{"id":92327,"date":"2017-01-04T08:30:00","date_gmt":"2017-01-04T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92327"},"modified":"2017-01-04T08:30:00","modified_gmt":"2017-01-04T10:30:00","slug":"a-facada-imortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/a-facada-imortal","title":{"rendered":"A Facada Imortal"},"content":{"rendered":"<h4>Monteiro Lobato<\/h4>\n<p>Todos os tratados de xadrez descrevem a celebre partido jogada por Philidor no s\u00e9culo XVIII, a mais rom\u00e2ntica que ao anais enxadr\u00edsticos mencionam. T\u00e3o s\u00e1bia foi, t\u00e3o imprevista e audaciosa, que recebeu o nome de Partida Imortal. Embora depois dela se jogassem pelo mundo milh\u00f5es de partidas de xadrez, nenhuma ofuscou a obra prima do famoso Philidor Andr\u00e9 Danican.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a &#8220;facada&#8221; do Indal\u00edcio Ararigboia, um saudoso amigo morto, se vem perpetuando nos anais da alta malandragem como a La Gioconda do g\u00eanero ou como est\u00e1 admitido nas rodas t\u00e9cnicas &#8211; a Facada Imortal. Indal\u00edcio foi positivamente o Philidor dos faquistas.<\/p>\n<p>Lembro-me bem: era um rapaz lindo, de olhos azuis e voz suav\u00edssima; as palavras vinham- lhe como p\u00eassegos embrulhados em paina, e sabiamente camaralentadas, porque, dizia ele, o homem que fala depressa \u00e9 um perdul\u00e1rio que deita fora o melhor ouro da sua heran\u00e7a. Ningu\u00e9m d\u00e1 tento ao que esse homem diz, porque quod abundat nocet. Se n\u00e3o valorizamos n\u00f3s mesmos as nossas palavras, como pretendermos que os outros as prezem?<\/p>\n<p>Meu mestre nesse ponto foi o general Pinheiro Machado, num discurso que lhe ouvi certa vez. Que astuciosa e bem calculada lentid\u00e3o! Entre uma palavra e outra o Pinheiro punha um intervalo de segundos, como se sua boca estivesse perdigotando p\u00e9rolas. E a assist\u00eancia o ouvia com religiosa un\u00e7\u00e3o absorvendo como p\u00e9rolas era emitido. Substantivos, adjetivos, verbos, adv\u00e9rbios e conjun\u00e7\u00f5es caiam sobre os ouvintes como seixos lan\u00e7ados \u00e0 lagoa; e antes que cada um chegasse bem l\u00e1 no fundo, o general n\u00e3o soltava outro. Cacet\u00edssimo, mas de alta efici\u00eancia.<\/p>\n<p>-Foi ele ent\u00e3o o teu mestre na arte de falar valorizadamente&#8230;<\/p>\n<p>-N\u00e3o. Nasci sonolento. O Pinheiro apenas me abriu os olhos quanto ao valor monet\u00e1rio do Dom que a natureza me dera. Depois de ouvir esse seu discurso \u00e9 que passei a dedicar-me \u00e0 nobre arte de fazer com os homens o que fazia Mois\u00e9s nas rochas do deserto.<\/p>\n<p>-Faz\u00ea-los &#8220;sangrar&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>-Exatamente. Vi que se somasse minha natural lentid\u00e3o do falar com alguma psicologia vienense (Freud, Adler), o dinheiro dos homens me atenderia como as galinhas atendem ao quit, quit das donas de casa. Para cada bolso h\u00e1 uma chave Yale. Minha t\u00e9cnica se resume hoje em s\u00f3 abordar a v\u00edtima depois de descobrir a chave certa.<\/p>\n<p>-E como consegue?<\/p>\n<p>-Tenho minha \u00e1lgebra. Considero os homens equa\u00e7\u00f5es do terceiro grau &#8211; equa\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas, est\u00e1 claro. Estudo-os, deduzo, concluo &#8211; e esfaqueio com precis\u00e3o praticamente absoluta. O mordedor comum \u00e9 um ser indecoroso, digno do desprezo que lhe d\u00e1 a sociedade. Pedincha, implora; apenas desenvolve, sem a menor preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, o surrado cantoch\u00e3o do mendigo: &#8220;Uma esmolinha pela amor de Deus!&#8221; Comigo, n\u00e3o! Assumi essa atitude (porque o pedir \u00e9 uma atitude na vida), primeiro, por esporte; depois, com o fito de reabilitar uma das mais velhas profiss\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>-Realmente, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 nobil\u00edssima&#8230;<\/p>\n<p>Indal\u00edcio racionalizara a &#8220;mordedura&#8221; ao ponto da sublima\u00e7\u00e3o. Citava fil\u00f3sofos gregos.<\/p>\n<p>Mobilizava m\u00fasicos de fama.<\/p>\n<p>-Liszt, Mozart, Debussy, dizia ele, nobilitaram essa coisa comum chamada &#8220;som&#8221; \u00e0 for\u00e7a de harmoniz\u00e1-lo de certo modo. O escultor nobilitar\u00e1 at\u00e9 um paralelep\u00edpedo de rua, se lhe der forma est\u00e9tica. Por que n\u00e3o nobilitaria eu o depriment\u00edssimo ato de pedir? Quando lan\u00e7o a minha facada, sempre depois de s\u00e9rios estudos, a v\u00edtima n\u00e3o me d\u00e1 o seu dinheiro, apenas paga a fin\u00edssima demonstra\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica com que o tonteio. Paga-me a facada do mesmo modo que o amador de pintura paga o arranjo de tintas que o pintor faz sobre uma estopa, um quadrado de papel\u00e3o, uma rel\u00edssima t\u00e1bua.<\/p>\n<p>O faquista comum, notem, nada d\u00e1 em troca do miser\u00e1vel dinheirinho que tira. Eu dou emo\u00e7\u00f5es grat\u00edssimas \u00e0 sensibilidade das criaturas finas. Minha v\u00edtima tem que ser fina. O simples fato da minha escolha j\u00e1 \u00e9 um honroso diploma, porque nunca me desonrei em esfaquear criaturas vulgares, de alma grosseira. S\u00f3 procuro gente na altura de compreender as sutilezas das paisagens de Corot ou dos versos de Verlaine.<\/p>\n<p>Como se requintava a formosura do Indal\u00edcio nos momentos em que discorria assim! Envolvia-o a aura dos predestinados, dos ap\u00f3stolos que se sacrificam para aumentar de alguma coisa a beleza do mundo. De sua barba loura, \u00e0 Cristo, escapavam os suaves reflexos do cendre.<\/p>\n<p>As frases flu\u00edam-lhe da boca de fino desenho como o \u00f3leo ou o mel escorre duma \u00e2nfora grega suavemente inclinada. Suas palavras traziam patins aos p\u00e9s. Tudo no Indal\u00edcio eram mancais de esferas. Talvez ajudasse a circunst\u00e2ncia de ser surdinho. Isso de n\u00e3o ouvir bem p\u00f5e veludos em certas pessoas, d\u00e1-lhes um macio de violoncelo. Como n\u00e3o se distraem com a vulgaridade dos sons que todos n\u00f3s normalmente ouvimos, atentam mais em si pr\u00f3prios, &#8220;ouvem-se mais&#8221;, concentram-se.<\/p>\n<p>Nosso costume naquele tempo era reunir-nos todas as noites no velho &#8220;Caf\u00e9 Guarany&#8221; com y grego &#8211; a reforma ortogr\u00e1fica ainda dormia no calcanhar do Medeiros e Albuquerque; fic\u00e1vamos ali horas trabalhando para a Ant\u00e1rtica e comentando as proezas de cada um. Rodinha muito interessante e v\u00e1ria, cada um com a sua mania, a sua arte ou a sua tara. Ligava-nos apenas uma coisa: o pendor comum pelas finuras mentais em qualquer campo que fosse, literatura, perf\u00eddia, oposi\u00e7\u00e3o ao governo, arte de viver, amor. Um deles era absolutamente ladr\u00e3o &#8211; desses que a sociedade trancafia. Mas que ladr\u00e3o engra\u00e7ado! Estou hoje convencido de que roubava unicamente com um fim: deslumbrar a rodinha com a primorosa estiliza\u00e7\u00e3o das proezas. Outro era b\u00eabedo profissional &#8211; e talvez pela mesma raz\u00e3o: informar \u00e0 roda sobre o que \u00e9 a vida do cl\u00e3 de adoradores do \u00e1lcool que passam a vida nos &#8220;botecos&#8221;. Outro era o Indal\u00edcio&#8230;<\/p>\n<p>-E antes, Indal\u00edcio? Que \u00e9 que fazia?<\/p>\n<p>-Ah, perdia o tempo numa escola do Rio como professor de meninos. Nada mais desinteressante. Fugi, farto e refarto. Odeio qualquer atividade vazia dessa &#8220;emo\u00e7\u00e3o da ca\u00e7a&#8221; que considero a coisa suprema da vida. Fomos ca\u00e7adores durante milh\u00f5es e milh\u00f5es de anos, na nossa longu\u00edssima fase de homens primitivos.<\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola \u00e9 coisa de ontem, e por isso ainda espinoteiam com tanta vivacidade, dentro do nosso modernismo, os velhos instintos do ca\u00e7ador. Continuamos os ca\u00e7adores que \u00e9ramos, apenas mudados de ca\u00e7a. Como nestas cidades de hoje n\u00e3o existem aquele Ursus speleus que no per\u00edodo das cavernas n\u00f3s ca\u00e7\u00e1vamos (ou nos ca\u00e7avam), matamos a sede do instinto com as am\u00e1veis cacinhas da civiliza\u00e7\u00e3o. Uns ca\u00e7am meninas bonitas, outros ca\u00e7am neg\u00f3cios, outros ca\u00e7am imagens e rimas. O Breno Ferraz ca\u00e7a boatos contra o governo&#8230;<br \/>\n-E eu que ca\u00e7o? Perguntei.<\/p>\n<p>-Ant\u00edteses, respondeu de pronto o Indal\u00edcio. Fazes contos, e que \u00e9 o conto sen\u00e3o uma ant\u00edtese estilizada? Eu ca\u00e7o ot\u00e1rios, com a espingarda da psicologia. E como isso me d\u00e1 para viver folgadamente, n\u00e3o quero outra profiss\u00e3o. Tenho prosperado. Calculo que nestes \u00faltimos tr\u00eas anos consegui remover do bolso alheio para o meu cerca de duzentos contos de r\u00e9is.<br \/>\nAquela revela\u00e7\u00e3o fez que o nosso respeito pelo Indal\u00edcio aumentasse de dez pontos.<\/p>\n<p>-E sem abusar, continuou ele, sem for\u00e7ar a nota, porque meu intento nunca foi acumular dinheiro. Em dando para o passadio \u00e0 larga, est\u00e1 \u00f3timo. O lucro maior que obtenho, entretanto, est\u00e1 na contenteza de alma, na paz da consci\u00eancia &#8211; coisas que nunca tive nos anos em que, como professor de educa\u00e7\u00e3o moral, eu transmitia \u00e0s inocentes crian\u00e7as no\u00e7\u00f5es que hoje considero absolutamente falsas. As nevralgias da minha consci\u00eancia naquela \u00e9poca, quando provava nas aulas, com infames sofismas, que a linha reta \u00e9 o caminho mais curto entre dois pontos!<\/p>\n<p>Com o perpassar do tempo o Indal\u00edcio desprezou completamente as facadas simples, ou do &#8220;primeiro grau&#8221;, como dizia ele, isto \u00e9, as que apenas produzem dinheiro. Passou a interessar-se unicamente pelas que representavam &#8220;solu\u00e7\u00f5es de problemas psicol\u00f3gicos&#8221; e lhe davam, al\u00e9m do \u00edntimo prazer da fa\u00e7anha, a mais pura gl\u00f3ria ali da rodinha. Uma noite desenvolveu-nos o teorema do m\u00e1ximo&#8230;<\/p>\n<p>-Sim cada homem, em mat\u00e9ria de facada, tem o seu m\u00e1ximo; e o faquista que arranca 100 mil r\u00e9is dum fregu\u00eas cujo m\u00e1ximo \u00e9 de um conto, lesa-se a si pr\u00f3prio &#8211; e ainda perturba a harmonia universal. Lesa-se em 900 mil r\u00e9is e interfere na ordem preestabelecida do cosmos. Aqueles 900 mil r\u00e9is estavam predestinados a mudarem-se de bolso naquele dia, naquela hora, por meio daqueles agentes; a in\u00e9pcia do mau faquista perturba a predestina\u00e7\u00e3o, dess&#8217;arte criando uma ondulazinha de desarmonia que at\u00e9 ser reabsorvida contribui para o mal estar do Universo.<\/p>\n<p>Essa filosofia ouv\u00edmo-la no dia do seu &#8220;grande deslize&#8221;, quando o Indal\u00edcio nos apareceu no Guarany seriamente incomodado com a perturba\u00e7\u00e3o que essa sua &#8220;mancada&#8221; podia estar determinando na harmonia das esferas.<\/p>\n<p>-Errei, disse ele. Meu assalto foi contra o Macedo, que, voc\u00eas sabem, \u00e9 a maior v\u00edtima dos mordedores de S. Paulo. Mas fui precipitado em minhas conclus\u00f5es quanto ao seu m\u00e1ximo, e dei-lhe um golpe de dois contos apenas. A prontid\u00e3o com que atendeu, reveladora de que estava ganhando tr\u00eas, demonstrou-me, da maneira mais evidente, que o m\u00e1ximo do Macedo \u00e9 de cinco contos! Perdi. Pois, tr\u00eas contos&#8230;<\/p>\n<p>E o peor n\u00e3o est\u00e1 nisso, mas na desconfian\u00e7a em que fiquei de mim mesmo. Estarei por acaso decaindo? Nada mais grotesco do que ferir em oitenta ao ot\u00e1rio cujo m\u00e1ximo \u00e9 de cem. O bom atirador n\u00e3o gosta de acertar perto H\u00e1 de enfiar as balas, exatinho, no centro geom\u00e9trico do alvo. Nesse dia foram necess\u00e1rios dez chopes para abafar a inquieta\u00e7\u00e3o do Indal\u00edcio; e ao recolher-nos, l\u00e1 apela meia noite, sa\u00ed com ele a pretexto de consol\u00e1-lo, mas na realidade para impedi-lo de passar pelo Viaduto. Mas afinal descobri a aspirina adequada ao caso.<\/p>\n<p>-S\u00f3 vejo um meio de te restaurares na confian\u00e7a perdida, meu caro Indal\u00edcio: dares uma facada no Raul! Se o consegues, ter\u00e1s realizado a proeza suprema de tua vida. Que tal?<\/p>\n<p>Os olhos de Indal\u00edcio iluminaram-se, como os do ca\u00e7ador que depois de perder um coat\u00ed d\u00e1 de frente com um precioso veado &#8211; e foi assim que teve in\u00edcio a constru\u00e7\u00e3o d grande obra prima do nosso saudoso Indal\u00edcio Ararigboia.<\/p>\n<p>O Raul, velho companheiro de roda, tinha-se, e era tido, como absolutamente imune a facadas. Rapaz de modestas posses, vivia duns 400 mil r\u00e9is mensalmente drenados do governo; mas tratava-se bem, vestia-se com singular apuro, usava lindas gravatas de seda, bons sapatos; para perpetuar semelhante proeza, entretanto, adquirira o h\u00e1bito de n\u00e3o por fora dinheiro nenhum, e hermeticamente fechara o corpo \u00e0 facadas, por m\u00ednimas que fossem.<\/p>\n<p>Recebido o ordenado no come\u00e7o do m\u00eas, pagava as contas, as presta\u00e7\u00f5es, retinha os mi\u00fados do bonde e pronto &#8211; ficava at\u00e9 o m\u00eas seguinte leve como um beija-flor. Em mat\u00e9ria de facadas sua teoria sempre fora de nega\u00e7\u00e3o absoluta.<\/p>\n<p>-&#8220;Morre&#8221; quem quer, dizia ele. Eu por exemplo n\u00e3o sangrarei nunca porque de h\u00e1 muito deliberei n\u00e3o sangrar! O mordedor pode atacar-me de qualquer lado, norte, sul, leste, oeste, a jusante ou a montante, e com uso de todas as armas inclusive as do arsenal do Indal\u00edcio: in\u00fatil! N\u00e3o sangro, pelo simples fato de haver deliberado n\u00e3o sangrar &#8211; al\u00e9m de que por sistema n\u00e3o ando com dinheiro no bolso.<\/p>\n<p>Indal\u00edcio n\u00e3o ignorava a inexpugnabilidade do Raul, mas como se tratasse dum companheiro de roda nunca pensou em tirar o ponto a limpo. Minha sugest\u00e3o daquele dia, por\u00e9m, f\u00ea-lo mudar de id\u00e9ia. A inexpugnabilidade do Raul entrou a irrit\u00e1-lo como intoler\u00e1vel desafio \u00e0 sua genialidade.<\/p>\n<p>-Sim, disse o Indal\u00edcio, porque verdadeiramente imune \u00e0 facadas n\u00e3o creio que haja ningu\u00e9m no mundo. E se algu\u00e9m, como o Raul, faz essa id\u00e9ia de si, \u00e9 que nunca foi abordado por um verdadeiro mestre &#8211; um Balzac como eu. Hei de destruir a inexpugnabilidade do Raul; e se meu golpe vier a falhar, talvez at\u00e9 me suicide com a pistola de Vatel. Viver desonrado aos meus pr\u00f3prios olhos, nunca!<br \/>\nE Indal\u00edcio p\u00f4s-se a estudar o Raul afim de descobrir-lhe o m\u00e1ximo &#8211; sim, porque at\u00e9 no caso do Raul aquele g\u00eanio insistia em ferir no m\u00e1ximo! Duas semanas depois confessou-me com a habitual suavidade:<\/p>\n<p>-O caso est\u00e1 resolvido. O Raul realmente jamais levou facadas e considera-se em absoluto imune &#8211; mas l\u00e1 no fundo d alma, ou do inconsciente, est\u00e1 inscrito o seu m\u00e1ximo: cinco mil r\u00e9is! Tenho orgulho em revelar a minha descoberta. Raul considera-se inesfaque\u00e1vel, e jurou morrer sem a menor cicatriz no bolso; a sua consci\u00eancia, portanto, n\u00e3o admite m\u00e1ximo nenhum. Mas o m\u00e1ximo do Raul \u00e9 de cinco! Para chegar a essa conclus\u00e3o tive de insinuar-me nos desv\u00e3os de sua alma com a gazua do Freud.<\/p>\n<p>-S\u00f3 cinco?<\/p>\n<p>-Sim. S\u00f3 cinco &#8211; o m\u00e1ximo absoluto! Se o Raul se psicanalisasse, descobriria, com assombro, que apesar das suas juras de imunidade a natureza o colocou na casa dos cinco.<\/p>\n<p>-E vai o nosso Balzac sujar-se com uma facada de cinco mil r\u00e9is! Em que ficou a tua fixa\u00e7\u00e3o do m\u00ednimo em duzentos?<\/p>\n<p>-De fato, hoje n\u00e3o dou facadas de menos de duzentos, e me julgaria desonrado se me abaixasse a uma de cento e oitenta. Mas o caso do Raul, especial\u00edssimo, me for\u00e7a a abir uma exce\u00e7\u00e3o. Vou esfaque\u00e1-lo em cinq\u00fcenta mil r\u00e9is&#8230;<\/p>\n<p>-Por que cinq\u00fcenta?<\/p>\n<p>-Porque ontem, inopinadamente, a minha \u00e1lgebra psicol\u00f3gica demonstrou que h\u00e1 possibilidade de um segundo m\u00e1ximo no Raul, n\u00e3o de cinco, como est\u00e1 inscrito no seu inconsciente, mas de dez vezes isso, como consegui ler na aura desse inconsciente!&#8230;<\/p>\n<p>-No inconsciente do inconsciente!&#8230;<\/p>\n<p>-Sim, na verdadeira estratosfera do inconsciente raulino. Mas s\u00f3 serei bem sucedido se n\u00e3o errar na escolha do momento mais favor\u00e1vel, e se conseguir deix\u00e1-lo em ponto de bala por meio da aplica\u00e7\u00e3o de diversas coca\u00ednas psicol\u00f3gicas. S\u00f3 quando Raul se sentir levitado, expandido, como a alma bem rarefeita, \u00e9 que sangrar\u00e1 no m\u00e1ximo astral que eu descobri!&#8230;<\/p>\n<p>Mais um m\u00eas gastou o Indal\u00edcio em estudos do Raul. Certificou-se do dia em que lhe pagavam no Tesouro, do quanto lhe levavam as contas e presta\u00e7\u00f5es, e quanto costumava sobrar-lhe depois de satisfeitos todos os compromissos. E n\u00e3o h\u00e1 por aqui toda a s\u00e9rie de preparos psicol\u00f3gicos, f\u00edsicos, metaps\u00edquicos, mec\u00e2nicos e at\u00e9 gastron\u00f4micos a que o g\u00eanio do Indal\u00edcio submeteu o Raul; encheria p\u00e1ginas e p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>Resumirei dizendo que o ataque em v\u00f4o pique s\u00f3 seria realizado depois do completo &#8220;condicionamento&#8221; da v\u00edtima por meio da s\u00e1bia aplica\u00e7\u00e3o de todos os &#8220;matadores&#8221; . O nosso pobre Indal\u00edcio faleceu sem saber que estava lan\u00e7ando os fundamentos do moderno totalitarismo&#8230;<\/p>\n<p>No dia 4 do m\u00eas seguinte avisou-se da imin\u00eancia do golpe.<\/p>\n<p>-Vai ser amanh\u00e3, \u00e0s oito da noite, no Bar Baron, quando o Raul cair na leve crise sentimental que lhe provocam certas passagens do Petit Chose de Daudet, recordadas entre a Segunda e a terceira dose do meu vinho&#8230;<\/p>\n<p>-Que vinho?<\/p>\n<p>-Aha, um que descobri em estudos in anima nobile &#8211; nele mesmo: a \u00fanica vinha\u00e7a que de mistura com o Daudet do Petit Chose deixa o Raul, durante meio minuto, sangr\u00e1vel no m\u00e1ximo astral! Voc\u00eas v\u00e3o abrir a boca. Estou positivamente criando a minha obra prima! Aparece amanh\u00e3 no Guarany \u00e0s nove horas para ouvires o resto&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte fui ao Guarany \u00e0s oito e j\u00e1 l\u00e1 encontrei a roda. Pu-los ao par dos desenvolvimento da v\u00e9spera e ficamos a comentar os pr\u00f3s e contras do que \u00e0quela hora estaria se passando no Bar Baron. Quase todos jogavam no Raul.<\/p>\n<p>\u00c0s nove entrou o Indal\u00edcio, suavemente. Sentou-se.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o? Perguntei.<\/p>\n<p>Sua resposta foi tirar do bolso e sacudir no ar uma nota nova de cinq\u00fcenta mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>-Fiz um trabalho preparat\u00f3rio perfeito demais para que me falhasse o golpe, disse ele. No momento decisivo bastou-me um quit, quit dos mais simples. Os cinq\u00fcenta flu\u00edram do bolso do Raul para o meu &#8211; contentes, felizes, alegrinhos&#8230;<\/p>\n<p>O assombro da roda chegou ao auge. Era realmente escachante aquele prod\u00edgio!<\/p>\n<p>-Maravilhoso, Indal\u00edcio! Mas p\u00f5e isso em troca mi\u00fado, pedimos. E ele contou:<\/p>\n<p>-Nada mais simples. Depois do preparo do terreno, a t\u00e9cnica foi, entre a Segunda e a terceira dose da vinha\u00e7a e o Daudet, ferir fundo nos cinq\u00fcenta &#8211; e o que eu esperava ocorreu. Ultra-surpreso de haver no globo quem o avaliasse em cinq\u00fcenta mil r\u00e9is, a ele, que na intimidade trevosa do subconsciente s\u00f3 admitia o miser\u00e1vel m\u00e1ximo de cinco, Raul deslumbrou-se&#8230;<\/p>\n<p>Raul perdeu o controle de si pr\u00f3prio &#8230; sentiu-se levitado, rarefeito por dentro, estratosf\u00e9rico &#8211; e com os olhos emparvecidos meteu a m\u00e3o no bolso, sacou tudo quanto havia l\u00e1, exatamente esta nota, e entregou-ma, sonamb\u00falico, num incoerc\u00edvel impulso de gratid\u00e3o! Instantes depois voltava a si. Corou como a rom\u00e3, formalizou-se e s\u00f3 n\u00e3o me agrediu porque a minha s\u00e1bia fuga estrat\u00e9gica n\u00e3o lhe deu tempo&#8230;<\/p>\n<p>Maravilhamo-nos sinceramente. Aquela Yale psicol\u00f3gica er talvez a \u00fanica, dos milh\u00f5es de chaves existentes no universo, capaz de abrir a carteira do Raul para um faquista; e o t\u00ea-la descoberto e manejado com tanta seguran\u00e7a era coisa que indiscutivelmente vinha fechar com chave de ouro a gloriosa carreira do Indal\u00edcio<\/p>\n<p>&#8211; como de fato fechou: meses depois a gripe espanhola de 1918 nos levava esse precioso e am\u00e1vel amigo.<\/p>\n<p>-Parab\u00e9ns, Indal\u00edcio! Exclamei. S\u00f3 a m\u00e1 f\u00e9 te negar\u00e1 o Dom da genialidade. A Partida Imortal do grande Philidor j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 sem pendant no mundo. Criaste a Facada Imortal<\/p>\n<p>Como ningu\u00e9m da roda jogasse xadrez, todos me olharam perguntativamente. Mas n\u00e3o houve tempo para explica\u00e7\u00f5es. Vinha entrando o Raul. Sentou-se, calado, contido. Pediu uma caninha (sinal de rarefa\u00e7\u00e3o no bolso). Ningu\u00e9m disse nada.. Esperamos que ele se abrisse. Indal\u00edcio estava profundamente absorvido nos &#8220;Pingos e Respingos&#8221; dum &#8220;Correio da Manh\u00e3&#8221; sacado do bolso.<\/p>\n<p>S\u00fabito, veio-me uma infinita vontade de rir, e foi rindo que rompi o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o, seu Raul, caiu, heim?&#8230;<\/p>\n<p>Realmente desapontado, o querido Raul n\u00e3o achou a palavra chistosa, o &#8220;esp\u00edrito&#8221; com que em qualquer outra circunst\u00e2ncia comentaria um seu desaso qualquer. Limitou-se a sorrir amareladamente e a emitir um &#8220;Pois \u00e9!&#8230;&#8221; &#8211; o mais desenxabido &#8220;Pois \u00e9&#8221; ainda pronunciado no mundo. T\u00e3o desenxabido, que o Indal\u00edcio engasgou-se de rir&#8230; com o &#8220;Pingo&#8221; que lia.<\/p>\n<p><strong>1942<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Monteiro Lobato Todos os tratados de xadrez descrevem a celebre partido jogada por Philidor no s\u00e9culo XVIII, a mais rom\u00e2ntica que ao anais enxadr\u00edsticos mencionam. T\u00e3o s\u00e1bia foi, t\u00e3o imprevista e audaciosa, que recebeu o nome de Partida Imortal. 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