dico, de muito que havia passado. Mas quem sabia da sua doen\u00e7a n\u00e3o era ela, e sim o m\u00e9dico. De modo que enquanto ele n\u00e3o lhe desse alta, teria de continuar nas del\u00edcias daquele tratamento.<\/p>\n<p>Certa vez, chegou a dizer ao doutor Lorena:<\/p>\n<p>&#8211; Sinto-me boa, doutor, completamente boa.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-lhe, minha senhora. O caracter\u00edstico das policitemias \u00e9 iludir assim os doentes, e p\u00f4-los derreados ou liquidados, \u00e0 menor imprud\u00eancia. Deixe-me c\u00e1 levar o barco a meu modo, que para outra coisa n\u00e3o queimei as pestanas na escola. A gr\u00e3-duquesa Estef\u00e2nia tamb\u00e9m se julgou boa, certa vez, e contra o parecer do m\u00e9dico assistente deu-se alta a si pr\u00f3pria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E morreu?<\/p>\n<p>&#8211; Quase. Recaiu e foi um custo p\u00f4-la de novo no ponto em que estava. O abuso, minha senhora, a falta de confian\u00e7a no m\u00e9dico, tem levado muita gente para outro mundo&#8230;<\/p>\n<p>E repetiu ao marido aquele parecer, com grande encanto de dona Lindoca, que n\u00e3o cessava de abrir-se em elogios ao grande cl\u00ednico.<\/p>\n<p>&#8211; Que homem! N\u00e3o \u00e9 a toa que ningu\u00e9m diz \u201cisto\u201d dele, Neste rio de Janeiro das m\u00e1s- l\u00ednguas. \u201cAmantes, minha senhora\u201d, declarou ele outro dia \u00e0 prima Elvira, \u201cningu\u00e9m me apontar\u00e1 jamais nenhuma\u201d.<\/p>\n<p>O doutor Fernando ia se saindo com uma ironia \u00e0 moda antiga, mas recolheu-se a tempo, por amor ao sossego da esposa, com a qual jamais esgrimira depois da doen\u00e7a. E resignou-se a ouvir o estribilho de sempre: \u201c\u00c9 um homem puro e muito religioso. Fossem todos assim e o mundo seria um para\u00edso\u201d.<\/p>\n<p>Durou seis meses o tratamento de dona Lindoca e duraria doze, se um belo dia n\u00e3o rebentasse um grande esc\u00e2ndalo \u2013 a fuga do doutor Lorena para Buenos Aires com uma cliente, mo\u00e7a de alta sociedade.<\/p>\n<p>Ao receber a not\u00edcia dona Lindoca recusou-se a dar cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>&#8211; Imposs\u00edvel! H\u00e1 de ser cal\u00fania. Vai ver como ele logo aparece por aqui e tudo se desmente.<\/p>\n<p>O doutor Lorena jamais apareceu; o fato confirmou-se, fazendo dona Lindoca passar pela maior desilus\u00e3o de sua vida.<\/p>\n<p>&#8211; Que mundo, meu Deus! \u2013 murmurava. \u2013 em que mais acreditar, se at\u00e9 o doutor Lorena faz dessas?<\/p>\n<p>O marido rejubilou-se, por dentro. Sempre vivera engasgado com a pureza do charlat\u00e3o, comenta todos os dias em sua presen\u00e7a sem que ele pudesse explodir o grito d\u2019alma que lhe punha um n\u00f3 na garganta: \u201cPuro nada! \u00c9 um pirata igual aos outros\u201d<\/p>\n<p>O abalo moral n\u00e3o fez dona Lindoca recair enferma, como era de supor. Sinal de que estava perfeitamente curada. Para melhor certificar-se disso o marido lembrou-se de consultar outro m\u00e9dico.<\/p>\n<p>&#8211; Pensei no Lemos de Souza \u2013 sugeriu ele. \u2013 est\u00e1 com muito nome.<\/p>\n<p>&#8211; Deus me livre! \u2013 acudiu logo a doente. \u2013 dizem que \u00e9 amante da mulher de Bastos.<\/p>\n<p>&#8211; Mas trata-se de um grande cl\u00ednico, Lindoca. Que importa o que l\u00e1 do seu namoro dizem as m\u00e1s-l\u00ednguas? Neste Rio ningu\u00e9m escapa.<\/p>\n<p>&#8211; A mim importa muito. N\u00e3o quero. Veja outro. Escolha um decente. Sujeiras n\u00e3o admito aqui.<\/p>\n<p>Depois de comprido debate acordaram em chamar Manuel Brand\u00e3o, professor da escola e j\u00e1 em adiantado grau de senilidade. N\u00e3o constava que fosse amante de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Veio o novo doutor. Examinou cuidadosamente a doente e ao cabo concluiu com absoluta seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Vossa excel\u00eancia n\u00e3o tem nada \u2013 disse ele. \u2013 absolutamente nada.<\/p>\n<p>Dona Lindoca pulou, muito l\u00e9pida, da sua pregui\u00e7osa.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o sarei de uma vez, doutor?<\/p>\n<p>&#8211; Sarou&#8230; Se \u00e9 que esteve doente. N\u00e3o consigo ver sinal nenhum em seu organismo de doen\u00e7a presente ou passada. Quem foi o m\u00e9dico?<\/p>\n<p>&#8211; O doutor Lorena&#8230;<\/p>\n<p>O velho cl\u00ednico sorriu, e voltando-se para o marido:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o quarto caso de doen\u00e7a imagin\u00e1ria que o meu colega Lorena (aqui entre n\u00f3s, um refinad\u00edssimo patife) leva a explorar durante meses. Felizmente raspo-se para Buenos Aires, ou \u201cdesinfetou\u201d o Rio, como dizem os capad\u00f3cios.<\/p>\n<p>Foi um assombrado. O doutor Fernando abriu a boca.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que lhe digo \u2013 reafirmou o m\u00e9dico. \u2013 A sua senhora teve qualquer crise nervosa que passou com o repouso. Mas, policitemia, nunca! Policitemia!&#8230; at\u00e9 me espanta que t\u00e3o grosseiramente pudesse o tal Lorena iludir a todos com essa pilh\u00e9ria&#8230;<\/p>\n<p>A tia Gertrudes voltou para sua casa no interior. Os filhos foram se tornando mais parcos nas visitas \u2013 e os demais parentes idem. O doutor Fernando retornou a vida de neg\u00f3cios e nunca mais teve tempo de ler crimes para a desconsolada esposa, sobre cujos ombros recaiu a velha trabalhadeira de zelar pela casa.<\/p>\n<p>Em suma, a infelicidade de dona Lindoca voltou com armas e bagagens, fazendo-a suspirar suspiros ainda mais profundos que os de outrora. Suspiros de saudade. Saudade da policitemia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dona Lindoca n\u00e3o era feliz. Quarentona bem puxada, apesar dos trinta e sete anos em que fizera finca-p\u00e9, via pouco a pouco chegar a velhice com seu empaste de fei\u00e7\u00f5es, rugas e macacoas. 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