{"id":92225,"date":"2017-01-03T15:01:45","date_gmt":"2017-01-03T17:01:45","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92225"},"modified":"2017-01-03T15:01:45","modified_gmt":"2017-01-03T17:01:45","slug":"poemas-e-poesias-amadeu-amaral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poemas-e-poesias-amadeu-amaral","title":{"rendered":"Poemas e Poesias &#8211; Amadeu Amaral"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"750\" height=\"217\" cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td height=\"1\" colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\" height=\"185\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><font size=\"2\"><a href=\"#1\"><strong>A um adolescente<\/strong><\/a><strong><br \/>\n              <a href=\"#2\">A um Manancial de &Aacute;gua Pura<\/a><br \/>\n              <a href=\"#3\">Abrindo espumas<\/a><br \/>\n              <a href=\"#4\">Capivari<\/a><br \/>\n              <a href=\"#5\">Crep&uacute;sculo Sertanejo<\/a><br \/>\n              <a href=\"#6\">Dialeto Caipira<\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\"><\/td>\n<td width=\"151\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><font size=\"2\"><a href=\"#7\"><strong>Em medita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n              Introspectiva<\/strong><\/a><strong><br \/>\n              <a href=\"#8\">Jamais<\/a><br \/>\n              <a href=\"#9\">Memorial de um Passageiro de Bonde<\/a><br \/>\n              <a href=\"#10\">Novela e Conto<\/a><br \/>\n              <a href=\"#11\">Nuvens<\/a><br \/>\n              <a href=\"#12\">O Elogio da Mediocridade<\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\"><\/td>\n<td width=\"157\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><font size=\"2\"><a href=\"#13\"><strong>Soneto<\/strong><\/a><strong><br \/>\n              <a href=\"#14\">Um Soneto de Bilac<\/a><br \/>\n              <a href=\"#15\">Vencedor<\/a><br \/>\n              <a href=\"#16\">Versos nevoentos<\/a><br \/>\n              <a href=\"#17\">V&oacute;z &Iacute;ntima<\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2><a name=\"1\">A um adolescente<\/a><\/h2>\n<p>Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora<br \/>\n    de ti, e ama-a em ti mesmo. &Eacute; a suprema pesquisa!<br \/>\n    Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,<br \/>\n    &agrave; mente que concebe o escopro que realiza.<\/p>\n<p>Perguntas: &#8212; Onde o metro, a norma, a arte precisa<br \/>\n    para rasgar no bloco a forma que se ignora?<br \/>\n    &#8212; Quem ao le&atilde;o deu o ardor com que os desertos pisa?<br \/>\n    E quem &agrave; &aacute;guia ensinou a ser do azul senhora?<\/p>\n<p>Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.<br \/>\n    Ama o que &eacute; forte e puro, odeia o que &eacute; perverso,<br \/>\n    o que &eacute; baixo, o que &eacute; vil, tudo que anda de rastros.<\/p>\n<p>E p&otilde;e-te em comunh&atilde;o, no entusiasmo que abrasa,<br \/>\n    com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,<br \/>\n    com a poesia, os her&oacute;is, os abismos e os astros.<\/p>\n<p>Falta o preceito firme a que a a&ccedil;&atilde;o se conforme?<br \/>\n    Falta uma diretriz certa e definitiva?<br \/>\n    &#8212; Quem a teve jamais? O bom ideal &eacute; informe,<br \/>\n    e a Certeza, ai de n&oacute;s! de todo o encanto o priva.<\/p>\n<p>A torrente que corre e espadana, &aacute;urea e viva,<br \/>\n    sem parar nem recuar no itiner&aacute;rio enorme,<br \/>\n    busca um sonho que al&eacute;m, sob a n&eacute;voa, se esquiva&#8230;<br \/>\n    e ai! dela, se desvenda o sonho azul que dorme!<\/p>\n<p>S&ecirc; tu como a caudal: foge ao remanso e ao charco.<br \/>\n    A &aacute;gua pura &eacute; a que ferve e cintila entre abrolhos.<br \/>\n    O miasma e o loda&ccedil;al moram nas &aacute;guas mansas.<\/p>\n<p>Avan&ccedil;a, seja o sol resplandecente ou parco;<br \/>\n    &#8212; e se a meta surgir, algum dia a teus olhos,<br \/>\n    impele-a para al&eacute;m &agrave; propor&ccedil;&atilde;o que avan&ccedil;as!<\/p>\n<p> Publicado no livro Espumas: versos (1917).<\/p>\n<h2><a name=\"2\" id=\"2\">A um Manancial de \u00c1gua Pura<\/a><\/h2>\n<p>No alto da escarpa, al&eacute;m, escorre e brilha<br \/>\n    um leve, pequenino manancial:<br \/>\n    &eacute;, entre rochas, uma fina estilha<br \/>\n    de prata com sonidos de cristal.<\/p>\n<p>Filha do morro, a fonte, boa filha,<br \/>\n    agarra-se teimosa ao ch&atilde;o natal,<br \/>\n    &agrave; trama das ra&iacute;zes, &agrave; escumilha<br \/>\n    das ervas, aos farp&otilde;es do pedregal.<\/p>\n<p>Doce &aacute;gua! Aquele que a tomasse &agrave; fonte,<br \/>\n    ap&oacute;s lenta ascens&atilde;o por duro monte,<br \/>\n    esse a pudera bem julgar, enfim;<\/p>\n<p>mas, n&atilde;o merece tanto esfor&ccedil;o: escorre<br \/>\n    abandonada e no abandono morre&#8230;<br \/>\n    &#8212; Dentro de n&oacute;s h&aacute; mananciais assim.<\/p>\n<p>16 de junho de 1921<\/p>\n<p>Publicado no livro L&acirc;mpada antiga: versos (1924). Poema integrante<br \/>\n    da s&eacute;rie Um Punhado de Sonetos.<\/p>\n<h2><a name=\"3\" id=\"3\">Abrindo espumas<\/a><\/h2>\n<p>Que este livro, leitor, um momento consiga <br \/>\n    prender o teu olhar como a nuvem que passa, <br \/>\n    e num momento de sonho e de ilus&atilde;o te fa&ccedil;a <br \/>\n    viver, e te provoque uma palavra amiga: <\/p>\n<p>repercutam em ti as emo&ccedil;&otilde;es que eu diga, <br \/>\n    muito embora bem cedo o encanto se desfa&ccedil;a, <br \/>\n    &#8212; e outro pr&ecirc;mio n&atilde;o quero, esse pr&ecirc;mio ultrapassa<br \/>\n    <br \/>\n    quanta compensa&ccedil;&atilde;o mere&ccedil;a esta fadiga.<\/p>\n<p>A que mais aspirar? E que h&aacute; mais que eu mere&ccedil;a? <br \/>\n    Passe tudo isto! Assim passam a vaga e as flores: <br \/>\n    nada impede que o mar ondule e o ch&atilde;o flores&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p>Eu n&atilde;o construo: canto&#8230; E entre todas as gl&oacute;rias <br \/>\n    basta-me a de espelhar em poemas incolores <br \/>\n    o perp&eacute;tuo esplendor das coisas transit&oacute;rias. <\/p>\n<h2><a name=\"4\" id=\"4\">Capivari<\/a><\/h2>\n<p>Eis-me na minha velha terreola,<br \/>\n    t&atilde;o clara, t&atilde;o singela, t&atilde;o pequena!<br \/>\n    Revivo a meninice, a a mesma cena:<br \/>\n    Minha casa, o jardim, o teatro, a escola.<\/p>\n<p>Todo passado se me desenrola<br \/>\n    em torno, e tudo, como foi, se ordena.<br \/>\n    Sorri, infante de rendada gola,<br \/>\n    de cabelo doirado e alma serena.<\/p>\n<p>Mas, quem sabe se o tempo que suponho<br \/>\n    morto, ainda &eacute; presente? se a amargura<br \/>\n    de o sentir findo n&atilde;o &eacute; mais que um sonho?<\/p>\n<p>E, absorto, penso ouvir, pela janela,<br \/>\n    a voz de minha m&atilde;e que me procura,<br \/>\n    para saber se estou bem perto dela.<\/p>\n<h2><a name=\"5\" id=\"5\">Crep\u00fasculo Sertanejo<\/a><\/h2>\n<p>Eis-me na minha velha terreola,<br \/>\n    t&atilde;o clara, t&atilde;o singela, t&atilde;o pequena!<br \/>\n    Revivo a meninice, a a mesma cena:<br \/>\n    Minha casa, o jardim, o teatro, a escola.<\/p>\n<p>Todo passado se me desenrola<br \/>\n    em torno, e tudo, como foi, se ordena.<br \/>\n    Sorri, infante de rendada gola,<br \/>\n    de cabelo doirado e alma serena.<\/p>\n<p>Mas, quem sabe se o tempo que suponho<br \/>\n    morto, ainda &eacute; presente? se a amargura<br \/>\n    de o sentir findo n&atilde;o &eacute; mais que um sonho?<\/p>\n<p>E, absorto, penso ouvir, pela janela,<br \/>\n    a voz de minha m&atilde;e que me procura,<br \/>\n    para saber se estou bem perto dela.<\/p>\n<h2><a name=\"6\" id=\"6\">Dialeto Caipira<\/a><\/h2>\n<p>Tivemos, at&eacute; cerca de vinte e cinco a trinta anos atr&aacute;s, um dialeto<br \/>\n    bem pronunciado, no territ&oacute;rio da antiga prov&iacute;ncia de S. Paulo.<br \/>\n    &Eacute; de todos sabido que o nosso falar caipira &#8211; bastante caracter&iacute;stico<br \/>\n    para ser notado pelos mais desprevenidos como um sistema distinto e inconfund&iacute;vel<br \/>\n    &#8211; dominava em absoluto a grande maioria da popula&ccedil;&atilde;o e estendia<br \/>\n    a sua influ&ecirc;ncia &agrave; pr&oacute;pria minoria culta. As mesmas pessoas<br \/>\n    educadas e bem falantes n&atilde;o se podiam esquivar a essa influ&ecirc;ncia.<br \/>\n    (1)<\/p>\n<p>Foi o que criou aos paulistas, h&aacute; j&aacute; bastante tempo, a fama<br \/>\n    de corromperem o vern&aacute;culo com muitos e feios v&iacute;cios de linguagem.<br \/>\n    Quando se tratou, no Senado do Imp&eacute;rio, de criar os cursos jur&iacute;dicos<br \/>\n    no Brasil, tendo-se proposto S&atilde;o Paulo para sede de um deles, houve<br \/>\n    quem alegasse contra isto o linguajar dos naturais, que inconvenientemente<br \/>\n    contaminaria os futuros bachar&eacute;is, oriundos de diferentes circunscri&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    do pa&iacute;s&#8230;<\/p>\n<p>O processo dialetal iria longe, se as condi&ccedil;&otilde;es do meio n&atilde;o<br \/>\n    houvessem sofrido uma s&eacute;rie de abalos, que partiram os fios &agrave;<br \/>\n    continuidade da sua evolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Ao tempo em que o c&eacute;lebre falar paulista reinava sem contraste sens&iacute;vel,<br \/>\n    o caipirismo n&atilde;o existia apenas na linguagem, mas em todas as manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da nossa vida provinciana. De algumas d&eacute;cadas para c&aacute; tudo entrou<br \/>\n    a transformar-se. A substitui&ccedil;&atilde;o do bra&ccedil;o escravo pelo<br \/>\n    assalariado afastou da conviv&ecirc;ncia cotidiana dos brancos grande parte<br \/>\n    da popula&ccedil;&atilde;o negra, modificando assim um dos fatores da nossa<br \/>\n    diferencia&ccedil;&atilde;o dialetal. Os genu&iacute;nos caipiras, os roceiros<br \/>\n    ignorantes e atrasados, come&ccedil;aram tamb&eacute;m a ser postos de banda,<br \/>\n    a ser atirados &agrave; margem da vida coletiva, a ter uma interfer&ecirc;ncia<br \/>\n    cada vez menor nos costumes e na organiza&ccedil;&atilde;o da nova ordem de<br \/>\n    coisas. A popula&ccedil;&atilde;o cresceu e mesclou-se de novos elementos.<br \/>\n    Constru&iacute;ram-se vias de comunica&ccedil;&atilde;o por toda a parte,<br \/>\n    intensificou-se o com&eacute;rcio, os pequenos centros populosos que viviam<br \/>\n    isolados passaram a trocar entre si rela&ccedil;&otilde;es de toda a esp&eacute;cie,<br \/>\n    e a prov&iacute;ncia entrou por sua vez em contato permanente com a civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    exterior. A instru&ccedil;&atilde;o, limitad&iacute;ssima, tomou extraordin&aacute;rio<br \/>\n    incremento. Era imposs&iacute;vel que o dialeto caipira deixasse de sofrer<br \/>\n    com t&atilde;o grandes altera&ccedil;&otilde;es do meio social.<\/p>\n<p>Hoje, ele acha-se acantoado em pequenas localidades que n&atilde;o acompanharam<br \/>\n    de perto o movimento geral do progresso e subsiste, fora da&iacute;, na boca<br \/>\n    de pessoas idosas, indelevelmente influenciadas pela antiga educa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Entretanto, certos remanescentes do seu predom&iacute;nio de outrora ainda<br \/>\n    flutuam na linguagem corrente de todo o Estado, em luta com outras tend&ecirc;ncias,<br \/>\n    criadas pelas novas condi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Essas outras tend&ecirc;ncias ir&atilde;o continuando, naturalmente, a obra<br \/>\n    incessante da evolu&ccedil;&atilde;o aut&ocirc;noma do nosso falar, que persistir&aacute;<br \/>\n    fatalmente em divergir do portugu&ecirc;s peninsular, e at&eacute; do portugu&ecirc;s<br \/>\n    corrente nas demais regi&otilde;es do pa&iacute;s. Mas essa evolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o ser&aacute; a do dialeto caipira. Este acha-se condenado<br \/>\n    a desaparecer em prazo mais ou menos breve. Legar&aacute;, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    alguma bagagem ao seu substituto, mas o processo novo se guiar&aacute; por<br \/>\n    outras determinantes e por outras leis particulares.<\/p>\n<p>Desapareceu quase por completo a influ&ecirc;ncia do negro, cujo contato<br \/>\n    com os brancos &eacute; cada vez menor e cuja mentalidade, por seu turno,<br \/>\n    se modifica rapidamente. O caipira torna-se de dia em dia mais raro, havendo<br \/>\n    zonas inteiras do Estado, como o chamado Oeste, onde s&oacute; com dificuldade<br \/>\n    se poder&aacute; encontrar um representante genu&iacute;no da esp&eacute;cie.<br \/>\n    A instru&ccedil;&atilde;o e a educa&ccedil;&atilde;o, hoje muito mais difundidas<br \/>\n    e mais exigentes, v&atilde;o combatendo com &ecirc;xito o velho caipirismo,<br \/>\n    e j&aacute; n&atilde;o h&aacute; nada t&atilde;o comum como se verem rapazes<br \/>\n    e crian&ccedil;as cuja linguagem divirja profundamente da dos pais analfabetos.<\/p>\n<p>Por outro lado, a popula&ccedil;&atilde;o estrangeira, muito numerosa, vai<br \/>\n    infiltrando as suas influ&ecirc;ncias, por enquanto pouco sens&iacute;veis,<br \/>\n    mas que por for&ccedil;a se far&atilde;o notar mais ou menos remotamente.<br \/>\n    Os filhos dos italianos, dos s&iacute;rios e turcos aparentemente se adaptam<br \/>\n    com muita facilidade &agrave; fon&eacute;tica paulista, mas na verdade trazem-lhe<br \/>\n    modifica&ccedil;&otilde;es fisiol&oacute;gicas impercept&iacute;veis, que<br \/>\n    se ir&atilde;o aos poucos revelando em fen&ocirc;menos diversos dos que at&eacute;<br \/>\n    aqui se notavam.<\/p>\n<p>O que pretendemos neste despretensioso trabalho (de que pedimos escusa aos<br \/>\n    componentes) &eacute; &#8211; caracterizar essa dialeto &quot;caipira&quot;, ou,<br \/>\n    se acham melhor, esse aspecto da dialeta&ccedil;&atilde;o portuguesa em S.<br \/>\n    Paulo. N&atilde;o levaremos, por isso, em conta todos os paulistismos que<br \/>\n    se nos t&ecirc;m deparado, mas apenas aqueles que se filiam nessa velha corrente<br \/>\n    popular.<\/p>\n<p>&Eacute; claro que n&atilde;o &eacute; esta uma tarefa simples, para ser<br \/>\n    levada a cabo com &ecirc;xito por uma s&oacute; pessoa, muito menos por um<br \/>\n    h&oacute;spede em glotologia. Mas &eacute; bom que se comece, e dar-nos-emos<br \/>\n    por satisfeito, se tivermos conseguido fixar duas ou tr&ecirc;s id&eacute;ias<br \/>\n    e duas ou tr&ecirc;s observa&ccedil;&otilde;es aproveit&aacute;veis, neste<br \/>\n    assunto, por enquanto, quase virgem de vistas de conjunto, sob crit&eacute;rios<br \/>\n    objetivos. Quanto aos erros que, apesar de todo o nosso esfor&ccedil;o, nos<br \/>\n    hajam escapado, contamos com a benevol&ecirc;ncia dos entendidos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Fala-se muito num &quot;dialeto brasileiro&quot;, express&atilde;o j&aacute;<br \/>\n    consagrada at&eacute; por autores not&aacute;veis de al&eacute;m-mar; entretanto,<br \/>\n    at&eacute; hoje n&atilde;o se sabe ao certo em que consiste semelhante dialeta&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    cuja exist&ecirc;ncia &eacute; por assim dizer evidente, mas cujos caracteres<br \/>\n    ainda n&atilde;o foram discriminados. Nem se poder&atilde;o discriminar, enquanto<br \/>\n    n&atilde;o se fizerem estudos s&eacute;rios, positivos, minuciosos, limitados<br \/>\n    a determinadas regi&otilde;es.<\/p>\n<p>O falar do Norte do pais n&atilde;o &eacute; o mesmo que o do Centro ou o<br \/>\n    do Sul. O de S. Paulo n&atilde;o &eacute; igual ao de Minas. No pr&oacute;prio<br \/>\n    interior deste Estado se podem distinguir sem grande esfor&ccedil;o zonas<br \/>\n    de diferente matiz dialetal &#8211; o Litoral, o chamado &quot;Norte&quot;, o Sul,<br \/>\n    a parte confinante com o Tri&acirc;ngulo Mineiro.<\/p>\n<p>Seria de se desejar que muitos observadores imparciais, pacientes e met&oacute;dicos<br \/>\n    se dedicassem a recolher elementos em cada uma dessas regi&otilde;es, limitando-se<br \/>\n    estritamente ao terreno conhecido e banindo por completo tudo quanto fosse<br \/>\n    hipot&eacute;tico, incerto, n&atilde;o verificado pessoalmente. Ter&iacute;amos<br \/>\n    assim um grande n&uacute;mero de pequenas contribui&ccedil;&otilde;es, restritas<br \/>\n    em volume e em pretens&atilde;o, mas que na sua simplicidade modesta, escorreita<br \/>\n    e s&eacute;ria prestariam muito maior servi&ccedil;o do que certos trabalhos<br \/>\n    mais ou menos vastos, que de quando em quando se nos deparam, reposit&oacute;rios<br \/>\n    incongruentes de fatos recolhidos a todo pre&ccedil;o e de generaliza&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e filia&ccedil;&otilde;es quase sempre apressadas.<\/p>\n<p>Tais contribui&ccedil;&otilde;es permitiriam, um dia, o exame comparativo<br \/>\n    das v&aacute;rias modalidades locais e regionais, ainda que s&oacute; das<br \/>\n    mais salientes, e por ele a discrimina&ccedil;&atilde;o dos fen&ocirc;menos<br \/>\n    comuns a todas as regi&otilde;es do pa&iacute;s, dos pertencentes a determinadas<br \/>\n    regi&otilde;es, e dos privativos de uma ou outra fra&ccedil;&atilde;o territorial.<br \/>\n    S&oacute; ent&atilde;o se saberia com seguran&ccedil;a quais os caracteres<br \/>\n    gerais do dialeto brasileiro, ou dos dialetos brasileiros, quantos e quais<br \/>\n    os subdialetos, o grau de vitalidade, as ramifica&ccedil;&otilde;es, o dom&iacute;nio<br \/>\n    geogr&aacute;fico de cada um.<\/p>\n<p>Seremos imensamente grato &agrave;s pessoas que se dignarem de nos auxiliar,<br \/>\n    de acordo com as id&eacute;ias que a&iacute; ficam esbo&ccedil;adas, no aumento<br \/>\n    e no aperfei&ccedil;oamento desta modesta tentativa. A essas recomendamos<br \/>\n    as seguintes normas a observar:<\/p>\n<p>a) n&atilde;o recolher termos e locu&ccedil;&otilde;es apenas referidos por<br \/>\n    outrem, mas s&oacute; os que forem pessoalmente apanhados em uso, na boca<br \/>\n    de indiv&iacute;duos desprevenidos;<\/p>\n<p>b) indicar, sempre que for poss&iacute;vel, se se trata de dic&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pouco usada ou freq&uuml;ente, e se geralmente empregada ou apenas corrente<br \/>\n    em determinado grupo social;<\/p>\n<p>c) graf&aacute;-la sempre tal qual for ouvida. Por exemplo: se ouvirem pronunciar<br \/>\n    capu&ecirc;ra, escrever capu&ecirc;ra e n&atilde;o capoeira. Isto &eacute;<br \/>\n    essencial, e h&aacute; muit&iacute;ssimas cole&ccedil;&otilde;es de voc&aacute;bulos<br \/>\n    que, por n&atilde;o terem obedecido a este preceito, quase nenhum servi&ccedil;o<br \/>\n    prestam aos estudiosos, n&atilde;o passando, ou passando pouco de meras curiosidades;<\/p>\n<p>d) se houver diferentes modos de pronunciar o mesmo voc&aacute;bulo, reproduzi-los<br \/>\n    todos com a mesma fidelidade;<\/p>\n<p>e) sempre que possa dar-se m&aacute; interpreta&ccedil;&atilde;o &agrave;<br \/>\n    grafia adotada, explicar cumpridamente os pontos duvidosos;<\/p>\n<p>f) ter especial cuidado em anotar os sons peculiares &agrave; fon&eacute;tica<br \/>\n    regional (como o som de r em arara, ou o som de g em gente) ; declarar como<br \/>\n    devem ser pronunciadas tais letras, no caso de que o devam ser sempre da mesma<br \/>\n    maneira, e adotar um sinal para distinguir uma pron&uacute;ncia de outra,<br \/>\n    no caso de haver mais de uma (por exemplo, um ponto em cima do g quando soa<br \/>\n    aproximadamente dg, para o diferen&ccedil;ar do que soa a moda culta; uma<br \/>\n    risca sobre o c, para significar que &eacute; explosivo, como em chave (tchave),<br \/>\n    etc.<\/p>\n<h4>I &#8211; FON&Eacute;TICA<\/h4>\n<h4>1.&ordm; GENERALIDADES<\/h4>\n<p>1. Antes de tudo, deve notar-se que a pros&oacute;dia caipira (tomando o<br \/>\n    termo pros&oacute;dia numa acep&ccedil;&atilde;o lata, que tamb&eacute;m abranja<br \/>\n    o ritmo e musicalidade da linguagem) difere essencialmente da portuguesa.<\/p>\n<p>O tom geral do frasear &eacute; lento, plano e igual, sem a variedade de<br \/>\n    inflex&otilde;es, de andamentos e esfumaturas que enriquece a express&atilde;o<br \/>\n    das emo&ccedil;&otilde;es na pronuncia&ccedil;&atilde;o portuguesa.<\/p>\n<p>2. Os acentos em que a voz mais demoradamente carrega, na prola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    total de um grupo de palavras, n&atilde;o s&atilde;o em geral os mesmos que<br \/>\n    teria esse grupo na boca de um portugu&ecirc;s; e as pausas que dividem tal<br \/>\n    grupo na linguagem corrente s&atilde;o aqui mais abundantes, al&eacute;m de<br \/>\n    distribu&iacute;das de modo diverso. Na dura&ccedil;&atilde;o das vogais igualmente<br \/>\n    difere muito o dialeto: se, proferidas pelos portugueses, as breves duram<br \/>\n    um tempo e as longas dois, pode-se dizer, comparativamente, que no falar caipira<br \/>\n    duram as primeiras dois tempos e as segundas quatro.<\/p>\n<p>Este fen&ocirc;meno est&aacute; estreitamente ligado &agrave; lentid&atilde;o<br \/>\n    da fala, ou, antes, se resolve num simples aspecto dela, pois a linguagem<br \/>\n    vagarosa, cantada, se caracteriza justamente por um estiramento mais ou menos<br \/>\n    excessivo das vogais (2),<\/p>\n<p>3. Tamb&eacute;m decorre dessa mesma lentid&atilde;o, como um resultado natural,<br \/>\n    o fato de que o ado&ccedil;amento e elis&atilde;o das vogais &aacute;tonas,<br \/>\n    coisas comuns na pronuncia&ccedil;&atilde;o portuguesa, s&atilde;o aqui fen&ocirc;menos<br \/>\n    relativamente raros. Com efeito, compreende-se bem que o portugu&ecirc;s,<br \/>\n    na sua pronuncia&ccedil;&atilde;o vigorosa e r&aacute;pida, torture muito<br \/>\n    mais os voc&aacute;bulos, abreviando-os pelo enfraquecimento e supress&atilde;o<br \/>\n    das vozes &aacute;tonas internas, ligando-os uns aos outros pela absor&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das &aacute;tonas finais nas vogais que se lhes seguem: subr&aacute;du, p&#8217;d&aacute;&ccedil;u,<br \/>\n    c&#8217;r&ocirc;a, &#8216;sp&#8217;ran&ccedil;a, ti&aacute;tru, d&#8217;hoj&#8217;em diante, um&#8217;august&#8217;assembl&ecirc;ia.<br \/>\n    Da mesma forma, compreende-se que o caipira paulista, no seu pausado falar,<br \/>\n    que por for&ccedil;a h&aacute; de apoiar-se mais demoradamente nas vogais,<br \/>\n    n&atilde;o pratique em t&atilde;o larga escala essas muta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e elis&otilde;es.<\/p>\n<p>O caipira (como, em geral, todos os paulistas) pronuncia, em regra, claramente<br \/>\n    as vogais &aacute;tonas, qualquer que seja a posi&ccedil;&atilde;o das mesmas<br \/>\n    no voc&aacute;bulo: esperan&ccedil;a, sobrado, peda&ccedil;o, coroa, e recorre<br \/>\n    poucas vezes a sinalefa. Nos pr&oacute;prios monoss&iacute;labos &aacute;tonos<br \/>\n    me, te, se, de, o, que, etc., as vogais conservam o seu valor t&iacute;pico<br \/>\n    bem distinto, ao contr&aacute;rio do que sucede com os portugueses, em cuja<br \/>\n    pronuncia&ccedil;&atilde;o normal elas se ensurdeceram, assumindo tonalidades<br \/>\n    especiais.<\/p>\n<p>Pode dizer-se que no dialeto n&atilde;o lia vogais surdas: todas soam distintamente,<br \/>\n    salvos os casos de queda ou de sinalefa. Dai prov&eacute;m o dizer-se que<br \/>\n    os caipiras acentuam todas as vogais, o que &eacute; falso, mas explica-se.<br \/>\n    E que n&atilde;o se leva em conta a dura&ccedil;&atilde;o relativa das &aacute;tonas<br \/>\n    e t&ocirc;nicas, a que atr&aacute;s nos referimos.<\/p>\n<p>4. N&atilde;o podemos, por&eacute;m, atribuir inteiramente &agrave; influ&ecirc;ncia<br \/>\n    da lentid&atilde;o e pausa da fala essa melhor prola&ccedil;&atilde;o das<br \/>\n    vogais &aacute;tonas, no dialeto. Haver&aacute; tamb&eacute;m causas hist&oacute;ricas,<br \/>\n    por ora pressentidas apenas.<\/p>\n<p>O fen&ocirc;meno &eacute;, naturalmente, complexo, e s&atilde;o complexas<br \/>\n    as suas causas; mas &eacute; imposs&iacute;vel negar que existe pelo menos<br \/>\n    uma estreita correla&ccedil;&atilde;o entre um e outro fato.<\/p>\n<p>5. Seria, ali&aacute;s, muito interessante um estudo acurado das fei&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    especiais da pros&oacute;dia caipira, com o objetivo de discriminar a parte<br \/>\n    que lhe toca na evolu&ccedil;&atilde;o dos diferentes departamentos do dialeto.<br \/>\n    Chegar-se-ia de certo a descobertas muito curiosas, at&eacute; no dom&iacute;nio<br \/>\n    dos fatos sint&aacute;ticos.<\/p>\n<p>A diferencia&ccedil;&atilde;o relativa &agrave; coloca&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    pronomes obl&iacute;quos, no Brasil, deve explicar-se, em parte, pelo ritmo<br \/>\n    da fala e pelo alongamento das vogais (3), Esses pronomes, no portugu&ecirc;s<br \/>\n    europeu, se antep&otilde;em ou posp&otilde;em a outras palavras, que os atraem,<br \/>\n    incorporando-os. Prosodicamente, n&atilde;o t&ecirc;m exist&ecirc;ncia aut&ocirc;noma:<br \/>\n    s&atilde;o sons ou grupos de sons, destinados a adicionarem-se aos voc&aacute;bulos<br \/>\n    acentuados, segundo leis naturais inconscientemente obedecidas (&ecirc;nclise,<br \/>\n    pr&oacute;clise). Passando para o Brasil, a l&iacute;ngua teve que submeter-se<br \/>\n    a outro ritmo, determinado por condi&ccedil;&otilde;es fisiol&oacute;gicas<br \/>\n    e psicol&oacute;gicas diversas: era o suficiente para quebrar a continuidade<br \/>\n    das leis de atra&ccedil;&atilde;o que agiam em Portugal. O alongamento das<br \/>\n    vogais, dando maior amplitude aos pronomes na pron&uacute;ncia, tornando mais<br \/>\n    sens&iacute;vel a sua individualidade, veio acentuar, de certo, aquele efeito.<\/p>\n<h4>2.&ordm; OS FONEMAS E SUAS ALTERA&Ccedil;&Otilde;ES NORMAIS<\/h4>\n<p>6. Os fonemas do dialeto s&atilde;o em geral os mesmos do portugu&ecirc;s,<br \/>\n    se n&atilde;o levarmos em conta ligeiras variantes fisiol&oacute;gicas, que<br \/>\n    sempre existem entre povos diversos e at&eacute; entre fra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de um mesmo povo; variantes essas de que, pela maior parte, s&oacute; a fon&eacute;tica<br \/>\n    experimental poderia dar uma nota&ccedil;&atilde;o precisa. Cumpre, entretanto,<br \/>\n    observar o seguinte:<\/p>\n<p>a) s post-voc&aacute;lico tem sempre o mesmo valor: &eacute; uma linguo-dental<br \/>\n    ciciante, n&atilde;o se notando jamais as outras modalidades conhecidas entre<br \/>\n    portugueses e mesmo entre brasileiros de outras regi&otilde;es; s propriamente<br \/>\n    sibilante, assobiado, e bem assim chiante, s&atilde;o aqui desconhecidos.<br \/>\n    Para produzir este som a l&iacute;ngua projeta a sua ponta contra os dentes<br \/>\n    da arcada inferior e encurva-se de modo que os bordos laterais toquem os dentes<br \/>\n    da arcada superior, s&oacute; deixando uma pequena abertura sob os incisivos:<br \/>\n    modo de forma&ccedil;&atilde;o perfeitamente igual ao de c em cedo. (4)<\/p>\n<p>b) r inter e post-voc&aacute;lico (arara, carta) possui um valor peculiar:<br \/>\n    &eacute; linguo-palatal e guturalizado. Na sua prola&ccedil;&atilde;o, em<br \/>\n    vez de projetar a ponta contra a arcada dent&aacute;ria superior, movimento<br \/>\n    este que produz a modalidade portuguesa, a l&iacute;ngua leva os bordos laterais<br \/>\n    mais ou menos at&eacute; os pequenos molares da arcada superior e vira a extremidade<br \/>\n    para cima, sem toc&aacute;-la na ab&oacute;bada palatal. N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    quase nenhuma vibra&ccedil;&atilde;o tremulante. Para o ouvido, este r caipira<br \/>\n    assemelha-se bastante ao r ingl&ecirc;s post-voc&aacute;lico. &Eacute;, muito<br \/>\n    provavelmente, o mesmo r brando dos aut&oacute;ctones. Estes n&atilde;o possu&iacute;am<br \/>\n    o rr forte ou vibrante, sendo de notar que com o modo de produ&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    acima descrito &eacute; imposs&iacute;vel obter a vibra&ccedil;&atilde;o desse<br \/>\n    &uacute;ltimo fonema. (5)<\/p>\n<p>c) A explosiva gutural gh tem uma tonalidade especial, sobretudo antes dos<br \/>\n    semiditongos cuja prepositiva &eacute; u, casos em que freq&uuml;entemente<br \/>\n    se vocaliza: &aacute;u-ua = &aacute;gua, l&eacute;u-ua = l&eacute;gua).<\/p>\n<p>d) ch e j palatais s&atilde;o explosivos, como ainda se conservam entre o<br \/>\n    povo em certas regi&otilde;es de Portugal (6), no ingl&ecirc;s (chief, majesty)<br \/>\n    e no italiano (ciclo, genere).<\/p>\n<p>e) A conson&acirc;ncia palatal molhada lh n&atilde;o existe no dialeto, como<br \/>\n    na maioria dos dialetos port. de &Aacute;frica e &Aacute;sia, e como em v&aacute;rios<br \/>\n    dialetos castelhanos da Am&eacute;rica. (7)<\/p>\n<p>7. Os fen&ocirc;menos de diferencia&ccedil;&atilde;o fon&eacute;tica que<br \/>\n    caracterizam o dial. resumem-se desta forma:<\/p>\n<h4>VOGAIS<\/h4>\n<p>As T&Ocirc;NICAS, em regra, n&atilde;o sofrem altera&ccedil;&atilde;o. O<br \/>\n    &uacute;nico fato importante a assinalar com rela&ccedil;&atilde;o a estas<br \/>\n    &eacute; que, quando seguidas de ciciante (s ou z), no final dos voc&aacute;bulos,<br \/>\n    se ditongam pela gera&ccedil;&atilde;o de um i: rap&aacute;iz, m&eacute;is,<br \/>\n    p&eacute;is, n&oacute;is, l&aacute;iz. (8)<\/p>\n<p>8. Quanto &agrave;s &Aacute;TONAS:<\/p>\n<p>Na s&iacute;laba post&ocirc;nica dos voc&aacute;bulos graves, conservam o<br \/>\n    seu valor t&iacute;pico. N&atilde;o se operou aqui a permuta de e final por<br \/>\n    i, que se observa em outras regi&otilde;es do pa&iacute;s (oqu&ecirc;li, &ecirc;sti),<br \/>\n    como n&atilde;o se operou a de o por u (povu, d&iacute;gu), fen&ocirc;meno<br \/>\n    este que se manifestou em Portugal, ao que parece, a partir do s&eacute;c.<br \/>\n    XVIII.<\/p>\n<p>Nos voc&aacute;bulos esdr&uacute;xulos, a tend&ecirc;ncia &eacute;eacute; para suprimir<br \/>\n    a vogal da pen&uacute;ltima s&iacute;laba e mesmo toda esta, fazendo grave<br \/>\n    o voc&aacute;bulo (ridico = rid&iacute;culo, legite = leg&iacute;timo, cosca<br \/>\n    = c&oacute;cega, musga = m&uacute;sica. Exce&ccedil;&atilde;o: l&aacute;tico<br \/>\n    &lt; l&aacute;tego (curiosa revers&atilde;o &agrave; forma origin&aacute;ria;<br \/>\n    cp. c&oacute;sca &lt; co&ccedil;&#8217;ca &lt; c&oacute;cica), sum&iacute;tico,<br \/>\n    n&oacute;fico, etc.<\/p>\n<p>9. Nas s&iacute;labas pret&ocirc;nicas, alteram-se mais, como se ver&aacute;<br \/>\n    das seguintes notas:<\/p>\n<p>e &#8211; a) Inicial, aparece mudado em i nasal em inzame &lt; exame, ingu&aacute;<br \/>\n    &lt; igual, inzempro &lt; exemplo, inlei&ccedil;&atilde;o &lt; elei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A nasala&ccedil;&atilde;o de e inicial seguido de x &eacute; fen&ocirc;meno<br \/>\n    observado em tempos afastados da l&iacute;ngua: enxame &lt; examen, enxada<br \/>\n    &lt; exada, enxuito &lt; exsuctum. Enxempro encontra-se nos escritores mais<br \/>\n    antigos. Do mesmo modo inli&ccedil;on (elei&ccedil;&atilde;o).<\/p>\n<p>b) Medial, muda-se freq&uuml;entemente em i (tis&ocirc;ra, Tiodoro, piqueno),<br \/>\n    sobretudo se h&aacute; outro i na s&iacute;laba seguinte: pirigo, dilicado,<br \/>\n    minino, atrivido, intiligente, pidi(r), midi(r), piti&ccedil;o (assimila&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    regressiva).<\/p>\n<p>Na pron&uacute;ncia normal portuguesa tem-se dado, em tais casos, justamente<br \/>\n    o fen&ocirc;meno contr&aacute;rio (dissimila&ccedil;&atilde;o), embora nem<br \/>\n    sempre se substitua i por e na escrita: menino, pregui&ccedil;a, vezinho,<br \/>\n    menistro. O caipira ainda conserva, como remanescente do que aprendeu dos<br \/>\n    portugueses, a esse respeito, o nome pr&oacute;prio Verg&iacute;lio, que pronuncia<br \/>\n    com e. Tamb&eacute;m diz Fermino.<\/p>\n<p>Este fonema perdura intacto nos derivados e nas formas flexionadas, quando<br \/>\n    t&ocirc;nico nas palavras origin&aacute;rias: pretura, pretinho, pretejado,<br \/>\n    pedrenio, medroso.<\/p>\n<p>10. o &#8211; Medial, muda-se muitas vezes em u: tabuleta, cuzinha, dumingo, sobretudo<br \/>\n    nos infinitivos dos verbos em ir, que o t&ecirc;m na s&iacute;laba imediatamente<br \/>\n    anterior &agrave; t&ocirc;nica: ingul&iacute;(r), buli(r), tussi(r), surti(r).<br \/>\n    A possuir corresponde a forma dialetal pissu&iacute;(r), que tamb&eacute;m<br \/>\n    existe em galego. (9)<\/p>\n<p>Nos infinitivos dos verbos em ar e er, conserva-se: cobr&aacute;(r), cort&aacute;(r),<br \/>\n    broque&aacute;(r), intort&aacute;(r), sofr&ecirc;(r), pod&ecirc;(r).<\/p>\n<p>Conserva-se tamb&eacute;m nos derivados e nas formas flexionadas, quando<br \/>\n    t&ocirc;nico nas palavras origin&aacute;rias: locura, boqu&ecirc;ra, porcada,<br \/>\n    mortinho, rod&ecirc;ro.<\/p>\n<p>Conserva-se geralmente, aberto, nos diminutivos de nomes que o t&ecirc;m<br \/>\n    assim: p&ograve;rtinha, p&ograve;tinho, c&ograve;brinho (ao contr&aacute;rio<br \/>\n    do que se d&aacute; em outros pontos do pa&iacute;s; notadamente em Minas,<br \/>\n    onde estes diminutivos t&ecirc;m o fechado).<\/p>\n<p>11. en (en, em) &#8211; Inicial, muda-se em in: imprego, incurt&aacute;(r), insino,<br \/>\n    imborn&aacute;(l), insi(lh)&aacute;(r).<\/p>\n<p>Em inteiro e indireitar, ao contr&aacute;rio, depara-se &agrave;s vezes o<br \/>\n    i mudado em e &#8211; ent&ecirc;ro, endereit&aacute;(r), provavelmente por assimila&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    regressiva. Ali&aacute;s, as formas enteiro, enteiramente, endereitar, encontram-se<br \/>\n    em documentos portugueses anteriores &agrave; rea&ccedil;&atilde;o erudita.<\/p>\n<p>12. &otilde; (on, om) &#8211; Medial, muda-se em u, em lumbi(lh)o, amunt&aacute;(r),<br \/>\n    cume(r), cumpadre, cumigo, cunversa, cume&ccedil;&aacute;(r) e em geral nos<br \/>\n    voc&aacute;bulos cuja s&iacute;laba inicial e c&otilde;.<\/p>\n<h2>GRUPOS VOC&Aacute;LICOS<\/h2>\n<p>(acentuados ou n&atilde;o)<\/p>\n<p>13. ai (dit.) &#8211; Antes da palatal x, reduz-se &agrave; prepositiva: baxo,<br \/>\n    bax&ecirc;ro, faxa, caxa, pax&atilde;o.<\/p>\n<p>Dois exemplos de mudan&ccedil;a em &eacute;i: t&eacute;ipa, r&eacute;iva.<\/p>\n<p>14. ei (dit.) &#8211; Reduz-se a e quando seguido de r, x ou j: isqu&ecirc;ro,<br \/>\n    arqu&ecirc;re, ch&ecirc;ro, p&ecirc;xe, d&ecirc;xe, qu&ecirc;jo, b&ecirc;jo,<br \/>\n    berada.<\/p>\n<p>Nos voc&aacute;bulos em que &eacute; seguido de o ou a, como ceia, cheio,<br \/>\n    veia, tamb&eacute;m aparece &agrave;s vezes representado por &ecirc;: ch&ecirc;o,<br \/>\n    v&ecirc;a, c&ecirc;a. Cp. a evolu&ccedil;&atilde;o destas palavras no portugu&ecirc;s:<br \/>\n    cheio &lt; ch&ecirc;o &lt; cheno &lt; *cheno &lt; plenu(m); veia &lt; v&ecirc;a<br \/>\n    &lt; vena etc.<\/p>\n<p>15. ou e oi (dits.) &#8211; a) Acentuado ou n&atilde;o, contrai-se o primeiro em<br \/>\n    &ocirc;: poco, t&ocirc;ro, locura, r&ocirc;pa.<\/p>\n<p>Em Portugal, bem como no falar da gente culta no Brasil, h&aacute; not&oacute;rio<br \/>\n    sincretismo no uso dos ditongos ou e oi. Para o caipira tal sincretismo n&atilde;o<br \/>\n    existe: os voc&aacute;bulos onde esses ditongos aparecem s&atilde;o pronunciados<br \/>\n    sempre de um s&oacute; modo. Assim, lav&ocirc;ra, &ocirc;ro, est&ocirc;ro,<br \/>\n    c&ocirc;ro, c&ocirc;ve, l&ocirc;co, bass&ocirc;ra, t&ocirc;ca, fr&ocirc;xo,<br \/>\n    tr&ocirc;xa, e nunca lavoira, oiro, etc.; por outro lado, dois, noite, coisa,<br \/>\n    poiso, foice, toicinho, oit&atilde;o, afoito, biscoito, moita, e nunca dous,<br \/>\n    noute, etc. Se h&aacute; formas sincr&eacute;ticas, s&atilde;o rar&iacute;ssimas.<\/p>\n<p>A causa desta distin&ccedil;&atilde;o &eacute; puramente fon&eacute;tica:<br \/>\n    note-se, nos exemplos acima, que h&aacute; &ocirc; diante dos sons r, v, k<br \/>\n    e x, e oi diante de s = &ccedil;, z etc.<\/p>\n<p>b) Nas formas verbais em que o acento t&ocirc;nico recai em ou, este &agrave;s<br \/>\n    vezes se contrai em &oacute;: r&oacute;ba, est&oacute;re, afr&oacute;xa. A<br \/>\n    trouxe corresponde truxe; a soube, sube.<\/p>\n<p>16. ein (em) &#8211; Final de voc&aacute;bulo, reduz-se a e grave; viaje, virge,<br \/>\n    home, &ecirc;les corre.<\/p>\n<p>Parece-nos in&uacute;til acentuar que na palavra portuguesa viagem e em outras<br \/>\n    de id&ecirc;ntica termina&ccedil;&atilde;o existe um verdadeiro ditongo nasal<br \/>\n    grafado em (viagein, virgein, etc.) Da mesma forma existe o ditongo nasal<br \/>\n    &otilde;u nas palavras bom, som, etc. (b&otilde;u, s&otilde;u).<\/p>\n<p>17. &otilde;u (om) &#8211; a) Na preposi&ccedil;&atilde;o com, reduz-se &agrave;<br \/>\n    vogal nasal un, quando se segue a essa prep. palavra que comece por consoante:<br \/>\n    cum voc&ecirc;, cum quem v&ocirc;, cumsigo, (com-sigo). Quando h&aacute; eclipse,<br \/>\n    reduz-se a o grave: co ele, cos diabo(s).<\/p>\n<p>b) Nas palavras bom, tom e som muda-se em &atilde;o: b&atilde;o, t&atilde;o,<br \/>\n    s&atilde;o.<\/p>\n<p>18. &iacute;o (hiato) &#8211; Final de voc&aacute;bulo, ditonga-se sempre em iu:<br \/>\n    paviu, tiu, riu.<\/p>\n<h2><a name=\"1\">CONSOANTES<\/a><\/h2>\n<p>19. b e v &#8211; Muda-se &agrave;s vezes uma na outra, dando lugar a v&aacute;rias<br \/>\n    formas sincr&eacute;ticas:<\/p>\n<p>burbuia e vev&uacute;ia &#8211; borbulha<\/p>\n<p>bass&ocirc;ra e vassora &#8211; vassoura<\/p>\n<p>berruga e verruga &#8211; verruga<\/p>\n<p>bi&ecirc;te e vi&ecirc;te &#8211; bilhete<\/p>\n<p>cabort&ecirc;ro e cavortero &#8211; cavorteiro<\/p>\n<p>jabuticaba e jabuticava &#8211; jaboticaba<\/p>\n<p>Piracicaba e Pricicava &#8211; Piracicaba<\/p>\n<p>mangaba e mangava (fruta) &#8211; mangaba<\/p>\n<p>bespa e vespa &#8211; vespa<\/p>\n<p>baga&ccedil;o e vaga&ccedil;o &#8211; baga&ccedil;o<\/p>\n<p>bamo e vamo &#8211; vamos<\/p>\n<p>20. d &#8211; Cai, quase sempre, na s&iacute;laba final das formas verbais em ando,<br \/>\n    ando, indo: andano = andando, veno = vendo, ca&iacute;no, p&ocirc;no, e tamb&eacute;m<br \/>\n    no adv&eacute;rbio quando, &agrave;s vezes,<\/p>\n<p>21. gh &#8211; Quando comp&otilde;e s&iacute;laba com os semiditongos ua, u&aacute;,<br \/>\n    ue, u&eacute;, u&ecirc;, ul, como em guarda, &aacute;gua, tig&uuml;era, sag&uuml;i,<br \/>\n    torna-se quase impercept&iacute;vel, vocalizando-se freq&uuml;entemente em<br \/>\n    u. Neste caso, esse u ditonga-se com a vogal anterior, e o segundo u continua<br \/>\n    a formar semiditongo com a vogal seguinte: &aacute;u-ua, tiu-u&eacute;ra,<br \/>\n    s&aacute;u-ui.<\/p>\n<p>22. l &#8211; a) Em final de s&iacute;laba, muda-se em r: quarqu&eacute;r, pap&eacute;r,<br \/>\n    m&eacute;r, arma.<\/p>\n<p>Na locu&ccedil;&atilde;o tal qual, cai apenas o segundo l, porque o primeiro<br \/>\n    se tornou intervoc&aacute;lico: talequ&aacute;. E ainda digna de nota a locu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    adverbial malem&aacute; (grafada como se pronuncia), que quer dizer &quot;passavelmente&quot;,<br \/>\n    &quot;sofrivelmente&quot;, &quot;assim assim&quot;. (Ter&aacute; provindo<br \/>\n    de mal e mal, ou de mal a mal, ou ainda de &quot;mal, mal&quot;? Fazer um<br \/>\n    servi&ccedil;o mal e m&aacute; (l): passavelmente, antes mal que bem; passar<br \/>\n    mal e m&aacute; de sa&uacute;de: sofrivelmente).<\/p>\n<p>As palavras terminadas em a&iacute;, el, il.. freq&uuml;entemente aparecem<br \/>\n    apocopadas: m&aacute;, s&oacute;, jorn&aacute; = mal, sol, jornal. N&atilde;o<br \/>\n    inferir da&iacute; que houve queda de l. Esse l mudou-se primeiro em r, e<br \/>\n    depois caiu este fonema, de acordo com uma das leis mais r&iacute;gidas, e<br \/>\n    mais facilmente verific&aacute;veis, da fon&eacute;tica dialetal.<\/p>\n<p>&Eacute; de notar-se ainda que a pron&uacute;ncia em quest&atilde;o (m&aacute;,<br \/>\n    s&oacute;) &eacute; mais comum entre os negros, que, submetidos, em geral,<br \/>\n    ao imp&eacute;rio das mesmas leis, quando no mesmo meio, n&atilde;o deixam<br \/>\n    entretanto de diferir dos caboclos e brancos em mais de um ponto.<\/p>\n<p>b) Quando subjuntivo de um grupo, igualmente se muda em r: craro, cumpreto,<br \/>\n    cram&ocirc;(r), fr&ocirc;(r).<\/p>\n<p>Esta troca &eacute; um dos v&iacute;cios de pron&uacute;ncia mais radicados<br \/>\n    no falar dos paulistas, sendo mesmo freq&uuml;ente entre muitos dos que se<br \/>\n    acham, por educa&ccedil;&atilde;o ou posi&ccedil;&atilde;o social, menos em<br \/>\n    contato com o povo rude.<\/p>\n<p>(Cp. 6-b).<\/p>\n<p>23. r &#8211; a) Cai, quando final de palavra: and&aacute;, mui&eacute;, esquec&ecirc;,<br \/>\n    subi, vap&ocirc;, Art&uacute;.<\/p>\n<p>Conserva-se, entretanto, geralmente, em alguns monoss&iacute;labos acentuados,<br \/>\n    tendo de certo influ&iacute;do nisso a posi&ccedil;&atilde;o procl&iacute;tica<br \/>\n    habitual: d&ocirc;r, c&oacute;r, c&ocirc;r, par. Conserva-se tamb&eacute;m<br \/>\n    no monoss&iacute;l. &aacute;tono por, pela mesma raz&atilde;o, assim como,<br \/>\n    raras vezes, em palavras de mais de uma s&iacute;laba: amor, su&ocirc;r. Nos<br \/>\n    verbos, ainda que monoss&iacute;labos, cai sempre, provavelmente pela influ&ecirc;ncia<br \/>\n    niveladora da analogia: v&ecirc;, &iacute;, p&ocirc;.<\/p>\n<p>b) Esta conson&acirc;ncia &eacute; de extrema mobilidade no seio dos voc&aacute;bulos,<br \/>\n    dando lugar a met&aacute;teses e hip&eacute;rteses freq&uuml;ent&iacute;ssimas.<br \/>\n    (26, i-j).<\/p>\n<p>24. s &#8211; Cai, quando final de palavra paro ou proparox&iacute;tona: arf&eacute;re<br \/>\n    (alferes), pire (pires), bamo (vamos), imo (imos).<\/p>\n<p>Desaparece tamb&eacute;m nos ox&iacute;tonos, quando &eacute; sinal de pluralidade:<br \/>\n    mau, bambu, avo.<\/p>\n<p>Conserva-se nos adjetivos determinativos e nos pronomes, ainda que graves,<br \/>\n    o que se explica, em parte, pela posi&ccedil;&atilde;o procl&iacute;tica habitual:<br \/>\n    duas casa, minhas fiia, arguas pessoa, aqueles minino, eles, elas. A prova<br \/>\n    &eacute; que, quando n&atilde;o est&aacute; em pr&oacute;clise, freq&uuml;entemente<br \/>\n    se submete &agrave; regra: aquelas s&atilde;o as minha, estas s&atilde;o sua.<br \/>\n    Em parte, por&eacute;m, essa conserva&ccedil;&atilde;o se deve &agrave; necessidade<br \/>\n    de manter um sinal de pluralidade. Voltaremos oportunamente a este ponto,<br \/>\n    que &eacute;, talvez, mais do dom&iacute;nio dos fen&ocirc;menos psicol&oacute;gicos<br \/>\n    na morfologia, do que de ordem fon&eacute;tica.<\/p>\n<p>25. lh &#8211; Vocaliza-se em i: espaiado, maio, mui&eacute;, fiio = espalhado,<br \/>\n    malho, mulher, filho.<\/p>\n<p>Cp. o que se d&aacute; com o l molhado em Cuba, na Argentina (caje = calle,<br \/>\n    cabajo = caballo) e na Fran&ccedil;a, onde desde o s&eacute;culo XVIII come&ccedil;ou<br \/>\n    a acentuar-se a tend&ecirc;ncia para a vocaliza&ccedil;&atilde;o deste fonema<br \/>\n    (bat&aacute;ie, Chanti&iacute; = bataille, Chantilly).<\/p>\n<h2><a name=\"1\">3.&ordm; MODIFICA&Ccedil;&Otilde;ES ISOLADAS<\/a><\/h2>\n<p>26. Al&eacute;m das altera&ccedil;&otilde;es francamente normais, que ficaram<br \/>\n    registradas, h&aacute; toda uma multid&atilde;o de modifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    acidentais, de que daremos alguns exemplos:<\/p>\n<p>a) abrandamento: guspe = cuspo, musga = m&uacute;sica.<\/p>\n<p>E de notar que nos esdr&uacute;xulos c&oacute;cega, n&aacute;fego e l&aacute;tego<br \/>\n    se d&aacute; o contr&aacute;rio: c&oacute;cica (e co&ccedil;ca), n&aacute;fico,<br \/>\n    l&aacute;tico. <\/p>\n<p>b) assimila&ccedil;&atilde;o &#8211; progressiva. Carlo = Carlos, regressiva. birro<br \/>\n    -bilro; a&ccedil;can&ccedil;&aacute; = alcan&ccedil;ar; dig&ecirc;ro = ligeiro<br \/>\n    (g palatal explosivo = dg).<\/p>\n<p>c) Af&eacute;rese: (a)parece, (i)magina, (ar)rependeu, (ar)ranca, (a)lambique,<br \/>\n    (al)gib&ecirc;ra.<\/p>\n<p>d) S&iacute;ncope: p&ecirc;s(se)co = p&ecirc;ssego, mus(i)ga = m&uacute;sica,<br \/>\n    isp(i)rito, ca(s)ti&ccedil;ar, Jer&oacute;(ni)mo, rid&iacute;c(ul)o.<\/p>\n<p>e) Ap&oacute;cope: Ligite(mo).<\/p>\n<p>f) Pr&oacute;tese: alembr&aacute; = lembrar, avo&aacute; = voar, arripiti<br \/>\n    = repetir.<\/p>\n<p>g) Ep&ecirc;ntese: rec-u-luta, Ing-a-laterra, g-a-rampo.<\/p>\n<p>h) Ep&iacute;tese: paletor.<\/p>\n<p>i) Met&aacute;tese: perciso, pertende, purciss&atilde;o, partel&ecirc;ra,<br \/>\n    agardec&ecirc;, aquerdit&aacute;(r).<\/p>\n<p>j) Hip&eacute;rtese: agord&atilde;o (algod&atilde;o), carda&ccedil;o, chacoalh&aacute;(r),<br \/>\n    largato.<\/p>\n<p>27. Devem mencionar-se ainda as formas procl&iacute;ticas:<\/p>\n<p>de senhor &#8211; nho, se&ocirc;, seu, si&ocirc;, s&ocirc;;<\/p>\n<p>de senhora &#8211; nh&aacute;, se&aacute;, sea, sia, sa; <\/p>\n<p>de minha &#8211; mea e mha;<\/p>\n<p>de sua &#8211; sa<\/p>\n<p>de n&atilde;o &#8211; num. (10)<\/p>\n<h2><a name=\"1\">II. &#8211; LEXICOLOGIA<\/a><\/h2>\n<p>1. O vocabul&aacute;rio do dialeto &eacute;, naturalmente, bastante restrito,<br \/>\n    de acordo com a simplicidade de vida e de esp&iacute;rito, e portanto com<br \/>\n    as ex&iacute;guas necessidades de express&atilde;o dos que o falam. Esse vocabul&aacute;rio<br \/>\n    &eacute; formado, em parte:<\/p>\n<p>a) de elementos oriundos do portugu&ecirc;s usado pelo primitivo colonizador,<br \/>\n    muitos dos quais se arca&iacute;zaram na l&iacute;ngua culta;<\/p>\n<p>b) de termos provenientes das l&iacute;nguas ind&iacute;genas;<\/p>\n<p>c) de voc&aacute;bulos importados de outras l&iacute;nguas, por via indireta;\n  <\/p>\n<p>d) de voc&aacute;bulos formados no pr&oacute;prio seio do dialeto.<\/p>\n<h2><a name=\"1\">ELEMENTOS DO PORTUGU&Ecirc;S DO S&Eacute;CULO XVI<\/a><\/h2>\n<p>2. Em verdade, estes n&atilde;o se limitam ao l&eacute;xico. Todo o dialeto<br \/>\n    est&aacute; impregnado deles, desde a fon&eacute;tica at&eacute; a sintaxe.<br \/>\n    A sua discrimina&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s dos v&aacute;rios departamentos<br \/>\n    do dialeto constituiria sem duvida um dos mais curiosos estudos a que se pode<br \/>\n    prestar a nossa linguagem r&uacute;stica, e n&atilde;o s&oacute; pelo interesse<br \/>\n    puramente ling&uuml;&iacute;stico, sen&atilde;o tamb&eacute;m pelo clar&atilde;o<br \/>\n    que lan&ccedil;aria sobre quest&otilde;es atinentes &agrave; forma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do esp&iacute;rito do nosso povo.<\/p>\n<p>Sobre a import&acirc;ncia ling&uuml;&iacute;stica, n&atilde;o &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    insistir, pois ela, por assim dizer, se imp&otilde;e por defini&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Basta notar o seguinte: uma vez reconhecido que o fundo do dialeto representa<br \/>\n    um estado atrasado do portugu&ecirc;s, e que sobre esse fundo se vieram sucessivamente<br \/>\n    entretecendo os produtos de uma evolu&ccedil;&atilde;o divergente, o seu acurado<br \/>\n    exame pode auxiliar a explica&ccedil;&atilde;o de certos fatos ainda mal elucidados<br \/>\n    da fonologia, da morfologia e da sintaxe hist&oacute;rica da l&iacute;ngua.<br \/>\n    Por exemplo: a pronuncia&ccedil;&atilde;o clara de e e o &aacute;tonos finais<br \/>\n    comprova o fato de que o ensurdecimento vozes s&oacute; come&ccedil;ou em<br \/>\n    &eacute;poca relativamente pr&oacute;xima, pois de outro modo n&atilde;o se<br \/>\n    compreenderia porque o caipira analfabeto pronuncia lado, verdade, quando<br \/>\n    os portugueses pronunciam ladu, verdad&#8217;.<\/p>\n<p>3. S&atilde;o em grande n&uacute;mero, relativamente &agrave; extens&atilde;o<br \/>\n    do vocabul&aacute;rio dialetal, as formas esquecidas ou desusadas na l&iacute;ngua.<br \/>\n    Lendo-se certos documentos vern&aacute;culos dos fins do s&eacute;culo XV<br \/>\n    e de princ&iacute;pios e meiados do s&eacute;culo XVI, fica-se impressionado<br \/>\n    pelo ar de semelhan&ccedil;a da respectiva linguagem com a dos nossos roceiros<br \/>\n    e com a linguagem tradicional dos paulistas de &quot;boa fam&iacute;lia&quot;,<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute; sen&atilde;o o mesmo dialeto um pouco mais polido.<\/p>\n<p>Na carta de Pero Vaz Caminha abundam formas vocabulares e modismos envelhecidos<br \/>\n    na l&iacute;ngua, mas ainda bem vivos no falar caipira: inor&acirc;ncia, parecer<br \/>\n    (por aparecer) m&ecirc;a (adj. meia), u&quot;a, trosquia, imos (vamos), despois,<br \/>\n    reinar (brincar), preposito, vasios (regi&atilde;o da ilharga), luitar, desposto,<br \/>\n    alevantar, &quot;volvemo nos l&aacute; bem noute&quot;, &quot;veemo nos nas<br \/>\n    naus&#8217;, &quot;lan&ccedil;ou o na praya&quot;.<\/p>\n<p>4. Os elementos arcaicos da l&iacute;ngua, conservados no vocabul&aacute;rio<br \/>\n    dialetal, dividem-se, naturalmente, em arca&iacute;smos de forma, de significa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e de forma e significa&ccedil;&atilde;o (11) Exemplos:<\/p>\n<h2><a name=\"1\">ARCA&Iacute;SMOS DE FORMA<\/a><\/h2>\n<p>acup&aacute;(r) inor&aacute;(r)<\/p>\n<p> agardec&ecirc;(r) liv&eacute;r<\/p>\n<p> argua (u nasal). &#8230;&#8230;&#8230;.. lua (u nasal)<\/p>\n<p> avalu&aacute;(r) malino<\/p>\n<p> Bertolomeu mante&uacute;do<\/p>\n<p> correi&ccedil;&atilde;o &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;. ninhua (u nasal)<\/p>\n<p> cres&ccedil;udo prem&ecirc;ro<\/p>\n<p> dereito repun&aacute;(r)<\/p>\n<p> eigreja reposta<\/p>\n<p> erm&atilde;o salu&ccedil;o<\/p>\n<p> escuit&aacute;(r) somana<\/p>\n<p> est&acirc;mego sajeit&aacute;(r)<\/p>\n<p> fermoso sojig&aacute;(r)<\/p>\n<p> fruita sovert&ecirc;(r)<\/p>\n<p> &iacute;mburui&aacute;(r) s&uacute;pito<\/p>\n<p> intr&uacute;ido te&uacute;do<\/p>\n<p> inx&uacute;ito trusquia<\/p>\n<h2><a name=\"1\">ARCA&Iacute;SMOS DE SENTIDO<\/a><\/h2>\n<p>a&eacute;rio &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230; perplexo<\/p>\n<p>dona &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230; senhora<\/p>\n<p>fun&ccedil;&atilde;o &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230; baile, folguedo<\/p>\n<p>pra&ccedil;a &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..povoado<\/p>\n<p>rein&aacute;(r) &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;. fazer travessuras<\/p>\n<p>salvar &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230; saudar<\/p>\n<h2><a name=\"1\">ARCA&Iacute;SMOS DE FORMA E SENTIDO<\/a><\/h2>\n<p>arreminado &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230; ind&oacute;cil<\/p>\n<p> contia &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. quantidade qualquer<\/p>\n<p> cuca (arc. c&ocirc;co, c&ocirc;ca) escot&ecirc;ro .. ente fant&aacute;stico\n  <\/p>\n<p>escot&ecirc;ro &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. o que viaja sem bagagem<\/p>\n<p> imitante (como partic&iacute;pio) <\/p>\n<p> modinha &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;. can&ccedil;oneta<\/p>\n<p> punir &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;. defender, &quot;pugnar&quot;<\/p>\n<p> sino-sam&atilde;o &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230; signo de Salom&atilde;o.<\/p>\n<p>5. Abundam igualmente as locu&ccedil;&otilde;es arcaicas ou, pelo menos,<br \/>\n    de sabor arcaico bem pronunciado:<\/p>\n<p>a modo que <\/p>\n<p> a p&ocirc;s, a p&ocirc;s de &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230; a p&oacute;s de<\/p>\n<p>antes tempo (sem prep.) &#8230;&#8230;&#8230;&#8230; antes da hora, antecipadamente<\/p>\n<p> a par de &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;. junto, ao lado<\/p>\n<p>de verdade &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.. de v&eacute;ras<\/p>\n<p> de primeiro &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;. outrora<\/p>\n<p> em antes de &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230; antes de<\/p>\n<p> no mais &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230; n&atilde;o mais<\/p>\n<p> neste meio &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;. entrementes<\/p>\n<p>6. &Eacute; natural que, diante de certas formas apontadas como arcaicas<br \/>\n    (erm&atilde;o, somana), haja d&uacute;vida se de fato se trata de arca&iacute;smo,<br \/>\n    se de mera coincid&ecirc;ncia. Num ou noutro caso, esta &uacute;ltima hip&oacute;tese<br \/>\n    ser&aacute; talvez a mais aceit&aacute;vel: por exemplo, se o nosso povo pronuncia<br \/>\n    craro, fr&ocirc;r, n&atilde;o se deve ter pressa em ligar essas formas, historicamente,<br \/>\n    &agrave;s id&ecirc;nticas que se encontram em velhos documentos da l&iacute;ngua;<br \/>\n    pois que tais formas, antes de mais nada, obedecem a uma lei da fon&eacute;tica<br \/>\n    local, a permuta&ccedil;&atilde;o de l subjuntivo por r. Mas, erm&atilde;o,<br \/>\n    somana, etc., s&oacute; se podem explicar como formas recebidas dos colonizadores,<br \/>\n    pois, al&eacute;m de se encontrarem em escritos antigos, se confirmam por<br \/>\n    outros fatos an&aacute;logos da l&iacute;ngua, ao passo que mal se acomodam<br \/>\n    &agrave;s regras que atuam na altera&ccedil;&atilde;o dialetal dos voc&aacute;bulos.<\/p>\n<h2><a name=\"1\">ELEMENTOS IND&Iacute;GENAS<\/a><\/h2>\n<p>7. Das l&iacute;nguas dos aut&oacute;ctones, ou, melhor, do tupi, recebeu<br \/>\n    o dialeto grande quantidade de termos.<\/p>\n<p>A nossa popula&ccedil;&atilde;o primitiva, durante muito tempo, antes da<br \/>\n    introdu&ccedil;&atilde;o do negro, era, pela maior parte, composta de ind&iacute;genas<br \/>\n    e de mesti&ccedil;os de ind&iacute;genas. Da extens&atilde;o que teve a l&iacute;ngua<br \/>\n    dos abor&iacute;genes no falar dos primitivos dois ou tr&ecirc;s s&eacute;culos<br \/>\n    da nossa exist&ecirc;ncia, d&atilde;o testemunho flagrante, al&eacute;m de<br \/>\n    muitos voc&aacute;bulos que entraram nos usos sint&aacute;ticos correntes,<br \/>\n    os n&atilde;o menos numerosos top&ocirc;nimos, que se encontram nas vizinhan&ccedil;as<br \/>\n    dos centros de popula&ccedil;&atilde;o mais antigos.<\/p>\n<p>8. Quanto a isto sobressai a capital com seus arredores, onde abundam os<br \/>\n    nomes tupis, os quais v&atilde;o escasseando pelo interior, nas zonas mais<br \/>\n    novas, onde, ainda assim, os que se nos deparam s&atilde;o em boa parte artificialmente<br \/>\n    compostos. S&oacute; no munic&iacute;pio de S&atilde;o Paulo e nos que com<br \/>\n    ele confinam se contam por dezenas os rios, riachos, montes, bairros, fazendas<br \/>\n    e povoados com denomina&ccedil;&otilde;es tupis tradicionais (12):<\/p>\n<p>A&ccedil;u<\/p>\n<p> Caguassu <\/p>\n<p> Chorur&oacute;ca <\/p>\n<p> Guaracau<\/p>\n<p>Aju&aacute; <\/p>\n<p> Cabussu <\/p>\n<p> Cocaia <\/p>\n<p> Guarapiranga<\/p>\n<p>Aricanduva <\/p>\n<p> Ca&ccedil;acu&eacute;ra <\/p>\n<p> Cupec&ecirc; <\/p>\n<p> Guarar&aacute;<\/p>\n<p>Anhangaba&uacute; <\/p>\n<p> Ca&ccedil;andoca <\/p>\n<p>Ebirapu&eacute;ra <\/p>\n<p> Guaratim<\/p>\n<p>Baquiruvu-guassu <\/p>\n<p> Ca&ccedil;apava <\/p>\n<p> Gopa&uacute;va<\/p>\n<p> Guara&uacute;<\/p>\n<p>Bopi <\/p>\n<p> Cang&ugrave;era <\/p>\n<p> Guacuri <\/p>\n<p> Guavirutuba<\/p>\n<p>Botucuara <\/p>\n<p> Canind&eacute; <\/p>\n<p> Guaia&uacute;na <\/p>\n<p> Imbiras<\/p>\n<p>Bu&ccedil;ucaba <\/p>\n<p> Caraguat&aacute; <\/p>\n<p> Guai&oacute; <\/p>\n<p> Itaberaba <\/p>\n<p>Butantan <\/p>\n<p> Carapicuiba <\/p>\n<p> Guapira <\/p>\n<p> Itacuaquecetuba<\/p>\n<p>Itacu&eacute;ra<\/p>\n<p> Jaguar&eacute; <\/p>\n<p> Nhanguass&uacute; <\/p>\n<p> Tacuaxiara<\/p>\n<p>Itaguassu <\/p>\n<p> Jaragu&aacute; <\/p>\n<p> Pacaemb&uacute; <\/p>\n<p> Tamanduitei<\/p>\n<p>Itaim <\/p>\n<p> Jara&uacute; <\/p>\n<p> Pari <\/p>\n<p> Tambur&eacute;<\/p>\n<p>Itaparicu&eacute;ra <\/p>\n<p> Juquiri <\/p>\n<p> Piquiri <\/p>\n<p> Tatuap&eacute;<\/p>\n<p>Itapero&aacute; <\/p>\n<p> Jurubatuba <\/p>\n<p> Pirajussara <\/p>\n<p> Trememb&eacute;<\/p>\n<p>Itapicirica <\/p>\n<p> Mandaqui <\/p>\n<p> Pirituba <\/p>\n<p> Tucuruvi<\/p>\n<p>Itarar&eacute; <\/p>\n<p> Mandi <\/p>\n<p> Pirucaia <\/p>\n<p> Uberaba<\/p>\n<p>Ipiranga <\/p>\n<p> Mhoi <\/p>\n<p> Prati <\/p>\n<p> Utinga<\/p>\n<p>Jaceguava ou <\/p>\n<p> Mooca <\/p>\n<p> Po&aacute;<\/p>\n<p> Votussununga<\/p>\n<p>Jaceguai <\/p>\n<p> Murumbi <\/p>\n<p> Quita&uacute;na<\/p>\n<p> Voturantim<\/p>\n<p>Jacun&eacute; <\/p>\n<p> Mutinga<\/p>\n<p> Saracura<\/p>\n<p>acar&aacute;<\/p>\n<p> guar&aacute;<\/p>\n<p> maracan&atilde;<\/p>\n<p> sucuri<\/p>\n<p>anu<\/p>\n<p> guariba<\/p>\n<p> mucu&iacute;m<\/p>\n<p> suindara<\/p>\n<p>araponga<\/p>\n<p> guaripu<\/p>\n<p> mumbuca<\/p>\n<p> surubi<\/p>\n<p>arapu&aacute;<\/p>\n<p> guaru-guaru<\/p>\n<p> mussurana<\/p>\n<p> sussuarana<\/p>\n<p>arara<\/p>\n<p> g&ugrave;ir&aacute;<\/p>\n<p> mutuca<\/p>\n<p> tabarana<\/p>\n<p>bacurau<\/p>\n<p> i&ccedil;&aacute;<\/p>\n<p> mutum<\/p>\n<p> tamandu&aacute;<\/p>\n<p>baitaca<\/p>\n<p> inhambu<\/p>\n<p> nha&ccedil;an&atilde;<\/p>\n<p> tambiju&aacute;<\/p>\n<p>bigu&aacute;<\/p>\n<p> irara<\/p>\n<p> paca<\/p>\n<p> tambi&uacute;<\/p>\n<p>biriba<\/p>\n<p> itobi<\/p>\n<p> pacu<\/p>\n<p> tanajura<\/p>\n<p>bor&aacute;<\/p>\n<p> jacar&eacute;<\/p>\n<p> pairiru<\/p>\n<p> tangar&aacute;<\/p>\n<p>ca&ccedil;ununga<\/p>\n<p> jacu<\/p>\n<p> piaba<\/p>\n<p> taper&aacute;<\/p>\n<p>cambucu<\/p>\n<p> jaburu<\/p>\n<p> piapara<\/p>\n<p> tarira<\/p>\n<p>caninana<\/p>\n<p> jacutinga<\/p>\n<p> penambi<\/p>\n<p> ta&ccedil;u&iacute;ra<\/p>\n<p>capivara<\/p>\n<p> jaguatirica<\/p>\n<p> piracambucu<\/p>\n<p> tat&ecirc;to<\/p>\n<p>car&aacute;-car&aacute;<\/p>\n<p> ja&oacute;<\/p>\n<p> piracanjuba<\/p>\n<p> tatorana<\/p>\n<p>chab&oacute;<\/p>\n<p> japu<\/p>\n<p> piraju<\/p>\n<p> tatu<\/p>\n<p>cor&oacute;<\/p>\n<p> japu&iacute;ra<\/p>\n<p> piramb&oacute;ia<\/p>\n<p> tiet&ecirc;<\/p>\n<p>cuati<\/p>\n<p> jararaca<\/p>\n<p> piranha<\/p>\n<p> tiriva<\/p>\n<p>cui&uacute;-cui&uacute;<\/p>\n<p> jate&iacute;<\/p>\n<p> sabi&aacute;<\/p>\n<p> tovaca<\/p>\n<p>cumb&eacute;<\/p>\n<p> ja&uacute;<\/p>\n<p> sabi&aacute;-cica<\/p>\n<p> tu&iacute;m<\/p>\n<p>cupim<\/p>\n<p> jiquitiranab&oacute;ia<\/p>\n<p> sabi&aacute;-poca<\/p>\n<p> tuiuva<\/p>\n<p>curiango<\/p>\n<p> jundi&aacute;<\/p>\n<p> sabi&aacute;-una<\/p>\n<p> tuvuna<\/p>\n<p>curimbat&aacute;<\/p>\n<p> jurut&iacute;<\/p>\n<p> sanha&ccedil;o<\/p>\n<p> uru<\/p>\n<p>curi&oacute;<\/p>\n<p> lambari<\/p>\n<p> sanhar&atilde;o<\/p>\n<p> urubu<\/p>\n<p>curru&iacute;ra<\/p>\n<p> mamangava<\/p>\n<p> saracura<\/p>\n<p> urutau<\/p>\n<p>curuquer&ecirc;<\/p>\n<p> manda&ccedil;&aacute;ia<\/p>\n<p> sar&aacute;-sar&aacute;<\/p>\n<p> urutu<\/p>\n<p>cut&iacute;a<\/p>\n<p> mandaguar&iacute;<\/p>\n<p> sa&uacute;va<\/p>\n<p> xoror&oacute;<\/p>\n<p>gamb&aacute;<\/p>\n<p> mandi<\/p>\n<p> siri&ecirc;ma<\/p>\n<p> xupim<\/p>\n<p>gaturamo<\/p>\n<p> mandorov&aacute;<\/p>\n<p> siri<\/p>\n<p> giboia<\/p>\n<p> manduri<\/p>\n<p> soc&oacute;<\/p>\n<p>10. N&atilde;o s&atilde;o menos abundantes os nomes ind&iacute;genas de vegetais,<br \/>\n    de que daremos algumas dezenas, &agrave;<\/p>\n<p>uisa de exemplifica&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>abacate <\/p>\n<p> capixingui <\/p>\n<p> ip&ecirc;<\/p>\n<p> piri<\/p>\n<p>abacaxi <\/p>\n<p> capitava <\/p>\n<p> jaborandi<\/p>\n<p> pitanga<\/p>\n<p>andaguass&uacute; <\/p>\n<p> caraguat&aacute;<\/p>\n<p> jabuticava <\/p>\n<p> pi&uacute;va<\/p>\n<p>ara&ccedil;&aacute;<\/p>\n<p> carna&uacute;ba<\/p>\n<p> jacarand&aacute;<\/p>\n<p> samambaia<\/p>\n<p>aru&ecirc;ra<\/p>\n<p> car&oacute;ba<\/p>\n<p> jacar&eacute;<\/p>\n<p> sag&ugrave;i<\/p>\n<p>ararib&aacute;<\/p>\n<p> caruru<\/p>\n<p> jant&aacute;<\/p>\n<p> sap&eacute;<\/p>\n<p>araticum <\/p>\n<p> catanduva<\/p>\n<p> jaracati&aacute;<\/p>\n<p> sapuva<\/p>\n<p>a&ccedil;atunga<\/p>\n<p> cip&oacute;<\/p>\n<p> jariv&aacute; <\/p>\n<p> suma&uacute;ma<\/p>\n<p>bacaba<\/p>\n<p> crindiuva<\/p>\n<p> jata&iacute;<\/p>\n<p> tai&oacute;va<\/p>\n<p>baguassu<\/p>\n<p> grumixama <\/p>\n<p> jiquitaia<\/p>\n<p> tai&uacute;va<\/p>\n<p>bracu&iacute;<\/p>\n<p> guabiroba<\/p>\n<p> jiquitib&aacute;<\/p>\n<p> tacuara<\/p>\n<p>breja&uacute;va<\/p>\n<p> gu&atilde;ib&egrave;<\/p>\n<p> jov&eacute;va<\/p>\n<p> tacuari<\/p>\n<p>buriti<\/p>\n<p> guandu<\/p>\n<p> ju&aacute;<\/p>\n<p> tacuaritinga<\/p>\n<p>bucuva<\/p>\n<p> guap&ecirc;<\/p>\n<p> jurema<\/p>\n<p> tacuarussu<\/p>\n<p>buti&aacute;<\/p>\n<p> guapocar&iacute;<\/p>\n<p> maca&uacute;ba<\/p>\n<p> timb&oacute;<\/p>\n<p>cabi&uacute;na<\/p>\n<p> guarer&oacute;va<\/p>\n<p> manac&aacute;<\/p>\n<p> timbori<\/p>\n<p>cabri&uacute;va<\/p>\n<p> guanxuma<\/p>\n<p> mandi&oacute;ca <\/p>\n<p> tiririca<\/p>\n<p>caiapi&aacute;<\/p>\n<p> guarai&uacute;va<\/p>\n<p> mangava<\/p>\n<p> trapoeraba<\/p>\n<p>cajuru<\/p>\n<p> guarat&atilde;<\/p>\n<p> maracaj&aacute;<\/p>\n<p> tucum<\/p>\n<p>cambuci<\/p>\n<p> guatambu<\/p>\n<p> ma&ccedil;aranduva<\/p>\n<p> urucu<\/p>\n<p>cambu&iacute;<\/p>\n<p> imba&uacute;va<\/p>\n<p> nhapind&aacute; <\/p>\n<p> urucurana<\/p>\n<p>canjarana<\/p>\n<p> imb&uacute;ia<\/p>\n<p> orindi&uacute;va<\/p>\n<p> uv&aacute;<\/p>\n<p>canxim<\/p>\n<p> indai&aacute;<\/p>\n<p> perova<\/p>\n<p> capim<\/p>\n<p> ing&aacute;<\/p>\n<p> pip&oacute;ca<\/p>\n<p>11. Nomes de diferentes fen&ocirc;menos, acidentes, produtos da natureza,<br \/>\n    doen&ccedil;as, etc,:<\/p>\n<p>ber&eacute;va<\/p>\n<p> cupim <\/p>\n<p> piracema <\/p>\n<p> tabatinga<\/p>\n<p>bossor&oacute;ca <\/p>\n<p> jo&ccedil;&aacute; <\/p>\n<p> poror&oacute;ca <\/p>\n<p> tagu&aacute;<\/p>\n<p>cambuquira <\/p>\n<p> manipu&ecirc;ra <\/p>\n<p> quir&eacute;ra <\/p>\n<p> tijuco<\/p>\n<p>cap&atilde;o <\/p>\n<p> nambiuvu <\/p>\n<p> sambiquira <\/p>\n<p> tupururuca<\/p>\n<p>capu&ecirc;ra <\/p>\n<p> pacu&eacute;ra <\/p>\n<p> sapir&oacute;ca<\/p>\n<p> catap&oacute;ra <\/p>\n<p> pichu&aacute; <\/p>\n<p> soror&oacute;ca<\/p>\n<p> catinga <\/p>\n<p> picum&atilde; <\/p>\n<p> su&atilde;<\/p>\n<p>12. Nomes de utens&iacute;lios, aparelhos, objetos de uso, alimentos, etc:<\/p>\n<p>arapuca <\/p>\n<p> caxerenguengue <\/p>\n<p> jacuba <\/p>\n<p> muqu&eacute;ca<\/p>\n<p>arataca <\/p>\n<p> chu&atilde; <\/p>\n<p> jiqui <\/p>\n<p> mipeva<\/p>\n<p>arimb&aacute; <\/p>\n<p> jac&aacute; <\/p>\n<p> juqui&aacute; <\/p>\n<p> pamonha <\/p>\n<p>pamon&atilde; <\/p>\n<p> pindacu&ecirc;ma<\/p>\n<p> sambur&aacute; <\/p>\n<p> tacuru<\/p>\n<p>pari <\/p>\n<p> pip&oacute;ca <\/p>\n<p> sapicu&aacute; <\/p>\n<p> tipiti<\/p>\n<p>pa&ccedil;oca <\/p>\n<p> piru&aacute; <\/p>\n<p> saracu&atilde;<\/p>\n<p> patu&aacute;<\/p>\n<p> pito<\/p>\n<p> sol&iacute;m&atilde;o<\/p>\n<p> pel&eacute;ta <\/p>\n<p> pussagu&aacute; <\/p>\n<p> sururuca<\/p>\n<p>1 3. Nomes referentes a usos, costumes, abus&otilde;es, etc.:<\/p>\n<p>bitat&aacute;<\/p>\n<p> canhembora <\/p>\n<p> caruru <\/p>\n<p> piracuara<\/p>\n<p>buava<\/p>\n<p> capuava <\/p>\n<p> guai&uacute; <\/p>\n<p> saci<\/p>\n<p>cai&ccedil;ara<\/p>\n<p> cateret&ecirc;<\/p>\n<p> mumbava<\/p>\n<p> tap&eacute;ra<\/p>\n<p>caipira<\/p>\n<p> catira<\/p>\n<p> perequ&ecirc;<\/p>\n<p> tigu&eacute;ra<\/p>\n<p>caipora<\/p>\n<p> coivara <\/p>\n<p> pi&aacute;<\/p>\n<p>14. Adjetivos e substantivos usados como tais:<\/p>\n<p>a&iacute;va<\/p>\n<p> jurur&uacute;<\/p>\n<p> pepu&iacute;ra<\/p>\n<p> punga<\/p>\n<p>chimbeva<\/p>\n<p> macaia<\/p>\n<p> perer&eacute;ca<\/p>\n<p> saramb&eacute;<\/p>\n<p>it&eacute;<\/p>\n<p> nambi<\/p>\n<p> piricica<\/p>\n<p> turuna<\/p>\n<p>jaguan&eacute;<\/p>\n<p> nap&eacute;va<\/p>\n<p> piririca<\/p>\n<p> javev&oacute;<\/p>\n<p> pangar&eacute;<\/p>\n<p> pi&uacute;va<\/p>\n<p> jissi<\/p>\n<p> pararaca<\/p>\n<p> pururuca<\/p>\n<p>15. Todos os voc&aacute;bulos acima citados s&atilde;o, com uma ou outra<br \/>\n    excep&ccedil;&atilde;o apenas, de origem tupi.<\/p>\n<p>Esta l&iacute;ngua, como diz o sr. Teodoro Sampaio no seu precioso livrinho<br \/>\n    &quot;O Tupi na Geografia Nacional&quot;, vicejou pr&oacute;spera e forte<br \/>\n    em quase todo o pa&iacute;s, sobretudo em S. Paulo e algumas outras capitanias.<br \/>\n    Aqui, segundo aquele escritor, a gente do campo falava a l&iacute;ngua geral<br \/>\n    at&eacute; fins do s&eacute;culo XVIII. Todos a sabiam, ou para se exprimir,<br \/>\n    ou para entender. Era a l&iacute;ngua das bandeiras; era a de muitos dos pr&oacute;prios<br \/>\n    portugueses aqui domiciliados.<\/p>\n<p>&Eacute; o que explica essa absoluta predomin&acirc;ncia do tupi, entre as<br \/>\n    l&iacute;nguas bras&iacute;licas, na topon&iacute;mia local, na nomenclatura<br \/>\n    de animais e de plantas e em geral no vocabul&aacute;rio de proced&ecirc;ncia<br \/>\n    ind&iacute;gena.<\/p>\n<p>&Eacute; poss&iacute;vel, entretanto, como dissemos, que haja excep&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Mesmo sem outros elementos de suspeita, pode-se duvidar que todos os voc&aacute;bulos<br \/>\n    vulgarmente apresentados como tupis de fato sejam dessa l&iacute;ngua, ou<br \/>\n    mesmo de qualquer outra l&iacute;ngua bras&iacute;lica, considerando-se apenas<br \/>\n    as dificuldades de ordem geral que embara&ccedil;am todo trabalho etimol&oacute;gico<br \/>\n    em idiomas n&atilde;o escritos, cujas formas variam tanto no tempo e no espa&ccedil;o,<br \/>\n    e se acham t&atilde;o sujeitas, em bocas estranhas, a profundas corrup&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    volunt&aacute;rias e involunt&aacute;rias. (13)<\/p>\n<p>16. Muitos dos voc&aacute;bulos de proced&ecirc;ncia ind&iacute;gena flutuam<br \/>\n    numa grande variabilidade de formas, principalmente certos nomes de animais<br \/>\n    e de plantas: a&ccedil;atonga, a&ccedil;atunga, gua&ccedil;atonga, guaxatonga;<br \/>\n    caraguat&aacute;, crauat&aacute;, cravat&aacute;; tarira, taraira, tra&iacute;ra;<br \/>\n    maitaca, baitaca; corimbat&aacute;, curumbat&aacute;, curimat&aacute;. Na<br \/>\n    termina&ccedil;&atilde;o vogal + b + vogal, geralmente usada pela gente culta,<br \/>\n    o caipira prefere quase sempre v a b: jabuticava, mangava, ber&eacute;va,<br \/>\n    tiriva, tai&oacute;va, sa&uacute;va.<\/p>\n<p>A origem destas incertezas est&aacute; em que a nossa fon&eacute;tica nem<br \/>\n    sempre possui sons exatamente correspondentes aos ind&iacute;genas. O u consoante<br \/>\n    (w) foi desde cedo interpretado de v&aacute;rios modos: por uns como v, por<br \/>\n    outros como b, por outros ainda como gh: &eacute; o que explica as varia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    caraguat&aacute;, carauat&aacute;, cravat&aacute;, &#8211; capivara, capibara, capiguara,<br \/>\n    &#8211; pia&ccedil;ava, pio&ccedil;aba, pia&ccedil;&aacute;gua (cf. Pia&ccedil;ag&ugrave;&eacute;ra),<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p>A pron&uacute;ncia popular, nestes casos, &eacute; a melhor. O povo, direta<br \/>\n    e inconscientemente influenciado pela fon&eacute;tica ind&iacute;gena, conserva<br \/>\n    ainda sinais dessa influ&ecirc;ncia na pr&oacute;pria incapacidade para bem<br \/>\n    apanhar o som distinto de v em voc&aacute;bulos portugueses: da&iacute; pron&uacute;ncias,<br \/>\n    que &agrave;s vezes se ouvem, como guap&ocirc; por vapor, etc. (14)<\/p>\n<h3>ELEMENTOS DE V&Aacute;RIA PROCED&Ecirc;NCIA<\/h3>\n<p>17. A receptividade do dialeto em rela&ccedil;&atilde;o a termos de origem<br \/>\n    estranha &eacute; muito limitada, porque as necessidades de express&atilde;o,<br \/>\n    para o caipira, raramente v&atilde;o al&eacute;m dos recursos ordin&aacute;rios.<\/p>\n<p>O caipira genu&iacute;no vive hoje, com pouca diferen&ccedil;a, como vivia<br \/>\n    h&aacute; duzentos anos, com os mesmos h&aacute;bitos, os mesmos costumes,<br \/>\n    o mesmo fundo de id&eacute;ias. Da&iacute; o conservar teimosamente tantos<br \/>\n    arca&iacute;smos &#8211; e tamb&eacute;m tantos termos especiais que, vivos embora<br \/>\n    no portugu&ecirc;s europeu, s&atilde;o &agrave;s vezes completamente desconhecidos,<br \/>\n    aqui, da gente da cidade, tais como ch&ecirc;da, tamoeiro, cambota, n&aacute;fego,<br \/>\n    etc. Da&iacute;, tamb&eacute;m, o n&atilde;o precisar tanto de termos novos,<br \/>\n    que, pela maior parte, ou designam coisas a que vive alheio, ou id&eacute;ias<br \/>\n    abstratas que n&atilde;o atinge.<\/p>\n<p>18. Dos voc&aacute;bulos estrangeiros modernamente introduzidos na l&iacute;ngua<br \/>\n    e que s&atilde;o de uso corrente no falar das pessoas mais ou menos cultas,<br \/>\n    ele s&oacute; tem aceito alguns, poucos, relativos a objetos de uso comum,<br \/>\n    produtos de artes dom&eacute;sticas, etc.: palet&oacute; (que desterrou por<br \/>\n    completo o vern&aacute;culo casaco), croch&eacute;, cachin&eacute;, rev&oacute;rve,<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p>19. Existem entretanto no dialeto muitos voc&aacute;bulos (al&eacute;m dos<br \/>\n    bras&iacute;licos e parte dos africanos) que n&atilde;o lhe vieram por interm&eacute;dio<br \/>\n    da l&iacute;ngua. Destas aquisi&ccedil;&otilde;es, umas pertencem ao dialeto<br \/>\n    geral do Brasil, outras resultaram da pr&oacute;pria atividade paulista. Exemplos:<\/p>\n<p>Do guarani, do quich&uacute;a (15):<\/p>\n<p>chacra<\/p>\n<p> guaiava <\/p>\n<p> iapa <\/p>\n<p> purungo<\/p>\n<p>gar&otilde;a <\/p>\n<p> guaiaca <\/p>\n<p> pampa<\/p>\n<p>Do castelhano:<\/p>\n<p>amarilho <\/p>\n<p> cola <\/p>\n<p> lunanco <\/p>\n<p> porvad&ecirc;ra<\/p>\n<p>aragano <\/p>\n<p> empalizado <\/p>\n<p> par&ecirc;ia <\/p>\n<p> rengo<\/p>\n<p>caraquento <\/p>\n<p> enfrenar <\/p>\n<p> parei&ecirc;ro(16)<\/p>\n<p> retovado<\/p>\n<p>cincha <\/p>\n<p> entreverar <\/p>\n<p> piti&ccedil;o <\/p>\n<p> rinha<\/p>\n<p>cochonilho <\/p>\n<p> lonca <\/p>\n<p> perrengue<\/p>\n<p>Dos dialetos ibero-sul-americanos e do vocabul&aacute;rio sul-rio-grandense:<\/p>\n<p>bagual <\/p>\n<p> guasca <\/p>\n<p> pala <\/p>\n<p> ponche<\/p>\n<p>ga&uacute;cho <\/p>\n<p> matungo <\/p>\n<p> pangar&eacute; <\/p>\n<p> retaco<\/p>\n<p> Quase todos esses termos nos vieram por interm&eacute;dio do Rio Grande<br \/>\n    do Sul, com o qual mantiveram outrora os paulistas intensas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de com&eacute;rcio, sobretudo de com&eacute;rcio de animais, sendo freq&uuml;ent&iacute;ssimas<br \/>\n    as viagens de tropeiros de uma para outra prov&iacute;ncia. Dessas rela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    guardam ainda os vocabul&aacute;rios e os costumes populares de l&aacute;<br \/>\n    e de c&aacute; numeros&iacute;ssimos elementos comuns, n&atilde;o s&oacute;<br \/>\n    de origem estrangeira, como de elabora&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria.<\/p>\n<p>20. A maior parte dos voc&aacute;bulos africanos existentes no dialeto caipira<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o aquisi&ccedil;&otilde;es pr&oacute;prias. A colabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do negro, por mais estranho que o pare&ccedil;a, limitou-se &agrave; fon&eacute;tica;<br \/>\n    o que dele nos resta no vocabul&aacute;rio r&uacute;stico s&atilde;o termos<br \/>\n    correntes no pa&iacute;s inteiro e at&eacute; em Portugal:<\/p>\n<p>angu <\/p>\n<p> cacunda <\/p>\n<p> mac&oacute;ta <\/p>\n<p> quingengue<\/p>\n<p>banguela <\/p>\n<p> carimbo <\/p>\n<p> malungo <\/p>\n<p> quis&iacute;lia<\/p>\n<p>batuque <\/p>\n<p> caximbo <\/p>\n<p> mandinga <\/p>\n<p> samba<\/p>\n<p>binga <\/p>\n<p> cuxilo <\/p>\n<p> missanga <\/p>\n<p> sanzala<\/p>\n<p>cacha&ccedil;a <\/p>\n<p> lundu <\/p>\n<p> quilombo <\/p>\n<p> urucungo<\/p>\n<p> 21. H&aacute; um certo n&uacute;mero de provincianismos brasileiros de origem<br \/>\n    africana, que, recebidos pela maior parte do Norte, aqui se introduziram no<br \/>\n    falar das cidades e na linguagem liter&aacute;ria, mas n&atilde;o penetraram<br \/>\n    no dialeto: tais, por exemplo: canger&ecirc;, cacimba, candombl&ecirc;, gil&oacute;,<br \/>\n    munguz&aacute;, quingomb&ocirc;.<\/p>\n<h3>FORMA&Ccedil;&Otilde;ES PR&Oacute;PRIAS<\/h3>\n<p>22. Com os elementos que vieram do portugu&ecirc;s, do tupi e de outras l&iacute;nguas,<br \/>\n    formaram-se no Brasil numerosos voc&aacute;bulos, principalmente por deriva&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    &#8211; j&aacute; no seio do povo paulista, que atrav&eacute;s do seu movimento<br \/>\n    de expans&atilde;o pelo territ&oacute;rio nacional os levou a long&iacute;nquas<br \/>\n    regi&otilde;es, j&aacute; em outras terras, de onde foram trazidos.<\/p>\n<p>Encontra-se no falar caipira de S. Paulo, e na pr&oacute;pria linguagem das<br \/>\n    pessoas educadas, toda uma multid&atilde;o de neologismos derivados, alguns<br \/>\n    muito expressivos e j&aacute; indispens&aacute;veis &agrave;queles mesmos<br \/>\n    que procuram fugir &agrave; influ&ecirc;ncia do regionalismo:<\/p>\n<p>VERBOS (17)<\/p>\n<p>abombar<\/p>\n<p> chifrar<\/p>\n<p> frautear<\/p>\n<p> moquear<\/p>\n<p>aforar<\/p>\n<p> chatear<\/p>\n<p> fuchicar<\/p>\n<p> passarinhar<\/p>\n<p>ami(lh)ar<\/p>\n<p> coivarar<\/p>\n<p> fu&ccedil;ar<\/p>\n<p> pealar<\/p>\n<p>asperejar<\/p>\n<p> covejar<\/p>\n<p> gramar<\/p>\n<p> pererecar<\/p>\n<p>assuntar<\/p>\n<p> cutucar<\/p>\n<p> intijucar<\/p>\n<p> pescocear<\/p>\n<p>barrear<\/p>\n<p> desbarrancar<\/p>\n<p> inquisilar<\/p>\n<p> petecar<\/p>\n<p>bestar<\/p>\n<p> descabe&ccedil;ar<\/p>\n<p> imbirotar<\/p>\n<p> pinicar<\/p>\n<p>bobear<\/p>\n<p> descanhotar<\/p>\n<p> impa&ccedil;ocar<\/p>\n<p> piriricar<\/p>\n<p>bolear<\/p>\n<p> descangicar<\/p>\n<p> impipocar<\/p>\n<p> pitar<\/p>\n<p>bu&ccedil;alar<\/p>\n<p> descoivarar<\/p>\n<p> lerdear<\/p>\n<p> prosear<\/p>\n<p>capengar<\/p>\n<p> desguaritar<\/p>\n<p> mamparrear<\/p>\n<p> pururucar<\/p>\n<p>campear<\/p>\n<p> desmunhecar<\/p>\n<p> mantear<\/p>\n<p> sapecar<\/p>\n<p>capinar<\/p>\n<p> facerar<\/p>\n<p> miquear<\/p>\n<p> tapear<\/p>\n<p>catingar<\/p>\n<p> fachear<\/p>\n<p> mo&ccedil;ar<\/p>\n<p> trotear(18)<\/p>\n<p>cavortear<\/p>\n<p> festar<\/p>\n<p> molear<\/p>\n<h3>SUBSTANTIVOS<\/h3>\n<p>are&atilde;o<\/p>\n<p> buraqu&ecirc;ra<\/p>\n<p> caipirada<\/p>\n<p> corred&ecirc;ra<\/p>\n<p>bobage<\/p>\n<p> burrage<\/p>\n<p> caipirismo<\/p>\n<p> dada<\/p>\n<p>botina<\/p>\n<p> cabe&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p> caiporismo<\/p>\n<p> derrame<\/p>\n<p>barrigada<\/p>\n<p> carpa<\/p>\n<p> capina<\/p>\n<p> eguada<\/p>\n<p>best&ecirc;ra<\/p>\n<p> carpi&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p> capinzar<\/p>\n<p> ga&ugrave;chismo<\/p>\n<p>bodocada<\/p>\n<p> cavad&ecirc;ra<\/p>\n<p> capuer&atilde;o<\/p>\n<p> gentama<\/p>\n<p>boquera<\/p>\n<p> cabocrada<\/p>\n<p> chifrada<\/p>\n<p> gentarada<\/p>\n<p>bugr&ecirc;ro<\/p>\n<p> cai&ccedil;arada<\/p>\n<p> chifrad&ecirc;ra<\/p>\n<p> jabuticav&ecirc;ra<\/p>\n<p>lapiana<\/p>\n<p> mulequ&ecirc;ra<\/p>\n<p> rodada<\/p>\n<p> tijucada<\/p>\n<p>mo&ccedil;ada<\/p>\n<p> ossama<\/p>\n<p> rod&ecirc;ro<\/p>\n<p> tijuqu&ecirc;ra<\/p>\n<p>mo&ccedil;arada<\/p>\n<p> perov&ecirc;ra<\/p>\n<p> sapezar<\/p>\n<p> varri&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>micage<\/p>\n<p> piazada<\/p>\n<p> sitiante<\/p>\n<p> mulecada<\/p>\n<p> poetage<\/p>\n<p> soberbia<\/p>\n<p> mulecage<\/p>\n<p> porqu&ecirc;ra<\/p>\n<p> taquarar<\/p>\n<h3>ADJETIVOS <\/h3>\n<p>abobado<br \/>\n    espeloteado<br \/>\n    filante<br \/>\n    praciano<\/p>\n<p>abombado<br \/>\n    impacador<br \/>\n    franqu&ecirc;ro<br \/>\n    saberete<\/p>\n<p>atimboado<br \/>\n    impipocado<br \/>\n    mam&oacute;te<br \/>\n    supitoso<\/p>\n<p>bernento<br \/>\n    inred&ecirc;ro<br \/>\n    micag&ecirc;ro<\/p>\n<p>\n    catinguento<br \/>\n    fac&ecirc;ro<br \/>\n    passar&iacute;nh&ecirc;ro<\/p>\n<p>\n    catingudo<\/p>\n<p>peitudo<\/p>\n<p>23. S&atilde;o em menor n&uacute;mero as palavras formadas por composi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e estas, na maior parte, pela justaposi&ccedil;&atilde;o de elementos com<br \/>\n    a part&iacute;cula subordinante de:<\/p>\n<p>d&ocirc;r-d&#8217;-&oacute;io (olhos)<br \/>\n    fruita-de-lobo<\/p>\n<p>sangue-de-tatu<br \/>\n    &aacute;ua-de-a&ccedil;ucre (&aacute;gua de a&ccedil;&uacute;car)<\/p>\n<p>sangue-de-boi<br \/>\n    cord&atilde;o-de-frade<\/p>\n<p>rabo-de-tatu <br \/>\n    mer-de-pau (mel)<\/p>\n<p>arma-de-gato (alma) <br \/>\n    pedra-de-fogo.<\/p>\n<p>or&ecirc;ia-de-on&ccedil;a (orelha)<br \/>\n    baba-de-mo&ccedil;a<\/p>\n<p>pente-de-mico <br \/>\n    abobra-d&#8217;-&aacute;ua<\/p>\n<p>unha-de-gato <br \/>\n    c&ocirc;ro-de-arrasto (couro)<\/p>\n<p>l&iacute;ngua-de-vaca<br \/>\n    pau-de-espinho<\/p>\n<p>cachorro-do-mato<br \/>\n    barriga-de-&aacute;ua<\/p>\n<p>gato-do-mato <br \/>\n    tacuara-do-reino<\/p>\n<p>p&aacute;-de-muleque<br \/>\n    pimenta-do-reino<\/p>\n<p>&ocirc;io-de-cabra <br \/>\n    can&aacute;rio-do-reino<\/p>\n<p>barba-de-b&oacute;de<br \/>\n    quejo-do-reino<\/p>\n<p>\n    Por justaposi&ccedil;&atilde;o direta e por aglutina&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>quatro-pau(s)<br \/>\n    tatu-canastra<br \/>\n    quebra-cangaia<br \/>\n    arranha-gato<\/p>\n<p>cinco-nerva(s)<br \/>\n    m&eacute;de-l&eacute;ua(l&eacute;guas)<br \/>\n    mata-sete<br \/>\n    passa-treis<\/p>\n<p>mandioca-braba<br \/>\n    vira-mundo<br \/>\n    tira-prosa<br \/>\n    quatr&oacute;io(olhos)<\/p>\n<p>abobra-minina<br \/>\n    chora-minino<br \/>\n    tira-acisma<br \/>\n    minh&oacute;cussu<\/p>\n<p>\n    Por prefixa&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>entreparar descoivarar desaguaxado descoivarado<\/p>\n<p>e outros voc&aacute;bulos j&aacute; citados quando tratamos da deriva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>24. Muitas palavras h&aacute;, entre as portuguesas, que t&ecirc;m sofrido<br \/>\n    aqui mudan&ccedil;as mais ou menos profundas de sentido. Exemplos tomados<br \/>\n    entre os casos de mais pronunciada diferencia&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>ATORAR &#8211; partir &agrave; pressa, resolutamente; fugir.<br \/>\n    CANA &#8211; cana de a&ccedil;&uacute;car.<br \/>\n    CAIERA &#8211; grande fogueira festiva.<br \/>\n    CANDIERO &#8211; guia de carro de bois.<br \/>\n    CAPADO, subst. &#8211; porco castrado.<br \/>\n    DESMORALIZAR, v. trans. &#8211; fazer perder<br \/>\n    o entusiasmo, o brio.<br \/>\n    DESPOTISMO &#8211; enormidade. <br \/>\n    INTIMAR &#8211; ostentar. Da&iacute; intima&ccedil;&atilde;o e intimador.<br \/>\n    FAM&Iacute;LIA (famia) &#8211; no plural, filhos. <br \/>\n    FRUITA &#8211; jaboticaba (usada sem determina&ccedil;&atilde;o, tem este &uacute;nico<br \/>\n    sentido).<br \/>\n    FUMO &#8211; tabaco.<br \/>\n    FINTAR &#8211; faltar dolosamente a uma d&iacute;vida.<br \/>\n    IMUND&Iacute;CIA &#8211; ca&ccedil;a mi&uacute;da.<br \/>\n    LOJA &#8211; armaz&eacute;m de fazendas a retalho.<br \/>\n    MANGA&Ccedil;&Atilde;O &#8211; vadia&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    MANCAR &#8211; vadiar<br \/>\n    PI&Atilde;O &#8211; domador.<br \/>\n    PINGA &#8211; aguardente de cana.<br \/>\n    PILINTRA &#8211; casquilho.<br \/>\n    PATIFE &#8211; medroso; sens&iacute;vel.<br \/>\n    PAND&Oacute;RGA &#8211; desmazelado, moleir&atilde;o.<br \/>\n    PINHO &#8211; viola.<br \/>\n    RANCHO &#8211; cabana de campo.<br \/>\n    SCISMA &#8211; desconfian&ccedil;a; presun&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    S&Iacute;TIO &#8211; propriedade agr&iacute;cola menor que a fazenda.<br \/>\n    TABACO &#8211; rap&eacute;.<\/p>\n<p>25. Outras palavras, conservando o seu sentido, ou sentidos, t&ecirc;m adquirido<br \/>\n    novos: <\/p>\n<p>&Aacute;GUAS &#8211; dire&ccedil;&atilde;o das fibras da madeira.<br \/>\n    BABADO &#8211; folho de vestido de mulher. <br \/>\n    D&Ocirc;BRE &#8211; canto (de p&aacute;ssaro), repique (de sino). <br \/>\n    DOBRAR &#8211; cantar (o p&aacute;ssaro), repicar (o sino).<br \/>\n    ESTACA &#8211; cabide.<br \/>\n    LADR&Atilde;O &#8211; desvio de uma regueira ou a&ccedil;ude; broto de cafeeiro.<br \/>\n    SANGRAD&Ocirc;(URO) &#8211; ponto do pesco&ccedil;o do boi, ou outro animal, onde<br \/>\n    se embebe a faca ao mat&aacute;-lo.<br \/>\n    S&Aacute;IA &#8211; fronde que oculta o tronco desde o solo. <br \/>\n    VIRGEM &#8211; poste de moenda. <br \/>\n    SOLDADO &#8211; certo p&aacute;ssaro.<br \/>\n    TOMBAD&Ocirc;(URO) &#8211; lugar onde tombam as &aacute;guas de um salto.<br \/>\n    VAP&Ocirc;(R) &#8211; locomotiva<\/p>\n<p>III. &#8211; MORFOLOGIA<\/p>\n<p>FORMA&Ccedil;&Atilde;O DE VOC&Aacute;BULOS<\/p>\n<p>1. Como j&aacute; mostr&aacute;mos (&quot;Lexicologia&quot;, &quot;Forma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pr&oacute;prias&quot;) o dialeto tem dado provas de grande vitalidade, na<br \/>\n    forma&ccedil;&atilde;o de numerosos substantivos e adjetivos, quer por composi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quer por deriva&ccedil;&atilde;o. De ambos os processos fornecemos muitos<br \/>\n    exemplos.<\/p>\n<p>Registamos agora, aqui, um curios&iacute;ssimo processo de reduplica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    verbal, corrente n&atilde;o s&oacute; entre os caipiras de S. Paulo, mas em<br \/>\n    todo o pa&iacute;s, ou grande parte dele.<\/p>\n<p>Para exprimir a&ccedil;&atilde;o muito repetida, usa-se uma per&iacute;frase<br \/>\n    formada com o auxiliar vir, ir, estar, andar, seguido de infinitivo e ger&uacute;ndio<br \/>\n    de outro verbo. Assim: vinha pul&aacute;(r)-pulando, ia ca&iacute;(r)-caindo,<br \/>\n    estava ou andava chor&aacute;(r)-chorando.<\/p>\n<p>A explica&ccedil;&atilde;o deste fen&ocirc;meno alguns t&ecirc;m querido<br \/>\n    ir busc&aacute;-la ao tupi, &quot;refugium&quot; de tantos que se cansam a<br \/>\n    procurar as raz&otilde;es de fatos obscuros e complicados da linguagem nacional.<br \/>\n    N&atilde;o nos parece que seja preciso apelar para as tend&ecirc;ncias reduplicativas<br \/>\n    daquela l&iacute;ngua, em primeiro lugar porque. essas tend&ecirc;ncias s&atilde;o<br \/>\n    universais; em segundo lugar, porque se trata de palavras bem portuguesas,<br \/>\n    ainda que combinadas de maneira um tanto estranha; em terceiro lugar, porque<br \/>\n    h&aacute; na nossa pr&oacute;pria l&iacute;ngua elementos para uma explica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    t&atilde;o boa ou melhor do que a indi&aacute;tica.<\/p>\n<p>&Eacute; sabido que, no tempo dos autores quinhentistas, o uso do ger&uacute;ndio<br \/>\n    nas per&iacute;frases (como anda cantando), era muito mais vulgar do que hoje.<br \/>\n    Atualmente, em Portugal, o povo prefere, quase sempre, a constru&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com infinitivo (anda a cantar). Assim, a concorr&ecirc;ncia decisiva entre<br \/>\n    os dois processos se pronunciou justamente ap&oacute;s a descoberta do Brasil.<br \/>\n    A particularidade em quest&atilde;o &eacute; talvez legado genu&iacute;no<br \/>\n    dessa &eacute;poca de luta, no qual se re&uacute;nem a modalidade mais freq&uuml;ente<br \/>\n    outrora, importada pelos primeiros povoadores, e aquela que depois veio a<br \/>\n    predominar. O nosso povo, &#8211; inculto, em grande parte produto de mesti&ccedil;agem<br \/>\n    recente, aprendendo a custo o mecanismo da l&iacute;ngua, &#8211; diante dos dois<br \/>\n    processos concorrentes, n&atilde;o atinou, de certo, com as raz&otilde;es<br \/>\n    por que se preferia ora um, ora outro, e acabou por combin&aacute;-los. Depois,<br \/>\n    como um efeito, &#8211; que n&atilde;o como causa da reduplica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    &#8211; os verbos assim combinados sofreram uma pequena evolu&ccedil;&atilde;o sematol&oacute;gica<br \/>\n    no sentido da intensifica&ccedil;&atilde;o do seu valor iterativo. Assim,<br \/>\n    temos, em esquema:<\/p>\n<p>\n    a virar<\/p>\n<p>\n    Port. &#8211; Vinha<br \/>\n    a vir&aacute;(r)<\/p>\n<p>ou<br \/>\n    (a) vir&aacute;(r) virando<\/p>\n<p>Dial. &#8211; Vinha<br \/>\n    virando<\/p>\n<p>virando<\/p>\n<p>Corrobora esta hip&oacute;tese o fato de que o nosso caipira, usando a todo<br \/>\n    o momento de per&iacute;frases com ger&uacute;ndio de acordo com a velha l&iacute;ngua,<br \/>\n    s&oacute; muit&iacute;ssimo raramente empregar&aacute;, isolada, a forma popular<br \/>\n    portuguesa de hoje, &#8211; infinitivo com prep. Isto confirma que esta forma lhe<br \/>\n    ter&aacute; causado estranheza desde cedo, originando-se da&iacute; a confus&atilde;o.<br \/>\n    (19)<\/p>\n<p>2. V&aacute;rias forma&ccedil;&otilde;es teratol&oacute;gicas j&aacute; foram<br \/>\n    apontadas e ainda o ser&atilde;o adiante, neste cap&iacute;tulo (Flex&otilde;es<br \/>\n    de n&uacute;mero). Queremos, aqui, deixar apenas registrados os seguintes<br \/>\n    processos de que ainda n&atilde;o tratamos:<\/p>\n<p>a) A ETIMOLOGIA POPULAR tem sido fonte de numerosas formas vocabulares novas:<br \/>\n    de &quot;guap&ecirc;&quot;, voc. de origem tupi, fez-se aguap&eacute;, por<br \/>\n    se ver nele um composto de &aacute;gua e p&eacute;; de &quot;caa-puan&quot;,<br \/>\n    mato redondo, ilha de mato, fez-se cap&atilde;o; de &quot;caa-puan-era&quot;,<br \/>\n    capoeira; de cobr&ecirc;lo, cobreiro (cobra suf. eiro); de torr&atilde;o,<br \/>\n    terr&atilde;o, etc.<\/p>\n<p>b) Tamb&eacute;m a DERIVA&Ccedil;&Atilde;O REGRESSIVA d&aacute; origem a<br \/>\n    outros termos: assim, de paix&atilde;o, se fez paixa, por se tomar aquela<br \/>\n    forma como um aumentativo; de satisfa&ccedil;&atilde;o, por id&ecirc;ntico<br \/>\n    motivo, se tirou sastifa, com hip&eacute;rtese de s.<\/p>\n<p>G&Ecirc;NERO<\/p>\n<p>3. O adjetivo e o partic&iacute;pio passado deixam, freq&uuml;entemente,<br \/>\n    de sofrer a flex&atilde;o gen&eacute;rica, sobretudo se n&atilde;o aparecem<br \/>\n    cont&iacute;guos aos substantivos: essas coisarada bunito, as crian&ccedil;a<br \/>\n    t&aacute;vum qu&eacute;to, as cria&ccedil;&atilde;o ficarum pestiado.<\/p>\n<p>N&Uacute;MERO<\/p>\n<p>4. J&aacute; dissemos algo sobre o som de s-z no final dos voc&aacute;bs.<br \/>\n    (I, 24). Vamos resumir agora tudo o que se d&aacute; com esse som em tal situa&ccedil;&atilde;o.\n  <\/p>\n<p>Se bem que se trate aqui de flex&otilde;es, &eacute; imposs&iacute;vel separar<br \/>\n    o que se passa com o s final, tomado como sinal de pluralidade, do que sucede<br \/>\n    com ele em outras circunst&acirc;ncias; e dific&iacute;limo se torna reconhecer,<br \/>\n    em tais fatos, at&eacute; aonde v&atilde;o e onde cessam a a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    puramente fisiol&oacute;gica, do dom&iacute;nio da fon&eacute;tica, e a a&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    anal&oacute;gica, do dom&iacute;nio das formas gramaticais. Porisso faremos<br \/>\n    aqui uma exposi&ccedil;&atilde;o geral dos fatos relativos ao s final:<\/p>\n<p>a) Nos VOC&Aacute;BULOS &Aacute;TONOS, conserva-se: os, as, nos (contra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e pronome), nas. Ali&aacute;s, h&aacute; pronunciada tend&ecirc;ncia para<br \/>\n    tornar t&ocirc;nicos esses voc&aacute;bulos; pela ditonga&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    ois, ais, etc. A conjun&ccedil;&atilde;o mas tornou-se mais.<\/p>\n<p>b) Nos OX&Iacute;TONOS, conserva-se, &#8211; salvo quando mero sinal de pluralidade:<br \/>\n    cr&uacute;iz, retr&oacute;is, n&oacute;is (n&oacute;s), nuz (n&oacute;z),<br \/>\n    juiz, ingr&ecirc;is, v&ecirc;iz, (vez), dois, tr&ecirc;is, d&eacute;iz, f&aacute;iz,<br \/>\n    fiz, diz, p&aacute;iz (paz), pois.<\/p>\n<p>Como sinal de pluralidade, desaparece: os pau, os n&oacute;, os erm&atilde;o,<br \/>\n    os pap&eacute;, as fr&ocirc;(r), os urub&uacute;. Excetuam-se os determinativos<br \/>\n    uns, arguns, seus, meus (sendo que estes dois &uacute;ltimos, quando isolados,<br \/>\n    perdem o s: estes carru s&atilde;o seu&#8217;, esses n&atilde;o s&atilde;o os meu&#8217;).<br \/>\n    H&aacute; hesita&ccedil;&atilde;o em alguns voc&aacute;bulos, como p&eacute;is<br \/>\n    ao lado de p&eacute;&#8217;. R&eacute;is conserva-se, por se ter perdido a no&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de pluralidade (isto n&atilde;o vale nem um r&eacute;is) ; semelhantemente,<br \/>\n    pasteis, pern&iacute;s, c&oacute;is.<\/p>\n<p>c) Nos voc&aacute;bulos PARO e PROPAROX&Iacute;TONOS, desaparece: um arf&eacute;re,<br \/>\n    os arf&eacute;re; o pire, os pire; dois home; os cavalo, os l&aacute;tico;<br \/>\n    n&oacute;is fiz&eacute;mo, vamo, sa&iacute;mo.<\/p>\n<p>Quando o s pluralizador vem precedido de vogal a que se apoia, desaparece<br \/>\n    tamb&eacute;m esta: os ingr&ecirc;is (ingleses), as p&aacute;iz (pazes), &agrave;s<br \/>\n    v&ecirc;iz (vezes), as c&ocirc;r (cores).<\/p>\n<p>Excetuam-se os determinativos, que conservam o s: u&quot;as, argu&quot;as,<br \/>\n    certos, muitos, estes, duas, suas, minhas, etc. assim como o pronome eles,<br \/>\n    elas. Quando pronominados, por&eacute;m, os determinativos podem perder o<br \/>\n    s: Estas carta n&atilde;o s&atilde;o as minha.<\/p>\n<p>5. De acordo com as regras acima, &#8211; e abstraindo-se das flex&otilde;es verbais,<br \/>\n    &#8211; a pluralidade dos nomes &eacute; indicada, geralmente, pelos determinativos:<br \/>\n    os rei, duas dama, certas hora, u&quot;as fruita, aqueles minino, minhas erm&aacute;,<br \/>\n    suas pranta.<\/p>\n<p>6. O qualificativo foge, como o subst., &agrave; forma pluralizadora: os<br \/>\n    rei mago, duas casa vendida, u&quot;as fruita verde, as crian&ccedil;a t&aacute;vum<br \/>\n    queto. Abrem excep&ccedil;&atilde;o apenas algumas constru&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    quase sempre express&otilde;es ossificadas, em que h&aacute; anteposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do adjet.: boas hora, boas tarde.<\/p>\n<p>7. Esta repugn&acirc;ncia pela flex&atilde;o pluralizadora d&aacute; lugar<br \/>\n    a casos curiosos. A frase exclamativa &quot;h&aacute; que anos!&quot;, equivalente<br \/>\n    a &quot;h&aacute; quantos anos!&quot;, sofreu esta tor&ccedil;&atilde;o violenta:<br \/>\n    h&aacute; que zano! (ou simplesmente que zano!) Ouve-se freq&uuml;entemente<br \/>\n    bamozimbora. N&atilde;o se deve interpretar como bamos+embora, mas como bamo+zimbora,<br \/>\n    pois o som de z, resultante originariamente da liga&ccedil;&atilde;o de vamos<br \/>\n    com embora, passou a ser entendido pelo caipira como parte integrante da segunda<br \/>\n    palavra; tanto assim que diz: n&oacute;is bamo, e diz: &ecirc;le foi zimbora.<br \/>\n    Pr&oacute;tese semelhante se d&aacute; em z&oacute;io (olhos), zarreio (arreios),<br \/>\n    com o s do art. def. plur. &#8211; Outro caso curioso &eacute; o que se d&aacute;<br \/>\n    com a express&atilde;o portuguesa uns pares deles, ou delas, que o nosso caipira<br \/>\n    alterou para uns par dele e u&quot;as par dela. A frase &#8211; Vai-me buscar uns<br \/>\n    pares deles, ou delas, assim se traduzir&aacute; em dialeto: Vai-me busc&aacute;<br \/>\n    uns par-dele, ou u&quot;as par-dela, como se par-dele e par-dela fossem as<br \/>\n    formas do masculino e do feminino de um simples substant. coletivo.<\/p>\n<p>GRADA&Ccedil;&Atilde;O<\/p>\n<p>8. As flex&otilde;es de grau subordinam-se &agrave;s regras gerais da l&iacute;ngua.<br \/>\n    Apenas algumas observa&ccedil;&otilde;es:<\/p>\n<p>a) QUANTIDADE &#8211; O aumentativo e o diminutivo t&ecirc;m constante emprego,<br \/>\n    sendo que as flex&otilde;es vivas quase se limitam a &atilde;o ona para o<br \/>\n    primeiro, inho inha, ico ica para o segundo.<\/p>\n<p>Nos nomes pr&oacute;prios de uso mais generalizado, h&aacute; grande n&uacute;mero<br \/>\n    de formas consagradas: Pedr&atilde;o, Pedr&oacute;ca, Z&eacute;, Zezico, Z&eacute;ca,<br \/>\n    Z&ecirc;quinha, Juca, Juquinha, Jica, J&eacute;ca (Jos&eacute;); Quim, Quinzinho,<br \/>\n    Quinz&oacute;te (Joaquim); Joanico, Janj&atilde;o, Zico, (Jo&atilde;o); Tot&aacute;,<br \/>\n    Totico, Tonico (Ant&ocirc;nio) Mand&aacute;, Manduca, Maneco, Man&eacute;,<br \/>\n    Man&eacute;c&atilde;o, Man&eacute;quinho (Manuel); Carola (Carolina); Manca,<br \/>\n    Maric&oacute;ta, Mariquinha, Mariquita, Maruca, Mar&oacute;ca (Maria); Colaca,<br \/>\n    Colaquinha (Escol&aacute;stica); Anica, Aninha (Ana) ; Tuca, Tuda, Tudinha,<br \/>\n    Tudica (Gertrudes).<\/p>\n<p>O emprego do aumentat. e do dimin. estende-se largamente aos adjetivos e<br \/>\n    aos pr&oacute;prios adv&eacute;rbios: longinho, pertinho, assimzinho, ag&oacute;rinha.<br \/>\n    Acompanham estas &uacute;ltimas formas particularidades muito especiais de<br \/>\n    sentido: longinho equivale a &quot;um pouco longe&quot;; pertinho, a &quot;bem<br \/>\n    perto, muito perto&quot;; assinzinho, a &quot;deste pequeno porte, deste pequeno<br \/>\n    tamanho&quot;; agorinha, a &quot;neste mesmo instante&quot;, &quot;h&aacute;<br \/>\n    muito pouco&quot;, &quot;j&aacute;, daqui a nada&quot;.<\/p>\n<p>Dir-se-ia existir qualquer &quot;simpatia&quot; psicol&oacute;gica entre<br \/>\n    a flex&atilde;o diminutiva e a id&eacute;ia adverbial. S&atilde;o express&otilde;es<br \/>\n    correntes: fal&aacute; baxinho, par&ocirc; um bocadinho, andava deste jeitinho,<br \/>\n    v&ocirc; l&aacute; num instantinho, fal&ocirc; direitinho, ia devagarinho,<br \/>\n    fartava no s&iacute;rvi&ccedil;o cada passinho, etc.<\/p>\n<p>b) COMPARA&Ccedil;&Atilde;O &#8211; As formas sint&eacute;ticas s&atilde;o freq&uuml;entemente<br \/>\n    substitu&iacute;das pelas anal&iacute;ticas: mais grande, mais piqueno, mais<br \/>\n    b&atilde;o, mais r&uacute;m e at&eacute; mais mio, mais pi&oacute;.<\/p>\n<p>c) SUPERLATIVIDADE &#8211; Quase inteiramente limitada &agrave;s formas anal&iacute;ticas.<\/p>\n<p>FLEX&Otilde;ES VERBAIS<\/p>\n<p>9. PESSOA &#8211; S&oacute; se empregam correntemente as formas da 1.&ordf; e 3.&ordf;<br \/>\n    pessoas. A 2.&ordf; pessoa do sing., embora usada &agrave;s vezes, por &ecirc;nfase,<br \/>\n    assimila-se &agrave;s formas da 3.&ordf;: Tu num cala essa b&ocirc;ca? Tu<br \/>\n    vai? A 2.&ordf; do plur. aparece de quando em quando com suas formas pr&oacute;prias,<br \/>\n    no imperativo: oiai, cumei.<\/p>\n<p>10. N&Uacute;MERO &#8211; O plural da 1.&ordf; pessoa perde o s: bamo, f&ocirc;mo,<br \/>\n    faz&ecirc;mo. Quando esdr&uacute;xula, a forma se identifica com a do sing.:<br \/>\n    n&oacute;is ia, fosse, andava, andasse, andaria, fazia, fizesse, fazeria.<br \/>\n    Nas formas do preter. perf. do indic. dos verbos em ar, a t&ocirc;nica muda-se<br \/>\n    em e: trabai&ecirc;mo &#8211; trabalhamos, caminh&ecirc;mo = caminhamos.<\/p>\n<p>O plural da 3.&ordf; modifica-se: qu&eacute;rim, quir&iacute;um, quiz&eacute;rum,<br \/>\n    qu&ecirc;irum; &aacute;ndum, and&aacute;vum, and&aacute;rum, &aacute;ndim.<br \/>\n    No pres. do indic. de p&ocirc;r, ter, vir, as formas da 3.&ordf; pessoa s&atilde;o:<br \/>\n    ponham, tenham, venham.<\/p>\n<p>11. MODOS E TEMPOS &#8211; 0 fut. imperf. do indic. exprime-se com as formas do<br \/>\n    presente: eu v&ocirc;, n&oacute;is faz&ecirc;mo, ele manda, por &quot;eu irei&quot;,<br \/>\n    &quot;n&oacute;s faremos&quot;, &quot;ele mandar&aacute;&quot;. Entretanto,<br \/>\n    dubitativamente, empregam-se as formas pr&oacute;prias, &agrave;s vezes modificadas:<br \/>\n    Fazer&ecirc;mo? &#8211; Fazer&aacute;? &#8211; N&atilde;o sei se fazerei &#8211; Quem s&aacute;&#8217;<br \/>\n    se fazer&atilde;o! Ser&aacute; verdade? Sei l&aacute; se irei!<\/p>\n<p>12. Com o condicional se d&aacute; coisa parecida. Correntemente, &eacute;<br \/>\n    expresso pelas formas do imperf. do indic.: eu dizia, ele era cap&aacute;iz;<br \/>\n    mas: Dizeria? &#8211; N&atilde;o sei se poderia &#8211; Seria verdade?<\/p>\n<p>13. Aparecem n&atilde;o raro formas pr&oacute;prias do imperativo, do sing.<br \/>\n    e do plur., &#8211; anda, puxa, vai, andai, correi, trabaiai; s&atilde;o, por&eacute;m,<br \/>\n    detritos sem vitalidade, que se empregam sem consci&ecirc;ncia do seu papel<br \/>\n    morfol&oacute;gico, de mistura com as formas da 3.&ordf; pessoa, &uacute;nicas<br \/>\n    vivas e correntes.<\/p>\n<p>PRONOMES<\/p>\n<p>14. Tu tem emprego puramente enf&aacute;tico, ligando-se a formas verbais<br \/>\n    da 3.&ordf; pessoa: tu bem sabia, tu vai, tu disse, V&oacute;is (v&oacute;s)<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o se ouve, sen&atilde;o, talvez, excepcionalmente.<\/p>\n<p>15. Os casos obl&iacute;quos nos, vos t&ecirc;m emprego muito restrito: na<br \/>\n    maior parte das vezes preferem-se-lhes as formas anal&iacute;ticas pra n&oacute;is,<br \/>\n    pra voc&ecirc;. Vos j&aacute; n&atilde;o corresponde a V&oacute;s, mas a vac&ecirc;:<br \/>\n    &#8211; v. j&aacute; deve de sab&ecirc;, porque eu vos disse muntas v&ecirc;is.<\/p>\n<p>16. Outras formas pronominais: a gente, u&quot;a pessoa (ambas correspondentes<br \/>\n    ao franc&ecirc;s on) ; voc&ecirc; e suas variantes, todas muito usadas, vac&ecirc;,<br \/>\n    Vanc&ecirc;, vossunc&ecirc;, vassunc&ecirc;, mec&ecirc;, oc&ecirc;.<\/p>\n<p>17. Um fato que merece men&ccedil;&atilde;o, apesar de pertencer mais ao<br \/>\n    linguajar dos pretos bo&ccedil;ais do que propriamente ao dialeto caipira:<br \/>\n    a invariabilidade gen&eacute;rica do pronome ele, junta &agrave; invariabilidade<br \/>\n    numeral. Quando se trata de indicar pluralidade, o pronome ele se posp&otilde;e<br \/>\n    ao artigo def. os, e tanto pode referir-se ao g&ecirc;nero masculino, como<br \/>\n    ao feminino: os&ecirc;le, z&ecirc;le f&oacute;ro zimbora &#8211; eles (ou elas)<br \/>\n    foram-se embora.<\/p>\n<p>IV. &#8211; SINTAXE<\/p>\n<p>1. A complexidade dos fen&ocirc;menos sint&aacute;ticos, ainda pouco estudados<br \/>\n    no dialeto, &#8211; apenas enumerados &agrave;s vezes, &#8211; n&atilde;o permite por<br \/>\n    ora sequer tentativas de sistematiza&ccedil;&atilde;o. S&oacute; depois de<br \/>\n    acumulado muito material e depois de este bem verificado e bem apurado &eacute;<br \/>\n    que se poder&atilde;o ir procurando as linhas gerais da evolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    realizada, e tentando dividi-lo em classes.<\/p>\n<p>O material que conseguimos reunir &eacute; pouco, e ainda n&atilde;o estar&aacute;<br \/>\n    livre de incertezas e d&uacute;vidas; mas foi colhido da pr&oacute;pria realidade<br \/>\n    viva do dialeto, e t&atilde;o conscienciosamente como o mais que vai exposto<br \/>\n    nas outras partes deste trabalho.<\/p>\n<p>FATOS RELATIVOS AO SUJEITO<\/p>\n<p>2. H&aacute; no dialeto urna maneira de indicar o sujeito vagamente determinado,<br \/>\n    isto &eacute;, um indiv&iacute;duo qualquer de uma classe ou indiv&iacute;duos<br \/>\n    quaisquer de uma classe. Exprime-se por um substantivo no singular sem artigo:<br \/>\n    Cavalo tava rinchando &#8211; Macaco assubi&ocirc; no pau &#8211; Mamono t&aacute; rebentano<br \/>\n    (Um cavalo estava a rinchar, rinchava &#8211; Um macaco assoviou, macacos assoviaram<br \/>\n    no pau &#8211; O mamono est&aacute;, os mamonos est&atilde;o rebentando).<\/p>\n<p>3. Conv&eacute;m acrescentar, por&eacute;m, que a supress&atilde;o. do art.<br \/>\n    def. antes do sujeito, mesmo determinado, n&atilde;o &eacute; rara: Patr&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o trabaia hoje -Pai qu&eacute; que eu v&aacute; &#8211; Chuva t&aacute;<br \/>\n    ca&iacute;no.<\/p>\n<p>4. Quando o sujeito &eacute; algum dos coletivos gente, fam&iacute;lia, etc.,<br \/>\n    o verbo aparece freq&uuml;entemente no plural: Aquela gente s&atilde;o muito<br \/>\n    b&atilde;o(s) &#8211; A tar fam&iacute;a s&atilde;o levado da breca &#8211; A cabocrada<br \/>\n    t&atilde;o fazeno festa.<\/p>\n<p>Encontra-se esta particularidade, igualmente, no falar do povo portugu&ecirc;s,<br \/>\n    e vem de longe, como provam numerosos exemplos liter&aacute;rios. Um de Cam&otilde;es<br \/>\n    (Lus., I, 38):<\/p>\n<p>Se esta gente que busca outro hemisf&eacute;rio, <br \/>\n    Cuja valia e obras tanto amaste, <br \/>\n    N&atilde;o queres que pade&ccedil;am vitup&eacute;rio.<\/p>\n<p>Outro, de Duarte N. (&quot;Orig.&quot;, cap. 2.&ordm;):<\/p>\n<p>&#8230;com hu&quot;a gente de Hespanha chamados indigetes&#8230;<\/p>\n<p>5. As cl&aacute;usulas infinitivas dependentes de para t&ecirc;m por sujeito<br \/>\n    o pronome obl&iacute;quo mim, nos casos em que o sujeito deveria ser eu: &Ecirc;le<br \/>\n    tr&ocirc;xe u&quot;as fruita pra mim cum&ecirc;(r).<\/p>\n<p>Este, como muitos outros, como quase todos os fatos da sintaxe caipira e<br \/>\n    popular de S. Paulo, repete-se nas outras regi&otilde;es do pa&iacute;s. Um<br \/>\n    exemplo dos &quot;Cantos populares&quot; de S. Romero:<\/p>\n<p>Ora toque, seu Quindim.<br \/>\n    Para mim dansar.<\/p>\n<p>PRONOME<\/p>\n<p>6. O pronome ele ela pode ser objeto direto: Peguei ele, enxerguei elas.<\/p>\n<p>Este fato &eacute; um dos mais generalizados pelas diversas regi&otilde;es<br \/>\n    do pa&iacute;s. Dele se encontram alguns exemplos em antigos documentos da<br \/>\n    l&iacute;ngua; mas &eacute; claro que o brasileirismo se produziu independentemente<br \/>\n    de qualquer rela&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica com o fen&ocirc;meno que<br \/>\n    se verificou, sem continuidade, no per&iacute;odo ante-cl&aacute;ssico do<br \/>\n    portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p>7. O pronome obl&iacute;quo o a perdeu toda a vitalidade, aparecendo quase<br \/>\n    unicamente encravado em frases ossificadas: Que o lambeu! etc.<\/p>\n<p>8. Sobre as formas nos e vos, ver o que ficou dito na &quot;Morfologia&quot;.<\/p>\n<p>9. De lhe s&oacute; usam os caipiras referido &agrave; pess&oacute;a com<br \/>\n    quem se fala. Assim, dizem eles, dirigindo-se a algu&eacute;m: &#8211; Eu j&aacute;<br \/>\n    le falei, fulano me afian&ccedil;o que le escrevia, i. &eacute;, &quot;eu<br \/>\n    j&aacute; lhe falei&quot; (ao senhor, a voc&ecirc;), &quot;fulano me assegurou<br \/>\n    que lhe escrevia&quot; (a voc&ecirc;, ao senhor).<\/p>\n<p>Pode dizer-se, pois, que o pronome lhe, conservando a sua fun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de pronome. da &quot;terceira&quot; pessoa gramatical, s&oacute; se refere,<br \/>\n    de fato, &agrave; &quot;segunda&quot; pessoa real.<\/p>\n<p>Aludindo a um terceiro indiv&iacute;duo, o caipira dir&aacute;: Eu j&aacute;<br \/>\n    decrarei pr&#8217;a ele, fulano me garantiu que escreveu pr&#8217;a ele.<\/p>\n<p>10. J. Mor. (1.&ordm; vol), tratando do emprego de formas pronominais nominativas<br \/>\n    como complemento seguido de prep. (no aragon&ecirc;s, proven&ccedil;al, valenciano,<br \/>\n    etc.), diz:<\/p>\n<p>De constru&ccedil;&atilde;o semelhante encontram-se exemplos nos &quot;Cantos<br \/>\n    populares do Brasil&quot;, interessante publica&ccedil;&atilde;o do sr. S&iacute;lvio<br \/>\n    Romero:<\/p>\n<p>Yay&aacute; d&aacute;-me um doce,<br \/>\n    Quem pede sou eu;<br \/>\n    Yay&aacute; n&atilde;o me d&aacute;,<br \/>\n    N&atilde;o quer bem a eu.<\/p>\n<p>&Eacute; poss&iacute;vel que no Norte elo pa&iacute;s se encontre essa constru&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Em S. Paulo o caipira diz: N&atilde;o qu&eacute; bem eu, sem prep., ou n&atilde;o<br \/>\n    me qu&eacute; bem eu. Ali&aacute;s, isto &eacute; fato isolado. A regra, quando<br \/>\n    se trata da primeira pessoa, e usar dos casos obl&iacute;quos: N&atilde;o<br \/>\n    me qu&eacute;, n&atilde;o me obedece, n&atilde;o me visit&ocirc;.<\/p>\n<p>CONJUGA&Ccedil;&Atilde;O PERIFR&Aacute;STICA<\/p>\n<p>11. Na conjuga&ccedil;&atilde;o per&iacute;fr&aacute;stica o ger&uacute;ndio<br \/>\n    &eacute; sempre preferido ao infinitivo precedido de preposi&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    vulgar em Portugal e at&eacute; de rigor entre o povo daquele pa&iacute;s.<br \/>\n    (J. Mor., cap.. XX, 1.&ordm; vol.). Aqui se diz, invariavelmente: &#8211; Anda viajando<br \/>\n    &#8211; Ia caindo, est&atilde;o florescendo, ao passo que, em Portugal, especialmente<br \/>\n    entre o povo, se diz em tais casos: &quot;estou a estudar&quot;, &quot;anda<br \/>\n    a viajar&quot;, &quot;ia a cair&quot; ou para cair&quot;, etc.<\/p>\n<p>O nosso uso &eacute; o mesmo dos quinhentistas e seiscentistas, dos quais<br \/>\n    se poderia citar copios&iacute;ssima exemplifica&ccedil;&atilde;o. Escrevia<br \/>\n    frei Lu&iacute;s de Sousa na &quot;Vida de Dom Frei Bartolomeu&quot;, de perfeito<br \/>\n    acordo com a nossa atual maneira:<\/p>\n<p>&quot;&#8230; ia fazendo mat&eacute;ria de tudo quanto via no campo e na serra<br \/>\n    para louvar a Deos; offereceu-se-lhe &aacute; vista n&atilde;o longe do caminho&#8230;<br \/>\n    um menino pobre, e bem mal reparado de roupa, que vigiava umas ovelhinhas<br \/>\n    que ao longe andavam pastando.<\/p>\n<p>12. A a&ccedil;&atilde;o reiterada, cont&iacute;nua, insistente, &eacute;<br \/>\n    expressa por uma forma curios&iacute;ssima: Fulano anda corr&ecirc;-corr&ecirc;no<br \/>\n    p&#8217;ras ruas sem o qu&ecirc; faz&ecirc; &#8211; A povre da nha Tuda v&eacute;ve s&oacute;<br \/>\n    chor&aacute;-chorano despois que perdeu o marido (V. &quot;Morf.&quot;, 1).<\/p>\n<p>TER E HAVER<\/p>\n<p>13. O verbo ter usa-se impessoalmente em vez de haver, quando o complemento<br \/>\n    n&atilde;o encerra no&ccedil;&atilde;o de tempo: Tinha munta gente na eigreja<br \/>\n    &#8211; Tem home que n&atilde;o gosta de ca&ccedil;ada &#8211; Naqu&ecirc;le barranco<br \/>\n    tem pedra de fogo.<\/p>\n<p>14. Quando o complemento &eacute; tempo, ano, semana, emprega-se &agrave;s<br \/>\n    vezes haver, por&eacute;m, mais geralmente, fazer: J&aacute; f&aacute;iz mais<br \/>\n    de ano que eu n&atilde;o vos vejo &#8211; Estive na sua casa f&aacute;iz quinze<br \/>\n    dia.<\/p>\n<p>15. Haver &eacute; limitado a certas e raras constru&ccedil;&otilde;es: H&aacute;<br \/>\n    que tempo! &#8211; H&aacute; quanto tempo foi isso? &#8211; Num hai quem num saiba. Nessas<br \/>\n    constru&ccedil;&otilde;es, o verbo como que se anquilosou, perdendo sua vitalidade.<\/p>\n<p>Restringimo-nos, entretanto, neste como em outros pontos, a indicar apenas<br \/>\n    o fato, sem o precisar completamente, por falta de suficientes elementos de<br \/>\n    observa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Vem a prop&oacute;sito referir que a forma hai, contra&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    ditonga&ccedil;&atilde;o de h&aacute; a&iacute; (por &quot;h&aacute; i&quot;,<br \/>\n    que se encontra em muitos documentos antigos. da l&iacute;ngua) s&oacute;<br \/>\n    &eacute; empregada, que saibamos, nestas condi&ccedil;&otilde;es:<\/p>\n<p>&#8211; quando precede ao verbo o adv&eacute;rbio n&atilde;o, como no exemplo dado<br \/>\n    acima;<\/p>\n<p>&#8211; quando o verbo termina a proposi&ccedil;&atilde;o: &Eacute; tudo quanto<br \/>\n    hai &#8211; V&ocirc; v&ecirc; se inda hai.<\/p>\n<p>&quot;CHAMAR DE&quot;<\/p>\n<p>16. O verbo chamar, na acep&ccedil;&atilde;o de &quot;qualificar&quot;, emprega-se<br \/>\n    invariavelmente com de: Me cham&ocirc; de r&uacute;in &#8211; Le chamava de ladr&atilde;o.<\/p>\n<p>O verbo chamar (diz, referindo-se a Portugal, J. Mor., cap. XXVIII, 1.&ordf;<br \/>\n    volume) n&atilde;o se usa hoje com tal constru&ccedil;&atilde;o nem na linguagem<br \/>\n    popular nem na liter&aacute;ria. mas teve-a em outro tempo, do que se encontram<br \/>\n    exemplos, como no seguinte passo de Gil Vicente, vol. II, p. 435:<\/p>\n<p>Se casasses com p&agrave;&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Que grande gra&ccedil;a seria<br \/>\n    E minha consola&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Que te chame de ratinha<br \/>\n    Tinhosa cada meia hora<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p>ORA&Ccedil;&Otilde;ES RELATIVAS<\/p>\n<p>17. Nas ora&ccedil;&otilde;es relativas n&atilde;o se emprega sen&atilde;o<br \/>\n    que. Nos casos que, em bom portugu&ecirc;s, reclamam este pronome precedido<br \/>\n    de preposi&ccedil;&atilde;o, o caipira desloca a part&iacute;cula, empregando-a<br \/>\n    no fim da frase com um pronome pessoal. Exemplos:<\/p>\n<p>A casa em que eu morei &#8230;&#8230;&#8230; A casa&#8230; que eu morei nela<\/p>\n<p>O livro de que falei &#8230;&#8230;&#8230;. O livro&#8230; que eu falei dele.<\/p>\n<p>A roupa com que viajava &#8230;&#8230;&#8230; A r&ocirc;pa&#8230; que viajava cum ela.<\/p>\n<p>18. Freq&uuml;entemente se suprimem de todo a preposi&ccedil;&atilde;o e<br \/>\n    o pronome pessoal, e diz-se: a casa que eu morei, o livro que eu falei, ficando<br \/>\n    assim a rela&ccedil;&atilde;o apenas subentendida.<\/p>\n<p>19. Os relativos o qual, quem e cujo s&atilde;o, em virtude do processo acima,<br \/>\n    reduzidos todos a que:<\/p>\n<p>O cavalo com o qual me viram aquele dia.<\/p>\n<p>O cavalo que me virum cum &ecirc;le aqu&ecirc;le dia.<\/p>\n<p>A pessoa de quem se falava<\/p>\n<p>A pessoa que se falava dela<\/p>\n<p>O homem cujas terras comprei<\/p>\n<p>O home que eu comprei as terra dele.<\/p>\n<p>\n    Em Portugal observa-se entre o povo id&ecirc;ntico fen&ocirc;meno, isto &eacute;,<br \/>\n    essa tend&ecirc;ncia para a simplifica&ccedil;&atilde;o das f&oacute;rmulas<br \/>\n    das ora&ccedil;&otilde;es relativas. L&aacute;, por&eacute;m, tais casos s&atilde;o<br \/>\n    apenas freq&uuml;entes, e aqui constituem regra absoluta entre os que s&oacute;<br \/>\n    se exprimem em dialeto, &#8211; regra a que se submetem, sem o querer, at&eacute;<br \/>\n    pessoas educadas, quando falam despreocupadamente.<\/p>\n<p>20. Outra observa&ccedil;&atilde;o: l&aacute;, o relativo quem precedido<br \/>\n    de a se resolve em lhe, e aqui s&oacute; se substitui por pra ele. Assim a<br \/>\n    frase &#8211; &quot;o menino a quem eu dei meu livro&quot; ser&aacute; traduzida,<br \/>\n    pelo popular portugu&ecirc;s: &quot;o menino que eu lhe dei um livro&quot;;<br \/>\n    pelo nosso caipira: o minino que eu dei um livro pra ele (ou pr&ecirc;le).<\/p>\n<p>Seria mais curial que, em vez de pra ele, se dissesse a ele; mas h&aacute;<br \/>\n    a notar mais esta particularidade, que o nosso povo inculto prefere sempre<br \/>\n    a primeira preposi&ccedil;&atilde;o &agrave; segunda.<\/p>\n<p>NEGATIVAS<\/p>\n<p>21. Na composi&ccedil;&atilde;o de proposi&ccedil;&otilde;es negativas, o<br \/>\n    adv. j&aacute;, corrente em portugu&ecirc;s europeu, &eacute; de todo desconhecido<br \/>\n    no dialeto. Em vez de &quot;j&aacute; n&atilde;o vem&quot;, &quot;j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o quero&quot;, diz &agrave; francesa, ou &agrave; italiana, o nosso<br \/>\n    caipira (e com ele, ainda aqui, toda a gente est&aacute; de acordo, por todo<br \/>\n    o pa&iacute;s): num vem mais, num quero mais.<\/p>\n<p>Esta pr&aacute;tica &eacute; t&atilde;o geral (diz, referindo-se ao Brasil,<br \/>\n    J. Mor., cap. XXX, 1.&ordm; vol.) que os pr&oacute;prios gram&aacute;ticos<br \/>\n    n&atilde;o sabem ou n&atilde;o querem evit&aacute;-la. Assim, J&uacute;lio<br \/>\n    Ribeiro, na sua Gram&aacute;tica Portuguesa, escreve: &quot;Hoje n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; mais usado tal adv&eacute;rbio&quot;. Entre n&oacute;s dir-se-ia:<br \/>\n    &quot;j&aacute; n&atilde;o &eacute; usado&quot; ou &quot;j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    se usa tal adv&eacute;rbio&quot;.<\/p>\n<p>A observa&ccedil;&atilde;o &eacute; em tudo exata. S&oacute; lhe faltou acrescentar<br \/>\n    que, como tantas outras particularidades sint&aacute;ticas de que nos ocupamos,<br \/>\n    tamb&eacute;m desta h&aacute; exemplos antigos na l&iacute;ngua, e talvez<br \/>\n    at&eacute; em Gil Vicente, que J. Mor. t&atilde;o bem conhecia e a cada momento<br \/>\n    citava. Eis um exemplo, onde, pelo entrecho, mais pode ser tomado como negativo:<\/p>\n<p>ANJO &#8211; N&atilde;o se embarca tyrannia<br \/>\n    Neste batel divinal.<br \/>\n    FIDALGO &#8211; N&atilde;o sei porque haveis por mal <br \/>\n    Qu&#8217;entre minha senhoria.<br \/>\n    ANJO &#8211; Pera vossa fantasia<br \/>\n    Mui pequena he esta barca. <br \/>\n    FIDALGO &#8211; Pera senhor de tal marca<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; hi mais cortezia?<\/p>\n<p>Um exemplo bem positivo de J. B. de Castro, &quot;Vida de Cristo&quot;, (liv,<br \/>\n    IV):<\/p>\n<p>&quot;Meu pae, contra Deus e contra v&oacute;s pequei e n&atilde;o mere&ccedil;o<br \/>\n    que me chameis mais vosso filho&#8230;&quot;<\/p>\n<p>22. O emprego de duas negativas &#8211; ningu&eacute;m n&atilde;o, nem n&atilde;o,<br \/>\n    etc., assim cont&iacute;guas, &#8211; vulgar na sintaxe portuguesa quinhentista,<br \/>\n    mas hoje desusado na l&iacute;ngua popular de Portugal, e na l&iacute;ngua<br \/>\n    culta tanto l&aacute; como c&aacute;, &#8211; &eacute; obrigat&oacute;rio no falar<br \/>\n    caipira: Nem eu num disse &#8211; Ningu&eacute;m num viu &#8211; Ninhum num fica. <\/p>\n<p>Deste uso no s&eacute;c. XVI pode-se apresentar copiosa exemplifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>23. Mas h&aacute; fato mais interessante. A negativa n&atilde;o repetida<br \/>\n    depois do verbo: n&atilde;o quero n&atilde;o, n&atilde;o vou n&atilde;o, parece<br \/>\n    puro brasileirismo. Encontra-se, por&eacute;m, repetidas vezes em Gil V.,<br \/>\n    como neste passo:<\/p>\n<p>Este ser&atilde;o glorioso<br \/>\n    N&atilde;o he de justi&ccedil;a, n&atilde;o.<br \/>\n    (Auto da Barca do Purg.)<\/p>\n<p>24. Tamb&eacute;m o trivial nem nada, depois de uma preposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    negativa, tem antecedentes que remontam pelo menos a Gil V.:<\/p>\n<p>Sam cappell&atilde;o d&#8217;hum fidalgo<br \/>\n    Que n&atilde;o tem renda nem nada.<br \/>\n    (Farsa dos Almocreves).<\/p>\n<p>CIRCUNST&Acirc;NCIA DE LUGAR<\/p>\n<p>25. O lugar para onde &eacute; indicado com aux&iacute;lio da preposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em: Eu fui im casa &#8211; Ia na cidade &#8211; Joguei a pedra n&#8217;agua &#8211; Chego na janela<br \/>\n    &#8211; Vort&ocirc; no s&iacute;tio.<\/p>\n<p>Deste fato, comum a todo o Brasil, e ao qual nem sempre escapam os pr&oacute;prios<br \/>\n    escritores que procuram seguir os modelos transoce&acirc;nicos, se encontram<br \/>\n    numerosos exemplos em antigos documentos da l&iacute;ngua, e ainda h&aacute;<br \/>\n    vest&iacute;gios nas express&otilde;es usuais: cair no la&ccedil;o, ca&iacute;<br \/>\n    em mim, sair em terra (J. Mor., cap. XXIV, 1.&ordm; vol.).<\/p>\n<p>CIRCUNST&Acirc;NCIA DE TEMPO<\/p>\n<p>26. Os complementos de tempo s&atilde;o, na linguagem portuguesa de hoje,<br \/>\n    empregados quase sempre com uma preposi&ccedil;&atilde;o (a, e em), destinada<br \/>\n    a estabelecer uma esp&eacute;cie de liame que satisfa&ccedil;a o esp&iacute;rito<br \/>\n    do falante. Assim, dizemos: &quot;Fui l&aacute; numa segunda-feira&quot; &#8211;<br \/>\n    &quot;No dia 5 ele vir&aacute;&quot; &#8211; &quot;Anda por aqui a cada instante&quot;,<br \/>\n    etc.<\/p>\n<p>O caipira atem-se mais &agrave; tradi&ccedil;&atilde;o da l&iacute;ngua.<br \/>\n    Ele dir&aacute;: Fui l&aacute; u&quot;a segunda-f\\&ecirc;ra &#8211; Dia 5 ele vem<br \/>\n    &#8211; Anda por aqui cada passo &#8211; Mando not&iacute;cia quarqu&eacute; instante<br \/>\n    &#8211; Nunca est&aacute; im casa hora de cumida.<\/p>\n<p>Compare-se com os seguintes exemplos, entre outros citados por J. Mor. (cap.<br \/>\n    XXV, 1.&ordm; vol.)<\/p>\n<p>E o dia que f&ocirc;r casada<br \/>\n    Sahirei ataviada<br \/>\n    Com hum brial d&#8217;escarlata &#8211;<br \/>\n    (Gil V.)<\/p>\n<p>Esta ave nunca sossega,<br \/>\n    He galante e muito oufana;<br \/>\n    Mas a hora que n&atilde;o engana<br \/>\n    N&atilde;o he pega.<br \/>\n    (Gil V.)<\/p>\n<p>Aquel dia que os rom&atilde;os foram ven&ccedil;udos veerom a Rei Artur hu&quot;as<br \/>\n    mui maas novas. <br \/>\n    (&quot;Demanda do Santo Graal&quot;).<\/p>\n<p>CIRCUNST&Acirc;NCIA DE CAUSA<\/p>\n<p>27. Como o povo em Portugal (J. Mor., cap. XXVI, 1.&ordm; vol.) o nosso caipira<br \/>\n    usa a f&oacute;rmula por amor de para exprimir circunst&acirc;ncia de causa.<br \/>\n    &quot;Hei de ir a R&eacute;goa no domingo pr amor de ver se compro os precisos&quot;<br \/>\n    &#8211; &eacute; exemplo citado por J&uacute;lio Moreira. Em frase semelhante o<br \/>\n    caipira diria quase identicamente: &quot;Hei d&#8217;i na vila dumingo pram&oacute;r<br \/>\n    de v&ecirc; se compro os perciso&quot;. Poderia, tamb&eacute;m, dizer simplesmente:<br \/>\n    m&oacute;r de v&ecirc;, ou ainda m&oacute; de v&ecirc;.<\/p>\n<p>28. Outra f&oacute;rmula caipira: por causo de, com o mesmo valor de por<br \/>\n    causa de. Essa altera&ccedil;&atilde;o de causa em causo deve-se, talvez,<br \/>\n    a confus&atilde;o com caso (que o caipira mudou em causo).<\/p>\n<p>&Eacute; de notar que em Gil V. se encontra por caso. O mesmo poeta escreveu<br \/>\n    freq&uuml;entemente &quot;caiso&quot; (subst.), o que mostra que talvez se<br \/>\n    dissesse tamb&eacute;m &quot;por caiso&quot;, e quem sabe se at&eacute; &quot;por<br \/>\n    causo&quot;, como o nosso caipira.<\/p>\n<p>V. &#8211; VOCABUL&Aacute;RIO<\/p>\n<p>O QUE CONT&Eacute;M ESTE VOCABUL&Aacute;RIO<\/p>\n<p>Este gloss&aacute;rio n&atilde;o se prop&otilde;e reunir, como j&aacute;<br \/>\n    dissemos em outro lugar, todos os brasileirismos correntes em S. Paulo. Apenas<br \/>\n    regista voc&aacute;bulos em uso entre os roceiros, ou caipiras, cuja linguagem,<br \/>\n    a v&aacute;rios respeitos, difere bastante da da gente das cidades, mesmo<br \/>\n    inculta.<\/p>\n<p>Quanto a esses pr&oacute;prios voc&aacute;bulos, n&atilde;o houve aqui a<br \/>\n    preocupa&ccedil;&atilde;o de indicar todos quantos constam das nossas notas.<br \/>\n    Deixamos de lado, em regra geral, aqueles que n&atilde;o temos visto usados<br \/>\n    sen&atilde;o em escritos liter&aacute;rios, e por mais confian&ccedil;a que<br \/>\n    os autores destes nos merecessem.<\/p>\n<p>Iguais reservas tivemos com os nomes de vegetais e animais. Alguns destes,<br \/>\n    dados por diversos autores como pertencentes ao vocabul&aacute;rio roceiro,<br \/>\n    nunca foram por n&oacute;s ouvidos, talvez por mera casualidade. N&atilde;o<br \/>\n    os indicamos aqui. Outros, e n&atilde;o poucos, est&atilde;o sujeitos a tais<br \/>\n    flutua&ccedil;&otilde;es de forma e a tais incertezas quanto &agrave; defini&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    (o que &eacute; muito comum na nomenclatura popular), que, impossibilitados,<br \/>\n    muitas vezes, de proceder a mais detidas averigua&ccedil;&otilde;es, preferimos<br \/>\n    deix&aacute;-los tamb&eacute;m de lado por enquanto.<\/p>\n<h3>AS V&Aacute;RIAS FORMAS<\/h3>\n<p>Registam-se os voc&aacute;bulos, em primeiro lugar, em VERSAL, na sua forma<br \/>\n    dialetal mais freq&uuml;ente, e como a pronunciam. Outras formas e pron&uacute;ncias,<br \/>\n    quando h&aacute;, se registam, quase sempre, logo na mesma linha (para n&atilde;o<br \/>\n    alongar demasiado este gloss&aacute;rio), e em VERSALETE.<\/p>\n<p>Quando as formas dialetais diferem sensivelmente das correspondentes da l&iacute;ngua,<br \/>\n    escrevem-se tamb&eacute;m estas, na mesma linha, em it&aacute;lico. Nos casos<br \/>\n    em que a diferen&ccedil;a pode ser indicada no pr&oacute;prio t&iacute;tulo<br \/>\n    do artigo, assim se procede, como em ABOMB&Aacute;(R), onde a queda de r est&aacute;<br \/>\n    suficientemente assinalada.<\/p>\n<h3>ABONA&Ccedil;&Otilde;ES<\/h3>\n<p>As citas que se fazem logo ap&oacute;s as defini&ccedil;&otilde;es, para<br \/>\n    as esclarecer, levam muitas vezes indica&ccedil;&atilde;o de autor, entre<br \/>\n    par&ecirc;ntese. N&atilde;o quer isto dizer que os voc&aacute;bulos tenham<br \/>\n    sido colhidos em tais escritores, pois at&eacute; citamos algumas frases de<br \/>\n    autores estranhos ao Estado de S. Paulo; quer dizer apenas que tais voc&aacute;bulos<br \/>\n    foram a&iacute; usados com o verdadeiro valor que lhes d&atilde;o os roceiros<br \/>\n    paulistas.<\/p>\n<p>Tendo de juntar &agrave;s defini&ccedil;&otilde;es frases que dessem melhor<br \/>\n    id&eacute;ia dos termos, achamos que seria interessante tirar essas frases<br \/>\n    de escritores conhecidos e apreciados, desde que quadrassem perfeitamente<br \/>\n    com o uso popular. Apenas lhes fizemos algumas modifica&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de grafia.<\/p>\n<h3>ABREVIATURAS<\/h3>\n<p>Al&eacute;m das abreviaturas de nomes de autores e outras que constam da<br \/>\n    lista inserta em outro lugar, h&aacute; no vocabul&aacute;rio as seguintes,<br \/>\n    que conv&eacute;m esclarecer:<\/p>\n<p>adj. &#8211; adjetivo. a part. &#8211; partic&iacute;pio<\/p>\n<p>adv. &#8211; adv&eacute;rbio, adverbial prep. &#8211; preposi&ccedil;&atilde;o, prepositiva\n  <\/p>\n<p>Br. &#8211; Brasil pl. &#8211; plural<\/p>\n<p>bras. &#8211; brasileiro, brasileirismo Port. &#8211; Portugal <\/p>\n<p>cast. &#8211; castelhano port. &#8211; portugu&ecirc;s<\/p>\n<p>conj. &#8211; conjun&ccedil;&atilde;o pron. pronome, pronominal<\/p>\n<p>det. &#8211; determinativo q. &#8211; qualificativo<\/p>\n<p>dial. &#8211; dialeto, dialetal rel. &#8211; relativo<\/p>\n<p>ext. &#8211; extens&atilde;o signif. &#8211; significa&ccedil;&atilde;o<\/p>\n<p>f. &#8211; feminino subst. &#8211; substantivo<\/p>\n<p>fig. &#8211; figurado, figuradamente sing. &#8211; singular <\/p>\n<p>i. &#8211; intransitivo t. &#8211; termo<\/p>\n<p>intj. &#8211; interjei&ccedil;&atilde;o t. &#8211; transitivo <\/p>\n<p>loc. &#8211; locu&ccedil;&atilde;o v. &#8211; verbo<\/p>\n<p>m. &#8211; masculino, a voc. &#8211; voc&aacute;bulo<\/p>\n<p>p. &#8211; p&aacute;gina V. &#8211; Veja<\/p>\n<p> O sinal | separa da defini&ccedil;&atilde;o e exemplifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do termo qualquer coment&aacute;rio ou nota que se julgou &uacute;til acrescentar.<\/p>\n<p>ABANC&Aacute;(R) [SE] &#8211; v. pron. &#8211; sentar-se: &quot;Entre i se abanque&quot;.<br \/>\n    | De banco.<\/p>\n<p>ABANC&Aacute;(R). v. i. &#8211; fugir: &quot;0 dianho do home, quano viu a coisa<br \/>\n    feia, abanc&ocirc;&quot;<\/p>\n<p>ABERTO DOS PEITO(S), &#8211; diz-se do animal de sela ou tiro, que, andando, cai<br \/>\n    para a frente.<\/p>\n<p>ABOBADO, q. &#8211; atoleimado, pateta: &quot;O cabo da guarda sopapeou o Quirino,<br \/>\n    abobado de medo, fazendo-o cambetear para dentro da salinha&quot;. (C. P.)<br \/>\n    | Com signif. semelhante, Gil V. empregou atabobado, t. cast.<\/p>\n<p>ABOMBADO, q. &#8211; diz-se do animal de sela, tiro ou carga, extenuado de fadiga.<br \/>\n    Por ext. tamb&eacute;m se aplica a pessoa: &quot;Era em Fevereiro, eu vinha<br \/>\n    abombado da troteada&#8230;&quot; (S. L.).<\/p>\n<p>ABOMB&Aacute;(R), v. i. &#8211; extenuar-se (o animal).<\/p>\n<p>ABRIDERA. s. f. &#8211; aguardente de cana. | De abrir (o apetite).<\/p>\n<p>A&Ccedil;A, a&ccedil;o, q. &#8211; albino. | &#8211; Usado em quase todo o Brasil.<\/p>\n<p>ACAR&Aacute;, s. m. &#8211; peixe tamb&eacute;m chamado, no Brasil, car&aacute;<br \/>\n    e papa-terra (R. v. I.).<\/p>\n<p>ACAUSO, s. m. &#8211; casualidade: &quot;Isso se deu por um acauso&quot;. | V.<br \/>\n    CAUSO.<\/p>\n<p>ACERT&Aacute;(R), v. t. &#8211; ensinar (o animal de sela) a obedecer &agrave;<br \/>\n    r&eacute;dea. | V. ACERTAD&Ocirc;(R).<\/p>\n<p>ACERTAD&Ocirc;(R), s. m. &#8211; indiv&iacute;duo que acerta animais de sela: &quot;Passaram-se<br \/>\n    anos e a Eul&aacute;lia teve que aceitar o Vicente do Rancho, mo&ccedil;o<br \/>\n    de boa m&atilde;o e de boa cabe&ccedil;a, quando ele deu os &uacute;ltimos<br \/>\n    repassos num piquira macaco do pai dela e entrou a cercar-lhe a m&atilde;e<br \/>\n    de carinhos e presentes. Q acertador n&atilde;o enxergava terra alheia quando<br \/>\n    olhava da janela para fora&#8230;&quot;. (V. S.).<\/p>\n<p>ACOC&Aacute;(R), v. t. &#8211; mimar com excesso (a crian&ccedil;a): &quot;Esse<br \/>\n    tar num d&aacute; pra nada. Tamem, o pai e a m&atilde;e s&oacute; sabium acoc&aacute;<br \/>\n    ele&#8230;&quot; Cp. &agrave; coca, express&atilde;o port., e tamb&eacute;m cuca,<br \/>\n    c&ocirc;ca e c&ocirc;co. V. a primeira destas palavras.<\/p>\n<p>ACOCH&Aacute;(R), v. t. &#8211; torcer como corda: &quot;&Eacute; perciso acochi<br \/>\n    mei&oacute; esse fumo&quot;. | De cochar.<\/p>\n<p>ACUP&Aacute;(R), ocupar, v. t. &quot;De tudo isto tenho feyto hum roteiro<br \/>\n    que poder&aacute; acupar duas m&atilde;os de papell&#8230;&quot; (Carta de d.<br \/>\n    Jo&atilde;o de Castro ao rei, escrita em Mo&ccedil;ambique).<\/p>\n<p>ADONDE, onde, adv.<\/p>\n<p>S&oacute; nas partes mais altas pareciam Uns vest&iacute;gios das torres<br \/>\n    que ficavam. Adonde a vista o mais que determina E medir a grandeza co&#8217;a ru&iacute;na.<br \/>\n    (G. P. de Castro, &quot;Ulisseia&quot;)<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m no Norte do Brasil persiste esta forma:<\/p>\n<p>Eu ante quina s&ecirc; a pedra adonde lavava sua roupa a lavand&ecirc;ra<br \/>\n    (Cat., &quot;Meu Sert&atilde;o&quot;)<\/p>\n<p>AFINC&Aacute;(R), v. t. &#8211; embeber, cravar (qualquer objeto delgado e longo):<br \/>\n    &quot;Afinquei o pau no ch&atilde;o&quot;. &quot;N&atilde;o afinque prego<br \/>\n    na parede&quot;. &quot;O marvado afinc&ocirc; a faca no &ocirc;tro&quot;.<br \/>\n    | &Eacute; port., como fincar, mas com acep&ccedil;&otilde;es diversas.<\/p>\n<p>AFITO, s. m. &#8211; mau olhado. | Apesar de nunca termos ouvido este voc., e s&oacute;<br \/>\n    o havermos encontrado num escrito (&quot;A Superst. Paulistana&quot;, eng.<br \/>\n    E. Krug), resolvemos regist&aacute;-lo, por ser dos mais curiosos. &Eacute;<br \/>\n    palavra antiga na l&iacute;ngua com a significa&ccedil;&atilde;o de indigest&atilde;o,<br \/>\n    diarr&eacute;ia (&quot;Novo Dic.&quot;). Em cast. existe ahito, q., &#8211; o que<br \/>\n    padece de. indigest&atilde;o ou embara&ccedil;o g&aacute;strico. Comparando-se<br \/>\n    isto com o sentido que d&atilde;o &agrave; palavra os caipiras. segundo o<br \/>\n    citado escritor, e com a express&atilde;o &quot;deitar o fito&quot;, equivalente<br \/>\n    a &quot;deitar mau olhado&quot;. que se encontra em Gil V., pode deduzir-se<br \/>\n    que a significa&ccedil;&atilde;o primitiva do voc. port. e cast. deve ter<br \/>\n    sido, mais extensamente, a de &#8211; indisposi&ccedil;&atilde;o causada por mau<br \/>\n    olhado, quebranto.<\/p>\n<p>AFORA(R), v. t. &#8211; tirar fora, subtrair. Usado apenas sob a forma do ger&uacute;ndio,<br \/>\n    &quot;aforando&quot;: &quot;Vinticinco, aforan(d)o quatro, s&atilde;o vintium&quot;<br \/>\n    | Acreditamos que seja hoje bem raramente usado este expressivo verbo, que<br \/>\n    ouvimos muitas vezes, por&eacute;m h&aacute; algumas dezenas de anos, e s&oacute;<br \/>\n    numa localidade paulista (Capivari).<\/p>\n<p>AG&Ograve;RINIIA, adv. &#8211; agora mesmo. neste instante.<\/p>\n<p>AGREGADO, s. m. &#8211; indiv&iacute;duo que vive em fazenda ou s&iacute;tio, prestando<br \/>\n    servi&ccedil;os avulsos, sem ser propriamente um empregado.<\/p>\n<p>AGRESTE, q. &#8211; r&iacute;spido, intrat&aacute;vel, desabrido: &quot;Nunca vi<br \/>\n    home t&atilde;o agr&eacute;ste como aqu&ecirc;le nho Tunico!&quot;. &#8211; Tamb&eacute;m<br \/>\n    indica certos estados de &acirc;nimo indefin&iacute;veis e desagrad&aacute;veis:<br \/>\n    &quot;Num sei o que &eacute; que tenho hoje: t&ocirc; agr&eacute;ste&#8230;&quot;<\/p>\n<p>AGUAP&Eacute;, s. m. &#8211; plantas que b&oacute;iam &agrave; superf&iacute;cie<br \/>\n    das &aacute;guas remansosas ou paradas. | Do tupi?<\/p>\n<p>AGUARDEC&Ecirc;(R), AGARDEC&Ecirc; (R), agradecer, v. t. | Encontra-se guarde&ccedil;o<br \/>\n    na &quot;Cron. do Cond.&quot; (&quot;o que vos eu guarde&ccedil;o muito e<br \/>\n    tenho em serui&ccedil;o&#8230;&quot;, cap. XI), provavelmente por errada analogia<br \/>\n    com guardar. A forma dialetal, que tamb&eacute;m aparece com freq&uuml;&ecirc;ncia<br \/>\n    aferesada, deve provir do mesmo engano. &#8211; Na citada &quot;Cron.&quot; encontra-se<br \/>\n    igualmente agardeceo: &quot;E o mestre seedo dello ledo m&atilde;dou logo<br \/>\n    chamar Nunalvrez e agardeceolhe muyto o que com Ruy Pereyra fallara&#8230;&quot;,<br \/>\n    cap. XVI.<\/p>\n<p>AGUAXADO, q. &#8211; entorpecido por longa inatividade e pela gordura (o animal<br \/>\n    de sela). | H&aacute; quem escreva aguachado e ligue o voc. a guacho, mas<br \/>\n    erradamente. Origina-se, ao que parece, do &aacute;rabe alguaxa, de onde o<br \/>\n    castelhano aguaja (&uacute;lcera ou tumor aquoso que se forma nos cascos dos<br \/>\n    cavalos ou das bestas) e o portugu&ecirc;s ajuaga (&quot;tumor nos cascos<br \/>\n    das bestas&quot;, segundo o &quot;Novo Dic.&quot;). &#8211; Parece indiscut&iacute;vel<br \/>\n    que o voc&aacute;b. veio do castelhano pela fronteira do sul, regi&atilde;o<br \/>\n    onde &eacute; conhecido e usado. A mudan&ccedil;a de sentido deu-se evidentemente<br \/>\n    pela similitude dos efeitos do tumor e da gordura, causas que por igual embara&ccedil;am<br \/>\n    a marcha. Como se deu essa mudan&ccedil;a, eis o que &eacute; mais dif&iacute;cil<br \/>\n    explicar. Talvez tenha influ&iacute;do nisso a palavra aguado, j&aacute; existente<br \/>\n    em port., e, segundo certos autores, com a mesma origem (J. Rib., &quot;Fabord&atilde;o&quot;).<br \/>\n    &#8211; As palavras aguado, aguar, aguamento, s&atilde;o correntes em Portugal e<br \/>\n    Brasil. Aguado diz-se do animal atacado de certa doen&ccedil;a que lhe tolhe<br \/>\n    os movimentos: por aqui se prender&aacute; a alguaxa, tumor do casco. Essa<br \/>\n    doen&ccedil;a caracteriza-se por uma abund&acirc;ncia de l&iacute;quido seroso,<br \/>\n    que os nossos roceiros dizem existir no pesco&ccedil;o do animal e que se<br \/>\n    faz vazar, geralmente, por meio de sangria: por aqui se relaciona com &aacute;gua.<br \/>\n    A doen&ccedil;a &eacute; atribu&iacute;da pelo povo, ao menos em alguns casos,<br \/>\n    a desejo insatisfeito de comer: ainda uma influ&ecirc;ncia de &aacute;gua,<br \/>\n    pois o apetite faz vir &aacute;gua &atilde; boca. Tamb&eacute;m se diz de<br \/>\n    uma crian&ccedil;a que ela aguou quando ficou triste e desca&iacute;da por<br \/>\n    ver outra crian&ccedil;a mamar, n&atilde;o podendo imit&aacute;-la, ou por<br \/>\n    lhe apetecer coisa que n&atilde;o lhe podia ser dada. &#8211; H&aacute; raz&otilde;es<br \/>\n    para se desconfiar que a sangria atr&aacute;s referida seja mera abus&atilde;o<br \/>\n    de alveitaria b&aacute;rbara, possivelmente originada, como tantas usan&ccedil;as<br \/>\n    e mitos, numa falsa etimologia. De alguaxa ter-se-ia extra&iacute;do aguar,<br \/>\n    aguado, por se ver ali o tema de &aacute;gua. Tratando-se de animal aguado,<br \/>\n    era for&ccedil;oso que houvesse &aacute;gua, e foram descobri-la no pesco&ccedil;o,<br \/>\n    n&atilde;o j&aacute; nos cascos, como seria mais razo&aacute;vel. Existe essa<br \/>\n    &aacute;gua? Os roceiros afirmar&atilde;o que sim, sem admitir d&uacute;vida,<br \/>\n    mas h&aacute; quem duvide. Eis o que diz, por exemplo, o dr. E. Krug: &quot;Deve<br \/>\n    ser considerado supersti&ccedil;&atilde;o o tratamento de animais aguados<br \/>\n    por interm&eacute;dio de uma sangria, que se executa no pesco&ccedil;o. Esta<br \/>\n    supersti&ccedil;&atilde;o &eacute; muito espalhada no nosso Estado e mesmo<br \/>\n    pessoas que se devia presumir possu&iacute;rem maiores conhecimentos na zootecnia<br \/>\n    usam-na. O estar aguado do animal nada mais &eacute; do que um crescimento<br \/>\n    irregular dos cascos, geralmente devido a um excesso de marcha, etc., e isto,<br \/>\n    certamente, n&atilde;o se pode curar sangrando um animal. Diz-se que, depois<br \/>\n    de uma sangria, quando esta &eacute; feita de um s&oacute; lado, o animal<br \/>\n    fica sempre manco; para se evitar este inconveniente sangra-se o animal dos<br \/>\n    dois lados. N&atilde;o posso dizer se isto &eacute; tamb&eacute;m supersti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    ou fato verificado praticamente&quot;. &#8211; Cp. o cast. aguas, ferida ulcerosa<br \/>\n    na regi&atilde;o dos machinhos ou nos cascos dos animais; aguacha, &aacute;gua<br \/>\n    podre; aguachar-se, alagar-se, e outros voc&aacute;bs. que t&ecirc;m, quase<br \/>\n    todos, correspondentes em port. &#8211; Em Goi&aacute;s, segundo se depreende de<br \/>\n    uma frase do novelista Carv. Ramos (&quot;Tropas&quot;, 25), corre a express&atilde;o<br \/>\n    &quot;aguar dos cascos&quot;: &quot;&#8230;o macho mascarado trazido &agrave;<br \/>\n    escoteira, sempre &agrave; m&atilde;o,&#8230; aguara dos cascos na subida da serra<br \/>\n    de Corumb&aacute;&#8230;&quot;<\/p>\n<p>A&Iacute;VA, q. &#8211; adoentado, mofino. | O &quot;Novo Dic.&quot; regista o<br \/>\n    voc. com significa&ccedil;&atilde;o diversa: &quot;pessoa ou coisa sem valor,<br \/>\n    insignificante&quot;. Em S. Paulo n&atilde;o se entende assim. &#8211; Do tupi a&iacute;ba,<br \/>\n    ruim (Mont.).<\/p>\n<p>AJ&Uacute;PE!, intj., usada pelos tropeiros para estimular os animais.<\/p>\n<p>ALACRANADO, LACRANADO, q. &#8211; diz-se de coisa cuja superf&iacute;cie est&aacute;<br \/>\n    cheia de talhos e esfoladuras, como de dentes ou de espinhos. Derivado de<br \/>\n    alacran (o mesmo que lacrau, lacraia, alacraia), se &eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    veio feito do cast., em cujo vocabul&aacute;rio antigo existiu forma igual,<br \/>\n    com a significa&ccedil;&atilde;o de &quot;mordido de lacrau&quot;.<\/p>\n<p>ALAM&Atilde;O, adj. patr. &#8211; forma dupla de alem&atilde;o, muito antiga na<br \/>\n    l&iacute;ngua.<\/p>\n<p>ALEGRE, s. m. &#8211; faca recurva com que se fazem colheres de pau. | Corr. de<br \/>\n    legra, que o &quot;Novo Dic.&quot; regista como provincianismo alentejano<br \/>\n    de origem castelhana.<\/p>\n<p>ALEL&Uacute;IA, f. &#8211; f&ecirc;mea alada do cupim, que sai, &agrave;s centenas,<br \/>\n    dos ninhos, &agrave; tarde, e se desfaz das asas com extrema facilidade, logo<br \/>\n    que n&atilde;o mais necessita delas. O mesmo que sar&aacute;-sar&aacute;?<br \/>\n    (R. v. I.) V. SIRIL&Uacute;IA.<\/p>\n<p>ALEMBR&Aacute;(R), lembrar, v. | Esta pr&oacute;tese vem de muito longe na<br \/>\n    hist&oacute;ria da l&iacute;ngua, e ainda &eacute; pop.<\/p>\n<p>Alambrava-vos eu l&aacute;? (Gil V., &quot;Auto da &iacute;ndia&quot;)<\/p>\n<p>ALEMBRAN&Ccedil;A, lembran&ccedil;a, s. f.<\/p>\n<p>ALEM&Ocirc;A, alem&atilde;, fem. de alem&atilde;o. <\/p>\n<p>ALIFANTE, elefante, s. m. | Forma ant., e pop. tanto no Brasil como em Port.<\/p>\n<p>ALIM&Aacute;, ALIMAR, LIMAR, animal, s. m. &#8211; Entenda-se &quot;animal cavalar&quot;.<br \/>\n    | &quot;&#8230; me parece ainda mais que som coma aves ou alimares monteses&#8230;&quot;<br \/>\n    (Carta de Caminha).<\/p>\n<p>AMAREL&Atilde;O, MAREL&Atilde;O, s. m. &#8211; anquilostomose.<\/p>\n<p>AMAREL&Aacute;, MAREL&Aacute;, amarelar, v. i. &#8211; empalidecer de repente:<br \/>\n    &quot;Quano o Chico uviu a v&oacute;iz de pris&atilde;o, marel&ocirc;&quot;<\/p>\n<p>AMARIO, AMARILHO, q. &#8211; baio com crina e cauda brancas (cavalo) o mesmo que<br \/>\n    &quot;baio amarilho&quot;. | Cast. amarillo.<\/p>\n<p>AMARR&Aacute;(R)1 v. t. e i. &#8211; estacar diante da perdiz (o c&atilde;o), de<br \/>\n    olhos fitos sobre ela: &quot;Brinquinho amarr&ocirc; a bicha i eu, fogo!&quot;<br \/>\n    &quot;Quano, nu&quot;a vorta do caminho&#8230; o Bismarque chate&ocirc; no ch&atilde;o,<br \/>\n    amarrano, que era u&quot;a buniteza&#8230;&quot; (O &uacute;ltimo exemplo &eacute;<br \/>\n    de C. P.).<\/p>\n<p>AMARR&Aacute;(R)2, v. t. &#8211; tratar, fechar (uma aposta, um neg&oacute;cio).<\/p>\n<p>AMENH&Atilde;, AMINH&Atilde;, amanh&atilde;, ad. | &Eacute; forma arc. e<br \/>\n    &quot;&#8217;ainda corrente no povo (em Port.) na forma aminh&atilde;o&quot;, diz<br \/>\n    Leite de Vasc., &quot;Emblemas&quot;, introd.<\/p>\n<p>AMI&Aacute;, amilhar, v. t. &#8211; dar milho (aos animais). Acreditamo-lo pouco<br \/>\n    usado.<\/p>\n<p>AMIADO, amilhado, part. de &quot;amilhar&quot;: &quot;O tempo tava b&atilde;o,<br \/>\n    a estrada era mei&oacute;, o cavalo tava descansado e bem amiado: a viage<br \/>\n    foi u&quot;a gostusura&quot;.<\/p>\n<p>AMI&Uacute;DA(R), v. i. &#8211; tornar-se freq&uuml;ente, nas express&otilde;es<br \/>\n    int&eacute; os galo ami&ugrave;d&aacute;, quando os galo ami&ugrave;d&aacute;vum<br \/>\n    e semelhantes, onde galo est&aacute; por canto dos galos: &quot;Depois que<br \/>\n    acaba a candeia, a&iacute; que a coisa &eacute; triste&#8230; Vai int&#038;eacuteacute;<br \/>\n    os galo ami&ugrave;d&aacute;&quot;. (C. P.) | Esta acep&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    verbo &eacute; corrente em todo o Brasil.<\/p>\n<p>AMOLA&Ccedil;&Atilde;O, s. f. &#8211; a&ccedil;&atilde;o ou efeito de amolar.<\/p>\n<p>AMOLAD&Ocirc;(R), q. &#8211; o que amola; importuno, ma&ccedil;ador.<\/p>\n<p>AMOLANTE, q. &#8211; o mesmo que amolador.<\/p>\n<p>AMOL&Aacute;(R), v. t. &#8211; importunar. <\/p>\n<p>AMUNTADO, MUNTADO, q. &#8211; diz-se do animal dom&eacute;stico que se meteu no<br \/>\n    mato, asselvajando-se: &quot;Gado amuntado&quot;. &quot;N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    pior fera que porco muntado&quot;. &#8211; Cp. monte que em Port. envolve tamb&eacute;m<br \/>\n    id&eacute;ia de mato, assim como monteiro, mont&ecirc;s, montesino, andar<br \/>\n    a monte.<\/p>\n<p>ANDADURA, s. f. &#8211; andar apressado do animal de sela, com balan&ccedil;os<br \/>\n    de anca.<\/p>\n<p>ANGOLA,1 s. m. &#8211; certa gram&iacute;nea forrageira; capim de Angola.<\/p>\n<p>ANGOLA,2 s. 2 gens. &#8211; usado &agrave;s vezes por galo ou galinha de Angola.<\/p>\n<p>ANG&Uacute;, s. m. &#8211; papas de farinha ou de fub&aacute;. Fig.: neg&oacute;cio<br \/>\n    desordenado, teia de intrigas e mexericos, coisa confusa, e inintelig&iacute;vel.<\/p>\n<p>ANG&Ugrave;ADA, ANG&Ugrave;SADA, ANG&Uacute;LADA, s. f. &#8211; grande por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ang&uacute;; neg&oacute;cio complicado, quest&atilde;o inextric&aacute;vel.<\/p>\n<p>ANHUMA, s. f. &#8211; ave da fam. &quot;Palamedeidae&quot;.<\/p>\n<p>ANSIM, assim, adv. 1| Forma pop. em todo o Brasil com o a nasalizado por<br \/>\n    influ&ecirc;ncia de im. &#8211; Encontra-se freq&uuml;entemente nas pe&ccedil;as<br \/>\n    castelhanas de Gil V.<\/p>\n<p>ANTA, s. f. &#8211; quadr&uacute;pede da fam. &quot;Tapiridae&quot;.<\/p>\n<p>ANT&Atilde;O, INT&Atilde;O, ent&atilde;o, ad.: -&quot;Ant&atilde;o ela reparou<br \/>\n    bem em mim, n&atilde;o disse mais nada, e saiu adiante&quot;. (V. S.) |<\/p>\n<p>Filhos for&atilde;o, parece, ou companheiros, E nella ant&atilde;o os incolas<br \/>\n    primeiros. (Cam&otilde;es, &quot;Lus.&quot;).<\/p>\n<p>ANT&Atilde;OCE, ANTONCE, INTONCES, outras formas de ent&atilde;o. | Cp. o<br \/>\n    arc. entonces: &quot;E do acabamento do livro eu dey encomenda ao lecenceado<br \/>\n    frey Jo&atilde;o uerba meu conffessor fazendo per outrem o que de acabar per<br \/>\n    my entonces era embargado&quot; (Inf. D. Pedro, &quot;Livro da Virtuosa Bemfeitoria&quot;).<\/p>\n<p>ANTE, antes, prep. | E Acreditamos que este ante seja simplesmente antes<br \/>\n    modificado pela lei da queda de s final do dial., embora sendo certo que ante<br \/>\n    = antes de &eacute; do vern&aacute;culo antigo e ainda subsiste em anteontem<br \/>\n    (antonte), antev&eacute;spera, antemanh&atilde;, etc.<\/p>\n<p>DANTE, loc. adv. &#8211; antigamente: &quot;Eu dante fazia o que pudia, agora j&aacute;<br \/>\n    t&ocirc; v&eacute;io i num posso mais&quot;. | &Eacute; loc. port. muito antiga,<br \/>\n    no sentido de &quot;antecedentemente&quot;, como se v&ecirc; deste passo do<br \/>\n    &quot;Castelo perigoso&quot; (s&eacute;c. XIV): &quot;&#8230;honde perde Deos<br \/>\n    e o Para&iacute;so e guanha os tormentos do Inferno e perde os bees que d&#8217;ante<br \/>\n    auya fectos, sse o Deos nom chama pera sua gra&ccedil;a&#8230;&quot; (L. de Vasc.,<br \/>\n    &quot;Textos arc.&quot;, p. 38 e p. 124).<\/p>\n<p>TEMPO DE DANTE, loc. equivalente a &quot;tempo &#8216;antigo&quot;, e na qual &quot;dante&quot;<br \/>\n    &eacute; tomado como um subst.: &quot;Macaia, que f&ocirc;ra escravo do capit&atilde;o<br \/>\n    Tigre, fazendeiro do tempo de dante entre Porto Feliz e Capivari&#8230;&quot;<br \/>\n    (C. P.)<\/p>\n<p>ANTES, prep. &#8211; A notar:<\/p>\n<p>IM ANTES, em antes, loc., usada as vezes pela forma simples &quot;antes&quot;:<\/p>\n<p>&quot;Estive l&aacute; ainda em antes que ele chegasse&quot;.<\/p>\n<p>ANTES TEMPO, loc. adv. &#8211; antecipadamente, antes da hora marcada ou oportuna:<br \/>\n    &quot;Foi t&atilde;o de pressa que cheg&ocirc; na eigreja antes tempo&quot;.<br \/>\n    | Os antigos diziam ante tempo: &quot;Uma muito principal raz&atilde;o porque<br \/>\n    muitas pessoas cuidam de si mais do que tem, e ante tempo se tem por muito<br \/>\n    aproveitadas, &eacute;, que como Deus em todas suas obras se parece comsigo<br \/>\n    &eacute; t&atilde;o fermoso nos seus come&ccedil;os, que muitos enganados<br \/>\n    com isso, se d&atilde;o por perfeitos&quot;. (Fr. Tom&eacute; de Jesus, &quot;Trabalhos<br \/>\n    de Jesus&quot;). &quot;E dizemos &#8216;lampeiro&#8217; o que faz algu&atilde; cousa ante<br \/>\n    tempo&#8230;&quot; (D. Nunes, &quot;Orig.&quot;, VII). Cp. anteontem, a que se<br \/>\n    vai preferindo &quot;antes de ontem&quot; como mais correto. Na Carta de Caminha<br \/>\n    h&aacute; ante sol posto.<\/p>\n<p>ANTONHO, Ant&ocirc;nio, n. p. | Forma antiga, registada por Vit. Cp. Junho<br \/>\n    de Juniu(m), sonho de somniu(m), etc.<\/p>\n<p>ANTONTE, anteontem, adv. | V. ANTE.<\/p>\n<p>AN&Uacute;1, nu, q.<\/p>\n<p>AN&Uacute;2, ANUM, s. m. &#8211; ave da fam. &quot;Cuculidae&quot;.<\/p>\n<p>A PAR DE, loc. prep. &#8211; junto de, ao lado de: &quot;Eu tava bem a par d&ecirc;le<br \/>\n    quando assucedeu o causo&quot;. | &Eacute; de uso antiqu&iacute;ssimo na l&iacute;ngua,<br \/>\n    como mostram estes exemplos: &quot;E quando comi&atilde;o de suum dom Diego<br \/>\n    Lopez e sa molher, asseemtaua eli apar de ssy o filho; e ella assemtaua apar<br \/>\n    de ssy a filha da outra parte&quot;. (Lenda da Dama P&eacute; de Cabra, no<br \/>\n    &quot;Livro da Linhagem&quot;, s&eacute;c. XV).<\/p>\n<p>Aqui, aqui, Oribella, Serrana, alli apar della. (Gil V., &quot;Com. de Rubena&quot;)<\/p>\n<p>&quot;Eu tenho hu&atilde; quinta apar de Cintra&#8230;&quot; (Testam. de D. Jo&atilde;o<br \/>\n    de Castro).<\/p>\n<p>APAR&Ecirc;IO, aparelho, s. m. &#8211; Na loc. &quot;apar&ecirc;io de fumo&quot;,<br \/>\n    que compreende o isqueiro, a pedra, o fuzil, e parece que tamb&eacute;m o<br \/>\n    que &eacute; necess&aacute;rio para fazer um cigarro.<\/p>\n<p>APAREIADA, aparelhada. | V. PAREIADA.<\/p>\n<p>AP&Ecirc;RO(S), apeiros, s. m.. pl. &#8211; conjunto de instrumentos de ca&ccedil;a.<br \/>\n    &Eacute; port. O &quot;Novo Dic.&quot; n&atilde;o lhe p&otilde;e nota de antiquado;<br \/>\n    mas parece que j&aacute; n&atilde;o &eacute; de uso corrente em Port., segundo<br \/>\n    o que se depreende desta men&ccedil;&atilde;o de M.. dos Rem. (&quot;Obras<br \/>\n    de Gil V.&quot;, Gloss.): &quot;APEIRO &#8211; Nome que antigamente se dava a diferentes<br \/>\n    instrumentos de lavoura&quot;, etc. J. Moreira, por sua vez, o tinha por antiq.,<br \/>\n    como se v&ecirc; desta refer&ecirc;ncia (&quot;Estudos&quot;, 2.&ordm; v.,<br \/>\n    p. 175): &quot;H&aacute; em portugu&ecirc;s o voc&aacute;bulo apeiro, a que<br \/>\n    em espanhol corresponde apero. Diez derivou-os do latim apparium (do verbo<br \/>\n    apparo). As suas significa&ccedil;&otilde;es eram variadas. Designa o conjunto<br \/>\n    de utens&iacute;lios ou instrumentos de lavoura, e aplicava-se ainda a outros<br \/>\n    objetos, chamando-se &quot;apeiro de ca&ccedil;ador&quot; aos instrumentos<br \/>\n    e armadilhas de ca&ccedil;a&#8230;&quot; etc. V&ecirc;-se em Vit. que j&aacute;<br \/>\n    no s&eacute;c. XVII a palavra era usada tal qual. &#8211; Esses autores registam<br \/>\n    a forma do sing.; acreditamos, por&eacute;m, que no dial. s&oacute; se emprega<br \/>\n    no plur., &#8211; o que ali&aacute;s j&aacute; &eacute; uso antigo, como se v&ecirc;<br \/>\n    deste passo de Gil V., &quot;Auto de Mof. Mendes&quot;:<\/p>\n<p>Leva os tarros e apeiros E o &ccedil;urr&atilde;o co&#8217;os chocalhos &#8211;<\/p>\n<p>APE&Aacute;(R), v. i. &#8211; voc. port., que no dial. apresenta a particularidade<br \/>\n    de envolver, correntemente, a id&eacute;ia de &quot;hospedar-se&quot;: &quot;Quando<br \/>\n    cheg&ocirc;? Adonde ape&ocirc;? &#8211; Apeei na casa do Chico, perto de onde tenho<br \/>\n    meus que-faz&ecirc;&quot;.<\/p>\n<p>APINCH&Aacute;(R), PINCH&Aacute;(R), v. t.. arremessar: &quot;Fui de ver&ecirc;da<br \/>\n    pro quarto, despois de t&ecirc; apinchado a ferramenta num canto da sala&#8230;&quot;<br \/>\n    (V. S.) &quot;Tratei de me apinch&aacute; pra outra banda, porque a noite<br \/>\n    ia esfriando&quot;. (V. S.). | Tamb&eacute;m se usa no Cear&aacute;, segundo<br \/>\n    este e outros passos do &quot;Meu Sert&atilde;o&quot;, de Catulo Cear.:<\/p>\n<p>Meu compade Dizidero somentes pra me impui&aacute;, m&aacute; cheguei, me<br \/>\n    foi pinchanda l&aacute; pra Avenida Cintr&aacute;.<\/p>\n<p>Pinchar &eacute; port. mas acreditamos que bem pouco usado hoje, neste sentido,<br \/>\n    em Port. No Brasil, &eacute; absolutamente defeso &agrave; gente educada &#8211;<br \/>\n    Joanne, personagem do &quot;Auto Pastoril Port.&quot;, de Gil V., exclama<br \/>\n    a certo momento:<\/p>\n<p>Oh! commendo &oacute; demo a vida A que a eu arrepincho!<\/p>\n<p>No gloss., ao fim do 3.&ordm; v. da sua ed. das &quot;Obras de Gil V.&quot;,<br \/>\n    pergunta M. dos Rem.: &quot;Querer&aacute; dizer o Poeta &#8216;vida que eu levo<br \/>\n    a pular, a divertir-me?&#8217; Por nossa parte, com a devida v&ecirc;nia de t&atilde;o<br \/>\n    erudito mestre, a resposta &eacute; negativa: n&atilde;o, o poeta n&atilde;o<br \/>\n    quis dizer isso. O entrecho da cena e a constru&ccedil;&atilde;o da frase<br \/>\n    n&atilde;o autorizariam tal interpreta&ccedil;&atilde;o. A cena passa-se entre<br \/>\n    Joanne e Catherina. Aquele faz e repisa declara&ccedil;&otilde;es de ardente<br \/>\n    paix&atilde;o, que a rapariga repele grosseiramente, mandando-o bugiar, chamando-lhe<br \/>\n    parvo. O pobre mo&ccedil;o, enfim desesperado, exclama:<\/p>\n<p>Oh commendo &oacute; demo esta vida A que a eu arrepincho!<\/p>\n<p>isto &eacute;: encomendo esta vida ao diabo, ao qual a arremesso! &#8211; A continua&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da fala n&atilde;o faz sen&atilde;o confirmar esta interpreta&ccedil;&atilde;o:<\/p>\n<p>Catalina, se me eu incho, Por esta que me va de ida. A &iacute;ndia n&atilde;o<br \/>\n    est&aacute; hi? Que quero eu de mi aqui? Melhor ser&aacute; que me va.<\/p>\n<p>&Eacute; prov&aacute;vel que o que do segundo dos dois versos primeiro citados<br \/>\n    venha de uma transcri&ccedil;&atilde;o errada de que &quot;ou m&aacute; interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de q&quot;, A verifica&ccedil;&atilde;o deste ponto concorreria bastante a<br \/>\n    elucidar a quest&atilde;o. &#8211; Quanto ao arre que Gil V. antep&ocirc;s ao verbo,<br \/>\n    destinava-se de certo a dar-lhe mais energia. O uso de tais expletivos era<br \/>\n    comum em Gil V. e outros poetas d0 seu tempo, nos quais se encontra at&eacute;<br \/>\n    re-n&atilde;o, re-si, re-velho, re-tanto, re-milhor. Refletiam eles, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    uma tend&ecirc;ncia popular ent&atilde;o bem viva, da qual nos ter&aacute;<br \/>\n    vindo boa parte dessa multid&atilde;o de termos em re e arre, que a l&iacute;ngua<br \/>\n    possui.<\/p>\n<p>AP&Ocirc;S, AP&Oacute;S, prep. &#8211; no encal&ccedil;o de: &quot;Sa&iacute; no<br \/>\n    mesmo instantinho ap&oacute;s &ecirc;le, mais foi de barde&quot;. | &Eacute;<br \/>\n    de uso antigo na ling.: &quot;&#8230; e os outros foram logo apos ele e lhas tornaram&#8230;&quot;<br \/>\n    (Carta de Caminha). &quot;&#8230; e correndo apoz n&oacute;s, que j&aacute; ent&atilde;o<br \/>\n    lhe iamos fugindo&#8230;&quot; (F. M. Pinto).<\/p>\n<p>AP&Ocirc;S, AP&Oacute;S DE, com o mesmo valor: &quot;Andei ap&oacute;s disso<br \/>\n    muito tempo&quot;. &quot;Receio que a minha classe v&aacute; ap&oacute;s d&#8217;esses<br \/>\n    fantasmas com que a iludem&quot;. (Garrett).<\/p>\n<p>ARA, ora, conj. e intj. | Cp. sinhara, vac&ecirc;, hame(m), palavras nas<br \/>\n    quais o som o se muda em &acirc;.<\/p>\n<p>AR&Aacute;(R), v. i. &#8211; empregado figuradamente no mesmo sentido que as express&otilde;es<br \/>\n    &quot;suar o topete&quot;, &quot;ver-se em apuros &#8216;: &quot;Cos diacho! arei;<br \/>\n    pra descobri quem me fizesse &ecirc;sse sirvi&ccedil;o&quot;.<\/p>\n<p>ARA&Ccedil;ARI, s. m. &#8211; esp&eacute;cie de tucano pequeno. | Tupi.<\/p>\n<p>ARAGANO, q. &#8211; diz-se do cavalo espantadi&ccedil;o, que dificilmente se deixa<br \/>\n    pegar. | Cast. haragano.<\/p>\n<p>ARAGUARI, s. m. &#8211; esp&eacute;cie de papagaio pequeno. | Tupi.<\/p>\n<p>ARAPONGA, s. f. &#8211; p&aacute;ssaro da fam. &quot;Cotingidae&quot;, tamb&eacute;m<br \/>\n    chamado &quot;ferreiro&quot;. | Tupi.<\/p>\n<p>ARAPU&Aacute;, s. f. &#8211; certa abelha do mato. | Tupi.<\/p>\n<p>ARAPUCA, URUPUCA, s. f. &#8211; armadilha para apanhar p&aacute;ssaros, feita de<br \/>\n    pequenos paus arranjados horizontalmente e em forma de pir&acirc;mide. | B.<br \/>\n    Rodrigues regista &quot;arapuca&quot; e &quot;urapuca&quot;, do nheengatu.<\/p>\n<p>ARARA, s. f. &#8211; papagaio grande, de cauda longa. | Tupi.<\/p>\n<p>ARARA-UNA &#8211; arara inteiramente azul, de bico preto.<\/p>\n<p>ARARIB&Aacute;, s. m. &#8211; certa &aacute;rvore de boa madeira. | Tupi.<\/p>\n<p>ARATACA, s. f. &#8211; armadilha grande, que colhe e mata a ca&ccedil;a. | Tupi<br \/>\n    &quot;aratag&quot;, armad. &quot;para p&aacute;ssaros&quot; (Mont.).<\/p>\n<p>ARCO-DA-V&Eacute;IA, arco-da-velha, s. m. &#8211; arco-iris. | Paiva, nas &quot;Inferm.<br \/>\n    da L&iacute;ngua&quot; (s&eacute;c. XVIII), coloca este termo entre os que<br \/>\n    cumpre evitar. O &quot;Novo Dic.&quot; s&oacute; o regista em sua &uacute;ltima<br \/>\n    ed. &#8211; No Brasil, &eacute; corrente a frase &quot;coisas do arco-da-velha&quot;,<br \/>\n    por &quot;coisas extraordin&aacute;rias, surpreendentes&quot;.<\/p>\n<p>AR&Ecirc;A, areia, s. f. | &Eacute; forma arc. Cp. v&ecirc;a, ch&ecirc;o,<br \/>\n    etc., igualmente arcaicos mas persistentes no dial. caip.<\/p>\n<p>ARE&Aacute;(R), v. t. &#8211; limpar cuidadosamente (qualquer objeto).<\/p>\n<p>AREADO, part. de arear &#8211; muito limpo, em estado de perfeito asseio: &quot;&#8230;<br \/>\n    revirava de sol a sol na labuta das donas, trazia tudo areadinho&#8230;&quot;<br \/>\n    (V. S.).<\/p>\n<p>ARE&Atilde;O, s. m. &#8211; larga extens&atilde;o de solo coberta de areia: &quot;Assim<br \/>\n    falavam o Chico Greg&oacute;rio e o Bertolomeu, no are&atilde;o da estrada<br \/>\n    do Abert&atilde;o, sob uma sombra&#8230;&quot; (C. P.).<\/p>\n<p>AREJA(R), v. i. &#8211; constipar-se (o animal): &quot;Desincie o cavalo e rec&ocirc;ia<br \/>\n    no pai&oacute;. T&aacute; choveno daqui um poquinho e &ecirc;le t&aacute;<br \/>\n    banhado de su&oacute;r; pode arej&aacute;!&quot; (C. P.) | Em Mato Grosso<br \/>\n    e outras regi&otilde;es h&aacute;, com o mesmo sentido, &quot;airar&quot;:<br \/>\n    &quot;Virou os arreios, n&atilde;o de s&uacute;bito, mas com cautela e lentid&atilde;o,<br \/>\n    para que o animal, encalmado como estava, n&atilde;o ficasse airado, (Taunay,<br \/>\n    &quot;Inoc.&quot;).<\/p>\n<p>AREJADO, q. &#8211; part. de &quot;arejar&quot;. V. esta palavra.<\/p>\n<p>ARIMB&Aacute;, s. m. &#8211; boi&atilde;o de barro vidrado em que se guardam doces<br \/>\n    em calda. | Do tupi?<\/p>\n<p>ARIRANHA, s. m. carn&iacute;voro da fam. &quot;Mustelidae&quot; e semelhante<br \/>\n    &agrave; lontra, hoje raro. | &Eacute; nome de uma localidade do Estado de<br \/>\n    S. Paulo. &#8211; Tupi.<\/p>\n<p>ARFENETE, alfinete, s. m.<\/p>\n<p>N&atilde;o m&#8217;arrar&atilde;o alfenetes E tam&iacute;sem enxaravia. (Gil V.,<br \/>\n    &quot;Auto Past. Port.&quot;)<\/p>\n<p>ARMA-D~GATO, alma de g., s. f. &#8211; ave da fam. &quot;Cuculidae&quot;, castanho-parda,<br \/>\n    cinzenta na parte inferior, cauda longa com pontas brancas. Tamb&eacute;m<br \/>\n    se lhe chama, no Brasil, &quot;alma de caboclo&quot;, &quot;rabo-de-palha&quot;,<br \/>\n    e &quot;tinguassu&quot;. (R. v. I.).<\/p>\n<p>ARRAIA-MIUDA, s. f. &#8211; populacho. | Cp. arraial, pequeno povoado, e outrora<br \/>\n    povo (contra&iacute;do em arreal, real). Parece ter havido aqui contamina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da id&eacute;ia de &quot;arraia&quot; peixe.<\/p>\n<p>ARRANCH&Aacute;(R), v. i. &#8211; armar barraca, ou &quot;rancho&quot;; estabelecer-se<br \/>\n    provisoriamente; fig., hospedar-se sem cerim&ocirc;nia (com algu&eacute;m):<br \/>\n    &quot;No fim do segundo dia fumo arranch&aacute; na b&ecirc;ra do Mugi&quot;.<br \/>\n    &quot;O Bituca arranch&ocirc; na casa do cumpadre, sem mais nem menos&quot;.<\/p>\n<p>ARRE L&Aacute;, intj. &#8211; de enfado ou c&oacute;lera, como arre: &quot;N&atilde;o<br \/>\n    me aborre&ccedil;a! Arre l&aacute;!&quot; | Esta intj., que n&atilde;o encontramos<br \/>\n    registada em dicion&aacute;rio, se acha em Gil V. (&quot;Auto da Barca do<br \/>\n    Purg.&quot;):<\/p>\n<p>Arre l&aacute;! uxte. morena!<\/p>\n<h2><a name=\"7\">Em medita\u00e7\u00e3o Introspectiva<\/a><\/h2>\n<p>Do fundo de meu ser, num arremesso<br \/>\n    longo, parte uma voz turva e fremente.<br \/>\n    Escuto-a j&aacute; bramir, quando, em come&ccedil;o,<br \/>\n    balbuciava uma prece, lentamente.<\/p>\n<p>Acendo o lume da Raz&atilde;o, e des&ccedil;o<br \/>\n    &agrave;s cavernas profundas do Inconsciente.<br \/>\n    A luz vacila e fuma; eu estreme&ccedil;o,<br \/>\n    vendo s&oacute; treva acumulada em frente.<\/p>\n<p>Clamo, interrogo&#8230; Em v&atilde;o. Sil&ecirc;ncio em tudo.<br \/>\n    Aos poucos, num luar distante, agora,<br \/>\n    rondam vultos de sonho e de pecado.<\/p>\n<p>E aflita, o colo branco a arfar desnudo,<br \/>\n    uma princesa acorrentada chora<br \/>\n    junto a um fosco antrop&oacute;ide acorrentado.<\/p>\n<p>16 de setembro de 1922<\/p>\n<p>Publicado no livro L&acirc;mpada antiga: versos (1924). Poema integrante<br \/>\n    da s&eacute;rie Um Punhado de Sonetos.<\/p>\n<h2><a name=\"8\" id=\"8\">Jamais<\/a><\/h2>\n<p>A Gast&atilde;o Bousquet<\/p>\n<p>Jamais, jamais encontrarei aquela<br \/>\n    que eu procurava pelo mundo outrora,<br \/>\n    como quem mira um c&eacute;u que n&atilde;o se estrela,<br \/>\n    um v&eacute;u de n&eacute;voa que n&atilde;o se evapora.<br \/>\n    Jamais, jamais. E, solit&aacute;ria vela,<br \/>\n    vai-se a Esperan&ccedil;a, Desalento em fora.<br \/>\n    Jamais h&aacute; de cessar esta procela,<br \/>\n    jamais h&aacute; de raiar aquela aurora.<br \/>\n    H&aacute; de morrer esta vontade pura<br \/>\n    (o cora&ccedil;&atilde;o aniquilado diz-mo)<br \/>\n    na intimidade das secretas m&aacute;goas.<br \/>\n    E este imenso tesouro de ternura<br \/>\n    ser&aacute; como um regato num abismo,<br \/>\n    rolando oculto as cristalinas &aacute;guas.<\/p>\n<p>Publicado no livro N&eacute;voa (1910).<\/p>\n<h2><a name=\"9\" id=\"9\">Memorial de um Passageiro de Bonde<\/a><\/h2>\n<p>O meu amigo Jo&atilde;o Fel&iacute;cio Trancoso, conceituado, chefe de se&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    prometeu um dia, em troca j&aacute; n&atilde;o sei de que servi&ccedil;o,<br \/>\n    que me faria um presente &agrave; minha escolha. Resisti, como cumpria, &agrave;<br \/>\n    promessa de outra compensa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o fosse a da sua<br \/>\n    velha e sempre nova amizade.<\/p>\n<p> Mas Trancoso &eacute; obstinado e n&atilde;o me deixou sossegar. Exigiu<br \/>\n    sempre que eu lhe dissesse o que preferia &#8211; se a cole&ccedil;&atilde;o das<br \/>\n    obras de Jorge Ohnet (a sua maior predile&ccedil;&atilde;o em literatura),<br \/>\n    se uma cigarreira de prata, se um guarda-chuva de seda.<\/p>\n<p> Como eu teimasse em recusar, mandou-me o guarda-chuva e, n&atilde;o satisfeito,<br \/>\n    pouco depois me veio amea&ccedil;ar com as obras de Jorge Ohnet. Urgia romper<br \/>\n    o cerco.<\/p>\n<p> Ora, eu sabia que Trancoso, muito calado, rascunhava um di&aacute;rio das<br \/>\n    suas impress&otilde;es de viagem. Das viagens que h&aacute; vinte anos faz,<br \/>\n    como bom empregado p&uacute;blico, de casa para a reparti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e da reparti&ccedil;&atilde;o para casa. Tomei-lhe um punhado de folhas, li-o,<br \/>\n    e disse-lhe: &quot;Este &eacute; o presente que exijo&quot;.<\/p>\n<p> Tentou repontar, quis sofismar o contrato: venci-o &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    de senso jur&iacute;dico e de severas admoesta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Nenhuma lembran&ccedil;a do velho amigo me poderia ser mais grata do que<br \/>\n    esses pap&eacute;is em que lan&ccedil;ou uma verdadeira por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de si mesmo. Verdadeira, porque Fel&iacute;cio n&atilde;o conhece a arte dos<br \/>\n    desdobramentos liter&aacute;rios da personalidade. Nota no memorial as espont&acirc;neas<br \/>\n    modifica&ccedil;&otilde;es de sua alma ao contato das coisas e dos homens.<br \/>\n    N&atilde;o edifica a sua obra: segrega-a. N&atilde;o a escreve para verificar<br \/>\n    ou provar que tamb&eacute;m &eacute; capaz de fazer literaturas, mas &quot;para<br \/>\n    ter a sensa&ccedil;&atilde;o de que se expurgou de uma inevit&aacute;vel por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tolices&quot;.<\/p>\n<p> Assim, o seu ponto de vista de escrevedor &eacute; inteiramente oposto ao<br \/>\n    dominante: outros constr&oacute;em, com esfor&ccedil;o, uma personalidade<br \/>\n    exterior, feita de escritos, na qual p&otilde;em toda a sua complac&ecirc;ncia<br \/>\n    e o melhor das suas esperan&ccedil;as; este deita fora as suas id&eacute;ias,<br \/>\n    como um refugo, para conservar o equil&iacute;brio, a sa&uacute;de e a leveza<br \/>\n    do seu ser interior e inviol&aacute;vel &#8211; o &uacute;nico que vale a pena de<br \/>\n    ser vivido e cultivado, (mesmo porque n&atilde;o se lhe pode sair da casca).<\/p>\n<p> Demais, gosta de escrever &quot;para ter a impress&atilde;o, ao reler-se,<br \/>\n    de ser uma alma que vai vivendo, apesar de reduzida &agrave; m&iacute;nima<br \/>\n    express&atilde;o social de empregado p&uacute;blico e viajante de bonde.&quot;<br \/>\n    E acrescenta: &quot;A lesma, na sua exist&ecirc;ncia branca, s&oacute; deve<br \/>\n    ter uma tal ou qual sensa&ccedil;&atilde;o de vida quando olha para o rasto<br \/>\n    prateado que vai deixando pela parede.&quot; Contudo, os mais sonsos t&ecirc;m<br \/>\n    o seu sistema de id&eacute;ias e Trancoso n&atilde;o escapa &agrave; necessidade.<br \/>\n    O seu ponto de vista autoral, atr&aacute;s indicado, j&aacute; representa<br \/>\n    uma posi&ccedil;&atilde;o filos&oacute;fica diante do mundo e da sociedade.<br \/>\n    H&aacute; mais: o nosso memorialista visivelmente gosta dos casos e coisas<br \/>\n    mais ordin&aacute;rios, mais mesquinhos, mais insignificantes: esses, de prefer&ecirc;ncia,<br \/>\n    regista e comenta. &Eacute; que pensa, com Chamfort, que, &quot;nas grandes<br \/>\n    coisas, os homens se mostram como lhes &eacute; conveniente, mas nas pequenas<br \/>\n    se revelam tais quais s&atilde;o&quot;. Da&iacute; o sabor das pequenas coisas,<br \/>\n    que s&atilde;o na verdade as realmente grandes, porque formam os alicerces<br \/>\n    e as armaduras de tudo.<\/p>\n<p> O sabor? Antes a amargura Entretanto, Trancoso n&atilde;o &eacute; um c&eacute;tico<br \/>\n    nem um pessimista. Homem s&atilde;o na sua humana enfermidade e forte na sua<br \/>\n    complex&atilde;o mediana, conhece o valor higi&ecirc;nico da variedade de<br \/>\n    exerc&iacute;cios e a conveni&ecirc;ncia de a gente se abandonar um pouco<br \/>\n    &agrave; ondula&ccedil;&atilde;o natural do sentimento e das intui&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    ordin&aacute;rias. No fundo, talvez, crente, &#8211; crente do bom senso da intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    e do cora&ccedil;&atilde;o, qualidade ativa, inimiga nata do senso comum,<br \/>\n    &quot;consagra&ccedil;&atilde;o social e passiva de toda a sorte de preconceitos<br \/>\n    mendazes e de pr&eacute;-sentimentos daninhos&quot;.<\/p>\n<p> Enfim, aqui tem o leitor as impress&otilde;es de viagem de Fel&iacute;cio<br \/>\n    Trancoso. Temo que este pref&aacute;cio o prepare mal para avaliar a verdadeira<br \/>\n    &iacute;ndole dessas p&aacute;ginas despreocupadas. A eterna impertin&ecirc;ncia<br \/>\n    dos pref&aacute;cios! As coisas da vida surgem por si mesmas, sem pref&aacute;cios<br \/>\n    nem explica&ccedil;&otilde;es, e no entanto conseguem perfeitamente o fim<br \/>\n    de todas as coisas: passar. Pois fa&ccedil;amos de contas que este pref&aacute;cio<br \/>\n    j&aacute; passou. N&atilde;o existe.<\/p>\n<p> L&#8217;&aacute;me respire avec des paroles UNAMUNO, L&#8217;Agonie du Christianisme<br \/>\n    O BONDE Quando ia tomar o meu bonde, hoje pela manh&atilde;, o meu vizinho<br \/>\n    Dr. Viegas passou no seu Dodge e atirou-me. num gesto, a fisga de um convite.<br \/>\n    Hesitei um pouco, e afinal optei pelo bonde. O Dr. Viegas partiu.<\/p>\n<p> Entrei no carro el&eacute;trico, conquistei um lugar no &uacute;ltimo banco,<br \/>\n    e s&oacute; depois que me vi instalado e refestelado &eacute; que me ocorreu<br \/>\n    dirigir a mim pr&oacute;prio esta interpela&ccedil;&atilde;o: &quot;Por que<br \/>\n    ser&aacute; que recusei o autom&oacute;vel? Porque preferi o bonde?&quot;<br \/>\n    A resposta n&atilde;o foi imediata nem r&aacute;pida; veio por&eacute;m, e<br \/>\n    aqui a reduzo a conserva: &quot;Preferi o bonde porque n&atilde;o tenho pressa.<br \/>\n    E n&atilde;o quero ter pressa, porque estou contente, e o contentamento em<br \/>\n    mim propende naturalmente &agrave; lenteza das degusta&ccedil;&otilde;es silenciosas<br \/>\n    e chuchurreadas. Trago a alma numa pacifica&ccedil;&atilde;o pessoal e cantante,<br \/>\n    num desses estados de harmonia org&acirc;nica que crescem de dentro para fora,<br \/>\n    como uma floresc&ecirc;ncia, sem se saber porque, e por isso mesmo s&atilde;o<br \/>\n    mais doces. Para fruir esta euf&oacute;rica disposi&ccedil;&atilde;o, preciso<br \/>\n    de estar s&oacute;. E a melhor maneira de estar s&oacute; &eacute; ainda achar-se<br \/>\n    no meio de uma quantidade grande de estranhos. Sentimo-nos, assim, n&atilde;o<br \/>\n    apenas insulados, mas diversos. Duplo c&iacute;rculo de segrega&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Solidariedade enfestada. &#8211; E eis a&iacute; a &uacute;nica forma de solidariedade<br \/>\n    perfeita que os homens at&eacute; hoje inventaram: a uni&atilde;o de todos<br \/>\n    para deixar cada um entrincheirado em si mesmo, como uma pedra.<\/p>\n<p> Depois, o autom&oacute;vel me &eacute; antip&aacute;tico. A rapidez posta<br \/>\n    a servi&ccedil;o dos que n&atilde;o t&ecirc;m que fazer! A faculdade de deslocamento<br \/>\n    veloz em posse dos que menos raz&atilde;o teriam para correr! Assim, os rel&oacute;gios<br \/>\n    de bolso foram nos seus princ&iacute;pios um luxo de ricos, depois de apatacados;<br \/>\n    adorno e brinquedo dos que tinham mais tempo ao seu dispor. Velha hist&oacute;ria<br \/>\n    da maioria dos inventos: charadas e curiosidades de mec&acirc;nica para pessoas<br \/>\n    lun&aacute;ticas ou desocupadas, acabam impondo-se a todo o mundo. N&atilde;o<br \/>\n    os determina a necessidade: eles &eacute; que a suscitam. Os que trabalham<br \/>\n    deveras, os que suam e gemem na tarefa de todos os dias s&atilde;o os que<br \/>\n    precisariam de ter autom&oacute;vel, para poupar minutos, para espremer uma<br \/>\n    gota de vida e de sangue em cada segundo. Mas esses n&atilde;o o podem adquirir<br \/>\n    e manter; podem quando muito sonhar em possu&iacute;-lo um dia &#8211; quando j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o seja necess&aacute;rio.<\/p>\n<p> Assim se vive perpetuamente, em busca do sup&eacute;rfluo; por ele nos batemos<br \/>\n    e sacrificamos. O sup&eacute;rfluo &eacute;-nos t&atilde;o indispens&aacute;vel<br \/>\n    como para certos doentes o ar das montanhas ou os banhos de mar. Nele pomos<br \/>\n    as nossas esperan&ccedil;as de sa&uacute;de e rejuvenescimento. A vida &eacute;<br \/>\n    uma carreira louca em p&oacute;s de autom&oacute;veis relampejantes. Poucos<br \/>\n    os agarram. E os que os agarram, apenas aboletados mandam tocar mais depressa<br \/>\n    para alcan&ccedil;ar um outro que faiscou ao longe. E toda esta canseira se<br \/>\n    resolve numa carreira desesperada emp&oacute;s do &uacute;ltimo carro, aquele<br \/>\n    que tem douradas e negruras.<\/p>\n<p> O autom&oacute;vel &eacute; o ve&iacute;culo dos que fogem a si mesmos.<br \/>\n    Qual a causa dessa febre de pressa? Vaidade material, exterioriza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do centro de gravidade ps&iacute;quica. Depois, gosto puro da velocidade,<br \/>\n    pendor infantil reencontrado na idade madura &#8211; prazer de um tropel de sensa&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    dominado pela sensa&ccedil;&atilde;o central e capitosa de sermos uma vertigem<br \/>\n    que voa atrav&eacute;s do del&iacute;rio das coisas. Tudo maneiras novas de<br \/>\n    embriaguez. O autom&oacute;vel vem da mesma prateleira que o whisky, o tango<br \/>\n    e a morfina. Tudo maneiras de uma pessoa esquivar o olho antip&aacute;tico<br \/>\n    e fulgurante do seu Eu profundo, o consciente, o rememorador, o censurante,<br \/>\n    o meditativo, que desperta e fala quando abandonamos o corpo e os sentidos,<br \/>\n    e os bra&ccedil;os descansam, e o animal estatela como um mecanismo cuja corda<br \/>\n    se acabou.<\/p>\n<p> O autom&oacute;vel &eacute; o ve&iacute;culo dos que n&atilde;o amam, apenas<br \/>\n    desfloram libertinamente a beleza das coisas. &#8211; A melhor aten&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do viajante, por essas estradas, se concentra na m&aacute;quina. &quot;Como<br \/>\n    se porta? Quanto anda? Quantos quil&ocirc;metros andou? Como funcionam os<br \/>\n    freios? Bastar&aacute; a provis&atilde;o de gasolina? Onde encontrar gasolina<br \/>\n    aos litros? Olha um que l&aacute; vem como um louco! Vamos a uma chispada!<br \/>\n    Cuidado com essa volta&#8230; Diabo, l&aacute; se foi um pneu!&#8230; &#8211; Assim, conjugado<br \/>\n    ao passageiro por todas as fibras da aten&ccedil;&atilde;o e da vontade, o<br \/>\n    auto &eacute; como um corpo doente que uma triste criatura tem de conduzir,<br \/>\n    absorvida nele, por entre esbarros e escorreg&otilde;es. &Eacute; um prolongamento<br \/>\n    imediato do Eu material, e pois um refor&ccedil;o tremendo da m&uacute;ltipla<br \/>\n    escravid&atilde;o que amarra a endolorece o esp&iacute;rito. O ideal do fil&oacute;sofo<br \/>\n    &eacute; despojar-se de tudo quanto nos limita e nos pesa: o ideal comum &eacute;<br \/>\n    encarapitar novas cargas e novos prolongamentos, novas estruturas posti&ccedil;as<br \/>\n    &agrave; personalidade natural.<\/p>\n<p> Os homens na verdade amam todo g&ecirc;nero de escravid&atilde;o, contanto<br \/>\n    que lhe ponham um nome apraz&iacute;vel. Dirigir um autom&oacute;vel &eacute;<br \/>\n    &quot;dirigir&quot; alguma coisa. (Veja-se a tradicional impon&ecirc;ncia<br \/>\n    dos indiv&iacute;duos atrelados a uma bol&eacute;ia). Chamam a isso dominar<br \/>\n    a mat&eacute;ria cega e a for&ccedil;a bruta.<\/p>\n<p> Dominar a mat&eacute;ria e a for&ccedil;a, quem o faz &eacute; o inventor<br \/>\n    que labuta no gabinete e no laborat&oacute;rio. Os outros apenas reproduzem<br \/>\n    a hist&oacute;ria do m&aacute;gico aprendiz. &#8211; Chamam a isso fazer esporte,<br \/>\n    cooperar na obra de n&atilde;o sei que vago progresso. E com estas id&eacute;ias<br \/>\n    se alegram. F&aacute;ceis de contentar, os homens. &Eacute; pena que os for&ccedil;ados<br \/>\n    das gal&eacute;s antigas n&atilde;o tenham tido a consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de algum pensamento nesse estilo, quando se dobravam e desdobravam amarrados<br \/>\n    &agrave; mec&acirc;nica extenuante do remo! Sim, automobilistas h&aacute;<br \/>\n    que t&ecirc;m tempo para ver; que colecionam sensa&ccedil;&otilde;es; que<br \/>\n    trazem bra&ccedil;adas de impress&otilde;es da natureza, dos povoados, das<br \/>\n    caras e das almas entrevistas.<\/p>\n<p> Impress&otilde;es talvez n&iacute;tidas, mas fragment&aacute;rias e superficiais,<br \/>\n    como fotografias. A objetividade chata e unilateral do instant&acirc;neo.<br \/>\n    Nada das penetra&ccedil;&otilde;es, das tatilidades envolventes, das sondagens<br \/>\n    reveladoras, das adivinha&ccedil;&otilde;es enlevadas, das apreens&otilde;es<br \/>\n    &iacute;ntimas, concretas, totalizantes, de uma alma em lento contato, em<br \/>\n    luta e em n&uacute;pcias com a virgindade fugitiva do real. A imparcialidade<br \/>\n    qu&iacute;mica, a mentirosa, a est&uacute;pida imparcialidade da fotografia.<\/p>\n<p> Enquanto que o bonde&#8230; Ah! o bonde &eacute; outra hist&oacute;ria. Nem<br \/>\n    t&atilde;o vagaroso que d&ecirc; sono, nem t&atilde;o veloz que d&ecirc; vertigem,<br \/>\n    tem a suprema vantagem de ser seguro e repousante. &quot;Repousante&quot;<br \/>\n    quer dizer que nos deixa o descanso necess&aacute;rio para continuarmos em<br \/>\n    lida e em briga conosco mesmos. Quer dizer que no bonde n&atilde;o interv&eacute;m<br \/>\n    a for&ccedil;a centr&iacute;fuga que nos estra&ccedil;alha e nos projeta contra<br \/>\n    as coisas ambientes, na alucina&ccedil;&atilde;o das corridas el&aacute;sticas<br \/>\n    e esfuziantes. Em vez de domar a pulso umas engenhocas pomposas e trai&ccedil;oeiras,<br \/>\n    acho mais razo&aacute;vel e mais agrad&aacute;vel degustar as aquisi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    j&aacute; provadas e certas do g&ecirc;nio inventivo, das quais nos podemos<br \/>\n    servir sem lhes dar maior aten&ccedil;&atilde;o. E que formid&aacute;veis<br \/>\n    aquisi&ccedil;&otilde;es, j&aacute; docemente incorporadas aos nossos modos<br \/>\n    de ser! Por exemplo, este meu Faber n.0 2, macio, leve e corrente como uma<br \/>\n    agulha sensibil&iacute;ssima adaptada a um aparelho psicogr&aacute;fico; este<br \/>\n    papel em que escrevo, liso e l&uacute;cido como porcelana, claro como a cordialidade,<br \/>\n    alvo como a inoc&ecirc;ncia, receptivo como um espelho; este humilde capote<br \/>\n    de l&atilde; que molemente me escorrega dos ombros &agrave; medida que trabalho,<br \/>\n    brando como um carinho piedoso que discretamente se retira; este meu rel&oacute;gio<br \/>\n    paciente e incans&aacute;vel, que h&aacute; seis anos tiquetaqueia todos os<br \/>\n    minutos da minha vida, j&aacute; embaciado, j&aacute; com os relevos do tempo<br \/>\n    meio delidos, j&aacute; com um ponteiro meio torto, j&aacute; com o vidro<br \/>\n    meio opaco, mas con moto dentro firme e obstinado no seu trabalho, sempre<br \/>\n    a contar l&aacute; consigo, na sua vizinha martelada e tilintante, a medida<br \/>\n    perp&eacute;tua de todas as monotonias essenciais deste mundo tumultuoso.<\/p>\n<p> O bonde permite que eu me concentre em mim mesmo. N&atilde;o vale isso grande<br \/>\n    coisa, mas sempre &eacute; um meio de eu me sentir viver enquanto vivo. O<br \/>\n    que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel no autom&oacute;vel &agrave; solta,<br \/>\n    onde a nossa alma se vai espadanando pelos caminhos como a &aacute;gua de<br \/>\n    uma vasilha sacolejada.<\/p>\n<p> O bonde permite-me ver de perto, viver o bicho-homem na substancial realidade<br \/>\n    dos seus gestos inadvertidos. E esse bichinho (verme da terra, l&aacute; diz<br \/>\n    o Evangelho) &eacute; afinal s&oacute; o que h&aacute; de interessante no<br \/>\n    mundo.<\/p>\n<p> As pr&oacute;prias estrelas s&atilde;o uma poeira est&uacute;pida, na sua<br \/>\n    mudez mortal e na sua mec&acirc;nica fria. De onde lhes vem a magnitude e<br \/>\n    a beleza? Da pequenez e da mis&eacute;ria desse bichinho que pensa e que imagina,<br \/>\n    entre as minhocas e os sapos. A sua pequenez e a mis&eacute;ria o fazem vision&aacute;rio<br \/>\n    de esplendores.<\/p>\n<p> Deliciae meae esse cum filiis hominum.<\/p>\n<p> O bonde &eacute; uma galeria inesgot&aacute;vel de exemplares desse verme<br \/>\n    sempre igual e sempre v&aacute;rio; uma exposi&ccedil;&atilde;o permanente,<br \/>\n    renovada a cada instante, de tipos, de esbo&ccedil;os, de caricaturas, rica<br \/>\n    e m&uacute;ltipla como a vida, sugestiva como deve ser a antec&acirc;mara<br \/>\n    do Purgat&oacute;rio. Se as almas soassem, o bonde seria como um poderoso<br \/>\n    jazz-band sobre rodas em que os uivos, os berros, os solu&ccedil;os, as casquinadas<br \/>\n    interiores se despenhariam em cataratas de disson&acirc;ncias &#8211; sem perder<br \/>\n    o fio &agrave;s grandes linhas mon&oacute;tonas da composi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &quot;Ah! o bonde, sim&#8230;&quot; Depois de me dar esta resposta, achei que<br \/>\n    era um pouco longa demais para explicar uma resolu&ccedil;&atilde;o tomada<br \/>\n    em dois segundos. Mas n&atilde;o sei faz&ecirc;-lo por outro modo. Sei apenas<br \/>\n    que &eacute; assim, ordinariamente, com todas as nossas resolu&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Elas pressup&otilde;em longos trabalhos de racioc&iacute;nio e reflex&atilde;o;<br \/>\n    na verdade, esses trabalhos v&ecirc;m depois, e s&oacute; servem, quando muito,<br \/>\n    para as seguintes edi&ccedil;&otilde;es do mesmo ato.<\/p>\n<p> No cabo de tudo, se eu ainda dispusesse de dinheiro sobrante, compraria<br \/>\n    um autom&oacute;vel, ou uma dessas m&aacute;quinas que mais se assemelham<br \/>\n    autom&oacute;vel.<\/p>\n<p> UM SONETO Sa&iacute;, hoje, de casa maquinando um soneto. N&atilde;o foi<br \/>\n    culpa minha, mas obra do acaso. Lendo um jornal, depara-se-me, perdido no<br \/>\n    entrecho de uma not&iacute;cia ordin&aacute;ria, em que se narrava a pris&atilde;o<br \/>\n    de uma negrinha gatuna, este retalho de frase: &quot;Toda a ilus&atilde;o<br \/>\n    da triste Gabriela&#8230;&quot; &#8211; Magia do n&uacute;mero! N&atilde;o foi sem raz&atilde;o,<br \/>\n    &oacute; sombra vener&aacute;vel de Pit&aacute;goras! que a pressentiste por<br \/>\n    tudo nas esferas como nas almas. Repeti duas, tr&ecirc;s, dez vezes esse peda&ccedil;o<br \/>\n    de frase vulgar, que &eacute; um verso inteiro e excitante. Gabriela alvejou-se-me<br \/>\n    e transfigurou-se-me logo na remota imagem de uma linda pessoa que de repente<br \/>\n    se vira nua de toda ilus&atilde;o, nua como lady Godiva montada num asno,<br \/>\n    em meio da pra&ccedil;a. Comecei a compor&#8230; n&atilde;o, come&ccedil;ou a<br \/>\n    compor-se em mim um soneto: J&aacute; n&atilde;o tens ilus&atilde;o, &oacute;<br \/>\n    Gabriela! Nega-ta o amor, essa com&eacute;dia triste.<\/p>\n<p> Nega-ta a vida. E em tudo quanto existe, O espinho do real se te revela.<\/p>\n<p> Subi para o bonde a escandir mentalmente esses decass&iacute;labos, que<br \/>\n    para ser sincero comigo mesmo, n&atilde;o me pareceram maravilhosos. Mas alentava-me<br \/>\n    a esperan&ccedil;a de que pudessem ir melhorando do meio para o fim do soneto.<br \/>\n    &#8211; O que me apepinava um bocado era que as rimas aproveit&aacute;veis n&atilde;o<br \/>\n    se deixavam pegar como frangos de p&eacute;s amarrados. A mem&oacute;ria,<br \/>\n    afeita a servir-me os torresmos do vocabul&aacute;rio trivial, s&oacute; me<br \/>\n    deparava coisas como fivela, moela, espinhela, chiste, alpiste, que n&atilde;o<br \/>\n    se coadunavam &agrave; pura nobreza da inspira&ccedil;&atilde;o. Encolhi-me,<br \/>\n    cerrei as p&aacute;lpebras e atirei-me &agrave; ca&ccedil;a de boas rimas,<br \/>\n    exerc&iacute;cio muito &uacute;til, para refrescar as id&eacute;ias e especialmente<br \/>\n    indicado como passatempo higi&ecirc;nico e divertido para homens atarefados,<br \/>\n    nas horas vagas.<\/p>\n<p> Ia engolfado nesse labor &#8211; Cellini do verso! &#8211; quando senti que uns dedos<br \/>\n    me bicavam no ombro.<\/p>\n<p> Voltei-me, era o meu amigo Fabiano Alves, pr&aacute;tico de farm&aacute;cia<br \/>\n    meu vizinho. Bom homem, mas confiado, e ainda com a particularidade esquisita<br \/>\n    de se achar sempre numa temperatura espiritual completamente diversa da minha.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Est&aacute; calculando?&quot; indagou.<\/p>\n<p> Tive ganas de lhe perguntar que conta lhe fazia que eu estivesse calculando<br \/>\n    ou voando muito acima do loda&ccedil;al do mundo, onde patejam os botic&aacute;rios<br \/>\n    sem alma.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Vem t&atilde;o concentrado, mexendo com os l&aacute;bios.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;C&aacute; umas coisas.&quot; Fabiano entrou imediatamente a explicar<br \/>\n    que era tapad&iacute;ssimo em quest&otilde;es de c&aacute;lculo.<\/p>\n<p> Decididamente, n&atilde;o dava para essa especialidade. De uma feita, propuseram-lhe<br \/>\n    um problema, no clube de Periquitos, sua terra natal: &quot;Um p&aacute;ssaro<br \/>\n    faz sete voltas em redor de uma torre de cantaria em quarenta segundos; quantas<br \/>\n    torres ser&atilde;o precisas para que sete p&aacute;ssaros fa&ccedil;am uma<br \/>\n    volta&#8230;&quot; Mais ou menos isso. Coisa &agrave;-toa, simples aplica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da regra de tr&ecirc;s; podendo-se tamb&eacute;m resolver rapidamente por<br \/>\n    an&aacute;lise. Pois levou mais de meia hora para dar com a solu&ccedil;&atilde;o!<br \/>\n    Uma vergonha.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Ainda assim, voc&ecirc; &eacute; um bicho, Fabiano.&quot; &#8211; &quot;N&atilde;o;<br \/>\n    em Matem&aacute;tica, serei bicho, mas de m&aacute; qualidade: um burrego.<br \/>\n    De todas as ci&ecirc;ncias, a que d&aacute; com o meu feitio &eacute; esta&quot;<br \/>\n    (e batia com a larga e magra m&atilde;o sobre a capa de um livro de espiritismo)<br \/>\n    &quot;&eacute; esta, a filosofia.&quot; E Fabiano falou copiosamente sobre<br \/>\n    a doutrina esp&iacute;rita, &quot;a mais consoladora de todas&quot;, e em<br \/>\n    particular sobre a moral, &quot;sem discuss&atilde;o poss&iacute;vel, a mais<br \/>\n    perfeita.&quot; &#8211; &quot;Fabiano&quot; (lhe disse eu, apenas por dizer alguma<br \/>\n    coisa), &quot;voc&ecirc; conhece a moral de S&oacute;crates? Ele sorriu: &#8211;<br \/>\n    &quot;Esse, justamente, freq&uuml;enta o meu c&iacute;rculo. Um esp&iacute;rito<br \/>\n    evolu&iacute;do. Adiantado!&quot; E dizendo &quot;adiantado&quot;, Fabiano<br \/>\n    esticou os bei&ccedil;os para um assobio, que deixou subentendido.<\/p>\n<p> Mas eu, intrigado, questionei: &#8211; &quot;Como &eacute; isso, &oacute; Fabiano?<br \/>\n    Ent&atilde;o S&oacute;crates freq&uuml;enta&#8230;&quot; Ele sorriu com bonomia,<br \/>\n    explicando: &#8211; &quot;Manifesta-se, compreende? Est&aacute; desencarnado h&aacute;<br \/>\n    muitos anos, desde um desastre que houve aqui na Central. Saiu com as pernas<br \/>\n    esmigalhadas. Nesse mesmo dia visitou uns nossos irm&atilde;os, no Par&aacute;;<br \/>\n    por sinal que fez o pobre do aparelho gritar com dores nas pernas!&quot; Fabiano<br \/>\n    discorria, discorria. A certeza da verdade dava-lhe um ar de beatitude. &quot;Ele<br \/>\n    j&aacute; parecia respirar o eterno, planava al&eacute;m de todas as coisas<br \/>\n    perecedouras, que v&atilde;o da mol&eacute;cula &agrave;s estrelas. Este pr&aacute;tico<br \/>\n    de farm&aacute;cia, que acabava de largar o almofariz para ir comprar uma<br \/>\n    por&ccedil;&atilde;o de calomelanos &agrave; drogaria, achava-se absolutamente<br \/>\n    integrado nos planos perp&eacute;tuos da vida e do movimento universal. E<br \/>\n    o curioso &eacute; que se consolava com isto.<\/p>\n<p> Ia sorrindo, no bonde, como sorriria um arcanjo na sua biga de chamas, atrav&eacute;s<br \/>\n    do infinito, assistindo ao florir e ao despertar das constela&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pelos abismos sem fundo. Ou como uma crian&ccedil;a contemplando um queimar<br \/>\n    de rodinhas e traques.<\/p>\n<p> Com isto, deixei de fazer o meu soneto. Quando pretendi reinvocar a inspira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    ela havia batido as asas. Um acaso ma trouxera, um outro ma levou.<\/p>\n<p> Assim acontece com tantas coisas belas e boas da alma! Nascem e morrem por<br \/>\n    a&iacute; na sombra e na bruma da vida larvada. Nascem por acaso, por acaso<br \/>\n    morrem. E n&oacute;s caminhamos sobre as flores mortas dos nossos jardins<br \/>\n    interiores, como um cord&atilde;o de porcos-do-mato sobre uma camada de p&eacute;talas,<br \/>\n    na &eacute;poca da inumer&aacute;vel floresc&ecirc;ncia dos manac&aacute;s.<br \/>\n    Mas entre a preta Gabriela e o botic&aacute;rio Fabiano, minha alma teve um<br \/>\n    momento de ventura inocente, embalada no ber&ccedil;o dos ritmos e dos timbres.<br \/>\n    E, se n&atilde;o chegou a perpetrar nada, tanto melhor.<\/p>\n<p> O melhor da poesia e de tudo quanto se lhe parece &eacute; a elabora&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o estado de gra&ccedil;a, a embriaguez esporeante, a doce liberdade interior<br \/>\n    em que vive quem a elabora ou rumina. Talvez que o mais alto poeta seja um<br \/>\n    simples ruminante mudo de formas, O mais, vaidade e pretexto.<\/p>\n<p> Bendita a Gabriela, e bendito o Fabiano.<\/p>\n<p> RUFINA &#8211; &quot;Entre, Rufina.&quot; Quando eu voltava, hoje, para casa,<br \/>\n    lendo uma folha da tarde, ouvi soar essa frase num dos bancos dianteiros.<br \/>\n    Instintivamente, olhei: Quem a proferira fora um senhor idoso, com uma grande<br \/>\n    cara bonacheirona e sonsa, dirigindo-se a uma rapariga que, n&atilde;o sei<br \/>\n    por que motivo, parecia hesitar sobre o estribo, como uma baratinha machucada.<\/p>\n<p> O bonde estava parado. Quando o homem acabava de falar, o carro subitamente<br \/>\n    arrancou, e a mo&ccedil;a ia perdendo o equil&iacute;brio, soltando um desses<br \/>\n    guinchos de boneca rapidamente apertada na barriguinha. Dei um salto, voei,<br \/>\n    e quando ca&iacute; em mim estava agarrando a jovem por um dos bra&ccedil;os<br \/>\n    com a energia de um guindaste, enquanto os passageiros se levantavam &agrave;<br \/>\n    uma, como se o bonde fosse peneira de sururucar em movimento, e eles quirera.<\/p>\n<p> Larguei logo a presa, que, cabisbaixa e ruborizada, foi para perto do senhor<br \/>\n    idoso. Como este me fizera uma cortesia, agradecendo a interven&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    aproveitei-me da oportunidade para pedir desculpas &agrave; menina, ainda<br \/>\n    arrufada do incidente, de a ter agarrado um pouco &agrave; bruta, no receio<br \/>\n    de a ver sofrer uma queda. Ela riu-se, com uma pontinha de desd&eacute;m.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Queda? Ah! disso n&atilde;o havia perigo. Tomo o bonde em movimento<br \/>\n    a cada passinho!&quot; Curvei a cabe&ccedil;a com dignidade, como quem deliberadamente<br \/>\n    interrompe uma situa&ccedil;&atilde;o delicada; recostei-me, e recomecei a<br \/>\n    leitura da minha gazeta. Tentei recome&ccedil;ar. Mas n&atilde;o podia dar<br \/>\n    com o seguimento do artigo em que viera mergulhado. As se&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tinham feito um chass&ecirc;croas&ecirc; completo. Trechos vistosos, que antes<br \/>\n    me saltavam aos olhos, agora andavam brincando de Maria-cond&ecirc; pelas<br \/>\n    oito p&aacute;ginas do di&aacute;rio. Cheguei a desconfiar que alguma p&aacute;gina<br \/>\n    se houvesse evaporado. E, na correnteza das minhas emo&ccedil;&otilde;es embrulhadas,<br \/>\n    a consci&ecirc;ncia apenas tinha for&ccedil;a para me sussurrar: &quot;Toma,<br \/>\n    burro! Bem feito. Por que &eacute; que te meteste? Por que &eacute; que n&atilde;o<br \/>\n    a deixaste periclitar &agrave; vontade?&quot; J&aacute; ent&atilde;o, o gesto<br \/>\n    da mo&ccedil;a, que fora quase imperceptivelmente abespinhado &#8211; tamb&eacute;m,<br \/>\n    com aquele susto &#8211; me reaparecia, em imagem, todo a arder em pura m&aacute;<br \/>\n    cria&ccedil;&atilde;o. Cheguei a sentir por ela uma esp&eacute;cie de &oacute;dio.<br \/>\n    (Digo esp&eacute;cie de &oacute;dio, porque teria remorso, caso julgasse o<br \/>\n    meu cora&ccedil;&atilde;o &agrave; ligeira, capaz de t&atilde;o grosseiro<br \/>\n    sentimento. O amor da justi&ccedil;a &eacute; inato nas almas; todos temos<br \/>\n    infinitos escr&uacute;pulos em sentenciar contra n&oacute;s mesmos.) Como<br \/>\n    quer que seja, no aceso da raiva, afastei um pouco o meu paravento, isto &eacute;,<br \/>\n    o meu jornal, e dardejei contra a rapariga uma torva olhadela de esguelha.<br \/>\n    Ela estava agora voltada para mim, de um modo repassado e calmante, olhando-me<br \/>\n    com esse ar de complac&ecirc;ncia desinteressada com que se contempla um animal<br \/>\n    de jardim zool&oacute;gico. Dei imediatamente &agrave; minha olhadura envenenada<br \/>\n    o ar mais neutro e casual que foi poss&iacute;vel. Sorri. Ela sorriu. Aquilo<br \/>\n    foi como se um c&eacute;u borrascoso de repente clareasse, todo florido de<br \/>\n    nuvenzinhas rec&eacute;mnascidas, castas como roupa lavada ao sol. Sorri,<br \/>\n    mais docemente. Ela baixou as p&aacute;lpebras pestanudas e deu meia volta<br \/>\n    ao rosto moreno e rosado sobre cuja superf&iacute;cie; dura e lisa como a<br \/>\n    de uma figura de biscu&iacute;t, o fumo de um cigarro vizinho punha a indecis&atilde;o<br \/>\n    a&eacute;rea de um tenu&iacute;ssimo nevoeiro. E ainda sorria; e pude perceber<br \/>\n    que por entre a franja dos c&iacute;lios a sua &iacute;ris umidamente faiscava,<br \/>\n    enviesada para o meu lado, embutida numa sedosa penumbra. E os c&iacute;lios<br \/>\n    palpitavam.<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<br \/>\n    ainsi qu&#8217;un noir feuillage o&ugrave; filtre un long rayon d&#8217;&eacute;toile.<\/p>\n<p> Nisto, o velho bezerr&atilde;o fez sinal ao condutor e, na sua voz pl&aacute;cida:<br \/>\n    &quot;Vamos, Rufina; mas n&atilde;o caia!&quot; A mo&ccedil;a riu-se de boa<br \/>\n    vontade, como um lindo modelo para an&uacute;ncio de dentifr&iacute;cio; fez-me<br \/>\n    um cumprimento de cabe&ccedil;a, largo e cordial, e saltou, acompanhada pelo<br \/>\n    velhote.<\/p>\n<p> Vieram-me &iacute;mpetos de saltar igualmente, mas uns temores me agarraram<br \/>\n    ao banco, pelos fundilhos, como cola. N&atilde;o me acharia ela rid&iacute;culo.<br \/>\n    N&atilde;o daria o meu ato na vista dos passageiros? Refleti que este receio<br \/>\n    era est&uacute;pido. Eu tinha o sagrado direito de saltar onde quisesse. Demais,<br \/>\n    como &eacute; que se podia decentemente receber um sorriso de mulher bonita,<br \/>\n    sem a seguir, ainda que a custo de algum risco? Ia eu refletindo, quando olhei<br \/>\n    para tr&aacute;s: Rufina tinha desaparecido. Bolas! Encolhi-me, num acabrunhado<br \/>\n    desprezo de mim mesmo, e deixei o bonde rodar. Quando dei acordo de mim, era<br \/>\n    o &uacute;nico passageiro restante e estava no fim da linha. S&oacute;, s&oacute;<br \/>\n    na solid&atilde;o do carro vazio. S&oacute; e triste como a fruta murcha que<br \/>\n    ficou no fundo do cesto. A voz do condutor portugu&ecirc;s rolava, ir&ocirc;nica,<br \/>\n    conclusiva, retumbando-me na alma como a voz do pai de Hamlet nos subterr&acirc;neos<br \/>\n    de Elsenor: Pooonto finale!!! O PESCADOR E O SIL&Ecirc;NCIO &quot;Com que<br \/>\n    ent&atilde;o, Barbosa, voc&ecirc; &eacute; pescador?&quot; Esta simples frase,<br \/>\n    dita numa voz branca, de um jeito quase distra&iacute;do, me ia hoje rendendo<br \/>\n    uma quebra de amizade.<\/p>\n<p> Frederico Paulo Barbosa Ramires &eacute; o homem mais calmo, sisudo e direito<br \/>\n    que jamais conheci.<\/p>\n<p> O senso comum encarnou-se nele como a seiva se infunde e se solidifica numa<br \/>\n    cabi&uacute;na. Dir-seia que a pr&oacute;pria arquitetura de Barbosa fora<br \/>\n    armada com aquele material prim&aacute;rio: os ossos robustos, as carnes duras,<br \/>\n    o corpanzil maci&ccedil;o, a fisionomia densa de hoplita membrudo.<\/p>\n<p> Familiarizamo-nos h&aacute; muito. E nunca descobri no meu amigo uma trinca,<br \/>\n    um recanto desleixado, uma depend&ecirc;ncia indecisa e frouxa.<\/p>\n<p> Vendo-o, hoje, no bonde, de cani&ccedil;o em punho, tive uma pequena surpresa,<br \/>\n    olhei para ele fiz-lhe aquela pergunta in&oacute;cua. Parece que lhe toquei<br \/>\n    num ponto dolorido. N&atilde;o se desconcertou, nem se irritou propriamente,<br \/>\n    mas respondeu-me com um nadinha de impertin&ecirc;ncia: &#8211; &quot;&Eacute; verdade;<br \/>\n    pescador. Todos t&ecirc;m a sua mania, a minha &eacute; esta. N&atilde;o faz<br \/>\n    mal a ningu&eacute;m &#8211; sen&atilde;o aos peixes. &Eacute; higi&ecirc;nica,<br \/>\n    tem a sua dose de poesia&#8230;&quot; &#8211; &quot;Bem, Barbosa, pesque, pesque, isso<br \/>\n    n&atilde;o precisa de justifica&ccedil;&atilde;o.&quot; &#8211; &quot;Mas, se eu<br \/>\n    quiser justificar?&quot; Fez ent&atilde;o o elogio da pesca de vara. Uma pessoa<br \/>\n    fica &agrave; beira da &aacute;gua com a cana em punho, lan&ccedil;a o anzol,<br \/>\n    e espera. N&atilde;o h&aacute; nisso nenhum desbarato de energias f&iacute;sicas<br \/>\n    nem morais. Por outro lado, n&atilde;o h&aacute; tampouco a m&iacute;nima<br \/>\n    ast&uacute;cia nem a m&iacute;nima viol&ecirc;ncia. Fica &agrave; espera.<br \/>\n    N&atilde;o corre atr&aacute;s do peixe, n&atilde;o vai agarr&aacute;-lo. Nem<br \/>\n    o enxerga sequer. &Eacute; como quem tira a sorte. O rio traz o peixe, o peixe<br \/>\n    v&ecirc; a isca, engole-a, engasga-se. Ent&atilde;o, o pescador sente na ponta<br \/>\n    da vara um estremecimento caracter&iacute;stico, d&aacute;-lhe um meneio,<br \/>\n    e puxa.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Como v&ecirc;&quot; (prosseguiu) &quot;a interven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do pescador &eacute; em tudo semelhante &agrave; do acaso, ou dos acidentes<br \/>\n    cegos que semeiam o curso dos rios e de todas as coisas. Ele espera, entendeu?<br \/>\n    ali, parado. N&atilde;o v&ecirc; o peixe, n&atilde;o sabe se o peixe vir&aacute;,<br \/>\n    nem de que esp&eacute;cie h&aacute; de ser caso venha; n&atilde;o sabe nada.<br \/>\n    Espera. &Eacute; de uma imparcialidade absoluta.&quot; &#8211; &quot;Em todo caso<br \/>\n    atalhei, sabe que o rio &eacute; piscoso. E a imparcialidade, a&iacute;, quer<br \/>\n    dizer simplesmente que qualquer um serve.&quot; &#8211; &quot;Sim. Mas o peixe,<br \/>\n    se n&atilde;o pegasse no anzol, seria imortal? N&atilde;o teria de morrer<br \/>\n    logo adiante?&quot; &#8211; &quot;Dizem que eles t&ecirc;m o sestro de viver muito;<br \/>\n    at&eacute; duzentos anos, conforme.,&#8217; &#8211; &quot;E voc&ecirc; acredita isso?<br \/>\n    Quem &eacute; que contou os anivers&aacute;rios do peixe? E depois, olhe aqui,<br \/>\n    e depois que vem a ser um s&eacute;culo ou dois diante da imensidade do tempo.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Alto l&aacute;, n&oacute;s n&atilde;o vivemos a imensidade do tempo,<br \/>\n    Barbosa. Com esse artif&iacute;cio metaf&iacute;sico, se tem justificado muita<br \/>\n    pose de esp&iacute;ritos inumanos e muita monstruosidade material. N&oacute;s<br \/>\n    vivemos um minuto! Esse minuto &eacute; que deve ser a nossa medida. Tudo<br \/>\n    que o excede &eacute; imensur&aacute;vel. E, sendo imensur&aacute;vel, &eacute;<br \/>\n    sagrado.&quot; &#8211; &quot;Ahn&#8230;&quot; &#8211; &quot;Mas, falando s&eacute;rio, voc&ecirc;<br \/>\n    n&atilde;o precisa ter esse trabalho de justificar o seu gosto. Nada de repreens&iacute;vel<br \/>\n    na pesca, nem mesmo na ca&ccedil;a. &Eacute; lei do mundo que as esp&eacute;cies<br \/>\n    umas &agrave;s outras se exterminem, por necessidade, por esporte, por prazer,<br \/>\n    por passar o tempo, &eacute; lei do homem que combata as outras esp&eacute;cies<br \/>\n    todas e a pr&oacute;pria. Que lhe havemos de fazer? Observo-lhe, simplesmente,<br \/>\n    que a sua filosofia piscat&oacute;ria poderia justificar tamb&eacute;m uma<br \/>\n    larga parte da moral corrente nas rela&ccedil;&otilde;es humanas. Lan&ccedil;a-se<br \/>\n    o anzol, fica-se &agrave; espera. Conheci um mercador que, fisgando e aleijando<br \/>\n    o fregu&ecirc;s, n&atilde;o se desculpava por outra forma: Veio porque quis!<br \/>\n    N&atilde;o obrigo ningu&eacute;m a comprar.&quot; &#8211; &quot;Mas est&aacute;<br \/>\n    muito direito&quot; (replicou Barbosa). &quot;Ele tinha raz&atilde;o. Eu,<br \/>\n    dono de um neg&oacute;cio, daria o pre&ccedil;o que bem entendesse &agrave;s<br \/>\n    minhas coisas.&quot; &#8211; &quot;Voc&ecirc; n&atilde;o o faria, Barbosa.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Faria, sim, e voc&ecirc; tamb&eacute;m.&quot; &#8211; &quot;Pois, se eu<br \/>\n    o fizesse, seria um espertalh&atilde;o como qualquer outro.&quot; Barbosa<br \/>\n    amuou, resmungou, e creio que s&oacute; a sua sensatez e bonomia de animal<br \/>\n    forte, o impediu de levar adiante a contenda. Separamo-nos sem nos encarar.<br \/>\n    Fiquei penalizado com esse primeiro fio partido na teia de seda que v&iacute;nhamos<br \/>\n    tecendo h&aacute; tantos anos. Por um fio roto vai-se &agrave;s vezes o tecido<br \/>\n    inteiro.<\/p>\n<p> Todo o mal est&aacute; em se falar demais.<\/p>\n<p> O que vale deveras, deveras, nos indiv&iacute;duos, n&atilde;o s&atilde;o<br \/>\n    as id&eacute;ias, que mudam, que ondulam, que o menor sopro de interesse ou<br \/>\n    paix&atilde;o modifica, &eacute; o fundo indefin&iacute;vel de bondade que<br \/>\n    neles exista. E esse fundo mesmo, e preciso que n&atilde;o se pretenda apurar<br \/>\n    com f&uacute;rias de an&aacute;lise! N&atilde;o &eacute; sen&atilde;o um pouco<br \/>\n    menos mud&aacute;vel e incerto, neste perp&eacute;tuo devenir em que tudo<br \/>\n    o que vive se resume num equil&iacute;brio moment&acirc;neo e prec&aacute;rio<br \/>\n    de elementos errantes e fluidos.<\/p>\n<p> Devemos crer nesse fundo, sem o examinar com insistente rigor. A nossa boa<br \/>\n    vontade o faz crescer. Acreditar que ele existe &eacute; corroborar-lhe a<br \/>\n    exist&ecirc;ncia. A nossa f&eacute; transfunde-se no &iacute;ntimo dos outros<br \/>\n    como uma levedura vivaz. E assim cada um de n&oacute;s &eacute; um pouco criador;<br \/>\n    criador das mais doces coisas do mundo.<\/p>\n<p> Os homens de bem s&atilde;o geralmente melhores do que a sua pr&oacute;pria<br \/>\n    l&oacute;gica faria supor. H&aacute; indiv&iacute;duos excelentes que falam<br \/>\n    como c&iacute;nicos ou malvados.<\/p>\n<p> A palavra n&atilde;o foi dada a todos os homens para encobrir os seus pensamentos:<br \/>\n    foi dada &agrave; maior parte para encobrir a falta de pensamento. Felizes<br \/>\n    os que ainda t&ecirc;m pensamentos que encobrir! A maioria pensa &agrave;<br \/>\n    medida que fala. A necessidade de falar &eacute; que a obriga a pensar um<br \/>\n    pouco. E h&aacute; pior: a necessidade de falar a obriga por vezes a dizer<br \/>\n    coisas que nunca teria pensado.<\/p>\n<p> Era preciso falar muito menos. O sil&ecirc;ncio seria a nossa melhor cura.<br \/>\n    E seria freq&uuml;entemente a melhor das satisfa&ccedil;&otilde;es que pud&eacute;ssemos<br \/>\n    dar de n&oacute;s, em nossa irremedi&aacute;vel enfermidade.<\/p>\n<p> No sil&ecirc;ncio germinam as for&ccedil;as her&oacute;icas. No sil&ecirc;ncio<br \/>\n    condensam-se as for&ccedil;as invenc&iacute;veis. O sil&ecirc;ncio &eacute;<br \/>\n    a t&uacute;nica invis&iacute;vel e pesada das almas inquebrant&aacute;veis,<br \/>\n    sumidas na profundidade triste da sua clarivid&ecirc;ncia e da sua piedade.<\/p>\n<p> Silence and Secrecy! &#8211; palavra de Carlyle que devia ser a divisa das almas<br \/>\n    religiosas, isto &eacute;, das almas humanas.<\/p>\n<p> Os amigos deviam estar juntos apenas para se sentirem viver um ao outro,<br \/>\n    mantendo entre si esses largos sil&ecirc;ncios falantes que s&atilde;o o que<br \/>\n    h&aacute; de mais expressivo na linguagem do amor. A linguagem do amor &eacute;<br \/>\n    uma brosladura v&atilde; de palavras sobre um fundo uniforme de sentimento.<\/p>\n<p> Para que sobrecarregar a brosladura? Para que arriscar desenhos sup&eacute;rfluos<br \/>\n    que podem comprometer irremediavelmente o tecido? A linguagem apropriada seria<br \/>\n    musical, a meia voz, lenta como um cantus planus envolvido pela melancolia<br \/>\n    suave que banha as felicidades ef&ecirc;meras.<\/p>\n<p> O mundo com todas as suas complica&ccedil;&otilde;es miser&aacute;veis e<br \/>\n    a nossa personalidade mundana e aparente, com todas as suas pretens&otilde;es,<br \/>\n    e imbecilidades, mistifica&ccedil;&otilde;es e parlapatices, deveriam desaparecer,<br \/>\n    como fumo varrido por um vento puro e purificador, diante do milagre de duas<br \/>\n    almas que de verdade se querem, &#8211; milagre! coisa incompreens&iacute;vel e<br \/>\n    estupefaciente, nesta ra&ccedil;a de macacos fam&eacute;licos e obscenos.<br \/>\n    E seria como se cada uma dissesse para a outra, sem dizer nada: &quot;Eis-me<br \/>\n    aqui. Tal como sou, eis-me aqui: um pouco de lodo com duas asas.<\/p>\n<p> Amemo-nos, pelas nossas asas. Mas em sil&ecirc;ncio, chut! em si-l&ecirc;n-ci-o&#8230;<br \/>\n    Basta o sopro de uma palavra v&atilde; para que essas asas se rompam como<br \/>\n    teias de aranha! Etre m&eacute;connu mem&ecirc; par ceux qu&#8217;on aime, &eacute;<br \/>\n    est la coupe d&#8217;amertume et la cro&iacute;x de la vie&#8230;<\/p>\n<p> escreveu Amiel com o seu sangue.<\/p>\n<p> Dentro do sil&ecirc;ncio, a compreens&atilde;o m&uacute;tua, despindo os<br \/>\n    inc&ocirc;modos v&eacute;us da palavra exterior e dos conceitos ordin&aacute;rios,<br \/>\n    e mesmo da palavra interior, poderia assumir a forma serena de uma ilumina&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    De uma claridade difusa e divina. Para al&eacute;m da l&oacute;gica tard&iacute;grada<br \/>\n    das magras apar&ecirc;ncias, das reflex&otilde;es esterilizantes. &#8211; Poderia.<br \/>\n    Mas!&#8230;<\/p>\n<p> O HOMEM QUE FUMA Vou deixar o h&aacute;bito de ler no bonde, h&aacute;bito<br \/>\n    est&uacute;pido. Ver o homem viver &eacute; mais interessante do que ler as<br \/>\n    hist&oacute;rias do que ele faz e pensa, (ou pensa que pensa.) &Eacute; certo<br \/>\n    que no bonde, geralmente, salvo numerosas exce&ccedil;&otilde;es, vai quieto<br \/>\n    e sorumb&aacute;tico. Mas onde quer que esteja, e como quer que esteja respira<br \/>\n    humanidade. E os seus gestos e momos mais fugitivos s&atilde;o debuxos descosidos<br \/>\n    do grande jogo de cena que faz a dramaticidade da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> &quot;Todo ser humano &eacute; para mim um templo, e eu gostaria mais de<br \/>\n    distinguir os tra&ccedil;os originais, as leves pinceladas que a&iacute; se<br \/>\n    encontram, do que de ver o famoso quadro da Transfigura&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    Rafael.&quot; Esta opini&atilde;o de Sterne em sua Viagem Sentimental, &eacute;<br \/>\n    justamente a minha. Honra a Sterne. &#8211; S&oacute; divirjo dele em que n&atilde;o<br \/>\n    gosto apenas dos tra&ccedil;os originais, mas de todos. Ali&aacute;s, no fundo,<br \/>\n    cada homem &eacute; sempre uma s&iacute;ntese original, um composto &uacute;nico,<br \/>\n    um exemplar sem parelha. A nossa vis&atilde;o grosseira ou a nossa necessidade<br \/>\n    e sede de cataloga&ccedil;&atilde;o &eacute; que nos obriga a converter as<br \/>\n    semelhan&ccedil;as em identidades e as analogias em semelhan&ccedil;as, a<br \/>\n    criar esp&eacute;cies e g&ecirc;neros para ver o indiv&iacute;duo, &uacute;nica<br \/>\n    realidade tang&iacute;vel, &uacute;nico dep&oacute;sito real de humanidade<br \/>\n    vivente e vibrante.<\/p>\n<p> Viajei ao lado de um homem que, pela casca, devia ser negociante de secos<br \/>\n    e molhados. Era, de fato. Cheirava a suor, tinha os dedos grossos e encardidos,<br \/>\n    trazia um casaco de casimira cinzenta semeado de respingos, coscor&otilde;es<br \/>\n    e tintas de varias cores. Contudo, carregava rel&oacute;gio com uma grossa<br \/>\n    cadeia de ouro, guardava na pupila a chispa da independ&ecirc;ncia e, enfim,<br \/>\n    tinha esse ar de cavaleiro garbosamente escarranchado em cavalgadura mansa,<br \/>\n    t&atilde;o pr&oacute;prio dos homens classificados e pr&oacute;speros.<\/p>\n<p> Mascava um toco de charuto, soltando baforadas na cara dos vizinhos, entre<br \/>\n    os quais havia senhoras de v&aacute;rias idades, formatos e cores. N&atilde;o<br \/>\n    lhe ocorria sequer a id&eacute;ia de que pudesse incomodar. Isso me irritou,<br \/>\n    e figurei-me logo esse mesmo homem, em mangas de camisa, por tr&aacute;s do<br \/>\n    balc&atilde;o a desfazer-se em mesuras com os hab&iacute;tu&eacute;s do parati<br \/>\n    e em gatimonhas gentis com as cozinheiras.<\/p>\n<p> Portanto, um abjeto ganhador de n&iacute;queis? um tipo que se faz calculadamente<br \/>\n    macio e untuoso quando lhe conv&eacute;m, altaneiro e maroto quando n&atilde;o<br \/>\n    depende? N&atilde;o ser&aacute; bem isso. Para ele, ser paciente e obsequioso<br \/>\n    com a freguesia &eacute; uma forma de virtude. Disto se ufana. Ensina essa<br \/>\n    virtude ao caixeirinho, ensina-a aos filhos, e est&aacute; candidamente plantado<br \/>\n    na convic&ccedil;&atilde;o de que o Bem &eacute; uma coisa que logo se reflete<br \/>\n    na gaveta.<\/p>\n<p> No bonde, o Sr. Joaquim j&aacute; n&atilde;o &eacute; um negociante, &eacute;<br \/>\n    um passageiro. A&iacute;, j&aacute; n&atilde;o sente os limites que de ordin&aacute;rio<br \/>\n    lhe circunscrevem a personalidade, pungindo-lhe a carne; d&aacute; liberdade<br \/>\n    ao corpo; reveste, como uma roupa larga, os gestos e modos comuns do passageiro.<\/p>\n<p> A este n&atilde;o lhe incumbem sen&atilde;o tr&ecirc;s coisas: pagar a passagem,<br \/>\n    n&atilde;o fumar nos tr&ecirc;s primeiros bancos, e s&oacute; ocupar o lugar<br \/>\n    de uma pessoa &#8211; o que n&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil, a menos que tenha<br \/>\n    um volume incapaz de redu&ccedil;&atilde;o &agrave; unidade, na aritm&eacute;tica<br \/>\n    dos bondes. De resto, todos iguais perante o condutor e o motorneiro. Todos<br \/>\n    podem, ser brutos, dentro das regras, bastante amplas, que presidem a vaga<br \/>\n    pol&iacute;cia dos carros. &#8211; O Sr. Joaquim est&aacute; igualmente compenetrado<br \/>\n    deste princ&iacute;pio, que da mesma forma j&aacute; se lhe incorporou &agrave;<br \/>\n    maquinalidade dos reflexos.<\/p>\n<p> Ora, quem estiver isento de culpa, esse lhe atire a primeira pedra! Todos,<br \/>\n    nesta vida, cada um a seu modo, n&atilde;o fazem sen&atilde;o aquilo que faz<br \/>\n    o Sr. Joaquim. Todos, no fundo, vendeiros amabil&iacute;ssimos com a freguesia,<br \/>\n    e passageiros que fumam nos bondes da vida muito &agrave; sua vontade.<\/p>\n<p> Onde est&atilde;o a originalidade do Sr. Joaquim? Eis o que n&atilde;o pude<br \/>\n    descobrir, mas tenho a certeza de que l&aacute; est&aacute;, dentro dele,<br \/>\n    como uma p&eacute;rola no ventre de um galo. Quest&atilde;o de tempo e de<br \/>\n    paci&ecirc;ncia. &#8211; H&aacute; criaturas dif&iacute;ceis de decifrar. S&atilde;o<br \/>\n    enigmas que a Vida comp&otilde;e para os propor a Deus, o grande matador de<br \/>\n    todas as charadas.<\/p>\n<p> RUFINA Esquisita vaga de saudade! Ontem, anteontem, nada vi no bonde: nada<br \/>\n    vi sen&atilde;o Rufina, a mo&ccedil;a que salvei de um desastre iminente.<\/p>\n<p> A princ&iacute;pio, entrei a duvidar se ficara preso ao feiti&ccedil;o da<br \/>\n    sua pessoa, que tinia de vida e mocidade, se lhe guardara afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    apenas pelo fato de a ter socorrido. &#8211; H&aacute; no fundo de nossa alma um<br \/>\n    veiozinho de sentimento que fica agradecido aos que nos devem servi&ccedil;o.<br \/>\n    E quando quem deve o servi&ccedil;o &eacute; uma bonita mocetona, temos evidentemente<br \/>\n    uma complica&ccedil;&atilde;o a mais.<\/p>\n<p> Ser &uacute;til a algu&eacute;m no perigo ou na pen&uacute;ria, &eacute;<br \/>\n    o melhor caminho para vir a querer-lhe bem: ficanos pertencendo um pouco,<br \/>\n    j&aacute; que nos custou alguma coisa. Andam errados os moralistas filantropos<br \/>\n    quando pregam a necessidade de amar ao pr&oacute;ximo como condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e prepara&ccedil;&atilde;o para o ajudar e suportar. O primeiro passo &eacute;<br \/>\n    ajud&aacute;-lo e suport&aacute;-lo: o amor vem depois.<\/p>\n<p> Mas isto n&atilde;o tem nada que ver com o amor-amor, amor-desejo, o amor-folia;<br \/>\n    e a perturba&ccedil;&atilde;o que Rufina deixou em mim veio muito menos do<br \/>\n    susto de que a livrei do que do filtro luminoso que a furto se lhe escorreu<br \/>\n    de entre as p&aacute;lpebras semicerradas.<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;. un long rayon d&#8217;&eacute;toile! Ah!<br \/>\n    Ruf&iacute;na, meteoro rutilante perpassaste pelo c&eacute;u caliginoso de<br \/>\n    minha vida! Estar&aacute;s a estas horas olvidada de mim. Nem por um momento<br \/>\n    esvoa&ccedil;ar&aacute; tua cabecinha pequenina e redonda a id&eacute;ia de<br \/>\n    que deixaste um farp&atilde;o enroscado na carne de um pobre funcion&aacute;rio;<br \/>\n    de que esta pobre alma, jogada de c&aacute; para l&aacute; sobre os trilhos<br \/>\n    imut&aacute;veis, est&aacute; a ver-te sempre no mesmo banco, ao lado do mesmo<br \/>\n    anci&atilde;o de rosto severo e pausada voz, como um avezita ao lado de um<br \/>\n    rinoceronte. &#8211; Perdoa-me, se &eacute; teu pai, ou teu av&ocirc;, ou padrinho;<br \/>\n    mas n&atilde;o podias ter companheiro que melhor fizesse real&ccedil;ar a<br \/>\n    tua brevidade graciosa e arrogante de galinha garnis&eacute;.<\/p>\n<p> N&atilde;o te verei mais, Rufina? BRINQUEDOS No bonde em que voltei da cidade,<br \/>\n    hoje &agrave; tardinha, vinham crian&ccedil;as com brinquedos.<\/p>\n<p> Perto de mim, um senhor idoso e barbeado fazia ver ao filho de seis anos<br \/>\n    como funcionava um galante volantim mec&acirc;nico, que o pequeno, mais por<br \/>\n    comprazer ao tipo velho, inutilmente lidava por acionar.<\/p>\n<p> Mais adiante, uma senhorita loura, sopesava uma bola nas pontas dos dedos<br \/>\n    compridos, fazendo-a girar velozmente, com prazer, como sentindo nas papilas,<br \/>\n    a car&iacute;cia de uma tatilidade nova, e uma sensa&ccedil;&atilde;o &oacute;tica<br \/>\n    in&eacute;dita na rota&ccedil;&atilde;o dos gomos bancos, azuis, amarelos<br \/>\n    e escarlates.<\/p>\n<p> E essa dan&ccedil;a de cores parecia emanar, pela m&atilde;o transl&uacute;cida<br \/>\n    e &aacute;gil, como um vago punhado de flores e de borboletas, de toda aquela<br \/>\n    pessoa que se diria a pr&oacute;pria Primavera a viajar de bonde.<\/p>\n<p> Perto, uma menina embezerrada olhava esse exerc&iacute;cio e essa bola com<br \/>\n    um ar de propriet&aacute;ria complacente, est&eacute;ril de uma bola.<\/p>\n<p> Na cidade, quando l&aacute; perambulei &agrave; cata do bonde, havia az&aacute;fama<br \/>\n    nas lojas de brinquedos e novidades. As crian&ccedil;as eram poucas, porque<br \/>\n    geralmente os grandes n&atilde;o gostam de sair com crian&ccedil;as e porque,<br \/>\n    nestes dias de festas, preferem fazer-lhes a cl&aacute;ssica surpresa. &#8211; Na<br \/>\n    verdade, os grandes &eacute; que se divertem com os presentes que fazem; e,<br \/>\n    n&atilde;o satisfeitos, ainda se reservam, no seu ego&iacute;smo, o direito<br \/>\n    de saborear a surpresa dos presenteados. &Eacute; com del&iacute;cias que<br \/>\n    aproveitam, entre Natal e Reis, a concess&atilde;o feita pelos costumes para<br \/>\n    mergulhar a sua infantilidade envergonhada no mundo maravilhoso das coisas<br \/>\n    in&uacute;teis e bonitas.<\/p>\n<p> Outrora, mais ou menos at&eacute; Rousseau, considerava-se a crian&ccedil;a<br \/>\n    como um homem pequeno. Os pr&oacute;prios artistas as presentavam como adultos<br \/>\n    em escala menor. Muito custou reconhecer-se que o homem &eacute; que &eacute;<br \/>\n    uma crian&ccedil;a crescida. Entretanto, dir-se-ia que isso entra pelos olhos.<\/p>\n<p> Para as crian&ccedil;as ainda n&atilde;o crescidas, tudo &eacute; brinquedo.<\/p>\n<p> O brinquedo especializado &eacute; uma inven&ccedil;&atilde;o que os grandes<br \/>\n    fizeram para se divertirem com eles e com as crian&ccedil;as. Estas muitas<br \/>\n    vezes, se v&ecirc;em reduzidas ao papel de usufrutu&aacute;rias, ou menos<br \/>\n    ainda, ao de guardas e conservadoras dos bonitos objetos. Para elas, coitadas,<br \/>\n    tudo &eacute; brinquedo. Uma toalha enrolada, que se revestiu de um casaco<br \/>\n    velho, faz o papel de uma boneca perfeita, ainda melhor do que a pr&oacute;pria<br \/>\n    boneca perfeita. Um cabo de vassoura pode ser um cavalo sem rival, com vantagem<br \/>\n    de n&atilde;o impor ao dono sua ra&ccedil;a, nem os acidentes da sua forma<br \/>\n    ou do seu car&aacute;ter, mas com a capacidade preciosa de ser &aacute;rabe<br \/>\n    ou ponney pangar&eacute; ou ruano, fu&aacute; ou poleiro, &agrave; vontade.<br \/>\n    Uma galinha, um ferro de engomar, um grilo ou uma caixa de f&oacute;sforos<br \/>\n    s&atilde;o divertimentos mais interessantes e de mais dur&aacute;vel prestigio<br \/>\n    de que o macaco de pau que sobe por um cordel, do que o trenzinho de ferro<br \/>\n    com t&uacute;neis e esta&ccedil;&otilde;es, do que o palha&ccedil;o que gira<br \/>\n    sobre o calcanhar de pinho e tilinta soalhas e guizos de lata. &#8211; Estas observa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o originais, mas apesar disso s&atilde;o justas.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade que os petizes recebem com &acirc;nsias esses presentinhos<br \/>\n    de festas, e fazem a prop&oacute;sito um pouco de rumor. &Eacute; o atrativo<br \/>\n    da novidade. &Eacute; a pressa de ver e experimentar. &Eacute; o prazer de<br \/>\n    dizer &quot;meu&quot;. &Eacute; a tenta&ccedil;&atilde;o de fazer inveja aos<br \/>\n    outros pequenos. &Eacute;, sobretudo, a m&iacute;mica do desejo, do alvoro&ccedil;o,<br \/>\n    da cobi&ccedil;a, do ego&iacute;smo apropriador, que os grandes lhes t&ecirc;m<br \/>\n    ensinado e que os pequenos v&atilde;o executando, numa adapta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mec&acirc;nica do sentimento confuso e alvorecente aos recortes do gesto distinto<br \/>\n    e expressivo.<\/p>\n<p> As crian&ccedil;as amam acima de tudo a espontaneidade da sua pr&oacute;pria<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o, que os brinquedos, quanto mais complicados e perfeitos,<br \/>\n    mais embara&ccedil;am. Ou ent&atilde;o preferem a complica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    extrema e sempre nova das coisas vivas. Se por natureza s&atilde;o assim,<br \/>\n    devia deixarse obrar a natureza. Mas os adultos querem o artif&iacute;cio,<br \/>\n    todos os g&ecirc;neros de artif&iacute;cio, e imp&otilde;emos &agrave;s crian&ccedil;as,<br \/>\n    perturbando-lhes o vi&ccedil;o da curiosidade espont&acirc;nea e da livre<br \/>\n    investiga&ccedil;&atilde;o. Por isso mesmo, a ci&ecirc;ncia &eacute; o &uacute;ltimo<br \/>\n    luxo da humanidade, sendo o seu primeiro desejo.<\/p>\n<p> A ROUPA E O GESTO Gosto de viajar no &uacute;ltimo banco. Vai-se mais resguardado<br \/>\n    de ma&ccedil;antes. Pode-se inspecionar o carro inteiro, quase sem ser visto.<br \/>\n    N&atilde;o se v&ecirc;em caras.<\/p>\n<p> Evita-se o risco de pagar a passagem para os amigos que n&atilde;o o s&atilde;o,<br \/>\n    e pode-se fazer aos amigos que o s&atilde;o a surpresa de lha pagar, numa<br \/>\n    trai&ccedil;&atilde;o delicada, pelas costas, &#8211; o que, como fineza, tem na<br \/>\n    sua independ&ecirc;ncia um especial&iacute;ssimo sabor. &#8211; Por fim, pode-se<br \/>\n    fumar sem a preocupa&ccedil;&atilde;o de ser inc&ocirc;modo a senhoras, por<br \/>\n    que muito raramente v&atilde;o senhoras no &uacute;ltimo banco e d&aacute;-se<br \/>\n    a coincid&ecirc;ncia de n&atilde;o haver outro depois do &uacute;ltimo.<\/p>\n<p> Ali&aacute;s, deixo de fumar perto de senhoras, n&atilde;o por uma particular<br \/>\n    defer&ecirc;ncia, mas apenas para n&atilde;o me incomodar a mim mesmo. Saborear<br \/>\n    um cigarro &eacute; prazer t&atilde;o leve e t&atilde;o fino, que o simples<br \/>\n    pensamento de que algu&eacute;m no-lo possa estar amaldi&ccedil;oando amarga<br \/>\n    os gorgomilos e embacia a transpar&ecirc;ncia azulejante das espirais.<\/p>\n<p> Apesar de preferir ordinariamente o &uacute;ltimo, fui hoje para o primeiro,<br \/>\n    e fiz toda a viagem voltado para o resto do carro. N&atilde;o influiu nisto<br \/>\n    o fato de eu envergar o meu novo terno cinzento e de estrear uma comburente<br \/>\n    gravata de listras amarelas e filetes encarnados.<\/p>\n<p> N&atilde;o. Detesto exibi&ccedil;&otilde;es. E n&atilde;o distingo entre<br \/>\n    exibi&ccedil;&otilde;es, sejam de roupas, sejam de talentos ou virtudes, sejam<br \/>\n    de v&iacute;cios ou maroteiras. Propendo at&eacute; a perdoar mais facilmente<br \/>\n    a exibi&ccedil;&atilde;o de roupas, que n&atilde;o &eacute; assim t&atilde;o<br \/>\n    idiota como inculcam os que n&atilde;o a podem pagar.<\/p>\n<p> Ter vaidade de uma farpela bonita &eacute; geralmente uma falta venial e,<br \/>\n    por assim dizer, exterior, que n&atilde;o repercute nas regi&otilde;es nobres<br \/>\n    da alma; ao passo que a vaidade intelectual envenena e turba as pr&oacute;prias<br \/>\n    fontes do pensamento, e a vaidade da boa a&ccedil;&atilde;o destr&oacute;i<br \/>\n    exatamente essa misteriosa e frag&iacute;lima levedura de hero&iacute;smo,<br \/>\n    que &eacute; o seu &uacute;nico valor, &#8211; o imponder&aacute;vel que a an&aacute;lise<br \/>\n    n&atilde;o pode reduzir e ante o qual o escalpelo se det&eacute;m, enquanto<br \/>\n    fa&iacute;sca no olho implac&aacute;vel do operador uma centelha de humana<br \/>\n    emo&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &Eacute; a vaidade exterior que tem preservado na mulher o seu secreto manancial<br \/>\n    de piedade e de energias profundas. Aparentemente fr&iacute;vola, ela &eacute;<br \/>\n    na realidade mais forte e melhor. Os seus tecidos a&eacute;reos, as suas rendas<br \/>\n    e fitas, as suas exterioridades espumosas e florais de criatura espetacular,<br \/>\n    s&atilde;o na realidade umas coura&ccedil;as, uns adarves, umas muralhas,<br \/>\n    &#8211; s&atilde;o tranqueiras e circunvala&ccedil;&otilde;es defensivas que a mulher<br \/>\n    estende em redor de si, para ir entretendo o inimigo enquanto ela conserva<br \/>\n    l&aacute; dentro, na intimidade da cidadela sacra, o seu tesouro e o seu altar.<\/p>\n<p> N&atilde;o, a indument&aacute;ria (termo suntuoso, que eu sentia envolver-me,<br \/>\n    luxuosamente, como a coisa designada) a indument&aacute;ria n&atilde;o me<br \/>\n    influiu na resolu&ccedil;&atilde;o de ir para o primeiro banco. Predisp&ocirc;sme<br \/>\n    bem, quando muito deu-me um calorzinho de otimismo e de simpatia difusa. Isto,<br \/>\n    sim. &#8211; De onde infiro que dev&iacute;amos usar mais freq&uuml;entemente de<br \/>\n    roupa nova, revezando-a talvez com as mais velhas, para acentuar o efeito<br \/>\n    pelo contraste, mas enfim usar mais freq&uuml;entemente de roupa nova.<\/p>\n<p> Se todos viv&ecirc;ssemos enfiados em estojos de boa fazenda e bom corte,<br \/>\n    de certo lucraria a disciplina interna das almas e com ela a facilidade e<br \/>\n    o concerto das rela&ccedil;&otilde;es entre os homens. &#8211; Um indiv&iacute;duo<br \/>\n    rudemente estrafegado pela vida, mas sempre cingido em ternos corretos e confort&aacute;veis,<br \/>\n    suporta com outra filosofia e outra eleg&acirc;ncia os bald&otilde;es da fortuna.<\/p>\n<p> Principalmente, &eacute; claro, quando a roupa est&aacute; paga.<\/p>\n<p> Homens h&aacute; que s&atilde;o relemb&oacute;rios por teima, por descaso,<br \/>\n    por sistematiza&ccedil;&atilde;o inconsciente das sugest&otilde;es da pregui&ccedil;a,<br \/>\n    da somiticaria ou da falta de gosto. Querem fazer crer que s&atilde;o assim<br \/>\n    por vontade e que v&atilde;o executando um programa bem meditado. D&atilde;o-se<br \/>\n    ares de desprezar profundamente essas materialidades ineptas. E a verdade<br \/>\n    &eacute; que s&atilde;o &agrave;s vezes sinceros. Mas como se iludem! O indiv&iacute;duo<br \/>\n    mais sinceramente lavado de vaidades decorativas n&atilde;o pode, quando menos,<br \/>\n    quando menos, deixar de sentir a cada instante a discrep&acirc;ncia em que<br \/>\n    se encontra nos meios que freq&uuml;enta. Ent&atilde;o, para manter a sua<br \/>\n    atitude interior de dissid&ecirc;ncia, n&atilde;o pode evitar a necessidade<br \/>\n    de pensar nisso, de fazer reflex&otilde;es que deixam for&ccedil;osamente<br \/>\n    um sedimento amargo, sobretudo quando reagem contra atitudes e atos depreciativos<br \/>\n    com que esbarrou.<\/p>\n<p> Sendo assim, onde est&aacute; a liberdade interior que ele pretende prezar<br \/>\n    acima de tudo? A liberdade perfeita e bela seria a que implicasse no mesmo<br \/>\n    desprezo profundo e sereno as materialidades exteriores e todas as suas conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    &#8211; a liberdade de Di&oacute;genes ou de Francisco de Assis.<\/p>\n<p> Sem isso n&atilde;o &eacute; liberdade: &eacute; um simulacro, um escamoteio,<br \/>\n    um sofisma em a&ccedil;&atilde;o, que traz consigo mesmo a sua pena perp&eacute;tua,<br \/>\n    como a sua pr&oacute;pria sombra.<\/p>\n<p>Um dos seguros efeitos da roupa nova e bem cortada &eacute; que ela cria<br \/>\n    e mant&eacute;m o h&aacute;bito das posi&ccedil;&otilde;es perfiladas e dos<br \/>\n    movimentos harmoniosos. Vale por um esporte. Excelente esporte para o corpo,<br \/>\n    visto que o submete a uma disciplina retificadora e a uma continuada economia<br \/>\n    de for&ccedil;a. Excelente esporte para a alma, que se modela &agrave; fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do corpo. &#8211; As atitudes e movimentos da alma s&atilde;o atitudes e movimentos<br \/>\n    corporais: a alma p&otilde;e-se de p&eacute;, acocora-se, desliza, descai,<br \/>\n    ajoelha-se, caminha direita e alegre, ou cambaleia, ou rasteja. A alma toma<br \/>\n    todas as posi&ccedil;&otilde;es de luta, desde a de um calmo e mel&oacute;dico<br \/>\n    guerreiro de F&iacute;dias at&eacute; &agrave; de um torpe moleque agachado<br \/>\n    e sinuoso, com a navalha empalmada e o p&eacute; igualmente pronto para a<br \/>\n    rasteira ou para a fuga.<\/p>\n<p> Nas aulas de educa&ccedil;&atilde;o moral e c&iacute;vica devia-se ensinar,<br \/>\n    antes de mais, a selecionar e fixar posturas e gestos. Aquele que aprendeu<br \/>\n    uma simples maneira nova de segurar o cigarro, de puxar e soltar a fuma&ccedil;a,<br \/>\n    de arremessar o coto, uma certa maneira vivaz, ritmada, incisiva e distinta<br \/>\n    de realizar todos esses pequenos movimentos, adquiriu alguma coisa que positivamente<br \/>\n    lhe modifica a personalidade, por via de resson&acirc;ncias que se v&atilde;o<br \/>\n    convertendo em movimentos interiores habituais. &#8211; Inversamente, para convencer<br \/>\n    uma menina de que ela deve ser boazinha, n&atilde;o h&aacute; como convenc&ecirc;-la<br \/>\n    de que assim se torna mais bonita. H&aacute; muito menina grande que faz toda<br \/>\n    a for&ccedil;a do seu dom&iacute;nio interior com a simples preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de n&atilde;o ter cara de espeloteada ou de evitar a inflama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das p&aacute;lpebras. Chamfort conta de uma dama que assim se justificava<br \/>\n    de assistir com olhos secos a uma comovedora representa&ccedil;&atilde;o teatral:<br \/>\n    &quot;Eu choraria; mas &eacute; que tenho de cear na cidade&quot;.<\/p>\n<p> Compreende-se bem a confus&atilde;o que de ordin&aacute;rio se faz entre<br \/>\n    o gesto significativo e a coisa significada, entre o valor da virtude e suas<br \/>\n    apar&ecirc;ncias externas. Este pratica uma a&ccedil;&atilde;o honrada, n&atilde;o<br \/>\n    por esta ou aquela raz&atilde;o abstrata, mas para poder andar &quot;de cabe&ccedil;a<br \/>\n    erguida&quot;; aquele, para poder &quot;dar uma&#8230;&quot;, isto &eacute;, fazer<br \/>\n    um gesto violento e desaforado aos seus detratores. Conheci um homem que,<br \/>\n    dando uma grossa esmola a uma igreja, dizia: &quot;N&atilde;o &eacute; l&aacute;<br \/>\n    tanto pela religi&atilde;o, porque enfim eu vivo a fazer por ela o que posso;<br \/>\n    mas &eacute; c&aacute; por uma birra, &#8211; &eacute; um couce que eu prego ao<br \/>\n    Alvarenga, aquele idiota, que deu um conto de r&eacute;is e disso se pavoneia.&quot;<br \/>\n    A met&aacute;fora &eacute; mais do que um artif&iacute;cio pitural, &eacute;<br \/>\n    a gesticula&ccedil;&atilde;o das almas.<\/p>\n<p> Somos bonecos &agrave; procura de gestos. Estes preexistem e persistem fora<br \/>\n    de n&oacute;s, e n&oacute;s passamos por eles como a &aacute;gua passa pelos<br \/>\n    vasos e canais que a cont&ecirc;m e lhe d&atilde;o forma, como a &aacute;gua<br \/>\n    passa pelos acidentes da pr&oacute;pria correnteza e do pr&oacute;prio caminho,<br \/>\n    pelas suas rugas, pelas suas cintila&ccedil;&otilde;es e sombras, pelas suas<br \/>\n    espumas e cach&otilde;es.<\/p>\n<p> Tomamo-los no lar, desde o ber&ccedil;o, e na escola; apanhamo-los no teatro,<br \/>\n    no cinema, nos livros, nos quadros, na escultura, na rua, nas salas, na pr&oacute;pria<br \/>\n    m&uacute;sica, que espontaneamente se resolve em desenhos cin&eacute;ticos<br \/>\n    de uma a&eacute;rea e fulm&iacute;nea expressividade.<\/p>\n<p> Os gestos de dignidade serena, de compostura discreta e elegante est&atilde;o,<br \/>\n    em parte, incorporados &agrave;s roupas distintas, como um forro invis&iacute;vel.<br \/>\n    O alfaiate corta pelo pano e, sem o saber, vai cortando ao mesmo tempo por<br \/>\n    uma tela espiritual, fabricada por duas tecel&atilde;s incans&aacute;veis,<br \/>\n    a Humanidade e a Natureza.<\/p>\n<p> Dizem que o h&aacute;bito n&atilde;o faz o monge. Imagine-se o que seria<br \/>\n    um frade de S&atilde;o Francisco sem o seu h&aacute;bito! O h&aacute;bito<br \/>\n    s&oacute; n&atilde;o faz o monge quando esse est&aacute; de tal maneira conformado<br \/>\n    pela vestimenta, que j&aacute; pode impunemente despi-la, sem de fato arranc&aacute;-la<br \/>\n    toda do corpo.<\/p>\n<p> A toga foi talvez a mais importante das inven&ccedil;&otilde;es romanas.<br \/>\n    De certo contribuiu mais do que tudo para fortalecer e ritmar, para esculturizar<br \/>\n    o car&aacute;ter daquela gente estrepitosa e derramada.<\/p>\n<p> Por uma raz&atilde;o semelhante, as est&aacute;tuas cl&aacute;ssicas (isto<br \/>\n    me parece que foi dito por Alam) s&atilde;o formas imperec&iacute;veis de<br \/>\n    idealidade &eacute;tica, formas que precedem e sobrevivem ao conte&uacute;do<br \/>\n    ideal que nelas v&atilde;o sucessivamente vazando as gera&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> A roupa &eacute; muita coisa, porque a express&atilde;o &eacute; tudo. Tudo<br \/>\n    quanto em n&oacute;s representa id&eacute;ia, pensamento, espirito, s&atilde;o<br \/>\n    express&otilde;es que se refletiram para dentro e puseram um pouco de luz<br \/>\n    e de ordem no caos de que brotaram &#8211; como esses deuses barb&aacute;ricos e<br \/>\n    frustes que nasceram da pedra informe, das &aacute;guas indeterminadas, dos<br \/>\n    elementos brutos e confusos, para individuar as coisas e esbo&ccedil;ar uma<br \/>\n    organiza&ccedil;&atilde;o do mundo.<\/p>\n<p> RUFINA Hoje de manh&atilde;, ao tomar o bonde, lobriguei l&aacute; dentro<br \/>\n    um vulto de mulher e, com a instantaneidade do raio, enxerguei a imagem de<br \/>\n    Rufina. Tr&ecirc;mulo, sentei-me, e verifiquei: o vulto era uma velha gorda<br \/>\n    e tostada. Fechei os olhos, procurei esquecer-me da velha e de Rufina &#8211; ejusdem<br \/>\n    far&iacute;nae, afinal de contas! &#8211; e comecei a resolver o seguinte problema:<br \/>\n    qual seria a renda bruta da companhia, supondo-se que tinha em tr&aacute;fego<br \/>\n    quatrocentos bondes, cada bonde transportando em m&eacute;dia vinte e cinco<br \/>\n    passageiros? A quest&atilde;o me interessava, porque estou tratando de redigir<br \/>\n    uma reclama&ccedil;&atilde;o para a imprensa contra certas irregularidades<br \/>\n    do servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> &#8211; Vejamos. 25 x 200 = vinte por duzentos, que s&atilde;o 4.000, mais&#8230;<br \/>\n    Ru-fi-na&#8230; cinco por duzentos, que s&atilde;o mil&#8230; Erre, um = Ru&#8230;. Quatro<br \/>\n    mil mais mil, cinco mil; cinco mil que? Ora, o diabo da velha! Cinco mil contos&#8230;<br \/>\n    &#8211; Desisti das contas. A matem&aacute;tica &eacute; inconcili&aacute;vel com<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o. &Eacute; inconcili&aacute;vel com a vida.<\/p>\n<p> Como &eacute; que Newton p&ocirc;de ser pai de fam&iacute;lia, ter uma esposa,<br \/>\n    ter filhos, ter afetos, preocupa&ccedil;&otilde;es, desejos, e calcular continuamente?<br \/>\n    Eu, quando alguma vespa me pica, fa&ccedil;o at&eacute; as m&aacute;quinas<br \/>\n    de c&aacute;lculo errar uma adi&ccedil;&atilde;o. Tudo aquilo em que ponho<br \/>\n    as m&atilde;os desconcerta, extravaga. At&eacute; o Melqu&iacute;ades, meu<br \/>\n    servente, que em mat&eacute;ria de calma e paci&ecirc;ncia e um urso de bazar,<br \/>\n    fica esparavonado, entorta, arrebita e disparata! Preciso esfor&ccedil;ar-me<br \/>\n    para me corrigir. N&atilde;o tanto, por&eacute;m, que me torne apto a maquinar<br \/>\n    friamente com a cabe&ccedil;a no meio das tormentas e das del&iacute;cias<br \/>\n    da vida. Nem tanto ao mar nem tanto &agrave; terra. Eu prefiro sonhar com<br \/>\n    Rufina a cavar uma celebridade em c&aacute;lculo diferencial.<\/p>\n<p> O GATO Sentei-me hoje ao p&eacute; de uma velhota embrulhada num xale. Logo<br \/>\n    notei, sem ter nada investigado, que ela dissimulava qualquer coisa por baixo<br \/>\n    da manta. &#8211; Como foi que cheguei a isso? n&atilde;o o sei ao certo. Um movimento<br \/>\n    de suas m&atilde;os ocultas a arrepanharem o xale sobre o rega&ccedil;o&#8230;<br \/>\n    o seu ar demasiado &quot;inocente&quot;&#8230; sei l&aacute;.<\/p>\n<p> Eu podia ter-me ufanado da minha perspic&aacute;cia. Mas n&atilde;o. Nem<br \/>\n    houve propriamente perspic&aacute;cia alguma; ou, se houve, foi toda inconsciente:<br \/>\n    pouco se me dava daquela mulher, do seu xale, dos seus gestos. Ser Sherlock<br \/>\n    por vontade, por estudo, por aplica&ccedil;&atilde;o determinada e met&oacute;dica<br \/>\n    da intelig&ecirc;ncia, &eacute; um esporte razo&aacute;vel, embora n&atilde;o<br \/>\n    me seduza. Mas esta esp&eacute;cie de &quot;suspic&aacute;cia&quot; inata<br \/>\n    e vulgar &eacute; aborrec&iacute;vel como todas as inclina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tolas e baixas.<\/p>\n<p> Senti-me desgostoso de mim, e mal me consolei com a reflex&atilde;o, que<br \/>\n    fiz em seguida, de que o dom n&atilde;o me era particular, nada tinha de diferencialmente<br \/>\n    pessoal, Pois que alheio a todo pensamento, a toda vontade e a toda tend&ecirc;ncia<br \/>\n    definida. &Eacute; qualidade humana, com ra&iacute;zes fundas na camada mais<br \/>\n    funda da nossa humanidade. Todos temos dentro de n&oacute;s um bicho indiscreto<br \/>\n    e mal&eacute;volo, em simbiose com o nosso Eu distinto e consciente, que &agrave;s<br \/>\n    vezes o ignora ou faz por ignor&aacute;-lo, ou mesmo lhe d&aacute; largas.<\/p>\n<p> Arrastado pela curiosidade, antes que acabasse de refletir, n&atilde;o me<br \/>\n    custou perceber que de fato a mulher escondia qualquer coisa, e que essa coisa<br \/>\n    era um gato. Um gato branco, boquinha r&oacute;sea, olhos muito grandes estriados<br \/>\n    por um chuvisco de luz entre vegeta&ccedil;&otilde;es de esmeralda e ouro.<br \/>\n    Tinha um ar pouco amig&aacute;vel, meio enfezado, meio suplicante. &#8211; Percebi<br \/>\n    tudo isso num &aacute;pice, porque tenho a vista habituada a inspecionar gatos.<br \/>\n    &Eacute; este o animal da minha predile&ccedil;&atilde;o, o &uacute;nico semovente<br \/>\n    que me agrada sem reservas.<\/p>\n<p> Gostaria tamb&eacute;m bastante dos cavalos de ra&ccedil;a desde o possante<br \/>\n    Braban&ccedil;on at&eacute; o &aacute;rabe naturalizado e aperfei&ccedil;oado<br \/>\n    nos haras de Inglaterra, por seu instinto da atitude pict&oacute;rica ou escultural,<br \/>\n    se tais cavalos fossem do tamanho de gatos e se pudessem ter dentro de casa,<br \/>\n    p&ocirc;r ao colo e deixar correr por cima das mesas. &#8211; O defeito desse animal<br \/>\n    &eacute; ser excessivamente grande. Isto o reduziu ao papel pouco distinto<br \/>\n    de mero acess&oacute;rio do homem, e tornou-o um prosaico objeto de utilidade<br \/>\n    ou de ostenta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Dentre todos os caprichos da natureza, o mais estranho est&aacute; nessa<br \/>\n    fantasia inutil&iacute;ssima e zombeteira com que ela repartiu a for&ccedil;a<br \/>\n    e a beleza pela escala das dimens&otilde;es, no reino animal.<\/p>\n<p> Os insetos, em regra, s&atilde;o fe&iacute;ssimos e fort&iacute;ssimos;<br \/>\n    ao mesmo tempo, pequeninos e inaproveit&aacute;veis. Os cavalos e outros viventes<br \/>\n    grandes e belos s&atilde;o relativamente fracalh&otilde;es.<\/p>\n<p> Tudo se resolveria bem se houvesse gafanhotos do tamanho de girafas, besouros<br \/>\n    do volume de vacas holandesas, pulgas das dimens&otilde;es de bezerros; que<br \/>\n    motores formid&aacute;veis &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o do homem! Entretanto,<br \/>\n    escusava que os animais nobres e formosos ocupassem tanto espa&ccedil;o e,<br \/>\n    sendo na verdade os bibelots da natureza, fossem condenados ao est&aacute;bulo,<br \/>\n    &agrave; estrebaria, ao amanho da terra, &agrave; tra&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    ve&iacute;culos, ao trabalho bruto, &agrave; escravid&atilde;o humilhante.<\/p>\n<p> Essa a justi&ccedil;a da grande M&atilde;e! E ainda se isso passasse exclusivamente<br \/>\n    com os bichos! Mas, n&atilde;o. Toda beleza &eacute; escrava. Mulher, &#8211; &eacute;<br \/>\n    o alvo e a presa da matilha esfaimada dos instintos.<\/p>\n<p> Vende-se nos mercados. Aprisiona-se. Condena-se a ser uma forma vazia, ornada<br \/>\n    de vermelh&atilde;o, de p&oacute;-de-arroz e de j&oacute;ias, com a noite<br \/>\n    dentro, como a caba&ccedil;a m&aacute;gica do bugre.<\/p>\n<p> Talento, g&ecirc;nio, bondade, amor, &#8211; tudo capturado, amarrado, explorado,<br \/>\n    torturado, agadanhado, sangrado, e finalmente reduzido a cacos, a cisco, a<br \/>\n    lama, a cinza, a p&oacute;, a p&oacute; que se espalha ao vento, entre o del&iacute;rio<br \/>\n    e a confus&atilde;o da macumba retumbante e fren&eacute;tica.<\/p>\n<p> Ao cavalo, a certos respeitos, eu preferiria o elefante. Embora convivendo,<br \/>\n    em determinadas regi&otilde;es, com a esp&eacute;cie humana, esse, contudo,<br \/>\n    guarda a dignidade de um escravo testarudo e resignado &#8211; obediente, fiel,<br \/>\n    mas inamold&aacute;vel, sempre intransigentemente elefante. N&atilde;o tem<br \/>\n    a eleg&acirc;ncia do nobre equus (eleg&acirc;ncia, ali&aacute;s, j&aacute;<br \/>\n    um pouco desacreditada, como a do estilo ciceroniano), mas l&aacute; tem a<br \/>\n    sua, que lhe &eacute; pr&oacute;pria e, al&eacute;m de pr&oacute;pria, intransfer&iacute;vel,<br \/>\n    por mais que haja indiv&iacute;duos humanos a quererem tomar-lha, na classe<br \/>\n    que compreende os grandes vendeiros, os desembargadores e os cl&eacute;rigos.<\/p>\n<p> A eleg&acirc;ncia do elefante, revelam-na bem certos artistas. H&aacute;<br \/>\n    bibelots de lou&ccedil;a, marfim ou bronze, em que ela se manifesta com a<br \/>\n    evid&ecirc;ncia da luz. Hier&aacute;tica, cheia, pesada, a massa liga-se &agrave;s<br \/>\n    propor&ccedil;&otilde;es e aos contornos numa s&oacute;bria unidade de concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e de fantasia, e tudo &eacute; um s&oacute; &eacute;lan de inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    enternecida e brincalhona. A gravidade unida ao peso, a paci&ecirc;ncia ao<br \/>\n    volume, a do&ccedil;ura &agrave; simplicidade, e um qu&ecirc; de majestoso,<br \/>\n    e um qu&ecirc; de ing&ecirc;nuo, e um qu&ecirc; de gaiato. &#8211; Apenas falta<br \/>\n    a essas composi&ccedil;&otilde;es o indefin&iacute;vel encanto da vida, esse<br \/>\n    encanto que resulta da nossa perversa inclina&ccedil;&atilde;o para s&oacute;<br \/>\n    gostar completamente das coisas que sofrem.<\/p>\n<p> O certo &eacute; que, se eu pudesse possuir um elefante em casa, a&iacute;<br \/>\n    com umas dez ou doze polegadas de altura, e que me viesse comer &agrave; m&atilde;o,<br \/>\n    e brincasse com o meu bichano, &agrave;s correrias por baixo de mesas e cadeiras,<br \/>\n    isto me seria um verdadeiro enlevo na minha solid&atilde;o povoada de imagens<br \/>\n    inertes. &#8211; O pior &eacute; que um dia&#8230; Tudo tem o seu fim neste mundo. Seria<br \/>\n    poss&iacute;vel que o meu bibelot animado devolvesse antes de mim a sua por&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de fluido vital ao laborat&oacute;rio do universo. O meu bichano havia de<br \/>\n    andar miando tristemente pelos cantos. A minha cozinheira talvez enxugaria<br \/>\n    l&aacute;grimas, &agrave;s escondidas, ao ver-me acariciar o Rom&atilde;o,<br \/>\n    &agrave; hora das refei&ccedil;&otilde;es, na aus&ecirc;ncia do outro.<\/p>\n<p> Gatos que miam e cozinheiras lacrimejantes estragam uma casa. Desisto do<br \/>\n    elefantinho.<\/p>\n<p> A verdade &eacute; que tenho um fraco pelos gatos, e fiquei a pensar no<br \/>\n    que a mulher do bonde faria daquele. Iria deit&aacute;-lo fora? Iria d&aacute;-lo<br \/>\n    a algu&eacute;m que lhe destinasse o indigno emprego de ca&ccedil;ador de<br \/>\n    ratos? Eu estou convencido de que os gatos n&atilde;o querem mal ao g&ecirc;nero<br \/>\n    mus. Procuram agarrar os roedores por simples prazer e necessidade de brincar.<br \/>\n    E se preferem esses a quaisquer outros, &eacute; apenas porque o rato, de<br \/>\n    todos os bichos proporcionados ao felino dom&eacute;stico, &eacute;, o que<br \/>\n    mais radicalmente difere deste.<\/p>\n<p> O gato s&oacute; pode compreender o rato como uma coisa sem afinidade alguma<br \/>\n    com ele, mais ou menos como n&oacute;s encaramos os peixes, aos quais n&atilde;o<br \/>\n    concedemos nenhuma sobra de respeito, nem de simpatia, nem de piedade. S&atilde;o<br \/>\n    objetos de um outro mundo, cria&ccedil;&otilde;es de um outro plano, obras<br \/>\n    de uma outra s&eacute;rie. A teoria que Malebranche sustentava com refer&ecirc;ncia<br \/>\n    &agrave; sua triste cadela &#8211; cujos latidos de dor eram no seu entender simples<br \/>\n    passagem do ar pelo mecanismo da garganta &#8211; &eacute; por todo o mundo imemorialmente<br \/>\n    e inconscientemente aplicada aos peixes. O pr&oacute;prio dil&uacute;vio,<br \/>\n    condena&ccedil;&atilde;o e aniquilamento de todos os viventes n&atilde;o embarcados,<br \/>\n    deixou &agrave; margem, isto &eacute;, dentro da &aacute;gua, esses interessantes<br \/>\n    aut&ocirc;matos.<\/p>\n<p> O rato, roedor meticuloso, destruidor frio, amigo das sombras, dos recantos<br \/>\n    ocultos, das gretas e frinchas secretas, dos buracos dissimulados e rec&ocirc;nditos,<br \/>\n    grande trabalhador sem horizonte, medroso, tenaz, esperto, est&uacute;pido,<br \/>\n    o rato &eacute; o ant&iacute;poda psicol&oacute;gico e moral deste pr&iacute;ncipe<br \/>\n    dos quadr&uacute;pedes, deste poeta de pelo, deste artista de garras, deste<br \/>\n    sonhador indolente e desdenhoso, que compreendeu a imensa utilidade de n&atilde;o<br \/>\n    fazer nada, amigo do sol, das noites de lua, dos jardins floridos, dos telhados<br \/>\n    altos e desertos.<\/p>\n<p> Este, quando procura a penumbra e o aconchego, &eacute; no borralho familiar<br \/>\n    onde o fogo deixou um pouco da sua alma quente e errante, &eacute; entre cobertas<br \/>\n    moles e cariciosas, &eacute; no rega&ccedil;o quieto das pessoas pensativas,<br \/>\n    ternas ou tristes.<\/p>\n<p> Acusam-no de ser desamoroso e ingrato. Julgamento mesquinho. O mal do gato<br \/>\n    est&aacute; unicamente em n&atilde;o ser nem servil nem servi&ccedil;al. O<br \/>\n    homem s&oacute; compreende as afei&ccedil;&otilde;es no seu tr&iacute;plice<br \/>\n    aspecto de promessa, desejo ou saudade de servi&ccedil;os. (Triste de quem<br \/>\n    as concebeu algum dia como um culto e um puro gozo interior, esquecendo-se<br \/>\n    de que a vida que vale &eacute; a que se processa e corre da periferia do<br \/>\n    corpo para fora!) O gato saboreia melhor do que os pr&oacute;prios donos a<br \/>\n    fina flor da humanidade, aquilo que h&aacute; em n&oacute;s de mais seleto,<br \/>\n    e despreza tranq&uuml;ilamente o farelo. Por isso &eacute; que se apega mais<br \/>\n    &agrave; casa do que ao habitante, como algu&eacute;m, de refinado olfato,<br \/>\n    que preferisse, numa paisagem, o ar embalsamado por um resto de perfume de<br \/>\n    flores ausentes.<\/p>\n<p> O homem canta &#8211; Home, sweet home!, e vai para a p&acirc;ndega, a dissipa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    o tr&aacute;fico, as feiras dos neg&oacute;cios, dos v&iacute;cios e das vaidades:<br \/>\n    o gato fica, adorando com recolhida finura o melhor produto do homem, o melhor<br \/>\n    retrato do homem melhor, a Casa, a Casa onde o fogo prisioneiro canta a &aacute;ria<br \/>\n    encantat&oacute;ria das coisas perp&eacute;tuas, verazes e substanciais, a<br \/>\n    mesa em torno da qual a fam&iacute;lia reparte o p&atilde;o cotidiano em paz<br \/>\n    no meio da tormenta, as paredes de onde pendem alfaias e recorda&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    as portas em cuja tela de penumbra se enquadraram vultos amigos que nunca<br \/>\n    mais vieram empurr&aacute;-las, mas parece &agrave;s vezes que v&atilde;o<br \/>\n    chegar a todo momento, que andam ali perto, ali. &#8211; A Casa! A Casa do Homem,<br \/>\n    em tudo superior ao habitante que passa, ao h&oacute;spede mofino de uns dias<br \/>\n    fugazes; ilha de estabilidade, de composi&ccedil;&atilde;o, de recolhimento,<br \/>\n    de seguran&ccedil;a e de amor, no meio da instabilidade, da precariedade,<br \/>\n    da confus&atilde;o, do desperd&iacute;cio, da ang&uacute;stia e da loucura<br \/>\n    universal.<\/p>\n<p> O homem faz a sua casa e foge dela; ainda l&aacute; dentro, foge em esp&iacute;rito;<br \/>\n    n&atilde;o chega a compreender nem a sentir que fez um mundo, um mundo maravilhoso,<br \/>\n    para o qual todo o mundo grande, desde tempos imemoriais, vem acumulando infinitos<br \/>\n    elementos; um pequeno mundo sens&iacute;vel e supra-sens&iacute;vel onde a<br \/>\n    soma dos elementos imateriais &eacute; incomparavelmente maior do que a dos<br \/>\n    outros, onde cada pedra ou tijolo, cada m&oacute;vel, cada quadro, cada retrato,<br \/>\n    cada canto encerra uma satura&ccedil;&atilde;o imensa de humanidade e de vida<br \/>\n    vivida e vem a ser mais rica em poder irradiante do que a mais carregada petchblenda&#8230;<\/p>\n<p> Mas eu estava em que os gatos n&atilde;o t&ecirc;m avers&atilde;o aos ratos.<br \/>\n    E n&atilde;o t&ecirc;m. O que h&aacute; &eacute; que s&atilde;o ant&iacute;podas<br \/>\n    uns dos outros. O bichano v&ecirc; no rato um simples mecanismo, bom para<br \/>\n    esporte e brinquedo.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade que das brincadeiras resulta muitas vezes o &oacute;bito<br \/>\n    da presa. Mas &eacute; natural que um gato n&atilde;o tenha id&eacute;ias<br \/>\n    claras acerca dos sofrimentos e da morte.<\/p>\n<p> N&oacute;s, que somos gente, ou tendemos a isso, apenas sentimos que h&aacute;<br \/>\n    dor no mundo por experi&ecirc;ncia pr&oacute;pria e individual, e nada nos<br \/>\n    custa como acreditar que a experi&ecirc;ncia dos outros possa coincidir com<br \/>\n    a nossa.<\/p>\n<p> Por isso o rancor &eacute; dez mil vezes mais comum do que a piedade; al&eacute;m<br \/>\n    de que a piedade &eacute; freq&uuml;entemente uma forma de rancor fatigado.<\/p>\n<p> Quanto &agrave; morte, pode-se muita vez duvidar que seja motivo de m&aacute;goa<br \/>\n    para algum dos que ficam; ao passo que se tem a certeza de que &eacute; festa<br \/>\n    para os herdeiros, p&atilde;o para os gatopingados, r&oacute;cio para v&aacute;rias<br \/>\n    ind&uacute;strias, e espet&aacute;culo para os vizinhos do falecido.<\/p>\n<p> Tive ganas de ver se a dona quereria vender-me o gatinho, mas deteve-me<br \/>\n    a dificuldade do transporte. Se eu o levasse na m&atilde;o at&eacute; &agrave;<br \/>\n    secretaria, rir-se-iam de mim pelo caminho e na reparti&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Carreg&aacute;-lo no bolso, imposs&iacute;vel. Mand&aacute;-lo levar a casa,<br \/>\n    despesa. Eu neste ponto me pare&ccedil;o muito com toda a gente: sou comodista<br \/>\n    e econ&ocirc;mico em mat&eacute;ria de prazeres do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Desisti da compra e consolei-me com os poetas que amam damas imagin&aacute;rias,<br \/>\n    sob o pretexto de que as de osso e carne s&atilde;o imperfeitas, mas na realidade<br \/>\n    por uma quest&atilde;o de economia: pus-me a pensar amorosamente num gato<br \/>\n    ideal. E desfiei de mem&oacute;ria aquilo de Beaudelaire: Viens, mon bon chat,<br \/>\n    sur mon coeur amoureux, Retiens les griffes de ta patte.<\/p>\n<p> Logo o enxerguei junto de mim, grande, perfeito, maravilhosamente gato,<br \/>\n    lambendo a m&atilde;o com a l&iacute;ngua r&oacute;sea, o olhar tranq&uuml;ilamente<br \/>\n    perdido no borborinho das ruas, e como que a repetir aquela senten&ccedil;a<br \/>\n    grave de Eur&iacute;pedes: &quot;Zeus aborrece os homens atarefados e os que<br \/>\n    se agitam demais&quot;.<\/p>\n<p> O gato &eacute; uma das mais completas express&otilde;es de beleza dadas<br \/>\n    ao mundo. Completas? Digo mal. Nem n&oacute;s esgotamos todo o seu potencial,<br \/>\n    nem o pr&oacute;prio acabou de se realizar. Como os colibris, as rosas e os<br \/>\n    periquitos, &eacute; uma obra-prima, feita pela Natureza no caprichoso intento<br \/>\n    de mostrar como aquela que faz montanhas e mares &eacute; tamb&eacute;m capaz<br \/>\n    de compor coisas de paci&ecirc;ncia, de fantasia graciosa e de gosto quintessencial.<\/p>\n<p> Desconfio, por&eacute;m, &agrave;s vezes, que n&atilde;o foi a Natureza,<br \/>\n    mas o pr&oacute;prio Deus quem modelou esses objetos com os pr&oacute;prios<br \/>\n    dedos, para humilhar o homem e divertir os anjos. E que os anjos os deixaram<br \/>\n    cair &agrave; terra por descuido, ou para os destruir. &#8211; &Eacute; talvez por<br \/>\n    isso que os periquitos t&ecirc;m a cabe&ccedil;a achatada, e aquele arzinho<br \/>\n    de devotos ir&ocirc;nicos, e aquele &acirc;nimo desconfiado e &aacute;spero<br \/>\n    que faz com que se irritem e escancarem o bico recurvo quando os queremos<br \/>\n    acariciar. De certo, &eacute; pela mesma raz&atilde;o que os gatos conservam<br \/>\n    essa aura de humana nostalgia que os distingue, essas atitudes de insatisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    gemente e errabunda, esses enrodilhamentos im&oacute;veis e solit&aacute;rios,<br \/>\n    com os olhos estanhados, esfomeadamente arregalados para o ar, como na desesperada<br \/>\n    esperan&ccedil;a de ver cair alguma traga migalha do para&iacute;so perdido!<br \/>\n    AP&Ecirc;NDICE DO GATO Meu Deus, como a arte de escrever &eacute; dif&iacute;cil<br \/>\n    e como eu fa&ccedil;o bem de n&atilde;o escrever sen&atilde;o para mim mesmo!<br \/>\n    &Agrave; medida que vou enchendo estas minhas costaneiras de alma&ccedil;o,<br \/>\n    trezentas coisas que eu dantes n&atilde;o suspeitava, se me apresentam, &#8211;<br \/>\n    pequenos e grandes problemas de composi&ccedil;&atilde;o e de express&atilde;o,<br \/>\n    de l&oacute;gica e de verdade, de m&eacute;todo e de maneira. Enxergando-os,<br \/>\n    palpando-os, sentindo-os bulir sobre a lauda como insetos descobertos e espica&ccedil;ados<br \/>\n    pelo bico da pena, surpreendo-me de os ver t&atilde;o numerosos e t&atilde;o<br \/>\n    estranhos; e gozo um indefin&iacute;vel prazer: o prazer de n&atilde;o ser<br \/>\n    obrigado por coisa nenhuma, a atormentar-me com eles.<\/p>\n<p> Um exemplo de inadvert&ecirc;ncia galucha: falando de animais bonitos e<br \/>\n    nobres, dei a minha prefer&ecirc;ncia, precipitadamente, depois do gato, ao<br \/>\n    cavalo e ao elefante. Entretanto, seria t&atilde;o natural que tivesse refletido<br \/>\n    em que os vertebrados, geralmente, s&atilde;o belos e que os h&aacute; t&atilde;o<br \/>\n    encantadores como aqueles! Tanto mais quanto Remy de Gourmont, nas suas Dissocia&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    j&aacute; o fizera notar.<\/p>\n<p> Na verdade, s&oacute; h&aacute; um animal feio, &eacute; o homem. O Esporte,<br \/>\n    que se aplica em fomentar a beleza f&iacute;sica da esp&eacute;cie, tem nesse<br \/>\n    ponto fracassado, uniformemente, em toda a parte do mundo. S&oacute; apresenta<br \/>\n    indiv&iacute;duos bonitos quando os colheu da natureza. Belos, sempre muito<br \/>\n    raros, ele n&atilde;o os revela em maior n&uacute;mero do que o simples Acaso.<br \/>\n    O aspecto ordin&aacute;rio das suas legi&otilde;es &eacute; desencorajante.<br \/>\n    &#8211; Os esportes particulares deformam, dando excessivo desenvolvimento a certas<br \/>\n    aglomera&ccedil;&otilde;es musculares. Pensou-se em remediar, doutrinando<br \/>\n    o atletismo completo: v&atilde;o-se com isso criando deforma&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    generalizadas.<\/p>\n<p> Veja-se entretanto um coelho, um veado, uma on&ccedil;a, um porco-do-mato<br \/>\n    em condi&ccedil;&otilde;es normais de desenvolvimento e sa&uacute;de: cada<br \/>\n    qual, dentro dos princ&iacute;pios da sua constru&ccedil;&atilde;o respectiva,<br \/>\n    &eacute; uma obra deliciosa de acerto, de r&ecirc;ussite, de precis&atilde;o<br \/>\n    sem sobras e sem falhas. Surge-nos sem tra&ccedil;os de esfor&ccedil;o nem<br \/>\n    de inten&ccedil;&atilde;o, com a corrente naturalidade de um descuido! &#8211; Conforma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e movimento permanecem dentro de uma l&oacute;gica infrang&iacute;vel, de<br \/>\n    uma unidade perfeita, de uma economia necess&aacute;ria, onde cada coisa tem<br \/>\n    um valor e entretanto, se engolfa e se dissimula na totalidade. Nada que estale,<br \/>\n    bambeie, descaia, descole, descontinue; um admir&aacute;vel concerto de transi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e transforma&ccedil;&otilde;es simult&acirc;neas e sucessivas. O jogo das<br \/>\n    massas e dos contornos perde-se fluidicamente em si mesmo. Cada imagem emerge<br \/>\n    da precedente como numa espiral de fumo, dissolve-se na seguinte como num<br \/>\n    caleidosc&oacute;pio sem recortes e sem chocalho. Tudo facilidade, afina&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    fus&atilde;o, correnteza, equil&iacute;brio, tudo aquela suprema simplicidade<br \/>\n    que &eacute; o nome familiar da complexidade infinita na perfei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Bem, mas porque foi que eu cometi esse erro? Porque estava possesso de Rufina.<br \/>\n    A imagem da mo&ccedil;a do bonde se interpunha entre mim e os bichos, o som<br \/>\n    da sua voz golpeava cada momento a membrana frag&iacute;lima das minhas id&eacute;ias,<br \/>\n    os seus gestos r&aacute;pidos rebentavam a todo instante o meu colar de mi&ccedil;angas.<br \/>\n    Embalde eu protestava que ela era mais feia do que o elefante, menos perfeita<br \/>\n    do que uma leitoa. Embalde eu procurava esquecer, embrenhar-me no meu produto<br \/>\n    como a aranha no seu, embriagar-me com esses pensamentos de luxo, suspender-me<br \/>\n    a essas teias, atar as minhas arrobas ao v&ocirc;o dessas borboletas extraterrenas.<br \/>\n    E, na verdade, nem agora consigo exconjurar aquele dem&ocirc;nio.<\/p>\n<p> UM ROMANCE Entre os passageiros com os quais freq&uuml;entemente me encontro,<br \/>\n    pela manh&atilde;, h&aacute; uma bonita mulata, n&atilde;o de olhar azougado,<br \/>\n    mas calmo e um pouco triste. O condutor cumprimenta-a com respeito, e trocam<br \/>\n    not&iacute;cias de fam&iacute;lia. Veste-se com dec&ecirc;ncia e mod&eacute;stia.<br \/>\n    Sobe e salta sem ru&iacute;do, instala-se no seu canto e n&atilde;o se mexe.<br \/>\n    Tem as m&atilde;os lisas e m&oacute;rbidas, os dedos compridos e afusados;<br \/>\n    as unhas ogivais parecem recortadas em porcelana. Usa saias pouco acima dos<br \/>\n    tornozelos. Os p&eacute;s, pequenos e arqueados, comprimidos em botins de<br \/>\n    couro, sob a massa movedi&ccedil;a das saias, t&ecirc;m uma gra&ccedil;a hesitante<br \/>\n    de p&aacute;ssaros timoratos. Ser&aacute; o pudor dos botins? Essa criatura<br \/>\n    acabou por me interessar. A freq&uuml;&ecirc;ncia das suas viagens, a const&acirc;ncia<br \/>\n    dos seus modos, a sua beleza um tanto fanada, o seu donaire involunt&aacute;rio<br \/>\n    de juriti meio desplumada e taciturna, a sua familiaridade familiar com o<br \/>\n    condutor, enfim o contraste entre o abafado concerto da sua pessoa e as mulheres<br \/>\n    brancas e chiques de bra&ccedil;os e pernas ao l&eacute;u, tudo me intrigava.<br \/>\n    A custo obtive umas informa&ccedil;&otilde;es vagas. Ontem, finalmente, encontrando-me<br \/>\n    com o pr&aacute;tico de farm&aacute;cia, o homem do Infinito, ouvi dele a<br \/>\n    informa&ccedil;&atilde;o cabal.<\/p>\n<p> &quot;Pois n&atilde;o a conhece? N&atilde;o conhece, deveras, a Florinda?&quot;<br \/>\n    &#8211; Contou-me toda a hist&oacute;ria de Florinda, a mesma hist&oacute;ria de<br \/>\n    tantas outras, tantas outras Florindas, e finalizou: &quot;Hoje, uma senhora.<br \/>\n    E ainda bonita, n&atilde;o viu? Costura fora de casa. &Eacute; companheira<br \/>\n    de um empregado aposentado dos correios, um casca, velho, reum&aacute;tico,<br \/>\n    bravo como um gato sarnento. Serve-lhe de irm&atilde; de caridade, de cozinheira,<br \/>\n    de m&atilde;e e de filha. E at&eacute; de armaz&eacute;m de pancadas.&quot;<br \/>\n    &Eacute; aquilo de Amiel: Pas um brin d&#8217;herbe qui n&#8217;ait une histoire &agrave;<br \/>\n    raconter, pas un coeur qui n&#8217;ait son roman&#8230;, que &eacute; aquilo mesmo de<br \/>\n    Emerson: &quot;Todo indiv&iacute;duo tem uma hist&oacute;ria que valeria a<br \/>\n    pena conhecer, se ele pudesse cont&aacute;-la, ou se n&oacute;s lha pud&eacute;ssemos<br \/>\n    arrancar&quot;. &#8211; Cada um carrega em si um ep&iacute;tome do drama humanal,<br \/>\n    tecido de trevas e de lumes. E cada um nos d&aacute; uma sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de humanidade imensa, como cada onda pode dar a vertigem do abismo.<\/p>\n<p> LEN&Ccedil;O PERDIDO Quando eu acabava de saltar do bonde, esta manh&atilde;,<br \/>\n    ouvi atr&aacute;s de mim um pchiu!, voltei-me, e um passageiro, homem do povo,<br \/>\n    esticando o bra&ccedil;o at&eacute; no meio da rua, me apresentou um len&ccedil;o<br \/>\n    que ficara no banco. Apalpei os bolsos, n&atilde;o me faltava len&ccedil;o<br \/>\n    nenhum. Tive pena de que o objeto n&atilde;o me pertencesse, porque pareceu-me<br \/>\n    que sem isso o meu agradecimento n&atilde;o encaixaria perfeitamente com a<br \/>\n    amabilidade do homem. Por um instante, pensei em aceitar o len&ccedil;o, mas<br \/>\n    prevaleceu o austero dever, tirei o chap&eacute;u, agradeci, e fui-me. O homem<br \/>\n    ainda me pediu desculpa e ficou a olhar em redor, a ver se aparecia o leg&iacute;timo<br \/>\n    dono.<\/p>\n<p> Segui o meu caminho a fruir esta agrad&aacute;vel impress&atilde;o &#8211; que<br \/>\n    ainda h&aacute; muito sentimento sadio e cordial por este mundo! A honestidade<br \/>\n    do ato, valha a verdade, n&atilde;o era grande. Os objetos transviados s&atilde;o<br \/>\n    quase sempre restitu&iacute;dos, quando de pouco import&acirc;ncia. Mas a<br \/>\n    galantaria do gesto! Linda coisa, a galantaria. A honestidade, afinal, &eacute;<br \/>\n    uma obriga&ccedil;&atilde;o. Tem um princ&iacute;pio passivo. &Eacute; uma<br \/>\n    ast&uacute;cia do ego&iacute;smo socializado, que evolveu para virtude, como<br \/>\n    o r&eacute;ptil se fez pato. Mas a galantaria &eacute; soberana: impulso livre,<br \/>\n    a&ccedil;&atilde;o de luxo e primor, dom incompuls&oacute;rio, fantasia espont&acirc;nea<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o, scherzzo garboso e sup&eacute;rfluo da vontade senhora<br \/>\n    de si mesma. &#8211; O excesso da medida justa vale a medida inteira.<\/p>\n<p> Ia eu a pensar estas coisas apraz&iacute;veis, num passo vagaroso de quem<br \/>\n    v&ecirc; que carrega borboletas no ombro ou no chap&eacute;u e n&atilde;o<br \/>\n    quer afugent&aacute;-las. Ao entrar num caf&eacute;, dei com o homem do len&ccedil;o<br \/>\n    na minha frente. Notei que tinha o nariz vermelho. Sorriu-se, descobriu-se<br \/>\n    e, inclinando a cabe&ccedil;a para um lado: &#8211; &quot;Seu doutor, n&atilde;o<br \/>\n    tem a&iacute; uns nicolaus que lhe sobrem, para eu tomar um pingado?&quot;<br \/>\n    Dei-lhe os nicolaus.<\/p>\n<p> CANUDO-DE-PITO A manh&atilde;, hoje, era uma festa, e o meu bairro, todo<br \/>\n    em manchas a&eacute;reas e frescas de paredes claras, telhados vermelhos,<br \/>\n    jardins verdes, morros azulegos e viol&aacute;ceos a derreterem-se na dist&acirc;ncia<br \/>\n    como caramelos, me divertia como uma paisagem refletida numa bola de cristal.<br \/>\n    Eu n&atilde;o tinha sen&atilde;o olhos, enquanto o bonde corria. &quot;Corre<br \/>\n    mais devagar, bonde do diabo! que assim como vais se me atrapalha tudo. &#8211;<br \/>\n    Corre mais depressa, bonde do inferno! que assim lentamente a desfilada das<br \/>\n    coisas mal se liberta da rigidez e do peso.&quot; De repente, do meio da grande<br \/>\n    nuvem escura de um velho bosque, saltou como de um capulho, uma nuvem amarela,<br \/>\n    a fronde arredondada de uma &aacute;rvore de ouro. &quot;Olhe, que lindo!<br \/>\n    &quot;(disse eu ao meu vizinho mais chegado, o Sr. Jo&atilde;o Ces&aacute;rio<br \/>\n    da Costa, capitalista, quarenta e oito anos).<\/p>\n<p> &quot;Veja aquele ip&ecirc;!&quot; O meu vizinho deu uma olhadela e informou<br \/>\n    friamente: &quot;Canudo-de-pito&quot;.<\/p>\n<p> O fato de se tratar de um canudo-de-pito, e n&atilde;o de ip&ecirc;, madeira<br \/>\n    de lei, influ&iacute;a decisivamente na rea&ccedil;&atilde;o da sua sensibilidade<br \/>\n    ante aquele quadro fugente e alucinat&oacute;rio. O mundo, para ele, reduziu-se<br \/>\n    a uma cole&ccedil;&atilde;o de conceitos, ou a um dicion&aacute;rio ilustrado.<br \/>\n    Costa n&atilde;o foi composto para comunicar diretamente com as coisas, no<br \/>\n    absoluto moment&acirc;neo e original da sensa&ccedil;&atilde;o, nesse largo<br \/>\n    e surpreendente aqu&eacute;m da id&eacute;ia e do pensamento, mais maravilhoso<br \/>\n    e menos triste do que o Al&eacute;m por onde vagam os Fabianos.<\/p>\n<p> A civiliza&ccedil;&atilde;o cada vez mais afasta os homens do contato imediato<br \/>\n    e regenerativo das coisas sens&iacute;veis. S&oacute; as enxergam de longe<br \/>\n    e de vi&eacute;s, atrav&eacute;s dos tipos, modelos, no&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    defini&ccedil;&otilde;es, poeira brumosa de abstra&ccedil;&atilde;o, sob a<br \/>\n    qual a intimidade fluente e jovial do mundo se desvanece, e a alma encantada<br \/>\n    da cria&ccedil;&atilde;o foge como um Ariel zombeteiro. Diante de uma paisagem,<br \/>\n    n&atilde;o v&ecirc;em a paisagem, mas uma cole&ccedil;&atilde;o de objetos<br \/>\n    e de efeitos conhecidos e explicados, formando um conjunto visual de acordo<br \/>\n    com meia d&uacute;zia de normas laboriosas. Diante de um ser vivo, desarticulam<br \/>\n    as partes, (como se um ser vivo, como se as coisas tivessem na realidade partes)<br \/>\n    examinam, medem, subdividem, espeda&ccedil;am, e cada ato desses decorre de<br \/>\n    uma id&eacute;ia feita, de um crit&eacute;rio preconcebido, de uma prefigura&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    normativa, de uma s&eacute;rie de opera&ccedil;&otilde;es mentais anteriores<br \/>\n    ou presentes. A grande descoberta instant&acirc;nea tornou-se imposs&iacute;vel.<br \/>\n    O delicioso milagre s&oacute; se revela a quem confia, franciscanamente, na<br \/>\n    luminosa estupidez do seu instinto e dos seus sentidos, e ingenuamente se<br \/>\n    lhes abandona, como o p&aacute;ssaro se deixa librar nas suas asas.<\/p>\n<p> Por isso, um imenso reposit&oacute;rio de beleza jaz inexplorado e ignorado<br \/>\n    no mundo e na vida.<\/p>\n<p> Quanta mulher feia por defini&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; por natureza<br \/>\n    uma coisa formosa! Quanto rosto irregular, escabroso, macilento, n&atilde;o<br \/>\n    guarda, um poucochinho mais al&eacute;m desses acidentes, dissimulado como<br \/>\n    um seixo branco no fundo de um rio, uma harmoniosa, surpreendente disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    fundamental de linhas, de relevos e de contornos! E a quantidade de beleza<br \/>\n    que n&atilde;o se v&ecirc; porque o objeto em si mesmo &eacute; desprez&iacute;vel<br \/>\n    ou repugnante! Um charco &eacute; uma imagem intelectual e orat&oacute;ria<br \/>\n    de dissolu&ccedil;&atilde;o, de paralisia, de morte, de decad&ecirc;ncia;<br \/>\n    &eacute; um foco pestilento, uma chaga aberta na terra, tapada de moscas,<br \/>\n    de vermes, de batr&aacute;quios: um horror &quot;por conseq&uuml;&ecirc;ncia&quot;.<br \/>\n    Uma cobra &#8211; puh! medonha! Entretanto, olhemos para isso tudo como uma crian&ccedil;a,<br \/>\n    com a aten&ccedil;&atilde;o e a curiosidade nuas de uma crian&ccedil;a que<br \/>\n    n&atilde;o conhece nada, n&atilde;o sabe nada, n&atilde;o teme nada. O charco<br \/>\n    talvez nos apare&ccedil;a, cheio de azul, como um buraco da terra sobre um<br \/>\n    abismo sem fundo, todo lavado de claridade e povoado de numes joviais. A superf&iacute;cie<br \/>\n    da &aacute;gua, aqui lisa, ali borbulhante, al&eacute;m com placas e refegos<br \/>\n    de nateiro grosso, ora arrepiada pelo vento, ora quebrada por um bicho que<br \/>\n    se mexeu, toda betada de sombras movedi&ccedil;as e de reflexos morrentes,<br \/>\n    golpeantes, explosivos, filiformes, maculares, difusos, &#8211; como se andasse<br \/>\n    ali a dissolver-se uma taxada de luminosidades, de negruras e de cores, pode<br \/>\n    ser um retalho fresco e maravilhoso de beleza arrancado ao monturo da realidade<br \/>\n    intelectiva.<\/p>\n<p> A cobra, essa &eacute; positivamente um objeto encantador. V&ecirc;-la enrodilhar-se<br \/>\n    &eacute; apreender a nitidez perfeita da imagem, aliada quase paradoxalmente<br \/>\n    &agrave; cambiante cont&iacute;nua. V&ecirc;-la caminhar &eacute; ter a impress&atilde;o<br \/>\n    de um liquido que se solidificou conservando a propriedade de escorrer.<\/p>\n<p> Vai t&atilde;o sutil e estreitamente adaptada aos altos e baixos do terreno,<br \/>\n    que se diria que a cobra n&atilde;o existe, &eacute; um simples movimento<br \/>\n    ondulat&oacute;rio do solo, um fragmento funiforme de sismo, uma estilha perdida<br \/>\n    e deslizante de terremoto. Esse corpo sem membros parece tamb&eacute;m n&atilde;o<br \/>\n    ter ossos, e apenas se percebe que &eacute; formado de an&eacute;is ou forma<br \/>\n    an&eacute;is &agrave; medida que se move, e que esses an&eacute;is se desmancham,<br \/>\n    mal se desenharam em outros que v&atilde;o desvanecer-se de igual maneira:<br \/>\n    um devaneio maluco objetivado.<\/p>\n<p> &Eacute; um pau que se fez cip&oacute; e um cip&oacute; que parece querer<br \/>\n    voltar aos enlaces e aos balan&ccedil;os com as ramas. Irritado, arroja o<br \/>\n    bote com a fulminante rapidez e a fatalidade mec&acirc;nica de um galho seco<br \/>\n    atirado pela raiva s&uacute;bita da rajada. Como se tivesse barbatanas e asas<br \/>\n    invis&iacute;veis, b&oacute;ia, nada, voa pela superf&iacute;cie da terra,<br \/>\n    e, quando se diria que lhe vai fugir, mergulha por ela dentro.<\/p>\n<p> Vejamo-la em repouso: &eacute; uma obra esquisita de tape&ccedil;aria, com<br \/>\n    desenhos t&atilde;o bem arabescados e cores t&atilde;o bem distribu&iacute;das,<br \/>\n    que os nossos olhos se espregui&ccedil;am como ela e, como ela o nosso prazer<br \/>\n    se enrodilha e se esquece nas suas pr&oacute;prias roscas, e sonha.<\/p>\n<p> Disse Boileau, sentenciosamente, como sempre: Il n&#8217;est pas de serpent ni<br \/>\n    de monstre odjeur, Qui, par l&#8217;art imit&eacute;, ne pu&iacute;sse plaire aux<br \/>\n    yeux, &#8211; mas quais s&atilde;o os monstros odiosos para os meus olhos? n&atilde;o<br \/>\n    t&ecirc;m &oacute;dios nem amores. Tudo &eacute; natureza, tudo &eacute; espet&aacute;culo,<br \/>\n    tudo &eacute; necess&aacute;rio, tudo &eacute; express&atilde;o da multiplicidade<br \/>\n    sem fim na unidade substancial do infinito mist&eacute;rio e da infinita beleza.<\/p>\n<p> No meio desse infinito, que nos cerca, nos trespassa, nos convida, vivemos<br \/>\n    um tanto &agrave; maneira daqueles dormentes estatelados nas ruas, nos pal&aacute;cios,<br \/>\n    nos p&aacute;tios, nos jardins, nos mercados, nos templos e nos bosques do<br \/>\n    conto oriental. Pr&iacute;ncipes, vizires, xeques, mercadores, ganh&otilde;es,<br \/>\n    &#8211; todos alheios &agrave; magia do espet&aacute;culo colorido e m&oacute;bil<br \/>\n    do mundo, eles pr&oacute;prios mero espet&aacute;culo para os olhos de um<br \/>\n    triste fugitivo e da sua amorosa e assustada companheira.<\/p>\n<p> RUFINA Se eu fosse Rufina, hoje recostado no banco do bonde, enquanto um<br \/>\n    c&eacute;u muito lavado se arqueava sobre todas as coisas, e um grande desejo<br \/>\n    de amor e ventura abrolhava nas almas, que teria feito? Teria pensado naquele<br \/>\n    passageiro desconhecido que me arrancara aos bra&ccedil;os da morte; ter-me-ia<br \/>\n    lembrado com infinito carinho daquele homem t&atilde;o corajoso e t&atilde;o<br \/>\n    t&iacute;mido, e teria refletido que por for&ccedil;a ele devia ter um grande<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o e uma alma adolescente.<\/p>\n<p> Pensaria, outrossim, que ele provavelmente era solteir&atilde;o, pois os<br \/>\n    homens casados n&atilde;o s&atilde;o assim t&atilde;o sol&iacute;citos, ou<br \/>\n    pelo menos t&atilde;o t&iacute;midos com as damas. Pensaria que ele devia<br \/>\n    viver s&oacute; e melanc&oacute;lico, habitando uma pens&atilde;o in&oacute;spita,<br \/>\n    ou uma casa de fam&iacute;lia onde ansiasse rodeado de intimidades e ternuras<br \/>\n    que n&atilde;o eram para ele. E tanta coisa mais! Entretanto, quem sabe l&aacute;<br \/>\n    o que Rufina &agrave;quela hora pensaria! Pensaria nalgum namorado vulgar,<br \/>\n    suavemente grosseiro e agradavelmente chato. Ou talvez estivesse com ele,<br \/>\n    m&atilde;os nas m&atilde;os, olhos nos olhos. Esta id&eacute;ia me perturba<br \/>\n    e me desalenta. Aquela m&atilde;o r&oacute;sea e mole ficaria t&atilde;o bem<br \/>\n    na minha, ossuda e pilosa! Aquele bra&ccedil;o torneado encaixaria t&atilde;o<br \/>\n    deliciosamente ao redor do meu pesco&ccedil;o! E eu me sentiria t&atilde;o<br \/>\n    ufano e pacificado, como um gato no borralho, ao calor do seu corpo e do seu<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o! Poder&iacute;amos estar aqui juntos, ela bordando tranq&uuml;ilamente<br \/>\n    um pano de mesa, uma almofada, ou l&aacute; o que lhe desse, e eu, quieto,<br \/>\n    a esta secret&aacute;ria, bordando as notas felizes de um memorial de venturas<br \/>\n    brandas, a interromp&ecirc;-lo de quando em quando para dar um &oacute;sculo<br \/>\n    &agrave; minha gata.<\/p>\n<p> Mas aquela pestinha &eacute; l&aacute; capaz de sonhar por esta mesma partitura!<br \/>\n    LOUVA-A-DEUS Tivemos hoje, &agrave; ida, um inesperado companheiro de viagem.<br \/>\n    N&atilde;o sei quando nem como se aboletou no carro; s&oacute; foi notado<br \/>\n    ao levantar o v&ocirc;o do chap&eacute;u de um cavalheiro velho para ir pousar<br \/>\n    no seio de uma senhora gorda, copiando a abelha da pequena ode de Anacreonte.<br \/>\n    A senhora gorda enxotou-o, num gesto de susto muito gracioso, como convinha<br \/>\n    ao sexo. O bicharoco, executando um r&aacute;pido v&ocirc;o plan&eacute;,<br \/>\n    foi aterrar no ombro de um rapaz elegante. Este se apresentava para lhe desfechar<br \/>\n    um tiro com o dedo m&eacute;dio armado em ar&iacute;ete, quando ele se passou<br \/>\n    para as costas de um homem distra&iacute;do, onde se deixou e o deixaram ficar.<\/p>\n<p> Uma vaga de hilaridade desencadeou-se no bonde ao toque das asas daquele<br \/>\n    forasteiro. Todos lhe acompanhavam as evolu&ccedil;&otilde;es com sorrisos.<br \/>\n    E alguns manifestavam na cara uma curiosidade lorpa, como se estivessem diante<br \/>\n    de um invento completamente novo. Porque essa hilaridade? Problema complicado<br \/>\n    e escuro. Lembro-me de Bergson, mas n&atilde;o vejo como aplicar ao caso a<br \/>\n    sua teoria. At&eacute; nova ordem, penso que o riso proveio apenas de que<br \/>\n    o bonde n&atilde;o &eacute; ve&iacute;culo para passageiros dessa classe;<br \/>\n    de que o lugar habitual onde imaginamos o louva-a-deus n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    o bonde, n&atilde;o as ruas ladeadas de pr&eacute;dios, cal&ccedil;adas de<br \/>\n    pedras, atravancadas de carruagem e caminh&otilde;es, riscadas de fios de<br \/>\n    metal e pontas de cimento, &#8211; e de que os passageiros sentiam, ou melhor, n&atilde;o<br \/>\n    sentiam, mas tinham necessidade de deixar ver uns aos outros a impress&atilde;o<br \/>\n    de desconcerto ou desconveni&ecirc;ncia que o transviado lhes produzia.<\/p>\n<p> De fato, a mec&acirc;nica do riso assenta no irreprim&iacute;vel instinto<br \/>\n    de comunica&ccedil;&atilde;o pr&oacute;prio do homem.<\/p>\n<p> Como o pranto, o riso &eacute; uma forma de linguagem, em grande parte inconsciente,<br \/>\n    destinada a comunicar o incomunic&aacute;vel, a exprimir o inexprim&iacute;vel,<br \/>\n    o que n&atilde;o se pode, n&atilde;o se sabe, n&atilde;o se quer ou n&atilde;o<br \/>\n    se pensa exprimir por palavras ou por gestos que lhes eq&uuml;ivalham. (Se<br \/>\n    &eacute; certo que rimos e choramos a s&oacute;s, tamb&eacute;m &eacute; certo<br \/>\n    que falamos conosco mesmos &#8211; e todo pensamento &eacute; di&aacute;logo interior<br \/>\n    &#8211; sem que por isso possa negar-se o car&aacute;ter eminentemente, social da<br \/>\n    linguagem articulada, cujas origens sup&otilde;em fatalmente troca, rela&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    entre indiv&iacute;duos, fixa&ccedil;&atilde;o coletiva de sinais sonoros).<br \/>\n    A m&iacute;mica do pranto e do riso nasceu provavelmente da necessidade de<br \/>\n    se solidarizarem e coligarem os &acirc;nimos, na horda primeva diante do perigo,<br \/>\n    da contrariedade ou do benef&iacute;cio comum que iam encontrando pela frente.<br \/>\n    Seria um elemento de coes&atilde;o sublim&aacute;vel. Uma circula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    r&aacute;pida de psiquismo coletivo. Com o tempo, isso se teria refletido<br \/>\n    e entranhado no indiv&iacute;duo, at&eacute; assumir uma sorte de vida inferior,<br \/>\n    independente. Mas a inconsci&ecirc;ncia do seu mecanismo interindividual a&iacute;<br \/>\n    est&aacute; para lhe atestar as origens greg&aacute;rias. &#8211; Somos ovelhas<br \/>\n    que se v&atilde;o apenas destacando do rebanho por ligeiras diferen&ccedil;as<br \/>\n    de p&ecirc;lo, de dimens&otilde;es ou de andadura; mas a alma da ovelha pertence<br \/>\n    mais ao rebanho do que a ela pr&oacute;pria.<\/p>\n<p> E se tudo isto estiver errado? N&atilde;o importa. Para um simples passageiro<br \/>\n    de bonde, as id&eacute;ias s&atilde;o como os bilhetes de loterias: &eacute;<br \/>\n    preciso jogar em muitas, para ter probabilidade de acertar em alguma. E ainda<br \/>\n    o melhor &eacute; n&atilde;o acertar. Criar fama de rico &eacute; uma das<br \/>\n    mais graves ma&ccedil;adas que possam cair sobre quem n&atilde;o necessite<br \/>\n    de tanto numer&aacute;rio. Responsabilidade social muito pesada. Admiradores.<br \/>\n    Compromissos. Facadas, amabilidades, invejas, intrigas, amofina&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/p>\n<p> Que bom travesseiro, a pobreza! A mim, o que me fez sorrir diante do louva-a-deus<br \/>\n    foi o riso dos outros, t&atilde;o saudavelmente natural e est&uacute;pido.<br \/>\n    E foi tamb&eacute;m o pr&oacute;prio louva-a-deus, natural e bobo como esse<br \/>\n    riso.<\/p>\n<p> O louva-a-deus &eacute; talvez um simples broto que de repente se animou,<br \/>\n    mexeu as suas folhazinhas tenras mal transformadas em asas, saltou, olhou<br \/>\n    o mundo em torno com os dois olhitos esbugalhados que se lhe acabavam de p&ocirc;r<br \/>\n    &#8211; e esqueceu-se do papel que vinha representar.<\/p>\n<p> Todo trangalhadan&ccedil;as e todo indeciso, na sua irrepreens&iacute;vel<br \/>\n    casaquinha verde, &eacute; como um mascarado tanto que n&atilde;o tem coragem<br \/>\n    de ir ao baile nem sabe se h&aacute; de voltar para casa, e fica a estatelar-se<br \/>\n    macamb&uacute;zio pelas esquinas.<\/p>\n<p> Desconfio agora que o louva-a-deus talvez fosse um broche que um artista<br \/>\n    primitivo, das cavernas ou das palafitas, modelasse,- no barro verdengo de<br \/>\n    algum a&ccedil;ude, dando-lhe, por inabilidade e por fantasia, uma fei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de monstro quim&eacute;rico e grotesco. Um dia, a senhora Natureza, num momento<br \/>\n    de nervos, confundindo-o com os seus modelos infelizes e inacab&aacute;veis<br \/>\n    ter-lhe-ia comunicado o sopro da vida, lan&ccedil;ando-o fora; &quot;Enfim!<br \/>\n    sume-te, diabo!&quot; Outra hip&oacute;tese. Esse e, com esse, muitos bicharocos<br \/>\n    parecem ter sido produzidos pela art&iacute;fice quando ela ainda n&atilde;o<br \/>\n    podia desprender a imagina&ccedil;&atilde;o dos liames do concreto. A minhoca<br \/>\n    teria sido tirada de uma raiz de tub&eacute;rculo. A serpente, de uma haste<br \/>\n    de foramin&iacute;fera. O besouro foi talvez copiado de um caro&ccedil;o de<br \/>\n    mamona. O elefante originar-se-ia de uma pedra viajada, do per&iacute;odo<br \/>\n    glaci&aacute;rio, quer por acaso se tivesse vindo suster em cima de outras<br \/>\n    pedras menores e espa&ccedil;adas. O lagarto, de um estilha&ccedil;o de pau<br \/>\n    nodoso rachado pelo raio. Os peixes n&atilde;o teriam vindo da sugest&atilde;o<br \/>\n    de um cardume de folhas polpudas ca&iacute;das de grossas plantas aqu&aacute;ticas?<br \/>\n    E o morcego? O morcego foi de certo imitado de um pequeno guarda-chuva esfrangalhado<br \/>\n    pelo vento. (Contudo, n&atilde;o estou seguro da exist&ecirc;ncia pr&eacute;-hist&oacute;rica<br \/>\n    do guarda-chuva).<\/p>\n<p> S&oacute; depois, muito depois, a Artista se libertou das formas anteriores<br \/>\n    para as inventar novas e mais perfeitas &#8211; o galo, esse objeto de luxo, o cisne,<br \/>\n    esse sonho de paz e perfei&ccedil;&atilde;o, o gato, essa pequena mistura<br \/>\n    de inoc&ecirc;ncia e de malignidade, a mulher&#8230; Ai, a mulher! complexa obra<br \/>\n    de fantasia terna, cruel e humor&iacute;stica: cisne, galinhola e gata. Rufina,<br \/>\n    meu amor, eu adivinho que tu &eacute;s isso tudo! Tive tamb&eacute;m um acesso<br \/>\n    de ternura pelo coitado do meu louva-a-deus, perdido entre paralelep&iacute;pedos<br \/>\n    e almas, na cidade poeirenta e dura, longe do fluido verdor fresco das moitas<br \/>\n    e dos agua&ccedil;ais. E lembrei-me do meu tempo de menino, l&aacute; muito<br \/>\n    longe (muito longe, muito longe, num outro mundo que j&aacute; nem sei se<br \/>\n    existe!), onde o louva-a-deus se conhecia por cavalinho de Nosso Senhor e<br \/>\n    onde me divertia com outros pequenos a ca&ccedil;&aacute;-lo, para o ver fazer<br \/>\n    a sua ora&ccedil;&atilde;o de m&atilde;os postas e para lhe amarrar um cordelinho<br \/>\n    a uma das patas traseiras.<\/p>\n<p> Vi os agros lavrados, grandes remendos postos ao manto das lombas, com estrias<br \/>\n    roxas de terra e bordados verdes de planta nova. Vi a vegeta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mole e tufada dos grot&otilde;es por onde a &aacute;gua corria e ofegava,<br \/>\n    como rapariga surpreendida nua. Vi o empastamento viol&aacute;ceo-azulfuma&ccedil;a<br \/>\n    dos morros distantes. Vi o risco sangrento do caminho velho atrav&eacute;s<br \/>\n    da solid&atilde;o virgiliana dos pastios. Senti o cheiro salubre das macegas.<br \/>\n    Ouvi ranger a velha porteira pesada e pensa, ao p&eacute; do valo esboroado,<br \/>\n    entupido de gravat&aacute;s, &agrave; sombra do pau-d&#8217;alho fechado e baixo<br \/>\n    como uma cabana triste. Ouvi ecos errantes de vozes grossas a chamarem pelo<br \/>\n    gado, de cantigas de lavadeiras no c&oacute;rrego, do jorro da bica a referver<br \/>\n    no esqueleto negro da roda de &aacute;gua. E havia no meio de tudo isso, ainda<br \/>\n    mais distante, mais real e mais irreal, mais vivo e mais sonhado, um toque<br \/>\n    fremente e forte de buzina de ca&ccedil;a, l&aacute; pelas barrocas e pelos<br \/>\n    cerrados desertos, um toque ululante; ansioso, resoluto, que estra&ccedil;alhava<br \/>\n    o sil&ecirc;ncio com &iacute;mpetos her&oacute;icos e melanc&oacute;licos,<br \/>\n    de desafio e de saudade.<\/p>\n<p> Transpassou-me a alma heredit&aacute;ria de lavrador desenraizado um sentimento<br \/>\n    agudo de solid&atilde;o e de incomunicabilidade, e fiquei a olhar para o louva-a-deus<br \/>\n    na &acirc;nsia com que algu&eacute;m, perdido em terra estrangeira, se poria<br \/>\n    a amar de longe um compatriota com quem houvesse topado por acaso. (Assim<br \/>\n    as nossas ternuras v&ecirc;m sempre acabar em n&oacute;s mesmos. A&iacute;,<br \/>\n    senhor duque de la Rochefoucauld!) Viajava a meu lado um mo&ccedil;o atochado<br \/>\n    de conhecimentos exatos. Disse-me, com certa indigna&ccedil;&atilde;o, que<br \/>\n    o louva-a-deus, mante r&eacute;ligieuse, &eacute; um dos seres mais sinistros<br \/>\n    da cria&ccedil;&atilde;o viva: a f&ecirc;mea tem o indelicado costume de devorar<br \/>\n    o incauto esposo logo no festim de bodas (ao contr&aacute;rio portanto de<br \/>\n    outras que comem os seus aos bocadinhos, a vida inteira).<\/p>\n<p> Eu j&aacute; sabia disso pelos Souvenirs do Fabre; mas o mo&ccedil;o tinha<br \/>\n    prazer em me instruir, e eu n&atilde;o lhe quis aguar essa satisfa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    n&atilde;o de todo inocente, mas toler&aacute;vel. N&atilde;o lha tolerei<br \/>\n    por generosidade, mas porque n&atilde;o queria jogar com ele a cena dos dois<br \/>\n    pedantes que se travam de saben&ccedil;as.<\/p>\n<p> Tenho pavor a essa esp&eacute;cie de gente, (ali&aacute;s estim&aacute;vel,<br \/>\n    posto que daninha) a essa esp&eacute;cie de gente que vive a verter sabidelas<br \/>\n    decoradas por todas as juntas, como pipotes de melado em que n&atilde;o se<br \/>\n    pode p&ocirc;r o dedo sem sentir o pegajoso das escorr&ecirc;ncias. S&atilde;o<br \/>\n    sucursais vivas da tipografia. S&atilde;o jornais parlantes, cheios de reportagens,<br \/>\n    de ci&ecirc;ncia feita, mas sem artigos de fundo e sem rodap&eacute;s liter&aacute;rios.<br \/>\n    A ci&ecirc;ncia, para eles, &eacute; o refugium, desde que se reconheceram<br \/>\n    an&ecirc;micos de bom senso, de imagina&ccedil;&atilde;o, de sensibilidade<br \/>\n    e privados dessa divina capacidade de simpatia c&oacute;smica, que faz as<br \/>\n    almas verdad&#8230;. Mas n&atilde;o vale a pena repetir Nietzsche.<\/p>\n<p> SANFONA Tivemos hoje concerto de sanfona durante a viagem da tarde. O homem<br \/>\n    tocava bem, e tocava de tudo.<\/p>\n<p> Amo de cora&ccedil;&atilde;o estes artistas humildes, que t&ecirc;m a paix&atilde;o<br \/>\n    da arte, com o m&iacute;nimo poss&iacute;vel de c&aacute;lculo, ou sem nenhum.<br \/>\n    S&atilde;o, na sua imperfei&ccedil;&atilde;o, mais artistas do que muitos<br \/>\n    outros mais h&aacute;beis, mais cultos, mais refinados: n&atilde;o procuram<br \/>\n    na arte sen&atilde;o o seu prazer &#8211; sem pensar em proveitos; e exercem-na<br \/>\n    com a simplicidade e a inoc&ecirc;ncia de quem pratica os atos mais ordin&aacute;rios<br \/>\n    da vida. D&atilde;o generosamente e anonimamente o que t&ecirc;m, o bom e<br \/>\n    o mau, o certo e o errado, sem presun&ccedil;&atilde;o e sem torturas, e v&atilde;o<br \/>\n    seguindo o seu caminho. Quem gostar, goste &agrave; vontade; quem n&atilde;o<br \/>\n    gostar, perdoe; e, se n&atilde;o quiser perdoar, &eacute; o mesmo. Que boa,<br \/>\n    alegre e higi&ecirc;nica maneira de ser artista! Durante vinte minutos, o<br \/>\n    homenzinho da sanfona foi o &uacute;nico que veio deitar um pouco de alegria<br \/>\n    purificadora na alma fechada e amarrotada de quarenta e tantos passageiros.<\/p>\n<p> Pela minha parte, Deus lhe pague, frater desconhecido! EMBRIAGUEZ Viajou<br \/>\n    hoje no bonde um homem embriagado, meio dormindo. Quando chegamos ao ponto,<br \/>\n    no centro, todos descemos, e ele ficou. O condutor foi interrog&aacute;-lo,<br \/>\n    ver porque n&atilde;o descia. Sacudiuo.<\/p>\n<p> &quot;&Oacute; amigo, j&aacute; chegamos! &Oacute; amigo&#8230;&quot; O b&ecirc;bedo<br \/>\n    abriu um olho, ergueu a cabe&ccedil;a, e deixou-a tombar de novo sobre o peito.<br \/>\n    &quot;&Oacute; amigo! ent&atilde;o n&atilde;o desce? &Oacute; amigo&#8230;&quot;<br \/>\n    O &eacute;brio tornou a abrir um olho, fixou-o no condutor, e murmurou: &quot;Toca<br \/>\n    o bonde.&quot; &#8211; &quot;Mas olhe que tem de pagar outra passagem! &Oacute;<br \/>\n    cidad&atilde;o! est&aacute; ouvindo? Tem de pagar outra passagem!&quot; &#8211;<br \/>\n    &quot;Sim!&quot; berrou o homem.<\/p>\n<p> &quot;Sim! eu pago outra passagem! Toque essa porcaria! Siga! Eu pago quanto<br \/>\n    voc&ecirc; quiser. Olhe, tome!&quot; E estendeu ao condutor uma prata de dez<br \/>\n    tost&otilde;es.<\/p>\n<p> Quando o condutor lhe restitu&iacute;a o troco, o beberr&atilde;o, j&aacute;<br \/>\n    manso, fez um gesto tr&ecirc;mulo de repulsa amig&aacute;vel. &quot;Guarde<br \/>\n    para voc&ecirc;, guarde l&aacute;&#8230; ouviu? Mas olhe aqui, condutor, mande<br \/>\n    tocar mais devagar nas curvas&#8230; sim? &Eacute; s&oacute; o que eu lhe pe&ccedil;o.<br \/>\n    Mais devagarinho nas curvas!&quot; E o &eacute;brio recostou-se, acomodou-se,<br \/>\n    cruzou as m&atilde;os sobre os joelhos e fechou os olhos, como se estivesse<br \/>\n    na mais fofa poltrona, debaixo de um teto amigo.<\/p>\n<p> Explicou ent&atilde;o o condutor porque &eacute; que ele queria menos rapidez<br \/>\n    nas curvas: &eacute; que j&aacute; havia levado um meio trambolh&atilde;o<br \/>\n    do bonde abaixo, numa delas. Assistiam &agrave; cena dez ou doze curiosos,<br \/>\n    que muito se divertiram. Nunca h&aacute; maior divertimento do que ver um<br \/>\n    homem em situa&ccedil;&atilde;o degradante, e &quot;ris&iacute;vel&quot;,<br \/>\n    que por via de regra &eacute; ris&iacute;vel porque seria pr&oacute;pria para<br \/>\n    entristecer.<\/p>\n<p> E porque o estado de bebedeira &eacute; degradante? J&aacute; sei: &eacute;<br \/>\n    pela mesma raz&atilde;o por que &eacute; ris&iacute;vel, &eacute; que diminui<br \/>\n    o homem ex abrupto, o reduz &agrave; condi&ccedil;&atilde;o de aut&ocirc;mato,<br \/>\n    de um aut&ocirc;mato e amarfanhado. Mas h&aacute; tanto outro g&ecirc;nero<br \/>\n    de embriaguez que passa como se n&atilde;o fosse degradante nem rid&iacute;culo!<br \/>\n    Por que? Os efeitos s&atilde;o os mesmos: um homem sem a posse completa de<br \/>\n    si pr&oacute;prio, sem sequer essa esp&eacute;cie de dignidade animal que<br \/>\n    consiste na harmonia espont&acirc;nea dos movimentos com as &quot;finalidades&quot;<br \/>\n    naturais, da estrutura; um homem que se torna inconveniente ou se torna perigoso,<br \/>\n    que tem de ser aturado nas suas importuna&ccedil;&otilde;es, ou carregado<br \/>\n    como uma coisa, ou conduzido como um animal, ou que extravasa, d&aacute; esc&acirc;ndalo<br \/>\n    e faz desordem.<\/p>\n<p> H&aacute; a bebedeira de morfina, &eacute;ter e similares, e das paix&otilde;es<br \/>\n    pol&iacute;ticas, profissionais e confessionais, a da ambi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    doentia, a do exibicionismo patol&oacute;gico; h&aacute; a embriaguez moderna<br \/>\n    da atividade exacerbada, que, como todas, enfuria, desfalca, mecaniza e deforma<br \/>\n    a natureza do homem. E h&aacute; a embriaguez da sensualidade que se desdobra<br \/>\n    nesta epidemia universal de ostenta&ccedil;&atilde;o, de festas e de fantochismo<br \/>\n    dan&ccedil;ante. E h&aacute; a embriaguez do autom&oacute;vel, embriaguez<br \/>\n    t&iacute;pica.<\/p>\n<p> O paciente come&ccedil;a por tom&aacute;-lo aos poucos, e &agrave;s vezes<br \/>\n    arrenega, &agrave;s vezes duvida entre si se &eacute; bom ou se n&atilde;o<br \/>\n    ser&aacute;. Mas volta, e prova mais uma vez, mais outra, e mais outra, aumentando<br \/>\n    as doses. Para encurtar, n&atilde;o tarda que seja um viciado. Torna-se um<br \/>\n    automobiliman&iacute;aco. Anda quase constantemente automobiliagado, com per&iacute;odos<br \/>\n    l&uacute;cidos de mais em mais breves, em que trata de seus neg&oacute;cios<br \/>\n    e participa da vida &iacute;ntima de sua fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> Quando est&aacute; em crise, empalidece, enrija-se, tem os olhos parados,<br \/>\n    o l&aacute;bio desca&iacute;do e branco.<\/p>\n<p> A pequena velocidade &eacute; a fase alegre e brincalhona: ele pirueteia,<br \/>\n    ziguezagueia, faz gracinhas com a m&aacute;quina, assusta o transeunte pac&iacute;fico,<br \/>\n    dirige pilh&eacute;rias aos guardas. A velocidade m&eacute;dia &eacute; a<br \/>\n    fase da provoca&ccedil;&atilde;o e do &quot;leve o diabo&quot;. A velocidade<br \/>\n    m&aacute;xima m&eacute;dia &eacute; o estado delirante: a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    acaba de desaparecer, desaparece tudo, ou tudo se reduz a um sonho ag&ocirc;nico,<br \/>\n    em que a personalidade tem a abafada impress&atilde;o de se libertar das pris&otilde;es<br \/>\n    materiais e voar no vento e na luz.<\/p>\n<p> Embriaguez detest&aacute;vel como qualquer outra. Mais do que qualquer outra<br \/>\n    produz v&iacute;timas, que n&atilde;o s&atilde;o unicamente os enfermos, conforme<br \/>\n    todos os dias revelam as cr&ocirc;nicas. E, como muitas outras, deixa suas<br \/>\n    heran&ccedil;as &agrave; descend&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Entretanto, n&atilde;o se cogita de uma lei seca para esse flagelo.<\/p>\n<p> A verdade &eacute; que o homem &eacute; um ser que se embriaga. N&atilde;o<br \/>\n    importa a maneira: o essencial &eacute; embriagar-se. Morfina, &eacute;ter,<br \/>\n    coca, &oacute;pio, vinho, grappa, whisky, gin, vodca, cerveja, autom&oacute;vel,<br \/>\n    jogo, esporte, dan&ccedil;a, neg&oacute;cios, arte, pol&iacute;tica, notoriedade,<br \/>\n    gl&oacute;ria, &oacute;dio, tudo lhe serve, contanto que lhe permita, conforme<br \/>\n    os temperamentos, sentir a falsa plenitude de um desaforo interior, embora<br \/>\n    &agrave; custa do desbarate e da quebra do rico, v&aacute;rio e harm&ocirc;nico<br \/>\n    plano natural da constru&ccedil;&atilde;o humana.<\/p>\n<p> Dizia Tolst&oacute;i que o homem procura no &aacute;lcool e no tabaco o<br \/>\n    entorpecimento do Eu consciente. E &eacute; verdade. Mas o &aacute;lcool e<br \/>\n    o tabaco n&atilde;o s&atilde;o os &uacute;nicos mananciais dessa felicidade<br \/>\n    mutilante.<\/p>\n<p> H&aacute;-os em barda por a&iacute;, todos produzindo efeitos exteriores<br \/>\n    an&aacute;logos, todos proporcionando o mesmo resultado interior, quer se<br \/>\n    trate de um cigarro ou de um trago, quer de um ve&iacute;culo atirado como<br \/>\n    um buscap&eacute; ou de uma paix&atilde;o ou preconceito absorvente, que se<br \/>\n    cultiva: reduzir o campo dos cuidados, abafar uma por&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    vozes que balbuciam dentro de n&oacute;s, prevenir um mundo de preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e de ang&uacute;stias poss&iacute;veis, apequenar a nossa humanidade, p&ocirc;r<br \/>\n    entre n&oacute;s e o cariz oce&acirc;nico da vida um v&eacute;u que o esfume<br \/>\n    e nos tranq&uuml;ilize.<\/p>\n<p> N&atilde;o nos r&iacute;amos do b&ecirc;bedo, r&iacute;amo-nos de n&oacute;s.<br \/>\n    Todos temos o nosso copo, e todos parecemos obedecer ao conselho de Omar Kayy&aacute;m:<br \/>\n    Sonha que j&aacute; n&atilde;o &eacute;s, e s&ecirc; feliz.<\/p>\n<p> &Eacute;s que? Homem, c&aacute; para o nosso caso.<\/p>\n<p> BOA PROSA Boa prosa, o Ant&ocirc;nio Palhares. &Eacute; curioso como h&aacute;<br \/>\n    indiv&iacute;duos inteligentes, persp&iacute;cuos e engra&ccedil;ados, perdidos<br \/>\n    na multid&atilde;o que n&atilde;o aparecem nas cr&ocirc;nicas impressas, nem<br \/>\n    nas volantes e sonantes da gente que se conhece. De repente, surde-nos um<br \/>\n    da obscuridade e da indetermina&ccedil;&atilde;o do vasto mundo que desdenhamos<br \/>\n    e ignoramos, &#8211; e &eacute; um bicho de compreensividade, de senso, de esp&iacute;rito!<br \/>\n    Palhares &eacute; assim.<\/p>\n<p> Conversei com ele hoje pela manh&atilde;, e nem sei dizer como me divertiu.<br \/>\n    Valeu por um livro novo que eu abrisse e folheasse, vendo as gravuras, o &iacute;ndice,<br \/>\n    os t&iacute;tulos de alguns cap&iacute;tulos, alguns relances de p&aacute;ginas.<br \/>\n    Quanta novidade, quanta frescura, quanto inesperado, e tamb&eacute;m quanto<br \/>\n    sabor de sinceridade lib&eacute;rrima e despreocupada, nos seus dizeres de<br \/>\n    homem sem galeria presente nem futura! Queixei-me a Palhares dos inconvenientes<br \/>\n    da notoriedade. N&atilde;o por mim, que sou um obscuro chapado e contente,<br \/>\n    mas por um amigo meu, que &eacute; uma esp&eacute;cie de ter&ccedil;a parte<br \/>\n    minha, o qual muito tem sofrido por via desse flagelo. O rapaz n&atilde;o<br \/>\n    pode mais isolar-se, meter-se consigo, perder-se na fecunda anon&iacute;mia<br \/>\n    multitudin&aacute;ria que lhe permitiria o descanso, o recolhimento, a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    livre, a remodela&ccedil;&atilde;o dos h&aacute;bitos, a cura das feridas<br \/>\n    sempre abertas pela esfrega&ccedil;&atilde;o mundana: &eacute; um escravo<br \/>\n    aflito e amarfanhado das rela&ccedil;&otilde;es, das amizades, dos compromissos,<br \/>\n    das id&eacute;ias que outros formaram a seu respeito, das solicita&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    e dos est&iacute;mulos que por isso lhe v&ecirc;m de todos os lados; e ent&atilde;o<br \/>\n    padece, e geme, e desespera, porque desejaria romper com o seu passado, deixar<br \/>\n    de ser o homem fr&iacute;volo, o homem vento, o homem-inunda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que tem sido, para ser um homem conc&ecirc;ntrico e dono de si.<\/p>\n<p> Palhares ouviu-me, ouviu-me, e, afinal, perguntou: &#8211; &quot;Mas esse mo&ccedil;o<br \/>\n    &eacute; deveras uma intelig&ecirc;ncia sagaz, ou &eacute; uma dessas grandes<br \/>\n    intelig&ecirc;ncias bobas que h&aacute; por esse mundo?&quot; &#8211; &quot;Sagac&iacute;ssima.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Pois n&atilde;o parece. Seria t&atilde;o f&aacute;cil libertar-se,<br \/>\n    isolar-se!&quot; &#8211; &quot;&Eacute; o que se afigura &agrave; primeira vista.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Precisa dos outros, efetivamente, para viver?&quot; &#8211; &quot;N&atilde;o;<br \/>\n    isso, n&atilde;o; tem a sua independ&ecirc;ncia material bem segura.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Ent&atilde;o, n&atilde;o compreendo. Por que n&atilde;o se retira?&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Imposs&iacute;vel. Relacionad&iacute;ssimo. Cheio de la&ccedil;os,<br \/>\n    que n&atilde;o se dissolvem sen&atilde;o quando novos la&ccedil;os os submergem:<br \/>\n    um homem que se procura, se aprecia, se quer, se disputa, se admira.<\/p>\n<p>Encantador. Como romper? Como ter a energia de quebrar brutalmente esses<br \/>\n    la&ccedil;os? Como repelir, quando se tem um cora&ccedil;&atilde;o brando,<br \/>\n    uma revoada de carinhos e solicitudes que nos cerca e nos assalta?&quot; &#8211;<br \/>\n    &quot;N&atilde;o compreendo. Para um homem se isolar, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    necessidade de movimentos bruscos, nem de fuga. Para fazer o v&aacute;cuo<br \/>\n    em redor de si, gradualmente, docemente, n&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o<br \/>\n    isto: ser bom.&quot; &#8211; &quot;Mas ele o &eacute;. E depois, ser bom &eacute;<br \/>\n    mais um motivo para criar afetos e dedica&ccedil;&otilde;es em redor de si.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Espere. Distingo. Ser bom, de uma bondade pedestre e regular, de fato,<br \/>\n    &eacute; um meio de criar afetos e dedica&ccedil;&otilde;es em redor de si.<br \/>\n    N&atilde;o &eacute; dessa bondade pr&aacute;tica e h&aacute;bil que eu falo.<br \/>\n    Eu falo da bondade &iacute;ntima, profunda, plena e sossegada, que procura<br \/>\n    o bem nas pr&oacute;prias ra&iacute;zes do pensamento e da vontade, de forma<br \/>\n    que o pensamento e a vontade, quando se manifestam, j&aacute; se manifestam<br \/>\n    como conseq&uuml;&ecirc;ncias exteriores, morti&ccedil;as, frias, aguadas<br \/>\n    e, dir-se-ia, indiferentes de uma grande realidade latente e central que n&atilde;o<br \/>\n    cura de exterioridades. Compreendeu?&quot; &#8211; &quot;Mais ou menos. Quer dizer<br \/>\n    uma bondade sentida, consciente, feita de compreens&atilde;o e de piedade,<br \/>\n    mas que n&atilde;o tenta esfor&ccedil;os por se mostrar e por atuar c&aacute;<br \/>\n    fora. Porque sabe talvez que toda exterioriza&ccedil;&atilde;o &eacute; espet&aacute;culo<br \/>\n    e todo espet&aacute;culo perverte.&quot; &#8211; &quot;Mais ou menos isso!&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Mas por que pensa que a&iacute; estaria o meio de liberta&ccedil;&atilde;o?&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Ora, essa! meu amigo! Pelo que vejo, n&atilde;o conhece os homens.<br \/>\n    Os homens s&oacute; nos avaliam, nos pesam, nos apre&ccedil;am pelas nossas<br \/>\n    proje&ccedil;&otilde;es exteriores. E essas proje&ccedil;&otilde;es, para<br \/>\n    terem valor, se h&atilde;o de articular com as necessidades, os desejos, as<br \/>\n    conveni&ecirc;ncias, as aspira&ccedil;&otilde;es dos que nos rodeiam. Valem<br \/>\n    pela soma de utilidade e de cumplicidade que levam consigo.<\/p>\n<p> Mas um indiv&iacute;duo realmente e simplesmente bom &eacute; o mais desvalioso<br \/>\n    dos homens. &Eacute; talvez uma &aacute;rvore frut&iacute;fera, mas que produz<br \/>\n    frutos quando &eacute; saz&atilde;o, e fora disso n&atilde;o produz mais nada;<br \/>\n    ali est&aacute;, no seu lugar, quieta, sem movimento, sem iniciativa, sem<br \/>\n    pr&eacute;stimo, sem solicitudes, sem gra&ccedil;a.<\/p>\n<p> Apenas d&aacute; sombra. Uma sombra igual para todos. Mas que importa aos<br \/>\n    homens uma &aacute;rvore que d&aacute; sombra! A sombra aproveita-se, quando<br \/>\n    aderga, goza-se, saboreia-se, mas n&atilde;o se tem nenhuma gratid&atilde;o<br \/>\n    para a planta equ&acirc;nime que n&atilde;o no-la reservou para n&oacute;s,<br \/>\n    que a dar&aacute; ao primeiro vagabundo que a procure. Assim, a &aacute;rvore<br \/>\n    de boa sombra vive realmente isolada, cercada por uma densa muralha de impenetrabilidade<br \/>\n    pr&oacute;pria e de alheia indiferen&ccedil;a.&quot; &quot;Diga ao seu amigo<br \/>\n    que fa&ccedil;a isso.&quot; Palhares sorriu, p&ocirc;s um confeito na l&iacute;ngua<br \/>\n    e, a remex&ecirc;-lo na boca, perguntou: &#8211; &quot;Quer jantar comigo?&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Obrigado.&quot; &#8211; &quot;Sem cerim&ocirc;nia. Temos hoje l&aacute;<br \/>\n    em casa um peixe que me mandaram do litoral, um espl&ecirc;ndido robalo. Presente<br \/>\n    de um amigo.&quot; &#8211; &quot;Tem amigos am&aacute;veis.&quot; &#8211; &quot;Mas, naturalmente.<br \/>\n    Prestei a esse um servi&ccedil;o de grande import&acirc;ncia, que s&oacute;<br \/>\n    eu estava em condi&ccedil;&otilde;es de prestar.&quot; &#8211; &quot;Gratid&atilde;o,<br \/>\n    nesse caso.&quot; &#8211; &quot;Qual!&quot; &#8211; &quot;Esperan&ccedil;a de novo servi&ccedil;o&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Talvez&quot; &#8211; &quot;Afeto humano!&quot; &#8211; &quot;Afetos verdadeiros<br \/>\n    e s&oacute;lidos! Passam depressa, nada mais fugitivo, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    d&uacute;vida; mas verdadeiros e s&oacute;lidos porque se firmam na realidade<br \/>\n    viva das rela&ccedil;&otilde;es &uacute;teis. N&atilde;o h&aacute; outra.<\/p>\n<p> Dentro da vida, da vida efetiva, da vida que se vive, n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    outra. &Eacute; isso. &Eacute; assim. Mas quer ou n&atilde;o quer comer o<br \/>\n    bom peixe do meu amigo?&quot; RUFINA Tornei a ver a minha Rufina, afinal.<\/p>\n<p> Corria eu os olhos pelos passageiros, com essa curiosidade vaga, sem garra<br \/>\n    nem asa, que nos resta nas horas de fadiga. Vi num banco de tr&aacute;s o<br \/>\n    pr&aacute;tico de farm&aacute;cia, com um livro de Allan Kardec sobre os joelhos<br \/>\n    e a fazer gracinhas a uma crian&ccedil;a, cuja m&atilde;e era uma guapa mocetona.<\/p>\n<p> Vi o simp&aacute;tico Berredo, inimigo da Medicina, m&eacute;dico amador.<br \/>\n    Benzi-me em esp&iacute;rito com a canhota, e desviei os olhos: dei com eles<br \/>\n    num banco todo ocupado por mulheres idosas e feias, n&atilde;o sei se mais<br \/>\n    idosas do que feias, e tinham os cabelos entre o grisalho e o branco amarelado.<\/p>\n<p> Mas a velhice &eacute; uma coisa vener&aacute;vel. Contemplei aquelas caras<br \/>\n    a ver se conseguia extrair de alguma delas a imagem reconstitu&iacute;da de<br \/>\n    uma beleza decomposta. N&atilde;o o consegui. Teriam talvez uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de beleza interior. Mas por que ent&atilde;o n&atilde;o se revelava c&aacute;<br \/>\n    fora ao menos como o lume vermelho e morti&ccedil;o de um forno velho? Pus-me<br \/>\n    a passear os olhos pelo tejadilho, pela rua, pelas pontas de meus dedos. De<br \/>\n    repente, quem havia de descobrir! L&aacute; no fundo, sentadinha entre uma<br \/>\n    preta gorda e um bigodudo vendedor de loterias, Rufina! a pr&oacute;pria,<br \/>\n    a aut&ecirc;ntica, a &uacute;nica, a olhar para mim, sorrindo como antiga<br \/>\n    conhecida &#8211; a boa criatura! Toda ela era uma s&oacute; imagem de lindeza una<br \/>\n    e vibrante como uma interjei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Trajava de branco e tinha uma gola alta que lhe dava ao pesco&ccedil;o,<br \/>\n    ao ombro e &agrave; cabecinha redonda um qu&ecirc; dessa gra&ccedil;a aconchegada<br \/>\n    e s&oacute;lida, que se encontra nas frutas perfeitas e nos legumes vi&ccedil;osos.<br \/>\n    Mergulhei-me na figura de Rufina.<\/p>\n<p> Nisto, veio de l&aacute; o pr&aacute;tico de farm&aacute;cia, marinhando<br \/>\n    pelo estribo. Alegou que me queria cumprimentar, e de fato realizou esse rito<br \/>\n    com a mais intempestiva lentid&atilde;o. Relanceava os olhos para Rufina,<br \/>\n    uns olhos de emplastro, sob cujas apalpadelas a mo&ccedil;a baixava os seus.<\/p>\n<p> Depois, saltou. &#8211; Lamentei sinceramente que n&atilde;o tivesse ca&iacute;do.<br \/>\n    Senti ganas de lhe saltar no rasto como uma on&ccedil;a atr&aacute;s de um<br \/>\n    quati, e meter-lhe a garra pelo gasnete, e bat&ecirc;-lo pelo ch&atilde;o<br \/>\n    e pelas paredes.<\/p>\n<p> Quando o bonde chegava &agrave; primeira esquina, o condutor subiu ao meu<br \/>\n    banco, que era o da frente, para repor em zero o rel&oacute;gio de marca&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das passagens. Incomodado pelo intruso, passei provisoriamente para o banco<br \/>\n    imediato, dando costas &agrave; linda criatura. T&atilde;o depressa o condutor<br \/>\n    se retirou, voltei para o meu primitivo posto. Mas a mo&ccedil;a tinha desaparecido.<br \/>\n    Saltara na esquina, que j&aacute; ia longe.<\/p>\n<p> Precipitei-me para a rua, corri para tr&aacute;s, inspecionei tudo, barafustei;<br \/>\n    nada. Sacudiu-me ent&atilde;o uma tal intensidade de desespero e de c&oacute;lera,<br \/>\n    que me pus a rir e a rilhar os dentes.<\/p>\n<p> Foi este o dia mais negro dos meus &uacute;ltimos dez anos. Dei ponto na<br \/>\n    reparti&ccedil;&atilde;o, e fui fazer um passeio de b&ecirc;bedo por bairros<br \/>\n    distantes e ignorados.<\/p>\n<p> DELICADEZA Testemunhei uma cena desagrad&aacute;vel, que infelizmente n&atilde;o<br \/>\n    teve piores conseq&uuml;&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> Ia perto de mim um cidad&atilde;o muito gordo. Luxuosamente gordo. Parecia<br \/>\n    carregar as banhas com a recolhida emp&aacute;fia de um gr&atilde;o-sacerdote<br \/>\n    afogado em deslumbrantes vestes talares.<\/p>\n<p> Refestelava-se no banco, firmado nas enx&uacute;ndrias das n&aacute;degas,<br \/>\n    como uma pesada b&oacute;ia flutuante indiferente ao balan&ccedil;o das ondas.<br \/>\n    Exibia o ventre, que lembrava o hemisf&eacute;rio de um grande globo, como<br \/>\n    se de prop&oacute;sito desejasse que toda a gente lhe pudesse admirar aquela<br \/>\n    prenda. Aquilo era o seu precioso berloque de novo rico.<\/p>\n<p> A certo ponto da viagem, surgiu do outro lado do hemisf&eacute;rio um mo&ccedil;o<br \/>\n    magro e sutil, que procurava passar pela frente do obeso, mas hesitava ante<br \/>\n    a impassibilidade ou distra&ccedil;&atilde;o deste.<\/p>\n<p> Afinal, tocando no chap&eacute;u, perguntou-lhe, alto, com verrumante delicadeza:<br \/>\n    &#8211; &quot;Cavalheiro, n&atilde;o lhe seria muito inc&ocirc;modo ceder-me um<br \/>\n    corredorzinho para eu passar?&quot; O gordo zangou-se.<\/p>\n<p> Encolheu como p&ocirc;de o fardo abdominal e, sacudindo a papada, os olhos<br \/>\n    arregalados: &quot;Passe!&quot; O mo&ccedil;o magro, at&ocirc;nito por um<br \/>\n    momento, depois inclinado a reagir, sorriu-se afinal, e disse entre dentes,<br \/>\n    relanceando um olho escarninho pela vener&aacute;vel barriga: &#8211; &quot;Bolas!<br \/>\n    n&atilde;o estou disposto a brigar com meio mundo.&quot; E o gordo a resmungar:<br \/>\n    &quot;O calcinhas! Esta sucia&#8230;&quot; A princ&iacute;pio n&atilde;o compreendi<br \/>\n    por que seria que o pan&ccedil;udo tanto se irritara. &Eacute; que sou por<br \/>\n    natureza tardo de compreens&atilde;o. Nada mais f&aacute;cil de ver que o<br \/>\n    homem sentira espica&ccedil;ado justamente por aquele excesso de delicadeza.<br \/>\n    Se o mo&ccedil;o, passando, lhe tivesse empurrado de leve os joelhos, dizendo<br \/>\n    um seco e r&aacute;pido &quot;com licen&ccedil;a!&quot;, e fosse tocando para<br \/>\n    diante, nada teria acontecido. O gordo levaria isso &agrave; conta de uma<br \/>\n    pequenina e desculp&aacute;vel grosseria sem endere&ccedil;o especial. N&atilde;o<br \/>\n    j&aacute;, assim a frase e o gesto do mancebo, que lhe bateram no touti&ccedil;o<br \/>\n    como farpazinha particularmente preparada para sua pessoa. Ningu&eacute;m<br \/>\n    gosta de se ver assim pessoalmente visado e distinguido nos seus pequenos<br \/>\n    tortos, que s&atilde;o mais ou menos os de toda a gente e devem passar sem<br \/>\n    exame e sem reparo.<\/p>\n<p> H&aacute; uma causa mais geral, e &eacute; que o excesso de delicadeza leva<br \/>\n    uma dose de ironia, e a ironia ofende e revolta mais do que a rudeza. N&atilde;o,<br \/>\n    como geralmente se julga, por penetrar mais fundo na derme do alvejado, mas<br \/>\n    pela desigualdade de armas. O homem desprevenido e &quot;natural&quot; n&atilde;o<br \/>\n    tem, nos seus encontros e lidas cotidianas, mais do que as armas de ataque<br \/>\n    e defesa que a natureza lhe deu, e delas se socorre como pode. O ir&ocirc;nico<br \/>\n    &eacute; um mal intencionado, que carrega armas artificiais no meio de uma<br \/>\n    popula&ccedil;&atilde;o policiada e pac&iacute;fica. Viola a conven&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que a generalidade repousa. Quebra a regra consuetudin&aacute;ria do jogo<br \/>\n    da conviv&ecirc;ncia. Onde outros se limitariam a usar das m&atilde;os e dos<br \/>\n    cotovelos, ele saca de um pequenino punhal e p&otilde;e-se a esgrimi-lo com<br \/>\n    a destreza de um especialista de m&aacute;-f&eacute; e de maus bofes. O advers&aacute;rio<br \/>\n    sente-se apanhado &agrave; trai&ccedil;&atilde;o, exaspera-se e, &agrave;s<br \/>\n    vezes explode.<\/p>\n<p> O sujeito extremamente delicado &eacute;, no fundo, um indiv&iacute;duo<br \/>\n    que faz o pior ju&iacute;zo acerca dos seus dissemelhantes, e os trata com<br \/>\n    infinitos cuidados, como se lidasse com cavalos passarinheiros ou cachorros<br \/>\n    agressivos. Ou isso, ou ent&atilde;o &eacute; que gosta de lan&ccedil;ar engodos<br \/>\n    &agrave;s almas incautas, para que se lhes abram e se lhes ofere&ccedil;am<br \/>\n    em espet&aacute;culo. Todos os seus gestos est&atilde;o impregnados de ironia,<br \/>\n    de uma ironia que nada tem com a dos homens compreensivos e sens&iacute;veis<br \/>\n    que j&aacute; viveram muito, mas uma ironia feita de vaidade, de caborteirice<br \/>\n    e de secura de cora&ccedil;&atilde;o. Ele &eacute; o &quot;homem de escol&quot;,<br \/>\n    &quot;a criatura de exce&ccedil;&atilde;o&quot;, fina, distinta, lixada, repolida,<br \/>\n    cheia de bicos e rendas, desgra&ccedil;adamente obrigada a viver no meio de<br \/>\n    uma canalha tosca e molesta! A antipatia instintiva que provoca &eacute; uma<br \/>\n    rea&ccedil;&atilde;o da vis medicatie social.<\/p>\n<p> O que mostra mais uma vez como os movimentos instintivos podem eq&uuml;ivaler<br \/>\n    a longas reflex&otilde;es, e como a mentalidade coletiva pode chegar, sem<br \/>\n    racioc&iacute;nio, aos mesmos resultados das lentas an&aacute;lises do psic&oacute;logo<br \/>\n    e do moralista., &#8211; De onde, tamb&eacute;m, o erro dos paradox&oacute;filos,<br \/>\n    quando partem do pressuposto de que, para bem pensar, &eacute; preciso pensar<br \/>\n    contra os sentimentos do maior n&uacute;mero.<\/p>\n<p> O SONETO Se eu tivesse de fazer perante o vig&aacute;rio uma confiss&atilde;o<br \/>\n    minuciosa, raspando as voltas mais fundas do meu ser, n&atilde;o encontraria<br \/>\n    de certo explica&ccedil;&atilde;o para o fato de o soneto de Gabriela me haver<br \/>\n    tornado, hoje, ao esp&iacute;rito- n&atilde;o &agrave; lembran&ccedil;a apenas,<br \/>\n    ao esp&iacute;rito, &agrave; alma. S&oacute; posso dizer que, ao vir-me o<br \/>\n    condutor cobrar a passagem, nem o senti chegar, estava absorvido na segunda<br \/>\n    quadra.<\/p>\n<p> A vida &eacute; um c&eacute;u que uma s&oacute; vez se estrela; toda estrelada<br \/>\n    e rutilante a viste&#8230;<\/p>\n<p> N&atilde;o me satisfizeram estes versos, nem como id&eacute;ia nem como<br \/>\n    forma. Chamar c&eacute;u &agrave; vida &eacute; sempre extravag&acirc;ncia;<br \/>\n    demais, um c&eacute;u que s&oacute; se estrela uma vez, n&atilde;o pode ser<br \/>\n    sen&atilde;o um c&eacute;u de papel pintado. A constru&ccedil;&atilde;o &quot;a<br \/>\n    viste&quot; era amb&iacute;gua para o ouvido. Por fim, o per&iacute;odo n&atilde;o<br \/>\n    dava liga. Modifiquei-o: Contudo, a vida forte boa e bela: sorriu-te, tanto<br \/>\n    quanto lhe sorriste.<\/p>\n<p> Podia servir. O diabo era a continua&ccedil;&atilde;o. Eu n&atilde;o tinha,<br \/>\n    na verdade, a m&iacute;nima id&eacute;ia assentada acerca do caso psicol&oacute;gico<br \/>\n    de Gabriela, nem sequer sabia que forma e que alma teria essa emana&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    poss&iacute;vel do meu c&eacute;rebro. Ao contr&aacute;rio de Minerva ao sair<br \/>\n    da cabe&ccedil;a de J&uacute;piter, estava completamente desarmada. E nem<br \/>\n    mesmo queria acabar de sair. As casualidades da versifica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; que me diriam afinal o que eu houvesse de pensar a respeito. Grande<br \/>\n    coisa, a versifica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Contudo, a vida foi-te boa e bela: a vida te sorriu, tu lhe sorriste&#8230;<\/p>\n<p> Dados estes dois versos, o campo de explora&ccedil;&atilde;o restringia-se.<br \/>\n    O problema fixava-se em tr&ecirc;s inc&oacute;gnitas: x) dois decass&iacute;labos,<br \/>\n    em ela e iste; y) que desenvolvessem o pensamento come&ccedil;ado; z) tornando<br \/>\n    poss&iacute;veis os tercetos com um fecho reluzente e forte.<\/p>\n<p> Hoje, ela te maltrata, e tu ca&iacute;ste.<\/p>\n<p> Aqui, o verbo ca&iacute;ste (le mont est cr&eacute;ateur) sugeriu-me espontaneamente<br \/>\n    este quarto verso: ca&iacute;ste, pobre mo&ccedil;a, na esperan&ccedil;a!<br \/>\n    N&atilde;o estaria mal, se eu quisesse fazer humorismo. Bastava modificar<br \/>\n    de leve os versos antecedentes: Outrora, a vida aparece-te bela; acenou-te,<br \/>\n    sorriu. Tu lhe sorriste.<\/p>\n<p> E a seus bra&ccedil;os voaste. E enfim ca&iacute;ste, ca&iacute;ste, pobre<br \/>\n    mo&ccedil;a! na esparrela.<\/p>\n<p> O mais engra&ccedil;ado desse humorismo &eacute; que a id&eacute;ia em si<br \/>\n    &eacute; perfeitamente justa e muito s&eacute;ria. A vida, de fato, estende<br \/>\n    &agrave;s almas jovens e sequiosas umas fatais urupucas, tentadoras e terr&iacute;veis,<br \/>\n    onde elas se debatem e se magoam. Mas o &quot;cair na esparrela&quot; tornou-se<br \/>\n    c&ocirc;mico pela vulgaridade, e a vulgaridade &eacute; o sentido moral figurado.<br \/>\n    Sentidos profundamente imorais, estes sentidos morais, que apagam tudo quanto<br \/>\n    h&aacute; de emo&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica e de pungente verdade humana<br \/>\n    em tantas met&aacute;foras en&eacute;rgicas e felizes. &#8211; Como quer que seja,<br \/>\n    eu agora j&aacute; queria bem &agrave; mo&ccedil;a, como as m&atilde;es j&aacute;<br \/>\n    amam os filhos ainda no ventre, e detestei a id&eacute;ia de impor &agrave;<br \/>\n    minha criatura um indumento grotesco. Nem que ela fosse real! N&atilde;o,<br \/>\n    o soneto havia de ser afetuoso e nobre.<\/p>\n<p> Outrora, a vida apareceu-te bela; acenou-te, sorriu. Tu lhe sorriste.<\/p>\n<p> E a seus bra&ccedil;os voaste; e assim te viste presa das gra&ccedil;as<br \/>\n    lacerantes dela.<\/p>\n<p> Ora, bem. Faltavam os tercetos. Estava a ensaiar-me para pescar os tercetos<br \/>\n    no vasto mundo das possibilidades ideais, quando o condutor me chamou ao mundo<br \/>\n    estreito das impossibilidades ordin&aacute;rias: &quot;O senhor volta para<br \/>\n    tr&aacute;s?&quot; O bonde tinha chegado ao ponto final e ia recome&ccedil;ar<br \/>\n    o giro. Saltei dele e do sonho (assim chamam os poetas a estes exerc&iacute;cios,<br \/>\n    que s&atilde;o os mais conscientes e espertos de quantos se possam imaginar)<br \/>\n    e corri &agrave; reparti&ccedil;&atilde;o. &#8211; Talvez que disto fique dependendo<br \/>\n    a inexist&ecirc;ncia de mais uma obra-prima na literatura nacional. Mas, quem<br \/>\n    sabe? Ego dormio et cor meum vigilat.<\/p>\n<p> UM BORRACHO O bonde vinha t&atilde;o silencioso, ontem &agrave; tarde, como<br \/>\n    se por ele tivesse passado um sopro de solenidade hist&oacute;rica. Os passageiros,<br \/>\n    alinhados, taciturnos, pareciam compenetrados de representar algum papel de<br \/>\n    responsabilidade. Ou dir-se-ia que iam jogar a pr&oacute;pria vida numa linha<br \/>\n    de fogo, logo ali adiante.<\/p>\n<p> A certo momento, entrou um b&ecirc;bedo, que mal se sustinha nas pernas,<br \/>\n    como um fardo que trepasse a custo arrastado por uma corda invis&iacute;vel.<br \/>\n    Mas falava sem parar e ria-se numa grande jovialidade enternecida e patusca.<br \/>\n    Tudo lhe ria, a barba crespa e grisalha, repartida em duas pontas, os olhos<br \/>\n    pequenos e azuis, como dois bot&otilde;es de esmalte, o chap&eacute;u amolgado<br \/>\n    e ca&iacute;do sobre a orelha, os longos carac&oacute;is de cabelo bamboleantes<br \/>\n    sobre a testa como gavinhas de aboboreira, e que se haviam despregado da pastinha<br \/>\n    rala, transversalmente colada por cima da calva. Ria a pr&oacute;prio casaco<br \/>\n    de pano encorpado, cujos bolsos atafulhados se arredondavam como bolsas, e<br \/>\n    ria ainda mais o len&ccedil;o vermelho amarrado ao pesco&ccedil;o, com as<br \/>\n    pontas a esvoa&ccedil;ar como bandeirolas.<\/p>\n<p> Falando e rindo, o homem caiu sentado em cima de duas mulheres, que recuaram<br \/>\n    espavoridas &quot;Scusate, signore!&quot; E tirou largamente o chap&eacute;u<br \/>\n    com a m&atilde;o que segurava o cachimbo, cujas cinzas se espalharam por cima<br \/>\n    das cabe&ccedil;as vizinhas. &quot;Scusate, io sono un p&oacute; allegro,<br \/>\n    Oggi &ecirc; festa!&quot; E disparou a cantar.<\/p>\n<p> O condutor veio l&aacute; do fundo como uma flecha e, com o sobrecenho mais<br \/>\n    autorit&aacute;rio que p&ocirc;de compor: &quot;&Oacute; aquele, aqui n&atilde;o<br \/>\n    se canta!&quot; &#8211; &quot;Non si pu&ograve;. Bene, bene. Non si pu&ograve;.<br \/>\n    &Egrave; giusto. Si. St&agrave; benissimo&#8230; Eh! condutore, mi d&agrave; un<br \/>\n    fiamm&iacute;fero?&quot; E, enquanto acamava com o polegar o fumo negro contido<br \/>\n    no pipo, cantou, numa voz que podia bem ser a de um ex-bar&iacute;tono: &#8211;<br \/>\n    &quot;Io voglio un fiammifero!&quot; O condutor voltou a ele e, com redobrada<br \/>\n    energia no cenho e na voz: &#8211; &quot;J&aacute; lhe disse que n&atilde;o pode<br \/>\n    cantar!&quot; &#8211; &quot;Eh!&#8230; io gi&agrave; sabia che non si pu&ograve; cantare.<br \/>\n    Domandavo a lei un fiammifero.&quot; &#8211; &quot;N&atilde;o tem fiammifero. Voc&ecirc;<br \/>\n    vai &eacute; j&aacute; para baixo, se n&atilde;o fica quieto.&quot; &#8211; &quot;Pra<br \/>\n    basso, io?! Dio b&#8230;! E che ho fatto io, conduttore&#8230; O conduttore! che ho<br \/>\n    fatto io per esser messo giu&#8230; in mezzo alla strada?&quot; O homem largou<br \/>\n    o cachimbo em cima do banco, remexeu os bolsos com as m&atilde;os bambas,<br \/>\n    remexeu, e n&atilde;o encontrava o dinheiro. Tirou um len&ccedil;o, uma laranja,<br \/>\n    duas metades de charuto toscano, um peda&ccedil;o de barbante, uns restos<br \/>\n    de amendoim, uma medalha, um jornal; e resmungava: &#8211; &quot;Come no! io tenho<br \/>\n    dinero. Si! Anche della carta moneta&#8230; Vuc&ecirc; truca cinque milla, conduttore?<br \/>\n    Ebbene, aspetti. Si, i&oacute; tenho&#8230; eh! Un p&oacute; de pazienza, caro.&quot;<br \/>\n    A muito custo, deu com a nota num dos bolsos do colete, junto do rel&oacute;gio<br \/>\n    de prata, enorme, que previamente sacou e auscultou. Ao retirar a c&eacute;dula,<br \/>\n    f&ecirc;-lo num gesto de triunfo; ergueu senhorilmente a cabe&ccedil;a e,<br \/>\n    estendendo a m&atilde;o com o dinheiro ao condutor irritado, esbo&ccedil;ou<br \/>\n    um canto jacundo e nobre como um ofert&oacute;rio, em voz retumbante: &quot;Ecco,<br \/>\n    o signor, prendetela!&quot; O condutor n&atilde;o lhe cobrou a passagem, mas<br \/>\n    fez parar o carro e obrigou o cantor a descer, com t&aacute;cita aprova&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos demais passageiros. Quando se viu na rua, o expulso abriu os bra&ccedil;os<br \/>\n    para protestar, mas cambaleou e sentou-se no ch&atilde;o, gritando sonoramente,<br \/>\n    &agrave; maneira de insulto e de amea&ccedil;a: &quot;Portoghese! Vado dal<br \/>\n    presidente dello Stato!&quot; Mas o bonde j&aacute; ia longe. E os passageiros<br \/>\n    riam-se. E ria-se o condutor. Precisamente nesse momento, eu ficava s&eacute;rio,<br \/>\n    e aquele homem alegre e inofensivo, posto do ve&iacute;culo abaixo como uma<br \/>\n    lata velha, me come&ccedil;ava a interessar. Era a v&iacute;tima simp&aacute;tica<br \/>\n    de um lote de imbecis. E eu no meio destes.<\/p>\n<p> Um homem alegre, fosse qual fosse o combust&iacute;vel da sua alegria, devera<br \/>\n    ser olhado como em certas civiliza&ccedil;&otilde;es primitivas se olhavam<br \/>\n    os doidos, criaturas sagradas, ou como os gregos consideravam os devotos delirantes<br \/>\n    de Dion&iacute;sios, condensadores moment&acirc;neos desse mist&eacute;rio<br \/>\n    de jovialidade e de exalta&ccedil;&atilde;o que em certas &eacute;pocas circula<br \/>\n    atrav&eacute;s das coisas, e preme os &uacute;beres da terra, e desata as<br \/>\n    ofertas do c&eacute;u.<\/p>\n<p> Minha alma ficara l&aacute; para tr&aacute;s, junto daquele homem assoado<br \/>\n    para a rua pela austera comunidade do bonde. E minha alma lhe dizia: Ri, ri,<br \/>\n    ri, minha vitima, meu irm&atilde;o. Brinca, tagarela, traquina &agrave; tua<br \/>\n    vontade. Frui sem vergonha e sem cuidado este par&ecirc;ntese divino de liberdade<br \/>\n    e de loucura alegre que se abre na mis&eacute;ria soturna da tua vida. Ri,<br \/>\n    ri, meu irm&atilde;o, minha v&iacute;tima.<\/p>\n<p> A tua risada n&atilde;o me alivia, mas vinga um pouco a minha &acirc;nsia<br \/>\n    recolhida de liberta&ccedil;&atilde;o imposs&iacute;vel, pobre, torturado<br \/>\n    escravo que sou, mesquinho escravo das Regras, dos Hor&aacute;rios, dos Regulamentos,<br \/>\n    dos C&oacute;digos e das Necessidades criadas.<\/p>\n<p> Ri, folga, berra, cabriola, papagueia, pragueje, insulta! E canta! canta,<br \/>\n    nessa efus&atilde;o de lirismo obscuro que sobe do mais fundo da nossa alma<br \/>\n    bruta, express&atilde;o sem palavra de alegria vital, inconsciente, expansiva,<br \/>\n    c&oacute;smica, alegria do gafanhoto que salta e voeja, da maritaca gritadeira<br \/>\n    e gloriosa, da &aacute;gua que foge &agrave;s guinadas fervendo e brilhando,<br \/>\n    do fogo que dan&ccedil;a o bailado da labareda, de tudo que n&atilde;o &eacute;<br \/>\n    esta nossa desgra&ccedil;ada alma superficial de bicho domesticado e diminu&iacute;do.<\/p>\n<p> Ri, ri, ri, com todo o teu ser, todo o teu sangue, a tua carne, para al&eacute;m<br \/>\n    ou aqu&eacute;m do Bem e do Mal, Homem! pobre Homem, bom Homem, meu irm&atilde;o.<\/p>\n<p> Ri, ri, ri, at&eacute; que estoures de repente com o riso, como a cigarra<br \/>\n    a cantar, e acabes assim na mais bela das mortes, fulminado por uma explos&atilde;o<br \/>\n    de vida!&quot; Agora, ao rememorar esta minha ode, com a pena entre os dedos,<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o me parece que tenha justificado bem a embriaguez, que<br \/>\n    afinal &eacute; um v&iacute;cio detest&aacute;vel. Embriaguez por embriaguez,<br \/>\n    &eacute; prefer&iacute;vel uma consci&ecirc;ncia clara e um sentimento profundo<br \/>\n    e sutil das realidades. Tamb&eacute;m isto &eacute; uma esp&eacute;cie de<br \/>\n    bebedeira; mas l&uacute;cida, infinitamente matizada; e tem todo, o atrativo<br \/>\n    de um v&iacute;cio artificial.<\/p>\n<p> &quot;Sede duros, meus irm&atilde;os!&quot; pregava Zaratustra, &quot;e<br \/>\n    a verdade &eacute; que a dureza &eacute; um ingrediente da vida e uma condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de ordem.&quot; Nada mais saboroso do que o di&aacute;logo de Tolst&oacute;i<br \/>\n    com a sentinela do Cremlim. Esta enxotava um mendigo de certo lugar onde n&atilde;o<br \/>\n    se permitia a perman&ecirc;ncia de estranhos. Tolst&oacute;i aproxima-se,<br \/>\n    v&ecirc;, sofre, e aborda o soldado, perguntando-lhe se n&atilde;o conhecia<br \/>\n    os vers&iacute;culos do Novo Testamento em que se recomenda tratar o pr&oacute;ximo<br \/>\n    como a um irm&atilde;o. Retruca o militar: &quot;E o senhor n&atilde;o conhece<br \/>\n    o regulamento da pra&ccedil;a? Pois eu o conhe&ccedil;o.&quot; Palavra profunda!<br \/>\n    A primeira necessidade &eacute; cumprir cada um o seu dever particular, o<br \/>\n    seu dever concreto, positivo, limitado, pequenino.<\/p>\n<p> O dever particular &agrave;s vezes &eacute; duro, como pedra, como prego,<br \/>\n    duro como pau, mas &eacute; dele que se faz a ordem, a ordem que &eacute;<br \/>\n    edifica&ccedil;&atilde;o, que &eacute; obra, que &eacute; abrigo e desfrute,<br \/>\n    oficina e pal&aacute;cio, lavoura e escola, a ordem que &eacute; civiliza&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Os deveres mais gerais s&atilde;o tamb&eacute;m mais flutuantes: discutem-se;<br \/>\n    oscilam com a temperatura do sentimento, com as mar&eacute;s da idealidade.<\/p>\n<p> Mas o dever imediato e cotidiano &eacute; fixo e indiscut&iacute;vel: n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; sen&atilde;o obedecer-lhe. E a obedi&ecirc;ncia &eacute; a seguran&ccedil;a<br \/>\n    e o alimento de cada um e de todos. Coisa insignificante, um homem que regularmente<br \/>\n    cumpre os seus deveres de cada dia: coisa majestosa, uma na&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em que todos procedem assim! O ideal &eacute; talvez juntar ao livro de Tolst&oacute;i<br \/>\n    a espada do soldado. Em todo caso, eu daria ao soldado uma fria aprova&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e a Tolst&oacute;i um abra&ccedil;o.<\/p>\n<p> MANUAL DE COZINHA Arranjei hoje com um cont&iacute;nuo um Manual do Perito<br \/>\n    Cozinheiro, para ler durante a viagem, &agrave; falta de outra leitura edificante,<br \/>\n    instrutiva ou deleit&aacute;vel.<\/p>\n<p> Trago a cabe&ccedil;a cheia de leituras de jornal, e j&aacute; n&atilde;o<br \/>\n    me diverte nada, pelo contr&aacute;rio, a sarabanda cotidiana das cr&ocirc;nicas,<br \/>\n    estudos, fantasias, coment&aacute;rios, bisbilhotices e descomposturas. Tenho<br \/>\n    a impress&atilde;o de j&aacute; haver lido isso tudo n&atilde;o sei quantas<br \/>\n    vezes, desde a minha vida anterior, nos remotos pr&oacute;dromos do jornalismo<br \/>\n    com Mr. Th&eacute;ophraste Renandot. &Eacute; incr&iacute;vel como as coisas<br \/>\n    atuais caducam depressa, como as novidades s&atilde;o velhas, como os fatos<br \/>\n    extraordin&aacute;rios s&atilde;o vulgares.<\/p>\n<p> &Eacute; verdade que a impress&atilde;o de perp&eacute;tua velhice s&oacute;<br \/>\n    se prova agudamente quando se vai descambando ladeira abaixo dos anos em enta.<br \/>\n    Mas isso apenas demonstra que o espet&aacute;culo &eacute; comprido e s&oacute;<br \/>\n    se pode bem apreciar depois de lhe ter visto um bom peda&ccedil;o.<\/p>\n<p> O fato &eacute; que estou fazendo quaresma a respeito dessa carne-de-vaca<br \/>\n    dos prelos. Ontem, li no bonde o Livro de s&atilde;o Cipriano, conhecimento<br \/>\n    que me entreteve como um fruto proibido, e que valeu ao dono do volume, servente<br \/>\n    da reparti&ccedil;&atilde;o, um pacote de fumo Veado. Hoje, um dos meus colegas<br \/>\n    devia emprestar-me as Noites da Virgem, mas afinal parece que teve receio<br \/>\n    de que eu lhe extraviasse essa &quot;mimosa j&oacute;ia&quot;, e declarou-me<br \/>\n    que a n&atilde;o havia encontrado; mentira, pois &eacute; o seu livro de cabeceira.<\/p>\n<p> Arranjei-me por&eacute;m com o cont&iacute;nuo, que fora da reparti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &eacute; cozinheiro praticante, em ocasi&atilde;o de festa e regabofe, e dentro<br \/>\n    da reparti&ccedil;&atilde;o aprende a arte, decora receitas e d&aacute; consultas.<br \/>\n    Seja registado em sua honra, que n&atilde;o preenche apenas assim o seu hor&aacute;rio<br \/>\n    oficial: tamb&eacute;m serve o caf&eacute; e faz o jogo do bicho.<\/p>\n<p> O Manual fez-me o efeito refrescante de um bast&atilde;o de cristal japon&ecirc;s<br \/>\n    passado pelas t&ecirc;mporas em hora de dor de cabe&ccedil;a. Nunca eu havia<br \/>\n    provado a tal ponto a maravilhosa utilidade das leituras in&uacute;teis. A<br \/>\n    parte referente ao preparo do peru com farofa e de outras aves dom&eacute;sticas<br \/>\n    e selv&aacute;ticas parecia escrita por um est&ocirc;mago inspirado, tanto<br \/>\n    garbo havia na variedade dos termos t&eacute;cnicos, na escolha das palavras<br \/>\n    mais precisas e sugestivas, no emprego dos adjetivos mais emanteigados e olorosos,<br \/>\n    enfim na composi&ccedil;&atilde;o de um estilo todo suavemente tostado e pururuca.<\/p>\n<p> Li tudo, mas com absoluto desinteresse; por um puro ato de vontade, sem<br \/>\n    que nada me obrigasse ou seduzisse, ou me prometesse o mais remoto benef&iacute;cio.<br \/>\n    Singular prazer, cujo valor s&oacute; depois completamente reconheci. Nem<br \/>\n    sequer me era dado pensar no aproveitamento de alguma receita, porque todos<br \/>\n    os pratos de que eu gosto j&aacute; s&atilde;o perfeitamente executados e<br \/>\n    s&atilde;o de sobra para uma rota&ccedil;&atilde;o conveniente dos menus;<br \/>\n    a tal ponto que ao saborear o frango assado no domingo, j&aacute; eu sinto<br \/>\n    um pouquinho de saudade da torta de palmito da quinta-feira, e vice-versa,<br \/>\n    e assim por diante.<\/p>\n<p> O que havia de bom nessa leitura era o emprego tenaz da vontade num objeto<br \/>\n    indiferente, &oacute;timo exerc&iacute;cio; era, depois, o esquecimento de<br \/>\n    umas amofina&ccedil;&otilde;es, porque &eacute; imposs&iacute;vel conciliar-se<br \/>\n    a leitura atenta de uma s&eacute;rie de receitas de assados e cabidelas com<br \/>\n    o remeximento de espinhos espirituais.<\/p>\n<p> Era, finalmente, a entrevis&atilde;o liminar de um vasto mundo desconhecido,<br \/>\n    o mundo da Copa e da Cozinha, da pastelaria e das Artes afins; um mundo de<br \/>\n    ocupa&ccedil;&otilde;es e preocupa&ccedil;&otilde;es, de atividades e de idealidades,<br \/>\n    com sua hist&oacute;ria, seu tesouro tradicional, sua literatura, sua arte,<br \/>\n    sua &eacute;tica, sua ci&ecirc;ncia; um mundo que a&iacute; fervilha t&atilde;o<br \/>\n    perto do meu e ao qual eu andava alheio como se ele fosse Marte ou Saturno!<br \/>\n    Esta percep&ccedil;&atilde;o da impermeabilidade dos diferentes planos da<br \/>\n    vida me calou fundo na alma, e eu me senti ainda mais pequenino.<\/p>\n<p> Se eu amanh&atilde; fizesse (mera hip&oacute;tese) um poema forte, ou constru&iacute;sse<br \/>\n    uma teoria de mec&acirc;nica, ou propusesse uma nova e fecunda maneira de<br \/>\n    interpretar a hist&oacute;ria, nada disso teria a m&iacute;nima repercuss&atilde;o<br \/>\n    no mundo da Cozinha e da Copa; nem um eco sequer do meu nome chegaria at&eacute;<br \/>\n    l&aacute;. A prepara&ccedil;&atilde;o do peru com farofa continuaria a mesma;<br \/>\n    ou, se se modificasse, havia de ser por a&ccedil;&atilde;o de um dos &iacute;ncolas,<br \/>\n    inovador de talento; e a alma do artista viveria em todo esse mundo largo<br \/>\n    mais viva e mais venerada do que a Divina Com&eacute;dia ou o Discours de<br \/>\n    la M&eacute;thode ou o Novum Organum c&aacute; pelo nosso. E a sua gl&oacute;ria<br \/>\n    n&atilde;o sofreria contesta&ccedil;&otilde;es nem eclipses, proclamada cada<br \/>\n    dia, atrav&eacute;s de tempos sem conta, por milhares de bocas ver&iacute;dicas<br \/>\n    e gratas! E o nosso pobre mundo comum &eacute; todo assim, feito de mundinhos<br \/>\n    conc&ecirc;ntricos, que se articulam sem se confundir E n&oacute;s, ai de<br \/>\n    n&oacute;s! pretendemos viver &quot;cosmicamente!&quot; RUFINA Encontrei-me<br \/>\n    hoje com o botic&aacute;rio, a quem n&atilde;o via desde a &uacute;ltima vez<br \/>\n    que vira Rufina.<\/p>\n<p> &quot;Quem &eacute; aquela mo&ccedil;a&quot;, lhe perguntei, &quot;que,<br \/>\n    h&aacute; coisa de duas semanas, viajou conosco neste bonde? Aquela morenota<br \/>\n    de olhos grandes e &uacute;midos? Aquela de bonitos dentes? Aquela espigadinha,<br \/>\n    de branco, a quem voc&ecirc;, saltando do carro, deitou uma olhadela xaroposa?&quot;<br \/>\n    Fabiano custava-lhe recordar-se. Vincou a testa, cravou os olhos no tejadilho,<br \/>\n    levou a unha do indicador para entre os incisivos, com a boca aberta.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Uma gorda, de cabelo ondado?&quot; &#8211; &quot;Nada. N&atilde;o ofenda.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;N&atilde;o me lembro&#8230; Espere. Uma alta, de nariz grande?&quot; &#8211;<br \/>\n    &quot;J&aacute; lhe disse que era morena, pequena, engra&ccedil;ada.&quot;<br \/>\n    Fabiano agitou-se, como que para sacolejar a caixa das lembran&ccedil;as,<br \/>\n    atirou uma perna para cima da outra, curvou o busto, agarrou o queixo, carregou<br \/>\n    o cenho. &quot;Diabo!&quot; De repente, riu-se, deu-me uma tapona no joelho<br \/>\n    e exclamou: &#8211; &quot;J&aacute; sei! Uma cabrochinha, n&atilde;o &eacute; isso?&quot;<br \/>\n    Conservei-me calado, mandando em esp&iacute;rito, o idiota do botic&aacute;rio<br \/>\n    a todos os mil dem&ocirc;nios.<\/p>\n<p> Aliviado, voltei-me para ele, frio: &#8211; &quot;Desistamos, oh amigo Fabiano<br \/>\n    Jos&eacute; de Figueiredo Alves.&quot; &#8211; &quot;Figueiredo, n&atilde;o; Azevedo.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Ou isso.&quot; Eu estava convencido de que Fabiano n&atilde;o queria<br \/>\n    era lembrar-se de Rufina. Imposs&iacute;vel que se tivesse realmente esquecido<br \/>\n    dessa criatura maviosa e rara. Conhecia mulheres como um recenseador: uma<br \/>\n    gorda, uma alta, uma parda, fora muitas outras que n&atilde;o referiu; e n&atilde;o<br \/>\n    se recordava da &uacute;nica que valia a pena! Grande ordin&aacute;rio.<\/p>\n<p> Percorremos umas quatro ou cinco quadras em sil&ecirc;ncio. Eu nem sequer<br \/>\n    olhava para a cara de Fabiano. A certa altura, perguntou-me se sabia o nome<br \/>\n    da mo&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Rufina.&quot; &#8211; &quot;Hein?!&quot; &#8211; &quot;Rufina.&quot; Fabiano<br \/>\n    olhou para mim e disparou a rir.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;J&aacute; sei, meu caro, j&aacute; sei!&quot; &#8211; &quot;Mas porque<br \/>\n    essa risada?&quot; &#8211; &quot;Ah! j&aacute; sei, meu amigo, j&aacute; sei. ..<br \/>\n    Olhe, ela nunca se chamou Rufina. Qual Rufina, nem meia Rufina!&#8230; &Eacute;<br \/>\n    boa! Ela &eacute; Augusta, meu caro amigo. Augusta, entendeu? Rufina&#8230; &eacute;<br \/>\n    boa! qui&aacute;, qui&aacute;, qui&aacute;&#8230;&quot; &quot;Mas.. ent&atilde;o,<br \/>\n    conhece-a?&#8230;&quot; &#8211; &quot;Pch&ecirc;! H&aacute; muito tempo. Uma rapariga<br \/>\n    magra, moreno-mate, com o nariz levemente rebitado, o queixo saliente, n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; isso? Conhe&ccedil;o muito. Chama-se Augusta, mora ali para as bandas<br \/>\n    do cemit&eacute;rio. Boa fazenda coitada!&quot; Desmoronei. S&oacute; ao cabo<br \/>\n    de longos e dolorosos minutos pude reconstruir-me um pouco, firmarme um pouco<br \/>\n    em cima de mim mesmo, e perguntar com voz sumida: &#8211; &quot;Mas, ent&atilde;o,<br \/>\n    esse nome de Rufina?&quot; &#8211; &quot;Muito simples. Bestice do coronel Ferr&atilde;o,<br \/>\n    um velho meio pancada &#8211; bem pancada, ali&aacute;s &#8211; que tinha a mania de lhe<br \/>\n    dar esse nome.&quot; &#8211; &quot;E por que?&quot; &#8211; &quot;Por nada, burragem dele.<br \/>\n    Gostava de trocar os nomes, fazia isso com toda a gente. Tinha um sobrinho,<br \/>\n    o Bentoca, Bento Felizardo Ferr&atilde;o, homem respeit&aacute;vel, atacadista<br \/>\n    ali no centro: chamava-lhe Esmeraldino, at&eacute; diante dos empregados,<br \/>\n    na loja. O Viana, era para ele Pascoal, um dia; outro dia, era Bonif&aacute;cio.<br \/>\n    A mim, quis-me uma vez batizar por Crispiniano, mas eu, pan! barrei-o logo:<br \/>\n    &Agrave;s suas ordens, seu Janu&aacute;rio. Danou-se &#8211; ora, imagine: danou-se,<br \/>\n    o bestiaga! &#8211; e n&atilde;o falou mais comigo.&quot; Emudeci. Fabiano continuava,<br \/>\n    mas j&aacute; n&atilde;o o entendi da&iacute; por diante. A vers&aacute;til<br \/>\n    indiferen&ccedil;a do botic&aacute;rio chocava-me como uma sem-vergonhice<br \/>\n    irritante, de sujeito sem alma, sem o senso piedoso e comovido da mis&eacute;ria<br \/>\n    humana. Mas Fabiano afinal era um bom homem: isto &eacute;, um tipo f&uacute;til<br \/>\n    e feroz como soem ser os homens de ju&iacute;zo.<\/p>\n<p> Oh! n&#8217;insultez jamais une femme qui tombe! Mas n&atilde;o &eacute; isso,<br \/>\n    oh poeta, n&atilde;o &eacute; isso o pior. O horrendo &eacute; esta indiferen&ccedil;a,<br \/>\n    esta sorridente indiferen&ccedil;a, esta familiar e brincalhona ferocidade,<br \/>\n    a&eacute;rea, difusa, impalp&aacute;vel, com que se considera um ser humano,<br \/>\n    com que se fala de uma pobre mulher &#8211; logo de uma mulher! de uma triste mulher<br \/>\n    e do seu destino, de uma mulher bela, graciosa e miseranda; de uma mulher<br \/>\n    que tem toda a massa de que se fazem as m&atilde;es e os anjos da terra, &#8211;<br \/>\n    e com uns olhos t&atilde;o grandes, t&atilde;o &uacute;midos, t&atilde;o luminosos!<br \/>\n    &#8211; &quot;Mas porque &eacute; que queria saber&quot; indagou o botic&aacute;rio,<br \/>\n    depois de uma pausa.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;&Agrave;-toa, Fabiano.&quot; &#8211; &quot;Pois olhe, &eacute; f&aacute;cil.&quot;<br \/>\n    Encarei-o de um modo que devia ter-lhe parecido esquisito, pois calou-se e<br \/>\n    ficou s&eacute;rio. E n&atilde;o se falou mais nisto.<\/p>\n<p> JUSTI&Ccedil;A &Iacute;amos hoje para a cidade na marcha habitual, nem muito<br \/>\n    r&aacute;pida, nem propriamente vagarosa.<\/p>\n<p> Circunst&acirc;ncia not&aacute;vel, se bem que ordin&aacute;ria &#8211; o bonde<br \/>\n    n&atilde;o correu nem por um instante fora dos trilhos. Entretanto, chocou<br \/>\n    de repente com um autom&oacute;vel, e surgiu uma grande discuss&atilde;o a<br \/>\n    respeito de se saber a quem tocava a culpa, se ao motorista, se ao chauffeur.<\/p>\n<p> Entrou em fun&ccedil;&atilde;o o juiz que h&aacute; dentro de cada indiv&iacute;duo,<br \/>\n    e as senten&ccedil;as divergiam.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Foi esse negrinho est&uacute;pido,&quot; dizia um, indigitando o<br \/>\n    chauffeur.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;O culpado &eacute; esse louco desse portuga,&quot; asseverava outro,<br \/>\n    referindo-se ao motorista.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Cadeia com eles, &eacute; o que eu vivo a dizer.&quot; &#8211; &quot;Qual!<br \/>\n    s&oacute; a pau.&quot; &#8211; &quot;Por milagre n&atilde;o houve coisa muito pior:<br \/>\n    olhe como ficou a m&aacute;quina.&quot; &#8211; &quot;Foi pena que n&atilde;o ficasse<br \/>\n    ainda mais escangalhada, era menos uma.&quot; &#8211; &quot;Mas o bonde podia bem<br \/>\n    ter parado a tempo.&quot; &#8211; &quot;N&atilde;o podia, aqui &eacute; um declive.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Seu guarda, o culpado &eacute; o chauffeur.&quot; &#8211; &quot;N&atilde;o,<br \/>\n    seu guarda, o culpado &eacute; o motorneiro.&quot; E cada juiz era tamb&eacute;m<br \/>\n    um partid&aacute;rio, ou do lado do homem do bonde, ou do lado do homem do<br \/>\n    autom&oacute;vel. Por simpatia f&iacute;sica, por esp&iacute;rito de nacionalidade<br \/>\n    ou de ra&ccedil;a, por disposi&ccedil;&atilde;o mais favor&aacute;vel a uma<br \/>\n    das classes de automedontes, por ter ou n&atilde;o autom&oacute;vel, por ter<br \/>\n    ou n&atilde;o ter um parente chauffeur ou automobilista, por mero palpite,<br \/>\n    cada um propendeu imediatamente para uma das bandas.<\/p>\n<p> Mas, valha a verdade, havia tamb&eacute;m homens imparciais, por exce&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Um destes, abanando a cabe&ccedil;a, e afastando-se do burburinho, me ponderou<br \/>\n    tranq&uuml;ilamente: &#8211; &quot;Ora, ora! Quem foi, quem n&atilde;o foi&#8230; Eu<br \/>\n    o que fazia era pegar nos dois e soc&aacute;-los no xilindr&oacute;: &eacute;<br \/>\n    a&iacute;, seus danados! Esta corja&#8230;&quot; MOD&Eacute;STIA Franklin Penha<br \/>\n    dera-me hoje a impress&atilde;o de um grande f&aacute;tuo. Viu-me no bonde<br \/>\n    e cumprimentou-me com excessiva amabilidade, com regozijada surpresa, como<br \/>\n    se tivesse descoberto em mim, de repente, algum encanto in&eacute;dito. E<br \/>\n    eu nem sequer tinha a barba feita. O motivo n&atilde;o tardou a aparecer.<br \/>\n    O que Franklin pretendia era capturar a minha aten&ccedil;&atilde;o e boa<br \/>\n    vontade para uma not&iacute;cia de jornal que trazia recortada, no bolso,<br \/>\n    e lhe pesava como uma barra de ouro. A not&iacute;cia era mais ou menos a<br \/>\n    seguinte: &quot;O Senhor Doutor Franklin da Costa Penha, conceituado advogado<br \/>\n    do nosso foro e futuroso cultor do nosso passado, acaba de ser nomeado s&oacute;cio<br \/>\n    correspondente do Instituto Hist&oacute;rico e Geogr&aacute;fico do Estado<br \/>\n    de&#8230;, por indica&ccedil;&atilde;o, unanimemente aprovada, do eminente histori&oacute;grafo<br \/>\n    brasileiro Sr&#8230;.&quot; &#8211; &quot;Parab&eacute;ns, bich&atilde;o.&quot; &#8211; &quot;Oh!&quot;<br \/>\n    Apesar desse oh! Franklin estava realmente satisfeito, mais talvez do que<br \/>\n    o seu venerando xar&aacute; depois que eripuit fulminen, etc. Guardou o retalho<br \/>\n    na carteira, quase a afag&aacute;-lo com as pontas dos dedos, como se fosse<br \/>\n    um a&eacute;reo tecido de seda; arrumou a carteira no bolso e, confidencial<br \/>\n    e grave: &#8211; &quot;N&atilde;o; eu, de fato, para ser franco, fiquei muito contente.<br \/>\n    Eu sou assim. Tenho ainda alguma coisa do menino de col&eacute;gio, que se<br \/>\n    ufana dos pr&ecirc;mios recebidos. Puerilidade. Pura, insofism&aacute;vel<br \/>\n    puerilidade. Eu podia contar-lhe esta nova assim com um arzinho de quem n&atilde;o<br \/>\n    ligava, negligentemente, como por uma lembran&ccedil;a de acaso. Podia ter-lhe<br \/>\n    dito que o fato me agradava por este ou por aquele motivo nobre; pelo prazer<br \/>\n    que teriam l&aacute; em casa, pela recomenda&ccedil;&atilde;o que estas distin&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    representam no seio de uma burguesia bobalhona&#8230; enfim qualquer coisa por<br \/>\n    esse gosto. Mas tudo isso n&atilde;o seria sen&atilde;o hipocrisia. A verdade<br \/>\n    pura &eacute; que fiquei contente por mim mesmo, pela pr&oacute;pria distin&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    em si; contente deveras, cheio de contentamento como um bal&atilde;ozinho<br \/>\n    de goma el&aacute;stica cheio de ar. Eu sou assim. &quot;Mas tamb&eacute;m,<br \/>\n    amanh&atilde; ou depois, j&aacute; estarei resfriado; nem me lembrarei mais<br \/>\n    de que fui eleito s&oacute;cio correspondente. Depende de eu querer alcan&ccedil;ar<br \/>\n    uma outra tet&eacute;ia que no momento me seduza.&quot; Franklin dizia-me<br \/>\n    estas coisas com tanta simplicidade e com um lume t&atilde;o sincero nos olhos,<br \/>\n    que tudo lhe aceitei como vera confiss&atilde;o. E absolvi-o. N&atilde;o,<br \/>\n    ele n&atilde;o &eacute; f&aacute;tuo. &Eacute; talvez mesmo o oposto do f&aacute;tuo,<br \/>\n    um grande modesto.<\/p>\n<p> Mod&eacute;stia, afinal, n&atilde;o &eacute; isso? A verdadeira n&atilde;o<br \/>\n    &eacute; aquela que se pro&iacute;be a m&iacute;nima expans&atilde;o de vaidade.<br \/>\n    Os indiv&iacute;duos que se pro&iacute;bem a menor demonstra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de vaidade s&atilde;o quase sempre os mais vaidosos dos vaidosos. Pretendem,<br \/>\n    sonham, invejam, sofrem e gozam tanto quanto os outros, com a &uacute;nica<br \/>\n    diferen&ccedil;a de que p&otilde;em abafos a isso tudo e, al&eacute;m de tudo,<br \/>\n    ainda querem fruir a reputa&ccedil;&atilde;o de ser extraordinariamente modestos.<br \/>\n    H&aacute; mesmo cidad&atilde;os que devem a maior parte do seu renome &agrave;<br \/>\n    sua mod&eacute;stia ou &agrave; sua pregui&ccedil;a. O pouco que d&atilde;o<br \/>\n    de si, d&atilde;o como passatempo, como capricho ou brinco de um momento,<br \/>\n    como efeito de imposi&ccedil;&otilde;es alheias, como necessidade ocasional.<br \/>\n    Por si mesmos, n&atilde;o, n&atilde;o querem nada, querem sossego! Mas o seu<br \/>\n    maior gozo &eacute; quando os admiradores exclamam: &quot;Ah! se este safado<br \/>\n    se resolvesse a trabalhar!&quot; Vaidosos dobrados, t&ecirc;m v&aacute;rias<br \/>\n    vaidades l&aacute; dentro, presas e gordas como perus de galinheiro, e ainda<br \/>\n    por cima se deliciam, epicuristicamente, com a vaidade de n&atilde;o ter nenhuma<br \/>\n    vaidade, que &eacute; a mais v&aacute;, a mais falsa, a mais loucamente ambiciosa<br \/>\n    de todas.<\/p>\n<p> O modesto verdadeiro n&atilde;o &eacute; o que se envergonha das suas vaidades,<br \/>\n    &eacute; aquele que lhes d&aacute; expans&atilde;o, reconhecendo-as por&eacute;m<br \/>\n    com bonomia como tais, sem lhes emprestar outros nomes, nem estar com rodeios<br \/>\n    e mentirolas. Somente, possuir a clara consci&ecirc;ncia delas &eacute; automaticamente<br \/>\n    reduzi-las. Dar-lhes expans&atilde;o, assim, &eacute; rarefaz&ecirc;-las.<br \/>\n    &Eacute; torn&aacute;-las exteriores, superficiais e passageiras, como um<br \/>\n    suor, como escamazinhas eruptivas da pele, como secre&ccedil;&otilde;es, coisas<br \/>\n    que a economia org&acirc;nica de um corpo s&atilde;o, normalmente engendra<br \/>\n    e rejeita.<\/p>\n<p> Uma limpeza, uma &quot;cat&aacute;rsis&quot;, um arejamento, um al&iacute;vio.<\/p>\n<p> Gozar as pr&oacute;prias vaidades com sincera e inocente imprud&ecirc;ncia<br \/>\n    &eacute; o melhor meio de lhes sentir a vacuidade, de as tornar in&oacute;cuas,<br \/>\n    de acabar por desprez&aacute;-las e perd&ecirc;-las. Permitir-lhes que levantem<br \/>\n    o v&ocirc;o &eacute; deixar que se v&atilde;o embora.<\/p>\n<p> Alegrar-se algu&eacute;m abertamente com os seus pequenos triunfos &eacute;<br \/>\n    um modo am&aacute;vel de se confessar bem gratificado. Saud&aacute;vel fus&atilde;o<br \/>\n    de bonomia, conformidade e desprendimento: mod&eacute;stia, enfim; a boa,<br \/>\n    a leg&iacute;tima, a pura. A &uacute;nica.<\/p>\n<p> Todo o mal da vaidade est&aacute; nos sentimentos e nos c&aacute;lculos<br \/>\n    que se lhe ajuntam, que a mascaram, a pervertem, a envenenam, a entranham<br \/>\n    na alma, hipertrofiando-a, dando-lhe por vezes a figura hidr&oacute;pica de<br \/>\n    virtudes austeras, dessas que merecem l&aacute;pides em latim. &#8211; &Eacute;<br \/>\n    assim que se formam esses vener&aacute;veis cavalheiros amargos que santamente<br \/>\n    odeiam todas as manifesta&ccedil;&otilde;es brilhantes e aladas da vida, esses<br \/>\n    grandes desambiciosos que se vingam em todo o mundo de n&atilde;o poderem<br \/>\n    confessar ambi&ccedil;&otilde;es, esses perp&eacute;tuos caluniadores que<br \/>\n    enxameiam e zumbem, como varejeiras pesadas e tontas de s&acirc;nie, em redor<br \/>\n    de cada desgra&ccedil;ado cujo nome n&atilde;o ficou soterrado como o deles<br \/>\n    na pr&oacute;pria impot&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Nietzsche teve raz&atilde;o &#8211; o que algumas vezes lhe acontece por maneira<br \/>\n    fulm&iacute;nea &#8211; quando disse que as paix&otilde;es, em seu estado puro,<br \/>\n    s&atilde;o boas. Apenas haver&aacute; nisso exagero. S&atilde;o boas porque<br \/>\n    s&atilde;o naturais, porque s&atilde;o o pr&oacute;prio homem. O que as torna<br \/>\n    m&aacute;s, corrompendo-as envilecendoas, &eacute; a hipocrisia, que as dissimula<br \/>\n    intensificando-as no entanto; que as enfeita por fora, como serpentes, mas<br \/>\n    d&aacute;-lhes o veneno e a ins&iacute;dia; que as oculta e as desvia de seus<br \/>\n    fins imediatos, claros e geralmente saud&aacute;veis, para as p&ocirc;r ao<br \/>\n    servi&ccedil;o de afetos nobres e de longos, tenazes e engenhosos ressentimentos.<\/p>\n<p> Menos ousado, Augusto Comte apenas reconhece &agrave; vaidade &#8211; desejo de<br \/>\n    aprova&ccedil;&atilde;o &#8211; direitos de cidade na sua moral sociocr&aacute;tica;<br \/>\n    mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8230; Mas que Nietzsche! que Comte! que Fulano ou Beltrano! Antes de todos<br \/>\n    eles, o Eclesiastes havia proclamado, para todo o tempo, que tudo &eacute;<br \/>\n    vaidade neste mundo.<\/p>\n<p> Dessa e de outras afirma&ccedil;&otilde;es se tirou apressadamente a ila&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que o cristianismo nascente votava um &oacute;dio entranhando &agrave;<br \/>\n    vida. Mas ele n&atilde;o fazia sen&atilde;o p&ocirc;r o dedo na latejante<br \/>\n    verdade, na dolorosa e redentora verdade. Era uma liberta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e um al&iacute;vio que ele trazia: tornaram-no um torvo condenador da vida.<br \/>\n    Era uma rea&ccedil;&atilde;o contra o formalismo, a pedantaria, a artificiosidade<br \/>\n    hip&oacute;crita do juda&iacute;smo literalizante e manhoso, uma revolta do<br \/>\n    esp&iacute;rito, uma insurrei&ccedil;&atilde;o de veracidade her&oacute;ica,<br \/>\n    alegre triunfal da nossa mis&eacute;ria&quot;.<\/p>\n<p> Sim, tudo &eacute; vaidade; sim, o homem &eacute; mau; sim, somos o verme<br \/>\n    da terra. Pois, sejamos vaidosos, sejamos maus, sejamos vermes, francamente,<br \/>\n    de cara descoberta, de alma leve, com a lavada e impudente sinceridade da<br \/>\n    flor e da fera, &agrave; luz do Sol e &agrave; face de Deus, na perp&eacute;tua<br \/>\n    humildade de uma confiss&atilde;o total e tranq&uuml;ila! N&atilde;o queiramos<br \/>\n    converter velhacamente a larga realidade comum da nossa pobreza em falsas<br \/>\n    opul&ecirc;ncias de exce&ccedil;&atilde;o. Quem se abaixa &eacute; que ser&aacute;<br \/>\n    exaltado: s&oacute; quem se reconhece tal qual &eacute;, ou tal qual somos,<br \/>\n    achar&aacute; em si mesmo a verdadeira for&ccedil;a purificadora e ascensional,<br \/>\n    que n&atilde;o mente nem quebra. Confessemo-nos sinceramente a Deus, e Deus<br \/>\n    a todos os humildes perdoa e sust&eacute;m.<\/p>\n<p> Como &eacute; que a tola perversidade humana p&ocirc;de converter a clara<br \/>\n    e ben&eacute;fica fonte de liberdade e de alegria, que h&aacute; no fundo<br \/>\n    dessa viril visualiza&ccedil;&atilde;o crist&atilde; da vida, nesta coisa<br \/>\n    sombria e horrenda, nesta mascarada de mistifica&ccedil;&otilde;es, neste<br \/>\n    pesadelo de atrozes artif&iacute;cios, neste abomin&aacute;vel Santo Of&iacute;cio<br \/>\n    de idealismos hip&oacute;critas e pe&ccedil;onhentos e de m&uacute;tua espionagem,<br \/>\n    que a sociedade instituiu dentro de si mesma e carrega no seio como um rolo<br \/>\n    esfervilhante de v&iacute;boras? Jesus claro, natural e harmonioso como a<br \/>\n    Verdade, at&eacute; fabricou vinho em Can&aacute; para a jovialidade simples<br \/>\n    dos homens&#8230;<\/p>\n<p> A mod&eacute;stia &eacute; uma virtude imensuramente prezada pelo grande<br \/>\n    n&uacute;mero. Todos a veneram.<\/p>\n<p> Todos a exigem dos outros. Por que? Mas, evidentemente, por ci&uacute;me<br \/>\n    e inveja. N&atilde;o h&aacute; ningu&eacute;m mais modesto do que as velha<br \/>\n    chupadas, arrependidas&#8230; de n&atilde;o haverem pecado. &#8211; N&atilde;o podendo<br \/>\n    suprimir os m&eacute;ritos de quem os tem, quer-se que ao menos o possuidor<br \/>\n    n&atilde;o os reconhe&ccedil;a, ou finja n&atilde;o os reconhecer; quer-se<br \/>\n    diabolicamente aguar, estragar, atormentar com d&uacute;vidas, com acanhamentos,<br \/>\n    com terrores e com escr&uacute;pulos o prazer natural, irreprim&iacute;vel<br \/>\n    e capitoso que ele possa provar. Assim, mais ou menos, falou Zaratustra.<\/p>\n<p> A moral social &eacute; uma formid&aacute;vel conspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de todos contra cada um, para o triturar, perverter, o desvirilizar, o reduzir<br \/>\n    a um ser lamentoso e tortuoso, um aleijado sofredor, grotesco e malfazejo.<br \/>\n    O p&aacute;tio dos Milagres! O envaidecido enrosca-se e enclavinha-se em si<br \/>\n    mesmo. Em vez de lan&ccedil;ar ao vento as suas pequenas fatuidades e libertar-se<br \/>\n    delas, ele as recolhe, as acumula, as afunda l&aacute; dentro, e as recoze,<br \/>\n    e as cultiva em sigilo, como um fabricante de venenos, com toda a sorte de<br \/>\n    cautelas, de temores, de desculpas, de artif&iacute;cios, de equ&iacute;vocos,<br \/>\n    de dissimula&ccedil;&otilde;es, e a&iacute; temos uma franqueza quase inocente<br \/>\n    convertida, pelo farisa&iacute;smo da virtude, numa podriqueira secreta! S&oacute;<br \/>\n    o indiv&iacute;duo que experimenta prazeres de vaidade, sem se enganar sobre<br \/>\n    a natureza deles, assistindo a essas experi&ecirc;ncias do sentimento como<br \/>\n    um l&uacute;cido espectador de si mesmo, s&oacute; este &eacute; capaz de<br \/>\n    mod&eacute;stia. Se algum h&aacute; que n&atilde;o os conhe&ccedil;a, esse<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; propriamente um modesto, &eacute; um que nasceu com uma<br \/>\n    falha psicol&oacute;gica, como outros nascem privados da vista ou com um p&eacute;<br \/>\n    atrofiado. N&atilde;o tem m&eacute;rito algum. Tem um defeito de nascen&ccedil;a.<\/p>\n<p> A mod&eacute;stia &eacute; a vaidade que sorri de si mesma. E nesse sorriso<br \/>\n    vai o quantum satis de contraveneno.<\/p>\n<p> A boa mod&eacute;stia &eacute; a vaidade que sorri de si mesma para n&atilde;o<br \/>\n    se rir das outras, e que &agrave;s vezes arde e se sublima na chama do sorriso<br \/>\n    &#8211; como um bal&atilde;o de papel se destr&oacute;i e desaparece na pr&oacute;pria<br \/>\n    chama que o eleva.<\/p>\n<p> A vaidade paga regiamente as suas culpas. Quantos artistas crucificados<br \/>\n    na sua obra, vertendo sangue e clar&otilde;es! A boa mod&eacute;stia &eacute;<br \/>\n    aquela que doma as suas vaidades e as subjuga ao dom&iacute;nio de uma paix&atilde;o<br \/>\n    forte e bela, como os tigres que puxavam o carro de Dion&iacute;sios.<\/p>\n<p> A serpente, &agrave;s vezes, gasta o seu veneno em botes aos raminhos que<br \/>\n    bolem ou &agrave;s sombras que passam, e assim se torna in&oacute;cua ao picar<br \/>\n    uma r&ecirc;s ou um homem. A vaidade &eacute; muitas vezes como a cobra.<\/p>\n<p> &Agrave; vaidade parece dever-se tamb&eacute;m uma quantidade de horrores:<br \/>\n    assass&iacute;nios, roubos, atrocidades, suic&iacute;dios. Na realidade, ela<br \/>\n    desempenha apenas o papel de um purgante org&acirc;nico da comunidade social.<br \/>\n    Em muitos casos, se a uma s&oacute; causa se podem filiar coisas t&atilde;o<br \/>\n    complexas, &eacute; a mod&eacute;stia que deve ser responsabilizada. Convertida<br \/>\n    em mandamento irretorqu&iacute;vel, comprime e abate a natureza humana e a<br \/>\n    obriga a esses longos desvios e absurdas transfer&ecirc;ncias da paix&atilde;o<br \/>\n    inextirp&aacute;vel, a vontade de se afirmar. O excesso de mod&eacute;stia<br \/>\n    pode prolongar-se at&eacute; ao cinismo, e &agrave; delinq&uuml;&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> UMA ROSA Ganhei uma rosa e uma experi&ecirc;ncia. Deu-me aquela, no bonde,<br \/>\n    um homem velho, rude e chamb&atilde;o. Contraiu a afei&ccedil;&atilde;o das<br \/>\n    flores j&aacute; entrado em anos, depois de desenganado de feminilidades h&aacute;<br \/>\n    muitos. E eu tinha o amor das flores na conta de um puro reflexo de sentimentos<br \/>\n    sexuais, de uma ondula&ccedil;&atilde;o distante do culto da mulher.<\/p>\n<p> De fato o &eacute;; mas tamb&eacute;m pode ser outra coisa, como me prova<br \/>\n    este velho pu&iacute;do e tristonho, que viu amanhecer em si o encanto das<br \/>\n    rosas quando j&aacute; iam muito longe as derradeiras fagulhas do outro amor.<\/p>\n<p> Quem sabe se ele p&otilde;e agora neste afeto um af&atilde; meio inconsciente<br \/>\n    de recuperar o tempo perdido para o cora&ccedil;&atilde;o? Como quer que seja,<br \/>\n    revelou-me como a natureza, contra toda l&oacute;gica e toda expectativa,<br \/>\n    pode achar sa&iacute;das novas e elegantes para as situa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mais abatidas e ruinosas. H&aacute; nela uma capacidade virgem e indefin&iacute;vel<br \/>\n    de com que n&atilde;o costumam contar os analisadores de almas, que pensam<br \/>\n    desmontar-lhes as pe&ccedil;as como a mecanismos, e n&atilde;o fazem sen&atilde;o<br \/>\n    jogar com esquemas e conceptos.<\/p>\n<p> Tudo, neste homem, indicaria uma carreira fatal para o embrutecimeno e a<br \/>\n    prostra&ccedil;&atilde;o. Idade, doen&ccedil;as, decep&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    rupturas, arrancamentos, saudades, rancores, desesperan&ccedil;a. Devia acabar<br \/>\n    no des&acirc;nimo e na tristeza aparvalhada do animal que procura um recanto<br \/>\n    esquecido para morrer. Pois, nada disso. Viu ainda florir em si, de repente,<br \/>\n    um novo amor e uma alegria, uma do&ccedil;ura e uma esperan&ccedil;a novas.<br \/>\n    Uma nova forma de ingenuidade fresca e gentil. Uma ressaca de mocidade.<\/p>\n<p> Dir-se-ia que todas as suas m&aacute;goas e mis&eacute;rias se haviam convertido<br \/>\n    numa energia clara e imprevista de nascente gorgolejante Que todo o cisco<br \/>\n    do seu passado, em mont&atilde;o, a consumirse ao sol e &agrave; chuva, fecundara<br \/>\n    a terra e dera-lhe sombra e umidade para que brotasse l&aacute; em baixo uma<br \/>\n    semente ignorada, e que a semente se fizera broto, e o broto crescera e atravessara<br \/>\n    os destro&ccedil;os apodrecidos para vir oferecer &agrave; luz a fl&acirc;mula<br \/>\n    verde de uma frondezinha vi&ccedil;osa.<\/p>\n<p> A vida vive em n&oacute;s! Ai, se nos convenc&ecirc;ssemos bem de que &eacute;<br \/>\n    a Vida que vive em n&oacute;s&#8230; A Vida, senhora eterna de todas as germina&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> AINDA A ROSA A rosa que o meu amigo velho me dera anteontem ainda estava<br \/>\n    hoje bem pass&aacute;vel. Olhei-a, pela manh&atilde;, quando lavava o rosto,<br \/>\n    e achei-lhe um encanto dorido de mulher bonita que, em pleno solst&iacute;cio<br \/>\n    de encantos, de repente se v&ecirc; marcada pelos primeiros gorgulhos do tempo.<\/p>\n<p> Esborrifei-lhe um pouco de &aacute;gua, e disse-lhe: &quot;Que ser&aacute;<br \/>\n    de si amanh&atilde;, minha rosa?&quot; As rosas sabem falar, e para ouvir<br \/>\n    e entender o que elas dizem n&atilde;o &eacute; preciso amar alguma senhora,<br \/>\n    como, segundo o poeta, se requer de quem deseje ouvir as estrelas. E a rosa,<br \/>\n    com soberba indiferen&ccedil;a, respondeu: &quot;Que ser&aacute; de mim? Olha<br \/>\n    esse grosseiro antropomorfismo, n&eacute;scio animal! Ent&atilde;o tu julgas<br \/>\n    que n&oacute;s outras somos feitas da tua massa? Para mim e minhas irm&atilde;s<br \/>\n    todas as voltas do mundo s&atilde;o as mesmas. Eu, amanh&atilde;, n&atilde;o<br \/>\n    serei nada que tu aprecies, mas a&iacute; ficam infinidades de rosas desabrochadas<br \/>\n    e por desabrochar. E todas elas s&atilde;o eu mesma, porque eu sou todas,<br \/>\n    e n&atilde;o desapare&ccedil;o, nem sucumbo&quot;.<\/p>\n<p> Muito bem, muito bem. Em todo caso, como rosa individual, a minha durava<br \/>\n    bastante. Malherbe assinou a esta flor, como prazo fixo de vida l&#8217;espace d&#8217;un<br \/>\n    matin, e entretanto &eacute; geralmente sabido que ela pode durar dois ou<br \/>\n    tr&ecirc;s dias, e mais. Mas tamb&eacute;m est&aacute; geralmente convencionado<br \/>\n    que, para os efeitos po&eacute;ticos, h&aacute; de durar uma s&oacute; manh&atilde;.<\/p>\n<p> Verdades duplas, assim, h&aacute; muitas, h&aacute; tantas que o mundo est&aacute;<br \/>\n    cheio delas.<\/p>\n<p> A borboleta, s&iacute;mbolo da volubilidade na poesia, &eacute; com efeito<br \/>\n    uma excelente imagem da const&acirc;ncia, porque s&oacute; faz indefinidamente<br \/>\n    a mesma coisa.<\/p>\n<p> A abelha, essa dizem que &eacute; o tipo do ecletismo intelectual ou sentimental<br \/>\n    que saqueia a corola de todas as flores; na verdade, &eacute; a representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais fiel da inflexibilidade de princ&iacute;pios, pois que n&atilde;o visita<br \/>\n    sen&atilde;o as flores que lhe forne&ccedil;am mat&eacute;ria-prima, e delas<br \/>\n    n&atilde;o quer sen&atilde;o a pequenina dose de mat&eacute;ria-prima que<br \/>\n    possam dar.<\/p>\n<p> O gato considerado como um animal de car&aacute;ter independente, vive de<br \/>\n    fato na estreita depend&ecirc;ncia pr&oacute;pria dos parasitas, n&atilde;o<br \/>\n    sabendo sen&atilde;o estar nas cozinhas e nos telhados; gravitando em redor<br \/>\n    da paparoca preparada.<\/p>\n<p> &Agrave; palmeira, chamam-lhe esbelta e soberba, ou altiva, ou senhoril.<br \/>\n    N&atilde;o h&aacute; o que se lhe oponha, porque, realmente, a gente pode<br \/>\n    dar &agrave;s coisas os adjetivos que quiser, n&atilde;o havendo contrariedade<br \/>\n    declarada; mas &eacute; muito de notar que, assim como a palmeira &eacute;<br \/>\n    esbelta e senhoril, tamb&eacute;m poderia ser senhoril e esbelto um espanador<br \/>\n    de cabo comprido, ou uma vassoura do tipo antigo, trastes estes havidos como<br \/>\n    sumamente prosaicos.<\/p>\n<p> O boi, s&iacute;mbolo da for&ccedil;a, &eacute; um colosso t&atilde;o fr&aacute;gil<br \/>\n    que passa da mocidade &agrave; decrepitude em meia d&uacute;zia de anos, e<br \/>\n    possui muit&iacute;ssimo menos energia ativa do que uma formiga ou uma pulga.<br \/>\n    E a &aacute;guia, emblema do g&ecirc;nio, porque tem asas e vive nas alturas,<br \/>\n    &eacute; menos inteligente do que uma galinha e nem sofre compara&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com o castor, que passa a exist&ecirc;ncia no fundo dos vales e no lama&ccedil;al<br \/>\n    dos rios.<\/p>\n<p> Enfim, n&atilde;o se contam as verdades, duplas que todo o mundo enxerga,<br \/>\n    ou poderia enxergar, mas deliberadamente separa e torna reciprocamente estanques.<br \/>\n    E n&atilde;o s&oacute; no que respeita ao mundo objetivo, mas tamb&eacute;m<br \/>\n    no que se refere ao pr&oacute;prio dom&iacute;nio subjetivo da experi&ecirc;ncia<br \/>\n    moral.<\/p>\n<p> A economia &eacute; uma virtude, quando se p&otilde;em sobre ela os &oacute;culos<br \/>\n    simp&aacute;ticos da generaliza&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica; a economia,<br \/>\n    em seus casos concretos, &eacute; sempre uma indecenciazinha de que nos envergonhamos<br \/>\n    e que satirizamos nos mais.<\/p>\n<p> &quot;O amor &eacute; a mais bela e a mais santa das coisas desta vida&quot;:<br \/>\n    mas ningu&eacute;m torne esse conceito como preceito porque se arrisca a ser<br \/>\n    apedrejado na pra&ccedil;a.<\/p>\n<p> &quot;A cal&uacute;nia &eacute; o fel das almas ign&oacute;beis&quot;: na<br \/>\n    realidade, a cal&uacute;nia &eacute; um v&iacute;cio t&atilde;o generalizado<br \/>\n    e t&atilde;o familiar como o do cigarro; e quem n&atilde;o o cultivar est&aacute;<br \/>\n    no perp&eacute;tuo risco de passar por idiota ou por &quot;jesu&iacute;ta&quot;.<\/p>\n<p>Mas, afinal de contas, esses desdobramentos da verdade s&atilde;o &uacute;teis,<br \/>\n    porque correspondem a duas tend&ecirc;ncias fundamentais do esp&iacute;rito<br \/>\n    humano: a que visa a adapta&ccedil;&atilde;o deste &agrave; natureza, e a<br \/>\n    que procura a sua adapta&ccedil;&atilde;o &agrave; sociedade.<\/p>\n<p> A primeira procede por via de indaga&ccedil;&otilde;es meticulosas e serenas;<br \/>\n    a segunda marcha por meio de conceitua&ccedil;&otilde;es imediatas e s&iacute;nteses<br \/>\n    arrojadas.<\/p>\n<p> A primeira &eacute; lenta, dificultosa e fatigante; a segunda &eacute; r&aacute;pida,<br \/>\n    leve e encantadora.<\/p>\n<p> A primeira fornece exerc&iacute;cio a uma minoria de cabe&ccedil;as, especializa<br \/>\n    e desmembra fun&ccedil;&otilde;es, e como que pulveriza a continuidade e a<br \/>\n    flu&ecirc;ncia do real numa infinidade de corp&uacute;sculos gelados; a segunda<br \/>\n    comunica impulsos a toda a sorte de mentes, aproxima-as, harmoniza-as, estimula<br \/>\n    a imagina&ccedil;&atilde;o e a simpatia, dando a todas a mesma concep&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    aproximativa das coisas, deformante mas agradavelmente f&aacute;cil, ampla<br \/>\n    e satisfat&oacute;ria.<\/p>\n<p> A primeira prepara o viveiro das verdades exatas e necess&aacute;rias de<br \/>\n    amanh&atilde;; a segunda alarga o dom&iacute;nio das verdades agrad&aacute;veis<br \/>\n    e convencionais provis&oacute;rias para uns, perp&eacute;tuas para a maior<br \/>\n    parte.<\/p>\n<p> Instinto de saber, instinto de poesia. Dois irm&atilde;os inimigos, que<br \/>\n    n&atilde;o podem viver um sem o outro.<\/p>\n<p> Posta de parte essa parlenda, o fato &eacute; que a resposta da rosa mais<br \/>\n    me enamorou dela. Enfiei-a na botoeira, apesar de j&aacute; meio fanada. &#8211;<br \/>\n    Precisei, para tanto, de um pouco de decis&atilde;o e atrevimento, pois nunca<br \/>\n    uso flores comigo, nem mesmo frescas. Aud&aacute;cia de carneiro.<\/p>\n<p> Atrevimento de c&aacute;gado.<\/p>\n<p> Instalado no bonde, semicerrados os olhos, e sentindo na face a car&iacute;cia<br \/>\n    de uma p&eacute;tala pendente, instiguei a minha interessante companheira<br \/>\n    a falar ainda, antes que algum golpe de vento ou algum encontr&atilde;o a<br \/>\n    despojasse da sua voz feita de cor e perfume. N&atilde;o se fez de rogada.<\/p>\n<p> &quot;N&atilde;o sabes, amigo? Tal como aqui me v&ecirc;s, sou filho do<br \/>\n    con&uacute;bio do homem e da natureza&#8230;<\/p>\n<p> Tanto devo o ser ao solo, ao sol, ao ar, como ao esp&iacute;rito, &agrave;<br \/>\n    arte e &agrave; m&atilde;o humana.<\/p>\n<p> Sou um produto da terra e da civiliza&ccedil;&atilde;o: duplamente flor<br \/>\n    de cultura.<\/p>\n<p> Sou ao mesmo tempo a gl&oacute;ria de Flora e a mais perfeita das flores<br \/>\n    artificiais. Tendo o vi&ccedil;o heredit&aacute;rio das rosas selv&aacute;ticas<br \/>\n    e a aura humana das rosas de papel e de tecido, armadas por magras m&atilde;os<br \/>\n    de oper&aacute;rias tristes, m&atilde;os febris de mo&ccedil;as namoradas.<\/p>\n<p> O homem faz-me, cheio de suas vaidades, seus desejos, suas ambi&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    seus sobejos de carinhos, seu saber, seu gosto am&aacute;vel, paciente e caprichoso.<br \/>\n    Assim, uma infinidade de for&ccedil;as diversas v&ecirc;m-se coordenando e<br \/>\n    v&ecirc;m colaborando, atrav&eacute;s dos s&eacute;culos, na sele&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    das minhas formas, dos meus tons e dos meus olores &#8211; florindo e reflorindo<br \/>\n    em mim.<\/p>\n<p> De mim, pois, aprende, homem tolo e ingrato! a olhar a tua humanidade n&atilde;o<br \/>\n    tanto na sombria confus&atilde;o dos seus galhos e ramas, como na v&aacute;ria<br \/>\n    e fugitiva perman&ecirc;ncia das suas flores, ou no perp&eacute;tuo esplendor<br \/>\n    das suas gra&ccedil;as transit&oacute;rias.<\/p>\n<p> Ama-a com todos os seus v&iacute;cios e brutezas, com todos os seus primores<br \/>\n    e pulcritudes.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; v&iacute;cios, n&atilde;o h&aacute; primores, h&aacute;<br \/>\n    s&oacute; o homem. O homem e nada mais. O homem inumer&aacute;vel, incomport&aacute;vel<br \/>\n    e indefin&iacute;vel. O homem que te ultrapassa no espa&ccedil;o e no tempo,<br \/>\n    e cujos &uacute;ltimos limites partem do centro da terra e v&atilde;o perder-se<br \/>\n    nas constela&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Perdoa-lhe tudo, tudo. Perdoa-lhe simplesmente. Sem gestos e sem frases.<br \/>\n    Perdoa-lhe mesmo na c&oacute;lera e na ang&uacute;stia. Reserva-lhe ao menos<br \/>\n    uma promessa de perd&atilde;o no infinito, at&eacute; para o que n&atilde;o<br \/>\n    possas, at&eacute; para o que n&atilde;o devas perdoar.<\/p>\n<p> Se tudo, nele, coopera na produ&ccedil;&atilde;o destes milagres de melindroso<br \/>\n    e incorrupt&iacute;vel prestigio! Milagres em que o fugitivo se confunde com<br \/>\n    o permanente, e o encanto de uma hora &eacute; um sorriso dos s&eacute;culos.<\/p>\n<p> Passam as catedrais, esfarelam-se os granitos e os bronzes, desagregam-se<br \/>\n    os imp&eacute;rios, e as na&ccedil;&otilde;es dissolvem-se, mas eu permane&ccedil;o<br \/>\n    na minha deliciosa insignific&acirc;ncia, Como a &uacute;ltima confid&ecirc;ncia<br \/>\n    de ternura e de beleza que as gera&ccedil;&otilde;es legam umas as outras<br \/>\n    atrav&eacute;s dos abismos do tempo.<\/p>\n<p> Sou a obra mais duradoura do homem. N&atilde;o h&aacute; ferrugem nem verme,<br \/>\n    nem guerras nem sinistros que me atinjam.<\/p>\n<p> V&ecirc; como uma coisa assim pequenina e branda vem a ser o &uacute;nico<br \/>\n    triunfo comum das energias contradit&oacute;rias derramadas pela face da terra!<br \/>\n    Eis-me aqui, doce como um afago, leve como uma asa, breve como um sonho, mas<br \/>\n    forte como o que permanece e perdura, imorredoura e essencial como a l&aacute;grima<br \/>\n    e como o sorriso, esses dois resumos humanos da infinita com&eacute;dia, e<br \/>\n    da infinita alegria do universo&#8230;<\/p>\n<p> Serve-me com os olhos, aspira-me, grava-me na alma. E sabe que nunca faltarei<br \/>\n    ao p&eacute; de ti, se o quiseres.<\/p>\n<p> Busca-me, achar-me-&aacute;s. Eu s&oacute; desapare&ccedil;o de teus olhos<br \/>\n    para que em ti se renove a &acirc;nsia pela minha presen&ccedil;a.<\/p>\n<p> Toda a perene agita&ccedil;&atilde;o do mundo parece n&atilde;o ter outro<br \/>\n    fim que produzir uma espuma de rosas.<\/p>\n<p> Nada t&atilde;o ao alcance da tua m&atilde;o.<\/p>\n<p> Colhe, beija e sorri.<\/p>\n<p> Nesse minuto estar&aacute;s num pin&aacute;culo da vida e num ponto luminoso<br \/>\n    da eternidade.<\/p>\n<p> Eu sou a Rosa, eu sou a Rosa, a beleza e a gra&ccedil;a fugentes, a doce<br \/>\n    filha da terra vil e do homem desgra&ccedil;ado&#8230;&quot; UM FIO DE CABELO<br \/>\n    Aquela mo&ccedil;a espigada que entrou no bonde com o &iacute;mpeto &aacute;gil<br \/>\n    de um gafanhoto e ficou sentada ao meu lado, nunca imaginaria que fosse causa<br \/>\n    poss&iacute;vel de uma pequena trag&eacute;dia.<\/p>\n<p> Entrou, sentou-se, t&atilde;o isenta, como diria o Cam&otilde;es, t&atilde;o<br \/>\n    longe de mim que sentia a irradia&ccedil;&atilde;o das suas calorias! Vi&ccedil;osa,<br \/>\n    inocente e jocunda como um cacho de flores de resed&aacute; arrancado ao galho<br \/>\n    pela manh&atilde;, tinha a afilada silhueta de uma girl esportiva e a despachada<br \/>\n    simplicidade de um rapaz. Tirou a esp&eacute;cie de boina que trazia na cabe&ccedil;a,<br \/>\n    agitou o nevoeiro de fogo do cabelo, ajeitou-o com as m&atilde;os, de leve,<br \/>\n    como se lhas queimasse, e minutos depois, repondo o gorro, partia, num outro<br \/>\n    salto de gafanhotinho brincalh&atilde;o.<\/p>\n<p> Jeunesse de visage et jeunesse de coeur! Quando cheguei a casa, tinha no<br \/>\n    ombro um fio de cabelo, um fio de chama. Descobriu-o a criada, com um sorriso<br \/>\n    ing&ecirc;nuo e perverso. Pegou nele, de intrometida, examinou-o &agrave;<br \/>\n    luz da janela, e ia deix&aacute;-lo cair quando eu, n&atilde;o me podendo<br \/>\n    conter, exclamei: &quot;Deus a fa&ccedil;a careca, Manuela!&quot; Manuela<br \/>\n    olhou-me com cara de surpresa e desapontamento, como a pedir explica&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    N&atilde;o lha dei, limitando-me a assoviar uns compassos da Marcha de C&aacute;dis,<br \/>\n    para n&atilde;o lhe deixar a impress&atilde;o de estar zangado, e retirei-me<br \/>\n    para o meu quarto.<\/p>\n<p> Na verdade, estava zangado. Aquele ato da pobre mulher apertara a mola ao<br \/>\n    mecanismo das minhas melancolias. Pus-me a considerar os frutos de suspic&aacute;cia,<br \/>\n    de bisbilhotice e de malignidade que a moral produz nas almas simples; e de<br \/>\n    reflex&atilde;o em reflex&atilde;o achei-me de repente imerso, mal sustendo<br \/>\n    a cabe&ccedil;a de fora, na imensur&aacute;vel e irremedi&aacute;vel mis&eacute;ria<br \/>\n    da bicharia humana.<\/p>\n<p> E a&iacute; est&aacute; como aquela menina, inocente como o &eacute; a Lua,<br \/>\n    dos raios que deixa cair, n&atilde;o esteve longe de ser causa de um desaguisado<br \/>\n    dom&eacute;stico. Ao mesmo tempo que alisava o cabelo, num movimento de m&atilde;os<br \/>\n    e numa dan&ccedil;a de dedos leve e a&eacute;rea como um gorjeio, poderia<br \/>\n    estar agitando a corrente de dois destinos ignorados e preparando uma pororoca<br \/>\n    long&iacute;nqua.<\/p>\n<p> Ai! por muito pobre que seja a imagina&ccedil;&atilde;o dos malfazejos,<br \/>\n    os dist&uacute;rbios que ela consegue promover s&atilde;o pequena coisa diante<br \/>\n    do mal que todos fazemos uns aos outros pelo simples fato de existir.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; pior acidente do que ocupar um lugar no espa&ccedil;o.<br \/>\n    Um simples fio de cabelo caindo de uma cabe&ccedil;a pode ser para algu&eacute;m<br \/>\n    como o raio destruidor partindo do punho de Arim&atilde;. Vivemos assim uma<br \/>\n    eterna e terr&iacute;vel mitologia. Participamos da natureza dos deuses, ao<br \/>\n    menos para o mal. S&oacute; para o mal. A vida &eacute; a ang&uacute;stia<br \/>\n    do terror difuso e permanente.<\/p>\n<p> RETIC&Ecirc;NCIAS Encontrei-me hoje no bonde, depois do almo&ccedil;o, com<br \/>\n    o Nicolau Coelho. Como eu lhe dissesse, um dia, que lera com prazer a sua<br \/>\n    cr&ocirc;nica sobre finados, desse dia em diante se aproximou de mim, e n&atilde;o<br \/>\n    me v&ecirc; sem que me venha apertar a m&atilde;o. Ainda hoje pagou a minha<br \/>\n    passagem.<\/p>\n<p> Conhe&ccedil;o Nicolau desde menino, fui amigo de seu pai, professor gratuito<br \/>\n    de um dos seus irm&atilde;os, e nunca se julgara obrigado a usar de cortesias<br \/>\n    comigo. Passei a ser algu&eacute;m para ele no dia em que lhe elogiei uma<br \/>\n    cr&ocirc;nica, a ele que tantas e t&atilde;o aplaudidas tem escrito, a ele<br \/>\n    carregado de gl&oacute;rias.<\/p>\n<p> Nicolau, vendo-me no &uacute;ltimo banco, ergueu-se do seu e desfechou-se<br \/>\n    de l&aacute;. Sacou de cinco tiras de papel e disse, com mod&eacute;stia:<br \/>\n    &#8211; &quot;Isto &eacute; curtinho&#8230; Gostaria que lesse, preciso da sua opini&atilde;o.&quot;<br \/>\n    Fixei os meus olhos nos seus.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Precisa da minha opini&atilde;o?&quot; &#8211; &quot;Sim pois&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Mas isso &eacute; grave, meu amigo. Ent&atilde;o a minha opini&atilde;o<br \/>\n    vale?&quot; &#8211; &quot;Muito.&quot; &#8211; &quot;Nesse caso, eu necessitaria ler com<br \/>\n    vagar, com toda a aten&ccedil;&atilde;o.&quot; &#8211; &quot;Mas, eu tenho de levar<br \/>\n    o original &agrave; folha. &Eacute; curtinho. Ler&aacute; num momento.&quot;<br \/>\n    Li. Li e n&atilde;o achei mal. Ao contr&aacute;rio. Certa harmonia agrad&aacute;vel<br \/>\n    e constante, harmonia de forma, harmonia de fundo, feitas de pequenas aud&aacute;cias<br \/>\n    de pensamento e de express&atilde;o, dif&iacute;ceis de orquestrar. Notei<br \/>\n    apenas um exagero de sinais sint&aacute;ticos, travess&otilde;es, virgulas,<br \/>\n    pontos-ev&iacute;rgulas, pontos finais, e sobretudo, retic&ecirc;ncias.<\/p>\n<p> O abuso das retic&ecirc;ncias me &eacute; particularmente enervante (a n&atilde;o<br \/>\n    ser quando entram, num sistema personal&iacute;ssimo de nota&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    compreens&iacute;vel em certos indiv&iacute;duos muito irregularmente &quot;individuais&quot;.)<br \/>\n    Ponham quantas forem necess&aacute;rias para indicar suspens&atilde;o ou transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    inesperada. Mas este costume de derramar ao p&eacute; de cada per&iacute;odo<br \/>\n    uma s&eacute;rie de pontinhos, para denotar que a frase &eacute; aguda, que<br \/>\n    ali h&aacute; coisa, que a passagem envolve mal&iacute;cia ou profundidade<br \/>\n    &#8211; n&atilde;o, n&atilde;o.<\/p>\n<p> O leitor (sempre inteligente) irrita-se por n&atilde;o se lhe deixar o gosto<br \/>\n    de descobrir por si mesmo as sutilezas, as inten&ccedil;&otilde;es, os valores<br \/>\n    velados. E depois o autor acaba por botar retic&ecirc;ncias em tudo, porque<br \/>\n    &eacute; dif&iacute;cil que um autor n&atilde;o veja coisas a real&ccedil;ar<br \/>\n    em cada um dos seus per&iacute;odos.<\/p>\n<p> Afinal, a fun&ccedil;&atilde;o dos pontinhos desaparece, e onde eles n&atilde;o<br \/>\n    est&atilde;o &eacute; que a gente vai ver se desentoca o melhor.<\/p>\n<p> A mania das retic&ecirc;ncias n&atilde;o tarda em seme&aacute;-las no pr&oacute;prio<br \/>\n    pensamento. Recolhem, como as bexigas. E l&aacute; se vai o amor da claridade<br \/>\n    e da justeza, l&aacute; vem o prazer vicioso do equ&iacute;voco, do amb&iacute;guo,<br \/>\n    do flutuante.<\/p>\n<p> Os antigos n&atilde;o usavam retic&ecirc;ncias. Faltou-lhes pois uma boa<br \/>\n    forma de nota&ccedil;&atilde;o, hoje indispens&aacute;vel. Mas o fato &eacute;<br \/>\n    que a estreiteza do sistema de suplementares da palavra tinha as suas vantagens.<br \/>\n    For&ccedil;ava-os a tudo exprimir e sugerir com os recursos &uacute;nicos<br \/>\n    da frase nua e dos seus ritmos naturais. Em vez de p&ocirc;r um sinal de ironia<br \/>\n    tinham de a&ccedil;acalar a ironia atrav&eacute;s da rede dos per&iacute;odos.<br \/>\n    Em vez de indicar com que &oacute;culos cinzentos ou vermelhos se havia de<br \/>\n    ler o cap&iacute;tulo ou a p&aacute;gina, davam &agrave; p&aacute;gina ou<br \/>\n    ao capitulo a tonalidade sentimental ou mental conveniente. Era o processo<br \/>\n    direto, que penetrava at&eacute; &agrave;s carnes e aos nervos do estilo.<\/p>\n<p> Podiam falecer-lhe a este as flexibilidades e esfumaturas da sensibilidade<br \/>\n    moderna, mas ainda isso era uma vantagem, porque era uma disciplina. O escritor<br \/>\n    havia de se resignar, por muito indeciso e ondulante que tivesse o esp&iacute;rito,<br \/>\n    ao freio de um m&eacute;tier e havia de viver perpetuamente em busca do l&iacute;mpido,<br \/>\n    do incisivo, do luminoso. Nunca se entregava sen&atilde;o a constru&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de pensamento com uma classifica&ccedil;&atilde;o e um fim. Toda a sua aspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    era fabricar obras acabadas, port&aacute;teis, que representavam aquisi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    (como diz Emerson a prop&oacute;sito j&aacute; n&atilde;o lembra de que autor)<br \/>\n    coisas que se poderiam sopesar, palpar, p&ocirc;r no bolso e levar para casa<br \/>\n    &#8211; como um utens&iacute;lio, como uma j&oacute;ia, como uma fruta.<\/p>\n<p> Representei tudo isto por outras e mais breves palavras, a Nicolau, cujo<br \/>\n    valor n&atilde;o deixei de tomar para estribilho. Guardou os originais, acendeu<br \/>\n    um cigarro e perguntou, com um sorriso reticente: &#8211; &quot;Ent&atilde;o, s&oacute;<br \/>\n    um excesso de&#8230; pontinhos?&quot; &quot;S&oacute;, Nicolau, s&oacute;. Mas<br \/>\n    isso mesmo, &oacute; Artista, &oacute; Imagin&iacute;fico, &oacute; Mistagogo!<br \/>\n    &eacute; talvez mania ou sutileza do meu bestunto emperrado. Quando vejo um<br \/>\n    desses escritos retalhados em pequenos par&aacute;grafos cada par&aacute;grafo<br \/>\n    seguido de uma secre&ccedil;&atilde;o de pontinhos, tenho logo a id&eacute;ia<br \/>\n    de uma desfilada de cabritos.<\/p>\n<p> &quot;Mas, pensando bem, penso que um escritor mo&ccedil;o precisa de ter<br \/>\n    certa por&ccedil;&atilde;o de cacoetes e singularidades, at&eacute; de erros,<br \/>\n    dentro de certo limite porque tudo isto serve exatamente de lhe dar um ar<br \/>\n    de vi&ccedil;oso verdor e de divinat&oacute;ria inexperi&ecirc;ncia, a gra&ccedil;a<br \/>\n    do g&ecirc;nio ainda ignorante de si pr&oacute;prio, todo em flor e esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p> &quot;As pequenas carepas envolvem uma promessa festiva de aperfei&ccedil;oamento<br \/>\n    ao passo que a lixa insistente e minuciosa, tirando todas as titicas e asperidades<br \/>\n    da superf&iacute;cie, deixa ver melhor as imperfei&ccedil;&otilde;es essenciais<br \/>\n    da mat&eacute;ria e da constru&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &quot;Esses cacoetes, essas singularidades, esses descuidos constituem uma<br \/>\n    garantia para o escritor. Ningu&eacute;m suspeita nele um gram&aacute;tico,<br \/>\n    um esp&iacute;rito peco e mi&uacute;do, preocupado com a l&iacute;ngua e outras<br \/>\n    superflu&iacute;dades per&oacute;bicas. Perdoam-lhe por simpatia, numa absolvi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    geral, as faltas cometidas, e ainda as que venha a perpetrar. Ao passo que<br \/>\n    os escritores corretos d&atilde;o ganas a todo o mundo de lhes descobrir trincas<br \/>\n    e manchas.<\/p>\n<p> E isto sempre se consegue: a corre&ccedil;&atilde;o &eacute; uma zona ideal<br \/>\n    de equil&iacute;brio inst&aacute;vel&#8230;&quot; Ia eu assim dissertando, alheio<br \/>\n    ao bonde e ao tempo, quando uma brecada instant&acirc;nea fez estralejar todo<br \/>\n    o arcabou&ccedil;o do carro. Gritos, borborinho. O bonde havia pegado uma<br \/>\n    carro&ccedil;a pela rabeira e arremessado esse ve&iacute;culo, com os seus<br \/>\n    dois animais, a tr&ecirc;s metros de dist&acirc;ncia.<\/p>\n<p> A carro&ccedil;a adernara, com uma das rodas meio fora do eixo, e os burros,<br \/>\n    presos ao correame e aos varais abatidos, resfolegavam largamente, com estreme&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    espa&ccedil;ados de toda a courama.<\/p>\n<p> O pior &eacute; que o pr&oacute;prio carroceiro, cuspido para o ch&atilde;o,<br \/>\n    raspara a poeira e se estatelara ao lado, a verter sangue da cabe&ccedil;a,<br \/>\n    as m&atilde;os meio enclavinhadas, o peito a arquejar sob a camisa aberta.<\/p>\n<p> Magotes de curiosos iam e vinham enquanto dois homens de maior iniciativa<br \/>\n    tratavam de recolher a v&iacute;tima a uma casa pr&oacute;xima e de levantar<br \/>\n    os animais.<\/p>\n<p> V&aacute;lidos, prestantes bons homens! Surgiram de repente da massa amorfa,<br \/>\n    como os que sabem querer e mandar. E eu era da massa amorfa, imprest&aacute;vel<br \/>\n    distra&iacute;da, hesitante. &Oacute; c&eacute;u, cada dia me reservas uma<br \/>\n    humilha&ccedil;&atilde;o! Depois, que, vinda a pol&iacute;cia e o carro da<br \/>\n    assist&ecirc;ncia, o bonde p&ocirc;de continuar a viagem, os passageiros consternados<br \/>\n    ainda pormenorizavam o ocorrido, explicavam o desastre, discutiam as culpas.<br \/>\n    Quanto a mim, conservava-me quieto, com a vis&atilde;o pasmada daquele homem<br \/>\n    ca&iacute;do no ch&atilde;o, a derramar sangue na poeira, e do triste do motorista<br \/>\n    que parecia fulminado de estupor, na balorda prostra&ccedil;&atilde;o do animal<br \/>\n    tocado de raio.<\/p>\n<p> Nicolau catucou-me de repente no bra&ccedil;o. Voltei-me para ele como quem<br \/>\n    despertava.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Mas!&#8230; quer que lhe diga?&quot; (recome&ccedil;ou) &quot;n&atilde;o<br \/>\n    estou de acordo com o senhor.&quot; E tinha um arzinho entre provocador e<br \/>\n    mofento.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Comigo?! Em que?!&#8230;&quot; &#8211; &quot;Nesse neg&oacute;cio de retic&ecirc;ncias.<br \/>\n    A mim me parecem indispens&aacute;veis. A quest&atilde;o est&aacute; naquilo<br \/>\n    que se pretende dizer ou sugerir.&quot; E por a&iacute; foi, a tra&ccedil;ar<br \/>\n    com o indicador o desenho dos argumentos. Dei-lhe sempre raz&atilde;o at&eacute;<br \/>\n    o termo do discurso e da linha. &quot;Sim. Claro. Sim! Pois n&atilde;o. Sim,<br \/>\n    sim!&quot; Afinal, disse um adeus veloz a esse esp&iacute;rito gentil e corri<br \/>\n    a um caf&eacute;, onde fui tomar a minha x&iacute;cara em sil&ecirc;ncio e<br \/>\n    em penit&ecirc;ncia, e reatar os fios inacab&aacute;veis do meu perene di&aacute;logo<br \/>\n    comigo mesmo &#8211; com o &uacute;nico indiv&iacute;duo que n&atilde;o se aborrece<br \/>\n    quando o contrario, com o &uacute;nico indiv&iacute;duo que me aborrece quando<br \/>\n    o n&atilde;o quero contrariar.<\/p>\n<p> RU&Iacute;DOS E RUMORES As almas t&ecirc;m umas irradia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pouco observadas &#8211; sem nada de comum com a transmiss&atilde;o de pensamento,<br \/>\n    o magnetismo e an&aacute;logas complica&ccedil;&otilde;es et&eacute;reas,<br \/>\n    &oacute;dicas e m&iacute;sticas.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; uma ci&ecirc;ncia (e ainda bem, arre!) mas h&aacute;<br \/>\n    uma arte, uma pequena arte sutil sobre a ca&ccedil;a das irradia&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da personalidade, atrav&eacute;s dos rumores e das vozes.<\/p>\n<p> Tenho uns vizinhos esquisitos, um casal velho que vive fechado em casa e<br \/>\n    raramente se deixa ver. Trabalhando ou lendo no meu gabinete, ou&ccedil;o<br \/>\n    vozes, passos, tosses, assoadelas arrastamentos de m&oacute;veis, bater de<br \/>\n    pregos, &#8211; tudo espa&ccedil;ado e abafado, passando atrav&eacute;s das paredes<br \/>\n    como vagas mensagens de um mundo sigiloso.<\/p>\n<p> Ponho-me, &agrave;s vezes, a escutar esses rumores e, &agrave; for&ccedil;a<br \/>\n    de os ouvir e comparar, n&atilde;o s&oacute; eduquei o ouvido para lhes perceber<br \/>\n    as menores varia&ccedil;&otilde;es, como consegui fixar o valor expressivo<br \/>\n    de alguns deles.<\/p>\n<p> Cheguei &agrave; conclus&atilde;o de que o homem &eacute; gordo, rude, voluntarioso,<br \/>\n    e talvez com um defeito numa das pernas. Pisa com for&ccedil;a e peso, mas<br \/>\n    de um jeito claudicante; tosse de um modo r&aacute;pido e sacudido; os ru&iacute;dos<br \/>\n    que produz batendo pregos ou fechando portas s&atilde;o sempre c&eacute;leres<br \/>\n    e inteiri&ccedil;os, e sua voz &eacute; robusta e serena.<\/p>\n<p> Por que ent&atilde;o n&atilde;o sai de casa? Provavelmente, algum inc&ocirc;modo<br \/>\n    ou les&atilde;o localizada, que o impede sem lhe afetar o estado geral.<\/p>\n<p> Quanto &agrave; mulher, deve ser velhota, magra, tristonha a paciente. Seus<br \/>\n    passos apenas chiam no soalho, sua voz mal se ouve, assemelha-se a um arrulho<br \/>\n    mon&oacute;tono. De, quando em quando, escuto-lhe uns espirros longamente<br \/>\n    gemidos. Esses espirros por si s&oacute;s ainda me fornecem uma indica&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    a senhora &eacute; do interior de S&atilde;o Paulo, provavelmente de lugar<br \/>\n    pequeno, e talvez da zona sorocabana.<\/p>\n<p> Outro dia, tive um susto: o homem entrou a falar alto e r&iacute;spido,<br \/>\n    a dar passadas por toda a casa.<\/p>\n<p> Estaria a maltratar a pobre senhora? Apurei o ouvido. O vizinho andava,<br \/>\n    parava de quando em quando, falava falava, e depois punha-se a andar de novo,<br \/>\n    para de novo estacar e falar: o ritmo caracter&iacute;stico de uma crise de<br \/>\n    raiva recriminante.<\/p>\n<p> Mas que poderia ter-lhe feito a pobre velhota, t&atilde;o calma e resignada?<br \/>\n    Ansioso, apurei ainda mais o ouvido, e s&oacute; descansei quando ouvi um<br \/>\n    espirro da vizinha: atchiii!&#8230; Esse espirro, longo, pac&iacute;fico, modulado<br \/>\n    pela forma exata do h&aacute;bito, garantia que a zanga n&atilde;o era com<br \/>\n    ela.<\/p>\n<p> Hoje, finalmente, viajei de bonde com o casal, que saiu conforme &agrave;s<br \/>\n    revela&ccedil;&otilde;es sonoras. O homem, alto, gordo e vermelho; ela, seca<br \/>\n    e sumida. Ao tratarem de descer, ele puxou a corda da campainha num golpe<br \/>\n    incisivo e forte. Desceram, e ent&atilde;o vi que ele tinha um p&eacute; inchado<br \/>\n    em chinelo.<\/p>\n<p> Pus-me a traduzir, pelo resto da viagem, os sons da campainha.<\/p>\n<p> As vibra&ccedil;&otilde;es indicam o sexo, a idade aproximada e o temperamento<br \/>\n    de quem as faz retinir. H&aacute; campainhadas t&iacute;midas, indecisas,<br \/>\n    distra&iacute;das, discretas, nervosas, indolentes, autorit&aacute;rias, col&eacute;ricas.<\/p>\n<p> Umas previnem, refletidas, o motorista, a quase uma quadra de dist&acirc;ncia,<br \/>\n    declarando, calmas e incisivas: &quot;Pare a&iacute; adiante; olhe que est&aacute;<br \/>\n    avisado!&quot; Outras exprimem certa d&uacute;vida: &quot;Deverei saltar aqui?&#8230;<br \/>\n    Ser&aacute; aqui mesmo o ponto que me conv&eacute;m?&#8230;&quot; Outras enfim,<br \/>\n    ap&oacute;s tantas, deixam transparecer a surpresa de um apalermado que de<br \/>\n    repente se achou no ponto de parada sem ter dado por isso: &quot;Oh, diabo,<br \/>\n    c&aacute; estou; p&aacute;ra a&iacute;!&quot; A linguagem das campainhas pode,<br \/>\n    por&eacute;m, exprimir coisas ainda menos triviais.<\/p>\n<p> Outro dia, vinha um passageiro novato no bairro, que mandou parar em certo<br \/>\n    ponto, e n&atilde;o desceu: tinha-se enganado. Ressoou surdamente a campainha,<br \/>\n    acionada pelo condutor, um portugu&ecirc;s muito plantado em si mesmo: &quot;Bom,<br \/>\n    vamos embora.&quot; Duas esquinas adiante, o homem d&aacute; nova ordem de<br \/>\n    parada, e ainda n&atilde;o desce: tinha-se enganado outra vez. Ent&atilde;o,<br \/>\n    a correia da campainha fuzilou nos ganchos como uma chicotada, e o metal retiniu<br \/>\n    com tal express&atilde;o, que se entendeu perfeitamente: &quot;Roda!. .. Raios<br \/>\n    o parta!&quot; H&aacute; um conto de Gautier O Ninho de Rouxinol, onde figuram<br \/>\n    umas jovens estranhas, que unicamente comunicam com o mundo por meio dos sons.<br \/>\n    Todo o universo, para elas, se traduz em m&uacute;sica, e s&oacute; em m&uacute;sica<br \/>\n    elas traduzem o que sentem e pensam.<\/p>\n<p> Realmente, n&atilde;o h&aacute; nada que n&atilde;o se possa resolver em<br \/>\n    m&uacute;sica, e &eacute; l&iacute;cito conceber-se um mundo em que fosse<br \/>\n    essa a linguagem universal das coisas e das almas. Sem irmos, por&eacute;m,<br \/>\n    &agrave;s alturas da imagina&ccedil;&atilde;o, &eacute; f&aacute;cil reconhecer<br \/>\n    que tudo trivialmente, em redor de n&oacute;s, se manifesta por sonoridades,<br \/>\n    ru&iacute;dos e sil&ecirc;ncios.<\/p>\n<p> Sabe disso toda a gente que disp&otilde;e da integridade do seu aparelho<br \/>\n    auditivo. O que pouca gente sabe &eacute; como se podem obter impress&otilde;es<br \/>\n    novas, surpreendentes e divertidas das coisas e das almas que nos rodeiam,<br \/>\n    &#8211; apenas aplicando o ouvido &agrave; sondagem e interpreta&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos sons.<\/p>\n<p> N&oacute;s vivemos pelos olhos. A estes confiamos quase exclusivamente a<br \/>\n    miss&atilde;o de observadores e testemunhas. O sentido auditivo reduzimo-lo<br \/>\n    quase a um simples papel de servi&ccedil;al obediente &agrave;s determina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da vontade. Vemos tudo, mas s&oacute; ouvimos o que queremos. &Eacute; incr&iacute;vel<br \/>\n    a capacidade de que dispomos para eliminar as impress&otilde;es do ouvido,<br \/>\n    no meio do rumor infernal das ruas, do brua&aacute; de um caf&eacute; regurgitante<br \/>\n    de palradores.<\/p>\n<p> Ainda hei de escrever um artigo s&eacute;rio para um jornal s&eacute;rio,<br \/>\n    um artigo cient&iacute;fico, cheio de termos t&eacute;cnicos como um queijo<br \/>\n    cheio de salt&otilde;es, a propugnar a educa&ccedil;&atilde;o e a aplica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    mais racionais das faculdades auditivas. Quantos afluxos de sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    sistematicamente rejeitados, e que poderiam ser t&atilde;o &uacute;teis &aacute;<br \/>\n    intelig&ecirc;ncia, e &uacute;teis &agrave; pr&oacute;pria defesa do indiv&iacute;duo!<br \/>\n    E depois, se a moda pegasse, se come&ccedil;&aacute;ssemos todos a fazer um<br \/>\n    uso mais consciente, mais constante e mais largo desse aparelho receptor,<br \/>\n    seria imposs&iacute;vel que um grande n&uacute;mero de cidad&atilde;os n&atilde;o<br \/>\n    se insurgissem afinal, indignados, exigentes, furiosos, contra a pandem&ocirc;nica,<br \/>\n    vertiginosa e martirizante barulheira da cidade, contra este caos sonoro que<br \/>\n    nos engole e nos aniquila.<\/p>\n<p> PALAVRAS CRUZADAS Veio &agrave; minha frente, ontem &agrave; tarde, um passageiro<br \/>\n    engolfado num sobretudo enorme e num largo jogo de palavras cruzadas. Espiei<br \/>\n    um pouco por cima, o homem percebeu o meu movimento, voltou-se, reconheci-o:<br \/>\n    era o meu ex-vizinho Eul&aacute;lio Peixoto, professor de Matem&aacute;tica<br \/>\n    e de conformidade.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Pois at&eacute; voc&ecirc;, Peixoto!&quot; &#8211; &quot;&Eacute; para<br \/>\n    voc&ecirc; ver, Fel&iacute;cio. Mas quem pode resistir! Todo o mundo vive<br \/>\n    &agrave;s voltas com isto. Ainda hoje vi uma senhora, com um livro aberto,<br \/>\n    no bonde, dentro do livro ia um retalho de papel &#8211; era o jogo. Tenho um conhecido<br \/>\n    que traz o seu dentro do chap&eacute;u. Outros o carregam na carteira e em<br \/>\n    qualquer momento de descanso, no bonde, no caf&eacute;, na esquina, l&aacute;<br \/>\n    se p&otilde;em a decifrar.<\/p>\n<p> Curioso! A que &eacute; que voc&ecirc; atribui esta mania?&quot; &#8211; &quot;Gosto<br \/>\n    de quebrar a cabe&ccedil;a&quot;.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Est&aacute; enganado. Isso &eacute; o que menos influi no caso.<br \/>\n    Quantidade desprez&iacute;vel. A vida toda, toda, desde as grandes at&eacute;<br \/>\n    &agrave;s &iacute;nfimas coisas, &eacute; um tecido de quebra-cabe&ccedil;as.&quot;<br \/>\n    &quot;Dir&aacute; voc&ecirc; que s&atilde;o problemas repulsivos &#8211; uns tenebrosos,<br \/>\n    como a pr&oacute;pria vida em si, outros atenazantes, como o do p&atilde;o<br \/>\n    que se h&aacute; de comer no m&ecirc;s que vem. Perfeitamente! Mas, nesse<br \/>\n    caso, haveria uma infinidade de passatempos deste mesmo g&ecirc;nero &agrave;<br \/>\n    nossa disposi&ccedil;&atilde;o &#8211; os problemas de aritm&eacute;tica e &aacute;lgebra,<br \/>\n    o xadrez, o soneto, as a&ccedil;&otilde;es humanas, o acr&oacute;stico&#8230;<br \/>\n    veja voc&ecirc;, o acr&oacute;stico t&atilde;o aparentado com isto, e t&atilde;o<br \/>\n    mais interessante! &quot;N&atilde;o, o prazer do entretenimento &eacute; o<br \/>\n    que menos influi nesta epidemia. Ele existe, sem d&uacute;vida, no fundo de<br \/>\n    todos estes exerc&iacute;cios, mas neutro, indiferente &agrave; oscila&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e variedade das aplica&ccedil;&otilde;es.&quot; &#8211; &quot;Mas, ent&atilde;o,<br \/>\n    Peixoto, onde &eacute; que est&aacute; o bus&iacute;lis?&quot; &#8211; &quot;Eis<br \/>\n    a&iacute; o grande problema das palavras cruzadas! Esse &eacute; que eu gostaria<br \/>\n    de ver discutido.<\/p>\n<p> Para mim, provisoriamente, o segredo s&oacute; tem uma explica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma s&oacute;: cont&aacute;gio mental.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Mas como explicar&aacute; voc&ecirc; o cont&aacute;gio, por sua<br \/>\n    vez?&quot; &#8211; &quot;&Eacute; outra quest&atilde;o. O cont&aacute;gio existe,<br \/>\n    &eacute; evidente, manifesta-se por mil formas. Sempre existiu. A moda nunca<br \/>\n    foi outra coisa que um nome diverso desse fen&ocirc;meno.<\/p>\n<p> O joguinho apareceu um dia, l&aacute; na Am&eacute;rica do Norte, como um<br \/>\n    desses mil divertimentos com que os jornais engabelam o p&uacute;blico. Ou<br \/>\n    porque tivesse uma fei&ccedil;&atilde;o mais atraente, ou porque o jornal<br \/>\n    que o inventou fosse de grande circula&ccedil;&atilde;o, ou porque se anunciassem<br \/>\n    pr&ecirc;mios convidativos, a coisa teve &ecirc;xito, despertou os &ecirc;mulos<br \/>\n    e os imitadores, &#8211; e eis a epidemia armada, a alargar-se por toda uma regi&atilde;o,<br \/>\n    por todo um pa&iacute;s, transpondo os mares, saltando em portos distantes,<br \/>\n    explodindo em todos grandes centros, voando a todos os recantos do mundo.&quot;<br \/>\n    &quot;&Eacute; a pr&oacute;pria, a propri&iacute;ssima curva de todas as epidemias<br \/>\n    &#8211; explicou Peixoto continuando. &#8211; H&aacute; um primeiro foco, lento, hesitante,<br \/>\n    d&uacute;bio. Repetem-se os casos, nas vizinhan&ccedil;as. E, &agrave; medida<br \/>\n    que se repetem, a intensidade sobe. H&aacute; um momento de m&aacute;xima<br \/>\n    intensidade e m&aacute;xima expans&atilde;o. A epidemia alastra-se.<\/p>\n<p> &quot;Depois, v&atilde;o-se extinguindo aos poucos os mil focos espalhados,<br \/>\n    bambeia a f&uacute;ria do mal, os casos voltam a ser mais brandos, mais incertos,<br \/>\n    e tudo acaba como um inc&ecirc;ndio r&aacute;pido que lambesse e queimasse<br \/>\n    todas as folhas e gravetos secos disseminados por um mato verde, morrendo<br \/>\n    afinal aos peda&ccedil;os, por falta de alimento e de vento.&quot; Peixoto<br \/>\n    fez-me ver em seguida como o cont&aacute;gio mental vai alargando, em todas<br \/>\n    as suas formas, o seu campo de expans&atilde;o.<\/p>\n<p> Em outros tempos que n&atilde;o v&atilde;o t&atilde;o longe, cada pa&iacute;s<br \/>\n    era um campo restrito de resson&acirc;ncias, e dentro de cada um desses campos<br \/>\n    havia outros, igualmente quase fechados &#8211; as classes, as categorias sociais.<br \/>\n    Um sapateiro da Idade M&eacute;dia estava muito mais longe de um magistrado,<br \/>\n    na mesma cidade, do que hoje um fazendeiro de Mato Grosso se acha de um professor<br \/>\n    de Heidelberg.<\/p>\n<p> As modas, outrora, levavam muito mais tempo a ir de Paris &agrave; prov&iacute;ncia,<br \/>\n    do que, hoje, de Nova York ao Extremo Oriente. Demais, propagavam-se em linha<br \/>\n    horizontal &#8211; dentro de certas classes; hoje propagam-se tanto no sentido horizontal<br \/>\n    como no vertical &#8211; entre as gentes colocadas em posi&ccedil;&atilde;o semelhante<br \/>\n    e entre as que ocupam qualquer outra posi&ccedil;&atilde;o na escada ascendente<br \/>\n    ou descendente.<\/p>\n<p> O cont&aacute;gio, hoje, envolve tudo. Tudo pode transformar-se repentinamente<br \/>\n    em mania coletiva.<\/p>\n<p> Outrora, havia epidemias de misticismo, de guerra ou de suic&iacute;dio<br \/>\n    limitadas a certas regi&otilde;es.<\/p>\n<p> Hoje, toda a vida universal tende a ser uma sucess&atilde;o de epidemias.<br \/>\n    H&aacute; epidemias universais de dan&ccedil;a, epidemias esportivas, epidemias<br \/>\n    de jogo, epidemias pol&iacute;ticas, epidemias art&iacute;sticas, liter&aacute;rias,<br \/>\n    epidemias econ&ocirc;micas, epidemias filantr&oacute;picas.<\/p>\n<p> Se algum dia houve a ilus&atilde;o do que os homens fossem capazes de se<br \/>\n    deixar guiar pela raz&atilde;o, hoje o mundo inteiro &eacute; um s&oacute;<br \/>\n    vasto campo de experi&ecirc;ncia a provar todos os dias, que os homens agem<br \/>\n    sistematicamente &agrave; revelia da raz&atilde;o &#8211; o que n&atilde;o quer<br \/>\n    dizer que uma vez por outra, n&atilde;o possam encontrar-se com ela, por acaso.<br \/>\n    Quanto mais se civilizam, mais imitam e copiam. Quanto mais prezam a individualidade<br \/>\n    mais a perdem. Quanto mais amam o novo e o original, mais feitos &quot;em<br \/>\n    s&eacute;rie&quot; parecem.<\/p>\n<p> Os motivos de a&ccedil;&atilde;o v&atilde;o-se tornando, cada vez mais,<br \/>\n    efeitos de sugest&atilde;o coletiva.<\/p>\n<p> Os Estados Unidos, que se diriam a terra por excel&ecirc;ncia do individualismo<br \/>\n    violento, s&atilde;o na verdade a terra por excel&ecirc;ncia da socializa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    absorvente. O que d&aacute; a apar&ecirc;ncia da liberdade &eacute; a franqueza<br \/>\n    exterior dos movimentos. Pura apar&ecirc;ncia. N&atilde;o h&aacute; nada que<br \/>\n    pare&ccedil;a t&atilde;o &quot;livre&quot; como as pe&ccedil;as ativas de<br \/>\n    um tear moderno, a trabalharem silenciosamente, como por si, como uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de alacridade serena e de inabal&aacute;vel consci&ecirc;ncia do dever.<\/p>\n<p> Na realidade, o homem por l&aacute; n&atilde;o tem a m&iacute;nima liberdade,<br \/>\n    no sentido cl&aacute;ssico, est&oacute;ico, de liberdade interior, fundamental,<br \/>\n    soberana; inviol&aacute;vel &#8211; aquela que Emerson por l&aacute; mesmo exaltava.<br \/>\n    &Eacute; sempre homem de um partido, de uma igreja de um clube, de uma corrente,<br \/>\n    &#8211; um dos caracteres de que se comp&otilde;em as palavras de um pensamento<br \/>\n    coletivo, para ele proveitoso mas indecifr&aacute;vel.<\/p>\n<p> Formid&aacute;veis, naquela terra, o volume e a rapidez dos movimentos de<br \/>\n    opini&atilde;o ou sensibilidade, isto &eacute;, de cont&aacute;gio mental.<br \/>\n    S&atilde;o turbilh&otilde;es que passam levantando fiumanas de almas como<br \/>\n    folhas secas. Estes movimentos tanto podem dar-se a prop&oacute;sito de bebidas,<br \/>\n    como de um match de box; de uma elei&ccedil;&atilde;o, como de uma nova dan&ccedil;a<br \/>\n    de negros; de um esc&acirc;ndalo teatral como de uma doutrina religiosa Enfim,<br \/>\n    o indiv&iacute;duo vai sendo empastado na comunidade e arrastado nas convuls&otilde;es<br \/>\n    obscuras das for&ccedil;as elementares que a percorrem e remexem.<\/p>\n<p> Este o pendor contempor&acirc;neo da civiliza&ccedil;&atilde;o. Este o seu<br \/>\n    perigo mais t&eacute;trico. Ela tende cada vez mais a absorver as personalidades,<br \/>\n    como um organismo em jejum for&ccedil;ado tende a alimentar-se &agrave;s suas<br \/>\n    pr&oacute;prias expensas, esgotando os seus elementos vitais, esgotando-se&#8230;<\/p>\n<p> Chegado a este ponto, Eul&aacute;lio interrompeu-se por que me achou distra&iacute;do.<br \/>\n    Na verdade, a minha aparente distra&ccedil;&atilde;o estava apenas em que<br \/>\n    eu lhe bebia as palavras, e as memorizava.<\/p>\n<p> Mas ele tinha a sua raz&atilde;o de me estranhar o sil&ecirc;ncio e a imobilidade;<br \/>\n    porque a boa educa&ccedil;&atilde;o manda que, nas conversas, se d&ecirc;em<br \/>\n    todas as aten&ccedil;&otilde;es &agrave; pessoa que fala, e nenhuma ao que<br \/>\n    ela fala.<\/p>\n<p> PASSEIO DOMINICAL Hoje, domingo, quando cheguei ao meu posto de espera,<br \/>\n    por volta de meio-dia, l&aacute; estava, em fila, uma fam&iacute;lia pobre.<\/p>\n<p> Era vis&iacute;vel que tinham destinado o dia para passeio e que esse passeio<br \/>\n    era para eles um acontecimento. Respiravam timidamente a frescura das impress&otilde;es<br \/>\n    novas.<\/p>\n<p> O chefe, homem de meia-idade, ia frouxamente embrulhado num terno de brim<br \/>\n    pardo reluzente do ferro de engomar e onde mal se dissimulava uma carta topogr&aacute;fica<br \/>\n    de remendos e serziduras. O chap&eacute;u mole, pu&iacute;do e bambo tinha<br \/>\n    sido cuidadosamente armado sobre os cabelos crescidos, repuxados a pente para<br \/>\n    tr&aacute;s das orelhas, onde formavam carac&oacute;is. A camisa era limpa,<br \/>\n    e um sorriso satisfeito, que se diria igualmente lavado com sab&atilde;o de<br \/>\n    cinza, ao jorro da torneira sobre a tina, se lhe abria na cara tostada, como<br \/>\n    uma toalha a corar ao sol.<\/p>\n<p> Pois filhos buli&ccedil;osos, entre os seis e os dez anos, enfarpelados<br \/>\n    &agrave; marinheira, com grandes colarinhos deitados, por cuja abertura se<br \/>\n    estripavam altos la&ccedil;arotes de fita escocesa. Tinham chap&eacute;us<br \/>\n    de palha amarela com cintas atuis, nos quais se liam nomes de navios de guerra:<br \/>\n    &quot;Aquidab&aacute;&quot;, &quot;Timbira&quot;, em letras douradas. Traziam<br \/>\n    bengalinhas, demasiado compridas e pareciam mais atrapalhar-se do que divertir-se<br \/>\n    com esse luxo desacostumado.<\/p>\n<p> A m&atilde;e, maci&ccedil;a no seu largo vestido de l&atilde;zinha cor chocolate,<br \/>\n    os cabelos repartidos em duas asas negras e lisas, apanhados numa rodilha<br \/>\n    farta sobre a nuca morena. Estava alegre como os outros, mas de uma alegria<br \/>\n    meio assustada, &#8211; talvez acanhamento do vestido novo, dos sapatos novos, do<br \/>\n    penteado que lhe repuxava a pele da testa.<\/p>\n<p> Quando o bonde chegou, os pequenos treparam desajeitadamente, agarrando-se<br \/>\n    ao carro com as m&atilde;os ambas e foram colocar-se nas extremidades fronteiras<br \/>\n    dos dois primeiros bancos, a garantir os postos de observa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A m&atilde;e entrou com eles, arrastando um pela blusa, empurrando outro<br \/>\n    pelo traseiro e sentou-se ao p&eacute; dos dois, ralhando em voz baixa, como<br \/>\n    se estivessem num lugar de respeito.<\/p>\n<p> O pai mais senhor de si, aboletou-se a pouca dist&acirc;ncia, inspecionando<br \/>\n    tudo com um semblante meio severo meio condescendente.<\/p>\n<p> Depois, todos entraram a rir e palrar. Todos se viravam para um e outro<br \/>\n    lado, a olhar os pr&eacute;dios, as perspectivas das ruas, as massas retangulares<br \/>\n    dos edif&iacute;cios alteados ao longe, os autom&oacute;veis que passavam.<br \/>\n    Divertiu-os muito um caminh&atilde;o cheio de futebolistas seminus e gritadores.<br \/>\n    Tamb&eacute;m acharam bastante gra&ccedil;a num velho de barbas b&iacute;blicas,<br \/>\n    que trazia na m&atilde;o uma esp&eacute;cie de &aacute;rvore, de folhagem<br \/>\n    toda florida de papaventos vermelhos, amarelos e azuis. E os papaventos giravam<br \/>\n    e zumbiam como um enxame assanhado.<\/p>\n<p> O estridor das rodas do bonde nas curvas mal engraxadas foi ponto de partida<br \/>\n    de uma rivalidade entre os dois pequenos, cada qual mais empenhado em imit&aacute;-lo<br \/>\n    com a boca. A m&atilde;e ria-se, tapando os dentes com a m&atilde;o, relanceando<br \/>\n    os olhos desconfiados pela circunvizinhan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Quando o condutor marcava as passagens, os peque-nos queriam saber como<br \/>\n    era aquilo, porque era, e o pai dava-lhes explica&ccedil;&otilde;es fantasiosas<br \/>\n    que eram ocasi&atilde;o de teimas e risos.<\/p>\n<p> Enfim, como aquela fam&iacute;lia se divertia! Ao chegarmos &agrave; cidade,<br \/>\n    saltaram para ir ver as vitrinas e, de certo, para ir a algum botequim tomar<br \/>\n    caf&eacute;-com-leite e comer cavacas e p&atilde;es-de-l&oacute; &#8211; um festim<br \/>\n    delicioso.<\/p>\n<p> Respiravam tranq&uuml;ilidade e alegria. A alma boiava-lhes numa descuidosa<br \/>\n    satisfa&ccedil;&atilde;o de filhos amados da felicidade e do candor.<\/p>\n<p> Passear de bonde, andar pela cidade, ver a gente, ver as vitrinas, tomar<br \/>\n    caf&eacute;-com-leite num botequim grande, cheio de espelhos, em ch&aacute;venas<br \/>\n    de lou&ccedil;a brilhante, &#8211; que recreio, que consolo, que temeridade jovial<br \/>\n    e dissipadora! Nunca tenho inveja a ningu&eacute;m, e aos felizes da felicidade<br \/>\n    exterior, ainda menos que a ningu&eacute;m.<\/p>\n<p> Mas diante dessa fam&iacute;lia, tive uma esp&eacute;cie de inveja.<\/p>\n<p> Pobre alma escalavrada e enfastiada, para quem tudo quanto divertia aquela<br \/>\n    gente era vago e distante como tudo quanto &eacute; muito pr&oacute;ximo e<br \/>\n    muito visto, senti em certo momento uma impress&atilde;o angustiosa &#8211; a impress&atilde;o<br \/>\n    que teria algu&eacute;m, de repente, apalpando-se, de que metade si mesmo<br \/>\n    j&aacute; era coisa morta.<\/p>\n<p> RUFINA Encontrei no bonde um homem parecido com o Coronel Ferr&atilde;o,<br \/>\n    o ex-protetor de Rufina- Augusta. Esta surgiu imediatamente ao seu lado, acomodando<br \/>\n    os vestidos, sorrindo e lan&ccedil;ando sobre mim aquele seu olhar magn&eacute;tico<br \/>\n    atrav&eacute;s daqueles c&iacute;lios de treva, com uma &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<br \/>\n    dolcezza che intender non la pu&ograve; chi non la prova.<\/p>\n<p> Claro que era uma apari&ccedil;&atilde;o imagin&aacute;ria. Mas n&atilde;o<br \/>\n    me impedia que ficasse olhando para o lugar onde colocara a mo&ccedil;a e<br \/>\n    lhe dirigisse a esta um longo e confuso improviso.<\/p>\n<p> &quot;Quem &eacute;s tu? De onde vens? Que fazes? Como vives?&#8230; &#8211; Na verdade,<br \/>\n    nada disso me interessa muito. Afinal de contas, nada tenho contigo.&quot;<br \/>\n    &quot;O que me interessou desde logo em ti foi apenas a tua figura. Apareceu-me<br \/>\n    de repente, no meio da vulgaridade fosca das coisas, como uma obra-de-arte<br \/>\n    perdida num subterr&acirc;neo na qual batesse de repente o jorro de uma lanterna<br \/>\n    furta-fogo.&quot; &quot;Era-me t&atilde;o indiferente saber quem fosse a pessoa<br \/>\n    que havia dentro dessa figura, ou mesmo se havia uma pessoa, como seria indiferente,<br \/>\n    diante da gra&ccedil;a de uma vela branca no mar azul, saber de onde vinha,<br \/>\n    para onde ia, se levava a bordo uma princesa errante ou um ogre sinistro.<\/p>\n<p> Contudo, n&atilde;o me esqueci mais de ti.<\/p>\n<p> Tu me entraste na alma como um farrapo que a ventania atira por uma porta<br \/>\n    descuidosamente aberta.<\/p>\n<p> A porta de minha alma profunda estava aberta naquela hora. E eu fiz como<br \/>\n    a mulher pobre que, tendo achado em sua casa um farrapo de escumilha brilhante,<br \/>\n    trazido pelo vento, n&atilde;o tivesse &acirc;nimo de o varrer com o cisco,<br \/>\n    o levantasse e o prendesse &agrave; parede, entre um caco de espelho e um<br \/>\n    cromo descorado.<\/p>\n<p> &Eacute;s talvez um epis&oacute;dio horosc&oacute;pico da minha vida, posto<br \/>\n    de reserva pelo Destino para ser lan&ccedil;ado, certo dia na desfilada heter&oacute;clita<br \/>\n    dos casos da minha biografiazinha. privada.<\/p>\n<p> Como que havia em mim um lugar vago &agrave; tua espera. Vieste, ca&iacute;ste<br \/>\n    no lugar justo, e a&iacute; est&aacute;s, fixa e luminosa como uma pedra fina<br \/>\n    que, por maravilha do acaso, saltando, perdida, viesse cair justamente no<br \/>\n    engaste vazio de um velho anel.<\/p>\n<p> Devias fatalmente aparecer-me em determinada hora, como aparece a forma<br \/>\n    exata e exteriorizada de um pensamento flutuante, longamente entrevisto, longamente<br \/>\n    resolvido no esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Eras um motivo que faltava ao magro concerto da minha vida consciente e<br \/>\n    que a&iacute; havia de surgir, deliciosa serpe mel&oacute;dica a ondular e<br \/>\n    faiscar num relvado de ritmos obtusos.<\/p>\n<p> A m&uacute;sica interior tem hoje uma dol&ecirc;ncia menos remota, um gemido<br \/>\n    menos vago, uma &acirc;nsia interrogativa mais profunda, uma ang&uacute;stia<br \/>\n    menos a&eacute;rea e mais humana.<\/p>\n<p> Por que me apareceste? Por que me agradaste? Por que n&atilde;o te pude<br \/>\n    falar? Por que me foges sem o querer, e por que te evito, procurando-te? E<br \/>\n    por que vim a conhecer da tua vida, &oacute; coisa graciosa e fugente, apenas<br \/>\n    o aspecto sombrio e grosseiro? Por que n&atilde;o me reapareces, para me confiar<br \/>\n    a tua hist&oacute;ria risonha e dolorosa, a celeste e bestial realidade do<br \/>\n    teu destino, a lama e a chama da tua alma, &oacute; gentil, &oacute; brilhante,<br \/>\n    &oacute; miser&aacute;vel borboleta do brejo? Mas a tua vida n&atilde;o me<br \/>\n    interessa, na verdade. Que &eacute; que eu tenho contigo, que &eacute; que<br \/>\n    tens tu comigo? Vimo-nos duas vezes. Ser&aacute; uma raz&atilde;o para que<br \/>\n    te deva agora ver sempre? Tanta coisa bela e passageira como tu, bela passageira<br \/>\n    de bonde, tem encantado os meus olhos por uma vez necessariamente &uacute;nica<br \/>\n    &#8211; uma nuvem, um p&aacute;ssaro, uma hora de sol, um certo sorriso da felicidade<br \/>\n    que se perdeu por ser achado!&quot; Tudo isto era dito com os meus bot&otilde;es.<br \/>\n    Mas, de repente, o homem que se parecia com o coronel me encarou formalizado:<br \/>\n    &#8211; &quot;O senhor est&aacute; estranhando alguma coisa na minha pessoa?&quot;<br \/>\n    Olhei para o homem que se parecia com o coronel e respondi, sem saber ao certo<br \/>\n    o que dizia: &#8211; &quot;Desculpe-me, senhor, tenha a bondade de me desculpar.<br \/>\n    Eu n&atilde;o o conhe&ccedil;o, nem conhe&ccedil;o ningu&eacute;m que se lhe<br \/>\n    assemelhe, mas estava vendo se o senhor n&atilde;o seria uma outra pessoa.&quot;<br \/>\n    O homem deu-se por satisfeito com a explica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> CAMEL&Ocirc; Viajei ontem ao lado de um camel&ocirc;, ou seja aquilo que<br \/>\n    outrora se chamava um bufarinheiro ou charlat&atilde;o. Hoje, esta &uacute;ltima<br \/>\n    palavra designa categorias mais ilustres de artistas da patranha; era preciso<br \/>\n    um voc&aacute;bulo novo, que evitasse confus&otilde;es; a lei de reparti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de Br&eacute;al.<\/p>\n<p> Pus-me a observar os gestos e as express&otilde;es do meu companheiro de<br \/>\n    viagem, como outros examinam, fascinados, os homens eminentes em certos ramos<br \/>\n    cl&aacute;ssicos de atividade ou de inatividade superior.<\/p>\n<p> Modesto e simples n&atilde;o parecia sequer sonhar que pudesse merecer a<br \/>\n    curiosidade e admira&ccedil;&atilde;o de um seu semelhante (ali&aacute;s muito<br \/>\n    diverso, no meu caso). Por vezes, at&eacute; se esquecia de si, e ficava para<br \/>\n    ali murcho, com esse ar aparvalhado e desarmado que s&oacute; costumam ter,<br \/>\n    em p&uacute;blico, bem familiarizadas com a id&eacute;ia da sua nenhuma import&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Ia muito sumido no seu canto, fumando maquinalmente um cigarro meio apagado.<br \/>\n    Talvez premido por dentro, como por um parafuso, por alguma preocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de fam&iacute;lia, ou de dinheiro, ou de sa&uacute;de.<\/p>\n<p> A certo momento, saltou, enfiou as m&atilde;os nos bolsos das cal&ccedil;as<br \/>\n    &#8211; uma aragem &aacute;spera come&ccedil;ara a dar tremuras de sez&otilde;es<br \/>\n    &agrave;s &aacute;rvores da rua &#8211; baixou a cabe&ccedil;a e entrou apressadamente<br \/>\n    por uma viela, deserta e feia como um p&aacute;tio de corti&ccedil;o em dia<br \/>\n    de chuva.<\/p>\n<p> O camel&ocirc;, misto de artista, de orador, de pelotiqueiro e de meneur.<br \/>\n    A multid&atilde;o, sempre bestial, despreza-o. E ele &eacute; que realmente<br \/>\n    sabe desprezar a multid&atilde;o, porque a domina, a maneja, a desfruta, e<br \/>\n    para tanto tem de a enfrentar, cada dia, como um domador de olho vivo e de<br \/>\n    decis&otilde;es fulm&iacute;neas.<\/p>\n<p> Este exerc&iacute;cio requer mais intelig&ecirc;ncia, mais sangue-frio e<br \/>\n    mais intrepidez do que aqueles que s&atilde;o consumidos por toda a roda de<br \/>\n    basbaques que se divertem com esse retalhista do hero&iacute;smo.<\/p>\n<p> O camel&ocirc; n&atilde;o &eacute; negociante; &eacute; um homem que negocia<br \/>\n    por acidente. A venda de coisas &eacute; mero pretexto, no fundo, ou mero<br \/>\n    ponto de apoio exterior, de que a sua complexa personalidade necessita para<br \/>\n    funcionar. Difere do comerciante normal em aspectos essenciais, e a vantagem<br \/>\n    est&eacute;tica &eacute; toda sua: faz do com&eacute;rcio um simples ganha-p&atilde;o,<br \/>\n    e n&atilde;o um sistema de vida; &eacute; senhor absoluto da sua atividade<br \/>\n    e n&atilde;o escravo de uma atividade coletiva que o supere e o inclua como<br \/>\n    uma pe&ccedil;a; n&atilde;o tira do com&eacute;rcio nenhuma import&acirc;ncia<br \/>\n    pessoal, mas, ao contr&aacute;rio, ele &eacute; que condescende em dar ao<br \/>\n    com&eacute;rcio umas sobras da sua rica provis&atilde;o de coragem, de inventiva,<br \/>\n    de fac&uacute;ndia, de dons capciosos e sedutores, e em sacrificar-lhe um<br \/>\n    pouco do seu nobre instinto de independ&ecirc;ncia e de travessura.<\/p>\n<p> O camel&ocirc; tem consigo uma dose de for&ccedil;a intr&iacute;nseca ou<br \/>\n    um gr&atilde;o de bravura que falece aos da imensa turba do encostamento m&uacute;tuo.<\/p>\n<p> Estes procuram e arranjam a sua casa no plano das atividades normais e respeit&aacute;veis,<br \/>\n    e gozam, com um m&iacute;nimo de originalidade e energia pr&oacute;pria, ou<br \/>\n    mesmo sem nenhuma energia nem sombra de originalidade, os benef&iacute;cios<br \/>\n    mais ou menos previstos e mais ou menos autom&aacute;ticos da organiza&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Aquele, por&eacute;m, na sua pequeneza e na sua mod&eacute;stia, cada dia<br \/>\n    sai de casa para o mundo como pela primeira vez. Sai completamente s&oacute;,<br \/>\n    quase inerme sem a armadura dos mais, sem os guarda-costas dos mais, sem boas<br \/>\n    e fortes armas de combate, &#8211; s&oacute;, quase nu, com uma funda na m&atilde;o,<br \/>\n    como o pastorzinho Davi quando partiu em busca do membrudo Golias.<\/p>\n<p> Sai escoteiro e ignorado, sem rumor de ferros, sem estropear de cavalos,<br \/>\n    sem alalis de trompa, sem atitudes nem gestos, &agrave; ca&ccedil;a de vagas<br \/>\n    migalhas de um tesouro poss&iacute;vel, escondido sob a guarda de um bicho-manjal&eacute;u<br \/>\n    com milhares de cabe&ccedil;as.<\/p>\n<p> Isto &eacute; quase a reprodu&ccedil;&atilde;o, a&iacute; na rua, entre<br \/>\n    gentes fr&iacute;volas e sensatas sob os olhos frios dos passantes colocados<br \/>\n    e tranq&uuml;ilos, das fa&ccedil;anhas ilustres do &aacute;gil e gracioso<br \/>\n    Sigurd quando venceu os an&otilde;es e prostou o drag&atilde;o F&uacute;fnir.<\/p>\n<p> N&oacute;s vivemos na plena teia dos mitos e das lendas, e n&atilde;o damos<br \/>\n    por isso. Perdemos o sentido po&eacute;tico das situa&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>UM GRANDE EGO&Iacute;STA O meu amigo Her&aacute;clides, de ordin&aacute;rio<br \/>\n    benevolente, ia ontem azedo, no bonde. Observava exemplos de aspereza e grosseria<br \/>\n    de maneiras, aos quais via um sinal mete&oacute;rico de barbariza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    uma prova da decad&ecirc;ncia do senso de humanidade, que outrora a religi&atilde;o<br \/>\n    alumiava ainda nos mais incultos.<\/p>\n<p> Her&aacute;clides apontou-me, sucessivamente, um passageiro que deixara<br \/>\n    de ceder lugar a uma senhora, apesar dos olhos compridos que ela deitava para<br \/>\n    o seu lado; um menor que se desarticulava no banco, como uma letra g&oacute;tica,<br \/>\n    e soltava grossas baforadas de fumo na cara dos vizinhos; um cidad&atilde;o<br \/>\n    bem trajado que disse dois desaforos ferinos ao condutor porque este se atrapalhara<br \/>\n    numa quest&atilde;o de troco, e um homem gordo, escarrapachado como uma foca,<br \/>\n    as perninhas roli&ccedil;as largamente jogadas para os lados, a direita a<br \/>\n    premir uma pobre mo&ccedil;a, a esquerda, a bater no joelho de um velho magro,<br \/>\n    que fazia horr&iacute;veis esfor&ccedil;os por ocupar apenas a metade do espa&ccedil;o<br \/>\n    a que tinha direito e que lhe era necess&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Veja, Trancoso, veja: todo esse pessoal tem, no fundo da alma, um<br \/>\n    desprezo absoluto pelo bicho homem, uma indisposi&ccedil;&atilde;o latente<br \/>\n    e injuriosa contra o g&ecirc;nero humano em massa.&quot; &#8211; &quot;Her&aacute;clides,<br \/>\n    estas pequenas coisas n&atilde;o t&ecirc;m a import&acirc;ncia que voc&ecirc;<br \/>\n    lhes quer dar.&quot; &#8211; &quot;N&atilde;o t&ecirc;m import&acirc;ncia? Ent&atilde;o<br \/>\n    voc&ecirc; acha que nada significa, nada, aquilo que aflora &agrave; periferia<br \/>\n    das personalidades, normalmente, ordinariamente, como o efeito imediato e<br \/>\n    espont&acirc;neo de uma fermenta&ccedil;&atilde;o? Ent&atilde;o, se essa gente<br \/>\n    que ai vai tivesse outro fundo, esse fundo estaria a borbulhar c&aacute; fora<br \/>\n    dessa maneira? Deite dois dedos de a&ccedil;&uacute;car puro num copo, encha<br \/>\n    o copo de &aacute;gua; que &eacute; que vem &agrave; superf&iacute;cie? gases<br \/>\n    sulf&uacute;ricos? fragmentos microsc&oacute;picos de potassa? tra&ccedil;os<br \/>\n    de &aacute;cido pr&uacute;ssico? bavas de sal de azedas?&quot; Curvei a cabe&ccedil;a,<br \/>\n    como quem cedia por ceder, para n&atilde;o discutir. Mas, no fundo, cedia<br \/>\n    completamente. Entretanto, n&atilde;o conv&eacute;m encorajar nos outros essas<br \/>\n    inclina&ccedil;&otilde;es &agrave; clarivid&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Nada t&atilde;o in&uacute;til nem t&atilde;o delet&eacute;rio como enxergar<br \/>\n    demais.<\/p>\n<p> Her&aacute;clides calou-se, com os olhos perdidos no filme que se desenrolava<br \/>\n    por fora do bonde.<\/p>\n<p> Depois de uns minutos de sil&ecirc;ncio, disse-me: &#8211; &quot; Quero-lhe fazer<br \/>\n    um convite. Voc&ecirc; n&atilde;o gostaria de entrar para o Clube dos Ego&iacute;stas?&quot;<br \/>\n    &#8211; E antes que eu pedisse explica&ccedil;&atilde;o: &quot;O Clube dos Ego&iacute;stas,<br \/>\n    um grupo que fundamos, eu o Gabriel, o Tomasinho, o Tinoco, ali no fundo do<br \/>\n    bar Kauffman. Reunimo-nos todas as noites para conversar, ou para n&atilde;o<br \/>\n    conversar, apenas para beber o nosso chope. S&oacute; se exigem duas condi&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    cada um paga a sua despesa, e deve ser um indiv&iacute;duo sem esp&eacute;cie<br \/>\n    alguma de generosidade.&quot; &#8211; &quot;Que extravag&acirc;ncia? Ent&atilde;o<br \/>\n    pode entrar toda a gente.&quot; &quot;Est&aacute; enganado, redondissimamente<br \/>\n    enganado. Pois n&atilde;o v&ecirc; que este mundo anda cheio de indiv&iacute;duos<br \/>\n    que se sacrificam pelo pr&oacute;ximo? pelo bem da P&aacute;tria? prosperidade<br \/>\n    da lavoura? pela educa&ccedil;&atilde;o nacional? Pelo futuro da ind&uacute;stria<br \/>\n    petrol&iacute;fera ? pela religi&atilde;o? pela fam&iacute;lia? pela humanidade?<br \/>\n    N&atilde;o v&ecirc; como pululam, como se embatem, como fervem as manifesta&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de caridade, as obras pias, os organismos de previd&ecirc;ncia e aux&iacute;lio<br \/>\n    m&uacute;tuo, as campanhas contra a doen&ccedil;a, a ignor&acirc;ncia e o<br \/>\n    v&iacute;cio? N&atilde;o percebe como h&aacute; uma infinidade de pessoas<br \/>\n    feramente devotadas a todas as nobres causas? Pois, bem. N&oacute;s n&atilde;o<br \/>\n    nos preocupamos com essas causas: s&oacute; nos preocupamos conosco mesmos.<br \/>\n    S&oacute;. Absolutamente s&oacute;. Ent&atilde;o, sucede que a nossa prosa,<br \/>\n    l&aacute; no bar, &agrave; noite, &eacute; deliciosa.<\/p>\n<p> Cada um de n&oacute;s &eacute; um po&ccedil;o de desencanto. Mas esse desencanto<br \/>\n    &eacute; um encanto. Tocamos com o dedo todas as mis&eacute;rias da hipocrisia<br \/>\n    e da mistifica&ccedil;&atilde;o. Intensificamos danadamente, com a nossa vida<br \/>\n    interior, a acuidade nevr&aacute;lgica da nossa vis&atilde;o dos homens e<br \/>\n    dos acontecimentos.<\/p>\n<p> Despojamo-nos de tudo que &eacute; vestimenta de id&eacute;ias feitas, de<br \/>\n    preconceitos recebidos, de concep&ccedil;&otilde;es correntes, de inclina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    bem vistas. Somos homens diante de homens; homens, s&oacute; homens, simplesmente,<br \/>\n    tristemente, heroicamente homens.&quot; &#8211; &quot;Mas que &eacute; que tem isso<br \/>\n    com o caso de que v&iacute;nhamos tratando?&quot; &#8211; &quot;Tem tudo. Tudo.<br \/>\n    Essa gente toda que voc&ecirc; a&iacute; v&ecirc; &eacute; gente que se desumaniza.<br \/>\n    &Eacute; gente que n&atilde;o sabe ser ego&iacute;sta. S&atilde;o anjos. Toda<br \/>\n    ela se move por puros ideais, por santas id&eacute;ias, por altos princ&iacute;pios,<br \/>\n    por des&iacute;gnios her&oacute;icos: batem-se, agitam-se, odeiam-se, caluniam-se,<br \/>\n    esgadanhamse por amor &agrave; fam&iacute;lia, por amor &agrave; p&aacute;tria,<br \/>\n    por amor &agrave; ordem, por amor ao direito, por amor &agrave; cultura, por<br \/>\n    amor &agrave;s letras, por amor &agrave; civiliza&ccedil;&atilde;o e por amor<br \/>\n    ao pr&oacute;ximo.<\/p>\n<p> Por isso mesmo, n&oacute;s mesmos os ego&iacute;stas. Metidos conosco: nem<br \/>\n    filantropos, nem patriotas, nem her&oacute;is da fam&iacute;lia, nem paladinos<br \/>\n    de coisa alguma. Homens. Apenas homens. Lucidamente, miseravelmente e deliciosamente<br \/>\n    homens &#8211; livres e naturais como os peixes do fundo do mar.<\/p>\n<p> Eu creio que a humanidade, hoje, n&atilde;o tinha nada melhor para fazer<br \/>\n    do que praticar e santificar o ego&iacute;smo &#8211; Voc&ecirc; quer entrar para<br \/>\n    a tropa?&quot; &#8211; &quot;Quem sabe! Depende.&quot; Her&aacute;clides sorria,<br \/>\n    como a dizer: &quot;Este ainda n&atilde;o est&aacute; preparado&quot;, e de<br \/>\n    novo mergulhou no sil&ecirc;ncio, fumando profundamente um cigarro de palha.<br \/>\n    E depois, meio assim como se falasse consigo mesmo: &#8211; &quot;O curioso &eacute;<br \/>\n    que este nosso ego&iacute;smo, pelo que vejo, acaba mal.&quot; &#8211; &quot;Por<br \/>\n    que?&quot; &#8211; &quot;Porque tende, naturalmente, muito naturalmente, a transformar-se<br \/>\n    na coisa mais s&eacute;ria neste mundo: em religi&atilde;o.<\/p>\n<p> As almas descascadas ficam todas t&atilde;o semelhantes! &Agrave; atitude<br \/>\n    que elas assumem diante da infinita mis&eacute;ria da condi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    humana &eacute; t&atilde;o inevitavelmente uma s&oacute;, de raiz! Uma sede<br \/>\n    &uacute;nica de verdade e sinceridade se apodera das gargantas. E um sentimento<br \/>\n    entranhando de fraternidade acaba brotando por si mesmo, como o grelo das<br \/>\n    batatas.<\/p>\n<p> N&oacute;s, insensivelmente, j&aacute; nos vamos querendo tanto bem uns<br \/>\n    aos outros que precisamos de fazer tremendos esfor&ccedil;os para n&atilde;o<br \/>\n    resvalar na sinistra com&eacute;dia mundana da amizade e de galantaria! Porque<br \/>\n    n&oacute;s, l&aacute;, n&atilde;o pretendemos ser sen&atilde;o irm&atilde;os.&quot;<br \/>\n    UM HOMEM PERFEITO O Sr. Jo&atilde;o Ces&aacute;rio da Costa &eacute; um homem<br \/>\n    s&oacute;lido, solidamente refestelado na vida Tem rendas sofr&iacute;veis,<br \/>\n    uma bela casa, uma sa&uacute;de de ferro, um genro colocado na pol&iiacute;tica.<br \/>\n    Suas ambi&ccedil;&otilde;es nada t&ecirc;m de temer&aacute;rias nem de atormentadas:<br \/>\n    s&atilde;o pl&aacute;cidas; limitam-se, evidentemente, a poupar trabalhos<br \/>\n    e amofina&ccedil;&otilde;es, a garantir e a entreter a aurea mediocritas ou<br \/>\n    o otium cum dignitate em que o Sr. Ces&aacute;rio vive desde mocinho.<\/p>\n<p> Conversar com o Sr. Ces&aacute;rio &eacute; um exerc&iacute;cio que reconforta<br \/>\n    e tonifica. A uma aus&ecirc;ncia absoluta de inquieta&ccedil;&otilde;es pensantes,<br \/>\n    re&uacute;ne um otimismo tranq&uuml;ilo. Quando alguma opini&atilde;o, alguma<br \/>\n    frase, algum ato equivoco ou complicado cai no dom&iacute;nio de sua percep&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    faz um gesto de quem lhe sentisse o mau cheiro, e afasta-o de si, num pudico<br \/>\n    movimento que n&atilde;o admite r&eacute;plica.<\/p>\n<p> &Eacute; poss&iacute;vel confabular com ele meia hora, uma hora, sem lhe<br \/>\n    ouvir outra cousa que considera&ccedil;&otilde;es sobre o bom e o mau tempo,<br \/>\n    sobre a superioridade da roupa preta em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; de<br \/>\n    cor, sobre a melhor maneira de preparar um molho de tomates, ou sobre as inconveni&ecirc;ncias<br \/>\n    de se viajar no estribo do bonde. Fala correntemente, com certa gra&ccedil;a<br \/>\n    natural, acentuando, recortando, remexendo, saboreando com vol&uacute;pia<br \/>\n    os &iacute;nfimos pormenores, como quem chupa os ossinhos de um frango assado.<\/p>\n<p> O Sr. Jo&atilde;o Ces&aacute;rio faz-me, &agrave;s vezes, o efeito de uma<br \/>\n    boa cadeira de balan&ccedil;o. Quando me sinto fatigado dos meus infind&aacute;veis<br \/>\n    solil&oacute;quios, que nada concluem, entreter um quarto de hora de conversa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    com este homem &eacute; o mesmo que trocar um cavalo aragano por uma cadeira<br \/>\n    fofa e embaladora. N&atilde;o h&aacute; sen&atilde;o o trabalho de fazer a<br \/>\n    cadeira balan&ccedil;ar.<\/p>\n<p> Tive ontem esse prazer. O Sr. Jo&atilde;o Ces&aacute;rio cumprimentou-me<br \/>\n    com a sua habitual bonomia temperada de autoridade: &#8211; &quot;Como vai o bom<br \/>\n    amigo?&quot; &#8211; &quot;Bem, obrigado&quot;.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Bem mesmo?&quot; &#8211; &quot;Assim, assim&#8230;&quot; &#8211; &quot;Por que?&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Nada. Vou bem.&quot; &#8211; &quot;E a fam&iacute;lia?&quot; &#8211; &quot;Bem.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Sua irm&atilde;?&quot; &#8211; &quot;Agora bem.&quot; &#8211; &quot;Ah! Esteve<br \/>\n    doente?&quot; &#8211; &quot;Coisa ligeira.&quot; &#8211; &quot;Constipa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    de certo.&quot; &#8211; &quot;Justamente.&quot; &#8211; &quot;O tempo &eacute; disso.<br \/>\n    Tudo por a&iacute; anda cheio de gripados. Em casa, todos mais ou menos perrengues.&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Que ma&ccedil;ada!&quot; &#8211; &quot;Mas n&atilde;o h&aacute; nenhum caso<br \/>\n    s&eacute;rio. Creio que o mais doente ainda sou eu.&quot; &#8211; &quot;N&atilde;o<br \/>\n    parece.&quot; &#8211; &quot;As apar&ecirc;ncias. Tenho uma dorzinha de cabe&ccedil;a<br \/>\n    que n&atilde;o para, aqui, entre a fonte e a nunca, passando por cima da orelha,<br \/>\n    &#8211; v&ecirc; neste ponto. Mas o pior &eacute; que o intestino anda funcionando<br \/>\n    meio &agrave; matroca, &#8211; de tudo, uma sensa&ccedil;&atilde;o de cansa&ccedil;o<br \/>\n    pelo corpo todo, essa sensa&ccedil;&atilde;ozinha amolante e gostosa de um<br \/>\n    corpo que est&aacute; pedindo cama &#8211; ou rede, que &eacute; melhor&#8230; ah! ah!&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;E o senhor sai, apesar de tudo?&quot; &#8211; &quot;Ah! N&atilde;o posso<br \/>\n    ficar preso &#8211; &eacute; in&uacute;til! &#8211; sen&atilde;o em &uacute;ltimo extremo.<br \/>\n    Acredito mesmo que a gripe, conseguindo resistir-se-lhe de p&eacute;, vai<br \/>\n    embora mais cedo. 8enti-lhe a visita h&aacute; tr&ecirc;s dias, s&aacute;bado.<\/p>\n<p> S&aacute;bado &agrave; tarde. Disse &agrave; minha velha: &quot;Por sua<br \/>\n    culpa, estou gripado.&quot; Ela ficou passada. &quot;Por minha culpa, Ces&aacute;rio?&quot;<br \/>\n    -&quot;Sim, por sua culpa, porque me obrigou, ontem &agrave; noite, com aquele<br \/>\n    frio, a dar uma grande volta pelo bairro. Coitada, arranjou-me mais que depressa<br \/>\n    um escaldap&eacute;s, uma camisa de flanela, umas meias de l&aacute;, um ch&aacute;,<br \/>\n    e esteve a ponto de fazer promessa a Nossa Senhora da Penha. Mas eu exagerava.<br \/>\n    Gosto de brincar com a velha; nunca vi criatura mais medrosa, quando se trata<br \/>\n    de doen&ccedil;as em casa. Claro que apanhei porque tinha de apanhar&#8230;&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;N&atilde;o se sabe como &eacute; que ela chega&quot; &#8211; &quot;N&atilde;o,<br \/>\n    &agrave;s vezes se sabe. Mas, no meu caso, n&atilde;o foi o tal passeio de<br \/>\n    noite. Digo que n&atilde;o foi porque, j&aacute; antes de mim, o Alfredinho<br \/>\n    meu filho sentira a primeira bordoada. S&oacute; nos contou isso ontem &agrave;<br \/>\n    hora do ch&aacute;. Demais, estou habituado a fazer voltas a p&eacute;, de<br \/>\n    noite, depois do jantar, quando n&atilde;o chove. &Eacute; verdade que aquela<br \/>\n    noite tinha ca&iacute;do uma garoinha, coisinha de nada, ali pelas sete horas.<br \/>\n    Quando sa&iacute;mos &agrave;s nove, o c&eacute;u estava limpo como um prato.<br \/>\n    E que luar! Fomos at&eacute; l&aacute; ao alto do morro, descemos pela avenida,<br \/>\n    passamos pela igreja&#8230;&quot; &#8211; &quot;Sr. Ces&aacute;rio, leu a not&iacute;cia<br \/>\n    daquele crime?&quot; &#8211; &quot;Nem fale! Que coisa est&uacute;pida! Como se<br \/>\n    mata um homem pacato, trabalhador, boa pessoa! Aqui est&aacute; um caso em<br \/>\n    que eu, jurado, n&atilde;o tinha contempla&ccedil;&otilde;es. Ent&atilde;o<br \/>\n    &eacute; assim? destr&oacute;i-se um pai de fam&iacute;lia como quem acaba<br \/>\n    com uma cobra &agrave;-toa, por umas quest&otilde;ezinhas de nonada?&quot;<br \/>\n    &#8211; &quot;Havia uma quest&atilde;o de honra, alega o assassino.&quot; &#8211; &quot;Honra,<br \/>\n    honra! Pusesse a mulher para fora de casa.&quot; &#8211; &quot;Mas, ele amava a<br \/>\n    mulher.&quot; &#8211; &quot;Qual, nada. O seu dever era esse, e nunca matar. Ningu&eacute;m<br \/>\n    pode matar. A vida, quem a d&aacute; &eacute; Deus, e quem a pode tirar &eacute;<br \/>\n    s&oacute; Deus&quot;.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Mas o senhor garantir&aacute; que n&atilde;o foi Deus quem a tirou<br \/>\n    &agrave; v&iacute;tima por interm&eacute;dio do assassino, como a podia tirar<br \/>\n    por meio do tifo ou do autom&oacute;vel?&quot; O sr. Jo&atilde;o Ces&aacute;rio<br \/>\n    n&atilde;o respondeu; nem pestanejou sequer. Puxou do len&ccedil;o de linho,<br \/>\n    que trazia dobrado no bolso da direita, escarafunchou as ventas, tornou a<br \/>\n    assoar-se, dobrou e guardou o len&ccedil;o. Em seguida tirou um outro de fina<br \/>\n    cambraia, que trazia alequeado no bolsinho de cima, e passou-o pelos l&aacute;bios<br \/>\n    e pelas fossas. Por fim, arrumou-o de novo, calcou-o, e, numa despreocupa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    satisfeita: &#8211; &quot;Pois &eacute; isso&quot;.<\/p>\n<p> Pouco adiante, disse-me adeus, esperou o carro parar bem parado, desceu,<br \/>\n    voltou-se para mim a fazer uma &uacute;ltima cortesia, e partiu, muito apertado<br \/>\n    no seu terno azul de risquinhas brancas, sopesando com gra&ccedil;a a bengala<br \/>\n    de cast&atilde;o de ouro.<\/p>\n<p> E havia em redor dele um halo de perfei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Eis a&iacute; um homem feliz. Acompanhei-o com um olhar de inveja, enquanto<br \/>\n    pude; mas acabei por me resignar. Coisas que n&atilde;o se aprendem, n&atilde;o<br \/>\n    se adquirem. Que fazer? Limitarmo-nos a admirar.<\/p>\n<p> Este indiv&iacute;duo, como tantos outros aparentemente insignificantes,<br \/>\n    &eacute; uma verdadeira maravilha da humanidade. Que assombrosa obra de intelig&ecirc;ncia<br \/>\n    e de t&eacute;cnica magistral, a composi&ccedil;&atilde;o deste mecanismo<br \/>\n    f&iacute;sico-ps&iacute;quico, t&atilde;o perfeitamente adaptado a todas as<br \/>\n    condi&ccedil;&otilde;es m&eacute;dias de uma navegabilidade tranq&uuml;ila!<br \/>\n    Foi, sem d&uacute;vida, fabricado ap&oacute;s uma s&eacute;rie imensa de provas<br \/>\n    e ap&oacute;s uma colheita e aprecia&ccedil;&atilde;o rigorosa de milhares<br \/>\n    de dados experimentais. Diga quem o quiser que &eacute; mero produto das for&ccedil;as<br \/>\n    inconscientes da natureza&quot;.<\/p>\n<p> DE AMICITIA Ia eu muito macamb&uacute;zio, no meu banco de tr&aacute;s,<br \/>\n    e nem sabia porque.<\/p>\n<p> Lembro-me de que, em casa, quando me aprontava para sair me havia irritado<br \/>\n    por causa de uns incidentes min&uacute;sculos. Ao vestir o colete, o rel&oacute;gio<br \/>\n    ca&iacute;ra-me do bolso, e ficara suspenso pela cadeia; e algumas moedas<br \/>\n    que estavam no outro bolsinho despencaram para o soalho, rolando em todas<br \/>\n    as dire&ccedil;&otilde;es, como expressamente para me fugir. Quando eu passava<br \/>\n    a escova pelo chap&eacute;u, ela deixara pegada &agrave; copa uma lanugem<br \/>\n    de felpas impalp&aacute;veis, de seda ou de algod&atilde;o, que tive de extrair<br \/>\n    &agrave; unha, uma por uma.<\/p>\n<p> Sa&iacute; quase a correr, e o casaco se me enganchou pelo bolso &agrave;<br \/>\n    ma&ccedil;aneta da porta. Libertei-me, empurrei a porta com um safan&atilde;o,<br \/>\n    e ela, voltando, soltou um relincho t&atilde;o triste, que me senti subitamente<br \/>\n    envergonhado da minha est&uacute;pida impaci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Que covardia e que ingratid&atilde;o ser bruto com as coisas! &Eacute; preciso,<br \/>\n    ao contr&aacute;rio, am&aacute;-las, no recanto em que vivemos, como as boas<br \/>\n    protetoras e inalter&aacute;veis amigas. O aspecto ordenado, limpo, ben&eacute;volo<br \/>\n    e t&aacute;cito dos objetos que me rodeiam, no meu quarto, parece refletir<br \/>\n    &agrave;s vezes algo que n&atilde;o &eacute; bem deste mundo: um ambiente<br \/>\n    de estampa, uma atmosfera de hist&oacute;ria, um casulo de intimidades intang&iacute;veis,<br \/>\n    uma ilus&atilde;o de perman&ecirc;ncia e de espiritualidade &#8211; enfim, um sonho,<br \/>\n    uma do&ccedil;ura, um perfume.<\/p>\n<p> Ao tomar o bonde, por&eacute;m, j&aacute; eu pensava em coisas muito diversas<br \/>\n    daqueles incidentes. De modo que n&atilde;o sei porque fiz metade da viagem<br \/>\n    t&atilde;o sombrio, a olhar para o mundo com uma esp&eacute;cie de terror<br \/>\n    inerte. A estupidez e o mal da vida se me revelavam com a evid&ecirc;ncia<br \/>\n    de um acidente brutal, como um sinistro imenso que se acabasse de produzir,<br \/>\n    ali, de repente, sob meus olhos.<\/p>\n<p> &quot;Hei de consumir os anos que me restam, como tantos que j&aacute; passaram,<br \/>\n    a fazer duas e quatro vezes por dia este mesmo trajeto, a percorrer estas<br \/>\n    mesmas ruas, estas mesmas esquinas, estes mesmos postes, entre as mesmas caras,<br \/>\n    as eternas caras indiferentes insidiosas, malignas, sornas, f&aacute;tuas,<br \/>\n    soberbas, hostis.<\/p>\n<p> Hei de ir todos os dias &agrave; reparti&ccedil;&atilde;o, ver a cara regulamentar<br \/>\n    do chefe, ver as caras dos meus cinco ou seis auxiliares, uma tola outra escarninha,<br \/>\n    outra f&uacute;til e fin&oacute;ria, outra bovinamente resignada e morti&ccedil;a.<br \/>\n    E n&atilde;o hei de topar muitas vezes na minha frente com alguma cara aberta<br \/>\n    e sincera, alguma cara iluminada e boa, desfranzida e cordial, que me olhe<br \/>\n    firme e de chapa com uns olhos direitos e claros como duas espadas, l&iacute;mpidos<br \/>\n    e quentes como duas chamas.<\/p>\n<p> Meu Deus, como pude viver at&eacute; hoje deste jeito! Meu Deus como &eacute;<br \/>\n    que hei de viver ainda, sabei-me l&aacute; at&eacute; quando, nesta triturante<br \/>\n    estupidez e nesta abje&ccedil;&atilde;o ignominiosa! Matai-me, senhor, matai-me<br \/>\n    logo. Ou ent&atilde;o, dai-me uma sorte na loteria, que me permita sair por<br \/>\n    esse mundo, sem cuidados, livre, errante, como o homem que perdeu a sombra,<br \/>\n    durante os primeiros momentos de sua peregrina&ccedil;&atilde;o.&quot; Ia<br \/>\n    engolfado nestes pensamentos amarelos, quando subiu e veio sentar-se a meu<br \/>\n    lado o Aur&eacute;lio de Moura. Cumprimentou-me com afabilidade mais larga<br \/>\n    do que a habitual. Acolhi-o com pr&ocirc;nubos alvoro&ccedil;os.<\/p>\n<p> Aur&eacute;1io perguntou-me sol&iacute;cito pelas minhas coisas, passando-me<br \/>\n    o bra&ccedil;o pelo ombro, com um sorriso de p&aacute;scoa. Deixei-me abra&ccedil;ar,<br \/>\n    comovidamente, e conversamos.<\/p>\n<p> Este rapaz &eacute; dos que parecem apostados a pensar, no mi&uacute;do<br \/>\n    e no grosso, de modo radicalmente diverso do meu; mas esta circunst&acirc;ncia,<br \/>\n    que em outras ocasi&otilde;es me quizilava, ent&atilde;o se me tornou mais<br \/>\n    um motivo de satisfa&ccedil;&atilde;o, como um bom molho ajuntado a um prato<br \/>\n    j&aacute; de si excelente. Concedi tudo a Aur&eacute;lio, pelo prazer de o<br \/>\n    ver trabalhar em liberdade. As coisas vulgares e as coisas estramb&oacute;ticas<br \/>\n    que ele dizia, tudo me soava uma doce m&uacute;sica.<\/p>\n<p> &quot;Fala, Aur&eacute;lio! fala, fala tudo quanto quiseres. Agrada-me pensar<br \/>\n    que &eacute; para mim s&oacute; que tu falas, que o teu esp&iacute;rito veio<br \/>\n    verter no meu a espuma generosa do seu mosto vivo &#8211; uma forma de confid&ecirc;ncia<br \/>\n    sem gravidade e sem segredo, mas indiretamente complexa e escancarada.<\/p>\n<p> Fala Aur&eacute;lio! Achas que os postes de fios el&eacute;tricos deviam<br \/>\n    ser pintados de escarlate? Muito bem. Achas que o Brasil precisa urgentemente<br \/>\n    ser invadido pelo argentarismo estrangeiro, que &eacute; necess&aacute;rio<br \/>\n    matar todos os leprosos e que as mulheres n&atilde;o devem mais aprender a<br \/>\n    ler nem escrever? Continua, Aur&eacute;lio; tens raz&atilde;o, porque me divertes<br \/>\n    e porque confias na minha toler&acirc;ncia. Continua sempre. Pensas que a<br \/>\n    m&uacute;sica &eacute; a mais insignificante das artes e que a poesia dever&aacute;<br \/>\n    ser proibida por decreto? Fala, fala&#8230;.<\/p>\n<p> A mim tu tens a coragem de dizer tudo, e isto significa que tu avalias afetuosamente<br \/>\n    a minha capacidade de ouvir todos os destampat&oacute;rios honestos e de levar<br \/>\n    a s&eacute;rio todas as tolices sinceras. Com efeito, nada mais interessante<br \/>\n    do que uma opini&atilde;o, essa coisa rara, essa coisa in&uacute;til e preciosa.<\/p>\n<p> Mas, na verdade, o que ora mais me interessa n&atilde;o s&atilde;o as tuas<br \/>\n    opini&otilde;es, &eacute; o fato de mas expores nessa confian&ccedil;a tranq&uuml;ila<br \/>\n    e ridente, sem reservas e sem receios, &agrave; sombra da frondosa Amizade,<br \/>\n    &#8211; a bela, a santa, a ben&eacute;fica Amizade, o &uacute;nico dom dos deuses<br \/>\n    desmemoriados, que nunca mais se lembrariam de n&oacute;s, os pobres humanos,<br \/>\n    ou que, tendo-no-la dado, entenderam ter-nos feito a maior oferta compat&iacute;vel<br \/>\n    com o nosso ego&iacute;smo e a nossa ruindade&quot;.<\/p>\n<p> Entrementes, Aur&eacute;lio discorria. Asseverava, por &uacute;ltimo, que<br \/>\n    higiene p&uacute;blica &eacute; apenas o neg&oacute;cio dos m&eacute;dicos<br \/>\n    higienistas e dos fabricantes de aparelhos higi&ecirc;nicos.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Sim, talvez tenhas raz&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;Bem, eu salto aqui, seu Fel&iacute;cio. Mais uma vez, obrigado pela<br \/>\n    passagem&quot;.<\/p>\n<p> Eu tinha-lhe pago a passagem.<\/p>\n<p> &quot;Ora, ora!&quot; &#8211; &quot;N&atilde;o voc&ecirc; nem sabe que favor me<br \/>\n    fez. Sa&iacute; de casa sem um n&iacute;quel. Mas, quando vi voc&ecirc; neste<br \/>\n    bonde, l&aacute; da esquina da alameda, disse c&aacute; comigo, estou garantido.<br \/>\n    E eis a&iacute; por que voc&ecirc; teve de me aturar todo esse tempo! Como<br \/>\n    sabe, esta linha n&atilde;o &eacute; a que mais me conv&eacute;m. Mas quem<br \/>\n    n&atilde;o tem c&atilde;o&#8230; Obrigadinho. Ciao!&quot;.<\/p>\n<p> &#8211; &quot;T&eacute; logo, Aur&eacute;lio&#8230;&quot; PROBLEMAS Hoje, o bonde<br \/>\n    vinha cheio, e tive de ceder o meu lugar a uma senhora. Esta, ao inv&eacute;s<br \/>\n    de me agradecer, parece que ficou ligeiramente arrufada com a minha gentileza.<\/p>\n<p> Creio que a &eacute;tica do bonde manda que, ao ceder o lugar, o passageiro<br \/>\n    n&atilde;o d&ecirc; a isso a mais ligeira apar&ecirc;ncia de um ato de cortesia<br \/>\n    fa&ccedil;a-o friamente, como por uma obriga&ccedil;&atilde;o regulamentar.<\/p>\n<p> Deve ser isso.<\/p>\n<p> Mas ser&aacute;? Eis a&iacute; um dos inumer&aacute;veis problemas psicol&oacute;gicos<br \/>\n    que o bonde depara. O bonde &eacute; um saco de v&iacute;spora: &eacute; s&oacute;<br \/>\n    meter a m&atilde;o, remexer, pegar, l&aacute; vem o problema psicol&oacute;gico.<\/p>\n<p> Infelizmente, esses problemas v&atilde;o ficando cada vez mais obscuros,<br \/>\n    &agrave; medida que cresce o n&uacute;mero dos psicologistas, n&uacute;mero<br \/>\n    infinito, hoje em dia, s&oacute; compar&aacute;vel ao dos soci&oacute;logos.<br \/>\n    Se o futuro do Brasil dependesse da psicologia da sociologia, estava garantido;<br \/>\n    e s&oacute; nos restava lamentar que n&atilde;o pud&eacute;ssemos viver mais<br \/>\n    uns cinq&uuml;enta ou cem anos, para assistir ao grande fogo de vistas dos<br \/>\n    resultados. Estupenda coisa a ci&ecirc;ncia! H&aacute; dias, vi o Sr. Jo&atilde;o<br \/>\n    Ces&aacute;rio a conversar atentamente com um mocinho sisudo e altivo. Este<br \/>\n    falava em coisas dif&iacute;ceis: mentalidade primitiva &#8211; forma&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    al&oacute;gena &#8211; metabolismo racial &#8211; camadas de aluvi&atilde;o &#8211; idealismo<br \/>\n    hipocondr&iacute;aco &#8211; teorias de Comte e Spencer &#8211; obras de Le Play, Fouillet,<br \/>\n    Tarde, Novicow, Pareto, mem&oacute;rias de Schwaartzemberg e Perikowski, de<br \/>\n    Astrinaieffe e Dragobsen. De repente, despediu-se e desapareceu veloz, como<br \/>\n    uma motocicleta.<\/p>\n<p> Corria, provavelmente, a endireitar algum erro perigoso de t&eacute;cnica<br \/>\n    social, que estivesse para desabar sobre n&oacute;s. Digno bombeiro da Ci&ecirc;ncia!<br \/>\n    Neste &iacute;nterim, perguntei assombrado ao Sr. Ces&aacute;rio: &#8211; &quot;Quem<br \/>\n    &eacute; este menino? Que s&aacute;bio!&quot; &#8211; &quot;Nem tanto. Muito estudioso,<br \/>\n    isso sim. Especializou-se &#8211; n&atilde;o sabe? &Eacute; apenas soci&oacute;logo&quot;.<\/p>\n<p> Senti-me absolutamente acalcanhando com ver um menino que, ainda longe dos<br \/>\n    trinta anos j&aacute; havia conseguido ser um soci&oacute;logo, apenas. Senti<br \/>\n    necessidade de esquecer aquilo.<\/p>\n<p> Montesquieu disse que n&atilde;o havia aborrecimentos que n&atilde;o lhe<br \/>\n    passassem com meia hora de leitura. N&atilde;o sei se isto provar&aacute;<br \/>\n    a virtude da leitura ou antes de Montesquieu. A mim, muitos aborrecimentos<br \/>\n    me desaparecem com a decifra&ccedil;&atilde;o de problemas ou com jogos de<br \/>\n    paci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> Armei logo uma s&eacute;rie de dificuldades atrav&eacute;s dos miolos, e<br \/>\n    depois mergulhei em cogita&ccedil;&otilde;es para as desmanchar uma por uma.<\/p>\n<p> Foi o que fiz hoje. N&atilde;o tendo mais em que me ocupar, comecei a extrair<br \/>\n    e remexer os problemas que o bonde me oferecia, abundante corno pedreira.<\/p>\n<p> Por que &eacute; que os nossos conhecidos sempre nos aparecem nos bancos<br \/>\n    de tr&aacute;s &agrave; hora da cobran&ccedil;a das passagens? Por que &eacute;<br \/>\n    que as senhoras apeiam voltadas para o lado traseiro do carro? Por que &eacute;<br \/>\n    que os condutores, quando recebem as passagens, v&ecirc;m com cara de cobradores<br \/>\n    de contas atrasadas? Por que &eacute; que n&atilde;o se pode tirar um len&ccedil;o<br \/>\n    ou abrir uma cigarreira sem despertar a aten&ccedil;&atilde;o vigilante do<br \/>\n    vizinhos? Por que &eacute; que, ao contr&aacute;rio, se a gente sofre e tosse<br \/>\n    com o fumo de um cigarro alheio isso n&atilde;o &eacute; percebido nem pelo<br \/>\n    vizinho fumante? Por que &eacute; que, quando lemos, h&aacute; sempre um passageiro<br \/>\n    a querer por for&ccedil;a descobrir o que vamos lendo? Por que &eacute; que<br \/>\n    os homens, quando pedem licen&ccedil;a para passar, s&atilde;o mais atenciosos<br \/>\n    &agrave; entrada do que &agrave; sa&iacute;da? Por que &eacute; que o lavador<br \/>\n    de pratos ou o vendedor de bananas trata os condutores como se estes fossem<br \/>\n    os trintan&aacute;rios de seus coches? Por que &eacute; que o passageiro acha<br \/>\n    gra&ccedil;a nas grosserias ou desaforos do condutor, desde que n&atilde;o<br \/>\n    s&atilde;o com ele? Por que &eacute; que, encontrando um amigo distra&iacute;do<br \/>\n    e pagando-lhe a passagem, ele imediatamente nos pergunta como vai a fam&iacute;lia?<br \/>\n    Por que &eacute; que s&oacute; assobiam no bonde indiv&iacute;duos inteiramente<br \/>\n    desprovidos de mem&oacute;ria musical? Por que &eacute; que, se chove, h&aacute;<br \/>\n    sempre, ao nosso lado ou &agrave; nossa frente, um passageiro que n&atilde;o<br \/>\n    tolera cortinas arriadas? Por que &eacute; que tantas senhoras gordas, n&atilde;o<br \/>\n    permitindo que se lhes toque de leve com o dedo, n&atilde;o fazem contudo<br \/>\n    nenhuma cerim&ocirc;nia para se amesendar em cima de nossa perna? Por que<br \/>\n    &eacute; que h&aacute; tanta como&ccedil;&atilde;o no bonde, se este pega<br \/>\n    uma galinha, e n&atilde;o h&aacute; nenhuma por causa do homem enfermo, aleijado<br \/>\n    e decr&eacute;pito que vai no carro? Por que &eacute; que os mo&ccedil;os<br \/>\n    bonitos e os c&eacute;lebres ficam sentados de vi&eacute;s? Por que &eacute;<br \/>\n    que temos tanta paci&ecirc;ncia para perder duas horas numa pane dif&iacute;cil<br \/>\n    de autom&oacute;vel, e nenhuma para sofrer dois minutos de parada do bonde<br \/>\n    num desvio? Por que &eacute; que as senhoras, ao pagar a passagem, custam<br \/>\n    tanto a encontrar o dinheiro na bolsa? Por que &eacute; que o bonde estimula<br \/>\n    em certos indiv&iacute;duos a vontade de comer amendoim torrado e tremo&ccedil;os?<br \/>\n    Por que &eacute; que as pessoas mais desocupadas e mais pachorrentas se tomam<br \/>\n    de pressa e de nervos quando o bonde vai chegando ao ponto final? Por que<br \/>\n    &eacute; que nos d&oacute;i mais termos perdido o nosso bonde do que o ter<br \/>\n    um amigo perdido o trem &#8211; ou mesmo uma perna? ESCOTEIRO Ainda revejo nitidamente<br \/>\n    aquele escoteirinho que entrou hoje no bonde pela m&atilde;o do venerando<br \/>\n    papai. Um feixinho de ossos, olhos brancos, l&aacute;bio pendente, postura<br \/>\n    curva e bamba de aluno de catecismo. Retrato ideal do menino d&oacute;cil<br \/>\n    e bem comportado.<\/p>\n<p> Se o inflex&iacute;vel progenitor lhe falava, respondia com respeitoso sorriso,<br \/>\n    sorriso fr&aacute;gil e distante, virando para a cara fiscalizadora uns olhos<br \/>\n    de animalzinho perfeitamente domesticado.<\/p>\n<p> O pai, sem d&uacute;vida, muito satisfeito com esse rebento esperan&ccedil;oso,<br \/>\n    t&atilde;o autom&aacute;tico na obedi&ecirc;ncia e na pen&uacute;ria de vida.<br \/>\n    O pequeno chamava-lhe papai. Coitadinho! Devia chamar-lhe progenitor.<\/p>\n<p> Progenitor &eacute; o nome que na verdade calha a esta esp&eacute;cie de<br \/>\n    autores de vidas alheias.<\/p>\n<p> Impiedosamente sol&iacute;citos, eles parasitam as suas mis&eacute;rrimas<br \/>\n    criaturas. Polvos agarrantes, colantes e triturantes, abusam do direito de<br \/>\n    ser senhores de almas. Est&atilde;o cheios da cren&ccedil;a surda de que o<br \/>\n    melhor que podem fazer a seus filhos &eacute; form&aacute;-los &agrave; sua<br \/>\n    semelhan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Parecem orgulhosos de ter mudado o empirismo da paternidade numa especializa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    t&eacute;cnica.<\/p>\n<p> T&ecirc;m o ar de pais de fam&iacute;lia diplomados.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o lhes bastam as luzes da Pedagogia, da moral, da Religi&atilde;o,<br \/>\n    da Medicina, da Gram&aacute;tica e do don&#8217;t. Renovas achegas at&eacute; na<br \/>\n    Sociologia. A Psicologia vai-se-lhes impondo como um evangelho (tanto mais<br \/>\n    c&ocirc;modo quanto se pode abrir em qualquer lugar e ler de corrida ou salteado).<br \/>\n    Creio que a her&aacute;ldica e o c&aacute;lculo integral tamb&eacute;m t&ecirc;m<br \/>\n    que ver com a mat&eacute;ria.<\/p>\n<p> Progenitores! progenitores! homens respeit&aacute;veis, sapientes e pendentes,<br \/>\n    sagazes e tenazes.<\/p>\n<p> Tenazes sobretudo. Tenazes de ferro! S&oacute; lhes falta um pouco de bom<br \/>\n    senso e um pouco do senso de humanidade. E apenas perdem o direito a esse<br \/>\n    nome simples, vivo, saboroso e m&iacute;stico de pai.<\/p>\n<p> Pai! palavra elementar e profunda irm&atilde; de ar, &aacute;gua, p&atilde;o,<br \/>\n    sol, dor, alegria, esperan&ccedil;a, coisas fundamentais e essenciais, belas<br \/>\n    e terr&iacute;veis como tudo quanto nos supera, tudo quanto nos vivifica,<br \/>\n    nos v&ecirc; passar, e continua. Palavra de resson&acirc;ncias externas, com<br \/>\n    barulhos de l&aacute;grimas e anseios de amor, de melancolia e de piedade.<\/p>\n<p> Mas tamb&eacute;m isso tende a desaparecer sob a capa de chumbo do cientificismo,<br \/>\n    do tecnicismo e do pedantismo esmiu&ccedil;ador e complicador, pragas que<br \/>\n    v&atilde;o devorando todas as boas coisas deste mundo triste, como aquelas<br \/>\n    vacas que devoravam vacas, no sonho do fara&oacute;.<\/p>\n<p> Os persas, de h&aacute; dois mil anos, segundo o testemunho de Her&oacute;doto,<br \/>\n    n&atilde;o queriam que seus filhos aprendessem nada mais que tr&ecirc;s coisas:<br \/>\n    montar a cavalo, manejar o arco e dizer a verdade. Era um programa completo<br \/>\n    de educa&ccedil;&atilde;o individual e geral, utilit&aacute;ria e idealista,<br \/>\n    f&iacute;sica e ps&iacute;quica, individual e social.<\/p>\n<p> Montar a cavalo &#8211; eis a primeira necessidade. Todos temos de ser cavaleiros,<br \/>\n    de guiar uma besta e de nos servir dela. Manejar o arco &#8211; arma franca, simples<br \/>\n    e forte, ato de habilidade, de sangue frio, de coragem viril e leal, abertamente<br \/>\n    praticado &agrave; luz do sol, em cima do cavalo. Dizer a verdade &#8211; condensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &uacute;ltima e por feita de todos os deveres, dos mais s&eacute;rios, mais<br \/>\n    &aacute;speros, mais agoniantes e esporeantes deveres da vida comum. da atividade<br \/>\n    intelectual que quer pairar no alto e ser fecunda, da sublima&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    moral que pretende chegar &agrave; retid&atilde;o, &agrave; simplicidade e<br \/>\n    ao fulgor definitivo.<\/p>\n<p> Mas estas s&iacute;nteses divinat&oacute;rias se v&atilde;o tornando imposs&iacute;veis.<br \/>\n    Tudo &eacute; saben&ccedil;a, &eacute; t&eacute;cnica, &eacute; pedantologia,<br \/>\n    &eacute; complica&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Diante daquele pai e daquele filho, fiquei a pensar na sorte das belas id&eacute;ias<br \/>\n    e no ir&ocirc;nico destino dos inventores.<\/p>\n<p> O escotismo nasceu do exemplo dado pelos boys sul-africanos na guerra contra<br \/>\n    os ingleses.<\/p>\n<p> &Aacute;geis e robustos, trepando &agrave;s &aacute;rvores como serelepes,<br \/>\n    arrastando-se por ch&atilde;os e pedregais como lagartixas, varando lagoas<br \/>\n    como filhotes de hipop&oacute;tamos, espertos e p&acirc;ndegos como gorilazinhos,<br \/>\n    prudentes como tartarugas, teimosos como porcos do mato, eram &oacute;timos<br \/>\n    exploradores e espias de campanha.<\/p>\n<p> Num contato combinado com a &aacute;spera natureza e a necessidade multiforme<br \/>\n    e imperiosa, ganhavam uma for&ccedil;a de paci&ecirc;ncia, de coragem e de<br \/>\n    desprendimento, uma flexibilidade e rapidez de senso pr&aacute;tico, uma destreza<br \/>\n    de esp&iacute;rito, que, em suma, constitu&iacute;am uma bela moralidade agreste<br \/>\n    e saud&aacute;vel, natural como a respira&ccedil;&atilde;o ou como as fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    digestivas.<\/p>\n<p> Desconheciam as intemperan&ccedil;as da paz e da pra&ccedil;a, o beberete,<br \/>\n    o estupefaciente, a literatura desalmada, a gula, o dinheiro, o luxo, o mercantilismo,<br \/>\n    a cabotinagem, a intriga, a maledic&ecirc;ncia, o espirito, o eretismo sentimental<br \/>\n    e sexual. S&oacute;brios, t&aacute;citos, incisivos. Da civiliza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    s&oacute; assimilavam a fina flor; da barb&aacute;rie, a masculinidade sadia,<br \/>\n    generosa e jovial.<\/p>\n<p> Um general brit&acirc;nico viu isso, franziu impressionado o sobrolho, curvou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a, parafusou.<\/p>\n<p> Por que n&atilde;o transplantar essa espont&acirc;nea floresc&ecirc;ncia<br \/>\n    da casualidade viva para os dom&iacute;nios da educa&ccedil;&atilde;o social?<br \/>\n    Voltando &agrave; Inglaterra, criou o escotismo. Era o rem&eacute;dio indicado<br \/>\n    para sanear v&aacute;rias fontes de podrid&atilde;o, que iam minando a fibra<br \/>\n    do old Tom.<\/p>\n<p> O mundo todo pegou a f&oacute;rmula e aplicou-a. Mas, geralmente, a f&oacute;rmula<br \/>\n    s&oacute;. O eterno prestigio das receitas n&atilde;o podia falhar: a receita<br \/>\n    pareceu espl&ecirc;ndida. Bela receita! E a receita voou para todos os cantos<br \/>\n    do mundo, como a &uacute;ltima descoberta para limpar chap&eacute;us de palha,<br \/>\n    para curar defluxos ou para compor obras de arte geniais e vend&aacute;veis.<\/p>\n<p> O resultado ei-lo a&iacute;: uma quantidade de coelhinhos guardanacionalizados;<br \/>\n    uma escola de virilidade, de independ&ecirc;ncia, de selfcontrol e de &acirc;nimo<br \/>\n    benfazejo, mudada numa triste e g&eacute;lida pedagogia, regular, burocr&aacute;tica,<br \/>\n    higi&ecirc;nica, gin&aacute;stica, homenageativa, sob programazinhos variados<br \/>\n    que s&atilde;o sempre a mesma coisa. E tudo comandado a toques de apito, entremeado<br \/>\n    de discursos e &#8211; supremo horror! &#8211; tudo meticulosamente, implacavelmente mecanizado<br \/>\n    pela sapi&ecirc;ncia mensuradora dos t&eacute;cnicos.<\/p>\n<p> Ah! os terr&iacute;veis t&eacute;cnicos, os tenebrosos t&eacute;cnicos,<br \/>\n    iscados at&eacute; &agrave; medula por esse flagelo do s&eacute;culo, o tecnicismo<br \/>\n    anti-s&eacute;ptico, esterilizador de toda bact&eacute;ria de entusiasmos<br \/>\n    e instintividades turbulentas e regenerativas! Essa, a marcha inevit&aacute;vel<br \/>\n    de todas as altas id&eacute;ias quando descem ao campo da realiza&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que &eacute; o da degrada&ccedil;&atilde;o. Esse, o ir&ocirc;nico destino<br \/>\n    que aguarda os sonhos de todos os inventores, concep&ccedil;&otilde;es luminosas<br \/>\n    cujo arcabou&ccedil;o l&oacute;gico se transmite e se propaga, mas cuja alma<br \/>\n    l&iacute;rica e divinat&oacute;ria permanece no altiplano das possibilidades<br \/>\n    incompreendidas.<\/p>\n<p> Esta alma &eacute; incomunic&aacute;vel, como a alma do Ves&uacute;vio &eacute;<br \/>\n    estranha aos h&aacute;beis artistas que c&aacute; por baixo, colhem a lava<br \/>\n    resfriada para talhar nela as suas eternas, invari&aacute;veis figurinhas.<\/p>\n<p> UM HOMEM PERFEITO Tenho-me encontrado muito com o Sr. Ces&aacute;rio, ultimamente.<br \/>\n    O Sr. Ces&aacute;rio, &agrave;s doses espa&ccedil;adas e discretas, faz bem.<br \/>\n    &Eacute; desingurgitante, refrescativo, uma coisa assim entre o sal de frutas<br \/>\n    e sorvete de copinho. Mas, todos os dias, em todas as viagens, &eacute; demais.<\/p>\n<p> Aquilo que, de quando em quando, e por momentos, nos encanta como um livro<br \/>\n    novo, folheado a furto, com a continua&ccedil;&atilde;o se converte num s&iacute;mile<br \/>\n    dessas revistas atrasadas e revistas que se nos oferecem na sala de espera<br \/>\n    do dentista ou na loja do barbeiro.<\/p>\n<p> Mas tudo tem o seu lado aproveit&aacute;vel. O lado aproveit&aacute;vel<br \/>\n    do Sr. Ces&aacute;rio &eacute; que ele me d&aacute; li&ccedil;&otilde;es de<br \/>\n    estilo, do estilo estabilizado e consp&iacute;cuo que conv&eacute;m &agrave;s<br \/>\n    rela&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas entre funcion&aacute;rios e pessoas<br \/>\n    colocadas. Ele n&atilde;o &eacute;, mas devia ser diretor de uma reparti&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Fala como um bom minutador de of&iacute;cios. Tem a serena compenetra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de autoridade, o senso das hierarquias, o tato diplom&aacute;tico, o respeito<br \/>\n    das f&oacute;rmulas e a impersonalidade de julgamentos que se requer num chefe<br \/>\n    acabado. Por esse aspecto burocr&aacute;tico, o seu contato &eacute; &uacute;til.<br \/>\n    Boa pedra de amolar. O mau &eacute; que &agrave;s vezes amola demais.<\/p>\n<p> Que rico fundo de id&eacute;ias honestas ele possui! Em poucos dias, assim<br \/>\n    como quem n&atilde;o se aplica, durante quinze ou vinte minutos de bonde,<br \/>\n    fiz uma boa coleta de opini&otilde;es do meu distinto amigo.<\/p>\n<p> O que n&atilde;o lhe faltam s&atilde;o opini&otilde;es. O Sr. Ces&aacute;rio<br \/>\n    &eacute; um homem eminentemente opinativo sem contudo ser opini&aacute;tico.<br \/>\n    J&aacute; houve mesmo um indiv&iacute;duo maldoso, de cujo nome nem me quero<br \/>\n    lembrar, que uma vez mo definiu com escarninho intento, nestes termos: &quot;um<br \/>\n    filho dileto da Opini&atilde;o P&uacute;blica.&quot; O Sr. Ces&aacute;rio<br \/>\n    sentencia, por exemplo que &quot;tudo nesta vida &eacute; quest&atilde;o de<br \/>\n    ponto de vista.&quot; Afirma, acentuando o tom de convic&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a corrigir a aparente leveza da frase paradoxal, que &quot;o senso comum &eacute;<br \/>\n    o que h&aacute; de menos comum entre os homens&quot;. Tamb&eacute;m costuma<br \/>\n    declarar, com um gesto fision&ocirc;mico de aguda intui&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que &quot;tudo &eacute; relativo&quot;.<\/p>\n<p> Acerca de moral, s&oacute; lhe ouvi por enquanto um conceito gen&eacute;rico<br \/>\n    nitidamente formulado: &quot;Intelig&ecirc;ncia sem car&aacute;ter &eacute;<br \/>\n    droga&quot;.<\/p>\n<p> Sobre o Al&eacute;m, a vida e a morte, a cren&ccedil;a, e assuntos correlatos,<br \/>\n    costuma ser mais expl&iacute;cito, provavelmente porque a sua situa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de amigo do vig&aacute;rio da par&oacute;quia e de irm&atilde;o do Sant&iacute;ssimo<br \/>\n    lhe tem permitido certa familiaridade com o mist&eacute;rio.<\/p>\n<p> Concede que o Outro Mundo seja coisa duvidosa, mas acha que, em todo caso<br \/>\n    n&atilde;o conv&eacute;m brincar. A esperan&ccedil;a e o temor que se ligam<br \/>\n    ao Al&eacute;m s&atilde;o necess&aacute;rios e s&atilde;o insubstitu&iacute;veis.<\/p>\n<p> O que lhe repugna &eacute; o inferno. Nesse, acredita &quot;porque &eacute;<br \/>\n    seu dever de cat&oacute;lico nato e praticante acatar as injun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da Igreja&quot;. Mas, afinal, o verdadeiro inferno parece que &quot;e aqui<br \/>\n    mesmo&quot; &#8211; &quot;se bem que n&atilde;o se devam aceitar certos exageros<br \/>\n    de pessimismo&quot;.<\/p>\n<p> Ontem, o Sr. Ces&aacute;rio saiu-se com esta frase: &quot;Deixe falar, a<br \/>\n    religi&atilde;o &eacute; um freio, como dizia padre Miguel, meu padrinho.&quot;<br \/>\n    As suas opini&otilde;es sociais e pol&iacute;ticas s&atilde;o do mesmo feitio<br \/>\n    enxuto e corrente: Todas as formas de governo s&atilde;o boas, desde que haja<br \/>\n    honestidade.<\/p>\n<p> O nosso povo n&atilde;o estava preparado para a Rep&uacute;blica.<\/p>\n<p> Governar &eacute; uma quest&atilde;o de bom senso e de recursos.<\/p>\n<p> &Eacute; um grande mal a oposi&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica.<\/p>\n<p> Cada povo tem o governo que merece; mas nem sempre.<\/p>\n<p> A pol&iacute;tica de hoje &eacute; eminentemente econ&ocirc;mica.<\/p>\n<p> A maior das nossas necessidades &eacute; a educa&ccedil;&atilde;o, &#8211; em<br \/>\n    termos.<\/p>\n<p> O brasileiro &eacute; muito inteligente, mas indisciplinado e vadio.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; quest&atilde;o social no Brasil, pais novo, aberto<br \/>\n    a todas as iniciativas.<\/p>\n<p> Somos um povo em forma&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A boa administra&ccedil;&atilde;o depende da estreita harmonia dos poderes.<\/p>\n<p> A mulher deve permanecer no seu posto de rainha do lar.<\/p>\n<p> A esmola deprime e nada adianta.<\/p>\n<p> O empregomania e o bacharelismo s&atilde;o dois males nacionais.<\/p>\n<p> A ret&oacute;rica &eacute; outro v&iacute;cio brasileiro.<\/p>\n<p> A dissolu&ccedil;&atilde;o dos costumes caminha a passos de gigante.<\/p>\n<p> O Brasil &eacute; uma terra de poetas.<\/p>\n<p> A maior das nossas desgra&ccedil;as &eacute; a crise de car&aacute;ter.<\/p>\n<p> &quot;A lavoura &eacute; a coluna mestra do nosso sistema arterial&quot;.<\/p>\n<p> Ontem, acertou de falarmos a respeito de literatura, a prop&oacute;sito<br \/>\n    de um romance de Macedo, que Ces&aacute;rio me pedira emprestado. Declarou<br \/>\n    que n&atilde;o era para ele, mas para a senhora. N&atilde;o gosta sen&atilde;o<br \/>\n    de romances hist&oacute;ricos e instrutivos, como os de J&uacute;lio Verne<br \/>\n    e V&iacute;tor Hugo.<\/p>\n<p> Passou a expender id&eacute;ias sobre outros ramos. N&atilde;o perde tempo<br \/>\n    com poesias, mesmo porque n&atilde;o as entende. Os dramas e trag&eacute;dias<br \/>\n    j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o para os nossos dias; ningu&eacute;m mais se<br \/>\n    resolve a ir ao teatro para ficar triste; e para tristezas bastam as da vida.<br \/>\n    O teatro deve ser humor&iacute;stico e moral.<\/p>\n<p> Os Lus&iacute;adas, a seu ver, foram feitos especialmente para exerc&iacute;cios<br \/>\n    de an&aacute;lise. A obra pode ser muito boa, mas para quem gosta. De resto,<br \/>\n    o Sr. Ces&aacute;rio est&aacute; convencido de que todos os cl&aacute;ssicos,<br \/>\n    que ali&aacute;s nunca leu, s&atilde;o cacetes e intrag&aacute;veis. Parece<br \/>\n    mesmo pensar que eles escreveram expressamente para deixar modelos de boa<br \/>\n    linguagem gramatical. E, um destes dias, exclamou com recacho de homem-do-seu-tempo:<br \/>\n    &quot;Quais cl&aacute;ssicos, quais nada! A l&iacute;ngua tamb&eacute;m evolui,<br \/>\n    entendeu?&quot; Acha que a l&iacute;ngua italiana &eacute; a mais suave, quando<br \/>\n    bem pronunciada; mas que a mais &uacute;til, na atualidade, &eacute; a inglesa.<br \/>\n    Quanto &agrave; nossa, acredita que seja a mais dif&iacute;cil de todas, a<br \/>\n    mais &quot;cheia de d&uacute;vidas e encrenquinhas&quot;. Pois se o pr&oacute;prio<br \/>\n    Rui Barbosa, a &quot;&Aacute;guia de Haia&quot;, levou a vida inteira estudando<br \/>\n    portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p> O que a&iacute; fica &eacute; resultado de uma colheita muito irregular,<br \/>\n    mas j&aacute; basta a caracterizar as qualidades fundamentais deste s&oacute;lido<br \/>\n    e harmonioso esp&iacute;rito.<\/p>\n<p> Quanto &agrave;s express&otilde;es, o Sr. Ces&aacute;rio tem todas, todas<br \/>\n    quantas se acham consagradas pelo gosto das classes respeit&aacute;veis.<\/p>\n<p> Se fosse capaz dos trabalhos seguidos, regulares e minuciosos da Filologia,<br \/>\n    eu poderia tomar o meu amigo como um comp&ecirc;ndio vivo das filtra&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    eruditas e liter&aacute;rias de segunda m&atilde;o na mentalidade m&eacute;dia<br \/>\n    da burguesia nacional, e explor&aacute;-lo metodicamente. Daria para um belo<br \/>\n    estudo de Psicologia Idiom&aacute;tica, cheio de conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    para o literato, para o glotologista, para o educador, e at&eacute; para o<br \/>\n    alienista, &#8211; um belo estudo que, sem d&uacute;vida, n&atilde;o seria lido<br \/>\n    sen&atilde;o pelos indiv&iacute;duos que a Provid&ecirc;ncia destacasse para<br \/>\n    lhe meterem a lenha.<\/p>\n<p> As express&otilde;es frias do Sr. Ces&aacute;rio s&atilde;o algo de suculento<br \/>\n    e de op&iacute;paro. Algumas, as menos repolhudas, as me&atilde;s, ele as<br \/>\n    profere com plena serenidade. Mas como aprecia igualmente as mais pomposas,<br \/>\n    sempre arranja l&aacute; um jeitinho de as empregar, soltando-as com um certo<br \/>\n    ar brincalh&atilde;o ou ir&ocirc;nico, que lhe d&aacute; por vezes o aspecto<br \/>\n    original de um homem que acha gra&ccedil;a nas crepita&ccedil;&otilde;es do<br \/>\n    pr&oacute;prio pensamento.<\/p>\n<p> J&aacute; lhe apanhei, n&atilde;o h&aacute; muito, sem lhe mexer nas molas,<br \/>\n    refer&ecirc;ncias &agrave;s &quot;trevas da ignor&acirc;ncia&quot;, ao &quot;santu&aacute;rio<br \/>\n    do lar&quot;, ao &quot;punhal da cal&uacute;nia&quot;, &agrave; &quot;m&aacute;scara<br \/>\n    do anonimato&quot; e ao &quot;d&eacute;dalo das paix&otilde;es&quot;. Foi<br \/>\n    um dia em que estava impressionado com a onda de crimes, suic&iacute;dios<br \/>\n    e poucavergonhas que por a&iacute; vai &quot;num crescendo assustador&quot;.<br \/>\n    Falava com tal abund&acirc;ncia e tal veem&ecirc;ncia, que cheguei quase a<br \/>\n    desconfiar que me tivesse na conta de um dos respons&aacute;veis.<\/p>\n<p> De uns dias para c&aacute;, tenho subitamente guiado o fio e dado o tom<br \/>\n    &agrave; conversa&ccedil;&atilde;o, e o Sr.<\/p>\n<p> Ces&aacute;rio se desata em chuveiros de preciosidades.<\/p>\n<p> A prop&oacute;sito de pol&iacute;tica, lan&ccedil;ou zargunchadas certeiras<br \/>\n    aos &quot;eternos descontentes&quot;, que &quot;vivem a semear a ciz&acirc;nia&quot;<br \/>\n    com seus &quot;cantos de sereia&quot;. Mas tamb&eacute;m, por um estr&iacute;queto<br \/>\n    &quot;dever de imparcialidade&quot;, n&atilde;o podia deixar de &quot;verberar<br \/>\n    o impatriotismo de certos homens colocados no galarim, que transformam em<br \/>\n    vacas de leite os postos de sacrif&iacute;cio a eles confiados pelo povo,<br \/>\n    a eterna besta de carga&quot;.<\/p>\n<p> Terminou resumindo-se numa sentida perora&ccedil;&atilde;o: &quot;Enfim,<br \/>\n    meu caro amigo! &eacute; a tal crise de car&aacute;ter.<\/p>\n<p> &quot;Mas que quer? Nem a majestade da religi&atilde;o escapa a esse referver<br \/>\n    de paix&otilde;es subalternas! At&eacute; no seio das irmandades se intromete<br \/>\n    a politicagem rasteira! At&eacute; l&aacute;, indiv&iacute;duos sem entranhas<br \/>\n    v&atilde;o pondo a garra, com. p&eacute;s de l&atilde;, e&#8230; Homem! paremos<br \/>\n    por aqui.<\/p>\n<p> &quot;O tempora!&quot; De onde pude inferir que o Sr. Ces&aacute;rio andava<br \/>\n    &agrave;s voltas com algum desaguisado na par&oacute;quia.<\/p>\n<p> A um esp&iacute;rito assim ricamente organizado n&atilde;o podia faltar<br \/>\n    um certo aparelho de erudi&ccedil;&atilde;o leve.<\/p>\n<p> Consegui os seguintes ind&iacute;cios, apanhados foneticamente, como conv&eacute;m<br \/>\n    a coisas pescadas nas &aacute;guas vivas da elocu&ccedil;&atilde;o oral: &quot;Labor&ocirc;nia<br \/>\n    vince &#8211; Cosiv&aacute; ilmondo &#8211; Senon &eacute;v&eacute;ro&#8230; &#8211; Lemondemarche<br \/>\n    &#8211; Arraite! &#8211; T&acirc;imism&oacute;nei &#8211; Sav&aacute; sandire &#8211; Via cr&uacute;cis<br \/>\n    &#8211; Tante gr&aacute;cie, cabalhero! &#8211; Por mares nunca dantes navegados &#8211; Festim<br \/>\n    de Baltazar &#8211; Ciumento como um Otelo &#8211; As trevas da Idade M&eacute;dia &#8211; Crueldade<br \/>\n    neroniana &#8211; Justi&ccedil;a imanente &#8211; Psicologia das multid&otilde;es Os meio<br \/>\n    intelectuais &#8211; O pover&eacute;lo de Assis &#8211; As li&ccedil;&otilde;es da sociologia<br \/>\n    &#8211; A ci&ecirc;ncia de &Aacute;dan-Esmite &#8211; O &uacute;ltimo rom&acirc;ntico<br \/>\n    &#8211; Os ton&eacute;is da Danaide &#8211; V&aacute; derr&eacute;tro!&quot; Enfim, grande<br \/>\n    ca&ccedil;ador de frases perante o Eterno! O BONDE E A RUA O bonde da tarde,<br \/>\n    hoje, foi demorado por uma qualquer manifesta&ccedil;&atilde;o popular, que<br \/>\n    lhe barrou a passagem. Os viajantes, depois de satisfeita a primeira curiosidade,<br \/>\n    obra de segundos, come&ccedil;avam a dar sinais de irrita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    quando um orador entrou a trovejar. Essa obstru&ccedil;&atilde;o pareceu a<br \/>\n    todos insuport&aacute;vel, e todavia n&atilde;o durou mais de cinco ou seis<br \/>\n    minutos.<\/p>\n<p> Sempre &eacute; verdade que a medida real do tempo &eacute; o nosso desejo.<\/p>\n<p> Isto me faz lembrar o meu colega Sinfr&ocirc;nio de Mendon&ccedil;a, que,<br \/>\n    outro dia, l&aacute; na reparti&ccedil;&atilde;o, ao inaugurar-se o retrato<br \/>\n    do chefe, quis &agrave; viva for&ccedil;a ler um discurso. E leu, prevenindo<br \/>\n    os ouvintes: &quot;&Eacute; curtinho senhores, tenham paci&ecirc;ncia&quot;.<\/p>\n<p> Esta esfarrapada desculpa com que se costumam cobrir os oradores intempestivos<br \/>\n    baseia-se toda num passe fin&oacute;rio com as no&ccedil;&otilde;es de tempo<br \/>\n    &#8211; a do tempo mec&acirc;nico e objetivo e a do tempo psicol&oacute;gico ou<br \/>\n    subjetivo. Quando dizem que a pe&ccedil;a &eacute; curta, &eacute; porque<br \/>\n    lhe aplicam a medidarel&oacute;gio, como se fosse esta a que importasse aos<br \/>\n    ouvintes como se n&atilde;o fosse, por exemplo, uma verdade universal que<br \/>\n    o pequenino serm&atilde;o de ouro que nos aborrece &eacute; dez ou mil vezes<br \/>\n    mais comprido do que a intermin&aacute;vel lenga-lenga que nos lisonjeia.<\/p>\n<p> O nosso rel&oacute;gio interior tem tamb&eacute;m dois mostradores, um grande<br \/>\n    e outro pequeno, mas o grande &eacute; que d&aacute; medida pr&aacute;tica<br \/>\n    dos minutos desagrad&aacute;veis, que a&iacute; correspondem &agrave;s horas,<br \/>\n    e o pequeno marca a dura&ccedil;&atilde;o das horas amenas, que nele s&atilde;o<br \/>\n    min&uacute;sculas fra&ccedil;&otilde;es &#8211; quando o ponteiro n&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    engasgado.<\/p>\n<p> O tempo real &eacute; conforme ao &iacute;cone que dele deixaram os gregos<br \/>\n    &#8211; um velho decr&eacute;pito que naturalmente se arrasta quando caminha por<br \/>\n    seus p&eacute;s, mas que tamb&eacute;m voa como um p&aacute;ssaro, porque<br \/>\n    tem asas, e quando bate as asas rejuvenesce.<\/p>\n<p> RUFINA O homem &eacute; um ser t&atilde;o mesquinho, que onde quer que ele<br \/>\n    se ajunte logo lhe sobrevem, pelo n&uacute;mero, uma alma coletiva, embora<br \/>\n    muito rudimentar.<\/p>\n<p> A multid&atilde;o que se ensardinhava em redor do orador tinha visivelmente<br \/>\n    a sua; toda ela se agitava num s&oacute; ritmo, gritava com uma s&oacute;<br \/>\n    voz e se enchia de bra&ccedil;os erguidos como um s&oacute; bicho a eri&ccedil;ar-se<br \/>\n    numa s&oacute; contra&ccedil;&atilde;o moment&acirc;nea. O bonde tamb&eacute;m<br \/>\n    a possu&iacute;a mas indiferente, comodista e escarninha.<\/p>\n<p> Uma contava o seu tempo pelo mostrador pequeno, a outra media o dela pelo<br \/>\n    quadrante maior.<\/p>\n<p> Eram duas entidades inconcili&aacute;veis, vivendo em duas esferas distintas<br \/>\n    e irredut&iacute;veis da dura&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> As duas almas se olhavam sem se compreender: nem a da rua se aplacava, nem<br \/>\n    se inflamava a do bonde. Dois mundos com trajet&oacute;rias opostas, um em<br \/>\n    ebuli&ccedil;&atilde;o, outro frio.<\/p>\n<p> Um come&ccedil;o de autom&aacute;tica hostilidade pairava entre um e outro.<br \/>\n    Viesse um pequeno impulso, e os dois sistemas talvez se engalfinhassem com<br \/>\n    cega viol&ecirc;ncia, como dois i&ccedil;&aacute;s colocados rosto a rosto<br \/>\n    mecanicamente assumem o papel de inimigos de morte, e se agarram e se estra&ccedil;alham<br \/>\n    com um santo e inconsciente hero&iacute;smo.<\/p>\n<p> N&atilde;o me esquecerei t&atilde;o cedo de um casal de namorados que vinha<br \/>\n    hoje no bonde.<\/p>\n<p> Gente do povo, gente humilde, dessa que n&atilde;o transp&ocirc;s ainda<br \/>\n    o limite em que o indiv&iacute;duo ignorante e simples come&ccedil;a a ver<br \/>\n    e a querer copiar atitudes, maneiras e atos de uma camada superior. Era, portanto,<br \/>\n    de uma espontaneidade inocente e quase animal a ternura com que os dois se<br \/>\n    enla&ccedil;avam, tecendo cada um, em redor de ambos, uma teia isolante de<br \/>\n    car&iacute;cias, &#8211; m&atilde;os dadas, olhos compridos, falas em tom velado<br \/>\n    e pl&aacute;cido, e um permanente sorriso da mais pura e imbecil felicidade.<\/p>\n<p> Ele, um latag&atilde;o carpintejado &agrave; larga; ela, uma bezerrinha<br \/>\n    forte e carnuda, com uma pele esticada e quente e uns cabelos &aacute;speros<br \/>\n    e crespos de lavadeira tostada ao sol. Simp&aacute;ticos.<\/p>\n<p> Talvez belos, n&atilde;o tanto dessa &quot;beleza do diabo&quot; (dizem<br \/>\n    os italianos), mero efeito da mocidade e da sa&uacute;de, como dessa esp&eacute;cie<br \/>\n    de beleza promissiva, que n&atilde;o entra pelos olhos, que se entrev&ecirc;,<br \/>\n    que &eacute; como um esbo&ccedil;o deixado de m&atilde;o quando se encaminhava<br \/>\n    para a forma perfeita.<\/p>\n<p> O meu prazer foi imaginar que o latag&atilde;o era eu, que a mo&ccedil;a<br \/>\n    era Rufina. Est&aacute;vamos entregues um ao outro.<\/p>\n<p> Tinha-me apropriado dela com a naturalidade com que me apropriaria do meu<br \/>\n    duplo, se ele surgisse a meu lado. Fechara-a no &acirc;mbito da minha personalidade<br \/>\n    e um desdobramento, um acr&eacute;scimo, uma proje&ccedil;&atilde;o do meu<br \/>\n    ser.<\/p>\n<p> Que me importava o seu passado? A mulher que se ama n&atilde;o tem passado.<br \/>\n    Nasceu na v&eacute;spera.<\/p>\n<p> &Eacute; a objetiva&ccedil;&atilde;o de um acontecimento interior. N&atilde;o<br \/>\n    &eacute; um ser: &eacute; um fato. &Eacute; um epis&oacute;dio novo de uma<br \/>\n    hist&oacute;ria que vem de longe. A hist&oacute;ria, com o seu ritmo, a sua<br \/>\n    lei, a sua necessidade, a sua marcha, o seu destino, engloba, arrasta, dissolve<br \/>\n    e tinge de sua cor tudo quanto colhe atrav&eacute;s do seu derrame fluvial.<\/p>\n<p> A mulher que se ama come&ccedil;ou com o nosso amor; como disse o catal&atilde;o<br \/>\n    Maragall da poesia.<\/p>\n<p> &#8230; tot just ha comen&ccedil;at i es plena de virtuts inconegudes.<\/p>\n<p> De repente, o casal desceu. O rapag&atilde;o foi o primeiro &agrave; saltar,<br \/>\n    e, instintivamente, voltou-se com galante d&oacute;naire e estendeu a m&atilde;o<br \/>\n    &agrave; juvenoa.<\/p>\n<p> Esta pulou r&aacute;pida e leve, como se tivesse recuperado instantaneamente<br \/>\n    uma aptid&atilde;o perdida.<\/p>\n<p> Nesse momento, aquele tosco rapaz, cabouqueiro ou lavrador, nos seus sapat&otilde;es<br \/>\n    entorroados, sob o seu chap&eacute;u sujo, e aquela mo&ccedil;a que mal e<br \/>\n    superficialmente se alindara, como uma batata apenas cozinhada e descascada,<br \/>\n    me deram a impress&atilde;o de duas criaturas saturadas por s&eacute;culos<br \/>\n    de galantaria e de cultura.<\/p>\n<p> Eram duas sementes, e j&aacute; me pareceram duas flores. Eram dois bichos<br \/>\n    do ch&atilde;o e pareceramme dois p&aacute;ssaros esguios.<\/p>\n<p> O amor gera e regenera desde que surde. A fun&ccedil;&atilde;o generatriz<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; um acidente da sua hist&oacute;ria, nem &eacute; a causa<br \/>\n    da sua apari&ccedil;&atilde;o: amar e gerar &eacute; tudo um, e produz partos<br \/>\n    mais tempor&atilde;os e mais estranhos do que os do ventre. Tudo come&ccedil;a<br \/>\n    ou recome&ccedil;a, e todas as fecundidades se concentram na carne e na alma<br \/>\n    dos amantes, e o pr&oacute;prio mundo aparece de repente refeito, banhado<br \/>\n    das claridades e tocado da magnific&ecirc;ncia de um g&ecirc;nesis.<\/p>\n<p> Rufina&#8230;<\/p>\n<p> Ora, ora, Rufina, uma simples passageira de bonde com quem eu, passageiro<br \/>\n    de bonde, me encontrei duas vezes por acaso! O SONETO Deus de miseric&oacute;rdia,<br \/>\n    como eu tenho pena dos poetas, meus irm&atilde;os! Apesar de ser eu o pobre<br \/>\n    da irmandade.<\/p>\n<p> Pelo trabalho que me tem custado o soneto que empreendi h&aacute; tr&ecirc;s<br \/>\n    meses, calculo as torturas em que voluntariamente se enredam os que ainda<br \/>\n    fabricam esses objetos de arte.<\/p>\n<p> Dizem, que h&aacute; indiv&iacute;duos que sonetizam com facilidade, sem<br \/>\n    preju&iacute;zo da perfei&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o descreio disso. Mas<br \/>\n    essa espontaneidade para fazer um soneto s&oacute; se adquire depois de muito<br \/>\n    e duro labor de aprendizagem e pr&aacute;tica do soneto. Tamb&eacute;m os<br \/>\n    ginastas fazem com a m&aacute;xima facilidade e economia de esfor&ccedil;o<br \/>\n    os mais complicados e arriscados giros no trap&eacute;zio, na barra e nas<br \/>\n    argolas, &#8211; e isso est&aacute; muito longe de provar que tais habilidades lhe<br \/>\n    sejam naturais como a n&oacute;s outros o uso do guarda-chuva ou o trepar<br \/>\n    no estribo dos bondes.<\/p>\n<p> Quanto a mim, vou desistir de concorrer aos futuros floril&eacute;gios.<br \/>\n    Mas, em vez de fazer como o outro, que despreza essa forma de poesia, alegando<br \/>\n    que &eacute; velha de seiscentos anos, que o mundo est&aacute; cheio de sonetos,<br \/>\n    e que os sonetistas s&atilde;o muito mais numerosos do que os poetas, continuo<br \/>\n    a achar que a fabrica&ccedil;&atilde;o deste g&ecirc;nero de pe&ccedil;as<br \/>\n    &eacute; um &uacute;til e nobre exerc&iacute;cio de engenho, al&eacute;m de<br \/>\n    ser o mais justific&aacute;vel dos quebra-cabe&ccedil;as.<\/p>\n<p> Quanto a serem milh&otilde;es os que se produzem, hoje em dia, em todo o<br \/>\n    mundo, e contarem-se pelos dedos os capazes de sobreviver, n&atilde;o vejo<br \/>\n    nisso raz&atilde;o para se condenar o soneto. &Eacute; igualmente certo que<br \/>\n    o mundo produz cada dia milh&otilde;es de rosas, e que essas rosas ainda vivem<br \/>\n    apenas, como no tempo de Malherbe, &#8211; d&#8217;un matia &#8211; isto &eacute;, tr&ecirc;s<br \/>\n    ou quatro dias; contudo, da&iacute; n&atilde;o se segue que a rosa se tenha<br \/>\n    tornado indigna do nosso apre&ccedil;o. Ao contr&aacute;rio, a brevidade fatal<br \/>\n    da sua melindrosa vida &eacute; um dos elementos do sutil encanto que elas<br \/>\n    desprendem, como um outro perfume.<\/p>\n<p> Cosa bella e mortal&#8230;<\/p>\n<p> Creio que n&atilde;o h&aacute; nada mais dif&iacute;cil, ou pouco haver&aacute;,<br \/>\n    do que armar, travar e concluir um soneto de modo que ele fique cheio e redondo<br \/>\n    como uma bola maci&ccedil;a. Digo bola, porque o soneto, graficamente quadrilateral,<br \/>\n    &eacute; mentalmente esf&eacute;rico. N&atilde;o tem na sua transcendente<br \/>\n    realidade, princ&iacute;pio nem fim: o termo aparente &eacute; que, a certa<br \/>\n    luz, se pode considerar come&ccedil;o, porque ningu&eacute;m se inicia na<br \/>\n    compreens&atilde;o justa da pe&ccedil;a antes de ter chegado ao &quot;final&quot;,<br \/>\n    antes de haver este lan&ccedil;ado a proje&ccedil;&atilde;o an&iacute;mica<br \/>\n    do seu conte&uacute;do at&eacute; &agrave;s primeiras palavras do primeiro<br \/>\n    verso.<\/p>\n<p> Assim, todas as partes idealmente se alongam num &uacute;nico sentido, e<br \/>\n    repassam sobre si mesmas, girando em redor de um eixo gerador, buscando mecanicamente<br \/>\n    a esfericidade a que tendem as massas em revolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Ser&aacute; isso poesia pura? Parece que n&atilde;o &eacute;. Mas, dado<br \/>\n    que se saiba o que venha a ser poesia pura, &eacute; evidente que essa ess&ecirc;ncia,<br \/>\n    como certas subst&acirc;ncias delicadas e vol&aacute;teis, precisa sempre<br \/>\n    de uma liga mais ou menos grosseira para subsistir.<\/p>\n<p> De resto, a mim pouco me importa o nome da coisa, ou os quadros em que ela<br \/>\n    entre ou deixe de entrar. Quando, a&iacute; pelos caminhos, eu topo com uma<br \/>\n    bela teia de aranha, estendida ao sol da manh&atilde; como uma roupa de fada,<br \/>\n    para que se lhe seque o relento da noite, a mim pouco se me d&aacute; de saber<br \/>\n    se aquilo est&aacute; bem constru&iacute;do, se n&atilde;o est&aacute;, se<br \/>\n    o material &eacute; puro ou impuro (a natureza sabe o que seja puro ou n&atilde;o<br \/>\n    o seja), e se a aranha devia ou n&atilde;o devia fazer outra coisa.<\/p>\n<p> Aceito-lhe a teia como est&aacute;; e se ela palpita e cintila ao sol, toda<br \/>\n    tecida de filetes impalp&aacute;veis colhidos ao luar, &agrave;s fosforesc&ecirc;ncias<br \/>\n    noturnas, &agrave;s azulejantes flu&ecirc;ncias matinais do c&oacute;rrego,<br \/>\n    &agrave; casca met&aacute;lica dos besouros e se ela parece bulir no mato<br \/>\n    como um enxame de estrelinhas tontas, &#8211; paro, olho, sorrio, vou andando, e<br \/>\n    ainda volto a vista para tr&aacute;s. Aquilo &eacute; bonito, e acabou-se.<\/p>\n<p> No soneto, como os fizeram Petrarca ou Santa Teresa, Du Bellay ou Shakespeare,<br \/>\n    a liga em que se aprisiona a ess&ecirc;ncia de poesia &eacute; sutil e engenhosamente<br \/>\n    intelectual. Todos os bons sonetos s&atilde;o obras-primas de engenho discursivo,<br \/>\n    tocadas de um raio de poesia. Puzzle, envernizado de sonho. Gaiolas dial&eacute;ticas<br \/>\n    nas quais, pelo menos, parecem revolutear penugens do p&aacute;ssaro que fugiu,<br \/>\n    &#8211; o tal p&aacute;ssaro fant&aacute;stico da poesia verdadeira.<\/p>\n<p> Engenho, eis o que me tem faltado para levar a cabo a minha obra-prima.<br \/>\n    Tamb&eacute;m tem faltado oportunidade. Feitas as quadras no bonde, entendeu<br \/>\n    o meu subconsciente que no bonde eu havia de fabricar os tercetos.<\/p>\n<p> Fora da&iacute;, no meu gabinete, na reparti&ccedil;&atilde;o, no teatro,<br \/>\n    n&atilde;o me acode nem fiapo de id&eacute;ia; mas no bonde nem sempre consigo<br \/>\n    a calma nem os vagares indispens&aacute;veis a esta classe de servi&ccedil;o.<\/p>\n<p> Como este mundo anda desconsertado! Mas ainda bem. Se os homens tivessem<br \/>\n    tempo para meditar, decerto deixariam de fazer muitas asneiras &#8211; das pequenas;<br \/>\n    mas como as premeditariam grandes e terr&iacute;veis! Hoje, depois de v&aacute;rias<br \/>\n    tentativas, entrei no bonde decidido a conquistar o meu sossego.<\/p>\n<p> Dei logo de cara com o Sr. Jo&atilde;o Ces&aacute;rio, esse risonho pirata<br \/>\n    que infesta a nossa linha e assalta pobres passageiros para lhes arrancar<br \/>\n    o &uacute;nico money que eles t&ecirc;m, o tempo. Mas o Sr. Ces&aacute;rio<br \/>\n    n&atilde;o me viu, porque estava despojando a um outro. Fui para o banco mais<br \/>\n    plebeiamente preenchido, entre uma preta de xale e um cabo de pol&iacute;cia.<\/p>\n<p> Cerrei os olhos, evoquei a imagem flutuante e delgada de Gabriela, recordei<br \/>\n    as quadras, fui avan&ccedil;ando o p&eacute; pelo escuro da inspira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    informe.<\/p>\n<p> Gabriela, como ficou assentado, era uma jovem que tinha perdido todas as<br \/>\n    ilus&otilde;es, coitada! Por necessidade de rima e falta de espa&ccedil;o,<br \/>\n    n&atilde;o foi poss&iacute;vel precisar de que ilus&otilde;es se tratava,<br \/>\n    sendo certo que em tudo, na vida, a ilus&atilde;o desempenha um papel muito<br \/>\n    s&eacute;rio e ningu&eacute;m pode jamais gabar-se de as haver perdido por<br \/>\n    completo. J&aacute; se disse mesmo que o homem vive de ilus&otilde;es. Mas<br \/>\n    essa imprecis&atilde;o de id&eacute;ias &eacute; muito pr&oacute;pria da poesia;<br \/>\n    e tem a vantagem de dar largueza bastante para as imagina&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    se moverem ao sabor de cada temperamento.<\/p>\n<p> Gabriela perdera as suas ilus&otilde;es de mo&ccedil;a ardente e sequiosa,<br \/>\n    porque se atirara aos chamarizes e &agrave;s ins&iacute;dias do mundo com<br \/>\n    excessiva sofreguid&atilde;o e nenhuma cautela. Isto ficou registado na segunda<br \/>\n    quadra.<\/p>\n<p> Agora, os tercetos &eacute; que eram elas! Conviria acentuar que, tendo<br \/>\n    perdido as suas ilus&otilde;es, a menina estava como quem tivesse perdido<br \/>\n    a t&uacute;nica atrav&eacute;s de matos e pedernais, ou em luta com bichos<br \/>\n    assanhados. Esta id&eacute;ia &eacute; velha, mas pondo-se-lhe um revestimento<br \/>\n    novo, ainda serve. As compara&ccedil;&otilde;es po&eacute;ticas essenciais,<br \/>\n    referentes &agrave;s verdadeiras situa&ccedil;&otilde;es em que se pode encontrar<br \/>\n    uma alma nesta vida, s&atilde;o bem pouco numerosas, no fundo; e os poetas,<br \/>\n    por mais que fa&ccedil;am, h&atilde;o de sempre voltearlhes em redor.<\/p>\n<p> Hoje, a&iacute; vais&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p> &#8230;&#8230;&#8230;.. inteiramente nua &#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p> Repeti essas palavras vinte vezes, preenchendo os espa&ccedil;os vagos da<br \/>\n    pauta com s&iacute;labas soltas sem significa&ccedil;&atilde;o nem consist&ecirc;ncia,<br \/>\n    s&oacute; para acentuar o ritmo e provocar a id&eacute;ia. Uma esp&eacute;cie<br \/>\n    de massagem sobre um tumor maduro.<\/p>\n<p> Mas na verdade o tumor ainda estava um tanto verde. O que sobretudo me impedia<br \/>\n    de chegar a um resultado, era o final.<\/p>\n<p> O soneto, hoje estou disso convencido, tem uma causa final &#8211; o fecho deve<br \/>\n    ser achado antes do mais. &Eacute; o verdadeiro princ&iacute;pio. Ent&atilde;o,<br \/>\n    tudo para l&aacute; se encaminha, como no ovo se forma com seguran&ccedil;a<br \/>\n    e tranq&uuml;ilidade o pinto prefigurado.<\/p>\n<p> Enquanto eu ia fazendo estas reflex&otilde;es, o bonde se aproximava mais<br \/>\n    depressa do termo, e tive de adiar mais uma vez a conclus&atilde;o da minha<br \/>\n    tarefa po&eacute;tica.<\/p>\n<p> Mas hei de conclu&iacute;-la. Tenho diante de mim todo o resto da minha<br \/>\n    vida. Tudo me indica que ainda poderei vir a ser o Arvers de um soneto, n&atilde;o<br \/>\n    direi t&atilde;o acabado, mas pelo menos t&atilde;o dif&iacute;cil de acabar.<\/p>\n<p> Sainte-Beuve disse que il existe chez les trois quarts des hommes un po&egrave;te<br \/>\n    mort jeune &agrave; qui l&#8217;homme survit. Mas isso n&atilde;o &eacute; um achado:<br \/>\n    a poesia sempre foi tida como particular companheira da juventude, nos homens<br \/>\n    e nos povos. O mais curioso &eacute; que muitos trazem consigo poetas que<br \/>\n    nunca chegaram a nascer e que s&atilde;o como revenants do futuro.<\/p>\n<p> UM HOMEM PERFEITO O Sr. Jo&atilde;o Ces&aacute;rio da Costa apareceu-me<br \/>\n    hoje muito loquaz e prazenteiro. Sentou-se a meu lado, palpou as minhas disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    auditivas, notou que eram boas, e deixou escapar a loq&uuml;ela, primeiro<br \/>\n    &agrave;s gotas espa&ccedil;adas, depois &agrave;s gotas que j&aacute; quase<br \/>\n    se ligavam num fio, por fim jorro franco.<\/p>\n<p> Principiou por falar do tempo, que estava &quot;lind&iacute;ssimo e convidativo.&quot;<br \/>\n    Da&iacute; deslizou para considera&ccedil;&otilde;es acerca do nosso clima<br \/>\n    e do europeu, das nossas esta&ccedil;&otilde;es e das europ&eacute;ias.<\/p>\n<p> Descambou ent&atilde;o para o elogio da nossa &quot;terna primavera&quot;<br \/>\n    e da nossa &quot;natureza exuberante&quot;.<\/p>\n<p> Isto o levou ao fat&iacute;dico paralelo entre a natureza e o ind&iacute;gena;<br \/>\n    e Ces&aacute;rio revelou gravemente que, segundo a opini&atilde;o de Humboldt,<br \/>\n    no Brasil tudo &eacute; grande, menos o homem.<\/p>\n<p> Mostrei-me consternado por isso, e Ces&aacute;rio caiu no dom&iacute;nio<br \/>\n    da educa&ccedil;&atilde;o, cujo principal objetivo, no Brasil, devia consistir<br \/>\n    em debelar a empregomania, o bacharelismo e a macaquea&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    estrangeiro. Quando chegamos ao ponto, o meu amigo, depois de ter passado<br \/>\n    pela pol&iacute;tica, ia bordando coment&aacute;rios em roda do vestido feminino<br \/>\n    e deplorando a subvers&atilde;o da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> Enquanto ele orava, eu vinha-lhe mentalmente acompanhando a curva das associa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de id&eacute;ias e avaliando as vastas etapas que fazia atrav&eacute;s da<br \/>\n    mat&eacute;ria pens&aacute;vel, metido nas botas de sete l&eacute;guas da<br \/>\n    imagina&ccedil;&atilde;o discursivas.<\/p>\n<p> &Eacute; assim, justamente, que os homens pr&aacute;ticos pensam, desde<br \/>\n    que saem do cr&eacute;dulo habitual das preocupa&ccedil;&otilde;es profissionais.<br \/>\n    Tomam as suas associa&ccedil;&otilde;es espont&acirc;neas e os seus estados<br \/>\n    vulgares de sentimento como leg&iacute;timas formas de cogita&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E t&ecirc;m um grande desd&eacute;m pelos poetas &#8211; sendo que poetas s&atilde;o<br \/>\n    todos quantos n&atilde;o se contentam com essa moagem perp&eacute;tua de id&eacute;ias<br \/>\n    feitas e de id&eacute;ias que nunca se acabam de fazer.<\/p>\n<p> Na verdade, isto &eacute; eminentemente pr&aacute;tico. Nada mais &eacute;<br \/>\n    preciso para viver, e viver bem, e prosperar, e fazer jus a um mausol&eacute;u<br \/>\n    de cinco metros de altura, com c&uacute;pula guardada por um anjo de magoado<br \/>\n    semblante e grandes asas, talhado em m&aacute;rmore branco pelo melhor marmorista<br \/>\n    da cidade.<\/p>\n<p> Jo&atilde;o Ces&aacute;rio tem um m&eacute;rito, al&eacute;m de muitos outros:<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; uma edi&ccedil;&atilde;o, nem mesmo uma edi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    barata de Ac&aacute;cio, vers&atilde;o portuguesa e pacata de Mr. Prudhomme<br \/>\n    e variedade conservadora do farmac&ecirc;utico Homais.<\/p>\n<p> Ac&aacute;cio, Prudhomme e Homais eram homens de princ&iacute;pios ou de<br \/>\n    ideais, ao passo que Ces&aacute;rio n&atilde;o tem convic&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    arreigadas: &eacute; um bom homem, arranjado, comodista, amigo da boa roupa,<br \/>\n    da boa mesa e da boa prosa, com ambi&ccedil;&otilde;es modestas e com um grande<br \/>\n    tato instintivo do que lhe pode ser &uacute;til e agrad&aacute;vel. Incapaz<br \/>\n    das parlapatices de Prudhomme, da compenetra&ccedil;&atilde;o respeitosa de<br \/>\n    si pr&oacute;prio que distinguia Ac&aacute;cio, e de aziumados sectarismos<br \/>\n    &agrave; maneira de Homais.<\/p>\n<p> Apenas se encontra com eles no terreno do lugar-comum. Mas o lugar-comum<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; privativo destes ou daqueles, &eacute; a terra de ningu&eacute;m<br \/>\n    onde todo o mundo, uns mais ami&uacute;de, outros mais de longe em longe e<br \/>\n    mais a medo, faz as suas incurs&otilde;es e as suas colheitas.<\/p>\n<p> De resto ser&aacute; o lugar-comum coisa t&atilde;o desprez&iacute;vel?<br \/>\n    N&atilde;o, o lugar-comum &eacute; necess&aacute;rio. Faz parte das for&ccedil;as<br \/>\n    da natureza. &Eacute; da natureza do esp&iacute;rito humano a necessidade<br \/>\n    de cunhar uma esp&eacute;cie de moeda division&aacute;ria das id&eacute;ias,<br \/>\n    que possa andar pelas pr&oacute;prias m&atilde;os dos que n&atilde;o tenham<br \/>\n    capitais e que presta enorme servi&ccedil;o a toda a gente.<\/p>\n<p> Se se quer encarar o caso na sua verdadeira latitude, o ponto de vista escolar,<br \/>\n    estil&iacute;stico, liter&aacute;rio, &eacute; de uma insufici&ecirc;ncia<br \/>\n    absoluta, e por sua estreiteza e vetustez bem merece figurar tamb&eacute;m<br \/>\n    na categoria dos lugares- comuns elegantes.<\/p>\n<p> O abuso desse ponto de vista cr&iacute;tico e aristocr&aacute;tico vai espalhando<br \/>\n    nos esp&iacute;ritos inclinados &agrave;s letras e &agrave;s id&eacute;ias<br \/>\n    um terror excessivo e doentio do ominoso pecado. E com isso chega a criar<br \/>\n    freq&uuml;entemente uma esp&eacute;cie de Ac&aacute;cios &agrave;s avessas,<br \/>\n    que repelem boas id&eacute;ias por serem velhas, sem sempre forjar novas que<br \/>\n    sejam boas, e esquecem-se da corrente e desempenada linguagem da conversa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    e embrulham em formas rebuscadas os mais fugitivos e amb&iacute;guos fiapos<br \/>\n    de pensamento, como quem fizesse gaiolinhas de metal dourado para guardar<br \/>\n    pernilongos.<\/p>\n<p> A grande e imponente maioria dos humanos n&atilde;o d&aacute; nenhum apre&ccedil;o<br \/>\n    &agrave;s id&eacute;ias por si mesmas.<\/p>\n<p> Estas, quando caem na circula&ccedil;&atilde;o geral, perdem toda a sua<br \/>\n    virtude abstrata, empastam-se na grossa praticidade e na violenta concreteza<br \/>\n    dos valores vitais imediatos. Descem do plano l&oacute;gico para o biol&oacute;gico.<br \/>\n    Rousseau disse que pensar &eacute; um ato contra a natureza, e os atos contra<br \/>\n    a natureza ela os pune empe&ccedil;ando-os ou desviando-os, reassimilando-os<br \/>\n    e recolocando-os na &oacute;rbita dos seus pr&oacute;prios fins.<\/p>\n<p> As id&eacute;ias, na marcha geral e normal da vida, t&ecirc;m um valor t&atilde;o<br \/>\n    puramente instrumental, oportun&iacute;stico e subalterno como as armas, os<br \/>\n    utens&iacute;lios, os aparelhos e todas as coisas que prolongam os nossos<br \/>\n    meios naturais de a&ccedil;&atilde;o. &Eacute; preciso que um homem esteja<br \/>\n    pervertido pela literatura e an&aacute;logas manias, para ter a fantasia de<br \/>\n    inventar id&eacute;ias, pelo simples prazer de criar instrumentos originais.<br \/>\n    Se a faca e o martelo j&aacute; foram inventados h&aacute; milhares de anos,<br \/>\n    e prestam &oacute;timo servi&ccedil;o, para que &eacute; que o Sr. Ces&aacute;rio<br \/>\n    havia de imaginar um traste novo e aperfei&ccedil;oado, s&oacute; para cortar<br \/>\n    uns cip&oacute;s ou para bater uns pregos de quando em quando? N&atilde;o<br \/>\n    seria econ&ocirc;mico. Enorme despropor&ccedil;&atilde;o entre o esfor&ccedil;o<br \/>\n    e o resultado.<\/p>\n<p> Com um pequeno arsenal de lugares-comuns, Ces&aacute;rio est&aacute; dispensado<br \/>\n    de gastar inutilmente largas somas de tempo e de trabalho. P&otilde;e a sua<br \/>\n    provis&atilde;o no bolso, cada dia, conforme as necessidades, e sai para os<br \/>\n    seus neg&oacute;cios, para os seus prazeres de sociedade, para as suas demandas,<br \/>\n    para a sua descansada pescaria de proveitos poss&iacute;veis, nas horas vagas.<br \/>\n    Surte-se com a suave facilidade de quem completa, em casa a sua toilette habitual,<br \/>\n    pondo meia d&uacute;zia de charutos na carteira, um len&ccedil;o de sobressalente<br \/>\n    no bolso da cal&ccedil;a, um canivete no bolsinho do colete.<\/p>\n<p> D&aacute;-se bem com o sistema, e a sociedade ainda melhor. Ganha esta um<br \/>\n    homem af&aacute;vel, servi&ccedil;al, maneiro, de f&aacute;cil e macio contato,<br \/>\n    simples de utilizar.<\/p>\n<p> Multipliquem-se estes homens exemplares por mil, e veja-se que incalcul&aacute;vel<br \/>\n    benef&iacute;cio n&atilde;o seria, que harm&ocirc;nica estabiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um tipo social ind&iacute;gena, que precioso refor&ccedil;o de cidad&atilde;os<br \/>\n    bem constru&iacute;dos, normalizados, estandardizados, sem mist&eacute;rios<br \/>\n    e sem surpresas, s&oacute;lidos, garantidos, de uso limitado mas seguro e<br \/>\n    preciso, &#8211; como a lou&ccedil;a inglesa, como a cutelaria de Manchester, como<br \/>\n    o presunto holand&ecirc;s, como o &oacute;leo de f&iacute;gado de bacalhau,<br \/>\n    como o f&oacute;sforo Jonkonpings, como as camisas do Porto! Foi essa multiplica&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de um tipo modesto mas vi&aacute;vel e bom que fez aquela coes&atilde;o e<br \/>\n    aquela estabilidade magn&iacute;fica da sociedade brit&acirc;nica, &#8211; o seu<br \/>\n    n&uacute;cleo resistente, a sua massa harm&ocirc;nica e firme, a deslocar-se<br \/>\n    atrav&eacute;s da hist&oacute;ria com o &iacute;mpeto regular de um imenso<br \/>\n    ex&eacute;rcito em marcha.<\/p>\n<p> Suponham-se agora estes inumer&aacute;veis Ces&aacute;rios preocupados todos<br \/>\n    com fabricar id&eacute;ias e esmalt&aacute;-las sob formas graciosas e cortantes.<br \/>\n    Que calamidade! Ganhar&iacute;amos, talvez, algumas j&oacute;ias do esp&iacute;rito,<br \/>\n    mas, em troca, que multid&atilde;o de intelectuais neurast&ecirc;nicos, incertos,<br \/>\n    c&aacute;usticos, insoci&aacute;veis, prisioneiros eternos de si mesmos, despidos<br \/>\n    de toler&acirc;ncia e de benignidade, sacrificando tudo por uma frase de esp&iacute;rito,<br \/>\n    inadapt&aacute;veis a todo esfor&ccedil;o comum, inimigos de toda disciplina<br \/>\n    obscura e de todo devotamento discreto e silencioso, e enfim grandes criadores<br \/>\n    efetivos de mal-estar, de desintelig&ecirc;ncia e de est&eacute;reis, inacab&aacute;veis<br \/>\n    veleidades e agita&ccedil;&otilde;es no seio da massa e no das mo&ccedil;as!<br \/>\n    M&Atilde;E Pobre mulher, aquela boa e sincera m&atilde;e que vi ontem, t&atilde;o<br \/>\n    mansa, t&atilde;o entregue ao seu pequenino! Era bonita, mas como que o ignorava.<br \/>\n    Estava t&atilde;o despreocupada no bonde como se estivesse em sua casa. &#8216;Trazia<br \/>\n    o filhinho ao rega&ccedil;o, e brincava-lhe com uma das m&atilde;ozinhas,<br \/>\n    fazendo-a saltar, arremessando-a e abaixando-a, aos pequenos tapas, como uma<br \/>\n    bola. O pequeno ria-se de quando em quando, e a cada risada o rosto da m&atilde;e<br \/>\n    tomava uma express&atilde;o forte, escultural de felicidade plena e remansosa.<\/p>\n<p> A certo momento, pegou a crian&ccedil;a pelo tronco, p&ocirc;-la em p&eacute;<br \/>\n    sobre os joelhos, e come&ccedil;ou a sacudi-la como a pregar-lhes sustos.<br \/>\n    Fazia-lhe, ora, uma cara de surpresa c&ocirc;mica, arregalando os olhos; ora,<br \/>\n    uma cara de c&oacute;lera, carregando as sobrancelhas, afuzilando o olhar;<br \/>\n    ora, uma cara de choro desconsolado, em que todos os m&uacute;sculos se relaxavam<br \/>\n    e as p&aacute;lpebras e os cantos da boca desca&iacute;am.<\/p>\n<p> Jogral do seu pequerrucho, essa m&atilde;e se esquecia de si, se despojava<br \/>\n    de todas as preocupa&ccedil;&otilde;es habituais, concentrava toda a sua vida<br \/>\n    naquele ser &uacute;nico, pequenino e frag&iacute;limo.<\/p>\n<p> Era um simples brinquedo em poder do seu beb&ecirc;, &#8211; brinquedo todo cheinho<br \/>\n    de amor, como outros o s&atilde;o de serragem.<\/p>\n<p> Mas, por que, deuses imortais e imposs&iacute;veis! por que seria necess&aacute;rio<br \/>\n    que essa m&atilde;e, resumindo o mundo em seu filho, trabalhasse t&atilde;o<br \/>\n    obstinadamente por gravar nele os gestos eternos da loucura humana? Gestos<br \/>\n    de f&uacute;ria, de terror, de cupidez, de despeito, de ci&uacute;me, &#8211; toda<br \/>\n    a m&iacute;mica do inferno mundano, &#8211; formas para ele ainda vazias, mas nas<br \/>\n    quais se ir&aacute; pouco a pouco vertendo e solidificando a subst&acirc;ncia<br \/>\n    do seu pequeno Eu rarefeito e disperso? Ama-o como a um anjo, e luta por fazer<br \/>\n    dele apenas um destes vasos de mis&eacute;ria, de impureza e de sofrimento!<br \/>\n    Belo e medonho, o amor de m&atilde;e. Suav&iacute;ssimo e terr&iacute;vel.<br \/>\n    A sombra dos seus gestos, branda como a dos ramos, prolonga-se at&eacute;<br \/>\n    o horizonte da vida, onde a sombra enorme da Fatalidade passa arrastando pelos<br \/>\n    cabelos a sombra da Ilus&atilde;o.<\/p>\n<p> RUFINA E O SONETO Pobre Rufina! T&atilde;o juvenilmente graciosa e linda<br \/>\n    ainda h&aacute; dois meses&#8230; Parecia arder em mocidade e beleza como uma<br \/>\n    pedra preciosa. Agora, d&aacute;-me a id&eacute;ia de uma p&eacute;rola moribunda.<\/p>\n<p> &Eacute; assim este mundo; um resfriado, uma pleurisia, tr&ecirc;s semanas<br \/>\n    de cama &#8211; e eis um corpo e uma alma completamente modificados, e uma vida<br \/>\n    clara e leve como um regato da montanha mudada num ribeir&atilde;o turvo do<br \/>\n    vale triste! Viajei hoje com ela. Descorada e descarnada, metida num vestido<br \/>\n    escuro e pobre, era apenas uma sombra da outra Ruf&iacute;na. Disse-me coisas<br \/>\n    graves sobre a vida. Queixou-se das suas ilus&otilde;es malucas, que a conduziram<br \/>\n    at&eacute; h&aacute; pouco atrav&eacute;s das almas e das coisas como atrav&eacute;s<br \/>\n    de uma festa, para, de repente, a abandonarem entre essas duas megeras &#8211; a<br \/>\n    Solid&atilde;o e a Necessidade.<\/p>\n<p> Chegou a falar-me de Deus, e, entre dois acessos de tosse, perguntou-me,<br \/>\n    com a simplicidade suprema de quem pedia uma informa&ccedil;&atilde;o: &#8211; &quot;Ser&aacute;<br \/>\n    que ele me aceita?&quot; Em que embara&ccedil;o me p&ocirc;s: Pedir a mim,<br \/>\n    pecador encoscorado, um raio de esperan&ccedil;a e consola&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; porque era evidentemente o que pedia, na simplicidade triste daquela pergunta!<br \/>\n    Valeria o mesmo querer refrescar os l&aacute;bios em febre com o suco de uma<br \/>\n    p&ecirc;ra de campainha el&eacute;trica.<\/p>\n<p> Tive &iacute;mpetos de endere&ccedil;ar ao vig&aacute;rio da nossa par&oacute;quia.<br \/>\n    Mas o santo homem estava j&aacute; t&atilde;o acostumado a lidar com almas<br \/>\n    em pena! Era poss&iacute;vel que n&atilde;o lhe desse maior aten&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    que a tratasse com desdenhosa bonomia, como fazem certos m&eacute;dicos, excepcionalmente,<br \/>\n    com os clientes pobres: &quot;Isso n&atilde;o &eacute; nada. Est&aacute; nervoso.<br \/>\n    &#8211; Dor no cogote, H&aacute; de ser mau jeito. &#8211; Febre, &eacute;? Uhn&#8230; &#8211; Qual!<br \/>\n    n&atilde;o tem import&acirc;ncia. Apare&ccedil;a um dia l&aacute; no consult&oacute;rio&quot;.<\/p>\n<p> N&atilde;o, n&atilde;o a mandaria ao vig&aacute;rio, poderia vir de l&aacute;<br \/>\n    com as feridas banhadas em b&aacute;lsamo suav&iacute;ssimo, e poderia vir<br \/>\n    com elas envenenadas de despeito e de revolta.<\/p>\n<p> Eu estava para lhe dizer que sim, que Deus a receberia nos seus bra&ccedil;os<br \/>\n    com paterno carinho, porque nada pode ser mais agrad&aacute;vel ao Senhor<br \/>\n    de toda a sabedoria e de toda a miseric&oacute;rdia do que uma alma despojada<br \/>\n    de mundanidades, nua, na plena e corajosa nudez da humildade, do desengano<br \/>\n    e do arrependimento.<\/p>\n<p> Quando, por&eacute;m, decidia estas d&uacute;vidas de consci&ecirc;ncia<br \/>\n    e preparava esta resposta, Rufina ergueu-se, fez soar a campainha, despediu-se<br \/>\n    e esgueirou-se. Fiquei a v&ecirc;-la do bonde, que estacionara por um momento.<br \/>\n    Reprochava-me com raiva as minhas eternas indecis&otilde;es de animal imprest&aacute;vel.<\/p>\n<p> Ela foi para a cal&ccedil;ada, e p&ocirc;s-se a caminhar de um jeito meio<br \/>\n    autom&aacute;tico, direita, impass&iacute;vel, num passo mi&uacute;do e r&iacute;gido<br \/>\n    de boneca mec&acirc;nica, a cabe&ccedil;a pensa para um lado &#8211; como quem caminha<br \/>\n    com indiferen&ccedil;a, de alma vazia, para a &uacute;ltima ren&uacute;ncia<br \/>\n    ou para a morte&#8230;<\/p>\n<p> Pude saber depois que ia &agrave; costureira.<\/p>\n<p> Somos todos horrendamente ego&iacute;stas. Nunca tive como hoje a sensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que valem todas essas floresc&ecirc;ncias admir&aacute;veis da vida nobre,<br \/>\n    as belas id&eacute;ias, os ideais formosos, os sentimentos altos e delicados.<\/p>\n<p> Nem bem Rufina desaparecera de minhas vistas, aquilo de eu a ter comparado<br \/>\n    mentalmente a uma alma despojada de mundanidades, nua, inteiramente nua, voltou<br \/>\n    a borboletear-me no esp&iacute;rito como um remorso gostoso. E lembrei-me<br \/>\n    logo daquele meu soneto parado entre os andaimes; como uma dessas igrejas<br \/>\n    que levam anos a construir e ficam anos &agrave; espera de recursos.<\/p>\n<p> Agora, concluiria a obra. Aferrei-me a ela pelo resto da viagem.<\/p>\n<p> Rufina, de passagem por mim tocando-me de leve, pusera-me em movimento a<br \/>\n    engenhoca da poesia, como quem toca inadvertidamente num p&eacute; de &quot;mimosa<br \/>\n    pudica&quot;, ou como quem sacode sem o querer um rel&oacute;gio engasgado,<br \/>\n    fazendo-o trabalhar.<\/p>\n<p> &Eacute; essa a finalidade dos outros, no sistema especial da nossa vida<br \/>\n    de cada um: p&ocirc;r em movimento algum dos rel&oacute;gios engasgados que<br \/>\n    temos conosco.<\/p>\n<p> O caso &eacute; que conclu&iacute; o soneto. A bem dizer n&atilde;o o conclu&iacute;<br \/>\n    no bonde: acabei de concluir na reparti&ccedil;&atilde;o, apesar de um parecer<br \/>\n    urgente que me atenazou o dia. Mas a inspira&ccedil;&atilde;o &eacute; assim:<br \/>\n    quando vem, vem de fato, e n&atilde;o h&aacute; urg&ecirc;ncias que se lhe<br \/>\n    oponham.<\/p>\n<p> Agradeci ao destino o ter-me deparado Rufina, n&atilde;o s&oacute; porque<br \/>\n    da&iacute; proveio a conclus&atilde;o do soneto, como porque me permitiu banir<br \/>\n    dele a tal Gabriela. Eu j&aacute; andava seriamente implicado com essa negrinha<br \/>\n    vagabunda, ca&ccedil;ada na sarjeta do notici&aacute;rio. Decididamente, n&atilde;o<br \/>\n    dava nada.<\/p>\n<p> Logo o primeiro verso: J&aacute; n&atilde;o tens ilus&atilde;o, oh Gabriela!<br \/>\n    era de uma in&eacute;pcia absoluta. Que &eacute; que tinha o p&uacute;blico<br \/>\n    que ver com esse nome pr&oacute;prio. E, al&eacute;m do mais, um decass&iacute;labo<br \/>\n    frouxo, &#8211; que &eacute; ainda pior do que uma frouxid&atilde;o de bom senso.<br \/>\n    Pude substitu&iacute;-lo com vantagem. E o resto &#8211; foi uma sopa: A UMA TUBERCULOSA<br \/>\n    J&aacute; nenhuma ilus&atilde;o tua alma estrela; Nenhuma abrolha em teu caminho<br \/>\n    triste.<\/p>\n<p> Tudo te &eacute; negro: e em tudo quanto existe, s&oacute; o que existe<br \/>\n    de mau se te revela.<\/p>\n<h2><a name=\"10\">Novela e Conto<\/a><\/h2>\n<h5>PSICOLOGIA DO BOATO<\/h5>\n<p> O boato &eacute; um fen&ocirc;meno social que bem merece uma prele&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    psicol&oacute;gica, como um cap&iacute;tulo, que de fato o &eacute;, da psicopatologia<br \/>\n    das multid&otilde;es.<\/p>\n<p>Nas multid&otilde;es, ou nas turbas, os elementos est&atilde;o reunidos em<br \/>\n    massas, num momento dado; os fen&ocirc;menos sociais a&iacute; se realizam<br \/>\n    por explos&atilde;o, por cont&aacute;gio s&uacute;bito que tem como ponto<br \/>\n    de partida o estado afetivo exagerado de um ou de alguns elementos influentes<br \/>\n    &#8211; os chefes de revolta, de arrua&ccedil;as etc.<\/p>\n<p>&Eacute; da natureza humana o n&atilde;o agir sem um est&iacute;mulo exterior;<br \/>\n    nossa vida mental n&atilde;o passa de sugest&atilde;o de c&eacute;lula a c&eacute;lula<br \/>\n    e nossa vida social uma cont&iacute;nua sugest&atilde;o de pessoa a pessoa.<br \/>\n    Isso se conclui da opini&atilde;o dos psic&oacute;logos que t&ecirc;m tratado<br \/>\n    desse assunto. A sugest&atilde;o &eacute; um fen&ocirc;meno geral no meio<br \/>\n    social. A imita&ccedil;&atilde;o, a repeti&ccedil;&atilde;o universal, de<br \/>\n    que G. Tarde se ocupa largamente no seu livro &#8211; Les Lois de l&#8217;Imitation &#8211;<br \/>\n    demonstrando sua universalidade, nada mais &eacute; do que a &quot;sugest&atilde;o&quot;<br \/>\n    na significa&ccedil;&atilde;o mais ampla dessa palavra. O hipnotismo faz o<br \/>\n    papel de microsc&oacute;pio, mostrando-nos a sugest&atilde;o muito aumentada.<br \/>\n    S. Sighele, no seu livro sobre a &quot;turba criminosa&quot;, esbo&ccedil;ando<br \/>\n    em tra&ccedil;os gerais a psicologia das turbas, aceita as id&eacute;ias de<br \/>\n    Tarde e mostra sua coincid&ecirc;ncia com as de Sergi (Psicose Epid&ecirc;mica).<\/p>\n<p>Com o boato as coisas se passam de modo um pouco diverso; o fen&ocirc;meno<br \/>\n    se realiza lentamente, porque os indiv&iacute;duos est&atilde;o esparsos;<br \/>\n    mas o fen&ocirc;meno &eacute; da mesma natureza essencial dos que se d&atilde;o<br \/>\n    nas turbas.<\/p>\n<p>Que &eacute; o boato? &Eacute; quase sempre uma cria&ccedil;&atilde;o fantasiosa<br \/>\n    de um indiv&iacute;duo mau, de car&aacute;ter abjeto, fantasia essa que se<br \/>\n    espalha em horas, ou em dias, numa coletividade humana, num povoado, numa<br \/>\n    cidade, num Estado. O boato nasce como realiza&ccedil;&atilde;o ilus&oacute;ria<br \/>\n    de um desejo perverso, origin&aacute;rio de uma paix&atilde;o inconfess&aacute;vel<br \/>\n    &#8211; raiva, vingan&ccedil;a, interesse torpe, seja este pecuni&aacute;rio, pol&iacute;tico<br \/>\n    ou sexual.<\/p>\n<p>O criador de um boato &eacute; sempre um imbecil (moral). A v&iacute;tima<br \/>\n    &eacute;, em regra geral, uma pessoa que tem algum valor social; &eacute;<br \/>\n    esse o seu &uacute;nico consolo&#8230;<\/p>\n<p>O boateiro escolhe um momento oportuno para lan&ccedil;ar a sua mentira,<br \/>\n    a fantasia perversa. Esse momento &eacute; de alta import&acirc;ncia, porque<br \/>\n    nele se acha a circunst&acirc;ncia que d&aacute; apar&ecirc;ncia de verdade<br \/>\n    ao fato que se pretende propalar. Essa circunst&acirc;ncia &eacute; mui vari&aacute;vel<br \/>\n    de um caso a outro. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel, por exemplo, divulgar<br \/>\n    a not&iacute;cia de que um certo financeiro importante est&aacute; louco (para<br \/>\n    dar-lhe, suponhamos, um golpe de momento) se estiver ele presente e vis&iacute;vel<br \/>\n    a todo o mundo; &eacute; preciso que esteja ausente, fortuitamente. &Eacute;<br \/>\n    a circunst&acirc;ncia oportuna.<\/p>\n<p>N&atilde;o basta, por&eacute;m, como explica&ccedil;&atilde;o para o boato,<br \/>\n    essa circunst&acirc;ncia e a possibilidade ou verossimilhan&ccedil;a do fato<br \/>\n    a divulgar. &Eacute; necess&aacute;rio o meio social apropriado para que o<br \/>\n    fen&ocirc;meno se realize. A sociedade espelha o car&aacute;ter de seus fatores<br \/>\n    antropol&oacute;gicos. A explica&ccedil;&atilde;o &eacute; bem escabrosa e<br \/>\n    desoladora para o homem civilizado, mas &eacute; preciso repetir a verdade,<br \/>\n    ainda que muito nos custe.<\/p>\n<p>&quot;Dizer mal e gostar de ouvir falar mal de algu&eacute;m &eacute; um<br \/>\n    velho cacoete da alma humana. Talvez seja a m&uacute;sica mais harm&ocirc;nica<br \/>\n    que existe, porque convibra bem com qualquer esp&iacute;rito&quot;. A frase<br \/>\n    &eacute; de Austreg&eacute;silo, no livro O Mal da Vida.<\/p>\n<p>H&aacute; em toda a criatura humana um misto estranho de bondade e de maldade,<br \/>\n    de inf&acirc;mia e de perversidade. As propor&ccedil;&otilde;es dessa mistura<br \/>\n    &eacute; que variam ao infinito. Desde o tipo bom, completo, que sufoca perfeitamente<br \/>\n    o que h&aacute; de mal dentro de si mesmo, porque a lucidez e a largueza de<br \/>\n    sua consci&ecirc;ncia lhe permitem reconhecer e dominar a pr&oacute;pria tend&ecirc;ncia<br \/>\n    perversa, at&eacute; o malvado arrematado, cuja consci&ecirc;ncia estreita<br \/>\n    e sensibilidade moral embotada lhe n&atilde;o permitem reconhecer o mal que<br \/>\n    vive dentro dele, h&aacute; nessa vasta s&eacute;rie, a infinidade de caracteres<br \/>\n    que vemos diariamente na sociedade.<\/p>\n<p>Devo a fineza de um amigo o conhecimento de um trabalho de Concepti&oacute;n<br \/>\n    Arenal (Delito Coletivo) em que se repete a no&ccedil;&atilde;o acima exposta,<br \/>\n    apenas por outras palavras; &quot;lo m&aacute;s grave y lo m&aacute;s triste<br \/>\n    es ver que cuanto mal son capaces los buenos, los que portales se tenian y<br \/>\n    lo habian sido hasta que la lucha vino a desnaturalizarlos, como se dice,<br \/>\n    o, para hablar con m&aacute;s propriedad, a revelar su naturaleza. Esta terrible<br \/>\n    revelaci&oacute;n no es obra de ning&uacute;n principio, de ninguna idea;<br \/>\n    es consecuencia del combate, que depierta malos instintos dormidos y pone<br \/>\n    en el caso y hasta en la necessidad a veces de satisfazerlos&quot;.<\/p>\n<p>O trabalho secular da civiliza&ccedil;&atilde;o tem sido exatamente o de<br \/>\n    reprimir ou recalcar o elemento mau e dar expans&atilde;o e for&ccedil;a ao<br \/>\n    que &eacute; bom. Aquele, por&eacute;m, n&atilde;o se extingue; existe sempre,<br \/>\n    embora sufocado, como os Tit&atilde;s da f&aacute;bula que, vencidos pelos<br \/>\n    deuses e soterrados sob o peso das montanhas, se revelam de tempos em tempos<br \/>\n    pelas convuls&otilde;es de seus membros, e sacodem as entranhas da Terra.<\/p>\n<p>Canto e Melo, no seu recente romance &#8211; Rel&iacute;quias da Mem&oacute;ria<br \/>\n    &#8211; l&aacute; diz a mesma verdade, &agrave; p&aacute;gina 67: &quot;pela primeira<br \/>\n    vez na vida, pensei na crueldade dos homens. S&oacute; os conhecera at&eacute;<br \/>\n    ent&atilde;o atrav&eacute;s dos artif&iacute;cios da civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e do convencionalismo da sociedade. Ao v&ecirc;-los agora, no pleno vi&ccedil;o<br \/>\n    das suas inclina&ccedil;&otilde;es primitivas e b&aacute;rbaras, convenci-me<br \/>\n    de que o homem &eacute; mais feroz do que as feras e, se n&atilde;o exerce<br \/>\n    a todo o momento contra os outros homens a sua crueldade, &eacute; porque<br \/>\n    o medo da repres&aacute;lia lhe arrefece dentro do cora&ccedil;&atilde;o os<br \/>\n    nefandos impulsos da ferocidade inata&quot;.<\/p>\n<p>A concep&ccedil;&atilde;o freudiana, seguindo as pegadas do Prof. Bergson,<br \/>\n    admite na alma humana o inconsciente din&acirc;mico como sede de todas as<br \/>\n    tend&ecirc;ncias e instintos maus recalcados pela civiliza&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no correr dos s&eacute;culos.<\/p>\n<p>Nada, entretanto, &eacute; novo neste mundo. Os doutores da Igreja, finos<br \/>\n    observadores e psic&oacute;logos, conheciam muito bem esses assuntos e deles<br \/>\n    trataram nos seus escritos sobre teologia, embora disfar&ccedil;ados pelo<br \/>\n    simbolismo de sua linguagem.<\/p>\n<p>Sabido isto, ainda que em s&uacute;mula, temos a&iacute; o n&uacute;cleo<br \/>\n    indispens&aacute;vel para a explica&ccedil;&atilde;o do boato.<\/p>\n<p>Toda a pessoa de valor social, vencedora na luta pela vida, bem sucedida<br \/>\n    em todos os seus esfor&ccedil;os, tem na sociedade n&uacute;mero incont&aacute;vel<br \/>\n    de desafetos gratuitos, instintivos, mesmo entre os que lhe s&atilde;o absolutamente<br \/>\n    estranhos, n&atilde;o se tratando j&aacute; de oficiais no mesmo of&iacute;cio,<br \/>\n    conhecid&iacute;ssimos como inimigos natos.<\/p>\n<p>&quot;A felicidade de qualquer &eacute; desespero para muitos&quot;, diz<br \/>\n    muito bem Austreg&eacute;silo no Mal da Vida.<\/p>\n<p>Quem n&atilde;o tem desafetos, tem com certeza passaporte para o reino do<br \/>\n    c&eacute;u.<\/p>\n<p>O sucesso, por si pr&oacute;prio, cria m&aacute; disposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de &acirc;nimo nos outros. E essa indisposi&ccedil;&atilde;o vive no inconsciente;<br \/>\n    n&atilde;o &eacute; raciocinada. No seu fundo se encontra a inveja, disfar&ccedil;ada<br \/>\n    sob m&uacute;ltiplos aspectos. Na esp&eacute;cie humana &eacute; a pol&iacute;tica<br \/>\n    o melhor campo de observa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Entre os animais o fen&ocirc;meno &eacute; grosseiro e por demais vis&iacute;vel.<br \/>\n    Repare-se quando diversos cavalos comem numa s&oacute; manjedoura, cada um<br \/>\n    com seu quinh&atilde;o de alimento, como sai sempre um deles do seu lugar,<br \/>\n    para ir escoicear os outros, embora n&atilde;o lhe falte comida. &Eacute;<br \/>\n    o mesmo fen&ocirc;meno que se encontra no meio social, muito abrandado, est&aacute;<br \/>\n    visto, pelo grau superior de desenvolvimento em que se acha o homem.<\/p>\n<p>&Eacute; ineg&aacute;vel, pois, que no meio social, por toda a parte, existe<br \/>\n    sempre uma atmosfera de insidiosa e inconsciente hostilidade contra a pessoa<br \/>\n    que vence na vida. Haver&aacute; algu&eacute;m t&atilde;o ing&ecirc;nuo que<br \/>\n    a desconhe&ccedil;a?<\/p>\n<p>Nessa atmosfera &eacute; que se acha o elemento vital indispens&aacute;vel<br \/>\n    &agrave; germina&ccedil;&atilde;o e r&aacute;pida floresc&ecirc;ncia do boato.<\/p>\n<p>A escurid&atilde;o do anonimato d&aacute; ao boateiro o &acirc;nimo e a prote&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de que carece para agir, como a escurid&atilde;o da noite protege certos insetos<br \/>\n    nojentos que propagam repugnantes infec&ccedil;&otilde;es. &Eacute; mesmo<br \/>\n    essa uma das fei&ccedil;&otilde;es que distinguem o boato de outros fen&ocirc;menos<br \/>\n    sociais da mesma natureza, como o tumulto das ruas, por exemplo, que se realiza<br \/>\n    em pleno dia, por cont&aacute;gio quase explosivo.<\/p>\n<p>No fundo, na ess&ecirc;ncia, os fatos s&atilde;o id&ecirc;nticos. As coisas<br \/>\n    se tornam mais claras por meio de exemplos banais. Barnab&aacute;, da &oacute;pera<br \/>\n    Gioconda, provoca na pra&ccedil;a um tumulto contra a cega, m&atilde;e de<br \/>\n    Gioconda, lan&ccedil;ando sorrateiramente no meio dos marinheiros descontentes<br \/>\n    a convic&ccedil;&atilde;o de que fora a cega quem exercera &quot;malef&iacute;cios&quot;<br \/>\n    e ocasionara o mal que os magoava no momento. O desejo de possuir a Gioconda<br \/>\n    foi a verdadeira origem daquele tumulto. O infame Barnab&aacute; &eacute;<br \/>\n    uma criatura eterna na sociedade.<\/p>\n<p>Mais belo exemplo se acha na trag&eacute;dia J&uacute;lio C&eacute;sar, &eacute;<br \/>\n    o magn&iacute;fico discurso de Brutus ao povo romano. Grande conhecedor de<br \/>\n    sua alma, Shakespeare p&ocirc;s na boca de Brutus as palavras inflamadas que<br \/>\n    levariam o povo a assassinar Ant&ocirc;nio, se este n&atilde;o possu&iacute;sse<br \/>\n    tamb&eacute;m a poderosa arte de dirigir a fera &#8211; a multid&atilde;o &#8211; que<br \/>\n    o amea&ccedil;ava.<\/p>\n<p>A habilidade do boateiro est&aacute;, como em regra nos fen&ocirc;menos desse<br \/>\n    grupo da psicopatologia social, em saber despertar e a&ccedil;ular a besta<br \/>\n    humana mal amorda&ccedil;ada pelas coer&ccedil;&otilde;es do meio civilizado.<\/p>\n<p>O boateiro &eacute; sempre, como se disse, uma alma defeituosa, que se agita<br \/>\n    por mesquinhos interesses. Ele tem a maldade ind&ocirc;mita que existe na<br \/>\n    maioria dos homens, embora mais ou menos escondida. Individual no nascedouro,<br \/>\n    o boato passa logo a ser coletivo em virtude da conson&acirc;ncia que sua<br \/>\n    tend&ecirc;ncia encontra nas almas do mesmo estofo. Despine compara a propaga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos estados afetivos nas multid&otilde;es ao efeito da onda sonora de uma<br \/>\n    nota musical, que faz vibrar todas as notas iguais existentes dentro da esfera<br \/>\n    atingida pelas suas ondula&ccedil;&otilde;es. &Eacute; um principio geral<br \/>\n    nos fen&ocirc;menos de cont&aacute;gio moral.<\/p>\n<p>A perversidade influi com prontid&atilde;o, porque &eacute; uma qualidade<br \/>\n    mais ativa do que a bondade, afirma Sighele. Os bons em regra, n&atilde;o<br \/>\n    procuram fazer o mal, s&atilde;o passivos; os maus &quot;querem&quot; fazer<br \/>\n    o mal, s&atilde;o ativos.<\/p>\n<p>Felizmente existem tamb&eacute;m almas nobres em que essa lepra j&aacute;<br \/>\n    se acha, por assim dizer, extinta. Por meio dessas pessoas o boato n&atilde;o<br \/>\n    caminha. Isso quer dizer que a alma humana, em geral, &eacute; suscet&iacute;vel<br \/>\n    de aperfei&ccedil;oamento com o envolver da civiliza&ccedil;&atilde;o; a consci&ecirc;ncia<br \/>\n    se alarga no correr da evolu&ccedil;&atilde;o. &Eacute; ao menos um consolo<br \/>\n    lembrar que a civiliza&ccedil;&atilde;o ir&aacute; melhorando cada vez mais<br \/>\n    a sociedade, onde vicejam ainda esses males, por enquanto irremedi&aacute;veis.<br \/>\n    Tamb&eacute;m, se o conhecedor da alma humana s&oacute; enxergasse ai o que<br \/>\n    h&aacute; de mal, morreria de pavor.<\/p>\n<p>O aperfei&ccedil;oamento da consci&ecirc;ncia chegar&aacute; a extinguir<br \/>\n    o boato no dia em que a maioria dos homens tiver clara intui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do que acontece atualmente, em casos raros, quando um c&uacute;mplice do boateiro<br \/>\n    encontra um homem bom ele narra uma cal&uacute;nia, mais ou menos nestes termos:<\/p>\n<p>&quot;Sabe que &quot;se anda dizendo&quot; de F&#8230;? Dizem que fez isto, aquilo<br \/>\n    e mais aquilo. Eu n&atilde;o creio, mas me garantiram e de fonte limpa. Estou<br \/>\n    dizendo s&oacute; aqui entre n&oacute;s; n&atilde;o conv&eacute;m falar, porque<br \/>\n    talvez seja invencionice. Em todo o caso &eacute; uma pena, se &eacute; verdade.&quot;<\/p>\n<p>O homem bom fixa ent&atilde;o os olhos semicerrados sobre o narrador e diz<br \/>\n    mentalmente:<\/p>\n<p>&quot;Miser&aacute;vel, infame! N&atilde;o tens nem for&ccedil;a para sufocar<br \/>\n    o prazer que isso te causa. N&atilde;o inventaste, talvez, a mentira; mas<br \/>\n    o inventor contava contigo, com a tua covardia, com a torpeza de tua alma<br \/>\n    igual &agrave; dele, para colaborar no trabalho essencial &#8211; o da divulga&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da inf&acirc;mia. E tu contavas comigo, salafr&aacute;rio! porque n&atilde;o<br \/>\n    tens consci&ecirc;ncia do vil papel que neste momento representas.&quot;<\/p>\n<p>Ora, a&iacute; est&aacute; como as coisas se passam, embora excepcionalmente.<br \/>\n    Na quase generalidade dos casos, entretanto, o patife encontra um homem de<br \/>\n    sua igualha, que sente o mesmo prazer que ele e v&atilde;o logo adiante, confidencialmente,<br \/>\n    com ar muito contristado, na rara inf&acirc;mia a um outro, e assim se espalha<br \/>\n    o boato com extrema rapidez. Ainda h&aacute; pouco vimos como se espalhou<br \/>\n    no norte do Brasil o boato de uma vaia ao presidente da Rep&uacute;blica,<br \/>\n    aqui em S&atilde;o Paulo, vaia que n&atilde;o passou de pura fantasia de um<br \/>\n    boateiro soez.<\/p>\n<p>H&aacute; indiv&iacute;duos mais afoitos, felizmente raros, que v&atilde;o<br \/>\n    a um jornal e d&atilde;o a falsa noticia da morte de um cidad&atilde;o que<br \/>\n    est&aacute; bem vivo em sua casa, onde recebe com espanto a lutuosa noticia&#8230;<br \/>\n    Os jornais j&aacute; tomaram, entretanto, suas cautelas e esses casos s&atilde;o<br \/>\n    rar&iacute;ssimos. Vimos essa maldade praticada em S&atilde;o Paulo e n&atilde;o<br \/>\n    h&aacute; muito anos.<\/p>\n<p>H&aacute; uma diferen&ccedil;a enorme entre o indiv&iacute;duo que recebe<br \/>\n    com verdadeiro pesar uma falsa not&iacute;cia e o c&uacute;mplice do boateiro,<br \/>\n    isto &eacute;, o que tem prazer em espalh&aacute;-la. O primeiro cala-se,<br \/>\n    ou procura saber de quem partiu a not&iacute;cia; vai ao encontro da vitima<br \/>\n    e diz francamente quem lhe comunicara o fato. O outro n&atilde;o; esconde<br \/>\n    a fonte de onde lhe viera a not&iacute;cia; pactua com os malfeitores e finge<br \/>\n    pudor ou discri&ccedil;&atilde;o, sem se lembrar que em tal caso n&atilde;o<br \/>\n    se trata disso; ao contr&aacute;rio, deve-se p&ocirc;r tudo &agrave; luz do<br \/>\n    sol.<\/p>\n<p>&Eacute; muito dif&iacute;cil descobrir no meio dessa obra de colabora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    an&ocirc;nima, o verdadeiro autor dessas inf&acirc;mias. O professor Jung,<br \/>\n    de Zurique, conseguiu, no caso f&aacute;cil e no meio restrito de um col&eacute;gio<br \/>\n    de meninas, averiguar de onde partira o boato que difamava um professor. Fez<br \/>\n    com que todos os conhecedores da not&iacute;cia a escrevessem como a receberam.<br \/>\n    Notou ele o fato que n&oacute;s expressamos no ditado portugu&ecirc;s: &quot;quem<br \/>\n    conta um conto aumenta um ponto&quot;. Cada um contou o fato com particularidades<br \/>\n    que variavam entre os diversos narradores; s&oacute; o n&uacute;cleo essencial<br \/>\n    do boato era o mesmo para todos. A invencionice era narrada como um sonho<br \/>\n    e deixava perceber um desejo er&oacute;tico que inconscientemente dominava<br \/>\n    a menina, autora do boato. Tratava-se de um caso t&iacute;pico da mitomania<br \/>\n    de que tanto se ocupou Dupr&eacute;, m&eacute;dico da prefeitura de Paris.<\/p>\n<p>Fora desses casos, assim limitados a um meio restrito, &eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    descobrir o verdadeiro autor, no meio de tantos colaboradores.<\/p>\n<p>H&aacute; &eacute;pocas mais propicias, como todos sabem, para o nascimento<br \/>\n    e divulga&ccedil;&atilde;o do boato como h&aacute; tanto tempo favor&aacute;vel<br \/>\n    &agrave;s planta&ccedil;&otilde;es na vida agr&iacute;cola. S&atilde;o as<br \/>\n    &eacute;pocas de intensas agita&ccedil;&otilde;es emotivas &#8211; de guerra, de<br \/>\n    epidemia, de revolu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica etc.<\/p>\n<p>A ambi&ccedil;&atilde;o, outra tend&ecirc;ncia fundamental humana, permite<br \/>\n    tamb&eacute;m do mesmo modo que a maldade, a cria&ccedil;&atilde;o de uma<br \/>\n    atmosf&eacute;rica especial em que se observam curiosos epis&oacute;dios de<br \/>\n    sugest&atilde;o e cont&aacute;gio, alguns dos quais revertem em castigo c&ocirc;mico<br \/>\n    contra os pr&oacute;prios ambiciosos. Temos o exemplo na c&eacute;lebre fortuna<br \/>\n    que se acreditou existir num banco ingl&ecirc;s, pertencente a brasileiros,<br \/>\n    descendentes de Amador Bueno da Ribeira. Um advogado velhaco, psic&oacute;logo<br \/>\n    pr&aacute;tico, mandou do Rio de Janeiro, noticiar em S&atilde;o Paulo, h&aacute;<br \/>\n    mais de trinta anos, que tinha meios de liquidar essa fortuna e distribu&iacute;-la<br \/>\n    aos supostos herdeiros de Amador Bueno. Para tanto exigia ele que cada um<br \/>\n    lhe mandasse apenas cinq&uuml;enta mil r&eacute;is junto ao nome que o habilitasse<br \/>\n    como herdeiro. Eram herdeiros todas as pessoas que tinham no sobrenome &#8211; Bueno,<br \/>\n    Silveira etc. Ora! formigaram descendentes de Amador Bueno e choveram notas<br \/>\n    de cinq&uuml;enta mil r&eacute;is que deram magn&iacute;fico resultado ao<br \/>\n    p&acirc;ndego mistificador.<\/p>\n<p>Vimos nessa ocasi&atilde;o muita gente s&eacute;ria, carrancuda e circunspecta,<br \/>\n    entrar com o seu dinheirinho e discutir convictamente sobre a parte que lhe<br \/>\n    poderia caber.<\/p>\n<p>Passado algum tempo, o insaci&aacute;vel advogado, precisando de mais dinheiro,<br \/>\n    mandou um mensageiro fazer nova colheita, para a qual trouxera instru&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    muito especiais. S&oacute; podiam pagar novo tributo os que tinham tais e<br \/>\n    tais sobrenomes; os outros estavam exclu&iacute;dos. Muitos dos exclu&iacute;dos<br \/>\n    importunavam a gente para conseguir entrar com as suas cotas. Nada o demovia;<br \/>\n    era preciso dar uma fei&ccedil;&atilde;o de seriedade a tal bandalheira. A<br \/>\n    nova colheita deu ainda magn&iacute;fico resultado. A heran&ccedil;a n&atilde;o<br \/>\n    apareceu at&eacute; hoje, mas os contribuintes tiveram seu momento de prazer&#8230;<br \/>\n    de viver um sonho por algum tempo.<\/p>\n<p>&Eacute; de crer que ainda existam por esse mundo alguns dos sonhadores que<br \/>\n    naquela &eacute;poca concorreram para os regabofes do advogado.<\/p>\n<p>O boato nem sempre &eacute; expans&atilde;o de malvadez recalcada; h&aacute;<br \/>\n    o boato tendencioso e o boato in&oacute;cuo. Sua origem primeira &eacute;<br \/>\n    sempre um desejo inconfess&aacute;vel e freq&uuml;entemente inconsciente.<\/p>\n<p>A perversidade geral da alma humana que serve de terreno onde se desenvolve<br \/>\n    o boato, &eacute; sempre inconsciente.<\/p>\n<p>Caminha para a perfei&ccedil;&atilde;o espiritual aquele que consegue tornar<br \/>\n    consciente a maior parte da maldade que lhe existe no inconsciente, e assim<br \/>\n    pode domin&aacute;-la. Ainda estamos longe da perfei&ccedil;&atilde;o; n&atilde;o<br \/>\n    podemos exigir a extin&ccedil;&atilde;o do boato.<\/p>\n<p>Buscar na literatura, na obra de arte, o exemplo concreto, confirmador de<br \/>\n    uma doutrina exposta em princ&iacute;pios gerais, &eacute; hoje moda e fundada<br \/>\n    em boas raz&otilde;es. Quem quiser ler um bel&iacute;ssimo exemplo de boato<br \/>\n    em lugarejo do interior, encontr&aacute;-lo-&aacute; na novela de Amadeu Amaral<br \/>\n    A Pulseira de Ferro. A&iacute; se acha o fen&ocirc;meno magistralmente descrito.<\/p>\n<h2><a name=\"11\" id=\"11\">Nuvens<\/a><\/h2>\n<p>Sobre a l&acirc;mina azul de um c&eacute;u todo bonan&ccedil;a<br \/>\n    passa uma nuvem clara em curvas franjas de onda,<br \/>\n    &#8211; vaga que adormeceu num mar que n&atilde;o estronda,<br \/>\n    nas mudas convuls&otilde;es de uma tormenta mansa&#8230;<\/p>\n<p>Bruma, sonho da terra, ergueu-se; e enquanto avan&ccedil;a,<br \/>\n    busca a forma fugaz, que se esbo&ccedil;a e esbarronda;<br \/>\n    aqui se esgar&ccedil;a, ali descai, al&eacute;m, redonda,<br \/>\n    b&oacute;ia ao sol que a redoira e ao vento que a embalan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Sonhos, bruma secreta, entre anseios e dores,<br \/>\n    sobem-nos da alma assim, livres, espa&ccedil;o em fora,<br \/>\n    na lenta indecis&atilde;o dos informes vapores&#8230;<\/p>\n<p>Possam os meus pairar na luz por um momento,<br \/>\n    ser a nuvem que arrasta o olhar perdido &#8211; embora<br \/>\n    suceda a cada esbo&ccedil;o um desmoronamento!<\/p>\n<p>Publicado no livro Espumas: versos (1917).<\/p>\n<h2><a name=\"12\" id=\"12\">O Elogio da Mediocridade<\/a><\/h2>\n<p>Carta a um cr&iacute;tico<\/p>\n<p>Meu amigo:<br \/>\n    Est&aacute; V. a ensaiar os seus pendores para a cr&iacute;tica, no que faz<br \/>\n    muito bem, porque &eacute; tempo de se ir criando por aqui essa coisa proveitosa;<br \/>\n    mas a ensai&aacute;-los a custa de pobres poetas enfermi&ccedil;os e de prosadores<br \/>\n    claudicantes, no que faz muito mal. Permita que lhe represente, em brevesos<br \/>\n    linhas, os equ&iacute;vocos fundamentais e as incongru&ecirc;ncias desta sua<br \/>\n    atitude her&oacute;ica.<\/p>\n<p>O cr&iacute;tico, meu caro, que ferozmente agride as obras med&iacute;ocres,<br \/>\n    procede como o sujeito que pretendesse deitar abaixo o pavimento inferior<br \/>\n    de uma casa de v&aacute;rios andares, para s&oacute; conservar o resto. A<br \/>\n    mediocridade &eacute; necess&aacute;ria, absolutamente necess&aacute;ria que<br \/>\n    no sentido de coisa inevit&aacute;vel, quer no sentido de coisa &uacute;til.<br \/>\n    &Eacute;, porque tem de ser; al&eacute;m disso, &eacute; ben&eacute;fica.<\/p>\n<p>A turba imensa dos med&iacute;ocres constitui uma como nebulosa informe,<br \/>\n    sementeira protoplasm&aacute;tica de estrelas. A maioria dos grandes de l&aacute;<br \/>\n    saiu, e felizes daqueles que sa&iacute;ram de vez, para n&atilde;o mais tornar<br \/>\n    ao rebanho depois de um esfor&ccedil;o m&aacute;ximo e prodigioso. Em regra,<br \/>\n    a obra total de um escritor de fama &eacute; uma s&eacute;rie de livros que<br \/>\n    vai da mediocridade ao esplendor de um pin&aacute;culo de ouro, e esse pin&aacute;culo,<br \/>\n    como o de uma pir&acirc;mide, &eacute; justamente a por&ccedil;&atilde;o que<br \/>\n    ocupa o menor lugar no espa&ccedil;o. A gl&oacute;ria de Cervantes est&aacute;<br \/>\n    inteira na c&uacute;pula de um enorme edif&iacute;cio liter&aacute;rio Dom<br \/>\n    Quixote; o resto ficou para sempre mergulhado na sombra, como o corpo colossal<br \/>\n    de um casar&atilde;o que s&oacute; conserva iluminado, no seio da noite, a<br \/>\n    torre mais alta e mais esguia.<\/p>\n<p>Certo, escritores h&aacute; que, em rigor, nunca foram med&iacute;ocres,<br \/>\n    cujas primeiras tentativas podem comparar-se aos primeiros v&ocirc;os, mas<br \/>\n    aos primeiros v&ocirc;os das &aacute;guias jovens. S&atilde;o poucos. Esses<br \/>\n    mesmos, por&eacute;m, n&atilde;o existiriam se n&atilde;o houvesse a vasta<br \/>\n    mediocridade que os cerca, que lhes serve de ponto de apoio, que lhes alimenta<br \/>\n    o esp&iacute;rito nos primeiros tempos, e que os impele para cima com todos<br \/>\n    os est&iacute;mulos contradit&oacute;rios da rivalidade e do aplauso.<\/p>\n<p>Toda literatura pressup&otilde;e uma multid&atilde;o de med&iacute;ocres,<br \/>\n    e n&atilde;o s&oacute; de med&iacute;ocres, sen&atilde;o tamb&eacute;m de<br \/>\n    inferiores, de rudimentares, de falhados e de decadentes. Tanto mais pujante<br \/>\n    e luminosa ela &eacute;, tanto mais grossa a multid&atilde;o rasteira. Esse<br \/>\n    mato baixo sustenta a indispens&aacute;vel camada de humus, resguarda e entret&eacute;m<br \/>\n    a vida incipiente das &aacute;rvores destinadas &agrave; m&aacute;xima expans&atilde;o.<br \/>\n    Foi esse mato que permitiu, na Inglaterra, o crescimento fabuloso de Shakespeare,<br \/>\n    a cuja volta trabalhava e produzia uma pl&ecirc;iade de dramaturgos fortes<br \/>\n    e uma turba-multa obscura de escribas irrequietos.<\/p>\n<p>Por que, pois, essa f&uacute;ria sinistra de demoli&ccedil;&atilde;o, de<br \/>\n    que o meu jovem amigo se mostra dominado, a exemplo de outros cavalheiros<br \/>\n    que conscienciosamente manejam o cacete correcional da cr&iacute;tica impiedosa?<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p>No seu entender, quem publica um livro est&aacute; por for&ccedil;a na atitude<br \/>\n    de quem constr&oacute;i um pagode monumental, e nele se remira, e l&aacute;<br \/>\n    dentro se instala, como um Buda, &agrave; espera da romaria dos p&oacute;steros.<br \/>\n    Ora, o livro, depois que se inventou a imprensa, deixou rapidamente de ser<br \/>\n    um luxo, uma alfaia, um segredo, um adorno, qualquer coisa que avaramente<br \/>\n    se guardava a um canto da casa, entre a arca pregueada e o orat&oacute;rio<br \/>\n    esculpido, como uma rel&iacute;quia ou um manipan&ccedil;o, para ser algo<br \/>\n    que j&aacute; n&atilde;o corresponde a qualquer imagem antiga, algo de imprevisto<br \/>\n    e de original, uma caracter&iacute;stica flagrante de tempos renovados: um<br \/>\n    instrumento de com&eacute;rcio transit&oacute;rio entre as almas, prolongamento<br \/>\n    da conversa&ccedil;&atilde;o adstrito &agrave; troca universal das id&eacute;ias.<\/p>\n<p>O livro tem de ser considerado, n&atilde;o mais como um reposit&oacute;rio<br \/>\n    de coisas concebidas e filtradas &#8220;para a eternidade&#8221;, mas sim<br \/>\n    como uma rede de pesca a sair do seio imenso das &aacute;guas, trazendo de<br \/>\n    envolta com o peixe a alga, o marisco e a salsugem. Instrumento, utensil,<br \/>\n    aparelho, o livro tem a sua fun&ccedil;&atilde;o naturalmente limitada: o<br \/>\n    seu fim primacial n&atilde;o &eacute; durar, &eacute; prestar servi&ccedil;o.<br \/>\n    Cumprida a sua miss&atilde;o, embotado, enferrujado, substituiu-se pelo mais<br \/>\n    novo e mais interessante e p&otilde;e-se fora. Nem por isso deixou de haver<br \/>\n    um momento em que foi bem-vindo. Era um elo, passou; mas teve a virtude de<br \/>\n    arrastar um outro, que tamb&eacute;m passa, e a circula&ccedil;&atilde;o continua&#8230;<\/p>\n<p>Deixe em paz, meu bom amigo, os literatelhos em que V. gosta de saciar o<br \/>\n    seu rancor ao pedantismo e &agrave; pretens&atilde;o. Ou bem que faz moral,<br \/>\n    ou bem que faz cr&iacute;tica.<\/p>\n<p>Como cr&iacute;tico, o seu dever &eacute; respeit&aacute;-los: est&atilde;o<br \/>\n    desempenhando a alta fun&ccedil;&atilde;o de preparar o terreno para o surto<br \/>\n    das grandezas futuras.<\/p>\n<p>Lembre-se de que o nosso amigo Shakespeare n&atilde;o fez, nas sua grandes<br \/>\n    pe&ccedil;as, sen&atilde;o apoderar-se tranq&uuml;ilamente de produtos med&iacute;ocres<br \/>\n    para os transformar a seu jeito, insuflando-lhes aquilo que os predecessores<br \/>\n    n&atilde;o haviam podido dar-lhes, apesar de toda a boa vontade: g&ecirc;nio.<br \/>\n    Lembre-se de que a lenda dos gigantes que fazem l&iacute;nguas e literaturas<br \/>\n    por si s&oacute;s est&aacute; definitivamente morta. Dante n&atilde;o teria<br \/>\n    feito a Divina com&eacute;dia, nem Cam&otilde;es os Os lus&iacute;adas, nem<br \/>\n    voc&ecirc; estaria a&iacute; escrevendo cr&iacute;ticas, se n&atilde;o fosse<br \/>\n    a enorme legi&atilde;o dos pigmeus sem nome nem lustre, cujo esfor&ccedil;o<br \/>\n    apagado e tenaz, inumer&aacute;vel e ininterrupto, lavrando subterraneamente,<br \/>\n    aumenta pouco a pouco o tesouro coletivo da l&iacute;ngua, lhe d&aacute; variedade,<br \/>\n    elasticidade e energia, e a conduz ao ponto de poder ser manejada com fragor<br \/>\n    por um punho poderoso.<\/p>\n<p>N&atilde;o se impressione com as pretens&otilde;es da mediocridade, com a<br \/>\n    troca de do&ccedil;uras ditir&acirc;mbicas em que ela se compraz. O louvor<br \/>\n    excessivo s&oacute; perverte e inutiliza, em regra, os que nasceram talhados<br \/>\n    para coisa nenhuma. H&aacute;, em compensa&ccedil;&atilde;o, muito cavalheiro<br \/>\n    de grande valor que a canalha deixa na sombra? A isso, meu amigo, nem, Voc&ecirc;<br \/>\n    nem ningu&eacute;m dar&aacute; rem&eacute;dio. Moli&egrave;re, numa &eacute;poca<br \/>\n    de floresc&ecirc;ncia liter&aacute;ria, que V. n&atilde;o querer&aacute; comparar<br \/>\n    com a nossa, passava por um h&aacute;bil comedi&oacute;grafo, em quem a cr&iacute;tica<br \/>\n    justiceira do tempo nem por isso lobrigava grandes m&eacute;ritos. Em compensa&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    Delille foi aclamado g&ecirc;nio pelos contempor&acirc;neos. E, sempre h&aacute;<br \/>\n    de ser assim.<\/p>\n<p>O caminho que V. deve tomar &eacute; outro. Deixe os med&iacute;ocres em<br \/>\n    paz, e v&aacute; direito aos grandes. Com eles &eacute; que o meu amigo deve<br \/>\n    medir for&ccedil;as. Trate de ser alto e forte com eles, e renuncie a esse<br \/>\n    trabalho infrut&iacute;fero e triste de remexer mi&ccedil;angas e alfinetes,<br \/>\n    acocorado numa esteira.<\/p>\n<p>L&aacute; &eacute; que eu desejo ver aplicadas as excelentes disposi&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    que V. revela para a cr&iacute;tica, e que nos h&atilde;o de dar daqui a pouco<br \/>\n    o nosso respeit&aacute;vel Brandes, ou o nosso compendioso Faguet.<\/p>\n<p>Ex-corde&#8230;<\/p>\n<p>(O elogio da mediocridade, 1924.)<\/p>\n<h2><a name=\"13\">Soneto<\/a><\/h2>\n<p>A terra &eacute; dura, o sol &eacute; bravo; a geada<br \/>\n    destruidora; aves m&aacute;s e m&aacute;s formigas<br \/>\n    assolam tudo, e a planta acarinhada<br \/>\n    mal resiste a essas for&ccedil;as inimigas.<\/p>\n<p>Que importa! Lavra sempre. N&atilde;o maldigas<br \/>\n    a terra ingrata. N&atilde;o maldigas nada.<br \/>\n    Talvez um dia o pre&ccedil;o das fadigas<br \/>\n    brote do sulco da robusta enxada.<\/p>\n<p>Mas, quanto mais a terra &eacute; ingrata, e bravo<br \/>\n    o sol e as aves s&atilde;o cru&eacute;is, e o resto,<br \/>\n    mais valor mostrar&aacute;s em continuar.<\/p>\n<p>Que &eacute; gentileza n&atilde;o viver escravo<br \/>\n    da gan&acirc;ncia, e plantar s&oacute; pelo gesto<br \/>\n    religioso e sereno de plantar!<\/p>\n<h2><a name=\"14\">Um Soneto de Bilac<\/a><\/h2>\n<p>A terra &eacute; dura, o sol &eacute; bravo; a geada<br \/>\n    destruidora; aves m&aacute;s e m&aacute;s formigas<br \/>\n    assolam tudo, e a planta acarinhada<br \/>\n    mal resiste a essas for&ccedil;as inimigas.<\/p>\n<p>Que importa! Lavra sempre. N&atilde;o maldigas<br \/>\n    a terra ingrata. N&atilde;o maldigas nada.<br \/>\n    Talvez um dia o pre&ccedil;o das fadigas<br \/>\n    brote do sulco da robusta enxada.<\/p>\n<p>Mas, quanto mais a terra &eacute; ingrata, e bravo<br \/>\n    o sol e as aves s&atilde;o cru&eacute;is, e o resto,<br \/>\n    mais valor mostrar&aacute;s em continuar.<\/p>\n<p>Que &eacute; gentileza n&atilde;o viver escravo<br \/>\n    da gan&acirc;ncia, e plantar s&oacute; pelo gesto<br \/>\n    religioso e sereno de plantar!<\/p>\n<h2><a name=\"15\" id=\"15\">Vencedor<\/a><\/h2>\n<p>Um dia, enfim, na senda em que vais, dura e fl&oacute;rea,<br \/>\n    ao termo chegar&aacute;s da exaustiva escalada,<br \/>\n    e, depondo o bast&atilde;o, a lira, a cruz, ou a espada,<br \/>\n    cingir&aacute;s o laurel da mais alta vit&oacute;ria.<\/p>\n<p>Um bardo, uma ova&ccedil;&atilde;o, trop&eacute;is&#8230; Depois, mais nada.<br \/>\n    Inda todo a fremir da &aacute;spera trajet&oacute;ria,<br \/>\n    entrar&aacute;s bocejando a &aacute;urea porta da Gl&oacute;ria,<br \/>\n    e olhar&aacute;s com surpresa a multid&atilde;o calada.<\/p>\n<p>Olh&aacute;-la-&aacute;s com rancor, vendo-a seguir a esmo,<br \/>\n    vaga a eternos vaiv&eacute;ns e remoinhos sujeita.<br \/>\n    E n&atilde;o ter&aacute;s raz&atilde;o, porque a gl&oacute;ria &eacute; assim<br \/>\n    mesmo&#8230;<\/p>\n<p>A onda humana avan&ccedil;ou, cresceu, ergueu-te, numa<br \/>\n    investida triunfal; depois, recuou desfeita&#8230;<br \/>\n    Como h&aacute; de a onda parar, para que brilhe a espuma ?<br \/>\n    (Poesias, 1931.)<\/p>\n<h2><a name=\"16\" id=\"16\">Versos nevoentos<\/a><\/h2>\n<p>Um dia, enfim, na senda em que vais, dura e fl&oacute;rea,<br \/>\n    ao termo chegar&aacute;s da exaustiva escalada,<br \/>\n    e, depondo o bast&atilde;o, a lira, a cruz, ou a espada,<br \/>\n    cingir&aacute;s o laurel da mais alta vit&oacute;ria.<\/p>\n<p>Um bardo, uma ova&ccedil;&atilde;o, trop&eacute;is&#8230; Depois, mais nada.<br \/>\n    Inda todo a fremir da &aacute;spera trajet&oacute;ria,<br \/>\n    entrar&aacute;s bocejando a &aacute;urea porta da Gl&oacute;ria,<br \/>\n    e olhar&aacute;s com surpresa a multid&atilde;o calada.<\/p>\n<p>Olh&aacute;-la-&aacute;s com rancor, vendo-a seguir a esmo,<br \/>\n    vaga a eternos vaiv&eacute;ns e remoinhos sujeita.<br \/>\n    E n&atilde;o ter&aacute;s raz&atilde;o, porque a gl&oacute;ria &eacute; assim<br \/>\n    mesmo&#8230;<\/p>\n<p>A onda humana avan&ccedil;ou, cresceu, ergueu-te, numa<br \/>\n    investida triunfal; depois, recuou desfeita&#8230;<br \/>\n    Como h&aacute; de a onda parar, para que brilhe a espuma ?<br \/>\n    (Poesias, 1931.)<\/p>\n<h2><a name=\"17\" id=\"17\">V\u00f3z \u00cdntima<\/a><\/h2>\n<p>Fecha-te, sofredor, na alva t&uacute;nica ondeante Dos sonhos! E caminha, e<br \/>\n    prossegue, embebido, Muito embora, na dor de um fiei celebrante De um estranho<br \/>\n    ritual desdenhado e esquecido! Deixa ressoar em torno o b&aacute;rbaro alarido,<br \/>\n    Deixa que voe o p&oacute; da terra em torno&#8230; Adiante! Vai tu s&oacute;,<br \/>\n    calmo e bom, calmo e triste, envolvido Nessa t&uacute;nica ideal de sonhos,<br \/>\n    alvejante. <\/p>\n<p>S&ecirc;, nesta escurid&atilde;o do mundo, o paradigma De um desolado espectro,<br \/>\n    uma sombra, um enigma, Perpassando sem ru&iacute;do a caminho do Al&eacute;m.\n  <\/p>\n<p>E s&oacute; deixes na terra uma reminisc&ecirc;ncia: A de algu&eacute;m que<br \/>\n    assistiu &agrave; luta da exist&ecirc;ncia, Triste e s&oacute;, sem fazer<br \/>\n    nenhum mal a ningu&eacute;m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: A um adolescente A um Manancial de &Aacute;gua Pura Abrindo espumas Capivari Crep&uacute;sculo Sertanejo Dialeto Caipira Em medita&ccedil;&atilde;o Introspectiva Jamais Memorial de um Passageiro de Bonde Novela e Conto Nuvens O Elogio da Mediocridade Soneto Um Soneto de Bilac Vencedor Versos nevoentos V&oacute;z &Iacute;ntima A um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92225","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Poemas e Poesias - Amadeu Amaral, Obras Poemas e Poesias - Amadeu Amaral<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Poemas e Poesias - Amadeu Amaral, Obras, A um adolescente, Abrindo espumas, Literatura, Poemas e Poesias - Amadeu Amaral\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Poemas e Poesias - Amadeu Amaral, Obras Poemas e Poesias - Amadeu Amaral\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Poemas e Poesias - Amadeu Amaral, Obras, A um adolescente, Abrindo espumas, Literatura, Poemas e Poesias - Amadeu Amaral\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/poemas-e-poesias-amadeu-amaral\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-03T17:01:45+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"402 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/poemas-e-poesias-amadeu-amaral#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/poemas-e-poesias-amadeu-amaral\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Poemas e Poesias &#8211; 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