{"id":92170,"date":"2017-01-03T14:04:31","date_gmt":"2017-01-03T16:04:31","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92170"},"modified":"2018-05-03T15:40:23","modified_gmt":"2018-05-03T17:40:23","slug":"o-mulato-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-mulato-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"O Mulato &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><script src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\" async=\"\"><\/script><!-- ads_responsivo --> <ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block;\" data-ad-client=\"ca-pub-7159766377354473\" data-ad-slot=\"3162710741\" data-ad-format=\"auto\"><\/ins><script>\/\/ <![CDATA[\n(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n\/\/ ]]><\/script><\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\" height=\"128\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong>I<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#2\">II<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#3\">III<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#4\">IV<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#5\">V<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#6\">VI<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#7\">VII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#8\"><strong>VIII<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#9\"><strong>IX<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#10\">X<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#11\">XI<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#12\">XII<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#13\"><strong>XIII<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#14\"><strong>XIV<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#15\"><strong>XV<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#16\"><strong>XVI<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#17\"><strong>XVII<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#18\"><strong>XVIII<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#19\"><strong>XIX<\/strong><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I<\/h2>\n<p>Era um dia abafadi\u00e7o e aborrecido. A pobre cidade de S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o<br \/>\nparecia entorpecida pelo calor. Quase que se n\u00e3o podia sair \u00e0 rua: as pedras<br \/>\nescaldavam; as vidra\u00e7as e os lampi\u00f5es faiscavam ao sol como enormes diamantes,<br \/>\nas paredes tinham reverbera\u00e7\u00f5es de prata polida as folhas das \u00e1rvores nem<br \/>\nse mexiam as carro\u00e7as de \u00e1gua passavam ruidosamente a todo o instante, abalando<br \/>\nos pr\u00e9dios; e os aguadeiros, em mangas de camisa e pernas arrega\u00e7adas, invadiam<br \/>\nsem cerim\u00f4nia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos<br \/>\nn\u00e3o se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; s\u00f3<br \/>\nos pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.<\/p>\n<p>A Pra\u00e7a da Alegria apresentava um ar f\u00fanebre. De um casebre miser\u00e1vel, de<br \/>\nporta e janela, ouviam-se gemer os armadores enferrujados de uma rede e uma<br \/>\nvoz t\u00edsica e aflautada de mulher, cantar em falsete a &#8220;gentil Carolina era<br \/>\nbela&#8221;, doutro lado da pra\u00e7a, uma preta velha, vergada por imenso tabuleiro<br \/>\nde madeira, sujo, seboso, cheio de sangue e coberto por uma nuvem de moscas,<br \/>\napregoava em tom muito arrastado e melanc\u00f3lico: &#8220;F\u00edgado, rins e cora\u00e7\u00e3o!&#8221;<br \/>\nEra uma vendedeira de fatos de boi. As crian\u00e7as nuas, com as perninhas tortas<br \/>\npelo costume de cavalgar as ilhargas maternas, as cabe\u00e7as avermelhadas pelo<br \/>\nsol, a pele crestada os ventrezinhos amarelentos e crescidos, corriam e guinchavam,<br \/>\nempinando papagaios de papel. Um ou outro branco, levado pela necessidade<br \/>\nde sair, atravessava a rua, suado vermelho afogueado, \u00e0 sombra de um enorme<br \/>\nchap\u00e9u-de-sol. Os c\u00e3es, estendidos pelas calcadas, tinham uivos que pareciam<br \/>\ngemidos humanos, movimentos irasc\u00edveis, mordiam o ar querendo morder os mosquitos.<br \/>\nAo longe, para as bandas de S\u00e3o Pantale\u00e3o, ouvia-se apregoar: &#8220;Arroz de Veneza!<br \/>\nMangas! Macajubas!&#8221; \u00c0s esquinas, nas quitandas vazias, fermentava um cheiro<br \/>\nacre de sab\u00e3o da terra e aguardente. O quitandeiro, assentado sobre o balc\u00e3o,<br \/>\ncochilava a sua pregui\u00e7a morrinhenta, acariciando o seu imenso e espalmado<br \/>\np\u00e9 descal\u00e7o. Da, Praia de Santo Ant\u00f4nio enchiam toda a cidade os sons invari\u00e1veis<br \/>\ne mon\u00f3tonos de uma buzina, anunciando que os pescadores chegavam do mar; para<br \/>\nl\u00e1 convergiam, apressadas e cheias de interesse, as peixeiras, quase todas<br \/>\nnegras, muito gordas, o tabuleiro na cabe\u00e7a, rebolando os grossos quadris<br \/>\ntr\u00eamulos e as tetas opulentas.<\/p>\n<p>A Praia Grande e a Rua da Estrela contrastavam todavia com o resto da cidade,<br \/>\nporque era aquela hora justamente a de maior movimento comercial. Em todas<br \/>\nas dire\u00e7\u00f5es cruzavam-se homens esbofados e rubros cruzavam-se os negros no<br \/>\ncarreto e os caixeiros que estavam em servi\u00e7o na rua; avultavam os palet\u00f3s-sacos,<br \/>\nde brim pardo, mosqueados nas esp\u00e1duas e nos sovacos por grandes manchas de<br \/>\nsuor. Os corretores de escravos examinavam \u00e0 plena luz do sol, os negros e<br \/>\nmoleques que ali estavam para ser vendidos; revistavam-lhes os dentes, os<br \/>\np\u00e9s e as virilhas; faziam-lhes perguntas sobre perguntas; batiam-lhes com<br \/>\na biqueira do chap\u00e9u nos ombros e nas coxas, experimentando-lhes o vigor da<br \/>\nmusculatura como se estivessem a comprar cavalos. Na Casa da Pra\u00e7a, debaixo<br \/>\ndas amendoeiras, nas portadas dos armaz\u00e9ns, entre pilhas de caix\u00f5es de cebolas<br \/>\ne batatas portuguesas discutiam-se o c\u00e2mbio, o prego do algod\u00e3o, a taxa do<br \/>\na\u00e7\u00facar, a tarifa dos g\u00eaneros nacionais; volumosos comendadores resolviam neg\u00f3cios,<br \/>\nfaziam transa\u00e7\u00f5es perdiam, ganhavam tratavam de embarrilar uns aos outros,<br \/>\ncom muita manha de gente de neg\u00f3cios falando numa g\u00edria s\u00f3 deles trocando<br \/>\nchala\u00e7as pesadas, mas em plena confian\u00e7a de amizade Os leiloeiros cantavam<br \/>\nem voz alta o pre\u00e7o das mercadorias, com um abrimento afetado de vogais; diziam:<br \/>\n&#8220;Mal-rais&#8221; em vez de mil-r\u00e9is. \u00c0 porta dos leil\u00f5es aglomeravam-se os que queriam<br \/>\ncomprar e os simples curiosos. Corria um quente e grosseiro zunzum de feira.<\/p>\n<p>O leiloeiro tinha piscos de olhos significativos; de martelo em punho, entusiasmado,<br \/>\no ar tr\u00e1gico, mostrava com o bra\u00e7o erguido um c\u00e1lice de cacha\u00e7a, ou, comicamente<br \/>\nacocorado esbrocava com o furador os paneiros de farinha e de milho. E, quando<br \/>\nchegava a ocasi\u00e3o de ceder a fazenda, repetia o pre\u00e7o muitas vezes, gritando,<br \/>\ne afinal batia o martelo com grande barulho, arrastando a voz em um tom cantado<br \/>\ne estridente.<\/p>\n<p>Viam-se deslizar pela pra\u00e7a os imponentes e monstruosos abdomens dos capitalistas;<br \/>\nviam-se cabe\u00e7as escarlates e descabeladas, gotejando suor por debaixo do chap\u00e9u<br \/>\nde pelo; risinhos de prote\u00e7\u00e3o, bocas sem bigode dilatadas pelo calor, perninhas<br \/>\nespertas e suadas na cal\u00e7a de brim de Hamburgo. E toda esta atividade, posto<br \/>\nque um tanto fingida, era geral e comunicativa; at\u00e9 os ricos ociosos, que<br \/>\niam para ali encher o dia, e os caixeiros, que &#8220;faziam cera&#8221; at\u00e9 os pr\u00f3prios<br \/>\nvadios desempregados, aparentavam dilig\u00eancia e prontid\u00e3o.<\/p>\n<p>A varanda do sobrado de Manuel Pescada, uma varanda larga e sem forro no<br \/>\nteto, deixando ver as ripas e os caibros que sustentavam as telhas. tinha<br \/>\num aspecto mais ou menos pitoresco com a sua bela vista sobre o rio Bacanga<br \/>\ne as suas r\u00f3tulas pintadas de verde-paris. Toda ela abria para o quintal,<br \/>\nestreito e longo, onde, \u00e0 mingua de sol, se minavam duas tristes pitangueiras<br \/>\ne passeava solenemente um pav\u00e3o da terra.<\/p>\n<p>As paredes, barradas de azulejos portugueses e, para o alto, cobertas de<br \/>\npapel pintado, mostravam, nos seus desenhos repetidos de assuntos de ca\u00e7a,<br \/>\nalguns lugares sem tinta, cujas manchas brancacentas traziam \u00e0 id\u00e9ia joelheiras<br \/>\nde cal\u00e7as surradas. Ao lado, dominando a mesa de jantar, aprumava-se um velho<br \/>\narm\u00e1rio de jacarand\u00e1 polido, muito bem tratado, com as vidra\u00e7as bem limpas,<br \/>\nexpondo as pratas e as porcelanas de gosto moderno; a um canto dormia, esquecida<br \/>\nna sua caixa de pinho envernizado, uma m\u00e1quina de costura de Wilson, das primeiras<br \/>\nque chegaram ao Maranh\u00e3o; nos intervalos das portas simetrizavam-se quatro<br \/>\nestudos de Julien, representando em litografia as esta\u00e7\u00f5es do ano; defronte<br \/>\ndo guarda-lou\u00e7a um rel\u00f3gio de corrente embalava melancolicamente a sua p\u00eandula<br \/>\ndo tamanho de um prato e apontava para as duas horas. Duas horas da tarde.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, ainda permanecia sobre a mesa a lou\u00e7a que servira ao almo\u00e7o.<br \/>\nUma garrafa branca, com uns restos de vinho de Lisboa cintilava \u00e0 claridade<br \/>\nreverberante que vinha do quintal. De uma gaiola, dependurada entre as janelas<br \/>\ndesse lado, chilreava um sabi\u00e1.<\/p>\n<p>Fazia pregui\u00e7a estar ali. A vira\u00e7\u00e3o do Bacanga refrescava o ar da varanda<br \/>\ne dava ao ambiente um tom momo e apraz\u00edvel. Havia a quieta\u00e7\u00e3o dos dias in\u00fateis,<br \/>\numa vontade lassa de fechar os olhos e esticar as pernas. L\u00e1 defronte, nas<br \/>\nmargens apostas do do, a silenciosa vegeta\u00e7\u00e3o do Anjo da Guarda estava a provocar<br \/>\nboas sestas sobre o capim, debaixo das mangueiras; as \u00e1rvores pareciam abrir<br \/>\nde longe os bra\u00e7os, chamando a gente para a calma tepidez das suas sombras.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Ana Rosa, que me respondes?&#8230; disse Manuel esticando se mais na cadeira<br \/>\nem que se achava assentado, \u00e0 cabeceira da mesa, em frente da filha Bem sabes<br \/>\nque te n\u00e3o contrario&#8230; desejo este casamento, desejo&#8230; mas. em primeiro<br \/>\nlugar, conv\u00e9m saber se ele e do teu gosto&#8230; Vamos.., fala!<\/p>\n<p>Ana Rosa n\u00e3o respondeu e continuou muito embebida, como estava, rolar sob<br \/>\na ponta cor-de-rosa dos seus dedos as migalhas de p\u00e3o que ia encontrando sobre<br \/>\na toalha.<\/p>\n<p>Manuel Pedro da Silva, mais conhecido por Manuel Pescada, era um portugu\u00eas<br \/>\nde uns cinq\u00fcenta anos, forte, vermelho e trabalhador. Diziam-no afilado para<br \/>\no com\u00e9rcio e amigo do Brasil. Gostava da sua leitura nas horas de descanso,<br \/>\nassinava respeitosamente os jornais s\u00e9rios da prov\u00edncia e recebia alguns de<br \/>\nLisboa. Em pequeno meteram-lhe na cabe\u00e7a v\u00e1rios trechos do Cam\u00f5es e n\u00e3o lhe<br \/>\nesconderam de todo o nome de outros poetas. Prezava com fanatismo o Marqu\u00eas<br \/>\nde Pombal, de quem sabia muitas anedotas e tinha uma assinatura no Gabinete<br \/>\nPortugu\u00eas, a qual lhe aproveitava menos a ele do que \u00e0 filha, que era perdida<br \/>\npelo romance.<\/p>\n<p>Manuel Pedro fora casado com uma senhora de Alc\u00e2ntara chamada Mariana muito<br \/>\nvirtuosa e como a melhor parte das maranhenses extremada em pontos de religi\u00e3o;<br \/>\nquando morreu, deixou em legado seis escravos a Nossa Senhora do Carmo.<\/p>\n<p>Bem triste foi essa \u00e9poca tanto para o vi\u00favo como para a filha orfanada,<br \/>\ncoitadinha, justamente quando mais precisava do amparo maternal. Nesse tempo<br \/>\nmoravam no Caminho Grande, numa casinha t\u00e9rrea para onde a mol\u00e9stia de Mariana<br \/>\nos levara em busca de ares mais benignos; Manuel, porem, que era j\u00e1 ent\u00e3o<br \/>\nnegociante e tinha o seu armaz\u00e9m na Praia Grande mudou-se logo com a pequena<br \/>\npara o sobrado da Rua da Estrela, em cujas lojas prosperava, havia dez anos,<br \/>\nno com\u00e9rcio de fazendas por atacado.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o ficar s\u00f3 com a filha &#8220;que se fazia uma mulher&#8221; convidou a sogra<br \/>\nD. Maria B\u00e1rbara a abandonar o sitio em que vivia e ir morar t com ele e mais<br \/>\na neta &#8220;A menina precisava de algu\u00e9m que a guiasse, que a conduzisse! Um homem<br \/>\nnunca podia servir para essas coisas! E, se fosse a meter em casa uma preceptora<br \/>\n&#8211; Meu bom Jesus! &#8211; que n\u00e3o diriam por ai?&#8230; No Maranh\u00e3o falava-se de tudo!<br \/>\nD. Maria B\u00e1rbara que se decidisse a deixar o mato e fosse de moda para a Rua<br \/>\nda Estrelas! N\u00e3o teria que se arrepender&#8230; havia de estar como em sua pr\u00f3pria<br \/>\ncasa &#8211; bom quarto, boa mesa, e plena liberdade!&#8221;<\/p>\n<p>A velha aceitou e l\u00e1 foi, arrastando os seus cinq\u00fcenta e tantos anos, alojar-se<br \/>\nem casa do genro. com um batalh\u00e3o de moleques, suas crias, e com os cacar\u00e9us<br \/>\nainda do tempo do defunto marido. Em breve, por\u00e9m, o bom portugu\u00eas estava<br \/>\narrependido do passo que dera: D. Maria B\u00e1rbara apesar de muito piedosa; apesar<br \/>\nde n\u00e3o sair do quarto sem vir bem penteada, sem lhe faltar nenhum dos cachinhos<br \/>\nde seda preta, com que ela emoldurava disparatadamente o rosto enrugado e<br \/>\nmacilento; apesar do seu grande fervor pela igreja e apesar das missas que<br \/>\npapava por dia, D Mana B\u00e1rbara, apesar de tudo isso, saira-lhe &#8220;m\u00e1 dona de<br \/>\ncasa&#8221;.<\/p>\n<p>Era uma f\u00faria! Uma v\u00edbora! Dava nos escravos por h\u00e1bito e por gosto; s\u00f3 falava<br \/>\na gritar e, quando se punha a ralhar, &#8211; Deus nos acuda! &#8211; incomodava toda<br \/>\na vizinhan\u00e7a! Insuport\u00e1vel!<\/p>\n<p>Maria B\u00e1rbara tinha o verdadeiro tipo das velhas maranhenses criadas na fazenda<br \/>\nTratava muito dos av\u00f3s, quase todos portugueses; muito orgulhosa; muito cheia<br \/>\nde escr\u00fapulos de sangue Quando falava nos pretos dizia &#8220;Os sujos&#8221; e quando<br \/>\nse referia a um mulato dizia &#8220;O cabra&#8221;. Sempre fora assim e como devota, n\u00e3o<br \/>\nhavia outra: Em Alc\u00e2ntara tivera uma capela de Santa B\u00e1rbara e obrigava a<br \/>\nsua escravatura a rezar ai todas as noites. em coro de bra\u00e7os abertos \u00e0s vezes<br \/>\nalgemados Lembrava-se com grandes suspiros do marido &#8220;do seu Jo\u00e3o Hip\u00f3lito&#8221;<br \/>\num portugu\u00eas fino, de olhos azuis e cabelos louros.<\/p>\n<p>Este Jo\u00e3o Hip\u00f3lito foi brasileiro adotivo e chegou a fazer alguma posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nna secretaria do governo da prov\u00edncia Morreu com o posto de coronel.<\/p>\n<p>Maria B\u00e1rbara tinha grande admira\u00e7\u00e3o pelos portugueses, dedicava-lhes um<br \/>\nentusiasmo sem limites, preferia-os em tudo aos brasileiros. Quando a filha<br \/>\nfoi pedida por Manuel Pedro, ent\u00e3o principiante no com\u00e9rcio da capital, ela<br \/>\ndissera: &#8220;Bem! Ao menos tenho a certeza de que \u00e9 branco!&#8221;<\/p>\n<p>Mas o Pescada n\u00e3o compreendeu a esposa, nem foi amado por ela; a virtude,<br \/>\nou talvez simplesmente a maternidade, apenas conseguiu fazer de Mariana uma<br \/>\ncompanheira fie!; viveu exclusivamente para a filha. \u00c9 que a desgra\u00e7ada, desde<br \/>\nos quinze anos, ainda no irrespons\u00e1vel arrebatamento do primeiro amor, havia<br \/>\neleito j\u00e1 o homem a quem sua alma teria de pertencer por toda a vida. Esse<br \/>\nhomem existe hoje na hist\u00f3ria do Maranh\u00e3o, era o agitador Jos\u00e9 Candido de<br \/>\nMoraes e Silva conhecido popularmente pelo &#8220;Farol&#8221;. Fez todo o poss\u00edvel para<br \/>\ncasar com ele, mas foram baldados os seus esfor\u00e7os, nem s\u00f3 em virtude das<br \/>\npersegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que, t\u00e3o cedo, atribularam a curta exist\u00eancia daquela<br \/>\nfenomenal criatura, como tamb\u00e9m pela inflex\u00edvel oposi\u00e7\u00e3o que tal id\u00e9ia encontrou<br \/>\nna pr\u00f3pria fam\u00edlia da rapariga.<\/p>\n<p>Entretanto, o destino dela se havia prendido \u00e0 sorte do desventurado maranhense.<br \/>\nQuem diria que aquela pobre mo\u00e7a, nascida e criada nos sert\u00f5es do Norte, sentiria,<br \/>\ncomo qualquer filha das grandes capitais, a m\u00e1gica influ\u00eancia que os homens<br \/>\nsuperiores exercem sobre o esp\u00edrito feminino? Amou-o, sem saber por que. Sentira-lhe<br \/>\na for\u00e7a dominadora do olhar, os \u00edmpetos revolucion\u00e1rios do seu car\u00e1ter americano,<br \/>\no heroismo patri\u00f3tico da sua individualidade t\u00e3o superior ao meio em que floresceu;<br \/>\ndecorara-lhe as frases apaixonadas e vibrantes de indigna\u00e7\u00e3o, com que ele<br \/>\nfulminava os exploradores da sua p\u00e1tria estremecida e os inimigos da integridade<br \/>\nnacional; e tudo isso, sem que ela soubesse explicar, arrebatou-a para o belo<br \/>\ne destemido mo\u00e7o com todo o ardor do seu primeiro desejo de mulher.<\/p>\n<p>Quando, na Rua dos Rem\u00e9dios, que nesse tempo era ainda um arrabalde, o desditoso<br \/>\nher\u00f3i, apenas com pouco mais de vinte e cinco anos de idade sucumbiu ao jugo<br \/>\ndo seu pr\u00f3prio talento e da sua honra pol\u00edtica, oculto, foragido, cheio de<br \/>\nmis\u00e9ria, odiado por uns como um assassino e adorado por outros como um deus,<br \/>\na pobre senhora deixou-se possuir de uma grande tristeza e foi enfraquecendo<br \/>\ne ficando doente. e ficando feia e cada vez mais triste, at\u00e9 morrer silenciosamente<br \/>\npoucos anos depois do seu amado.<\/p>\n<p>Ana Rosa n\u00e3o chegou a conhecer o Farol; a m\u00e3e porem muito em segredo, ensinara-lhe<br \/>\na compreender e respeitar a mem\u00f3ria do talentoso revolucion\u00e1rio, cujo nome<br \/>\nde guerra despertava ainda, entre os portugueses, a raiva antiga do motim<br \/>\nde 7 de agosto de 1831. &#8220;Minha filha, disse-lhe a infeliz j\u00e1 nas v\u00e9speras<br \/>\nda morte, n\u00e3o consintas nunca que te casem, sem que ames deveras o homem a<br \/>\nti destinado para marido. N\u00e3o te cases no ar! Lembra-te que o casamento deve<br \/>\nser sempre a conseq\u00fcencia de duas inclina\u00e7\u00f5es irresist\u00edveis. A gente deve<br \/>\ncasar porque ama, e n\u00e3o ter de amar porque casou Se fizeres o que te digo,<br \/>\nser\u00e1s feliz!&#8221; Concluiu pedindo-lhe que prometesse, caso algum dia viessem<br \/>\na constrang\u00ea-la a aceitar mando contra seu gosto, arrostar tudo, tudo, para<br \/>\nevitar semelhante desgra\u00e7a, principalmente se ent\u00e3o Ana Rosa j\u00e1 gostasse doutro;<br \/>\ne por este, sim. fosse quem fosse, cometesse os maiores sacrfic\u00edos, arriscasse<br \/>\na pr\u00f3pria vida, porque era nisso que consistia a verdadeira honestidade de<br \/>\numa mo\u00e7a.<\/p>\n<p>margin-bottom:6.0pt;text-align:justify;text-indent: E mais n\u00e3o foram os conselhos<br \/>\nque Mariana deu \u00e0 filha. Ana Rosa era crian\u00e7a. n\u00e3o os compreendeu logo, nem<br \/>\nt\u00e3o cedo procuro compreend\u00ea-los; mas, t\u00e3o estavam eles eles morte da m\u00e3e que<br \/>\na id\u00e9ia desta n\u00e3o lhe acudia \u00e0 mem\u00f3ria sem as palavras da moribunda.<\/p>\n<p>Manuel Pedro, apesar de bom, era um desses homens mais que alheados as sutilezas<br \/>\ndo sentimento; para outra mulher daria talvez um excelente esposo, n\u00e3o para<br \/>\naquela, cuja sensibilidade rom\u00e2ntica, longe de o<\/p>\n<p>comover havia muita vez de importun\u00e1-lo. Quando se achou vi\u00favo n\u00e3o sentiu,<br \/>\na despeito da sua natural bondade, mais do que certo desgosto pela aus\u00eancia<br \/>\nde uma companheira com que j\u00e1 se tinha habituado- contudo, n\u00e3o pensou em tornar<br \/>\na casar, convencido de que o afeto da filha lhe chegaria de sobra para amenizar<br \/>\nas canseiras do trabalho, e que o aux\u00edlio imediato da sagra bastaria para<br \/>\ngarantir a dec\u00eancia da sua casa e a boa regra das suas despesas dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>Ana Rosa cresceu pois, como se v\u00ea, entre os desvelos insuficientes do pai<br \/>\ne o mau g\u00eanio da av\u00f3. Ainda assim aprendera de cor a gram\u00e1tica do Sotero dos<br \/>\nReis; lera alguma coisa; sabia rudimentos de franc\u00eas e tocava modinhas sentimentais<br \/>\nao viol\u00e3o e ao piano N\u00e3o era est\u00fapida; tinha a intui\u00e7\u00e3o perfeita da virtude,<br \/>\num modo bonito, e por vezes lamentara n\u00e3o ser mais instru\u00edda. Conhecia muitos<br \/>\ntrabalhos de agulha: bordava como poucas, e dispunha de uma gargantazinha<br \/>\nde contralto que fazia gosto ouvir.<\/p>\n<p>Tanto assim que, em pequena, servira v\u00e1rias vezes de anjo da ver\u00f4nica nas<br \/>\nprociss\u00f5es da quaresma E os c\u00f4negos da S\u00e9 gabavam-lhe o metal da voz e davam-lhe<br \/>\ngrandes cartuchos de am\u00eandoas de mendubim, muito enfeitados nas suas pinturas,<br \/>\ntoscas e caracter\u00edsticas, feitas a goma-ar\u00e1bica e tintas de botica. Nessas<br \/>\nocasi\u00f5es ela sentia-se radiante, com as faces carminadas, a cabe\u00e7a coberta<br \/>\nde cachos artificiais, grande roda no vestido curto, a jeito de dan\u00e7arina<br \/>\nE, muito concha, ufana dos seus gal\u00f5es de prata e ouro e das suas tr\u00eamulas<br \/>\nasas de papel\u00e3o e escumillha, caminhava triunfante e feliz no meio do cord\u00e3o<br \/>\ndas irmandades religiosas, segurando a extremidade de um len\u00e7o do qual o pai<br \/>\nsegurava a outra. Isto eram promessas feitas pela m\u00e3e ou pela av\u00f3 em dias<br \/>\nde grande enfermidade na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>E crescera sempre bonita de formas. Tinha os olhos pretos e os cabelos castanhos<br \/>\nde Mariana e puxara ao pai as rijezas de corpo e os dentes fortes Com a aproxima\u00e7\u00e3o<br \/>\nda puberdade apareceram-lhe caprichos rom\u00e2nticos e fantasias po\u00e9ticas: gostava<br \/>\ndos passeios ao luar, das serenatas; arranjou ao lado do seu quarto um gabinete<br \/>\nde estudo, uma bibliotecazinha de poetas e romancistas; tinha um Paulo e Virg\u00ednia<br \/>\nde biscuit sobre a estante e, escondido por detr\u00e1s de um espelho, o retrato<br \/>\ndo Farol, que herdara de Mariana.<\/p>\n<p>Lera com entusiasmo a Graziela de Lamartine Chorou muito com essa leitura<br \/>\ne, desda\u00ed, todas as noites, antes de adormecer, procurava instintivamente<br \/>\nimitar o sorriso de inoc\u00eancia que a procitana oferecia ao seu amante. Praticava<br \/>\nbem com os pobres. adorava os passarinhos e n\u00e3o podia ver matar perto de si<br \/>\numa borboleta Era um bocadinho supersticiosa: n\u00e3o queda as chinelas emborcadas<br \/>\ndebaixo da rede e s\u00f3 aparava os cabelos durante o quarto crescente da lua.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o que acreditasse nessas coisas&#8221;, justificava-se ela, &#8220;mas fazia porque<br \/>\nos outros faziam. &#8221; Sobre a c\u00f4moda, havia muito tempo, tinha uma estampa litogr\u00e1fica<br \/>\ne colorida de Nossa Senhora dos Rem\u00e9dios e rezava-lhe todas as noites, antes<br \/>\nde dormir Nada conhecia melhor e mais agrad\u00e1vel do que um passeio ao Cutim,<br \/>\ne, quando soube que se projetava uma linha de bondes at\u00e9 l\u00e1, teve uma satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\nviolenta e nervosa.<\/p>\n<p>Feitos os quinze anos, ela come\u00e7ou pouco e pouco a descobrir em si estranhas<br \/>\nmudan\u00e7as; percebeu, sentiu que uma transforma\u00e7\u00e3o importante se operava no<br \/>\nseu esp\u00edrito e no seu corpo: sobressatavam-na terrores acometiam-na tristezas<br \/>\nsem sem motific\u00e1vel. Um dia, afinal, acordou mais preocupada; assentou-se<br \/>\nna rede, a cismar. E, com surpresa, reparou que seus membros ultimamente se<br \/>\ntinham arredondado; notou que em todo seu corpo a linha curva suplantara a<br \/>\nreta e que as suas formas eram j\u00e1 completamente de mulher.<\/p>\n<p>Veio-lhe ent\u00e3o um sobressalto de contentamento mas logo depois caiu a entristecer:<br \/>\nsentia-se muito s\u00f3, n\u00e3o lhe bastava o amor do pai e da velha Barbara; queria<br \/>\numa afei\u00e7\u00e3o mais exclusiva, mais dela.<\/p>\n<p>Lembrou-se dos seus namoros. Riu-se &#8220;coisas de crian\u00e7a!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Aos doze anos namorara um estudante do Liceu. Haviam conversado tr\u00eas ou quatro<br \/>\nvezes na sala do pai e sugunham-se deveras apaixonados um pelo outro; o estudante<br \/>\nseguiu para a Escola Central da Corte, e ela nunca mais pensou nele Depois<br \/>\nfoi um oficial de marinha; &#8220;Como lhe ficava bem a farda!&#8230; Que mo\u00e7o engra\u00e7ado!<br \/>\nbonito! e como sabia vestir-se&#8230; Ana Rosa chegou a principiar a bordar um<br \/>\npar de chinelas para lho oferecer; antes por\u00e9m de terminado o primeiro p\u00e9,<br \/>\nj\u00e1 o bandoleiro havia desaparecido com a corveta &#8220;Baiana&#8221;. Seguiu-se um empregado<br \/>\ndo com\u00e9rcio. &#8220;Muito bom rapaz! muito cuidadoso da roupa e das unhas!&#8230;&#8221; Parecia-lhe<br \/>\nque ainda estava a v\u00ea-lo, todo met\u00f3dico, escolhendo palavras para lhe pedir<br \/>\n&#8220;a subida honra de dan\u00e7ar com ela uma quadrilha&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Ah tempos! tempos!..<\/p>\n<p>E n\u00e3o queria pensar ainda em semelhantes tolices. &#8220;Coisas de crian\u00e7a! Coisas<br \/>\nde crian\u00e7a!&#8230;&#8221; Agora, s\u00f3 o que lhe convinha era um marido! &#8220;O seu&#8221;, o verdadeiro,<br \/>\no lega!! O homem da sua casa, o dono do seu corpo, a quem ela pudesse amar<br \/>\nabertamente como amante e obedecer em segredo como escrava. Precisava de dar-se<br \/>\ne dedicar-se a algu\u00e9m; sentia absoluta necessidade de p\u00f4r em a\u00e7\u00e3o a compet\u00eancia,<br \/>\nque ela em si reconhecia, para tomar conta de uma casa e educar muitos filhos.<\/p>\n<p>Com estes devaneios, acudia-lhe sempre um arrepiozinho de febre; ficava<br \/>\nexcitada, idealizando um homem forte, corajoso, com um bonito talento, e capaz<br \/>\nde matar-se por ela. E, nos seus sonhos agitados, debuxava-se um vulto confuso,<br \/>\nmas encantador, que galgava precip\u00edcios, para chegar onde ela estava e merecer-lhe<br \/>\na ventura de um sorriso, uma doce esperan\u00e7a de casamento. E sonhava o noivado:<br \/>\num banquete espl\u00eandido! e junto dela, ao alcance de seus l\u00e1bios, um mancebo<br \/>\napaixonado e formoso, um conjunto de for\u00e7a, gra\u00e7a e ternura. que a seus p\u00e9s<br \/>\nardia de impaci\u00eancia e devorava-a com o olhar em fogo.<\/p>\n<p>Depois &#8211; via-se dona de casa; pensando muito nos filhos; sonhava-se feliz,<br \/>\nmuito dependente na pris\u00e3o do ninho e no dom\u00ednio carinhoso do manco. E sonhava<br \/>\numas criancinhas louras, ternas, balbuciando tolices engra\u00e7adas e comovedoras,<br \/>\nchamando-lhe &#8220;mama!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Como devia ser bom!.. E pensar que havia por ai mulheres que eram contra<br \/>\no casamento!&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o ! Ela n\u00e3o podia admitir o celibato, principalmente para a mulher!&#8230;<br \/>\n&#8220;Para o homem- ainda passava. . vivera triste, s\u00f3; mas em todo o caso-era<br \/>\num homem&#8230; teria outras distra\u00e7\u00f5es! Mas uma pobre mulher, que melhor futuro<br \/>\npoderia ambicionar que o casamento?. . que mais leg\u00edtimo prazer do que a maternidade;<br \/>\nque companhia mais alegre do que a dos filhos, esses diabinhos t\u00e3o feiticeiros?..&#8221;<br \/>\nAl\u00e9m de que, sempre gostara muito de crian\u00e7as: muita vez pedira a quem as<br \/>\ntinha que lhas mandasse a fazer-lhe companhia, e, enquanto as pilhava em casa,<br \/>\nn\u00e3o consentia que mais ningu\u00e9m se incomodasse com elas; queria ser a pr\u00f3pria<br \/>\na dar-lhes a comida, a lav\u00e1-las, a vesti-las, e acalent\u00e1-las E estava constantemente<br \/>\na talhar camisinhas e fraldas, a fazer toucas e sapatinhos muita l\u00e1, com muito<br \/>\namor, justamente como, em pequenina, ela fazia com as suas bonecas. Quando<br \/>\nalguma de suas amigas se casava, Ana Rosa exigia dela sempre um cravo do ramalhete<br \/>\nou um bot\u00e3o das flores de laranjeira da grinalda; este ou aquele, pregava-os<br \/>\nreligiosamente no seio com um dos alfinetes dourados da noiva, e quedava-se<br \/>\na fit\u00e1-los, cismado, at\u00e9 que dos l\u00e1bios lhe partia um suspiro longo, muito<br \/>\nlongo, como o do viajante que em meio do caminho j\u00e1 se sente cansado e ainda<br \/>\nn\u00e3o avista o lar.<\/p>\n<p>Mas o noivo por onde andava que n\u00e3o vinha? Esse belo mancebo, t\u00e3o ardente<br \/>\ne t\u00e3o apaixonado, por que se n\u00e3o apresentava logo? Dos homens que Ana Rosa<br \/>\nconhecia na prov\u00edncia nenhum decerto podia ser!&#8230; E, no entanto, ela amava&#8230;<\/p>\n<p>A quem?<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia diz\u00ea-lo, mas amava. Sim! Fosse a quem fosse, ela amava; porque<br \/>\nsentia vibrar-lhe todo o corpo, fibra por fibra, pensando nesse &#8211; Algu\u00e9m &#8211;<br \/>\n\u00edntimo e desconhecido para ela; esse &#8211; Algu\u00e9m &#8211; que n\u00e3o vinha e n\u00e3o lhe saia<br \/>\ndo pensamento, esse &#8211; Algu\u00e9m &#8211; cuja aus\u00eancia a fazia infeliz e lhe enchia<br \/>\na exist\u00eancia de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Passaram-se meses &#8211; nada! Correram tr\u00eas anos. Ana Rosa principiou a emagrecer<br \/>\nvisivelmente. Agora dormia menos; estava p\u00e1lida; \u00e0 mesa mal tocava nos pratos.<\/p>\n<p>&#8211; O pequena, tu tens alguma coisa! disse-lhe um dia o pai, j\u00e1 incomodado<br \/>\ncom aquele ar doentio da filha. N\u00e3o me pareces a mesma! Que \u00e9 isso, Anica?<\/p>\n<p>N\u00e3o era nada!&#8230;<\/p>\n<p>E Ana Rosa sobressaltava-se, como se tivera cometido uma falta. &#8220;Cansa\u00e7o!<br \/>\nNervos! N\u00e3o era coisa que valesse a pena!&#8230; &#8221;<\/p>\n<p>Mas chorava.<\/p>\n<p>&#8211; Olha! Ai temos! Agora o choro! Nada! \u00c9 preciso chamar o m\u00e9dico!<\/p>\n<p>&#8211; Chamar o m\u00e9dico?&#8230; Ora papai, n\u00e3o vale a pena!&#8230;<\/p>\n<p>E tossia. &#8220;Que a deixassem em paz! Que neo a estivessem apoquentando com<br \/>\nperguntas!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E tossia mais, sufocada.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00eas?! Estas achacada! Levas nesse &#8220;Churra, chrum! chrum chrum!&#8221; E \u00e9 s\u00f3<br \/>\n&#8220;N\u00e3o vale a pena! N\u00e3o precisa chamar o m\u00e9dico!&#8230;&#8217; N\u00e3o senhora! com mol\u00e9stias<br \/>\nn\u00e3o se brinca!<\/p>\n<p>O m\u00e9dico receitou banhos de mar na Ponta d&#8217;Areia.<\/p>\n<p>Foi um tempo delicioso para ela os tr\u00eas meses que ai passou. Os ares da costa,<br \/>\nos banhos de choque, os longos passeios a p\u00e9, restitu\u00edram-lhe o apetite e<br \/>\nenriqueceram-lhe o sangue Ficou mais forte; chegou a engordar.<\/p>\n<p>Na Ponta d&#8217;Areia travara uma nova amizade &#8211; D. Eufrasinha. Vi\u00fava de um oficial<br \/>\ndo quinto de infantaria, batalh\u00e3o que morreu todo na Guerra do Paraguai. Muito<br \/>\nrom\u00e2ntica: falava do marido requebrando-se, e poetizava-lhe a curta hist\u00f3ria:<br \/>\n&#8220;Dez dias depois de casados, seguira ele para o campo de batalha e, no denodo<br \/>\nda<\/p>\n<p>sua coragem, fora atravessado por uma bala de artilharia, morrendo logo<br \/>\na balbuciar com o l\u00e1bio ensang\u00fcentado o nome da esposa estremecida.&#8221;<\/p>\n<p>E com um suspiro, feito de desejos mel satisfeitos, a vi\u00fava conclu\u00eda pesarosa<br \/>\nque &#8220;prazeres nesta vida, conhecera apenas dez dias e dez noites&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ana Rosa compadecia-se da amiga e escutava-lhe de boa-f\u00e9 as frioleiras. Na<br \/>\nsua ing\u00eanua e comovida sinceridade facilmente se identificava com a hist\u00f3ria<br \/>\nsingular daquele casamento t\u00e3o infeliz e t\u00e3o simp\u00e1tico.. Por mais de uma vez<br \/>\nchegou a chorar pela morte do pobre mo\u00e7o oficial de infantaria.<\/p>\n<p>D. Eufrasinha instruiu a sua nova amiga em muitas coisas que esta mal sonhava;<br \/>\nensinou-lhe certos mist\u00e9rios da vida conjugal; pode dizer-se que lhe de amor:<br \/>\nfalou muito nos &#8220;homens&#8221;, disse-lhe como a mulher esperta devia lidar com<br \/>\neles; quais eram as manhas e os fracos dos maridos ou dos namorados; quais<br \/>\neram os tipos prefer\u00edveis; o que significava ter &#8220;olhos mortos, bei\u00e7os grossos,<br \/>\nnariz comprido&#8221;.<\/p>\n<p>A outra ria-se. &#8220;N\u00e3o tomava a s\u00e9rio aquelas bobagens da Eufrasinha!&#8221;<\/p>\n<p>Mas intimamente ia, sem dar por isso, reconstruindo o seu ideal pelas instru\u00e7\u00f5es<br \/>\nda vi\u00fava F\u00ea-lo menos espiritual, mais humano, mais veross\u00edmil, mais suscet\u00edvel<br \/>\nde ser descoberto; e, desde ent\u00e3o, o tipo, apenas debuxado ao fundo dos seus<br \/>\nsonhos, veio para a frente, acentuou-se como uma figura que recebesse os \u00faltimos<br \/>\ntoques do pintor; e, depois de v\u00ea-lo bem correto, bem emendado e pronto, amou<br \/>\no ainda mais, muito mais, tanto quanto o amaria se ele fora com efeito uma<br \/>\nrealidade.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, era esse ideal, correto e emendado, a base das suas delibera\u00e7\u00f5es<br \/>\na respeito de casamento; era a bitola, por onde ela aferia todo aquele que<br \/>\na requestasse. Se o pretendente neo tivesse o nariz, o olhar, o gesto, o conjunto<br \/>\nenfim de que constava o padr\u00e3o, podia, desde logo, perder a esperan\u00e7a de cair<br \/>\nnas gra\u00e7as da filha de Manuel Pedro.<\/p>\n<p>Eufrasinha mudou-se para a cidade; Ana Rosa j\u00e1 l\u00e1 estava. Visitaram-se.<\/p>\n<p>E estas visitas, que se tomaram muito \u00edntimas e repetidas, serviram mutuamente<br \/>\nde consolo, ao afincado celibato de uma e a precoce viuvez da outra.<\/p>\n<p>Havia, empregado no armaz\u00e9m do pai de Ana Rosa, um rapaz portugu\u00eas, de nome<br \/>\nLu\u00eds Dias; muito ativo, econ\u00f4mico, discreto, trabalhador, com uma bonita letra,<br \/>\ne muito estimado na Pra\u00e7a. Contavam a seu favor invej\u00e1veis partidas de tino<br \/>\ncomercial, e ningu\u00e9m seria capaz de dizer mal de t\u00e3o excelente mo\u00e7o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, quase sempre que falavam dele, diziam &#8220;Coitado!&#8221; e este &#8211; coitado<br \/>\n&#8211; era inteiramente sem raz\u00e3o de ser, porque ao Dias, gra\u00e7as a Deus, nada faltava:<br \/>\ntinha casa, comida, roupa lavada e engomada, e, ainda por cima, os cobres<br \/>\ndo emprego. Mas a coisa era que o diabo do homem, apesar das suas pr\u00f3speras<br \/>\ncircunst\u00e2ncias, impunha certa l\u00e1stima, impressionava com o seu eterno ar de<br \/>\npiedade, de s\u00faplica, de resigna\u00e7\u00e3o e humildade. Fazia pena, incutia d\u00f3 em<br \/>\nquem o visse, t\u00e3o submisso, t\u00e3o passivo, t\u00e3o pobre rapaz &#8211; t\u00e3o besta de carga<br \/>\nNingu\u00e9m, em caso algum, levantaria a m\u00e3o sobre ele, sem experimentar a repugn\u00e2ncia<br \/>\nda covardia.<\/p>\n<p>Elogiavam-no entretanto: &#8220;Que n\u00e3o fossem atr\u00e1s daquele ar modesto, porque<br \/>\nali estava um empregad\u00e3o de truz!&#8221;<\/p>\n<p>V\u00e1rios negociantes ofereceram-lhe boas vantagens para torn\u00e1-lo ao seu servi\u00e7o;<br \/>\nmas o Dias, sempre humilde e de cabe\u00e7a baixa, resistia-lhes a p\u00e9 firme. E,<br \/>\ntal const\u00e2ncia op\u00f4s as repetidas propostas, que todo o com\u00e9rcio, dando como<br \/>\ncerto o seu casamento com a filha do patr\u00e3o, elogiou a escolha de Manuel Pedro<br \/>\ne profetizou aos nubentes &#8220;um futuro muito bonito e muito rico&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Foi acertado foi! diziam com o olhar fito.<\/p>\n<p>Manuel Pedro via, com efeito, naquela criatura, trabalhadora e passiva como<br \/>\num boi de carga e econ\u00f4mico como um usu\u00e1rio, o homem mais no caso de fazer<br \/>\na felicidade da filha Queria-o para genro e para s\u00f3cio; dizia a todos os colegas<br \/>\nque o &#8220;seu Dias&#8221; apenas retirava por ano, para as suas despesas, a quarta<br \/>\nparte do ordenado.<\/p>\n<p>&#8211; Tem j\u00e1 o seu pec\u00falio, tem! considerava ele. A mulher o quisesse, levava<br \/>\num bom marido! Aquele vir\u00e1 a possuir alguma coisa&#8230; \u00e9 mo\u00e7o de muito futuro!<\/p>\n<p>E, pouco a pouco foi se habituando a julg\u00e1-lo j\u00e1 da fam\u00edlia e a estim\u00e1-lo<br \/>\ne disting\u00fc\u00ed-lo como tal; s\u00f3 faltava que a pequena se decidisse&#8230; Mas qual!<br \/>\nela nem queria v\u00ea-lo! Tinha-lhe birra; n\u00e3o podia sofrer aquele cabelo \u00e0 escovinha,<br \/>\naquele cavanhaque sem bigode, aqueles dentes sujos, aquela economia torpe<br \/>\ne aqueles movimentos de homem sem vontade pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>&#8211; Um som\u00edtico! classificava Ana Rosa franzindo o nariz.<\/p>\n<p>Uma ocasi\u00e3o, o pai tocou-lhe no casamento.<\/p>\n<p>&#8211; Com o Dias?&#8230; perguntou espantada.<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, papai!<\/p>\n<p>E soltou uma risada.<\/p>\n<p>Manuel n\u00e3o se animou a dizer mais palavra; a noite, por\u00e9m, contou tudo em<br \/>\nparticular ao compadre, um amigo velho, intimo da casa &#8211; o c\u00f4nego Diogo.<\/p>\n<p>&#8211; Optima soep\u00e8 despecta! sentenciou este. P preciso dar tempo ao tempo, seu<br \/>\ncompadre! A coisa h\u00e1 de ser&#8230; deixe correr o barco!<\/p>\n<p>No entanto, o Dias n\u00e3o se alterara; esperava calado, pacificamente, sem erguer<br \/>\nos olhos, cheio sempre de humildade e resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a> II<\/h2>\n<p>Assim era, quando Manuel Pedro, na varanda de sua casa, pedia a filha uma<br \/>\nresposta definitiva a respeito do casamento. J\u00e1 l\u00e1 se iam tr\u00eas meses depois<br \/>\nda estada na Ponta d&#8217;Areia.<\/p>\n<p>Ana Rosa continuou muda no seu lugar, a fitar a toalha da mesa, como se procurasse<br \/>\nai uma resolu\u00e7\u00e3o. O sabi\u00e1 cantava na gaiola.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, minha filha, n\u00e3o das sequer uma esperan\u00e7a?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser&#8230;<\/p>\n<p>E ela ergueu-se&#8230;<\/p>\n<p>Bom. Assim \u00e9 que te quero ver&#8230;<\/p>\n<p>O negociante passou o bra\u00e7o em volta da cintura da rapariga, disposto a conversar<br \/>\nainda, mas foi interrompido por umas passadas no corredor.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e1 licen\u00e7a? disse o c\u00f4nego, j\u00e1 na porta da varanda.<\/p>\n<p>-V\u00e1 entrando, compadre!<\/p>\n<p>O c\u00f4nego entrou, devagar, com o seu sorriso discreto e am\u00e1vel.<\/p>\n<p>Era um velho bonito; teria quando menos sessenta anos, por\u00e9m estava ainda<br \/>\nforte e bem conservado; o olhar vivo, o corpo teso, mas ungido de brandura<br \/>\nsantarrona. Calcava-se com esmero, de polimento; mandava buscar da Europa,<br \/>\npara seu uso, meias e colarinhos especiais, e, quando ria, mostrava dentes<br \/>\nlimpos, todos chumbados a ouro. Tinha os movimentos distintos; m\u00e3os brancas<br \/>\ne cabelos alvos que fazia gosto.<\/p>\n<p>Diogo era o confidente e o conselheiro do bom e pesado Manuel; este n\u00e3o dava<br \/>\num passo sem consultar o compadre. Formara-se em Coimbra, donde contava maravilhas;<br \/>\num bocadinho rico, e n\u00e3o relaxava o seu passeio a Lisboa, de vez em quando,<br \/>\n&#8220;para descarregar anos da costa&#8230;&#8221; explicava ele, a rir.<\/p>\n<p>Logo que entrou, deu a beijar a Ana Rosa o seu grande e trabalhado anel de<br \/>\nametista, obra do Porto, feita de encomenda. E batendo-lhe na face com a m\u00e3o<br \/>\nfina e impregnada de sabonete ingl\u00eas:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, minha afilhada, como vai essa bizarria?<\/p>\n<p>Ia bem, agradecida. Sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; Dindinho est\u00e1 bom?<\/p>\n<p>&#8211; Como sempre. Que noticias de D. Babita?<\/p>\n<p>Estava de passeio.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o v\u00ea a casa sossegada? interrogou Manuel. Foi \u00e0 missa e naturalmente<br \/>\nalmo\u00e7ou por ai com alguma amiga. Deus a conserve por l\u00e1! Mas que milagre o<br \/>\ntrouxe a estas horas c\u00e1 por casa, seu compadre?<\/p>\n<p>&#8211; Um neg\u00f3cio que lhe quero comunicar; particular, um bocado particular.<\/p>\n<p>Ana Rosa fez logo men\u00e7\u00e3o de afastar-se.<\/p>\n<p>10.0pt&#8217;&gt;- Deixa-te ficar, disse-lhe o pai. N\u00f3s vamos aqui para o escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>E os dois compadres, conversando em voz baixa, encaminharam-se para uma saleta<br \/>\nque havia na frente da casa.<\/p>\n<p>A saleta era pequenina com duas janelas para a Rua da Estrela. Ch\u00e3o esteirado<br \/>\nparedes forradas de papel e o teto de travessinhas de papara\u00faba pintadas de<br \/>\nbranco. Havia uma carteira de escrita, muito alta, com o seu mocho inclinado,<br \/>\num cofre de feno, uma pilha de livros de escritura\u00e7\u00e3o mercantil, uma prensa,<br \/>\no copiador ao lado e mais um copo sujo de p\u00f3, em cujas bordas descansava um<br \/>\npincel chato de cabo largo; uma cadeira de palhinha, um caix\u00e3o de pap\u00e9is in\u00fateis,<br \/>\num bico de g\u00e1s e duas escarradeira.<\/p>\n<p>Ah! ainda havia na parede, sobre a secret\u00e1ria, um calend\u00e1rio do ano e outro<br \/>\nda semana, ambos com as algibeiras pejadas de notas e recibos.<\/p>\n<p>Era isto que Manuel Pedro chamava pamposamente &#8220;o seu escrit\u00f3rio&#8221; e onde<br \/>\nfazia a correspond\u00eancia comercia!. Ai, quando ele de corpo e alma se entregava<br \/>\naos interesses da sua vida, \u00e0s suas especula\u00e7\u00f5es, ao seu trabalho enfim, podiam<br \/>\nia fora at\u00e9 morrer, que o bom homem n\u00e3o dava por isso. Amava deveras o trabalho<br \/>\ne seria uma santa criatura se n\u00e3o fora certa maniazinha de querer especular<br \/>\ncom tudo, o que as vezes lhe desvirtuava as melhores inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando os dois entraram, ele foi logo fechando a porta, discretamente, enquanto<br \/>\no outro se esparralhava na cadeira com um suspiro de cansa\u00e7o, levantando at\u00e9<br \/>\nao meio da canela a sua batina lustrosa e de bom talho. Manuel havia tomado<br \/>\num cigarro de papel amarelo de cima da carteira e acendia-o sofregamente;<br \/>\no c\u00f4nego esperava por ele, com uma not\u00edcia suspensa dos l\u00e1bios como espantado,<br \/>\na boca meio aberta o tronco inclinado para a frente, as m\u00e3os espalmadas nos<br \/>\njoelhos, a cabe\u00e7a erguida e um olhar de sobrancelhas arrega\u00e7adas atrav\u00e9s do<br \/>\ncristal dos \u00f3culos.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe quem est\u00e1 a chegar por ai?&#8230; perguntou afinal, quando viu Manuel<br \/>\nj\u00e1 instalado no mocho da secretaria.<\/p>\n<p>&#8211; Quem?<\/p>\n<p>&#8211; O Raimundo!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego sorveu uma pitada.<\/p>\n<p>&#8211; Que Raimundo?<\/p>\n<p>&#8211; O Mundico! o filho do Jos\u00e9, homem! teu sobrinho! aquela crian\u00e7a, que teu<br \/>\nmano teve da Domingas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim, j\u00e1 sei, mas ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 a chegar por dias&#8230; Ora espera&#8230;<\/p>\n<p>O padre tirou pap\u00e9is da algibeira e rebuscou entre eles uma carta, que passou<br \/>\nao negociante.<\/p>\n<p>&#8211; E do Peixoto, o Peixoto de Lisboa.<\/p>\n<p>&#8211; De Lisboa, como?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, homem! Do Peixoto de Lisboa, que est\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas anos no Rio.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; isso sim, porque tinha id\u00e9ia de que o pequeno deveria estar agora<br \/>\nna Corte Ah! chegou o vapor do Sul&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9. L\u00ea!<\/p>\n<p>Manuel armou os \u00f3culos no nariz e leu para si a seguinte carta datada do<br \/>\nRio de Janeiro: &#8220;Reverend\u00edssimo amigo e Sr. C\u00f4nego Diogo de Melo Folgamos<br \/>\nque esta v\u00e1 encontrar V. Reverend\u00edssima no gozo da mais perfeita sa\u00fade. Temos<br \/>\npor fim comunicar a V. Reverend\u00edssima que, no paquete de 15 do corrente, segue<br \/>\npara essa capital o Dr Raimundo Jos\u00e9 da Silva, de quem nos encarregou V. Reverend\u00edssima<br \/>\ne o Sr. Manuel Pedro da Silva quando ainda nos ach\u00e1vamos estabelecidos em<br \/>\nLisboa. Temos tamb\u00e9m a declarar, se bem que j\u00e1 em tempo competente o houv\u00e9ssemos<br \/>\nfeito, que envidamos ent\u00e3o os melhores esfor\u00e7os para conseguir do nosso recomendado<br \/>\nficasse empregado em nossa casa comercia! e que, visto n\u00e3o o conseguirmos,<br \/>\ntomamos logo a resolu\u00e7\u00e3o de remet\u00ea-lo para Coimbra com o fim de formar-se<br \/>\nele em Teologia, o que igualmente n\u00e3o se realizou, porque, feito o curso preparat\u00f3rio,<br \/>\nescolheu o nosso recomendado a carreira de Direito, na qual se acha formado<br \/>\ncom distin\u00e7\u00f5es e bonitas notas.<\/p>\n<p>Cumpre-nos ainda declarar com prazer a V. Reverend\u00edssima que o Dr Raimundo<br \/>\nfoi sempre apreciado pelos seus lentes e condisc\u00edpulos e que tem feito boa<br \/>\nfigura, tanto em Portugal, como depois na Alemanha e na Su\u00ed\u00e7a, e como ultimamente<br \/>\nnesta Corte, onde, segundo diz ele, tenciona fundar uma empresa muito importante.<br \/>\nMas, antes de estabelecer-se aqui, deseja o Dr. Raimundo efetuar nessa prov\u00edncia<br \/>\na venda de terras e outras propriedades de que ai disp\u00f5e, e com esse fim segue.<\/p>\n<p>Por esta mesma via escrevemos ao Sr. Manuel Pedro da Silva, a quem novamente<br \/>\nprestamos contas das despesas que fizemos com o sobrinho. &#8221;<\/p>\n<p>Seguiam-se os cumprimentos do estilo.<\/p>\n<p>Manuel terminada a leitura, chamou o Benedito, um moleque da casa, e ordenou-lhe<br \/>\nque fosse ao armaz\u00e9m saber se havia j\u00e1 chegado a correspond\u00eancia do Sul. O<br \/>\nmoleque voltou pouco depois, dizendo que &#8220;ainda n\u00e3o senhor, mas que seu Dias<br \/>\na fora buscar ao correio&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Homem! ele \u00e9 isso!&#8230; exclamou Pescada. O rapaz est\u00e1 bem encaminhado, quer<br \/>\nliquidar o que tem por c\u00e1 e estabelecer-se no Rio. N\u00e3o! Sempre \u00e9 outro futuro!.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! ora! ora! soprou o c\u00f4nego em tr\u00eas tempos. Nem falemos nisso! O Rio<br \/>\nde Janeiro \u00e9 o Brasil! Ele faria uma grand\u00edssima asneira se ficasse aqui.<\/p>\n<p>&#8211; Se faria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 lhe digo mais.. nem precisava c\u00e1 vir, porque&#8230; continuou Diogo, abaixando<br \/>\na voz, ningu\u00e9m aqui lhe ignora a biografia; todos sabem de quem ele saiu!<\/p>\n<p>&#8211; Que n\u00e3o viesse, n\u00e3o digo, porque enfim.. &#8220;quem quer vai e quem n\u00e3o quer<br \/>\nmanda&#8221;, como l\u00e1 diz o outro; mas \u00e9 chegar, aviar o que tem a fazer e levantar<br \/>\nde novo o ferro!<\/p>\n<p>&#8211; Ai, ai!<\/p>\n<p>&#8211; E demais, que diabo ficava ele fazendo aqui? Enchendo as ruas de pernas<br \/>\ne gastando o pouco que tem&#8230; Sim! que ele tem alguma coisinha para roer .<br \/>\ntem aquelas moradas de casa em S\u00e3o Pantale\u00e3o; tem o seu punhado de a\u00e7\u00f5es;<br \/>\ntem o jimbo c\u00e1 na casa, onde por bem dizer \u00e9 s\u00f3cio comandit\u00e1rio, e tem as<br \/>\nfazendas do Ros\u00e1rio, isto \u00e9 &#8211; a fazenda, porque uma \u00e9 tapera&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Essa e que ningu\u00e9m a quer!&#8230; observou o c\u00f4nego, e ferrou o olhar num ponto,<br \/>\ndeixando perceber que alguma triste reminisc\u00eancia o dominava.<\/p>\n<p>&#8211; Acreditam nas almas doutro mundo&#8230; prosseguiu Manuel. O caso \u00e9 que nunca<br \/>\nmais consegui dar-lhe destino. Pois olhe, seu compadre, aquelas terras s\u00e3o<br \/>\nbem boas para a cana.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego permanecia preocupado pela lembran\u00e7a da tapera.<\/p>\n<p>&#8211; Agora&#8230; acrescentou o outro, o melhor seria que ele se tivesse feito padre.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego despertou.<\/p>\n<p>&#8211; Padre?!<\/p>\n<p>&#8211; Era a vontade do Jos\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, deixe-se disso! retrucou Diogo, levantando-se com \u00edmpeto N\u00f3s j\u00e1 temos<br \/>\npor ai muito padre de cor!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, compadre, venha c\u00e1 n\u00e3o \u00e9 isso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora o qu\u00ea, homem de Deus! \u00c9 s\u00f3 &#8211; ser padre! E no fim de contas est\u00e3o se<br \/>\nvendo, as duas por tr\u00eas superiores mais negros que as nossas cozinheiras!<br \/>\nEnt\u00e3o isto tem jeito?&#8230; O governo &#8211; E o c\u00f4nego inchava as palavras &#8211; o governo<br \/>\ndevia at\u00e9 tomar uma medida s\u00e9ria a este respeito! devia proibir aos cabras<br \/>\ncertos misteres!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, compadre&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que conhe\u00e7am seu lugar!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego transformava-se ao calor daquela indigna\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o, parece j\u00e1 de pirra\u00e7a, bradou, \u00e9 nascer um moleque nas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\ndeste&#8230;<\/p>\n<p>E mostrava a carta, esmurrando-a &#8211; pode contar-se logo com um homem inteligente!<br \/>\nDeviam ser burros! burros! que s\u00f3 prestassem mesmo para nos servir! Malditos!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, compadre, voc\u00ea desta vez n\u00e3o tem raz\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora o qu\u00ea homem de Deus. N\u00e3o diga asneiras! Pois voc\u00ea queria ver sua filha<br \/>\nconfessada, casada. por um negro? voc\u00ea queria seu Manuel que a Dona Anica<br \/>\nbeijasse a m\u00e3o de um filho da Domingas? Se voc\u00ea viesse a ter netos queria<br \/>\nque eles apanhassem palmatoadas de um professor mais negro que esta batina?<br \/>\nOra, seu compadre, voc\u00ea \u00c0S vezes at\u00e9 me parece tolo!<\/p>\n<p>Manuel abaixou a cabe\u00e7a, derrotado.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, ora, ora! respingava o sacerdote, como as \u00faltimas gotas de um aguaceiro.<br \/>\nE passeava vivamente em toda a extens\u00e3o da saleta, atirando de uma para a<br \/>\noutra m\u00e3o o seu len\u00e7o fino de seda da \u00cdndia.- Ora! ora, deixe-se disso, seu<br \/>\ncompadre! Stultorum honor inglorius!&#8230;<\/p>\n<p>Nisto bateram \u00e0 porta. Era o Dias com a correspond\u00eancia do Sul.<\/p>\n<p>&#8211; De c\u00e1.<\/p>\n<p>A carta de Manuel pouco adiantava da outra.<\/p>\n<p>&#8211; Mas afina! que acha voc\u00ea, compadre?&#8230; disse ele, passando a carta ao c\u00f4nego,<br \/>\ndepois de a ler.<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo posso achar?&#8230; A coisa esta feita por si.. Deixe correr o barco!<br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o disse uma vez que queria entrar em neg\u00f3cio com a fazenda do Cancela?<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 melhor ocasi\u00e3o-trate-a com o pr\u00f3prio dono. mesmo as casas de S\u00e3o Pantale\u00e3o<br \/>\nconvinham-lhe&#8230; olhe se ele as desse em conta, eu talvez ficasse com alguma.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que eu digo, compadre, \u00e9 se devo receb\u00ea-lo na qualidade de meu sobrinho.<\/p>\n<p>&#8211; Sobrinho bastardo, est\u00e1 claro! Que diabo tem voc\u00ea com as cabe\u00e7adas de<br \/>\nseu mano Jos\u00e9?. Homessa!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, compadre, voc\u00ea acha que n\u00e3o me fica mal? .<\/p>\n<p>&#8211; Mal por qu\u00ea, homem de Deus? Isso nada tem que ver com voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 isso \u00e9 verdade. Ah! outra coisa! devo hosped\u00e1-lo aqui em casa?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9!&#8230; por um lado, devia ser assim&#8230; Todos sabem as obriga\u00e7\u00f5es que voc\u00ea<br \/>\ndeve ao defunto Jos\u00e9 e poderiam boquejar por ai, no caso que n\u00e3o hospedasse<br \/>\no filho&#8230; mas, por outro lado, meu amigo, amigo sei o que lhe diga!&#8230;<\/p>\n<p>E depois de uma pausa em que o outro n\u00e3o falou:<\/p>\n<p>&#8211; Homem, seu compadre, isto de meter rapazes em casa&#8230; \u00e9 o diabo!<\/p>\n<p>&#8211; De sorte que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Omnem aditum malis prejudica!<\/p>\n<p>Manuel n\u00e3o compreendeu, porem acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu hospedo constantemente os meus fregueses do interior&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 muito diferente!<\/p>\n<p>&#8211; E meus caixeiros? n\u00e3o moram aqui comigo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim! disse o c\u00f4nego, impacientando-se, mas os pobres dos caixeiros s\u00e3o<br \/>\ntodos uns moscas-mortas, n\u00f3s n\u00e3o sabemos a que nos saiu o tal doutor de Coimbra!&#8230;<br \/>\nHomem, compadre, o melro vem de Paris, deve estar mitrado!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Talvez n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas \u00e9 mais natural que esteja!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego intumescia a papada com certo ar experimentado.<\/p>\n<p>&#8211; Em todo caso&#8230; arriscou Manuel, \u00e9 por pouco tempo&#8230; Talvez coisa de um<br \/>\nm\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>E sopeando a voz discretamente com medo: Al\u00e9m disso&#8230; n\u00e3o me convinha desagradar<br \/>\no rapaz&#8230; Sim! tenho de entrar em neg\u00f3cio com ele, e&#8230; isto c\u00e1 para n\u00f3s&#8230;<br \/>\nseria uma fineza, que me ficava a dever&#8230; porque enfim&#8230; voc\u00ea sabe que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! interrompeu o c\u00f4nego, tomando uma nova atitude. Isso \u00e9 outro cantar!&#8230;<br \/>\nPor ai \u00e9 que voc\u00ea devia ter principiado!<\/p>\n<p>&#8211; Sim tornou Manuel. com mais animo. Voc\u00ea bem sabe que n\u00e3o tenho obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde estar a moer-me com o nhonh\u00f4 Mundico&#8230; e, se bem que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pchio!&#8230; fez o padre, cortando a conversa, e disse: &#8211; H\u00f3spede o homem!<\/p>\n<p>E saiu da saleta, revestindo logo o seu pachorrento e estudado ar de santarr\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao chegarem \u00e0 varanda Ana Rosa, j\u00e1 em trajes de passeio, os esperava para<br \/>\nsair toda debru\u00e7ada no parapeito da janela e derramando sobre o Bacanga um<br \/>\nolhar mole e cheio de incertezas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, sempre te resolveste, minha caprichosa?&#8230; disse o pai.<\/p>\n<p>E contemplava a filha, com um risinho de orgulho. Ela estava realmente boa<br \/>\ncom o seu vestido muito alvo de fust\u00e3o, alegre, todo cheirando aos jasmins<br \/>\nda gaveta: com o seu chap\u00e9u de palhinha de It\u00e1lia emoldurando o rosto oval,<br \/>\nfresco e bem feito com o seu cabelo castanho, farto e sedoso, que aparecia<br \/>\nem band\u00f3s no alto da cabe\u00e7a e reaparecia no pesco\u00e7o enrodilhado despretensiosamente.<\/p>\n<p>&#8211; Tinhas dito que n\u00e3o ias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 se vestir, papai.<\/p>\n<p>E assentou-se.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vou! L\u00e1 vou!<\/p>\n<p>Manuel bateu no ombro do c\u00f4nego:<\/p>\n<p>&#8211; Meto-lhe inveja, hein, compadre?.. Olhe como o diacho da pequena esta faceira,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Ne insultes miseris!<\/p>\n<p>&#8211; Qu\u00ea?&#8230; interjeicionou o negociante, olhando para o rel\u00f3gio da varanda.<br \/>\nQuatro e meia! E eu que ainda tinha de ir hoje tratar do despacho de um a\u00e7\u00facar!&#8230;<\/p>\n<p>E foi entrando apressado no quarto, a gritar para o Benedito &#8220;que lhe levasse<br \/>\n\u00e1gua morna para banhar o rosto&#8221;.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego assentou-se defronte de Ana Rosa.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o onde \u00e9 hoje o passeio minha rica afilhada?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 casa do Freitas. N\u00e3o se lembra? Lindoca faz anos hoje.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1spite! Temos ent\u00e3o peru de forno!..<\/p>\n<p>&#8211; Papai fica para o jantar&#8230; vossemec\u00ea n\u00e3o vai dindinho?<\/p>\n<p>&#8211; Talvez apare\u00e7a \u00e0 noite&#8230; Com certeza h\u00e1 dan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Hum-hum&#8230; mas creio que o Freitas conta com uma surpresa da Filarm\u00f4nica..<br \/>\ndisse Ana Rosa, entretida a endireitar os folhos de seu vestido com a biqueira<br \/>\nda sombrinha.<\/p>\n<p>Nisto ouviram-se bater embaixo as portas do armaz\u00e9m, que se fechavam com<br \/>\ngrande n ido de fechaduras, e logo em seguida o som pesado de passos repetidos<br \/>\nna escada. Eram os caixeiros que subiam para jantar.<\/p>\n<p>Entrou primeiro na varanda o Bento Cordeiro. Portugu\u00eas dos seus trinta e<br \/>\ntantos anos arruivado, feio de bigode e barba a cavanhaque Gabava-se de grande<br \/>\npr\u00e1tica de balc\u00e3o chamavam-lhe &#8220;Um alho&#8221;. Para aviar encomendas do interior<br \/>\nn\u00e3o havia outro! Cordeiro &#8220;metia no bolso o capurreiro mais sabido&#8221;.<\/p>\n<p>Dos empregados da casa era o mais antigo; nunca, por\u00e9m lograra ter interesse<br \/>\nna sociedade, continuava sempre de fora e tinha por isso um \u00f3dio surdo ao<br \/>\npatr\u00e3o \u00f3dio, que o patife disfar\u00e7ava por um constante sorriso de boa vontade<br \/>\nMas o seu maior defeito o que deveras depunha contra ele aos olhos das &#8211; raposas<br \/>\n&#8211; do com\u00e9rcio; o que explicava na Praga a sua n\u00e3o entrada na sociedade da<br \/>\ncasa em que trabalhava havia tanto tempo era sem duvida a sua queda para o<br \/>\nvinho. Aos domingos metia-se na tiorga e ficava de todo insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Bento atravessou silencioso a varanda cortejando com afetada humildade o<br \/>\nc\u00f4nego e Ana Rosa, e seguiu logo para o mirante, onde moravam todos os caixeiros<br \/>\nda casa.<\/p>\n<p>O segundo a passar foi Gustavo de Vila Rica; simp\u00e1tico e bonito mocet\u00e3o de<br \/>\ndezesseis anos, com as suas soberbas cores portuguesas, que o clima do Maranh\u00e3o<br \/>\nainda n\u00e3o tinha conseguido destruir. Estava sempre de bom humor; lisonjeava-se<br \/>\nde um apetite inquebrant\u00e1vel e de nunca haver ficado de cama no Brasil. Em<br \/>\ncasa todavia ganhara fama de extravagante; \u00e9 que mandava fazer fatos de casimira<br \/>\na moda, para passear aos domingos e para ir aos bailes familiares de contribui\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne queimava charutos de dois vint\u00e9ns. O grande defeito deste era uma assinatura<br \/>\nno Gabinete Portugu\u00eas, o que levava a boa gente do com\u00e9rcio a dizer &#8220;que ele<br \/>\nera um grande biltre, um peralta, que estava sempre procurando o que ler!&#8221;<\/p>\n<p>O Bento Ribeiro bradava-lhe as vezes, furioso:<\/p>\n<p>&#8211; Com os diabos! o patr\u00e3o j\u00e1 lhe tem dado a entender que n\u00e3o gosta de caixeiros<br \/>\namigos de gazeta?.. Se voc\u00ea quer ser letrado, v\u00e1 pra Coimbra, seu burro!<\/p>\n<p>Gustavo ouvia constantemente destas e doutras amabilidades, mas, que fazer?<br \/>\nprecisava ganhar a vida!&#8230; O outro era caixeiro mais antigo na casa&#8230; Conformava-se,<br \/>\nsem respingar, e em certas ocasi\u00f5es at\u00e9 satisfeito, gra\u00e7as ao seu bom humor.<\/p>\n<p>Ao passar pela varanda foi menos brusco no seu cumprimento \u00e0 filha do patr\u00e3o;<br \/>\nchegou mesmo a parar, sorrir, e dizer, inclinando a cabe\u00e7a: &#8220;Minha senhora!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>O c\u00f4nego teve uma risota.<\/p>\n<p>&#8211; Que mitra! . julgou com os seus bot\u00f5es.<\/p>\n<p>Em seguida, atravessou a varanda, muito apressado, com as m\u00e3os escondidas<br \/>\nnas enormes mangas de um jaquet\u00e3o, cuja gola subia ate \u00e0 nuca, uma crian\u00e7a<br \/>\nde uns dez anos de idade. Tinha o cabelo \u00e0 escovinha; os sapatos grandemente<br \/>\ndesproporcionados; cal\u00e7as de zuarte dobradas na bainha; olhos espantados;<br \/>\ngestos desconfiados, e um certo movimento r\u00e1pido de esconder a cabe\u00e7a nos<br \/>\nombros, que lhe traia o h\u00e1bito de levar pesco\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Este era em tudo mais novo que os outros &#8211; em idade, na casa, e no Brasil.<br \/>\nChegara havia coisa de seis meses da sua aldeia no Porto; dizia chamar-se<br \/>\nManuelzinho e tinha sempre os olhos vermelhos de chorar \u00e0 noite com saudades<br \/>\nda m\u00e3e e da terra.<\/p>\n<p>Por ser o mais novo na casa varria o armaz\u00e9m limpava as balan\u00e7as e bumia<br \/>\nos pesos de lat\u00e3o. Todos lhe batiam sem responsabilidade, n\u00e3o tinha a quem<br \/>\nse queixar. Divertiam-se \u00e0 custa dele; riam-se com repugn\u00e2ncia das suas orelhas<br \/>\ncheias de cera escura.<\/p>\n<p>Desfeava-lhe a testa uma grande cicatriz; foi um trambolh\u00e3o que levou na<br \/>\nprimeira noite em que lhe deram uma rede para dormir O pobre desterradozinho,<br \/>\nque n\u00e3o sabia haver-se com semelhante engenhoca, caiu na asneira de meter<br \/>\nprimeiro os p\u00e9s, e z\u00e1s! l\u00e1 foi por cima de uma caixa de pinho de um dos companheiros.<br \/>\nDesde esse dia ficou conhecido em casa pela alcunha de &#8220;Salta-ch\u00e3o&#8221;. Punham-lhe<br \/>\nnomes feios e chamavam-lhe &#8220;O coisa! &#8211; \u00d3 maroto! &#8211; O bisca!&#8221; tudo servia para<br \/>\no chamarem, menos o seu verdadeiro nome.<\/p>\n<p>Ia atravessando a varanda, como um bicho assustado, quase a correr. O c\u00f4nego<br \/>\ngritou por ele:<\/p>\n<p>&#8211; O pequeno? anda c\u00e1!<\/p>\n<p>Manuelzinho voltou, confuso, co\u00e7ando a nuca, muito contrariado sem levantar<br \/>\nos olhos.<\/p>\n<p>Ana Rosa teve um olhar de piedade.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que e isso? disse o c\u00f4nego. Pareces-me um bicho do mato! Fala direito<br \/>\ncom a gente, rapaz! Levanta essa cachim\u00f4nia!<\/p>\n<p>E, com a sua m\u00e3o branca e fina, suspendeu-lhe pelo queixo a cabe\u00e7a, que Manuelzinho<br \/>\ninsistia em ter baixa.<\/p>\n<p>&#8211; Este ainda est\u00e1 muito peludo!&#8230; acrescentou. E perguntou-lhe depois uma<br \/>\npor\u00e7\u00e3o de coisas: &#8220;Se tinha vontade de enriquecer, se n\u00e3o sonhava j\u00e1 com uma<br \/>\ncomenda: se tinha visto o p\u00e1ssaro guariba, se encontrara a \u00e1rvore das patacas.&#8221;<br \/>\nO pequeno mastigava respostas inarticuladas, com um sorriso aflito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como te chamas?<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o respondes?&#8230; Com certeza \u00e9s Manuel!<\/p>\n<p>O portuguesinho meneou a cabe\u00e7a afirmativamente, e apertou a boca, para conter<br \/>\no riso que procurava uma v\u00e1lvula.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 com a cabe\u00e7a que se responde? Tu n\u00e3o sabes falar, mariola?<\/p>\n<p>E, voltando-se para Ana Rosa:<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 um sonso, minha afilhada! olhe em que estado ele traz as orelhas!<br \/>\nSe tens a alma como tens o corpo, podes d\u00e1-la ao diabo! Tu j\u00e1 te confessaste<br \/>\naqui, maroto?<\/p>\n<p>Manuelzinho n\u00e3o podendo j\u00e1 suster os bei\u00e7os, abriu a boca e, com a forca<br \/>\nde uma caldeira, soprou o riso que a tanto custo refreada.<\/p>\n<p>&#8211; Olha que estas a cuspir-me, o patife! gritou o c\u00f4nego. Bom, bom! vai-te!<br \/>\nvai-te!<\/p>\n<p>Repeliu-o e limpou a batina com o len\u00e7o.<\/p>\n<p>Ana Rosa ent\u00e3o correu os dedos pela cabe\u00e7a do menino e puxou-o para si. Arrega\u00e7ou-lhe<br \/>\nas mangas da jaqueta e revistou-lhe as unhas. Estavam crescidas e sujas.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! censurou ela, voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00e3o pequeno, que se desculpe isto!&#8230;<\/p>\n<p>E, tirando do seu indispens\u00e1vel uma tesourinha, come\u00e7ou, com grande surpresa<br \/>\ndo caixeiro e at\u00e9 do c\u00f4nego, a limpar as unhas da crian\u00e7a, dizendo ao outro,<br \/>\nbaixinho:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei como h\u00e1 m\u00e3es que se separam de filhos desta idade&#8230; Tamb\u00e9m, coitados!<br \/>\ndevem amargar muito!&#8230;<\/p>\n<p>A sua voz tinha j\u00e1 completa solicitudes de amor materno.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego levantou-se e foi encostar-se ao parapeito da varanda, enquanto<br \/>\nAna Rosa, que continuava a cortar as unhas do menino, ia em segredo perguntando<br \/>\na este se n\u00e3o tinha saudades da sua terra e se n\u00e3o chorava ao lembrar-se da<br \/>\nm\u00e3e.<\/p>\n<p>Manuelzinho estava pasmado. Era a primeira vez que no Brasil lhe falavam<br \/>\ncom aquela ternura. Levantou a cabe\u00e7a e encarou Ana Rosa; ele, que tinha sempre<br \/>\no olhar baixo e terrestre, procurou, sem vacilar, os olhos da<\/p>\n<p>rapariga e fitou-os, cheio de confian\u00e7a, sentindo por ela um s\u00fabito respeito,<br \/>\numa esp\u00e9cie de adora\u00e7\u00e3o inesperada. Afigurava-se extraordin\u00e1rio ao pobrezito<br \/>\ndesprezado de todos, que aquela senhora brasileira, t\u00e3o limpa, t\u00e3o bem vestida,<br \/>\nt\u00e3o perfumada e com as m\u00e3os t\u00e3o macias, estivesse ali a cortar-lhe e assear-lhe<br \/>\nas unhas.<\/p>\n<p>A principio foi isto para ele um sacrif\u00edcio horr\u00edvel, um supl\u00edcio insuport\u00e1vel.<br \/>\nDesejava, de si para si, ver terminada aquela cena inc\u00f4moda; queria fugir<br \/>\ndaquela posi\u00e7\u00e3o dif\u00edcil; resfolegava, sem ousar mexer com a cabe\u00e7a, olhando<br \/>\npara os lados, de esguelha, como a procura de uma saida, de algum lugar onde<br \/>\nse escondesse ou de qualquer pretexto que o arrancasse dali.<\/p>\n<p>Senha-se mal com aquilo, que d\u00favida! N\u00e3o se animava a respirar livremente,<br \/>\nreceoso de fazer notar o seu h\u00e1lito pela senhora; j\u00e1 lhe do\u00edam as juntas do<br \/>\ncorpo, tal era a sua imobilidade contrafeita; n\u00e3o mexia sequer com um dedo.<br \/>\nDepois do primeiro minuto de sacrif\u00edcio, o suor come\u00e7ou logo a correr-lhe<br \/>\nem bagas da cabe\u00e7a pela gola do jaquet\u00e3o, e o pequeno teve verdadeiros calafrios;<br \/>\nmas quando Ana Rosa lhe falou da p\u00e1tria e da m\u00e3e, com aquela penetrante meiguice<br \/>\nque s\u00f3 as pr\u00f3prias m\u00e3es sabem fazer, as l\u00e1grimas rebentaram-lhe dos olhos<br \/>\ne desceram-lhe em sil\u00eancio pela cara.<\/p>\n<p>Pois se era a primeira vez que no Brasil lhe falavam dessas coisas!&#8230;<\/p>\n<p>O c\u00f4nego assistia a tudo isto, calado, rufando sobre a sua tabaqueira de<br \/>\nouro as unhas burnidas a cinza de charuto e a sorrir como um bom velho. E,<br \/>\nenquanto Ana Rosa, de cabe\u00e7a baixa, toda desvelos, tratava do desgra\u00e7adinho,<br \/>\nprovocando-lhe as l\u00e1grimas e contendo as pr\u00f3prias, sabe Deus como! passava<br \/>\no Dias pelo fundo da varanda, sem ser sentido, o andar de gato, levando no<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o uma grande raiva, s\u00f3 pelo fato de ver a filha do patr\u00e3o acarinhando<br \/>\no outro.<\/p>\n<p>Ralava-o aquela caridade. &#8220;Ele nunca tivera quem lhe cortasse as unhas!&#8230;&#8221;<br \/>\nAmorfinava-o ver a Sra. D. Ana Rosa as voltas com semelhante bisca. &#8220;Punha<br \/>\na perder de todo a peste do pequeno!-Ora para que lhe havia de dar!&#8230; embonecar<br \/>\no s\u00facio! Queria-o com certeza para seu chichisb\u00e9u! Contava j\u00e1 com ele para<br \/>\nlevar-lhe as cartas do desaforo e trazer-lhe os presentinhos de flores e os<br \/>\nrecados dos pelintras!&#8230; Ah! mas ele, o Dias, ali estava para lhes cortar<br \/>\nas vazas!&#8221;<\/p>\n<p>O Dias, que completava o pessoal da casa de Manuel Pescada, era um tipo fechado<br \/>\ncomo um ovo, um ovo choco que mal denuncia na casca a podrid\u00e3o interior. Todavia,<br \/>\nnas cores biliosas do rosto, no desprezo do pr\u00f3prio corpo, na taciturnidade<br \/>\npaciente daquela exagerada economia, adivinhava-se-lhe uma id\u00e9ia fixa um alvo,<br \/>\npara o qual caminhava o acrobata, sem olhar dos lados, preocupado, nem que<br \/>\nse equilibrasse sobre um corda tesa. N\u00e3o desdenhava qualquer meio para chegar<br \/>\nmais depressa aos fins; aceitava, sem examinar, qualquer caminho desde que<br \/>\nlhe parecesse mais curto; tudo servia, tudo era bom, contanto que o levasse<br \/>\nmais rapidamente ao ponto desejado. Lama ou brasa &#8211; havia de passar por cima;<br \/>\nhavia de chegar ao alvo &#8211; enriquecer.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 figura, repugnante: magro e macilento, um tanto baixo um tanto curvado,<br \/>\npouca barba, testa curta e olhos fundos. O uso constante dos chinelos de tran\u00e7a<br \/>\nfizera-lhe os p\u00e9s monstruosos e chatos quando ele andava, lan\u00e7ava-os desairosamente<br \/>\npara os lados, como o movimento dos palm\u00edpedes nadando. Aborrecia-o o charuto,<br \/>\no passeio, o teatro e as reuni\u00f5es em que fosse necess\u00e1rio despender alguma<br \/>\ncoisa; quando estava perto da gente senta-se logo um cheiro azedo de roupas<br \/>\nsugas.<\/p>\n<p>Ana Rosa n\u00e3o podia conceber como uma mulher de certa ordem pudesse suportar<br \/>\nsemelhante porco &#8220;Enfim, resumia ela, quando, conversando com amigas, queria<br \/>\ndar-lhes uma id\u00e9ia justa do que era o Dias &#8211; sempre h\u00e1 um homem que n\u00e3o tem<br \/>\ncoragem de comprar uma escova de dentes!&#8221; As amigas respondiam &#8220;Iche!&#8221; mas<br \/>\nem geral t\u00ednhamos na conta de mo\u00e7o benfazejo e de conduta exemplar.<\/p>\n<p>\u00c0 noite s\u00f3 deixava a porta do patr\u00e3o nos s\u00e1bados, para ir ao peixe frito<br \/>\nem casa de uma mulata gorda que morava com duas filhas l\u00e1 para os confins<br \/>\nda Rua das Crioulas. Ia sempre sozinho. &#8220;Nada de tro\u00e7as!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho amigos&#8230; dizia ele constantemente, tenho apenas alguns conhecidos&#8230;<\/p>\n<p>Nesses passeios levava \u00e0s vezes uma garrafa de vinho do Porto ou uma lata<br \/>\nde marmelada, e chamava a isso &#8220;fazer as suas extravag\u00e2ncias&#8221;. A mulata votava-lhe<br \/>\ngrande admira\u00e7\u00e3o e punha nele muita confian\u00e7a: dava-lhe a guardar &#8220;os seus<br \/>\nouros&#8221; e as suas economias. Al\u00e9m desta, ningu\u00e9m lhe conhecia outra rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nparticular; uma bela manh\u00e3, por\u00e9m, o &#8220;exemplar mo\u00e7o&#8221; aparecera incomodado<br \/>\ne pedira ao patr\u00e3o que lhe deixasse ficar aquele dia no quarto. Manuel, todo<br \/>\nsolicito pelo seu bom empregado, mandou-lhe l\u00e3 o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, que tinha o rapaz?<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo \u00e9 mais porcaria que outra coisa, respondeu o facultativo, franzindo<br \/>\no nariz; mas receitou, recomendando banhos momos. &#8220;Banhos! de banhos principalmente<br \/>\n\u00e9 que ele precisava!&#8221;<\/p>\n<p>E, quando viu o doente pela segunda vez, n\u00e3o se p\u00f4de ter, que lhe n\u00e3o dissesse:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe l\u00e1, meu amigo, que o asseio tamb\u00e9m faz parte do tratamento!<\/p>\n<p>E acabou provando que a limpeza n\u00e3o era menos necess\u00e1ria ao corpo do que a<br \/>\nalimenta\u00e7\u00e3o, principalmente em um clima daqueles em que um homem esta sempre<br \/>\na transpirar.<\/p>\n<p>Manuel foi \u00e0 noite ao quarto do caixeiro. Falou-lhe com brandura paternal;<br \/>\nlamentou-o com palavras amig\u00e1veis, e desatou um protesto, em forma de serm\u00e3o<br \/>\ncontra o clima e os costumes do Brasil.<\/p>\n<p>&#8211; Uma terrinha com que \u00e9 preciso cuidado! Perigosa! Perigosa! dizia ele.<br \/>\nAqui a gente tem a vida por um fio de cabelo!<\/p>\n<p>Tratou depois, com entusiasmo, de Portugal; lembrou as boas comezainas portuguesas:<br \/>\n&#8220;As caldeiradas d&#8217;eirozes, a orelheira de porco com feij\u00e3o branco, a acorda,<br \/>\no caldo gordo, o famoso bacalhau do Algarve!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Ai! o pescado! suspirou o Dias, saudoso pela terra. Que rico pit\u00e9u!<\/p>\n<p>&#8211; E os nossos figos de comadre, e as nossas castanhas assadas, e o vinho<br \/>\nverde?<\/p>\n<p>Dias escutava com \u00e1gua<\/p>\n<p>&#8211; Ai! a terra! .<\/p>\n<p>O patr\u00e3o falou-lhe tamb\u00e9m das comodidades, dos ares, das frutas e por fim<br \/>\ndos divertimentos de Lisboa, terminando por contar fatos de mol\u00e9stia; casos<br \/>\nid\u00eanticos ao do Dias; transportou-se rindo ao seu tempo de rapaz, e, j\u00e1 de<br \/>\np\u00e9, pronto para sair, bateu-lhe no ombro, carinhosamente:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea, homem, o que devia era casar!&#8230;<\/p>\n<p>E jurou-lhe que o casamento lhe estava mesmo calhando. &#8220;O Dias, com aquele<br \/>\ng\u00eanio e com aquele m\u00e9todo, dava por for\u00e7a um bom marido!&#8230; Que se casasse,<br \/>\ne havia de ver se neo teria outra import\u00e2ncia!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Olhe! concluiu, digo-lhe agora como o doutor &#8220;Banhos! banhos, meu amigo&#8221;<br \/>\nmas que sejam de igreja, compreende?<\/p>\n<p>E, rindo com a pr\u00f3pria pilh\u00e9ria e todo cheio de sorrisos de boa inten\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsaiu do quarto na ponta dos p\u00e9s, cautelosamente, para que os outros caixeiros,<br \/>\na quem ele n\u00e3o dava a honra de uma visita daquelas, n\u00e3o lhe ouvissem as pisadas.<\/p>\n<p>Quando Ana Rosa acabou de cortar as unhas de Manuelzinho deu-lhe de conselho<br \/>\nque estudasse alguma coisa; prometeu que arranjaria com o pai met\u00ea-lo em uma<br \/>\naula noturna de primeiras letras, e recomendou-lhe que todos os dias de manh\u00e3<br \/>\ntomasse o seu banho debaixo da bomba do po\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a isso, que serei por voc\u00ea, rematou a mo\u00e7a, afastando-o com uma ligeira<br \/>\npalmada na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>O menino retirou-se, muito comovido, para o andar de cima, mas o Dias, de<br \/>\np\u00e9, no tope da escada, esperava por ele, furioso.<\/p>\n<p>&#8211; Que estava fazendo, seu traste?<\/p>\n<p>&#8211; Nada, respondeu a crian\u00e7a, a tremer. Fora a senhora que o chamara!&#8230;<\/p>\n<p>Dias, com um muno, explicou que o maroto n\u00e3o podia p\u00f4r-se de palestra na<br \/>\nvaranda, em vez de cuidar das obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; E se me constar, acrescentou, cada vez mais zangado, que voc\u00ea me toma a<br \/>\nir com lam\u00farias para o lado de D. Anica, comigo se tem de haver, Seu mariola!<br \/>\nVai tudo aos ouvidos do patr\u00e3o!<\/p>\n<p>Manuelzinho arredou-se dali, convencido de que havia praticado uma tremenda<br \/>\nfalta; no \u00edntimo, por\u00e9m, ia muito satisfeito com a id\u00e9ia de que j\u00e1 neo estava<br \/>\nt\u00e3o desamparado, e sentindo renascer-lhe, na obscura m\u00e1goa do seu desterro,<br \/>\num desejo alegre de continuar a viver.<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o em casa do Freitas esteve animada. Houve viol\u00e3o, cantoria, muita<br \/>\ndan\u00e7a Chegaram a deitar chorado da Bahia.<\/p>\n<p>Mas, pela volta da meia-noite, Ana Rosa, depois de uma valsa fora acometida<br \/>\nde um ataque de nervos. Era o terceiro que lhe dava assim, sem mais nem menos.<\/p>\n<p>Felizmente o m\u00e9dico, chamado a toda a pressa afian\u00e7ou que aquilo n\u00e3o valia<br \/>\nnada. &#8220;Distra\u00e7\u00f5es e bom passadio!&#8221; receitou ele, e, ao despedir-se de Manuel,<br \/>\nsegredou-lhe sorrindo:<\/p>\n<p>&#8211; Se quiser dar sa\u00fade \u00e1 sua filha, trate de cas\u00e1-la&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que tem ela, doutor?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora o que tem! Tem vinte anos! Est\u00e1 na idade de fazer o ninho! mas, enquanto<br \/>\nn\u00e3o chega o casamento, ela que v\u00e1 dando os seus passeios a p\u00e9. Banhos frios<br \/>\nexerc\u00edcios, bom passadio e distra\u00e7\u00f5es! Percebe?<\/p>\n<p>Manuel na sua ignor\u00e2ncia, imaginou que a filha alimentava ocultamente algum<br \/>\namor mal correspondido. Sacudiu os ombros. &#8220;N\u00e3o era ent\u00e3o coisa de cuidado.&#8221;<br \/>\nE, em cumprimento as ordens do m\u00e9dico, inaugurou com a enferma longos passeios<br \/>\npela fresca da madrugada.<\/p>\n<p>Da\u00ed a dias, o c\u00f4nego Diogo, contra a todos os seus h\u00e1bitos, procurava o compadre<br \/>\n\u00e0s sete horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Atravessou o armaz\u00e9m, apressado como quem traz grande novidade, e, mal chegou<br \/>\nao negociante, foi lhe dizendo em tom misterioso:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe? Faz sinal de aparecer, e \u00e9 o Cruzeiro&#8230;<\/p>\n<p>Manuel largou logo de m\u00e3o o servi\u00e7o que fazia, subiu \u00e0 varanda, deu as suas<br \/>\nprovid\u00eancias para receber um h\u00f3spede, e em seguida ganhou a rua com o amigo.<\/p>\n<p>Eles a sa\u00edrem de casa e a fortaleza de S\u00e3o Marcos a salvar, anunciando com<br \/>\num tiro, a entrada de paquete brasileiro.<\/p>\n<p>Os dois tomaram um escaler e foram a bordo.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a> III<\/h2>\n<p>9.0pt;text-autospace:none&#8217;&gt; Da\u00ed a pouco, entre as vistas interrogadoras<br \/>\ndos curiosos, atravessou a Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio um rapaz bem parecido, que ia<br \/>\nacompanhado pelo c\u00f4nego Diogo e por Manuel.<\/p>\n<p>A novidade foi logo comentada. Os portugueses vinham, com as suas grandes<br \/>\nbarrigas. \u00e0s portas dos armaz\u00e9ns de secos e molhados os barraqueiros espiavam<br \/>\npor cima dos \u00f3culos de tartaruga: os pretos cangueiros paravam para &#8220;mirar<br \/>\no cara-nova&#8221;. O Perua-gorda, em mangas de camisa, como quase todos os outros,<br \/>\nacudiu logo \u00e0 rua:<\/p>\n<p>&#8211; Quem ser\u00e1 esse gajo, \u00f3 coisa? perguntou ele ruidosamente a um s\u00facio que<br \/>\npassava na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Algum parente ou recomendado do Manuel Pescada. Veio do Sul.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 aquele! sabes quem \u00e9 o lanceiro que vai com o Pescada?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei, homem, mas \u00e9 um rapag\u00e3o!<\/p>\n<p>Manuel apresentou o sobrinho a v\u00e1rios grupos. Houve sorrisos de delicadezas<br \/>\ne grandes apertos de m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o filho de um mano do Pescada&#8230; diziam depois. Conhecemos-lhe muito<br \/>\na vida! Chama-se Raimundo Estava nos estudos.<\/p>\n<p>&#8211; Vem estabelecer-se aqui? indagou o Jos\u00e9 Buxo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, creio que vem montar uma companhia&#8230;<\/p>\n<p>Outros afian\u00e7avam que Raimundo era s\u00f3cio capitalista da casa de Manuel. Discutiam-lhe<br \/>\na roupa, o modo de andar, a cor e os cabelos. O Luisinho L\u00edngua de Prata afirmava<br \/>\nque ele &#8220;tinha casta&#8221;.<\/p>\n<p>Entretanto os tr\u00eas subiam a Rua da Estrela.<\/p>\n<p>Chegados a casa, onde j\u00e1 havia pronto um quarto para o Sr. Dr. Raimundo Jos\u00e9<br \/>\nda Silva, o c\u00f4nego e Manuel desfizeram-se em delicadezas com o rapaz.<\/p>\n<p>&#8211; Benedito! v\u00ea cerveja! Ou prefere conhaque, doutor?&#8230; Olha moleque, prepara<br \/>\nguaran\u00e1! Doutor, venha antes para este lado que esta mais fresco&#8230; n\u00e3o fa\u00e7a<br \/>\ncerim\u00f4nias! V\u00e1 entrando! v\u00e1 entrando para a varanda! O senhor est\u00e1 em sua<br \/>\ncasa!&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo queixava-se do calor.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 horr\u00edvel! dizia ele, a limpar o rosto com o len\u00e7o. Nunca suei tanto!<\/p>\n<p>&#8211; O melhor ent\u00e3o \u00e9 recolher-se um pouco e ficar \u00e0 vontade. Pode mudar de<br \/>\nroupa, arejar-se A bagagem n\u00e3o tarda ai. Olhe, doutor, entre, entre e veja<br \/>\nse fica bem aqui!<\/p>\n<p>Os tr\u00eas penetraram no quarto destinado ao h\u00f3spede.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor, disse Manuel, tem aqui janelas para a rua e para o quintal. Ponha-se<br \/>\na gosto. Se precisar qualquer coisa, \u00e9 s\u00f3 chamar pelo Benedito. Nada de cerim\u00f4nias!<\/p>\n<p>Raimundo agradeceu muito penhorado.<\/p>\n<p>&#8211; Mandei dar-lhe cama, acrescentou o negociante, porque o senhor naturalmente<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 afeito \u00e0 rede, no entanto se quiser&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o muito obrigado. Est\u00e1 tudo muito bom. O que desejo \u00e9 repousar um<br \/>\npouco justamente. Ainda tenho a cabe\u00e7a a andar \u00e0 roda.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o descanse, descanse, para depois almo\u00e7ar com mais apetite\u2026<br \/>\nAt\u00e9 logo.<\/p>\n<p>E Manuel e mais o compadre afastaram-se, cheios de cortesia e sorrisos de<br \/>\nafabilidade.<\/p>\n<p>Raimundo tinha vinte e seis anos e seria um tipo acabado de brasileiro se<br \/>\nn\u00e3o foram os grandes olhos azuis, que puxara do pai. Cabelos muito pretos<br \/>\nlustrosos e crespos; tez morena e amulatada, mas fina; dentes claros que reluziam<br \/>\nsob a negrura do bigode; estatura alta e elegante; pesco\u00e7o largo, nariz direito<br \/>\ne fronte espa\u00e7osa. A parte mais caracter\u00edstica da sua fisionomia era os olhos<br \/>\n&#8211; grandes, ramalhudos, cheios de sombras azuis; pestanas eri\u00e7adas e negras,<br \/>\np\u00e1lpebras de um roxo vaporoso e \u00famido as sobrancelhas, muito desenhadas no<br \/>\nrosto, como a nanquim faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar<br \/>\nda barba raspada lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre<br \/>\npapel de arroz.<\/p>\n<p>Tinha os gestos bem educados. s\u00f3brios, despidos de pretens\u00e3o, falava em<br \/>\nvoz baixa, distintamente sem armar ao efeito; vestia-se com seriedade e bom<br \/>\ngosto; amava as artes, as ci\u00eancias, a literatura e, um pouco menos, a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em toda a sua vida, sempre longe da p\u00e1tria, entre povos diversos, cheia de<br \/>\nimpress\u00f5es diferentes tomada de preocupa\u00e7\u00f5es de estudos, jamais conseguira<br \/>\nchegar a uma dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e satisfat\u00f3ria a respeito da sua proced\u00eancia.<br \/>\nN\u00e3o sabia ao certo quais eram as circunst\u00e2ncias em que viera ao mundo n\u00e3o<br \/>\nsabia a quem devia agradecer a vida e os bens de que dispunha. Lembrava-se<br \/>\nno entanto de haver sa\u00eddo em pequeno do Brasil e podia jurar que nunca lhe<br \/>\nfaltara o necess\u00e1rio e at\u00e9 o sup\u00e9rfluo. Em Lisboa tinha ordem franca.<\/p>\n<p>Mas quem vinha a ser essa pessoa encarregada de acompanh\u00e1-la de t\u00e3o longe?&#8230;<br \/>\nSeu tutor, com certeza, ou coisa que o valha, ou talvez seu pr\u00f3prio tio pois,<br \/>\nquanto ao pai sabia Raimundo que j\u00e1 o n\u00e3o tinha quando foi para Lisboa. N\u00e3o<br \/>\nporque chegasse a conhec\u00ea-lo, nem porque se recordasse de ter ouvido de algu\u00e9m<br \/>\no doce nome de filho, mas sabia-o por interm\u00e9dio do seu correspondente e pelo<br \/>\nque deduzia de algumas vagas reminisc\u00eancias da meninice.<\/p>\n<p>&#8220;Sua m\u00e3e, porem, quem seria?&#8230;&#8221; Talvez alguma senhora culpada e receosa<br \/>\nde patentear a sua vergonha!&#8230; &#8220;Seria boa? Seria virtuosa?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Raimundo perdia-se em conjeturas e, malgrado o seu desprendimento pelo passado,<br \/>\nsentia alguma coisa atra\u00ed-lo irresistivelmente para a p\u00e1tria. &#8220;Quem sabia<br \/>\nse ai n\u00e3o descobriria a ponta do enigma?&#8230; Ele, que sempre vivera \u00f3rf\u00e3o de<br \/>\nafei\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas e duradouras, como ent\u00e3o seria feliz!&#8230; Ah, se chegasse<br \/>\na saber quem era sua m\u00e3e, perdoar-lhe-ia tudo, tudo!&#8221;<\/p>\n<p>O quinh\u00e3o de ternura, que a ela pertencia, estava intacto no cora\u00e7\u00e3o do filho.<br \/>\nEra preciso entreg\u00e1-lo a algu\u00e9m! Era preciso desvendar as circunst\u00e2ncias que<br \/>\ndeterminaram o seu nascimento!<\/p>\n<p>&#8220;Mas, no fim de contas, refletia Raimundo em um retrocesso natural de impress\u00f5es,<br \/>\nque diabo tinha ele com tudo isso, se at\u00e9 ai, na ignor\u00e2ncia desses fatos,<br \/>\nvivera estimado e feliz!&#8230; N\u00e3o foi decerto para semelhante coisa que viera<br \/>\n\u00e0 prov\u00edncia! Por conseguinte, era liquidar os seus neg\u00f3cios, vender os seus<br \/>\nbens e &#8211; por aqui \u00e9 o caminho! O Rio de Janeiro l\u00e1 estava a sua espera!<\/p>\n<p>&#8220;Abriria, ao chegar l\u00e1, o seu escrit\u00f3rio, e, ao lado da mulher com quem casasse<br \/>\ne dos filhos que viesse a ter, nem sequer havia de lembrar-se do passado!<\/p>\n<p>&#8220;Sim, que mais poderia desejar melhor?&#8230; Conclu\u00edra os estudos viajara muito,<br \/>\ntinha sa\u00fade, possu\u00eda alguns bens de fortuna. &#8211; Era caminhar pra frente e deixar<br \/>\nem paz o tal &#8211; passado! &#8211; O passado, passado! Ora adeus!&#8221;<\/p>\n<p>E, chegando a esta conclus\u00e3o, sentia-se feliz, independente, seguro contra<br \/>\nas mis\u00e9rias da vida, cheio de confian\u00e7a no futuro. &#8220;E por que n\u00e3o havia de<br \/>\nfazer carreira? Ningu\u00e9m podia ter melhores inten\u00e7\u00f5es do que ele?.. N\u00e3o era<br \/>\num vadio, nem homem de maus instintos; aspirava ao casamento, \u00e0 estabilidade;<br \/>\nqueria, no remanso de sua casa, entregar-se ao trabalho s\u00e9rio, tirar partido<br \/>\ndo que estudara, do que aprendera na Alemanha, na Fran\u00e7a, na Su\u00ed\u00e7a e nos Estados<br \/>\nUnidos. Faltava-lhe apenas vir ao Maranh\u00e3o e liquidar os seus neg\u00f3cios. &#8211;<br \/>\nPois bem! c\u00e1 estava &#8211; era aviar e p\u00f4r-se de novo a caminho!&#8221;<\/p>\n<p>Foi com estas id\u00e9ias que ele chegou \u00e0 cidade de S\u00e3o Lu\u00eds. E agora, na restauradora<br \/>\nliberdade do quarto, depois de um banho t\u00e9pido, o corpo ainda meio quebrado<br \/>\nda viagem, o charuto entre os dedos, sentia se perfeitamente feliz, satisfeito<br \/>\ncom a sua sorte e com a sua consci\u00eancia<\/p>\n<p>&#8211; Ah! bocejou fechando os olhos. \u00c9 liquidar os neg\u00f3cios e p\u00f4r-me ao fresco!&#8230;<\/p>\n<p>E, com um novo bocejo, deixou cair ao ch\u00e3o o charuto, e adormeceu tranq\u00fcilamente.<\/p>\n<p>No entanto, a hist\u00f3ria de Raimundo, a hist\u00f3ria que ele ignorava, era sabida<br \/>\npor quantos conheceram os seus parentes no Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Nasceu numa fazenda de escravos na Vila do Ros\u00e1rio, muitos anos depois que<br \/>\nseu pai, Jos\u00e9 Pedro da Silva ai se refugiara, corrido do Par\u00e1 ao grito de<br \/>\n&#8220;Mata bicudo!&#8221; nas revoltas de 1831.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 da Silva havia enriquecido no contrabando dos negros da \u00c1frica e fora<br \/>\nsempre mais ou menos perseguido e malquisto pelo povo do Par\u00e1; at\u00e9 que, um<br \/>\nbelo dia, se levantou contra ele a pr\u00f3pria escravatura, que o teria exterminado,<br \/>\nse uma das suas escravas mais mo\u00e7as por nome Domingas, n\u00e3o o prevenisse a<br \/>\ntempo. Logrou passar inc\u00f3lume ao Maranh\u00e3o, n\u00e3o sem pena de abandonar seus<br \/>\nhaveres e risco de cair em novos \u00f3dios, que esta prov\u00edncia, como vizinha e<br \/>\ntribut\u00e1ria do com\u00e9rcio da outra, sustentava instigada pelo Farol contra os<br \/>\nbrasileiros adotivos e contra os portugueses. Todavia, conseguiu sempre salvar<br \/>\nalgum ouro; metal que naquele bom tempo corria abundante por todo o Brasil<br \/>\ne que mais tarde a Guerra do Paraguai tinha de transformar em condecora\u00e7\u00f5es<br \/>\ne fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>A fuga fizeram eles, senhor e escrava, a p\u00e9, por maus caminhos, atravessando<br \/>\nos sert\u00f5es. Ainda n\u00e3o existia a companhia de vapores e os transportes mar\u00edtimos<br \/>\ndependiam ent\u00e3o de vagarosas barcas, a vela e remo e, \u00e0s vezes, puxadas a<br \/>\ncorda, nos igarap\u00e9s. Foram dar com os ossos no Ros\u00e1rio. O contrabandista arranjou-se<br \/>\no melhor que p\u00f4de com a escrava que :. e restava, e, mais tarde, no lugar<br \/>\ndenominado S\u00e3o Br\u00e1s, veio a comprar uma fazendola, onde cultivou caf\u00e9, algod\u00e3o,<br \/>\ntabaco e arroz.<\/p>\n<p>Depois de v\u00e1rios abortos, Domingas deu \u00e0 luz um filho de Jos\u00e9 da Silva. Chamou-se<br \/>\no vig\u00e1rio da freguesia e, no ato do batismo da crian\u00e7a, esta, como a m\u00e3e,<br \/>\nreceberam solenemente a carta de alforria.<\/p>\n<p>Essa crian\u00e7a era Raimundo.<\/p>\n<p>Na capital, entretanto, acalmavam-se os \u00e2nimos. Jos\u00e9 prosperou rapidamente<br \/>\nno Ros\u00e1rio; cercou a amante e o filho de cuidados; relacionou-se com a vizinhan\u00e7a,<br \/>\ncriou amizades, e, no fim de pouco tempo, recebia em casamento a Sra. D. Quit\u00e9ria<br \/>\nInoc\u00eancia de Freitas Santiago, vi\u00fava, brasileira rica, de muita religi\u00e3o e<br \/>\nescr\u00fapulos de sangue, e para quem um escravo n\u00e3o era um homem, e o fato de<br \/>\nn\u00e3o ser branco, constitu\u00eda s\u00f3 por si um crime.<\/p>\n<p>Foi uma fera! a suas m\u00e3os, ou por ordem dela, v\u00e1rios escravos sucumbiram<br \/>\nao relho, ao tronco, \u00e0 fome, \u00e0 sede, e ao ferro em brasa. Mas nunca deixou<br \/>\nde ser devota, cheia de supersti\u00e7\u00f5es; tinha uma capela na fazenda, onde a<br \/>\nescravatura, todas as noites com as m\u00e3os inchadas pelos bolos, ou as costas<br \/>\nlanhadas pelo chicote, entoava s\u00faplicas \u00e0 Virgem Sant\u00edssima. m\u00e3e dos infelizes.<\/p>\n<p>Ao lado da capela o cemit\u00e9rio das suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Casara com Jos\u00e9 da Silva por dois motivos simplesmente: porque precisava<br \/>\nde um homem, e ali n\u00e3o havia muito onde escolher, e porque lhe diziam que<br \/>\nos portugueses s\u00e3o brancos de primeira \u00e1gua.<\/p>\n<p>Nunca tivera filhos Um dia reparou que o marido, a titulo de padrinho, distinguia<br \/>\ncom certa ternura, o crioulo da Domingas e declarou logo que n\u00e3o admitia,<br \/>\nnem mais um instante, aquele moleque na fazenda.<\/p>\n<p>&#8211; Seu negreiro! gritava ela ao marido, fula de raiva. Voc\u00ea pensa que lhe<br \/>\ndeixarei criar, em minha companhia, os filhos que voc\u00ea tem das negras?&#8230;<br \/>\nEra s\u00f3 tamb\u00e9m o que faltava&#8217; N\u00e3o trate de despachar-me, quanto antes, o moleque,<br \/>\nque serei eu quem o despacha, mas h\u00e1 de ser para ali, para junto da capela!<\/p>\n<p>Jos\u00e9, que sabia perfeitamente de quanto ela era capaz, correu logo \u00e0 vila<br \/>\npara dar as provid\u00eancias necess\u00e1rias \u00e0 seguran\u00e7a do filho. Mas, ao voltar<br \/>\n\u00e0 fazenda, gritos horrorosos atrairam-no ao rancho dos pretos. entrou descoro\u00e7oado<br \/>\ne viu o seguinte:<\/p>\n<p>Estendida por terra, com os p\u00e9s no tronco, cabe\u00e7a raspada e m\u00e3os amarradas<br \/>\npara tr\u00e1s, permanecia Domingos, completamente nua e com as partes genitais<br \/>\nqueimadas a ferro em brasa. Ao lado, o filhinho de tr\u00eas anos, gritava como<br \/>\num possesso, tentando abra\u00e7\u00e1-la, e, de cada vez que ele se aproximava da m\u00e3e,<br \/>\ndois negros, a ordem de Quit\u00e9ria, desviavam o relho das costas da escrava<br \/>\npara dardej\u00e1-lo contra a crian\u00e7a. A megera, de p\u00e9, horr\u00edvel, b\u00eabada de c\u00f3lera,<br \/>\nria-se, praguejava obscenidades, uivando nos espasmos flagrantes da c\u00f3lera<br \/>\nDomingas, quase morta, gemia, estorcendo-se no ch\u00e3o O desarranjo de suas palavras<br \/>\ne dos seus gestos denunciava j\u00e1 sintomas de loucura.<\/p>\n<p>O pai de Raimundo, no primeiro assomo de indigna\u00e7\u00e3o, t\u00e3o furioso acometeu<br \/>\nsobre a esposa, que a fez cair. Em seguida, ordenou que recolhessem Domingas<br \/>\n\u00e0 casa dos brancos e que lhe prodigalizassem todos os cuidados.<\/p>\n<p>Quit\u00e9ria, a conselho do vig\u00e1rio do lugar, um padre ainda mo\u00e7o, chamado Diogo,<br \/>\no mesmo que batizara Raimundo, fugiu essa noite para a fazenda de sua m\u00e3e,<br \/>\nD. \u00darsula Santiago, a meia l\u00e9gua dali.<\/p>\n<p>O vig\u00e1rio era muito da casa das Santiago; dizia-se at\u00e9 aparentado com elas.<br \/>\nO caso \u00e9 que foi na qualidade de confessor, parente e amigo, que ele acompanhou<br \/>\nQuit\u00e9ria.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 da Silva, por esse tempo, chegava \u00e0 cidade de S\u00e3o Lu\u00eds com o filho.<br \/>\nProcurou seu irm\u00e3o mais mo\u00e7o, o Manuel Pedro, e entregou-lhe o pequeno, que<br \/>\nficaria sob as vistas do tio at\u00e9 ter idade para matricular-se num col\u00e9gio<br \/>\nde Lisboa.<\/p>\n<p>Feito isso, tornou de novo para a sua roga. &#8220;Agora contava viver mais descansado.<br \/>\nera natural que a mulher se deixasse ficar em casa da m\u00e3e.&#8221; Ao chegar l\u00e1,<br \/>\nsabendo que n\u00e3o o esperavam essa noite e como visse luz no quarto da esposa,<br \/>\napeou-se em dist\u00e2ncia e, para n\u00e3o se encontrar com ela, guardou o cavalo e<br \/>\nentrou silenciosamente na fazenda.<\/p>\n<p>Os c\u00e3es conheceram-no pelo faro e apenas rosnaram. Mas, na ocasi\u00e3o em que<br \/>\nele passava de fronte do quarto de Quit\u00e9ria, ouviu a\u00ed sussurros de vozes que<br \/>\nconversavam. Aproximou-se levado pela curiosidade e encostou o ouvido \u00e0 porta.<br \/>\nReconheceu logo a voz da mulher.<\/p>\n<p>&#8220;Mas, com quem diabo ela conversaria aquela hora?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Conteve a impaci\u00eancia e esperou de ouvido alerta.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o havia d\u00favida! &#8211; a outra voz era de um homem!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Sem esperar mais nada, meteu ombros \u00e0 porta e, precipitou-se dentro do quarto,<br \/>\natirando-se com f\u00faria sobre a esposa, que perdera logo os sentidos.<\/p>\n<p>O padre Diogo, pois era dele a outra voz, n\u00e3o tivera tempo de fugir e ca\u00edra,<br \/>\ntr\u00eamulo, aos p\u00e9s de Jos\u00e9. Quando este largou das m\u00e3os a traidora, para se<br \/>\napossar do outro, reparou que a tinha estrangulado. Ficou perplexo e tolhido<br \/>\nde assombro.<\/p>\n<p>Houve ent\u00e3o um sil\u00eancio ansioso. Ouvia-se o resfolegar dos dois homens. A<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o dificultava-se; mas o vig\u00e1rio, recuperando o sangue-frio, ergueu-se,<br \/>\nconcertou as roupas e, apontando para o corpo da amante, disse com firmeza:<\/p>\n<p>&#8211; Matou-a! Voc\u00ea \u00e9 um criminoso!<\/p>\n<p>&#8211; Cachorro! E tu?! Tu ser\u00e1s porventura menos criminoso do que eu?<\/p>\n<p>&#8211; Perante as leis, decerto! porque voc\u00ea nunca poder\u00e1 provar a minha suposta<br \/>\nculpa e, se tentasse faz\u00ea-lo, a vergonha do fato recairia toda sobre a sua<br \/>\npr\u00f3pria cabe\u00e7a, ao passo que eu, al\u00e9m do crime de inj\u00faria consumado na minha<br \/>\nsagrada pessoa, sou testemunha do assass\u00ednio desta minha infeliz e inocente<br \/>\nconfessada, assass\u00ednio que facilmente documentarei com o corpo de delito que<br \/>\naqui est\u00e1!<\/p>\n<p>E mostrava a marca das m\u00e3os de Jos\u00e9 na garganta do cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>O assassino ficou aterrado e abaixou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos l\u00e1!&#8230; disse o padre afinal, sorrindo e batendo no ombro do portugu\u00eas.<br \/>\nTudo neste mundo se pode arranjar, com a divina ajuda de Deus&#8230; s\u00f3 para a<br \/>\nmorte n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio! Se quiser, a defunta ser\u00e1 sepultada com todas as formalidades<br \/>\ncivis e religiosas&#8230;<\/p>\n<p>E, dando \u00e0 voz um cunho particular de autoridade: &#8211; Apenas pelo meu sil\u00eancio<br \/>\nsobre o crime, exijo em troca o seu para a minha culpa&#8230; Aceita?<\/p>\n<p>Jos\u00e9 saiu do quarto, cego de c\u00f3lera, de vergonha e de remorso.<\/p>\n<p>&#8211; Que vida a sua! exclamava. Que vida, santo Deus!<\/p>\n<p>O padre cumpriu a promessa o cad\u00e1ver enterrou-se na capela de S\u00e3o Br\u00e1s, ao<br \/>\nlado das suas v\u00edtimas; e todos os do lugar, at\u00e9 mesmo os de casa, atribu\u00edram<br \/>\na morte de Quit\u00e9ria ao esp\u00edrito maligno que se lhe havia metido no corpo.<\/p>\n<p>O vig\u00e1rio confirmava esses boatos e continuava a pastorar tranq\u00fcilamente<br \/>\no seu rebanho, sempre tido por homem de muita saudade e de grandes virtudes<br \/>\nteologais. Os devotos continuaram a trazer-lhe, de muitas l\u00e9guas de dist\u00e2ncia,<br \/>\nos melhores b\u00e1coros, galinhas e perus dos seus cercados.<\/p>\n<p>Em breve, as coisas voltavam todas aos eixos: Jos\u00e9 entregou a fazenda a Domingas<br \/>\ne mais tr\u00eas pretos velhos, que alforriou logo, e, acompanhado pelo resto da<br \/>\nescravatura, seguiu para a cidade de S\u00e3o Lu\u00eds, no prop\u00f3sito de liquidar seus<br \/>\nbens e recolher-se \u00e0 p\u00e1tria com o filho.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Raimundo conseguiu enfim descansar. S\u00e3o Br\u00e1s criou a sua lenda e<br \/>\nfoi aos poucos ganhando fama de amaldi\u00e7oada. Entretanto, o pequeno, quando<br \/>\nchegou \u00e0 casa do tio na capital, estava, como facilmente se pode julgar, com<br \/>\na pele sobre os ossos. A falta de cuidados espalhara-lhe na carinha opada<br \/>\numa express\u00e3o triste de mol\u00e9stia; quase que n\u00e3o conseguia abrir os olhos.<br \/>\nTodo ele era mau trato e fraqueza; tinha o est\u00f4mago muito sujo, a l\u00edngua saburrenta,<br \/>\no corpo a finar-se de reumatismo e tosse convulsa, o sangue predisposto \u00e0<br \/>\nanemia escrofulosa. Apesar do instinto materno, que a tudo resiste e vence,<br \/>\na pobre escrava n\u00e3o podia olhar nunca pelo filho: l\u00e1 estava Quit\u00e9ria para<br \/>\ndesvi\u00e1-la dele, para cortar-lhe as car\u00edcias a chicote; tanto assim, que, quando<br \/>\nJos\u00e9 lhe anunciou que Raimundo ia para a casa do fio na cidade, a infeliz<br \/>\naben\u00e7oou com l\u00e1grimas desesperadas aquela separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todavia, o desgra\u00e7adinho foi encontrar em Mariana, cunhada de seu pai, a<br \/>\nmais carinhosa e terna das projetoras. A boa senhora, como sabia que o marido<br \/>\no pouco que tinha devia \u00e0 generosidade do irm\u00e3o, julgou-se logo obrigada a<br \/>\nservir de m\u00e3e ao filho deste. Ana Rosa, \u00fanico fruto do seu casamento, ainda<br \/>\nn\u00e3o era nascida nesse tempo, de sorte que as premissas da sua maternidade<br \/>\npertenceram ao pupilo.<\/p>\n<p>Dentro em pouco, no agasalho carinhoso daquelas asas de m\u00e3e, Raimundo, de<br \/>\nfeio que era, tornou-se uma crian\u00e7a forte, s\u00e3 e bonita.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Ana Rosa veio ao mundo; a principio muito fraquinha e quase<br \/>\nsem dar acordo de si. Manuel andava aflito, com medo de perd\u00ea-la. Que luta,<br \/>\nos tr\u00eas primeiros meses de sua vida! Parecia morrer a todo instante, coitadinha!<br \/>\nNingu\u00e9m dormia na casa; o negociante chorava como um perdido, enquanto a mulher<br \/>\nfazia promessas aos santos da sua devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era por isto que a menina, mais tarde, se recordava agradavelmente de ter<br \/>\nfeito o anjo da ver\u00f4nica nas prociss\u00f5es da quaresma.<\/p>\n<p>E ao lado de Mariana, que noite e dia velava o ber\u00e7o da filhinha enferma,<br \/>\nestava Mundico, o outro filho, que este tamb\u00e9m a chamava de m\u00e3e e j\u00e1 se n\u00e3o<br \/>\nlembrava da verdadeira, da preta que o trouxera nas entranhas.<\/p>\n<p>A menina salvou-se, gra\u00e7as aos bons servi\u00e7os de um m\u00e9dico, que chegara havia<br \/>\npouco da universidade de Montpellier, Dr. Jauffret, e, a partir da\u00ed Manuel<br \/>\nn\u00e3o quis saber de outro facultativo em sua casa.<\/p>\n<p>Por essa \u00e9poca, mais ou menos, chegava do Ros\u00e1rio a not\u00edcia de haver D. Quit\u00e9ria<br \/>\nsucumbido a uma congest\u00e3o cerebral.<\/p>\n<p>&#8211; Deu-lhe de repente! explicava o correio, com o seu saco de couro \u00e0s costas.<br \/>\nFoi obra do sujo, credo!<\/p>\n<p>E, pouco depois, Jos\u00e9 Pedro da Silva, todo coberto de luto, muito encanecido<br \/>\ne desfeito, vinha liquidar os seus neg\u00f3cios e partir logo para Portugal. Manuel<br \/>\nestimava-o deveras e sentia-se de v\u00ea-lo naquele estado.<\/p>\n<p>Aprontou-se tudo para a viagem e Jos\u00e9 recolheu-se a \u00faltima noite em casa<br \/>\ndo irm\u00e3o. Mas n\u00e3o p\u00f4de pregar olho, estava excitado, e a lembran\u00e7a dos terr\u00edveis<br \/>\nsucessos, que ultimamente se haviam dado com ele, nunca o apoquentara tanto.<br \/>\nLevantou-se e come\u00e7ou a passear no quarto, a falar sozinho, nervoso, delirante,<br \/>\nvendo surgir espectros de todos os lados.<\/p>\n<p>Pelas quatro horas da madrugada, Manuel, impressionado, porque, de todas<br \/>\nas vezes que acordava, via luz no quarto do h\u00f3spede e ouvia-lhe o som dos<br \/>\npassos tr\u00f4pegos e vacilantes, e sentia-lhe os gemidos abafados e o vozear<br \/>\nfrouxo e doloroso, n\u00e3o se p\u00f4de ter e levantou-se. &#8220;Ter\u00e1 alguma coisa o Jos\u00e9?&#8230;&#8221;<br \/>\npensou ele, embrulhando-se no len\u00e7ol e tomando aquela dire\u00e7\u00e3o. A porta achava-se<br \/>\napenas no trinco, abriu-a devagar e entrou. O vi\u00favo, ao sentir algu\u00e9m, voltou-se<br \/>\nassombrado e dando com o fantasma que lhe invadia a alcova, recuou de bra\u00e7os<br \/>\nerguidos, entre gritos terror. Manuel correu sobre ele; mas antes que se desse<br \/>\na conhecer, j\u00e1 o assassino de Quit\u00e9ria havia caldo desamparadamente no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Fez-se logo um grande motim por toda a casa, que era nesse tempo no Caminho<br \/>\nGrande, e na qual os caixeiros do negociante ainda neo moravam com o patr\u00e3o.<br \/>\nA boa Mariana acudiu pronta cheia de zelo. &#8220;Um escalda-p\u00e9s! depressa!&#8221; dizia,<br \/>\napalpando os contra\u00eddos e volumosos p\u00f3s do cunhado. Tisanas, mezinhas de toda<br \/>\na esp\u00e9cie, foram lembradas; p\u00f4s-se em campo a medicina dom\u00e9stica, e, da\u00ed a<br \/>\numa hora o desfalecido voltava a si.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o p\u00f4de erguer-se: ficara muito prostrado. \u00c0 s\u00edncope sobreveio-lhe uma<br \/>\nfebre violenta, que durou at\u00e9 \u00e0 noite, quando chegou afinal o Jauffret.<\/p>\n<p>Era uma febre g\u00e1strica, explicou este. E mais: que a mol\u00e9stia; requeria certo<br \/>\ncuidado-muito sossego de esp\u00edrito! Nada de bulha, principalmente!<\/p>\n<p>Jos\u00e9, malgrado a recomenda\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico, quis ver o filho. Abra\u00e7ou-o solu\u00e7ando,<br \/>\ndisse-lhe que estava para morrer. E no outro dia ainda de cama, perfilhou-o;<br \/>\npediu um tabeli\u00e3o, fez testamento e, chorando, chamou Manuel para seu lado.<\/p>\n<p>&#8211; Meu irm\u00e3o, recomendou-lhe. Se eu for desta&#8230; o que \u00e9 poss\u00edvel, remete-me<br \/>\nlogo o pequeno para a casa do Peixoto em Lisboa.<\/p>\n<p>Terminou dizendo &#8220;que o queria &#8211; com muito saber &#8211; que o metessem num col\u00e9gio<br \/>\nde primeira sorte. Ficava ai bastante dinheiro&#8230; n\u00e3o tivessem pena de gastar<br \/>\ncom o seu filho; que lhe dessem do melhor e do mais fino&#8221;. Estas coisas fizeram-no<br \/>\npiorar; j\u00e1 todos os choravam como morto, e, pelos dias de mais risco, quando<br \/>\nJos\u00e9 delirava na sua febre, apareceu em casa do Manuel o p\u00e1roco do Ros\u00e1rio;<br \/>\nvinha muito solicito, saber do estado do seu amigo Jos\u00e9 &#8220;do seu irm\u00e3o&#8221; dizia<br \/>\nele com uma grande piedade.<\/p>\n<p>E da\u00ed, n\u00e3o abandonava a casa. Prestava-se a um tudo, servi\u00e7al discreto, \u00e0s<br \/>\nvezes choramingando porque lhe vedavam a entrada no quarto do enfermo Manuel<br \/>\ne Mariana n\u00e3o se furtavam de apreciar aquela solicitude do bom padre, o interesse<br \/>\ncom que ele chegava todos os dias para pedir noticias do amigo. Dispensavam-lhe<br \/>\num grande acolhimento; achavam-no meigo, jeitoso e simp\u00e1tico.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um santo homem! dizia Manuel convencido.<\/p>\n<p>Mariana confirmava acrescentando em voz baixa:<\/p>\n<p>&#8211; Por adula\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, coitado! Todos sabem que o padre Diogo n\u00e3o precisa<br \/>\nde migalhas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 remediado de fortuna, pois n\u00e3o! Mas, olhe, que sabe aplicar bem o que<br \/>\npossui&#8230;<\/p>\n<p>Seguia-se uma longa resenha dos epis\u00f3dios louv\u00e1veis da vida do santo vig\u00e1rio;<br \/>\ncitavam-se rasgos de abnega\u00e7\u00e3o, boas esmolas a criaturas desamparadas, perd\u00f5es<br \/>\nde ofensas graves, provas de amizade e provas de desinteresse. &#8220;Um santo!<br \/>\nUm verdadeiro santo!&#8221;<\/p>\n<p>E assim foi o padre Diogo tomando p\u00e9 em casa de Manuel e fazendo-se todo<br \/>\nde l\u00e1. J\u00e1 contavam com ele para padrinho de Ana Rosa; esperavam-no todas as<br \/>\ntardes com caf\u00e9, e \u00e0 noite, nos ser\u00f5es da fam\u00edlia, marido e mulher n\u00e3o perdiam<br \/>\nocasi\u00e3o de contar as boas pilh\u00e9rias do senhor vig\u00e1rio, glorificar-lhe as virtudes<br \/>\nreligiosas e recomend\u00e1-lo \u00e0s visitas como um excelente amigo e magn\u00edfico protetor.<br \/>\nUm dia em que ele, como sempre, cheio de solicitude, perguntava pelo &#8220;seu<br \/>\ndoente&#8221; disseram-lhe que Jos\u00e9 estava livre de maior perigo e que o restabelecimento<br \/>\nseria completo com a viagem \u00e0 Europa. Diogo sorriu, aparentemente satisfeito;<br \/>\nmas, se algu\u00e9m lhe pudesse ouvir o que resmungava ao descer as escadas, ter-se-ia<br \/>\nadmirado de ouvir estas e outras frases:<\/p>\n<p>&#8211; Diabo!&#8230; Querem ver que ainda n\u00e3o se vai desta, o maldito?&#8230; E eu, que<br \/>\nj\u00e1 o tinha por despachado!&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte, dizia o velhaco ao futuro compadre: &#8211; Bom, agora que o nosso<br \/>\nhomem est\u00e1 livre de perigo, posso ir mais sossegado para a minha par\u00f3quia&#8230;<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o vou sem tempo!&#8230;<\/p>\n<p>E despediu-se, todo boas palavras e sorrisos ang\u00e9licos, acompanhado pelas<br \/>\nb\u00ean\u00e7\u00e3os da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor vig\u00e1rio! gritou-lhe Mariana do patamar da escada. N\u00e3o fa\u00e7a agora<br \/>\ncomo os m\u00e9dicos, que s\u00f3 aparecem com as mol\u00e9stias!&#8230; Seja c\u00e1 de casa!<\/p>\n<p>-Venha de vez em quando, padre! acrescentou Manuel. Apare\u00e7a!<\/p>\n<p>Diogo prometeu vagamente, e nesse mesmo dia atravessou o Boqueir\u00e3o em demanda<br \/>\nda sua freguesia.<\/p>\n<p>Essa noite, nas salas de Manuel, s\u00f3 se conversou sobre as boas qualidades<br \/>\ne os bons precedentes do estimado cura do Ros\u00e1rio.<\/p>\n<p>Jos\u00e9, com geral contentamento dos de casa, convalescia prodigiosamente. Manuel<br \/>\ne Mariana cercavam-no de afagos, desejosos por faz\u00ea-lo esquecer a imprud\u00eancia<br \/>\nda madrugada fatal, o que, supunham, fosse o \u00fanico motivo da mol\u00e9stia; da\u00ed<br \/>\na coisa de um m\u00eas, o convalescente resolveu tomar \u00e0 fazenda, a despeito das<br \/>\ninst\u00e2ncias contr\u00e1rias da cunhada e dos conselhos do irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Que vais l\u00e3 fazer, homem de Deus? perguntava este. Se era por causa da<br \/>\nDomingas, que diabo! fizesse-a vir! O melhor por\u00e9m, segundo a sua fraca opini\u00e3o,<br \/>\nseria deix\u00e1-la l\u00e3 onde estava. Uma preta da ro\u00e7a, que nunca saiu do mato!&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o! n\u00e3o era isso! respondia o outro. Mas neo iria para a terra, sem ter<br \/>\ndado uma vista d&#8217;olhos ao Ros\u00e1rio!<\/p>\n<p>&#8211; Ao menos n\u00e3o vai s\u00f3, Jos\u00e9. Eu posso acompanhar-te.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 agradeceu. Que j\u00e1 estava perfeitamente bom. E, em caso de necessidade,<br \/>\npodia contar com os canoeiros, que eram todos seus homens.<\/p>\n<p>E dizia as in\u00fameras viagens que tinha feito at\u00e9 ali; contava epis\u00f3dios a<br \/>\nrespeito do Boqueir\u00e3o. &#8220;E que se deixassem disso! N\u00e3o estivessem a fazer daquela<br \/>\nviagem um bicho de sete cabe\u00e7as!&#8230; Haviam de ver que, antes do fim do m\u00eas,<br \/>\nestava ele de velas para Lisboa.&#8221;<\/p>\n<p>Partiu. A viagem correu-lhe est\u00fapida, como de costume naquele tempo, em que<br \/>\no Maranh\u00e3o ainda n\u00e3o tinha vapores. Demais, a sua fazenda era longe, muito<br \/>\ndentro, a cinco l\u00e9guas da vila. Urgia, por conseguinte, demorar-se a\u00ed algumas<br \/>\nhoras antes de internar-se no mato; comer, beber, tratar dos animais; arranjar<br \/>\ncondu\u00e7\u00e3o e fazer a matalotagem.<\/p>\n<p>Os poucos familiarizados com tais caminhos tomam sempre, por precau\u00e7\u00e3o, um<br \/>\n&#8220;pajem&#8221;, \u00e9 este o nome que ali romanticamente se d\u00e1 ao guia; e o pajem menos<br \/>\nserve para guiar o viajante, que a estrada \u00e9 boa, do que para lhe afugentar<br \/>\no tenor dos mocambos, das on\u00e7as e cobras de que falam com assombro os moradores<br \/>\ndo lugar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o infundado aquele tenor: o sert\u00e3o da prov\u00edncia est\u00e1 cheio de mocambeiros,<br \/>\nonde vivem os escravos fugidos com suas mulheres e seus filhos, formando uma<br \/>\ngrande fam\u00edlia de malfeitores. Esses desgra\u00e7ados, quando n\u00e3o podem ou n\u00e3o<br \/>\nquerem viver da ca\u00e7a, que \u00e9 por l\u00e1 muito abundante e de f\u00e1cil venda na vila,<br \/>\nlan\u00e7am-se \u00e0 rapinagem e atacam na estrada os viajantes; travando-se, \u00e0s vezes,<br \/>\nentre uns e outros, verdadeiras guerrilhas, em que ficam por terra muitas<br \/>\nv\u00edtimas.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 da Silva comprou na vila o que lhe convinha e seguiu, sem pajem para<br \/>\na fazenda.<\/p>\n<p>Ah! Ele conhecia perfeitamente essas paragens!&#8230;<\/p>\n<p>E quantas recorda\u00e7\u00f5es n\u00e3o lhe despertavam aquelas carnaubeiras solit\u00e1rias,<br \/>\naqueles pindovais ermos e silenciosos e aqueles tr\u00eamulos horizontes de verdura!<br \/>\nQuantas vezes, perseguindo uma paca ou um veado, n\u00e3o atravessou ele, a galope,<br \/>\naqueles barrancos perigosos que se perdiam da estrada!<\/p>\n<p>Pungia-lhe agora deixar tudo isso; abandonar o encanto selvagem das florestas<br \/>\nbrasileiras O europeu sentia-se americano, familiar \u00e0s vozes misteriosas daqueles<br \/>\ncait\u00e9s sempre verdejantes, habituado \u00e0 companhia austera daquelas \u00e1rvores<br \/>\nseculares, \u00e0s sestas pregui\u00e7osas da fazenda, ao viver amplo da roga, descal\u00e7o,<br \/>\no peito nu, a rede embalada pela vira\u00e7\u00e3o cheirosa das matas, o sono vigiado<br \/>\npor escravos.<\/p>\n<p>E tinha de deixar tudo isso!<\/p>\n<p>&#8220;Para que negar? Havia de custar-lhe muito!&#8221; considerou ele, fazendo estacar<br \/>\no seu animal. Havia andado quatro l\u00e9guas e precisava comer alguma coisa.<\/p>\n<p>No interior do Maranh\u00e3o o viajante, de ordin\u00e1rio, &#8220;pousa&#8221; e come nas fazendas<br \/>\nque vai encontrando pelo caminho, tanto que todas elas, contando j\u00e1 com isso,<br \/>\nt\u00eam sempre c\u00f4modos especiais, destinados exclusivamente aos h\u00f3spedes advent\u00edcios;<br \/>\nmas com Jos\u00e9 da Silva, que, ali\u00e1s muitas e muitas vezes pernoitara em diversas<br \/>\ne conhecia de perto a hospitalidade dos seus vizinhos, a coisa mudava agora<br \/>\nde figura: n\u00e3o queria de forma alguma suportar a companhia de ningu\u00e9m; receava<br \/>\nque o interrogassem sobre a morte da mulher. Preferiu pois jantar mesmo ao<br \/>\nrelento, e seguir logo sua viagem.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, ia j\u00e1 escurecendo, as cigarras estridulavam em coro; ouvia-se<br \/>\no lamentoso piar das rolas que se aninhavam para dormir; toda a natureza se<br \/>\nembu\u00e7ava em sombras, bocejando.<\/p>\n<p>Anoitecia lentamente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, Jos\u00e9 da Silva sentiu mais negra por dentro a sua viuvez; sentiu um<br \/>\ngrande desejo de chegar a casa, mas queria encontrar uma boa mesa, onde comesse<br \/>\ne bebesse \u00e0 vontade, como dantes; queria a sua cama larga, de casados, o seu<br \/>\ncachimbo, o seu trajo de casa.<\/p>\n<p>Ah! Nada disso encontraria!&#8230; O quarto, em que ele, durante tantos anos,<br \/>\ndormia feliz, devia ser \u00e0quela hora um ermo pavoroso; a cozinha devia estar<br \/>\ngelada, os arm\u00e1rios vazios, a horta murcha, os potes secos, o leito sem mulher!<\/p>\n<p>Que desconsolo!<\/p>\n<p>Apesar de tudo sentia fundas saudades da esposa.<\/p>\n<p>&#8211; Como o homem precisa de fam\u00edlia! .. lamentava ele no seu isolamento. Ah<br \/>\npadre! Aquele maldito padre! E da\u00ed, quem sabe?&#8230; se eu perdoasse?&#8230; ela<br \/>\ntalvez se arrependesse e viesse ainda a dar uma boa companheira, virtuosa<br \/>\ne d\u00f3cil!&#8230; Mas&#8230; e ele?&#8230; Oh nunca! Ele existiria! A duvida continuava<br \/>\nna mesma! Ele, s\u00f3 ele \u00e9 que eu devia ter matado!<\/p>\n<p>E depois de refletir um instante:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! antes assim! Assim foi melhor!<\/p>\n<p>Esta conclus\u00e3o, arrancada s\u00f3 pelo seu esp\u00edrita religioso, foi seguida de<br \/>\num movimento r\u00e1pido de esporas. O cavalo disparou. Fez-se ent\u00e3o um correr<br \/>\nvertiginoso, em que Jos\u00e9, todo vergado sobre a sela, parecia dormir na cadeia<br \/>\ndo galope. Mas, de s\u00fabito, contraiu as r\u00e9deas e o animal estacou.<\/p>\n<p>O cavaleiro torceu a cabe\u00e7a, concheando a m\u00e3o atr\u00e1s da orelha. Vinha de longe<br \/>\numa toada estranha de vozes sussurrantes, e um confuso tropel de cavalgaduras.<\/p>\n<p>A noite exalava da floresta. Sentiam-se ainda as derradeiras claridades do<br \/>\ndia e j\u00e1 tamb\u00e9m um crescente acumular de sombras. A lua erguia se, brilhando<br \/>\ncom a altivez de um novo monarca que inspeciona os seus dom\u00ednios, e o c\u00e9u<br \/>\nainda estava todo ensang\u00fcentado da p\u00farpura do \u00faltimo sol, que fugia no horizonte,<br \/>\ntr\u00eamulo. como um rei expulso e envergonhado.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 da Silva, entregue todo aos seus tormentos. assistia, sem apreciar,<br \/>\nao espet\u00e1culo maravilhoso de um crep\u00fasculo de ver\u00e3o no extremo norte do Brasil.<\/p>\n<p>O sol descambava no ocaso, retocando de tons quentes e vigorosos, com a minuciosidade<br \/>\nde um pintor flamengo, tudo aquilo que o cercava. Desse lado, montes e vales<br \/>\ntinham orlas de ouro; era tudo vermelho e esfogueado: ao passo que, do ponto<br \/>\ncontr\u00e1rio, lhe opunha o luar o doce contraste da sua luz argentina e fresca,<br \/>\ndebuxando contra o horizonte o tr\u00eamulo e duvidoso perfil das carnaubeiras<br \/>\ne dos pindovais.<\/p>\n<p>Destas bandas, no conflito boreal daquelas duas luzes inimigas, um grupo<br \/>\nmal definido e rumoroso agitava-se e crescia progressivamente.<\/p>\n<p>Era uma caravana de ciganos que se aproximava.<\/p>\n<p>Vinha lentamente, com o passo frouxo de uma boiada. Na solid\u00e3o tristonha<br \/>\ne sombria da floresta iam-se pouco a pouco distinguindo vozes de tons diversos<br \/>\ne acentuavam-se grupo de homens. mulheres e crian\u00e7as, de todas as cores e<br \/>\nde todas as idades, cavalgando magn\u00edficos animais. Uns cantavam ao embalo<br \/>\nmon\u00f3tono da besta; outros tocavam viola; esta acalentava o filho, aquela repetia<br \/>\nas modas que lhe ensinara a gajoa. Viam-se mo\u00e7os. de cal\u00e7a e quinzena, cabelos<br \/>\ngrandes, o ar indolente, o cachimbo ao canto da boca, o olhar vago e cheio<br \/>\nde vol\u00fapia, ao lado de raparigas fortes, queimadas do sol, com as melenas<br \/>\nmuito negras e lisas escorrendo sobre a opul\u00eancia das esp\u00e1duas. Sentavam-se<br \/>\n\u00e0 moda de odaliscas em volumosas trouxas, que serviam, a um tempo, de alforje<br \/>\ne de sela. Algumas delas traziam filhos ao colo ou na garupa do cavalo.<\/p>\n<p>E, lenta e pesadamente, a caravana dos ciganos se aproximava. Jos\u00e9 escondeu-se<br \/>\nno mato, para a ver passar.<\/p>\n<p>Com certeza vinha enxotada de alguma fazenda, porque o chefe, um velho membrudo,<br \/>\nde grandes barbas brancas, olhos cor de fumo, cavados e sombrios, mas irrequietos<br \/>\ne vivos, erguia, de vez em quando, o bra\u00e7o e amea\u00e7ava o poente:<\/p>\n<p>&#8211; Jacar\u00e9s te piquem diabo! Atravessado tu sejas na boca de um bacamarte!<\/p>\n<p>E a voz rouca e profunda do anci\u00e3o perdia-se na floresta.<\/p>\n<p>Meio deitada nas pernas dele, cingindo-lhe a cintura, uma mulher bela, o<br \/>\ncolo nu e fresco, a garganta lisa e carnuda, procurava, com o olhar muito<br \/>\nmole de uma ternura \u00famida e escrava, diminuir-lhe a c\u00f3lera.<\/p>\n<p>E a caravana, iluminada pelos \u00falt\u00edmos raios da claridade poente, foi passando.<br \/>\nE a pouco e pouco o sussurrar das vozes foi se perdendo no tristonho murm\u00fario<br \/>\ndas matas, como no horizonte se perdia a \u00faltima r\u00e9stia de luz vermelha.<\/p>\n<p>Em breve, tudo recaiu no sil\u00eancio primitivo, e a lua, do alto, baldeava com<br \/>\na sua luz misteriosa e triste a solid\u00e3o das clareiras.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 ficou im\u00f3vel, pensativo, perdido num desgosto invenc\u00edvel. O espet\u00e1culo<br \/>\ndaquele velho bo\u00eamio, abra\u00e7ado a uma mulher bonita e sem d\u00favida fiel, mordia-o<br \/>\npor dentro com o dente mais agudo da inveja. &#8220;Aquele. um vagabundo, um miser\u00e1vel.<br \/>\nsem lar, sem dinheiro, sem mocidade ao menos, tinha contudo nesta vida uma<br \/>\nf\u00eamea que o acarinhava e seguia como escrava: ao passo que ele, ali, no meio<br \/>\ndo campo, desacompanhado, inteiramente esquecido, chorava, porque lhe arrancaram<br \/>\ntudo, tudo &#8211; a casa, a mulher e a felicidade!&#8221; E depois pela associa\u00e7\u00e3o natural<br \/>\ndas id\u00e9ias, punha-se a lembrar do rosto p\u00e1lido de Diogo. A despeito do \u00f3dio<br \/>\nque lhe votava, achava-o bonito, com o seu cabelo todo anelado, o sorriso<br \/>\ntemo e piedoso, olhos e l\u00e1bios de uma express\u00e3o sensual e ao mesmo tempo religiosa.<br \/>\nEste contraste devia por for\u00e7a agradar \u00e0s mulheres, venc\u00ea-las pelos mist\u00e9rios,<br \/>\npelo incognosc\u00edvel. E chorava, chorava cada vez mais.<\/p>\n<p>&#8220;Como eles n\u00e3o se amariam!&#8230; Quanto prazer n\u00e3o teriam desfrutado!&#8230; &#8221;<\/p>\n<p>Instintivamente comparava-se ao padre e, cheio de raiva, de inveja, reconhecia-se<br \/>\ninferior. De repente, veio-lhe esta id\u00e9ia:<\/p>\n<p>&#8220;E se eu o matasse?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Repeliu-a logo, sem querer nem ao menos escut\u00e1-la; mas a id\u00e9ia n\u00e3o ia e agarrava-se-lhe<br \/>\nao c\u00e9rebro, com uma obstina\u00e7\u00e3o de parasita.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vieram-lhe \u00e0 lembran\u00e7a, sob uma reminisc\u00eancia l\u00facida e saudosa-o seu<br \/>\ncasamento, os sobressaltos felizes do noivado, o namoro de Quit\u00e9ria. Tudo<br \/>\nisso nunca lhe pareceu t\u00e3o bom, t\u00e3o apetec\u00edvel como naquele momento. Agora,<br \/>\ndescobria na mulher virtudes e belas qualidades, para as quais nunca atentara<br \/>\ndantes.<\/p>\n<p>&#8220;Seria eu o culpado de tudo?&#8230; N\u00e3o teria cumprido com os meus deveres de<br \/>\nbom esposo?.. Seriam insuficientes os meus carinhos?..&#8221; interrogava ele \u00e0<br \/>\npr\u00f3pria consci\u00eancia; esta respondia opondo-lhe duvidas que valiam acusa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEle defendia-se, explicava os fatos, citava provas em favor, lembrava a sua<br \/>\ndedica\u00e7\u00e3o e a sua amizade pela defunta; mas a maldita rezingueira n\u00e3o se acomodava<br \/>\ne n\u00e3o aceitava raz\u00f5es. E Jos\u00e9 abriu a chorar como um perdido.<\/p>\n<p>Surpreendeu-se neste estado; quis fugir de si mesmo, e cravou as esporas<br \/>\nno cavalo. Correu muito, \u00e0 r\u00e9dea solta como se fugira perseguido pela pr\u00f3pria<br \/>\nsombra.<\/p>\n<p>&#8220;E se eu o matasse?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Era a maldita id\u00e9ia que vinha de novo \u00e0 superf\u00edcie dos seus pensamentos.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o! N\u00e3o!&#8221; E ele a repelia de novo empurrando-a para o fundo da sua imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo o assassino que repele no mar o cad\u00e1ver da sua v\u00edtima; ela mergulhava<br \/>\ncom o impulso, mas logo reaparecia, boiando.<\/p>\n<p>&#8220;E se eu o matasse?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o! exclamou, desferindo um grito no sil\u00eancio da floresta. J\u00e1 basta<br \/>\na outra!<\/p>\n<p>E assanhavam-se-lhe os remorsos.<\/p>\n<p>Nesse momento uma nuvem escondera a lua. Espectros surgiam no caminho; Jos\u00e9<br \/>\nsuava e tremia sobre a sela; o mais leve mexer de galhos eri\u00e7ava-lhe os cabelos.<\/p>\n<p>No entanto &#8211; corria.<\/p>\n<p>Pouco lhe faltava j\u00e1 para chegar \u00e0 fazenda, muito pouco, uma miser\u00e1vel distancia,<br \/>\ne, contudo, mais lhe custava esse pouco do que todo o resto da viagem. Fechou<br \/>\nos olhos e deixou que o cavalo corresse \u00e0 toa, galopando ruidosamente na terra<br \/>\n\u00famida de orvalho. Ele ofegava, acossado por fantasmas Via a sua vitima. com<br \/>\na boca muito aberta, os olhos convulsos, a falar-lhe coisas estranhas numa<br \/>\nvoz de moribunda, a l\u00edngua de fora, enorme e negra, entre gorgolh\u00f5es de sangue.<br \/>\nE via tamb\u00e9m surgir aquele padre infame, bater-lhe no ombro, apresentar-lhe,<br \/>\nsorrindo, um alvitre, propor uma condi\u00e7\u00e3o e passar logo \u00e0 amea\u00e7a brutal: &#8220;Tenho-te<br \/>\nna m\u00e3o, assassino! Se quiseres punir-me, entrego-te \u00e0 justi\u00e7a! &#8221;<\/p>\n<p>E Jos\u00e9 gritou, como doido, solu\u00e7ando:<\/p>\n<p>&#8211; E eu aceitei, diabo! Eu aceitei!<\/p>\n<p>Nisto, o cavalo acuou. Um vulto negro agitou-se por detr\u00e1s do tronco de um<br \/>\ningazeiro, e uma bala, seguida pela detona\u00e7\u00e3o de um tiro, varou o peito de<br \/>\nJos\u00e9 da Silva.<\/p>\n<p>Os negros de S\u00e3o Br\u00e1s viram aparecer l\u00e1 o animal as soltas, e todo salpicado<br \/>\nde sangue, tinham ouvido um tiro para as bandas da estrada, correram todos<br \/>\nnessa dire\u00e7\u00e3o \u00e0 procura da v\u00edtima.<\/p>\n<p>Foi Domingas que a descobriu, e, num delito, precipitou-se contra o cad\u00e1ver,<br \/>\na beijar-lhe as m\u00e3os e as faces.<\/p>\n<p>&#8211; Meu senhor! meu querido&#8217; meus amores! exclamava ela, a solu\u00e7ar convulsivamente.<\/p>\n<p>Mas, tomada de uma id\u00e9ia s\u00fabita, ergueu-se, e gritou, apontando vagamente<br \/>\npara o lado da vila.<\/p>\n<p>&#8211; Foi ele! N\u00e3o foi outro! Foi aquele malvado! Foi aquele padre do diabo!<\/p>\n<p>E p\u00f4s-se a rir e a dan\u00e7ar, batendo palmas e cantando. Era a loucura que voltava.<\/p>\n<p>O crime foi atribu\u00eddo aos mocambeiros e o corpo de Jos\u00e9 da Silva enterrado<br \/>\njunto \u00e0 sepultura da mulher, ao lado da capela, que principiava a desmoronar<br \/>\ncom a mingua dos antigos cuidados.<\/p>\n<p>A fazenda aos poucos se converteu em tapera e lendas e supersti\u00e7\u00f5es de todo<br \/>\no g\u00eanero se inventaram para explicar-lhe o abandono. O vig\u00e1rio do lugar, pessoa<br \/>\ninsuspeita e criteriosa, nem s\u00f3 confirmava o que diziam, como aconselhava<br \/>\na que n\u00e3o fossem l\u00e1. &#8221;Aquilo eram terras amaldi\u00e7oadas!&#8221;<\/p>\n<p>Anos depois, contavam que nas ru\u00ednas de S\u00e3o Br\u00e1s vivia uma preta feiticeira,<br \/>\nque, por alta noite, saia pelos campos a imitar o canto da m\u00e3e-da-lua.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se animava a passar perto dali, e o caminheiro descuidado, que se<br \/>\nperdesse em tais paragens, via percorrer o cemit\u00e9rio, a cantar e a rodar,<br \/>\num vulto alto e magro de mulher, coberto de andrajos.<\/p>\n<p>A morte inesperada de Jos\u00e9 causou grande abalo no irm\u00e3o e ainda mais em Mariana.<br \/>\nRaimundo era muito crian\u00e7a, n\u00e3o a compreendeu; por esse tempo teria ele cinco<br \/>\nanos, se tanto. Vestiram-no de sarja preta e disseram-lhe que estava de luto<br \/>\npelo pai. Manuel tratou do invent\u00e1rio; recebeu o que lhe coube e mais a mulher<br \/>\nna heran\u00e7a; depositou no rec\u00e9m-criado banco da prov\u00edncia o que pertencia ao<br \/>\n\u00f3rf\u00e3o e, apesar das vantagens que prop\u00f4s para vender ou arrendar a fazenda<br \/>\nde S\u00e3o Br\u00e1s, ningu\u00e9m a quis. Isto feito, escreveu logo para Lisboa, pedindo<br \/>\nesclarecimentos \u00e0 Casa Peixoto, Costa &amp; Cia., e uma vez bem informado<br \/>\nno que desejava, remeteu o sobrinho para um col\u00e9gio daquela cidade.<\/p>\n<p>Muito custou \u00e0 bondosa Mariana separar-se de Raimundo. Do\u00eda aquele cora\u00e7\u00e3o<br \/>\namoroso ver expatriar-se, assim, t\u00e3o sem m\u00e3e, uma pobre crian\u00e7a de cinco anos.<br \/>\nO pequeno, todavia, depois de preparado com todo o desvelo, foi metido, a<br \/>\nchorar, dentro de um navio, e partiu.<\/p>\n<p>Ia recomendado ao comandante e lamentava-se muito em viagem. Quando chegou<br \/>\na Lisboa teve horror de tudo que o cercava. Entretanto, foi sempre bem tratado:<br \/>\nseu correspondente hospedou-o como a um parente, tratou o como filho; depois,<br \/>\nmeteu-o num col\u00e9gio dos melhores.<\/p>\n<p>Raimundo envergou o uniforme da casa, recebeu um n\u00famero, e freq\u00fcentou as<br \/>\naulas. A princ\u00edpio, logo que o deixavam sozinho, punha-se a chorar. Tinha<br \/>\nmuito medo do escuro; \u00e0 noite, cosia-se contra a parede, abra\u00e7ado aos travesseiros.<br \/>\nN\u00e3o gostava dos outros meninos, porque lhe chamavam &#8220;Macaquinho&#8221;. Era teimoso,<br \/>\ncheio de capuchos, ressentia-se muito da m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o que os portugueses trouxeram<br \/>\npara o Brasil.<\/p>\n<p>No col\u00e9gio era o \u00fanico estudante que se chamava Raimundo e os colegas ridicularizavam-lhe<br \/>\no nome, &#8220;Raimundo Mundico Nico!&#8221; diziam lhe, puxando-lhe a blusa e batendo-lhe<br \/>\nna cabe\u00e7a tosquiada \u00e0 escovinha; at\u00e9 que ele se retirava enfiado, sem querer<br \/>\ntomar ao recreio, a chorar e a berrar que o mandassem para a sua terra. Mas,<br \/>\ncom o tempo, apareceram lhe amigos e a vida ent\u00e3o se lhe afigurou melhor.<br \/>\nJ\u00e1 faziam as suas palestras; os companheiros n\u00e3o se cansavam de pedir-lhe<br \/>\ninforma\u00e7\u00e3o sobre o Brasil. &#8220;Como eram os selvagens?&#8230; E se a gente encontrava,<br \/>\npelas ruas, mulheres despidas: e se Raimundo nunca fora varado por alguma<br \/>\nflecha dos caboclos.&#8221;<\/p>\n<p>Um dia recebeu uma carta de Mariana e, pela primeira vez, deu-se ao cuidado<br \/>\nde pensar em si. Mas as suas reminisc\u00eancias n\u00e3o iam al\u00e9m da casa do tio; no<br \/>\nentanto, queria parecer-lhe que a sua verdadeira m\u00e3e n\u00e3o era aquela senhora<br \/>\naquela vinha a ser sua tia, porque era a mulher de seu tio Manuel: e at\u00e9,<br \/>\nse lhe n\u00e3o falhava a mem\u00f3ria, por mais de uma vez ouvira dela pr\u00f3pria falar<br \/>\nna outra, na sua verdadeira m\u00e3e&#8230; &#8216;Mas quem seria a outra? Como se chamava?&#8230;<br \/>\nNunca lho disseram!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Quanto a seu pai, devia ser aquele homem barbado que, numa noite, lhe apareceu,<br \/>\nmuito p\u00e1lido e aflito, e por quem pouco depois o cobriram de luto. Da cena<br \/>\ndessa noite lembrava-se perfeitamente! J\u00e1 estava recolhido, foram busc\u00e1-lo<br \/>\n\u00e0 rede e trouxeram-no, estremunhado, para as pernas do tal sujeito, por sinal<br \/>\nque as suas barbas tinham na ocasi\u00e3o certa umidade aborrecida, que Raimundo<br \/>\nagora calculava ser produzida pelas l\u00e1grimas; depois foi se deitar e n\u00e3o pensou<br \/>\nmais nisso. Recordava-se tamb\u00e9m. mas n\u00e3o com tamanha lucidez, do tempo em<br \/>\nque aquele mesmo homem esteve doente, lembrava-se de ter recebido dele muitos<br \/>\nbeijos e abra\u00e7os, e s\u00f3 agora notava que todos esses afagos eram sempre ocultos<br \/>\ne assustados, feitos como que ilegalmente, \u00e0s escondidas, e quase sempre acompanhados<br \/>\nde choro.<\/p>\n<p>Depois destas e outras divaga\u00e7\u00f5es pelo passado, Raimundo, se bem que muito<br \/>\nnovo ainda, punha-se a pensar e os v\u00e9us misteriosos da sua inf\u00e2ncia assombravam-lhe<br \/>\nj\u00e1 o cora\u00e7\u00e3o com uma tristeza vaga e obscura, numa perplexidade cheia de desgosto.<br \/>\nTodo o seu desejo era correr aos bra\u00e7os de Mariana e pedir-lhe que lhe dissesse,<br \/>\npor amor de Deus, quem afinal vinha a ser seu pai e, principalmente, sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>Passaram-se anos, e ele permaneceu enleado nas mesmas d\u00favidas. Concluiu os<br \/>\nseus preparat\u00f3rios, habilitou-se a entrar para a Academia. E sempre as mesmas<br \/>\nincertezas a respeito da sua proced\u00eancia.<\/p>\n<p>Matriculou-se em Coimbra. Desde ent\u00e3o a sua vida mudou radicalmente; todo<br \/>\nele se transformou nos seus modos de ver e julgar. Principiou a ser alegre.<\/p>\n<p>Mas um golpe terr\u00edvel veio de novo entristec\u00ea-lo &#8211; a morte da sua m\u00e3e adotiva.<br \/>\nChorou-a longa e amargamente; n\u00e3o s\u00f3 por ela, mas tamb\u00e9m muito por si pr\u00f3prio:<br \/>\nperdendo Mariana, perdia tudo que o ligava ao passado e \u00e0 p\u00e1tria. Nunca se<br \/>\nconsiderou t\u00e3o \u00f3rf\u00e3o. Todavia, com o correr dos tempos, dispersaram-se-lhe<br \/>\nas magoas e a mocidade triunfou; a crian\u00e7a melanc\u00f3lica produziu um rapaz cheio<br \/>\nde vida e bom humor; sentiu-se bem dentro da sua rom\u00e2ntica batina de estudante;<br \/>\nmeteu-se em p\u00e2ndega com os colegas; contraiu novos amigos, e afinal reparou<br \/>\nque tinha talento e gra\u00e7a; escreveu s\u00e1tiras, ridicularizando os professores<br \/>\nantipatizados; ganhou \u00f3dios e admiradores; teve quem o temesse e teve quem<br \/>\no imitasse. No segundo ano deu para namorador: atirou-se aos versos l\u00edricos,<br \/>\ncantou o amor em todos os metros depois vieram-lhe id\u00e9ias revolucion\u00e1rias,<br \/>\nmeteu-se em clubes incendi\u00e1rios, falou muito, e foi aplaudido pelos seus companheiros.<br \/>\nNo terceiro ano tornou-se janota, gastou mais do que nos outros, teve amantes,<br \/>\nem compensa\u00e7\u00e3o veio-lhe a febre dos jornais, escreveu com entusiasmo sobre<br \/>\ntodos os assuntos, desde o artigo de fundo at\u00e9 \u00e0 cr\u00f4nica teatral. No quarto,<br \/>\npor\u00e9m, distinguiu-se na Academia, criou gosto pela ci\u00eancia, e da\u00ed em diante<br \/>\nfez-se homem, firmou a sua imputabilidade, tomou-se muito estudioso e s\u00e9rio.<br \/>\nSeus discursos acad\u00eamicos foram apreciados; elogiaram-lhe a tese. Formou-se.<\/p>\n<p>Veio-lhe ent\u00e3o \u00e0 id\u00e9ia fazer uma viagem. Em Coimbra todos o diziam rico;<br \/>\ntinha ordem franca. Preparou as malas. Sua principal ambi\u00e7\u00e3o era instruir-se,<br \/>\ninstruir-se muito, abranger a maior quantidade de conhecimentos que pudesse;<br \/>\ne senha-se cheio de coragem para a luta e cheio de confian\u00e7a no seu esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, por\u00e9m uma sombra de tristeza mesquinha toldava-lhe as aspira\u00e7\u00f5es<br \/>\n&#8211; n\u00e3o sabia ao certo de quem descendia, e de que modo e por quem, fora adquirido<br \/>\naquele dinheiro que lhe enchia as algibeiras. Procurou o seu correspondente<br \/>\nem Lisboa, pediu-lhe esclarecimentos a esse respeito &#8211; Nada! O Peixoto dizia-lhe,<br \/>\nem tom muito seco, &#8220;que o pai de Raimundo havia morrido antes da chegada deste<br \/>\na Portugal, e o fio, o tutor, esse estava no Maranh\u00e3o, estabelecido na Rua<br \/>\nda Estrela com um armaz\u00e9m de fazendas por atacado&#8221;. De sua m\u00e3e &#8211; nem uma palavra,<br \/>\nnem uma atribui\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Era para enlouquecer! &#8220;Mas, afinal, quem seria ela?&#8230; Talvez irm\u00e3 daquela<br \/>\nsanta senhora que foi para ele uma segunda m\u00e3e&#8230; Mas ent\u00e3o por que tanto<br \/>\nmist\u00e9rio?&#8230; Seta alguma hist\u00f3ria, a tal ponto vergonhosa, que ningu\u00e9m se<br \/>\natrevesse a revelar-lhe?&#8230; Seria ele enjeitado?&#8230; N\u00e3o, decerto, porque era<br \/>\nherdeiro de seu pai&#8230;&#8221; E Raimundo, quanto mais tentava por a limpo a sua<br \/>\nexist\u00eancia, mais e mais se perdia no d\u00e9dalo das conjeturas.<\/p>\n<p>Das cartas que recebia do Brasil, nem uma s\u00f3 lhe falava no passado, e todavia,<br \/>\nera tanto o seu empenho em penetr\u00e1-lo, que \u00e0s vezes, com muito esfor\u00e7o de<br \/>\nmem\u00f3ria, conseguia reconstruir e articular fragmentos dispersos de algumas<br \/>\nreminisc\u00eancias, incompletas e vagas, da sua inf\u00e2ncia. Lograva recordar-se<br \/>\nda Aniquinha, que tantas noites, adormecera a seu lado, na mesma esteira,<br \/>\nouvindo cantar por D. Mariana o &#8220;Boizinho do curral, vem papar nen\u00e9m&#8221;; recordava-se<br \/>\ntamb\u00e9m da Sra. D. Maria B\u00e1rbara, a sogra de Manuel, que ia, com muito aparato,<br \/>\nvisitar a neta; passar dias. Em geral, ela chegava \u00e0 boca da noite, no seu<br \/>\npalanquim carregado por dois escravos, vestida de enorme roda cercada de crias<br \/>\ne moleques, precedida por um preto encarregado de alumiar a n a com um lampi\u00e3o<br \/>\nde folha, oitavado, duas velas no centro. E o dem\u00f4nio da mulher sempre a ralhar,<br \/>\nsempre zangada, batendo nos negros e a implicar com ele, Raimundo, a quem,<br \/>\ntodas as vezes que lhe dava a m\u00e3o a beijar, pespegava com as costas destas<br \/>\numa pancada na boca. E recordava-se bem do rosto macilento de Mana B\u00e1rbara,<br \/>\nj\u00e1 ent\u00e3o meio desca\u00eddo; recordava-se dos seus olhos castanho-claros, de seus<br \/>\ndentes triangulares, truncados a navalha, como barbaramente faziam dantes,<br \/>\npor luxo, as senhoras do Maranh\u00e3o, criadas em fazenda.<\/p>\n<p>Raimundo, uma vez, ainda em Coimbra, aspirando o cheiro de alfazema queimada,<br \/>\nsentiu, como por encanto, sugerirem-lhe \u00e0 mem\u00f3ria muitos fatos de que nunca<br \/>\nse recordara at\u00e9 ent\u00e3o. Lembrou-se logo do nascimento de Ana Rosa: A casa<br \/>\nestava toda silenciosa e impregnada daquele odor; Mariana gemia no seu quarto;<br \/>\nManuel andava, de um para outro lado da varanda, inquieto e desorientado;<br \/>\nmas, de repente, apareceu na porta do quarto uma mulata gorda, a quem davam<br \/>\no tratamento de &#8220;Inh\u00e1 comadre&#8221;, e esta, que vinha alvoro\u00e7ada, chamou de parte<br \/>\no dono da casa, disse-lhe alguma coisa em segredo, e da\u00ed a pouco estavam todos<br \/>\nfelizes e satisfeitos. E ouvia-se vir l\u00e1 de dentro um grunhido fanhoso, que<br \/>\nparecia uma gaita. Na ocasi\u00e3o, Raimundo nada compreendeu de tudo isto; disseram-lhe<br \/>\nque Mariana recebera uma menina de Fran\u00e7a, e ele acreditou piamente.<\/p>\n<p>Assim lhe acudiam outras recorda\u00e7\u00f5es; por exemplo a do macassar cheiroso,<br \/>\nent\u00e3o muito em uso na prov\u00edncia, com que D. Mariana lhe perfumava os cabelos<br \/>\ntodas as manh\u00e3s antes do caf\u00e9; mas, dentre tudo, do que melhor ele se recordava<br \/>\nera dos lampi\u00f5es com que iluminavam a cidade. Ainda l\u00e1 n\u00e3o havia g\u00e1s, nem<br \/>\nquerosene; ao bater d&#8217;AveMarias vinha o acendedor, desatava a corrente do<br \/>\nlampi\u00e3o, descia-o, abria-o, despejava-lhe dentro aguarr\u00e1s misturada com \u00e1lcool,<br \/>\nacendia-lhe o pavio, guindava-o novamente para o seu lugar, e seguia adiante.<br \/>\n&#8220;E que mau cheiro em todas as esquinas em que havia ilumina\u00e7\u00e3o!&#8230; Oh! a n\u00e3o<br \/>\nser que estivesse muito transformada a sua prov\u00edncia devia ser simplesmente<br \/>\nhorr\u00edvel!&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, queria l\u00e1 ir. Sentia atra\u00e7\u00f5es por essa p\u00e1tria, quase t\u00e3o desconhecida<br \/>\npara ele como o seu pr\u00f3prio nascimento misterioso. &#8220;Com a viagem descobriria<br \/>\ntudo! Mas, primeiro, era preciso dar um passeio \u00e0 Europa.&#8221;<\/p>\n<p>E, resolvido, foi ao escrit\u00f3rio de Peixoto, Costa &amp; Cia., sacou a quanta<br \/>\nde que precisava, abra\u00e7ou os amigos, e fez-se de vela para a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Passou pela Espanha, visitou a It\u00e1lia, foi \u00e0 Su\u00ed\u00e7a, esteve na Alemanha, percorreu<br \/>\na Inglaterra, e, no fim de tr\u00eas anos de viagem, chegou ao Rio de Janeiro,<br \/>\nonde encontrou os seus antigos correspondentes de Lisboa. Demorou-se um ano<br \/>\nna Corte, gostou da cidade, relacionou-se, fez projetos de vida e resolveu<br \/>\nestabelecer ai a sua resid\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;E o Maranh\u00e3o?&#8230; Oh, que ma\u00e7ada! Mas n\u00e3o podia deixar de l\u00e1 ir! N\u00e3o podia<br \/>\ninstalar-se na Corte, sem ter ido primeiro \u00e0 sua prov\u00edncia! Era indispens\u00e1vel<br \/>\nconhecer a fam\u00edlia; liquidar os seus bens e&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Verdade, verdade, dizia ele, conversando com um amigo, a quem confiara<br \/>\nos seus projetos, a coisa n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feia como quer parecer, porque, no fim<br \/>\nde contas, fico conhecendo todo o norte do Brasil, dou um pulo ao Par\u00e1 e ao<br \/>\nAmazonas, que desejo ver, e, afinal, volto descansado para c\u00e1 com a vida em<br \/>\nordem, a consci\u00eancia descarregada e o pouco que possuo reduzido a moeda. N\u00e3o<br \/>\nposso queixar-me da sorte!<\/p>\n<p>O passeio \u00e0 Europa n\u00e3o s\u00f3 lhe beneficiara o esp\u00edrito, como o corpo. Estava<br \/>\nmuito mais forte bem exercitado e com uma sa\u00fade invej\u00e1vel Gabava-se de ter<br \/>\nadquirindo grande experi\u00eancia do mundo; conversava \u00e0 vontade sobre qualquer<br \/>\nassunto t\u00e3o bem sabia entrar numa sala de primeira ordem como dar uma palestra<br \/>\nentre rapazes numa reda\u00e7\u00e3o de jornal ou na caixa de um teatro. E em pontos<br \/>\nde honra e lealdade, n\u00e3o admitia, com todo o direito, que houvesse alguem<br \/>\nmais escrupuloso do que ele.<\/p>\n<p>Foi nessa bela disposi\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito, feliz e cheio de esperan\u00e7as no futuro<br \/>\nque Raimundo tomou o &#8220;Cruzeiro&#8221; e partiu para a capital de S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a> IV<\/h2>\n<p>Entretanto, com a chegada de Raimundo, reuniram-se em casa de Manuel as velhas<br \/>\namizades da fam\u00edlia. Vieram as Sarmentos com os seus enormes penteados: mo\u00e7as<br \/>\nfeias, mas de grandes cabelos, muito elogiados e conhecidos na prov\u00edncia.<br \/>\n&#8220;Tran\u00e7as como as das Sarmentos!&#8230; Cabelo bonito como o das Sarmentos! Cachos<br \/>\ncomo os das Sarmentos!&#8230;&#8221; Estas e outras tantas frases se haviam convertido<br \/>\nem preceitos invari\u00e1veis. Fora das Sarmentos! n\u00e3o conheciam termo de compara\u00e7\u00e3o<br \/>\npara cabelos; e elas, c\u00f4nscias daquela popularidade, ostentavam sempre o objeto<br \/>\nde tais admira\u00e7\u00f5es em penteados: assustadores, de tamanhos fant\u00e1sticos.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho pena, afetava \u00e0s vezes D. Bibina Sarmento (esta era Bernardina) de<br \/>\nter tanto cabelo!&#8230; Para desembrulh\u00e1-lo \u00e9 um mart\u00edrio. E, quando depois do<br \/>\nbanho, n\u00e3o me penteio logo, ou quando passo um dia sem botar \u00f3leo&#8230; Ah, dona,<br \/>\nnem lhe digo nada!&#8230;<\/p>\n<p>E arregalava os olhos e sacudia a juba, como se descrevesse uma ca\u00e7ada de<br \/>\nle\u00f5es.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia Sarmento compunha-se, al\u00e9m desta D. Bibina, de outra rapariga e<br \/>\nde uma senhora de cinq\u00fcenta anos, muito nervosa, tia das duas mo\u00e7as. A velha<br \/>\ns\u00f3 falava em mol\u00e9stias e sabia rem\u00e9dios para tudo; tinha um grosso livro de<br \/>\nreceitas, que ela em geral trazia no bolso; em casa uma variad\u00edssima cole\u00e7\u00e3o<br \/>\nde vidros, garrafas e p\u00facaros; guardava sempre as cascas de laranja, de rom\u00e3<br \/>\ne os caro\u00e7os de tuturub\u00e1, os quais, dizia pateticamente &#8220;Abaixo de Deus, eram<br \/>\nsanto rem\u00e9dio para as dores de ouvido!&#8221; Chamava-se Maria do Carmo, e as sobrinhas<br \/>\ntratavam-na por &#8220;Mam\u00e3e outrinha&#8221;. Era sumamente apreensiva e entendida de<br \/>\ndoces.<\/p>\n<p>Vi\u00fava. Passara a mocidade no Recolhimento de Nossa Senhora da Anuncia\u00e7\u00e3o<br \/>\ne Rem\u00e9dios, onde concebera o seu primeiro filho do homem com quem depois veio<br \/>\na casar &#8212; o tenente Espig\u00e3o, tenente do ex\u00e9rcito, um espalhafateiro dos quatro<br \/>\ncostados, que andava sempre de farda e desembainhava a durindana por d\u00e1 c\u00e1<br \/>\naquela palha. Contavam dele que, um dia, num jantar de festa, perdendo a paci\u00eancia<br \/>\ncom o peru assado, que parecia disposto a resistir ao trinchante, arranca<br \/>\ndo chanfalho e esquarteja a golpes de espada o inocente animal.<\/p>\n<p>Gostava de fazer medo as crian\u00e7as, fingindo que as prendia ou afiando a lamina<br \/>\nreluzente no tijolo do ch\u00e3o; e ficava muito lisonjeado quando lhe diziam que<br \/>\nse parecia com o Pedro II. Tinha-se na conta de muito abalado e a todos contava<br \/>\nque fora poeta em rapaz: referia-se a meia d\u00fazia de acr\u00f3sticos e recitativos,<br \/>\nque lhe inspirava D. Maria do Carmo, no seu tempo de recolhida.<\/p>\n<p>Coitado! Morreu de uma tremenda indigest\u00e3o no dia seguinte a uma cela, ainda<br \/>\nmais tremenda, na qual praticara a imprud\u00eancia de comer uma salada inteira<br \/>\nde pepinos, seu pratinho predileto. A vi\u00fava ficou inconsol\u00e1vel, e, em homenagem<br \/>\n\u00e0 mem\u00f3ria do Espig\u00e3o, nunca mais comeu daquele legume; seu \u00f3dio estendeu-se<br \/>\nimplac\u00e1vel por toda a fam\u00edlia do maldito; n\u00e3o quis ouvir mais falar de maxixes.<br \/>\nnem de ab\u00f3boras, nem de jerimuns.<\/p>\n<p>&#8211; Ai o meu rico tenente! lamentava-se ela quando algu\u00e9m lhe lembrava o esposo.<br \/>\nQue maneiras de homem! que cora\u00e7\u00e3o de pomba&#8217; aquilo \u00e9 que era um marido como<br \/>\nhoje em dia n\u00e3o se v\u00ea!&#8230;<\/p>\n<p>A outra sobrinha de D. Mata do Carmo, chamava-se Etelvina. Criaturinha sumamente<br \/>\nmagra, e t\u00e3o nervosa como a tia: nariz muito fino grande e gelado, m\u00e3os ossudas<br \/>\ne frias, olhos sensuais e dentes podres Era detest\u00e1vel: os rapazes do com\u00e9rcio<br \/>\nchamavam-lhe &#8220;Lagartixa&#8221;.<\/p>\n<p>Fazia-se muito rom\u00e2ntica; prezava a sua cor horrivelmente p\u00e1lida; suspirava<br \/>\nde cinco em cinco minutos e sabia estropiar modinhas sentimentais ao viol\u00e3o.<br \/>\ndiziam, em ar muito s\u00e9rio, que ela tivera aos dezesseis anos uma formid\u00e1vel<br \/>\npaix\u00e3o por um italiano professor de canto o qual fugira aos credores para<br \/>\no Par\u00e1 e que, desde ent\u00e3o, Etelvina nunca mais tomara corpo.<\/p>\n<p>Apresentou-se tamb\u00e9m em casa de Manuel a Sr\u00aa D. Am\u00e2ncia Sousellas, velha<br \/>\nde grande mem\u00f3ria para citar fatos, datas e nomes; lembrava-se sempre do anivers\u00e1rio<br \/>\nnatal\u00edcio dos seus in\u00fameros conhecidos e nesse dia filava-lhes impreterivelmente<br \/>\no jantar. Estava sempre a falar mal da vida alheia, \u00e0 sombra da qual ali\u00e1s<br \/>\nvivia; quinze dias em casa de uma amiga, outros quinze em casa de um parente,<br \/>\no m\u00eas seguinte em casa de um parente e amigo, e assim por diante; sempre,<br \/>\nsempre de passeio. Ia a qualquer parte, fosse ou n\u00e3o fosse desejada, e, \u00e0s<br \/>\nduas por tr\u00eas, era da casa. Conhecia todo o Maranh\u00e3o contava, sem reservas,<br \/>\nos esc\u00e2ndalos que lhe calam no bico e andava sozinha na rua passarinhando<br \/>\npor toda a cidade de xale metendo o nariz em tudo. Se morria algum conhecido<br \/>\nseu l\u00e1 estava ela a vestir o cad\u00e1ver, a cortar-lhe as unhas, a dizer os lugares-comuns<br \/>\nda consola\u00e7\u00e3o, tida e citada por muito servi\u00e7al, ativa e prestimosa.<\/p>\n<p>Era cronicamente virgem, mas afirmava que em mo\u00e7a, rejeitara muito casamento<br \/>\nbom. Dava-se a coisas de igreja; sabia vestir anjos de prociss\u00e3o e pintava<br \/>\nos cabelos com cosm\u00e9tico preto.<\/p>\n<p>Detestava o progresso.<\/p>\n<p>&#8211; No seu tempo, dizia ela com azedume, as meninas tinham a sua tarefa de<br \/>\ncostura para tantas horas e haviam de p\u00f4r pr&#8217;ali o trabalho! se o acabavam<br \/>\nmais cedo iam descansar?&#8230; Boas! desmanchavam minha senhora! desmanchavam<br \/>\npara fazer de novo! E hoje?&#8230; perguntava dando um pulinho, com as m\u00e3os nas<br \/>\nilhargas &#8211; hoje \u00e9 o maquiavelismo da m\u00e1quina de costura! D\u00e1-se uma tarefa<br \/>\ngrande e \u00e9 s\u00f3 &#8220;zuc-zuc-zuc!&#8221; e est\u00e1 pronto o servi\u00e7o! E da\u00ed, vai a sirigaita<br \/>\np\u00f4r-se de leitura nos jornais, tomar conta do romance ou ent\u00e3o vai para a<br \/>\nindec\u00eancia do piano!<\/p>\n<p>E jurava que filha sua n\u00e3o havia de aprender semelhante instrumento, porque<br \/>\nas desavergonhadas s\u00f3 queriam aquilo para melhor conversar com os namorados<br \/>\nsem que os outros dessem pela patifaria!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m dizia mal da ilumina\u00e7\u00e3o a g\u00e1s:<\/p>\n<p>&#8211; Dantes os escravos tinham que fazer! Mal serviam a janta iam aprontar e<br \/>\nacender os candeeiros deitar-lhes novo azeite e coloc\u00e1-los no seu lugar&#8230;<br \/>\nE hoje? \u00c9 s\u00f3 chegar o palitinho de fogo \u00e0 bruxaria do bico de g\u00e1s e&#8230; caia-se<br \/>\nna p\u00e2ndega! J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 tarefa! J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 cativeiro! \u00c9 por isso que eles andam<br \/>\nt\u00e3o descarados! Chicote! chicote, at\u00e9 dizer basta! que \u00e9 do que eles precisam.<br \/>\nTivesse eu muitos, que lhes juro, pela b\u00ean\u00e7\u00e3o de minha madrinha, que lhes<br \/>\nhavia de tirar sangue do lombo!<\/p>\n<p>Mas a especialidade de D. Am\u00e2ncia Sousellas, o que a tornava ador\u00e1vel para<br \/>\ncertos rapazes e detestada por muitos pais de fam\u00edlia que iam de nariz torcido<br \/>\nlhe recebendo visitas e obs\u00e9quios de cortesia, era sem d\u00favida, o seu antigo<br \/>\nh\u00e1bito de contar anedotas baixas e grosseiras Sempre fora muito desbocada;<br \/>\nno entanto alguns basbaques da sua roda, diziam dela, num frouxo de riso:<br \/>\n&#8220;Com a D. Am\u00e2ncia n\u00e3o pode a gente estar s\u00e9ria! &#8211; O diabo da velha tem uma<br \/>\ngra\u00e7a!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>L\u00e1 estava tamb\u00e9m em casa de Manuel a Eufrasinha, vi\u00fava do oficial de infantaria.<br \/>\nToda enfeitada de lacinhos de fita roxa, moreninha apesar da superabund\u00e2ncia<br \/>\ndo p\u00f3 de arroz; as fei\u00e7\u00f5es muito desenhadas \u00e0 superf\u00edcie do rosto e com um<br \/>\nsinal de nitrato de prata ao lado esquerdo da boca, desastradamente imitado<br \/>\ndo de uma francesa excantora com quem ela se dava. O sinal era para ficar<br \/>\ndo tamanho de uma pulga e saiu do tamanho e do feitio de um feij\u00e3o-preto.<br \/>\nSaracoteava-se, cheia de novidades, levantando-se de vez em quando para ir<br \/>\ndizer um segredinho ao ouvido de Ana Rosa, enquanto disfar\u00e7adamente lhe endireitava<br \/>\no penteado; nestes passeios olhava de esguelha para os quartos e para a varanda<br \/>\n&#8211; dando f\u00e9 &#8211; e voltava \u00e0 sua cadeira, mirando-se a furto nos espelhos da sala,<br \/>\nsempre muito curiosa, irrequieta, querendo achar em tudo que lhe diziam, uma<br \/>\nsignifica\u00e7\u00e3o dupla, trejeitando sorrisos e momices expressivas quando n\u00e3o<br \/>\nentendia, para fingir que compreendera perfeitamente. Tinha a voz sibilante<br \/>\ne afetada, associava os SS, e dela silabadas.<\/p>\n<p>O Freitas, em cuja casa Ana Rosa tivera o seu \u00faltimo hist\u00e9rico, tamb\u00e9m se<br \/>\nachava presente, com a filha, a sua querida Lindoca.<\/p>\n<p>O Freitas era um homem desquitado da mulher &#8220;que se atirara aos c\u00e3es&#8221;, explicava<br \/>\nfriamente, muito teso, magro, alto, com o pescocinho comprido no seu grande<br \/>\ncolarinho em p\u00e9. N\u00e3o relaxava as cal\u00e7as brancas, e gabava-e do segredo de<br \/>\nconserv\u00e1-las limpas e engomadas durante uma semana; trazia sempre, apesar<br \/>\ndo calor da prov\u00edncia, o colarinho duro e o peito da camisa irrepreens\u00edvel;<br \/>\ngravata preta &#8211; invariavelmente. Tratava uma enorme unha no dedo m\u00ednimo, com<br \/>\na qual costumava pentear o bigode, feito de longos fios, tingidos e lisos,<br \/>\nque lhe velavam a boca. Jamais consentira que barbeiro algum lhe encostasse<br \/>\na m\u00e3o no rosto&#8221;; fazia ele mesmo a sua barba, um dia sim, outro n\u00e3o. Escondia<br \/>\na calva com as comprid\u00edssimas farripas do cabelo, muito espichadas, como que<br \/>\ngrudadas a goma-ar\u00e1bica sobre o cr\u00e2nio. Dispunha de uma mem\u00f3ria prodigiosa,<br \/>\ngabada por toda a cidade; fazia-se grande conhecedor da hist\u00f3ria antiga; quando<br \/>\nfalava escolhia termos, procurava fazer estilo, e, sempre que se referia ao<br \/>\nImperador dizia gravemente: &#8220;O nosso defensor perp\u00e9tuo!&#8221; Afian\u00e7avam que era<br \/>\nhabilidoso, em tempo fizera, com muita paci\u00eancia, uma \u00e1rvore geneal\u00f3gica de<br \/>\nsua fam\u00edlia e mandara-a litografar no Rio de Janeiro. Este trabalho foi muito<br \/>\napreciado e comentado na prov\u00edncia.<\/p>\n<p>Era empregado p\u00fablico havia vinte e cinco anos e s\u00f3 faltara \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o<br \/>\ntr\u00eas vezes &#8211; por uma queda, um antraz, e no dia do seu malfadado casamento;<br \/>\ncontava isto a todos, com gl\u00f3ria. Quando temia constipar-se, aspirava cautelosamente<br \/>\no fartum do conhaque. &#8220;Isto e o bastante para me fazer ficar tonto!&#8230;&#8221; afirmava<br \/>\ncom uma repugn\u00e2ncia virtuosa. Tinha honor \u00e0s cartas e sabia tocar clarinete,<br \/>\nmas nunca tocava, porque o m\u00e9dico lhe dissera &#8221;n\u00e3o achar prudente&#8221;. Fumara<br \/>\nem tempo, mas o m\u00e9dico dissera do charuto o mesmo que do clarinete. &#8211; Nunca<br \/>\nmais fumou. N\u00e3o dan\u00e7ava, para n\u00e3o suar; falava com raiva das mulheres e, nem<br \/>\ncaindo de fome, seria capaz de comer \u00e0 noite. &#8220;Al\u00e9m do ch\u00e1, nada! nada!&#8221; protestava<br \/>\ncom firmeza; estivesse onde estivesse, havia de retirar-se impreterivelmente<br \/>\n\u00e0 meia-noite. Usava sapatos rasos, de polimento, e nunca se esquecia do chap\u00e9u-de-sol.<\/p>\n<p>Jamais arredara o p\u00e9 da ilha de S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o, tal era o medo que<br \/>\ntinha do mar.<\/p>\n<p>&#8211; Nem para ir a Alc\u00e2ntara! jurava ele, conversando essa noite em casa do<br \/>\nManuel. Daqui &#8211; para o Gavi\u00e3o! Nada, meu caro senhor quero morrer na minha<br \/>\ncaminha, sossegado, bem com Deus!<\/p>\n<p>&#8211; Com toda a comodidade, observou Raimundo, a rir.<\/p>\n<p>Era devoto: todos os anos carregava na prociss\u00e3o o andor do milagroso Senhor<br \/>\nBom Jesus dos Passos. E muito arranjadinho: &#8220;Em casa dele havia de tudo, como<br \/>\nna botica.&#8221; Diziam os seus \u00edntimos. &#8220;S\u00f3 falta dinheiro&#8230;&#8221; completava o Freitas<br \/>\nem ar discreto de pilh\u00e9ria. No mais: &#8211; sempre o mesmo homem; nunca fora de<br \/>\nestroinices; mesmo em rapaz, era j\u00e1 consigo; n\u00e3o gostava de dever nada a ningu\u00e9m;<br \/>\ncolecionava selos velhos; dava homeopatia de gra\u00e7a aos amigos, e tinha a fama<br \/>\ndo maior ma\u00e7ante do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>A tal &#8220;sua querida Lindoca&#8221; era uma menina de dezesseis anos, pequenina,<br \/>\nextremamente gorda, quase redonda, bonitinha de fei\u00e7\u00f5es, curta de id\u00e9ias,<br \/>\nbom cora\u00e7\u00e3o e temperamento honesto. A Etelvina dissera uma vez que ela estava<br \/>\nengordando at\u00e9 nos miolos.<\/p>\n<p>Lindoca Freitas n\u00e3o escondia o seu desejo de casar e amava extremosamente<br \/>\no pai, a quem s\u00f3 tratava por &#8220;Nhozinho&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho um desgosto desta gordura!&#8230; Lamentava-se ela \u00e0s camaradas, que<br \/>\nlhe elogiavam a exuber\u00e2ncia adiposa. Se eu soubesse de um rem\u00e9dio para emagrecer&#8230;<br \/>\ntomava!<\/p>\n<p>As amigas procuravam consol\u00e1-la: &#8220;D\u00e1-me gordura que te darei formosura! &#8211;<br \/>\nGordura \u00e9 sa\u00fade!&#8221;<\/p>\n<p>Mas a repolhuda mo\u00e7a n\u00e3o se conformava com aquela desgra\u00e7a. Vivia triste.<br \/>\nAs banhas cresciam-lhe cada vez mais; estava vermelho; cansava por cinco passos.<br \/>\nEra um desgosto s\u00e9rio! Recorria ao vinagre; dava-se a longos exerc\u00edcios pela<br \/>\nvaranda; mas qual! &#8211; as enx\u00fandias aumentavam sempre. Lindoca estava cada vez<br \/>\nmais redonda, mais boleada; a casa estremecia cada vez mais com o seu peso;<br \/>\nos olhos desapareciam-lhe na abund\u00e2ncia das bochechas; o seu nariz parecia<br \/>\num lombinho; as suas costas uma almofada. Bufava.<\/p>\n<p>Dias, o piedoso, o doce Lu\u00eds Dias, tamb\u00e9m comparecera aquela noite \u00e0 sala<br \/>\ndo patr\u00e3o. L\u00e1 estava, metido a um canto, roendo ferozmente as unhas, o olhar<br \/>\nim\u00f3vel sobre Ana Rosa, que, ao piano, dispunha-se a tocar alguma coisa e experimentava<br \/>\nas teclas.<\/p>\n<p>Em uma das janelas da frente, encostados contra a sacada, Manuel e o c\u00f4nego<br \/>\nDiogo ouviam de Raimundo a descri\u00e7\u00e3o em voz baixa de um passeio de Paris \u00e0<br \/>\nSu\u00ed\u00e7a. No resto da sala coma o sussurro das senhoras, que conversavam.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o! Estamos passando o Boqueir\u00e3o? exclamou o Freitas, erguendo-se do<br \/>\nsof\u00e1, a sacudir as cal\u00e7as, para evitar as joelheiras. E, voltando-se para<br \/>\numa das sobrinhas de D. Maria do Carmo: &#8211; Diga alguma coisa, D. Etelvina!&#8230;<\/p>\n<p>Etelvina ergueu os olhos para o teto e soltou um suspiro.<\/p>\n<p>&#8211; Por quem suspiras? perguntou-lhe. em misterioso falsete, a velha Am\u00e2ncia<br \/>\nque lhe ficava ao lado.<\/p>\n<p>&#8211; Por ningu\u00e9m&#8230; respondeu a Lagartixa, sorrindo melancolicamente com os<br \/>\ncaquinhos dos dentes.<\/p>\n<p>&#8211; Ele n\u00e3o \u00e9 feio&#8230; a senhora n\u00e3o acha D. Bibina?&#8230; segredava Lindoca \u00e0<br \/>\noutra sobrinha de D. Maria do Carmo, olhando furtivamente para o lado de Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Quem? O primo d Ana Rosa?<\/p>\n<p>&#8211; Primo? Eu creio que ele n\u00e3o \u00e9 primo dona!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9! sustentou Bibina quase com arrelia E primo, sim, por parte de pai!.<br \/>\nE olhe ali est\u00e1 quem lhe sabe bem a hist\u00f3ria!&#8230;<\/p>\n<p>E indicava a fia com o bei\u00e7o inferior.<\/p>\n<p>&#8211; An&#8230; resmungou a gorducha, passando a considerar da cabe\u00e7a aos p\u00e9s o objeto<br \/>\nda discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, Maria do Carmo segredava a Am\u00e2ncia Sousellas:<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 o que lhe digo D. Am\u00e2ncia muito boa preta!&#8230; negra como este vestido!<br \/>\nC\u00e1 est\u00e1 quem a conheceu!&#8230;<\/p>\n<p>E batia no seu peito sem seios. &#8211; Muita vez a vi no relho. Iche!<\/p>\n<p>&#8211; Ora quem houvera de dizer!&#8230; resmungou a outra fingindo ignorar da exist\u00eancia<br \/>\nde Domingas, para ouvir mais. Uma coisa assim s\u00f3 no Maranh\u00e3o! Credo!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 como lhe minha rica! O sujeitinho foi farto \u00e0 pia, e hoje olhe s\u00f3 pr&#8217;aquilo!<br \/>\nest\u00e1 todo cheio de fuma\u00e7as e de fil\u00e1ucias!&#8230; Pergunte ao c\u00f4nego, que est\u00e1<br \/>\nao lado dele.<\/p>\n<p>&#8211; Cruz! T&#8217;arrenego, p\u00e9 de paro!<\/p>\n<p>E Am\u00e2ncia bateu por h\u00e1bito nas faces engelhadas.<\/p>\n<p>Nisto, ouviu-se um grande moam, que vinha da varanda.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Benedito! Moleque! \u00d3 peste! Est\u00e1s dormindo, sem vergonha?!<\/p>\n<p>E logo o estalo de uma bofetada. &#8211; Arre! que ate me fazes zangar com visitas<br \/>\nna sala!&#8230;<\/p>\n<p>Era Maria B\u00e1rbara, que andava \u00e0s voltas com o Benedito.<\/p>\n<p>&#8211; Vai deitar a mesa do ch\u00e1 moleque!<\/p>\n<p>Manuel correu logo \u00e0 varanda, contrariado.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 senhora!&#8230; disse \u00e0 sogra. Que inferneira! Olhe que est\u00e1 ai gente de<br \/>\nfora!&#8230;<\/p>\n<p>Freitas passou-se \u00e0 janela de Raimundo, e aproveitou a oportunidade para<br \/>\ndespejar contra este uma estopada a respeito do mau servi\u00e7o dom\u00e9stico feito<br \/>\npelos escravos.<\/p>\n<p>&#8211; Reconhe\u00e7o que nos s\u00e3o necess\u00e1rios, reconhe\u00e7o!&#8230; mas n\u00e3o podem ser mais<br \/>\nimorais do que s\u00e3o!&#8230; As negras, principalmente as negras!&#8230; S\u00e3o umas muruxabas,<br \/>\nque um pai de fam\u00edlia tem em casa, e que domem debaixo da rede das filhas<br \/>\ne que lhes contam hist\u00f3rias indecentes! f uma imoralidade! Ainda outro dia,<br \/>\nem certa casa, uma menina, coitada apareceu coberta de piolhos indecorosos,<br \/>\nque pegara da negra! Sei de outro caso de uma escrava que contagiou a uma<br \/>\nfam\u00edlia inteira de impigens e dartros de car\u00e1ter feio! E note doutor que isto<br \/>\ne o menos, o pior \u00e9 que elas contam \u00e0s suas sinhazinhas tudo o que praticam<br \/>\nai por essas ruas! Ficam as pobres mo\u00e7as sujas de corpo e alma na companhia<br \/>\nde semelhante corja! Afian\u00e7o-lhe meu caro senhor doutor, que, se conservo<br \/>\npretos ao meu servi\u00e7o, \u00e9 porque n\u00e3o tenho outro rem\u00e9dio! Contudo&#8230;<\/p>\n<p>Foi interrompido por Benedito que nu da cintura para cima e acossado pela<br \/>\nvelha B\u00e1rbara, atravessou a sala com agilidade de macaco. As senhoras espantaram-se,<br \/>\nmas abriram logo em gargalhadas. O moleque alcan\u00e7ara a porta da escada e fugira.<br \/>\nEnt\u00e3o, o Dias, que at\u00e9 ai se conservara quieto no seu canto, ergueu-se de<br \/>\num pulo e deitou a correr atr\u00e1s dele. Desapareceram ambos.<\/p>\n<p>Benedito era cria de Maria B\u00e1rbara; um pretinho seco, retinto, muito levado<br \/>\ndos diabos; pernas compridas, bei\u00e7os enormes dentes branqu\u00edssimos. Quebrava<br \/>\nmuita lou\u00e7a e fugia de casa constantemente.<\/p>\n<p>A velha estacara no meio da sala furiosa.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, gentes! n\u00e3o reparem!.. bradou. Aquele n\u00e3o sei que diga! aquele maldito<br \/>\nmoleque!&#8230; Pois o desavergonhado n\u00e3o queria vir trazer \u00e1gua na sala, sem<br \/>\np\u00f4r uma camisa?&#8230; Patife! Ah, se o pego!&#8230; Mas deixa estar, que n\u00e3o as perdes,<br \/>\nmalvado!<\/p>\n<p>E correndo \u00e0 janela: &#8211; Se seu Dias n\u00e3o te alcan\u00e7ar, tens amanh\u00e3 um campeche<br \/>\nte seguindo a pista, sem-vergonha!<\/p>\n<p>E saiu de novo para a varanda, muito atarefada, gritando pela Br\u00edgida:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Br\u00edgida! Tamb\u00e9m est\u00e1s dormindo, seu diabo?!<\/p>\n<p>Na sala as visitas discutiam rindo a cena do moleque e o mau g\u00eanio de Maria<br \/>\nB\u00e1rbara, mas tiveram de abafar a voz, porque Ana Rosa p\u00f4s-se a tocar uma polca<br \/>\nao piano.<\/p>\n<p>Pouco depois, ouviu-se um farfalhar de saias engomadas, e em seguida apresentou-se<br \/>\na Br\u00edgida, uma mulata corpulenta a carapinha muito tran\u00e7ada e cheia de flores,<br \/>\num vestido de chita com tr\u00eas palmos de cauda, recendendo a cumaru. Preparava-se<br \/>\ndaquele modo, para ir \u00e0 sala, oferecer \u00e1gua. com ambas as m\u00e3os uma enorme<br \/>\nsalva de prata, cheia de copos, dirigia-se a todos, um por um, a bambalear<br \/>\nas ancas volumosas.<\/p>\n<p>A criadagem de Manuel e Maria B\u00e1rbara constava, al\u00e9m de Br\u00edgida, e Benedito,<br \/>\nde uma cafuza j\u00e1 idosa, chamada M\u00f4nica, que amamentara Ana Rosa e lavava a<br \/>\nroupa da casa, e mais de uma preta s\u00f3 para engomar, e outra s\u00f3 para cozinhar,<br \/>\ne outra s\u00f3 para sacudir o p\u00f3 dos trastes e levar recados \u00e0 rua. Pois, apesar<br \/>\ndeste pessoal, o servi\u00e7o era sempre tardio e malfeito.<\/p>\n<p>&#8211; Estas escravas de hoje tem luxos!&#8230; observou Am\u00e2ncia em voz baixa a Maria<br \/>\ndo Carmo, apontando com o olhar para o vulto empantufado de Br\u00edgida.<\/p>\n<p>E entraram a conversar sobre o esc\u00e2ndalo das mulatas se prepararem t\u00e3o bem<br \/>\ncomo as senhoras. &#8220;J\u00e1 se n\u00e3o contentavam com a sua saia curta e cabe\u00e7\u00e3o de<br \/>\nrenda; queriam vestido de cauda; em vez das chinelas, queriam botinas! Uma<br \/>\npatifaria!&#8221; Depois falaram nos caixeiros, que roubavam do patr\u00e3o para enfeitar<br \/>\nas suas pininchas; e, por uma transi\u00e7\u00e3o natural, estenderam a cr\u00edtica at\u00e9<br \/>\naos passeios a cano, \u00e0s festas de largo e aos bailes dos pretos.<\/p>\n<p>&#8211; Os chinfrins, como lhes chamava o meu defunto Espig\u00e3o, acudiu Maria do<br \/>\nCarmo, Conhe\u00e7o! ora se conhe\u00e7o!&#8230; Bastante quiz\u00edlia tivemos n\u00f3s por amor<br \/>\ndeles!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma sem-vergonheira! Ver as escravas todas de cambraia, la\u00e7os de fita,<br \/>\n\u00e1gua de cheiro no len\u00e7o, a requebrarem as chandangas na dan\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah, um bom chicote!&#8230; disseram as duas velhas ao mesmo tempo<\/p>\n<p>&#8211; E elas dan\u00e7am direito?&#8230; perguntou a do Carmo,<\/p>\n<p>&#8211; Se dan\u00e7am!&#8230; O servi\u00e7o \u00e9 que n\u00e3o sabem fazer a tempo e a horas! L\u00e1 para<br \/>\ndan\u00e7ar est\u00e3o sempre prontas! Nem o Jo\u00e3o Enxova!<\/p>\n<p>A indgna\u00e7\u00e3o secava-lhe a voz.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 parecem senhoras, Deus me perdoe! Todas a se fazerem de gente! os negros<br \/>\na darem-lhe excel\u00eancia &#8220;E porque minha senhora pra c\u00e1! Vossa Senhoria pra<br \/>\nl\u00e1!&#8221; E uma pouca vergonha, a senhora neo imagina!&#8230; Uma vez, em que fui espiar<br \/>\num chinfrim, porque me disseram que o meu defunto estava l\u00e1 metido, fiquei<br \/>\npasma! E o melhor \u00e9 que os descarados n\u00e3o se tratam pelo nome deles tratam-se<br \/>\npelo nome dos seus senhores!&#8230; N\u00e3o sabe Filomeno?&#8230; aquele mulato do presidente?&#8230;<br \/>\nPois a esse s\u00f3 davam &#8220;Sr. Presidente!&#8221; Outros s\u00e3o &#8220;Srs. Desembargadores, Doutores,<br \/>\nMajores e Coron\u00e9is!&#8221; Um desaforo que deveria acabar na palmat\u00f3ria da polida!<\/p>\n<p>Ana Rosa terminou a sua polca.<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! Bravo!<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem, D. Anica!<\/p>\n<p>E estalaram palmas.<\/p>\n<p>&#8211; Tocou \u00e0s mil maravilhas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor foi uma polca do Marinho.<\/p>\n<p>Correram a cumprimentar a pianista. O Freitas profetizou logo &#8220;que ali estava<br \/>\num segundo Lira!&#8221;<\/p>\n<p>Raimundo foi o \u00fanico que n\u00e3o se abalou. Estava fumando \u00e0 janela, e fumando<br \/>\ndeixou-se ficar. Ana Rosa, sem dar a perceber, sentiu por isso uma ligeira<br \/>\ndecep\u00e7\u00e3o. Esfor\u00e7ara-se por tocar bem e ele, nem assim! &#8220;At\u00e9 parecia n\u00e3o ter<br \/>\nnotado nada!&#8230; E um malcriado!&#8221; concluiu ela, de si para si. E, com uma pontinha<br \/>\nde mau humor, assentou-se ao lado de Lindoca. Eufr\u00e1sia correu logo para junto<br \/>\nda amiga.<\/p>\n<p>&#8211; Que tal o achas?&#8230; perguntou em segredo, assentando-se, com muito interesse.<\/p>\n<p>&#8211; Quem? disse Ana Rosa, fingindo distra\u00e7\u00e3o e franzindo o nariz.<\/p>\n<p>A outra indicou misteriosamente a janela com um dos polegares.<\/p>\n<p>&#8211; Assim, assim&#8230;<\/p>\n<p>E a filha do negociante fez um bico de indiferen\u00e7a. &#8211; Nem por isso!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um peix\u00e3o! opinou Eufr\u00e1sia com entusiasmo.<\/p>\n<p>&#8211; Gentes!&#8230; Que \u00e9 isto, Eufrasinha?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma tet\u00e9ia!<\/p>\n<p>E a vi\u00fava mordia os bei\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, ele neo \u00e9 feio&#8230; tornou Ana Rosa, impacientando-se, Mas tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 l\u00e1 essas coisas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que olhos! que cabelos! e que gestos!&#8230; olha, olha, menina! como ele brinca<br \/>\ncom o charuto!&#8230; olha como ele se encosta \u00e0 grade da janela!&#8230; Parece um<br \/>\nfidalgo, o diabo do homem!&#8230;<\/p>\n<p>Ana Rosa, sem desfranzir o nariz enviesada os olhos contra o primo e Sentia<br \/>\nmelhor do que a amiga a evidencia do que esta lhe dizia. &#8220;Raimundo era com<br \/>\nefeito elegante e bem bonito mas, que diabo, desde que chegara ainda lhe n\u00e3o<br \/>\ntinha dispensado uma \u00fanica palavra de distin\u00e7\u00e3o, um s\u00f3 gesto que a especializassem,<br \/>\nquando ali, no entanto, era ela, incontestavelmente a mais chique, a mais<br \/>\nsimp\u00e1tica, e, al\u00e9m disso &#8211; sua prima! (Ana Rosa pouco ou nada sabia ao certo<br \/>\ndo grau do seu parentesco com ele) N\u00e3o! N\u00e3o fora correto! Falara-lhe como<br \/>\n\u00e0s outras, igualmente frio e reservado; n\u00e3o fizera como os rapazes do Maranh\u00e3o,<br \/>\nque, mal se aproximavam dela estavam desfeitos em elogios e protestos de amor!&#8221;<br \/>\nAquela indiferen\u00e7a de Raimundo do\u00eda-lhe como uma injusti\u00e7a: sentia-se lesada<br \/>\nroubada, nos seus direitos de mo\u00e7a irresistivel. &#8220;Um pedante \u00e9 o que ele \u00e9!<br \/>\nUm enfatuado! Pensa que vale muito, porque se formou em Coimbra e correu a<br \/>\nEuropa! Um tolo!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o, entraram na sala, com ru\u00eddos, dois novos tipos &#8211; o Jos\u00e9 Roberto<br \/>\ne o Sebasti\u00e3o Campos.<\/p>\n<p>Foram logo apresentados a Raimundo e seguiram a cumprimentar as senhoras,<br \/>\ndando a cada qual uma frase ou uma palavra ou um gesto de galanteio familiar:<br \/>\n&#8220;D. Eufrasinha sempre bela como os amores, que pena ser eu j\u00e1 papel queimado!<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o D. Lindoca, onde vai com essa gordura? divida a metade comigo! &#8211; Quando<br \/>\nse come doce desse casamento, D. Bibina?&#8230; E tinham sempre na ponta da l\u00edngua<br \/>\numa pilh\u00e9ria, um dito, para bulir com as mo\u00e7as; coisas desengra\u00e7adas e sedi\u00e7as,<br \/>\nmas que as faziam rebentar de riso.<\/p>\n<p>&#8211; Deus os fez e o diabo os ajuntou! explodiu, com um estalo de boca, a velha<br \/>\nAm\u00e2ncia quando os dois passaram por ela.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Roberto, a quem s\u00f3 tratavam por &#8220;Seu Casusa&#8221; era mo\u00e7o de vinte e tantos<br \/>\nanos; magro, moreno crivado de espinhas, olhos muito negros, boca em ru\u00ednas,<br \/>\numa enorme cabeleira, rica toda encaracolada e reluzente de \u00f3leo cheiroso,<br \/>\npreta bem preta dividida pacientemente ao meio da cabe\u00e7a. Usava lunetas azuis<br \/>\ne cantava ao viol\u00e3o modinhas da sua pr\u00f3pria lavra e de outros, apimentadas<br \/>\n\u00e0 baiana com o travo sensual e \u00e1rabe dos lundus africanos. Quando tocava,<br \/>\ntinha o amaneirado voluptuoso do trovador de esquina; vergava-se todo sobre<br \/>\no instrumento, picando as notas com as unhas cujos dedos pareciam as pernas<br \/>\nde um caranguejo doido, ou abafando com a palma da m\u00e3o o som das cordas, que<br \/>\ngemiam e choravam como gente.<\/p>\n<p>Tipo do Norte, perfeito, cheio de franquezas, com honor ao dinheiro, muito<br \/>\norgulhoso e prevenido contra os portugueses, a quem perseguia com as suas<br \/>\nconstantes chala\u00e7as, imitando-lhes o sotaque, o andar e os gestos. Tinha alguma<br \/>\ncoisinha de seu e passava por estr\u00f3ina. Gostava das serenatas, das p\u00e2ndega<br \/>\ncom mo\u00e7as; pilhando dan\u00e7a &#8211; n\u00e3o perdia quadrilha nem pulada, mas no dia seguinte<br \/>\nficava de cama, estrompado.<\/p>\n<p>Havia muito que Jos\u00e9 Roberto procurava agradar a Ana Rosa, esta sempre o<br \/>\nrepelia a rir. Tamb\u00e9m poucos o tomavam a s\u00e9rio: &#8220;Um pancada&#8221; diziam mas queriam-lhe<br \/>\nbem.<\/p>\n<p>O Sebasti\u00e3o Campos, esse era vi\u00favo da primeira filha de Maria B\u00e1rbara e,<br \/>\ncomo aquele, um tipo leg\u00edtimo do Maranh\u00e3o; nada, por\u00e9m, tinha do outro sen\u00e3o<br \/>\no orgulho e a birra aos portugueses, a quem na aus\u00eancia s\u00f3 chamava &#8220;marinheiros<br \/>\n&#8211; pu\u00e7\u00e1s &#8211; galegos&#8221;.<\/p>\n<p>Senhor de engenho, de um engenho de cana, l\u00e1 para as bandas do Munim, onde<br \/>\npassava tr\u00eas meses no tempo da colheita; o resto do ano passava-o na cidade.<br \/>\nDevia ter quase o duplo da idade de Jos\u00e9 Roberto, baixote, muito asseado,<br \/>\nmas com a roupa sempre malfeita. Usava cal\u00e7as curtas, em geral brancas, deixando<br \/>\naparecer, desde o tornozelo, os seus pezinhos ridiculamente pequenos e mimosos;<br \/>\nbarba cerrada, ainda preta, desproporcionada do corpo, bei\u00e7os grossos e vermelhos,<br \/>\nmostrando a dentadura miudinha e gasta, por\u00e9m muito bem tratada, tratada a<br \/>\nmel de fumo de corda, que era com que ele asseada a boca.<\/p>\n<p>Bairrista, isso ao \u00faltimo ponto: a tudo preferia o que fosse nacional. &#8220;N\u00e3o<br \/>\ntrocava a sua boa cana-capim &#8211; e o seu vinho de caju por quantos cognacs e<br \/>\nvinhos do Porto havia por ai! nem o seu gostoso e cheiroso fumo de molho,<br \/>\nfabricado no Maranh\u00e3o, pelo melhor tabaco estrangeiro, ou mesmo importado<br \/>\ndas outras prov\u00edncias! Ou bem que se era maranhense ou bem que se n\u00e3o era!&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o cochilava com os seus escravos. Na roga era temido at\u00e9 pelo feitor, um<br \/>\npouco devoto e cheio de escr\u00fapulos de ra\u00e7a. &#8220;Preto \u00e9 preto; branco \u00e9 branco!<br \/>\nMoleque \u00e9 moleque menino \u00e9 menino!&#8221; E estava sempre a repetir que o Brasil<br \/>\nteria ganho muito, se perdesse a Guerra dos Guararapes.<\/p>\n<p>&#8211; A nossa desgra\u00e7a, rezava ele, \u00e9 termos caldo nas m\u00e3os destas bestas! Uns<br \/>\nlesmas! Uma gente sem progresso, que s\u00f3 cuida de encher o papo e aferrolhar<br \/>\ndinheiro!<\/p>\n<p>Favores, de quem quer que fosse, n\u00e3o os aceitava &#8220;que n\u00e3o queria dever obriga\u00e7\u00f5es<br \/>\na nenhum filho da m\u00e3e!&#8230;&#8221; Mas tamb\u00e9m, quando dava para meter as botas em<br \/>\nqualquer pessoa &#8211; era aquela desgra\u00e7a! N\u00e3o tinha papas na l\u00edngua! Era nervoso<br \/>\ne ativo; gostava todavia de ler ou conversar, escarranchado na rede durante<br \/>\nhoras esquecidas, em ceroulas fumando o seu cachimbo de cabe\u00e7a preta, fabricado<br \/>\nna prov\u00edncia. Na rua encontravam-no de sobrecasaca aberta, coletinho de chamalote,<br \/>\ncamisa bordada, guarnecida por tr\u00eas brilhantes grandes; ao pesco\u00e7o, prendendo<br \/>\no cebol\u00e3o, um trancelim muito comprido, de ouro maci\u00e7o, obra antiga, com passador.<br \/>\nAdorava os perfumes ativos, as j\u00f3ias e as cores vivas, para ele, nada havia,<br \/>\npor\u00e9m, como um passeio ao sitio embarcado, \u00e0 fresca da madrugada, bebericando<br \/>\no seu trago de cacha\u00e7a e pitando o seu fumo do Cod\u00f3. Em casa muito obsequiador.<br \/>\nPassava \u00e0 farta.<\/p>\n<p>Com a vinda destes dois, a reuni\u00e3o tornou-se mais animada. Reclamou-se logo<br \/>\no viol\u00e3o, e seu Casusa, depois de muito rogado, afinou o instrumento e principiou<br \/>\na cantar Gon\u00e7alves Dias:<\/p>\n<p>&#8220;Se queres saber o meio Por que \u00e0s vezes me arrebata Nas asas do pensamento<br \/>\nA poesia t\u00e3o grata;&#8221;<\/p>\n<p>Nisto, rebentou uma corda do viol\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ora pistolas!&#8230; resmungou o trovador. E gritou: &#8211; \u00d3 D. Anica! a senhora<br \/>\nn\u00e3o ter\u00e1 uma prima?<\/p>\n<p>Ana Rosa foi ver se tinha, andou remexendo l\u00e1 por dentro da casa, e voltou<br \/>\ncom uma segunda. &#8220;Era o que havia.&#8221; O Casusa arranjou-se com a segunda e prosseguiu,<br \/>\ndepois de repetir os versos j\u00e1 cantados; ao passo que o Freitas, na janela,<br \/>\nimportunava Raimundo, a prop\u00f3sito do autor daquela poesia e de outros vultos<br \/>\nnot\u00e1veis do Maranh\u00e3o &#8220;da sua Atenas brasileira&#8221; como a denominava ele. O c\u00f4nego<br \/>\nfugiu logo para a varanda, covardemente, com medo \u00e0 seca.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sou bairrista. n\u00e3o senhor&#8230; dizia o ma\u00e7ante, mas o nosso Maranh\u00e3ozinho<br \/>\n\u00e9 um torr\u00e3o privilegiado!&#8230;<\/p>\n<p>E citava, com orgulho, &#8220;os Cunha, os Odorico Mendes, os Pindar\u00e9 e os Sotero<br \/>\netcetera! etcetera!&#8221; O seu modo de dizer etcetera era espl\u00eandido!<\/p>\n<p>&#8211; Temos os nossos faustos, temos!<\/p>\n<p>Passou ent\u00e3o a falar nas belezas da sua Atenas: no dique das Merc\u00eas, &#8220;estava<br \/>\nem constru\u00e7\u00e3o, mas havia de ficar obra muito de se ver e gostar&#8230;&#8221; afian\u00e7ava<br \/>\nele cheio de gestos respeitosos. Falou do Cais da Sagra\u00e7\u00e3o, &#8220;tamb\u00e9m n\u00e3o estava<br \/>\nconclu\u00eddo&#8221; dos Quart\u00e9is, &#8220;iam entrar em conserto&#8221;, na igreja de Santo Ant\u00f4nio,<br \/>\n&#8220;nunca chegaram a termin\u00e1-la, mas se o conseguissem, seria um belo templo!&#8221;<br \/>\nElogiou muito o teatro S\u00e3o Lu\u00eds. &#8220;Dizia o c\u00f4nego que era o S\u00e3o Carlos de Lisboa,<br \/>\nem ponto pequeno!&#8221; Lembrou respeitosamente a companhia l\u00edrica do Ramonda,<br \/>\no Remorini o tenor &#8220;morrera de febre amarela, depois de ser muito aplaudido<br \/>\nna Gemma de Vergi. Ah, como aquela, jurava n\u00e3o voltaria outra companhia ao<br \/>\nMaranh\u00e3o! Mas que, mesmo na prov\u00edncia havia mo\u00e7os de grande habilidade&#8230;&#8221;<br \/>\nReferia-se a uma sociedade particular, de curiosos. &#8220;Tinham seu jeito, sim<br \/>\nsenhor!&#8221; E, engrossando a voz, com muita autoridade: &#8220;Representavam Os Sete<br \/>\nInfantes de Lara! &#8211; Os Renegados! &#8211; O Homem da M\u00e1scara Negra, e outras pe\u00e7as<br \/>\nde igual merecimento! Tinham a sua queda para a coisa, tinham!&#8230; N\u00e3o se pode<br \/>\nnegar!&#8230;&#8221; E assoava-se, meneando a cabe\u00e7a, convencido &#8220;Principalmente a dama&#8230;<br \/>\nsim! o mo\u00e7o que fazia de dama!&#8230; N\u00e3o havia que desejar &#8211; o pegar do leque,<br \/>\no revirar dos olhos, certos requebros, certas faceirices!&#8230; Enfim, senhores!<br \/>\nera perfeito, perfeito, perfeito!&#8221;<\/p>\n<p>Raimundo bocejava.<\/p>\n<p>E o Freitas nem cuspia. Acudiam-lhe fatos engra\u00e7ados sobre o teatrinho. soltava<br \/>\nas anedotas em rebanho, sem intervalos. Raimundo j\u00e1 n\u00e3o achava posi\u00e7\u00e3o na<br \/>\njanela; virava-se da esquerda. da direita, firmava-se ora numa perna, ora<br \/>\nna outra deixando afinal pender a cabe\u00e7a e olhando para os p\u00e9s entristecido<br \/>\npelo t\u00e9dio. &#8220;Que ma\u00e7ante!&#8230;&#8221; pensava.<\/p>\n<p>Entretanto, o Freitas a sacudir-lhe a manga do fraque, que Raimundo sujara<br \/>\nna cali\u00e7a da janela, ia confessando que &#8220;estavam em vazante de divertimentos;<br \/>\nque a sua distra\u00e7\u00e3o \u00fanica era cavaquear um bocado com os amigos&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! exclamou, minto! minto! H\u00e1 uma festa nova! &#8211; a de Santa Filomena! Mas<br \/>\nn\u00e3o ser\u00e1 como a dos Rem\u00e9dios, isso, tenham paci\u00eancia!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, decerto, balbuciou Raimundo, fingindo prestar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E espregui\u00e7ou-se.<\/p>\n<p>&#8211; A festa dos Rem\u00e9dios!&#8230; repetiu o outro, estalando os dedos e assoviando<br \/>\nprolongadamente, como quem diz: &#8220;Vai longe!&#8221;<\/p>\n<p>Raimundo estremeceu, ficou gelado ate a raiz dos cabelos, percebeu aquela<br \/>\ntremenda amea\u00e7a e mediu instivamente a altura da janela, como se premeditasse<br \/>\numa fuga.<\/p>\n<p>&#8211; O nosso Jo\u00e3o Lisboa&#8230; disse o Freitas. E meteu profundamente as m\u00e3os nas<br \/>\nalgibeiras das cal\u00e7as. O nosso Jo\u00e3o Lisboa j\u00e1, em um folhetim publicado no<br \/>\nnumero&#8230; Ora qual \u00e9 o n\u00famero do Publicador Maranhense?&#8230; Espere!&#8230;<\/p>\n<p>E fitou o teto.<\/p>\n<p>&#8211; 1173 &#8211; Sim! 1173, de 15 de outubro de 1851. Pois nesse folhetim descreve<br \/>\nele, circunstanciadamente e com muito donaire e gentilezas de estilo, a nossa<br \/>\npopular e pitoresca festa dos Rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>Raimundo, aterrado, prometeu, sob palavra de honra, ler o tal folhetim na<br \/>\nprimeira ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; volveu terr\u00edvel o Freitas \u00e9 que ela hoje \u00e9 outra coisa!&#8230; Hoje<br \/>\nn\u00e3o se compara! &#8211; h\u00e1 muito mais luxo, mas muito!<\/p>\n<p>E segurando com ambas as m\u00e3os a gola do fraque de Raimundo e ferrando-lhe<br \/>\nem cima dos olhos arregalados, acrescentou energicamente: &#8211; Creia, meu doutor,<br \/>\nmete pena o dinheir\u00e3o que se gasta naquela festa! faz d\u00f3 ver as sedas, os<br \/>\nveludos, as an\u00e1guas de renda, arrastarem-se pela terra vermelha dos Rem\u00e9dios!&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo empenhou a cabe\u00e7a como faria id\u00e9ia aproximada.<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Qual! Tenha paci\u00eancia meu amigo, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! E Freitas repeliu<br \/>\ncom tor\u00e7a a vitima. Aquilo s\u00f3 vendo e sentindo, Sr. Dr. Raimundo Jos\u00e9 da Silva!<\/p>\n<p>E descreveu minuciosamente a cor, a sutileza da terra; como a maldita manchava<br \/>\no lugar em que caia; como se insinuava pelas costuras dos vestidos, das botas,<br \/>\nnas abas dos chap\u00e9us, nas m\u00e1quinas dos rel\u00f3gios; como se introduzia pelo nariz,<br \/>\npela boca, pelas unhas, por todos os poros!<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo, meu caro amigo&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo queixou-se inopinadamente de que tinha muito calor.<\/p>\n<p>Freitas levou-o pelo bra\u00e7o at\u00e9 a varanda; deu-lhe uma pregui\u00e7osa, passou-lhe<br \/>\numa ventarola de Bristol preparou-lhe uma garapada, e, depois de hav\u00ea-lo regalado<br \/>\nbem, como antigamente se fazia com os sentenciados antes do supl\u00edcio, de p\u00e9,<br \/>\nimplac\u00e1vel, verdadeiro carrasco em face do paciente, despejou inteira uma<br \/>\ndescri\u00e7\u00e3o do dia da festa dos Rem\u00e9dios, recorrendo a todos os mist\u00e9rios da<br \/>\ntortura, escolhendo palavras e gestos, repetindo as frases, frisando os termos,<br \/>\nrepisando o que lhe parecia de mais interesse, cheio de atitudes como se discursasse<br \/>\npara um grande audit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Principiou expondo minuciosamente o Largo dos Rem\u00e9dios, com a sua ermida<br \/>\ntoda branca, seus bancos em derredor; muitos ariris, muita bandeira, muito<br \/>\nfoguete, muito toque de sino. Descreveu com assombro o luxo exagerado em que<br \/>\nse apresentavam todos, todos! para a missa das seis e para a missa das dez<br \/>\nnas quais, dizia ele circunspectamente,<\/p>\n<p>4.25pt;text-autospace:none&#8217;&gt; re\u00fane-se a nata da nossa judiciosa sociedade!&#8230;&#8221;<br \/>\nEra tudo em folha, e do mais caro, e do mais fino. Nesse dia todos luxavam,<br \/>\ndesde o capitalista at\u00e9 o ral\u00e9 caixeiro de balc\u00e3o: velho ou mo\u00e7o, branco ou<br \/>\npreto, ningu\u00e9m l\u00e1 ia, sem se haver preparado da cabe\u00e7a aos p\u00e9s; n\u00e3o se encontrava<br \/>\nroupa velha, nem cora\u00e7\u00e3o triste!<\/p>\n<p>&#8211; As quatro horas da tarde, acrescentou o narrador, torna-se o largo a encher.<br \/>\nPensar\u00e1 talvez o meu amigo que tragam a mesma fatiota da manh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois engana-se! e tudo outra vez novo! s\u00e3o novos vestidos, novas cal\u00e7as,<br \/>\nnovas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Etc., etc.! Vamos adiante.<\/p>\n<p>&#8211; Afirmam alguns estrangeiros&#8230; e dizendo isto tenho dito tudo!&#8230; que n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1, em parte alguma do mundo festa de mais luso!&#8230;<\/p>\n<p>E a voz do ma\u00e7ante tomava a solenidade de um juramento.<\/p>\n<p>&#8211; O que lhe posso afian\u00e7ar, doutor, \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 crian\u00e7a que, nessa tarde,<br \/>\nn\u00e3o tenha a sua pratinha amarrada na ponta do len\u00e7o. Aparecem c\u00e9dulas gordas<br \/>\nmoedas amarelas; troca-se dinheiro; queimam-se charutos caros, no bazar (h\u00e1<br \/>\num bazar) as prendas sobem a um pre\u00e7o escandaloso! Digo-lhe mais: nesse dia<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 homem, por mais pichelingue, que n\u00e3o gaste seu bocado nos leil\u00f5es,<br \/>\nnas barracas, nos tabuleiros de doce ou nas casas de sorte; nem h\u00e1 mulher<br \/>\nsenhora ou mo\u00e7a-dama, que n\u00e3o arrote grandeza, pelo menos seu vestidinho novo<br \/>\nde popelina. V\u00eaem-se enormes trouxas de doce seco, cora\u00e7\u00f5es unidos de cocada,<br \/>\nnavios de massa com mastrea\u00e7\u00e3o de alfenim jurar\u00e1s dourados, cutias enfeitadas<br \/>\ndentro da gaiola pombos cheios de fitas frascos de compota de murici, bacuri,<br \/>\nburiti, o diabo, meu caro senhor! As pretas-minas cativas, ou forras surgem<br \/>\ncom os seus ouros as suas ricas telhas de tartaruga as suas ricas toalhas<br \/>\nde rendas, suas belas saias de veludo. suas chinelas de polimento seus an\u00e9is<br \/>\nem todos os dedos aos dois e aos tr\u00eas em cada um&#8230; E este povo mesclado.<br \/>\ncoberto de luso, radiante, com a barriga confortada e o cora\u00e7\u00e3o contente,<br \/>\npasseia, exibe-se, ancho de si pensando erradamente chamar a aten\u00e7\u00e3o de todos,<br \/>\nquando ali\u00e1s cada qual s\u00f3 pensa e repara em si pr\u00f3prio e na sua pr\u00f3pria roupa!<\/p>\n<p>Raimundo ria-se por delicadeza, e espreguigava-se na cadeira, bocejando.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 noite, continuou o Freitas, ilumina-se todo o largo. Armam-se grandes<br \/>\ne deslumbrantes arcos transparentes, com a imagem da santa e os emblemas do<br \/>\nComercio e da Navega\u00e7\u00e3o. que Nossa Senhora dos Rem\u00e9dios \u00e9 padroeira do Com\u00e9rcio,<br \/>\ne \u00e9 este que lhe d\u00e1 a festa. Mas bem, faz-se a ilumina\u00e7\u00e3o &#8211; armas brasileiras<br \/>\nestrelas vasos caprichosos, o nome da santa, tudo a bico de g\u00e1s. n\u00e3o contando<br \/>\numa infinidade de bal\u00f5ezinhos chineses que brilham por entre as bandeiras,<br \/>\nos flor\u00f5es os ariris, as casas de m\u00fasica; em uma palavra fica tudo, tudo,<br \/>\nclaro como o dia!<\/p>\n<p>Raimundo soltou um suspiro profundo e mudou de posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 tamb\u00e9m para os moleques, um pau-de-sebo balan\u00e7os e cavalinhos. E verdade!<br \/>\no doutor sabe o que e um pau-de-sebo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente Tenha a bondade de n\u00e3o explicar.<\/p>\n<p>&#8211; Com franqueza! Se n\u00e3o sabe, diga, que eu posso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora por amor de Deus! faz-me o favor em n\u00e3o se incomodar juro-lhe! Estou<br \/>\nimpaciente pelo resultado da festa. Continue!<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim, senhor D\u00e3o oito horas.. Ah. meu caro amigo! ent\u00e3o surge de todos<br \/>\nos cantos da cidade uma aluvi\u00e3o intermin\u00e1vel de fam\u00edlias, de velhos, mo\u00e7os,<br \/>\nmeninos, mulatinhas e negrinhas que enchem o largo que nem um ovo! Pretos<br \/>\nde ambos os sexos e de todas as idades desde o moleque at\u00e9 o tio velho, acodem,<br \/>\ntrazendo equilibradas nas cabe\u00e7as imensas pilhas de cadeiras, e, com estas<br \/>\ncadeiras, formam-se grandes rodas mesmo na pra\u00e7a, ao ar livre, e as fam\u00edlias,<br \/>\nou ficam ai assentadas, ou, a titulo de passeio, acotovelam-se entre o povo.<br \/>\nFazem-se grupos, a gente ri, discute, critica, namora, zanga-se, ralha..<\/p>\n<p>&#8211; Ralha?<\/p>\n<p>&#8211; Ora! J\u00e1 houve uma senhora que castigou um moleque a chicote, l\u00e1 mesmo no<br \/>\nlargo!<\/p>\n<p>&#8211; A chicote?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, a chicote! Aquilo, meu caro doutor, \u00e9 uma esp\u00e9cie de romaria! As fam\u00edlias<br \/>\nlevam consigo potes de \u00e1gua, cuscuz, castanhas assadas, biscoitos e o mais<br \/>\n. E tudo isto ao som desordenado da pancadaria de tr\u00eas bandas de m\u00fasica, dos<br \/>\ngritos do leiloeiro e da inqualific\u00e1vel algazarra do povo!<\/p>\n<p>Raimundo quis levantar-se; o outro obrigou-o a ficar sentado, pondo-lhe as<br \/>\nm\u00e3os nos ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Estamos no apogeu da festa! exclamou o ma\u00e7ante.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! gemeu Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Soltam-se bal\u00f5es de pape! fino; cruzam-se mo\u00e7as aos pares; giram aos pares<br \/>\nos janotas; vendem-se roletos de cana, sorvetes, garapa, cerveja, doces, pasteis,<br \/>\nchupas de laranja; sentem-se arder charutos de canela; gastam-se os \u00faltimos<br \/>\ncartuchos; esvaziam-se de todo as algibeiras e, finalmente, com grande jubilo<br \/>\ngeral arde o invari\u00e1vel fogo de artif\u00edcio. Ent\u00e3o rebentam todas as bandas<br \/>\nde m\u00fasica a um s\u00f3 tempo, levanta-se uma fumarada capaz de sufocar um fole,<br \/>\ne, no meio do estralejar das bombas e do infrene entusiasmo da multid\u00e3o, aparece<br \/>\nno castelo, deslumbrante de luzes, a imagem de Nossa Senhora dos Rem\u00e9dios.<br \/>\nFoguetes de l\u00e1grimas voam aos milhares pelo espa\u00e7o; o c\u00e9u some-se. Todos se<br \/>\ndescobrem em aten\u00e7\u00e3o \u00e0 santa, e abrem o chap\u00e9u-de-sol com medo das tabocas.<br \/>\nH\u00e1 uma chuva de luzes multicores; tudo se ilumina fantasticamente; todos os<br \/>\ngrupos, todas as fisionomias, todas as casas, tomam. sucessivamente as irradia\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo prisma. Durante esta apoteose o povo se concentra numa contempla\u00e7\u00e3o m\u00edstica,<br \/>\nterminada a qual, est\u00e1 terminada a festa!<\/p>\n<p>E Freitas tomou f\u00f4lego. Raimundo ia falar, ele atalhou:<\/p>\n<p>&#8211; De repente, o povo acorda e quer sair! Cone, precipita-se em massa \u00e0 Rua<br \/>\ndos Rem\u00e9dios, aglomera-se, disputa os carros, pragueja, assanha-se! Cada um<br \/>\nentende que deve chegar primeiro a casa; h\u00e1 trambolh\u00f5es, descomposturas, gritos,<br \/>\ngargalhadas, gemidos, rinchos de cavalos, tabuleiros de doce derramados, vestidos<br \/>\nrotos, p\u00e9s esmagados, crian\u00e7as perdidas, homens b\u00eabados; mas, de s\u00fabito, como<br \/>\npor encanto, esvazia-se o largo e desaparece a multid\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Como? por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Da\u00ed a pouco est\u00e3o todos recolhidos, sonhando j\u00e1 com a festa do ano seguinte,<br \/>\ncalculando economias, pensando em ganhar dinheiro, para na outra fazer ainda<br \/>\nmelhor figura!<\/p>\n<p>E o Freitas resfolegou prostrado, com a l\u00edngua seca.<\/p>\n<p>&#8211; Mas por que diabo se retiram t\u00e3o depressa?&#8230; perguntou Raimundo.<\/p>\n<p>Freitas engoliu sofregamente tr\u00eas goles de \u00e1gua e voltou-se logo.<\/p>\n<p>&#8211; E porque este povinho, por fogo de vista, \u00e9 pior que macaco por banana!<br \/>\nTirem-lhe de l\u00e1 o fogo que ningu\u00e9m se abalar\u00e1 de casa!<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito! E \u00e9 muito antiga esta festa, sabe?<\/p>\n<p>&#8211; Bastante. Ela j\u00e1 tem seu tempo. Ora espere!<\/p>\n<p>E o memori\u00e3o atirou logo o olhar para o teto.<\/p>\n<p>&#8211; No tempo dos governadores portugueses, disse, depois de uma pausa, era<br \/>\nali o convento de S\u00e3o Francisco; isso foi&#8230; poderia ser&#8230; em.. em mil, setecentos&#8230;<br \/>\ne dezenove! Chamava-se ent\u00e3o a ponta, que forma hoje o Largo dos Rem\u00e9dios,<br \/>\n&#8220;Ponta do Romeu&#8221;. Ora, os frades cederam esse terreno a um tal Monteiro de<br \/>\nCarvalho, que fez a ermida, como se pode calcular, no mato. Uma ocasi\u00e3o, por\u00e9m,<br \/>\num preto fugido matou nesse lugar o seu senhor, e os romeiros, que l\u00e1 iam<br \/>\nconstantemente, abandonaram receosos a devo\u00e7\u00e3o. S\u00f3 depois de cinq\u00fcenta e seis<br \/>\nanos, \u00e9 que o governador Joaquim de Melo e P\u00f3voas mandou abrir uma boa estrada,<br \/>\na qual vem a ser hoje a nossa pitoresca Rua dos Rem\u00e9dios. A ermida caiu em<br \/>\nru\u00ednas, mas o ermit\u00e3o, Francisco Xavier mandou, em 1818, construir a que l\u00e1<br \/>\nest\u00e1 presentemente; e da\u00ed data a festa, que tive a honra e o gosto de descrever-lhe.<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; De tudo isso, aventurou Raimundo, o que<br \/>\nmais me admira \u00e9 a sua mem\u00f3ria: o senhor com efeito tem uma mem\u00f3ria de anjo.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! O senhor ainda n\u00e3o viu nada! Vou contar-lhe&#8230;<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; O outro ia disparatar sem mais considera\u00e7\u00f5es,<br \/>\nquando, felizmente, acudiram todos \u00e0 varanda. Criou alma nova.<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; Apre! disse Raimundo consigo, respirando.<br \/>\n\u00c9 de primeira for\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>Serviu-se o chocolate.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego vinha a discretear para Manuel em voz sotuna:<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; Pois \u00e9 o que lhe digo, compadre, fique<br \/>\nvoc\u00ea com as casas e divida-as em meias-moradas que rendem?&#8230;<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; Acha ent\u00e3o que vou bem, dando quatro contos<br \/>\nde r\u00e9is por cada uma&#8230;<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; Decerto, s\u00e3o de gra\u00e7a!&#8230; Homem aquilo<br \/>\n\u00e9 pedra e cal &#8211; constru\u00e7\u00e3o antiga! &#8211; deita s\u00e9culos! Al\u00e9m disso, as casinhas<br \/>\nt\u00eam bom quintal, bom po\u00e7o e n\u00e3o s\u00e3o devassadas pela vizinhan\u00e7a&#8230; verdade<br \/>\n\u00e9 que n\u00e3o deixam de ser um bocadinho quentes mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Abrem-se-lhe janelas para o nascente, concluiu o negociante.<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; E, assim, conversando, chegaram \u00e0 varanda,<br \/>\nonde j\u00e1 estavam \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; Jos\u00e9 Roberto e Sebasti\u00e3o Campos serviam<br \/>\n\u00e0s senhoras acompanhando com uma pilh\u00e9ria cada prato que lhes ofereciam. Raimundo<br \/>\npediu dispensa do ch\u00e1, com medo do Freitas que lhe abrira um lugar ao lado<br \/>\ndo seu.<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; Ouvia-se mastigar as torradas e sorver,<br \/>\naos golinhos, o chocolate quente.<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; Doutor, exclamou o c\u00f4nego, procurando<br \/>\nespetar com o garfo uma fatia de um bolo de tapioca. Prove ao menos do nosso<br \/>\n&#8220;Bolo do Maranh\u00e3o&#8221;. Tamb\u00e9m o chamam por ai &#8220;Bolo podre&#8221;. Prove, que isto n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 fora de c\u00e1&#8230; \u00e9 uma especialidade da terra!<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; N\u00e3o \u00e9 mau&#8230; disse Raimundo, fazendo-lhe<br \/>\na vontade. Muito saboroso, mas parece-me um tanto pesado&#8230;<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; E de subst\u00e2ncia &#8211; acrescentou Maria B\u00e1rbara.<br \/>\nFaz-se de tapioca de forno e ovos.<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; D. Bibina! chamou Ana Rosa, apontando<br \/>\npara os beijus. S\u00e3o fresquinhos&#8230;<\/p>\n<p>Am\u00e2ncia, com a boca cheia, dizia baixo a Maria do Carmo:<\/p>\n<p>&#8211; Pois minha amiga, quando precisar de missa com cerim\u00f4nia, n\u00e3o tem mais<br \/>\ndo que se entender com o padre que lhe digo.. P muito pontual e contenta-se<br \/>\ncom o que a gente lhe da! Est&#8217;r&#8217;o dia, apanhou-me dezoito mil-r\u00e9is por uma<br \/>\nmissinha cantada, mas tamb\u00e9m podia se ver a obra que o homem apresentou!..<br \/>\nPois ent\u00e3o! H\u00e1 de dar uma criatura seus cobrinhos, que tanto custam a juntar,<br \/>\na muito padre, como h\u00e1 por a\u00ed, desses que, mal chegam ao altar, est\u00e3o pensando<br \/>\nno almo\u00e7o e na comadre?&#8230; Deus te livre, credo! At\u00e9 pesa na consci\u00eancia de<br \/>\num crist\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Como o padre Murta! .. lembrou a outra.<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; Oh! Esse, nem se fala! \u00c0s vezes, Deus<br \/>\nme perdoe! nos enterros, at\u00e9 se apresenta b\u00eabado!<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; E Maria do Carmo bateu na boca &#8211; C\u00e1 est\u00e1,<br \/>\nacrescentou, quem j\u00e1 o viu a todo o pano encomendar o corpo de Jos\u00e9 Caroxo!&#8230;<\/p>\n<p>17.45pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; N\u00e3o! que hoj&#8217;em dia a gente perde a f\u00e9.<br \/>\n. isso est\u00e1 se metendo pelos olhos!&#8230; Mas \u00e9 o que j\u00e1 n\u00e3o tem o outro&#8230; porta-se<br \/>\nmuito bem! muito bem procedido! muito cumpridor das suas obriga\u00e7\u00f5es! Zeloso<br \/>\nda religi\u00e3o! Acredite, minha amiga, que faz gosto&#8230; Dizem at\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>E Am\u00e2ncia, segredou alguma coisa \u00e0 vizinha Maria do Carmo baixou os olhos.<br \/>\ne resmungou beaticamente:<\/p>\n<p>&#8211; Deus lhe leve em conta. coitado!<\/p>\n<p>Houve um rumor de cadeiras que se arrastam. Os comensais afastaram-se dos<br \/>\nseus lugares<\/p>\n<p>&#8211; Mesa feita. companhia desfeita!&#8230;gritou logo Jos\u00e9 Roberto chupando os<br \/>\nrestos dos dentes E tratou de seguir as senhoras, que se encaminhavam silenciosas<br \/>\npara a sala.<\/p>\n<p>Nisto, entrou o Dias, trazendo o Benedito pelo c\u00f3s. Vinha a deitar os botes<br \/>\npela boca e, quase sem poder falar, contou que &#8220;seguira o ladr\u00e3o at\u00e9 o fim<br \/>\nda Rua Grande, e que c, ladr\u00e3o quebrara para o Largo dos Quart\u00e9is e quase<br \/>\nque alcan\u00e7a o mato da Camboa&#8221;. Dito isto, conduziu ele mesmo o moleque l\u00e1<br \/>\npara dentro. Anda, peste! Vai preparando o pelo, que ainda hoje te metes em<br \/>\nrelho!&#8221;<\/p>\n<p>Apreciaram muito o servi\u00e7o da Dias, e conversaram sobre aquele ato de dedica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nelogiando o zelo do bom amigo e caixeiro de Manuel. Da\u00ed a uma hora despediam-se<br \/>\nas mo\u00e7as. entre grande barafunda de beijos e abra\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Lindoca! gritava Ana Rosa, agora n\u00e3o arribe de novo, ouviu?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha vida. hei de aparecer&#8230; olha!<\/p>\n<p>E subiu dois degraus para lhe dizer m um segredinho.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim! E Eufrasinha adeus! D. Mana do Carmo, n\u00e3o deixe de levar essas<br \/>\nmeninas \u00e0 quinta no dia de S\u00e3o Jo\u00e3o. Temos torta de caranguejos, olhe l\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, corac\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Etelvina, n\u00e3o se esque\u00e7a daquilo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bibina, despe\u00e7a-se da gente!&#8230; guarde seus quatro vint\u00e9ns!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, observou o Sebasti\u00e3o Campos, que as tais mo\u00e7as, para se despedirem&#8230;<br \/>\ns\u00e3o terr\u00edveis!<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Pudesse uma s\u00f3 nau cont\u00ea-las todas&#8230;&#8221; recitou o Freitas. co\u00e7ando o bigode<br \/>\ncom a sua unha de estima\u00e7\u00e3o, &#8220;e o piloto fosse eu&#8230; triunfo eterno!&#8230;&#8221; E..<br \/>\nap\u00f3s uma gargalhada seca, voltou-se para Raimundo e ofereceu-lhe com ar pretensioso<br \/>\n&#8220;um talher na sua parca mesa&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 doutor, v\u00e1 por aquela choupana, disse. V\u00e1 aborrecer-se um pouco&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo prometeu distraidamente. Bocejava. Por mera delicadeza, perguntou<br \/>\nse alguma das senhoras `&#8217;queria um criado para acompanh\u00e1-las a casa&#8221;.<\/p>\n<p>As Sarmentos aceitaram logo, com muitos trejeitos de cortesia. Ele interiormente<br \/>\ncontrariado, levou-as at\u00e9 \u00e0s Merc\u00eas, onde moravam, ali mesmo, perto. Voltou<br \/>\npouco depois.<\/p>\n<p>&#8211; Recolha-se. doutor, trate de recolher-se&#8230; aconselhou-lhe Manuel, que<br \/>\no esperava de p\u00e9. O senhor deve estar com o corpo a pedir descanso&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo confessou que sim, apertou-lhe a m\u00e3o. &#8220;Boas noites, e obrigado&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 amanh\u00e3! Olhe! se precisar de qualquer coisa, chame pelo Benedito, ele<br \/>\ndorme na varanda. Mas deve estar tudo l\u00e1; a Br\u00edgida \u00e9 cuidadosa Passe bem!<\/p>\n<p>Raimundo fechou-se no quarto: despiu se, acendeu um cigarro e deitou-se.<br \/>\nAbriu por h\u00e1bito um livro; mas, no fim da primeira p\u00e1gina, as p\u00e1lpebras se<br \/>\nlhe fechavam Soprou a vela. Ent\u00e3o sentiu um bem-estar infinito, profundamente<br \/>\nagrad\u00e1vel: abra\u00e7ou-se aos travesseiros e, antes que algum dos acontecimentos<br \/>\ndesse dia lhe assaltasse o esp\u00edrito, adormeceu.<\/p>\n<p>Todavia, a pouca distancia dali, algu\u00e9m velava, pensando nele.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a> V<\/h2>\n<p>19.85pt;text-autospace:none&#8217;&gt; Era Ana Rosa. Logo que ela se recolhera<br \/>\nao quarto, gritara pela M\u00f4nica.<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e3e- pretinha!<\/p>\n<p>19.85pt;text-autospace:none&#8217;&gt; Assim tratava a cafuza que a criara e que<br \/>\ndormia todas as noites debaixo da sua rede&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e3e-pretinha! \u00d3 senhores!<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9, lai\u00e1? N\u00e3o se agaste!<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem um sono de pedra! oh!<\/p>\n<p>Deu um estalo com a l\u00edngua.<\/p>\n<p>&#8211; Dispa-me!<\/p>\n<p>19.85pt;text-autospace:none&#8217;&gt; E estendeu-se negligentemente em uma cadeira,<br \/>\nentregando \u00e0 criada os p\u00e9s pequeninos e bem cal\u00e7ados.<\/p>\n<p>19.85pt;text-autospace:none&#8217;&gt; M\u00f4nica tomou-os, com amor, entre as suas<br \/>\nm\u00e3os negras e calejadas; descal\u00e7ou-lhe cuidadosamente as botinas, sacou-lhe<br \/>\nfora as meias; depois, com um desvelo religioso, como um devoto a despir a<br \/>\nimagem de Nossa Senhora, come\u00e7ou a tirar as roupas de Ana Rosa; desatou-lhe<br \/>\no cadar\u00e7o das an\u00e1guas; desapertou-lhe o colete e, quando a deixou s\u00f3 em camisa,<br \/>\ndisse, apalpando-lhe as costas:<\/p>\n<p>&#8211; lai\u00e1? vos vossemec\u00ea est\u00e1 t\u00e3o suada!&#8230;<\/p>\n<p>E correu logo ao ba\u00fa.<\/p>\n<p>19.85pt;text-autospace:none&#8217;&gt; A senhora pusera-se a cismar, distra\u00edda,<br \/>\nco\u00e7ando de leve a cintura, o lugar das ligas e as outras partes do seu corpo<br \/>\nque estiveram comprimidas por muito tempo. M\u00f4nica voltou com uma camisola<br \/>\ntoda cheirosa, impregnada de junco, a qual, abrindo-a com os bra\u00e7os, enfiou<br \/>\npela cabe\u00e7a de Ana Rosa, esta ergueu-se e deixou cair a seus p\u00e9s a camisa<br \/>\nservida e conchegou a outra \u00e0 pele, afagando os seus peitos virgens num estremecimento<br \/>\nde rola. Depois suspirou baixinho e deu uma carreira para a rede, na pontinha<br \/>\ndos p\u00e9s, como se neo quisesse tocar no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>19.85pt;text-autospace:none&#8217;&gt; A cafuza ajuntou zelosamente a roupa dispersa<br \/>\npelo quarto e guardou as j\u00f3ias.<\/p>\n<p>&#8211; lai\u00e1 quer mais alguma coisa?<\/p>\n<p>19.85pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; \u00c1gua, disse a mo\u00e7a, aninhando-se j\u00e1 nos<br \/>\nlen\u00e7\u00f3is defumados de alfazema. S\u00f3 se lhe via a graciosa cabe\u00e7a, saindo despenteada<br \/>\ndentre nuvens de pano branco.<\/p>\n<p>19.85pt;text-autospace:none&#8217;&gt; A cafuza trouxe-lhe uma bilha de \u00e1gua, e<br \/>\na senhora, depois de servida, beijou-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Boas noites m\u00e3e-pretinha. Abaixe a luz e feche a porta.<\/p>\n<p>19.85pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; Deus te fa\u00e7a uma santa! respondeu M\u00f4nica,<br \/>\ntra\u00e7ando no ar uma cruz com a m\u00e3o aberta.<\/p>\n<p>E retirou-se humildemente, toda bons modos e gestos carinhosos.<\/p>\n<p>19.85pt;text-autospace:none&#8217;&gt; M\u00f4nica or\u00e7ava pelos cinq\u00fcenta anos; era<br \/>\ngorda, sadia e muito asseada; tetas grandes e descaidas dentro do cabe\u00e7\u00e3o<br \/>\nTinha ao pesco\u00e7o um barbante, com um crucifixo de metal, uma pratinha de 200<br \/>\nr\u00e9is, uma fava de cumaru, um dente de c\u00e3o e um peda\u00e7o de lacre encastoado<br \/>\nem ouro. Desde que amamentara Ana Rosa, dedicara-lhe um amor maternalmente<br \/>\nextremoso, uma dedica\u00e7\u00e3o desinteressada e passiva. Iai\u00e1 fora sempre o seu<br \/>\n\u00eddolo, o seu \u00fanico &#8216;querer bem&#8221;, porque os pr\u00f3prios filhos esses lhos arrancaram<br \/>\ne venderam para o Sul. Dantes, nunca vinha da fonte, onde passava os dias<br \/>\na lavar, sem lhe trazer frutas e borboletas, o que, para a pequenina, constitu\u00eda<br \/>\no melhor prazer desta vida. Chamava-lhe &#8220;sua filha, seu cativeiro&#8221; e todas<br \/>\nas noites, e todas as manh\u00e3s, quando chegava ou quando saia para o trabalho,<br \/>\nlan\u00e7ava lhe a b\u00ean\u00e7\u00e3o, sempre com estas mesmas palavras: &#8220;Deus te fa\u00e7a uma<br \/>\nsanta! &#8211; Deus te ajude! Deus te aben\u00e7oe!&#8221; Se Ana Rosa fazia em casa qualquer<br \/>\ndiabrura, que desagradasse a m\u00e3e-preta, esta a repreendia imediatamente, com<br \/>\nautoridade; desde, por\u00e9m, que a acusa\u00e7\u00e3o ou a reprimenda partissem de outro,<br \/>\nfosse embora do pai ou da av\u00f3, punia logo pela menina e voltava-se contra<br \/>\nos mais.<\/p>\n<p>Havia seis anos que era forra. Manuel dera-lhe a carta a pedido da filha,<br \/>\no que muita gente desaprovou, &#8220;ter\u00e1s o pago!&#8230;&#8221; diziam-lhe. Mas a boa preta<br \/>\ndeixou-se ficar em casa dos seus senhores e continuou a desvelar-se pela laia<br \/>\nmelhor que at\u00e9 ent\u00e3o, mais cativa do que nunca.<\/p>\n<p>Ana Rosa, mal ficou sozinha, no aconchego confidencial da sua rede, intima<br \/>\ntranq\u00fcilidade do seu quarto frouxamente iluminado \u00e0 luz morti\u00e7a do candeeiro<br \/>\nde azeite, principiou a passar em revista todos os acontecimentos desse dia.<br \/>\nRaimundo avultava dentre a multid\u00e3o dos fatos como uma letra mai\u00fascula no<br \/>\nmeio de<\/p>\n<p>um per\u00edodo de Lucena; aquele rosto quente, de olhos sombrios, olhos feitos<br \/>\ndo azul do mar em dias de tempestade, aqueles l\u00e1bios vermelhos e fortes, aqueles<br \/>\ndentes mais brancos que as presas de Uma fera, impressionavam-na profundamente.<br \/>\n&#8220;Que esp\u00e9cie de homem estaria ali!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Procurava com insist\u00eancia recordar-se dele em algum dos epis\u00f3dios da sua<br \/>\ninf\u00e2ncia-nada! diziam-lhe. entretanto, que brincara com ela em pequenino,<br \/>\ne que foram amigos, companheiros de ber\u00e7o criados juntos, que nem irm\u00e3os.<br \/>\nE todas estas coisas lhe produziam no esp\u00edrito um efeito muito estranho e<br \/>\nsingular. As meias sombras, as reservas e as retic\u00eancias, com que a medo lhe<br \/>\nfalavam dele, ainda mais interessante o tomavam aos olhos dela. &#8220;Mas, afinal,<br \/>\nquem seria ao certo aquele belo mo\u00e7o?&#8230; Nunca &#8216;&#8221;o explicaram; paravam em<br \/>\ncertos pontos, saltavam sobre outros como por cima de brasas; e tudo isto,<br \/>\ntodos estes claros que deixavam abertos a respeito do passado de Raimundo,<br \/>\ntodos esses v\u00e9us em que o envolviam como a Uma est\u00e1tua que se n\u00e3o pode ver<br \/>\nemprestavam-lhe atra\u00e7\u00f5es magn\u00e9ticas, Um encanto irresist\u00edvel e perigoso de<br \/>\nmist\u00e9rio, uma fascina\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica de abismo.<\/p>\n<p>Entontecia de pensar nele. O hibridismo daquela figura, em que a distin\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a fidalguia do porte se harmonizavam caprichosamente com a rude e orgulhosa<br \/>\nfranqueza de um selvagem produzia-lhe na raz\u00e3o o efeito de Um vinho forte,<br \/>\nmas de Uma do\u00e7ura irresist\u00edvel e traidora ficava estonteada; perturbava-se<br \/>\ntoda com a lembran\u00e7a do contraste daquela fisionomia, com a express\u00e3o contradit\u00f3ria<br \/>\ndaqueles olhos, suplicantes e dominadores a Um tempo; sentia-se vencida, humilhada<br \/>\ndefronte daquele mito; reconhecia-lhe certo imp\u00e9rio, certa preponder\u00e2ncia<br \/>\nque jamais descobrira em ningu\u00e9m; quanto mais o comparava aos outros, mais<br \/>\no achava superior, \u00fanico, excepcional.<\/p>\n<p>E Ana Rosa deixava-se invadir lentamente por aquela embriaguez esquecendo-se,<br \/>\nalheando-se de tudo, sem querer pensar em outro objeto que n\u00e3o fosse Raimundo.<br \/>\nDe repente surpreendeu-se a dizer: &#8220;Como deve ser bom o seu amor!&#8230;&#8221; E ficou<br \/>\na cismar, a fazer conjeturas, a julg\u00e1-lo minuciosamente, da cabe\u00e7a aos p\u00e9s.<br \/>\nParou nos olhos: &#8220;Quantos tesouros de ternura n\u00e3o estariam neles escondidos?<br \/>\nneles, do feitio de am\u00eandoas, banhados de bondade e cercados de pestadas crespas<br \/>\ne negras, como os p\u00ealos de um bicho venenoso; aquelas pestanas lembravam-lhe<br \/>\nas sedas de uma aranha caranguejera.&#8221; Estremeceu, por\u00e9m, vieram-lhe desejos<br \/>\nde os apalpar com os l\u00e1bios. &#8220;Como devia ser bom ouvir dizer &#8211; Eu te amo!<br \/>\n&#8211; por aquela boca e por aquela voz!&#8230;&#8221; E ficava assustada, como se de fato,<br \/>\nno sil\u00eancio da alcova, Uma voz de homem estivesse a segredar-lhe, junto ao<br \/>\nrosto, palavras de amor.<\/p>\n<p>Mas logo tomava a si com a id\u00e9ia do porte austero e frio de Raimundo. Esta<br \/>\nindiferen\u00e7a, ao mesmo tempo que lhe pungia e atormentava o orgulhoso, levanta-lhe.<br \/>\nna sua vaidade de mulher, Um apetite nervoso de ver rendida a seus p\u00e9s aquela<br \/>\nmisteriosa criatura, aquele espectro inalter\u00e1vel e sombrio, que a vira e contemplara<br \/>\nsem o menor sobressalto.<\/p>\n<p>E entre mil devaneios deste g\u00eanero, com o sangue a percorrer-lhe mais apressado<br \/>\nas art\u00e9rias, conseguir afina! adormecer. vencida de cansa\u00e7o. E, quem pudesse<br \/>\nobserv\u00e1-la pela noite adiante. v\u00ea la-ia de vez em quando abra\u00e7ar-se aos travesseiros<br \/>\ne, tr\u00eamula, estender os l\u00e1bios, entre abertos e s\u00f4fregos. como quem procura<br \/>\num beijo no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte acordara p\u00e1lido e nervosa, a semelhan\u00e7a de uma noiva no<br \/>\ndia imediato \u00e0s n\u00fapcias. Faltava-lhe animo at\u00e9 para se preparar e sair do<br \/>\nquarto: deixava-se ficar deitada na rede, a cismar, sem abrir de todo os olhos<br \/>\ncheia de fadiga.<\/p>\n<p>Parecia-lhe sentir ainda na face o calor do rosto de Raimundo.<\/p>\n<p>Decorreram duas horas e ela continuava na mesma irresolu\u00e7\u00e3o: as p\u00e1lpebra]s<br \/>\nl\u00e2nguidas, as narinas dilatadas pelo h\u00e1lito quente e doendo: os bei\u00e7os secos<br \/>\ne \u00e1speros; o corpo moido sob um fastio geral, que lhe dava espregui\u00e7amentos<br \/>\nde febre e m\u00e1 vontade. E., assim prostrada, deixava-se ficar entre os len\u00e7\u00f3is,<br \/>\ntolhida de vexame e enleio, pelas loucuras da noite.<\/p>\n<p>A voz clara de Raimundo que conversava na varanda enquanto tomava caf\u00e9, despertou-a;<br \/>\nAna Rosa estremeceu, mas, num abrir e fechar de olhos, ergueu-se. lavou se<br \/>\ne vestiu-se. Ao fitar o espelho, achou-se feia e mal enforcada, posto n\u00e3o<br \/>\nestivesse pior que nos outros dias, endireitou-se toda, cobriu o rosto de<br \/>\np\u00f3 de arroz, arranjou melhor os cabelos e escovou um sorriso.<\/p>\n<p>Apareceu l\u00e1 fora com grande acanhamento; deu a Raimundo um &#8220;Bons dias&#8221; frio.<br \/>\nde olhos baixos. N\u00e3o podia encar\u00e1-lo. Maria B\u00e1rbara j\u00e1 l\u00e1 estava na labuta\u00e7\u00e3o,<br \/>\na cuidar da casa, a dar voltas. a gritar com os escravos.<\/p>\n<p>&#8211; Olha esse bilhete da Eufr\u00e1sia. disse ela, ao ver a neta. E passou-lhe uma<br \/>\ntira de papel. engenhosamente dobrada em la\u00e7o c com um galhinho de alecrim<br \/>\nenfiado no centro.<\/p>\n<p>Ana Rosa teve um gesto involunt\u00e1rio de contrariedade. Aborrecia-lhe agora<br \/>\nsem saber por qu\u00ea, a amizade da vi\u00fava, dela, que era ate ai a sua \u00edntima,<br \/>\na sua confidente, a sua melhor amiga; dos outros havia muito que se tinha<br \/>\nenfastiado o seu desejo, naquele instante, era ficar s\u00f3, bem s\u00f3, num lugar<br \/>\nem que ningu\u00e9m pudesse importun\u00e1-la.<\/p>\n<p>Serviu-se de uma x\u00edcara de caf\u00e9, deu-se por incomodada.<\/p>\n<p>&#8211; V. Ex\u00aa sente alguma coisa? perguntou Raimundo com delicadeza.<\/p>\n<p>Ana Rosa sobressaltou-se ligeiramente, ergueu os olhos, viu os do rapaz,<br \/>\nabaixou logo os seus e entressorrindo, gaguejou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 nada&#8230; Nervoso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isto! acudiu Maria B\u00e1rbara, que parara para ouvir a resposta da neta.<br \/>\nNervoso! Olhem que estas mo\u00e7as dagora s\u00e3o t\u00e3o cheias de tanta novidade e de<br \/>\ntantas inven\u00e7\u00f5es!&#8230; E o nervoso! \u00e9 a tal da enxaqueca! \u00e9 o flato! \u00e9 o faniquito!<br \/>\nAh, meu tempo, meu tempo!&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo riu-se e Ana Rosa deu de ombros, simulando indiferen\u00e7a pelo que<br \/>\ndizia a velha.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fa\u00e7a caso, mo\u00e7o! Esta menina est\u00e1 assim j\u00e1 de tempos, e ningu\u00e9m me<br \/>\ntira que foi quebranto que lira botaram!&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo tomou a rir. e Ana Rosa endireitou-se na cadeira em que acabava<br \/>\nde assentar-se. &#8216;Esta vov\u00f3!&#8230; pensou ela envergonhada. Que id\u00e9ia n\u00e3o ficar\u00e1<br \/>\nele fazendo da gente!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se ria, nh\u00f4 Mundico! n\u00e3o se ria, prosseguiu a sogra de Manuel, que<br \/>\naqui esta &#8211; e bateu no peito &#8211; quem j\u00e1 andou de quebranto a dar-n\u00e3o-d\u00e1 com<br \/>\nos ossinhos no Gavi\u00e3o!<\/p>\n<p>E, tirando do seio um trancelim, com uma enorme figa de chifre encastoada<br \/>\nem ouro:-Ai, minha rica figa, a ti o devo! a ti o devo, que me livraste do<br \/>\nmau-olhado!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Sr\u00aa D. Maria B\u00e1rbara, conte-me como foi essa hist\u00f3ria do quebranto,<br \/>\npediu Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Ora o qu\u00ea! Pois ent\u00e3o o senhor n\u00e3o sabe que o mau-olhado pegando Uma criatura<br \/>\nde Deus -est\u00e1 despachadinha?&#8230; Ent\u00e3o, credo! que andou o senhor aprendendo<br \/>\nl\u00e1 por essas paragens que correu?!<\/p>\n<p>&#8211; V. Ex.\u00aa, minha prima, tamb\u00e9m acredita no quebranto? interrogou o mo\u00e7o,<br \/>\nvoltando-se para Ana Rosa.<\/p>\n<p>&#8211; Bobagens&#8230; murmurou esta, afetando superioridade.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 supersticiosa?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, felizmente. Al\u00e9m disso &#8211; e abaixou a voz, rindo-se mais &#8211; ainda que<br \/>\nacreditasse, n\u00e3o corria risco&#8230; dizem que o quebranto s\u00f3 ataca em geral as<br \/>\npessoas bonitas&#8230;<\/p>\n<p>E sorriu para Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso, \u00e9 prudente acautelar-se&#8230; volveu ele galanteando.<\/p>\n<p>E, como se Ana Rosa lhe chamara a aten\u00e7\u00e3o para a pr\u00f3pria beleza passou a<br \/>\nconsider\u00e1-la melhor; enquanto a velha taramelava:<\/p>\n<p>&#8211; Meu caro senhor Mundico, hoj&#8217; em dia j\u00e1 n\u00e3o se acredita em coisa alguma!&#8230;<br \/>\npor isso \u00e9 que os tempos est\u00e3o como est\u00e3o &#8211; cheios de febres, de bexigas,<br \/>\nde t\u00edsicas e de paralisias, que nem mesmo os doutores de carta sabem o que<br \/>\naquilo \u00e9! Diz que \u00e9 &#8220;berib\u00e9ri&#8221; ou n\u00e3o sei qu\u00ea; o caso \u00e9 que nunca vi em dias<br \/>\nde minha vida semelhante diabo de mol\u00e9stia, e que o tal como-chama est\u00e1 matando<br \/>\nde repente que nem obra do sujo, credo! At\u00e9 parece castigo! Deus me perdoe!<br \/>\nIsto vai, mas \u00e9 tudo caminhando para uma rep\u00fablica h\u00e1 de dar-lhes uma. que<br \/>\nos fa\u00e7a ficar ai de dente arreganhado! Pois o que, senhor! se j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 tementes<br \/>\nde Deus! j\u00e1 poucos s\u00e3o os que rezam!.. Hoje, com perd\u00e3o da Virgem Sant\u00edssima<br \/>\n&#8211; e bateu uma palmada na boca &#8211; at\u00e9 podres! at\u00e9 h\u00e1 padres que n\u00e3o prestam!<\/p>\n<p>Raimundo continuava a rir.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto mais, observou ele de bom humor para a fazer falar quanto mais se<br \/>\nV. Ex.a conhecesse certos povos da Europa meridional.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o e que ficaria pasma deveras!<\/p>\n<p>&#8211; Credo, minha Nossa Senhora! que inferno n\u00e3o ir\u00e1 ,: ir esse mund\u00e3o de esconjurados!<br \/>\nPor isso e que agora est\u00e1 se vendo li sue se v\u00ea, benza-me Deus!<\/p>\n<p>E, benzendo-se ela pr\u00f3pria com ambas as m\u00e3os, pediu que a deixassem ir dar<br \/>\numa vista de olhos pela cozinha.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 eu n\u00e3o estar l\u00e1 e o servi\u00e7o fica logo pra tr\u00e1s!. Caem no remancho, diabo<br \/>\ndas pestes!<\/p>\n<p>Afastou-se gritando, desde a varanda pela Br\u00edgida: A\u00ed estavam a pingar as<br \/>\nnove, e nem sinal de almo\u00e7o!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Raimundo e Ana Rosa ficaram a s\u00f3s defronte um , outro, ela de olhos baixos,<br \/>\nconfusa, na apar\u00eancia quase aborrecida; e ele. de cara alegre, a observ\u00e1-la<br \/>\ncom interesse, gozando em contemplar, assim de perto, aquela provinciana simples<br \/>\ne bem disposta, que se lhe afigurava agora uma irm\u00e3, de quem ele estivera<br \/>\nausente desde a inf\u00e2ncia &#8220;Deve ser, com certeza, uma excelente moca&#8230; calculou<br \/>\nde si para si Pelo seu todo esta a dizer que \u00e9 boa de cora\u00e7\u00e3o e honesta por<br \/>\nnatureza Al\u00e9m do que, bonita&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Sim, que at\u00e9 ai Raimundo ainda n\u00e3o tinha reparado que sua prima era bonita.<br \/>\nNotou-lhe ent\u00e3o a frescura da pele, a pureza da boca, a abund\u00e2ncia cabelos.<br \/>\nAchou-a bem tratada; as m\u00e3os claras, os dentes asseados, a tez muito limpa,<br \/>\nfina e lustrosa, na sua palidez simp\u00e1tica de flor do Norte.<\/p>\n<p>Principiaram a conversar, depois de algum sil\u00eancio, com muita cerim\u00f4nia.<br \/>\nEle continuava a dar-lhe excel\u00eancia, o que a constrangia um tanto, perguntou<br \/>\nlhe pelo pai<\/p>\n<p>Que tinha ido para o armaz\u00e9m, como de costume, e s\u00f3 subiria para almo\u00e7ar<br \/>\ne para jantar. Da\u00ed, queixou-se da solid\u00e3o em que vivia no aborrecimento daquela<br \/>\ncasa &#8220;Um cemit\u00e9rio de triste!&#8230;&#8221; Lamentou n\u00e3o ter um irm\u00e3o e, em resposta<br \/>\na uma pergunta que lhe fez o rapaz, disse que lia para se distrair, mas que<br \/>\na leitura muitas vezes a fatigava tamb\u00e9m. O primo, se tinha um romance bom,<br \/>\nque lho emprestasse.<\/p>\n<p>Raimundo prometeu ver entre os seus livros, logo que abrisse um caix\u00e3o que<br \/>\nainda estava pregado.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do romance, entrou a conversa pelas viagens. Ana Rosa lamentou<br \/>\nn\u00e3o ter saido nunca do Maranh\u00e3o. Tinha vontade de conhecer outros climas,<br \/>\noutros costumes; entusiasmava-se com a descri\u00e7\u00e3o de certos lugares; falou,<br \/>\nsuspirando, da It\u00e1lia. &#8220;Ah, N\u00e1poles!&#8230;&#8221;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! objetou o rapaz. N\u00e3o \u00e9 o que V. Ex\u00aa sup\u00f5e! Os poetas exageram<br \/>\nmuito! \u00c9 bom n\u00e3o acreditar em tudo o que eles dizem, os mentirosos!<\/p>\n<p>E, depois de uma ligeira s\u00famula das impress\u00f5es recebidas na It\u00e1lia, perguntou<br \/>\n\u00e0 prima se queria ver os seus desenhos. A menina disse que sim e Raimundo,<br \/>\nmuito solicito, correu a buscar o seu \u00e1lbum.<\/p>\n<p>Logo que ele se levantou, Ana Rosa sentiu um grande al\u00edvio: respirou como<br \/>\nse lhe houvessem tirado um peso das costas. Mas j\u00e1 n\u00e3o estava t\u00e3o nervosa<br \/>\ne at\u00e9 parecia disposta a rir e gracejar; \u00e9 que Raimundo, no meio da conversa,<br \/>\ndissera despretensiosamente que simpatizava muito com ela; que a achava interessante<br \/>\ne bonita, e isto sem precisar de mais nada, tornou-a logo bem disposta e restituiu-lhe<br \/>\nao semblante a sua natural express\u00e3o de bom humor.<\/p>\n<p>Ele voltou com o \u00e1lbum e abriu-o de par em par defronte da rapariga.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a ver. Ana Rosa era toda aten\u00e7\u00e3o para os desenhos; enquanto Raimundo,<br \/>\nao seu lado ia virando as folhas com os seus dedos morenos e roli\u00e7os. e explicando<br \/>\nas paisagens montanhosas da Su\u00ed\u00e7a os edif\u00edcios e os jardins de Fran\u00e7a, os<br \/>\narrabaldes de It\u00e1lia. E contava os passeios que realizara, os almo\u00e7os que<br \/>\ntivera em viagem, as serenatas em g\u00f4ndola; ia dizendo tudo o que aqueles desenhos<br \/>\nlhe chamavam \u00e0 mem\u00f3ria: como chegara a certo lago; como passara tal ponte;<br \/>\ncomo fora servido em tais e tais hot\u00e9is e o que sabia daquele chalezinho verde,<br \/>\nque a aquarela representava escondido entre \u00e1rvores sonolentas e misteriosas.<\/p>\n<p>Ana Rosa escutava com um sil\u00eancio de inveja.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isto? perguntou ela, ao ver um esbo\u00e7o, que expunha dois bispos, j\u00e1<br \/>\namortalhados dentro dos competentes caix\u00f5es de defunto, como \u00e0 espera do momento<br \/>\nde baixarem a tenra. Um estava im\u00f3vel, de m\u00e3os postas e olhos cerrados; o<br \/>\noutro, por\u00e9m, erguia-se a meio e parecia voltar \u00e0 vida. Ao lado deles havia<br \/>\num frade.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! fez ele rindo, e explicou: Isso \u00e9 copiado de um quadro, que vi na sacristia<br \/>\ndo velho convento de S\u00e3o Francisco, da Para\u00edba do Norte. N\u00e3o vale nada, como<br \/>\ntodos os quadros que l\u00e1 est\u00e3o, e n\u00e3o poucos, pintados sobre madeira; um colorido<br \/>\nimposs\u00edvel; as figuras mal desenhadas, muito duras. Esse \u00e9 um dos mais antigos;<br \/>\ncopiei-o por isso. Pura curiosidade cronol\u00f3gica. V\u00ea esse escudo nas m\u00e3os do<br \/>\nfrade? Tenha a bondade de virar a p\u00e1gina; que V. Ex\u00aa encontrar\u00e1 um soneto<br \/>\nque a\u00ed estava escrito a pincel.<\/p>\n<p>Ana Rosa virou a folha e leu:<\/p>\n<p>&#8220;Este quadro, Leitor, onde a figura Vivo um Bispo te p\u00f5e. que morto estar<br \/>\na, Mostra quanto Francisco o estimava Pois n\u00e3o quer v\u00e1 com culpa \u00e0 sepultura.<\/p>\n<p>Olha o outro defronte. em que a pintura Jugulado o exp\u00f5e: este formava Contra<br \/>\na Ordem mil queixas. que esperava Fossem dos Frades tr\u00e1gico jatura.<\/p>\n<p>Tu agora, Leitor, que a diferente Sorte u es nestes dois acontecida Toma<br \/>\na ti a que for mais conducente:<\/p>\n<p>O primeiro ama a Ordem e toma \u00e0 vida: O segundo a aborrece e o golpe sente.<br \/>\nAmbos pr\u00eamios t\u00eam por igual medida.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Quem h\u00e1 de gostar disto. \u00e9 vov\u00f3&#8230; ela tem muita devo\u00e7\u00e3o com S\u00e3o Francisco!<\/p>\n<p>&#8211; Olhe! ai tem Vossa Ex\u00aa um dos pontos mais bonitos de Paris.- \u00c9 desenho<br \/>\nde um pintor meu amigo; muito forte! &#8211; Essas ru\u00ednas, que aparecem ao fundo,<br \/>\ns\u00e3o das Tulherias.<\/p>\n<p>E passaram a conversar sobre a Guerra Franco-Prussiana, extinta pouco antes.<br \/>\nAna Rosa, sem desprender os olhos do \u00e1lbum, via e ouvia tudo, com muito empenho;<br \/>\nqueria explica\u00e7\u00f5es; n\u00e3o lhe escapava nada. Raimundo, debru\u00e7ado nas costas<br \/>\nda cadeira em que ela estava. tinha \u00e0s vezes de abaixar a cabe\u00e7a para afirmar<br \/>\no desenho e rogava involuntariamente o rosto nos cabelos da rapariga.<\/p>\n<p>Ao virar de uma folha deram de s\u00fabito com um cart\u00e3o fotogr\u00e1fico, que estava<br \/>\nsolto dentro do livro; um retrato de mulher sorrindo maliciosamente numa posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde teatro: com as suas saias de cambraia, curt\u00edssimas, formando-lhe uma nuvem<br \/>\nvaporosa em torno dos quadris; colo nu, pernas e bra\u00e7os de meia.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! articulou a mo\u00e7a, espantando-se como se o retrato fosse uma pessoa<br \/>\nestranha que viesse entremter-se no seu col\u00f3quio.<\/p>\n<p>E maquinalmente, desviou os olhos daquele rosto expressivo que lhe sorria<br \/>\ndo cart\u00e3o com um descaramento muito real e uma ironia atrevida. Declarou-a<br \/>\nlogo detest\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, certamente!&#8230; E uma dan\u00e7arina parisiense, explicou Raimundo, fingindo<br \/>\npouco caso. Tem algum merecimento art\u00edstico&#8230;<\/p>\n<p>E, tomando a fotografia com cuidado, para que Ana Rosa n\u00e3o percebesse a dedicat\u00f3ria<br \/>\nnas costas do retrato, colocou-a entre as folhas j\u00e1 vistas do \u00e1lbum.<\/p>\n<p>Ao terminarem, ele falou muito da Europa e, como a m\u00fasica viesse \u00e0 conversa,<br \/>\npediu a Ana Rosa que tocasse alguma coisa antes do almo\u00e7o. Passaram-se para<br \/>\na sala de visitas, e ela, com um grande acanhamento e um pouco de desafina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nexecutou v\u00e1rios trecho italianos.<\/p>\n<p>Benedito apareceu \u00e0 porta de corpo nu.<\/p>\n<p>&#8211; lai\u00e1! Sinh\u00f4 est\u00e1 chamando pra mesa.<\/p>\n<p>O almo\u00e7o correu pilheriado e alegre. O c\u00f4nego Diogo viera a convite de Manuel,<br \/>\nno prop\u00f3sito de sairem os dois mais o Raimundo. para dar uma vista d&#8217;olhos<br \/>\npelas casinhas de S\u00e3o Pantale\u00e3o.<\/p>\n<p>Servida a segunda mesa, os caixeiros subiram com grande ru\u00eddo de p\u00e9s.<\/p>\n<p>Por esse tempo aqueles tr\u00eas surgiam na rua, formando cada qual mais vivo<br \/>\ncontraste com os outros: Manuel no seu tipo pesado e chato de negociante,<br \/>\ncal\u00e7as de brim e palet\u00f3 de alpaca; o c\u00f4nego imponente na sua batina lustrosa,<br \/>\naristocrata, mostrando as meias de seda escarlate e o p\u00e9 mimoso, apertadinho<br \/>\nno sapato de polimento; Raimundo, todo europeu, elegante, com uma roupa de<br \/>\ncasimira leve adequada ao clima do Maranh\u00e3o, escandalizando o bairro comercial<br \/>\ncom o seu chap\u00e9u-de-sol coberto de linho claro e forrado de verde pela parte<br \/>\nde dentro. &#8220;Formavam dizia este \u00faltimo, chasqueando, sem tirar o charuto da<br \/>\nboca uma respeit\u00e1vel trindade filos\u00f3fica, na qual, ali, o Sr. C\u00f4nego representava<br \/>\na teologia, o Sr. Manuel a metaf\u00edsica, e ele, Raimundo, a filosofia pol\u00edtica;<br \/>\no que, aplicado \u00e0 pol\u00edtica, traduzia-se na prodigiosa alian\u00e7a dos tr\u00eas governos<br \/>\n&#8211; o do papado, o mon\u00e1rquico e o republicano!&#8221;<\/p>\n<p>Ana Rosa espreitava-os e seguia-os com a vista, curiosa, por entre as folhas<br \/>\nsemicerradas de uma janela.<\/p>\n<p>Por onde seguiam, Raimundo ia levantando a aten\u00e7\u00e3o a todos. As negrinhas<br \/>\ncomam ao interior das casas, chamando em gritos a sinh\u00e1-mo\u00e7a para ver passar<br \/>\n&#8220;Um mo\u00e7o bonito!&#8221; Na rua, os linguarudos paravam com ar est\u00fapido, para examin\u00e1-lo<br \/>\nbem; os olhares mediam-no grosseiramente da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, como em desafio;<br \/>\ninterrompiam-se as conversas dos grupos que ele encontrava na cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>&#8211; Quem e aquele sujeito, que ali vai de roupa clara e um chap\u00e9u de palha?<\/p>\n<p>&#8211; Or&#8217;essa! Pois ainda n\u00e3o sabes? respondia um Bento. \u00c9 o h\u00f3spede de Manuel<br \/>\nPescada!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! este \u00e9 que \u00e9 o tal doutor de Coimbra?<\/p>\n<p>&#8211; O cujo! afirmava o Bento.<\/p>\n<p>&#8211; Mas Brito, vem c\u00e1! disse o outro, com grande mist\u00e9rio, como quem faz uma<br \/>\nrevela\u00e7\u00e3o importante. &#8211; Ouvi dizer que \u00e9 mulato!&#8230;<\/p>\n<p>E a voz do Brito tinha o assombro de uma den\u00fancia de crime.<\/p>\n<p>&#8211; Que queres, meu Bento? S\u00e3o assim estes pomadas c\u00e1 da terra dos papagaios!<br \/>\nE ainda se zangam quando queremos limpar lhes a ra\u00e7a, sem cobrar nada por<br \/>\nisso!<\/p>\n<p>&#8211; Branquinho nacional! \u00c9 gentinha com quem eu embirro. \u00f3 Bento, como com<br \/>\no vento, disse Brito com uma troca e baldroca de VV e BB, que denunciava a<br \/>\nsua genealogia galega.<\/p>\n<p>Em outra parte, dizia-se:<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e9 Um cara nova? Que achado!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o Dr. Raimundo da Silva&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e9dico?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Formado em Direito.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00c9 advogado? Que faz ele? do que vive? o que possui?<\/p>\n<p>&#8211; Vem advogar a pr\u00f3pria causa por c\u00e1! Est\u00e1 tratando do que lhe pertence e<br \/>\ndo que lhe n\u00e3o pertence!<\/p>\n<p>&#8211; O que me conta voc\u00ea, homem?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Coisas da vida, meu amigo! Estes doutores pensam que aqui os casamentos<br \/>\nricos andam a ufa!&#8230;<\/p>\n<p>Em uma casa de fam\u00edlia:<\/p>\n<p>&#8211; Sabem? passou por a\u00ed o Raimundo!<\/p>\n<p>&#8211; Que Raimundo? perguntam logo em coro.<\/p>\n<p>&#8211; Aquele mulato, que diz que \u00e9 doutor e est\u00e1 \u00e0s sopas do Manuel Pescada!<\/p>\n<p>&#8211; Dizem que ele tem alguma coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pulha, minha rica, todos estes aventureiros, que arribam por c\u00e1, trazem<br \/>\no rei na barriga!<\/p>\n<p>&#8211; E o Pescada para que o quer em casa?<\/p>\n<p>Qual quer o qu\u00ea! O Manuel despachou-o bonito, porem o mitra deixou-se ficar!<\/p>\n<p>&#8211; Sempre h\u00e1 muita gente sem vergonha!&#8230;<\/p>\n<p>Em outras partes, juraram que Raimundo era filho do c\u00f4nego Diogo e que vinha<br \/>\ndos estudos; ainda noutras, viam em Raimundo uma carta do Partido Conservador;<br \/>\no redator do &#8220;Maritacaca&#8221; dizia a um correligion\u00e1rio: &#8220;Espere um pouco! deixe<br \/>\nchegarem as elei\u00e7\u00f5es e ent\u00e3o voc\u00ea ver\u00e1 este sujeito de cama e mesa com o presidente.<br \/>\nOlhe! eles h\u00e3o de dar-se perfeitamente, porque, tanto cara de safado tem um,<br \/>\ncomo o outro!&#8221;<\/p>\n<p>E assim ia Raimundo, sendo inconscientemente, objeto de mil coment\u00e1rios diversos<br \/>\ne est\u00fapidas conjeturas.<\/p>\n<p>\u00c0 noite estava fechado o neg\u00f3cio das casas, e decidido que, mel fizesse bom<br \/>\ntempo, iria ele ao Ros\u00e1rio com o Manuel, resolver o da fazenda.<\/p>\n<p>No dia imediato, Raimundo deu um passeio ao Alto da Carneira; no outro dia<br \/>\nfoi at\u00e9 S\u00e3o Tiago; no outro percorreu a pra\u00e7a do Mercado; foi tr\u00eas ou quatro<br \/>\nvezes ao Rem\u00e9dios; repetiu a visita aos pontos citados e &#8211; n\u00e3o tinha mais<br \/>\nonde ir. Meteu-se em casa, disposto a cultivar as rela\u00e7\u00f5es familiares do tio<br \/>\ne visit\u00e1-las de vez em quando, para se distrair; mas, posto lhe repetissem<br \/>\ncom insist\u00eancia que o Maranh\u00e3o em uma prov\u00edncia muito hospitaleira, como \u00e9<br \/>\nde fato, reparava despeitado, que, sempre e por toda a parte, o recebiam constrangidos.<br \/>\nN\u00e3o lhe chegava as m\u00e3os um s\u00f3 convite para baile ou para simples sarau; cortavam<br \/>\nmuita vez a conversa\u00e7\u00e3o, quando ele se aproximava; tinham escr\u00fapulo em falar<br \/>\nna sua presen\u00e7a de assuntos, ali\u00e1s, inocentes e comuns; enfim &#8211; isolavam-no,<br \/>\ne o infeliz, convencido de que era gratuitamente antipatizado por toda a prov\u00edncia,<br \/>\nsepultou-se no seu quarto e s\u00f3 sa\u00eda para fazer exerc\u00edcio, ir a uma reuni\u00e3o<br \/>\np\u00fablica, ou ent\u00e3o quando algum dos seus neg\u00f3cios o chamava \u00e0 rua. Todavia,<br \/>\numa circunst\u00e2ncia o intrigava, e era que, se os chefes de fam\u00edlia lhe fechavam<br \/>\na casa, as mo\u00e7as n\u00e3o lhe fechavam o cora\u00e7\u00e3o; em sociedade o repeliam todas,<br \/>\nisso e exato, mas em particular o chamavam para a alcova. Raimundo via-se<br \/>\nprovocado por v\u00e1rias damas, solteiras, casadas e vi\u00favas, cuja leviandade chegava<br \/>\nao ponto de mandarem-lhe flores e recados, que ele fingia n\u00e3o receber, porque,<br \/>\nno seu car\u00e1ter educado, achava a coisa rid\u00edcula e tola. Muitos e muitos dias<br \/>\nneo se despregava do quarto, sen\u00e3o para comer ou, o que sucedia com freq\u00fc\u00eancia,<br \/>\npara ir \u00e0 varanda dar dois dedos de palestra \u00e0 prima.<\/p>\n<p>Estes cavacos faziam-se pelo alto dia, a horas de mais calor, e, muita vez,<br \/>\ntamb\u00e9m a noite, das sete \u00e0s nove, durante o ser\u00e3o. O rapaz, sempre respeitoso,<br \/>\nassentava-se, defronte da maquina em que Ana Rosa costa, e com um livro entre<br \/>\nos dedos ou a rabiscar algum desenho, conversavam tranq\u00fcilamente, com grandes<br \/>\nintervalos. As vezes dava lhe para pedir explica\u00e7\u00f5es sobre a costura; queria<br \/>\nsaber, com um interesse pueril e carinhoso, o modo de arrematar as bainhas,<br \/>\nde tirar os alinhavos; outras vezes, distra\u00eddos, falavam de religi\u00e3o, pol\u00edtica,<br \/>\nliteratura, e Raimundo, de bom humor, concordava em geral com tudo o que ela<br \/>\nentendia, mas, quando lhe dava na cabe\u00e7a, discordava, de manhoso, para que<br \/>\na menina se exaltasse, discorresse sobre o ponto, e ralhasse com ele, procurando,<br \/>\nmuito seria, cham\u00e1-lo a verdade religiosa, dizendo-lhe &#8220;que n\u00e3o fosse ma\u00e7om<br \/>\ne respeitasse a Deus!&#8221;<\/p>\n<p>Raimundo, que nunca, depois de homem, vivera na intimidade da fam\u00edlia, dedicava-se<br \/>\ncom aquilo. D. Maria B\u00e1rbara, porem, vinha quase sempre quebrar com o seu<br \/>\nmau g\u00eanio aquele remanso de felicidade. Em cada vez mais insuport\u00e1vel o diabo<br \/>\nda velha! berrava horas inteiras tinha ataques de c\u00f3lera; n\u00e3o podia passar<br \/>\nmuito tempo sem dar pancadas nos escravos. O rapaz, por diversas vezes, enterrara<br \/>\no chap\u00e9u na cabe\u00e7a e sa\u00edra protestando mudar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Que carrasco! dizia a descer a quatro e quatro os degraus. Da bordoada<br \/>\npor gosto! Diverte-se em fazer cantar o relho e a palmat\u00f3ria!<\/p>\n<p>E aquele castigo b\u00e1rbaro e covarde revoltava-o profundamente, punha-o triste,<br \/>\ndava-lhe \u00edmpetos de fazer um desprop\u00f3sito na casa alheia. &#8220;Est\u00fapidos!&#8221; exclamava<br \/>\na s\u00f3s, indignado. Mas, como a mudan\u00e7a n\u00e3o fosse t\u00e3o f\u00e1cil, contentava-se ele<br \/>\ncom o passar uma parte do dia no bilhar do \u00fanico restaurante da prov\u00edncia,<br \/>\nn\u00e3o sem pena de abandonar as inocentes palestras da varanda.<\/p>\n<p>Em breve criou fama de jogador e b\u00eabado.<\/p>\n<p>O fato era que, por tudo isto, lhe minava o esp\u00edrito uma surda repugn\u00e2ncia<br \/>\npela prov\u00edncia e contra aquela maldita velha. Quando o estalo do chicote ou<br \/>\ndos bolos rebentava no quintal ou na cozinha, Raimundo repelia a pena com<br \/>\nque trabalhava no quarto.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 est\u00e1 o diabo! Nem me deixa fazer nada! arre!<\/p>\n<p>E sa\u00eda furioso para o bilhar.<\/p>\n<p>Ora, Ana Rosa, era tamb\u00e9m contra o castigo, e o procedimento da av\u00f3 foi um<br \/>\npretexto para a sua primeira solidariedade de pontos de vista com o primo;<br \/>\nos dois conversavam em voz baixa contra Maria B\u00e1rbara, e esta conspira\u00e7\u00e3o<br \/>\naproximava-os mais um do outro, unia-os. Mas um belo dia, em que o Benedito<br \/>\nlevou uma mela mais estrada, Raimundo chegou-se a Manuel e falou-lhe resolutamente<br \/>\nem mudan\u00e7a. &#8220;Que sabia estava incomodando e n\u00e3o queria abusar. O Sr. Manuel<br \/>\nque tivesse paci\u00eancia e lhe arranjasse uma casinha mobiliada e um criado&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; O que, homem!&#8230; protestou logo Manuel, a quem n\u00e3o convinha a mudan\u00e7a do<br \/>\nseu h\u00f3spede antes de realizada a compra da fazenda. O doutor pensa que est\u00e1<br \/>\nna Europa ou no Rio?&#8230; Pois ent\u00e3o casinhas mobiliadas e com criado, isto<br \/>\n\u00e9 l\u00e1 coisa que se encontre por c\u00e1?&#8230; Ora deixe-se disso!<\/p>\n<p>E, como o sobrinho insistisse, continuou declarando que semelhante exig\u00eancia,<br \/>\nsobre ser quase inexeq\u00fc\u00edvel acarretava para ele, Manuel, certa odiosidade.<br \/>\n&#8220;Que n\u00e3o diriam por ai?&#8230; Diriam que Raimundo fora t\u00e3o maltratado pelos parentes<br \/>\nde seu pai que preferira sepultar-se entre quatro paredes a ter de atur\u00e1-los!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor! concluiu ele, afagando-lhe o ombro com uma palmada, deixe-se<br \/>\nficar c\u00e1 em casa, pelo menos ate o ver\u00e3o &#8211; em agosto, iremos juntos ver a<br \/>\nfazenda &#8211; e, como por esse tempo j\u00e1 todos os seus neg\u00f3cios estar\u00e3o liquidados.<br \/>\nou o senhor volta para a Corte, ou se instala aqui mesmo na prov\u00edncia, por\u00e9m<br \/>\ncom dec\u00eancia! N\u00e3o lhe parece isto acertado? Para que fazer as coisas mal feitas?&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo consentiu afinal, e, desde ent\u00e3o, esperava o m\u00eas de agosto com uma<br \/>\nimpaci\u00eancia de faminto. N\u00e3o era tanto a vontade de fugir a Maria B\u00e1rbara o<br \/>\nque lhe fazia desejar com tamanha febre aquela viagem ao Ros\u00e1rio, mas o empenho<br \/>\na sede velha de tornar a ver o lugar, em que lhe diziam, t\u00e3o secamente, ter<br \/>\nele nascido e vivido os seus primeiros anos. &#8220;E da\u00ed, quem sabe l\u00e1 se n\u00e3o iria<br \/>\nencontrar a decifra\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio da sua vida?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Esperou, e na espera entretinha-se todos os dias com Ana Rosa, tanto e com<br \/>\ntal satisfa\u00e7\u00e3o, que ainda nos princ\u00edpios de junho, confessava j\u00e1 n\u00e3o lamentar<br \/>\na dificuldade da mudan\u00e7a. Ao contrario, pressentia at\u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o podia realiz\u00e1-la,<br \/>\nsem sofrer pela falta daquele conchegozinho de fam\u00edlia sem curtir grandes<br \/>\nsaudades por aquela irm\u00e3, sua amiga, franca e delicada, que lhe dera a provar<br \/>\npela primeira vez o suav\u00edssimo prazer da conviv\u00eancia em fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Efetivamente, a filha de Manuel j\u00e1 era muito chegada a Raimundo&#8230;<\/p>\n<p>O tratamento de excel\u00eancia desaparecera como in\u00fatil entre parentes que se<br \/>\nestimam; os sustos, os sobressaltas, as desconfian\u00e7as, que dantes a acometiam<br \/>\nna presen\u00e7a daquele mo\u00e7o austero e na apar\u00eancia t\u00e3o pouco<\/p>\n<p>comunicativo, foram substitu\u00eddos, gra\u00e7as \u00e0s provid\u00eancias do negociante sobre<br \/>\nMaria B\u00e1rbara, por momentos agrad\u00e1veis, cheios de do\u00e7ura, em que o primo,<br \/>\nora contava com gra\u00e7a as perip\u00e9cias de uma jornada; ora desenhava a l\u00e1pis<br \/>\na caricatura dos conhecidos da casa; ora solfejava alguma melodia alem\u00e3 ou<br \/>\nalgum romance italiano; ou, quando menos, lia versas e contos escolhidos.<\/p>\n<p>Ana Rosa sentia em tudo isso um grande encanto, mas incompleto: Raimundo,<br \/>\npelos modos, parecia que lhe n\u00e3o tributava mais do que respeitosa amizade<br \/>\nde irm\u00e3o; e isto, para ela, n\u00e3o bastava. Raro era o dia em que a maca sob<br \/>\nqualquer pretexto, n\u00e3o lhe fazia uma car\u00edcia disfar\u00e7ada; dizia por exemplo:<br \/>\n&#8216;Esta varanda e muito fresca&#8230; N\u00e3o acha primo? Olhe, veja como tenho as m\u00e3os<br \/>\nfrias&#8230;&#8221; E entregava-lhe as m\u00e3os, que ele tenteava frouxamente, com medo<br \/>\nde ser indiscreto. Outras vezes fingia reparar que o rapaz tinha os dedos<br \/>\nmuito longos e vinha-lhe \u00e0 fantasia medi-los com os seus. ou queixava-se de<br \/>\namea\u00e7as de febre e pedia-lhe que lhe tomasse o pulso. Mas, a todas estas dissimula\u00e7\u00f5es<br \/>\nda ternura. a todas estas t\u00edmidas hipocrisias do amor, sujeitava-se ele frio,<br \/>\nindiferente e por vezes distra\u00eddo.<\/p>\n<p>Este pouco caso desesperava-a; do\u00eda-lhe aquela falta de entusiasmo, aquele<br \/>\nnenhum carinho. por ela, que tanto se desvelava em merec\u00ea-lo. Cercos dias<br \/>\na pobre moca aparecia sem querer dar lhe palavra e com os olhos vermelhos<br \/>\ns e pisados; Raimundo atribuia tudo a qualquer indisposi\u00e7\u00e3o nervosa e procurava<br \/>\ndistra\u00ed-la por meio da conversa, da m\u00fasica. sem nunca lhe falar do aspecto<br \/>\ntriste e abatido que lhe notava; tinha receio de impression\u00e1-la e s\u00f3 conseguia<br \/>\nafligi-la mais, porque Ana Rosa, quando, ao levantar-se da rede, se percebia<br \/>\np\u00e1lida e triste, esfor\u00e7ava-se por conservar intacta na fisionomia a express\u00e3o<br \/>\nda sua m\u00e1goa, na esperan\u00e7a de comov\u00ea-lo; de ser interrogada por ele, de ter<br \/>\nenfim uma ocasi\u00e3o de confessar-lhe o seu amor. O ar friamente atencioso de<br \/>\nRaimundo, as suas perguntas calmas, cristalizadas pela delicadeza, com que<br \/>\nele se informava da sa\u00fade da prima, a imperturbabilidade m\u00e9dica com que falava<br \/>\ndaquelas tristezas, daquela ins\u00f4nia e daquela falta de apetite, a formal condescend\u00eancia<br \/>\nque afetava, como por obs\u00e9quio a uma pobre convalescente que se n\u00e3o deve contrariar,<br \/>\nenchiam-na de raiva e despeda\u00e7avam-lhe a esperan\u00e7a de ser correspondida.<\/p>\n<p>Uma ocasi\u00e3o, em que ela se lhe apresentou muito mais desfeita e p\u00e1lida, Raimundo<br \/>\nchamou a aten\u00e7\u00e3o de Manuel para a sa\u00fade da filha:<\/p>\n<p>&#8211; Tenha cuidado! disse-lhe Aquela idade \u00e9 muito perigosa nas mulheres solteiras&#8230;<br \/>\nTalvez fosse acertado uma viagem&#8230; Em todo o caso, n\u00e3o h\u00e1 efeito sem causa..<br \/>\nE bom consultar o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Manuel co\u00e7ou a cabe\u00e7a, em sil\u00eancio; a verdadeira causa j\u00e1 o Jauffret lhe<br \/>\nhavia declarado; mas. como Raimundo voltasse \u00e0 quest\u00e3o e pintasse o caso muito<br \/>\nfeio, insistindo em que era preciso fazer alguma coisa, teve o bom portugu\u00eas,<br \/>\nnessa mesma tarde, uma confer\u00eancia com o compadre e com o seu caixeiro Dias<br \/>\na quem prometeu sociedade comercial, na hip\u00f3tese de que se efetuasse para<br \/>\no seguinte m\u00eas, como ficava resolvido, o casamento dele com Ana Rosa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas a D. Anica levar\u00e1 em gosto?&#8230; perguntou o Dias, abaixando os olhos,<br \/>\ncom o melhor sorriso hip\u00f3crita do seu repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente&#8230; respondeu Manuel. porque da \u00faltima vez que lhe toquei nisso,<br \/>\nela deu-me esperan\u00e7a&#8230; agora \u00e9 prov\u00e1vel que d\u00ea certeza!<\/p>\n<p>&#8211; De n\u00e3o casar talvez! observou o c\u00f4nego.<\/p>\n<p>&#8211; Como n\u00e3o casar?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como? Eu lho digo&#8230;<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego apresentou as suas raz\u00f5es, fez bons argumentos, estabeleceu premissas,<br \/>\ntirou conclus\u00f5es, citou m\u00e1ximas latinas, e declarou que aquela hospedagem<br \/>\ndo cabrocha, no seio da fam\u00edlia, nunca fora do seu gosto; e que, para se tratar<br \/>\ndo casamento de Ana Rosa, a primeira coisa a fazer era afast\u00e1-lo da casa.<\/p>\n<p>Mas o negociante, que colocava os seus interesses pecuni\u00e1rios acima de tudo,<br \/>\nabanou as orelhas \u00e0s palavras do compadre, e descreveu a atitude respeitosa<br \/>\ne desinteressada de Raimundo ao lado de Ana Rosa; falou no empenho com que<br \/>\no sobrinho quis mudar-se; no seu honor pela prov\u00edncia; no seu entusiasmo pela<br \/>\nCorte; e lembrou que fora ele pr\u00f3prio at\u00e9, coitado! quem provocara aquela<br \/>\nconfer\u00eancia dos tr\u00eas. Terminou dizendo que, por esse lado, nada temia. Al\u00e9m<br \/>\nde que, depositava bastante confian\u00e7a no bom senso de sua filha. &#8220;N\u00e3o! por<br \/>\nai podiam estar descansados! N\u00e3o havia perigo a recear!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Veremos&#8230; veremos&#8230; Enquanto n\u00e3o assistir ao casamento deste aqui com<br \/>\na minha afilhada, estou no que disse!&#8230; Cui fidas vide!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego assoou-se com estrondo.<\/p>\n<p>Nessa mesma noite, Manuel, aproveitando a aus\u00eancia do h\u00f3spede, levou a filha<br \/>\nao quarto de Maria B\u00e1rbara.. A velha embalava-se na rede, &#8220;bebendo&#8221; o seu<br \/>\nfumo de corda no cachimbo e fitando um velho orat\u00f3rio de<\/p>\n<p>pau-santo. Ana Rosa, intrigada com a situa\u00e7\u00e3o, encostou-se a uma c\u00f4moda,<br \/>\ne o pai, depois de discorrer sobre v\u00e1rias coisas indiferentes, disse que,<br \/>\nno dia seguinte, viriam as amostras da casa do Vilarinho, para a noiva escolher<br \/>\nas fazendas do seu enxoval!<\/p>\n<p>&#8211; Quem vai casar?&#8230; perguntou a menina, num alvoro\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Faze-te desentendida, minha sonsa!&#8230; Ora qual de n\u00f3s aqui tem mais cara<br \/>\nde noivo &#8211; eu ou tua av\u00f3?&#8230;<\/p>\n<p>E Manuel fez uma festinha no queixo da filha.<\/p>\n<p>&#8211; Casar! eu? mas com quem, papai?<\/p>\n<p>E Ana Rosa sorriu, porque calculou que Raimundo a pedira em casamento.<\/p>\n<p>&#8211; Ora com quem havia de ser, minha disfar\u00e7ada?<\/p>\n<p>E desta vez foi Manuel que riu, iludido pelo bom acolhimento que a filha<br \/>\ndera \u00e0 noticia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei, neo senhor&#8230; respondeu ela, com ar de quem sabe perfeitamente.<br \/>\nCom quem \u00e9?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Anda l\u00e1, sonsinha? N\u00e3o sabes outra coisa!&#8230;<\/p>\n<p>E, enquanto Ana Rosa parecia muito ocupada em raspar com a unha uns pingos<br \/>\nde cera velha, espalhados pela madeira da c\u00f4moda, continuou o negociante:<\/p>\n<p>&#8211; Mas por que n\u00e3o me falaste com franqueza h\u00e1 mais tempo, sua caprichosa,<br \/>\nfazendo o pobre rapaz supor que o neo querias?&#8230;<\/p>\n<p>Ana Rosa ficou seria.<\/p>\n<p>O pai acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; A faz\u00ea-lo, coitado! andar por ai t\u00e3o derreado, que at\u00e9 metia d\u00f3!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como?!<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o n\u00e3o sabes como andava o nosso Dias?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O Dias?! interrogou Ana Rosa empalidecendo.<\/p>\n<p>E fez-se muda, a cismar; s\u00f3 despertou, com estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Ora senhores!&#8230; Tem gra\u00e7a!<\/p>\n<p>-Tem gra\u00e7a, n\u00e3o senhora! vossemec\u00ea disse que o aceitava para marido! Que<br \/>\ndiabo quer dizer agora esta mudan\u00e7a?&#8230; Ah, que temos mouros na costa! ..<br \/>\nBem me dizia o compadre!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei o que lhe disse o padrinho, mas o que eu lhe digo, papai, \u00e9 que<br \/>\ndefinitivamente n\u00e3o me casarei com o Dias. Nunca, percebe?<\/p>\n<p>&#8211; Mas, tu, se j\u00e1 n\u00e3o o queres, e porque tens outro de olho!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei n\u00e3o senhor&#8230;<\/p>\n<p>E abaixou os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! v\u00ea l\u00e1! Isto j\u00e1 me vai cheirando mal!&#8230; Ora dizes uma coisa; ora dizes<br \/>\noutra!.. O m\u00eas passado respondeste-me na varanda: &#8220;Pode ser&#8221; e agora, \u00e0s duas<br \/>\npor tr\u00eas, dizes que n\u00e3o! Sabes que s\u00f3 quero a tua felicidade&#8230; n\u00e3o te contrario..<br \/>\nmas tu tamb\u00e9m n\u00e3o deves abusar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, gentes, o que foi que eu fiz?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o estou dizendo que fizesses alguma coisa!&#8230; S\u00f3 te aviso que prestes<br \/>\ntoda a aten\u00e7\u00e3o na tua escolha de noivo!.. Nem quero imaginar que seda capaz<br \/>\nde escolher uma pessoa indigna de ti!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, como, papai?&#8230; Fale claro!<\/p>\n<p>&#8211; Isto vai a quem toca! N\u00e3o sei se me entendes!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, seu Manuel! exclamou Maria B\u00e1rbara, levantando-se e pousando no ch\u00e3o<br \/>\no enorme cachimbo de taquari do Par\u00e1 Voc\u00ea \u00e0s vezes tem lembran\u00e7as que parecem<br \/>\nesquecimento! Pois ent\u00e3o, uma menina, que eu eduquei, ia olhar&#8230; &#8211; E gritou<br \/>\ncom mais forca &#8211; para quem, seu Manuel!?<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vejam se n\u00e3o \u00e9 mesmo vontade de provocar uma criatura!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem! Eu n\u00e3o digo isto para ofender!&#8230; desculpou-se o negociante.<br \/>\nMas \u00e9 que temos c\u00e1 um rapaz bem-aparecido, que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um cabra! berrou a sogra. E era muito bem feito que acontecesse qualquer<br \/>\ncoisa, para voc\u00ea ter mais cuidado no futuro com as suas hospedagens! Tamb\u00e9m<br \/>\ns\u00f3 nessa cabe\u00e7a entrava a maluqueira de andar metendo em casa crioulos cheios<br \/>\nde fuma\u00e7as! Hoje todos eles s\u00e3o assim! S\u00facia de apistolados! D\u00e1-se-lhes o<br \/>\np\u00e9 e tomam a m\u00e3o! Corja! Julgue-se mas \u00e9 muito feliz em n\u00e3o lhe ter recebido<br \/>\no coice! por\u00e9m fique voc\u00ea sabendo que s\u00f3 a mim o deve!-sei a educa\u00e7\u00e3o que<br \/>\ndei a minha neta!&#8230; por esta respondo eu!.. E, quanto ao cabra&#8230; \u00e9 tratar<br \/>\nde despach\u00e1-lo j\u00e1, e j\u00e1, se n\u00e3o quiser ao depois ter de pegar-se com trapos<br \/>\nquentes!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, pois bem, senhora! Amanh\u00e3 mesmo tratarei disso! Oh!<\/p>\n<p>E Manuel pensou logo em aconselhar-se com o c\u00f4nego.<\/p>\n<p>Ana Rosa continha o choro.<\/p>\n<p>&#8211; Vou para meu quarto! disse ela, com mau modo.<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7a!&#8230; op\u00f4s-lhe o pai, detendo-a. A senhora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o diga asneiras!&#8230; atalhou a velha, empurrando a neta para fora. Vai-te!<br \/>\ne reza \u00e0 Virgem Sant\u00edssima para que te proteja e te d\u00ea ju\u00edzo!<\/p>\n<p>Ana Rosa fechou-se, no seu quarto, rezou muito, n\u00e3o quis tomar ch\u00e1, e solu\u00e7ou<br \/>\nat\u00e9 \u00e0s quatro horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>No dia seguinte, Manuel, depois de entender-se com o compadre, preveniu a<br \/>\nRaimundo que se preparasse para ir ao Ros\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Estou \u00e0s suas ordens, mas o senhor tinha dito que ir\u00edamos no m\u00eas de agosto.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 certo! porem o tempo est\u00e1 seco e para a semana temos lua cheia. Podemos<br \/>\nir no s\u00e1bado Conv\u00e9m-lhe?<\/p>\n<p>&#8211; Como quiser. estou pronto.<\/p>\n<p>E, da\u00ed a pouco, Raimundo foi ao quarto verificar se os seus pertences de<br \/>\nviagens, a borracha de aguardente, as botas de montar, as esporas e o chicote,<br \/>\nachavam-se em bom estado de servir. Estranhou encontrar tudo isso mexido e<br \/>\nremexido de muito fresco, como se algu\u00e9m houvera se servido daqueles objetos<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o era o primeiro reparo que fazia desse g\u00eanero. por outras vezes quis<br \/>\nparecer que algu\u00e9m curioso de mau gosto se divertia a remexer-lhe os pap\u00e9is<br \/>\ne a roupa &#8220;Talvez bisbilhotice do moleque!&#8221;<\/p>\n<p>Mas, no dia seguinte, por ocasi\u00e3o de deitar-se achou sobre o travesseiro<br \/>\num atracador de tartaruga preso a um la\u00e7o de veludo preto. Reconheceu logo<br \/>\nestes objetos; pertenciam a Ana Rosa. &#8220;Mas, como diabo vieram eles imoralmente<br \/>\nparar ali, na sua cama?&#8230; Havia nisso, com certeza, um mist\u00e9rio rid\u00edculo,<br \/>\nque convinha por a limpo!&#8230;&#8221; Lembrou-se ent\u00e3o de ter ficado uma vez muito<br \/>\nintrigado por descobrir, na escova e no pente de seu uso, fios compridos de<br \/>\ncabelo, cabelo de mulher, sem d\u00favida, e mulher branca.<\/p>\n<p>J\u00e1 ma\u00e7ado, resolveu passar busca minuciosa em todo o quarto e encontrou os<br \/>\nseguintes corpos de delito: dois ganchos de pentear, um jasmim seco, um bot\u00e3o<br \/>\nde vestido e tr\u00eas p\u00e9talas de rosa. &#8220;Ora. estes objetos lhe pertenciam tanto<br \/>\nquanto o pentinho de tartaruga e o la\u00e7o de veludo.. Quem fazia a limpeza e<br \/>\narrumava o quarto era o Benedito; este tamb\u00e9m n\u00e3o usava la\u00e7os nem ganchos<br \/>\nna cabe\u00e7a&#8230; Logo, como havia pensado, algu\u00e9m se divertia em vir, na sua aus\u00eancia,<br \/>\nrevistar o que era dele, e esse algu\u00e9m s\u00f3 poderia ser Ana Rosa!&#8230; Mas, que<br \/>\ndiabo vinha ela fazer ali?&#8230; Como adivinhar o fim daquelas visitas extravagantes?&#8230;<br \/>\nSeria simples curiosidade ou andaria naquilo a base de alguma intriga maranhense,<br \/>\ntramada contra o morador do quarto, ou talvez, quem sabe? contra a pobre menina?&#8230;<br \/>\nFosse o que fosse, em todo o caso, era urgente p\u00f4r cobro a semelhante patacoada!&#8221;<\/p>\n<p>Desde esse dia, Raimundo prestou aten\u00e7\u00e3o a todos os objetos que deixava no<br \/>\nquarto; marcou o ponto em que ficava o \u00e1lbum, o despertador um livro, o estojo<br \/>\nde barba ou qualquer coisa, que o moleque n\u00e3o precisasse tirar do lugar para<br \/>\nfazer a limpeza. E com estas experi\u00eancias, cada vez mais se convencia das<br \/>\nvisitas misteriosas; os corpos de delito reproduziam-se escandalosamente;<br \/>\numa vez encontrou toda riscada a unha a cara da dan\u00e7arina, cuja fotografia<br \/>\nele, com tanto cuidado, escondera de sua prima, porque nas costas do cart\u00e3o,<br \/>\nhavia a seguinte dedicat\u00f3ria: A mon br\u00e9sillen bien-aim\u00e9, Raymond.<\/p>\n<p>Que d\u00favida! Todas as suspeitas recaiam sobre a bela filha do dono da casa!<br \/>\nA gra\u00e7a, porem. \u00e9 que Raimundo, apesar de n\u00e3o agradar \u00e0 sua \u00edndole de homem<br \/>\ns\u00e9rio e franco tudo que cheirasse a subterf\u00fagio e ilegalidade, sentia no entanto<br \/>\ncerto gosto vaidoso em preocupar tanto a imagina\u00e7\u00e3o de uma mulher bonita;<br \/>\nlisonjeava-lhe aquele interesse, aquela esp\u00e9cie de revela\u00e7\u00e3o t\u00edmida e discreta;<br \/>\ngostou de perceber que seu retrato era de todos os objetos, o mais violado,<br \/>\ne, como bom policia chegou a descobrir-lhe manchas de saliva que<\/p>\n<p>significavam becos. Mas ou fosse levado pela curiosidade ou fosse na desconfian\u00e7a<br \/>\nde ser tudo aquilo obra de algum patife, ou fosse, enfim, porque o fato repugnasse<br \/>\nao seu car\u00e1ter honesto verdade \u00e9 que deliberou aproveitar a primeira oportunidade<br \/>\npara acabar com aquela mistifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Poucos dias depois, saindo de casa e demorando-se defronte da porta a conversar<br \/>\ncom algu\u00e9m, viu da rua fecharem cuidadosamente as r\u00f3tulas do seu quarto. N\u00e3o<br \/>\nhesitou &#8211; subiu p\u00e9 ante p\u00e9, atravessou a varanda deserta, e foi direito ao<br \/>\nseu aposento.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a> VI<\/h2>\n<p>Ana Rosa, com efeito, de algum tempo a essa parte, fazia visitas ao quarto<br \/>\nde Raimundo, durante a aus\u00eancia morador.<\/p>\n<p>Entrava disfar\u00e7adarnente, fechava as r\u00f3tulas da janela, e como sabia que<br \/>\no morador n\u00e3o aparecia \u00e0quela hora, come\u00e7ava a bulir nos livros, a remexer<br \/>\nnas gavetas abertas, a experimentar as fechadas a ler os cart\u00f5es de visita<br \/>\ne todos os pedacinhos de papel escrito. que lhe caiam nas m\u00e3os. Sempre que<br \/>\nencontrava um len\u00e7o j\u00e1 servido no ch\u00e3o ou atirado sobre a c\u00f4moda apoderava-se<br \/>\ndele e cheirava-o sofregamente, como fazia tamb\u00e9m com os chap\u00e9us de cabe\u00e7a<br \/>\ne com a travesseirinha da cama.<\/p>\n<p>Estas bisbilhotices deixavam-na ca\u00edda numa enerva\u00e7\u00e3o voluptuosa e doentia,<br \/>\nque lhe punha no corpo arrepios de febre. Uma vez encontrou uma banda de luva<br \/>\ncor de cinza, esquecida atr\u00e1s de uma das mulas cal\u00e7ou-a logo, com avidez e<br \/>\nfacilidade, e p\u00f4s-se a fix\u00e1-la muito a interrog\u00e1-la com os olhos, abrir e<br \/>\nfechar a m\u00e3o distra\u00edda, acompanhando as rugas da pelica. E esta luva arrancava-lhe<br \/>\nconjeturas sobre o passado de Raimundo; fazia-lhe imaginar os bailes ruidosos<br \/>\nde Paris as festas, os passeios, as esta\u00e7\u00f5es dos caminhos de ferro as manh\u00e3s<br \/>\nfrescas em viagem de mar, as ceias nos hot\u00e9is, as corridas a cavalo e toda<br \/>\numa vida de movimento, de gargalhadas de almo\u00e7os com mulheres uma exist\u00eancia<br \/>\nque se desenrolava defronte da sua imagina\u00e7\u00e3o, como um panorama feito com<br \/>\nos desenhos do \u00e1lbum de Raimundo e em cujo primeiro plano atravessava este,<br \/>\nrindo fumando bra\u00e7o dado \u00e0 dan\u00e7arina da fotografia, que lhe dizia, cheia de<br \/>\num amor teatral: &#8220;Raymond! mon bien-aim\u00e9!&#8221;<\/p>\n<p>Foi num desses sonhos que Ana Rosa, irrefletidamente, arranhou o rosto do<br \/>\nretrato, com a mesma raiva como que no col\u00e9gio fazia outro tanto aos judeus<br \/>\nmal desenhados do seu comp\u00eandio de doutrina crist\u00e3.<\/p>\n<p>Aquelas visitas eram agora toda a sua preocupa\u00e7\u00e3o; os seus melhores instantes<br \/>\neram os que passava ali, entregue de corpo e alma \u00e0quele segredo; o resto<br \/>\ndo tempo servia apenas para esperar a hora do prazer querido; e quando, por<br \/>\nqualquer motivo, n\u00e3o podia realiz\u00e1-lo ficava insuportavelmente fren\u00e9tica e<br \/>\nnervosa. At\u00e9 j\u00e1 nem queria saber das amigas; tomara-se de birra pela Eufrasinha<br \/>\ne n\u00e3o pagava uma s\u00f3 das visitas que lhe faziam. E nem por sombras lhe falassem<br \/>\nde festas e divertimentos &#8211; seu \u00fanico divertimento, a sua \u00fanica festa era<br \/>\nestar l\u00e1 naquele quarto proibido, sozinha, \u00e0 vontade, conversando intimamente<br \/>\ncom os objetos de Raimundo, lendo os seus pap\u00e9is, mexendo em tudo a palpitar<br \/>\nnum gosto novo e desconhecido secreto, cheio de sobressaltos, quase criminoso;<br \/>\nsaboreando aos poucos, em goles compassados, como um vinho bom, gozos extremamente<br \/>\nfortes, violentos, sentindo-se embriagar, consumir, absorver por aquela loucura<br \/>\nde perseguir um nada, uma esperan\u00e7a que lhe fugia, que a atormentava por\u00e9m<br \/>\nmelhor e mais deliciosa, para ela, que os melhores e mais brilhantes prazeres<br \/>\nda sociedade.<\/p>\n<p>No dia em que Raimundo subira, p\u00e9 ante p\u00e9, ao seu quarto, Ana Rosa tinha<br \/>\nentrado havia pouco e, como de costume, fechara-se por dentro. O ambiente<br \/>\nfizera-se de um tom morno e duvidoso, em que havia mescla de claridade e sombra.<br \/>\nEla, depois de varrer o olhar em torno de si, assentara-se na cama e tomara,<br \/>\ndistraidamente de uma cadeira ao lado, no lugar do velador, um tratado de<br \/>\nfisiologia que o rapaz estivera a ler na v\u00e9spera, antes de dormir, e que havia<br \/>\ndeixado junto ao casti\u00e7al, marcado pela caixa de f\u00f3sforos.<\/p>\n<p>Ao abrir o livro, Ana Rosa soltou logo uma envergonhada exclama\u00e7\u00e3o: dera<br \/>\ncom um desenho, em que o autor da obra, com a fria sem cerim\u00f4nia da ci\u00eancia,<br \/>\nexpunha aos seus leitores uma mulher no momento de dar \u00e0 luz o filho. A fidelidade,<br \/>\nindecorosa e s\u00e9ria, da estampa, produziu no \u00e2nimo da mo\u00e7a uma impress\u00e3o estranha<br \/>\nde respeito e de vexame. Sem compreender cabalmente o que tinha diante dos<br \/>\nolhos, fixava a p\u00e1gina, voltando-a de um para outro lado, \u00e0 procura de entender<br \/>\nmelhor. Virou algumas folhas e, com o pouco que sabia do franc\u00eas, tentou apanhar<br \/>\no sentindo do que vinha escrito sobre os v\u00e1rios fen\u00f4menos da gesta\u00e7\u00e3o e do<br \/>\nparto; ao chegar, porem. a uma das gravuras, fechou o livro com \u00edmpeto e olhou<br \/>\nem torno, como para certificar-se de que estava completamente s\u00f3. Tinha visto<br \/>\nde surpresa um espet\u00e1culo, que os seus sentindo ainda mal formulavam por instinto-o<br \/>\nato da fecunda\u00e7\u00e3o. Fizera-se cor de rom\u00e3 e repelira o indiscreto volume com<br \/>\num ligeiro e espont\u00e2neo movimento do seu pudor, mas, pouco depois, pensando<br \/>\nbem no caso, convencendo-se de que tudo aquilo n\u00e3o era feito por mal\u00edcia,<br \/>\nmas, ao contr\u00e1rio, para estudo, muniu-se de coragem e afrontou a p\u00e1gina.<\/p>\n<p>Aquele desenho abriu-se, defronte dela, como um postigo. para um mundo vasto<br \/>\ne nebuloso, um mundo desconhecido, povoado de dores, mas ao mesmo tempo irresist\u00edvel;<br \/>\nestranho para\u00edso de l\u00e1grimas, que simultaneamente a intimidava e atraia. Observou-o<br \/>\ncom profunda aten\u00e7\u00e3o, enquanto dentro dela se travava a batalha dos desejos.<br \/>\nTodo o ser se lhe revolucionou; o sangue gritava-lhe, reclamando o p\u00e3o do<br \/>\namor; seu organismo inteiro protestava irritado contra a ociosidade. E ela<br \/>\nent\u00e3o sentiu bem n\u00edtida a responsabilidade dos seus deveres de mulher perante<br \/>\na natureza, compreendeu o seu destino de ternura e de sacrif\u00edcios, percebeu<br \/>\nque viera ao mundo para ser m\u00e3e; concluiu que a pr\u00f3pria vida lhe impunha,<br \/>\ncomo lei indefect\u00edvel, a miss\u00e3o sagrada de procriar muitos filhos, s\u00e3os, bonitos,<br \/>\nalimentados com seu leite, que seria bom e abundante, e que faria deles um<br \/>\npunhado de homens inteligentes e fortes.<\/p>\n<p>E tinha j\u00e1 defronte dos seus olhos os seus queridos filhinhos, nus, muito<br \/>\ntenros e roli\u00e7os, com a moleira descascando, os pezinhos vermelhos, narizinhos<br \/>\nquase impercept\u00edveis, pequeninas bocas desdentadas, a lhe chuparem os peitos,<br \/>\ncom a engra\u00e7ada sofreguid\u00e3o irracional das criancinhas. E, a pensar neles,<br \/>\nenlanguescia toda, -numa postura indolente e comovida &#8211; os bra\u00e7os estendidos<br \/>\nsobre as coxas, a cabe\u00e7a mole, pendida para o seio, o olhar quebrado, fito,<br \/>\ncom pregui\u00e7a de mover-se, o livro descansado nos joelhos, entre os dedos insensibilizados.<br \/>\nE cismava: &#8220;Sim, precisava casar, fazer fam\u00edlia, ter um marido, um homem s\u00f3<br \/>\ndela, que a amasse vigorosamente!&#8221; E via-se dona de casa, com o molho das<br \/>\nchaves na cintura &#8211; a ralhar, a zelar pelos interesses do casal, cheia de<br \/>\nobriga\u00e7\u00f5es, a evitar o que contrariasse o esposo, a dar as suas ordens para<br \/>\nque ele encontrasse o jantar pronto. E queria fazer-lhe todas as vontades<br \/>\ntodos os caprichos &#8211; tornar-se passiva servi-lo como uma escrava amorosa d\u00f3cil<br \/>\nfraca que confessa sua fraqueza, seus medos, sua covardia, satisfeita de achar-se<br \/>\ninferior ao seu homem, feliz por n\u00e3o poder dispens\u00e1-lo. E cismava, muito,<br \/>\nmuito, no marido, e esse mando aparecia-lhe na imagina\u00e7\u00e3o sob a esbelta figura<br \/>\nde Raimundo.<\/p>\n<p>Nisto, abriu-se por detr\u00e1s dela o cortinado da cama, com um leve rumor de<br \/>\nrendas engomadas.<\/p>\n<p>Ana Rosa voltou-se em sobressalto e deu, cara a cara com Raimundo, que a<br \/>\nfitava repreensivo, soltou um grito e tentou fugir. O livro caiu ao ch\u00e3o escancarando<br \/>\numa p\u00e1gina onde se via desenhado o interior de um ventre, cheio com o seu<br \/>\ngrande novelo de tripas amarelas e cor-de-rosa.<\/p>\n<p>O rapaz n\u00e3o lhe tempo para sair, colocando-se entre a cama e a parede.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha a bondade de esperar&#8230; disse, muito s\u00e9rio.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-me por amor de Deus! suplicou ela, torcendo a cabe\u00e7a para evitar<br \/>\nos olhos de Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhora, h\u00e1 de ouvir-me primeiro, respondeu este com delicada autoridade.<br \/>\nE acrescentou, depois de uma pausa, pondo nas palavras certo cunho de superioridade<br \/>\npaternal: Custa-me, mas \u00e9 necess\u00e1rio repreend\u00ea-la&#8230; tanto mais, por me achar<br \/>\nna casa de seu pai, que \u00e9 tamb\u00e9m sua!&#8230; A senhora, por\u00e9m, cometeu uma falta,<br \/>\ne eu cometeria outra maior se me calasse.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-me!<\/p>\n<p>&#8211; A senhora sair\u00e1 deste quarto prometendo que n\u00e3o tomara a fazer o que tem<br \/>\nfeito!&#8230; Se descobrissem as suas visitas clandestinas que n\u00e3o julgariam de<br \/>\nmim?&#8230; de mim, e da sua pessoa, o que e muito mais grave!&#8230; Que n\u00e3o diriam?&#8230;<br \/>\nE, vamos l\u00e1! &#8211; com direito!&#8230; Pois a reputa\u00e7\u00e3o de uma senhora \u00e9 coisa que<br \/>\nse exponha deste modo?&#8230; Isto tem lugar?&#8230; Mas, quando assim fosse, quando,<br \/>\npor uma aberra\u00e7\u00e3o imperdo\u00e1vel, minha prima assim entendesse, poderia barate\u00e1-la,<br \/>\nsem enxovalhar sua fam\u00edlia? Fique sabendo minha senhora, que a obriga\u00e7\u00e3o que<br \/>\ncada qual tem de zelar pelo seu nome, n\u00e3o se baseia s\u00f3 no amor pr\u00f3prio, mas<br \/>\nno respeito que devemos aos solid\u00e1rios do nosso credito! Uma senhora nada<br \/>\ntem que fazer no quarto de um rapaz!&#8230; E muito feio! Minha prima comete com<br \/>\nisso uma ingratid\u00e3o a quem deve tudo &#8211; a seu pai!<\/p>\n<p>O pranto nervoso da menina, sustido ate ali com dificuldade rebentou-lhe<br \/>\nda garganta e dos olhos, como um regato que quebrasse as represas; as l\u00e1grimas<br \/>\ncorriam-lhe quentes pela face e pingavam-lhe grossas bagas nas carnes brancas<br \/>\ne palpitantes do seio.<\/p>\n<p>Raimundo comoveu-se, mas procurou esconder a sua como\u00e7\u00e3o. E desviando o corpo,<br \/>\npara lhe dar passagem, acrescentou com a voz pouco alterada.<\/p>\n<p>&#8211; Pe\u00e7o-lhe que se retire e n\u00e3o volte em circunst\u00e2ncias id\u00eanticas&#8230;<\/p>\n<p>Queria acus\u00e1-la ainda, repreend\u00ea-la&#8230; mais, porem as sobrancelhas desfranziam-se-lhe<br \/>\ndefronte daquele vestidinho honesto de chita, daquelas singelas tran\u00e7as castanhas,<br \/>\ndaquelas l\u00e1grimas inocentes.<\/p>\n<p>Ana Rosa ouviu-o de cabe\u00e7a baixa, sem uma palavra, com o rosto escondido<br \/>\nno len\u00e7o. Quando Raimundo acabou de falar, ela deva grandes solu\u00e7os, muito<br \/>\nsuspirados, como de uma crian\u00e7a inconsol\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que tolice \u00e9 esta?&#8230; Agora est\u00e1 solu\u00e7ando deste modo!&#8230; Vamos,<br \/>\nn\u00e3o seja crian\u00e7a!..<\/p>\n<p>Ana Rosa chorava mais.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que, desse modo, podem ouvi-la da varanda!&#8230;<\/p>\n<p>E Raimundo atrapalhava-se de como\u00e7\u00e3o e de medo; j\u00e1 n\u00e3o acertava com o que<br \/>\nqueria dizer; faltavam-lhe os termos; sentia-se est\u00fapido. Come\u00e7ou a temer<br \/>\na situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, minha amiga&#8230; tartamudeou inquieto, se a ofendi, desculpe, perdoe-me,<br \/>\nera para seu interesse&#8230;<\/p>\n<p>E chegou-se para ela, ameigou-a; estava arrependido de ter sido t\u00e3o r\u00edspido.<br \/>\n&#8220;Fora grosseiro! No fim de contas, bem sabia que a pobre mo\u00e7a neo era respons\u00e1vel<br \/>\npor aquilo!&#8230;&#8221; Sentia remorsos. E tentou destruir o mau efeito das suas primeiras<br \/>\npalavras:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, vamos&#8230; Eu sou seu amigo, diga-me por que chora&#8230;<\/p>\n<p>Ana Rosa n\u00e3o respondia, solu\u00e7ava sempre. Raimundo n\u00e3o pode conter um movimento<br \/>\nde impaci\u00eancia, e co\u00e7ou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, que vai mal a hist\u00f3ria!<\/p>\n<p>Estava j\u00e1 sinceramente arrependido de ter vindo surpreend\u00ea-la. &#8220;Que lhe valesse<br \/>\na paci\u00eancia!&#8221; Todo o seu receio era que a ouvissem da varanda. &#8220;Descobriam<br \/>\ntudo!&#8230; Com certeza que descobriam!&#8221;<\/p>\n<p>E, sem saber o que fazer, atarantado, foi \u00e0 porta, voltou, tornou a ir, aflito,<br \/>\nsobre brasas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o minha prima tenciona ficar?&#8230; N\u00e3o chore mais!&#8230; Que imprud\u00eancia<br \/>\na sua!&#8230; Lembre-se que est\u00e1 no meu quarto&#8230; Tenha a bondade &#8211; retire-se.<br \/>\nN\u00e3o fique ressentida, mas v\u00e1, que podemos comprometer-nos muito seriamente!&#8230;<\/p>\n<p>Redobrou o pranto.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora n\u00e3o tem motivo para chorar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tenho sim! respondeu ela por detr\u00e1s do len\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! Ent\u00e3o por que \u00e9?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 porque o amo muito. muito, entende? declarou entre solu\u00e7os, com os olhos<br \/>\nfechados e gotejantes, e assoando-se devagarinho, sem afastar do nariz o len\u00e7o<br \/>\nensopado de l\u00e1grimas e entrouxado na m\u00e3o. &#8211; Desde que o vi! Desde o primeiro<br \/>\ninstante! percebe? E no entanto meu primo nem&#8230;<\/p>\n<p>E desatou a chorar mais forte ainda, desorientada, apaixonadamente.<\/p>\n<p>Raimundo perdeu de todo a esperan\u00e7a de acabar com aquilo de um modo conveniente.<br \/>\nN\u00e3o obstante, sentia que gostava bastante de Ana Rosa mais do que ela podia<br \/>\njulgar talvez, mais do que ele mesmo podia esperar de si. &#8220;Mas, se assim era,<br \/>\nque diabo! que se casassem como toda a gente! Era lev\u00e1-la \u00e0 igreja, em p\u00fablico,<br \/>\ncom dec\u00eancia, ao lado da fam\u00edlia! e n\u00e3o t\u00ea-la ali, a lacrimejar no seu quarto<br \/>\nas escondidas, romanticamente! N\u00e3o! n\u00e3o admitia! Era simplesmente rid\u00edculo!&#8221;<br \/>\nE disparatou:<\/p>\n<p>&#8211; De acordo minha senhora, mas eu n\u00e3o tenho o direito de det\u00ea-la no meu quarto.<br \/>\nQueira retirar-se!&#8230; o lugar e a ocasi\u00e3o s\u00e3o os menos pr\u00f3prios para revela\u00e7\u00f5es<br \/>\nt\u00e3o delicadas!&#8230; Falaremos depois!<\/p>\n<p>Ana Rosa continuou a chorar, im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Raimundo chegou a conceber a id\u00e9ia de ir \u00e0 varanda, chamar por algu\u00e9m, fazer<br \/>\nbulha, contar tudo! mas teve pena dela; &#8220;Iria prejudic\u00e1-la, ofend\u00ea-la, seria<br \/>\nbrutal; al\u00e9m disso escandaloso&#8230; oh! um formid\u00e1vel esc\u00e2ndalo! . Que diabo<br \/>\nent\u00e3o devia fazer?&#8230; Sim, no fim de contas, seria est\u00fapido revoltar-se contra<br \/>\na rapariga&#8217;&#8230; ela o amava, tinha vinte anos, e queria casar nada mais justo!&#8221;<br \/>\nE resolveu mudar de t\u00e1tica, empregar meios brandos e carinhosos para acabar<br \/>\ncom aquela situa\u00e7\u00e3o. &#8220;Era o caminho mais curto e mais seguro!&#8221; Aproximou-se<br \/>\npois de Ana Rosa, muito temo. e disse-lhe afetuosamente, depois de enxugar-lhe<br \/>\no suor da testa e consertar-lhe o desalinho dos cabelos:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, querida prima, o fato de amar-me n\u00e3o e motivo de choro!&#8230; ao contr\u00e1rio-devemos<br \/>\nalegrar-nos! Veja como estou satisfeito, estou rindo! Siga o meu exemplo!<br \/>\nE sabe o que nos compete fazer de melhor? &#8211; N\u00e3o \u00e9 chorar certamente! &#8211; \u00e9 casar-nos!<br \/>\nN\u00e3o acha? N\u00e3o lhe parece mais acertado? N\u00e3o me aceita para seu esposo?&#8230;<\/p>\n<p>Ao ouvir isto, Ana Rosa tirou logo o len\u00e7o do rosto e, o que ainda n\u00e3o tinha<br \/>\nfeito, encarou Raimundo, desassombrada, feliz, rindo-se, com os olhos ainda<br \/>\nvermelhos e molhados, a respira\u00e7\u00e3o solu\u00e7osa, sem poder articular palavra.<br \/>\nE, em seguida, com um desembara\u00e7o, que abismou o primo e de que ela pr\u00f3pria<br \/>\nn\u00e3o se julgaria capaz, abra\u00e7ou-o amplamente, com expans\u00e3o, pousando-lhe a<br \/>\ncabe\u00e7a no ombro e estendendo-lhe os l\u00e1bios numa ansiedade suplicante.<\/p>\n<p>O rapaz n\u00e3o teve rem\u00e9dio &#8211; deu-lhe na boca um beijo t\u00edmido. Ela respondeu<br \/>\nlogo com dois &#8211; ardentes. Ent\u00e3o, o mo\u00e7o, a despeito de toda a sua energia<br \/>\nmoral, perturbou-se &#8211; esteve a desabar &#8211; um fogo subiu-lhe \u00e0 cabe\u00e7a; latejaram-lhe<br \/>\nas fontes; e, no seu rosto congestionado e c\u00e1lido sofregamente o nariz muito<br \/>\nfrio de Ana Rosa. Por\u00e9m teve m\u00e3o em si: desprendeu-se dos bra\u00e7os dela com<br \/>\nmuita brandura, beijou-lhe respeitosamente as m\u00e3os e pediu-lhe que sa\u00edsse.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1, sim? Podem v\u00ea-la!&#8230; Isto n\u00e3o \u00e9 digno de qualquer de n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>-Voc\u00ea est\u00e1 ma\u00e7ado comigo Raimundo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o que lembran\u00e7a! mas vai-te, sim?<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz\u00e3o! mas olha, quando me pedes a papai?<\/p>\n<p>&#8211; Na primeira ocasi\u00e3o, dou-te a minha palavra! mas n\u00e3o voltes aqui, hein?<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>E saiu.<\/p>\n<p>Raimundo fechou a porta e come\u00e7ou a passear pelo quarto, bastante agitado.<br \/>\nEstava satisfeito consigo mesmo: apesar dos seus belos vinte e seis anos,<br \/>\ntinha sido leal e generoso com uma pobre rapariga que o amava.<\/p>\n<p>E, de contente, cantarolou, com a voz ainda um pouco tr\u00eamula:<\/p>\n<p>&#8220;Sento uma forza ind\u00f4mita!&#8221;<\/p>\n<p>Mas bateram duas pancadas na porta.<\/p>\n<p>Era o Benedito.<\/p>\n<p>&#8211; Sinh\u00f4 mandou dizer para vossemec\u00ea fazer o favor de chegar no quarto dele.<\/p>\n<p>-Vou j\u00e1<\/p>\n<p>A viagem ao Ros\u00e1rio ficou transferida para o outro m\u00eas, em raz\u00e3o de Manuel<br \/>\nhaver-ca\u00eddo-com uma tremenda papeira, justamente no dia em que Raimundo surpreendera<br \/>\nAna Rosa no seu quarto.<\/p>\n<p>Nessa noite encheu-se a casa de amigos; o Freitas apareceu logo, trazendo<br \/>\numa dose homeop\u00e1tica; discutiu-se a mol\u00e9stia; contaram-se fatos adequados<br \/>\nCada qual tivera um caso muito pior que o de Manuel!<\/p>\n<p>Choviam receitas de todos os lados.<\/p>\n<p>&#8211; Laranja da-terra! laranja-da-terra! gritava D. Maria do Carmo. E afian\u00e7ava<br \/>\nque &#8220;abaixo de Deus, n\u00e3o havia rem\u00e9dio melhor para aquele mal! &#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! olhe que as papas de linha\u00e7a t\u00eam provado muito bem&#8230; considerou Am\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu me achei foi com a folha de taj\u00e1, observou a sobrinha mais velha<br \/>\nde D. Mana do Carmo.<\/p>\n<p>&#8211; E eu, disse Etelvina com um suspiro, se quis dar cabo de uma que tive,<br \/>\nrecorri ao \u00f3leo de am\u00eandoa doce!<\/p>\n<p>Ana Rosa acendera uma vela a S\u00e3o Manuel do Buraco e Maria B\u00e1rbara prometera<br \/>\numa bochecha de cera a Santa Rita dos Milagres.<\/p>\n<p>A Eufrasinha apareceu, e receitou logo &#8211; leite de jana\u00faba.<\/p>\n<p>&#8211; Corta-se o cip\u00f3 e escorre um leite branco, t\u00e3o grosso que \u00e9 um azeite!<br \/>\nexplicava ela com grande m\u00edmica. A gente apara numa x\u00edcara e depois ensopa<br \/>\nalgod\u00e3o bem ensopado, e planta na cara do doente. \u00c9 uma vez s\u00f3, menina!<\/p>\n<p>Na varanda conversavam sobre o desanimo do doente.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 muito esmorecido!&#8230; protestava Maria B\u00e1rbara. Por qualquer coisa parece<br \/>\nque est\u00e1 morrendo! Fica todo &#8220;Ai, ai, ai, eu mono desta!&#8221; Uma febrinha p\u00f5e-no<br \/>\nassim!<\/p>\n<p>E Maria B\u00e1rbara, para mostrar ao vivo como ficava o genro, puxou as faces<br \/>\ncom os dedos e arregalou disformemente os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Credo! exclamou Am\u00e2ncia. e citou a morte de um conhecido seu.<\/p>\n<p>Maria do Carmo passou a contar, pat\u00e9tica, o falecimento do Espig\u00e3o. Aquilo<br \/>\n\u00e9 que era morte! S\u00f3 vendo!&#8230;<\/p>\n<p>Seguiu-se uma enfiada de anedotas f\u00fanebres.<\/p>\n<p>Freitas, na sala, examinava, com minuciosidade patri\u00f3tica, umas litografias,<br \/>\nque descansavam na pedra dos consolos. Eram epis\u00f3dios da Guerra do Paraguai<br \/>\n&#8211; havia a tomada de Paissandu, a passagem de Humait\u00e1, e outros, impressos<br \/>\nno Rio e mel desenhados. Via-se o general Os\u00f3rio, a cavalo, sobressair com<br \/>\no seu bigode preto e a barba branca. E o pai de Lindoca despregava de vez<br \/>\nem quando os olhos do quadro e passeava-os pela sala, \u00e0 procura de uma v\u00edtima<br \/>\npara a seca. Raimundo, logo que o bispou, escondera se no quarto, com medo.<\/p>\n<p>Ana Rosa cumpriu o prometido de neo voltar ao quarto de Raimundo, mas em<br \/>\ncompensa\u00e7\u00e3o falava-lhe todos os dias no casamento. Depois do seu ajuste com<br \/>\no primo, andava escorreita, alegre, vivia a cantarolar, tanto<\/p>\n<p>na costura, como passarinhando pela varanda, a pretexto de ajudar a avo<br \/>\nnos arranjos da casa, ao que ela agora ligava muito mais interesse. Maria<br \/>\nB\u00e1rbara, por outro lado, deva aos diabos a papeira de Manuel e com esta a<br \/>\ntranfer\u00eancia da viagem ao Ros\u00e1rio. &#8220;Aquela demora do cabra em companhia de<br \/>\nsua neta embrulhava-lhe o est\u00f4mago! &#8211; N\u00e3o sossegada enquanto n\u00e3o o visse pelas<br \/>\ncostas!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Entretanto, aproximava-se o dia de S\u00e3o Jo\u00e3o. Em casa do Freitas, em casa<br \/>\nde Maria do Carmo, como em casa do Manuel, falava-se da festa. A pagodeira<br \/>\nseda, como todos os anos, no s\u00edtio de Maria B\u00e1rbara. Era um antigo costume<br \/>\nainda do tempo do defunto coronel, avo materno de Ana Rosa. A velha n\u00e3o relaxava<br \/>\na ladainha de S\u00e3o Jo\u00e3o. &#8220;Tudo! menos de deixar de fazer nesse dia a sua festa<br \/>\ncostumeira!&#8221; Aquela data representava para ela o an\u00edvers\u00e1rio dos acontecimentos<br \/>\nmais not\u00e1veis da sua vida &#8211; nesse dia nascera o nunca assaz chorado coronel,<br \/>\no seu Jo\u00e3o Hip\u00f3lito; tamb\u00e9m nesse dia fora pedida em casamento, e, um ano<br \/>\ndepois, justamente no dia de S\u00e3o Jo\u00e3o, casara; ainda nesse dia batizara a<br \/>\nsua primeira filha &#8211; a defunta mulher de Sebasti\u00e3o Campos &#8211; e nesse dia enfim<br \/>\n-Mariana esposara Manuel.<\/p>\n<p>Fez-se uma congrega\u00e7\u00e3o em casa do negociante, composta por Am\u00e2ncia, Maria<br \/>\ndo Carmo as sobrinhas desta, e presidida por Maria B\u00e1rbara. Falou-se muito<br \/>\nem capados, carneiros e perus de forno; discutiu-se com o que se devia encher<br \/>\no papo do peru &#8211; se de farinha ou com os pr\u00f3prios intestinos do animal, decidiu<br \/>\na maioria que se enchera com farofa, &#8220;\u00e0 moda de Pernambuco&#8221;, explicava Etelvina.<br \/>\nFizeram-se grandes encomendas de d\u00fazias de ovos; lembraram-se os doces menos<br \/>\nlembrados; receitaram-se processos dificultos\u00edssimos da arte culin\u00e1ria: consultou-se<br \/>\no &#8220;Cozinheiro Imperial&#8221;, houve oferecimentos de lou\u00e7a, compoteiras, talheres,<br \/>\nmoleques e negrinhas, para ajudarem no servi\u00e7o; citaram-se pessoas privilegiadas<br \/>\nna confec\u00e7\u00e3o de tais e tais quitutes; falou-se em caruru da Bahia e presunto<br \/>\nde fiambre.<\/p>\n<p>&#8211; No dia seguinte encarregou se a um pedreiro de correr uma caia\u00e7\u00e3o geral<br \/>\nna casa do sitio; os escravos tiveram ordem de assear a quinta, limpar as<br \/>\nestradas, os tanques, os pombais; e preveniu-se o padre Lamparinas. que era<br \/>\nquem, todos os anos, cantava l\u00e3 a ladainha de S\u00e3o Jo\u00e3o. Haveria dan\u00e7a e fogos<br \/>\nSeda um fest\u00e3o de arromba! &#8220;O diabo! pensava Maria Barbara, era que o &#8211; cabra<br \/>\n&#8211; s\u00f3 se ida do Maranh\u00e3o para o outro m\u00eas!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>No entanto, Raimundo aborrecia-se; a prov\u00edncia parecia lhe cada vez mais<br \/>\nfeia, mais acanhada, mais tola, mais intrigante e menos soci\u00e1vel. Por desf\u00e1tio,<br \/>\nescreveu e publicou alguns folhetins; n\u00e3o agradaram &#8211; falavam muito a s\u00e9rio;<br \/>\npassou ent\u00e3o a dar contos, em prosa e verso; eram observa\u00e7\u00f5es do real, trabalhadas<br \/>\ncom estilo, pintavam espirituosamente e os tipos rid\u00edculos do Maranh\u00e3o &#8220;De<br \/>\nnossa Atenas&#8221; como dizia o Freitas.<\/p>\n<p>Houve um alvoro\u00e7o! Gritaram que Raimundo atacava a moralidade p\u00fablica e satirizava<br \/>\nas pessoas mais respeit\u00e1veis da prov\u00edncia.<\/p>\n<p>E foi o bastante: os atenienses saltaram logo, espinoteando com a novidade.<br \/>\nMeteram-lhe as botas; chamaram-lhe por toda a parte &#8220;besta! cabra atrevido!&#8221;<br \/>\nOs lojistas, os amanuenses de secretaria, os caixeiros frequentadores de clubes<br \/>\nliter\u00e1rios, em que se discutia, durante anos, a imortalidade da alma, e os<br \/>\nin\u00fameros professores de gram\u00e1tica, incapazes de escrever um per\u00edodo original,<br \/>\ndeclararam que era preciso &#8211; meter-lhe o pau! &#8220;Escov\u00e1-lo, para se n\u00e3o fazer<br \/>\nde atrevido e desrespeitador das coisas mais sagradas desta vida: &#8211; a inoc\u00eancia<br \/>\ndas donzelas, a virtude das casadas e a m\u00e1goa das vi\u00favas maranhenses!&#8221; Nas<br \/>\nportas de botica, nas esquinas do Largo do Carmo no fundo das vendas em que<br \/>\nse vendia vinho branco e no interior de todas as casas particulares juravam<br \/>\nnunca ter visto semelhante esc\u00e2ndalo de linguagem pelas folhas. Falou-se muito<br \/>\nnos jornais em Gon\u00e7alves Dias, Odorico Mendes, Sotero dos Reis e Jo\u00e3o Lisboa;<br \/>\napareceram descomposturas an\u00f4nimos, pasquins, contra Raimundo; escreveram-se<br \/>\nobscenidades pelas paredes, a giz e blac-verniz, contra o &#8220;Novo poeta d&#8217;\u00e1gua<br \/>\ndoce!&#8221; Ele foi a ordem do dia de muitos dias; apontaram-no a dedo, boquejaram,<br \/>\npor portas travessas, que ia sair um jornalzinho, intitulado O Bode&#8221; s\u00f3 para<br \/>\nbotar os podres do ordin\u00e1rio na rua! Os moleques cantavam, contra o perseguido,<br \/>\ntorpezas tais, que este nem sequer as compreendia.<\/p>\n<p>E, alheio ao verdadeiro sentido das descomposturas e das indiretas, jurou,<br \/>\npasmado, nunca mais publicar coisa alguma no Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Apre! Com efeito! Dizia.<\/p>\n<p>E tomou deveras um invenc\u00edvel nojo por aquela prov\u00edncia indigna dele; impacientou-se<br \/>\npor consumar o seu casamento com Ana Rosa e retirar-se!&#8230; daquele chiqueiro<br \/>\nde pretensiosos maus.<\/p>\n<p>&#8211; Safa! terrinha est\u00fapida! resmungava sozinho, a fumar cigarros, de barriga<br \/>\npara o ar, no seu quarto.<\/p>\n<p>Todavia, o pior lhe estava reservado para o m\u00eas de junho.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>VII<\/h2>\n<p>Junho chegou, com as suas manh\u00e3s muito claras e muito brasileiras.<\/p>\n<p>\u00c9 o m\u00eas mais bonito do Maranh\u00e3o. Aparecem os primeiros ventos gerais, doidamente,<br \/>\nque nem um bando solto de dem\u00f4nios travessos e brincalh\u00f5es, que v\u00e3o em troca<br \/>\npercorrer a cidade, assoviando a quem passa, atirando ao ar o chap\u00e9u dos transeuntes,<br \/>\nvirando-lhes do avesso os guarda-s\u00f3is abertos, levantando as saias das mulheres<br \/>\ne mostrando-lhes brejeiramente as pernas.<\/p>\n<p>Manh\u00e3s alegres! O c\u00e9u varre-se nesse dia como para uma festa, fica limpo,<br \/>\ntodo azul, sem uma nuvem; a natureza prepara-se, enfeita-se; as arvores penteiam-se,<br \/>\nos ventos gerais catam-lhes as folhas secas e sacodem-lhes a frondosa cabeleira<br \/>\nverdejante; asseiam-se as estradas, escova-se a grama dos prados e das campinas,<br \/>\nbate-se a \u00e1gua, que fica mais clara e fresca. E o bando turbulento n\u00e3o p\u00e1ra<br \/>\nnunca e, sempre remoinhando, zumbindo, cantando l\u00e1 vai por diante, dando piparotes<br \/>\nem tudo que encontra, acordando as pequeninas plantas, rasteiras e pregui\u00e7osas,<br \/>\nn\u00e3o deixando dormir uma s\u00f3 flor, enxotando dos ninhos toda a chilradora rep\u00fablica<br \/>\ndas asas. E as borboletas, em cardumes multicolores, soltam-se por aqui e<br \/>\npor ali, doidejando; e nuvens de abelhas revoam, peralteando, gazeando o trabalho&#8217;<br \/>\ne as lavadeiras, que vadias! brincam ao sol, sobre os lagos, dan\u00e7ando ao som<br \/>\nde uma orquestra de cigarras.<\/p>\n<p>A gente bem conformada, nessas manh\u00e3s, acorda l\u00e9pida, depois de um sono bom,<br \/>\ncompleto, bebido de uma vez, como um copo de \u00e1gua fresca. E n\u00e3o resiste ao<br \/>\nconvite do bando endemoninhado que lhe salta pela janela e lhe invade o quarto,<br \/>\natirando ao ch\u00e3o os pap\u00e9is da mesa, arrancando os quadros da parede e desfraldando<br \/>\nas cortinas, que tremulam no ar em flutua\u00e7\u00f5es alegres de bandeira; n\u00e3o resiste<br \/>\n-veste-se rindo, cantarolando, e vai para a rua, para o campo, mete uma flor<br \/>\nna lapela do fraque, agita a bengala, fala muito, ri, tem vontade de correr<br \/>\ne almo\u00e7a nesse dia com um apetite selvagem.<\/p>\n<p>A madrugada da v\u00e9spera de S\u00e3o Jo\u00e3o era dessas. Raimundo, antes de raiar o<br \/>\ndia, j\u00e1 se achava de p\u00e9 e em caminho, junto com Maria B\u00e1rbara, Manuel e Ana<br \/>\nRosa, para o sitio, onde seria realizada a grande festa tradicional dos tempos<br \/>\ndo defunto coronel. A velha arrependia-se de n\u00e3o ter esperado pelo bonde das<br \/>\nseis horas e, de cansada, assentou-se com o genro no banco de Uma das quintas<br \/>\ndo Caminho Grande; Raimundo continuou a andar distraidamente, de bra\u00e7o dado<br \/>\n\u00e0 rapariga.<\/p>\n<p>Clareava o tempo; a este o horizonte tingia-se de vermelho para o seu grande<br \/>\nparto quotidiano e deslumbrante; ia nascer o sol. Houve uma grande alegria<br \/>\nrubra em torno do ventre de ouro e p\u00farpura, que se rasgou afinal, num turbilh\u00e3o<br \/>\nde fogo, jorrando luz pelo c\u00e9u e pela terra. Um hino de gorjeios partiu dos<br \/>\nbosques; a natureza inteira cantou, saudando o seu monarca!<\/p>\n<p>Raimundo, est\u00e1tico ao lado de Ana Rosa, n\u00e3o podia conter o seu entusiasmo.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 belo! como \u00e9 belo! exclamava ele, apontando para o nascente.<\/p>\n<p>E, numa como\u00e7\u00e3o de pintor, amarrotando entre os dedos o seu chap\u00e9u de feltro,<br \/>\nparecia beber avidamente, pelos olhos deslumbrados, aquele maravilhoso nascimento<br \/>\ndo sol meridional de junho. Depois, sempre emocionado, segurava o bra\u00e7o da<br \/>\nprima, chamando a aten\u00e7\u00e3o desta, sem despregar a vista da paisagem, para o<br \/>\nlindo efeito da luz, filtrada por entre as folhas, na espessura das \u00e1rvores;<br \/>\npara as gotas de orvalho, que cintilavam como diamantes; para a esfogueada<br \/>\nselagem dos planos afastados; para a luminosa cercadura dos casebres ao longe,<br \/>\nem torno dos quais pasciam bois e acogulavam-se carro\u00e7\u00f5es com grandes feixes<br \/>\nde capim novo.<\/p>\n<p>E vinham do campo para o mercado da cidade enormes tabuleiros de hortali\u00e7as,<br \/>\ngotejantes da \u00faltima rega, e pir\u00e2mides de ramalhetinhos de vint\u00e9m, para se<br \/>\nvender \u00e0s mulatas; e cofos de frutas, que espalhavam no ar um perfume desenjoativo;<br \/>\ne matutos traziam. dependuradas de um pau sobre o ombro, as pacas e as cutias,<br \/>\nca\u00e7adas no mato; e os carros da roga passavam gemendo, com as suas imensas<br \/>\nrodas inteiri\u00e7as; e os caboclos, seguidos pelas mulheres e pelo band\u00e3o dos<br \/>\nfilhos, num passo sacudido e ligeiro, chegavam da Vila do Pa\u00e7o e de S\u00e3o Jos\u00e9<br \/>\nde Ribamar, muito carregados, depois de engolir l\u00e9guas e l\u00e9guas a p\u00e9 descal\u00e7o,<br \/>\npara vir vender \u00e0 boca do Caminho Grande o seu peixe pescado e mosqueado na<br \/>\nv\u00e9spera, os seus beijus fresquinhos, o azeite de gergelim, a massa de \u00e1gua,<br \/>\na macaxeira e os bolos de mandioca.<\/p>\n<p>Ana Rosa n\u00e3o parecia a mesma daqueles \u00faltimos tempos: estava alegre, despreocupada;<br \/>\ndir-se-ia ter voltado a um dos seus dias de col\u00e9gio. Os ventos gerais como<br \/>\nque lhe levantaram o v\u00e9u das suas melancolias de donzela e arejaram-lhe o<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o com uma rajada.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe l\u00e1 a paisagem, e d\u00ea-me o bra\u00e7o, primo! disse ela arquejante, tendo<br \/>\nido de carreira comprar tangerinas \u00e0 m\u00e3o de um roceiro. Ah!&#8230; cansada!<\/p>\n<p>E, sem poder falar, prendeu-se ao bra\u00e7o de Raimundo. Este vergou-se sobre<br \/>\nela, depois de contempl\u00e1-la muito.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe? segredou-lhe, voc\u00ea hoje est\u00e1 bonita como nunca, minha prima! Suas<br \/>\nfaces s\u00e3o duas rosas!<\/p>\n<p>&#8211; F debique seu&#8230; Se me achasse bonita, j\u00e1 me teria pedido a papai&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Confesso que nunca a vi t\u00e3o linda&#8230;<\/p>\n<p>10.0pt&#8217;&gt;- S\u00e3o os ventos gerais! Limparam-lhe os olhos!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o diga brincando! Quer que lhe confesse Uma coisa?&#8230; N\u00e3o sei que singular<br \/>\nefeito me produz esta manh\u00e3. F esquisito, mas eu mesmo me desconhe\u00e7o! Sinto-me<br \/>\ntransformado! A id\u00e9ia, por exemplo, da minha sisudez habitual, dessa gravidade<br \/>\nexagerada, de que por mais de uma vez a prima se queixou a mim pr\u00f3prio parece-me<br \/>\nagora t\u00e3o pueril e rid\u00edcula como o estilo do Freitinhas e o orgulho do Sebasti\u00e3o<br \/>\nCampos! F exato! Creia que neste instante lamento n\u00e3o ser mais expansivo mais<br \/>\nalegre mais rapaz! Deploro ter esperdi\u00e7ado tantas madrugada a estudar, a matar-me<br \/>\nde trabalho; ter adormecido esfalfado ao raiar do dia quando os outros se<br \/>\nlevantavam satisfeitos e confortados. Com franqueza toda a obra de uma gera\u00e7\u00e3o<br \/>\ninteira de investigadores da ci\u00eancia; tudo quanto ensinam as melhores academias,<br \/>\nn\u00e3o vale a boa li\u00e7\u00e3o que em algumas horas de passeio ao seu lado me d\u00e1 a natureza,<br \/>\na grande mestra! Com esta \u00fanica li\u00e7\u00e3o renasce-me a mocidade que eu estupidamente<br \/>\nme empenhava em sufocar! Sinto-me disposto a ser feliz, sinto-me capaz de<br \/>\nam\u00e1-la, minha querida amiga!<\/p>\n<p>Ana Rosa abaixou o rosto, afogada em pejo e contentamento, sem querer intenromp\u00ea-lo,<br \/>\npara n\u00e3o desperdi\u00e7ar uma s\u00f3 daquelas palavras, que lhe faziam tanto bem. O<br \/>\nque Raimundo lhe dizia dava-lhe vontade de chorar e cair-lhe agradecida nos<br \/>\nbra\u00e7os, traduzindo em beijos todas as ternuras, que o pudor vedava aos l\u00e1bios<br \/>\nproferissem.<\/p>\n<p>Haviam parado, junto um do outro; batia-lhes em cheio no rosto o sol nascente.<br \/>\nEmudeceram. O mo\u00e7o tomou-lhe as m\u00e3os, e os dois fitaram-se com um juramento<br \/>\nnos olhos, e r ao falaram mais em amor, enquanto esperavam por Manuel e Mana<br \/>\nB\u00e1rbara, que de novo se tinham posto a caminhar.<\/p>\n<p>Meia hora depois chegavam todos ao sitio. Raimundo fazia pasmar com o seu<br \/>\nbom humor confessava-se no momento mais feliz da sua vida; deu at\u00e9 para brincalh\u00e3o<br \/>\ne ferrou, ao entrar na casa, um abra\u00e7o em D. Am\u00e2ncia, que viera receb\u00ea-los<br \/>\n\u00e0 porta A velha afastou-se, benzendo-se:<\/p>\n<p>&#8211; Credo! Pra l\u00e1 mandado!<\/p>\n<p>Ela j\u00e1 l\u00e1 se achava, desde a v\u00e9spera, preparando tudo, arrumando, dando ordens,<br \/>\nralhando, prometendo castigos, como se estivesse em fazenda pr\u00f3pria e cercada<br \/>\nde escravos seus.<\/p>\n<p>A quinta de Maria B\u00e1rbara como quase todas as quintas do Maranh\u00e3o, era apraz\u00edvel<br \/>\ne r\u00fastica. Um velho portal de ferro, com o competente lampi\u00e3o de corrente,<br \/>\nabria sobre duas longas filas de mangueiras seculares, que iam terminar defronte<br \/>\nda casa. formando sombrosa e \u00famida galeria, onde o sol penetrava horizontalmente,<br \/>\npor entre os grossos troncos nodosos e encascados. Por uma e outra banda sem<br \/>\nordem nem simetria, viam-se planta\u00e7\u00f5es, na maior pane \u00fateis e bem tratadas<br \/>\ndestacava-se o verde alegre dos canteiros de hortali\u00e7as donde voava um cheiro<br \/>\nfresco de salsa e coentro. Mais para o interior do sitio encontravam-se tanques<br \/>\ncheios esverdeados de limo; sinuosas calhas espalhavam, suspensas por estacas<br \/>\nde acapu, levando \u00e1gua para todos os lados; extensas latadas vergavam ao peso<br \/>\ndas ab\u00f3boras, dos jerimuns e dos maracuj\u00e1s de diversos tamanhos, desde o da<br \/>\nlaranja at\u00e9 ao da melancia. Ainda mais para o interior, destacavam-se, em<br \/>\nqualquer dia do ano, o verde-escuro e lustroso das jaqueiras colossais e das<br \/>\n\u00e1rvores da fruta-p\u00e3o, ambas com as suas folhas grandes e recortadas caprichosamente,<br \/>\ncontrastando com as massas fuscas da folhagem miudinha dos eternos tamarindeiros,<br \/>\ncom os tons dourados do p\u00e9 de caj\u00e1 e com os altivos jenipapeiros, as graciosas<br \/>\npitombeiras, cercados de goiabais floridos e cheirosos. Em outros pontos adivinhavam-se<br \/>\nolhos-d&#8217;\u00e1gua pela abund\u00e2ncia das ju\u00e7areiras Parasitas de mil esp\u00e9cies enfeitavam<br \/>\ncom as suas flores, extravagantes e admir\u00e1veis, as \u00e1rvores e os pombais, numa<br \/>\nvariedade prodigiosa de cores E por toda a parte doidejavam, cantando, os<br \/>\npassarinhos e saltitavam rolas, a mariscar na relva.<\/p>\n<p>A habita\u00e7\u00e3o olhava de frente para os dois renques de mangueiras, franqueando<br \/>\nas suas varandas sem parede; toda ela aberta, deixando-se invadir pelas plantas<br \/>\ndo jardim que a rodeava. Uma dessas pitorescas vivendas aca\u00e7apadas, muito<br \/>\ncomuns nos sert\u00f5es da ilha de S\u00e3o Lu\u00eds. Grande telheiro quadrado, telha v\u00e3,<br \/>\nformando bico na cumeeira e sustentado nas quatro faces por moit\u00f5es de piqui<br \/>\npintados de verde, e firmados estes em anteparos de pedra e cal, que formavam<br \/>\numa esp\u00e9cie de amurada, alta pela parte de fora e rasa pela de dentro. No<br \/>\nmeio, distanciado da antepara uns vinte palmos seguros, estava a casa feita<br \/>\nde paredes inteiri\u00e7as, caiadas de cima a baixo. O ch\u00e3o era todo forrado de<br \/>\ntijolos vermelhos. A entrada uma cancela, tr\u00eas degraus de cantaria, jasmins<br \/>\nde It\u00e1lia, bancos de pau e uma confus\u00e3o de trepadeiras, que se enroscavam<br \/>\npelos moit\u00f5es e galgavam o telhado, vitoriosamente. erguendo l\u00e1 em cima os<br \/>\nseus rebent\u00f5es novos, \u00e1vidos de sol.<\/p>\n<p>Esta quinta fora a menina dos olhos de Maria B\u00e1rbara; ai passara ela grandes<br \/>\ndelicias no tempo do coronel. Ainda estava muito forte e bem conservada, mas,<br \/>\nhavia dez anos, desde que a velha foi fazer companhia \u00e0 neta, achava-se entregue<br \/>\naos cuidados do portugu\u00eas Ant\u00f4nio e ao trabalho de tr\u00eas pretos velhos, que<br \/>\niam diariamente \u00e0 cidade vender hortali\u00e7as, flores e frutas.<\/p>\n<p>As seis e meia da manh\u00e3 chegou o bonde com os convidados.<\/p>\n<p>Trazia m\u00fasica. Era uma &#8220;surpresa&#8221; arranjada pelo Casusa. E este, encarrapitado<br \/>\nna plataforma do cano, doido de entusiasmo, dava vivas a S\u00e3o Jo\u00e3o, vivas &#8220;ao<br \/>\nbelo madamismo maranhense!&#8221; e vivas \u00e0 m\u00fasica.<\/p>\n<p>Os m\u00fasicos romperam com o Hino Nacional.<\/p>\n<p>O Casusa, inteiramente fora de si, rouco j\u00e1, um bocadinho picado pelo conhaque,<br \/>\ncujo como de delito ele trazia a tiracolo enforcado num peda\u00e7o de cabinho,<br \/>\nsaltava, ia e vinha, singrando por entre todos, atravessando o bonde com as<br \/>\nsenhoras ainda assentadas, fazendo-as apear, assustando-as com os seus gritos,<br \/>\nmachucando nas costas dos bancos os dedos dos que desciam, provocando gemidos,<br \/>\nprotestos, e fazendo rir ao mesmo tempo. Deu um beijo em D. Am\u00e2ncia que lhe<br \/>\nchamou furiosa, &#8220;Cachaceiro! Pancada! Moleque!&#8221;; bateu na barriga de Manuel,<br \/>\nque o exprobrava por se ter incomodado, feito despesas, contratado m\u00fasico.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 gosto, \u00e9 gosto, seu Manuel! N\u00e3o faca caso! Hoje h\u00e1 de sair cinza nesta<br \/>\np\u00e2ndega!<\/p>\n<p>E os convidados saltavam do bonde. O primeiro a descer foi o Freitinhas,<br \/>\ntodo vestido de brim branco de Hamburgo irrepreens\u00edvel rodaque de bot\u00f5es de<br \/>\nosso, uma enorme cadeia de cabelo prendendo o rel\u00f3gio e dependurado nela um<br \/>\nanel de ouro, onde se lia esmaltado &#8216;Saudade&#8221;. Trazia, por causa do p\u00f3, umas<br \/>\nlunetas azuis, grandes, verdadeiras vidra\u00e7as, que lhe davam \u00e0 grande fisionomia<br \/>\no tom pitoresco de uma casa de campo; Um chap\u00e9u de feltro branco, peludo,<br \/>\nalto, a que os gaiatos da prov\u00edncia denominavam &#8220;Carneiro&#8221; e do qual o dono<br \/>\ncontava maravilhosas propriedades. &#8220;Era uma pena!&#8230; Podia a gente machuc\u00e1-lo<br \/>\n\u00e0 vontade sem ofender o p\u00ealo, de bom que era! Custara vinte mil-r\u00e9is, mas<br \/>\nvalia cinq\u00fcenta a olhos fechados!&#8221; E, com a bengala de unicorne debaixo do<br \/>\nbra\u00e7o, ajudava a sua gorda Lindoca a descer do bonde com dificuldade. As meninas<br \/>\nSarmento, acompanhadas da tia de Eufrasinha e um cachorrinho branco e felpudo.<br \/>\nque esta trazia ao colo, saltaram, cheias de espalhafato, muitos risos, latidos,<br \/>\ncores vivas nos chap\u00e9us e nas sombrinhas. O famoso cabelo ostentava-se, mais<br \/>\nque nunca, em cachos acastelados e trescalantes de \u00f3leo de babosa. O c\u00f4nego,<br \/>\ndiscretamente risonho e sempre janota, vinha seguido por um padrezinho magricela,<br \/>\nque desfrutava na prov\u00edncia a especialidade de cantar ladainhas; alcunhavam-no<br \/>\nde &#8220;Frei Lamparinas&#8221;. O Sebasti\u00e3o Campos, vestido de branco como o Freitas,<br \/>\npor\u00e9m de palet\u00f3 e chap\u00e9u-do-chile, pulara em terra, abra\u00e7ado a uma grande<br \/>\ncesta de busca-p\u00e9s, pistolas, carretilhas e bombas.<\/p>\n<p>&#8211; E o mantimento! respondia ele aos olhares curiosos.<\/p>\n<p>Tinha paix\u00e3o pelos fogos.<\/p>\n<p>&#8211; Sou perdido por isto! dizia mostrando uma luva grosseira feita de sola,<br \/>\ncom que tocava os formid\u00e1veis busca-p\u00e9s.<\/p>\n<p>Nos s\u00e1bados de Aleluia era o seu luxo queimar um judas defronte da casa;<br \/>\nn\u00e3o perdia fogo de vista nas festas de arraial e sabia fazer bichinhas, carretilhas<br \/>\ne foguetes.<\/p>\n<p>Apresentaram-se tamb\u00e9m, fora da rodinha do costume, dois novos convidados;<br \/>\nUm levado por Manuel e o outro pelo Casusa. O primeiro era o Joaquim Furtado<br \/>\nda Serra, bom homem, do com\u00e9rcio, muito amigo da fam\u00edlia e tapado como um<br \/>\novo, o que, alias, n\u00e3o impedia que estivesse rico. S\u00f3 entendia e s\u00f3 conversava<br \/>\nsobre neg\u00f3cios, gostava de fazer bem e era membro de v\u00e1rias sociedades filantr\u00f3picas.<br \/>\nVivia contente da vida, cheio de amigos e obsequiados, estava sempre a rir<br \/>\ne a falar das suas tr\u00eas filhas. &#8220;N\u00e3o puderam ir \u00e0 festa de Manuel, coitadinhas!<br \/>\nporque ficaram \u00e0 cabeceira de Uma doente&#8230;&#8221; N\u00e3o queria comendas nem grandezas;<br \/>\ncontava a todos como principiara no Brasil descal\u00e7o, com um barril as costas,<br \/>\ne orgulhava-se, entre gargalhadas, da sua atual independ\u00eancia. O outro era<br \/>\num rapazola de vinte e dois anos, que \u00e0 primeira vista, parecia ter apenas<br \/>\ndezesseis: magro, puxado, muito penteado e muito m\u00edope, com as unhas burmidas,<br \/>\no colarinho enorme e os p\u00e9s apertadinhos em sapatos de polimento. Estudava<br \/>\nno Liceu da prov\u00edncia, u sava uma cadeia de plaqu\u00ea brilhantes falsos no peito<br \/>\nda camisa e uma bengalinha equilibrada entre o indicador e o \u00edndex da m\u00e3o<br \/>\ndireita; tinha uma cole\u00e7\u00e3o de acr\u00f3sticos e recitativos da pr\u00f3pria lavra, uns<br \/>\nin\u00e9ditos e outros j\u00e1 publicados a dinheiro nos jornais aos quais qualificava<br \/>\ndesvanecidamente de &#8220;seu tesouro!&#8221; Chamava-se Boaventura Rosa dos Santos;<br \/>\nera conhecido por &#8220;Dr. Faisca&#8221; e gostava de fazer e adivinhar charadas.<\/p>\n<p>Entraram todos em casa, numa desordem, acossados pela m\u00fasica, que atropelava<br \/>\nUma polca do Colas, e por Uma intempestiva carretilha que soltara Sebasti\u00e3o.<br \/>\nHouve sarilho. Jos\u00e9 Roberto, debaixo de tempestuosa descompostura, obrigava<br \/>\nD. Am\u00e2ncia a dar meia d\u00fazia de voltas pela varanda, indo cair ambos, perseguidos<br \/>\npelo Joli, sobre um banco de papara\u00faba. Joli era o c\u00e3ozinho da Eufr\u00e1sia.<\/p>\n<p>No furor da terr\u00edvel dan\u00e7a, desprendera-se o coque de Am\u00e2ncia e fora parar<br \/>\nno jardim. Joli saltara-lhe logo atr\u00e1s e destripava-o freneticamente com os<br \/>\ndentes.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, seu Casusa! Gritou a velha, quase sem f\u00f4lego, voc\u00ea n\u00e3o de perca o<br \/>\nrespeito, seu pica-fumo! Quando tomar suas monas, meta-se em casa com os diabos!<br \/>\nCredo! Que cachaceiro acabado! V\u00e1 tomar liberdade com quem lhas d\u00e1! Diabo<br \/>\ndo sem brios!<\/p>\n<p>O coque foi arrancado das garras do Joli e restitu\u00eddo \u00e0 dona.<\/p>\n<p>&#8211; Vejam! Vejam em que bonito gosto me puseram o meu coque de pita! Parece<br \/>\numa rodilha de limpar panelas! Diabo da brincadeira est\u00fapida! Tamb\u00e9m, em vez<br \/>\nde criar xirimbabos, sena melhor que cada Um cuidasse de sua vida, que teria<br \/>\nmuito do que cuidar!<\/p>\n<p>E voltando-se para Sebasti\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Mas o culpado \u00e9 voc\u00ea, seu Sebasti\u00e3o; com voc\u00ea e que me tenho de haver!<br \/>\nN\u00e3o posso perder o meu coque novo!<\/p>\n<p>&#8211; Novo qu\u00ea! . contestou Casusa Eu vi pular de dentro dele uma aranha!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 novo, e quero outro p&#8217;r&#8217;aqui!<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, meus senhores, deixem-se disso, interveio Manuel, e vamos ao<br \/>\ncaf\u00e9, que est\u00e1 esfriando!<\/p>\n<p>&#8211; Mas o meu coque? Isto n\u00e3o pode ficar assim!<\/p>\n<p>&#8211; A senhora ter\u00e1 outro. descanse!<\/p>\n<p>Mal se serviram de caf\u00e9 com leite e bolo de tapioca com manteiga, formou-se<br \/>\numa quadrilha. na qual o Casusa, de par com Eufrasinha, fez o que ele chamava<br \/>\n&#8220;pintar o padre&#8221;&#8217; Ditado este que sobremaneira escandalizava o especialista<br \/>\ndas ladainhas. de cujos olhos partiam, por cima dos \u00f3culos, chispas repreensivas<br \/>\nsobre aquele.<\/p>\n<p>Este Frei Lamparinas era um homenzinho escorrido, feio, natural de Caxias.<br \/>\nN\u00e3o conseguira nunca ordenar-se em raz\u00e3o da sua extremada estupidez: soletrava<br \/>\nainda as ladainhas que havia vinte anos recitava; jamais entrara com o latim.<br \/>\nOs rapazes do Liceu mexiam com ele e atiravam lim\u00f5es verdes por detr\u00e1s do<br \/>\nmuro do convento do Carmo, quando o infeliz passava defronte Tinha uma biografia<br \/>\nengra\u00e7ada, cheia de disparates mas todos diziam que era bom de cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o<br \/>\nfazia mal a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; O chorado! Venha o chorado! gritavam do fundo da varanda batendo palmas.<\/p>\n<p>E a m\u00fasica, sem se fazer rogada gemeu a l\u00e2nguida e sensual dan\u00e7a brasileira.<\/p>\n<p>De pronto, Casusa e Sebasti\u00e3o pularam ao meio da sala e puseram-se a sapatear<br \/>\nagilmente. com barulho. estalando os dedos e requebrando todo o corpo Em breve<br \/>\narrastaram o Serra, o Faisca e o Freitas: e as mocas. chamadas por aqueles,<br \/>\nentraram na irresist\u00edvel brincadeira. Elas rodavam na portina dos p\u00e9s, o passo<br \/>\nmiudinho e ligeiro, os bra\u00e7os dobrados e a cabe\u00e7a inclinada, ora para um lado,<br \/>\nora para outro, estalando a l\u00edngua contra o c\u00e9u da boca, numa vol\u00fapia original<br \/>\ne graciosa.<\/p>\n<p>Os velhos babavam-se.<\/p>\n<p>&#8211; Quebra! berrava o Casusa entusiasmado. Quebra meu bem!<\/p>\n<p>E regamboleava furiosamente a perna.<\/p>\n<p>O chorado atingira afinal a sua fase de loucura Os que n\u00e3o podiam dan\u00e7ar<br \/>\nespectavam, acompanhando a m\u00fasica com movimentos de corpo inteiro e palmas<br \/>\ncadenciado e espont\u00e2neas.<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! Assim, seu Casusa!<\/p>\n<p>&#8211; Picadinho! Picadinho!<\/p>\n<p>De repente, ouviu-se um trambolh\u00e3o e um grito: era o Faisca. que cedera a<br \/>\num &#8220;cambite&#8221; do Casusa, indo cair aos p\u00e9s de Maria do Carmo Todos riram.<\/p>\n<p>&#8211; Credo! gritou a velha Pois este homem neo me queda agarrar a perna?&#8230;<br \/>\nCruz capeta!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o aumente, minha senhora, foi no tornozelo&#8230;Este ossinho do p\u00e9!<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu tenho muita c\u00f3cega, e, depois do defunto Espig\u00e3o, ningu\u00e9m mais me<br \/>\ntocou no corpo!<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco, chamavam para o almo\u00e7o, e o divertimento continuou sem intenrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia de S\u00e3o Jo\u00e3o nunca se abria o armaz\u00e9m de Manuel, e naquele ano a v\u00e9spera<br \/>\nca\u00edra num domingo! &#8220;Eram dois dias cheios!&#8221; como dizia satisfeito o Vila Rica.<\/p>\n<p>Desde a v\u00e9spera que o Benedito, e mais uma preta, haviam seguido para o s\u00edtio,<br \/>\ncarregados de fogos e dos paramentos necess\u00e1rios para se armar o altar: na<br \/>\nmadrugada do dia foi a Br\u00edgida, em companhia de M\u00f4nica L\u00e1 estava D. Am\u00e2ncia<br \/>\npara tomar conta de tudo. Os empregados iriam tamb\u00e9m todos; n\u00e3o havia, por<br \/>\nconseguinte, necessitado de ficar escravo nenhum em casa.<\/p>\n<p>O quarto dos caixeiros tinha ent\u00e3o um aspecto domingueiro: botas engraxadas<br \/>\nsobre os ba\u00fas; roupas de casimira cuidadosamente estendidas nas costas de<br \/>\ncadeiras; camisas engomadas por aqui e por ali, a espera da serventia, e um<br \/>\ncheiro ativo de extratos para o len\u00e7o. Os rapazes vestiam-se. Seriam, quando<br \/>\nmuito, oito horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Mas, apesar do aspecto festival dos colegas, Dias conservava-se em trajos<br \/>\nmenores, a varrer o soalho.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o se apronta, seu Dias?&#8230; perguntou-lhe o Cordeiro, ocupado a enfiar<br \/>\num par de calcas cor de alecrim. Voc\u00ea neo vem conosco \u00e0 quinta?<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e3o andando, que eu j\u00e1 vou.<\/p>\n<p>margin-top:0cm;margin-right:0cm;margin-bottom:6.0pt; margin-left:18.0pt;text-align:justify;text-indent:N\u00e3o<br \/>\ntrocaram mais palavra. Os tr\u00eas sa\u00edram, e o Dias, encostando no queixo o cabo<br \/>\nda vassoura, ficou pensativo. Mal ouviu, por\u00e9m, bater embaixo o trinco da<br \/>\nporta da rua, atirou a vassoura para um canto e desceu cautelosamente \u00e0 varanda.<\/p>\n<p>A casa tinha a tranq\u00fcilidade saudosa de Um lugar abandonado. S\u00f3 o sabi\u00e1 chilreava<br \/>\nna gaiola.<\/p>\n<p>O caixeiro predileto de Manuel fechou \u00e0 chave a cancela de madeira polida,<br \/>\nque separava a varanda do corredor, e, depois de olhar em torno, seguiu para<br \/>\no quarto de Raimundo, fariscando, nem ele sabia bem o qu\u00ea. P\u00f4s-se a esquadrinhar<br \/>\no que l\u00e1 havia, n\u00e3o com a curiosidade amorosa da primitiva bisbilhoteira,<br \/>\npor\u00e9m frio, calculado, com a prud\u00eancia de quem sabe que est\u00e1 cometendo uma<br \/>\nbaixeza. E abria gavetas, lia os manuscritos que encontrava, revistava as<br \/>\nalgibeiras da roupa estendida no cabide, folheava os livros, examinando tudo,<br \/>\ntodos os cantinhos. Em Uma das malas encontrou um folheto de capa verde, guardou-o<br \/>\nlogo, depois de lhe ter lido o frontisp\u00edcio, e afinal, quando j\u00e1 nada mais<br \/>\ntinha para dar f\u00e9, retirou-se sem deixar o menor vest\u00edgio do que fez. Da\u00ed<br \/>\nseguiu para o aposento de Ana Rosa, mas teve logo uma contrariedade: a porta<br \/>\nestava fechada; resbuscou a chave na varanda, pelos cantos, n\u00e3o a encontrou,<br \/>\ne subiu ent\u00e3o rapidamente ao segundo andar, donde trouxe um peda\u00e7o de cera,<br \/>\ncom que modelou a fechadura. Em seguida atirou-se para o quarto de Maria B\u00e1rbara,<br \/>\nexperimentou a porta; estava tamb\u00e9m fechada. Mas havia um postigo Dias espremeu-se<br \/>\npor esse e conseguiu entrar.<\/p>\n<p>O aposento da velha conduzia com a dona. Sobre uma c\u00f4moda antiga, de pau-santo,<br \/>\ncom puxadores de metal e coberta por um oleado j\u00e1 pu\u00eddo e gasto, equilibrava-se<br \/>\num orat\u00f3rio de madeira, caprichosamente trabalhado e cheio de uma por\u00e7\u00e3o variad\u00edssima<br \/>\nde santos, havia entre eles, feitos de casca de caj\u00e1, de gesso, de terra vermelha<br \/>\ne de porcelana. O Santo Ant\u00f4nio de Lisboa, vindo de encomenda, com o pequeno<br \/>\nao colo, l\u00e1 estava, muito rubicundo e lustroso; a Santa Ana, ensinando a filha<br \/>\na ler: um S\u00e3o Jos\u00e9 de cores cruas, detestavelmente pintado; um S\u00e3o Benedito,<br \/>\nvestido de frade, pretinho, de bei\u00e7os encarnados e olhos de vidro: um S\u00e3o<br \/>\nPedro, cujas propor\u00e7\u00f5es o faziam crian\u00e7a ao lado dos outros, uma miu\u00e7alha<br \/>\nde santinhos, pequenitos e caricatos, que a gente n\u00e3o podia ver sem rir e<br \/>\nque se escondam na peanha dos grandes; e, finalmente, um grande S\u00e3o Raimundo<br \/>\nNonato, calv\u00edssimo, barbado, feio, e com um c\u00e1lice na m\u00e3o direita. Ao fundo<br \/>\ndo orat\u00f3rio litografias de carrega\u00e7\u00e3o representavam Santa Filomena, a fugida<br \/>\nde S\u00e3o Jos\u00e9 com a fam\u00edlia, Cristo crucificado e outros assuntos religiosos.<br \/>\nO grupo dos santos ressentia-se de uma falta, a de Jo\u00e3o Batista, que havia<br \/>\ndesertado para a quinta. Havia ainda sobre a c\u00f4moda dois casti\u00e7ais de lat\u00e3o,<br \/>\nguarnecidos de papel rendado, com as velas de cera meio gastas; um grupo de<br \/>\nbiscuit representando a Mater dolorosa e um menino Jesus, fechado numa manga<br \/>\nde vidro, por causa das moscas. Encostada a parede, uma palma de pindoba benta<br \/>\na qual, segundo a voz do povo, tinha a virtuosa propriedade de apaziguar os<br \/>\nelementos em dias de tempestade, duas outras palmas casquilhas, enfeitadas<br \/>\nde pano e malacacheta, guarneciam os lados do orat\u00f3rio. Viam-se ainda, por<br \/>\ntoda a parte, quadrinhos de gravuras e cromos, onde se liam ora\u00e7\u00f5es milagrosas,<br \/>\na do Monte Serrate, a do Parto, a da Virgem, e outras, sem desenho, com que<br \/>\nos tip\u00f3grafos espertos da prov\u00edncia exploravam a carolice das beatas.<\/p>\n<p>Contrastando com tudo isto, destacava-se, dependurada na parede, uma formid\u00e1veis<br \/>\npalmat\u00f3ria de dar bolos, negra, terr\u00edvel e muito lustrosa de uso.<\/p>\n<p>Defronte do orat\u00f3rio simetrizavam duas molduras envidra\u00e7adas, expondo cada<br \/>\nqual uma talagar\u00e7a cheia de amostras dos diversos bordados de l\u00e3, que as meninas<br \/>\naprendem no col\u00e9gio. &#8220;Panos de tapete&#8221; como se diz no Maranh\u00e3o. Em uma delas<br \/>\nliam-se no centro as iniciais M. R. S. e &#8220;Col\u00e9gio da Trindade em 1838&#8221;, e<br \/>\nna outra, que estava em melhor estado de conserva\u00e7\u00e3o &#8220;A. R. S. S.&#8221; e Uma data<br \/>\nmuito mais recente. A julgar por estas letras, os dois quadros tinham sido<br \/>\nbordados por Mariana e Ana Rosa, m\u00e3e e filha. Tudo isso foi minuciosamente<\/p>\n<p>esmerilhado pelo Dias; leu as Horas Marianas, apalpou as roupas de Maria<br \/>\nBarbara, provou a ponta do molho do fumo com que esta &#8220;espairecia os passados<br \/>\ndissabores&#8221;, e. depois, quando nada mais tinha para esmiu\u00e7ar, pos-se a refletir,<br \/>\npensando, no que devia fazer. Afinal veio-lhe uma id\u00e9ia, que lhe deu um sorriso<br \/>\nde contentamento, acendeu logo uma das grossas velas de cera, tomou pelas<br \/>\npernas a imagem de S\u00e3o Raimundo e tisnou-lhe a cara e a careca de encontro<br \/>\n\u00e0 chama do pavio. Depois da opera\u00e7\u00e3o, o pobre santo parecia um carvoeiro;<br \/>\nficara t\u00e3o negro como o seu companheiro de orat\u00f3rio, o engra\u00e7ado S\u00e3o Benedito.<\/p>\n<p>19.25pt;text-autospace:none&#8217;&gt; Dias contemplou a sua obra, riu de novo,<br \/>\ncalculando o bom efeito que ela produziria, colocou em seguida a imagem no<br \/>\nseu lugar, e saiu apressado, por lhe parecer que ouvira rumor na porta da<br \/>\nrua. Enganara-se.<\/p>\n<p>Da\u00ed a meia hora, vestido de pano preto, segundo o seu invari\u00e1vel costume.<br \/>\no acreditado caixeiro de Manuel Pescada, tomava o bonde do Cutim, com destino<br \/>\nao sitio da sogra do patr\u00e3o.<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>VIII<\/h2>\n<p>Eram cinco da tarde.<\/p>\n<p>A festa de Maria B\u00e1rbara continuara sempre muito animada; havia uma boa disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeral. Os homens bebericaram durante o dia c\u00e1lices de conhaque, e sopravam<br \/>\nagora o fumo dos seus charutos domingueiros, com um grande ar de pessoas de<br \/>\nimport\u00e2ncia: as senhoras melaram galantemente os bei\u00e7os com licor de rosa<br \/>\ne hortel\u00e3-pimenta Dan\u00e7ara-se muito. Brincou-se o Padre-cura o Anel, o Peixinho<br \/>\nde Muqu\u00e9m Afinal. foram todos l\u00e1 pra fora, apreciar a tarde, assentados nos<br \/>\nbancos fronteiros a casa. A sociedade estava engrossada pelos quatro caixeiros<br \/>\nde Manuel e por um sertanejo que a divertia com as suas cantigas. &#8220;Lamparinas&#8221;<br \/>\nhavia saido para ir ali perto, \u00e0 quinta de um amigo, mas prometera n\u00e3o faltar<br \/>\n\u00e0 ladainha.<\/p>\n<p>O sol escondera-se. Uma tarde formosa, com o seu poente esfogueado, rubrava<br \/>\nas caras suadas dos homens e os vestidos machucados das senhoras, que se arejavam<br \/>\ndebaixo das latadas de maracuj\u00e1s e jasmins da It\u00e1lia. As damas, comodamente<br \/>\nassentadas, tinham requebros de etiqueta, gestos cheios de conveni\u00eancia, risos<br \/>\ncom a boca fechada, olhares por debaixo das p\u00e1lpebras, o leque nos l\u00e1bios<br \/>\ne o dedo m\u00ednimo levantado com galanteria.<\/p>\n<p>Minava um apetite surdo pelo jantar: alguns est\u00f4magos resmungavam indiscretamente.<br \/>\nContudo, todos os olhares e todas as aten\u00e7\u00f5es convergiam, na apar\u00eancia, para<br \/>\no sertanejo, que a certa dist\u00e2ncia, de p\u00e9, isolado, a cabe\u00e7a erguida com desembara\u00e7o<br \/>\nmal-educado, o chap\u00e9u de couro atirado para a cerviz e preso ao pesco\u00e7o por<br \/>\numa correia, a camisa de algod\u00e3o cru por fora das calcas de zuarte, arrega\u00e7adas<br \/>\nno joelho, o p\u00e9 descal\u00e7o, curto e espalmado, p\u00e9 de andarilho, o peito liso<br \/>\ne cor de cedro \u00e0 mostra, bra\u00e7o nu e sem cabelos vibrava entusiasmado as cordas<br \/>\nmet\u00e1licas de uma viola ordin\u00e1ria, acompanhando, com um repinicado muito original,<br \/>\nos versos que improvisava e outros que trazia de cor:<\/p>\n<p>&#8220;L\u00e1 vai a gar\u00e7a voando<\/p>\n<p>Para as bandas do sert\u00e3o!<\/p>\n<p>Leva Maria no bico,<\/p>\n<p>Teresa no cora\u00e7\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>Ao terminar de cada estrofe, rebentava um coro de risadas, durante o qual<br \/>\nse ouvia o sapatear surdo do sertanejo, socando a terra, a dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tenho medo da on\u00e7a,<\/p>\n<p>Que todos t\u00eam medo dela!..<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho medo de ti,<\/p>\n<p>Que far\u00e1 de Micaela!&#8221;<\/p>\n<p>E o matuto, depois do sapateado, dirigiu-se a Ana Rosa:<\/p>\n<p>&#8220;Me diga, minha senhora:<\/p>\n<p>(Quem pergunta quer saber&#8230;)<\/p>\n<p>Se eu sair daqui agora,<\/p>\n<p>Onde vou amanhecer? &#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Este foi de sentimento!&#8230; considerou Etelvina com um gesto aprovativo.<\/p>\n<p>&#8211; Gostei, gostei&#8230; confirmava o Freitas, protetoramente.<\/p>\n<p>E o sertanejo ferrou o olhar em Ana Rosa:<\/p>\n<p>&#8220;Sinh\u00e1 dona, se eu pedisse&#8230;<\/p>\n<p>Responda, mas n\u00e3o se ria&#8230;<\/p>\n<p>Uma flor do seu cabelo&#8230;<\/p>\n<p>Sinh\u00e1 dona que diria?\u2026&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Bravo!<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor!<\/p>\n<p>Houve um sussurro alegre<\/p>\n<p>&#8211; D. Anica, de a flor!&#8230;<\/p>\n<p>Ana Rosa hesitava.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, menina&#8230; repreendeu Manuel em voz baixa.<\/p>\n<p>Ana Rosa tirou um bogari da cabe\u00e7a e passou-o ao trovador, que versejou logo:<\/p>\n<p>&#8220;O minha senhora dona,<\/p>\n<p>Deus lhe pague eu agrade\u00e7o;<\/p>\n<p>Seus quindingues s\u00e3o dos ricos<\/p>\n<p>Eu sou pobre e n\u00e3o mere\u00e7o!&#8230; &#8221;<\/p>\n<p>E, colocando a flor atr\u00e1s da orelha, continuou, depois de olhar intencionalmente<br \/>\npara Raimundo:<\/p>\n<p>&#8220;\u00d3 nh\u00e1 dona feiticeira!<\/p>\n<p>Me cativa seu favor<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o v\u00e1 meter ci\u00fames<\/p>\n<p>Agora pro moa e a flor!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Em seguida, desprendeu o chap\u00e9u e estendeu-o a um por um.<\/p>\n<p>Consultaram-se as algibeiras do colete, pingaram os vint\u00e9ns e as pratinhas<br \/>\nde tost\u00e3o. O menestrel, com a cabe\u00e7a erguida em ar de exig\u00eancia, dizia:<\/p>\n<p>&#8220;Vamos, vamos, pingue o cobre,<\/p>\n<p>Qu &#8216;eu n\u00e3o gosto de ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>Dos homens aceito a paga,<\/p>\n<p>Das mocas n\u00e3o quero nada!&#8221;<\/p>\n<p>E, quando se chegou a Manuel:<\/p>\n<p>&#8220;Manuelzinho cravo roxo,<\/p>\n<p>Me desculpe a ;impertin\u00eancia;<\/p>\n<p>Se puder dar eu aceito,<\/p>\n<p>Se n\u00e3o puder &#8211; paci\u00eancia!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Entre gargalhadas, enchiam-lhe o chap\u00e9u de moedas. Ao chegar a vez do Faisca,<br \/>\neste. em vez de dinheiro, lan\u00e7ou-lhe a ponta do cigarro; o matuto, como de<br \/>\ncostume, cavaqueou com a pilh\u00e9ria e gritou zangado:<\/p>\n<p>&#8220;Seu lanceiro da Bahia,<\/p>\n<p>Casaquinha do Par\u00e1<\/p>\n<p>A gente recebe o coice,<\/p>\n<p>Conforme a besta que o d\u00e1!&#8221;<\/p>\n<p>A hilaridade aumentou e o Faisca enfureceu-se, chegando a amea\u00e7ar o caboclo,<br \/>\nque lhe soma em ar de mofa.<\/p>\n<p>&#8211; Eu ainda atiro com alguma coisa \u00e0 cara daquele diabo! resmungou o estudante,<br \/>\nl\u00edvido.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-se disso! . aconselharam-lhe, voc\u00ea j\u00e1 sabe que esta gente \u00e9 assim,<br \/>\npara que se mete?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tome l\u00e1! disse Manuel ao sertanejo beba e v\u00e1 embora!<\/p>\n<p>E passou-lhe um copo de vinho, que ele emborcou, trovando, depois de estalar<br \/>\na l\u00edngua:<\/p>\n<p>&#8220;O vinho \u00e9 sangue de Cristo,<\/p>\n<p>\u00c9 alma de Satan\u00e1s.<\/p>\n<p>\u00c9 sangue quando ele \u00e9 pouco,<\/p>\n<p>\u00c9 alma quando \u00e9 demais!&#8221;<\/p>\n<p>E, fazendo um grande cumprimento com o chap\u00e9u:<\/p>\n<p>&#8220;Meus senhores e nh\u00e1s donas,<\/p>\n<p>Vou-me embora de partida<\/p>\n<p>Deus lhes de muita fortuna<\/p>\n<p>E muitos anos de vida!&#8221;<\/p>\n<p>E virou de costas e retirou-se, a dan\u00e7ar, cantando uma passagem do &#8211; bumba-meu-boi:<\/p>\n<p>&#8220;Isto n\u00e3o, isto n\u00e3o pode s\u00ea.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o, isto n\u00e3o pode s\u00ea<\/p>\n<p>A filha de meu amo casar com voc\u00ea! ..<\/p>\n<p>O caboclo me prendeu<\/p>\n<p>Meu amor!<\/p>\n<p>Foi t\u00e3o cena da raz\u00e3o,<\/p>\n<p>Cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Que ocabo&#8230; &#8221;<\/p>\n<p>E perdeu-se nas fundas sombras do mangueiral a voz do sertanejo e o som da<br \/>\nviola.<\/p>\n<p>Iam-lhe discutir o talento po\u00e9tico e a gra\u00e7a, quando de ama, Manuel, Maria<br \/>\nBarbara e Am\u00e2ncia, todos tr\u00eas a um tempo, chamaram para a mesa, com autoridade<br \/>\nbenfazeja.<\/p>\n<p>Houve um sussurro de prazer.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, filha, que j\u00e1 tinha o est\u00f4mago a dar horas!&#8230; cochichou D. Maria<br \/>\ndo Carmo, ao passar por Ana Rosa.<\/p>\n<p>Subiram todos para a varanda e foram tomando vivamente os seus lugares \u00e0<br \/>\nmesa, entre uma confus\u00e3o de vozes, a discutirem mil assuntos.<\/p>\n<p>&#8211; Homem! exclamou Sebasti\u00e3o Campos, parece que tomaram alma nova s\u00f3 com o<br \/>\ncheiro!&#8230;<\/p>\n<p>O Freitas amolava Raimundo sobre poesia popular; falou, com assombro, de<br \/>\nJuvenal Galeno.<\/p>\n<p>&#8211; Muito original! muito original!<\/p>\n<p>&#8211; Do Cear\u00e1. n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Todo inteiro! Ah, o senhor n\u00e3o imagina o que \u00e9 aquela provinciazinha para<br \/>\nas trovas populares!<\/p>\n<p>E, antes que Raimundo desse alguma provid\u00eancia contra a ma\u00e7ada j\u00e1 o Freitas<br \/>\nlhe recitava junto ao ouvido:<\/p>\n<p>&#8220;Quando passares na nua,<\/p>\n<p>Escarra, cospe no ch\u00e3o!<\/p>\n<p>Qu&#8217;estou cosendo \u00e0 candeia<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se passas ou n\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o h\u00e1 como uma festa no sido! dizia Sebasti\u00e3o por outro lado. Isto<br \/>\nde p\u00e2degas, ou bem que \u00e9 p\u00e2ndega ou bem que n\u00e3o \u00e9!<\/p>\n<p>O Freitas insista:<\/p>\n<p>&#8220;Sinh\u00e1, me de qualquer coisa,<\/p>\n<p>Inda que s\u00f3 uma banana,<\/p>\n<p>Que a barriga \u00e9 bicho burro<\/p>\n<p>Com qualquer coisa s engana!&#8221;<\/p>\n<p>Raimundo j\u00e1 n\u00e3o o ouvia: prestava aten\u00e7\u00e3o a uma conversa entre Bibina, Lindoca<br \/>\ne Eufr\u00e1sia.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas n\u00e3o tiraram a sorte esta noite? perguntou a \u00faltima.<\/p>\n<p>&#8211; Como n\u00e3o? disse a gorda, por\u00e9m n\u00e3o vi nada, ou pelo menos n\u00e3o acertei<br \/>\ncom 0 que apareceu .<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, pois eu, declarou a vi\u00fava, tirei uma sorte bem bonita&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que foi? Que foi?<\/p>\n<p>&#8211; Um v\u00e9u branco e uma grinalda!<\/p>\n<p>&#8211; Casamento! gritaram varias vozes.<\/p>\n<p>&#8211; Eu tirei um &#8220;t\u00famulo&#8221;!&#8230; disse do canto da mesa a Lagartixa, suspirando<br \/>\nfunebremente.<\/p>\n<p>&#8211; Credo! exclamou Am\u00e2ncia, passando com uma salada de agri\u00e3o, que acabava<br \/>\nde preparar.<\/p>\n<p>Raimundo, assentado, contra a vontade, ao lado do Freitas, falava com saudade<br \/>\nnos costumes portugueses nas noites de S\u00e3o Jo\u00e3o e S\u00e3o Pedro; contou como era<br \/>\nque as raparigas queimavam alcachofras e plantavam-nas em vasos \u00e0 janela,<br \/>\npara ver com elas grelar a sorte; citou o costume das favas sobre o travesseiro,<br \/>\nos bochechos de \u00e1gua \u00e0 meia-noite para se ouvir nome do namorado, as fogueiras<br \/>\nde alecrim seco, e enfim aquele uso do copo de \u00e1gua, de que as mo\u00e7as ali falavam.<\/p>\n<p>&#8211; Um antigo uso! explicava o Freitas, a mastigar pedacinhos de p\u00e3o. Consiste<br \/>\nem deitar ao sereno, na noite de S\u00e3o Jo\u00e3o, um copo de \u00e1gua com a gema de um<br \/>\novo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E a clara! reclamou D. Maria do Carmo, que acompanhava a conversa com muito<br \/>\ninteresse.<\/p>\n<p>&#8211; Pois seja assim! a gema e a clara; e, no outro dia, pela manh\u00e3, dizem que<br \/>\na sorte do individuo aparece representada no interior do copo. Patacoadas!<\/p>\n<p>&#8211; Patacoadas, n\u00e3o! retorquiu a velha, tomando lugar junto das sobrinhas.<br \/>\nC\u00e1 est\u00e1 quem recebeu a noticia da morte do Espig\u00e3o muito antes do dia fatal!<\/p>\n<p>E levou o guardanapo aos olhos num movimento pat\u00e9tico.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 outros usos, continuou Freitas, passando adiante um prato de sopa. O<br \/>\nbanho de S\u00e3o Jo\u00e3o, por exemplo!<\/p>\n<p>&#8211; Imita\u00e7\u00f5es de Portugal&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quem n\u00e3o se banha amanh\u00e3 de madrugada, fica com a alma suja! Dizem!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o seu Cordeiro! seu Dias! e voc\u00ea l\u00e1, menino! neo tratam de se assentar?<br \/>\nintimou Manuel.<\/p>\n<p>-N\u00f3s esperamos a outra mesa&#8230; respondeu modestamente o Dias. N\u00e3o h\u00e1 mais<br \/>\nlugares&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual outra mesa, o qu\u00ea! N\u00e3o, senhor! Sente-se c\u00e1, seu Dias!<\/p>\n<p>E o negociante abriu um lugar ao lado da filha.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Dias todo vexado foi assentar-se, sorrindo, ao lado de Ana Rosa, que<br \/>\nfez logo um gesto de contrariedade e repugn\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; E l\u00e1 os senhores? seu Cordeiro! seu Vila Rica! e esse menino! Venham se<br \/>\nchegando!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s esperamos.. Faz-se depois outra mesa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E a darem com a outra mesa! N\u00e3o, senhor! e a senhora, minha sogra? D. Am\u00e2ncia,<br \/>\nonde ficam?<\/p>\n<p>&#8211; Tem aqui um lugar, minha senhora!&#8230; disse Raimundo levantando-se. E ofereceu<br \/>\na cadeira.<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, censurou Manuel, deixe-se dessas coisas! Olhe que estamos no<br \/>\ns\u00edtio! Isto c\u00e1 n\u00e3o e cidade para se fazer cerim\u00f4nias!<\/p>\n<p>&#8211; Pagode de sitio n\u00e3o presta, quando nada falta!&#8230; arriscou o Serra, mexendo<br \/>\ne soprando uma colherada de sopa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! contradisse o Freitas. Quero a minha comodidade at\u00e9 no inferno!<\/p>\n<p>&#8211; Ora est\u00e1 tudo arranjado! gritou Am\u00e2ncia, que acabava de preparar outra<br \/>\nmesa. Ficamos n\u00f3s aqui! Somos poucos, por\u00e9m bons!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E eles l\u00e1?&#8230; interrogou Vila Rica, contando as pessoas da mesa grande,<br \/>\npela seguinte ordem, a partir da cabeceira: &#8220;O patr\u00e3o &#8211; um, senhor c\u00f4nego<br \/>\n&#8211; dois, D. Maria do Carmo &#8211; tr\u00eas, sobrinhas &#8211; cinco, o Dr. Raimundo &#8211; seis,<br \/>\nseu Freitas e a filha &#8211; oito, D. Eufrasinha &#8211; nove, seu Serra e aquele mo\u00e7o<br \/>\n&#8211; era o Faisca &#8211; onze, o Dias e D. Anica &#8211; treze ao todo!<\/p>\n<p>&#8211; Treze?! bradou D. Maria do Carmo, soprando o macarr\u00e3o que tinha na boca.<br \/>\nTreze!<\/p>\n<p>&#8211; Treze! repetiram todas as senhoras, assustadas.<\/p>\n<p>&#8211; Saia um! reclamaram.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se mexeu.<\/p>\n<p>&#8211; Ou venha outro&#8230; lembrou o c\u00f4nego, largando a colher. Em treze n\u00e3o pode<br \/>\nficar!<\/p>\n<p>Suspendeu-se o jantar.<\/p>\n<p>O Freitas passou logo a dar explica\u00e7\u00f5es a Raimundo do que aquilo queria dizer,<br \/>\nposto haver este declarado de pronto que j\u00e1 sabia perfeitamente.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m por ai?<\/p>\n<p>Maria B\u00e1rbara levantou-se e foi buscar l\u00e1 dentro uma negrinha de tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui tem!<\/p>\n<p>&#8211; E verdade! E o Casusa?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, gente, seu Casusa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Venha o Casusa!<\/p>\n<p>Casusa dormia. tinha tomado um banho e recolhera se cansado. A pequena foi<br \/>\nnovamente levada para a cozinha.<\/p>\n<p>&#8211; Moleque! Chama seu Casusa ai no quarto!<\/p>\n<p>O Casusa veio bocejando e esticando os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Para que jantar t\u00e3o cedo?&#8230; N\u00e3o tenho apetite algum!&#8230; resmungava ele,<br \/>\nabrindo a boca.<\/p>\n<p>&#8211; Cedo!&#8230; Se lhe parece!&#8230; J\u00e1 deram cinco horas!<\/p>\n<p>&#8211; Quase que ficavas a ver navios!&#8230; considerou Sebasti\u00e3o, rindo.<\/p>\n<p>&#8211; Olha o preju\u00edzo!&#8230; desdenhou Am\u00e2ncia, com um esgar de pouco caso.<\/p>\n<p>&#8211; Tu j\u00e1 queres inticar comigo, cora\u00e7\u00e3o?&#8230; Depois te queixa!&#8230; Mas, enfim<br \/>\nonde me assento? O que neo vejo \u00e9 lugar! Ah, exclamou, voltando-se para a<br \/>\nmesa pequena. Tenho-o c\u00e1, e em boa companhia!<\/p>\n<p>&#8211; Pra l\u00e1, op\u00f4s-se Am\u00e2ncia, escandalizada.<\/p>\n<p>-Venha pra c\u00e1, homem de Deus! Voc\u00ea \u00e9 c\u00e1 necess\u00e1rio!<\/p>\n<p>E com dificuldade arranjou-se uma cadeira ao lado de Sebasti\u00e3o,<\/p>\n<p>&#8211; Ora at\u00e9 que afinal! disse Manuel, assentando-se descansadamente.<\/p>\n<p>&#8211; Tollitur quaestio!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego sorveu uma colherada de sopa.<\/p>\n<p>Fez-se sil\u00eancio por um instante; s\u00f3 se ouvia o arrastar das colheres no fundo<br \/>\ndo prato e os assovios dos que chuchurreavam o macarr\u00e3o.<\/p>\n<p>O Cordeiro cercava Am\u00e2ncia, e Maria Barbara de cuidados, cuja delicadeza<br \/>\nprocurava acentuar \u00e0 forca de diminutivos:<\/p>\n<p>&#8211; Uma coxinha de galinha, senhora D. Amancinha!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E um perfeito cavalheiro!&#8230; segredava esta \u00e0 outra velha. Compare-o s\u00f3<br \/>\ncom a peste do Casusa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! que os rapazes de l\u00e1 s\u00e3o mais aqueles&#8230; est\u00e1 provado!<\/p>\n<p>&#8211; T\u00eam outro assento que n\u00e3o t\u00eam os de c\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; O senhor Serra, passa-me o pires das azeitonas?&#8230; E bondade.<\/p>\n<p>&#8211; Quer mais pir\u00e3o, D. Lindoca?<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigada, assim! chega! Um tiquinho s\u00f3!<\/p>\n<p>&#8211; Gentes?&#8230; voc\u00ea come essa pimenta toda, D. Etelvina?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Basta, oh! N\u00e3o quero afogar-me em caldo!<\/p>\n<p>&#8211; Tenha o obs\u00e9quio de encolher as asas, meu amigo!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o enchas a boca desse modo!&#8230; dizia a velha Sarmento a uma das sobrinhas.<br \/>\nEra o que tinha o Espig\u00e3o! &#8211; comia como um danado, mas ningu\u00e9m dava por isso!<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que voc\u00ea me suja de gordura, seu Casusa! Que diabo de homem!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o! Quem mexe esta salada?!<\/p>\n<p>&#8211; A salada, sentenciou judiciosamente o Freitas com um sorriso, deve ser<br \/>\nmexida por um doido!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, tome conta, seu Casusa!<\/p>\n<p>&#8211; Quanto quer o menino pela gra\u00e7a?&#8230; Se tivesse um vint\u00e9m aqui, dava-lho,<br \/>\n&#8220;seu poeta!&#8221;<\/p>\n<p>Isto era entre o Casusa e o Faisca<\/p>\n<p>&#8211; Doutor, n\u00e3o deixe apagar a lanterna! recomendava Manuel a Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Uma fatia de porco, D. Maria B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>&#8211; Deite menos, minha vida! Assinzinho!<\/p>\n<p>&#8211; Dona Etelvina! a senhora est\u00e1 magra de n\u00e3o comer!&#8230;<\/p>\n<p>-Ai! suspirou ela fitando o talher cruzado sobre o prato.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o queres arroz, \u00f3 Sebasti\u00e3o?<\/p>\n<p>-N\u00e3o! Vou \u00e0 farinha-d&#8217;\u00e1gua.<\/p>\n<p>&#8211; Um brinde! gritou Casusa, levantando-se e suspendendo o copo \u00e0 altura da<br \/>\ncabe\u00e7a. Ao belo madamismo maranhense, que hoje nos honra!<\/p>\n<p>&#8211; Hup! Hup! bang\u00fc\u00ea!<\/p>\n<p>-Aproveito a ocasi\u00e3o, meus senhores, para agradecer o obs\u00e9quio que me fazem,<br \/>\ne \u00e0 minha sogra, comparecendo a esta nossa velha festa da fam\u00edlia!<\/p>\n<p>Era Manuel que falava. Seguiu-se um inferno de vivas e hurras que se prolongaram<br \/>\nem medonha berraria. Os caixeiros do autor do brinde, j\u00e1 um pouco eletrizados<br \/>\npelo vinho, gritaram familiarmente: &#8220;Viva o Manuel!&#8221;<\/p>\n<p>Houve uma voz indiscreta que gritou: &#8211; Manuel Pescada.<\/p>\n<p>Mas restabeleceu-se a ordem, e s\u00f3 se ouvia, al\u00e9m do rumor dos talheres e<br \/>\ndos queixos, a voz avinhada do Cordeiro, que gritava para a sua vizinha da<br \/>\ndireita com uma solicitude exagerada:<\/p>\n<p>&#8211; Beba! beba, D. Amancinha! Ataque-lhe pra baixo, que \u00e9 o que se leva desta<br \/>\nvida!<\/p>\n<p>E batia-lhe no ombro, revirando os olhos, em que o \u00e1lcool pusera faiscas.<\/p>\n<p>&#8211; Credo! O senhor quer m&#8217;embebedar?!&#8230;<\/p>\n<p>E, como o Cordeiro insistisse em servi-la de Lisboa, Am\u00e2ncia retirou o copo<br \/>\ne o vinho derramou-se-lhe no prato, pela mesa e sobre as pernas.<\/p>\n<p>&#8211; Ui! fez ela, arredando s\u00fabito a cadeira, e gritou: &#8211; Que selvageria, Virgem<br \/>\nSant\u00edssima!<\/p>\n<p>&#8211; Farinha! Farinha seca, D. Am\u00e2ncia! Farinha seca! receitavam de todos os<br \/>\nlados.<\/p>\n<p>O Cordeiro, j\u00e1 pronto, tomou a cuia da farinha e despejou-a em cheio sobre<br \/>\na pobre velha, que entrou a tossir muito sufocada. Foi um gargalhad\u00e3o geral<br \/>\ne prolongado.<\/p>\n<p>&#8211; Cruzes! Valha-me Deus, com os diabos! berrou Am\u00e2ncia, quando p\u00f4de falar,<br \/>\ne a sacudir-se toda, muito enfarinhada Arre! Aqui mesmo n\u00e3o me sento mais!<\/p>\n<p>&#8211; Vem c\u00e1, pro meu lado, perdi\u00e7\u00e3o! dizia Casusa, convidando Am\u00e2ncia entre<br \/>\no riso da mesa inteira<\/p>\n<p>&#8211; Se a farinha e o ant\u00eddoto cure-se agora com este! aconselhou Raimundo<br \/>\npor pilh\u00e9ria.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 voc\u00ea?! esbravejou Am\u00e2ncia, cega de raiva. Ora mire-se! Quer um espelho?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Preferia uma escova, minha senhora, para limpar-lhe a roupa<\/p>\n<p>As gargalhadas repetiam-se j\u00e1 sem intervalo, contagiosamente, sem precisar<br \/>\nde mais nada para as provocar.<\/p>\n<p>&#8211; Vinho derramado &#8211; sinal de alegria! decidiu Freitas, preocupado a esbrugar<br \/>\numa canela de frango, sem querer lambuzar os bigodes.<\/p>\n<p>Serviu-se a sobremesa e reformou-se a bebida. Veio Porto em c\u00e1lice.<\/p>\n<p>&#8211; Uma sa\u00fade! exigiu Cordeiro, mal podendo ter-se nas pernas.<\/p>\n<p>Criou-se logo sil\u00eancio, em que se destacavam estas frases:<\/p>\n<p>-Mau!&#8230; Temos carraspana?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cabe\u00e7a fraca de rapaz!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Esse bruto a teima em beber! Forte birra!<\/p>\n<p>&#8211; Diabo do homem n\u00e3o pode ir a parte alguma!<\/p>\n<p>&#8211; Vai j\u00e1 tudo isto raso!<\/p>\n<p>&#8211; Pscio&#8230; pscio!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meus senhores&#8230; e minhas senhoras, de ambos os sexos! Eu vou beber \u00e0<br \/>\nsa\u00fade do melhor&#8230; sim! do melhor por que n\u00e3o?! do melhor patr\u00e3o que todos<br \/>\nn\u00f3s temos tido, aquele que est\u00e1 me olhando, o Manuel Pescada!<\/p>\n<p>Houve um sussurro de repreens\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ou da Silva! emendou o orador. \u00c9 um homem sem aquelas! E um mel!&#8230; para<br \/>\num servi\u00e7o&#8230; quer dizer, quando a gente precisa dele pode falar, que \u00e9 o<br \/>\nmesmo! Mas&#8230;<\/p>\n<p>O sussurro aumentou.<\/p>\n<p>&#8211; Cale-se! dizia baixo o Vila Rica, a puxar o palet\u00f3 do Cordeiro. Cale-se<br \/>\ncom os diabos! Voc\u00ea est\u00e1 servindo de bobo!<\/p>\n<p>&#8211; Mas! berrou o espingardeira, sem fazer caso das advert\u00eancias do colega,<br \/>\no que eu n\u00e3o posso admitir, \u00e9 a por\u00e7\u00e3o de picardias e desaforos, que ele me<br \/>\nest\u00e1 a fazer constantemente!&#8230;<\/p>\n<p>O sussurro transformou-se em um coro de protestos, que apagava os berros<br \/>\ndo orador; as mocas atiravam-lhe bolas de miolo de p\u00e3o; Manuelzinho, muito<br \/>\nvermelho, possuia-se de uma hilaridade excepcional; Vila Rica puxava com ambas<br \/>\nas m\u00e3os o palet\u00f3 do Cordeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Solte-me! roncou este. Solte-me, com todos os diabos! ou vou-lhe aos queixos!<br \/>\nMeta-se l\u00e1 com a sua vida, e deixe-me, quero desabafar! Sebo! N\u00e3o me calo,<br \/>\nentende?! N\u00e3o me calo, porque n\u00e3o quero! n\u00e3o me calo! n\u00e3o me calo! &#8211; Sim!<br \/>\ncontinuou em tom de discurso, n\u00e3o admito os seus desaforos!&#8230; Ainda outro<br \/>\ndia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Viva o Manuel! gritou um.<\/p>\n<p>&#8211; Viv\u00f4! respondia o coro.<\/p>\n<p>&#8211; Seu Manuel! \u00e0 sua!<\/p>\n<p>&#8211; A sua!<\/p>\n<p>&#8211; Hup! hup! hurra!<\/p>\n<p>&#8211; Bang\u00fc\u00ea! gritou Cordeiro, e quebrou o copo na mesa \u00e9 de quebrar.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 se fosse a tua cabe\u00e7a, grand\u00edssimo borracho! resmungou o Sena, muito<br \/>\nma\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8211; Aten\u00e7\u00e3o! aten\u00e7\u00e3o, meus senhores!&#8230;<\/p>\n<p>Em a voz do Faisca, acompanhada de palmas.<\/p>\n<p>&#8211; Aten\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>E tirou da algibeira uma folha de papel.<\/p>\n<p>Fez-se algum sil\u00eancio, e o Fa\u00edsca, depois de puxar os punhos, come\u00e7ou a falar,<br \/>\ncom uma voz aflautada, cheia de afeta\u00e7\u00f5es e com a minuciosa dos m\u00edopes; a<br \/>\ncabecinha inquieta muito arrebitada, os olhos esticados, procurando alcan\u00e7ar<br \/>\no vidro das lunetas; a boca aberta e as ventas distendidas.<\/p>\n<p>&#8211; Meus senhores!&#8230; Em tal dia&#8230; eu n\u00e3o podia deixar de fazer&#8230; uma poesia!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verso! E verso! declarou Bibina, a bater palmas, contente.<\/p>\n<p>&#8211; Eu creio tamb\u00e9m que sim&#8230; \u00e9 uma poesia em verso!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E por isso&#8230; continuou Fa\u00edsca, calcando a luneta, que o suor fazia escorregar<br \/>\n&#8211; recomendo \u00e0s musas, ouso erguer a minha d\u00e9bil voz, para oferecer, como penhor<br \/>\nde estima e considera\u00e7\u00e3o, ao senhor Manuel, digno negociante matriculado da<br \/>\nnossa Pra\u00e7a, este modesto soneto, que&#8230; se n\u00e3o prima&#8230; sim!&#8230; se n\u00e3o prima&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Primasse! gritou o Cordeiro.<\/p>\n<p>Fa\u00edsca, todo atrapalhado, procurava uma palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Venham os versos!<\/p>\n<p>&#8211; Venha a poesia! Reclamavam.<\/p>\n<p>&#8220;Filho da antiga terra de Cam\u00f5es!&#8221; principiou o Fa\u00edsca a recitar, tr\u00eamulo.<\/p>\n<p>&#8211; Filho da antiga terra de Cam\u00f5es! repetiu o Cordeiro, arremedando-lhe a<br \/>\nvoz.<\/p>\n<p>&#8211; Homem! voc\u00ea neo se calar\u00e1? repreendeu Manuel.<\/p>\n<p>O recitador prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8220;Filho da antiga terra de Cam\u00f5es!<\/p>\n<p>E nosso irm\u00e3o de leite e companhia!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Leite e companhia?&#8230; considerou o Sena na sua seriedade, meditando. N\u00e3o!<br \/>\nme \u00e9 estranha a firma!&#8230; Ora espere!&#8230; Ser\u00e1 com o Jos\u00e9 e Cia., do Piau\u00ed?!&#8230;<\/p>\n<p>Fa\u00edsca continuou, muito enfiado:<\/p>\n<p>&#8220;Eu quero vos saudar no augusto dia<\/p>\n<p>Em que s\u00f3 juntos est\u00e3o amigos bons!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! Bravo!<\/p>\n<p>&#8211; Olha, gentes! &#8211; rimou!<\/p>\n<p>&#8211; Pscio!&#8230; Pscio!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Diga outro, seu Rosinha?<\/p>\n<p>&#8211; Diga outro verso!<\/p>\n<p>&#8211; Diga um de transporte!&#8230; lembrou Etelvina com um suspiro.<\/p>\n<p>&#8211; Sil\u00eancio!<\/p>\n<p>Mas o poeta n\u00e3o p\u00f4de continuar, porque, em um movimento de atrapalha\u00e7\u00e3o,<br \/>\nca\u00edra-lhe o pince-nez dentro de uma compoteira de doce de cada.<\/p>\n<p>&#8211; Um brinde! pediu Casusa. Um brinde!<\/p>\n<p>&#8211; Sil\u00eancio!<\/p>\n<p>&#8211; Espere!<\/p>\n<p>&#8211; Ordem!<\/p>\n<p>&#8211; Ne quid nimis!<\/p>\n<p>E, depois destas palavras, ouviu-se a voz de Maria B\u00e1rbara, dizendo a D.<br \/>\nMaria do Carmo:<\/p>\n<p>&#8211; Minha vida, coma uma naquinha de mel\u00e3o!<\/p>\n<p>Passou-lhe o prato.<\/p>\n<p>&#8211; Ai, filha! n\u00e3o sei se poderei entrar nele!&#8230; considerou lamentosa a vi\u00fava<br \/>\ndo Espig\u00e3o, lembrando-se do protesto que fizera contra os pepinos e a sua<br \/>\ncompetente fam\u00edlia &#8211; senhor doutor, inquiriu ela de Raimundo, mel\u00e3o ser\u00e1 dos<br \/>\npepinos?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha senhora, pertencem ambos \u00e0 dos cucurbit\u00e1ceos.<\/p>\n<p>&#8211; Como? perguntou a velha com a boca cheia de arroz-doce.<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer, explicou logo o Freitas, radiante por pilhar uma ocasi\u00e3o de<br \/>\nexpor os seus conhecimentos, &#8211; quer dizer que \u00e9 um fruto cucurbit\u00e1ceo, da<br \/>\nimportante fam\u00edlia dos dicotiled\u00f4neos, segundo Jussieu, ou das calic\u00edfloras,<br \/>\nsegundo De Candole.<\/p>\n<p>&#8211; Fiquei na mesma com a tal fam\u00edlia dos califorchons!<\/p>\n<p>&#8211; Que fam\u00edlia? que fam\u00edlia? O que foi que fez ela?! Algum esc\u00e2ndalo, aposto?<br \/>\nfariscou Am\u00e2ncia, pensando, assanhada j\u00e1, a sentir o cheiro de uma intriga.<br \/>\nQuando eu digo!&#8230; N\u00e3o h\u00e1 em quem fiar hoje em dia! Mas quem s\u00e3o esses danados?<br \/>\nqual \u00e9 a fam\u00edlia?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a dos cucurbit\u00e1ceos.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! s\u00e3o estrangeiros!&#8230; J\u00e1 sei, j\u00e1 sei! \u00e9 uma fam\u00edlia de bifes, que esta<br \/>\nmorando no Hotel da Boavista! \u00c9 certo, agora me lembro que ainda est&#8217;outr&#8217;dia<br \/>\numa sujeita ruiva&#8230; deve ser mulher ou filha do tal&#8230; como se chama mesmo?..<\/p>\n<p>&#8211; Quem, D. Am\u00e2ncia? A senhora est\u00e1 fazendo uma embrulhada da nossa morte!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O tal ingl\u00eas!<\/p>\n<p>&#8211; Que ingl\u00eas? Ningu\u00e9m aqui falou em ingleses, nem franceses!<\/p>\n<p>E Mana do Carmo passou a explicar \u00e0 amiga que se tratava de pepinos e mel\u00f5es.<\/p>\n<p>Casusa continuava a discursar num brinde feito ao Serra (a uma de cujas<br \/>\nfilhas pretendia); j\u00e1 lhe tinha chamado g\u00eanio e agora comparava-o a um l\u00edrio<br \/>\npendido na estrada; o bom homem escutava-o, sorrindo, sem compreender; enquanto<br \/>\nRaimundo, com a cabe\u00e7a quase dentro do prato, suportava o Freitas, suspirando<br \/>\npelo fim do jantar, para fugir-lhe. O ma\u00e7ante, elogiava a sua pr\u00f3pria mem\u00f3ria<br \/>\ncom a vaidade do costume:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor ainda n\u00e3o viu nada&#8230; segredava ele ao outro. Sei discursos inteiros,<br \/>\nlongos, que ouvi h\u00e1 dez anos! sei de cor, meu caro doutor, extensas poesias<br \/>\nque apenas li duas vezes! N\u00e3o acha extraordin\u00e1rio?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Decerto&#8230;<\/p>\n<p>E o desalmado, como prova, entrou a recitar &#8220;A Judia&#8221; de Tomas Ribeiro,<br \/>\nque tinha nesse tempo no Maranh\u00e3o um cheiro ativo de novidade:<\/p>\n<p>&#8220;Coma branda a noite.<\/p>\n<p>O Tejo era sereno!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Mais alto! reclamou, da mesa pequena, o Cordeiro, com um grito. N\u00e3o chega<br \/>\nat\u00e9 c\u00e1. Queremos ouvir o recitativo!&#8230;<\/p>\n<p>E, como Raimundo conseguisse fazer calar o Freitas, aquele levantou-se arrebatadamente<br \/>\ne p\u00f4s-se a estropiar uma chula:<\/p>\n<p>&#8220;Carolina que horas s\u00e3o estas?&#8230;<\/p>\n<p>Nove horas no bronze da torre!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Cante antes o &#8220;N\u00e3o quero que ningu\u00e9m me prenda!&#8221; aconselhou Eufrasinha,<br \/>\ncom uma risada.<\/p>\n<p>&#8211; Gentes! disseram outras mo\u00e7as, admiradas do desembara\u00e7o da vi\u00fava.<\/p>\n<p>Cordeiro obedeceu, e, trepando na cadeira, tomou uma garrafa pelo gargalo,<br \/>\nergueu-a e, berrou o que ent\u00e3o representava na prov\u00edncia o hino dos borrachos:<\/p>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o quero que ningu\u00e9m de prenda;<\/p>\n<p>Aih\u00e9e!<\/p>\n<p>Debaixo do meu pif\u00e3o!<\/p>\n<p>Quando fores de noite \u00e0 nua,<\/p>\n<p>Aih\u00e9e!<\/p>\n<p>Leva cheio o garraf\u00e3o!<\/p>\n<p>Seu soldado n\u00e3o me prenda,<\/p>\n<p>N\u00e3o me leve pro quartel<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o vim fazer barulho,<\/p>\n<p>Vim buscar minha mulh\u00e9!<\/p>\n<p>Aih\u00e9e!<\/p>\n<p>Debaixo do meu pif\u00e3o!<\/p>\n<p>Quando fores de noite \u00e0 rua,<\/p>\n<p>Aih\u00e9e!<\/p>\n<p>Leva cheio o garraf\u00e3o!<\/p>\n<p>A pouco e pouco, iam todos. menos o Dias, acompanhando em coro o terr\u00edvel<br \/>\n&#8220;Aih\u00e9e!&#8221; e batendo. at\u00e9 algumas senhoras, com a faca nos pratos. Da\u00ed a nada,<br \/>\nera uma algazarra em que ningu\u00e9m j\u00e1 se entendia.<\/p>\n<p>A confus\u00e3o tomou-se, afinal completa faziam-se brindes de bra\u00e7o entran\u00e7ado,<br \/>\nbebia-se de copos trocados; misturavam-se vinhos soltavam-se gargalhadas estrepitosas;<br \/>\ncruzavam-se proj\u00e9teis de miolo de p\u00e3o quebravam-se copos e, dentro de todo<br \/>\nesse tumulto, destacava-se a voz rouca do Casusa, que insista no seu brinde<br \/>\nao Serra, a quem agora chamava berrando: &#8220;Poeta do Com\u00e9rcio! Colosso de neg\u00f3cios!&#8221;<\/p>\n<p>As senhoras tinham-se j\u00e1 levantado dos lugares e palitavam os dentes encostadas<br \/>\n\u00e0s competentes cadeiras, meio entorpecidas na replex\u00e3o do est\u00f4mago. A noite<br \/>\nfechava-se Maria Barbara afastara-se para dar providencias sobre a luz Ouvia-se<br \/>\numa voz a discutir gram\u00e1tica com o Faisca: Cordeiro. que se calara. afinal,<br \/>\nca\u00edra em prostra\u00e7\u00e3o, derreado na cadeira e com as pernas estendidas em cima<br \/>\nda que Am\u00e2nia deixara vazia Entretanto, o Freitas, sempre teso, sem altera\u00e7\u00e3o<br \/>\nalguma na sua roupa de brim engomado, pediu &#8220;v\u00eania&#8221; para erguer um modesto<br \/>\nbrinde&#8230;<\/p>\n<p>Limpou a superf\u00edcie dos l\u00e1bios com o guardanapo dobrado, que pousou depois<br \/>\nvagarosamente sobre a mesa; passou a enorme unha do seu dedo m\u00ednimo no desfibrado<br \/>\nbigode, e, fitando uma compoteira de doce de pacovas &#8211; erguida a m\u00e3o direita,<br \/>\nna atitude de quem mostra uma pitada -declamou com \u00eanfase:<\/p>\n<p>&#8211; Meus ilustres senhores e respeitabil\u00edssimas senhoras!&#8230;<\/p>\n<p>Houve uma pausa.<\/p>\n<p>N\u00e3o poder\u00edamos, pela ventura. terminar satisfat\u00f3riamente esta, t\u00e3o pequena<br \/>\nqu\u00e3o antiga e tradicional festa de fam\u00edlia, sem brincarmos uma pessoa respeit\u00e1vel<br \/>\ne digna de toda a considera\u00e7\u00e3o e. respeito! Por isso&#8230; eu! eu, senhores,<br \/>\no mais insignificante, mais insuficiente de todos n\u00f3s! &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o apoiado! N\u00e3o apoiado!<\/p>\n<p>&#8211; Apoiado! dizia o Cordeiro com os olhos, vidrados.<\/p>\n<p>&#8211; Sim! eu, cuja voz n\u00e3o foi bafejada pelo dom sagrado de eloq\u00fc\u00eancia! Eu,<br \/>\nque n\u00e3o possuo a palavra divina dos C\u00edcero, dos Dem\u00f3stenes, dos Mirabeau,<br \/>\ndos Jos\u00e9 Estev\u00e3o. etcetera, etcetera! eu, meus senhores! vou brindar&#8230; a<br \/>\nquem?!.<\/p>\n<p>E desenrolou um repert\u00f3rio intermin\u00e1vel de f\u00f3rmulas misteriosas apropriadas<br \/>\n\u00e0 situa\u00e7\u00e3o, exclamando no fim, cheio de sibilos:<\/p>\n<p>&#8211; In\u00fatil \u00e9 dizer o nome!<\/p>\n<p>Todos perguntavam entre si com quem seria o brinde. Houve teimas, fizeram-se<br \/>\napostas.<\/p>\n<p>&#8211; Mais do que in\u00fatil \u00e9 dizer o nome, prosseguiu o discursador, saboreando<br \/>\no efeito da sua impenetr\u00e1vel alus\u00e3o, mais do que in\u00fatil \u00e9 dizer o nome! porquanto<br \/>\nj\u00e1 sabeis de sobre que falo com refer\u00eancia a Excelent\u00edssima Sr\u00aa Dona&#8230; (nova<br \/>\npausa! Maria B\u00e1rbara Mendon\u00e7a de Melo!&#8230;<\/p>\n<p>Fez-se uma balb\u00fardia de exclama\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>&#8211; D. Maria B\u00e1rbara! D. Mana Barbara! gritavam muitas vozes.<\/p>\n<p>E todos se voltavam para o interior da casa<\/p>\n<p>&#8211; Minha sogra!<\/p>\n<p>&#8211; Minha sogra!<\/p>\n<p>&#8211; D. Babu!<\/p>\n<p>&#8211; D. Maria B\u00e1rbara!<\/p>\n<p>Ela apareceu afinal, trazendo na m\u00e3o um candeeiro aceso.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1 estou! c\u00e1 estou!<\/p>\n<p>E, toda desfeita em risos, p\u00f4s o candeeiro sobre a mesa e bebeu do primeiro<br \/>\ncopo que lhe levaram \u00e0 boca.<\/p>\n<p>Seguiu-se um formid\u00e1vel &#8220;hup! hup! hurra!&#8221; E a m\u00fasica atacou o Hino Brasileiro.<\/p>\n<p>&#8211; O nosso hino! disse misteriosamente o Freitas a Raimundo tocando-lhe no<br \/>\nombro. Um dos mais lindos que conhe\u00e7o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Chit! Com os diabos! resmungou o Dias, empalidecendo e levando as m\u00e3os<br \/>\n\u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9? que \u00e9?<\/p>\n<p>Voltavam-se todos para ele.<\/p>\n<p>&#8211; Nada&#8230; nada&#8230; disfar\u00e7ou sem despregar mais os l\u00e1bios.<\/p>\n<p>\u00c9 que s\u00f3 agora, \u00e0 vista da luz, se lembrara de n\u00e3o haver apagado a vela do<br \/>\nquarto de Maria B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>Serviu-se o caf\u00e9 vieram os licores, o conhaque e a cana-capim.<\/p>\n<p>O Dias sentia-se cada vez mais preocupado Ora que ferro!<\/p>\n<p>Esquecer-se de soprar aquela maldita vela!&#8230; Que diabo! podia haver um inc\u00eandio<br \/>\ne l\u00e1 ir tudo pelos ares!&#8230;<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o Campos desapareceu com o Casusa, levando a sua cesta de fogos,<br \/>\ne todos os outros, mais ou menos excitados pelas liba\u00e7\u00f5es aproximaram-se das<br \/>\nanteparas da varanda. Cerrara-se completamente a noite; viam-se j\u00e1 os pirilampos<br \/>\nda quinta palpitando na sombra; punha-se nova mesa, para os m\u00fasicos, que continuavam<br \/>\na tocar o Cordeiro sapateava um fadinho ao som do Hino Nacional, mal podendo<br \/>\nter-se nas pernas; o Serra, boleando o seu respeit\u00e1vel ventre foi desafiado<br \/>\npela gorda Lindoca, e dan\u00e7aram ambos; o Serra puxou Manuel, e, com o exemplo<br \/>\ndo patr\u00e3o, atiraram-se tamb\u00e9m o Vila Rica e Manuelzinho, sem mais contempla\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom a rigorosa pragm\u00e1tica comercial. O Fa\u00edsca, que era fraco da cabe\u00e7a e do<br \/>\nest\u00f4mago, dava para chorar espetaculosamente, lamentando-se com \u00e2nsias e suores<br \/>\nfrios dizia sentir um desgosto tremendo da vida, uma inabal\u00e1vel resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde suicidar-se e uma vontade est\u00fapida de vomitar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um busca-p\u00e9, descrevendo no ar incendiados carac\u00f3is de grossas faiscas,<br \/>\nfoi cravar-se no rebordo da varanda, bem junto ao lugar em que estava Am\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Credo!<\/p>\n<p>Fez-se um espalhafato. A velha pulou para tr\u00e1s, tossindo sufocada e o Cordeiro<br \/>\nafian\u00e7ava que, indo ela tomar f\u00f4lego engolira um busca-p\u00e9 aceso. Ana Rosa,<br \/>\ncom o susto, correu at\u00e9 ao lado oposto da varanda, onde n\u00e3o chegava claridade.<br \/>\ne caiu tr\u00eamula nos bra\u00e7os de Raimundo, que, contra os seus h\u00e1bitos de rapaz<br \/>\ns\u00e9rio, ferrou-lhe dois beijos mestres.<\/p>\n<p>Os busca-p\u00e9s repetiam-se l\u00e1 fora sem interrup\u00e7\u00e3o. Acenderam-se afinal, os<br \/>\ncandeeiros e iluminou-se, a velas de cera ao fundo do lado esquerda da varanda,<br \/>\no vistoso altar, onde S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, no meio de uma fulg\u00eancia de luzes<br \/>\ne flores de papel dourado, resplandeceu com o seu cordeirinho nos bra\u00e7os e<br \/>\nsegurando um cajado de prata.<\/p>\n<p>Ficou tudo claro e alegre. Os m\u00fasicos foram para a mesa, e Manuel distribuiu<br \/>\nfogos por todos os convidados As mocas queimavam pistolas; os homens carretilhas,<br \/>\nfoguetes e bombas. Levantou-se defronte da casa uma grande fogueira de barricas<br \/>\nalcatroadas, depois outras; e a varanda, com os seus estampidos, afogueada<br \/>\npelo clar\u00e3o vermelho, cuspindo baias brilhantes e multicores, parecia um baluarte<br \/>\nem guerra.<\/p>\n<p>Dias, alheio a tudo isso, passeava de um para outro lado, embebido na sua<br \/>\npreocupa\u00e7\u00e3o Aquelas pistolas brancas e compridas, ainda mais o irritavam,<br \/>\nporque pareciam velas de cera.<\/p>\n<p>Depois de jantar, a banda de musica retirou-se, tocando uma coisa alegre.<\/p>\n<p>&#8211; Seu Freitas, dizia Bibina, me acenda esta rodinha!<\/p>\n<p>&#8211; Ui! gritava ao mesmo tempo a Eufrasinha, procurando queimar uma pistola,<br \/>\ntenho medo disto que me pelo!<\/p>\n<p>&#8211; Pegue com o len\u00e7o, aconselhava a tia Sarmento<\/p>\n<p>&#8211; Seu mo\u00e7o, me escorve isto, por seu favor&#8230;<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o e Casusa continuavam l\u00e1 embaixo as voltas com os busca-p\u00e9s, que<br \/>\nse cruzavam no ar freneticamente.<\/p>\n<p>Raimundo, ao lado de Ana Rosa, acendia no seu charuto os fogos que ela tocava,<br \/>\ne falava-lhe baixinho em casamento.<\/p>\n<p>&#8211; Na primeira ocasi\u00e3o falo a teu pai&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E por que n\u00e3o falas amanh\u00e3?&#8230; mam\u00e3e foi pedida justamente num dia de S\u00e3o<br \/>\nJo\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, amanh\u00e3!. .<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o m&#8217;enganas?.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. E tu, dize, tu me estimas deveras?&#8230; Olha que o casamento e coisa<br \/>\nmuito s\u00e9ria!.<\/p>\n<p>&#8211; Eu adoro-te meu amor!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 ai o padre! Gritou Sebasti\u00e3o l\u00e1 de baixo.<\/p>\n<p>&#8211; Chegou o padre! Chegou o padre! repetiram muitas vozes.<\/p>\n<p>Frei Lamparinas, efetivamente, chegava para cantar a ladainha. Acompanhavam-no<br \/>\nquatro sujeitos de ar farandulesco; caras avermelhadas pela cacha\u00e7a, cabeleiras<br \/>\n\u00e0 nazarena, palet\u00f3s insuficientes, olhares cansados; um todo cheio de ins\u00f4nia<br \/>\ne movimentos reservados de quem n\u00e3o conhece o dono da casa em que se apresenta<br \/>\nEram m\u00fasicos de contrato, p\u00e2ndegos afeitos \u00e0s serenatas, aos chinfrins de<br \/>\ntodo o g\u00eanero, est\u00f4magos vitimados \u00e0s comeza\u00ednas fora de horas, cujas digest\u00f5es<br \/>\np\u00f5em manchas biliosas na face. Um trazia um viol\u00e3o debaixo do bra\u00e7o, outro<br \/>\numa flauta, outro um pist\u00e3o e outro uma rabeca. Entraram em rebanho, com os<br \/>\np\u00e9s surdos e foram assentar-se, modestamente risonhos, na amurada varanda,<br \/>\na cochicharem entre si, olhando com tristeza g\u00e1strica para os destro\u00e7os da<br \/>\nmesa.<\/p>\n<p>Casusa. que os seguiu desde l\u00e1 debaixo, foi o \u00fanico a cumprimenta-los, a<br \/>\ncada um de per si, dando-lhes o nome e recebendo o tratamento de tu. Fez logo<br \/>\nvir uma garrafa e serviu com intimidade, a rir lembrando-lhes outras patuscadas<br \/>\nem que estiveram juntos Manuel acudiu tamb\u00e9m, oferecendo-lhes de comer. e<br \/>\ninsistindo principalmente com Frei Lamparinas que ainda n\u00e3o tinha jantado,<br \/>\nconforme ele pr\u00f3prio confessava Recusaram-se todos, prometendo cear depois<br \/>\nda ladainha. &#8220;Comeriam mais -1 vontade!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o vamos \u00e0 ladainha!<\/p>\n<p>E dispuseram-se para a nova festa que ia principiar. Sebasti\u00e3o Campos continuava<br \/>\nna quinta, a soltar os seus busca-p\u00e9s e as suas formid\u00e1veis bombas, que estrondavam<br \/>\ncomo canh\u00f5es. &#8220;Ah! s\u00f3 tocava fogo fabricado por ele pr\u00f3prio! N\u00e3o tinha confian\u00e7a<br \/>\nnesses fogueteiros de meia-tigela!&#8230;&#8221; As barricas estalavam em labaredas<br \/>\nfiscalizadas por Benedito. Havia por toda a parte uma reverbera\u00e7\u00e3o vermelha<br \/>\ne Um cheiro marcial de p\u00f3lvora queimada. Defronte da casa as arvores erguiam-se<br \/>\narremedando uma apoteose de inferno. As m\u00e3os encardiam-se, as roupas saraqueimavam-se<br \/>\ncom fa\u00edsca. Algumas pessoas saltavam as fogueiras; outras, de m\u00e3os dadas e<br \/>\nbra\u00e7os erguidos, passeavam em tomo dela, com solenidade, arranjando compradescos.<\/p>\n<p>&#8211; Quer ser minha comadre, D Anica? perguntou Casusa a Ana Rosa.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos l\u00e1!<\/p>\n<p>E desceram \u00e0 quinta. A\u00ed, com a fogueira entre ambos, deram a m\u00e3o um ao outro<br \/>\ne passaram tr\u00eas voltas r\u00e1pidas em tomo das chamas, com os bra\u00e7os erguidos,<br \/>\na dizer de cada vez:<\/p>\n<p>&#8211; Por S\u00e3o Jo\u00e3o! Por S\u00e3o Pedro! Por S\u00e3o Paulo! E por toda a corte do c\u00e9u!<\/p>\n<p>Na varanda, Lamparinas dava tranq\u00fcilamente, no meio de um grupo, a not\u00edcia<br \/>\nde ter havido inc\u00eandio na cidade.<\/p>\n<p>&#8211; Onde? perguntaram a sustados.<\/p>\n<p>&#8211; Na Praia Grande.<\/p>\n<p>Dias, sem dar uma palavra, atirou-se de carreira para a quinta e desapareceu<br \/>\nlogo na alameda de mangueiras.<\/p>\n<p>Freitas exp\u00f4s a Raimundo o grande inconveniente daquele brinquedo b\u00e1rbaro<br \/>\ndo fogo. &#8220;Quase sempre, nos dias de S\u00e3o Jo\u00e3o e S\u00e3o Pedro havia inc\u00eandios na<br \/>\ncidade!&#8230; Os negociantes apertados aproveitavam a ocasi\u00e3o para liquidar a<br \/>\ncasa!&#8230;&#8221; Entretanto, o Serra apontando para o lugar onde desaparecera o caixeiro<br \/>\nde Manuel, dizia ao ouvido deste: &#8220;Aquilo \u00e9 que \u00e9 Um empregado de truz, seu<br \/>\ncolega! Tenho inveja de voc\u00ea, acredite! Vale quanto pesa! &#8221;<\/p>\n<p>Lamparinas procurava tranq\u00fcilizar o animo dos dois negociantes, declarando<br \/>\nque o fogo era na Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio e que n\u00e3o atingira grandes propor\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&#8220;Aquela hora talvez j\u00e1 n\u00e3o houvesse vest\u00edgio dele!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Varreu-se a varanda em todos os seus quatro lados; estenderam-se esteiras<br \/>\nde mea\u00e7aba sobre o tijolo, no lugar em que as devotas teriam de ajoelhar-se;<br \/>\nacenderam-se mais algumas velas no altar, onde Frei Lamparina ia recitar a<br \/>\nsua &#8216;mil\u00e9sima ladainha&#8221;, segundo o que nesse momento acabava de dizer o Freitas.<\/p>\n<p>&#8211; Mil\u00e9sima?&#8230; perguntou Raimundo, pasmado.<\/p>\n<p>&#8211; Admira-se, heis?&#8230; volveu o homem da unha grande. Pois olhe, s\u00f3 neste<br \/>\ns\u00edtio, a julgar de um pequeno c\u00e1lculo, que me dei ao trabalho de fazer, tem<br \/>\nele enrolado nunca menos de 657 ladainhas!<\/p>\n<p>E, a prop\u00f3sito, Freitas contou minuciosamente o cl\u00e1ssico costume daquela<br \/>\nfesta de S\u00e3o Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Hoje n\u00e3o se faz nada, \u00e0 vista do que j\u00e1 se fez!&#8230; dizia Bons rega-bofes<br \/>\ntivemos no tempo do coronel em que se faziam novenas e trezenas de S\u00e3o Jo\u00e3o!<br \/>\nE era dan\u00e7ar pra a\u00ed toda a noite, sem descansar! Meu amigo, era uma brincadeirazinha<br \/>\nque rendia seguramente meio m\u00eas de verdadeira folia!<\/p>\n<p>E, com um ar misterioso, como quem vai fazer uma revela\u00e7\u00e3o de suma import\u00e2ncia:<\/p>\n<p>&#8211; Quer que lhe diga, aqui entre n\u00f3s?&#8230; As mo\u00e7a de hoje n\u00e3o valem as velha<br \/>\ndaquele tempo! ..<\/p>\n<p>E o maroto cascalhou uma risada, como se houvera dito alguma coisa com gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Os fogos continuavam ainda e os \u00e2nimos persistiam quentes, quando, de improviso,<br \/>\nse abriu a porta de um quarto, e o padre Lamparinas apareceu, todo aparamentado<br \/>\ncom a sua sobrepeliz nova; o livro da reza entre os dedos, os \u00f3culos montados<br \/>\nno nariz adunco, os passos solenes, o ar cheio de religi\u00e3o. E arvorou-se nos<br \/>\ndegraus do altar, anunciando que ia dar come\u00e7o \u00e0 ladainha.<\/p>\n<p>Houve um prolongado rumor de saias, e as mulheres ajoelharam defronte do<br \/>\npadre.<\/p>\n<p>Do ato, contra a luz da velas de cera, desenhava-se em sombrinha o vulto<br \/>\ndo Lamparinas, anguloso, com os bra\u00e7os levantados para o teto, num \u00eaxtase<br \/>\nconvencional. Os homens aproximaram-se todos, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do Faisca, que dormia.<br \/>\nAlguns ajoelharam-se tamb\u00e9m. Atiraram-se fora os charutos em meio; deixaram-se<br \/>\nem paz os busca-p\u00e9s e as bombas; correu silencio. E a voz f\u00fanebre do Lamparinas<br \/>\nchiou confusamente a Tua Domine.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o temos jaculat\u00f3ria?&#8230; perguntou Am\u00e2ncia, escandalizada.<\/p>\n<p>Lamparinas atirou-lhe uma olhadela repreensiva e concentrou-se de novo em<br \/>\nsua ora\u00e7\u00e3o, concluindo:<\/p>\n<p>&#8211; Presentamos, Senhor, estas ofertas, sobre os vossos altares, para celebrarmos<br \/>\nesta festa, com a honra que \u00e9 devida ao nascimento daquele santo, que, al\u00e9m<br \/>\nde anunciar a vinda do Salvador ao mundo, nos mostrou tamb\u00e9m que era j\u00e1 nascido<br \/>\no mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor, que conosco vive e reina em unidade.<\/p>\n<p>&#8211; Apoiado! gritou o Cordeiro.<\/p>\n<p>Desencadeou-se um sussuro de indignac\u00e3o. Todavia, entre a tosse, os escarros<br \/>\nsecos e alguns espirros dispersos, que se acusavam daqui e dali, continuou<br \/>\nfanhoso o Lamparinas:<\/p>\n<p>&#8211; Gratiam tuam, quoesumus, Domine, mentibus nostris infunde, ut qui Angelo<br \/>\nnuntiante Christi Filii tui incamationem cognovimus, per pressionem ejus et<br \/>\ncrucem ad ressurrectionis gloriam perducamus. Per eumdem Christum Dominum<br \/>\nNostrum. Amen!<\/p>\n<p>&#8211; Amen! disseram em coro.<\/p>\n<p>E a voz do Lamparina chilreava, acompanhada pela m\u00fasica:<\/p>\n<p>&#8211; Kyrie eleison!<\/p>\n<p>Os devotos e devota respondiam cantando em todos os tons:<\/p>\n<p>&#8211; Ora&#8230; pro&#8230; nobis!<\/p>\n<p>E este bis fina ia longe!<\/p>\n<p>&#8211; Christe eleison!<\/p>\n<p>&#8211; Ora pro nobis!<\/p>\n<p>Destacava-se a voz grossa e avinhada do Cordeiro, que sempre demorava no<br \/>\ncanto e arrastava escandalosamente o bis.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo do herege!&#8230; resmungou Am\u00e2ncia, sem desfazer a sua atitude beata.<\/p>\n<p>&#8211; Pater de caelis, Deus, miserere nobis!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora pro nobis!&#8230; insistia o coro<\/p>\n<p>&#8211; Fili Redemptor mundi, Deus miserere nobis.<\/p>\n<p>&#8211; Ora pro nobis!<\/p>\n<p>E o pobre Lamparina, no fim de um quarto de hora desta m\u00fasica, sentia-se<br \/>\nplenamente no seu elemento, entusiasmava-se, cantava, marcando fren\u00e9tico o<br \/>\ncompasso com o p\u00e9, e quase dan\u00e7ando J\u00e1 n\u00e3o espera pelo &#8220;Ora pro nobis&#8221;, ia<br \/>\ngritando:<\/p>\n<p>&#8211; Santa Maria!<\/p>\n<p>&#8211; Santa Dei genitrix!<\/p>\n<p>&#8211; Santa virgo Virginum!<\/p>\n<p>&#8211; Mater pur\u00edssima!<\/p>\n<p>E o coro, e a musica, a correrem atr\u00e1s dele, a toda a for\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas o especialista das ladainhas teve de interromper o seu entusiasmo, porque,<br \/>\nem torno de Maria do Carmo, levantava-se um zunzum.<\/p>\n<p>&#8211; Que ter\u00e1 minha tia?!&#8230; exclamou Etelvina a alvoro\u00e7ada.<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e outrinha! Jesus! Valha-me Deus!<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Que foi?<\/p>\n<p>&#8211; Que tem?<\/p>\n<p>&#8211; Que sucedeu?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabia. Entretanto, Maria do Carmo ajoelhada hirta, com o queixo<br \/>\nenterrado entre as clav\u00edculas, tinha uma imobilidade aterradora no olhar.<\/p>\n<p>&#8211; Credo! gritou Am\u00e2ncia, benzendo-se.<\/p>\n<p>As sobrinhas puseram-se logo a chorar ruidosamente; Ana Rosa Eufr\u00e1sia e Lindoca<br \/>\nimitaram-nas no mesmo instante.<\/p>\n<p>Correram todos para o lugar sinistro; os m\u00fasicos com os instrumentos debaixo<br \/>\ndo bra\u00e7o; Lamparinas com o manual de rezas marcado pelo indicador da m\u00e3o direita.<\/p>\n<p>Ouvia-se roncar estranhamente o ventre de Maria do Carmo. Raimundo abriu<br \/>\ncaminho, chegou onde ela estava, suspendeu-lhe a cabe\u00e7a e, ao solt\u00e1-la de<br \/>\nnovo, uma golfada de v\u00f4mito podre jorrou pelo corpo da velha.<\/p>\n<p>&#8211; E um v\u00f3lvulo! disse ele, voltando a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Do latim &#8211; volvulus &#8211; segredou-lhe o Freitas, que o acompanhara at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>Maria do Carmo foi carregada para o quarto. Estenderam-na em uma marquesa.<br \/>\nPingava-lhe de todo o corpo um suor copioso e frio; tinha o ventre duro como<br \/>\npedra. Raimundo fez darem-lhe azeite doce e aconselhou que mandassem comprar,<br \/>\nquanto antes, eletu\u00e1rio de sena. Correu-se a chamar o m\u00e9dico na cidade.<\/p>\n<p>A doente voltou a si, mas sentia c\u00f3licas horr\u00edveis, comich\u00e3o por todo o<br \/>\ncorpo; queixava-se de grande secura, e delirava de instante a instante. Da\u00ed<br \/>\na meia hora vieram de novo os v\u00f4mitos; cresceram-lhe as agonias; aumentavam-lhe<br \/>\nos rebates intestinais. A pobre velha arranhava a palhinha da marquesa, cravando<br \/>\nas unhas na madeira.<\/p>\n<p>Em tomo dela fazia-se um sil\u00eancio aterrador. Afinal chegou-lhe a rea\u00e7\u00e3o:<br \/>\ndeu um arranco dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a e ficou logo im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Raimundo pediu um espelho; colocou-o defronte da boca de Maria do Carmo,<br \/>\nobservou-o depois e disse secamente:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 morta.<\/p>\n<p>Foi um berreiro gera,. Etelvina caiu para tr\u00e1s, estrebuchando num hist\u00e9rico;<br \/>\nManuel arredou a filha daquele lugar Acudiram todos os de casa Os \u00e2nimos que<br \/>\no vinho entorpecia, acordaram como por encanto. A situa\u00e7\u00e3o incontinenti tornou-se<br \/>\nl\u00fagubre.<\/p>\n<p>O Cordeiro, j\u00e1 em seu ju\u00edzo perfeito, ajudou a carregar o cad\u00e1ver, afastou<br \/>\ncadeiras, arrastou uma c\u00f4moda, e preparou a encena\u00e7\u00e3o da morte. Invadiram<br \/>\no quarto. Os pretos do s\u00edtio chegavam-se com medo apavorados, resmungando<br \/>\nmonoss\u00edlabos guturais; o olhar parvo, a boca aberta.<\/p>\n<p>Em menos de duas horas, Maria do Carmo estava estendida em um canap\u00e9, iluminada<br \/>\npor velas de cera, lavada, vestida de novo e penteada Sobre a c\u00f4moda, perto<br \/>\ndela, a inalter\u00e1vel imagem de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, e, ajoelhado no tijolo, com<br \/>\no olhar fito no santo, o c\u00f4nego, de bra\u00e7os abertos, balbuciava uma ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Manuel expediu recados para a cidade; seus caixeiros partiram todos; Maria<br \/>\nB\u00e1rbara fechara-se no quarto e pusera-se a rezar com desespero de beata velha.<br \/>\nA agita\u00e7\u00e3o era comum. S\u00f3 Am\u00e2ncia conservava o sangue-frio; estava no seu elemento<br \/>\n&#8211; ia e vinha, deva ordens, dispunha tudo, aconselhava, ralhava, chorando quando<br \/>\nera preciso, consolando os desanimados, dizendo rezas, citando fatos, governado,<br \/>\nrepreendendo aos que n\u00e3o obedeciam, e pondo ela mesma em pr\u00e1tica as suas prescri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As dez horas da noite, uma rede de algod\u00e3o, enfiada numa taboca de muitas<br \/>\ncores, cujas extremidades dois pretos vigorosos sustentavam no ombro, conduzia<br \/>\no cad\u00e1ver de Maria do Carmo para o sobrado do Largo das Merc\u00eas, com grande<br \/>\nacompanhamento de homens e mulheres. Benedito ia na frente, iluminando o f\u00fanebre<br \/>\ncortejo \u00e0 luz ruiva de um enorme archote alcatroado que ele erguia sobre a<br \/>\ncabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Lamparinas caminhava atr\u00e1s furioso, fazendo voar ante seus p\u00e9s as pedrinhas<br \/>\nsoltas da estrada, e dando-se aos diabos pela m\u00e1 observ\u00e2ncia do antigo e confortador<br \/>\nprov\u00e9rbio: &#8220;O padre onde canta l\u00e1 janta!&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>IX<\/h2>\n<p>Logo depois da partida do cad\u00e1ver, Maria Barbara e Ana Rosa desceram do sitio,<br \/>\nem um carro que se mandou buscar; foram diretamente para o Largo das Merc\u00eas.<br \/>\nManuel e Raimundo vieram de bonde e seguiram para casa. Mas o rapaz, apesar<br \/>\nde fatigado, n\u00e3o conseguiu repousar. Precisava de ar livre. Mudou de roupa<br \/>\ne tomou a sair.<\/p>\n<p>Passava j\u00e1 de meia-noite. A cidade tinha o car\u00e1ter especial das v\u00e9speras<br \/>\nde S\u00e3o Jo\u00e3o: viam-se restos de fogueiras fulgurando ao longe, em diversos<br \/>\npontos, de quando em quando ouviam-se estalos destacados. Raimundo tomou a<br \/>\ndire\u00e7\u00e3o das Merc\u00eas. &#8220;Seria cr\u00edvel, pensava pelo caminho, que estivesse deveras<br \/>\nenfeiti\u00e7ado por sua prima?&#8230; ou seria tudo aquilo uma dessas impress\u00f5es passageiras,<br \/>\nque nos produz em dias de bom humor um rosto bonito de mo\u00e7a?&#8230; Verdade era<br \/>\nque nunca se sentira t\u00e3o preocupado por outra mulher.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Em todo o caso, concluiu ele, conv\u00e9m dar tempo ao tempo!&#8230; Nada de precipita\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>Assim raciocinando, no antegosto do seu casamento prov\u00e1vel com Ana Rosa,<br \/>\nchegou \u00e0 casa das Sarmentos.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o reuniram-se a\u00ed as velhas amizades da defunta, prevenidas logo<br \/>\ndo triste acontecimento pelos empregados de Manuel. O enterro seria no dia<br \/>\nseguinte \u00e0 tarde. Os conhecidos do comercio mandaram l\u00e1 os seus caixeiros<br \/>\npara ajudarem a encher as cartas de convite e fazerem quarto. Chamou-se logo<br \/>\num armador, para preparar a casa, conforme o uso da prov\u00edncia; falou-se a<br \/>\num desenhista para fazer o retrato do cad\u00e1ver &#8211; tomou-se medida e encomendou-se<br \/>\no caix\u00e3o; discutiu-se a vestimenta que devia levar Maria do Carmo, e resolveu-se<br \/>\nque seria a de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, por ser a mais bonita e vistosa.<br \/>\nAm\u00e2ncia ofereceu-se prontamente para talhar a roupa. &#8220;Que n\u00e3o valia a pena<br \/>\nencomend\u00e1-la ao armador, sobre vir malfeita e mal cosida, sairia por um dinheir\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei! dizia ela. Todas estas coisas pra enterro custam sempre quatro<br \/>\nvezes mais do que podem valer! \u00c9 uma ladroeira descarada! Por isso enriquecem<br \/>\nt\u00e3o depressa os armadores! diabo dos gatunos!<\/p>\n<p>Desta vez a velha tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Mandaram comprar cetim cor-de-rosa, azul e branco, sapatinhos de baile, escumilha<br \/>\ne fil\u00f3 para o v\u00e9u, que seria franjado de ouro. Uns teimavam que a morta devia<br \/>\nlevar um ramalhete de cravos na m\u00e3o, outros negavam, considerando, nem s\u00f3<br \/>\na idade da defunta, como o seu estado de vi\u00fava.<\/p>\n<p>E choviam exemplos de parte a parte:<\/p>\n<p>&#8211; Outro dia D. Pulqu\u00e9ria das Dores apesar dos seus sessenta anos, levou na<br \/>\nm\u00e3o um enorme ramo de rosas vermelhas! E demais, era casada.<\/p>\n<p>&#8211; E o que tem isso?! D. Chiquinha Vasconcelos foi de caix\u00e3o aberto, por\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o levava ramalhete, e, at\u00e9 digo-lhe mais, nem palma nem capela! no entanto<br \/>\nera solteira e tinha a metade da idade de D. Maria do Carmo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas ia com as faces pintadas de carmim, que \u00e9 muito pior! Ora a\u00ed est\u00e1!&#8230;<br \/>\nAl\u00e9m disso, dizia-se da Chiquinha o que todos n\u00f3s sabemos. Deus me perdoe!<\/p>\n<p>Uma mulata obesa cortou o n\u00f3 g\u00f3rdio da quest\u00e3o, declarando que o ramalhete<br \/>\nbem podia ir escondido por debaixo do h\u00e1bito. Todos concordaram logo.<\/p>\n<p>Deu Uma hora. V\u00e1rios caixeiros retiraram-se j\u00e1 com um ma\u00e7o de cartas, que<br \/>\nentregariam pela manh\u00e3; algumas fam\u00edlias, vestidas de preto, despediam-se<br \/>\ncom beijos, pedindo desculpa por n\u00e3o ficarem ate \u00e0 hora do enterro. O armador<br \/>\nmartelava na sala. A noite cala no sil\u00eancio ouvia-se um ou outro busca-p\u00e9<br \/>\nretardado. Na n a, grupos p\u00e2ndegos passavam em tro\u00e7a para o banho de S\u00e3o Jo\u00e3o<br \/>\ndo Alto da Carneira vinha um sussurro long\u00ednquo de &#8220;bumba-meu-boi&#8221;. Cantavam<br \/>\nos primeiros galos; c\u00e3es uivavam distante, prolongadamente; no c\u00e9u azul e<br \/>\ntranq\u00fcilo uma talhada de lua, triste sonolenta mostrava-se como por honra<br \/>\nda firma, e, todavia, um homem, de escada ao ombro, ia apagando os lampi\u00f5es<br \/>\nda rua.<\/p>\n<p>Raimundo parara um instante olhando o mar, defronte da casa das Sarmentos.<br \/>\n\u00c0 porta de entrada havia um grande reposteiro de veludo negro, com uma cruz<br \/>\nde gal\u00f5es amarelos. Ele considerou o pr\u00e9dio: era um casar\u00e3o velho, um desses<br \/>\nantigos sobrados do Maranh\u00e3o, que j\u00e1 se v\u00e3o fazendo raros. Cinq\u00fcenta palmos<br \/>\nde alto e outros tantos de largo, barra pintada de piche, mostrando a cali\u00e7a<br \/>\nem v\u00e1rios pontos, cinco janelas de peitoril, enfileiradas sobre quatro portas<br \/>\nlisas, com um port\u00e3o entre elas, pesado, batente de cantaria; cheirando tudo<br \/>\na constru\u00e7\u00e3o dos tempos coloniais, quando a pedra e a madeira de lei estavam<br \/>\nali a dois passos e se levantavam, em terrenos aforados, paredes de uma bra\u00e7a<br \/>\nde grossura e degrau de pau santo.<\/p>\n<p>Entrou. O corredor transpirava um car\u00e1ter sepulcral. Subia-se uma escada<br \/>\nfeia, acompanhada de um corrim\u00e3o negro e lustrado pelo uso; nas paredes, via-se,<br \/>\n\u00e0 insuficiente claridade de uma lanterna suja, o sinal gorduroso das m\u00e3os<br \/>\ndos escravos, e no teto havia lugares encarvoados de fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>A escada era dividida em dois lances, dispostos em sentido contr\u00e1rio um<br \/>\ndo outro; Raimundo chegou ao fim do primeiro lance sufocado e galgou o segundo<br \/>\nde carreira, dando aos diabos o maldito costume de fechar toda a casa, quando<br \/>\nela mais precisa de ar porque tem dentro um cad\u00e1ver. Numa das salas da frente,<br \/>\nforrada ent\u00e3o pelo tapete do armador, tapete velho e, t\u00e3o crivado de pingos<br \/>\nde cera, que o p\u00e9 escorregava nele, estava um grande tabuleiro de papara\u00faba,<br \/>\ncheio de tochas e enormes casti\u00e7ais de madeira e folha-de-flandres, pintados<br \/>\nde amarelo. Em uma das quatro paredes, cobertas de alto a baixo de veludo<br \/>\npreto e orladas de gal\u00f5es de ouro destacava-se um altar, ainda n\u00e3o aceso,<br \/>\ntodo estrelado de lantejoulas; carregado de adornos, com uma toalha de rendas<br \/>\nno centro, sobre a qual pousavam dois casti\u00e7ais de lat\u00e3o, pintalgados pelas<br \/>\nmoscas, tendo entre eles um crucifixo do mesmo metal, extremamente azinhavrado.<br \/>\nDefronte estava a essa, enfeitada de acordo com o resto, \u00e0 espera do caix\u00e3o,<br \/>\nque aquelas horas se reparava em casa do Manuel Serigueiro.<\/p>\n<p>Empoleirado numa escada e de martelo em punho um homem, em mangas de camisa,<br \/>\npregava sobre as portas bambinelas bordadas.<\/p>\n<p>&#8211; A que horas e o enterro? perguntou-lhe Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0s quatro e meia, disse o armador, sem voltar o rosto.<\/p>\n<p>Da varanda vinha um murm\u00fario de vozes. Raimundo seguiu para l\u00e1.<\/p>\n<p>Varanda larga e alta caiada, toda aberta para o quintal; telha v\u00e3, mostrando<br \/>\nos caibros irregulares, donde pendiam melanc\u00f3licas teias de aranha. Num dos<br \/>\ncantos um banco de pau roxo, muito escuro, sustentando, em buracos redondos,<br \/>\ndois grandes potes bojudos de barro vermelho; sobre o parapeito da varanda,<br \/>\numa fila de quartinhas tamb\u00e9m de barro, esfriavam \u00e1gua. Aberto na parede um<br \/>\nimenso arm\u00e1rio tosco, e logo ao p\u00e9 um al\u00e7ap\u00e3o nosoalho, resguardado por uma<br \/>\ngrade, com a cancela despejada sobre uma escada tenebrosa.<\/p>\n<p>Encostado \u00e0 grade &#8211; um sujeito gordo, sem bigode, de \u00f3culos e barba debaixo<br \/>\ndo queixo, dizia a outro do mesmo feitio, batendo com o p\u00e9 nas largas t\u00e1buas<br \/>\ndo ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje ningu\u00e9m mais pilha deste madeiramento! Repare! E tudo pau-d&#8217;arco, pau-santo,<br \/>\npau-cetim, bacuri, jacarand\u00e1 e pequi! Madeiras que valem o ferro e que nem<br \/>\no machado pode com elas!<\/p>\n<p>Em volta de uma mesa, dez homens, a t\u00edtulo de fazer quarto \u00e0 defunta, jogavam<br \/>\ncartas, conversando em voz discreta repetindo x\u00edcaras de caf\u00e9 e c\u00e1lices de<br \/>\nconhaque, entre pilh\u00e9rias segredadas, risos abafados e o fumo espesso dos<br \/>\ncigarros.<\/p>\n<p>Quando Raimundo entrou, confidenciava um deles ao vizinho:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 n\u00e3o sou homem para estas coisas!&#8230; N\u00e3o posso perder uma noite!&#8230;<br \/>\nPor mais que beba caf\u00e9, sinto sono!&#8230; Por\u00e9m n\u00e3o podia deixar de vir, era<br \/>\numa ocasi\u00e3o de encontrar-me com a pequena&#8230; N\u00e3o tenho entrada na casa dela&#8230;<\/p>\n<p>E bocejava.<\/p>\n<p>&#8211; Conhecias esta velha que morreu? interrogou-lhe o outro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Creio que a encontrei uma vez em casa do Manuel Pescada&#8230; J\u00e1 estive<br \/>\na olh\u00e1-la &#8211; \u00e9 horr\u00edvel!<\/p>\n<p>&#8211; Pois aqui onde me v\u00eas, estou furioso! O patr\u00e3o mandou-me para c\u00e1, mas<br \/>\ncom poucas arribo! Tenho um pagode no Cutim e n\u00e3o o perco!<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m porque a velha n\u00e3o escolheu melhor dia pra morrer!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Logo na v\u00e9spera de S\u00e3o Jo\u00e3o! Que espiga!<\/p>\n<p>E bocejavam ambos.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 este tipo? perguntou um dos jogadores, vendo entrar Raimundo. Corte<br \/>\ncom o tr\u00eas de espadas!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um tal Raimundo&#8230; um sujeito que o Pescada tem em casa por compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; O que faz ele? &#8211; Dama!<\/p>\n<p>&#8211; Diz que \u00e9 doutor. &#8211; \u00c9 meu!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o parece mau rapaz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fia-te!<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 te pregou alguma hein? conta-nos isso!<\/p>\n<p>-N\u00e3o te digo mais nada&#8230; Fia-te na Virgem e n\u00e3o corras!&#8230;<\/p>\n<p>Fizeram uma pausa, em que se ouvia atirar cartas \u00e0 mesa, com uma pancada de<br \/>\ndedos no tapete.<\/p>\n<p>&#8211; Mas do que vive ele? perguntou o curioso que se informava de Raimundo.<br \/>\n&#8211; Venha o \u00e1s!<\/p>\n<p>&#8211; Ora do que vive!&#8230; Voc\u00ea n\u00e3o tem copas?&#8230; Pergunte a toda essa gente<br \/>\nsem emprego, de quem oficialmente se de &#8220;vive de ag\u00eancias&#8221; e ficar\u00e1s sabendo.<\/p>\n<p>&#8211; Ganhei!<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que \u00e9 ele do Manuel?<\/p>\n<p>&#8211; Diz que primo&#8230; respondeu o outro, baralhando as cartas.<\/p>\n<p>-Ah!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; D\u00ea cartas.<\/p>\n<p>Raimundo cumprimentou-os e perguntou pela fam\u00edlia da defunta.<\/p>\n<p>Estava fazendo quarto. Que entrasse por ali, responderam-lhe, indicando uma<br \/>\nporta.<\/p>\n<p>Logo que o rapaz deu as costas, o maledicente levantou o bra\u00e7o e fez-lhe<br \/>\numa a\u00e7\u00e3o feia.<\/p>\n<p>&#8211; Gosto muito destes tipos, acrescentou, ent\u00e3o em voz alta, para o grupo<br \/>\ninteiro, depois de um sil\u00eancio, todos eles s\u00e3o uma coisa l\u00e1 por fora &#8220;Porque<br \/>\neu fiz! e porque eu aconteci! Porque isto \u00e9 uma aldeia! \u00c9 um chiqueiro!&#8221; E<br \/>\nno entanto metem-se no chiqueiro e daqui n\u00e3o saem!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, neo h\u00e1 Maranh\u00e3o como este!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas dizem que este cabra tem alguma coisa&#8230; arriscou um terceiro.<\/p>\n<p>&#8211; Qual nada!&#8230; Voc\u00ea ainda come araras! Todos eles dizem ter mundos e fundos!&#8230;<br \/>\nGosto deste Maranh\u00e3ozinho, porque n\u00e3o perdoa os tipos que v\u00eam pra c\u00e1 com pomadas!&#8230;<br \/>\nO sujeito aqui, que se quiser fazer mais sabich\u00e3o do que os outros, h\u00e1 de<br \/>\nlevar na cuia dos quiabos, para n\u00e3o ser pedante! Diabo dos burros! Se sabe<br \/>\nmuita coisa guarde pra si a sabedoria, que ningu\u00e9m por c\u00e1 precisa dela, nem<br \/>\nlha pediu! E n\u00e3o se meta a escrevinhar livrinhos e artigos para os jornais,<br \/>\nque isso \u00e9 rid\u00edculo!&#8230; L\u00e1 o meu patr\u00e3o \u00e9 quem sabe haver-se com esses espoletas!<br \/>\nAinda h\u00e1 pouco tempo ele precisou ai n\u00e3o sei de que pape! &#8211; para o sobrinho<br \/>\nque tinha chegado do Porto &#8211; e vai &#8211; pede a um doutorzinho, muito nosso conhecido,<br \/>\nque lhe arranjasse a hist\u00f3ria&#8230; Pois o que pensam voc\u00eas que respondeu o tal<br \/>\nbisca ao patr\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sabiam.<\/p>\n<p>&#8211; Pois mandou-o plantar batatas! Chamou-o de toleir\u00e3o! &#8220;Que o que ele queria,<br \/>\nera um absurdo!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, hein?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Com estas palavras!&#8230; Estou lhe dizendo!&#8230; Ah, meu amigo mas tamb\u00e9m o<br \/>\npatr\u00e3o pregou-lhe uma de respeito!&#8230; Voc\u00ea sabe que o Lopes, em quest\u00f5es de<br \/>\ncapricho, n\u00e3o se importa de gastar dois vint\u00e9ns&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, como naquela hist\u00f3ria da comenda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bom. Pois ele foi ai a um outro tipo e encomendou-lhe uma dessas descomposturas<br \/>\nde criar bicho!<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Se bem o patr\u00e3o o disse, melhor o tipo o faz&#8230; Ora, espera! Como<br \/>\nera mesmo o nome da coisa?&#8230; Era&#8230; Estou com o diabo na ponta da l\u00edngua&#8230;<br \/>\nAh! Era um an\u00f4nimo!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Um an\u00f4nimo!<\/p>\n<p>&#8211; Uma descomponenga, que p\u00f4s o tal doutorzinho de borra mais raso que o ch\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Isso foi com o Melinho!&#8230; : &#8211; Foi. Voc\u00ea leu, hein?<\/p>\n<p>&#8211; Ora, mas aquilo do Lopes foi demais. Desacreditou o pobre mo\u00e7o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei! Bem feito!<\/p>\n<p>&#8211; E, segundo me consta, nem tudo era verdade no tal an\u00f4nimo!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei!&#8230; o caso \u00e9 que esfregou o tipo!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas o que n\u00e3o se pode negar \u00e9 que o Melinho \u00e9 um rapaz inteligente<br \/>\ne honesto a toda a prova!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que lhe fa\u00e7a muito bom proveito! Coma agora da sua intelig\u00eancia e beba<br \/>\nda sua honestidade! Meu menino, deixemo-nos de patacoadas! O tempo hoje \u00e9<br \/>\nde cobre! Honesto e inteligente \u00e9 isto!&#8230;<\/p>\n<p>E com os dedos fazia sinal de dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha eu o jimbo seguro acrescentou, e bem que me importa a boca do mundo!<br \/>\nE sen\u00e3o-olhe ai para a nossa sociedade!&#8230;<\/p>\n<p>E citava nomes muito conhecidos, contava hist\u00f3rias medonhas de contrabandos<br \/>\nde grande ladroeiras de notas falsas, do diabo!<\/p>\n<p>&#8211; Sim! sim isso \u00e9 velho mas que fim levou o Melinho?<\/p>\n<p>&#8211; Sei c\u00e1! muscou-se para o Sul! Que o leve o diabo!<\/p>\n<p>&#8211; Pois olhe, gosto daquele mo\u00e7o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o lhe gabo o gosto!<\/p>\n<p>Raimundo, depois de atravessar um quarto espa\u00e7oso, penetrou na sala de visitas<br \/>\ne achou-se defronte de uma roda de senhoras de todas as idades, na maior parte<br \/>\nvestidas de luto, e que, assentadas, fitavam, de cabe\u00e7a \u00e0 banda com o olhar<br \/>\ncansado e sonolento, o corpo inanimado de Maria do Carmo. Numa rede a um canto,<br \/>\nsolu\u00e7ava Etelvina, escondendo a cabe\u00e7a entre travesseiros; ao lado, uma mulata<br \/>\ngorda e enfeitada de ouro &#8211; sala de chamalote preto e toalha de rendas sobre<br \/>\nos omros &#8211; dizia maquinalmente as frases da consola\u00e7\u00e3o. Assentada no sobrado<br \/>\nsobre uma esteira. Am\u00e2ncia talhava o h\u00e1bito de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom que a defunta devia ir vestida \u00e0 fantasia para a sepultura, como se fosse<br \/>\npara um baile de m\u00e1scaras. Nas paredes, os retratos de fam\u00edlia estavam cobertos<br \/>\npor um vasto crepe; o do tenente Espig\u00e3o horrorosamente pintado a \u00f3leo, com<br \/>\num colorido cru, tinha atrav\u00e9s do v\u00e9u, um sorriso duro de bei\u00e7os vermelhos.<br \/>\nNo meio da sala, em um sof\u00e1 de gosto antigo com encosto de palhinha envernizada,<br \/>\ndecompunha-se o cad\u00e1ver da velha Sarmento; tinha o rosto coberto por um len\u00e7o<br \/>\nde labirinto encharcado de \u00e1gua-fl\u00f3rida; as m\u00e3os cruzadas sobre o peito e<br \/>\namarradas \u00e0 for\u00e7a por uma fita de seda azul; as pernas esticadas o cabelo<br \/>\nmuito puxado para tr\u00e1s, bem penteado, o corpo todo se mirrando hirto um pouco<br \/>\nempenado na tens\u00e3o dos m\u00fasculos. Em cima do ventre opado um prato cheio de<br \/>\nsal.<\/p>\n<p>\u00c0 cabeceira do canap\u00e9 numa mesinha coberta de rendas, um Cristo colorido,<br \/>\nde bra\u00e7os abertos pendia da cruz, e duas velas de cera derretiam-se no lugar<br \/>\ndo bom e do mau ladr\u00e3o. Logo junto, uma vasilha de \u00e1gua benta com um galinho<br \/>\nde alecrim; mais para a frente, uma Nossa Senhora pequenina, de barro pintado.<\/p>\n<p>Ouviam-se solu\u00e7os discretos e o crepitar seco das velas.<\/p>\n<p>Raimundo aproximou-se do cad\u00e1ver e, por mera curiosidade descobriu-lhe o<br \/>\nrosto-estava l\u00edvido, com os raros dentes \u00e0 mostra, os olhos mal fechados mostrando<br \/>\num branco ba\u00e7o, cor de sebo; dos queixos subia-lhe ao alto da cabe\u00e7a um len\u00e7o,<br \/>\namarrado para segurar o queixo. Principiava a cheirar mal.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, apareceu na sala uma negrinha com uma bandeja de x\u00edcaras de caf\u00e9.<\/p>\n<p>Serviram-se.<\/p>\n<p>Raimundo foi levar uma ch\u00e1vena a Ana Rosa, que se achava entre as senhoras.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigada, disse ela, chorosa, eu j\u00e1 tomei ainda agorinha mesmo.<\/p>\n<p>De vez em quando ouvia-se um suspiro estalado e o froon nasal das mo\u00e7as que<br \/>\nassoavam as l\u00e1grimas. Um grupo de mulheres, de saia e camisa, conversava soturnamente<br \/>\nsobre as boas qualidades e as virtudes da defunta. Tinham a voz medrosa de<br \/>\nquem receia acordar algu\u00e9m ou ser ouvido pelo objeto de conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Era pra um tudo!&#8230; afirmava uma delas, compungida. Devo-lhas muitas!&#8230;<br \/>\nque lhas hei de pagar com padre-nossos! Inda s&#8217;tr&#8217;oudia, quando me atacou<br \/>\na pneumonia na pequena, com quem foi que me achei?!&#8230; Pois olhe que os doutores<br \/>\nde carta n\u00e3o lhe souberam dar voltas! E hoje, minha rica?&#8230; Ela est\u00e1 a\u00ed fina<br \/>\ne lampeira, que faz gosto, ao passo que a pobre da senhora D. Maria do Carmo&#8230;<br \/>\nDeus me perdoe, at\u00e9 parece feiti\u00e7aria! &#8211; E apontou para o cad\u00e1ver com um gesto<br \/>\ndesconsolado. &#8211; Ao menos descansou, coitada!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o semos nada neste mundo!&#8230; suspirou, com a m\u00e3o no queixo, uma mulherinha<br \/>\nmagra e pisca-pisca, que ate ent\u00e3o se conservara numa imobilidade enternecida.<\/p>\n<p>E contou a hist\u00f3ria de uma sua camarada, que, havia trinta anos, morreu na<br \/>\nflor da idade.<\/p>\n<p>Este caso puxou outros. Foi um cord\u00e3o de anedotas f\u00fanebres. A mulata obesa<br \/>\nfechou a rosca, narrando, muito sentida, a hist\u00f3ria de um papagaio de grande<br \/>\nestima\u00e7\u00e3o, que ela possu\u00eda, e que, um belo dia, cantando, coitado! a &#8220;Maria<br \/>\nCachucha&#8221;, ca\u00edra para tr\u00eas &#8211; morto!<\/p>\n<p>&#8211; Credo! exclamou Am\u00e2ncia. E, voltando-se para a mulata, com os \u00f3culos na<br \/>\nponta do nariz.<\/p>\n<p>&#8211; Nh\u00e1 Maria! esta espiguilha \u00e9 toda para o v\u00e9u, ou tem de se tirar daqui<br \/>\ntamb\u00e9m os la\u00e7arotes?&#8230;<\/p>\n<p>Depois do enterro, quando Maria Barbara, de volta a casa entrou no seu quarto,<br \/>\ndera logo com a vela de cera gasta at\u00e9 o fim e com a singular mascara do seu<br \/>\nmilagroso S\u00e3o Raimundo; ficou aterrada, sem saber o que pensar, e, na sua<br \/>\ncegueira supersticiosa, atirou-se de joelhos defronte do orat\u00f3rio e p\u00f4s-se<br \/>\na rezar fervurosamente.<\/p>\n<p>Nessa noite, apesar da canseira em que vinha, neo pode dormir sen\u00e3o pesa<br \/>\nvolta da madrugada; e, \u00e0 for\u00e7a de meditar o caso, acabou por enxergar nele<br \/>\num milagre. Sim, um milagre, justamente como o explicam os catecismos que<br \/>\nse d\u00e3o na escola e como a sua pr\u00f3pria mestra lhe ensinara-um mist\u00e9rio incompreens\u00edvel.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o havia que duvidar &#8211; Deus Nosso Senhor servira-se daquele engenhoso ardil]<br \/>\npara preveni-la de presentes e futuras calamidades!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Entretanto, s\u00f3 ao c\u00f4nego se animou de confiar o fato, e at\u00e9 lhe pediu segredo,<br \/>\nque, se o genro viesse a conhec\u00ea-lo, havia de sair-se com alguma das suas.<br \/>\nJ\u00e1 lhe estava a ouvir resmungar com o seu insuport\u00e1vel risinho de homem sem<br \/>\nf\u00e9 &#8220;Pomadas de minha sogra!&#8230;&#8221; Al\u00e9m disso, se S\u00e3o Raimundo quisesse tomar<br \/>\np\u00fablico o seu sagrado aviso, n\u00e3o usaria dos meios que empregou!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Agora, o que est\u00e1 entrando pelos olhos, senhor c\u00f4nego, \u00e9 que aquele maldito<br \/>\ncabra do Mundico tem parte nisto! Deus queira que eu me engane, por\u00e9m a coisa<br \/>\ntoca-lhe a ele por casa!<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser, pode ser&#8230; Davus sum non Edipus!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E o que devo fazer?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ofere\u00e7a uma missa a S\u00e3o Raimundo. Cantada, n\u00e3o seria mau&#8230; Uma missinha<br \/>\ncantada!<\/p>\n<p>Ficaram nisto; mas a velha n\u00e3o podia tranq\u00fcilizar-se assim s\u00f3: afigurava-se-lhe<br \/>\nque, em tomo dela, grandes transforma\u00e7\u00f5es se operavam. Verdade \u00e9 que a morte<br \/>\nde Maria do Carmo como que viera perturbar o ramerr\u00e3o daquela panelinha de<br \/>\nManuel Pescada. Uma semana depois do passamento, chegara de Alc\u00e2ntara um irm\u00e3o<br \/>\nda defunta, e em seguida \u00e0 missa do s\u00e9timo dia, carregou consigo as duas ]inconsol\u00e1veis<br \/>\nsobrinhas. Etelvina, embrulhada no seu vestido preto, de l\u00e3, encarecera o<br \/>\ncostume de dar suspiros; Bibina, com grande abnega\u00e7\u00e3o, ocultara o cabelo numa<br \/>\ncoifa de retr\u00f3s. D. Am\u00e2ncia Sousellas, para carpir mais \u00e0 vontade a perda<br \/>\nda amiga, fora passar algumas semanas no recolhimento de Nossa Senhora da<br \/>\nAnuncia\u00e7\u00e3o e Rem\u00e9dios, ao calor confort\u00e1vel das rezas e do caldo forro do<br \/>\nrefeit\u00f3rio. Eufrasinha, percebendo frieza em Ana Rosa, dera-se por magoada<br \/>\ne n\u00e3o lhe aparecia. &#8220;Que, de algum tempo \u00e0quela parte, notava-lhe certo aninho<br \/>\nde constrangimento e fastio, bem aborrecido! A Anica j\u00e1 n\u00e3o era a mesma! N\u00e3o<br \/>\nsabia quem lhe pisara o cachorrinho; tinha plena convic\u00e7\u00e3o de estar sendo<br \/>\nintrigada por alguma insoneira, mas tamb\u00e9m tinha alma grande e deixava correr<br \/>\no barco pra Caxias!&#8221; A repolhuda Lindoca igualmente se retraira, mas esta,<br \/>\ncoitada! por desgosto das suas banhas; j\u00e1 n\u00e3o queria aparecer a pessoa alguma,<br \/>\nde vergonha. Entrara, por conselho do pai, a dar longos passeios de madrugada,<br \/>\nenquanto houvesse pouca gente na rua, para ver se lhe descaiam as enx\u00fandias,<br \/>\nmas qual! a enchente de gordura continuava bolear-lhe cada vez mais os membros.<br \/>\nA pobre mo\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o tinha feitio; quando sala era obrigada a descansar de<br \/>\nvez em quando, provocando olhares de admira\u00e7\u00e3o, que a irrintavam; j\u00e1 n\u00e3o podia<br \/>\nusar botinas, ficara condenada ao sapato de pano, raso, quase redondo; as<br \/>\nsuas m\u00e3os perderam o direito de tocar nos seus quadris; trazia os bra\u00e7os sempre<br \/>\nabertos; o pesco\u00e7o apresentava roscas assustadoras; os olhos, o nariz e a<br \/>\nboca amea\u00e7avam desaparecer afogados nas bochechas Entretanto, afei\u00e7oava-se<br \/>\npela linha reta, tinha predile\u00e7\u00f5es por tudo que era seco e escorrido, olhava<br \/>\ncom inveja para as magricelas. Freitas gastava os lazeres a conltar tratados<br \/>\nde medicina, a ver se descobria rem\u00e9dio contra aquele mal, o bom homem ma\u00e7ava-se;<br \/>\nas cadeiras de sua casa estavam todas desconjuntadas: &#8220;Daquele modo, n\u00e3o lhe<br \/>\nchegaria o ordenado s\u00f3 para mobilia&#8221; e, como homem fino mandou fazer uma cadeira<br \/>\nespecial para Lindoca, com parafusos fortes, de madeira de lei. Viviam ambos<br \/>\ntristes.<\/p>\n<p>E tudo isto, todo esse desgosto surdo que minava na panelinha, era atirado<br \/>\npor Maria B\u00e1rbara \u00e0 conta de Raimundo. Queixava-se dele a todos, amargamente;<br \/>\ndizia que, depois da chegada de semelhante criatura, a casa parecia amaldi\u00e7oada<br \/>\n&#8220;Tudo agora lhe saia torto!&#8221; Chegou a pedir ao c\u00f4nego que lhe benzesse o quarto<br \/>\ne juntou \u00e0 promessa da missa mais a de dez libras de cera virgem, que mandaria<br \/>\nentregar ao cura da S\u00e9 no dia em que o cabra se pusesse ao fresco.<\/p>\n<p>Mas, pouco depois, a sogra de Manuel chamou o padre em particular, e disse-lhe<br \/>\nradiante de vit\u00f3ria:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe? J\u00e1 descobri tudo!<\/p>\n<p>&#8211; Tudo, o qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; O motivo de todas as desgra\u00e7as, que nos t\u00eam acontecido ultimamente.<\/p>\n<p>&#8211; E qual \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; O cabra \u00e9 &#8220;bode!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Bode?! Como?<\/p>\n<p>Maria B\u00e1rbara chegou a boca ao ouvido de Diogo e segredou-lhe horripilada:<\/p>\n<p>&#8211; E ma\u00e7om!<\/p>\n<p>&#8211; Ora o que me conta a senhora!&#8230; exclamou Diogo, fingindo uma grande indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E o que lhe digo, senhor c\u00f4nego! O cabra \u00e9 bode!<\/p>\n<p>&#8211; Mas isso \u00e9 s\u00e9rio?&#8230; Como veio a senhora a saber?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se \u00e9 s\u00e9rio&#8230; Veja isto!<\/p>\n<p>E, cheia de repugn\u00e2ncia e trejeitos misteriosos sacou da algibeira da saia<br \/>\no folhetinho de capa verde, que Dias subtraira da gaveta de Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Veja esta bruxaria, reverendo! Veja, e diga ao depois se o danado tem ou<br \/>\nn\u00e3o parte com o c\u00e3o tinhosos! Pois se eu c\u00e1 senta um palpite!&#8230;<\/p>\n<p>E apontava horrorizada para a brochura, em cujo frontip\u00edcio havia desenhado<br \/>\num xadrez, duas colunas amparando dois globos terrestres e outros emblemas.<br \/>\nO c\u00f4nego apoderou-se do folheto e leu na primeira p\u00e1gina &#8220;Lenda ma\u00e7\u00f4nica ou<br \/>\ncondutor das lojas regulares, segundo o rito franc\u00eas reformado.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhora! tem toda a raz\u00e3o! C\u00e1 est\u00e3o os tr\u00eas pontinhos da patifaria!&#8230;<br \/>\npatifaria!&#8230;<\/p>\n<p>E leu na introdu\u00e7\u00e3o da obra, possuindo-se de uma raiva de partido: &#8220;Ma\u00e7ons,<br \/>\npenetremo-nos da nossa dignidade! A retid\u00e3o de nossos votos, a uni\u00e3o de nossos<br \/>\ntrabalhos, e a harmonia de nossos cora\u00e7\u00f5es, alimentem sem cessar o fogo sagrado,<br \/>\ncuja claridade resplandecente ilumina o interior de nossos templos!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhora! Tem mais essa prenda&#8230; resmungou, entregando o folheto \u00e0<br \/>\nvelha; al\u00e9m de cabra, \u00e9 bode!<\/p>\n<p>E sem transi\u00e7\u00e3o, duro:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 preciso p\u00f4r esse homem fora de c\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; E quanto antes!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O compadre est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>&#8211; Creio que sim, no armaz\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Pois vou convenc\u00ea-lo. At\u00e9 logo.<\/p>\n<p>&#8211; Veja se consegue, reverendo! Olhe lembra-me at\u00e9 que seria melhor desistir<br \/>\nde tal compra da fazenda&#8230; Esta gente, quando n\u00e3otisna suja! N\u00e3o imagina<br \/>\na arrelia que me faz v\u00ea-lo todo o santo dia 1a mesa de janta ao lado de minha<br \/>\nneta!&#8230; Tamb\u00e9m nunca esperei esta de meu genro! \u00c9 preciso p\u00f4r o homem pra<br \/>\nfora! Isto n\u00e3o tem jeito! As Limas j\u00e1 falaram muito; disse a Br\u00edgida que na<br \/>\nquitanda do Z\u00e9 Xorro lhe perguntaram se era certo que ele estava para casar<br \/>\ncom Anica&#8230; Ora isto n\u00e3o se atura! Cada um que ponha o caso em si!&#8230; Pois<br \/>\nent\u00e3o aquele n\u00e3o-sei-que-diga precisa que lhe gritem aos ouvidos qual \u00e9 o<br \/>\nseu lugar?&#8230; No fim de contas quantos somos n\u00f3s?!&#8230; Nada! Nada! \u00e9 precioso<br \/>\np\u00f4r cobro a semelhante coisa. Fale a meu genro, senhor c\u00f4nego fale-lhe com<br \/>\nfranqueza! Olhe pode dizer-lhe at\u00e9 que se ele n\u00e3o quiser tratar disto, eu<br \/>\nm&#8217;encarrego de p\u00f4r a peste no olho da rua! A porta da nua \u00e9 a serventia da<br \/>\ncasa! N\u00e3o v\u00ea que entre paredes, onde cheira a Mendon\u00e7a de Melo, se tem aquelas<br \/>\ncom um peda\u00e7o de negro! Iche cac\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom est\u00e1 bom!&#8230; N\u00e3o se arrenegue, Dona Babu! Pode arranjar-se tudo,<br \/>\ncom a divina ajuda de Deus!&#8230;<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego foi entender-se com o negociante.<\/p>\n<p>&#8211; Homem&#8230; respondeu Manuel tendo ouvido as raz\u00f5es do compadre, l\u00e1 de recambi\u00e1-lo<br \/>\npara o diabo, convenho! porque enfim sempre \u00e9 um perigo que um pai de fam\u00edlia<br \/>\ntem dentro de casa!&#8230; mas essa agora de n\u00e3o negociar a fazenda, \u00e9 pelo que<br \/>\nn\u00e3o estou! Seria asnice de minha parte! E boa! Pois se o Cancela me escreveu<br \/>\nquer entrar em neg\u00f3cio, e eu posso meter para a algibeira uma comiss\u00e3ozinha<br \/>\nmenos m\u00e1, sem empregar capital algum e quase sem trabalho &#8211; hei de agora meter<br \/>\nos p\u00e9s e deixar o pobre rapaz \u00e0s tontas, em risco at\u00e9 de cair nas m\u00e3os de<br \/>\nalgum fin\u00f3rio!&#8230; Porque, venha c\u00e1 seu compadre, mesmo deitando de parte o<br \/>\ninteresse, com quem a n\u00e3o ser comigo podia o Mundico, coitado! haver-se neste<br \/>\nneg\u00f3cio? Tamb\u00e9m a gente deve olhar p&#8217;r&#8217;estas coisas!&#8230;<\/p>\n<p>Ficou resolvida a viagem para o s\u00e1bado seguinte.<\/p>\n<p>Raimundo acolheu a noticia com uma satisfa\u00e7\u00e3o que espantou a todos. &#8220;At\u00e9<br \/>\nque afinal ia visitar o lugar em que lhe diziam do!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Olhe! disse ele a Manuel, tenho um importante pedido a fazer-lhe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se estiver em minhas m\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Esta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oque \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Coisa muito seria&#8230; Em viagem para o Ras\u00e1rio conversaremos.<\/p>\n<p>Manuel co\u00e7ou a nuca.<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a> X<\/h2>\n<p>No dia combinado, \u00e0s seis horas da manh\u00e3, acharam-se Manuel e Raimundo a<br \/>\nbordo do vaporzinho Pindar\u00e9, pertencente \u00e0 ent\u00e3o Companhia Maranhense de Navega\u00e7\u00e3o<br \/>\nCosteira.<\/p>\n<p>Fazia um tempo abrasado, muito seco, cheio de luz. A viagem era inc\u00f4moda,<br \/>\npela aglomera\u00e7\u00e3o dos passageiros, os quais, no dizer sedi\u00e7o de um de bordo,<br \/>\niam &#8220;como sardinhas em tigela&#8221;.<\/p>\n<p>Tudo aquilo, no entanto, estava muito melhor&#8230; considerava Manuel. Agora<br \/>\nj\u00e1 se podia viajar facilmente pelo interior da prov\u00edncia!&#8230; Dantes \u00e9 que<br \/>\na navega\u00e7\u00e3o do Itapicuru tinha os seus qu\u00eas!&#8230;<\/p>\n<p>E passou a narrar circunstanciadamente as dificuldades primitivas da ida<br \/>\nao Ros\u00e1rio. &#8220;Aquela companhia, assim mesmo, viera prestar grandes servi\u00e7os<br \/>\n\u00e0 prov\u00edncia!&#8230; Deixasse l\u00e3 falar quem falava, o \u00fanico inconveniente que ele<br \/>\nvia era a &#8211; baldea\u00e7\u00e3o no Cod\u00f3! &#8211; Isso sim! Tinha o que se lhe dizer, e devia<br \/>\nacabar quanto antes!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Felizmente, concluiu, o Ros\u00e1rio \u00e9 a primeira esta\u00e7\u00e3o e n\u00e3o temos de sofrer<br \/>\na maldita ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>Ao anoitecer saltaram na Vila do Ros\u00e1rio, em companhia de um antigo conhecido<br \/>\nde Manuel, ali residente havia um bom par de anos. Em Um portuguesinho de<br \/>\nmeia-idade, falador, vivo, brasileiro nos costumes e trigueiro como um caboclo.<\/p>\n<p>&#8211; Venha c\u00e1 pra casa e pela manh\u00e3zinha seguir\u00e1 o seu caminho, oferecia ele<br \/>\nao negociante. Sempre lhe quero mostrar o meu pal\u00e1cio!<\/p>\n<p>Foi aceito o convite, e os tr\u00eas puseram-se a andar, de mala pendurada na<br \/>\nm\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe voc\u00ea, ia dizendo o homenzinho, toda aquela baixa que pertencia ao<br \/>\nBento Moscoso? pois isso fica-me hoje no quintal! Arrecadei a fazenda da vi\u00fava<br \/>\npor uma tuta e mea e hoje est\u00e1 produzindo, que \u00e9 aquilo que voc\u00ea pode ver!<br \/>\nO meu projeto \u00e9 levantar uma engenhoca a\u00ed perto, onde fica o igarap\u00e9 do Ribas;<br \/>\nquero ver se aproveito as baixas para a cana, percebe?<\/p>\n<p>E dissertava largamente sobre a sua roga, sobre as suas esperan\u00e7as de prosperidade,<br \/>\ncensurando medidas mal tomadas pelos vizinhos; afinal atirou a conversa sobre<br \/>\no Barroso. Barroso era a fazenda no para onde se dirigiam os outros dois.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o boas tenras, s\u00e3o! Muito limpas, muito aben\u00e7oadas! O que foi que levantou<br \/>\no Lu\u00eds Cancela? E \u00e9 verdade! se me neo engano, creio que ele uma ocasi\u00e3o me<br \/>\ndisse que foi voc\u00ea quem lhas aforou. N\u00e3o \u00e9 isso?<\/p>\n<p>&#8211; E exato, respondeu Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! s\u00e3o suas?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! S\u00e3o deste amigo.<\/p>\n<p>E Manuel indicou Raimundo, que nesse momento contratava, com um homem que<br \/>\nse mandou chamar, os cavalos para a viagem no dia seguinte.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o muito boas terras!&#8230; o outro. O Cancela j\u00e1 por v\u00e1rias vezes tem-nas<br \/>\nquerido comprar.<\/p>\n<p>&#8211; Compra-as agora.<\/p>\n<p>E chegaram a casa.<\/p>\n<p>-A minha gente est\u00e1 toda fora declarou o roceiro. Mas n\u00e3o faz mal, temos<br \/>\nai de sobra com que passar. \u00d3 Greg\u00f3rio!<\/p>\n<p>&#8211; Meu senh\u00f4!<\/p>\n<p>Veio logo um preto velho, a quem ele se dirigiu para dar as ordens em voz<br \/>\nbaixa.<\/p>\n<p>A noite, ao contr\u00e1rio do dia, fizera-se fresca. Depois da cela, cada um se<br \/>\nestendeu na sua rede, pregui\u00e7osamente. Raimundo queixava-se de pragas e maruins;<br \/>\nManuel meditava os seus neg\u00f3cios, toscanejando, e o portuguesinho n\u00e3o dava<br \/>\ntr\u00e9guas \u00e0 l\u00edngua: falava daquelas tenras com um entusiasmo progressivo; contava<br \/>\nmaravilhas agr\u00edcolas; mostrava-se fan\u00e1tico pelo Ros\u00e1rio. E, no empenho da<br \/>\nconversa, arrastado, chegava a mentir, exagerando tudo o que descrevia.<\/p>\n<p>Raimundo interrompeu-o, para saber se ele conhecia a antiga fazenda S\u00e3o Br\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o Br\u00e1s!&#8230;<\/p>\n<p>E o homenzinho levantou-se da rede com um espanto.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o Br\u00e1s! Se conhe\u00e7o! E por aqui V.S\u00aa n\u00e3o encontra quem n\u00e3o saiba a hist\u00f3ria<br \/>\ndela!&#8230;<\/p>\n<p>O outro ardia de curiosidade.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha ent\u00e3o a bondade de contar-ma, pediu, assentando-se. Como vou andar<br \/>\npor essas bandas&#8230;<\/p>\n<p>Manuel adormeceu.<\/p>\n<p>&#8211; Pois V.S\u00aa n\u00e3o sabe a hist\u00f3ria de S\u00e3o Br\u00e1s?&#8230; Valha-o Deus, meu caro senhor,<br \/>\nque podia cair em algum malfarrico; mas eu vou ensinar-lhe a reza que aprendemos<br \/>\ncom o nosso santo vig\u00e1rio. Olhe! quando V.S\u00aa topar uma cruz na estrada, apeie<br \/>\ne reze, e ao depois siga o seu caminho por diante, repetindo sempre:<\/p>\n<p>&#8220;Por S\u00e3o Br\u00e1s!<\/p>\n<p>Por S\u00e3o Jesus!<\/p>\n<p>Passo aqui,<\/p>\n<p>Sem levar cruz&#8221;<\/p>\n<p>At\u00e9 avistar as magueiras do Barroso: da\u00ed \u00e0 riba pode seguir descansado, que<br \/>\nl\u00e1 n\u00e3o chega chamusco!<\/p>\n<p>&#8211; Mas por que toma a gente tais precau\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>&#8211; Ora ai est\u00e1 onde a porca torce o rabo! E por causa do diabo de uma alma<br \/>\ndanada, que empesta essas garagens&#8230; Eu conto a V.S\u00aa!<\/p>\n<p>E o homenzinho, engolindo em seco, contou prolixamente que S\u00e3o Br\u00e1s, ou Ponta<br \/>\ndo Fogo, como dantes lhe chamavam, fora noutro tempo lugar de terras boas<br \/>\ne f\u00e9rteis, onde se podia plantar e colher muito, que aben\u00e7oadas eram elas<br \/>\npelas m\u00e3os de Deus. Mas, que uma vez aparecera por l\u00e1 o c\u00e9lebre assassino<br \/>\nBernardo, terror do Ros\u00e1rio e sobressalto dos fazendeiros, e, depois de uma<br \/>\nvida errante pelo sert\u00e3o, roubando e matando, meteu-se na Ponta do Fogo e<br \/>\nai estourou. E desde ent\u00e3o nesse desgra\u00e7ado lugar nunca mais vingara fruto<br \/>\nque n\u00e3o tivesse ressaibo de veneno, nem medrara planta sem mitinza; as \u00e1guas<br \/>\ndeixavam cinza na boca, a terra, se a gente a colhia na m\u00e3o, virava-se em<br \/>\nsalitre, e as flores fediam a enxofre; mas, quem comesse desses frutos, se<br \/>\ndeitasse nesse ch\u00e3o, se banhasse nessas \u00e1guas e cheirasse aquelas flores,<br \/>\nficava por tal modo enfeiti\u00e7ado, que n\u00e3o havia meio de arranc\u00e1-lo dali, porque<br \/>\no diabo tinha untado o fruto de mel, e perfumado as flores e amaciado a relva,<br \/>\npara engodar o caminheiro incauto.<\/p>\n<p>&#8211; Foi isso, continuou o que sucedeu ao pobre Jos\u00e9 do Eito, quando se meteu<br \/>\npor c\u00e1 &#8211; enfeiti\u00e7ou-se! Eu era muito novo nesse tempo, mas bem me lembro de<br \/>\no ter visto tantas vezes, coitado! todo amarelo, morrinhento e resmung\u00e3o,<br \/>\nque logo se adivinhava que o diabo lhe pregara alguma! E sempre andou assim!&#8230;<br \/>\num dia morreu-lhe a mulher de repente, e ele pouco depois foi varado por um<br \/>\ntiro, que nunca mais ningu\u00e9m soube donde veio. Da\u00ed em diante S\u00e3o Br\u00e1s ficou<br \/>\ntapera. No lugar em que morreu o Jos\u00e9 levantou-se Uma cruz, e todos os que<br \/>\npassam por l\u00e1 rezam por alma do desventurado, at\u00e9 encher certa conta de ora\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncom que ela possa descansar!&#8230; Enquanto isso n\u00e3o chega, vaga pela tapera<br \/>\na pobre alma penada, de dia que nem um p\u00e1ssaro negro, enorme, que canta a<br \/>\nfinados, e de noite vira-se numa feiticeira, que dan\u00e7a e canta, rindo como<br \/>\nas raposas. Quando algum imprudente atravessa perto, a feiticeira o persegue<br \/>\nde tal feitio, que o infeliz, se n\u00e3o estiver montado, ela o pilha com certeza!<\/p>\n<p>&#8211; E se o pilha?<\/p>\n<p>&#8211; Se o pilha?&#8230; Ah, nem falar nisso \u00e9 bom! Se o pilha, vira-se logo toda<br \/>\nem ossos e cai-lhe em riba, com tal f\u00faria de pancadas, que o deixa morto!<\/p>\n<p>&#8211; E depois?<\/p>\n<p>&#8211; Depois, volta a alma para penit\u00eancia, tendo perdido, por cada pancada<br \/>\nque deu, vinte coroas de padre-nossos. Quando V.S\u00aa for amanh\u00e3 \u00e9 bom levar<br \/>\nna sela do seu cavalo um galhinho de arruda, e ao depois de rezar \u00e0 cruz,<br \/>\nv\u00e1 sacudindo sempre at\u00e9 as mangueiras do Cancela, sem nunca parar com a reza<br \/>\nque lhe ensinei!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim, mas diga-me uma coisa: esse Jos\u00e9 do Eito n\u00e3o se chamava Jos\u00e9<br \/>\nPedro da Silva?<\/p>\n<p>&#8211; Justo! V.S\u00aa o conheceu?<\/p>\n<p>&#8211; De nome.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu conheci, perfeitamente.<\/p>\n<p>E, a pedido de Raimundo, o portuguesinho descreveu o tipo Jos\u00e9, e contou<br \/>\no que sabia da vida dele. O rapaz escutava tudo com um interesse religioso;<br \/>\nn\u00e3o queria perder uma s\u00f3 daquelas palavras; mas tinha, muitas vezes, que interromper<br \/>\no narrador, para lhe fazer perquntas, a que o outro respondia em par\u00eantesis<br \/>\nr\u00e1pidos.<\/p>\n<p>&#8211; Pois a D. Quit\u00e9ria Santiago morreu pouco antes do marido; eu fui v\u00ea-la!<br \/>\ne olhe V.S\u00aa que, de bonitona que era, ficou horr\u00edvel. Estava mais roxa que<br \/>\nUma berinjela!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tinha filhos?<\/p>\n<p>&#8211; Nunca os teve.<\/p>\n<p>&#8211; Nem o marido?&#8230; Sim&#8230; este podia ter algum filho natural&#8230;<\/p>\n<p>-N\u00e3o, que eu saiba, n\u00e3o tinha.<\/p>\n<p>&#8211; Nem consta de alguma parenta, que vivesse na fazenda em companhia do Jos\u00e9?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sei c\u00e1, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Alguma irm\u00e3 de D. Quit\u00e9ria, ou talvez alguma amiga, hein? Veja se se lembra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual o qu\u00ea!&#8230; Viviam ao contr\u00e1rio muito s\u00f3s! D. Quit\u00e9ria a \u00fanica parenta<br \/>\nque tinha era a m\u00e3e; esta andava sempre de ponta com o genro e neo saia da<br \/>\nsua fazenda, que vem a ser aquela em que est\u00e1 hoje o Cancela &#8211; a fazenda do<br \/>\nBarroso! \u00c9 verdade! sabe quem pode informar bem estas coisas? \u00e9 o Sr. Vig\u00e1rio!<br \/>\nele ainda vive na cidade; hoje \u00e9 c\u00f4nego. Pois era muito unha com carne do<br \/>\nJos\u00e9 do Eito.<\/p>\n<p>&#8211; O c\u00f4nego Diogo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Justamente! Ele \u00e9 que era o vig\u00e1rio desta freguesia. Ora quanto tempo<br \/>\nj\u00e1 l\u00e1 vai!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! O c\u00f4nego Diogo era o vig\u00e1rio desta freguesia, e muito da casa das Santiagos?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor! E ele est\u00e1 ai, que a quem quiser ouvir as voltas que deu para<br \/>\ndesencantar S\u00e3o Br\u00e1s! Coitado! nada conseguiu e quase que ia sendo vitima<br \/>\nda sua boa vontade!<\/p>\n<p>&#8211; Ele tamb\u00e9m acreditava na feiti\u00e7aria?<\/p>\n<p>&#8211; Se acreditava! Pois se ele a viu, que o disse! E olhe V.S\u00aa que o c\u00f4nego<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 homem de mentiras! Afimava que havia em S\u00e3o Br\u00e1s uma alma danada, e<br \/>\nn\u00e3o gostava at\u00e9 que lhe falassem muito nisso!&#8230; Proibia-o expressamente,<br \/>\nsob pena de excomunh\u00e3o! Se acreditava? E boa! Por que foi ent\u00e3o que ele abandonou<br \/>\na par\u00f3quia, tendo aqui nascido, gozando da mais alta considera\u00e7\u00e3o e recebendo,<br \/>\ncomo recebia, presentes e mais presentes de toda a freguesia?&#8230; Eram bois,<br \/>\ncarneiros, capados, muita cria\u00e7\u00e3o. Ele est\u00e1 ai na cidade, que o diga!<\/p>\n<p>Raimundo caia de conjetura em conjetura.<\/p>\n<p>&#8211; Ele era ent\u00e3o bastante amigo do Jos\u00e9 da Silva? o c\u00f4nego?<\/p>\n<p>&#8211; Se era, coitado! Amigo e muito bom amigo!&#8230; Quando assassinaram o pobre<br \/>\nhomem, o senhor vig\u00e1rio nem quis espargir-lhe a \u00e1gua benta; mandou o sacrist\u00e3o!<br \/>\nN\u00e3o podia encarar com o corpo do Jos\u00e9! E, veja V S\u00aa , meteu-se em casa, e<br \/>\npouco nada apareceu, at\u00e9 que se retirou para sempre c\u00e1 da vila! Todos n\u00f3s<br \/>\nsentimos deveras semelhante retirada; est\u00e1vamos t\u00e3o acostumados com ele!&#8230;<br \/>\nEu, nesse tempo, trabalhava nas terras do coronel Rosa; tinha os meus vinte<br \/>\nanos e ainda estava solteiro; assisti a tudo, meu rico senhor! Lembra-me como<br \/>\nse fosse ontem! A fazenda, essa foi logo abandonada; ningu\u00e9m quis saber mais<br \/>\ndela, pois, todas as noites, quem passasse por ai, ouvia gritos medonhos,<br \/>\nde arrepiar o couro!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, al\u00e9m do Jos\u00e9 e da mulher, quem mais morou nesse lugar?<\/p>\n<p>&#8211; Or&#8217;essa! a escravatura e o feitor.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Digo senhores.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m mais.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, \u00e9 verdade! O Jos\u00e9 era feliz com a mulher? Viviam bem?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Pois se lhe estou a dizer que aquelas tenras s\u00e3o tenras do diabo!<br \/>\nViviam que nem o c\u00e3o com o gato! O c\u00f4nego, ainda assim, era quem os acomodava,<br \/>\ndando-lhes conselhos e pedindo a Deus por eles!<\/p>\n<p>E Raimundo perdia-se novamente em conjeturas. as. &#8220;Sempre sombras!&#8230; Sempre<br \/>\nas mesmas duvidas sobre o seu passado!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A conversa afrouxou. O portuguesinho deitou-se, e depois de uns restos de<br \/>\npalestra, vaga e bocejado, adormeceu Raimundo sonhou toda a noite.<\/p>\n<p>As quatro da madrugada estavam de p\u00e9, selados os cavalos, cheio o farnel<br \/>\npara a viagem, e o guia montado.<\/p>\n<p>Partiram \u00e0s cinco horas.<\/p>\n<p>Logo que os dois, e mais o guia, se acharam em caminho, Raimundo procurou<br \/>\nentabular a mesma conversa\u00e7\u00e3o que tivera na v\u00e9spera com o roceiro; queria<br \/>\nver se conseguia arrancar de Manuel algum esclarecimento positivo sobre os<br \/>\nseus antepassados. Nada obteve; as respostas do negociante eram, como sempre<br \/>\nque o sobrinho lhe tocava nisso, obscuras, difusas, entrecortadas de pausas<br \/>\ne retic\u00eancias. Manuel falou-lhe no c\u00f4nego, na cunhada, no mano Jos\u00e9, e em<br \/>\nmais ningu\u00e9m. A respeito da m\u00e3e de Raimundo &#8211; nem a mais ligeira refer\u00eancia.<br \/>\n&#8220;Ora adeus!&#8230; Estou sempre na mesma!&#8230;&#8221; concluiu o mo\u00e7o de si para si e<br \/>\nfez por pensar noutra coisa. O fato, por\u00e9m, \u00e9 que ele, apesar do seu temperamento<br \/>\nde artista n\u00e3o tinha uma frase para as belas paisagens que se desenrolavam<br \/>\ndiante de seus olhos. Ia cabisbaixo e preocupado.<\/p>\n<p>Jornadearam em sil\u00eancio horas e horas. De vez em quando o guia, com o seu<br \/>\nde sertanejo, levava-os a uma fazenda ou a um rancho, onde os tr\u00eas descansavam<br \/>\ne comiam, para tomar logo a cavalgar por entre as melanc\u00f3licas carnaubeiras<br \/>\ne pindovais da estrada. Raimundo sentia-se aborrecido e impacientava-se pelo<br \/>\nfim da viagem. Seu maior empenho era visitar S\u00e3o Br\u00e1s; prop\u00f4s at\u00e9 que se fosse<br \/>\nl\u00e1 primeiro, mas o negociante declarou que era imposs\u00edvel. &#8220;N\u00e3o tinham tempo<br \/>\na perder!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Na volta, doutor, na volta, acrescentou, sairemos bem cedo e daremos um<br \/>\npulo at\u00e9 l\u00e1. Lembre-se de que nos esperam, e n\u00e3o seria razo\u00e1vel bater fora<br \/>\nde hora em casa de uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O outro consentiu, praguejando entre dentes contrariado e cheio de t\u00e9dio:<br \/>\n&#8220;Que grand\u00edssima estopada! O diabo da tal fazenda do inferno parecia fugir<br \/>\ndiante deles!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se rale, patr\u00e3ozinho! E ali quase! disse compassadamente o guia, espichando<br \/>\no bei\u00e7o inferior Meta a espora no animal, que talvez chegaremos com dia!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! suspirou Raimundo, desanimado por ver o sol ainda alto e compreender<br \/>\nque tinha de caminhar at\u00e9 \u00e0 noite.<\/p>\n<p>E deixou-se cair numa prostra\u00e7\u00e3o mofina, a fitar as orelhas do burro, que<br \/>\narfavam com a regularidade mon\u00f3tona das asas de um p\u00e1ssaro voando.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1 est\u00e1! exclamou Manuel, duas horas depois, chegando a um lugar mais sombrio<br \/>\ndo caminho.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9? ia perguntar o mo\u00e7o quando deu por sua vez com uma cruz de madeira,<br \/>\nmuito tosca e arruinada. Ah!<\/p>\n<p>&#8211; Foi neste lugar assassinado o Jos\u00e9!&#8230;<\/p>\n<p>Todos pararam, e o guia apeou-se e foi rezar de joelhos ao cruzeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Reze pela alma de seu pai, meu amigo. Neste lugar foi ele varado por uma<br \/>\nbala.<\/p>\n<p>&#8211; E o assassino? perguntou Raimundo depois de um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Algum preto fugido!&#8230; at\u00e9 hoje nada se sabe ao certo&#8230; mas dizem que<br \/>\nnisto andou unha pol\u00edtica. . outros atribuem o fato ao diabo. Bobagens! &#8230;<\/p>\n<p>Raimundo apeou-se e indagou se o pai estava enterrado ali.<\/p>\n<p>Manuel, j\u00e1 de p\u00e9, respondeu que n\u00e3o. Enterrara-se no cemit\u00e9rio da fazenda,<br \/>\nao lado da mulher. Aquela cruz, explicou ele, era um antigo uso do sert\u00e3o;<br \/>\nservia para mostrar ao viajante o lugar onde fora algu\u00e9m assassinado e faz\u00ea-lo<br \/>\nrezar pela alma da v\u00edtima, como ali estava praticando aquele homem.<\/p>\n<p>E apontou para o guia, que, terminada a sua ora\u00e7\u00e3o, levantou-se e foi colher<br \/>\num ramo de murta, que dep\u00f4s aos p\u00e9s da cruz.<\/p>\n<p>Raimundo sentia-se comovido. Manuel, de joelhos, cabe\u00e7a baixa e chap\u00e9u pendurado<br \/>\ndas m\u00e3os postas, rezava convictamente. Ao terminar surpreendeu-se por saber<br \/>\nque Raimundo n\u00e3o tencionava fazer o mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? Pois ent\u00e3o o senhor n\u00e3o reza?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Vamos?<\/p>\n<p>&#8211; Ora! essa c\u00e1 me fica!&#8230; Ent\u00e3o qual \u00e9 a sua religi\u00e3o? Como adora o senhor<br \/>\na Deus?<\/p>\n<p>&#8211; Ora, senhor Manuel, deixemo-nos disso; conversemos sobre outra coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! queria s\u00f3 que o senhor me dissesse como adora a Deus!<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-se disso homem, deixe Deus em paz! Ora para que lhe havia de dar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, nesse caso, o senhor n\u00e3o tem religi\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Tenho, tenho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o parece!&#8230; Pelo menos neo devia fazer t\u00e3o pouco caso das rezas,<br \/>\nque nos foram ensinadas pelos ap\u00f3stolos de Nosso Senhor Jesus Cristo!&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo n\u00e3o p\u00f4de conter uma risada, e, como o outro se formalizara, acrescentou<br \/>\nem tom s\u00e9rio &#8220;que n\u00e3o desdenhava da religi\u00e3o, que a julgava at\u00e9 indispens\u00e1vel<br \/>\ncomo elemento regulador da sociedade. Afian\u00e7ou que admirava a natureza e rendia-lhe<br \/>\no seu culto, procurando estud\u00e1-la e conhec\u00ea-la nas suas leis e nos seus fen\u00f4menos,<br \/>\nacompanhando os homens de ci\u00eancia nas suas investiga\u00e7\u00f5es, fazendo, enfim,<br \/>\no poss\u00edvel para ser \u00fatil aos seus semelhantes, tendo sempre por base a honestidade<br \/>\ndos pr\u00f3prios atos&#8221;.<\/p>\n<p>Montaram de novo e puseram-se a caminho. Uma cerrada conversa travou-se entre<br \/>\neles a respeito de cren\u00e7as religiosas; Raimundo mostrava-se indulgente com<br \/>\no companheiro, mas aborrecia-se, intimamente revoltado por ter de atur\u00e1-lo.<br \/>\nDa religi\u00e3o passaram a tratar de outras coisas, a que o mo\u00e7o ia respondendo<br \/>\npor comprazer; afinal veio \u00e0 ba\u00eda a escravatura e Manuel tentou defend\u00ea-la;<br \/>\no outro perdeu a paci\u00eancia, exaltou-se e apostrofou contra ela e contra os<br \/>\nque a exerciam, com palavras t\u00e3o duras e t\u00e3o sinceras, que o negociante se<br \/>\ncalou, meio enfiado. Entretanto, o guia cavalgava na frente, distra\u00eddo, cantando<br \/>\npara matar o tempo:<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea diz que amor n\u00e3o d\u00f3i<\/p>\n<p>No fundo do cora\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Queira bem e uiva ausente&#8230;<\/p>\n<p>Me dir\u00e1 se d\u00f3i ou n\u00e3o!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Caminharam meia hora em sil\u00eancio. O dia declinava, os primeiros sintomas<br \/>\nda noite levantavam-se da tenra, como um perfume negro, as aves refugiavam-se<br \/>\nno seio embalsamado da floresta; a vira\u00e7\u00e3o fresca da tarde eri\u00e7ava os leques<br \/>\ndas palmeiras, enchendo os ares de um doce murm\u00fario voluptuoso.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho pairado tanto, disse por fim Raimundo com certa perplexidade, e todavia<br \/>\nn\u00e3o tratei do que mais me interessa ..<\/p>\n<p>&#8211; Como assim?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Lembra-se o senhor que, outro dia, pedi-lhe uma confer\u00eancia em seu escrit\u00f3rio,<br \/>\ne, ou porque o meu amigo se esquecesse, ou porque mesmo n\u00e3o houvesse ocasi\u00e3o,<br \/>\no certo \u00e9 que n\u00e3o chegamos a falar, e no entanto, o assunto \u00e9 de suma import\u00e2ncia<br \/>\npara ambos n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E o que vem a ser?<\/p>\n<p>&#8211; E um grande favor, que tenho a pedir-lhe&#8230;<\/p>\n<p>Manoel abaixou a cabe\u00e7a, contrafazendo o embara\u00e7o em que se via.<\/p>\n<p>&#8211; Trata-se de alguma quest\u00e3o comercial?&#8230; perguntou.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor; trata-se de minha felicidade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E a m\u00e3o de minha filha que deseja pedir?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o&#8230; tenha a bondade de desistir do pedido&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Para poupar-me o desgosto de uma recusa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 natural que o senhor se espante, concordo; dou-lhe toda a raz\u00e3o; est\u00e1<br \/>\nno seu direito! O senhor \u00e9 um homem de bem, \u00e9 inteligente, tem o seu saber,<br \/>\nque ningu\u00e9m lho tira, e vir\u00e1 sem d\u00favida a conquistar uma bonita posi\u00e7\u00e3o, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230; Mas, o que?<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe-me, se o ofende tal recusa de minha parte, mas creia, ainda mesmo<br \/>\nque eu quisesse, n\u00e3o podia fazer-lhe a vontade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 j\u00e1 comprometida talvez&#8230; Bem! Nesse caso, esperarei&#8230; Resta-me ainda<br \/>\na esperan\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 isso&#8230; E pe\u00e7o-lhe que n\u00e3o insista.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quer separar-se da menina?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! O senhor maritiza-me!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9?&#8230; Ent\u00e3o que diabo! Terei, sem saber, alguma divida de meu<br \/>\npai, que haja de rebentar por ai, como uma bomba?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que lembran\u00e7a! Se assim fosse eu seria um criminoso em n\u00e3o o ter nunca<br \/>\nprevenido. O que o senhor possui est\u00e1 limpo e seguro! Presto contas quando<br \/>\nquiser!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! j\u00e1 sei&#8230; tomou Raimundo com um vislumbre, rindo. N\u00e3o quer dar sua<br \/>\nfilha a um homem de id\u00e9ias t\u00e3o revolucion\u00e1rias?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o \u00e9 isso! E fiquemos aqui! Sei que o senhor tem direito a uma explica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas acredite que, apesar da minha boa vontade, n\u00e3o a possa dar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora esta! Mas ent\u00e3o por que \u00e9?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso dizer nada, repito! E pe\u00e7o-lhe de novo que n\u00e3o insista&#8230; Esta<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o \u00e9 para mim um sacrif\u00edcio penoso, creia!<\/p>\n<p>&#8211; De sorte que o senhor me recusa a m\u00e3o de sua filha? Definitivamente?!<\/p>\n<p>&#8211; Sinto muito, por\u00e9m&#8230; definitivamente&#8230;<\/p>\n<p>Calaram-se ambos, e n\u00e3o trocaram mais palavra at\u00e9 \u00e0 fazenda do Cancela.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a> XI<\/h2>\n<p>Quando chegaram ao port\u00e3o da fazenda, j\u00e1 a lua resplandecia, desenhando ao<br \/>\nlongo da eira a sombra espichada de enormes macajubeiras sussurrantes. Fazia<br \/>\num tempo magn\u00edfico, seco, fresco, transparente; podia ler-se ao luar.<\/p>\n<p>O guia sacudiu com vigor a campainha e gritou:<\/p>\n<p>&#8211; O de casa!<\/p>\n<p>Seguiu-se uma algazarra de c\u00e3es. Veio abrir um preto, munido de um ti\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque trazia sempre em movimento, para conserv\u00e1-lo aceso.<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite, tio velho! disse Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; D&#8217;es-b&#8217;a-noite, branco! respondeu o negro.<\/p>\n<p>E, segurando a brida do cavalo, conduziu com este o cavaleiro at\u00e9 a casa.<\/p>\n<p>Raimundo e o guia seguiram atr\u00e1s. De longe, avistaram logo uma parede rebocada,<br \/>\ndisforme, que ao luar se afigurava um lago entre \u00e1rvores. Mais perto, o lago<br \/>\nse transformou num sobrado e os viajantes descobriram uma porta, em cujo esvazamento<br \/>\nse desenhara o vulto varonil do Cancela, que detinha dois formid\u00e1veis rafeiros.<\/p>\n<p>&#8211; Ora viva! gritou o dono da casa. E, voltando-se para os c\u00e3es, que insistiam<br \/>\nem ladrar: Safa, Rompe-Nuvens! Arreda, Quebra-Ferros!<\/p>\n<p>Os c\u00e3es rosnaram amigavelmente, e o fazendeiro, com sua voz forte, de pulm\u00f5es<br \/>\nenxutos, gritou para Manuel:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o sempre veio!.. Pois olhe, cuidei que desta vez fizesse como das outras!&#8230;<br \/>\nEnfim, como vai essa cat\u00f3lica?<\/p>\n<p>&#8211; Assim, assim, um pouco mo\u00eddo da viagem&#8230; disse Manuel, entregando o cavalo<br \/>\nao preto e apertando a m\u00e3o do Cancela. Como lhe v\u00e3o c\u00e1 os seus?<\/p>\n<p>&#8211; Bons, louvado Deus. Ainda est\u00e3o na Ave-Maria, mas n\u00e3o devem tardar.<\/p>\n<p>Efetivamente, do interior da casa um coro abafado de vozes, que rezava cantando.<\/p>\n<p>Raimundo aproximou-se, depois de apear.<\/p>\n<p>&#8211; Este \u00e9 o Mundico de que lhe falei! declarou Manuel, empurrando o sobrinho<br \/>\npara a frente.<\/p>\n<p>O rapaz espantou-se com a r\u00fastica apresenta\u00e7\u00e3o, e muito mais, quando o roceiro,<br \/>\nem vez de cumpriment\u00e1-lo, p\u00f4s as m\u00e3os nas cadeiras e come\u00e7ou a passar-lhe<br \/>\numa revista de cima a baixo, como quem examina uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Com os diabos! exclamou, soltando uma risada. Voc\u00ea e seu compadre falaram-me<br \/>\nem um menino!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 doze anos!<\/p>\n<p>&#8211; Olha o demo! Pois, seu Mundiquinho, aperte esta m\u00e3o, que \u00e9 de um antigo<br \/>\namigo de seu pai, e n\u00e3o repare se n\u00e3o encontrar por aqui o bom trato da cidade!<br \/>\nIsto c\u00e1 sempre \u00e9 roga! mas v\u00e1 como o outro, que diz: &#8220;Mais vai pouca de bom<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o, que muito de sovina!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E conduziu os h\u00f3spedes \u00e0 varanda, menos o guia, que se tinha aboletado j\u00e1<br \/>\npelos ranchos dos pretos.<\/p>\n<p>&#8211; Homem! voc\u00eas v\u00e3o se assentando nessas redes! O Pedro! v\u00ea cachimbos! Trazer<br \/>\na cana e o caf\u00e9. Ou querem antes vinho?<\/p>\n<p>&#8211; Qualquer coisa serve.<\/p>\n<p>&#8211; Temos aqui conhaque! ofereceu Raimundo, apresentando um frasco que trazia<br \/>\na tiracolo.<\/p>\n<p>&#8211; Pode fartar-se com ele! desdenhou Cancela. \u00c9 coisinha que n\u00e3o me entra<br \/>\nc\u00e1 no bico!<\/p>\n<p>Encheram-se tr\u00eas copinhos de cana-capim.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 l\u00e1 \u00e0 nossa! E venham despir-se para cear!<\/p>\n<p>E conduziu-os a um quarto, destinado exclusivamente a h\u00f3spedes.<\/p>\n<p>A casa compreendia a antiga fazenda Barroso, onde noutro tempo morou e morreu<br \/>\na sogra de Jos\u00e9 da Silva, e uma parte nova, feita de pedra e cal, cujo cuidado<br \/>\nde constru\u00e7\u00e3o revelava a prosperidade do rendeiro.<\/p>\n<p>A &#8220;casa nova&#8221;, como chamavam a \u00faltima parte, compunha-se de um grande avarandado,<br \/>\nno qual, fazendo as vezes de cadeiras, viam-se redes armadas em todos os cantos.<br \/>\nNo centro, que \u00e9 o lugar de honra nas fazendas do Maranh\u00e3o, havia um quarto<br \/>\nespa\u00e7oso e arejado, e o mais eram paredes sem pintura e tetos sem forro, potes<br \/>\nde barro vermelho, vassouras de carna\u00faba encostadas por aqui e por ali, selins<br \/>\nestendidos no parapeito da varanda; a respeito de mob\u00edlia, nada mais do que<br \/>\numa mesa tosca e bancos compridos de pau. O paiol da farinha era por baixo<br \/>\ndo sobrado, onde se encontravam enormes ba\u00fas, forrados de couro, com umas<br \/>\nsetenta redes destinadas aos h\u00f3spedes. A adega ao lado do paiol. De fora ouvia-se<br \/>\no grunhir pregui\u00e7oso dos porcos no chiqueiro, e do fundo do quintal, soprado<br \/>\npelos ventos da noite, vinha um cheiro bom de jasmins de Caiana, l\u00edrios do<br \/>\nPeru, resed\u00e1s e manjeronas.<\/p>\n<p>Quando os tr\u00eas voltaram do quarto, j\u00e1 a filha e a mulher do fazendeiro tinham<br \/>\nvindo da reza. Manuel apareceu enfronhado comodamente num palet\u00f3 de brim pardo<br \/>\ne um par de tamancos. Raimundo n\u00e3o mudara de roupa, apenas banhara o rosto<br \/>\ne as m\u00e3os e penteara os cabelos. A mulher do Cancela punha a mesa para a ceia;<br \/>\na filha correra a esconder-se no quarto, espiando as visitas por detr\u00e1s da<br \/>\nporta, com vergonha de aparecer.<\/p>\n<p>&#8211; Anda pra c\u00e1, Angelina! gritou o roceiro. Pareces um bicho do mato! Nunca<br \/>\nviste gente, rapariga?!<\/p>\n<p>Foi ter com ela e obrigou-a a sair do esconderijo.<\/p>\n<p>&#8211; Ora vamos! direito! N\u00e3o estejas a esconder o rosto, que neo tens de que<br \/>\no esconder!&#8230; Vamos!<\/p>\n<p>Angelina apareceu, com muito acanhamento, e foi cumprimentada.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o! ralhou o pai. \u00c9 com a cabe\u00e7a que se responde?&#8230; Ah, que estas cada<br \/>\nvez mais matuta!&#8230; Que mal te fez este pobre cabe\u00e7\u00e3o para o maltratares desse<br \/>\nmodo?&#8230; Olha que o rompes, estonteada!<\/p>\n<p>Angelina, muito contrafeita, abaixara o seu rosto moreno, agora mais corado<br \/>\nsob o frouxo do riso da encalistra\u00e7\u00e3o que a dominava.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, de que tanto ris, sua feiosa?&#8230;<\/p>\n<p>Esta \u00faltima palavra era uma injusti\u00e7a que o Cancela fazia \u00e0 filha; Raimundo,<br \/>\nao apertar-lhe a m\u00e3o, desenvolta e maltratada, compreendeu logo que estava<br \/>\ndefronte de uma bonita e toleirona sertaneja, inocente e forte como um animal<br \/>\ndo campo. Era mulher de dezoito anos; mulher, porque tinha j\u00e1 o corpo em plena<br \/>\nformatura &#8211; ombros fartos, colo cheio e bra\u00e7os desenvolvidos no trabalho ao<br \/>\nar livre: &#8220;Boa mulher para procriar!&#8230;&#8221; pensou ele.<\/p>\n<p>&#8211; Isto que voc\u00ea est\u00e1 vendo aqui, meu amigo, \u00e9 uma sonsa!&#8230; disse o Cancela,<br \/>\nsatisfeito com o ar lisonjeiro de Raimundo. Capaz \u00e9 ela de virar esta casa<br \/>\nde pernas pro ar! e parece que neo quebra um prato! Olhe se a tonta j\u00e1 me<br \/>\ntomou a b\u00ean\u00e7\u00e3o depois da reza!&#8230; Parece que empanemou com as visitas!&#8230;<br \/>\nAnda da\u00ed bicho brabo!<\/p>\n<p>A rapariga foi beijar lhe a m\u00e3o, e ele ferrou-lhe depois uma palmada na rija<br \/>\nalmofada do quadril. -Esta disfar\u00e7ada! V\u00e1 l\u00e1! Deus te fa\u00e7a branca!<\/p>\n<p>Por esse tempo, Manuel conversava com a esposa do Cancela; brasileira pequenina,<br \/>\nsocada, cheia de vida, dentes magn\u00edficos, morena e de cabelos crespos. Respirava<br \/>\nde toda ela um ar modesto de quem gosta de fazer bem; estava sempre \u00e0 procura<br \/>\nde alguma coisa para arrumar, muito ativa. muito asseada e muito trabalhadeira.<br \/>\nNa cozinha dava sota e \u00e1s a mais pintada; sabia lavar como ningu\u00e9m e assistia<br \/>\n\u00e0 ro\u00e7a dos pretos sem cair doente. &#8220;Era p&#8217;r&#8217;um tudo!&#8221; diziam dela os escravos.<br \/>\nChamava-se Josefa, e s\u00f3 fora duas vezes \u00e0 cidade.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o! reclamou o fazendeiro, vem ou n\u00e3o vem essa merenda?&#8230; olhem que<br \/>\nos homens devem trazer o est\u00f4mago na espinha, e eu n\u00e3o lhes quero dar trela<br \/>\nsem havermos manducado!<\/p>\n<p>A mulher ouviu o fim da reclama\u00e7\u00e3o j\u00e1 na cozinha.<\/p>\n<p>&#8211; Por que neo despiu voc\u00ea essas tafularias? perguntou o dono da casa a Raimundo.<br \/>\nPor c\u00e1 ningu\u00e9m olha para elas! Se quer, ponha-se a gosto!<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, bem sei, estou \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>E conversavam, enquanto Angelina punha a mesa. Cancela sentia-se satisfeito,<br \/>\nloquaz; gostava de dar \u00e0 l\u00edngua e, quando pilhava h\u00f3spedes que o aturassem<br \/>\nningu\u00e9m podia com a vida dele.<\/p>\n<p>Entretanto, Josefa trazia j\u00e1 as iguanas e os homens dispunham-se a comer<br \/>\ncom apetite. \u00c0 luz de um antigo candeeiro de querosene, reverberava uma toalha<br \/>\nde linho claro, onde a lou\u00e7a reluzia escaldada de fresco; as garrafas brancas,<br \/>\ncheias de vinho de caju, espalhavam em tomo de si reflexos de ouro; uma torta<br \/>\nde camar\u00f5es estalava sua crosta de ovos; um frang\u00e3o assado tinha a imobilidade<br \/>\nresignada de um paciente; uma cuia de farinha seca simetrizava com outra de<br \/>\nfarinha d&#8217;agua; no centro, o travess\u00e3o do arroz, solto, alvo, erguia-se em<br \/>\npir\u00e2mide, enchendo o ar com o seu vapor cheiroso.<\/p>\n<p>Sentia-se a gente bem ali, com aquele asseio e com aquela franqueza rude<br \/>\ndo Cancela.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e9! gritou este, destapando uma fumegante terrina de mundub\u00e9s e fidalgos,<br \/>\ntemos peixe de escabeche?! Bravo! &#8211; E passando a examinar o que mais havia:<br \/>\n&#8211; Bravo, bravo! moquecas de sururus! Peixe moqueado! Olhem que este n\u00e3o \u00e9<br \/>\ndo rio e por isso n\u00e3o se pilha por c\u00e1 todos os dias! Tem escamas, seu Manuel!<\/p>\n<p>E enchiam-se os pratos.<\/p>\n<p>&#8211; Famoso! est\u00e1 famoso! repetia, levando \u00e0 boca grandes colheradas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o as senhoras n\u00e3o nos fazem companhia?&#8230; disse Raimundo, voltando-se<br \/>\npara as duas.<\/p>\n<p>&#8211; Qual! apressou-se o fazendeiro a responder. N\u00e3o est\u00e3o acostumadas com pessoas<br \/>\nde fora&#8230; Deixei-as l\u00e1! deixe-as l\u00e1, que ao depois se arranjar\u00e3o mais \u00e0 vontade!<br \/>\nOlhe, ali a minha Eva diz que n\u00e3o aprecia o seu peixinho, sen\u00e3o comido com<br \/>\na m\u00e3o. Coisas de mulher! Deixe-as l\u00e1!<\/p>\n<p>Contudo, Josefa veio presidir \u00e0 mesa, ao lado do marido, e informava-se do<br \/>\n\u00eaxito dos seus quitutes.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o os deixe sem provarem daquela torta de sururus, que est\u00e1 de encher<br \/>\no papo!<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 chegaremos! l\u00e1 chegaremos! Vai apanhar mais pimentas!<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 amigo entorne, sem receio! N\u00e3o tenha medo que o vinhito \u00e9 fraco! &#8211; Seu<br \/>\nManuel! seu Mundico! topemos \u00e0 mem\u00f3ria do velho amigo Jos\u00e9 da Silva!<\/p>\n<p>Os tr\u00eas beberam, e Cancela, depois de pousar o copo vazio, acrescentou com<br \/>\nrespeito, limpando a boca nas costas da m\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Foi um meu segundo pai!&#8230; Quando arribei por estas tenras, no tempo da<br \/>\nminha defunta patroa, D \u00darsula Santiago n\u00e3o tinha de meu mais do que sa\u00fade<br \/>\nfor\u00e7a e boa vontade! Pois o Jos\u00e9 que ent\u00e3o namoriscava a filha da patroa a<br \/>\nD. Quiterinha, meteu-me aqui, como feitor, e disse-me: &#8220;Olha l\u00e1 rapaz! encosta-te<br \/>\npor a\u00ed, que, se souberes levar o g\u00eanio da velha e mais o do vig\u00e1rio, podes<br \/>\nat\u00e9 fazer fortuna! Ela tem l\u00e1 uma afilhada de muita estima\u00e7\u00e3o, bem prendada<br \/>\ne de boa cabe\u00e7a!&#8230;&#8221; Vou eu &#8211; fico a servir na casa e, gra\u00e7as a Deus, sempre<br \/>\nmereci a confian\u00e7a de D. \u00darsula. De noite vinha para a varanda conversar com<br \/>\nela junto com a minha Josefa, que nesse tempo era uma tet\u00e9ia que se podia<br \/>\nver! O certo \u00e9 que, ao fim de dois anos, casava-nos o senhor padre Diogo e,<br \/>\nem boa hora o diga! tenho sido feliz, louvado o Sant\u00edssimo! &#8211; Comeu e prosseguiu:<br \/>\n&#8211; J\u00e1 fiz esta casa em que estamos ceando, levantei o engenho, meti bra\u00e7os<br \/>\nna roga, plantei algod\u00e3o, que aqui n\u00e3o havia, e tenciono, se Deus quiser,<br \/>\nfazer no seguinte ano muitas outras benfeitorias!<\/p>\n<p>&#8211; Eles j\u00e1 querer\u00e3o o caf\u00e9?&#8230; perguntou Josefa, comovida com a narra\u00e7\u00e3o do<br \/>\nmarido.<\/p>\n<p>Depois do caf\u00e9, serviram-se de restilo de anan\u00e1s e acenderam-se os cachimbos<br \/>\nde cabe\u00e7a de barro preto e taquari de tr\u00eas palmos. Gasta meia hora de palestra,<br \/>\nManuel queixou-se de que j\u00e1 n\u00e3o era homem para grandes fa\u00e7anhas e prensava<br \/>\ndescansar o corpo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois fica o resto para amanh\u00e3! Pedro!<\/p>\n<p>&#8211; Meu senhor!<\/p>\n<p>&#8211; Leva essa gente para a casa dos h\u00f3spedes e mostra-lhe o quarto que tua<br \/>\nsenhora preparou.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 ouvi, sim senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, muito boa noite!<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 amanh\u00e3!<\/p>\n<p>Manuel e Raimundo instalaram-se num quarto da casa velha, outrora morada<br \/>\nda sogra de Jos\u00e9 da Silva; esta parte, ao contr\u00e1rio da outra era um sobrado<br \/>\nsilencioso e triste, que s\u00f3 respirava abandono e decrepitude.<\/p>\n<p>Em breve o negociante ressonava; ao passo que o rapaz, estendido numa rede<br \/>\nolhava pela janela o c\u00e9u afogado em luar, passando mentalmente revista ao<br \/>\nque fizera o dia. Os acontecimentos desfilaram no seu esp\u00edrito em uma prociss\u00e3o<br \/>\nvertiginosa e extravagante: vinha na frente o pedido da m\u00e3o de Ana Rosa de<br \/>\nbra\u00e7o dado \u00e0 recusa; logo atr\u00e1s o portuguesinho da vila passava cantando,<br \/>\ncom um galho de arruda na m\u00e3o:<\/p>\n<p>Por S\u00e3o Br\u00e1s!<\/p>\n<p>Por S\u00e3o Jesus!<\/p>\n<p>Passo aqui<\/p>\n<p>Sem levar cruz!<\/p>\n<p>E seguia-se uma infinidade de imagens fant\u00e1sticas: o p\u00e1ssaro negro cantando<br \/>\na finados, a feiticeira que se transformava em ossos; e seguia-se o c\u00f4nego<br \/>\nDiogo, remo\u00e7ado, cercando de desvelos a sogra de Jos\u00e9 da Silva formada imaginariamente<br \/>\npelo tipo de Mana B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>E Raimundo sem poder conciliar o sono, demorava-se at\u00e9 a pensar em coisas<br \/>\nde todo indiferentes: o guia, pregui\u00e7oso e tristonho, a cantar no seu falsete<br \/>\nde mulher; uma fazenda que encontraram, em que havia um homem muito gordo<br \/>\ne idiota; as ru\u00ednas de uma casa, que de longe lhe pareceu \u00e0 primeira vista<br \/>\numa fortaleza bombardeada, e assim, mi! outros assuntos vagos e sem interesse,<br \/>\nvinham-lhe \u00e0 mem\u00f3ria com insist\u00eancia aborrecida. Afinal, chegou a vontade<br \/>\nde dormir; mas a recusa de Manuel! apresentou-se de novo e a vontade fugiu<br \/>\nespantada. &#8220;Por que seria que aquele homem e negou t\u00e3o formalmente a m\u00e3o da<br \/>\nfilha?&#8230; Ora! com certeza por qualquer tolice, e nem valia a pena preocupar-se<br \/>\ncom semelhante futilidade! Amanha! amanh\u00e3! calculava ele, saberia tudo!. .<br \/>\nE tinha at\u00e9 vontade de rir pelo ar grave com que o fio lhe respondera. Ora!<br \/>\nno fim de contas n\u00e3o passava de alguma criancice do Manuel!&#8230; Ou, quem sabia<br \/>\nl\u00e1? alguma intriga!&#8230; Sim! Bem podia ser!&#8230; No Maranh\u00e3o o esp\u00edrito de bisbilhotice<br \/>\nia muito longe! E n\u00e3o havia de ser outra coisa! Uma intriga! Mas que intriga?<br \/>\nAh! ele descobriria tudo! ol\u00e1! Ficaria tudo em pratos limpos. Nada de desanimar!&#8230;&#8221;<br \/>\nE, sem saber por qu\u00ea reconhecia-se muito mais empenhado naquele casamento<br \/>\ndesejava-o muito mais depois da resist\u00eancia aposta ao seu pedido; a recusa<br \/>\nde Manuel vinha dar-lhe a medida do verdadeiro apre\u00e7o em que tinha Ana Rosa.<br \/>\nAte ali julgava que aquele casamento dependia dele somente e preparava-se<br \/>\nfrio sem entusiasmo, quase fazendo sacrif\u00edcio: e agora, depois do insucesso<br \/>\ndo seu pedido, eis que o desejava com ardor. Aquela recusa inesperada era<br \/>\npara Ana Rosa o que um fundo negro \u00e9 para uma est\u00e1tua de m\u00e1rmore fazia destacar<br \/>\nmelhor a harmonia das linhas a alvura da pedra e a perfei\u00e7\u00e3o do contorno.<br \/>\nE Raimundo procurando medir a extens\u00e3o do seu amor por ela, topava de surpresa<br \/>\nem surpresa, de sobressalto em sobressalto, pasmado do que descobria em si<br \/>\nmesmo, espantando-se com os pr\u00f3prios racioc\u00ednios, como se foram apresentados<br \/>\npor um estranho, chegando \u00e0s vezes a n\u00e3o compreend\u00ea-los bem e fugindo de esmerilh\u00e1-los,<br \/>\ncom medo de concluir que estava deveras apaixonado. Nesta duplicidade de sentimentos,<br \/>\nseu esp\u00edrito passeava-lhe no c\u00e9rebro \u00e0s apalpadelas, como quem anda \u00e0s escuras<br \/>\nnum quarto alheio e desconhecido.<\/p>\n<p>&#8211; E que tal?&#8230; monologava. N\u00e3o \u00e9 que estou h\u00e1 duas horas a pensar nisto?&#8230;<\/p>\n<p>E n\u00e3o podia convencer-se de que ligava t\u00e3o s\u00e9ria import\u00e2ncia \u00e0quele casamento,<br \/>\nprocurando at\u00e9 capacitar-se de que tentara realiz\u00e1-lo por uma esp\u00e9cie de compassiva<br \/>\nindulg\u00eancia para com Ana Rosa; entretanto, revolucionava-se todo s\u00f3 com a<br \/>\nid\u00e9ia de n\u00e3o lev\u00e1-lo a efeito. &#8220;Ora adeus! tamb\u00e9m n\u00e3o morreria de desgosto<br \/>\npor isso!&#8230; N\u00e3o faltava bons partidos para fazer fam\u00edlia!&#8230; dispor-se a<br \/>\nprocurar noiva!&#8230; Sim, nem lhe ficava bem insistir no projeto de casar com<br \/>\na prima!&#8230; No fim de contas aquela recusa grosseira, seca, o ofendia!&#8230;<br \/>\ndecerto que o ofendia!&#8230; N\u00e3o! n\u00e3o devia pensar, nem por sombras, em semelhante<br \/>\nasneira!&#8230; definitivamente n\u00e3o casaria com Ana Rosa!&#8230; Com qualquer, menos<br \/>\ncom ela! Nada! Como n\u00e3o, se aquilo j\u00e1 era uma quest\u00e3o de brios?&#8230;&#8221; Mas com<br \/>\neste prop\u00f3sito, voltava-lhe, de um modo mais claro e positivo, uma grande<br \/>\nadmira\u00e7\u00e3o pelos encantos da rapariga, e um surdo pesar dissimulado, um desgosto<br \/>\nhip\u00f3crita, de n\u00e3o poder possu\u00ed-la.<\/p>\n<p>Manuel, a poucos passos, roncava com insist\u00eancia inc\u00f4moda; Raimundo, depois<br \/>\nde virar-se muitas vezes na rede, ergueu-se fatigado, acendeu um charuto e<br \/>\nsaiu para a varanda. Um morcego, na curva do v\u00f4o, rogou-lhe com a ponta da<br \/>\nasa, pelo rosto.<\/p>\n<p>O luar entrava sem obst\u00e1culo ate \u00e0 porta do quarto e estendia no ch\u00e3o uma<br \/>\nluz branca. Raimundo encostou-se ao parapeito da varanda e ficou a percorrer<br \/>\ncom o olhar cansado a funda paisagem que se esbatia nas meias-tintas do horizonte<br \/>\ncomo um desenho a pastei. O sil\u00eancio era completo; de repente, por\u00e9m, a uma<br \/>\nnota harmoniosa de contralto sucederam-se outras, prolongadas e tristes, terminando<br \/>\nem gemidos.<\/p>\n<p>O rapaz impressionou-se o canto parecia vir de uma \u00e1rvore fronteira a casa.<br \/>\nDir-se-ia uma voz de mulher e tinha uma melodia esquisita e mon\u00f3tona.<\/p>\n<p>Era o canto da m\u00e3e-da-lua. O p\u00e1ssaro levantou v\u00f4o, e Raimundo o viu ent\u00e3o<br \/>\nperfeitamente, de asas brancas abertas, a distanciar seus gorjeios pelo espa\u00e7o.<br \/>\nConsiderou de si para si que os sertanejos tinham toda a raz\u00e3o nos seus medos<br \/>\nlegend\u00e1rios e nas suas cren\u00e7as fabulosas. Ele, se ouvisse aquilo em S\u00e3o Br\u00e1s<br \/>\nlembrar-se-ia logo, com certeza, do tal p\u00e1ssaro que canta a finados. &#8220;Segundo<br \/>\na indica\u00e7\u00e3o do guia, continuava a pensar, a tapera amaldi\u00e7oada ficava justamente<br \/>\npara o lado que tomara a m\u00e3e-da-lua. Devia ser naquelas baixas, que dali se<br \/>\nviam. N\u00e3o podia ser muito longe, e ele seria capaz de l\u00e1 ir sozinho&#8230;&#8221; Veio<br \/>\ndistra\u00ed-lo destas considera\u00e7\u00f5es um frouxo vozear misterioso, que lhe chegava<br \/>\naos ouvidos de um modo mal balbuciado e quase indisting\u00fc\u00edvel. Prestou toda<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o e convenceu-se de que algu\u00e9m contou toda a aten\u00e7\u00e3o e convenceu-se<br \/>\nde que algu\u00e9m conversava ou monologava em voz baixa por ali perto. Quedou-se<br \/>\nim\u00f3vel a escutar. &#8220;N\u00e3o havia d\u00favida! Desta vez ouvira distintamente! Chegara<br \/>\na apanhar uma ou outra palavra! Mas, onde diabo seria aquilo?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Foi ao quarto de Manuel, o bom homem dormia como uma crian\u00e7a; agora associava<br \/>\nem vez de ressonar. Atravessou p\u00e9 ante p\u00e9 a varanda inteira- nada descobriu;<br \/>\nvoltou pelo lado oposto ao luar- ainda nada! &#8220;Seria<\/p>\n<p>l\u00e3 embaixo?&#8230;&#8221; Desceu, mas deixou de ouvir o sussurro. &#8220;Ora esta!&#8230; A coisa<br \/>\nera l\u00e1 mesmo em cima!&#8230; Mas em cima n\u00e3o havia outros h\u00f3spedes, al\u00e9m dele<br \/>\ne Manuel, dissera-lhe 0 Cancela!&#8230;&#8221; Tornou a subir, mas desta vez pela escada<br \/>\ndo fundo. &#8220;Oh! agora a coisa estava mais clara.&#8221; Raimundo ouviu frases inteiras,<br \/>\ne queixas, lamenta\u00e7\u00f5es, palavras soltas, ora de revolta, ora de ternura. &#8220;Era<br \/>\nde enlouquecer!&#8230; Quem diabo estaria ali falando?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Quem est\u00e1 ai?! gritou ele, no \u00faltimo lance da varanda, com a voz um pouco<br \/>\nalterada.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m respondeu, e o murm\u00fario misterioso caiou-se logo. Raimundo esperava<br \/>\ntodavia, possu\u00eddo j\u00e1 de certa impaci\u00eancia nervosa e com o ouvido ainda impressionado<br \/>\ndo estranho efeito da sua pr\u00f3pria voz a perguntar no sil\u00eancio: &#8220;Quem est\u00e1<br \/>\nai?&#8221; Decorreu um espa\u00e7o que lhe pareceu infinito, e afinal reapareceu o vozear,<br \/>\nagora por\u00e9m muito<\/p>\n<p>mais afastado, vindo do lado contr\u00e1rio ao lado em que ele estava. Encaminhou-se,<br \/>\nt\u00e3o em sil\u00eancio lhe foi poss\u00edvel, na dire\u00e7\u00e3o da voz misteriosa, e notou satisfeito<br \/>\nque esta ia gradualmente se alteando.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! fez Raimundo consigo, maravilhado. Tinha ouvido bem claro o seu nome,<br \/>\ne o de seu pai &#8220;Jos\u00e9 do Eito&#8221;. Redobrou de aten\u00e7\u00e3o. &#8220;Estaria sonhando? Aquela<br \/>\nvez infernal falava dubiamente de S\u00e3o Br\u00e1s, do padre Diogo, de D. Quit\u00e9ria<br \/>\ne outras pessoas que ele n\u00e3o sabia quem eram. Com certeza ia ouvir alguma<br \/>\ncoisa a respeito de &#8211; sua m\u00e3e! &#8211; Seria a primeira vez! Oh! j\u00e1 n\u00e3o era sem<br \/>\ntempo!&#8230;&#8221; Reprimiu a respira\u00e7\u00e3o; faz-se todo ouvidos; estava tr\u00eamulo, frio,<br \/>\nnunca sentira como\u00e7\u00e3o tamanha.<\/p>\n<p>Mas a voz falou, falou, referindo-se aos acontecimentos maiores de S\u00e3o Br\u00e1s,<br \/>\nfazendo revela\u00e7\u00f5es, citando, um por um, todos os personagens, menos a m\u00e3e<br \/>\nde Raimundo. Este, na treva, com o cora\u00e7\u00e3o oprimido, estendia a cabe\u00e7a, arregalava<br \/>\nos olhos, arfando-lhe o peito. Nada. &#8220;Que desespero!&#8221; Mas a voz prosseguia,<br \/>\ne ele escutava. De s\u00fabito, por\u00e9m, caiou-se tudo e nada mais se ouviu que o<br \/>\npiar long\u00ednquo das aves noturnas.<\/p>\n<p>Raimundo esperou, est\u00e1tico e s\u00f4frego, dois minutos, quatro, cinco. Foi in\u00fatil-a<br \/>\nvoz n\u00e3o reapareceu. &#8220;De sua m\u00e3e &#8211; nem uma palavra!&#8230; Maldita conspira\u00e7\u00e3o!&#8230;&#8221;<br \/>\nNo fim de meia hora percorreu de novo a varanda; n\u00e3o sabia que julgar daquilo,<br \/>\nnem o que devia fazer, mas jurava descobrir tudo. &#8220;Oh! quem quer que falara<br \/>\nestava perfeitamente a par da hist\u00f3ria de S\u00e3o Br\u00e1s e havia de saber alguma<br \/>\ncoisa de sua vida!&#8230;&#8221; Foi \u00e0 alcova, tomou o candeeiro, deu-lhe luz, percorreu<br \/>\nos v\u00e1rios lados da varanda, entrou nos aposentos abertos, desceu, andou l\u00e3<br \/>\npor baixo, \u00e0s tontas, porque estava tudo atravancado de coisas, tomou a subir,<br \/>\nsem conseguir nada, e, aborrecido, fren\u00e9tico, tomou ao seu quarto, diminuiu<br \/>\na luz e deitou-se, sem descal\u00e7ar as botas.<\/p>\n<p>N\u00e3o fechara a porta, de prop\u00f3sito; estava alerta, ao primeiro n mor saltaria.<br \/>\nContudo cerrou as p\u00e1lpebras; a fadiga da viagem pedia repouso; j\u00e1 era quase<br \/>\nmadrugada. Ia adormecer.<\/p>\n<p>Mas, um leve e surdo ru\u00eddo despertara-o. Raimundo encolheu-se na rede e insensivelmente<br \/>\nse lembrou do rev\u00f3lver que tinha a seu lado; na porta desenhava-se, contra<br \/>\na claridade exterior, a mais esqu\u00e1lida, andrajosa e esquel\u00e9tica figura de<br \/>\nmulher, que \u00e9 poss\u00edvel imaginar. Era uma preta alta, cadav\u00e9rica, tragicamente<br \/>\nfeia, com os movimentos demorados e sinistros, os olhos cavos, os dentes encarnados.<\/p>\n<p>O rapaz, apesar da sua presen\u00e7a de esp\u00edrito, teve um forte sobressalto de<br \/>\nnervos; todavia, n\u00e3o se mexeu, na esperan\u00e7a de ouvir ainda alguma revela\u00e7\u00e3o;<br \/>\no espectro por\u00e9m, olhou em torno de si, viu-o, sorriu, e tomou a sair silenciosamente.<\/p>\n<p>Raimundo levantou-se de um pulo e precipitou-se atr\u00e1s dele que fugiu na sua<br \/>\nfrente, como uma sombra. Atravessaram o primeiro lance da varanda, o segundo<br \/>\ne o terceiro.<\/p>\n<p>9.0pt;text-autospace:none&#8217;&gt; O fantasma desapareceu pela porta do fundo,<br \/>\nRaimundo acompanhou-o com dificuldade e, ao chegar l\u00e1 embaixo, avistou-o j\u00e1<br \/>\nno p\u00e1tio, a fugir-lhe sempre. O rapaz tinha contra si n\u00e3o conhecer o terreno;<br \/>\nfoi \u00e0s apalpadelas e aos encontr\u00f5es que conseguira atravessar a parte inferior<br \/>\nda casa. L\u00e1 fora havia j\u00e1 perdido de vista a sombra fugitiva; olhou em tomo<br \/>\nde si, caminhou \u00e0 toa de um para outro lado, nervoso, irrequieto, voltando-se<br \/>\nr\u00e1pido ao menor mexer de galhos. Afinal, auxiliado pela lua, divisou em distancia<br \/>\no vulto sinistro, que se afastava, prestes a sumir-se nas meias-tintas da<br \/>\nnoite. Ent\u00e3o abriu contra ele numa vertiginosa carreira de boas pernas; mas<br \/>\no vulto embrenhando-se no mato, desapareceu totalmente.<\/p>\n<p>Entretanto, os primeiros sintomas do dia avermelhavam o horizonte e nos ranchos<br \/>\nerguia-se j\u00e1 a escravatura para o trabalho das ro\u00e7as. As poucas horas em que<br \/>\nRaimundo encostou a cabe\u00e7a. para descansar um bocado, foram cheias de sonho.<\/p>\n<p>Ao levantar-se pelas sete da manh\u00e3, aborrecido e quase em d\u00favida se sonhara<br \/>\ntoda a noite ou se, com efeito, vira e ouvira o singular espectro. Todavia,<br \/>\nao almo\u00e7o. conversou-se alegremente sobre o fato, e o Cancela explicou que<br \/>\no fantasma devia ser alguma dessas muitas pretas velhas, agregadas aos ranchos<br \/>\ndas fazendas e que naturalmente estava b\u00eabada. E contou que, nas noites de-tambor<br \/>\n&#8211; elas costumavam dormir; por ali, no primeiro<\/p>\n<p>rancho encontrado em caminho. Ali mesmo havia sempre uma s\u00facia dessas pestes;<br \/>\napareciam e desapareciam, sem ningu\u00e9m lhes perguntar donde vinham, nem para<br \/>\nonde iam.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o escravas fugidas? indagou Raimundo.<\/p>\n<p>O Cancela respondeu que n\u00e3o. Os mocambeiros formavam grupo a parte; nunca<br \/>\napareciam publicamente, viviam escondidos nos seus quilombos e s\u00f3 se mostravam<br \/>\nna estrada real para atacar os viajantes. Os agregados eram pretos forros,<br \/>\nforros em geral com a morte de seus senhores, e que habituados desde pequenos<br \/>\nao cativeiro n\u00e3o tendo j\u00e1 quem os obrigasse a trabalhar e n\u00e3o querendo sair<br \/>\ndo sert\u00e3o, ficavam por ai ao Deus dar\u00e1, pedinchando pelas fazendas um bocado<br \/>\nde arroz para matar a tome, e um peda\u00e7o de ch\u00e3o coberto para dormir; Simples<br \/>\nvagabundos, que n\u00e3o faziam mal a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, continuou ele, de S\u00e3o Br\u00e1s t\u00ednhamos aqui a principio tr\u00eas que andavam<br \/>\np&#8217;r&#8217;a\u00ed sem fazer nada. Dois morreram e eu enterrei-os, o terceiro n\u00e3o sei<br \/>\nse ainda existe, \u00e9 uma preta idiota. Talvez a que o senhor doutor viu esta<br \/>\nnoite.<\/p>\n<p>E, como Raimundo pedisse mais informa\u00e7\u00f5es, acrescentou que ela as vezes passava<br \/>\nmeses inteiros na fazenda; os pretos gostavam de ouvi-la cantar e v\u00ea-la dan\u00e7ar.<br \/>\nDoida varrida! estava sempre resmungando ia consigo; mas que, de tempos \u00e1quela<br \/>\nparte, n\u00e3o aparecia, era bem poss\u00edvel que o pobre-diabo tivesse J\u00e1 esticado<br \/>\na canela ai pelo mato.<\/p>\n<p>Falou-se tamb\u00e9m da m\u00e3e-da-lua. Cancela contou velhas anedotas de estrangeiros<br \/>\nque se perderam nas matas, seguindo o canto original daquele p\u00e1ssaro. Depois<br \/>\ntrataram de interesses; e fechou-se o negocio da fazenda &#8211; Raimundo estava<br \/>\npor tudo, contanto que lhe n\u00e3o demorassem a partida &#8212; ardia de impaci\u00eancia<br \/>\npor visitar S\u00e3o Br\u00e1s.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, o Cancela instava com os dois h\u00f3spedes para que se demorassem<br \/>\numa semana, ou, pelo menos, alguns dias<\/p>\n<p>Manual disparatou: Que loucura! Pois ele podia l\u00e1 passar dias longe do seu<br \/>\narmaz\u00e9m?:..<\/p>\n<p>Ent\u00e3o que partissem pela manh\u00e3 seguinte.<\/p>\n<p>Nada! Havia de ser naquela mesma noite! Para que diabo ag\u00fcentar sol pelo<br \/>\ncaminho, quando tinham um luar que nem dia?&#8230;<\/p>\n<p>O jantar demorava-se e Raimundo mal podia conter a sua contrariedade. S6<br \/>\n\u00e0s tr\u00eas horas da tarde conseguiram levantar acampamento.<\/p>\n<p>&#8211; Leve-nos a S\u00e3o Br\u00e1s, disse ele ao guia, logo que se acharam fora do port\u00e3o<br \/>\nda fazenda.<\/p>\n<p>&#8211; A S\u00e3o Br\u00e1s? Deus me livre.<\/p>\n<p>E o caboclo, depois de benzer-se, perguntou para que diabo iam a S\u00e3o Br\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! N\u00e3o \u00e9 de sua conta! Leve-nos!<\/p>\n<p>-A S\u00e3o Br\u00e1s n\u00e3o vou!<\/p>\n<p>&#8211; Essa \u00e9 melhor&#8217; N\u00e3o vai! Ent\u00e3o que veio voc\u00ea fazer conosco sen\u00e3o guiar-nos?<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor, mas \u00e9 que a S\u00e3o Br\u00e1s n\u00e3o vou, nem amarrado!<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 para o inferno! Iremos n\u00f3s! \u00d3 se&#8217;or Manuel, o senhor n\u00e3o sabe o caminho?<\/p>\n<p>&#8211; Verdade, verdade, o homem n\u00e3o deixa de ter sua raz\u00e3o! . No fim de contas<br \/>\nque diacho vai fazer o amigo \u00e0quela tapera?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 boa! Ver o lugar em que nasci..<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz\u00e3o, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o quiser ir, vou s\u00f3!<\/p>\n<p>&#8211; Mas o senhor sabe que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Contam bruxarias do lugar, e h\u00e1 quem acredite nelas&#8230; Fa\u00e7o-lhe, por\u00e9m,<br \/>\na justi\u00e7a de n\u00e3o sup\u00f4-lo desses&#8230;<\/p>\n<p>Os cavalos ganhavam a Estrada Real.<\/p>\n<p>&#8211; Homem, disse Manuel, l\u00e1 saber o caminho, eu sei, e o guia, se n\u00e3o quisesse<br \/>\nvir, poderia esperar-nos ao p\u00e9 da cruz, mas&#8230; confesso-lhe: tenho meu receio<br \/>\ndos mocambeiros&#8230; al\u00e9m disso&#8230; quem, como eu, ouviu as \u00faltimas palavras<br \/>\nde meu irm\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De meu pai?! exclamou Raimundo vivamente. Oh! Conte-me isso!<\/p>\n<p>&#8211; O senhor h\u00e1 de rir-se.. S\u00e3o coisas que parecem asneira&#8230; Hoje, os mo\u00e7os<br \/>\nn\u00e3o acreditam em nada! Mas \u00e9 que certas palavras, ouvidas da boca de quem<br \/>\nvai morrer&#8230; mexem com a gente&#8230; n\u00e3o acha? fazem um homem ficar assim meio<br \/>\naquele! Olhe, meu amigo, eu digo-lhe aqui entre n\u00f3s, e o senhor n\u00e3o se mace,<br \/>\nseu pai n\u00e3o teve a vidinha l\u00e1 muito sossegada, n\u00e3o! Depois que casou, neo<br \/>\nse dava com pessoa alguma, e nem a pr\u00f3pria sogra queria saber dele&#8230; vivia<br \/>\ncomo que abandonado! Eu era nesse tempo principiante no com\u00e9rcio e quase que<br \/>\nn\u00e3o podia arredar p\u00e9 do trabalho, contudo, aqui vim tr\u00eas vezes; por\u00e9m creia<br \/>\nque n\u00e3o gostava de c\u00e1 vir!&#8230; Era uma tal tristeza!&#8230; Do\u00eda-me de ver o Jos\u00e9<br \/>\nt\u00e3o desprezado, t\u00e3o triste, que parecia estar a cumprir uma senten\u00e7a! Viajante<br \/>\nnenhum aceitava o pouso em S\u00e3o Br\u00e1s; preferiam dormir; ao relento e as cobras!<br \/>\nContavam que alta noite ouviam-se constantemente gritos horr\u00edveis na fazenda,<br \/>\npancadas por espa\u00e7o de muitas horas, correntes arrastadas; os escravos morriam<br \/>\nsem saber de qu\u00ea! Enfim, o c\u00f4nego Diogo, que era o vig\u00e1rio desta freguesia,<br \/>\nconfessa que nunca lhe soube dar volta! E olhe, coitado! meteu-se-lhe em cabe\u00e7a<br \/>\naben\u00e7oar e proteger S\u00e3o Br\u00e1s, e quase ia sendo vitima da sua dedica\u00e7\u00e3o! at\u00e9<br \/>\nficou assim a modo de aluado! E, foi t\u00e3o perseguido por c\u00e1, que o pobre homem<br \/>\nviu-se obrigado a abandonar a par\u00f3quia! Ainda hoje, quando lhe toco nisso,<br \/>\nbenze-se todo! Pois pode crer o senhor que ele era o mais \u00edntimo amigo de<br \/>\nmeu irm\u00e3o e o \u00fanico talvez que ultimamente lhe freq\u00fcentava a casa; entretanto,<br \/>\ncompreenda-se l\u00e1, seu pai, j\u00e1 por \u00faltimo n\u00e3o o queria ver nem pintado! e,<br \/>\nnos del\u00edrios das suas febres, estava sempre a ver fantasmas e a gritar como<br \/>\num doido que queria dar cabo do padre! &#8220;Quero matar o padre! &#8211; Tragam-me o<br \/>\npadre! &#8211; O padre \u00e9 que \u00e9 o culpado de tudo!&#8221; Este fulano padre era o c\u00f4nego!<br \/>\nEu n\u00e3o quis nunca falar nestas coisas ao compadre, porque, cism\u00e1tico como<br \/>\n\u00e9, podia agastar-se comigo!&#8230;<\/p>\n<p>E, depois de uma pausa<\/p>\n<p>&#8211; Ora, j\u00e1 v\u00ea o meu amigo que, apesar de n\u00e3o acreditar em almas do outro<br \/>\nmundo, tenho as minhas raz\u00f5es para&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo procurava disfar\u00e7ar a preocupa\u00e7\u00e3o em que o punham as palavras de<br \/>\nManuel, e declarou que, se este n\u00e3o estava disposto a ir a S\u00e3o Br\u00e1s, que se<br \/>\nficasse com o guia, ele iria s\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; Mas saiba, disse, que ao caboclo perd\u00f4o o medo, porque enfim n\u00e3o est\u00e1<br \/>\nna altura de certas verdades, mas ao senhor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu neo tenho medo de coisa alguma, j\u00e1 disse!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Receia sempre que o diabo lhe saia ao encontro, compreendo!<\/p>\n<p>E o rapaz fingiu uma gargalhada, para intimidar o companheiro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, mas \u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora deixe-se de hist\u00f3rias! O senhor n\u00e3o me parece um homem!&#8230;<\/p>\n<p>Manuel cedeu afinal, e os dois tomaram a dire\u00e7\u00e3o da .tapera.<\/p>\n<p>Fizeram em sil\u00eancio todo o caminho; Raimundo por muito comovido e Manuel<br \/>\npor amedrontado.<\/p>\n<p>Instintivamente, pararam em respeit\u00e1vel dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que chegamos! arriscou o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>E, avan\u00e7ando alguns passos, disse ao outro:<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 est\u00e1 ela!<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 de casa! gritou Manuel.<\/p>\n<p>S\u00f3 o eco respondeu.<\/p>\n<p>Adiantaram-se mais e Raimundo gritou por sua vez, com o mesmo resultado.<\/p>\n<p>&#8211; Ande, senhor Manuel! Estamos a quixotear&#8230; Aqui n\u00e3o h\u00e1 viva alma!&#8230;<\/p>\n<p>Mais alguns passos e estavam defronte da tapera.<\/p>\n<p>Eram os restos de uma casa t\u00e9rrea, sem reboque e cujo madeiramento de lei<br \/>\nresistira ao seu completo abandono.<\/p>\n<p>Ia anoitecer. O sol naufragava, so\u00e7obrando num oceano de fogo e sangue; o<br \/>\nc\u00e9u reverberava como a c\u00fapula de uma fornalha; o campo parecia incendiado.<\/p>\n<p>Como era preciso aproveitar o dia, os dois viajantes apearam-se logo, cada<br \/>\nqual prendeu o seu cavalo, e introduziram-se na varanda da casa por uma brecha<br \/>\nque cortava de alto a baixo o primeiro pano de parede. Essa parte estava completamente<br \/>\narruinada e cheia de mato; os camale\u00f5es, as osgas e as mucuras fugiam espantados<br \/>\npelos p\u00e9s de Raimundo, que ia galgando moitas de urtiga e capim-bravo.<\/p>\n<p>L\u00e1 dentro a tapera tinha um duro aspecto nauseabundo. Longas telas de aranha<br \/>\npendiam tristemente em todas as dire\u00e7\u00f5es, como cortina de crepe esfacelado;<br \/>\na \u00e1gua da chuva, tingida de terra vermelha, deixara, pelas paredes, compridas<br \/>\nl\u00e1grimas sangrentas que serpeavam entre ninhos de cobras e lagartos; a um<br \/>\ncanto descobria-se no ch\u00e3o ladrilhado um abomin\u00e1vel instrumento de supl\u00edcio,<br \/>\nera um tronco de madeira preta, e os seus buracos redondos, que serviam para<br \/>\nprender as pernas, os bra\u00e7os ou o pesco\u00e7o dos escravos, mostravam ainda sinistras<br \/>\nmanchas arroxeadas.<\/p>\n<p>Os dois seguiram adiante, penetrando o interior da casa. Ao transporem cada<br \/>\nporta fugia na frente deles uma nuvem negra de morcegos e andorinhas. O solo,<br \/>\nempastado de excremento de p\u00e1ssaros e r\u00e9pteis era pegajoso e \u00famido; o telhado<br \/>\nabria em v\u00e1rios pontos, chorando uma luz morna e triste; respirava-se uma<br \/>\natmosfera de calabou\u00e7o. De um charco vizinho a casa palpitava, mon\u00f3tono como<br \/>\num rel\u00f3gio, o rouquenho coaxar das r\u00e3s. Os p\u00e1ssaros passavam de uma<br \/>\npara outra \u00e1rvore, cortando o sil\u00eancio da tarde, com os seus gemidos prolongados<br \/>\ne agud\u00edssimos; do fundo tenebroso da floresta vinham de espa\u00e7o a espa\u00e7o o<br \/>\ngargalhar das raposas, e os gritos sensuais dos macacos e sag\u00fcins. Era j\u00e1<br \/>\no concerto da noite.<\/p>\n<p>Manuel, um tanto comovido, contemplava demoradamente as ru\u00ednas que o cercavam,<br \/>\nprocurando descobrir naqueles restos mudos e emporcalhados, a antiga resid\u00eancia<br \/>\nde seu irm\u00e3o. Nada lhe trazia \u00e0 lembran\u00e7a uma nota ainda viva do passado.<\/p>\n<p>&#8211; Vejamos agora por aqui&#8230; disse ele, passando, seguido pelo sobrinho, a<br \/>\num quarto, cujas janelas tinham as folhas despregadas e prestes a desabar.<br \/>\nEra este o quarto de Jos\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>E p\u00f4s-se a meditar.<\/p>\n<p>Raimundo olhava para tudo com uma grande tristeza, infinita, sem bordas,<br \/>\nmas fechada que nem um horizonte de n\u00e9voas. &#8220;Como seria seu pai?&#8230;&#8221; pensava<br \/>\nele, sem uma palavra, como seria esse bom homem, que nunca se descuidara da<br \/>\neduca\u00e7\u00e3o do pobre Raimundo?&#8230; Quantas vezes, naquele quarto, talvez junto<br \/>\na uma daquelas janelas, olhando para a quinta, n\u00e3o pensaria o infeliz no querido<br \/>\nfilho, que tinha t\u00e3o longe dos seus afagos?&#8230; E sua m\u00e3e?&#8230; Sua pobre m\u00e3e<br \/>\ndesconhecida, estaria ali, ao lado dele, ou, quem o sabia? escondida, envergonhada,<br \/>\na chorar as faltas em algum desterro humilhante?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Aqui, disse Manuel, batendo no ombro do companheiro, nasceu o senhor, meu<br \/>\namigo, e viveu os seus primeiros anos&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo sentia um desejo doido de perguntar pela m\u00e3e, mas n\u00e3o se achava<br \/>\ncom animo; temia agora uma inesperada decep\u00e7\u00e3o, uma agonia in\u00e9dita, que o<br \/>\nesmagasse de todo; receava alguma verdade implac\u00e1vel e fria, rija, de a\u00e7o,<br \/>\nque o atravessasse de lado a lado, como uma espada. At\u00e9 ali, ningu\u00e9m lhe falara<br \/>\nnela. &#8220;\u00c9 que, sem duvida, havia em tudo aquilo um segredo de fam\u00edlia, alguma<br \/>\npaix\u00e3o vergonhosa, uma falta horr\u00edvel, talvez um crime abomin\u00e1vel, que ningu\u00e9m<br \/>\nousava revelar! E, no entanto, Raimundo tinha plena certeza de que aquele<br \/>\nhomem, que ali estava em sua presen\u00e7a, ao alcance de suas palavras, sabia<br \/>\nde tudo e poderia. se quisesse, arranc\u00e1-lo para sempre daquela maldita incerteza!..<br \/>\nQuem seria ela?&#8230; essa estranha m\u00e3e misteriosa, por quem ele sentia um amor<br \/>\ndesnorteado?&#8230; Alguma senhora, bonita sem d\u00favida, porque causava crimes;<br \/>\ncriminosa ela pr\u00f3pria, por amor, a inspirar loucuras a seu pai, a acender-lhe<br \/>\numa paix\u00e3o fatal e romanesca, cheia de sobressaltos e de remorsos! E desse<br \/>\namor secreto e criminoso, desse adult\u00e9rio, que sem d\u00favida causou a morte de<br \/>\nseu pai, nascera ele!&#8230; Mas, por que n\u00e3o lhe contavam tudo com franqueza?&#8230;<br \/>\nPor que n\u00e3o lhe diziam toda a verdade?&#8230; Oh! devia ser um segredo infernal,<br \/>\npara o esconderem com tamanho empenho!&#8230;&#8221; E, acabrunhado por estes racioc\u00ednios,<br \/>\nhumilhado pela d\u00favida de si pr\u00f3prio, miser\u00e1vel e triste, Raimundo percorria<br \/>\na casa, em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Despertou-o de novo a voz de Manuel:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos \u00e0 capela, antes que anoite\u00e7a de todo.<\/p>\n<p>Entraram primeiro no cemit\u00e9rio. Estava arrasado. Manuel apontou para uma<br \/>\nvelha sepultura, e disse ao outro com respeito:<\/p>\n<p>&#8211; Ali est\u00e1 seu pai!<\/p>\n<p>Raimundo chegou-se para o t\u00famulo, descobriu-se, e procurou ler na carneira<br \/>\nalguma inscri\u00e7\u00e3o que lhe falasse do morto. Absolutamente nada! o tempo apagara<br \/>\nda pedra o nome de seu pai. Ali s\u00f3 havia um peda\u00e7o de m\u00e1rmore carunchoso e<br \/>\nnegro. Deixara de ser uma tabuleta, era uma tampa. O rapaz sentiu ent\u00e3o, mais<br \/>\ndo que nunca, pesar-lhe dentro dalma, como uma barra de chumbo, todo o mist\u00e9rio<br \/>\nda sua vida; compreendeu que sobre<\/p>\n<p>esta havia tamb\u00e9m uma pedra silenciosa e negra; compreendeu que o seu passado<br \/>\nnada mais era do que outra sepultura sem epit\u00e1fio.<\/p>\n<p>Enovelou-se-lhe na garganta um godilh\u00e3o de solu\u00e7os e Raimundo sentiu a necessidade<br \/>\nde ajoelhar-se defronte do sil\u00eancio daquele t\u00famulo.<\/p>\n<p>Manuel afastara-se discretamente, tossindo, para disfar\u00e7ar a sua como\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO mo\u00e7o enxugava as l\u00e1grimas, agora abundantes e fartas; depois encaminhou-se<br \/>\npara uma outra cova mais adiante, abrigada por uma frondosa mangueira. Estava<br \/>\nj\u00e1 vazia e com a lousa fora do lugar. Naturalmente, os parentes do cad\u00e1ver<br \/>\nhaviam retirado dali os ossos para alguma igreja da capital. A posi\u00e7\u00e3o da<br \/>\nl\u00e1pida da \u00e1rvore serviram de resguardo ao epit\u00e1fio; Raimundo passou o len\u00e7o<br \/>\npor ama dele e conseguiu ler o seguinte: &#8220;Aqui jazem os restos mortais de<br \/>\nQuit\u00e9ria Inoc\u00eancia de Freitas Santiago, filha extremosa, esposa exemplar;<br \/>\nCasou em 15 de dezembro de 1845 e faleceu em 1849. Orai por ela.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que, al\u00e9m de bastardo, descendi de uma tremenda vergonha!<br \/>\nMeu nascimento combina aproximadamente com estes algarismos&#8230;<\/p>\n<p>E, tendo monologado estas palavras, chegou ao fundo do cemit\u00e9rio e achou-se<br \/>\ndefronte de uma capela. Entrou, galgando tr\u00eas degraus escalavrados. Uma coruja<br \/>\nfugiu espavorida. A luz triste da lua filtrava-se j\u00e1 pelas aberturas do telhado,<br \/>\nmas pelas janelas entrava de rojo o quente lusco-fusco do crep\u00fasculo. Raimundo,<br \/>\nao chegar \u00e0 sacristia, estacou e estremeceu todo: o vulto esquel\u00e9tico e andrajoso,<br \/>\nque lhe aparecera \u00e0 noite, como um fantasma, ali estava naquela meia escurid\u00e3o,<br \/>\na dan\u00e7ar uns requebros estranhos, com os bra\u00e7os magros levantados sobre a<br \/>\ncabe\u00e7a. O rapaz sentiu gelar-lhe a testa um suor frio e conservou-se est\u00e1tico,<br \/>\nquase duvidoso de que aquilo que tinha defronte de si fosse uma figura humana.<\/p>\n<p>Todavia, a m\u00famia se aproximava dele, a dar saltos, estalando os dedos ossudos<br \/>\ne compridos. Viam-se-lhe os dentes brancos e descamados, os olhos a estorcerem-se-lhe<br \/>\nconvulsivamente nas \u00f3rbitas profundas, e a caveira a desenhar-se em \u00e2ngulos<br \/>\natrav\u00e9s das carnes. Ora erguia as m\u00e3os, descaindo a cabe\u00e7a; ora fazia voltas,<br \/>\nsapateando e dando pungas no ar.<\/p>\n<p>De repente deu com Raimundo e precipitou-se para ele de bra\u00e7os abertos. Na<br \/>\nprimeira impress\u00e3o o rapaz recuava com repugn\u00e2ncia, mas, caindo logo em si,<br \/>\naproximou-se da louca e perguntou-lhe se conhecia quem morara naquela fazenda.<\/p>\n<p>A idiota olhou para ele, e riu-se sem responder.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o conheceste o Jos\u00e9 da Silva ou Jos\u00e9 do Eito?<\/p>\n<p>A preta continuou a rir. Raimundo insistiu no seu interrogat\u00f3rio mas sem<br \/>\nobter resultado algum. A doida o considerava fixamente, como que procurando<br \/>\nreconhecer-lhe as fei\u00e7\u00f5es; de s\u00fabito, deu um salto sobre ele, tentando abra\u00e7\u00e1-lo;<br \/>\no rapaz n\u00e3o tivera tempo de fugir e sentiu-se em contacto com aquele corpo<br \/>\nrepugnante. Ent\u00e3o num assomo nervoso repeliu-a bruscamente. Ela caiu para<br \/>\ntr\u00e1s, estalando os ossos contra os tijolos do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Raimundo saiu de carreira para reunir-se a Manuel, por\u00e9m a idiota alcan\u00e7ou-o,<br \/>\nj\u00e1 no cemit\u00e9rio, e arremessou-se de novo contra ele.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me toques! gritava o mo\u00e7o, com raiva, levantando o chico<\/p>\n<p>Manuel acudiu correndo:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o lhe bata, doutor! N\u00e3o lhe bata, que \u00e9 doida! Conhe\u00e7o-a!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, se ela n\u00e3o me quer deixar!&#8230; Sai! Sai, diabo! Olha que te<\/p>\n<p>Manuel mostrava-se agoniado e surpreso.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1! disse ele, intimidando a louca. J\u00e1 pra dentro!<\/p>\n<p>A preta retomou-se humildemente.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 ela? perguntou Raimundo, l\u00e1 fora, tratando de montar. O senhor disse<br \/>\nque a conhecia.<\/p>\n<p>Essa pobre negra&#8230; respondeu Manuel hesitante, foi escrava de seu pai. Vamos!<\/p>\n<p>E puseram-se a caminho.<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a> XII<\/h2>\n<p>Voltaram ambos impressionados da tapara. Manuel tentara por duas vezes uma<br \/>\nconversa que n\u00e3o vingara no \u00e2nimo acabrunhado do companheiro; Raimundo respondia<br \/>\nmaquinalmente \u00e0s suas palavras, ia muito preocupado e aborrecido. Na d\u00favida<br \/>\nda sua proced\u00eancia e com a certeza do seu bastardismo, vinha-lhe agora uma<br \/>\nestranha suscetibilidade; n\u00e3o sabia por que motivo, mas sentia que precisava,<br \/>\nque tinha urg\u00eancia, de uma explica\u00e7\u00e3o cabal do que levou Manuel a recusar-lhe<br \/>\na filha. &#8220;Com certeza estava ai a ponta do mist\u00e9rio!&#8221;<\/p>\n<p>Ele o que queria era penetrar no seu passado, percorr\u00ea-lo, estud\u00e1-lo, conhec\u00ea-lo<br \/>\na fundo; encontrara at\u00e9 ent\u00e3o todas as portas fechadas e mudas, como a sepultura<br \/>\nde seu pai; embalde bateu em todas elas; ningu\u00e9m lhe respondera. Agora um<br \/>\nal\u00e7ap\u00e3o se denunciava na recusa de Manuel; havia de abri-lo e entrar, custasse<br \/>\no que custasse, ainda que o al\u00e7ap\u00e3o despejasse sobre um abismo.<\/p>\n<p>E, t\u00e3o dominado ia pela sua resolu\u00e7\u00e3o que, ao passar pelo cruzeiro da Estrada<br \/>\nReal, nem s\u00f3 deu por ele, como pelo guia que logo se pusera a caminho.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 meu amigo! gritou-lhe o tio Isto tamb\u00e9m n\u00e3o vai assim!&#8230; Despe\u00e7a-se<br \/>\ndeste lugar!<\/p>\n<p>E apeou-se, para depor aos p\u00e9s da cruz um galho de murta.<\/p>\n<p>Raimundo voltou atr\u00e1s e, depois de um grande silencio, fitou Manuel e perguntou-lhe.<br \/>\nexternando um retalho do pensamento que o dominava:<\/p>\n<p>&#8211; Ela ser\u00e1, porventura, minha irm\u00e3?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ela, quem?<\/p>\n<p>&#8211; Sua filha<\/p>\n<p>O negociante compreendeu a preocupa\u00e7\u00e3o do sobrinho.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>Raimundo tomou a mergulhar no pau} da sua d\u00favida e das conjeturas, procurando<br \/>\nde novo o motivo daquela recusa, como quem procura um objeto no fundo d\u00e1gua;<br \/>\ne a sua intelig\u00eancia, de outras vezes t\u00e3o l\u00facida e perspicaz, sentia-se agora<br \/>\nimpotente e cega, \u00e0s apalpadelas, \u00e0s tontas, desesperada, quase extinta, nas<br \/>\nlamacentas e misteriosas trevas do p\u00e2ntano.<\/p>\n<p>E, de tudo isso, vinha-lhe um grande mal-estar. Depois da negativa de Manuel,<br \/>\nAna Rosa afigurava-se-lhe uma felicidade indispens\u00e1vel; j\u00e1 n\u00e3o podia compreender<br \/>\na exist\u00eancia, sem a doce companhia daquela mulher simples e bonita, que, no<br \/>\nseu desejo estimulado, lhe aparecia agora sob mil novas formas de sedu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE, na sua fantasia enamorada, acariciava ainda a id\u00e9ia de possu\u00ed-la, id\u00e9ia,<br \/>\nque, s\u00f3 ent\u00e3o o notava, dormira todas as noites com ele, e que agora, ingrata,<br \/>\nqueria escapar-lhe com as desculpas banais e comuns de uma amante enfastiada.<br \/>\nOh! sim! desejava Ana Rosa! habituara-se imperceptivelmente a julg\u00e1-la sua;<br \/>\nligara-a a pouco e pouco, sem dar por isso, a todas as aspira\u00e7\u00f5es da sua vida;<br \/>\nsonhara-se junto dela, na intimidade feliz do lar, vendo-a governar uma casa<br \/>\nque era de ambos, e que Ana Rosa povoava com a alegria de um amor honesto<br \/>\ne fecundo. E agora, desgra\u00e7ado-olhava para toda essa felicidade, como o criminoso<br \/>\nolha, atrav\u00e9s \u00e0s grades do c\u00e1rcere para os venturosos casais, que se v\u00e3o l\u00e1<br \/>\npela nua, de bra\u00e7o dado, rindo e conversando ao lado dos filhos. E Raimundo<br \/>\nantejulgava perfeitamente que aquele empenho de Manuel em negar-lhe a filha,<br \/>\nlonge de arred\u00e1-la do seu amor, mais e mais o empurrava para ela, ligando-a<br \/>\npara sempre ao seu destino.<\/p>\n<p>&#8211; Ter\u00e1 sua filha alguma secreta enfermidade, que levasse o m\u00e9<\/p>\n<p>dico a proibir-lhe o casamento? Ter\u00e1 algum defeito<\/p>\n<p>org\u00e2nico?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! com efeito! O senhor tortura-me com as suas perguntas&#8217;. . creia que,<br \/>\nse eu pudesse dizer-lhe a causa de minha recusa, t\u00ea-lo-ia feito desde logo!<br \/>\nOh!<\/p>\n<p>Raimundo n\u00e3o p\u00f4de conter-se e disparatou, fazendo estacar o seu cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o senhor deve compreender a minha insist\u00eancia! N\u00e3o se diz assim, sem<br \/>\nmais nem menos, a um homem que vem, legitima e constenciosamente, pedir a<br \/>\nm\u00e3o de uma senhora, que a isso o autorizou. &#8220;N\u00e3o lha dou, porque n\u00e3o quero!&#8221;<br \/>\nPor que n\u00e3o quer? &#8220;Porque n\u00e3o! N\u00e3o posso dizer o motivo!&#8230;&#8221; P boa! Tal recusa<br \/>\nsignifica uma ofensa direta a quem faz o pedido! Foi uma afronta \u00e0 minha dignidade.<br \/>\nO senhor h\u00e1 de concordar que me deve uma resposta, seja qual for! uma desculpa!<br \/>\numa mentira, muito embora! mas, com todos os diabos! e necess\u00e1ria uma raz\u00e3o<br \/>\nqualquer!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 justo, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se me dissesse: &#8220;Oponho-me ao casamento, porque antipatizo solenemente<br \/>\ncom o seu car\u00e1ter&#8221;. Sim senhor! N\u00e3o seda uma raz\u00e3o plaus\u00edvel, mas estaria<br \/>\nno seu direito de pai, mas o senhor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o! eu n\u00e3o podia dizer semelhante coisa depois de o haver elogiado<br \/>\npor v\u00e1rias vezes, e ter-me declarado, como repito, seu amigo e seu apreciador&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas ent\u00e3o?! Se \u00e9 meu amigo, que diabo! diga-me a raz\u00e3o com franqueza! tire-me,<br \/>\npor uma vez, deste maldito inferno da duvida! declare-me o segredo da sua<br \/>\nrecusa, seja qual for, ainda que uma revela\u00e7\u00e3o esmagadora! Estou disposto<br \/>\na aceitar tudo, tudo! menos o mist\u00e9rio, que esse tem sido o tormento da minha<br \/>\nvida! Vamos, fale! suplico-lhe por&#8230; aquele que caiu assassinado!-E apontou<br \/>\nna dire\u00e7\u00e3o da cruz. Era seu irm\u00e3o e dizem que meu pai&#8230; Pois bem, pe\u00e7o-lhe<br \/>\npor ele que me fale com franqueza! Se sabe alguma coisa dos meus antepassados<br \/>\ne do meu nascimento, conte-me tudo! Juro-lhe que lhe ficarei reconhecido por<br \/>\nisso! Ou, quem sabe? serei t\u00e3o desprez\u00edvel a seus olhos, que nem sequer li<br \/>\ne mere\u00e7a t\u00e3o miser\u00e1vel prova de confian\u00e7a?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o! ao contr\u00e1rio, meu amigo! Eu at\u00e9 levaria muito em gosto o seu<br \/>\ncasamento com a minha filha, no caso de que isso tivesse lugar!&#8230; E s\u00f3 pe\u00e7o<br \/>\na Deus que lhe depare a ela um marido possuidor das suas boas qualidades e<br \/>\ndo seu saber; creia, por\u00e9m, que eu, como bom pai, n\u00e3o devo, de forma alguma,<br \/>\nconsentir em semelhante uni\u00e3o. Cometeria um crime se assim procedesse!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Com certeza h\u00e1 parentesco de irm\u00e3o entre ela e eu!<\/p>\n<p>&#8211; Repare que me est\u00e1 ofendendo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois defenda-se, declarando tudo por uma vez!<\/p>\n<p>&#8211; E o senhor promete n\u00e3o se revoltar com o que eu disser?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Juro. Fale!<\/p>\n<p>Manuel sacudiu os ombros e resmungou depois, em ar de confidencia:<\/p>\n<p>&#8211; Recusei-lhe a m\u00e3o de minha filha, porque o senhor \u00e9&#8230; \u00e9 filho de uma escrava&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu?!<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 um homem de cor!&#8230; Infelizmente esta \u00e9 a verdade&#8230;<\/p>\n<p>Raimundo tomou-se l\u00edvido. Manuel prosseguiu, no fim de um sil\u00eancio:<\/p>\n<p>23.3pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; J\u00e1 v\u00ea o amigo que n\u00e3o \u00e9 por mim que lhe<br \/>\nrecusei Ana Rosa mas e por tudo! A fam\u00edlia de minha mulher sempre foi muito<br \/>\nescrupulosa a esse respeito, e como ela \u00e9 toda a sociedade do Maranh\u00e3o! Concordo<br \/>\nque seja uma asneira; concordo que seja um preju\u00edzo tolo! o senhor por\u00e9m n\u00e3o<br \/>\nimagina o que \u00e9 por c\u00e1 a preven\u00e7\u00e3o contra os mulatos!&#8230; Nunca me perdoariam<br \/>\num tal casamento; al\u00e9m do que, para realiz\u00e1-lo, teria que quebrar a promessa<br \/>\nque fiz a minha sogra, de n\u00e3o dar a neta sen\u00e3o a um branco de lei, portugu\u00eas<br \/>\nou descendente direto de portugueses!&#8230; O senhor \u00e9 um mo\u00e7o muito digno, muito<br \/>\nmerecedor de considera\u00e7\u00e3o, mas&#8230; foi forro \u00e0 pia, e aqui ningu\u00e9m o ignora<\/p>\n<p>&#8211; Eu nasci escravo?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, pesa-me diz\u00ea-lo e n\u00e3o o faria se a isso n\u00e3o fosse constrangido, mas<br \/>\no senhor \u00e9 filho de uma escrava e nasceu tamb\u00e9m cativo.<\/p>\n<p>Raimundo abaixou a cabe\u00e7a. Continuaram a viagem. E ali no campo, \u00e0 sombra<br \/>\ndaquelas \u00e1rvores colossais, por onde a espa\u00e7os a lua se filtrava tristemente,<br \/>\nia Manuel narrando a vida do irm\u00e3o com a preta Domingas. Quando, em algum<br \/>\nponto hesitava por delicadeza em dizer toda a verdade, o outro pedia-lhe que<br \/>\nprosseguisse francamente, guardando na apar\u00eancia uma tranq\u00fcilidade fingida.<br \/>\nO negociante contou tudo o que sabia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que fim levou minha m\u00e3e?&#8230; a minha verdadeira m\u00e3e? perguntou o rapaz,<br \/>\nquando aquele terminou, Mataram-na? Venderam-na??? O que fizeram dela?<\/p>\n<p>&#8211; Nada disso; soube ainda h\u00e1 pouco que est\u00e1 viva&#8230; E aquela pobre idiota<br \/>\nde S\u00e3o Br\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! exclamou Raimundo, querendo voltar \u00e0 tapera.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isso? Vamos! Nada de loucuras! Voltar\u00e1s noutra ocasi\u00e3o!<\/p>\n<p>Calaram-se ambos. Raimundo, pela primeira vez, sentiu-se infeliz; uma nascente<br \/>\nm\u00e1 vontade contra os outros homens formava-se na sua alma ate ai limpa e clara;<br \/>\nna pureza do seu car\u00e1ter o desgosto punha a primeira n\u00f3doa. E, querendo reagir,<br \/>\numa revolu\u00e7\u00e3o operava-se dentro dele; id\u00e9ias turvas, enlodadas de \u00f3dio e de<br \/>\nvagos desejos de vingan\u00e7a, iam e vinham, atirando-se raivosos contra os s\u00f3lidos<br \/>\nprinc\u00edpios da sua moral e da sua honestidade, como num oceano a tempestade<br \/>\na\u00e7ula contra um rochedo os negros vagalh\u00f5es encapelados. Uma s\u00f3<\/p>\n<p>palavra bolava \u00e0 superf\u00edcie dos seus pensamentos: &#8220;Mulato&#8221;. E crescia, crescia,<br \/>\ntransformando-se em tenebrosa nuvem, que escondia todo o seu passado. Id\u00e9ia<br \/>\nparasita, que estrangulava todas as outras id\u00e9ias.<\/p>\n<p>&#8211; Mulato!<\/p>\n<p>Esta s\u00f3 palavra explicava-lhe agora todos os mesquinhos escr\u00fapulos, que a<br \/>\nsociedade do Maranh\u00e3o usara para com ele. Explicava tudo: a frieza de certas<br \/>\nfam\u00edlias a quem visitara; a conversa cortada no momento em que Raimundo se<br \/>\naproximava; as retic\u00eancias dos que lhe falavam sobre os seus antepassados;<br \/>\na reserva e a cautela dos que, em sua presen\u00e7a, discutiam quest\u00f5es de ra\u00e7a<br \/>\ne de sangue; a raz\u00e3o pela qual D. Am\u00e2ncia lhe oferecera um espelho e lhe dissera:<br \/>\n&#8220;Ora mire-se!&#8221; a raz\u00e3o pela qual diante dele chamavam de meninos os moleques<br \/>\nda rua. Aquela simples palavra dava-lhe tudo o que ele at\u00e9 a\u00ed desejara e negava-lhe<br \/>\ntudo ao mesmo tempo, aquela palavra maldita dissolvia as suas d\u00favidas, justificava<br \/>\no seu passado; mas retirava-lhe a esperan\u00e7a de ser feliz, arrancava-lhe a<br \/>\np\u00e1tria e a futura fam\u00edlia; aquela palavra dizia-lhe brutalmente: &#8220;Aqui, desgra\u00e7ado,<br \/>\nnesta miser\u00e1vel terra em que nasceste, s\u00f3 poder\u00e1s amar uma negra da tua laia!<br \/>\nTua m\u00e3e, lembra-te bem, foi escrava! E tu tamb\u00e9m o foste!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, replicava-lhe uma voz interior, que ele mal ouvia na tempestade do<br \/>\nseu desespero; a natureza n\u00e3o criou cativos! Tu n\u00e3o tens a menor culpa do<br \/>\nque fizeram os outros, e no entanto \u00e9s castigado e amaldi\u00e7oado pelos irm\u00e3os<br \/>\ndaqueles justamente que inventaram a escravid\u00e3o no Brasil!<\/p>\n<p>E na brancura daquele car\u00e1ter imaculado brotou, esfervilhando logo, uma ninhada<br \/>\nde vermes destruidores, onde vinham o \u00f3dio, a vingan\u00e7a, a vergonha, o ressentimento,<br \/>\na inveja, a tristeza e a maldade. E no circulo do seu nojo, implac\u00e1vel e extenso,<br \/>\nentrava o seu pa\u00eds, e quem este primeiro povoou, e quem ent\u00e3o e agora o governava,<br \/>\ne seu pai, que o fizera nascer escravo, e sua m\u00e3e, que colaborara nesse crime.<br \/>\n&#8220;Pois ent\u00e3o de nada-lhe lhe valia ter sido bem educado e instru\u00eddo; de nada<br \/>\nlhe valia ser bom e honesto?&#8230; Pois naquela odiosa prov\u00edncia, seus conterr\u00e2neos<br \/>\nveriam nele, eternamente, uma criatura desprez\u00edvel, a quem repelem todos do<br \/>\nseu seio?..&#8221; E vinham-lhe ent\u00e3o, n\u00edtidas 3 luz crua do seu desalento, as mais<br \/>\nrasteiras perversidades do Maranh\u00e3o; as conversas de porta de botica, as pequeninas<br \/>\nintrigas que lhe chegavam aos ouvidos por interm\u00e9dio de entes ociosos e objetos,<br \/>\na que ele nunca olhara sen\u00e3o com desprezo. E toda essa mis\u00e9ria, toda essa<br \/>\nimund\u00edcia, que ate ent\u00e3o se lhe revelava aos bocadinhos, fazia agora uma grande<br \/>\nnuvem negra no seu esp\u00edrito, porque, gota a gota, a tempestade se formara.<br \/>\nE, no meio desse vendaval, um desejo crescia, um \u00fanico, o desejo de ser amado,<br \/>\nde formar uma fam\u00edlia Um abrigo leg\u00edtimo, onde ele se escondesse para sempre<br \/>\nde todos os homens.<\/p>\n<p>Mas o seu desejo s\u00f3 pedia, s\u00f3 queria, s\u00f3 aceitava Ana Rosa, como se o mundo<br \/>\ninteiro houvera desaparecido de novo ao redor daquela Eva p\u00e1lida e comovida,<br \/>\nque lhe dera a provar, pela primeira vez, o delicioso veneno do fruto proibido.<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>XIII<\/h2>\n<p>A volta pareceu-lhe muito mais longa do que a ida ao Ros\u00e1rio; quase que n\u00e3o<br \/>\nfalou por toda a viagem, estalava de impaci\u00eancia por estar s\u00f3, inteiramente<br \/>\ns\u00f3, para pensar \u00e0 vontade, conversar consigo mesmo e convencer-se de que era<br \/>\num esp\u00edrito superior \u00e0quelas pequenas mis\u00e9rias sociais.<\/p>\n<p>Logo que chegou a casa, foi direto ao seu quarto, fechou-se por dentro, com<br \/>\num ru\u00eddo \u00e1spero \u00e1spero de fechadura que funciona poucas vezes. Fazia-se noite.<br \/>\nEle parou junto \u00e0 mesa, no escuro, acendeu um f\u00f3sforo, apagou-se; segundo,<br \/>\nterceiro, o quarto ardeu bem, por\u00e9m Raimundo ficou a olhar abstrato para a<br \/>\nflama azul, torcendo entre os dedos, automaticamente, o pedacinho de madeira,<br \/>\nque se queimou at\u00e9 chamuscar-lhe as unhas; e ficou as escuras, por longo tempo,<br \/>\ncismando, perdido na sua preocupa\u00e7\u00e3o E que, de racioc\u00ednio em racioc\u00ednio, chegara<br \/>\nao \u00e2mago do fato &#8220;Devia ceder ou lutar?&#8230;&#8221; Mas o seu esp\u00edrito nada resolvia;<br \/>\nacuava como um cavalo defronte de um abismo. Ele metia as esporas; era tudo<br \/>\nin\u00fatil!<\/p>\n<p>&#8211; Diabo! exclamou, voltando a si.<\/p>\n<p>E acendeu a vela. Assentou-se \u00e0 escrivaninha, sem tirar sequer o chap\u00e9u,<br \/>\ne p\u00f4s-se a pensar, sacudindo nervosamente a perna Tomou distra\u00eddo a pena,<br \/>\nembebeu-a repetidas vezes no tinteiro, e rabiscou as margens dos jornais que<br \/>\nlhe estavam mais pr\u00f3ximos. Desenhou, com uma pachorra inconsciente. um sino<br \/>\nSalom\u00e3o, e, como se estivesse prestando sumo cuidado ao seu desenho, emendou-o,<br \/>\ncorrigiu-o, fez um novo igual ao primeiro, outro, mais outro, encheu com eles<br \/>\ntoda uma margem de jornal.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo! exclamou novamente, no desespero de quem n\u00e3o encontra a solu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um problema.<\/p>\n<p>E p\u00f4s-se a fitar, com a m\u00e1xima aten\u00e7\u00e3o a chama da vela. Depois, tomou um<br \/>\ninv\u00f3lucro de cigarros, abandonado sobre a mesa, e come\u00e7ou a quebrar com ele<br \/>\nas estalactites da estearina, ate que o papei, por muito embebido no combust\u00edvel,<br \/>\ninflamou-se e foi lan\u00e7ado ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo!<\/p>\n<p>E repetia insensivelmente as palavras de Manuel: &#8220;Recusei-lhe a m\u00e3o de minha<br \/>\nfilha, porque o senhor \u00e9 filho de uma escrava! &#8211; O senhor \u00e9 um homem de cor!<br \/>\n&#8211; O senhor foi forro \u00e0 pia, e aqui ningu\u00e9m o ignora! &#8211; O senhor n\u00e3o imagina<br \/>\no que \u00e9 por c\u00e1 a preven\u00e7\u00e3o contra os mulatos!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Mulato! E eu que nunca pensara em semelhante coisa!&#8230; Podia lembrar-me<br \/>\nde tudo, menos disto!&#8230;<\/p>\n<p>E acusava-se de frouxo; de n\u00e3o ter dado boas respostas na ocasi\u00e3o; n\u00e3o ter<br \/>\nreagido com esp\u00edrito forte, e provado que Manuel estava em erro e que ele,<br \/>\nRaimundo, n\u00e3o ligava a m\u00ednima import\u00e2ncia a semelhante &#8211; futilidade! Assistiam-lhe<br \/>\nagora respostas magn\u00edficas, verdadeiros raios de l\u00f3gica, com que fulminaria<br \/>\no advers\u00e1rio. E, argumentando com as r\u00e9plicas que lhe faltaram ent\u00e3o, reformava<br \/>\nmentalmente todo o caso, dando a si pr\u00f3prio um novo papel, t\u00e3o brilhante e<br \/>\nen\u00e9rgico qu\u00e3o fraco e passivo fora o primeiro.<\/p>\n<p>Afastou a cadeira da secret\u00e1ria, debru\u00e7ou-se sobre esta e escondeu o rosto<br \/>\nnos bra\u00e7os dobrados. Assim levou quase uma hora; quando levantou de novo a<br \/>\ncabe\u00e7a, reparou, pela primeira vez, numa litografia de S\u00e3o Jos\u00e9, que sempre<br \/>\nestivera ali na parede do seu quarto. Raimundo examinou minuciosamente o santo<br \/>\ncom o seu colorido vivo, o menino Jesus no bra\u00e7o esquerdo e uma palma na m\u00e3o<br \/>\ndireita. Surpreendeu-se de v\u00ea-la naquele lugar: em dias de despreocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nnunca dera por ela. E da\u00ed, recordou-se de ter visto na Alemanha trabalhar<br \/>\num prelo litogr\u00e1fico dos mais aperfei\u00e7oados; depois pensou nos processos do<br \/>\ndesenho, nos diversos estilos de artistas seus conhecidos e, afinal, em S\u00e3o<br \/>\nJos\u00e9 e na religi\u00e3o crist\u00e3. E mais: acudiam-lhe agora coisas inteiramente indiferentes:<br \/>\nlembrava-se de um homem, vermelho e suado, que ele vira uma semana antes,<br \/>\na conversar sobre Napole\u00e3o Bonaparte com um lojista da Rua de Nazar\u00e9. Diziam<br \/>\nmuita asnice; e a imagem do lojista saltava-lhe perfeita \u00e0 mem\u00f3ria-magricela,<br \/>\ncom uns bigodes compridos, afetando delicadezas de alfaiate de Lisboa. Ouvira-lhe<br \/>\no nome, mas estava na d\u00favida. &#8220;Moreira? N\u00e3o, n\u00e3o era Moreira!&#8221; E procurava<br \/>\nmentalmente o nome, com insist\u00eancia. &#8220;Pereira? N\u00e3o! Nogueira&#8230; Era Nogueira<br \/>\n&#8216; Este nome trouxe-lhe logo \u00e0 lembran\u00e7a uma ocasi\u00e3o em que conversava com<br \/>\nNogueira Penteeiro, e passar na nua uma mulher doida, que levantava as saias<br \/>\npara mostrar o corpo. De repente, Raimundo estremeceu, era a id\u00e9ia que voltava,<br \/>\na id\u00e9ia primitiva, a id\u00e9ia capital. Reaparecia; tinha feito uma retirada falsa;<br \/>\nficara \u00e0 porta do c\u00e9rebro, espiando para dentro. E ele soltou um suspiro com<br \/>\na presen\u00e7a importuna e vexat\u00f3ria dessa id\u00e9ia que esperava, pelo seu pensamento,<br \/>\ncomo um policia espera um criminoso, para o levar preso. E o pensamento de<br \/>\nRaimundo remancheava; n\u00e3o queria ir mas a id\u00e9ia implac\u00e1vel reclamava-o. E<br \/>\no prisioneiro entregou afinal os pulsos.<\/p>\n<p>Ergueu-se da cadeira; bateu vigorosamente uma punhada na mesa, protestando<br \/>\ncomo se algu\u00e9m lhe falasse:<\/p>\n<p>&#8211; Ora sebo! Que diabo tenho eu com isto? O que vim fazer a esta prov\u00edncia<br \/>\nest\u00fapida, foi tratar dos meus neg\u00f3cios pecuni\u00e1rios!] Liquidados -nada mais<br \/>\ntenho que fazer aqui! Musco-me! Ponho-me ao fresco! Passem muito bem!<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a passear pelo quarto, agitado, a fingir-se muito ego\u00edsta com as<br \/>\nm\u00e3os nas algibeiras das cal\u00e7as monologando:<\/p>\n<p>&#8211; Sim! sim! longe daqui n\u00e3o sou forro \u00e0 pia! o filho da escrava sou o Doutor<br \/>\nRaimundo Jose da Silva, estimado, querido e respeitados! Vou! Por que n\u00e3o?!<br \/>\nO que mo impediria?<\/p>\n<p>E parou, tomou a andar, afinal assentou-se na cama, disposto a recolher-se.<br \/>\nDespiu o palet\u00f3, arremessou o chap\u00e9u e o colete.<\/p>\n<p>&#8211; Sim! O que mo impediria?&#8230;<\/p>\n<p>Ia descal\u00e7ar a primeira botina, quando espantou-se com a lembran\u00e7a de Ana<br \/>\nRosa. Uma voz exigente bradava-lhe do cora\u00e7\u00e3o: &#8220;E eu? e eu? e eu?&#8230; Esqueceste<br \/>\nde mim, ingrato? Pois bem, n\u00e3o quero que v\u00f3s, ouviste? N\u00e3o ir\u00e1s! sou eu quem<br \/>\nto impedir\u00e1!&#8221;<\/p>\n<p>E Raimundo, pasmo por n\u00e3o ter, durante tanto tempo, pensado em Ana Rosa,<br \/>\ndespiu-se com pressa e, como querendo fugir a esta nova id\u00e9ia, atirou-se de<br \/>\nbru\u00e7os \u00e0 cama, solu\u00e7ando.<\/p>\n<p>As seis horas da manh\u00e3 ainda havia luz no quarto dele.<\/p>\n<p>No dia seguinte, \u00e0s duas da tarde, desceu, muito abatido, ao escrit\u00f3rio de<br \/>\nManuel e pediu-lhe secamente que apressasse os seus neg\u00f3cios e 0 despachasse<br \/>\nquanto antes, porque n\u00e3o podia demorar-se mais tempo no Maranh\u00e3o. Precisava<br \/>\npartir o mais cedo poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Mas venha c\u00e1, doutor, o senhor n\u00e3o me deve guardar \u00f3dio por ter eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah, certamente, certamente! Nem pensemos nisso! interrompeu Raimundo, procurando<br \/>\ndesviar a conversa. O senhor tem toda a raz\u00e3o&#8230; Vamos ao que importa! Diga-me<br \/>\nquando poderei estar desembara\u00e7ado?<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o ficou ma\u00e7ado comigo!&#8230; N\u00e3o \u00e9 verdade? Creia que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 senhor! Como quer que lhe diga que n\u00e3o? Ma\u00e7ado! Ora essa! por qu\u00ea? J\u00e1<br \/>\nnem pensava em tal! Vinha at\u00e9 pedir-lhe um servi\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se estiver em minhas m\u00e3os&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 simples.<\/p>\n<p>E, depois de uma pausa, Raimundo continuou, com a voz um pouco alterada,<br \/>\na despeito do esfor\u00e7o que fazia por afetar tranq\u00fcilidade: -Como lhe disse<br \/>\nontem&#8230; estava autorizado pela senhora sua filha a pedi-la em casamento;<br \/>\nem vista, porem, do que me exp\u00f4s o senhor a meu respeito, cumpre-me dar \u00e0<br \/>\nSr\u00aa Ana Rosa qualquer explica\u00e7\u00e3o. Compreende que n\u00e3o posso retirar-me desta<br \/>\nprov\u00edncia, assim, sem mais nem menos, estando j\u00e1 empenhado em um compromisso<br \/>\nt\u00e3o melindroso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah, sim&#8230; mas n\u00e3o lhe d\u00ea isso cuidado&#8230; Arranjarei qualquer desculpa..<\/p>\n<p>&#8211; Uma desculpa, justamente! \u00c9 preciso dar-lhe uma desculpa; e o melhor seria<br \/>\ndeclarar-lhe a verdade. Explique-lhe tudo. Conte-lhe o que se passou entre<br \/>\nn\u00f3s .Ningu\u00e9m, para isso, est\u00e1 mais no caso que o senhor!&#8230;<\/p>\n<p>Manuel ca\u00e7ava a nuca com uma das m\u00e3os, enquanto com a outra batia o cabo<br \/>\nda caneta entre os dentes, na atitude contrariada de quem toma, \u00e0 pura for\u00e7a<br \/>\nde circunst\u00e2ncias, interesse numa causa estranha; porem, como Raimundo falasse<br \/>\nem mudar de casa, ele atalhou logo.<\/p>\n<p>&#8211; Como o senhor quiser&#8230; mas a nossa choupana est\u00e1 sempre \u00e0s suas ordens&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, concluiu o rapaz, agradecendo o oferecimento com um gesto; posso ent\u00e3o<br \/>\ncontar que o meu amigo se encarrega de explicar tudo \u00e0 senhora sua filha?<\/p>\n<p>&#8211; Pode ficar descansado.<\/p>\n<p>&#8211; E quando terei os meus neg\u00f3cios conclu\u00eddos?<\/p>\n<p>&#8211; Antes da chegada do vapor j\u00e1 o senhor estar\u00e1 inteiramente desembara\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8211; Muito agradecido.<\/p>\n<p>E Raimundo subiu para o seu quarto.<\/p>\n<p>Fazia um grande calor. O c\u00e9u, todo limpo, com as suas nuvens arredondadas,<br \/>\nparecia um vasto tapete azul, onde dormiam enormes c\u00e3es felpudos. Raimundo<br \/>\nlembrou-se de sair; feitou-lhe o \u00e2nimo: afigurava-se-lhe que na rua todos<br \/>\nos apontariam, dizendo: &#8220;L\u00e1 vai o filho da escrava!&#8221; ia abrir a janela e hesitou;<br \/>\nsentia um grande t\u00e9dio, um mal-estar crescente, desde a revela\u00e7\u00e3o de Manuel;<br \/>\numa surda indisposi\u00e7\u00e3o contra tudo e contra todos;<\/p>\n<p>naquele momento, irritava-o, por exemplo, a voz aflautada de um quitandeiro,<br \/>\nque argumentava, l\u00e1 embaixo na nua, com um s\u00facio. Abriu o \u00e1lbum com a inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde desenhar, mas repeliu-o logo; tomou um livro e leu distraidamente algumas<br \/>\nlinhas; levantou-se, acendeu um cigano e passeou a largos passo pelos pelo<br \/>\nquarto, com as m\u00e3os nas algibeiras.<\/p>\n<p>Em um destes passeios, parou defronte do espelho e mirou-se com muita aten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nprocurando descobrir no seu rosto descorado alguma coisa, algum sinal, que<br \/>\ndenunciasse a ra\u00e7a negra. Observou-se bem, afastando o cabelo das fontes;<br \/>\nesticando a pele das faces, examinando as ventas e revistando os dentes; acabou<br \/>\npor atirar com o espelho sobre a c\u00f4moda, possu\u00eddo de um t\u00e9dio imenso e sem<br \/>\nfundo.<\/p>\n<p>Sentia uma grande impaci\u00eancia, por\u00e9m vaga, sorrateira, sem objeto, um frouxo<br \/>\ndesejar que o tempo corresse bem depressa e que chegasse um dia, que de n\u00e3o<br \/>\nsabia que dia era; sentia uma vontade indefinida de ir de novo a Vila do Ros\u00e1rio,<br \/>\nprocurar a pobre m\u00e3e, a pobre negra, e dedicada escrava de seu pai, e traz\u00ea-la<br \/>\nem sua companhia, para dizer a todos: &#8220;Esta preta idiota, que aqui v\u00eaem ao<br \/>\nmeu bra\u00e7o e minha m\u00e3e, e ai daquele que lhe faltar ao respeito!&#8221; Depois fugir<br \/>\ncom ela da p\u00e1tria, como quem foge de um covil de homens maus e meter-se em<br \/>\nqualquer terra, onde ningu\u00e9m conhecesse a sua hist\u00f3ria. Mas, de improviso,<br \/>\nchegava-lhe Ana Rosa \u00e0 lembran\u00e7a, e o infeliz desabava num grande desanimo,<br \/>\nvencido e humilhado.<\/p>\n<p>E deixava cair a cabe\u00e7a na palma das m\u00e3os, a solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>Por este tempo, Manuel acabava de expor \u00e0 filha a necessidade absoluta de<br \/>\nn\u00e3o pensar em Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, dizia de, tu j\u00e1 n\u00e3o es uma crian\u00e7a, e bem podes julgar o que te<br \/>\nfica bem e o que te fica mal!&#8230; H\u00e1 por a\u00ed muito rapaz decente, de boa fam\u00edlia&#8230;<br \/>\ne nos casos de fazer-te feliz .Vamos! N\u00e3o quero ver esse rostinho triste!&#8230;<br \/>\nDeixa estar que mais tarde me agradecer\u00e1s o bem que agora te fa\u00e7o!&#8230;<\/p>\n<p>Ana Rosa, de cabe\u00e7a baixa ouvia, aparentemente resignada, as palavras do<br \/>\npai. Confiava em extremo no seu amor e nos juramentos de Raimundo, para recear<br \/>\nqualquer obst\u00e1culo. S\u00f3 agora soubera ao certo da preced\u00eancia de seu primo<br \/>\nbastardo e no entanto, ou fosse porque lhe germinavam ainda no cora\u00e7\u00e3o os<br \/>\nsupremos conselhos matemos, ou fosse que o seu amor era dos que a tudo resistem,<br \/>\no caso \u00e9 que essa hist\u00f3ria que a tantos arrancara exclama\u00e7\u00f5es de desprezo;<br \/>\nisso que forneceu assunto a gordas palestras nas portas dos botic\u00e1rios; isso<br \/>\nque foi comentado em toda a prov\u00edncia, entre risos de esc\u00e1rnio e cuspalhadas<br \/>\nde nojo, desde a sala mais pretensiosa, at\u00e9 \u00e0 quitanda mais p\u00edfia; isso que<br \/>\nfechou muitas portas a Raimundo e cercou-o de inimigos; isso, essa grande<br \/>\nhist\u00f3ria escandalosa e repugnante para os maranhenses, n\u00e3o alterou absolutamente<br \/>\nnada, o sentimento que Ana Rosa lhe votava. As palavras de Manuel n\u00e3o lhe<br \/>\nproduziam o menor abalo; da continuava a estremecer e desejar o mulato com<br \/>\na mesma f\u00e9 e com o mesmo ardor; tinha l\u00e1 para si que de possu\u00eda bastante merecimento<br \/>\npr\u00f3prio, bastante atrativo, para ocupar de todo a aten\u00e7\u00e3o de quem o observasse,<br \/>\nsem ser preciso remontar aos seus antepassados. Estabelecia compara\u00e7\u00f5es entre<br \/>\nas regalias do amor de Raimundo e as vergonhas que dele pudesse resultar,<br \/>\ne conclu\u00eda que aquelas bem mereciam o sacrif\u00edcio destas, Amava-o &#8211; eis tudo.<\/p>\n<p>Manuel, depois dos seus conselhos, passou a fazer considera\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis<br \/>\na respeito das qualidades morais do mulato, e. com isso apenas conseguiu estimular<br \/>\no desejo da filha, juntando aos atrativos do belo rapaz mais um, n\u00e3o poderoso<br \/>\no da proibi\u00e7\u00e3o. Enquanto ele, entestando com a inadmiss\u00edvel hip\u00f3tese de um<br \/>\ncasamento t\u00e3o desastrado, desenrolava um quadro assustador, profetizando,<br \/>\ncom as negras cores da sua experi\u00eancia e com febre do seu amor de pai um futuro<br \/>\nde humilha\u00e7\u00f5es e arrependimentos chegando at\u00e9 a ame\u00e1\u00e7a-la ia de retirar-lhe<br \/>\na b\u00ean\u00e7\u00e3o; Ana Rosa, distra\u00edda, olhando para um s\u00f3 ponto respondia maquinalmente:<br \/>\n&#8220;Sim&#8230; N\u00e3o&#8230; Decerto!&#8230; Est\u00e1 visto!.. &#8221; sem prestar a m\u00ednima aten\u00e7\u00e3o ao<br \/>\nque ele discretamenteava porque o pr\u00f3prio objeto discutido lhe arredava dali<br \/>\no pensamento trazendo-lhe por associa\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias, os seus devaneios favoritos<br \/>\nnos quais se sonhava ao lado de Raimundo, em plena felicidade conjugal.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, disse Manuel, procurando encenar o discurso e satisfeito pelo ar<br \/>\natento e resignado da filha; nada temos que recear&#8230; Ele muda-se por estes<br \/>\ndias e parte definitivamente no primeiro vapor para o Sul!<\/p>\n<p>Esta not\u00edcia, dada assim \u00e0 queima-roupa e em tom firme, despertou-a com viol\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Hein? como? parte? muda-se? por qu\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>E fitou o pai, sobressaltada.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, ele muda-se&#8230; N\u00e3o quer esperar aqui o dia da viagem..<\/p>\n<p>&#8211; Mas por qu\u00ea, senhores?<\/p>\n<p>O negociante viu-se num grande embara\u00e7o; n\u00e3o lhe convinha dizer abertamente<br \/>\na verdade; dizer que Raimundo se retirava, para fugir ao tormento de ver todos<br \/>\nos dias Ana Rosa, sem esperan\u00e7a de possu\u00ed-la. E n\u00e3o atinando com uma resposta,<br \/>\ncom uma sa\u00edda, o pobre homem balbuciava:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9! o rapaz ma\u00e7ou-se com o que eu lhe disse, e como e senhor do seu nariz,<br \/>\nmuda-se! Ora essa! Pensas talvez que ele se sinta muito com isso?&#8230; Est\u00e1s<br \/>\nenganadinha, filha! Foi-me muito lampeiro ao escrit\u00f3rio e pediu-me que o desculpasse<br \/>\ncontigo. &#8220;Que desses o dito por n\u00e3o n\u00e3o dito! Que ele precisava mudar de ares!&#8230;<br \/>\nQue se aborrecia muito c\u00e1 pela prov\u00edncia! pela aldeola-como ele a chama!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Mas por que n\u00e3o veio ele mesmo entender-se comigo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, filha! bem se v\u00ea que n\u00e3o conheces 0 Raimundo.. Pois ele \u00e9 l\u00e1 homem<br \/>\npara essas coisas?&#8230; Um tipo que n\u00e3o liga a menor import\u00e2ncia \u00e0s coisas mais<br \/>\nrespeit\u00e1veis! Um ateu que n\u00e3o acredita em nada! At\u00e9 ficou mais satisfeito<br \/>\ndepois da minha recusa! S\u00f3 parece que estava morrendo por um pretexto para<br \/>\ndesfazer o seu compromisso contigo!<\/p>\n<p>&#8211; Percebo! exclamou Ana Rosa transformando-se e cobrindo o rosto com as m\u00e3os.<br \/>\nE que n\u00e3o me ama! Nunca me amou, o miser\u00e1vel!<\/p>\n<p>E abriu a chorar.<\/p>\n<p>&#8211; Hein?! Ol\u00e1! Ent\u00e3o que quer isto dizer&#8230; Ora ora os meus pecados! Ai, que<br \/>\nisto de mulheres n\u00e3o h\u00e1 quem as entenda!<\/p>\n<p>Ana Rosa fugiu para o seu quarto, nervosa, solu\u00e7ando, e atirou-se de bru\u00e7os<br \/>\nna rede.<\/p>\n<p>O pai seguiu-a assustado:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, minha filha, que \u00e9 isto?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Diabo da peste!<\/p>\n<p>E a infeliz solu\u00e7ava.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, que tolice a tua, Anica! Olha, minha filha! escuta!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero escutar nada! Diga-lhe que pode ir quando entender! Pode ir,<br \/>\nque ate \u00e9 favor!<\/p>\n<p>&#8211; Grande coisa perdes, na verdade! Ora vamos! Nada de asneiras!<\/p>\n<p>Ana Rosa continuava a solu\u00e7ar. cada vez mais aflita, com o rosto escondido<br \/>\nnos bra\u00e7os; as mangas do seu vestido e os travesseiros da rede estavam j\u00e1<br \/>\nensopados das l\u00e1grimas. Assim levou algum tempo, sem responder ao que lhe<br \/>\ndizia o pai, de repente suspendeu de chorar, ergueu a cabe\u00e7a e soltou um gemido<br \/>\nr\u00e1pido e agudo. Era o hist\u00e9rico.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo! resmungou Manuel, co\u00e7ando a nuca atrapalhado. E chamou logo pelos<br \/>\nde casa: D. Maria B\u00e1rbara! Br\u00edgida! M\u00f4nica!<\/p>\n<p>O aposento encheu-se imediatamente.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego Diogo, que ficara na saleta, \u00e0 espera daquela confer\u00eancia de Manuel<br \/>\ncom a filha, entrou tamb\u00e9m atra\u00eddo pelos gritos da afilhada.<\/p>\n<p>&#8211; Hoc opus hic labor est!<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o, Raimundo, no seu quarto, passava pelo sono, estendido sobre<br \/>\num div\u00e3. Sonhava que fugia com Ana Rosa e que, em caminho, eram, os dois,<br \/>\nperseguidos por tr\u00eas quilombolas furiosos armados de fac\u00e3o. Um pesadelo. Raimundo<br \/>\nqueria correr e n\u00e3o podia: os p\u00e9s enterravam-se -lhe no solo, como no tujuco,<br \/>\ne Ana Rosa pesava como se fosse de chumbo. Os pretos aproximavam-se, dardejando<br \/>\nos fenos, iam alcan\u00e7\u00e1-los. O rapaz suava de medo; estava im\u00f3vel, sem a\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom a l\u00edngua presa.<\/p>\n<p>Os gritos reais da hist\u00e9rica coincidiam com os gritos que Ana Rosa, no sonho,<br \/>\nsoltava, ferida pelos mocambeiros. Com o esfor\u00e7o, Raimundo pulou do div\u00e3 e<br \/>\nolhou estremunhado em torno de si; depois, deitou a correr para a varanda.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego, ouvindo-lhe os passos, veio sair-lhe ao encontro.<\/p>\n<p>&#8211; Attendite!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, at\u00e9 que enfim nos encontramos! disse-lhe Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Pschio! fez o c\u00f4nego. Ela est\u00e1 sossegando agora! N\u00e3o v\u00e1 l\u00e1, que lhe pode<br \/>\nvoltar o ataque!&#8230; O senhor \u00e9 o causador de tudo isto!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Preciso dar-lhe duas palavras incontinente, senhor c\u00f4nego!<\/p>\n<p>&#8211; Homem, deixe isso para outra ocasi\u00e3o&#8230; N\u00e3o v\u00ea o alvoro\u00e7o em que est\u00e1 a<br \/>\ncasa?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se lhe digo que preciso falar-lhe incontinenti!&#8230; Ande! Vamos ao meu quarto!<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo tem o senhor que me dizer?!<\/p>\n<p>&#8211; Quero tomar alguns esclarecimentos sobre S\u00e3o Br\u00e1s, percebe?<\/p>\n<p>-Horresco referens!&#8230;<\/p>\n<p>E Raimundo, com um empurr\u00e3o, meteu-se, mais o c\u00f4nego, no quarto, e fechou-se<br \/>\npor dentro.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 dizer-me quem matou meu pai! exclamou, ferrando-lhe o olhar.<\/p>\n<p>&#8211; Sei c\u00e1!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego empalideceu. Mas estava a prumo, defronte do outro.<\/p>\n<p>Cruzou os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Que quer isto dizer?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que descobri afinal o assassino de meu pai e posso vingar-me<br \/>\nno mesmo instante!<\/p>\n<p>&#8211; Mas isto \u00e9 uma viol\u00eancia! tartamudeou o padre, com a voz sufocada pela<br \/>\ncomo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E, fazendo um esfor\u00e7o sobre si, acrescentou mais seguro:<\/p>\n<p>-Muito bem senhor doutor Raimundo! muito bem! Est\u00e1 procedendo admiravelmente!<br \/>\n\u00c9 ent\u00e3o por esta forma que me pede noticias de seu pai? \u00e9 este o modo pelo<br \/>\nqual me agradece a amizade fiel, que dediquei noutro tempo ao pobre homem?<br \/>\nFui o seu \u00fanico amigo, o seu amparo, a sua darradeira consola\u00e7\u00e3o! e \u00e9 um filho<br \/>\ndele que vem agora, depois de vinte anos, amea\u00e7ar um pobre velho, que foi<br \/>\nsempre respeitado por todos! Parece que s\u00f3 esperavam que me embranquecessem<br \/>\nde todo os cabelos, para insultarem esta batina, que foi sempre recebida de<br \/>\nchap\u00e9u na m\u00e3o! Ah, muito bem! muito bem! Era preciso viver setenta anos para<br \/>\nver isto! muito bem! Quer vingar-se? Pois vingue-se! Que lho impede?! Sou<br \/>\neu o criminoso? Pois venha o carrasco! N\u00e3o me defenderei, mesmo porque j\u00e1<br \/>\nme faltam as for\u00e7as para isso!&#8230; Ent\u00e3o! que faz que n\u00e3o se mexe?!<\/p>\n<p>Raimundo, com efeito, estava im\u00f3vel. &#8220;Ter-se-ia enganado?&#8230;&#8221; \u00c0 vista do<br \/>\naspecto sereno do c\u00f4nego chegara a duvidar das conclus\u00f5es dos seus racioc\u00ednios.<br \/>\n&#8220;Seria crive! que aquele velho, t\u00e3o brando, que s\u00f3 respirava religi\u00e3o e coisas<br \/>\nsantas, fosse o autor de um crime abomin\u00e1vel?,..&#8221; E, sem saber o que decidir,<br \/>\natirou-se a uma cadeira, fechando a cabe\u00e7a nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>O padre compreendeu que ganhara terreno e prosseguiu, na sua voz untuosa<br \/>\ne resignada:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, o senhor deve ter raz\u00e3o!&#8230; Fui eu naturalmente o assassino de seu pai!&#8230;<br \/>\n\u00c9 um rasgo generoso e justo de sua parte desmascarar-me e cobrir-me de ultrajes,<br \/>\naqui nesta casa, onde sempre me beijaram a m\u00e3o. O senhor esta no seu direito!<br \/>\nOlhe! agarre aquela bengala e bata-me com ela! Est\u00e1 mo\u00e7o, pode faz\u00ea-lo! est\u00e1<br \/>\nno vigor dos seus vinte e cinco anos! Vamos! Fustigue este pobre velho indefeso!<br \/>\ncastigue este corpo decr\u00e9pito, que j\u00e1 n\u00e3o presta para nada! Ent\u00e3o! bata sem<br \/>\nreceio que ningu\u00e9m o saber\u00e1! Pode ficar descansado que n\u00e3o gritarei &#8211; tenho<br \/>\ndefronte dos olhos a imagem resignada de Cristo, que sofreu muito mais!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego Diogo, com os bra\u00e7os e olhos erguidos para cima, caiu de joelhos<br \/>\ne disse entre dentes, solu\u00e7ando:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Deus misericordioso! Tu, que tanto padeceste por n\u00f3s, lan\u00e7a um olhar<br \/>\nde bondade sobre esta pobre criatura desvairada! compadece-te da pobre alma<br \/>\npecadora, levada s\u00f3 pela paix\u00e3o mundana e cega! N\u00e3o deixes que Satan\u00e1s se<br \/>\napodere da m\u00edsera. Salva-a, Senhor! perdoa-lhe tudo, como perdoaste aos teus<br \/>\nalgozes! Gra\u00e7a para ela! eu te suplico, gra\u00e7a, meu divino Senhor e Pai!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego ficou em \u00eaxtase.<\/p>\n<p>&#8211; Levante-se, observou-lhe Raimundo, aborrecido. Deixe-se disso! Se lhe fiz<br \/>\numa injusti\u00e7a, desculpe. Pode ir descansado, que n\u00e3o o perseguirei. V\u00e1!<\/p>\n<p>Diogo ergueu-se, e pousou a m\u00e3o no ombro do mo\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00f4o-te tudo, disse; compreendo perfeitamente o teu estado de excita\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSei o que se passou! Mas consola-te, meu filho, que Deus \u00e9 grande, e s\u00f3 no<br \/>\nseu amor consiste a verdadeira paz e felicidade!<\/p>\n<p>E saiu de cabe\u00e7a baixa, o ar humilde e contrito; mas, ao descer a escada<br \/>\npara a rua, resmungava:<\/p>\n<p>&#8211; Deixa estar, que mas pagar\u00e1s, meu cabrinha apistolado!&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a> XIV<\/h2>\n<p>Sete dias depois, morava Raimundo em uma das suas casinhas da Rua de S\u00e3o<br \/>\nPantale\u00e3o.<\/p>\n<p>Vivia aborrecido; vivia exclusivamente a esperar o dia da viagem para a Corte.<br \/>\nNunca a prov\u00edncia lhe parecera t\u00e3o enfadonha, nem o seu isolamento t\u00e3o pesado<br \/>\ne t\u00e3o triste. N\u00e3o sala quase nunca \u00e0 nua; n\u00e3o procurava pessoa alguma, nem<br \/>\ntampouco ningu\u00e9m o visitava. Dizia-se por a\u00ed que ele estava de cama por uma<br \/>\nbonita sova, que lhe mandara dar o pai da namorada. &#8220;Era bem feito! Para se<br \/>\nn\u00e3o fazer apresentado com uma menina branca!&#8221;<\/p>\n<p>Os maldizentes, empenhados na vida dele, como se Raimundo fosse um pol\u00edtico<br \/>\nde quem dependesse a salva\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia, afian\u00e7avam que alguma pe\u00e7a estava<br \/>\no tratante urdindo em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Acreditem, exclamava um dos tais, a um grupo, que todos estes sujeitos<br \/>\nque se fazem muito santarr\u00f5es e de quem a boca do mundo nada tem que dizer,<br \/>\ns\u00e3o os mais perigosos! Eu, c\u00e1 por mim, n\u00e3o me fio de ningu\u00e9m! quando vejo<br \/>\num tipo, julgo logo mal dele; se o traste prega-me alguma, n\u00e3o me espanta,<br \/>\nporque j\u00e1 a esperava!<\/p>\n<p>&#8211; E se n\u00e3o prega?<\/p>\n<p>&#8211; Fico na certeza de que muita coisa se faz \u00e0s caladas neste Maranh\u00e3o! Mas<br \/>\n1\u00e1 acreditar em virtudes de aventureiros, isso \u00e9 que nem \u00e0 s\u00e9tima facada!<\/p>\n<p>Entretanto, Raimundo levava uma vida de degradado, sem amigos e sem carinhos<br \/>\nde esp\u00e9cie alguma. No seu desterro tinha por companhia \u00fanica uma preta velha,<br \/>\nque se encarregara de servi-lo; magra, feia, supersticiosa arrastando-se,<br \/>\na coxear, pela varanda e pelos quartos desertos fumando um cachimbo insuport\u00e1vel,<br \/>\ne sempre a falar sozinha, a mastigar mon\u00f3logos intermin\u00e1veis.<\/p>\n<p>E esta solid\u00e3o enchia-o de t\u00e9dio e de saudades pelas boas horas alegres,<br \/>\nque passava dantes ao lado de Ana Rosa, aquecido ao calor ben\u00e9fico da fam\u00edlia.<br \/>\nUltimamente muito pouco se dava ao estudo; estava desleixado, pregui\u00e7oso,<br \/>\nvivia para as suas preocupa\u00e7\u00f5es recentes. Ficava horas esquecidas \u00e0 mesa,<br \/>\ndepois do almo\u00e7o ou do jantar, olhando vagamente para o seu quintal sem plantas,<br \/>\ncom os p\u00e9s cruzados a cabe\u00e7a molemente calda sobre o peito, a fumar ciganos<br \/>\num atr\u00e1s do outro, num aborrecimento invenc\u00edvel.<\/p>\n<p>Tomara embirr\u00e2ncia por tudo e emagrecia.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, acendia-se o candeeiro de querosene, e Raimundo assentava-se junto<br \/>\n\u00e0 secretaria, lendo distra\u00eddo algum romance ou revendo as gravuras de algum<br \/>\njornal ilustrado. A um canto da varanda resmungava a criada, cosicando trapos.<br \/>\nO rapaz sentia um fasto de morte, tinha espregui\u00e7amentos de febre, moleza<br \/>\ngeral no corpo; n\u00e3o podia entrar com a cozinha da preta-era uma coisa muito<br \/>\nmal amanhada-tinha nojo de beber pelos copos mal lavados; banhava com repugn\u00e2ncia<br \/>\no rosto na bacia barrada de gordura. &#8220;O senhores! Que vida!&#8221; E ficava cada<br \/>\nvez mais nervoso e fren\u00e9tico; esperava o dia da viagem contando os minutos;<br \/>\npor\u00e9m, a despeito de tudo, sentia uma surda e funda vontade de n\u00e3o ir, uma<br \/>\n\u00edntima esperan\u00e7a de ser ainda legitimamente amado por Ana Rosa.<\/p>\n<p>&#8211; Imposs\u00edvel!&#8230; conclu\u00eda sempre, fazendo-se forte. Deixemo-nos de asneiras!<\/p>\n<p>E pensava no que n\u00e3o estaria ela julgando dele; no ju\u00edzo que formarda do<br \/>\nseu car\u00e1ter Nunca mais tiveram ocasi\u00e3o de trocar uma palavra ou um olhar;<br \/>\napenas recebia noticias de Ana Rosa por aquela idiota, que n\u00e3o as sabia dar.<br \/>\n&#8220;Ora! tamb\u00e9m de que servia afligir-se daquele modo? o melhor era deixar que<br \/>\nas coisas levassem o seu destino natural! N\u00e3o podia, nem devia, por forma<br \/>\nalguma, casar com semelhante mulher, para que, pois, pensar ainda nisso?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Em casa de Manuel as coisas igualmente n\u00e3o corriam l\u00e1 muito bem. Ana Rosa<br \/>\ncurtia densas tristezas, mal dissimuladas aos olhos do pai, da av\u00f3 e do c\u00f4nego.<br \/>\nA pobre mo\u00e7a esfor\u00e7ava-se por esquecer o desleal amante que a abandonara covardemente.<br \/>\nE, na sua decep\u00e7\u00e3o imaginava vingan\u00e7as irrefletidas; tinha desejos absurdos:<br \/>\nqueria casar-se por aqueles dias, arranjar um marido qualquer, antes que Raimundo<br \/>\nse retirasse da prov\u00edncia; desejava provar-lhe que ela n\u00e3o ligava a menor<br \/>\nimport\u00e2ncia ao caso e que se entregaria com prazer a outro homem.<\/p>\n<p>Pensou no Dias e esteve quase a falar-lhe.<\/p>\n<p>Manuel, soprado pelo compadre, indispunha mais e mais o \u00e2nimo da filha contra<br \/>\no mulato; contando-lhe, a respeito deste, fatos revoltantes, inventados pelo<br \/>\nc\u00f4nego; fazia-se agora muito meigo ao lado dela, submetia-se aos seus caprichos,<br \/>\n\u00e0s suas vontadezinhas de menina doente. com a compungida solicitude de um<br \/>\nbom enfermeiro.<\/p>\n<p>Ana Rosa abanava a cabe\u00e7a, resignada. O fato provado de que Raimundo contsentia<br \/>\nsem resist\u00eancia e talvez por gosto, em abandon\u00e1-la, ao mesmo tempo que aumentava<br \/>\nnela o desejo de reconquist\u00e1-lo e possu\u00ed-lo, dava a seu orgulho bastante energia<br \/>\npara esconder de todos o seu amor Supunha-se v\u00edtima de uma decep\u00e7\u00e3o; julgava<br \/>\no<\/p>\n<p>seu amante mais apaixonado e mais violento, e, \u00e0 vista da passividade com<br \/>\nque ele &lt;e submeteu logo \u00e0s circunst\u00e2ncias; 3 vista daquela condescend\u00eancia<br \/>\nburguesa e medrosa, pois Raimundo n\u00e3o se animara a dar-lhe, nem a es rever-lhe,<br \/>\nurna palavra depois da recusa de Manuel, ela se julgava desenganada e desiludida.<br \/>\n&#8220;Nunca nunca me amou! dizia de si para si desesperada Se me amasse, como eu<br \/>\nimaginava, teria reagido! E um impostor! um tolo! Um vaidoso, que desejou<br \/>\napenas ter mais uma conquista amorosa!<\/p>\n<p>E vinha-lhe um grande desejo de chorar e preferir muito mal contra Raimundo.<br \/>\nAgora. achava que ele era o pior dos homens, a mais desprez\u00edvel das criaturas.<br \/>\n\u00c0s vezes, por\u00e9m, arranhava-lhe a consci\u00eancia uma pontinha de remorso: lembrava-se<br \/>\nde que a iniciativa daquele namoro partira toda de sua parte, e ent\u00e3o. com<br \/>\numa dorzinha de vergonha assistiam-lhe considera\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis ao primo;<br \/>\nchegava ate a doer-se de haver feito um ju\u00edzo t\u00e3o mau do pobre rapaz. &#8220;Sim&#8230;<br \/>\npensava. Verdade, verdade, se n\u00e3o fosse eu&#8230; coitado! ele talvez nunca me<br \/>\nfalasse em amor!&#8230; fui eu que o provoquei, que lhe lancei a primeira faisca<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o!&#8230;&#8221; E por este caminho Ana Rosa fazia mil racioc\u00ednios, que abrandavam<br \/>\num tanto a sua me vontade contra o perjuro.<\/p>\n<p>Mas a av\u00f3 saltava-lhe logo em ama:<\/p>\n<p>&#8211; Parece que ficaste meio sentida com o que se passou!&#8230; Pois Olha. se tivesse<br \/>\nTe assistir ao teu casamento com um cabra, juro-te, por esta luz que est\u00e1<br \/>\nnos alumiando, que te preferia uma boa morte, minha neta! porque sedas a primeira<br \/>\nque na fam\u00edlia sujava o sangue! Deus me perdoe pelas sant\u00edssimas chagas de<br \/>\nNosso Senhor Jesus Cristo! gritava ela, pondo as m\u00e3os para o c\u00e9u e revirando<br \/>\nos olhos, mas tinha animo de torcer o pesco\u00e7o a uma filha, que se lembrasse<br \/>\nde tal, credo! que nem falar nisto \u00e9 bom! E s\u00f3 pe\u00e7o a Deus que me leve, quanto<br \/>\nantes, se tenho algum dia de ver, com estes que a terra h\u00e1 de comer, descendente<br \/>\nmeu ca\u00e7ando a orelha com o p\u00e9!<\/p>\n<p>E, voltando-se para o genro, num assanhamento crescente:<\/p>\n<p>&#8211; Mas creia seu Manuel. que se tamanha desgra\u00e7a viesse a suceder, s\u00f3 a voc\u00ea<br \/>\na dever\u00edamos, porque, no fim das contas, a quem lembra meter em casa um cabra<br \/>\nt\u00e3o cheio de fuma\u00e7as como o tal doutor das d\u00fazias?&#8230; Eles hoje em dia s\u00e3o<br \/>\ntodos assim!&#8230; D\u00e1-se-lhes o p\u00e9 e tomem a m\u00e3o!&#8230; J\u00e1 n\u00e3o conhecem o seu lugar,<br \/>\ntratantes! Ah, meu tempo! meu tempo! que n\u00e3o era preciso estar c\u00e1 com discuss\u00f5es<br \/>\ne pol\u00edticas! Fez-se besta? &#8211; Rua! A porta da nua \u00e9 a serventia da casa! E<br \/>\n\u00e9 o que voc\u00ea deve fazer, seu Manuel! N\u00e3o seja pamonha! despe\u00e7a-o por uma vez<br \/>\npara o Sul, com todos os diabos do inferno! e trate de casar sua filha com<br \/>\num branco como ela. Arre.<\/p>\n<p>&#8211; Am\u00e9m! disse beaticamente o c\u00f4nego.<\/p>\n<p>E sorveu uma pitada.<\/p>\n<p>Falou-se em toda a capita! do rompimento de Raimundo com a fam\u00edlia do Manuel<br \/>\nPescada. Cada qual comentou o fato como melhor o entendeu, alterando-o, j\u00e1<br \/>\nse sabe, cada um por sua parte. O Freitas aproveitou logo a ocasi\u00e3o dizer<br \/>\ndogmaticamente aos seus companheiros de secretaria<\/p>\n<p>&#8211; Acontece, meus senhores, com um boato, que corre a prov\u00edncia, o mesmo que<br \/>\ncom uma pedra levada pela enxurrada da chuva; \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que rola, de rua<br \/>\nem rua, de beco em beco, de fosso em fosso, v\u00e3o-se-lhe apegando toda sorte<br \/>\nde trapos e imund\u00edcia que encontra na sua vertiginosa carreira; de sorte que,<br \/>\nao chegar \u00e0 boca-de-lobo, j\u00e1 se lhe n\u00e3o reconhece a primitiva forma. Do mesmo<br \/>\nfeitio, quando uma not\u00edcia chega a cair no esquecimento, j\u00e1 t\u00e3o desfigurada<br \/>\nvai de si, que da pr\u00f3pria n\u00e3o conserva mais do que a origem!<\/p>\n<p>E o Freitas, satisfeito com esta tirada, assoou-se estrondosamente, sem despregar<br \/>\ndo audit\u00f3rio o seu penetrante sorriso de grande homem, que prodigaliza, sem<br \/>\nolhar a quem d\u00e1, as preciosas j\u00f3ias da sua pr\u00f3diga eloq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p>Durante aqueles dias n\u00e3o se falava sen\u00e3o em Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Desacreditou, para sempre, a pobre mo\u00e7a!&#8230; dizia um barbeiro no meio da<br \/>\nconversa da sua loja.<\/p>\n<p>&#8211; Desacreditar quis ele! responderam-lhe, mas \u00e9 que ela nunca lhe deu a menor<br \/>\nconfian\u00e7a! Isto sei eu de fonte limpa!<\/p>\n<p>Na casa da pra\u00e7a, afirmava um comendador, que a sa\u00edda de Raimundo da casa<br \/>\ndo tio era devida simplesmente a uma ladroeira de dinheiro, perpetrada na<br \/>\nburra de Manuel, e que este, constava, j\u00e1 tinha ido queixar-se \u00e0 pol\u00edcia e<br \/>\nque o doutor chefe procedia ao inqu\u00e9rito.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bem feito! E bem feito!&#8230; vociferava um mulato p\u00e1lido, de carapinha<br \/>\nrente, bem vestido e com um grande brilhante no dedo E muito bem feito, para<br \/>\nn\u00e3o consentirem que estes negros se metam conosco!<\/p>\n<p>Seguiu-se um com\u00e9rcio r\u00e1pido de olhadelas expressivas, trocadas entre os<br \/>\ncircunstantes, e a conversa torceu de rumo, indo a cair sobre as celebridades<br \/>\nde ra\u00e7a escura, vieram os fatos conhecidos a respeito do preconceito da cor;<br \/>\ncitaram-se pessoas gradas da melhor sociedade maranhense, que tinham um moreno<br \/>\nbem suspeito; foram<\/p>\n<p>chamados \u00e0 conversa todos os mulatos distintos do Brasil narrou-se enfaticamente<br \/>\na c\u00e9lebre passagem do Imperador com o engenheiro Rebou\u00e7as. Um sujeito, levantou<br \/>\npasmo da roda, nomeando Alexandre Dumas, e dando a sua palavra de honra em<br \/>\ncomo Byron tinha casta.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! isso que admira?&#8230; disse um est\u00fapido. Aqui J\u00e1 tivemos um presidente<br \/>\nt\u00e3o negro como qualquer daqueles cangueiros, que ali v\u00e3o com a pipa de aguardente!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o&#8230; rosnou convencido um velhote, que entre os comerciantes passava<br \/>\npor homem de boa opini\u00e3o Que eles t\u00eam habilidade, principalmente para a musica,<br \/>\nisso \u00e9 ineg\u00e1vel!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Habilidade?&#8230; segredou outro, com o mist\u00e9rio de quem revela uma coisa<br \/>\nproibida. Talento! digo-lhe eu! Esta ra\u00e7a cruzada \u00e9 a mais esperta de todo<br \/>\no Brasil! Coitadinhos dos brancos se ela pilha uma pouca de instru\u00e7\u00e3o e resolve<br \/>\nfazer uma chinfrinada. Ent\u00e3o \u00e9 que vai tudo pelos ares! Felizmente n\u00e3o lhe<br \/>\nd\u00e3o muita ganja!<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo, comentava Am\u00e2ncia, boquejando esse dia, sobre o mesmo assunto,<br \/>\nem casa de Eufr\u00e1sia; aquilo n\u00e3o podia ter outro resultado! C\u00e1 est\u00e1 quem n\u00e3o<br \/>\nporia l\u00e1 mais os pezinhos, se o basbaque do Pescada metesse o cabra na fam\u00edlia!<\/p>\n<p>&#8211; Ora n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m tanto assim!&#8230; objetava a quente vi\u00fava. Conhe\u00e7o certa<br \/>\ngente, que se faz muito de manto de seda e que, no entanto, vai filar constantemente<br \/>\no jantar dos cabras que passam bem. A quest\u00e3o \u00e9 de boa mesa!<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? berrou a velha, pondo as m\u00e3os nas cadeiras. Isso \u00e9 uma indireta?!<br \/>\ncomigo?!&#8230;<\/p>\n<p>E subiu-lhe uma roxid\u00e3o \u00e0s faces.<\/p>\n<p>&#8211; Diga! exclamou. Pois diga! Quero que diga qual foi o negro a quem Am\u00e2ncia<br \/>\nDiamantina dos Prazeres Sousella, neta leg\u00edtima do Brigadeiro Cipi\u00e3o Sousella,<br \/>\nconhecido pelo &#8220;Corisco&#8221; na Guerra dos Guararapes, desse algum dia a confian\u00e7a<br \/>\nde ocupar! Eu?!&#8230; At\u00e9 brada ao c\u00e9u! Qual foi o cabra com quem a senhora j\u00e1<br \/>\nme viu de mesa?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o falo com a senhora! E esta?<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; Pois ent\u00e3o conhe\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; Falo no gera!<\/p>\n<p>E Eufrasinha dava as provas, citava nomes, contava fatos, e terminou declarando<br \/>\nque, apesar de tudo que se dizia nesse Maranh\u00e3o velho, Raimundo era um cavalheiro<br \/>\ndistinto, com um futuro bonito, alguns cobres, e&#8230; enfim. . Ora, adeus, deixasse<br \/>\nl\u00e1 falar quem falava! &#8211; era um marido de encher as medidas!<\/p>\n<p>E a vi\u00fava arregalou os olhos e mordeu os bei\u00e7os, chupando o ar com um suspiro.<\/p>\n<p>&#8211; Que lhe fa\u00e7a muito bom proveito! arrematou a neta do &#8220;Corisco&#8221; tra\u00e7ando<br \/>\no xale j\u00e1 na porta, para sair. H\u00e1 gente para tudo nesta vida! Credo!<\/p>\n<p>E foi logo, direitinha como um fuso, para a casa do Freitas.<\/p>\n<p>Pois n\u00e3o sabem de uma muito boa?&#8230; disse ao chegar l\u00e1, sem tomar f\u00f4lego.<br \/>\nA sirigaita de Eufr\u00e1sia diz que n\u00e3o se lhe dava de casar com o Mundico do<br \/>\nPescada!<\/p>\n<p>&#8211; Ele \u00e9 que eu duvido que a aceitasse!&#8230; bocejou o Freitas, estendendo<br \/>\ncom pregui\u00e7a as suas magras e longas pernas na cadeira, e cruzando os p\u00e9s,<br \/>\ncom um ar feliz e descansado. Que ela morre por um marido-isso \u00e9 velho! E<br \/>\ntem raz\u00e3o, coitada!<\/p>\n<p>Riu-se.<\/p>\n<p>&#8211; Credo! cruz! trejeitou Am\u00e2ncia. Assim tamb\u00e9m n\u00e3o!&#8230; No meu tempo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Era a mesm\u00edssima coisa, D. Am\u00e2ncia; as raparigas pobres pediam aos c\u00e9us<br \/>\num marido, como&#8230; como&#8230; insistia ele, a procura de uma compara\u00e7\u00e3o, como<br \/>\nn\u00e3o sei o qu\u00ea!&#8230; A senhora, j\u00e1 sei que fica para jantar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se tiver peixe, fico! disse, autorizada pelo cheiro ativo de azeite frito,<br \/>\nque vinha da cozinha.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, titia Am\u00e2ncia, saiba que temos e muito bom! observou Lindoca, bamboleando-se<br \/>\npela varanda.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 menina! gritou-lhe a velha, onde queres ir tu com toda essa gordura?<br \/>\nJ\u00e1 basta! Apre!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o ir\u00e1 muito longe, disse o Freitas, sempre risonho, cansaria depressa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, veja, reclamou a mo\u00e7a, fazendo parar a escrava, que passava com<br \/>\na terrina do peixe. Est\u00e1 convidando! Quentinho que \u00e9 um fogo!<\/p>\n<p>&#8211; Ai, filha! \u00e9 a minha paix\u00e3o! Um peixinho bem preparado, quentinho, com<br \/>\nfarinha-d&#8217;\u00e1gua! Mas, olha, bradou para a criada, e levantou-se logo, n\u00e3o o<br \/>\ndeites a\u00ed, rapariga, que o gato e muito capaz de pregarmos alguma pe\u00e7a&#8230;<br \/>\nBota antes neste arm\u00e1rio!<\/p>\n<p>E, como se estivesse na pr\u00f3pria casa, tomou a terrinha e acondicionou-a<br \/>\nem uma das prateleiras. &#8220;N\u00e3o havia que fiar em gatos!&#8230; Eles eram necess\u00e1rios<br \/>\npor mor dos ratos, mas que canseira seu Bom Jesus! Ind&#8217;estrodia o seu Peralta<br \/>\nfora-lhe ao guarda-petiscos e&#8230; nem dizia nada! unhara-lhe a carne-de-sol,<br \/>\nque havia para o almo\u00e7o, porque ela estava de purga Forte ladr\u00e3o! tamb\u00e9m,<br \/>\ndera-lhe uma mela, que o pusera assim!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E Am\u00e2ncia, procurando mostrar como ficara o gato arreganhou uns restos de<br \/>\ndentadura acavalada e espichou as peles do pesco\u00e7o<\/p>\n<p>Passava j\u00e1 das tr\u00eas da tarde. Os empregados p\u00fablicos sa\u00edam.` da reparti\u00e7\u00e3o,<br \/>\nprocurando a sombra, cora o seu passo met\u00f3dico c inater\u00e1vel, o chap\u00e9u-de-sol<br \/>\ndependurado do bra\u00e7o esquerdo, corno de um cabide, o ar descansado e indiferente<br \/>\ndos homens pagos por m\u00eas, que nunca se apressam, que nunca precisam de se<br \/>\napressar.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava a soprar a vira\u00e7\u00e3o da tarde, e o tempo refrescava.<\/p>\n<p>Lindoca, com grande entremecimento do assoalho, arrastou-se at\u00e9 \u00e0 janela,<br \/>\npara ver passar o Dudu Costa Dudu era um da Alf\u00e2ndega, que lhe arrastava a<br \/>\nasa, rapaz s\u00e9rio, sequinho de carnes, bem arranjado e com muito jeito para<br \/>\no casamento. O Freitas olhava com bons olhos este namoro, e s\u00f3 esperava que<br \/>\no mo\u00e7o tivesse nesse mesmo ano um acesso na reparti\u00e7\u00e3o havia l\u00e1 um empregado<br \/>\nsuperior muito doente, que, sem d\u00favida, bateria o cachimbo por todos aqueles<br \/>\ntr\u00eas meses, e, como Dudu tinha um amigo, cujo pai dispunha de bons empenhos<br \/>\npara o presidente, dava corno certa a sua nomea\u00e7\u00e3o, t\u00e3o certa que pensava<br \/>\nj\u00e1 no enxoval do casamento, punha de parte alguma coisa do ordenado e convidava<br \/>\nos amigos mais \u00edntimos para o grande dia da amarra\u00e7\u00e3o. De tudo isto o Freitas<br \/>\nandava a par. &#8216;Diabo era s\u00f3 aquela maldita gordura da menina, que aumentava<br \/>\ntodos os dias e estava fazendo dela um odre!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Ora queira Deus n\u00e3o seja alguma praga!&#8230; observava Am\u00e2ncia :. H\u00e1 muita<br \/>\ngente invejosa neste mundo, minha rica!<\/p>\n<p>&#8211; Minha senhora, &#8220;o casamento e a mortalha no c\u00e9u se talham! citou o grande<br \/>\nhomem, sacrificando a rima \u00e0 boa concord\u00e2ncia gramaticalmente.<\/p>\n<p>Por essas mesmas horas, topavam-se numa esquina . Sebasti\u00e3o Campos e o Casusa.<\/p>\n<p>&#8211; 01\u00e1! por c\u00e1, seu Susa?<\/p>\n<p>&#8211; Como vai isso?<\/p>\n<p>&#8211; Ora! voc\u00ea n\u00e3o faz id\u00e9ia! desquerido de dor de dentes. Este diabo n\u00e3o me<br \/>\ndeixa p\u00f4r p\u00e9 em ramo verde!<\/p>\n<p>E Sebasti\u00e3o escancarou a boca, para mostrar um queixal ao amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Anda\u00e7o! resmungou este. D\u00ea c\u00e1 um cigarro<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o passou-lhe prontamente a enorme bolsa de borracha amarela e o caderninho<br \/>\nde mortalhas de papei.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que h\u00e1 de novo por a\u00ed? perguntou.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo velho&#8230; Voc\u00ea vai se chegando pra casa..<\/p>\n<p>&#8211; Hum-hum, afirmou o Campos com a garganta. Chegou o vapor do Par\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Chegou; sai amanh\u00e3 para o Sul \u00e0s nove. E verdade! o Mundico vai nele, sabe?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9! Ouvi dizer que tinha brigado com o Pescada.<\/p>\n<p>&#8211; Brigou, hein?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Diz que por causa de dinheiro, que Raimundo pedira-lhe certa quantia emprestada,<br \/>\ne, como o outro negara, disparatou!<\/p>\n<p>&#8211; Homem! n\u00e3o sei se pediu dinheiro, mas a filha sei, por fonte limpa, que<br \/>\npediu!<\/p>\n<p>&#8211; E o galego?<\/p>\n<p>&#8211; Negou-a! diz que porque o outro e mulato!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, em parte&#8230; aprovou Sebasti\u00e3o<\/p>\n<p>&#8211; Ora, deixe disso, seu Campos! N\u00e3o sei se \u00e9 porque n\u00e3o tenho irm\u00e3s, mas o<br \/>\nque lhe asseguro \u00e9 que preferia o doutor Raimundo da Silva a qualquer desses<br \/>\nchouri\u00e7os da Praia Grande.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! l\u00e1 isso \u00e9 que n\u00e3o Preto \u00e9 preto! branco \u00e9 branco! Nada de confus\u00f5es!<\/p>\n<p>&#8211; Djgo-lhe ent\u00e3o mais! asneira seria a dele se se amarrasse, porque o cabra<br \/>\n\u00e9 atilado \u00e0s direitas!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, isso faria&#8230; confirmou o Campos entretido a quebrar a cali\u00e7a da parede<br \/>\ncom a biqueira do chap\u00e9u-de-sol. Aquilo esta se perdendo por c\u00e1&#8230; \u00e9 homem<br \/>\npara uma cidade grande!.. Olhe, ele talvez fa\u00e7a futuro no Rio&#8230; Voc\u00ea lembra-se<br \/>\ndo&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211; E segredou um nome ao ouvido do Casusa.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! como n\u00e3o? Muita vez dei-lhe aos cinco e aos dez tost\u00f5es para comer,<br \/>\ncoitado! E hoje, hein?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9! Foi feliz&#8230; mas, quer que lhe diga? n\u00e3o acredito l\u00e1 essas coisas no<br \/>\nfuturo deste por causa daquelas id\u00e9ias de rep\u00fablicas&#8230; porque, conven\u00e7am-se<br \/>\npor uma vez de uma coisa! a rep\u00fablica \u00e9 muito bonita, \u00e9 muito boa sim senhor!<br \/>\npor\u00e9m n\u00e3o \u00e9 ainda para os nossos bei\u00e7os! A rep\u00fablica aqui vinha dar em anarquia!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea exagera, seu Sebasti\u00e3o<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 ainda para os nossos bei\u00e7os, repito! n\u00f3s n\u00e3o estamos preparados para<br \/>\na rep\u00fablica! O povo n\u00e3o tem instru\u00e7\u00e3o! \u00c9 ignorante! e burro! n\u00e3o conhece os<br \/>\nseus direitos!<\/p>\n<p>&#8211; Mas venha c\u00e1! replicou o Casusa, fechando no ar a sua m\u00e3o p\u00e1lida e encardida<br \/>\nde cigano. Diz voc\u00ea que o povo n\u00e3o tem instru\u00e7\u00e3o; muito bem! Mas, como quer<br \/>\nvoc\u00ea que o povo seja institu\u00eddo num pa\u00eds, cuja riqueza se baseia na escravid\u00e3o<br \/>\ne com um sistema de governo que tira a sua vida justamente da ignor\u00e2ncia das<br \/>\nmassas?&#8230; Por tal forma, nunca sairemos deste circulo vicioso! N\u00e3o haver\u00e1<br \/>\nrep\u00fablica enquanto o povo for ignorante, ora, enquanto o governo for mon\u00e1quico<br \/>\nconservar\u00e1, por conveni\u00eancia pr\u00f3pria, a ignor\u00e2ncia do povo; logo &#8211; nunca haver\u00e1<br \/>\nrep\u00fablica!<\/p>\n<p>&#8211; E ser\u00e1 o melhor!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o penso assim! Acho que ela devia vir, e quanto antes! tomara<br \/>\neu que rebentasse por ai uma revolu\u00e7\u00e3o: s\u00f3 para ver o que sala! Creio que<br \/>\nsomente quando tudo isto ferver, a porcaria ir\u00e1 na espuma! E ser\u00e1 espuma de<br \/>\nsangue, seu Sebasti\u00e3o!&#8230; Acredite, meu rico, que n\u00e3o h\u00e1 Maranh\u00e3o como este!<br \/>\nIsto nunca deixar\u00e1 de ser uma col\u00f4nia portuguesa!&#8230; O alto governo n\u00e3o faz<br \/>\ncaso das prov\u00edncias do Norte! A tal centraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um logro para n\u00f3s! ao<br \/>\npasso que, se isto fosse dividido em departamento, cada prov\u00edncia cuidaria<br \/>\nde si e havia de ir pra diante, porque n\u00e3o tinha de trabalhar para a Corte!<br \/>\na insaci\u00e1vel cortes\u00e3! &#8211; E o Casusa gesticulava indignado. &#8211; Mas o que quer<br \/>\nvoc\u00ea?! O governo tem parentes tem afilhados tem comitivas, tem salvas tem<br \/>\nma\u00e7ap\u00e3es tem o diabo! e para isso e preciso cobre! cobre! O povo esta a\u00ed,<br \/>\nque pague! Tome imposto pra baixo e deixa correr o pau para Caxias!<\/p>\n<p>E, chegando a boca a uma orelha do outro: &#8211; Olhe meu Sebasti\u00e3o, aqui no Brasil<br \/>\nvale mais a pena ser estrangeiro que filho da terra!&#8230; Voc\u00ea n\u00e3o esta vendo<br \/>\ntodos os dias os nacionais perseguidos e desrespeitados, ao passo que os portugueses<br \/>\nv\u00e3o se enchendo, v\u00e3o se enchendo, e as duas por tr\u00eas s\u00e3o comendadores s\u00e3o<br \/>\nbar\u00f5es, s\u00e3o tudo! Uma revolu\u00e7\u00e3o! exclamou repelindo o Campos com ambas as<br \/>\nm\u00e3os Uma revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 do que precisamos!<\/p>\n<p>&#8211; Qual revolu\u00e7\u00e3o o qu\u00ea! Voc\u00ea \u00e9 um crian\u00e7ola seu Casusa e ainda n\u00e3o pensa<br \/>\nseriamente na vida! Deixe estar que em tempo julgar\u00e1 as coisas a meu modo,<br \/>\nporque em nossa lena . Que idade tem voc\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Entrei nos vinte e seis.<\/p>\n<p>&#8211; Eu tenho quarenta e quatro&#8230; em nossa terra est\u00e3o se vendo constantemente<br \/>\nentradas de le\u00e3o e sa\u00eddas de sendeiro!&#8230; Voc\u00ea acha que a rep\u00fablica convinha<br \/>\nao Brasil! pois bem&#8230; Ai!<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; O dente! diabo!<\/p>\n<p>E, depois de uma pausa<\/p>\n<p>&#8211; Adeus. At\u00e9 logo, disse cobrindo o rosto com o len\u00e7o e afastando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe! Espere, seu Sebasti\u00e3o gritava o Casusa, querendo det\u00ea-lo, empenhado<br \/>\nna palestra.<\/p>\n<p>&#8211; Nada! Vou ali ao Maneca Barbeiro curar este maldito!<\/p>\n<p>E separaram-se.<\/p>\n<p>Entretanto, na noite desse mesmo dia, quando o rel\u00f3gio de Raimundo marcava<br \/>\nonze horas, acabava este de aprontar as suas malas.<\/p>\n<p>&#8211; Bom! -E sacudiu as mangas da camisa, que o suor prendia aos bra\u00e7os.-Amanha<br \/>\na estas horas j\u00e1 estou longe daqui!&#8230;<\/p>\n<p>Em seguida, assentou-se \u00e0 secret\u00e1ria e tirou da pasta uma folha de pape!,<br \/>\nescrita de princ\u00edpio a fim com uma letra mi\u00fada e \u00e0s vezes tremida. Releu tudo<br \/>\natentamente, dobrou a folha, meteu-a num envelope e subscritou-o a &#8220;Ex\u00aa Sr.\u00aa<br \/>\nD. Ana Rosa de Sousa e Silva&#8221;. Depois quedou-se a fitar este nome, como se<br \/>\ncontemplasse uma fotografia.<\/p>\n<p>&#8211; Deixemo-nos de fraquezas!&#8230;<\/p>\n<p>E levantou-se.<\/p>\n<p>Fazia um grande sil\u00eancio nas ruas ao longe ladrava tristemente um c\u00e3o, e,<br \/>\nde vez em quando ouviam-se ecos de uma m\u00fasica distante. E Raimundo, ali, no<br \/>\ndesconforto do seu quarto, sentia-se mais s\u00f3 do que nunca; sentia-se estrangeiro<br \/>\nna sua pr\u00f3pria tenra, desprezado e perseguido ao mesmo tempo. &#8220;E tudo, por<br \/>\nqu\u00ea?&#8230; pensava ele, porque sucedera sua m\u00e3e n\u00e3o ser branca!&#8230; Mas do que<br \/>\nservira ent\u00e3o ter-se instru\u00eddo e educado com tanto esmero? do que servira<br \/>\na sua conduta reta e a inteireza do seu car\u00e1ter?&#8230; Para que se conservou<br \/>\nimaculado?&#8230; para que diabo tivera ele a pretens\u00e3o de fazer de si um homem<br \/>\n\u00fatil e sincero?&#8230;&#8221; E Raimundo revoltava-se. &#8220;Pois, melhores que fossem as<br \/>\nsuas inten\u00e7\u00f5es todos ali o evitavam, porque a sua pobre m\u00e3e era preta e fora<br \/>\nescrava? Mas que culpa tinha ele em n\u00e3o ser branco e n\u00e3o ter nascido livre?..<br \/>\nN\u00e3o lhe permitam casar com uma branca? De acordo! V\u00e1 que tivessem raz\u00e3o! mas<br \/>\npor que insult\u00e1-lo e persegui-lo? Ah! amaldi\u00e7oada fosse aquela maldita ra\u00e7a<br \/>\nde contrabandistas que introduziu o africano no Brasil! Maldita! mi! vezes<br \/>\nmaldita! Com ele quantos desgra\u00e7ados n\u00e3o sofriam o mesmo desespero e a mesma<br \/>\nhumilha\u00e7\u00e3o sem rem\u00e9dio? E quantos outros n\u00e3o gemiam no tronco, debaixo do<br \/>\nrelho? E lembrar-se que ainda havia surras e assass\u00ednios irrespons\u00e1veis tanto<br \/>\nnas fazendas como nas capitais!&#8230; Lembrar-se de que ainda nasciam cativos<br \/>\nporque muitos fazendeiros, apalavrados com o vig\u00e1rio da freguesia batizavam<br \/>\ning\u00eanuos como nascidos antes da lei do ventre livre!&#8230; Lembrar-se que a conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\nde tanta perversidade seda uma gera\u00e7\u00e3o de infelizes, que teriam de passar<br \/>\npor aquele inferno em que ele agora se debatia vencido! E ainda o governo<br \/>\ntinha escr\u00fapulo de acabar por uma vez com a escravatura; ainda dizia descaradamente<br \/>\nque o negro era uma propriedade, como se o roubo, por ser comprado e revendido<br \/>\nem primeira m\u00e3o ou em segunda, ou em mil\u00e9sima, deixasse por isso de ser um<br \/>\nroubo para ser uma propriedade!<\/p>\n<p>E continuando a pensar neste terreno muito excitado, Raimundo dispunha-se<br \/>\na dormir, impaciente pelo dia seguinte, impaciente por verse bem longe do<br \/>\nMaranh\u00e3o. dessa miser\u00e1vel prov\u00edncia que &#8216;i e custara tantas decep\u00e7\u00f5es e desgostos;<br \/>\ndessa terrinha da intriga mi\u00fada e das invejas pequeninas! Desejava arrancar-se<br \/>\npara sempre daquela ilha venenosa e trai\u00e7oeira, mas pungia-lhe uma grande<br \/>\nm\u00e1goa de perder Ana Rosa eternamente. Amava-a cada vez mais!<\/p>\n<p>&#8211; Ora sebo! interrompeu-se. E eu a pensar nisto!&#8230; Tenho tudo liquidado<br \/>\ne pronto!&#8230; Amanh\u00e3 est\u00e1 a\u00ed o vapor e&#8230; adeus! adeus queridos atenienses!<\/p>\n<p>E, afetando tranq\u00fcilidade, acendeu um cigarro.<\/p>\n<p>Nisto, caiu na sala uma carta que meteram pelas r\u00f3tulas da janela. Raimundo<br \/>\napoderou-se dela e leu no subscrito: &#8220;Ao Dr. Raimundo.&#8221; Teve um estremecimento<br \/>\nde prazer, imaginando fosse de Ana Rosa, mas era simplesmente uma carta an\u00f4nima.<\/p>\n<p>&#8220;Ilustre canalha:<\/p>\n<p>Ent\u00e3o V.S.\u00aa muda-se amanh\u00e3?&#8230; Se \u00e9 verdade! agrade\u00e7o-lhe o obs\u00e9quio em nome<br \/>\nda prov\u00edncia. Creia, meu caro senhor, que ser\u00e1 talvez o primeiro ato judicioso<br \/>\nque V.S.\u00aa pratica em sua r ida t\u00e3o aventurosa porque nos j\u00e1 temos por c\u00e1 muita<br \/>\npomada e n\u00e3o precisamos mais dessa fazenda. Honre-nos com a sua aus\u00eancia e<br \/>\nfa\u00e7a-nos o especial obs\u00e9quio de ficar-se por \/\u00e1 o maior tempo que poder! Quem<br \/>\ndisse a V.S.\u00aa que isto aqui \u00e9 uma tenra de be\u00f3cios, onde os pedantes arranjam<br \/>\nbons casamentos, debicou-o, respeit\u00e1vel senhor, debicou-o redondamente. J\u00e1<br \/>\nse n\u00e3o amarram c\u00e3es com ling\u00fci\u00e7a. No entanto, se vir a prima d\u00ea-lhe lembran\u00e7as.<br \/>\n&#8221;<\/p>\n<p>Assinava: &#8220;O Mulato disfar\u00e7ado .<\/p>\n<p>Raimundo sorriu, amarrotou a folha de papel e lan\u00e7ou-a ao ch\u00e3o<\/p>\n<p>&#8211; Coitados! disse, e foi p\u00f4r-se \u00e0 janela.<\/p>\n<p>A\u00ed ficou longo tempo, debru\u00e7ado no peitoril, a olhar a escurid\u00e3o da noite,<br \/>\nonde os bicos de g\u00e1s se acusavam tristemente, muito distantes uns dos outros.<br \/>\nA Rua de 530 Pantale\u00e3o tinha um sil\u00eancio de cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>Bateu uma badalada, ao longe.<\/p>\n<p>&#8211; Devem ser duas e meia.<\/p>\n<p>Raimundo fechou a janela e recolheu-se \u00e0 cama. Levantou-se de novo, tornou<br \/>\na apanhar a carta e releu-a. S\u00f3 a assinatura o irritou.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e3es! disse.<\/p>\n<p>E soprou a vela.<\/p>\n<p>Come\u00e7avam ent\u00e3o as chuvas, que no Maranh\u00e3o chamam &#8220;de caju&#8221;; o vento soprou<br \/>\ncom mais for\u00e7a, esfuziando nas ripas do telhado. Em breve, o c\u00e9u peneirava<br \/>\num chuvisco fino e passageiro. Na rua, n\u00e3o obstante, um trovador de esquina,<br \/>\ncantava ao viol\u00e3o<\/p>\n<p>&#8220;Quis debalde varrer-te da mem\u00f3ria, E teu nome arrancar do cora\u00e7\u00e3o. Amo-te<br \/>\nsempre, que mart\u00edrio infindo! Tem a for\u00e7a da morte esta paix\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte Manuel levantou-se antes dos caixeiros vestiu-se ainda<br \/>\ncom a meia claridade da aurora e endireitou para a casa de Diogo.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e9! voc\u00ea madrugou, compadre! disse-lhe o c\u00f4nego da janela, onde fazia<br \/>\na barba em mangas de camisa.<\/p>\n<p>&#8211; E verdade. Vim busc\u00e1-lo para o embarque do Mundico<\/p>\n<p>&#8211; Tem tempo. V\u00e1 subindo, compadre, que lhe vou dar um cafezinho fazenda!<\/p>\n<p>E, voltando-se para o interior da casa:<\/p>\n<p>&#8211; Anda com isso, \u00f3 In\u00e1cia! que temos de sair mais cedo! gritava ele, enquanto<br \/>\nestendia com pachorra, em um paninho de barba, a espuma do sab\u00e3o que tirava<br \/>\ndo queixo.<\/p>\n<p>&#8211; Compadre, v\u00e1 estando \u00e0 vontade e diga o que h\u00e1 de novo.<\/p>\n<p>A caseira entrou com uma bandeja, onde vinha o caf\u00e9, um pires de papa, uma<br \/>\ngarrafa de licor c\u00e1lices.<\/p>\n<p>&#8211; Vai uma papinha, compadre?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, obrigado. Quero o caf\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu c\u00e1 n\u00e3o passo sem ela, mais o meu caf\u00e9 e o meu chartreuse&#8230; V\u00e1<br \/>\num calicezinho, seu Manuel! Que tal? Deste \u00e9 que n\u00e3o vem para neg\u00f3cio hein?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Decerto! n\u00e3o vale a pena! Mas com efeito, \u00e9 papa-fina.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o outro, v\u00e1 outro, compadre, isto nunca sobe logo \u00e0 primeira dose&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o vai a matar..<\/p>\n<p>&#8211; Assim! agora um gole de caf\u00e9. . Hein? E o que me diz do caf\u00e9?,,<\/p>\n<p>&#8211; Soberbo! Do Rio, n\u00e3o e verdade?<\/p>\n<p>&#8211; Qual Rio! muito bom Cear\u00e1! Acredite, seu compadre, que o melhor caf\u00e9 do<br \/>\nBrasil \u00e9 o do Cear\u00e1!&#8230; E esta crioula, que o trouxe, \u00e9 mestra em pass\u00e1-lo!&#8230;<br \/>\nNunca vi! para um caf\u00e9 e para uma papa de araruta com ovos, n\u00e3o h\u00e1 outra!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego passou a vestir-se esticando muito as suas meias de seda escarlate;<br \/>\ncal\u00e7ando, com a cal\u00e7adeira de tartaruga, os seus sapatos de polimento azeitado,<br \/>\ncujos fivelas levantavam cintila\u00e7\u00f5es. Enfiou depois a batina de merin\u00f3 lustroso,<br \/>\nameigando a barriga redonda e carnuda, saracoteando-se todo, a sacudir a perninha<br \/>\ngorda, indo ao espelho do toucador alcochetar no pesco\u00e7o a sua volta de rendas<br \/>\nalvas. Estava limpo, cheiroso e penteado; tinha, no rosto escanhoado e nos<br \/>\nan\u00e9is dos seus cabelos brancos, uns tons frescos de fidalgo velho e namorador;<br \/>\no crista! dos \u00f3culos redobrava-lhe o brilho dos olhos, e o seu chap\u00e9u novo,<br \/>\nde tr\u00eas bicos, elegantemente derreado um pouco para a esquerda, dava \u00e0 sua<br \/>\ncabe\u00e7a distinta e ao seu rosto todo barbeado o ar pitoresco e nobre dos cortes\u00e3os<br \/>\ndo s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p>&#8211; Quando quiser, compadre, estou as suas ordens&#8230; lembrou ele a Manuel,<br \/>\nque fumava um cigarro \u00e0 janela, pensativo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o vamos indo. O homem talvez j\u00e1 esteja \u00e0 nossa espera.<\/p>\n<p>E sa\u00edram.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 levantava-se bonita. As cal\u00e7adas de cantaria secavam a umidade da noite<br \/>\naos primeiros raios do sol. Ouviam-se tinir nas pedras os saltos dos sapatos<br \/>\ndo padre. Passavam os trabalhadores para as suas obriga\u00e7\u00f5es; o padeiro com o<br \/>\nsaco \u00e0s costas; a lavadeira, em caminho da fonte, com a trouxa de roupa suja<br \/>\nequilibrada na cabe\u00e7a; pretas-minas apregoavam &#8220;Mingau de milho!; os escravos<br \/>\ndesciam para o a\u00e7ougue com a cesta das compras enfiada no bra\u00e7o; das quintas<br \/>\nchegavam os vendedores de hortali\u00e7as, com os seus tabuleiros acumulados de folhas<br \/>\ne legumes. E todos cumprimentavam respeitosamente o c\u00f4nego, e ele a todos respondia:<br \/>\n&#8220;Viva!&#8221; Algumas crian\u00e7as, em caminho da escola, iam, de bon\u00e9 na m\u00e3o, beijar-lhe<br \/>\no anel.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea de que ele j\u00e1 est\u00e1 \u00e0 nossa espera?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 natural! respondeu Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenha medo! \u00c9 muito cedo ainda &#8211; e consultou o rel\u00f3gio. &#8211; Podemos ir<br \/>\nmais devagar. Ele s\u00f3 chegar\u00e1 daqui a uma hora. Ainda n\u00e3o s\u00e3o sete.<\/p>\n<p>&#8211; Estou impaciente por v\u00ea-lo pelas costas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tardar\u00e1 muito. E a pequena, como ficou?<\/p>\n<p>&#8211; Assim; menos ma\u00e7ada do que eu esperava&#8230; E que aquilo passou-lhe.<\/p>\n<p>&#8211; E o outro?<\/p>\n<p>&#8211; O Dias?<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Por ora&#8230; nada.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de chegar! h\u00e1 de chegar!&#8230; afirmou o c\u00f4nego ar de experi\u00eancia. Labor<br \/>\nimprobus omnia vincit!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como?<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo e um marido que conv\u00e9m \u00e0 Anica!&#8230;<\/p>\n<p>Assim conversando, ao lado um do outro, acharam-se na rampa de Pal\u00e1cio<\/p>\n<p>Ainda pouca gente l\u00e1 havia.<\/p>\n<p>&#8211; Um bote, patr\u00e3ozinho! exclamou um rampeiro, aprumando-se defronte de Manuel<br \/>\ne descobrindo a cabe\u00e7a com arremesso.<\/p>\n<p>&#8211; Espere, deixe ver se est\u00e1 o Z\u00e9 Isca, que \u00e9 fregu\u00eas.<\/p>\n<p>O catraieiro afastou-se lentamente, jogando o corpo, no seu andar de pernas<br \/>\nabertas. Os dois desceram ao cais. Apareceu o Isca, e contratou-se a viagem.<\/p>\n<p>&#8211; Patr\u00e3o, podemos ir?<\/p>\n<p>&#8211; Deixe vir o doutor. \u00c9 preciso esper\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O padre observou que tinha ido cedo demais, enquanto Manuel fazia SS no ch\u00e3o<br \/>\ncom a biqueira do guarda-sol.<\/p>\n<p>&#8211; Homem! este vapor assim mesmo fez desta vez uma viagenzinha bem boa!&#8230;<br \/>\ndisse o primeiro, provocando palestra.<\/p>\n<p>&#8211; Quinze dias.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o?&#8230; quando saiu de do Rio?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; No dia dois.<\/p>\n<p>&#8211; Daqui a outros quinze est\u00e1 por l\u00e1!&#8230; calculou o c\u00f4nego.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, leva menos! para l\u00e3 e muito mais favor\u00e1vel a viagem&#8230; onze, doze,<br \/>\ntreze dias e o m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>No fim de algum tempo aborreciam-se de esperar Manuel havia fumado j\u00e1 quatro<br \/>\ncigarros. Raimundo demorava-se<\/p>\n<p>&#8211; Isto j\u00e1 s\u00e3o oito horas! quantas tem voc\u00ea, compadre?<\/p>\n<p>&#8211; Oito e um quarto. O rapaz com certeza descuidou-se!&#8230; \u00d3 seu Manuel de<br \/>\nsabe que o vapor sai as dez?<\/p>\n<p>&#8211; Como n\u00e3o? se ainda ontem \u00e0 tarde lho mandei dizer!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o h\u00e1 de ser alguma despedida mais demorada&#8230; explicou o c\u00f4nego com um<br \/>\nrisinho velhaco. Fugit irreparabile tempus!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isto vai, mas e esquentando demais, seu compadre.<\/p>\n<p>E Manuel limpava e tomava a limpar o car\u00e3o vermellho, estendendo pela rampa<br \/>\num olhar suplicante, que parecia chamar o sobrinho.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos c\u00e1 para a guardamoria, aconselhou o outro, resguardando-se do sol.<\/p>\n<p>Um empregado obsequioso ofereceu-lhe logo duas cadeiras.<\/p>\n<p>&#8211; V.S.\u00aa por que n\u00e3o se sentam?&#8230; Tenham a bondade de estar a gosto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, obrigado, meu amigo!<\/p>\n<p>E assentaram-se impacientes.<\/p>\n<p>&#8211; V.S.\u00aa vem ao bota-fora do doutor Raimundo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E! Ele j\u00e1 desceu?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o o vi ainda, n\u00e3o senhor; porem n\u00e3o poder\u00e1 tardar. V\u00e3o se fazendo horas!&#8230;<\/p>\n<p>Um assovio muito agudo deu o primeira sinal de bordo, chamando os \u00faltimos<br \/>\npassageiro Manuel levantou-se logo, foi ate \u00e0 porta, lambeu com um olhar o<br \/>\ntrapiche, consultou sequioso a ladeira de Pal\u00e1cio: &#8220;Nada!&#8221; Olhou para o rel\u00f3gio,<br \/>\no ponteiro or\u00e7ava pelas nove. &#8220;Ora sebo! Entendam-se l\u00e1 com semelhante gente!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A rampa j\u00e1 se tinha enchido e j\u00e1 se ia esvaziando. Grupos demorados acenavam<br \/>\nde terra com o len\u00e7o para os escaleres que fugiam; choravam com o rosto escondido<br \/>\nnas m\u00e3os; outros abra\u00e7avam-se por cortesia. Ao lado de protestos e oferecimentos<br \/>\noficiais, ouviam-se frases quentes de sinceridade, arrancadas pela dor; diziam-se<br \/>\nternuras; davam-se conselhos; faziam-se car\u00edcias; expunham-se, ai, ao ar livre,<br \/>\nem meio do publico o amor e o desespero, como se estivessem entre fam\u00edlia,<br \/>\nno segredo da casa. Os botes largavam com grande algazarra dos catraieiros.<br \/>\nNingu\u00e9m mais se entendia. Os ganhadores passavam correndo, com as costas carregadas<br \/>\nde malas, de ba\u00fas e gaiolas de papagaio. Havia grandes encontr\u00f5es. Uma mulatinha<br \/>\nescrava, gritava que nem doida, l\u00e1 no fim da rampa, com os p\u00e9s na \u00e1gua, agitando<br \/>\nos bra\u00e7os solu\u00e7ando, porque lhe levavam a irm\u00e3 mais velha, vendida para o<br \/>\nRio. Os tripulantes praguejavam; os barcos enchiam-se numa confus\u00e3o, e a lanchinha<br \/>\ndo Portal guinchava de instante a instante silvos que ensurdeciam.<\/p>\n<p>E Raimundo &#8211; nada de chegar!<\/p>\n<p>Pouco a pouco foram rareando os grupos. Enxugavam-se os olhos; guardavam-se<br \/>\nos len\u00e7os, e os amigos e parentes dos que partiam retiravam se em magotes,<br \/>\ncom o passo frouxo, a cara congestionada na ressaca das como\u00e7\u00f5es. O empregado<br \/>\nda policia externa do porto voltou da sua visita ao navio. S\u00f3 os exportadores<br \/>\nde escravos permaneciam encostados ao port\u00e3o do cais, para ver a \u00faltima baforada<br \/>\ndo monstro a que confiavam um bom carregamento de negros.<\/p>\n<p>A rampa recaiu afinal no seu habitual sossego, e Raimundo nada de aparecer.<\/p>\n<p>Manuel suava.<\/p>\n<p>&#8211; E esta?! perguntou furioso ao c\u00f4nego. O que me diz desta, seu compadre?!<\/p>\n<p>O c\u00f4nego n\u00e3o respondeu. Cismava.<\/p>\n<p>Nisto, chegou uma carruagem, a rodar vertiginosamente. Os que esperavam Raimundo<br \/>\nacudiram, de pesco\u00e7o estirado.<\/p>\n<p>&#8211; Deve ser ele!&#8230; aventou o c\u00f4nego.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo! rosnou Manuel, ao ver saltar um homem e entrar l\u00e9pido na guardamoria.<\/p>\n<p>N\u00e3o era Raimundo.<\/p>\n<p>O vapor chamava, insistia com os seus guinchos impacientes e sibilantes.<br \/>\nO rec\u00e9m-chegado arrastou uma pequena mala para a rua e entregou-a ao primeiro<br \/>\ncatraieiro, que pulou de uma nuvem deles.<\/p>\n<p>&#8211; Avia, rapaz! Pega da\u00ed &#8211; E mostrava os outros volumes. &#8211; Ligeiro! Ligeiro!<\/p>\n<p>O homem do bote atirou com a bagagem num escaler, gritando para um moleque<br \/>\nque o ajudava:<\/p>\n<p>&#8211; Anda! mexe-te! sen\u00e3o arriscamos a n\u00e3o alcan\u00e7ar o vapor!<\/p>\n<p>Estas ultimas palavras acabaram de p\u00f4r Manuel fora de si. A pobre criatura suava<br \/>\ncomo o fundo de um prato de sopa.<\/p>\n<p>&#8211; E esta, seu compadre?! E esta?! O que me diz desta?!<\/p>\n<p>O c\u00f4nego n\u00e3o dava palavra, fazia considera\u00e7\u00f5es \u00edntimos sorrindo amargamente<br \/>\n\u00e0 superf\u00edcie dos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! ora! ora! &#8211; E o negociante passeava a grandes pernadas na guardamoria.-Ora!<br \/>\nora, senhores! Esta s\u00f3 a mim!<\/p>\n<p>O c\u00f4nego bateu com o chap\u00e9u-de sol no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Astutos astu non capitur!<\/p>\n<p>Os empregados da guardamoria, vestidos de farda, e os curiosos desocupados,<br \/>\nque ali estavam por distra\u00e7\u00e3o, faziam perguntas a Manuel a respeito de Raimundo,<br \/>\nsatisfeitos com aquele epis\u00f3dio prometedor de esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Arriscavam-se j\u00e1 os coment\u00e1rios e as opini\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Homem, dizia um. Ele, c\u00e1 pra nos, nunca me pareceu grande coisa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb\u00e9m, acrescentava outro, a falar verdade, nunca pude tragar aquele<br \/>\ncara de m\u00e1scara!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu c\u00e1 sabia que ele n\u00e3o havia de ir!<\/p>\n<p>&#8211; Nem ir\u00e1 mais! Pilhou-se aqui, adeus!<\/p>\n<p>&#8211; Mas que grande patife! Sim senhor!<\/p>\n<p>&#8211; Ora! ora, que filho da m\u00e3e! resmungava Manuel, a dar voltas no ar com o<br \/>\nseu imenso chap\u00e9u-de-sol.<\/p>\n<p>Mas todos correram para a porta, porque uma nova carruagem puxada com sofreguid\u00e3o<br \/>\nencheu de tropel a Rua do Trapiche.<\/p>\n<p>\u00c9 o tipo com certeza! bradou um sujeito. A bons horas!<\/p>\n<p>Fez-se no grupo um sil\u00eancio ansioso. A sege estacou em frente \u00e0 guardamoria.<br \/>\nMas ainda desta vez n\u00e3o era Raimundo.<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>XV<\/h2>\n<p>O paquete havia entrado, na v\u00e9spera, \u00e0s duas horas da tarde, fundeando com<br \/>\num tiro, a que todo o litoral da cidade respondeu com um grito alegre de &#8220;chegou<br \/>\nvapor!&#8221; e, desde esse momento, Ana Rosa possu\u00edra-se de um sobressalto constante<br \/>\nque a punha enferma; sabia que nele se iria Raimundo, para sempre. &#8220;Raimundo,<br \/>\nque ela tanto amara e tanto desejara!&#8230; Todavia, era preciso deix\u00e1-lo partir,<br \/>\nsem uma queixa, sem Uma recrimina\u00e7\u00e3o, porque todos, at\u00e9 o pr\u00f3prio ingrato,<br \/>\nassim o entendiam!&#8230; E que loucura de sua parte estar ainda a pensar nessas<br \/>\ncoisas!&#8230; Pois j\u00e1 n\u00e3o estava porventura tudo acabado?&#8230; para que ent\u00e3o mortificar-se<br \/>\nainda com semelhante doidice?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, preferia perdoar-lhe tudo, antes que ele se partisse para nunca<br \/>\nmais voltar. Passou uma noite horr\u00edvel \u00e0 procura de um motivo, um pretexto<br \/>\nqualquer para absolver o amante, sentia Uma irresist\u00edvel vontade de fazer<br \/>\nde si uma vitima resignada capaz de comover o cora\u00e7\u00e3o menos humano. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\no queria; n\u00e3o contava com ele para mais nada, por Deus que n\u00e3o contava! mas<br \/>\ndesejava v\u00ea-lo arrependido de tamanha ingratid\u00e3o humilhado. triste padecendo<br \/>\npor faz\u00ea-la sofrer daquele modo e confessando as suas culpas e a sua crueldade.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! se ele me tivesse dado coragem!&#8230; monologava a m\u00edsera, o que eu n\u00e3o<br \/>\nfaria?&#8230; porque o amava muito! muito! Sim! \u00e9 preciso confessar que o amava<br \/>\nloucamente!&#8230; Mas aquele sil\u00eancio&#8230; Sil\u00eancio? Que digo eu?&#8230; Desprezo!<br \/>\naquele desprezo insultuoso por mim, que era toda sua, colocou-o abaixo dos<br \/>\noutros homens! Pois ent\u00e3o ele t\u00e3o nobre t\u00e3o leal com todos, devia proceder<br \/>\nassim comigo?&#8230; Abandonar-me em semelhante ocasi\u00e3o, quando sabia perfeitamente<br \/>\nque eu precisava, mais do que nunca, da sua energia e da sua firmeza?&#8230; Desconfiaria<br \/>\nde que n\u00e3o o amava? N\u00e3o! falei-lhe com tanta franqueza&#8230; Ah! e ele sabe perfeitamente<br \/>\nque n\u00e3o se pode fingir o que lhe disse, o que chorei! Sim sim, tinha plena<br \/>\ncerteza, o miser\u00e1vel! o que lhe faltava era amor! Nunca me estimou sequer.<br \/>\nOu pensaria ele que eu seria capaz como as outras de sacrificar meu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\naos preconceitos sociais?&#8230; Mas, ent\u00e3o, por que n\u00e3o me falou com franqueza?&#8230;<br \/>\nn\u00e3o me escreveu ao menos?.. n\u00e3o me disse que tamb\u00e9m sofria e n\u00e3o me deu animo?&#8230;<br \/>\nPorque, juro, tivesse-o eu, possu\u00edsse-o s\u00f3 meu, como marido, como escravo,<br \/>\ncomo senhor, a tudo mais desprezaria! Juro que desprezada! Que me importava<br \/>\nl\u00e1 o resto?! e o que eu n\u00e3o seria capaz de fazer por aquele ingrato, aquele<br \/>\nhomem mau e orgulhoso?!<\/p>\n<p>E Ana Rosa solu\u00e7ava, sem conseguir conciliar o sono.<\/p>\n<p>\u00c0s seis da manh\u00e3 estava de p\u00e9 e vestida no seu quarto. Manuel tinha saldo<br \/>\na ir buscar o c\u00f4nego para o embarque de Raimundo. Maria Barbara, ainda de<br \/>\nrede, preparava os seus cachos de seda, mirando-se num espelho, que a Br\u00edgida<br \/>\nsegurava com ambas as m\u00e3os, ajoelhada defronte dela.<\/p>\n<p>Havia em toda a casa o triste constrangimento dos dias de enterro. Ana Rosa,<br \/>\nao aparecer na varanda, trazia os olhos muito pisados e a cor desbotada, um<br \/>\nar geral de fadiga espalhado por todo o corpo e duas rosetas de febre nas<br \/>\nfaces.<\/p>\n<p>Serviram-lhe uma canequinha de caf\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Onde esta vov\u00f3? perguntou ela com a voz fraca.<\/p>\n<p>&#8211; Esta l\u00e1 pra dentro respondeu o moleque cruzando os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, Benedito! dize-lhe que&#8230; Est\u00e1 bom n\u00e3o lhe digas coisa alguma&#8230;<\/p>\n<p>E, arrastando vagarosamente a cauda do seu vestido de cambraia e, dando as<br \/>\nsuas tran\u00e7as castanhas, pesadas e fartas ondula\u00e7\u00f5es de cobra pregui\u00e7osa, ia<br \/>\nvoltar, toda irresoluta, para o quarto, quando se deteve com medo de ficar<br \/>\nl\u00e3 dentro sozinha com a impetuosidade do seu amor e a feminilidade da sua<br \/>\nraz\u00e3o. Agora causava-lhe terror o isolamento; receava que lhe faltasse coragem<br \/>\npara acabar decentemente com aquilo; desfalecera-lhe de todo a energia, que<br \/>\nela afetara ate a\u00ed; ao contr\u00e1rio da v\u00e9spera, precisava naquele momento ouvir<br \/>\ndizer muito mal de Raimundo, para poder consentir em perd\u00ea-lo, sem ficar com<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o inteiramente despeda\u00e7ado. Compreendia que precisava de algu\u00e9m que<br \/>\na convencesse das mas qualidades de semelhante impostor, algu\u00e9m que a persuadisse,<br \/>\npor uma vez, de que o miser\u00e1vel nunca a merecera, de que de fora sempre um<br \/>\nindigno; algu\u00e9m que a obrigasse a detest\u00e1-lo com desprezo, como a um ente<br \/>\nnojento e venenoso; precisava afinal de uma alma caridosa, que lhe arrancasse<br \/>\nde dentro, \u00e0 pura for\u00e7a, aquele amor, como o medico arranca uma crian\u00e7a a<br \/>\nfeno.<\/p>\n<p>E no entanto, por mais alto que reclamassem as circunst\u00e2ncias e por mais<br \/>\nforte que gritasse o racioc\u00ednio, seu cora\u00e7\u00e3o s\u00f3 queria perdoar, e atrair o<br \/>\nseu amado e dizer-lhe francamente que, apesar de tudo, o estremecia ainda<br \/>\ncomo sempre, mais que nunca! A realidade estava ali a exigir em honra do seu<br \/>\norgulho, que tudo aquilo se acabasse sem um protesto por parte dela; a exigir<br \/>\nque Raimundo partisse, que se fosse por uma vez e que Ana Rosa ficasse tranq\u00fcila,<br \/>\nao abrigo de seu pai, mas uma voz chorava-lhe dentro, uma voz fraca de orf\u00e3o<br \/>\ndesamparado, de criancinha sem m\u00e3e, a suplicar-lhe em segredo, com medo, que<br \/>\nn\u00e3o estrangulassem aquele primeiro amor, que era a melhor coisa de toda a<br \/>\nsua vida. E esses vagidos, t\u00e3o fracos na apar\u00eancia, suplantavam a voz grossa<br \/>\ne terr\u00edvel da raz\u00e3o. &#8220;Oh! era preciso ouvir muitas e muitas verdades contra<br \/>\naquele ingrato, para<\/p>\n<p>suportar tamanha prova\u00e7\u00e3o sem sucumbir! Era preciso que uma l\u00f3gica de ferro<br \/>\nem brasa a convencesse de que aquele homem mau nunca a amara e nunca a merecera!&#8221;<\/p>\n<p>Mandou o escravo chamar a av\u00f3. Benedito foi ter com Maria B\u00e1rbara; e a mo\u00e7a<br \/>\nficou s\u00f3 na varanda, encostada \u00e0 ombreira de uma porta a conter e reprimir<br \/>\nnos solu\u00e7os os \u00edmpetos dos seus desejos violentados, como se sofreasse um<br \/>\nbando de le\u00f5es feridos.<\/p>\n<p>Um tropel de passos r\u00e1pidos, que vinham da escada, sobressaltou-a, ia fugir,<br \/>\nmas Raimundo, aparecendo de improviso, suplicou-lhe com a voz tomada pela<br \/>\ncomo\u00e7\u00e3o, que o escutasse.<\/p>\n<p>Ana Rosa ficou est\u00e1tica.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o nos veremos mais, nunca mais, balbuciou o mo\u00e7o, empalidecendo. O vapor<br \/>\nsai daqui a poucas horas. L\u00ea essa carta, depois que eu tiver partido. Adeus.<\/p>\n<p>Entregou-lhe uma carta e, sentindo que lhe fugia de todo o animo, ia a descer,<br \/>\nmuito confuso, quando se lembrou de Maria B\u00e1rbara. Perguntou por ela, que<br \/>\nacudiu logo, e ele despediu-se, sem saber o que dizia, gaguejando. Ana Rosa,<br \/>\ndefronte de ambos, conservava-se im\u00f3vel parecia estonteada, neo dava uma palavra,<br \/>\nn\u00e3o respondia, n\u00e3o apresentava uma obje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, repetiu Raimundo.<\/p>\n<p>E tomou, tr\u00eamulo, a m\u00e3o que Ana Rosa tinha desamparada e mole apertou-a nas<br \/>\nsuas com sofreguid\u00e3o e, sem se importar com a presen\u00e7a de Maria B\u00e1rbara, levou-a<br \/>\nrepetidas vezes \u00e0 boca, cobrindo-a de beijos r\u00e1pidos e sequiosos. Depois desgalgou<br \/>\nde uma s\u00f3 carreira a escada dando encontr\u00f5es pela parede e trope\u00e7ando nos<br \/>\ndegraus.<\/p>\n<p>&#8211; Raimundo! gritou a mo\u00e7a com um gemido.<\/p>\n<p>E abra\u00e7ou-se \u00e0 av\u00f3 vibrando toda numa convuls\u00e3o de solu\u00e7os.<\/p>\n<p>O rapaz saiu e achou-se no meio da rua, distra\u00eddo apatetado, sem saber bem<br \/>\npara que lado tinha de tomar. &#8220;Ah! precisava ainda fazer algumas compras&#8230;&#8221;<br \/>\nP\u00f4s-se a avi\u00e1-las; nem havia tempo a perder correu \u00e0s lojas. Mas, independente<br \/>\nda sua vontade e do seu discernimento dentro dele alimentava-se por conta<br \/>\npr\u00f3pria, uma d\u00fabia esperan\u00e7a de que aquela viagem n\u00e3o se realizaria; contava<br \/>\ntopar com qualquer obst\u00e1culo que a transtornasse; confiava num desses aben\u00e7oados<br \/>\ncontratempos que nos acodem muito a prop\u00f3sito, quando a despeito do cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncumprimos o que nos manda o dever. Desejava um pretexto que lhe satisfazesse<br \/>\na consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Entrou em v\u00e1rias casas, comprou charutos, um par de chinelas, um bon\u00e9, mas<br \/>\nfazia tudo isto como por mera formalidade, como que para justificar-se aos<br \/>\nseus pr\u00f3prios olhos, cada vez mais abstrato sem prestar aten\u00e7\u00e3o a coisa alguma.<br \/>\nFoi ao armaz\u00e9m, em que mandara, logo ao romper do dia, depositar as suas malas;<br \/>\ncontava, ao entrar a\u00ed, receber a noticia de que elas j\u00e1 l\u00e1 n\u00e3o estavam, que<br \/>\nalgu\u00e9m as havia reclamado que algu\u00e9m as roubara, e esta circunst\u00e2ncia lhe<br \/>\nimpediria de sair por aquele vapor; mas qual! todos os seus objetos se achavam<br \/>\nintactos e respeitosamente vigiados. Mandou carregar tudo para a rampa e seguiu<br \/>\natr\u00e1s, esperando ainda que na Agencia lhe dariam a noticia de que a viagem<br \/>\nfora transferida para o dia seguinte.<\/p>\n<p>Pois sim!&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o havia rem\u00e9dio sen\u00e3o ir. Estava tudo pronto tudo conclu\u00eddo, s\u00f3 `lhe faltava<br \/>\nembarcar. Despedira-se de todos a quem devia essa fineza nada mais tinha que<br \/>\nfazer em tenra; as suas malas estavam j\u00e1 a caminho do cais &#8211; era partir!<\/p>\n<p>Senha um terr\u00edvel desgosto em aproximar-se do mar, e contudo era para l\u00e1<br \/>\nque ele se dirigia, vacilante, oprimido. Consultou o rel\u00f3gio, o ponteiro marcava<br \/>\npouco mais de oito horas e parecia-lhe como nunca disposto a adiantar-se.<br \/>\nO desgra\u00e7ado, depois disso perdeu de todo a coragem de pux\u00e1-lo da algibeira;<br \/>\naquela inflex\u00edvel diminui\u00e7\u00e3o do tempo o torturava profundamente. &#8220;Tinha de<br \/>\nseguir! Diabo! S\u00f3 lhe faltava meter-se no escaler!&#8230; Tinha de seguir! E,<br \/>\nda\u00ed a pouco estaria a bordo, e o paquete em breve navegando, a afastar-se,<br \/>\na afastar-se, sem tomar atr\u00e1s!&#8230; Tinha de seguir! isto \u00e9: tinha de renunciar,<br \/>\npara sempre a sua \u00fanica felicidade completa &#8211; a posse de Ana Rosa! l\u00e1 desaparecer<br \/>\ndeix\u00e1-la, para nunca mais a ver! para nunca mais a ouvir, abra\u00e7\u00e1-la possu\u00ed-la!<br \/>\nInferno!&#8221;<\/p>\n<p>E, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que Raimundo se aproximava da rampa sentia escorregar-lhe<br \/>\ndas m\u00e3os um tesouro precioso. Tinha medo de prosseguir, parava, respirando<br \/>\nalto, demorando-se, como se quisesse conservar por mais alguns instantes a<br \/>\nposse de um objeto querido, que depois nunca mais seria seu, mas a raz\u00e3o o<br \/>\nescoltava com um bando de racioc\u00ednios. &#8220;Caminha! caminha pra diante!&#8221; gritava-lhe<br \/>\na maldita. E ele obedecia, de cabe\u00e7a baixa, como um criminoso. Entretanto,<br \/>\nAna Rosa nunca se lhe afigurou t\u00e3o bela, t\u00e3o ador\u00e1vel, t\u00e3o completa e t\u00e3o<br \/>\nlhe como naquele momento! chegou a ter ci\u00fame e a censur\u00e1-la do intimo da sua<br \/>\ndor, porque a orgulhosa n\u00e3o correra ao<\/p>\n<p>encontro dele, para impedir aquela separa\u00e7\u00e3o. E ia deix\u00e1-la desamparada, exposta<br \/>\nao amor do primeiro ambicioso que se apresentasse, e a quem ela se daria inteira,<br \/>\nfiel, palpitante e casta, porque todo o seu ideal era ser m\u00e3e! &#8220;Inferno! Inferno!&#8221;<br \/>\nInferno!&#8221;<\/p>\n<p>Raimundo surpreendeu-se parado na rua, a fazer estas considera\u00e7\u00f5es, como<br \/>\num tonto, observado pelos transeuntes; olhou em tomo de si, e p\u00f4s-se a caminhar<br \/>\napressado, quase a correr, para a rampa de embarque. \u00c0 medida que se aproximava<br \/>\ndo mar, ia avultando ao seu lado o n\u00famero de carregadores de bagagens; pretos<br \/>\ne pretas passavam com ba\u00fas, malas de couro e de folha-de-flandres, cestas<br \/>\nde vime de todos os feitios, cofos de pindoba, caixas de chap\u00e9u de p\u00ealo e<br \/>\ngaiolas de p\u00e1ssaros. Ele continuava a correr. Todo aquele aparato de viagem<br \/>\nque lhe fazia mal aos nervos. De repente, estacou defronte de um racioc\u00ednio,<br \/>\nque lhe puxou aos olhos um clar\u00e3o de esperan\u00e7as: &#8220;E se o Manuel n\u00e3o tivesse<br \/>\nido ao cais?&#8230; Sim era bem poss\u00edvel que ele, sempre t\u00e3o cheio de servi\u00e7o,<br \/>\ncoitado! t\u00e3o ocupado, n\u00e3o pudesse l\u00e1 ir!&#8230; E seria uma dos diabos &#8211; partir<br \/>\nassim, sem lhe dizer adeus!&#8230;&#8221; E, como em resposta \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o de um estranho,<br \/>\nseu pensamento acrescentou: &#8220;Oh! como n\u00e3o? Seria uma dos diabos! O homem podia<br \/>\ntomar por acinte!&#8230; supor-me rid\u00edculo!&#8230; Seria, al\u00e9m disso, uma imperdo\u00e1vel<br \/>\ngrosseria, uma ingratid\u00e3o at\u00e9! Ele foi receber-me a bordo, hospedou-me no<br \/>\nseio da sua fam\u00edlia, cercou-me sempre de mi! obs\u00e9quios!&#8230; N\u00e3o, no fim de<br \/>\ncontas devo-lhe muitas obriga\u00e7\u00f5es!&#8230; N\u00e3o \u00e9 justo que agora parta sem despedir-me<br \/>\ndele!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Passava um cano vazio. Raimundo consultou rapidamente o rel\u00f3gio.<\/p>\n<p>&#8211; Rua da Estrela, n\u00famero 80, gritou ao cocheiro, atirando-se para cima da<br \/>\nalmofada. Toda for\u00e7a! Toda for\u00e7a! N\u00e3o podemos perder um minuto!<\/p>\n<p>E dentro do carro, impaciente, sentiu uma alegria nervosa, que lhe punha<br \/>\nem vibra\u00e7\u00e3o todo o corpo; enquanto a unha do remorso continuava a esgaravunchar-lhe<br \/>\na consci\u00eancia. &#8220;Oh! mas seria uma grande falta de minha parte!&#8230; respondia<br \/>\nele \u00e0 importuna. Pois eu devia sair daqui, para sempre sem me despedir do<br \/>\nirm\u00e3o de meu pai do \u00fanico amigo que encontrei na prov\u00edncia?&#8230; juro que chego<br \/>\nl\u00e1, despe\u00e7o-me e volto incontinenti&#8230;<\/p>\n<p>E a carruagem voava, soprada pela esperan\u00e7a de uma boa gorjeta.<\/p>\n<p>Ana Rosa, quando tornou a si do espasmo em que a prostara a visita de Raimundo,<br \/>\nchorou copiosamente e depois encerrou-se na alcova com a carta, que ele lhe<br \/>\ndera. Abriu-a logo, mas sem nenhuma esperan\u00e7a de consolo.<\/p>\n<p>Entretanto, a carta dizia:<\/p>\n<p>&#8220;Minha amiga,<\/p>\n<p>Por mais estranho que te pare\u00e7a, juro que te amo ainda, loucamente mais do<br \/>\nque nunca, mais do que eu pr\u00f3prio imaginava se pudesse amar; falo-te assim<br \/>\nagora, com tamanha franqueza, porque esta declara\u00e7\u00e3o j\u00e1 em nada poder\u00e1 prejudicar-te,<br \/>\nvisto que estarei bem longe de ti quando a leres Para que n\u00e3o te arrependas<br \/>\nde me haver escolhido por esposo e n\u00e3o me crimines a mim por me ter portado<br \/>\nsilencioso e covarde, defronte da recusa de teu pai, sabe minha querida amiga,<br \/>\nque<\/p>\n<p>o pior momento da minha pobre vida foi aquele em que vi fugir-te para sempre.<br \/>\nMas que fazer? &#8211; eu nasci escravo e sou filho de uma negra. Empenhei a teu<br \/>\npai minha palavra em como nunca procuraria casar contigo; bem pouco por\u00e9m<br \/>\nme importava o compromissos que n\u00e3o teria eu sacrificado pelo teu amor? Ah!<br \/>\nmas \u00e9 que essa mesma dedica\u00e7\u00e3o seria a tua desgra\u00e7a e transformaria o meu<br \/>\n\u00eddolo em minha \u00faltima a sociedade apontar-te-ia como a mulher de um mulato<br \/>\ne nossos descendentes teriam casta e seriam t\u00e3o desgra\u00e7ados quanto eu! Entendi<br \/>\npois que, fugindo, te daria a maior prova do meu amor. E vou, e parto, sem<br \/>\nte te levar comigo, minha esposa adorada, entremecida companheira dos meus<br \/>\nsonhos de ventura! Se pudesse avaliar quanto sofro neste momento e quanto<br \/>\nme custa a ser forte e respeitar o meu dever; se soubesses quando me pesa<br \/>\na id\u00e9ia de deixar-te, sem esperan\u00e7a de tornar a teu lado-tu me aben\u00e7oarias,<br \/>\nmeu amor!<\/p>\n<p>E adeus. Que o destino me arraste para onde se quiser, ser\u00e1s sempre o imaculado<br \/>\narcanjo a quem votarei meus dias; ser a minha inspira\u00e7\u00e3o, a luz da minha estrada;<br \/>\neu serei bom, porque existes.<\/p>\n<p>Adeus, Ana Rosa.<\/p>\n<p>Teu escravo<\/p>\n<p>margin-top:0cm;margin-right:0cm;margin-bottom:6.0pt; margin-left:108.8pt;text-align:justify;text-autospace:none&#8217;&gt;RAIMUNDO.<br \/>\n&#8221;<\/p>\n<p>Ao terminar a leitura, Ana Rosa levantou-se transformada. Uma enorme revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nse havia operado nela; como que vingava e crescia-lhe por dentro uma nova<br \/>\nalma, transbordante. &#8220;Ah! Ele amava-me tanto e fugia com o segredo, ingrato!<br \/>\nMas por que n\u00e3o lhe dissera logo tudo aquilo com franqueza?&#8230;&#8221; E saltava<br \/>\npelo quarto como uma crian\u00e7a, a rir, com os olhos arrasados de \u00e1gua. Foi ao<br \/>\nespelho, sorriu para a sua figura abatida, endireitou estouvadamente o penteado,<br \/>\nbateu palmas e soltou uma risada. Mas, de improviso, lembrou-se de que o vapor<\/p>\n<p>podia ter j\u00e1 partido, estremeceu com um sobressalto, o cora\u00e7\u00e3o palpitou-lhe<br \/>\nforte, com um aneurisma prestes a rebentar.<\/p>\n<p>Correu \u00e0 varanda.<\/p>\n<p>&#8211; Benedito! Benedito!<\/p>\n<p>\u00d3 senhores! Onde estaria aquele moleque?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que vossemec\u00ea queria? perguntou Br\u00edgida, com a voz muito tranq\u00fcila e compassada.<\/p>\n<p>&#8211; A que horas sai o vapor? perguntou a mo\u00e7a sem tomar f\u00f4lego.<\/p>\n<p>&#8211; Senhora?<\/p>\n<p>&#8211; Quando sai o vapor?!<\/p>\n<p>&#8211; Que vapor, sinh\u00e1?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Diabo! O vapor do Sul!<\/p>\n<p>&#8211; H\u00ea! J\u00e1 saiu, sinh\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; Hein?! o qu\u00ea? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, meu Deus!<\/p>\n<p>E, tremendo por uma certeza horr\u00edvel, correu ao quarto da av\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe se j\u00e1 saiu o vapor, vov\u00f3?<\/p>\n<p>&#8211; Pergunta a teu pai.<\/p>\n<p>Ana Rosa sentiu uma impaci\u00eancia medonha, infernal; desceu os primeiros degraus<br \/>\nda escada do corredor disposta a ir ao armaz\u00e9m, mas voltou logo, foi \u00e0 cozinha<br \/>\ne encarregou a Br\u00edgida de saber de Manuel se o vapor havia largado J\u00e1.<\/p>\n<p>A criada tornou, dizendo, muito descansada, que &#8220;sinh\u00f4 tinha saldo de manh\u00e3zinha<br \/>\ncedo, para o bota-fora de nh\u00f4 Mundico&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Vai para o diabo! gritou Ana Rosa col\u00e9rica.<\/p>\n<p>E correu \u00e0 janela do seu quarto, escancarou-a precipitadamente. O sossego<br \/>\nda Rua da Estrela entorpeceu-a, como o efeito de um jato de \u00e1gua fria sobre<br \/>\num doente de febre.<\/p>\n<p>Depois, veio-lhe a rea\u00e7\u00e3o; teve um apetite nervoso de gritar, morder, agatanhar.<br \/>\nPensou que ia ter um hist\u00e9rico; saiu da janela, para ficar mais \u00e0 vontade;<br \/>\ndeu fortes pancadas fren\u00e9ticas na cabe\u00e7a. E sentia uma raiva mortal por tudo<br \/>\ne por todos, pelos parentes, pela casa paterna, pela sociedade, pelas amigas,<br \/>\npelo padrinho; e assistiu-lhe, abrupto, uma for\u00e7a varonil, um animo estranho,<br \/>\num querer d\u00e9spota; pensou com prazer numa responsabilidade; desejou a vida<br \/>\ncom todos os seus trabalhos, com todos os seus espinhos e com todos os seus<br \/>\nencantos carnais; sentiu uma necessidade imperiosa, absoluta, de entender-se<br \/>\ncom Raimundo, de perdoar-lhe tudo com beijos ardentes, com car\u00edcias doidas,<br \/>\nselvagens, agarrar-se a ele, rangindo os dentes, e dizer-lhe cara a cara:<br \/>\n&#8220;Casa-te comigo! Seja l\u00e1 como for! N\u00e3o te importes com o resto! Aqui me tens!<br \/>\nAnda! Faze de mim o que quiserem Sou toda tua! Disp\u00f5e do que \u00e9 teu!&#8221;<\/p>\n<p>Nisto, rodou uma carruagem na Rua da Estrela.<\/p>\n<p>Ana Rosa correu \u00e0 janela, assustada, palpitante. O carro parou \u00e0 porta de<br \/>\nManuel; a mo\u00e7a estremeceu de medo e de esperan\u00e7a, e, toda excitada, convulsa,<br \/>\ndoida, viu saltar Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Suba! suba pra c\u00e1! disse-lhe ela, j\u00e1 no corredor. Suba por amor de Deus!<\/p>\n<p>Raimundo sentiu as m\u00e3os frias da mo\u00e7a prenderem as suas. Gaguejou.<\/p>\n<p>&#8211; Seu pai? N\u00e3o quis partir, sem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Entre, entre para c\u00e1. Venha! Preciso falar-lhe.<\/p>\n<p>E Ana Rosa puxou-o violentamente. O rapaz deixou-se arrastar; supunha encontrar-se<br \/>\ncom Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230; balbuciava ele confuso, reparando, todo tr\u00eamulo, que entrava no<br \/>\ngabinete de sua prima. Perd\u00e3o, minha senhora, por\u00e9m seu pai onde est\u00e1?&#8230;<br \/>\nVinha pedir-lhe as suas ordene&#8230;<\/p>\n<p>Ana Rosa correu \u00e0 porta, fechou-a bruscamente, e atirou-se ao pesco\u00e7o de<br \/>\nRaimundo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o partir\u00e1s, ouviste? N\u00e3o h\u00e1s de partir!<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero! Disseste que me amas e eu serei tua esposa, haja o que houver!<\/p>\n<p>-Ah! se fosse poss\u00edvel!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E por que n\u00e3o? Que tenho eu com o preconceito dos outros? que culpa tenho<br \/>\neu de te amar? S\u00f3 posso ser tua mulher, de ningu\u00e9m mais! Quem mandou a papai<br \/>\nn\u00e3o atender ao teu pedido? Tenho culpa de que n\u00e3o te compreendam? Tenho culpa<br \/>\nde que minha felicidade dependa s\u00f3 de ti? Ou, quem sabe, Raimundo, se \u00e9s um<br \/>\nimpostor e nunca sentiste nada por mim?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Antes assim fosse, juro-te que o desejava! Mas sup\u00f5es que eu seria capaz<br \/>\nporventura de sacrificar-te ao meu amor? que eu seria capaz de condenar-te<br \/>\nao \u00f3dio de teu pai, ao desprezo dos teus amigos e aos coment\u00e1rios rid\u00edculos<br \/>\ndesta prov\u00edncia est\u00fapida?&#8230; N\u00e3o! deixa-me ir, rid\u00edculos desta prov\u00edncia est\u00fapida?&#8230;<br \/>\nN\u00e3o! deixa-me ir, Ana Rosa! \u00c9 muito melhor que eu v\u00e1!&#8230; E tu, minha estrela<br \/>\nquerida, fica, fica tranq\u00fcila ao lado de tua fam\u00edlia; segue o teu caminho<br \/>\nhonesto; \u00e9s virtuosa ser\u00e1s a casta mulher de um branco que te mere\u00e7a&#8230; N\u00e3o<br \/>\npenses mais em mim. Adeus.<\/p>\n<p>E Raimundo procurava arrancar-se das m\u00e3os de Ana Rosa. Ela prendeu-se-lhe<br \/>\nao pesco\u00e7o, e, com a cabe\u00e7a derreada para tr\u00e1s, os cabelos soltos e dependurados,<br \/>\nperguntou-lhe, cravando-lhe de perto o olhar:<\/p>\n<p>&#8211; O que h\u00e1 de sincero na tua carta?<\/p>\n<p>&#8211; Tudo, meu amor, mas por que a leste antes de eu ter partido?<\/p>\n<p>31.55pt;text-autospace:none&#8217;&gt; Ent\u00e3o, sou tua! Olha, saiamos daqui! j\u00e1!<br \/>\nfujamos! Leva-me para onde quiseres! Fazer de mim o que entenderes!<\/p>\n<p>E deixou cair o rosto sobre o peito dele, e abra\u00e7ou -o estreitamente<\/p>\n<p>Raimundo estava im\u00f3vel, medroso de sucumbir, entalado numa profunda como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Decide! exigiiu ela, soltando-o.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o respondeu. Ofegava.<\/p>\n<p>&#8211; Pois olha, se n\u00e3o quiseres fugir, farei acreditar a meu pai que \u00e9s um infame!<br \/>\nTens medo, n\u00e3o \u00e9 verdade?um . pois bem, eu lhe direi tudo que me vier \u00e0 cabe\u00e7a<br \/>\nchamarei sobre ti todo o \u00f3dio e toda a responsabilidade, meu amor! porque<br \/>\ntu \u00e9s um homem mau, Raimundo, e meu pai acreditara facilmente que abusaste<br \/>\nda hospitalidade que ele te deu. \u00c9s um miser\u00e1vel. Sai daqui.<\/p>\n<p>Raimundo preciptou-se contra a porta. Ana Rosa atirou-se-lhe de novo ao<br \/>\npesco\u00e7o solu\u00e7ando.<\/p>\n<p>&#8211; Perdoa meu amor! eu n\u00e3o, sei o que estou dizendo! Desculpa-me tudo isto,<br \/>\nmeu querido, meu senhor! Reconhe\u00e7o que \u00e9s o melhor dos homens mas n\u00e3o partas,<br \/>\neu te suplico pelo que mais amas! Sei ,que \u00e9 o teu orgulho que me faz mau;<br \/>\ntens toda raz\u00e3o, mas n\u00e3o me abandoes! Eu morreria, Raimundo, porque te amo<br \/>\nmuito, muito! e n\u00f3s mulheres, n\u00e3o temos como tu tens, outras ambi\u00e7\u00f5es al\u00e9m<br \/>\ndo amor da pessoa que idolatramos! Bem v\u00eas! Eu sacrifico tudo por ti; mas<br \/>\nn\u00e3o partas, tem piedade! Sacrifica tamb\u00e9m alguma coisa por mim! n\u00e3o sejas<br \/>\nego\u00edsta! n\u00e3o fujas! \u00c9 o orgulho! mas que nos importa os outros, procuro agradar!<br \/>\nAnda! Leva-me contigo! Eu desprezarei tudo; mas preciso ser tua, Raimundo,<br \/>\npreciso pertencer-te exclusivamente.<\/p>\n<p>E Ana Rosa caiu de joelhos, sem se desgarrar do corpo dele.<\/p>\n<p>31.55pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; \u00c9 uma escrava que chora a teus p\u00e9s! \u00e9<br \/>\numa desgra\u00e7ada que precisa de tua compaix\u00e3o! Sou tua! aqui me tens, meu senhor,<br \/>\nama-me! N\u00e3o me abandones!<\/p>\n<p>E solu\u00e7ou, empalmado o rosto com as m\u00e3os. Raimundo, procurando ergu\u00ea-la,<br \/>\nvergava-se todo sobre ela. E o contato sensual daquela carne branca dos bra\u00e7os<br \/>\ne do colo da rapariga, e o sarrafa\u00e7ar daqueles l\u00e1bios em brasa, e a proibi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde tocar em todo aquele tesouro proibido, fustigavam-lhe o sangue e punham-lhe<br \/>\na cabe\u00e7a a rodar, numa vertigem. &#8211; Meu Deus! \u00d3 Ana Rosa, n\u00e3o chores! Levanta-te<br \/>\npelo amor de Deus!<\/p>\n<p>Ana Rosa continuava a chorar, e um tremor nervoso percorria o corpo inteiro<br \/>\nde Raimundo. Foi nessa ocasi\u00e3o que a lanchinha do Portal soltou o seu primeiro<br \/>\nsibilo, chamando os passageiros retardados; e aquele grito, penetrante impertinente<br \/>\nchegou aos ouvidos do rapaz, ali, na doce reclus\u00e3o daquele quarto, como uma<br \/>\nnota destacado do coro de impreca\u00e7\u00f5es com o p\u00fablico maranhense, formigando<br \/>\nl\u00e1 fora nas ruas, aplaudia a sua retirada da prov\u00edncia. Ele um relance mediu<br \/>\na situa\u00e7\u00e3o, calculou a conseq\u00fc\u00eancias rid\u00edculas da sua franqueza, lembrou-se<br \/>\ndas palavras de Manuel, e afinal o seu orgulho rebentou com impetuosidade<br \/>\nde um temporal.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, gritou, repelindo bruscamente a mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Preciptou-se para a sa\u00edda.<\/p>\n<p>Ana Rosa caiu a meio, amparando-se numa das m\u00e3os, mas ergu\u00eau-se logo, tornando-lhe<br \/>\na passagem. Em com um gesto altivo, atravessou-se contra a porta, de bra\u00e7os<br \/>\nabertos, sombraceira, nobre, os punhos cerrados. Estava l\u00edvida e desgrenhada;<br \/>\na boca contra\u00eda-se-lhe numa dolorosa express\u00e3o de sacrif\u00edcio e desespero.<br \/>\nArfavam-lhe as narinas e o seu olhar fulgurava terr\u00edvel e cheio de amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Raimundo conservou-se um instante im\u00f3vel e perplexo defronte daquela inesperada<br \/>\nenergia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sair\u00e1s porque eu n\u00e3o quero! disse ela com a voz estalada e surda.<br \/>\nN\u00e3o sair\u00e1s daqui, do meu quarto, enquanto n\u00e3o estivermos de todo comprometidos!<\/p>\n<p>&#8211; Oh!<\/p>\n<p>Houve ent\u00e3o um sil\u00eancio angustioso para ambos. Raimundo abaixou os olhos<br \/>\ne p\u00f4s-se a meditar, muito aflito. Parecia arrependido e humilhado pela sua<br \/>\nfraqueza. &#8220;Por que voltara?&#8230;&#8221; Ana Rosa foi ter com ele e passou-lhe meigamente<br \/>\no bra\u00e7o pelas costas. Era outra vez a mesquinha rola medrosa e comovida.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo que de bom eu podia fazer para casar contigo, bem sabes que j\u00e1 o fiz&#8230;<br \/>\nmurmurou ela, agora sem animo de encar\u00e1-lo. Papai n\u00e3o consentiu, na esperan\u00e7a<br \/>\nde dar-me a outro&#8230; E eu n\u00e3o me sujeito a isso!&#8230; Hei de esgotar at\u00e9 o \u00faltimo<br \/>\nrecurso para continuar a ser s\u00f3 tua, meu amigo! E com essa resolu\u00e7\u00e3o que te<br \/>\nprendo a meu lado!&#8230; Pode ser que isso pare\u00e7a mau e desonesto, mas juro-te<br \/>\nque nunca defendi tanto o meu pudor e a minha virtude como neste momento!<br \/>\nPara salvar-me tenho por for\u00e7a de fazer-me tua esposa, e s\u00f3 h\u00e1 um meio de<br \/>\nconseguir que o permitam, \u00e9 tomando-me desvirtuada aos olhos de todos e s\u00f3<br \/>\naos teus me conservando casta e pura&#8230;<\/p>\n<p>E abaixou as p\u00e1lpebras, toda ela afogada em pejo. Raimundo n\u00e3o fez o menor<br \/>\nmovimento, nem deu uma palavra.<\/p>\n<p>Ana Rosa abriu a solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8211; Agora&#8230; podes ir quando quiseres&#8230; acrescentou, desligando-se dele.<br \/>\nAgora podes abandonar-me para sempre&#8230; fico com a minha consci\u00eancia tranq\u00fcila,<br \/>\nporque lancei m\u00e3os de todos os recursos para casar contigo&#8230; Vai-te! Nunca<br \/>\npensei \u00e9 que, nesta \u00faltima prova\u00e7\u00e3o, ainda o covarde fosses tu! Vai-te embora<br \/>\npor uma vez! Deixa-me! &#8211; E solu\u00e7ou forte. &#8211; Se mais tarde hei de arrepender-me,<br \/>\n\u00e9 melhor mesmo que se acabe desde j\u00e1 com isto! Eu sou uma infeliz! uma desgra\u00e7ada!<\/p>\n<p>E chorava.<\/p>\n<p>Raimundo puxou-a carinhosamente para junto dele; afagou-a, chamando-lhe a<br \/>\ncabe\u00e7a para seu peito.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o chores, disse-lhe. N\u00e3o te mortifiques desse modo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o \u00e9 assim?&#8230; queixava-se a m\u00edsera, com o rosto escondido no colo<br \/>\ndo mo\u00e7o. Por uma outra que n\u00e3o te merecesse mais, farias tudo!&#8230; Tola fui<br \/>\neu em confessar que te amo tanto, ingrato!&#8230; Tu n\u00e3o merecias a metade do<br \/>\nque fiz por ti! \u00c9s um fingido!<\/p>\n<p>E solu\u00e7ava, mais e mais, como uma crian\u00e7a magoada. O rapaz abra\u00e7ou-se com<br \/>\nela e beijou-a repetidas vezes, em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o chores, minha flor&#8230; segredou-lhe afinal. Tens toda a raz\u00e3o&#8230; perdoa-me<br \/>\nse fui grosseiro contigo! Mas que queres? todos n\u00f3s temos orgulho, e a minha<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o ao teu lado era t\u00e3o falsa!&#8230; Acredita que ningu\u00e9m te amar\u00e1 mais do<br \/>\nque te amo e te desejo! Se soubesses, porem, quanto custa ouvir cara a cara:<br \/>\n&#8220;N\u00e3o lhe dou minha filha, porque o senhor \u00e9 indigno dela, o senhor \u00e9 filho<br \/>\nde uma escrava!&#8221; Se me dissessem: &#8220;\u00c9 porque \u00e9 pobre!&#8221; que diabo! &#8211; eu trabalharia!<br \/>\nse me dissessem: &#8220;t porque n\u00e3o tem uma posi\u00e7\u00e3o social!&#8221; juro-te que a conquistaria,<br \/>\nfosse como fosse! &#8220;P porque \u00e9 um ifame! um ladr\u00e3o! um miser\u00e1vel!&#8221; eu me comprometeria<br \/>\na fazer de mim o melhor modelo dos homens de bem! Mas um ex-escravo, um filho<br \/>\nde negra, um &#8211; mulato! &#8211; E, como hei de transformar todo meu sangue, gota<br \/>\npor gota? como hei de apagar a minha hist\u00f3ria da lembran\u00e7a de toda esta gente<br \/>\nque me detesta?&#8230; Bem v\u00eas, meu amor, tenho posi\u00e7\u00e3o definida, n\u00e3o me faltam<br \/>\nrecursos para viver em qualquer parte, jamais pratiquei a m\u00ednima desairosa,<br \/>\nque me envergonhe; e no entanto nunca serei feliz porque s\u00f3 tu es a minha<br \/>\nfelicidade e eu nada devo esperar de ti! Ah, se soubesses, Ana Rosa, quanto<br \/>\ndoem estas verdades&#8230; perdoarias todo o meu orgulho, porque o orgulho de<br \/>\ncada homem de bem esta sempre na raz\u00e3o do desprezo que lhe votam!<\/p>\n<p>Ana Rosa bebeu-lhe, boca a boca estas \u00faltimas palavras.<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto&#8230; prosseguiu ele, vencido de todo, j\u00e1 n\u00e3o tenho coragem para deixar-te!&#8230;-E<br \/>\nabra\u00e7avam-se. &#8211; Como poderei, de hoje em diante, viver sem ti, minha amiga minha<br \/>\nesposa, minha vida?&#8230; Dize! fala! aconselha-me por piedade, porque eu j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nsei pensar!&#8230;<\/p>\n<p>Um novo assobio de bordo veio interromp\u00ea-lo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o ouves, Ana Rosa?&#8230; O vapor est\u00e1 chamando&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-o ir meu bem! tu ficas&#8230;<\/p>\n<p>E os dois estreitaram-se, fechados nos bra\u00e7os um do outro, unidos os l\u00e1bios<br \/>\nem mudo e nupcial del\u00edrio de um primeiro amor.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante Manuel e o c\u00f4nego ainda se deixavam ficar na guardamoria, depois<br \/>\nda decep\u00e7\u00e3o da \u00faltima carruagem.<\/p>\n<p>&#8211; Cachorro! exclamava o negociante fora de si, a passear de um para outro<br \/>\nlado, amea\u00e7ando o teto com o seu enorme guarda-chuva. Grand\u00edssimo tratante!-E<br \/>\nparando defronte de Diogo:-Ca\u00e7oou conosco, seu compadre! ca\u00e7oou conosco, o<br \/>\ndesavergonhado! Tamb\u00e9m, que fa\u00e7a cruz, em casa n\u00e3o me p\u00f5e mais os p\u00e9s! sou<br \/>\neu quem o diz! Nunca mais!<\/p>\n<p>Ouviram-se tr\u00eas silvos repetidos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o \u00faltimo sinal. . disse o empregado da guardamoria. O vapor vai largar.<br \/>\nSuspendeu a escada.<\/p>\n<p>Manuel, com as m\u00e3os cruzadas atr\u00e1s, o chap\u00e9u desca\u00eddo para a nuca, o corpo<br \/>\na bambolear sobre as suas perninhas curtas, interrogou, muito vermelho, o<br \/>\nc\u00f4nego:<\/p>\n<p>&#8211; E o que me diz desta, compadre?.. Ent\u00e3o que me diz! desta?!&#8230; Ora j\u00e1<br \/>\nse viu?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-se disso!&#8230; repreendeu o outro. E encaminhou-se para a porta, abriu<br \/>\no seu guarda-sol de dezoito varetas, e acrescentou, disposto a retirar-se:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos indo. Meus senhores, vivam! obrigado.<\/p>\n<p>Puseram-se os dois a subir vagarosamente a rampa.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, meta-se um homem com semelhante gente!&#8230; resmungava o negociante,<br \/>\nbatendo com a biqueira do chap\u00e9u-de-chuva nas pedras da cal\u00e7ada. Traste! Peralta!<br \/>\nMas tamb\u00e9m, pode chegar-se para quem quiser!&#8230; comigo n\u00e3o conte mais nada!<br \/>\nCanalha!<\/p>\n<p>E continuou a praguejar, numa verbosidade de c\u00f3lera. O c\u00f4nego interrompeu-o<br \/>\nno fim de algum tempo:<\/p>\n<p>&#8211; Suaviter in modo,fortiter in re!&#8230;<\/p>\n<p>O outro calou-se logo, e prestou-lhe toda a aten\u00e7\u00e3o; conversaram uma boa<br \/>\nhora, em voz baixa, parados a uma esquina do Largo do Pal\u00e1cio, combinando<br \/>\nsobre o que melhor convinha fazer.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, disse afinal o c\u00f4nego. N\u00e3o se esque\u00e7a, hein? E observe bem tudo<br \/>\no que ela responda<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea aparece por l\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Logo depois do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>E, ambos cabisbaixos, cada qual tomou o seu rumo.<\/p>\n<p>Comentava-se j\u00e1 o fato na Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio e na Rua de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p>Manuel chegou a casa e foi atravessando o armaz\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; O doutor Raimundo esteve ai em cima? perguntou ele ao Cordeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Esteve, sim senhor. por\u00e9m j\u00e1 saiu. Metia-se no carro, justamente quando<br \/>\neu chegava da cobran\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 muito tempo?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 coisa de meia hora pouco mais ou menos.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas j\u00e1 almo\u00e7aram?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1, sim senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Diga ao seu Dias, quando vier, que n\u00e3o se esque\u00e7a de tirar aquelas<br \/>\ncontas correntes do interior; e voc\u00ea v\u00e1 \u00e0 alf\u00e2ndega e veja se no manifesto<br \/>\ndo Braganza est\u00e3o aqueles fardos de estopa, n\u00famero 105 a 110. Olhe, tome o<br \/>\nconhecimento.<\/p>\n<p>E passou-lhe um quarto de papel azulado, impresso. Depois ia subir, mas voltou<br \/>\nainda.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00e9 verdade! seu Vila Rica!<\/p>\n<p>&#8211; Senhor!<\/p>\n<p>&#8211; O pequeno est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, foi ao tesouro.<\/p>\n<p>&#8211; Aviaram-se j\u00e1 aquelas encomendas de Caxias?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 est\u00e3o duas caixas de chitas arrumadas. O vapor s\u00f3 sai depois de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Bom..,<\/p>\n<p>E Manuel pensou um pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Sabe se seu Cordeiro desepachou os f\u00f3sforos?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o senhor, porque o conferente , que est\u00e1 nos dsespachos sobre \u00e1gua,<br \/>\nn\u00e3o os p\u00f4de fazer ontem.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, diga ao Cordeiro que veja se acaba com isso hoje.<\/p>\n<p>E o negociante subiu afinal.<\/p>\n<p>A varanda estava deserta. Maria B\u00e1rbara rezava no seu quarto, agradecendo<br \/>\naa Deus e aos santos a suposta partida de Raimundo. Manuel tomou seu c\u00e1lice<br \/>\nde conhaque ao aparador, e dirigiu-se depois para a cozinha.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 de Anica?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 no quarto, deitada.<\/p>\n<p>&#8211; Doente?<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor, com febre.<\/p>\n<p>&#8211; Que tem ela?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei, n\u00e3o senhor&#8230;<\/p>\n<p>Manuel bateu \u00e0 porta da alcova de Ana Rosa. Veio ela mesma abrir, muito p\u00e1lida,<br \/>\ne voltou logo, para se meter de novo na rede.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens tu, Anica?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o estava boa!&#8230; Nervoso!&#8230;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o encarava com o pai, e suspiros estalavam-lhe na garganta<\/p>\n<p>Manuel assentou-se pesadamente nu na cadeira, junto dela limpando com o len\u00e7o<br \/>\no rosto, o pesco\u00e7o e a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Recomenda\u00e7\u00f5es do Mundico! disse no fim de um sil\u00eancio, disfar\u00e7adamente.<\/p>\n<p>&#8211; Como?! exclamou Ana Rosa, soerguendo-se em sobressalto e ferrando no pai<br \/>\no mais estranho e doloroso olhar<\/p>\n<p>&#8211; Foi-se! explicou Manuel 0 vapor deve estar saindo neste momento. L\u00e1 ficou<br \/>\nele a bordo! Coitado! talvez seja feliz na Corte!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Miser\u00e1vel bradou a mo\u00e7a, com um grito desesperado<\/p>\n<p>E deixou-se cair para tr\u00e1s, na rede, a estrebuchar.<\/p>\n<p>&#8211; Bonito! Ana Rosa! Ent\u00e3o que \u00e9 isto, minha filha?.. gritava Manuel, procurando<br \/>\nconter lhe os movimentos cr\u00f4nicos. D. Maria B\u00e1rbara! Br\u00edgida! M\u00f4nica!<\/p>\n<p>O quarto encheu-se. Escancararam-se a porta e as janelas; vieram os sais<br \/>\ne o algod\u00e3o queimado. Mas, s\u00f3 depois de grandes lutas, a hist\u00e9rica quebrou<br \/>\nde for\u00e7as e p\u00f4s-se a solu\u00e7ar, extenuada e arquejante. Manuel, todo aflito,<br \/>\nn\u00e3o sossegava, de um para outro lado, na ponta dos p\u00e9s, falando em voz discreta,<br \/>\nindo de vez em quando ao corredor corredor se o c\u00f4nego j\u00e1 tinha chegado, e<br \/>\nvoltando sempre a co\u00e7ar a nuca, o que nele indicava extrema perplexidade,<\/p>\n<p>&#8211; Vossemec\u00ea j\u00e1 quer almo\u00e7ar? perguntou-lhe a Br\u00edgida,<\/p>\n<p>&#8211; Vai para o diabo!<\/p>\n<p>O c\u00f4nego chegou afina, ao meio-dia, com um ar muito tranq\u00fcilo de boa digest\u00e3o;<br \/>\no palito ao canto da boca<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o?&#8230; informou-se ele de Manuel, levando-o misteriosamente para um<br \/>\ncanto da varanda.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o diabo&#8230; seu compadre! A pequena, logo que ouviu a peta, caiu-me<br \/>\ncom um ataque; e agora o ver\u00e1s! gritou e estrebuchou por um ror de tempo,<br \/>\nat\u00e9 que lhe vieram os solu\u00e7os! Um inferno!<\/p>\n<p>&#8211; E agora? Como est\u00e1 ela?<\/p>\n<p>&#8211; Mais sossegadinha, por\u00e9m suponho que vai ter febre&#8230; Eu n\u00e3o quis chamar<br \/>\no medico, sem falar primeiro com voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fez bem.<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego recolheu-se a meditar.<\/p>\n<p>&#8211; Com os demos!&#8230; resmungou por fim. A coisa estava muito mais adiantada<br \/>\ndo que eu fazia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E agora?<\/p>\n<p>-Agora, \u00e9 dizer-lhe a verdade!&#8230; O que eu queria era saber em que p\u00e9 estava<br \/>\na quest\u00e3o&#8230; Ela se sup\u00f5e tra\u00edda e, para supor tal, \u00e9 preciso que tenha concertado<br \/>\nalgum plano com o melro&#8230; E eis justamente o que conv\u00e9m destruir quanto antes!&#8230;<\/p>\n<p>E, depois de uma pausa:<\/p>\n<p>&#8211; Aquela indiferen\u00e7a pela retirada de Raimundo era devida \u00e0 certeza do contr\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>Calou-se e perguntou da\u00ed a um instante:<\/p>\n<p>&#8211; Ela acreditou logo no que voc\u00ea disse?<\/p>\n<p>&#8211; Logo, logo! gritou: &#8220;Miser\u00e1vel!&#8221; e z\u00e1s! caiu com o ataque!<\/p>\n<p>&#8211; E singular&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Ter acreditado t\u00e3o facilmente&#8230; mas, enfim&#8230; conte-se-lhe a verdade!.<br \/>\n..<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, espere um instantinho, que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, venha c\u00e1, compadre, vou eu; a mim talvez que a pequena diga<br \/>\ntudo com mais franqueza.<\/p>\n<p>E, inspirado por uma id\u00e9ia, voltou-se para Manuel:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe! voc\u00ea, o melhor \u00e9 fingir que n\u00e3o sabe de coisa alguma&#8230; compreende?<\/p>\n<p>&#8211; Como assim?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se d\u00ea por achado&#8230; finja que est\u00e1s deveras persuadido da partida de<br \/>\nRaimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 c\u00e1 uma coisa&#8230;<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego, revestindo um ar consolador e respeitoso, entrou, com passos<br \/>\nmacios, no aposento de Ana Rosa.<\/p>\n<p>A crise tinha cessado de todo; a doente solu\u00e7ava baixinho, com o rosto escondido<br \/>\nentre dois travesseiros. A boa M\u00f3nica, ajoelhada aos p\u00e9s dela, vigiava-a com<br \/>\na docilidade de um c\u00e3o. D. Maria B\u00e1rbara assentada perto da rede, exprobrava<br \/>\na neta, a meia voz, aquele mal cabido pesar por um fato que nada tinha de<br \/>\nlament\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, minha afilhada que e isso?&#8230; perguntou o padre, passando carinhosamente<br \/>\na m\u00e3o pela cabe\u00e7a da rapariga.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o se voltou; continuava a chorar, inconsol\u00e1vel, assoando de espa\u00e7o<br \/>\na espa\u00e7o o narizinho, agora vermelho do esfor\u00e7o do pranto. N\u00e3o podia falar,<br \/>\nos solu\u00e7os secos e muito suspirados, repetiam-se quase sem intervalo. Com<br \/>\num sinal o c\u00f4nego afastou Mana B\u00e1rbara e M\u00f4nica, e, chegando os seus l\u00e1bios<br \/>\nfinos ao ouvido da afilhada, derramou nele estas palavras, doces e untuosas,<br \/>\ncomo se fossem ungidas de santo \u00f3leo:<\/p>\n<p>&#8211; Tranq\u00fcilize-se&#8230; Ele n\u00e3o partiu&#8230; est\u00e1 a\u00ed&#8230; Sossegue&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como?<\/p>\n<p>E Ana Rosa voltou-se logo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fa\u00e7a espalhafato&#8230; Conv\u00e9m que seu pai n\u00e3o saiba de coisa alguma&#8230;<br \/>\nDescanse! sossegue! Raimundo n\u00e3o partiu, ficou!<\/p>\n<p>&#8211; Vossemec\u00ea est\u00e1 me enganando dindinho!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Com que interesse, minha desconfiada?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei mas&#8230;<\/p>\n<p>E solu\u00e7ou ainda.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom! n\u00e3o chore e on\u00e7a o que lhe vou dizer: Saindo daqui, procuro o<br \/>\nrapaz e fa\u00e7o-o ausentar-se por algum tempo, at\u00e9 que as coisas voltem de novo<br \/>\naos seus eixos; mais tarde ele se mostrar\u00e1, e ent\u00e3o n\u00f3s trataremos de tudo<br \/>\npelo melhor&#8230; Nec semper lilia florent!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E papai?<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-o por minha conta! fie-se inteiramente em mim! Mas precisamos ter<br \/>\numa confer\u00eancia completa, sozinhos, num lugar seguro, onde possamos falar<br \/>\n\u00e0 vontade. Para ajud\u00e1-los preciso p\u00f4r-me bem a par do que h\u00e1! entregue-se<br \/>\npois \u00e0s minhas m\u00e3os e ver\u00e1 que tudo se arranja com a divina prote\u00e7\u00e3o de Deus!&#8230;<br \/>\nNada de desesperos! nada de precipita\u00e7\u00f5es!&#8230; Calma, minha filha! sem calma<br \/>\nnada se faz que preste!&#8230;<\/p>\n<p>E, depois de uma meiguice: &#8211; Olhe, venha um dia \u00e0 S\u00e9, confessar-se comigo&#8230;<br \/>\nSua av\u00f3 encomendou-me uma missa cantada. N\u00e3o pode haver melhor ocasi\u00e3o&#8230;<br \/>\nConfesso-a depois da missa. Est\u00e1 dito?<\/p>\n<p>&#8211; Mas, para qu\u00ea, dindinho?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea?&#8230; \u00e9 boa! para poder ajud\u00e1-la,<\/p>\n<p>minha afilhada!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o? pois ent\u00e3o l\u00e1 se avenham voc\u00eas dois, mas duvido muito que consigam<br \/>\nalguma coisa!&#8230; Se tem confian\u00e7a em seu padrinho, v\u00e1 \u00e0 missa, confesse-se,<br \/>\ne prometo que ficar\u00e1 tudo arranjado!<\/p>\n<p>Ana Rosa tinha j\u00e1 a fisionomia expansiva, sentia vontade at\u00e9 de abra\u00e7ar o<br \/>\nc\u00f4nego; aquele bom anjo que lhe trouxera t\u00e3o agrad\u00e1vel not\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o me engane, dindinho!&#8230; Diga s\u00e9rio! ele n\u00e3o foi mesmo?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 lhe disse que n\u00e3o, oh! Tranq\u00fcilize-se por esse lado e venha comigo \u00e0<br \/>\nigreja! Tudo se acomodar\u00e1 a seu gosto!<\/p>\n<p>&#8211; Jure!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, que exig\u00eancia!&#8230; que criancice!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o vou.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, juro.<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego beijou os indicadores, tra\u00e7ados em forma de cruz sobre seus l\u00e1bios.<\/p>\n<p>&#8211; E agora? est\u00e1 satisfeita?<\/p>\n<p>&#8211; Agora sim.<\/p>\n<p>&#8211; E vai \u00e0 confiss\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Vou.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda bem!<\/p>\n<h2><a name=\"16\"><\/a>XVI<\/h2>\n<p>A casa particular de Manuel Pescada tinha, pelo menos em apar\u00eancia, recaido<br \/>\nno seu primitivo estado de paz e esquecimento. Tanto ai como pela cidade,<br \/>\nj\u00e1 bem pouco se falava de Raimundo.<\/p>\n<p>Ele, ao sair do quarto da amante havia reformado seu programa de vida. No<br \/>\nmesmo dia partiu para Ros\u00e1rio; foi visitar a m\u00e3e, na esperan\u00e7a de traz\u00ea-la<br \/>\nem sua companhia para a capita e viver ao lado dela, mas Domingas n\u00e3o se deixou<br \/>\napanhar e o infeliz teve de voltar s\u00f3.<\/p>\n<p>Instalou-se no Caminho Grande, numa casinha velha, escondido como um criminoso<br \/>\nde morte. Da\u00ed com muita dificuldade, escreveu uma carta a Ana Rosa, confiando-lhe<br \/>\nos seus projetos; a carta terminava assim: &#8220;O melhor \u00e9 deixarmos que tudo<br \/>\nserene completamente e que de todo se esque\u00e7am de n\u00f3s, e ent\u00e3o eu te aparecerei<br \/>\nna noite que combinarmos e poremos em pr\u00e1tica o plano exposto no come\u00e7o desta.<br \/>\nQuanto a teu pai, s\u00f3 me entenderei com ele, no dia em que esse teimoso estiver<br \/>\nresolvido a perdoar o genro e a filha. Adeus. N\u00e3o desanimes e tem plena confian\u00e7a<br \/>\nno teu noivo extremoso. &#8211; Raimundo.&#8221;<\/p>\n<p>Com essa missiva Ana Rosa tranq\u00fcilizou-se tanto, que procurou dissuadir o<br \/>\nc\u00f4nego da id\u00e9ia da tal confiss\u00e3o. &#8220;No fim de contas, se era pecadora, fora-o<br \/>\npremeditadamente e n\u00e3o se arrependia. A consci\u00eancia dizia-lhe que o casamento<br \/>\nresgatava a sua falta. Dindinho, por conseguinte, que tivesse paci\u00eancia, ela<br \/>\nn\u00e3o sentia necessidade de perd\u00e3o!&#8230;&#8221; Raciocinando deste modo, falou com franqueza<br \/>\nao padre e retirou a promessa que lhe fizera; mas o reverendo repontou, amea\u00e7ando-a<br \/>\ncom uma den\u00fancia a Manuel. A rapariga chegou a suspeitar que o padrinho sabia<br \/>\nde tudo, e amedrontou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, dindinho, vossemec\u00ea embirrou com este neg\u00f3cio da confiss\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>O c\u00f4nego assentou os olhos no teto, \u00e0 mingua de c\u00e9u, e, recorrendo aos efeitos<br \/>\nart\u00edsticos da sua profiss\u00e3o, desenrolou uma pr\u00e1tica, que terminava no seguinte:<\/p>\n<p>&#8211; Malos tueri haud tutum N\u00e3o sabes porventura, pecadora, v\u00edtima inocente<br \/>\nde tenta\u00e7\u00f5es diab\u00f3licas! que eu devo \u00e0 minha consci\u00eancia e a Deus duplas contas<br \/>\ndo que fa\u00e7o c\u00e1 na terra?&#8230; N\u00e3o sabes, minha afilhada, que todo sacerdote<br \/>\ncaminha neste vale de l\u00e1grimas entre dois olhos perspicazes e penetrantes,<br \/>\ndos juizes austeros e inflex\u00edveis, um chamado-Deus, e outro-Consci\u00eancia?&#8230;<br \/>\nUm que olha de fora para dentro, e outro de dentro para fora?&#8230; E que o segundo<br \/>\n\u00e9 o reflexo do primeiro, e que, satisfeito o primeiro, o segundo est\u00e1 tamb\u00e9m<br \/>\nsatisfeito?&#8230; N\u00e3o sabes que terei um dia de prestar contas dos meus atos<br \/>\nmundanos, e que, percebendo agora que uma ovelha se desgarra do rebanho e<br \/>\narrisca perder-se do caminho da luz e da pureza, \u00e9 de minha obriga\u00e7\u00e3o, como<br \/>\npastor, correr em socorro da desgra\u00e7ada e gui\u00e1-la de novo ao aprisco, ainda<br \/>\nque se fa\u00e7a preciso a viol\u00eancia?&#8230; Por conseguinte, filha de Eva, vem \u00e0 igreja!<br \/>\nvem! confessa-te ao sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo! abre tua alma<br \/>\nde par em par defronte dele que teu cora\u00e7\u00e3o se fechar\u00e1 logo aos imundos apetites<br \/>\nda carne! Abra\u00e7a-te, como Madalena, aos p\u00e9s do representante de Deus, at\u00e9<br \/>\nque este \u00faltimo se compade\u00e7a de ti, pecadora! Deum colenti stat sua merces!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego ficou ainda um instante a olhar para o teto com os bra\u00e7os erguidos<br \/>\ne os olhos em branco.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem Dindinho, pois bem! disse Ana Rosa, impressionada. E desarmou<br \/>\nsem cerim\u00f4nia a posi\u00e7\u00e3o ext\u00e1tica do padre. &#8211; Irei a tal confiss\u00e3o, mas deixe-se<br \/>\ndessas coisas e n\u00e3o esteja a falar desse modo, que isso me faz mal aos nervos!<br \/>\nBem sabe que sou nervosa.<\/p>\n<p>Ficou resolvido que a missa encomendada por Maria B\u00e1rbara seria no primeiro<br \/>\ndomingo do seguinte m\u00eas, e que Ana Rosa iria \u00e0 confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>M\u00f4nica, sempre desvelada e extremosa por sua filha de leite, iniciara-se<br \/>\nnos segredos desta e, como era lavadeira, todas as vezes que ia \u00e0 fonte, dava<br \/>\num pulo \u00e0 casa de Raimundo para trazer noticias dele a lai\u00e1.<\/p>\n<p>Uma noite o c\u00f4nego Diogo, envolvido na sua batina de andar em casa debru\u00e7ado<br \/>\nsobre uma velha mesa de pau-santo, com os p\u00e9s cruzados sobre um surrado couro<br \/>\nde on\u00e7a, ainda do tempo do Ros\u00e1rio, a cabe\u00e7a engolida num trabalhado gorro<br \/>\nde seda, primorosamente bordado pela afilhada, lia, defronte do seu candeeiro,<br \/>\num grosso volume de encaderna\u00e7\u00e3o antiga, em cujo frontip\u00edcio estava escrito:<br \/>\n&#8220;Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica. Tomo und\u00e9cimo. Continua\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos crist\u00e3os ou<br \/>\nHist\u00f3ria do Cristianismo nos seus estabelecimentos e progresso: Que compreende<br \/>\ndesde o ano de 1700 at\u00e9 o atual Pontificado de N.S.P. Pio VI. Traduzida do<br \/>\nespanhol. Lisboa. Na Tipografia Rolandina, 1807. Com a licen\u00e7a da mesa do<br \/>\ndesembargo do Pa\u00e7o.&#8221; O bom velho perdia-se numas descri\u00e7\u00f5es enfadonhas sobre<br \/>\na seita dos Pietistas, fundada nos fins do s\u00e9culo XVIII por Spener, cura de<br \/>\nFrancfort, quando bateram \u00e0 porta do seu gabinete tr\u00eas pancadinhas discretas<br \/>\ne compassadas. Marcou logo o livro, com o palito com que escarafunchava os<br \/>\ndentes, e foi abrir.<\/p>\n<p>Era o Dias. Estava cada vez mais magro e mais bilioso, por\u00e9m com a figura<br \/>\nmascarada sempre por aquele inveterado sorriso de astuciosa passividade.<\/p>\n<p>&#8211; Venho incomod\u00e1-lo, senhor c\u00f4nego&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Essa \u00e9 boa!&#8230; V\u00e1 entrando.<\/p>\n<p>E, como a visita n\u00e3o se animasse a falar, acrescentou depois de uma pausa:<\/p>\n<p>&#8211; Mandou a carta que lhe dei?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 ele a tem no papo. Atirei-a eu mesmo pelas r\u00f3tulas da sua janela, na<br \/>\nv\u00e9spera do tal embarque!<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 descobriu onde ele mora presentemente?<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o consegui, n\u00e3o senhor, mas quer me parecer que o patife se aninha<br \/>\nl\u00e1 pras bandas do Caminho Grande.<\/p>\n<p>&#8211; Olho vivo. O traste pode surgir de repente e pregar-nos alguma partida!<br \/>\nOlho vivo! Voc\u00ea tem feito o que lhe recomendei?<\/p>\n<p>&#8211; A que respeito?<\/p>\n<p>&#8211; A respeito da espionagem.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho, sim senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o! o que j\u00e1 descobriu?<\/p>\n<p>&#8211; Por hora nada que valha&#8230; E creia o senhor c\u00f4nego que n\u00e3o me descuido.<br \/>\nAl\u00e9m daquela busca que dei no dia de S\u00e3o Jo\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 instantinho, que possa<br \/>\nroubar ao servi\u00e7o, que n\u00e3o seja para dar f\u00e9 do que se passa l\u00e1 por casa. Mas,<br \/>\ndo que tenho apanhado, s\u00f3 o que me disse respeito ao neg\u00f3cio foi uma conversa<br \/>\nentre a D. Anica e a velha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A B\u00e1rbara?<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que a pequena, depois de pedir muito \u00e0 av\u00f3 que se compadecesse dela e<br \/>\nobtivesse do pai liberdade para se casar com o cabra, abriu a chorar e a lamentar-se<br \/>\ncomo uma varrida! E &#8220;que era muito desgra\u00e7ada; que ningu\u00e9m em casa a estimava;<br \/>\nque todos s\u00f3 queriam contrari\u00e1-la&#8230; E porque faria isto, e porque faria aquilo!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que dizia ela que faria?&#8230; Ora que diabo de maneira tem voc\u00ea de<br \/>\ncontar as coisas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tolices, senhor c\u00f4nego, tolices de mo\u00e7a&#8230; Que se matava! Ou que fugia!<br \/>\nque se meda a freira!&#8230; E porque o casamento pra c\u00e1! e porque o casamento<br \/>\npra l\u00e3! Enfim, queria dizer na sua, que uma mulher nunca devia casar obrigada!<br \/>\nAfina!, atirou-se aos p\u00e9s da av\u00f3, solu\u00e7ando e dizendo que, se n\u00e3o a deixassem<br \/>\ncasar com o Raimundo, que ela n\u00e3o responderia por si!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, a velha j\u00e1 sabe que o Raimundo ficou?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Parece. A rapariga, pelo menos, disse que a av\u00f3, junto com o pai, haviam<br \/>\nde amargar muito desgosto por mor de n\u00e3o consentirem no casamento!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E o que fez ela?<\/p>\n<p>&#8211; Quem, a pequena?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, a velha.<\/p>\n<p>&#8211; A velha enfezou-se e p\u00f4-la do quarto pra fora, jurando que antes queria<br \/>\nv\u00ea-la estrada debaixo da terra do que casada com um cabra, e que, se o patr\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que patr\u00e3o senhor?<\/p>\n<p>&#8211; Seu Manuel, o pai!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! o compadre.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor Mas sim, se o patr\u00e3o, por qualquer aquela, cedesse, ela \u00e9 que<br \/>\nn\u00e3o consentiria no casamento da neta, e romperia com o genro!<\/p>\n<p>&#8211; Bom, bom! Vamos bem! E a rapariga?<\/p>\n<p>&#8211; Ora, a rapariga l\u00e1 se foi choramingando para o quarto e, se me n\u00e3o engano,<br \/>\nmeteu-se a rezar.<\/p>\n<p>&#8211; Reza, hein?! perguntou o c\u00f4nego com interesse.<\/p>\n<p>&#8211; E! ela reza mais agora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem! muito bem! Vamos maravilhosamente!<\/p>\n<p>&#8211; E est\u00e1 toda cheia de abus\u00f5es&#8230; Ainda outro dia, dei f\u00e9 que ela pendurava<br \/>\nalguma coisa no po\u00e7o; logo que pude, corri para ver se descobria o que vinha<br \/>\na ser. Ora o que pensa vossemec\u00ea que era?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um Santo Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>&#8211; Justo. Em um Santantoninho assinzinho!&#8230; confirmou o Dias, marcando uma<br \/>\npolegada no Index.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! disse o c\u00f4nego. Continue a espreitar. Mas&#8230; todo cuidado e pouco!<br \/>\nQue ningu\u00e9m perceba!&#8230; principalmente minha afilhada, compreende?&#8230; Se descobrem<br \/>\nque voc\u00ea anda farejando, est\u00e1 tudo perdido!&#8230; Finja-se tolo!&#8230; Tenha f\u00e9<br \/>\nem Deus! E animo! Quando apanhar qualquer novidade, apare\u00e7a-me fogo! N\u00e3o deixe<br \/>\nde espiar! lembre-se de que a arma com que havemos de esmagar o bode, ainda<br \/>\nest\u00e1 nas m\u00e3os dele!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, senhor c\u00f4nego, mas eu j\u00e1 vou perdendo a f\u00e9!&#8230; Confesso-lhe que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o seja idiota, que voc\u00ea n\u00e3o tem raz\u00e3o nenhuma para desanimar! trate,<br \/>\nmas \u00e9 de ver se descobre alguma coisa, porem coisa grossa, que d\u00ea para agarrar,<br \/>\nporque depois o mais f\u00e1cil \u00e9 o seu casamento! Olhe! Preste aten\u00e7\u00e3o para quem<br \/>\nentra e para quem sai! Se eles ainda n\u00e3o se correspondem, o que duvido, vir\u00e3o<br \/>\na correspondem-se mais tarde! em todo o caso, \u00e9 prudente n\u00e3o recorrer por<br \/>\nora as cartas &#8211; deixe-os escrever, deixe-os escrever, que lhe direi quando<br \/>\n\u00e9 que voc\u00ea ter\u00e1 de apoderar-se de alguma delas. A fruta, para ser aproveit\u00e1vel,<br \/>\ndeve ser colhida de vez!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, senhor c\u00f4nego posso retirar-me?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Viva!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, vou-me chegando.<\/p>\n<p>&#8211; Sis felix!<\/p>\n<p>&#8211; Como? perguntou o Dias, voltando-se.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se descuide. V\u00e1!<\/p>\n<p>O caixeiro fez uma mesura e saiu Diogo fechou a porta e tomou \u00e0 sua Hist\u00f3ria<br \/>\nEclesi\u00e1stica, at\u00e9 que a caseira In\u00e1cia foi cham\u00e1-Io para a ceia. Ent\u00e3o, depois<br \/>\nde abaixar a luz do candeeiro, passou-se \u00e0 varanda e assentou-se, pachorrentamente,<br \/>\ndefronte de uma tigela de canja. Veio logo um gato malt\u00eas, gordo, grande,<br \/>\nencarapitar-se-lhe nas cosas, miando ternamente e voltando para ele a sua<br \/>\nfosforescente pupila, que lhe suplicava car\u00edcias.<\/p>\n<p>Dir-se-ia que naquele canto, modesto e asseado, reinava a paz aben\u00e7oada dos<br \/>\njustos.<\/p>\n<p>No domingo seguinte a S\u00e9 chamava para a missa, com um alegre repinicar de<br \/>\nsinos. Era a promessa de D. Maria B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>Havia grande aflu\u00eancia do povo. As beatas subiam piedosamente os arruinados<br \/>\ndegraus do \u00e1trio e iam, de cabe\u00e7a vergada, ajoelhar-se no corpo principal<br \/>\nda igreja. Sentia-se o frufru de vetustas e farfalhudas saias de chamalote,<br \/>\nrestauradas com ch\u00e1-preto, o estalar de fortes chinelas novas na sonora cantaria<br \/>\ndo templo, e o tilintar das contas de coco baba\u00e7u, cujos ros\u00e1rios deslizavam<br \/>\nentre os tr\u00eamulos dedos das velhas, no fervoroso sussurro das ora\u00e7\u00f5es. Viam-se-lhes<br \/>\nas camisas de cabe\u00e7\u00e3o bordado e cheias de rendas e labirintos; destacavam-se<br \/>\ntamb\u00e9m grandes toalhas de linho branco, penduradas dos ombros carnudos das<br \/>\ncafuzas e mulatas; reluziam os seus enormes pentes de tartaruga, enfeitados<br \/>\nde ouro, e as contas preciosas, que lhes circulavam, com muitas voltas, as<br \/>\ntocinhudas esp\u00e1duas e as roscas taurinas do cacha\u00e7o. Em cima, perto do altar-mor,<br \/>\nem lugares privilegiados, sobressaiam chap\u00e9us enfeitados de fitas e plumas,<br \/>\nleques irrequietos, que se agitavam desordenadamente, com um ru\u00eddo casquilho<br \/>\nde varetas batendo de encontro aos broches e alfinetes de peito, numa confus\u00e3o<br \/>\nde cores espantadas; eram devotas de fino trato, velhas e mo\u00e7as ostentavam<br \/>\nj\u00f3ias vistosas e perfumes ativos segurando, com luva Horas Marianas encadernadas<br \/>\nde marfim, veludo, prata e madrep\u00e9rola.<\/p>\n<p>Recendia por toda a catedral um aroma agreste de pitangueira e trevo cheiroso.<br \/>\nPela porta da sacristia lobrigavam-se de relance padrecos apressados, que<br \/>\niam na carreira, vestindo as suas sobrepelizes dos dias de cerim\u00f4nia. Havia<br \/>\nna multid\u00e3o um n mor impaciente de plat\u00e9ia de teatro. O sacrist\u00e3o, cuidando<br \/>\ndos pertences da missa, andava de um para outro lado, ativo como um contra-regra,<br \/>\nquando o pano de boca vai subir.<\/p>\n<p>Afinal, \u00e0 deixa fanhosa de um padre muito magro que, aos p\u00e9s do altar desafinava<br \/>\nuns salmos da ocasi\u00e3o, a orquestra tocou a sinfonia e come\u00e7ou o espet\u00e1culo.<br \/>\nCorreu logo o surdo rumor dos corpos que se ajoelhavam; todas as vistas convergiam<br \/>\npara a porta da sacristia; fez-se um sussurro de curiosidade, em que se destacavam<\/p>\n<p>ligeiras tosses e espirros; e o c\u00f4nego Diogo apareceu, como se entrasse em cena,<br \/>\nradiante, altivo senhor do seu papel e acompanhado de um ac\u00f3lito que dava voltas<br \/>\nfren\u00e9ticas a um turibulo de metal branco.<\/p>\n<p>E o velho artista, entre uma nuvem de incenso, que nem um deus de m\u00e1gica,<br \/>\ne coberto de gal\u00f5es e lantejoulas, como um rei de feira, lan\u00e7ou, do ato da<br \/>\nsua solenidade, um olhar curioso e r\u00e1pido sobre o p\u00fablico, inadiando-lhe na<br \/>\ncara esse vitorioso sorriso dos grandes atores nunca tra\u00eddos pelo sucesso.<\/p>\n<p>Com efeito, os espectadores adoravam-no, posto que ele agora raras vezes<br \/>\ntrabalhasse; mas nessas poucas, em que se dignava mostrar-se por condescend\u00eancia<br \/>\na uma velha amiga, como naquela ocasi\u00e3o, o seu triunfo era espl\u00eandido e certo.<br \/>\nVinha gente de longe para v\u00ea-lo; para admirar a impon\u00eancia, a gentileza daquele<br \/>\nporte de homem. Incomodaram-se muitas pessoas para n\u00e3o perder aquela missa;<br \/>\nsexagen\u00e1rias do seu tempo mandaram espanar o palanquim, havia longos anos<br \/>\nesquecido debaixo da escada, e espantaram a vizinhan\u00e7a com uma sa\u00edda \u00e0 nua;<br \/>\ne ali, esses duros corpos encarquilhados, que envelheceram com Diogo, pareciam<br \/>\nreviver por instantes, como cad\u00e1veres sujeitos a uma a\u00e7\u00e3o galv\u00e2nica, e, tr\u00eamulos,<br \/>\nmordiam o bei\u00e7o roxo e franzido, palpitante de recorda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em caminho para o altar, o ex\u00edmio artista olhou para os lados, falou em voz<br \/>\nbaixa aos seus ajudantes, e encarou a plat\u00e9ia com um sorriso de discreta soberania;<br \/>\nmas de s\u00fabito o seu sorriso dilatou-se numa fei\u00e7\u00e3o mais acentuada de orgulho:<br \/>\n\u00e9 que distinguira Ana Rosa, entre as devotas, ajoelhada num degrau da nave,<br \/>\nde cabe\u00e7a baixa, o ar contrito, a rezar freneticamente ao lado da av\u00f3.<\/p>\n<p>Os tur\u00edbulos fumegaram com mais for\u00e7a; espirais de incenso espregui\u00e7aram-se,<br \/>\ndissolvendo-se no espa\u00e7o; o ambiente saturou-se de perfumes sacros, e enervantes,<br \/>\ne as mulheres, todas, se contra\u00edram preparadas para m\u00edsticos enlevos. O celebrante<br \/>\nchegara enfim ao altar, depois de ajoelhar-se de leve, como fazendo uma mesura<br \/>\napressada, defronte dos santos grandes, aprumados nos seus tronos de brocados<br \/>\nfalsos. Os janotas, separados do altar-mor por uma grade de madeira preta,<br \/>\ntiraram da algibeira, com a ponta dos dedos, o len\u00e7o almiscarado e ajoelhavam-se<br \/>\nsobre ele, numa atitude elegante. As mo\u00e7as escondiam a boca no livrinho das<br \/>\nrezas e passeavam furtivamente o olhar para o lado dos fraques pretos. Os<br \/>\nque at\u00e9 ai estiveram ajoelhados, rezando \u00e0 espera da missa, mudavam de posi\u00e7\u00e3o;<br \/>\nos opulentos quadris das pretas-minas rangiam; os ossos dos velhos estalavam;<br \/>\ncriancinhas soltavam aclama\u00e7\u00f5es de aplauso pela festa, algumas choravam. Mas,<br \/>\nfinalmente, tudo tomou um sossego artificial; fez-se sil\u00eancio, e a missa principiou<br \/>\nsolene, ao som do \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao repicarem de novo os sinos, toda a gente se levantou com algazarra; os<br \/>\nrapazes endireitavam as joelheiras das cal\u00e7as; as mo\u00e7as arranjavam os pufes<br \/>\ne os la\u00e7arotes; as beatas sacudiam as suas eternas saias, agora entufadas<br \/>\npela press\u00e3o dos joelhos. A orquestra tocou uma m\u00fasica profana, alegre como<br \/>\numa farsa depois de um drama; e o c\u00f4nego Diogo, na sacristia, tirava o seu<br \/>\npitoresco vestu\u00e1rio de seda bordada, que o sacrist\u00e3o recolhia religiosamente<br \/>\nnas suas m\u00e3os de t\u00edsico, para guardar nos extensos gavet\u00f5es de pau-negro.<\/p>\n<p>O povo, confortado de religi\u00e3o, mas estalando pelo almo\u00e7o espremia-se s\u00f4frego<br \/>\npelas largas portas da matriz. Mendigos, alinhados \u00e0 sa\u00edda, pediam, com chorosa<br \/>\ninsist\u00eancia, uma esmola pelo amor de Deus ou pelas divinas chagas de Nosso<br \/>\nSenhor Jesus Cristo; as devotas desapareciam pelo largo, ligeiras como baratas<br \/>\nperseguidas; algumas senhoras, no vest\u00edbulo, arejavam-se ao sol, esperando<br \/>\nquem lhes dizia respeito e conversando garrulamente sobre o bom desempenho<br \/>\nda missa sobre a excel\u00eancia das vozes, a riqueza da roupa do padre e da toalha<br \/>\ndo altar e sobre a boa observ\u00e2ncia das cerim\u00f4nias. Tudo agradara.<\/p>\n<p>A igreja estava quase vazia. D. Maria Barbara e a neta esperavam pelo her\u00f3i<br \/>\nda fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1 est\u00e1 sua afilhada, senhor c\u00f4nego! Comungue-a; veja se lhe arranca o<br \/>\ndiabo de dentro do corpo! disse a velha ao v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>E, falando-lhe mais baixo, pediu-lhe com interesse que a aconselhasse bem;<br \/>\nque lhe sacasse da cabecinha a id\u00e9ia do tal cabra. E afinal afastou-se, tra\u00e7ando<br \/>\nno espa\u00e7o uma cruz na dire\u00e7\u00e3o da neta.<\/p>\n<p>&#8211; Vai! Deus te ponha virtude, que mau cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o tens tu, minha estonteada!<\/p>\n<p>E saiu, para esper\u00e1-la na sala do cortador Benedito, que nessa ocasi\u00e3o aparecia<br \/>\ntrazendo um carro da cocheira do Porto.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego Diogo calculara bem A encena\u00e7\u00e3o da missa, os amolecedores perfumes<br \/>\nda igreja, o est\u00f4mago em jejum, o venerando mist\u00e9rio dos latins, o cerimonial<br \/>\nreligioso, o esplendor dos altares, as luzes sinistramente amarelas dos c\u00edrios,<br \/>\nos sons plangentes do \u00f3rg\u00e3o, impressionariam a delicada sensibilidade nervosa<br \/>\nda afilhada e quebrantariam o seu animo altaneiro, predispondo-a para a confiss\u00e3o.<br \/>\nA pobre mo\u00e7a considerou-se culpada; pela primeira vez, entendeu que era um<br \/>\ncrime o que havia praticado com Raimundo. sentiu minguar-lhe aquela energia<br \/>\nde a\u00e7o, que lhe inspirara o seu amor, e, ao terminar a missa, quando a av\u00f3<br \/>\na depusera nas m\u00e3os do velho lobo da religi\u00e3o, a sua vontade era chorar.<\/p>\n<p>Ajoelhou-se, muito comovida, na cadeira, junto ao confession\u00e1rio e gaguejou,<br \/>\nquase sem f\u00f4lego, o confiteor. Mas, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que rezava, os seus sentidos<br \/>\nembaciavam-se por um acanhamento espesso<\/p>\n<p>&#8211; Vamos&#8230; disse-lhe o padrinho quando ela terminou a ora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tenha receios,<br \/>\nminha filha!. Confie em mim, que sou seu amigo&#8230; Plus videas tuis oculis<br \/>\nquan alinis! Por que chora?. . Diga. .<\/p>\n<p>Ana Rosa tremia.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos! N\u00e3o chore e abra-me o cora\u00e7\u00e3o&#8230; Vai responder-me, como se estivesse<br \/>\nfalando com o pr\u00f3prio Deus, que tudo escuta e perdoa. Fa\u00e7a o sinal da cruz<\/p>\n<p>Ela obedeceu.<\/p>\n<p>&#8211; Diga-me, minha afilhada, n\u00e3o se tem ultimamente descuidado da religi\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, balbuciou Ana Rosa por detr\u00e1s do len\u00e7o.<\/p>\n<p>-Tem rezado todas as vezes que se deita e todas as vezes que se levanta?&#8230;<\/p>\n<p>-Tenho, sim senhor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E nessas rezas n\u00e3o promete obedecer a seus pais?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Prometo, sim senhor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E tem cumprido?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho, sim senhor.<\/p>\n<p>&#8211; E sente a sua consci\u00eancia tranq\u00fcila? acha que tem cumprido, \u00e0 risca, tudo<br \/>\no que prometeu a Deus. e tudo o que lhe manda a Santa Madre Igreja?&#8230;<\/p>\n<p>Ana Rosa n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o!. . Vamos&#8230; disse o padre com brandura. N\u00e3o tenha medo!&#8230; Isto<br \/>\n\u00e9 apenas uma conversa que a senhora tem com a sua pr\u00f3pria consci\u00eancia, ou<br \/>\ncom Deus, que vem a dar na mesma&#8230; Conte-me tudo!&#8230; Abra-me seu cora\u00e7\u00e3o!&#8230;<br \/>\nFale. minha afilhada!.. Aqui, eu represento mais do que seu pai; se fosse<br \/>\ncasada &#8211; mais do que seu marido! sou o juiz, compreende, represento Cristo!<br \/>\n&#8211; represento o tribunal do c\u00e9u! Vamos, pois, conte-me tudo com franqueza;<br \/>\nconte-me tudo, e eu lhe conseguirei a absolvi\u00e7\u00e3o!&#8230; eu pedirei ao Senhor<br \/>\nMisericordioso o perd\u00e3o dos seus pecados!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que lhe hei de eu contar?&#8230;<\/p>\n<p>E solu\u00e7ava.<\/p>\n<p>&#8211; Diga-me: o que \u00e9 que ultimamente a tem posto triste?&#8230; Sente-se possu\u00edda<br \/>\nde alguma paix\u00e3o, que a atormenta?&#8230; Diga.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, meu padrinho, respondeu ela, sem levantar os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Por quem?<\/p>\n<p>&#8211; Vossemec\u00ea j\u00e1 sabe por quem \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pelo Raimundo&#8230;<\/p>\n<p>A mo\u00e7a respondeu com um gesto afirmativo de cabe\u00e7a<\/p>\n<p>&#8211; E quais s\u00e3o as suas inten\u00e7\u00f5es a esse respeito?<\/p>\n<p>&#8211; Casar com ele..<\/p>\n<p>19.55pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; E n\u00e3o se lembra com isso, ofende a Deus<br \/>\npor v\u00e1rios v\u00e1rios Ofende, porque desobedece a seus pais; ofende porque agasalha<br \/>\nno seio uma paix\u00e3o reprovada por toda a sociedade e principalmente por sua<br \/>\nfam\u00edlia; e ofende, porque com semelhante uni\u00e3o, condenar\u00e1 seus futuros filhos<br \/>\na um destino ign\u00f3bil e acabrunhado de mis\u00e9rias! Ana Rosa, esse Raimundo tem<br \/>\na alma t\u00e3o negra como o sangue! al\u00e9m de mulato, \u00e9 um homem mau sem religi\u00e3o,<br \/>\nsem temor de Deus! \u00c9 um &#8211; pedreiro livre! &#8211; \u00e9 um ateu! Desgra\u00e7ada daquela<br \/>\nque se unir a semelhante monstro!&#8230; O inferno ai est\u00e1, que o prova! o inferno<br \/>\nai est\u00e1 carregado dessas infelizes, que n\u00e3o tiveram, coitadas! um bom amigo<br \/>\nque as aconselhasse, como te estou eu aconselhando neste momento!&#8230; V\u00ea bem!<br \/>\nrepara, minha afilhada, tens o abismo a teus p\u00e9s! mede, ao menos, o precip\u00edcio<br \/>\nque te amea\u00e7a!&#8230; A mim, como pastor e como padrinho, compete defender-te!<br \/>\nN\u00e3o cair\u00e1s, porque eu n\u00e3o deixo!<\/p>\n<p>19.55pt;text-autospace:none&#8217;&gt; E, como a rapariga mostrasse um cerro ar<br \/>\nde d\u00favida, c\u00f4nego abaixou a cabe\u00e7a, e disse misteriosamente:<\/p>\n<p>19.55pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; Sei de coisas horrorosas, praticadas por<br \/>\naquele esconjurado!&#8230; N\u00e3o \u00e9 somente o fato de cor o que levanta a oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo teu pai&#8230; (Ana Rosa fez um gesto de surpresa). Saber\u00e1s, porventura, o que<br \/>\nprecedeu ao nascimento daquele homem; saber\u00e1s como veio ele ao mundo?!.. (E,<br \/>\nalterando a voz, para um tom sinistro): Horrible dictu!.. \u00c9 filho de um enxame<br \/>\nde crimes e vergonhas!&#8230; Aquilo \u00e9 o pr\u00f3prio crime feito gente!&#8230; E um diabo!<br \/>\nE o inferno em carne e osso! N\u00e3o te diria isto, minha filha, se assim n\u00e3o fosse<br \/>\npreciso; sabe, por\u00e9m, que ele, se quer casar contigo, \u00e9 porque tem a teu pai<br \/>\n\u00f3dio de morte e pretende vingar-se do pobre homem na pessoa da filha!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas do que quer ele vingar-se de papai?&#8230;<\/p>\n<p>19.55pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; Do qu\u00ea?&#8230; De muitas e muitas coisas,<br \/>\nque lhe n\u00e3o perdoa!&#8230; S\u00e3o segredos de fam\u00edlia, que ainda \u00e9s muito crian\u00e7a<br \/>\npara conhecer e Julgar!&#8230; Mas um dos motivos \u00e9, digo-te aqui no sagrado sigilo<br \/>\ndo confession\u00e1rio, o fato de haver teu pai herdado consideravelmente do irm\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel! exclamou Ana Rosa, tentando erguer-se.<\/p>\n<p>&#8211; Menina! repreendeu o c\u00f4nego, obrigando-a a ficar ajoelhada. Reze j\u00e1! incontinenti,<br \/>\npara que Deus se compade\u00e7a de tamanho desatino! De joelhos, pecadora! que<br \/>\n\u00e9s muito mais culpada do que eu supunha!<\/p>\n<p>19.55pt;text-autospace:none&#8217;&gt; A mo\u00e7a caiu de joelhos, tonta sob o bombardear<br \/>\ndaquelas impreca\u00e7\u00f5es, e gaguejou: o confiteor, batendo muito no peito na ocasi\u00e3o<br \/>\nde dizer o &#8220;Por mea culpa! mea m\u00e1xima culpa! E depois calaram-se ambos, por<br \/>\num instante.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o?&#8230; disse afina o padre, tornando \u00e0 primitiva brandura. Ainda est\u00e1<br \/>\nna mesma ou j\u00e1 entrou a raz\u00e3o nessa cabecinha?&#8230; Fale minha afilhada!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso mudar de resolu\u00e7\u00e3o, meu padrinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ainda pensa em casar com. ?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso deixar de pensar&#8230; creia!<\/p>\n<p>O padre velho levantou-se tragicamente, fechou as sobrancelhas e ergueu o<br \/>\nbra\u00e7o como um profeta.<\/p>\n<p>19.55pt;text-autospace:none&#8217;&gt; &#8211; Pois ent\u00e3o, declamou, sabe, infeliz, que<br \/>\nsobre ti pesara a maldi\u00e7\u00e3o eterna! sabe que tenho plenos poderes de teu pai<br \/>\npara retirar-te a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o! sabe que&#8230;<\/p>\n<p>Foi interrompido por um &#8220;Ai&#8221; de Ana Rosa que perdia os sentidos, caindo a<br \/>\nseus p\u00e9s.<\/p>\n<p>Ora bolas! resmungou ele, entre dentes.<\/p>\n<p>E saiu do confession\u00e1rio, para assentar a afilhada num dos longos bancos<br \/>\nde madeira preta, que havia ali junto.<\/p>\n<p>Felizmente n\u00e3o era nada. A rapariga deu um profundo suspiro e encostou a<br \/>\ncabe\u00e7a ao colo do parinho, chorando em sil\u00eancio de olhos fechados.<\/p>\n<p>Ele ficou algum tempo a contempl\u00e1-la naquela posi\u00e7\u00e3o, que a fazia mais bonita,<br \/>\ne, perdido em saudosas reminisc\u00eancias da sua mocidade, admirava a curva macia<br \/>\ndos seios, palpitantes, sob a compress\u00e3o . da seda, a brancura mimosa das<br \/>\nfaces, a engra\u00e7ada harmonia das fei\u00e7\u00f5es. &#8220;\u00d3 t\u00eampora! \u00d3 mores!&#8230;&#8221; disse consigo<br \/>\ne dep\u00f4-la, carinhosamente, contara o alto espaldar do banco.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos. continuou, quase em segredo, como um amante sequioso pelas pazes,<br \/>\ndepois de um arrufo. Vamos.. n\u00e3o seja teimosa&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o se fa\u00e7a m\u00e1&#8230; Ponha-se bem com Deus e comigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se para isso, balbuciou Ana Rosa, sem abrir os olhos, \u00e9 preciso desistir<br \/>\ndo casamento, n\u00e3o posso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas por que n\u00e3o podes, minha tolinha?&#8230; insistiu o confessor, tomando-lhe<br \/>\nas m\u00e3os com meiguice. &#8211; Hum?&#8230; por que n\u00e3o podes?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Porque estou gr\u00e1vida! respondeu ela, fazendo-se escarlate e cobrindo o<br \/>\nrosto com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Horresco referens!<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego deu um salto para tr\u00e1s, ficando de boca aberta por muito tempo,<br \/>\n\u00e3 sacudir a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhora!&#8230; f\u00ea-la bonita!&#8230;<\/p>\n<p>Ana Rosa chorava, escondendo a cara.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhora!&#8230;<\/p>\n<p>E o velho apalpava com o olhar o corpo inteiro da afilhada, como procurando<br \/>\ndescobrir nele a confirma\u00e7\u00e3o material do que ela dizia.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhora!&#8230;<\/p>\n<p>E tomou uma pitada.<\/p>\n<p>&#8211; Bem v\u00ea&#8230; arriscou afinal a rapariga, entre l\u00e1grimas, que n\u00e3o tenho outro<br \/>\nrem\u00e9dio sen\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 muito enganada! interrompeu o c\u00f4nego energicamente. Est\u00e1 muito enganada!<br \/>\nO que tem a fazer \u00e9 casar com o Dias! E logo! antes que a sua culpa se manifeste!<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o deu palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto a isso&#8230; acrescentou o lobo velho, apontando, desdenhoso, com o<br \/>\nbei\u00e7o, o ventre da afilhada, eu me encarregarei de lhe dar rem\u00e9dio para&#8230;<\/p>\n<p>Ana Rosa ergueu-se com um s\u00f3 movimento e ferrou o olhar no c\u00f4nego<\/p>\n<p>&#8211; Matar meu filho?!&#8230; exclamou l\u00edvida.<\/p>\n<p>E, como se temesse que o padre lho arrancasse ali mesmo das entranhas, precipitou-se<br \/>\ncorrendo para fora da igreja<\/p>\n<p>Saiu pelo lado que fronteia com o jardim p\u00fablico. Maria B\u00e1rbara s\u00f3 a p\u00f4de<br \/>\nalcan\u00e7ar j\u00e1 dentro do cano.<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito! disse lhe agastada. Parece antes que vens do inferno do que<br \/>\nda casa de Deus!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 mesmo!<\/p>\n<p>&#8211; Que diabos de modos s\u00e3o esses, Anica? repreendeu a velha. Ora vejam se<br \/>\nno meu tempo se dava disto! Por que est\u00e1s com essa cara t\u00e3o fechada, criatura?!<\/p>\n<p>Ana Rosa, em vez de responder, virou o rosto. E n\u00e3o trocaram mais palavra<br \/>\nat\u00e9 a casa, apesar do muito que serrazinou a av\u00f3 por todo o caminho<\/p>\n<p>E, no entanto, a pobre mo\u00e7a sentia se horrivelmente oprimida e precisava<br \/>\ndesabafar com algu\u00e9m. Um desejo doido a devorava: era correr em busca de Raimundo,<br \/>\ncontar-lhe tudo e pedir-lhe conselhos e amparo, porque nele, e s\u00f3 nele, confiaria<br \/>\ninteiramente. Queimava-lhe o corpo uma necessidade carnal de v\u00ea-lo, abra\u00e7\u00e1-lo,<br \/>\nprend\u00ea-lo ela com todo o ardor dos seus beijos, e depois arrast\u00e1-lo para longe<br \/>\npara um lugar oculto, bem oculto, um canto ignorado de todos, onde os dois<br \/>\nse entregariam exclusivamente ao ego\u00edsmo feliz daquele amor.<\/p>\n<p>Desde que se apercebera gr\u00e1vida, n\u00e3o podia suportar o seu acanhado quarto<br \/>\nde menina; a sua rede de solteira causava-lhe \u00edntimas revoltas. E agora, depois<br \/>\nde disparatar com o padrinho sentia-se com for\u00e7as para tudo; vibrava-lhe no<br \/>\nsangue uma energia estranha e absoluta; pensava no filho com transporte e<br \/>\norgulho, como se ele fora uma concep\u00e7\u00e3o gloriosa da sua intelig\u00eancia. E, na<br \/>\nobsess\u00e3o dessa id\u00e9ia, alheava-se de tudo mais, sem pensar sequer na falsidade<br \/>\nda situa\u00e7\u00e3o em que se avinha.<\/p>\n<p>Aguardava ansiosa os prazeres da maternidade, como se os conquistasse por<br \/>\nmeios l\u00edcitos, e tremia toda em sobressalto s\u00f3 com a lembran\u00e7a de que poderia<br \/>\nvir a faltar \u00e0 criancinha o menor cuidado ou o mais dispens\u00e1vel conforto;<br \/>\nvivia exclusivamente para ela; vivia para esse entezinho desconhecido que<br \/>\nlhe habitava o corpo; o filho era o seu querido pensamento de todo o instante;<br \/>\npassava os dias a conjeturar como seria ele, menino ou menina, grande ou pequeno,<br \/>\nforte ou franzino; se puxaria ao pai. Tinha pressentimentos e tornava-se mais<br \/>\nsupersticiosa. Apesar, por\u00e9m de todos os perigos e dificuldades sentia-se<br \/>\nmuito feliz com ser m\u00e3e e n\u00e3o trocada a sua posi\u00e7\u00e3o pela mais digna e segura,<br \/>\nse para isso fosse preciso sacrificar o filho. O filho! s\u00f3 este valia por<br \/>\ntudo; s\u00f3 este lhe merecia verdadeira import\u00e2ncia, o mais era mesquinho, incompleto,<br \/>\nfalso ou rid\u00edculo, ao lado daquela verdade que se realizava misteriosamente<br \/>\ndentro dela, como por milagre aquela felicidade, que Ana Rosa sentia crescer<br \/>\nde hora a hora de instante a instante no seu ventre, como um tesouro vivo<br \/>\nque avulta; aquela outra exist\u00eancia, que esgalhava da sua exist\u00eancia e que<br \/>\nera uma parcela palpitante do seu amado, do seu Raimundo, que ela trazia nas<br \/>\nentranhas!<\/p>\n<p>Ao chegar a casa, correu logo para o quarto, fechou-se por dentro, tomou<br \/>\npena e papel e escreveu, sem tomar f\u00f4lego uma enorme carta ao rapaz. &#8220;Vem,<br \/>\ndizia-lhe vem quanto antes meu amigo, que preciso de ti, para n\u00e3o acreditar<br \/>\nque somos dois monstros! Se soubesses como me fazes falta! como me dois ausente,<br \/>\nterias pena de mim! Vem, vem buscar-me! se n\u00e3o vieres at\u00e9 o fim do m\u00eas, irei<br \/>\nter contigo, irei ao teu encontro, farei uma loucura!&#8221;<\/p>\n<p>Mas Raimundo respondeu que ainda era cedo e pediu-lhe que esperasse com resigna\u00e7\u00e3o<br \/>\no momento de por em pr\u00e1tica o que eles j\u00e1 tinham antes combinado.<\/p>\n<p>O rapaz vivia agora muito aborrecido e muito nervoso estava macamb\u00fazio; n\u00e3o<br \/>\nqueria ver ningu\u00e9m. \u00c0s vezes assustava-se todo quando a criada lhe entrava inesperadamente<br \/>\nno quarta. Deixou crescer a barba; j\u00e1 mal cuidava de si; lia pouco e ainda menos<br \/>\nescrevia As suas rela\u00e7\u00f5es, granjeadas por interm\u00e9dio do tio, fecharam-se logo<br \/>\ncomo golpes em manteiga. N\u00e3o se despregava nunca de casa porque, sendo Ana Rosa<br \/>\no \u00fanico motivo de sua demora no Maranh\u00e3o, s\u00f3 ela o interessava e o atraia \u00e0<br \/>\nnua.<\/p>\n<p>Ana Rosa, por\u00e9m, era guardada a vista, desde a malograda partida do primo.<br \/>\nE, n\u00e3o obstante, as visitas de Manuel abstinham-se de falar em Raimundo; estabeleceu-se<br \/>\numa hip\u00f3crita indiferen\u00e7a em torno do fato; ningu\u00e9m dava palavra a esse respeito,<br \/>\nmas todos sentiam perfeitamente que o esc\u00e2ndalo ainda, abafado mas palpitante,<br \/>\nespreitando a primeira ocasi\u00e3o para rebentar de novo E a panelinha da casa<br \/>\ndo negociante, esperava, esperava, reunida \u00e0 noite at\u00e9 as horas regimentais<br \/>\ndo ch\u00e1 com o p\u00e3o torrado, conversando em mil assuntos, menos naquele que mais<br \/>\ninteressava a todos eles, posto que nenhum tivesse coragem de inici\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Mas a primeira semana correu sem novidade, e a segunda, a terceira, a quarta;<br \/>\nforam-se dois meses, e a panelinha afrouxou desanimada. Eufr\u00e1sia, a pouco<br \/>\ne pouco, ausentara-se de todo; Lindoca, chumbada \u00e0 sua obesidade, prendera<br \/>\no Freitas ao seu lado; o Campos moscara-se afinal para a roga; o Jos\u00e9 Roberto<br \/>\nafastara-se tamb\u00e9m, e vivia por ai, na p\u00e2ndega; s\u00f3 quem n\u00e3o desertou, e aparecia<br \/>\ncom a mesma regularidade, era D Am\u00e2ncia Sousellas pronta sempre para tudo,<br \/>\nsempre a dizer mal da vida alheia nunca deixando de clamar que os tempos estavam<br \/>\noutros e que hoje em dia os cabras queriam meter o nariz em tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m se lhe d\u00e3o confian\u00e7a!&#8230; disse ela, uma noite, envesgando uma olhadela<br \/>\nindireta sobre Ana Rosa.<\/p>\n<p>A filha de Manuel cruzou instintivamente os bra\u00e7os sobre o ventre.<\/p>\n<h2><a name=\"17\"><\/a>XVII<\/h2>\n<p>E passaram se tr\u00eas meses. Ana Rosa, ao contr\u00e1rio do que era de esperar, parecia<br \/>\nmais tranq\u00fcila; a vigil\u00e2ncia contra ela diminu\u00edra consideravelmente: o c\u00f4nego<br \/>\nfosse por c\u00e1lculo ou fosse por cumprimento de dever, guardara o segredo da<br \/>\nconfiss\u00e3o. A casa de Manuel havia, enfim, reca\u00eddo na sua moma e profunda tranq\u00fcilidade<br \/>\nburguesa.<\/p>\n<p>De tudo isto Raimundo recebera parte fielmente; e deliberou jogar a \u00faltima<br \/>\ncartada. Escreveu \u00e0 amante, marcando o dia da fuga. Ana Rosa adoeceu de contente.<br \/>\nA coisa seria no pr\u00f3ximo domingo; ele faria um carro esper\u00e1-la ao canto da<br \/>\nrua e uma vez que estivessem juntos, fugiriam para lugar seguro. O raptor<br \/>\nn\u00e3o seria facilmente reconhecido, porque as barbas lhe transformavam de todo<br \/>\na fisionomia. &#8220;No entanto, dizia ele na carta domingo, \u00e0s oito da noite hora<br \/>\nem que teu pai costuma conversar na botica do Vidal quando os vizinhos e caixeiros<br \/>\nainda est\u00e3o no passeio e tua av\u00f3 aos cuidados da M\u00f4nica que \u00e9 nossa, nessa<br \/>\nocasi\u00e3o um sujeito barbado vestido de preto, associar\u00e1 junto \u00e0 tua porta uma<br \/>\nm\u00fasica tua conhecida. Esse sujeito sou eu. Ao meu sinal descer\u00e1s cautelosamente<br \/>\ne sem risco algum. O resto fica por minha conta, a casa que nos h\u00e1 de receber<br \/>\ne o padre que nos casar\u00e1, estar\u00e3o nesse momento \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o. \u00c2nimo!<br \/>\ne at\u00e9 domingo as oito horas da noite.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;P.S. &#8211; Toda a cautela \u00e9 pouca!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ana Rosa durante os poucos dias que faltavam para a fuga, n\u00e3o fazia mais<br \/>\ndo que sonhar<\/p>\n<p>se na futura felicidade; estava sobressaltada e ao mesmo tempo radiante de<br \/>\nsatisfa\u00e7\u00e3o; mal se alimentava, mal dormia, cheia de uma impaci\u00eancia fren\u00e9tica<br \/>\nque lhe dava vertigens de febre. No ego\u00edsmo da sua alegria materna suportava<br \/>\nde mau humor as poucas amigas que a procuravam ou os velhos companheiros de<br \/>\nManuel, que \u00e0s vezes apareciam para jantar. Mas ningu\u00e9m parecia, nem por sombras<br \/>\ndesconfiar dos seus planos; ao contr\u00e1rio em casa falava-se, \u00e0 boca cheia na<br \/>\nobedi\u00eancia daquela boa filha t\u00e3o resignada \u00e0 vontade do pai, e cochichava-se<br \/>\ndevotamente sobre o salutar efeito da confiss\u00e3o. Maria B\u00e1rbara resplandecia<br \/>\nde triunfo e como os outros da fam\u00edlia, redobrava de solicitudes para com<br \/>\na neta; Ana Rosa era tratada como uma crian\u00e7a convalescente de mol\u00e9stia mortal,<br \/>\ncercavam<\/p>\n<p>na de pequenas delicadezas e mimos amorosos, evitavam-lhe contrariedades.<br \/>\nPerdoavam-lhe os caprichos e as rabugices. O c\u00f4nego, malgrado o que sabia,<br \/>\nnunca se lhe mostrara t\u00e3o paternal e t\u00e3o meigo. E os Dias, o inalter\u00e1vel Dias,<br \/>\nia surdamente ganhando certo predom\u00ednio sobre seus colegas, que principiavam<br \/>\nj\u00e1 respeit\u00e1-lo como pratr\u00e3o, porque viam iminente o seu casamento com Ana<br \/>\nRosa.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 de dentro! Est\u00e1 ali, est\u00e1 entrando pra sociedade!&#8230; rosnavam os caixeiros<br \/>\ndo Pescada, depois de comentar os novos ares com que a menina tratava Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Ela com efeito, agora o acolhia com menos repugn\u00e2ncia; uma vez chegou mesmo<br \/>\na sorrir para ele. Este sorriso, por\u00e9m, t\u00e3o mal entendido por todos, nada<br \/>\nmais era do contentamento de quem observa o precip\u00edcio por onde passou e do<br \/>\nqual se considera livre.<\/p>\n<p>O fato, porem , \u00e9 que Manuel andava satisfeito de sua vida . Ouviam-no cantarolar<br \/>\nao servi\u00e7o; viam-no \u00e0 porta dos vizinhos, sem chap\u00e9u, \u00e0s vezes em mangas de<br \/>\ncamisa, a chacotear ruidosamente, afogado em risos; e \u00e0 noite, em casa, quando<br \/>\nchegava o c\u00f4nego, agora ferrava-lhe sempre um abra\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 um homem dos diabos, seu compadre. Voc\u00ea \u00e9 quem as sabe todas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Davus sum non CEpidus!&#8230;<\/p>\n<p>A panelinha discutia em particular o grande acontecimento.&#8221;Quem seriam os<br \/>\npadrinhos?&#8230; Quais seriam os convidados?&#8230; Como seria o enxoval?&#8230; Como<br \/>\nseria o banquete?&#8230;&#8221; E, em breve, por toda prov\u00edncia, falou-se no pr\u00f3ximo<br \/>\ncasamento da filha do Pescada. Comentaram-no, profetizando boas e m\u00e1s conseq\u00fc\u00eancias;<br \/>\nriram-se muito de Raimundo; elogiaram, em geral , o procedimento de Ana Rosa:<br \/>\n&#8220;Sim senhor! pensou como mo\u00e7a de ju\u00edzo!&#8230;&#8221; Todos os amigos da casa come\u00e7aram<br \/>\na preparar-se para a festa, antes mesmo do convite. O Rosinha do Santos andava<br \/>\npouco depois preocupado com o improviso de uma poesia, com que contava reabilitar-se<br \/>\ndo seu fiasco no dia de S\u00e3o Jo\u00e3o; o Freitas desfazia-se em discursos, aprovando<br \/>\no fato , mas lastimando Raimundo, cujos artigos e cujos versos ele apreciava<br \/>\nconvictamente; o Casusa verberava contra os portugueses, furioso porque uma<br \/>\nbrasileira t\u00e3o bonita e t\u00e3o mimos fosse cair nas m\u00e3os de um pu\u00e7a fedorento;<br \/>\nAm\u00e2ncia e Etelvina perdiam horas a boquejar sobre o caso, insistindo a vi\u00fava<br \/>\nem que, s\u00f3 vendo, acreditaria em semelhante casamento. Afia\u00e7avam por toda<br \/>\na parte que a festa seria de arromba; diziam, com assombro respeitoso, que<br \/>\nhaveria sorvetes, e constava at\u00e9 que o Pescada, s\u00f3 para aquele dia, ia fazer<br \/>\nfuncionar do novo a m\u00e1quina de gelo de Santo Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>Mas o domingo fatal, que Raimundo destinara a fuga, chegou finalmente. Por<br \/>\nsinal que foi um dia bem<\/p>\n<p>aborrecido para a gente do Manuel, porque o c\u00f4nego n\u00e3o apareceu, como de costume,<br \/>\npara a palestra, e ningu\u00e9m sabia por onde andava Dias. O jantar correu frio,<br \/>\nsem pessoas de fora, mas em boa disposi\u00e7\u00e3o de humor; \u00e0 mesa, o negociante fez<br \/>\nv\u00e1rias considera\u00e7\u00f5es sobre o futuro da filha; mostrou-se bom e alegre com o<br \/>\nseu corpo de Lisboa; acudiram-lhe anedotas j\u00e1 conhecidas da fam\u00edlia; vieram-lhe<br \/>\npilh\u00e9rias a respeito de casamento; disse, a brincar com a filha, que havia de<br \/>\narranjar-lhe para noivo o Tinoco ou o major Cotia. Ela ria-se exageradamente;<br \/>\nestava corada, muito inquieta e nervosa; tinha vontade de acariciar o pai, abra\u00e7\u00e1-lo,<br \/>\nbeij\u00e1-lo, despedir-se dele. \u00c0 sobremesa, sentiu um desejo absurdo de contar-lhe<br \/>\ncom franquesa todo os seus planos, e pedir-lhe, pela \u00faltima vez, a sua aprova\u00e7\u00e3o<br \/>\na favor de Raimundo.<\/p>\n<p>\u00c0s seis horas entrou D. Am\u00e2ncia; ainda os encontrou no caf\u00e9. Ana Rosa teve<br \/>\numa pontada no cora\u00e7\u00e3o. &#8220;Que contratempo!&#8230;&#8221; A velha declarou que estava<br \/>\ncansada, vinha ofegante; pediu que a deixassem repousar um pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Que estafa a sua, credo! Subir oito ladeiras no mesmo dia!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oito, hein?&#8230;<\/p>\n<p>E Ana Rosa mordia os bei\u00e7os, sorrindo contrariada.<\/p>\n<p>&#8211; Contadinhas! \u00c9 de estrompar uma criatura!<\/p>\n<p>E conversaram largamente sobre as ladeiras do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o aquela do Vira Mundo!.. Benza-te Deus!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 pior do que a do Largo do Pal\u00e1cio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixe estar que a desta sua rua, seu Manuel, tamb\u00e9m tem o que se lhe diga!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E a da Rua do Giz?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um inferno! resumiu a velha, ainda arquejante. Ter a gente de estar sempre<br \/>\na subir e a descer como uma coisa danada! Cruzes!<\/p>\n<p>A conversa continuou, tomando para Ana Rosa um car\u00e1ter assustador. Am\u00e2ncia<br \/>\nparecia disposta a dar \u00e0 l\u00edngua; n\u00e3o se despregaria dali t\u00e3o cedo. Os caixeiros<br \/>\nrecolhiam<\/p>\n<p>se j\u00e1, e a rapariga tremia de impaci\u00eancia. &#8220;Diabo daquela velha n\u00e3o se poria<br \/>\nao fresco?&#8230; &#8221; Qual!<\/p>\n<p>O tempo corria.<\/p>\n<p>Manuel declarou da\u00ed a pouco, que n\u00e3o saia de casa. Foi buscar os seus jornais<br \/>\nportugueses e p\u00f4s-se a ler, \u00e0 mesa de jantar, na varanda.<\/p>\n<p>A pequena quase disparava. Correu para o seu quarto, fula de raiva, chorando.<br \/>\n&#8220;Tamb\u00e9m, diabo! tudo parecia conspirar contra ela!.. &#8221;<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio bateu uma badalada Eram sete e meia Ana Rosa soltou um murro na<br \/>\ncabe\u00e7a &#8220;Diabo!&#8221;<\/p>\n<p>Manuel bocejava Am\u00e2ncia parecia resolvida a n\u00e3o sair.<\/p>\n<p>Ana Rosa voltou \u00e0 varanda; tinha as m\u00e3os frias; o cora\u00e7\u00e3o queria saltar-lhe<br \/>\nde dentro. Sentia uma impaci\u00eancia saturada de medo; seu desejo era gritar,<br \/>\ndescompor aquele estafermo da velha, p\u00f4-la na rua, aos empurr\u00f5es, &#8220;que fosse<br \/>\namolar a av\u00f3!&#8221; Semelhantes obst\u00e1culos \u00e0 sua fuga pareciam-lhe uma injusti\u00e7a,<br \/>\numa falta de considera\u00e7\u00e3o; vinha lhe vontade at\u00e9 de queixar-se ao pai; de<br \/>\nprotestar contra aquelas contrariedades que a faziam sofrer.<\/p>\n<p>Decorreu um quarto de hora. Manuel levantou-se, espreguigando-se com os jamais<br \/>\nna m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Bom! D. Am\u00e2ncia d\u00e1 licen\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>E recolheu-se ao quarto, para dormir.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>Ana Rosa criou alma nova; teve vontade de abra\u00e7ar o pai, agradecendo-lhe<br \/>\ntamanha fineza<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb\u00e9m j\u00e1 me vou chegando&#8230; disse Am\u00e2nca. E ergueu-se.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1?&#8230; balbuciou a mo\u00e7a, por delicadeza.<\/p>\n<p>A visita tornou a assentar-se; a outra sentiu \u00edmpetos de estrangul\u00e1-la.<\/p>\n<p>Maria Barbara veio do quarto, e entabulou conversa com a amiga Ana Rosa arfava<\/p>\n<p>&#8211; Diabo!<\/p>\n<p>Faltavam cinco para as oito. Am\u00e2ncia levantou-se afinal, e despediu-se.<\/p>\n<p>&#8211; Ora gra\u00e7as a Deus!&#8230;<\/p>\n<p>Maria B\u00e1rbara foi at\u00e9 o corredor.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, gritou a Sousellas. N\u00e3o se esque\u00e7a, hein?&#8230; Tr\u00eas pingos de lim\u00e3o<br \/>\ne uma colherzinha de \u00e1gua de flor de laranja&#8230;. Santo rem\u00e9dio! Ainda \u00e9 receita<br \/>\nda nossa defunta Maria do Carmo!.<\/p>\n<p>E desceu.<\/p>\n<p>Mas, j\u00e1 debaixo, voltou, chamando por Mana B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, Babu!<\/p>\n<p>Ana Rosa quase perde os sentidos.<\/p>\n<p>Deixou-se cair em uma cadeira.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade voc\u00ea n\u00e3o sabe de uma?&#8230;- Pois n\u00e3o lhe ia esquecendo?&#8230;- A Eufrasinha<br \/>\nestava de namoro com um estudante do Liceu?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que estouvada!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um menino de quinze anos, criatura!<\/p>\n<p>E contou toda a hist\u00f3ria, puxando pelos coment\u00e1rios, e esticando-os.<\/p>\n<p>Ana Rosa, assentada na varanda, em uma cadeira de balan\u00e7o, rufava com as<br \/>\nunhas nos dentes.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem adeus minha vida!<\/p>\n<p>E Am\u00e2ncia beijocou a cara de Maria B\u00e1rbara<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 que enfim!<\/p>\n<p>Ana Rosa correu logo ao quarto Raimundo recomendara-lhe que n\u00e3o levasse nada,<br \/>\nabsolutamente nada, de casa, que ele estava preparado e prevenido para receb\u00ea-la,<br \/>\nrel\u00f3gio pingou, inalteravelmente oito badaladas roucas. Maria B\u00e1rbara afastara-se<br \/>\npara o interior da casa; Manuel continuava a dormir no seu quarto. E da\u00ed a<br \/>\ninstantes, no sil\u00eancio da varanda, ouviu-se o assovio forte de Raimundo, entoando<br \/>\num trecho italiano.<\/p>\n<p>Ana Rosa cujo cora\u00e7\u00e3o fazia do seu peito um c\u00edrculo de gin\u00e1stica apanhou<br \/>\ntr\u00eamula as salas e, com uma ligeireza de p\u00e1ssaro que foge da gaiola, desceu<br \/>\na escada na ponta dos p\u00e9s, atirando-se l\u00e1 embaixo nos bra\u00e7os de Raimundo,<br \/>\nque a esperava nos primeiros degraus.<\/p>\n<p>Mas, ao transporem a porta da nua, ela soltou um grito, e o rapaz estacou,<br \/>\nempalidecendo. Do lado de fora, o c\u00f4nego Diogo e o Dias, acompanhados por<br \/>\nquatro soldados de policia, sa\u00edram ao seu encontro, cortando-lhes a passagem.<\/p>\n<p>Dias, s\u00f3 por si, era um pobre peda\u00e7o de asno, incapaz da m\u00ednima sutileza<br \/>\nde intelig\u00eancia e pouco destro na pontaria dos seus racioc\u00ednios; posto, por\u00e9m,<br \/>\nao servi\u00e7o do c\u00f4nego Diogo, tornara-se uma arma perigosa, de grande alcance<br \/>\ne maior certeza. Guiado pelo mestre, o imbecil nunca tinha deixado de espreitar,<br \/>\nsempre desconfiado e atento, sondando tudo aquilo que lhe parecia suspeito,<br \/>\nacordando, muita vez, por alta noite, para ir, tenteando as trevas, espiar<br \/>\ne escutar, na esperan\u00e7a de descobrir alguma coisa. As furtivas conversas de<br \/>\nAna Rosa com a preta M\u00f4nica quando esta voltava da fonte n\u00e3o lhe passaram<br \/>\ndespercebidas e por a\u00ed chegou ao conhecimento da correspond\u00eancia de Raimundo,<br \/>\ndesde logo as primeiras cartas.<\/p>\n<p>&#8211; Devo apoderar-me delas&#8230; n\u00e3o \u00e9 verdade? perguntou ao padre.<\/p>\n<p>&#8211; Nada! Por ora n\u00e3o! \u00c9 cedo ainda!&#8230; respondeu Diogo.<\/p>\n<p>E este continuava a freq\u00fcentar assiduamente a casa do compadre sempre muito<br \/>\nsolicito pela sa\u00fade da sua afilhada, informando-se, com paternal interesse,<br \/>\ndas mais pequeninas coisas que lhe faziam respeito, querendo saber quais os<br \/>\ndias em que ela comia melhor, quais em que se sentia alegre ou triste, quando<br \/>\nchorava, quando se enfeitava, quando acordava tarde e quando rezava. Como<br \/>\nbom velho amigo da fam\u00edlia exigia que lhe dessem contas de tudo, e Manuel<br \/>\nas dava de bom grado satisfeito por ver que as coisas iam voltando aos seus<br \/>\neixos e que a sua casa recaia na primitiva tranq\u00fcilidade. O c\u00f4nego nem por<br \/>\nsombra, lhe revelara o segredo da confus\u00e3o de Ana Rosa, temendo como solid\u00e1rio<br \/>\ndo Dias, que o negociante, em conjuntura t\u00e3o feia esquecesse tudo e preferisse<br \/>\ncasar a filha com o homem que a desvirtuara. Quanto ao seu protegido, tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o lhe quadrou dizer<\/p>\n<p>lhe a verdade, porque receava que o caixeiro, por escr\u00fapulo ou por medo do rival,<br \/>\ndesistisse do casamento&#8230; Ora, desitindo o Dias, Diogo estaria em maus len\u00e7\u00f3is,<br \/>\nporque Ana Rosa casava-se logo com Raimundo e ele ficaria sujeito a vingan\u00e7a<br \/>\ndeste, a quem temia, e com raz\u00e3o, depois daquela pequena confer\u00eancia \u00e0 volta<br \/>\nde S\u00e3o Br\u00e1s. &#8220;Sei perfeitamente, raciocinava o fin\u00f3rio, que o traste n\u00e3o tem<br \/>\nnenhuma prova contra mim, mas conv\u00e9m-me, a todo custo , faz\u00ea-lo sair do Maranh\u00e3o!&#8230;<br \/>\nSeguro morreu de velho!&#8230; O que o prende aqui \u00e9 a esperan\u00e7a de obter ainda<br \/>\nAna Rosa; esta, uma vez casada com o basbaque do Dias, ir\u00e1, mas o marido , dar<br \/>\num passeio \u00e0 Europa, e o outro musca-se naturalmente. Mas se por acaso, quiser<br \/>\nantes de ir, desmoraliza-me perante o p\u00fablico, todos lan\u00e7ar\u00e3o \u00e0 palavra conta<br \/>\ndo despeito e, al\u00e9m de rid\u00edculo, ficar\u00e1 tido como um caluniador!&#8230;&#8221; E, esfregando<br \/>\nas m\u00e3os, satisfeito com os seus des\u00edgnios, conclu\u00eda: &#8220;Quem o mandou meter-se<br \/>\nde gorra c\u00e1 com o degas!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Assim, nas ocasi\u00f5es em que Dias ia preveni-lo da chegada de uma nova carta<br \/>\nde Raimundo, o c\u00f4nego tratava de estudar, olho de mestre, a impress\u00e3o que<br \/>\nela deixava no \u00e2nimo de afilhada e, vendo o alvoro\u00e7o em que a rapariga ficara<br \/>\ncom a \u00faltima, apressou-se em dizer ao caixeiro:<\/p>\n<p>&#8211; Chegou a vez, eu amigo, \u00e9 agora! Atire-se! Precisamos desta carta!<\/p>\n<p>&#8211; E por que nunca precisamos das outras?&#8230; perguntou Lu\u00eds estupidamente.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?&#8230; Ora eu lhe digo&#8230; (Voc\u00ea pilhou-me em boa mar\u00e9!). As outras<br \/>\ncartas eram simples palavr\u00f3rios de namoro; n valia a pena arriscar-se a gente<br \/>\npor elas; demais, minha afilhada podia a vir desconfiar de uma coisa, redobraria<br \/>\nde cuidado, e agora a aquisi\u00e7\u00e3o desta, que nos \u00e9 imprescind\u00edvel, n\u00e3o seria<br \/>\nt\u00e3o f\u00e1cil como h\u00e1 de ser, compreende?<\/p>\n<p>Mas a verdadeira causa n\u00e3o revelou o disfar\u00e7ado. O c\u00f4nego n\u00e3o queria que<br \/>\no caixeiro lesse as primeiras cartas de Raimundo, por dois motivos: um porque<br \/>\ntemia que este fizesse em alguma delas qualquer revela\u00e7\u00e3o a respeito do crime<br \/>\nde S\u00e3o Br\u00e1s; e segundo, porque receava que incidentalmente se referisse a<br \/>\nelas ao interessante estado de Ana Rosa. O certo, porem, \u00e9 que semelhante<br \/>\nmedida, facilitou, sem d\u00favida, a posse da carta, em que Raimundo marcava o<br \/>\ndia de fuga. O caixeiro, engodando o Benedito com uma c\u00e9dula de dez mil r\u00e9is,<br \/>\nmesmo instantes; copiou-a logo, restituiu-a, e correu \u00e0 casa de Diogo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, os dois aliados, senhores j\u00e1 nos planos do inimigo trataram de cortar-lhe<br \/>\no v\u00f4o, recorrendo \u00e0 pol\u00edcia, que lhes forneceu quatro pra\u00e7as.<\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo, como era de prever, reuniu povo na Rua da Estrela, e Manuel<br \/>\nacordou sobressaltado aos gritos da sogra, da Br\u00edgida e da M\u00f4nica, que sem<br \/>\ndarem por falta de Ana Rosa, assustavam-se com a presen\u00e7a dos soldados e com<br \/>\no alvoro\u00e7o da gentalha acumulada a porta do sobrado. Maria B\u00e1rbara, toda safrapantada,<br \/>\ncorreu aos gritos para seu quarto e, abra\u00e7ando-se a um santo, encafuou-se<br \/>\nna rede, porque n\u00e3o estava em suas m\u00e3os ver fardas e baionetas &#8220;sentia logo<br \/>\num formigueiro pelas pernas e o est\u00f4mago nu embrulho! Credo!&#8221;<\/p>\n<p>Raimundo, entretanto n\u00e3o descoro\u00e7oou com a situa\u00e7\u00e3o e subia a escada, sem<br \/>\nhesitar, levando consigo Ana Rosa, meio desfalecida. Em cima, deu cara a cara<br \/>\ncom Manuel, e estacou, fitando-se os dois com a mesma firmeza, porque cada<br \/>\num tinha plena consci\u00eancia dos seus atos. O padre e o caixeiro subiram em<br \/>\nseguida acompanhados pelos soldados.<\/p>\n<p>Juntos todos, a situa\u00e7\u00e3o tornou-se dif\u00edcil; o sil\u00eancio coalhava em torno<br \/>\ndeles, imobilizando<\/p>\n<p>os. Afinal o c\u00f4nego puxou pelo seu farto len\u00e7o de seda da \u00cdndia, assoou-se<br \/>\ncom enstrondo e declarou, depois uma m\u00e1xima que, na qualidade de amigo e compadre<br \/>\ndo pai de Ana Rosa, entendeu de sua obriga\u00e7\u00e3o evitar o criminoso rapto que<br \/>\no Sr. Dr. Raimundo, ali presente, tentara perpetrar contra um dos membros<br \/>\ndaquela fam\u00edlia.<\/p>\n<p>A rapariga voltara a si com as palavras do padrinho e escutava-o de cabe\u00e7a<br \/>\nbaixa, ainda amparada ao ombro de Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu ia por minha vontade&#8230; murmurou ela, sem levantar os olhos. Fugia com<br \/>\nmeu primo, porque esse era o \u00fanico meio de casar com ele.<\/p>\n<p>&#8211; E o senhor, como se explica?&#8230; perguntou o c\u00f4nego a Raimundo, com autoridade.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me defendo, nem aceito o juiz: apenas declaro que esta senhora nenhuma<br \/>\nresponsabilidade tem no que se acaba de passar. O culpado sou eu: bem ou mal,<br \/>\nentendi, e entendo, que hei de casar com ela e para isso empregarei todos<br \/>\nos meios.<\/p>\n<p>Ana Rosa ia dizer alguma coisa, o c\u00f4nego atalhou:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos todos c\u00e1 pra dentro!<\/p>\n<p>E, depois de despedir os soldados, seguiram para a saia, de cuja entrada<br \/>\nMaria B\u00e1rbara os espiava, ainda corrida e espantadi\u00e7a do susto.<\/p>\n<p>&#8211; Agora que estamos em fam\u00edlia, acrescentou ele, fechando as portas, resolvamos,<br \/>\ncomo homens de boa e s\u00f3 justi\u00e7a, o que nos cumpre fazer em t\u00e3o melindrosa situa\u00e7\u00e3o!&#8230;<br \/>\nHodie mihi, cras tibi!&#8230; Seu Manuel, primeiro voc\u00ea! Tem a palavra!<\/p>\n<p>Manuel passeava ao comprido da casa. Parou, fazendo face ao sof\u00e1, onde estavam<br \/>\ntodos, e dirigiu-se ao grupo. O pobre homem tinha uma grande tristeza na fisionomia;<br \/>\ntransparecia-lhe no olhar a sua perplexidade, impondo o respeito e a compaix\u00e3o,<br \/>\nque nos inspiram as dores resignadas. Percebia-se que lhe faltavam as palavras,<br \/>\ne que o infeliz lutava para expor as suas id\u00e9ias de um modo fiel e claro.<br \/>\nAfinal, voltou-se para o c\u00f4nego e declarou que estimava bastante v\u00ea-lo, naquele<br \/>\nmomento, ao seu lado. &#8220;O compadre fora sempre o seu guia, o seu companheiro,<br \/>\no seu melhor amigo, como, ainda uma vez, acabava de prov\u00e1-lo. Ficasse pois<br \/>\ne ouvisse, que era da fam\u00edlia!&#8221; Depois, pediu \u00e0 sogra que se aproximasse.<br \/>\n&#8220;A presen\u00e7a dela e a sua opini\u00e3o eram igualmente imprescind\u00edveis.&#8221;<\/p>\n<p>E passou ao caixeiro: &#8220;Ali o seu Dias tamb\u00e9m devia ficar porque n\u00e3o representava<br \/>\num simples empregado, que Manuel tinha no armaz\u00e9m; representava um colega<br \/>\nzeloso, um futuro s\u00f3cio, que em breve devia fazer parte dos seus por direito,<br \/>\nque de fato j\u00e1 o era, havia muito tempo. Achavam-se por conseguinte na maior<br \/>\nintimidade, e ele, para descargo da sua consci\u00eancia, podia falar com franqueza<br \/>\nao Dr. Raimundo e dizer-lhe tudo, p\u00e3o<\/p>\n<p>p\u00e3o, queijo queijo, o que pensava a respeito do ocorrido!&#8221;<\/p>\n<p>E, depois de uma pausa, declarou que, desde o momento em que pensara no casamento<br \/>\nde sua filha, fora sempre com sentido no futuro e na felicidade dela. &#8220;N\u00e3o<br \/>\nfossem supor que ele queria cas\u00e1-la com algum pr\u00edncipe encantado ou com algum<br \/>\ns\u00e1bio da Gr\u00e9cia!&#8230; N\u00e3o senhor! o que queda era d\u00e1-la a um homem de bem e<br \/>\ntrabalhador como ele; mas, com os diabos! que fosse branco e que pudesse assegurar<br \/>\num futuro tranq\u00fcilo e decente para os seus netos! Vai ele ent\u00e3o &#8211; pensou no<br \/>\nDias; l\u00e1 lhe dizia n\u00e3o sei o que por dentro que ali estava um bom marido para<br \/>\nAnica.<\/p>\n<p>Um belo dia, descobriu da parte do rapaz certa inclina\u00e7\u00e3o por ela e ficara<br \/>\nsatisfeito, prometendo logo, com os seus bot\u00f5es, dar-lhe sociedade na casa,<br \/>\nse porventura se realizasse o casamento&#8230; Ora, bem viam os circunstantes,<br \/>\nque, em tudo aquilo, Manuel s\u00f3 tinha em vista o bem da rapariga&#8230; nem acreditassem<br \/>\nque houvesse por a\u00ed pais t\u00e3o desnaturados que chegassem a desejar mal para<br \/>\nos seus pr\u00f3prios filhos! Qual o qu\u00ea, coitados! o que \u00e0s vezes queriam era<br \/>\nprevenir o mal, que s\u00f3 depois havia de aparecer! Como agora poderia ele, que<br \/>\ns\u00f3 tinha aquela, que s\u00f3 possu\u00eda a sua Anica, que a educara o melhor que pudera,<br \/>\nque embranquecera a cabe\u00e7a a pensar na felicidade daquela filha; ele, que<br \/>\nlhe fazia todas as vontades, todos os caprichos! ele, que seria capaz dos<br \/>\nmaiores sacrif\u00edcios por amor daquela menina!.. como poderia pois contrari\u00e1-la<br \/>\ncausar-lhe mal, s\u00f3 por gosto?. . Ent\u00e3o os senhores achavam que isso tinha<br \/>\ncabimento?&#8230; Ele desejava v\u00ea-la casada, por Deus que desejava! n\u00e3o a criara<br \/>\npra feira!&#8230; mas, com um milh\u00e3o de raios, desejava v\u00ea-la casada em sua companhia!<br \/>\nQueria v\u00ea-la feliz, satisfeita, cercada de parentes e amigos; mas, boas! na<br \/>\nsua terra, ao lado de seu pai! Ora essa! pois ent\u00e3o um homem por estar velho,<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o tinha direito ao carinho de seus filhos?&#8230; Ou quem sabe, se a filha<br \/>\npor estar mulher j\u00e1 n\u00e3o devia saber do pai? &#8211; Morre p&#8217;r&#8217;a\u00ed, calhama\u00e7o, que<br \/>\nme importa a mim! &#8211; N\u00e3o! que isso tamb\u00e9m Deus n\u00e3o mandava!&#8230; Queria ir se<br \/>\nembora? queria deixar o pobre velho ali sozinho sem ter quem lhe quisesse<br \/>\nbem sem ter quem tratasse dos seus achaques?&#8230; podia ir! Que fosse! mas esperasse<br \/>\num instante&#8217; que ele fechasse os olhos primeiro, sua ingrata!&#8221;<\/p>\n<p>E Manuel, enxugando os olhos na manga do palet\u00f3 concluiu com a voz tr\u00eamula:<\/p>\n<p>&#8211; Ai t\u00eam os senhores o que eu pensava fazer; porem vai o diabo chega do Rio<br \/>\num meu sobrinho bastardo um filho do defunto mano Jos\u00e9 com a preta Domingas,<br \/>\nque foi sua escrava! Como era de esperar visto que sempre me encarreguei dos<br \/>\nneg\u00f3cios de meu irm\u00e3o e ultimamente dos de meu sobrinho, hospedei-o c\u00e1 em<br \/>\ncasa Raimundo afei\u00e7oou-se \u00e0 minha filha ela a modos que lhe correspondeu,<br \/>\nele vem pede-ma em casamento; vou eu &#8211; nego-lha! Ele quer saber o porqu\u00ea e<br \/>\neu dou-lhe a raz\u00e3o com franqueza! Pois bem! Vejam! este homem deixa de fazer<br \/>\numa viagem, que, para me iludir, fingiu que ia fazer, e, depois de andar por<br \/>\na\u00ed a esconder-se de todos, falta \u00e0 sua palavra de honra, e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, gritou Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor, n\u00e3o! que vossemec\u00ea deu-me a sua palavra em como nunca procuraria<br \/>\ncasar com Anica! Por conseguinte digo e sustento: depois de ter faltado \u00e0<br \/>\nsua palavra de honra vem astuciosamente raptar minha filha! Ser\u00e1 isto legal?!<br \/>\nN\u00e3o haver\u00e1 nos c\u00f3digos desta terra uma pena para semelhante abuso?!..<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1, disse o rapaz, reconquistando o sangue frio, h\u00e1, quando o delinq\u00fcente<br \/>\nse nega a reparar o delito com o casamento.. Eu, por\u00e9m, n\u00e3o desejo outra coisa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Iche! disparatou Mana B\u00e1rbara, saltando em frente. Casar minha neta com<br \/>\nfilho de uma negra?! Voc\u00ea mesmo n\u00e3o se enxerga!<\/p>\n<p>Manuel sentiu-se embara\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8211; Apelo, suplicou, para a consci\u00eancia de cada um! Coloquem-se no meu lugar<br \/>\ne digam o que fariam!&#8230; Mas parece-me que n\u00f3s o que devemos \u00e9 acabar com<br \/>\nisto e evitar um esc\u00e2ndalo maior! Compreendo perfeitamente que o Dr. Raimundo<br \/>\nn\u00e3o tem culpa da sua proced\u00eancia e&#8217; como \u00e9 um homem de ju\u00edzo e de bastante<br \/>\nsaber, espero que a pedido de n\u00f3s todos, deixar\u00e1 o Maranh\u00e3o quanto antes!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Am\u00e9m!&#8230; aprovou o c\u00f4nego<\/p>\n<p>&#8211; E eu, desde j\u00e1, prop\u00f4s Lu\u00eds. obedecendo a um sinal do guia pe\u00e7o a m\u00e3o da<br \/>\nsenhora D. Anica<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero! exclamou Ana Rosa, ainda mesmo que Raimundo me abandone!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma injusti\u00e7a que me faz, observou este \u00faltimo \u00e0 mo\u00e7a. Sei perfeitamente<br \/>\ncumprir com os meus deveres!<\/p>\n<p>&#8211; Como com os seus deveres?!&#8230; interrogou Maria B\u00e1rbara, refilando os dentes<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha senhora com os meus deveres!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o senhor n\u00e3o parte, definitivamente?! interveio Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; Juro que n\u00e3o me retirarei do Maranh\u00e3o, sem ter casado com sua filha! respondeu<br \/>\no rapaz, calmo e resoluto.<\/p>\n<p>&#8211; E eu declaro, berrou a velha, que voc\u00ea n\u00e3o h\u00e1 de casar com minha neta enquanto<br \/>\neu viva for!<\/p>\n<p>&#8211; E eu retiro a minha bn\u00e7\u00e3o de minha afilhada, se ela n\u00e3o obedecer a sua<br \/>\nfam\u00edlia&#8230; refor\u00e7ou o c\u00f4nego.<\/p>\n<p>Raimundo cravou-lhe um olhar, que perturbou o padre.<\/p>\n<p>E ar a Rosa ergueu-se, levantando a cabe\u00e7a. Brilhava-lhe no rosto, embaciado<br \/>\npelas l\u00e1grimas, o reflexo de uma grande e dolorosa resolu\u00e7\u00e3o. Todas as vistas<br \/>\nse voltaram para ela; estava p\u00e1lida e comovida, seus l\u00e1bios tremiam; mas afinal,<br \/>\nvencendo a onda vermelha do pudor que a sufocava, balbuciou:<\/p>\n<p>&#8211; Tenho por for\u00e7a de casar com ele&#8230; Estou gr\u00e1vida!<\/p>\n<p>Foi um choque geral. At\u00e9 o pr\u00f3prio c\u00f4nego, para quem o estado da mo\u00e7a n\u00e3o<br \/>\nera segredo pasmou de ouvi-la. Manuel caiu sobre uma cadeira, fulminado com<br \/>\nos olhos abertos, arquejante. O Dias fez-se da cor de um cad\u00e1ver. E Raimundo<br \/>\ncruzou os bra\u00e7os; enquanto Maria B\u00e1rbara espumando de raiva saltava para junto<br \/>\nda neta, escondendo-a com o corpo, como se quisesse defend\u00ea-la do amante.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca! Nunca! bramiu a fera. Gr\u00e1vida?&#8230; Embora! Antes monta ou prostitu\u00edda!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pchit&#8230; fez o c\u00f4nego. E disse em tom misterioso e suplicante:<\/p>\n<p>&#8211; Mais baixo! .. mais baixo!&#8230; Olhe que a podem ouvir da rua, D. Babita!<br \/>\n&#8230;<\/p>\n<p>-Tu est\u00e1s de barrida?&#8230; exclamou por fim Manuel, erguendo-se, vermelho de<br \/>\nc\u00f3lera.<\/p>\n<p>E arrancou para a filha com os punhos cerrados.<\/p>\n<p>Raimundo repeliu-o, sem lhe dar palavra<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 um malvado, invectivou o pobre pai, afastando-se para um canto<br \/>\na solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>O rapaz foi ter com ele e pediu-lhe humildemente que o perdoasse e lhe desse<br \/>\nAna Rosa por esposa.<\/p>\n<p>O negociante n\u00e3o respondeu e p\u00f4s-se a praguejar entre l\u00e1grimas<\/p>\n<p>&#8211; Calma! calma! aconselhou o c\u00f4nego, passando-lhe o bra\u00e7o no ombro. Vamos<br \/>\nver o que se pode arranjar!&#8230; s\u00f3 para a monte n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio&#8230; Mente&#8217;m hominis<br \/>\nspectate, non frontem!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Arranjem l\u00e1 seja o que for, menos o casamento de minha neta com um negro!<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhora, D. Maria B\u00e1rbara&#8230; M\u00ednima de malis!&#8230;<\/p>\n<p>E o c\u00f4nego, depois de tomar uma pitada, voltou-se cortesmente para o Dias:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor, ainda h\u00e1 pouco, pediu a meti compadre a m\u00e3o de minha afilhada,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 e verdade?<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Pois o seu pedido est\u00e1 de p\u00e9&#8217; e eu lhe darei a resposta amanh\u00e3 \u00e0 tarde.<br \/>\nPode retirar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Por um.<\/p>\n<p>Diogo n\u00e3o lhe deu tempo para mais. Conduziu-o at\u00e9 \u00e0 ponta e segredou-lhe<br \/>\nrapidamente:<\/p>\n<p>&#8211; Espere por mim no canto da Prensa V\u00e1!<\/p>\n<p>O Dias fez um cumprimento e saiu.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego tornou a meio da sala, para dirigir-se a Raimundo.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto aqui ao Sr. Doutor, diz que est\u00e1 disposto a reparar o seu cor-e.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 exato.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor, \u00e9 muito natural . \u00e9 muito bonito at\u00e9!&#8230; Mas,&#8230; continuou,<br \/>\nestalando os l\u00e1bios, diz por outro lado o meu compadre, diz a senhora D. Maria<br \/>\nB\u00e1rbara e diz este seu humilde servo, que V. S\u00aa n\u00e3o est\u00e1 no caso de reabilitar<br \/>\nningu\u00e9m!&#8230; Suspecta malorum beneficia!&#8230; O que V S\u00aa chama repara\u00e7\u00e3o, longe<br \/>\nde salvar, prejudicaria a aviltada ainda mais a vitima!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Canalha! gritou Raimundo, perdendo de todo a paci\u00eancia e agarrando o padre<br \/>\npelo pesco\u00e7o &#8211; Esmago-te aqui mesmo bandido!<\/p>\n<p>E repulsou-o das m\u00e3os, com medo de mat\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Manuel e a sogra acudiram, cheios de indigna\u00e7\u00e3o contra Raimundo; enquanto<br \/>\no c\u00f4nego puxava para o lugar a sua volta de rendas e endireitava a batina,<br \/>\nresmungando:<\/p>\n<p>&#8211; Espere l\u00e1, meu amigo! isto n\u00e3o vai \u00e0 for\u00e7a!&#8230; Hoo avetart Deus&#8230; Sabemos<br \/>\nperfeitamente que V. S\u00aa \u00e9 muito boa pessoa&#8230; Apre! Mas&#8230; h\u00e1 de concordar<br \/>\nque n\u00e3o tem o direito de pretender a m\u00e3o de minha afilhada! Nem a murros me<br \/>\nobrigar\u00e1 a negar que o senhor \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um cabra! concluiu a velha com um berro. E um filho da negra Domingas!<br \/>\nalforriado \u00e0 pia! \u00c9 um bode! \u00c9 um mulato!<\/p>\n<p>&#8211; Mas afinal, com todos os diabos! a que pretendem chegar? gritou Raimundo,<br \/>\nbatendo com o p\u00e9. Desembuchem!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que, respondeu o c\u00f4nego, inalteravelmente; n\u00f3s, para evitarmos que o<br \/>\nesc\u00e2ndalo prossiga, vamos oferecer-lhe de n ovo o \u00fanico alvitre a seguir,<br \/>\ne olhe que poder\u00edamos, sem mais delongas, process\u00e1-lo em regra, se assim o<br \/>\nentend\u00eassemos!&#8230; Mas&#8230; para que negar?&#8230; n\u00e3o acreditamos que o senhor abusasse<br \/>\nda inoc\u00eancia desta menina!&#8230; aquela declara\u00e7\u00e3o de h\u00e1 pouco nada mais foi<br \/>\ndo que um simples estratagema, urdido por V. S\u00aa, com o fim de realizar os<br \/>\nseus intentos. Enganou-se! Sabemos que ela est\u00e1 t\u00e3o pura como dantes! O que<br \/>\nse tem a fazer, por conseguinte, \u00e9 isto: O doutor vai retirar-se quanto artes<br \/>\ndesta terra, retirara-se imediatamente, sob pena de ser justi\u00e7ado corno o<br \/>\nentendermos melhor!<\/p>\n<p>Raimundo foi buscar o chap\u00e9u. O c\u00f4nego atalhou-lhe \u00e0 sa\u00edda.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o! Que decide?<\/p>\n<p>&#8211; Fomente-se! respondeu-lhe aquele, e encaminhou-se para Ana Rosa, que chorava,<br \/>\nencostada \u00e0 parede.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda nos resta um meio\u2026 A senhora \u00e9 maior. Amanh\u00e3 ter\u00e1s not\u00edcias<br \/>\nminhas. Juro que serei seu esposo!<\/p>\n<p>&#8211; E eu juro que sou tua! exclamou ela, lan\u00e7ando-se para acompanh\u00e1-lo at\u00e9<br \/>\n\u00e0 ponta.<\/p>\n<p>&#8211; Cale-se! ordenou Manuel, obrigando-a a retroceder com um empurr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Bem!&#8230; resmungou o padre, logo que rendo saiu. Seja!&#8230;<\/p>\n<p>Ana Rosa correu a fechar-se no quarto.<\/p>\n<p>Manuel deixou-se cair numa cadeira, abafando nas m\u00e3os os seus solu\u00e7os; Maria<br \/>\nB\u00e1rbara continuou a praguejar, voltando agora contra o genro todo o seu desespero;<br \/>\ne o c\u00f4nego, indo ter, ora com um, ora com outro, procurava acalm\u00e1-los, prometendo<br \/>\narranjar tudo &#8220;Que se deixassem daquela arrelia. a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era tamb\u00e9m<br \/>\nl\u00e1 essas coisas!&#8230; N\u00e3o valia a pena afligirem-se de semelhante modo!&#8230; Fiassem-se<br \/>\nnele, que tudo se arranjaria decentemente!&#8230; O neg\u00f3cio da gravidez era uma<br \/>\npatranha, engendrada \u00e0 \u00faltima hora!&#8230; Pois ent\u00e3o, se houvesse nisso alguma<br \/>\nverdade, a pequena n\u00e3o lha teria confessado?\u2026<\/p>\n<p>E da\u00ed a pouco descia a escada, rangendo nos degraus os seus sapatos de polimento.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui estou, senhor c\u00f4nego, Podemos ir? Perguntou-lhe o Dias, no canto da<br \/>\nPrensa logo que se reuniram.<\/p>\n<p>&#8211; Espere! espere l\u00e1 meu amigo! Para que lado seguiu o homem?<\/p>\n<p>&#8211; Desceu o Beco da Prensa.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o temos ainda o que fazer por c\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>E dirigiu-se ao cocheiro de um carro que estacionava na esquina, falou-lhe em<br \/>\nvoz baixa, e o carro afastou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, disse, tomando ao caixeiro, agora encomodarmo-nos aqui, por detr\u00e1s<br \/>\ndeste lote de pipas.<\/p>\n<p>&#8211; Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Para n\u00e3o sermos vistos pelo cabra, quando passar.<\/p>\n<p>E ficaram conspirando em voz baixa, at\u00e9 que Raimundo apareceu de volta na<br \/>\nentrada do beco. Fora despedir um escaler, que estava l\u00e1 embaixo \u00e0s suas ordens,<br \/>\nna praia. A luz do lampi\u00e3o da esquina bateu-lhe em cheio no rosto porque ele<br \/>\ntrazia o chap\u00e9u de feltro derreado para a nuca. Parou um instante, hesitando,<br \/>\nprocurou o seu cano, e afina! resolveu, com Um gesto de impaci\u00eancia, descer<br \/>\npara o lado da Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>&#8211; Bom! murmurou misteriosamente o padre ao companheiro. Siga\u2026 mas em<br \/>\ndist\u00e2ncia que n\u00e3o seja percebido&#8230; E, se ele demorar-se muito na rua, fa\u00e7a<br \/>\no que lhe disse! fome!<\/p>\n<p>E passou-lhe, sem levantar o bra\u00e7o, um objeto, que o Dias teve escr\u00fapulos<br \/>\nem receber.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o?! insistiu Diogo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que?&#8230; Ora n\u00e3o seja besta! Tome l\u00e1!<\/p>\n<p>O outro quis ainda recalcitrar, o c\u00f4nego acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o seja tolo! Aproveite a \u00fanica ocasi\u00e3o boa, que Deus lhe oferece! Fa\u00e7a<br \/>\no que lhe disse &#8211; ser\u00e1 rico e feliz! Audaces fortuna juvat!&#8230; Agrade\u00e7a \u00e0<br \/>\nProvid\u00eancia o meio f\u00e1cil que lhe depara, e que estou vendo agora que voc\u00ea<br \/>\nn\u00e3o merecia!&#8230; A maior parte dos homens poderosos tiveram. coitados! muito<br \/>\nmaiores prova\u00e7\u00f5es para chegar aos seus fins! Ande da\u00ed n\u00e3o seja ingrato com<br \/>\na fortuna que o protege!&#8230; Tamb\u00e9m era s\u00f3 o que faltava, que, por um instante<br \/>\nde medo infantil, voc\u00ea perdesse o trabalho de tantos anos!.. afian\u00e7o<\/p>\n<p>lhe, por\u00e9m, que ele n\u00e3o teria para com voc\u00ea a mesma hesita\u00e7\u00e3o, como h\u00e1 de<br \/>\nacontecer naturalmente te\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Vossa Reverend\u00edssima acha ent\u00e3o que?\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Acho n\u00e3o, tenho plena certeza! &#8220;Quem o seu inimigo poupa, nas m\u00e3os lha<br \/>\nmorre!&#8221; Mas, quando mesmo ele n\u00e3o o mate, ser\u00e1 isto raz\u00e3o para que voc\u00ea n\u00e3o<br \/>\no extermine?\u2026 Ora, diga-me c\u00e1, mas fale com franqueza! voc\u00ea est\u00e1 ou<br \/>\nn\u00e3o resolvido a casar com minha afilhada?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estou sim senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Pois lembro-lhe somente que um homem de cor, u n mulato nascido escravo<br \/>\ndesvirtuou a mulher que vai ser sua esposa, e isto, fique sabendo representa<br \/>\npara voc\u00ea, muito maior afronta que um adult\u00e9rio! Assiste-lhe, por conseguinte,<br \/>\ntodo o direito de vingar a sua honra ultrajada; direito este que se converte<br \/>\nem obriga\u00e7\u00e3o perante a consci\u00eancia e perante a sociedade!<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Imagine-se casado com Ana Rosa e o outro no gozo perfeito da vida; a crian\u00e7a,<br \/>\nj\u00e1 se sabe, parecida com o pai&#8230; Pois bem! l\u00e1 chega um belo dia em que o<br \/>\nmeu amigo, acompanhando sua fam\u00edlia, topa na rua, ou dentro de qualquer casa,<br \/>\ncom o cabra! . Que papel far\u00e1 voc\u00ea, seu Dias?. com que cara fica?. O que n\u00e3o<br \/>\ndir\u00e3o todos?&#8230; e vamos l\u00e1, com raz\u00e3o, com toda a raz\u00e3o! E a crian\u00e7a? a crian\u00e7a,<br \/>\nse continuar a viver, o que n\u00e3o julgar\u00e1 do basbaque que a educou? .. Sim,<br \/>\nporque, conven\u00e7a-se de uma coisa! com a exist\u00eancia de Raimundo, o filho deste<br \/>\nvir\u00e1 fatalmente a saber de quem descendeu! N\u00e3o faltar\u00e1 quem lhe declare!<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, apesar de tudo, se os partidos fossem iguais, ainda v\u00e1! Assim por\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o acontece; voc\u00ea conquistou a sua posi\u00e7\u00e3o naquela casa com uma longa dedica\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom um esfor\u00e7o de todos os dias e de todos os instantes; voc\u00ea enterrou ali<br \/>\na sua mocidade e empenhou o seu futuro; voc\u00ea deu tudo, tudo do que dispunha,<br \/>\npara receber agora o capital e os juros acumulados! E o outro? o outro \u00e9 simplesmente<br \/>\num intruso que lhe surge pela frente, e um especulador de ocasi\u00e3o, \u00e9 um aventureiro<br \/>\nque quer apoderar-se daquilo que voc\u00ea ganhou! O que pois lhe compete fazer?-Repeli-lo!<br \/>\nFizeram-lhe todas as admoesta\u00e7\u00f5es; ele insiste &#8211; mate-o! Qual \u00e9 o direito<br \/>\ndele? Nenhum! Um negro forro \u00e0 pia n\u00e3o pode aspirar \u00e0 m\u00e3o de uma senhora branca<br \/>\ne rica! E um crime! \u00e9 um crime, que 0 fac\u00ednora quer, a todo transe, perpetrar<br \/>\ncontra a nossa sociedade e especialmente contra a fam\u00edlia, do homem a quem<br \/>\nvoc\u00ea se dedicou, uma fam\u00edlia, que, por bem dizer, j\u00e1 \u00e9 sua, porque o Manuel<br \/>\nPedro tem sido para voc\u00ea um verdadeiro pai, um amgo sincero, um protetor que<br \/>\ndevia merecer-lhe, ao menos, o sacrif\u00edcio que voc\u00ea agora duvida fazer por<br \/>\nele! E uma ingratid\u00e3o! nada mais, nada menos! Mas a justi\u00e7a divina, seu Dias,<br \/>\nnunca dorme! Deus tentou fazer de voc\u00ea um instrumento dos seus sagrados des\u00edgnios,<br \/>\ne voc\u00ea se recusa Muito bem! Eu<\/p>\n<p>com isso nada mais tenho! \u00e9 l\u00e1 com a sua consci\u00eancia!&#8230; Lavo as m\u00e3os! Como<br \/>\nsacerdote, e como amigo do seu benfeitor, j\u00e1 fiz e j\u00e1 disse o que me cumpria;<br \/>\no resto n\u00e3o me pertence! Fa\u00e7a o que entender!<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Apenas lhe observo o seguinte: ainda mesmo que Raimundo n\u00e3o consiga realizar<br \/>\no casamento com Ana Rosa, o que ali\u00e1s \u00e9 imposs\u00edvel, porque ela \u00e9 maior e o<br \/>\noutro tem por si a justi\u00e7a, fique certo de que, enquanto viver aquele homem,<br \/>\na m\u00e3e do filho dele nunca far\u00e1 o menor caso de voc\u00ea Isso \u00e9 o que lhe afian\u00e7o!<\/p>\n<p>&#8211; Mas o pai pode obrig\u00e1-la a casar comigo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o seja peda\u00e7o de asno, que uma rapariga naquelas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o se casa<br \/>\nsen\u00e3o por gosto pr\u00f3prio! mas, quando assim n\u00e3o fosse, aceitando a hip\u00f3tese<br \/>\nabsurda de que o pai a obrigasse, isso ent\u00e3o seria muito pior para voc\u00ea! Era<br \/>\ns\u00f3 o Raimundo dizer, em qualquer tempo, a Ana Rosa &#8220;Vem c\u00e1!&#8221; e ela, a sua<br \/>\nesposa, meu caro amigo, seguia-o logo, como um cachorrinho! Voc\u00ea sabe l\u00e1 o<br \/>\nque \u00e9 a mulher para o primeiro homem que a possui, principalmente quando ele<br \/>\na emprenha?&#8230; E um animal com dono! Acompanha-o para onde ele for e far\u00e1<br \/>\nsomente o que ele bem quiser! E um aut\u00f4mato! N\u00e3o se pertence! N\u00e3o tem vontade<br \/>\nsua! Casada com outro? Que importa! h\u00e1 de correr atr\u00e1s do amante, segui-lo<br \/>\npor todas as degrada\u00e7\u00f5es! h\u00e1 de rir-se \u00e0 custa do pobre marido! cobri-lo de<br \/>\nvergonhas! h\u00e1 de ser a primeira a chamar-lhe nomes! Voc\u00ea, seu palerma, servir\u00e1<br \/>\nunicamente para apimentar o prazer dos dois, dar-lhe um travo picante de fruto<br \/>\nproibido, de pecado! E calcule, por um instante, as terr\u00edveis consequ\u00eancias<br \/>\nda sua covardia; n\u00e3o p\u00e1ra aqui a negra cadeia das vergonhas que o esperam!<br \/>\nRaimundo h\u00e1 de, mais cedo ou mais tarde, aborrecer da amante, como a gente<br \/>\nse aborrece de tudo que \u00e9 ilegal; passada a quadra das ilus\u00f5es, desaparecer\u00e1<br \/>\no ardor que o prende a Ana Rosa e todo o seu sonho ser\u00e1 conquistar uma posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrilhante na sociedade pois bem, desde que ele n\u00e3o possa associar a amiga<br \/>\n\u00e0s suas aspira\u00e7\u00f5es, \u00e0s suas gl\u00f3rias pol\u00edticas e liter\u00e1rias, ela se converter\u00e1<br \/>\nnum obst\u00e1culo \u00e0 sua carreira, num estorvo para o seu futuro, num trambolho,<br \/>\na que ele, na primeira ocasi\u00e3o dar\u00e1 um pontap\u00e9, substituindo-a por uma esposa<br \/>\nlegitima, de quem tire partido para subir melhor! Ent\u00e3o, Ana Rosa passar\u00e1<br \/>\n\u00e0 segunda m\u00e3o, depois \u00e0 terceira, \u00e0 quarta, \u00e0 quinta; at\u00e9 que, por muito batida,<br \/>\nresvale no lodo dos trapiches, na taverna dos marujos, em todo lugar, enfim,<br \/>\nonde possa vender-se para matar a fome! E lembre-se bem que ela, por tudo<br \/>\nisto, nunca deixar\u00e1 de ser sua mulher, sua senhora, recebida aos p\u00e9s do altar,<br \/>\nem face de Deus e dos homens! Ora diga-me pois, seu Dias, n\u00e3o lhe parece que<br \/>\nevitar tamanhas calamidades \u00e9 servir bem ao nosso criador e aos nossos semelhantes?&#8230;<br \/>\nAinda duvidar\u00e1 que pratica uma boa a\u00e7\u00e3o, removendo a causa \u00fanica de tanta<br \/>\ndesgra\u00e7a?.. Vamos, meu amigo, n\u00e3o seja mau, salve aquela ovelha inocente das<br \/>\nvoragens da prostitui\u00e7\u00e3o! Salve-a em nome da igreja! em nome do bem! em nome<br \/>\nda moral!<\/p>\n<p>E o grande artista levantou os bra\u00e7os para o c\u00e9u, exclamando em voz chorosa<\/p>\n<p>&#8211; Quis talia fando tempera a lacrymis?&#8230;<\/p>\n<p>Dias escutava-o concentrado. O c\u00f4nego prosseguiu, mudando de tom:<\/p>\n<p>&#8211; Viremos a medalha! vejamos agora o que suceder\u00e1 se voc\u00ea seguir o meu conselho<br \/>\nA rapariga chora por algum tempo, pouco, muito pouco, porque eu a consolarei<br \/>\ncom as minhas palavras; depois como precisa de um pai para o filho, casa-se<br \/>\ncom voc\u00ea e ai est\u00e1 o meu amigo, de um dia para outro, feliz, rico, independente!<br \/>\nsem contar o seu gozo intimo de haver resgatado de infal\u00edvel perdi\u00e7\u00e3o a filha<br \/>\ndo seu benfeitor, a qual deixar\u00e1 de ser uma mulher perdida para ser o modelo<br \/>\ndas esposas!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 exato!<\/p>\n<p>&#8211; Pois m\u00e3os \u00e0 obra! Todo aquele que encontra em casa o ladr\u00e3o que lhe vai<br \/>\nroubar o simples dinheiro tem direito a meter-lhe uma carga de chumbo nos<br \/>\nmiolos, e, como h\u00e1 de fica. de bra\u00e7os cruzados o que se v\u00ea amea\u00e7ado na sua<br \/>\nhonra, na sua fortuna na sua mulher e na sua tranq\u00fcilidade?&#8230; Sim, fica&#8230;<br \/>\nquando \u00e9 um miser\u00e1vel! um basbaque!<\/p>\n<p>&#8211; Reverendo, juro-lhe que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o avie-se! Est\u00e1 a fugir a \u00fanica ocasi\u00e3o que Deus lhe faculta!.. Amanh\u00e3<br \/>\nser\u00e1 tarde!&#8230; j\u00e1 ele a ter\u00e1 por justi\u00e7a e, ainda que n\u00e3o se casem, o esc\u00e2ndalo<br \/>\nser\u00e1 patente! Resolva-se ou deixe por uma vez o campo livre ao mais forte<br \/>\ne mais esperto!<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, senhor c\u00f4nego!<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 com a Virgem Sant\u00edssima!<\/p>\n<p>E o Dias, de cabe\u00e7a baixa, passos largos e abafados subiu a Rua da Estrela.<br \/>\nDe repente, voltou, chamou o padre e perguntou-lhe alguma coisa ao ouvido.<\/p>\n<p>&#8211; E melhor, \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>O caixeiro tomou ent\u00e3o a Rua de Santana.<\/p>\n<p>Da\u00ed a uma hora, o compadre de Manuel, depois de saborear a sua canja e depois<br \/>\nde amaciar o lombo luzidio do seu malt\u00eas fazia a ora\u00e7\u00e3o do costume e espichava-se<br \/>\ntranq\u00fcilamente numa rede de algod\u00e3o, lavada e cheirosa, disposto a passar<br \/>\numa boa noite.<\/p>\n<h2><a name=\"18\"><\/a>XVIII<\/h2>\n<p>Entrementes, Ana Rosa chorava no seu quarto; Manuel continuava a passear<br \/>\nna sala, com as m\u00e3os cruzadas atr\u00e1s e a cabe\u00e7a desca\u00edda sobre o peito, como<br \/>\nse uma preocupa\u00e7\u00e3o de chumbo a puxasse para baixo; e Maria B\u00e1rbara ceava na<br \/>\nvaranda, resmungando, embebendo fatias de p\u00e3o torrado na sua x\u00edcara de ch\u00e1<br \/>\nverde. E a noite envelhecia, e as horas rendiam-se, que nem sentinelas mudas,<br \/>\ne nenhum dos tr\u00eas procurava dormir, afinal, Marta B\u00e1rbara obrigou o genro<br \/>\na recolher-se, depois foi ter com a neta e disp\u00f4s-se a fazer-lhe companhia<br \/>\nat\u00e9 amanhecer Em breve, por\u00e9m a velha ressonava, e tanto o pai, como a filha,<br \/>\nviram, atrav\u00e9s das suas l\u00e1grimas, nascer o dia.<\/p>\n<p>Raimundo, esse vagara pelas luas da cidade, com o cora\u00e7\u00e3o encharcado de um<br \/>\ngrande desanimo. Apoquentava-o menos a estreiteza da situa\u00e7\u00e3o do que a brutal<br \/>\npertin\u00e1cia daquela fam\u00edlia, que preferia deixar a filha desonrada a ter de<br \/>\nd\u00e1-la por esposa a um mulato. &#8220;Com efeito!&#8230; Em preciso levar muito longe<br \/>\no escr\u00fapulo de sangue!&#8230;&#8221; E, malgrado o vigor e a firmeza com que ele at\u00e9<br \/>\nai afrontara as contrariedades, sentia-se agora abatido e miser\u00e1vel Na transtornada<br \/>\ncorrente das suas id\u00e9ias a do suic\u00eddio misturava-se, como uma moeda falsa<br \/>\nque mareasse as outras Raimundo repelia-a com repugn\u00e2ncia, mas a teimosa reaparecia<br \/>\nsempre. Para ele o suic\u00eddio era uma a\u00e7\u00e3o rid\u00edcula e vergonhosa, era uma esp\u00e9cie<br \/>\nde deser\u00e7\u00e3o da oficina; ent\u00e3o, para animar-se, para meter-se em brios, evocava<br \/>\na mem\u00f3ria dos fortes, lembrava-se dos que lutaram muito mais contra os preconceitos<br \/>\nde todos os tepos; e, de pensamento em pensamento, sonhava se em plena felicidade<br \/>\ndom\u00e9stica, ao lado de uma fam\u00edlia amorosa, cercado de filhos, e feliz, cheio<br \/>\nde coragem, trabalhando muito, sem outra ambi\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de ser um homem \u00fatil<br \/>\ne honrado. Mas todas estas esperan\u00e7as j\u00e1 lhe n\u00e3o acordavam no esp\u00edrito o mesmo<br \/>\neco de entusiasmo agora, o que mais o preocupava era a sua humilha\u00e7\u00e3o e o<br \/>\nseu amor ultrajado: desejava esposar Ana Rosa, desejava-o, como nunca, mas<br \/>\npor uma esp\u00e9cie de vingan\u00e7a contra aquela maldita gente que o envilecia e<br \/>\nrebaixava; queria amarr\u00e1-la ao seu destino, como se a amarrasse a um posto<br \/>\ninfamante: queria espalhar bem o seu sangue, porque onde ele ca\u00edsse, deixaria<br \/>\numa n\u00f3doa escandescente; precisava, para sofrer menos, ver sofrer algu\u00e9m;<br \/>\nera necess\u00e1rio que os outros chorassem muito, para que, por sua vez. risse<br \/>\num pouco. &#8220;Oh! havia de rir!. Ana Rosa pertencer-lhe-ia. de direito! .. Por<br \/>\nque n\u00e3o? . Ele tinha a lei por si! Quem poderia impedir lhe de tir\u00e1-la por<br \/>\njusti\u00e7a?&#8230; Al\u00e9m de que, com um filho nas entranhas. ela lhe obedeceria como<br \/>\nescravas!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E ruminando estes projetos fingindo-se muito senhor de si, mas com grande<br \/>\ndesespero a ladrar-lhe por dentro. Raimundo vagabundeava pelas mas, `a espera<br \/>\nque amanhecesse, com as m\u00e3os nas algibeiras. vacilante como um \u00e9brio. Impacientava-se<br \/>\npelo dia seguinte, perecia atra\u00ed-lo com a sua ansiedade crescente; aquela<br \/>\nnoite, comprida e silenciosa, pesava-lhe nas costas, que nem a mochila do<br \/>\nsoldado no meio da batalha. &#8220;Sim! urgia que amanhecesses!&#8230; queria tratar<br \/>\ndos seus interesses, liquidar aquela ma\u00e7ada. aquela grande ma\u00e7ada!. . Mais<br \/>\ndoze horas, doze horas! e estaria tudo conclu\u00eddo! No dia seguinte estaria<br \/>\ntudo pronto! ele no primeiro vapor seguiria para a Corte, acompanhado da esposa,<br \/>\nfeliz, independente! sem lembrar-se, nunca mais, do Maranh\u00e3o, dessa prov\u00edncia<br \/>\nmadrasta para os filhos!&#8217;<\/p>\n<p>Ao chegar ao Largo do Carmo, assentou-se num banco. Um vento fresco agitava<br \/>\nas \u00e1rvores: amea\u00e7ava chuva; ouvia-se o surdo e long\u00ednquo marulhar da costa,<br \/>\ne, por ali perto, em algum sarau, urna garganta de mulher cantava ao piano<br \/>\na &#8220;Traviata&#8221;.<\/p>\n<p>Raimundo passou a m\u00e3o pela testa e reparou que estava suando] frio. Deram<br \/>\nduas horas. Um policia aproximou-se vagarosamente r pediu-lhe um cigarro e<br \/>\no fogo, e seguiu depois, com ar pregui\u00e7oso de quem cumpre uma formalidade<br \/>\nin\u00fatil aborrecida. E Raimundo ficou a escutar os passos sonoros do rondante,<br \/>\ncadenciados com a regularidade mon\u00f3tona de uma p\u00eandula.<\/p>\n<p>Deram tr\u00eas horas Chuviscava.<\/p>\n<p>Raimundo levantou-se e seguiu pela Rua Grande. &#8220;Agora talvez dormisse um<br \/>\npouco&#8230; Estava t\u00e3o fatigado!&#8230;&#8221;&#8221; Quando atravessou o campo de Ourique, pensou<br \/>\nsentir algu\u00e9m acompanhando-o, olhou para os lados e n\u00e3o descobriu viva alma.<br \/>\n&#8220;Enganara-se com certeza&#8230; Era talvez o eco dos seus pr\u00f3prios passos&#8230;&#8221;<br \/>\nContinuou a andar, at\u00e9 chegar a casa.<\/p>\n<p>Mas, do v\u00e3o escuro, em que se formava 0 limite da parede, rebentou um tiro,<br \/>\nno momento em que ele dava volta \u00e0 chave.<\/p>\n<p>Este tiro partira de um rev\u00f3lver fornecido ao Dias pelo c\u00f4nego Diogo. Todavia,<br \/>\nno instante supremo, faltara ao pobre-diabo coragem para matar um homem, mas<br \/>\nas palavras do padre ferviam-lhe na cabe\u00e7a, em tomo da sua id\u00e9ia fixa. &#8220;Como<br \/>\npoderia agora perder num momento o trabalho de toda uma exist\u00eancia, destruir<br \/>\no seu castelo dourado a sua preocupa\u00e7\u00e3o, a coisa boa da sua vida?&#8230; Perder<br \/>\no jogo no melhor lance!&#8230; inutilizar-se reduzir-se a lama, quando, s\u00f3 com<br \/>\num ligeiro movimento de dedo, estaria tudo salvo!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Isto pensava o caixeiro de Manuel escondido na treva, por detr\u00e1s de um mont\u00e3o<br \/>\nde pedras e barrotes, ao lado dos espeques de um casebre em ru\u00ednas. Mas o<br \/>\ntempo corria, e Raimundo ia entrar pra casa, sumir-se numa<\/p>\n<p>fronteira inexpugn\u00e1vel, e s\u00f3 reapareceria no dia seguinte, \u00e0 luz do sol. &#8220;Era<br \/>\npreciso aviar!&#8230; Um instante depois seda tarde, e Ana Rosa passaria \u00e0s m\u00e3os<br \/>\ndo mulato e a cidade inteira ficaria senhora do esc\u00e2ndalo, a sabore\u00e1-lo, a rir-se<br \/>\ndo vencido! E, ent\u00e3o, estaria tudo acabado, para sempre! sem rem\u00e9dio! E ele,<br \/>\no Dias, coberto de rid\u00edculo e&#8230; pobre! &#8221;<\/p>\n<p>Nisto, rangeu a fechadura. Aquela porta ia abri-se como um t\u00famulo, onde o<br \/>\nmiser\u00e1vel sentia resvalar o seu futuro e a sua felicidade; no entanto, tamanha<br \/>\ncalamidade dependia de t\u00e3o pouco! O grande obst\u00e1culo da sua vida estava ali,<br \/>\na dois passos, em magn\u00edfica posi\u00e7\u00e3o para um tiro.<\/p>\n<p>Dias fechou os olhos e concentrou toda a energia no dedo que devia puxar<br \/>\no gatilho. A bala partiu, e Raimundo, com um gemido, prostrou-se contra a<br \/>\nparede.<\/p>\n<p>Amanhecera um dia enfadonho, cheio de chuviscos e umidade. Pouca gente pela<br \/>\nrua; nenhum sol, e um aborrecimento geral a abrir a boca por toda parte. Grossas<br \/>\nnuvens, gr\u00e1vidas e sombrias, arrastavam-se pelo espa\u00e7o, no peso da sua hidropisia;<br \/>\no ar mal podia cont\u00ea-las. Ouvia-se um trovejar ao longe, que lembrava o rolar<br \/>\nde balas de pe\u00e7a por um assoalho.<\/p>\n<p>A casa de Manuel tinha a silenciosa quieta\u00e7\u00e3o do luto; as janelas fechadas;<br \/>\nos moradores tristes; a varanda e a sala de visitas totalmente desertas. Embaixo,<br \/>\nno armaz\u00e9m, os caixeiros fingiam n\u00e3o saber de nada. Os pretos cochichavam<br \/>\nna cozinha, com medo de falar alto, e iam dar trela \u00e0 vizinhan\u00e7a, onde se<br \/>\ncomentava j\u00e1 o esc\u00e2ndalo da v\u00e9spera<\/p>\n<p>Manuel s\u00f3 apareceu fora do quarto \u00e0 hora do almo\u00e7o, que nesse dia foi tarde,<br \/>\nporque os escravos, privados da vigil\u00e2ncia de Maria B\u00e1rbara e empenhados no<br \/>\nmexerico, descuidaram-se das obriga\u00e7\u00f5es O pobre homem trazia no rosto, fotografada,<br \/>\na sua dor e a sua ins\u00f4nia tinha os olhos pisados e intumescidos. Mal tocou<br \/>\nnos pratos, cruzou logo o talher e limpou com o guardanapo uma l\u00e1grima, que<br \/>\no lugar vazio de Ana Rosa lhe desprendera. Aquela cadeira sem dono parecia<br \/>\ndizer-lhe com a tristeza: &#8220;Descansa, desgra\u00e7ado, que filha nunca mais ter\u00e1s<br \/>\ntu!&#8230;&#8221; N\u00e3o quis descer ao armaz\u00e9m e fechou-se em cima, no seu escrit\u00f3rio,<br \/>\nrecomendando que mandassem l\u00e1 o Dias quando chegasse.<\/p>\n<p>O sabi\u00e1 trinava desesperadamente na varanda. Tinham-se esquecido de encher-lhe<br \/>\no comedouro.<\/p>\n<p>Ana Rosa n\u00e3o sa\u00edra da rede; estava excitada, doente, toda nervosa, com uma<br \/>\nirrita\u00e7\u00e3o de est\u00f4mago. A av\u00f3, cheia de mau humor, levara lhe um bule de ch\u00e1<br \/>\nde contra-erva, para a febre, e, depois de recomendar \u00e0 neta que n\u00e3o sa\u00edsse<br \/>\ndo quarto e fizesse por dormir, fechou-se com os seus santos, a rezar.<\/p>\n<p>A rapariga ignorava o que ia l\u00e1 por fora. Am\u00e2ncia foi a \u00fanica visita que<br \/>\napareceu, falando muito da palidez que lhe notara.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 lhe achei mau h\u00e1lito, disse \u00e0 M\u00f4nica, logo que saiu do aposento da<br \/>\nenferma.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 do est\u00f4mago, explicou a cafuza. Ela, coitada, ainda hoje n\u00e3o comeu nada,<br \/>\ne ainda n\u00e3o pregou olho desde ontem de manh\u00e3!<\/p>\n<p>A velha passou \u00e0 cozinha, \u00e0 procura da Br\u00edgida, para indagar que diabo havia<br \/>\nsucedido naquela casa, que andavam todos a modos de assombrados!<\/p>\n<p>Ana Rosa achava-se, com efeito, muito abatida, num estado perigoso de irrita\u00e7\u00e3o<br \/>\ne fraqueza. M\u00f4nica obrigou-a a tomar um mingau de farinha, e ela vomitou-o<br \/>\nlogo.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00ea, Iai\u00e1! Isto assim n\u00e3o est\u00e1 bom!&#8230; censurava maternalmente a preta.<br \/>\nN\u00e3o te fica nada no bucho!<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e3e-pretinha, pediu depois a mo\u00e7a, eu posso ir at\u00e9 \u00e0 sala? N\u00e3o cone vento;<br \/>\nas vidra\u00e7as est\u00e3o fechadas!<\/p>\n<p>&#8211; Vai, lai\u00e1, por\u00e9m mete algod\u00e3o no ouvido. Espera! agasalha a cabe\u00e7a!<\/p>\n<p>E envolveu-lhe a testa com um len\u00e7o encarnado de seda.<\/p>\n<p>&#8211; laia quer que eu te ajude?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, m\u00e3e-pretinha, fique; voc\u00ea deve estar cansada.<\/p>\n<p>A preta assentou-se junto \u00e0 rede, encolheu as pernas, que abrangeu com os<br \/>\nbra\u00e7os, e p\u00f4s-se a cochilar, escondendo a cara contra os joelhos. Ana Rosa<br \/>\nlevantou-se muito fraca e, lentamente, apoiando-se nos m\u00f3veis, atravessou<br \/>\npor entre o desarranjo do seu quarto e foi at\u00e9 \u00e0 sala.<\/p>\n<p>Fazia m\u00e1 impress\u00e3o v\u00ea-la com aquele andar vagaroso e triste, acompanhado<br \/>\nde suspiros e descaimentos de p\u00e1lpebras. Parecia convalescente de uma longa<br \/>\nmol\u00e9stia grave; estava cor de cera, com grandes olheiras roxas; muito puxada,<br \/>\nos cabelos, despenteados e secos, ca\u00edam-lhe por debaixo do len\u00e7o vermelho,<br \/>\nque lhe dava \u00e0 cabe\u00e7a certa express\u00e3o pitoresca e graciosa Dela toda respirava<br \/>\num tom melanc\u00f3lico e dolorido: o longo roup\u00e3o,<\/p>\n<p>desabotoado sobre o est\u00f4mago, arrastando-se negligentemente pelo ch\u00e3o, os bra\u00e7os<br \/>\nmoles, as m\u00e3os frouxas, o pesco\u00e7o bambo, os l\u00e1bios entreabertos, estalando de<br \/>\nfebre, o olhar morto, infeliz, mas embebido de ternura. tudo nela transpirava<br \/>\num t\u00e1cito queixume de fundas m\u00e1goas escondidas. Seus pezinhos traziam de rastros<br \/>\numas chinelas de crian\u00e7a e, por entre a abertura do vestidos, via-se-lhe a camisa<br \/>\nde rendas amarrotada e um cord\u00e3o de ouro escorrendo pela brancura do seio, com<br \/>\num pequeno crucifixo que se lhe balan\u00e7ava entre os peitos.<\/p>\n<p>E, com a resigna\u00e7\u00e3o dos doentes que n\u00e3o podem sair do quarto, passeava pela<br \/>\nsaia o seu isolamento, procurando entreter-se a examinar os objetos de cima<br \/>\ndos consolos, minuciosamente, como se nunca os tivera visto. Tomou entre os<br \/>\ndedos um galgozinho de jaspe e ficou a observ\u00e1-lo um tempo infinito. P que<br \/>\nseu pensamento n\u00e3o estava ali; andava l\u00e1 fora, em busca de Raimundo em busca<br \/>\ndo seu c\u00famplice estremecido, o autor daquele delito que ela sentia dentro<br \/>\nde si, enchendo-a de alegria e de medo. Amava-o muito mais agora, tal como<br \/>\nse o seu amor crescesse tamb\u00e9m como o feto que se lhe agitava nas entranhas.<br \/>\nApesar da estreiteza da situa\u00e7\u00e3o, achava-se cada vez mais feliz; sonhara a<br \/>\nventura de ser m\u00e3e e sentia-a realizar-se no seu corpo, no seu ventre, de<br \/>\ninstante a instante, com um impulso misterioso, fatal incompreens\u00edvel. &#8220;Era<br \/>\nm\u00e3e!&#8230; Ainda lhe parecia um sonho!&#8230; &#8221;<\/p>\n<p>Impacientava-se por preparar o enxoval do seu filhinho Um enxoval bom, completo,<br \/>\na que nada, nada, faltasse Ah! ela sabia perfeitamente como tudo isso era<br \/>\nfeito; qual a melhor flanela para os cueiros quais as melhores toucas e os<br \/>\nmelhores sapatinhos de l\u00e3. Via em sonhos um ber\u00e7o junto a sua rede, com um<br \/>\nentezinho dentro, todo rendas e fitas cor-de-rosa, a vagir uns princ\u00edpios<br \/>\nde voz humana. E fazia-se muito pressurosa, a queimar alfazema, para defumar<br \/>\nos panos da crian\u00e7a; a preparar \u00e1gua com a\u00e7\u00facar, para curar-lhe as c\u00f3licas;<br \/>\na evitar em si mesma o abuso do caf\u00e9 e de todo o alimento que pudesse alterar-lhe<br \/>\no leite, porque ela queria ser a pr\u00f3pria a criar o seu filho, e por coisa<br \/>\nnenhuma desta vida, o confiaria \u00e0 melhor ama. E, a pensar nestas coisas, que,<br \/>\nali\u00e1s, nunca ningu\u00e9m procurara ensinar-lhe, esquecia-se inteiramente dos vexames<br \/>\ne das dificuldades que a sua falsa posi\u00e7\u00e3oteria de levantar; nem sequer, lhe<br \/>\npassava pela id\u00e9ia a hip\u00f3tese de n\u00e3o casar com Raimundo. &#8220;Oh, isso havia de<br \/>\nser, desse por onde desse e sofresse quem sofresse!&#8221;<\/p>\n<p>Assim lhe correu o dia. S\u00f3 despertou dos seus devaneios \u00e0s duas e meia da<br \/>\ntarde, quando o sino da S\u00e9 badalou o dobre dos finados &#8220;Por quem estaria dobrando?&#8230;&#8221;<br \/>\nperguntou de si para si, tomada de compassiva estranheza. Parecia-lhe absurdo<br \/>\nque algu\u00e9m cuidasse em morrer, quando ela s\u00f3 pensava em dar \u00e0 vida aquele<br \/>\noutro algu\u00e9m que tanto a preocupava.<\/p>\n<p>Todavia, o dobre continuou ao longe, rolando no espa\u00e7o, como um solu\u00e7o que<br \/>\nse desdobra. E aquele som l\u00fagubre, ali, na saia toda fechada, parecia fazer<br \/>\no dia mais triste e o c\u00e9u mais sombrio e chuvoso. Ana Rosa sentiu um ligeiro<br \/>\ntremor de medo indefinido arrepiar-lhe as carnes; lembrou-se de rezar, chegou<br \/>\nmesmo a dar alguns passos na dire\u00e7\u00e3o da alcova, mas deteve-a um rumor de vozes<br \/>\nque vinha da nua.<\/p>\n<p>Foi at\u00e9 \u00e0 janela. O zunzum do povo crescia &#8220;Alguma briga!&#8230;&#8221; pensou ela,<br \/>\nencostando a cara na vidra\u00e7a, para espiar o que se passava l\u00e1 fora<\/p>\n<p>O motim recrescia \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que um grupo imenso de homens e mulheres se<br \/>\naproximava cheio de curiosidade Ana Rosa p\u00f4de ent\u00e3o compreender a causa do<br \/>\najuntamento: dois pretos traziam um corpo dentro de uma rede, cuja taboca<br \/>\ncarregavam no ombro<\/p>\n<p>&#8211; Credo! Que agouro!&#8230; disse impressionada.<\/p>\n<p>E quis afastar-se da janela, mas deixou-se ficar, por curiosidade. &#8220;Algum<br \/>\npobre homem que ia doente para o hospital&#8230; ou talvez fosse algum defunto,<br \/>\ncoitado!&#8230;&#8221; E procurou pensar no filho, para desfazer a impress\u00e3o desagrad\u00e1vel<br \/>\nque acabava de receber.<\/p>\n<p>O corpo estava inteiramente coberto por um len\u00e7ol de linho e parecia ser<br \/>\nde um homem de boa estatura. Algumas manchas vermelhas destacavam-se aqui<br \/>\ne ali na brancura do pano.<\/p>\n<p>Ana Rosa sentia j\u00e1 certo interesse aterrorizado; quis de novo deixar a janela;<br \/>\nagora, por\u00e9m, o que se passava l\u00e1 na rua atra\u00eda-lhe irresistivelmente o olhar.<br \/>\nA f\u00fanebre prociss\u00e3o aproximava-se entretanto chegando-se para a parede do<br \/>\nlado em que ela estava Ia deixar de ver, mas n\u00e3o lhe convinha abrir a janela,<br \/>\npor causa do vento; al\u00e9m disso amea\u00e7ava chuva; era at\u00e9 muito natural que estivesse<br \/>\nchuviscando. Continuou a olhar atentamente, com o rosto achatado de encontro<br \/>\naos vidros.<\/p>\n<p>A rede adiantava-se a pouco e pouco, jogando com a irregularidade da rua<br \/>\ne do caminhar desencontrado dos carregadores; o que obrigava o len\u00e7ol a fazer<br \/>\ne desfazer fartas nugas instant\u00e2neas. Ana Rosa sentiu-se inquieta e sobressaltada,<br \/>\ncomo se aquilo lhe dissera respeito; a rede ia desaparecer de todo a seus<br \/>\nolhos, porque cada vez mais se aproximava da parede, j\u00e1 mal podia alcan\u00e7a-la<br \/>\ncom a vista.<\/p>\n<p>C\u00e9us! Dir-se ia que se encaminhava para a porta de Manuel!<\/p>\n<p>Uma rajada de nordeste esfuziou nos vidros. Os chap\u00e9us dos transeuntes saltaram<br \/>\ncomo folhas secas; as janelas de diversas casas bateram contra os caixilhos<br \/>\nnum repel\u00e3o de c\u00f3lera; o vento zuniu com mais for\u00e7a e, numa segunda refrega,<br \/>\narrancou de uma s\u00f3 vez o len\u00e7ol que cobria a rede.<\/p>\n<p>Ana Rosa estremeceu toda, deu um grito, ficou l\u00edvida, levou as m\u00e3os aos olhos.<br \/>\nParecia-lhe ter reconhecido Raimundo naquele corpo ensang\u00fcentado. Duvidou<br \/>\ne, sem animo de formular um pensamento, abriu de s\u00fabito as vidra\u00e7as.<\/p>\n<p>Era com efeito, ele.<\/p>\n<p>O povo olhou todo para cima e viu uma coisa horr\u00edvel. Ana Rosa, convulsa<br \/>\ndoida, firmando no patamar das janelas as m\u00e3os, como duas garras, entranhava<br \/>\nas unhas na madeira do balc\u00e3o, com os olhos a rolarem sinistramente e com<br \/>\num riso medonho a escancarar-lhe a boca, as ventas dilatadas, os membros hirtos.<\/p>\n<p>De repente, soltou um novo rugido e caiu de costas.<\/p>\n<p>A m\u00e3e-preta acudira logo e arrastou-a para o quarto<\/p>\n<p>A mo\u00e7a deixou atr\u00e1s de si, pelo ch\u00e3o, um grosso rastro de sangue, que lhe<br \/>\nescorria debaixo das saias, tingindo-lhe os p\u00e9s. E, no lugar da queda, ficou<br \/>\nno assoalho uma enorme po\u00e7a vermelha.<\/p>\n<h2><a name=\"19\"><\/a>XIX<\/h2>\n<p>No dia seguinte estaria tudo pronto! ele no primeiro vapor seguiria para<br \/>\na Corte, acompanhado da esposa, feliz, independente! sem lembrar-se, nunca<br \/>\nmais, do Maranh\u00e3o, dessa prov\u00edncia madrasta para os filhos!&#8217;<\/p>\n<p>Ao chegar ao Largo do Carmo, assentou-se num banco. Um vento fresco agitava<br \/>\nas \u00e1rvores: amea\u00e7ava chuva; ouvia-se o surdo e long\u00ednquo marulhar da costa,<br \/>\ne, por ali perto, em algum sarau, urna garganta de mulher cantava ao piano<br \/>\na &#8220;Traviata&#8221;.<\/p>\n<p>Raimundo passou a m\u00e3o pela testa e reparou que estava suando] frio. Deram<br \/>\nduas horas. Um policia aproximou-se vagarosamente r pediu-lhe um cigarro e<br \/>\no fogo, e seguiu depois, com ar pregui\u00e7oso de quem cumpre uma formalidade<br \/>\nin\u00fatil aborrecida. E Raimundo ficou a escutar os passos sonoros do rondante,<br \/>\ncadenciados com a regularidade mon\u00f3tona de uma p\u00eandula.<\/p>\n<p>Deram tr\u00eas horas Chuviscava.<\/p>\n<p>Raimundo levantou-se e seguiu pela Rua Grande. &#8220;Agora talvez dormisse um<br \/>\npouco&#8230; Estava t\u00e3o fatigado!&#8230;&#8221;&#8221; Quando atravessou o campo de Ourique, pensou<br \/>\nsentir algu\u00e9m acompanhando-o, olhou para os lados e n\u00e3o descobriu viva alma.<br \/>\n&#8220;Enganara-se com certeza&#8230; Era talvez o eco dos seus pr\u00f3prios passos&#8230;&#8221;<br \/>\nContinuou a andar, at\u00e9 chegar a casa.<\/p>\n<p>Mas, do v\u00e3o escuro, em que se formava 0 limite da parede, rebentou um tiro,<br \/>\nno momento em que ele dava volta \u00e0 chave.<\/p>\n<p>Este tiro partira de um rev\u00f3lver fornecido ao Dias pelo c\u00f4nego Diogo. Todavia,<br \/>\nno instante supremo, faltara ao pobre-diabo coragem para matar um homem, mas<br \/>\nas palavras do padre ferviam-lhe na cabe\u00e7a, em tomo da sua id\u00e9ia fixa. &#8220;Como<br \/>\npoderia agora perder num momento o trabalho de toda uma exist\u00eancia, destruir<br \/>\no seu castelo dourado a sua preocupa\u00e7\u00e3o, a coisa boa da sua vida?&#8230; Perder<br \/>\no jogo no melhor lance!&#8230; inutilizar-se reduzir-se a lama, quando, s\u00f3 com<br \/>\num ligeiro movimento de dedo, estaria tudo salvo!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Isto pensava o caixeiro de Manuel escondido na treva, por detr\u00e1s de um mont\u00e3o<br \/>\nde pedras e barrotes, ao lado dos espeques de um casebre em ru\u00ednas. Mas o<br \/>\ntempo corria, e Raimundo ia entrar pra casa, sumir-se numa fronteira inexpugn\u00e1vel,<br \/>\ne s\u00f3 reapareceria no dia seguinte, \u00e0 luz do sol. &#8220;Era preciso aviar!&#8230; Um<br \/>\ninstante depois seda tarde, e Ana Rosa passaria \u00e0s m\u00e3os do mulato e a cidade<br \/>\ninteira ficaria senhora do esc\u00e2ndalo, a sabore\u00e1-lo, a rir-se do vencido! E,<br \/>\nent\u00e3o, estaria tudo acabado, para sempre! sem rem\u00e9dio! E ele, o Dias, coberto<br \/>\nde rid\u00edculo e&#8230; pobre! &#8221;<\/p>\n<p>Nisto, rangeu a fechadura. Aquela porta ia abri-se como um t\u00famulo, onde o<br \/>\nmiser\u00e1vel sentia resvalar o seu futuro e a sua felicidade; no entanto, tamanha<br \/>\ncalamidade dependia de t\u00e3o pouco! O grande obst\u00e1culo da sua vida estava ali,<br \/>\na dois passos, em magn\u00edfica posi\u00e7\u00e3o para um tiro.<\/p>\n<p>Dias fechou os olhos e concentrou toda a energia no dedo que devia puxar<br \/>\no gatilho. A bala partiu, e Raimundo, com um gemido, prostrou-se contra a<br \/>\nparede.<\/p>\n<p>Amanhecera um dia enfadonho, cheio de chuviscos e umidade. Pouca gente pela<br \/>\nrua; nenhum sol, e um aborrecimento geral a abrir a boca por toda parte. Grossas<br \/>\nnuvens, gr\u00e1vidas e sombrias, arrastavam-se pelo espa\u00e7o, no peso da sua hidropisia;<br \/>\no ar mal podia cont\u00ea-las. Ouvia-se um trovejar ao longe, que lembrava o rolar<br \/>\nde balas de pe\u00e7a por um assoalho.<\/p>\n<p>A casa de Manuel tinha a silenciosa quieta\u00e7\u00e3o do luto; as janelas fechadas;<br \/>\nos moradores tristes; a varanda e a sala de visitas totalmente desertas. Embaixo,<br \/>\nno armaz\u00e9m, os caixeiros fingiam n\u00e3o saber de nada. Os pretos cochichavam<br \/>\nna cozinha, com medo de falar alto, e iam dar trela \u00e0 vizinhan\u00e7a, onde se<br \/>\ncomentava j\u00e1 o esc\u00e2ndalo da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>Manuel s\u00f3 apareceu fora do quarto \u00e0 hora do almo\u00e7o, que nesse dia foi tarde,<br \/>\nporque os escravos, privados da vigil\u00e2ncia de Maria B\u00e1rbara e empenhados no<br \/>\nmexerico, descuidaram-se das obriga\u00e7\u00f5es. O pobre homem trazia no rosto, fotografada,<br \/>\na sua dor e a sua ins\u00f4nia tinha os olhos pisados e intumescidos. Mal tocou<br \/>\nnos pratos, cruzou logo o talher e limpou com o guardanapo uma l\u00e1grima, que<br \/>\no lugar vazio de Ana Rosa lhe desprendera. Aquela cadeira sem dono parecia<br \/>\ndizer-lhe com a tristeza: &#8220;Descansa, desgra\u00e7ado, que filha nunca mais ter\u00e1s<br \/>\ntu!&#8230;&#8221; N\u00e3o quis descer ao armaz\u00e9m e fechou-se em cima, no seu escrit\u00f3rio,<br \/>\nrecomendando que mandassem l\u00e1 o Dias quando chegasse.<\/p>\n<p>O sabi\u00e1 trinava desesperadamente na varanda. Tinham-se esquecido de encher-lhe<br \/>\no comedouro.<\/p>\n<p>Ana Rosa n\u00e3o sa\u00edra da rede; estava excitada, doente, toda nervosa, com uma<br \/>\nirrita\u00e7\u00e3o de est\u00f4mago. A av\u00f3, cheia de mau humor, levara lhe um bule de ch\u00e1<br \/>\nde contra-erva, para a febre, e, depois de recomendar \u00e0 neta que n\u00e3o sa\u00edsse<br \/>\ndo quarto e fizesse por dormir, fechou-se com os seus santos, a rezar.<\/p>\n<p>A rapariga ignorava o que ia l\u00e1 por fora. Am\u00e2ncia foi a \u00fanica visita que apareceu,<br \/>\nfalando muito da palidez que lhe notara.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 lhe achei mau h\u00e1lito, disse \u00e0 M\u00f4nica, logo que saiu do aposento da<br \/>\nenferma.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 do est\u00f4mago, explicou a cafuza. Ela, coitada, ainda hoje n\u00e3o comeu nada,<br \/>\ne ainda n\u00e3o pregou olho desde ontem de manh\u00e3!<\/p>\n<p>A velha passou \u00e0 cozinha, \u00e0 procura da Br\u00edgida, para indagar que diabo havia<br \/>\nsucedido naquela casa, que andavam todos a modos de assombrados!<\/p>\n<p>Ana Rosa achava-se, com efeito, muito abatida, num estado perigoso de irrita\u00e7\u00e3o<br \/>\ne fraqueza. M\u00f4nica obrigou-a a tomar um mingau de farinha, e ela vomitou-o<br \/>\nlogo.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00ea, Iai\u00e1! Isto assim n\u00e3o est\u00e1 bom!&#8230; censurava maternalmente a preta.<br \/>\nN\u00e3o te fica nada no bucho!<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e3e-pretinha, pediu depois a mo\u00e7a, eu posso ir at\u00e9 \u00e0 sala? N\u00e3o cone vento;<br \/>\nas vidra\u00e7as est\u00e3o fechadas!<\/p>\n<p>&#8211; Vai, lai\u00e1, por\u00e9m mete algod\u00e3o no ouvido. Espera! agasalha a cabe\u00e7a!<\/p>\n<p>E envolveu-lhe a testa com um len\u00e7o encarnado de seda.<\/p>\n<p>&#8211; laia quer que eu te ajude?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, m\u00e3e-pretinha, fique; voc\u00ea deve estar cansada.<\/p>\n<p>A preta assentou-se junto \u00e0 rede, encolheu as pernas, que abrangeu com os<br \/>\nbra\u00e7os, e p\u00f4s-se a cochilar, escondendo a cara contra os joelhos. Ana Rosa<br \/>\nlevantou-se muito fraca e, lentamente, apoiando-se nos m\u00f3veis, atravessou<br \/>\npor entre o desarranjo do seu quarto e foi at\u00e9 \u00e0 sala.<\/p>\n<p>Fazia m\u00e1 impress\u00e3o v\u00ea-la com aquele andar vagaroso e triste, acompanhado<br \/>\nde suspiros e descaimentos de p\u00e1lpebras. Parecia convalescente de uma longa<br \/>\nmol\u00e9stia grave; estava cor de cera, com grandes olheiras roxas; muito puxada,<br \/>\nos cabelos, despenteados e secos, ca\u00edam-lhe por debaixo do len\u00e7o vermelho,<br \/>\nque lhe dava \u00e0 cabe\u00e7a certa express\u00e3o pitoresca e graciosa Dela toda respirava<br \/>\num tom melanc\u00f3lico e dolorido: o longo roup\u00e3o, desabotoado sobre o est\u00f4mago,<br \/>\narrastando-se negligentemente pelo ch\u00e3o, os bra\u00e7os moles, as m\u00e3os frouxas,<br \/>\no pesco\u00e7o bambo, os l\u00e1bios entreabertos, estalando de febre, o olhar morto,<br \/>\ninfeliz, mas embebido de ternura. tudo nela transpirava um t\u00e1cito queixume<br \/>\nde fundas m\u00e1goas escondidas. Seus pezinhos traziam de rastros umas chinelas<br \/>\nde crian\u00e7a e, por entre a abertura do vestidos, via-se-lhe a camisa de rendas<br \/>\namarrotada e um cord\u00e3o de ouro escorrendo pela brancura do seio, com um pequeno<br \/>\ncrucifixo que se lhe balan\u00e7ava entre os peitos.<\/p>\n<p>E, com a resigna\u00e7\u00e3o dos doentes que n\u00e3o podem sair do quarto, passeava pela<br \/>\nsaia o seu isolamento, procurando entreter-se a examinar os objetos de cima<br \/>\ndos consolos, minuciosamente, como se nunca os tivera visto. Tomou entre os<br \/>\ndedos um galgozinho de jaspe e ficou a observ\u00e1-lo um tempo infinito. P que<br \/>\nseu pensamento n\u00e3o estava ali; andava l\u00e1 fora, em busca de Raimundo em busca<br \/>\ndo seu c\u00famplice estremecido, o autor daquele delito que ela sentia dentro<br \/>\nde si, enchendo-a de alegria e de medo. Amava-o muito mais agora, tal como<br \/>\nse o seu amor crescesse tamb\u00e9m como o feto que se lhe agitava nas entranhas.<br \/>\nApesar da estreiteza da situa\u00e7\u00e3o, achava-se cada vez mais feliz; sonhara a<br \/>\nventura de ser m\u00e3e e sentia-a realizar-se no seu corpo, no seu ventre, de<br \/>\ninstante a instante, com um impulso misterioso, fatal incompreens\u00edvel. &#8220;Era<br \/>\nm\u00e3e!&#8230; Ainda lhe parecia um sonho!&#8230; &#8221;<\/p>\n<p>Impacientava-se por preparar o enxoval do seu filhinho Um enxoval bom, completo,<br \/>\na que nada, nada, faltasse Ah! ela sabia perfeitamente como tudo isso era<br \/>\nfeito; qual a melhor flanela para os cueiros quais as melhores toucas e os<br \/>\nmelhores sapatinhos de l\u00e3. Via em sonhos um ber\u00e7o junto a sua rede, com um<br \/>\nentezinho dentro, todo rendas e fitas cor-de-rosa, a vagir uns princ\u00edpios<br \/>\nde voz humana. E fazia-se muito pressurosa, a queimar alfazema, para defumar<br \/>\nos panos da crian\u00e7a; a preparar \u00e1gua com a\u00e7\u00facar, para curar-lhe as c\u00f3licas;<br \/>\na evitar em si mesma o abuso do caf\u00e9 e de todo o alimento que pudesse alterar-lhe<br \/>\no leite, porque ela queria ser a pr\u00f3pria a criar o seu filho, e por coisa<br \/>\nnenhuma desta vida, o confiaria \u00e0 melhor ama. E, a pensar nestas coisas, que,<br \/>\nali\u00e1s, nunca ningu\u00e9m procurara ensinar-lhe, esquecia-se inteiramente dos vexames<br \/>\ne das dificuldades que a sua falsa posi\u00e7\u00e3o teria de levantar; nem sequer,<br \/>\nlhe passava pela id\u00e9ia a hip\u00f3tese de n\u00e3o casar com Raimundo. &#8220;Oh, isso havia<br \/>\nde ser, desse por onde desse e sofresse quem sofresse!&#8221;<\/p>\n<p>Assim lhe correu o dia. S\u00f3 despertou dos seus devaneios \u00e0s duas e meia da<br \/>\ntarde, quando o sino da S\u00e9 badalou o dobre dos finados &#8220;Por quem estaria dobrando?&#8230;&#8221;<br \/>\nperguntou de si para si, tomada de compassiva estranheza. Parecia-lhe absurdo<br \/>\nque algu\u00e9m cuidasse em morrer, quando ela s\u00f3 pensava em dar \u00e0 vida aquele<br \/>\noutro algu\u00e9m que tanto a preocupava.<\/p>\n<p>Todavia, o dobre continuou ao longe, rolando no espa\u00e7o, como um solu\u00e7o que<br \/>\nse desdobra. E aquele som l\u00fagubre, ali, na saia toda fechada, parecia fazer<br \/>\no dia mais triste e o c\u00e9u mais sombrio e chuvoso. Ana Rosa<\/p>\n<p>sentiu um ligeiro tremor de medo indefinido arrepiar-lhe as carnes; lembrou-se<br \/>\nde rezar, chegou mesmo a dar alguns passos na dire\u00e7\u00e3o da alcova, mas deteve-a<br \/>\num rumor de vozes que vinha da nua.<\/p>\n<p>Foi at\u00e9 \u00e0 janela. O zunzum do povo crescia &#8220;Alguma briga!&#8230;&#8221; pensou ela,<br \/>\nencostando a cara na vidra\u00e7a, para espiar o que se passava l\u00e1 fora<\/p>\n<p>O motim recrescia \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que um grupo imenso de homens e mulheres se<br \/>\naproximava cheio de curiosidade Ana Rosa p\u00f4de ent\u00e3o compreender a causa do<br \/>\najuntamento: dois pretos traziam um corpo dentro de uma rede, cuja taboca<br \/>\ncarregavam no ombro.<\/p>\n<p>&#8211; Credo! Que agouro!&#8230; disse impressionada.<\/p>\n<p>E quis afastar-se da janela, mas deixou-se ficar, por curiosidade. &#8220;Algum<br \/>\npobre homem que ia doente para o hospital&#8230; ou talvez fosse algum defunto,<br \/>\ncoitado!&#8230;&#8221; E procurou pensar no filho, para desfazer a impress\u00e3o desagrad\u00e1vel<br \/>\nque acabava de receber.<\/p>\n<p>O corpo estava inteiramente coberto por um len\u00e7ol de linho e parecia ser<br \/>\nde um homem de boa estatura. Algumas manchas vermelhas destacavam-se aqui<br \/>\ne ali na brancura do pano.<\/p>\n<p>Ana Rosa sentia j\u00e1 certo interesse aterrorizado; quis de novo deixar a janela;<br \/>\nagora, por\u00e9m, o que se passava l\u00e1 na rua atra\u00eda-lhe irresistivelmente o olhar.<br \/>\nA f\u00fanebre prociss\u00e3o aproximava-se entretanto chegando-se para a parede do<br \/>\nlado em que ela estava Ia deixar de ver, mas n\u00e3o lhe convinha abrir a janela,<br \/>\npor causa do vento; al\u00e9m disso amea\u00e7ava chuva; era at\u00e9 muito natural que estivesse<br \/>\nchuviscando. Continuou a olhar atentamente, com o rosto achatado de encontro<br \/>\naos vidros.<\/p>\n<p>A rede adiantava-se a pouco e pouco, jogando com a irregularidade da rua<br \/>\ne do caminhar desencontrado dos carregadores; o que obrigava o len\u00e7ol a fazer<br \/>\ne desfazer fartas nugas instant\u00e2neas. Ana Rosa sentiu-se inquieta e sobressaltada,<br \/>\ncomo se aquilo lhe dissera respeito; a rede ia desaparecer de todo a seus<br \/>\nolhos, porque cada vez mais se aproximava da parede, j\u00e1 mal podia alcan\u00e7a-la<br \/>\ncom a vista.<\/p>\n<p>C\u00e9us! Dir-se ia que se encaminhava para a porta de Manuel!<\/p>\n<p>Uma rajada de nordeste esfuziou nos vidros. Os chap\u00e9us dos transeuntes saltaram<br \/>\ncomo folhas secas; as janelas de diversas casas bateram contra os caixilhos<br \/>\nnum repel\u00e3o de c\u00f3lera; o vento zuniu com mais for\u00e7a e, numa segunda refrega,<br \/>\narrancou de uma s\u00f3 vez o len\u00e7ol que cobria a rede.<\/p>\n<p>Ana Rosa estremeceu toda, deu um grito, ficou l\u00edvida, levou as m\u00e3os aos olhos.<br \/>\nParecia-lhe ter reconhecido Raimundo naquele corpo ensang\u00fcentado. Duvidou<br \/>\ne, sem animo de formular um pensamento, abriu de s\u00fabito as vidra\u00e7as.<\/p>\n<p>Era com efeito, ele.<\/p>\n<p>O povo olhou todo para cima e viu uma coisa horr\u00edvel. Ana Rosa, convulsa<br \/>\ndoida, firmando no patamar das janelas as m\u00e3os, como duas garras, entranhava<br \/>\nas unhas na madeira do balc\u00e3o, com os olhos a rolarem sinistramente e com<br \/>\num riso medonho a escancarar-lhe a boca, as ventas dilatadas, os membros hirtos.<\/p>\n<p>De repente, soltou um novo rugido e caiu de costas.<\/p>\n<p>A m\u00e3e-preta acudira logo e arrastou-a para o quarto.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a deixou atr\u00e1s de si, pelo ch\u00e3o, um grosso rastro de sangue, que lhe<br \/>\nescorria debaixo das saias, tingindo-lhe os p\u00e9s. E, no lugar da queda, ficou<br \/>\nno assoalho uma enorme po\u00e7a vermelha seguinte.<\/p>\n<p>No dia seguinte por todas as ruas da cidade de S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o, e nas<br \/>\nreparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, na Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio, nos a\u00e7ougues nas quitandas, nas<br \/>\nsaias e nas alcovas, boquejava-se largamente sobre a misteriosa morte do Dr.<br \/>\nRaimundo. Era a ordem do dia.<\/p>\n<p>Contava-se o fato de mil modos; inventavam-se lendas; improvisavam-se romances.<br \/>\nO cad\u00e1ver fora recolhido pela Santa Casa de Miseric\u00f3rdia; procedeu-se a um<br \/>\ncorpo de delito; verificou-se que o paciente morrera a tiro de bala, mas a<br \/>\npolicia n\u00e3o descobriu o assassino.<\/p>\n<p>Nessa mesma tarde os caixeiros de Manuel, vestidos de luto, entregavam de<br \/>\nporta em porta a seguinte circular<\/p>\n<p>&#8220;Ilmo. Sr.<\/p>\n<p>Manual Pedro da Silva e o c\u00f4nego Diogo de Melo Freitas Santiago participam<br \/>\na V.S\u00aa que acabam de receber o profundo golpe do falecimento de seu prezado<br \/>\ne nunca assaz chorado sobrinho e amigo Raimundo Jos\u00e9 da Silva; e, como o seu<br \/>\ncad\u00e1ver tenha de baixar ao t\u00famulo, hoje \u00e0s 4 e 1\/2 horas da tarde, no cemit\u00e9rio<br \/>\nda Santa<\/p>\n<p>Casa de Miseric\u00f3rdia, esperam receber de V.S\u00aa o piedoso obs\u00e9quio de acompanhar<br \/>\no f\u00e9retro da casa de seu inconsol\u00e1vel tio \u00e0 Rua da Estrela n.\u00b0 80, pelo<br \/>\nque desde j\u00e1 se confessam etemamente agradecidos.<\/p>\n<p>Maranh\u00e3o, etc, etc &#8221;<\/p>\n<p>A Miseric\u00f3rdia uma sepultura. mediante a quantia de 60$000 r\u00e9is. O enterro<br \/>\nfoi a p\u00e9 e bastante concorrido. Muitos negociantes acompanharam-no por considera\u00e7\u00e3o<br \/>\nao colega; grande n\u00famero de pessoas por mera curiosidade.<\/p>\n<p>O c\u00f4nego ungiu o cad\u00e1ver com \u00e1gua benta e encomendou-o a Deus.<\/p>\n<p>Maria B\u00e1rbara. para completo descargo de consci\u00eancia e porque soubessem que<br \/>\nela n\u00e3o tinha mau cora\u00e7\u00e3o, prometeu uma missa por alma do mulato.<\/p>\n<p>Dias s\u00f3 apareceu em casa a tarde, \u00e0 hora do saimento Notaram que o bom rapaz<br \/>\nmuito se sentira daquela morte e que, no ato de baixar o caix\u00e3o \u00e0 sepultura,<br \/>\nafastara-se de todos, naturalmente para chorar mais \u00e0 vontade. N\u00e3o constou<br \/>\nque mais ningu\u00e9m, al\u00e9m dele e o c\u00f4nego, tivesse chorado.<\/p>\n<p>De volta do cemit\u00e9rio, Freitas, em conversa com os caixeiros de Manuel, mais<br \/>\no Sebasti\u00e3o Campos e o Casusa, lamentou com palavras finas o lastim\u00e1vel falecimento<br \/>\ndo infeliz mo\u00e7o, e disse que sentia bastante n\u00e3o ter a policia descoberto<br \/>\no autor do crime; mas que, segundo a sua modesta opini\u00e3o&#8217; aquilo fora, nada<br \/>\nmais, nada menos, do que um suic\u00eddio, e que Raimundo viera at\u00e9 \u00e0 ponta da<br \/>\nnua nas agonias da morte.<\/p>\n<p>&#8211; Uma fatalidade! rematou ele, filosoficamente, a espanar com o len\u00e7o os<br \/>\nseus sapatos envernizados. &#8211; N\u00e3o me posso conformar com o diabo deste p\u00f3 vermelho<br \/>\nde S\u00e3o Pantale\u00e3o!. . mas creiam que me comoveu bastar te a morte do pobre<br \/>\nMundico! Era um mo\u00e7o h\u00e1bil.. Tinha muita habilidade para fazer versos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E muita presun\u00e7\u00e3o, vamos l\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, coitado! tinha seus estudos, tinha! n\u00e3o se lhe pode negar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas tamb\u00e9m n\u00e3o era l\u00e1 essas coisas que queria ser!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah, sim, n\u00e3o digo o contr\u00e1rio&#8230; Concordou delicadamente o pai de Lindoca<br \/>\nporque n\u00e3o tinha por costume contrariar ningu\u00e9m. &#8211; Uma fatalidade!&#8230; repetiu,<br \/>\nmeneando a cabe\u00e7a<\/p>\n<p>&#8211; E talvez n\u00e3o fique nesta!.. observou Sebasti\u00e3o A pequena est\u00e1 bem perigosa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E! Ouvi dizer que sim.<\/p>\n<p>&#8211; O Jauffret mandou que a carregassem pra fora.<\/p>\n<p>&#8211; Segue, num dia destes para a Ponta-d\u2019Areia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Para o Caminho Grande.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Ela era perdida pelo Raimundo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tolice.<\/p>\n<p>E deram de m\u00e3o o assunto para ouvir Casusa, que contava alegremente o caso<br \/>\nde um b\u00eabado que uma vez fora parar no cemit\u00e9rio e l\u00e1 ficara fechado; e que.<br \/>\ndepois, acordando pelas altas horas da noite, levantara-se para ir at\u00e9 ao<br \/>\nport\u00e3o pedir fogo ao ronda. que fumava muito distra\u00eddos encostado de costas<br \/>\nnas grades, e que o soldado, sentindo, passar-lhe no pesco\u00e7o a m\u00e3o fria do<br \/>\nborracho, deitara a correr e a pedir socorro em altos berros.<\/p>\n<p>Todos acharam gra\u00e7as, e o Freitas contou logo um fato equivalente que lhe<br \/>\nsucedera no tempo de rapaz. Esta anedota puxou por outras, e cada qual exibiu<br \/>\nas que sabia: de sorte que. ao entrarem na Rua Grande ainda empoerados da<br \/>\nterra vermelha de S\u00e3o Pantale\u00e3o, riam-se a bom rir apesar da profunda tristeza<br \/>\ndo crep\u00fasculo, que nesse dia n\u00e3o vestira as galas do costume.<\/p>\n<p>O Pescada, mal o tempo levantou, mudou-se, junto com a filha e a sogra, para<br \/>\num s\u00edtio ao Caminho Grande, onde Ana Rosa esteve \u00e0 morte Chegaram a fazer<br \/>\nJunta de m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o o pobre Manuel vivia muito apoquentado. Falou-se que os seus<br \/>\ncabelos tinham embranquecido totalmente e que ele agora se dedicava ao trabalho<br \/>\ncomo nunca, com uma esp\u00e9cie de furor, um desespero de quem bebe para esquecer<br \/>\na sua desventura.<\/p>\n<p>A nova firma comercial, Silva e Dias, nasceu entretanto, no meio da mais<br \/>\ncompleta prosperidade.<\/p>\n<p>Seis anos depois, em meado de fevereiro, havia uma partida no Clube Familiar<br \/>\nEra uma galanteria que os liberais dedicavam a um seu correligion\u00e1rio pol\u00edtico,<br \/>\nchegado da Corte por aqueles dias, com destino \u00e0 presid\u00eancia do Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Estava-se no rigor do inverno e chovera durante toda a tarde. As cal\u00e7adas<br \/>\nrefletiam em ziguezague a luz vermelha dos lampi\u00f5es. Alguns telhados ainda<br \/>\ngotejavam melancolicamente, e o c\u00e9u, todo negro, pesava sobre a cidade que<br \/>\nnem uma tampa de chumbo. N\u00e3o obstante, chegava bastante gente para a festa;<br \/>\nvelhas carruagens enfileiravam-se na Rua Formosa, despejando golfadas de seda<br \/>\ne cambraia. As damas, finamente envolvidas nas ondas dos seus pufes, subiam,<br \/>\narrepanhando a cauda, aos sal\u00f5es do baile, pelo bra\u00e7o de homens s\u00e9rios de<br \/>\ncasaca. Havia luxo. Os lances da escadaria mostravam-se juncados de flores<br \/>\ndesfolhadas e folhas de mangueira, e os degraus, de quatro a quatro, estavam<br \/>\nguarnecidos por grandes vasos de p\u00f3 de pedra, vazios de planta. Espelhos de<br \/>\nbom tamanho refletiam de alto a baixo, no corredor, os pares que subiam. Em<br \/>\ntodas as portas havia alvas cortinas de labirinto.<\/p>\n<p>O presidente acabava de chegar, e a banda do 5.\u00b0 de Infantaria tocava<br \/>\nembaixo o Hino Nacional. Todos se agitavam para v\u00ea-lo; comentavam-lhe j\u00e1,<br \/>\nem voz soturna, a figura, os movimentos, o andar, a cor, e os bot\u00f5es da camisa.<\/p>\n<p>Na sala de honra, as senhoras, parafusadas nas suas cadeiras, numa resigna\u00e7\u00e3o<br \/>\ncerimoniosa, espichavam discretamente o pesco\u00e7o, para ver o &#8220;Presidente novo&#8221;.<br \/>\nOs rapazes, com o cabelo dividido em duas pastas sobre a testa, fumavam nos<br \/>\ncorredores ou bebiam nos bufetes Na varanda jogavam em sil\u00eancio os inalter\u00e1veis<br \/>\npares do voltarete A casa toda recendia a perfumaria francesa.<\/p>\n<p>Reinava um constrangimento pesado e est\u00fapido; poucos se animavam a conversar,<br \/>\ne ningu\u00e9m ria. Mas de improviso, a orquestra deu o sinal da primeira quadrilha<br \/>\ne uma onda de homens invadiu brutalmente as salas, por todas as portas. Era<br \/>\numa aluvi\u00e3o mesclada; havia o crois\u00e9 de luva branca, a casaca sem luva, o<br \/>\nfraque de tr\u00eas bot\u00f5es com o len\u00e7o de seda azul debru\u00e7ado na algibeira; sobressa\u00edam<br \/>\nas enormes gravatas de cambraia engomada, com as pontas em bico sistematicamente<br \/>\nespichadas sobre a negrura da lapela. Alguns tinham um tique pretensioso;<br \/>\noutros um ar encalistrado e cheio de rubores. Principiava-se a suar.<\/p>\n<p>Destacavam-se os filhos dos negociantes ricos, que haviam ido \u00e0 Europa &#8220;estudar<br \/>\ncom\u00e9rcio&#8221; e os acad\u00eamicos de Pernambuco, Bahia e Rio, que estavam de f\u00e9rias<br \/>\nna prov\u00edncia. A dan\u00e7a abalava-os a todos as senhoras iam-se j\u00e1 levantando;<br \/>\narrastavam-se cadeiras; a luz do g\u00e1s mordia os ombros nus e fazia faiscar<br \/>\nos diamantes; as rabecas come\u00e7avam a gemer.<\/p>\n<p>As quadrilhas e as valsas sucederam-se quase sem intervalo. O entusiasmo<br \/>\napoderou-se dos \u00e2nimos.<\/p>\n<p>Tremia no ambiente o vozear frouxo dos cochichos, das coisas amorosas, dos<br \/>\npequeninos risos delicados, do tilintar dos braceletes, do farfalhar das saias,<br \/>\ndo rumorejar dos leques e do surdo arrastar dos p\u00e9s no tapete.<\/p>\n<p>As mulheres presas pela cintura, num abandono voluptuoso, com a cabe\u00e7a esquecida<br \/>\nsobre a esp\u00e1dua do cavalheiro. De envolta com os extratos de Lubin, saturava<br \/>\na atmosfera um cheiro t\u00e9pidos e penetrante de carnes e cabelos. Pares fatigados<br \/>\nprostravam-se nos canap\u00e9s, amolecidos por um entorpecimento sensual; dilatavam-se<br \/>\nas narinas, ofegavam os colos e as p\u00e1lpebras bambeavam num quebranto de febre.<\/p>\n<p>Em breve, por\u00e9m, um frenesi galv\u00e2nico eletrizou todos os pares &#8220;Galop!&#8221; gritaram<br \/>\nE um turbilh\u00e3o doido, desenfreado, precipitou-se pelas saias, percorrendo-as<br \/>\naos saltos, numa confus\u00e3o de casacas e caudas de seda; anovelando-se, abalroando-se<br \/>\ne rebentando afinal numa vozeria medonha, atroadora, num bramido de onda que<br \/>\nespoca em plena tempestade.<\/p>\n<p>Rasgaram-se vestidos, espica\u00e7aram-se folhos de renda, desfloraram-se penteados<br \/>\ne soltaram-se exclama\u00e7\u00f5es de prazer.<\/p>\n<p>Um rapaz, ao terminar a quadrilha, refugiava-se, coxeando, na varanda Tinham-lhe<br \/>\npisado o melhor calo.<\/p>\n<p>&#8211; Maus raios te partam, diabo!<\/p>\n<p>E foi assentar-se a um canto, segurando carinhosamente o p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 seu Rosinha, fale com os amigos velhos!.. disse o Freitas, aproximando-se<br \/>\ndele e estendendo-lhe a m\u00e3o. N\u00e3o sabia que o t\u00ednhamos aqui em nossa terra,<br \/>\ndoutor!<\/p>\n<p>Estava o mesmo homem, sempre engomado e teso, com o seu eterno colarinho<br \/>\n\u00e0 Pinaud e a sua unha de estima\u00e7\u00e3o. &#8220;Ent\u00e3o!. que lhe contava o caro Sr. Rosinha,<br \/>\ndepois que se viram a \u00faltima vez? J\u00e1 l\u00e1 se iam tr\u00eas anos!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Rosinha achava-se em f\u00e9rias; era terceiranista de Direito em Pernambuco.<\/p>\n<p>O Freitas notou que ele estava rapag\u00e3o; estava muito melhor; mais desenvolvido!<\/p>\n<p>O Fa\u00edsca sorriu. Com efeito engrossara de ombros e deitara melhor corpo. Agora<br \/>\ntinha um par de su\u00ed\u00e7as e parecia menos tolo, por\u00e9m muito mais m\u00edope. Falaram<br \/>\nsuperiormente contra aquele modo b\u00e1rbaro de dan\u00e7ar. O estudante descreveu as<br \/>\ndores que sentiu quando lhe pisaram o cato e jurou nunca mais dan\u00e7ar com semelhantes<br \/>\nestouvados. Depois, conversaram a respeito do novo presidente; Freitas queixou-se<br \/>\ndo partido liberal. &#8220;Uma s\u00facia de crian\u00e7olas!&#8230; dizia ele, indignado Era fechar<br \/>\nos olhos e apanhar o primeiro!&#8230; O tal Gabinete de 5 de janeiro podia limpar<br \/>\nas m\u00e3os \u00e0 parede!&#8230; Inc\u00farias! s\u00f3 inc\u00farias!&#8221; Em seguida ocuparam-se do passado;<br \/>\nlembraram-se do defunto Manuel Pescada e da falecida Maria B\u00e1rbara.<\/p>\n<p>&#8211; A velha Babu! .. murmurou o Freitas, cheio de recorda\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>Outro pediu noticias de Lindoca.<\/p>\n<p>Sempre gorda! Agora estava l\u00e1 pela Para\u00edba, com o marido, o Dudu Costa, que<br \/>\nfora removido para a alf\u00e2ndega dessa prov\u00edncia. Sabe? A Eufrasinha fugiu com<br \/>\num c\u00f4mico!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah, sei! sei!<\/p>\n<p>Estonteada! O pobre Casusa, coitado, \u00e9 que estava perdido! &#8211; Extravag\u00e2ncias!&#8230;<br \/>\nRosinha, se o visse, n\u00e3o o conheceria. &#8211; Muito desfigurado, cheio de c\u00e3s!<br \/>\nFaisca declarou que ainda n\u00e3o o tinha encontrado em parte alguma.<\/p>\n<p>&#8211; Qual encontrado o qu\u00ea! Estava de cama!. entrevado! Uma perna, que era isto!<\/p>\n<p>E o Freitas mostrou a cintura.<\/p>\n<p>&#8211; E o Sebasti\u00e3o? perguntou o rapaz.<\/p>\n<p>Metido na fazenda. J\u00e1 n\u00e3o havia quem o visse. E acrescentou sem transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Homem, quer saber quem est\u00e1&#8230; O nosso c\u00f4nego Diogo!<\/p>\n<p>&#8211; Sim. J\u00e1 ouvi dizer<\/p>\n<p>&#8211; Coitado! reten\u00e7\u00e3o de urina. Ele sempre sofreu de estreitamento!<\/p>\n<p>&#8211; Um santo!<\/p>\n<p>&#8211; Se o \u00e9!&#8230;<\/p>\n<p>E ambos sacudiram a cabe\u00e7a, no recolhimento da mesma convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Faisca calculava escrever o necrol\u00f3gio do c\u00f4nego. caso este morresse antes<br \/>\nda sua volta para Pernambuco. Falaram tamb\u00e9m do Cordeiro, que se tinha estabelecido<br \/>\ncom Manuelzinho. O Freitas afirmava que iam muito bem, porque o Bento Cordeiro<br \/>\ndeixara o diabo do vicio. F interrompeu-se, para segredar ao outro:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea conhece este rapaz, que vai passando de bra\u00e7o dado a uma mo\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o Gustavo!<\/p>\n<p>&#8211; Que Gustavo?<\/p>\n<p>&#8211; De Vila Rica! Aquele que foi caixeiro do Pescada!&#8230;<\/p>\n<p>Ah, sim! j\u00e1 sei! Mas, como ficou mudado! ele que era um rapaz t\u00e3o bonito!&#8230;<\/p>\n<p>De fato, Gustavo perdera inteiramente as suas belas cores europ\u00e9ias e tinha<br \/>\nagora a cara sarapintada de funchos ven\u00e9reos.<\/p>\n<p>Estava para casar com a mo\u00e7a, que levava pelo bra\u00e7o. Uma filha do velho Furtado<br \/>\nda Serra.<\/p>\n<p>&#8211; Hum! Bravo! Est\u00e1 bom!<\/p>\n<p>Dava meia-noite e algumas fam\u00edlias embrulhavam-se nas capas para sair O Freitas<br \/>\ndespediu-se logo do Rosinha, apressado.<\/p>\n<p>&#8211; Depois da meia-noite &#8211; nada! nada absolutamente!&#8230; observava ele, sempre<br \/>\nmet\u00f3dico<\/p>\n<p>Mas, no patamar da escada, teve de esperar um instante que descesse um casal<br \/>\nque se despedia. Adivinhava-se que era gente de considera\u00e7\u00e3o pelo riso afetuoso<br \/>\ncom que todos o cumprimentavam; muitos se arredavam pressurosos, para lhe<br \/>\ndar passagem. O pr\u00f3prio presidente acompanhara-o at\u00e9 ali e agradecia lhe o<br \/>\nobs\u00e9quio do comparecimento ao baile, com um en\u00e9rgico aperto de m\u00e3o, \u00e0 inglesa.<\/p>\n<p>O par festejado eram o Dias e Ana Rosa, casados havia quatro anos. Ele deixara<br \/>\ncrescer o bigode e aprumara-se todo; tinha at\u00e9 certo emproamento rica\u00e7o e um<br \/>\nar satisfeito e alinhado de quem espera por qualquer vapor o h\u00e1bito da Rosa;<br \/>\na mulher engordara Um pouco em demasia, mas ainda estava boa, bem torneada,<br \/>\ncom a pele limpa e a came esperta.<\/p>\n<p>Ia toda se saracoteando muito preocupada em apanhar a cauda do seu vestido,<br \/>\ne pensando, naturalmente, nos seus tr\u00eas fiihinhos, que ficaram em casa a dormir.<\/p>\n<p>&#8211; Grand&#8217;chaine, double, serr\u00e9! berravam nas salas<\/p>\n<p>O Dias tomara o seu chap\u00e9u no corredor e, ao embarcar no carro, que esperava<br \/>\npelos dois l\u00e1 embaixo, Ana Rosa levaram-lhe carinhosamente a gola da casaca.<\/p>\n<p>Agasalha bem o pesco\u00e7o, Lulu! Ainda ontem tossiste tanto \u00e0 noite, queridinho!&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I II III IV V VI &nbsp; VII VIII IX X XI XII &nbsp; &nbsp; XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX &nbsp; I Era um dia abafadi\u00e7o e aborrecido. A pobre cidade de S\u00e3o Lu\u00eds do Maranh\u00e3o parecia entorpecida pelo calor. Quase que se n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92170","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Mulato - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra O Mulato - Alu\u00edsio de Azevedo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Mulato - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Raimundo, C\u00f4nego Diogo, Quit\u00e9ria, Domingas, Literatura, O Mulato - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Mulato - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra O Mulato - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Mulato - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Raimundo, C\u00f4nego Diogo, Quit\u00e9ria, Domingas, Literatura, O Mulato - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-mulato-aluisio-de-azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-03T16:04:31+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2018-05-03T17:40:23+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"525 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-mulato-aluisio-de-azevedo#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-mulato-aluisio-de-azevedo\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"O Mulato &#8211; 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