{"id":92154,"date":"2017-01-03T13:39:42","date_gmt":"2017-01-03T15:39:42","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92154"},"modified":"2018-05-03T16:17:27","modified_gmt":"2018-05-03T18:17:27","slug":"o-esqueleto-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-esqueleto-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"O Esqueleto &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><script async src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\"><\/script><br \/>\n<!-- ads_responsivo --><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\"\n     style=\"display:block\"\n     data-ad-client=\"ca-pub-7159766377354473\"\n     data-ad-slot=\"3162710741\"\n     data-ad-format=\"auto\"><\/ins><br \/>\n<script>\n(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong>I<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#2\">II<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#3\">III <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#4\">IV<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#5\">V<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#6\"><strong>VI <\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#7\">VII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#8\">VIII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#9\">IX <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#10\">X<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#11\"><strong>XI <\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#12\">XII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#13\">XIII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#14\">XIV<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mist\u00e9rio da Casa de Bragan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<h2><a name=\"1\">I A NOITE NA TAVERNA<\/a><\/h2>\n<p>Era por uma triste noite chuvosa, dessas que faz bem gozar quando a gente<br \/>\n    esta em casa. L&aacute; fora, na rua do Piolho, a chuva argamassava a lama<br \/>\n    ao ritmo plangente de uma melop&eacute;ia de cativo. E o vento vinha por ela<br \/>\n    assoviando, como por um funil, para desembocar imprecativamente no campo da<br \/>\n    Alampadosa. Dentro, na c&eacute;lebre tasca do Trancoso, a luz tremia vagarosamente<br \/>\n    nos grandes candieiros de azeite de peixe. Dava um l&uacute;gubre aspecto<br \/>\n    aquele antro de terra batida para ch&atilde;o, e de paredes escalavradas onde<br \/>\n    a gaiatice dos fregueses gostava de pintar obscenidades e onde se fazia a<br \/>\n    carv&atilde;o a conta complicada dos pich&eacute;is.<\/p>\n<p> Fant&aacute;stico, por detr&aacute;s do balc&atilde;o envernizado como um<br \/>\n    cabo de enxada, o Trancoso erguia o busto na plenitude atl&eacute;tica de<br \/>\n    seu t&oacute;rax. Era a grande cabe&ccedil;a barbuda e gadanhenta e, por debaixo<br \/>\n    da blusa felpuda de vascon&ccedil;o, o peito largo e forte a oscilar numatempestade<br \/>\n    de respira&ccedil;&otilde;es troando muitas vezes o grito estent&oacute;rico<br \/>\n    dos apelativos brutais. E, para al&eacute;m na vastid&atilde;o escura do aposento,<br \/>\n    por meio dos altos e bojudos ton&eacute;is cheios de cartaxo e de aguardente<br \/>\n    de cana, estavam as pequenas mesas de pau carunchoso, rodeadas de mochos baixos<br \/>\n    em rodelas de madeira sobre tr&ecirc;s espeques.<\/p>\n<p> Naquela hora treda da noite, retardavam-se entretanto os fregueses a pretexto<br \/>\n    de que vinham cansados da prociss&atilde;o ao outeiro da Gl&oacute;ria, e<br \/>\n    de que a chuva vergastava l&aacute; fora a quem tinha a aud&aacute;cia de<br \/>\n    sair. O Trancoso amuava-se, posto que lhe fossem emborcando as bebidas e o<br \/>\n    cobre lhe ca&iacute;sse pela gaveta adentro com um grande retinir met&aacute;lico<br \/>\n    de chocalhar de guizos.<\/p>\n<p> J&aacute; fora para ele o tempo dos primeiros a&ccedil;odamentos em juntar<br \/>\n    os patac&otilde;es. As moedas de ouro contavam-se aos centos na velha arca<br \/>\n    escondida debaixo do nauseabundo catre onde dormia.<\/p>\n<p> Muito crian&ccedil;a ainda, viera de al&eacute;m-mares para essas terras<br \/>\n    do Brasil, onde o ouro boiava &agrave; tona das enxurradas. E, em vez das<br \/>\n    longas empresas viajantes pelo sert&atilde;o adentro, preferira o sossego<br \/>\n    das bodegas onde o dinheiro vinha ter pela l&oacute;gica fatal das bebedeiras.<br \/>\n    Agora, diziamno rico, senhor de bastantes haveres e traficante at&eacute;<br \/>\n    das galeras que iam buscar o negro ao vasto deserto branco das plagas africanas.<\/p>\n<p> Enriquecera principalmente depois da chegada de d. Jo&atilde;o VI, quando<br \/>\n    a real comitiva de fidalgos se derramara pela velha cidade de Mem de S&aacute;,<br \/>\n    com uma enorme praga de orgias e depreda&ccedil;&otilde;es. Fazia-se modesto,<br \/>\n    rindo com bom sorriso galhofeiro, quando algu&eacute;m alevantava o valor<br \/>\n    de suas fazendas. Dizia que n&atilde;o! que mais luzia do que havia! Mas n&atilde;o<br \/>\n    andava disposto para as longas vig&iacute;lias da taverna no servi&ccedil;o<br \/>\n    de borrachos retardados.<\/p>\n<p> E, naquela noite, j&aacute; por tr&ecirc;s vezes tentara despedir a freguesia.<br \/>\n    Os fregueses bebiam, monoss&iacute;labos raros e sonolentos ouviam-se apenas<br \/>\n    de espa&ccedil;o a espa&ccedil;o. E o barulho cont&iacute;nuo da &aacute;gua,<br \/>\n    regular e met&oacute;dico na tristeza da noite.<\/p>\n<p> O Trancoso principiava a cochilar, quando a porta se abriu de repente: uma<br \/>\n    lufada sacudiu violentamente os velhos candieiros, que rangeram nas correntes<br \/>\n    de ferro. E leve, r&aacute;pido como o vento que o trouxera, d. &Aacute;lvaro<br \/>\n    Bias saltou no meio da sala, gotejante como uma biqueira de telhado.<\/p>\n<p> Saltou, parou, e mirou-se. No ch&atilde;o, em roda dos sapatos pu&iacute;dos<br \/>\n    de d. Bias, formou-se logo uma po&ccedil;a d&#8217;&aacute;gua. D. Bias, magro e<br \/>\n    esgalgado, no velho gib&atilde;o de veludo sem p&ecirc;lo, parecia um guarda-chuva<br \/>\n    fechado, depois de um aguaceiro formid&aacute;vel.<\/p>\n<p> D. Bias, fidalgo espanhol da mais pura linhagem, perseguido pelos credores<br \/>\n    e pelos alguazis em todas as bodegas das margens dos Mansanares, pulou um<br \/>\n    dia a fronteira e foi tentar a vida em Portugal. N&atilde;o houve ser&atilde;o<br \/>\n    de convento que n&atilde;o procurasse &#8211; em v&atilde;o! &#8211; saciar-lhe a fome<br \/>\n    secular: o primeiro av&ocirc; conhecido de d. Bias era tenente de Cid Campeador,<br \/>\n    e entrava em combate com um alforje &agrave;s costas, carregado de olla podrida.<br \/>\n    A fam&iacute;lia de d. Bias n&atilde;o era uma fam&iacute;lia: era a arvore<br \/>\n    geneal&oacute;gica da fome.<\/p>\n<p> Em Portugal, d. Bias comeu, d. Bias bebeu. Com esses predicados, ganhou<br \/>\n    as boas gra&ccedil;as de d. Jo&atilde;o VI, que em 1808 o trouxe com sua corte<br \/>\n    para o Brasil.<\/p>\n<p> Este D. Bias, segundo reza a cr&ocirc;nica, logo que chegou de Lisboa, foi<br \/>\n    morar na rua do Lavradio, na casa hoje no 40, pertencente a Ant&ocirc;nio<br \/>\n    Jos&eacute; Viana, &agrave; raz&atilde;o de 8$ por m&ecirc;s, cujo aluguel<br \/>\n    nunca pagou. E tais tratantices fez, combinado com o desembargador &#8211; ouvidor<br \/>\n    Francisco Alves de Andrade, que se ficou com o pr&eacute;dio e terrenos.<\/p>\n<p> O mesmo praticou com o carpinteiro Cust&oacute;dio Pinto de Oliveira, que<br \/>\n    lhe n&atilde;o querendo vender dous lotes de terrenos cont&iacute;guos e que<br \/>\n    fazem face com a rua, de acordo com a mulher deste Cust&oacute;dio, formou-lhe<br \/>\n    culpa de mancebia e meteu-o na cadeia em princ&iacute;pio do ano de 1811.<br \/>\n    D.<\/p>\n<p> Bias se ficou com a mulher e a filha de Cust&oacute;dio, e na posse dos<br \/>\n    bens deste depois do desquite.<\/p>\n<p> Cust&oacute;dio, sem sua mulher e filha, e seus bens, foi viver do jornal<br \/>\n    que lhe dava o c&eacute;lebre escultor &Acirc;ngelo Pallingrini, por alcunha<br \/>\n    o Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> O Trancoso rosnou uma praga, quando o fidalgo lhe apareceu. Mas d. Bias<br \/>\n    enganchou-se num banco. E, uma vez servido, p&ocirc;s-se a beber fidalgamente<br \/>\n    a sua zurrapa, levantando os bra&ccedil;os para n&atilde;o emporcalhar na<br \/>\n    mesa os seus manguitos sujos. A sala recaiu no sil&ecirc;ncio. A &aacute;gua<br \/>\n    continuou a bater, os fregueses continuaram a bebei; o Trancoso continuou<br \/>\n    a cochilar, e d. Bias, esgotado o pichel, cravou dous olhos compridos e s&ocirc;fregos<br \/>\n    no gordo chouri&ccedil;o que fulgurava no balc&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; Traga outra medida, gritou a voz avinhada de um sujeitinho baixo e gordo,<br \/>\n    t&atilde;o baixo que tinha as pernas a oscilar dependuradas do mocho, e t&atilde;o<br \/>\n    gordo que parecia um tonel cuidadosamente suspenso do ch&atilde;o para n&atilde;o<br \/>\n    se estragar com a umidade.<\/p>\n<p> O Trancoso remexeu os ombros num esgar sonolento de desprezo.<\/p>\n<p> &#8211; Melhor fariam voc&ecirc;s todos em limpar-me a casa de suas borracheiras!<br \/>\n    disse. E, depois de uma pausa, acrescentou: &#8211; Demais, por estas horas tardias<br \/>\n    da noite, eu n&atilde;o vendo mais fiado! Ponham dinheiro no balc&atilde;o<br \/>\n    se querem a boa da pinga! S&uacute;cia de malandros que a pol&iacute;cia d&#8217;el-rei<br \/>\n    bem devia vir buscar para uma dormida na rua da Vala! Um belo movimento de<br \/>\n    solidariedade fez-se ent&atilde;o entre toda aquela gente que o Trancoso assim<br \/>\n    maltratava com o desplante dos homens fortes e enriquecidos pela canalha mi&uacute;da<br \/>\n    dos pobret&otilde;es de gib&atilde;o esburacado.<\/p>\n<p> E o Carni&ccedil;a &#8211; um mulato esguio e de maus bofes, que vivia de sovar<br \/>\n    os negros nas casas de fam&iacute;lia &#8211; saiu &agrave; frente das reclama&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Que assim n&atilde;o se tratava &agrave; gente s&eacute;ria! gritou esmurrando<br \/>\n    a mesa onde as garrafas e os copos dan&ccedil;aram.<\/p>\n<p> &#8211; Ningu&eacute;m se teme da pol&iacute;cia d&#8217;el-rei! fez d. Bias, fanfarr&atilde;o,<br \/>\n    saltando para o meio da bodega com a m&atilde;o nos copos da espada e um largo<br \/>\n    gesto arrogante.<\/p>\n<p> &#8211; Qual el-rei, nem p&ecirc;ra el-rei! vociferou o Carni&ccedil;a, pondo-se<br \/>\n    tamb&eacute;m de p&eacute;, muito avinhado e b&ecirc;bado. &#8211; N&oacute;s aqui<br \/>\n    j&aacute; estamos fartos de aturar toda essa corja portuguesa! Eu c&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o fa&ccedil;o mist&eacute;rio para gritar: Viva o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    regente! E gritou, com e feito, o grito revolucion&aacute;rio daquele tempo,<br \/>\n    num grande berreiro forte de convic&ccedil;&atilde;o popular.<\/p>\n<p> Os outros entreolharam-se, j&aacute; desarmonizados em pensamento. A quest&atilde;o<br \/>\n    deslocara-se. J&aacute; n&atilde;o era a rusga de uns fregueses retardat&aacute;rios<br \/>\n    contra um dono de taverna que queria fechar a casa, e n&atilde;o fiava mais.<br \/>\n    A luz ba&ccedil;a e fedorenta dos candieiros que rangiam nas correntes, ofegava<br \/>\n    agora o h&aacute;lito quente das revolu&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Qual d. Pedro! Mandam as cortes. E ele h&aacute; de partir para abater<br \/>\n    a cerviz de voc&ecirc;s outros, canalhas de brasileiros! rosnou o homem-pipa<br \/>\n    que dera origem &agrave; contenda.<\/p>\n<p> Os fregueses dividiram-se em dous grupos. De um para outro voaram imediatamente<br \/>\n    os copos e as garrafas. E d. Bias, que se ficara no mesmo lugar, entre os<br \/>\n    contendores, levou o melhor do primeiro arremesso. Rolou at&eacute; pelo ch&atilde;o<br \/>\n    quando o Carni&ccedil;a investiu manhoso para tomar-lhe a durindana. E l&aacute;<br \/>\n    do balc&atilde;o, o Trancoso, abrindo uma larga e forte navalha catal&atilde;,<br \/>\n    veio para o meio do barulho numa neutralidade agressiva de quem queria p&ocirc;r<br \/>\n    no olho da rua toda aquela comitiva brigalhona de &eacute;brios esbodegados.<\/p>\n<p> &#8211; Que fossem se haver l&aacute; para a lama do Piolho! Nisto, veio de l&aacute;<br \/>\n    de fora um retinir de armas. Ouviu-se um grito de agonia, e mais outro, e<br \/>\n    mais outro ainda. Correram todos para a porta. Matava-se ali por perto.<\/p>\n<p> E d. Bias, muito lambuzado de poeira e vinho no seu roup&atilde;o de veludo<br \/>\n    sem p&ecirc;lo, ergueu-se e foi para o fundo da casa, aproveitando a confus&atilde;o<br \/>\n    do momento para esconder o chouri&ccedil;o por debaixo da camisa.<\/p>\n<p> A porta, todos alongaram os olhos pela noite escura. A chuva estiara um<br \/>\n    pouco. Sem ilumina&ccedil;&atilde;o, a rua do Piolho desenhava indecisamente<br \/>\n    os seus perfis de casas baixas. E a alguma dist&acirc;ncia da taverna, via-se<br \/>\n    redemoinhar um grupo confuso de homens que se batiam.<\/p>\n<p> Mais alto que o tinir das espadas soavam as pragas dos combatentes.<\/p>\n<p> Era positivo que um dos combatentes se defendia de todos os outros, com<br \/>\n    uma coragem de le&atilde;o.<\/p>\n<p> Os fregueses do Trancoso ficaram sem movimento contemplando a luta. E Trancoso<br \/>\n    encolheu os ombros e voltou para seu posto no balc&atilde;o, rosnando entre<br \/>\n    dentes que melhor que se matassem todos uns aos outros aqueles vagabundos<br \/>\n    que tiravam a espada por qualquer patifaria.<\/p>\n<p> Os outros ficaram sem intervir. O Carni&ccedil;a entusiasmou-se: um dos<br \/>\n    combatentes acabava de cair varado por um bote do que se defendia. E o mulato,<br \/>\n    diante daquele espet&aacute;culo delicioso para seu temperamento de galo de<br \/>\n    briga, berrou, batendo palmas: &#8211; A&iacute;, bravo! Os dous agressores perdiam<br \/>\n    terreno. A espada do desconhecido girava multiplicando os botes, e pondo-lhe<br \/>\n    diante do peito um muro de a&ccedil;o em que vinham bater inofensivas as armas<br \/>\n    dos outros dous. Mais um ferido. E o &uacute;ltimo rodou sobre os calcanhares,<br \/>\n    fugindo, seguido de perto pelo inimigo.<\/p>\n<p> Nesse momento, d. Bias indignou-se da covardia em que estavam todos, vendo<br \/>\n    um bater-se com tantos.<\/p>\n<p> &#8211; Caramba! n&atilde;o se dir&aacute; que um fidalgo de Espanha deixou de<br \/>\n    ir em auxilio de um fraco! E abalou de durindana em punho para o lado em que<br \/>\n    o desconhecido perseguia o fugitivo. Mas o fidalgo viu a sua bravura sem proveito.<br \/>\n    O desconhecido j&aacute; vinha de volta, e da&iacute; a pouco, quando entrou<br \/>\n    na tasca, o Trancoso, ao ver-lhe a fisionomia, acercou-se dele com um ar de<br \/>\n    respeito e carinho. Os fregueses cumprimentaram-no tamb&eacute;m. Sentou-se<br \/>\n    a um mocho, e atirando a espada ensang&uuml;entada sobre o balc&atilde;o,<br \/>\n    ordenou ao taverneiro: &#8211; Limpa isto e d&aacute;-me vinho! <\/p>\n<h2><a name=\"2\">II O SATAN&Aacute;S<\/a> <\/h2>\n<p>Tinha uma bela compostura varonil e forte de velho conservado aquele desconhecido<br \/>\n    que t&atilde;o inopinadamente acabava de entrar na bodega do Trancoso e em<br \/>\n    torno do qual todos respeitosamente se acercavam.<\/p>\n<p> Por sobre o chap&eacute;u de abas largas, via-se um rosto bem modelado em<br \/>\n    &acirc;ngulos violentos de decis&atilde;o e afoiteza O espesso e comprido<br \/>\n    bigode militar, que o sarro dos cachimbos amarelecera, recurvava-se fantasticamente<br \/>\n    numas pontas erguidas para o c&eacute;u como uma amea&ccedil;a de conos de<br \/>\n    Satan&aacute;s. O nariz e o queixo eram pontiagudos, fazendo-lhe a cara estreita<br \/>\n    e cortante como a cabe&ccedil;a dos peixes, e a quilha dos navios. E ele tinha,<br \/>\n    principalmente, um olhar, indefin&iacute;vel de cor, agudo e penetrante como<br \/>\n    a l&acirc;mina daquela espada que atirara sobre o balc&atilde;o, olhar de<br \/>\n    rapina, de &aacute;guia nobre ou abutre carniceiro. N&atilde;o se lhe podia<br \/>\n    ver o traje, envolto como trazia o corpo numa vasta capa espanhola de forro<br \/>\n    escarlate Divisava-se-lhe apenas as largas botas de couro, muito elameadas<br \/>\n    e com esporas de grandes rosetas.<\/p>\n<p> E a&iacute;, &agrave; luz ba&ccedil;a dos candieiros, recostado por sobre<br \/>\n    uma mesa, ele quedava-se, indiferente com a preocupa&ccedil;&atilde;o dos<br \/>\n    outros, tipo fant&aacute;stico de aventuras a quem pouco importavam a luta<br \/>\n    de ainda havia pouco, e a perspectiva toda da vida restante.<\/p>\n<p> Chamavam-no Satan&aacute;s e tinha a sua hist&oacute;ria.<\/p>\n<p> De origem fiorentina e boas fidalguias, ele crescera logo numa inf&acirc;ncia<br \/>\n    cheia de tempestades.<\/p>\n<p> Na noite do seu nascimento, uma vingan&ccedil;a italiana ateara o inc&ecirc;ndio<br \/>\n    no pal&aacute;cio dos Pallingrini, e somente a um mi]agre se deveu a sua salva&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    O pai, que o trouxera ao colo descendo pela escada abrasada, entregou-o a<br \/>\n    um criado. E pereceu dentro das chamas quando tentou voltar para salvar a<br \/>\n    mulher. Um frade mendicante que passava batizou-o ent&atilde;o com o nome<br \/>\n    de &Acirc;ngelo; e uma bruxa cigana, que dizia a buena dicha vaticinou-lhe<br \/>\n    mil horrores: uma inconst&acirc;ncia de sorte fazendo-o milion&aacute;rio<br \/>\n    de repente e mendigo logo depois, e enfim uma morte violenta e uma sepultura<br \/>\n    fora do sagrado.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo Pallingrini, o pobre &oacute;rf&atilde;o da triste cat&aacute;strofe,<br \/>\n    foi conduzido ent&atilde;o para um castelo da Cal&aacute;bria, onde seu tio<br \/>\n    e tutor o confiou aos cuidados de uma ama, e o deixou crescer por ali, ao<br \/>\n    azar das circunst&acirc;ncias, como bem parecia &agrave; crian&ccedil;a e<br \/>\n    como bem entendiam os criados. O menino fez-se logo tr&ecirc;fego, autorit&aacute;rio<br \/>\n    e mau. Gostava de subir ao terra&ccedil;o da grande torre do castelo para<br \/>\n    precipitar os animais que conseguia apanhar. E de uma ocasi&atilde;o, aos<br \/>\n    sete anos, passou duas semanas na enxovia, porque, brincando armas com seu<br \/>\n    irm&atilde;o cola&ccedil;o, matou-o para experimentar como eram as brigas<br \/>\n    de verdade. Adolescente, sonhou logo amores. Queriaos, por&eacute;m, misteriosos<br \/>\n    e complicados, dif&iacute;ceis e rom&acirc;nticos, como os contavam nas l&uacute;gubres<br \/>\n    legendas do papado que a gente do castelo gostava de repetir pelas horas tristes<br \/>\n    da noite, na monotonia fatigante dos ser&otilde;es. E apaixonou-se pela tia<br \/>\n    &#8211; uma bela mulher, vigorosa e forte que vivia a exuber&acirc;ncia dos seus<br \/>\n    trinta anos junto &agrave; precoce decrepitude do marido.<\/p>\n<p> Mas quando uma noite, entrava-lhe nos aposentos, encontrou-a morta sobre<br \/>\n    o assoalho, esplendidamente nua, com os bastos cabelos em desalinho e um len&ccedil;ol<br \/>\n    apenas envolvendo-lhe parte do corpo, deixando-lhe a descoberto os seios por<br \/>\n    entre os quais se afincava o punhal assassino.<\/p>\n<p> Junto ao cad&aacute;ver, sereno e p&aacute;lido, o castel&atilde;o velava<br \/>\n    de p&eacute; com as m&atilde;os nos copos da espada &#8211; sentinela da honra no<br \/>\n    campo da morte.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo Pallingrini soltou ent&atilde;o pela primeira vez aquela gargalhada<br \/>\n    estent&oacute;rica de ferros velhos que chocalham como as armaduras dos guerreiros<br \/>\n    dentro das campas, aquela gargalhada que lhe deu mais tarde o cognome de Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> E antes que o tio se movesse, ele arrancou do peito da morta esse punhal<br \/>\n    com que a covardia de um marido tinha vitimado a sua amante, e investiu contra<br \/>\n    o velho fidalgo, que rodou no ch&atilde;o soltando uma praga de maldi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> O rapaz fugiu. Embarcou numa galera que partia para as Espanhas. Uma triste<br \/>\n    fatalidade pesava-lhe, entretanto, sobre o destino todo inteiro. Tanto que<br \/>\n    nas alturas de Argel a galera foi aprisionada pelos piratas mouriscos.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo, italiano e supersticioso por conseguinte, sup&ocirc;s-se ent&atilde;o<br \/>\n    a v&iacute;tima de um mau-olhado, de uma jetatura lan&ccedil;ada sobre os<br \/>\n    amores mesmos de seus pais que ele nem tinha aprendido a respeitar.<\/p>\n<p> A id&eacute;ia do suic&iacute;dio veio-lhe ent&atilde;o. Ou pelo menos a<br \/>\n    id&eacute;ia de encontrar a morte em um qualquer combate. Porque ele sentia-se<br \/>\n    melhor do que era. E via-se infeliz, fazendo a desgra&ccedil;a de todos aqueles<br \/>\n    de quem se aproximava.<\/p>\n<p> L&aacute; em Argel vieram-lhe, por&eacute;m, novos amores e uns anos de<br \/>\n    calma fru&iacute;dos lentamente no gozo lascivo dos serralhos.<\/p>\n<p> O Bey apaixonara-se por essa crian&ccedil;a esquisita, de olhar altivo,<br \/>\n    mas tenebroso, e que t&atilde;o bem sabia gargalhar um riso triste, de amarguras<br \/>\n    e de dores. E o mo&ccedil;o italiano foi prosperando de haveres e de posi&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Quando o instinto das batalhas o espica&ccedil;ava muito furte, seguia para<br \/>\n    o deserto &agrave; ca&ccedil;a do le&atilde;o.<\/p>\n<p> Noticias, por&eacute;m, da sua p&aacute;tria, a intoler&aacute;vel opress&atilde;o<br \/>\n    austr&iacute;aca e as guerras valentes de Bonaparte o fizeram voltar para<br \/>\n    a sua terra onde melhor podia viver o seu g&ecirc;nio aventureiro de fidalgo.<\/p>\n<p> Cumpria-se, entretanto, a fatal predi&ccedil;&atilde;o da cigana. E semelhante<br \/>\n    projeto foi o ponto de partida de uma s&eacute;rie de desastres Um naufr&aacute;gio<br \/>\n    fez-lhe perder a galera, onde iam os seus tesouros e as suas escravas, quase<br \/>\n    &agrave; entrada mesmo do porto de N&aacute;poles.<\/p>\n<p> E foi como simples soldado que ele entrou no ex&eacute;rcito da Ven&eacute;cia.<br \/>\n    Prisioneiro do austr&iacute;aco e condenado &agrave; morte, conseguiu fugir<br \/>\n    entretanto gra&ccedil;as ao aux&iacute;lio de um fidalgo espanhol a quem salvara<br \/>\n    a vida e que o levou a Madri.<\/p>\n<p> Foi ai que ele conheceu d. Bias, com quem se passou para Portugal e mais<br \/>\n    tarde para o Brasil junto com a comitiva de d. Jo&atilde;o VI que o escolhera<br \/>\n    para mestre de armas de seus filhos.<\/p>\n<p> Na corte do monarca lusitano, o Satan&aacute;s fez-se tamb&eacute;m escultor,<br \/>\n    artista galante, querido das damas, a quem impressionava pela altivez cavalheirosa<br \/>\n    de seu porte e pelo aventureiro de seu viver.<\/p>\n<p> E nos anais do tempo ficou celebrado o seu amor com uma das damas da rainha,<br \/>\n    de quem houve uma filha, que estava sendo misteriosamente educada, ningu&eacute;m<br \/>\n    sabia onde.<\/p>\n<p> Aqui no Brasil fora ele quem dera a nota bo&ecirc;mia da vida nas tavernas,<br \/>\n    protegido que andava pela amizade de d. Pedro.<\/p>\n<p> Velho embora, e taciturno, ele sabia fazer a alegria em torno de si. Tinha<br \/>\n    id&eacute;ias esquisitas, caprichos de imagina&ccedil;&atilde;o e principalmente<br \/>\n    um g&ecirc;nio batalhador que dava &agrave;s suas noitadas um aspecto aventuroso<br \/>\n    de novidades e imprevistos.<\/p>\n<p> E por muitas vezes pareceu-lhe que se renovavam para si aqueles bons tempos<br \/>\n    ditosos de Argel. Enriquecia e subia em considera&ccedil;&otilde;es e import&acirc;ncias.<\/p>\n<p> Com o regresso de d. Jo&atilde;o VI, entregue que ficou a col&ocirc;nia<br \/>\n    ao pr&iacute;ncipe regente, o Satan&aacute;s foi quase a segunda pessoa do<br \/>\n    Estado, muito ouvido e atendido por d. Pedro, que conservara um grande respeito<br \/>\n    pelo seu velho mestre de armas de quem fazia guarda-costas nas costumeiras<br \/>\n    excurs&otilde;es noturnas.<\/p>\n<p> Por isso estavam todos agora muito respeitosos, ali na bodega do Trancoso.<\/p>\n<p> Apenas d. Bias teve a coragem de sentar-se junto a mesa, como velho conhecido<br \/>\n    de todos os tempos e de todas as vicissitudes. Beberam juntos, muito calados,<br \/>\n    logo ap&oacute;s a troca. de algumas palavras.<\/p>\n<p> E o Satan&aacute;s pediu logo a espada que tinha mandado limpar.<\/p>\n<p> &#8211; Boa l&acirc;mina! disse o Carni&ccedil;a para fazer conversa.<\/p>\n<p> Mas ningu&eacute;m teve a coragem de acrescentar palavra porque Satan&aacute;s<br \/>\n    voltou-se e esparramou um olhar de desprezo por sobre os circunstantes.<\/p>\n<p> Depois ergueu-se e atirou para cima do balc&atilde;o uma moeda de ouro,<br \/>\n    dizendo ao Trancoso: &#8211; Pague isso em bebidas a esta gente.<\/p>\n<p> E saiu, sem ligar import&acirc;ncia aos agradecimentos que lhe queriam fazer,<br \/>\n    chapinhando na lama do Piolho com as grandes botas de cavaleiro, e misturando<br \/>\n    nas trevas do derredor o longo fantasma de seu vulto de capa preta.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"> III O PARA&Iacute;SO DE SATAN&Aacute;S<\/a><\/h2>\n<p> O Satan&aacute;s seguiu toda a Rua do Piolho e enveredou pela do Conde Louren&ccedil;o<br \/>\n    da Cunha. Quase ao chegar ao campo de Santana, parou &agrave; porta de uma<br \/>\n    casinha modesta, de varanda pintada de verde, e bateu tr&ecirc;s vezes com<br \/>\n    os copos da espada.<\/p>\n<p> Era ali, desconhecido e afastado, que fulgurava para o Satan&aacute;s, o<br \/>\n    que ele chamava &#8211; o seu para&iacute;so: era ali que o escultor escondia, como<br \/>\n    um avarento esconde o seu tesouro, a filha adorada &uacute;nica afei&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    pura da sua vida.<\/p>\n<p> &Acirc;ngelo Pallingrini, o Satan&aacute;s, como mestre d&#8217;armas do pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    dedicara-se a guiar-lhe e fortificar-lhe o pulso; e quando o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    se fez homem, quando o seu altivo temperamento cavalheiresco se desenvolveu,<br \/>\n    &aacute;vido de amores e de fa&ccedil;anhas, o Satan&aacute;s passou sem transi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    do of&iacute;cio de mestre d&#8217;armas ao of&iacute;cio de alcoviteiro, e depois<br \/>\n    de guiar-lhe o pulso, come&ccedil;ou a guiar-lhe o cora&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Dentro do bolso do seu gib&atilde;o havia sempre a certeza de se encontrar<br \/>\n    pelo menos um bilhetinho amoroso do real conquistador. O Satan&aacute;s desbravava<br \/>\n    o caminho, aplanava-o, desembara&ccedil;ava-o de todas as dificuldades.<\/p>\n<p> Quando o pr&iacute;ncipe chegava, estava tudo feito: via e vencia &#8211; e, logo<br \/>\n    perto, ficava o servidor fiel, de espada em punho, vigiando os amores do seu<br \/>\n    amo, para n&atilde;o deixar que os fosse perturbar a f&uacute;ria de um pai<br \/>\n    rebarbativo ou a inconveni&ecirc;ncia de um marido indignado.<\/p>\n<p> Desse lodo de todos os dias, purificava-se &agrave; noite o escultor, indo<br \/>\n    beijar a filha que ali vivia, guardada por uma velha espanhola, dona Emerenciana.<\/p>\n<p> Assim que conseguia deixar o pr&iacute;ncipe entretido nos bra&ccedil;os<br \/>\n    de alguma rapariga condescendente, l&aacute; ia, embu&ccedil;ado na sua capa,<br \/>\n    pedir ao seu anjo da guarda um beijo purificador. Via-a, beijava-a, e voltava<br \/>\n    a correr aventuras com d. Pedro.<\/p>\n<p> Na cidade, rosnava-se que o Satan&aacute;s tinha amores ocultos com uma<br \/>\n    criatura divina que o amava at&eacute; &agrave; loucura; porque, por mais<br \/>\n    precau&ccedil;&otilde;es que tomasse o escultor para esconder as visitas noturnas<br \/>\n    &agrave; casinha colonial j&aacute; come&ccedil;avam a fazer sobre o caso<br \/>\n    um tecido caprichoso de suposi&ccedil;&otilde;es. D. Bias, que todos sabiam<br \/>\n    muito amigo do Satan&aacute;s, tomava uns ares misteriosos quando a esse respeito<br \/>\n    o interrogavam.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o?! diga c&aacute;, d. Bias: s&atilde;o amores, heim? &#8211; E que<br \/>\n    &eacute; que tem a arraia-mi&uacute;da com os amores de um cavalheiro digno?<br \/>\n    Pois, que sejam amores&#8230; E ent&atilde;o? O que n&atilde;o se pode dizer,<br \/>\n    &eacute; como a bela se chama. &Eacute; uma senhora que conhece de cor os<br \/>\n    nomes gloriosos de cinq&uuml;enta av&oacute;s, e cujo nome n&atilde;o deve,<br \/>\n    portanto, andar na boca do populacho! Sim! que n&oacute;s c&aacute;, fidalgos<br \/>\n    de ra&ccedil;a, n&atilde;o nos sujamos com mulheres de meia-tigela: queremos<br \/>\n    sedas e j&oacute;ias, e beijos fidalgos como n&oacute;s! Mas o Satan&aacute;s<br \/>\n    deixava que a bisbilhotice de todos se perdesse em conjeturas, e redobrava<br \/>\n    de precau&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Naquela noite, foi d. Emerenciana quem lhe veio abrir a porta. O Satan&aacute;s,<br \/>\n    seguido pela espanhola, subiu a escada estreita e escura que levava ao sobrado,<br \/>\n    e entrou na sala, onde a filha, assim que o viu, atirou sobre a mesa o bordado<br \/>\n    e correu a dependurar-se-lhe do pesco&ccedil;o, num grande abra&ccedil;o carinhoso.<br \/>\n    Pela dura face do espadachim rolaram duas l&aacute;grimas silenciosas e os<br \/>\n    seus olhos embeberam-se, &uacute;midos e s&ocirc;fregos, nos dous c&eacute;us<br \/>\n    azuis dos olhos da filha.<\/p>\n<p> Branca teria quando muito 16 anos. Era j&aacute; uma deliciosa mulher, esbelta,<br \/>\n    talhe gracioso de palmeira, seios tufados provocadoramente e grandes olhos<br \/>\n    azuis, dando uma encantadora express&atilde;o de ternura a sua face p&aacute;lida<br \/>\n    e doentia de mo&ccedil;ccedil;a educada com rigor, sem distra&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    sem grandes passeios ao ar livre. Mas o que a tornava mais bela, o que constitu&iacute;a<br \/>\n    o seu maior encanto, eram os cabelos cor de ouro, longos e fin&iacute;ssimos,<br \/>\n    cabelos que, quando soltos, cobriam-lhe todo o corpo, da cabe&ccedil;a aos<br \/>\n    p&eacute;s, como um grande manto tecido de raios de sol.<\/p>\n<p> Educada pela velha Emerenciana, com uma severidade terr&iacute;vel, Branca<br \/>\n    aos 15 anos ainda tinha uma alma de crian&ccedil;a ing&ecirc;nua, que n&atilde;o<br \/>\n    sabe o que &eacute; a vida. Os seus grandes olhos azuis abriam-se curiosamente<br \/>\n    para o mundo, sem compreend&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Emerenciana cumpria fielmente as ordens do Satan&aacute;s, que n&atilde;o<br \/>\n    queria que Branca chegasse &agrave; janela nem sa&iacute;sse &agrave; rua,<br \/>\n    muito cioso da virtude da filha, muito receoso da deprava&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    dos fidalgos portugueses que d. Jo&atilde;o VI deixara no Brasil com o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    regente. De maneira que Branca se fizera mulher entre quatro paredes, tendo<br \/>\n    como &uacute;nicas distra&ccedil;&otilde;es os seus bordados e a conversa<br \/>\n    com d. Emerenciana, que, apesar do seu papel de vigilante rigorosa, tinha<br \/>\n    pela mo&ccedil;a verdadeira afei&ccedil;&atilde;o de m&atilde;e.<\/p>\n<p> Foi mesmo a inst&acirc;ncias de Emerenciana que o Satan&aacute;s consentiu<br \/>\n    que a filha, depois dos 15 anos, desse alguns passeios, raros e curtos, pela<br \/>\n    cidade. De um desses passeios nasceu para Branca uma nova era de sensa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    nunca at&eacute; ent&atilde;o experimentadas nem sonhadas pela sua inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    de reclusa.<\/p>\n<p> Foi justamente um ano antes da noite cujos sucessos se est&atilde;o desenrolando<br \/>\n    aos olhos do leitor.<\/p>\n<p> Era o dia da prociss&atilde;o de Nossa Senhora da Gl&oacute;ria do Outeiro.<br \/>\n    Toda a cidade escovara os fatos, sacudira as sedas, brunira as arrecadas,<br \/>\n    e abalara para o Outeiro, que &agrave;s duas horas da tarde, apresentava o<br \/>\n    mais pitoresco aspecto que &eacute; poss&iacute;vel imaginar.<\/p>\n<p> Desde o adro da ermida que em 1671 a piedade do ermit&atilde;o Caminha erigira<br \/>\n    no alto do Outeiro, at&eacute; &agrave; pequena pra&ccedil;a em que vinha<br \/>\n    alargar a rua da Gl&oacute;ria, toda a ladeira se apendoava de arcos de folhagens<br \/>\n    e bandeirolas. As fam&iacute;lias sentavam-se em bancos toscos, em um grande<br \/>\n    espalhafato de sedas novas, enquanto, de p&eacute;, os moleques e as negrinhas,<br \/>\n    vestidos de branco, muito s&eacute;rios, carregavam cestos cheios de p&atilde;o<br \/>\n    e galinha assada. Porque a gente daquele tempo sofrera a influ&ecirc;ncia<br \/>\n    de d. Jo&atilde;o VI, que n&atilde;o podia ir a festa nenhuma sem fartas provis&otilde;es<br \/>\n    de viveres.<\/p>\n<p> Branca fora tamb&eacute;m ver a prociss&atilde;o, com a velha Emerenciana.<br \/>\n    E estava muito contente, com vontades infantis de bater palmas, gozando aquele<br \/>\n    grande prazer do contato da multid&atilde;o, saciando-se de vida, de barulho,<br \/>\n    de agita&ccedil;&atilde;o. Fez-se um movimento no povo. Era a prociss&atilde;o<br \/>\n    que descia.<\/p>\n<p> Primeiro, um padre trazia o crucifixo entre dous ac&oacute;litos, que empunhavam<br \/>\n    grandes varas de prata, em cuja extremidade uma vela de cera ardia no meio<br \/>\n    de um tufo d&ecirc; rosas artificiais.<\/p>\n<p> Depois vinha a irmandade, precedendo o andor vagarosa, fazendo cair ao ch&atilde;o<br \/>\n    as grandes l&aacute;grimas brancas das tochas acesas. Todos se ajoelharam.<br \/>\n    Nossa Senhora passava, muito branca e muito serena, guirlandada de raios de<br \/>\n    prata, de m&atilde;os cruzadas ao peito, de olhos erguidos ao c&eacute;u radiante<br \/>\n    daquela tarde formosa, sobre o andor dourado, transbordante de flores. Depois,<br \/>\n    o p&aacute;lio, oscilando&#8230; Ouviam-se j&aacute;, no couce do pr&eacute;stito,<br \/>\n    os acordes da banda militar.<\/p>\n<p> Branca admirou o talhe esbelto de d. Pedro, que vinha fardado, empunhando<br \/>\n    uma das varas&#8230;<\/p>\n<p> Por um acaso qualquer, o batalh&atilde;o parou mesmo diante de Branca.<\/p>\n<p> E Branca sentiu de repente que o sangue lhe galopava &agrave; face e que<br \/>\n    o cora&ccedil;&atilde;o lhe batia no peito, vendo o capit&atilde;o que comandava<br \/>\n    a tropa, cravar-lhe na face dous olhos negros e &aacute;vidos, que a abrasavam<br \/>\n    toda no primeiro rubor amoroso.<\/p>\n<p> Paulo de Andrade, capit&atilde;o das guardas do pr&iacute;ncipe regente<br \/>\n    d. Pedro, era um belo mo&ccedil;o de 27 anos, desempenado e forte, belo exemplar<br \/>\n    de homem e soldado. Foi desse cruzamento instant&acirc;neo do seu olhar com<br \/>\n    o de Branca que nasceu a paix&atilde;o que o devia para sempre unir a ela<br \/>\n    e que o devia matar: paix&atilde;o nascida num minuto, dessas paix&otilde;es<br \/>\n    que, por aparecerem muitas vezes nos romances, parecem hoje absurdas e incr&iacute;veis<br \/>\n    na vida real.<\/p>\n<p> Branca seguiu-o com os olhos, at&eacute; v&ecirc;-lo desaparecer numa volta<br \/>\n    da ladeira. E j&aacute; ele tinha desaparecido e ainda ela o via, alto e bonito,<br \/>\n    na farda abotoada, com a espada ao ombro, fulgurando &agrave; frente dos soldados.<\/p>\n<p> Quando entrou em casa, a mo&ccedil;a ia triste, de uma tristeza cuja causa<br \/>\n    ela mesmo n&atilde;o compreendia bem. Nessa noite, nem os beijos do pai a<br \/>\n    alegraram. Retirou-se para o seu quarto, onde, em frente &agrave; cama virginal,<br \/>\n    uma Nossa Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o abria os bra&ccedil;os, num pequeno<br \/>\n    orat&oacute;rio de vinh&aacute;tico. Ajoelhou-se para rezar. Mas as palavras<br \/>\n    da reza confundiam-selhe na cabe&ccedil;a. O que ela via ali, no pequeno orat&oacute;rio<br \/>\n    de vinh&aacute;tico, n&atilde;o era a Senhora da Concei&ccedil;&atilde;o:<br \/>\n    era outra, a da Gl&oacute;ria, precedida da irmandade, seguida do pr&iacute;ncipe<br \/>\n    e de um belo capit&atilde;o, cujos olhos ainda agora a abrasavam.<\/p>\n<p> Despiu-se e deitou-se. Mas embrulhou-se muito, com muito pudor, como se<br \/>\n    receasse que algu&eacute;m a estivesse vendo. Quis dormir: o sono n&atilde;o<br \/>\n    veio.<\/p>\n<p> Dentro dela, alguma cousa cantava, alguma cousa gemia, alguma cousa gritava.<br \/>\n    Ouvia sair de dentro de si um grande clamor de exig&ecirc;ncias e de desejos:<br \/>\n    parecia que o sangue lhe rufava nas veias, entre estridores fren&eacute;ticos<br \/>\n    de clarins, o hino vitorioso da sua puberdade despertada. E estremecia, julgando<br \/>\n    sentir na boca ansiosa o contato rude dos grandes bigodes negros do capit&atilde;o<br \/>\n    das guardas. Por fim, um grande pranto lhe subiu aos olhos: e ela enterrou<br \/>\n    a cabe&ccedil;a no travesseiro, sacudida por solu&ccedil;os que n&atilde;o<br \/>\n    podia reprimir, com um grande medo do amor, que sentia nascer dentro de si<br \/>\n    e que s&oacute; agora come&ccedil;ava a compreender.<\/p>\n<p> Com o correr dos dias, Branca e Paulo de Andrade viram-se de novo. O acaso,<br \/>\n    que &eacute; o maior alcoviteiro do mundo, arranjou meios de os aproximar<br \/>\n    cada vez mais. E, d. Emerenciana, seduzida pela simpatia que lhe soube inspirar<br \/>\n    o capit&atilde;o e pelo grande afeto que tinha &agrave; mo&ccedil;a, prestou-se<br \/>\n    a auxiliar-lhes o amor.<\/p>\n<p> De modo que, nessa noite em que o Satan&aacute;s ao sair da bodega do Trancoso<br \/>\n    foi &agrave; casa da rua do Conde, j&aacute; havia muito tempo que o capit&atilde;o<br \/>\n    tinha entrevistas com Branca mas eram entrevistas puras, a que sempre a velha<br \/>\n    assistia. E estavam todos &agrave; espera da primeira ocasi&atilde;o oportuna<br \/>\n    em que a velha pudesse contar tudo ao Satan&aacute;s e em que Paulo pudesse<br \/>\n    pedir-lhe a m&atilde;o da filha em casamento.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s, depois de abra&ccedil;ar a filha, chamou a velha de parte.<br \/>\n    Era assim todas as noites: queria saber de tudo que tinha havido, se nenhum<br \/>\n    vulto suspeito tinha aparecido a rondar a casa, se a filha tinha estado &agrave;<br \/>\n    janela.<\/p>\n<p> Emerenciana tranq&uuml;ilizou-o: a velha n&atilde;o achava conveniente referir-lhe<br \/>\n    as pretens&otilde;es do capit&atilde;o &#8211; preferia esperar e lev&aacute;-lo<br \/>\n    com jeito, receosa que o g&ecirc;nio arrebatado e brigalh&atilde;o do Satan&aacute;s<br \/>\n    deitasse tudo a perder.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s retirou-se. Voltava para o lodo, depois de curta parada<br \/>\n    no c&eacute;u. Ia de novo encontrar o amo, que deixara ocupado a encher de<br \/>\n    consolo a noite de uma formosa cigana, que morava para as bandas do Valongo.<\/p>\n<p> E apertando muito a filha nos bra&ccedil;os, o escultor beijou-a na fronte,<br \/>\n    fez novas recomenda&ccedil;&otilde;es a d. Emerenciana, e, descendo a escada,<br \/>\n    tornou a mergulhar de novo nas trevas da noite o seu vulto misterioso.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"> IV ELE <\/a><\/h2>\n<p>Naquela noite o Satan&aacute;s n&atilde;o tinha muita pressa em encontrar-se<br \/>\n    com o seu real disc&iacute;pulo de armas. Sabia-o sossegadamente em lugar<br \/>\n    seguro, em uns amores desses que s&oacute; fazem correr perigo &agrave; bolsa<br \/>\n    dos galantes.<\/p>\n<p> Hist&oacute;ria escandalosa de momento, grandemente comentada pela corte,<br \/>\n    onde a Domitila intrigava, a tal paix&atilde;o do pr&iacute;ncipe era, entretanto,<br \/>\n    cousa muito honesta.<\/p>\n<p> Ficava para longe, para o Valongo.<\/p>\n<p> Fora ali que uma companhia de saltimbancos, recentemente chegada da Europa,<br \/>\n    erguera a sua tenda, uma grande barraca de lona sobre sarrafos de pinho. A<br \/>\n    companhia compunha-se do velho saltimbanco Vampa, que se apregoava muito entendido<br \/>\n    nessas cousas de teatro e chegava at&eacute; a compor pantomimas lisonjeiras<br \/>\n    e bajuladoras, em homenagem a qualquer fidalgo endinheirado. Compunha-se mais<br \/>\n    de Zabanila, esposa de Vampa, cigana nost&aacute;lgica das suas terras do<br \/>\n    Oriente, onde a brisa tinha o perfume do s&acirc;ndalo e o beijo dos homens<br \/>\n    tinha mais vol&uacute;pia, mas em todo o caso sempre obediente ao marido e<br \/>\n    pronta a aceitar o rendoso amante que este lhe indicava. Compunha-se tamb&eacute;m<br \/>\n    de seis cavalos, um elefante e tr&ecirc;s comparsas.<\/p>\n<p> O Vampa, empres&aacute;rio da companhia e autor dram&aacute;tico nas horas<br \/>\n    vagas, como Shakespeare, Moli&ecirc;re e Gil Vicente, era um tipo bem falante,<br \/>\n    vocalizando as s&iacute;labas, arteiro e manhoso, cheio de inven&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    para atrair o p&uacute;blico, e gostando de se acercar das rodas de fidalgos<br \/>\n    onde encontrava os amantes para a mulher e os parceiros para a jogatina.<\/p>\n<p> Chegado aqui ao Rio de Janeiro, fez logo grande esc&acirc;ndalo com uns<br \/>\n    an&uacute;ncios nunca vistos, que s&oacute; ele seria capaz de imaginar: sujeitos<br \/>\n    de zabumba com o letreiro do espet&aacute;culo a zabumbar por todas as ruas<br \/>\n    da cidade. O povo n&atilde;o entendia o letreiro, porque n&atilde;o sabia<br \/>\n    ler, mas isto n&atilde;o fazia mal porque adivinhava. E o circo do Valongo<br \/>\n    tornou-se logo o rendez-vous noturno da gente alegre que l&aacute; ia, principalmente<br \/>\n    para aplaudir a Zabanila. Ela resistia, por&eacute;m, a todas as aclama&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Fazia-se muito s&eacute;ria. E os despeitados souberam em pouco que a requestava<br \/>\n    e possu&iacute;a quem muito alta e poderosamente mandava naquele tempo.<\/p>\n<p> Por isso o Satan&aacute;s n&atilde;o se apressava muito em ir buscar o jovem<br \/>\n    disc&iacute;pulo governante. Por isso, e porque desprezava o Vampa que, ao<br \/>\n    em vez de procur&aacute;-lo para intermedi&aacute;rio tivera o arrojo de meter<br \/>\n    o d. Bias no neg&oacute;cio.<\/p>\n<p> Vagaroso de andar por aquela lama das ruas, ele chegou, entretanto, e bateu<br \/>\n    tr&ecirc;s pancadas ma&ccedil;&ocirc;nicas na porta traseira.<\/p>\n<p> &#8211; Entre! gritaram-lhe.<\/p>\n<p> Levantou a aldraba, empurrou a porta e achou-se num pequeno aposento com<br \/>\n    paredes de t&aacute;buas mal juntas, onde d. Pedro bebia com Zabanila e Vampa,<br \/>\n    e ria-se a bom rir de umas cousas que lhe dizia uma esqu&aacute;lida cigana<br \/>\n    feiticeira, com um corpo de pergaminho enrugado sobre os ossos.<\/p>\n<p> &#8211; Vieste a prop&oacute;sito. A M&atilde;e Velha estava aqui dizendo que<br \/>\n    eu havia de ser duas vezes rei e de morrer envenenado, sem cetro, nem coroa,<br \/>\n    como um qualquer pobre diabo! E acrescentou: &#8211; Pergunta-lhe pelo teu destino.<br \/>\n    Talvez ela nos diga o teu futuro e pelo menos metade desse misterioso passado,<br \/>\n    que tu gostas de esconder. Eu gosto de rir.<\/p>\n<p> &#8211; Pois fala, velha feiticeira! disse o Satan&aacute;s, sentando-se e estendendo<br \/>\n    a m&atilde;o esquerda &agrave; cigana.<\/p>\n<p> Esta debru&ccedil;ou-se sobre a mesa, gastou uma longa pausa no exame, e<br \/>\n    depois, fitando alternativamente o pr&iacute;ncipe e o escultor, sentenciou:<br \/>\n    &#8211; Para qu&ecirc;? sabem melhor voc&ecirc;s dous, porque um, n&atilde;o sei<br \/>\n    qual, tem de morrer pelas m&atilde;os do outro.<\/p>\n<p> &#8211; Ora! E d. Pedro levantou-se em toda a altura robusta do seu porte elegante,<br \/>\n    senhoril e belo.<\/p>\n<p> &#8211; Tolices de velha! disse. E, voltando-se para o Satan&aacute;s, acrescentou:<br \/>\n    &#8211; Vamos.<\/p>\n<p> Partiram.<\/p>\n<p> Pela noite escura e chuvarenta, seguiram os dous, um ao lado do outro, silenciosos,<br \/>\n    quase apreensivos com a l&uacute;gubre profecia da velha feiticeira, que o<br \/>\n    Vampa, entretanto, surrava l&aacute; no Valongo para que ela n&atilde;o fosse<br \/>\n    em outras vezes dizer cousas desagrad&aacute;veis aos visitantes, que pagavam<br \/>\n    bem e n&atilde;o deviam gostar de semelhantes asneiras.<\/p>\n<p> &#8211; Envenenado! Sem cetro e sem coroa! rosnou o pr&iacute;ncipe como que a<br \/>\n    concluir uma medita&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> E acrescentou: &#8211; Tu acreditas em feiti&ccedil;aria, e pensas acaso que a<br \/>\n    previs&atilde;o humana pode rasgar o tenebroso v&eacute;u do futuro? O escultor<br \/>\n    teve um gesto incerto de d&uacute;vidas, e murmurou um &#8211; talvez.<\/p>\n<p> &#8211; Eu acredito, preciso acreditar, afirmou d. Pedro.<\/p>\n<p> E, ali no campo de Santana onde estavam, parou em compostura elegante de<br \/>\n    homem que posa para est&aacute;tua.<\/p>\n<p> &#8211; Escuta! ordenou violentamente numa grande voz vibrante de comando. &#8211; Eu<br \/>\n    sou um infeliz.<\/p>\n<p> N&atilde;o nasci para estes tempos sossegados de agora. Pela minha imagina&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    perpassam de constante os vultos desses her&oacute;is antigos que fizeram<br \/>\n    o mais nobre da minha ascend&ecirc;ncia. E eles fizeram tanto que nada mais<br \/>\n    tenho a fazer. Entretanto eu quisera ser o construtor de um grande povo&#8230;<\/p>\n<p> E, depois de uma longa pausa, durante a qual, de bra&ccedil;os cruzados,<br \/>\n    ele parecia a sombra de Napole&atilde;o, visitando a sepultura de Santa Helena,<br \/>\n    acrescentou: &#8211; V&ecirc;s, Satan&aacute;s! Fervilha-me dentro das art&eacute;rias<br \/>\n    o sangue dos her&oacute;is. &Eacute; preciso acreditar no hor&oacute;scopo<br \/>\n    das feiticeiras porque elas me predizem sempre um desses futuros tenebrosos,<br \/>\n    t&atilde;o cheios de desgra&ccedil;as, que s&oacute; podem pertencer aos valentes<br \/>\n    lidadores do progresso humano.<\/p>\n<p> E disse mais, visionariamente: &#8211; A hist&oacute;ria &#8211; o sagrado tribunal<br \/>\n    da inquisi&ccedil;&atilde;o, onde comparecem as sombras dos reis &#8211; h&aacute;<br \/>\n    de me julgar. Pouco me importa a senten&ccedil;a. Eu quero ser julgado. Ela<br \/>\n    dir&aacute; que eu fui desp&oacute;tico e brutal. Mas a mim nunca deram educa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    Deixaram-me crescer como esses animais bravios da floresta que s&oacute; conhecem<br \/>\n    a lei de seus apetites e para quem a luta &eacute; a pr&oacute;pria vida.<br \/>\n    N&atilde;o posso ser melhor do que me fizeram. Tenho, preciso ter, essa independ&ecirc;ncia<br \/>\n    selvagem do le&atilde;o que a nada se curva e triunfa sempre. E sinto-me bem,<br \/>\n    assim como sou. Hei de cumprir o meu destino todo inteiro de homem que nasceu<br \/>\n    para as altas empresas legend&aacute;rias! E mais baixo, confidencialmente<br \/>\n    e quase triste: &#8211; Ouve-me, Satan&aacute;s! Eu sou um infeliz.<\/p>\n<p> Fez-se ent&atilde;o um longo sil&ecirc;ncio, merenc&oacute;rio e f&uacute;nebre<br \/>\n    como a ant&iacute;tese dos grandes que se confessam pequeninos.<\/p>\n<p> &#8211; E tu? falou o pr&iacute;ncipe galhofeiramente. &#8211; Lembra-te que um de n&oacute;s<br \/>\n    duos tem de morrer pela m&atilde;o do outro, conforme disse a feiticeira.<\/p>\n<p> &#8211; Elas mentem &agrave;s vezes. Em todo caso mais vale morrer de m&atilde;o<br \/>\n    de amigo.<\/p>\n<p> &#8211; E tu &eacute;s de verdade meu amigo? &#8211; Que pergunta! &#8211; Sim. Fa&ccedil;o-te<br \/>\n    confidente de todos os meus planos. Melhor do que ningu&eacute;m tu sabes<br \/>\n    o que eu penso sobre as cortes. Tu sabes que n&atilde;o posso aturar essa<br \/>\n    canalha de pairadores letrados, que quer deitar leis ao meu orgulho e a quem<br \/>\n    meu pai se entrega com toda a moleza do seu car&aacute;ter.<\/p>\n<p> Mas&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Eu o traio, porventura? &#8211; N&atilde;o. Mas tu me aborreces, porque te fazes<br \/>\n    necess&aacute;rio demais. A tua dedica&ccedil;&atilde;o enfarta-me como a<br \/>\n    festa insistente dos rafeiros.<\/p>\n<p> &#8211; Ora. O pr&iacute;ncipe bem sabe que Zabanila &eacute; minha inimiga. N&atilde;o<br \/>\n    deve, pois, ligar import&acirc;ncia no que ela diz, nem permitir que esta<br \/>\n    cigana de mau olhar queira torn&aacute;-lo o instrumento das suas vingan&ccedil;as<br \/>\n    pessoais.<\/p>\n<p> &#8211; Sim. Falemos de Zabanila. Todo o &oacute;dio que dedicas &agrave; pobre<br \/>\n    rapariga consiste em n&atilde;o seres tu o descobridor daquela p&eacute;rola.<\/p>\n<p> &#8211; P&eacute;rola rachada! &#8211; Que importa! Eu insubordino-me e quero emancipar-me<br \/>\n    da tutela que tens exercido sobre todos os meus amores.<\/p>\n<p> &#8211; Revolta de crian&ccedil;a que prefere o p&atilde;o preto das estrebarias<br \/>\n    ao repasto das mesas do castelo! &#8211; N&atilde;o, Satan&aacute;s! &Eacute; o<br \/>\n    meu orgulho. Eu quero conquistar uma mulher por mim mesmo. E posso garantir-te<br \/>\n    que vou em bom caminho.<\/p>\n<p> &#8211; Faz bem. Eu velarei, entretanto, sobre os seus dias, como esse c&atilde;o<br \/>\n    rafeiro de que falou h&aacute; pouco, e que tanto o incomoda com as suas car&iacute;cias.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o. Ordeno-te que me deixes s&oacute; nesta aventura. E, olha,<br \/>\n    ela n&atilde;o ser&aacute; muito prolongada.<\/p>\n<p> Daqui a tr&ecirc;s dias partiremos para Santos. S&atilde;o, pois, tr&ecirc;s<br \/>\n    dias de liberdade que te pe&ccedil;o apenas.<\/p>\n<p> &#8211; O pr&iacute;ncipe ordena.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, ent&atilde;o separemo-nos.<\/p>\n<p> E os dous se despediram um do outro, mergulhando nas trevas os seus nobres<br \/>\n    vultos fidalgos.<\/p>\n<h2> <a name=\"5\">V LE ROI S&#8217;AMUSE <\/a><\/h2>\n<p>D. Pedro tinha raz&atilde;o. Para o seu car&aacute;ter independente, era<br \/>\n    afinal uma verdadeira humilha&ccedil;&atilde;o aquela constante necessidade<br \/>\n    de recorrer aos servi&ccedil;os do Satan&aacute;s. O que ele mais desejava,<br \/>\n    havia muito, era um amor que pudesse satisfazer o seu orgulho de homem. Aquilo<br \/>\n    rebaixava-o diante de si mesmo; parecia-lhe, ao receber um beijo, que n&atilde;o<br \/>\n    era o homem, forte e apaixonado, que o recebia, vencedor pela for&ccedil;a<br \/>\n    e pela paix&atilde;o, mas o pr&iacute;ncipe, vencedor pelo nome e pelo prest&iacute;gio<br \/>\n    da posi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>E esse amor, que ele sonhava no &iacute;ntimo, essa esperada paix&atilde;o<br \/>\n    desinteressada e nobre, apareceu-lhe (nem o podia imaginar o Satan&aacute;s!)<br \/>\n    no mesmo dia em que Branca deixara que o seu cora&ccedil;&atilde;o se dependurasse<br \/>\n    cativo dos belos bigodes negros de Paulo de Andrade.<\/p>\n<p> Quando a prociss&atilde;o passara, um ano antes, pelo lugar em que estavam<br \/>\n    Branca e d.<\/p>\n<p> Emerenciana, naquela tarde radiante em que a mo&ccedil;a pela primeira vez<br \/>\n    sentira o cora&ccedil;&atilde;o bater sob o dom&iacute;nio de um olhar de<br \/>\n    homem, o pr&iacute;ncipe, que empunhava uma das varas do p&aacute;lio, viu<br \/>\n    de relance a filha do seu alter ego.<\/p>\n<p> Dessa tarde em diante, houve para ele a ansiedade indiz&iacute;vel de rever<br \/>\n    e de possuir aquela criatura loura, cujos olhos refletiam a mais pura inoc&ecirc;ncia<br \/>\n    e toda a ingenuidade de uma crian&ccedil;a&#8230; Ah! o pr&iacute;ncipe j&aacute;<br \/>\n    andava farto de mastigar frutos maduros: o que ele agora queria, era o sabor<br \/>\n    excitante dos p&ecirc;ssegos verdes, ainda n&atilde;o cobertos de penugem.<\/p>\n<p> Viu-a de novo na festa de S. Sebasti&atilde;o, viu-a nos Te-Deuns solenes<br \/>\n    dos dias de gala, viu-a a passeio, viu-a no largo do Pa&ccedil;o, onde naquele<br \/>\n    tempo as fam&iacute;lias iam tomar fresco, pelas tardes abrasadas do ver&atilde;o.<br \/>\n    E privado at&eacute; ent&atilde;o de uma ocasi&atilde;o pr&oacute;pria para<br \/>\n    lhe falar, o pr&iacute;ncipe ardia em impaci&ecirc;ncia e em febre: entre<br \/>\n    duas conquistas f&aacute;ceis das que lhe arranjava o Satan&aacute;s, aparecia-lhe<br \/>\n    sempre a loura imagem de Branca, dominando tudo, apagando tudo com o seu brilho<br \/>\n    e a sua pureza de estrela inacess&iacute;vel.<\/p>\n<p> Na ocasi&atilde;o em que, por bas&oacute;fia, d. Pedro atirou ao Satan&aacute;s<br \/>\n    aquela frase orgulhosa em que vinha explodir, despeitada, a sua altivez, estavam<br \/>\n    as cousas nesse p&eacute;&#8230;<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe, sem que uma s&oacute; palavra pudesse trair as suas ocultas<br \/>\n    inten&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o falou mais, ao Satan&aacute;s na aventura<br \/>\n    em que se tinha empenhado.<\/p>\n<p> N&atilde;o que esse escr&uacute;pulo natural de cavalheiro o retivesse,<br \/>\n    n&atilde;o querendo magoar na parte mais sens&iacute;vel da alma o seu fiel<br \/>\n    servidor; ele n&atilde;o sabia que Branca era filha de Pallingrini. O que<br \/>\n    lhe retinha a indiscri&ccedil;&atilde;o, era o desejo de poder um dia, mostrando-lhe<br \/>\n    e provando-lhe que os seus servi&ccedil;os n&atilde;o eram indispens&aacute;veis,<br \/>\n    dizer-lhe: &#8211; V&ecirc;s? Possuo esta, que &eacute; melhor do que todas as outras;<br \/>\n    e n&atilde;o foste tu que ma deste. N&atilde;o me foi dada pela tua dedica&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    nem pelo meu nome, nem pelo meu prest&iacute;gio. Amou-me, porque me achou<br \/>\n    belo, porque me achou forte e valente, porque satisfiz o seu ideal, porque<br \/>\n    encontrou em mim o homem que lhe devia rasgar diante dos olhos o horizonte<br \/>\n    ilimitado da vida e do amor! J&aacute; v&ecirc;s que os teus servi&ccedil;os<br \/>\n    n&atilde;o s&atilde;o indispens&aacute;veis&#8230;<\/p>\n<p> E redobrou de vigil&acirc;ncia e de esfor&ccedil;os. Afinal, conseguiu saber<br \/>\n    onde morava a sua desconhecida: seguiu-a de uma vez que a encontrou, embu&ccedil;ado,<br \/>\n    &agrave; sa&iacute;da de uma novena do Parto.<\/p>\n<p> E come&ccedil;ou todas as noites a rondar a casa da rua do Conde, na esperan&ccedil;a<br \/>\n    de ver sair algu&eacute;m cuja coniv&ecirc;ncia pudesse comprar a peso de<br \/>\n    ouro, na esperan&ccedil;a de que um acaso providencial viesse inesperadamente<br \/>\n    em seu aux&iacute;lio.<\/p>\n<p> Uma noite, acreditou ter conseguido O que queria. Estava &agrave; espreita,<br \/>\n    num terreno que havia em frente &agrave; casa, e onde se estavam fazendo obras,<br \/>\n    quando viu um embu&ccedil;ado chegar, olhar demoradamente a varanda verde,<br \/>\n    por cujas janelas passava a luz do interior, bater tr&ecirc;s vezes com os<br \/>\n    copos da espada e entrar, depois de longamente ter escrutado todo o arredor<br \/>\n    com um olhar cuidadoso.<\/p>\n<p> Que poderia dizer aquilo? Um homem&#8230;<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o esperou muito. Viu o homem sair pouco depois, com as mesmas<br \/>\n    precau&ccedil;&otilde;es com que entrara. Deixou-o seguir um pouco, e acompanhou-o<br \/>\n    depois, at&eacute; que o viu entrar na tasca do Trancoso. Foi a&iacute; que<br \/>\n    se convenceu de que o homem que gozava a felicidade, at&eacute; ent&atilde;o<br \/>\n    inacess&iacute;vel para ele, de entrar naquela casa, que se lhe afigurava<br \/>\n    uma fortaleza inespugn&aacute;vel, era o Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> Procurou a princ&iacute;pio descobrir que rela&ccedil;&otilde;es podia haver<br \/>\n    entre ele e a sua desconhecida. Mas, desistiu: &#8211; Se &eacute; amante dela,<br \/>\n    melhor! Mais completa ser&aacute; a li&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Empregou pessoas dedicadas para auxili&aacute;-lo a espionar a casa. E ao<br \/>\n    cabo de alguns dias soube que a menina chamava-se Branca e vivia em companhia<br \/>\n    de uma velha espanhola. A obra de sedu&ccedil;&atilde;o prosseguiu. D. Emerenciana,<br \/>\n    a todas as ofertas de dinheiro, op&ocirc;s uma resist&ecirc;ncia inabal&aacute;vel;<br \/>\n    s&oacute; obteve como resultado excitar a impaci&ecirc;ncia e o desejo do<br \/>\n    pr&iacute;ncipe, que se resolveu a empregar os meios violentos.<\/p>\n<p> Organizou-se o plano de ataque. Uma noite, o pr&iacute;ncipe escondeu-se<br \/>\n    nas obras que se faziam na rua do Conde, com dous homens dispostos a tudo.<br \/>\n    Todos armados, todos cautelosamente embrulhados em compridos capotes.<\/p>\n<p> Das dobras do capote de um dos homens que acompanhavam o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    o mais alto e mais magro, o que parecia um grande ponto negro de admira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    &#8211; via-se emergir uma durindana formid&aacute;vel. Era d. Bias. O momento n&atilde;o<br \/>\n    se fez esperar; por volta da meia noite viram chegar &agrave; casa o vulto<br \/>\n    do Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; Por S&atilde;o Tiago de Compostela! &#8211; ganiu d. Bias &#8211; temos mouro, senhor,<br \/>\n    temos mouro! Vou a ele? O pr&iacute;ncipe imp&ocirc;s-lhe sil&ecirc;ncio.<br \/>\n    Como de costume, a demora do Satan&aacute;s foi curta. Pouco depois saiu e<br \/>\n    desapareceu no alto da rua, para o lado da rua do Piolho. Os tr&ecirc;s homens<br \/>\n    sa&iacute;ram ent&atilde;o do esconderijo, e d. Pedro bateu &agrave; porta<br \/>\n    as mesmas tr&ecirc;s pancadas do Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> A porta abriu-se. Naturalmente d. Emerenciana pensara que era o Satan&aacute;s<br \/>\n    que voltava a fazerlhe qualquer recomenda&ccedil;&atilde;o, de que se esquecera.<br \/>\n    Mas, em menos de um minuto, agarrada de surpresa mal teve tempo de dar um<br \/>\n    grito, a velha viu-se solidamente amarrada e amorda&ccedil;ada, e entregue<br \/>\n    &agrave; guarda de d. Bias. O outro homem ficou de guarda &agrave; porta,<br \/>\n    e o pr&iacute;ncipe subiu, levando o lampi&atilde;o que d. Emerenciana trouxera.<\/p>\n<p> D. Bias sentou-se filosoficamente a um degrau, pousou a durindana nos joelhos<br \/>\n    e sacou da profundidade de uma das algibeiras do gib&atilde;o uma naca de<br \/>\n    presunto.<\/p>\n<p> &#8211; Sinto muito, sinto muito, respeit&aacute;vel dama, n&atilde;o lhe poder<br \/>\n    oferecer um pouco desta parca refei&ccedil;&atilde;o. Desculpe&#8230;<\/p>\n<p> E continuou esmoendo o presunto com um grande barulho de queixos, que soava<br \/>\n    na treva da escada como uma tempestade.<\/p>\n<p> Mas, de cima, come&ccedil;ou a chegar um barulho de passos e de vozes. Ah!<br \/>\n    bem que a boa Emerenciana distinguia a voz aflita de Branca. E desesperava-se<br \/>\n    a velha espanhola, sem poder acudir &agrave; sua querida filha, ali amarrada,<br \/>\n    diante daquele fantasma que comia. Por fim, ouviu-se um grito: e nenhum outro<br \/>\n    rumor chegou de cima.<\/p>\n<p> Mas o homem que estava &agrave; porta, bradou: &#8211; Quem vem l&aacute;? E d.<br \/>\n    Bias engasgou-se com um peda&ccedil;o de presunto, compreendendo que o companheiro<br \/>\n    batiase l&aacute; fora com algu&eacute;m, ouviu tinir de ferros, ouviu passos<br \/>\n    de quem fugia, viu a porta abrir-se e um homem entrar, trope&ccedil;ando no<br \/>\n    corpo da velha.<\/p>\n<p> Era Paulo de Andrade, que ouvira o grito e a quem a presen&ccedil;a do homem<br \/>\n    armado &agrave; porta causara suspeitas. Ao esbarrar no corpo, abaixou-se<br \/>\n    e reconheceu-o.<\/p>\n<p> D. Bias esgueirou-se como uma sombra pela parede, saltou &agrave; rua, disparou,<br \/>\n    trope&ccedil;ou na espada, caiu, levantou-se, e foi cair extenuado &agrave;<br \/>\n    porta do Trancoso, de onde o Satan&aacute;s vinha saindo.<\/p>\n<p> Paulo de Andrade, preocupado em desamarrar a velha, nem dera por ele. Subiu<br \/>\n    a escada a quatro e quatro, de espada em punho, viu deserta a sala da frente,<br \/>\n    entrou como um cego no quarto de Branca.<\/p>\n<p> Todo o quarto estava em revolu&ccedil;&atilde;o, cadeiras ca&iacute;das,<br \/>\n    roto o cortinado do leito, onde Branca jazia estendida, sem dar acordo de<br \/>\n    si. O pr&iacute;ncipe, vendo entrar o capit&atilde;o, teve apenas tempo de<br \/>\n    apanhar a espada e p&ocirc;r-se em guarda. Paulo arremeteu contra ele: &#8211; Miser&aacute;vel!<br \/>\n    Mas estacou de repente, e veio recuando at&eacute; a parede, com um grande<br \/>\n    espanto na fisionomia alterada&#8230; Reconhecera o pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p> Lia-se ent&atilde;o na face do mo&ccedil;o capit&atilde;o a luta que dentro<br \/>\n    dele se travava. Por duas vezes, pareceu atirar-se contra o seu rival. Mas<br \/>\n    d. Pedro esperava-o, sereno, com o olhar fito no dele. E Paulo, deixando cair<br \/>\n    a espada, cravou no peito o punhal, indo bater com a fronte na borda do leito,<br \/>\n    onde Branca continuava sem sentidos.<\/p>\n<p> Quando d. Bias, &agrave; porta do Trancoso, conseguiu recuperar o uso da<br \/>\n    fala, come&ccedil;ou a contar o caso ao Satan&aacute;s, preparando-se para<br \/>\n    mentir &agrave; vontade.<\/p>\n<p> &#8211; Ai! imagina, &oacute; Satan&aacute;s! eu amava, ele amava, elas nos amavam.<br \/>\n    Tudo pronto j&aacute;, quando de repente vemos a casa invadida por duzentos<br \/>\n    homens armados&#8230; Duzentos? espera&#8230; n&atilde;o! n&atilde;o eram duzentos,<br \/>\n    mas eram cem. Caem sobre n&oacute;s. Bati-me, como sabes que me bato sempre!<br \/>\n    mas&#8230;<\/p>\n<p> Mas, onde isso? onde isso? &#8211; Na casa, homem&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Em que casa? &#8211; Na casa da rua do Conde; ora ouve&#8230; Mas o Satan&aacute;s<br \/>\n    n&atilde;o quis ouvir mais nada.<\/p>\n<p> Aquele nome de rua do Conde encheu-o de um pressentimento terr&iacute;vel.<br \/>\n    D. Bias nada dissera mas o escultor ouvia uma voz secreta a gritar-lhe que<br \/>\n    era a filha quem corria perigo.<\/p>\n<p> N&atilde;o ouviu mais e correu, deixando em meio da narra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    o bravo fidalgo de Espanha, que entrou para a taverna, a afogar no seio de<br \/>\n    um pichel a sua sede de sangue.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s encontrou a porta aberta. Ah! era verdade! era verdade!<br \/>\n    Um rugido surdo lhe saiu da garganta, voou pela escada acima, louco de raiva<br \/>\n    e de terror. E parou &agrave; porta, sem movimento e sem voz, diante daquele<br \/>\n    quadro terr&iacute;vel.<\/p>\n<p> Branca desmaiada ainda. Paulo, estendido no ch&atilde;o, sobre uma po&ccedil;a<br \/>\n    de sangue, e a velha rezando, ajoelhada diante do orat&oacute;rio.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s sentiu que a raz&atilde;o lhe ia fugir. Mas compreendeu.<br \/>\n    Sim! a sua filha fora desonrada por aquele miser&aacute;vel que ali estava<br \/>\n    estendido. Desonrada! desonrada a sua vida, manchado o seu &uacute;nico amor,<br \/>\n    calcada aos p&eacute;s toda a sua felicidade! Uma nuvem de sangue lhe cresceu<br \/>\n    diante dos olhos. Ah! era a velha a culpada. E, louco, tr&ocirc;pego, alucinado,<br \/>\n    embebeu a sua espada at&eacute; aos copos entre as duas esp&aacute;duas da<br \/>\n    espanhola.<\/p>\n<p> O sangue jorrou de repente e borrifou de gotas vermelhas o manto de Nossa<br \/>\n    Senhora.<\/p>\n<p> Nesse momento, uma gargalhada longa, sinistra, angustiosa, repercutiu no<br \/>\n    quarto. Branca assistira ao assassinato.<\/p>\n<p> E de p&eacute;, cercada pelo v&eacute;u de ouro dos cabelos, torcia as m&atilde;os,<br \/>\n    e ria, e ria, e ria. Enlouquecera.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"> VI A PEIXADA <\/a><\/h2>\n<p>O Satan&aacute;s acompanhou o pr&iacute;ncipe a Santos na madrugada do dia<br \/>\n    seguinte.<\/p>\n<p> Naquela noite, em que a trag&eacute;dia da rua do Conde se passara, o Satan&aacute;s<br \/>\n    sa&iacute;ra de casa da filha, como um louco. Vagara sem destino at&eacute;<br \/>\n    o amanhecer, apertando a cabe&ccedil;a nas m&atilde;os, sem compreender ainda<br \/>\n    o que se havia passado.<\/p>\n<p> E no dia seguinte, a bordo, d. Pedro, que o for&ccedil;ara a partir consigo,<br \/>\n    notou-lhe a fisionomia alterada: o Satan&aacute;s queixou-se de estar doente<br \/>\n    e fechou-se a sete chaves no mais absoluto sil&ecirc;ncio a respeito dos sucessos<br \/>\n    da v&eacute;spera. A not&iacute;cia dos dous assassinatos espalhara-se rapidamente<br \/>\n    pela cidade: tinham sido encontrados os cad&aacute;veres de Paulo de Andrade<br \/>\n    e de Emerenciana, e a pol&iacute;cia p&ocirc;s-se logo em campo para esclarecer<br \/>\n    o neg&oacute;cio. De Branca, por&eacute;m, n&atilde;o havia a menor not&iacute;cia:<br \/>\n    desaparecera.<\/p>\n<p> Quando o pr&iacute;ncipe partiu para Santos, os horizontes pol&iacute;ticos<br \/>\n    do Brasil toldavam-se, anunciando a tempestade iminente. D. Pedro via-se reduzido<br \/>\n    a simples governador do Brasil e recebera j&aacute; a ordem de retirar-se<br \/>\n    para a Europa. O povo de S&atilde;o Paulo mandara-lhe a c&eacute;lebre representa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de oito mil pessoas, pedindo-lhe que ficasse.<\/p>\n<p> No ouvido do pr&iacute;ncipe regente soavam ainda as &uacute;ltimas palavras<br \/>\n    de seu pai, ao embarcar para Lisboa: Pedro, p&otilde;e a coroa sobre a tua<br \/>\n    cabe&ccedil;a&#8230;<\/p>\n<p> O seu nobre desejo de ser o constituidor de um novo povo era secundado ainda<br \/>\n    pelos conselhos dos seus partid&aacute;rios, que lhe inflamavam cada vez mais<br \/>\n    o entusiasmo e a ambi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> A Sociedade Tenebrosa do Apostolado, que ent&atilde;o funcionava no quartel<br \/>\n    da Guarda Velha e da qual era o pr&iacute;ncipe o Archonte Rei, incitara-o<br \/>\n    a precipitar os acontecimentos. Demais, as &uacute;ltimas not&iacute;cias<br \/>\n    de Lisboa eram as mais inquietadoras poss&iacute;veis: os deputados brasileiros,<br \/>\n    insultados nas cortes, tinham reagido escandalosamente com uma nobre energia:<br \/>\n    perseguidos, tinham sido for&ccedil;ados a embarcar para Falmouth e da&iacute;~ara<br \/>\n    o Brasil.<\/p>\n<p> De modo que o pr&iacute;ncipe n&atilde;o podia mais hesitar.<\/p>\n<p> Mas, em Santos, n&atilde;o foi a pol&iacute;tica que lhe preocupou o exaltado<br \/>\n    cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> L&aacute; mesmo, o Satan&aacute;s teve de reassumir as fun&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    de medianeiro fiel. Porque, cheio, durante o dia, de preocupa&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    pol&iacute;ticas, o pr&iacute;ncipe passava as noites a correr a velha cidade,<br \/>\n    &agrave; cata de aventuras.<\/p>\n<p> As ruas sujas de Santos, eternamente cobertas de lama, quer a chuva ca&iacute;sse,<br \/>\n    quer o sol abrasasse, impregnadas de um cheiro repugnante de maresia, n&atilde;o<br \/>\n    tiveram mais segredos para os dous. E Satan&aacute;s descobriu uma rapariga<br \/>\n    deliciosa, que casara com um velho fidalgo portugu&ecirc;s e que n&atilde;o<br \/>\n    hesitou em abrir o seio &agrave; honra dos beijos do jovem pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p> A primeira entrevista realizou-se na Barra, em casa de uma velha algarvia,<br \/>\n    conhecida na cidade pela per&iacute;cia inexced&iacute;vel com que preparava<br \/>\n    as peixadas suculentas para as fun&ccedil;anatas de ent&atilde;o. E fui por<br \/>\n    uma bela noite de luar que O pr&iacute;ncipe, acompanhado do Satan&aacute;s,<br \/>\n    partiu para a Barra, onde o esperavam uma farta peixada de escabeche e um<br \/>\n    farto colo de mulher morena.<\/p>\n<p> A casa abria as janelas para o mar, onde o luar entornava a sua prata l&iacute;quida,<br \/>\n    naquela noite serena. Eram a perder de vista, desde a praia curva, de areias<br \/>\n    clar&iacute;ssimas, at&eacute; o limite apartado do horizonte, &aacute;guas<br \/>\n    e &aacute;guas que tremiam ao luar, encrespadas e franjadas de espuma.<\/p>\n<p> &Agrave; porta d. Pedro parou. A sua alma ardente de ambicioso agradava<br \/>\n    aquele infinito sereno, aquela vastid&atilde;o de &aacute;guas calmas, ilimitadas<br \/>\n    como os seus sonhos de poder e de gl&oacute;ria.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s, ao lado, olhava tamb&eacute;m o mar: e aquilo trazia-lhe<br \/>\n    &agrave; lembran&ccedil;a o infinito do seu desespero e a soledade da sua<br \/>\n    vida, sem filha, sem amigos, c&atilde;o rafeiro de um fidalgo&#8230;<\/p>\n<p> Mas d. Pedro foi o primeiro a arrancar-se das suas medita&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    &#8211; Entremos. Nunca se deve fazer esperar uma mulher.<\/p>\n<p> &#8211; Nem uma peixada, acrescentou o escultor.<\/p>\n<p> Entraram. Uma sala baixa, toda furada de janelas, por onde o luar entrava,<br \/>\n    cintilando. Ao centro, a mesa estava posta, aceiada, com a grande terrina<br \/>\n    de lou&ccedil;a azul, descoberta, deixando ver o molho louro do escabeche,<br \/>\n    cujo aroma fazia a &aacute;gua crescer na boca.<\/p>\n<p> Maria, ao ver entrar o pr&iacute;ncipe, levantou-se do banco em que estava<br \/>\n    sentada, a uma das janelas, contemplando o luar. Era uma mulher opulenta,<br \/>\n    de amplas formas sensualmente arredondadas, olhos profundos e negros, circulados<br \/>\n    de olheiras roxas. No l&aacute;bio superior, carnudo e vermelho, sombreava-se-lhe<br \/>\n    um bu&ccedil;o delicioso.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe beijou-lhe a m&atilde;o, fidalgamente. E, enla&ccedil;ando-lhe<br \/>\n    a cintura, foi com ela para a janela.<\/p>\n<p> Da&iacute; a pouco, a sala encheu-se de um sussurro de vozes cochichadas<br \/>\n    nomezinhos ternos, risadinhas brejeiras, beijinhos marotos. O Satan&aacute;s<br \/>\n    meditava a um canto, taciturno.<\/p>\n<p> A velha Marta do Peixe entrou muito gorda, muito suada com dous seios formid&aacute;veis,<br \/>\n    tr&ecirc;mulos como dous grandes bolos de gelatina, trazendo os canjir&otilde;es<br \/>\n    do Ribatejo.<\/p>\n<p> Que viessem para a mesa, que viessem para a mesa! estava a cousa de empanturrar<br \/>\n    o bandulho e solu&ccedil;ar por mais! haviam de lamber os bei&ccedil;os..<br \/>\n    N&atilde;o! que para coser as anchovas tenrinhas n&atilde;o havia com&#8217;a ela!<br \/>\n    Abancaram todos. E a Marta, de mangas arrega&ccedil;adas, deixando ver dous<br \/>\n    bra&ccedil;os que pareciam duas pernas, p&ocirc;s-se a encher pratarrazes<br \/>\n    de peixe.<\/p>\n<p> &#8211; Olhem que foi pescado ali assim p&#8217;lo meu home! E &eacute; qu&ecirc; ele<br \/>\n    foi feliz, o raio do dianho, que as pescarias t&ecirc;m andado nada boas,<br \/>\n    p&#8217;la Senhora da Boa Morte! O pr&iacute;ncipe interessou-se pelo homem da Marta.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o? rendia o neg&oacute;cio? &#8211; Qual nada, senhor! &Eacute; uma<br \/>\n    az&aacute;fama do tinhoso a sol e chuva, e nada de fazer p&#8217;r&#8217;&oacute; p&atilde;o!<br \/>\n    E inda &eacute; bom quando n&atilde;o se morre por l&aacute;, por essas aiaguas<br \/>\n    de Cristo! Inda tresantonte l&aacute; se ficou o Chico da Burra, mais a canoa<br \/>\n    e a rede&#8230; Agora &eacute; verdade que ningu&eacute;m mandou o desinfeliz<br \/>\n    ir pescar por riba da catedral! &#8211; Que catedral, mulher? interrogou o Satan&aacute;s,<br \/>\n    curioso.<\/p>\n<p> A Marta contou ent&atilde;o a lenda, muito conhecida, naqueles tempos e<br \/>\n    ainda hoje, em Santos.<\/p>\n<p> Dizia-se que uma parte da cidade, constru&iacute;da pelos primeiros portugueses,<br \/>\n    fora submergida. Era nessa parte que fora edificada a primeira igreja de Santos:<br \/>\n    e tanto que, por noites assim, de luar, quem chegava &agrave; beira da praia,<br \/>\n    ouvia no seio das &aacute;guas um barulho de sinos, dobrando a finados. E<br \/>\n    ai! do pescador atrevido que ousasse pescar naquele ponto!&#8230; vinham os padres<br \/>\n    &agrave; tona d&#8217;&aacute;gua e carregavam com ele para o fundo do mar.<\/p>\n<p> &#8211; Crendices tolas! &#8211; disse d. Pedro.<\/p>\n<p> Mas, por uma sucess&atilde;o de id&eacute;ias, aquela hist&oacute;ria supersticiosa<br \/>\n    da velha trouxera-lhe &agrave; mem&oacute;ria as profecias da Zabanila. Sacudiu<br \/>\n    os ombros. E, aproximando a cadeira da cadeira de Maria, p&ocirc;s-se a conversar<br \/>\n    com ela, em voz baixa. Depois levantaram-se, voltaram &agrave; janela.<\/p>\n<p> A Marta do Peixe ia retirar-se discretamente da sala, frechando para a janela<br \/>\n    um olhar meloso e brejeiro de rufiona entendida. O pr&iacute;ncipe falou:<br \/>\n    &#8211; Ol&aacute;! mulher! podes levar a luz! O Satan&aacute;s saiu, e foi &agrave;<br \/>\n    praia apreciar a noite. E a sala &agrave;s escuras encheu-se de beijos.<\/p>\n<p> A mesa ficara posta, com a terrina destampada. E talvez, naquela escurid&atilde;o,<br \/>\n    a alma faminta de d. Bias andasse em comunica&ccedil;&otilde;es esp&iacute;ritas<br \/>\n    com a alma cheirosa do peixe&#8230;<\/p>\n<p> Havia meia hora que estavam s&oacute;s os amantes, quando o Satan&aacute;s<br \/>\n    falou da porta: &#8211; Senhor! &#8211; Que &eacute;? saiu das trevas da sala a voz do<br \/>\n    pr&iacute;ncipe, enfadado.<\/p>\n<p> &#8211; Cousa s&eacute;ria.<\/p>\n<p> &#8211; Ora, deixa l&aacute; as cousas s&eacute;rias para amanh&atilde;, homem!<br \/>\n    &#8211; E o capit&atilde;o das guardas que a&iacute; est&aacute;.<\/p>\n<p> &#8211; Que espere.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o pode esperar. &Eacute; preciso que fale j&aacute; com ele.<\/p>\n<p> &#8211; Vai-te para o diabo e deixa-me em paz! &#8211; Ou&ccedil;a, senhor&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Arre, vai-te! j&aacute; te disse&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Perd&atilde;o! n&atilde;o me vou. Acabam de chegar despachos assustadores<br \/>\n    de Lisboa.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe resolveu-se a desenla&ccedil;ar-se dos bra&ccedil;os da<br \/>\n    amante. Saiu. O capit&atilde;o esperava-o.<\/p>\n<p> Depois de uma curta confer&ecirc;ncia, o pr&iacute;ncipe veio despedir-se<br \/>\n    de Maria. Outra vez a sala se encheu de beijos. E o pr&iacute;ncipe, elevando<br \/>\n    a voz, chamou pela Marta.<\/p>\n<p> Ela veio logo, muito azafamada, arrastando as banhas pesadas. E ajoelhou-se,<br \/>\n    comovida, quando o seu h&oacute;spede lhe meteu na m&atilde;o duas moedas<br \/>\n    de ouro.<\/p>\n<p> Nessa mesma noite, o pr&iacute;ncipe saiu de Santos, acompanhado por um<br \/>\n    regimento de cavalaria. E a madrugada despontava, banhando de ouro e fogo<br \/>\n    os p&iacute;ncaros de Cubat&atilde;o, quando a comitiva come&ccedil;ou a subir<br \/>\n    a serra, a caminho de S. Paulo.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"> VII D. BIAS CARCEREIRO <\/a><\/h2>\n<p>Feitas as revela&ccedil;&otilde;es e escorropichado o primeiro pichel ali<br \/>\n    na bodega do Trancoso, d. Bias p&ocirc;sse a refletir sobre o caso.<\/p>\n<p> &#8211; O Satan&aacute;s tinha partido na dire&ccedil;&atilde;o da rua do Conde.<br \/>\n    L&aacute; chegando ele deveria necessariamente intrometer-se naquele drama<br \/>\n    tenebroso, cujos pormenores, ele, d. Bias, n&atilde;o conhecia, e cujo desenlace<br \/>\n    ficava para al&eacute;m, misterioso e vago como uma amea&ccedil;a constante.<br \/>\n    E o Satan&aacute;s, que n&atilde;o devia morrer, porque os homens daquela<br \/>\n    t&ecirc;mpera nunca morrem a botes de espada, o Satan&aacute;s viria tomar-lhe<br \/>\n    contas, pedir-lhe satisfa&ccedil;&otilde;es do aux&iacute;lio que prestara<br \/>\n    ao pr&iacute;ncipe para que este lhe roubasse sua amante. E d. Bias esbugalhou<br \/>\n    os olhos em derredor, assustado e tr&ecirc;mulo. Sentiu a espada do escultor<br \/>\n    prancheando-lhe o costado manejada pelo pulso valente de Pallingrini. Sup&ocirc;s<br \/>\n    at&eacute; o a&ccedil;o frio e cortante a entrar-lhe pelas carnes adentro.<\/p>\n<p> Teve medo, muito medo. E apalpou os ossos para saber se eles ainda estavam<br \/>\n    inteiros e bons, se n&atilde;o se tinham j&aacute; esmigalhado com esta perspectiva<br \/>\n    infal&iacute;vel de uma vindita do Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; Tamb&eacute;m, quem lhe encomendara o serm&atilde;o? quem lhe mandara<br \/>\n    meter-se nessas cousas e intrigas amorosas do pr&iacute;ncipe? J&aacute; quando<br \/>\n    promovera a entrevista com Zabanila, a esperan&ccedil;a dos lucros fabulosos<br \/>\n    que fizera, empanara-se com a expectativa da rivalidade com o mestre d&#8217;armas.<br \/>\n    Este pespegara-lhe uns cacha&ccedil;&otilde;es. E bastava. Pela primeira vez<br \/>\n    n&atilde;o tinha apetite de repetir.<\/p>\n<p> E d. Bias reconheceu a necessidade de fugir; de esconder-se, fosse l&aacute;<br \/>\n    onde fosse.<\/p>\n<p> Saiu.<\/p>\n<p> Na rua teve uma id&eacute;ia, id&eacute;ia luminosa, dessas que s&oacute;<br \/>\n    aparecem uma vez na vida de um homem.<\/p>\n<p> Mau grado a sua nenhuma voca&ccedil;&atilde;o para semelhantes empresas,<br \/>\n    atravessou o campo da Alampadosa todo inteiro, enveredou pela rua da Cadeia,<br \/>\n    e veio andando, p&eacute; aqui, p&eacute; ali, evitando as po&ccedil;as de<br \/>\n    &aacute;gua, aproveitando as pedras mais altas, &agrave;s vezes esgueirando-se<br \/>\n    rente &agrave;s paredes.<\/p>\n<p> Chegou ao convento do Carmo e bateu, de espa&ccedil;os em espa&ccedil;os,<br \/>\n    compassadamente, numa porta baixa e estreita que dava para o largo. Abriram-na.<br \/>\n    Ele entrou.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o? &#8211; Novidades.<\/p>\n<p> &#8211; Mas ela est&aacute; dormindo.<\/p>\n<p> &#8211; Bem. Eu durmo aqui para esperar. Mas que ningu&eacute;m saiba de minha<br \/>\n    presen&ccedil;a nestes lugares.<\/p>\n<p> E dormiu por sobre um caixote oblongo, desses que ent&atilde;o serviam para<br \/>\n    guardar roupas de mulher.<\/p>\n<p> No dia seguinte, pelo meio-dia, mandaram-no chamar.<\/p>\n<p> D. Bias foi introduzido num vasto aposento luxuoso, onde morava ostensivamente<br \/>\n    a amante ostensiva de d. Pedro. Aposento de amores, onde a fantasia da mulher<br \/>\n    pusera alguma cousa de asi&aacute;tico, ele era suntuoso de comodidades, cheio<br \/>\n    de coxins forrado a pano da P&eacute;rsia com tachas de ouro e prata.<\/p>\n<p> Ela, a quase rainha, esperava-o, molemente reclinada sobre o leito, com<br \/>\n    as grandes carna&ccedil;&otilde;es leitosas e fortes de mulher sadia, apenas<br \/>\n    envoltas em uma vasta t&uacute;nica de cachemira branca, bordada a ouro. Uma<br \/>\n    dama penteava-lhe com pente de ouro os longos cabelos castanhos e sedosos.<br \/>\n    E a Domitila sorria, triunfalmente bela.<\/p>\n<p> D. Bias ajoelhou-se.<\/p>\n<p> &#8211; Senhora! disse. &#8211; Senhora, eu tenho vigiado.<\/p>\n<p> &#8211; E j&aacute; descobriste porventura alguma cousa, oh! tu! meu belo fidalgo<br \/>\n    das Espanhas.<\/p>\n<p> &#8211; J&aacute;, minha senhora.<\/p>\n<p> &#8211; Pois conta-me l&aacute; a tua espionagem, fez a r&eacute;gia amante com<br \/>\n    um grande sossego de indiferen&ccedil;as.<\/p>\n<p> Ela estava agora tranq&uuml;ila de sua vida. Tinha conseguido do pr&iacute;ncipe<br \/>\n    a promessa de um t&iacute;tulo, cuja coroa, reluzente de ouro e pedrarias,<br \/>\n    viesse lhe adornar os altos penteados &agrave; Maria Antonieta, de que tanto<br \/>\n    gostava. E essa viagem a Santos, que acabava de se efetuar naquela madrugada,<br \/>\n    fora ela quem a exigira, desejosa de converter esta cidade no feudo de seus<br \/>\n    amores.<\/p>\n<p> J&aacute; n&atilde;o lhe vinham mais os ci&uacute;mes primitivos, que tanto<br \/>\n    acidentaram o primeiro per&iacute;odo de suas liga&ccedil;&otilde;es. Sentia-se<br \/>\n    feliz, forte e soberana, dominando o cora&ccedil;&atilde;o de d. Pedro e podendo<br \/>\n    permitirlhe as pequenas escapadas das aventuras noturnas. E esquecia-se at&eacute;<br \/>\n    de que encarregara d.<\/p>\n<p> Bias de vigiar os passos do seu r&eacute;gio amante.<\/p>\n<p> D. Bias, por&eacute;m, perorou longamente, espanholamente.<\/p>\n<p> Contou o caso da rua do Conde, fazendo-o tenebroso, cavalgando a r&eacute;deas<br \/>\n    soltas no Rocinante das suas fantasias &#8211; d. Quixote dos ideais, ele mesmo,<br \/>\n    magro e esgalgado, lutador impert&eacute;rrito de longa durindana para a batalha<br \/>\n    solene dos moinhos de vento.<\/p>\n<p> &#8211; Fora o Satan&aacute;s que fizera tudo. O Satan&aacute;s! &#8211; a negra alma<br \/>\n    vagabunda da pervers&atilde;o e maldade! Fora ele quem, sem mais barreg&atilde;s<br \/>\n    nem rameiras para oferecer ao seu r&eacute;gio disc&iacute;pulo de esgrima,<br \/>\n    quisera dar-lhe at&eacute; a pr&oacute;pria amante. Bem lhe conhecia os planos.<br \/>\n    Satan&aacute;s queria dominar inteiramente o pr&iacute;ncipe, domin&aacute;-lo<br \/>\n    pela amizade e domin&aacute;-lo pelo cora&ccedil;&atilde;o, para ficar o senhor<br \/>\n    absoluto dessa terra dos Brasis. Conspirava. Conspirava at&eacute; contra<br \/>\n    ela &#8211; a bela nina formosa! &#8211; &Eacute; preciso mat&aacute;-lo! Consiga ao menos<br \/>\n    que o deportem! Nada vos &eacute; imposs&iacute;vel, a v&oacute;s que fizestes<br \/>\n    deportar o conde d&#8217;Arcos.<\/p>\n<p> A Domitila fez-se apreensiva. Ela n&atilde;o gostava do Satan&aacute;s.<br \/>\n    E vinham-lhe agora receios de ver a fortuna esboroar-se-lhe no momento mesmo<br \/>\n    que supunha alcan&ccedil;&aacute;-la.<\/p>\n<p> &#8211; Em todo caso, disse como que meditando, em todo caso agora n&atilde;o<br \/>\n    pode ser, porque o pr&iacute;ncipe e o Satan&aacute;s partiram esta madrugada<br \/>\n    para Santos.<\/p>\n<p> &#8211; Caramba! resfolegou d. Bias com a not&iacute;cia de estar longe o homem<br \/>\n    de quem tinha medo. &#8211; Caramba! porque se aqui estivesse, era eu quem o ia<br \/>\n    matar! Ela nem sorriu dessa fanfarronada. Mas gritou-lhe imperiosamente: &#8211;<br \/>\n    Quero essa mulher! Quero a amante de Satan&aacute;s! Dou-te mil cruzados,<br \/>\n    se a trouxeres! E, de p&eacute;, ofegante, com um gesto de rainha: &#8211; V&aacute;!<br \/>\n    D. Bias saiu.<\/p>\n<p> Caminhou pelas ruas, altivo e malcriado, retinindo a durindana pelas pedras,<br \/>\n    cofiando o bigode provocadoramente.<\/p>\n<p> Estava longe o Satan&aacute;s, e ele n&atilde;o tinha medo.<\/p>\n<p> Por isso andou e correu a cidade inteira. Soube logo not&iacute;cias do<br \/>\n    drama da rua do Conde.<\/p>\n<p> Vieram-lhe calafrios com a no&ccedil;&atilde;o completa do perigo que correra.<br \/>\n    Mas dominava-lhe dentro da cabe&ccedil;a a id&eacute;ia dos mil cruzados que<br \/>\n    lhe haviam sido prometidos, para o caso de descobrir a amante do escultor-espadachim.<br \/>\n    E tratou de encontr&aacute;-la.<\/p>\n<p> Poucas esperan&ccedil;as tinha a este respeito. N&atilde;o a conhecia. E<br \/>\n    as informa&ccedil;&otilde;es dos alguazis amigos, que andavam empenhados em<br \/>\n    desvendar o mist&eacute;rio da morte de Paulo de Andrade, falavam apenas em<br \/>\n    suspeitas de que naquela casa residisse uma mo&ccedil;a, que devia ter fugido.<\/p>\n<p> Fugido com quem? Lev&aacute;-la-ia d. Pedro para algum misterioso antro<br \/>\n    de amores? Ou o Satan&aacute;s t&ecirc;-la-ia posto a seguro, em algum esconderijo<br \/>\n    desses que s&oacute; ele conhecia? D. Bias estava na incerteza. N&atilde;o<br \/>\n    sabia que partido tomar. E pensava at&eacute; em aproveitar a filha do carpinteiro<br \/>\n    Cust&oacute;dio, que lhe residia em casa, para faz&ecirc;-la passar como amante<br \/>\n    do italiano.<\/p>\n<p> O ponto para ele era receber o dinheiro da Domitila e passar-se imediatamente<br \/>\n    para qualquer terra long&iacute;nqua, onde n&atilde;o chegasse o bra&ccedil;o<br \/>\n    vingativo do seu ex-companheiro das bodegas do Mansanares.<\/p>\n<p> Quando seguia, por&eacute;m, j&aacute; quase ao anoitecer, pela rua da Vala,<br \/>\n    chamaram-no de dentro da pris&atilde;o provis&oacute;ria que ai havia, e onde<br \/>\n    eram recolhidos os vagabundos not&iacute;vagos.<\/p>\n<p> Era um alguazil, que ele pusera em meia confid&ecirc;ncia do neg&oacute;cio,<br \/>\n    e que lhe mostrou Branca, seminua, com as roupas sangrentas.<\/p>\n<p> A filha de Pallingrini, logo ap&oacute;s a brusca partida do pai, precipitara-se<br \/>\n    sobre o cad&aacute;ver de Paulo de Andrade. Abra&ccedil;ara-o, beijara-o sofregamente,<br \/>\n    loucamente, na febre amorosa dessa loucura, que para sempre lhe entenebrecera<br \/>\n    o c&eacute;rebro, triturando-lhe o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Depois tivera medo, sentindo rijo e frio, sem aconchegos de abra&ccedil;os<br \/>\n    e quenturas de beijos, o p&aacute;lido capit&atilde;o formoso dos seus amores<br \/>\n    juvenis.<\/p>\n<p> Teve medo e fugiu.<\/p>\n<p> Perambulou pelas ruas, inconscientemente de si murmurando car&iacute;cias<br \/>\n    e meiguices e gritando de repente um grito de horrores.<\/p>\n<p> Prenderam-na.<\/p>\n<p> D. Bias adivinhou-a. N&atilde;o podia ser outra. Aquele sangue, as palavras<br \/>\n    incertas que pronunciava, e que podiam todas articular-se ao drama indecifr&aacute;vel<br \/>\n    da rua do Conde, revelavam-na, garantiam-lhe a autenticidade da descoberta.<\/p>\n<p> E o fidalgo espanhol, aproveitando o alguazil seu amigo, e mais ainda o<br \/>\n    segredo da noite, que tem sempre um manto escuro para esconder esses mist&eacute;rios,<br \/>\n    levou-a para os fundos do convento do Carmo, onde j&aacute; estavam dadas<br \/>\n    ordens de receb&ecirc;-la.<\/p>\n<p> A Domitila nem quis ver a rival que o Satan&aacute;s lhe pretendia impor.<br \/>\n    Mas n&atilde;o quis tamb&eacute;m contar logo o dinheiro que prometera, e<br \/>\n    ordenou que d. Bias ficasse de guarda a prisioneira.<\/p>\n<p> E a porta pesada de um quarto t&eacute;rreo e sem janelas aferrolhou-se<br \/>\n    sobre Branca &#8211; a pobre crian&ccedil;a louca, para quem a sorte se mostrava<br \/>\n    t&atilde;o &aacute;spera, e que cantava entretanto um alegre bolero espanhol<br \/>\n    saltitante e amoroso como o p&eacute; das sevilhanas.<\/p>\n<h2> <a name=\"8\">VIII O GRITO AURIVERDE <\/a><\/h2>\n<p>Naquele tempo fazia-se a viagem de Santos a S. Paulo, atrav&eacute;s do mato<br \/>\n    virgem. A serra que a Estrada Inglesa hoje corta, e por onde sobem os vag&otilde;es<br \/>\n    bufando, s&oacute; podia ser galgada a cavalo, dificilmente, penosamente.<br \/>\n    A jornada de d. Pedro fez-se por um dia magn&iacute;fico. A serra inundada<br \/>\n    de sol encrespava a sua vegeta&ccedil;&atilde;o prodigiosa, de um lado e de<br \/>\n    outro do estreito caminho, aberto na mata, por onde os cavalos trotavam enchendo<br \/>\n    as grotas de ecos prolongados.<\/p>\n<p> A frente da comitiva, o pr&iacute;ncipe cravava de instante a instante as<br \/>\n    esporas no animal. Ao seu lado, seguia o comandante do regimento. O Satan&aacute;s<br \/>\n    vinha mais para tr&aacute;s, com a capa voando ao vento, na impetuosidade<br \/>\n    do galope. Depois, atropelado e veloz, &#8211; num grande estrupido, o regimento<br \/>\n    de cavalaria abalava a serra, voando.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m falava. O pr&iacute;ncipe seguia preocupado, por aquele novo<br \/>\n    aspecto que tomavam as cousas, impondo-lhe agora um procedimento cujas conseq&uuml;&ecirc;ncias<br \/>\n    ainda n&atilde;o se podiam prever.<\/p>\n<p> Esquecera-se j&aacute; dos tristes sucessos da casa da rua do Conde. A princ&iacute;pio,<br \/>\n    o remorso lhe apuara o cora&ccedil;&atilde;o, vendo-se o causador daquela<br \/>\n    grande desgra&ccedil;a. Branca resistira com uma tenacidade, que ofendera<br \/>\n    a sua vaidade de conquistador irresist&iacute;vel. Era a primeira mulher que<br \/>\n    opunha um obst&aacute;culo &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o de um desejo<br \/>\n    seu. Ferido no amor pr&oacute;prio, n&atilde;o recuou diante de uma viol&ecirc;ncia.<br \/>\n    Nenhuma das outras recusara aquela honra, nenhuma! &#8211; estas, por amor, cedendo-se<br \/>\n    com paix&atilde;o &agrave;quele belo fidalgo que governava o maior pa&iacute;s<br \/>\n    da terra, e cujos l&aacute;bios e cujas m&atilde;os tinham car&iacute;cias<br \/>\n    t&atilde;o novas, afagos t&atilde;o doces; aquelas, por vaidade, amando-o<br \/>\n    por luxo, dando-se a ele pela satisfa&ccedil;&atilde;o de se sentirem princesas<br \/>\n    no breve espa&ccedil;o de um espasmo de gozo; outras, por imposi&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de maridos e pais ambiciosos, fazendo do corpo de uma esposa ou do corpo de<br \/>\n    uma filha s&oacute;lidos degraus para a subida gloriosa do poder&#8230; Nenhuma<br \/>\n    das outras recusara aquela honra, nenhuma! E era aquela crian&ccedil;a t&iacute;mida<br \/>\n    e fraca, era aquele pedacinho de gente, que lhe vinha cravar os olhos na face,<br \/>\n    atrevidamente, corajosamente, e dizer-lhe sem tremer: &#8211; N&atilde;o te quero,<br \/>\n    n&atilde;o te desejo, n&atilde;o serei tua, porque n&atilde;o te amo, porque<br \/>\n    amo um outro que &eacute; mais belo, que &eacute; mais amante, que &eacute;<br \/>\n    mais forte do que tu! Depois, quando vira entrar no quarto Paulo de Andrade<br \/>\n    quando compreendera que era aquele o seu rival, o pr&iacute;ncipe esperara-o<br \/>\n    a p&eacute; firme, olhando-o face a face, num &iacute;mpeto daquele seu belo<br \/>\n    temperamento, t&atilde;o seu e t&atilde;o nobre, que o faria afrontar todos<br \/>\n    os perigos, que o fez uma vez, mais tarde, sozinho, em S. Crist&oacute;v&atilde;o,<br \/>\n    esperar na rua um homem que o ofendera, e retalhar-lhe o rosto a chicote.<\/p>\n<p> Mas, Paulo recusara, preferindo matar-se a erguer a m&atilde;o contra ele.<\/p>\n<p> E vendo-o morto, o pr&iacute;ncipe, compreendendo que ia haver um esc&acirc;ndalo,<br \/>\n    saiu daquela casa, fugindo do lugar onde fora procurar um gozo passageiro<br \/>\n    e onde ganhara um remorso terr&iacute;vel.<\/p>\n<p> Agora, por&eacute;m, essa preocupa&ccedil;&atilde;o fora sufocada por outras<br \/>\n    mais s&eacute;rias. O homem desaparecera.<\/p>\n<p> Em seu lugar ficava apenas o pr&iacute;ncipe, com toda a grave responsabilidade<br \/>\n    de uma conspira&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/p>\n<p> Era poss&iacute;vel recuar? A guerra estava declarada. A tropa portuguesa<br \/>\n    capitulara no Rio e n&atilde;o tardava muito que capitulasse tamb&eacute;m<br \/>\n    em todo o resto do Brasil. O senado conferira ao pr&iacute;ncipe o t&iacute;tulo<br \/>\n    de Defensor Perp&eacute;tuo do Brasil; n&atilde;o lhe impunha esse titulo<br \/>\n    o dever de resistir a tudo e a sacudir de uma vez o jugo da metr&oacute;pole?<br \/>\n    N&atilde;o era defender o Brasil e, mais do que isso, salv&aacute;lo, fazer<br \/>\n    com que ele se constitu&iacute;sse na&ccedil;&atilde;o independente? Quanto<br \/>\n    ao Satan&aacute;s, a sua preocupa&ccedil;&atilde;o era de outra natureza;<br \/>\n    o desgra&ccedil;ado pensava na filha, de quem n&atilde;o sabia, de quem j&aacute;<br \/>\n    n&atilde;o queria saber, atolada na desonra, roubada ao seu afeto.<\/p>\n<p> O desejo de vingan&ccedil;a enchia-lhe a alma de rancor; poderia numa hora<br \/>\n    de j&uacute;bilo supremo, roubar a vida a quem lhe roubara a felicidade? conseguiria<br \/>\n    enfim satisfazer a sua &uacute;nica preocupa&ccedil;&atilde;o de agora, deitando<br \/>\n    a m&atilde;o ao verdadeiro culpado? D. Pedro interrompeu-lhe a medita&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    chamando-o para junto de si.<\/p>\n<p> &#8211; Dize c&aacute;, Satan&aacute;s! tens confian&ccedil;a no futuro? &#8211; Por<br \/>\n    que n&atilde;o? &eacute; t&atilde;o bom esperar, mesmo quando s&oacute; h&aacute;<br \/>\n    motivo para desespero!&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Duvidas ent&atilde;o do &ecirc;xito da minha &uacute;ltima aventura? &#8211;<br \/>\n    N&atilde;o! n&atilde;o duvido&#8230; Era do meu futuro que falava e n&atilde;o<br \/>\n    do seu. O seu futuro &eacute; garantido: que motivo teria eu para duvidar<br \/>\n    dele? &#8211; Tamb&eacute;m me parece isso. Demais n&atilde;o foi s&oacute; a minha<br \/>\n    ambi&ccedil;&atilde;o que trouxe os acontecimentos ao p&eacute; em que est&atilde;o:<br \/>\n    foi tamb&eacute;m a fatalidade que preparou tudo, dando-me este papel, que<br \/>\n    n&atilde;o posso recusar, porque h&aacute; muito tempo que o desejava e pedia<br \/>\n    a Deus. Agora &eacute; caminhar.<\/p>\n<p> D. Pedro alongou a vista pelo horizonte. Agora, galgada a serra, rasgavam-se<br \/>\n    as plan&iacute;cies verdes, cheias de tufos de &aacute;rvores, arrepiadas<br \/>\n    de outeiros, circuladas de montanhas.<\/p>\n<p> &#8211; Ser&aacute; talvez o primeiro do mundo, este pa&iacute;s que Deus me quis<br \/>\n    dar, na sua justi&ccedil;a infinita.<\/p>\n<p> Desgra&ccedil;ado de quem, chegado ao meio do caminho, tem medo do desconhecido<br \/>\n    e d&aacute; as costas ao que tem de vir. Eu j&aacute; n&atilde;o posso parar.<br \/>\n    Vencerei o futuro, ou serei vencido por ele. Mas ser&aacute;s meu, pa&iacute;s<br \/>\n    aben&ccedil;oado&#8230;<\/p>\n<p> E, parado, sofreando a carreira ao cavalo, de cabe&ccedil;a erguida, belo<br \/>\n    e transfigurado, o pr&iacute;ncipe teve um largo gesto que varreu todo o horizonte.<\/p>\n<p> Eabalou de novo, ato do galope, pela plan&iacute;cie afora, como se quisesse<br \/>\n    chegar mais depressa a esse futuro que lhe sorria e que o chamava, acenando-lhe<br \/>\n    com uma coroa e com a gl&oacute;ria da funda&ccedil;&atilde;o de uma grande<br \/>\n    nacionalidade.<\/p>\n<p> Depois de um longo sil&ecirc;ncio, foi o Satan&aacute;s o primeiro a falar.<\/p>\n<p> &#8211; E j&aacute; n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel reprimir o &oacute;dio<br \/>\n    entre brasileiros e portugueses, senhor. S&atilde;o conflitos constantes,<br \/>\n    rixas de todos os dias. E s&oacute; o que se deve recear. Se a popula&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    portuguesa reagir? se mesmo a popula&ccedil;&atilde;o brasileira recuar? &#8211;<br \/>\n    N&atilde;o recuar&aacute;. Pois n&atilde;o foi o pr&oacute;prio povo quem<br \/>\n    me pediu que ficasse, exigindo que eu rompesse com meu pai? &#8211; N&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    que fiar no povo, senhor. O povo quer uma cousa hoje e outra amanh&atilde;.<br \/>\n    De mais, mesmo confiando no povo, n&atilde;o se devem recear as alternativas<br \/>\n    da guerra? &#8211; Mas as &uacute;ltimas noticias s&atilde;o boas. Labatut, na Ba&iacute;a,<br \/>\n    caminha de vit&oacute;ria em vit&oacute;ria. Venceremos.<\/p>\n<p> E n&atilde;o falou mais, sen&atilde;o quando, no vale do Ipiranga, &agrave;s<br \/>\n    margens do rio que se acachoeirava, espumando, entre ribas de verdura, ordenou<br \/>\n    que se fizesse um pequena parada de descanso, antes de entrar na cidade.<\/p>\n<p> Todos se apearam.<\/p>\n<p> Na serenidade da tarde, as palmeiras bracejavam no ar. Havia uma grande<br \/>\n    suavidade no c&eacute;u muito azul, limpo de nuvens, cortado de asas. Os cavalos<br \/>\n    sa&iacute;ram pelo campo, a pastar. Os soldados estenderam-se na relva, prostrados<br \/>\n    por aquela caminhada longa, ao sol forte de setembro. Abriram-se as garrafas<br \/>\n    de cana, acenderam-se os cigarros.<\/p>\n<p> D. Pedro e Satan&aacute;s falavam de Marta, da peixada de escabeche, da<br \/>\n    beleza de Maria.<\/p>\n<p> &#8211; Homem, por falar em peixada&#8230; fez d. Pedro, e disse uma cousa que fez<br \/>\n    o outro rir muito.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe riu tamb&eacute;m, e levantando-se, entrou numa moita.<\/p>\n<p> Mais longe, na entrada do vale, levantou-se uma nuvem de poeira. Ouvia-se<br \/>\n    um galope. E, em breve, um cavaleiro apareceu. Ao chegar perto da comitiva,<br \/>\n    apeou-se, e deixou-se cair no ch&atilde;o, sem fala, coberto de p&oacute;,<br \/>\n    extenuado.<\/p>\n<p> Tinham chegado a Santos, logo depois da partida do pr&iacute;ncipe, novas<br \/>\n    not&iacute;cias, ainda mais graves, ainda mais aterradoras.<\/p>\n<p> Era ele quem as vinha trazer. Tinha viajado sem parar um instante, num galope<br \/>\n    louco pela serra acima.<\/p>\n<p> O comandante do regimento foi procurar o pr&iacute;ncipe. Encontrou apenas<br \/>\n    o Satan&aacute;s, sentado numa pedra, cotovelos sobre os joelhos, face sobre<br \/>\n    os punhos, pensando.<\/p>\n<p> &#8211; Onde est&aacute; o pr&iacute;ncipe? O Satan&aacute;s levantou os olhos<br \/>\n    e disse gravemente: &#8211; Espere um pouco. Est&aacute; ocupado. Foi apanhar uma<br \/>\n    parasita.<\/p>\n<p> Quando o pr&iacute;ncipe veio, n&atilde;o o surpreenderam as not&iacute;cias.<br \/>\n    Confirmava-se o consta de terem sido os deputados brasileiros obrigados a<br \/>\n    fugir de Lisboa. Esses deputados eram Ant&ocirc;nio Carlos de Andrade e Silva,<br \/>\n    Cipriano Barata, Lino Coutinho e Diogo Feij&oacute;. Ant&ocirc;nio Carlos,<br \/>\n    em plena sess&atilde;o das cortes interrompido num discurso, bradara num belo<br \/>\n    assomo de indigna&ccedil;&atilde;o: &#8211; Sil&ecirc;ncio, canalha! Quando fala<br \/>\n    um brasileiro ningu&eacute;m o interrompe! O governo portugu&ecirc;s, diziam<br \/>\n    mais as not&iacute;cias, dispunha-se a mandar uma esquadra para o Brasil,<br \/>\n    para reprimir a revolu&ccedil;&atilde;o. Era preciso agir, com a m&aacute;xima<br \/>\n    urg&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> D. Pedro n&atilde;o pestanejou. Chamou o comandante.<\/p>\n<p> &#8211; A cavalo! forme o regimento! E arrancou do chap&eacute;u o pend&atilde;o<br \/>\n    azul e branco. Depois, tirou de uma &aacute;rvore uma folha verde, listrada<br \/>\n    de amarelo, e, substituindo-a ao pend&atilde;o, montou tamb&eacute;m a cavalo.<\/p>\n<p> O regimento esperava, em linha, a voz de marchar. O pr&iacute;ncipe estendeu<br \/>\n    o bra&ccedil;o: &#8211; A caminho! E, com uma voz que ecoou longamente, na tarde<br \/>\n    radiante, pelas quebradas da serrania, soltou o seu grito de guerra &#8211; Independ&ecirc;ncia<br \/>\n    ou morte! <\/p>\n<h2><a name=\"9\">IX O INQU&Eacute;RITO<\/a><\/h2>\n<p> Mal chegado de S&atilde;o Paulo, depois daquele sucesso imprevisto da Independ&ecirc;ncia,<br \/>\n    que abreviara a viagem de d. Pedro, o Satan&aacute;s tratou de averiguar ocaso<br \/>\n    misterioso da rua do Conde.<\/p>\n<p> Remordia-o principalmente o remorso no relativo &agrave; Branca e ao abandono<br \/>\n    em que a deixara.<\/p>\n<p> Nem mesmo podia compreender como ele, o homem impass&iacute;vel e calmo,<br \/>\n    j&aacute; afeito &agrave;s vicissitudes da sorte e bem afamado pela imperturb&aacute;vel<br \/>\n    presen&ccedil;a de esp&iacute;rito, que conservava durante os transes mais<br \/>\n    arriscados da vida, se tinha tornado quase doudo, irrefletido e imprevidente.<\/p>\n<p> A nada conclu&iacute;am entretanto as suas primeiras pesquisas. L&aacute;,<br \/>\n    na rua do Conde, a casa de Branca conservava-se impenetr&aacute;vel e quieta,<br \/>\n    com essa l&uacute;gubre fisionomia dos pr&eacute;dios misteriosos que foram<br \/>\n    o teatro de um crime. E, pela vizinhan&ccedil;a, diziam-na apenas malassombrada,<br \/>\n    percorrida durante a noite por fantasmas alvadios de almas penadas, que vinham<br \/>\n    gemer a sua dor na encena&ccedil;&atilde;o espetral das crendices populares.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m sabia de mais nada, e ningu&eacute;m conseguira esbater luz<br \/>\n    sobre a treva apavorante daquele crime.<\/p>\n<p> Mist&eacute;rio, mist&eacute;rio! De Branca nem se ouvia falar. Talvez que<br \/>\n    ela tivesse remontado para o c&eacute;u na compostura angelical de suas purezas.<\/p>\n<p> E o Satan&aacute;s debatia-se, cego e louco, apaixonado e f&uacute;nebre,<br \/>\n    na grande noite das id&eacute;ias.<\/p>\n<p> Lembrou-se, entretanto, de d. Bias. Fora ele quem viera cham&aacute;-lo<br \/>\n    &agrave; bodega do Trancoso. E o magro fidalgo das Espanhas bem devia conhecer<br \/>\n    alguma cousa desse drama sanguinolento e inexplic&aacute;vel. Se ele nada<br \/>\n    pudesse dizer sobre a sorte de Branca, relataria pelo menos o princ&iacute;pio<br \/>\n    dessa luta a que assistira, e que prostrara em terra o cad&aacute;ver de Paulo<br \/>\n    de Andrade.<\/p>\n<p> E o Satan&aacute;s dirigiu-se para a tasca da rua do Piolho.<\/p>\n<p> D. Bias l&aacute; estava.<\/p>\n<p> Ningu&eacute;m lhe dissera sobre a chegada do pr&iacute;ncipe e sua comitiva.<br \/>\n    E ele supunha-se muito seguro, longe da espada de Pallingrini.<\/p>\n<p> Ria a bom folgar.<\/p>\n<p> A Domitila, recusando-se embora a pagar-lhe imediatamente os mil cruzados<br \/>\n    prometidos, recheava-lhe a bolsa, de constante, e permitia-lhe algumas diabruras,<br \/>\n    que o arredassem por momento da vigil&acirc;ncia sobre a pris&atilde;o de<br \/>\n    Branca.<\/p>\n<p> E d. Bias fazia-se agora de pagador, e falava alto e fanfarronava &agrave;<br \/>\n    vontade entre aquela gente que lhe ia escorropichando os pich&eacute;is.<\/p>\n<p> Fez-se branco, pois, tr&ecirc;mulo como um esqueleto de museu agitado pelo<br \/>\n    vento, quando o Satan&aacute;s bateu-lhe ao ombro fortemente.<\/p>\n<p> Mas recuperou logo a presen&ccedil;a de esp&iacute;rito. Estava diante do<br \/>\n    inimigo. E se lhe faltava a coragem de desembainhar a nunca desembainhada<br \/>\n    durindana, compreendia a necessidade de esgrimir a mentira &#8211; a &uacute;nica<br \/>\n    arma que ele sabia manejar.<\/p>\n<p> &#8211; Bem hajas pelo teu regresso! disse. Tu desapareceste de repente, e eu<br \/>\n    tinha, entretanto, importantes comunica&ccedil;&otilde;es a fazer.<\/p>\n<p> &#8211; E eu ando &agrave; procura dessas comunica&ccedil;&otilde;es, fez o Satan&aacute;s<br \/>\n    com a voz soturna, sentando-se do outro lado da mesa e esvaziando um copo<br \/>\n    que ali estava.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, pergunta. As minhas id&eacute;ias, assim, se concatenar&atilde;o<br \/>\n    melhor e com mais vantagens para ti.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem! O que &eacute; feito de Branca? &#8211; Que Branca? &#8211; A minha filha!<br \/>\n    Aquela mo&ccedil;a loura que desapareceu bruscamente depois do crime da rua<br \/>\n    do Conde.<\/p>\n<p> &#8211; Era tua filha! &#8211; Sim.<\/p>\n<p> &#8211; Pois n&atilde;o sei! afirmou d. Bias resolutamente.<\/p>\n<p> Descobrindo que a sua encarcerada era filha do Satan&aacute;s, o magro fantasma<br \/>\n    de d. Quixote teve &iacute;mpetos de revelar-lhe tudo. Perpassou-lhe no c&eacute;rebro<br \/>\n    a id&eacute;ia de ajoelhar-se, de rojar-se ao ch&atilde;o, de dizer ao escultor:<br \/>\n    &#8211; Tua filha! Sou eu quem a tem prisioneira. Mas perdoa-me. Eu, s&oacute; eu<br \/>\n    te a posso restituir. Vem comigo. Vem busc&aacute;-la. Mas perdoa-me. Conserva-me<br \/>\n    a vida. E d&aacute;-me os mil cruzados que a Domitila me prometeu.<\/p>\n<p> Mas d. Bias amava Branca. A meiga e triste filha do Satan&aacute;s deixava<br \/>\n    que ele a abra&ccedil;asse.<\/p>\n<p> Sorria numa alegria infantil de louca. E muito baixinho dizia-lhe ao ouvido<br \/>\n    uma suave cantilena de amores: &#8211; Paulo! meu Paulo! Por isso ele afirmou: &#8211;<br \/>\n    N&atilde;o sei.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s n&atilde;o lhe permitiria com certeza o prolongamento desses<br \/>\n    id&iacute;lios de pris&atilde;o. E d. Bias amava Branca.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m o outro n&atilde;o insistiu.<\/p>\n<p> N&atilde;o eram essas propriamente as revela&ccedil;&otilde;es que esperava.<br \/>\n    Perguntara por perguntar, para dar sa&iacute;da a essa id&eacute;ia que o<br \/>\n    obsedava, que lhe fazia o mais forte e o mais insistente das preocupa&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    E, sem mais referir-se ao caso, continuou o inqu&eacute;rito relativamente<br \/>\n    aos pr&oacute;dromos do drama.<\/p>\n<p> &#8211; Como soubeste que l&aacute; em cima, na minha casa, havia gente a se matar?<br \/>\n    &#8211; Eu te conto, Satan&aacute;s. Eu conto.<\/p>\n<p> &#8211; E toma tento em ti. Fala a verdade. Por que se n&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> E um grande murro sobre a mesa completou-lhe o pensamento.<\/p>\n<p> D. Bias come&ccedil;ou assim: &#8211; Naquela noite, sabia de uns amores misteriosos,<br \/>\n    que n&atilde;o te relatarei nem por quinhentos milh&otilde;es de diabos, nem<br \/>\n    que venha o inferno todo inteiro em guerra aberta contra mim, porque sou fidalgo<br \/>\n    das Espanhas e nunca meus l&aacute;bios tra&iacute;ram o segredo da reputa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de uma mulher.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s olhou-o muito s&eacute;rio, com a for&ccedil;a violenta<br \/>\n    do seu olhar de fogo.<\/p>\n<p> &#8211; Escuta! d. Bias. Trata de dizer-me a verdade e deixa-te dessas ret&oacute;ricas.<\/p>\n<p> &#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O melhor &eacute; perguntar. O que fazias tu na rua do Conde por aquelas<br \/>\n    horas da noite? D. Bias, ent&atilde;o, sentiu uma grande necessidade de expandir-se,<br \/>\n    de dizer a verdade toda inteira &agrave;quele homem que ele se habituara sempre<br \/>\n    a temer, que o dominava com todo o prestigio da sua for&ccedil;a, e que estava<br \/>\n    ali, defronte dele, a crest&aacute;-lo com a chama insistente do seu olhar<br \/>\n    de fera.<\/p>\n<p> E disse tudo. Disse como d. Pedro o chamara para uma empresa amorosa, como<br \/>\n    eles se tinham ido postar diante da casa de Branca, como o tinham visto a<br \/>\n    ele, Satan&aacute;s, entrar e sair, como tinham entrado depois, como tinham<br \/>\n    garrotado e amorda&ccedil;ado d. Emerenciana, como o pr&iacute;ncipe subira<br \/>\n    e estivera l&aacute; em cima a s&oacute;s com Branca como a casa tinha sido<br \/>\n    assaltada pelo valente capit&atilde;o das guardas, como ele, d. Bias, tinha<br \/>\n    fugido e vindo lhe pedir socorro.<\/p>\n<p> &#8211; Miser&aacute;vel! praguejou o Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> E, para saciar logo a sua sede de vingan&ccedil;a, para dar aos m&uacute;sculos<br \/>\n    nessas grandes tempestades de id&eacute;ias que lhe espatifava o c&eacute;rebro,<br \/>\n    o escultor suspendeu d. Bias pela cintura e atirou-o com durindana e tudo<br \/>\n    para o meio da sala.<\/p>\n<p> Depois saiu, possesso, louco de raiva, qual fera bravia em cio de vingan&ccedil;as.<\/p>\n<p> D. Bias levantou-se, a m&atilde;o aos copos da espada, numa compostura honesta<br \/>\n    de homem insultado, que exige uma repara&ccedil;&atilde;o imediata e sanguinolenta.<\/p>\n<p> &#8211; Por S. Tiago de Compostela! Os fidalgos n&atilde;o fazem assim! Brigam<br \/>\n    lealmente e n&atilde;o fogem como este Satan&aacute;s de todos os infernos.<\/p>\n<p> L&aacute; fora Pallingrini foi-se acalmando com a frialdade da noite.<\/p>\n<p> O vento ca&iacute;a-lhe sobre as faces como uma ducha, chamando-o &agrave;<br \/>\n    realidade da vida. E ele fez-se mais quieto, diminuiu o passo, que trouxera<br \/>\n    acelerado at&eacute; ent&atilde;o, e p&ocirc;s-se a meditar.<\/p>\n<p> Queria uma vingan&ccedil;a, vingan&ccedil;a completa, vingan&ccedil;a de<br \/>\n    italiano.<\/p>\n<p> Branca! Ela deveria estar em poder do pr&iacute;ncipe. E era preciso reav&ecirc;-la.<br \/>\n    Para isso n&atilde;o havia brutalidades e viol&ecirc;ncias que produzissem<br \/>\n    resultado. Ele tinha necessidade de fazer-se manhoso e hip&oacute;crita. D.<br \/>\n    Pedro seria agora o seu mestre. Ele soubera t&atilde;o bem compor a fisionomia<br \/>\n    traidora e fazer-se amigo e confidente naquela recente viagem a Santos, que<br \/>\n    bem valia a pena imit&aacute;-lo.<\/p>\n<p> E, depois&#8230; depois, quando &agrave; for&ccedil;a de vigil&acirc;ncia e<br \/>\n    de ast&uacute;cia ele tivesse descoberto o esconderijo onde o pr&iacute;ncipe<br \/>\n    lhe guardava a filha, quando tivesse abra&ccedil;ado Branca, quando readquirisse<br \/>\n    a posse daquele amor imaculado e puro, ideal e santo de pai, depois&#8230; viria<br \/>\n    a luta, luta de gigantes, para a qual ele traria toda a energia do seu temperamento<br \/>\n    e toda a aud&aacute;cia nunca desmentida do seu viver.<\/p>\n<p> N&atilde;o lhe bastava a morte de d. Pedro. D. Pedro era valente. E, para<br \/>\n    ele, a morte era apenas esse fatal desenlace da vida que n&atilde;o assusta<br \/>\n    aos fortes e que o homem procura muitas vezes.<\/p>\n<p> Para que mat&aacute;-lo?! Embora o hor&oacute;scopo fat&iacute;dico da cigana<br \/>\n    a&iacute; estivesse a dizer que um dos dous devia morrer pela m&atilde;o do<br \/>\n    outro, ele n&atilde;o queria matar o pr&iacute;ncipe. Queria-o miser&aacute;vel<br \/>\n    e vencido, morto no seu orgulho, arrastando uns dias infaustos de vilip&ecirc;ndio,<br \/>\n    martirizado por essa ang&uacute;stia de abatimento que &eacute; o supl&iacute;cio<br \/>\n    dos fortes.<\/p>\n<p> E, horrivelmente calmo, como o espetro sinistro das vingan&ccedil;as, ele<br \/>\n    cortou as trevas da noite com um gesto largo de amea&ccedil;a.<\/p>\n<h2> <a name=\"10\">X PARA VINGAR <\/a><\/h2>\n<p>O Satan&aacute;s vivia infeliz nas suas pesquisas para descobrir o paradeiro<br \/>\n    de Branca. Por mais que se fizesse a sombra de d. Pedro, por mais que o seguisse<br \/>\n    em todas as costumeiras migra&ccedil;&otilde;es noturnas, por mais que se<br \/>\n    lhe pusesse debru&ccedil;ado sobre o esp&iacute;rito a acompanhar-lhe a sucessiva<br \/>\n    eclos&atilde;o de id&eacute;ias, n&atilde;o conseguira nunca descortinar um<br \/>\n    bocadinho desse mist&eacute;rio, que ficava para al&eacute;m sepulto no abismo<br \/>\n    apavorante dos segredos.<\/p>\n<p> Vinham-lhe por vezes d&uacute;vidas, suspeitas de que d. Bias tivesse mentido,<br \/>\n    vontade de sujeit&aacute;-lo a um novo inqu&eacute;rito, planos de prend&ecirc;-lo<br \/>\n    e de arrancar-lhe a verdade at&eacute; mesmo pela tortura.<\/p>\n<p> Mas d. Bias desaparecera. Ningu&eacute;m mais o encontrava, nem l&aacute;<br \/>\n    na bodega do Trancoso, nem pelos outros lugares por onde ele gostava antigamente<br \/>\n    de passear a sua longa durindana ferrugenta. Fizera-se caseiro. E, ali nos<br \/>\n    fundos do convento do Carmo, enlevava-se todo no amor da sua encarcerada,<br \/>\n    contente da vida, porque a Domitila nada resolvia sobre a infeliz louca, porque<br \/>\n    davam-lhe bom repasto, e porque estava a seguro de um encontro com o escultor.<\/p>\n<p> Falto dessas informa&ccedil;&otilde;es, desse caminho &uacute;nico para<br \/>\n    a descoberta da verdade, o Satan&aacute;s tinha tamb&eacute;m, por vezes,<br \/>\n    &iacute;mpetos de interpelar o pr&iacute;ncipe, de ir diretamente a ele para<br \/>\n    a luta suprema das vingan&ccedil;as paternas. Aproveitaria o ensejo de uma<br \/>\n    alta noite, naquela hora em que os dous costumavam estar sozinhos, e em que<br \/>\n    o vinho e a mulher fazem a palavra expansiva e franca, volutuosamente escorregando<br \/>\n    pela l&iacute;ngua para o di&aacute;logo amig&aacute;vel das confiss&otilde;es.<br \/>\n    E ent&atilde;o seria brutal, violento como um pai ultrajado que se arma com<br \/>\n    a plenitude dos seus direitos e com o instinto das suas obriga&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Oh! ele bem saberia ritmar a grande vibra&ccedil;&atilde;o sonora das suas<br \/>\n    reclama&ccedil;&otilde;es e dos seus discursos, ele bem saberia como falar<br \/>\n    com a voz repassada de confrangimento, pontuada de gritos e de impreca&ccedil;&otilde;es.<br \/>\n    Para isso bastava que deixasse transbordar toda inteira a dor sofrida que<br \/>\n    lhe ia na alma.<\/p>\n<p> Mas n&atilde;o convinha. D. Pedro n&atilde;o se sujeitaria a ouvi-lo, e<br \/>\n    nem tinha rem&eacute;dios para curar-lhe o sofrimento, porque n&atilde;o h&aacute;<br \/>\n    b&aacute;lsamo que chegue para suavizar a ferida feita nesse amor de pai,<br \/>\n    imaculado e puro, divinal e casto.<\/p>\n<p> Por isso, ele, Satan&aacute;s, queria a vingan&ccedil;a.<\/p>\n<p> Os sucessos pol&iacute;ticos, cuja confid&ecirc;ncia lhe era diariamente<br \/>\n    feita e em que andava completamente envolvido, vinham servir-lhe, a mais n&atilde;o<br \/>\n    ser, nessa obra sinistra de vinditas que estava longamente planejando. Eles<br \/>\n    eram a apoteose do pr&iacute;ncipe que o povo aclamava; podiam tornar-se a<br \/>\n    derrota do seu orgulho e a morte para sempre da sua individualidade sepultada<br \/>\n    nas trevas de um c&aacute;rcere.<\/p>\n<p> E o Satan&aacute;s sonhou primeiro com a rea&ccedil;&atilde;o portuguesa.<br \/>\n    As tropas lusitanas ainda estavam aqui, luzidias e valentes, bem afamadas<br \/>\n    na disciplina e respeitadas pelo povo.<\/p>\n<p> Bem certo que Jorge de Avilez quietava-se irresoluto, n&atilde;o sabendo<br \/>\n    que partido eleger, receoso de optar entre as cortes e o pr&iacute;ncipe herdeiro<br \/>\n    de Bragan&ccedil;a. Para determin&aacute;-lo a uma rea&ccedil;&atilde;o pronta<br \/>\n    e imediata, o Pallingrini teve ent&atilde;o uma dessas id&eacute;ias diab&oacute;licas,<br \/>\n    que s&oacute; a ele podiam acorrer. E numa carta incisiva que dirigiu ao general<br \/>\n    portugu&ecirc;s, narrou a hist&oacute;ria de uns amores de d. Pedro, que tinha<br \/>\n    penetrado at&eacute; a c&acirc;mara nupcial do t&iacute;bio comandante lusitano.<\/p>\n<p> Este, ferido em seus brios e em sua honra, louco de dores, preparou-se ent&atilde;o<br \/>\n    para reagir. Mas abortou logo em princ&iacute;pio o movimento que projetara.<br \/>\n    A mil&iacute;cia, principalmente a mil&iacute;cia de Niter&oacute;i, cercou<br \/>\n    a divis&atilde;o lusa e obrigou-a a capitular e ir aquartelar-se na Arma&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    at&eacute; que se aprestassem vapores para recambi&aacute;-la para a Europa.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s tratou ent&atilde;o de aproveitar os elementos nacionais<br \/>\n    que se congregavam em torno da Sociedade Tenebrosa do Apostolado, e que desde<br \/>\n    o come&ccedil;o fundamentara o dogma do nativismo.<\/p>\n<p> A&iacute; iniciado, ele tornou-se um dos maiores propugnadores da id&eacute;ia,<br \/>\n    tratando de aliciar adeptos e enredando o Rio de Janeiro numa vasta conspira&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a que faltava apenas um chefe, com coragem e aud&aacute;cia para fazer a Independ&ecirc;ncia<br \/>\n    de uma s&oacute; vez e completamente.<\/p>\n<p> O seu principal trabalho, por&eacute;m, trabalho surdo de alcoviteiro que<br \/>\n    intriga e sabe o segredo amoroso da alma humana, foi a rivalidade que estabeleceu<br \/>\n    entre a Domitila e a irm&atilde;. Dessa luta de mulheres que lutavam dentro<br \/>\n    do cora&ccedil;&atilde;o do pr&iacute;ncipe, devia necessariamente resultar<br \/>\n    a devasta&ccedil;&atilde;o do campo de batalha.<\/p>\n<p> E era isso o que ele queria, isso o que esperava como primeiro supl&iacute;cio<br \/>\n    na senda tormentosa de desgra&ccedil;as que estava preparando ao r&eacute;gio<br \/>\n    bo&ecirc;mio de Bragan&ccedil;a.<\/p>\n<p> D. Pedro era o Archonte Rei do Apostolado. Chefe supremo da poderosa sociedade,<br \/>\n    fora nela que encontrara o mais s&oacute;lido apoio para as suas ambiciosas<br \/>\n    pretens&otilde;es. E mal podia ele imaginar que dali mesmo partiria o primeiro<br \/>\n    golpe contra o seu poder.<\/p>\n<p> Foi a pr&oacute;pria Domitila quem o preveniu do perigo. D. Bias, que, temendo<br \/>\n    o Satan&aacute;s, o considerava inimigo, come&ccedil;ou tamb&eacute;m a freq&uuml;entar<br \/>\n    as sess&otilde;es da Sociedade Tenebrosa e chegou ao conhecimento da trama<br \/>\n    que se urdia. A Domitila, possuidora do segredo, n&atilde;o hesitou: mais<br \/>\n    do que o seu despeito de amante enganada p&ocirc;de o seu amor e p&ocirc;de<br \/>\n    a sua ambi&ccedil;&atilde;o. Contou tudo ao pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p> Dai a dous dias, o Apostolado devia reunir-se em sess&atilde;o magna.<\/p>\n<p> O pr&iacute;ncipe disp&ocirc;s-se a golpear de morte nesse dia a institui&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que o queria prender.<\/p>\n<p> Foi numa segunda-feira. As sete horas da noite, ningu&eacute;m diria, ao<br \/>\n    passar pelo velho quartel da Guarda Velha, que havia ali uma reuni&atilde;o<br \/>\n    de mais de quinhentas pessoas das mais altamente colocadas da pol&iacute;tica,<br \/>\n    do ex&eacute;rcito e do povo. A casa estava &agrave;s escuras, com todas as<br \/>\n    janelas fechadas.<\/p>\n<p> De quando em quando, um vulto chegava, embu&ccedil;ado, e batia tr&ecirc;s<br \/>\n    pancadas &agrave; porta. A porta abria-se, e o vulto entrava, perdendo-se<br \/>\n    no corredor escuro, depois das palavras sacramentais do santo e da senha.<\/p>\n<p> &#8211; S. Pedro! &#8211; Amor e Fidelidade! A sala de sess&atilde;o ficava ao fundo<br \/>\n    da casa. Chegava-se l&aacute; depois de percorrer tr&ecirc;s longos corredores,<br \/>\n    atrav&eacute;s do quartel.<\/p>\n<p> Era uma enorme sala, toda forrada de tape&ccedil;aria negra e iluminada<br \/>\n    apenas por um enorme lustre negro que pendia do teto, e onde ardiam dezenas<br \/>\n    de velas. Ao fundo erguia-se um estrado, onde duas largas cadeiras e uma pequena<br \/>\n    mesa esperavam o Archonte Rei e o ac&oacute;lito. Sobre o estrado, no fundo<br \/>\n    negro da parede, destacava-se, bordado a vermelho, o s&iacute;mbolo da sociedade:<br \/>\n    um tri&acirc;ngulo, cercado por uma facha, onde se lia &#8211; Soc. Ten. do Apos.<br \/>\n    &#8211; e em cujo centro ocultava o desenho de uma espada e de um machado, cruzando-se.<\/p>\n<p> As cadeiras dos camaradas estendiam-se em quatro grandes semic&iacute;rculos,<br \/>\n    pela sala negra, abafada, onde a voz ecoava longamente, n&atilde;o achando<br \/>\n    por onde sair. E reinava em tudo aquilo um pavor, que pesava na alma&#8230;<\/p>\n<p> J&aacute; quase todas as cadeiras estavam ocupadas. Todos os camaradas vestiam<br \/>\n    t&uacute;nica negra, com o s&iacute;mbolo vermelho ao peito.<\/p>\n<p> Quando o Satan&aacute;s entrou, a primeira pessoa que viu, foi d. Bias.<\/p>\n<p> O fidalgo espanhol era a figura mais sinistra de toda a sala. Estava a um<br \/>\n    canto, encarapitado na cadeira, com os joelhos pontudos e salientando-se na<br \/>\n    t&uacute;nica, e com um eterno movimento de queixos, como se estivesse murmurando<br \/>\n    uma ora&ccedil;&atilde;o. Quem o via, pensava que d. Bias estava rezando.<br \/>\n    Engano: d. Bias estava comendo biscoitos.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s parou e deixou cair pesadamente a m&atilde;o sobre o ombro<br \/>\n    do carcereiro de Branca. D.<\/p>\n<p> Bias ficou p&aacute;lido como um cad&aacute;ver, batendo os dentes e unindo<br \/>\n    as m&atilde;os, num gesto de s&uacute;plica.<\/p>\n<p> Mas, o Satan&aacute;s fez-lhe um sinal de amea&ccedil;a e foi sentar-se<br \/>\n    no seu lugar.<\/p>\n<p> Ah! n&atilde;o tardava muito, n&atilde;o tardava muito! Em breve a porta<br \/>\n    se abriria, e ele apareceria, confiado e calmo, sem esperar que daquela casa<br \/>\n    partisse a senten&ccedil;a da sua condena&ccedil;&atilde;o. E quando d. Pedro<br \/>\n    &#8211; o poderoso &#8211; se visse diante daquele oceano de quinhentas cabe&ccedil;as,<br \/>\n    todas agitadas de &oacute;dios, todas regularmente e implacavelmente sacudidas<br \/>\n    numa nega&ccedil;&atilde;o absoluta de apoio, ele, Satan&aacute;s, o fraco,<br \/>\n    o vencido, o c&atilde;o rafeiro, exultaria na sua fraqueza e na sua pequenez&#8230;<\/p>\n<p> Mas a hora aproximava-se. O ac&oacute;lito &#8211; M&aacute;ximo R&eacute;gulo<br \/>\n    &#8211; fora tomar o seu lugar no estrado. Um sino vibrou tr&ecirc;s pancadas, agudas<br \/>\n    e r&aacute;pidas. Todos se levantaram. Um grande sil&ecirc;ncio pesou na sala.<br \/>\n    A porta abriu-se de par em par. E, s&oacute;, vestido como os outros, na t&uacute;nica<br \/>\n    negra e simples de camarada, d. Pedro entrou serenamente empunhando a sua<br \/>\n    ins&iacute;gnia de Archonte Rei &#8211; um bast&atilde;o de marfim, marchetado de<br \/>\n    ouro. A fisionomia do pr&iacute;ncipe n&atilde;o revelava a menor agita&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    interior. Caminhou at&eacute; &agrave; mesa.<\/p>\n<p> &#8211; Deus te guarde, camarada! elevou-se a voz do ac&oacute;lito.<\/p>\n<p> &#8211; Leve-te o diabo, traidor ! &#8211; soou no grande sil&ecirc;ncio da sala apavorada<br \/>\n    a voz soturna do pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p> E, antes que algu&eacute;m tivesse tempo de voltar a si da surpresa, d.<br \/>\n    Pedro abriu a pasta que se achava sobre a mesa revolveu os pap&eacute;is,<br \/>\n    guardou-os consigo.<\/p>\n<p> E, erguendo o bast&atilde;o, gritou: &#8211; Saiam! <\/p>\n<h2><a name=\"11\">XI &Agrave;S CLARAS<\/a><\/h2>\n<p> Quando o pr&iacute;ncipe saiu de dissolver a Sociedade Tenebrosa do Apostolado,<br \/>\n    onde penetrara com a mesma aud&aacute;cia de Cromwell no parlamento ingl&ecirc;s,<br \/>\n    o Satan&aacute;s foi acompanh&aacute;-lo, j&aacute; precavido de respostas<br \/>\n    contra as naturais recrimina&ccedil;&otilde;es que devia receber, desejoso<br \/>\n    de n&atilde;o se desligar nunca daquele cuja queda vivia preparando.<\/p>\n<p> D. Pedro, sombrio e taciturno, caminhando para o Pa&ccedil;o, apressadamente,<br \/>\n    n&atilde;o lhe dizia sequer uma palavra. E os dous seguiam, como nas noitadas<br \/>\n    de sempre, um ao lado do outro, muito amigos para os raros transeuntes que<br \/>\n    os viam e que deles respeitosamente se afastavam.<\/p>\n<p> E, chegados que foram a r&eacute;gia habita&ccedil;&atilde;o, penetraram,<br \/>\n    como sempre, por uma porta escusa, situada por baixo do passadi&ccedil;o que<br \/>\n    ligava o pal&aacute;cio ao velho convento do Carmo.<\/p>\n<p> Nada, enfim, parecia indicar qualquer altera&ccedil;&atilde;o na vida de<br \/>\n    ambos. A mesma ceia, que os esperava todas as noites, estava servida num aposento<br \/>\n    cont&iacute;guo, t&eacute;rreo e um pouco &uacute;mido, espa&ccedil;oso e<br \/>\n    cheio de arm&aacute;rios.<\/p>\n<p> Sentaram-se.<\/p>\n<p> Depois da primeira liba&ccedil;&atilde;o, d. Pedro encheu novamente os copos,<br \/>\n    e, erguendo o seu, disse, maliciosamente, com um sorriso triste de homem que<br \/>\n    assistiu ao despeda&ccedil;amento das pr&oacute;prias ilus&otilde;es: &#8211; A<br \/>\n    tua amizade! Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; A nossa! &#8211; Sim. &Agrave; nossa. Eu acredito na reciprocidade de sentimentos<br \/>\n    entre n&oacute;s. Liga-nos um mesmo destino. E j&aacute; a velha feiticeira<br \/>\n    do Valongo tinha profetizado que algum dos dous devia morrer pela m&atilde;o<br \/>\n    do outro.<\/p>\n<p> E acrescentou: &#8211; Mas, dize-me c&aacute; uma cousa! Por que me odeias tu?<br \/>\n    &#8211; Senhor! &#8211; N&atilde;o. N&atilde;o negues. Nem &eacute; pr&oacute;prio de<br \/>\n    ti, nem eu acreditaria nas tuas afirma&ccedil;&otilde;es e nos teus protestos.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s fez um gesto vago e incerto de significa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> &#8211; O teu &oacute;dio! continuou o pr&iacute;ncipe, eu o tenho sentido de<br \/>\n    certo tempo a esta parte, pertinaz e insistente sobre mim. Eu o reconheci<br \/>\n    at&eacute; no teu andar e na tua voz, por essas longas noites que temos vivido<br \/>\n    juntos derradeiramente.<\/p>\n<p> &#8211; Qual, senhor! Eu sou novamente v&iacute;tima de intrigas. O pr&iacute;ncipe<br \/>\n    bem sabe que foi sempre invejada a confian&ccedil;a que me dispensava. E agora,<br \/>\n    como das outras vezes, seja-me permitido esperar que eu saia desta aventura<br \/>\n    reabilitado, como sempre me tem acontecido, na sua estima.<\/p>\n<p> &#8211; Bem vontade tinha eu que assim fosse. Tu n&atilde;o sabes como &eacute;<br \/>\n    triste e amargo o brusco despeda&ccedil;ar das amizades longamente cimentadas.<br \/>\n    Tu n&atilde;o sabes como faz sofrer o espet&aacute;culo da ingratid&atilde;o<br \/>\n    humana.<\/p>\n<p> &#8211; Mas nesse caso, basta-lhe querer, basta-lhe examinar os fatos, para reconhecer<br \/>\n    que a minha dedica&ccedil;&atilde;o nem por um momento deixou de acompanh&aacute;-lo.<br \/>\n    Eu estava, &eacute; certo, l&aacute; no Apostolado, mas l&aacute; estava para<br \/>\n    bem servi-lo.<\/p>\n<p> &#8211; N&atilde;o, Satan&aacute;s! Tu l&aacute; n&atilde;o estavas para me servir&#8230;<br \/>\n    Mas tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; essa a grande acusa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    que te fa&ccedil;o, n&atilde;o &eacute; por isso que venho falar-te do teu<br \/>\n    &oacute;dio.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o! por qu&ecirc;? &#8211; Por qu&ecirc;? Mas n&atilde;o basta, por<br \/>\n    acaso, esse teu olhar; olhar que espeta, quando o olhar do amigo tem veludo<br \/>\n    e maciez para o repouso da nossa individualidade toda inteira? &#8211; Senhor! &#8211;<br \/>\n    N&atilde;o, fez o pr&iacute;ncipe. &#8211; N&atilde;o protestes. Escuta-me.<\/p>\n<p> E d. Pedro, nervoso, agitado, come&ccedil;ou a passear pelo quarto o seu<br \/>\n    grande vulto esbelto de homem bem feito.<\/p>\n<p> Depois, voltando a mesa, ele parou, um p&eacute; sobre a cadeira e o queixo<br \/>\n    repousando sobre a m&atilde;o longa e fina de fidalgo. E p&ocirc;s-se a olhar<br \/>\n    demoradamente para o Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> Este nem se movia, impass&iacute;vel e quieto. Reflu&iacute;ra-lhe para<br \/>\n    o c&eacute;rebro, numa pertinaz concentra&ccedil;&atilde;o de id&eacute;ias,<br \/>\n    toda a for&ccedil;a vital do seu querer. E estava meditando, estava procurando<br \/>\n    o desenlace desta cena que vinha perturbar-lhe a serenidade vingadora dos<br \/>\n    planos longamente projetados. Sentia por vezes &iacute;mpetos de atirar para<br \/>\n    longe a m&aacute;scara da com&eacute;dia, que a for&ccedil;a das circunst&acirc;ncias<br \/>\n    o obrigava a representar; desejos de ser ele mesmo nobre e altivo, como sempre<br \/>\n    fora.<\/p>\n<p> Mas a imagem de Branca perpassava-lhe pela imagina&ccedil;&atilde;o, destacando-se<br \/>\n    da treva absoluta do mist&eacute;rio como um pedido solene de vingan&ccedil;a.<br \/>\n    E ele retesava os m&uacute;sculos na rigidez suprema da calma, porque a hipocrisia<br \/>\n    era a &uacute;nica arma que podia manejar contra aquele pr&iacute;ncipe, desde<br \/>\n    o momento em que lhe n&atilde;o bastava a morte de um homem para fazer o sossego<br \/>\n    e a paz da sua vida, sempre condenada para a dor.<\/p>\n<p> D. Pedro, por&eacute;m, continuou: &#8211; Escuta-me, Satan&aacute;s! Eu primeiro<br \/>\n    quero dizer-te todo o sofrimento que me vai na alma com esse f&uacute;nebre<br \/>\n    desenlace infal&iacute;vel da nossa velha amizade. Porque eu muito te amei.<br \/>\n    Foste tu quem me ensinou o manejo das armas, quem acordou em mim esse velho<br \/>\n    instinto belicoso e aventureiro que fez a gl&oacute;ria dos meus av&oacute;s<br \/>\n    remotos, mas que os Bragan&ccedil;as de agora iam esquecendo no esp&oacute;lio<br \/>\n    da sagrada heran&ccedil;a de fam&iacute;lia. A ti eu devo enfim ser o que<br \/>\n    sou &#8211; esse rei cavaleiro da ra&ccedil;a de Francisco de Fran&ccedil;a, que<br \/>\n    muitos Pavias podem derrear mas que sai sempre inc&oacute;lume, abroquelado<br \/>\n    na sua valentia para salvar a sua honra.<\/p>\n<p> E o pr&iacute;ncipe fez uma pausa longa e demorada.<\/p>\n<p> &#8211; Devo-te isso tudo, acrescentou depois. &#8211; Mas tudo isso te tenho pago em<br \/>\n    confian&ccedil;a e amizade.<\/p>\n<p> E tu, entretanto, s&oacute; porque um dia eu fui roubar-te a amante, tu<br \/>\n    te fizeste mesquinho e vil, indigno da minha companhia, porque n&atilde;o<br \/>\n    tens coragem de lutar frente a frente contra mim, porque te embu&ccedil;as<br \/>\n    no anonimato covarde das conspira&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> E mais violento: &#8211; Eu posso ser amigo do meu advers&aacute;rio. Mas desprezo<br \/>\n    o hip&oacute;crita que maquina nas trevas.<\/p>\n<p> &#8211; Pois bem, senhor! cartas na mesa, disse o Satan&aacute;s levantando-se.<\/p>\n<p> &#8211; E assim que eu gosto de jogar as partidas.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o, diga-me primeiro: onde est&aacute; minha filha? &#8211; Tua filha!<br \/>\n    Quem &eacute; tua filha? &#8211; Quem &eacute; minha filha! gargalhou Satan&aacute;s<br \/>\n    na sua gargalhada louca de velhas armaduras que rangiam. &#8211; Quem &eacute; minha<br \/>\n    filha! E resfolegou longamente, para continuar depois: &#8211; Miser&aacute;vel<br \/>\n    sedutor! hip&oacute;crita tu mesmo! mentiroso e covarde! D. Pedro avan&ccedil;ou<br \/>\n    para o escultor.<\/p>\n<p> Este deteve-o, por&eacute;m, com um gesto forte de comando.<\/p>\n<p> E prosseguiu: &#8211; Eu vi-te, sem desonra para ningu&eacute;m, penetrar na c&acirc;mara<br \/>\n    nupcial destes fidalgos. Queriam ouro e bras&otilde;es her&aacute;ldicos,<br \/>\n    e tu levavas-lhe uma cornuc&oacute;pia toda inteira para lhes satisfazer a<br \/>\n    gan&acirc;ncia e as aspira&ccedil;&otilde;es. Eu vi-te descer ao mais baixo<br \/>\n    dos bord&eacute;is, onde a moeda de prata chega muitas vezes para saciar os<br \/>\n    apetites de um homem. Somente houve um lugar onde eu nunca te conduzi, cuja<br \/>\n    porta eu defenderia contra os teus pedidos e contra as tuas amea&ccedil;as.<\/p>\n<p> Era o asilo da inoc&ecirc;ncia e da candura. E foi l&aacute; que tu foste<br \/>\n    buscar minha filha! &#8211; Tua filha! Tua filha! Mas fala! Eu n&atilde;o te entendo.<\/p>\n<p> &#8211; Covarde! Tu me dizias ainda h&aacute; pouco que eu me escondia para conspirar!<br \/>\n    E que fazes agora? E que fizeste tu? O pr&iacute;ncipe recuou dous passos,<br \/>\n    subjugado pelo olhar do Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> E este continuou ainda, imprecativamente: &#8211; Sim, eu te odiava e te acompanhava,<br \/>\n    colava-me a ti como a tua sombra, porque quero saber onde ocultas a minha<br \/>\n    filha, a p&aacute;lida e meiga filha dos meus amores, que todos deviam adorar<br \/>\n    de joelhos, e que tu profanas com o teu h&aacute;lito envenenado de cr&aacute;pula.<\/p>\n<p> &#8211; Mas eu n&atilde;o sei de tua filha, e nem sabia que ela era tua&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Tanto te rebaixaste que chegas a mentir! Amar Branca deveria ser entretanto<br \/>\n    a purifica&ccedil;&atilde;o das almas perdidas. Aquela crian&ccedil;a tem<br \/>\n    tanta inoc&ecirc;ncia e tanta candura, que o seu amor deve chegar para o perd&atilde;o<br \/>\n    de Deus caindo sobre os infernos como b&aacute;lsamo caindo sobre feridas.<\/p>\n<p> Mas tu, miser&aacute;vel que &eacute;s, e miser&aacute;vel que nasceste!<br \/>\n    tu n&atilde;o pudeste te redimir nas asas brancas daquele anjo, que sempre<br \/>\n    e sempre parece remontar-se para os c&eacute;us. E te acovardas, e tremes<br \/>\n    perante a voz vingadora do pai que se ergue contra ti, como a verdade possante<br \/>\n    da justi&ccedil;a.<\/p>\n<p> &#8211; Cala-te, bradou d. Pedro. &#8211; Por Deus! Cala-te, Satan&aacute;s! &#8211; Ah! tens<br \/>\n    medo de me ouvir! Tens medo que eu te escarre ao rosto toda a tua inf&acirc;mia!<br \/>\n    &#8211; Cala-te, repetiu o pr&iacute;ncipe desembainhando a espada e investindo<br \/>\n    contra o outro, cala-te! O Satan&aacute;s precaveu-se a tempo e aparou o bote<br \/>\n    com a sua arma de boa l&acirc;mina florentina.<\/p>\n<p> E a luta come&ccedil;ou ent&atilde;o herc&uacute;lea e tit&acirc;nica. Mestres<br \/>\n    ambos e conhecedores dos segredos da esgrima, eles digladiavam-se silenciosamente,<br \/>\n    muito calmos, na grande exuber&acirc;ncia vital das suas paix&otilde;es.<\/p>\n<p> Ouvia-se apenas o estuar das respira&ccedil;&otilde;es arquejantes.<\/p>\n<p> Mas, de repente&#8230;<\/p>\n<h2> <a name=\"12\">XII FERIDO! <\/a><\/h2>\n<p>&#8230; Branca apareceu &agrave; porta, com os olhos desmedidamente abertos,<br \/>\n    os cabelos soltos sobre o vestido malcuidado e roto. Muito p&aacute;lida,<br \/>\n    de olheiras roxas, aparecendo de s&uacute;bito na moldura da porta, a filha<br \/>\n    de Pallingrini parecia um fantasma.<\/p>\n<p> Por detr&aacute;s dela, percebia-se a fisionomia de d. Bias, com a p&ecirc;ra<br \/>\n    tr&ecirc;mula, oscilando no queixo, e os bigodes arrepiados por um calafrio<br \/>\n    de medo.<\/p>\n<p> Assim que terminara, dissolvida pelo pr&iacute;ncipe, a sess&atilde;o do<br \/>\n    Apostolado, d. Bias fora um dos primeiros a sair. Pusera-se a caminho para<br \/>\n    o Carmo, onde Branca continuava prisioneira. E, ruas afora, d. Bias pensava<br \/>\n    nela, monologando: &#8211; Amo-a! (levantava um bra&ccedil;o), idolatro-a (e levantava<br \/>\n    o bra&ccedil;o), idolatro-a! (e levantava uma perna), venero-a (e agachava-se<br \/>\n    todo).<\/p>\n<p> De espa&ccedil;o a espa&ccedil;o, um lampi&atilde;o de azeite projetava<br \/>\n    na rua uma larga toalha de luz. E a sombra de d. Bias estendia-se fant&aacute;stica,<br \/>\n    desconjuntada, sacudida de gestos fren&eacute;ticos, numa pantomima macabra.<\/p>\n<p> &#8211; O flor mimosa! p&eacute;rola divina! (punha os dedos na boca, enviando<br \/>\n    atrav&eacute;s da noite um longe beijo apaixonado) o meu peito &eacute; uma<br \/>\n    fr&aacute;gua! (dava um murro no peito). Ah! como &eacute; que eu, que tenho<br \/>\n    vencido tantos homens (segurava a durindana), n&atilde;o te consigo vencer!<br \/>\n    (abria os bra&ccedil;os desoladamente).<\/p>\n<p> Um homem que passava gargalhou, vendo a gesticula&ccedil;&atilde;o de d.<br \/>\n    Bias: &#8211; O borracho! vai cozinhar a bebedeira! O fidalgo espanhol tornou a<br \/>\n    si: estava diante da tasca do Trancoso. Por h&aacute;bito, as suas pernas<br \/>\n    tinham-no trazido at&eacute; ali, ao Piolho, quando o seu destino era o Carmo.<br \/>\n    D. Bias, por&eacute;m, n&atilde;o quis perder a viagem. Parou de pernas abertas,<br \/>\n    passou tr&ecirc;s vezes a m&atilde;o pela testa, suspirou: No bay como una<br \/>\n    libaci&oacute;n, A un aflito corazon.<\/p>\n<p> E entrou na bodega, onde ficou duas horas afogando os suspiros no pichel.<\/p>\n<p> Quando saiu, fraqueavam-se-lhe as pernas. Andava tudo &agrave; roda.<\/p>\n<p> &#8211; Caramba! que h&aacute; um terremoto! Mas n&atilde;o tremas, terra, que<br \/>\n    n&atilde;o te fa&ccedil;o nada! E, ao luar, cai aqui, levanta acol&aacute;,<br \/>\n    caminhou para as bandas do Carmo, mandando &aacute;s estrelas a sua voz avinhada:<br \/>\n    Si de tu hermosura quieres Una copia con mil gracias, Escucha, porque pretendo<br \/>\n    Yo pintarla! Amor labr&oacute; de tus cejas Dos arcos para su alaja, Y debajo<br \/>\n    ba descubierto Quien lo mata! Eres due&ntilde;a&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Em guarda! berrou ele, interrompendo a cantiga, e recuando, ao ver um<br \/>\n    vulto negro postado na rua, &agrave; sua espera.<\/p>\n<p> Sacou da bainha a durindana. Mas o vulto continuava im&oacute;vel. D. Bias<br \/>\n    tremeu: &#8211; Nobre fidalgo! eu n&atilde;o fa&ccedil;o mal a ningu&eacute;m&#8230;<br \/>\n    deixe-me passar em paz! Como o vulto n&atilde;o se mexesse, d. Bias animou-se<br \/>\n    a caminhar um pouco. O vulto era um poste de lampi&atilde;o. D. Bias gingou,<br \/>\n    destemido e bravo: &#8211; Caramba! que se fuera un hombre&#8230;<\/p>\n<p> E seguiu.<\/p>\n<p> Eres duena del lugar, Vandolera de las almas, Iman de los alvedrios, Linda<br \/>\n    albaja&#8230;<\/p>\n<p> Abo! abo! abo! Un rasgo de tu hemosura, Quisiera yo retratarla, Que es estrella,<br \/>\n    es cielo, es sol; No, es sino el alva&#8230;<\/p>\n<p> Abo! Abo! abo! Ao chegar ao Carmo, d. Bias enveredou &agrave;s cambalhotas<br \/>\n    pelos corredores. De repente, estacou.<\/p>\n<p> Uma voz triste cantava, no vasto sil&ecirc;ncio do convento adormecido.<br \/>\n    Era a voz de Branca: E nas asas de um suspiro, Que te vai meu cora&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> D. Bias ficou quieto, na treva, muito furioso consigo mesmo por estar se<br \/>\n    comovendo.<\/p>\n<p> Mandei cercar de saudades&#8230;<\/p>\n<p> Uma l&aacute;grima caiu no bigode de d. Bias.<\/p>\n<p> Mandei cercar de saudades As bordas do teu caix&#038;atildatilde;o&#8230;<\/p>\n<p> Um solu&ccedil;o irrompeu do peito de d. Bias.<\/p>\n<p> Fica em tua sepultura Velando minha paix&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p> E d. Bias, chorando como um cabrito desmamado, abriu a porta e entrou na<br \/>\n    pris&atilde;o de Branca, murmurando: &#8211; Pela senhora de Valladolid! nunca mais<br \/>\n    bebo, caramba! Que eu, quando bebo, &eacute; isto: fico um bolas! Branca,<br \/>\n    assim que viu d. Bias entrar, correu para ele, de bra&ccedil;os abertos: &#8211;<br \/>\n    Paulo! Paulo! Paulo! D. Bias abriu tamb&eacute;m os bra&ccedil;os, com um<br \/>\n    grande derretimento amoroso na face. Ela abra&ccedil;ou-o: ele deixou-se abra&ccedil;ar.<br \/>\n    Ela beijou-o: ele deixou-se beijar.<\/p>\n<p> &#8211; Amo-te! amo-te!&#8230; murmurou a louca.<\/p>\n<p> D. Bias n&atilde;o p&ocirc;de mais. Atirou-se de joelhos, mas embara&ccedil;ou<br \/>\n    a espada nas pernas, e estirou-se no ch&atilde;o a fio comprido.<\/p>\n<p> &#8211; Eu tamb&eacute;m te amo, donzela! Levantou-se, agarrando-se &agrave;s<br \/>\n    saias da mo&ccedil;a, p&ocirc;s-se de joelhos, e com a voz embargada pelos<br \/>\n    solu&ccedil;os: &#8211; Donzela! vamos procurar teu pai! Que ou meu tetrav&ocirc;<br \/>\n    n&atilde;o foi lugar-tenente do Cid ou tu te h&aacute;s de chamar d. Branca<br \/>\n    de Bias! Vamos, donzela, vamos procurar teu pai! E, sem refletir, b&ecirc;bado<br \/>\n    de amor e de Cartaxo, arrastou a mo&ccedil;a para fora do quarto.<\/p>\n<p> Sim! ele n&atilde;o era homem para essas bandalheiras. Ora, j&aacute; se<br \/>\n    tinha visto? um fidalgo das Espanhas fazer sofrer uma donzela que amava! nada!<br \/>\n    ia ao pai! ia ao pai! O Satan&aacute;s devia estar no Pa&ccedil;o, com o pr&iacute;ncipe.<br \/>\n    Chegava l&aacute;, entregava-lhe a filha, desmanchava toda aquela pouca vergonha,<br \/>\n    atirava-se aos p&eacute;s do pr&iacute;ncipe e bradava-lhe. &#8211; Perd&atilde;o!<br \/>\n    O pr&iacute;ncipe perdoavalhe, ele pedia ao Satan&aacute;s a m&atilde;o da<br \/>\n    filha, o Satan&aacute;s concedia-lha, casavam, seriam felizes, amar-se-iam,<br \/>\n    teriam muitos filhos&#8230; Oh! muitos filhos! muitos filhos! e a sua fam&iacute;lia<br \/>\n    n&atilde;o morreria com ele, e aquele nome de Bias, t&atilde;o c&eacute;lebre<br \/>\n    na hist&oacute;ria da Espanha e nas bodegas dos Mansanares, continuaria a<br \/>\n    sua marcha triunfal, atrav&eacute;s dos s&eacute;culos, boquiabrindo as gera&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    faturas! Era este o sonho que bailava, entre os vapores do vinho, na cabe&ccedil;a<br \/>\n    de d. Bias, enquanto arrastava Branca pelos corredores do Carmo.<\/p>\n<p> Na rua, quis dar-lhe o bra&ccedil;o: ela desatou a correr pela rua do Carmo.<\/p>\n<p> D. Bias voava: &#8211; Oh! n&atilde;o me fujas, sonho de poeta! Era uma cousa<br \/>\n    fant&aacute;stica, pela rua deserta aquela corrida vertiginosa de uma mulher<br \/>\n    de cabelos soltos e de um fantasma negro, que berrava como um possesso: &#8211;<br \/>\n    Donzela! virgem! menina! Branca trope&ccedil;ou e caiu. D. Bias tomou-a nos<br \/>\n    bra&ccedil;os, e seguiu para o Pa&ccedil;o. Agora, Branca continuava a abra&ccedil;&aacute;-lo,<br \/>\n    a cham&aacute;-lo de Paulo.<\/p>\n<p> D. Bias encontrou aberta a pequena porta lateral, muito sua conhecida, por<br \/>\n    onde o pr&iacute;ncipe costumava entrar a desoras. Dessa porta partia um corredor<br \/>\n    que ia ter a uma sala do r&eacute;s-doch&atilde;o.<\/p>\n<p> Havia luz nessa sala. E, mesmo de longe, d. Bias ouviu um retinir de armas.<\/p>\n<p> &Agrave; porta, pararam. Muito p&aacute;lida, de olheiras roxas, com os<br \/>\n    olhos desmedidamente abertos e os cabelos soltos sobre o vestido malcuidado<br \/>\n    e roto, a filha de Pallingrini parecia um fantasma: e, por detr&aacute;s dela,<br \/>\n    percebia-se e fisionomia apavorada de d. Bias, com a p&ecirc;ra tr&ecirc;mula,<br \/>\n    oscilando no queixo, e os bigodes arrepiados por calafrio.<\/p>\n<p> D. Pedro e Satan&aacute;s n&atilde;o tiveram tempo de suspender o combate.<br \/>\n    Branca atirara-se para eles.<\/p>\n<p> Mas, d. Bias muito cansado e muito excitado, atirara-se tamb&eacute;m, agarrando-a.<br \/>\n    E a espada de d.<\/p>\n<p> Pedro cravou-se no ombro direito do fidalgo espanhol, que se deixou cair,<br \/>\n    urrando: &#8211; Estou morto! O Satan&aacute;s, reconhecendo a filha, tomou-a nos<br \/>\n    bra&ccedil;os, de um salto, e fugiu com ela. E s&oacute; ficaram na sala o<br \/>\n    pr&iacute;ncipe de p&eacute;, im&oacute;vel, sem saber o que devia fazer,<br \/>\n    e d. Bias estendido no ch&atilde;o, sem dar acordo de si.<\/p>\n<p> N&atilde;o foi longa a hesita&ccedil;&atilde;o do pr&iacute;ncipe. Fez vibrar<br \/>\n    uma campainha. Um criado fiel apareceu.<\/p>\n<p> &#8211; Vai j&aacute; buscar curativos.<\/p>\n<p> E, ficando s&oacute;, d. Pedro abaixou-se, levantou d. Bias, estendeu-o<br \/>\n    no sof&aacute;.<\/p>\n<p> O descendente do lugar-tenente de Cid voltou a si, jurando que tinha morrido.<br \/>\n    O criado curou-o.<\/p>\n<p> A ferida n&atilde;o era muito grave: a l&acirc;mina tinha encontrado a omoplata<br \/>\n    e n&atilde;o pudera penetrar muito. Mas d. Bias afirmava que tinha morrido,<br \/>\n    e enchia a sala de lamenta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> &#8211; Ouve, servidor fiel: ficas agora autorizado a dizer a todo o mundo que<br \/>\n    viste d. Bias &agrave;s portas da morte e que n&atilde;o o viste tremer. Somos<br \/>\n    todos assim na fam&iacute;lia: morremos todos por amor e sem chorar. Meu tetrav&ocirc;,<br \/>\n    lugar-tenente de Cid, morreu na batalha de B&aacute;caras. Viu-se cercado<br \/>\n    por quatro b&aacute;rbaros, que lhe vibraram quatro estocadas, que se lhe<br \/>\n    meteram todas quatro no cora&ccedil;&atilde;o; pois o her&oacute;i n&atilde;o<br \/>\n    caiu. Mandou chamar o tabeli&atilde;o, fez testamento, confessou-se, e s&oacute;<br \/>\n    morreu quando achou que j&aacute; podia morrer.<\/p>\n<p> &#8211; Bem! mas durma, sossegue! &#8211; Ouve! digo-te eu que me ou&ccedil;as! &#8211; Foi<br \/>\n    esse o &uacute;nico meu av&ocirc; que n&atilde;o morreu por causa do amor:<br \/>\n    minto &#8211; morreu por causa do amor da p&aacute;tria. Meu pai, por exemplo, morreu<br \/>\n    m&aacute;rtir do amor: amava minha m&atilde;e, queria casar com ela, n&atilde;o<br \/>\n    p&ocirc;de casar, e morreram os dois virgens um do outro!&#8230; Oh! o amor! o<br \/>\n    amor! o amor! E, j&aacute; quase adormecido, prostrado de fadiga, d. Bias<br \/>\n    tartamudeou ainda com uma voz chorosa: &#8211; Homem n&atilde;o h&aacute; nada por<br \/>\n    a&iacute; que se coma? <\/p>\n<h2><a name=\"13\">XIII EST&Aacute;TUAS<\/a><\/h2>\n<p> O Satan&aacute;s ao sair do Pa&ccedil;o, levando consigo a filha, parou<br \/>\n    um momento no largo, procurando apertar o cora&ccedil;&atilde;o para lhe conter<br \/>\n    as palpita&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> Ah! parecia incr&iacute;vel aquilo&#8230; t&ecirc;-la de novo, louca embora,<br \/>\n    embora desonrada, mas t&ecirc;-la enfim, poder de novo apert&aacute;-la nos<br \/>\n    bra&ccedil;os, purific&aacute;-la com o batismo dos seus beijos, tentar &agrave;<br \/>\n    for&ccedil;a de carinhos e de afetos restituir-lhe a raz&atilde;o e a felicidade.<\/p>\n<p> O outro vencera&#8230; que importava? O essencial para ele era possuir de novo<br \/>\n    a filha.<\/p>\n<p> Amanhecia. Perto o mar cintilava espumando contra o cais. Passavam negros<br \/>\n    descal&ccedil;os, nus da cintura para cima, carregando os tigres, barris cuidadosamente<br \/>\n    fechados e ainda assim empestando o ar. O largo come&ccedil;ava a encher-se<br \/>\n    de trabalhadores e catraieiros.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s compreendeu que era preciso sair dali. Podia causar suspeitas<br \/>\n    a sua presen&ccedil;a naquele lugar, ao lado de uma mulher, cujo estado de<br \/>\n    loucura se via logo no desvario do olhar, no desalinho das roupas, no desordenado<br \/>\n    dos gestos.<\/p>\n<p> E, arrastando consigo a filha, caminhou para o cais.<\/p>\n<p> Um catraieiro acorreu logo: &#8211; Uma canoa, patr&atilde;o? &#8211; Sim e depressa.<\/p>\n<p> Mas, o catraieiro um brutamontes espada&uacute;do e barbado, de camisa de<br \/>\n    flanela branca listrada de azul, olhava agora com desconfian&ccedil;a para<br \/>\n    o Satan&aacute;s. Via-se que hesitava, com receio de se ver comprometido em<br \/>\n    algum crime: receava conduzir aquele homem suspeito e aquela mulher de fisionomia<br \/>\n    estranha e de vestido ensang&uuml;entado, porque o pouco sangue perdido por<br \/>\n    d. Bias ca&iacute;ra sobre ela.<\/p>\n<p> &#8211; Ent&atilde;o! que &eacute; que esperas? &#8211; Eh! patr&atilde;o! quem &eacute;<br \/>\n    voc&ecirc;? &#8211; Homem, vamo-nos embora e deixa-te de falar, bruto! &#8211; gritou-lhe<br \/>\n    o escultor, metendo-lhe na m&atilde;o uma moeda de ouro.<\/p>\n<p> N&atilde;o hesitou mais o catraieiro. Saltou para a canoa e ajudou a descer<br \/>\n    Branca e o pai.<\/p>\n<p> &#8211; Pr&#8217;a onde arriba, patr&atilde;o? &#8211; Para a Lapa. Depressa.<\/p>\n<p> Da&iacute; a pouco, saltavam os dous, pai e filha, na praia da Lapa, e entravam,<br \/>\n    por uma porta baixa, numa casa espa&ccedil;osa, cheia de janelas.<\/p>\n<p> Era o atelier do Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> Sentia-se, desde a entrada, um cheiro inc&ocirc;modo de mofo, um ar abafado<br \/>\n    de casa longo tempo fechada, onde ningu&eacute;m mora, onde ningu&eacute;m<br \/>\n    vai. Ao entrar na sala principal, foi necess&aacute;rio que o escultor corresse<br \/>\n    imediatamente a abrir as janelas, t&atilde;o forte, t&atilde;o sufocante era<br \/>\n    o cheiro do gesso mofado.<\/p>\n<p> Havia muito tempo que o Satan&aacute;s n&atilde;o entrava ali. O seu tempo<br \/>\n    andava ocupado em outras cousas, nas correrias noturnas com o pr&iacute;ncipe,<br \/>\n    nas conjura&ccedil;&otilde;es, nas vig&iacute;lias vagabundas pelas tavernas<br \/>\n    e pelas casas de batota. Pallingrini era um nevr&oacute;tico. Passava meses<br \/>\n    inteiros na conviv&ecirc;ncia &uacute;nica do copo e da espada, numa bo&ecirc;mia<br \/>\n    infernal, cheia de bebedeiras e de duelos, sem se lembrar da sua arte. De<br \/>\n    repente, vinha ao atelier, fechava-se l&aacute; oito dias, come&ccedil;ava<br \/>\n    com entusiasmo uma est&aacute;tua, um busto, trabalhava com ardor, numa impaci&ecirc;ncia<br \/>\n    febril, numa alucina&ccedil;&atilde;o doentia, aborrecia-se, atirava ao ch&atilde;o<br \/>\n    a p&aacute; de modelagem, dava um pontap&eacute; no camartelo, e voltava a<br \/>\n    atirar-se &agrave; vida airada, deixando a obra incompleta.<\/p>\n<p> A sala era toda envidra&ccedil;ada. Enchiam-na, cobertos de p&oacute;, estragados<br \/>\n    pela umidade e pelo sol, os esbo&ccedil;os do escultor.<\/p>\n<p> Nada acabado, nada completo. Aqui um projeto de digladiador, sem cabe&ccedil;a,<br \/>\n    levantava-se, cheio de manchas de mofo, esticando os m&uacute;sculos atl&eacute;ticos.<br \/>\n    Adiante, uma cabe&ccedil;a de mulher, anjos de asas quebradas, grupos disformes,<br \/>\n    misturados com instrumentos de trabalho, ossos humanos, caveiras e manequins.<br \/>\n    Uma est&aacute;tua do pr&iacute;ncipe, modelada em gesso, estava atirada a<br \/>\n    um canto, partida pelo meio.<\/p>\n<p> Foi para a&iacute;, para essa casa povoada de est&aacute;tuas, que o escultor<br \/>\n    levou a filha: e ela tamb&eacute;m parecia uma est&aacute;tua t&atilde;o fria<br \/>\n    e t&atilde;o branca como as outras, arrastando-se pelo atelier, durante os<br \/>\n    dous dias que se seguiram ao do malogrado duelo.<\/p>\n<p> Foi debalde que o Satan&aacute;s formou em torno da filha uma atmosfera<br \/>\n    de cuidados e de carinhos.<\/p>\n<p> A vida desaparecia aos poucos, visivelmente, daquele corpo consumido pela<br \/>\n    febre. E era o que torturava mais o escultor: ver que ela teria de morrer,<br \/>\n    sem voltar &agrave; raz&atilde;o, sem conhec&ecirc;-lo, sem pela &uacute;ltima<br \/>\n    vez cham&aacute;-lo &#8211; pai! No terceiro dia, mais fraca do que nunca, Branca<br \/>\n    amanheceu ardendo em febre. Tinha a pele abrasada, os olhos vermelhos, o corpo<br \/>\n    sacudido de calafrios.<\/p>\n<p> &#8211; Paulo! meu Paulo! gemia de instante a instante&#8230;<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s torcia as m&atilde;os, alucinado, &agrave; beira do leito.<br \/>\n    Ao cair da tarde, a febre baixou: e ela ficou serena, com um longo filete<br \/>\n    de sangue ao canto da boca, murmurando sempre: &#8211; Paulo! meu Paulo! O Satan&aacute;s<br \/>\n    abriu as janelas: extinguia-se j&aacute; o fogo do ocaso. A noite crescia<br \/>\n    sobre o mar. Um dil&uacute;vio de cinzas invadiu o c&eacute;u. Tudo cinzento.<br \/>\n    Longe, no ponto em que o c&eacute;u beijava as &aacute;guas, a primeira estrela<br \/>\n    erguia a p&aacute;lpebra de ouro. E uma grande tristeza sa&iacute;a de tudo,<br \/>\n    velando tudo para os funerais do dia. Ainda uma vez a voz de Branca suspirou<br \/>\n    dentro: &#8211; Paulo! meu Paulo! O Satan&aacute;s, &agrave; janela, solu&ccedil;ava,<br \/>\n    com o rosto escondido nas m&atilde;os. Mas, de repente, uma gritaria confusa<br \/>\n    soou l&aacute; fora. Um magote do povo aproximava-se entre aclama&ccedil;&otilde;es:<br \/>\n    a alma brasileira andava na rua, exultando e cantando, na aurora da emancipa&ccedil;&atilde;o.<br \/>\n    E aos ouvidos do escultor chegou distintamente a aclama&ccedil;&atilde;o popular:<br \/>\n    &#8211; D. Pedro! D. Pedro! D. Pedro! &#8211; Paulo! meu Paulo! &#8211; gemia a pobre louca<br \/>\n    na sua agonia.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s foi ajoelhar-se aos p&eacute;s do leito. Oh! era demais!<br \/>\n    era demais! o outro vencia, aclamado e forte, enquanto ela, a sua filha, morria!<br \/>\n    &#8211; D. Pedro! D. Pedro! &#8211; gritava o povo mais perto.<\/p>\n<p> &#8211; Paulo! meu Paulo! &#8211; ouviu-se a voz de Branca, ainda uma vez.<\/p>\n<p> A voz sa&iacute;a-lhe agora dif&iacute;cil e fraca, solu&ccedil;ante, como<br \/>\n    um gemido, da boca que a hemoptise pintava a carmim, e que na alvura polar<br \/>\n    da sua face parecia a po&eacute;tica e misteriosa flor das neves da Lap&ocirc;nia.<\/p>\n<p> &#8211; D. Pedro! D. Pedro! Todo o corpo da moribunda estremeceu, inteiri&ccedil;aram-se-lhe<br \/>\n    os bra&ccedil;os, vidraram-se-lhe os olhos.<\/p>\n<p> Um &uacute;ltimo suspiro lhe saiu da boca: &#8211; Paulo! &#8211; e ficou im&oacute;vel.<\/p>\n<p> O Satan&aacute;s atirou-se de bru&ccedil;os, com um grande grito de desespero.<br \/>\n    E o povo passava justamente sob as janelas do atelier: e a aclama&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    troou, violenta e vitoriosa, invadindo a sala: &#8211; D. Pedro! D. Pedro! D. Pedro!<br \/>\n    O temperamento do Satan&aacute;s reagiu logo contra a sua grande dor sagrada.<\/p>\n<p> Morta&#8230; Que lhe restava fazer? renunciar a luta, fugir para longe, para<br \/>\n    muito longe da terra maldita onde sofrera tanto, e ir preparar nas trevas<br \/>\n    do seu ex&iacute;lio volunt&aacute;rio, a obra sinistra da vingan&ccedil;a,<br \/>\n    faz&ecirc;-la amadurecer longamente, at&eacute; que soasse a hora oportuna<br \/>\n    para faz&ecirc;-la rebentar aos p&eacute;s do pr&iacute;ncipe&#8230; Mas n&atilde;o<br \/>\n    quis partir sem levar a filha consigo. N&atilde;o a levaria viva, mas modelada<br \/>\n    na pedra dura, que, nas suas alucina&ccedil;&otilde;es ele procuraria aquecer<br \/>\n    e animar, a custa de beijos e de abra&ccedil;os.<\/p>\n<p> E atirou-se desesperadamente ao trabalho. Todo o seu talento, estragado<br \/>\n    e consumido pelo &oacute;cio e pelas orgias, voltou como por encanto, ao apelo<br \/>\n    da dor suprema que lhe vergastava a alma. Ao toque dos seus dedos, o gesso<br \/>\n    d&oacute;cil se submetia, obedecendo-lhe aos caprichos da inspira&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> Toda a noite e toda a manh&atilde; seguinte, o escultor trabalhou sem descanso.<br \/>\n    O atelier, abandonado e poeirento, encheu-se de alegria e de vida. O sopro<br \/>\n    do trabalho animava tudo aquilo; e quando, de madrugada, o sol entrou vitoriosamente<br \/>\n    pelas janelas, vindo encontrar o artista embebido na sua obra piedosa, as<br \/>\n    est&aacute;tuas pareciam sorrir&#8230;<\/p>\n<p> Pouco a pouco, da massa informe do gesso, Branca saia, ressuscitada pelo<br \/>\n    amor do artista.<\/p>\n<p> Cercaram-lhe a fronte as ondas do cabelo, rasgaram-se-lhe os olhos, arqueou-se-lhe<br \/>\n    a boca dum sorriso inocente, empinou-se-lhe o colo virginal.<\/p>\n<p> E ela aparecia assim aos olhos do escultor e ao cora&ccedil;&atilde;o do<br \/>\n    pai, t&atilde;o pura e t&atilde;o bela, como naqueles tempos felizes em que<br \/>\n    o alcoviteiro do pr&iacute;ncipe ia purificar-se, ao seu lado, no pequeno<br \/>\n    santu&aacute;rio da rua do Conde&#8230;<\/p>\n<p> Quando a est&aacute;tua ficou pronta, o estatu&aacute;rio ajoelhou-se. Duas<br \/>\n    l&aacute;grimas rolaram pelas suas faces: e ele rezou, talvez pela primeira<br \/>\n    vez na vida.<\/p>\n<p> Mas, acabada a ora&ccedil;&atilde;o, o Satan&aacute;s transfigurou-se: era<br \/>\n    outra vez o mesmo esp&iacute;rito forte, o mesmo ousado e diab&oacute;lico<br \/>\n    esp&iacute;rito da vingan&ccedil;a e do &oacute;dio.<\/p>\n<p> Levantou-se, olhou para o mar que se estendia infinito e calmo, ergueu o<br \/>\n    bra&ccedil;o num juramento solene de nunca esquecer e nunca perdoar&#8230;<\/p>\n<p> No outro dia, o Satan&aacute;s fazia-se de vela, a bordo de um navio negreiro,<br \/>\n    para longe das terras do Brasil; e Branca ficava sob a l&aacute;pide fria<br \/>\n    de uma sepultura do cemit&eacute;rio do Carmo, transformando a sua carne mo&ccedil;a<br \/>\n    na seiva que mais tarde rebentaria em rosas na terra que ela purificara com<br \/>\n    a sua r&aacute;pida passagem.<\/p>\n<h2> <a name=\"14\">XIV O ESQUELETO <\/a><\/h2>\n<p>Assim muito aclamado pelas massas populares que lhe iam agradecer a carta<br \/>\n    de liberdade, d.<\/p>\n<p> Pedro desanuviou-se das tristezas que por alguns momentos o ensombraram<br \/>\n    com o caso de Branca.<\/p>\n<p> De toda essa hist&oacute;ria tenebrosa que o fizera cruzar armas contra<br \/>\n    o Satan&aacute;s n&atilde;o percebia grande cousa. Ficava-lhe apenas na mem&oacute;ria<br \/>\n    o vago delineamento incerto de uma crian&ccedil;a que ele supusera amante<br \/>\n    do escultor e que fora sua por uma noite sombria e treda como nas aventuras<br \/>\n    daquele tempo. E ficava-lhe principalmente nos quartos baixos do pal&aacute;cio<br \/>\n    o magro fidalgo das Espanhas que se aproveitava da ferida para prolongar o<br \/>\n    seu apetite e as suas bravatas.<\/p>\n<p> D. Bias fortunava-se de fato um homem feliz. Servia-se do ferimento como<br \/>\n    indel&eacute;vel e irrecus&aacute;vel atestado de bravura inscrito no pergaminho<br \/>\n    da sua pele. E servia-se mais ainda do cozinheiro do Pa&ccedil;o a quem estava<br \/>\n    constantemente pedindo bifes e bifes e outras esquisitas guloseimas.<\/p>\n<p> Gesticulava, gritava e berrava.<\/p>\n<p> Inimigo da solid&atilde;o, rodeava-se dos criados a quem vivia contando<br \/>\n    as aventuras complicadas em que se metera. E tanta fertilidade tinha a sua<br \/>\n    irrequieta imagina&ccedil;&atilde;o de espanhol, que conseguia sempre forjar<br \/>\n    mais um caso para o ser&atilde;o de cada noite, e mais um epis&oacute;dio<br \/>\n    para a conversa de cada dia.<\/p>\n<p> E tantas fez que em torno dele formou-se uma reputa&ccedil;&atilde;o de<br \/>\n    esp&iacute;rito e bom humor.<\/p>\n<p> D. Pedro quis v&ecirc;-lo.<\/p>\n<p> Entrou-lhe no aposento muito s&eacute;rio, com a compostura solene e grave<br \/>\n    de um imperador que tamb&eacute;m gosta da tro&ccedil;a, mas deseja conservar<br \/>\n    a sua for&ccedil;a moral.<\/p>\n<p> Falou no ferimento, mostrando-se muito sentido com o acontecimento, lamentando-se<br \/>\n    do ocorrido, mas sem uma alus&atilde;o ao Satan&aacute;s.<\/p>\n<p> &#8211; Ora senhor, ora senhor, isto n&atilde;o foi, n&atilde;o foi nada, explicou<br \/>\n    d. Bias. &#8211; O ferro entrou-me apenas dez polegadas no bra&ccedil;o. Uma ninharia!<br \/>\n    &#8211; Sim. N&atilde;o foi nada, mas podia ser fatal.<\/p>\n<p> D. Bias respondeu com um forte oscilar desprez&iacute;vel de ombros. Que<br \/>\n    n&atilde;o se importava. Que j&aacute; estava acostumado &agrave;quelas cousas.<\/p>\n<p> &#8211; Em todo caso posso garantir-te que n&atilde;o tinha vontade nenhuma de<br \/>\n    te matar.<\/p>\n<p> &#8211; Ora senhor! Por quem &eacute; n&atilde;o falemos mais nisso. Eu at&eacute;<br \/>\n    j&aacute; vou me esquecendo de que fui ferido. A for&ccedil;a do h&aacute;bito,<br \/>\n    sabe, a for&ccedil;a do h&aacute;bito! &#8211; Com que ent&atilde;o tens sido ferido<br \/>\n    muitas vezes? &#8211; Nem contas h&aacute; que as possa enumerar.<\/p>\n<p> E narrou: &#8211; De uma, l&aacute; nas Espanhas, voltava eu muito sossegado de<br \/>\n    tr&ecirc;s duelozinhos pequeninos em que tinha morto os quatro advers&aacute;rios<br \/>\n    quando me saiu &agrave; frente um piquete de cavalaria comandado pelo irm&atilde;o<br \/>\n    dos cinco rapazes que eu acabava de remeter para os infernos.<\/p>\n<p> &#8211; E brigaste contra todo o piquete? &#8211; Qual briguei! qual nada! Matei-os<br \/>\n    a todos sem exce&ccedil;&atilde;o de um cavalo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas ent&atilde;o n&atilde;o foste ferido! &#8211; Fui, sim, senhor! Quando n&atilde;o<br \/>\n    havia mais advers&aacute;rios contra quem pelejar, caiu uma tempestade e veio<br \/>\n    um raio com tanta for&ccedil;a que&#8230;<\/p>\n<p> &#8211; Foste queimado? &#8211; Qual queimado! Senhor! Feri-me eu mesmo com a minha<br \/>\n    espada indo a desviar-me do raio.<\/p>\n<p> &#8211; E onde? &#8211; J&aacute; n&atilde;o me recordo mais. Mas, caramba! que aquilo,<br \/>\n    sim, foi um golpe bem dado e de m&atilde;o de mestre. Voou um bra&ccedil;o<br \/>\n    para aqui, uma perna p&#8217;ra ali e a cabe&ccedil;a n&atilde;o sei para onde.<\/p>\n<p> &#8211; Diabo! Pois tu te fizeste assim em peda&ccedil;os? &#8211; Qual eu! qual nada!<br \/>\n    Senhor. Foi o inimigo.<\/p>\n<p> &#8211; Mas que inimigo? &#8211; Ah! Eu n&atilde;o sei.<\/p>\n<p> D. Pedro n&atilde;o p&ocirc;de conter uma gargalhada e saiu.<\/p>\n<p> Saiu, alegre da vida, cantarolando umas cantigas brejeiras. E teve uma id&eacute;ia.<br \/>\n    A id&eacute;ia de fazer uma ca&ccedil;oada com d. Bias, de pregar-lhe um bom<br \/>\n    susto. Deviam ser interessantes a cara e as falas do aventuroso cavaleiro<br \/>\n    das Espanhas, quando lhe aparecesse diante de si um fantasma amea&ccedil;ador<br \/>\n    e t&eacute;trico que contra ele investisse numa encena&ccedil;&atilde;o apavorante<br \/>\n    de trag&eacute;dia. E, nas boas disposi&ccedil;&otilde;es de esp&iacute;rito<br \/>\n    em que estava, d. Pedro tratou logo de preparar a pilh&eacute;ria.<\/p>\n<p> Vieram-lhe a princ&iacute;pio d&uacute;vidas para escolha entre diversos<br \/>\n    projetos que se lhe apresentaram &agrave; imagina&ccedil;&atilde;o. Mas, &agrave;<br \/>\n    noite, quando se despedia da cigana, l&aacute; no circo do Valongo, resolveu-se,<br \/>\n    enfim, e pediu ao Vampa que lhe vendesse um esqueleto articulado, que havia<br \/>\n    a um canto da parede e de que o saltimbanco se servia nas suas m&aacute;gicas<br \/>\n    e pantomimas.<\/p>\n<p> Trouxe-o, ruas afora por aquela noite escura, debaixo da capa, como um mist&eacute;rio,<br \/>\n    bem junto a si, como uma profana&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> E, quando entrou no Pa&ccedil;o, antes de cear, foi logo ao quarto de d.<br \/>\n    Bias.<\/p>\n<p> Segurando o esqueleto pela coluna vertebral, mal envolveu-o na capa, o bastante<br \/>\n    para esconder-se a si e para permitir que o descendente do soldado de Cid<br \/>\n    Campeador pudesse ver toda a horr&iacute;vel conforma&ccedil;&atilde;o espetral<br \/>\n    do fantasma.<\/p>\n<p> D. Bias dormia.<\/p>\n<p> Uns pratos vazios, muito lambidos e uma garrafa escorropichada, atestavam<br \/>\n    que o valente cavaleiro andante das aventuras contadas acabara de cear; lautamente,<br \/>\n    mais lautamente do que era permitido supor a quem o visse magro e esgalgado,<br \/>\n    um esqueleto ele mesmo. Acordou e gritou.<\/p>\n<p> Sobre o peito descansa-lhe a ossadura descarnada da m&atilde;o do esqueleto.<br \/>\n    E a olh&aacute;-lo, com o grande olhar tenebroso e mau das caveiras, estava<br \/>\n    um vulto bem junto a si, debru&ccedil;ado sobre o seu leito. Gritou.<\/p>\n<p> Gritou e retorceu-se todo na cama, nu e esquel&eacute;tico, envolto na mortalha<br \/>\n    alvadia do len&ccedil;ol, fantasma contra fantasma.<\/p>\n<p> D. Pedro ria-se.<\/p>\n<p> E largou o esqueleto que ent&atilde;o caiu todo inteiro sobre d. Bias.<\/p>\n<p> Foi, nesse momento, um espet&aacute;culo diabolicamente nunca visto e nunca<br \/>\n    sonhado at&eacute; ent&atilde;o.<\/p>\n<p> Por entre os len&ccedil;&oacute;is e a capa, no belo contraste do preto<br \/>\n    e branco, debatiam-se os dous. D. Bias a contorcer-se todo, a querer desvencilhar-se<br \/>\n    desse novo companheiro de dormida, animava-o, fazia-o viver, emprestava-lhe<br \/>\n    movimento.<\/p>\n<p> &#8211; Por Dios! choramingava o espanhol, por Dios! N&atilde;o me fa&ccedil;a<br \/>\n    nada! Deixe-me em paz, tenha pena de mim! E fazia-se s&uacute;plice, e queria<br \/>\n    erguer-se para ficar de joelhos, para pedir piedade, para comprometer-se a<br \/>\n    tudo quanto o fantasma quisesse, para tornar-se submisso e escravo, enfim,<br \/>\n    com tanto que o deixasse viver.<\/p>\n<p> E com os movimentos que tentava, o esqueleto movia-se tamb&eacute;m, recolhia<br \/>\n    o bra&ccedil;o num amplexo que horripilava o outro, intrometia a perna entre<br \/>\n    as do fidalgo das Espanhas, ligava-selhe enfim numa bela conjun&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    amorosa.<\/p>\n<p> D. Bias solu&ccedil;ava. A voz desaparecia-lhe at&eacute;.<\/p>\n<p> Foi preciso que o pr&iacute;ncipe, j&aacute; farto do espet&aacute;culo,<br \/>\n    interviesse e separasse os dous.<\/p>\n<p> &#8211; Caramba! fez d. Bias. Eu tinha medo porque era um esqueleto e n&atilde;o<br \/>\n    havia contra quem lutar! E mais calmo depois, achou uma boa compensa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    no convite para a ceia de d. Pedro que este tinha mandado trazer para o quarto.<\/p>\n<p> N&atilde;o comia entretanto com toda a sua habitual voracidade. O esqueleto,<br \/>\n    que ficara sobre o leito, incomodava-o.<\/p>\n<p> Levantou-se, e escondeu-o dentro de um arm&aacute;rio.<\/p>\n<p> &#8211; Se o esquecem agora, e se o descobrem daqui a cem anos&#8230; lembrou o pr&iacute;ncipe.<\/p>\n<p> D. Bias mastigou barulhentamente um grande naco de carne; e depois, olhando<br \/>\n    muito s&eacute;rio para o arm&aacute;rio, disse: &#8211; Caramba! que boa pe&ccedil;a<br \/>\n    vou eu pregar &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es futuras!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII XIV &nbsp; Mist\u00e9rio da Casa de Bragan\u00e7a I A NOITE NA TAVERNA Era por uma triste noite chuvosa, dessas que faz bem gozar quando a gente esta em casa. 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