{"id":92296,"date":"2017-01-04T08:11:34","date_gmt":"2017-01-04T10:11:34","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92296"},"modified":"2017-01-04T08:11:34","modified_gmt":"2017-01-04T10:11:34","slug":"historias-que-acabam-aqui-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/historias-que-acabam-aqui-2","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias que Acabam Aqui"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<h4>A Ab\u00f3bora Menina<\/h4>\n<p>Para a In\u00eas, que tamb\u00e9m um dia voar\u00e1.<\/p>\n<p>Brotara do solo fecundo de um quintal enorme, de uma semente que mestre Crisolindo comprara na venda. Despontava por entre uns p\u00e9s de couve e mais algumas ab\u00f3boras, umas suas irm\u00e3s, outras suas parentes mais afastadas.<\/p>\n<p>Tratada com o devido esmero, adubada \u00e0 maneira, depressa cresceu e se tornou em bela mo\u00e7oila, roli\u00e7a e corada.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-92300\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/historias-que-acabam-aqui-1.jpg\" alt=\"Hist\u00f3rias que Acabam Aqui\" width=\"200\" height=\"185\" \/><\/p>\n<p>Os dias corriam serenos. Enquanto o sol brilhava, tudo era calma naquele quintal. Sombra dos p\u00e9s de couve, rega a horas devidas, nada parecia faltar para que todos fossem felizes.<\/p>\n<p>As suas conversas eram banais: falavam do tempo, de mestre Crisolindo e nunca, mas nunca, do futuro que os aguardava.<\/p>\n<p>Mas Ab\u00f3bora Menina, em vez de se dar por satisfeita com a vida que lhe havia sido reservada, vivia entristecida e os seus dias e as suas noites eram passados a suspirar.<\/p>\n<p>Desde muito cedo que a sua aten\u00e7\u00e3o se virara para as borboletas de cores mil que bailavam sobre o quintal. E sempre que alguma pousava perto de si, a conversa n\u00e3o era outra se n\u00e3o esta: ?Dizei-me, menina borboleta, como fazeis para voar? ?Ora, menina ab\u00f3bora, que quereis que vos diga? Primeiro fui ovo quase invis\u00edvel, depois fui cris\u00e1lida e depois, olhe, depois algu\u00e9m me p\u00f4s estas asas e assim voei.<\/p>\n<p>?Como eu queria ser como v\u00f3s e poder sair daqui, ver outros quintais.<\/p>\n<p>?Que me conste, v\u00f3s fostes semente e vosso ber\u00e7o jaz debaixo desta terra negra e quente. Nunca por a\u00ed and\u00e1mos, minhas irm\u00e3s e eu.<\/p>\n<p>A borboleta levantava voo e Ab\u00f3bora Menina suspirava. E suspirava. E de nada serviam os consolos de suas irm\u00e3s, nem o consolo dos p\u00e9s de couve, nem o consolo dos p\u00e9s de alface que cresciam ali perto e que todas as conversas ouviam.<\/p>\n<p>Certo dia passou por aqueles lados uma borboleta mais viajada e foi pousar mesmo em cima da ab\u00f3bora. De novo a mesma conversa, os mesmos suspiros.<\/p>\n<p>Tanta pena causou a ab\u00f3bora \u00e0 borboleta, que esta acabou por lhe confessar: ?J\u00e1 que tamanho \u00e9 vosso desejo de voar e dado que asas nunca<\/p>\n<p>podereis vir a ter, s\u00f3 vos resta uma solu\u00e7\u00e3o: deixai-vos levar pelo vento sul, que n\u00e3o tarda nada a\u00ed estar\u00e1.<\/p>\n<p>?Mas como? N\u00e3o vedes que sou roli\u00e7a? N\u00e3o vedes que tenho engordado desde que deixei de ser semente? E a borboleta explicou \u00e0 Ab\u00f3bora Menina o que ela devia fazer.<\/p>\n<p>A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o seria cortar com o forte la\u00e7o que a ligava \u00e0quela terra-m\u00e3e e deixar-se levar pelo vento.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o tardaria, pois umas nuvens suas conhecidas assim lhe haviam garantido. Mais adiantou a borboleta que daria uma palavrinha ao tal vento, por sinal seu amigo e aconselhou todos os outros habitantes do quintal a segurarem-se bem quando ele chegasse.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m gostou da ideia \u00e0 excep\u00e7\u00e3o da nossa menina.<\/p>\n<p>?Vamos perder-te! ? lamentavam-se as irm\u00e3s.<\/p>\n<p>?Nunca mais te veremos. ? sussurravam os p\u00e9s de alface.<\/p>\n<p>?Acabar\u00e1s por mirrar se te desprendes do solo que te deu sustento.<\/p>\n<p>Mas a ab\u00f3bora nada mais queria ouvir. E logo nessa noite, quando todos dormiam, Ab\u00f3bora Menina tanto se rebolou no ch\u00e3o, tantos estic\u00f5es deu ao cord\u00e3o que lhe dera vida, que acabou por se soltar e assim permaneceu, liberta, aguardando o vento sul com todos os sonhos que uma ab\u00f3bora ainda menina pode ter na sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o esperou muito, a Ab\u00f3bora Menina. Dois dias passados, logo pela manh\u00e3zinha, o vento chegou. E com tal for\u00e7a, que a todos surpreendeu.<\/p>\n<p>Mestre Crisolindo pegou na enxada e resguardou-se em casa. As flores e as hortali\u00e7as, j\u00e1 prevenidas, agarraram-se ainda mais \u00e0 terra.<\/p>\n<p>S\u00f3 a ab\u00f3bora se alegrou e, peito rosado aberto \u00e0 tempestade, aguardou paciente a sorte que a esperava.<\/p>\n<p>Quando um remoinho de vento pegou nela e a ergueu nos ares, qual bal\u00e3o liberto das m\u00e3os de um menino, n\u00e3o sentiu nem medo, nem pena de partir.<\/p>\n<p>?Adeus, minhas irm\u00e3s!&#8230; Adeus, meus companheiros!&#8230;<\/p>\n<p>?At\u00e9&#8230; um&#8230; dia!&#8230;<\/p>\n<p>E voou direitinha ao c\u00e9u sem fim!&#8230;<\/p>\n<p>Para onde seguiu? Ningu\u00e9m sabe.<\/p>\n<p>Onde foi parar? Ningu\u00e9m imagina.<\/p>\n<p>Mas todos sabem, naquele quintal, que dali partiu, numa bela tarde de vento, a ab\u00f3bora menina mais feliz que algum dia poder\u00e1 haver.<\/p>\n<h4>O Soldadinho de Saco \u00e0s Costas<\/h4>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-92301\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/historias-que-acabam-aqui-2.jpg\" alt=\"Hist\u00f3rias que Acabam Aqui\" width=\"108\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p>Tolentino Esteves da Silva nasceu, por assim dizer, soldado.<\/p>\n<p>Na noite em que veio ao mundo, seu pai logo profetizou: um rapag\u00e3o assim s\u00f3 pode servir nosso mestre e nossa p\u00e1tria.<\/p>\n<p>N\u00e3o podiam ser para ele os rebanhos que a fam\u00edlia guardava havia s\u00e9culos, nem o amanho da terra que a alimentava. Destino maior teria Tolentino e assim estava decidido.<\/p>\n<p>Quando completou dezoito anos, o pai mandou-o inscrever-se no ex\u00e9rcito, conforme prometera \u00e0 sua nascen\u00e7a. E poucos meses volvidos chegou a carta que mandava Tolentino apresentar-se no quartel mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>A m\u00e3e juntou-lhe alguma roupa, um peda\u00e7o de presunto, meia d\u00fazia de chouri\u00e7as, um naco de p\u00e3o e enfiou tudo num saco. L\u00e1grima de m\u00e3e no canto do olho, disse-lhe que fosse em paz e pediu-lhe que nunca se esquecesse dela.<\/p>\n<p>O pai, esse estava orgulhoso.<\/p>\n<p>Tinha, finalmente, chegado o dia de mostrar \u00e0quela aldeia, que ficava nos confins da serra, que dali tamb\u00e9m partiam homens guerreiros, como sempre ouvira dizer que tinham sido seus antepassados.<\/p>\n<p>Por isso ningu\u00e9m lhe viu uma l\u00e1grima que fosse, embora elas estivessem todas a correr para dentro do peito e a magoarem-lhe a alma.<\/p>\n<p>Dois dias e duas noites foi quanto Tolentino levou a chegar ao quartel. Apresentou-se, deram-lhe uma farda, uma arma, um n\u00famero para p\u00f4r ao pesco\u00e7o e disseram-lhe: ?Tens que obedecer aos teus superiores. Fazer tudo que te mandam, ouviste bem? Sim, senhor, que bem ouvira e que bem entendera.<\/p>\n<p>Que tudo faria a gosto de suas senhorias. Pois n\u00e3o era para isso que ali estava? Depressa passou o tempo da recruta. Tolentino, bem mandado e forte como era, foi considerado um dos melhores. E que orgulhoso que ele estava. N\u00e3o podia esperar mais pela hora de ir para a guerra, lutar contra o inimigo.<\/p>\n<p>?Onde est\u00e1 ele, meu capit\u00e3o? Onde fica a guerra, meu sargento? Quero ver a cara desse malandro j\u00e1, meu cabo! Os tr\u00eas entreolharam-se, admirados. Tanto empenho e tanta dedica\u00e7\u00e3o daquele soldado durante a recruta deviam ter-lhe afectado o pensar. E depois de uns segundos de sil\u00eancio, disse o capit\u00e3o a Tolentino: ?A guerra acabou, bom homem. Tu, bravo soldado, mataste o inimigo.<\/p>\n<p>?Mas como, se nunca eu vi a cara do safado?!<\/p>\n<p>?Pois tu n\u00e3o sabes como o inimigo era esperto? Como ele se escondia atr\u00e1s de cada colina por onde andaste? Entre os barcos que alvejavas escondido no pinhal? No meio das nuvens para onde descarregavas a tua arma? Ainda incr\u00e9dulo, Tolentino teve de se render \u00e0s evid\u00eancias. E, sempre bem mandado, l\u00e1 arrumou o seu saco, p\u00f4-lo \u00e0s costas e regressou a casa, bem no alto de uma serra, n\u00e3o sem antes ter feito um pequeno desvio.<\/p>\n<p>Foi dia de festa quando o avistaram. A m\u00e3e deu-lhe um grande abra\u00e7o, o pai, esse fez-se de forte e para que todos da aldeia ouvissem, perguntou-lhe: ?Ent\u00e3o, meu filho, que tal a guerra? Que \u00e9 do inimigo? ?Saiba meu pai e toda esta gente, para vosso descanso, que a guerra acabou e que o inimigo jaz no campo de batalha. E fui eu, Tolentino Esteves da Silva, que pus fim a tudo. Assim disseram o meu capit\u00e3o, o meu sargento e o meu cabo.<\/p>\n<p>Todos pasmaram com tamanha bravura e logo quiseram saber pormenores.<\/p>\n<p>Tolentino tirou o saco das costas, meteu a m\u00e3o com muito cuidado por um pequeno orif\u00edcio da abertura e mostrou para que vissem bem e nunca mais esquecessem: ?Aqui est\u00e1 um peda\u00e7o de erva de uma colina onde o inimigo se escondia. Esta madeira s\u00e3o restos de um barco que afundei.<\/p>\n<p>E abrindo completamente o saco, soltou-se no ar um nevoeiro espesso e h\u00famido que a todos assustou.<\/p>\n<p>?N\u00e3o temais, sossegou Tolentino, neste peda\u00e7o de nuvem jazem em p\u00f3 os restos mortais do \u00faltimo inimigo deste pa\u00eds.<\/p>\n<p>O nevoeiro dispersou-se no ar e quanto mais subia mais os habitantes da aldeia erguiam as suas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio pesava quando Tolentino Esteves da Silva juntou a erva e o peda\u00e7o de madeira e os meteu de novo no saco. Pegando na enxada de seu pai come\u00e7ou a subir o monte e, voltando-se para todos, esclareceu: ?Vou ao pico mais alto da serra enterrar estes despojos da guerra.<\/p>\n<p>Nunca vi a cara do inimigo, mas tamb\u00e9m ele merece paz e descanso.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3, meu pai,&#8230; amanh\u00e3 tratamos da sementeira. Amanh\u00e3.<\/p>\n<p>E continuou a subida, curvado, como se no saco que sentia t\u00e3o pesado, estivessem os restos mortais do feroz inimigo que ele nunca vira e que tanto atormentara o sono merecido da gente daquelas paragens.<\/p>\n<h4>O Sol e a Lua<\/h4>\n<p>Nunca ningu\u00e9m diria, quando o Sol e a Lua se conheceram, que seria um caso de amor \u00e0 primeira vista. Mas a verdade \u00e9 que assim foi.<\/p>\n<p>Ainda o mundo n\u00e3o era mundo e j\u00e1 os dois trocavam olhares de enlevo, j\u00e1 os dois se iluminavam como candeias acesas na escurid\u00e3o do universo.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-92302\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/historias-que-acabam-aqui-3.jpg\" alt=\"Hist\u00f3rias que Acabam Aqui\" width=\"200\" height=\"184\" \/><\/p>\n<p>Quando, de uma enorme explos\u00e3o c\u00f3smica, a Terra surgiu, logo o Sol e a Lua decidiram velar por aquele peda\u00e7o de mat\u00e9ria, que n\u00e3o era mais do que uma massa disforme e sem vida.<\/p>\n<p>O Sol encarregou-se de tratar dos solos. E n\u00e3o tardou que altas montanhas se erguessem, que \u00e1rvores frondosas enfeitassem os vales e que plan\u00edcies infind\u00e1veis se fizessem perder no olhar.<\/p>\n<p>Depois nasceram as pedras e sempre soube o Sol coloc\u00e1-las no local preciso: ora no cimo dos montes escarpados, ora dispersas, salpicando o solo f\u00e9rtil das terras planas, at\u00e9 se tornarem areia fina, escondida sob os leitos silenciosos dos rios.<\/p>\n<p>\u00c0 Lua coube a tarefa de criar as \u00e1guas. \u00c1guas profundas que dividiram grandes peda\u00e7os da Terra e \u00e1guas mais serenas que desciam das montanhas e se alongavam pelas plan\u00edcies.<\/p>\n<p>Tudo perfeito. Mas acharam, o Sol e a Lua, que alguma coisa faltava naquele mundo \u00e0 medida. E como sempre se haviam entendido, a novas tarefas se propuseram.<\/p>\n<p>Assim surgiram animais de toda a esp\u00e9cie: grandes, pequenos, uns mais d\u00f3ceis, outros mais atrevidos, uns que caminhavam pelo ch\u00e3o, outros que se aventuravam pelos ares e ainda outros que s\u00f3 habitavam o reino das \u00e1guas.<\/p>\n<p>Agora, sim. Todos viviam em harmonia: o mundo do Sol e o mundo da Lua. E eles continuavam cada vez mais enamorados.<\/p>\n<p>O Sol aquecia a Terra e dava-lhe a vida. A Lua embalava-a e dava-lhe sonhos repousantes e noites lindas, t\u00e3o claras que at\u00e9 pareciam dia.<\/p>\n<p>Mas ? todas as hist\u00f3rias t\u00eam um se n\u00e3o ? certa altura em que Sol e Lua andavam entretidos nas suas tarefas, vislumbraram, bem l\u00e1 no meio de uma plan\u00edcie, uma esp\u00e9cie de animal que n\u00e3o se lembravam de ter colocado onde quer que fosse.<\/p>\n<p>N\u00e3o voava, n\u00e3o nadava, nem andava de quatro patas. Pelo contr\u00e1rio, erguia-se como o pesco\u00e7o de uma girafa e parecia querer ser o rei dos animais.<\/p>\n<p>Decidiram vigi\u00e1-lo, n\u00e3o fosse ele perturbar o encanto daquele mundo.<\/p>\n<p>Vigiaram dia e noite, noite e dia, sem interferir. E, ao longo dos s\u00e9culos, no correr dos mil\u00e9nios, n\u00e3o gostaram do que viram.<\/p>\n<p>?Ent\u00e3o que faz ele \u00e0s \u00e1rvores que eu ergui? ? interrogava-se o Sol.<\/p>\n<p>?E que faz ele das \u00e1guas que eu pus a correr? ? indignava-se a Lua.<\/p>\n<p>De comum acordo combinaram assust\u00e1-lo. Mandaram fortes raios de luz sobre a Terra, mas o animal protegeu-se em quantas sombras havia.<\/p>\n<p>Mandaram trombas de \u00e1gua infind\u00e1veis, mas ele fechou-se no seu covil e de l\u00e1 n\u00e3o saiu enquanto os rios n\u00e3o voltaram ao normal.<\/p>\n<p>E tudo o que Sol e Lua puderam fazer n\u00e3o foi suficiente para parar aquela esp\u00e9cie, que ainda hoje habita um planeta chamado Terra e de quem diz ser seu leg\u00edtimo dono.<\/p>\n<p>Voc\u00eas j\u00e1 ouviram falar dele? Pois nunca esse bichinho reparou no trabalho do Sol, nem no labor da Lua. Nem em quanto eles s\u00e3o apaixonados um pelo outro. Nem em quanto eles querem bem a esse planeta perdido na imensid\u00e3o do Universo.<\/p>\n<p>E \u00e9 por tudo isto que vos contei, acreditem, que a Lua tem aquele ar sempre t\u00e3o triste, quando, nas noites em que est\u00e1 cheia, ela nos olha sempre como num queixume.<\/p>\n<p>E \u00e9 tamb\u00e9m por causa disso que o Sol por vezes se esconde atr\u00e1s de nuvens sombrias: vai buscar conforto \u00e0 Lua e lembrar-lhe, sim, que nunca \u00e9 de mais lembrar, o quanto ele \u00e9 apaixonado por ela.<\/p>\n<p>Doutora Saladina, Bruxa para todos os Males Para a Margarida e para a Pilar, sem outro sentir que n\u00e3o o do bem-me-quer.<\/p>\n<p>Toda a gente sabe, ou se n\u00e3o sabe devia saber, que os reinos das bruxas e das fadas existem bem perto de n\u00f3s. S\u00f3 quem tem cora\u00e7\u00e3o de pedra \u00e9 que os n\u00e3o v\u00ea.<\/p>\n<p>Ora num desses reinos havia uma bruxinha que, desde muito pequena, se habituara a brincar ao esconde-esconde com uma pequena fada do reino vizinho.<\/p>\n<p>Isto acontecia porque, claro est\u00e1, nenhuma das fam\u00edlias tinha conhecimento de tal facto ins\u00f3lito.<\/p>\n<p>Encontravam-se as duas nos limites dos respectivos reinos, escondidas entre os carvalhos e os abetos que serviam de fronteira. Era um regalo v\u00ea-las juntas, como se este mundo fosse um s\u00f3: a fada sempre vestida de cor-de-rosa, asas de tule a esvoa\u00e7ar ao vento e uma varinha de cond\u00e3o que era a prova incontest\u00e1vel de que ela era realmente uma fada.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-92303\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/historias-que-acabam-aqui-4-300x86.jpg\" alt=\"Hist\u00f3rias que Acabam Aqui\" width=\"300\" height=\"86\" srcset=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/historias-que-acabam-aqui-4-300x86.jpg 300w, https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/historias-que-acabam-aqui-4.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>A bruxinha, essa vestia sempre de negro, uma t\u00fanica que quase lhe chegava aos p\u00e9s e um chap\u00e9u de alto bico que, dada a sua tenra idade, lhe tombava para o lado, sem, por\u00e9m, nunca lhe ter ca\u00eddo.<\/p>\n<p>Cavalgava, n\u00e3o uma vassoura de pia\u00e7aba, mas um modelo mais recente, semi-a-jacto, que seus pais lhe haviam dado pelo seu \u00faltimo anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Saladina, a bruxa, e Gilda, a fada, voavam por entre as \u00e1rvores sem lhes tocar, faziam piruetas de sobe-e-desce, e passavam tangentes \u00e0s corujas e \u00e0s andorinhas sem nunca, mas nunca, terem tido o menor acidente.<\/p>\n<p>Quando, por\u00e9m, chegou o dia de frequentarem as respectivas escolas, cada uma seguiu o seu caminho e o tempo para as brincadeiras acabou-se para tristeza de ambas. E nunca mais Saladina viu Gilda. E nunca mais Gilda viu Saladina.<\/p>\n<p>Os anos foram passando, no calend\u00e1rio das bruxas e das fadas, que por acaso \u00e9 o mesmo, at\u00e9 que um dia Saladina completou o d\u00e9cimo segundo ano e teve de escolher uma profiss\u00e3o: queria ser doutora, mas doutora-m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Os pais pasmaram com tamanha pretens\u00e3o.<\/p>\n<p>?Que bruxa \u00e9s tu, minha filha! ? dizia o pai.<\/p>\n<p>?Querer ser m\u00e9dica? ? interrogava-se a m\u00e3e.<\/p>\n<p>?Mas, afinal, tu \u00e9s uma bruxa ou uma fada? ? questionavam ambos.<\/p>\n<p>Saladina estremeceu. Ser\u00e1 que algu\u00e9m tinha descoberto o seu segredo de h\u00e1 tantos anos? Que seria feito de Gilda? N\u00e3o, n\u00e3o era poss\u00edvel. Al\u00e9m de tudo isso ela tinha a certeza que era uma bruxa de pele e osso e ningu\u00e9m conseguiria demov\u00ea-la de seus intentos.<\/p>\n<p>E assim foi. Entre o choro da m\u00e3e e o olhar reprovador do pai, l\u00e1 seguiu para a Grande Escola de Medicina que ficava no reino dos humanos, pois no pa\u00eds das bruxas s\u00f3 havia a Escola Superior de Feiti\u00e7os e de Magia.<\/p>\n<p>Para tr\u00e1s ficou a t\u00fanica negra, o chap\u00e9u alto e a vassoura semi-a-jacto. Ficou tamb\u00e9m a m\u00e1goa n\u00e3o s\u00f3 da fam\u00edlia, mas de toda a comunidade, que estas not\u00edcias espalham-se depressa e ferem a honra.<\/p>\n<p>Sim, que as bruxas tamb\u00e9m t\u00eam honra! Depressa acabou Saladina o seu curso. Aluna brilhante, nunca reprovou nenhum ano e quando se viu com o diploma na m\u00e3o, n\u00e3o cabia em si de felicidade. S\u00f3 havia um problema: que fazer agora? Como iriam seus pais receb\u00ea-la? Quando bateu de mansinho \u00e0 porta de sua casa, o n\u00ba 13 da Rua da Assombra\u00e7\u00e3o, o seu cora\u00e7\u00e3o de bruxa, pela primeira vez, fraquejou. E, apesar de a terem deixado entrar, logo sentiu que a sua atitude n\u00e3o fora perdoada.<\/p>\n<p>?\u00c9s a vergonha das bruxas! ? disse-lhe o pai. ? Mas \u00e9s feiti\u00e7o do meu feiti\u00e7o. Podes ficar nesta casa, embora sejas pouco digna das teias de aranha que te cobrem a cama.<\/p>\n<p>Foi neste ambiente que Saladina se aventurou a abrir o seu consult\u00f3rio. Tudo a rigor, como aprendera com os humanos. \u00c0 entrada, um letreiro que dizia:<\/p>\n<h4>DR\u00aa SALADINA<\/h4>\n<p>M\u00e9dica Para Todos Os Males<\/p>\n<p>Pouca sorte tinha esta nossa amiguinha. Ningu\u00e9m lhe batia \u00e0 porta, nem ningu\u00e9m lhe marcava uma consulta que fosse. Nem uma assistente conseguira arranjar.<\/p>\n<p>Resolveu, ent\u00e3o, na esperan\u00e7a de aparecer alguma emerg\u00eancia, mudar-se de vez para o seu consult\u00f3rio. Ali dormia, ali comia e ali ia espreitando pelas cortinas esfarrapadas da janela, na \u00e2nsia de que algu\u00e9m necessitasse da sua prestimosa sabedoria.<\/p>\n<p>Ora, uma bela noite de lua nova, estando Saladina a contemplar as constela\u00e7\u00f5es, apercebeu-se de grande alvoro\u00e7o no c\u00e9u. Luzes para aqui, luzes para acol\u00e1 e um p\u00f3 dourado que se espalhava por todo o lado. De repente come\u00e7a a ouvir gritinhos de todas as bruxas e bruxos que deambulavam pela rua e que tombavam no ch\u00e3o como cerejas maduras.<\/p>\n<p>Saladina n\u00e3o pensou duas vezes: toca a recolher os doentes no seu consult\u00f3rio. Os que ainda se conseguiam manter de p\u00e9, entravam a correr, tamanha era a sua afli\u00e7\u00e3o. Queriam l\u00e1 saber se ela era a Dr\u00aa Saladina! S\u00f3 queriam cura para doen\u00e7a t\u00e3o s\u00fabita e estranha.<\/p>\n<p>Saladina teve necessidade de se concentrar. Sim, porque havia j\u00e1 algum tempo que n\u00e3o praticava. Curou as feridas que viu, ligou os entorses como muito bem aprendera e esperou que os doentes<\/p>\n<p>acordassem. Nada. N\u00e3o acontecia nada. Ent\u00e3o Saladina, sem perceber como, ergueu os bra\u00e7os e come\u00e7ou a praguejar:<\/p>\n<p>Afasta-te p\u00f3 de fada, Renego teu perfume j\u00e1.<\/p>\n<p>X\u00f4, x\u00f4, penugem de tule, Abracadabra, j\u00e1 est\u00e1!<\/p>\n<p>Como por magia, todos acordaram. Quando se aperceberam de quem os tinha salvo, nem queriam acreditar. Muito a medo, l\u00e1 foram agradecendo \u00e0 doutora-m\u00e9dica. E envergonhados, sa\u00edam fazendo v\u00e9nias, sem ousar voltar as costas! Nos jornais do dia seguinte, a nossa amiga era figura de destaque.<\/p>\n<p>Que tinha sido corajosa enfrentando aquela epidemia misteriosa. Que at\u00e9 os bruxos m\u00e1gicos haviam recorrido aos seus servi\u00e7os.<\/p>\n<p>E nos televisores a not\u00edcia repetia-se constantemente, em emiss\u00f5es de \u00faltima hora.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o entendia muito bem este fen\u00f3meno era a pr\u00f3pria Saladina, que ainda hoje est\u00e1 para saber como lhe foram sair tais palavras da boca.<\/p>\n<p>O que ela tamb\u00e9m n\u00e3o sabe \u00e9 que, naquele dia, os Servi\u00e7os Secretos do Reino das Bruxas tinham registado uma invas\u00e3o do seu espa\u00e7o a\u00e9reo por um pelot\u00e3o de fadas, comandado por Gilda, mais conhecida no meio da espionagem por Agente Secreto Zero-Zero-P\u00f3-Dourado.<\/p>\n<p>Claro est\u00e1 que este facto n\u00e3o veio nos jornais e permaneceu<\/p>\n<p>fechado a setenta chaves no cofre dos segredos da bruxa reinante.<\/p>\n<p>Quando passarem por aquela rua al\u00e9m, aquela logo ali acima, se estiverem atentos, poder\u00e3o ver a fila de clientes que Saladina tem \u00e0 porta do consult\u00f3rio.<\/p>\n<p>E talvez, com um pouco de sorte, consigam vislumbrar um vulto cor-de-rosa que esvoa\u00e7a levemente sobre o edif\u00edcio para n\u00e3o ser detectado pelos radares do reino.<\/p>\n<p>Quem poder\u00e1 ser? Pois se virem tudo isto, n\u00e3o se assustem. \u00c9 que, bem perto de n\u00f3s, h\u00e1 o Reino das Bruxas e o Reino das Fadas. E s\u00f3 n\u00e3o os v\u00ea quem n\u00e3o quer, ou quem tem cora\u00e7\u00e3o de pedra.<\/p>\n<h4>A Bailarina de Degas<\/h4>\n<p>Para a Sara e para a Ana, minhas bailarinas de Degas.<\/p>\n<p>A casa era grande e tinha um jardim. Para l\u00e1 do jardim ficava o bosque de \u00e1rvores imensas que se estendiam at\u00e9 n\u00e3o poderem ser mais vistas, por entre caminhos tra\u00e7ados sob as folhas do Outono.<\/p>\n<p>Telma adorava passear-se pelo bosque. Corria pelos caminhos, inventava outros atalhos e tentava passos de dan\u00e7a, bra\u00e7os ondulando ao sabor de melodias imaginadas.<\/p>\n<p>Ser bailarina era um sonho s\u00f3 seu. Desde que descobrira, na biblioteca, um livro com reprodu\u00e7\u00f5es de quadros c\u00e9lebres, e, nas suas p\u00e1ginas, umas pinturas de bailarinas, a ideia que at\u00e9 ent\u00e3o lhe passara vagamente em seus pensamentos tornou-se numa vontade constante, doentia.<\/p>\n<p>Por isso se dividia Telma entre os passeios pelo bosque e as visitas \u00e0 biblioteca.<\/p>\n<p>As grandes prateleiras repletas de livros tinham-na assustado, no in\u00edcio.<\/p>\n<p>Alguns deles eram antigos e cheiravam a p\u00f3. Outros eram mais novos e as suas capas despertavam a curiosidade da menina, que, por n\u00e3o saber ainda ler bem, se entretinha a olhar as figuras e a tentar descobrir o que estava l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>Foi numa tarde chuvosa de Novembro que Telma descobriu o livro das bailarinas. Na grande capa colorida, um nome que ela soletrou: D-e-g-a-s.<\/p>\n<p>Telma soube, anos mais tarde, que tinha sido um grande pintor franc\u00eas, do s\u00e9c. XIX e que o seu nome se pronunciava como se a letra e tivesse um acento circunflexo. Na altura, n\u00e3o queria a menina saber daquele nome, que nada lhe dizia. S\u00f3 queria ver as figuras e mais figuras e a todas despia com os olhos \u00e1vidos de cor, de movimento e de sinfonias cada vez mais triunfais.<\/p>\n<p>Esperava a hora da sesta. Fingia que dormia. E em passos de algod\u00e3o escondia-se na biblioteca, entre a porta envidra\u00e7ada que dava para o bosque e o grande reposteiro de veludo carmesim.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-92304\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/historias-que-acabam-aqui-5.jpg\" alt=\"Hist\u00f3rias que Acabam Aqui\" width=\"200\" height=\"203\" \/><\/p>\n<p>De todos os quadros, o que mais a fascinava era um que tinha o Edi\u00e7\u00f5es ArcosOnline.com, Hist\u00f3rias Que Acabam Aqui 23 t\u00edtulo de Bailarina com ramo de flores.<\/p>\n<p>Telma entrava ent\u00e3o naquele cen\u00e1rio e juntava-se ao corpo de baile. Vestia o fato em tons de amarelo esbatido, saia de tule querendo voar, sapatinhos de ponta cor de rosa e um ramo de flores na m\u00e3o, o aroma do campo no ar quieto daquela sala.<\/p>\n<p>E Telma bailava, bailava, esvoa\u00e7ava pelo meio das outras bailarinas, tentando imitar os passos que elas davam, erguendo-se na ponta dos p\u00e9s at\u00e9 mais n\u00e3o poder, at\u00e9 a dor ser mais forte que a vontade.<\/p>\n<p>No fim do espect\u00e1culo, agradecia ao p\u00fablico que s\u00f3 ela via e que s\u00f3 a ela aplaudia.<\/p>\n<p>Depois, quando se apanhava de novo no bosque, erguia-se quanto podia nas pontas dos seus sapatos de cetim e largava o sonho que escondia no peito. E imaginava-se pintura em movimento num quadro de Degas.<\/p>\n<p>Ainda hoje ningu\u00e9m entende, naquela casa, por que raz\u00e3o fugia Telma tanto para o bosque.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ningu\u00e9m nunca entendeu o que fazia, no quarto de Telma, um grande ramo de flores campestres, eternamente frescas, pousado sobre a sua mesa de cabeceira.<\/p>\n<p>Nem um par de sapatos de bailarina que pendia, em la\u00e7os de cetim esbatidos pelo tempo, da cabeceira de sua cama.<\/p>\n<h4>H\u00e9lix, o Caracol<\/h4>\n<p>Quando se nasce caracol nunca se pode prever o destino.<\/p>\n<p>Uns passeiam-se languidamente pelos campos de verde-primavera, outros pelos jardins-do-alheio e outros s\u00e3o carac\u00f3is-de-cidade, o que faz com que sobrevivam mais a custo j\u00e1 se v\u00ea.<\/p>\n<p>H\u00e9lix era um caracol-de-prov\u00edncia. Terra pequena, mas farta de jardins e de quintais que at\u00e9 dava gosto morder.<\/p>\n<p>E foi bem no meio de um canteiro cercado de buxo que o nosso amigo nasceu.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe bem como, mas a verdade \u00e9 que, um belo dia de sol, l\u00e1 estava H\u00e9lix, pela primeira vez na sua vida, entre dois pequenos p\u00e9s de jarros, a deitar os corninhos \u00e0 brisa da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Espera-me uma bela vida, pensou H\u00e9lix, n\u00e3o deve haver nada como esta luz quente para me aquecer a casa.<\/p>\n<p>Mas quando umas nuvens escuras foram entrando pela manh\u00e3 e o ar amea\u00e7ou uns pinguitos de chuva, corninhos para dentro, que ele n\u00e3o era flor e n\u00e3o precisava de rega.<\/p>\n<p>Dormiu todo esse dia. Pudera, n\u00e3o \u00e9 a Edi\u00e7\u00f5es ArcosOnline.com, Hist\u00f3rias Que Acabam Aqui 25 toda a hora que se nasce. J\u00e1 muito fizera ele aventurando-se a espreitar o mundo.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-92305\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/historias-que-acabam-aqui-6-98x300.jpg\" alt=\"Hist\u00f3rias que Acabam Aqui\" width=\"98\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p>E a vida de H\u00e9lix foi prosseguindo \u00e0 volta disto: ora espreitava o sol, ora fugia da chuva. A sua \u00fanica distrac\u00e7\u00e3o era a figura humana mais pequena l\u00e1 de casa, duas tran\u00e7as a escorrer pelos ombros, saia plissada, sapato de verniz acabado de estrear, que volta e meia parava \u00e0 sua frente, aninhava-se \u00e0 espera n\u00e3o se sabia de qu\u00ea, e cantava uma lenga-lenga que, aos ouvidos de um caracol, soava assim: Tu itica, tu inc\u00f3i, Tem c\u00f3ninhos como um b\u00f3i, Lagarato num \u00e9 tu, Fomiguinha tam\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>Que bichinho ser\u00e1 tu? Eu sou um cacar\u00f3i! Verdade, verdadinha, H\u00e9lix n\u00e3o achava piada nenhuma \u00e0quilo.<\/p>\n<p>Mas desde que aquela criatura min\u00fascula n\u00e3o o incomodasse nem o calcasse, tudo bem, que cantasse o que lhe desse na real gana.<\/p>\n<p>E como os carac\u00f3is n\u00e3o sabem o que s\u00e3o dias, nem meses, nem anos, o nosso amigo l\u00e1 foi contando muitos s\u00f3is e muitas chuvas, que s\u00f3 ouvia de dentro da sua casota, muito encolhidinho.<\/p>\n<p>N\u00e3o era mundano nem se dava a conversas. Queria l\u00e1 saber se as rosas tinham florido, se as ameixoeiras estavam carregadinhas de frutos vermelhos. Se os jarros onde morava tinham tido um destino fatal quando foram precisos para enfeitar uma sala l\u00e1 de casa. Queria l\u00e1 ele saber o nome dos p\u00e1ssaros que debicavam \u00e0 sua volta e por todo o<\/p>\n<p>jardim, enchendo o ar com melodias que os ouvidos de H\u00e9lix n\u00e3o conseguiam descodificar. Queria l\u00e1 ele saber.<\/p>\n<p>Ele nascera s\u00f3, pois s\u00f3 viveria. E aquele canteiro chegava e sobejava. Conhecer mais mundo, para qu\u00ea? Mas o destino tem destas coisas. Numa bela tarde de Dezembro, quando H\u00e9lix se preparava para ver que tal estava o tempo do lado de fora da sua mans\u00e3o, viu cair do c\u00e9u umas p\u00e9rolas muito pequenas, da cor mais pura que ele alguma vez vira.<\/p>\n<p>Eram leves como o esvoa\u00e7ar das borboletas. Gelavam-lhe as antenas e permaneciam no ch\u00e3o, como que a querer cham\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Admirou-se. Nunca na sua longa vida tal fen\u00f3meno vira. E extasiou-se de tal maneira, que se esqueceu de recolher os corninhos e de se fechar a sete chaves em sua guarita.<\/p>\n<p>Como a vida \u00e9 bela, pensava H\u00e9lix.<\/p>\n<p>E os pensamentos iam fluindo cada vez com mais lentid\u00e3o.<\/p>\n<p>Que felizardo que eu sou. Pois est\u00e3o a ver que o c\u00e9u veio visitar-me? Que as nuvens desceram das alturas s\u00f3 para me cumprimentar? E sem dar por isso, enquanto olhava os cristais de \u00e1gua, com aqueles olhos que s\u00f3 os carac\u00f3is possuem, H\u00e9lix adormeceu, penetrou no sono mais doce que uma vida de nuvens pode dar&#8230; E nunca mais acordou.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ads-baixo\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Ab\u00f3bora Menina Para a In\u00eas, que tamb\u00e9m um dia voar\u00e1. Brotara do solo fecundo de um quintal enorme, de uma semente que mestre Crisolindo comprara na venda. Despontava por entre uns p\u00e9s de couve e mais algumas ab\u00f3boras, umas suas irm\u00e3s, outras suas parentes mais afastadas. 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