{"id":92157,"date":"2017-01-03T13:43:45","date_gmt":"2017-01-03T15:43:45","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92157"},"modified":"2018-05-03T16:34:06","modified_gmt":"2018-05-03T18:34:06","slug":"o-homem-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-homem-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"O Homem &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><script src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\" async=\"\"><\/script><!-- ads_responsivo --> <ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block;\" data-ad-client=\"ca-pub-7159766377354473\" data-ad-slot=\"3162710741\" data-ad-format=\"auto\"><\/ins><script>\/\/ <![CDATA[\n(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n\/\/ ]]><\/script><\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\" height=\"299\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong>I<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#2\">II<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#3\">III <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#4\">IV<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#5\">V<\/a><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#6\"><strong>VI <\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#7\">VII<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#8\">VIII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#9\">IX <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#10\">X<\/a><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#11\"><strong>XI <\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#12\">XII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#12\">XIII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#14\">XIV<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#15\"><strong>XV<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#16\">XVI<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#17\">XVII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#18\">XVIII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#19\">XIX<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#20\">XX<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#21\">XXI <\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I<\/h2>\n<p>Madalena, ou simplesmente Magd\u00e1, como em fam\u00edlia tratavam a filha do Sr.<br \/>\nConselheiro Pinto Marques, estava, havia duas horas, estendida num div\u00e3 do<br \/>\nsal\u00e3o de seu pai, toda vestida de preto, sozinha, muito aborrecida, a cismar<br \/>\nem coisa nenhuma; a cabe\u00e7a apoiada em um dos bra\u00e7os, cujo cotovelo ficava<br \/>\nnuma almofada de cetim branco bordada a ouro; e a seus p\u00e9s, esquecido sobre<br \/>\num tapete de pelos de urso da Sib\u00e9ria, um livro que ela tentara ler e sem<br \/>\nd\u00favida lhe tinha escapado das m\u00e3os insensivelmente.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o havia ainda um m\u00eas que chegara da Europa, depois de um longo<br \/>\npasseio que o pai fizera com sacrif\u00edcio, para ver se lhe obtinha melhoras<br \/>\nde sa\u00fade.<\/p>\n<p>Melhoras! Que esperan\u00e7a! &#8211; Magd\u00e1 voltou no estado em que partiu, se \u00e9 que<br \/>\nn\u00e3o voltou mais nervosa e impertinente. O Conselheiro, coitado, desfazia-se<br \/>\nem esfor\u00e7os por tir\u00e1-la daquela prosta\u00e7\u00e3o, mas era tudo in\u00fatil: de dia para<br \/>\ndia, a pobre mo\u00e7a tornara-se mais melanc\u00f3lica, mais insoci\u00e1vel, mais amiga<br \/>\nde estar s\u00f3. Era preciso fazer milagres para distra\u00ed-la um segundo; era preciso<br \/>\nde cada vez inventar um novo engodo para obter que ela comesse alguma coisa<br \/>\n. Estava j\u00e1 muito magra, muito p\u00e1lida, com grandes olheiras cor de saudade;<br \/>\nnem parecia a mesma. Mas, ainda assim, era bonita.<\/p>\n<p>Morava com o pai e mais uma tia velha chamada Camila numa boa casa na praia<br \/>\nde Botafogo. Pr\u00e9dio talvez um pouco antigo, por\u00e9m limpo; desde o port\u00e3o da<br \/>\nch\u00e1cara pressentia-se logo que ali habitava gente fina e de gosto bem educado;<br \/>\natravessando-se o jardim por entre a simetria dos canteiros e limosas est\u00e1tuas<br \/>\ncobertas de verdura, e enormes vasos de tinhor\u00f5es e beg\u00f4nias do Amazonas,<br \/>\ne bolhas de vidro de v\u00e1rias cores com pedestal de ferro fosco, e lampi\u00f5es<br \/>\nde tr\u00eas globos que surgiam de pequeninos grupos de palmeiras sem tronco, e<br \/>\nbancos de madeira r\u00fastica, e tambores de faian\u00e7a azul-nanquim, alcan\u00e7ava-se<br \/>\numa vistosa escadaria de granito, cujo patamar guarneciam duas grandes \u00e1guias<br \/>\nde bronze polido, com as asas em meio descanso, espalmando as nodosas garras<br \/>\nsobre colunatas de pedra branca. Na sala de entrada, por entre muitos objetos<br \/>\nde arte, notava-se, mesmo de passagem, meia d\u00fazia de telas originais; umas<br \/>\nem cavaletes, outras suspensas contra a parede por grossos cord\u00f5es de seda<br \/>\nfrouxa; e, afastando o soberbo reposteiro de reps verde que havia na porta<br \/>\ndo fundo, penetrava-se imediatamente no principal sal\u00e3o da casa.<\/p>\n<p>O sal\u00e3o era magn\u00edfico. Paredes forradas por austera tape\u00e7aria de linho ingl\u00eas<br \/>\ncor de cobre e guarnecida por leg\u00edtimos caquimanos, em que se destacavam grupos<br \/>\nde chins em lutas fant\u00e1sticas com drag\u00f5es bordados a ouro; as figuras saltavam<br \/>\nem relevo do fundo dos pain\u00e9is e mostravam as suas caras t\u00fargidas e bochechudas,<br \/>\ncom olhos de vidro, cabeleiras de cabelo natural e roupas de seda e pel\u00facia.<br \/>\nCobria o ch\u00e3o da sala um vasto tapete Pompadour, aveludado, cujo matiz, entre<br \/>\nvermelho e roxo, afirmava admiravelmente com os tons quentes das paredes.<br \/>\nDo meio do teto, onde se notava grande sobriedade de tintas e guarni\u00e7\u00f5es de<br \/>\nestuque, descia um precioso lustre de porcelana de Saxe, sobrecarregado de<br \/>\nanjinhos e flores coloridas e p\u00e1ssaros e borboletas, tudo disposto com muita<br \/>\narte numa complicad\u00edssima combina\u00e7\u00e3o de grupos. Por baixo do lustre, uma otomana<br \/>\ncor de p\u00e9rola, em forma de c\u00edrculo, tendo no centro uma jardineira de lou\u00e7a<br \/>\nesmaltada onde se viam plantas naturais. A mob\u00edlia era toda variada; n\u00e3o havia<br \/>\ntrastes semelhantes; tanto se encontravam m\u00f3veis do \u00faltimo gosto, como pe\u00e7as<br \/>\nantigas, de cl\u00e1ssicos estilos consagrados pelo tempo. Da parede contr\u00e1ria<br \/>\n\u00e0 entrada dominava tudo isto um imenso espelho sem moldura, por debaixo do<br \/>\nqual havia um consolo de \u00e9bano, com tampo de m\u00e1rmore e mosaicos de Floren\u00e7a,<br \/>\nsuportando um p\u00eandulo e dois candelabros bizantinos; ao lado do consolo uma<br \/>\npoltrona de laqu\u00ea dourado com assento de palhinha e uma cadeira de espaldar,<br \/>\nforrada de gorgor\u00e3o branco listrado de veludo; logo adiante um div\u00e3 com estofos<br \/>\ntrabalhados na Turquia.<\/p>\n<p>Era neste div\u00e3 que a filha do Sr. Conselheiro achava-se estendida havia duas<br \/>\nhoras, deixando-se roer pelos seus t\u00e9dios, aos bocadinhos, com os olhos paralisados<br \/>\nnum ponto, que ela n\u00e3o via.<\/p>\n<p>Foi interrompida pelo pai.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Como passaste a noite, minha flor?<\/p>\n<p>Magd\u00e1 fez um gesto de des\u00e2nimo, soerguendo-se na almofada de cetim, e tossiu.<br \/>\nO Conselheiro assentou-se ao lado dela e tomou-lhe as m\u00e3os com fidalga meiguice.<\/p>\n<p>\u2014 Pregui\u00e7osa!&#8230;<\/p>\n<p>Um belo homem! Alto, bem apessoado, fibra seca, barba a Francisco I, toda<br \/>\nbranca, olhos ainda vivos e uma calva incompleta que lhe ia at\u00e9 ao meio da<br \/>\ncabe\u00e7a, dando-lhe ao rosto uma fina express\u00e3o inteligente e aristocrata.<\/p>\n<p>Fora da marinha, mas aos trinta e cinco anos pedira a sua demiss\u00e3o, instalara-se<br \/>\nno Rio de Janeiro, e casara, entregando-se desde essa \u00e9poca \u00e0 pol\u00edtica conservadora.<br \/>\nEnviuvou pouco depois do nascimento de Magd\u00e1, \u00fanico fruto do seu matrim\u00f4nio;<br \/>\nchamou ent\u00e3o para junto de si a irm\u00e3, D. Camila, que vivia nesse tempo agregada<br \/>\n\u00e0 casa de outros parentes mais remotos; a filha foi entregue a uma ama at\u00e9<br \/>\nchegar \u00e0 idade de entrar como pensionista num col\u00e9gio de irm\u00e3s de caridade.<\/p>\n<p>Era a essa infeliz crian\u00e7a, t\u00e3o cedo privada do amor de m\u00e3e, que o conselheiro<br \/>\ndedicava a maior parte dos seus afetos, e era tamb\u00e9m das suas m\u00e3os pequeninas<br \/>\nque recebia coragem para enfrentar os desconsolos da viuvez e as neves, que<br \/>\nia encontrando do meio para o resto do caminho da vida. E era ainda essa crian\u00e7a,<br \/>\nj\u00e1 mulher, que o desgra\u00e7ado via agora escapar-lhe dos bra\u00e7os e fugir-lhe para<br \/>\na morte, arrastando atr\u00e1s de si um triste sud\u00e1rio de m\u00e1goas brancas, m\u00e1goas<br \/>\nde donzela, m\u00e1goas flutuantes, que pareciam feitas de espuma, e contra as<br \/>\nquais no entanto se despeda\u00e7avam todo o seu valor de homem e todas as for\u00e7as<br \/>\ndo seu cora\u00e7\u00e3o de pai.<\/p>\n<p>Coitadinha! Havia dois anos que se achava nesse estado. Pode-se todavia afirmar<br \/>\nque come\u00e7ara a sofrer deste a fatal ocasi\u00e3o em que a convenceram da impossibilidade<br \/>\ndo seu casamento com Fernando.<\/p>\n<p>Que romance!<\/p>\n<p>Fernando fora o seu companheiro de inf\u00e2ncia, o seu amigo; cresceram juntos.<br \/>\nQuando ela nasceu, encontrou-o j\u00e1 em casa do pai com cinco anos de idade,<br \/>\ne desde muito cedo habituaram-se ambos \u00e0 id\u00e9ia de que nunca pertenceriam sen\u00e3o<br \/>\num ao outro.<\/p>\n<p>Segundo o que sabia, toda a gente, este Fernando era um afilhado, que o Sr.<br \/>\nConselheiro adotara por compaix\u00e3o e a quem mandara instruir; o certo \u00e9 que<br \/>\no estimava muito e n\u00e3o menos verdade era que o rapaz merecia esta estima;<br \/>\ndera sempre boas contas de si, e desde o col\u00e9gio j\u00e1 se adivinhava nele um<br \/>\nhomem \u00fatil e honrado. Um belo dia, por\u00e9m, quando andava no pen\u00faltimo ano de<br \/>\nmedicina, o padrinho chamou-o ao seu gabinete e disse-lhe que, de algum tempo<br \/>\n\u00e0quela parte, observava-lhe com refer\u00eancia a Magd\u00e1 uma certa ternura, que<br \/>\nn\u00e3o lhe parecia inspirada s\u00f3 pela amizade.<\/p>\n<p>Fernando sorriu-lhe e fez-se um pouco vermelho.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito, confessou, havia j\u00e1 bastante tempo que sentia pela filha<br \/>\ndo seu padrinho muito mais do que simples amizade. E toda a sua ambi\u00e7\u00e3o, todo<br \/>\no seu desejo, era vir a despos\u00e1-la logo que se formasse; tanto assim, que<br \/>\ntencionava, mal conclu\u00edsse os estudos, pedi-la em casamento.<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9 imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel? interrogou o rapaz erguendo os olhos para o Conselheiro.<br \/>\n\u2014 Imposs\u00edvel, como?<\/p>\n<p>O velho fez um gesto de resigna\u00e7\u00e3o e acrescentou em voz sumida:<\/p>\n<p>\u2014 Magd\u00e1 \u00e9 tua irm\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Minha irm\u00e3&#8230;?<\/p>\n<p>Houve um constrangimento entre os dois. No fim de alguns segundos, o Conselheiro<br \/>\ndeclarou que n\u00e3o tencionava fazer t\u00e3o cedo semelhante revela\u00e7\u00e3o, e que nem<br \/>\na faria se a isso o n\u00e3o obrigassem as circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Fernando estava abismado. Sua irm\u00e3. Visto isto &#8211; toda essa hist\u00f3ria, que<br \/>\nele conhecia desde pequeno; essa hist\u00f3ria, em que figurava como filho de um<br \/>\npobre marinheiro vi\u00favo, falecido a bordo, era&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Uma f\u00e1bula, concluiu o pai de Magd\u00e1, sempre de olhos baixos. \u2014<br \/>\nInventei-a para esconder a minha culpa.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o teve um ar de censura.<\/p>\n<p>\u2014 Bem sei que fiz mal, prosseguiu o velho, hesitando em levantar a<br \/>\ncabe\u00e7a. \u2014 Mas n\u00e3o podia declarar-me teu pai sem preju\u00edzo de tua parte<br \/>\ne sem enxovalhar a mem\u00f3ria daquela que te deu o ser. Era casada com outro<br \/>\ne tu nasceste ainda em vida de minha mulher. O marido de tua m\u00e3e estava ausente<br \/>\nquando vieste ao mundo; ignorou sempre a tua exist\u00eancia, e enviuvou quando<br \/>\ntinhas apenas dois anos de idade. Eu ent\u00e3o carreguei contigo para casa, inventei<br \/>\no que at\u00e9 aqui supunhas verdade e nunca mais te abandonei.<\/p>\n<p>Fernando deixou-se cair numa cadeira. O pai continuou, aproximando-se mais,<br \/>\ne falando-lhe em surdina:<\/p>\n<p>\u2014 Minha inten\u00e7\u00e3o era esconder esse segredo at\u00e9 no dia em que depois<br \/>\nde minha morte, viesses a saber que estavas perfilado por mim e contemplado<br \/>\nnas minhas disposi\u00e7\u00f5es testament\u00e1rias; mas &#8211; o homem p\u00f5e e Deus disp\u00f5e &#8211; para<br \/>\nmeu castigo, quis a fatalidade que te agradasses de tua irm\u00e3 e, como bem v\u00eas,<br \/>\ns\u00f3 me restava agora confessar francamente a situa\u00e7\u00e3o. Ficas, por conseguinte,<br \/>\nprevenido de que, de hoje em diante, deves empregar todos os meios para afastar<br \/>\ndo esp\u00edrito de Magd\u00e1 qualquer esperan\u00e7a de casamento, que ela por ventura<br \/>\nmantenha a teu respeito&#8230;<\/p>\n<p>Fernando declarou que preferia desaparecer dali. Partiria no primeiro vapor<br \/>\nque encontrasse.<\/p>\n<p>N\u00e3o! isso seria loucura! Ele estava bem encaminhado e pouco lhe faltava para<br \/>\nterminar a carreira&#8230; Que se formasse e partiria depois.<\/p>\n<p>\u2014 Olha, concluiu o velho, passado um instante &#8211; caso prefiras estudar<br \/>\nainda um pouco na Europa, v\u00ea o lugar que te serve e conta comigo. N\u00e3o sou<br \/>\nrico, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9s extravagante; apenas o que te pe\u00e7o \u00e9 que, de modo<br \/>\nalgum, reveles a tua irm\u00e3 o que acabas de saber. Ser\u00e1 talvez uma quest\u00e3o de<br \/>\ntemperamento, mas creio que morreria se o fizesse.<\/p>\n<p>Quando o Conselheiro terminou, Fernando chorava.<\/p>\n<p>\u2014 E o marido de minha m\u00e3e? perguntou.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 dez anos que morreu; n\u00e3o deixou parentes.<\/p>\n<p>E o pai de Magd\u00e1, vendo que o filho parecia sucumbido, passou-lhe o bra\u00e7o<br \/>\nnas costas: \u2014 Ent\u00e3o! vamos, nada de fraquezas! um abra\u00e7o! e que esta<br \/>\nconversa fique aqui entre n\u00f3s dois.<\/p>\n<p>O rapaz prometeu e jurou que ningu\u00e9m, e muito menos Magd\u00e1, ouviria de sua<br \/>\nboca uma s\u00f3 palavra sobre aquele assunto. O velho agradeceu o protesto com<br \/>\num aperto de m\u00e3o; e ficaram ainda alguns momentos estreitados um contra o<br \/>\noutro, at\u00e9 que o Conselheiro se retirou, a limpar os olhos, e o rapaz caiu<br \/>\nde novo na cadeira, dobrando os cotovelos sobre uma mesa e escondendo no len\u00e7o<br \/>\nos seus solu\u00e7os, que agora lhe rebentavam desesperadamente.<\/p>\n<p>Foi Magd\u00e1 quem veio despert\u00e1-lo dali a meia hora, depois de o haver procurado<br \/>\nembalde por toda a casa.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, muito obrigado&#8230; ia dizer, mas deteve-se, intimidada pela express\u00e3o<br \/>\nque lhe notara na fisionomia. \u2014 Que era aquilo?&#8230; Ele estava chorando?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 senhores! Hoje nesta casa est\u00e3o todos amuados! Ao outro encontro<br \/>\nchorando, que nem um beb\u00ea; este diz-me que n\u00e3o est\u00e1 bom e que eu entretenha-me<br \/>\ncom a tia Camila! Ora j\u00e1 se viu!<\/p>\n<p>O pai afagou-lhe a cabe\u00e7a. \u2014 Esta tolinha!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, papai, que tem o Fernando?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, minha filha.<\/p>\n<p>\u2014 Diz que um amigo dele est\u00e1 muito mal&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois a\u00ed tens&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E voc\u00ea, papai, por que est\u00e1 triste?\u2014 N\u00e3o estou triste, apenas<br \/>\npreocupado. N\u00e3o \u00e9 nada contigo. Pol\u00edtica, sabes? Mas vai, vai l\u00e1 para dentro,<br \/>\nque tenho que fazer agora.<\/p>\n<p>\u2014 Pol\u00edtica!&#8230;<\/p>\n<p>Magd\u00e1 afastou-se, meio enfiada, mas da\u00ed a pouco se lhe ouviram os gorgeios<br \/>\ndo riso nos aposentos da tia Camila.<\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 estava o demoninho a bolir com a pobre da velha!<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II<\/h2>\n<p>A tristeza de Fernando, em vez de diminuir com o tempo, foi crescendo de<br \/>\ndia para dia. A irm\u00e3 bem o notou, mas j\u00e1 sem vontade de rir, nem dar\u00e1 parte<br \/>\nao Conselheiro; estava ent\u00e3o justamente no delicado per\u00edodo em que os \u00faltimos<br \/>\nencantos da menina desabotoam nas primeiras sedu\u00e7\u00f5es da mulher; transi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque come\u00e7a no vestido comprido e termina com o v\u00e9u de noiva.<\/p>\n<p>Quinze anos!<\/p>\n<p>E que bem empregados! Muito bem feita de corpo, elegante, olhos negros banhados<br \/>\nde azul, cabelos castanhos formos\u00edssimos; pele fina e melindrosa como p\u00e9talas<br \/>\nde cam\u00e9lia, nariz sereno feito de uma s\u00f3 linha, m\u00e3os e p\u00e9s de uma distin\u00e7\u00e3o<br \/>\nfascinadora; tudo isso real\u00e7ando nos seus vestidos simples de mo\u00e7a solteira<br \/>\nbem educada, na sua gesticula\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, na sua maneira original de mexer com<br \/>\na cabe\u00e7a quando falava, rindo e mostrando as j\u00f3ias da boca.<\/p>\n<p>Aquela insistente frieza do irm\u00e3o foi a sua primeira m\u00e1goa. Em come\u00e7o n\u00e3o<br \/>\nse preocupava muito com isso; quando viu, por\u00e9m, que os dias se passavam e<br \/>\nFernando continuava mais e mais a seco e retra\u00eddo, chegando at\u00e9 a evit\u00e1-la,<br \/>\nficou deveras apreensiva. \u2014 &#8220;Teria o rapaz mudado de resolu\u00e7\u00e3o a respeito<br \/>\ndo casamento? \u2014 Estaria enamorado de outra?&#8221; Estas duas hip\u00f3teses n\u00e3o<br \/>\nlhe sa\u00edam do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Agora muito poucas vezes achava ocasi\u00e3o de estar a s\u00f3s com ele e, quando<br \/>\ntal sucedia, Fernando, com tamanho empenho procurava escapar-lhe, que de uma<br \/>\nfeita a pobre menina foi queixar-se ao pai.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que naturalmente, respondeu o velho, o rapaz n\u00e3o tenciona casar<br \/>\ncontigo e procura desiludir-te a esse respeito.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 ficou muito s\u00e9ria quando ouviu estas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Ouve, minha filha, tu o que deves fazer \u00e9 olhar para ele como se<br \/>\nfosse seu irm\u00e3o; voc\u00eas cresceram juntos e n\u00e3o se pode amar de outro modo&#8230;<br \/>\nE queres ent\u00e3o que te diga? Estes casamentos, forjados assim, entre companheiros<br \/>\nde inf\u00e2ncia, nuca provaram bem. Santo de casa n\u00e3o faz milagre! Eu, em teu<br \/>\ncaso, ia tratando de atirar as vistas para outro lado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O Fernando ent\u00e3o \u00e9 um homem sem car\u00e1ter?<\/p>\n<p>\u2014 Sem car\u00e1ter porque, minha filha?<\/p>\n<p>\u2014 Ora, porque! Porque muitas vezes jurou que n\u00e3o se casaria sen\u00e3o comigo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Coisas de crian\u00e7a! Hoje naturalmente pensa de outro modo. Talvez<br \/>\nat\u00e9 j\u00e1 tenha noiva escolhida&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o creio&#8230; Se assim fosse, ele seria o primeiro a contar-me<br \/>\ntudo com franqueza! A causa \u00e9 outra, hei de descobri-la, custe o que custar!<\/p>\n<p>Contudo n\u00e3o se animou a inquirir o noivo.<\/p>\n<p>Mas, considerava a mo\u00e7a, como acreditar que Fernando descobrisse um novo<br \/>\nnamoro, se agora, mais que nunca, nadava metido com os estudos e n\u00e3o se despregava<br \/>\ndos livros!&#8230; Onde, pois, teria ido arranjar essa paix\u00e3o, se agora n\u00e3o ia<br \/>\n\u00e0 casa de ningu\u00e9m?&#8230; Al\u00e9m disso, as suas tristezas n\u00e3o pareciam de um namorado;<br \/>\nmostravam car\u00e1ter muito mais feio e sombrio. O fato de pretender casar com<br \/>\noutra n\u00e3o seria, de resto, raz\u00e3o para que a tratasse daquele modo! Era como<br \/>\nse a temesse, se receiasse a sua presen\u00e7a&#8230; Dantes segurava-lhe as m\u00e3os com<br \/>\ntoda a naturalidade; afagava-lhe os cabelos; endireitava-lhe o chap\u00e9u na cabe\u00e7a<br \/>\nquando iam sair juntos; acolchetava-lhe a luva; trazia-lhe livros novos; gostava<br \/>\nde brincar com ela, dizer-lhe tolices por pirra\u00e7a, para faze-la encavacar;<br \/>\npregava-lhe sustos tapava-lhe os olhos quando a pilhava de surpresa pelas<br \/>\ncostas; pedia-lhe perfumes quando ele n\u00e3o tinha extrato para o len\u00e7o. E agora?<br \/>\nAgora bastava que ela se aproximasse do Fernando, para este j\u00e1 estar todo<br \/>\nque parecia sobre brasas e, ao primeiro pretexto, fugir e encerrar-se no quarto,<br \/>\nfechado por dentro, \u00e0s vezes at\u00e9 as escuras. Ora, estava entrando pelos olhos<br \/>\nque tudo isto n\u00e3o podia ser natural&#8230; Magd\u00e1, pelo menos, nuca tinha visto<br \/>\num namorado de semelhante esp\u00e9cie!<\/p>\n<p>\u2014 Em todo caso, resolva de si para si, ele deu-me a sua palavra de<br \/>\nhonra que me pediria a papai t\u00e3o logo se formasse; por conseguinte n\u00e3o posso<br \/>\nainda queixar-me. Vamos ver primeiro como se sair\u00e1 do compromisso.<\/p>\n<p>E deliberou esperar at\u00e9 o fim do ano.<\/p>\n<p>Entretanto, o Conselheiro, querendo a todo o custo arredar do esp\u00edrito da<br \/>\nfilha a id\u00e9ia de casar com o irm\u00e3o, pensava em atrair gente \u00e0 casa, para ver<br \/>\nse despertava nela o desejo de escolher outro noivo. A dificuldade estava<br \/>\nem arranjar as festas; sim, porque, para receber os convidados, s\u00f3 podia contar,<br \/>\nal\u00e9m de Magd\u00e1, com a irm\u00e3, D. Camila. Mas D. Camila era uma solteirona velha,<br \/>\nmuito devota, muito esquisita de g\u00eanio e sem jeito nenhum para fazer sala.<br \/>\n\u2014 Uma verdadeira &#8220;barata de sacristia&#8221; como lhe chamava nas bochechas<br \/>\no despachado do Dr. Lob\u00e3o, m\u00e9dico da casa e amigo particular do Conselheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, se Magd\u00e1 tivesse um pouco mais de idade, considerava este, estaria<br \/>\ntudo arranjado. Como, por\u00e9m, encarregar uma menina de dezesseis anos de fazer<br \/>\nas honras de um baile?<\/p>\n<p>Salvou a situa\u00e7\u00e3o, pedindo a um seu amigo velho, o Milit\u00e3o de Brito, homem<br \/>\npobre, casado e pai de tr\u00eas filhas solteiras j\u00e1 de certa idade, que fosse<br \/>\ne mais a fam\u00edlia passar algum tempo com ele. \u2014 A casa era grande e n\u00e3o<br \/>\nhaviam de ficar de todo mal acomodados.<\/p>\n<p>Para justificar o pedido, observou que a filha estava na flor da juventude,<br \/>\nprecisava distrair-se, e que lhe do\u00eda a ele, como pai, traze-la enclausurada<br \/>\nna idade em que todas as mo\u00e7as gostavam de brincar. O Milit\u00e3o, que tamb\u00e9m<br \/>\nera pai, compreendeu a inten\u00e7\u00e3o da proposta, aceitou-a de bra\u00e7os abertos e<br \/>\nteve a franqueza de confessar que aquele convite vinha do c\u00e9u, porque ele<br \/>\nigualmente via as suas raparigas, coitadinhas, muito pouco divertidas.<\/p>\n<p>Mudou-se pois a fam\u00edlia de Milit\u00e3o para a casa do Conselheiro e Magd\u00e1, adivinhando<br \/>\nos planos do pai, sorriu intimamente. Inauguraram-se os bailes, e os pretendentes<br \/>\nn\u00e3o se fizeram esperar. Pudera! Uma menina que n\u00e3o \u00e9 pobre, com certa educa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nalgum esp\u00edrito, e linda como a filha do Sr. Conselheiro Pinto Marques, encontra<br \/>\nsempre quem a deseje.<\/p>\n<p>O primeiro a apresentar-se foi um tal Martinho de Azevedo, rapaz de vinte<br \/>\ne poucos anos, filho de um c\u00f4nsul em que em n\u00e3o sei que parte da Europa; ares<br \/>\nde fidalgo; bigode louro e olhos de mulher; n\u00e3o tinha nada de feio; ao contr\u00e1rio,<br \/>\nchegava a ser impertinente com a sua inalter\u00e1vel boniteza risonha; e vestia-se<br \/>\ncomo ningu\u00e9m, gra\u00e7as a alguns anos que passara em Paris estudando um curso<br \/>\nque n\u00e3o chegara a concluir.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 esteve quase a desengan\u00e1-lo, antes mesmo que o sujeito se lhe declarasse;<br \/>\nresolveu, por\u00e9m, deixar isso ao cuidado do pai, que n\u00e3o se embirrava menos<br \/>\ncom ele. Com quem o Conselheiro n\u00e3o embirrou, e mostrou at\u00e9 simpatizar, foi<br \/>\num certo ministro argentino, levado \u00e0 sua casa por um colega que j\u00e1 l\u00e1 se<br \/>\ndava; mas este segundo pretendente n\u00e3o foi feliz que o primeiro, nem que os<br \/>\noutros apresentados depois.<\/p>\n<p>Todavia as festas continuavam, e por fim a casa do Conselheiro Pinto Marques<br \/>\nera tida e havida entre a melhor gente como das mais distintas e bem freq\u00fcentadas<br \/>\ndo Rio de Janeiro; e Magd\u00e1 classificada ao lado das estrelas mais rutilantes<br \/>\ndo emp\u00edreo de Botafogo.<\/p>\n<p>Assim se passou o resto do ano.<\/p>\n<p>Ah! com que ansiedade contou a pobre menina os dias que precederam \u00e0 formatura<br \/>\ndo irm\u00e3o! Como aquele cora\u00e7\u00e3ozinho palpitou de susto e de esperan\u00e7a ao lembrar-se<br \/>\nde que em breve o seu Fernando, o \u00fanico que aos olhos dela parecia bom, delicado,<br \/>\ninteligente e sincero, tinha com uma s\u00f3 palavra de apagar todas as d\u00favidas<br \/>\nque a torturavam, ou destruir-lhe por uma vez todos os sonhos de ventura.<\/p>\n<p>Sim, porque a filha do Conselheiro, agora nos seus dezessete anos, estava<br \/>\nbem certa de que amava Fernando; mais se convencera dessa verdade nesses \u00faltimos<br \/>\ntempos em que ele se mostrara indiferente e esquivo. S\u00f3 agora podia avaliar<br \/>\no bem que lhe faziam aquelas tranq\u00fcilas palestras que tantas vezes desfrutara<br \/>\ncom ele, ora nos bancos da ch\u00e1cara, ora assentados junta \u00e0 janela, perto um<br \/>\ndo outro, ou em volta da pequena mesa de viex-ch\u00eane que havia numa saleta<br \/>\nao lado do gabinete do Conselheiro, e onde ela costumava ler e estudar no<br \/>\nbom tempo em que Fernando se comprazia em dar-lhe li\u00e7\u00f5es de preparat\u00f3rios.<\/p>\n<p>As li\u00e7\u00f5es!&#8230; Quanto desvelo de parte a parte! Com que gosto ele ensinava<br \/>\ne com que gosto ela aprendia!<\/p>\n<p>Magd\u00e1, logo ao deixar o col\u00e9gio das irm\u00e3s de caridade, entrou a estudar com<br \/>\no irm\u00e3o, e foi nesse contato espiritual de tr\u00eas horas di\u00e1rias que os dois<br \/>\nmais se fizeram um do outro, e mais se amaram, e mais se respeitaram. Todavia,<br \/>\nnesse tempo ela ainda n\u00e3o lhe tinha observado as fei\u00e7\u00f5es, nem notado a inteireza<br \/>\nde car\u00e1ter nem a delicadeza do g\u00eanio; habituara-se a estim\u00e1-lo, e aceitava-o<br \/>\nquase que pela fatalidade da conviv\u00eancia ou pela natureza efetiva do seu pr\u00f3prio<br \/>\ntemperamento; mas depois, quando teve ocasi\u00e3o de compar\u00e1-lo com outros, amou-o<br \/>\npor elei\u00e7\u00e3o, por entender que ele era o melhor de todos os homens, o mais<br \/>\ndigno de prefer\u00eancia.<\/p>\n<p>Agora, depois daqueles frios meses de retraimento, Fernando parecia-lhe ainda<br \/>\nmais belo e mais desej\u00e1vel; aquela transforma\u00e7\u00e3o inesperada foi como uma dolorosa<br \/>\naus\u00eancia em que as boas qualidades do rapaz ganharam novo prest\u00edgio no esp\u00edrito<br \/>\nda irm\u00e3, assumindo propor\u00e7\u00f5es excepcionais. Magd\u00e1 esperava pelo dia da formatura,<br \/>\ncomo se aguardasse a chegada do noivo; tinha l\u00e1 para si que o seu amado reapareceria<br \/>\nent\u00e3o como dantes, meigo, comunicativo e amigo de estar ao lado dela. Agora<br \/>\nidolatrava-o; todo o grande empenho do Conselheiro em substitu\u00ed-lo por outro<br \/>\napenas conseguia encarec\u00ea-lo ainda mais, fazendo-o mais desej\u00e1vel, mais insubstitu\u00edvel.<br \/>\nEla j\u00e1 n\u00e3o podia compreender como \u00e9 que por a\u00ed se amavam outros que n\u00e3o eram<br \/>\nFernando; outros que n\u00e3o tinham aquela mesma barba, aqueles olhos t\u00e3o inteligentes<br \/>\ne t\u00e3o doces, aquela mesma estatura bem conformada, forte sem ser grosseira,<br \/>\naquela boca t\u00e3o limpa, t\u00e3o bem tratada, que logo se via n\u00e3o poder servir de<br \/>\ncaminho \u00e0 mentira ou a uma palavra feia. E muita coisa, que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nlhe notara, agora a impressionava; a voz, por exemplo, o metal de sua voz,<br \/>\nem que havia uma certa harmonia corajosa; aquela voz velada, discreta, mas<br \/>\nmuito intelig\u00edvel; uma voz que n\u00e3o chamava a aten\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m, mas que prendia<br \/>\na todo aquele que por qualquer circunst\u00e2ncia a escutava. \u2014 E a cor do<br \/>\nseu rosto? aquele moreno suave, de pele muito fina, em que ia t\u00e3o bem, o cabelo<br \/>\npreto? \u2014 E aquele modo inteligente de sorrir, quando ele descobria um<br \/>\nrid\u00edculo noutrem? aquele ar condescendente com que Fernando ouvia as frioleiras<br \/>\ndo Martinho de Azevedo ou as baz\u00f3fias do ministro argentino? aquele sorriso<br \/>\ninteiri\u00e7o, de alma virgem, onde n\u00e3o havia o menor vislumbre de inveja a ningu\u00e9m,<br \/>\nnem contentamento pr\u00f3prio por vaidade; aquele sorriso, que ela supunha ser<br \/>\na \u00fanica a compreender.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria indiferen\u00e7a de Fernando agora a seduzia e namorava; achava-o por<br \/>\nisso mesmo fora do vulgar dos outros homens um pouco misterioso, como que<br \/>\nguardando no fundo do cora\u00e7\u00e3o alguma coisa muito superior, muito excelente,<br \/>\nque ele n\u00e3o queria expor \u00e0s vistas dos profanos e s\u00f3 pertenceria \u00e0quela que<br \/>\nescolhesse para insepar\u00e1vel companheira de sua vida.<\/p>\n<p>Ah, Magd\u00e1 contava que aquele segredo ainda seria tamb\u00e9m o seu; sua alma estava<br \/>\naberta de par em par e n\u00e3o se fecharia enquanto n\u00e3o houvesse recolhido todo<br \/>\no conte\u00fado daquele cora\u00e7\u00e3o misterioso; s\u00f3 se fecharia para melhor guardar<br \/>\nem dep\u00f3sito as gemas precios\u00edssimas que dentro de sua alma despejasse a alma<br \/>\ndo seu amado. \u2014 Oh, quanto n\u00e3o seria bom ser a esposa daquele homem,<br \/>\nser a sua criatura, ser a testemunha de todos os seus instantes! E ainda lhe<br \/>\npassara pela mente a hip\u00f3tese de uma trai\u00e7\u00e3o por parte dele!&#8230; Mas onde tinha<br \/>\nent\u00e3o a cabe\u00e7a?&#8230; Pois Fernando l\u00e1 seria capaz algum dia de dizer uma coisa<br \/>\ne fazer outra?&#8230; Pois ela n\u00e3o via logo o modo pelo qual nos bailes de seu<br \/>\npai todas as mo\u00e7as solteiras procuravam request\u00e1-lo, sem nada conseguir, nem<br \/>\nmesmo alterar-lhe aquela fria abstra\u00e7\u00e3o de homem superior?&#8230; Oh, sim, sim!<br \/>\na \u00fanica que ele queria, a \u00fanica que ele amava, era ela ainda e sempre! Tudo<br \/>\nlho dizia: tudo lho confirmava! Nem podia ser que tamanho sentimento continuasse<br \/>\na crescer e aprofundar-se no seu cora\u00e7\u00e3o de donzela, se, do fundo da aparente<br \/>\nindiferen\u00e7a de Fernando n\u00e3o viesse um raio de calor manter-lhe a vida!<\/p>\n<p>Amparando-se nestes racioc\u00ednios, Magd\u00e1 viu chegar a v\u00e9spera da formatura,<br \/>\nquase tranq\u00fcila de todo. Nesse dia recolheu-se mais cedo que de costume; ajoelhou-se<br \/>\ndiante de um crucifixo de marfim, herdado de sua m\u00e3e, e do qual nunca se separara,<br \/>\ne rezou, rezou muito, pedindo ao pai do c\u00e9u, pelas chagas do seu divino corpo,<br \/>\nque a protegesse e fizesse feliz. Falou-lhe em voz baixa e amiga, segredando-lhe<br \/>\nternuras e confid\u00eancias, como se se dirigisse a um velho camarada de inf\u00e2ncia,<br \/>\nbonacheir\u00e3o, que a tivesse trazido ao colo em pequenina e que ainda se babasse<br \/>\nde amores por ela. E contou-lhe o quanto adorava o seu Fernando e quanto precisava<br \/>\nde casar com ele. \u2014 Deus n\u00e3o havia de ser t\u00e3o mau que, s\u00f3 para contrari\u00e1-la,<br \/>\nestorvasse aquela uni\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte Fernando estava formado e a casa do Conselheiro toda em preparos<br \/>\nde festa; Magd\u00e1 que havia muito n\u00e3o se animava a dirigir-lhe palavra, foi<br \/>\nter com ele e, depois de lhe dar os parab\u00e9ns, interrogou-o com um olhar cheio<br \/>\nde ansiedade. O mo\u00e7o fez que n\u00e3o entendeu, mas ficou perturbado.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o! disse Magd\u00e1.\u2014 Ent\u00e3o o que, minha amiguinha?<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o est\u00e1s formado afinal?<\/p>\n<p>\u2014 E da\u00ed?<\/p>\n<p>\u2014 Da\u00ed \u00e9 que hav\u00edamos combinado que me pedirias hoje em casamento&#8230;<\/p>\n<p>Fernando perturbou-se mais.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda pensavas nisso?&#8230; gaguejou por fim, em \u00e2nimo de encar\u00e1-la.<br \/>\nE acrescentou depois, percebendo que ela n\u00e3o se mexia: \u2014 Parto daqui<br \/>\na dias para a Europa e n\u00e3o sei quando voltarei&#8230;<\/p>\n<p>Magd\u00e1 sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo, um punho de ferro tomar-lhe<br \/>\na boca do est\u00f4mago e subir-lhe at\u00e9 a garganta, sufocando-a .<\/p>\n<p>\u2014 Bem!<\/p>\n<p>E n\u00e3o pode dizer mais nada, virou-lhe as costas e afastou-se de carreira,<br \/>\ncomo se levasse consigo uma bomba acesa e n\u00e3o quisesse v\u00ea-la rebentar ali<br \/>\nmesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Ouve, Magd\u00e1! Espera.<\/p>\n<p>Ela havia alcan\u00e7ado j\u00e1 o quarto; atirou-se \u00e0 cama. E a bomba estourou, sacudindo-a<br \/>\ntoda, convulsivamente, numa descarga de solu\u00e7os que se tornavam progressivamente<br \/>\nmais r\u00e1pidos e mais fortes, \u00e0 semelhan\u00e7a do ansioso arfar de uma locomotiva<br \/>\nao partir.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>III<\/h2>\n<p>Terminada a crise dos solu\u00e7os, Magd\u00e1 sentiu uma estranha energia apoderar-se<br \/>\ndela; uma necessidade de rea\u00e7\u00e3o; andar, correr, fazer muito exerc\u00edcio; mas<br \/>\nao mesmo tempo n\u00e3o se achava com \u00e2nimo de largar a cama. Era uma vontade que<br \/>\nse lhe n\u00e3o comunicava aos membros do corpo. Ergueu-se, afinal, mandou chamar<br \/>\no pai, e este n\u00e3o se fez esperar. Ia p\u00e1lido e acabrunhado; \u00e9 que estivera<br \/>\nconversando antes com o filho a respeito do ocorrido. A not\u00edcia do procedimento<br \/>\nde Magd\u00e1 fulminara-o; supunha-a j\u00e1 de todo esquecida dos seus projetos de<br \/>\ncasamento com o irm\u00e3o e agora se arrependia de n\u00e3o haver dado as provid\u00eancias<br \/>\npara que este se apartasse dela; sentia-se muito culpado em ter sido o pr\u00f3prio<br \/>\na det\u00ea-lo em casa, e do\u00eda-lhe a consci\u00eancia fazer sofrer daquele modo a pobre<br \/>\nmenina. No entanto, quando o rapaz lhe pediu licen\u00e7a para confessar a verdade<br \/>\n\u00e0 irm\u00e3, negou-a a p\u00e9 firme, aterrado com a id\u00e9ia de ter de corar diante da<br \/>\nfilha. \u2014 N\u00e3o! Tudo, menos isso!<\/p>\n<p>Fernando protestou as suas raz\u00f5es contra tal ego\u00edsmo: n\u00e3o era justo que se<br \/>\nexpatriasse amaldi\u00e7oado por uma pessoa a quem tanto estremecia, sem ter cometido<br \/>\no menor delito para merecer tamanho castigo. Ah! se o pai tivesse visto com<br \/>\nque profunda indigna\u00e7\u00e3o, com que \u00f3dio, com que nojo, ela o havia encarado!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! nunca! Que se poderia esperar de uma filha, que recebesse do<br \/>\npr\u00f3prio pai semelhante exemplo de imoralidade?&#8230;<\/p>\n<p>Foi nessa ocasi\u00e3o que o criado o interrompeu com o chamado de Magd\u00e1. O Conselheiro,<br \/>\nquando chegou junto dela, sentiu-se ainda mais comovido: &#8220;N\u00e3o seria tudo aquilo<br \/>\num crime maior do que os seus passados amores com a m\u00e3e de Fernando?&#8230; Sim;<br \/>\nestes ao menos n\u00e3o se baseavam em preconceitos e vaidades, baseavam-se nos<br \/>\ninstintos e na ternura&#8221;. E o m\u00edsero, atordoado com estas id\u00e9ias, tomou as<br \/>\nm\u00e3os da filha, falhou-lhe com humildade perguntou-lhe com muito carinho o<br \/>\nque ela sentia.<\/p>\n<p>\u2014 Quase nada! Um simples abalo&#8230; J\u00e1 n\u00e3o tinha coisa alguma&#8230;<\/p>\n<p>E tremia toda.<\/p>\n<p>\u2014 Queres que mande buscar o Dr. Lob\u00e3o? Estou te achando o corpo esquentado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o vale a pena; isto n\u00e3o \u00e9 nada. Eu chamei-o papai, para lhe<br \/>\npedir um obs\u00e9quio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um obs\u00e9quio? Fala, minha filha.<\/p>\n<p>\u2014 Pedir um obs\u00e9quio e fazer-lhe uma declara\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>E, brincando com os bot\u00f5es da sobrecasaca do Conselheiro: \u2014 Sabe? Estou<br \/>\nresolvida a casar com o Martinho de Azevedo; desejava que meu pai lhe mandasse<br \/>\ncomunicar imediatamente esta minha delibera\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Temos tolice!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E queria que o casamento se realizasse antes da partida do Fernando&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s louca?<\/p>\n<p>\u2014 Se estiver, tanto pior para mim. Afian\u00e7o-lhe que hei de fazer o que<br \/>\nestou dizendo!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sejas vingativa, minha filha; Fernando contou-me o que se passou<br \/>\nentre voc\u00eas dois, disse0me tudo, e eu juro pela mem\u00f3ria de tua m\u00e3e que o procedimento<br \/>\ndele n\u00e3o podia ser outro&#8230; Foi correto, fez o seu dever!<\/p>\n<p>\u2014 O seu dever? Tem gra\u00e7a!<\/p>\n<p>\u2014 Mais tarde ver\u00e1s que digo a verdade; o que desde j\u00e1 posso afirmar<br \/>\n\u00e9 que o pobre rapaz n\u00e3o tem absolutamente a menor culpa em tudo isto. N\u00e3o<br \/>\no deves ver com maus lhos, nem lhe deves retirar a tua confian\u00e7a e a tua estima&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas fale por uma vez! N\u00e3o v\u00ea que as suas meias palavras me p\u00f5em doida?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso; \u00e9 bastante que acredites em mim; eu juro-te que Fernando,<br \/>\nnegando-se a casar contigo, cumpre o seu dever. Vou cham\u00e1-lo e quero que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o! atalhou a filha, segurando-lhe os bra\u00e7os. \u2014 Ele que<br \/>\nn\u00e3o me apare\u00e7a! Que n\u00e3o me fale! Detesto-o!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acreditas em teu pai!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei; acredito \u00e9 que entre o senhor e ele h\u00e1 uma conspira\u00e7\u00e3o contra<br \/>\nmim! Querem engodar-me com mist\u00e9rios que n\u00e3o existem, como se eu fosse alguma<br \/>\ncrian\u00e7a! Ah! mas eu mostrarei que n\u00e3o sou o que pensam!<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, minha filha, ent\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Creio que j\u00e1 disse bem claro qual \u00e9 a minha resolu\u00e7\u00e3o a respeito<br \/>\nde casamento, e agora s\u00f3 me conv\u00e9m saber se meu pai est\u00e1 ou n\u00e3o disposto a<br \/>\ntratar disso!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo que n\u00e3o, mas para que fazer as coisas t\u00e3o precipitadamente?&#8230;<\/p>\n<p>O velho sentia o suor gelar-lhe o corpo.<\/p>\n<p>\u2014 Custe o que custar, eu me casarei antes da partida daquele miser\u00e1vel!<br \/>\nSe meu pai n\u00e3o fizer o que eu disse, o esc\u00e2ndalo ser\u00e1 maior! Ao menos falo<br \/>\ncom esta franqueza \u2014 N\u00e3o tenho &#8220;mist\u00e9rios&#8221;!<\/p>\n<p>Ela havia-se desprendido das m\u00e3os do Conselheiro e passeava agora pelo quarto,<br \/>\nmuito agitada, com as faces em fogo, os l\u00e1bios secos e os olhos ainda \u00famidos<br \/>\ndas \u00faltimas l\u00e1grimas. E em todos os seus movimentos nervosos, em todos os<br \/>\nseus gestos, sentia-se uma resolu\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica, altiva e orgulhosa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 outro rem\u00e9dio! Pensou o velho, limpando a fronte orvalhada<br \/>\ne fria da neve, n\u00e3o h\u00e1 outro rem\u00e9dio!<\/p>\n<p>E aproximou-se da filha, para lhe dizer quase em segredo, com a voz estrangulada<br \/>\npela vergonha:<\/p>\n<p>\u2014 Fernando n\u00e3o se casa contigo, porque \u00e9 teu irm\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Magd\u00e1 retraiu-se toda, como se lhe tivesse passado por diante dos olhos uma<br \/>\nfa\u00edsca el\u00e9trica, e fitou-os sobre o pai, que abaixou a cabe\u00e7a num angustioso<br \/>\nresfolegar de delinq\u00fcente.<\/p>\n<p>\u2014 Ora a\u00ed tens&#8230; balbuciou ele, depois de uma pausa, durante a qual<br \/>\ns\u00f3 se ouviam os solu\u00e7os de Magd\u00e1 que se lhe havia atirado nos bra\u00e7os. \u2014<br \/>\nJ\u00e1 v\u00eas que aqui o \u00fanico culpado sou eu; nunca devia ter consentido que voc\u00eas<br \/>\nse criassem juntos, sem lhes ter exposto a verdade. Tua m\u00e3e ignorou sempre<br \/>\nque Fernando fosse meu filho&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 ter com ele&#8230; pediu Magd\u00e1 chorando. \u2014 Que me perdoe! Que<br \/>\nme perdoe! Diga-lhe que eu n\u00e3o sabia de nada, e que sou muito desgra\u00e7ada!<\/p>\n<p>Quando o Conselheiro saiu do quarto, ela tornou \u00e0 cama, e da\u00ed a pouco delirava<br \/>\ncom febre.<\/p>\n<p>Transferiu-se a festa; mandou-se chamar logo o Dr. Lob\u00e3o, que receitou; e,<br \/>\ns\u00f3 \u00e0 tarde do dia seguinte, a enferma deu acordo de si, depois de um sono<br \/>\nprofundo que durou muitas horas.<\/p>\n<p>Despertou tranq\u00fcila, um pouco abstrata. \u2014 Tinha sonhado tanto!&#8230;<\/p>\n<p>Levou um bom espa\u00e7o a cismar, por fim soltou um profundo suspiro resignado<br \/>\ne pediu que conduzissem o irm\u00e3o \u00e0 sua presen\u00e7a. Ele foi logo, acompanhado<br \/>\npelo Conselheiro, e assentou-se, sem dizer palavra, numa cadeira ao lado da<br \/>\ncabeceira da cama. Magd\u00e1 tomou-lhe as m\u00e3os em sil\u00eancio, beijou-las repetidas<br \/>\nvezes, e em seguida levou uma delas ao rosto e ficou assim por algum tempo,<br \/>\na descansar a cabe\u00e7a contra a palma da m\u00e3o de Fernando. Como por encanto,<br \/>\na sua meiguice havia se transformado da noite para o dia: j\u00e1 n\u00e3o eram de noiva<br \/>\nos seus carinhos, mas perfeitamente de irm\u00e3. N\u00e3o por isso menos expansivos,<br \/>\nantes parecia agora muito mais em liberdade com ele; pelo menos nunca lhe<br \/>\nhavia tomado as m\u00e3os daquele modo. Ainda fez mais depois: pousou a face contra<br \/>\no seu colo e cingiu-lhe o bra\u00e7o em volta da cintura.<\/p>\n<p>\u2014 E eu que cheguei a supor que eras um homem mau!&#8230; balbuciou, com<br \/>\numa voz t\u00e3o arrependida, t\u00e3o humilde e t\u00e3o meiga, que o rapaz a apertou contra<br \/>\no seio e deu-lhe um beijo no alto da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 estremeceu todo, teve um novo suspiro, e deixou-se cair sobre os travesseiros,<br \/>\ncom os olhos fechados e a boca entreaberta. Chorava.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, agora est\u00e3o feitas as pazes?&#8230; perguntou o Conselheiro, alisando<br \/>\ncom os dedos o cabelo da filha.<\/p>\n<p>Esta ergueu as p\u00e1lpebras vagarosamente e deu em resposta um sorriso sofredor<br \/>\ne triste.<\/p>\n<p>\u2014 E ainda pensas no Martinho de Azevedo?&#8230; interrogou o velho, afetando<br \/>\nbom humor.<\/p>\n<p>Ela voltou seu sorriso para Fernando, como lhe pedindo perd\u00e3o daquela vingan\u00e7a<br \/>\nt\u00e3o tola e t\u00e3o imerecida.<\/p>\n<p>Todo o resto desse dia se passou assim, sem uma nuvem que o toldasse; a paz<br \/>\nera completa, pelo menos na apar\u00eancia. Magd\u00e1 n\u00e3o se queixava de coisa alguma.<br \/>\nO Dr. Lob\u00e3o, quando foi \u00e0 noite, encontrou-a de p\u00e9, muito esperta, conversando<br \/>\ncom a gente de Brito. O m\u00e9dico desta vez olhou para a rapariga com mais aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ne fez-lhe um c\u00famulo de perguntas \u00e0 queima-roupa: \u2014 Se era muito impression\u00e1vel;<br \/>\nse era sujeita a enxaquecas e dores de cabe\u00e7a; o que costumava comer ao almo\u00e7o<br \/>\ne ao jantar; se tinha bom apetite; se usava o espartilho muito apertado; desde<br \/>\nque idade freq\u00fcentava os bailes; se as suas fun\u00e7\u00f5es intestinais eram bem reguladas;<br \/>\ne, como estas, outras e outras perguntas, a que Magd\u00e1 respondia por comprazer,<br \/>\nafinal j\u00e1 importunada.<\/p>\n<p>Ela sempre embirrara com o Dr. Lob\u00e3o; tinha-lhe velha antipatia; achava-o<br \/>\nsistematicamente grosseiro, rude, abusando da sua grande nomeada de primeiro<br \/>\ncirurgi\u00e3o do Brasil, maltratando os seus doentes, cobrando-lhes um desprop\u00f3sito<br \/>\npelas visitas, a ponto de fazer supor que metia na conta as descomposturas<br \/>\nque lhes passava.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora tem tido muitos namorados? interrompeu ele, depois de estudar,<br \/>\nmedindo-a de alto a baixo, por cima dos \u00f3culos.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 sentiu venetas de virar-lhe as costas e retirar-se.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o ouviu? Pergunto se tem tido muitos namorados!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei!<\/p>\n<p>E ela afastou-se, enquanto o cirurgi\u00e3o resmungava:<\/p>\n<p>\u2014 Que diabo! Para que ent\u00e3o me fazem vir c\u00e1?&#8230;<\/p>\n<p>Ia j\u00e1 a sair, quando o Conselheiro foi ter com ele:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 coisa de cuidado; um abalo nervoso. Que idade tem ela?<\/p>\n<p>\u2014 Dezessete anos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9&#8230;! mas n\u00e3o conv\u00e9m que esta menina deixe o casamento para muito<br \/>\ntarde. Noto-lhe uma perigosa exalta\u00e7\u00e3o nervosa que, uma vez agravada, por<br \/>\ninteressar-lhe os \u00f3rg\u00e3o encef\u00e1licos e degenerar em histeria&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, doutor, ela parece t\u00e3o bem conformada, t\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por isso mesmo. Ah! Eu leio um pouco pela cartilha antiga. Quanto<br \/>\nmelhor for a sua complei\u00e7\u00e3o muscular, tanto mais deve ser atendida, sob pena<br \/>\nde sentir-se irritada e esbravejar por\u2019a\u00ed, que nem o diabo dar\u00e1 jeito!<br \/>\nE adeus. Passe bem!<\/p>\n<p>Mas voltou para perguntar: \u2014 E a barata velha, como vai?<\/p>\n<p>\u2014 Minha irm\u00e3&#8230;? ao mesmo, coitada! Enfermidades cr\u00f4nicas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ela que v\u00e1 continuando com as colheradas de azeite todas as manh\u00e3s<br \/>\ne que n\u00e3o abandone os clisteres. Hei de v\u00ea-la, noutra ocasi\u00e3o; hoje n\u00e3o tenho<br \/>\nmais tempo. Adeus, adeus!<\/p>\n<p>E saiu com os seus movimentos de carniceiro, resmungando ao entrar no carro:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tratam da vida enquanto s\u00e3o mo\u00e7as e agora, depois de velhas,<br \/>\no m\u00e9dico que as ature! S\u00facia! N\u00e3o prestam p\u2019ra nada! nem p\u2019ra<br \/>\nparir!<\/p>\n<p>A festa de Fernando realizou-se na v\u00e9spera da sua partida. Magd\u00e1 nuca pareceu<br \/>\nt\u00e3o alegre nem t\u00e3o bem disposta de sa\u00fade; p\u00f4s um vestido de cassa cor-de-rosa,<br \/>\ntodo enfeitado de margaridas, deixando ver em transpar\u00eancia a eb\u00farnea riqueza<br \/>\ndo colo e dos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Estava fascinadora: toda ela era gra\u00e7a, beleza e esp\u00edrito; causou del\u00edrios<br \/>\nde admira\u00e7\u00e3o. Nessa noite dan\u00e7ou muito, cantou e, durante o baile inteiro,<br \/>\nmostrou-se para com Fernando de uma solicitude, em que n\u00e3o se percebia a menor<br \/>\nsombra de ressentimento; dir-se-ia at\u00e9 que estimava haver descoberto que era<br \/>\nsua irm\u00e3. Conversaram muito; ela contou-lhe, ora rindo, ora falando a s\u00e9rio,<br \/>\nas declara\u00e7\u00f5es de amor que recebera; citou nomes, apontou indiv\u00edduos, pediu-lhe<br \/>\nconselhos sobre a hip\u00f3tese de uma escolha e declarou, mais de uma vez, que<br \/>\nestava resolvida a casar.<\/p>\n<p>No dia seguinte apresentaram-se alguns amigos para o bota-fora. Magd\u00e1 foi<br \/>\n\u00e0 bordo, chorou, mas n\u00e3o fez escarc\u00e9u; em casa compareceu ao jantar, comeu<br \/>\nregularmente e at\u00e9 a ocasi\u00e3o de se recolher falou repetidas vezes do irm\u00e3o,<br \/>\nsem patentear nunca na sua tristeza desesperos de vi\u00fava, nem alucina\u00e7\u00f5es de<br \/>\nmulher abandonada.<\/p>\n<p>S\u00f3 dois meses depois foi que notaram que estava tanto mais magra e um tanto<br \/>\nmais p\u00e1lida; e assim tamb\u00e9m que o seu riso ia perdendo todos os dias certa<br \/>\nfrescura sangu\u00ednea, que dantes lhe alegrava o rosto, e tomando aos poucos<br \/>\numa fria express\u00e3o de inexplic\u00e1vel cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>Alguns meses mais, e o que havia de menina desapareceu de todo, par s\u00f3 ficar<br \/>\na mulher. Fazia-se ent\u00e3o muito grave, muito senhora, sem todavia parecer triste,<br \/>\nnem contrariada; as amigas iam v\u00ea-la com freq\u00fc\u00eancia e encontravam-na sempre<br \/>\nem boa disposi\u00e7\u00e3o para dar um passeio pela praia, ou para fazer m\u00fasica, dan\u00e7ar,<br \/>\ncantar; tudo isto, por\u00e9m, sem o menor entusiasmo, friamente, como quem cumpre<br \/>\num dever. Vieram-lhe depois intermit\u00eancias de t\u00e9dio; tinha dias de muito bom<br \/>\nhumor e outros em que ficava impertinente ao ponto de irritar-se coma menor<br \/>\ncontrariedade. N\u00e3o obstante, continuava a ser admirada, querida e invejada,<br \/>\ngra\u00e7as ao seu inalter\u00e1vel bom gosto, \u00e0 sua altiva de procedimento e \u00e0 sua<br \/>\naristocr\u00e1tica beleza. O pai votava-lhe j\u00e1 essa reverente considera\u00e7\u00e3o, que<br \/>\nnos inspiram certas damas, cuja pureza de h\u00e1bitos e extrema corre\u00e7\u00e3o nos costumes<br \/>\nse tornam lend\u00e1rias entre os grupos com que convivem; tanto assim que, vendo<br \/>\no Milit\u00e3o for\u00e7ado a retirar-se com a fam\u00edlia par uma fazenda que ia administrar,<br \/>\no Conselheiro n\u00e3o os substituiu por ningu\u00e9m, e a casa ficou entregue a Magd\u00e1.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 sa\u00fade \u2014 assim, assim&#8230; \u00c0s vezes passava muito bem semanas<br \/>\ninteiras; outras vezes ficava aborrecida, triste, sem apetite; apareciam-lhe<br \/>\nnevralgias, acompanhadas de grande sobreexcita\u00e7\u00e3o nervosa. Ent\u00e3o, qualquer<br \/>\nobjeto ou qualquer fato repugnante indispunha-a de um modo singular; n\u00e3o podia<br \/>\nver sanguessugas ,r\u00e3s, morcegos ,aranhas; o movimento vermicular de certos<br \/>\nr\u00e9pteis causava-lhe arrepios de febre; se \u00e0 noite n\u00e3o estando acompanhada,<br \/>\nencontrava um gato em qualquer parte da casa, tinha um choque el\u00e9trico, perfeitamente<br \/>\nel\u00e9trico, e n\u00e3o podia mais dormir t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>Uma madrugada, em que a tia foi acometida de c\u00f3licas horrorosas e sobressaltou<br \/>\na fam\u00edlia com os seus gritos, Magd\u00e1 sofreu tamanho abalo que, durante dois<br \/>\ndias, pareceu louca. Desde essa \u00e9poca principiou a sofrer de uma dores de<br \/>\ncabe\u00e7a, que lhe produziam no ato do cr\u00e2nio, que ora a impress\u00e3o de uma pedra<br \/>\nde gelo, ora a de um ferro em brasa.<\/p>\n<p>Agora tamb\u00e9m o barulho lhe fazia mal aos nervos: ouvindo m\u00fasica desafinada,<br \/>\nsentia-se logo inquieta e apreensiva; o mesmo fen\u00f4meno se dava com o aroma<br \/>\nativo de certas flores e de certos extratos: o s\u00e2ndalo, por exemplo, quebrantava-lhe<br \/>\no corpo; o perfume da magn\u00f3lia enfreneziava-a; o alm\u00edscar produzia-lhe n\u00e1useas.<br \/>\nAinda outros cheiros a incomodavam: o fartum que se exala da terra quando<br \/>\nchove depois de uma grande soalheira, o fedor do cavalo suado, o de certos<br \/>\nrem\u00e9dios preparados com \u00f3pio, merc\u00fario, clorof\u00f3rmio; tudo isto agora lhe fazia<br \/>\nmal, por\u00e9m de um modo t\u00e3o vago, que ela muita vez sentia-se indisposta e n\u00e3o<br \/>\natinava porque.<\/p>\n<p>Notava-se-lhe tamb\u00e9m certa altera\u00e7\u00e3o nos gostos com respeito \u00e0 comida; preferia<br \/>\nagora os alimentos fracos e muito adubados; tinha predile\u00e7\u00f5es esquisitas;<br \/>\nvoltava-se toda para a cozinha francesa; gostava mais de a\u00e7\u00facar, mas queria<br \/>\no ch\u00e1 e o caf\u00e9 bem amargos<\/p>\n<p>As cartas de Fernando n\u00e3o a alteraram absolutamente; a primeira, entretanto,<br \/>\nfora recebida com exclama\u00e7\u00f5es de contentamento. Ele dizia-se feliz e divertido,<br \/>\napoquentamento apenas pelas saudades da fam\u00edlia. Magd\u00e1 escrevia-lhe de irm\u00e3<br \/>\npara irm\u00e3o, afetando muita tranq\u00fcilidade, procurando fazer pilh\u00e9ria, citando<br \/>\nanedotas, dando-lhe not\u00edcias do Rio de Janeiro, falando em teatros e cantores.<\/p>\n<p>E assinava sempre &#8220;Tua irm\u00e3zinha que te estremece \u2014 Madalena&#8221;.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>IV<\/h2>\n<p>Decorreu uma no. O incidente romanesco do namoro entre os dois irm\u00e3os ia<br \/>\ncaindo no rol das puerilidades da inf\u00e2ncia; Magd\u00e1 se lembrava dele com um<br \/>\ncriterioso sorriso de indulg\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Criancices! criancices!<\/p>\n<p>Agora, no seu todo de senhora refeita, com as suas intransig\u00eancias de dona<br \/>\nde casa, com as suas preocupa\u00e7\u00f5es de economia dom\u00e9stica, ela estava a pedir<br \/>\num marido pr\u00e1tico, um homem de boa posi\u00e7\u00e3o, que lhe trouxesse tanto ou mais<br \/>\nprest\u00edgio que o pai; mesmo porque este, ultimamente, e s\u00f3 por causa dela,<br \/>\nhavia-se alargado um pouco mais com aquelas festas e come\u00e7ava a sentir necessidade<br \/>\nde apertar os cord\u00e9is da bolsa.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 brincadeira dar um baile por m\u00eas!<\/p>\n<p>Foi essa a sua \u00e9poca mais fecunda em pretendentes; apareceram-lhe de todos<br \/>\nos matizes, desde o pingue senador do imp\u00e9rio, at\u00e9 o escaveirado amanuense<br \/>\nde secretaria; concorreram negociantes, capitalistas e doutores de v\u00e1ria esp\u00e9cie.<br \/>\nEla, por\u00e9m, como se estivesse brincando a &#8220;Cortina de amor&#8221; em jogo de prendas,<br \/>\nn\u00e3o entregou o len\u00e7o a nenhum. N\u00e3o os repelia com denodo, antes tinha sempre<br \/>\npara cada qual um sorriso am\u00e1vel; mas \u2014 repelia-os.<\/p>\n<p>Todavia, de vez em quando, lhe vinham rea\u00e7\u00f5es. \u2014 Precisava acabar com<br \/>\naquilo de uma vez, decidir-se por algu\u00e9m. E fazia \u00edntimos protestos de resolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne empregava todos os esfor\u00e7os para se agradar deste ou daquele que lhe parecia<br \/>\nprefer\u00edvel; mas na ocasi\u00e3o de dar o &#8220;Sim&#8221; hesitava, torcia todo o corpo, e<br \/>\nafinal n\u00e3o se dispunha por ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Ah! Magd\u00e1 sabia claramente que era preciso tomar uma resolu\u00e7\u00e3o! bem parecia<br \/>\nque o pai, coitado, j\u00e1 estava fazendo das fraquezas for\u00e7as e morto por v\u00ea-la<br \/>\nencaminhada; al\u00e9m disso, o Dr. Lob\u00e3o, com aquela brutalidade que todos lhe<br \/>\nperdoavam, como se ele fosse um privil\u00e9gio, por mais de uma vez lhe dissera:<br \/>\n&#8220;\u00c9 preciso n\u00e3o passar dos vinte anos que depois quem tem de ag\u00fcentar com as<br \/>\nma\u00e7adas sou eu! compreende?&#8221;<\/p>\n<p>Sim, ela compreendia, compreendia perfeitamente. \u2014 Mas por ventura<br \/>\nteria culpa de estar solteira ainda? Que havia de fazer, se entre toda aquela<br \/>\ngente, que o pai lhe metia pelos olhos, nenhum s\u00f3 homem lhe inspirava bastante<br \/>\nconfian\u00e7a? \u2014 N\u00e3o era uma quest\u00e3o de amor, era uma quest\u00e3o de n\u00e3o fazer<br \/>\nasneira! L\u00e1 ilus\u00f5es a esse respeito, isso n\u00e3o tinha; sabia de antem\u00e3o que<br \/>\nn\u00e3o encontraria nenhum amante extremoso e apaixonado; n\u00e3o sonhava nenhum her\u00f3i<br \/>\nde romance. \u2014 A \u00e9poca dessas tolices j\u00e1 l\u00e1 se havia ido para sempre;<br \/>\nsabia muito bem que o casamento naquelas condi\u00e7\u00f5es, era uma quest\u00e3o de interesse<br \/>\nde parte a parte, interesses positivos, nos quais o sentimento n\u00e3o tinha que<br \/>\nintervir; sabia que no c\u00edrculo hip\u00f3crita das suas rela\u00e7\u00f5es todos os maridos<br \/>\neram mais ou menos ruins; que n\u00e3o havia um perfeitamente bom. \u2014 De acordo!<br \/>\nmas queria dos males o menor!<\/p>\n<p>Casava-se, pois n\u00e3o! estava disposta a isso, e at\u00e9 compreendia e sentia melhor<br \/>\nque ningu\u00e9m o quanto precisava, por conveni\u00eancia mesmo da sua pr\u00f3pria sa\u00fade,<br \/>\narrancar-se daquele estado de solteira que j\u00e1 se ia prolongando por demais.<br \/>\nEstava disposta a casar, que d\u00favida! Mas tamb\u00e9m n\u00e3o queria fazer alguma irrepar\u00e1vel<br \/>\ndoidice, que tivesse de amargar em todo o resto da sua vida&#8230; Nem se julgava<br \/>\nnenhuma crian\u00e7a, para n\u00e3o saber o que lhe convinha e o que n\u00e3o lhe convinha!<br \/>\nEnfim, a sua inten\u00e7\u00e3o era, como se diz em g\u00edria de boa sociedade: &#8220;Casar bem&#8221;.<\/p>\n<p>Sim! uma vez que o casamento era arranjado daquele modo; uma vez que tinha<br \/>\nde escolher friamente um homem, a quem se havia de entregar por conven\u00e7\u00e3o,<br \/>\nqueria ao menos escolher um dos menos dif\u00edceis de aturar; um homem de g\u00eanio<br \/>\nsuport\u00e1vel, com um pouco de mocidade e uma fortuna decente.<\/p>\n<p>Bastava-lhe isto!<\/p>\n<p>Nada, por\u00e9m, de se decidir, e o tempo a correr! Os vinte anos vieram encontr\u00e1-la<br \/>\nsem noivo escolhido; o pai principiava a inquietar-se, e o Dr. Lob\u00e3o a dizer-lhe:<br \/>\n&#8220;Olhe l\u00e1, meu amigo, \u00e9 bom n\u00e3o facilitar! \u00c9 bom n\u00e3o facilitar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Que injusti\u00e7a! o pobre Conselheiro n\u00e3o facilitava; n\u00e3o fazia mesmo outra<br \/>\ncoisa sen\u00e3o andar por a\u00ed arrebanhando para a sua casa todo homem que lhe parecia<br \/>\napto para casar com a filha; e tanto, que a roda dos seus amigos crescia largamente,<br \/>\ne as suas festas amiudavam-se, e suas despesas reproduziam-se.<\/p>\n<p>Uma not\u00edcia m\u00e1 veio, por\u00e9m, enlutar a casa e fechar-lhe as portas por algum<br \/>\ntempo \u2014 a morte de Fernando. O rapaz nas \u00faltimas cartas j\u00e1 se queixava<br \/>\nda sa\u00fade; dizia que andava \u00e0 procura de ares mais convenientes aos seus br\u00f4nquios.<br \/>\nFugira da Alemanha para a Fran\u00e7a, de Fran\u00e7a para a It\u00e1lia, desta para a Espanha,<br \/>\ne fora morrer, afinal, em Portugal.<\/p>\n<p>O Conselheiro ficou fulminado com a not\u00edcia, aparentemente mais sentido do<br \/>\nquem a pr\u00f3pria Magd\u00e1. Esta recebeu-a como se j\u00e1 a esperasse: saltaram-lhe<br \/>\nas l\u00e1grimas dos olhos, mas n\u00e3o teve um grito, uma exclama\u00e7\u00e3o, um gemido; apenas<br \/>\nficou muito apreensiva, aterrada, com medo do escuro e da solid\u00e3o. Durante<br \/>\nnoites seguidas foi perseguida por terr\u00edveis pesadelos, nos quais o morto<br \/>\nrepresentava sempre o principal papel, mas, durante o dia, n\u00e3o tinha uma palavra<br \/>\ncom refer\u00eancia a ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, duas semanas depois, passeando na ch\u00e1cara, viu pular diante<br \/>\nde si um sapo; e foi o bastante para que explodisse a rea\u00e7\u00e3o dos nervos. Estremeceu<br \/>\ncom um grande abalo, soltou um grito agudo e sentiu logo na boca do est\u00f4mago<br \/>\numa press\u00e3o violenta. Era a primeira vez que lhe dava isto; acudiram-na e<br \/>\ncarregaram-na para o quarto. Ela, por\u00e9m, n\u00e3o sossegava; o peso do est\u00f4mago<br \/>\ncomo que se enovelava e subia-lhe por dentro at\u00e9 a garganta, sufocando-a num<br \/>\ndesabrido estrangulante. Esteve assim um pouco; afinal perdeu os sentidos<br \/>\ne come\u00e7ou a espolinhar-se na cama, em convuls\u00f5es que duraram quase uma hora.<\/p>\n<p>Tornou a si nos bra\u00e7os das amigas da vizinhan\u00e7a, atra\u00eddas ali pelos formid\u00e1veis<br \/>\ngritos que ela soltava. O pai e o Dr. Lob\u00e3o tamb\u00e9m estavam a seu lado; o doutor,<br \/>\nmuito expedito, com os \u00f3culos na ponta do nariz, suando, rabujava enquanto<br \/>\na socorria:<\/p>\n<p>\u2014 Que dizia eu? Ora a\u00ed tem! \u00c9 bem feito! Acho ainda pouco! Quem corre<br \/>\npor seu gosto n\u00e3o cansa! Se fizessem o que recomendei, nada disso sucederia!<br \/>\nAgora o m\u00e9dico que a ature!&#8230;<\/p>\n<p>E, voltando-se para uma das vizinhas que, por ficar muito perto dele, lhe<br \/>\nestorvava \u00e0s vezes o movimento do bra\u00e7o, exclamou com arremesso: \u2014 Saia<br \/>\nda\u00ed! Tamb\u00e9m n\u00e3o sei o que tem a cheirar c\u00e1! Melhor seria que estivessem em<br \/>\ncasa cuidando das obriga\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>\u2014 Cruzes! disse a mo\u00e7a, fugindo do quarto. \u2014 Que bruto! Deus<br \/>\nte livre!<\/p>\n<p>Por esse tempo Magd\u00e1 era acometida por uma explos\u00e3o de solu\u00e7os, e chorava<br \/>\ncopiosamente, o peito muito oprimido.<\/p>\n<p>\u2014 Ora at\u00e9 que enfim! Rosnou o doutor. E, erguendo-se, soprou para o<br \/>\nConselheiro, a descer as mangas da camisa e da sobrecasaca, que havia arrega\u00e7ado:<br \/>\n\u2014 Pronto! Estes solu\u00e7os continuar\u00e3o ainda por algum tempo, e depois<br \/>\nela sossegar\u00e1. Naturalmente h\u00e1 de dormir. O que lhe pode aparecer \u00e9 a cefalalgia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>\u2014 Dores de cabe\u00e7a. Mas para isso voc\u00ea lhe dar\u00e1 o rem\u00e9dio que vou receitar.<\/p>\n<p>E sa\u00edram juntos para ir ao escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o diabo!&#8230; praguejava entre dentes o brutalh\u00e3o, enquanto atravessava<br \/>\no corredor ao lado do Conselheiro, enfiando \u00e0s pressas o seu insepar\u00e1vel sobretudo<br \/>\nde casimira alvadia. \u2014 \u00c9 o diabo! Esta menina j\u00e1 devia ter casado!<\/p>\n<p>\u2014 Disso sei eu&#8230; balbuciou o outro. \u2014 E n\u00e3o \u00e9 por falta de esfor\u00e7os<br \/>\nde minha parte, creia!<\/p>\n<p>\u2014 Diabo! Faz l\u00e1stima que um organismo t\u00e3o rico e t\u00e3o bom para procriar,<br \/>\nse sacrifique deste modo! Enfim \u2014 ainda n\u00e3o \u00e9 tarde; mas se ela n\u00e3o<br \/>\ncasar quanto antes \u2014 um um! N\u00e3o respondo pelo resto!<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o o doutor acha que&#8230; ?<\/p>\n<p>O Lob\u00e3o inflamou-se: Oh o Conselheiro n\u00e3o podia imaginar o que eram aqueles<br \/>\ntemperamentozinhos impression\u00e1veis!&#8230; eram terr\u00edveis, eram violentos, quando<br \/>\nalgu\u00e9m tentava contrari\u00e1-los! N\u00e3o pediam \u2014 exigiam! \u2014 reclamavam!<\/p>\n<p>\u2014 E se n\u00e3o lhes d\u00e1 o que reclamam, prosseguiu, \u2014 aniquilam-se,<br \/>\nestrangulam-se, como le\u00f5es atacados de c\u00f3lera! \u00c9 perigoso brincar com a fera<br \/>\nque principia a despertar&#8230; O monstro j\u00e1 deu sinal de si; e, pelo primeiro<br \/>\nberro, voc\u00ea bem pode calcular o que n\u00e3o ser\u00e1 quando estiver deveras assanhado!<\/p>\n<p>\u2014 Valha-me Deus! suspirou o pobre Conselheiro, que eu hei de fazer,<br \/>\nn\u00e3o dir\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Ora essa! Pois j\u00e1 n\u00e3o lhe disse! \u00c9 casar a rapariga quanto antes!<\/p>\n<p>\u2014 Mas com quem?<\/p>\n<p>\u2014 Seja l\u00e1 com quem for! O \u00fatero, conforme Plat\u00e3o, \u00e9 uma besta que quer<br \/>\na todo custo conceber no momento oportuno; se lho n\u00e3o permitem \u2014 dana!<br \/>\nOra a\u00ed tem!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! Alto l\u00e1! isso n\u00e3o! A histeria pode ter v\u00e1rias causas, nem sempre<br \/>\n\u00e9 produzida pela abstin\u00eancia; seria asneira sustentar o contr\u00e1rio. Convenho<br \/>\nmesmo com alguns m\u00e9dicos modernos em que ela nada mais seja do que uma nevrose<br \/>\ndo enc\u00e9falo e n\u00e3o estabele\u00e7a a sua sede nos \u00f3rg\u00e3os genitais, como queriam<br \/>\nos antigos; mas isso que tem a ver com o nosso caso? Aqui n\u00e3o se trata de<br \/>\ncurar uma hist\u00e9rica, trata-se de evitar a histeria. Ora, sua filha \u00e9 uma delicad\u00edssima<br \/>\nsensibilidade nervosa; acaba de sofrer um formid\u00e1vel abalo com a morte de<br \/>\numa pessoa que ela estremecia muito; est\u00e1, por conseguinte, sob o dom\u00ednio<br \/>\nde uma impress\u00e3o violenta; pois o que conv\u00e9m agora \u00e9 evitar que esta impress\u00e3o<br \/>\npermane\u00e7a, que avulte e degenere em histeria; compreende voc\u00ea? Para isso \u00e9<br \/>\npreciso, antes de mais nada, que ela contente e traga em perfeito equil\u00edbrio<br \/>\ncertos \u00f3rg\u00e3os, cuja exacerba\u00e7\u00e3o iria alterar fatalmente o seu sistema ps\u00edquico;<br \/>\ne, como o casamento \u00e9 indispens\u00e1vel \u00e0quele equil\u00edbrio, eu fa\u00e7o grande quest\u00e3o<br \/>\ndo casamento.<\/p>\n<p>\u2014 De acordo, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Casamento \u00e9 um modo de dizer, eu fa\u00e7o quest\u00e3o \u00e9 do coito! \u2014<br \/>\nEla precisa de homem! \u2014 Ora a\u00ed tem voc\u00ea!<\/p>\n<p>O Conselheiro suspirou com for\u00e7a, co\u00e7ou a cabe\u00e7a. Os dois penetraram no gabinete,<br \/>\ne se o doutor, depois de escrever a sua receita, acrescentou, como se n\u00e3o<br \/>\ntivesse interrompido a conversa: \u2014 Noutras circunst\u00e2ncias, sua filha<br \/>\nn\u00e3o sofreria tanto&#8230; nada disso teria at\u00e9 conseq\u00fc\u00eancias perigosas; mas, impression\u00e1vel<br \/>\ncomo \u00e9, com a educa\u00e7\u00e3o religiosa que teve. E com aquele caraterzinho orgulhoso<br \/>\ne cheio de intransig\u00eancias, se n\u00e3o casar quanto antes, ir\u00e1 padecer muito;<br \/>\nir\u00e1 vive em luta aberta consigo mesma!<\/p>\n<p>\u2014 Em luta? Como assim, doutor?<\/p>\n<p>\u2014 Ora! A luta da mat\u00e9ria que imp\u00f5e e da vontade que resiste; a luta<br \/>\nque se trava sempre que o corpo reclama com direito a satisfa\u00e7\u00e3o de qualquer<br \/>\nnecessidade, e a raz\u00e3o op\u00f5e-se a isso, porque n\u00e3o quer ir de encontro a certos<br \/>\npreceitos sociais. Estupidez humana! Imagine que voc\u00ea tem uma fome de tr\u00eas<br \/>\ndias e que, para comer, s\u00f3 disp\u00f5es de um meio \u2014 roubar! Que faria neste<br \/>\ncaso?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, mas com certeza n\u00e3o roubava&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o \u2014 morria de fome&#8230; Todavia um homem, de moral mais f\u00e1cil<br \/>\nque a sua n\u00e3o morreria, porque roubava&#8230; Compreende? _Pois a\u00ed tem!<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>V<\/h2>\n<p>Depois do ataque, Magd\u00e1 sentiu um grande quebramento de corpo e pontadas<br \/>\nna cabe\u00e7a. O Conselheiro, quando a viu em estado de conversar, falou-lhe com<br \/>\ndelicadeza a respeito de casamento, apresentando-lhe as doutrinas do Dr. Lob\u00e3o,<br \/>\nvestidas agora de um modo mais conveniente.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu estou de acordo! repontou ela, estou perfeitamente de acordo!<br \/>\nA quest\u00e3o \u00e9 haver um noivo! Eu n\u00e3o posso casar sem um noivo!<\/p>\n<p>\u2014 Tens rejeitado tantos!<\/p>\n<p>\u2014 Porque n\u00e3o me convinha nenhum dos que me apresentaram; hoje, por\u00e9m,<br \/>\nestou resolvida a ser mais f\u00e1cil de contentar, e creio que me casarei.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda bem, minha filha, ainda bem!<\/p>\n<p>E abriram-se de novo as salas do Sr. Conselheiro, e come\u00e7aram de novo as<br \/>\nfestas, e de novo come\u00e7ou aquela canseira de arranjar um \u2014 marido.<\/p>\n<p>E espalhem-se convites para todos os lados! E corre a gente \u00e0 confeitaria<br \/>\ne aos armaz\u00e9ns de bebidas! E contrate-se orquestra! E chama-se a costureira!<br \/>\nE ature-se o cabeleireiro! \u2014 Que ma\u00e7ada! Que insuport\u00e1vel ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>Entre os novos arrebanhados, apareceu o Sr. Comendador Jos\u00e9 Furtado da Rocha,<br \/>\nvelhote bem disposto, or\u00e7ando pelos cinq\u00fcenta, mas dando tinta ao cabelo e<br \/>\nescanhoando-se com muita perfei\u00e7\u00e3o. Era portugu\u00eas, e havia-se opulentado no<br \/>\ncom\u00e9rcio, onde principiara brunindo pesos e balan\u00e7as. Magd\u00e1 aceitou-lhe a<br \/>\ncorte quase por brincadeira, a rir; ou talvez para n\u00e3o contrariar o pai, que<br \/>\nse mostrava muito afei\u00e7oado por ele; ou, quem sabe? talvez ainda na esperan\u00e7a<br \/>\nde ver surgir de um momento para outro novo pretendente.<\/p>\n<p>O velho parecia ador\u00e1-la e falava, com meias palavras e sorrisos de misteriosa<br \/>\ninten\u00e7\u00e3o, em arranjar t\u00edtulos, deixar pal\u00e1cio, correr a Europa inteira e comprar<br \/>\nobjetos de arte.<\/p>\n<p>Um ajo! Mas, quando o Conselheiro, em nome do amigo, perguntou \u00e0 filha se<br \/>\nestava resolvida a casar com ele, Magd\u00e1 sorriu, espregui\u00e7ou-se e, afinal,<br \/>\npara n\u00e3o deixar o pai sem resposta, tartamudeou:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o digo que n\u00e3o, mas&#8230; sabe?&#8230; \u00e9 cedo para decidir&#8230; Havemos<br \/>\nde ver! havemos de ver!&#8230;<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses depois, o Comendador, j\u00e1 desenganado, casava-se em S\u00e3o Paulo com<br \/>\numa vi\u00fava ainda mo\u00e7a, professora de piano.<\/p>\n<p>Apresentou-se ent\u00e3o, solicitando a m\u00e3o de Magd\u00e1, p Dr. Tolentino. N\u00e3o tinha<br \/>\na metade do dinheiro do outro, mas em compensa\u00e7\u00e3o era muito mais novo. Muito<br \/>\nmais! E com um belo prest\u00edgio de homem de talento e um futur\u00e3o na advocacia,<br \/>\nse os seus pulm\u00f5es lho permitissem.<\/p>\n<p>Sim senhor, porque o Dr. Tolentino n\u00e3o gozava boa sa\u00fade. Era ainda jovem<br \/>\ne parecia velho; extremamente magro, vergado, um pouco giboso, olhos fundos,<br \/>\nfaces cavadas, cabelo pobre e uma tosse de a cada instante. Todo ele respirava<br \/>\nlongas noites de estudo, sobre grossos livros de direito ou defronte das carunchosas<br \/>\npilhas dos autos; todo ele estava a pedir, com seu magro pescocinho, um longo<br \/>\ncache-nez bem quente, e as suas m\u00e3os, extensas e magras, queriam luvas de<br \/>\nl\u00e3; e os seus p\u00e9s, longos e espalmados, exigiam sapatos de borracha. N\u00e3o produzia<br \/>\nl\u00e1 muito bom efeito o v\u00ea-lo assim desmalmado, muito comprido dentro da sua<br \/>\nsobrecasaca abotoada de cima a baixo, olhando tristemente para a vida por<br \/>\ndetr\u00e1s dos seus \u00f3culos de m\u00edope.<\/p>\n<p>Muito bom efeito \u2014 n\u00e3o, n\u00e3o produzia; mas tamb\u00e9m n\u00e3o produzia muito<br \/>\nmau, gra\u00e7as \u00e0 delicadeza dos seus gestos e \u00e0 express\u00e3o inteligente do seu<br \/>\nrosto cor de palha de milho. Cheirava a doen\u00e7a; mas, palavra de honra, falava<br \/>\nque nem o Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio.<\/p>\n<p>N\u00e3o! definitivamente merecia a fama de homem ilustre!<\/p>\n<p>O seu namoro \u00e0 filha do Conselheiro foi calmo, correto e persistente. Por\u00e9m<br \/>\nin\u00fatil: Magd\u00e1, depois de muita nega\u00e7a, muita hesita\u00e7\u00e3o e muito constrangimento,<br \/>\nresolveu n\u00e3o o aceitar.<\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 se ia entretanto quase que meio ano depois do primeiro ataque, e ela<br \/>\ncome\u00e7ava a torcer o nariz \u00e0 comida, a fazer-se mais magra, mais irrit\u00e1vel<br \/>\ne mais sujeita a sobressaltos nervosos.<\/p>\n<p>Abatia.<\/p>\n<p>O drama, a m\u00fasica triste, o romance amoroso, provocavam-lhe agora um choro,<br \/>\nque principiava pelas simples l\u00e1grimas e acabava sempre em convulsivos. Ao<br \/>\ndepois \u2014 a\u00ed estavam as pontadas no alto da cabe\u00e7a, o embrulhamento do<br \/>\nest\u00f4mago, os terrores infundados, o exagero de todos os seus atos e em estranho<br \/>\ndesassossego do corpo e do esp\u00edrito, que a fazia andar inquieta por toda a<br \/>\ncasa sem parar tr\u00eas segundos no mesmo ponto.<\/p>\n<p>\u2014 Temo-la travada! Exclamava o seu m\u00e9dico; at\u00e9 que, uma ocasi\u00e3o, avan\u00e7ando<br \/>\nfurioso de punho fechado contra o Conselheiro, gritou-lhe, cerrando os dentes<br \/>\ne arreganhando-os: \u2014 Que diabo, homem! casa esta pobre rapariga, seja<br \/>\nl\u00e1 com quem for!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 boa! Respondeu o outro! \u2014 Ainda mais esta!&#8230; Pois voc\u00ea acha<br \/>\nque, se houvesse aparecido com quem, eu j\u00e1 n\u00e3o a teria casado?<\/p>\n<p>\u2014 Ora o que, meu amigo! As minhas observa\u00e7\u00f5es n\u00e3o me enganam: ela tem<br \/>\nqualquer amor contrariado, que n\u00e3o me confessa; e voc\u00ea com certeza sabe de<br \/>\ntudo e cala o bico por conveni\u00eancia&#8230; \u00c9 que para o sujeito, naturalmente,<br \/>\n\u00e9 um tipo sem eira nem beira!&#8230; Ah! Eu compreendo estas coisas&#8230; mas, em<br \/>\ntodo o caso, fique sabendo para o seu governo que voc\u00ea est\u00e1 mas \u00e9 preparando<br \/>\numa doida de primeira ordem! Ora a\u00ed tem!<\/p>\n<p>O Conselheiro deu a sua palavra que n\u00e3o sabia de nada, e afirmou em boa f\u00e9<br \/>\nque a filha n\u00e3o tinha namoro oculto, nem claro; se o tivera, j\u00e1 ele o houvera<br \/>\ndescoberto.<\/p>\n<p>\u2014 Pois se n\u00e3o tem, \u00e9 preciso arranj\u00e1-lo e arranj\u00e1-lo j\u00e1!<\/p>\n<p>Surgiu ent\u00e3o o Conde do Valado.<\/p>\n<p>Trinta a trinta e cinco anos. Elegante, louro, meio calvo, barba rente espetando<br \/>\nno queixo em duas pontas de saca-rolha; olho azul, mon\u00f3culo, o esquerdo sempre<br \/>\nfechado; uma ferradura de ouro guarnecida de pequeninos brilhantes, na gravata,<br \/>\nque tamb\u00e9m era toda sarapintada de ferraduras; luvas de pele da Su\u00e9cia com<br \/>\ntr\u00eas risc\u00f5es negros em cima; sapatos ingleses, mostrando meias de cor, onde<br \/>\nhavia ainda pequenas ferraduras bordadas a seda.<\/p>\n<p>Este, quanto ao chamado vil metal, n\u00e3o tinha nem pouco, nem muito; era pobre,<br \/>\npobre como o pa\u00eds onde nascera; mas descendia em linha reta de uma fam\u00edlia<br \/>\nportuguesa muito ilustre pelo sangue, e em cujos primeiros galhos at\u00e9 pr\u00edncipes<br \/>\nse apontavam. Vivia a custa de um cavalo igualmente puro no sangue e na ra\u00e7a,<br \/>\ncom o qual apostava no Prado. De resto \u2014 falava ingl\u00eas, fumava cigarrilhos<br \/>\nde Havana, bebia cerveja como qualquer doutor formado na Alemanha e tinha<br \/>\no distint\u00edssimo talento de encher cinco horas s\u00f3 a tratar de j\u00f3quei-clube.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 ficou muito impressionada quando o viu pela primeira vez passar a meio<br \/>\ntrote na praia de Botafogo fazendo corcovear \u00e0 r\u00e9dea tosa um alaz\u00e3o do Moreaux.<br \/>\nAchou-o irresist\u00edvel de botas de verniz, elegantemente enrugadas sobre o tornozelo,<br \/>\ncal\u00e7\u00e3o de flanela branca abotoado na parte exterior da coxa, jaleco de pel\u00facia<br \/>\ncor de pinh\u00e3o com passamantes e bot\u00f5es de prata, chap\u00e9u alto de castor cinzento<br \/>\ne luvas de camur\u00e7a. Por muitos dias conservou no ouvido o eco daquele estalar<br \/>\nmet\u00f3dico e compassado, que as patas do animal feriam no cal\u00e7amento da rua.<br \/>\nE, em fam\u00edlia, tanto e com tamanha insist\u00eancia falou do tal conde, que o pai,<br \/>\nmau grado as informa\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias que obtivera a respeito dele, deu provid\u00eancias<br \/>\npara o atrair \u00e0 sua casa.<\/p>\n<p>Foi uma corte sem tr\u00e9guas a do Valado. Perseguia Magd\u00e1 por toda a parte;<br \/>\npassava-lhe a cavalo pela porta todos os dias; convidava-a para todas as valsas;<br \/>\nfazia-lhe declara\u00e7\u00f5es de amor em todas as ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? perguntou o Conselheiro \u00e0 filha, depois de lhe comunicar que<br \/>\no conde acabara de pedir a m\u00e3o dela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, respondeu Magd\u00e1. Mais tarde, mais tarde ter\u00e3o a resposta&#8230;<br \/>\n\u00c9 bem poss\u00edvel que aceite&#8230;<\/p>\n<p>Deram todos como certo o casamento da filha do Conselheiro com o estr\u00f3ina<br \/>\ndo conde. Fizeram-se coment\u00e1rios, reprova\u00e7\u00f5es. Mas, nesta mesma semana, uma<br \/>\nnoite, estando aquela ao piano e o outro ao seu lado, a virar-lhe as folhas<br \/>\nda partitura, ela de repente deixou de tocar, soltou um grito e foi logo acometida<br \/>\npor um novo ataque, ainda mais forte que o primeiro.<\/p>\n<p>Havia descoberto, a passear no colarinho do fidalgo, um pequenino inseto<br \/>\nda cor do jaquet\u00e3o com que ele se exibia a cavalo. Acudiram-na de pronto com<br \/>\nsais e algod\u00f5es queimados. Fez-se uma desordem geral na sala; Magd\u00e1 foi carregada<br \/>\na pulso para o quarto dando de pernas e bra\u00e7os por todo o caminho. E, da\u00ed<br \/>\na pouco, levantava-se a reuni\u00e3o e retiravam-se os convidados.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode erguer-se da cama no dia seguinte, nem no outro, nem nos cinco mais<br \/>\npr\u00f3ximos. Detinham-na grandes dores de cabe\u00e7a, amolecimento nas pernas, e<br \/>\numa ligeira impress\u00e3o dolorosa na espinha dorsal.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe! disse o Dr. Lob\u00e3o ao Conselheiro \u2014 Isto ainda n\u00e3o \u00e9 precisamente<br \/>\na tal fome de tr\u00eas dias, mas para isso pouco lhe falta!&#8230;<\/p>\n<p>O pai de Magd\u00e1 resolveu aproveitar a primeira estiada da mol\u00e9stia para casar<br \/>\na filha com o conde.<\/p>\n<p>\u2014 Decerto! decerto! aprovara o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Todavia a caprichosa, ainda de cama, declarou que \u2014 definitivamente<br \/>\n\u2014 m\u00e3o se casaria com semelhante homem. \u2014 Nunca!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! exclamou, com este \u00e9 tempo perdido! Fa\u00e7am o que quiserem, eu<br \/>\nn\u00e3o me caso!<\/p>\n<p>\u2014 Mas porque milha filha?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, n\u00e3o quero!<\/p>\n<p>\u2014 Ele te deu algum motivo de desgosto?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora! J\u00e1 te disse que n\u00e3o quero!<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m, nem ela pr\u00f3pria, sabia explicar a raz\u00e3o porque. \u2014 Era l\u00e1<br \/>\numa cisma.<\/p>\n<p>Quando se levantou estava desfeita; apareceram-lhe n\u00e1useas depois da comida<br \/>\ne uma tosse seca que a perseguia enquanto estivesse de p\u00e9.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que o Dr. Lob\u00e3o, enfurecido com a sua doente, porque se recusara<br \/>\na entregar-se ao conde, aconselhou o tal passeio \u00e0 Europa.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>VI<\/h2>\n<p>A viagem, como ficou dito, pouco lhe aproveitou ao sistema muscular e agravara-lhe<br \/>\nsem d\u00favida o sistema nervoso. Magd\u00e1 voltou mais impression\u00e1vel, mais vibrante,<br \/>\nmais el\u00e9trica. De novo, verdadeiramente novo, o que se lhe notava era s\u00f3 uma<br \/>\nexagerada preocupa\u00e7\u00e3o religiosa; estava devota como nunca fora, nem mesmo<br \/>\nnos seus tempos de pensionista das irm\u00e3s de caridade. Mostrava-se muito piedosa,<br \/>\nmuito humilde e muito submissa aos preceitos da igreja. Falava de Cristo,<br \/>\npondo na voz infinitas do\u00e7uras de amor.<\/p>\n<p>\u00c9 que, enquanto percorrera as grandes capitais do mundo cat\u00f3lico, visitando<br \/>\nde prefer\u00eancia os lugares sagrados e as ru\u00ednas, o seu esp\u00edrito, como se peregrinasse<br \/>\nem busca do ideal fora lentamente se voltando para Deus. Preferira sempre<br \/>\nos ermos silenciosos e prop\u00edcios \u00e0s longas concentra\u00e7\u00f5es m\u00edsticas. As multid\u00f5es<br \/>\nassustavam-na com a sua grosseira e ruidosa atividade dos grandes centros<br \/>\nde ind\u00fastria e do com\u00e9rcio; o verminar das avenidas e boulevards, as enchentes<br \/>\nde teatro, a concorr\u00eancia dos passeios p\u00fablicos, a aglomera\u00e7\u00e3o das oficinas<br \/>\ne dos armaz\u00e9ns de moda, o cheiro do carv\u00e3o de pedra, o vaiv\u00e9m dos oper\u00e1rios,<br \/>\no zunzum dos hot\u00e9is; tudo isso lhe fazia mal. Agora, a sua delicad\u00edssima sensibilidade<br \/>\nnervosa reclamava o taciturno recolhimento dos claustros; pedia uma vida obscura<br \/>\ne contemplativa, toda ocupada com um perenal id\u00edlio da alma com a divindade.<\/p>\n<p>Em Fran\u00e7a, chegou a falar ao pai em recolher-se a um convento. O Conselheiro<br \/>\ndisparatou:<\/p>\n<p>\u2014 Estava doida! Pois ele tinha l\u00e1 criado uma filha com tanto esmero<br \/>\npara a ver freira?&#8230; N\u00e3o lhe faltava mais nada! Ah! bem quisera opor-se \u00e0quelas<br \/>\nincessantes visitas aos mosteiros, aos cemit\u00e9rios e \u00e0s igrejas! N\u00e3o se opusera<br \/>\n\u2014 a\u00ed estavam agora as conseq\u00fc\u00eancias! \u2014 Ser freira! Tinha gra\u00e7a!<br \/>\nN\u00e3o havia d\u00favida \u2014 tinha muita gra\u00e7a que a Sra. D. Madalena fosse a<br \/>\nParis para ficar num convento! Mas era bem feito!&#8230; era muito bem feito,<br \/>\nporque, desde o dia em que se deu o que se dera com a visita ao t\u00famulo de<br \/>\nEloisa e Abelardo, que ele devia estar prevenido contra semelhantes passeios<br \/>\ne tomar provid\u00eancias a respeito daquela mania religiosa!<\/p>\n<p>A visita ao t\u00famulo dos legend\u00e1rios amantes fora com efeito muito fatal \u00e0<br \/>\nfilha do Conselheiro. Esta, depois de contempl\u00e1-lo em sil\u00eancio e por longo<br \/>\ntempo, est\u00e1tica, abriu num pranto muito solu\u00e7ado, findo o qual, p\u00f4s-se a dan\u00e7ar<br \/>\ne cantar, num ritmo, que ia aos poucos se acelerando. O pai quis cont\u00ea-la;<br \/>\nMagd\u00e1 fugiu-lhe, correndo pelo cemit\u00e9rio, saltando pelas sepulturas, trope\u00e7ando<br \/>\naqui e ali, t\u00e3o depressa caindo como se levantando, a soltar gritos que pareciam<br \/>\nuivos de fera esfaimada. Afinal, j\u00e1 sem for\u00e7as e com as roupas em frangalhos,<br \/>\nabateu por terra, ofegante, mas encabujando ainda num rosnar convulsivo, at\u00e9<br \/>\nperder os sentidos, e logo pegar em sono profundo, do qual s\u00f3 despertou vinte<br \/>\ne tantas horas depois, j\u00e1 no hotel, para onde a levaram, sem que ela desse<br \/>\nacordo de si.<\/p>\n<p>Estava no per\u00edodo da cor\u00e9ia e das convuls\u00f5es.<\/p>\n<p>Este acidente, por\u00e9m, em vez de lhe servir de li\u00e7\u00e3o e de afast\u00e1-la de tudo<br \/>\nque lhe pudesse causar novas crises, foi, ao contr\u00e1rio, como que o ponto de<br \/>\npartida da sua declina\u00e7\u00e3o para as coisas religiosas. Come\u00e7ou desde ent\u00e3o a<br \/>\nsentir-se oprimida por uma ansiedade sem objetivo nem causa aparente; \u00e0s vezes<br \/>\numa grande m\u00e1goa a sufocava, enchendo-lhe a garganta de solu\u00e7os indissol\u00faveis;<br \/>\noutras vezes eram titila\u00e7\u00f5es por todo o corpo, uns pruridos que a irritavam,<br \/>\nque lhe metiam vontade de morder as carnes, de a\u00e7oitar-se, de beliscar-se<br \/>\nat\u00e9 tirar sangue. E, quando cessavam estas tiranias da mat\u00e9ria, voltavam de<br \/>\nnovo as m\u00e1goas, e ent\u00e3o o que a consumia era um desejo esquisito, que lhe<br \/>\ncomia por dentro, onde e porque n\u00e3o sabia dizer; e depois ma esperan\u00e7a de<br \/>\nconforto, um como ideal despeda\u00e7ado no seu interior, cujas incalcul\u00e1veis part\u00edculas<br \/>\nse lhe espalhassem por todo o ser e procurassem fugir, transformadas em milh\u00f5es<br \/>\nde suspiros.<\/p>\n<p>Valia-se ent\u00e3o das s\u00faplicas religiosas e ficava longo tempo a rezar, banhada<br \/>\nem l\u00e1grimas, os olhos injetados, os l\u00e1bios tr\u00eamulos, o nariz frio de neve.<br \/>\nPor\u00e9m a ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o a confortava, e a infeliz pedia a Deus que a matasse naquele<br \/>\nmesmo instante ou lhe enviasse dos c\u00e9us um al\u00edvio para a suas afli\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi neste estado que Magd\u00e1 tornou ao Rio de Janeiro. A velha Camila, cuja<br \/>\nbeatice emperrara com o tempo e j\u00e1 tresandara a idiotia, rejubilou ao v\u00ea-la<br \/>\nassim; durante a viagem da sobrinha, ela se recolhera ao convento de Santa<br \/>\nTeresa, onde tinha amigas e onde costumava dantes ir passar dias e \u00e0s vezes<br \/>\nsemanas inteiras, no tempo em que ainda n\u00e3o estava t\u00e3o mal de sa\u00fade. Qual<br \/>\nn\u00e3o seria, pois, o seu gosto, quando Magd\u00e1, fechando-se com ela no quarto,<br \/>\nabriu o cora\u00e7\u00e3o e franqueou \u00e0 devota todas as vagas mortifica\u00e7\u00f5es e m\u00edsticos<br \/>\narrebatamentos da sua pobre alma enferma?<\/p>\n<p>\u2014 Fizeste muito bem, minha filha! aplaudiu a tia, abra\u00e7ando-a transportada.<br \/>\n\u2014 Fizeste muito bem em te voltares para a igreja! Deixa l\u00e1 falar teu<br \/>\npai, que n\u00e3o entende disto e est\u00e1 t\u00e3o contaminado de heresia como qualquer<br \/>\nhomem deste tempo. Deixa-o l\u00e1 e entrega-te \u00e0s m\u00e3os de Deus, que ter\u00e1s bem-aventuran\u00e7a<br \/>\nna terra, como mais tarde a pilhar\u00e1s no c\u00e9u.<\/p>\n<p>A sobrinha falou em casamento.<\/p>\n<p>\u2014 Se encontrares marido, respondeu a velha, e entenderes que deves<br \/>\ncasar \u2014 casa-te, menina, que essa \u00e9 a vontade de teu pai; mas tamb\u00e9m<br \/>\nse n\u00e3o casares, nem por isso ser\u00e1s menos feliz, uma vez que j\u00e1 estejas na<br \/>\ndivina gra\u00e7a de Nosso Senhor Jesus Cristo&#8230;<\/p>\n<p>E, depois de cruzar as m\u00e3os sobre o peito e revirar os olhos para o c\u00e9u,<br \/>\nacrescentou: \u2014 N\u00e3o tenho eu vivido at\u00e9 hoje t\u00e3o solteirinha como no<br \/>\ndia em que nasci?&#8230; E, olha, rapariga, que o homem nunca me fez l\u00e1 essas<br \/>\nfaltas! Ainda em certa idade, quando andava no fogo dos meus vinte aos trinta,<br \/>\nvinham-se assim umas venetas mais fortes de casamento; mas que fazia eu? \u2014<br \/>\nDisfar\u00e7ava; metia-me com os meus santinhos; rezava \u00e0 Nossa Senhora do Amparo,<br \/>\ne com poucas \u2014 nem mais pensava em semelhante porcaria! A coisa est\u00e1<br \/>\nem tirar uma pessoa o ju\u00edzo da\u00ed! Olha: decora a ora\u00e7\u00e3o que te vou ensinar,<br \/>\ne reza-a sempre que sentires formigueiros na pele e comich\u00f5es por dentro!<\/p>\n<p>A ora\u00e7\u00e3o constava do seguinte:<\/p>\n<p>&#8220;Jesus, filho de Maria, pr\u00edncipe dos c\u00e9us e rei na terra, senhor dos homens,<br \/>\namado meu, esposo de minha alma, vale0me tu, que \u00e9s a minha salva\u00e7\u00e3o e o meu<br \/>\namor! Esconde-me, querido, com o teu manto, que o le\u00e3o me cerca! Protege-me<br \/>\ncontra mim mesma! esconjura o bicho imundo que habita minha carne e suja minha<br \/>\nalma! \u2014 Salva-me! N\u00e3o me deixes cair em pecado de lux\u00faria, que eu sinto<br \/>\nj\u00e1 as l\u00ednguas do inferno me lambendo as carnes do meu corpo e enfiando-se<br \/>\npelas minhas veias! Vale-me, esposo meu, amado meu! Vou dormir \u00e0 sombra de<br \/>\ntua cruz, como o cordeirinho imaculado, para que o dem\u00f4nio n\u00e3o se aproxime<br \/>\nde mim! Amado do meu cora\u00e7\u00e3o, espero-te esta noite no meu sonho, deitada de<br \/>\nventre para cima, com os peitos bem abertos, para que tu me penetres at\u00e9 ao<br \/>\nfundo de minhas entranhas e me ilumine toda por dentro com a luz do teu divino<br \/>\nesp\u00edrito! Por quem \u00e9s, conjuro-te que n\u00e3o me faltes, por que, se n\u00e3o vieres,<br \/>\narrisco-me a cair em poder dos teus contr\u00e1rios, e morrerei sem estar no gozo<br \/>\nda tua gra\u00e7a! Vem ter comigo, Jesus! Jesus, filho de Deus, senhor dos homens,<br \/>\npr\u00edncipe dos c\u00e9us e rei na terra! Vem que eu te espero. Am\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Magd\u00e1 decorou isto e, desde ent\u00e3o, todas as noites, antes de dormir, ficava<br \/>\nhoras esquecidas ajoelhada defronte do seu crucifixo de marfim, a repetir<br \/>\nem \u00eaxtases aquelas palavras que a entonteciam com a sua dura sensualidade<br \/>\nasc\u00e9tica. E os olhos prendiam-se-lhe na chagada nudez do filho de Maria e<br \/>\nungiam-lhe ternamente as feridas, como se ela contemplasse com efeito o retrato<br \/>\nde seu amado. Mas, naquele corpo de homem nu, ali, no mist\u00e9rio do quarto,<br \/>\ntrazia-lhe estranhas conjeturas e maus pensamentos, que a m\u00edsera enxotava<br \/>\ndo esp\u00edrito, coroando envergonhada da sua pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi a partir desse tempo que deu para andar sempre vestida de luto, muito<br \/>\nsimples, com a cabelo apenas enrodilhado e preso na nuca; um fio de p\u00e9rolas<br \/>\nao pesco\u00e7o, sustentando uma cruz de ouro, e mais nenhuma outra j\u00f3ia. E, assim,<br \/>\na sua figura ainda parecia mais delgada e o seu rosto mais p\u00e1lido. A tristeza<br \/>\ne a concentra\u00e7\u00e3o davam-lhe \u00e0 fisionomia uma severa express\u00e3o de orgulho; dir-se-ia<br \/>\nque ela, a medida que se humilhava perante Deus, fazia-se cada vez mais altiva<br \/>\ne sobranceira para com os homens. O todo era o de uma princesa tra\u00edda pelo<br \/>\namante, e cuja desventura n\u00e3o conseguira abaixar-lhe a soberbia, nem arrancar-lhe<br \/>\ndos l\u00e1bios frios numa queixa de amor ou um suspiro de saudade.<\/p>\n<p>Os seus atos mais simples e os seus mais ligeiros pensamentos ressentiam-se<br \/>\nagora de um grande exagero. Nunca se mostrara t\u00e3o intolerante nos princ\u00edpios<br \/>\nde dignidade e na pureza dos costumes; nunca fora t\u00e3o aristocrata, t\u00e3o zeladora<br \/>\nda sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade, nem t\u00e3o convicta dos seus merecimentos e dos<br \/>\nseus cr\u00e9ditos.<\/p>\n<p>Uma conduta irrepreens\u00edvel! Se sofria ou n\u00e3o para sustentar os deveres de<br \/>\nmulher honesta s\u00f3 o sabia a discreta imagem de marfim, a quem unicamente confiava<br \/>\nos segredos das suas lutas interiores; os desesperos e as mis\u00e9rias da sua<br \/>\ncarne; se tinha desejos, tragava-os em sil\u00eancio com a mais inflex\u00edvel nobreza<br \/>\ne o mais afinado orgulho. Ao v\u00ea-la, na singela gravidade do seu trajo, o rosto<br \/>\ndescolorido pela mol\u00e9stia, os movimentos demorados e sem vida, sentia a gente<br \/>\npor ela um profundo respeito compassivo, uma simpatia discreta e duradoura.<br \/>\nO triste ar de altiva resigna\u00e7\u00e3o que se lhe notara nos olhos, outrora t\u00e3o<br \/>\nardentes e t\u00e3o talhados para todos os mist\u00e9rios da ternura; a desdenhosa express\u00e3o<br \/>\nde fidalguia daqueles l\u00e1bios j\u00e1 sem cor, instrumentos que a natureza havia<br \/>\ndestinado para executar a m\u00fasica ideal dos beijos e cujas cordas pareciam<br \/>\nagora frouxas e embambecidas; aquela respira\u00e7\u00e3o curta e entrecortada de impercept\u00edveis<br \/>\nsuspiros; aquela voz, poderosa na express\u00e3o e fraca na tonalidade, onde havia<br \/>\num pouco de s\u00faplica e um pouco de arrog\u00e2ncia \u2014 s\u00faplica para Deus e arrog\u00e2ncia<br \/>\npara os homens; enfim \u2014 tudo que respirava da sua ador\u00e1vel figura de<br \/>\ndeusa enferma: tudo nos conduzia a am\u00e1-la em segredo reverentemente, como<br \/>\num soldado a sua rainha.<\/p>\n<p>Agora a bem poucos dava a honra de uma conversa; falava sempre sem gesticular<br \/>\ne em voz baixa, e ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser o pai, lhe alcan\u00e7ava um sorriso. A dan\u00e7a,<br \/>\no canto, o piano, tudo isso foi posto \u00e0 margem; as partituras dos seus autores<br \/>\nfavoritos j\u00e1 n\u00e3o se abriam havia longos meses; a sua caixinha de tintas vivia<br \/>\nno abandono; os seus pinc\u00e9is de aquarela, dantes t\u00e3o companheiros dela, j\u00e1<br \/>\nlhe n\u00e3o mereciam sequer um beijo. Iam-se-lhe agora os dias quase que exclusivamente<br \/>\nconsumidos na leitura, lia mais que dantes, muito mais, sem compara\u00e7\u00e3o, mas<br \/>\nt\u00e3o somente livros religiosos ou aqueles que mais de perto jogavam com os<br \/>\ninteresses da igreja; gostava de saber as biografias dos santos, deliciava-se<br \/>\ncom a &#8220;Imita\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo&#8221;, e n\u00e3o se fartava de ler a B\u00edblia, o grande<br \/>\nmanancial da poesia que agora mais a encantava; decorara o &#8220;C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos&#8221;<br \/>\nde Salom\u00e3o, principalmente o cap\u00edtulo V que principia deste modo:<\/p>\n<p>&#8220;Venha o meu amado para o seu jardim, e coma o fruto das suas macieiras.<\/p>\n<p>&#8220;Eu vim para o meu jardim, irm\u00e3 minha esposa; seguei a minha birra arom\u00e1tica;<br \/>\ncomi o favo com o mel; bebi o meu vinho com o meu leite. Comei, amigos, e<br \/>\nbebei, e embriagai-vos, car\u00edssimos!<\/p>\n<p>&#8220;Eu durmo e o meu cora\u00e7\u00e3o vela; eis a voz do meu amado que bate; dizendo:<br \/>\n\u2014 Abre-me, irm\u00e3 minha pomba minha, imaculada minha, porque sinto a cabe\u00e7a<br \/>\ncheia de orvalho, e me est\u00e3o correndo pelos an\u00e9is do cabelo, as gotas da noite.&#8221;<\/p>\n<p>E estes, como todos os outros vers\u00edculos de Salom\u00e3o, lhe punham no esp\u00edrito<br \/>\numa embriagues deliciosa, atordoavam-na como o perfume capitoso e mel\u00edfluo<br \/>\nde flores orientais ou como um vinho saboroso e t\u00e9pido que a ia penetrando<br \/>\ntoda, at\u00e9 a alma, com a sua do\u00e7ura aveludada e cheirosa. E, de pois de repeti-los<br \/>\nmuitas e muitas vezes, corria a tomar nas m\u00e3os a imagem de Cristo, e abra\u00e7ava-a,<br \/>\ne cobria-a de beijos, solu\u00e7ando e murmurando: &#8220;Meu amado, meu irm\u00e3o, meu esposo!&#8221;<br \/>\nE dizia-lhe em segredo, num del\u00edrio crescente: &#8220;Eu sou a tua pomba imaculada;<br \/>\nsou o mel de que teus l\u00e1bios gostam; sou o leite fresco e puro com que tu<br \/>\nte acalmas; tu \u00e9s o vinho com que me embriago!&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Isto acaba mal! Isto com certeza acaba muito mal! exclamava entretanto<br \/>\no Dr. Lob\u00e3o, furioso contra o Conselheiro, sobre quem ele fazia recair toda<br \/>\na responsabilidade do estado de Magd\u00e1. \u2014 Pois j\u00e1 n\u00e3o bastavam os terr\u00edveis<br \/>\nelementos que havia para agravar a mol\u00e9stia?&#8230; Como ent\u00e3o deixou nascer e<br \/>\ndesenvolver-se o dem\u00f4nio daquela beatice, que s\u00f3 por si era mais que suficiente<br \/>\npara derreter os miolos a qualquer mulher?!<\/p>\n<p>Uma tarde, na semana santa, ela saiu em companhia da velha e voltou sem sentidos<br \/>\nno fundo de um carro. Tinham ido ouvir um serm\u00e3o na Capela Imperial, e Magd\u00e1<br \/>\nfora a\u00ed mesmo acometida por um ataque de convuls\u00f5es em del\u00edrio.<\/p>\n<p>O Conselheiro revoltou-se formalmente contra a irm\u00e3:<\/p>\n<p>Aquilo era um abuso que or\u00e7ava pela petul\u00e2ncia! era um desrespeito ao que<br \/>\nele determinara dentro de sua casa e com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria filha! Por<br \/>\nmais de uma vez havia declarado j\u00e1 que a Sra. D. Madalena n\u00e3o podia ir \u00e0 igreja<br \/>\ne muito menos demorar-se a\u00ed horas e horas; e fazia-se justamente o contr\u00e1rio!<br \/>\nSe D. Camila n\u00e3o podia passar sem isso, que fosse sozinha! Podia l\u00e1 ficar<br \/>\no tempo que quisesse, fartar-se de serm\u00f5es e rezas, deliciar-se com aquela<br \/>\nbela atmosfera impregnada de incenso e bodum de negros! Que fosse; ningu\u00e9m<br \/>\nse privava de ir, mas, com um milh\u00e3o de raios! n\u00e3o arrastasse consigo uma<br \/>\npobre doente para p\u00f4-la naquele estado! Era muito bonito, n\u00e3o tinha d\u00favida!<br \/>\nEle em casa a desfazer-se com cuidados de meses e meses para minorar os sofrimentos<br \/>\nda filha, a fazer sacrif\u00edcios para a ver boa; e a besta da irm\u00e3 a destruir<br \/>\ntudo isso em poucas horas! N\u00e3o! n\u00e3o tinha jeito! A continuarem as coisas por<br \/>\naquele modo, ele ver-se-ia obrigado a tomar s\u00e9rias provid\u00eancias contra semelhante<br \/>\nabuso! Se D. Camila n\u00e3o se queria conformar com o que ditava o bom senso,<br \/>\nque tivesse paci\u00eancia, mas voltaria por uma vez para o convento!<\/p>\n<p>E o que mais o irritava era o modo fraudulento porque tudo aquilo se fazia;<br \/>\neram as confid\u00eancias secretas, as combina\u00e7\u00f5es em voz misteriosa, a esp\u00e9cie<br \/>\nde conspira\u00e7\u00e3o que havia contra ele, entre Magd\u00e1 e a velha. Enganavam-no:<br \/>\nsaiam para &#8220;dar um passeio pela praia&#8221;, e agora ficava descoberto o que eram<br \/>\nos tais passeios! Roubavam-lhe at\u00e9 o amor e a confian\u00e7a de sua filha! \u2014<br \/>\nDantes, Magd\u00e1 n\u00e3o dava um passo, nem mesmo pensava em fazer fosse o que fosse,<br \/>\nsem primeiro consult\u00e1-lo, ouvi-lo; e agora \u2014 evitava-o; falava-lhe em<br \/>\nmeias palavras; parecia ter segredos inconfess\u00e1veis! Dissimulava!<\/p>\n<p>\u2014 Tudo isso \u00e9 da mol\u00e9stia! Explicou o Dr. Lob\u00e3o, cujas visitas \u00e0 casa<br \/>\ndo Conselheiro rareavam ultimamente, porque o feroz m\u00e9dico vivia muito preocupado<br \/>\ncom o estabelecimento de uma casa de sa\u00fade, que acabava de montar fora da<br \/>\ncidade. Mas o pobre pai n\u00e3o se consolava com a explica\u00e7\u00e3o do doutor e sofria<br \/>\ncada vez mais por amor da sua estremecida enferma. Magd\u00e1, com efeito, estava<br \/>\nagora toda cheia de dissimula\u00e7\u00f5es e reservas; parecia viver s\u00f3 exclusivamente<br \/>\npara uma id\u00e9ia secreta, um ideal muito seu, que ela colocava acima de tudo<br \/>\ne de todos. Fazia-se muito manhosa, muito amiga de sutilezas, de disfarce,<br \/>\nempenhando-se em esconder as suas mais simples e justific\u00e1veis inten\u00e7\u00f5es e<br \/>\nfazendo acreditar que existiam outras de grande responsabilidade. Os passeios<br \/>\nclandestinos que continuava a dar coma tia, cegando a vigil\u00e2ncia do Conselheiro,<br \/>\npara estar algum tempo na igreja, tinham para ela um irresist\u00edvel encanto<br \/>\nde fruto proibido, e a preocupa\u00e7\u00e3o em esconde-los constitu\u00eda o melhor interesse<br \/>\nde sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>As duas sa\u00edam em passo de quem vai espairecer um pouco pelas imedia\u00e7\u00f5es de<br \/>\ncasa, mas a certa dist\u00e2ncia aceleravam a marcha, apressavam-se, conversando<br \/>\nem segredo em segredo os seus assuntos religiosos. A rapariga, \u00e0 medida que<br \/>\nse aproximava do templo, ia ficando excitada, palpitante, olhando repetidas<br \/>\nvezes para tr\u00e1s, como se receiasse que a seguissem. Afinal chegava, ofegante,<br \/>\ncom o cora\u00e7\u00e3o na garganta e, depois de verificar que n\u00e3o erra seguida por<br \/>\nningu\u00e9m, entrava na igreja, tr\u00eamula e assustadi\u00e7a, como se entrasse no lat\u00edbulo<br \/>\nde um amante. E aquele sil\u00eancio das naves; aquela meia sombra em que rebrilhavam<br \/>\nos ouros dos altares; aquela solid\u00e3o compungida; o ar fresco dos lugares de<br \/>\nteto muito alto; tudo isso lhe punha no corpo um meigo quebranto de vol\u00fapia<br \/>\nsobressaltada.<\/p>\n<p>Ajoelhava sempre num ponto certo; tinha j\u00e1 a sua imagem predileta, era um<br \/>\ngrupo de Mater Dolorosa, de tamanho natural, com o Cristo deitado ao colo,<br \/>\nmorto, todo nu, os bra\u00e7os pendentes, o sangue a escorrer-lhe pelas faces e<br \/>\npela eb\u00farnea rigidez do corpo. Adorava este Cristo, amava-o, preferia-o, tinha<br \/>\n\u00edntimas predile\u00e7\u00f5es por ele; achava-o mais formoso do que todas as outras<br \/>\nimagens sagradas. Embriagava-se com ver-lhe aquele rosto muito p\u00e1lido, aqueles<br \/>\nolhos de p\u00e1lpebras mal fechados, adormecidos no negrume dos mart\u00edrios, aqueles<br \/>\nl\u00e1bios roxos, im\u00f3veis, aqueles longos cabelos que lhe ca\u00edam pelos ombro, aquela<br \/>\nbarba nazarena que parecia ter bebido de cada mulher da terra uma l\u00e1grima<br \/>\nde amor.<\/p>\n<p>E Ela, no murm\u00fario das suas ora\u00e7\u00f5es, dizia-lhe ternuras de esposa; pedia-lhe<br \/>\nconsolos e confortos, que ele n\u00e3o lhe podia dar; falava-lhe com o magoado<br \/>\norientalismo do &#8220;C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos&#8221;; e suas palavras eram quentes como<br \/>\nbeijos e ternas e doloridas como suspiros de quem ama. Por aquela imagem querida<br \/>\nacentuava na sua imagina\u00e7\u00e3o e melanc\u00f3lica figura desse ente perfeito e desejado,<br \/>\nde que na B\u00edblia lhe falavam as filhas de Jerusal\u00e9m. Era esse o amado que,<br \/>\nem sonhos, lhe pedia para pedir a porta, porque lhe estavam correndo pelos<br \/>\nan\u00e9is do cabelo as gotas da noite; esse era o amado c\u00e2ndido e rubicundo, escolhido<br \/>\nentre milhares; era esse, cujos olhos s\u00e3o ternos e doces, nem como as pombas<br \/>\nque, tendo os ninhos ao p\u00e9 do regato das \u00e1guas, est\u00e3o lavadas em leite e se<br \/>\nacham de assento junto das mais largas correntes dos rios; era esse o amado,<br \/>\ncujas faces s\u00e3o iguais a canteiros de flores arom\u00e1ticas e cujos l\u00e1bios destilam<br \/>\na mais preciosa mirra; era esse de m\u00e3os superfinas, feitas ao torno, cheias<br \/>\nde jacintos; esse de ventre de marfim, guarnecido de safiras; esse de pernas<br \/>\nde m\u00e1rmore sustentadas sobre bases de ouro; esse que era escolhido como os<br \/>\ncedros e cuja figura a chorosa e l\u00e2nguida sulamita comparava ao L\u00edbano.<\/p>\n<p>Era esse que ela supunha amar; a quem supunha dar tudo o que seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne alma possu\u00edam; e, vendo-se descoberta e proibida de ir \u00e0s m\u00edsticas entrevistas<br \/>\ncom ele, foi tomada por um grande desgosto, sobrevindo as convuls\u00f5es, e tendo<br \/>\nde guardar a cama por muitos dias, porque lhe apareceu ent\u00e3o uma febre de<br \/>\ncar\u00e1ter especial, apresentando todos os sintomas da pirexia comum, mas que<br \/>\ntodavia n\u00e3o se subordinava aos medicamentos que a esta combatem.<\/p>\n<p>\u2014 Ora a\u00ed tem! \u00c9 a febre hist\u00f3rica! Classificou logo o Dr. Lob\u00e3o. E,<br \/>\nem resposta \u00e0s perguntas do Conselheiro, despejou um chorrilho de nomes t\u00e9cnicos,<br \/>\ndizendo que: &#8220;Aquilo n\u00e3o podia ser febre tif\u00f3ide, nem ter sua origem na flegmasia<br \/>\nencef\u00e1lica, nem t\u00e3o pouco na altera\u00e7\u00e3o de algum \u00f3rg\u00e3o espl\u00e2ncnico, porque<br \/>\numa meningite, ou uma encefalite ou mesmo a febre tif\u00f3ide comum n\u00e3o poderia<br \/>\nchegar \u00e0quele grau, por que n\u00e3o havia doente capaz de resistir!&#8221;<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que Magd\u00e1, ao levantar-se da tal febre, estava reduzida a uma fraqueza<br \/>\nextrema. Voltaram-lhe a dor da espinha, a tosse e a inapet\u00eancia completa;<br \/>\nse insistia em comer, vomitava incontinente. O Dr. Lob\u00e3o, na sua vener\u00e1vel<br \/>\npretens\u00e3o de m\u00e9dico antigo, declarou sem cerim\u00f4nia que, &#8220;pela contra\u00e7\u00e3o t\u00f4nica<br \/>\ndos m\u00fasculos, pressentia a aproxima\u00e7\u00e3o da letargia&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 A letargia! Agora \u00e9 que eram elas! A\u00ed estava o que ele menos desejava<br \/>\nque viesse!<\/p>\n<p>Depois de praguejar contra todo mundo e ralhar cuidadosamente com o Conselheiro,<br \/>\naconselhou a este que levasse a doente para outro arrabalde mais campestre,<br \/>\nonde n\u00e3o houvessem igrejas perto de casa e onde ela pudesse estar mais em<br \/>\nliberdade e mais em movimento. E, logo que se sentisse melhor, convinha despertar-lhe<br \/>\no gosto por qualquer ocupa\u00e7\u00e3o manual. &#8220;Nada de belas artes, nem leituras!<br \/>\nExclamava o cirurgi\u00e3o. \u2014 Jardinagem, servi\u00e7o de horta, jogos de exerc\u00edcios,<br \/>\ncomo o bilhar, a ca\u00e7a, a pesca! E passeios! Muitos passeios ao ar livre, pela<br \/>\nfresca manh\u00e3, sem chap\u00e9u, sem muito medo de apanhar sol! E, se os passeios<br \/>\nfossem depois de um banho bem frio \u2014 melhor seria! Era preciso que Magd\u00e1<br \/>\nn\u00e3o deixasse de tomar ferro e aquele xarope de Easton, que ele receitara.<br \/>\nNa alimenta\u00e7\u00e3o devia procurar sempre comer um pouco de carne sangrenta, mariscos,<br \/>\ne tomar bom vinho Madeira.&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, a\u00ed tem! Fa\u00e7a isto, concluiu ele, e veja se consegue esconder-lhe<br \/>\no diabo dos tais livros religiosos, que ela tem lido ultimamente.<\/p>\n<p>E resmungou ainda, depois de novas pragas: \u2014 Pena \u00e9 que se lhe n\u00e3o<br \/>\npossa esconder tamb\u00e9m aquela barata velha, que \u00e9 ainda pior do que todas as<br \/>\ncartilhas da doutrina crist\u00e3!<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>VII<\/h2>\n<p>A mudan\u00e7a estava marcada para da\u00ed a quinze dias. Iriam refugiar-se na Tijuca,<br \/>\nnum casar\u00e3o, que o Conselheiro possu\u00eda para essa bandas. Sobrado muito antigo<br \/>\ne de apar\u00eancia tristonha, todo enterrado no fundo de uma ch\u00e1cara, enorme e<br \/>\ndestratada, que em alguns pontos at\u00e9 aprecia mato virgem. Janelas quase quadradas;<br \/>\nparedes denegridas pela chuva e pelo tempo; nas grades da escadaria principal<br \/>\nheras e parasitas grimpavam livremente; as trapoerabas cobriam os degraus<br \/>\ne alastravam por toda a parte; e l\u00e1 no alto, \u00e0 beira desdentada do telhado,<br \/>\nhabitava uma rep\u00fablica de andorinhas.<\/p>\n<p>Para chegar \u00e0 casa, tinha-se de atravessar uma longa e tenebrosa alameda<br \/>\nde mangueiras, que come\u00e7ava logo no port\u00e3o da entrada e se ia estendendo por<br \/>\nali acima l\u00fagrebe como um caminho de cemit\u00e9rio. Era triste aquilo com os seus<br \/>\naltos muros de pedra e cal, pesados, cobertos de limo, e transbordantes de<br \/>\ncopas de \u00e1rvores velhas. O casar\u00e3o, olhado pelas costas ou pelo franco esquerdo,<br \/>\ndeixava-se ver em toda a sua grosseira impon\u00eancia, porque dava esses lados<br \/>\npara a rua, fazendo esquina com as suas pr\u00f3prias paredes. Metia afli\u00e7\u00e3o entrar<br \/>\nl\u00e1; um pavoroso sil\u00eancio de igreja abandonada enchia os enormes quartos nus<br \/>\ne enxovalhados de p\u00f3; um ar frio e encanado, como o ar de corredores de claustro,<br \/>\nenregelava e oprimia o cora\u00e7\u00e3o naqueles longos aposentos sem vida. Tudo aquilo<br \/>\ntranspirava cheiro de velhice, cheiro de mol\u00e9stia; sentia-se a friagem da<br \/>\nmorte e a fedentina \u00famida das catacumbas.<\/p>\n<p>O Conselheiro, por\u00e9m, mandou correr uma limpeza geral na casa; fez ir para<br \/>\nl\u00e1 os m\u00f3veis e objetos necess\u00e1rios; e, uma bela tarde, meteu-se afinal num<br \/>\nlandeau com a filha e mais a velha Camila e abandonaram Botafogo.<\/p>\n<p>Foram com o carro fechado at\u00e9 certa altura do caminho, porque Magd\u00e1, de t\u00e3o<br \/>\nincomodada que passara a noite da v\u00e9spera, n\u00e3o tivera \u00e2nimo de por outra roupa<br \/>\ne apenas enfiara um sobretudo de casimira e agasalhara a cabe\u00e7a e o pesco\u00e7o<br \/>\ncom uma sa\u00edda de baile.<\/p>\n<p>Chegaram pouco antes do crep\u00fasculo. O sol acabara de retirar-se, mas a terra<br \/>\nainda palpitava na luz. As aves iam-se chegando aos seus penates; toda a natureza<br \/>\nse aninhava para dormir; s\u00f3 as vadias das cigarras continuavam espertas, a<br \/>\ncantar, fazendo sobressair o seu intermin\u00e1vel l\u00e1 menor dentre os pacatos bocejos<br \/>\nda mata que se espregui\u00e7ava ali mesmo, a dois passos da casa, tranq\u00fcila e<br \/>\nsubmissa somo um animal dom\u00e9stico. Magd\u00e1 sentiu-se ternamente impressionada<br \/>\npelo taciturno aspecto do casar\u00e3o que, l\u00e1 naquelas alturas, se lhe afigurava<br \/>\num velho mosteiro ignorado. A circunst\u00e2ncia da hora tamb\u00e9m contribuiu para<br \/>\nisso; aquela hora sem dono, que n\u00e3o pertence ao dia nem \u00e0 noite \u2014 era<br \/>\ndela; chamou-a a si, como se recolhesse um enjeitado, e tomou-lhe carinho.<br \/>\nEra o momento predileto para as suas concentra\u00e7\u00f5es e para seus \u00eaxtases: em<br \/>\ntudo descobria a essa hora o carpir de uma saudade; cada moita de verdura<br \/>\nou cada grupo de \u00e1rvores tinha para a filha do Conselheiro suspiros e queixumes<br \/>\nde amor. Parecia-lhe a terra, nesse lamentoso e supremo instante em que o<br \/>\nsol morre, se vestia de luto e chorava a perda do esposo que al\u00e9m se afogava,<br \/>\nem pleno horizonte, atirando-lhe de longe os seus \u00faltimos beijos de fogo.<br \/>\nMagd\u00e1 ouvia ent\u00e3o os abafados solu\u00e7os da vi\u00fava e sentia-lhe o frio orvalhar<br \/>\ndo pranto.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, minha filha, vamos para cima, que j\u00e1 cai sereno.<\/p>\n<p>Ela havia escolhido para seus aposentos uma sala e dois c\u00f4modos do andar<br \/>\nsuperior. O quarto da cama era quadrado, muito singelo, uma verdadeira cela,<br \/>\nem que o insepar\u00e1vel crucifixo de marfim assentava ao ponto de impressionar;<br \/>\ntinha uma s\u00f3 janela, essa mesma gradeada de ferro e sem vista, porque ficava<br \/>\njustamente de fronte de uma grande pedreira em explora\u00e7\u00e3o. O Conselheiro teve<br \/>\nde contrariar a filha para dar a estas salas um pouco de conforto e eleg\u00e2ncia.<\/p>\n<p>\u2014 Para que? dizia ela, n\u00e3o \u00e9 preciso! em qualquer parte a gente vive<br \/>\ne morre&#8230;<\/p>\n<p>Como estava transformada! Ainda assim notava-se-lhe nas maneiras a mesma<br \/>\ncorre\u00e7\u00e3o fidalga e nos gestos a fina escolha e apurada sobriedade, que dantes<br \/>\na distinguiam tanto entre as suas amigas. D. Camila foi tamb\u00e9m para o andar<br \/>\nde cima, fazendo-se acompanhar por uma corte de santos de v\u00e1rias esp\u00e9cies,<br \/>\ntamanhos e virtudes. Al\u00e9m dos escravos, levaram apenas uma criada branca,<br \/>\npara tratar de Magd\u00e1.<\/p>\n<p>Instalados, o Conselheiro tomou um homem para arranjar o jardim e ocupou<br \/>\nos seus negros na repara\u00e7\u00e3o da ch\u00e1cara, acompanhando ele pr\u00f3prio o servi\u00e7o,<br \/>\nna esperan\u00e7a de despertar igual desejo no \u00e2nimo da filha.<\/p>\n<p>Mas qual! Ela, desde o momento que se enterrou ali, parecia at\u00e9 mais desanimada,<br \/>\nmais triste e metida consigo. Agora dava para n\u00e3o ir \u00e0 mesa e fechar-se no<br \/>\nquarto, comendo pedacinhos de p\u00e3o de instante a instante, roendo queijo seco,<br \/>\nchupando frutas \u00e1cidas e mastigando goiabas verdes. E sempre a cismar.<\/p>\n<p>O pai embalde protestava contra isto; embalde lhe dizia que ela estava-se<br \/>\npreparando para uma s\u00e9ria irrita\u00e7\u00e3o do est\u00f4mago; embalde queria arrast\u00e1-la<br \/>\npar a mesa nas horas da comida; embalde lembrava passeios pela manh\u00e3 ou ao<br \/>\ncair da tarde, a p\u00e9, a cavalo, de carro, como ela escolhesse. Era tudo in\u00fatil:<br \/>\nMagd\u00e1 continuava agarrada ao quarto \u2014 cismando.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, ao menos, que acordasse mais cedo, fosse para baixo conversar<br \/>\ncom ele na ch\u00e1cara; tomar leite mungido na ocasi\u00e3o; ver o pombal que se estava<br \/>\nfazendo; dar uma vista-d\u2019olhos pelo galinheiro e pela horta.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 prometia, resmungava: \u2014 Que sim, que sim, porque n\u00e3o? Do outro<br \/>\ndia em diante estaria de p\u00e9 logo ao amanhecer!<\/p>\n<p>Mas, no dia seguinte, quando iam cham\u00e1-la ao quarto, \u00e0 uma hora da tarde,<br \/>\nrespondia de mau humor:<\/p>\n<p>\u2014 Deixem-me em paz! Oh!<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso vamos de novo para Botafogo! Exclamou afinal o Conselheiro,<br \/>\nperdendo a paci\u00eancia. \u2014 Eu, se vim enfurnar-me aqui, foi na esperan\u00e7a<br \/>\nde fazer-te mudar de regime e com isso alcan\u00e7ar-te algumas melhoras! Vejo,<br \/>\npor\u00e9m, que \u00e9 muito pior a emenda que o soneto!<\/p>\n<p>Ela teve um tremor de m\u00fasculos, e ficou muito impressionada com o tom quase<br \/>\n\u00e1spero que o pai pusera nestas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei que desejam de mim!&#8230; disse.<\/p>\n<p>\u2014 Desejo que fiques boa. A\u00ed tens tu, o que desejo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 parece que julgam que me fa\u00e7o doente para contrariar os outros!<br \/>\nSe estivesse em minhas m\u00e3os, seria mais agrad\u00e1vel a todos; n\u00e3o me ponho melhor<br \/>\ne bem disposta, porque n\u00e3o posso!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom, est\u00e1 bom, balbuciou o Conselheiro, acarinhando-a, arrependido<br \/>\npor n\u00e3o ter sido t\u00e3o am\u00e1vel desta vez como das outras. \u2014 N\u00e3o v\u00e1s agora<br \/>\nafligir-te com o que eu disse&#8230; Aquilo n\u00e3o teve a inten\u00e7\u00e3o de magoar-te&#8230;<\/p>\n<p>Ela prosseguiu em tom infeliz e ressentido: \u2014 Se vim para c\u00e1, foi porque<br \/>\nme trouxeram&#8230; n\u00e3o reclamei nada&#8230; N\u00e3o me queixei de coisa alguma&#8230; Sinto-me<br \/>\naqui perfeitamente&#8230; dou-me at\u00e9 muito bem, e s\u00f3 pe\u00e7o e suplico que n\u00e3o me<br \/>\ncontrariem; que me deixem em paz pelo amor de Deus; que n\u00e3o me apoquentem;<br \/>\nque&#8230;<\/p>\n<p>Vieram os solu\u00e7os e Magd\u00e1 principiou a excitar-se.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, minha filha, que tolice \u00e9 essa?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que eu n\u00e3o posso ouvir falar assim comigo!&#8230; bem sabem que estou<br \/>\nnervosa! bem sabem que estou doente!<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim, tens raz\u00e3o&#8230; Passou! Passou!<\/p>\n<p>E o Conselheiro, deveras surpreso com aquelas esquisitices da filha, espantado<br \/>\npor v\u00ea-la fazer-se t\u00e3o humilde, t\u00e3o coitadinha, puxou-a brandamente para junto<br \/>\nde si e afagou-a como se estivesse a consolar uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Acabou! Acabou!<\/p>\n<p>Magd\u00e1 chorava com a cabe\u00e7a pousada no colo dele.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, ent\u00e3o, n\u00e3o te mortifiques&#8230; Aqui ningu\u00e9m faz sen\u00e3o o que<br \/>\nfor do teu gosto&#8230; Vamos, n\u00e3o chores desse modo&#8230;<\/p>\n<p>Qual! o resultado foi passar pior esse dia e aumentarem as suas rabugices<br \/>\nno dia imediato; \u2014 Que desejava morrer! \u2014 Acabar logo com aquela<br \/>\nmiser\u00e1vel exist\u00eancia! Que ali todos j\u00e1 estavam fartos de a suportar! Que todos<br \/>\nse aborreciam com ela e procuravam meios e modos de contrari\u00e1-la, s\u00f3 para<br \/>\nver se a despachavam mais depressa! Que bem quisera recolher-se a um convento,<br \/>\nmas n\u00e3o lhe deixaram! Pois antes tivessem consentido, porque agora at\u00e9 a pr\u00f3pria<br \/>\ncriada parecia fazer-lhe um grande obs\u00e9quio, quando era obrigada a ter um<br \/>\npouco mais de trabalho com ela.<\/p>\n<p>No fim de contas apareceu-lhe de novo a tal febre de car\u00e1ter especial; agora,<br \/>\npor\u00e9m, com del\u00edrios e movimentos luxuriosos, sobrevindo uma profunda letargia,<br \/>\ncontra a qual eram in\u00fateis todos os recursos do m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Parecia morta. No fim de longas horas de esfor\u00e7os, o Dr. Lob\u00e3o, j\u00e1 desesperado,<br \/>\nteve, a contra gosto, de aceitar o conselho de um colega ainda mo\u00e7o e de id\u00e9ias<br \/>\nmodernas \u2014 a compress\u00e3o do ov\u00e1rio.<\/p>\n<p>Efeito pronto: Magd\u00e1 tornou a si depois da opera\u00e7\u00e3o, livre j\u00e1 das impertin\u00eancias<br \/>\ne infantis rabugices, que tivera antes da febre. Voltara \u00e0 sua habitual gravidade,<br \/>\n\u00e0s suas maneiras austeras de fidalga enferma; mas come\u00e7ou a sentir-se vagamente<br \/>\nmagoada nos melindres do seu pudor: queria parecer-lhe adivinhava que, durante<br \/>\na inconsci\u00eancia da sua anestesia, o insolente do m\u00e9dico a devassara toda;<br \/>\nsentia ainda nos lugares mais vergonhosos do corpo a impress\u00e3o de m\u00e3os estranhas<br \/>\nque os apalparam e comprimiram. E a id\u00e9ia de que algu\u00e9m a vira descomposta<br \/>\ne que lhe tocara nas carnes, revoltou-a como imperdo\u00e1vel ultraje feita \u00e0 sua<br \/>\nhonra e ao seu orgulho de mulher pura. Todavia n\u00e3o se achava com coragem de<br \/>\ninterrogar ningu\u00e9m a esse respeito, e, foi tal o seu vexame, que a infeliz<br \/>\nescondeu-se no quarto, a chorar de acanhamento e raiva.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! exclamou o doutor, enquanto o Conselheiro lhe deu conta disto:<br \/>\n\u2014 Eu punha-a esperta e s\u00e3 em pouco tempo, se me dessem carta branca<br \/>\npara isso! A quest\u00e3o dependia toda do enfermeiro que lhe arranjasse! Aquelas<br \/>\nlam\u00farias e aquelas l\u00e1grimas ir-se-iam logo embora com a primeira semana de<br \/>\nlua de mel!<\/p>\n<p>No entanto, Magd\u00e1 continuava a sofrer: a tosse n\u00e3o a deixava sen\u00e3o quando<br \/>\nela se recolhia \u00e0 cama; deitada n\u00e3o tossia nunca, mas, em compensa\u00e7\u00e3o, aparecia-lhe<br \/>\numa esp\u00e9cie de asma. Agora, uma das suas manias era p\u00f4r-se \u00e0 janela do quarto<br \/>\ne a\u00ed permanecer horas e horas esquecidas, a ver o servi\u00e7o da pedreira que<br \/>\nficava defronte, olhando muito entretida para os cavoqueiros, e ouvindo a<br \/>\ntoada que eles gemem quando est\u00e3o minando a rocha para lhe tocar fogo. Parecia<br \/>\ngostar de ver os trabalhadores; como se lhe aprazia aquela rica exibi\u00e7\u00e3o de<br \/>\nm\u00fasculos tesos que saltavam com o peso do macete e do fur\u00e3o de ferro, e daqueles<br \/>\ncorpos nus e suados, que reluziam ao sol como se fossem de bronze polido.<\/p>\n<p>E, quando algu\u00e9m ia cham\u00e1-la para a mesa ou para conversar com o pai, respondia<br \/>\nzangada, sem tirar os olhos da pedreira:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso ir! Deixem-me!<\/p>\n<p>E se insistiam: \u2014 \u00d3 senhores, que ma\u00e7ada! N\u00e3o posso ir, j\u00e1 disse! Estou<br \/>\ndoente! Oh!<\/p>\n<p>Depois do ataque de letargia, foram voltando pouco a pouco s esquisitices<br \/>\nde g\u00eanio e os caprichos de crian\u00e7as estragadas com mimos; quase nunca se desprendia<br \/>\ndo quarto e, nas poucas vezes que lhe surgia por l\u00e1 alguma camarada dos bons<br \/>\ntempos, por tal modo se mostrava seca e at\u00e9 grosseira, que a amiga tratava<br \/>\nde abreviar a visita e sa\u00eda sem a menor inten\u00e7\u00e3o de voltar.<\/p>\n<p>Nem mesmo a pr\u00f3pria criada queria j\u00e1 suport\u00e1-la, apesar de muito bem paga.<br \/>\n&#8220;Pois n\u00e3o! Era uma impertin\u00eancia todo dia! um rapel\u00e3o por d\u00e1 c\u00e1 aquela palha!<br \/>\n\u2014 Se a gente n\u00e3o ia logo correndo saber o que serrazina queria quando<br \/>\nchamava \u2014 tome sarabanda! \u2014 Oh! Insuport\u00e1vel! Uma verdadeira f\u00faria!<br \/>\nDe mais a mais a &#8220;barata velha&#8221; ultimamente tamb\u00e9m dera para ficar pior, e<br \/>\nhavia quase duas semanas que se n\u00e3o desgrudava da cama nem \u00e0 m\u00e3o de Deus Padre!&#8221;<\/p>\n<p>Pobre velha! Consumia-se numa infernal complica\u00e7\u00e3o de mol\u00e9stias; eram intestinos,<br \/>\nera cabe\u00e7a, eram pernas, era o diabo! Parecia uma decomposi\u00e7\u00e3o em vida: fedia<br \/>\ncomo coisa podre! J\u00e1 se n\u00e3o alimentava pela boca; os seus gemidos eram arrotos<br \/>\nde ovo choco, e os humores que ela expelia por toda a parte do corpo empesteavam<br \/>\na casa inteira.<\/p>\n<p>\u2014 Essa n\u00e3o tem mais que esperar! declarou bem alto o Dr. Lob\u00e3o, olhando-a<br \/>\ndesdenhosamente por cima dos \u00f3culos, como se a m\u00edsera fosse j\u00e1 um defunto<br \/>\ne n\u00e3o pudera ouvir-lhe a desumana profecia. \u2014 Est\u00e1 despachada! A consump\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeu-lhe cabo do canastro!<\/p>\n<p>Metia d\u00f3. Veio uma velhinha, sua camarada de muitos anos, ajud\u00e1-la a morrer,<br \/>\ne consigo trouxe duas escravas, especialistas em servir a enfermos desenganados,<br \/>\nporque a senhora tinha mania de acompanhar os \u00faltimos instantes de todas as<br \/>\namigas que se iam antes dela. A casa parecia um hospital: sentia-se cheiro<br \/>\nde enfermaria e andavam todos sarapantados, cheios de terror pela morte; de<br \/>\nmanh\u00e3 \u00e0 noite faziam-se rezas em torno do doente. O Conselheiro quis que a<br \/>\nfilha se afastasse daquele espet\u00e1culo e fosse passar algum tempo em outra<br \/>\nparte; Magd\u00e1 op\u00f4s-se de p\u00e9 firme e deixou-se ficar ao lado da tia, rezando<br \/>\ncom tamanho empenho que fazia crer que s\u00f3 com seus esfor\u00e7os contava para salvar-lhe<br \/>\na alma.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico dissera a verdade: quatro dias depois da senten\u00e7a lavrada por ele,<br \/>\nD. Camila pediu um padre, muito aflita. Era j\u00e1 a morte que pegava de agoni\u00e1-la.<\/p>\n<p>Correu-se a chamar Nosso-Pai.<\/p>\n<p>N\u00e3o veio logo; e a moribunda, como quem est\u00e1 com o p\u00e9 no estribo para uma<br \/>\nlonga viagem e arrisca a partir sem levar um objeto que lhe h\u00e1 de fazer muita<br \/>\nfalta em caminho, remexia inquieta a cabe\u00e7a sobre os travesseiros, lan\u00e7ando<br \/>\ncont\u00ednuos olhares de impaci\u00eancia para a porta do quarto.<\/p>\n<p>O Vi\u00e1tico demorava-se.<\/p>\n<p>O Conselheiro ia de vez em quando at\u00e9 a janela de uma das salas que davam<br \/>\npara a rua e passeava ansioso pelo segundo andar.<\/p>\n<p>\u2014 Chegou! Disse por fim, retornando ao aposento da irm\u00e3.<\/p>\n<p>Houve uma enternecida agita\u00e7\u00e3o. Ouviu-se o toque de uma campainha ecoando<br \/>\nnos corredores da casa, e a velha Camila teve um suspiro de al\u00edvio. \u2014<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o partiria sem a sua extrema un\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>O padre entrou com os ajudantes, muito cerimonioso debaixo do p\u00e1lio, agasalhando<br \/>\na h\u00f3stia consagrada junto ao peito, com os cuidados de quem traz uma vasilha<br \/>\ncheia at\u00e9 as bordas e n\u00e3o quer entorn\u00e1-la. Fez-se em redor dele e da paciente<br \/>\nrespeitoso sil\u00eancio; apenas se ouviam, al\u00e9m dos roncos da moribunda, a voz<br \/>\nabafada do sacerdote, que resmungava numa alternativa de sussurros, ora mais<br \/>\nalto, ora mais baixo, sem fazer pausas, como se estivesse contando intermin\u00e1veis<br \/>\nalgarismos.<\/p>\n<p>A cerim\u00f4nia durou pouco e, quando o religioso se retirou com a sua comitiva,<br \/>\na velha parecia tranq\u00fcila, nem que houvesse tomado um milagroso rem\u00e9dio de<br \/>\nefeito imediato. Magd\u00e1, por detr\u00e1s dos p\u00e9s da cama, orava, ajoelhada defronte<br \/>\nde uma mesinha coberta por alva toalha de rendas sobre a qual um crucifixo,<br \/>\nentre duas velas de cera que ardiam com pequenos estalinhos secos; tinha os<br \/>\nolhos muito abertos e postos sobre a imagem do Crucificado, transbordando<br \/>\nl\u00e1grimas que lhe rolavam silenciosas pela face; as m\u00e3os cruzadas sobre o peito<br \/>\nnuma postura de \u00eaxtases. O Conselheiro puxou uma cadeira para junto do leito<br \/>\nda irm\u00e3 e assentou-se, colocando a sua m\u00e3o direita por debaixo do \u00famido cr\u00e2nio<br \/>\nda agonizante; esta come\u00e7ou a agitar-se de novo nos travesseiros. Ent\u00e3o, a<br \/>\nvelhinha amiga dela ajoelhou-se do lado oposto e obrigou-a a segurar nos dedos<br \/>\nj\u00e1 sem vida uma das velas, que acabava de tirar de cima da mesa, e p\u00f4s-se<br \/>\na rezar em voz baixa. Camila rouquejava gemidos que iam se transformando num<br \/>\npigarro cont\u00ednuo; as suas pupilas estavam j\u00e1 im\u00f3veis e veladas; escolhia-lhe<br \/>\ndas ventas e da boca aberta, como um buraco feito na cara, uma grossa mucosidade<br \/>\nesverdinhada e fedentinosa. Assim levou algum tempo, arquejando; at\u00e9 que afinal<br \/>\na respira\u00e7\u00e3o lhe foi aos poucos amortecendo na garganta, e at\u00e9 que os olhos<br \/>\nespremeram a \u00faltima l\u00e1grima e os pulm\u00f5es sopraram o derradeiro f\u00f4lego.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o, Magd\u00e1 acabava de levantar-se e marcava compassos de m\u00fasica<br \/>\ncom o dedo sobre a mesinha, dan\u00e7ando com o corpo de um para o outro lado,<br \/>\nnuma cad\u00eancia inalter\u00e1vel, em tirar a ponta dos p\u00e9s do mesmo lugar e movendo<br \/>\nos calcanhares suspensos do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Um! dois! \u2014 Um! dois! \u2014 Um! dois!<\/p>\n<p>Era um novo ataque de cor\u00e9ia.<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>VIII<\/h2>\n<p>Com a morte da velha Camila, despedira-se da casa a mulher que estava ao<br \/>\nservi\u00e7o de Magd\u00e1 e fora substitu\u00ed-la uma rapariga ali mesmo da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Justina, uma sua criada, para a servir.<\/p>\n<p>Portuguesa, das ilhas, forte, rechonchuda e muito amiga de conversar. Teria<br \/>\ntrinta anos, era vi\u00fava, com tr\u00eas filhos: o mais velho j\u00e1 encaminhado numa<br \/>\noficina de encadernador; o imediato morando com a madrinha em Bel\u00e9m, e o mais<br \/>\nnovo, que ainda mal se ag\u00fcentava nas pernas, acompanhava para onde ela ia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! que isto de crian\u00e7as, quando est\u00e3o pequenas, as m\u00e3es devem atur\u00e1-las!<br \/>\ncomo n\u00e3o?<\/p>\n<p>Diziam que fora sempre mulher de bons costumes, e com efeito parecia, ao<br \/>\nmenos pela cara. Muito risonha, corada, dentes claros e olhos castanhos, um<br \/>\npouco reca\u00eddos para o lado de fora com uma natural express\u00e3o de l\u00e1stima, que<br \/>\nali\u00e1s n\u00e3o perturbava em nada a alegre vivacidade da sua fisionomia. Tinha<br \/>\npapadas, e fazia roscas no cacha\u00e7o; uma penugem de fruta na polpa do queixo<br \/>\ne dois pinc\u00e9is de aquarelas nos cantos da boca. Quando andava tremiam-lhe<br \/>\nos quadris como imensos lim\u00f5es de cheiro feitos de borracha.<\/p>\n<p>Logo \u00e0s primeiras palavras que ela trocou com Magd\u00e1 mostrou-lhe simpatia.<br \/>\n\u00c9 que era justamente uma dessas criaturas vindas ao mundo para cuidar de doentes;<br \/>\nnaturezas que s\u00f3 amam deveras \u00e0quelas a quem devem muitas canseiras; que s\u00f3<br \/>\namam depois de grandes sacrif\u00edcios; depois de muita noite perdida e muito<br \/>\nsono interrompido. Nascera enfermeira, nascera para os fracos; gostava de<br \/>\nencarregar-se de crian\u00e7as e, quanto mais achacadinhas fossem estas tanto melhor.<br \/>\nOs raqu\u00edticos, os aleijados, eram gente da sua predile\u00e7\u00e3o. Com o leite do<br \/>\nseu \u00faltimo pequeno criara um fedelho, que estava morre-n\u00e3o-morre quando lhe<br \/>\nfoi parar \u00e0s m\u00e3os; pois ela, depois de salvar-lhe a vida, a custo de longos<br \/>\nmeses de desvelo sem descanso, tomou-lhe tal carinho que o queria mais do<br \/>\nque ao pr\u00f3prio filho, um maroto este, forte e sadio como um bezerro. &#8220;Um coisinha<br \/>\nruim! afirmava sorrindo.\u2014 N\u00e3o h\u00e1 mal que lhe entre! Nunca vi! \u2014<br \/>\nnem chora, o brutinho, Deus me perdoe!&#8221;<\/p>\n<p>Magd\u00e1 quis saber onde \u00e9 que ela estivera at\u00e9 ent\u00e3o empregada; qual a casa<br \/>\ndonde vinha.<\/p>\n<p>\u2014 Em parte alguma, n\u00e3o senhora. Morava com a tia Zefa ali mesmo defronte,<br \/>\nnaquela casinha de duas janelas com entrada pela estalagem.<\/p>\n<p>\u2014 Que gente vem a ser essa?<\/p>\n<p>\u2014 A tia Zefa \u00e9 filha da velha Cust\u00f3dia; lavadeiras, como n\u00e3o? Vem j\u00e1<br \/>\nde tr\u00e1s estas amizades! N\u00f3s, por bem dizer, fomos criados pela tia Zefa; foi<br \/>\nde l\u00e1 que eu sa\u00ed para casar, e minha mana, a Rosinha, vosmec\u00ea n\u00e3o conhece,<br \/>\nessa ainda mora com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! tem uma irm\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o! Muito mais nova do que eu. Solteira, mas j\u00e1 tem o seu noivo.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 por ser minha irm\u00e3, por\u00e9m \u00e9 uma rapariga que se pode ver! O Luiz&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bem, bem! Voc\u00ea ent\u00e3o traz um filho em sua companhia!<\/p>\n<p>\u2014 Ora coitado! N\u00e3o h\u00e1 de incomodar&#8230; E, se se fizer tolo, carrego-o<br \/>\nlogo l\u00e1 p\u2019ra defronte, que a velha \u00e9 perdida por ele. Se o \u00e9! D\u00e1-lhe<br \/>\num tudo! N\u00e3o viu vosmec\u00ea aquele chapeuzinho de pluma com que ele veio ontem?<br \/>\nPois quem foi que o deu? Foi ela!<\/p>\n<p>E riu-se toda.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, bem, trate de ir buscar o que \u00e9 seu e tome conta desse quarto<br \/>\na\u00ed ao p\u00e9, porque, n\u00e3o sei se sabe, voc\u00ea tem de fazer-me companhia \u00e0 noite.<br \/>\nAndo muito doente e \u00e0s vezes \u00e9 preciso que me d\u00eaem o rem\u00e9dio, compreende?<\/p>\n<p>\u2014 Como n\u00e3o, minh\u2019alma? Pode vosmec\u00ea ficar descansada por esse<br \/>\nlado, que esta que aqui est\u00e1 n\u00e3o lhe dar\u00e1 raz\u00f5es de queixa!<\/p>\n<p>E j\u00e1 parecia radiante com aquela expectativa de ter uma enferma \u00e0 sua guarda.<br \/>\nUma enferma nas condi\u00e7\u00f5es da filha do Conselheiro era o seu ideal. E, por<br \/>\ncima de tudo, &#8220;bom ordenado, comida com fartura, seu copo de vinho ao jantar<br \/>\ne da\u00ed at\u00e9, quem sabe? talvez seu vestidinho de vez em quando&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, foi um bom achado!<\/p>\n<p>Um achado! Ela \u00e9 que foi um bom achado para Magd\u00e1. Esta nunca houvera tido<br \/>\ncriada t\u00e3o alegre, t\u00e3o amorosa e t\u00e3o diligente no servi\u00e7o..<\/p>\n<p>Al\u00e9m do que: muito s\u00e3, muito limpa e muito s\u00e9ria. Perto daquela figura socada,<br \/>\nde carne esperta e luzente, a pobre senhora ainda parecia mais magra e mais<br \/>\np\u00e1lida; gostava, por\u00e9m, de senti-la ao seu lado, aquecer-se naquele calor<br \/>\nde sa\u00fade, parasitar um pouco daquele h\u00famus ressumbrante de seiva, sorver aquela<br \/>\nforte exala\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea de f\u00eamea refeita e bem adubada.<\/p>\n<p>Nunca entravam em confid\u00eancias e palestras, que a orgulhosa filha do Conselheiro<br \/>\nn\u00e3o dava para essas coisas; mas a mesquinha enferma gostava de deitar-se sobre<br \/>\num tapete no ch\u00e3o, defronte da janela do quarto, a a\u00ed ficar, cismando nos<br \/>\nseus t\u00e9dios, com a cabe\u00e7a pousada no morno e carnudo rega\u00e7o da criada. \u00c0s<br \/>\nvezes adormecia assim e ent\u00e3o abra\u00e7ava-se com ela e enterrava o rosto entre<br \/>\nas almofadas dos seus peitos, respirando com um regalo inconsciente de crian\u00e7a<br \/>\nque j\u00e1 n\u00e3o mama, mas ainda gosta de sentir ao pegar no sono a calentura do<br \/>\ncolo materno.<\/p>\n<p>Em breve, a Justina era t\u00e3o indispens\u00e1vel para Magd\u00e1, quanto uma ama a um<br \/>\norf\u00e3ozinho rec\u00e9m-nascido. A infeliz mo\u00e7a passava assim muito melhor; conseguia<br \/>\nficar com algumas coisas no est\u00f4mago e tinha certa regularidade no sono. Um<br \/>\ndia, em que a rapariga lhe pediu licen\u00e7a para ir a Bel\u00e9m ver o filhinho que<br \/>\nestava \u00e0 morte, ela quase teve um ataque, tal foi a sua contrariedade.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 por pouco tempo&#8230; esclareceu aquela \u2014 Eu volto logo. Tr\u00eas<br \/>\nou quatro, quando muito; de mais deixo uma outra no meu lugar&#8230;<\/p>\n<p>Foi, sempre foi, mas \u00e0 senhora tanto custou a sua aus\u00eancia que jurou nunca<br \/>\nmais consentir que de novo se separassem. Ficou nervosa e impertinente que<br \/>\ncausava pena. Veio-lhe outra vez a mania das rezas, voltaram-lhe os mon\u00f3logos<br \/>\n\u00e0 meia voz e os sobressaltos sem causa aparente.<\/p>\n<p>\u2014 Maldito pequeno! lembrar-se de cair doente! e logo agora!<\/p>\n<p>A Justina demorou-se mais do que contava. Uma semana depois da sua partida<br \/>\nMagd\u00e1, que n\u00e3o havia comparecido ao almo\u00e7o, fez voltar o lanche das duas da<br \/>\ntarde, que o pai lhe mandara levar ao quarto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me aborre\u00e7a! Gritou ela \u00e0 substituta da Justina; uma sujeita<br \/>\nalta, ossuda, de nariz comprido e mal encarada. Cheirava a morrinha de cachorro,<br \/>\nMagd\u00e1 n\u00e3o a podia ver.<\/p>\n<p>\u2014 Saia daqui! N\u00e3o ouviu?<\/p>\n<p>A mulher observou com a sua voz grossa e compassada:<\/p>\n<p>\u2014 O senhor disse para a senhora n\u00e3o deixar de tomar ao menos o caldo,<br \/>\nque foi temperado por ele.<\/p>\n<p>\u2014 Papai que me deixe em paz! Ponha-se l\u00e1 fora! Ponha-se l\u00e1 fora!<\/p>\n<p>A criada saiu, tesa que nem um granadeiro, a resmungar com a bandeja nas<br \/>\nm\u00e3os; e Magd\u00e1 fechou a porta sobre ela, com estrondoso \u00edmpeto, atirando-se<br \/>\ndepois no div\u00e3 e sacudindo a cabe\u00e7a como se estivesse sufocada.<\/p>\n<p>\u2014 Que gente, meu Deus! Que gente!<\/p>\n<p>E levou uma boa hora a fitar um s\u00f3 ponto, com os olhos apertados e as sobrancelhas<br \/>\nfranzidas e mais retorcidas que um recamo japon\u00eas. Ergueu-se afinal, inteiri\u00e7ada<br \/>\nnum espregui\u00e7amento suspirado e longo, deu em seguida alguns passos indolentes<br \/>\npela alcova, tomou um resto de leite frio que havia numa x\u00edcara sobre a mesa,<br \/>\ne encaminhou-se sonambulamente para a janela. A\u00ed encostou o rosto entre os<br \/>\ndois var\u00f5es da grade e segurou-se com as m\u00e3os nos outros que ficavam mais<br \/>\npr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!&#8230; respirou, igual ao cego que obt\u00e9m, depois de grandes esfor\u00e7os,<br \/>\nchegar ao ponto que deseja. E olhou \u00e0 toa para os fundos do c\u00e9u que se estendiam<br \/>\nl\u00e1 por detr\u00e1s do horizonte. E seu olhar errou pelo espa\u00e7o, perdido como andorinha<br \/>\ndoida a que roubassem o ninho, percorrendo inquieta e tonta, de um s\u00f3 v\u00f4o,<br \/>\nl\u00e9guas e l\u00e9guas de azul, at\u00e9 ir afinal cair prostrada, de asas bambas, no<br \/>\ncimo da pedreira que lhe enfrontava com a janela.<\/p>\n<p>Prendeu-lhe toda a aten\u00e7\u00e3o o que se passava ali; os trabalhadores suspendiam<br \/>\npor instante o servi\u00e7o, alvoro\u00e7ados com a chegada de uma raparigona que lhes<br \/>\nlevava o jantar. Que alegria! A cachopa era sem d\u00favida mulher de um deles,<br \/>\no mais alto e mais barbado, porque ela, mal soltou no ch\u00e3o o cesto de comida,<br \/>\nlhe arrumou uma car\u00edcia de gado grosso um murro nos rins, e retraiu-se logo,<br \/>\na rir, toda arrepiada, esperando que o macho correspondesse. Este cascalhou<br \/>\numa risada de gozo alvar e ferrou-lhe na anca a sua m\u00e3o bruta de cavoqueiro,<br \/>\nt\u00e3o escrostada e escamosa, que se n\u00e3o podia abrir de todo. Depois; acercaram-se<br \/>\nde um peda\u00e7o de pedra, em que a mulher foi depondo o que trouxera na cesta;<br \/>\ne de c\u00f3coras, ao lado uns dos outros, puseram-se todos a comer sofregamente,<br \/>\nno meio de muito rir e palavrear de boca cheia.<\/p>\n<p>Magd\u00e1, sem conseguir escutar o que eles tanto conversavam, n\u00e3o lhes tirava<br \/>\nos olhos de cima, profundamente entretida em ver aquilo. E, coisa estranha,<br \/>\nem tal momento daria de bom grado os melhores diamantes que possu\u00eda para ter<br \/>\nali um pouco do que eles comiam l\u00e1 no alto da pedreira com tamanha vontade.<br \/>\nEla, que j\u00e1 n\u00e3o podia sofrer os imaginosos acepipes da mesa de seu pai, sentia<br \/>\nvir-lhe \u00e1gua \u00e0 boca pela comida dos trabalhadores, e at\u00e9 parece incr\u00edvel,<br \/>\ntinhas desejos de beber da mesma garrafa em que eles bebiam pelo gargalo,<br \/>\nfazendo quest\u00e3o para que nenhum lograsse ao outro.<\/p>\n<p>No dia seguinte, justamente \u00e0quelas horas, apresentou-se ao pai, j\u00e1 vestida<br \/>\ne pronta para sair.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! Exclamou o Conselheiro, surpreendido pela novidade \u2014<br \/>\nBravo! muito bem!<\/p>\n<p>E marcou apressado a p\u00e1gina do livro que estava lendo e, como se temesse<br \/>\nque a filha mudasse de resolu\u00e7\u00e3o, correu logo a buscar o chap\u00e9u e a bengala.<br \/>\n&#8220;Ora at\u00e9 que enfim aquela pregui\u00e7osa se resolvia a passear!&#8221;<\/p>\n<p>Quando se achavam na rua, Magd\u00e1 foi tomando a dire\u00e7\u00e3o da pedreira; o pai<br \/>\nacompanhou-a sem proferir palavra. S\u00f3 pararam l\u00e1 perto.<\/p>\n<p>O morro, com as suas entranhas j\u00e1 muito \u00e0 mostra, arrojava-se para o c\u00e9u,<br \/>\ncomo um gigante de pedra violentado pela dor; via-se-lhe o \u00e2mago cinzento<br \/>\nreverberar \u00e0 luz do sol, que parecia estar doendo. E enormes avalanches de<br \/>\ngranito, ru\u00eddas e arremessadas pela explos\u00e3o da p\u00f3lvora, acavalavam-se em<br \/>\nciam \u00e0 base da rocha, lembrando estranha cachoeira que houvera-se petrificado<br \/>\nde s\u00fabito. C\u00e1 em baixo, daqui e dali, ouviam-se retinir ainda o pic\u00e3o e o<br \/>\nmacete, e l\u00e1 no alto, no escalavrado cume do penhasco, quatro homens, agarrados<br \/>\ncom todos os dedos a um imenso fur\u00e3o de ferro, abriam penosamente uma nova<br \/>\nmina no granito, gemendo em tom mon\u00f3tono e arrastando uma toada l\u00fagubre.<\/p>\n<p>De cada vez que eles suspendiam a formid\u00e1vel barra de ferro para deixarem-na<br \/>\ncair novamente dentro do furo, recome\u00e7ava o choro lamentoso que, de t\u00e3o triste,<br \/>\nparecia uma s\u00faplica religiosa.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos l\u00e1?&#8230; prop\u00f4s Magd\u00e1 ao pai, depois de admirar de perto aquele<br \/>\nmonstro que ela contemplava todos os dias da janela gradeada do seu quarto.<\/p>\n<p>\u2014 Onde, minha filha?&#8230; perguntou o Conselheiro, sem \u00e2nimo de acreditar<br \/>\nno que ouvia.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 em cima, onde aqueles homens est\u00e3o brocando a pedra. Quero ver<br \/>\naquilo.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s sonhando, ou me sup\u00f5es t\u00e3o louco que consinta em tal temeridade?<br \/>\nEsta pedreira \u00e9 muito alta!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faz mal&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sentir\u00e1s vertigens antes de chegar ao fim!<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu quero ir!<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-te disso.<\/p>\n<p>\u2014 Ora que me h\u00e3o de contrariar em tudo!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que \u00e9 uma imprud\u00eancia sem nome o que desejas fazer, minha filha!<\/p>\n<p>J\u00e1 amuada, soltou-se do bra\u00e7o do pai e correu para os lados por onde se subia<br \/>\n\u00e0 montanha.<\/p>\n<p>\u2014 Espera a\u00ed! gritou o velho tentando alcan\u00e7\u00e1-la! espera a\u00ed, caprichosa!<br \/>\nEu te acompanho!<\/p>\n<p>A caprichosa havia galgado o primeiro lance de pedra.<\/p>\n<p>A subida foi penosa.<\/p>\n<p>Ah! o caminho era muito estreito, irregular e coberto de calhaus. O p\u00e9 \u00e0s<br \/>\nvezes n\u00e3o encontrava resist\u00eancia, porque o cascalho rodava debaixo dele.<\/p>\n<p>Mas subiam. Magd\u00e1, sem querer dar parte de fraca, segurava-se arquejante<br \/>\nao bra\u00e7o do pai; este mesmo, por\u00e9m, sabe Deus com que hero\u00edsmo conseguia n\u00e3o<br \/>\nperder o equil\u00edbrio.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos adiante! Vamos adiante! Dizia ela, quase sem f\u00f4lego.<\/p>\n<p>\u2014 Descansemos um pouco, minha filha.<\/p>\n<p>N\u00e3o, ela n\u00e3o descansaria, enquanto n\u00e3o alcan\u00e7asse o morro. Felizmente o caminho<br \/>\nem cima era quase plano e com pequeno esfor\u00e7o chegava-se da\u00ed ao lugar onde<br \/>\ntrabalhavam os quatro homens. Mais um arranco, e l\u00e1 estariam.<\/p>\n<p>Afinal conseguiram chegar. Mas, ah! quando a pobre Magd\u00e1, toda tr\u00eamula e<br \/>\nexausta de for\u00e7as, j\u00e1 no tope da pedreira, defrontou com o pavoroso abismo<br \/>\ndebaixo de seus p\u00e9s, soltou um grito r\u00e1pido, fechou os olhos, e teria ca\u00eddo<br \/>\npara tr\u00e1s, se o Conselheiro n\u00e3o lhe acode t\u00e3o a tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Magd\u00e1, minha filha! Ent\u00e3o! ent\u00e3o!<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 a\u00ed! est\u00e1 a\u00ed o que eu receava! Lembrar-se do subir a estas alturas!&#8230;<br \/>\nE agora a volta&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014 Pode vosc\u00eancia ficar tranq\u00fcilo por esse lado, arriscou um dos cavoqueiros,<br \/>\nque se havia aproximado, a co\u00e7ar a cabe\u00e7a. \u2014 Se vosc\u00eancia quiser, eu<br \/>\nc\u00e1 estou para por esta senhora l\u00e1 em baixo, sem que lhe aconte\u00e7a a ela a menor<br \/>\nl\u00e1stima.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda bem! respondeu S. Ex. com um suspiro de desabafo.<\/p>\n<p>O trabalhador que se ofereceu para conduzir Magd\u00e1 era um moc\u00f3 de vinte e<br \/>\ntantos anos, vigoroso e belo de for\u00e7a. Estava nu da cintura para cima e a<br \/>\nriqueza dos seus m\u00fasculos, bronzeados pelo sol, patenteava-se livremente com<br \/>\numa independ\u00eancia de est\u00e1tua. Os cabelos, empastados de suor e p\u00f3 de pedra,<br \/>\nca\u00edram-lhe sobre a testa e sobre o pesco\u00e7o, dando-lhe uma sat\u00edrica fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sensualidade ing\u00eanua.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos! Vamos! Apressou o Conselheiro, entregando-lhe a filha.<\/p>\n<p>O rapaz passou um dos bra\u00e7os na cintura de Magd\u00e1 e com o outro a suspendeu<br \/>\nde mansinho pelas curvas dos joelhos, chamando-a toda contra o seu largo peito<br \/>\nnu. Ela soltou um longo suspiro e, na inconsci\u00eancia da s\u00edncope, deixou pender<br \/>\nmolemente a cabe\u00e7a sobre o ombro do cavoqueiro. E, seguidos de perto pelo<br \/>\nvelho, l\u00e1 se foram os dois, abra\u00e7ados, descendo, p\u00e9 ante p\u00e9, a \u00edngreme irregularidade<br \/>\ndo caminho.<\/p>\n<p>Era preciso toda aten\u00e7\u00e3o e muito cuidado para n\u00e3o rolarem juntos; o mo\u00e7o<br \/>\nfazia prod\u00edgios de agilidade e de for\u00e7a para se equilibrar com Magd\u00e1 nos bra\u00e7os.<br \/>\nDe vez em quando, nos solavancos mais fortes, o p\u00e1lido e frio rosto da filha<br \/>\ndo Conselheiro ro\u00e7ava na cara esfogueada do trabalhador e tingia-se logo em<br \/>\ncor de rosa, como se lhe houvera roubado das faces uma gota daquele sangue<br \/>\nvermelho e quente. Ela afinal teve um dobrado respirar de quem acorda, e entreabriu<br \/>\ncom vol\u00fapia os olhos. N\u00e3o perguntou onde estava, nem indagou quem a conduzia;<br \/>\napenas esticou nervosamente os m\u00fasculos num espregui\u00e7amento de gozo e estreitou-se<br \/>\nem seguida ao peito do rapaz, unindo-se bem contra ele, cingindo-lhe os bra\u00e7os<br \/>\nem volta do pesco\u00e7o com a avidez de quem se apega nos travesseiros aquecidos<br \/>\npara continuar um sono gostoso e reparador. E caiu depois num fundo entorpecimento,<br \/>\nbambeando as p\u00e1lpebras; os olhos em branco, as narinas e os seios ofegantes;<br \/>\nos l\u00e1bios secos e despregados, mostrando a brancura dos dentes. Achava-se<br \/>\nmuito bem no t\u00e9pido aconchego daquele corpo de homem; toda ela se penetrava<br \/>\ndo calor vivificante que vinha dele; toda ela aspirava, at\u00e9 pelos poros, a<br \/>\nvida forte daquela vigorosa e boa carnadura, criada ao ar livre e quotidianamente<br \/>\nenriquecida pelo trabalho bra\u00e7al e pelo pr\u00f3digo sol americano. Aquele calor<br \/>\nde carne s\u00e3 era uma esmola atirada \u00e0 fome do seu miser\u00e1vel sangue.<\/p>\n<p>E Magd\u00e1, sentindo no rosto o resfolegar ardente e acelerado do cavoqueiro,<br \/>\ne nas carnes macias da garganta o ro\u00e7agar das barbas dele, \u00e1speras e mal tratadas,<br \/>\ngemia e suspirava baixinho como se estivesse a acarinh\u00e1-la depois de longa<br \/>\ne assanhada pugna de amor.<\/p>\n<p>Quando o mo\u00e7o, j\u00e1 em baixo, a dep\u00f4s num banco de pedra que ali havia, a enferma<br \/>\nabriu de todo os olhos, deixou escapar um grito e cobriu logo o rosto com<br \/>\nas m\u00e3os. Agora n\u00e3o podia encarar com aquele homem de corpo nu que ali estava<br \/>\nde fronte dela, a tirar com os punhos o suor que lhe escorria em bagas pela<br \/>\ntesta.<\/p>\n<p>Chorou de pejo.<\/p>\n<p>O seu pudor e o seu orgulho revoltaram-se, sem que ela soubesse determinar<br \/>\na raz\u00e3o porque. Uma c\u00f3lera repentina, um s\u00f4frego desejo de vingan\u00e7a, enchiam-lhe<br \/>\na garganta com um novelo de solu\u00e7os. O pranto parecia sufoc\u00e1-la quando rebentou.<\/p>\n<p>\u2014 Eu maguei-a, \u00f3 patroazinha?&#8230; perguntou o trabalhador, com humildade,<br \/>\nquase sem poder vencer ainda o cansa\u00e7o. E o imprudente tocou com a m\u00e3o no<br \/>\nombro de Magd\u00e1, procurando, coitado, dar-lhe a perceber o quanto estava consumido<br \/>\npor v\u00ea-la chorar daquele modo. Ela estremeceu toda e fugiu com o corpo, nem<br \/>\nque se houvessem chegado um ferro em brasa; e abra\u00e7ou-se ao pai, escondendo<br \/>\nno peito deste os solu\u00e7os que agora borbotavam sem intermit\u00eancia.<\/p>\n<p>O pobre cavoqueiro, ainda com o peito para cima e para baixo, quedava-se<br \/>\na olhar para os dois com uma cara palerma de desgosto. E assim que ele fazia<br \/>\no menor movimento de corpo, a senhora retra\u00eda-se assustada e enterrava mais<br \/>\na cabe\u00e7a entre os bra\u00e7os do Conselheiro. Foi preciso que este o afastasse<br \/>\ndali, dizendo-lhe que lhe aparecesse logo mais em casa para receber uma gorjeta.<\/p>\n<p>Mal se pilhou no quarto, Magd\u00e1 foi estra\u00e7alhando as roupas, como se as trouxera<br \/>\nincendiadas; mas sentia tamb\u00e9m nos seus cabelos, no seu rosto, em toda ela,<br \/>\no mesmo cheiro de animal suado, o mesmo enjoativo bodum de carne crua. Parecia-lhe<br \/>\nmais \u2014 que a sua pr\u00f3pria transpira\u00e7\u00e3o j\u00e1 tresandava \u00e0quele mesmo fartum<br \/>\ndo moc\u00f3 da pedreira.<\/p>\n<p>\u2014 Diabo! diabo! diabo!<\/p>\n<p>E os movimentos que fazia par sacar a camisa eram t\u00e3o violentos, que ela<br \/>\nparecia querer arrancar at\u00e9 a pr\u00f3pria pele do corpo.<\/p>\n<p>Um mal querer desnorteado, contra tudo e contra todos, apoderou-se do seu<br \/>\nesp\u00edrito. Estava furiosa e mais ainda por n\u00e3o saber contra quem e contra o<br \/>\nque.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia queixar-se a ningu\u00e9m, nem de ningu\u00e9m, e sentia-se no entanto ofendida,<br \/>\nultrajada, no seu orgulho e no seu pudor. A vontade que tinha era de mandar<br \/>\nmatar no mesmo instante aquele maldito homem \u2014 para nunca mais o ver,<br \/>\npara nunca mais o sentir.<\/p>\n<p>S\u00f3 depois de muito bem lavada e coberta de perfumes, recolheu-se \u00e0 cama,<br \/>\nainda estrangulada de raiva. Tamb\u00e9m, foi s\u00f3 adormecer e come\u00e7ou logo a sonhar<br \/>\ncom o amaldi\u00e7oado cavoqueiro.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>IX<\/h2>\n<p>Sonhou com ele a noite inteira; mas que sonhos! E o melhor \u00e9 que ent\u00e3o o<br \/>\npobre diabo lhe j\u00e1 aparecia n\u00e3o por um prisma repugnante; ao contr\u00e1rio imaginando-se<br \/>\nao lado daquele corpo robusto, Magd\u00e1 sentia todo o seu organismo rejubilar<br \/>\nde satisfa\u00e7\u00e3o; ainda melhor do que quando se aninhava no colo de Justina.<br \/>\nPerto dele gozava, em sonho, um bem-estar de calmo conforto, como o dos t\u00edsicos<br \/>\njunto aos bois, na morna atmosfera dos currais.<\/p>\n<p>Tanto o amaldi\u00e7oara acordada, quanto o estremecera durante o sonho; este<br \/>\ncontudo nem sempre foi agrad\u00e1vel e em certas fases at\u00e9 pelas horripila\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo pesadelo.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou vendo-se no alto da pedreira, a olhar para o espa\u00e7o, justamente como<br \/>\nacontecera na realidade; mas a pedreira afigurava-se-lhe agora tr\u00eas ou quatro<br \/>\nvezes maior. De repente, falta-lhe o terreno debaixo dos p\u00e9s, e ela cai, n\u00e3o<br \/>\npara tr\u00e1s e sim bem de frente \u2014 no ar. Nisto, uma garra fort\u00edssima empolga-lhe<br \/>\nas roupas das costas, sustentando-lhe a vertigem da queda, sem todavia impedir<br \/>\nque ela continuasse a resvalar; mas j\u00e1 n\u00e3o cai, desliza suavemente, como se<br \/>\nestivesse voando. Um bra\u00e7o musculoso cinge-lhe as curvas dos joelhos, outro<br \/>\ntoma-a pela cintura e o seu colo \u00e9 recebido em cheio por um largo peito nu,<br \/>\nonde h\u00e1 cabelos que lhe p\u00f5em c\u00f3cegas na pele: Magd\u00e1 ri com as c\u00f3cegas, e sua<br \/>\ncabe\u00e7a repousa num t\u00e1ureo pesco\u00e7o de H\u00e9rcules, cujo suor lhe umedece as faces.<br \/>\nE, assim abra\u00e7ados, deslizam voluptuosamente no espa\u00e7o, descendo numa embriagadora<br \/>\ndel\u00edcia de v\u00f4o cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>O v\u00f4o dura um tempo infinito. E ela, como receiando ficar desamparada, trata<br \/>\nde agarrar-se ao outro o melhor que pode. Estreitam-se mais.<\/p>\n<p>E mais.<\/p>\n<p>H\u00e1 j\u00e1 um princ\u00edpio de frenesi no modo por que se estreitam. A mo\u00e7a procura<br \/>\ncom \u00e2nsia unir-se bem ao corpo do cavoqueiro; quer que seus peitos lhe fiquem<br \/>\nbem colados ao peito; quer que os seus bra\u00e7os sintam em toda a extens\u00e3o a<br \/>\ncarne das esp\u00e1duas do homem; que a sua barriga se ajuste \u00e0 dele e que as suas<br \/>\ncoxas lhe apalpem os rins.<\/p>\n<p>E continuam a descair, a descair, sem para nunca. Magd\u00e1 sente nas faces uma<br \/>\nimpress\u00e3o desagrad\u00e1vel de frio; sela imediatamente o rosto contra o outro<br \/>\nrosto, e deixa-se aquecer, ao calor de beijos. Ent\u00e3o os seus olhos desmaiam<br \/>\nde gosto; as suas narinas arfam com mais for\u00e7a, porque ela n\u00e3o pode respirar<br \/>\npela boca, que est\u00e1 toda tomada pela outra boca. Um arrepio percorre-lhe o<br \/>\ncorpo, agitando-o at\u00e9 na mais pequenina fibra; e o seu sangue enlouquece;<br \/>\ne os suspiros quebram-se-lhe na garganta, desfazendo-se em gemidos.<\/p>\n<p>E estreitam-se mais. E unem-se. E confundem no ar os membros enleados e tr\u00eamulos.<br \/>\nO cavoqueiro solu\u00e7a, arqueja; ele j\u00e1 n\u00e3o tem uma s\u00f3 parte de si em que n\u00e3o<br \/>\no sinta. E, de improviso, um violento sopro de vida a invade toda, esquentando-a<br \/>\npor dentro, penetrando-lhe as v\u00edsceras, soprando-lhe nas veias um calor estranho,<br \/>\nalheio, que a ressuscita e faz saltarem-lhe dos olhos l\u00e1grimas de gozo.<\/p>\n<p>Terminaram caindo, ainda abra\u00e7ados, aos p\u00e9s do Conselheiro, que os esperava<br \/>\nl\u00e1 em baixo, vestido com uma t\u00fanica vermelha e agitando na m\u00e3o, colericamente,<br \/>\na sua grossa bengala de cana da \u00cdndia. Magd\u00e1 escondeu o rosto. Mas desta vez<br \/>\nn\u00e3o era o mo\u00e7o da pedreira quem lhe fazia vexame, era o pr\u00f3prio pai; n\u00e3o foi,<br \/>\npois, o colo deste que ela agora procurou para ocultar o orvalho do seu pudor,<br \/>\nfoi o colo do outro.<\/p>\n<p>Houve um duro sil\u00eancio, durante o qual S. Ex., cujas barbas haviam crescido<br \/>\nmuito, e cuja calva reluzia que nem a de um patriarca da B\u00edblia, olhava, ora<br \/>\npara a filha, ora para o rapaz, como se estivesse a compar\u00e1-los.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito!&#8230;<\/p>\n<p>E sacudia a cabe\u00e7a, e esticava os bei\u00e7os, sem desviar a vista. No capricho<br \/>\ndo sonho, o pobre Conselheiro tinha perdido as suas maneiras distintas e af\u00e1veis,<br \/>\ne at\u00e9 no modo de se exprimir era grosseiro e burgu\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito!&#8230; repisou ele, estalando um riso de sarcasmo. \u2014<br \/>\n\u00c9 at\u00e9 onde pode chegar o aviltamento!&#8230; Dar-se a um trabalhador da mais baixa<br \/>\nesp\u00e9cie!&#8230; \u00c9 inacredit\u00e1vel!<\/p>\n<p>\u2014 A culpa n\u00e3o foi minha, papai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Cale-se! N\u00e3o sei onde estou, que lhe n\u00e3o quebre esta bengala nas<br \/>\ncostas!<\/p>\n<p>\u2014 Creia, patr\u00e3o, que&#8230; ia arriscar o rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 tratante! berrou o velho. \u2014 Ainda te atreves a abrir o bico?<br \/>\nOra espera que te ensino!<\/p>\n<p>E cresceu para o mo\u00e7o, que o esperou sem tugir nem mugir, com o aspecto resignado<br \/>\nde uma besta que tem dono. Magd\u00e1, por\u00e9m, j\u00e1 se havia metido entre os dois<br \/>\ne , de joelhos, chorando, abra\u00e7ava-se \u00e0s pernas do patriarca.<\/p>\n<p>\u2014 Piedade, meu pai! piedade!<\/p>\n<p>\u2014 Qual piedade, nem qual carapu\u00e7as! N\u00e3o fosse t\u00e3o assanhada!<\/p>\n<p>\u2014 Tenha compaix\u00e3o de dois infelizes, cuja falta foi s\u00f3 uma e \u00fanica&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E acha pouco, sua desavergonhada? Acha talvez que esta n\u00e3o basta<br \/>\npara me fazer subir ao arame! Tem gra\u00e7a!<\/p>\n<p>E, enquanto a filha solu\u00e7ava, sem erguer os olhos: \u2014 Ingrata! Eu a<br \/>\nmatar-me para a fazer gente; para lhe ar uma certa educa\u00e7\u00e3o \u2014 e ela<br \/>\na meter-me os p\u00e9s! Criar uma filha com tanto carinho, para v\u00ea-la depois entregue<br \/>\na um homem de pedreira!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perdoe, meu pai!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o perd\u00f4o nada!<\/p>\n<p>\u2014 Juro-te que n\u00e3o tenho culpa do que sucedeu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perversa! Eu a sacrificar-me a instru\u00ed-la e arranjar-lhe um futuro,<br \/>\ne ela a sujar-se de lama e a cobrir-me de vergonhas!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fui eu, papai, foi a minha natureza; foi a minha carne; foram<br \/>\nos meus sentidos!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual carne, nem qual sentidos! A patifaria tem sempre desculpas!<\/p>\n<p>Fez uma pausa e prosseguiu depois, comovendo-se, mau grado seu: \u2014 Dei-lhe<br \/>\ntudo o que se podia desejar! Foi j\u00e1 o professor de piano; foi j\u00e1 o professor<br \/>\nde canto; foi j\u00e1 o mestre de desenho! E venha o explicador de franc\u00eas! E venha<br \/>\noutro para hist\u00f3ria e geografia p\u00e1tria! E outro para isto! E outro para aquilo!<br \/>\nE compre-se mais este dicion\u00e1rio! E assine-se mais este jornal! E corra-se<br \/>\naos Castel\u00f5es a buscar o camarote do L\u00edrico! E olhe o carro que n\u00e3o esque\u00e7a!<br \/>\nE veja essa luva de vinte bot\u00f5es que saia! E venha a bela da j\u00f3ia! E venha<br \/>\no belo vestido de seda! E olhe o chap\u00e9u \u00e0 Sarah Bernhardt! E olhe as regatas!<br \/>\nE olhe as corridas! E d\u00eaem-se festas todos os meses! E fa\u00e7am-se viagens \u00e0<br \/>\nEuropa! \u2014 E tudo isto afinal p\u2019ra que? \u2014 Sim! tudo isto<br \/>\np\u2019ra que?! S\u00f3 quero que me digam de que serviu tanto sacrif\u00edcio!<\/p>\n<p>\u2014 Perdoe-me!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! n\u00e3o perd\u00f4o, nem devo perdoar! Se queria casar, h\u00e1 muito tempo<br \/>\nque o podia ter feito; o que n\u00e3o lhe faltou foram pretendentes! A senhora<br \/>\ntorceu o nariz a todos! E, logo que o Dr. Lob\u00e3o me fez ver a necessidade urgente<br \/>\nde uni-la a algu\u00e9m, trouxe-lhe o meu amigo Jos\u00e9 Furtado!<\/p>\n<p>\u2014 Um velho!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o ser\u00e1 uma crian\u00e7a, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nenhum bisav\u00f4! Outra qualquer<br \/>\na teria agarrado com unhas e dentes! Um homem de conta, peso e medida!<\/p>\n<p>\u2014 Pudera! Principiou a vida a limpar pesos e balan\u00e7as!<\/p>\n<p>\u2014 E que tem isso? Um homem honrado, trabalhador e econ\u00f4mico. Entrou<br \/>\nna vida com um barril nas costas, mas hoje \u00e9 uma das mais s\u00f3lidas fortunas<br \/>\ndo Rio de Janeiro!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 de dinheiro que eu preciso!<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o casasse com o Dr. Tolentino&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um defunto!<\/p>\n<p>\u2014 Defunto! N\u00e3o ter\u00e1 uma sa\u00fade perfeita, coitado, mas \u00e9 uma das mais<br \/>\nbem constitu\u00eddas cabe\u00e7as do Brasil. Muito talentoso, muito ilustrado! Membro<br \/>\nda Sociedade de Geografia de Lisboa, e consta at\u00e9 que vai receber diploma<br \/>\nde s\u00f3cio n\u00e3o sei que importante congrega\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da B\u00e9lgica!<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 de ci\u00eancia que eu preciso!<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, porque n\u00e3o aceitou o Conde do Valado?<\/p>\n<p>\u2014 Um libertino!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 tanto assim.<\/p>\n<p>\u2014 Um vicioso comum que, se deixa de falar um instante em cavalos, \u00e9<br \/>\npara discutir cocotes.<\/p>\n<p>\u2014 Que exagero! N\u00e3o direi que os seus costumes sejam t\u00e3o puros como<br \/>\nos do comendador Jos\u00e9 Furtado ou como os do Dr. Tolentino, mas \u00e9 um moc\u00f3 ilustre,<br \/>\ndescendente em linha reta de uma das mais importantes casas de Portugal. Seus<br \/>\nav\u00f3s figuraram todos na hist\u00f3ria e o seu nome tornaria fidalga a mulher que<br \/>\no possu\u00edsse!<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o preciso de nobreza!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o precisas de nobreza; n\u00e3o precisas de ci\u00eancias; n\u00e3o precisas de<br \/>\ndinheiro! Ent\u00e3o de que diabo precisas tu?<\/p>\n<p>\u2014 De um homem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um homem! Quanta desfa\u00e7atez! De que precisavas, grand\u00edssima desavergonhada,<br \/>\nera de uma boa carga de pau, para te apagar o fogo do rabo!<\/p>\n<p>E o velho, possuindo-se de novo acesso de c\u00f3lera, estendeu o bra\u00e7o, enxotando<br \/>\na filha e mais o mo\u00e7o da pedreira.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1! Rua seus bandalhos! E que eu nunca mais lhes ponha a vista em<br \/>\ncima! Est\u00e3o amaldi\u00e7oados!<\/p>\n<p>\u2014 Meu pai! meu pai!<\/p>\n<p>\u2014 Aqui j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 pai, nem m\u00e3e! N\u00e3o sou pai de mulheres \u00e0-toa! Ponham-se<br \/>\na andar, e que sejam muito felizes! Boa viagem!<\/p>\n<p>\u2014 Deixe-me ao menos ir l\u00e1 dentro buscar as minhas j\u00f3ias, um pouco de<br \/>\nroupa e os meus livros&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00f3ias, roupas, livros! para que? A senhora j\u00e1 n\u00e3o tem tudo quanto<br \/>\ndeseja, para que mais?&#8230; As boas roupas fizeram-se para os nobres, as j\u00f3ias<br \/>\npara os ricos e os livros para os s\u00e1bios! A senhora nada tem que ver com esta<br \/>\ngente e com estas coisas! S\u00f3 queria &#8220;um homem&#8221;, pois j\u00e1 o tem! \u00c9 andar! Ele<br \/>\nque lhe compre j\u00f3ias; que se encarregue de vesti-la, de sustent\u00e1-la e de consol\u00e1-la.<br \/>\nTem obriga\u00e7\u00e3o disso; e, se n\u00e3o disp\u00f5e de meios, invente-os \u2014 trabalhe!<br \/>\nSe n\u00e3o puder trat\u00e1-la a bicos de rouxinol, comam feij\u00e3o com carne seca, que<br \/>\na senhora tem obriga\u00e7\u00e3o de contentar-se com o que ele lhe der! \u00c9 o &#8220;seu homem&#8221;<br \/>\ne, por conseguinte, \u00e9 quem de hoje em diante a governa com direito de vida<br \/>\ne de morte! Acompanhe-o submissa para onde ele for, seja para o inferno ou<br \/>\nseja para o para\u00edso! A partir desse momento\u2014 o seu destino \u00e9 o dele!<br \/>\nE deixem-me!<\/p>\n<p>\u2014 Meu pai!<\/p>\n<p>\u2014 Foi tempo! Nada mais h\u00e1 de comum entre n\u00f3s! Para continuar a ser<br \/>\nseu pai, seria preciso que eu me fizesse pai tamb\u00e9m daquele peda\u00e7o d\u2019asno;<br \/>\ne eu n\u00e3o quero ter filhos de tal esp\u00e9cie!<\/p>\n<p>E S. Ex,. notando que Magd\u00e1 n\u00e3o se resolvia a largar-lhe as pernas e continuava<br \/>\na chorar, ordenou, voltando-se para o cavoqueiro:\u2014 Ol\u00e1, seu coisa! Tome<br \/>\nconta dessa mulher! \u00c9 sua! Pode lev\u00e1-la para onde bem entender!<\/p>\n<p>\u2014 Ah! exclamou a filha, caindo por terra, de borco, com os bra\u00e7os estendidos<br \/>\nno ch\u00e3o, enquanto o velho, arrepanhando a sua t\u00fanica da cor simp\u00e1tica \u00e0s hist\u00e9ricas,<br \/>\nse afastava para casa, muito fresquinho e senhor de si, assoviando, de cabe\u00e7a<br \/>\nimpertigada, nem como se a coisa tivera sido com ele.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 permanecia de bru\u00e7os, a solu\u00e7ar. Ent\u00e3o o moc\u00f3 da pedreira inclinou-se<br \/>\nsobre ela e deu-lhe com toda delicadeza u \u00f3sculo nos cabelos. Depois tomou-a<br \/>\nao colo e p\u00f4s-se a caminhar, vagarosamente, muito vagarosamente, na dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nda fatal montanha onde ele trabalhava. E toda a natureza, que parecia haver<br \/>\nentristecido e tomado luto com a maldi\u00e7\u00e3o do velho, come\u00e7ou a reanimar-se,<br \/>\na rir de novo, tingindo-se de luz purp\u00farea e entoando em voz baixa epital\u00e2meos<br \/>\nsensuais. E os dois, abra\u00e7ados, formando um s\u00f3 grupo, lentamente penetraram<br \/>\nnuma deliciosa alameda de laranjeiras, cujos galhos se vergavam na sua passagem<br \/>\npara lhes beijar a fronte, derramando-lhes sobre a cabe\u00e7a uma odor\u00edfera chuva<br \/>\nde flores desfolhadas. E do c\u00e9u baixava doce harmonia religiosa, que parecia<br \/>\nbalbuciada por uma nuvem de anjos.<\/p>\n<p>Nisto \u2014 despertou.<\/p>\n<p>Circunscreveu o olhar em torno de si, reconhecendo a custo a pr\u00f3pria alcova.<br \/>\nO seu pequeno rel\u00f3gio Luiz XV, de bronze dourado, marcava, no mostrador de<br \/>\nporcelana de S\u00e8vres esmaltada, meia hora depois do meio-dia. Uma cortina cinzenta,<br \/>\nde seda de Le\u00e3o, quebrava na janela a luz que batia de fora, e dava ao quarto<br \/>\no tom opalino de um crep\u00fasculo de inverno. Magd\u00e1 suspirou, espregui\u00e7ando-se.<br \/>\nO drama fant\u00e1stico de toda aquela noite dissolveu-se: teatro e personagens<br \/>\ndesapareceram. Mal ouvia-se, ainda, bem distintamente, o tal coro religioso<br \/>\nque baixara dos c\u00e9us para solenizar a sua passagem na encantada alameda; a<br \/>\nmo\u00e7a soergueu-se no leito, concheando a m\u00e3o no ouvido que ficava do lado da<br \/>\njanela e, meio maravilhada, p\u00f4s-se a escutar com aten\u00e7\u00e3o aquela tristonha<br \/>\ncantilena que persistia ali, na vida real, como um prolongamento do sonho.<\/p>\n<p>Caiu logo em si: era a toada melanc\u00f3lica dos trabalhadores que minavam a<br \/>\npedreira. E ali deixou-se tombar de novo sobre os travesseiros e a\u00ed permaneceu,<br \/>\ncom os olhos muito quietos, enquanto duas l\u00e1grimas lhe serpeavam ao comprido<br \/>\ndas faces.<\/p>\n<p>Oh! Sentia-se profundamente envergonhada do que sonhara a noite inteira.<\/p>\n<p>\u2014 Minha\u2019alma, rosnou a nova criada, afastando o reposteiro da<br \/>\nporta com a cabe\u00e7a \u2014 o senhor mandou perguntar como vosmec\u00ea passou de<br \/>\nontem p\u2019ra hoje.\u2014 Diga-lhe que pode vir daqui a pouco, e voc\u00ea<br \/>\nvolte j\u00e1 para me vestir.<\/p>\n<p>Quando se achou preparada, foi esperar o pai na sal cont\u00edgua \u00e0 sua alcova.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, minha filha, como passaste a noite.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, respondeu ela, beijando-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Dormiste?<\/p>\n<p>\u2014 Bastante.<\/p>\n<p>\u2014 Pareces-me, no entanto, fatigada&#8230; Como te sentes hoje de humor!<br \/>\n\u2014 No mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Aquela loucura de ontem&#8230;<\/p>\n<p>Magd\u00e1 estremeceu e abaixou as p\u00e1lpebras. Dir-se-ia que o pai lhe lan\u00e7ava<br \/>\nno rosto uma falta humilhante.<\/p>\n<p>\u2014 Ficaste t\u00e3o apreensiva com a tal subida da pedreira que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 melhor n\u00e3o falarmos mais nisso&#8230;<\/p>\n<p>E tomou as m\u00e3os do Conselheiro, fazendo-o chegar-se para bem junto dela.<br \/>\nE, depois de contempl\u00e1-lo em sil\u00eancio com um meio sorriso, abra\u00e7ou-o, demoradamente,<br \/>\ncomo se procurasse ficar convencida por uma vez de que aquelas tolices do<br \/>\nsonho n\u00e3o tinham o menor fundamento, e que seu pai, o seu extremoso pai, a<br \/>\nquem tanto queria do fundo do cora\u00e7\u00e3o, ainda ali estava a seu lado, para am\u00e1-la<br \/>\ncomo sempre e proteg\u00ea-la contra o maldito intruso que habitava dentro dela<br \/>\ne que a consumia para alimentar-se.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor \u00e9 muito meu amigo, n\u00e3o \u00e9 verdade, papai?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, que pergunta, minha filha!<\/p>\n<p>\u2014 Diga!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois ainda n\u00e3o tens certeza disso?<\/p>\n<p>\u2014 E o senhor seria capaz de abandonar-me, capaz de desprezar-me, fosse<br \/>\nl\u00e1 pelo que fosse?<\/p>\n<p>\u2014 Mas que lembran\u00e7a \u00e9 esta, Magd\u00e1? Desprezar-te, eu? Enlouqueceste!<\/p>\n<p>\u2014 Ama-me muito, n\u00e3o \u00e9 verdade? Por coisa alguma desta vida seria capaz<br \/>\nde enxotar-me da sua companhia, n\u00e3o \u00e9 assim? Responda.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa de criancices, minha flor, e olha! \u2014 toma o teu chocolate<br \/>\nque ali est\u00e1 esfriando h\u00e1 meia hora. Mas que \u00e9 isto?&#8230; Choras?&#8230; Ent\u00e3o!<br \/>\nent\u00e3o! Que tu sentes, Magd\u00e1? Fala, meu amor.<\/p>\n<p>Ela come\u00e7ou a solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>\u2014 Nada! nada! nervoso! Acordei hoje muito nervosa!<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o te aflijas deste modo. Vamos \u2014 toma o teu chocolate<br \/>\ne desce comigo ao jardim. Anda! V\u00ea se consegues n\u00e3o pensar em coisas que te<br \/>\nfa\u00e7am mal&#8230; N\u00e3o sejas crian\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>O Conselheiro, \u00e0 for\u00e7a de carinhos, conseguiu que ela tomasse, al\u00e9m de meia<br \/>\nchavena de chocolate, uma colherada do xarope de Esston, que o Dr. Lob\u00e3o havia<br \/>\nreceitado.<\/p>\n<p>A arrastou-a para a ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>Mas, pobre senhora! mal acabava de descer a escada do jardim, deu logo, cara<br \/>\na cara com o mo\u00e7o da pedreira, que ia buscar a esp\u00f3rtula prometida pelo Conselheiro.\u2014<br \/>\nAh! exclamou toda tr\u00eamula, corando e abaixando as p\u00e1lpebras. E tratou de abra\u00e7ar-se<br \/>\nao pai e esconder a cabe\u00e7a no colo deste, como na v\u00e9spera, depois da s\u00edncope.<\/p>\n<p>O bom velho n\u00e3o pode compreender o que era aquilo.<\/p>\n<p>\u2014 Tens alguma coisa? perguntou. \u2014 Sentes alguma novidade? Fala.<\/p>\n<p>\u2014 Voltemos para cima! Voltemos para cima! Dizia a mo\u00e7a, aflita, sem<br \/>\nmostrar o rosto.<\/p>\n<p>O trabalhador, muito rendido, continuava defronte deles, com os olhos em<br \/>\nterra, a torcer vexad\u00edssimo entre as m\u00e3os e o seu seboso casquete de pele<br \/>\nde lebre.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 patr\u00e3o, se quer, eu apare\u00e7o noutra ocasi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim, \u00e9 melhor, volveu o Conselheiro, muito ocupado com Magd\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! acudiu esta, sempre com o rosto escondido. \u2014 Despache-o<br \/>\nde uma vez! Para que fazer este homem voltar ainda aqui?<\/p>\n<p>Ao perceber uma pequena parte destas palavras, o cavoqueiro fez uma careta<br \/>\nque tanto podia ser de surpresa como de l\u00e1stima, e resmungou meio sentido:<\/p>\n<p>\u2014 Vosc\u00eancia queira desculpar, mas eu, se aqui vim, foi porque me disseram<br \/>\np\u2019ra vir&#8230; Tinha que com isso n\u00e3o ofendia pessoa alguma&#8230; mas, a vista<br \/>\nde que ando mal, pe\u00e7o desculpa e o mais que posso fazer \u2014 \u00e9 n\u00e3o tornar<br \/>\nc\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! op\u00f4s S. Ex. \u2014 Espere um instante. E, passando o bra\u00e7o<br \/>\npela cintura da filha, segredou ao ouvido desta: \u2014 Vamos, vamos l\u00e1 para<br \/>\ncima. Creio que hoje n\u00e3o est\u00e1s boa&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>X<\/h2>\n<p>O cavoqueiro ficou a esperar no jardim, encostado p\u2019r\u2019ali numa<br \/>\n\u00e1rvore, e a fazer de l\u00e1 suas considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Que macacos o lambesse se entendia aquela gente! A tal dos &#8220;me deixes&#8221;<br \/>\nficara a modos que assanhada quando ele lhe p\u00f4s as vistas em riba! Pois estava<br \/>\nque n\u00e3o havia raz\u00e3o de zangar, antes pelo contr\u00e1rio \u2014 havia p\u2019r\u2019agradecer:<br \/>\nSim! Prestara-lhe um servi\u00e7o; que n\u00e3o era l\u00e1 nenhum grande servi\u00e7o; mas enfim,<br \/>\nque diabo, na ocasi\u00e3o, ela n\u00e3o tinha quem a pusesse c\u00e1 em baixo!<\/p>\n<p>Tecia este racioc\u00ednio quando sentiu no ombro uma palmada de m\u00e3o polpuda.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s a cismar, \u00f3 Luiz!<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1, S\u2019\u00f3ra Justina! Bons olhos a vejam! Como chegou vosmec\u00ea?<\/p>\n<p>Ela chegara bem, gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p>\u2014 E o pequeno? Como ficou?<\/p>\n<p>\u2014 Ora! Pronto p\u2019ra outra!<\/p>\n<p>\u2014 Vosmec\u00ea est\u00e1 chegando agora!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. J\u00e1 estive l\u00e1 na estalagem com a tua gente. Est\u00e3o muito apertadas<br \/>\nde servi\u00e7o com a roupa de uma fam\u00edlia que embarca depois d\u2019amanh\u00e3. E<br \/>\ntu! N\u00e3o foste hoje ao trabalho?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 se v\u00ea que sim, Pus o casaco para vir aqui, mas volto.<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9 novidade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 nada, \u00e9 que ontem a senhora a\u00ed de cima&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Minh\u2019ama&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deve ser \u2014 foi passear l\u00e1 na pedreira e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Ela subiu \u00e0 pedreira&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014 Subiu, mas caiu, logo com um faniquito: eu carreguei-a c\u00e1 p\u2019ra<br \/>\nbaixo&#8230; Vai ent\u00e3o o pai \u2014 disse-me que lhe aparecesse para me dar ma<br \/>\ngorjeta, e eu vim. Ora a\u00ed tem vosmec\u00ea!<\/p>\n<p>\u2014 \u2018Sta direito. J\u00e1 falaste?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1, mas n\u00e3o entendo esta gente. Se a S\u2019ora Justina chega um<br \/>\nbocadinho antes, havia de presenciar o mais bonito!<\/p>\n<p>\u2014 Qu\u2019houve?<\/p>\n<p>\u2014 Pois a mo\u00e7a n\u00e3o fez aqui umas partes?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que foi, Luiz?<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o! Vinha descendo muito bem a escada e assim que me bispou<br \/>\n&#8211; z\u00e1s!<\/p>\n<p>\u2014 Z\u00e1s \u2014 como?<\/p>\n<p>\u2014 Abriu a chorar que nem uma crian\u00e7a, e agora o ver\u00e1s.<\/p>\n<p>\u2014 Coitada! Eu sei \u2014 \u00e9 mol\u00e9stia!<\/p>\n<p>E a Justina comoveu-se. Sempre que lhe tocavam na ama, apertava mais as sobrancelhas<br \/>\ne ficava com uma cara de profunda l\u00e1stima.<\/p>\n<p>\u2014 Arrenego de tal mol\u00e9stia! replicou o trabalhador. \u2014 Uma coisa<br \/>\nd\u00e1 para espantos, nem que a gente fosse alma do outro mundo! Olhe que se o<br \/>\npai n\u00e3o me dissesse para esperar aqui, juro-lhe que j\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o estava! Diabo<br \/>\nde uma esgani\u00e7ada, que parece que est\u00e1 parte n\u00e3o parte pelo meio! Ontem, quando<br \/>\na trouxe, tive medo de chegar c\u00e1 embaixo com um peda\u00e7o em cada m\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sejas m\u00e1 l\u00edngua, Luiz! N\u00e3o seria a primeira vez que perdesses<br \/>\npor falar de mais! Se n\u00e3o fosse semelhante balda, estarias a esta hora casado<br \/>\nj\u00e1 com a Rosinha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, sua mana mesmo foi que teve a culpa! Ela gosta mais de falar<br \/>\ndo que eu!<\/p>\n<p>\u2014 Como teve a culpa, se tu \u00e9s que andavas todo o santo dia a debicar<br \/>\no Comendador? Pois n\u00e3o dizias a todo mundo que ele era um sapo-boi e n\u00e3o o<br \/>\narremedavas l\u00e1 na estalagem para quem queria ver?&#8230; A ca\u00e7oada chegou aos<br \/>\nouvidos do homem, e ele de o dito pelo n\u00e3o dito &#8211; n\u00e3o quis mais ajudar o casamento<br \/>\nda afilhada&#8230; Fez muito bem! Tu, no caso dele, farias o mesmo! Como n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas se sua irm\u00e3 n\u00e3o fosse l\u00e1 contar o que se fazia na estalagem,<br \/>\no homem n\u00e3o bufava e teria ca\u00eddo com os cobres para o enxoval!<\/p>\n<p>\u2014 Fez de tola!<\/p>\n<p>\u2014 Ah! mas deixe estar que o cas\u00f3rio h\u00e1 de ser, mesmo sem a ajuda do<br \/>\nsapo velho! O pobre tamb\u00e9m vive!<\/p>\n<p>A outra era do mesmo parecer: \u2014 Como n\u00e3o? que isto de raparigas, a<br \/>\ngente deve despach\u00e1-las logo, antes que o demo as tente!<\/p>\n<p>E, vendo que um escravo do Conselheiro descia a escada. \u2014 Olha! A\u00ed<br \/>\nvem o negro com a tua gorjeta.<\/p>\n<p>Com efeito, eram dez mil r\u00e9is que o pai de Magd\u00e1 mandava ao cavoqueiro.<\/p>\n<p>\u2014 Que fico muito obrigado, ouviu? E quando precisar, l\u00e1 estou \u00e0s ordens.<\/p>\n<p>O escravo afastou-se.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00ea l\u00e1 agora se te metes hoje nalguma bebedeira!&#8230; observou Justina,<br \/>\na bater-lhe no ombro. \u2014 E at\u00e9 logo, que ainda n\u00e3o me apresentei \u00e0 patroa!<\/p>\n<p>J\u00e1 a certa dist\u00e2ncia, parou, para gritar:<\/p>\n<p>\u2014 Olha! dize \u00e0 tia Zefa que n\u00e3o me deixe o pequeno socar-se muito de<br \/>\naipim, que foi isto o que derrubou o outro!<\/p>\n<p>E galgou de carreira a escadaria do Conselheiro, num ativo remeximento de<br \/>\nquadris em evid\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Vou comprara um bilhete inteiro! Deliberou consigo Luiz, guardando<br \/>\na c\u00e9dula na algibeira.<\/p>\n<p>Luiz era filho da tia Zefa, e morava com esta, mais a av\u00f3 e mais a Rosinha,<br \/>\nirm\u00e3 de Justina e noiva dele, na tal casita de duas janelas, com entrada pela<br \/>\nestalagem que ficava em frente da ch\u00e1cara do Sr. Conselheiro. Viera novo para<br \/>\no Brasil, onde se achava perfeitamente aclimado; n\u00e3o sabia ler nem escrever;<br \/>\ntinha, por\u00e9m, for\u00e7a e sa\u00fade, &#8220;que \u00e9 o principal para quem deseja ganhar a<br \/>\nvida&#8221;. O seu casamento estava j\u00e1 para se realizar havia um ano, porque Luiz<br \/>\nqueria fazer coisa aceiada. &#8220;N\u00e3o! Que para um homem atrasar a vida, junto<br \/>\ncom a da mulher, antes fique solteiro! A pequena que esperasse , que o que<br \/>\ntinha de ser dela \u00e0s m\u00e3os lhe chegaria! Com outra n\u00e3o se casava \u2014 isso<br \/>\n\u00e9 que era dos livros! Ah! se a fortuna se lembrasse dele, j\u00e1 tudo estaria<br \/>\nfeito; mas o diabo da sorte andava arisca; todos os vig\u00e9simos da loteria,<br \/>\nque ele comprara \u00e0s ocultas da m\u00e3e e da av\u00f3, sa\u00edram-lhe brancos&#8230; S\u00f3 mesmo<br \/>\npodia contar com o triste peculiozinho do trabalho; o verdadeiro, por conseguinte,<br \/>\nera ir se preparando aos poucos \u2014 hoje com uma coisa, amanh\u00e3 com outra,<br \/>\nconforme desse o cobre e conforme as pechinchas que aparecessem. Seu padrinho<br \/>\nde batismo, um velhote apatacado que emprestava dinheiro a juros, esse prometera<br \/>\nentrar com uma famosa cama de jacarand\u00e1, que tinha em casa e da qual n\u00e3o se<br \/>\nservia desde a morte da mulher. Ah! esse n\u00e3o era o Comendador! Muito seguro,<br \/>\nmuito apertado, n\u00e3o havia d\u00favida! mas, tamb\u00e9m, prometendo, podia a gente contar<br \/>\ncom o bruto \u2014 a cana era certa! Ora, pois, com o dinheiro que l\u00e1 estava<br \/>\nna Caixa Econ\u00f4mica, ele teria um fato novo e um arranjo de roupa branca. Vinte<br \/>\ne cinco mi r\u00e9is seriam para um rel\u00f3gio de prata dourada, dos modernos. \u2014<br \/>\nIsso era sagrado! Porque ele n\u00e3o admitia que ningu\u00e9m se casasse sem ter rel\u00f3gio<br \/>\ne corrente. Corrente j\u00e1 tinha \u2014 cord\u00e3o de ouro que foi do pai e que<br \/>\nvivia fechado na c\u00f4moda da tia Zefa ao lado dos ouros da fam\u00edlia.&#8221;<\/p>\n<p>E estava a ver defronte dos seus olhos todo aquele tesouro: grandes rosetas<br \/>\nredondas e abertas, do tamanho de moedas de vint\u00e9m; anel\u00f5es de chapa em cima;<br \/>\num crucifixo de trazer ao pesco\u00e7o em dias de festa; uma figa que era uma riqueza,<br \/>\nno peso; um alfinete de peito representando um anjo a tocar trombeta; tr\u00eas<br \/>\npulseiras lisas e polidas; outras de coral com fecho de ouro; v\u00e1rios objetos<br \/>\nde filigrama de prata fabricados no Porto; um paliteiro e dois casti\u00e7ais tamb\u00e9m<br \/>\nde prata, sem contar com dois diamantezinhos que a vov\u00f3 ganhara aos vinte<br \/>\nanos, quando se casou, e que fazia quest\u00e3o de lev\u00e1-los \u00e0s orelhas para a sepultura.<br \/>\n&#8220;Era l\u00e1 mania da velhinha \u2014 respeitava-se!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ora&#8230; a Rosinha, al\u00e9m de tudo, tinha tamb\u00e9m os seus cobritos juntos; por<br \/>\nconseguinte, Luiz, com mais algum tempo de economias, bem que podia casar<br \/>\ncom ela&#8221;. Foi sacudido por este risonho racioc\u00ednio que o cavoqueiro, j\u00e1 de<br \/>\nvolta do servi\u00e7o, entrou em casa \u00e0s sete da noite, mais satisfeito que de<br \/>\nordin\u00e1rio, gra\u00e7as \u00e0 gorjeta do pai de Magd\u00e1, e talvez por haver tomado depois<br \/>\ndo trabalho alguns martelos de vinho com os companheiros.<\/p>\n<p>A pequena sentiu-lhe cheiro de bebida logo que ele entrou.<\/p>\n<p>\u2014 An&#8230; an&#8230;! Voc\u00ea hoje entortou o cotovelo, hein, seu Luiz? Muito<br \/>\nbonito!<\/p>\n<p>\u2014 Um nada! Foi para beber \u00e0 sa\u00fade da mo\u00e7a dali defronte&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A filha do Conselheiro&#8230; Ah! E deram a molhadura?<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 se deixa ver que sim, Mas aviem-me esse jantar, que estou a tinir!<\/p>\n<p>E assentou-se \u00e0 mesa, que tia Zefa cobria nesse instante com uma toalha de<br \/>\nlinho grosso, enquanto a Rosinha corria a buscar \u00e1 dentro a tigela de sopa.<br \/>\nA av\u00f3 chegou-se tamb\u00e9m para v\u00ea-lo comer, como fazia todos os dias. Uma velhinha<br \/>\nengra\u00e7ada, a vov\u00f3 Cust\u00f3dia! \u2014 seca, pequenita, a pele enrugada que nem<br \/>\num jenipapo maduro; a cabe\u00e7a que era um algod\u00e3o; a boca fechando e abrindo<br \/>\nsempre, e toda cheia de pregas, tal qual a boca de um saco fechado. Mas toda<br \/>\nela ainda esperta, agarrando-se \u00e0 vida com as unhas, que os dentes j\u00e1 \u00e1 se<br \/>\ntinham ido.<\/p>\n<p>Sentia-se ali um cheiro especial de roupa engomada e de roupa lavada. Justificando<br \/>\nesse cheiro, viam-se acumulada por toda a parte, sobre as mesas, sobre as<br \/>\ncadeiras, pilhas de camisas dobradas, mont\u00f5es de pe\u00e7as de roupa branca, e,<br \/>\ndependuradas de uma corda, pelo c\u00f3s, muitas an\u00e1guas, e muitas saias, penteadores<br \/>\nbordados e vestidos de linho com guarni\u00e7\u00f5es de renda. Um candieiro de querosene<br \/>\niluminava a pobre sala de duas bra\u00e7as de largura e tr\u00eas de comprimento, toda<br \/>\ncaiada de cima a baixo, e com uma pequena barra de roxo-terra. Havia um arm\u00e1rio<br \/>\nde pinho sem pintura, onde se guardava a lou\u00e7a, aquela grossa lou\u00e7a de doze<br \/>\nvint\u00e9ns o prato, e aquelas canecas de p\u00f3 de pedra, onde eles tomavam caf\u00e9<br \/>\nantes de levantar o dia. Na parede \u2014 uma gaiola de pindoba com um gaturamo.<br \/>\nA casa constava ainda d duas alcovas e outra salinha; ao fundo um pequeno<br \/>\nquintal que dava para o corti\u00e7o. Era propriedade da m\u00e3e do Luiz; deixou-lha<br \/>\no marido, um ferreiro, que morreu de desastre.<\/p>\n<p>O rapaz, enquanto jantava, falou a respeito das esquisitices da filha do<br \/>\nConselheiro, causou grande impress\u00e3o na sua gente. Quiseram pormenores; crivaram-no<br \/>\nde perguntas: &#8220;Se Magd\u00e1 tinha cara de doida; se era bonita; se se dava ao<br \/>\nrespeito&#8221;. Luiz respondia a tudo, devorando colheradas de feij\u00e3o amassado<br \/>\ncom farinha.<\/p>\n<p>\u2014 Pois mana Justina diz que ela \u00e9 muito boa, observou Rosinha. \u2014<br \/>\nE o caso \u00e9 que lhe tem dado muita coisa! Ainda h\u00e1 dias mostrou-me um anel,<br \/>\nque&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um anel? De ouro?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhora, de ouro! Juro por esta luz! Eu vi! Lindo! Com umas<br \/>\npedrinhas em ciam!<\/p>\n<p>A not\u00edcia do anel abriu um sil\u00eancio comovido.<\/p>\n<p>A tia Zefa observou afinal:<\/p>\n<p>\u2014 Aquela chorou na barriga da m\u00e3e! Tem muita sorte o diabo da rapariga!<br \/>\nH\u00e3o de ver que ainda encontra marido, apesar dos filhos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora se encontra! respondeu Luiz. \u2014 Isso \u00e9 t\u00e3o certo como me<br \/>\nachar eu aqui! Pois n\u00e3o se v\u00ea como est\u00e1 o Manoel das Iscas por ela?&#8230; N\u00e3o<br \/>\nfala noutra coisa! &#8220;Porque a S\u2019\u00f3ra Justina p\u2019ra c\u00e1! A S\u2019\u00f3ra<br \/>\nJustina p\u2019ra l\u00e1!&#8221; At\u00e9 j\u00e1 fede!<\/p>\n<p>\u2014 Que me est\u00e1s tu a dizer, rapaz?<\/p>\n<p>\u2014 Ora! Caidinho! E, se ela o souber levar, apanha-o mesmo!<\/p>\n<p>\u2014 Uma sorte grande! O Iscas j\u00e1 tem alguma coisa de seu!<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1! S\u00f3 aquele correr de casas, que ele fez agora, d\u00e1-lhe com que<br \/>\npassar mais duas vidas!&#8230;<\/p>\n<p>Depois do Iscas, a filha do Conselheiro tornou a entrar para assunto da conversa,<br \/>\ne discutiram-se com assombro os presentes dados por ela \u00e0 Justina. Por fim<br \/>\no cavoqueiro ergueu-se da mesa, tomou a sua viola e foi esperar pela hora<br \/>\nde dormir, assentado \u00e0 porta da estalagem, repinicando o seu fado favorito.<br \/>\nRosinha acompanhou-lhe logo e instalou-se ao lado dele como costumava fazer;<br \/>\nao passo que as duas velhas, tomando cada qual a sua cadeira, ficaram defronte<br \/>\numa da outra, a falar; entre bocejos e cochilos, no que tinham trabalhado<br \/>\nesse dia e no que iam trabalhar no dia seguinte. Da\u00ed a pouco j\u00e1 n\u00e3o diziam<br \/>\npalavra, e a pr\u00f3pria Rosinha dava marradas no noivo, cabeceando de sono. S\u00f3<br \/>\na viola do cavoqueiro continuava bem acordada, quebrando o denso recolhimento<br \/>\ndas nove e meia com o seu &#8220;tir-lim-tim-tim&#8221; mon\u00f3tono e embebido de saudade.<\/p>\n<p>Luiz cantava:<\/p>\n<p>&#8220;O sol prometeu \u00e0 lua<\/p>\n<p>Uma faixa de mil cores;<\/p>\n<p>Quando o sol promete \u00e0 lua,<\/p>\n<p>Que dir\u00e1 quem tem amores!&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Tir-lim-tim-tim! Tir-lim-tim-tim!<\/p>\n<p>&#8220;Tia a amar-me, e eu a amar-te,<\/p>\n<p>N\u00e3o sei qual ser\u00e1 mais firme!<\/p>\n<p>Eu como sol a buscar-te,<\/p>\n<p>Tu como sombra a fugir-me!&#8221;<\/p>\n<p>Essa cantilena chegava at\u00e9 a casa do Conselheiro reduzida a uma toada errante<br \/>\ne t\u00e3o l\u00e2nguida que entristecia. Magd\u00e1 escutava-o da sua alcova, deitada no<br \/>\ncolo de Justina, \u00e0 espera do sono.<\/p>\n<p>E quando, l\u00e1 pela meia-noite, conseguiu adormecer, continuou logo a sonhar<br \/>\ncom o mo\u00e7o da pedreira.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>XI<\/h2>\n<p>O sonho ligava-se ao da v\u00e9spera. Tornou a ver-se no colo do rapaz, abandonando<br \/>\na casa paterna e dirigindo-se vagarosamente para a montanha; esta, por\u00e9m,<br \/>\nsurgia-lhe adora defronte dos olhos, n\u00e3o como pedreira esbrugada, mas em plena<br \/>\nefervesc\u00eancia de verdura e toda coberta de flores.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a subir. Uma floresta virgem abria-se diante deles, para lhes dar<br \/>\npassagem, e logo se fechava sobre os seus passos, como cortinas de um leito<br \/>\nde folhas. O mo\u00e7o parecia n\u00e3o cansar com o peso que levava, e Magd\u00e1 por sua<br \/>\nvez sentia-se leve, muito vaporosa; e, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se afastava de casa<br \/>\ne ia-se entranhando na mata, fazia-se melhor, mais satisfeita e feliz.<\/p>\n<p>Afinal, deram com uma plan\u00edcie. Haviam chegado ao cimo da montanha; a\u00ed o<br \/>\nc\u00edrculo de verdura que os guardava abriu em clareira, destoldando o azul,<br \/>\nonde o sol resplandecia, transbordante de ouro por entre espumas de prata.<br \/>\nReinava na luz um meio tom suave e comunicativo; tudo era doce, temperado<br \/>\ne calmo; as vozes da natureza chegavam aos seus ouvidos apenas balbuciadas;<br \/>\nas folhas e asas cochichavam, como se temessem acordar algu\u00e9m; perto corria<br \/>\num regato sussurrando.<\/p>\n<p>O mo\u00e7o pousou Magd\u00e1 sobre a relva e assentou-lhe ao lado dela, tomando-lhe<br \/>\nas m\u00e3os entre as suas.<\/p>\n<p>\u2014 Como te sentes agora, minha flor! Segredou-lhe, aproximando o rosto.<\/p>\n<p>\u2014 Muito, muito melhor&#8230; respondeu a filha do Conselheiro com um suspiro.<br \/>\n\u2014 Sinto-me ainda um pouco fraca, mas conto que estes ares me restituam<br \/>\nas for\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Em breve estar\u00e1s perfeitamente boa e ser\u00e1s completamente feliz! disse<br \/>\no outro, e soltou-lhe um beijo na boca. Magd\u00e1 percebeu ent\u00e3o que o h\u00e1lito<br \/>\ndo mo\u00e7o tinha o perfume de murta, e que as barbas dele eram agora mais macias<br \/>\ndo que os arminhos da sua sa\u00edda de baile. E, encantada com a descoberta, notou<br \/>\nainda que as m\u00e3os do cavaqueiro j\u00e1 n\u00e3o eram t\u00e3o duras e mal tratadas, mas<br \/>\nbem torneadas e de uma flexibilidade muito en\u00e9rgica e nervosa; que o cheiro<br \/>\ndo seu corpo j\u00e1 n\u00e3o tresandava a cavalo suado, mas resc\u00eandia a um odor fecundo<br \/>\nde carne sadia e limpa, lembrando o cheiro de leite fresco; que os seus dentes<br \/>\neram alvos e puros como as areias da praia; que o seu peito era mais branco<br \/>\ne mais rijo que o granito da pedreira; que os seus cabelos, ro\u00e7ando nela,<br \/>\nacordavam desejos, e que seus bra\u00e7os eram cadeias de fogo em que toda ela<br \/>\nse abrasava de amor.<\/p>\n<p>\u2014 Gostas de me ter a seu lado?&#8230; perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Tu restitues-me a vida&#8230; respondeu Magd\u00e1, cingindo-o pelos rins<br \/>\ne pousando o rosto abatido e frio sobre o colo vigoroso e largo do amigo.<br \/>\n\u2014 Oh! balbuciou depois, aconchegando-se mais \u2014 como eu me sinto<br \/>\nbem assim! Com a cabe\u00e7a aqui! A gozar nos meus peitos o calor do teu corpo!<br \/>\nDeixa-me ficar ainda! Deixa-me ficar um instante, meu senhor e meu amado!<\/p>\n<p>E apertava-o nos m\u00edseros bra\u00e7os, fechando os olhos e aspirando com for\u00e7a,<br \/>\ncomo se quisesse sorver de um s\u00f3 hausto, a vitalidade que ele de si exalava,<br \/>\nmais capitosa que o vapor de um vinho velho fervendo ao fogo.<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9s s\u00f3 meu?<\/p>\n<p>\u2014 Todo teu e para sempre!<\/p>\n<p>\u2014 Nunca amar\u00e1s outra mulher?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, Magd\u00e1, nunca!<\/p>\n<p>\u2014 Se me esqueces por outra, eu morreria de ci\u00fames, antes que as feras<br \/>\nme devorassem aqui! Olha! v\u00ea como, s\u00f3 com pensar nisto, tremo toda&#8230;<\/p>\n<p>Ele puxou-a de vez para o seu colo e afagou-a.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o chores, disse. \u2014 Descansa, que nunca mais nos separaremos.<br \/>\nEu serei eternamente o teu companheiro, o teu amigo, o eu esposo! Quando te<br \/>\nsentires com for\u00e7a, ir\u00e1s a p\u00e9, pelo meu bra\u00e7o, passear ao outro lado da montanha,<br \/>\nque ainda \u00e9 mais belo do que este. Depois chegaremos at\u00e9 l\u00e1 em baixo, no vale,<br \/>\nonde encontrar\u00e1s tudo o que de melhor h\u00e1 na vida: os mais saborosos frutos,<br \/>\nas flores mais mimosas, as aves mais lindas, as \u00e1guas mais puras, o sol mais<br \/>\ncarinhoso e os seres mais benfazejos da natureza. L\u00e1 tudo \u00e9 nosso amigo; tudo<br \/>\nnos ama; nenhuma ente da terra te far\u00e1 mal, porque aqui tu \u00e9s rainha e eu<br \/>\nsou o rei. N\u00e3o tenho para te oferecer aposentos como os de teu pai; n\u00e3o tenho<br \/>\ncarruagens, nem sedas, nem baixelas de prata; mas, em compensa\u00e7\u00e3o, nenhuma<br \/>\noutra te disputar\u00e1 o poder sobre estes teus dom\u00ednios, nem o amor deste teu<br \/>\nescravo! Quando sentires vontade de comer, eu irei buscar os pomos mais suculentos<br \/>\ne gostosos; quando tiveres sede, eu trarei nas minhas m\u00e3os a \u00e1gua mais cristalina<br \/>\ndas nossas fontes; quanto te sentires cansada, eu te carregarei nos meus bra\u00e7os.<br \/>\nEu percorrerei o mundo inteiro para te matar um desejo! E, quando dormires,<br \/>\nestarei a teu lado, pedindo a Deus que te d\u00ea bons sonhos e encha tua alma<br \/>\nde consola\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Como sou feliz agora, meu amigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, tu ser\u00e1s muito feliz, porque aqui n\u00e3o haver\u00e1 \u00f3dios nunca, nem<br \/>\ninvejas, nem ambi\u00e7\u00f5es, nem v\u00edcios; aqui s\u00f3 o amor existe! Este \u00e9 o seu reino;<br \/>\nnada aqui vive sen\u00e3o dele e para ele! Amarmo-nos ser\u00e1 o nosso \u00fanico destino<br \/>\ne o nosso \u00fanico dever. Desde que o n\u00e3o fiz\u00e9ssemos, ser\u00edamos logo expulsos<br \/>\ndeste para\u00edso por indignos e maus, e ter\u00edamos de ir chorar a nossa mis\u00e9ria<br \/>\nl\u00e1 na outra exist\u00eancia, onde os homens se detestam e atrai\u00e7oam a todo momento.<br \/>\nV\u00eas estas \u00e1rvores, estes p\u00e1ssaros, todo este mundo alegre e feliz que canta<br \/>\nem torno dos nossos beijos! pois todo ele vive s\u00f3 para se amar! V\u00ea! repara<br \/>\ncomo todos crescem aos pares; como concebem e como produzem! Olha para cima<br \/>\nda tua cabe\u00e7a; olha para debaixo dos teus p\u00e9s; olha para os lados e observa!<br \/>\n\u2014 Est\u00e1 tudo amando? Em cada beijo que damos, um infinito de vidas se<br \/>\nforma entre nossos l\u00e1bios!<\/p>\n<p>Houve um duro sil\u00eancio, durante o qual S. Ex., cujas barbas haviam crescido<br \/>\nmuito, e cuja calva reluzia que nem a de um patriarca da B\u00edblia, olhava, ora<br \/>\npara a filha, ora para o rapaz, como se estivesse a compar\u00e1-los.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito!&#8230;<\/p>\n<p>E sacudia a cabe\u00e7a, e esticava os bei\u00e7os, sem desviar a vista. No capricho<br \/>\ndo sonho, o pobre Conselheiro tinha perdido as suas maneiras distintas e af\u00e1veis,<br \/>\ne at\u00e9 no modo de se exprimir era grosseiro e burgu\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito!&#8230; repisou ele, estalando um riso de sarcasmo. \u2014<br \/>\n\u00c9 at\u00e9 onde pode chegar o aviltamento!&#8230; Dar-se a um trabalhador da mais baixa<br \/>\nesp\u00e9cie!&#8230; \u00c9 inacredit\u00e1vel!<\/p>\n<p>\u2014 A culpa n\u00e3o foi minha, papai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Cale-se! N\u00e3o sei onde estou, que lhe n\u00e3o quebre esta bengala nas<br \/>\ncostas!<\/p>\n<p>\u2014 Creia, patr\u00e3o, que&#8230; ia arriscar o rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 tratante! berrou o velho. \u2014 Ainda te atreves a abrir o bico?<br \/>\nOra espera que te ensino!<\/p>\n<p>E cresceu para o mo\u00e7o, que o esperou sem tugir nem mugir, com o aspecto resignado<br \/>\nde uma besta que tem dono. Magd\u00e1, por\u00e9m, j\u00e1 se havia metido entre os dois<br \/>\ne , de joelhos, chorando, abra\u00e7ava-se \u00e0s pernas do patriarca.<\/p>\n<p>\u2014 Piedade, meu pai! piedade!<\/p>\n<p>\u2014 Qual piedade, nem qual carapu\u00e7as! N\u00e3o fosse t\u00e3o assanhada!<\/p>\n<p>\u2014 Tenha compaix\u00e3o de dois infelizes, cuja falta foi s\u00f3 uma e \u00fanica&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E acha pouco, sua desavergonhada? Acha talvez que esta n\u00e3o basta<br \/>\npara me fazer subir ao arame! Tem gra\u00e7a!<\/p>\n<p>E, enquanto a filha solu\u00e7ava, sem erguer os olhos: \u2014 Ingrata! Eu a<br \/>\nmatar-me para a fazer gente; para lhe ar uma certa educa\u00e7\u00e3o \u2014 e ela<br \/>\na meter-me os p\u00e9s! Criar uma filha com tanto carinho, para v\u00ea-la depois entregue<br \/>\na um homem de pedreira!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perdoe, meu pai!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o perd\u00f4o nada!<\/p>\n<p>\u2014 Juro-te que n\u00e3o tenho culpa do que sucedeu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perversa! Eu a sacrificar-me a instru\u00ed-la e arranjar-lhe um futuro,<br \/>\ne ela a sujar-se de lama e a cobrir-me de vergonhas!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fui eu, papai, foi a minha natureza; foi a minha carne; foram<br \/>\nos meus sentidos!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual carne, nem qual sentidos! A patifaria tem sempre desculpas!<\/p>\n<p>Fez uma pausa e prosseguiu depois, comovendo-se, mau grado seu: \u2014 Dei-lhe<br \/>\ntudo o que se podia desejar! Foi j\u00e1 o professor de piano; foi j\u00e1 o professor<br \/>\nde canto; foi j\u00e1 o mestre de desenho! E venha o explicador de franc\u00eas! E venha<br \/>\noutro para hist\u00f3ria e geografia p\u00e1tria! E outro para isto! E outro para aquilo!<br \/>\nE compre-se mais este dicion\u00e1rio! E assine-se mais este jornal! E corra-se<br \/>\naos Castel\u00f5es a buscar o camarote do L\u00edrico! E olhe o carro que n\u00e3o esque\u00e7a!<br \/>\nE veja essa luva de vinte bot\u00f5es que saia! E venha a bela da j\u00f3ia! E venha<br \/>\no belo vestido de seda! E olhe o chap\u00e9u \u00e0 Sarah Bernhardt! E olhe as regatas!<br \/>\nE olhe as corridas! E d\u00eaem-se festas todos os meses! E fa\u00e7am-se viagens \u00e0<br \/>\nEuropa! \u2014 E tudo isto afinal p\u2019ra que? \u2014 Sim! tudo isto<br \/>\np\u2019ra que?! S\u00f3 quero que me digam de que serviu tanto sacrif\u00edcio!<\/p>\n<p>\u2014 Perdoe-me!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! n\u00e3o perd\u00f4o, nem devo perdoar! Se queria casar, h\u00e1 muito tempo<br \/>\nque o podia ter feito; o que n\u00e3o lhe faltou foram pretendentes! A senhora<br \/>\ntorceu o nariz a todos! E, logo que o Dr. Lob\u00e3o me fez ver a necessidade urgente<br \/>\nde uni-la a algu\u00e9m, trouxe-lhe o meu amigo Jos\u00e9 Furtado!<\/p>\n<p>\u2014 Um velho!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o ser\u00e1 uma crian\u00e7a, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nenhum bisav\u00f4! Outra qualquer<br \/>\na teria agarrado com unhas e dentes! Um homem de conta, peso e medida!<\/p>\n<p>\u2014 Pudera! Principiou a vida a limpar pesos e balan\u00e7as!<\/p>\n<p>\u2014 E que tem isso? Um homem honrado, trabalhador e econ\u00f4mico. Entrou<br \/>\nna vida com um barril nas costas, mas hoje \u00e9 uma das mais s\u00f3lidas fortunas<br \/>\ndo Rio de Janeiro!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 de dinheiro que eu preciso!<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o casasse com o Dr. Tolentino&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um defunto!<\/p>\n<p>\u2014 Defunto! N\u00e3o ter\u00e1 uma sa\u00fade perfeita, coitado, mas \u00e9 uma das mais<br \/>\nbem constitu\u00eddas cabe\u00e7as do Brasil. Muito talentoso, muito ilustrado! Membro<br \/>\nda Sociedade de Geografia de Lisboa, e consta at\u00e9 que vai receber diploma<br \/>\nde s\u00f3cio n\u00e3o sei que importante congrega\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da B\u00e9lgica!<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 de ci\u00eancia que eu preciso!<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, porque n\u00e3o aceitou o Conde do Valado?<\/p>\n<p>\u2014 Um libertino!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 tanto assim.<\/p>\n<p>\u2014 Um vicioso comum que, se deixa de falar um instante em cavalos, \u00e9<br \/>\npara discutir cocotes.<\/p>\n<p>\u2014 Que exagero! N\u00e3o direi que os seus costumes sejam t\u00e3o puros como<br \/>\nos do comendador Jos\u00e9 Furtado ou como os do Dr. Tolentino, mas \u00e9 um moc\u00f3 ilustre,<br \/>\ndescendente em linha reta de uma das mais importantes casas de Portugal. Seus<br \/>\nav\u00f3s figuraram todos na hist\u00f3ria e o seu nome tornaria fidalga a mulher que<br \/>\no possu\u00edsse!<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o preciso de nobreza!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o precisas de nobreza; n\u00e3o precisas de ci\u00eancias; n\u00e3o precisas de<br \/>\ndinheiro! Ent\u00e3o de que diabo precisas tu?<\/p>\n<p>\u2014 De um homem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um homem! Quanta desfa\u00e7atez! De que precisavas, grand\u00edssima desavergonhada,<br \/>\nera de uma boa carga de pau, para te apagar o fogo do rabo!<\/p>\n<p>E o velho, possuindo-se de novo acesso de c\u00f3lera, estendeu o bra\u00e7o, enxotando<br \/>\na filha e mais o mo\u00e7o da pedreira.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1! Rua seus bandalhos! E que eu nunca mais lhes ponha a vista em<br \/>\ncima! Est\u00e3o amaldi\u00e7oados!<\/p>\n<p>\u2014 Meu pai! meu pai!<\/p>\n<p>\u2014 Aqui j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 pai, nem m\u00e3e! N\u00e3o sou pai de mulheres \u00e0-toa! Ponham-se<br \/>\na andar, e que sejam muito felizes! Boa viagem!<\/p>\n<p>\u2014 Deixe-me ao menos ir l\u00e1 dentro buscar as minhas j\u00f3ias, um pouco de<br \/>\nroupa e os meus livros&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00f3ias, roupas, livros! para que? A senhora j\u00e1 n\u00e3o tem tudo quanto<br \/>\ndeseja, para que mais?&#8230; As boas roupas fizeram-se para os nobres, as j\u00f3ias<br \/>\npara os ricos e os livros para os s\u00e1bios! A senhora nada tem que ver com esta<br \/>\ngente e com estas coisas! S\u00f3 queria &#8220;um homem&#8221;, pois j\u00e1 o tem! \u00c9 andar! Ele<br \/>\nque lhe compre j\u00f3ias; que se encarregue de vesti-la, de sustent\u00e1-la e de consol\u00e1-la.<br \/>\nTem obriga\u00e7\u00e3o disso; e, se n\u00e3o disp\u00f5e de meios, invente-os \u2014 trabalhe!<br \/>\nSe n\u00e3o puder trat\u00e1-la a bicos de rouxinol, comam feij\u00e3o com carne seca, que<br \/>\na senhora tem obriga\u00e7\u00e3o de contentar-se com o que ele lhe der! \u00c9 o &#8220;seu homem&#8221;<br \/>\ne, por conseguinte, \u00e9 quem de hoje em diante a governa com direito de vida<br \/>\ne de morte! Acompanhe-o submissa para onde ele for, seja para o inferno ou<br \/>\nseja para o para\u00edso! A partir desse momento\u2014 o seu destino \u00e9 o dele!<br \/>\nE deixem-me!<\/p>\n<p>\u2014 Meu pai!<\/p>\n<p>\u2014 Foi tempo! Nada mais h\u00e1 de comum entre n\u00f3s! Para continuar a ser<br \/>\nseu pai, seria preciso que eu me fizesse pai tamb\u00e9m daquele peda\u00e7o d\u2019asno;<br \/>\ne eu n\u00e3o quero ter filhos de tal esp\u00e9cie!<\/p>\n<p>E S. Ex,. notando que Magd\u00e1 n\u00e3o se resolvia a largar-lhe as pernas e continuava<br \/>\na chorar, ordenou, voltando-se para o cavoqueiro:\u2014 Ol\u00e1, seu coisa! Tome<br \/>\nconta dessa mulher! \u00c9 sua! Pode lev\u00e1-la para onde bem entender!<\/p>\n<p>\u2014 Ah! exclamou a filha, caindo por terra, de borco, com os bra\u00e7os estendidos<br \/>\nno ch\u00e3o, enquanto o velho, arrepanhando a sua t\u00fanica da cor simp\u00e1tica \u00e0s hist\u00e9ricas,<br \/>\nse afastava para casa, muito fresquinho e senhor de si, assoviando, de cabe\u00e7a<br \/>\nimpertigada, nem como se a coisa tivera sido com ele.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 permanecia de bru\u00e7os, a solu\u00e7ar. Ent\u00e3o o moc\u00f3 da pedreira inclinou-se<br \/>\nsobre ela e deu-lhe com toda delicadeza u \u00f3sculo nos cabelos. Depois tomou-a<br \/>\nao colo e p\u00f4s-se a caminhar, vagarosamente, muito vagarosamente, na dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nda fatal montanha onde ele trabalhava. E toda a natureza, que parecia haver<br \/>\nentristecido e tomado luto com a maldi\u00e7\u00e3o do velho, come\u00e7ou a reanimar-se,<br \/>\na rir de novo, tingindo-se de luz purp\u00farea e entoando em voz baixa epital\u00e2meos<br \/>\nsensuais. E os dois, abra\u00e7ados, formando um s\u00f3 grupo, lentamente penetraram<br \/>\nnuma deliciosa alameda de laranjeiras, cujos galhos se vergavam na sua passagem<br \/>\npara lhes beijar a fronte, derramando-lhes sobre a cabe\u00e7a uma odor\u00edfera chuva<br \/>\nde flores desfolhadas. E do c\u00e9u baixava doce harmonia religiosa, que parecia<br \/>\nbalbuciada por uma nuvem de anjos.<\/p>\n<p>Nisto \u2014 despertou.<\/p>\n<p>Circunscreveu o olhar em torno de si, reconhecendo a custo a pr\u00f3pria alcova.<br \/>\nO seu pequeno rel\u00f3gio Luiz XV, de bronze dourado, marcava, no mostrador de<br \/>\nporcelana de S\u00e8vres esmaltada, meia hora depois do meio-dia. Uma cortina cinzenta,<br \/>\nde seda de Le\u00e3o, quebrava na janela a luz que batia de fora, e dava ao quarto<br \/>\no tom opalino de um crep\u00fasculo de inverno. Magd\u00e1 suspirou, espregui\u00e7ando-se.<br \/>\nO drama fant\u00e1stico de toda aquela noite dissolveu-se: teatro e personagens<br \/>\ndesapareceram. Mal ouvia-se, ainda, bem distintamente, o tal coro religioso<br \/>\nque baixara dos c\u00e9us para solenizar a sua passagem na encantada alameda; a<br \/>\nmo\u00e7a soergueu-se no leito, concheando a m\u00e3o no ouvido que ficava do lado da<br \/>\njanela e, meio maravilhada, p\u00f4s-se a escutar com aten\u00e7\u00e3o aquela tristonha<br \/>\ncantilena que persistia ali, na vida real, como um prolongamento do sonho.<\/p>\n<p>Caiu logo em si: era a toada melanc\u00f3lica dos trabalhadores que minavam a<br \/>\npedreira. E ali deixou-se tombar de novo sobre os travesseiros e a\u00ed permaneceu,<br \/>\ncom os olhos muito quietos, enquanto duas l\u00e1grimas lhe serpeavam ao comprido<br \/>\ndas faces.<\/p>\n<p>Oh! Sentia-se profundamente envergonhada do que sonhara a noite inteira.<\/p>\n<p>\u2014 Minha\u2019alma, rosnou a nova criada, afastando o reposteiro da<br \/>\nporta com a cabe\u00e7a \u2014 o senhor mandou perguntar como vosmec\u00ea passou de<br \/>\nontem p\u2019ra hoje.\u2014 Diga-lhe que pode vir daqui a pouco, e voc\u00ea<br \/>\nvolte j\u00e1 para me vestir.<\/p>\n<p>Quando se achou preparada, foi esperar o pai na sal cont\u00edgua \u00e0 sua alcova.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, minha filha, como passaste a noite.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, respondeu ela, beijando-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Dormiste?<\/p>\n<p>\u2014 Bastante.<\/p>\n<p>\u2014 Pareces-me, no entanto, fatigada&#8230; Como te sentes hoje de humor!<br \/>\n\u2014 No mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Aquela loucura de ontem&#8230;<\/p>\n<p>Magd\u00e1 estremeceu e abaixou as p\u00e1lpebras. Dir-se-ia que o pai lhe lan\u00e7ava<br \/>\nno rosto uma falta humilhante.<\/p>\n<p>\u2014 Ficaste t\u00e3o apreensiva com a tal subida da pedreira que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 melhor n\u00e3o falarmos mais nisso&#8230;<\/p>\n<p>E tomou as m\u00e3os do Conselheiro, fazendo-o chegar-se para bem junto dela.<br \/>\nE, depois de contempl\u00e1-lo em sil\u00eancio com um meio sorriso, abra\u00e7ou-o, demoradamente,<br \/>\ncomo se procurasse ficar convencida por uma vez de que aquelas tolices do<br \/>\nsonho n\u00e3o tinham o menor fundamento, e que seu pai, o seu extremoso pai, a<br \/>\nquem tanto queria do fundo do cora\u00e7\u00e3o, ainda ali estava a seu lado, para am\u00e1-la<br \/>\ncomo sempre e proteg\u00ea-la contra o maldito intruso que habitava dentro dela<br \/>\ne que a consumia para alimentar-se.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor \u00e9 muito meu amigo, n\u00e3o \u00e9 verdade, papai?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, que pergunta, minha filha!<\/p>\n<p>\u2014 Diga!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois ainda n\u00e3o tens certeza disso?<\/p>\n<p>\u2014 E o senhor seria capaz de abandonar-me, capaz de desprezar-me, fosse<br \/>\nl\u00e1 pelo que fosse?<\/p>\n<p>\u2014 Mas que lembran\u00e7a \u00e9 esta, Magd\u00e1? Desprezar-te, eu? Enlouqueceste!<\/p>\n<p>\u2014 Ama-me muito, n\u00e3o \u00e9 verdade? Por coisa alguma desta vida seria capaz<br \/>\nde enxotar-me da sua companhia, n\u00e3o \u00e9 assim? Responda.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa de criancices, minha flor, e olha! \u2014 toma o teu chocolate<br \/>\nque ali est\u00e1 esfriando h\u00e1 meia hora. Mas que \u00e9 isto?&#8230; Choras?&#8230; Ent\u00e3o!<br \/>\nent\u00e3o! Que tu sentes, Magd\u00e1? Fala, meu amor.<\/p>\n<p>Ela come\u00e7ou a solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>\u2014 Nada! nada! nervoso! Acordei hoje muito nervosa!<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o te aflijas deste modo. Vamos \u2014 toma o teu chocolate<br \/>\ne desce comigo ao jardim. Anda! V\u00ea se consegues n\u00e3o pensar em coisas que te<br \/>\nfa\u00e7am mal&#8230; N\u00e3o sejas crian\u00e7as&#8230;<\/p>\n<p>O Conselheiro, \u00e0 for\u00e7a de carinhos, conseguiu que ela tomasse, al\u00e9m de meia<br \/>\nchavena de chocolate, uma colherada do xarope de Esston, que o Dr. Lob\u00e3o havia<br \/>\nreceitado.<\/p>\n<p>A arrastou-a para a ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>Mas, pobre senhora! mal acabava de descer a escada do jardim, deu logo, cara<br \/>\na cara com o mo\u00e7o da pedreira, que ia buscar a esp\u00f3rtula prometida pelo Conselheiro.\u2014<br \/>\nAh! exclamou toda tr\u00eamula, corando e abaixando as p\u00e1lpebras. E tratou de abra\u00e7ar-se<br \/>\nao pai e esconder a cabe\u00e7a no colo deste, como na v\u00e9spera, depois da s\u00edncope.<\/p>\n<p>O bom velho n\u00e3o pode compreender o que era aquilo.<\/p>\n<p>\u2014 Tens alguma coisa? perguntou. \u2014 Sentes alguma novidade? Fala.<\/p>\n<p>\u2014 Voltemos para cima! Voltemos para cima! Dizia a mo\u00e7a, aflita, sem<br \/>\nmostrar o rosto.<\/p>\n<p>O trabalhador, muito rendido, continuava defronte deles, com os olhos em<br \/>\nterra, a torcer vexad\u00edssimo entre as m\u00e3os e o seu seboso casquete de pele<br \/>\nde lebre.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 patr\u00e3o, se quer, eu apare\u00e7o noutra ocasi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim, \u00e9 melhor, volveu o Conselheiro, muito ocupado com Magd\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! acudiu esta, sempre com o rosto escondido. \u2014 Despache-o<br \/>\nde uma vez! Para que fazer este homem voltar ainda aqui?<\/p>\n<p>Ao perceber uma pequena parte destas palavras, o cavoqueiro fez uma careta<br \/>\nque tanto podia ser de surpresa como de l\u00e1stima, e resmungou meio sentido:<\/p>\n<p>\u2014 Vosc\u00eancia queira desculpar, mas eu, se aqui vim, foi porque me disseram<br \/>\np\u2019ra vir&#8230; Tinha que com isso n\u00e3o ofendia pessoa alguma&#8230; mas, a vista<br \/>\nde que ando mal, pe\u00e7o desculpa e o mais que posso fazer \u2014 \u00e9 n\u00e3o tornar<br \/>\nc\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! op\u00f4s S. Ex. \u2014 Espere um instante. E, passando o bra\u00e7o<br \/>\npela cintura da filha, segredou ao ouvido desta: \u2014 Vamos, vamos l\u00e1 para<br \/>\ncima. Creio que hoje n\u00e3o est\u00e1s boa&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>XII<\/h2>\n<p>Acordou muito nervosa e muito triste. O sonho deixara-a num grande abatimento<br \/>\nf\u00edsico e moral; pungia-lhe um como remorso de quem se arrepende de haver passado<br \/>\na noite em claro, no deboche. Sentia-se humilhada.<\/p>\n<p>&#8211; Maldito homem! maldita a hora em que ela se lembrou de subir \u00e0 pedreira.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o compreendesse perfeitamente que tudo aquilo era devido ao seu<br \/>\nlastim\u00e1vel estado de doen\u00e7a; mas, por melhores esfor\u00e7os empregados para se<br \/>\nconvencer de que lhe n\u00e3o cabia a mais ligeira responsabilidade em semelhantes<br \/>\nextravag\u00e2ncias, um profundo vexame apoderava-se do seu esp\u00edrito, constrangendo-a<br \/>\nde vergonha contra si pr\u00f3pria. Reconhecia-se criminosa por aqueles delitos<br \/>\nde uma sensualidade t\u00e3o brutal e t\u00e3o baixa; n\u00e3o podia conceber como era que<br \/>\nela &#8211; ela! a filha do Conselheiro Finto Marques, a intolerante, a escrupulosa<br \/>\npor excel\u00eancia, a irrepreens\u00edvel nos seus gostos e nas suas predile\u00e7\u00f5es, mantinha,<br \/>\nsegregadas nos meandros da sua fantasia, tais sementes de lux\u00faria, que bastava<br \/>\ncair uma \u00fanica no misterioso terreno dos sonhos para rebentar logo uma floresta<br \/>\ninteira de concupisc\u00eancia. Lembrou-se de contar tudo com franqueza ao Dr.<br \/>\nLob\u00e3o e pedir-lhe que lhe arranjasse um rem\u00e9dio contra aqueles desvarios;<br \/>\nmas s\u00f3 a id\u00e9ia de repetir, de confessar certos particularidades do seu del\u00edrio,<br \/>\nfaziam-na tremer toda de pejo. &#8220;Ah! se a tia Camila ainda fosse viva!.&#8221; E<br \/>\no que ela n\u00e3o se animou de confiar ao m\u00e9dico, disse em confid\u00eancia de alcova<br \/>\nao seu crucifixo, pedindo-lhe entre l\u00e1grimas, pelo amor da Virgem M\u00e3e Sant\u00edssima,<br \/>\nque a protegesse; que a livrasse daqueles pensamentos impuros; que lhe mandasse<br \/>\ndos c\u00e9us todas as noites um dos seus anjos para lhe velar o sono e impedir<br \/>\nque a sua pobre alma, enquanto ela dormia, fosse vagabundear por ali, como<br \/>\na alma de qualquer perdida.<\/p>\n<p>Cristo n\u00e3o a atendeu. \u00c0 m\u00edsera, depois de um dia como os outros, dia arrastado<br \/>\nentre colheradas de rem\u00e9dio e t\u00e9dios de enferma, sem um riso, nem a sombra<br \/>\nde uma esperan\u00e7a de alegria, mal adormeceu, animada no colo da Justina, acordou<br \/>\nem sonho nos bra\u00e7os do cavoqueiro.<\/p>\n<p>Continuava a sua exist\u00eancia fant\u00e1stica. Despertou com um beijo dele.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! disse, e olhou em torno de si, procurando reconhecer o s\u00edtio da quim\u00e9rica<br \/>\nfelicidade.<\/p>\n<p>Sorriu logo, satisfeita: era o mesmo lugar em que na v\u00e9spera havia pegado<br \/>\nno sono acalentada pelo amante. &#8211; Era, que d\u00favida! &#8211; l\u00e1 estavam as mesmas<br \/>\n\u00e1rvores, agora tranq\u00fcilas e confortadas; as mesmas paineiras sussurrantes,<br \/>\no inalter\u00e1vel regato de \u00e1guas diamantinas em que se destacavam os nen\u00fafares,<br \/>\nformando pequenas ilhas cor de esmeralda e guarnecidas de grandes flores vermelhas<br \/>\ne brancas. E, como para se certificar de que o seu amado ainda era tamb\u00e9m<br \/>\no mesmo, p\u00f4s-se a tatear-lhe a musculatura dos bra\u00e7os e do peito.<\/p>\n<p>\u2014 Era ele mesmo! Era! Nem outro possu\u00eda aquela rijeza de carnes junto<br \/>\n\u00e0quela maciez de pele.<\/p>\n<p>Apalpou-o todo. Depois, como se ainda n\u00e3o estivesse bem convencida, esfregou<br \/>\no rosto nas barbas dele, meteu os dedos por entre os an\u00e9is do seu cabelo,<br \/>\ncheirou-lhe a boca.<\/p>\n<p>\u2014 Era! Era o mesmo! cheirava a murta.<\/p>\n<p>E beijou-o.<\/p>\n<p>Olha, falou o mo\u00e7o. \u2014 Enquanto dormias tu, andei por a\u00ed colhendo estas<br \/>\nfrutas. Deves sentir fome.<\/p>\n<p>&#8211; E&#8217; verdade, respondeu Magd\u00e1. \u2014 Tenho uma fome enorme. H\u00e1 muito tempo<br \/>\nque n\u00e3o como.<\/p>\n<p>E ergueu-se a meio para o banquete.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00ea como s\u00e3o boas&#8230; observou o outro, trincando um caj\u00e1 e levando-lhe \u00e0<br \/>\nboca o peda\u00e7o que tinha entre dentes.<\/p>\n<p>Ela comeu e pediu outro bocado, mas queria assim mesmo &#8211; de boca para boca.<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 bom! Como \u00e9 bom! repetia batendo palmas.<\/p>\n<p>\u2014 Estes, que est\u00e3o picados de passarinho, s\u00e3o os mais doces. Olha!<br \/>\nexperimenta.<\/p>\n<p>Ela afinal deitou-se no colo dele, para comer \u00e0 moda das crian\u00e7as. O rapaz<br \/>\nescolhia os melhores frutos, mordia-os primeiro e dividia o peda\u00e7o com ela,<br \/>\nambos a rirem-se muito desta brincadeira.<\/p>\n<p>\u2014 Mais! mais!<\/p>\n<p>Ele mostrou uma grande manga.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Que bela! exclamou a filha do Conselheiro, tomando em cheio nas<br \/>\nm\u00e3ozinhas a imensa manga que o companheiro lhe apresentava. E, farta de admir\u00e1-la,<br \/>\nlembrou com um repente<\/p>\n<p>\u2014 Vamos chup\u00e1-la os dois juntos?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como?<\/p>\n<p>\u2014 Deita-te aqui no ch\u00e3o, ao meu lado. Assim!<\/p>\n<p>E, uma vez deitados, come\u00e7aram, com o rosto muito unidos, a chuchurrear a<br \/>\nmanga, como se mamassem ao mesmo tempo por uma s\u00f3 teta. Magd\u00e1 sentia com isto<br \/>\numa vol\u00fapia indefin\u00edvel; de vez cm quando despregava os l\u00e1bios da fruta, para<br \/>\npoder olhar o amigo, soltava uma risadinha e continuava a mamar. Quando se<br \/>\nsentiram satisfeitos, ele foi buscar \u00e1gua na parra de um tinhor\u00e3o e deu de<br \/>\nbeber \u00e0 companheira.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, disse depois. \u2014 Agora vamos dar um passeio.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas eu n\u00e3o posso ir muito longe. Sinto-me ainda t\u00e3o fraca&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu te carregarei, quando n\u00e3o puderes andar. Encosta-te a mim.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 ergueu-se e p\u00f4s-se a caminhar vagarosamente ao lado do amante, toda<br \/>\nreclinada sobre ele; os bra\u00e7os na cintura um do outro. Ouviam-se ent\u00e3o cantar<br \/>\nas aves e as plantas inclinavam-se com ternura e respeito por onde seguia<br \/>\no amoroso par; a folhagem tinha sorrisos; as boninas beijavam-lhes os p\u00e9s.<\/p>\n<p>Um cheiro delicado de baunilha enriquecia o ar.<\/p>\n<p>Chegaram \u00e0 beira do regato e Magd\u00e1 mirou-se n\u00e1gua com faceirice de noiva.<br \/>\nAo seu lado refletia-se a robusta figura do mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e1-me algumas flores, pediu ela. \u2014 Quero enfeitar-me para te<br \/>\nparecer mais bonita. Estou t\u00e3o magra!&#8230;<\/p>\n<p>Ele afastou-se e voltou logo com um bra\u00e7ado de rosas, magn\u00f3lias, jasmins<br \/>\ne manac\u00e1s. O ambiente trescalou de aromas. Magd\u00e2 soltou o cabelo e depois,<br \/>\na rever-se na pr\u00f3pria imagem refletida a seus p\u00e9s, fez novas tran\u00e7as em que<br \/>\nia intercalando flores com o mimoso capricho de quem faz uma obra d&#8217;arte.<br \/>\nO mo\u00e7o olhava-a sorrindo.<\/p>\n<p>\u2014 Vaidosa&#8230; murmurou.<\/p>\n<p>\u2014 Ingrato! E&#8217; para te agradar&#8230; E ela, quando deu por pronto o seu<br \/>\ntoucado, foi colocar-se defronte do amigo para receber os afagos da aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Senta-te aqui, disse este, em seguida a um beijo.<\/p>\n<p>A amante obedeceu; ele deitou-se na relva e pousou a cabe\u00e7a no colo de Magd\u00e1,<br \/>\nque come\u00e7ou a afagar-lhe os cabelos, segredando ternuras, vergando-se sobre<br \/>\no seu rosto, para alcan\u00e7ar-lhe os l\u00e1bios. Estiveram assim um tempo infinito;<br \/>\nalheios e esquecidos de tudo, bebendo pela boca um do outro o vinho da sua<br \/>\nanimalidade, embriagando-se de camaradagem, aos poucos, voluptuosamente; at\u00e9<br \/>\nque, \u00e9brios de todo, se deixaram rolar ao ch\u00e3o e se quedaram abra\u00e7ados, mudos,<br \/>\ninconscientes, quase mortos na deliciosa prostra\u00e7\u00e3o do coma ven\u00e9reo.<\/p>\n<p>S\u00f3 deram por si ao declinar do dia. Continuaram o passeio.<\/p>\n<p>\u2014 Que ru\u00eddo \u00e9 este? perguntou Magd\u00e1, parando em certa altura da floresta.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenhas medo, meu amor, \u00e9 o trapejar de uma cascata que fica do<br \/>\noutro lado da montanha. Havemos de l\u00e1 ir um dia.<\/p>\n<p>\u2014 Espera! Parece que vai chover&#8230; Senti uma gota d\u00e1gua cair-me na<br \/>\nface.<\/p>\n<p>\u2014 Vai, sim, mas n\u00e3o faz mal; n\u00f3s nos recolhemos \u00e0 gruta.<\/p>\n<p>\u2014 Que gruta?<\/p>\n<p>\u2014 Ver\u00e1s. Fica muito perto daqui. Vamos.<\/p>\n<p>Principiava com efeito a chuviscar. Ele tomou Magd\u00e1 nos bra\u00e7os e correu para<br \/>\na gruta, que em verdade, era muito perto dali. Consistia numa grande rocha<br \/>\nnegra, toda encipoada de heras e parasitas com uma pequena fenda que mal dava<br \/>\npassagem a uma s\u00f3 pessoa de cada vez. O cavoqueiro transp\u00f4s a brecha e em<br \/>\nseguida fez entrar a companheira.<\/p>\n<p>\u2014 Agora p\u00f4de l\u00e1 fora chover a c\u00e2ntaros! Declarou \u2014 estamos perfeitamente<br \/>\nagasalhados.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 olhou em torno de si na meia escurid\u00e3o da caverna, e notou que se achava<br \/>\nnum lugar muito apraz\u00edvel, de atmosfera de alcova. Os seus p\u00e9s eram embebidos<br \/>\nem armelina e doce alfombra; suas m\u00e3os tocavam nas paredes uma penugem macia<br \/>\nque lembrava a pluma do algod\u00e3o. Era um ninho, um verdadeiro ninho de musgo<br \/>\ncheiroso, aveludado e t\u00e9pido.<\/p>\n<p>O rapaz deixou-se cair em cheio sobre o tapete de relva, arrastando Magd\u00e1<br \/>\nna queda. E, fechando-a nos seus bra\u00e7os, disse-lhe com o rosto unido ao dela:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o ouves l\u00e1 fora um arrulhar mavioso e triste?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, porque ?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o ur\u00fa que anuncia a noite. Vamos dormir.<\/p>\n<p>E ela sonhou que adormecia, justamente na ocasi\u00e3o em que acordava na vida<br \/>\nreal. O gemebundo piar das rolas desdobrou-se na mon\u00f3tona e pesarosa cantilena<br \/>\ndos trabalhadores da pedreira.<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>XIII<\/h2>\n<p>\u2014 Terceiro sonho ~&#8230; Era j\u00e1 o terceiro sonho!&#8230; cismava Magd\u00e1, muito<br \/>\nimpressionada e ainda recolhida na sua cama de erable com esculturas de mogno.<br \/>\n\u2014 Tr\u00eas sonhos seguidos, de noite inteira, com aquele miser\u00e1vel trabalhador&#8230;<br \/>\nE n\u00e3o poder reagir contra semelhante viol\u00eancia!&#8230; N\u00e3o dispor de um \u00fanico<br \/>\nrecurso contra esse misterioso tirano que a constrangia \u00e0quela conviv\u00eancia<br \/>\nextravagante, \u00e0quele amor ign\u00f3bil por um ente, que ela na vida real malqueria<br \/>\ne desprezava. Terr\u00edvel cativeiro! N\u00e3o poder dizer \u00e0 sua imagina\u00e7\u00e3o: &#8220;Acomoda-te,<br \/>\ndem\u00f4nio! Sossega!&#8221; Isto com quem n\u00e3o estava habituada a repetir uma ordem;<br \/>\ncom ela, que n\u00e3o fora nunca desatendida nos menores caprichos, como nas maiores<br \/>\nimposi\u00e7\u00f5es!&#8230; Que desespero \u2014 ter de submeter-se ao jugo da sua carne!<br \/>\nQue inferno \u2014 sentir-se todos os dias ao acordar humilhada por si mesma,<br \/>\nindignada contra os seus pr\u00f3prios sentidos.<\/p>\n<p>E se aquilo desse para continuar?&#8230; Sim, como havia de ser, se nunca mais<br \/>\nterminasse aquela nova exist\u00eancia que ela agora vivia com o cavoqueiro durante<br \/>\na noite?&#8230;. Oh, antes a morte! antes a morte!<\/p>\n<p>Justina abriu o cortinado da cama, para saber se a senhora queria j\u00e1 o chocolate.<\/p>\n<p>\u2014 Que horas s\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Meio-dia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o consigo acordar mais cedo&#8230;<\/p>\n<p>E notava agora na boca um gosto acre e doce ao mesmo tempo, muito enjoativo,<br \/>\nsabendo a sangue.<\/p>\n<p>\u2014 Minh&#8217;ama sente alguma coisa? perguntou a criada, reparando que Magd\u00e1<br \/>\nestalava com insist\u00eancia a l\u00edngua contra o c\u00e9u da boca.<\/p>\n<p>\u2014 Um gosto esquisito.<\/p>\n<p>\u2014 E&#8217; do est\u00f4mago! N\u00e3o tenho dito a vosmec\u00ea que n\u00e3o \u00e9 bom estar paparicando<br \/>\nguloseimas todo o dia?&#8230; Como n\u00e3o! Est\u00e1 a\u00ed!<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu ontem nada comi que me pudesse fazer mal. Tomei um caldo e<br \/>\nbebi um c\u00e1lice de vinho; e \u00e0 tarde&#8230; Ah! talvez seja do xarope&#8230; diz o doutor<br \/>\nque leva muita estriquinina&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deve ser, como n\u00e3o? Estes rem\u00e9dios de hoje s\u00e3o todos uns venenos,<br \/>\nDeus me perdoe!<\/p>\n<p>\u2014 Prepara-me \u00e1gua para lavar a boca.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 tudo pronto.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 ergueu-se da cama.<\/p>\n<p>E, enquanto se preparava: \u2014 \u00d3 senhores! que frenesi me mete aquilo!<\/p>\n<p>\u2014 Aquilo que, minh&#8217;ama?<\/p>\n<p>\u2014 Aquela maldita cantilena!<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Os homens da pedreira! Coitados! Diz que assim n\u00e3o sentem tanto<br \/>\no peso do servi\u00e7o&#8230; Aquilo \u00e9 um trabalho muito bruto! Vosmec\u00ea n\u00e3o imagina&#8230;<br \/>\nAinda outro dia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim! Meu pai j\u00e1 saiu?<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o, senhora, e j\u00e1 veio saber como minh&#8217;ama passou a noite.<\/p>\n<p>\u2014 &#8216;St\u00e1 bem.<\/p>\n<p>\u2014 &#8230; Ainda outro dia, o Luiz&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que Luiz&#8230; ?<\/p>\n<p>\u2014 Esse rapaz que est\u00e1 para casar com minha irm\u00e3, com a Rosinha; aquele<br \/>\nque desceu minh&#8217;ama da pedreira!&#8230; O Luiz, vosmec\u00ea conhece, como n\u00e3o ?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim! N\u00e3o quero saber disso&#8230; \u2014 D\u00e1-me o chocolate e o<br \/>\nrem\u00e9dio.<\/p>\n<p>Justina precipitou-se logo para fora da alcova, e Magd\u00e1, contra a sua vontade<br \/>\nrepetia mentalmente: &#8220;O Luiz, esse rapaz que est\u00e1 para casar com Rosinha&#8230;&#8221;<br \/>\nMas a fisionomia n\u00e3o se lhe alterou e, como era do seu costume ao levantar-se<br \/>\ndo leito, tomou um espelhinho de m\u00e3o e p\u00f4s-se a mirar de perto as fei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAchou-se extremamente abatida e muito descorada; em compensa\u00e7\u00e3o sentia-se<br \/>\nagora de melhor humor e at\u00e9 disposta a sair do quarto. O diabo era aquele<br \/>\nmaldito gosto de sangue que lhe n\u00e3o deixava a boca. Bebeu dois tragos de chocolate,<br \/>\nrejeitou o frasco do xarope, e em seguida desceu ao primeiro andar, mais animada<br \/>\nque nos outros dias.<\/p>\n<p>O pai fez um espalhafato quando a viu.<\/p>\n<p>\u2014 Assim \u00e9 que ele queria!<\/p>\n<p>E beijou-a na testa. \u2014 Assim \u00e9 que Magd\u00e1 devia fazer sempre! Hoje at\u00e9,<br \/>\nacrescentou risonho e afagando-lhe o queixo, bem podias dar um passeio comigo,<br \/>\nhein? Mando buscar o carro? Que dizes?<\/p>\n<p>\u2014 Onde o passeio?<\/p>\n<p>\u2014 Onde quiseres; em qualquer parte. Est\u00e1 dito?<\/p>\n<p>Ela aceitou, com grande contentamento do Conselheiro; e a surpresa deste<br \/>\nsubiu ao z\u00eanite quando viu a filha ordenar ao copeiro que lhe servisse um<br \/>\npouco dum roast-beef que estava sobre a mesa.<\/p>\n<p>\u2014 Brav\u00edssimo! Brav\u00edssimo<\/p>\n<p>Magd\u00e1, por\u00e9m, logo que percebeu sangue no assado, repeliu o prato, a estalar<br \/>\na l\u00edngua; mas exigiu que lhe dessem sardinhas de Nantes e comeu depois meia<br \/>\ncosteleta de carneiro, um pouco de p\u00e3o, queijo com mostarda, um gole de vinho<br \/>\ne ainda tomou uma ch\u00e1vena de ch\u00e1 preto. E n\u00e3o sentiu n\u00e1useas.<\/p>\n<p>O pai ficou louco de contente.<\/p>\n<p>\u2014 O xarope est\u00e1 produzindo efeito!&#8230; raciocinou ele, esfregando as<br \/>\nm\u00e3os.<\/p>\n<p>Ela p\u00f4s um vestido de cor, o que havia muito tempo n\u00e3o fazia; e da\u00ed a pouco<br \/>\nembarcava no carro com o Conselheiro.<\/p>\n<p>Mandou tocar para o lado da cidade. \u2014 Ah! Estava farta de \u00e1rvores e<br \/>\nde florestas; agora precisava ver casas, ruas com gente, movimento de povo;<br \/>\npara deserto bastava-lhe o para\u00edso dos seus sonhos!<\/p>\n<p>Durante o caminho mostrou-se de magn\u00edfica disposi\u00e7\u00e3o, conversou bastante,<br \/>\nchegou a rir mais de uma vez. Ao passar pelo Campo de Santana apeteceu-lhe<br \/>\nentrar no jardim. O carro ficou \u00e0 espera defronte da Esta\u00e7\u00e3o de Bombeiros.<\/p>\n<p>Eram tr\u00eas horas da tarde quando penetraram no parque. Fazia calor; a areia<br \/>\ndos caminhos estava quente; os lagos reluziam e os c\u00f4ncavos tabuleiros de<br \/>\ngrama, que d\u00e3o vontade \u00e0 gente de rolar por eles, tinham reflexos de esmeralda<br \/>\nnos pontos em que lhes batia o sol; os patos e os gansos amoitavam-se nas<br \/>\ntouceiras de verdura, \u00e0 beira d\u00e1gua, procurando sombra; a mole compacta dos<br \/>\ncrotons parecia formada de incont\u00e1veis retalhozinhos de seda de v\u00e1rias cores;<br \/>\nos gordos cactos e as brom\u00e9lias cintilavam como se fossem de a\u00e7o polido. Mas<br \/>\ntoda esta natureza sim\u00e9trica, medida como que metrificada e at\u00e9 rimada, parecia<br \/>\nmesquinha em confronto com as luxuriantes paisagens, que Magd\u00e1 sonhara naquelas<br \/>\n\u00faltimas noites. Todavia, nem por isso deixou de impression\u00e1-la, trazendo-lhe<br \/>\nao esp\u00edrito recorda\u00e7\u00f5es vexativas; por mais de uma vez sentiu a mo\u00e7a subir4he<br \/>\no sangue \u00e0s faces, \u00e0 maneira do seu delito; mas n\u00e3o falou em retirar-se; apenas<br \/>\nprop\u00f4s ao pai que descansassem um pouco.<\/p>\n<p>O Conselheiro levou-a at\u00e9 \u00e0 cascata. A\u00ed estava com efeito muito mais agrad\u00e1vel;<br \/>\nfazia inteira sombra, e a \u00e1gua, que ca\u00eda l\u00e1 do alto, esfarelando-se contra<br \/>\nos pedregulhos artificiais, refrescava o ar e punha-lhe um tom \u00famido de beira<br \/>\nde praia. Magd\u00e1 ficou um instante \u00e0 entrada da gruta, apoiada na corrente<br \/>\nda ponte, entretida a olhar os peixinhos vermelhos que nadavam em cardumes<br \/>\npor entre as ilhotas de pedra. O velho esperava ao lado, em sil\u00eancio, sem<br \/>\nnenhuma express\u00e3o na fisionomia, com uma paci\u00eancia de pai; ao penetrarem na<br \/>\ngruta, ele percebeu que o bra\u00e7o da filha tremia.<\/p>\n<p>\u2014 Sentes alguma coisa?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. E&#8217; que isto escorrega tanto&#8230;<\/p>\n<p>L\u00e1 dentro havia um casal que se retirou com a chegada deles, conversando<br \/>\nem voz baixa e afetando grande interesse na conversa. S. Ex. teve um gesto<br \/>\nlargo de quem admira; Magd\u00e1 olhou indiferentemente o teto de cimento, as grossas<br \/>\nestalactites pingando sobre as estalagmites com um apraz\u00edvel ru\u00eddo de noite<br \/>\nde inverno. A umidade da gruta fez-lhe sede; o Conselheiro procurou uma bica<br \/>\ne descobriu afinal uma caneca pendurada a um canto, donde jorravam goteiras<br \/>\nmais grossas.<\/p>\n<p>\u2014 Eu bebo a\u00ed mesmo. disse Magd\u00e1, correndo para ele e arrepanhando as<br \/>\nsaias, porque o ch\u00e3o era nesse lugar muito encharcado. O Conselheiro notou<br \/>\na impropriedade daquelas estalactites numa rocha que fingia ser de granito;<br \/>\nMagd\u00e1 n\u00e3o prestou nota \u00e0 observa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do pai e enfiou por um corredor<br \/>\n\u00e0 esquerda. Foi dar l\u00e1 em cima; assentou-se cansada no rebordo onde est\u00e1 a<br \/>\nentrada para a caixa d\u00e1gua. O velho ficou de p\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui est\u00e1 bom, n\u00e3o achas? perguntou.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o deu resposta. Olhava. A voz de um sujeito, que tinha subida pelo<br \/>\nlado oposto, espantou-a; a nervosa soltou um pequenino grito e ficou ligeiramente<br \/>\ntr\u00eamula.<\/p>\n<p>\u2014 E&#8217; melhor descermos&#8230; aconselhou S. Ex., vendo que dois vagabundos<br \/>\nse aproximavam com as suas cal\u00e7as de boca muito larga, a cabeleira maior que<br \/>\na aba do chap\u00e9u e grossos porretes na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltaram pelos fundos da cascata. Um b\u00eabado dormia a\u00ed, estendido por terra,<br \/>\nmeio descomposto, uma garrafa ao lado. O Conselheiro fez um trejeito de contrariedade<br \/>\ne seguiu mais apressado com a filha. Quando se acharam fora da gruta, o sol<br \/>\ndeclinava j\u00e1 e as ruas do parque enchiam-se de sombra. Corria ent\u00e3o um fresco<br \/>\nagrad\u00e1vel. Anilavam-se as verduras mais distantes; desfolhavam-se os heliotr\u00f3pios<br \/>\nao t\u00e9pido soprar da tarde; as amendoeiras desfloreciam, recamando o tapete<br \/>\nverde de pontos amarelos. Havia uma surda transforma\u00e7\u00e3o nas plantas; reviviam<br \/>\nas flores amigas da noite e come\u00e7avam a murchar os mios\u00f3tis e as papoulas;<br \/>\nas \u00e1rvores sacudiam-se, rejubilavam, aliviadas do mal que lhes fazia tanto<br \/>\nsol; ouviam-se nas moitas suspiros de desabafo. Os patos e os gansos deslizavam<br \/>\nagora vitoriosamente, rasgando com o peito a brunida superf\u00edcie dos lagos;<br \/>\nchilreavam p\u00e1ssaros, saracuras assustadas cortavam de vez em quando o caminho,<br \/>\nolhando para os lados; ouviam-se grasnar marrecos e frangos d\u00e1gua. Tudo estava<br \/>\nmais satisfeito. Uma nuvem de gaivotas pairava sobre os tabuleiros verdes,<br \/>\ndebicando na relva; as cambachilras saltitavam por toda a parte. Via-se aparecer<br \/>\nao longe, por detr\u00e1s dos horizontes de folhagem, a agulha da igreja de S.<br \/>\nGon\u00e7alo, destacando-se do l\u00edmpido azul do c\u00e9u toda esmaltada pelo sol das<br \/>\ncinco e meia.<\/p>\n<p>Principiava a chegar gente; surgiam homens de palito na boca, o colete desabotoado<br \/>\nsobre o ventre; calcinhas brancas, curtas e mal feitas, mostrando botas empoeiradas;<br \/>\ngorduras feias dos climas abrasados; hidroceles obscenas; chap\u00e9us altos ensalitrados<br \/>\nde suor. Mulheres da Cidade Nova, com umas caras reluzentes, vermelhas como<br \/>\nse acabassem de ser esbofeteadas; portuguesas monstruosas, com umas ancas<br \/>\nque pediam palmadas, os p\u00e9s turgidos cm sapatos de pano preto sem feitio.<br \/>\n&#8220;Uma gente imposs\u00edvel!&#8221; Magd\u00e1 via-os a todos, um por um, enjoada, com o narizinho<br \/>\ntorcido e cheia de uma secreta vontade de chicote\u00e1-los.<\/p>\n<p>Deteve-se para contemplar o grupo muito pulha de L. Despret, logo \u00e0 direita<br \/>\nde quem sai da gruta; um homem, auxiliado por um c\u00e3o, a lutar com um tigre;<br \/>\nmas o homem corta o peito da fera como se estivesse talhando p\u00e3o-de-l\u00f3, e<br \/>\no c\u00e3o raspa com os dentes a anca da mesma, como se tentasse morder um animal<br \/>\nde bronze. N\u00e3o obstante, Magd\u00e1 parou defronte da escultura e parecia interessada<br \/>\npor ela. Aquele homem de m\u00fasculos atl\u00e9ticos prendia-lhe a aten\u00e7\u00e3o. Porque?<br \/>\n\u2014 Sabia l\u00e1! O Conselheiro, intimamente estranhado pela import\u00e2ncia que<br \/>\na filha dava a semelhante obra, falou-lhe no museu do Louvre, nos belos m\u00e1rmores<br \/>\nque os dois mais de uma vez apreciaram juntos. Ela n\u00e3o ouviu e, depois de<br \/>\nmuito contemplar o lutador, disse:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 no mundo um homem assim como este, hein, papai?<\/p>\n<p>_ Assim como, minha filha?<\/p>\n<p>&#8212; Assim forte, musculoso&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ah! de certo que n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Mas j\u00e1 houve&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Ora, noutros tempos, quando os guerreiros carregavam ao corpo armaduras<br \/>\nde dez arrobas.<\/p>\n<p>&#8212; E as mulheres dessa \u00e9poca? Deviam ser tamb\u00e9m bastante vigorosas&#8230;<\/p>\n<p>&#8212; Com certeza! Pois se uns descendiam dos outros&#8230;<\/p>\n<p>Nisto passou perto deles um b\u00eabado. muito esbodegado, a cambalear cantarolando;<br \/>\na camisa esfobada no est\u00f4mago, o chap\u00e9u \u00e0 r\u00e9; os punhos sujos a sa\u00edrem-lhe<br \/>\nda manga do palet\u00f3, engolindo-lhe as m\u00e3o. O Conselheiro desviou-se discretamente<br \/>\ncom a filha para o deixar passar; o borracho parou um instante, cumprimentou-os<br \/>\ncom toda a cerim\u00f4nia, quase sem poder abrir os olhos, e l\u00e1 se foi aos bordos,<br \/>\nempinando a barriga para a frente. Magd\u00e1 soltou uma risada t\u00e3o gostosa, que<br \/>\nabismou S. Ex.<\/p>\n<p>\u2014 Definitivamente aquele era o dia dos prod\u00edgios&#8230; pensou o extremoso<br \/>\npai \u2014 E qual n\u00e3o seria o seu espanto quando ouviu a rapariga soltar<br \/>\na segunda e a terceira, a quarta e, enfim, uma crescente escala de gargalhadas<br \/>\ncont\u00ednuas.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito!&#8230; disse. Muita gra\u00e7a achaste tu naquele tipo!<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o podia responder; o riso sufocava-a<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 bom, minha filha, n\u00e3o v\u00e1 isso te fazer mal&#8230;<\/p>\n<p>Magd\u00e1 procurava conter a hilaridade, mas n\u00e3o conseguia. Os transeuntes olhavam-na<br \/>\ntomados de grosseira curiosidade; o Conselheiro, meio vexado por ver que ela<br \/>\nchamava a aten\u00e7\u00e3o de todos, repetia-lhe baixinho:<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1 bom&#8230; est\u00e1 bom&#8230;<\/p>\n<p>Foi um capad\u00f3cio quem afinal a fez calar; um que passou de s\u00facia com outros,<br \/>\nmedindo-a de alto a baixo e que, depois de mir\u00e1-la muito, come\u00e7ou por ca\u00e7oada<br \/>\na remedar-lhe o riso. Magd\u00e1 ficou furiosa. Subiu-lhe sangue \u00e0 cabe\u00e7a e teve<br \/>\n\u00edmpetos de&#8230; nem ela sabia de que!&#8230; fazer um disparate! tomar a bengala<br \/>\ndo pai e quebr\u00e1-la na cara do tal sujeito.<\/p>\n<p>\u2014 Atrevido! resmungava entre dentes cerrados, afastando-se com o Conselheiro.<\/p>\n<p>E, apesar dos esfor\u00e7os que este empregou para distra\u00ed-la, o resto do passeio<br \/>\nfoi todo feito sob a impress\u00e3o daquele incidente.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o penses mais nisso&#8230; insistia o velho, quando Magd\u00e1, j\u00e1 dentro<br \/>\ndo carro, se referia ao fato pela mil\u00e9sima vez.<\/p>\n<p>Tocaram para casa; ela em toda a viagem n\u00e3o falou noutra coisa. Vinha-lhe<br \/>\nagora um a inhabitual vontade de brigar, de fazer esc\u00e2ndalo. Esteve quase<br \/>\na pedir ao pai que voltasse e fosse \u00e0 procura do malcriado at\u00e9 descobri-lo,<br \/>\npara lhe pespegar duas bengaladas, mas bem fortes!<\/p>\n<p>E jurava que, naquele momento, seria capaz de estrangular o maldito. N\u00e3o<br \/>\nparecia a mesma. Ela, que fora sempre t\u00e3o inimiga de tudo em que transpirasse<br \/>\nesc\u00e2ndalo e barulho, sentia agora uma estranha sede de provoca\u00e7\u00f5es, de desordens;<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o era com o capad\u00f3cio do jardim, mas com qualquer pessoa. Quando entrou<br \/>\nem casa, porque a Justina n\u00e3o respondeu logo a&#8217; primeira pergunta que lhe<br \/>\nfez, bradou tr\u00eamula:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 um estafermo!<\/p>\n<p>\u2014 Estafermo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me replique!<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o estou replicando&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Rua!<\/p>\n<p>\u2014 Vosmec\u00ea despede-me?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Rua! N\u00e3o a quero aqui nem mais um instante!<\/p>\n<p>\u2014 Mas, minh&#8217;ama&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Rua! N\u00e3o ouviu?<\/p>\n<p>O Conselheiro interveio:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, minha filha, n\u00e3o te mortifiques<\/p>\n<p>\u2014 Pois meu pai n\u00e3o v\u00ea como esta mulher me provoca, s\u00f3 pelo gostinho<br \/>\nde me p\u00f4r nervosa?<\/p>\n<p>\u2014 Tu parecias gostar tanto dela.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca! N\u00e3o a posso olhar! Tenho-lhe \u00f3dio!<\/p>\n<p>Justina, coitada, ia tentar a sua defesa, j\u00e1 banhada cm l\u00e1grimas, quando<br \/>\no pai de Magd\u00e1 lhe fez sinal de que se afastasse; ao passo que a hist\u00e9rica,<br \/>\nfalando sozinha e praguejando contra tudo e contra todos, dirigia-se furiosa<br \/>\npara o quarto.<\/p>\n<p>Uma s\u00facia! Todos uma s\u00facia, resmungava, enterrando as unhas na palma da m\u00e3o.<br \/>\nE fechou-se por dentro com arremesso, atirando-se \u00e0 cama, desesperada e arquejante.<\/p>\n<p>Justina enxugava as l\u00e1grimas no avental, dando guinadas com todo o corpo<br \/>\na cada suspirado solu\u00e7o que lhe vinha.<\/p>\n<p>\u2014 Descanse que voc\u00ea n\u00e3o ir\u00e1 embora, disse-lhe o amo. \u2014 Quando<br \/>\na Sra. D. Madalena chamar por algu\u00e9m, apresente-se e n\u00e3o se mostre ressentida<br \/>\ncom o que se deu. Aquilo passa! \u00c9 da mol\u00e9stia! V\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 Uma coisa assim!&#8230; lamuriou a criada. \u2014 Eu que tanto fa\u00e7o<br \/>\npor agrad\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 &#8216;St\u00e1 bem, &#8216;st\u00e1 bem! j\u00e1 lhe disse que voc\u00ea n\u00e3o ser\u00e1 despedida.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 por nada, mas \u00e9 pela aquela que a gente toma \u00e0s pessoas!. .<br \/>\nEu estava j\u00e1 afeita com minh&#8217;ama, e ter de deix\u00e1-la assim de um momento p&#8217;ra<br \/>\noutro, sem lhe ter dado motivo&#8230; d\u00f3i, como n\u00e3o d\u00f3i?.<\/p>\n<p>\u2014 Mas v\u00e1, v\u00e1 sossegada, que n\u00e3o haver\u00e1 novidade.<\/p>\n<p>Justina afastou-se chorando a valer.<\/p>\n<p>O Dr. Lob\u00e3o chegava nesse momento e o Conselheiro passou a narrar-lhe as<br \/>\n\u00faltimas esquisitices da doente. O m\u00e9dico escutou-o calado, fazendo bico com<br \/>\na boca sem l\u00e1bios; olhando por cima dos \u00f3culos, com as sobrancelhas no meio<br \/>\nda testa, arqueadas como duas sanguessugas.<\/p>\n<p>\u2014 Ela tem tido as fun\u00e75es mensais com regularidade?&#8230; perguntou no<br \/>\nfim da sua concentra\u00e7\u00e3o. E rosnou, depois da resposta: \u2014 \u00c9 o diabo!<br \/>\n\u00e9 o diabo!&#8230; Preciso examin\u00e1-la de novo! E lembrar-me de que tudo isto se<br \/>\nteria evitado com t\u00e3o pouco sacrif\u00edcio para todos n\u00f3s! Pensam que \u00e9 brincadeira<br \/>\ncontrariar a natureza! Agora \u2014 o m\u00e9dico que a ag\u00fcente!<\/p>\n<p>Quando o doutor saiu, j\u00e1 a filha do Conselheiro dormia a sono solto e sonhava:<br \/>\nescusado \u00e9 dizer com quem.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>XIV<\/h2>\n<p>\u2014 Magd\u00e1, Magd\u00e1, repara que j\u00e1 \u00e9 dia! Aqui n\u00e3o \u00e9 permitido dormir assim<br \/>\nat\u00e9 t\u00e3o tarde! Vem ver despontar o sol. A passarada j\u00e1 est\u00e1 toda de fora,<br \/>\nn\u00e3o ouves? N\u00e3o h\u00e1 mais um s\u00f3 casal nos ninhos! Levanta-te! Sua Majestade a\u00ed<br \/>\nchega, esfogueado da viagem, pedindo a cada corola uma gota de orvalho para<br \/>\nbeber e acendendo em cada gota de sangue uma centelha de amor!<\/p>\n<p>A filha do Conselheiro abriu os olhos \u2014 sonhando. A primeira palavra<br \/>\nque lhe escapou dos l\u00e1bios foi o nome do trabalhador da pedreira.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! exclamou este apanhando-lhe a boca num beijo. \u2014 At\u00e9<br \/>\nque enfim te ou\u00e7o dizer o meu nome!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que o ignorava&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E como o sabes tu agora?<\/p>\n<p>\u2014 Sonhei.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! sonhaste comigo?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Todo tempo que levei a dormir.<\/p>\n<p>\u2014 E que sonhaste, meu amor ?<\/p>\n<p>\u2014 Que estava ainda na minha primitiva exist\u00eancia, no mundo que troquei<br \/>\npor este, e do qual n\u00e3o tenho saudades, a n\u00e3o ser por meu pai.<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Via-te a todo o instante; levava-te comigo no pensamento para toda<br \/>\na parte; vi-te at\u00e9 em est\u00e1tua, lutando com um tigre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Fantasias de sonho&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sonhei com tudo isto que nos cerca neste nosso \u00e9den; sonhei com esta<br \/>\ngruta, com estas \u00e1rvores, com estes lagos e com esta deliciosa luz sangu\u00ednea<br \/>\nque me aviventa.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim, mas vai tratando de deixar a cama, que n\u00e3o havemos de ficar<br \/>\naqui metidos o dia inteiro. Hoje quero levar-te ao vale, onde passa o rio<br \/>\nque nos separa da ilha do Segredo.<\/p>\n<p>\u2014 Ilha do Segredo? ~ Que vem a ser isso?<\/p>\n<p>\u2014 Tu ver\u00e1s&#8230; \u00c9 encantadora.<\/p>\n<p>\u2014 Muito longe daqui?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, e se fosse? N\u00e3o estou eu a teu lado para te carregar?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que me sinto t\u00e3o fraca, t\u00e3o pobre de coragem&#8230; t\u00e3o magra!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 encontrar\u00e1s novas for\u00e7as. Vamos!<\/p>\n<p>Ela ergueu-se pela m\u00e3o do companheiro, e sa\u00edram da gruta.<\/p>\n<p>Repontava o dia. Tudo se enchia de vida: as abelhas sa\u00edram para as suas obriga\u00e7\u00f5es;<br \/>\nborboletas peralteavam j\u00e1 pelo ar, em tro\u00e7a, mexendo com as flores; a pequenada<br \/>\ndos ninhos reclamava o almo\u00e7o, e os pais andavam por fora, a tratar da vida,<br \/>\naflitos, preocupados, mariscando na umidade da terra o p\u00e3o-nosso da fam\u00edlia.<br \/>\nO sol erguia-se como um patr\u00e3o madrugador e ativo, acordando toda a sua gente<br \/>\ne chicoteando a golpes de luz a mata inteira, folha por folha, para n\u00e3o deixar<br \/>\nnenhum pregui\u00e7oso dormindo acoitado pela sombra. Uma dourada nuvem de lavandeiras<br \/>\ndoudejava sobre os lagos, picando a \u00e1gua com a cauda, de instante a instante,<br \/>\nnum crepitar fren\u00e9tico de asas.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o perguntou Luiz, de bra\u00e7o passado na cintura de Magd\u00e1. \u2014<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 melhor estarmos aqui no que metidos l\u00e3 na gruta?<\/p>\n<p>\u2014 Certamente, meu amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Ampara-te pois ao meu corpo e deixa o passeio por minha conta.<\/p>\n<p>Puseram-se a andar por entre a chilreada dos caminhos. De vez em quando paravam<br \/>\npara colher um fruto, que dividiam entre si com a boca.<\/p>\n<p>Andaram muito. Quando a mo\u00e7a chegou ao vale estava prostrada de cansa\u00e7o.<br \/>\nO sol ia j\u00e1 bem alto no horizonte.<\/p>\n<p>\u2014 Descansemos aqui \u00e0 sombra deste tamarindeiro, para irmos depois at\u00e9<br \/>\nao rio, prop\u00f4s Luiz. E, enquanto Magd\u00e1 repousava no ch\u00e3o, ele foi apanhar<br \/>\num coco e trouxe-lho j\u00e1 em estado de se lhe sorver o saboroso leite refrigerante.<br \/>\nQuando a viu de todo acalmada, principiou a descal\u00e7ar-lhe os sapatinhos de<br \/>\ncetim.<\/p>\n<p>\u2014 Que fazes!<\/p>\n<p>Vou despir-te.<\/p>\n<p>E tirou-lhe as meias.<\/p>\n<p>\u2014 Despir-me, para que? ~ perguntou a filha do Conselheiro com um retraimento<br \/>\nde pudor.<\/p>\n<p>\u2014 Para atravessarmos o rio.<\/p>\n<p>E foi logo lhe desabotoando o colo. Magd\u00e1 n\u00e3o se animou a dizer que n\u00e3o,<br \/>\nmas fez-se vermelha e abaixou os olhos. Luiz, todo vergado sobre ela, ajudou-lhe<br \/>\na desenfiar as mangas do corpinho e sacou-o fora. Desacolchetou-lhe depois<br \/>\nas saias na cintura e arrepanhou-as para debaixo das pernas dela.<\/p>\n<p>\u00c0 mo\u00e7a levou as m\u00e3os \u00e0s roupas, assustada, olhando com receio para os lados,<br \/>\ncomo se quisesse, antes de despi-las, certificar-se bem de que n\u00e3o era vista<br \/>\nsen\u00e3o pelo seu amante. Este compreendeu o gesto e disse-lhe sorrindo e tocando-lhe<br \/>\ncom os dedos no alvo cetim da esp\u00e1dua:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenhas medo&#8230; Aqui n\u00e3o h\u00e1 mais ningu\u00e9m al\u00e9m de n\u00f3s! Podemos<br \/>\nficar \u00e0 nossa plena vontade, fazer o que bem quisermos; rolar nus e abra\u00e7ados<br \/>\npor estes tabuleiros de relva; entregar-nos a todos os del\u00edrios do amor; enlouquecer<br \/>\nde gozo! S\u00f3 Deus nos espreita, e Deus foi quem te fez para mim, para que eu<br \/>\nte goze e te fecunde, minha flor! Ele observa-nos satisfeito, l\u00e1 de muito<br \/>\nalto, espiando pelas estrelas e sorrindo a cada beijo que damos! Quando nascer<br \/>\no fruto do teu ventre, ele descer\u00e1 logo num raio de luz, e vir\u00e1 abrir na boca<br \/>\nde nosso filhinho o seu primeiro riso e beber-lhe dos olhos a primeira l\u00e1grima.<br \/>\n\u00c9 com esta l\u00e1grima e com esse riso das criancinhas que o bom velho fabrica<br \/>\ntodos os dias o mel e o perfume das flores, o canto dos p\u00e1ssaros e o azul<br \/>\ndos c\u00e9us.<\/p>\n<p>E Luiz continuou a despi-la.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 cruzou os bra\u00e7os sobre os peitos \u2014 ele acabava de lhe arrancar<br \/>\nafinal a camisa \u2014 e fechou os olhos, toda vexada e retra\u00edda. Mas depois,<br \/>\nsentindo nas carnes o olhar ardente que a queimava, porque o mo\u00e7o permanecia<br \/>\na contempl\u00e1-la, embevecido e mudo, torceu-se logo sobre o quadril esquerdo,<br \/>\nrepuxando para esconder a sua mimosa nudez as largas parras de um tinhor\u00e3o<br \/>\nque havia junto.<\/p>\n<p>Vergonhosa!&#8230; balbuciou o amante, ajoelhando-se aos p\u00e9s dela.<\/p>\n<p>E acrescentou em voz alterada, procurando alcan\u00e7ar. com os l\u00e1bios o rosto<br \/>\nque Magd\u00e1 se empenhava em esconder: \u2014 N\u00e3o deves ter desses escr\u00fapulos<br \/>\ncomigo esposa de minha alma!&#8230; Acaso n\u00e3o sou todo teu! n\u00e3o \u00e9s toda minha?&#8230;<br \/>\nPorque escondes o semblante! porque abaixas os olhos? Fita-os antes em mim<br \/>\ne deixa-me beber o mel dos teus l\u00e1bios! Deixa-me abra\u00e7ar-te bem! assim! toda<br \/>\ninteira, toda nua, que eu sinta na minha carne, a carne do teu corpo! Cinge-me<br \/>\nnos teus peitos! Aperta-me! Mais! mais ainda Magd\u00e1 \u2014 um beijo&#8230; d\u00e1-me<br \/>\num bei&#8230; Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Tu me matas de amor! solu\u00e7ou ela.<\/p>\n<p>E, por entre o suspirado resfolegar dos dois, estalejava o seco farfalhar<br \/>\ndas folhas ca\u00eddas.<\/p>\n<p>Seguiram depois para o rio. Ele levou-a de colo, porque Magd\u00e1 n\u00e3o podia andar<br \/>\ndescal\u00e7a; s\u00f3 a largou \u00e0 margem d\u00e2gua.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o sei nadar&#8230; considerou ela, assustada.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes sim; todos sabem nadar. A quest\u00e3o \u00e9 n\u00e3o ter medo.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Eu tenho medo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ir\u00e1s comigo. Espera.<\/p>\n<p>Luiz entrou no rio e disse \u00e0 companheira que lhe passasse os bra\u00e7os em volta<br \/>\ndo pesco\u00e7o. Magd\u00e1 obedeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! N\u00e3o me soltes, hein?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tens confian\u00e7a em mim?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ui, ui, ui, meu Deus!<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Ai, minha Nossa Senhora! \u00c9 agora!<\/p>\n<p>\u2014 Medrosa! N\u00e3o v\u00eas como vamos t\u00e3o bem &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Voltemos para terra! Voltemos!<\/p>\n<p>\u2014 Olha que est\u00e1s me apertando a garganta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Aqui j\u00e1 \u00e9 muito fundo!&#8230; \u00c9 melhor voltar-mos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sejas crian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A ilha est\u00e1 muito longe ainda?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o a v\u00eas defronte de ti?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade! Oh! E como \u00e9 linda!&#8230;<\/p>\n<p>Calaram-se por instantes.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda tens medo? perguntou depois o mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Ela agora estava at\u00e9 gozando daquela excurs\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te dizia?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E tu, n\u00e3o te sentes cansado?<\/p>\n<p>\u2014 Qual o que!<\/p>\n<p>Parecia mesmo n\u00e3o cansar; nadava como um cisne, quase sem se lhe perceberem<br \/>\nos movimentos, de t\u00e3o suaves que eram. E a outra perdera afinal inteiramente<br \/>\no medo, e, toda estendida \u00e0 flor das \u00e1guas, com os cabelos derramados pelo<br \/>\nrosto e pelos ombros, l\u00e1 ia flutuando segura no amante, mais branca e leve<br \/>\nque uma pena de gaivota arrastada pela corrente.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o?&#8230; consultou o rapaz, tomando vau \u00e0 margem da ilha e passando<br \/>\no bra\u00e7o em volta de Magd\u00e1.- Que me dizes do passeio?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Delicioso.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui podes andar por teu p\u00e9, que o ch\u00e3o \u00e9 todo de areia fina; mas<br \/>\nvamos primeiro assentar-nos debaixo daquelas ju\u00e7areiras para repousarmos um<br \/>\ninstante. Tens fome?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, respondeu a mo\u00e7a, contemplando a ilha.<\/p>\n<p>Era esta encantadora com a sua praia argentina lavada em esmeralda. Daqui<br \/>\ne dali surgiam dentre o salivar das espumas pequenos rochedos reverdecidos<br \/>\nde musgo aqu\u00e1tico, onde gar\u00e7as e guar\u00e1s mariscavam tranq\u00fcilamente. Um palmeiral<br \/>\nsem fim nascia quase \u00e1 beira d\u00e1gua e, pouco a pouco, \u00e0 medida que se entranhava<br \/>\npela terra, fazia-se mais compacto, at\u00e9 se fechar de todo com murmurosa c\u00fapula<br \/>\nde verdura suspensa por milh\u00f5es de colunas. Mundos de parasitas serpenteavam<br \/>\nem todas as dire\u00e7\u00f5es, j\u00e1 suspensas e pendentes, embaladas pelo vento; j\u00e1 dependuradas<br \/>\nem arco, formando grinaldas; j\u00e1 grimpando encaracoladas pelos troncos e alastrando<br \/>\nem cima, como se quisessem quebrar a intermin\u00e1vel noite daquele c\u00e9u de folhas<br \/>\ncom um infinito de estrelas de todas as cores.<\/p>\n<p>Magd\u00e1, ao transpor o assombrado \u00e1trio da floresta, deteve-se para fazer notar<br \/>\nao companheiro o perfume ativo que se respirava ali; um cheiro como o da magn\u00f3lia,<br \/>\nagudo e penetrante, que ia direito ao c\u00e9rebro com sutil impress\u00e3o de frio.<\/p>\n<p>\u2014 Vem dessas florinhas que v\u00eas aqui nos espiando de todos os lados;<br \/>\nessas que ora s\u00e3o cor de rosa, ora avermelhadas, ora cor de laranja e ora<br \/>\ncor de sangue. \u00c9 uma trepadeira; n\u00e3o h\u00e1 canto da ilha em que n\u00e3o as encontres.<br \/>\nMas n\u00e3o toques em nenhuma delas, porque, se colhesses alguma, nunca mais poder\u00edamos<br \/>\nsair daqui.<\/p>\n<p>\u2014 Ora essa! Porque?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, \u00e9 segredo! Foi Deus que assim o quis&#8230; Repara: n\u00e3o se descobre<br \/>\numa s\u00f3 dessas flores pelo ch\u00e3o, e tamb\u00e9m a gente n\u00e3o as v\u00ea nascer; quando<br \/>\nv\u00e3o murchando mudam de cor e revivem.<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o d\u00e3o fruto!<\/p>\n<p>\u2014 Nunca.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 esquisito.<\/p>\n<p>\u2014 E perigoso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas como \u00e9 que elas prendem a quem lhes toca?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois se \u00e9 um segredo, como queres tu que eu saiba?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E nunca tiveste desejos de descobri-lo!<\/p>\n<p>\u2014 Para que! Sou perfeitamente feliz sem isso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9s curioso.<\/p>\n<p>\u2014 Sou, mas tenho medo de tornar-se desgra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Nesta conversa haviam chegado \u00e0 fralda de um oiteiro coberto de murta e empenachado<br \/>\npor um frondoso bosque de bamb\u00fas.<\/p>\n<p>&#8211; Este morro divide a ilha em duas partes, explicou Luiz. \u2014 Queres<br \/>\nsubir?<\/p>\n<p>Magd\u00e1 consentiu, posto se visse j\u00e1 bastante fatigada e fraca; tanto que,<br \/>\ndo meio para o fim da viagem, foi preciso que o rapaz a carregasse. Sentia-se<br \/>\nquase desfalecida.<\/p>\n<p>\u2014 Meu Deus, como est\u00e1s p\u00e1lida! disse ele, pousando-a \u00e0 sombra dos bamb\u00fas.<br \/>\n\u2014 Vou busear4e um pouco d\u00e1gua ali \u00e0 fonte. Espera um instante; eu volto<br \/>\nj\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! gemeu a mo\u00e7a, segurando-o com ambas as m\u00e3os. \u2014 N\u00e3o te afastes<br \/>\nde mim! N\u00e3o \u00e9 de \u00e1gua que eu preciso, \u00e9 de um pouco de vida! Sinto fugirem-me<br \/>\nas \u00faltimas for\u00e7as! Eu preciso de sangue.<\/p>\n<p>E fazia-se cor de cera, e fechava os olhos, e entreabria os l\u00e1bios, como<br \/>\num orf\u00e3ozinho abandonado que morre \u00e0 m\u00edngua do leite materno.<\/p>\n<p>Cortava o cora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u2014 Magd\u00e1! meu amor! minha vida! exclamou Luiz, tomando-a nos bra\u00e7os.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o desfale\u00e7as! N\u00e3o fiques assim! Desperta!<\/p>\n<p>Ela soergueu as p\u00e1lpebras, e murmurou baixinho, quase imperceptivelmente:<\/p>\n<p>\u2014 Sangue! sangue! sangue, sen\u00e3o eu morro!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! fez o mo\u00e7o com vislumbre. E sem sair donde estava, quebrou um<br \/>\nespinho de palmeira e com ele picou uma art\u00e9ria do bra\u00e7o. \u2014 Toma! disse,<br \/>\napresentando \u00e0 amante a gota vermelha que havia orvalhado na brancura da sua<br \/>\ncarne. \u2014 Bebe!<\/p>\n<p>Magd\u00e1 precipitou-se avidamente sobre ela e chupou-a com vol\u00fapia. N\u00e3o se ergueu<br \/>\nlogo; continuou a sugar a veia, conchegando-se mais ao amigo, agarrando-se-lhe<br \/>\nao corpo, toda grudada nele, apertando os olhos, dilatando os poros, arfando,<br \/>\nsuspirando desafogadamente pelas narinas, como se matasse uma velha sede devoradora.<\/p>\n<p>Luiz, sem uma palavra, ouvia-lhe os estalinhos da l\u00edngua e o gluglutar s\u00f4frego<br \/>\nde criancinha gulosa pela mama.<\/p>\n<p>Ah! respirou enfim a filha do Conselheiro, desprendendo os l\u00e1bios do bra\u00e7o<br \/>\ndele e sorrindo satisfeita e vitoriosa. \u2014 Agora sim! posso viver!<\/p>\n<p>O amante encarou-a e recuou, n\u00e3o podendo conter a sua surpresa e a sua admira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMagd\u00e1 readquiria por encanto a frescura, a beleza e a sa\u00fade, que havia perdido<br \/>\nnos \u00faltimos anos. Reconstru\u00eda-se, revivificava-se \u00e0 semelhan\u00e7a das florinhas<br \/>\nfeiticeiras da ilha.<\/p>\n<p>Ergueu-se triunfante.<\/p>\n<p>As suas faces eram de novo duas rosas que atra\u00edam beijos, como o matiz das<br \/>\nflores atrai sobre a sua corola o inseto portador do p\u00f3len; os olhos rebrilhavam-lhe<br \/>\nj\u00e1 com a sedutora express\u00e3o primitiva. Os seus l\u00e1bios tr\u00eamulos recuperaram<br \/>\nlogo o perdido sorriso dos tempos passados; a garganta carneou-se, reconquistando<br \/>\nas linhas macias, as doces flexibilidades da pele s\u00e3; as curvas do desnalgado<br \/>\nquadril retomaram en\u00e9rgicas ondula\u00e7\u00f5es; os seios empinaram; as coxas enrijaram;<br \/>\ne toda ela se retesou, se refez de m\u00fasculos e nervos, num a s\u00fabita reviscera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeslumbradora.<\/p>\n<p>Luiz caiu-lhe aos p\u00e9s, beijando-lhos com transporte.<\/p>\n<p>\u2014 Como est\u00e1s bela! Como est\u00e1s bela! Aben\u00e7oada gota de sangue que te<br \/>\ndei!<\/p>\n<p>Magd\u00e1 sorriu, estendendo-lhe os bra\u00e7os, agora carnudos e torneados. E, logo<br \/>\nque ele se levantou, cingiram-se ambos um contra o outro, num s\u00f3 arranco,<br \/>\nem igualdade plet\u00f3rica de ternura.<\/p>\n<p>Passaram o resto da tarde \u00e0 sombra dos bamb\u00fas, celebrando a sua nova lua<br \/>\nde mel com um opulent\u00edssimo banquete de amor. Sentia-se j\u00e1 a aproxima\u00e7\u00e3o da<br \/>\nnoite, quando resolveram abandonar a ilha.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 quis, por\u00e9m, antes de partir, lan\u00e7ar l\u00e1 de cima um olhar de despedida<br \/>\nsobre aquelas paragens encantadas. O companheiro levou-a ao ponto mais elevado<br \/>\ndo morro.<\/p>\n<p>\u2014 Contempla os teus dom\u00ednios! disse, desferindo no ar um c\u00edrculo com<br \/>\na m\u00e3o aberta.<\/p>\n<p>Ela deixou cair o seu olhar de rainha sobre a espl\u00eandida natureza virgem<br \/>\nque a cercava. Bosques e bosques acumulavam-se numa intermin\u00e1vel aglomerac\u00e3o<br \/>\nde tons, em que entravam todas as tintas da m\u00e1gica palheta do divino artista,<br \/>\ndissolvidas em fogo, essa cor primordial que nenhum outro pintor possui. O<br \/>\nhorizonte ardia em chamas; o c\u00e9u rasgava-se, deixando transbordar em jorros<br \/>\numa cascata de luz que dava ao menor objeto da terra o brilho de um metal<br \/>\nprecioso. As florestas cintilavam. Gigantescos paus-d&#8217;arco bracejavam por<br \/>\nentre as \u00e1rvores vizinhas para mostrar bem alto a sua coroa de ouro; mas as<br \/>\npalmeiras n\u00e3o se deixavam vencer e reagiam vitoriosamente por entre a espessura<br \/>\nda mata, agitando no ar o seu penacho ind\u00edgena; a gameleira brava procurava<br \/>\nerguer a cabe\u00e7a engrinaldada de heras e parasitas; pinheiros seculares, cedros<br \/>\nmais velhos que a religi\u00e3o, primeiras, angicos, perobas, todos os gigantes<br \/>\nda selva, pelejavam para sobressair! Uma luta silenciosa e terr\u00edvel! Viam-se<br \/>\np\u00farpuras que se rompiam de c\u00f3lera; cetros que se despeda\u00e7avam de inveja! As<br \/>\nt\u00edmidas plantas escondiam-se de medo e os l\u00edrios retra\u00edam-se, estremecidos<br \/>\ne assustados, procurando ocultar a candura das suas urnas embalsamadas atr\u00e1s<br \/>\nde rasteiros tinhor\u00f5es e discretas folhas de beg\u00f4nia. Entretanto, o indiferente<br \/>\nrio, em pregui\u00e7osos torcicolos, rastreava l\u00e1 em baixo, franjando de rendas<br \/>\nde prata aquela imensa t\u00fanica de veludo verde-negro, que a montanha arrastava,<br \/>\nestendendo-a sobranceiramente pelo vale. Afinal declinou a luta era a noite<br \/>\nque vinha j\u00e1, com os seus cabelos sempre molhados, a sacudi-os, orvalhando<br \/>\nestrelas pelo espa\u00e7o e apaziguando a terra debaixo das suas asas.<\/p>\n<p>Ah! como Magd\u00e1 amava agora tudo isso! Como estremecia aquela montanha em<br \/>\nque vivera os seus primeiros dias com Luiz! Era l\u00e1 a p\u00e1tria da sua felicidade!<\/p>\n<p>E ficou a cismar embevecida neste devaneio, revendo-se na sua fraqueza de<br \/>\nent\u00e3o, quando ainda lhe n\u00e3o era permitido dar um passo sem o auxilio do amante.<br \/>\nE veio-lhe uma grande saudade, uma forte vontade desensofrida de rever no<br \/>\nmesmo instante aquele lugar querido, onde ela tanto padecera e gozara ao mesmo<br \/>\ntempo! Ao seu lado, Luiz parecia tomado dos mesmos enlevos; e t\u00e3o distra\u00eddos<br \/>\nestavam ambos, que a mo\u00e7a, sem reparar, colhera uma das tais florinhas feiticeiras,<br \/>\ne ele a deixara colher sem dar por isso.<\/p>\n<p>Mal, por\u00e9m, a flor se desprendeu da haste, um medonho estampido ecoou pelo<br \/>\nespa\u00e7o, deslocando o ar e abalando a terra. Magd\u00e1 estremeceu, soltou um grito<br \/>\ne viu, em menos de um segundo, o rio que cercava a ilha levantar-se com \u00edmpeto<br \/>\ne, enovelando-se, arrojar-se para cima das margens opostas e rebentar em pororocas,<br \/>\nengolindo a terra. E a montanha, com a sua t\u00fanica real, e os monarcas da floresta,<br \/>\ncom os seus diademas cravejados de pedraria, e os prados com as suas c\u00e2ndidas<br \/>\nboninas, e os vales com os seus l\u00edrios t\u00edmidos. tudo defronte dos seus olhos<br \/>\nse convertera rapidamente num oceano sem fim, onde enorme sol vermelho e tr\u00f4pego<br \/>\nse atufava, arquejante, ensang\u00fcentando as \u00e1guas.<\/p>\n<p>E Magd\u00e1, vendo a ilha isolada no meio de tamanho mar, atirou-se ao ch\u00e3o,<br \/>\nescabujando em gritos e solu\u00e7os, e por alguns instantes perdeu de todo os<br \/>\nsentidos.<\/p>\n<p>Voltou a si chamada por uma voz meiga que lhe dizia:<\/p>\n<p>\u2014 Magd\u00e1, minha filha! Valha-me Deus! Valha-me Deus! At\u00e9 o dem\u00f4nio daquela<br \/>\npedreira havia de ficar defronte justamente aqui do quarto!.<\/p>\n<p>E, reconhecendo a voz do Conselheiro, reconheceu tamb\u00e9m a da Justina. que<br \/>\nexclamava:<\/p>\n<p>\u2014 Pestes! Atacarem fogo \u00e0 pedreira sem prevenir nada, sabendo que h\u00e1<br \/>\naqui uma pobre doente neste estado! \u00c9 maldade, como n\u00e3o ?<\/p>\n<p>Magd\u00e1, quando abriu os olhos, percebeu que estava nos bra\u00e7os do pai.<\/p>\n<p>\u2014 Ora gra\u00e7as! Ora gra\u00e7as, minha filha, que recuperas os sentidos!<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>XV<\/h2>\n<p>De todos os seus sonhos este foi at\u00e9 a\u00ed o que a deixou mais vencida pela<br \/>\nfadiga e pela vergonha. Duas horas depois de acordada, ainda permanecia na<br \/>\ncama, a cismar, sem \u00e2nimo de se erguer. Aquele incidente da ilha, em que ela<br \/>\nse via completamente nua, punha-lhe o esp\u00edrito em dura revolta, contra a qual<br \/>\na desgra\u00e7ada antejulgava que n\u00e3o encontraria consola\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, pensava, que mal fizera a Deus para ser castigada daquela forma?&#8230;.<br \/>\nPois n\u00e3o bastavam j\u00e1 os seus padecimentos f\u00edsicos, os seus desgostos e os<br \/>\nseus t\u00e9dios?&#8230; Porque e para que ia ent\u00e3o o Criador descobrir com tamanha<br \/>\nfalta de cora\u00e7\u00e3o aquele novo modo de tortura?&#8230; Atac\u00e1-la no que ela mais<br \/>\nencarecia \u2014 atac\u00e1-la no seu pudor&#8230;! N\u00e3o! antes morrer; antes mil vezes,<br \/>\ndo que suportar por mais tempo semelhante desvario dos sentidos!<\/p>\n<p>Felizmente veio a rea\u00e7\u00e3o; deliberou-se a abrir luta contra o sonho. E, para<br \/>\ndar logo come\u00e7o \u00e0 campanha, resolveu passar a seguinte noite acordada.<\/p>\n<p>\u2014 Minh&#8217;ama quer o seu chocolate? perguntou Justina pela terceira vez.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 levantou-se afinal.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea porque se enfrasca deste modo em perfumes, sabendo que isso<br \/>\nme faz mal?<\/p>\n<p>\u2014 Eu, minha senhora?<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o quem h\u00e1 de ser?<\/p>\n<p>\u2014 Juro por esta luz que n\u00e3o pus nenhum cheiro no corpo.<\/p>\n<p>\u2014 Veja ent\u00e3o se h\u00e1 algum frasco de perfumaria por a\u00ed desarrolhado!<br \/>\nEst\u00e1 rescendendo, n\u00e3o sente?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, minh&#8217;ama, n\u00e3o sinto, respondeu a criada a fungar forte, como<br \/>\num animal que procura descobrir alguma coisa pelo faro. \u2014 N\u00e3o sinto<br \/>\nnada!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que olfato tem voc\u00ea, benza-a Deus! Estou sufocada! Abra o diabo dessa<br \/>\nporta, deixe entrar o ar!<\/p>\n<p>Justina apressou-se a cumprir a ordem da senhora, mas o maldito cheiro continuava.<br \/>\nE o mais estranho \u00e9 que era aquele mesmo perfume agudo da ilha do Segredo;<br \/>\naquele perfume ativo que lhe penetrava no fundo do c\u00e9rebro como agulhas de<br \/>\ngelo.<\/p>\n<p>\u2014 Veja se deixaram por a\u00ed algumas flores!&#8230; Sinto cheiro de magn\u00f3lia!<\/p>\n<p>Justina percorreu a alcova e os aposentos imediatos, fariscando ruidosamente.<\/p>\n<p>Nada! N\u00e3o encontrava nada de flores!<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 ent\u00e3o l\u00e1 em baixo saber o que \u00e9 isto! Parece que estou numa f\u00e1brica<br \/>\nde perfumarias!<\/p>\n<p>A, criada afastou-se, e Magd\u00e1 ficou a estalar a l\u00edngua contra o c\u00e9u da boca.<br \/>\nEra ainda o terr\u00edvel gosto de sangue que n\u00e3o a deixava.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Quanta coisa desagrad\u00e1vel, meu Deus!<\/p>\n<p>Lembrou-se ent\u00e3o da extravagante passagem da ilha, em que ela sugara o sangue<br \/>\ndo trabalhador. Vieram-lhe engulhos, muita tosse e acabou vomitando o chocolate<br \/>\nque tomara nesse instante.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o mesmo cheiro, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, pensou depois, indo \u00e0 janela; o<br \/>\nmesmo cheiro que eu sentia no sonho!<\/p>\n<p>E respirava alto, com insist\u00eancia. \u2014 Sim, sim, \u00e9 o mesmo perfume! Ora<br \/>\nesta! Parece que tudo tresandava a magn\u00f3lia! Ser\u00e1 muito bonito se eu, de agora<br \/>\nem diante, n\u00e3o puder livrar-me, nem acordada, de semelhante persegui\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>Todo esse dia, entretanto, se passou assim: o cheiro de magn\u00f3lia e o gosto<br \/>\nde sangue n\u00e3o a deixaram um segundo. Nunca estivera t\u00e3o nervosa, t\u00e3o excitada;<br \/>\nachando em tudo um pretexto para implicar, chorando sem causa aparente, irrequieta,<br \/>\na passarinhar pela casa, com um desassoss\u00eago de ave quando est\u00e1 para fazer<br \/>\no ninho. O Dir. Lob\u00e3o conversou com o Conselheiro e os olhos deste se encheram<br \/>\nd\u00e1gua.<\/p>\n<p>\u2014 Acha ent\u00e3o que ela est\u00e1 pior, Doutor?&#8230; Acha que est\u00e1 muito mal?.,..<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 entrando j\u00e1 no terceiro per\u00edodo da mol\u00e9stia. Esse desassoss\u00eago<br \/>\nque sobreveio agora \u00e9 um terr\u00edvel sintoma&#8230; Mas n\u00e3o desanime! n\u00e3o desanime!<\/p>\n<p>E, para o consolar, afian\u00e7ou que Magd\u00e1 era o caso mais bonito de histeria<br \/>\nobservado por ele.<\/p>\n<p>\u00c1 noite a enferma pediu caf\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Caf\u00e9?<\/p>\n<p>Houve um espanto. N\u00e3o lho quiseram dar; afinal, depois de grande disputa,<br \/>\nconsentiram em ceder-lhe meia ch\u00e1vena, muito fraco.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o! Ela n\u00e3o queria assim! queria um bulezinho cheio e<br \/>\nde caf\u00e9 forte.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, minha filha, lembra-te do estado melindroso em que tens os nervos!<br \/>\nSe o caf\u00e9 em grandes doses faz mal a qualquer um, quanto mais a ti.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 chorou, arrepelou-se, arrancou cabelos. O m\u00e9dico, por\u00e9m, voltando \u00e0<br \/>\nnoite, aconselhou que a deixassem tomar todo o caf\u00e9 que lhe apetecesse<\/p>\n<p>\u2014 Deixem-na beber \u00e0 vontade! Pode ser at\u00e9 que isso lhe produza uma<br \/>\nrea\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel sobre os nervos! Nada de contrari\u00e1-la!<\/p>\n<p>Foi levada uma cafeteira para o quarto de Magd\u00e1. Esta assentou-se \u00e0 mesinha<br \/>\ndefronte do candieiro e come\u00e7ou a ler, depois de tomar uma ch\u00e1vena de caf\u00e9,<br \/>\nque se lhe conservou no est\u00f4mago.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea, ordenou \u00e0 criada, n\u00e3o durma, hein? Nem me deixe dormir tamb\u00e9m,<br \/>\ncompreende?<\/p>\n<p>\u2014 Como, minh&#8217;alma ? Pois vosmec\u00ea n\u00e3o tenciona dormir t\u00e3o cedo?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tenciono passar a noite em claro.<\/p>\n<p>\u2014 Jesus! Mas isso lhe h\u00e1 de fazer muito mal! Ora como n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 buscar-me aqueles jornais ilustrados e aqueles \u00e1lbuns de desenho,<br \/>\nque est\u00e3o l\u00e1 na sala, e ponha-me tudo a\u00ed em cima da mesa.<\/p>\n<p>Justina afastou-se trejeitando esgares de l\u00e1stima.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 sentia-se agora menos inquieta; fazia-lhe bem o empenho com que ela<br \/>\nqueria pregar um logro ao sonho, faltar \u00e0 entrevista com o mo\u00e7o da pedreira.<br \/>\nSentia gosto em enganar algu\u00e9m. Era uma preocupa\u00e7\u00e3o e por conseguinte um divertimento.<br \/>\nArdia de impaci\u00eancia por ver passada aquela noite; afigurava-se-lhe que, depois<br \/>\ndisso, poderia dormir \u00e0 vontade, tranq\u00fcilamente, sem cair nunca mais nas garras<br \/>\ndo seu maldito perseguidor.<\/p>\n<p>A Justina \u00e9 que da\u00ed a pouco cabeceava, sem conseguir abrir olhos. Magd\u00e1 obrigou-a<br \/>\na tomar uma x\u00edcara de caf\u00e9, o que n\u00e3o impediu que a boa mulher uma hora depois<br \/>\nressonasse, ali mesmo, de p\u00e9, encostada \u00e0 ombreira da porta, com os bra\u00e7os<br \/>\ncruzados.<\/p>\n<p>A senhora sacudiu-a, fren\u00e9tica.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o lhe disse, criatura, para ficar acordada?<\/p>\n<p>A pobre respondeu com bocejos.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos! Ponha-se esperta! Tome outra x\u00edcara de caf\u00e9!<\/p>\n<p>A senhora que a desculpasse; havia, por\u00e9m, um &#8216;r\u00f4r de tempo que ela n\u00e3o dormia<br \/>\ndireito e puxava muito pelo corpo durante o dia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E porque voc\u00ea n\u00e3o tem dormido direito?<\/p>\n<p>\u2014 Ora! porque \u00e9 necess\u00e1rio estar sempre meio acordada, para ver quando<br \/>\nminh&#8217;ama precisa de alguma coisa&#8230; Como n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Eu ent\u00e3o n\u00e3o tenho o sono tranq\u00fcilo?<\/p>\n<p>\u2014 Tranq\u00fcilo? Quem lho dera! Vosmec\u00ea durante o sono tem arrepios de<br \/>\nvez em quando; doutras parece que est\u00e1 ardendo em calor; que sente comich\u00f5es<br \/>\npelo corpo: co\u00e7a-se, remexe-se, abra\u00e7a-se e esfrega-se nos travesseiros; geme,<br \/>\nsuspira; t\u00e3o depressa d\u00e1 p&#8217;ra chorar, como p&#8217;ra rir; ora se encolhe toda,<br \/>\nora atira com as pernas e com os bra\u00e7os e quer lan\u00e7ar-se fora da cama! Pois<br \/>\nent\u00e3o? E&#8217; preciso que a gente a endireite; que lhe d\u00ea o rem\u00e9dio do frasco<br \/>\nmaior ou uma pouca d\u00e1gua com flor de laranja&#8230; De quantas e quantas feitas<br \/>\neu n\u00e3o tenho deitado a vosmec\u00ea no meu colo, para sosseg\u00e1-la?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o falo quando durmo?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c1s vezes, como n\u00e3o? e muito! mas n\u00e3o se entende patavina; fala entre<br \/>\ndentes. Ainda ontem, foi muito boa! vosmec\u00ea, l\u00e1 pela volta das duas da madrugada,<br \/>\ndeu p&#8217;ra embirrar por tal modo com a roupa, que eu tive de sacar-lhe fora<br \/>\na camisa.<\/p>\n<p>\u2014 Pois voc\u00ea me despiu, mulher?<\/p>\n<p>\u2014 E tornei a vestir depois, sim senhora.<\/p>\n<p>\u2014 E eu n\u00e3o acordei! &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! vosmec\u00ea agora tem um sono muito ferrado. Quer parecer que acorda,<br \/>\nmas qual! est\u00e1 dormindo que \u00e9 um gosto! abre os olhos, isso abre; passa a<br \/>\nm\u00e3o pela testa; se lhe dou a \u00e1gua \u2014 bebe-a; \u00e0s vezes levanta-se, quer<br \/>\nandar, eu n\u00e3o deixo. Uma ocasi\u00e3o, quando dei f\u00e9, j\u00e1 minh&#8217;ama se tinha safado<br \/>\nda cama e estava a procurar n\u00e3o sei o que naquele canto do quarto&#8230; Por sinal<br \/>\nque me pregou um tal &#8216;susto, credo!<\/p>\n<p>Magd\u00e1 ficou a cismar com as palavras da criada, estalando sempre a l\u00edngua<br \/>\ncontra o c\u00e9u da boca. Uma id\u00e9ia extravagante atravessava-lhe o esp\u00edrito nesse<br \/>\nmomento: &#8220;E quem sabia l\u00e1 se aquela mulher n\u00e3o lhe tinha dado sangue a beber?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Fitou Justina, e com tal insist\u00eancia, que a rapariga perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Sente alguma coisa, minh&#8217;ama?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deixe ver o seu bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Justina estendeu o bra\u00e7o, intrigada.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 examinou-o todo, minuciosamente, mas n\u00e3o descobriu nele a menor escoria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Porque vosmec\u00ea me revista o bra\u00e7o? &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Cale-se!<\/p>\n<p>E, depois de fit\u00e1-la de novo: \u2014 O que \u00e9 que voc\u00ea me tem dado a beber<br \/>\ndurante o sono? Mas n\u00e3o minta!<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 minha senhora, eu j\u00e1 disse, como n\u00e3o? A \u00e1gua pura ou com a\u00e7\u00facar<br \/>\ne flor de laranja, ou quando n\u00e3o, aquele rem\u00e9dio de frasco maior, que o Doutor<br \/>\nmandou dar, quando vosmec\u00ea acordasse \u00e0 noite com os seus inc\u00f4modos.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 pediu o tal frasco para ver e, apanhando uma gota do rem\u00e9dio com a<br \/>\nl\u00edngua, ficou a tomar-lhe o sabor.<\/p>\n<p>Qual! N\u00e3o era dali que vinha o gosto de sangue!<\/p>\n<p>Bateu meia noite no rel\u00f3gio da sala de jantar.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, minh&#8217;ama, meia noite!<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 sei! V\u00e1 l\u00e1 abaixo buscar um pouco de presunto com p\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Que diz, minh&#8217;ama ? N\u00e3o caia nessa! Vosmec\u00ea tem visto o mal que lhe<br \/>\nfaz a comida fora d&#8217;horas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me aborre\u00e7a! Veja o que lhe disse!<\/p>\n<p>Justina saiu do quarto, resmungando, e a senhora logo que se achou sozinha,<br \/>\nteve um tremor de medo. A criada felizmente n\u00e3o se demorou muito.<\/p>\n<p>\u2014 C\u00e1 est\u00e1, minh&#8217;ama. Vosmec\u00ea quer vinho?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>~ Magd\u00e1 gulosou algumas febras de presunto, bebeu mais caf\u00e9 e atirou-se aos<br \/>\nseus jornais ilustrados, disposta a n\u00e3o ceder um passo na resolu\u00e7\u00e3o tomada.<\/p>\n<p>\u2014 Porque vosmec\u00ea n\u00e3o se vai deitar, minh&#8217;ama? E&#8217; melhor! Agasalhe-se!<br \/>\nDaqui a pouco est\u00e1 a\u00ed a friagem da madrugada! J\u00e1 passa de uma hora!<\/p>\n<p>A filha do Conselheiro n\u00e3o respondeu e ferrou a vista, com uma fixidez de<br \/>\nteima, no desenho que tinha debaixo dos olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Vosmec\u00ea nunca se deitou t\u00e3o tarde..<\/p>\n<p>\u2014 Cale-se, que diabo!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que lhe pode fazer mal&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pior!<\/p>\n<p>A criada calou-se, bocejou tra\u00e7ando com a m\u00e3o uma cruz, mais sobre o nariz<br \/>\ndo que sobre a boca, e da\u00ed a nada pediu, quase de olhos fechados, que su&#8217;ama<br \/>\nent\u00e3o lhe deixasse encostar a cabe\u00e7a um instante. &#8220;Ela estava a cair de canceira&#8221;.<\/p>\n<p>Pois sim, que fosse, mas que ficasse alerta.<\/p>\n<p>&#8220;Como n\u00e3o?&#8221; Mal por\u00e9m. encostou a cabe\u00e7a, dormiu logo a sono solto.<\/p>\n<p>No entanto, a senhora parecia bem entretida com as suas ilustra\u00e7\u00f5es. Correu<br \/>\nmeia hora \u2014 e ela sempre a ver os desenhos e a ler. De repente teve<br \/>\numa contra\u00e7\u00e3o nervosa, muito r\u00e1pida.<\/p>\n<p>\u2014 Mau!&#8230; disse, e procurou segurar melhor a aten\u00e7\u00e3o no que estava<br \/>\nlendo.<\/p>\n<p>Mas com pouco um calefrio empolgou-lhe os ombros e foi lhe descendo pelo<br \/>\ndorso, at\u00e9 fazer vibrar-lhe o corpo inteiro<\/p>\n<p>\u2014 Justina! Justina!<\/p>\n<p>A criada n\u00e3o se abalou, e o sil\u00eancio e a solid\u00e3o da noite come\u00e7aram prontamente<br \/>\na fazer das suas. A hist\u00e9rica estremeceu de novo, olhando para os lados, aterrada,<br \/>\nsem poder mais articular palavra. Um p\u00e2nico apoderou-se dela, pondo-lhe estranha<br \/>\nagita\u00e7\u00e3o no sangue.<\/p>\n<p>Teve uma id\u00e9ia \u2014 rezar.<\/p>\n<p>Ergueu-se desvairada, com os cabelos em p\u00e9, e encaminhou-se para o crucifixo.<br \/>\nNisto ouviu distintamente uma voz dizer ao seu ouvido:<\/p>\n<p>\u2014 Magd\u00e1!<\/p>\n<p>Voltou-se com um gemido rouco e caiu de joelhos defronte da imagem, toda<br \/>\ntr\u00eamula e gelada.<\/p>\n<p>Tinha reconhecido a voz do seu amante fant\u00e1stico. E principiou logo a ver<br \/>\ntudo avermelhado como nos sonhos: o que era branco fazia-se cor de rosa; o<br \/>\nque era cor de rosa tingia-se de escarlate; o amarelo tomava a cor de laranja<br \/>\ne o azul arroxeava-se.<\/p>\n<p>Ela arfava; levou a m\u00e3o \u00e0 testa: os dedos voltaram \u00famidos de suor frio; quis<br \/>\ngritar, e n\u00e3o p\u00f4de. E o seu corpo escaldava em febre; e suas fontes latejavam.<br \/>\nContudo n\u00e3o tinha perdido ainda de todo a raz\u00e3o e mentalmente suplicava a<br \/>\nDeus que a amparasse, que a socorresse naquele horroroso transe:<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o me ser\u00e1 dado escapar a esta maldita persegui\u00e7\u00e3o?&#8230; \u00d3 meu<br \/>\npai misericordioso, que ir\u00e1 me suceder? Que ir\u00e1 me suceder agora?<\/p>\n<p>Mas os objetos difundiam-se j\u00e1 e transformavam-se em torno de seus olhos,<br \/>\nque s\u00f3 viam a imagem de Cristo \u2014 de bra\u00e7os abertos, e a crescer, a crescer,<br \/>\nenchendo a parede.<\/p>\n<p>E, naquela palpita\u00e7\u00e3o nervosa, Magd\u00e1 sentia as palavras borbotarem no seu<br \/>\nesp\u00edrito e derramarem-se pelos seus l\u00e1bios com a verbosidade e a inspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um poeta \u00e9brio.<\/p>\n<p>\u2014 Preciso n\u00e3o sonhar! Preciso arrancar aqui de dentro esta dolorosa<br \/>\nloucura que me absorve, gota a gota, toda a subst\u00e2ncia da minha vida!<\/p>\n<p>E, de joelhos, o rosto levantado, as m\u00e3os erguidas para o c\u00e9u, as l\u00e1grimas<br \/>\na desfiarem-lhe uma a uma pelas faces, ela acrescentou depois da ora\u00e7\u00e3o que<br \/>\nlhe ensinara a tia Camila: \u2014 Jesus, meu amado, meu esposo, acode-me,<br \/>\nacode-me depressa, que a fera j\u00e1 a\u00ed est\u00e1 comigo! Vem, que ela me farisca e<br \/>\nme cerca rosnando! Vem, que lhe ou\u00e7o o respirar assanhado e j\u00e1 sinto o seu<br \/>\nbafo e o cheiro carnal que ela solta de si! Vem, que a maldita me acompanha<br \/>\npor toda a parte e me cheira como o c\u00e3o \u00e0 cadela! Vem de pressa; n\u00e3o a deixes<br \/>\nsaciar no meu corpo de virgem os seus apetites lascivos! N\u00e3o me deixes assim,<br \/>\namado do meu cora\u00e7\u00e3o, cair t\u00e3o feiamente em pecado de impureza e lux\u00faria!<br \/>\nN\u00e3o me atires como um peda\u00e7o de carne \u00e0s garras do lobo imundo! Esconde-me<br \/>\n\u00e0 tua sombra; protege-me como o fizeste com a outra Madalena, menos merecedora<br \/>\ndo que eu, que sou donzela e sempre te amei e servi com a mesma candura! Lembra-te,<br \/>\nquerido de minh&#8217;alma, de que estou enferma e fraca e s\u00f3 tenho for\u00e7a e \u00e2nimo<br \/>\npara te amar! V\u00ea que n\u00e3o me posso defender s\u00f3 por mim! Ajuda-me! tem pena<br \/>\nde quem te quer e adora acima de todas as coisas! V\u00ea como tremo e choro! Se<br \/>\n\u00e9s o pai dos humildes, vale-me agora, salva o meu pudor e n\u00e3o consintas que<br \/>\nde hoje em diante a minha virgindade se haja ainda de retrair corrida e envergonhada!<br \/>\nVem e acompanha-me nos meus sonhos, conduze-me pela tua m\u00e3o, como fazias com<br \/>\nas crian\u00e7as que encontravas perdidas no caminho; se te vir a meu lado n\u00e3o<br \/>\nsonharei desatinos e sujidades que me matam de vexame e nojo contra mim pr\u00f3pria!<br \/>\nVem ter comigo e exorciza de dentro de mim o dem\u00f4nio que habita minha carne<br \/>\ne enche de fogo todas as veias do meu corpo! N\u00e3o deixes que a lux\u00faria esverdinhe<br \/>\nminha alma com a baba do seu veneno! Reabilita-me, para que eu me estime e<br \/>\npreze como dantes! Lava-me da cabe\u00e7a aos p\u00e9s com a luz da tua divina gra\u00e7a;<br \/>\nperfuma-me com os teus aromas celestiais; sopra teu h\u00e1lito sobre mim, para<br \/>\nque n\u00e3o me fique vest\u00edgio de terra na pele e nos cabelos; beija minha boca,<br \/>\npara lhe apagar o gosto de pecado que a p\u00f5e amarga e suja; beija meus olhos,<br \/>\npara que eles n\u00e3o enxerguem o que n\u00e3o devem ver; beija meus ouvidos, para<br \/>\nque eles n\u00e3o escutem o que n\u00e3o devem ouvir; beija-me toda, para que toda eu<br \/>\nme purifique e me fa\u00e7a digna do teu amor! Sacode em cima de mim o orvalho<br \/>\ndo teu manto e as gotas do teu cabelo, para que eu me acalme e abrande; tra\u00e7a<br \/>\ncom a tua m\u00e3o pura uma cruz sobre a minha testa, para afastar por uma vez<br \/>\nos maus pensamentos, e passeia tr\u00eas voltas em torno do meu corpo para que<br \/>\na fera nunca mais se aproxime de mim! Vem, vem! que ela a\u00ed torna e come\u00e7a<br \/>\na uivar de novo! Acode-me, Senhor, acode-me!<\/p>\n<p>Estremeceu toda num arrepio mortal, escondendo o rosto, sacudida pelos solu\u00e7os.<br \/>\nE, como em resposta \u00e0s suas s\u00faplicas, n\u00e3o descia dos c\u00e9us nenhum al\u00edvio, ela<br \/>\nrevoltou-se afinal contra Jesus: \u2014 Para que ent\u00e3o servis? interrogou<br \/>\n\u2014 Para que ent\u00e3o sois Deus, se n\u00e3o baixais em meu socorro, quando eu<br \/>\ntanto preciso de amparo e de defesa?! Que \u00e9 feito ent\u00e3o do extremoso amigo<br \/>\ndas mulheres e das crian\u00e7as, ao qual me ensinaram a amar desde o ber\u00e7o? que<br \/>\n\u00e9 feito desse ente apaixonado e casto, que tinha dantes consola\u00e7\u00f5es para toda<br \/>\na desgra\u00e7a, e um raio de luz para secar a mais escondida l\u00e1grima dos que padeciam?<br \/>\nque \u00e9 feito do sud\u00e1rio cor de l\u00edrio em que se enxugava o pranto dos desamparados?<br \/>\nque \u00e9 feito dessas b\u00ean\u00e7\u00e3os de pai, que apaziguavam a terra e confortavam o<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o dos pobres? para onde se voltaram aqueles olhos misericordiosos, que<br \/>\ndantes enchiam o mundo com o efl\u00favio da sua ternura? como para sempre se fecharam<br \/>\naquelas entranhas de piedade, aquele peito de amor, onde a m\u00edsera humanidade<br \/>\nse refugiava, como num templo de ouro e marfim? Se n\u00e3o vierdes imediatamente<br \/>\nem meu socorro, acreditarei no que dizem os contr\u00e1rios da vossa igreja, ou<br \/>\nque desertastes de vez para os c\u00e9us, esquecidos de todo das vossas criaturas!<br \/>\nSe n\u00e3o vierdes j\u00e1 e j\u00e1, acreditarei que estais outro e que j\u00e1 n\u00e3o sois aquele<br \/>\nmesmo Jesus, terno, humilde, casto, bom, fiel e onipotente! acreditarei que<br \/>\nviveis no ego\u00edsmo e na indiferen\u00e7a, amarrado ao trono, \u00e9brio de orgulho e<br \/>\nvaidade, como qualquer miser\u00e1vel monarca da terra!<\/p>\n<p>E interrogou a imagem com um olhar em que havia s\u00faplica e amea\u00e7a. Mal soltou<br \/>\nlogo um rugido surdo, apontando para o crucifixo e balbuciando, cheia de terror:<br \/>\n\u2014 N\u00e3o! J\u00e1 n\u00e3o sois v\u00f3s quem a\u00ed est\u00e1 crucificado! Quem est\u00e1 a\u00ed agora<br \/>\n\u00e9 o outro! \u00c9 ele! \u00c9 o dem\u00f4nio!<\/p>\n<p>E caiu do bru\u00e7os no ch\u00e3o, com um grito. E logo em seguida, sem \u00e2nimo de erguer<br \/>\na cabe\u00e7a, transida de medo, sentiu distintamente que o Cristo se agitava na<br \/>\nparede, como forcejando para despregar-se da cruz, e que afinal descia, pisava<br \/>\nno ch\u00e3o, encaminhava-se para ela e tocava-lhe de leve com a m\u00e3o no ombro,<br \/>\naproximando a boca, para lhe falar ao ouvido. Magd\u00e1 sentiu rescender o cheiro<br \/>\nda murta.<\/p>\n<p>\u2014 Levanta-te, amiga minha, formosa minha, e vem! A mangueira come\u00e7ou<br \/>\na dar as suas primeiras mangas; as flores do caju lan\u00e7aram j\u00e1 o seu cheiro!<br \/>\nVem, pomba minha: nos segredos do teu quarto mostra-me a tua face; soe a tua<br \/>\nvoz dentro dos meus ouvidos, porque a tua voz \u00e9 doce e a tua face graciosa!<\/p>\n<p>A mo\u00e7a ergueu a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ele beijou-a, prosseguindo, com o rosto unido ao dela: \u2014 Sim, Magd\u00e1,<br \/>\nminha irm\u00e3, minha esposa, minha amada, teus olhos de t\u00e3o belos se parecem<br \/>\ncom os olhos de Maria Sant\u00edssima; s\u00e3o ternos, s\u00e3o negros, humildes o majestosos;<br \/>\ntuas m\u00e3os brancas relembram os l\u00edrios da Virgem e os teus dedos distilam a<br \/>\nmirra mais preciosa; as faces do teu rosto rescendem como as rosas do amor<br \/>\ndivino; os teus cabelos excedem no cheiro aos aromas excelentes do seu altar;<br \/>\nos teus peitos s\u00e3o brancos como duas ovelhas g\u00eameas e t\u00e3o rijos como os jacintos<br \/>\nda sua coroa de rainha dos c\u00e9us; a tua carne \u00e9 t\u00e3o macia como o cetim do seu<br \/>\nmanto e o cheiro dos teus vestidos \u00e9 como o cheiro do incenso; o sorrir da<br \/>\ntua boca \u00e9 t\u00e3o lindo como o dela, mas eu gosto mais do teu, por menos divino<br \/>\ne et\u00e9reo e porque mais me enfeiti\u00e7a e me abrasa de amor; o teu h\u00e1lito, minha<br \/>\npomba, \u00e9 melhor que os perfumes do pa\u00eds de Cedar; tua garganta \u00e9 de s\u00e2ndalo;<br \/>\ntua voz \u00e9 um aroma; a luz dos teus olhos \u00e9 um diamante l\u00edquido; teus dentes<br \/>\ns\u00e3o p\u00e9rolas de orvalho entre p\u00e9talas de rosa. Tu, entre as mulheres da terra,<br \/>\n\u00e9s a mais bonita, a mais sedutora e a mais am\u00e1vel; entre as mulheres tu \u00e9s<br \/>\ncomo a palmeira entre as outras \u00e1rvores: n\u00e3o tens igual; \u00e9s majestosa como<br \/>\nos cedros do L\u00edbano e delicada e cheirosa como os eloendros de Jerusal\u00e9m<\/p>\n<p>Magd\u00e1 deixava-se embalar pela m\u00fasica sensual e m\u00edstica destas palavras e<br \/>\no cheiro de murta. E, j\u00e1 sem medos nem sobressaltos, quedava-se im\u00f3vel e comovida,<br \/>\ncomo se estivesse conversando em \u00eaxtasis com um Cristo s\u00f3 dela, um Cristo<br \/>\ndestronado e sem orgulhos de Deus, um Cristo seu amante, fraco, de carne,<br \/>\nsubmisso e humano.<\/p>\n<p>E a voz ainda lhe disse, entrando-lhe pelos ouvidos, pela boca, por todos<br \/>\nos poros, com o seu aroma agreste e afrodis\u00edaco: \u2014 Levanta-te, minha<br \/>\namada, e torna comigo ao nosso ninho de amor! Eu te busquei esta noite a meu<br \/>\nlado, busquei-te e n\u00e3o te encontrei! Ergui-me \u00e0 luz das estrelas e rodeei<br \/>\ncomo um louco a ilha, e n\u00e3o te achei! busquei-te pelas matas, pelos vales<br \/>\ne pelo monte, e n\u00e3o te descobri! Chamei-te: &#8220;Magd\u00e1! Magd\u00e1! Magd\u00e1!&#8221; e n\u00e3o me<br \/>\nrespondeste! Perguntei \u00e0s \u00e1guas do mar, \u00e0s arvores do campo, aos ventos do<br \/>\nespa\u00e7o, se tinham visto aquela a quem ama minh&#8217;alma; e todos eles n\u00e3o souberam<br \/>\ndar novas tuas; e eu aqui estou; eu vim buscar-te, e n\u00e3o tornarei sem te levar<br \/>\ncomigo! Vem! Na tua aus\u00eancia fiz um leito de madeiras arom\u00e1ticas e alcatifei-o<br \/>\ntodo de flores, para te receber; colhi os mais saborosos frutos para a tua<br \/>\nchegada, e fermentei a uva mais doce para nos embriagarmos com ela!<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim, respondeu afinal Magd\u00e1, entregando-se a ele; leva-me! Eu<br \/>\nte acompanho de novo para onde bem quiseres! Carrega-me, querido! Preciso<br \/>\nir beber do teu vinho, comer dos teus frutos, amor do teu amor e reviver com<br \/>\no teu sangue! Leva-me! Aqui me tens! Sou tua!<\/p>\n<h2><a name=\"16\"><\/a>XVI<\/h2>\n<p>Esta crise prostrou-a de cama por dois dias, dois dias de febre e del\u00edrios,<br \/>\nem que ela n\u00e3o deu acordo de si e falava de coisas inteiramente estranhas<br \/>\npara os mais. Sonhava-se na ilha do Segredo.<\/p>\n<p>&#8211; Quando, enfim, se levantou havia j\u00e1 entrado totalmente no terceiro per\u00edodo<br \/>\nda mol\u00e9stia. Estava cadav\u00e9rica; os olhos muito fundos; as faces cavadas e<br \/>\na pele estalando em pequeninas rugas, como porcelana velha. Contudo, em nenhum<br \/>\ndos seus gestos, como em nenhuma de suas palavras se lhe notava desarranjo<br \/>\ncerebral; aparentemente era a mesma em orgulho, em virtudes e em fidelidade<br \/>\naos seus princ\u00edpios religiosos, apenas sucedia que todas estas qualidades<br \/>\ncada vez mais se acentuavam com certo exagero progressivo. O cheiro de magn\u00f3lia<br \/>\ne o gosto de sangue ainda a perseguiam com maior ou menor intensidade. De<br \/>\nnovo o que Magd\u00e1 apresentava agora de mais not\u00e1vel eram umas esp\u00e9cies de alucina\u00e7\u00f5es<br \/>\nlet\u00e1rgicas, muito r\u00e1pidas, que a acometiam de vez em quando e nas quais reatava<br \/>\nquase sempre o seu \u00faltimo sonho; mas n\u00e3o falava durante essas crises, ficava<br \/>\nnum estado comatoso, est\u00e1tica, de olhos bem abertos, dentes cerrados, um ligeiro<br \/>\nrubor nas faces; \u00e0s vezes sorrindo e \u00e0s vezes deixando que as l\u00e1grimas lhe<br \/>\ncorressem surdamente pelo rosto.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico recomendou que n\u00e3o a despertassem dessas letargias. &#8220;Deixassem-na<br \/>\nl\u00e1, que por si mesma havia de recuperar a raz\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Outra novidade era que j\u00e1 n\u00e3o parecia sentir, como dantes, repugn\u00e2ncia em<br \/>\nouvir falar no futuro cunhado de Justina; agora, ao contr\u00e1rio, quando esta<br \/>\nse referia ao rapaz, a senhora escutava-a com interesse e at\u00e9 j\u00e1 lhe fazia<br \/>\nperguntas a respeito do pobre diabo. Uma ocasi\u00e3o quis saber que tal era ele<br \/>\nde g\u00eanio; quais os seus costumes, se bons ou maus; se estimava muito a noiva;<br \/>\nse pretendia realizar em breve o casamento; se era homem dado a bebidas, ou<br \/>\nao jogo, ou a outras coisas feias. A criada informou muito a favor do Luiz:<br \/>\nelogiou-lhe o car\u00e1ter; contou as suas boas a\u00e7\u00f5es; falou na sua economia, no<br \/>\nseu amor pela m\u00e3e e pela av\u00f3, e terminou declarando que a Rosinha apanhara<br \/>\num homem \u00e0s direitas. &#8220;\u00c0s direitas, como n\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>\u00c0 filha do Conselheiro contrariaram um tanto estes elogios. N\u00e3o sabia porque,<br \/>\nmas intimamente desejava que aquele imbecil fosse mais desgra\u00e7ado e menos<br \/>\ndigno de estima; preferia ouvir dizer pelos outros os horrores que ela tinha<br \/>\nvontade e n\u00e3o podia despejar contra o miser\u00e1vel; preferia saber que ele era<br \/>\num perdido, sem a menor id\u00e9ia de estabelecer fam\u00edlia, um b\u00eabado devorado pela<br \/>\nvil e baixa cr\u00e1pula das vendas e dos corti\u00e7os. E Magd\u00e1 ficava revoltada, sentia<br \/>\nas m\u00e3os frias de raiva, quando, ao chegar por acaso \u00e0 janela, dava com o cavoqueiro<br \/>\nque ia ou vinha do trabalho, ostentando o ar satisfeito de quem traz a vida<br \/>\ndireita e anda em dia com as obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! o seu desejo era descarregar-lhe um tiro na cabe\u00e7a!<\/p>\n<p>Um domingo, em que ela espairecia \u00e0 porta da ch\u00e1cara, o Luiz passou na rua,<br \/>\ntodo chibante nas suas roupas de ver a Deus, de bra\u00e7o dado \u00e0 noiva, e rindo<br \/>\nmuito e conversando com a m\u00e3e e com a velhinha Cust\u00f3dia: contentes que metia<br \/>\ngosto v\u00ea-los. Pois a filha do Conselheiro, s\u00f3 por causa disso, mostrou-se<br \/>\ncontrariada e ficou pior esse dia. Tanto que, j\u00e1 de noite, estando a cismar<br \/>\nna sala, com os olhos fitos num pequeno grupo de m\u00e1rmore que a\u00ed havia, ergueu-se,<br \/>\ntomou-o nas m\u00e3os e, depois de o examinar com o rosto muito carregado, arremessou-o<br \/>\nde encontro \u00e0 laje da janela. O grupo representava em miniatura: &#8220;Amor e Desejo&#8221;,<br \/>\nde Miguel \u00c2ngelo \u2014 Um casal de quinze anos preso pelos l\u00e1bios em um<br \/>\nbeijo ideal e ardente. \u2014 Quando o Conselheiro, deveras contrariado,<br \/>\nperguntou quem havia quebrado a escultura, ela respondeu sem se alterar:<\/p>\n<p>\u2014 Foi a Justina, papai, mas n\u00e3o lhe diga nada, coitada!<\/p>\n<p>Sim, por \u00faltimo dera para isto: pregar destas pequenas mentiras e, se acaso<br \/>\nqueriam provar o contr\u00e1rio do que afirmava, punha-se furiosa, acabando sempre<br \/>\npor desabafar em solu\u00e7os a sua contrariedade. Assim, tendo uma vez matado<br \/>\num casal de rolas que havia na sala de jantar, s\u00f3 porque o surpreendera em<br \/>\nflagrante delito de procria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 fugiu \u00e0 responsabilidade do ato como<br \/>\nainda afetou grande desgosto pela morte dos brutinhos, chegado a revolucionar<br \/>\ntoda a casa para descobrir o suposto assassino.<\/p>\n<p>Entretanto, os sonhos com Luiz continuavam sem interrup\u00e7\u00e3o, e Magd\u00e1, a contra<br \/>\ngosto, habituava-se com a sua exist\u00eancia em duplicata, ajeitando-se pouco<br \/>\na pouco ao contraste daquelas duas vidas t\u00e3o diversas e t\u00e3o inimigas. N\u00e3o<br \/>\npodia ser mais feliz do que era ao lado do seu fant\u00e1stico amante; ah! mas<br \/>\nbem caro pagava depois essa felicidade, quando, acordada, o seu orgulho de<br \/>\nmulher honesta abria em luta contra as degradantes lubricidades do sono.<\/p>\n<p>Viviam nus desde o fatal momento em que se prenderam na ilha do Segredo.<br \/>\nLuiz constru\u00edra uma cabana de bamb\u00fa, coberta de pindoba, e fez alguns utens\u00edlios<br \/>\ndom\u00e9sticos; j\u00e1 tinham cama, bancos, um arm\u00e1rio para guardar frutas, e dois<br \/>\nou tr\u00eas potes para conservar o mel das abelhas, o vinho do caj\u00fa e o leite<br \/>\nde uma cabra que apanharam no monte.<\/p>\n<p>Cercaram a choupana com valentes toros de madeira e, quando anoitecia levantavam<br \/>\numa fogueira defronte da porta. \u00c9 que j\u00e1 se n\u00e3o sentiam t\u00e3o seguros como dantes;<br \/>\nLuiz temia at\u00e9 qualquer invas\u00e3o, porque, logo que o rio se converteu em mar,<br \/>\nestava franqueada a ilha.<\/p>\n<p>E, com efeito, um belo dia, passeavam os dois na praia, secando os cabelos<br \/>\nao sol depois do banho, quando avistaram no horizonte uma vela que se aproximava.<br \/>\nFicaram ambos transidos de sobressalto; Luiz ordenou a Magd\u00e1 que se metesse<br \/>\nem casa e n\u00e3o sa\u00edsse sem ser chamada por ele.<\/p>\n<p>A filha do Conselheiro obedeceu, mas ficou espiando l\u00e1 de dentro.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco viu chegar num escaler, tripulado por quatro marinheiros, um<br \/>\nmagote de seis pessoas que, pela dist\u00e2ncia, n\u00e3o podia reconhecer, distinguindo<br \/>\napenas que havia quatro mulheres no grupo; que um dos homens trazia farta<br \/>\nde oficial de marinha e que o outro estava todo envolvido numa enorme capa<br \/>\nnegra, que lhe dava apar\u00eancias de espectro.<\/p>\n<p>O oficial saltou a ilha e fez apeiarem-se as mulheres. Estas, logo que se<br \/>\npilharam em terra, correram de bra\u00e7os abertos sobre Luiz, soltando gritos<br \/>\nde contentamento. E, depois de muitos beijos e abra\u00e7os, puseram-se todos a<br \/>\ncaminhar na dire\u00e7\u00e3o da palho\u00e7a, acompanhados pelos quatro marinheiros que<br \/>\nvinham armados de escopetas e machadinhas de abordagem.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 reconheceu ent\u00e3o que o oficial era o Conselheiro, vestido e remo\u00e7ado<br \/>\ncomo num retrato a \u00f3leo, que ele tinha no seu gabinete de trabalho em Botafogo.<\/p>\n<p>Tremeu, quis fugir, mas lembrou-se da ordem de Luiz e deixou-se ficar. Em<br \/>\numa das mulheres descobriu Justina; em outra Rosinha; nas outras a m\u00e3e e a<br \/>\nav\u00f3 do mo\u00e7o da pedreira. Vinham todas com as roupas do domingo; as duas velhas<br \/>\ntraziam len\u00e7os de ramagem na cabe\u00e7a, e nos ombros xales encarnados de Alcoba\u00e7a.<br \/>\nAs raparigas, com os seus vestidinhos de chita, tinham o ar contrafeito e<br \/>\ngrosseiramente s\u00e9rio das mo\u00e7as de corti\u00e7o; as mangas do casaquinho muito justas,<br \/>\nquase insuficientes, dando dif\u00edcil sa\u00edda a punhos grossos, vermelhos e lustrosos,<br \/>\nterminados em m\u00e3os curtas, socadas, de gordura sangu\u00ednea.<\/p>\n<p>O outro, o da t\u00fanica negra, \u00e9 que Magd\u00e1 n\u00e3o conseguiu reconhecer, a despeito<br \/>\ndos esfor\u00e7os que empregava para isso; s\u00f3 p\u00f4de distinguir-lhe as fei\u00e7\u00f5es quando<br \/>\nele l\u00e1 se achava a uns quarenta passos da choupana. Era seu falecido irm\u00e3o,<br \/>\no Fernando; vinha cor de cad\u00e1ver, muito desfeito; parecia ter sa\u00eddo naquele<br \/>\ninstante da sepultura. Ela estremeceu toda e, com um arranco de anta bravia,<br \/>\npinchou o corpo para fora da toca e abriu num carreir\u00e3o pelo mato.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fujas! gritou Luiz. \u2014 N\u00e3o tenhas medo, que ningu\u00e9m aqui<br \/>\nte quer fazer mal<\/p>\n<p>\u2014 Magd\u00e1! Magd\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 Espera, minha filha!<\/p>\n<p>Era tudo in\u00fatil. Magd\u00e1, completamente una, os cabelos soltos ao vento, l\u00e1<br \/>\nia, por trancos e barrancos, internando-se na floresta. Um fugir vertiginoso<br \/>\nde cabrita assustada! Morros e valados desapareciam atr\u00e1s dela; n\u00e3o havia<br \/>\nencruzamento de cip\u00f3 que lhe tolhesse a marcha, nem espinheiro, por mais bravio,<br \/>\nque lhe quebrasse a f\u00faria. E sentia atr\u00e1s de si uma gritaria infernal e um<br \/>\ntropel confuso de passos r\u00e1pidos.<\/p>\n<p>\u2014 Magd\u00e1! Magd\u00e1! Bradavam-lhe na pista.<\/p>\n<p>E ela corria mais De repente \u2014 parou. Uma voz grossa exclamava-lhe<br \/>\npela frente:<\/p>\n<p>\u2014 Cerca! Cerca!<\/p>\n<p>Em menos de um minuto fecharam-na por todos os lados gritos de ca\u00e7adores<br \/>\ne passos que se aproximavam com vertigem.<\/p>\n<p>\u2014 Cerca! Cerca!<\/p>\n<p>\u2014 Por aqui!<\/p>\n<p>\u2014 Por ali!<\/p>\n<p>E de cada ponto surgiu logo uma cabe\u00e7a de marujo, rompendo a argamassa das<br \/>\nfolhas.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 caiu por terra sem for\u00e7as, as carnes alanhadas, os p\u00e9s em sangue, os<br \/>\ncabelos arrebentados. Incontinente os homens a rodearam, sem todavia nenhum<br \/>\ndeles lhe tocar com um dedo; a prisioneira, estarrecida no ch\u00e3o, arquejava,<br \/>\ncruzando as pernas e os bra\u00e7os para esconder as suas partes vergonhosas. Afinal<br \/>\nchegaram os outros, entre os quais vinha o Luiz, agora mais composto por uma<br \/>\ncapa, que o Conselheiro lhe pusera aos ombros; o primeiro a aproximar-se dela<br \/>\nfoi Fernando, que despiu logo a manta e estendeu-a sobre a nudez da irm\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Minha filha! minha filha! disse o Conselheiro, vergando-se para lhe<br \/>\ndar um beijo. \u2014 Em que estado a encontro, meu Deus! E ordenou aos marinheiros<br \/>\nque improvisassem uma padiola de bamb\u00fas e folhas de bananeira.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco Magd\u00e1 era levada ao ombro daqueles para a cabana. Arrearam-na<br \/>\nsobre o tosco leito fabricado pelo amante; deram-lhe a beber os confortativos<br \/>\nque se foram buscar a bordo com toda a pressa e lavaram-lhe em arnica as feridas<br \/>\nque ainda sangravam.<\/p>\n<p>Quando conseguiu falar, pediu ao pai e ao irm\u00e3o que n\u00e3o a castigassem.<\/p>\n<p>\u2014 Castigar-te, minha filha&#8230;? respondeu o Conselheiro, afagando-a.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o! Nada tenho que te exprobar, porque agora compreendo que o mo\u00e7o<br \/>\nda pedreira te salvou a vida, trazendo-te para o seu desterro. Se eu te obrigasse<br \/>\na ficar l\u00e1 em casa, sozinha comigo, a estas horas estarias sem d\u00favida debaixo<br \/>\nda terra; ao passo que aqui \u2014 vives! e est\u00e1s forte, e bela, e feliz!<br \/>\nN\u00e3o! eu te aben\u00e7\u00f4o, como aben\u00e7\u00f4o a este rapaz, cujos esfor\u00e7os foram muito<br \/>\nmais proveitosos que os do Dr. Lob\u00e3o.<\/p>\n<p>E, palavras ditas, o pai de Magd\u00e1 abra\u00e7ou-se a Luiz.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o desejo contrariar-te&#8230; prosseguiu ele, voltando-se de novo para<br \/>\na rapariga, com os olhos carregados d\u00e1gua, se quiseres continuar a viver aqui,<br \/>\nfica; se quiseres voltar para a minha companhia, eu te receberei e mais ao<br \/>\nteu homem; apenas o que lhes pe\u00e7o. quer v\u00e3o ou fiquem, \u00e9 que se casem e quanto<br \/>\nantes. Trouxe no meu navio um padre e tenho a bordo o necess\u00e1rio para armar<br \/>\no altar.<\/p>\n<p>\u2014 Pois est\u00e1 dito, balbuciou Magd\u00e1. E chegando os l\u00e1bios ao ouvido do<br \/>\npai, disse-lhe um segredo, que a ela pr\u00f3pria fez corar, mas que a ele encheu<br \/>\nde vivo contentamento.<\/p>\n<p>\u2014 Um neto, exclamou o Conselheiro. \u2014 Oh, que felicidade!<\/p>\n<p>Magd\u00e1, afogada em pejo. tapou-lhe a boca com a polpa da m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ter um neto era o meu sonho dourado! Como vou ser feliz no resto<br \/>\nda minha vida!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, papai!&#8230;<\/p>\n<p>Que mal faz que o saibam todos, se vais esposar de teu filho?&#8230; Acaso, desse<br \/>\nmomento em diante; n\u00e3o ficar\u00e1s reabilitada aos olhos do mundo inteiro!<\/p>\n<p>\u2014 Cale-se, papai&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! Deixe-me falar! Deixa-me dar expans\u00e3o \u00e0 minha alegria! N\u00e3o v\u00eas<br \/>\ncomo estou rindo&#8230; . e n\u00e3o sentes, minha filha, estas l\u00e1grimas que me abandonam,<br \/>\nporque o cora\u00e7\u00e3o, de t\u00e3o contente que est\u00e1, as enxota de casa, como in\u00fateis<br \/>\nde hoje em diante? Oh! obrigado, Magd\u00e1! muito obrigado!<\/p>\n<p>De junto, Fernando contemplava-a silenciosamente com o seu im\u00f3vel e apagado<br \/>\nolhar de morto; os bra\u00e7os em cruz sobre o casco do peito; a pele sem brilho;<br \/>\nas barbas ressequidas e cobertas de p\u00f3. Agora \u00e9 que ele de todo se parecia<br \/>\ncom o Cristo da Mater Dolorosa; a irm\u00e3 teve impulsos de ajoelhar-se defronte<br \/>\ndaquela melanc\u00f3lica imagem e rezar. como fazia dantes nas suas tredas esc\u00e1pulas<br \/>\nreligiosas.<\/p>\n<p>Ficou resolvido que o casamento se efetuaria da\u00ed a dois ou tr\u00eas dias com<br \/>\na maior solenidade que lhe pudessem dar. Come\u00e7ou-se logo a construir outra<br \/>\ncasa maior, n\u00e3o mais de bamb\u00fas amarrados com embira e coberta de folhas de<br \/>\npindoba, mas feita de madeiras escolhidas, forrada de t\u00e1buas pela parte de<br \/>\nfora e de lona pela parte de dentro. Mobiliaram-na depois com muito gosto<br \/>\ne sortiram-na com enorme provis\u00e3o de mantimentos cm conserva, e pipas de vinho<br \/>\ne aguardente e latas de bolacha inglesa E vieram tamb\u00e9m aparelhos de porcelana<br \/>\ne lanternas e candieiros, muitas caixas de velas, jarros, quadros, um piano,<br \/>\ncolch\u00e3o, colchas lavradas e roupas de toda a esp\u00e9cie, n\u00e3o esquecendo as j\u00f3ias,<br \/>\nos livros e mais objetos de que se privara Magd\u00e1 ao partir com o cavoqueiro.<\/p>\n<p>\u2014 Mas isto \u00e9 uma mudan\u00e7a completa! Meu pai n\u00e3o deixou nada em terra&#8230;!<br \/>\n\u2014 observou ela, notando as coisas que desembarcavam e reconhecendo-as<br \/>\numa por uma.<\/p>\n<p>Com efeito, vinha tudo; l\u00e1 estavam as lou\u00e7as da Sax\u00f4nia, os candelabros bisantinos,<br \/>\nas peles da Sib\u00e9ria. as velhas tape\u00e7arias do sal\u00e3o de Botafogo, os caprichosos<br \/>\nkakimanos, os espelhos, os damascos bordados a ouro e prata, e os consolos<br \/>\ncom mosaicos de Floren\u00e7a. \u00c9 que o Conselheiro, uma vez que a filha n\u00e3o estivesse<br \/>\nresolvida a acompanh\u00e1-lo, voltaria \u00e0 vida inconstante do mar, para nunca mais<br \/>\nse desprender do seu navio.<\/p>\n<p>Pronta e armada a casa, principiou-se a fazer defronte dela um altar ao ar<br \/>\nlivre, com uma imensa cruz de cedro tosco entre duas palmeiras e fincada num<br \/>\ngrande pedestal de troncos d&#8217;\u00e1rvores, cujos degraus n\u00e3o se viam, era tal a<br \/>\nprofus\u00e3o de flores que os carregava de alto a baixo. Arranjaram-se far\u00f3is<br \/>\npara iluminar toda a ilha, e a tripula\u00e7\u00e3o de bordo saiu, em parte armada de<br \/>\nespingardas, a ca\u00e7ar pela floresta, e em parte carregada de redes para a pescaria.<br \/>\nEngendrou-se uma soberba tenda destinada ao banquete, embandeirou-se tudo<br \/>\ne pregaram-se lanternas chinesas em volta da habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia das bodas cinq\u00fcenta pe\u00e7as de ca\u00e7a e outras tantas de pesca rechinavam<br \/>\ne lourejavam sobre braseiros e fogueiras; grandes tachos de cobre luziam ao<br \/>\nfogo, soprando nuvens de vapor odorante; fabricavam-se os doces mais estimados;<br \/>\nbatiam-se as massas mais delicadas. E os marinheiros, agora de avental branco<br \/>\ne carapu\u00e7a de cozinheiro, cruzavam-se no morro, ora levando largas bra\u00e7adas<br \/>\nde frutas, ora carregando enormes travess\u00f5es de assado, ou conduzindo para<br \/>\n&amp; mesa \u00e2nforas de prata cheias de vinho. Havia uma grande atividade; a<br \/>\nvelha Cust\u00f3dia e a tia Zefa n\u00e3o descansavam um segundo, iam e vinham azafamadas,<br \/>\na saia enrodillhada na cintura, os bra\u00e7os arremangados, t\u00e3o depressa a encher<br \/>\ngarrafas e cangir\u00f5es, como preparando ramilhetes para os jarros ou pejando<br \/>\nas corbelhas com frutas que lhe traziam os marujos. O Conselheiro, sempre<br \/>\nde farda, dirigia todo o servi\u00e7o tal qual como se manobrasse um navio; s\u00f3<br \/>\ndava as suas ordens apitando ou ent\u00e3o gritando por um porta-voz de que se<br \/>\nn\u00e3o separava nunca. E ao seu comando afestoava-se toda a ilha, com uma rapidez<br \/>\nde servi\u00e7o de bordo.<\/p>\n<p>A cerim\u00f4nia religiosa estava marcada para o meio-dia em ponto e devia ser<br \/>\nseguida por uma salva de vinte tiros de canh\u00e3o, toque de caixa e corneta,<br \/>\nrepiques de sino e vivas da marinhagem. O capel\u00e3o havia chegado j\u00e1, acompanhado<br \/>\npor dois marujos vestidos de batina e sobrepeliz, vendo-se-lhes por debaixo<br \/>\nas botas de couro cru, sentindo-se-lhes ranger o cintur\u00e3o e adivinhando-se-lhes<br \/>\na navalha grudada aos largos quadris. Os tur\u00edbulos e a caldeirinha pareciam<br \/>\nem risco de esfarelar-se entre os seus dedos grossos como cabos de enx\u00e1rcia.<br \/>\nAquelas caras marcadas, com a barba feita de fresco e uma faixa branca no<br \/>\nlugar da testa em que o bon\u00e9 n\u00e3o deixara que o sol as encardisse, n\u00e3o pareciam<br \/>\nde gente, e, no entanto, coisa singular! ambas lembravam a carranca do Dr.<br \/>\nLob\u00e3o. Magd\u00e1, ao v\u00ea-las, retraiu-se intimidada e n\u00e3o se animou a dar palavra,<br \/>\nnem a mexer-se do lugar em que estava. Ficou tolhida, a fit\u00e1-las por muito<br \/>\ntempo.<\/p>\n<p>A voz da Justina despertou-a com uma vibra\u00e7\u00e3o estranha, que a fez estremecer<br \/>\ntoda; uma voz que desafinava do resto.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9, mulher perguntou Magd\u00e1, arregalando os olhos sobre ela.<\/p>\n<p>Acordara por instantes, mas n\u00e3o chegou a reconhecer o seu quarto da Tijuca.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, minh&#8217;ama n\u00e3o se veste?&#8230; Fica vosmec\u00ea desse modo a olhar<br \/>\npara mim?&#8230; Vamos, prepare-se&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, tens raz\u00e3o; s\u00e3o horas. D\u00e1-me o banho.<\/p>\n<p>E acrescentou de si para si:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 tudo pronto! J\u00e1 chegou o padre com os seus ajudantes; meu noivo<br \/>\ndeve agora parecer lindo como um Deus! Vou perfurmar-me e fazer-me bela, para<br \/>\nque ele mais se abrase de amor assim que me veja&#8230;<\/p>\n<p>Era o del\u00edrio que prosseguia, mesmo sem a interven\u00e7\u00e3o do sono.<\/p>\n<p>A criada trouxe-lhe o banho que lhe servia todos os dias; ela, por\u00e9m, supondo~se<br \/>\nna sua casa da ilha, tinha que se lavava em \u00e1guas perfumadas e que cortava<br \/>\ne brunia as unhas, alisava os cabelos com \u00f3leo cheiroso, enchia-se de aromas<br \/>\nfinos, e em seguida que se cobria toda de rendas e cambraias e punha um vestido<br \/>\nde veludo branco bordado de prata, cal\u00e7ava meias de seda fin\u00edssima, sapatinhos<br \/>\nde cetim e guarnecia a cabe\u00e7a e o pesco\u00e7o com longos fios de p\u00e9rolas.<\/p>\n<p>Mirou-se no espelho e nunca se achou t\u00e3o bela.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 pronta a noiva! Est\u00e1 pronta a noiva! \u2014 exclamaram de todos<br \/>\nos lados, assim que a viram surgir \u00e0 porta da habita\u00e7\u00e3o, acompanhada pela<br \/>\nJustina.<\/p>\n<p>Os marujos soltaram gritos de entusiasmo.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 volveu os olhos em redor de si e notou, sorrindo, que, nem s\u00f3 as pessoas<br \/>\nque ali estavam, como tamb\u00e9m a natureza inteira, pareciam alegrar-se com a<br \/>\nsua felicidade; mas deixando cair a vista para o fundo do vale, teve um sobressalto:<br \/>\nl\u00e1 em baixo, na fralda do monte, o espectro de Fernando passeava tristemente<br \/>\npor entre as \u00e1rvores, arremedando Cristo no Horto das Oliveiras; tinha os<br \/>\npassos lentos, a figura alquebrada, uma doce resigna\u00e7\u00e3o na fisionomia. Viu<br \/>\ndepois uma mulher aproximar-se dele, atirando-se ao ch\u00e3o para lhe beijar os<br \/>\nbrancos p\u00e9s descal\u00e7os e a f\u00edmbria da sua t\u00fanica rota pelos espinhos e embranquecida<br \/>\npela areia das estradas; reconheceu Rosinha. E a dura melancolia daquele canto<br \/>\nde paisagem, mergulhado na sombra, lembrava Jerusal\u00e9m; e menina do corti\u00e7o,<br \/>\ncom as suas roupas em desalinho, cabelos soltos e cobertos de terra, o rosto<br \/>\nescorrendo de l\u00e1grimas, parecia estrangulada por uma afli\u00e7\u00e3o profunda e fascinadora<br \/>\ncomo a de Maria Madalena. A infeliz abra\u00e7ava-se \u00e0s pernas de Fernando, desfazendo-se<br \/>\nem queixas e lamentos, que Magd\u00e1 n\u00e3o conseguia ouvir; ele, afinal, ergueu-a<br \/>\ncarinhosamente, pousou-lhe a m\u00e3o aberta sobre a cabe\u00e7a, e, terno e comovido,<br \/>\ntornou para o c\u00e9u os olhos castos, onde havia s\u00faplicas de infinita do\u00e7ura.<\/p>\n<p>Rosinha p\u00f4s-se ent\u00e3o a rezar vergada sobre o peito; enquanto o outro se afastava,<br \/>\ncaminhando sutil, que nem uma sombra, por entre as \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 desceu de carreira pela encosta da montanha na dire\u00e7\u00e3o que ele tomara.<br \/>\nO seu vulto de noiva sobressaia errante na azul penumbra dos caminhos como<br \/>\num l\u00edrio levado pelo vento; mas, quando alcan\u00e7ou a campina, j\u00e1 Fernando ia<br \/>\ndistante.<\/p>\n<p>\u2014 Atende! Atende! gritou atr\u00e1s dele.<\/p>\n<p>O espectro n\u00e3o atendeu e l\u00e1 foi por diante, agitando \u00e0s brisas do mar a sua<br \/>\nt\u00fanica solta.<\/p>\n<p>\u2014 Fernando! irm\u00e3o meu amado de minha alma, n\u00e3o me fujas!<\/p>\n<p>E o l\u00edrio precipitava-se pelo vaie, sem conseguir alcan\u00e7ar a sombra dos seus<br \/>\namores.<\/p>\n<p>Venceram assim toda a floresta; a sombra sempre a fugir e o l\u00edrio a persegui-la;<br \/>\nat\u00e9 que chegaram \u00e0s margens da ilha, e Magd\u00e1 viu estender-se o oceano defronte<br \/>\nde seus olhos. E a sombra, a fugir-lhe sempre, ganhou as \u00e1guas, andando por<br \/>\nsobre elas, como Jesus sobre o lago de Genezar\u00e9.<\/p>\n<p>A sonhadora parou na praia, resignada e triste, e o seu olhar acompanhou<br \/>\naquela estremecida sombra fugitiva que se fazia ao largo, at\u00e9 v\u00ea-la desaparecer<br \/>\nde todo no infinito das ondas.<\/p>\n<p>&#8220;Eu como sol a buscar-te&#8230; tu como sombra a fugir-me!.. .&#8221; pensou, tornando<br \/>\nent\u00e3o sobre seus passos, e ajoelhando-se de vez em quando, para beijar em<br \/>\n\u00eaxtases as pegadas que Fernando deixara na areia. Afinal penetrou de novo<br \/>\nna mata e, caminhando distraidamente, chegou \u00e0 fralda da montanha sem dar<br \/>\npor isso, de t\u00e3o preocupada que ia.<\/p>\n<p>Uns solu\u00e7os que vinham do fundo do vale despertaram-na do seu enlevo. Encaminhou-se<br \/>\npara l\u00e1, e descobriu Rosinha, deitada de bru\u00e7os \u00e0 sombra de uma figueira brava,<br \/>\nchorando, com o rosto escondido nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Aproximou-se dela e tocou-lhe no ombro; a outra p\u00f4s-se de p\u00e9 e teve um gesto<br \/>\nde c\u00f3lera quando reconheceu a rival.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 zangada comigo?&#8230; \u2014 perguntou a filha do Conselheiro,<br \/>\nfazendo-se meiga.<\/p>\n<p>\u2014 E a senhora ainda mo pergunta? Rouba-me o noivo e pergunta se estou<br \/>\nzangada! Tem gra\u00e7a!<\/p>\n<p>Magd\u00e1 procurou acalm\u00e1-la, dizendo-lhe com extrema brandura que o Luiz, que<br \/>\nRosinha conhecia do corti\u00e7o, o mo\u00e7o da pedreira, era um ser fant\u00e1stico, um<br \/>\nmito; e que o \u00fanico verdadeiro Luiz, o existente, era o da ilha, o poderoso<br \/>\nmonarca, o senhor daqueles dom\u00ednios, um ente superior, um ente privilegiado<br \/>\npor Deus, que lhe concedera o dom de tomar na terra a encarna\u00e7\u00e3o que lhe aprouvesse.<br \/>\nRosinha que se conformasse com a sorte, coitada! que se resignasse, que tivesse<br \/>\npaci\u00eancia; mas o Luiz, o leg\u00edtimo, o \u00fanico, o rei da ilha, esse lhe pertencia<br \/>\na ela, Magd\u00e1, e nunca seria de nenhuma outra mulher.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 o que veremos! \u2014 replicou a mo\u00e7a do corti\u00e7o, l\u00edvida<br \/>\nde raiva \u2014 N\u00e3o \u00e9 a mim que a senhora convence de que este Luiz n\u00e3o \u00e9<br \/>\naquele mesmo que me havia prometido casamento! Ah, eu n\u00e3o tenho, bem sei,<br \/>\nos seus segredos para o enfeiti\u00e7ar, mas tamb\u00e9m juro-lhe que o verdadeiro amor,<br \/>\no amor que ele me inspirou, sincero e ardente, \u00e9 capaz de tudo e \u00e9 mais poderoso<br \/>\ndo que quantos artif\u00edcios possam imaginar as bruxas da sua esp\u00e9cie! O que<br \/>\nlhe afian\u00e7o pelo menos \u00e9 que eu, desprezada como sou, seria mulher para dar<br \/>\npor ele a minha vida, ao passo que a senhora, s\u00f3 com o fim de se fazer bonita,<br \/>\nlhe tem roubado todo o sangue!<\/p>\n<p>\u2014 Cala-te, miser\u00e1vel!<\/p>\n<p>\u2014 Ah, pensavas que eu n\u00e3o sabia&#8230;? Bem te conhe\u00e7o, vampiro! N\u00e3o \u00e9<br \/>\n\u00e0 toa que o pobre rapaz ultimamente anda t\u00e3o fraco, que nem pode subir \u00e0 pedreira<br \/>\nsem ficar cansado! Ele, o Luiz, dantes mais rijo e mais \u00e1gil que um potro!<br \/>\nAh, mas conto que a tia Zefa h\u00e1 de descobrir que lhes est\u00e1s matando o filho!<br \/>\nLivre-te Deus de que a velha Cust\u00f3dia suspeite de longe o que se tem passado<br \/>\ncom o neto! Aquela velhinha, ali onde a v\u00eas, \u00e9 capaz de arrancar-te a l\u00edngua<br \/>\npela boca, ladra fementida!<\/p>\n<p>E a rapariga do corti\u00e7o, dando em Magd\u00e1 um empux\u00e3o que lhe abalou o corpo<br \/>\ninteiro, exclamou terr\u00edvel:<\/p>\n<p>\u2014 Vai! vai! casa-te com o Luiz! farta-te, loba! A~ festas est\u00e3o prontas!<br \/>\no altar est\u00e1 armado! a cama est\u00e1 juncada de flores! Vai, deita-te, mais ele,<br \/>\ne logo que o tenhas embebedado com o teu alm\u00edscar de cobra trai\u00e7oeira, suga-lhe<br \/>\no resto do sangue, sorve-lhe a \u00faltima gota! Vai, agora \u00e9s a dona do homem,<br \/>\ncomo \u00e9s a rainha desta ilha! Vai; mas eu te juro, sanguessuga, que te hei<br \/>\nde perseguir mesmo depois da tua morte!<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, Magd\u00e1! ent\u00e3o! disse o noivo, aparecendo por entre duas moitas<br \/>\nde crotons. H\u00e1 boas horas que te esperamos l\u00e1 em cima para a celebra\u00e7\u00e3o das<br \/>\nnossas n\u00fapcias, e tu aqui a conversares com esta sujeita. Anda, vamos, meu<br \/>\namor; estou farto de procurar-te!<\/p>\n<p>Ele vinha vestido de veludo carmesim com bot\u00f5es de ouro, cal\u00e7\u00e3o largo, blusa<br \/>\napertada na cintura, donde lhe pendia uma espada cintilante de pedraria; polainas<br \/>\npretas de couro envernizado; chap\u00e9u cinzento de abas largas com uma grande<br \/>\npluma branca que lhe ia at\u00e9 ao pesco\u00e7o, destacando-se do \u00e9bano brilhante dos<br \/>\nseus cabelos encaracolados, como um a pena de gar\u00e7a entremetida na asa de<br \/>\num p\u00e1ssaro negro; capa escura com forro cor de sangue e em volta do colo uma<br \/>\nreluzente cadeia de esmeraldas, safiras e rubis.<\/p>\n<p>Deu-lhe o bra\u00e7o Magd\u00e1; pousando a cabe\u00e7a sobre o ombro dele. E puseram-se<br \/>\nambos a subir a montanha, salpicados pelo sol que se peneirava por entre as<br \/>\nfolhas e chicoteados por um olhar amea\u00e7ador de Rosinha, que resmungava:<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e3o, v\u00e3o, mas que a cama de voc\u00eas dois se transforme num espinheiro<br \/>\nbravo!<\/p>\n<h2><a name=\"17\"><\/a>XVII<\/h2>\n<p>Depois destes del\u00edrios, t\u00e3o complexos, que em parte foram sofridos durante<br \/>\no sono e parte durante as letargias, agora mais repetidas e prolongadas, Magd\u00e1<br \/>\npiorou consideravelmente. Ouviam-se-lhe j\u00e1 no meio da conversa palavras de<br \/>\num sentido estranho, que ningu\u00e9m compreendia; por exemplo: querendo certa<br \/>\nvez dar id\u00e9ia de um grande estampido, disse: &#8221; Fez tamanho estrondo, que nem<br \/>\num rio quando se transforma em mar&#8221;. Os que a escutavam olharam-se entre si<br \/>\ndisfar\u00e7adamente. Outra ocasi\u00e3o, falando de um susto que apanhara, usou desta<br \/>\nfrase: &#8220;Assustei-me ainda mais do que no dia em que o Fernando me foi visitar<br \/>\n\u00e0 ilha&#8221;. E, como estas, fugiam-lhe muitas refer\u00eancias \u00e0 sua vida fant\u00e1stica;<br \/>\ncoisas que ela dizia com a maior naturalidade, enchendo n\u00e3o obstante de l\u00e1grimas<br \/>\nos olhos do Conselheiro e provocando no Dr. Lob\u00e3o um desesperan\u00e7ado sacudir<br \/>\nd&#8217;ombros. Este \u00faltimo se mostrava mais que nunca empenhado no tratamento da<br \/>\nenferma, a ponto de descuidar-se da pr\u00f3pria casa de sa\u00fade \u2014 a menina<br \/>\ndos seus olhos. &#8220;Por\u00e9m n\u00e3o era, dizia ele, a filha do amigo o que tanto o<br \/>\nprendia e interessava, mas simplesmente o caso patol\u00f3gico. Puro interesse<br \/>\nde m\u00e9dico&#8221;.<\/p>\n<p>Justina admirava-se de ver a sua ama t\u00e3o desvelada pela fam\u00edlia do Luiz:<br \/>\nn\u00e3o se passava um s\u00f3 dia sem que Magd\u00e1 lhe fizesse v\u00e1rias perguntas a respeito<br \/>\ndela, principalmente sobre a noiva do cavoqueiro, a rubicunda Rosinha. Quando<br \/>\na criada lhe deu parte de que o casamento estava definitivamente marcado para<br \/>\no seguinte m\u00eas, a senhora estremeceu e encarou-a por tal modo, que a rapariga<br \/>\njulgou v\u00ea-la cair ali mesmo com um ataque de convuls\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 E, ent\u00e3o no m\u00eas que vem?&#8230; interrogou depois. do abalo.<\/p>\n<p>\u2014 Se Deus quiser, minh&#8217;ama. E as roupas da cama est\u00e3o quase prontas,<br \/>\nque era s\u00f3 o que faltava. Ah! eu penso com o Luiz que a gente n\u00e3o deve casar<br \/>\nsem ter arranjado umas tantas coisas, como n\u00e3o \u00c9 muito feio casar-se uma pessoa<br \/>\nsem enxoval, inda que seja um enxoval pobre, mas contanto que cheire a novo!<\/p>\n<p>Da\u00ed em diante a filha do Conselheiro indagava quotidianamente da criada &#8220;se<br \/>\no casamento era sempre no mesmo dia&#8221;, como se contasse com qualquer inesperado<br \/>\nincidente que o transferisse ou desmanchasse de um momento para outro. Todavia,<br \/>\na sua exist\u00eancia quim\u00e9rica dos sonhos prosseguia com a mesma regularidade:<br \/>\nUma vez casada com o belo e encantador pr\u00edncipe, declarou ao pai que n\u00e3o se<br \/>\nachava disposta a abandonar a ilha, e pediu-lhe que a fosse visitar de quando<br \/>\nem quando, visto que ele agora tencionava ficar para sempre erradio sobre<br \/>\nas \u00e1guas do mar. O Conselheiro retirou-se triste com os seus companheiros<br \/>\nde viagem, deixando aos desposados tudo o que de sup\u00e9rfluo havia a bordo e<br \/>\na Justina para os servir. A vida ideal dos dois amantes tornou-se ent\u00e3o muito<br \/>\nhumana, muito deliciosa e f\u00e1cil. Comiam em baixelas de prata e em porcelanas<br \/>\nda \u00cdndia; bebiam em ta\u00e7as de cristal da Bo\u00eamia; vestiam-se confortavelmente<br \/>\nde linho, veludo e seda; tinham leito macio e, \u00e0 noite, fechados no doce aconchego<br \/>\ndo lar, Magd\u00e1 cantava \u00e0s vezes ao piano e de outras lia em voz alta, para<br \/>\nentreter o marido, ou jogavam as cartas antes do ch\u00e1. Luiz em breve j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nera o mesmo selvagem, gra\u00e7as \u00e0 mulher, que lhe dava li\u00e7\u00f5es de leitura, de<br \/>\nescrita, de desenho e de m\u00fasica, o que ele aprendia tudo com um talento verdadeiramente<br \/>\nsobrenatural.<\/p>\n<p>E assim viveram felizes at\u00e9 ao dia em que a filha do Conselheiro percebeu<br \/>\nque ia ser m\u00e3e. Preparou-se o ninho e ela deu \u00e0 luz sem a menor dificuldade,<br \/>\nnem o mais ligeiro vislumbre de dor: um parir silencioso e tranq\u00fcilo como<br \/>\no dos vegetais.<\/p>\n<p>Era menino. Forte, moreno, de cabelos e olhos pretos; o mais extraordin\u00e1rio,<br \/>\npor\u00e9m, \u00e9 que a crian\u00e7a n\u00e3o se parecia com o pai, nem com a m\u00e3e; parecia-se<br \/>\ncom o Fernando. N\u00e3o o Fernando escaveirado e espetral que lhe apareceu na<br \/>\nilha, mas o dos bons tempos de Botafogo; aquele belo mo\u00e7o a quem ela tanto<br \/>\namara e tanto desejara possuir. O pequeno tinha a mesma do\u00e7ura no olhar, o<br \/>\nmesmo enternecimento no sorriso; eram as mesmas fei\u00e7\u00f5es e a mesma palidez<br \/>\naveludada e fresca. Magd\u00e1 amamentava-o pensando no irm\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Como havemos de cham\u00e1-lo? perguntou Luiz.<\/p>\n<p>\u2014 Fernando! Est\u00e1 claro, respondeu ela.<\/p>\n<p>E a partir da\u00ed, Magd\u00e1 vivia nos seus sonhos exclusivamente para o filho.<br \/>\nEra feliz, muito feliz com essa nova dedica\u00e7\u00e3o o que absorvia todas as outras;<br \/>\nmas acordada, uma dolorosa tristeza pungia-lhe a alma \u00e0 vista dos seus mesquinhos<br \/>\nseios, fanados e emurchecidos antes de tempo, como fruta perdida que n\u00e3o chegou<br \/>\na sazonar. Vinham-lhe l\u00e1grimas aos olhos quando comparava o seu magro corpo<br \/>\nda vida real com a opulenta carna\u00e7\u00e3o que na outra vida possu\u00eda; chorava contemplando<br \/>\na pobreza das suas esp\u00e1duas de t\u00edsica, considerando os seus quadris sem curvas,<br \/>\na exiguidade dos seus bra\u00e7os, a mis\u00e9ria das suas pernas de esqueleto; chorava<br \/>\nmirando no espelho o seu rosto de m\u00famia, os seus l\u00e1bios secos e estalados;<br \/>\nchorava observando de perto as suas m\u00e3os transparentes e tr\u00eamulas.<\/p>\n<p>E come\u00e7ou ent\u00e3o a preferir o sonho \u00e0 realidade; tomava-se de amares por ele<br \/>\n\u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se aborrecia desta Aquela dura repugn\u00e2ncia cheia de \u00f3dio,<br \/>\nque sentia acordada contra o fiel companheiro dos seus del\u00edrios e contra si<br \/>\npr\u00f3pria, n\u00e3o a experimentava absolutamente contra o filho; ao contr\u00e1rio: sempre<br \/>\nque se lembrava deste entezinho fant\u00e1stico, possu\u00eda-se de ternura, como se<br \/>\nele com efeito lhe houvera sa\u00eddo das entranhas. Agora at\u00e9 era a primeira a<br \/>\nprovocar o sono ou a letargia. Muitas vezes, de repente, tais saudades lhe<br \/>\nacudiam do pequenino, que a infeliz chegava a tomar laudamo para dormir mais<br \/>\ndepressa e por mais tempo; e adormecia sorrindo de contentamento e pedindo<br \/>\na Deus que lhe fizesse os sonhos bem longos, intermin\u00e1veis; e acordava amaldi\u00e7oando<br \/>\na vida real, contrariada e triste sem achar consola\u00e7\u00f5es para a aus\u00eancia do<br \/>\nseu filhinho amado.<\/p>\n<p>E este amor de m\u00e3e foi crescendo tanto e enfolhando t\u00e3o depressa, que o Luiz<br \/>\nafinal se resguardava perfeitamente \u00e0 sombra dele. Magd\u00e1, quando acordada,<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o o maldizia; j\u00e1 n\u00e3o sentia aquela negra avers\u00e3o, aquele nojo, que lhe<br \/>\ninspirava dantes o mo\u00e7o da pedreira. Oh! dava-se agora justamente o oposto:<br \/>\nquando, da janela do seu quarto, ela via o pobre diabo passar l\u00e1 em baixo<br \/>\npara o trabalho, ficava compungida e acompanhava-o com um enternecido olhar<br \/>\nde bondade; tinha at\u00e9 desejos de o chamar e dizer-lhe: &#8220;Olha, Luiz, deixa<br \/>\naquele est\u00fapido servi\u00e7o da pedreira; sobre ser muito bruto, \u00e9 muito ingrato!<br \/>\nAli um homem est\u00e1 sempre com a vida em perigo; a rocha \u00e9 traidora! n\u00e3o confies<br \/>\nna submiss\u00e3o com que ela consente que lhe retalhem todos os dias o ventre;<br \/>\nl\u00e1 uma bela vez, quando menos o esperares, zanga-se, e ai de ti, meu amigo,<br \/>\nser\u00e1s devorado! O cavoqueiro \u00e9 como o domador de feras: acaba sempre nas garras<br \/>\nda que ele explora&#8230; Olha, queres saber? vem c\u00e1 para casa; o que ai n\u00e3o falta<br \/>\ns\u00e3o c\u00f4modos desocupados, e sobra sempre \u00e0 mesa bastante comida!&#8221; E, de bom<br \/>\ngrado, Magd\u00e1 pediria ao Conselheiro para tomar ao seu servi\u00e7o o pobre rapaz;<br \/>\nn\u00e3o porque ela o quisesse perto de si \u2014 nada disso! \u2014 mas simplesmente<br \/>\npara lhe fazer bem, para o tornar um pouco menos desgra\u00e7ado. &#8220;E, como lhe<br \/>\nquerer mal?&#8230; como n\u00e3o o estimar, coitado, se ele no fim de contas era o<br \/>\nc\u00famplice do seu crime e ao mesmo tempo o da sua felicidade? Se n\u00e3o fosse Luiz,<br \/>\nela n\u00e3o possuiria um filho, e o filho era para Magd\u00e1 a melhor coisa do mundo!<\/p>\n<p>Sim, no seu esp\u00edrito alucinado j\u00e1 n\u00e3o protestavam conveni\u00eancias sociais,<br \/>\nnem tradi\u00e7\u00f5es de costumes, nem h\u00e1bitos de donzela; o seu pudor despira-se;<br \/>\nagora s\u00f3 o que lhe dominava o esp\u00edrito, o que lhe enchia o cora\u00e7\u00e3o, era a<br \/>\nid\u00e9ia do filho; era a m\u00edstica loucura desse amor vision\u00e1rio por aquela crian\u00e7a<br \/>\nde olhos meigos, que estava sempre a cham\u00e1-la de longe, l\u00e1 das misteriosas<br \/>\nmargens da ilha encantada dos seus sonhos; era a saudade dessa criaturinha<br \/>\nideal, que ela j\u00e1 no podia deixar de ver, n\u00e3o s\u00f3 todas as noites durante o<br \/>\nsono, mas a todo o instante, na deliciosa ins\u00e2nia dos seus \u00eaxtases.<\/p>\n<p>O filho era a sombra de Fernando; ela vivia para esta sombra.<\/p>\n<h2><a name=\"18\"><\/a>XVIII<\/h2>\n<p>E entanto, na verdadeira casa de Luiz, na casinha do corti\u00e7o, as coisas corriam<br \/>\nde modo muito diverso.<\/p>\n<p>A\u00ed \u00e9 que havia sincero contentamento e leg\u00edtima felicidade; aproximava-se<br \/>\no dia do cas\u00f3rio do rapaz e, tanto a noiva como as duas velhas, resplandeciam<br \/>\nde j\u00fabilo. Falava-se desde pela manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 noite no grande assunto, e discutiam-se<br \/>\nj\u00e1 os doces, o carname, o peixe frito e a vinha\u00e7a da pagodeira.<\/p>\n<p>Ah! que eles teriam uma festa para se ver, ningu\u00e9m o punha em d\u00favida. &#8220;Como<br \/>\nn\u00e3o? Seriam os primeiros da fam\u00edlia que se cassassem \u00e0 capucha, como a\u00ed qualquer<br \/>\novelha sem pastor! N\u00e3o! que para isso, gra\u00e7as a Deus, ainda havia quatro vint\u00e9ns<br \/>\nno fundo da arca!&#8221; E a velha Cust\u00f3dia, a tia Zefa e a Rosinha saracoteavam<br \/>\npela estalagem, mesmo durante o servi\u00e7o, a responder para a direita e para<br \/>\na esquerda; a falar com este, a dar trela \u00e0quele, sem sossegar um instante,<br \/>\na rir, a papaguear, e sempre com o casamento na boca. Agora cantavam mais<br \/>\ndurante o trabalho, mas nem por isso labutavam menos. A pequena, muito roli\u00e7a<br \/>\ne esfogueada pelo ferro de engomar, mostrava a toda amiga que a visitava o<br \/>\nseu vestido de cambraia branca, o seu v\u00e9u, a sua grinalda, o seu ramo de cravos<br \/>\nartificiais, como as suas camisas e as suas an\u00e1guas novas em folha, algumas<br \/>\nat\u00e9 com renda Estava provida de tudo; ningu\u00e9m o podia negar! &#8220;S\u00f3 vestidos<br \/>\nde chita, dessa \u00e0 moda, tinha cinco prontos e fazenda para outros tantos;<br \/>\nmeias \u2014 que fazia pena cal\u00e7\u00e1-las, de t\u00e3o lindas; e muita pe\u00e7a de morim<br \/>\npara len\u00e7\u00f3is e roupa branca, e belas fronhas bordadas, e mais uma colcha de<br \/>\nl\u00e3. \u2014 Ah! Ah! \u2014 verde e amarela, com as armas imperiais no centro,<br \/>\nque era uma grandeza!&#8221;<\/p>\n<p>A Justina dava de vez em quando uma escapula at\u00e9 l\u00e1 e voltava entusiasmada,<br \/>\nfalando pelos cotovelos. No dia em que se esperava a tal cama prometida pelo<br \/>\npadrinho do Luiz, ela n\u00e3o parou cinco minutos em casa dos amos; t\u00e3o depressa<br \/>\na viam a\u00ed, como no corti\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 chegou? Pois ainda n\u00e3o veio? Oh, que demora! \u2014 Quem sabe<br \/>\nse o homem n\u00e3o manda,&#8230; Ele \u00e9 t\u00e3o agarrado!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! H\u00e1 de vir! Ainda n\u00e3o deu meio-dia. Com poucas ela a\u00ed est\u00e1!<\/p>\n<p>E havia no corti\u00e7o uma grande impaci\u00eancia pela chegada da cama. A cama era<br \/>\no grande acontecimento do dia!<\/p>\n<p>\u2014 Vir\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vir\u00e1?<\/p>\n<p>Fizeram-se apostas na estalagem. Rosinha, de instante a instante, largava<br \/>\no ferro e corria \u00e0 porta, para dar uma vista d&#8217;olhos pela rua; de uma das<br \/>\nvezes voltou saltando, batendo palmas e a gritar como louca:<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed vem ela! A\u00ed vem ela!<\/p>\n<p>E, com efeito, na esquina da rua surgiram seis negros descal\u00e7os e em mangas<br \/>\nde camisa, a cantarem em voz alta, equilibrando na cabe\u00e7a uma enorme cama<br \/>\ndo tempo antigo; bastante usada, mas polida de novo. Vinha armada e trazia<br \/>\nj\u00e1 o colch\u00e3o, os len\u00e7\u00f3is e um par de grandes travesseiros.<\/p>\n<p>Era toda de jacarand\u00e1 com embutidos de madeira amarela, muito larga; tinha<br \/>\nforma de caix\u00e3o, e o espelho de cabeceira media nunca menos de dez palmos<br \/>\nde altura. Dos quatro cantos erguiam-se colunas oitavadas, de uns tr\u00eas metros<br \/>\nde comprimento, sustentando uma formid\u00e1vel c\u00fapula de feitio de um chap\u00e9u do<br \/>\nChile, a que quadrassem as abas, forrada por dentro e por fora de cetim azul<br \/>\nj\u00e1 desbotado. No alto das colunas, e sobressaindo dos \u00e2ngulos do sobrec\u00e9u,<br \/>\naprumavam-se dois pares de respeit\u00e1veis ma\u00e7anetas que pareciam quartinhas<br \/>\nda Bahia.<\/p>\n<p>Foi um sucesso em todo o quarteir\u00e3o a chegada desta velha rel\u00edquia dos bons<br \/>\ntempos: os vizinhos de Luiz assomaram \u00e0 janela, atra\u00eddos pelo grosseiro canto<br \/>\ndos africanos; o corti\u00e7o inteiro agitou-se; as lavadeiras abandonaram as tinas<br \/>\ne os coradouros e vieram ruidosamente ao port\u00e3o da estalagem, com os bra\u00e7os<br \/>\nnus, saias arrepolhadas no quadril, mostrando pernas sem meias e grossos p\u00e9s<br \/>\nmetidos em tamancos; a pequenada descal\u00e7a acompanhava os carregadores numa<br \/>\ngrande algazarra; o homem da venda acudiu em camisa de meia, o peito muito<br \/>\ncabeludo aparecendo; pretos e pretas, que andavam nas compras do jantar, estacionaram<br \/>\nem frente ao corti\u00e7o com a cesta no bra\u00e7o; negras minas pararam para olhar,<br \/>\nmonologando em voz alta, o tabuleiro na cabe\u00e7a, e na m\u00e3o um banquinho de pau;<br \/>\nalgumas traziam ainda um filho escarranchado atr\u00e1s, nos rins, e encueirado<br \/>\nnuma toalha, cujas pontas elas amarravam na cintura. A velha Cust\u00f3dia apareceu,<br \/>\nlevando enfiada nos dedos uma meia, que serzia; a tia Zefa e mais a Rosinha,<br \/>\nessas n\u00e3o se puderam conter, e foram logo ao encontro dos carregadores, gritando,<br \/>\nralhando, afastando com berros a molecagem que n\u00e3o se arredava nem \u00e0 m\u00e3o de<br \/>\nDeus Padre; Luiz, l\u00e1 do alto da pedreira, onde estava trabalhando a essas<br \/>\nhoras, mal compreendeu pelo movimento da rua que a sua cama chegava, desgalgou<br \/>\no morro e precipitou-se de carreira para o corti\u00e7o, nu da cintura para cima,<br \/>\nmuito suado e coberto do p\u00f3 branco da pedra.<\/p>\n<p>Os carregadores chegaram por fim defronte do port\u00e3o da estalagem, pararam<br \/>\na um s\u00f3 tempo, e, depois, com uma certa manobra especial, volveram para o<br \/>\nlado da entrada, continuando sempre a cantar; seguiram enfim, e os curiosos<br \/>\nseguiram atr\u00e1s deles. O corti\u00e7o foi invadido por muita gente e ent\u00e3o principiou<br \/>\na verdadeira balb\u00fardia. Destacavam-se os gritos do Luiz, da tia Zefa e da<br \/>\nRosinha.<\/p>\n<p>\u2014 Olha como a viras. estupor! Queres quebrar-lhe as ma\u00e7anetas?<\/p>\n<p>\u2014 For\u00e7a mais para a esquerda, com os diabos!<\/p>\n<p>\u2014 Arriba!<\/p>\n<p>\u2014 Vira!<\/p>\n<p>\u2014 Abaixa!<\/p>\n<p>\u2014 Olha a \u00e1rvore!<\/p>\n<p>Todos se metiam a ajudar, mas o demonh\u00e3o da cama n\u00e3o entrava, nem mesmo pelos<br \/>\nfundos da casa.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o sei p&#8221;ra que um espantalho deste<\/p>\n<p>tamanho!<\/p>\n<p>\u2014 E o que tem voc\u00ea com isso. Meta-se l\u00e3 com a sua vida!<\/p>\n<p>\u2014 Ali dormem seis casais \u00e0 larga<\/p>\n<p>\u2014 Podia caber-lhe a fam\u00edlia toda em riba!<\/p>\n<p>\u2014 Arrea!<\/p>\n<p>\u2014 Livra!<\/p>\n<p>\u2014 Torce!<\/p>\n<p>J\u00e1 a gaiola de um papagaio, que havia na parede, tinha ido pelos ares, levando<br \/>\no louro preso na corrente, a gritar como se o estivessem matando; um pequeno,<br \/>\nfilho de uma lavadeira, berrava com um tromp\u00e1sio que apanhara sem saber de<br \/>\nquem. &#8220;Era bem feito, para n\u00e3o ser intrometido!&#8221; O c\u00e3o da casa, junto com<br \/>\nos da vizinhan\u00e7a, protestava energicamente contra a invas\u00e3o daquele monstro<br \/>\nde jacarand\u00e1 que tudo revolucionava. Fazia-se um catatau infernal; todos aconselhavam;<br \/>\ntodos queriam mandar; todos falavam ao mesmo tempo; mas, por melhor que gritassem:<br \/>\n&#8220;Arrea! \u2014 Torce! \u2014 Levanta! \u2014 Agasta! \u2014 Ag\u00fcenta! \u2014<br \/>\nP\u00e1ra!&#8221; o monstro n\u00e3o passava do quintal e, mesmo para chegar l\u00e1, fora preciso<br \/>\narrancarem-se algumas estacas da cerca que separava a casa do corti\u00e7o.<\/p>\n<p>Afinal, um marceneiro do bairro, quieto at\u00e9 a\u00ed a presenciar a fun\u00e7\u00e3o com<br \/>\num superior e mudo desd\u00e9m, disse, torcendo o cavaignac: &#8220;que se quisessem,<br \/>\nele desmancharia aquela carangueijola e comprometia-se a arm\u00e1-la no quarto,<br \/>\ntal qual como a entregassem&#8221;. Surgiram logo mil opini\u00f5es; umas contra e outras<br \/>\na favor da proposta, e s\u00f3 depois de calorosa discuss\u00e3o, em que o marceneiro<br \/>\nn\u00e3o deu palavra, resolveram desarmar o monstro.<\/p>\n<p>\u2014 Ora. que pena! lamentavam.<\/p>\n<p>\u2014 Que l\u00e1stima n\u00e3o entrar armada!<\/p>\n<p>A cama foi levada para o meio do quintal, e o homem do cavaignac, que tinha<br \/>\nfeito vir j\u00e1 a sua ferramenta, meteu m\u00e3os \u00e0 obra, cercado de gente por todos<br \/>\nos lados. Rebentaram de novo, ao redor, os coment\u00e1rios, as chufas e os dit\u00e9rios.<\/p>\n<p>Luiz, ao lado da noiva, acotovela-a, sorrindo e piscando o olho para o lado<br \/>\ndos colch\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Ali em cima \u00e9 que eu te quero pilhar!&#8230; considerou, dando-lhe uma<br \/>\npontada no bojo do quadril.<\/p>\n<p>Rosinha conteve o riso e resmungou, abaixando os olhos:<\/p>\n<p>\u2014 Este sem vergonha!&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, entre todos os curiosos que presenciavam a espetaculosa chegada<br \/>\ndo leito nupcial do cavoqueiro, o mais impressionado n\u00e3o estava ali, nem na<br \/>\nrua, estava sim l\u00e1 defronte, na casa de S. Ex., espiando por detr\u00e1s das grades<br \/>\nde uma das janelas do sobrado.<\/p>\n<p>Era Magd\u00e1.<\/p>\n<p>Estranho abalo punha-lhe nos sentidos aquela escandalosa exibi\u00e7\u00e3o de cama<br \/>\nem pleno ar livre. Vendo-a, como a viu, publicamente armada e feita, patenteando<br \/>\nsem o menor escr\u00fapulo o seu largo colch\u00e3o para dois, com travesseiros duplos,<br \/>\nafigurava-se-lhe ter defronte dos olhos um altar que se trazia de longe, para<br \/>\na ementa e religiosa cerimonia do desfloramento de uma virgem. Havia alguma<br \/>\ncoisa de pag\u00e3o e b\u00e1rbaro em tudo aquilo; alguma coisa que a levava a pensar<br \/>\nna paradis\u00edaca impud\u00eancia dos seus sonhados amores; alguma coisa que a levava<br \/>\nde rastros, puxada pelos cabelos, para a vermelha sensualidade dos seus del\u00edrios.<\/p>\n<p>A cama, apesar de recolhida ao corti\u00e7o, n\u00e3o desapareceu para ela, que continuou<br \/>\na v\u00ea4a com a imagina\u00e7\u00e3o, j\u00e1 muito maior, fantasticamente grande. Depois, viu<br \/>\nsurgir, deitado de barriga para o ar sobre o colch\u00e3o, a dormir, completamente<br \/>\nnu, como nos primeiros dias da ilha, o Luiz \u2014 esse homem com quem afinal<br \/>\ntodo o seu ser se habituara, nem se com efeito houvera passado com ele as<br \/>\nmelhores noites da sua vida.<\/p>\n<p>Depois, viu surgir um pequenito ao lado do cavoqueiro; reconheceu o filho,<br \/>\ne notou, sobressaltada, que este chorava de susto. Procurou o que metia medo<br \/>\n\u00e0 crian\u00e7a, e descobriu ent\u00e3o aos p\u00e9s da cama, que atingira propor\u00e7\u00f5es colossais,<br \/>\ntr\u00eas mulheres: uma muito mo\u00e7a, outra de meia idade e a terceira j\u00e1 bastante<br \/>\nvelha, e todas desesperadas por lhes n\u00e3o ser poss\u00edvel subir at\u00e9 onde estava<br \/>\nLuiz. Magd\u00e1 observava isto do alto, imaginando-se no interior da c\u00fapula do<br \/>\nleito, cujo cetim azul a pouco e pouco se estrelava, transformando-se em um<br \/>\nc\u00e9u, onde ela se mantinha suspensa como se tivesse asas.<\/p>\n<p>E notou que a mais mo\u00e7a das tr\u00eas mulheres levantava aflitivamente para ela<br \/>\no olhar afogado em l\u00e1grimas, pedindo-lhe por amor de Deus que lhe restitu\u00edsse<br \/>\no seu noivo.<\/p>\n<p>\u2014 Ele n\u00e3o serve para a senhora, exclamava a m\u00edsera entre solu\u00e7os; \u00e9<br \/>\num pobre-diabo muito \u00e0 toa; muito grosseiro, s\u00f3 serve mesmo para uma rapariga<br \/>\nde corti\u00e7o como eu! Restitua-me o Luiz, senhora! N\u00e3o lhe tire mais sangue!<br \/>\nn\u00e3o o mate, n\u00e3o o mate, por tudo o que V. Ex. mais estima na vida! Se lhe<br \/>\ndesagrada v\u00ea-lo comigo, juro-lhe que nunca estarei com ele; que n\u00e3o nos casaremos;<br \/>\nprometo que iremos os dois cada um para seu lado; prometo o que a senhora<br \/>\nquiser; tudo, tudo! mas, por amor de Deus, n\u00e3o o mate, n\u00e3o o mate, minha rica<br \/>\nsenhora!<\/p>\n<p>Magd\u00e1 riu-se, e a rapariga, vendo que as suas s\u00faplicas eram baldadas, atirou-se<br \/>\nao ch\u00e3o, estrangulada pelo pranto. Ent\u00e3o a velhinha, amea\u00e7ando a filha do<br \/>\nConselheiro com o punho fechado, gritou col\u00e9rica:<\/p>\n<p>\u2014 Malvada, p\u00f5e j\u00e1 p&#8217;ra c\u00e1 o meu neto ou ruim praga te perseguir\u00e1 para<br \/>\nsempre! Larga o homem que n\u00e3o \u00e9 teu! Entrega o seu a seu dono, ou que Deus<br \/>\nNosso Senhor te rache a madre com o mal dos l\u00e1zaros!<\/p>\n<p>E Luiz continuava a dormir. E Magd\u00e1 sorria, de m\u00e1.<\/p>\n<p>A outra mulher enxugou os olhos e pegou ent\u00e3o de falar, suplicante:<\/p>\n<p>\u2014 Senhora, minha senhora, tenha d\u00f3 de uma pobre m\u00e3e!&#8230; D\u00ea c\u00e1 o meu<br \/>\nfilho, d\u00ea c\u00e1 o meu querido Luiz! Ah, se vosmec\u00ea soubesse o que \u00e9 ser m\u00e3e,<br \/>\ncom certeza n\u00e3o mo negaria&#8230; D\u00ea-mo, bem v\u00ea que o reclamo de joelhos&#8230; Se<br \/>\na sua quest\u00e3o \u00e9 de beber sangue, aqui estou eu \u2014 sou forte, muito mais<br \/>\nforte do que ele. .. repare para as minhas cores; veja como tenho as carnes<br \/>\nrijas e socadas; comprometo-me a deixar que vosmec\u00ea me sugue at\u00e9 \u00e0 \u00faltima<br \/>\ngota; mas, por quem \u00e9, poupe-me o rapaz, que o pobrezinho j\u00e1 n\u00e3o pode mais<br \/>\naliment\u00e1-la&#8230; est\u00e1 muito fraco, est\u00e1 quase com a pele nos ossos!<\/p>\n<p>Magd\u00e1 sorriu ainda e Luiz n\u00e3o acordou; o pequenito \u00e9 que parecia agora muito<br \/>\nintimidado por aqueles clamores: calara-se de medo, e, engatinhando, fora<br \/>\nat\u00e9 \u00e0s bordas do colch\u00e3o, cuja superf\u00edcie se havia por \u00faltimo coberto de relva<br \/>\nAs mulheres, logo que deram com ele, come\u00e7aram a atirar-lhes pedras; estas,<br \/>\npor\u00e9m, n\u00e3o chegavam ao seu destino, porque a cama, sempre a crescer, era j\u00e1<br \/>\num grande morro plantado de bamb\u00fas. E, como os lados do leito se transformaram<br \/>\nem declives de montanha, as tr\u00eas puseram-se a subir, chamando por Luiz e correndo<br \/>\nem dire\u00e7\u00e3o ao menino; este abriu de novo a chorar, fugindo; e Magd\u00e1, percebendo-o<br \/>\nem risco, precipitou-se do alto e foi cair ao seu lado, tratando logo de resguard\u00e1-lo<br \/>\ncom o corpo e gritando ao mesmo tempo pelo marido.<\/p>\n<p>~ Mas o lugar em que ela agora se julgava j\u00e1 n\u00e3o era um descampado relvoso;<br \/>\nvia-se dentro da sua casa fant\u00e1stica na ilha ao lado do filho e do marido;<br \/>\nperfeitamente abrigada e defendida. L\u00e1 fora roncava uma tempestade, estralejando<br \/>\nno espa\u00e7o, entre uivos de feras assustadas.<\/p>\n<p>\u2014 Que barulho \u00e9 este? \u2014 perguntou Magd\u00e1, abra\u00e7ando-se ao esposo,<br \/>\nmuito tr\u00eamula.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenhas medo, minha flor, \u00e9 a tempestade.<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o ouviste vozes de gente, a gritar?<\/p>\n<p>\u2014 Qual! Era o vento que sibilava nos bambus.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o! Eu ouvi perfeitamente! Entendi tudo o que diziam!<\/p>\n<p>\u2014 Sonhavas, com certeza&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, Deus queira que tenhas raz\u00e3o, porque n\u00e3o podia ser mais horr\u00edvel<br \/>\no que se passava&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que foi ?<\/p>\n<p>\u2014 Sonhava, imagina tu, que ias casar com a Rosinha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas como, se eu sou casado contigo?<\/p>\n<p>\u2014 E chegava a cama para o teu noivado, e depois a cama se transformava<br \/>\nnuma montanha e a tua suposta fam\u00edlia vinha disputar-te contra mim e queria<br \/>\nmatar a pedradas o nosso filho.<\/p>\n<p>\u2014 Que loucura! respondeu o esposo com um riso de homem feliz.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, foi loucura, foi um sonho que felizmente j\u00e1 passou, e vejo-te<br \/>\na meu lado, fiel e amoroso como sempre. N\u00e3o \u00e9 verdade que s\u00f3 a mim amas e<br \/>\nao nosso filhinho? Fala, meu querido!<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e3o verdade quanto \u00e9 mentira o que sonhavas; mas dorme, sim? dorme<br \/>\nde novo, que precisas muito de repouso.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 adormeceu com a cabe\u00e7a no colo do marido imagin\u00e1rio e acordou a valer<br \/>\nnos bra\u00e7os de Justina.<\/p>\n<p>\u2014 Como se sente, minh&#8217;ama?<\/p>\n<p>\u2014 Perfeitamente.<\/p>\n<p>E acrescentou, depois de uma pausa: \u2014 Aquece um pouco de leite para<br \/>\ndar ao Fernandinho, ouviste?<\/p>\n<p>Justina olhou muito s\u00e9ria para a senhora e n\u00e3o se achou com \u00e2nimo de dizer<br \/>\nnada.<\/p>\n<p>\u2014 Ora esta!&#8230; pensou. \u2014 De que Fernandinho falar\u00e1 ela?&#8230;<\/p>\n<p>E saiu do quarto benzendo-se toda.<\/p>\n<p>O Conselheiro, a quem a rapariga foi logo comunicar o disparate da ama, correu<br \/>\na ter com a filha; mas, durante as longas horas cm que conversaram, n\u00e3o lhe<br \/>\napanhou uma s\u00f3 palavra que levasse a desconfiar da sua raz\u00e3o. Magd\u00e1, ao contr\u00e1rio,<br \/>\nparecia muito senhora das suas faculdades e at\u00e9 menos nervosa que de costume.<\/p>\n<p>\u2014 Com certeza era tolice da criada.<\/p>\n<h2><a name=\"19\"><\/a>XIX<\/h2>\n<p>Assim chegou a v\u00e9spera do casamento de Luiz com Rosinha. Haviam escolhido<br \/>\num domingo e achava-se tudo quase pronto para o grande regabofe: a casa foi<br \/>\nesfregada por dentro e por fora com sab\u00e3o e areia; n\u00e3o ficou um \u00e1tomo de p\u00f3<br \/>\nnas paredes, um sinal de escarro no assoalho, nem uma teia de aranha no teto.<br \/>\nDesde a porta da rua at\u00e9 \u00e0 cozinha recamou-se o ch\u00e3o de folhas de mangueira<br \/>\ne trevo cheiroso, pregaram-se arcos de verdura em todas as portas; pediram-se<br \/>\ncadeiras, lou\u00e7as, copos e talheres emprestados a amigos para que nada faltasse<br \/>\nna ocasi\u00e3o do banquete; mandaram-se vir dois garraf\u00f5es, um de vinho e outro<br \/>\nde parati, o tacho de a\u00e7\u00facar n\u00e3o saiu do fogo e encheram-se compoteiras e<br \/>\ntigelas de doce de coco, de ara\u00e7\u00e1, de leite, de ovos, de goiaba, marmelo,<br \/>\nbananas, sem contar com bolos e pudins \u2014 uma orgia de a\u00e7\u00facar! O forno<br \/>\ndo padeiro, que lhes fornecia o p\u00e3o, prestou-se a assar um peru, um quarto<br \/>\nde carneiro, um leit\u00e3o e um grande alguidar de arroz, guarnecido de azeitonas<br \/>\ne rodelas de ling\u00fci\u00e7a. Trabalhou-se at\u00e9 \u00e0 meia-noite em preparar o aposento<br \/>\ndos noivos. A formid\u00e1vel cama l\u00e1 estava, atravancando tudo; houve grandes<br \/>\ndiscuss\u00f5es na ocasi\u00e3o de coloc\u00e1-la porque aqueles n\u00e3o queriam, por coisa nenhuma<br \/>\ndesta vida, ficar com os p\u00e9s para o lado da rua, &#8220;que era de mau agouro!&#8221;<br \/>\nResolveu-se a dificuldade condenando a porta da alcova e estabelecendo passagem<br \/>\npor uma janela aberta sobre a salinha de jantar. Era um pouco ma\u00e7ante ter<br \/>\nde entrar e sair do quarto aos pulos, l\u00e1 isso era; mas, antes assim do que<br \/>\nficar com os p\u00e9s para a rua. &#8220;Deus te livre!&#8221;<\/p>\n<p>A cama estava imponente: descia-lhe da c\u00fapula um enorme cortinado de labirinto,<br \/>\nque a av\u00f3 do Luiz, em quando mo\u00e7a, recebera como presente de uma senhora.<br \/>\ndo Porto, a cujo filho amamentara antes de vir para o Brasil; arrepanhavam-no<br \/>\npelas extremidades, \u00e0 base das quatro colunas, grandes ramos de flores naturais,<br \/>\ndonde pendiam la\u00e7os de cetim azul, baratinho, mas muito vistoso. Por cima<br \/>\nda famosa colcha auri-verde com armas brasileiras figurava uma cerimoniosa<br \/>\ncobertura de rendas, sobre a qual se desfolharam rosas e bogaris; e l\u00e1 no<br \/>\nalto, por fora do sobrec\u00e9u, esparralhado contra o teto, um imenso feixe de<br \/>\ntinhor\u00f5es e crotons.<\/p>\n<p>\u2014 Que lindo! diziam comovidos.<\/p>\n<p>Ao lado da cama. A que n\u00e3o se podia subir sem o aux\u00edlio de uma cadeira, estendeu-se<br \/>\num tapete j\u00e1 surrado, mas onde se distinguia ainda o desenho de um le\u00e3o em<br \/>\nrepouso; a um canto do quarto uma retrete com bra\u00e7os, e de outro uma pequena<br \/>\nmesa de pinho, coberta de chita at\u00e9 aos p\u00e9s, tendo em cima uma lamparina de<br \/>\nazeite e um econ\u00f4mico orat\u00f3rio de madeira pintada, com uma Virgem que desaparecia<br \/>\nengolida no seu desproporcionado resplendor de prata. N\u00e3o se podia ir de uma<br \/>\n\u00e0 outra banda do aposento sem galgar por cima do leito.<\/p>\n<p>O cas\u00f3rio fez-se no dia marcado, \u00e0s dez da manh\u00e3, numa igreja do Andarai-Grande.<br \/>\nQue pagode \u2014 Os noivos foram e voltaram a bonde, seguidos por uma d\u00fazia<br \/>\nde convidados de ambos os sexos e mais os padrinhos e as madrinhas; todos<br \/>\nem gala de domingo. Muita roupa de cor, muita \u00e1gua fl\u00f3rida, muita j\u00f3ia maci\u00e7a<br \/>\ne tosca, e muita pilh\u00e9ria de tirar couro e cabelo. O tempo ajudava; fazia<br \/>\num belo sol de inverno, alegre e comunicativo. Rosinha, baixota, bem socada,<br \/>\nparecia mais vermelha no seu vestido de cassa branca, e o enorme v\u00e9u de cambraia<br \/>\npouco transparente e dura que a envolvia da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, dava-lhe um feitio<br \/>\npiramidal de p\u00e3o de a\u00e7\u00facar. Ia muito encalistrada sob a vista curiosa dos<br \/>\npassageiros estranhos \u00e0 festa; n\u00e3o ergueu os olhos durante toda a viagem e<br \/>\nas m\u00e3os suavam4he com o grande ramo simb\u00f3lico, cuja haste ela mantinha sobre<br \/>\no peito, como quem segura o cabo de um estandarte. O Luiz, \u00e0 sua esquerda,<br \/>\nmostrava-se, ao contr\u00e1rio, muito senhor de si e quase petulante de ventura;<br \/>\nvestia cal\u00e7a e palet\u00f3 de pano preto, novo em folha; nada de colete; tinha<br \/>\ngrandes sapatos de bezerro, engraxados, chap\u00e9u de lebre e gravata branca de<br \/>\ncetim com um alfinete de ouro atravessando o la\u00e7o. O casaco fechava-se-lhe<br \/>\nsobre o est\u00f4mago, deixando ver um peito de camisa, que era a \u00faltima express\u00e3o<br \/>\nda arte de reduzir o pano \u00e0 madeira por meio do polvilho e do ferro de engomar;<br \/>\nde t\u00e3o duro e violento, rompia por entre as golas da roupa e abaulava-se arrogante<br \/>\nnuma s\u00f3 curva de alto a baixo; tr\u00eas bot\u00f5ezinhos de osso tingido de vermelho<br \/>\ndesfrutavam a suprema honra de guarnecer esta preciosidade. Levava dobrado<br \/>\nao pesco\u00e7o, para resguardar o colarinho do suor, um len\u00e7o usado pela primeira<br \/>\nvez, e no bolso do len\u00e7o trazia o rel\u00f3gio, com o trancelim bem \u00e0 mostra por<br \/>\ncima do peito. E todo ele rescendia ao \u00f3leo e \u00e0 brilhantina do barbeiro.<\/p>\n<p>Quando, ultimada a cerim\u00f4nia religiosa, tornaram para casa, com a id\u00e9ia no<br \/>\nresistente almo\u00e7o preparado. foram \u00e0 porta da rua surpreendidos por um oficleide,<br \/>\num piston, um clarinete e um sax, que os perseguiam desd&#8217;a\u00ed at\u00e9 \u00e0 sala de<br \/>\njantar, tocando furiosamente; era uma ova\u00e7\u00e3o feita ao rec\u00e9m-casado pelos seus<br \/>\ncompanheiros de trabalho, que l\u00e1 se achavam todos, mais ou menos endomingados.<br \/>\nA refei\u00e7\u00e3o correu de princ\u00edpio ao fim muito alegre e animada; n\u00e3o havia cerim\u00f4nia;<br \/>\nera comer e beber \u00e0 vontade; fizeram-se os brindes do estilo e trocaram-se<br \/>\nentre risadas as cl\u00e1ssicas chala\u00e7as, com que essa boa gentinha dos corti\u00e7os<br \/>\ncostuma frizar brejeiramente a vexada felicidade dos noivos. Rosinha teve<br \/>\nde repetir, por v\u00e1rias vezes a frase de repreens\u00e3o: &#8220;Este sem vergonha!&#8230;&#8221;<br \/>\nDepois da mesa engendrou-se um forrobod\u00f3 e foi dan\u00e7ar pr&#8217;a\u00ed at\u00e9 o diabo dizer<br \/>\nbasta!<\/p>\n<p>Um pagod\u00e3o! S\u00f3 uma coisa contrariava ao cavoqueiro: era ver entre aquelas<br \/>\nmo\u00e7as, todas elas gente direita, a peste de uma bruaca que morava l\u00e1 perto,<br \/>\numa tal D. Helena Guimar\u00e3es, a quem a velha Cust\u00f3dia se lembrara de convidar.<\/p>\n<p>\u2014 Ora pistolas!<\/p>\n<p>\u2014 Mas que mal te fez a pobre de Cristo? &#8211; perguntou-lhe a av\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei! E&#8217; mulher de m\u00e1 vida!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, n\u00e3o senhor, foi! Hoje n\u00e3o tem o que se lhe diga&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Porque est\u00e1 canh\u00e3o! ningu\u00e9m a quer para nada! Aparecesse um tolo&#8230;<br \/>\ne ver\u00edamos!<\/p>\n<p>\u2014 Coitada!<\/p>\n<p>\u2014 Um estupor, que parece estar metendo pela cara dos outros aquele<br \/>\nvestido de seda mais velho que a S\u00e9! Um raio de uma biraia toda cheia de n\u00e3o<br \/>\nme toques, com uma cara de que tudo lhe fede, e a abanar-se como no teatro!<br \/>\nM\u00e1 peste a lamba!<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o maneiras, filho!<\/p>\n<p>\u2014 Maneiras! Eu dava-lhas, mas havia de ser com um bom marmelo! Dem\u00f4nio<br \/>\nde um calhama\u00e7o, que tisna as farripas e pinta os olhos para parecer bonita?<br \/>\nUma lata toda rebocada, que at\u00e9 faz nojo!<\/p>\n<p>E escarrou de esguelha. \u2014 N\u00e3o! Com certeza seria melhor que ela c\u00e1<br \/>\nn\u00e3o estivesse!<\/p>\n<p>E tinha raz\u00e3o. Ali, no meio daquela \u00e1spera gente do trabalho, gente de honestidade<br \/>\nferoz, entre a qual o adult\u00e9rio do homem \u00e9 t\u00e3o severamente punido como o da<br \/>\nesposa, a figura da tal I)~. Helena Guimar\u00e3es destacava-se mais do que uma<br \/>\nn\u00f3doa de lama no meio de uma camisa de algod\u00e3o lavado. Na roda das prostitutas,<br \/>\nseria um ornamento alegre, uma nota c\u00f4mica \u2014 faria rir; mas ali servia<br \/>\napenas para constranger aos que queriam folgar em liberdade. Felizmente, por\u00e9m,<br \/>\no estupor, mal acabou de jantar, ergueu-se e retirou-se logo, confessando-se<br \/>\nindisposta. Sem d\u00favida foi para casa vomitar as tripas, que est\u00f4magos daqueles<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o resistem \u00e0 forte comida dos que se levantam antes do sol e trabalham<br \/>\ndoze horas por dia.<\/p>\n<p>Pela volta das nove da noite surgiram como por encanto as violas e as guitarras,<br \/>\ne o pagode tomou novo car\u00e1ter. Pegou-se ent\u00e3o de cantar o Fado Corrido, o<br \/>\nMalh\u00e3o, a Caninha Verde e a Espadelada. Come\u00e7ava a verdadeira festa.<\/p>\n<p>Justina, que era louca pelo Fado, tratou de esgueirar-se, fugindo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o j\u00e1 te raspas ? perguntou-lhe a irm\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Minh&#8217;ama est\u00e1 s\u00f3&#8230; respondeu num tom misterioso e apressado.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ainda \u00e9 cedo&#8230; dan\u00e7a ao menos uma roda e vai-te ao depois.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o! A pobrezinha est\u00e1 muito ruim! N\u00e3o imaginas, est\u00e1 como nunca;<br \/>\nat\u00e9 parece que j\u00e1 n\u00e3o regula bem!&#8230;<\/p>\n<p>A outra fez um espanto e quis informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei, filha, mol\u00e9stias de fam\u00edlia. O doutor disse outro dia que a m\u00e3e<br \/>\ntamb\u00e9m acabara mal.<\/p>\n<p>\u2014 E ela ainda pergunta por n\u00f3s ?<\/p>\n<p>\u2014 Sempre. Inda hoje me perguntou pelo Luiz&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Coitada!<\/p>\n<p>\u2014 Mas adeus, adeus, que j\u00e1 l\u00e1 est\u00e3o gritando por teu nome! Vai, filha,<br \/>\nvai! Se me bispa o Man\u00e9l das Iscas n\u00e3o me desgarra t\u00e3o cedo!<\/p>\n<p>Ao sair, na carreira que a Justina levava para atravessar a rua, um capad\u00f3cio,<br \/>\ntresandando a cacha\u00e7a e cambaleando, deu-lhe uma atraca\u00e7\u00e3o. A rapariga desviou<br \/>\no corpo e soltou-lhe tal punhada pelas ventas, que o borracho rodou sobre<br \/>\nos calcanhares e z\u00e1s \u2014 por terra! Ela seguiu adiante.<\/p>\n<p>\u2014 Diabo dos vagabundos! resmungou; mas, ao transpor o port\u00e3o da ch\u00e1cara<br \/>\ndo Conselheiro, ria-se com a id\u00e9ia do trambolh\u00e3o que pregara ao tipo. \u2014<br \/>\nBem feito! \u00e9 para n\u00e3o se fazer de tolo c\u00e1 p&#8217;ra meu lado!<\/p>\n<p>Encontrou a senhora ainda acordada, a cismar, estendida no div\u00e3 da alcova.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, que tal correu a festa! perguntou Magd\u00e1 com um bocejo.<\/p>\n<p>A criada deu conta de tudo; descreveu o lindo que estava a casa; o rico que<br \/>\nfoi o banquete; o muito que se dan\u00e7ou durante o dia; a gente que l\u00e1 se achava,<br \/>\nnomeando um por um todos os convidados.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, minh&#8217;ama, vosmec\u00ea n\u00e3o faz id\u00e9ia! N\u00e3o me fica bem a mim falar,<br \/>\nmas esteve que se podia ver! Nada faltou! At\u00e9 sorvetes, creia!<\/p>\n<p>E passou aos pormenores: citou os pratos que se exibiram, as garrafas que<br \/>\nse enxugaram. &#8220;Uma coisa era ver e outra dizer!&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 E o quarto?&#8230; acrescentou com interroga\u00e7\u00e3o de assombro, o quarto<br \/>\ndos noivos?! Ah, que lindo! Todo forradinho de novo, com um papel azul de<br \/>\nramagens brancas. Metia gosto! E a cama? S\u00f3 len\u00e7\u00f3is de linho \u2014 quatro!<br \/>\ne mais tr\u00eas de algod\u00e3o; n\u00e3o contando as colchas!<\/p>\n<p>\u2014 Sete len\u00e7\u00f3is?<\/p>\n<p>E, porque a ama fizesse um certo ar de estranheza: \u2014 Para n\u00e3o manchar<br \/>\no colch\u00e3o, como n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Ah &#8230;. fez Magd\u00e1, caindo em si.<\/p>\n<p>\u2014 E o colch\u00e3o \u00e9 novo em folha! O homem saiu-se!<\/p>\n<p>\u2014 Que homem?<\/p>\n<p>\u2014 O padrinho do Luiz, o Ant\u00f4nio Pechinch\u00e3o! Pois quem foi que lhe deu<br \/>\na cama?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim.<\/p>\n<p>\u2014 E&#8217; um traste que mete respeito. Aquilo deita a netos!<\/p>\n<p>E, vendo que a senhora mostrava interesse, continuou a dar \u00e0 l\u00edngua, particularizando<br \/>\nos epis\u00f3dios mais insignificantes da fun\u00e7\u00e3o, repetindo as partidas que se<br \/>\nderam, narrando pilh\u00e9rias, contando os namoros, os ci\u00fames, e afinal! \u2014<br \/>\nAi! a Caninha Verde! &#8220;Que pena n\u00e3o poder ficar para ver!&#8221; Depois, sem se conter<br \/>\ne rindo envergonhada, confessou a festa que lhe fez o Manuel das Iscas. &#8220;Pois<br \/>\no dem\u00f4nio do homem n\u00e3o lhe tocou em casar?&#8230; Ora que asneira!&#8230; uma vi\u00fava<br \/>\nm\u00e3e de tr\u00eas filhos pode l\u00e1 pesar nisso!&#8230;&#8221; E por ai foi. no calor do entusiasmo,<br \/>\nderretendo em palavras o seu bom humor condimentado com os brindes desse dia.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 escutava-a. im\u00f3vel, sem lhe opor uma palavra; agora assentada; o queixo<br \/>\nenterrado entre as m\u00e3os, os cotovelos fincados sobre as coxas magras. L\u00e1 fora,<br \/>\nna casa. dos noivos, continuavam a cantar ao desafio, ao som plangente das<br \/>\nguitarras; e aquela m\u00fasica simples e melanc\u00f3lica, dissolvida num lamento harmonioso<br \/>\ne continuo, ora chorado por voz de homem, ora solu\u00e7ado por voz de mulher,<br \/>\nchegava aos ouvidos dela, embebida em deliciosas m\u00e1goas de amor. Ro\u00eda como<br \/>\numa saudade; gemia mais triste que a derradeira esperan\u00e7a quando abre as asas<br \/>\ne desfere o v\u00f4o, para nunca mais voltar.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe, minh&#8217;ama! exclamou de s\u00fabito Justina.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 ele que. est\u00e1 cantando agora! E&#8217; o Luiz!<\/p>\n<p>Magd\u00e1 ergueu-se com um sobressalto e correu \u00e0 janela. Era, com efeito, a<br \/>\nvoz do seu companheiro da outra vida:<\/p>\n<p>&#8220;Tu a amar-me e eu a amar-te,<\/p>\n<p>N\u00e3o sei qual ser\u00e1 mais firme!<\/p>\n<p>Eu como sol a buscar-te;<\/p>\n<p>Tu como sombra a fugir-me!&#8221;<\/p>\n<p>E um coro de vozes abafadas respondia:<\/p>\n<p>&#8220;Verde no mar<\/p>\n<p>Anda \u00e0 roda do vapor.<\/p>\n<p>Ainda est\u00e1 para nascer<\/p>\n<p>Quem h\u00e1 de ser<\/p>\n<p>o meu amor.&#8221;<\/p>\n<p>E os olhos de Magd\u00e1 orvalharam-se de ternura, e o seu cora\u00e7\u00e3o enlangueceu<br \/>\ndolente, como se aquela voz, t\u00e3o meiga e t\u00e3o sentida, a estivesse chamando<br \/>\nl\u00e1 da misteriosa ilha dos seus amores.<\/p>\n<p>\u2014 Escute, escute, minh&#8217;ama! Agora \u00e9 a Rosinha!<\/p>\n<p>&#8220;Se fores domingo \u00e0 missa,<\/p>\n<p>Fica em lugar que eu te veja,<\/p>\n<p>N\u00e3o fa\u00e7as andar meus olhos<\/p>\n<p>Em leil\u00e3o por toda a igreja!&#8221;<\/p>\n<p>E vinha logo o lamentoso estribilho, cujas \u00faltimas notas se prolongavam surdamente<br \/>\ne morriam de leve, como ora\u00e7\u00f5es feitas no alto mar em noites de tempestade.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 estava num enlevo. Depois de Rosinha Luiz cantou de novo, e outros<br \/>\ne outros os sucederam, e desafio foi se prolongando, e o tempo correndo, at\u00e9<br \/>\nque veio a madrugada surpreend\u00ea-la ainda esquecida \u00e0 janela, na esperan\u00e7a<br \/>\nde reconhecer entre aquelas vozes, e ouvi-la inda uma vez, a voz do seu fant\u00e1stico<br \/>\namante.<\/p>\n<p>\u2014 Ele n\u00e3o canta mais?&#8230; perguntou, afinal, \u00e0 criada.<\/p>\n<p>Justina sacudiu os ombros e disse entre dois bocejos que &#8220;era natural que<br \/>\no rapaz j\u00e1 se tivesse ido aninhar junto com a noiva&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m s\u00e3o horas e vosmec\u00ea devia fazer outro tanto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Outro tanto, como?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Devia deitar-se; descansar o corpo. S\u00e3o mais que horas?<\/p>\n<p>\u2014 Que horas s\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Caminha pr&#8217;as quatro.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1? Creio que eles n\u00e3o cantam mais&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, minha senhora, acabou-se o pagode. Vosmec\u00ea quer que eu a adorme\u00e7a<br \/>\nno meu colo?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Voc\u00ea est\u00e1 caindo de sono.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que hoje lidei tanto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois recolha-se.<\/p>\n<p>\u2014 E minh&#8217;ama, n\u00e3o se deita?<\/p>\n<p>\u2014 Sim; j\u00e1 vou. Durma&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vosmec\u00ea sente alguma coisa ?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; suponho que n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, fa\u00e7a-me a vontade, sim? recolha-se tamb\u00e9m; agasalhe-se, minh&#8217;ama.<\/p>\n<p>E Justina foi fechar a janela e conseguiu obrigar a senhora a ir para a cama.<\/p>\n<p>Mas a filha do Conselheiro n\u00e3o podia dormir; sentia-se inquieta, sobressaltada,<br \/>\ncheia de estranha e dolorosa impaci\u00eancia; uma impaci\u00eancia sem objetivo; um<br \/>\ndesejar vago, sem contornos; um querer, fosse o que fosse, que ela n\u00e3o lograva<br \/>\ndeterminar lucidamente, por melhores esfor\u00e7os que fizesse. Deram cinco horas;<br \/>\nseis. Magd\u00e1 ergueu-se de novo, fren\u00e9tica, atordoada, enfiou o sobretudo de<br \/>\nl\u00e3, agasalhou a cabe\u00e7a e o pesco\u00e7o num xale de seda e p\u00f4s-se a passear no<br \/>\nquarto. Agora o que mais lhe apertava o cora\u00e7\u00e3o era uma enorme saudade do<br \/>\nfilho; precisava v\u00ea-lo, abra\u00e7\u00e1-lo, devor\u00e1-lo de beijos.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! que falta lhe fazia o sonho!&#8230; disse ela, torcendo-se de ansiedade.<\/p>\n<p>Foi ter \u00e0 janela da saleta cont\u00edgua \u00e0 sua alcova e ficou a olhar abstratamente<br \/>\nl\u00e1 para fora. O dia acordava, estremunhado, remanch\u00e3o, pregui\u00e7oso, sem \u00e2nimo<br \/>\nde abrir de todo as p\u00e1lpebras sonolentas, espiando por entre as cambraias<br \/>\nda neblina: n\u00e3o havia linhas de horizonte, n\u00e3o havia contornos definidos;<br \/>\nera tudo uma acumula\u00e7\u00e3o de n\u00e9voas, onde mal se pressentiam apagadas sombras.<br \/>\nNem viva alma se destacava; nem um s\u00f3 trabalhador passava para o servi\u00e7o;<br \/>\na pedreira transparecia apenas, como se estivesse mergulhada dentro de uma<br \/>\ngrande opala derretida. E, aos olhos de Magd\u00e1, tudo aquilo principiou de afigurar<br \/>\numa natureza em embri\u00e3o, um mundo ainda informe, em estado gasoso; alguma<br \/>\ncoisa que j\u00e1 existia e que ainda n\u00e3o vivia: um ovo ainda n\u00e3o galado por Deus.<\/p>\n<p>Mas, da\u00ed a pouco, no fundo desse caos opaco, no \u00e2mago daquela albumina, a<br \/>\nmontanha come\u00e7ou a bulir, a mexer-se como um corpo em gesta\u00e7\u00e3o, e depois a<br \/>\nagitar-se como um feto que quer nascer.<\/p>\n<p>A infeliz delirava l\u00e1.<\/p>\n<p>E ela distinguiu que o imenso feto, sequioso de vida, espeda\u00e7ava a cris\u00e1lida<br \/>\ne, erguendo a cabe\u00e7a, sacudia c\u00e1 fora, \u00e0 luz do dia, a treva dos seus cabelos;<br \/>\ne nessa cabe\u00e7a, Magd\u00e1 enxergava olhos que eram ternos e humanos, e l\u00e1bios<br \/>\nque sorriam de amor. E viu em seguida o gigante erguer os bra\u00e7os e romper<br \/>\nas nuvens de alto a baixo, e p\u00f4s-se de p\u00e9, altivo e risonho, tocando com a<br \/>\nfronte nas estrelas que a cingiam e constelavam de r\u00e9gio diadema.<\/p>\n<p>E reconheceu logo o seu amante.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, enfim! exclamou num brado de contentamento, estendendo-lhe os<br \/>\nbra\u00e7os e pedindo-lhe entre l\u00e1grimas de gozo, que sem demora a arrebatasse<br \/>\nl\u00e1 para a outra vida ideal da fantasia. Nessa ocasi\u00e3o, porem, outro gigante<br \/>\ninda maior assomara para al\u00e9m das bandas do oriente, e este agora vinha formid\u00e1vel<br \/>\ne terr\u00edvel, armado da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, irradiando fogo; e, s\u00f3 com o dardejar<br \/>\ne reluzir do seu escudo, desmaiavam no c\u00e9u as densas t\u00edmidas e palpitantes,<br \/>\nfugia a lua assustada, e a terra tremia toda como a noiva na primeira noite<br \/>\ndas bodas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Magd\u00e1 viu entristecida a cicl\u00f3pica figura do seu amado abalar-se e<br \/>\nestremecer tamb\u00e9m, depois ir empalidecendo, at\u00e9 volver-se de novo montanha,<br \/>\nagora resfraldada de gazes cor de p\u00e9rola, que se rasgavam e desteciam aos<br \/>\nraios do sol nascente; enquanto ao redor surgiam aqui e acol\u00e1 pontas de igrejas<br \/>\ne \u00e2ngulos de chalets esmaltados pela aurora, e repontavam grupos de \u00e1rvores<br \/>\ne saiam no ch\u00e3o manchas verdes que logo se transformavam em hortas e jardins,<br \/>\ne alvejavam curvas tortuosas que se desfaziam em ruas e caminhos, e pontos<br \/>\nnegros que eram carro\u00e75es de lixo, e outros menores e ligeiros que eram carrocinhas<br \/>\nde p\u00e3o; e pareciam vacas a tilintar o chocalho \u00e0 porta das ch\u00e1caras; e homens<br \/>\nde jaquet\u00e3o \u00e0 balega e chap\u00e9u desabado apregoando perus, frutas ou garrafas<br \/>\nvazias; e lavadeiras com imensas trouxas de roupa na cabe\u00e7a; e pretas e pretos<br \/>\ncarregando altos tabuleiros de verdura ou de carne fresca. E ouviam-se vozes<br \/>\nde gente, choro e riso de crian\u00e7as. latir de c\u00e3es, cantar de galos, rodar<br \/>\nde seges; um esfalfado zunzum de mundo gasto e enfermo, que acorda contra<br \/>\na vontade, inalteravelmente, como na v\u00e9spera, para vegetar mais um dia de<br \/>\nt\u00e9dio, \u00e0 espera da morte.<\/p>\n<p>E Magd\u00e1 afastou-se da janela e fechou-a com \u00edmpeto, cheia de horror e cheia<br \/>\nde nojo pelo mundo.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, que mis\u00e9ria! Oh, que mis\u00e9ria, meu Deus!<\/p>\n<p>E cerrou os olhos para n\u00e3o ver nada, e tapou os ouvidos para nada ouvir;<br \/>\nmas, apesar disso, sentia, nauseada, que ali estava a sua alcova de doente,<br \/>\no seu leito impregnado de mol\u00e9stia. a mesinha de cabeceira coberta de abomin\u00e1veis<br \/>\nfrascos de rem\u00e9dio; a enfermeira, a Justina, ressonando a um canto, sobre<br \/>\num colch\u00e3o, de papo para o ar, a boca aberta, o peito almofadado, meio \u00e0 mostra,<br \/>\ne uma perna, brutalmente gorda, aparecendo estirada por entre os len\u00e7\u00f3is.<\/p>\n<p>E isto era a vida! \u2014 Que horror! que horror! \u2014 Que abje\u00e7\u00e3o! \u2014<br \/>\nQue porcaria!<\/p>\n<p>E Magd\u00e1 saiu do quarto para n\u00e3o espancar com os p\u00e9s a criada, para n\u00e3o esbofetear<br \/>\na sua pr\u00f3pria sombra; furtando-se daquilo, tudo desorientada, inconsol\u00e1vel,<br \/>\ncom \u00e2nsias de desertar do mundo, de fugir de si mesma, do seu pr\u00f3prio corpo,<br \/>\nda sua pr\u00f3pria alma. E, no entanto \u2014 as saudades do filho a crescerem,<br \/>\na crescerem-lhe por dentro, cada vez mais, alastrando como hera florida e<br \/>\nvi\u00e7osa por entre ru\u00ednas.<\/p>\n<p>E nada de chegar o sonho ou o del\u00edrio! \u2014 Que desespero!<\/p>\n<p>Oh, mas precisava ver o filho no mesmo instante, readquiri-lo; matar aquele<br \/>\ndesensofrido desejo que a devorava com exig\u00eancia de um v\u00edcio profundo, adquirido<br \/>\nna primeira idade; precisava refugiar-se nele \u2014 no seu Fernando \u2014<br \/>\nno seu amado, que era todo casto, amoroso e lindo, que era todo ideal e puro,<br \/>\ne nada tinha deste mundo e com esta vida, est\u00fapidos ambos, e ambos dessorados<br \/>\npor enfermidades e por paix\u00f5es de toda a casta, infames, monstruosas e mesquinhas!<\/p>\n<p>Correu \u00e0 mesa dos medicamentos, rebuscou entre os vidros o de l\u00e1udano, apoderou-se<br \/>\ndele com avidez e tomou uma grande dose.<\/p>\n<p>No fim de algum tempo, viu, por\u00e9m, que nem assim lhe acudia o sono ou a letargia.<br \/>\n\u2014 Que supl\u00edcio! \u2014 Apenas ficava estonteada, presa de t\u00eanue vertigem,<br \/>\nque de quando em quando lhe apagava a luz dos olhos. Entrou no mesmo estado<br \/>\npelo dia alto, muito abstrata, andando por toda a casa como uma son\u00e2mbula.<br \/>\nAo lanche das duas horas da tarde, o pai quis det\u00ea-la no seu lado e obrig\u00e1-la<br \/>\na conversar; ela escapou-lhe por entre os dedos e fugiu em sil\u00eancio para o<br \/>\nandar superior, olhando a espa\u00e7os para tr\u00e1s, desconfiada.<\/p>\n<p>Agora, neste momento, n\u00e3o sentia nada, absolutamente nada, que a incomodasse;<br \/>\nnem enxaquecas, nem dores na espinha, nem dorm\u00eancia nas pernas; j\u00e1 n\u00e3o a perseguiam<br \/>\no gosto de sangue e o cheiro de magn\u00f3lia; via-se leve, como se estivesse oca,<br \/>\nvaporosa, aeriforme; sentia-se capaz de voar e de manter-se sobre uma pluma<br \/>\nsem a abater. E dava-se ainda um outro fen\u00f4meno bem curioso: a vida real parecia-lhe<br \/>\nagora o sonho, e o sonho afigurava-se-lhe a vida real; os fatos verdadeiros<br \/>\nembaralhavam-se-lhe na mente, confundiam-se uns com os outros, fragmentavam-se,<br \/>\ndifundiam-se, escapavam; ao passo que os mais insignificantes pormenores da<br \/>\nsua vida fant\u00e1stica lhe permaneciam inteiros no esp\u00edrito, claros e seguros<br \/>\n\u00e0 mem\u00f3ria, como os cantos de um poema decorado na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Queria lembrar-se do que, acordada, fizera na v\u00e9spera; do que fizera havia<br \/>\npoucos instantes, e n\u00e3o conseguia rememorar coisa alguma; enquanto que ainda<br \/>\nlhe cantavam no ouvido, bem l\u00facidas e sonoras, as mais remotas palavras de<br \/>\nLuiz, e ainda sentia nos l\u00e1bios a impress\u00e3o dos \u00faltimos beijos de seu filho.<br \/>\nRecordava-se de toda a sua exist\u00eancia fict\u00edcia, instante por instante; poderia<br \/>\nnarr\u00e1-la inteira, seguida; descrev\u00ea-la de princ\u00edpio a fim, sem lhe esquecer<br \/>\num epis\u00f3dio; e, no entanto, estranhava a sala em que estava, sem poder determinar<br \/>\nque casa era aquela e donde tinham vindo aqueles objetos que a cercavam.<\/p>\n<p>Volvia surpreendida os olhos em torno de si, alheia ao lugar; nada, de quanto<br \/>\na sua vista lobrigava, lhe trazia \u00e0 raz\u00e3o a sombra mais sutil de uma reminisc\u00eancia.<br \/>\nAfinal, deu com um dos grandes espelhos que havia erguidos sobre os consolos,<br \/>\ne mirou-se, deixando escapar uma longa exclama\u00e7\u00e3o de pasmo.<\/p>\n<p>Desconhecera-se.<\/p>\n<p>Aproximou-se mais da sua l\u00edvida e descarnada imagem, profundamente abismada<br \/>\nde se ver t\u00e3o feia. Virou-se de um para outro lado e voltou-se para tr\u00e1s,<br \/>\nprocurando quem era aquela m\u00famia, aquela horrorosa criatura que se refletia<br \/>\nl\u00e1 no espelho.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! n\u00e3o! murmurou, sem se alterar e at\u00e9 sorrindo. \u2014 A que<br \/>\naparece l\u00e1 n\u00e3o sou eu. \u00c9 imposs\u00edvel<\/p>\n<p>E sacudia com a cabe\u00e7a, punha a l\u00edngua de fora, arregalava os olhos. O vidro<br \/>\nreproduzia tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que seja eu, insistia a desgra\u00e7ada, fugindo<br \/>\nda sua sombra e gritando, a correr pela sala: \u2014 Eu tenho sangue nos<br \/>\nl\u00e1bios, brilho nos olhos, frescura na pele! meus peitos s\u00e3o carnudos e suculentos<br \/>\ncomo duas mangas picadas por passarinho! meu corpo \u00e9 todo cheio e torneado<br \/>\ncomo o da novilha que foi coberta e ainda n\u00e3o pariu! Eu sou a mais formosa<br \/>\nentre as mulheres da terra, por isso meu amado me escolheu entre todas! Quando<br \/>\neu vou ter com ele, ando depressa, sacudindo as saias, e a barra do meu vestido<br \/>\nrescende que nem a baunilha e a trevo-cheiroso<\/p>\n<p>Justina acudiu aos lascivos gritos da senhora. O Conselheiro n\u00e3o foi logo,<br \/>\nporque nessa ocasi\u00e3o fazia a sesta no div\u00e3 do seu gabinete.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o que \u00e9 isso, minh&#8217;ama?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! n\u00e3o! aquela que ali estava n\u00e3o era eu!&#8230; Bem sei que isto n\u00e3o<br \/>\npassa de uma extravag\u00e2ncia de sonho!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 porque vosmec\u00ea est\u00e1 muito fraca&#8230; Quer que lhe v\u00e1 buscar o caldinho?&#8230;.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 n\u00e3o respondeu; olhava fixamente para as suas m\u00e3os angulosas e desfeadas.<br \/>\nDepois, com uma careta de repugn\u00e2ncia, tenteou-se toda e ficou a tomar nos<br \/>\ndedos a magreza das suas coxas.<\/p>\n<p>Mas riu-se logo, repetindo, a apalpar-se:<\/p>\n<p>\u2014 Que sonho extravagante! Que sonho engra\u00e7ado!<\/p>\n<p>E ia de novo ao espelho e apontava para a sua figura, e ria&#8211;se a bandeiras<br \/>\ndespregadas, como \u00e9bria.<\/p>\n<p>\u2014 Que sonho! Que sonho!<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, minh&#8217;ama, posso ir buscar-lhe o caldinho?..<\/p>\n<p>Magd\u00e1 p\u00f4s-se muito s\u00e9ria e correu para junto da criada, como se s\u00f3 ent\u00e3o<br \/>\ntivesse dado pela sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Heim? Que \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Pergunto se vosmec\u00ea quer tomar o seu caldo?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que caldo?<\/p>\n<p>\u2014 Ora essa O seu caldinho das tr\u00eas horas.<\/p>\n<p>\u2014 Tr\u00eas horas!<\/p>\n<p>\u2014 Da tarde, minh&#8217;ama. Eu lho trago j\u00e1.<\/p>\n<p>E Justina saiu, resmungando: \u2014 Coitada! Inda ontem t\u00e3o senhora de si<br \/>\ne j\u00e1 hoje d\u00e1 para n\u00e3o dizer coisa com coisa!&#8230; Mas isto h\u00e1 de passar, \u00e9 fraqueza<br \/>\ntalvez!&#8230; ela, coitadinha, ainda n\u00e3o meteu nada p&#8217;ra o est\u00f4mago!&#8230;<\/p>\n<p>Da\u00ed a um instante voltava \u00e0 sala.<\/p>\n<p>\u2014 Prove, minh&#8217;ama, para ver como est\u00e1 seu apetite!<\/p>\n<p>E esfriava o caldo com a colher, soprando-lhe em Magd\u00e1 sorvia automaticamente<br \/>\nas colheradas que levava \u00e0 boca.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea onde estava?&#8230; perguntou a senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Na cozinha. Porque, minha&#8217;ama?<\/p>\n<p>\u2014 E ontem, \u00e0 noite?<\/p>\n<p>\u2014 No casamento de minha mana&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sua mana?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A Rosinha, como n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Com quem ela casou?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 boa! Com o Luiz! Pois minh&#8217;ama j\u00e1 se n\u00e3o lembra&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Luiz? Quem \u00e9 o Luiz?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Olhe agora! E&#8217; o filho da tia Zefa, o mo\u00e7o ali da pedreira&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah!&#8230; Um de corpo nu, com a cara molhada de suor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que trouxe vosmec\u00ea ao colo, quando minh&#8217;ama subiu ao morro&#8230; Minh&#8217;ama<br \/>\nconhece-o, como n\u00e3o?<\/p>\n<p>Justina dizia estas coisas com a paci\u00eancia de quem conversa com um alienado<br \/>\nde estima\u00e7\u00e3o; e a outra olhava para ela sem pestanejar, interrompendo a sua<br \/>\nimobilidade apenas para sorver as colheradas de caldo.<\/p>\n<p>\u2014 Um descal\u00e7o, prosseguiu Magd\u00e1; um que tem cabelos no peito; a carne<br \/>\nrija como pedra; branca de marfim; a boca cheirando a murta!&#8230; Conhe\u00e7o! oh,<br \/>\nse conhe\u00e7o!&#8230; Pois, se lhe quero tanto bem!&#8230; E por onde anda agora esse<br \/>\ningrato&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 em casa, minh&#8217;ama&#8230; Ele hoje n\u00e3o foi ao servi\u00e7o, porque se<br \/>\ncasou, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Ele casou-se&#8230;? Que homem!<\/p>\n<p>\u2014 Casou-se ontem, sim senhora, mas amanh\u00e3 est\u00e1 fino para o trabalho!<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Ele amanh\u00e3 n\u00e3o fica na cama!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fica, n\u00e3o senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Casou-se! Pois diga-lhe que venha aqui com a noiva; quero dar-lhes<br \/>\num presente, um bom presente de n\u00fapcias. Traga-os, n\u00e3o se esque\u00e7a; ouviu?<\/p>\n<p>\u2014 Sim senhora. E quando?<\/p>\n<p>\u2014 Quando quiserem vir.<\/p>\n<p>\u2014 E a que horas, minh\u2019ama?<\/p>\n<p>\u2014 A qualquer hora, contanto que venham.<\/p>\n<p>Nisto entrou o Conselheiro, e&gt; a um sinal trocado secretamente com a criada,<br \/>\nesta lhe respondeu em voz baixa:<\/p>\n<p>\u2014 Agora&#8230; depois do caldo, est\u00e1 melhorzinha, sim senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Era debilidade&#8230; pensou o velho e, aproximando-se da filha, perguntou,<br \/>\ntomando-lhe as m\u00e3os:<\/p>\n<p>\u2014 A minha flor como se sente agora?&#8230; J\u00e1 est\u00e1 mais disposta a conversar<br \/>\ncom o seu papai?&#8230;<\/p>\n<p>Ela olhou para ele, estendeu-lhe o rosto e recebeu sorrindo um beijo na testa.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos dar uma volta pela ch\u00e1cara&#8230; prop\u00f4s o pobre homem, tomando-a<br \/>\npela cintura e amparando-lhe o corpo sobre seu peito.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 deixou-se levar, sem dizer palavra e, enquanto andou l\u00e1 por baixo,<br \/>\nesteve sempre muito entretida, ligando grande interesse a tudo que encontrava,<br \/>\nnem como se houvesse recuperado a vista naquele momento, depois de uma cegueira<br \/>\nde nascen\u00e7a. Correu tudo, revistou todo o jardim e todo o por\u00e3o da casa; e<br \/>\ncada objeto, que seus olhos topavam, a n\u00e3o serem os produtos puramente da<br \/>\nnatureza, despertava-lhe espantos de crian\u00e7a: um regador de folha, pintado<br \/>\nde encarnado, causou-lhe enorme curiosidade: deteve-se alguns minutos a contempl\u00e1-lo,<br \/>\nmuito admirada, sem conseguir compreender o que era aquilo; um chap\u00e9u velho,<br \/>\nde copa alta, atirado ao ch\u00e3o, fez-lhe medo; parecia-lhe um bicho. O Conselheiro<br \/>\nviu-se martirizado por um n\u00e3o acabar de perguntas verdadeiramente infantis,<br \/>\na que ele respondia com paci\u00eancia de santo.<\/p>\n<p>Quando, j\u00e1 ao dobrar da tarde, Justina a recolheu \u00e0 alcova, ela assentou-se<br \/>\nna cama e deu para fitar o seu crucifixo, indiferentando-se a tudo mais.<\/p>\n<p>Era a letargia que enfim chegou.<\/p>\n<p>Desta Vez a imagem n\u00e3o cresceu, conservou-se do mesmo tamanho, apenas se<br \/>\ndespregou da cruz e ficou, posto que suspensa, na posi\u00e7\u00e3o de quem se espregui\u00e7a.<br \/>\nO papel da parede foi a pouco e pouco se convertendo em um fundo de verdura<br \/>\nesbranqui\u00e7ada, cujos planos iam lentamente se formando e acentuando com as<br \/>\nprecisas grada\u00e7\u00f5es dos tons3 entretanto, o Cristo continuava sempre do mesmo<br \/>\ntamanho, num desses planos, como por um efeito de perspectiva.. Afinal, destacaram-se<br \/>\n\u00e1rvores, plantas, uma paisagem inteira e o Cristozinho, deixou de espregui\u00e7ar-se<br \/>\ne pegou de andar por entre a mata, com a tranq\u00fcilidade de quem passeia nos<br \/>\nseus quintais.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o foi que Magd\u00e1 percebeu que estava observando tudo isto de uma janela<br \/>\ne apressou-se a olhar em torno de si.<\/p>\n<p>Ah! exclamou, reconhecendo a sua adorada habita\u00e7\u00e3o da ilha. \u2014 Enfim<br \/>\nOra, gra\u00e7as a Deus!<\/p>\n<p>L\u00e1 estavam os seus objetos de arte, a sua mesa, o seu piano.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! agora sim.. era outra coisa!&#8230; prosseguia, considerando o pr\u00f3prio<br \/>\ncorpo, afagando-o por v\u00ea-lo novamente belo e forte; mas, tocada por uma id\u00e9ia<br \/>\nque a fez estremecer, correu ligeira ao fundo do quarto, onde havia um ber\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! ah! C\u00e1 est\u00e1 ele! C\u00e1 est\u00e1 o meu ladr\u00e3ozinho!<\/p>\n<p>Fernando dormia; Magd\u00e1 tomou-o nos bra\u00e7os, ergueu-se no ar o seu lindo corpinho<br \/>\nnu e, vendo que ele agitava as pernas, rabujando zangado, chamou-o para os<br \/>\nl\u00e1bios e devorou-o de beijos.<\/p>\n<p>O manhoso, assim que se pilhou no colo, p\u00f4s-se a rir.<\/p>\n<p>\u2014 Coitadinho&#8230; balbuciou ela, rindo tamb\u00e9m, com as l\u00e1grimas nos olhos.<\/p>\n<p>E levou-o para a janela. O pequenino, logo que deu com o Cristo que continuava<br \/>\na passear por entre as \u00e1rvores, gritou sacudindo os seus bracinhos feitos<br \/>\nde roscas gordas.<\/p>\n<p>\u2014 Pap\u00e1! Pap\u00e1!<\/p>\n<p>E, ao que parece, o Cristo lhe ouviu a voz, porque veio ent\u00e3o se aproximando,<br \/>\naproximando, fazendo-se homem, at\u00e9 chegar \u00e0 janela.<\/p>\n<p>N\u00e3o era mais o Cristo; era o mo\u00e7o da pedreira.<\/p>\n<h2><a name=\"20\"><\/a>XX<\/h2>\n<p>Passou a noite toda inteira na ilha, muito sossegada, muito feliz ao lado<br \/>\ndo marido. L\u00e1 n\u00e3o havia sobressaltos nervosos, nem infundados temores, nem<br \/>\ns\u00fabitos esquecimentos do que se fizera pouco antes; l\u00e1 a vida era boa, corredia,<br \/>\nlarga e tranq\u00fcila. Como de costume, fizera o seu bocado de m\u00fasica, leram,<br \/>\njogaram e conversaram: ela contou-lhe, rindo e chasqueando, os seus \u00faltimos<br \/>\nsonhos \u2014 o casamento dele com Rosinha \u2014 o desafio \u00e0 guitarra.<br \/>\nCantou:<\/p>\n<p>&#8220;Tu a amar-me e ou a amar-te,<\/p>\n<p>N\u00e3o sei qual ser\u00e1 mais firme!<\/p>\n<p>Eu como sol a buscar-te;<\/p>\n<p>Tu como sombra a fugir-me.&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Parece que ainda estou te ouvindo, meu amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Sonhadora!<\/p>\n<p>\u2014 Ah, mas via-me t\u00e3o magra, t\u00e3o escaveirada, t\u00e3o amarela, que metia<br \/>\npena!<\/p>\n<p>Ele achava gra\u00e7a, ria.<\/p>\n<p>\u2014 Magra, tu! que tens este corpo!&#8230;<\/p>\n<p>E apertava-lhe a polpa do bra\u00e7o com os seus dedos vigorosos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o imaginas, meu querido, a m\u00e1 impress\u00e3o que me fazia o dem\u00f4nio<br \/>\ndo sonho; era tudo como se fosse verdade: eu sentia e via como te estou vendo<br \/>\naqui!<\/p>\n<p>\u2014 Estavas ent\u00e3o muito feia&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014 Horrorosa! Se aquilo n\u00e3o passasse de pura ilus\u00e3o \u2014 matava-me!<br \/>\nacredita que me matava!<\/p>\n<p>\u2014 Que vaidade, Magd\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 Ora, no fim de contas sou mulher; al\u00e9m disso, prezo menos por mim<br \/>\na minha beleza do que por tua causa&#8230;<\/p>\n<p>O rapaz agradeceu com uma car\u00edcia. E os dois continuaram a palestrar. Vieram<br \/>\n\u00e0 baila as saudades que Magd\u00e1 sentira do filho e os seus tormentos por julgar-se<br \/>\nlonge dele.<\/p>\n<p>\u2014 Estava como louca, disse a vision\u00e1ria; lembra-me bem de que, numa<br \/>\nocasi\u00e3o em que me fazia a passear pelo bra\u00e7o de meu pai na ch\u00e1cara da Tijuca,<br \/>\nvi um regador de folha pintado de encarnado; pois queres acreditar que eu<br \/>\nn\u00e3o podia atinar com o que aquilo era?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tem gra\u00e7a!<\/p>\n<p>\u2014 O que mais me admira, por\u00e9m, de tudo isto, \u00e9 que eu sonhe com todas<br \/>\nas pessoas da minha conviv\u00eancia: contigo, com papai, com a nossa criada Justina,<br \/>\ncom a fam\u00edlia desta, e jamais com meu filho&#8230; Nunca sonhei com ele!<\/p>\n<p>\u2014 Como n\u00e3o, se n\u00e3o pensas noutra coisa enquanto dormes? Pelo menos<br \/>\nassim acabas de o afirmar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas nunca o vejo a meu lado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vem a dar na mesma.<\/p>\n<p>E assim cavaqueando, foram at\u00e9 \u00e0 hora do ch\u00e1, \u00e0s dez, depois da qual, Magd\u00e1<br \/>\ndeu de mamar ao seu bebe. Em seguida lavou-se, tomou a sua roupa de alcova<br \/>\ne afinal recolheu-se \u00e0 cama com o marido, muito prosaicamente, a cantarolar<br \/>\num estribilho banal, feliz na convic\u00e7\u00e3o de que tinha ali mesmo a seu lado,<br \/>\nao mais curto alcance, tudo de quanto precisava para satisfazer as suas necessidades<br \/>\nde mulher mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que ela tornou a si, na vida real. Estivera dezesseis horas em<br \/>\nestado let\u00e1rgico; havia ca\u00eddo em torpor \u00e0s cinco da tarde e s\u00f3 acordara \u00e0s<br \/>\nnove da manh\u00e3 do dia seguinte. Tomou a custo uma colherinha de xarope, que<br \/>\nlhe deu a Justina, de um frasco novo que acabava de ser aberto, e ficou a<br \/>\nolhar para a criada, fixamente, sem express\u00e3o, como uma figura de cera.<\/p>\n<p>\u2014 Minh&#8217;ama ainda se lembra do que me disse ontem?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que foi?<\/p>\n<p>\u2014 Que eu falasse \u00e0 Rosinha para vir c\u00e1, junto com o marido.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! lembro-me perfeitamente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois eles est\u00e3o a\u00ed fora&#8230;<\/p>\n<p>Magd\u00e1 conservou-se est\u00e1tica; n\u00e3o teve a mais ligeira contra\u00e7\u00e3o no semblante.<br \/>\nA criada acrescentou, depois de vesti-la:<\/p>\n<p>\u2014 Quer vosmec\u00ea que eu os fa\u00e7a entrar para esta saleta a\u00ed ao p\u00e9?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem.<\/p>\n<p>Justina saiu do quarto, nadando em satisfa\u00e7\u00e3o, e desceu de carreira \u00e0 ch\u00e1cara,<br \/>\nonde o Luiz a esperava ao lado da mulher.<\/p>\n<p>\u2014 Da\u00ed a pouco eram estes dois conduzidos \u00e0 presen\u00e7a da filha do Conselheiro.<br \/>\nO rapaz trazia a sua fatiota nova do casamento conservando a gravata de cetim;<br \/>\na outra um vestido de fust\u00e3o branco, sarapintado de florinhas azuis e cheirando<br \/>\n\u00e0 malva. Era ele agora quem estava muito vexado, e Rosinha n\u00e3o. Esta, ao contr\u00e1rio,<br \/>\nresplandescia de contentamento expansivo; abria-lhe as p\u00e9talas da boca um<br \/>\nsorriso largo de rosa ao desabrochar. Era a alegria vitoriosa da carne dos<br \/>\nvinte anos, o riso da vontade satisfeita, o canto alegre da pomba depois do<br \/>\nprimeiro arrulho.<\/p>\n<p>O sorriso do Luiz j\u00e1 era outro; um sorriso de sonso, de felizardo consciente<br \/>\nda largueza da sua fortuna e da escassez do seu pr\u00f3prio merecimento. N\u00e3o levantava<br \/>\no rosto e n\u00e3o olhava de frente como a esposa; tinha os olhos em terra e torcia<br \/>\ne destorcia entre os dedos calejados o seu chap\u00e9u novo de abas largas; todo<br \/>\nele envergonhado de ser t\u00e3o feliz, envergonhado como um pobre-diabo que \u00e9<br \/>\nsurpreendido a comer \u00e0s escondidas um manjar delicad\u00edssimo e digno da boca<br \/>\nde pr\u00edncipes.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 ainda mais o confundia, porque n\u00e3o lhe tirava a vista de cima; considerava-o<br \/>\nda cabe\u00e7a aos p\u00e9s; parecia estudar-lhe os menores tra\u00e7os da fisionomia, como<br \/>\nse intimamente o comparasse com algu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, com que sempre se casaram&#8230;? perguntou afinal, mordendo o<br \/>\nl\u00e1bio inferior e achinezando. os olhos.<\/p>\n<p>Os dois, que at\u00e9 a\u00ed guardavam um sil\u00eancio espesso, apressaram-se a responder<br \/>\njuntos, dando um pequeno passo para a frente:<\/p>\n<p>\u2014 Casamos, sim senhora.<\/p>\n<p>\u2014 E desde quando se gostam? H\u00e1 muito tempo j\u00e1?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora h\u00e1 que tempo!&#8230; resmungou Luiz, olhando de soslaio para a mulher.<\/p>\n<p>Esta soltou uma risadinha e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Eu ainda bem n\u00e3o tinha acabado a muda e j\u00e1 ele andava atr\u00e1s de mim..<\/p>\n<p>\u2014 E agora&#8230; estimam-se deveras?&#8230;<\/p>\n<p>Os mangan\u00f5es n\u00e3o responderam, olharam um para o outro, apertando os bei\u00e7os,<br \/>\ne afinal duas gargalhadas espocaram ao mesmo tempo, sem que ambos pudessem<br \/>\nmais trocar um olhar entre si; esfogueados por aquele riso escandaloso, aquele<br \/>\nriso que denunciava o que s\u00f3 eles, os brejeiros, l\u00e1 sabiam.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio, em que Magd\u00e1 parecia meditar, muito s\u00e9ria; depois \u2014<br \/>\nfez um quase impercept\u00edvel movimento de ombros e ordenou \u00e0 criada que fosse<br \/>\nl\u00e1 em baixo buscar uma garrafa de vinho: &#8220;Vinho bom, heim?&#8221;<\/p>\n<p>Justina saiu correndo e de passagem atirou aos noivos um gesto que dizia:<br \/>\n&#8220;Voc\u00eas agora \u00e9 que v\u00e3o ver o que \u00e9 uma boa pinga!&#8221;<\/p>\n<p>A hist\u00e9rica passou ao quarto de dormir e foi buscar o frasco de xarope de<br \/>\nEaston, aberto havia pouco; enquanto Luiz, vendo-se a s\u00f3s com a mulher, ferrou-lhe<br \/>\num belisc\u00e3o na cinta.<\/p>\n<p>\u2014 Fica quieto! segredou a mo\u00e7oila, indicando com o polegar a porta<br \/>\npor onde sa\u00edra a filha do Sr. Conselheiro.<\/p>\n<p>Esta tornou a aparecer e prop\u00f4s-lhe, com uma das m\u00e3os escondida atr\u00e1s das<br \/>\ncostas:<\/p>\n<p>\u2014 Porque n\u00e3o entram a\u00ed para essa outra sala!&#8230; Sentem-se l\u00e1&#8230; Estejam<br \/>\n\u00e0 vontade&#8230;<\/p>\n<p>Os dois seguiram, um ap\u00f3s outro, para o compartimento cont\u00edguo, e a enferma<br \/>\nacompanhou-os com estranho olhar, em que havia um duro ressaibo de c\u00f3lera<br \/>\ninvejosa. Chispava-lhe na pupila o mesmo r\u00e1bido fulgor com que ela vira uma<br \/>\nvez matrimoniar-se o casalzinho de rolas da sala de jantar e com que, de outra,<br \/>\nfitara a voluptuosa miniatura do &#8220;Amor e Desejo&#8221;, que seu pai tanto estimava.<\/p>\n<p>Justina voltou, trazendo uma bandeja com uma garrafa j\u00e1 aberta e tr\u00eas copos.<\/p>\n<p>\u2014 Agora vai buscar doces e biscoutos, encomendou-lhe a senhora.<\/p>\n<p>A criada dep\u00f4s a bandeja sobre a mesa do centro e saiu de novo. Ent\u00e3o Magd\u00e1,<br \/>\ncom muita calma, sem lhe tremer nem de leve a m\u00e3o, encheu um dos copos de<br \/>\nvinho e despejou no restante da garrafa todo o xarope do frasco; em seguida<br \/>\nia a chamar os noivos, mas deteve se; tomou novamente a garrafa, mirou-a contra<br \/>\na luz, provou do vinho na ponta da l\u00edngua e, satisfeita com o resultado do<br \/>\nseu exame, tornou \u00e0 alcova, trouxe outro frasco do xarope ainda intacto, abriu-o<br \/>\ne fez deste o mesmo que com o primeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Agora sim, disse baixinho, sacolejando a garrafa., e acrescentou<br \/>\nem voz alta, dirigindo-se para a sala pr\u00f3xima, enquanto enchia tranq\u00fcilamente<br \/>\no segundo e o terceiro copo:<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1! Venham da\u00ed beber \u00e0 minha sa\u00fade.<\/p>\n<p>Os desgra\u00e7ados acudiram logo de pronto. Magd\u00e1 apoderou-se do copo que havia<br \/>\nenchido antes e ofereceu-lhes com um gesto am\u00e1vel os outros.<\/p>\n<p>Luiz e Rosinha deram-se pressa em lan\u00e7ar m\u00e3o cada um do seu.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, v\u00e1! Para que sejam muito felizes disse a hist\u00e9rica, levando<br \/>\no vinho \u00e0 boca. \u2014 Bebam tudo! bebam tudo!<\/p>\n<p>Os dois obedeceram, enxugando de um trago o liquido, com uma pequena careta,<br \/>\nque n\u00e3o puderam reprimir.<\/p>\n<p>\u2014 Que tal? perguntou Magd\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Bom, muito obrigado, respondeu o cavoqueiro; mas, franqueza, franqueza,<br \/>\nachei-o a modo que muito doce e muito azedo ao mesmo tempo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que a gente n\u00e3o est\u00e1 acostumada&#8230; explicou Rosinha com um pigarro.<\/p>\n<p>Nesse momento, Justina reaparecia, trazendo os biscoitos; por\u00e9m, tanto o<br \/>\nrapaz, como a noiva, pasto se servissem logo, n\u00e3o podiam comer, que lhes principiavam<br \/>\nos queixos a emperrar. E amargava-lhes a boca e ardia-lhes a garganta de um<br \/>\nmodo muito esquisito.<\/p>\n<p>Pediram \u00e1gua.<\/p>\n<p>Justina n\u00e3o se achou com \u00e2nimo de gracejar e correu em busca do que eles<br \/>\nreclamavam.<\/p>\n<p>\u2014 Sentem alguma coisa? inqueriu Magd\u00e1 tranq\u00fcilamente.<\/p>\n<p>\u2014 Uma apertura aqui&#8230; disse Rosinha com dificuldade, levando a m\u00e3o<br \/>\n\u00e0s t\u00eamporas e depois \u00e0 nuca.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m a mim d\u00f3i-me a cabe\u00e7a&#8230; confirmou o cavoqueiro em voz alterada.<\/p>\n<p>\u2014 Sentem-se, aconselhou a senhora. \u2014 Fiquem a gosto&#8230;<\/p>\n<p>E sorriu.<\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio g\u00e9lido, em que se ouvia pendular na alcova de Magd\u00e1 o<br \/>\nseu pequeno regulador de bronze; mas no fim de alguns instantes os pobres<br \/>\nnoivos, que pareciam cada vez mais sobreexcitados, puseram-se a mexer com<br \/>\na mand\u00edbula inferior, contraindo os m\u00fasculos da face e da\u00ed a pouco tinham<br \/>\nr\u00e1pidos estremecimentos convulsivos, que lhe agitavam o corpo inteiro, de<br \/>\ninstante a instante, violentamente.<\/p>\n<p>Luiz quis falar e n\u00e3o p\u00f4de; apenas gorgolejou uns bufidos guturais.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 ria-se, olhando as caretas convulsivas que ele e a mulher faziam. Esta,<br \/>\nagoniada, levava simultaneamente as m\u00e3os \u00e0 garganta e ao est\u00f4mago, sem poder<br \/>\ngritar, t\u00e3o contra\u00edda tinha j\u00e1 o laringe.<\/p>\n<p>Repetiam-se os espasmos com mais intensidade, acompanhados de feias agita\u00e7\u00f5es<br \/>\ntetaniformes. O cavoqueiro estorcia-se na cadeira, rilhando os dentes e tomado<br \/>\nde uma ere\u00e7\u00e3o doloros\u00edssima.<\/p>\n<p>Quando Justina voltou, encontrou-os por terra, a estrebuchar; roxos, as pupilas<br \/>\ndilatadas os membros hirtos, os queixos cerrados.<\/p>\n<p>A criada soltou um grito, atirou com a bilha de \u00e1gua e os copos e saiu a<br \/>\nberrar.<\/p>\n<p>Com este barulho, Luiz teve um acesso mais forte e retesou-se todo, vergando-se<br \/>\npara tr\u00e1s, a ponto de encostar a cabe\u00e7a na coluna vertebral.<\/p>\n<p>E roncava, escabujando horrorosamente.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto?! exclamou o Conselheiro, invadindo o aposento, seguido<br \/>\npor Justina, que parecia louca.<\/p>\n<p>\u2014 Stchio!!! fez Magd\u00e1, pondo o dedo nos l\u00e1bios e arregalando os olhos.<br \/>\n\u2014 N\u00e3o fa\u00e7am espalhafato!&#8230; Deixem tudo por minha conta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Jesus! Que aconteceu? gritou o pai, fazendo-se cor de m\u00e1rmore e tentando<br \/>\nlevantar do ch\u00e3o o trabalhador. N\u00e3o p\u00f4de. Luiz estava duro como uma est\u00e1tua.<\/p>\n<p>O pobre velho, a tremer, desorientado, precipitou-se sobre a mesa e descobriu<br \/>\nos frascos de xarope.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! explodiu, arrancando os cabelos. \u2014 Meu Deus! meu Deus!<br \/>\nEnvenenou-os!<\/p>\n<p>\u2014 Que extravag\u00e2ncia!&#8230; dizia Magd\u00e1 com uma risada. \u2014 Que extravag\u00e2ncia!!!<br \/>\nMeu marido h\u00e1 de achar gra\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>O Conselheiro corria de um para outro lado, at\u00f4nito, e, percebendo que os<br \/>\nenvenenados iam morrer, pediu socorro em altos brados.<\/p>\n<p>Justina havia fugido para a rua e gritava:<\/p>\n<p>\u2014 Acudam! Acudam!<\/p>\n<p>Entretanto, Rosinha e Luiz agonizavam ao lado um do outro; a boca muito aberta<br \/>\ne as ventas arrega\u00e7adas \u00e0 falta de ar.<\/p>\n<p>Em breve, a casa foi assaltada por uma por\u00e7\u00e3o de gente. A m\u00e3e e a av\u00f3 do<br \/>\ncavoqueiro entraram na carreira, terr\u00edveis, desgrenhadas, estralando com os<br \/>\ntamancos no soalho \u2014 os bra\u00e7os nus, a saia enrodilhada na cintura a<br \/>\nbramirem chorando; ao passo que o Conselheiro deixava-se estrangular pelos<br \/>\nsolu\u00e7os, atirado ao fundo de uma poltrona, com o rosto escondido entre as<br \/>\nm\u00e3os.<\/p>\n<p>Havia cm todos os estranhos um l\u00edvido assombro de terror. Surgiram p\u00e1lidas<br \/>\nfiguras curiosas e assustadas, espiando pelas portas; s\u00f3 bem distintos se<br \/>\nouviam os noivos e os rugidos da tia Zela e da velha Cust6dia, que iam, r\u00e1pido,<br \/>\nfarejando a casa toda, sala por saia, tontas e assanhadas como duas leoas<br \/>\nrebuscando os filhos que lhes roubaram.<\/p>\n<p>Uma onda feroz e atroadora invadiu os aposentos de Magd\u00e1; mas de s\u00fabito assomou<br \/>\npor entre ela o sobretudo alvadio do Dr. Lob\u00e3o que, atropeladamente, abriu<br \/>\ncaminho com tr\u00eas murros, e foi colocar-se defronte da criminosa, quando esta<br \/>\nia j\u00e1 ser alcan\u00e7ada pelas duas feras.<\/p>\n<p>O populacho do corti\u00e7o e os trabalhadores da pedreira queriam acab\u00e1-la, ali<br \/>\nmesmo, a unhas e dentes; por\u00e9m o m\u00e9dico, muito esbofado, porque viera da rua<br \/>\nl\u00e1 a passo de lobo, o chap\u00e9u de castor no alto da cabe\u00e7a, o suor a inundar-lhe<br \/>\no pesco\u00e7o, os olhos faiscantes, mostrava os punhos e refilava as prezas, rosnando<br \/>\ncontra quem se aproximasse da &#8220;sua enferma&#8221;.<\/p>\n<p>Estava formid\u00e1vel; metia medo! Nunca homem nenhum defendeu, nem a pr\u00f3pria<br \/>\namante, com tamanha dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m ousou tocar em Magd\u00e1.<\/p>\n<p>Entretanto, outro facultativo cuidava de Luiz e Rosinha, mas sem resultado;<br \/>\nos infelizes expiraram penosamente meia hora depois da intoxica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afinal, chegaram as autoridades policiais. Fez-se o corpo de delito. Os cad\u00e1veres<br \/>\nforam carregados para a sala do fundo. Expeliu-se o povo, fechou-se a casa<br \/>\ne postaram-se soldados \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Conduzida Magd\u00e1 \u00e0 presen\u00e7a de suas v\u00edtimas, interrogaram-lhe se ela conhecia<br \/>\naqueles mortos.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o!&#8230; perfeitamente, respondeu a alucinada.<\/p>\n<p>E acrescentou, segurando os cabelos do mo\u00e7o da pedreira: \u2014 Este \u00e9 o<br \/>\nmeu querido esposo bem amado, pai de meu filho, senhor poderoso na terra e<br \/>\ndescendente de Deus; matei-o e mais a essa outra que a\u00ed est\u00e1, porque ele me<br \/>\ntraiu com ela!<\/p>\n<h2><a name=\"21\"><\/a>XXI<\/h2>\n<p>Magd\u00e1, acompanhada pelo pai e pelo m\u00e9dico, foi nesse mesmo dia conduzida<br \/>\n\u00e0 Casa de Deten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Delirou por todo o caminho. Afigurava-se-lhe que o carro em que iam era um<br \/>\nbarco e a rua um grande rio deslizado entre paredes de verdura.<\/p>\n<p>\u2014 Mais depressa! mais depressa! exclamava a insensata aos dois falsos<br \/>\ntripulantes que tinha ao lado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o deixem dormir os remos!<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 de ser dif\u00edcil encontrar semelhante ilha&#8230; observou um deles.<\/p>\n<p>\u2014 E eu duvido muito que a encontremos&#8230; considerou o outro.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse a filha do Conselheiro, notando que o rio se alargava.<br \/>\n\u2014 Talvez que apare\u00e7a agora!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas isto j\u00e1 \u00e9 o mar!&#8230; contrap\u00f4s um daqueles.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9 justamente no mar que ela est\u00e1&#8230; confirmou a desvairada.<\/p>\n<p>\u2014 No mar? Pois a senhora quer viajar em pleno mar com um barquinho<br \/>\nt\u00e3o \u00e0 toa?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faz mal! respondeu a senhora. \u2014 N\u00e3o faz mal! Vamos adiante!<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que \u00e9 muito arriscado! Podemos levar o diabo!<\/p>\n<p>\u2014 Procuremos! Procuremos!<\/p>\n<p>\u2014 Procurar uma ilha como quem procura uma casa!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenham medo! Vamos para a frente!<\/p>\n<p>E o barco, embalan\u00e7ado agora pelas \u00e1guas do alta mar, proejava errante; ora<br \/>\nbatido para a direita, ora para a esquerda; ora avan\u00e7ando, ora recuando, \u00e0<br \/>\nprocura da ilha encantada. Magd\u00e1, erguida de p\u00e9, os cabelos soltos ao vento,<br \/>\nconcheava a m\u00e3o sobre os olhos e procurava descobrir ao longe, nos limbos<br \/>\ndo horizonte, algum ponto negro que lhe desse uma esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Por aqui n\u00e3o h\u00e1 ilha nenhuma!&#8230; objurgou um dos mareantes. \u2014<br \/>\nE&#8217; loucura continuarmos a procur\u00e1-la!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas como se chama esse tal dem\u00f4nio de ilha? perguntou o outro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, n\u00e3o sei como se chama, a &#8220;Ilha do Segredo&#8221; talvez, ou talvez<br \/>\nnem tenha nome; por\u00e9m juro-lhe que ela existe, porque \u00e9 l\u00e1 que eu vivo h\u00e1<br \/>\nmuito tempo, \u00e9 l\u00e1 que moro com minha fam\u00edlia! Procuremos! Procuremos! Eu lhes<br \/>\ndarei todas as minhas j\u00f3ias, eu lhes darei, senhores, tudo o que possuo, menos<br \/>\nmeu filho! N\u00e3o parem! n\u00e3o hesitem, por amor de Deus!<\/p>\n<p>Com estas palavras os remadores pareciam criar novo \u00e2nimo.<\/p>\n<p>\u2014 Espera! gritou um deles, no fim de algum tempo. \u2014 H\u00e1 terra<br \/>\nnaquela dire\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 E, se me n\u00e3o engano \u00e9 com efeito uma ilha&#8230; acrescentou o companheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Pois vamos l\u00e1! Vamos l\u00e1! suplicava a hist\u00e9rica, esfregando as m\u00e3os<br \/>\ncom impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Mas como \u00e9 longe!.<\/p>\n<p>\u2014 Eu j\u00e1 nem sei por onde andamos!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o desanimem! N\u00e3o desanimem! Agora pouco falta! Vamos! \u2014 Um<br \/>\npequeno esfor\u00e7o!<\/p>\n<p>Enormes vagalh\u00f5es erguiam-se de todos os lados; o horizonte aparecia e desaparecia<br \/>\nquase sem intermit\u00eancia; o barquinho, t\u00e3o depressa rastejava pelo fundo de<br \/>\nabismos tenebrosos, como se alcantilava deslizando no claro dorso de espumosas<br \/>\nmontanhas; entretanto \u2014 seguia, seguia sempre, agora sem mais aux\u00edlio<br \/>\nde remos, como se fosse levado por uma correnteza.<\/p>\n<p>A ilha aumentava rapidamente defronte dos olhos de Magd\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 ela mesma! \u00c9 ela! exclamava a louca. \u2014 J\u00e1 daqui enxergo a<br \/>\ncolina, toda emplumada de bambus<\/p>\n<p>E al\u00e7ava os bra\u00e7os para o c\u00e9u, rindo e chorando de alegria. \u2014 \u00c9 ela!<br \/>\nE&#8217; a minha querida pris\u00e3o! \u00c9 o meu ninho adorado! Vou tornar a v\u00ea-la! Vou<br \/>\nhabit\u00e1-la de novo! Que ventura, que ventura suprema!<\/p>\n<p>E avan\u00e7avam, cada vez mais aceleradamente, arrastados pelas \u00e1guas. Em menos<br \/>\nde um minuto avistavam-se j\u00e1 as palmeiras da campina; via-se rebrilhar ao<br \/>\nsol o areal da praia; destacavam-se caminhos de verdura, e o teto da habita\u00e7\u00e3o<br \/>\nsurgia por entre massas de arvoredo.<\/p>\n<p>Mas j\u00e1 ningu\u00e9m podia resistir ao \u00edmpeto da carreira que levava o barco; o<br \/>\nmiser\u00e1vel precipitava-se agora vertiginosamente como se fosse arrebatado por<br \/>\numa, pororoca.<\/p>\n<p>\u2014 Ag\u00fcenta! Ag\u00fcenta! berravam os catraeiros.<\/p>\n<p>\u2014 Estamos perdidos!<\/p>\n<p>\u2014 Ag\u00fcenta!<\/p>\n<p>\u2014 Proteja-nos Deus!<\/p>\n<p>\u2014 Valha-nos a Virgem!<\/p>\n<p>Os marinheiros tinham a feroz catadura de quem v\u00ea a morte face a face. Praguejaram<br \/>\nmaldi\u00e7\u00f5es, blasf\u00eamias; depois abriram a chorar, como duas mulheres.<\/p>\n<p>E Magd\u00e1 sorria com a id\u00e9ia de que, se expirasse afogada, o seu cad\u00e1ver seria<br \/>\nlevado pelo oceano aos bra\u00e7os do milagroso amante, que a faria ressuscitar<br \/>\nimediatamente.<\/p>\n<p>Os dois homens rezaram, para morrer.<\/p>\n<p>Redobrou a f\u00faria da corrente. O barco rodopiava, que nem um tronco que a<br \/>\nvoragem sorveu. Magd\u00e1 j\u00e1 n\u00e3o sentia ponto de apoio, j\u00e1 n\u00e3o via ningu\u00e9m a seu<br \/>\nlado, arrebatada por um turbilh\u00e3o de vagas que a sufocavam.<\/p>\n<p>Remoinhou nessa afli\u00e7\u00e3o alguns instantes; de s\u00fabito, ouviu um estrondo de<br \/>\nonda que espoca e sentiu-se rolar na praia, cuspida numa golfada de espumas.<\/p>\n<p>Correu at\u00e9 onde nascia a relva e deixou-se cair a\u00ed, prostrada.<\/p>\n<p>Assim esteve longo tempo, descansando ofegante sobre a grama fresca e macia,<br \/>\ncompletamente nua, os olhos fechados; toda ela penetrada por um capitoso perfume<br \/>\nde magn\u00f3lia. Este aroma, que dantes tanto a importunava, dava-lhe agora inef\u00e1veis<br \/>\nconsola\u00e7\u00f5es; era esse o perfume da sua ilha querida; esse o aroma do para\u00edso<br \/>\nde amor, onde nascera o ente que ela mais estremecia no mundo.<\/p>\n<p>Todavia a prostra\u00e7\u00e3o n\u00e3o a deixava ainda correr ao encontro do filho; e seus<br \/>\nl\u00e1bios estalavam de sede pelos beijos dele, e toda ela ardia na impaci\u00eancia<br \/>\nda saudade.<\/p>\n<p>\u2014 Maldito abatimento!<\/p>\n<p>Entardeceu. Um vento fresco agitava agora os carna\u00fabais em melanc\u00f3licos sussurros;<br \/>\na patativa gemia na mata, chamando o companheiro; e toda a ilha se apurpurava<br \/>\nna f\u00falgida congest\u00e3o do sol poente.<\/p>\n<p>Magd\u00e1 ergueu-se a meio na relva, admirada de que o marido ainda n\u00e3o tivesse<br \/>\ndado por falta dela e n\u00e3o fosse \u00e0 sua procura: &#8220;N\u00e3o era aquela a hora em que<br \/>\ntodos os casais se recolhiam ao aconchego dos ninhos?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ficou a cismar.<\/p>\n<p>\u2014 Teria acontecido alguma desgra\u00e7a?&#8230; disse consigo. E ent\u00e3o, a id\u00e9ia<br \/>\ndo envenenamento de Luiz e Rosinha veio-lhe \u00e0 lembran\u00e7a com o p\u00e2nico de um<br \/>\nsonho pressago.<\/p>\n<p>Teve um arrepio. Recordou-se de os ter visto mortos, ao lado um do outro,<br \/>\nl\u00edvidos e enrijados pela estricnina Seu cora\u00e7\u00e3o encheu-se com um pressentimento<br \/>\nhorr\u00edvel. Levantou-se logo e tomou aflita a dire\u00e7\u00e3o da casa.<\/p>\n<p>A porta estava aberta. Foi entrando.<\/p>\n<p>Achou tudo deserto e silencioso.<\/p>\n<p>Estremeceu aterrada.<\/p>\n<p>\u2014 Luiz! gritou ela.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Luiz! \u00d3 Luiz!<\/p>\n<p>A sua voz perdia-se nos surdos murm\u00farios da tarde.<\/p>\n<p>Sem \u00e2nimo de fazer uma conjetura, correu ao ber\u00e7o do filho.<\/p>\n<p>Encontrou-o vazio.<\/p>\n<p>Apalpou-lhe as roupas, levou-as \u00e0 face \u2014 nenhum calor as aquecia.<\/p>\n<p>Estremeceu de novo. E, j\u00e1 aturdida. mais p\u00e1lida do que a estrela da manh\u00e3,<br \/>\nfoi a todos os cantos da casa, gritando pelo filho e chamando pelo esposo.<\/p>\n<p>Nada! nada!<\/p>\n<p>Saiu a correr; entranhou-se na mata, percorreu vales e montanhas; cercou<br \/>\ndoidamente a ilha inteira, gritando e chorando.<\/p>\n<p>N\u00e3o encontrou ningu\u00e9m! ningu\u00e9m!<\/p>\n<p>Tornou pelos caminhos andados; bateu de novo todos os recantos da ilha, e<br \/>\nvoltou \u00e0 casa, possessa, estrangulada de solu\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Roubaram meu filho! Roubaram meu filho!<\/p>\n<p>E p\u00f4s-se a quebrar tudo que pilhava ao primeiro alcance. Arremessou por terra<br \/>\ne de encontro \u00e0s paredes, as jarras, o tinteiro, estatuetas e faian\u00e7as; atirando<br \/>\ndepois consigo mesma ao ch\u00e3o, estrebuchando, torcendo-se em arco, encostando<br \/>\na cabe\u00e7a nos calcanhares, a espumar entre dentes e a espolinhar-se como um<br \/>\nhidr\u00f3fobo. Em seguida come\u00e7ou a engatinhar, firmada nas m\u00e3os e nos joelhos,<br \/>\nresbunando prolongadamente, com o pesco\u00e7o estendido, a boca virada para o<br \/>\nalto:<\/p>\n<p>\u2014 Fernando! Fernando!<\/p>\n<p>Corriam-lhe l\u00e1grimas pela face. De repente, ergueu-se e caiu de novo em f\u00faria,<br \/>\na querer dar cabo de tudo; ent\u00e3o sentiu que vigorosos pulsos a agarravam por<br \/>\ndetr\u00e1s e enla\u00e7avam-lhe os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Fernando! Fernando!<\/p>\n<p>E tentava morder os que a seguravam, arremetendo com a cabe\u00e7a para os lados.<\/p>\n<p>Mas um homem suspendeu-a pelas costas e outro lhe enfiou pelos p\u00e9s uma abomin\u00e1vel<br \/>\nmortalha de linho cru, que se lhe estreitava at\u00e9 ao pesco\u00e7o, tolhendo-lhe<br \/>\no corpo inteiro.<\/p>\n<p>E Magd\u00e1, em v\u00e3o tentando debater-se na camisola de for\u00e7a, foi entre policiais,<br \/>\nconduzida para uma c\u00e9lula nos bra\u00e7os do Dr. Lob\u00e3o, que praguejava, furioso,<br \/>\npor lhe n\u00e3o permitirem as leis carreg\u00e1-la consigo no mesmo instante para a<br \/>\nsua casa de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Ficou l\u00e1 dentro sozinha, a roncar como uma fera encarcerada. O pai viu fecharem-lhe<br \/>\na jaula, mais sucumbido do que se aquela porta fosse a lousa de um t\u00famulo.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 perdida para sempre! solu\u00e7ou o desgra\u00e7ado, resvalando no colo<br \/>\ndo m\u00e9dico,<\/p>\n<p>O esquisit\u00e3o fez que limpava o suor da testa, para disfar\u00e7ar duas l\u00e1grimas<br \/>\nrebeldes que lhe saltavam dos olhos escandalosamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX XXI &nbsp; I Madalena, ou simplesmente Magd\u00e1, como em fam\u00edlia tratavam a filha do Sr. Conselheiro Pinto Marques, estava, havia duas horas, estendida num div\u00e3 do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92157","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Homem - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra O Homem - Alu\u00edsio de Azevedo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Homem - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Romance, Magd\u00e1, Sr. Conselheiro Pinto, Fernando, Literatura O Homem - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Homem - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra O Homem - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Homem - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Romance, Magd\u00e1, Sr. Conselheiro Pinto, Fernando, Literatura O Homem - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-homem-aluisio-de-azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-03T15:43:45+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2018-05-03T18:34:06+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"288 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-homem-aluisio-de-azevedo#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-homem-aluisio-de-azevedo\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"O Homem &#8211; 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