{"id":92150,"date":"2017-01-03T13:31:51","date_gmt":"2017-01-03T15:31:51","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92150"},"modified":"2018-05-03T16:14:16","modified_gmt":"2018-05-03T18:14:16","slug":"o-coruja-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-coruja-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"O Coruja &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><script async src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\"><\/script><br \/>\n<!-- ads_responsivo --><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\"\n     style=\"display:block\"\n     data-ad-client=\"ca-pub-7159766377354473\"\n     data-ad-slot=\"3162710741\"\n     data-ad-format=\"auto\"><\/ins><br \/>\n<script>\n(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\" height=\"128\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong>I<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#2\">II<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#3\">III<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#4\">IV<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#5\">V<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#6\">VI<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#7\">VII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#8\"><strong>VIII<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#9\"><strong>IX<\/strong><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>\u00a0O Coruja &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo<\/strong><\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I<\/h2>\n<p>Quando, em uma das pequenas cidades de Minas, faleceu a vi\u00fava do obscuro<br \/>\ne j\u00e1 ent\u00e3o esquecido procurador Miranda, o pequenito Andr\u00e9, \u00fanico fruto deste<br \/>\nextinto casal, tinha apenas quatro anos de idade e ficaria totalmente ao desamparo,<br \/>\nse o p\u00e1roco da freguesia, o Sr. padre Jo\u00e3o Est\u00eav\u00e3o, n\u00e3o o tomasse por sua<br \/>\nconta e n\u00e3o carregasse logo com ele para casa.<\/p>\n<p>Esta bonita a\u00e7\u00e3o do Sr. vig\u00e1rio levantou entre as suas ovelhas um piedoso<br \/>\ncoro de louvores, e todas elas metendo at\u00e9 as menos chegadas ao padre, estavam<br \/>\nde acordo em profetizar ao bem-aventurado \u00f3rf\u00e3o um invej\u00e1vel futuro de do\u00e7uras<br \/>\ne regalias, como se ele fora recolhido pelo pr\u00f3prio Deus e tivesse por si<br \/>\na paternidade de toda a corte celeste.<\/p>\n<p>A Joana das Palmeirinhas, essa ent\u00e3o, que era muito metedi\u00e7a em coisas de<br \/>\nigreja, chegava a enxergar no fato inten\u00e7\u00f5es secretas de alguma divindade<br \/>\nprotetora do lugar e, quando lhe queriam falar nisso, benzia-se precatadamente<br \/>\ne pedia por amor de Cristo que &#8220;n\u00e3o mexessem muito no milagre&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 melhor deixar! segredava ela. &#8211; \u00c9 melhor deixar que o santinho trabalhe<br \/>\na seu gosto, porque ningu\u00e9m como ele sabe o que lhe compete fazer!<\/p>\n<p>Mas o &#8220;pequeno do padre&#8221; como desda\u00ed lhe chamaram, foi aos poucos descaindo<br \/>\ndas gra\u00e7as do inconstante rebanho, pelo simples fato de ser a crian\u00e7a menos<br \/>\ncomunicativa e mais embesourada de que havia not\u00edcia por aquelas alturas.<br \/>\nO pr\u00f3prio Sr. vig\u00e1rio n\u00e3o morria de amores por ele, e at\u00e9 se amofinava de<br \/>\nv\u00ea-lo passar todo o santo dia a olhar para os p\u00e9s, numa taciturnidade quase<br \/>\nirracional.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, que mono fora ele descobrir!&#8230; dizia de si para si, a contemplar<br \/>\no rapaz por cima dos \u00f3culos. &#8211; Aquela lesma n\u00e3o havia de vir a prestar nem<br \/>\npara lhe limpar as galhetas!<\/p>\n<p>O pequeno era de fato muito triste e muito calado. Em casa do reverendo n\u00e3o<br \/>\nse lhe ouvia a voz durante semanas inteiras; e tamb\u00e9m quase nunca chorava,<br \/>\ne ningu\u00e9m se poderia gabar de t\u00ea-lo visto sorrir. Se o vestiam e o levavam<br \/>\na espairecer um bocado \u00e0 porta da rua, deixava-se o mono ficar no lugar em<br \/>\nque o largavam; o rosto carrancudo, o queixo enterrado entre as clav\u00edculas,<br \/>\ne seria capaz de passar assim o resto da vida se n\u00e3o tomassem a resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde vir busc\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A criada, uma velha muito devota, mas tamb\u00e9m muito pouco amiga de crian\u00e7as,<br \/>\ns\u00f3 olhava para ele pelo cantinho dos olhos e, sempre que olhava, fazia depois<br \/>\numa careta de nojo. &#8220;Apre! S\u00f3 mesmo a bondade do Sr. vig\u00e1rio podia suportar<br \/>\nem casa semelhante lorpa!&#8221;<\/p>\n<p>E cada vez detestava mais o pequeno; afinal era j\u00e1 um \u00f3dio violento, uma<br \/>\nantipatia especial, que se manifestava a todo o instante por palavras e obras<br \/>\nde igual dureza. E a gra\u00e7a \u00e9 que jamais nenhuma destas vinha s\u00f3; era chegar<br \/>\na descompostura e a\u00ed estava j\u00e1 o repel\u00e3o, em duas, tr\u00eas, quatro sacudidelas,<br \/>\nconforme fosse o tamanho da frase.<\/p>\n<p>O Andr\u00e9 deixava-se sacudir \u00e0 vontade da criada, sem o menor gesto de oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nou de contrariedade.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! S\u00f3 mesmo a paci\u00eancia do Sr. vig\u00e1rio!<\/p>\n<p>Apesar, por\u00e9m, de tanta paci\u00eancia, o Sr. vig\u00e1rio, se n\u00e3o mostrava arrependido<br \/>\ndaquela caridade, era simplesmente porque esse rasgo generoso muito contribu\u00edra<br \/>\npara a boa reputa\u00e7\u00e3o que ele gozava, n\u00e3o s\u00f3 aos olhos da par\u00f3quia inteira,<br \/>\ncomo tamb\u00e9m aos dos seus superiores, a cujos ouvidos chegara a not\u00edcia do<br \/>\nfato. Mas, no \u00edntimo, abominava o pupilo; mil vezes preferia n\u00e3o o ter a seu<br \/>\nlado; suportava-o, sabia Deus como! como quem suporta uma obriga\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel<br \/>\ne aborrecida.<\/p>\n<p>Ah! n\u00e3o havia d\u00favida que o pequeno era com efeito muito embirantezinho. Sobre<br \/>\nser uma crian\u00e7a feia, progressivamente moleirona e triste, mostrava grande<br \/>\ndificuldade para aprender as coisas mais simples. N\u00e3o era com duas raz\u00f5es,<br \/>\nnem tr\u00eas murros, que o tutor conseguia meter-lhe qualquer palavra na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>O pobre velho desesperava-se, ficava tr\u00eamulo de raiva, defronte de semelhante<br \/>\nestupidez. E, como n\u00e3o tivesse jeito para ensinar, como lhe faltasse a feminil<br \/>\ndelicadeza com que se abrem, sem machucar, as tenras p\u00e9talas dessas pequeninas<br \/>\nalmas em bot\u00e3o, recorria aos berros, e, vermelho, com os olhos congestionados,<br \/>\na respira\u00e7\u00e3o convulsa, acabava sempre empurrando de si os livros e o disc\u00edpulo,<br \/>\nque iam simultaneamente rolar a dois ou tr\u00eas passos de distancia.<\/p>\n<p>&#8211; Aquele maldito est\u00fapido n\u00e3o servia sen\u00e3o para o encher de b\u00edlis! O melhor<br \/>\nseria met\u00ea-lo num col\u00e9gio, como interno&#8230; Era mais um sacrif\u00edcio &#8211; V\u00e1! mas,<br \/>\ncom a breca! ao menos ficava livre dele!<\/p>\n<p>Oh! o bom homem j\u00e1 n\u00e3o podia ag\u00fcentar ao seu lado aquela amaldi\u00e7oada crian\u00e7a.<br \/>\n\u00c0s vezes, ao v\u00ea-la t\u00e3o casmurra, t\u00e3o feia, com o olhar t\u00e3o insoci\u00e1vel e t\u00e3o<br \/>\nferrado a um ponto, tinha \u00edmpetos de torc\u00ea-lo nas m\u00e3os, como quem torce um<br \/>\npano molhado.<\/p>\n<p>Nunca lhe descobria a mais ligeira revela\u00e7\u00e3o de um desejo. \u00c0 mesa comia tudo<br \/>\nque lhe punha no prato, sem nunca deixar ou pedir mais. Se o mandavam recolher<br \/>\n\u00e0 cama, fosse a que hora fosse, deitava-se incontinenti; se lhe dissessem<br \/>\n&#8220;Dorme!&#8221; ele dormia ou parecia dormir. &#8220;Acorda! Levanta-te !&#8221; ele se levantava<br \/>\nlogo, sem um protesto, como se estivesse \u00e0 espera daquela ordem.<\/p>\n<p>Qualquer tentativa de conversa com ele era in\u00fatil. Andr\u00e9 s\u00f3 respondia por<br \/>\nmonoss\u00edlabos, no mais das vezes incompreens\u00edveis. Nunca fazia a ningu\u00e9m interroga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde esp\u00e9cie alguma, e, certo dia perguntando-lhe o padre se ele o estimava,<br \/>\no menino sacudiu com a cabe\u00e7a, negativamente.<\/p>\n<p>&#8211; E que tal?&#8230; considerou o vig\u00e1rio; &#8211; olha que entranhas tem o maroto!&#8230;<\/p>\n<p>E segurando-lhe a cabe\u00e7a para o fitar de frente:<\/p>\n<p>&#8211; Com que, n\u00e3o gostas de mim, hein?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9s agradecido ao bem que te tenho feito?<\/p>\n<p>&#8211; Sou.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o me estimas?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E, se fores para o col\u00e9gio, n\u00e3o ter\u00e1s saudades minhas?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; De quem ent\u00e3o sentir\u00e1s?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>&#8211; De ningu\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o \u00e9 melhor mesmo que te v\u00e1s embora, e melhor ser\u00e1 que nunca mais<br \/>\nme apare\u00e7as! Calculo que bom ingrato n\u00e3o se est\u00e1 preparando a\u00ed! Vai! Vai,<br \/>\ndem\u00f4nio! e que Deus te proteja contra os teus pr\u00f3prios instintos!<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e0 noite, o padre ficou muito admirado, quando, ao entrar no quarto<br \/>\ndo \u00f3rf\u00e3o que dormia, o viu agitar-se na cama e dizer, abra\u00e7ando-se aos travesseiros<br \/>\ne chorando: &#8220;Mam\u00e3e! minha querida mam\u00e3e!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o partes, Sr. vig\u00e1rio, s\u00e3o partes deste sonso!&#8230; explicou a criada,<br \/>\ntrejeitando com arrelia.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II<\/h2>\n<p>Andr\u00e9 seguiu para o col\u00e9gio num princ\u00edpio de m\u00eas. Veio busc\u00e1-lo \u00e0 casa do<br \/>\ntutor um homem idoso, de cabelos curtos e barbas muito longas, o qual parecia<br \/>\nestar sempre a comer alguma coisa, porque, nem s\u00f3 mexia com os queixos, como<br \/>\nlambia os bei\u00e7os de vez em quando.<\/p>\n<p>Foram cham\u00e1-lo \u00e0 cama \u00e0s cinco da manh\u00e3. Ele acordou prontamente, e como<br \/>\nj\u00e1 sabia de v\u00e9spera que tinha de partir, vestiu-se logo com um fato novo que,<br \/>\npara esse dia, o padre lhe mandara armar de uma batina velha. Deram-lhe a<br \/>\nsua tigela de caf\u00e9 com leite e o seu p\u00e3o de milho, o que ele ingeriu em sil\u00eancio;<br \/>\ne, depois de ouvir ainda alguns conselhos do tutor, beijou-lhe a m\u00e3o, recebeu<br \/>\nno bon\u00e9, uma palmada da criada e saiu de casa, sem voltar, sequer, o rosto<br \/>\npara tr\u00e1s.<\/p>\n<p>O das barbas longas havia j\u00e1 tomado conta da pequena bagagem e esperava por<br \/>\nele, na rua, dentro do trole. Andr\u00e9 subiu para a almofada e deixou-se levar.<\/p>\n<p>Em caminho o companheiro, para enganar a monotonia da viagem, tentou cham\u00e1-lo<br \/>\n\u00e0 fala:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o amiguinho vai contente para os estudos?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, disse Andr\u00e9, sem se dar ao trabalho de olhar para o seu interlocutor.<br \/>\nE este, supondo que o bon\u00e9 do menino, pelo muito enterrado que lhe ficara<br \/>\nnas orelhas com a palmada da criada, fosse a causa dessa descortesia, apressou-se<br \/>\na suspender-lho e acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a primeira vez que entra para o col\u00e9gio ou esteve noutro?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00c9 a primeira vez?<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; E morou sempre com o reverendo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ele \u00e9 seu parente?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Tutor, talvez&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9.<\/p>\n<p>&#8211; Como se chamava seu pai?<\/p>\n<p>&#8211; Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E sua m\u00e3e?<\/p>\n<p>&#8211; Em\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda se lembra deles?<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>E, depois de mais alguns esfor\u00e7os in\u00fateis para conversa\u00e7\u00e3o, o homem das barbas<br \/>\nconvenceu-se de que tudo era baldado e, para fazer alguma coisa, p\u00f4s-se a<br \/>\nconsiderar a estranha figurinha que levava a seu lado.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 representava ent\u00e3o nos seus dez anos o esp\u00e9cime mais perfeito de um<br \/>\nmenino desengra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Era pequeno, grosso, muito cabe\u00e7udo, bra\u00e7os e pernas curtas, m\u00e3os vermelhas<br \/>\ne polposas, tez morena e \u00e1spera, olhos sumidos de uma cor duvidosa e fusca,<br \/>\ncabelo duro e t\u00e3o abundante, que mais parecia um bon\u00e9 russo do que uma cabeleira.<\/p>\n<p>Em todo ele nada havia que n\u00e3o fosse vulgar. A express\u00e3o predominante em<br \/>\nsua fisionomia era desconfian\u00e7a, nas seus gestos retra\u00eddos, na sua estranha<br \/>\nmaneira de esconder o rosto e jogar com os ombros, quando andava, transparecia<br \/>\nalguma coisa de um urso velho e mal domesticado.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, quem lhe surpreendesse o olhar em certas ocasi\u00f5es descobriria<br \/>\na\u00ed um inesperado brilho de inef\u00e1vel do\u00e7ura, onde a resigna\u00e7\u00e3o e o sofrimento<br \/>\ntransluziam, como a luz do sol por entre um nevoeiro espesso.<\/p>\n<p>Chegou ao col\u00e9gio banhado de suor dentro da sua terr\u00edvel roupa de lustrina<br \/>\npreta. O empregado de barbas longas levou-o \u00e0 presen\u00e7a do diretor, que j\u00e1<br \/>\nesperava por ele, e disse apresentando-o:<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1 est\u00e1 o pequeno do padre.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! resmungou o outro, largando o trabalho que tinha em m\u00e3o. &#8211; O pequeno<br \/>\ndo padre Est\u00eav\u00e3o. \u00c9 mais um aluno que mal dar\u00e1 para o que h\u00e1 de comer! Quero<br \/>\nsaber se isto aqui \u00e9 asilo de meninos desvalidos!&#8230; Uma vez que o tomaram<br \/>\n\u00e0 sua conta, era pagarem-lhe a pens\u00e3o inteira e deixarem-se de pedir abatimentos,<br \/>\nporque ningu\u00e9m est\u00e1 disposto a suportar de gra\u00e7a os filhos alheios!<\/p>\n<p>&#8211; Pois o padre Est\u00eav\u00e3o n\u00e3o paga a pens\u00e3o inteira? perguntou o barbad\u00e3o a<br \/>\nmastigar em seco furiosamente e a lamber os bei\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Veio-me aqui com uma choradeira de nossa morte. E, &#8220;porque seria<br \/>\numa obra de caridade, e, porque j\u00e1 tinha gasto mundos e fundos com o pequeno&#8221;,<br \/>\nenfim foi tal a lam\u00faria que n\u00e3o tive outro rem\u00e9dio sen\u00e3o reduzir a pens\u00e3o<br \/>\npela metade!<\/p>\n<p>Os das barbas fez ent\u00e3o v\u00e1rias considera\u00e7\u00f5es sobre o fato, elogiou o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Dr. Mosquito (era assim que se chamava o diretor) e ia a sair, quando este<br \/>\nlhe recomendou que se n\u00e3o descuidasse da cobran\u00e7a e empregasse esfor\u00e7os para<br \/>\nreceber dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Veja, veja, Salustiano, se arranja alguma coisa, que estou cheio de compromissos!<\/p>\n<p>E o Dr. Mosquito, voltando ao seu trabalho, exclamou sem mexer com os olhos:<\/p>\n<p>&#8211; Aproxime-se!<\/p>\n<p>Andr\u00e9 encaminhou-se para ele, de cabe\u00e7a baixa.<\/p>\n<p>&#8211; Como se chama?<\/p>\n<p>&#8211; Andr\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; De qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Miranda.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3?<\/p>\n<p>&#8211; De Melo.<\/p>\n<p>&#8211; Andr\u00e9 Miranda de Melo&#8230; repetiu o diretor, indo a escrever o nome em um<br \/>\nlivro que acabava de tirar da gaveta.<\/p>\n<p>&#8211; E Costa, acrescentou o menino.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o por que n\u00e3o disse logo de uma vez?<\/p>\n<p>Andr\u00e9 n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Sua idade?<\/p>\n<p>&#8211; Dez.<\/p>\n<p>&#8211; Dez qu\u00ea, menino?<\/p>\n<p>&#8211; Anos.<\/p>\n<p>&#8211; Hein?<\/p>\n<p>&#8211; Dez anos.<\/p>\n<p>&#8211; An!<\/p>\n<p>E, enquanto escrevia:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sabe quais s\u00e3o as aulas que vai cursar?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1, sim, senhor, tamb\u00e9m se diz!<\/p>\n<p>&#8211; Diz-se.<\/p>\n<p>&#8211; Como?<\/p>\n<p>&#8211; Diz-se, sim, senhor.<\/p>\n<p>&#8211; Ora bem! concluiu o Mosquito, afastando com a m\u00e3o o palet\u00f3 para co\u00e7ar as<br \/>\ncostelas. E, depois de uma careta que patenteava a m\u00e1 impress\u00e3o deixada pelo<br \/>\nseu novo aluno, resmungou com um bocejo:<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Sente-se; espere que venham busc\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Onde? perguntou Andr\u00e9, a olhar para os lados, sem descobrir assento.<\/p>\n<p>&#8211; Ali, menino, oh!<\/p>\n<p>E o diretor suspendeu com impaci\u00eancia a pena do papel, para indicar uma das<br \/>\nduas portas que havia do lado oposto do escrit\u00f3rio. Em seguida mergulhou outra<br \/>\nvez no seu trabalho, disposto a n\u00e3o interromp\u00ea-lo de novo:<\/p>\n<p>Andr\u00e9 foi abrir uma das portas e disse lentamente:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um arm\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; A outra, a outra, menino! gritou o Mosquito, sem se voltar.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 foi ent\u00e3o \u00e0 outra porta, abriu-a e entrou no quarto pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Era uma saleta comprida, com duas janelas de vidra\u00e7a&gt; que se achavam fechadas.<br \/>\nDo lado contr\u00e1rio \u00e0s janelas havia uma grande estante, onde se viam in\u00fameros<br \/>\nobjetos adequados \u00e0 instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria dos rapazes.<\/p>\n<p>O menino foi sentar-se em um canap\u00e9 que encontrou e disp\u00f4s-se a esperar.<\/p>\n<p>Foi-se meia hora e ningu\u00e9m apareceu. Seriam j\u00e1 quatro da tarde e, como Andr\u00e9<br \/>\nainda estava s\u00f3 com a sua refei\u00e7\u00e3o da manh\u00e3, principiou a sentir-se muito<br \/>\nmal do est\u00f4mago.<\/p>\n<p>Esgotada outra meia hora, ergueu-se e foi, para se distrair, contemplar os<br \/>\nobjetos da estante. Levou a olh\u00e1-los longo tempo, sem compreender o que tinha<br \/>\ndefronte da vista. Depois, espregui\u00e7ou-se e voltou ao canap\u00e9.<\/p>\n<p>Mais outra meia hora decorreu, sem que o viessem buscar.<\/p>\n<p>Duas vezes chegou \u00e0 porta por onde entrara na saleta e, como via sempre o<br \/>\nescrit\u00f3rio deserto, tornava ao seu banco da paci\u00eancia. E, no entanto, o apetite<br \/>\ncrescia-lhe por dentro de um modo insuport\u00e1vel e o pobre Andr\u00e9 principiava<br \/>\na temer que o deixassem ficar ali eternamente.<\/p>\n<p>Pouco depois de entrar para a saleta, um forte rumor de vozes e passos repetidos<br \/>\nlhe fez compreender que alguma aula havia terminado; da\u00ed a coisa de cinq\u00fcenta<br \/>\nminutos, o toque de uma sineta lhe trouxe \u00e0 id\u00e9ia o jantar, e ele verificou<br \/>\nque se n\u00e3o enganara no seu racioc\u00ednio com o barulho de lou\u00e7as e talheres que<br \/>\nfaziam logo em seguida. Depois, compreendeu que era chegada a hora do tal<br \/>\nrecreio porque ouvia uma formid\u00e1vel vozeria de crian\u00e7as que desciam para a<br \/>\nch\u00e1cara.<\/p>\n<p>E nada de virem ao seu encontro.<\/p>\n<p>&#8211; Que ma\u00e7ada! pensava ele, a segurar o est\u00f4mago com ambas as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Afinal, a escurid\u00e3o come\u00e7ou a invadir a saleta. Havia cessado j\u00e1 o barulho<br \/>\ndos meninos e agora ouviam-se apenas de vez em quando alguns passos destacados<br \/>\nnos pr\u00f3ximos aposentos.<\/p>\n<p>Em tais ocasi\u00f5es, o pequeno do padre corria \u00e0 porta do escrit\u00f3rio e espreitava.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>J\u00e1 era noite completa, quando um entorpecimento irresist\u00edvel se apoderou<br \/>\ndele. O pobrezito vergou-se sobre as costas do canap\u00e9, estendeu as suas pernitas<br \/>\ncurtas e adormeceu.<\/p>\n<p>Dormindo conseguiu o que n\u00e3o fizera acordado: seu roncos foram ouvidos pelo<br \/>\ninspetor do col\u00e9gio, e, da\u00ed a pouco Andr\u00e9, sem dar ainda acordo de si, era<br \/>\nconduzido \u00e0 mesa do refeit\u00f3rio, onde ia servir-se o ch\u00e1.<\/p>\n<p>Seu tipo, j\u00e1 de natural estranho, agora parecia fant\u00e1stico sob a impress\u00e3o<br \/>\ndo estremunhamento; e os estudantes, que o observavam em sil\u00eancio, abriram<br \/>\ntodos a rir, quando viram o inesperado colega atirar-se ao prato de p\u00e3o com<br \/>\numa voracidade canina.<\/p>\n<p>Mas Andr\u00e9 pouco se incomodou com isso e continuou a comer sofregamente, no<br \/>\nmeio das gargalhadas dos rapazes e dos gritos do inspetor que, sem ele pr\u00f3prio<br \/>\nconter o riso, procurava cham\u00e1-los a ordem.<\/p>\n<p>Por estes fatos apenas fez-se notar a sua entrada no col\u00e9gio, visto que ele,<br \/>\ndepois da ceia, recolheu-se ao dormit\u00f3rio e acordou no dia seguinte, ao primeiro<br \/>\ntoque da sineta, sem ter trocado meia palavra com um s\u00f3 de seus companheiros.<\/p>\n<p>N\u00e3o procuravam as suas rela\u00e7\u00f5es, nem ele as de ningu\u00e9m, e, apesar das vaias<br \/>\ne das repetidas pilh\u00e9rias dos colegas, teria passado tranq\u00fcilamente os primeiros<br \/>\ndias da sua nova exist\u00eancia, se um incidente desagrad\u00e1vel n\u00e3o o viesse perturbar.<\/p>\n<p>Havia no col\u00e9gio um rapaz, que exercia sobre outros certa superioridade,<br \/>\nnem s\u00f3 porque era dos mais velhos, como pelo seu g\u00eanio brigador e arrogante.<br \/>\nChamava-se Fonseca e os companheiros o temiam a ponto de nem se animarem a<br \/>\nfazer contra ele qualquer queixa ao diretor.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 atravessava numa ocasi\u00e3o o p\u00e1tio do recreio, quando ouviu gritar atr\u00e1s<br \/>\nde si &#8216;\u00d3 Coruja!&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o fez caso. Estava j\u00e1 habituado a ser escarnecido, e tinha por costume<br \/>\ndeixar que a zombaria o perseguisse \u00e0 vontade, at\u00e9 que ela cansasse e por<br \/>\nsi mesma se retra\u00edsse.<\/p>\n<p>Mas o Fonseca, vendo que n\u00e3o conseguira nada com a palavra, correu na pista<br \/>\nde Andr\u00e9 e ferrou-lhe um pontap\u00e9 por detr\u00e1s.<\/p>\n<p>O pequeno voltou-se e arremeteu com tal f\u00faria contra o agressor, que o lan\u00e7ou<br \/>\npor terra. O Fonseca pretendeu reagir, mas o outro o segurou entre as pernas<br \/>\ne os bra\u00e7os, tirando-lhe toda a a\u00e7\u00e3o do corpo.<\/p>\n<p>Veio logo o inspetor, separou-os e, tendo ouvido as raz\u00f5es do Fonseca e dos<br \/>\noutros meninos que presenciaram o fato, conduziu Andr\u00e9 para um quarto escuro,<br \/>\nno qual teve o pequeno esse dia de passar todos os intervalos das aulas.<\/p>\n<p>Sofreu a castigo e as acusa\u00e7\u00f5es dos companheiros, sem o menor protesto e,<br \/>\nquando se viu em liberdade, n\u00e3o mostrou por pessoa alguma o mais ligeiro ressentimento.<\/p>\n<p>Depois deste fato, os colegas deram todavia em olh\u00e1-lo com certo respeito,<br \/>\ne s\u00f3 pelas costas o ridicularizavam. \u00c0s vezes, do fundo de um corredor ou<br \/>\ndo meio de grupo, ouvia gritar em voz disfar\u00e7ada:<\/p>\n<p>&#8211; Olha o filhote do padre Olha o Coruja!<\/p>\n<p>Ele, por\u00e9m, fingia n\u00e3o dar por isso e afastava-se em silencio.<\/p>\n<p>Quanto ao mais, raramente comparecia ao recreio e apresentava-se nas aulas<br \/>\nsempre com a li\u00e7\u00e3o na ponta da l\u00edngua.<\/p>\n<p>No fim de pouco tempo, os pr\u00f3prios mestres participavam do vago respeito<br \/>\nque ele impunha a todos; posto que estivessem bem longe de simpatizar com<br \/>\ndesgracioso pequeno, apreciavam-lhe a precoce austeridade de costumes e o<br \/>\nseu admir\u00e1vel esfor\u00e7o pelo trabalho. Uma das particularidades de sua conduta,<br \/>\nque mais impressionava aos professores, era a de que, apesar constante mal<br \/>\nque lhe desejavam fazer os colegas, jamais se queixava de nenhum, e tratava-os<br \/>\na todos mesma forma que tratava ao diretor e aos lentes isto com a mesma sobriedade<br \/>\nde palavras e a mesma frieza de gestos.<\/p>\n<p>Em geral, era por ocasi\u00e3o da mesa que as indiretas dos seus condisc\u00edpulos<br \/>\nmais se assanhavam contra O Coruja, como j\u00e1 todos lhe chamavam, n\u00e3o tinha<br \/>\ngra\u00e7a nem distin\u00e7\u00e3o no comer; comia muito e sofregamente com o rosto t\u00e3o chegado<br \/>\nao prato que parecia que apanhar os bocados com os dentes.<\/p>\n<p>Coitado! Al\u00e9m do rico apetite de que dispunha, n\u00e3o recebia, \u00e0 semelhan\u00e7a<br \/>\ndos outros meninos, presentes de doce, requeij\u00e3o e frutas que lhes mandavam<br \/>\ncompetentes fam\u00edlias; n\u00e3o andava a paparicar durante dia como os outros; de<br \/>\nsorte que, \u00e0 hora oficial da comida, devorava tudo que lhe punham no prato,<br \/>\nsem torcer o nariz a coisa alguma.<\/p>\n<p>Um dia, porque ele, depois de comer ao jantar todo o seu p\u00e3o, pediu que lhe<br \/>\ndessem outro, a mesa inteira rebentou em gargalhadas; mas o Coruja n\u00e3o se<br \/>\nalterou e fez quest\u00e3o de que da\u00ed em diante lhe depusessemlado do prato dois<br \/>\np\u00e3es em vez de um!<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem! considerou o diretor.- \u00c9 dos tais que paga por meio e come por<br \/>\ndois! Seja tudo por amor de Deus!<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>III<\/h2>\n<p>Assim ia vivendo o Coruja, desestimado e desprotegido no col\u00e9gio, e corno<br \/>\nque formando na sua esquisitice uma ilha completamente isolada dos bons e<br \/>\ndos maus exemplos, que em torno dele se agitavam.<\/p>\n<p>Dir-se-ia que nascera encascado em grossa armadura de indiferen\u00e7a, contra<br \/>\na qual se despeda\u00e7avam as v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es do meio em que vivia, sem que<br \/>\nelas jamais conseguissem lhe corromper o \u00e2nimo. A tudo e a todas parecia estranho,<br \/>\ncorno se naquele cora\u00e7\u00e3o, ainda t\u00e3o novo, j\u00e1 n\u00e3o houvesse unia s\u00f3 fibra intacta.<\/p>\n<p>E, todavia, nenhum dos companheiros seria capaz de maltratar em presen\u00e7a<br \/>\ndele um dos mais pequenos do col\u00e9gio, sem que o esquisit\u00e3o tomasse imediatamente<br \/>\na defesa do mais fraco. N\u00e3o consentia igualmente que fizessem mal aos animais,<br \/>\ne muita vez o encontraram acocorado sobre a terra protegendo um mesquinho<br \/>\nr\u00e9ptil, ou lhe enxergavam vivos sinais de amea\u00e7as em favor de alguma pobre<br \/>\nborboleta perseguida pelos estudantes.<\/p>\n<p>Na sua m\u00edstica afei\u00e7\u00e3o aos fracos e indefesos, chegava a acarinhar as \u00e1rvores<br \/>\ne plantas do jardim e sentia-se v\u00ea-las mal amparadas na hora do recreio. N\u00e3o<br \/>\nreconhecia em ningu\u00e9m o direito de separar uma flor da haste em que nascera<br \/>\nou encarcerar na gaiola um m\u00edsero passarinho.<\/p>\n<p>E tudo isso era feto e praticado naturalmente, sem as tredas apar\u00eancias de<br \/>\nquem deseja constituir-se em modelo de bondade. Tanto assim, que tais coisas<br \/>\ns\u00f3 foram deveras percebidas por um antigo criado da casa, o Milit\u00e3o, a quem<br \/>\nos meninos alcunharam por pilh\u00e9rias de &#8220;Dr. Caixa-d\u00f3culos&#8221;.<\/p>\n<p>O Caixa-d\u00f3culos era nada mais do que um triste velhote de cinq\u00fcenta a sessenta<br \/>\nanos, vindo em pequeno das ilhas e que aqui percorrera a tortuosa escala das<br \/>\nocupa\u00e7\u00f5es sem futuro. Fora porteiro de diversas ordens religiosas, mo\u00e7o de<br \/>\nc\u00e2mara a bordo de v\u00e1rios navios, depois permanente de pol\u00edcia, em seguida<br \/>\nsacrist\u00e3o e criado de um c\u00f4nego, depois mo\u00e7o de hotel, bilheteiro num teatro,<br \/>\ncopeiro em casa de um titular e afinal, para descansar, criado no col\u00e9gio<br \/>\nem que se achava o Coruja.<\/p>\n<p>De tal peregrina\u00e7\u00e3o apenas lhe ficara um desgosto surdo pela exist\u00eancia,<br \/>\num vago e triste malquerer pelos fortes e pelos vitoriosos.<\/p>\n<p>E foi por isso que ele simpatizou com o Coruja; porque o supunha ainda mais<br \/>\ndesprotegido e ainda mais desarmado do que ele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Era, enfim, o \u00fanico em quem o pequeno do padre, durante o seu primeiro ano<br \/>\nde colegial, nem sempre encontrara o desprezo e a m\u00e1 vontade.<\/p>\n<p>Vindas as f\u00e9rias, o Revmo. Jo\u00e3o Est\u00eav\u00e3o, a pretexto de que o pupilo lucraria<br \/>\nmais ficando no col\u00e9gio do que indo para casa, escreveu a esse respeito ao<br \/>\nDr. Mosquito, e bem contra a vontade deste, o pequeno por l\u00e1 ficou.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 recebeu a not\u00edcia, como se j\u00e1 a esperasse, e viu, sem o menor sintoma<br \/>\nde desgosto, partirem, pouco a pouco, todos os seus companheiros. Destes,<br \/>\na alguns vinham buscar os pr\u00f3prios pais e as pr\u00f3prias m\u00e3es: e, ali, entre<br \/>\nas frias paredes do internato, ouviam-se durante muitos dias, quentes palavras<br \/>\nde ternura, e sentiam-se estalar beijos de amor, por entre l\u00e1grimas de saudade.<\/p>\n<p>S\u00f3 ele, o Coruja, n\u00e3o teve nada disso.<\/p>\n<p>Viu despovoar-se aos poucos o col\u00e9gio; retirarem-se os professores, os empregados,<br \/>\ne afinal o \u00faltimo colega que restava. E ent\u00e3o julgou-se de todos s\u00f3 e abandonado<br \/>\ncomo uma pobre andorinha que n\u00e3o pudesse embandar-se \u00e0 revoada das companheiras.<\/p>\n<p>S\u00f3, completamente s\u00f3.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o diretor ocupava o segundo andar com a fam\u00edlia, isto \u00e9, com<br \/>\na mulher e duas filhas ainda pequenas; mas as f\u00e9rias aproveitavam eles para<br \/>\nos seus passeios, e al\u00e9m disso, o Coruja s\u00f3 poderia procur\u00e1-los \u00e0 hora das<br \/>\nrefei\u00e7\u00f5es. Embaixo ficaram apenas o hortel\u00e3o e o Caixa-d\u00f3culos.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 pediu licen\u00e7a ao diretor para tomar parte no servi\u00e7o da horta e obteve-a<br \/>\nprontamente.<\/p>\n<p>Com que prazer n\u00e3o fazia ele esse trabalho todas as manh\u00e3s! Ainda o sol n\u00e3o<br \/>\nestava fora de todo e j\u00e1 o Coruja andava pela ch\u00e1cara, descal\u00e7o, em mangas<br \/>\nde camisa, cal\u00e7as arrega\u00e7adas, a regar as plantas e a remexer a terra. O hortel\u00e3o,<br \/>\nvendo o gosto que o ajudante tomava pelo servi\u00e7o, aproveitava-o quanto podia<br \/>\ne limitava-se a dirigi-lo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Coruja, gritava-lhe ele, j\u00e1 em tom de ordem, a perna tran\u00e7ada e o cachimbo<br \/>\nno canto da boca: &#8211; apara-me a\u00ed essa grama! Ou ent\u00e3o: Remexe-me melhor aquele<br \/>\ncanteiro e borrifa-me um pouco mais a alface, que est\u00e1 a me parecer que levou<br \/>\npouca \u00e1gua!<\/p>\n<p>As horas entre o almo\u00e7o e o jantar dedicou-as o Coruja aos seus estudos,<br \/>\ne \u00e0s quatro da tarde descia de novo \u00e0 ch\u00e1cara, onde encontrava invariavelmente<br \/>\no Caixa-d\u00f3culos \u00e0s voltas com uma pobre flauta, dentro da qual soprava ele<br \/>\no velho repert\u00f3rio das m\u00fasicas de seu tempo.<\/p>\n<p>Foi essa miser\u00e1vel flauta que acordou no cora\u00e7\u00e3o de Andr\u00e9 o gosto pela m\u00fasica.<br \/>\nCaixa-d\u00f3culos deu por isso, arranjou um outro instrumento e prop\u00f4s-lhe ministrar<br \/>\nalgumas li\u00e7\u00f5es ao pequeno. Esse aceitou com um reconhecimento muito digno<br \/>\nde t\u00e3o boa vontade, mas sem d\u00favida de melhor mestre, porque manda a verdade<br \/>\nconfessar que aquele n\u00e3o ofuscava a gl\u00f3ria de nenhum dos in\u00fameros flautistas<br \/>\nque ocupam a superf\u00edcie da terra, contando mesmo os maus, os p\u00e9ssimos e os<br \/>\ninsuport\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas o caso \u00e9 que, depois disso, eles l\u00e1 passavam as \u00faltimas horas da tarde,<br \/>\na duelarem-se furiosamente com as notas mais tem\u00edveis que um instrumento de<br \/>\nsopro pode dardejar contra a paci\u00eancia humana; e terminada a luta, recolhia-se<br \/>\nAndr\u00e9 ao dormit\u00f3rio e pegava no sono at\u00e9 \u00e0 madrugada seguinte.<\/p>\n<p>As f\u00e9rias n\u00e3o lhe corriam por conseguinte t\u00e3o contr\u00e1rias, como era de supor,<br \/>\ne s\u00f3 dois desgostos o atormentavam. Primeiro, n\u00e3o poder comprar uma flauta<br \/>\nnova e boa; segundo, ver sempre fechada a biblioteca do Col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Que curiosidade lhe fazia aquela biblioteca!<\/p>\n<p>Ele a rondava como um gato que fareja o guarda-comida; parecia sentir de<br \/>\nfora o cheiro do que havia de mais apetitoso naquelas estantes, e, por seu<br \/>\nmaior tormento, bastava trepar-se a uma cadeira e espiar por cima da porta,<br \/>\npara devassar perfeitamente a biblioteca.<\/p>\n<p>Um supl\u00edcio! Vinham-lhe at\u00e9 \u00edmpetos de arrombar a fechadura; e, como consola\u00e7\u00e3o,<br \/>\npassava horas esquecidas sobre a cadeira, na pontinha dos p\u00e9s, a olhar de<br \/>\nlonge para os livros, procurando distinguir e ler o que diziam eles nas letras<br \/>\nde ouro que expunham nas lombadas.<\/p>\n<p>Alguns, ent\u00e3o, lhe produziam verdadeiras ang\u00fastias, principalmente os grandes,<br \/>\nos de lombo muito largo, que a\u00ed estavam de costas, soberbos, como bojudos<br \/>\ns\u00e1bios, concentrados e adormecidos na sua ci\u00eancia.<\/p>\n<p>O Coruja tivera sempre um pendor muito particular por tudo aquilo que lhe<br \/>\ncheirava a alfarr\u00e1bio e l\u00ednguas mortas. Adorava os livros velhos, em cuja<br \/>\nleitura encontrasse dificuldades a vencer; gostava de cansar a intelig\u00eancia<br \/>\nna procura de explica\u00e7\u00e3o de qualquer ponto duvidoso ou de qualquer fosse sujeita<br \/>\na v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>J\u00e1 desde a casa do padre Est\u00eav\u00e3o que semelhante tend\u00eancia se havia declarado<br \/>\nnele. \u00c9 que seu g\u00eanio retra\u00eddo e seco dava-se maravilhosamente com esses amigos<br \/>\nsubmissos e generosos &#8211; os livros; esses faladores discretos, que podemos<br \/>\ninterromper \u00e0 vontade e com os quais nos \u00e9 permitido conversar dias inteiros,<br \/>\nsem termos ali\u00e1s obriga\u00e7\u00e3o de dar uma palavra.<\/p>\n<p>Ora, para o Andr\u00e9, que morria de amores pelo sil\u00eancio, isto devia ser o ideal<br \/>\ndas palestras. Al\u00e9m do que, \u00e0 sua morosa e arrastada compreens\u00e3o s\u00f3 o livro<br \/>\npodia convir. O professor sempre se impacienta, quando tem de explicar qualquer<br \/>\ncoisa mais de uma vez; o livro n\u00e3o, o livro exige apenas a boa vontade de<br \/>\nquem estuda, e no Coruja a boa vontade era justamente a qualidade mais perfeita<br \/>\ne mais forte.<\/p>\n<p>Um dia, o diretor, descendo inesperadamente ao primeiro andar, encontrou-o<br \/>\nt\u00e3o embebido a espiar para dentro da biblioteca que se chegou a ele sem ser<br \/>\nsentido e deu-lhe uma ligeira palmada no lugar que encontrou mais \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>O Coruja, trepado \u00e0s costas de uma cadeira e agarrado \u00e0 bandeira da porta,<br \/>\nvirou-se muito vermelho e confuso, como se o tivessem surpreendido a cometer<br \/>\num crime.<\/p>\n<p>&#8211; Que faz o senhor a\u00ed, seu Miranda?<\/p>\n<p>&#8211; Olhava.<\/p>\n<p>&#8211; Que olhava o senhor?<\/p>\n<p>&#8211; Os livros.<\/p>\n<p>O Dr. Mosquito encarou-o de alto a baixo, e, depois de medir um instante<br \/>\nacrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 l\u00e1 acima e diga \u00e0 mulher que mande as minhas chaves.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 saltou do seu observat\u00f3rio e apressou-se a dar cumprimento \u00e0s ordens<br \/>\ndo diretor.<\/p>\n<p>Este, logo que chegaram as chaves, abriu a biblioteca e entrou. O pequeno,<br \/>\n\u00e0 porta, invadiu-a com um olhar t\u00e3o s\u00f4frego e t\u00e3o significativo, que o Dr.<br \/>\nMosquito o chamou e perguntou-lhe qual era o livro que tanto o Impressionara.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 co\u00e7ou a cabe\u00e7a, hesitando, mas a sua fisionomia encarregou-se de responder,<br \/>\nvisto que o diretor, depois de lamentar com um gesto a grande quantidade de<br \/>\np\u00f3 encamado sobre os livros, foi \u00e0 fechadura, separou do molho de chaves a<br \/>\nda biblioteca e disse, passando-lha:<\/p>\n<p>&#8211; Durante o resto das f\u00e9rias, fica o senhor encarregado de cuidar destes<br \/>\nlivros e de fazer tudo isto arranjado e limpo. Quer?&#8230;<\/p>\n<p>Andr\u00e9 sacudiu a cabe\u00e7a afirmativamente e apoderou-se da chave com uma tal<br \/>\nconvic\u00e7\u00e3o, que o diretor n\u00e3o p\u00f4de deixar de rir.<\/p>\n<p>Logo que se viu s\u00f3, tratou de munir-se de um espanador e de um pano molhado,<br \/>\ne, com o aux\u00edlio de uma escadinha que havia na biblioteca, principiou a grande<br \/>\nlimpeza dos livros.<\/p>\n<p>N\u00e3o abriu nenhum deles, enquanto n\u00e3o deu por bem terminada a espana\u00e7\u00e3o. Met\u00f3dico,<br \/>\ncomo era, n\u00e3o gostava de entregar-se a qualquer coisa sem ter de antem\u00e3o preparado<br \/>\no terreno para isso.<\/p>\n<p>Oh! Mas qu\u00e3o diferente foi do que esperava a impress\u00e3o recebida, quando se<br \/>\ndisp\u00f4s a usufruir do tesouro que lhe estava franqueado.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia qual dos livros tomar de prefer\u00eancia; n\u00e3o conseguia ler de nenhum<br \/>\ndeles mais do que algumas frases soltas e apanhadas ao acaso.<\/p>\n<p>E, toda aquela sabedoria encadernada e silenciosa, toda aquela ci\u00eancia desconhecida<br \/>\nque ali estava, por tal forma o confundiu e perturbou que, no fim de alguns<br \/>\nsegundos de dolorosa hesita\u00e7\u00e3o, o Coruja como que sentia libertar-se dos volumes<br \/>\na alma de cada p\u00e1gina para se refugiarem todas dentro da cabe\u00e7a dele.<\/p>\n<p>Bem penosas foram as suas primeiras horas de biblioteca. O desgra\u00e7adinho<br \/>\nquase que se arrependeu de hav\u00ea-la conquistado com tanto empenho, e chegue<br \/>\na desejar que, em vez de tamanha fartura de livros, lhe tivessem franqueado<br \/>\napenas quatro ou cinco.<\/p>\n<p>Mas veio-lhe em socorro uma id\u00e9ia que, mal surgiu, come\u00e7ou logo por acentuar-se-lhe<br \/>\nno esp\u00edrito, como uma id\u00e9ia de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era fazer um cat\u00e1logo da biblioteca.<\/p>\n<p>Esta luminosa id\u00e9ia s\u00f3 por si o consolou de toda a sua decep\u00e7\u00e3o e de todo<br \/>\no seu vexame. Afigurava-se-lhe que, catalogando todos aqueles livros num s\u00f3,<br \/>\nv\u00ea-los-ia disciplinados e submissos ao seu governo. Entendeu que, por esse<br \/>\nmeio, t\u00ea-lo-ia a todos debaixo da vista, arregimentados na mem\u00f3ria, podendo<br \/>\nevoc\u00e1-los pelos nomes, cada um por sua vez, como o inspetor do col\u00e9gio fazia<br \/>\na chamada dos alunos ao abrir das aulas.<\/p>\n<p>E o cat\u00e1logo ficou sendo a sua id\u00e9ia fixa.<\/p>\n<p>Principiou a cuidar dele logo no dia seguinte. Mas, a cada instante, surgiam-lhe<br \/>\ndificuldades: n\u00e3o sabia como dar come\u00e7o \u00e0 sua obra, como lev\u00e1-la a efeito.<br \/>\nTentou arranjar a coisa alfabeticamente; teve, por\u00e9m, de abandonar essa id\u00e9ia,<br \/>\ncomo inexeq\u00fc\u00edvel; numerou as estantes e experimentou se conseguia algum resultado<br \/>\npor este sistema; foi tudo in\u00fatil.<\/p>\n<p>Afinal, depois de muitas tentativas infrut\u00edferas, o acaso, no fim de alguns<br \/>\ndias, veio em seu aux\u00edlio, atirando-lhe \u00e0s m\u00e3os o cat\u00e1logo de uma biblioteca<br \/>\nda prov\u00edncia.<\/p>\n<p>Era um folheto pequeno, encadernado e nitidamente impresso.<\/p>\n<p>Coruja abriu-o religiosamente e passou o resto do dia a estud\u00e1-lo. Na manh\u00e3<br \/>\nseguinte, a sua obra achava-se come\u00e7ada, pela nona ou d\u00e9cima vez, \u00e9 certo,<br \/>\nmas agora debaixo de ausp\u00edcios muito mais prometedores.<\/p>\n<p>E em todo o resto das ferias foi o seu tempo sistematicamente dividido entre<br \/>\no trabalho da horta, o estudo de seus comp\u00eandios, as li\u00e7\u00f5es do Caixa-d\u00f3culos<br \/>\ne a organiza\u00e7\u00e3o do famoso cat\u00e1logo. Esta, por\u00e9m, era de todas as suas ocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\na mais querida e desvelada; o que, entretanto, n\u00e3o impediu que ela ficasse<br \/>\npor acabar depois da reabertura das aulas.<\/p>\n<p>&#8211; Fica para mais tarde, pensou o Coruja, cheio de confian\u00e7a na sua vontade.<\/p>\n<p>\u00c9 melhor deixar! segredava ela. &#8211; \u00c9 melhor deixar que o santinho trabalhe<br \/>\na seu gosto, porque ningu\u00e9m como ele sabe o que lhe compete fazer!<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>IV<\/h2>\n<p>Entre os novos alunos, que entraram no seguinte ano para o col\u00e9gio do Dr.<br \/>\nMosquito, vinha um, que se chamava Teobaldo Henrique de Albuquerque. Menino<br \/>\nde doze anos, muito bonito, elegante e criado com mimo.<\/p>\n<p>Falava melhor o ingl\u00eas e o franc\u00eas do que a sua pr\u00f3pria l\u00edngua, porque estivera<br \/>\nmais tempo em Londres do que no Brasil.<\/p>\n<p>O tipo desta crian\u00e7a fazia um verdadeiro contraste com o do Coruja. Era d\u00e9bil,<br \/>\nespigado, de uma palidez de mulher; olhos negros, pestanudos, boca fidalga<br \/>\ne desdenhosa, principalmente quando sorria e mostrava a p\u00e9rola dos dentes.<br \/>\nTodo ele estava a respirar uma educa\u00e7\u00e3o dispendiosa; sentia-se-lhe o dinheiro<br \/>\nna excel\u00eancia das roupas, na delicada escolha de perfumes que a fam\u00edlia lhe<br \/>\ndava para o cabelo e para o len\u00e7o, como em tudo de que se compunha o seu rico<br \/>\nenxoval de pensionista.<\/p>\n<p>Crian\u00e7a como era, j\u00e1 falava de coisas que o outro nem sonhava ainda; tinha<br \/>\nj\u00e1 predile\u00e7\u00f5es e esquisitices de gosto; discutia prazeres, criticava mulheres<br \/>\ne zombava dos professores sem que estes ali\u00e1s se dessem por achados, em raz\u00e3o<br \/>\ndos obs\u00e9quios pecuni\u00e1rios que o col\u00e9gio devia ao pai de Teobaldo, o Sr. Bar\u00e3o<br \/>\ndo Palmar.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, esses mesmos dotes e mais sua estroinice de menino caprichoso,<br \/>\nsua altivez natural e adquirida por educa\u00e7\u00e3o abriam em torno dele o \u00f3dio ou<br \/>\na inveja da maior parte dos condisc\u00edpulos. Logo ao entrar no col\u00e9gio, fizera<br \/>\nmuitos inimigos e, pouco depois, era tido e julgado como o mais embirrante<br \/>\ne o mais insuport\u00e1vel entre todos os alunos do Dr. Mosquito.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe perdoavam ser ao mesmo tempo t\u00e3o rico, t\u00e3o formoso, t\u00e3o inteligente<br \/>\ne t\u00e3o gentilmente vadio. Al\u00e9m de tudo isso, como se tanto j\u00e1 n\u00e3o bastava,<br \/>\nhavia ainda para o fazer malquisto dos companheiros aquela escandalosa prote\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe votavam os professores, apesar da formid\u00e1vel impertin\u00eancia do rapaz.<\/p>\n<p>Em verdade a todos falava. Teobaldo com uma sobranceria ofensiva e provocadora.<br \/>\nNo seu modo de olhar, no tom da sua voz, no desd\u00e9m de seus gestos, sentia-se<br \/>\na uma l\u00e9gua de dist\u00e2ncia o h\u00e1bito de mandar e ser obedecido.<\/p>\n<p>Esta constante arrog\u00e2ncia, levava ao supremo grau, afastou de junto dele<br \/>\ntodos os seus condisc\u00edpulos. Mas o orgulhoso n\u00e3o parecia impressionar-se com<br \/>\no isolamento a que o condenavam as suas maneiras, e, se o sentia, n\u00e3o deixava<br \/>\ntransparecer em nenhum dos gestos a menor sombra de desgosto.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m o queria para amigo.<\/p>\n<p>Um domingo, por\u00e9m, ao terminar o almo\u00e7o, ouviu dentre um certo grupo de seus<br \/>\ncolegas uma palavra de ofensa, que lhe era dirigida.<\/p>\n<p>Voltou-se e, apertando os olhos com um ar mais insolente que nunca, exclamou<br \/>\npara o grupo:<\/p>\n<p>&#8211; Aquele de voc\u00eas que me insultou, se n\u00e3o \u00e9 um covarde, apresente-se! Estou<br \/>\ndisposto a dar-lhe na cara!<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m respondeu.<\/p>\n<p>Teobaldo franziu o l\u00e1bio com t\u00e9dio e, atirando ao grupo inteiro, por cima<br \/>\ndo ombro, um olhar de desprezo, afastou-se. dizendo entredentes:<\/p>\n<p>&#8211; Canalha!<\/p>\n<p>Mas, ao chegar pouco depois \u00e0 ch\u00e1cara, seis meninos dos mais fortes dos que<br \/>\ncompunham o grupo, aproximaram-se dele e exigiram que Teobaldo sustentasse<br \/>\no que havia dito no sal\u00e3o.<\/p>\n<p>Teobaldo virou-lhes as costas e os seis iam precipitar-se sobre ele, quando<br \/>\no Coruja, que tudo presenciara a certa dist\u00e2ncia, de um pulo tomou-lhes a<br \/>\nfrente e os destro\u00e7ou a murros.<\/p>\n<p>Acudiu o inspetor, fez cessar a briga e, tomando o Coruja pelo bra\u00e7o, levou-o<br \/>\n\u00e0 presen\u00e7a do Dr. Mosquito.<\/p>\n<p>Teobaldo acompanhou-o.<\/p>\n<p>Exposto o ocorrido, foi o Coruja interrogado e confessou que era tudo verdade:<br \/>\n&#8220;Batera em alguns de seus companheiros&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o recolham-no ao quarto do castigo, disse o diretor. Passar\u00e1 a\u00ed<br \/>\no domingo, fazendo considera\u00e7\u00f5es sobre o inconveniente das bravatas!<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o! observou Teobaldo; quem tem de sofrer esse castigo sou eu! Fui<br \/>\no causador \u00fanico da desordem. Este menino n\u00e3o tem a menor culpa!<\/p>\n<p>E apontou para o Coruja.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 senhores! Pois se eu o vi atracando-se aos outros, como um dem\u00f4nio! exclamou<br \/>\no inspetor.<\/p>\n<p>&#8211; E ele pr\u00f3prio o confessa&#8230; acrescentou o diretor. Vamos! Cumpra-se a ordem<br \/>\nque dei!<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso eu tamb\u00e9m serei preso, respondeu Teobaldo.<\/p>\n<p>E t\u00e3o resolutamente acompanhou o colega, que ningu\u00e9m o deteve.<\/p>\n<p>Foram recolhidos \u00e0 mesma pris\u00e3o, e desta vez, gra\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia de Teobaldo,<br \/>\no outro, al\u00e9m de n\u00e3o ter de gramar o escuro, recebeu licen\u00e7a para levar consigo<br \/>\nalguns livros e a flauta que lhe emprestara o Caixa-d\u00f3culos.<\/p>\n<p>Logo que os dois meninos se acharam a s\u00f3s, Teobaldo foi ter com o Coruja<br \/>\ne disse, apertando-lhe a m\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 fez um gesto com a cabe\u00e7a, equivalente a estas palavras: &#8220;N\u00e3o tem que<br \/>\nagradecer, porque o mesmo faria por qualquer criatura&#8221;.<\/p>\n<p>Se o senhor fazia parte do grupo que insultei, volveu Teobaldo, pe\u00e7o-lhe<br \/>\ndesculpa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fazia, respondeu o outro, dispondo-se a entregar-se de corpo e alma<br \/>\n\u00e0 sua ingrata flauta.<\/p>\n<p>Felizmente para o colega, foram interrompidos por uma pancada na porta.<\/p>\n<p>Teobaldo correu a receber quem batia, e soltou logo uma exclama\u00e7\u00e3o de prazer:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Voc\u00ea, Caetano! Como est\u00e3o todos l\u00e1 e casa? Mam\u00e3e est\u00e1 melhor? E papai,<br \/>\npapai que faz que n\u00e3o vem me ver, como prometeu?<\/p>\n<p>Caetano, em vez de responder, pousou no ch\u00e3o uma cesta que trazia, e abriu<br \/>\nos bra\u00e7os para o menino, deixa do correr pelo sorriso de seu rosto duas l\u00e1grimas<br \/>\nde ternura que se lhe escapavam dos olhos.<\/p>\n<p>Era um homem de meia idade, alto, magro, de cabelos grisalhos, \u00e0 escovinha,<br \/>\ncara toda raspada; e t\u00e3o simp\u00e1tico, t\u00e3o bom de fisionomia, que a gente gostava<br \/>\ndele \u00e0 primeira vista.<\/p>\n<p>Trajava uma libr\u00e9 cor de rap\u00e9, com bot\u00f5es de lat\u00e3o e alamares de veludo preto.<\/p>\n<p>Caetano entrara muito crian\u00e7a para o servi\u00e7o do av\u00f4 de Teobaldo, pouco antes<br \/>\ndo nascimento do pai deste, nunca mais abandonou essa fam\u00edlia, da qual mais<br \/>\nadiante teremos de falar, e por onde se poder\u00e3o avaliar os la\u00e7os de velha<br \/>\namizade que ligavam aquele respeitoso criado ao neto de seu primeiro amo.<\/p>\n<p>Por enquanto diremos apenas que o bom Caetano. viu crescer ao seu lado o<br \/>\npai de Teobaldo; que o acompanhou tanto nas suas primeiras correrias de rapaz,<br \/>\ncomo mais tarde nas suas aventuras pol\u00edticas durante as revolu\u00e7\u00f5es de Minas;<br \/>\ne que a intimidade entre esses dois companheiros por tal forma os identificou,<br \/>\nque afinal criado era j\u00e1 consultado e ouvido como um verdadeiro membro e amigo<br \/>\nda fam\u00edlia a que se dedicara.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Caetano, que diabo veio voc\u00ea fazer aqui? perguntou Teobaldo. H\u00e1 novidade<br \/>\nl\u00e1 por casa? Fale; Mam\u00e3e piorou?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; gra\u00e7as a Deus n\u00e3o h\u00e1 novidade. A senhora baronesa n\u00e3o piorou, e parece<br \/>\nat\u00e9 que vai melhor; o que ela tem \u00e9 muitas saudades de vossemec\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; E papai, est\u00e1 bom?<\/p>\n<p>&#8211; Nh\u00f4-Mil\u00f3 (era assim que chamava o amo) est\u00e1 bom, gra\u00e7as a Deus. Foi ele<br \/>\nquem me mandou c\u00e1. Vim trazer um dinheiro ao doutor.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Ao diretor? Quanto foi?<\/p>\n<p>&#8211; Trezentos mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; Seriam emprestados, sabes?<\/p>\n<p>&#8211; Creio que sim, porque trouxe uma letra que tem de voltar assinada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E isso que trazes a\u00ed no cesto \u00e9 para mim?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, sim senhor. \u00c9 a senhora baronesa quem manda.<\/p>\n<p>Teobaldo apressou-se a despejar a cesta. Vinham doces, queijo, nozes, figos<br \/>\nsecos, passas, am\u00eandoas, frutas cristalizadas e uma garrafa de vinho Madeira.<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 que \u00e9 pouco; devia ter vindo mais&#8230; considerou ele, pousando a<br \/>\ngarrafa no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois fique sabendo que, se n\u00e3o fosse Nh\u00f4-Mjl\u00f3, nem essa teria vindo&#8230;<br \/>\nA senhora baronesa chegou a zangar-se com ele.<\/p>\n<p>E, mudando de tom:<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 verdade, vossemec\u00ea est\u00e1 preso?<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Estou aqui porque assim o quis.<\/p>\n<p>Em quatro palavras Teobaldo contou o motivo da sua pris\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! disse o criado, vossemec\u00ea \u00e9 seu pai, sem tirar nem p\u00f4r!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas n\u00e3o contes nada em casa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 novidade, n\u00e3o senhor!<\/p>\n<p>E, depois de conversarem ainda mais alguma coisa, Caetano abra\u00e7ou de novo<br \/>\no rapaz, despediu-se do outro e retirou-se, pretextando que n\u00e3o convinha demorar-se<br \/>\npara n\u00e3o chegar muito tarde \u00e0 fazenda.<\/p>\n<p>Outra vez fechada a pris\u00e3o, Teobaldo, restitu\u00eddo ao seu bom humor com o presente<br \/>\nda fam\u00edlia, voltou-se, j\u00e1 risonho, para o companheiro e disse, batendo-lhe<br \/>\nno ombro:<\/p>\n<p>&#8211; Ao menos temos aqui com que entreter os queixos. E, dispondo tudo sobre<br \/>\numa cadeira, principiou a expor o conte\u00fado dos pacotes e das caixinhas de<br \/>\ndoce: Felizmente a garrafa est\u00e1 aberta e o p\u00facaro d\u00e1gua serve para beber vinho.<br \/>\nN\u00e3o acha que isto veio a prop\u00f3sito?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, resmungou o Coruja.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o, m\u00e3os \u00e0 obra! Gosta de vinho?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como n\u00e3o sabe?<\/p>\n<p>&#8211; Nunca provei.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca? Oh!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 exato.<\/p>\n<p>&#8211; Pois experimente. H\u00e1 de gostar.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 entornou no p\u00facaro tr\u00eas dedos de vinho e bebeu-o de um trago.<\/p>\n<p>&#8211; Que tal? perguntou o outro fazendo o mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bom! disse Coruja a estalar a l\u00edngua.<\/p>\n<p>&#8211; Com um pouco de queijo e doce ainda \u00e9 melhor, atire-se!<\/p>\n<p>Andr\u00e9 n\u00e3o se fez rogado, e os dois meninos, em face um do outro, puseram-se<br \/>\na petiscar, como bons amigos. Teobaldo, por\u00e9m, depois de repetir v\u00e1rias vezes<br \/>\na dose do vinho, precisava dar expans\u00e3o ao seu g\u00eanio comentador e sat\u00edrico;<br \/>\nao passo que o companheiro saboreava em sil\u00eancio aqueles delicados pit\u00e9us,<br \/>\nque chamavam ao mal confortado paladar del\u00edcias inteiramente novas e desconhecidas<br \/>\npara ele.<\/p>\n<p>E contentava-se a resmungar, de vez em quando:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 muito bom? \u00c9 muito bom!<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu, sempre que receber presentes l\u00e1 de e prometeu o outro, hei de<br \/>\ncham\u00e1-lo para participar deles. Est\u00e1 dito?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea chama-se&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Andr\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; De&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Miranda.<\/p>\n<p>&#8211; Andr\u00e9 Miranda.<\/p>\n<p>&#8211; De Melo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; E Costa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabia. Como todos no col\u00e9gio s\u00f3 o tratam por &#8220;Coruja&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 alcunha.<\/p>\n<p>&#8211; Foi aqui que lha puseram?<\/p>\n<p>&#8211; Foi.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Porque eu sou feio.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o fica zangado quando lhe chamam assim?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb\u00e9m faria o mesmo, se me pusessem alguma. Os nossos colegas s\u00e3o todos<br \/>\nuns peda\u00e7os dasnos, n\u00e3o acha?<\/p>\n<p>Coruja sacudiu os ombros e Teobaldo, um pouco agitado pelo Madeira, come\u00e7ou<br \/>\na desabafar todo o ressentimento que at\u00e9 ai reprimia com tanto orgulho. Falou<br \/>\nfrancamente, queixou-se dos companheiros, julgou-os a um por um, provando<br \/>\nque eram todos aduladores e invejosos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero saber deles para nada! exclamou indignado. Voc\u00ea \u00e9 o \u00fanico com<br \/>\nque me darei!<\/p>\n<p>E, muito loquaz e v\u00e1rio, passou logo a falar dos col\u00e9gios europeus, do modo<br \/>\npelo qual a\u00ed se tratavam entre si os estudantes, dos modos de brincar, de<br \/>\nestudar em comum, do modo, enfim, pelo qual se protegiam e estimavam.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 o escutava, sem dar uma palavra, mas patenteando no rosto enorme interesse<br \/>\npelo que ouvia.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que se achava assim, em comunica\u00e7\u00e3o amistosa com um seu<br \/>\nsemelhante; era a primeira vez que algu\u00e9m o escolhia para confidente, para<br \/>\n\u00edntimo. E sua alma teve com a surpresa deste fato o mesmo gozo de impress\u00f5es<br \/>\nque experimentara ainda h\u00e1 pouco o seu paladar com os saborosos doces at\u00e9<br \/>\na\u00ed desconhecidos para ele.<\/p>\n<p>E o Coruja, a quem nada parecia impressionar, come\u00e7ou a sentir afei\u00e7\u00e3o por<br \/>\naquele rapaz, que era a mais perfeita ant\u00edtese do seu g\u00eanio e da sua pessoa.<\/p>\n<p>Quando Salustiano veio abrir-lhes a porta \u00e0 hora do jantar, encontrou Teobaldo<br \/>\nde p\u00e9, a discursar em voz alta, a gesticular vivamente, defronte do outro<br \/>\nque, estendido na cadeira, toscanejava meio tonto.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o? exclamou o homem das barbas longas. &#8211; Que significa isto?<\/p>\n<p>&#8211; Isto qu\u00ea, \u00f3 meu cara de quebra-nozes? interrogou Teobaldo soltando-lhe<br \/>\numa palmada na barriga.<\/p>\n<p>&#8211; Menino! repreendeu o homem; n\u00e3o quero que me falte ao respeito!<\/p>\n<p>&#8211; E um pouco de Madeira, n\u00e3o queres tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>&#8211; O senhor bem sabe que aqui no col\u00e9gio \u00e9 proibido aos alunos receberem vinho.<\/p>\n<p>&#8211; Para os outros, n\u00e3o duvido! Eu hei de receber sempre, se n\u00e3o digo ao velho<br \/>\nque n\u00e3o empreste mais um vint\u00e9m ao diretor.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fale assim&#8230; O senhor n\u00e3o se deve meter nesses neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas em vez de estares a\u00ed a mastigar em seco e a lamber os bei\u00e7os,<br \/>\n\u00e9 melhor que mastigues um pouco de requeij\u00e3o com aquele doce.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem muito obrigado. Coma!<\/p>\n<p>E Teobaldo, com sua pr\u00f3pria m\u00e3o, meteu-lhe um doce na boca.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 o diabo! considerou Salustiano, j\u00e1 sem nenhum sinal de austeridade.<br \/>\nE, erguendo a garrafa \u00e0 altura dos olhos: &#8211; Pois os senhores dois beberam<br \/>\nmais de meia garrafa de vinho? !.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 ao ouvir isto, come\u00e7ou a rir a bandeiras despregadas, o que fazia talvez<br \/>\npela vez primeira em sua vida.<\/p>\n<p>Pelo menos, o fato era t\u00e3o estranho que tanto Salustiano como Teobaldo ca\u00edram<br \/>\ntamb\u00e9m na gargalhada.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o \u00e9 que est\u00e3o ambos no gole?&#8230; disse homem, a cheirar a boca da garrafa<br \/>\ne, sem lhe resistir ao bom cheiro, despejou na pr\u00f3pria o vinho que restava.<\/p>\n<p>&#8211; Que tal a pinga? perguntou Teobaldo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 pena ser t\u00e3o mal empregada&#8230; responde o barbad\u00e3o a rir.<\/p>\n<p>&#8211; Este Salustiano \u00e9 um bom tipo! observou o menino, enchendo as algibeiras<br \/>\nde frutas e doces.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, quando o diretor n\u00e3o pode com o senhor eu \u00e9 que hei de poder&#8230;<\/p>\n<p>E, querendo fazer-se s\u00e9rio de novo:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos! Vamos! Aviem-se, que est\u00e1 tocando a sineta pela segunda vez!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vou \u00e0 mesa, respondeu Teobaldo &#8211; daqui vou para o jardim; diga ao doutor<br \/>\nque estamos indispostos.<\/p>\n<p>E, voltando-se para o Coruja.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Andr\u00e9! toma conta de tudo isso e vamos l\u00e1 para baixo ouvir a flauta<br \/>\ndo Caixa-d\u00f3culos.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>V<\/h2>\n<p>Desde ent\u00e3o os dois meninos fizeram-se amigos.<\/p>\n<p>Foi justamente a grande dist\u00e2ncia, o contraste, que os separava, que os uniu<br \/>\num ao outro.<\/p>\n<p>As extremidades tocavam-se.<\/p>\n<p>Teobaldo era detestado pelos colegas por ser muito desensofrido e petulante;<br \/>\no outro por ser muito casmurro e concentrado. O esquisit\u00e3o e o travesso tinham,<br \/>\npois, esse ponto de contato &#8211; o isolamento. Achavam&#8211;se no mesmo ponto de<br \/>\nabandono, viram-se companheiros de solid\u00e3o, e \u00e9 natural que se compreendessem<br \/>\ne que se tornassem afinal amigos insepar\u00e1veis.<\/p>\n<p>Uma vez reunidos, completavam-se perfeitamente. Cada um dispunha daquilo<br \/>\nque faltava no outro; Teobaldo tinha a compreens\u00e3o f\u00e1cil, a intelig\u00eancia pronta;<br \/>\nCoruja o m\u00e9todo, e a perseveran\u00e7a no estudo; um era rico; o outro econ\u00f4mico;<br \/>\num era bonito, d\u00e9bil e atrevido; o outro feio, prudente e forte. Ligados,<br \/>\npossuiriam tudo.<\/p>\n<p>E, com o correr do ano, por tal forma se foram estreitando entre os dois<br \/>\nos la\u00e7os da confian\u00e7a e da amizade, que afinal nenhum deles nada fazia sem<br \/>\nconsultar o camarada.<\/p>\n<p>Estudavam juntos e juntos se assentavam nas aulas e \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>Por fim, era j\u00e1 o Andr\u00e9 quem se encarregava de estudar pelo Teobaldo; era<br \/>\nquem resolvia os problemas alg\u00e9bricos que lhe passavam os professores; era<br \/>\nquem lhe arranjava os temas de latim e o \u00fanico que se dava \u00e0 ma\u00e7ada de procurar<br \/>\nsignificados no dicion\u00e1rio Em compensa\u00e7\u00e3o o outro, a quem faltava paci\u00eancia<br \/>\npara tudo isso, punha os seus livros, a sua vivacidade intelectual \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo amigo, e dividia com este os presentes e at\u00e9 o dinheiro enviado pela fam\u00edlia,<br \/>\nsem contar as regalias que a sua amizade proporcionava ao Coruja, fazendo-o<br \/>\nparticipar da ilimitada considera\u00e7\u00e3o que lhe rendia todo o pessoal do col\u00e9gio,<br \/>\ndesde o diretor ao cozinheiro.<\/p>\n<p>De todas as gentilezas de Teobaldo, a que ent\u00e3o mais impressionara ao amigo<br \/>\nfoi o presente de uma flauta e de um tratado de m\u00fasica, que lhe fez aquele<br \/>\nvolta de um passeio com o diretor do col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Coruja trabalhava \u00e0 sua mesa de estudo quando o outro entrou da rua.<\/p>\n<p>&#8211; Trago-te isto, disse-lhe Teobaldo apresentando-lhe os objetos que comprara.<\/p>\n<p>&#8211; Uma flauta! balbuciou Andr\u00e9 no auge da como\u00e7\u00e3o. &#8211; Uma flauta!<\/p>\n<p>&#8211; V\u00ea se est\u00e1 a teu gosto.<\/p>\n<p>Coruja ergueu-se da cadeira, tomou nas m\u00e3o instrumento, e experimentou-lhe<br \/>\no sopro, e ficou t\u00e3o satisfeito com o presente do amigo que n\u00e3o encontrou<br \/>\numa s\u00f3 palavra para lho agradecer.<\/p>\n<p>&#8211; Que fazias tu? perguntou-lhe Teobaldo.<\/p>\n<p>Mas correu logo os olhos pelo trabalho que estava sobre a mesa e acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00c9 ainda o tal cat\u00e1logo!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 exato.<\/p>\n<p>&#8211; Gabo-te a paci\u00eancia! N\u00e3o seria eu!<\/p>\n<p>E, tomando a bocejar uma das folhas escritas o outro tinha defronte de si.<\/p>\n<p>&#8211; Isto vem a ser?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 a numera\u00e7\u00e3o das obras, respondeu Andr\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Vai numer\u00e1-las&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vou. Para facilitar.<\/p>\n<p>&#8211; E isto aqui? interrogou Teobaldo, tomando outra folha de pape].<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 uma lista dos t\u00edtulos das obras.<\/p>\n<p>&#8211; E isto?<\/p>\n<p>&#8211; O nome dos autores.<\/p>\n<p>&#8211; Depois re\u00fanes tudo?<\/p>\n<p>&#8211; Reuno.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor seria fazer tudo de uma mais pr\u00e1tico. Assim, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o cedo que<br \/>\nte ver\u00e1s livre dessa ma\u00e7ada!<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de ficar pronto.<\/p>\n<p>Mas estava escrito que o c\u00e9lebre cat\u00e1logo n\u00e3o teria de ficar acabado nas<br \/>\nf\u00e9rias deste ano. Urna circunst\u00e2ncia extraordin\u00e1ria veio alterar completamente<br \/>\nos planos do autor.<\/p>\n<p>Logo ao entrar das f\u00e9rias, o pai de Teobaldo apresentou-se no col\u00e9gio para<br \/>\nir em pessoa buscar o filho.<\/p>\n<p>Entrou desembara\u00e7adamente a gritar pelo rapaz desde a porta da rua.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00c9 V. Exa. exclamou o diretor com espalhafato, logo que o viu. E correu<br \/>\na tornar-lhe o chap\u00e9u e a bengala.<\/p>\n<p>&#8211; Bela surpresa! Bela surpresa, Sr. Bar\u00e3o! Tenha a bondade de entrar para<br \/>\no escrit\u00f3rio!<\/p>\n<p>&#8211; Vim buscar o rapaz. Como vai ele?<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem, muito bem.! Vou cham\u00e1-lo no mesmo instante. Tenha a bondade<br \/>\nV. Exa. de esperar alguns segundos.<\/p>\n<p>E, como se a solicitude lhe dera sebo \u00e0s canelas, o Dr. Mosquito desapareceu<br \/>\nmais ligeiro que um rato.<\/p>\n<p>O Sr. Bar\u00e3o do Palmar, Em\u00edlio Henrique de Albuquerque, era ainda nos seus<br \/>\ncinq\u00fcenta e tantos anos uma bela figura de homem.<\/p>\n<p>A vida acidentada e revessa, a que o condenara sempre o seu esp\u00edrito irrequieto<br \/>\ne turbulento n\u00e3o conseguira alterar-lhe em nada o bom humor e as gentilezas<br \/>\ncavalheirescas de sua alma rom\u00e2ntica e afidalgada<\/p>\n<p>Como brasileiro, ele representava um produto leg\u00edtimo da \u00e9poca em que veio<br \/>\nao mundo.<\/p>\n<p>Nascera em Minas, quando ferviam j\u00e1 os prel\u00fadios da independ\u00eancia, e seu<br \/>\npai, um fidalgo portugu\u00eas dos que emigraram para o Brasil em companhia do<br \/>\nPr\u00edncipe Regente e de cujas m\u00e3os se passara depois para o servi\u00e7o de D. Pedro<br \/>\nI, dera-lhe por m\u00e3e uma formosa cabocla paraense, com quem se havia casado<br \/>\ne de quem n\u00e3o tivera outro filho sen\u00e3o esse.<\/p>\n<p>De tais elementos, t\u00e3o antag\u00f4nicos, formou-se-lhe aquele, car\u00e1ter h\u00edbrido<br \/>\ne singular, aristocrata e rude a um tempo, porque nas veias de Em\u00edlio de Albuquerque<br \/>\ntanto corria o refinado sangue da nobreza, como o sangue b\u00e1rbaro dos tapuias.<\/p>\n<p>Crescera entre os sobressaltos pol\u00edticos do come\u00e7o do s\u00e9culo, ouvindo roncar<br \/>\nem torno do ber\u00e7o a tempestade revolucionaria, que havia de mais tarde lhe<br \/>\narrebatar a fam\u00edlia, os amigos e as primeiras e mais belas ilus\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Desde muito cedo destinado \u00e0s armas, matriculou-se na Escola Militar, fez<br \/>\nparte da famosa guarda de honra do primeiro Imperador, e, com a prote\u00e7\u00e3o deste<br \/>\ne mais a natural vivacidade do seu temperamento mesti\u00e7o, chegou rapidamente<br \/>\nao posto de capit\u00e3o.<\/p>\n<p>Teve, por\u00e9m, de interromper os estudos para fazer a lament\u00e1vel guerra de<br \/>\nCisplatina, donde voltou seis meses depois, sem nenhuma dar ilus\u00f5es com que<br \/>\npartira, nem encontrar os pais e amigos, que sucumbiram na sua aus\u00eancia, e<br \/>\nnem mais sentir palpitar-lhe no cora\u00e7\u00e3o o primitivo entusiasmo pelos defensores<br \/>\nlegais da integridade nacional.<\/p>\n<p>Orfanado, pois, ao vinte e dois anos, senhor de uma heran\u00e7a como bem poucos<br \/>\nde tal proced\u00eancia apanhavam nessas \u00e9pocas, pediu baixa do Ex\u00e9rcito e levantou<br \/>\no v\u00f4o para a Europa, fazendo-se acompanhar por um criado que fora de seu pai,<br \/>\no Caetano, aquele mesmo criado que, trinta e tantos anos depois, apareceu<br \/>\nno col\u00e9gio do Dr. Mosquito vestido de libr\u00e9 cor de rap\u00e9, com bot\u00f5es amarelos.<\/p>\n<p>Ah! Se esse velho quisesse contar as estroinices que fez o querido amo pelas<br \/>\nparagens europ\u00e9ias que percorreu! se quisesse dizer quantas vezes n\u00e3o exp\u00f4s<br \/>\na pele para livr\u00e1-lo em situa\u00e7\u00f5es bem cr\u00edticas! quantas vezes por causa de<br \/>\nalguma aventura amorosa ou por alguma simples quest\u00e3o de rua ou de caf\u00e9 n\u00e3o<br \/>\nvoltaram os dois, amo e criado, para o hotel com o corpo mo\u00eddo de pauladas<br \/>\ne os punhos cansados de esbordoar!<\/p>\n<p>Durante essas viagens levaram eles a vida mais aventurosa e extravagante<br \/>\nque \u00e9 poss\u00edvel imaginar; s\u00f3 voltaram para o Brasil no per\u00edodo da reg\u00eancia,<br \/>\ndepois da abdica\u00e7\u00e3o do Sr. D. Pedro I, por quem o rapaz n\u00e3o morria de amores.<\/p>\n<p>Tornando \u00e0 prov\u00edncia, Em\u00edlio, talvez na inten\u00e7\u00e3o de refazer os seus bens<br \/>\nj\u00e1 minguados, casou-se, a despeito da oposi\u00e7\u00e3o do Caetano, com uma rapariga<br \/>\nde Malabar, filha natural de um negociante portugu\u00eas que comerciava diretamente<br \/>\ncom a \u00cdndia.<\/p>\n<p>Atirou-se ent\u00e3o a especular no com\u00e9rcio, mas o seu temperamento n\u00e3o lhe permitia<br \/>\ndemorar-se por muito tempo no mesmo objeto e, achando-se vi\u00favo pouco depois<br \/>\nde casado, lan\u00e7ou as vistas para Diamantina, que nessa ocasi\u00e3o atra\u00eda os ambiciosos,<br \/>\ne l\u00e1 se foi ele,. sempre acompanhado pelo Caetano, explorar o diamante.<\/p>\n<p>T\u00e3o depressa o viram em 1835 na Diamantina como em 1842 em Santa Luzia na<br \/>\nrevolu\u00e7\u00e3o ao dos liberais mineiros, lutando contra a c\u00e9lebre rea\u00e7\u00e3o conservadora<br \/>\nmanifestada pela lei de 3 de Dezembro.<\/p>\n<p>A galhardia e valor com que se houve nessas conjunturas valeu-lhe a estima<br \/>\nde Te\u00f3filo Otoni e outros importantes chefes do seu partido. Dessa estima<br \/>\ne mais dos bens particulares que ent\u00e3o gastou na pol\u00edtica foi que se originou<br \/>\no t\u00edtulo, com que mais tarde o agraciaram.<\/p>\n<p>A sua atitude pol\u00edtica, a sua riqueza e os seus dotes naturais haviam-lhe<br \/>\nj\u00e1 conquistado na corte as melhores rela\u00e7\u00f5es deste tempo.<\/p>\n<p>Uma vez, por ocasi\u00e3o de trazer para a\u00ed uma excelente partida de diamantes,<br \/>\ntravou conhecimento com um importante fazendeiro de caf\u00e9, em cuja fazenda<br \/>\nse hospedou por acaso.<\/p>\n<p>Esse homem, mineiro da gema, era no lugar a principal influ\u00eancia do partido<br \/>\nconservador e, sem d\u00favida, um dos que primeiro explorou a famosa Mata do Rio,<br \/>\nque ent\u00e3o come\u00e7ava a cobrir-se de novas planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O fazendeiro tinha uma filha e Em\u00edlio cobi\u00e7ou-a para casar. Mas o encascado<br \/>\npol\u00edtico, descendente talvez dos antigos emboabas que avassalaram o centro<br \/>\nde Minas, n\u00e3o cedeu ao primeiro ataque, e Em\u00edlio teve de lan\u00e7ar m\u00e3o de todos<br \/>\nos recursos insinuativos da sua ra\u00e7a para conseguir captar a confian\u00e7a do<br \/>\npai e o cora\u00e7\u00e3o da filha. Quando l\u00e1 tornou segunda vez, deixou o casamento<br \/>\najustado. Ent\u00e3o foi ainda a Diamantina liquidar os seus neg\u00f3cios e, voltando<br \/>\n\u00e0 Mata, recebeu por esposa a mulher que, mal sabia ele, estava destinada a<br \/>\nser a mais suave consola\u00e7\u00e3o e o melhor apoio do resto de sua vida.<\/p>\n<p>Foi desse enlace que nasceu Teobaldo, logo um ano depois do casamento.<\/p>\n<p>Em\u00edlio s\u00f3 reapareceu na corte em 1847, onde os seus correligion\u00e1rios, ent\u00e3o<br \/>\nno poder, o agraciaram com o titulo de Bar\u00e3o do Palmar; mas voltou logo para<br \/>\nMinas e tratou de estabelecer com os seus capitais uma fazenda na vizinhan\u00e7a<br \/>\nda do sogro, que acabava de falecer.<\/p>\n<p>Foi esse o melhor tempo de sua vida, o mais tranq\u00fcilo e o mais feliz. S\u00f3<br \/>\ndepois de casado, Em\u00edlio pode avaliar e compreender deveras a mulher com quem<br \/>\nse unira; s\u00f3 depois de casado descobriu os tesouros de virtude que ela lhe<br \/>\ntrouxe pura casa, escondidos no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Laura, assim se chamava a boa esposa, era um destes anjos, criados para a<br \/>\nboa seguran\u00e7a do lar dom\u00e9stico; uma dessas criaturas que nascem para fazer<br \/>\na felicidade dos que a cercam.<\/p>\n<p>Em casa, senhores chamavam-lhe &#8220;Santa&#8221;. E este doce tratamento conduzia com<br \/>\nos seus atos e com a sua figura.<\/p>\n<p>&#8211; Esta, sim! exclamava o Caetano, entusiasmado Esta, sim, \u00e9 uma esposa de<br \/>\nconta, peso e medida!<\/p>\n<p>Pouco a pouco, Em\u00edlio fui amando a mulher, ao ponto de chegar a estremec\u00ea-la,<br \/>\no que at\u00e9 a\u00ed lhe parecia imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>No meio de toda essa felicidade, Teobaldo deu o. seus primeiros passos pela<br \/>\nm\u00e3o do pai, da Santa e do fiel Caetano, que j\u00e1 o adorava tanto como os outros.<\/p>\n<p>O pequeno era o mimo do casa; era o cuidado, o enlevo, a preocupa\u00e7\u00e3o de quantos<br \/>\no viam crescer.<\/p>\n<p>Com que sacrif\u00edcio n\u00e3o consentiu, pois, o Bar\u00e3o do Palmar que o filho, da\u00ed<br \/>\na seis anos, seguisse sozinho para um col\u00e9gio de Londres, donde havia de passar<br \/>\na Coimbra.<\/p>\n<p>Mas assim era necess\u00e1rio, porque Em\u00edlio, ent\u00e3o comprometido no tr\u00e1fico dos<br \/>\nnegros africanos, viu-se atrozmente perseguido por Euz\u00e9bio de Queiroz, terror<br \/>\ndos negreiros e seu inimigo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed quem era e donde vinha o pai de Teobaldo.<\/p>\n<p>E agora, visto aos cinq\u00fcenta e tantos anos, aquele tipo correto na forma<br \/>\ne um pouco desabrido nas maneiras, estava ainda a dizer a sua proced\u00eancia<br \/>\nmesti\u00e7a. Por mais despejado que fosse todavia, cativava sempre com muita gra\u00e7a<br \/>\ne muita insinua\u00e7\u00e3o. Ar gentil e franco, gestos largos, cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o aberto<br \/>\na tudo e a todos, que at\u00e9 ao mal franquearia a entrada, desde que houvesse<br \/>\nl\u00e1 por dentro uma id\u00e9ia de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Possu\u00eda ele um destes temperamentos desensofridos e ao mesmo tempo saturados<br \/>\nde bom humor; t\u00e3o prontos a zombar dos grandes perigos, como a inflamar-se<br \/>\n\u00e0 menor palavra que de longe lhe tocasse em pontos de honra. Temperamentos<br \/>\nque n\u00e3o conhecem meio termo e que v\u00e3o da pilh\u00e9ria \u00e0 bofetada com a rapidez<br \/>\nde um salto.<\/p>\n<p>Amava loucamente a mulher e adorava o filho. Todas as suas paix\u00f5es de outrora,<br \/>\ntodos os seus gostos e h\u00e1bitos sacrificados ao atual meio em que ele vivia,<br \/>\ncomo que se transformaram em um sentimento \u00fanico, em um amor de quinta-ess\u00eancia,<br \/>\nem uma dedica\u00e7\u00e3o sem limites por Teobaldo. Mas n\u00e3o sabia educa-lo e por cegueira<br \/>\nda afei\u00e7\u00e3o permitia-lhe todos os caprichos. A mais extravagante fantasia do<br \/>\nmenino era uma lei em casa do Sr. Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>Defronte daquele pequeno Deus, ningu\u00e9m seria capaz de levantar a voz. Teobaldo<br \/>\nvivia entre os seus parentes como um pr\u00edncipe no meio da sua corte; o pai,<br \/>\na m\u00e3e, uma irm\u00e3 desta, que agora a acompanhava, todos pareciam apostados em<br \/>\nmerecer-lhe as gra\u00e7as em troca de amor e submiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode-se, pois, facilmente calcular qual n\u00e3o seria a como\u00e7\u00e3o de Em\u00edlio ao<br \/>\nver o filho, quando o foi buscar nas f\u00e9rias, depois de tantos meses de aus\u00eancia.<\/p>\n<p>Teobaldo! exclamou o bar\u00e3o, correndo para ele de bra\u00e7os abertos.<\/p>\n<p>O menino saltou-lhe ao pesco\u00e7o e deixou-se beijar, enquanto perguntava pelos<br \/>\nde casa.<\/p>\n<p>E depois, a queixar-se:<\/p>\n<p>&#8211; Ora! prometeste que virias visitar-me, e nem uma vez!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pude abandonar a fazenda um s\u00f3 dia durante o ano! Aquilo por l\u00e1 tem<br \/>\nsido o diabo!&#8230;<\/p>\n<p>Ia continuar, mas interrompeu-se para dizer ao filho:<\/p>\n<p>&#8211; Anda da\u00ed rapaz! Mexe-te, que, ao contr\u00e1rio chegaremos muito tarde!. ..<br \/>\nVamos! Eu te ajudo preparar a mala. Onde \u00e9 o teu quarto?<\/p>\n<p>Teobaldo tomou de carreira a dire\u00e7\u00e3o do dormit\u00f3rio e o pai acompanhou-o,<br \/>\na mexer com todos os pequenos que encontrava no caminho.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 o tal Andr\u00e9, de que falas tu nas cartas com tanta insist\u00eancia? perguntou<br \/>\nao filho, enquanto este emalava a sua roupa.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! o Coruja? \u00c9 o meu amigo; mostro-to j\u00e1; espera ai.<\/p>\n<p>E, quando atravessavam o sal\u00e3o, j\u00e1 com a mala pronta,<\/p>\n<p>Teobaldo exclamou, puxando o bra\u00e7o do pai:<\/p>\n<p>&#8211; Olha! \u00c9 aquele! Aquele que est\u00e1 ao lado do diretor.<\/p>\n<p>&#8211; E aquele padre, quem \u00e9? Aquele que conversa com o Dr. Mosquito?<\/p>\n<p>&#8211; Deve ser o tutor de Andr\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; O tutor?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, porque Andr\u00e9 j\u00e1 n\u00e3o tem pai, nem m\u00e3e; foi o vig\u00e1rio quem tornou conta<br \/>\ndele e quem o meteu no col\u00e9gio.<\/p>\n<p>&#8211; E agora veio busc\u00e1-lo e leva-o para casa durante as f\u00e9rias?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Talvez n\u00e3o. J\u00e1 o ano passado, deixou-o ficar aqui sozinho com os criados.<\/p>\n<p>&#8211; Mas pode ser que desta vez n\u00e3o aconte\u00e7a o mesmo&#8230;<\/p>\n<p>Em\u00edlio foi, por\u00e9m, convencido logo do contr\u00e1rio pelo que ouviu entre o diretor<br \/>\ne o padre, cujo di\u00e1logo ia se esquentando a ponto de lhe chegar perfeitamente<br \/>\nao ouvidos.<\/p>\n<p>&#8211; Abuso?&#8230; exclamava o vig\u00e1rio. N\u00e3o vejo onde esteja o abuso!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei porque.. . interrompeu o padre.<\/p>\n<p>&#8211; Sei eu, gritou o diretor. E a prova, olhe, \u00e9 que tencionava fazer pelas<br \/>\nf\u00e9rias um passeio \u00e0 corte com minha fam\u00edlia, e n\u00e3o fiz!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas o senhor, naturalmente, n\u00e3o foi detido s\u00f3 por este&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Engana-se; seu pupilo foi o \u00fanico aluno que ficou no col\u00e9gio durante as<br \/>\nf\u00e9rias!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 culpa minha!<\/p>\n<p>&#8211; De acordo e n\u00e3o \u00e9 disso que fa\u00e7o quest\u00e3o. Deixa-me continuar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pode continuar.<\/p>\n<p>&#8211; Como dizia: o senhor, n\u00e3o satisfeito com o abatimento que lhe fiz durante<br \/>\no ano inteiro, pediu-me ainda que lhe fizesse um novo abatimento durante as<br \/>\nf\u00e9rias. Permita que lhe diga: o que V. Rev.ma pagou n\u00e3o deu sequer para as<br \/>\ncomedorias, porque n\u00e3o \u00e9 com t\u00e3o pouco que se alimenta aquele rapaz! N\u00e3o imagina<br \/>\nque apetite tem ele!<\/p>\n<p>Andr\u00e9, ao ouvir esta acusa\u00e7\u00e3o, abaixou o rosto, envergonhado como um criminoso,<br \/>\ne p\u00f4s-se a roer as unhas, sentindo sobre si o olhar col\u00e9rico do padre, que<br \/>\no media da cabe\u00e7a aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem! prosseguiu o diretor; chegam de novo as f\u00e9rias e, quando estou<br \/>\nresolvido a remeter-lhe o menino, vem o senhor e diz que desta vez n\u00e3o pode<br \/>\npagar tanto como das outras!&#8230; Ora! h\u00e1 de V. Rev.ma convir que isto n\u00e3o tem<br \/>\njeito!<\/p>\n<p>&#8211; Seria uma obra de caridade!&#8230; objetou o padre.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas eu j\u00e1 fiz o que pude&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois v\u00e1! Pagarei o mesmo que nas f\u00e9rias do ano passado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor, n\u00e3o serve! V. Rev.ma leva o menino e, se quiser, pode apresentar-mo<br \/>\nde novo em Janeiro. De outra forma n\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Tenho ent\u00e3o de levar o pequeno comigo? exclamou o padre, fazendo-se vermelho.<\/p>\n<p>&#8211; De certo, respondeu o diretor sem hesitar. As f\u00e9rias Inventaram-se para<br \/>\ndescanso e eu n\u00e3o posso fica tranq\u00fcilo, sabendo que h\u00e1 um aluno em casa. D\u00e1-me<br \/>\nmesmo trabalho que me dariam vinte! N\u00e3o! N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, doutor!.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o quero! \u00c9 um cuidado constante. Retiram-se todos os empregados<br \/>\ne fica a\u00ed o menino s\u00f3 com o servente; de um momento para outro, uma travessura,<br \/>\numa tolice de crian\u00e7a, pode ocasionar qualquer desgra\u00e7a, e serei eu por ela<br \/>\no \u00fanico respons\u00e1vel! N\u00e3o quero!<\/p>\n<p>&#8211; E se eu pagar o mesmo que pago durante ano? perguntou o reverendo j\u00e1 impaciente<br \/>\ne cada vez mais vermelho.<\/p>\n<p>&#8211; Nem assim.<\/p>\n<p>&#8211; Nem assim? E quanto \u00e9 preciso ent\u00e3o que eu pague?<\/p>\n<p>&#8211; Nada, porque estou resolvido a n\u00e3o aceitar.<\/p>\n<p>&#8211; De sorte que eu tenho por for\u00e7a de levar o pequeno?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fatalmente.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o, p\u00edlulas! exclamou o padre, deixando transbordar de todo a c\u00f3lera;<br \/>\np\u00edlulas!<\/p>\n<p>E, voltando-se para o Coruja:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1! v\u00e1 fazer a trouxa e avie-se!<\/p>\n<p>O Coruja afastou-se tristemente enquanto o padre resmungava: Peste! s\u00f3 me<br \/>\nserve para me dar ma\u00e7adas e fazer-me gastar o que n\u00e3o posso!<\/p>\n<p>O bar\u00e3o. que a certa dist\u00e2ncia ouvira tudo ao lado do filho, disse a este<br \/>\nem voz baixa:<\/p>\n<p>&#8211; Pergunta ao teu amigo se ele quer vir conosco passar as f\u00e9rias na fazenda.<\/p>\n<p>Teobaldo, satisfeito com as palavras do pai, foi de carreira ter com o Coruja<br \/>\ne voltou logo com uma resposta afirmativa.<\/p>\n<p>&#8211; Reverendo, disse ent\u00e3o o fidalgo aproximando-se do padre com suma cortesia.<br \/>\nPor sua conversa\u00e7\u00e3o com o Dr. Mosquito fiquei sabendo que o contraria n\u00e3o<br \/>\npoder deixar o seu pupilo no col\u00e9gio; lembrei-me, pois, se n\u00e3o houver nisso<br \/>\nalgum inconveniente, de lev\u00e1-lo com o meu filho, a passar as f\u00e9rias na fazenda<br \/>\nem que resido.<\/p>\n<p>O diretor deu-se pressa em apresent\u00e1-lo um ao outro, desfazendo-se em zumbaias<br \/>\ncom o bar\u00e3o. E o padre, cuja fisionomia se iluminara \u00e0 proposta do adulado,<br \/>\nrespondeu curvando-se:<\/p>\n<p>&#8211; Meu Deus! O Sr. bar\u00e3o pode determinar o que bem quiser!&#8230; Receio apenas<br \/>\nque o meu pupilo n\u00e3o saiba talvez corresponder a tamanha gentileza; uma vez,<br \/>\npor\u00e9m, que o generoso cora\u00e7\u00e3o de V. Exa. sente vontade de praticar esse ato<br \/>\nde caridade..<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 caridade! atalhou Em\u00edlio, francamente. N\u00e3o \u00e9 por seu pupilo<br \/>\nque fa\u00e7o isto, mas s\u00f3 para ser agrad\u00e1vel a meu filho&#8230; Eles s\u00e3o amigos.<\/p>\n<p>&#8211; Se V. Exa. faz gesto nisso.<\/p>\n<p>&#8211; Todo o gosto.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o pequeno est\u00e1 \u00e0s ordens de V. Exa.<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Ficamos entendidos. Levo-o comigo e tr\u00e1-lo-ei com Teobaldo, quando<br \/>\nse abrirem de novo as aulas.<\/p>\n<p>O reverendo entendeu a prop\u00f3sito contar ao Sr. bar\u00e3o, pelo mi\u00fado, a hist\u00f3ria<br \/>\ndo &#8220;pobre \u00f3rf\u00e3o&#8221;; como ele o recolhera e sustentava, repetindo no fim de cada<br \/>\nfrase &#8220;Que n\u00e3o estava arrependido&#8221; e, terminando com a financeira e conhecida<br \/>\nm\u00e1xima: &#8220;Quem d\u00e1 aos pobres, empresta a Deus!&#8230;&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>VI<\/h2>\n<p>&#8211; \u00c9 bem feiozinho, benza-o Deus! o tal teu amigo!&#8230; disse o bar\u00e3o ao filho,<br \/>\nenquanto Andr\u00e9 se afastava para ir buscar a sua trouxa.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas um belo rapaz, respondeu Teobaldo. Tem por mim uma cega dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Embora! \u00c9 muito antip\u00e1tico! Est\u00e1 sempre a olhar t\u00e3o desconfiado para a<br \/>\ngente!&#8230; E parece mudo &#8211; s\u00f3 me respondeu com a cabe\u00e7a e com os ombros \u00e0s<br \/>\nperguntas que lhe fiz.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 assim com todos.<\/p>\n<p>&#8211; Nem sei como voc\u00eas se fizeram amigos. Ent\u00e3o tu, que, segundo me disse ainda<br \/>\nh\u00e1 pouco o Mosquito, n\u00e3o te chegas muito para os teus colegas.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 me chego para o Coruja. \u00c9 o \u00fanico.<\/p>\n<p>Coitado! O reverendo, ao que parece, n\u00e3o morre de amores por ele; nem \u00e0 m\u00e3o<br \/>\nde Deus Padre queria carreg\u00e1-lo para casa.<\/p>\n<p>&#8211; Um mau sujeito, o tal reverendo!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, com certeza n\u00e3o foi por maldade que o recolheu \u00e0 sua prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei. Talvez!&#8230;<\/p>\n<p>Em\u00edlio olhou mais atentamente para o filho e disse sorrindo:<\/p>\n<p>&#8211; Tens as vezes coisas que me surpreendem. Com quem aprendeste tu a desconfiar<br \/>\ndesse modo dos teus semelhantes?<\/p>\n<p>&#8211; Contigo. N\u00e3o me tens dito tantas vezes que gente deve desconfiar de todo<br \/>\no mundo?<\/p>\n<p>&#8211; Para n\u00e3o sofrer decep\u00e7\u00f5es a cada passo.. exato!<\/p>\n<p>&#8211; E que, no caso de erro, \u00e9 prefer\u00edvel sempre nos enganarmos contra, do que<br \/>\na favor de quem quer que seja!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De certo. O homem deve sempre colocar-se superior a tudo e fazer por dominar<br \/>\na todos. O mundo meu filho, comp\u00f5e-se apenas de duas classes &#8211; a dos fortes<br \/>\ne a dos fracos; os fortes governam, os outros obedecem. Ama aos teus semelhantes,<br \/>\nmas n\u00e3o tanto como a ti mesmo, e entre amar e ser amado, prefere sempre o<br \/>\n\u00faltimo; da mesma forma que deves preferir sempre &#8211; dar, a pedir, principalmente<br \/>\nse o obs\u00e9quio for de dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Achas mau que eu seja amigo do Coruja?<\/p>\n<p>&#8211; Ao contr\u00e1rio, acho excelente. Essa escolha, entre tantos colegas mais bem<br \/>\nparecidos, confirma o bom ju\u00edzo que fa\u00e7o do teu orgulho, e mostra que tens<br \/>\nsabido aproveitar-te dos meus conselhos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o compreendo.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m ainda \u00e9 cedo para isso. \u00c9 preciso dar tempo ao tempo.<\/p>\n<p>O Coruja reapareceu sobra\u00e7ando a sua pequena mala de couro cru.<\/p>\n<p>&#8211; Pronto? perguntou-lhe Teobaldo.<\/p>\n<p>O outro meneou a cabe\u00e7a, afirmativamente.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o a caminho! exclamou Em\u00edlio, descendo a escada na frente dos<br \/>\nrapazes.<\/p>\n<p>Um carro os esperava \u00e0 porta do col\u00e9gio; o cocheiro tomou conta das bagagens;<br \/>\nEm\u00edlio fez subir os dois meninos e sentou-se defronte deles.<\/p>\n<p>Andr\u00e9, muito esquerdo com a sua roupinha de sarja, que ia j\u00e1 lhe ficando<br \/>\ncurta, n\u00e3o olhava de frente para os companheiros e parecia aflito naquela<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o; ao passo que Teobaldo, muito filho de seu pai, conversava pelos cotovelos,<br \/>\ndizia o que vira, praticara e assistira durante o ano, criticando os colegas,<br \/>\nridicularizando os professores e, ao mesmo tempo, fazendo espirituosos coment\u00e1rios<br \/>\nsobre tudo que lhe passava defronte dos olhos pela estrada.<\/p>\n<p>Chegaram \u00e0 fazenda \u00e0s oito horas da noite. Vieram receb\u00ea-los ao port\u00e3o a<br \/>\nSra. baronesa e mais a irm\u00e3, D. Geminiana, acompanhadas ambas pelo Caetano,<br \/>\nque trazia uma lanterna.<\/p>\n<p>Santa lan\u00e7ou-se ao encontro do filho, cobrindo-o de beijos s\u00f4fregos e a chorar<br \/>\ne a rir ao mesmo tempo, enquanto um escravo, que acudira logo, desembarcava<br \/>\nas malas e ajudava o cocheiro a desatrelar os animais.<\/p>\n<p>Teobaldo passou dos bra\u00e7os da m\u00e3e para os da tia, que n\u00e3o menos o idolatrava,<br \/>\napesar de ser um tanto resingueira de g\u00eanio.<\/p>\n<p>&#8211; O nosso morgado traz-lhe um h\u00f3spede! declarou o bar\u00e3o, empurrando brandamente<br \/>\no Coruja para junto das senhoras \u00c9 aquele amigo de que ele fala nas cartas.<br \/>\nVem fazer-lhe companhia durante as f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Andr\u00e9, muito atrapalhado de sua vida, porque jamais se vira em tais situa\u00e7\u00f5es,<br \/>\nquando deu por si estava nos bra\u00e7os da m\u00e3e do seu amigo e recebia um beijo<br \/>\nna testa.<\/p>\n<p>Coitado! Que estranhas sensa\u00e7\u00f5es n\u00e3o lhe produziu aquele beijo, ainda quente<br \/>\nda ternura com que foram dados os outros no verdadeiro filho! H\u00e1 quanto tempo<br \/>\nn\u00e3o aspirava o pobre \u00f3rf\u00e3o essa flor ideal do amor, essa flor sonora &#8211; o beijo!<\/p>\n<p>Depois de sua m\u00e3e ningu\u00e9m mais o beijara. E Santa, sem saber, acabava de<br \/>\nabrir o cora\u00e7\u00e3o do desgra\u00e7ado um sulco luminoso, que penetrava at\u00e9 \u00e0s suas<br \/>\nmais fundas reminisc\u00eancias da inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; Este menino est\u00e1 chorando! considerou D. Geminiana, que at\u00e9 a\u00ed observara<br \/>\no Coruja como quem contempla um bicho raro.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens tu? perguntou Teobaldo ao amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Nada, respondeu este, limpando as l\u00e1grimas na manga da jaqueta.<\/p>\n<p>E o seu gesto era t\u00e3o desgracioso, coitadinho, que todos, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de Santa,<br \/>\npuseram-se a rir.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 nada, com efeito! A como\u00e7\u00e3o talvez!&#8230; exclamou Em\u00edlio, batendo levemente<br \/>\nnas costas de Andr\u00e9. &#8211; H\u00e1 muito tempo que n\u00e3o se v\u00ea entre fam\u00edlia! Daqui a<br \/>\npouco nem se lembrar\u00e1 que chorou,.. N\u00e3o \u00e9 verdade, amiguinho?<\/p>\n<p>O Coruja disse que sim, enterrando a cabe\u00e7a nos ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, vamos para cima, que eu estou morrendo por comer! protestou Teobaldo,<br \/>\npassando os bra\u00e7os em volta da cinta das duas senhoras e obrigando-as a acompanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Assim subiram a pequena alameda de mangueiras que conduzia \u00e0 casa e, dentro<br \/>\nem pouco, penetravam todos na sala de jantar.<\/p>\n<p>A despeito de se achar naquelas alturas, Em\u00edlio cercava-se de todas as comodidades<br \/>\nque lhe permitia a \u00e9poca. O seu primeiro casamento ahrira-lhe o gosto pelos<br \/>\nobjetos do luxo asi\u00e1tico e trouxera-lhe uma riqu\u00edssima cole\u00e7\u00e3o de lou\u00e7as,<br \/>\nde sedas e cachemiras, xar\u00f5es, marfins, pinturas, objetos de goma-laca, tet\u00e9ias<br \/>\nde s\u00e2ndalo e tartaruga, e tudo mais que era de costume nesse tempo introduzirem<br \/>\nno Brasil os portugueses vezeiros no com\u00e9rcio das \u00cdndias.<\/p>\n<p>Viam-se ai tamb\u00e9m, pelas paredes, quadros antigos, de santos, alguns dos<br \/>\nquais haviam pertencido a D. Jo\u00e3o VI, e das m\u00e3os deste passado \u00e0s do av\u00f4 de<br \/>\nTeobaldo. Viam-se igualmente estalados retratos de damas e cavalheiros da<br \/>\ncorte de D. Jos\u00e9 e D. Maria I, detestavelmente pintados, nas suas pitorescas<br \/>\nvestimentas do s\u00e9culo XVIII e defronte de cujas telas inutilizadas e ressequidas<br \/>\npelo antiaristocr\u00e1tico sol brasileiro, habituara-se o velho Caetano a possuir-se<br \/>\nde todo o respeito, porque lhe contava que entre aqueles figur\u00f5es havia parentes<br \/>\ndo seu rico amo.<\/p>\n<p>E, ao lado da mob\u00edlia, relativamente nova, descobriam-se cl\u00e1ssicas pe\u00e7as<br \/>\nde madeira preta, que juntavam ao aspecto daquelas salas uma nota religiosa<br \/>\ne grave.<\/p>\n<p>Na biblioteca, ali\u00e1s bem guarnecida, destacavam&#8211;se, por entre as estantes,<br \/>\nantigas armas portuguesas, dispostas em simetria e caprichosamente entrela\u00e7adas<br \/>\npor arcos e flechas do Brasil. Na sala de jantar, dominando a larga e longa<br \/>\nmesa da comida, havia um grande retrato de Cromwell, representado na ocasi\u00e3o<br \/>\nem que ele invadiu o parlamento ingl\u00eas de chicote em punho.<\/p>\n<p>O Coruja passou por tudo isso, \u00e0s cegas, sem \u00e2nimo de olhar para coisa alguma.<br \/>\nO desgra\u00e7ado sentia perfeitamente que agora, \u00e0 luz das velas, a sua antip\u00e1tica<br \/>\nfigura havia de produzir sobre todos uma impress\u00e3o ainda muito mais desagrad\u00e1vel<br \/>\ndo que a primeira; sentia-se mais feio, mais irracional, posto em contraste<br \/>\ncom aquela gente e com aqueles objetos.<\/p>\n<p>Mal se assentaram \u00e0 mesa, D. Geminiana continuou a observ\u00e1-lo fixamente e<br \/>\nconcluiu afinal o seu julgamento franzindo os cantos da boca em um trejeito<br \/>\nde repugn\u00e2ncia; Santa, por\u00e9m, n\u00e3o se mostrou t\u00e3o desagradada e chegou a sorrir<br \/>\npara o Coruja, quando lhe passou o prato de sopa.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o que havia tomado a cabeceira, fizera sentar o filho ao seu lado e,<br \/>\nsegundo o costume, conversava com ele, como se estivesse defronte de um homem.<\/p>\n<p>Entretanto, o Coruja continuava t\u00e3o mudo e t\u00e3o fechado, que do meio para<br \/>\no fim do jantar ningu\u00e9m mais se animava a dirigir-lhe a palavra.<\/p>\n<p>Depois do caf\u00e9, Santa ergueu-se da mesa e foi pessoalmente dar suas ordens<br \/>\npara que nada faltasse ao taciturno h\u00f3spede; mandou acrescentar uma cama no<br \/>\nquarto do filho e disse ao outro que podia recolher-se quando quisesse.<\/p>\n<p>Coruja apertou a m\u00e3o de todos, um por um, e meteu-se no quarto.<\/p>\n<p>J\u00e1 vais? perguntou-lhe o amigo. \u00c9s um mau companheiro!<\/p>\n<p>Na sala, onde ficou ainda a fam\u00edlia, a conversar por algum tempo, veio o<br \/>\nCoruja \u00e0 discuss\u00e3o. Em\u00edlio contou o di\u00e1logo que ouvira entre o padre e o diretor<br \/>\ndo col\u00e9gio, e Geminiana, que parecia disposta a n\u00e3o perdoar ao \u00f3rf\u00e3o o ser<br \/>\nt\u00e3o desengra\u00e7ado, acabou ela pr\u00f3pria louvando o procedimento do cunhado.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>VII<\/h2>\n<p>Ningu\u00e9m seria capaz de descrever a como\u00e7\u00e3o que se apoderou do Coruja na sua<br \/>\nprimeira manh\u00e3 daquelas f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Ergueu-se antes do despontar do sol, vestiu uma roupa de Teobaido, que lhe<br \/>\nmandaram p\u00f4r ao lado da cama, e, com as cal\u00e7as e as mangas dobradas, saiu<br \/>\nmais o companheiro ao encontro do bar\u00e3o, que j\u00e1 esperava por eles \u00e0 margem<br \/>\nde um rio, situado a cinq\u00fcenta passos do fundo da casa.<\/p>\n<p>Era a\u00ed que Em\u00edlio dava ao filho as suas li\u00e7\u00f5es de nata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o houve meio de conseguir que o Coruja se despisse na presen\u00e7a dos<br \/>\noutros. J\u00e1 em casa do padre, e tamb\u00e9m no col\u00e9gio, observava-se a mesma coisa;<br \/>\ntinha o Coruja um pudor exagerad\u00edssimo, uma invenc\u00edvel vergonha da nudez;<br \/>\nn\u00e3o podia admitir que ningu\u00e9m lhe visse a pele do corpo. E s\u00f3 depois que o<br \/>\nbar\u00e3o e o filho se banharam, consentiu ele, bem certo de que n\u00e3o era espiado,<br \/>\nem meter-se n\u00e1gua.<\/p>\n<p>Sem dar demonstra\u00e7\u00e3o, o Coruja estava maravilhado com tudo que ia se patenteando<br \/>\nem torno dele. Seu cora\u00e7\u00e3o puro e compassivo, abria-se para receber amplamente<br \/>\naquela grande paz do campo t\u00e3o simp\u00e1tica \u00e0s precoces melancolias de sua pobre<br \/>\nalma.<\/p>\n<p>E as castas propens\u00f5es do Coruja, os gostos imaculados que dormiam a sono<br \/>\nsolto dentro dele, tudo isso acordou alegremente aos primeiros rumores da<br \/>\nfloresta e as primeiras irradia\u00e7\u00f5es da aurora como um bando de p\u00e1ssaros quando<br \/>\nvai amanhecendo.<\/p>\n<p>Nunca se julgou assim feliz. Todas aquelas, vozes da natureza. todo aquele<br \/>\naspecto tranq\u00fcilo das matas e das montanhas, tudo o fascinava secretamente,<br \/>\ncomo se ele tivera nascido ali, entre aquelas coisas t\u00e3o calmas, t\u00e3o boas,<br \/>\nt\u00e3o comunicativas.<\/p>\n<p>Os currais, os trabalhos agr\u00edcolas, o gado grosso e o gado mi\u00fado, a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos animais dom\u00e9sticos, a cultura dos legumes e hortali\u00e7as, tudo isso tinha<br \/>\npara ele um encanto muito particular e muito suave.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o? que tal achas isto aqui? perguntou-lhe Teobaldo, depois de mostrar<br \/>\nao amigo as benfeitorias da fazenda.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo muito bom, respondeu ele.<\/p>\n<p>&#8211; E o velho? Que tal!<\/p>\n<p>&#8211; Bom, muito bom.<\/p>\n<p>&#8211; E Santa?<\/p>\n<p>&#8211; Uma Santa.<\/p>\n<p>&#8211; E a tia Gemi?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 m\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Um pouquinho resingueira, n\u00e3o e verdade? Mas n\u00e3o fa\u00e7as caso, que ela se<br \/>\nchegar\u00e1 as boas. Olha! se a quiseres agradar, faze-te devoto; reza-lhe dois<br \/>\npadre-nossos e t\u00ea-la-\u00e1s conquistado.<\/p>\n<p>E mudando logo de tom;<\/p>\n<p>&#8211; Depois do almo\u00e7o temos um passeio com o velho. Vais ver o que \u00e9 bom! Sabes<br \/>\nmontar a cavalo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, mas aprendo. Onde \u00e9 o passeio?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 fazenda, do Hip\u00f3lito. N\u00e3o \u00e9 longe.<\/p>\n<p>&#8211; Que H\u00edp\u00f3lito?<\/p>\n<p>&#8211; Um vizinho nosso, amigo do velho e pretendente \u00e0 m\u00e3o da tia Gemi.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; Vem comigo \u00e0 estrebaria.<\/p>\n<p>Defronte dos animais, Teobaldo chamou a aten\u00e7\u00e3o do amigo para um belo cavalo<br \/>\nalaz\u00e3o, meio sangue, que o pai lhe havia comprado ainda o ano passado.<\/p>\n<p>&#8211; Eu preferia aquele burro&#8230; disse o Coruja, depois de examinar minuciosamente<br \/>\nas bestas.<\/p>\n<p>&#8211; Qu\u00ea? Pois preferes o jumento \u00e0quele belo alaz\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Decerto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei: gosto mais do burro que do cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Que gosto! Antes andar a p\u00e9.<\/p>\n<p>E acrescentou ainda apontando para o alaz\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Olha s\u00f3 para aquilo! \u00c9 um animal nobre! Parece que tem consci\u00eancia do seu<br \/>\nvalor!<\/p>\n<p>Terminado o almo\u00e7o e vestido o Coruja pelo melhor que se p\u00f4de arranjar, o<br \/>\nbar\u00e3o, os dois meninos e o velho Caetano abandonaram a casa e encaminharam-se<br \/>\npara a estrebaria.<\/p>\n<p>&#8211; Sabes, papai? O Andr\u00e9 prefere ir no burro.<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o \u00e9 cavaleiro. O burro com efeito \u00e9 muito menos perigoso para<br \/>\nele. Anda com isso, \u00f3 Caetano.<\/p>\n<p>Prontos os animais, o velho criado ajudou Coruja a cavalgar o burro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenha medo! gritou-lhe, a segurar a brida. Esta besta \u00e9 mais mansa<br \/>\ndo que uma pomba!<\/p>\n<p>Andr\u00e9, todo vergado sobre o peito e a segurar as r\u00e9deas com ambas as m\u00e3os,<br \/>\nn\u00e3o conseguia endireitar-se na sela do animal, por mais que o amigo lhe gritasse.<\/p>\n<p>&#8211; Espicha as pernas, rapaz! Levanta a cabe\u00e7a! Pareces um macaco!<\/p>\n<p>O bar\u00e3o e o filho, uma vez montados, meteram entre os seus cavalos o jumento<br \/>\nem que ia o Coruja, e puseram-se a caminho, seguidos a certa dist\u00e2ncia pelo<br \/>\ncriado, cuja libr\u00e9 dava \u00e0 modesta cavalgata um ligeiro colorido de aristocracia.<\/p>\n<p>Os primeiros minutos do passeio foram todos gastos com Andr\u00e9, que, diga-se<br \/>\na verdade, fazia o poss\u00edvel para bem aproveitar as li\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Assim! assim! gritou-lhe Teobaldo, metendo as esporas no animal; afrouxa<br \/>\num pouco mais a r\u00e9dea e mete-lhe o chicote com vontade! N\u00e3o tenhas medo!<\/p>\n<p>Coruja foi p\u00f4r em pr\u00e1tica esta ordem, mas com tal precipita\u00e7\u00e3o o fez que<br \/>\no burro se espantou e, dando um salto, cuspiu-o por terra.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 diabo! exclamou Em\u00edlio, fazendo parar o seu cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Ficaste magoado? perguntou Teobaldo ao amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Foi nada! disse o Coruja, erguendo-se a segurar o asno pela r\u00e9dea, e, antes<br \/>\nque lhe pusessem embargos, tomou o estribo, galgou de um pulo a sela e, tocando<br \/>\no animal com certa energia, gritou aos companheiros:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos adiante!<\/p>\n<p>E \u00e0s quatro da tarde, sem nenhum outro incidente desagrad\u00e1vel, voltavam \u00e0<br \/>\nfazenda, trazendo consigo o tal Hip\u00f3lito, que parecia embirrar com o Coruja<br \/>\nainda mais do que a pr\u00f3pria noiva.<\/p>\n<p>Mas com quem n\u00e3o embirraria aquele dem\u00f4nio de barbas pretas e cabelo ruivo,<br \/>\neterno maldizente, capaz de encontrar pontos de censura na vida de Santa Maria<br \/>\ne nas de S. Jos\u00e9?<\/p>\n<p>O bar\u00e3o suportava-o, t\u00e3o somente para n\u00e3o prejudicar a trintona cunhada,<br \/>\nque arriscava-se a ficar solteira se lhe escapasse ocasi\u00e3o de ter marido.<br \/>\nHip\u00f3lito era j\u00e1 um bom arranjo, tinha algum dinheiro e prometia ir muito mais<br \/>\nlonge com o seu sistema de economia que or\u00e7ava sensivelmente pela avareza.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica era talvez a sua paix\u00e3o dominante; ele, por\u00e9m, a disfar\u00e7ava quanto<br \/>\nposs\u00edvel e n\u00e3o se metia com os partidos, receoso de gastar alguma coisa. Aparecia<br \/>\nfreq\u00fcentemente na fazenda de Em\u00edlio e estava sempre a criticar, em segredo<br \/>\ncom a noiva, a educa\u00e7\u00e3o que davam a Teobaldo.<\/p>\n<p>&#8211; Deus queira que n\u00e3o venham a amargar mais tarde! dizia Hip\u00f3lito, cheio<br \/>\nde repreens\u00e3o. Nunca vi em dias de minha vida semelhante g\u00eanero de ensino!<br \/>\nPois se at\u00e9 o fedelho trata aos pais por tu, como se estivesse a falar com<br \/>\nos negros! Enfim cada um faz o que entende; eu, por\u00e9m, tenho o direito de<br \/>\nachar bom ou mau<\/p>\n<p>Outro pretexto constante para a sua indigna\u00e7\u00e3o era a vida dispendiosa de<br \/>\nEm\u00edlio.<\/p>\n<p>&#8211; Para que tanta prosapia e tanta galanice? resmungava fren\u00e9tico. Ora eu,<br \/>\nque sei perfeitamente com que linhas ele se cose, n\u00e3o posso ver isto a sangue<br \/>\nfrio! As conseq\u00fc\u00eancias deste esbanjamento bem sei eu quais s\u00e3o: os parentes<br \/>\nque se apertem! Mas, n\u00e3o h\u00e1 de ser comigo que ningu\u00e9m se arranjar\u00e1: C\u00e1 sei<br \/>\nquanto me custa a conservar o que tenho! E j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 pouco!<\/p>\n<p>Que importava, por\u00e9m, a mastiga\u00e7\u00e3o do serrazina, se ela ficava sepultada<br \/>\nnas discretas orelhas de D. Geminiana?<\/p>\n<p>N\u00e3o seria por isso que as matilhas do Sr. Bar\u00e3o deixariam de acordar as florestas<br \/>\ncom seus latidos, \u00e0 madrugada, em busca de anta ou do porco bravo; n\u00e3o seria<br \/>\npor isso que a mesa do fidalgo seria menos farta. os seus cavalos menos de<br \/>\nra\u00e7a e os seus vinhos menos escolhidos e generosos.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Assim se abria para o Coruja uma exist\u00eancia completamente nova e imprevista,<br \/>\nmas muito ao sabor do seu g\u00eanio r\u00fastico e simples.<\/p>\n<p>A certos divertimentos ia entretanto s\u00f3 pela satisfa\u00e7\u00e3o de acompanhar o amigo,<br \/>\nporque, \u00e0 medida que ele se familiarizava com o campo, acentuavam-lhe os gostos<br \/>\ne as prefer\u00eancias. N\u00e3o trocaria, por exemplo, a mais modesta pescaria pela<br \/>\nmelhor ca\u00e7ada; desagradava-lhe o alvoro\u00e7o, o grito dos batedores, o barulho<br \/>\ndos c\u00e3es e n\u00e3o gostava de ver cair ao tiro das escopetas a pobre besta foragida<br \/>\ne tonta de terror.<\/p>\n<p>A pesca, sim, era um prazer afinado pelo seu temperamento calmo e silencioso;<br \/>\npassava horas esquecidas, de cani\u00e7o em punho, \u00e0 espera que se chimpasse um<br \/>\npeixe no anzol. Teobaldo \u00e0s vezes o acompanhava ao rio por condescend\u00eancia,<br \/>\nmas levava sempre consigo uma espingarda passarinheira.<\/p>\n<p>Era interessante de ver aqueles dois meninos t\u00e3o contr\u00e1rios e t\u00e3o unidos,<br \/>\npartirem de madrugada para o mato, onde passavam quase sempre as melhores<br \/>\nhoras do dia. Andr\u00e9 carregava consigo os utens\u00edlios da pesca e raro dizia<br \/>\numa palavra enquanto matejava; o outro, com a sua passarinheira a tiracolo,<br \/>\nfalava por si e por ele, descrevendo entusiasmado as fa\u00e7anhas do pai ou do<br \/>\nav\u00f4, que muitas vezes, em noite de invernada, ouvira da boca do velho Caetano.<\/p>\n<p>Todavia, um adorava o sossego, a doce e morna tranq\u00fcilidade dos vales ou<br \/>\nas margens frondosas e sombreadas do rio, para onde levava os seus livros<br \/>\nfavoritos, entre os quais Robinson Cruso\u00e9 tinha o primeiro lugar; o outro,<br \/>\nn\u00e3o; o outro s\u00f3 queria da floresta aquilo que ela lhe pudesse dar de imprevisto<br \/>\ne aventuroso: queria a sensa\u00e7\u00e3o, o perigo, o romanesco e o transcendente.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, enquanto o Coruja lia ou pescava \u00e0 beira d\u00e1gua, Teobaldo, ao seu<br \/>\nlado, deitado sobre a relva, olhos fitos na verde-negra c\u00fapula das \u00e1rvores,<br \/>\nsonhava-se her\u00f3i de mil conquistas, cada uma do seu g\u00eanero; t\u00e3o depressa se<br \/>\nvia um grande poeta, como um pol\u00edtico inexced\u00edvel ou um divino orador. Idealizava-se<br \/>\nem toda as atitudes gloriosas dos grandes vultos; n\u00e3o lhe passava pela vista<br \/>\na biografia de qualquer celebridade, fosse esta conquistada pelo talento,<br \/>\npela energia, pela fortuna, pela intrepidez ou pela grandeza dalma, que ele<br \/>\nn\u00e3o descobrisse logo em si muitos pontos de contato com o biografado.<\/p>\n<p>Teobaldo n\u00e3o amava o campo, aceitava-o apenas como um fundo pitoresco em<br \/>\nque devia destacar-se maravilhosamente a sua &#8220;extraordin\u00e1ria figura&#8221;, aceitava-o<br \/>\ncomo simples acess\u00f3rio das suas fantasias. Nunca lhe compreendera as vozes<br \/>\nmisteriosas nem jamais comunicara a sua alma com a dele. Tanta assim que naqueles<br \/>\npasseios, o que mais o preocupava n\u00e3o era a contempla\u00e7\u00e3o da natureza e sim<br \/>\nos pequenos detalhes elegantes que diziam respeito particularmente \u00e0 sua pessoa,<br \/>\ncomo a roupa, o aspecto do animal que montava e a distin\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio que<br \/>\nescolhia.<\/p>\n<p>Ele nunca sa\u00eda a passear sem as suas trabalhadas botas de polimento, sem<br \/>\no seu cal\u00e7\u00e3o de flanela, a sua blusa abotoada at\u00e9 ao pesco\u00e7o e cingida ao<br \/>\nest\u00f4mago por um cintur\u00e3o com fivela de prata; n\u00e3o sa\u00eda sem o seu chap\u00e9u de<br \/>\npluma, a sua bolsa de ca\u00e7a, o seu polvarinho, o seu chumbeiro e, ainda que<br \/>\ntivesse a certeza de n\u00e3o precisar da espingarda, levava-a, porque a espingarda<br \/>\nfazia parte do figurino.<\/p>\n<p>Um dia exigiu que o pai lhe desse uma pistola e um punhal.<\/p>\n<p>Para que diabo queres tu todo esse armamento? Perguntou-lhe o bar\u00e3o, sem<br \/>\npoder deixar de rir.<\/p>\n<p>&#8211; Para o que der e vier&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Descansa, que por aqui n\u00e3o ter\u00e1s necessidade disso.<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu queria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, havemos de ver.<\/p>\n<p>E, para n\u00e3o contrariar de todo o filho, o que n\u00e3o estava em suas m\u00e3os, Albuquerque<br \/>\nestabeleceu nos fundos da casa um tiroc\u00ednio de pontaria ao alvo e consentiu<br \/>\nque o rapaz nos seus passeios \u00e0 mata trouxesse \u00e0 cinta um rico punhal de ouro<br \/>\ne prata que pertencera ao avo.<\/p>\n<p>&#8211; Tu n\u00e3o queres tamb\u00e9m uma arma? perguntou Teobaldo ao Coruja.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; s\u00f3 se fosse um fac\u00e3o para cortar mato.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, voc\u00eas n\u00e3o querem tamb\u00e9m uma pe\u00e7a de artilharia? exclamou o bar\u00e3o,<br \/>\nquando o filho lhe foi pedir o que desejava o amigo.<\/p>\n<p>Enquanto Teobaldo fazia tanta quest\u00e3o das apar\u00eancias e das exterioridades,<br \/>\nAndr\u00e9, enfronhado em um fato de ordin\u00e1ria ganga amarela, que nem era dele,<br \/>\ncom um grande chap\u00e9u de palha na cabe\u00e7a e \u00e0s vezes descal\u00e7o, comprazia-se<br \/>\nem percorrer a fazenda, n\u00e3o em busca de aventuras como o amigo, mas de algu\u00e9m<br \/>\nque lhe ensinasse o nome de cada \u00e1rvore, a utilidade e a serventia de todas<br \/>\nelas, assim como o processo empregado na cultura de tais e tais planta\u00e7\u00f5es,<br \/>\no modo de semear e colher este ou aqueles cereais; qual a \u00e9poca para isto<br \/>\nqual a \u00e9poca para aquilo; queria que lhe explicassem tudo! Uma de suas mais<br \/>\narraigadas preocupa\u00e7\u00f5es era a obscura exist\u00eancia dos insetos; interessava-se<br \/>\nprincipalmente pelos alados, procurando acompanhar-lhes as metamorfoses, desde<br \/>\no estado de larva \u00e0 mariposa. Se lhe despejassem as algibeiras, haviam de<br \/>\nencontrar a\u00ed v\u00e1rias cris\u00e1lidas, besouros e cigarras secas, como encontrariam<br \/>\nigualmente v\u00e1rios caro\u00e7os de fruta e pedrinhas de todos os feitios.<\/p>\n<p>Algumas semanas depois de sua estada na fazenda era ele quem mais se desvelava<br \/>\npelos carneiros e pelos porcos e quem ia dar quase sempre a ra\u00e7\u00e3o aos cavalos.<br \/>\nE, quando havia uma ferradura a pregar ou qualquer tratamento a fazer nos<br \/>\nanimais, mostrava-se t\u00e3o afoito que parecia o \u00fanico respons\u00e1vel por isso.<\/p>\n<p>No fim do primeiro m\u00eas das f\u00e9rias j\u00e1 o Coruja sabia nadar, correr a cavalo,<br \/>\natirar ao alvo e, por tal forma havia-se familiarizado com a vegeta\u00e7\u00e3o, com<br \/>\na terra viva, com o sol e com a chuva, que parecia n\u00e3o ter tido nunca outro<br \/>\nmeio que n\u00e3o fosse aquele.<\/p>\n<p>Em geral acordava muito mais cedo que o amigo e ainda dormia este a sono<br \/>\nsolto, j\u00e1 andava ele a dar uma vista dolhos pelo servi\u00e7o das hortas e dos<br \/>\ncurrais.<\/p>\n<p>Dentre toda essa bela exist\u00eancia s\u00f3 uma coisa o contrariava sem que todavia<br \/>\ndeixasse o Coruja transparecer o menor desgosto contra isso: &#8211; era a teimosa<br \/>\npersegui\u00e7\u00e3o que lhe fazia D. Geminiana. A resingueira senhora achava sempre<br \/>\num mau gesto ou uma palavra dura para lhe antepor aos atos mais singelos.<\/p>\n<p>Manifestou-se-lhe logo a impertin\u00eancia a prop\u00f3sito da flauta do rapaz. Andr\u00e9,<br \/>\ncoitado, n\u00e3o desmentia o mestre que lhe dera o acaso, e D. Geminiana, uma<br \/>\nnoite em que conversava com o noivo, depois de ouvir por algum tempo o fiel<br \/>\ndisc\u00edpulo do Caixa-d\u00f3culos arrancar do criminoso instrumento certas melodias<br \/>\nbastante equivocas, foi ter com ele, sacou-lhe vivamente das m\u00e3os o corpo<br \/>\nde delito e, atirando com este para cima de um canap\u00e9, tornou ao lado de Hip\u00f3lito,<br \/>\nsem dar uma palavra ao delinq\u00fcente, rico, por\u00e9m, de gestos e caretas muito<br \/>\nexpressivas.<\/p>\n<p>O homem das barbas ruivas e cabelo preto observou tudo isso em sil\u00eancio,<br \/>\ncontentando-se apenas com sacudir a cabe\u00e7a e apertar os bei\u00e7os em sinal de<br \/>\naprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Coruja, quando os noivos mergulharam de novo no seu col\u00f3quio, retomou sorrateiramente<br \/>\na flauta e fugiu com ela para um caramanch\u00e3o de maracuj\u00e1s, que havia a alguns<br \/>\npassos da casa. Supunha que da\u00ed n\u00e3o seria ouvido pela r\u00edspida senhora; mas,<br \/>\nno dia seguinte, procurando o instrumento n\u00e3o o encontrou em parte alguma.<\/p>\n<p>&#8211; Minha flauta?&#8230; perguntou ele a D. Geminiana.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 guardada! disse essa secamente. S\u00f3 lha restituirei quando o senhor<br \/>\nvoltar para o col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Coruja resignou-se, sem um gesto de contrariedade e n\u00e3o falou a ningu\u00e9m sobre<br \/>\nesse incidente, nem mesmo ao amigo.<\/p>\n<p>Com efeito, s\u00f3 tornou a ver sua querida flauta ao terminar das f\u00e9rias, quando<br \/>\nse dispunham, ele e Teobaldo, a voltar para o internato do Dr. Mosquito.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o foi lev\u00e1-los em pessoa ao col\u00e9gio, e Santa, chorando pelo filho,<br \/>\ndespedira-se do Coruja, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Continue a ser amigo de Teobaldo e n\u00f3s faremos com que voc\u00ea passe aqui<br \/>\nas f\u00e9rias do ano que vem.<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>VIII<\/h2>\n<p>Com o correr do seguinte ano, a dedica\u00e7\u00e3o do Coruja pelo amigo parecia crescer<br \/>\nde instante para instante. Uma leoa n\u00e3o defenderia os seus cachorros com mais<br \/>\namor e mais zelos.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o se contentava Andr\u00e9 com resguard\u00e1-lo das amea\u00e7as e malqueren\u00e7as dos<br \/>\ncolegas, como exigia tamb\u00e9m de todos que lhe rendessem a mesma estima e o<br \/>\nmesmo respeito, que lhe tributava ele.<\/p>\n<p>Teobaldo, vadio como era por natureza, quase nunca estudava as li\u00e7\u00f5es, e<br \/>\nquando n\u00e3o lhe valiam os recursos do seu &#8220;proverbial talento&#8221; ou da sua ast\u00facia,<br \/>\ntinha de copi\u00e2-las quatro, cinco ou seis vezes, conforme fosse o castigo.<br \/>\nEnt\u00e3o se revoltava e queria protestar contra a senten\u00e7a dos mestres, mas o<br \/>\nCoruja puxava-lhe a ponta do casaco e dizia-lhe baixinho:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te importes, n\u00e3o te importes, que eu me encarrego de tudo&#8230;<\/p>\n<p>E, com efeito, mal chegava a hora do recreio, enterrava-se Andr\u00e9 no quarto<br \/>\nde estudo e, imitando a letra do amigo, aprontava as c\u00f3pias; feliz com aquele<br \/>\ntrabalho, como se o descanso do outro fosse o seu melhor prazer.<\/p>\n<p>Muita vez perdeu com isso grande parte da noite, e no dia seguinte ainda<br \/>\nencontrava tempo para tirar os significados da li\u00e7\u00e3o do amigo, para resolver-lhe<br \/>\nos problemas de \u00e1lgebra e fazer-lhe os temas de latim.<\/p>\n<p>Uma vez, em que o Coruja se apresentou nas aulas sem haver preparado as pr\u00f3prias<br \/>\nli\u00e7\u00f5es, o professor exclamou com surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Pois o senhor, seu Andr\u00e9, pois o senhor n\u00e3o traz a sua li\u00e7\u00e3o sabida!&#8230;<br \/>\nEnt\u00e3o que diabo fez durante o tempo de estudo o senhor que n\u00e3o larga os livros?&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, o outro Teobaldo, estava perfeitamente preparado.<\/p>\n<p>Esta dedica\u00e7\u00e3o fan\u00e1tica de Coruja pelo amigo crescia com o desenvolvimento<br \/>\nde ambos; mas em Teobaldo a gra\u00e7a, o esp\u00edrito e a sagacidade eram o que mais<br \/>\nflorescia; enquanto que no outro eram os m\u00fasculos, o bom senso, a for\u00e7a de<br \/>\nvontade e o f\u00e9rreo e inquebrant\u00e1vel amor pelo trabalho.<\/p>\n<p>Agora, o pequeno do padre j\u00e1 emitia opini\u00e3o sobre v\u00e1rias coisas, j\u00e1 conversava;<br \/>\ntudo isso, por\u00e9m, era s\u00f3 com o seu amigo \u00edntimo, com o seu Teobaldo. Parecia<br \/>\nat\u00e9 que, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que abria o cora\u00e7\u00e3o para este, mais o fechava para os<br \/>\nestranhos.<\/p>\n<p>Quando terminou o ano, o filho do bar\u00e3o havia crescido meio palmo e o Coruja<br \/>\nengrossado outro tanto; aquele se fizera ainda mais esbelto, mais distinto<br \/>\ne mais formoso; este ainda mais pesado, mais insoci\u00e1vel e mais feio.<\/p>\n<p>Afinal, assim t\u00e3o completados, formavam entre os seus companheiros uma for\u00e7a<br \/>\nirresist\u00edvel. Teobaldo era a palavra cintilante e ferina, era a temeridade<br \/>\ne o arrojo; o outro era o bra\u00e7o em a\u00e7\u00e3o, a for\u00e7a e o peso do m\u00fasculo. Um provocava<br \/>\ne o outro resistia.<\/p>\n<p>Um era o florete aristocr\u00e1tico, fino e agu\u00e7ado, que s\u00f3 tem a serventia de<br \/>\npalitar os dentes do orgulho; o outro era o malho grosseiro e s\u00f3lido, que<br \/>\ntanto serve para esmagar, corno serve para construir.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Partiram de novo para a fazenda,, deixando atr\u00e1s de si a solene gratid\u00e3o<br \/>\ndo col\u00e9gio pelo cat\u00e1logo da biblioteca, que &#8220;eles&#8221; conclu\u00edram e ofereceram<br \/>\nao estabelecimento; e deixando tamb\u00e9m por parte de seus condisc\u00edpulos um rastro<br \/>\nde \u00f3dios, \u00f3dios que serviram ali\u00e1s durante o ano para melhor os aproximar<br \/>\ne unir, acabando por constitu\u00ed-los em uma esp\u00e9cie de ser \u00fanico, do qual um<br \/>\nera a fantasia e outro o senso pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que lhes chegou a not\u00edcia da morte do padre Est\u00eav\u00e3o; sucumbira<br \/>\ninesperadamente a um aneurisma, do qual nunca desconfiou sequer, e, no testamento,<br \/>\nlegara o pouco que tinha a uma comadre e \u00e0quela criada de mau g\u00eanio que o<br \/>\nservira.<\/p>\n<p>Quanto ao Coruja, nem uma refer\u00eancia, nem um conselho ao menos; o que fazia<br \/>\ncrer fosse escrito o testamento antes da ado\u00e7\u00e3o do pequeno e nunca mais reformado.<\/p>\n<p>Esta circunst\u00e2ncia da morte do padre levou Andr\u00e9 a pensar em si, a pensar<br \/>\nna sua vida e no seu destino. Interrogou o passado e o futuro e, pela primeira<br \/>\nvez, encarou de frente a posi\u00e7\u00e3o que ocupava ali, naquela fazenda do Bar\u00e3o<br \/>\ndo Palmar, esse protetor t\u00e3o do acaso como o primeiro que tivera ele. Ent\u00e3o<br \/>\nnotou que na sua curta e triste exist\u00eancia passara de uma para outra m\u00e3o,<br \/>\nque nem um fardo in\u00fatil e sem dono.<\/p>\n<p>&#8211; Que ser\u00e1 de mim? perguntava o infeliz a si mesmo nas suas longas horas<br \/>\nde concentra\u00e7\u00e3o. Mas o amigo, com a prematuridade intuitiva do seu esp\u00edrito,<br \/>\nsaltava-lhe em frente, antecipando raz\u00f5es, como se adivinhara todos os pensamentos<br \/>\nde Andr\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Em que tanto pensas tu, meu urso? Perguntava-lhe ele, quando se achavam<br \/>\na s\u00f3s, no bosque; j\u00e1 ontem \u00e0 noite n\u00e3o quiseste aparecer na sala e cada vez<br \/>\nmais te escondes de todos, nem como se fosse um criminoso.<\/p>\n<p>&#8211; E quem sabe l\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Qu\u00ea? Se \u00e9s um criminoso?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim. A necessidade, quando chega a um certo ponto de impertin\u00eancia, que<br \/>\nmais \u00e9 sen\u00e3o um crime? Que direito tenho eu de incomodar os outros?<\/p>\n<p>&#8211; Exageras.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. A caridade \u00e9 muito f\u00e1cil de ser exercida e chega a ser at\u00e9 consoladora<br \/>\ne divertida, mas s\u00f3 enquanto n\u00e3o se converte em ma\u00e7ada.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te compreendo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu me farei compreender. Vou contar-te uma par\u00e1bola, que o defunto<br \/>\npadre Est\u00eav\u00e3o repetia constantemente.<\/p>\n<p>&#8211; Venha a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8211; Senta-te a\u00ed nesse tronco de \u00e1rvore e escuta:<\/p>\n<p>Era um dia um sacerdote, que pregava a caridade.<\/p>\n<p>&#8220;- A caridade, dizia ele, deve ser exercida sempre e apesar de tudo&#8221;.<\/p>\n<p>Vai um caboclo, que o ouvira atentamente, perguntou-lhe depois do serm\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;- \u00d3 s\u00f4r padre, \u00e9 caridade enterrar os mortos?<\/p>\n<p>&#8220;- Decerto, respondeu o pregador; \u00e9 uma obra de miseric\u00f3rdia&#8221;.<\/p>\n<p>E o caboclo saiu, matou uma raposa e foi esperar o sacerdote na estrada;<br \/>\nquando sentiu que ele se aproximava, p\u00f4s a raposa no meio do caminho e escondeu-se<br \/>\nno mato. O padre, ao topar com ela e observando que estava morta, ajoelhou-se,<br \/>\ne cavou no ch\u00e3o, enterrou-a e, depois de dizer uma senten\u00e7a religiosa, seguiu<br \/>\no seu caminho. O caboclo, assim que o viu pelas costas, correu \u00e0 sepultura,<br \/>\nsacou a raposa e, ganhando por um atalho, foi mais adiante e jogou com ela<br \/>\nao meio da estrada, antes que o pregador tivesse tempo de chegar; este, por\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o tardou muito e, ao ver de novo uma raposa no caminho, fez o que fizera<br \/>\nda primeira vez, enterrou-a, mas sem se ajoelhar, nem repetir a sua m\u00e1xima<br \/>\nlatina. O caboclo deixou-o seguir, tomou de novo da raposa e foi dep\u00f4-la mais<br \/>\npara diante na estrada; o padre ao top\u00e1-la, enterrou-a j\u00e1 de mau humor e prosseguiu<br \/>\nreceoso de encontrar outras raposas mortas. Todavia, o caboclo n\u00e3o estava<br \/>\nainda satisfeito e repetiu a brincadeira; mas, desta vez, o padre perdeu de<br \/>\ntodo a paci\u00eancia e, tomando a raposa &#8216;pelo rabo, lan\u00e7ou-a ao mato com estas<br \/>\npalavras: &#8220;Leve o diabo tanta raposa morta!&#8221; Ent\u00e3o o caboclo lhe apareceu<br \/>\ne disse: &#8220;- J\u00e1 vejo que enterrar um morto \u00e9 obra de caridade, mas fazer o<br \/>\nmesmo quatro ou cinco vezes \u00e9 nada menos do que uma formid\u00e1vel estopada!&#8221;<br \/>\nAo que o sacerdote respondeu que, desde que houvesse abuso da parte do protegido,<br \/>\nera natural que o protetor se enfastiasse&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Queres dizer com isso, observou Teobaldo, que j\u00e1 estamos fartos de te aturar..<\/p>\n<p>&#8211; Decerto, porque tudo cansa neste mundo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s injusto e, se meu pai e minha m\u00e3e te ouvissem, ficariam bravos comigo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! eles n\u00e3o me ouvir\u00e3o, podes ficar tranq\u00fcilo. S\u00f3 a ti falo porque n\u00f3s<br \/>\nnos entendemos e bem sabes que n\u00e3o sou ingrato.<\/p>\n<p>&#8211; Meus pais te compreendem t\u00e3o bem ou melhor do que eu.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o me perdoam, como tu perdoas, o fato de ser eu t\u00e3o feio, t\u00e3o antip\u00e1tico<br \/>\ne t\u00e3o desengra\u00e7ado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora! a\u00ed vens tu com a cantiga do costume. Deixa-te disso e vamos dar um<br \/>\npasseio \u00e0 rocinha do Jo\u00e3o da Cinta.<\/p>\n<p>&#8211; Outra vez? Que diabo vamos l\u00e1 fazer agora?<\/p>\n<p>&#8211; Convid\u00e1-lo e mais a fam\u00edlia para virem ao casamento da tia Geminiana.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 sempre no dia 15 o casamento?<\/p>\n<p>&#8211; Infalivelmente, e o alfaiate deve trazer-nos amanh\u00e3 os nossos fatos novos.<br \/>\nMas, anda, vamos!<\/p>\n<p>Coruja ergueu-se do lugar onde estava assentado e acompanhou o amigo, que<br \/>\nj\u00e1 se havia posto a caminho.<\/p>\n<p>Tr\u00eas quartos de hora depois chegavam a um grande cercado de acapu, a cuja<br \/>\nfrente corria um riacho quase escondido entre a vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Teobaldo parou, disse ao amigo que esperasse um pouco por ele e, trancando<br \/>\npelos barrancos do riacho, foi ter \u00e0 cerca e soltou um prolongado assobio.<\/p>\n<p>A este sinal, com a presteza de quem est\u00e1 de alcat\u00e9ia, surgiu logo uma rapariguita<br \/>\nde uns treze anos, forte, corada e bonitinha.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! disse ela, vindo encostar-se \u00e0s estacas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o esperavas por mim?&#8230; perguntou o rapaz. A pequena respondeu, entregando-lhe<br \/>\num ramilhete que trazia \u00e0 sorrelfa. E perguntou depois como passava de sa\u00fade<br \/>\no Sr. Teobaldo.<\/p>\n<p>&#8211; Com saudades tuas&#8230; disse o mo\u00e7o, tomando-lhe uma das m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Mentiroso..<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acreditas?<\/p>\n<p>Ela encolheu os ombros, a sorrir, de olhos baixos.<\/p>\n<p>&#8211; Dize a teu pai que n\u00e3o deixe de ir com voc\u00eas ao casamento de tia Gemi.<br \/>\nVim convid\u00e1-los.<\/p>\n<p>&#8211; Entre. Fale com mam\u00e3e. Ela est\u00e1 a\u00ed.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; \u00e9 bastante que lhe d\u00eas o recado.<\/p>\n<p>E mudando de tom:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o faltes, hein, Joaninha?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se me levarem, eu vou.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1, que lhe tenho uma coisa a dizer&#8230;<\/p>\n<p>Teobaldo havia conseguido passar o bra\u00e7o por entre duas estacas da cerca<br \/>\ne segurava a cintura da rapariga; deu-lhe um beijo; ela o retribuiu com outro<br \/>\nde igual sonoridade, fazendo-se muito vermelha e fugindo logo em seguida.<\/p>\n<p>Este namoro, inocente de parte a parte, era o primeiro de Teobaldo. Nascera<br \/>\nnaquelas f\u00e9rias um dia em que ele, por acaso, encontrou a pequena a lavar<br \/>\nno riacho em frente da casa as roupinhas do irm\u00e3o mais novo. Desde ent\u00e3o ia<br \/>\nv\u00ea-la todas as tardes antes do jantar; falavam-se \u00e0s vezes \u00e0 beira do c\u00f3rrego,<br \/>\noutras vezes com a cerca de permeio. De certa \u00e9poca em diante ela o esperava<br \/>\ncom um ramilhete; conversavam durante um quarto de hora e despediam-se com<br \/>\num beijo.<\/p>\n<p>O Coruja foi logo o deposit\u00e1rio do segredo; Teobaldo contou-lhe a sua aventura<br \/>\ne exigiu que ele o acompanhasse todos os dias \u00e0 rocinha do Jo\u00e3o da Cinta,<br \/>\nquedando-se a certa dist\u00e2ncia durante o tempo da entrevista.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 consentiu, sem mostrar o mais ligeiro espanto pelo que lhe revoltara<br \/>\no amigo.<\/p>\n<p>Ainda inocente e deveras casto, n\u00e3o conhecia os meandros do amor e julgava<br \/>\ndos outros cora\u00e7\u00f5es pelo seu, que resumia toda a gama do afeto e da ternura<br \/>\nem uma nota \u00fanica. N\u00e3o calculava a que podia chegar aquele inocente namoro<br \/>\noriginado entre o filho do Sr. Bar\u00e3o do Palmar e uma sertaneja, que nem ler<br \/>\nsabia.<\/p>\n<p>No dia seguinte o Coruja passeava sozinho por uma alameda sua favorita, quando<br \/>\no Caetano lhe foi dizer que o Sr. Teobaldo o mandava chamar e ficava \u00e0 espera<br \/>\ndele no quarto.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 correu ao encontro do amigo.<\/p>\n<p>&#8211; Chegaram as nossas roupas! exclamou este ao v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>E sua fisionomia rejubilava com essas palavras.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! fez o outro, quase com indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Experimentemos.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 tempo.<\/p>\n<p>O alfaiate observou que n\u00e3o podia demorar-se muito.<\/p>\n<p>&#8211; Deve estar direito&#8230; respondeu Andr\u00e9. Pode deixar.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bom sempre ver&#8230; insistiu o alfaiate.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 indispens\u00e1vel! acrescentou Teobaldo.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 n\u00e3o teve rem\u00e9dio sen\u00e3o experimentar a roupa. Era um fato preto, fato<br \/>\nde luto, que mal deixava perceber o colarinho da camisa.<\/p>\n<p>E ele, pequeno, grosso, cabe\u00e7udo, e queixo saliente, os olhos fundos, com<br \/>\nas suas bossas superciliais principiando a desenvolver-se pelo h\u00e1bito da medita\u00e7\u00e3o;<br \/>\nele, enfardelado naquela roupa muito s\u00e9ria, toda abotoada, s\u00f3 precisava de<br \/>\nuns \u00f3culos para ser uma infantil caricatura do velho Thiers.<\/p>\n<p>Contudo, e apesar dos conselhos que lhe dava o amigo para mandar diminuir<br \/>\ntr\u00eas dedos no comprimento do palet\u00f3 e tirar um pouco de pano das costas, achou<br \/>\nque estava magn\u00edfica.<\/p>\n<p>&#8211; Ao menos, disse Teobaldo, que acabava de se vestir, manda encurtar essas<br \/>\ncal\u00e7as, rapaz! e soltar a bainha dessas mangas!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o boas&#8230; teimou o Coruja, esfor\u00e7ando-se por fazer chegar as mangas<br \/>\nat\u00e9 \u00e0s m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Parece que te meteste nas cal\u00e7as de teu av\u00f4.<\/p>\n<p>E voltando-se para o alfaiate:<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o sei como o senhor tem \u00e2nimo de apresentar unia obra desta ordem&#8230;<br \/>\nEst\u00e1 uma porcaria!<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o! respondeu o alfaiate, dispondo-se logo a modificar a roupa de Andr\u00e9.<br \/>\nVossemec\u00ea poderia dizer isso se a sua roupa n\u00e3o sa\u00edsse boa, e essa est\u00e1 que<br \/>\n\u00e9 uma luva, mas, quanto \u00e0 deste mo\u00e7o, nem s\u00f3 \u00e9 a primeira vez que trabalho<br \/>\npara ele, como n\u00e3o podia acreditar que houvesse algu\u00e9m com as pernas t\u00e3o curtas<br \/>\ne os bra\u00e7os t\u00e3o compridos. Parece um macaco!<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem, veja l\u00e1 o que \u00e9 preciso fazer na roupa, e deixe-se de compara\u00e7\u00f5es!<br \/>\nobservou Teobaldo, defronte do espelho, a endireitar-se, muito satisfeito<br \/>\ncom a sua pessoa.<\/p>\n<p>Para esse dia estava reservado ao Andr\u00e9 uma surpresa muito agrad\u00e1vel: D.<br \/>\nGeminiana, tendo com o casamento de separar-se. do sobrinho, queria deixar<br \/>\na este uma lembran\u00e7a qualquer e mandou buscar da corte um bom rel\u00f3gio de ouro<br \/>\ne a respectiva corrente. A encomenda chegou essa noite, Teobaldo recebeu o<br \/>\nseu presente da tia e, ato cont\u00ednuo, tomou do antigo rel\u00f3gio e da cadeia que<br \/>\nat\u00e9 aqui usara, e deu tudo ao Coruja.<\/p>\n<p>Seja dito que um dos sonhos dourados de Andr\u00e9 era possuir um rel\u00f3gio; desejava-o,<br \/>\nn\u00e3o como objeto de luxo, mas como objeto de utilidade imediata.<\/p>\n<p>&#8211; Poder contar o tempo pelas horas, pelos minutos e pelos segundos!&#8230;<\/p>\n<p>Isto para aquele esp\u00edrito met\u00f3dico e regrado era nada menos do que uma felicidade.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>IX<\/h2>\n<p>Durante o tempo que precedeu ao casamento, a fazenda do Sr. Bar\u00e3o do Palmar<br \/>\ndescaiu um tanto da sua patriarcal serenidade e tomou um quente aspecto de<br \/>\nfestas, porque com muita anteced\u00eancia come\u00e7aram a chegar os convidados.<\/p>\n<p>Em\u00edlio quis reunir os seus vizinhos de uma l\u00e9gua em derredor e n\u00e3o se poupou<br \/>\na esfor\u00e7os para que nada lhes viesse a faltar. Havia de ser uma festa verdadeiramente<br \/>\ngamaquiana.<\/p>\n<p>Ao lado das delicadas distra\u00e7\u00f5es das salas, o jogo, a \u00c1 dan\u00e7a, a m\u00fasica e<br \/>\na palestra, queria ele a grande fartura da mesa e da copa; queria o grosso<br \/>\nprazer pantagru\u00e9lico: &#8211; Carne para mil! &#8211; Vinho para outros tantos!<\/p>\n<p>\u00c0 faca as grandes reses que pastavam sossegadamente no campo; \u00e0 faca os trepegos,<br \/>\nos chibarros, os carneiros e os perus! Que n\u00e3o ficassem por ali, naquelas<br \/>\ncinco l\u00e9guas mais pr\u00f3ximas, est\u00f4magos nem cora\u00e7\u00f5es com laivos de tristeza!<\/p>\n<p>O casamento devia efetuar-se na pr\u00f3pria capela da fazenda, e meio m\u00eas antes<br \/>\nda festa j\u00e1 ningu\u00e9m descansava em casa de Em\u00edlio. Vieram cozinheiros de longe;<br \/>\ncada convidado trazia dois e tr\u00eas serventes e, apesar disso, havia trabalho<br \/>\npara todos.<\/p>\n<p>O Coruja ia pela primeira vez em sua vida assistir a um baile, e essa id\u00e9ia,<br \/>\nlonge de o alegrar, trazia-lhe uni fundo ressaibo &amp;3 amargura, como se<br \/>\no desgra\u00e7ado estivesse \u00e0 espera de uma terr\u00edvel prova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato de perturbarem a calma exist\u00eancia da fazenda, s\u00f3 por si j\u00e1 n\u00e3o lhe<br \/>\nera de forma alguma agrad\u00e1vel; quanto mais a id\u00e9ia de ter de acotovelar-se<br \/>\ncom pessoas inteiramente estranhas, a quem sem d\u00favida n\u00e3o iria ele produzir<br \/>\nbom efeito com a sua triste figura desengra\u00e7ada.<\/p>\n<p>Oh! se fosse poss\u00edvel ao Coruja presenciar toda aquela festa, sem ali\u00e1s ser<br \/>\ndescoberto por ningu\u00e9m!&#8230; se ele pudesse, por um meio maravilhoso, tornar-se<br \/>\nem puro esp\u00edrito e estar ali a ver, a observar, a ouvir o que dissessem todos,<br \/>\nsem que ningu\u00e9m desse pela presen\u00e7a dele &#8211; oh! ent\u00e3o conseguiria desfrutar,<br \/>\ne muito!<\/p>\n<p>Chegou entretanto a v\u00e9spera do grande dia, e de todos os pontos come\u00e7avam<br \/>\na surgir, desde pela manh\u00e3, convidados a p\u00e9, a cavalo e de carro.<\/p>\n<p>Um enorme telheiro, que se havia engendrado de improviso nos fundos da casa,<br \/>\nficou cheio de cavalgaduras, troles, carro\u00e7\u00f5es e seges das que se usavam no<br \/>\ntempo.<\/p>\n<p>A fazenda apresentava um aspecto magn\u00edfico. Em\u00edlio, como homem de gosto que<br \/>\nera, procurou afesto\u00e1-la quanto poss\u00edvel. Por toda a parte viam-se flor\u00f5es<br \/>\nde murta engranzados com as parasitas mais caprichosas; jogos d\u00e1gua formando<br \/>\nesplendidos matizes \u00e0 refra\u00e7\u00e3o das luzes multicores das lanternas chinesas.<br \/>\nDefronte da casa o fogo de artif\u00edcio, que seria queimado pelo correr da noite.<\/p>\n<p>\u00c0s seis horas da tarde uma salva de vinte tiros de pe\u00e7a anunciou que estava<br \/>\nterminada a cerimonia religiosa do casamento e que principiava o banquete.<br \/>\nOs noivos foram tomar a cabeceira da mesa acompanhados por mais de quinhentas<br \/>\npessoas.<\/p>\n<p>Como nenhum dos aposentos da casa podia comportar tanta gente, o bar\u00e3o fez<br \/>\nlevantar no vasto terreiro da fazenda uma enorme tenda de lona, sustentada<br \/>\npor valentes carnaubeiras, engrinaldadas de verdura.<\/p>\n<p>Nessa festa foi que o Coruja teve ocasi\u00e3o de apreciar mais largamente as<br \/>\nbrilhantes qualidades do amigo. Viu-o e admirou-o ao lado das damas, cortes<br \/>\ne cavalheiro como um homem; viu-o igualmente ao lado dos amigos do pai e notou<br \/>\nque Teobaldo nem uma s\u00f3 vez ca\u00eda em qualquer infantilidade, e mais, que todos,<br \/>\ntodos, at\u00e9 os velhos, prestavam-lhe a maior aten\u00e7\u00e3o, sem d\u00favida fascinados<br \/>\npelo talento e pelas gra\u00e7as do rapaz; viu-o na biblioteca, tomando parte nos<br \/>\njogos carteados, que Andr\u00e9 nem sequer conhecia de nome, e reparou que ele<br \/>\npuxava por dinheiro e ganhava ou perdia com uma distin\u00e7\u00e3o sedutoramente fidalga;<br \/>\nviu-o nas salas da dan\u00e7a, conduzindo uma senhora ao passo da mazurca, teso,<br \/>\ncorreto, elegante mais do que nunca, e como possu\u00eddo de orgulho pelo gentil<br \/>\ntesouro que levava nos bra\u00e7os; viu-o \u00e0 mesa erguer-se de ta\u00e7a em punho e fazer<br \/>\num brinde \u00e0 noiva, levantando aplausos de toda a gente, e o Coruja, de cujas<br \/>\nm\u00e3os sa\u00edra ali\u00e1s essa festejada pe\u00e7a liter\u00e1ria, chegou a desconhecer a sua<br \/>\nobra, tal era o realce que lhe emprestavam os dotes orat\u00f3rios do amigo; viu-o<br \/>\ndepois ao ar livre, debaixo das \u00e1rvores, a beber ponches e a mexer com a filha<br \/>\ndo Jo\u00e3o da Cinta, a qual olhava para ele, escrava e submissa, como defronte<br \/>\nde um Deus.<\/p>\n<p>Mas tudo isso n\u00e3o o fez ficar t\u00e3o fortemente impressionado, como quando o<br \/>\ncontemplou ao lado de Santa, ao lado daquela ador\u00e1vel m\u00e3e que parecia resplandecer<br \/>\nde orgulho e satisfa\u00e7\u00e3o a rever-se no filho idolatrado.<\/p>\n<p>Foi com a alma banhada pelos efl\u00favios da felicidade de Teobaldo que o pobre<br \/>\nCoruja ouviu palpitar entre essas duas criaturas as seguintes palavras, mais<br \/>\nternas e harmoniosas que um di\u00e1logo de beijos:<\/p>\n<p>&#8211; Amas-me muito, meu filho?<\/p>\n<p>&#8211; Eu te adoro, minha Santa.<\/p>\n<p>&#8211; E nunca te esquecer\u00e1s de mim?<\/p>\n<p>&#8211; Juro-te que nunca.<\/p>\n<p>&#8211; Nem mesmo depois de eu ter morrido?<\/p>\n<p>&#8211; Nem mesmo depois de teres ido para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; E sabes tu, meu filho, o muito que te quero?<\/p>\n<p>&#8211; Queres-me tanto quanto eu a ti.<\/p>\n<p>&#8211; E sabes quanto sofreria tua m\u00e3e se por instantes te esquecesses dela?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, porque n\u00e3o sei como possa a gente se esquecer de ti.<\/p>\n<p>&#8211; E, quando fores completar os teus estudos na corte, juras que..<\/p>\n<p>N\u00e3o pode ir adiante. A id\u00e9ia da separa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 se avizinhava a passos largos,<br \/>\ntolheu-lhe a fala com uma explos\u00e3o de solu\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, Santa, ent\u00e3o, que \u00e9 isso? murmurou Teobaldo, erguendo-se e chamando<br \/>\npara sobre o seu peito a cabe\u00e7a da baronesa &#8211; N\u00e3o chores! n\u00e3o te mortifiques!&#8230;<\/p>\n<p>Em\u00edlio acudiu logo, afastou o filho com um gesto e, tomando o lugar deste,<br \/>\nsegredou ao ouvido da esposa:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, minha amiga, nada de loucuras!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso conformar-me com a id\u00e9ia de que Teobaldo torna a separar-se de<br \/>\nmim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem sabes que \u00e9 indispens\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perdoa-me. Ningu\u00e9m melhor do que eu aprecia os teus atos e as tuas inten\u00e7\u00f5es.<br \/>\nSei que ele precisa fazer um futuro condigno do seu talento; sei que n\u00e3o podemos<br \/>\nacompanh\u00e1-lo de perto, n\u00e3o podemos morar na corte, porque as nossas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde fortuna j\u00e1 n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Santa! olha que te podem ouvir!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me conformo com esta separa\u00e7\u00e3o! \u00c9 talvez um pressentimento infundado;<br \/>\n\u00e9 talvez loucura, como dizes, mas n\u00e3o est\u00e1 em minhas m\u00e3os; sou m\u00e3e, e ele<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o digno de ser amado.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, valha-me Deus! n\u00e3o \u00e9 uma separa\u00e7\u00e3o eterna&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei! \u00c9 que uma terr\u00edvel id\u00e9ia me preocupa. Afigura-se-me que nunca<br \/>\nmais o tornarei a ver!&#8230; Oh! nem quero pensar nisto!<\/p>\n<p>E os solu\u00e7os transbordaram-lhe de novo, ainda com mais \u00edmpeto que da primeira<br \/>\nvez.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o, sem perder uma linha do seu donaire, passou o bra\u00e7o na cintura da<br \/>\nesposa e, deixando que ela se lhe apoiasse de todo no ombro, arrastou-a vagarosamente<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 sua alcova.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Coruja, ignorado a um canto da sala, viu e ouviu tudo isso, e ao ver aquelas<br \/>\nl\u00e1grimas de m\u00e3e e ao ouvir aquelas palavras de tanto amor e aqueles beijos<br \/>\nmais doces do que as b\u00ean\u00e7\u00e3os do c\u00e9u, que estranhas amarguras sua alma n\u00e3o<br \/>\ncarpiu em silencio!&#8230;<\/p>\n<p>Amargura, sim, que, por menos ego\u00edsta, por menos homem que fosse ele, do<br \/>\nfundo do seu cora\u00e7\u00e3o havia de sair um grito de revolta contra aquela injusti\u00e7a<br \/>\nda sorte, que para uns dava tudo e para outros nada!<\/p>\n<p>Aquele espet\u00e1culo de tamanha felicidade havia fatalmente de amargur\u00e1-lo.<br \/>\nAinda se Teobaldo, possuindo muitos dotes fosse ao menos feito como ele, o<br \/>\nCoruja; ainda se fosse miser\u00e1vel ou est\u00fapido, &#8211; v\u00e1! Mas n\u00e3o! Teobaldo era<br \/>\nlindo, era rico, era talentoso e, al\u00e9m de tudo &#8211; amado! amado por tantas criaturas<br \/>\ne, principalmente, por aquela ador\u00e1vel m\u00e3e, cujos beijos e cujas l\u00e1grimas<br \/>\neram o bastante para lhe ado\u00e7ar todos os espinhos da vida.<\/p>\n<p>E Andr\u00e9, assim considerando, via-se perfeitamente, tinha-se defronte dos<br \/>\nolhos, como se estivesse em frente a um espelho. L\u00e1 estava ele &#8211; com a sua<br \/>\ndisforme cabe\u00e7a engolida pelos ombros, com o seu torvo olhar de fera mal domesticada,<br \/>\ncom os sobrolhos carregados, a boca fechada a qualquer alegria, as m\u00e3os \u00e1speras<br \/>\ne curtas, os p\u00e9s grandes, o todo reles, miser\u00e1vel, nulo!<\/p>\n<p>O desgra\u00e7ado, por\u00e9m, em vez de dar ouvidos a estes racioc\u00ednios, voltou-se<br \/>\ntodo para uma voz \u00edntima, uma voz que tamb\u00e9m lhe vinha do cora\u00e7\u00e3o, mas toda<br \/>\nbrandura e humildade.<\/p>\n<p>E essa voz lhe dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, miser\u00e1vel! ingrato! tu, que \u00e9s \u00f3rf\u00e3o; tu que n\u00e3o tens onde cair<br \/>\nmorto; tu, que \u00e9s feio, que \u00e9s o Coruja; tu, que n\u00e3o tens nenhum dote brilhante,<br \/>\nque n\u00e3o \u00e9s distinto, nem espirituoso, nem possuis m\u00e9rito de esp\u00e9cie alguma;<br \/>\ntu, mal agradecido! &#8211; \u00e9s amado por Teobaldo, que disp\u00f5e de tudo isso \u00e0 larga<br \/>\ne que te faz penetrar sua sombra no santu\u00e1rio de cora\u00e7\u00f5es onde nunca penetrarias<br \/>\nsem ele.<\/p>\n<p>E o Coruja, saindo da sala para respirar l\u00e1 fora mais \u00e0 vontade, p\u00f4s-se a<br \/>\ncaminhar, a caminhar \u00e0 toa entre as sombras das \u00e1rvores, sentindo-se arrebatado<br \/>\npor um inef\u00e1vel desejo de ser bom, um desejo de ser eternamente grato a quem,<br \/>\npossuindo todas as riquezas, o escolhia para seu \u00edntimo, para seu irm\u00e3o &#8211;<br \/>\na ele, que nada possu\u00eda sobre a terra.<\/p>\n<p>Ser &#8220;bom&#8221;!<\/p>\n<p>Mas seria isso humildade ou seria ambi\u00e7\u00e3o e orgulho?<\/p>\n<p>Quem poder\u00e1 afirmar que aquele enjeitado da natureza n\u00e3o se queria vingar<br \/>\nda pr\u00f3pria m\u00e3e fazendo de si um monstro de bondade? Sim. Vingar-se, fugindo<br \/>\nda esfera mesquinha dos homens, fugindo \u00e0s paix\u00f5es, \u00e0s pequenas mis\u00e9rias mundanas<br \/>\ne procurando refugiar-se no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, ainda receoso de que o c\u00e9u, c\u00famplice<br \/>\nda terra, lhe negasse tamb\u00e9m a gra\u00e7a de um abrigo.<\/p>\n<p>Ou quem sabe ent\u00e3o se o ambicioso, vendo-se completamente deserdado de todos<br \/>\nos dotes simp\u00e1ticos a que tem direito a sua esp\u00e9cie, n\u00e3o queria supri-los<br \/>\npor uma virtude \u00fanica e extraordin\u00e1ria &#8211; a bondade?<\/p>\n<p>A bondade, esse pouco!<\/p>\n<p>Vision\u00e1rio! N\u00e3o se lembrava de que a bondade, \u00e1 for\u00e7a de ser esquecida e<br \/>\ndesprezada, converteu-se em uma hip\u00f3tese ou s\u00f3 aparece no mercado social em<br \/>\npequenas part\u00edculas distribu\u00eddas por milhares de criaturas; como se dessa<br \/>\nher\u00f3ica virtude houvesse apenas uma certa e determinada por\u00e7\u00e3o desde o come\u00e7o<br \/>\ndo mundo e que, de ent\u00e3o para c\u00e1, \u00e0 medida que se multiplicaram as ra\u00e7as.<br \/>\nela se fora dividindo e subdividindo at\u00e9 reduzir-se a p\u00f3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I II III &nbsp; IV V VI &nbsp; VII VIII IX \u00a0O Coruja &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo I Quando, em uma das pequenas cidades de Minas, faleceu a vi\u00fava do obscuro e j\u00e1 ent\u00e3o esquecido procurador Miranda, o pequenito Andr\u00e9, \u00fanico fruto deste extinto casal, tinha [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92150","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Coruja - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra O Coruja - Alu\u00edsio de Azevedo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Coruja - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Romance, Naturalismo, Narrativa, Jo\u00e3o Est\u00eav\u00e3o, Andr\u00e9, Teobaldo, Literatura, O Coruja - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Coruja - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra O Coruja - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Coruja - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Romance, Naturalismo, Narrativa, Jo\u00e3o Est\u00eav\u00e3o, Andr\u00e9, Teobaldo, Literatura, O Coruja - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-coruja-aluisio-de-azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-03T15:31:51+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2018-05-03T18:14:16+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"100 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-coruja-aluisio-de-azevedo#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-coruja-aluisio-de-azevedo\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"O Coruja &#8211; 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