{"id":92161,"date":"2017-01-03T13:50:05","date_gmt":"2017-01-03T15:50:05","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92161"},"modified":"2018-05-03T16:38:27","modified_gmt":"2018-05-03T18:38:27","slug":"o-japao-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-japao-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"O Jap\u00e3o &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><script async src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\"><\/script><br \/>\n<!-- ads_responsivo --><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\"\n     style=\"display:block\"\n     data-ad-client=\"ca-pub-7159766377354473\"\n     data-ad-slot=\"3162710741\"\n     data-ad-format=\"auto\"><\/ins><br \/>\n<script>\n(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\" height=\"114\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#1\"><strong>1\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; JIMMU<br \/>\nTENN\u00d3 &#8211; JING\u00d3 KOG\u00d3 &#8211; YORITOMO<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#2\"><strong>2\u00ba Cap\u00edtulo &#8211;<br \/>\nNOBUNAGA &#8211; TAIKO~SAMA &#8211; IEIAS<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\"><strong>3\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; O<br \/>\nCOMODORO PERRY Ii KAMMON<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\"><strong>4\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; ELIMINARAM<br \/>\nLI KAMMON<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"middle\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\"><strong>5\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; A<br \/>\nABERTURA<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gra\u00e7as \u00e0 recente vulgariza\u00e7\u00e3o das cr\u00f4nicas japonesas, dantes inacess\u00edveis\u00a0a todo e qualquer estranho, poucos segredos haver\u00e1 de virgindade inteira sobre\u00a0o Jap\u00e3o remoto, e nenhum absolutamente a respeito dos fatos pol\u00edticos que\u00a0no moderno determinaram a restaura\u00e7\u00e3o micadoal, podendo-se num punhado de\u00a0cap\u00edtulos despretenciosos dar exata not\u00edcia do que foi aquele passado, outrora\u00a0t\u00e3o misterioso e sem fundo, e do que vem a ser ao justo essa famosa revolu\u00e7\u00e3o\u00a0que num momento de frenesi hist\u00f3rico derrocou, em nossos dias, um mundo insond\u00e1vel\u00a0de tradi\u00e7\u00f5es acumuladas durante vinte e dois s\u00e9culos de sigilo nacional. Isto,\u00a0conquanto um pouco fora do meu programa, faz-se indispens\u00e1vel para clareza\u00a0do resto desta singela obra de impress\u00f5es pessoais; sem contar que o caso\u00a0\u00e9 de si bonito e novo, pois come\u00e7a poeticamente por uma lenda maravilhosa\u00a0e risonha, palpitante de quimeras e fic\u00e7\u00f5es divinas, e acaba na mais engravatada\u00a0e burocr\u00e1tica monarquia constitucional, com os seus minist\u00e9rios de casaca\u00a0bordada, com as suas secretarias de Estado e os seus competentes amanuenses\u00a0de cal\u00e7as pu\u00eddas, e at\u00e9, acreditai se quiserdes! com o p\u00e1lido bacharel apenas\u00a0desabrochado da academia sem outro ideal na vida al\u00e9m de apanhar por empenho\u00a0qualquer emprego p\u00fablico.<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>1\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; JIMMU TENN\u00d3 &#8211; JING\u00d3 KOG\u00d3 &#8211; YORITOMO<\/h2>\n<p>Um dia, o tonante Izanangui, que habitava com a formosa e divina Izananmi<br \/>\no emp\u00edreo celeste, indiferentes ao mundo ainda descampado, teve a fantasia<br \/>\nde sondar com a ponta cicl\u00f3pica da sua lan\u00e7a de deus as profundezas do oceano<br \/>\ne, ao recolh\u00ea-la d&#8217;agua, as gotas que escorreram e pingaram no mar viraram-se<br \/>\nnuma ilha esmeraldina, Awaji, da qual os dois altos amantes, cansados do c\u00e9u<br \/>\nimpass\u00edvel, fizeram o \u00e9den dos seus amores terrestres e sensuais. Izananmi,<br \/>\nmeiga e fecunda, deu deles ent\u00e3o a luz da vida as oito mais bonitas ilhas<br \/>\nde Dai-Nip\u00e3o e logo, para as n\u00e3o deixar tristes e desertas, produziu do seu<br \/>\nventre trinta e cinco kamis ou deuses j\u00e1 humanizados pelo amor sexual feito<br \/>\npor ela na terra. Dentre esta nova sucess\u00e3o de Izananmi surtiu Amateras, deusa<br \/>\ndo sol, a dona do divino espelho de Shinto, em cuja luz a sua futura descend\u00eancia<br \/>\nmortal e sensitiva poderia, e nos escassos tempos e dias aziagos do porvir,<br \/>\ncontemplar-lhe o rosto amigo e ler-lhe nas benignas fei\u00e7\u00f5es os des\u00edgnios providenciais.<br \/>\nAmateras, c\u00f4nscia do que lhe reservava o destino, queria tamb\u00e9m ser fecundada,<br \/>\nmas, orgulhosa dos seus incompens\u00e1veis encantos, n\u00e3o achava entre deuses e<br \/>\nkamis var\u00e3o assaz luzido e belo para o amor do seu corpo, e ent\u00e3o, num singular<br \/>\nenlace, concebeu um filho com os ardentes carb\u00fanculos do seu pr\u00f3prio diadema<br \/>\nde princesa celestial. O filho, da t\u00eampera rija e cristalina das gemas que<br \/>\no geraram, foi posto na ilha de Kiuciu, que ele povoou de her\u00f3is, vindo dois<br \/>\nde seus descendentes, guiados pelo divino falc\u00e3o de oito cabe\u00e7as, a atravessar<br \/>\no Mar Interior e a cair sobre o Jap\u00e3o central, de pronto por ambos conquistado<br \/>\ncontra o poder dos maus deuses e homens rebeldes que o ocupavam.<\/p>\n<p>Um desses dois conquistadores, Iware Hito, foi o primeiro soberano do Jap\u00e3o<br \/>\ne morreu, com mais de um s\u00e9culo de idade, 585 anos antes de Jesus Cristo.<br \/>\nSeu nome p\u00f3stumo \u00e9 Jimmu Tenn\u00f4, como est\u00e1 na Hist\u00f3ria e com o qual abre o<br \/>\nalmanaque de Gotha a lista cronol\u00f3gica e geneal\u00f3gica dos Micados e Shoguns<br \/>\nde Dai-Nip\u00e3o; ocupa hoje o trono o seu descendente em linha reta Mutsu Hito,<br \/>\nque e o 122o da divina s\u00e9rie micadoal.<\/p>\n<p>Assim, o atual Imperador, apesar da sua constitui\u00e7\u00e3o parlamentar, apesar<br \/>\ndo seu prosaico uniforme de General de Divis\u00e3o, \u00e9 nada menos do que descendente<br \/>\ndireto da formosa Deusa do Sol e tem com certeza na augusta f\u00edbrina centelhas<br \/>\ndas luzes cambiantes do ilustre diadema seu antepassado; sacrossanta proced\u00eancia<br \/>\ndonde lhe deriva indiscut\u00edvel supremacia sobre todos os seus compatriotas<br \/>\nterrestres e logo o direito absoluto de ser, nem s\u00f3 obedecido e cegamente<br \/>\nrespeitado por eles como soberano, mas adorado como divindade que \u00e9 e como<br \/>\nforam todos os seus consubstanciais antepassados.<\/p>\n<p>O espelho por Amateras transmitido carinhosamente a seus filhos, representa<br \/>\no s\u00edmbolo da religi\u00e3o shinto\u00edsta, \u00e0 qual n\u00e3o pode o Micado renegar sem com<br \/>\nela renegar tamb\u00e9m a qualidade divina da sua pr\u00f3pria ess\u00eancia. O Shinto\u00edsmo<br \/>\n\u00e9 pois no Jap\u00e3o ainda hoje a religi\u00e3o do Estado; mas a religi\u00e3o popular e<br \/>\nverdadeiramente querida, talvez por mais folgada e vistosa, \u00e9 o Budismo, introduzida<br \/>\nno pa\u00eds pelos coreanos no s\u00e9culo sexto da era crist\u00e3.<\/p>\n<p>Esta t\u00e3o negativa prefer\u00eancia do Japon\u00eas pela religi\u00e3o alheia levou h\u00e1beis<br \/>\ncasu\u00edstas, zelosos da divina proced\u00eancia do trono, a tecerem em \u00e9pocas hoje<br \/>\nlong\u00ednquas sutis rela\u00e7\u00f5es entre os dois cultos, ali\u00e1s bem divergentes na forma<br \/>\nexterna como no \u00edntimo esp\u00edrito; la\u00e7os de origem e de doutrina estabeleceram-se<br \/>\nengenhosamente entre o let\u00e1rgico Buda e a palpitante deusa do sol, permitindo<br \/>\nassim aos fi\u00e9is de ambas as seitas queimarem o seu incenso e os seus pap\u00e9is<br \/>\ndourados facultativamente aos p\u00e9s do altar de uma como da outra divindade.<br \/>\nE destarte conseguiu o trono, sem abrir luta com a na\u00e7\u00e3o, ou antes sem insistir<br \/>\nna luta come\u00e7ada, guardar \u00edntegro o seu car\u00e1ter divino e permitir que o povo<br \/>\nconservasse o seu culto pueril pelo espetaculoso Budismo, alegremente exercido<br \/>\nem paz ao lado da pobre e desguarnecida religi\u00e3o do Estado. Buda no Jap\u00e3o<br \/>\nganhou um nome japon\u00eas: chama-se &#8220;Ammiddah&#8221;.<\/p>\n<p>De Jimmu Tenn\u00f4 at\u00e9 duzentos anos depois de Jesus Cristo (860 da era japonesa)<br \/>\no Jap\u00e3o pouco mais seria do que uma extensa regi\u00e3o completamente b\u00e1rbara e<br \/>\ndesconhecida, em luta constante entre as suas tribos de car\u00e1ter n\u00f4made e guerreiro,<br \/>\ncujos vest\u00edgios ainda hoje se encontram puros ao extremo norte da ilha de<br \/>\nYezo onde se refugiaram e habitam os cabeludos Amos e os quase extintos selvagens<br \/>\nKoropukgurus; mas por aquela \u00e9poca, a c\u00e9lebre imperatriz Jing\u00f4 Kog\u00f4, divinizada<br \/>\nhoje com o nome de Hachiman Daibosatsu no seu templo de Otokoiama, resolveu,<br \/>\nsob inspira\u00e7\u00e3o do c\u00e9u, organizar e ela pr\u00f3pria conduzir, acompanhada do seu<br \/>\nfiel valido Take-no-utschi, uma grande expedi\u00e7\u00e3o contra a Cor\u00e9ia, ent\u00e3o tribut\u00e1ria<br \/>\nda China que florescia \u00e0 sombra da dinastia dos Thsin.<\/p>\n<p>A expedi\u00e7\u00e3o obteve o melhor resultado poss\u00edvel: ao fim de tr\u00eas anos volvia<br \/>\n\u00e0 p\u00e1tria a gloriosa imperatriz, senhora da vassalagem de tr\u00eas reis vencidos<br \/>\ncom a submiss\u00e3o da Cor\u00e9ia. Logo por\u00e9m ao partir para a guerra, Jing\u00f4 Kog\u00f4<br \/>\nnotara-se pejada e, como esta imprevista circunst\u00e2ncia lhe podia estorvar<br \/>\nos planos militares, ela, invocando a prote\u00e7\u00e3o dos deuses, amarrou uma pedra<br \/>\nno ventre. Produziu \u00f3timo efeito o talism\u00e3: o c\u00e9u atende \u00e0s suplicas da guerreira<br \/>\ne a gesta\u00e7\u00e3o esperou miraculosamente os tr\u00eas largos anos da campanha. Ao fim<br \/>\ndesse tempo a imperatriz, de volta aos seus penates, recolhe-se apressada<br \/>\nao castelo sem atender a aclama\u00e7\u00e3o nem parab\u00e9ns, corre ao quarto, desaperta-se,<br \/>\nlan\u00e7ando fora coura\u00e7a e capacete, e deixa-se cair por terra nos bra\u00e7os do<br \/>\nmarido a quem, entre gemidos de mulher, explica o caso maravilhoso. O feliz<br \/>\nc\u00f4njuge prosterna-se, agradecendo aos c\u00e9us a gra\u00e7a e o benef\u00edcio, e ela entrementes<br \/>\nd\u00e1 \u00e0 luz o pr\u00edncipe Ojin, mais tarde divinizado com o t\u00edtulo de Deus da Guerra,<br \/>\na cuja alta influ\u00eancia foi logo, nem era de esperar coisa melhor, atribu\u00edda<br \/>\ntoda a honra da vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Com esta vit\u00f3ria sobre a Cor\u00e9ia, entra no Jap\u00e3o a civiliza\u00e7\u00e3o chinesa, que<br \/>\nno continente vizinho tinha j\u00e1 nessa \u00e9poca chegado ao seu m\u00e1ximo desenvolvimento,<br \/>\nassim nas artes, como na literatura e na moral filos\u00f3fica de Kang, conhecido<br \/>\nno Ocidente pelo ilustre nome de Conf\u00facius. E a imigra\u00e7\u00e3o, que logo se fez<br \/>\ncaudalosa, vem espontaneamente favorecer a a\u00e7\u00e3o da corrente civilizadora;<br \/>\nchamados pelos japoneses ou puxados uns pelos outros, come\u00e7am os chins a instalar-se<br \/>\nno arquip\u00e9lago fronteiro; &#8220;de uma s\u00f3 vez, diz a cr\u00f4nica por interm\u00e9dio de<br \/>\nGeorges Bousquet, dezessete distritos do sul do Celeste Imp\u00e9rio arribam em<br \/>\nmassa para os verdejantes portos de Kiuciu&#8221;; o erudito Wang Ien, maior po\u00e7o<br \/>\nde ci\u00eancia que possu\u00eda a Cor\u00e9ia, \u00e9 atra\u00eddo \u00e0s cortes do micado Ojin para ilumin\u00e1-lo<br \/>\nde perto, e com ele atravessa o Mar do Jap\u00e3o um fator decisivo \u2014o alfabeto<br \/>\nchin\u00eas. O Jap\u00e3o come\u00e7a a ler e a escrever e n\u00e3o se forra a sacrif\u00edcios para<br \/>\naumentar o seu cabedal de luzes; acumula de garantias e favores os artistas,<br \/>\nartes\u00e3os e oper\u00e1rios de valia, que logo acodem avidamente da outra banda asi\u00e1tica<br \/>\nde ferramenta em punho; chama a si cabal\u00edsticos astr\u00f3logos, facultativos e<br \/>\nalquimistas, carregados de misteriosas retortas e alfarr\u00e1bios. E com esta<br \/>\ngente da sabedoria do tempo vem o segredo da porcelana; vem a b\u00fassola; vem<br \/>\na ind\u00fastria da seda; vem a arte de construir casas de mais de um andar; vem,<br \/>\ncom as primeiras no\u00e7\u00f5es de astronomia, a organiza\u00e7\u00e3o cronogr\u00e1fica e o calend\u00e1rio;<br \/>\nvem a fabrica\u00e7\u00e3o do papel e da tinta de Nankin; vem o moinho de pilar o arroz,<br \/>\ne as rodas hidr\u00e1ulicas substituem a m\u00f3 girada a bra\u00e7o vivo; vem o rel\u00f3gio<br \/>\ncom o seu maquinismo movido pela \u00e1gua; vem a metalurgia, e descobrem-se minas<br \/>\npreciosas e cunha-se a primeira moeda de metal na terra dos micados; e finalmente<br \/>\nvem a imprensa, e estampa-se as liter\u00e1rias prim\u00edcias japonesas, entre as quais<br \/>\no m\u00edtico &#8220;Kodziki&#8221;, a mais remota hist\u00f3ria escrita do Jap\u00e3o. Foi ditada esta<br \/>\nhist\u00f3ria por uma mulherzinha de fenomenal retentiva, a quem o Imperador Jimmu<br \/>\nno s\u00e9culo sexto ordenara de guardar na mem\u00f3ria todos os passos e epis\u00f3dios<br \/>\nda vida p\u00fablica japonesa, transmitidos at\u00e9 a\u00ed de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o pela voz<br \/>\ndos trovadores e menestr\u00e9is ambulantes.<\/p>\n<p>E o Jap\u00e3o acerta afinal o passo do seu progresso com o da China e entra,<br \/>\npor diante, a caminhar t\u00e3o seguro e firme, que em breve j\u00e1 n\u00e3o se contenta<br \/>\ns\u00f3 com imitar os translados da mestra e vai por conta pr\u00f3pria modificando<br \/>\nalguns deles para melhor e mais bonito; e j\u00e1 em 643 manda \u00e0 metr\u00f3pole da sua<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o o primeiro embaixador que veio ao mundo, o Ad\u00e3o dos diplomatas<br \/>\n\u2014 Onono-Imok\u00f4, encarregado de regular a favor da sua p\u00e1tria os tributos<br \/>\nde guerra, que a Cor\u00e9ia come\u00e7ava a saldar, e de estabelecer a perman\u00eancia<br \/>\nde uma comiss\u00e3o japonesa na China para estudar ci\u00eancias ocultas e reveladas.<\/p>\n<p>Todas essas maravilhas, perfeitas pelos nipons entre o ano 284 e o 703 da<br \/>\nnossa era, s\u00f3 muitos s\u00e9culos depois foram sabidas e exercidas pela ent\u00e3o agreste<br \/>\nEuropa, onde todavia por tal modo se desenvolveram e apuraram que \u00e9 agora<br \/>\na cultura ocidental, hoje rematada e extrema, que, refluindo, vem civilizar<br \/>\nde novo a velha terra do Oriente, de cujo seio abundante \u00c1rias nasceu para<br \/>\ngerar novas e mais formosas ra\u00e7as.<\/p>\n<p>Rezam entretanto as cr\u00f4nicas ind\u00edgenas que n\u00e3o foi por mero esp\u00edrito de generosidade<br \/>\nque o governo chin\u00eas cedeu ao vizinho oriental a sua civilizadora emigra\u00e7\u00e3o;<br \/>\nsobre a primeira leva de emigrados corre uma lenda que n\u00e3o resisto ao desejo<br \/>\nde contar:<\/p>\n<p>A certo imperador da China, not\u00e1vel s\u00f3 pela assombrosa estupidez e tart\u00e1rica<br \/>\ndureza de entranhas que o distinguiam, meteu-se em cabe\u00e7a escapar \u00e0 lei fatal<br \/>\nda morte e p\u00f4s logo em a\u00e7\u00e3o toda a sua autoridade para que lhe descobrissem<br \/>\no segredo de perpetuar a vida. Imaginai da\u00ed o sangue que n\u00e3o correu por causa<br \/>\ndisto! Mas Jokufu, m\u00e9dico e astr\u00f3logo da corte, prop\u00f4s-se afinal realizar<br \/>\no desejo do tirano, contanto que lhe facultasse este os meios de obter um<br \/>\nmisterioso filtro para isso indispens\u00e1vel, e o qual consistia no extrato de<br \/>\ncerta flor s\u00f3 existente nas ilhas vulc\u00e2nicas de Nip\u00e3o, flor de tal melindre<br \/>\nque, para nada perder da sua amaviosa virtude, tinha que ser colhida por m\u00e3os<br \/>\njuvenis de imaculada pureza. O imperador estava por tudo, autorizou o m\u00e9dico<br \/>\na organizar o pessoal de que houvesse mister e abriu a r\u00e9gia bolsa para todos<br \/>\nos custos; p\u00f4s-se ent\u00e3o o astr\u00f3logo em dilig\u00eancia e escolheu) um por um, cuidadosamente,<br \/>\nentre a parte melhor do povo, trezentos rapazes e trezentas e uma raparigas<br \/>\nque, de corpo e alma, lhe pareceram os mais perfeitos do pa\u00eds, e com esta<br \/>\nalegre companhia fez-se de velas para as plagas do Sol Nascente. O monarca,<br \/>\nse conseguisse afinal realizar por outro meio o seu sonho de vida perp\u00e9tua,<br \/>\nainda agora estaria \u00e0 espera do facultativo, cujo fim era s\u00f3 escapar \u00e0 crueldade<br \/>\ndo d\u00e9spota a quem servia, e tentar vida nova em pa\u00eds novo no meio de uma alegre<br \/>\ncolm\u00e9ia de patr\u00edcios por ele escolhidos a dedo.<\/p>\n<p>Fosse este ou n\u00e3o o ponto inicial da emigra\u00e7\u00e3o chinesa, o fato \u00e9 que s\u00f3 com<br \/>\nesta come\u00e7a verdadeiramente a hist\u00f3ria do Jap\u00e3o, como \u00e9 tamb\u00e9m da\u00ed que come\u00e7a<br \/>\ne se vai estendendo pelos s\u00e9culos novos a lenta e surda elabora\u00e7\u00e3o homog\u00eanica<br \/>\nda ra\u00e7a, at\u00e9 conseguir fixar o seu tipo, depois da eterna luta etnol\u00f3gica,<br \/>\nem que os elementos contr\u00e1rios se repelem entre si e os de afinidade eletiva<br \/>\nse combinam e se fundem para sempre. E assim, pouco a pouco, de s\u00e9culo a s\u00e9culo,<br \/>\nse v\u00e3o destacando e acentuando as castas em volta de um centro comum, espiritual<br \/>\ne supremo, que \u00e9 o micado; come\u00e7am ent\u00e3o as agrupa\u00e7\u00f5es sociais, a forma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas classes: de um lado condensa-se o lavrador, que nunca mais deixar\u00e1 os<br \/>\ncampos produtores e ser\u00e1 o passivo e silencioso lastro da na\u00e7\u00e3o inteira; de<br \/>\noutro lado constitui-se o militar, a quem o agricultor sustenta, confiando-lhe<br \/>\na guarda das suas terras lavradas, e o qual h\u00e1 de ser no futuro o &#8220;Samurai&#8221;,<br \/>\nsuscet\u00edvel de enobrecimento pelas armas, e em que o feudalismo vindouro encontrar\u00e1<br \/>\ncavaleiresco esteio para a sua violenta expans\u00e3o; de outro lado concentra-se<br \/>\na aristocracia de sangue, criada e mantida tranq\u00fcilamente pelos fidalgos da<br \/>\nfam\u00edlia micadoal, parentes do imperador ou da imperatriz, e de cujo n\u00facleo<br \/>\nprivilegiado se formar\u00e1 a classe principesca dos &#8220;Kug\u00eas&#8221;, que ser\u00e3o conselheiros<br \/>\n\u00e1ulicos e pares do trono, gozando da prerrogativa exclusiv\u00edssima de fornecer<br \/>\nda sua descend\u00eancia as mulheres do soberano, leg\u00edtimas como ileg\u00edtimas, com<br \/>\ndireito qualquer delas a dar herdeiros \u00e0 coroa. E desta nobreza consang\u00fc\u00ednea<br \/>\ndos kug\u00eas, combinada com a outra militar dos samurais, resultar\u00e1 o &#8220;Daimo&#8221;,<br \/>\nque j\u00e1 \u00e9 o puro chefe feudal, com senhorio e rendas territoriais e faculdade<br \/>\nautorit\u00e1ria para lan\u00e7ar impostos, estabelecer ten\u00e7as, fortificar castelos,<br \/>\nconstruir navios e ferir batalhas. E uma vez retalhado o pa\u00eds em principados<br \/>\naut\u00f4nomos, come\u00e7ar\u00e3o estes em viva guerra a disputar entre si a supremacia,<br \/>\nat\u00e9 que uma fam\u00edlia triunfe, aniquilando as outras, e crie o poder suserano<br \/>\ndo &#8220;Shogun&#8221;, isto \u00e9, o chefe dos chefes feudais, o general\u00edssimo dos pr\u00edncipes<br \/>\nmilitares, s\u00f3 dos militares, porque quanto aos do conselho \u00e1ulico, esses continuar\u00e3o<br \/>\nexclusivamente sob a al\u00e7ada espiritual do micado.<\/p>\n<p>A original institui\u00e7\u00e3o do Shogunato, que redundou em cis\u00e3o do governo soberano<br \/>\n\u00e9, a contar depois da conquista da Cor\u00e9ia, o marco mais saliente da antiga<br \/>\nhist\u00f3ria pol\u00edtica japonesa. At\u00e9 essa \u00e9poca, 1185, os micados governaram unitariamente;<br \/>\noitenta e um se sucedem no trono, por hereditariedade, sem interrup\u00e7\u00e3o, desde<br \/>\nJimmu Tenn\u00f4 at\u00e9 Antoku; dai para c\u00e1 a s\u00e9rie continua firme e seguida, mas<br \/>\nj\u00e1 ladeada pelo shogunato que se apossou do poder militar e civil, deixando<br \/>\nao imperador apenas o espiritual e convertendo-o num simulacro de Papa privativo<br \/>\ndo Estado, embastilhado por uma etiqueta ainda mais inexpugn\u00e1vel que as muralhas<br \/>\ndo seu gocho imperial; verdadeiro \u00eddolo, que o povo devia adorar, mas sem<br \/>\nver, sob pena de morte ou do esvazamento dos olhos, e para quem as estradas<br \/>\np\u00fablicas eram rigorosamente veladas, &#8220;Porque \u2014diz o primeiro shogun<br \/>\nna sua proclama\u00e7\u00e3o \u2014a terra vulgar e rasa \u00e9 indigna de p\u00f4r-se em contato<br \/>\ncom os divinos p\u00e9s do filho dos deuses&#8221;.<\/p>\n<p>O primeiro shogun foi o grande Yoritomo, pr\u00edncipe inteligente e bravo, celebrizado<br \/>\nem prosa e verso na literatura japonesa. Era ele ent\u00e3o o \u00faltimo vest\u00edgio da<br \/>\nfam\u00edlia Minamoto, cruamente exterminada pelos Ta\u00edras. De todos os feudos,<br \/>\ninimigos irreconcili\u00e1veis, que procuravam firmar, cada um de per si, a sua<br \/>\nhegemonia pelo aniquilamento dos rivais, s\u00f3 essas duas casas haviam resistido,<br \/>\ne o duelo final e decisivo que se travou entre elas deixou os Ta\u00edras inteiramente<br \/>\nsenhores do campo. Yoritomo escapou miraculosamente \u00e0 carnificina; teria dez<br \/>\nou doze anos quando o resto de sua fam\u00edlia, sobejado \u00e0 sanha das pelejas,<br \/>\nfora passada pelas armas inimigas; fizeram-no prisioneiro e iam mat\u00e1-lo, apesar<br \/>\nda tenra idade, quando uma mulher compassiva intercedeu por ele, obtendo dos<br \/>\nTa\u00edras deixarem-no viver.<\/p>\n<p>O \u00faltimo descendente dos Minamotos cresceu pois entre os destruidores da<br \/>\nsua estirpe, afagado pelas mesmas m\u00e3os que o fizeram \u00f3rf\u00e3o; mas posto homem<br \/>\ncasou-se calculadamente com a filha de Hoj\u00f4, de cuja influ\u00eancia militar contava<br \/>\nele tirar partido. Recolhe-se com a mulher \u00e0s prov\u00edncias mais remotas do Jap\u00e3o,<br \/>\norganiza em sigilo como o her\u00f3i do Rubicon uma coorte de bravos e, depois<br \/>\nde algumas vit\u00f3rias f\u00e1ceis, alcan\u00e7adas s\u00f3 com o fim de engrossar as suas hostes,<br \/>\narroja-se sobre os Ta\u00edras, bate-os em terra, cerca-os por todos os lados,<br \/>\nsem dar quartel a nenhum, e acaba por exterminar o que deles resta em um decisivo<br \/>\ncombate naval nas \u00e1guas de Daneira. Feito isto e repelida uma invas\u00e3o de mong\u00f3is<br \/>\nque abalan\u00e7ava a independ\u00eancia do pa\u00eds, Yoritomo, declarando-se Primeiro Vassalo<br \/>\ndo Imperador, a quem rende p\u00fablica homenagem e em cujo poder espiritual, s\u00f3<br \/>\nespiritual, jura defender de qualquer pretens\u00e3o externa ou interna, assume<br \/>\no posto de comandante em chefe das armas com o t\u00edtulo de Bakufu ou Shogun.<br \/>\nEstabelece a sua corte em Kamakura, guarnece-a de artistas, poetas e apraz\u00edveis<br \/>\ns\u00e1bios, fundando nesse distrito uma segunda capital do Estado, sede do poder<br \/>\ncivil e ao mesmo tempo o centro de opera\u00e7\u00f5es das for\u00e7as militares do norte,<br \/>\nem flagrante oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 de Kioto, ao sul, onde, na imperial cust\u00f3dia do espiritualismo<br \/>\nsacro, ostraceava o pobre Micado com o seu conselho de m\u00e3os finas e perfumadas,<br \/>\nmuito feitas \u00e0 dif\u00edcil execu\u00e7\u00e3o da m\u00fasica religiosa, mas de todo alheias ao<br \/>\nmanejo das armas de combate.<\/p>\n<p>E eis a\u00ed como se deu a estranha cis\u00e3o no poder soberano do monarca, criando-se<br \/>\nquase ao n\u00edvel do trono a suserania shogunal, que ali\u00e1s s\u00f3 atingiu ao auge<br \/>\nda sua autoridade an\u00f4mala quatro s\u00e9culos depois quando Iei\u00e1s fundou de vez<br \/>\na sua dinastia e tornou a fun\u00e7\u00e3o heredit\u00e1ria, fazendo desde essa \u00e9poca a Europa<br \/>\nacreditar at\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo que o Jap\u00e3o mantinha dois imperadores, como<br \/>\nse v\u00ea pelos seus ajustes internacionais com ele firmados dentro j\u00e1 do nosso<br \/>\ns\u00e9culo. Naquela \u00e9poca \u00e9 j\u00e1 com efeito o shogun quem governa, mas ainda \u00e9 o<br \/>\nimperador quem reina, pois que teoricamente nada pode decidir o chefe militar<br \/>\nsem a san\u00e7\u00e3o do micado.<\/p>\n<p>Yoritomo fez da sua capital uma cidade relativamente importante e poderosa,<br \/>\ncidade todavia de madeira e bambu que, depois dele e da sua curta descend\u00eancia<br \/>\ndireta, desapareceu substitu\u00edda por infinitos arrozais e canteiros de hortali\u00e7a;<br \/>\na estrada de ferro passa hoje por ela ligando-a a Yokohama e T\u00f3kio; do seu<br \/>\npassado fausto s\u00f3 perduram alguns \u00eddolos e reconstru\u00eddos templos. \u00c9 a\u00ed, nesse<br \/>\nameno canto mal povoado, que est\u00e1 o famoso Buda de bronze &#8220;Daibutsu&#8221; de que<br \/>\nem lugar competente darei a descri\u00e7\u00e3o. O fundador do Shogunato morreu em 1199,<br \/>\ncom cinq\u00fcenta e tr\u00eas anos de idade, depois de quatorze de indiscutido e absoluto<br \/>\npoder.<\/p>\n<p>Com a sua morte desencadeia-se o feudalismo militar que ele sistematizara,<br \/>\ne desde essa \u00e9poca at\u00e9 1573, tendo tido vinte e seis micados e vinte e quatro<br \/>\nshoguns, o Jap\u00e3o mal encontra alguns momentos de refolga entre as implac\u00e1veis<br \/>\nguerras civis que o dilaceram. O militarismo degenera em paix\u00e3o e invade \u00e0s<br \/>\nraias da ves\u00e2nia, lavra por todas as classes, apodera-se de todos os esp\u00edritos,<br \/>\ne a na\u00e7\u00e3o inteira desfalece moralmente arriscando retroceder as tontas para<br \/>\no barbarismo primitivo; desaparecem os artistas, desaparecem os obreiros,<br \/>\na gleba corrompe-se e pega em armas; os poetas arribam da p\u00e1tria com as asas<br \/>\nsujas de sangue, e at\u00e9 os sacerdotes, os meigos bonzos de cr\u00e2nio raspado e<br \/>\nt\u00fanica branca, dantes fechados na sua f\u00e9 sinistra que lhes vedava comer carne,<br \/>\nbeber licores e tocar em mulheres, endurecem de alma e fazem-se guerrilheiros;<br \/>\nos santu\u00e1rios do budismo convertem-se em fortalezas e arsenais; o monast\u00e9rio<br \/>\nde Higeizen, maior de todos, \u00e0s margens quietas do formoso lago de Biwa, com<br \/>\nos seus quinhentos templos boscarejados de sagradas cliptom\u00e9rias, transforma-se<br \/>\nem reduto inexpugn\u00e1vel, onde as s\u00faplicas do pr\u00f3prio Micado s\u00e3o repelidas com<br \/>\nduras blasf\u00eamias e pedradas. Alguns japoneses, caindo de fome, vendem-se ent\u00e3o<br \/>\ncomo escravos para as Filipinas e para a China, levando olhos e alma consumidos<br \/>\nde fitarem inutilmente o frio espelho de Amateras, a deusa-m\u00e3e degenerada.<\/p>\n<p>E nesse largo e negro per\u00edodo de decomposi\u00e7\u00e3o geral que os militantes samurais,<br \/>\nhomens d&#8217;armas, com direito a usar duas espadas e direito a deixar crescer<br \/>\na barba, se desenvolvem e consubstanciam numa classe privilegiada e turbulenta,<br \/>\npodendo comer, beber e dormir pelas locandas e hospedarias de todo o pa\u00eds<br \/>\nsem obriga\u00e7\u00e3o de pagar os gastos, pronto sempre a qualquer deles a castigar<br \/>\ncom a morte o kuli ou plebeu que ousasse contrari\u00e1-lo no meio das suas correrias<br \/>\ne aventuras soltas. Como desdobramento esp\u00fario dessa classe de fundo cavaleiresco<br \/>\nem que, seja dito com justi\u00e7a, havia por vezes mau grado a dura escurid\u00e3o<br \/>\ndos tempos, altru\u00edsmo nacional e nobreza de sentimentos, esgalhou a fac\u00e7\u00e3o<br \/>\nfragueira dos roninos, homens que n\u00e3o s\u00e3o j\u00e1 soldados, mas nem por isso menos<br \/>\nardidos e belicosos; gente de arma encoberta e arbitr\u00e1ria, mas com quem podiam<br \/>\nos pr\u00edncipes senhoriais contar em caso de guerra, transformando em instrumento<br \/>\nde a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica o que era desclassificado produto do meio corrompido; fatores<br \/>\ne auxiliares inconscientes, ora do bem, ora do mal, vigoroso elemento \u00e9tnico,<br \/>\ncujo naturalismo her\u00f3ico se dispersava \u00e0 toa numa exalta\u00e7\u00e3o brigalhona e constante,<br \/>\n\u00e0s vezes generosa, quase sempre por\u00e9m inconfess\u00e1vel e perversa, porque lhes<br \/>\nfaltava, a esses como aos seus originadores, o sustinente ideal piedoso que<br \/>\ncontinha na mesma \u00e9poca os seus cong\u00eaneres ocidentais, pondo ao lado da espada<br \/>\nensang\u00fcentada desses tempos cru\u00e9is o l\u00edrio m\u00edstico da f\u00e9 crist\u00e3. Mas, nos<br \/>\ncurtos intervalos da guerra, dessa guerra civil que durou perto de quatro<br \/>\ns\u00e9culos; o ronino volvia-se salteador e pirata, ao passo que o samurai, depostas<br \/>\ntransitoriamente as duas espadas, ia para o campo administrar a pr\u00f3pria fazenda<br \/>\ne criar os filhos para d\u00e1-los depois ao seu pr\u00edncipe e senhor, ensinando-lhes<br \/>\ndesde o ber\u00e7o que os deveres da vida militar s\u00e3o carga pesada como as armas<br \/>\ne que a morte nas batalhas \u00e9 leve como a pluma.<\/p>\n<p>Esta desoladora situa\u00e7\u00e3o, em que o pa\u00eds esteve prestes a desfazer-se em sangue,<br \/>\ne em que apenas prosperaram os artefatos e produtos industriais concernentes<br \/>\n\u00e0 arte da guerra, s\u00f3 veio a ceder, esbarrando de encontro \u00e0 a\u00e7\u00e3o bravia de<br \/>\ntr\u00eas grandes vultos consecutivos: Nobunaga &#8211; Taiko Sama &#8211; Iei\u00e1s, e dissolvendo-se<br \/>\nenfim de todo contra a maquiav\u00e9lica resist\u00eancia do \u00faltimo destes, que \u00e9 incontestavelmente<br \/>\no maior homem do Jap\u00e3o medieval, como por si mesmo julgar\u00e1 o leitor, se tiver<br \/>\na paci\u00eancia de ler o seguinte cap\u00edtulo.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>2\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; NOBUNAGA &#8211; TAIKO~SAMA &#8211; IEIAS<\/h2>\n<p>Nobunaga, filho do pr\u00edncipe de Owai, \u00e9 um esp\u00edrito claro e forte, por\u00e9m \u00edmpio,<br \/>\nservido por uma vontade en\u00e9rgica e resoluta. Bate em 1573 a poderosa fam\u00edlia<br \/>\nAchikanga, que ent\u00e3o mantinha no poder o seu d\u00e9cimo quinto shogun por ela<br \/>\nimposto \u2014 Yochi Aki, e al\u00e7a m\u00e3o das r\u00e9deas do Estado, fazendo-se &#8220;Daijin&#8221;<br \/>\nou Grande Ministro do Interior.<\/p>\n<p>Como subiu em luta aberta com os daimos, cuja supremacia militar tem em mira<br \/>\ndestruir em favor do poder \u00e1ulico, desiste da elei\u00e7\u00e3o shogunal, mas tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o consente que elejam outro, deixando vago esse cargo que depois de Yoritomo<br \/>\nn\u00e3o havia sofrido interrup\u00e7\u00e3o, e entra a governar em nome diretamente do Imperador,<br \/>\na quem assim consegue soerguer um pouco do fundo rebaixamento pol\u00edtico em<br \/>\nque o tinha deixado o feudalismo militante.<\/p>\n<p>Uma vez seguro do poder n\u00e3o s\u00e3o todavia os daimos a sua primeira preocupa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas sim a mil\u00edcia religiosa; \u00e9 que os budistas, riqu\u00edssimos e cheios de prest\u00edgio<br \/>\nnos seus alc\u00e1ceres mon\u00e1sticos, com vassalos pr\u00f3prios colhidos entre os mais<br \/>\nterr\u00edveis samurais e roninos, se haviam constitu\u00eddo em uma for\u00e7a de guerra<br \/>\nsuperior \u00e0 dos pr\u00f3prios pr\u00edncipes feudais, porque a seu favor laborava o esp\u00edrito<br \/>\nreligioso do povo. Ora, Nobunaga compreende que, governando em nome do Imperador<br \/>\ne sendo o Shinto\u00edsmo a religi\u00e3o do Estado, seu poder n\u00e3o passaria de fic\u00e7\u00e3o<br \/>\nse persistisse de p\u00e9 a arrog\u00e2ncia dos sacerdotes budistas; para firmar pois<br \/>\no princ\u00edpio da sua autoridade e o prest\u00edgio moral do governo, era preciso<br \/>\nantes de mais nada aniquilar a supremacia dos bonzos; empresa que a todos<br \/>\nse afigurava a mais louca das quimeras, j\u00e1 pelas conven\u00e7\u00f5es espirituais estabelecidas<br \/>\npelo trono entre as duas religi\u00f5es dominantes, j\u00e1 pela boa organiza\u00e7\u00e3o das<br \/>\nfor\u00e7as de que dispunham os budistas, j\u00e1 pelo mau efeito que produziria nas<br \/>\ncamadas populares o car\u00e1ter sacr\u00edlego do sucesso, e j\u00e1 enfim pela solidariedade<br \/>\nque existia entre os sacerdotes de Buda e certos pr\u00edncipes poderos\u00edssimos<br \/>\ndo norte.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Nobunaga, em m\u00e1 hora para os seus patr\u00edcios, pensou em tirar<br \/>\npartido do Cristianismo que por esse tempo prosperava exuberantemente ao sul<br \/>\ndo Arquip\u00e9lago, depois das suas tentativas quase frustradas no continente<br \/>\nchin\u00eas. O Jap\u00e3o havia sido descoberto, acidentalmente, pelos portugueses em<br \/>\n1542, como explicarei adiante; S\u00e3o Francisco Xavier, acompanhado de frades<br \/>\nAgostinianos, Dominicanos e Franciscanos, tentara desembarcar em 1549 no porto<br \/>\nde Kaugosima; repelido, seguiu para Yamaguchi e depois para Kioto, conseguindo<br \/>\nafinal estabelecer-se ao sul com o seu humilde ex\u00e9rcito de mission\u00e1rios. Foi<br \/>\ntal o bom \u00eaxito dessa piedosa campanha, refor\u00e7ada mais tarde pelos jesu\u00edtas<br \/>\nespanh\u00f3is, foi t\u00e3o fecunda a catequese, que, na \u00e9poca de Nobunaga, trinta<br \/>\nanos depois do in\u00edcio dela, havia no imp\u00e9rio duzentas igrejas cat\u00f3licas e<br \/>\nmeio milh\u00e3o de convertidos, entre os quais principescas fam\u00edlias de Kiuciu<br \/>\ne muita gente da melhor nobreza que chegou a chamar por sua conta novos mission\u00e1rios<br \/>\neuropeus; tanto assim que em 1581 o pr\u00edncipe Sendai enviava ostensivamente<br \/>\numa embaixada a Felipe II de Espanha, e aos papas Greg\u00f3rio XIII e Sixto Quinto,<br \/>\napresentando-lhes os votos dos cat\u00f3licos do Extremo Oriente.<\/p>\n<p>Pois bem, Nobunaga, pol\u00edtico h\u00e1bil e homem c\u00e9tico, achou meios de chamar<br \/>\na si os crist\u00e3os novos e com estes conseguiu levantar as for\u00e7as de Kiuciu<br \/>\ncontra os budistas, assaltando logo, sem dar tempo aos daimos de acudirem,<br \/>\no monast\u00e9rio de Heijeizen que, depois de formid\u00e1vel resist\u00eancia, foi tomado<br \/>\ne reduzido a cinzas com o despojo dos que o defendiam. Em seguida, antes que<br \/>\nlhe esfriassem as armas, volta-se para o de Hang-wanji em Osaka, onde se praticava<br \/>\na seita Chichiu; neste por\u00e9m volvia-se o feito muito mais duvidoso, o monast\u00e9rio<br \/>\ntinha cinco redutos exteriores, guarnecido de fossos e valas; e n\u00e3o perdera<br \/>\na ocasi\u00e3o de engrossar as suas for\u00e7as enquanto o outro era atacado. A primeira<br \/>\ninvestida foi como se os assaltantes se abismassem num sorvedouro infernal,<br \/>\nos sitiadores s\u00f3 tiveram not\u00edcia do resultado dela vendo descer as \u00e1guas mortas<br \/>\ndo canal um enorme e sinistro junco carregado at\u00e9 as bordas de orelhas e narizes<br \/>\ndecepados; era tudo que voltava da expedi\u00e7\u00e3o. Nobunaga insiste; ataca de novo<br \/>\ne de novo \u00e9 repelido, e afinal, \u00e0 for\u00e7a de atividade e pertin\u00e1cia, logra vencer<br \/>\no primeiro reduto, e depois o segundo, o terceiro, todos os outros, e penetrar<br \/>\nenfim no cora\u00e7\u00e3o ardente da alca\u00e7ova e escala a formid\u00e1vel cidadela, que arrasou<br \/>\nno meio de uma hecatombe de vinte mil associados, bonzos, samurais, roninos,<br \/>\nservos e concubinas.<\/p>\n<p>Destru\u00edda a resist\u00eancia budista foi f\u00e1cil ao temeroso general fazer o mesmo<br \/>\ncom a dos daimos, cujas tentativas de rea\u00e7\u00e3o conseguiu logo ao nascedouro<br \/>\nafogar em sangue, podendo ele depois disso dedicar-se de corpo e alma ao seu<br \/>\ngrande plano de reorganiza\u00e7\u00e3o feudal para dar ao Imp\u00e9rio a unidade que lhe<br \/>\nfaltava e remodel\u00e14o pelo seu peculiar ponto de vista cesariano, talvez, quem<br \/>\nsabe? na inten\u00e7\u00e3o de, arvorando-se ditador, al\u00e7ar-se com o pr\u00f3prio cetro pelo<br \/>\nqual se batia agora; mas, ao lan\u00e7ar em 1582 os primeiros alicerces do vasto<br \/>\nedif\u00edcio, caiu para sempre atravessado no cora\u00e7\u00e3o por uma flecha que ningu\u00e9m<br \/>\nnunca descobriu donde partira.<\/p>\n<p>Sua obra por\u00e9m n\u00e3o morreu com ele: Nobunaga contava desaparecer de um momento<br \/>\npara outro, e havia preparado para secund\u00e1-lo um homem cheio de vida e perfeitamente<br \/>\nna altura da situa\u00e7\u00e3o, um her\u00f3i que ele inventara, um cabo de guerra, sem<br \/>\nfam\u00edlia e sem t\u00edtulos, que fora seu palafreneiro, seu &#8220;betto&#8221;, e de quem o<br \/>\nGeneral nos \u00faltimos combates tinha feito, nem s\u00f3 seu ajudante de campo e confidente<br \/>\nnos segredos do Estado, mas deposit\u00e1rio dos seus futuros planos pol\u00edticos<br \/>\ne por eles respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Entra pois em cena o extraordin\u00e1rio Hideyochi, conhecido na Hist\u00f3ria pelo<br \/>\noriginal cognome de Taiko-Sama.<\/p>\n<p>Nada tendo por si que justificasse a ambi\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do prest\u00edgio pessoal,<br \/>\ncome\u00e7a por voltar-se contra os descendentes do seu pr\u00f3prio benfeitor, usurpando-lhes<br \/>\npelas armas o direito de sucess\u00e3o no governo e obrigando-os ao extremo de<br \/>\nrasgar o ventre para esconderem na morte volunt\u00e1ria e nobre a inf\u00e2mia da derrota.<br \/>\nAto continuo, lan\u00e7a-se como um raio para as prov\u00edncias de Nagato, cujos pr\u00edncipes<br \/>\ne daimos se haviam levantado a contestar-lhe o poder, e sobre eles investe<br \/>\ncom tal f\u00faria que \u00e9 de um assalto que os leva de vencida, mandando logo incendiar<br \/>\nest\u00e2ncias e castelos, e varrer a ferro e fogo os campos arrasados.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pode imaginar a que ponto de vertigem her\u00f3ica chegou nessa \u00e9poca<br \/>\nentre os japoneses o desprezo pela vida. Enquanto Taiko-Sama \u00e9 ruidosamente<br \/>\naclamado em triunfo na frente das legi\u00f5es vencedoras, que arrastam os prisioneiros<br \/>\nescravizados e exp\u00f5em na ponta dos chu\u00e7os quarenta mil cabe\u00e7as de vencidos,<br \/>\nChibat\u00e1, um dos melhores e mais altos samurais de Nobunaga e que, fiel \u00e0 descend\u00eancia<br \/>\ndo extinto chefe, se recusara reconhecer a autoridade do usurpador, v\u00ea-se<br \/>\nencurralado com a mulher e alguns \u00faltimos companheiros de desgra\u00e7a no seu<br \/>\ncastelo de Fukui no principado de Hechisen, sem outra expectativa al\u00e9m da<br \/>\nrendi\u00e7\u00e3o do inimigo que o n\u00e3o poupar\u00e1 de certo. N\u00e3o se aflige entretanto;<br \/>\nao contr\u00e1rio, arma um festim e durante toda essa sua \u00faltima noite, ordena<br \/>\nque em volta dele fervam as dan\u00e7as e as cantigas sensuais das &#8220;gueichas&#8221;.<br \/>\nAo raiar da aurora, em meio do prazer, Chibat\u00e1 enche pela vez extrema a ta\u00e7a<br \/>\ncom que vai celebrar o brinde fatal, o adeus para sempre; antes por\u00e9m de lev\u00e1-la<br \/>\naos l\u00e1bios e de entoar o c\u00e2ntico da morte, chama junto a si a esposa e diz-lhe,<br \/>\npousando-lhe uma das m\u00e3os na cabe\u00e7a enquanto com a outra empunha o copo fat\u00eddico:<\/p>\n<p>\u2014 Tu, minha flor, como mulher, podes sair do castelo; entre as gueichas<br \/>\ne bailadeiras ningu\u00e9m te reconhecer\u00e1&#8230; N\u00e3o tens, como eu e os meus companheiros<br \/>\nd&#8217;armas, o dever de morrer c\u00e1 dentro&#8230; Vai! Dou-te com gosto a liberdade,<br \/>\ne desejo que no dom\u00ednio de outro homem possas encontrar melhor sorte e prosseguir<br \/>\nna virtude de que me deste todas as boas mostras. Vai! Podes sair, adeus!<\/p>\n<p>Ela, por \u00fanica resposta, toma-lhe das m\u00e3os o copo que ele havia enchido e<br \/>\n\u00e9 a primeira a romper o c\u00e2ntico funer\u00e1rio, o hino dos vencidos com honra.<\/p>\n<p>O coro responde e todos se prosternam para morrer. Calam-se de novo e, no<br \/>\nmeio do l\u00fagubre sil\u00eancio, acrescenta a esposa ajoelhando-se aos p\u00e9s do marido:<\/p>\n<p>\u2014 Meu senhor, n\u00e3o me tires o direito de findar com orgulho ao teu lado;<br \/>\nmorta pelas \u00fanicas m\u00e3os a quem me devo&#8230;<\/p>\n<p>Abriu o kimono e apresentou o colo nu: ele, desviando os olhos, arranca da<br \/>\nespada e fere-a no cora\u00e7\u00e3o. Depois, voltando-se para os mais, gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Yake &#8211; haraii!<\/p>\n<p>Era a voz para o inc\u00eandio e para o suic\u00eddio geral, de modo a que n\u00e3o encontrasse<br \/>\no inimigo, no meio das cinzas ensang\u00fcentadas, nenhum trof\u00e9u nem despojo com<br \/>\nque pudesse ornar a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Taiko-Sama, que em virtude da sua baixa proced\u00eancia n\u00e3o podia ser eleito<br \/>\nshogun, nem mesmo grande ministro ou chefe de conselho, faz-se Administrador<br \/>\nGeral, t\u00edtulo que \u00e9 precisamente a tradu\u00e7\u00e3o daquele cognome com que ele passou<br \/>\n\u00e0 Hist\u00f3ria; mas depois, submetendo \u00e0 m\u00e3o armada os pr\u00edncipes feudais e jungindo<br \/>\nao Estado a fun\u00e7\u00e3o das diversas seitas mon\u00e1sticas, dilatou por tal modo o<br \/>\nseu predom\u00ednio pol\u00edtico, e por tal modo se fez senhor do pa\u00eds inteiro, que,<br \/>\nem 1586, imp\u00f4s \u00e0 Corte Imperial que o elegesse Kuambaku, isto \u00e9, nada menos<br \/>\nque \u2014 Vice Imperador.<\/p>\n<p>Esse cargo, at\u00e9 a\u00ed honor\u00e1rio e s\u00f3 preenchido pelos membros superiores da<br \/>\nfam\u00edlia micadoal dos Fujiwara com direito simult\u00e2neo \u00e0 presid\u00eancia do conselho<br \/>\nprivativo da coroa, tornou-se ent\u00e3o efetivo e de poderes amplos, pois de um<br \/>\nlado, aos olhos dos senhores feudais, representava a soberania aristocr\u00e1tica<br \/>\ndo trono como intermedi\u00e1rio entre este e a na\u00e7\u00e3o, e do outro, perante o monarca,<br \/>\nrepresentava a nobreza armada e autorit\u00e1ria dos daimos que em Taiko-Sama reconheciam<br \/>\no seu chefe militar.<\/p>\n<p>A golpes de energia, cada vez mais pronta, o Vice Imperador estabelece a<br \/>\npaz em todo o territ\u00f3rio nacional e, a poder de boa administra\u00e7\u00e3o, consegue<br \/>\nreorganizar a agricultura, desenvolver a ind\u00fastria e lan\u00e7ar as primeiras bases<br \/>\ndo com\u00e9rcio exterior, que ainda n\u00e3o existia; mas, precisando por c\u00e1lculo dar<br \/>\nexpans\u00e3o ao elemento militar, sobreexcitado e aguerrido durante tantos s\u00e9culos<br \/>\nde luta civil, concebe o gigantesco plano de conquistar para o Jap\u00e3o a China<br \/>\ne a Cor\u00e9ia, a pretexto de que j\u00e1 n\u00e3o pagavam impostos pela imperatriz Jing\u00f4<br \/>\nKog\u00f4; e, durante cinco anos, prepara-se para a formid\u00e1vel empresa, com grande<br \/>\ncontentamento dos daimos e dos samurais. Levanta fortifica\u00e7\u00f5es; organiza esquadra;<br \/>\ndisciplina admiravelmente as for\u00e7as de terra, e afinal, em 1592, comandando<br \/>\nele em pessoa, atira-se com oitenta mil homens sobre o continente asi\u00e1tico,<br \/>\natacando a Cor\u00e9ia pelas ilhas Iki e Tsusima.<\/p>\n<p>Feliz em todas as batalhas, tendo j\u00e1 subjugado tr\u00eas partes da pen\u00ednsula coreana,<br \/>\ncujo rei fugiu diante dele, invade a China e logo v\u00ea, pelo bom \u00eaxito da primeira<br \/>\ninvestida, sorrir-lhe no horizonte da guerra a vit\u00f3ria completa. Senhor e<br \/>\nc\u00f4nscio da sua fortuna que nunca desmaiara, disp\u00f5e-se, num alegre frenesi<br \/>\nde ambi\u00e7\u00e3o e gl\u00f3ria, a ir, com as suas pr\u00f3prias m\u00e3os, fincar nas venerandas<br \/>\nmuralhas de Pekin o triunfante gui\u00e3o do Sol Nascente. Condu-lo a sua estrela<br \/>\n\u2014 n\u00e3o recuar\u00e1! O colosso asi\u00e1tico retrai, treme, dominado pela vontade<br \/>\nirresist\u00edvel desse homem que nasceu das pr\u00f3prias armas e como as armas se<br \/>\narroja. O grande Celeste Imp\u00e9rio vai, para sempre talvez, cair em poder da<br \/>\nmenor e mais atrevida na\u00e7\u00e3o do Oriente! Taiko-Sama concentra as suas for\u00e7as<br \/>\nj\u00e1 multiplicadas, re\u00fane em volta de si os seus primeiros generais; nesse momento<br \/>\nc\u00edclico por\u00e9m, 15 de setembro de 1598, uma febre cerebral o acomete em pleno<br \/>\nconselho deliberativo, prega com ele em del\u00edrio ao fundo da sua tenda de campanha<br \/>\ne dentro de uma hora o mata.<\/p>\n<p>A junta regencial que ele havia deixado a governar o Imp\u00e9rio, ao saber do<br \/>\nocorrido, d\u00e1 ordem \u00e0s for\u00e7as japonesas de recolherem incontinenti, sem mesmo<br \/>\nnegociar pazes com a China, abandonando desse modo uma campanha come\u00e7ada sob<br \/>\nos melhores ausp\u00edcios e abrindo m\u00e3o do que j\u00e1 estava conquistado sobre a Cor\u00e9ia.<br \/>\nDizem uns que houve, nessa estranha medida da Reg\u00eancia, perversa inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde quebrar a fama p\u00f3stuma do feliz dominador, alvo de muita inveja e \u00f3dio<br \/>\nentre os seus pr\u00f3prios ministros; outros afirmam at\u00e9 que estes contavam j\u00e1<br \/>\ncom o fato, pois em segredo estava de longa data resolvido o envenenamento<br \/>\ndo chefe.<\/p>\n<p>Taiko-Sama, entretanto, al\u00e9m do grande nome que deixou como general estrat\u00e9gico<br \/>\ne valente, goza na hist\u00f3ria do seu pa\u00eds da reputa\u00e7\u00e3o de ex\u00edmio administrador;<br \/>\nalguns comentadores estrangeiros o comparam a Henrique IV, que nessa mesma<br \/>\n\u00e9poca sufocava em Fran\u00e7a as revolu\u00e7\u00f5es da Liga. Entre muitas outras coisas,<br \/>\na p\u00e1tria deve-lhe os trabalhos de fortifica\u00e7\u00f5es em Kioto e Osaka, o aperfei\u00e7oamento<br \/>\nda ind\u00fastria da porcelana e o desenvolvimento do com\u00e9rcio holand\u00eas, \u00fanico<br \/>\nque logrou fixar-se no pa\u00eds apesar dos vexames que em seguida sobrevieram.<br \/>\nSe Taiko-Sama conseguisse viver mais alguns anos, \u00e9 natural que o Jap\u00e3o desde<br \/>\nesse tempo entrasse em rela\u00e7\u00f5es com o resto da Europa, pois isso fazia parte<br \/>\ndos seus planos pol\u00edticos herdados de Nobunaga, planos totalmente destru\u00eddos<br \/>\npelo homem fenomenal que os sucedeu.<\/p>\n<p>Sim, o maior vulto, maior e derradeiro, dessa limitada galeria de homens<br \/>\nt\u00edpicos do Jap\u00e3o antigo, vai surgir agora em Iei\u00e1s, levantando um novo marco<br \/>\nna vida hist\u00f3rica da p\u00e1tria e separando a sua \u00e9poca das \u00e9pocas anteriores.<br \/>\nA esse guerreiro, estadista e legislador a um tempo, caber\u00e1 a gl\u00f3ria de levar<br \/>\na efeito com um golpe decisivo o vasto plano de unifica\u00e7\u00e3o feudal, concebido<br \/>\npelos seus dois grandes antecessores, e transubstanciar definitivamente a<br \/>\nalma da na\u00e7\u00e3o inteira, moldando-a pela harmoniosa complexidade do seu pr\u00f3prio<br \/>\ntalento original e criador.<\/p>\n<p>Esp\u00edrito sutil e forte, pela face contemplativa do g\u00eanio que o animava, mas<br \/>\nsem o menor escr\u00fapulo sentimental como todo homem de a\u00e7\u00e3o. Iei\u00e1s apresenta<br \/>\no arqu\u00e9tipo da ambi\u00e7\u00e3o inflex\u00edvel e regrada e do ego\u00edsmo pol\u00edtico levado \u00e0<br \/>\ntranscend\u00eancia de ideal filos\u00f3fico. E de alta linhagem, vem da fam\u00edlia Tokugawa,<br \/>\ncolateral dos Minomotos donde procedeu Yoritomo, pertence por conseguinte<br \/>\n\u00e0 divina ra\u00e7a dos Micados. E pouco antes se havia unido a uma irm\u00e3 de Taiko-Sama,<br \/>\na qual desdenhou depois por infecunda.<\/p>\n<p>Esse homem sem entranhas, mas que conhecia profundamente o cora\u00e7\u00e3o humano,<br \/>\npode ser chamado, a justo t\u00edtulo, o Conf\u00facius do Jap\u00e3o, pois dele, e s\u00f3 dele,<br \/>\nsaiu o c\u00e9lebre estatuto constitucional das &#8220;Cem Leis&#8221;, sucinto e s\u00e1bio c\u00f3digo<br \/>\nque dirigiu o esp\u00edrito p\u00fablico de sua p\u00e1tria, desde esse rente come\u00e7o do s\u00e9culo<br \/>\nXVII at\u00e9 a contempor\u00e2nea restaura\u00e7\u00e3o micadoal de 1868, e com cujo vibrante<br \/>\nfeixe de senten\u00e7as mosaicas conseguiram seus descendentes, em quem ali\u00e1s,<br \/>\n\u00e0 exce\u00e7\u00e3o do primeiro filho, n\u00e3o houve um s\u00f3 capaz de secund\u00e1-lo, governar<br \/>\na na\u00e7\u00e3o durante dois s\u00e9culos e meio de paz fecunda e espl\u00eandida prosperidade<br \/>\ntransformando-a, do grupo an\u00e1rquico de sesmarias feudais que era, em um Estado<br \/>\nhomog\u00eaneo, de car\u00e1ter pr\u00f3prio e distinto, capaz, dessa era em diante, de impor-se<br \/>\nao mundo inteiro pela pureza original da sua arte, pela inexced\u00edvel perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua ind\u00fastria, pelo requinte da sua af\u00e1vel cortesia e pelo nunca desmentido<br \/>\naltru\u00edsmo patri\u00f3tico dos seus her\u00f3is.<\/p>\n<p>Para governar teve que bater-se com os Pr\u00edncipes do Sul e do Oeste coligados<br \/>\ncontra ele, e jamais nenhum outro usurpador japon\u00eas, que este tamb\u00e9m o foi<br \/>\nempossando-se do direito heredit\u00e1rio de Hideyori, filho de Taiko-Sama, encontrou<br \/>\npara galgar o Poder t\u00e3o forte oposi\u00e7\u00e3o pelas armas; mas nessas refregas, em<br \/>\nque seus inimigos t\u00eam em p\u00e9 de guerra cento e vinte e oito mil homens e ele<br \/>\napenas setenta e cinco mil, Iei\u00e1s realizou tais prod\u00edgios de valor, que os<br \/>\nseus pr\u00f3prios vencidos o aclamaram entusiasmados.<\/p>\n<p>Depois de uma campanha de guerrilhas e escaramu\u00e7as, fixou-se o combate decisivo<br \/>\npara o dia 1o de outubro de 1600. As duas legi\u00f5es tinham de encontrar-se no<br \/>\nextenso planalto de Sekigahara, na prov\u00edncia de Mino. Avistam-se ao raiar<br \/>\ndaquele dia e avan\u00e7am de longe uma contra .&#8217;. outra com igual denodo. Os Pr\u00edncipes<br \/>\nde Satzuma comandam a direita dos Coligados, Konichi o centro, e Tchid\u00e1, um<br \/>\ncrist\u00e3o, dirige a esquerda, levando no loudel uma cruz vermelha sobre o peito;<br \/>\nIei\u00e1s faz o comando em chefe das suas for\u00e7as e n\u00e3o tem consigo outro general.<\/p>\n<p>Disparam-se os primeiros tiros de bombarda; come\u00e7a a fuzilaria de arcabuzes;<br \/>\nmas nesse instante cai dos c\u00e9us um terr\u00edvel nevoeiro, e estende-se como l\u00fagubre<br \/>\nmortalha sobre o campo da peleja, cegando todos os combatentes. Os Coligados<br \/>\nparam, perturbam-se; Iei\u00e1s por\u00e9m avan\u00e7a firme por entre a espessa bruma, recomendando<br \/>\naos seus de n\u00e3o fazerem alarme, e rojando-se que nem o tigre quando fareja<br \/>\na presa descuidosa.<\/p>\n<p>Rasga-se num relance o nevoeiro de alto a baixo, o sol de novo inunda os<br \/>\narraiais, atroa os ares o alarido b\u00e9lico, e os Coligados estremunham, dando<br \/>\nde surpresa pela frente com o inimigo, que feroz se atira sobre eles. Come\u00e7a<br \/>\nlogo ent\u00e3o, desordenadamente, a luta corpo a corpo, numa confus\u00e3o estrepitosa<br \/>\nde homens, armaduras, cavalos e carretas, que se arrastam de rold\u00e3o com um<br \/>\ns\u00f3 impulso. Ningu\u00e9m mais se entende; cruzam-se os ferros, partem-se azagaias,<br \/>\narrancam-se punhais; \u00e9 cara a cara, e a pulso a pulso que a luta se incendeia.<\/p>\n<p>Meio dia. O sol a pino e a vit\u00f3ria indecisa. Um momento mais de resist\u00eancia<br \/>\ndos Coligados e os Tokugawas ter\u00e3o de ceder \u00e0 despropor\u00e7\u00e3o do n\u00famero. Iei\u00e1s<br \/>\npressente a derrota; voa num galope \u00e0 retaguarda, toma a frente das for\u00e7as<br \/>\nde reserva e avan\u00e7a com elas, empunhando o seu branco pend\u00e3o de rosas malvas.<br \/>\nRuflam met\u00e1licos tambores \u00e0 vista dos bras\u00f5es do Chefe; tam-tans retinem;<br \/>\nos b\u00fazios ressoam \u00e0 laia de trombetas; maior levanta-se o clangor das hostes,<br \/>\ne, de um arranco, Iei\u00e1s rompe as fileiras dos daimos assombrados. Quem pode<br \/>\nresistir a um tal arranco? &#8220;Decepar! Decepar!&#8221; grita ele aos seus guerreiros,<br \/>\ndardejando a alabarda fumegante de sangue. E os fracos fogem; e os fortes<br \/>\napunhalam-se, para n\u00e3o deixar essa honra aos inimigos.<\/p>\n<p>Ao declinar do sol, Iei\u00e1s era senhor do campo, distribu\u00eda postos militares<br \/>\ne, pela primeira vez no Jap\u00e3o, armava, sob a sua espada, cavaleiros os samurais<br \/>\nque se haviam distinguido na batalha. Para essa nova formalidade, semente<br \/>\nde uma nobreza submissa com que ele havia de engrandecer-se na paz, pede o<br \/>\nseu capacete emplumado, aparelha-o na cabe\u00e7a e diz, ao abrochar-lhes os loros<br \/>\nde seda escarlate:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 s\u00f3 depois da vit\u00f3ria que um General deve ornar-se com este festivo<br \/>\ntoucado de gala!<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte fez a sua entrada triunfal em Hikone e depois em Osaka,<br \/>\nno meio da aclama\u00e7\u00e3o un\u00e2nime de vencedores e vencidos. Os pr\u00edncipes do Sul<br \/>\ne do Oeste, de cabe\u00e7a baixa, humilhados, franquearam-lhe os seus dom\u00ednios<br \/>\nem troca do indulto, que ele, contra a norma at\u00e9 a\u00ed estabelecida, cedeu com<br \/>\numa dem\u00eancia j\u00e1 de perfeito soberano em que pese a desgra\u00e7a dos seus s\u00faditos.<\/p>\n<p>E a partir desse momento, o her\u00f3i de Sekigahara ficou sendo, se n\u00e3o logo<br \/>\nde direito, mas incontestavelmente de fato, dono e senhor absoluto do Jap\u00e3o.<br \/>\nEm 1603 restabelece o Shogunato, cujo posto assume, convertendo-o agora em<br \/>\npoder heredit\u00e1rio, e criando assim, ao lado da velha dinastia dos Micados<br \/>\na nova dinastia dos Tokugawa. A Suserania Shogunal deixa de ser desde ent\u00e3o<br \/>\nrevog\u00e1vel pela Coroa e dependente da vontade dos daimos, para se arrogar foros<br \/>\nde pura autocracia aristocr\u00e1tica, perdendo de todo o primitivo car\u00e1ter subalterno<br \/>\nde intermedi\u00e1rio entre a Nobreza militar e o Trono m\u00edstico. N\u00e3o podendo Iei\u00e1s<br \/>\ntomar do Micado tamb\u00e9m o t\u00edtulo para si, inventa o de Tai-Kum (Grande, Primeiro<br \/>\nou Maior Senhor), o qual, em boa l\u00f3gica, n\u00e3o passa de um sin\u00f4nimo do outro.<br \/>\nE assim se consumou essa estranha duarquia que, duzentos e cinq\u00fcenta anos<br \/>\ndepois, tanto enleio e perplexidade veio a produzir nas rela\u00e7\u00f5es internacionais<br \/>\ndo Jap\u00e3o. O Imp\u00e9rio, sem deixar de ser imp\u00e9rio, passou a ter duas autoridades<br \/>\nparalelamente her\u00e1ldicas e majest\u00e1ticas, igualmente supremas e respeit\u00e1vel<br \/>\n\u2014 o Micado, a quem a na\u00e7\u00e3o inteira venerava como um Deus e o Shogun,<br \/>\na quem ela temia como um Rei absoluto; as grossas rendas do Estado logo se<br \/>\nderivaram para as m\u00e3os deste, n\u00e3o indo para as do outro mais que as sobras,<br \/>\nporque ao primeiro cabia, com os seus punhos fortes; prover todas as inelud\u00edveis<br \/>\ne \u00e1speras coisas c\u00e1 da terra, ao passo que o segundo, de palmas finas e defumadas,<br \/>\ntinha de haver-se apenas com as boas e complacentes coisas do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Triste nobreza \u00e9 essa, da consang\u00fcinidade requintada e pu\u00edda pelos s\u00e9culos,<br \/>\nque assim desfibra o organismo de uma gera\u00e7\u00e3o at\u00e9 reduzi-lo \u00e0quele m\u00edtico<br \/>\nestado de semideus, amb\u00edgua e desclassificada condi\u00e7\u00e3o social, inteiramente<br \/>\ndesaproveit\u00e1vel para o menor dos interesses da vida coletiva. ~ o que se deu<br \/>\ncom essa ilustre descend\u00eancia de Jimmu Tenn\u00f4, homem tal que tomou a terra<br \/>\ndos Ainos e fez dela o seu Jap\u00e3o divinizado, haveria, com o correr dos tempos,<br \/>\nde acontecer fatalmente \u00e0 pr\u00f3pria sucess\u00e3o dos Tokugawas, cujo \u00faltimo pr\u00edncipe<br \/>\nheredit\u00e1rio, se n\u00e3o houvera degenerado de todo em contemplativo m\u00edstico, seria<br \/>\nlogo em seguida \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o, como adiante verificar\u00e1 o leitor, o poderoso<br \/>\nRei de um Estado independente e novo, que os seus pros\u00e9litos, fi\u00e9is ao testamento<br \/>\nde Iei\u00e1s, lhe tinham preparado na vasta ilha de Yezo, ao verem em 1869 perdido<br \/>\npara sempre no resto do Imp\u00e9rio Japon\u00eas a metade do Trono que lhes legara<br \/>\no fundador da dinastia.<\/p>\n<p>O Tai-Kum n\u00e3o quis deixar a gera\u00e7\u00e3o da sua Casa sem um frisante subt\u00edtulo<br \/>\ncomo com aquele n\u00e3o deixou a si pr\u00f3prio, e deu-lhe o de Seitaishogun (Sei<br \/>\n&#8211; Tai -Shogun), que \u00e9 j\u00e1 nada menos do que um programa pol\u00edtico desdobr\u00e1vel<br \/>\nem quest\u00e3o social. Sei era, em long\u00ednquas datas o nome do General encarregado<br \/>\nespecialmente de expulsar do pa\u00eds os b\u00e1rbaros invasores; Tai j\u00e1 o leitor o<br \/>\nsabe, quer dizer &#8220;Grande&#8221; e Shogun, n\u00e3o o ignora tampouco, &#8220;Comandante Geral<br \/>\ndas for\u00e7as militares&#8221;; podendo-se pois traduzir aquele sobrenome de uma s\u00f3<br \/>\npalavra por toda essa frase: &#8220;General\u00edssimo destinado a expulsar do Jap\u00e3o<br \/>\nos estrangeiros&#8221;. E \u00e9 com efeito desde essa transitiva \u00e9poca que se converte<br \/>\nem fei\u00e7\u00e3o nacional, e se arvora em f\u00f3rmula do Governo, o nativismo japon\u00eas,<br \/>\nque at\u00e9 a\u00ed n\u00e3o passava de um frouxo e curto reflexo produzido pelo da China.<br \/>\nO sistema pol\u00edtico de Iei\u00e1s baseia-se na mais estreita e orgulhosa reclus\u00e3o;<br \/>\no pa\u00eds deve fechar-se hermeticamente contra o resto do mundo e s\u00f3 contar consigo<br \/>\npara viver.<\/p>\n<p>Diz um dos artigos do famoso c\u00f3digo: &#8220;Quando de todo n\u00e3o for poss\u00edvel evitar<br \/>\na presen\u00e7a de quaisquer b\u00e1rbaros no Imp\u00e9rio, conv\u00e9m nesse caso trat\u00e1-los com<br \/>\na m\u00e1xima reserva e fria polidez, cuidando ao mesmo tempo de intimid\u00e1-los logo<br \/>\ncom a exibi\u00e7\u00e3o de respeit\u00e1vel aparato b\u00e9lico, de armas espl\u00eandidas e bem disciplinadas,<br \/>\ne de forte e feliz apar\u00eancia da mais brilhante prosperidade; dar-lhes por<br \/>\nfavor o que com boas maneiras pe\u00e7am para as suas urgentes necessidades pessoais,<br \/>\nmas deles n\u00e3o aceitar, sob pena de castigo, nada em que transpare\u00e7a sombra<br \/>\nde obs\u00e9quio ou sinal de gratid\u00e3o e estima&#8221;.<\/p>\n<p>E o legislador decreta a pena de morte para o s\u00fadito japon\u00eas que se afastar<br \/>\ndas \u00e1guas territoriais da sua p\u00e1tria, compreendidas dentro de um tiro de flecha;<br \/>\nestabelece a forma que devem ter os barcos mercantes, cortando-lhes a proa<br \/>\nem linha reta, de modo a que n\u00e3o possam alongar-se das costas do pa\u00eds; pro\u00edbe<br \/>\ntoda e qualquer navega\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja a de cabotagem, e come\u00e7a a pensar nos<br \/>\nmeios de p\u00f4r barra afora os estrangeiros que se acham estabelecidos no arquip\u00e9lago;<br \/>\nideal mais tarde realizado, exceto com o Holand\u00eas, \u00fanico de quem se n\u00e3o revoltou<br \/>\no brio contra as duras e humilhantes condi\u00e7\u00f5es impostas pelo Governo. Iei\u00e1s,<br \/>\nao contr\u00e1rio do que fez Nobunaga, que se ligara aos Jesu\u00edtas portugueses e<br \/>\nespanh\u00f3is, vexa-os e persegue-os sistematicamente, obrigando alguns a fugirem<br \/>\npara Formosa e para a China, n\u00e3o ainda por motivos religiosos, mas porque<br \/>\ntiveram aqueles a leviandade, neles com efeito imperdo\u00e1vel, de envolver-se<br \/>\nna pol\u00edtica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Pouco depois estalou a ordem de expulsar para todos os mission\u00e1rios; mas<br \/>\nHideyori, filho de Taiko-Sama, de cujas m\u00e3os Iei\u00e1s usurpara o poder, abra\u00e7a<br \/>\na causa dos cat\u00f3licos, com eles engrossa as for\u00e7as de que dispunha; e faz<br \/>\ndo seu castelo em Osaka um \u00e1rdego centro de resist\u00eancia contra o Governo.<br \/>\nO Tai-Kum, acompanhado por Hidetada, seu filho mais velho e intransigente<br \/>\nsecundador, corre ao lugar da sedi\u00e7\u00e3o e, depois de bloquear e tomar a fortaleza,<br \/>\nredu-la a cinzas. Hideyori, ao lado da m\u00e3e, desapareceu com esta, devorados<br \/>\nambos pelas chamas, e os que escaparam de morrer na peleja ou no inc\u00eandio,<br \/>\nca\u00edram no poder do vencedor. E ent\u00e3o, como podiam sobrevir novos pretendentes<br \/>\nque, \u00e0 semelhan\u00e7a do filho de Taiko-Sama, se ligassem aos cat\u00f3licos; e, como<br \/>\nIei\u00e1s queria opor-se a todo o custo a qualquer troca de id\u00e9ias com os estrangeiros<br \/>\ne cortar pela raiz as rela\u00e7\u00f5es com a Europa, resolveu dirimir esse \u00faltimo<br \/>\nestorvo dos seus planos e, depois de fazer passar \u00e0 espada os prisioneiros,<br \/>\nordenou a matan\u00e7a geral dos crist\u00e3os; poupando apenas aqueles que abjurassem<br \/>\ne em p\u00fablico tripudiassem sobre um crucifixo, como fizeram os holandeses.<\/p>\n<p>Muitos cat\u00f3licos, por\u00e9m, preferiram deixar que lhes despeda\u00e7assem o corpo<br \/>\na terem de despeda\u00e7ar a alma pelas pr\u00f3prias m\u00e3os e, afrontando o furor do<br \/>\nd\u00e9spota, agruparam-se foragidos, e ganharam, sem esperan\u00e7as de salva\u00e7\u00e3o terrestre,<br \/>\nos rasos sert\u00f5es desse pa\u00eds feito de litorais. O descaro\u00e1vel Tokugawa lan\u00e7ou-se<br \/>\npronto no encal\u00e7o deles, e os m\u00edseros acossados, impelidos pela afli\u00e7\u00e3o, concentraram-se<br \/>\nnas ru\u00ednas do castelo de Chimabara, em Nagasaki, enorme pardieiro ao abandono,<br \/>\nperto do golfo. A resist\u00eancia era imposs\u00edvel, mas a ang\u00fastia e o desalento<br \/>\nviraram-se em for\u00e7a catal\u00e9ptica, e o Tai-Kurii teve de lan\u00e7ar m\u00e3o da artilharia<br \/>\ne dos seus veteranos de Sekigahara para tomar de assalto aquele pobre baluarte<br \/>\ndo desespero. Uma onda voraz de lan\u00e7as acirradas rebenta dentro do arraial<br \/>\nem ru\u00ednas, e trinta e sete mil crist\u00e3os s\u00e3o trucidados, enquanto outros, fugindo<br \/>\nmal feridos \u00e0s f\u00e9rreas garras do inimigo, arrojam-se das altas fragas do Pappenberg<br \/>\nnos abismos do golfo.<\/p>\n<p>Foi completa a extermina\u00e7\u00e3o dos apadrinhados da Cruz, e com o sangue desses<br \/>\nm\u00e1rtires secou para sempre na terra do Extremo Oriente a \u00e1rvore do Cristianismo,<br \/>\nj\u00e1 ent\u00e3o frondosa e arom\u00e1tica, e \u00e0 sombra da qual haveria sem d\u00favida de germinar;<br \/>\neflorescer e frutificar com o tempo o que hoje falta \u00e0 na\u00e7\u00e3o japonesa para<br \/>\nser uma na\u00e7\u00e3o perfeita; malogrados bens, cuja semente todavia fora posta naquela<br \/>\nmal-aventurada terra pela m\u00e3o piedosa de S\u00e3o Francisco Xavier, o imortal Ap\u00f3stolo<br \/>\ndas \u00cdndias.<\/p>\n<p>E Iei\u00e1s, uma vez fechado e mais os seus compatriotas dentro do torr\u00e3o nativo,<br \/>\ndemarca e tra\u00e7a&#8217; com m\u00e3o segura e taumaturga lucidez de esp\u00edrito, a linha<br \/>\nde conduta para essa na\u00e7\u00e3o que j\u00e1 era inteiramente dele, n\u00e3o escapando ao<br \/>\nseu encabrestante c\u00f3digo das &#8220;Cem Leis&#8221; nenhuma das classes e sub-classes,<br \/>\nnem mesmo as excresc\u00eancias sociais, como por exemplo o enxurro dos roninos<br \/>\nque ficaram reduzidos \u00e0 triste condi\u00e7\u00e3o de espi\u00f5es pol\u00edticos, porque no entender<br \/>\ndo Conf\u00facius japon\u00eas, o segredo de bem dirigir um Estado consistia principalmente<br \/>\nem saber utilizar com vantagem todas as mol\u00e9culas, boas e m\u00e1s, de que se constitui<br \/>\no complexo organismo de um povo. Eis o que, com o seu pitoresco estilo, diz&#8230;<br \/>\n(a p\u00e1gina do manuscrito perdeu-se!). Aplique cada qual a si pr\u00f3prio este principio<br \/>\ne s\u00f3 n\u00e3o ser\u00e1 feliz quem n\u00e3o quiser, pois do saber viver nasce o sorriso,<br \/>\ne do sorriso nasce a fortuna. A vida \u00e9 sempre um \u00fatil instrumento de felicidade;<br \/>\no caso esta em saber servir-se dele.&#8221; Depois de disciplinar hierarquicamente<br \/>\na popula\u00e7\u00e3o, fixar em regras os limites dos canteiros sociais, tra\u00e7ando o<br \/>\nlugar preciso de cada grupo, de cada fam\u00edlia, de cada indiv\u00edduo, com a t\u00e1bua<br \/>\nrigorosa dos seus direitos e dos seus deveres, Iei\u00e1s penetra com a lei pelo<br \/>\n\u00edntimo da vida privada e regula como se deve comer, beber e at\u00e9 sentir. Ao<br \/>\nSamurai, entre outras muitas coisas, recomenda ele: &#8220;N\u00e3o consinto que a mulher<br \/>\nse envolva no ato mais insignificante da tua vida p\u00fablica, como por tua parte<br \/>\nn\u00e3o intervenhas no seu governo dom\u00e9stico. N\u00e3o deve a galinha vir c\u00e1 fora ao<br \/>\nterreiro cantar ao romper d&#8217;alva, nem deve o galo meter-se no ninho a chocar<br \/>\nos ovos. Esta \u00e9 a lei.&#8221;<\/p>\n<p>Firma quais h\u00e3o de ser da\u00ed em diante os rec\u00edprocos deveres entre as duas<br \/>\ncl\u00e1ssicas Nobrezas que encontrou estabelecidas, e quais as novas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nque devem existir entre a Corte micadoal e o Shogunato; conserva as regalias<br \/>\ndos Daimos e assegura-lhes o senhorio feudal, exigindo por\u00e9m que venham todos<br \/>\neles periodicamente a Gotten Yama para testemunhar ao Shogun a sua fidelidade<br \/>\npol\u00edtica; faz o elogio e multiplica as honras da classe militar, agora regularmente<br \/>\nconstitu\u00edda pelos Samurais, mas imp\u00f5e que ela se n\u00e3o arme sen\u00e3o \u00e0 ordem do<br \/>\nShogun e s\u00f3 em caso de guerra por este oficialmente declarada; e finalmente<br \/>\ncria uma nobreza \u00e0 parte, exclusivamente sua, d\u00e1-lhe senhorios e direito de<br \/>\nlevantar castelos; faz enormes concess\u00f5es de principados territoriais \u00e0 sua<br \/>\ndescend\u00eancia viva e por nascer, e, \u00e0 semelhan\u00e7a de Yoritomo em Kamakura, estabelece<br \/>\numa nova capital em Yedo, que mais tarde devia chamar-se T\u00f3kio.<\/p>\n<p>Quanto ao Imperador, invulner\u00e1vel s\u00edmbolo, ligado por mil v\u00ednculos morais<br \/>\n\u00e0 pr\u00f3pria alma do povo e superior a todas as lutas partid\u00e1rias, vendo o Tai-Kum<br \/>\nque jamais poder\u00e1 afund\u00e1-lo na terra, nem varr\u00ea-lo para os lados, toma o expediente<br \/>\nde despedi-lo para o c\u00e9u; quer dizer, enquanto com uma das m\u00e3os lhe cerceia<br \/>\nat\u00e9 o extremo a autoridade pol\u00edtica, chegando a vedar-lhe \u00e0 Corte intervir<br \/>\nnos neg\u00f3cios do Estado, com a outra lhe dilata exageradamente o prest\u00edgio<br \/>\ndivino, e faz dele a sumidade metaf\u00edsica e ultra-espiritual do Governo, transformando-lhe<br \/>\no trono em um altar sem Deus, a submiss\u00e3o e a fidelidade dos seus s\u00faditos<br \/>\nem um culto religioso e vago, balbuciado apenas por cerim\u00f4nias convencionalmente<br \/>\npiedosas e distra\u00eddos votos de f\u00e9; transcendentalizando-lhe enfim a supremacia<br \/>\nat\u00e9 lhe apagar de todo o \u00faltimo vest\u00edgio de realidade e dar com ela em \u00e1guas<br \/>\nde quimera. Nesse trono m\u00e1gico, j\u00e1 sem vislumbre do cetro nem de coroa, n\u00e3o<br \/>\nse assenta um monarca, ergue-se uma sombra divina; desprendida do solo, e<br \/>\ncuja fronte se vai perder no infinito por entre nuvens de sonho alucinado;<br \/>\nmiragem heredit\u00e1ria de um poder supremo que existiu h\u00e1 dois mil anos; s\u00edmbolo<br \/>\nabstrato de uma onipot\u00eancia que nada pode.<\/p>\n<p>J\u00e1 nem sequer \u00e9 o Papa privativo do Jap\u00e3o esse pobre Imperador n,0 108, \u00e9<br \/>\num mito, \u00e9 uma alegoria epon\u00edmica, \u00e9 um fantasma que veio do c\u00e9u e voltar\u00e1<br \/>\npara l\u00e1, sem haver tocado com as plantas na imund\u00edcie terrena, atravessando<br \/>\na vida amortalhado na sua alva de gorgor\u00e3o sem m\u00e1cula, apenas guarnecida ao<br \/>\nmeio das amplas mangas com as her\u00e1ldicas cris\u00e2ntemas imperiais; cativo espectro,<br \/>\ncujo mesquinho \u00e2mbito de a\u00e7\u00e3o, o Tai-Kum foi, com as suas garras implac\u00e1veis,<br \/>\ncada vez mais apertando at\u00e9 que o restringiu aos degraus do santu\u00e1rio, onde<br \/>\nbrilha j\u00e1 vinte e dois s\u00e9culos, inalteravelmente, o espelho de Amateras, m\u00e3e<br \/>\nformosa da ante-humana dinastia do prisioneiro. E agora, a\u00ed, de rastros, a<br \/>\n\u00fanica miss\u00e3o dessa alma penada, que ainda n\u00e3o habita o c\u00e9u e nunca viveu na<br \/>\nterra, \u00e9 orar, suplicando noite e dia aos seus antepassados do emp\u00edreo a salva\u00e7\u00e3o<br \/>\nespiritual desse povo simples e querido dos deuses, que, l\u00e1 fora, nas estradas<br \/>\ncheias de sol, correndo atr\u00e1s do arroz de cada dia, esfervilha feliz e risonho,<br \/>\norgulhoso de se ver isolado do resto b\u00e1rbaro do mundo pela m\u00e3o ciosa e f\u00e9rrea<br \/>\nde Tokugawa Iei\u00e1s, a quem, de resto o ent\u00e3o rei da Inglaterra, Jacques I,<br \/>\nchama no alto da sua respeitosa correspond\u00eancia desse tempo: &#8220;Sua Majestade,<br \/>\no Shogun do Jap\u00e3o&#8221;<\/p>\n<p>Tendo estabelecido a sua capital em Yedo, o Tai-Kum faz edificar por trezentos<br \/>\nmil obreiros o famoso &#8220;Chiro Shogunal&#8221;, de abundantes e tortuosos canais,<br \/>\nque ainda hoje s\u00e3o a felicidade dos olhos de quem passeia em T\u00f3kio; inexpugn\u00e1vel<br \/>\npropugn\u00e1culo para aquelas \u00e9pocas de f\u00f4lego largo e tiro curto, e atualmente<br \/>\ngracioso parque e sui-generis pal\u00e1cio imperial de Sua Majestade Mutsu Hito.<br \/>\nE a\u00ed, pois, h\u00e1 pouco menos de trezentos anos, instalava-se Iei\u00e1s com a sua<br \/>\nespl\u00eandida Corte, em que luziam, na vistosa gala de seda e ouro, cinq\u00fcenta<br \/>\ne cinco fidalgos do seu Conselho Privado, originalmente intitulados &#8220;Chimaguns&#8221;;<br \/>\ne os nobili\u00e1rquicos &#8220;Matsudairas&#8221; cortes\u00e3os honor\u00e1rios e advent\u00edcios que,<br \/>\nem caso de necessidade, tomavam parte no Conselho; e os &#8220;Hattamotos&#8221;, em n\u00famero<br \/>\nde oitenta mil, que eram os vassalos diretos dos Tokugawas e gozavam da subida<br \/>\nhonra de poder assistir \u00e0s cerim\u00f4nias shogunais; e os &#8220;Cobemins&#8221;, nobreza<br \/>\npuramente militar, ganha na guerra, formando a Ordem de Cavalaria japonesa<br \/>\ninstitu\u00edda no campo de vit\u00f3ria de Sekigahara, aos quais n\u00e3o era dado penetrar<br \/>\nnos recintos majest\u00e1ticos do Shogun, mas que podiam dirigir-lhe a palavra<br \/>\nem acampamento ou nas pra\u00e7as fortificadas; e enfim os infinitos Samurais,<br \/>\nmenos que cavaleiros, um pouco mais que simples soldados, a quem cabiam os<br \/>\npostos subalternos de comando no efetivo das for\u00e7as, com direito a ganhar<br \/>\nt\u00edtulo de nobreza e de transmitirem aos filhos as suas vantagens militares,<br \/>\ne ainda com a prerrogativa, para eles muito estimada, de poderem trazer, em<br \/>\nvez de uma, duas espadas \u00e0 cinta; estes, como os fidalgos de alta linha, n\u00e3o<br \/>\ncasavam sen\u00e3o dentro da pr\u00f3pria classe, tomando por\u00e9m do povo as concubinas<br \/>\nque quisessem.<\/p>\n<p>Iei\u00e1s, como para se n\u00e3o servir da religi\u00e3o do Imperador, ou talvez cedendo<br \/>\nao seu temperamento ostentativo de homem de esp\u00edrito, para o qual o fausto<br \/>\ne o brilho est\u00e9tico eram viva necessidade como era o aplauso p\u00fablico, toma<br \/>\nsob a sua \u00e9gide o Budismo que ainda se n\u00e3o tinha levantado do abatimento em<br \/>\nque o deixara Nobunaga; restaura-lhe suntuosamente os altares e tra\u00e7a com<br \/>\napurado bom gosto o hom\u00e9rico plano dos templos de Nikko na Montanha Sagrada,<br \/>\ndestinando-os \u00e0 magnificente necr\u00f3pole das suas pr\u00f3prias cinzas e das de sua<br \/>\ndinastia; templos aonde levarei ainda o leitor e que s\u00e3o indubitavelmente<br \/>\nos mais belos, mais art\u00edsticos e mais opulentos de todo o Jap\u00e3o antigo e moderno.<\/p>\n<p>Com a dire\u00e7\u00e3o inteiramente nova que Iei\u00e1s deu ao esp\u00edrito de sua ra\u00e7a, imprimindo-lhe<br \/>\no cunho original do seu pr\u00f3prio esp\u00edrito, criou-se a renascen\u00e7a japonesa;<br \/>\ndepois dele as artes e as letras ressurgem em plena efloresc\u00eancia, atingindo<br \/>\nno s\u00e9culo seguinte um grau de eleva\u00e7\u00e3o e pureza a que nunca at\u00e9 a\u00ed tinham<br \/>\naspirado sequer. A sua minuciosa e individual\u00edssima lei deu logo ao Japon\u00eas<br \/>\ntal consist\u00eancia e tal homogeneidade de car\u00e1ter, que desde ent\u00e3o a vida desse<br \/>\npovo ressalta harmoniosa, inteiri\u00e7a e original, como uma bela obra concebida<br \/>\ne realizada de um s\u00f3 jato por um autor de g\u00eanio. Fechando ele ciosamente a<br \/>\nsedutora p\u00e1tria \u00e0 curiosidade importuna e \u00e0 grosseira cobi\u00e7a dos ocidentais,<br \/>\nfoi que conseguiu fazer, nem s\u00f3 a unidade nacional, mas a gl\u00f3ria art\u00edstica<br \/>\ndo Jap\u00e3o. E a esse largo feriado de reclus\u00e3o e de paz, durante o governo dos<br \/>\nTokugawas, que o mundo culto deve o s\u00e9culo XVIII do Extremo Oriente, o s\u00e9culo<br \/>\nde Hokusai e Utamaro, para citar apenas dois nomes j\u00e1 vulgarizados por Edmond<br \/>\nde Goncourt; s\u00e9culo em que o Japon\u00eas se constituiu em primeiro e mais poderoso<br \/>\nartista decorador de todos os tempos.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>3\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; O COMODORO PERRY Ii KAMMON<\/h2>\n<p>Foi sem d\u00favida o ins\u00f3lito advento dos estrangeiros no Jap\u00e3o, de 1853 em diante,<br \/>\no que, provocando a guerra civil em todo pa\u00eds, determinou a queda do Shogunato<br \/>\ne a seq\u00fcente restaura\u00e7\u00e3o do unitarismo imperial. Aqueles por\u00e9m n\u00e3o conseguiriam<br \/>\npenetrar e instalar-se no territ\u00f3rio, ou pelo menos muito mais caro lhes custaria<br \/>\no feito, se n\u00e3o fora a ardilosa pol\u00edtica e trai\u00e7oeira aud\u00e1cia de um homem,<br \/>\ncuja mem\u00f3ria \u00e9 ainda hoje execrada pelos japoneses da velha t\u00eampera; e o qual<br \/>\nde resto pagou com a vida nas m\u00e3os dos roninos semelhante ato, nem s\u00f3 contr\u00e1rio<br \/>\n\u00e0 vontade do Micado de ent\u00e3o, Komei, pai do atual, como inteiramente oposto<br \/>\n\u00e0s aspira\u00e7\u00f5es da na\u00e7\u00e3o, que era nessa \u00e9poca profundamente nativista, desde<br \/>\na sua mais alta \u00e0 mais baixa camada social.<\/p>\n<p>Esse homem fat\u00eddico \u00e9 o Daimo de Hikobe, Ii Kammon no Kami, que durante muito<br \/>\ntempo exerceu o cargo de &#8220;Tair\u00f4&#8221;, ou primeiro ministro, do Shogun Tokugawa<br \/>\nYe\u00e7ada, e depois, com a morte deste, passou a ser o poderoso Regente do Shogunato<br \/>\ndurante a menoridade do sucessor, Tokugawa Iyemochi, pr\u00edncipe de Kii, crian\u00e7a<br \/>\nde treze anos.<\/p>\n<p>Mas, para bem explicar como se deram os fatos, \u00e9 preciso voltar atr\u00e1s. O<br \/>\nprimeiro Ocidental que p\u00f4s p\u00e9 no Jap\u00e3o, assinalando com obras a sua presen\u00e7a,<br \/>\nfoi um portugu\u00eas, Mendes Pinto, em 1542. Antes deste, consta que no s\u00e9culo<br \/>\nXIII Marco Polo havia j\u00e1 desembarcado no arquip\u00e9lago, se \u00e9 com efeito o Jap\u00e3o<br \/>\no que ele nas suas famosas mem\u00f3rias chama &#8220;Zipangri&#8221; ou &#8220;Cipango&#8221;; tais revela\u00e7\u00f5es<br \/>\npor\u00e9m, verdadeiras ou fantasiosas, sem merecerem at\u00e9 hoje inteiro cr\u00e9dito<br \/>\nnem dos pr\u00f3prios compatriotas do autor, n\u00e3o deixaram de si nenhum resultado<br \/>\npositivo; podendo-se pois concluir que, a passagem do ilustre navegador veneziano<br \/>\npelo nip\u00f4nico Imp\u00e9rio do Sol Nascente, \u00e9 caso de efeito inteiramente nulo<br \/>\ne que ningu\u00e9m afirma com seguran\u00e7a. Com Mendes Pinto a coisa muda de aspecto,<br \/>\nn\u00e3o se contentou o investigador portugu\u00eas com descrever as suas aventuras,<br \/>\nmuito mais desenvolvidas sobre o Jap\u00e3o e em nada menos interessantes que as<br \/>\ndo outro, foi a Macao e de l\u00e1 conseguiu trazer para o arquip\u00e9lago S\u00e3o Francisco<br \/>\nXavier e mais trinta jesu\u00edtas que, uma vez instalados em Kiuciu, atra\u00edram<br \/>\nnovos, at\u00e9 formarem um n\u00facleo forte e pr\u00f3spero de catechistas, ao qual n\u00e3o<br \/>\ntardaram de incorporar-se os espanh\u00f3is e logo depois os holandeses, arrebatados<br \/>\nestes \u00faltimos, n\u00e3o pela f\u00e9, mas pela cobi\u00e7a.<\/p>\n<p>Qual veio a ser nos primeiros trinta anos a boa fortuna dessa pac\u00edfica expedi\u00e7\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 o leitor conhece, mas o que talvez ainda n\u00e3o saiba \u00e9 que, \u00e0 vista de tal<br \/>\n\u00eaxito, os holandeses, a quem tanto faltava esp\u00edrito evang\u00e9lico quanto sobrava<br \/>\no de gan\u00e2ncia, receando lhes viessem aqueles a fazer mais tarde concorr\u00eancia<br \/>\ncomercial, principiaram a guerre\u00e1-los com a mais feia e intrigante deslealdade;<br \/>\ncomo eram protestantes, afetaram pertencer a religi\u00e3o muito diversa da dos<br \/>\nportugueses e, calcando aos p\u00e9s o Crucifixo e fazendo toda a sorte de rid\u00edculas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es anticat\u00f3licas, perseguiram os mission\u00e1rios a ponto de fornecerem<br \/>\na Iei\u00e2s a artilharia com que este exterminou os crist\u00e3os na c\u00e9lebre hecatombe<br \/>\nde Chimabara.<\/p>\n<p>Foi com esses e outros lances de igual jaez que os holandeses obtiveram,<br \/>\nsob o governo de Tokugawa Iyemitsu, filho e sucessor de Iei\u00e1s, o privil\u00e9gio<br \/>\nde ficar no arquip\u00e9lago, enquanto eram todos os mais estrangeiros enxotados<br \/>\ne logo corridos a bala e ponta de azagaia. A despeito por\u00e9m de tanta baixeza<br \/>\ne tanta humilha\u00e7\u00e3o, permanecia latente no esp\u00edrito do Shogun o desejo de varr\u00ea-los<br \/>\ntamb\u00e9m pata fora do pa\u00eds, de sorte que os n\u00e3o deixava respirar com imposi\u00e7\u00f5es<br \/>\ne exig\u00eancias cada vez mais cru\u00e9is. A um tal Francisco Caron, que em 1640 era<br \/>\no chefe da feitoria holandesa em Hirado, intimaram secamente para demolir<br \/>\ntodas as edifica\u00e7\u00f5es por ele e seus patr\u00edcios constru\u00eddas, porque dizia o<br \/>\nmandado, se afastavam um pouco da forma arquitet\u00f4nica nacional imposta pelas<br \/>\n&#8220;Cem Leis&#8221;, e os bons homens dos Pa\u00edses Baixos submeteram-se a isso sem o<br \/>\nmenor protesto e at\u00e9 com vivo e afetado empenho de bem cumprir as ordens do<br \/>\nGoverno, na esperan\u00e7a, j\u00e1 se v\u00ea, de que tais mostras de sujei\u00e7\u00e3o abrandassem<br \/>\nos rigores oficiais e lhes facultassem a eles continuar a auferir os belos<br \/>\nlucros que proporcionava o seu tr\u00e1fico sem concorr\u00eancia. Maximiliano Lemaire,<br \/>\nque, com a morte de Caron, o substituiu, obteve afinal do Governo, \u00e0 for\u00e7a<br \/>\nde s\u00faplicas e juramentos de solidariedade, concess\u00e3o para construir uma ilha<br \/>\nao p\u00e9 de Nagasaki, feita com a terra de uma colina pr\u00f3xima, para estabelecer<br \/>\nnela a sua feitoria que n\u00e3o tinha onde abrigar-se. Essa ilha artificial, em<br \/>\nhemiciclo, forma lisonjeira aos Tokugawa, cujo escudo era um leque de ouro<br \/>\ncom as rosas malvas do bras\u00e3o de Iei\u00e1s no centro, chamou-se Dechima e foi<br \/>\no escasso recinto em que, durante trinta e dois anos, vegetaram os holandeses<br \/>\nno Jap\u00e3o, sem fam\u00edlia e sem direitos, privados de licen\u00e7a de arredar p\u00e9 do<br \/>\npres\u00eddio, a n\u00e3o ser com mil formalidades e s\u00f3 durante certas horas do dia,<br \/>\nenchiqueirados l\u00e1 dentro debaixo de uma fiscaliza\u00e7\u00e3o draconiana; n\u00e3o podendo<br \/>\nreceber da p\u00e1tria por ano mais do que um navio, e sem v\u00eania de entreter rela\u00e7\u00f5es,<br \/>\nfora das comerciais, com os japoneses e, ainda menos, com as japonesas, \u00e0s<br \/>\nquais era rigorosamente vedado o ingresso na ilha, como a toda e qualquer<br \/>\nmulher estrangeira, menos a asi\u00e1tica, era defesa, sob pena de morte, a entrada<br \/>\nno Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Semelhante reclus\u00e3o teve, como era de prever, conseq\u00fc\u00eancias rid\u00edculas. Nesse<br \/>\ntempo n\u00e3o comiam ainda os japoneses outras viandas sen\u00e3o de aves e peixes;<br \/>\no boi era um animal sagrado, o porco desprez\u00edvel e o carneiro inaclim\u00e1vel<br \/>\nno territ\u00f3rio, apesar das d1-lig\u00eanncias nesse sentido tentadas pelos chineses<br \/>\ne coreanos; ora, os holandeses, que n\u00e3o estavam dispostos a amargar, al\u00e9m<br \/>\ndo que j\u00e1 sofriam do Governo, os rigores da cozinha japonesa, faziam vir todos<br \/>\nos anos da Europa um bom carregamento de gado ovelhum e caprino; quanto ao<br \/>\nbife nem era bom falar nisso &#8211; animal consagrado! Assim, quando mais tarde,<br \/>\ndepois de muita lam\u00faria, permitiu o Shogun que as &#8220;musm\u00eas&#8221; da mais baixa extra\u00e7\u00e3o<br \/>\nfossem ter \u00e0 ilha Dechima e isso somente na aus\u00eancia do sol, o povo come\u00e7ou<br \/>\nde alcunh\u00e1-las de &#8220;Ovelhas&#8221; e &#8220;Cabras&#8221;, qualificativo com que ainda agora<br \/>\ngrande parte dele estigmatiza a japonesa que partilha com qualquer ocidental<br \/>\no fruto do para\u00edso.<\/p>\n<p>Mas o fato \u00e9 que foram os holandeses os \u00fanicos europeus a permanecer no arquip\u00e9lago<br \/>\ndesde 1625, \u00e9poca da expuls\u00e3o definitiva dos estrangeiros, at\u00e9 1853, quando<br \/>\num grito de alarma e de c\u00f3lera ecoou por todo o pa\u00eds, arrancado pela arrog\u00e2ncia<br \/>\ndo Comodoro norte-americano Perry, que se apresentara nas \u00e1guas japonesas<br \/>\ncom uma esquadrilha composta de quatro navios de guerra, a reclamar o direito<br \/>\nde ancorar, deter-se e traficar nos proibidos portos de Chimoda e Hakodate.<\/p>\n<p>Dai Nip\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo quanto ao naturalismo espont\u00e2neo dos costumes.<br \/>\nDuzentos e cinq\u00fcenta anos de profunda paz e desenvolvimento art\u00edstico, impostos<br \/>\npelos Tokugawas, tinham abafado o ardor b\u00e9lico e turbulento dessa ra\u00e7a que<br \/>\nagora se elevava j\u00e1 mais al\u00e9m de 40 milh\u00f5es de indiv\u00edduos. Os acaroados arneses<br \/>\ne as decorativas espadas de Massamore e da fam\u00edlia Miotchim, os mais primorosos<br \/>\nalfagemes da idade m\u00e9dia japonesa, jaziam havia muito dependurados nos altares<br \/>\ndom\u00e9sticos, como venerandas rel\u00edquias dos tempos her\u00f3icos e dos antepassados<br \/>\nvalentes. Os pr\u00edncipes e daimos viviam ent\u00e3o tranq\u00fcilos, a gerir as suas terras<br \/>\npatriarcais, desistidos das antigas rivalidades de classe e descuidosos das<br \/>\narmas; os respectivos samurais, dantes t\u00e3o \u00e1rdegos e revessos, eram agora<br \/>\nos seus agentes de confian\u00e7a na administra\u00e7\u00e3o dos feudos. Mas, se por um lado<br \/>\nhaviam a pregui\u00e7a e a voluptuosidade invadido a aristocracia e a nobreza militar,<br \/>\npor outro os artistas, os oper\u00e1rios e a gente da gleba se tinham apurado pelo<br \/>\nesfor\u00e7o inteligente ou pelo trabalho subalterno. N\u00e3o se contava um s\u00f3 analfabeto<br \/>\nno pa\u00eds.<\/p>\n<p>E com efeito durante aquela extens\u00e3o pac\u00edfica que atingiram a sua mais linda<br \/>\nplenitude as artes e as ind\u00fastrias japonesas, caindo depois vertiginosamente<br \/>\ncom a revolu\u00e7\u00e3o e amea\u00e7ando hoje em dia desaparecerem para sempre, estioladas<br \/>\nde todo pela macaquea\u00e7\u00e3o da arte europ\u00e9ia e do industrialismo cosmopolita<br \/>\ne banal. Os artistas japoneses, ent\u00e3o diretamente protegidos pelos daimos<br \/>\nsenhoriais n\u00e3o faziam obra de afogadilho destinada ao com\u00e9rcio, que s\u00f3 em<br \/>\nmuito pequena escala existia no Jap\u00e3o. Como tinham vida garantida pelo pr\u00edncipe<br \/>\na que serviam, e absolutamente despreocupada de necessidades materiais ou<br \/>\nde ambi\u00e7\u00f5es burguesas, trabalhavam sem impaci\u00eancia, sem pressa de acabar,<br \/>\ne s\u00f3 cuidosos da perfei\u00e7\u00e3o e requintado esmero. Da\u00ed essas inveross\u00edmeis maravilhas<br \/>\nde laca, de bronze, de esmalte, de mosaico, de porcelana, e todas as outras<br \/>\nmil inapreci\u00e1veis coisas, das quais neste sincero livro muito tenho que vos<br \/>\nreferir; coisas que nunca mais se repetiram depois daquele tempo \u00e1ureo e que,<br \/>\n\u2014 infelizes dos olhos futuros! \u2014 nunca mais se far\u00e3o em parte<br \/>\nalguma do mundo.<\/p>\n<p>E que o governo feudal dos daimos era, contido pelas s\u00e1bias e humanas leis<br \/>\nde Iei\u00e1s, nem s\u00f3 paternal para o povo, mas talhado de molde a favorecer a<br \/>\nexpans\u00e3o do talento art\u00edstico. Com uma obra d&#8217;arte perfeita obtinham-se foros<br \/>\nde nobreza, ten\u00e7a vital\u00edcia e at\u00e9 heredit\u00e1ria, se acontecia neste caso, como<br \/>\nera ent\u00e3o muito comum, exercer a fam\u00edlia do artista a mesma profiss\u00e3o que<br \/>\no chefe. Uma al\u00e7ada, de imediata confian\u00e7a do Governo Central, composta de<br \/>\ncinco membros e dispondo de duzentos agentes de tradicional integridade, tinha<br \/>\na seu cargo a fiscaliza\u00e7\u00e3o da ger\u00eancia dos principados, e, uma vez por ano,<br \/>\npassava em revista todos os oitenta e quatro distritos do Imp\u00e9rio, recolhendo,<br \/>\numa por uma, as queixas e reclama\u00e7\u00f5es do povo; o protocolo de tudo isso seguia<br \/>\npara Yedo a ser estudado e julgado pela Corte Shogunal, que punha em confronto<br \/>\nessas partes populares com as contidas nos relat\u00f3rios, tamb\u00e9m anuais, apresentados<br \/>\npor cada um dos daimos governadores. Em caso de denuncia de crime grave, o<br \/>\nShogun fazia vir \u00e0 sua presen\u00e7a os interessados, acareava-os em plena audi\u00eancia<br \/>\ne, se o daimo tinha raz\u00e3o, entregavam-lhe o delinq\u00fcente para ser punido como<br \/>\nde lei; mas, se ficava justificada a raz\u00e3o de queixa contra o pr\u00edncipe, o<br \/>\nShogun anotava o depoimento das testemunhas com o seu parecer, e os autos<br \/>\nsubiam, pro forma, \u00e0s m\u00e3os da Corte do Imperador que, imediatamente, em nome<br \/>\ndo Micado, convidava o daimo criminoso a abrir honradamente o ventre com a<br \/>\nsua katana de fidalgo. E nunca se dava o caso de semelhante convite deixar<br \/>\nde ser atendido com toda a solicitude, nem s\u00f3 porque ele significava \u00e1ulica<br \/>\ndefer\u00eancia prestada a um nobre do Imp\u00e9rio, corno tamb\u00e9m porque, se o criminoso<br \/>\nn\u00e3o se prevalecia do privil\u00e9gio, passava pelo negro vexame de acabar menosprezadamente<br \/>\ndecapitado, enforcado ou crucificado, conforme o dia da semana em que ca\u00edsse<br \/>\na execu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O produto de cada feudo era consumido pelo pr\u00f3prio feudo, n\u00e3o havia por bem<br \/>\ndizer outra permuta fora da produ\u00e7\u00e3o industrial e da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola; o<br \/>\nmercador intermedi\u00e1rio n\u00e3o estava classificado, porque tamb\u00e9m n\u00e3o existia<br \/>\nainda capital em giro de especula\u00e7\u00e3o. O organismo pol\u00edtico do Estado, como<br \/>\na pr\u00f3pria economia do povo, achavam-se na mais sin\u00e9rgica integridade de equil\u00edbrio<br \/>\ne for\u00e7a; neles se n\u00e3o acusava nenhum dos v\u00edrus que na Europa perturbaram e<br \/>\ndestru\u00edram o sistema cong\u00eanere; n\u00e3o havia quest\u00e3o religiosa; n\u00e3o haviam rivalidades<br \/>\ndin\u00e1sticas em luta, nem reivindica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e populares contra o direito<br \/>\ndivino do Trono ou contra a autonomia civil e militar do Shogun; n\u00e3o haviam<br \/>\ntend\u00eancias igualit\u00e1rias transbordamento industrial dos limites que \u00e0s competentes<br \/>\nclasses lhes tra\u00e7avam as leis ieiasinas; a vida era f\u00e1cil e simples, o pa\u00eds<br \/>\nabundante; o clima em geral benigno, os patr\u00f5es af\u00e1veis, o car\u00e1ter do povo<br \/>\nrisonho e doce, como recomendou Iei\u00e1s, a fartura das terras e das \u00e1guas afastava<br \/>\ntoda e qualquer insurrei\u00e7\u00e3o de inferiores famintos contra superiores fartos;<br \/>\no patriarcalismo dos costumes, a sobriedade, o gosto da nudez; a aus\u00eancia<br \/>\nda moda, o enlevo amoroso pela natureza, punham a popula\u00e7\u00e3o ao abrigo dos<br \/>\napetites brutais e dos v\u00edcios caros e vaidosos de que se fazem os pronunciamentos<br \/>\ne as plutocracias. N\u00e3o se acusava no corpo da na\u00e7\u00e3o o menor sinal dessa implac\u00e1vel<br \/>\nmol\u00e9stia oriunda dos Estados Unidos da Am\u00e9rica do Norte \u2014 a Febre do<br \/>\nmilh\u00e3o, a cujo alucinador cont\u00e1gio nenhum &#8216;pa\u00eds ocidental escapou at\u00e9 hoje;<br \/>\no dinheiro ainda servia s\u00f3 para ser gasto e n\u00e3o para ser multiplicado pela<br \/>\ntabuada dos filhos de Israel; o capital ainda n\u00e3o era capital, era coisa secund\u00e1ria,<br \/>\nn\u00e3o se tinha transformado em for\u00e7a viva e roda dentada que engrena, arrasta,<br \/>\nmastiga e babuja a moral, o talento, o amor e o car\u00e1ter da melhor por\u00e7\u00e3o do<br \/>\nmundo moderno. Ningu\u00e9m se azafamava correndo atr\u00e1s dos galopantes cavalinhos<br \/>\nde Dona Isabel, e n\u00e3o havia por conseguinte encontr\u00f5es, nem choques, nem trambolh\u00f5es;<br \/>\nsuic\u00eddios s\u00f3 por amor, por desafronta de honra ou em piedosa homenagem \u00e0 morte<br \/>\nde um amado chefe, militar ou dom\u00e9stico, a quem por \u00edntimo e espont\u00e2neo voto<br \/>\nde lealdade se tivesse consagrado a vida. O Shogun era olhado pela popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ncomo um pai severo e bom, e o Micado como um taumaturgo padroeiro, compassivo<br \/>\ne brando, em cuja influ\u00eancia divina contavam todos para obter entrada no c\u00e9u.<br \/>\nA Nobreza, aben\u00e7oada e quieta, desfrutava em respeit\u00e1vel paz os prazeres do<br \/>\nesp\u00edrito adubados com as del\u00edcias coreogr\u00e1ficas que lhe davam entre sorrisos<br \/>\nas maikos e as gueichas; livre e ainda forte para gozar, j\u00e1 impotente e manietada<br \/>\npara levantar desordens. O povo pelo seu lado tinha tudo o que lhe desejava<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o ainda simples: as suas festas civis e religiosas, os seus espet\u00e1culos<br \/>\ne justas de lutadores, os seus arraiais e os seus fogos de artif\u00edcio. As rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nsociais e as regalias p\u00fablicas eram, como as rela\u00e7\u00f5es e as regalias dos poderes<br \/>\nconstitu\u00eddos, metodicamente e pontualmente exercidas e observadas. Enfim \u2014<br \/>\na na\u00e7\u00e3o era feliz.<\/p>\n<p>Durante esse largo per\u00edodo de bem-aventuran\u00e7a, as v\u00e1rias tentativas de quebrar<br \/>\no isolamento japon\u00eas, empreendidas pelos ingleses, pelos espanh\u00f3is e pelos<br \/>\nrussos, abortaram completamente. A disposi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica do terreno e as especiais<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas do clima e da latitude eram vigilantes c\u00famplices<br \/>\ndo Tokugawa no seu apertado c\u00f3digo das &#8220;Cem Leis&#8221;; eram a melhor garantia<br \/>\nda estreita reclus\u00e3o em que desejavam viver os donos do pa\u00eds, caprichoso arquip\u00e9lago<br \/>\narmado com mais de tr\u00eas mil e oitocentas ilhas perigosas, de costas escudadas<br \/>\npor tuf\u00f5es e ciclones infernais. Qual seria o louco aventureiro que entestasse<br \/>\ncontra tais sinistros para ir l\u00e1 dentro, em terra firme, dar talvez, por entre<br \/>\nhomens, com ainda mais duros rochedos e mais ferozes tempestades? Assim pois,<br \/>\no decreto de Iyemitsu, fechando positivamente o Jap\u00e3o em 1625 a todo e qualquer<br \/>\nocidental, depois de expelir, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o dos ostr\u00e1ceos holandeses, os poucos<br \/>\nque l\u00e1 restavam, n\u00e3o se via uma s\u00f3 vez desacatado at\u00e9 a revoltante chegada<br \/>\ndos americanos. E seja dito de passagem que, no modo de fazer respeitar essa<br \/>\nlei, o Japon\u00eas foi sempre, assevera-o Georges Bousquet, t\u00e3o l\u00f3gico e firme<br \/>\nquanto cort\u00eas e humano. Por ocasi\u00e3o de qualquer daquelas investidas europ\u00e9ias,<br \/>\nnegou-se ele com boas raz\u00f5es e boas maneiras a franquear a p\u00e1tria, sem jamais<br \/>\nempregar in\u00fateis viol\u00eancias; desde todavia que a pretens\u00e3o saltava para o<br \/>\nterreno da arrog\u00e2ncia, como sucedeu com a R\u00fassia, o Japon\u00eas arrancava da espada<br \/>\ne n\u00e3o a recolhia de novo \u00e0 bainha enquanto o perturbador da paz do seu Estado<br \/>\nn\u00e3o desarvorasse das \u00e1guas territoriais. O Tokugawa por\u00e9m, dois s\u00e9culos antes,<br \/>\nn\u00e3o contara com a descoberta da aplica\u00e7\u00e3o do vapor que, no come\u00e7o do nosso,<br \/>\nveio neutralizar as defesas naturais do seu pa\u00eds, transformando os oceanos,<br \/>\nde abismos isoladores que eram, em la\u00e7os de uni\u00e3o entre todos os continentes<br \/>\ndo velho e do novo mundo. Com o vapor ao servi\u00e7o da avidez, podiam os modernos<br \/>\nfen\u00edcios abordar \u00e0s costas japonesas e, sem risco de avaria, insinuar-se por<br \/>\nentre esses sirtes e recifes com que contava Iei\u00e1s para guardar a sua fr\u00e1gil<br \/>\ne humana obra contra as danosas ambi\u00e7\u00f5es do resto do mundo cobi\u00e7oso, fechando-a<br \/>\nnaquela natural cust\u00f3dia que lhe parecia invulner\u00e1vel por ser feitura das<br \/>\nm\u00e3os de Deus.<\/p>\n<p>Ora, a Am\u00e9rica do Norte em 1852 sonhava com uma nova e grande linha mar\u00edtima<br \/>\nque unisse pelo Oceano Pac\u00edfico a Calif\u00f3rnia \u00e0 China, fazendo escala pelo<br \/>\nJap\u00e3o, e por isso queria que lhe franqueasse este, ao norte o porto de Hakodate<br \/>\nem Yezo, e a leste o de Chimoda em Izo. Era esta a raz\u00e3o ostensiva e oficialmente<br \/>\ndeclarada, mas a oculta e talvez mais palpitante, n\u00e3o passava da mesma que<br \/>\nv\u00e1rias vezes movera as outras na\u00e7\u00f5es ocidentais a p\u00f4r, n\u00e3o os p\u00e9s, mas as<br \/>\ngarras no Extremo Oriente; quer dizer: era, nada mais, nada menos, do que<br \/>\na curiosidade de verificar se no misterioso arquip\u00e9lago havia de fato muitas<br \/>\nriquezas, como constava; e, caso houvesse, fazer de conta que elas n\u00e3o tinham<br \/>\ndono.<\/p>\n<p>Bem sei que os europeus e norte-americanos, naturalmente por decoro, n\u00e3o<br \/>\ncontam deste modo nos seus livros sobre o Jap\u00e3o os fatos que aqui vou narrando;<br \/>\ndizem todos os autores, pelo menos os meus conhecidos, que a revolu\u00e7\u00e3o existia<br \/>\nem estado latente no Imp\u00e9rio Japon\u00eas e que a chegada do Comodoro Perry nada<br \/>\nmais fizera do que precipitar-lhe os efeitos.<\/p>\n<p>E preciso muito m\u00e1 f\u00e9, ou n\u00e3o, ter sequer cheirado as cr\u00f4nicas japonesas,<br \/>\npara sustentar semelhante falsidade hist\u00f3rica! nem sei como n\u00e3o afirmam logo<br \/>\nque o pobre Jap\u00e3o se achava em viva guerra de exterm\u00ednio e que eles, americanos,<br \/>\nl\u00e1 foram, impelidos pelos pr\u00f3prios sentimentos de humanidade. Seria desse<br \/>\nmodo a burla mais engenhosa e mais completa.<\/p>\n<p>O pa\u00eds nunca tivera \u00e9poca de t\u00e3o inteira paz e nunca vivera t\u00e3o despreocupado<br \/>\nde lutas. Esta \u00e9 que \u00e9 a verdade! Como se deram os sucessos vou eu diz\u00ea-lo<br \/>\nfrancamente, porque entre o assaltante atrevido e a v\u00edtima sacrificada, claro<br \/>\nest\u00e1 que me coloco ao lado desta.<\/p>\n<p>Eis o caso. N\u00e3o sendo o Comodoro Perry atendido na primeira vez, amea\u00e7ou<br \/>\nque voltaria para o ano seguinte e que empregaria a for\u00e7a se as suas reclama\u00e7\u00f5es<br \/>\nfossem de novo rejeitadas.<\/p>\n<p>Pode-se facilmente calcular o efeito produzido por tal aud\u00e1cia no esp\u00edrito<br \/>\ndesse povo, que para mais de dois s\u00e9culos vivia tranq\u00fcilo e feliz, fechado<br \/>\nno seu canto, sem nada pedir a ningu\u00e9m, nem de ningu\u00e9m precisar, t\u00e3o indiferente<br \/>\ne alheio ao resto do mundo que ignorava at\u00e9 que se houvesse descoberto do<br \/>\noutro lado deste a navega\u00e7\u00e3o a vapor. O efeito foi fulminante; uma profunda<br \/>\nperturba\u00e7\u00e3o logo abalou o pa\u00eds inteiro. A na\u00e7\u00e3o dividiu-se em dois partidos;<br \/>\num pequeno e t\u00edmido, outro enorme e forte; o dos curiosos, dos comodistas<br \/>\nou medrosos, que eram pela admiss\u00e3o dos estrangeiros; e o dos nativistas radicais,<br \/>\nque clamavam energicamente a favor da repuls\u00e3o pelas armas. Este \u00faltimo partido<br \/>\ncompreendia a na\u00e7\u00e3o quase inteira.<\/p>\n<p>O Shogun hesitava, e compreende-se a sua hesita\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 f\u00e1cil de compreender<br \/>\na responsabilidade; a resist\u00eancia, sem visos de bom \u00eaxito, iria p\u00f4r de novo<br \/>\nem p\u00e9 de guerra, e logo de intriga e de ambi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, os daimos que administravam<br \/>\nagora tranq\u00fcilamente os principados, e iria acordar nos samurais o instinto<br \/>\nbrigalh\u00e3o e turbulento a tanto custo, e com tanto sacrif\u00edcio de sangue, reprimido<br \/>\npelo fundador da sua dinastia; mas, por outro lado, se o mensageiro Americano<br \/>\nfosse admitido e conseguisse do governo japon\u00eas tratados de paz, com\u00e9rcio<br \/>\ne amizade; com o do seu pa\u00eds, n\u00e3o seria isto igualmente, por modos diversos,<br \/>\na destrui\u00e7\u00e3o completa da obra de Iei\u00e1s, cuja garantia \u00fanica de estabilidade<br \/>\ntinha os seus alicerces no mais completo isolamento? Sem contar que, o fato<br \/>\nde se n\u00e3o chamar oficialmente a na\u00e7\u00e3o \u00e0s armas n\u00e3o queria dizer que ela se<br \/>\nn\u00e3o levantasse amotinada e a guerra civil n\u00e3o rebentasse do mesmo modo e produzindo<br \/>\nas mesmas funestas conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>Entretanto, o Shogun Ye\u00e7ada no seu enleio descobria uma tangente para escapar<br \/>\nao dilema, era a contemporiza\u00e7\u00e3o, a meia promessa que n\u00e3o d\u00e1 nada e ganha<br \/>\ntempo na expectativa de uma solu\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel. Foi a esse farrapo de esperan\u00e7a<br \/>\nque se agarrou o desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>E j\u00e1 sobre a hesita\u00e7\u00e3o deste come\u00e7avam os pr\u00edncipes do sul a fazer carga<br \/>\npol\u00edtica, quando o mais inesperado dos fatos veio decidir tudo e precipitar<br \/>\nos acontecimentos: o hipot\u00e9tico Imperador, com quem ningu\u00e9m contava, esqueceu-se<br \/>\nde que o seu destino era ser o fantasma n.0 121 e rezar para a\u00ed de gatinhas<br \/>\ndefronte do espelho at\u00e9 que os c\u00e9us para si de feita o arrebatassem, tira-se<br \/>\ndos seus cuidados, interrompe os seus mist\u00e9rios e interv\u00e9m diretamente no<br \/>\nGoverno do pa\u00eds, pronunciando-se com firmeza sobre a endiabrada quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que tal coisa sucedia desde que os Tokugawas tinham hereditariamente<br \/>\na posse do poder executivo. E o fato, posto que extraordin\u00e1rio, vinha t\u00e3o<br \/>\na prop\u00f3sito naquele momento, tamb\u00e9m \u00fanico e muito angustioso para a vida nacional,<br \/>\nque ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser o Shogun, pareceu estranh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Espalhou-se logo no ambiente um profil\u00e1tico aroma de milagres. Sim! o filho<br \/>\ndos altos deuses descia pelo seu p\u00e9 \u00e0 terra vil dos homens; a palavra inspirada<br \/>\nbaixava, como a luz dos astros, l\u00e1 das m\u00edsticas alturas, para vir inspirar<br \/>\no povo querido do peito de Amateras; e essa palavra bendita fazia estremecer<br \/>\na multid\u00e3o como se fosse a voz de uma alma do outro mundo.<\/p>\n<p>A boca do santo falou e disse<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, quando esses b\u00e1rbaros tornarem c\u00e1, varr\u00ea-los para longe, como<br \/>\nse varre a poeira com a vassoura. O s\u00fadito que proceder de outro modo ofende<br \/>\na vontade do meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta simples ordem do divino fantasma de Kioto fez vibrar, com um arrepio<br \/>\naceso, a alma de todo aquele bom povo, que nesse tempo era ainda, como o foi<br \/>\nat\u00e9 aos \u00faltimos instantes da revolu\u00e7\u00e3o, ing\u00eanuo e casto. \u00c0quelas poucas palavras<br \/>\ndo Imperador dissolveu-se logo por encanto a pequena fac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica favor\u00e1vel<br \/>\naos estrangeiros. Mas o Shogun, em cujo esp\u00edrito a indecis\u00e3o cedera afinal<br \/>\nabrindo pelo lado da impossibilidade da resist\u00eancia, expediu imediatamente<br \/>\num poderoso emiss\u00e1rio para junto da Corte Imperial, Hayachi, pr\u00edncipe de sangue,<br \/>\nque ali\u00e1s n\u00e3o foi sequer atendido pelo Imperador; mandou um segundo, na apar\u00eancia<br \/>\ndecisivo pelo seu grande prest\u00edgio naquela Corte, da qual havia sido j\u00e1 o<br \/>\nmais belo ornamento, Hotta Bishu, que apesar de tudo por\u00e9m, n\u00e3o conseguiu<br \/>\nmelhor resultado; ent\u00e3o o Shogun correu em pessoa para l\u00e1. Era tamb\u00e9m a primeira<br \/>\nvez que um Tokugawa ia ao lado do Trono curvar o joelho antes de decidir sobre<br \/>\nos neg\u00f3cios do Estado. Definitivamente uma das conchas da balan\u00e7a pol\u00edtica<br \/>\ncome\u00e7ava a pesar mais e a descer, procurando equilibrar-se com a outra. A<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o do Imperador tinha sido at\u00e9 a\u00ed a mais al\u00e7ada justamente por ser a<br \/>\nmais leve.<\/p>\n<p>O Shogun exp\u00f4s ao Micado a verdadeira situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e falou-lhe com franqueza;<br \/>\nmostrou-lhe o perigo interno de armar os mais poderosos pr\u00edncipes e disse-lhe<br \/>\nquais eram as probabilidades negativas da resist\u00eancia. Os americanos viriam<br \/>\nfortes, e atr\u00e1s deles estava a Europa inteira, a espreitar a situa\u00e7\u00e3o, esperando<br \/>\no resultado da empresa para dela tirar partido!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 preciso varr\u00ea-los! exclamou sinteticamente o Monarca.<\/p>\n<p>\u2014 O melhor, insistiu o outro, seria aceitar uma confer\u00eancia com Perry,<br \/>\nfazer cara alegre e, por meios h\u00e1beis, com boa diplomacia, tratar de mistific\u00e1-lo,<br \/>\nprometendo pouco e n\u00e3o dando nada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 um paliativo que a ningu\u00e9m aproveita!<\/p>\n<p>\u2014 Mas que ganha tempo, durante o qual nos preparar\u00edamos para a resist\u00eancia<br \/>\ne para a vit\u00f3ria neste momento imposs\u00edveis.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o engoliriam semelhante isca!<\/p>\n<p>&#8211; Os ocidentais n\u00e3o conhecem absolutamente o mecanismo pol\u00edtico do Jap\u00e3o&#8230;<br \/>\nnem sequer sabem ao certo qual \u00e9 o verdadeiro chefe do Estado; seria f\u00e1cil<br \/>\npor conseguinte engod\u00e1-los durante muito tempo, sem nada lhes ceder de positivo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas cedendo sempre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Cedendo sombras de concess\u00f5es&#8230; Que pode valer um simulacro de tratado,<br \/>\nsem a assinatura do Imperador, e que&#8230;<\/p>\n<p>Ye\u00e7ada n\u00e3o conseguiu concluir a frase, porque Komei, ouvindo falar em tratado<br \/>\ncom os estrangeiros, teve um terr\u00edvel assomo de c\u00f3lera e bradou, com os l\u00e1bios<br \/>\ntr\u00eamulos e os olhos apopl\u00e9ticos:<\/p>\n<p>\u2014 Um tratado?! Nunca! E preciso varr\u00ea-los! Se o Shogun, que \u00e9 o Comandante<br \/>\ndas For\u00e7as, desobedecendo as minhas ordens, n\u00e3o der quanto antes provid\u00eancias<br \/>\npara repelir os b\u00e1rbaros, eu pr\u00f3prio chamarei \u00e0s armas os pr\u00edncipes japoneses<br \/>\ne irei em pessoa comand\u00e1-los!<\/p>\n<p>Pobre Imperador! Tarde voltava ele \u00e0 vida. Estremunhava agora como a Bela<br \/>\nadormecida no bosque, e com a agravante de que n\u00e3o levara apenas um s\u00e9culo<br \/>\na dormir. As suas inten\u00e7\u00f5es eram as melhores, a sua vontade en\u00e9rgica e leal,<br \/>\no seu patriotismo leg\u00edtimo e puro; mas a complicada rede de f\u00f3rmulas e etiquetas,<br \/>\nque em volta do arb\u00edtrio lhe teceram durante o sono gera\u00e7\u00f5es inteiras de \u00e1ulicas<br \/>\naranhas manhosas, torcia-lhe o gesto e quebrava-lhe a a\u00e7\u00e3o. Nenhuma das suas<br \/>\nordens foi cumprida, posto n\u00e3o deixasse nenhuma de ser acatada com a m\u00e1xima<br \/>\nrever\u00eancia; as Cortes, os Ministros, os Daimos, ningu\u00e9m, como o pr\u00f3prio Shogun;<br \/>\nzombava dele, isso n\u00e3o! mas delas zombavam todos; ningu\u00e9m o contradizia, cada<br \/>\nqual por\u00e9m, a dizer que sim, ia fazendo o que melhor lhe convinha, contemporizando,<br \/>\niludindo os decretos, e dando tempo a que a situa\u00e7\u00e3o por si mesma abrisse<br \/>\nbrecha para qualquer lance decisivo ou para qualquer escapada.<\/p>\n<p>O Shogun ainda hesitou, ainda roeu as unhas durante alguns dias, mas, percebendo<br \/>\nque os insofridos pr\u00edncipes do sul j\u00e1 por conta pr\u00f3pria se proviam para a<br \/>\nguerra, chamou a na\u00e7\u00e3o \u00e0s armas, dando aos daimos liberdade de levantar ex\u00e9rcito<br \/>\ne construir navios de combate. E o pa\u00eds inteiro, ao grito de &#8220;Morram os B\u00e1rbaros!&#8221;<br \/>\nferveu em apercebimentos vertiginosos para defesa do territ\u00f3rio. Principiaram<br \/>\nfebrilmente as obras de fortifica\u00e7\u00e3o; construiu-se dentro de poucos meses<br \/>\no forte de Chinagawa, guarnecido logo com artilharia fabricada em Nagasaki,<br \/>\npelos aprendizes dos fundidores holandeses. Os donativos choviam de todos<br \/>\nos lados; o dinheiro desencadeou-se espontaneamente correu a rodo; o pr\u00edncipe<br \/>\nde Satsuma fez lan\u00e7ar n&#8217;\u00e1gua dois grandes navios de forma europ\u00e9ia e ofereceu-os<br \/>\nao Estado; outros daimos o imitaram; o pr\u00edncipe de Mito, ent\u00e3o detido \u00e0 ordem<br \/>\ndo Governo no seu pr\u00f3prio castelo desde 1841, por se ter, como intransigente<br \/>\nnativista, contraposto ao forasteiro Budismo, foi absolvido e chamado para<br \/>\ntomar o comando em chefe da defesa mar\u00edtima do pa\u00eds. &#8220;Era este pr\u00edncipe, diz<br \/>\na mais recente das cr\u00f4nicas japonesas, um homem de energia e coragem, com<br \/>\ndois sentimentos \u00fanicos no cora\u00e7\u00e3o \u2014 cego fanatismo pelo Imperador e<br \/>\n\u00f3dio ainda mais pelos estrangeiros.&#8221;<\/p>\n<p>Ye\u00e7ada, desiludido e sagaz, tinha para si, sem \u00e2nimo contudo de dizer palavra,<br \/>\nque todo aquele apresto b\u00e9lico ingenuamente improvisado pelo patriotismo,<br \/>\ne todo aquele santo e brioso entusiasmo dos seus compatriotas nada valeriam<br \/>\ncontra o bombardeio de um s\u00f3 encoura\u00e7ado moderno, cujas baterias de grande<br \/>\nproje\u00e7\u00e3o e certeza de mira podiam de longe, fora do alcance de qualquer insulto,<br \/>\nfazer \u00e0 terra o dano que lhe aprouvesse; e em sobrecarga do seu desalento<br \/>\ne da sua inconsol\u00e1vel tristeza, notou, sempre de si para si, que o pavilh\u00e3o<br \/>\narvorado pelas novas mil\u00edcias j\u00e1 n\u00e3o era o do leque de ouro encentrando as<br \/>\nrosas malvas da casa dos Tokugawas, com o qual, depois de Iei\u00e1s, pelejaram<br \/>\nsempre os japoneses; mas sim a bandeira branca de globo vermelho no centro,<br \/>\nrepresentando o sol oriental. Era j\u00e1 o pend\u00e3o do Imp\u00e9rio que se levantava<br \/>\nem desafronta da p\u00e1tria comum. E viu nisto Ye\u00e7ada um mau press\u00e1gio para a<br \/>\nsua dinastia.<\/p>\n<p>Justo um ano depois da primeira investida, o Comodoro Perry, pela primavera<br \/>\nde 1854, surgiu de novo nas \u00e1guas japonesas, e agora com uma esquadra de oito<br \/>\nvasos de guerra de alto bordo, duzentas bocas de fogo e quatro mil homens<br \/>\nde abordagem. Era com estes argumentos diplom\u00e1ticos que os Estados Unidos<br \/>\nda Am\u00e9rica do Norte contavam entrar em rela\u00e7\u00f5es de paz e amizade com o Shogun,<br \/>\n\u00fanica pot\u00eancia que os ocidentais conheciam no Jap\u00e3o e \u00e0 qual davam o t\u00edtulo<br \/>\nde soberano.<\/p>\n<p>A imponente esquadra bordejou orgulhosa todo o arquip\u00e9lago, e foi fundear<br \/>\na leste em frente \u00e1 barra de Yokohama. O povo mi\u00fado, cuja curiosidade era<br \/>\nmuito maior que o terror, corria \u00e0s praias a contemplar boquiaberto aqueles<br \/>\nestranhos monstros que invadiam as suas \u00e1guas virgens de vapor, vomitando<br \/>\nfumo negro e atroando os ares com amea\u00e7adores berros de fera infernal e faminta;<br \/>\nfaminta ainda se n\u00e3o sabia de que. Afinal a cada ronco dos monstros, os ind\u00edgenas<br \/>\nquase nus saltavam a rir torciam-se em gargalhadas de prazer; alguns, concheando<br \/>\nas m\u00e3os na boca, respondiam ao mugido feroz com um sibilante e zombeteiro<br \/>\nsilvo de garoto; e, enquanto o povinho se divertia com o caso, o Shogun, sem<br \/>\nquerer ferir de frente a vontade do Micado, que ao apontar da esquadra lhe<br \/>\ndera aviso terminante de dispor as for\u00e7as em ordem de batalha, e sem querer<br \/>\ntamb\u00e9m produzir a irrepar\u00e1vel ru\u00edna de sua p\u00e1tria, assanhando os ograis monstros<br \/>\nque rondavam para a devorar, reuniu conselho extraordin\u00e1rio e chamou em seu<br \/>\nsocorro parecer dos pr\u00edncipes Gosank\u00eas e de outros de bom aviso; mas ningu\u00e9m<br \/>\nlhe valeu na afli\u00e7\u00e3o; uns, encolhendo os ombros, confessavam n\u00e3o encontrar<br \/>\nsa\u00edda para semelhante conjuntura outros entendiam que o melhor seria cumprir<br \/>\n\u00e0 risca a vontade suprema do Imperador, desse por onde desse, ainda mesmo<br \/>\ncom o sacrif\u00edcio do pa\u00eds inteiro; e nenhum, ou por intransigente convic\u00e7\u00e3o<br \/>\nou pelo receio do estigma p\u00fablico, nem por sombras alvitrava a hip\u00f3tese de<br \/>\ntravar acordo no que pretendiam os invasores. O Shogun, coitado! esse arfava<br \/>\ncabisbaixo e t\u00edbio, escondendo o rosto entre as duas m\u00e3os. N\u00e3o sei se chorava.<\/p>\n<p>Passam-se dias. Os americanos j\u00e1 n\u00e3o pedem, exigem, sob pena de come\u00e7ar o<br \/>\nbombardeio, a resposta do memorandum que, em nome do Governo da Rep\u00fablica,<br \/>\nenviaram por um oficial de patente superior \u00e1 &#8220;Sua Majestade o Shogun do Jap\u00e3o&#8221;.<br \/>\nMarcam afinal um prazo de espera e, no dia precisamente em que terminava esse<br \/>\nprazo fatal, Ye\u00e7ada \u00e9 encontrado morto, estendido de bru\u00e7os sobre os degraus<br \/>\ndo seu trono shogunal.<\/p>\n<p>Assass\u00ednio? suic\u00eddio? natural explos\u00e3o do desespero? Ningu\u00e9m o explica. Um<br \/>\nromance japon\u00eas conta o epis\u00f3dio hist\u00f3rico muito dramaticamente e diz que<br \/>\no m\u00edsero sucumbiu estrangulado pela perplexidade.<\/p>\n<p>Com este fato, resolveram os americanos suspender a intima\u00e7\u00e3o e esperar,<br \/>\nde fogos apagados, que o Estado tivesse novo chefe.<\/p>\n<p>Surge ent\u00e3o \u00e0 ribalta da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea do Jap\u00e3o a j\u00e1 anunciada figura<br \/>\nde Ii Kammon no Kami, pr\u00edncipe de Hikone, ao qual, na sua qualidade de primeiro<br \/>\nministro ou chefe de gabinete, competia tomar as r\u00e9deas do Governo at\u00e9 a sagra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo novo Shogun. Ora, o sucessor de Ye\u00e7ada, como j\u00e1 disse, era uma crian\u00e7a<br \/>\nde doze anos, e o pr\u00edncipe de Hikone trata logo de assumir a Reg\u00eancia do Shogunato,<br \/>\no que conseguiu, a despeito da forte oposi\u00e7\u00e3o levantada por Mito e outros<br \/>\nintransigentes daimos do sul.<\/p>\n<p>Vai a situa\u00e7\u00e3o mudar de aspecto. Ii Kammon dispunha de todas as qualidades<br \/>\npol\u00edticas que faltavam ao seu perplexo antecessor, aud\u00e1cia, energia, resolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nast\u00facia e sangue frio; talento n\u00e3o sei se o tinha e esp\u00edrito nativista posso<br \/>\nafian\u00e7ar que n\u00e3o. Inspirado de outro modo, esse homem de valor, havendo por<br \/>\nsi a na\u00e7\u00e3o inteira pronta a reagir com entusiasmo at\u00e9 a morte, pregaria uma<br \/>\nboa pe\u00e7a aos americanos, que afinal poderiam sim arrasar o pa\u00eds de um extremo<br \/>\na outro, esmigalh\u00e1-lo, mas n\u00e3o poriam os p\u00e9s l\u00e1 dentro, ficando-lhes perante<br \/>\no resto do mundo a odiosa responsabilidade do vandalismo cometido. Era essa<br \/>\na vontade da Na\u00e7\u00e3o; vontade insustent\u00e1vel decerto para o futuro, mas sem d\u00favida<br \/>\nreveladora do s\u00e1bio instinto de uma ra\u00e7a que defende a sua hegemonia, a sua<br \/>\noriginalidade, o seu car\u00e1ter nacional; como nos mostrara-o os fatos posteriores.<\/p>\n<p>O primeiro ato p\u00fablico do Regente foi dar balan\u00e7o \u00e0s for\u00e7as deixadas pelo<br \/>\nfalecido Shogun e logo providenciar para complet\u00e1-las, formando um efetivo<br \/>\nsuperior ao dos primeiros daimos. Ningu\u00e9m se negou a ajud\u00e1-lo nesse empenho,<br \/>\ntodos convencidos de que Ii Kammon se fortificava para resistir aos estrangeiros,<br \/>\nquando em verdade o fazia para impor \u00e0 na\u00e7\u00e3o pelas armas o seu programa pol\u00edtico.<br \/>\nDepois, sem se preocupar absolutamente com a opini\u00e3o do Micado, nem com a<br \/>\nda Nobreza e ainda menos com a do povo, recebe em audi\u00eancia privada o pr\u00f3prio<br \/>\nComodoro Perry, que o toma pelo verdadeiro Imperador do Jap\u00e3o e firma com<br \/>\nele um tratado, n\u00e3o provis\u00f3rio como queria o outro, mas decisivo, e cedendo<br \/>\nmais do que pretendia o Americano, pois al\u00e9m de Chimoda em Izo e Hakodate<br \/>\nem Yezo, lhe abriu m\u00e3o tamb\u00e9m do porto de Nagasaki a oeste de Kiuciu. Como<br \/>\ncomplemento desta medida, envia, por conta pr\u00f3pria, uma embaixada \u00e0 Am\u00e9rica<br \/>\ndo Norte, a qual saiu do Jap\u00e3o sem o p\u00fablico dar por isso; em seguida por<br \/>\ndecreto concede a todo o s\u00fadito japon\u00eas o direito de afastar-se das \u00e1guas<br \/>\nterritoriais do pa\u00eds e quanto quisesse e pelo tempo que lhe parecesse. Este<br \/>\ngolpe nas &#8220;Cem Leis&#8221; foi ostensivo e forte.<\/p>\n<p>O povo, sempre agarrado \u00e0s praias, v\u00ea com alegre surpresa a esquadra americana<br \/>\ncome\u00e7ar a dispersar-se, a esgalhar por todos os lados do Pac\u00edfico e afinal<br \/>\nsumir-se no horizonte, sem fazer para a terra sequer um bocejo de fogo; respira,<br \/>\ninteiramente estranho ao que vai pelos misteriosos bastidores sbogunais, e<br \/>\ndeveras maravilhado pela habilidade desse Regente, cujo governo se abre assim<br \/>\naos olhos aflitos do p\u00fablico por um t\u00e3o lindo milagre pol\u00edtico; mas os verdadeiros<br \/>\nnativistas, a quem no seu vigilante amor da p\u00e1tria sobressaltavam tristes<br \/>\npressentimentos, esses franzem o sobrolho e n\u00e3o participam da confian\u00e7a geral.<\/p>\n<p>Outras pot\u00eancias estrangeiras, que espreitavam de perto a solu\u00e7\u00e3o da cartada<br \/>\namericana; mal fariscaram o bom \u00eaxito da expedi\u00e7\u00e3o, acudiram logo nas \u00e1guas<br \/>\ndos Estados Unidos e surgem por sua vez nas costas do requestado arquip\u00e9lago.<br \/>\nIi Kammon recebe-as todas de bra\u00e7os abertos e sucessivamente vai assinando<br \/>\nnovos tratados com a Inglaterra, com a R\u00fassia, com a Holanda e mais tarde<br \/>\ncom a Fran\u00e7a que foi ent\u00e3o a \u00faltima a apresentar-se, concedendo-lhes, al\u00e9m<br \/>\nda abertura dos portos j\u00e1 franqueados \u00e0 Am\u00e9rica do Norte, a de mais um que<br \/>\nvalia por dois, o de Kanagawa, a cuja al\u00e7ada se prendia Yokohama ainda nesse<br \/>\ntempo sem maior import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u00c0s honras e zumbaias oficiais prestadas ao Regente por esses gratos expedicion\u00e1rios<br \/>\nda Europa, respondeu como Imperador magn\u00e2nimo, fazendo salvar as fortalezas<br \/>\ne hasteando o pavilh\u00e3o nacional. O povo via tudo isto intrigado, sem nada<br \/>\npoder compreender do que se passava. E a bordo dos pr\u00f3prios navios estrangeiros<br \/>\nl\u00e1 seguiam em segredo novos embaixadores japoneses destacados para diversos<br \/>\npontos do Ocidente.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou a chegar ao Jap\u00e3o Townsend Harris, enviado pela Rep\u00fablica Norte<br \/>\nAmericana como ministro residente para acompanhar de perto o bom desempenho<br \/>\ndo tratado conclu\u00eddo entre os dois pa\u00edses. S\u00f3 ent\u00e3o foi que, alcan\u00e7ando os<br \/>\nouvidos do Imperador e caindo no dom\u00ednio p\u00fablico a not\u00edcia dos atos arbitr\u00e1rios<br \/>\ndo Regente e at\u00e9 onde subira a sua aud\u00e1cia, rebentou o descontentamento da<br \/>\nna\u00e7\u00e3o e transformaram-se em desespero febril a desconfian\u00e7a e a ansiedade<br \/>\nque \u00e0s ocultas ardiam no \u00e2nimo dos nativistas.<\/p>\n<p>Trai\u00e7\u00e3o! Trai\u00e7\u00e3o! bradavam de toda parte. E Mito, pondo-se \u00e0 frente dos revoltados,<br \/>\ndecidiu tomar contas ao p\u00e9rfido governante. Ii Kammon, bem provido de for\u00e7as,<br \/>\nrecebeu-os \u00e0 bala e golpes de bacamarte, mandando decapitar no pr\u00f3prio teatro<br \/>\nda a\u00e7\u00e3o os que p\u00f4de apanhar com vida.<\/p>\n<p>Era a guerra civil que recome\u00e7ava depois de dois s\u00e9culos e meio, como previra<br \/>\nYe\u00e7ada; e ela agora seria inevit\u00e1vel e terr\u00edvel, porque acabava de abrir-se<br \/>\na diverg\u00eancia entre a Corte do Imperador e a do Shogun. Contra esta se levantavam<br \/>\nj\u00e1, ao exemplo de Mito, todos os pr\u00edncipes do sul, e a seu favor acudiriam<br \/>\nlogo os do norte, fi\u00e9is \u00e0 dinastia dos Tokugawas que do norte provinha.<\/p>\n<p>Ii Kammon, homem de a\u00e7\u00e3o por excel\u00eancia e disposto a n\u00e3o partilhar o poder<br \/>\ncom quem quer que fosse, trata antes de mais nada de p\u00f4r Mito fora de combate<br \/>\ne descobre meios de responsabiliz\u00e1-lo como conspirador contra o Shogunato,<br \/>\ncuja soberania devia ser por princ\u00edpio fundamental do Imp\u00e9rio reconhecida<br \/>\ne respeitada pelos daimos sob sua al\u00e7ada. Para documentar a acusa\u00e7\u00e3o obt\u00e9m<br \/>\ncom muita ast\u00facia e aud\u00e1cia da entibiada Corte do Micado a correspond\u00eancia<br \/>\nsecreta dos pr\u00edncipes do sul, feita ainda em tempo do seu frouxo antecessor;<br \/>\npublica-a lardeada de negros coment\u00e1rios e acompanhada das mais injuriosas<br \/>\ncensuras, e acaba condenando Mito ao ex\u00edlio perp\u00e9tuo e os fidalgos de sua<br \/>\ncasa ao completo afastamento dos neg\u00f3cios p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Depois, receoso de uma prov\u00e1vel coliga\u00e7\u00e3o sulana contra o seu predom\u00ednio,<br \/>\narroja-se incontinenti em f\u00faria desabrida sobre os pr\u00edncipes de Tosa, de Tozamma<br \/>\ne de Uwajima e sobre os quatro daimos de Sikok, que eram os mais vivos correligion\u00e1rios<br \/>\nde Mito e os mais intransigentes inimigos da expans\u00e3o internacional; bate-os<br \/>\na todos, consegue faz\u00ea-los prisioneiros; manda executar na pra\u00e7a p\u00fablica o<br \/>\nintr\u00e9pido Tatewahi com a centena de c\u00famplices do seu her\u00f3ico nativismo, e<br \/>\npassa pelas armas uma multid\u00e3o de samurais e homens do povo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sentindo ainda bem seguro do perigo, ordena, como medida preventiva,<br \/>\na captura, com arresto de armas, dos pr\u00edncipes de Owari, de Gazen e de Echizen,<br \/>\ntodos tr\u00eas membros da Casa Imperial e os quais at\u00e9 a\u00ed n\u00e3o se tinham absolutamente<br \/>\npronunciado a respeito dos atos do Governo.<\/p>\n<p>Era demais! Um grupo de roninos, dezessete apenas, afiam as adagas, cobrem<br \/>\no corpo com um capucho de palha espetadi\u00e7a \u00e0 moda dos kulis do campo, e atiram-se<br \/>\nfirmes para Yedo. Escondem-se \u00e0s portas de Sakurada, aguardando a passagem<br \/>\ndo d\u00e9spota, que tem essa manh\u00e3 de atravessar por a\u00ed para chegar ao inexpugn\u00e1vel<br \/>\nchiro dos shoguns.<\/p>\n<p>Esperam mais de tr\u00eas horas. Tempo nevoado e frio apesar de estarem j\u00e1 a 23<br \/>\nde mar\u00e7o desse ano famoso na hist\u00f3ria do Jap\u00e3o, 1860. Afinal surge o lobo<br \/>\nno seu palanquim de char\u00e3o dourado, ao meio de uma refulgente escolta em que<br \/>\nas galas brilham tanto quanto as armas. Saem-lhe os roninos pela frente e,<br \/>\nfazendo da capa escudo, \u00e0s cutiladas se atiram sobre eles. Desfeito o s\u00e9quito,<br \/>\ndespeda\u00e7am a liteira e arrancam pelas pernas Ii Kammon, a quem cortam a cabe\u00e7a,<br \/>\npara ir no mesmo instante lev\u00e1-la ao chefe dos nativistas.<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe de Mito, rejubilando com a d\u00e1diva sangrenta, manda exp\u00f4-la na<br \/>\nponte mais concorrida da capital com o seguinte letreiro, estampado em letras<br \/>\nvermelhas sobre uma pele de hiena:<\/p>\n<p>&#8220;Esta \u00e9 a cabe\u00e7a de um traidor, que violou as santas leis do Jap\u00e3o admitindo<br \/>\nestrangeiros na p\u00e1tria.&#8221;<\/p>\n<p>Os assassinos, seguindo a usan\u00e7a nobre entre os japoneses do tempo, foram<br \/>\nsolicitar da justi\u00e7a a pena capita] que lhes cabia, apresentando por escrito<br \/>\nas raz\u00f5es morais que os levaram a cometer o atentado. O memorial, depois de<br \/>\nexpor todos os atos reprov\u00e1veis da vida p\u00fablica do Regente, conclu\u00eda assim:<\/p>\n<p>&#8220;Esse monstro em suma, por medo ou por esp\u00edrito de perf\u00eddia, e a pretexto<br \/>\nde necessidade pol\u00edtica, firmou com os b\u00e1rbaros tratados feitos clandestinamente,<br \/>\ncontra a vontade do Imperador e contra a vontade do povo japon\u00eas; crimes tais<br \/>\nque n\u00e3o encontram perd\u00e3o nos deuses, nem nos homens. E n\u00f3s pois, representantes<br \/>\nda c\u00f3lera nacional, deliberamos castigar o grande culpado com a morte, dando<br \/>\na nossa vida em holocausto \u00e0 felicidade da p\u00e1tria.&#8221;<\/p>\n<p>Um grupo de oito samurais de Ii Kammon, fi\u00e9is \u00e0 mem\u00f3ria do chefe, juraram<br \/>\nsobre o seu cad\u00e1ver ainda quente que em breve, para ving\u00e1-lo, poriam as m\u00e3o<br \/>\nsobre o pr\u00edncipe de Mito.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>4\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; Eliminaram Ii Kammon<\/h2>\n<p>Eliminaram Ii Kammon, mas o grande fato estava consumado, bem ou mal os tratados<br \/>\nconclu\u00eddos, e o Jap\u00e3o aberto aos estrangeiros.<\/p>\n<p>Em breve, \u00e0 semelhan\u00e7a da Am\u00e9rica do Norte, os Estados europeus entravam<br \/>\nde mandar os seus representantes diplom\u00e1ticos, e atr\u00e1s destes surgiam logo,<br \/>\nde focinho arrega\u00e7ado e palpitante, os primeiros fur\u00f5es comercias, os farejadores<br \/>\nde neg\u00f3cios virgens de explora\u00e7\u00e3o, os avan\u00e7ados de Ashaverus que a\u00ed j\u00e1 vinha<br \/>\nse arrastando azafamado de saco vazio \u00e0s costas; enquanto do arquip\u00e9lago muitos<br \/>\nind\u00edgenas curiosos, estalando por gosto o ocidental fruto at\u00e9 a\u00ed proibido<br \/>\npelas &#8220;Cem Leis&#8221;, muniam-se de ouro e tomavam as pressas o primeiro barco<br \/>\na sair para a China, com medo de que, uma vez morto o Regente, n\u00e3o fosse de<br \/>\nnovo trancada a autoriza\u00e7\u00e3o de viajar pelo estrangeiro. Esta leva t\u00e3o espont\u00e2nea,<br \/>\nquase toda de gente mo\u00e7a e rica, na melhor parte inteligente e \u00e1vida de aprender<br \/>\ncoisas novas; haveria no futuro de influir tamb\u00e9m nos acontecimentos pol\u00edticos<br \/>\ndo pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quanto ao que neste ia por dentro, agora a grande quest\u00e3o p\u00fablica era apurar<br \/>\nse valiam ou n\u00e3o valiam os tratados apenas com a assinatura do Shogun. O Imperador<br \/>\nabanava as m\u00e3os e sacudia os ombros, declarando a quem lhe ia falar em credenciais<br \/>\ne exequatur que n\u00e3o lhe constava haver nenhum compromisso formal entre o seu<br \/>\nimp\u00e9rio e qualquer Pot\u00eancia estrangeira; e que de sua parte evidenciassem<br \/>\nao novo Regente a necessidade de desenganar semelhantes importunos antes de<br \/>\nser preciso lan\u00e7ar m\u00e3o dos meios extremos. Ao mesmo tempo decreta a retirada<br \/>\nde todo o forasteiro que se ache no territ\u00f3rio sem clara e positiva autoriza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Micado, e delega a Mito essa incumb\u00eancia, repetindo-lhe numa carta escrita<br \/>\nde seu pr\u00f3prio punho, a frase da vassoura e da poeira com que ele havia ressuscitado<br \/>\ndo outro mundo para acudir ao momento cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Vision\u00e1rio! Agora j\u00e1 n\u00e3o era uma simples esquadra que flutuava nas \u00e1guas<br \/>\njaponesas, era uma formid\u00e1vel armada constitu\u00edda pelo contingente mar\u00edtimo<br \/>\ndas principais pot\u00eancias do mundo. Dir-se-ia um congresso universal nas costas<br \/>\ndo Jap\u00e3o, porque, al\u00e9m das bandeiras que de t\u00e3o longe vinham por defender<br \/>\nos seus tratados, outras novas iam chegando desejosas de entrar tamb\u00e9m em<br \/>\nfala com a sedutora esfinge do Extremo Oriente.<\/p>\n<p>E os radicais elementos patri\u00f3ticos do altaneiro Sul cora\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio,<br \/>\nsequiosos por descarregar em algu\u00e9m ou alguma coisa a raiva de cruel despeito<br \/>\nem que ardiam, nada podendo fazer contra o verdadeiro objeto do seu impotente<br \/>\ndesespero, voltaram-se contra a institui\u00e7\u00e3o a que pertencera o causador de<br \/>\ntio irrepar\u00e1vel desastre nacional; tomando por\u00e9m o Shogunato para alvo dos<br \/>\ngolpes que precisavam descarregar, for\u00e7oso era opor-lhe em campo de combate<br \/>\na bandeira de outro poder, pelo qual se batessem e pelo qual, no momento da<br \/>\nvit\u00f3ria, substitu\u00edssem o do vencido, resolveram ent\u00e3o, depois de muito bem<br \/>\ndiscutir o caso, adotar o unitarismo do Trono como ideal pol\u00edtico. Mito, consultado,<br \/>\naplaudiu-os e deu-lhes de conselho que procurassem p\u00f4r \u00e0 sua frente os pr\u00edncipes<br \/>\ndo extremo sul.<\/p>\n<p>Foi desse modo que se formou, para logo se desenvolver maravilhosamente,<br \/>\no partido popular do Imperador, coisa que at\u00e9 a\u00ed nunca tinha existido no movimento<br \/>\npol\u00edtico do pa\u00eds. Ora, como o pobre Soberano, no seu emp\u00edrico patriotismo,<br \/>\npunha antes de tudo a preocupa\u00e7\u00e3o de expulsar os estrangeiros, o novo partido,<br \/>\npor cair-lhe em gra\u00e7a, fez o seu lema com o grito de guerra &#8220;Honra ao Micado!<br \/>\nFora os b\u00e1rbaros!&#8221;, apesar de compreender perfeitamente a impossibilidade<br \/>\nde levar a efeito nessa ocasi\u00e3o t\u00e3o adorado sonho.<\/p>\n<p>Assim pois vinha \u00e0 luz o partido do Imperador j\u00e1 com um plano de mistifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nurdido contra o seu pr\u00f3prio chefe, disposto a servir-se da mesma maromba que<br \/>\nca\u00edra das m\u00e3os fracas de Ye\u00e7ada e que servira Ii Kammon para equilibrar os<br \/>\nseus primeiros passos no governo, pois como esses iria dizendo ao Micado que<br \/>\nse constitu\u00eda e fortificava s\u00f3 com o fim de bater os estrangeiros, quando<br \/>\na sua real inten\u00e7\u00e3o era, pelo menos antes de cuidar doutra coisa, combater<br \/>\no Shogunato.<\/p>\n<p>Os daimos do sul, ligando-se a esse elemento popular, n\u00e3o calculavam o alcance<br \/>\nque contra eles pr\u00f3prios poderia ter a campanha empreendida, n\u00e3o previam que<br \/>\na unifica\u00e7\u00e3o do poder do trono iria absorver tamb\u00e9m o dos principados; e contavam<br \/>\ningenuamente que, abolido o Shogunato, o Imp\u00e9rio voltaria sem d\u00favida ao regime<br \/>\nfeudal de antes de Yoritomo, quando os pr\u00edncipes governavam ao lado do Imperador<br \/>\ne n\u00e3o estavam sujeitos i al\u00e7ada do Shogun. Quanto ao que pensava a Nobreza<br \/>\ne Povo com respeito aos estrangeiros, era opini\u00e3o corrente que qualquer a\u00e7\u00e3o<br \/>\ndecisiva seria imposs\u00edvel contra eles enquanto existissem a Corte e as for\u00e7as<br \/>\nshogunais para defend\u00ea-los dentro do pa\u00eds, desde por\u00e9m que o Imperador concentrasse<br \/>\nna m\u00e3o todo o poder e comandasse diretamente os daimos, claro estava que a<br \/>\nquest\u00e3o seria prontamente resolvida.<\/p>\n<p>Eis aqui em que estado se achava o pa\u00eds nas v\u00e9speras da sua grande revolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA terr\u00edvel guerra civil que se ia abrir, isto \u00e9, a luta de parte dos pr\u00edncipes<br \/>\ne parte do povo contra a institui\u00e7\u00e3o do Shogunato ou contra a dinastia dos<br \/>\nTokugawas, era pois conseq\u00fc\u00eancia direta dos atos de Ii Kammon e n\u00e3o tinham<br \/>\nra\u00edzes em nenhum fator pol\u00edtico precedente \u00e0 chegada do Comodoro Perry, como<br \/>\npretendem os ocidentais nos seus livros sobre o Jap\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e7ando-se o partido do Imperador at\u00e9 a esfera dos pr\u00edncipes do sul, que<br \/>\neram muito unidos e poderosos, converteu-se em for\u00e7a disciplinada capaz de<br \/>\nfazer frente \u00e0 do Shogun, contra a qual ningu\u00e9m at\u00e9 a\u00ed se atreveria a levantar<br \/>\no bra\u00e7o. Para ter o leitor id\u00e9ia justa da import\u00e2ncia dessa campanha, conv\u00e9m<br \/>\nlembrar-lhe qu\u00e3o extensa permanecia ent\u00e3o a autoridade shogunal. Al\u00e9m das<br \/>\nsuas inveterad\u00edssimas tradi\u00e7\u00f5es, mantidas por enorme fam\u00edlia e filtradas durante<br \/>\ndois s\u00e9culos e meio ininterruptamente at\u00e9 os \u00edntimos refolhos da alma da na\u00e7\u00e3o,<br \/>\nera mais que consider\u00e1vel a for\u00e7a material de que dispunha, gra\u00e7as \u00e0 maravilhosa<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o por Iei\u00e1s escolhida para sede do seu poder. O grande homem havia,<br \/>\nnem s\u00f3 aproveitado admiravelmente as condi\u00e7\u00f5es topogr\u00e1ficas do Imp\u00e9rio, como<br \/>\na dos elementos militares que encontrou disseminados por todas as prov\u00edncias,<br \/>\ncujos castelos fortificados se acharam sempre nas m\u00e3os de pr\u00edncipes por muitos<br \/>\nla\u00e7os jungidos \u00e0 fam\u00edlia Tokugawa e \u00e0 institui\u00e7\u00e3o agora amea\u00e7ada. A zona Tokugawal<br \/>\npropriamente dita era a enorme bacia de Kuanto na parte leste da grande ilha<br \/>\ncentral do Jap\u00e3o, compreendendo oito prov\u00edncias cercadas de montanhas abruptas<br \/>\nque lhes serviam de natural defesa, com os seus despenhadeiros inacess\u00edveis,<br \/>\nn\u00e3o deixando ao inimigo outro ponto estrat\u00e9gico mais que a cidade de Hokone<br \/>\nna prov\u00edncia de Izo, entre as duas bacias de Suruga e de Sagami, lugar este<br \/>\nprecisamente onde Iei\u00e1s estabelecera as barreiras dos seus vastos dom\u00ednios<br \/>\nterritoriais e em que lhe era f\u00e1cil verificar uma a uma as pessoas que neles<br \/>\npenetravam. Nessas oito prov\u00edncias de Kuanto residiam os oitenta mil hattamotos,<br \/>\nvassalos diretos dos Tokugawas, os quais por sua vez, como nobres, tinham<br \/>\nnos samurais inferiores os seus vassalos pr\u00f3prios. Toda essa gente se levantaria<br \/>\nem massa ao primeiro apelo do chefe suserano.<\/p>\n<p>Yedo, capital do Shogun e centro das suas opera\u00e7\u00f5es militares, est\u00e1 no fundo<br \/>\nde um golfo, cuja boca estreita era defendida de um dos lados pela fortaleza<br \/>\nde Futsu e do outro pela de Kannonzaki, e tinha como tem, as costas guardadas<br \/>\npor uma anfractuosa cordilheira de montanhas que s\u00f3 d\u00e3o uma garganta pratic\u00e1vel,<br \/>\na de Akon\u00ea. Em volta, para al\u00e9m das penedias e quebradas, todos os pr\u00edncipes<br \/>\nfortificados, menos o de Mito em Hitachi e Chimoosa, eram simp\u00e1ticos \u00e0 causa<br \/>\ndos Tokugawas; e para o norte at\u00e9 Hakodate em Yezo, e para o sudoeste, e na<br \/>\nilha de Sikok, at\u00e9 certo ponto da ilha de Kiuciu ao sul, n\u00e3o havia um daimo<br \/>\ninimigo dela, podendo por conseguinte as for\u00e7as do Shogun moverem-se por toda<br \/>\na parte, certas de que s\u00f3 poderiam encontrar aux\u00edlio e prote\u00e7\u00e3o. Os \u00fanicos<br \/>\npontos do Imp\u00e9rio que escaparam \u00e0 imensa rede estendida por Iei\u00e1s eram, al\u00e9m<br \/>\nde Hitachi e Chimoosa a noroeste, o extremo sul da ilha de Kiuciu, onde se<br \/>\nacham as prov\u00edncias de Ocumi e Satzuma, e o extremo oeste de Hondo em que<br \/>\nexiste a de Nagato. E foi precisamente destes pontos que rebentou a guerra.<\/p>\n<p>Havia assumido a reg\u00eancia do Shogunato Ando Tsusima, como ministro sucessivo<br \/>\ndo pr\u00edncipe de Hikone. \u00c9 um comparsa sem feitio pr\u00f3prio, com quem n\u00e3o vale<br \/>\na pena gastar muitas palavras em descrev\u00ea-lo; sumir-se-\u00e1 daqui a pouco nos<br \/>\nbastidores, substitu\u00eddo pelo dono leg\u00edtimo do papel, Iyemochi, que reclama<br \/>\no seu cargo e entra a exerc\u00ea-lo antes mesmo da maioridade comum, no Jap\u00e3o<br \/>\nfixada aos vinte anos; comum, disse eu, porque a dos membros da fam\u00edlia imperial<br \/>\n\u00e9 privilegiadamente contada dos dezoito anos em diante, e a dos pr\u00edncipes<br \/>\nTokugawas era a partir dos quinze.<\/p>\n<p>Como esperavam todos, Ando Tsusima, galgando o poder, declarou logo sustentar<br \/>\nos atos e a norma pol\u00edtica do seu antecessor, mas ao mesmo tempo, para fazer<br \/>\ncrer que n\u00e3o persistiam diverg\u00eancias entre o Shogunato e o trono micadoal,<br \/>\nabriu m\u00e3o do pr\u00edncipe de Mito, a quem Ii Kammon havia condenado ao ex\u00edlio<br \/>\nperp\u00e9tuo e a quem o Imperador agora por \u00faltimo delegava a expuls\u00e3o dos estrangeiros;<br \/>\ne faz melhor: consegue a alian\u00e7a do seu jovem chefe Iyemochi com uma princesa<br \/>\nainda mais jovem, irm\u00e3 legitima do Micado; pomposo casamento que se realizou<br \/>\nem 15 de dezembro de 1860.<\/p>\n<p>Nada disto por\u00e9m impediu que continuasse cavado o abismo entre as duas Cortes,<br \/>\ncomo n\u00e3o impediu que se desse, para mais agrav\u00e1-lo, o seguinte revoltante<br \/>\nfato: precisando Mito recompor uma parte desmantelada das trincheiras do seu<br \/>\ncastelo e estando com toda a gente ocupada, mandou chamar de fora alguns pedreiros;<br \/>\napresentaram-se oito sujeitos com o traje caracter\u00edstico daquele of\u00edcio e<br \/>\narmados de picaretas, martelos e alavancas (no Jap\u00e3o cada art\u00edfice trazia<br \/>\nsempre o seu uniforme pr\u00f3prio). Confiou-lhes o pr\u00edncipe o trabalho e foi em<br \/>\npessoa mostrar o que havia de fazer. Os oito oper\u00e1rios desceram com ele ao<br \/>\nfundo das fortifica\u00e7\u00f5es e l\u00e1, vibrando as ferramentas que levavam, o trucidaram<br \/>\ne mais a dois pajens que o acompanhavam. Aos gritos destes \u00faltimos, acudiram<br \/>\nas sentinelas, mas antes j\u00e1 os assassinos tinham galgado os fossos e mergulhado<br \/>\nnas valas sem deixar rastros de si. Eram os oito samurais que em Yedo sobre<br \/>\no cad\u00e1ver de Ii Kammon haviam jurado vingar-lhe a morte.<\/p>\n<p>Semelhante crime, t\u00e3o vil e trai\u00e7oeiro, t\u00e3o contr\u00e1rio aos usos cavaleirescos<br \/>\ndo japon\u00eas do tempo, achou enorme repercuss\u00e3o na alma generosa do povo, a<br \/>\nquem sem d\u00favida n\u00e3o desagradava um homem que s\u00f3 tinha cora\u00e7\u00e3o para amar o<br \/>\nseu imperador e odiar os estrangeiros; pelo menos todas as classes armadas,<br \/>\nat\u00e9 mesmo as hostes do Shogun, viam em Mito a leg\u00edtima e briosa express\u00e3o<br \/>\ndo velho sentimento nacional. A n\u00f3doa daquela covardia chegou para todos os<br \/>\nsamurais que foram de Ii Kammon; alguns rasgaram o ventre sentindo-se desonrados;<br \/>\ne, sabendo-se que Iyemochi ao ouvir falar do monstruoso crime, tivera um mau<br \/>\nsorriso e nenhuma provid\u00eancia dera para castigar os criminosos, nobreza e<br \/>\npovo come\u00e7aram a ver nele um Tokugawa degenerado e um dinasta perverso, apesar<br \/>\nda sua extrema juventude e natural donaire que o faziam simp\u00e1tico aos olhos<br \/>\nda na\u00e7\u00e3o. O Imperador, desde esse fato, come\u00e7ou a desdenh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Com a morte do seu idolatrado chefe, os nativistas de Hitachi e Chimoosa<br \/>\nsentem-se desamparados, ali t\u00e3o cerca de Yedo, valhacoito do estrangeirismo,<br \/>\ne t\u00e3o longe do extremo sul, onde palpitava o cora\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria. O sucessor<br \/>\nnatural de Mito era uma crian\u00e7a e no horizonte pol\u00edtico da na\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia<br \/>\nainda ent\u00e3o apontado o vulto juvenil e petulante de Mori Da\u00edzen, pr\u00edncipe<br \/>\nde Nagato, parente do assassinado, e que foi quem o secundou no ardor da convic\u00e7\u00e3o<br \/>\ne na aud\u00e1cia franca de sustent\u00e1-lo pelas armas.<\/p>\n<p>\u00c0 falta de sinceridade e firmeza nos chefes nativistas, ganhava terreno a<br \/>\ncausa dos estrangeiros, fortalecida agora pela veem\u00eancia do novo Shogun; herdeiro<br \/>\nde muito \u00f3dio e muita sede de vingan\u00e7a contra os inimigos da sua dinastia.<br \/>\nMas, enquanto com mil disfarces, e \u00e0s pressas se levantavam em Yedo, no Coten<br \/>\nYama, terreno de propriedade particular dos Tokugawas, os edif\u00edcios destinados<br \/>\n\u00e0s lega\u00e7\u00f5es ocidentais, ia minando o pais nas mais fundas camadas at\u00e9 a\u00ed indiferentes<br \/>\n\u00e0 agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, um surdo mal estar, uma angustiosa desesperan\u00e7a no futuro,<br \/>\num desses perigosos descontentamentos do povo, que s\u00e3o j\u00e1 principio de raiva<br \/>\ne revolta contra os que governam. Entretanto, nem uma s\u00f3 parcela de tal repugn\u00e2ncia<br \/>\np\u00fablica visava a pessoa do Micado, porque o pobre povo, na sua instintiva<br \/>\nvid\u00eancia, compreendia, adivinhava, que contra os invasores da p\u00e1tria, s\u00f3 havia<br \/>\nagora em campo duas vontades sinceras \u2014 a dele pr\u00f3prio e a do Imperador,<br \/>\ndois utopistas, dois ignorantes da vida nova, dois ludibriados pelas ambi\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos outros, desses outros que s\u00f3 faziam pol\u00edtica de intriga, tratando cada<br \/>\nqual do seu particular interesse. O Shogun, a Corte Shogunal, a Corte Imperial,<br \/>\nos pr\u00edncipes do Sul, os pr\u00edncipes do Norte, todos disputavam entre si o maior<br \/>\nquinh\u00e3o de dom\u00ednio p\u00fablico sem cogitar nenhum deles da ferida que fazia gemer<br \/>\na p\u00e1tria apunhalada.<\/p>\n<p>Mas esse cont\u00ednuo gemido sem socorro pode transformar-se em uivo de tempestade<br \/>\nferoz; aquele surdo e recalcado desespero pode de s\u00fabito fazer-se aspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nnacional e rebentar com f\u00faria, devorando todos os poderes constitu\u00eddos para<br \/>\ns\u00f3 deixar firme e de p\u00e9 as duas express\u00f5es sinceras da na\u00e7\u00e3o \u2014 O Micado<br \/>\ne o povo. Foi isto o que n\u00e3o souberam ver, o Shogun, nem os senhores feudais,<br \/>\nnem a Corte do Imperador, nem o seu pr\u00f3prio partido. \u00c9 f\u00e1cil enganar diplomatas<br \/>\nestrangeiros, mal conhecedores do verdadeiro mecanismo pol\u00edtico do pa\u00eds que<br \/>\nos engana; \u00e9 f\u00e1cil mistificar um monarca espiritual, sofismar-lhe as ordens<br \/>\ne torcer-lhe a vontade ao sabor dos ministros que ele sup\u00f5e governar; mas<br \/>\niludir um povo ferido no seu patriotismo, isso deixa de ser dif\u00edcil para ser<br \/>\nimposs\u00edvel e s\u00f3 pode ter conseq\u00fc\u00eancias desastrosas para o temer\u00e1rio que o<br \/>\nsurpreender. E foi isso justamente o que aconteceu. Muitos soldados come\u00e7am<br \/>\nlogo a abandonar entristecidos os seus nobres chefes, a quem de corpo e alma<br \/>\nobedeciam, para se incorporarem \u00e0 ventura, sem patentes nem garantias, aos<br \/>\ngrupos sediciosos que se v\u00e3o formando entre os samurais do sul e os roninos<br \/>\nde todo o Imp\u00e9rio. O recente partido do Imperador estala em peda\u00e7os, e cada<br \/>\ncis\u00e3o \u00e9 mais uma nuvem sinistra que vai bandear-se com a tempestade iminente.<br \/>\nEm breve de Hitachi e Chimoosa, as duas prov\u00edncias vi\u00favas do \u00fanico pr\u00edncipe<br \/>\ncom que contava o povo, surgem multid\u00f5es armadas que chegam at\u00e9 \u00e0s portas<br \/>\nda capital do Imperador, soltando o mesmo grito de guerra do partido despeda\u00e7ado,<br \/>\nmas agora n\u00e3o como simples embuste para agradar ao chefe e sim fazendo dele<br \/>\no sincero programa do seu ideal pol\u00edtico. &#8220;Honra ao Micado! Fora os b\u00e1rbaros!&#8221;<br \/>\n\u00e9 agora um ardente grito d&#8217;alma e h\u00e1 de ecoar por todos os recantos do pa\u00eds<br \/>\nat\u00e9 a explos\u00e3o da mina.<\/p>\n<p>E come\u00e7am os saques e as pilhagens, porque toda essa gente que grita, de<br \/>\nm\u00e3os arrancadas para o c\u00e9u e olhos desvairados pelo \u00f3dio, j\u00e1 n\u00e3o trabalha<br \/>\nnem ganha com que comer. O terror invade os campos abundantes e os centros<br \/>\npopulosos por onde voa essa multid\u00e3o devastadora, mas ningu\u00e9m, por medo ou<br \/>\nespont\u00e2nea cumplicidade, n\u00e3o se atreve a denunciar um deles. E das m\u00e3os do<br \/>\nlavrador e do oper\u00e1rio arrancam as ferramentas para as transformar em armas<br \/>\nde combate.<\/p>\n<p>Todavia, essa gente, que os alheios historiadores do Jap\u00e3o tratam com t\u00e3o<br \/>\nnegro e desabrido rancor; essa gente que exerce a pilhagem para n\u00e3o morrer<br \/>\nde fome, nada mais quer do que a deixem morrer gloriosamente defendendo a<br \/>\np\u00e1tria ferida e sem socorro, a tenda em que vivem honrada e feliz e que agora,<br \/>\nt\u00e3o mesquinha! parece abandonada dos seus divinos pr\u00edncipes e dos seus humanos<br \/>\ndeuses. Essa alucinada far\u00e2ndola, que l\u00e1 vai, legi\u00e3o de espectros! \u2014<br \/>\na correr, uivando atrav\u00e9s dos campos e das cidades, de prov\u00edncia em prov\u00edncia,<br \/>\nde castelo em castelo, anda doida, como seu Imperador, \u00e0 procura de uma espada<br \/>\nque a conduza contra os malditos abutres que lhe invadem o ninho paterno.<br \/>\n\u00c9 morto por\u00e9m o grande Mito, o homem que partiu o cora\u00e7\u00e3o em duas conchas,<br \/>\npara encher uma de amor nativo e com ela dar de beber \u00e0 sua ra\u00e7a, e a outra<br \/>\nde \u00f3dio envenenado reservada \u00e0s que viessem l\u00e1 de fora banquetear-se no inviol\u00e1vel<br \/>\ne sagrado arquip\u00e9lago de Amateras; \u00e9 morto o grande Mito, e os pr\u00edncipes que<br \/>\na\u00ed restam de p\u00e9, nem parecem descenderem dos preclaros daimos dos tempos her\u00f3icos<br \/>\n\u2014 Satzuma negou-se a comandar o bando desamparado; negaram-se outros;<br \/>\nnegaram-se todos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como as primeiras bolhas de uma efervesc\u00eancia subterr\u00e2nea, irrompem<br \/>\npor aqui e por ali, em plena rua das duas capitais e das cidades imediatas,<br \/>\nrepres\u00e1lias cru\u00e9is j\u00e1 ensopadas em sangue: no dia 14 de janeiro de 1862 assassinam<br \/>\nem Yedo a golpes de machado o Secret\u00e1rio da Lega\u00e7\u00e3o norte-americana, Heusken,<br \/>\nent\u00e3o interinamente encarregado de neg\u00f3cios, e que acabava de representar<br \/>\npapel saliente nas pretens\u00f5es internacionais do seu pa\u00eds; em 15 de julho do<br \/>\nmesmo ano, o templo cedido pelo Shogun \u00e0 Inglaterra para ai fazer funcionar<br \/>\nprovisoriamente a sua Lega\u00e7\u00e3o, \u00e9 atacado durante a noite e s\u00e3o estranguladas<br \/>\nas duas sentinelas inglesas que o guardavam e detru\u00eddos todos os m\u00f3veis, escudo<br \/>\nd&#8217;armas, bandeiras, livros e pap\u00e9is que havia dentro; em seguida \u00e9 uma tentativa<br \/>\nde morte contra Ando Tsusima, que escapou gravemente ferido e inutilizado<br \/>\npara o resto da vida, tendo de abandonar por vez o Governo no qual persistia<br \/>\nem atividade como ajudante d&#8217;ordens de Iyemochi; depois foi uma descarga de<br \/>\narcabuzes contra um grupo de cinco estrangeiros que passeavam no Tokaido e<br \/>\no assass\u00ednio do ingl\u00eas Richardson; logo adiante o inc\u00eandio da nova Lega\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Inglaterra, cujo edif\u00edcio se acabava de construir no parque de Goten Yama<br \/>\nem Kioto; e outros, e outros desfor\u00e7os se sucederam, e outros e outros ter\u00e3o<br \/>\nde vir, e as provoca\u00e7\u00f5es por parte dos nacionais se ir\u00e3o multiplicando cada<br \/>\nvez mais cruas e destemidas. O bando impetuoso avulta e enrobustece de dia<br \/>\npara dia; j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a humilde far\u00e2ndola que suplicava um bra\u00e7o armado, \u00e9 agora<br \/>\num ind\u00f4mito vulc\u00e3o que rola de norte a sul, de leste a oeste, deixando atr\u00e1s<br \/>\nde si o arquip\u00e9lago aceso na c\u00f3lera por ele desencadeada; \u00e9 um baluarte ambulante<br \/>\nque \u00e0 na\u00e7\u00e3o inteira se imp\u00f5e pelo desespero da causa que o agita; \u00e9 uma for\u00e7a<br \/>\ntempestuosa, desordenada e cega, que depois de varrer a necr\u00f3pole dos Tokugawa<br \/>\nem Nikko, decepando as centenas de \u00eddolos de granito celebrados dos shoguns<br \/>\npassados, vai \u00e0 Corte Imperial tomar-lhe contas pela infame lentid\u00e3o e covarde<br \/>\ncautela que est\u00e3o pondo seus membros em cumprir as ordens do Chefe do Estado,<br \/>\ne vai depois ao castelo do pr\u00f3prio Imperador para pedir-lhe que se n\u00e3o deixe<br \/>\nludibriar por mais tempo, que abandone a sua t\u00fanica celestial, envergue as<br \/>\narmas dos seus antepassados de antes de Yoritomo e venha c\u00e1 fora \u00e0 rua, entre<br \/>\no seu povo, repelir \u00e0 frente dele os b\u00e1rbaros atrevidos.<\/p>\n<p>O soberano n\u00e3o aceitou o alvitre, mas atendeu comovido aos que reclamavam;<br \/>\nchegou a mandar, contra todas as f\u00f3rmulas da etiqueta micadoal, descer as<br \/>\nportas do chiro, abrir as portas do sagrado recinto e mostrar-se \u00e0 multid\u00e3o,<br \/>\nenvolto espectralmente da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, num enorme v\u00e9u todo negro, que lhe<br \/>\nn\u00e3o deixava transparecer o menor vislumbre das suas formas de homem.<\/p>\n<p>A multid\u00e3o prosternou-se com um gemido de s\u00faplica, emborcando por terra,<br \/>\nbra\u00e7os estendidos, rosto colado ao ch\u00e3o. E aquela im\u00f3vel sombra divina, daquele<br \/>\nmist\u00e9rio todo negro, uma voz saiu e ressoou, amiga e humana, no meio do religioso<br \/>\nsil\u00eancio, como um balbuciar de b\u00ean\u00e7\u00e3os enviadas pelo c\u00e9u. A boca do santo<br \/>\nfalou pela segunda vez, para dizer:<\/p>\n<p>&#8211; O esp\u00edrito dos meus av\u00f3s penetrou vossas entranhas e \u00e9 convosco! A vossa<br \/>\nvontade \u00e9 a vontade do meu cora\u00e7\u00e3o, e ela se far\u00e1 verdade, se os Deuses a<br \/>\nquem perten\u00e7o me n\u00e3o tomarem antes para junto de nossa m\u00e3e formosa e cheia<br \/>\nde luz. Em nome de Amateras vos digo que tomeis ao vosso lar pelo caminho<br \/>\nda satisfa\u00e7\u00e3o: vou remeter ao Shogun ordem terminante para repelir os b\u00e1rbaros.<br \/>\nIde v\u00f3s, e que os olhos de Izananmi vos acompanhem pela estrada!<\/p>\n<p>Cerrou-se o reposteiro do santu\u00e1rio e desapareceu o divino espectro. A multid\u00e3o<br \/>\nergueu-se com um suspiro de consolo, e foi feliz e reconfortada de esperan\u00e7a<br \/>\nque retirou do sagrado reduto, bradando o seu grito de guerra contra os estrangeiros<br \/>\ne em honra do Micado.<\/p>\n<p>Este, cumprindo o que acabava de prometer, expediu logo ao Shogun por cinco<br \/>\nkug\u00eas uma ordem escrita de seu pr\u00f3prio punho, na qual, descobrindo-se de novo,<br \/>\nfazia j\u00e1 sentir bem ao vivo a sua ascend\u00eancia mon\u00e1rquica. Os emiss\u00e1rios partiram<br \/>\na galope para Yedo e o bando de nativistas atirou-se a correr na mesma dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eis o que dizia a carta do Imperador:<\/p>\n<p>Desde a primeira vinda dos tais americanos, Eu Micado, dei ordem para varr\u00ea-los<br \/>\ndo meu Imp\u00e9rio. N\u00e3o fui atendido. Meu cora\u00e7\u00e3o vive agitado dia e noite, porque<br \/>\nat\u00e9 hoje nada se decidiu com respeito \u00e0 expuls\u00e3o dos b\u00e1rbaros. Entre as for\u00e7as<br \/>\nregulares do Estado e as for\u00e7as vivas da Na\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe a menor coer\u00eancia;<br \/>\nde sorte que, em vez de guerra com o inimigo exterior por mim determinada,<br \/>\n\u00e9 a guerra civil que amea\u00e7a agora devorar e pa\u00eds. Para evitar esta t\u00e3o grande<br \/>\ncalamidade e outras que depois ainda sobrevenham, pois a desgra\u00e7a \u00e9 m\u00e1 e medrosa<br \/>\ne nunca se apresenta desacompanhada, recomendo ao Shogun que delibere positivamente<br \/>\nsobre a expuls\u00e3o dos invasores, e leve quanto antes esta minha irrevog\u00e1vel<br \/>\nordem ao conhecimento de todos os pr\u00edncipes fortes do Imp\u00e9rio. O Shogun, na<br \/>\nqualidade de Comandante em Chefe dessas for\u00e7as, h\u00e1 de achar meios estrat\u00e9gicos<br \/>\nde p\u00f4r em execu\u00e7\u00e3o as minhas ordens. Tal \u00e9 o seu dever e tal \u00e9 a minha vontade<br \/>\nde Imperador.<\/p>\n<p>&#8220;Vig\u00e9simo oitavo dia do quinto m\u00eas&#8221; (25 de junho de 1862).<\/p>\n<p>Os nativistas n\u00e3o tardaram a surgir em Yedo, reclamando a execu\u00e7\u00e3o da ordem<br \/>\nimperial e declarando ao Shogun que se achavam prontos a expulsar os b\u00e1rbaros,<br \/>\nse lhes desse ele elementos para a luta. Por \u00fanica resposta, Iyemochi, que<br \/>\nse havia prevenido, mandou destro\u00e7\u00e1-los pelos seus oitenta mil hattamotos.<\/p>\n<p>Seguiu-se uma infernal trag\u00e9dia, porque os vision\u00e1rios tentaram resistir<br \/>\ne assaltar o castelo e foram completamente esmagados, deixando mais de vinte<br \/>\nmil mortos no campo da sua her\u00f3ica temeridade. Os que conseguiram escapar<br \/>\n\u00e0 r\u00e1pida carnificina despejaram-se como dem\u00f4nios pelas ruas de Yedo, a lan\u00e7ar<br \/>\nfogo em quarteir\u00f5es inteiros da vast\u00edssima capital. Mas naquele mesmo decreto<br \/>\ndo Imperador estava implicitamente imposta a anistia dos implicados nos sucessos<br \/>\ncontra Ii Kammon, e o Shogun, para n\u00e3o desobedecer de frente ao Soberano,<br \/>\nteve que desencadear por suas pr\u00f3prias m\u00e3os os pr\u00edncipes inimigos do Shogunato,<br \/>\nOwari, Ech\u00edzen, Uwajima e os outros postos em liberdade v\u00e3o apresentar-se<br \/>\nlogo ao Micado e passam, por ordem deste, a exercer altos cargos na Corte<br \/>\nImperial, ou s\u00e3o restabelecidos na posi\u00e7\u00e3o oficial que dantes ocupavam; por<br \/>\noutro lado, o Monarca resolve punir com a supress\u00e3o parcial nas rendas os<br \/>\ndaimos que s~ tinham posto ao lado de Ii Kammon.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, j\u00e1 em fatos se traduzem os sonhos do divino fantasma e a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\npol\u00edtica come\u00e7a a definir-se. Os pr\u00edncipes de Satzuma e de Tosa, acompanhados<br \/>\npelo de Nagato, o jovem e ardente Mori que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o tinha aparecido na<br \/>\ncena pol\u00edtica, v\u00e3o tamb\u00e9m apresentar-se ao Imperador e oferecer-lhe os seus<br \/>\nservi\u00e7os na defesa do Trono. Esses tr\u00eas pr\u00edncipes formavam o mais poderoso<br \/>\nn\u00facleo de resist\u00eancia entre todos os daimos do Imp\u00e9rio. Komei recebeu-os nadando<br \/>\nem j\u00fabilo e entregou-lhes logo a guarda e seguran\u00e7a da sua capital, agora<br \/>\na regurgitar de popula\u00e7\u00e3o com o enxurro fugitivo dos litorais; gente fraca<br \/>\ne desarmada que, no momento do perigo, ia abrigar-se estarrecida de medo \u00e0<br \/>\nprotetora sombra do filho dos deuses. Volvia esse povo, como no principio<br \/>\nda sua forma\u00e7\u00e3o \u00e9tnica a agremiar-se em torno do centro espiritual da sua<br \/>\nra\u00e7a.<\/p>\n<p>Para a sagrada Kioto voltavam-se todas as vistas, e os fidalgos n\u00e3o ligados<br \/>\ndiretamente ao Shogun por interesses din\u00e1sticos de fam\u00edlia, cargo p\u00fablico<br \/>\nou solidariedade pol\u00edtica, entraram de abandonar Yedo que era nessa \u00e9poca,<br \/>\ncomo ainda \u00e9 hoje, a maior e mais importante cidade do Jap\u00e3o; nos rastros<br \/>\nda nobreza seguem tamb\u00e9m os artistas e os obreiros, e afinal os mercadores,<br \/>\ncom a tenda \u00e0s costas, arribam por sua vez. \u00c9 o abandono palp\u00e1vel da capital<br \/>\ndo homem mau. O restante da popula\u00e7\u00e3o levanta-se em massa, e da noite para<br \/>\no dia a incomensur\u00e1vel Yedo despovoa-se de todo, n\u00e3o ficando l\u00e1 sen\u00e3o os Tokugawas,<br \/>\nos hattamotos, e a Corte de Iyemochi com as suas duas c\u00e2maras, e os seus samurais<br \/>\ne funcion\u00e1rios permanentes<\/p>\n<p>Por essa ocasi\u00e3o, a 15 de abril de 1863, o Ministro plenipotenci\u00e1rio da Inglaterra,<br \/>\nem termos arrogantes, reclama uma indeniza\u00e7\u00e3o de cem mil libras esterlinas<br \/>\npelo assass\u00ednio de Richardson, desculpas formais pedidas pelo Governo Japon\u00eas<br \/>\nao Governo daquela Pot\u00eancia, e a execu\u00e7\u00e3o dos criminosos diante de uma for\u00e7a<br \/>\nnaval da Marinha Brit\u00e2nica que iria \u00e0 terra s\u00f3 para esse fim; e mais vinte<br \/>\ne cinco mil libras pelos feridos em diversas ocasi\u00f5es, e mais dez mil pelas<br \/>\nduas sentinelas mortas no ataque \u00e0 lega\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria, limitando em vinte<br \/>\ndias o prazo para uma resposta categ\u00f3rica e declarando que, no caso de recusa<br \/>\nou neglig\u00eancia por parte do Governo Japon\u00eas, passaria a quest\u00e3o \u00e0s m\u00e3os do<br \/>\nComandante em Chefe das for\u00e7as navais de Sua Majestade Brit\u00e2nica nas \u00e1guas<br \/>\ndo Extremo Oriente, o Almirante Kuper, para que tomasse este as medidas coercivas<br \/>\nque lhe parecessem acertadas.<\/p>\n<p>B\u00e1rbaros lhe chamavam os filhos do pa\u00eds, e com raz\u00e3o, porque b\u00e1rbaro n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 s\u00f3 o que comete barbarias, \u00e9 tamb\u00e9m todo aquele que comete barbaridades.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>5\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; A ABERTURA<\/h2>\n<p>O leonino arreganho n\u00e3o produziu por\u00e9m o efeito que esperava o le\u00e3o, e as<br \/>\novelhas acabaram por lhe fazer amargar um bem mau quarto de hora. Contavam<br \/>\nsem d\u00favida os brit\u00e2nicos que as coisas se passariam como pouco antes na sua<br \/>\nbrutal e desumana expedi\u00e7\u00e3o de Changai. \u2014 Quia nominor leo! mas os japoneses<br \/>\nn\u00e3o eram chineses, n\u00e3o tremeram de medo com as amea\u00e7as da Soberana dos Mares,<br \/>\nao contr\u00e1rio, mal o Micado teve not\u00edcia da atrevida reclama\u00e7\u00e3o, expediu ostensivamente<br \/>\no seguinte manifesto aos trinta e seis mais importantes dos duzentos e sessenta<br \/>\ne dois principais daimos do Imp\u00e9rio, no qual transparece toda a singela fortaleza<br \/>\nde sua alma:<\/p>\n<p>&#8220;Meus pr\u00edncipes. As gentes desses navios de guerra ingleses; que por teima<br \/>\nest\u00e3o a\u00ed fundeados em Yokohama, pedem-nos contas pela morte de alguns de seus<br \/>\ncompatriotas assassinados em nosso pa\u00eds, e como satisfa\u00e7\u00e3o querem n\u00e3o sei<br \/>\nquais e quantas coisas, de que nem vale a pena tratar, porque nenhuma delas<br \/>\nsem d\u00favida lhes ser\u00e1 concedida. Mas, como a formal e desprez\u00edvel recusa h\u00e1<br \/>\nde dar em resultado a guerra imediata, preparai-vos para ela com \u00e2nimo seguro.<br \/>\nDe minha pr\u00f3pria m\u00e3o vos envio Eu, Micado, este aviso para que estejais prontos<br \/>\nno primeiro momento. A campanha ser\u00e1 aberta por mim em pessoa.&#8221;<\/p>\n<p>O que h\u00e1 de mais not\u00e1vel neste ato \u00e9 o modo pelo qual o Imperador j\u00e1 se dirige<br \/>\ndiretamente aos daimos, a quem chama &#8220;Meus Pr\u00edncipes&#8221;, pondo assim inteiramente<br \/>\nde lado a autoridade shogunal. E n\u00e3o p\u00e1ra a\u00ed a inesperada a\u00e7\u00e3o do ex-fantasma<br \/>\nde Kioto: calculando este que o astucioso Shogun lhe poderia destruir a obra<br \/>\nt\u00e3o bem come\u00e7ada, trata de isol\u00e1-lo dos ministros estrangeiros e de evitar<br \/>\nque entre eles se tramem novas maquina\u00e7\u00f5es contra os seus planos; manda cham\u00e1-lo<br \/>\ncom a m\u00e1xima urg\u00eancia, dizendo-lhe que lhe precisa fazer em segredo de Estado<br \/>\nimportant\u00edssimas revela\u00e7\u00f5es. Iyemochi cai no la\u00e7o e vai a Kioto. Declara-lhe<br \/>\no Micado, em confid\u00eancia \u00edntima, achar-se o pa\u00eds em crise, e que pois a capital<br \/>\ndo Imperador e os seus arredores devem ser defendidos pelas for\u00e7as permanentes<br \/>\ndo Estado confiadas ao Shogun; e que decidida como est\u00e1 a expuls\u00e3o dos estrangeiros,<br \/>\nhaver\u00e1 guerra provavelmente e da\u00ed negocia\u00e7\u00f5es e ajustes a fazer pelo competente<br \/>\nPoder Executivo debaixo das vistas do Chefe da Na\u00e7\u00e3o; o que s\u00f3 pode ter lugar<br \/>\nno porto de Osaka por ser o mais pr\u00f3ximo da Corte Imperial (trinta e poucas<br \/>\nmilhas de dist\u00e2ncia); e mais que, declarada a guerra, competir\u00e1 ao Shogun<br \/>\nassumir o comando geral das for\u00e7as e entrar logo em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E, depois de uma pausa, em que o sil\u00eancio foi absoluto, o Micado acrescentou,<br \/>\nfranzindo levemente as sobrancelhas:<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 essa ocasi\u00e3o, meu jovem Shogun, a de melhor patenteardes a lealdade<br \/>\ndevida ao vosso Imperador e de pordes em relevo a vossa dedica\u00e7\u00e3o pela causa<br \/>\np\u00fablica, usando daquela mesma energia e veem\u00eancia com que repelistes \u00e0 m\u00e3o<br \/>\narmada o miser\u00e1vel bando de maltrapilhos e famintos que vos foi importunar<br \/>\nem Yedo!<\/p>\n<p>Iyemochi fingiu n\u00e3o compreender e disse com um meio sorriso:<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230; tenho ent\u00e3o de abandonar o governo do pa\u00eds? &#8230; Parece-me<br \/>\nque&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vos d\u00ea isso cuidado, pr\u00edncipe, atalhou o Imperador, far-vos-ei substituir<br \/>\ndurante a guerra por pessoa competente. Cumpra cada qual o seu dever observando<br \/>\nas minhas ordens e o resto ficar\u00e1 por minha conta, que tamb\u00e9m saberei cumprir<br \/>\ncom o meu. Na ocasi\u00e3o solene de assumirdes o comando das armas, confiar-vos-ei,<br \/>\nde m\u00e3o a m\u00e3o, a mesma sacrossanta espada que o imortal fundador da vossa dinastia<br \/>\nrecebeu diretamente das divinas m\u00e3os do meu antepassado Goyo Zei, quando tiveram<br \/>\nque repelir, em condi\u00e7\u00f5es talvez piores que as de hoje, a primeira invas\u00e3o<br \/>\nousada pelos b\u00e1rbaros do Ocidente nesta nossa terra t\u00e3o bem fechada dentro<br \/>\ndas &#8220;Cem Leis&#8221; por Tokugawa Iei\u00e1s, e a qual os descendentes deste pretendem<br \/>\nagora abrir \u00e0 cobi\u00e7a e \u00e0 sensualidade dos nossos inimigos! (Iyemochi tossiu<br \/>\nsem levantar os olhos.) Aprontai-vos para a guerra seguro da vit\u00f3ria, Tokugawa<br \/>\nIyemochi! H\u00e3o de chegar-vos \u00e0 boca o peixe e o sak\u00ea do triunfo! Com a espada<br \/>\nde Goyo Zei n\u00e3o podereis sair sen\u00e3o vencedor; al\u00e9m de que, \u00e9 minha inten\u00e7\u00e3o<br \/>\najudar-vos pelo meu lado, suplicando ao poderoso esp\u00edrito de meus av\u00f3s que<br \/>\nl\u00e1 das sublimes alturas vos proteja diretamente na patri\u00f3tica expedi\u00e7\u00e3o. Confiai<br \/>\nnisso! e ficareis satisfeito comigo, suponho eu, pois creio n\u00e3o ter regateado<br \/>\nconvosco as minhas gra\u00e7as.<\/p>\n<p>Iyemochi curvou-se at\u00e9 poder olhar pela frente os seus pr\u00f3prios joelhos e<br \/>\nrespondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Satisfeit\u00edssimo, Imperial Senhor! Longe de haverdes regateado as<br \/>\nvossas merc\u00eas, confundistes o meu cabal imerecimento com tanta prodigalidade.<br \/>\nVou daqui, sem perda de um instante, dar todas as provid\u00eancias para que as<br \/>\nvossas sagradas ordens sejam cumpridas \u00e0 risca&#8230; Parto imediatamente para<br \/>\nYedo e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! contrap\u00f4s o Imperador. Conv\u00e9m aos interesses do Estado que vos<br \/>\nquedeis em Kioto; dar-vos-ei parte quando for oportuno o tomardes \u00e0 vossa<br \/>\ncapital. Por enquanto vos deterei amigavelmente ao meu lado e, para que nada<br \/>\nvos falte aqui, vou mandar p\u00f4r \u00e0 vosas disposi\u00e7\u00e3o os dom\u00e9sticos de que houverdes<br \/>\nmister e, al\u00e9m das gueichas e menestr\u00e9is mais escolhidos do meu k\u00f3kio (har\u00e9m),<br \/>\numa guarda de honra na altura da vossa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Shogun baixou a cabe\u00e7a sem responder palavra. Estava prisioneiro. O cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nnaturalmente lhe estalava de c\u00f3lera, mas na sua fisionomia n\u00e3o transluziu<br \/>\ndela o menor vislumbre, porque n\u00e3o era debalde que os chins durante muitos<br \/>\ns\u00e9culos tinham ensinado ao Japon\u00eas o segredo da inalter\u00e1vel compostura do<br \/>\ngesto, a fria ci\u00eancia b\u00fadica de governar com a vontade a express\u00e3o do rosto<br \/>\nno meio das mais fortes como\u00e7\u00f5es morais, anestesiando os nervos condutores<br \/>\ne impedindo-lhes levarem ao semblante nem a menos l\u00facida centelha do oculto<br \/>\ninc\u00eandio, tapando a tempestade interior com uma indecifr\u00e1vel m\u00e1scara de cad\u00e1ver;<br \/>\ntriste e amarela ci\u00eancia que \u00e9 bem da \u00c1sia, e que s\u00f3 poderia ter sido refinada<br \/>\na tal extremo por uma ra\u00e7a velha, impass\u00edvel e hip\u00f3crita como a ra\u00e7a chinesa.<\/p>\n<p>Foi com o mais fino e perfeito sorriso nos l\u00e1bios e com a mais airosa rever\u00eancia<br \/>\nque o galante chefe dos Tokugawas se afastou do seu carcereiro, a recolher<br \/>\naos principescos aposentos de papel de seda que lhe haviam destinado no chiro<br \/>\nimperial.<\/p>\n<p>E aqui tem o leitor como conseguiu o Micado fechar na m\u00e3o a influ\u00eancia do<br \/>\nShogun. Produziu logo o fato grande esc\u00e2ndalo nos pa\u00e7os de Sua Majestade;<br \/>\nningu\u00e9m atinava como poderia funcionar da\u00ed em diante a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica,<br \/>\npois que o Imperador n\u00e3o haveria de ser ao mesmo tempo poder deliberativo<br \/>\ne poder executivo. Qual ent\u00e3o seria agora o seu intermedi\u00e1rio para com os<br \/>\ndaimos, se o chefe dos pr\u00edncipes ficava preso em Kioto? Iria o Monarca chamar<br \/>\n\u00e0 al\u00e7ada do Trono as Cortes Shogunais de Yedo? Mas isso, \u2014 que lhes<br \/>\nvalesse Amateras! \u2014 daria uma balb\u00fardia de todos os diabos! rosnavam<br \/>\nentre si, perplexos e formigantes os cortes\u00e3os imperiais, que nada entendiam<br \/>\nde administra\u00e7\u00e3o e viam periclitar muito a s\u00e9rio o seu doce e defumado \u00f3cio.<\/p>\n<p>Entretanto Komei, sem consultar nenhum dos seus Conselhos, nomeia o prestigioso<br \/>\nOwari para substituir em Yedo o Shogun durante a guerra; encarrega Nabeschima,<br \/>\ndaimo com direito \u00e0 sua inteira confian\u00e7a, de defender militarmente a vasta<br \/>\nbacia de Kuanto, onde se acha aquela capital, e entrega ao pr\u00edncipe de Hizen,<br \/>\nde quem j\u00e1 conhece a lealdade, a dire\u00e7\u00e3o das for\u00e7as mar\u00edtimas que devem proteger<br \/>\nas duas ba\u00edas de Suruga e Sagami e as costas da pen\u00ednsula de Izo. E a todos<br \/>\nos daimos, cujos principados confinem com o litoral, ordena que se recolham<br \/>\n\u00e0s competentes prov\u00edncias e que se provenham para a guerra.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o inglesa, nada, nem a mais ligeira refer\u00eancia nos seus<br \/>\natos oficiais; apenas, entre as instru\u00e7\u00f5es secretas dadas a Owari, no momento<br \/>\nda partida deste, recomenda-lhe que, a todas as perguntas do Ministro ingl\u00eas<br \/>\nsobre o caso, v\u00e1 respondendo sempre que o Shogun, em raz\u00e3o de interesse p\u00fablico<br \/>\ne ordem direta do Imperador, se acha, por tempo indeterminado, ausente da<br \/>\nsua capital, e que s\u00f3 ele pessoalmente pode dizer qualquer coisa sobre o assunto,<br \/>\npois foi o Shogunato quem, l\u00e1 por conta pr\u00f3pria; engendrou essa pantominice<br \/>\ndos tratados, da qual, como contr\u00e1ria que \u00e9 \u00e0s leis do pais, n\u00e3o cogita o<br \/>\nChefe da Na\u00e7\u00e3o, nem est\u00e1 disposto a cogitar; e mais que, se os ingleses impugnassem<br \/>\ntais raz\u00f5es com ofensas graves, ent\u00e3o prendesse o Ministro e todos os mais<br \/>\nque pudesse da mesma nacionalidade, facultando-lhe todavia os meios de comunicarem<br \/>\n\u00e0 sua esquadra que ser\u00e3o irrevogavelmente enforcados na praia \u00e0 primeira manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nhostil partida de bordo para a terra.<\/p>\n<p>Nada disso por\u00e9m chegou a acontecer. Terminado o prazo dos vinte dias, quando<br \/>\na Na\u00e7\u00e3o, j\u00e1 disposta para a guerra, contava que o Almirante Kuper resolvesse<br \/>\nlan\u00e7ar m\u00e3o das tais medidas coercivas com que o Ministro a amea\u00e7ara, eis que<br \/>\neste, \u00e0 vista da aus\u00eancia do Shogun, oferece um novo prazo de igual tamanho,<br \/>\ne depois ainda outro, que naturalmente n\u00e3o seria o \u00faltimo, se um fato decisivo<br \/>\nocorrido em Yokohama, onde havia ent\u00e3o o \u00fanico settlement existente no Imp\u00e9rio,<br \/>\nn\u00e3o viesse de modo imprevisto torcer o rumo da quest\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 que, enquanto no litoral se armavam as fortalezas e no interior as emin\u00eancias<br \/>\ndas montanhas, e enquanto os Tokugawas, tendo \u00e0 frente os pr\u00edncipes Aidzu,<br \/>\nOngasawa e Joren In, recorriam a todos os meios para libertar o seu chefe<br \/>\ndas m\u00e3os do Imperador, come\u00e7ava em Yokohama a formar-se o v\u00e1cuo em volta dos<br \/>\nestrangeiros que a\u00ed residiam, em n\u00famero maior do que era de esperar da m\u00e1<br \/>\nvontade dos donos da terra. Sem causa apreci\u00e1vel, sem nenhuma justificativa,<br \/>\nnem o menor coment\u00e1rio, organizava-se, pela calada e metodicamente, a emigra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo elemento ind\u00edgena, de uma \u00e0 outra ponta do settlement.<\/p>\n<p>Que significaria isso?&#8230; Que novidade haveria?&#8230; Ningu\u00e9m o explicava, e,<br \/>\num atr\u00e1s do outro, l\u00e1 se iam esgueirando os empregados do com\u00e9rcio e os serventes<br \/>\ndom\u00e9sticos naturais do pa\u00eds, alguns at\u00e9 abandonando o saldo a receber, sem<br \/>\nnenhum deles declarar ao patr\u00e3o porque deixava o servi\u00e7o, nem para onde se<br \/>\npunha. Qual seria o motivo de t\u00e3o estranha greve? Os oper\u00e1rios largavam a<br \/>\nobra ao meio, perdendo o que estava feito; desmanchavam-se ajustes vantajosos;<br \/>\nretiravam-se compromissos e palavras; fechavam-se casas comerciais e particulares<br \/>\ndepois de absolutamente esvaziadas; cambistas, negociantes, corretores, bufarinheiros,<br \/>\nkurumaias, kulis, todos enfim que constitu\u00edam o elemento nacional no settlement,<br \/>\ndesertavam silenciosamente, sem mostras de ressentimento, nem tristeza, carregados<br \/>\nde trouxas e com a filharada \u00e0s costas. Afinal, um ou outro retardat\u00e1rio,<br \/>\npreso por interesses de alta monta, liquidava \u00e0s pressas, sem olhar preju\u00edzo,<br \/>\nas \u00faltimas transa\u00e7\u00f5es e, j\u00e1 com as bagagens e a carro\u00e7a ou o barco \u00e0 espera,<br \/>\ndespedia-se para sempre.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Os europeus, a olharem de boca aberta uns para os outros, sem atinar nenhum<br \/>\ncom a raz\u00e3o daquele s\u00fabito abandono, viram-se reduzidos aos seus recursos<br \/>\npessoais, porque j\u00e1 n\u00e3o havia quem os servisse; muito gentleman teve que escovar<br \/>\nas pr\u00f3prias botas, e muita Iady que p\u00f4r o avental de cozinheira; e come\u00e7aram<br \/>\nlogo a imaginar em imin\u00eancia toda a sorte de perigos, acabando, como era natural,<br \/>\npor apoderar-se deles o p\u00e2nico, que ao fim de alguns dias tomava j\u00e1 as propor\u00e7\u00f5es<br \/>\nde intoler\u00e1vel ang\u00fastia.<\/p>\n<p>E no meio desse sobressalto terr\u00edvel, dessa expecta\u00e7\u00e3o de uma desgra\u00e7a que<br \/>\nningu\u00e9m explicava, ou cada qual explicava a seu modo para maior ansiedade<br \/>\ne desespero de todos, no meio dessa inc\u00f3gnita calamidade que ia rebentar sem<br \/>\nse saber donde, nem quando, come\u00e7aram a chegar, como um sopro de morte, as<br \/>\nprimeiras not\u00edcias de que as for\u00e7as japonesas j\u00e1 se mobilizavam ganhando os<br \/>\nlitorais; que o Imperador havia marcado o dia definitivo para a expulsa-o<br \/>\ndos estrangeiros, e que o &#8220;Bando dos Roninos&#8221;, como chamavam eles aos agitados<br \/>\nnativistas, j\u00e1 em f\u00faria descia a estrada do Tokaido na dire\u00e7\u00e3o de Yokohama<br \/>\npara invadir e saquear.<\/p>\n<p>Os ingleses, que eram os mais de perto ligados ao instante desastre e eram<br \/>\ntamb\u00e9m os mais afligidos pelo terror, foram agarrar-se ao seu Ministro pedindo-lhe<br \/>\ngarantias de vida e de propriedade. Houve reuni\u00e3o de diplomatas, conselhos<br \/>\nde autoridades navais, de chefes de corpora\u00e7\u00e3o e companhias; trocaram-se notas<br \/>\nentre as diversas lega\u00e7\u00f5es presentes; e afinal o Ministro ingl\u00eas comunica<br \/>\noficialmente aos seus compatriotas que &#8220;As for\u00e7as reunidas nas \u00e1guas japonesas<br \/>\nsob o comando em chefe do Almirante Kuper n\u00e3o eram suficientes para proteger<br \/>\na col\u00f4nia, garantir a exist\u00eancia e os bens dos s\u00faditos de Sua Majestade Brit\u00e2nica,<br \/>\nresidente no settlement de Yokohama, e que por conseguinte convidava os mesmos<br \/>\na tomarem at\u00e9 o dia 26 desse m\u00eas (julho de 1863) as medidas que lhes parecessem<br \/>\nnecess\u00e1rias para se porem ao abrigo da guerra marcada para aquela data.&#8221;<\/p>\n<p>E esta?&#8217;<\/p>\n<p>Foi pior que uma bomba explosiva t\u00e3o inopinado ultimatum da Chancelaria inglesa,<br \/>\ncaindo em cheio sobre a \u00e1vida e orgulhosa col\u00f4nia, cujos membros, justamente<br \/>\nnesses dois \u00faltimos anos, tinham em grande n\u00famero feito vir da Europa as competentes<br \/>\nfam\u00edlias para junto de si. E semelhante confiss\u00e3o de fraqueza por parte dos<br \/>\nenviados oficiais da mais forte Pot\u00eancia mar\u00edtima que ali se achava, punha,<br \/>\nnem s\u00f3 os ingleses, mas todos os estrangeiros de Yokohama, em estreit\u00edssimo<br \/>\napuro: se a Gr\u00e3-Bretanha n\u00e3o podia proteger os seus s\u00faditos quanto mais os<br \/>\noutros Estados!<\/p>\n<p>E para onde diabo queria o Ministro ingl\u00eas que fugissem os seus compatriotas?<br \/>\nPara onde, se de um lado estavam as for\u00e7as japonesas, aos milhares e assanhadas<br \/>\nde \u00f3dio; e do outro o Oceano, sem um s\u00f3 navio que os abrigasse, pois os existentes<br \/>\neram todos indispens\u00e1veis para o combate? E como os ingleses, os mais se encheram<br \/>\nde pavor; holandeses, russos, alem\u00e3es, norte-americanos e franceses viam-se<br \/>\nj\u00e1 encurralados no estreito setilement, com suas fam\u00edlias e seus haveres,<br \/>\ndentro de um c\u00edrculo de fogo, exterminados at\u00e9 o \u00faltimo por uma guerra feroz<br \/>\ne b\u00e1rbara, feita a ponta de azagaia e bombas incendi\u00e1rias como usavam os japoneses.<\/p>\n<p>A agonia foi terr\u00edvel. A cada momento contavam com o ataque do bando assolador.<br \/>\nEnt\u00e3o, nem era de esperar menos de t\u00e3o superiores ra\u00e7as, acudiu ao alto esp\u00edrito<br \/>\nde todos os representantes estrangeiros as id\u00e9ias filantr\u00f3picas e os deveres<br \/>\nmorais da civiliza\u00e7\u00e3o. Foram lembradas, na ardente eloq\u00fc\u00eancia dos momentos<br \/>\ncr\u00edticos, todas as conquistas humanit\u00e1rias feitas at\u00e9 esse ponto do nosso<br \/>\ns\u00e9culo de luz pelo Internacionalismo liberal e triunfante! &#8220;Para que a guerra?<br \/>\n\u2014 pergunta oficialmente o Coronel Neale, em nome de todos os diplomatas<br \/>\nresidentes em Yokohama, no seu longo Manifesto de 19 de julho de 1863 dirigido<br \/>\nao Governador de Kanagawa e daquela cidade. \u2014 Para que a guerra, se<br \/>\no fim da Europa no formoso Oriente \u00e9 a confraterniza\u00e7\u00e3o e a paz? Em vez de<br \/>\nlutarmos, melhor ser\u00e1 que nos entendamos e que nos amemos. O que por si imp\u00f5e<br \/>\nantes de mais nada, como indeclin\u00e1vel necessidade do progresso humano, \u00e9 que<br \/>\no nobre, o corajoso Povo Japon\u00eas, a tantos t\u00edtulos obrigado moralmente a compreender<br \/>\nas nossas boas inten\u00e7\u00f5es, resolva por uma vez abandonar essa id\u00e9ia de m\u00e1 vontade<br \/>\ne resist\u00eancia contra os povos amigos, contra os seus irm\u00e3os do Ocidente, que<br \/>\no procuram para a consorcia\u00e7\u00e3o universal, e nos abra os bra\u00e7os e nos receba<br \/>\ncomo n\u00f3s outros em nossos pa\u00edses fazemos, nem s\u00f3 com os japoneses, mas com<br \/>\ntodo e qualquer indiv\u00edduo proveniente seja de que na\u00e7\u00e3o for.&#8221;<\/p>\n<p>O manifesto em que vinha este t\u00f3pico de requentada ternura produziu o seu<br \/>\nefeito, gra\u00e7as aos Tokugawas que trabalhavam ativamente contra a guerra. Desceu<br \/>\nlogo de Yedo uma Embaixada presidida pelo transator Sakai Ukio, ministro do<br \/>\nShogun e amigo dos estrangeiros, com o qual chegaram os ingleses \u00e0 fala e<br \/>\nlogo entraram a negociar as pazes, ficando inteiramente de parte a pend\u00eancia<br \/>\nda indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre os nativistas por\u00e9m o efeito do manifesto foi bem diverso. Um deles<br \/>\nchegou a litografar um violento libelo que fez espalhar por Yokohama e no<br \/>\nqual, entre muitas coisas, dizia:<\/p>\n<p>&#8220;Com que ent\u00e3o esse Colosso Europeu, esse roncador atrevido, at\u00e9 aqui t\u00e3o<br \/>\narrogante nas suas indevidas reclama\u00e7\u00f5es, encolhe-se agora diante do perigo,<br \/>\nporque, diz ele, receia lhe matem a mulher e os filhos?! Mas n\u00e3o foi o perigo<br \/>\nque os foi buscar \u00e0 casa; foram eles que vieram buscar o perigo \u00e0 casa alheia!<br \/>\nQue se ag\u00fcentem! se lhes \u00e9 duro o transe, mais dura \u00e9 a pedra em que a sua<br \/>\naud\u00e1cia nos converteu o cora\u00e7\u00e3o! Tremem pela mulher, os filhos; e n\u00f3s? n\u00f3s<br \/>\nacaso n\u00e3o teremos tamb\u00e9m fam\u00edlia, que vivia feliz e tranq\u00fcila ao nosso lado,<br \/>\ne agora se v\u00ea, talvez para sempre, privada do seu chefe que, em vez de cuidar<br \/>\ndela; anda \u00e0 aventura das armas para defender a outra sua fam\u00edlia maior, que<br \/>\n\u00e9 a p\u00e1tria?! Que \u00e9 feito das tais medidas coercivas do famoso Almirante Kuper?<br \/>\nPois ent\u00e3o, apesar de todo esse espetaculoso aparato de for\u00e7a; apesar dessas<br \/>\nnumerosas m\u00e1quinas de guerra contra as quais s\u00f3 temos para opor o nosso brio<br \/>\nnacional; apesar da t\u00e3o celebrada ci\u00eancia e t\u00e3o decantada coragem desses orgulhos<br \/>\ndonos dos mares alheios; apesar dessas dragonas de ouro e desses chap\u00e9us de<br \/>\npluma que fizeram rebentar de medo o Imperador da China nas profundezas empedradas<br \/>\nde Pekin; pois, apesar de tudo isso, n\u00f3s, os japoneses, esparsos e mal disciplinados,<br \/>\nsem outra arte na guerra mais do que a luta corpo a corpo e sem outra for\u00e7a<br \/>\nal\u00e9m da pr\u00f3pria coragem e da convic\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica, por tal modo os aterramos<br \/>\nque, \u00e0 primeira not\u00edcia de um ataque eventual, declaram-se impotentes para<br \/>\ndefender o territ\u00f3rio cinicamente ocupado contra a vontade do dono, e escondem-se<br \/>\natr\u00e1s das saias da fam\u00edlia, a pedir pazes com fementidas palavras de ternura?!<br \/>\nPara que ent\u00e3o gritaram t\u00e3o alto?! Por que nos ofenderam, se n\u00e3o tinham cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npara resistir?! N\u00e3o! N\u00f3s, como o nosso Imperador, n\u00e3o queremos a paz, nem<br \/>\nqueremos amizade com estrangeiros! Guardem eles para si a sua civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ne os seus progressos e com eles se fartem para longe de que lhos n\u00e3o pediu!<br \/>\nResistiremos at\u00e9 o fim! Se os degenerados Tokugawas conseguirem reter os Daimos,<br \/>\nn\u00e3o conseguir\u00e3o jamais reter o nosso \u00f3dio mortal e a enorme sede de vingan\u00e7a<br \/>\nque nos devora; e n\u00f3s, que j\u00e1 n\u00e3o temos outro chefe, al\u00e9m dos deuses e do<br \/>\nMicado, havemos de tapar com terra a boca que nos insultou!&#8221;<\/p>\n<p>Quando subiu ao conhecimento do Imperador a proposta de paz, fez ele logo<br \/>\nenviar, como resposta, a todos os representantes diplom\u00e1ticos estrangeiros<br \/>\nas seguintes singel\u00edssimas palavras:<\/p>\n<p>&#8220;Meu Povo n\u00e3o quer rela\u00e7\u00f5es com estrangeiros. A cada momento a gente do pa\u00eds<br \/>\nest\u00e1 matando ou est\u00e1 com vontade de matar ingleses, e a Inglaterra quer que<br \/>\nse pague. O meu Governo fez j\u00e1 quanto p\u00f4de a ver se as coisas se acomodavam,<br \/>\nnada por\u00e9m conseguiu, nem conseguir\u00e1, em raz\u00e3o do entranhado \u00f3dio do meu Povo<br \/>\npelos estrangeiros; \u00f3dio que aperta de dia para dia que nem o sol do m\u00eas de<br \/>\nagosto. Assim resolvi fechar definitivamente os portos e convidar por bem<br \/>\nos estrangeiros a que se retirem do pa\u00eds para evitar novas quest\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>Enquanto o Micado procedia deste modo, t\u00e3o franco, t\u00e3o superior e t\u00e3o singelo,<br \/>\no Ministro ingl\u00eas, de m\u00e3os dadas ao da Fran\u00e7a, obtinham ambos corresponder-se<br \/>\ncom o Shogun e, aproveitando a falsa posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em que se achava este<br \/>\nperante o Imperador e perante o povo, de um prisioneiro e do outro desprezado,<br \/>\npropunham-lhe secretamente uma alian\u00e7a ofensiva e defensiva, comprometendo-se<br \/>\na auxili\u00e1-lo com as for\u00e7as navais de que dispunham, caso ele quisesse readquirir<br \/>\no alto poder que lhe havia escapado das m\u00e3os.<\/p>\n<p>Este fato n\u00e3o precisa coment\u00e1rios; basta dizer que \u00e9 um caso hist\u00f3rico corrente<br \/>\nem todas as cr\u00f4nicas japonesas, mas que nenhum europeu ou norte-americano<br \/>\no narra de modo claro e positivo nos seus livros.<\/p>\n<p>Compreende-se que aos estrangeiros n\u00e3o conviesse de maneira alguma o aniquilamento<br \/>\ndo Shogun, principalmente depois que o Imperador declarara n\u00e3o cogitar dos<br \/>\ntratados l\u00e1 entre eles feitos; compreende-se ainda que, conhecendo aqueles<br \/>\num pouco melhor agora o mecanismo da pol\u00edtica japonesa e reconhecendo ter<br \/>\npisado em falso, quisessem a todo custo salvar de modo airoso a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o;<br \/>\nmas o que se n\u00e3o compreende \u00e9 que essa gente civilizada n\u00e3o tivesse um pouco<br \/>\nde consci\u00eancia ou de escr\u00fapulo em urdir o mal, que estava a tramar contra<br \/>\na paz e os direitos desse pobre povo, a quem pediam pazes em nome da filantropia<br \/>\ne do amor universal. Positivamente tinham os japoneses raz\u00e3o em chamar-lhes<br \/>\nb\u00e1rbaros! E note-se que, se por um lado os diplomatas estrangeiros se mostravam<br \/>\ndesumanos, por outro se revelavam in\u00e1beis, porque pretender destronar o Micado<br \/>\nera pisar muito mais em falso ainda do que ter tomado o Shogun pelo Imperador<br \/>\ndo Jap\u00e3o como fizeram na primeira desca\u00edda. Seria mais f\u00e1cil arrasar o Fuji<br \/>\nYama ou transladar para a Calif\u00f3rnia o Daibutsu, como diligenciaram os yankees<br \/>\nna sua impertinente megalomania, do que p\u00f4r abaixo o divino espectro de Kioto<br \/>\ndo m\u00edstico pedestal em que havia dois mil e duzentos anos imperava. Tentando<br \/>\nsemelhante coisa, o que conseguiriam os estrangeiros havia de ser, e com efeito<br \/>\nfoi, ensang\u00fcentar a presa que acossavam e agravar a desgra\u00e7a dos Tokugawas,<br \/>\na quem ali\u00e1s deviam gratid\u00e3o por serem esses no pa\u00eds a \u00fanica for\u00e7a ativa que<br \/>\nos n\u00e3o desprezava, nem odiava. Ver\u00e1 depois o leitor em que esp\u00e9cie pagou o<br \/>\nIngl\u00eas aos descendentes de Iei\u00e1s essa excepcional prote\u00e7\u00e3o, sem a qual todavia<br \/>\nn\u00e3o teriam penetrado no sedutor arquip\u00e9lago, sen\u00e3o depois de arras\u00e1-lo com<br \/>\na sua civiliza\u00e7\u00e3o de grande alcance forjada na universidade de Krupp.<\/p>\n<p>O Shogun, coitado! acolheu com as duas m\u00e3os a proposta que solicitamente<br \/>\nlhe levavam os dois civilizadores ministros; mas, ao aconcheg\u00e1-la reconfortado<br \/>\nao peito, picou-se logo num espinho que ia dentro dissimulado no embrulho,<br \/>\nera o ultimatum da indeniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! isso era sagrado! explicou o ingl\u00eas; antes de mais nada, convinha<br \/>\nsatisfazer Sua Majestade Brit\u00e2nica a respeito daquelas belas cento e tantas<br \/>\nmil libritas reclamadas. Sem isso n\u00e3o havia neg\u00f3cio feito!<\/p>\n<p>E o que a isto se seguiu \u00e9 inacredit\u00e1vel. O Shogun que, apesar de tudo, dispunha<br \/>\nainda do Tesouro p\u00fablico e era por si mesmo e sua fam\u00edlia imensamente rico,<br \/>\nentrou com o Ministro ingl\u00eas no seguinte acordo. Pagava as cento e cinq\u00fcenta<br \/>\ne cinco mil libras esterlinas, mais que fossem, porque a quest\u00e3o n\u00e3o era de<br \/>\ndinheiro; pagava, com uma condi\u00e7\u00e3o por\u00e9m \u2014 o Ministro ingl\u00eas havia de<br \/>\ncomprometer-se, sob palavra de honra, a guardar segredo, de modo que o fato<br \/>\nn\u00e3o transpirasse dentro do Jap\u00e3o e que jamais, em nenhuma hip\u00f3tese, fosse<br \/>\nsabido pelo Micado, nem pelo povo.<\/p>\n<p>O Ingl\u00eas aceitou. Pudera! E a indeniza\u00e7\u00e3o foi efetivamente paga em segredo,<br \/>\n\u00e0s quatro horas da madrugada do dia 24 de agosto de 1863. O dinheiro foi levado<br \/>\n\u00e0 Lega\u00e7\u00e3o da Inglaterra em carretas de m\u00e3o e dentro de cunhetas abarrotadas<br \/>\nde muito boa moeda de prata e ouro.<\/p>\n<p>Vergonhas de parte a parte. Ah! mas o Jap\u00e3o her\u00f3ico e brioso n\u00e3o tinha morrido<br \/>\ncom a fam\u00edlia Tokugawa. Enquanto essas baixezas se mercadejavam no balc\u00e3o<br \/>\nda Chancelaria londrina com um indigno descendente de Iei\u00e1s, o destemido Mori,<br \/>\no pr\u00edncipe de Nagato, em cujas veias corria o mesmo sangue de Mito, ao saber<br \/>\ndo ocorrido,. corre \u00e0s fortalezas do litoral, denuncia o revoltante caso e<br \/>\ntoca com os seus tr\u00eas fr\u00e1geis navios para as \u00e1guas de Chimonoseki na entrada<br \/>\ndo Mar Interior, onde se ostentavam vasos de guerra de todos os Estados ocidentais<br \/>\ncom pretens\u00f5es no Jap\u00e3o, e a\u00ed, cercado de seus samurais intransigentes e protegido<br \/>\npelas baterias de terra, lavrou o protesto da honra nacional, cuspindo balas<br \/>\nsobre aqueles, do primeiro ao \u00faltimo, ao mesmo tempo, sem medir for\u00e7as, nem<br \/>\nescolher bandeiras. Bombardeou o navio ingl\u00eas Euryalus, os franceses Kien-Chan,<br \/>\nTancr\u00eade, os norte-americanos Pembroke e Wyoming, o alem\u00e3o Semiramis, e o<br \/>\nholand\u00eas Medusa, que ficou incendiado, a arder no meio daquelas \u00e1guas profanadas,<br \/>\ncom a triunfante pira do patriotismo, ali acesa por um raio vingador para<br \/>\niluminar a eterna desafronta.<\/p>\n<p>Agora, que vencessem os estrangeiros! s\u00f3 venceriam j\u00e1 esbofeteados!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: 1\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; JIMMU TENN\u00d3 &#8211; JING\u00d3 KOG\u00d3 &#8211; YORITOMO 2\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; NOBUNAGA &#8211; TAIKO~SAMA &#8211; IEIAS 3\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; O COMODORO PERRY Ii KAMMON 4\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; ELIMINARAM LI KAMMON 5\u00ba Cap\u00edtulo &#8211; A ABERTURA &nbsp; Gra\u00e7as \u00e0 recente vulgariza\u00e7\u00e3o das cr\u00f4nicas japonesas, dantes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92161","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Jap\u00e3o - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra O Jap\u00e3o - Alu\u00edsio de Azevedo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Jap\u00e3o - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Livro, Cr\u00f4nicas, Literatura, O Jap\u00e3o - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Jap\u00e3o - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra O Jap\u00e3o - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Jap\u00e3o - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Livro, Cr\u00f4nicas, Literatura, O Jap\u00e3o - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-japao-aluisio-de-azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-03T15:50:05+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2018-05-03T18:38:27+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"134 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-japao-aluisio-de-azevedo#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-japao-aluisio-de-azevedo\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"O Jap\u00e3o &#8211; 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