{"id":92145,"date":"2017-01-03T11:39:10","date_gmt":"2017-01-03T13:39:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92145"},"modified":"2026-03-05T18:52:11","modified_gmt":"2026-03-05T20:52:11","slug":"o-cortico-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-cortico-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"O Corti\u00e7o &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\" height=\"128\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong>I<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#2\">II<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#3\">III<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#4\">IV<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#5\">V<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#6\">VI<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#7\">VII<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#8\"><strong>VIII<\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#9\"><strong>IX<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#10\">X<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#11\">XI<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#12\">XII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#13\">XIII &#8211; XVII<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#18\">XVIII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#19\">XIX<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#20\">XX<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#21\">XXI<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#22\">XXII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#23\">XXIII<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I<\/h2>\n<p>Jo\u00e3o Rom\u00e3o foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro<br \/>\nque enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos<br \/>\ndo bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara nessa d\u00fazia<br \/>\nde anos, que, ao retirar-se o patr\u00e3o para a terra, lhe deixou, em pagamento<br \/>\nde ordenados vencidos, nem s\u00f3 a venda com o que estava dentro, como ainda<br \/>\num conto e quinhentos em dinheiro. Propriet\u00e1rio e estabelecido por sua conta,<br \/>\no rapaz atirou-se \u00e0 labuta\u00e7\u00e3o ainda com mais ardor, possuindo-se de tal del\u00edrio<br \/>\nde enriquecer, que afrontava resignado as mais duras priva\u00e7\u00f5es. Dormia sobre<br \/>\no balc\u00e3o da pr\u00f3pria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de<br \/>\num saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lha, mediante quatrocentos<br \/>\nr\u00e9is por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona,<br \/>\nescrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um portugu\u00eas<br \/>\nque tinha uma carro\u00e7a de m\u00e3o e fazia fretes na cidade. Bertoleza tamb\u00e9m trabalhava<br \/>\nforte; a sua quitanda era a mais bem afreguesada do bairro. De manh\u00e3 vendia<br \/>\nangu, e \u00e0 noite peixe frito e iscas de f\u00edgado; pagava de jornal a seu dono<br \/>\nvinte mil-r\u00e9is por m\u00eas, e, apesar disso, tinha de parte quase que o necess\u00e1rio<br \/>\npara a alforria. Um dia, por\u00e9m, o seu homem, depois de correr meia l\u00e9gua,<br \/>\npuxando uma carga superior \u00e0s suas for\u00e7as, caiu morto na rua, ao lado da carro\u00e7a,<br \/>\nestrompado como uma besta. Jo\u00e3o Rom\u00e3o mostrou grande interesse por esta desgra\u00e7a,<br \/>\nfez-se at\u00e9 participante direto dos sofrimentos da vizinha, e com tamanho empenho<br \/>\na lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas desventuras.<br \/>\nAbriu-se com ele, contou-lhe a sua vida de amofina\u00e7\u00f5es e dificuldades. &#8220;Seu<br \/>\nsenhor comia-lhe a pele do corpo! N\u00e3o era brinquedo para uma pobre mulher<br \/>\nter de escarrar pr\u2019ali, todos os meses, vinte mil-r\u00e9is em dinheiro!&#8221;<br \/>\nE segredou-lhe ent\u00e3o o que tinha juntado para a sua liberdade e acabou pedindo<br \/>\nao vendeiro que lhe guardasse as economias, porque j\u00e1 de certa vez fora roubada<br \/>\npor gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos. Da\u00ed em diante, Jo\u00e3o<br \/>\nRom\u00e3o tornou-se o caixa, o procurador e o conselheiro da crioula. No fim de<br \/>\npouco tempo era ele quem tomava conta de tudo que ela produzia e era tamb\u00e9m<br \/>\nquem punha e dispunha dos seus pec\u00falios, e quem se encarregava de remeter<br \/>\nao senhor os vinte mil-r\u00e9is mensais. Abriu-lhe logo uma conta corrente, e<br \/>\na quitandeira, quando precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 venda e recebia-o das m\u00e3os do vendeiro, de &#8220;Seu Jo\u00e3o&#8221;, como ela dizia.<br \/>\nSeu Jo\u00e3o debitava metodicamente essas pequenas quantias num caderninho, em<br \/>\ncuja capa de papel pardo lia-se, mal escrito e em letras cortadas de jornal:<br \/>\n&#8220;Ativo e passivo de Bertoleza&#8221;. E por tal forma foi o taverneiro ganhando<br \/>\nconfian\u00e7a no esp\u00edrito da mulher, que esta afinal nada mais resolvia s\u00f3 por<br \/>\nsi, e aceitava dele, cegamente, todo e qualquer arb\u00edtrio. Por \u00faltimo, se algu\u00e9m<br \/>\nprecisava tratar com ela qualquer neg\u00f3cio, nem mais se dava ao trabalho de<br \/>\nprocur\u00e1-la, ia logo direito a Jo\u00e3o Rom\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando deram f\u00e9 estavam amigados.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rom\u00e3o comprou ent\u00e3o, com as economias da amiga, alguns palmos de terreno<br \/>\nao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas portas, dividida<br \/>\nao meio paralelamente \u00e0 rua, sendo a parte da frente destinada \u00e0 quitanda<br \/>\ne a do fundo para um dormit\u00f3rio que se arranjou com os cacarecos de Bertoleza.<br \/>\nHavia, al\u00e9m da cama, uma c\u00f4moda de<\/p>\n<p>jacarand\u00e1 muito velha com ma\u00e7anetas de metal amarelo j\u00e1 mareadas, um orat\u00f3rio<br \/>\ncheio de santos e forrado de papel de cor, um ba\u00fa grande de couro cru tacheado,<br \/>\ndois banquinhos de pau feitos de uma s\u00f3 pe\u00e7a e um formid\u00e1vel cabide de pregar<br \/>\nna parede, com a sua competente coberta de retalhos de chita.<\/p>\n<p>O vendeiro nunca tivera tanta mob\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; Agora, disse ele \u00e0 crioula, as coisas v\u00e3o correr melhor para voc\u00ea. Voc\u00ea<br \/>\nvai ficar forra; eu entro com o que falta.<\/p>\n<p>Nesse dia ele saiu muito \u00e0 rua, e uma semana depois apareceu com uma folha<br \/>\nde papel toda escrita, que leu em voz alta \u00e0 companheira.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea agora n\u00e3o tem mais senhor! declarou em seguida \u00e0 leitura, que ela<br \/>\nouviu entre l\u00e1grimas agradecidas. Agora est\u00e1 livre. Doravante o que voc\u00ea fizer<br \/>\n\u00e9 s\u00f3 seu e mais de seus filhos, se os tiver. Acabou-se o cativeiro de pagar<br \/>\nos vinte mil-r\u00e9is \u00e0 peste do cego!<\/p>\n<p>&#8211; Coitado! A gente se queixa \u00e9 da sorte! Ele, como meu senhor, exigia o jornal,<br \/>\nexigia o que era seu!<\/p>\n<p>&#8211; Seu ou n\u00e3o seu, acabou-se! E vida nova!<\/p>\n<p>Contra todo o costume, abriu-se nesse dia uma garrafa de vinho do Porto,<br \/>\ne os dois beberam-na em honra ao grande acontecimento. Entretanto, a tal carta<br \/>\nde liberdade era obra do pr\u00f3prio Jo\u00e3o Rom\u00e3o, e nem mesmo o selo, que ele entendeu<br \/>\nde pespegar-lhe em cima, para dar \u00e0 burla maior formalidade, representava<br \/>\ndespesa porque o esperto aproveitara uma estampilha j\u00e1 servida. O senhor de<br \/>\nBertoleza n\u00e3o teve sequer conhecimento do fato; o que lhe constou, sim, foi<br \/>\nque a sua escrava lhe havia fugido para a Bahia depois da morte do amigo.<\/p>\n<p>&#8211; O cego que venha busc\u00e1-la aqui, se for capaz&#8230; desafiou o vendeiro de<br \/>\nsi para si. Ele que caia nessa e ver\u00e1 se tem ou n\u00e3o pra p\u00earas! N\u00e3o obstante,<br \/>\ns\u00f3 ficou tranq\u00fcilo de todo da\u00ed a tr\u00eas meses, quando lhe constou a morte do<br \/>\nvelho. A escrava passara naturalmente em heran\u00e7a a qualquer dos filhos do<br \/>\nmorto; mas, por estes, nada havia que recear: dois p\u00e2ndegos de marca maior<br \/>\nque, empolgada a legitima, cuidariam de tudo, menos de atirar-se na pista<br \/>\nde uma crioula a quem n\u00e3o viam de muitos anos \u00e0quela parte. &#8220;Ora! bastava<br \/>\nj\u00e1, e n\u00e3o era pouco, o que lhe tinham sugado durante tanto tempo!&#8221; Bertoleza<br \/>\nrepresentava agora ao lado de Jo\u00e3o Rom\u00e3o o papel tr\u00edplice de caixeiro, de<br \/>\ncriada e de amante. Mourejava a valer, mas de cara alegre; \u00e0s quatro da madrugada<br \/>\nestava j\u00e1 na faina de todos os dias, aviando o caf\u00e9 para os fregueses e depois<br \/>\npreparando o almo\u00e7o para os trabalhadores de uma pedreira que havia para al\u00e9m<br \/>\nde um grande capinzal aos fundos da venda. Varria a casa, cozinhava, vendia<br \/>\nao balc\u00e3o na taverna, quando o amigo andava ocupado l\u00e1 por fora; fazia a sua<br \/>\nquitanda durante o dia no intervalo de outros servi\u00e7os, e \u00e0 noite passava-se<br \/>\npara a porta da venda, e, defronte de um fogareiro de barro, fritava f\u00edgado<br \/>\ne frigia sardinhas, que Rom\u00e3o ia pela manh\u00e3, em mangas de camisa, de tamancos<br \/>\ne sem meias, comprar \u00e0 praia do Peixe. E o dem\u00f4nio da mulher ainda encontrava<br \/>\ntempo para lavar e consertar, al\u00e9m da sua, a roupa do seu homem, que esta,<br \/>\nvalha a verdade, n\u00e3o era tanta e nunca passava em todo o m\u00eas de alguns pares<br \/>\nde cal\u00e7as de zuarte e outras tantas camisas de riscado. Jo\u00e3o Rom\u00e3o n\u00e3o saia<br \/>\nnunca a passeio, nem ia \u00e0 missa aos domingos; tudo que rendia a sua venda<br \/>\ne mais a quitanda seguia direitinho para a caixa econ\u00f4mica e da\u00ed ent\u00e3o para<br \/>\no banco. Tanto assim que, um ano depois da aquisi\u00e7\u00e3o da crioula, indo em hasta<br \/>\np\u00fablica algumas bra\u00e7as de terra situadas ao fundo da taverna, arrematou-as<br \/>\nlogo e tratou, sem perda de tempo, de construir tr\u00eas casinhas de porta e janela.<br \/>\nQue milagres de esperteza e de economia n\u00e3o realizou ele nessa constru\u00e7\u00e3o!<br \/>\nServia de pedreiro, amassava e carregava barro, quebrava pedra; pedra, que<br \/>\no velhaco, fora de horas, junto com a amiga, furtavam \u00e0 pedreira do fundo,<br \/>\nda mesma forma que subtraiam o material das casas em obra que havia por ali<br \/>\nperto. Estes furtos eram feitos com todas as cautelas e sempre coroados do<br \/>\nmelhor sucesso, gra\u00e7as \u00e0 circunst\u00e2ncia de que nesse tempo a pol\u00edcia n\u00e3o se<br \/>\nmostrava muito por aquelas alturas. Jo\u00e3o Rom\u00e3o observava durante o dia quais<br \/>\nas obras em que ficava material para o dia seguinte, e \u00e0 noite l\u00e1 estava ele<br \/>\nrente, mais a Bertoleza, a removerem t\u00e1buas, tijolos, telhas, sacos de cal,<br \/>\npara o meio da rua, com tamanha habilidade que se n\u00e3o ouvia vislumbre de rumor.<br \/>\nDepois, um tomava uma carga e partia para casa, enquanto o outro ficava de<br \/>\nalcat\u00e9ia ao lado do resto, pronto a dar sinal, em caso de perigo; e, quando<br \/>\no que tinha ido voltava, seguia ent\u00e3o o companheiro, carregado por sua vez.<\/p>\n<p>Nada lhes escapava, nem mesmo as escadas dos pedreiros, os cavalos de pau,<br \/>\no banco ou a ferramenta dos marceneiros. E o fato \u00e9 que aquelas tr\u00eas casinhas,<br \/>\nt\u00e3o engenhosamente constru\u00eddas, foram o ponto de partida do grande corti\u00e7o<br \/>\nde S\u00e3o Rom\u00e3o. Hoje quatro bra\u00e7as de terra, amanh\u00e3 seis, depois mais outras,<br \/>\nia o vendeiro conquistando todo o terreno que se estendia pelos fundos da<br \/>\nsua bodega; e, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que o conquistava, reproduziam-se os quartos e<br \/>\no n\u00famero de moradores. Sempre em mangas de camisa, sem domingo nem dia santo,<br \/>\nn\u00e3o perdendo nunca a ocasi\u00e3o de assenhorear-se do alheio, deixando de pagar<br \/>\ntodas as vezes que podia e nunca deixando de receber, enganando os fregueses,<br \/>\nroubando nos<\/p>\n<p>pesos e nas medidas, comprando por dez r\u00e9is de mel coado o que os escravos<br \/>\nfurtavam da casa dos seus senhores, apertando cada vez mais as pr\u00f3prias despesas,<br \/>\nempilhando priva\u00e7\u00f5es sobre priva\u00e7\u00f5es, trabalhando e mais a amiga como uma<br \/>\njunta de bois, Jo\u00e3o Rom\u00e3o veio afinal a comprar uma boa parte da bela pedreira,<br \/>\nque ele, todos os dias, ao cair da tarde, assentado um instante \u00e0 porta da<br \/>\nvenda, contemplava de longe com um resignado olhar de cobi\u00e7a. P\u00f4s l\u00e1 seis<br \/>\nhomens a quebrarem pedra e outros seis a fazerem lajedos e paralelep\u00edpedos,<br \/>\ne ent\u00e3o principiou a ganhar em grosso, t\u00e3o em grosso que, dentro de ano e<br \/>\nmeio, arrematava j\u00e1 todo o espa\u00e7o compreendido entre as suas casinhas e a<br \/>\npedreira, isto \u00e9, umas oitenta bra\u00e7as de fundo sobre vinte de frente em plano<br \/>\nenxuto e magn\u00edfico para construir. Justamente por essa ocasi\u00e3o vendeu-se tamb\u00e9m<br \/>\num sobrado que ficava \u00e0 direita da venda, separado desta apenas por aquelas<br \/>\nvinte bra\u00e7as; de sorte que todo o flanco esquerdo do pr\u00e9dio, coisa de uns<br \/>\nvinte e tantos metros, despejava para o terreno do vendeiro as suas nove janelas<br \/>\nde peitoril. Comprou-o um tal Miranda, negociante portugu\u00eas, estabelecido<br \/>\nna Rua do Hosp\u00edcio com uma loja de fazendas por atacado. Corrida uma limpeza<br \/>\ngeral no casar\u00e3o, mudar-se-ia ele para l\u00e1 com a fam\u00edlia, pois que a mulher,<br \/>\nDona Estela, senhora pretensiosa e com fuma\u00e7as de nobreza, j\u00e1 n\u00e3o podia suportar<br \/>\na resid\u00eancia no centro da cidade, como tamb\u00e9m sua menina, a Zulmirinha, crescia<br \/>\nmuito p\u00e1lida e precisava de largueza para enrijar e tomar corpo.<\/p>\n<p>Isto foi o que disse o Miranda aos colegas, por\u00e9m a verdadeira causa da mudan\u00e7a<br \/>\nestava na necessidade, que ele reconhecia urgente, de afastar Dona Estela<br \/>\ndo alcance dos seus caixeiros. Dona Estela era uma mulherzinha levada da breca:<br \/>\nachava-se casada havia treze anos e durante esse tempo dera ao marido toda<br \/>\nsorte de desgostos. Ainda antes de terminar o segundo ano de matrim\u00f4nio, o<br \/>\nMiranda pilhou-a em flagrante delito de adult\u00e9rio; ficou furioso e o seu primeiro<br \/>\nimpulso foi de mand\u00e1-la para o diabo junto com o c\u00famplice; mas a sua casa<br \/>\ncomercial garantia-se com o dote que ela trouxera, uns oitenta contos em pr\u00e9dios<br \/>\ne a\u00e7\u00f5es da divida publica, de que se utilizava o desgra\u00e7ado tanto quanto lhe<br \/>\npermitia o regime dotal. Al\u00e9m de que, um rompimento brusco seria obra para<br \/>\nesc\u00e2ndalo, e, segundo a sua opini\u00e3o, qualquer esc\u00e2ndalo dom\u00e9stico ficava muito<br \/>\nmal a um negociante de certa ordem. Prezava, acima de tudo, a sua posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial e tremia s\u00f3 com a id\u00e9ia de ver-se novamente pobre, sem recursos e sem<br \/>\ncoragem para recome\u00e7ar a vida, depois de se haver habituado a umas tantas<br \/>\nregalias e afeito \u00e0 hombridade de portugu\u00eas rico que j\u00e1 n\u00e3o tem p\u00e1tria na<br \/>\nEuropa. Acovardado defronte destes racioc\u00ednios, contentou-se com uma simples<br \/>\nsepara\u00e7\u00e3o de leitos, e os dois passaram a dormir em quartos separados. N\u00e3o<br \/>\ncomiam juntos, e mal trocavam entre si uma ou outra palavra constrangida,<br \/>\nquando qualquer inesperado acaso os reunia a contragosto. Odiavam-se. Cada<br \/>\nqual sentia pelo outro um profundo desprezo, que pouco a pouco se foi transformando<br \/>\nem repugn\u00e2ncia completa. O nascimento de Zulmira veio agravar ainda mais a<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o; a pobre crian\u00e7a, em vez de servir de elo aos dois infelizes, foi<br \/>\nantes um novo isolador que se estabeleceu entre eles. Estela amava-a menos<br \/>\ndo que lhe pedia o instinto materno por sup\u00f4-la filha do marido, e este a<br \/>\ndetestava porque tinha convic\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ser seu pai. Uma bela noite, por\u00e9m,<br \/>\no Miranda, que era homem de sangue esperto e or\u00e7ava ent\u00e3o pelos seus trinta<br \/>\ne cinco anos, sentiu-se em insuport\u00e1vel estado de lubricidade. Era tarde j\u00e1<br \/>\ne n\u00e3o havia em casa alguma criada que lhe pudesse valer. Lembrou-se da mulher,<br \/>\nmas repeliu logo esta id\u00e9ia com escrupulosa repugn\u00e2ncia. Continuava a odi\u00e1-la.<br \/>\nEntretanto este mesmo fato de obriga\u00e7\u00e3o em que ele se colocou de n\u00e3o servir-se<br \/>\ndela, a responsabilidade de desprez\u00e1-la, como que ainda mais lhe assanhava<br \/>\no desejo da carne, fazendo da esposa infiel um fruto proibido. Afinal, coisa<br \/>\nsingular, posto que moralmente nada diminu\u00edsse a sua repugn\u00e2ncia pela perjura,<br \/>\nfoi ter ao quarto dela. A mulher dormia a sono solto. Miranda entrou p\u00e9 ante<br \/>\np\u00e9 e aproximou-se da cama. &#8220;Devia voltar!&#8230; pensou. N\u00e3o lhe ficava bem aquilo!&#8230;&#8221;<br \/>\nMas o sangue latejava-lhe, reclamando-a. Ainda hesitou um instante, im\u00f3vel,<br \/>\na contempl\u00e1-la no seu desejo. Estela, como se o olhar do marido lhe apalpasse<br \/>\no corpo, torceu-se sobre o quadril da esquerda, repuxando com as coxas o len\u00e7ol<br \/>\npara a frente e patenteando uma nesga de nudez estofada e branca. O Miranda<br \/>\nn\u00e3o p\u00f4de resistir, atirou-se contra ela, que, num pequeno sobressalto, mais<br \/>\nde surpresa que de revolta, desviou-se, tornando logo e enfrentando com o<br \/>\nmarido. E deixou-se empolgar pelos rins, de olhos fechados, fingindo que continuava<br \/>\na dormir, sem a menor consci\u00eancia de tudo aquilo. Ah! ela contava como certo<br \/>\nque o esposo, desde que n\u00e3o teve coragem de separar-se de casa, havia, mais<br \/>\ncedo ou mais tarde, de procur\u00e1-la de novo. Conhecia-lhe o temperamento, forte<br \/>\npara desejar e fraco para resistir ao desejo. Consumado o delito, o honrado<br \/>\nnegociante sentiu-se tolhido de vergonha e arrependimento. N\u00e3o teve animo<br \/>\nde dar palavra, e retirou-se tristonho e murcho para o seu quarto de desquitado.<br \/>\nOh! como lhe do\u00eda agora o que acabava de praticar na cegueira da sua sensualidade.<br \/>\n&#8211; Que cabe\u00e7ada!&#8230; dizia ele agitado. Que formid\u00e1vel cabe\u00e7ada!&#8230; No dia seguinte,<br \/>\nos dois viram-se e evitaram-se em sil\u00eancio, como se nada de extraordin\u00e1rio<br \/>\nhouvera entre eles acontecido na v\u00e9spera. Dir-se-ia at\u00e9 que, depois daquela<br \/>\nocorr\u00eancia, o Miranda sentia crescer o seu \u00f3dio contra a esposa. E, \u00e0 noite<br \/>\ndesse mesmo dia, quando se achou sozinho na sua cama estreita, jurou mil vezes<br \/>\naos seus brios nunca mais, nunca mais, praticar semelhante loucura.<\/p>\n<p>Mas, da\u00ed a um m\u00eas, o pobre homem, acometido de um novo acesso de lux\u00faria,<br \/>\nvoltou ao quarto da mulher. Estela recebeu-o desta vez como da primeira, fingindo<br \/>\nque n\u00e3o acordava; na ocasi\u00e3o, por\u00e9m, em que ele se apoderava dela febrilmente,<br \/>\na leviana, sem se poder conter, soltou-lhe em cheio contra o rosto uma gargalhada<br \/>\nque a custo sopeava. O pobre-diabo desnorteou, deveras escandalizado, soerguendo-se,<br \/>\nbrusco, num estremunhamento de son\u00e2mbulo acordado com viol\u00eancia. A mulher<br \/>\npercebeu a situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o lhe deu tempo para fugir; passou-lhe r\u00e1pido as pernas<br \/>\npor cima e, grudando-se-lhe ao corpo, cegou-o com uma metralhada de beijos.<br \/>\nN\u00e3o se falaram. Miranda nunca a tivera, nem nunca a vira, assim t\u00e3o violenta<br \/>\nno prazer. Estranhou-a. Afigurou-se-lhe estar nos bra\u00e7os de uma amante apaixonada:<br \/>\ndescobriu nela o capitoso encanto com que nos embebedam as cortes\u00e3s amestradas<br \/>\nna ci\u00eancia do gozo ven\u00e9reo. Descobriu-lhe no cheiro da pele e no cheiro dos<br \/>\ncabelos perfumes que nunca lhe sentira; notou-lhe outro h\u00e1lito, outro som<br \/>\nnos gemidos e nos suspiros. E gozou-a, gozou-a loucamente, com del\u00edrio, com<br \/>\nverdadeira satisfa\u00e7\u00e3o de animal no cio. E ela tamb\u00e9m, ela tamb\u00e9m gozou, estimulada<br \/>\npor aquela circunst\u00e2ncia picante do ressentimento que os desunia; gozou a<br \/>\ndesonestidade daquele ato que a ambos acanalhava aos olhos um do outro; estorceu-se<br \/>\ntoda, rangendo os dentes, grunhindo, debaixo daquele seu inimigo odiado, achando-o<br \/>\ntamb\u00e9m agora, como homem, melhor que nunca, sufocando-o nos seus bra\u00e7os nus,<br \/>\nmetendo-lhe pela boca a l\u00edngua \u00famida e em brasa. Depois, um arranco de corpo<br \/>\ninteiro, com um solu\u00e7o gutural e estrangulado, arquejante e convulsa, estatelou-se<br \/>\nnum abandono de pernas e bra\u00e7os abertos, a cabe\u00e7a para o lado, os olhos moribundos<br \/>\ne chorosos, toda ela agonizante, como se a tivessem crucificado na cama. A<br \/>\npartir dessa noite, da qual s\u00f3 pela manh\u00e3 o Miranda se retirou do quarto da<br \/>\nmulher, estabeleceu-se entre eles o h\u00e1bito de uma felicidade sexual, t\u00e3o completa<br \/>\ncomo ainda n\u00e3o a tinham desfrutado, posto que no intimo de cada um persistisse<br \/>\ncontra o outro a mesma repugn\u00e2ncia moral em nada enfraquecida. Durante dez<br \/>\nanos viveram muito bem casados; agora, por\u00e9m, tanto tempo depois da primeira<br \/>\ninfidelidade conjugal, e agora que o negociante j\u00e1 n\u00e3o era acometido t\u00e3o freq\u00fcentemente<br \/>\npor aquelas crises que o arrojavam fora de horas ao dormit\u00f3rio de Dona Estela;<br \/>\nagora, eis que a leviana parecia disposta a reincidir na culpa, dando corda<br \/>\naos caixeiros do marido, na ocasi\u00e3o em que estes subiam para almo\u00e7ar ou jantar.<br \/>\nFoi por isso que o Miranda comprou o pr\u00e9dio vizinho a Jo\u00e3o Rom\u00e3o. A casa era<br \/>\nboa; seu \u00fanico defeito estava na escassez do quintal; mas para isso havia<br \/>\nrem\u00e9dio: com muito pouco compravam-se umas dez bra\u00e7as daquele terreno do fundo<br \/>\nque ia at\u00e9 \u00e0 pedreira, e mais uns dez ou quinze palmos do lado em que ficava<br \/>\na venda. Miranda foi logo entender-se com o Rom\u00e3o e prop\u00f4s-lhe neg\u00f3cio. O<br \/>\ntaverneiro recusou formalmente. Miranda insistiu. &#8211; O senhor perde seu tempo<br \/>\ne seu latim! retrucou o amigo de Bertoleza. Nem s\u00f3 n\u00e3o cedo uma polegada do<br \/>\nmeu terreno, como ainda lhe compro, se mo quiser vender, aquele peda\u00e7o que<br \/>\nlhe fica ao fundo da casa! &#8211; O quintal? &#8211; \u00c9 exato.<\/p>\n<p>&#8211; Pois voc\u00ea quer que eu fique sem ch\u00e1cara, sem jardim, sem nada?<\/p>\n<p>&#8211; Para mim era de vantagem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, deixe-se disso, homem, e diga l\u00e1 quanto quer pelo que lhe propus.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 disse o que tinha a dizer.<\/p>\n<p>&#8211; Ceda-me ent\u00e3o ao menos as dez bra\u00e7as do fundo.<\/p>\n<p>&#8211; Nem meio palmo!<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 maldade de sua parte, sabe? Eu, se fa\u00e7o tamanho empenho, \u00e9 pela<br \/>\nminha pequena, que precisa, coitada, de um pouco de espa\u00e7o para alargar-se.<\/p>\n<p>&#8211; E eu n\u00e3o cedo, porque preciso do meu terreno!<\/p>\n<p>&#8211; Ora qual! Que diabo pode l\u00e1 voc\u00ea fazer ali? Uma porcaria de um peda\u00e7o de<br \/>\nterreno quase grudado ao morro e aos fundos de minha casa! quando voc\u00ea, ali\u00e1s,<br \/>\ndisp\u00f5e de tanto espa\u00e7o ainda!<\/p>\n<p>&#8211; Hei de lhe mostrar se tenho ou n\u00e3o o que fazer ali!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que voc\u00ea \u00e9 teimoso! Olhe, se me cedesse as dez bra\u00e7as do fundo, a sua<br \/>\nparte ficaria cortada em linha reta at\u00e9 \u00e0 pedreira, e escusava eu de ficar<br \/>\ncom uma aba de terreno alheio a meter-se pelo meu. Quer saber? n\u00e3o amuro o<br \/>\nquintal sem voc\u00ea decidir-se!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o ficar\u00e1 com o quintal para sempre sem muro, porque o que tinha a dizer<br \/>\nj\u00e1 disse!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, homem de Deus, que diabo! pense um pouco! Voc\u00ea ali n\u00e3o pode construir<br \/>\nnada! Ou pensar\u00e1 que lhe deixarei abrir janelas sobre o meu quintal!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o preciso abrir janelas sobre o quintal de ningu\u00e9m!<\/p>\n<p>&#8211; Nem tampouco lhe deixarei levantar parede, tapando-me as janelas da esquerda!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o preciso levantar parede desse lado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que diabo vai voc\u00ea fazer de todo este terreno?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! isso agora \u00e9 c\u00e1 comigo!&#8230; O que for soar\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; Pois creia que se arrepende de n\u00e3o me ceder o terreno!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se me arrepender, paci\u00eancia! S\u00f3 lhe digo \u00e9 que muito mal se sair\u00e1 quem<br \/>\nquiser meter-se c\u00e1 com a minha vida!<\/p>\n<p>&#8211; Passe bem!<\/p>\n<p>&#8211; Adeus!<\/p>\n<p>Travou-se ent\u00e3o uma lata renhida e surda entre o portugu\u00eas negociante de<br \/>\nfazendas por atacado e o portugu\u00eas negociante de secos e molhados. Aquele<br \/>\nn\u00e3o se resolvia a fazer o muro do quintal, sem ter alcan\u00e7ado o peda\u00e7o de terreno<br \/>\nque o separava do morro; e o outro, por seu lado, n\u00e3o perdia a esperan\u00e7a de<br \/>\napanhar-lhe ainda, pelo menos, duas ou tr\u00eas bra\u00e7as aos fundos da casa; parte<br \/>\nesta que, conforme os seus c\u00e1lculos, valeria ouro, uma vez realizado o grande<br \/>\nprojeto que ultimamente o trazia preocupado &#8211; a cria\u00e7\u00e3o de uma estalagem em<br \/>\nponto enorme, uma estalagem monstro, sem exemplo, destinada a matar toda aquela<br \/>\nmiu\u00e7alha de corti\u00e7os que alastravam por Botafogo.<\/p>\n<p>Era este o seu ideal. Havia muito que Jo\u00e3o Rom\u00e3o vivia exclusivamente para<br \/>\nessa id\u00e9ia; sonhava com ela todas as noites; comparecia a todos os leil\u00f5es<br \/>\nde materiais de constru\u00e7\u00e3o; arrematava madeiramentos j\u00e1 servidos; comprava<br \/>\ntelha em segunda m\u00e3o; fazia pechinchas de cal e tijolos; o que era tudo depositado<br \/>\nno seu extenso ch\u00e3o vazio, cujo aspecto tomava em breve o car\u00e1ter estranho<br \/>\nde uma enorme barricada, tal era a variedade dos objetos que ali se apinhavam<br \/>\nacumulados: t\u00e1buas e sarrafos, troncos de \u00e1rvore, mastros de navio, caibros,<br \/>\nrestos de carro\u00e7as, chamin\u00e9s de barro e de ferro, fog\u00f5es desmantelados, pilhas<br \/>\ne pilhas de tijolos de todos os feitios, barricas de cimento, montes de areia<br \/>\ne terra vermelha, aglomera\u00e7\u00f5es de telhas velhas, escadas partidas, dep\u00f3sitos<br \/>\nde cal, o diabo enfim; ao que ele, que sabia perfeitamente como essas coisas<br \/>\nse furtavam, resguardava, soltando \u00e0 noite um formid\u00e1vel c\u00e3o de fila.<\/p>\n<p>Este c\u00e3o era pretexto de eternas resingas com a gente do Miranda, a cujo<br \/>\nquintal ningu\u00e9m de casa podia descer, depois das dez horas da noite, sem correr<br \/>\no risco de ser assaltado pela fera.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 fazer o muro! dizia o Jo\u00e3o Rom\u00e3o, sacudindo os ombros.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fa\u00e7o! replicava o outro. Se ele \u00e9 quest\u00e3o de capricho eu tamb\u00e9m tenho<br \/>\ncapricho!<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o caia no quintal do Miranda galinha ou frango, fugidos<br \/>\ndo cercado do vendeiro, que n\u00e3o levasse imediato sumi\u00e7o. Jo\u00e3o Rom\u00e3o protestava<br \/>\ncontra o roubo em termos violentos, jurando vingan\u00e7as terr\u00edveis, falando em<br \/>\ndar tiros.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 fazer um muro no galinheiro! repontava o marido de Estela.<\/p>\n<p>Da\u00ed a alguns meses, Jo\u00e3o Rom\u00e3o, depois de tentar um derradeiro esfor\u00e7o para<br \/>\nconseguir algumas bra\u00e7as do quintal do vizinho, resolveu principiar as obras<br \/>\nda estalagem.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa estar, conversava ele na cama com a Bertoleza; deixa estar que ainda<br \/>\nlhe hei de entrar pelos fundos da casa, se \u00e9 que n\u00e3o lhe entre pela frente!<br \/>\nMais cedo ou mais tarde como-lhe, n\u00e3o duas bra\u00e7as, mas seis, oito, todo o<br \/>\nquintal e at\u00e9 o pr\u00f3prio sobrado talvez!<\/p>\n<p>E dizia isto com uma convic\u00e7\u00e3o de quem tudo pode e tudo espera da sua perseveran\u00e7a,<br \/>\ndo seu esfor\u00e7o inquebrant\u00e1vel e da fecundidade prodigiosa do seu dinheiro,<br \/>\ndinheiro que s\u00f3 lhe saia das unhas para voltar multiplicado.<\/p>\n<p>Desde que a febre de possuir se apoderou dele totalmente, todos os seus atos,<br \/>\ntodos, fosse o mais simples, visavam um interesse pecuni\u00e1rio. S\u00f3 tinha uma<br \/>\npreocupa\u00e7\u00e3o: aumentar os bens. Das suas hortas recolhia para si e para a companheira<br \/>\nos piores legumes, aqueles que, por maus, ningu\u00e9m compraria; as suas galinhas<br \/>\nproduziam muito e ele n\u00e3o comia um ovo, do que no entanto gostava imenso;<br \/>\nvendia-os todos e contentava-se com os restos da comida dos trabalhadores.<br \/>\nAquilo j\u00e1 n\u00e3o era ambi\u00e7\u00e3o, era uma mol\u00e9stia nervosa, uma loucura, um desespero<br \/>\nde acumular; de reduzir tudo a moeda. E seu tipo baixote, socado, de cabelos<br \/>\n\u00e0 escovinha, a barba sempre por fazer, ia e vinha da pedreira para a venda,<br \/>\nda venda \u00e0s hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, de tamancos,<br \/>\nsem meias, olhando<\/p>\n<p>para todos os lados, com o seu eterno ar de cobi\u00e7a, apoderando-se, com os<br \/>\nolhos, de tudo aquilo de que ele n\u00e3o podia apoderar-se logo com as unhas.<\/p>\n<p>Entretanto, a rua l\u00e1 fora povoava-se de um modo admir\u00e1vel. Constru\u00eda-se mal,<br \/>\npor\u00e9m muito; surgiam chal\u00e9s e casinhas da noite para o dia; subiam os alugu\u00e9is;<br \/>\nas propriedades dobravam de valor. Montara-se uma f\u00e1brica de massas italianas<br \/>\ne outra de velas, e os trabalhadores passavam de manh\u00e3 e \u00e0s Ave-Marias, e<br \/>\na maior parte deles ia comer \u00e0 casa de pasto que Jo\u00e3o Rom\u00e3o arranjara aos<br \/>\nfundos da sua varanda. Abriram-se novas tavernas; nenhuma, por\u00e9m, conseguia<br \/>\nser t\u00e3o afreguesada como a dele. Nunca o seu negocio fora t\u00e3o bem, nunca o<br \/>\nfin\u00f3rio vendera tanto; vendia mais agora, muito mais, que nos anos anteriores.<br \/>\nTeve at\u00e9 de admitir caixeiros. As mercadorias n\u00e3o lhe paravam nas prateleiras;<br \/>\no balc\u00e3o estava cada vez mais lustroso, mais gasto. E o dinheiro a pingar,<br \/>\nvint\u00e9m por vint\u00e9m, dentro da gaveta, e a escorrer da gaveta para a barra,<br \/>\naos cinq\u00fcenta e aos cem mil-r\u00e9is, e da burra para o banco, aos contos e aos<br \/>\ncontos. Afinal, j\u00e1 lhe n\u00e3o bastava sortir o seu estabelecimento nos armaz\u00e9ns<br \/>\nfornecedores; come\u00e7ou a receber alguns g\u00eaneros diretamente da Europa: o vinho,<br \/>\npor exemplo, que ele dantes comprava aos quintos nas casas de atacado, vinha-lhe<br \/>\nagora de Portugal \u00e0s pipas, e de cada uma fazia tr\u00eas com \u00e1gua e cacha\u00e7a; e<br \/>\ndespachava faturas de barris de manteiga, de caixas de conserva, caix\u00f5es de<br \/>\nf\u00f3sforos, azeite, queijos, lou\u00e7a e muitas outras mercadorias. Criou armaz\u00e9ns<br \/>\npara dep\u00f3sito, aboliu a quitanda e transferiu o dormit\u00f3rio, aproveitando o<br \/>\nespa\u00e7o para ampliar a venda, que dobrou de tamanho e ganhou mais duas portas.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o era uma simples taverna, era um bazar em que se encontrava de tudo,<br \/>\nobjetos de armarinho, ferragens, porcelanas, utens\u00edlios de escrit\u00f3rio, roupa<br \/>\nde riscado para os trabalhadores, fazenda para roupa de mulher, chap\u00e9us de<br \/>\npalha pr\u00f3prios para o servi\u00e7o ao sol, perfumarias baratas, pentes de chifre,<br \/>\nlen\u00e7os com versos de amor, e an\u00e9is e brincos de metal ordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>E toda a gentalha daquelas redondezas ia cair l\u00e1, ou ent\u00e3o ali ao lado, na<br \/>\ncasa de pasto, onde os oper\u00e1rios das f\u00e1bricas e os trabalhadores da pedreira<br \/>\nse reuniam depois do servi\u00e7o, e ficavam bebendo e conversando at\u00e9 as dez horas<br \/>\nda noite, entre o espesso fumo dos cachimbos, do peixe frito em azeite e dos<br \/>\nlampi\u00f5es de querosene. Era Jo\u00e3o Rom\u00e3o quem lhes fornecia tudo, tudo, at\u00e9 dinheiro<br \/>\nadiantado, quando algum precisava. Por ali n\u00e3o se encontrava jornaleiro, cujo<br \/>\nordenado n\u00e3o fosse inteirinho parar \u00e0s m\u00e3os do velhaco. E sobre este cobre,<br \/>\nquase sempre emprestado aos tost\u00f5es, cobrava juros de oito por cento ao m\u00eas,<br \/>\num pouco mais do que levava aos que garantiam a divida com penhores de ouro<br \/>\nou prata.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, as casinhas do corti\u00e7o, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se atamancavam, enchiam-se<br \/>\nlogo, sem mesmo dar tempo a que as tintas secassem. Havia grande avidez em<br \/>\nalug\u00e1-las; aquele era o melhor ponto do bairro para a gente do trabalho. Os<br \/>\nempregados da pedreira preferiam todos morar l\u00e1, porque ficavam a dois passos<br \/>\nda obriga\u00e7\u00e3o. O Miranda rebentava de raiva. &#8211; Um corti\u00e7o! exclamava ele, possesso.<br \/>\nUm corti\u00e7o! Maldito seja aquele vendeiro de todos os diabos! Fazer-me um corti\u00e7o<br \/>\ndebaixo das janelas!&#8230; Estragou-me a casa, o malvado! E vomitava pragas,<br \/>\njurando que havia de vingar-se, e protestando aos berros contra o p\u00f3 que lhe<br \/>\ninvadia em ondas as salas, e contra o infernal baralho dos pedreiros e carpinteiros<br \/>\nque levavam a martelar de sol a sol. O que ali\u00e1s n\u00e3o impediu que as casinhas<br \/>\ncontinuassem a surgir, uma ap\u00f3s outra, e fossem logo se enchendo, a estenderem-se<br \/>\nunidas por ali a fora, desde a venda at\u00e9 quase ao morro, e depois dobrassem<br \/>\npara o lado do Miranda e avan\u00e7assem sobre o quintal deste, que parecia amea\u00e7ado<br \/>\npor aquela serpente de pedra e cal. O Miranda mandou logo levantar o muro.<br \/>\nNada! aquele dem\u00f4nio era capaz de invadir-lhe a casa at\u00e9 a sala de visitas!<br \/>\nE os quartos do corti\u00e7o pararam enfim de encontro ao muro do negociante, formando<br \/>\ncom a continua\u00e7\u00e3o da casa deste um grande quadrilongo, esp\u00e9cie de p\u00e1tio de<br \/>\nquartel, onde podia formar um batalh\u00e3o. Noventa e cinco casinhas comportou<br \/>\na imensa estalagem. Prontas, Jo\u00e3o Rom\u00e3o mandou levantar na frente, nas vinte<br \/>\nbra\u00e7as que separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de dez<br \/>\npalmos de altura, coroado de cacos de vidro e fundos de garrafa, e com um<br \/>\ngrande port\u00e3o no centro, onde se dependurou uma lanterna de vidra\u00e7as vermelhas,<br \/>\npor cima de uma tabuleta amarela, em que se lia o seguinte, escrito a tinta<br \/>\nencarnada e sem ortografia: &#8220;Estalagem de S\u00e3o Rom\u00e3o. Alugam-se casinhas e<br \/>\ntinas para lavadeiras&#8221;. As casinhas eram alugadas por m\u00eas e as tinas por dia;<br \/>\ntudo pago adiantado. O pre\u00e7o de cada tina, metendo a \u00e1gua, quinhentos r\u00e9is;<br \/>\nsab\u00e3o \u00e0 parte. As moradoras do corti\u00e7o tinham prefer\u00eancia e n\u00e3o pagavam nada<br \/>\npara lavar. Gra\u00e7as \u00e0 abund\u00e2ncia da \u00e1gua que l\u00e1 havia, como em nenhuma outra<br \/>\nparte, e gra\u00e7as ao muito espa\u00e7o de que se dispunha no corti\u00e7o para estender<br \/>\na roupa, a concorr\u00eancia \u00e0s tinas n\u00e3o se fez esperar; acudiram lavadeiras de<br \/>\ntodos os<\/p>\n<p>pontos da cidade, entre elas algumas vindas de bem longe. E, mal vagava uma<br \/>\ndas casinhas, ou um quarto, um canto onde coubesse um colch\u00e3o, surgia uma<br \/>\nnuvem de pretendentes a disput\u00e1-los. E aquilo se foi constituindo numa grande<br \/>\nlavanderia, agitada e barulhenta, com as suas cercas de varas, as suas hortali\u00e7as<br \/>\nverdejantes e os seus jardinzinhos de tr\u00eas e quatro palmos, que apareciam<br \/>\ncomo manchas alegres por entre a negrura das limosas tinas transbordantes<br \/>\ne o rev\u00e9rbero das claras barracas de algod\u00e3o cru, armadas sobre os lustrosos<br \/>\nbancos de lavar. E os gotejantes jiraus, cobertos de roupa molhada, cintilavam<br \/>\nao sol, que nem lagos de metal branco. E naquela terra encharcada e fumegante,<br \/>\nnaquela umidade quente e lodosa, come\u00e7ou a minhocar, a esfervilhar, a crescer,<br \/>\num mundo, uma coisa viva, uma gera\u00e7\u00e3o, que parecia brotar espont\u00e2nea, ali<br \/>\nmesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no esterco.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II<\/h2>\n<p>Durante dois anos o corti\u00e7o prosperou de dia para dia, ganhando for\u00e7as, socando-se<br \/>\nde gente. E ao lado o Miranda assustava-se, inquieto com aquela exuber\u00e2ncia<br \/>\nbrutal de vida, aterrado defronte daquela floresta implac\u00e1vel que lhe crescia<br \/>\njunto da casa, por debaixo das janelas, e cujas ra\u00edzes, piores e mais grossas<br \/>\ndo que serpentes, minavam por toda a parte, amea\u00e7ando rebentar o ch\u00e3o em torno<br \/>\ndela, rachando o solo e abalando tudo. Posto que l\u00e1 na Rua do Hosp\u00edcio os<br \/>\nseus neg\u00f3cios n\u00e3o corressem mal, custava-lhe a sofrer a escandalosa fortuna<br \/>\ndo vendeiro &#8220;aquele tipo! um miser\u00e1vel, um sujo, que n\u00e3o pusera nunca um palet\u00f3,<br \/>\ne que vivia de cama e mesa com uma negra!&#8221; \u00c0 noite e aos domingos ainda mais<br \/>\nrecrudescia o seu azedume, quando ele, recolhendo-se fatigado do servi\u00e7o,<br \/>\ndeixava-se ficar estendido numa pregui\u00e7osa, junto \u00e0 mesa da sala de jantar,<br \/>\ne ouvia, a contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exala\u00e7\u00e3o<br \/>\nforte de animais cansados. N\u00e3o podia chegar \u00e0 janela sem receber no rosto<br \/>\naquele bafo, quente e sensual, que o embebedava com o seu fartum de bestas<br \/>\nno coito. E depois, fechado no quarto de dormir, indiferente e habituado \u00e0s<br \/>\ntorpezas carnais da mulher, isento j\u00e1 dos primitivos sobressaltos que lhe<br \/>\nfaziam, a ele, ferver o sangue e perder a tramontana, era ainda a prosperidade<br \/>\ndo vizinho o que lhe obsedava o esp\u00edrito, enegrecendo-lhe a alma com um feio<br \/>\nressentimento de despeito. Tinha inveja do outro, daquele outro portugu\u00eas<br \/>\nque fizera fortuna, sem precisar roer nenhum chifre; daquele outro que, para<br \/>\nser mais rico tr\u00eas vezes do que ele, n\u00e3o teve de casar com a filha do patr\u00e3o<br \/>\nou com a bastarda de algum fazendeiro fregu\u00eas da casa! Mas ent\u00e3o, ele Miranda,<br \/>\nque se supunha a \u00faltima express\u00e3o da ladinagem e da esperteza; ele, que, logo<br \/>\ndepois do seu casamento, respondendo para Portugal a um ex-colega que o felicitava,<br \/>\ndissera que o Brasil era uma cavalgadura carregada de dinheiro, cujas r\u00e9deas<br \/>\num homem fino empolgava facilmente; ele, que se tinha na conta de invenc\u00edvel<br \/>\nmatreiro, n\u00e3o passava afinal de um peda\u00e7o de asno comparado com o seu vizinho!<br \/>\nPensara fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo de uma brasileira mal-educada<br \/>\ne sem escr\u00fapulos de virtude! Imaginara-se talhado para grandes conquistas,<br \/>\ne n\u00e3o passava de uma vitima rid\u00edcula e sofredora!&#8230; Sim! no fim de contas<br \/>\nqual fora a sua \u00c1frica?&#8230; Enriquecera um pouco, \u00e9 verdade, mas como? a que<br \/>\npre\u00e7o? hipotecando-se a um diabo, que lhe trouxera oitenta contos de r\u00e9is,<br \/>\nmas incalcul\u00e1veis milh\u00f5es de desgostos e vergonhas! Arranjara a vida, sim,<br \/>\nmas teve de aturar eternamente uma mulher que ele odiava! E do que afinal<br \/>\nlhe aproveitar tudo isso? Qual era afinal a sua grande exist\u00eancia? Do inferno<br \/>\nda casa para o purgat\u00f3rio do trabalho e vice-versa! Invej\u00e1vel sorte, n\u00e3o havia<br \/>\nd\u00favida!<\/p>\n<p>Na dolorosa incerteza de que Zulmira fosse sua filha, o desgra\u00e7ado nem sequer<br \/>\ngozava o prazer de ser pai. Se ela, em vez de nascer de Estela, fora uma enjeitadinha<br \/>\nrecolhida por ele, \u00e9 natural que a amasse e ent\u00e3o a vida lhe correria de outro<br \/>\nmodo; mas naquelas condi\u00e7\u00f5es, a pobre crian\u00e7a nada mais representava que o<br \/>\ndocumento vivo do ludibrio materno, e o Miranda estendia at\u00e9 \u00e0 inocentezinha<br \/>\nd&#8217;\u00c1frica o \u00f3dio que sustentava contra a esposa. Uma espiga a tal da sua vida!<\/p>\n<p>&#8211; Fui uma besta! resumiu ele, em voz alta, apeando-se da cama, onde se havia<br \/>\nrecolhido inutilmente. E p\u00f4s-se a passear no quarto sem vontade de dormir,<br \/>\nsentindo que a febre daquela inveja lhe estorricava os miolos. Feliz e esperto<br \/>\nera o Jo\u00e3o Rom\u00e3o! esse, sim, senhor! Para esse \u00e9 que havia de ser a vida!&#8230;<br \/>\nFilho da m\u00e3e, que estava hoje t\u00e3o livre e desembara\u00e7ado como no dia em que<br \/>\nchegou da terra sem um vint\u00e9m de seu! esse, sim, que era mo\u00e7o e podia ainda<br \/>\ngozar muito, porque quando mesmo viesse a casar e a mulher lhe sa\u00edsse uma<br \/>\noutra Estela era s\u00f3 mand\u00e1-la para o diabo com um pontap\u00e9! Podia faz\u00ea-lo! Para<br \/>\nesse \u00e9 que era o Brasil! &#8211; Fui uma besta! repisava ele sem conseguir conformar-se<br \/>\ncom a felicidade do vendeiro. Uma grand\u00edssima! No fim de contas que diabo<br \/>\npossuo eu?&#8230; Uma casa de neg\u00f3cio, da qual n\u00e3o posso separar-me sem comprometer<br \/>\no que l\u00e1 est\u00e1 enterrado! um capital metido numa rede de transa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o<br \/>\nse liquidam nunca, e cada vez mais se complicam e mais me grudam ao estupor<br \/>\ndesta terra, onde deixarei a casca! Que tenho de meu, se a alma do meu cr\u00e9dito<br \/>\n\u00e9 o dote, que me trouxe aquela sem-vergonha e que a ela me prende como a peste<br \/>\nda casa comercial me prende a esta Costa d\u2019\u00c1frica? Foi da supura\u00e7\u00e3o<br \/>\nf\u00e9tida destas id\u00e9ias que se formou no cora\u00e7\u00e3o vazio do Miranda um novo ideal<br \/>\n&#8211; o t\u00edtulo. Faltando-lhe temperamento pr\u00f3prio para os v\u00edcios fortes que enchem<br \/>\na vida de um homem; sem fam\u00edlia, a quem amar e sem imagina\u00e7\u00e3o para poder gozar<br \/>\ncom as prostitutas, o n\u00e1ufrago agarrou-se \u00e0quela t\u00e1bua, como um agonizante,<br \/>\nconsciente da morte, que se apega \u00e0 esperan\u00e7a de uma vida futura. A vaidade<br \/>\nde Estela, que a principio lhe tirava dos l\u00e1bios incr\u00e9dulos sorrisos de mofa,<br \/>\nagora lhe comprazia \u00e0 farta. Procurou capacitar-se de que ela com efeito herdara<br \/>\nsangue nobre, que ele, por sua vez, se n\u00e3o o tinha herdado, trouxera-o por<br \/>\nnatureza pr\u00f3pria, o que devia valer mais ainda; e desde ent\u00e3o principiou a<br \/>\nsonhar com um baronato, fazendo disso o objeto querido da sua exist\u00eancia,<br \/>\nmuito satisfeito no intimo por ter afinal descoberto uma coisa em que podia<br \/>\nempregar dinheiro, sem ter, nunca mais, de restitu\u00ed-lo \u00e0 mulher, nem ter de<br \/>\ndeix\u00e1-lo a pessoa alguma.<\/p>\n<p>Semelhante preocupa\u00e7\u00e3o modificou-o em extremo. Deu logo para fingir-se escravo<br \/>\ndas conveni\u00eancias, afetando escr\u00fapulos sociais, empertigando-se quanto podia<br \/>\ne disfar\u00e7ando a sua inveja pelo vizinho com um desdenhoso ar de superioridade<br \/>\ncondescendente. Ao passar-lhe todos os dias pela venda, cumprimentava-o com<br \/>\nprote\u00e7\u00e3o, sorrindo sem rir e fechando logo a cara em seguida, muito s\u00e9rio.<br \/>\nDados os primeiros passos para a compra do titulo abriu a casa e deu festas.<br \/>\nA mulher, posto que lhe apontassem j\u00e1 os cabelos brancos, rejubilou com isso.<br \/>\nZulmira tinha ent\u00e3o doze para treze anos e era o tipo acabado da fluminense;<br \/>\np\u00e1lida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas mucosas do nariz, das p\u00e1lpebras<br \/>\ne dos l\u00e1bios, faces levemente pintalgadas de sardas. Respirava o tom \u00famido<br \/>\ndas flores noturnas, uma brancura fria de magn\u00f3lia; cabelos castanho-claros,<br \/>\nm\u00e3os quase transparentes, unhas moles e curtas, como as da m\u00e3e, dentes pouco<br \/>\nmais claros do que a c\u00fatis do rosto, p\u00e9s pequeninos, quadril estreito mas<br \/>\nos olhos grandes, negros, vivos e maliciosos.<\/p>\n<p>Por essa \u00e9poca, justamente, chegava de Minas, recomendado ao pai dela, o<br \/>\nfilho de um fazendeiro important\u00edssimo que dava belos lucros \u00e0 casa comercial<br \/>\nde Miranda e que era talvez o melhor fregu\u00eas que este possu\u00eda no interior.<br \/>\nO rapaz chamava-se Henrique, tinha quinze anos e vinha terminar na corte alguns<br \/>\npreparat\u00f3rios que lhe faltavam para entrar na Academia de Medicina. Miranda<br \/>\nhospedou-o no seu sobrado da Rua do Hosp\u00edcio mas o estudante queixou-se, no<br \/>\nfim de alguns dias, de que ai ficava mal acomodado, e o negociante, a quem<br \/>\nn\u00e3o convinha desagradar-lhe, carregou com ele para a sua resid\u00eancia particular<br \/>\nde Botafogo. Henrique era bonitinho, cheio de acanhamentos, com umas delicadezas<br \/>\nde menina. Parecia muito cuidadoso dos seus estudos e t\u00e3o pouco extravagante<br \/>\ne gastador, que n\u00e3o despendia um vint\u00e9m fora das necessidade de primeira urg\u00eancia.<br \/>\nDe resto, a n\u00e3o ser de manh\u00e3 para as aulas, que ia sempre com o Miranda, n\u00e3o<br \/>\narredava p\u00e9 de casa sen\u00e3o em companhia da fam\u00edlia, deste. Dona Estela, no<br \/>\ncabo de pouco tempo, mostrou por ele estima quase maternal e encarregou-se<br \/>\nde tomar conta da sua mesada, mesada posta pelo negociante, visto que o Henriquinho<br \/>\ntinha ordem franca do pai. Nunca pedia dinheiro; quando precisava de qualquer<br \/>\ncoisa, reclamava-a de Dona Estela, que por sua vez encarregava o marido de<br \/>\ncompr\u00e1-la, sendo o objeto lan\u00e7ado na conta do fazendeiro com uma comiss\u00e3o<br \/>\nde usur\u00e1rio. Sua hospedagem custava duzentos e cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is por m\u00eas,<br \/>\ndo que ele todavia n\u00e3o tinha conhecimento, nem queria ter. Nada lhe faltava,<br \/>\ne os criados da casa o respeitavam como a um filho do pr\u00f3prio senhor. \u00c0 noite,<br \/>\n\u00e0s vezes, quando o tempo estava bom, Dona Estela saia com ele, a filha e um<br \/>\nmoleque, o Valentim, a darem uma volta ate \u00e0 praia e, em tendo convite para<br \/>\nqualquer festa em casa das amigas, levava-o em sua companhia. A criadagem<br \/>\nda fam\u00edlia, do Miranda compunha-se de Isaura, mulata ainda mo\u00e7a, moleirona<br \/>\ne tola, que gastava todo o vintenzinho que pilhava em comprar capil\u00e9 na venda<br \/>\nde Jo\u00e3o Rom\u00e3o; uma negrinha virgem, chamada Leonor, muito ligeira e viva,<br \/>\nlisa e seca como um moleque, conhecendo de orelha, sem lhe faltar um termo,<br \/>\na vasta tecnologia da obscenidade, e dizendo, sempre que os caixeiros ou os<br \/>\nfregueses da taverna, s\u00f3 para mexer com ela, lhe davam atraca\u00e7\u00f5es: &#8220;\u00d3ia, que<br \/>\neu me queixo ao juiz de orfe!&#8221;, e finalmente o tal Valentim, filho de uma<br \/>\nescrava que foi de Dona Estela e a quem esta havia alforriado.<\/p>\n<p>A mulher do Miranda tinha por este moleque uma afei\u00e7\u00e3o sem limites: dava-lhe<br \/>\ntoda a liberdade, dinheiro, presentes, levava-o consigo a passeio, trazia-o<br \/>\nbem vestido e muita vez chegou a fazer ci\u00fames \u00e0 filha, de t\u00e3o solicita que<br \/>\nse mostrava com ele. Pois se a caprichosa senhora ralhava com Zulmira por<br \/>\ncausa do negrinho! Pois, se quando se queixavam os dois, um contra o outro,<br \/>\nela nunca dava raz\u00e3o \u00e0 filha! Pois se o que havia de melhor na casa era para<br \/>\no Valentim! Pois, se quando foi este atacado de bexigas e o Miranda, apesar<br \/>\ndas s\u00faplicas e dos protestos da esposa, mandou-o para um hospital, Dona Estela<br \/>\nchorava todos os dias e durante a aus\u00eancia dele n\u00e3o tocou piano, nem cantou,<br \/>\nnem mostrou os dentes a ningu\u00e9m? E o pobre Miranda, se n\u00e3o queria sofrer impertin\u00eancias<br \/>\nda mulher e ouvir sensaborias defronte dos criados, tinha de dar ao moleque<br \/>\ntoda a considera\u00e7\u00e3o e fazer-lhe humildemente todas as vontades. Havia ainda,<br \/>\nsob as telhas do negociante, um outro h\u00f3spede al\u00e9m do Henrique, o velho Botelho.<br \/>\nEste, por\u00e9m, na qualidade de parasita. Era um pobre-diabo caminhando para<br \/>\nos setenta anos, antip\u00e1tico, cabelo branco, curto e duro, como escova, barba<br \/>\ne bigode do mesmo teor; muito macilento, com uns \u00f3culos redondos que lhe aumentavam<br \/>\no tamanho da pupila e davam-lhe \u00e0 cara uma express\u00e3o de abutre, perfeitamente<br \/>\nde acordo com o seu nariz adunco e com a sua boca sem l\u00e1bios: viam-se-lhe<br \/>\nainda todos os dentes, mas, t\u00e3o gastos, que pareciam limados at\u00e9 ao meio.<br \/>\nAndava sempre de preto, com um guarda-chuva debaixo do bra\u00e7o e um chap\u00e9u de<br \/>\nBraga enterrado nas orelhas. Fora em seu tempo empregado do com\u00e9rcio, depois<br \/>\ncorretor de escravos; contava mesmo que estivera mais de uma vez na \u00c1frica<br \/>\nnegociando negros por sua conta. Atirou-se muito \u00e0s especula\u00e7\u00f5es; durante<br \/>\na guerra do Paraguai ainda ganhara forte, chegando a ser bem rico; mas a roda<br \/>\ndesandou e, de malogro em malogro, foi-lhe escapando tudo por entre as suas<br \/>\ngarras de ave de rapina. E agora, coitado, j\u00e1 velho, comido de desilus\u00f5es,<br \/>\ncheio de hemorr\u00f3idas, via-se totalmente sem recursos e vegetava \u00e0<\/p>\n<p>sombra do Mirada, com quem por muitos anos trabalhou em rapaz, sob as ordens<br \/>\ndo mesmo patr\u00e3o, e de quem se conservara amigo, a principio por acaso e mais<br \/>\ntarde por necessidade. Devorava-o, noite e dia, uma implac\u00e1vel amargura, uma<br \/>\nsurda tristeza de vencido, um desespero impotente, contra tudo e contra todos,<br \/>\npor n\u00e3o lhe ter sido poss\u00edvel empolgar o mundo com as suas m\u00e3os hoje in\u00fateis<br \/>\ne tr\u00eamulas. E, como o seu atual estado de mis\u00e9ria n\u00e3o lhe permitia abrir contra<br \/>\nningu\u00e9m o bico, desabafava vituperando as id\u00e9ias da \u00e9poca. Assim, eram \u00e0s<br \/>\nvezes muito quentes as sobremesas do Miranda, quando, entre outros assuntos<br \/>\npalpitantes, vinha \u00e0 discuss\u00e3o o movimento abolicionista que principiava a<br \/>\nformar-se em torno da lei Rio Branco. Ent\u00e3o o Botelho ficava possesso e vomitava<br \/>\nfrases terr\u00edveis, para a direita e para a esquerda, como quem dispara tiros<br \/>\nsem fazer alvo, e vociferava impreca\u00e7\u00f5es, aproveitando aquela v\u00e1lvula para<br \/>\ndesafogar o velho \u00f3dio acumulado dentro dele. &#8211; Bandidos! berrava apopl\u00e9tico.<br \/>\nC\u00e1fila de salteadores! E o seu rancor irradiava-lhe dos olhos em setas envenenadas,<br \/>\nprocurando cravar-se em todas as brancuras e em todas as claridades. A virtude,<br \/>\na beleza, o talento, a mocidade, a for\u00e7a, a sa\u00fade, e principalmente a fortuna,<br \/>\neis o que ele n\u00e3o perdoava a ningu\u00e9m, amaldi\u00e7oando todo aquele que conseguia<br \/>\no que ele n\u00e3o obtivera; que gozava o que ele n\u00e3o desfrutara; que sabia o que<br \/>\nele n\u00e3o aprendera. E, para individualizar o objeto do seu \u00f3dio, voltava-se<br \/>\ncontra o Brasil, essa terra que, na sua opini\u00e3o, s\u00f3 tinha uma serventia: enriquecer<br \/>\nos portugueses, e que, no entanto, o deixara, a ele, na pen\u00faria. Seus dias<br \/>\neram consumidos do seguinte modo: acordava \u00e0s oito da manh\u00e3, lavava-se mesmo<br \/>\nno quarto com uma toalha molhada em esp\u00edrito de vinho; depois ia ler os jornais<br \/>\npara a sala de jantar, \u00e0 espera do almo\u00e7o; almo\u00e7ava e sala, tomava o bonde<br \/>\ne ia direitinho para uma charutaria da Rua do Ouvidor, onde costumava ficar<br \/>\nassentado at\u00e9 \u00e0s horas do jantar, entretido a dizer mal das pessoas que passavam<br \/>\nl\u00e1 fora, defronte dele. Tinha a pretens\u00e3o de conhecer todo o Rio de Janeiro<br \/>\ne os podres de cada um em particular. \u00c0s vezes, poucas, Dona Estela encarregava-o<br \/>\nde fazer pequenas compras de armarinho, o que o Botelho desempenhava melhor<br \/>\nque ningu\u00e9m? Mas a sua grande paix\u00e3o, o seu fraco, era a farda, adorava tudo<br \/>\nque dissesse respeito a militarismo, posto que tivera sempre invenc\u00edvel medo<br \/>\n\u00e0s armas de qualquer esp\u00e9cie, mormente \u00e0s de fogo. N\u00e3o podia ouvir disparar<br \/>\nperto de si uma espingarda, entusiasmava-se por\u00e9m com tudo que cheirasse a<br \/>\nguerra; a presen\u00e7a de um oficial em grande uniforme tirava-lhe l\u00e1grimas de<br \/>\ncomo\u00e7\u00e3o; conhecia na ponta da l\u00edngua o que se referia \u00e0 vida de quartel; distinguia<br \/>\nao primeiro lance de olhos o posto e o corpo a que pertencia qualquer soldado<br \/>\ne, apesar dos seus achaques, era ouvir tocar na rua a corneta ou o tambor<br \/>\nconduzindo o batalh\u00e3o, ficava logo no ar, e, muita vez, quando dava por si,<br \/>\nfazia parte dos que acompanhavam a tropa. Ent\u00e3o, n\u00e3o tornava para casa enquanto<br \/>\nos militares neo se recolhessem. Quase sempre voltava dessa loucura \u00e0s seis<br \/>\nda tarde, mo\u00eddo a fazer d\u00f3, sem poder ter-se nas pernas, estrompado de marchar<br \/>\nhoras e horas ao som da m\u00fasica de pancadaria. E o mais interessante \u00e9 que<br \/>\nele, ao vir-lhe a rea\u00e7\u00e3o, revoltava-se furioso contra o maldito comandante<br \/>\nque o obrigava \u00e0quela estopada, levando o batalh\u00e3o por uma infinidade de ruas<br \/>\ne fazendo de prop\u00f3sito o caminho mais longo.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 parece, lamentava-se ele, que a inten\u00e7\u00e3o daquele malvado era dar-me<br \/>\ncabo da pele! Ora vejam! Tr\u00eas horas de marche-marche por uma soalheira de<br \/>\ntodos os diabos! Uma das birras mais c\u00f4micas do Botelho era o seu \u00f3dio pelo<br \/>\nValentim. O moleque causava-lhe febre com as suas petul\u00e2ncias de mimalho,<br \/>\ne, velhaco, percebendo quanto elas o irritavam, ainda mais abusava, seguro<br \/>\nna prote\u00e7\u00e3o de Dona Estela. O parasita de muito que o teria estrangulado,<br \/>\nse n\u00e3o fora a necessidade de agradar \u00e0 dona da casa. Botelho conhecia as faltas<br \/>\nde Estela como as palmas da pr\u00f3pria m\u00e3o. O Miranda mesmo, que o via em conta<br \/>\nde amigo fiel, muitas e muitas vezes lhas confiara em ocasi\u00f5es desesperadas<br \/>\nde desabafo, declarando francamente o quanto no intimo a desprezava e a raz\u00e3o<br \/>\npor que n\u00e3o a punha na rua aos pontap\u00e9s. E o Botelho dava-lhe toda a raz\u00e3o;<br \/>\nentendia tamb\u00e9m que os s\u00e9rios interesses comerciais estavam acima de tudo.<br \/>\n&#8211; Uma mulher naquelas condi\u00e7\u00f5es, dizia ele convicto, representa nada menos<br \/>\nque o capital, e um capital em caso nenhum a gente despreza! Agora, voc\u00ea o<br \/>\nque devia era nunca chegar-se para ela&#8230; &#8211; Ora! explicava o marido. Eu me<br \/>\nsirvo dela como quem se serve de uma escarradeira! O parasita, feliz por ver<br \/>\nquanto o amigo aviltava a mulher, concordava em tudo plenamente, dando-lhe<br \/>\num carinhoso abra\u00e7o de admira\u00e7\u00e3o. Mas por outro lado, quando ouvia Estela<br \/>\nfalar do marido, com infinito desd\u00e9m e at\u00e9 com asco, ainda mais resplandecia<br \/>\nde contente. &#8211; Voc\u00ea quer saber? afirmava ela, eu bem percebo quanto aquele<br \/>\ntraste do senhor meu marido me detesta, mas isso tanto se me d\u00e1 como a primeira<br \/>\ncamisa que vesti! Desgra\u00e7adamente para n\u00f3s, mulheres de sociedade, n\u00e3o podemos<br \/>\nviver sem esposo, quando somos casadas; de forma que tenho de aturar o que<br \/>\nme caiu em sorte, quer goste dele quer n\u00e3o goste! Juro-lhe, por\u00e9m, que, se<br \/>\nconsinto que o Miranda se chegue \u00e0s vezes para mim, \u00e9 porque entendo que paga<br \/>\nmais \u00e0 pena ceder do que puxar discuss\u00e3o com uma besta daquela ordem! O Botelho,<br \/>\ncom a sua encanecida experi\u00eancia do mundo, nunca transmitia a nenhum dos dois<br \/>\no que cada qual lhe dizia contra o outro; tanto assim que, certa ocasi\u00e3o,<br \/>\nrecolhendo-se \u00e0 casa incomodado, em hora que n\u00e3o era do seu<\/p>\n<p>costume, ouviu, ao passar pelo quintal, sussurros de vozes abafadas que pareciam<br \/>\nvir de um canto afogado de verdura, onde em geral n\u00e3o ia ningu\u00e9m. Encaminhou-se<br \/>\npara l\u00e1 em bicos de p\u00e9s e, sem ser percebido, descobriu Estela entalada entre<br \/>\no muro e o Henrique. Deixou-se ficar espiando, sem tugir nem mugir, e, s\u00f3<br \/>\nquando os dois se separaram, foi que ele se mostrou. A senhora soltou um pequeno<br \/>\ngrito, e o rapaz, de vermelho que estava, fez-se cor de cera; mas o Botelho<br \/>\nprocurou tranq\u00fciliz\u00e1-los, dizendo em voz amiga e misteriosa: &#8211; Isso \u00e9 uma<br \/>\nimprud\u00eancia o que voc\u00eas est\u00e3o fazendo!&#8230; Estas coisas n\u00e3o \u00e9 deste modo que<br \/>\nse arranjam! Assim como fui eu, podia ser outra pessoa&#8230; Pois numa casa em<br \/>\nque h\u00e1 tantos quartos, \u00e9 l\u00e1 preciso vir meterem-se neste canto do quintal?&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00f3s n\u00e3o est\u00e1vamos fazendo nada! disse Estela, recuperando o sangue-frio.<br \/>\n&#8211; Ah! tornou o velho, aparentando sumo respeito: ent\u00e3o desculpe, pensei que<br \/>\nestivessem&#8230; E olhe que, se assim fosse, para mim seria o mesmo, porque acho<br \/>\nisso a coisa mais natural do mundo e entendo que desta vida a gente s\u00f3 leva<br \/>\no que come!&#8230; Se vi, creia, foi como se nada visse, porque nada tenho a cheirar<br \/>\ncom a vida de cada um!&#8230; A senhora est\u00e1 mo\u00e7a, est\u00e1 na for\u00e7a dos anos; seu<br \/>\nmarido n\u00e3o a satisfaz, \u00e9 justo que o substitua por outro! Ah! isto \u00e9 o mundo,<br \/>\ne, se \u00e9 torto, n\u00e3o fomos n\u00f3s que o fizemos torto!&#8230; At\u00e9 certa idade todos<br \/>\ntemos dentro um bichinho-carpinteiro, que \u00e9 preciso matar, antes que ele nos<br \/>\nmate! N\u00e3o lhes doam as m\u00e3os!&#8230; apenas acho que, para outra vez, devem ter<br \/>\num pouquinho mais de cuidado e&#8230; &#8211; Est\u00e1 bom! basta! ordenou Estela. &#8211; Perd\u00e3o!<br \/>\neu, se digo isto, \u00e9 para deix\u00e1-los bem tranq\u00fcilos a meu respeito. N\u00e3o quero,<br \/>\nnem por sombra, que se persuadam de que&#8230; O Henrique atalhou, com a voz ainda<br \/>\ncomovida: &#8211; Mas, acredite, seu Botelho, que&#8230; O velho interrompeu-o tamb\u00e9m<br \/>\npor sua vez, passando-lhe a m\u00e3o no ombro e afastando-o consigo: &#8211; N\u00e3o tenha<br \/>\nreceio, que n\u00e3o o comprometerei, menino! E, como j\u00e1 estivessem distantes de<br \/>\nEstela, segredou-lhe em tom protetor: &#8211; N\u00e3o torne a fazer isto assim, que<br \/>\nvoc\u00ea se estraga&#8230; Olhe como lhe tremem as pernas! Dona Estela acompanhou-os<br \/>\na distancia, vagarosamente, afetando preocupa\u00e7\u00e3o em compor um ramalhete, cujas<br \/>\nflores ela ia colhendo com muita gra\u00e7a, ora toda vergada sobre as plantas<br \/>\nrasteiras, ora pondo-se na pontinha dos p\u00e9s para alcan\u00e7ar os heliotr\u00f3pios<br \/>\ne os manac\u00e1s. Henrique seguiu o Botelho at\u00e9 ao quarto deste, conversando sem<br \/>\nmudar de assunto. &#8211; Voc\u00ea ent\u00e3o n\u00e3o fala nisto, hein? Jura? perguntou-lhe.<br \/>\nO velho tinha j\u00e1 declarado, a rir, que os pilhara em flagrante e que ficara<br \/>\nbom tempo \u00e0 espreita. &#8211; Falar o qu\u00ea, seu tolo?&#8230; Pois ent\u00e3o quem pensa voc\u00ea<br \/>\nque eu sou?&#8230; S\u00f3 abrirei o bico se voc\u00ea me der motivo para isso, mas estou<br \/>\nconvencido que n\u00e3o dar\u00e1&#8230; Quer saber? eu at\u00e9 simpatizo muito com voc\u00ea, Henrique!<br \/>\nAcho que voc\u00ea \u00e9 um excelente menino, uma flor! E digo-lhe mais: hei de proteger<br \/>\nos seus neg\u00f3cios com Dona Estela&#8230; Falando assim, tinha-lhe tomado as m\u00e3os<br \/>\ne afagava-as. &#8211; Olhe, continuou, acariciando-o sempre; n\u00e3o se meta com donzelas,<br \/>\nentende?&#8230; S\u00e3o o diabo! Por d\u00e1 c\u00e1 aquela palha fica um homem em apuros! agora<br \/>\nquanto \u00e0s outras, papo com elas! N\u00e3o mande nenhuma ao vig\u00e1rio, nem lhe doa<br \/>\na cabe\u00e7a, porque, no fim de contas, nas circunst\u00e2ncias de Dona Estela, \u00e9 at\u00e9<br \/>\num grande servi\u00e7o que voc\u00ea lhe faz! Meu rico amiguinho, quando uma mulher<br \/>\nj\u00e1 passou dos trinta e pilha a jeito um rapazito da sua idade, \u00e9 como se descobrisse<br \/>\nouro em p\u00f3! sabe-lhe a gaitas! Fique ent\u00e3o sabendo de que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a ela que<br \/>\nvoc\u00ea faz o obs\u00e9quio, mas tamb\u00e9m ao marido: quanto mais escovar-lhe voc\u00ea a<br \/>\nmulher, melhor ela ficar\u00e1 de g\u00eanio, e por conseguinte melhor ser\u00e1 para o pobre<br \/>\nhomem, coitado! que tem j\u00e1 bastante com que se aborrecer l\u00e1 por baixo, com<br \/>\nos seus neg\u00f3cios, e precisa de um pouco de descanso quando volta do servi\u00e7o<br \/>\ne mete-se em casa! Escove-a, escove-a! que a por\u00e1 macia que nem veludo! O<br \/>\nque \u00e9 preciso \u00e9 muito juizinho, percebe? N\u00e3o fa\u00e7a outra crian\u00e7ada como a de<br \/>\nhoje e continue para diante, n\u00e3o s\u00f3 com ela, mas com todas as que lhe ca\u00edrem<br \/>\ndebaixo da asa! V\u00e1 passando! menos as de casa aberta, que isso \u00e9 perigoso<br \/>\npor causa das mol\u00e9stias; nem tampouco donzelas! N\u00e3o se meta com a Zulmira!<br \/>\nE creia que lhe falo assim, porque sou seu amigo, porque o acho simp\u00e1tico,<br \/>\nporque o acho bonito! E acarinhou-o t\u00e3o vivamente dessa vez, que o estudante,<br \/>\nfugindo-lhe das m\u00e3os, afastou-se com um gesto de repugn\u00e2ncia e desprezo, enquanto<br \/>\no velho lhe dizia em voz comprimida: &#8211; Olha! Espera! Vem c\u00e1! Voc\u00ea \u00e9 desconfiado!&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>III<\/h2>\n<p>Eram cinco horas da manh\u00e3 e o corti\u00e7o acordava, abrindo, n\u00e3o os olhos, mas<br \/>\na sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto<br \/>\nde quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo. Como que se sentiam<br \/>\nainda na indol\u00eancia de neblina as derradeiras notas da ultima guitarra da<br \/>\nnoite antecedente, dissolvendo-se \u00e0 luz loura e tenra da aurora, que nem um<br \/>\nsuspiro de saudade perdido em terra alheia. A roupa lavada, que ficara de<br \/>\nv\u00e9spera nos coradouros, umedecia o ar e punha-lhe um farto acre de sab\u00e3o ordin\u00e1rio.<br \/>\nAs pedras do ch\u00e3o, esbranqui\u00e7adas no lugar da lavagem e em alguns pontos azuladas<br \/>\npelo anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita de acumula\u00e7\u00f5es de<br \/>\nespumas secas. Entretanto, das portas surgiam cabe\u00e7as congestionadas de sono;<br \/>\nouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se<br \/>\ngrosso por toda a parte; come\u00e7avam as x\u00edcaras a tilintar; o cheiro quente<br \/>\ndo caf\u00e9 aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se de janela para janela<br \/>\nas primeiras palavras, os bons-dias; reatavam-se conversas interrompidas \u00e0<br \/>\nnoite; a pequenada c\u00e1 fora traquinava j\u00e1, e l\u00e1 dentro das casas vinham choros<br \/>\nabafados de crian\u00e7as que ainda n\u00e3o andam. No confuso rumor que se formava,<br \/>\ndestacavam-se risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar<br \/>\nde marrecos, cantar de galos, cacarejar de galinhas. De alguns quartos saiam<br \/>\nmulheres que vinham pendurar c\u00e1 fora, na parede, a gaiola do papagaio, e os<br \/>\nlouros, \u00e0 semelhan\u00e7a dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente, espanejando-se<br \/>\n\u00e0 luz nova do dia. Da\u00ed a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente;<br \/>\numa aglomera\u00e7\u00e3o tumultuosa de machos e f\u00eameas. Uns, ap\u00f3s outros, lavavam a<br \/>\ncara, incomodamente, debaixo do fio de \u00e1gua que escorria da altura de uns<br \/>\ncinco palmos. O ch\u00e3o inundava-se. As mulheres precisavam j\u00e1 prender as saias<br \/>\nentre as coxas para n\u00e3o as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos bra\u00e7os<br \/>\ne do pesco\u00e7o, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco;<br \/>\nos homens, esses n\u00e3o se preocupavam em n\u00e3o molhar o p\u00ealo, ao contr\u00e1rio metiam<br \/>\na cabe\u00e7a bem debaixo da \u00e1gua e esfregavam com for\u00e7a as ventas e as barbas,<br \/>\nfossando e fungando contra as palmas da m\u00e3o. As portas das latrinas n\u00e3o descansavam,<br \/>\nera um abrir e fechar de cada instante, um entrar e sair sem tr\u00e9guas. N\u00e3o<br \/>\nse demoravam l\u00e1 dentro e vinham ainda amarrando as cal\u00e7as ou as saias; as<br \/>\ncrian\u00e7as n\u00e3o se davam ao trabalho de l\u00e1 ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal<br \/>\ndos fundos, por detr\u00e1s da estalagem ou no recanto das hortas. O rumor crescia,<br \/>\ncondensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se; j\u00e1 se n\u00e3o destacavam<br \/>\nvozes dispersas, mas um s\u00f3 ru\u00eddo compacto que enchia todo o corti\u00e7o. Come\u00e7avam<br \/>\na fazer compras na venda; ensarilhavam-se discuss\u00f5es e resingas; ouviam-se<br \/>\ngargalhadas e pragas; j\u00e1 se n\u00e3o falava, gritava-se. Sentia-se naquela fermenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nsang\u00fc\u00ednea, naquela gula vi\u00e7osa de plantas rasteiras que mergulham os p\u00e9s vigorosos<br \/>\nna lama preta e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante<br \/>\nsatisfa\u00e7\u00e3o de respirar sobre a terra. Da porta da venda que dava para o corti\u00e7o<br \/>\niam e vinham como formigas; fazendo compras. Duas janelas do Miranda abriram-se.<br \/>\nApareceu numa a Isaura, que se dispunha a come\u00e7ar a limpeza da casa. &#8211; Nh\u00e1<br \/>\nDunga! gritou ela para baixo, a sacudir um pano de mesa; se voc\u00ea tem cuscuz<br \/>\nde milho hoje, bata na porta, ouviu? A Leonor surgiu logo tamb\u00e9m, enfiando<br \/>\ncuriosa a carapinha por entre o pesco\u00e7o e o ombro da mulata. O padeiro entrou<br \/>\nna estalagem, com a sua grande cesta \u00e0 cabe\u00e7a e o seu banco de pau fechado<br \/>\ndebaixo do bra\u00e7o, e foi estacionar em meio do p\u00e1tio, \u00e0 espera dos fregueses,<br \/>\npousando a canastra sobre o cavalete que ele armou prontamente. Em breve estava<br \/>\ncercado por uma nuvem de gente. As crian\u00e7as adulavam-no, e, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que<br \/>\ncada mulher ou cada homem recebia o p\u00e3o, disparava para casa com este abra\u00e7ado<br \/>\ncontra o peito. Uma vaca, seguida por um bezerro amorda\u00e7ado, ia, tilintando<br \/>\ntristemente o seu chocalho, de porta em porta, guiada por um homem carregado<br \/>\nde vasilhame de folha. O zunzum chegava ao seu apogeu. A f\u00e1brica de massas<br \/>\nitalianas, ali mesmo da vizinhan\u00e7a, come\u00e7ou a trabalhar, engrossando o barulho<br \/>\ncom o seu arfar mon\u00f3tono de m\u00e1quina a vapor. As corridas at\u00e9 \u00e0 venda reproduziam-se,<br \/>\ntransformando-se num verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no<br \/>\nlugar das bicas apinhavam-se latas de todos os feitios, sobressaindo as de<br \/>\nquerosene com um bra\u00e7o de madeira em cima; sentia-se o trapejar da \u00e1gua caindo<br \/>\nna folha. Algumas lavadeiras enchiam j\u00e1 as suas tinas; outras estendiam nos<br \/>\ncoradouros a roupa que ficara de molho. Principiava o trabalho. Rompiam das<br \/>\ngargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras. Um carro\u00e7\u00e3o de lixo<br \/>\nentrou com grande barulho de rodas na pedra, seguido de uma algazarra medonha<br \/>\nalgaraviada pelo carroceiro contra o burro. E, durante muito tempo, fez-se<br \/>\num vaiv\u00e9m de mercadores. Apareceram os tabuleiros de carne fresca e outros<br \/>\nde tripas e fatos de boi; s\u00f3 n\u00e3o vinham hortali\u00e7as, porque havia muitas hortas<br \/>\nno corti\u00e7o. Vieram os ruidosos mascates, com as suas latas de quinquilharia,<br \/>\ncom as suas caixas de candeeiros e objetos de vidro e com o seu fornecimento<br \/>\nde ca\u00e7arolas e chocolateiras, de folha-de-flandres. Cada vendedor tinha o<br \/>\nseu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas, com as<br \/>\ncestas do peixe dependuradas, \u00e0 moda de balan\u00e7a, de um pau que ele trazia<br \/>\nao ombro.<\/p>\n<p>Nada mais foi preciso do que o seu primeiro guincho estridente e gutural<br \/>\npara surgirem logo, como por encanto, uma enorme variedade de gatos, que vieram<br \/>\ncorrendo acercar-se dele com grande familiaridade, ro\u00e7ando-se-lhe nas pernas<br \/>\narrega\u00e7adas e miando suplicantemente. O sardinheiro os afastava com o p\u00e9,<br \/>\nenquanto vendia o seu peixe \u00e0 porta das casinhas, mas os bichanos n\u00e3o desistiam<br \/>\ne continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cuidadosamente<br \/>\ntapava mal servia ao fregu\u00eas. Para ver-se livre por um instante dos importunos<br \/>\nera necess\u00e1rio atirar para bem longe um punhado de sardinhas, sobre o qual<br \/>\nse precipitava logo, aos pulos, o grupo dos pedinch\u00f5es. A primeira que se<br \/>\np\u00f4s a lavar foi a Leandra, por alcunha a &#8220;Machona&#8221;, portuguesa feroz, berradora,<br \/>\npulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo. Tinha duas filhas, uma<br \/>\ncasada e separada do marido, Ana das Dores, a quem s\u00f3 chamavam a &#8220;das Dores&#8221;<br \/>\ne outra donzela ainda, a Nenen, e mais um filho, o Agostinho, menino levado<br \/>\ndos diabos, que gritava tanto ou melhor que a m\u00e3e. A das Dores morava em sua<br \/>\ncasinha \u00e0 parte, mas toda a fam\u00edlia habitava no corti\u00e7o. Ningu\u00e9m ali sabia<br \/>\nao certo se a Machona era vi\u00fava ou desquitada; os filhos n\u00e3o se pareciam uns<br \/>\ncom os outros. A das Dores, sim, afirmavam que fora casada e que largara o<br \/>\nmarido para meter-se com um homem do com\u00e9rcio; e que este, retirando-se para<br \/>\na terra e n\u00e3o querendo solt\u00e1-la ao desamparo, deixara o s\u00f3cio em seu lugar.<br \/>\nTeria vinte e cinco anos. Nenen dezessete. Espigada, franzina e forte, com<br \/>\numa proazinha de orgulho da sua virgindade, escapando como enguia por entre<br \/>\nos dedos dos rapazes que a queriam sem ser para casar. Engomava bem e sabia<br \/>\nfazer roupa branca de homem com muita perfei\u00e7\u00e3o. Ao lado da Leandra foi colocar-se<br \/>\n\u00e0 sua tina a Augusta Carne-Mole, brasileira, branca, mulher de Alexandre,<br \/>\num mulato de quarenta anos, soldado de policia, pern\u00f3stico, de grande bigode<br \/>\npreto, queixo sempre escanhoado e um luxo de cal\u00e7as brancas engomadas e bot\u00f5es<br \/>\nlimpos na farda, quando estava de servi\u00e7o. Tamb\u00e9m tinham filhos, mas ainda<br \/>\npequenos, um dos quais, a Juju, vivia na cidade com a madrinha que se encarregava<br \/>\ndela. Esta madrinha era uma cocote de trinta mil-r\u00e9is para cima, a L\u00e9onie,<br \/>\ncom sobrado na cidade. Proced\u00eancia francesa. Alexandre, em casa, \u00e0 hora de<br \/>\ndescanso, nos seus chinelos e na sua camisa desabotoada, era muito ch\u00e3o com<br \/>\nos companheiros de estalagem, conversava, ria e brincava, mas envergando o<br \/>\nuniforme, encerando o bigode e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume<br \/>\nde fustigar as cal\u00e7as de brim, ningu\u00e9m mais lhe via os dentes e ent\u00e3o a todos<br \/>\nfalava teso e por cima do ombro. A mulher, a quem ele s\u00f3 dava tu quando n\u00e3o<br \/>\nestava fardado, era de uma honestidade proverbial no corti\u00e7o, honestidade<br \/>\nsem m\u00e9rito, porque vinha da indol\u00eancia do seu temperamento e n\u00e3o do arb\u00edtrio<br \/>\ndo seu car\u00e1ter. Junto dela p\u00f4s-se a trabalhar a Leoc\u00e1dia, mulher de um ferreiro<br \/>\nchamado Bruno, portuguesa pequena e socada, de carnes duras, com uma fama<br \/>\nterr\u00edvel de leviana entre as suas vizinhas. Seguia-se a Paula, uma cabocla<br \/>\nvelha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de que s\u00f3 ela<br \/>\ndispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e feiti\u00e7arias.<br \/>\nEra extremamente feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados<br \/>\n\u00e0 navalha, formando ponta, como dentes de c\u00e3o, cabelos lisos, escorridos e<br \/>\nainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe &#8220;Bruxa&#8221;.<\/p>\n<p>Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira, mulata<br \/>\nantiga, muito seria e asseada em exagero: a sua casa estava sempre \u00famida das<br \/>\nconsecutivas lavagens. Em lhe apanhando o mau humor punha-se logo a espanar,<br \/>\na varrer febrilmente, e, quando a raiva era grande, corria a buscar um balde<br \/>\nde \u00e1gua e descarregava-o com f\u00faria pelo ch\u00e3o da sala. A filha tinha quinze<br \/>\nanos, a pele de um moreno quente, bei\u00e7os sensuais, bonitos dentes, olhos luxuriosos<br \/>\nde macaca. Toda ela estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade<br \/>\ne n\u00e3o cedia, nem \u00e0 m\u00e3o de Deus Padre, aos rogos de Jo\u00e3o Rom\u00e3o, que a desejava<br \/>\napanhar a troco de pequenas concess\u00f5es na medida e no peso das compras que<br \/>\nFlorinda fazia diariamente \u00e0 venda. Depois via-se a velha Isabel, isto \u00e9,<br \/>\nDona Isabel, porque ali na estalagem lhes dispensavam todos certa considera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nprivilegiada pelas suas maneiras graves de pessoa que j\u00e1 teve tratamento:<br \/>\numa pobre mulher comida de desgostos. Fora casada com o dono de uma casa de<br \/>\nchap\u00e9us, que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito doentinha<br \/>\ne fraca, a quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe mestre at\u00e9 de<br \/>\nfranc\u00eas. Tinha uma cara macilenta de velha portuguesa devota, que j\u00e1 foi gorda,<br \/>\nbochechas moles de pelancas rechupadas, que lhe pendiam dos cantos da boca<br \/>\ncomo saquinhos vazios; fios negros no queixo, olhos castanhos, sempre chorosos<br \/>\nengolidos pelas p\u00e1lpebras. Puxava em bandos sobre as fontes o escasso cabelo<br \/>\ngrisalho untado de \u00f3leo de am\u00eandoas doces. Quando saia \u00e0 rua punha um eterno<br \/>\nvestido de seda preta, achamalotada, cuja saia n\u00e3o fazia rugas, e um xale<br \/>\nencarnado que lhe dava a todo o corpo um feitio piramidal. Da sua passada<br \/>\ngrandeza s\u00f3 lhe ficara uma caixa de rap\u00e9 de ouro, na qual a inconsol\u00e1vel senhora<br \/>\npitadeava agora, suspirando a cada pitada.<\/p>\n<p>A filha era a flor do corti\u00e7o. Chamavam-lhe Pombinha. Bonita, posto que enfermi\u00e7a<br \/>\ne nervosa ao \u00faltimo ponto; loura, muito p\u00e1lida, com uns modos de menina de<br \/>\nboa fam\u00edlia. A m\u00e3e n\u00e3o lhe permitia lavar, nem engomar, mesmo porque o m\u00e9dico<br \/>\na proibira expressamente. Tinha o seu noivo, o Jo\u00e3o da Costa, mo\u00e7o do com\u00e9rcio,<br \/>\nestimado do patr\u00e3o e dos colegas, com muito futuro, e que a adorava e conhecia<br \/>\ndesde pequenita; mas Dona Isabel n\u00e3o queria que o casamento se fizesse j\u00e1.<br \/>\n\u00c9 que Pombinha,<\/p>\n<p>or\u00e7ando ali\u00e1s pelos dezoito anos, n\u00e3o tinha ainda pago \u00e0 natureza o cruento<br \/>\ntributo da puberdade, apesar do zelo da velha e dos sacrif\u00edcios que esta fazia<br \/>\npara cumprir \u00e0 risca as prescri\u00e7\u00f5es do m\u00e9dico e n\u00e3o faltar \u00e0 filha o menor<br \/>\ndesvelo. No entanto, coitadas! daquele casamento dependia a felicidade de<br \/>\nambas, porque o Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu,<br \/>\nde quem mais tarde havia de ser s\u00f3cio, tencionava, logo que mudasse de estado,<br \/>\nrestitu\u00ed-las ao seu primitivo circulo social. A pobre velha desesperava-se<br \/>\ncom o fato e pedia a Deus, todas as noites, antes de dormir, que as protegesse<br \/>\ne conferisse \u00e0 filha uma gra\u00e7a t\u00e3o simples que ele fazia, sem distin\u00e7\u00e3o de<br \/>\nmerecimento, a quantas raparigas havia pelo mundo; mas, a despeito de tamanho<br \/>\nempenho, por coisa nenhuma desta vida consentiria que a sua pequena casasse<br \/>\nantes de &#8220;ser mulher&#8221;, como dizia ela. E &#8220;que deixassem l\u00e1 falar o doutor,<br \/>\nentendia que n\u00e3o era decente, nem tinha jeito, dar homem a uma mo\u00e7a que ainda<br \/>\nn\u00e3o fora visitada pelas regras! N\u00e3o! Antes v\u00ea-la solteira toda a vida e ficarem<br \/>\nambas curtindo para sempre aquele inferno da estalagem!&#8221; L\u00e1 no corti\u00e7o estavam<br \/>\ntodos a par desta hist\u00f3ria; n\u00e3o era segredo para ningu\u00e9m. E n\u00e3o se passava<br \/>\num dia que n\u00e3o interrogassem duas e tr\u00eas vezes a velha com estas frases: &#8211;<br \/>\nEnt\u00e3o? J\u00e1 veio? &#8211; Por que n\u00e3o tenta os banhos de mar?<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o chama outro m\u00e9dico?<\/p>\n<p>&#8211; Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo!<\/p>\n<p>A velha respondia dizendo que a felicidade n\u00e3o se fizera para ela. E suspirava<br \/>\nresignada. Quando o Costa aparecia depois da sua obriga\u00e7\u00e3o para visitar a<br \/>\nnoiva, os moradores da estalagem cumprimentavam-no em sil\u00eancio com um respeitoso<br \/>\nar de l\u00e1stima e piedade, empenhados tacitamente por aquele caiporismo, contra<br \/>\no qual n\u00e3o valiam nem mesmo as virtudes da Bruxa. Pombinha era muito querida<br \/>\npor toda aquela gente. Era quem lhe escrevia as cartas; quem em geral fazia<br \/>\no rol para as lavadeiras; quem tirava as contas; quem lia o jornal para os<br \/>\nque quisessem ouvir. Prezavam-na com muito respeito e davam-lhe presentes,<br \/>\no que lhe permitia certo luxo relativo. Andava sempre de botinhas ou sapatinhos<br \/>\ncom meias de cor, seu vestido de chita engomado; tinha as suas joiazinhas<br \/>\npara sair \u00e0 rua, e, aos domingos, quem a encontrasse \u00e0 missa na igreja de<br \/>\nS\u00e3o Jo\u00e3o Batista, n\u00e3o seria capaz de desconfiar que ela morava em corti\u00e7o.<br \/>\nFechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco,<br \/>\ncor de espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que<br \/>\nlhe caia, numa s\u00f3 linha, at\u00e9 ao pescocinho mole e fino. Era lavadeiro e vivia<br \/>\nsempre entre as mulheres, com quem j\u00e1 estava t\u00e3o familiarizado que elas o<br \/>\ntratavam como a uma pessoa do mesmo sexo; em presen\u00e7a dele falavam de coisas<br \/>\nque n\u00e3o exporiam em presen\u00e7a de outro homem; faziam-no at\u00e9 confidente dos<br \/>\nseus amores e das suas infidelidades, com uma franqueza que o n\u00e3o revoltava,<br \/>\nnem comovia. Quando um casal brigava ou duas amigas se disputavam, era sempre<br \/>\nAlbino quem tratava de reconcili\u00e1-los, exortando as mulheres \u00e0 conc\u00f3rdia.<br \/>\nDantes encarregava-se de cobrar o rol das colegas, por amabilidade; mas uma<br \/>\nvez, indo a uma rep\u00fablica de estudantes, deram-lhe l\u00e1, ningu\u00e9m sabia por qu\u00ea,<br \/>\numa d\u00fazia de bolos, e o pobre-diabo jurou ent\u00e3o, entre l\u00e1grimas e solu\u00e7os,<br \/>\nque nunca mais se incumbiria de receber os r\u00f3is. E da\u00ed em diante, com efeito,<br \/>\nn\u00e3o arredava os pezinhos do corti\u00e7o, a n\u00e3o ser nos dias de carnaval, em que<br \/>\nia, vestido de dan\u00e7arina, passear \u00e0 tarde pelas ruas e \u00e0 noite dan\u00e7ar nos<br \/>\nbailes dos teatros. Tinha verdadeira paix\u00e3o por esse divertimento; ajuntava<br \/>\ndinheiro durante o ano para gastar todo com a mascarada. E ningu\u00e9m o encontrava,<br \/>\ndomingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que n\u00e3o estivesse com a<br \/>\nsua cal\u00e7a branca engomada, a sua camisa limpa, um len\u00e7o ao pesco\u00e7o, e, amarrado<br \/>\n\u00e0 cinta, um avental que lhe caia sobre as pernas como uma saia. N\u00e3o fumava,<br \/>\nn\u00e3o bebia esp\u00edritos e trazia sempre as m\u00e3os geladas e \u00famidas. Naquela manh\u00e3<br \/>\nlevantara-se ainda um pouco mais l\u00e2nguido que do costume, porque passara mal<br \/>\na noite. A velha Isabel, que lhe ficava ao lado esquerdo, ouvindo-o suspirar<br \/>\ncom insist\u00eancia, perguntou-lhe o que tinha. Ah! muita moleza de corpo e uma<br \/>\npontada do vazio que o n\u00e3o deixava! A velha receitou diversos rem\u00e9dios, e<br \/>\nficaram os dois, no meio de toda aquela vida, a falar tristemente sobre mol\u00e9stias.<br \/>\nE, enquanto, no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leoc\u00e1dia, a Bruxa,<br \/>\na Marciana e sua filha conversavam de tina a tina, berrando e quase sem se<br \/>\nouvirem, a voz um tanto cansada j\u00e1 pelo servi\u00e7o, defronte delas, separado<br \/>\npelos jiraus, formava-se um novo renque de lavadeiras, que acudiam de fora,<br \/>\ncarregadas de trouxas, e iam ruidosamente tomando lagar ao lado umas das outras,<br \/>\nentre uma agita\u00e7\u00e3o sem tr\u00e9guas, onde se n\u00e3o distinguia o que era galhofa e<br \/>\no que era briga. Uma a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos<br \/>\ndo corti\u00e7o saiam homens para as suas obriga\u00e7\u00f5es. Por uma porta que havia ao<br \/>\nfundo da estalagem desapareciam os trabalhadores da pedreira, donde vinha<br \/>\nagora o retinir dos alvi\u00f5es e das picaretas. O Miranda, de cal\u00e7as de brim,<br \/>\nchap\u00e9u alto e sobrecasaca preta, passou l\u00e1 fora, em caminho para o armaz\u00e9m,<br \/>\nacompanhado pelo Henrique que ia para as aulas. O Alexandre, que estivera<br \/>\nde servi\u00e7o essa madrugada, entrou solene, atravessou o p\u00e1tio, sem falar a<br \/>\nningu\u00e9m, nem mesmo \u00e0 mulher, e recolheu-se \u00e0 casa, para dormir. Um grupo de<br \/>\nmascates, o Delporto, o Pompeo, o Francesco e o Andr\u00e9a, armado cada qual com<br \/>\na sua grande caixa de bugigangas, saiu para a peregrina\u00e7\u00e3o de todos os dias,<br \/>\naltercando e praguejando em italiano.<\/p>\n<p>Um rapazito de palet\u00f3 entrou da rua e foi perguntar \u00e0 Machona pela Nh\u00e1 Rita.<br \/>\n&#8211; A Rita Baiana? Sei c\u00e1! Faz amanh\u00e3 oito dias que ela arribou! A Leoc\u00e1dia<br \/>\nexplicou logo que a mulata estava com certeza de p\u00e2ndega com o Firmo. &#8211; Que<br \/>\nFirmo? interrogou Augusta. &#8211; Aquele cabravasco que se metia \u00e0s vezes ai com<br \/>\nela. Diz que \u00e9 torneiro. &#8211; Ela mudou-se? perguntou o pequeno. &#8211; N\u00e3o, disse<br \/>\na Machona; o quarto est\u00e1 fechado, mas a mulata tem coisas l\u00e1. Voc\u00ea o que queria?<br \/>\n&#8211; Vinha buscar uma roupa que est\u00e1 com ela. &#8211; N\u00e3o sei, filho, pergunta na venda<br \/>\nao Jo\u00e3o Rom\u00e3o, que talvez te possa dizer alguma coisa. &#8211; Ali? &#8211; Sim, pequeno,<br \/>\nnaquela porta, onde a preta do tabuleiro est\u00e1 vendendo! \u00d3 diabo! olha que<br \/>\npisas a boneca de anil! J\u00e1 se viu que sorte? Parece que n\u00e3o v\u00ea onde pisa este<br \/>\nraio de crian\u00e7a! E, notando que o filho, o Agostinho, se aproximava para tomar<br \/>\no lugar do outro que j\u00e1 se ia: &#8211; Sai da\u00ed, tu tamb\u00e9m, peste! J\u00e1 principias<br \/>\nna reina\u00e7\u00e3o de todos os dias? Vem para c\u00e1, que levas! Mas, \u00e9 verdade, que<br \/>\nfazes tu que n\u00e3o vais regar a horta do Comendador? &#8211; Ele disse ontem que eu<br \/>\nagora fosse \u00e0 tarde, que era melhor. &#8211; Ah! E amanh\u00e3, n\u00e3o te esque\u00e7as, recebe<br \/>\nos dois mil-r\u00e9is, que \u00e9 fim do m\u00eas. Olha! Vai l\u00e1 dentro e diz a Nenen que<br \/>\nte entregue a roupa que veio ontem \u00e0 noite. O pequeno afastou-se de carreira,<br \/>\ne ela lhe gritou na pista: &#8211; E que n\u00e3o ponha o refogado no fogo sem eu ter<br \/>\nl\u00e1 ido! Uma conversa cerrada travara-se no resto da fila de lavadeiras a respeito<br \/>\nda Rita Baiana. &#8211; \u00c9 doida mesmo!&#8230; censurava Augusta. Meter-se na p\u00e2ndega<br \/>\nsem dar conta da roupa que lhe entregaram&#8230; Assim h\u00e1 de ficar sem um fregu\u00eas&#8230;<br \/>\n&#8211; Aquela n\u00e3o endireita mais!&#8230; Cada vez fica at\u00e9 mais assanhada!&#8230; Parece<br \/>\nque tem fogo no rabo! Pode haver o servi\u00e7o que houver, aparecendo pagode,<br \/>\nvai tudo pro lado! Olha o que saiu o ano passado com a festa da Penha!&#8230;<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o agora, com este mulato, o Firmo, \u00e9 uma pouca-vergonha! Est\u2019ro<br \/>\ndia, pois voc\u00ea n\u00e3o viu? levaram ai numa bebedeira, a dan\u00e7ar e cantar \u00e0 viola,<br \/>\nque nem sei o que parecia! Deus te livre! &#8211; Para tudo h\u00e1 horas e h\u00e1 dias!&#8230;<br \/>\n&#8211; Para a Rita todos os dias s\u00e3o dias santos! A quest\u00e3o \u00e9 aparecer quem puxe<br \/>\npor ela! &#8211; Ainda assim n\u00e3o e m\u00e1 criatura&#8230; Tirante o defeito da vadiagem&#8230;<br \/>\n&#8211; Bom cora\u00e7\u00e3o tem ela, at\u00e9 demais, que n\u00e3o guarda um vint\u00e9m pro dia de amanh\u00e3.<br \/>\nParece que o dinheiro lhe faz comich\u00e3o no corpo! &#8211; Depois \u00e9 que s\u00e3o elas!&#8230;<br \/>\nO Jo\u00e3o Rom\u00e3o j\u00e1 lhe n\u00e3o fia! &#8211; Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as<br \/>\nm\u00e3os; quando ela tem dinheiro \u00e9 porque o gasta mesmo! E as lavadeiras n\u00e3o<br \/>\nse calavam, sempre a esfregar, e a bater, e a torcer camisas e ceroulas, esfogueadas<br \/>\nj\u00e1 pelo exerc\u00edcio. Ao passo que, em torno da sua tagarelice, o corti\u00e7o se<br \/>\nembandeirava todo de roupa molhada, de onde o sol tirava cintila\u00e7\u00f5es de prata.<br \/>\nEstavam em dezembro e o dia era ardente. A grama dos coradouros tinha reflexos<br \/>\nesmeraldinos; as paredes que davam frente ao Nascente, caiadinhas de novo,<br \/>\nreverberavam iluminadas, ofuscando a vista. Em uma das janelas da sala de<br \/>\njantar do Miranda, Dona Estela e Zulmira, ambas vestidas de claro e ambas<br \/>\na limarem as unhas, conversavam em voz surda, indiferentes \u00e0 agita\u00e7\u00e3o que<br \/>\nia l\u00e1 embaixo, muito esquecidas na sua tranq\u00fcilidade de entes felizes. Entretanto,<br \/>\nagora o maior movimento era na venda \u00e0 entrada da estalagem. Davam nove horas<br \/>\ne os oper\u00e1rios das f\u00e1bricas chegavam-se para o almo\u00e7o. Ao balc\u00e3o o Domingos<br \/>\ne o Manuel n\u00e3o tinham m\u00e3os a medir com a criadagem da vizinhan\u00e7a; os embrulhos<br \/>\nde papel amarelo sucediam-se, e o dinheiro pingava sem intermit\u00eancia dentro<br \/>\nda gaveta.<\/p>\n<p>&#8211; Meio quilo de arroz!<\/p>\n<p>&#8211; Um tost\u00e3o de a\u00e7\u00facar!<\/p>\n<p>&#8211; Uma garrafa de vinagre!<\/p>\n<p>&#8211; Dois martelos de vinho!<\/p>\n<p>&#8211; Dois vint\u00e9ns de fumo!<\/p>\n<p>&#8211; Quatro de sab\u00e3o!<\/p>\n<p>E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons.<\/p>\n<p>Ouviam-se protestos entre os compradores:<\/p>\n<p>&#8211; Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no fogo!<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 peste! d\u00e1 c\u00e1 as batatas, que eu tenho mais o que fazer!<\/p>\n<p>&#8211; Seu Manuel, n\u00e3o me demore essa manteiga!<\/p>\n<p>Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias arrepanhadas no quadril,<br \/>\no cacha\u00e7o grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de uma panela \u00e0 outra,<br \/>\nfazendo pratos, que Jo\u00e3o Rom\u00e3o levava de carreira aos trabalhadores assentados<br \/>\nnum compartimento junto. Admitira-se um novo caixeiro, s\u00f3 para o frege, e<br \/>\no rapaz, a cada comensal que ia chegando, recitava, em tom cantado e estridente,<br \/>\na sua intermin\u00e1vel lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite<br \/>\nfrito predominava. O parati circulava por todas as mesas, e cada caneca de<br \/>\ncaf\u00e9, de lou\u00e7a espessa, erguia um vulc\u00e3o de fumo tresandando a milho queimado.<br \/>\nUma algazarra medonha, em que ningu\u00e9m se entendia! Cruzavam-se conversas em<br \/>\ntodas as dire\u00e7\u00f5es, discutia-se a berros, com valentes punhadas sobre as mesas.<br \/>\nE sempre a sair, e sempre a entrar gente, e os que saiam, depois daquela comezaina<br \/>\ngrossa, iam radiantes de contentamento, com a barriga bem cheia, a arrotar.<\/p>\n<p>Num banco de pau tosco, que existia do lado de fora, junto \u00e0 parede e perto<br \/>\nda venda, um homem, de cal\u00e7a e camisa de zuarte, chinelos de couro cru, esperava,<br \/>\nhavia j\u00e1 uma boa hora, para falar com o vendeiro.<\/p>\n<p>Era um portugu\u00eas de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto, espada\u00fado,<br \/>\nbarbas \u00e1speras, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a testa, por<br \/>\ndebaixo de um chap\u00e9u de feltro ordin\u00e1rio: pesco\u00e7o de touro e cara de H\u00e9rcules,<br \/>\nna qual os olhos todavia, humildes como os olhos de um boi de canga, exprimiam<br \/>\ntranq\u00fcila bondade.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o ainda n\u00e3o se pode falar ao homem? perguntou ele, indo ao balc\u00e3o entender-se<br \/>\ncom o Domingos. &#8211; O patr\u00e3o est\u00e1 agora muito ocupado. Espere! &#8211; Mas s\u00e3o quase<br \/>\ndez horas e estou com um gole de caf\u00e9 no est\u00f4mago! &#8211; Volte logo! &#8211; Moro na<br \/>\ncidade nova. \u00c9 um estir\u00e3o daqui! O caixeiro gritou ent\u00e3o para a cozinha, sem<br \/>\ninterromper o que fazia: &#8211; O homem que ai est\u00e1, seu Jo\u00e3o, diz que se vai embora!<br \/>\n&#8211; Ele que espere um pouco, que j\u00e1 lhe falo! respondeu o vendeiro no meio de<br \/>\numa carreira. Diga-lhe que n\u00e3o v\u00e1! &#8211; Mas \u00e9 que ainda n\u00e3o almocei e estou aqui<br \/>\na tinir!&#8230; observou o H\u00e9rcules com a sua voz grossa e sonora. &#8211; \u00d3 filho,<br \/>\nalmoce ai mesmo! Aqui o que n\u00e3o falta \u00e9 de comer. J\u00e1 podia estar aviado! &#8211;<br \/>\nPois v\u00e1 l\u00e1! resolveu o homenzarr\u00e3o, saindo da venda para entrar na casa de<br \/>\npasto, onde os que l\u00e1 se achavam o receberam com ar curioso, medindo-o da<br \/>\ncabe\u00e7a aos p\u00e9s, como faziam sempre com todos os que ai se apresentavam pela<br \/>\nprimeira vez. E assentou-se a uma das mesinhas, vindo logo o caixeiro cantar-lhe<br \/>\na lista dos pratos. &#8211; Traga l\u00e1 o pescado com batatas e veja um martelo de<br \/>\nvinho. &#8211; Quer verde ou virgem? &#8211; Venha o verde; mas anda com isso, filho,<br \/>\nque j\u00e1 n\u00e3o vem sem tempo!<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>IV<\/h2>\n<p>Meia hora depois, quando Jo\u00e3o Rom\u00e3o se viu menos ocupado, foi ter com o sujeito<br \/>\nque o procurava e assentou-se defronte dele, caindo de fadiga, mas sem se<br \/>\nqueixar, nem se lhe trair a fisionomia o menor sintoma de cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea vem da parte do Machucas? perguntou-lhe. Ele falou-me de um homem<br \/>\nque sabe cal\u00e7ar pedra, lascar fogo e fazer lajedo.<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu.<\/p>\n<p>&#8211; Estava empregado em outra pedreira?<\/p>\n<p>&#8211; Estava e estou. Na de S\u00e3o Diogo, mas desgostei-me dela e quero passar adiante.<br \/>\n&#8211; Quanto lhe d\u00e3o l\u00e1? &#8211; Setenta mil-r\u00e9is. &#8211; Oh! Isso \u00e9 um disparate! &#8211; N\u00e3o<br \/>\ntrabalho por menos&#8230; &#8211; Eu, o maior ordenado que fa\u00e7o \u00e9 de cinq\u00fcenta. &#8211; Cinq\u00fcenta<br \/>\nganha um macaqueiro&#8230; &#8211; Ora! tenho a\u00ed muitos trabalhadores de lajedo por<br \/>\nesse pre\u00e7o! &#8211; Duvido que prestem! Aposto a m\u00e3o direita em como o senhor n\u00e3o<br \/>\nencontra por cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is quem dirija a broca, pese a p\u00f3lvora e lasque<br \/>\nfogo, sem lhe estragar a pedra e sem fazer desastres! &#8211; Sim, mas setenta mil-r\u00e9is<br \/>\n\u00e9 um ordenado imposs\u00edvel! &#8211; Nesse caso vou como vim&#8230; Fica o dito por n\u00e3o<br \/>\ndito! &#8211; Setenta mil-r\u00e9is \u00e9 muito dinheiro!&#8230; &#8211; C\u00e1 por mim, entendo que vale<br \/>\na pena pagar mais um pouco a um trabalhador bom, do que estar a sofrer desastres,<br \/>\ncomo o que sofreu sua pedreira a semana passada! N\u00e3o falando na vida do pobre<br \/>\nde Cristo que ficou debaixo da pedra! &#8211; Ah! O Machucas falou-lhe no desastre?<br \/>\n&#8211; Contou-mo, sim senhor, e o desastre n\u00e3o aconteceria se o homem soubesse<br \/>\nfazer o servi\u00e7o! &#8211; Mas setenta mil-r\u00e9is \u00e9 imposs\u00edvel. Des\u00e7a um pouco! &#8211; Por<br \/>\nmenos n\u00e3o me serve&#8230; E escusamos de gastar palavras! &#8211; Voc\u00ea conhece a pedreira?<br \/>\n&#8211; Nunca a vi de perto, mas quis me parecer que \u00e9 boa. De longe cheirou-me<br \/>\na granito. &#8211; Espere um instante. Jo\u00e3o Rom\u00e3o deu um pulo \u00e0 venda, deixou algumas<br \/>\nordens, enterrou um chap\u00e9u na cabe\u00e7a e voltou a ter com o outro. &#8211; Ande a<br \/>\nver! gritou-lhe da porta do frege, que a pouco e pouco se esvaziara de todo.<br \/>\nO cavouqueiro pagou doze vint\u00e9ns pelo seu almo\u00e7o e acompanhou-o em sil\u00eancio.<br \/>\nAtravessaram o corti\u00e7o. A labuta\u00e7\u00e3o continuava. As lavadeiras tinham j\u00e1 ido<br \/>\nalmo\u00e7ar e tinham voltado de novo para o trabalho. Agora estavam todas de chap\u00e9u<br \/>\nde palha, apesar das toldas que se armaram. Um calor de c\u00e1ustico mordia-lhes<br \/>\nos touti\u00e7os em brasa e cintilantes de suor. Um estado febril apoderava-se<br \/>\ndelas naquele rescaldo; aquela digest\u00e3o feita ao sol fermentava-lhes o sangue.<br \/>\nA Machona altercava com uma preta que fora reclamar um par de meias e destrocar<br \/>\numa camisa; a Augusta, muito mole sobre a sua t\u00e1bua de lavar, parecia derreter-se<br \/>\ncomo sebo; a Leoc\u00e1dia largava de vez em quando a roupa e o sab\u00e3o para co\u00e7ar<br \/>\nas comich\u00f5es do quadril e das virilhas, assanhadas pelo morma\u00e7o; a Bruxa monologava,<br \/>\nresmungando numa insist\u00eancia de idiota, ao lado da Marciana que, com o seu<br \/>\ntipo de mulata velha, um cachimbo ao canto da boca, cantava toadas mon\u00f3tonas<br \/>\ndo sert\u00e3o: &#8220;Maricas t\u00e1 marimbando,<\/p>\n<p>Maricas t\u00e1 marimbando,<\/p>\n<p>Na passage do riacho<\/p>\n<p>Maricas t\u00e1 marimbando.&#8221;<\/p>\n<p>A Florinda, alegre, perfeitamente bem com o rigor do sol, a rebolar sem fadigas,<br \/>\nassoviava os chorados e lundus que se tocavam na estalagem, e junto dela,<br \/>\na melanc\u00f3lica senhora Dona Isabel suspirava, esfregando a sua roupa dentro<br \/>\nda tina, automaticamente, como um condenado a trabalhar no pres\u00eddio; ao passo<br \/>\nque o Albino, saracoteando os seus quadris pobres de homem linf\u00e1tico, batia<br \/>\nna t\u00e1bua um par de cal\u00e7as, no ritmo cadenciado e mi\u00fado de um cozinheiro a<br \/>\nbater bifes. O corpo tremia-lhe todo, e ele, de vez em quando, suspendia o<br \/>\nlen\u00e7o do pesco\u00e7o para enxugar a fronte, e ent\u00e3o um gemido suspirado subia-lhe<br \/>\naos l\u00e1bios. Da casinha n\u00famero 8 vinha um falsete agudo, mas afinado. Era a<br \/>\ndas Dores que principiava o seu servi\u00e7o; n\u00e3o sabia engomar sem cantar. No<br \/>\nn\u00famero 7 Nenen cantarolava em tom muito mais baixo; e de um dos quartos do<br \/>\nfundo da estalagem saia de espa\u00e7o a espa\u00e7o uma nota \u00e1spera de trombone. O<br \/>\nvendeiro, ao passar por detr\u00e1s de Florinda, que no momento apanhava roupa<br \/>\ndo ch\u00e3o, ferrou-lhe uma palmada na parte do corpo ent\u00e3o mais em evid\u00eancia.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o bula, hein?!&#8230; gritou ela, r\u00e1pido, erguendo-se tesa. E, dando com Jo\u00e3o<br \/>\nRom\u00e3o: &#8211; Eu logo vi. Leva implicando aqui com a gente e depois, vai-se comprar<br \/>\nna venda, o safado rouba no peso! Diabo do galego Eu n\u00e3o te quero, sabe?<\/p>\n<p>O vendeiro soltou-lhe nova palmada com mais for\u00e7a e fugiu, porque ela se<br \/>\narmara com um regador cheio de \u00e1gua. &#8211; Vem pra c\u00e1, se \u00e9s capaz! Diabo da peste!<br \/>\nJo\u00e3o Rom\u00e3o j\u00e1 se havia afastado com o cavouqueiro. &#8211; O senhor tem aqui muita<br \/>\ngente!&#8230; observou-lhe este. &#8211; Oh! fez o outro, sacudindo os ombros, e disse<br \/>\ndepois com emp\u00e1fia: &#8211; Houvesse mais cem quartos que estariam cheios! Mas \u00e9<br \/>\ntudo gente s\u00e9ria! N\u00e3o h\u00e1 chinfrins nesta estalagem; se aparece uma rusga,<br \/>\neu chego, e tudo acaba logo! Nunca nos entrou c\u00e1 a policia, nem nunca a deixaremos<br \/>\nentrar! E olhe que se divertem bem com as suas violas! Tudo gente muita boa!<br \/>\nTinham chegado ao fim do p\u00e1tio do corti\u00e7o e, depois de transporem uma porta<br \/>\nque se fechava com um peso amarrado a uma corda, acharam-se no capinzal que<br \/>\nhavia antes da pedreira. &#8211; Vamos por aqui mesmo que \u00e9 mais perto, aconselhou<br \/>\no vendeiro. E os dois, em vez de procurarem a estrada, atravessaram o capim<br \/>\nquente e trescalante. Meio-dia em ponto. O sol estava a pino; tudo reverberava<br \/>\na luz irreconcili\u00e1vel de dezembro, num dia sem nuvens. A pedreira, em que<br \/>\nela batia de chapa em cima, cegava olhada de frente. Era preciso martirizar<br \/>\na vista para descobrir as nuan\u00e7as da pedra; nada mais que uma grande mancha<br \/>\nbranca e luminosa, terminando pela parte de baixo no ch\u00e3o coberto de cascalho<br \/>\nmi\u00fado, que ao longe produzia o efeito de um betume cinzento, e pela parte<br \/>\nde cima na espessura compacta do arvoredo, onde se n\u00e3o distinguiam outros<br \/>\ntons mais do que n\u00f3doas negras, bem negras, sobre o verde-escuro. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o<br \/>\nque os dois se aproximavam da imponente pedreira, o terreno ia-se tornando<br \/>\nmais e mais cascalhudo; os sapatos enfarinhavam-se de uma poeira clara. Mais<br \/>\nadiante, por aqui e por ali, havia muitas carro\u00e7as, algumas em movimento,<br \/>\npuxadas a burro e cheias de calhaus partidos; outras j\u00e1 prontas para seguir,<br \/>\n\u00e0 espera do animal, e outras enfim com os bra\u00e7os para o ar, como se acabassem<br \/>\nde ser despejadas naquele instante. Homens labutavam. \u00c0 esquerda, por cima<br \/>\nde um vest\u00edgio de rio, que parecia ter sido bebido de um trago por aquele<br \/>\nsol sedento, havia uma ponte de t\u00e1buas, onde tr\u00eas pequenos, quase nus, conversavam<br \/>\nassentados, sem fazer sombra, iluminados a prumo pelo sol do meio-dia. Para<br \/>\nadiante, na mesma dire\u00e7\u00e3o, corria um vasto telheiro, velho e sujo, firmado<br \/>\nsobre colunas de pedra tosca; ai muitos portugueses trabalhavam de canteiro,<br \/>\nao barulho met\u00e1lico do pic\u00e3o que feria o granito. Logo em seguida, surgia<br \/>\numa oficina de ferreiro, toda atravancada de destro\u00e7os e objetos quebrados,<br \/>\nentre os quais avultavam rodas de carro; em volta da bigorna dois homens,<br \/>\nde corpo nu, banhados de suor e alumiados de vermelho como dois diabos, martelavam<br \/>\ncadenciosamente sobre um peda\u00e7o de ferro em brasa; e ali mesmo, perto deles,<br \/>\na forja escancarava uma goela infernal, de onde saiam pequenas l\u00ednguas de<br \/>\nfogo, irrequietas e gulosas. Jo\u00e3o Rom\u00e3o parou \u00e0 entrada da oficina e gritou<br \/>\npara um dos ferreiros:<\/p>\n<p>&#8211; O Bruno! N\u00e3o se esque\u00e7a do varal da lanterna do port\u00e3o!<\/p>\n<p>Os dois homens suspenderam por um instante o trabalho.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 l\u00e1 fui ver, respondeu o Bruno. N\u00e3o vale a pena consert\u00e1-lo; est\u00e1 todo<br \/>\ncomido de ferragem! Faz-se-lhe um novo, que \u00e9 melhor! &#8211; Pois veja l\u00e1 isso,<br \/>\nque a lanterna est\u00e1 a cair! E o vendeiro seguiu adiante com o outro, enquanto<br \/>\natr\u00e1s recome\u00e7ava o martelar sobre a bigorna. Em seguida via-se uma miser\u00e1vel<br \/>\nestrebaria, cheia de capim seco e excremento de bestas, com lugar para meia<br \/>\nd\u00fazia de animais. Estava deserta, mas, no vivo fartum exalado de l\u00e1, sentia-se<br \/>\nque fora habitada ainda aquela noite. Havia depois um dep\u00f3sito de madeiras,<br \/>\nservindo ao mesmo tempo de oficina de carpinteiro, tendo \u00e0 porta troncos de<br \/>\narvore, alguns j\u00e1 serrados, muitas t\u00e1buas empilhadas, restos de cavernas e<br \/>\nmastros de navio. Da\u00ed \u00e0 pedreira restavam apenas uns cinq\u00fcenta passos e o<br \/>\nch\u00e3o era j\u00e1 todo coberto por uma farinha de pedra mo\u00edda que sujava como a<br \/>\ncal. Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se trabalhadores, uns ao sol,<br \/>\noutros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de palmeira.<br \/>\nDe um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a picareta; de outro<br \/>\nafei\u00e7oavam lajedos a ponta de pic\u00e3o; mais adiante faziam paralelep\u00edpedos a<br \/>\nescopro e macete. E todo aquele retintim de ferramentas, e o martelar da forja,<br \/>\ne o coro dos que l\u00e1 em cima brocavam a rocha para lan\u00e7ar-lhe fogo, e a surda<br \/>\nzoada ao longe, que vinha do corti\u00e7o, como de uma aldeia alarmada; tudo dava<br \/>\na id\u00e9ia de uma atividade feroz, de uma luta de vingan\u00e7a e de \u00f3dio. Aqueles<br \/>\nhomens gotejantes de suor, b\u00eabados de calor, desvairados de insola\u00e7\u00e3o, a quebrarem,<br \/>\na espica\u00e7arem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de dem\u00f4nios revoltados<br \/>\nna sua impot\u00eancia contra o impass\u00edvel gigante que os contemplava com desprezo,<br \/>\nimperturb\u00e1vel a todos os golpes e a todos os tiros que lhe desfechavam no<br \/>\ndorso, deixando sem um gemido que lhe abrissem as entranhas de granito. O<br \/>\nmembrudo cavouqueiro havia chegado a fralda do orgulhoso monstro de pedra;<br \/>\ntinha-o cara a cara, mediu-o de alto a baixo, arrogante, num desafio surdo.<br \/>\nA pedreira mostrava nesse ponto de vista o seu lado mais imponente. Descomposta,<br \/>\ncom o escalavrado flanco exposto ao sol, erguia-se altaneira e desassombrada,<br \/>\nafrontando o c\u00e9u, muito \u00edngreme, lisa, escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente<br \/>\nlhe escorriam pela cicl\u00f3pica nudez com um efeito de teias de aranha. Em certos<br \/>\nlugares, muito alto do ch\u00e3o, lhe haviam espetado alfinetes de ferro, amparando,<br \/>\nsobre um precip\u00edcio, miser\u00e1veis t\u00e1buas que, vistas c\u00e1 de baixo, pareciam palitos,<br \/>\nmas em cima das quais uns atrevidos pigmeus de forma humana equilibravam-se,<br \/>\ndesfechando golpes de picareta contra o gigante. O cavouqueiro meneou a cabe\u00e7a<br \/>\ncom ar de l\u00e1stima. O seu gesto desaprovava todo aquele servi\u00e7o. &#8211; Veja l\u00e1!<br \/>\ndisse ele, apontando para certo ponto da rocha. Olhe para aquilo! Sua gente<br \/>\ntem ido \u00e0s cegas no trabalho desta pedreira. Deviam atac\u00e1-la justamente por<br \/>\naquele outro lado, para n\u00e3o contrariar os veios da pedra. Esta parte aqui<br \/>\n\u00e9 toda granito, \u00e9 a melhor! Pois olhe s\u00f3 o que eles t\u00eam tirado de l\u00e1 &#8211; umas<br \/>\nlascas, uns calhaus que n\u00e3o servem para nada! \u00c9 uma dor de cora\u00e7\u00e3o ver estragar<br \/>\nassim uma pe\u00e7a t\u00e3o boa! Agora o que h\u00e3o de fazer dessa cascalhada que ai est\u00e1<br \/>\nsen\u00e3o macacos? E brada aos c\u00e9us, creia! ter pedra desta ordem para empreg\u00e1-la<br \/>\nem macacos! O vendeiro escutava-o em sil\u00eancio, apertando os bei\u00e7os, aborrecido<br \/>\ncom a id\u00e9ia daquele preju\u00edzo. &#8211; Uma porcaria de servi\u00e7o! continuou o outro.<br \/>\nAli onde est\u00e1 aquele homem \u00e9 que deviam ter feito a broca, porque a explos\u00e3o<br \/>\npunha abaixo toda esta aba que \u00e9 separada por um veio. Mas quem tem ai o senhor<br \/>\ncapaz de fazer isso? Ningu\u00e9m; porque \u00e9 preciso um empregado que saiba o que<br \/>\nfaz; que, se a p\u00f3lvora n\u00e3o for muito bem medida, nem s\u00f3 n\u00e3o se abre o veio,<br \/>\ncomo ainda sucede ao trabalhador o mesmo que sucedeu ao outro! \u00c9 preciso conhecer<br \/>\nmuito bem o trabalho para se poder tirar partido vantajoso desta pedreira!<br \/>\nBoa \u00e9 ela, mas n\u00e3o nas m\u00e3os em que est\u00e1! \u00c9 muito perigosa nas explos\u00f5es; \u00e9<br \/>\nmuito em p\u00e9! Quem lhe lascar fogo n\u00e3o pode fugir sen\u00e3o para cima pela corda,<br \/>\ne se o sujeito n\u00e3o for fino leva-o o demo! Sou eu quem o diz! E depois de<br \/>\numa pausa, acrescentou, tomando na sua m\u00e3o, grossa como o pr\u00f3prio cascalho,<br \/>\num paralelep\u00edpedo que estava no ch\u00e3o: &#8211; Que digo eu?! C\u00e1 est\u00e1! Macacos de<br \/>\ngranito! Isto at\u00e9 \u00e9 uma coisa que estes burros deviam esconder por vergonha!<\/p>\n<p>Acompanhando a pedreira pelo lado direito e seguindo-a na volta que ela dava<br \/>\ndepois, formando um \u00e2ngulo obtuso, \u00e9 que se via quanto era grande. Suava-se<br \/>\nbem antes de chegar ao seu limite com a mata. &#8211; Que mina de dinheiro!&#8230; dizia<br \/>\no homenzarr\u00e3o, parando entusiasmado defronte do novo pano de rocha viva que<br \/>\nse desdobrava na presen\u00e7a dele. &#8211; Toda esta parte que se segue agora, declarou<br \/>\nJo\u00e3o Rom\u00e3o, ainda n\u00e3o \u00e9 minha. E continuaram a andar para diante. Deste lado<br \/>\nmultiplicavam-se as barraquinhas; os macaqueiros trabalhavam \u00e0 sombra delas,<br \/>\nindiferentes \u00e0queles dois. Viam-se panelas ao fogo, sobre quatro pedras, ao<br \/>\nar livre, e rapazitos tratando do jantar dos pais. De mulher nem<\/p>\n<p>sinal. De vez em quando, na penumbra de um ensombro de lona, dava-se com<br \/>\num grupo de homens, comendo de c\u00f3coras defronte uns dos outros, uma sardinha<br \/>\nna m\u00e3o esquerda, um p\u00e3o na direita, ao lado de uma garrafa de \u00e1gua. &#8211; Sempre<br \/>\no mesmo servi\u00e7o malfeito e mal dirigido!&#8230; resmungou o cavouqueiro. Entretanto,<br \/>\na mesma atividade parecia reinar por toda a parte. Mas, l\u00e1 no fim, debaixo<br \/>\ndos bambus que marcavam o limite da pedreira, alguns trabalhadores dormiam<br \/>\n\u00e0 sombra, de papo para o ar, a barba espetando para o alto, o pesco\u00e7o intumescido<br \/>\nde cordoveias grossas como enx\u00e1rcias de navio, a boca aberta, a respira\u00e7\u00e3o<br \/>\nforte e tranq\u00fcila de animal sadio, num feliz e plet\u00f3rico resfolgar de besta<br \/>\ncansada. &#8211; Que relaxamento! resmungou de novo o cavouqueiro. Tudo isto est\u00e1<br \/>\na reclamar um homem teso que olhe a s\u00e9rio para o servi\u00e7o! &#8211; Eu nada tenho<br \/>\nque ver com este lado! observou Rom\u00e3o. &#8211; Mas l\u00e1 da sua banda h\u00e3o de fazer<br \/>\no mesmo! Olar\u00e1! &#8211; Abusam, porque tenho de olhar pelo neg\u00f3cio l\u00e1 fora&#8230; &#8211;<br \/>\nComigo aqui \u00e9 que eles n\u00e3o fariam cera. isso juro eu! Entendo que o empregado<br \/>\ndeve ser bem pago, ter para a sua comida \u00e0 farta, o seu gole de vinho, mas<br \/>\nque deve fazer servi\u00e7o que se veja, ou, ent\u00e3o, rua! Rua, que n\u00e3o falta por<br \/>\nai quem queira ganhar dinheiro! Autorize-me a olhar por eles e ver\u00e1! &#8211; O diabo<br \/>\n\u00e9 que voc\u00ea quer setenta mil-r\u00e9is&#8230; suspirou Jo\u00e3o Rom\u00e3o. &#8211; Ah! nem menos um<br \/>\nreal!&#8230; Mas comigo aqui h\u00e1 de ver o que lhe fa\u00e7o entrar para algibeira! Temos<br \/>\nc\u00e1 muita gente que n\u00e3o precisa estar. Para que tanto macaqueiro, por exemplo?<br \/>\nAquilo \u00e9 servi\u00e7o para descanso; \u00e9 servi\u00e7o de crian\u00e7a! Em vez de todas aquelas<br \/>\nlesmas, pagas talvez a trinta mil-r\u00e9is&#8230; &#8211; \u00c9 justamente quanto lhes dou.<br \/>\n&#8211; &#8230; melhor seria tomar dois bons trabalhadores de cinq\u00fcenta, que fazem o<br \/>\ndobro do que fazem aqueles monos e que podem servir para outras coisas! Parece<br \/>\nque nunca trabalharam! Olhe, \u00e9 j\u00e1 a terceira vez que aquele que ali est\u00e1 deixa<br \/>\ncair o escopro! Com efeito! Jo\u00e3o Rom\u00e3o ficou calado, a cismar, enquanto voltavam.<br \/>\nVinham ambos pensativos. &#8211; E voc\u00ea, se eu o tomar, disse depois o vendeiro,<br \/>\nmuda-se c\u00e1 para a estalagem?&#8230; &#8211; Naturalmente! n\u00e3o hei de ficar l\u00e1 na cidade<br \/>\nnova, tendo o servi\u00e7o aqui!&#8230; &#8211; E a comida, forne\u00e7o-a eu?&#8230; &#8211; Isso \u00e9 que<br \/>\na mulher \u00e9 quem a faz; mas as compras saem-lhe da venda&#8230; &#8211; Pois est\u00e1 fechado<br \/>\no neg\u00f3cio! deliberou Jo\u00e3o Rom\u00e3o, convencido de que n\u00e3o podia, por economia,<br \/>\ndispensar um homem daqueles. E pensou l\u00e1 de si para si: &#8220;Os meus setenta mil-r\u00e9is<br \/>\nvoltar-me-\u00e3o \u00e0 gaveta. Tudo me fica em casa!&#8221; &#8211; Ent\u00e3o estamos entendidos?&#8230;<br \/>\n&#8211; Estamos entendidos! &#8211; Posso amanh\u00e3 fazer a mudan\u00e7a? &#8211; Hoje mesmo, se quiser;<br \/>\ntenho um c\u00f4modo que lhe h\u00e1 de calhar. \u00c9 o n\u00famero 35. Vou mostrar-lho. E aligeirando<br \/>\no passo, penetraram na estrada do capinzal com dire\u00e7\u00e3o ao fundo do corti\u00e7o.<br \/>\n&#8211; Ah! \u00e9 verdade! como voc\u00ea se chama? &#8211; Jer\u00f4nimo, para o servir. &#8211; Servir a<br \/>\nDeus. Sua mulher lava? &#8211; \u00c9 lavadeira, sim senhor. &#8211; Bem, precisamos ver-lhe<br \/>\numa tina. E o vendeiro empurrou a porta do fundo da estalagem, de onde escapou,<br \/>\ncomo de uma panela fervendo que se destapa, uma baforada quente, vozeria tresandante<br \/>\n\u00e0 fermenta\u00e7\u00e3o de suores e roupa ensaboada secando ao sol.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>V<\/h2>\n<p>No dia seguinte, com efeito, ali pelas sete da manh\u00e3, quando o corti\u00e7o fervia<br \/>\nj\u00e1 na costumada labuta\u00e7\u00e3o, Jer\u00f4nimo apresentou-se junto com a mulher, para<br \/>\ntomarem conta da casinha alugada na v\u00e9spera.<\/p>\n<p>A mulher chamava-se Piedade de Jesus; teria trinta anos, boa estatura, carne<br \/>\nampla e rija, cabelos fortes de um castanho fulvo, dentes pouco alvos, mas<br \/>\ns\u00f3lidos e perfeitos, cara cheia, fisionomia aberta; um todo de bonomia toleirona,<br \/>\ndesabotoando-lhe pelos olhos e pela boca numa simp\u00e1tica express\u00e3o de honestidade<br \/>\nsimples e natural. Vieram ambos \u00e0 boleia da andorinha que lhes carregou os<br \/>\ntrens. Ela trazia uma saia de sarja roxa, cabe\u00e7\u00e3o branco de paninho de algod\u00e3o<br \/>\ne na cabe\u00e7a um len\u00e7o vermelho de alcoba\u00e7a; o marido a mesma roupa do dia anterior.<br \/>\nE os dois apearam-se muito atrapalhados com os objetos que n\u00e3o confiaram dos<br \/>\nhomens da carro\u00e7a; Jer\u00f4nimo abra\u00e7ado a duas formid\u00e1veis mangas de vidro, das<br \/>\nprimitivas, dessas em que se podia \u00e0 vontade enfiar uma perna; e a Piedade<br \/>\natracada com um velho rel\u00f3gio de parede e com uma grande trouxa de santos<br \/>\ne palmas bentas. E assim atravessaram o p\u00e1tio da estalagem, entre os coment\u00e1rios<br \/>\ne os olhares curiosos dos antigos moradores, que nunca viam sem uma pontinha<br \/>\nde desconfian\u00e7a os inquilinos novos que surgiam. &#8211; O que ser\u00e1 este peda\u00e7o<br \/>\nde homem? indagou a Machona da sua vizinha de tina, a Augusta Carne-Mole.<br \/>\n&#8211; A modos, respondeu esta, que vem para trabalhar na pedreira. Ele ontem andou<br \/>\npor l\u00e1 um ror de tempo com o Jo\u00e3o Rom\u00e3o. &#8211; Aquela mulher que entrou junto<br \/>\nser\u00e1 casada com ele? &#8211; \u00c9 de crer. &#8211; Ela me parece gente das ilhas. &#8211; Eles<br \/>\no que t\u00eam \u00e9 muito bons trastes de seu! interveio a Leoc\u00e1dia. Uma cama que<br \/>\ndeve ser um regalo e um toucador com um espelho maior do que aquela peneira!<br \/>\n&#8211; E a c\u00f4moda, voc\u00ea viu, Nh\u00e1 Leoc\u00e1dia? perguntou Florinda, gritando para ser<br \/>\nouvida, porque entre ela e a outra estavam a Bruxa e a velha Marciana. &#8211; Vi,<br \/>\nRico traste! &#8211; E o orat\u00f3rio, ent\u00e3o? Muito bonito!&#8230; &#8211; Vi tamb\u00e9m. \u00c9 obra de<br \/>\ncapricho. N\u00e3o! eles sejam l\u00e1 quem for, s\u00e3o gente arranjada&#8230; Isso n\u00e3o se<br \/>\nlhes pode negar! &#8211; Se s\u00e3o bons ou maus s\u00f3 com o tempo se saber\u00e1!&#8230; arriscou<br \/>\nDona Isabel. &#8211; Quem v\u00ea cara n\u00e3o v\u00ea cora\u00e7\u00f5es&#8230; sentenciou o triste Albino,<br \/>\nsuspirando. &#8211; Mas o n\u00famero 35 n\u00e3o estava ocupado por aquele homem muito amarelo<br \/>\nque fazia charutos?&#8230; inquiriu Augusta. &#8211; Estava, confirmou a mulher do ferreiro,<br \/>\na Leoc\u00e1dia, por\u00e9m creio que arribou, devendo n\u00e3o sei quanto, e o Jo\u00e3o Rom\u00e3o<br \/>\nent\u00e3o esvaziou-lhe ontem a casa e tomou conta do que era dele. &#8211; \u00c9! acudiu<br \/>\na Machona; ontem, pelo cair das duas da tarde, o Rom\u00e3o andava a\u00ed \u00e0s voltas<br \/>\ncom os cacarecos do charuteiro. Quem sabe, se o pobre homem n\u00e3o levou a breca,<br \/>\ncomo sucedeu \u00e0quele outro que trabalhava de ourives? &#8211; N\u00e3o! Este creio que<br \/>\nest\u00e1 vivo&#8230; &#8211; O que lhe digo \u00e9 que aquele n\u00famero 35 tem mau agouro! Eu c\u00e1<br \/>\npor mim n\u00e3o o queria nem de gra\u00e7a! Foi l\u00e1 que morreu a Maricas do Farj\u00e3o!<br \/>\nTr\u00eas horas depois, Jer\u00f4nimo e Piedade achavam-se instalados e dispunham-se<br \/>\na comer o almo\u00e7o, que a mulher preparara o melhor e o mais depressa que p\u00f4de.<br \/>\nEle contava aviar at\u00e9 a noite uma infinidade de coisas, para poder come\u00e7ar<br \/>\na trabalhar logo no dia seguinte. Era t\u00e3o met\u00f3dico e t\u00e3o bom como trabalhador<br \/>\nquanto o era como homem. Jer\u00f4nimo viera da terra, com a mulher e uma filhinha<br \/>\nainda pequena, tentar a vida no Brasil, na qualidade de colono de um fazendeiro,<br \/>\nem cuja fazenda mourejou durante dois anos, sem nunca levantar a cabe\u00e7a, e<br \/>\nde onde afinal se retirou de m\u00e3os vazias e uma grande birra pela lavoura brasileira.<br \/>\nPara continuar a servir na ro\u00e7a tinha que sujeitar-se a emparelhar com os<br \/>\nnegros escravos e viver com eles no mesmo meio degradante, encurralado como<br \/>\numa besta, sem aspira\u00e7\u00f5es, nem futuro, trabalhando eternamente para outro.<\/p>\n<p>N\u00e3o quis. Resolveu abandonar de vez semelhante estupor de vida e atirar-se<br \/>\npara a Corte, onde, diziam-lhe patr\u00edcios, todo o homem bem disposto encontrava<br \/>\nfuro. E, com efeito, mal chegou, devorado de necessidades e priva\u00e7\u00f5es, meteu-se<br \/>\na quebrar pedra em uma pedreira, mediante um miser\u00e1vel sal\u00e1rio. A sua exist\u00eancia<br \/>\ncontinuava dura e prec\u00e1ria; a mulher j\u00e1 ent\u00e3o lavava e engomava, mas com pequena<br \/>\nfreguesia e mal paga. O que os dois faziam chegava-lhes apenas para n\u00e3o morrer<br \/>\nde fome e pagar o quarto da estalagem. Jer\u00f4nimo, por\u00e9m, era perseverante,<br \/>\nobservador e dotado de certa habilidade. Em poucos meses se apoderava do seu<br \/>\nnovo of\u00edcio e, de quebrador de pedra, passou logo a fazer paralelep\u00edpedos;<br \/>\ne depois foi-se ajeitando com o prumo e com a esquadria e meteu-se a fazer<br \/>\nlajedos; e finalmente, \u00e0 for\u00e7a de dedica\u00e7\u00e3o pelo servi\u00e7o, tornou-se t\u00e3o bom<br \/>\ncomo os melhores trabalhadores de pedreira e a ter sal\u00e1rio igual ao deles.<br \/>\nDentro de dois anos, distinguia-se tanto entre os companheiros, que o patr\u00e3o<br \/>\no converteu numa esp\u00e9cie de contramestre e elevou-lhe o ordenado a setenta<br \/>\nmil-r\u00e9is. Mas n\u00e3o foram s\u00f3 o seu zelo e a sua habilidade o que o p\u00f4s assim<br \/>\npara a frente; duas outras coisas contribu\u00edram muito para isso: a for\u00e7a de<br \/>\ntouro que o tornava respeitado e temido por todo o pessoal dos trabalhadores,<br \/>\ncomo ainda, e, talvez, principalmente, a grande seriedade do seu car\u00e1ter e<br \/>\na pureza austera dos seus costumes. Era homem de uma honestidade a toda prova<br \/>\ne de uma primitiva simplicidade no seu modo de viver. Sala de casa para o<br \/>\nservi\u00e7o e do servi\u00e7o para casa, onde nunca ningu\u00e9m o vira com a mulher sen\u00e3o<br \/>\nem boa paz; traziam a filhinha sempre limpa e bem alimentada, e, tanto um<br \/>\ncomo o outro, eram sempre os primeiros \u00e0 hora do trabalho. Aos domingos iam<br \/>\n\u00e0s vezes \u00e0 missa ou, \u00e0 tarde, ao Passeio P\u00fablico; nessas ocasi\u00f5es, ele punha<br \/>\numa camisa engomada, cal\u00e7ava sapatos e enfiava um palet\u00f3; ela o seu vestido<br \/>\nde ver a Deus, os seus ouros trazidos da terra, que nunca tinham ido ao monte<br \/>\nde socorro, malgrado as dificuldades com que os dois lutaram a principio no<br \/>\nBrasil. Piedade merecia bem o seu homem, muito diligente, sadia, honesta,<br \/>\nforte, bem acomodada com tudo e com todos, trabalhando de sol a sol e dando<br \/>\nsempre t\u00e3o boas contas da obriga\u00e7\u00e3o, que os seus fregueses de roupa, apesar<br \/>\ndaquela mudan\u00e7a para Botafogo, n\u00e3o a deixaram quase todos. Jer\u00f4nimo, ainda<br \/>\nna cidade nova, logo que principiara a ganhar melhor, fizera-se irm\u00e3o de uma<br \/>\nordem terceira e tratara de ir pondo alguma coisinha de parte. Meteu a filha<br \/>\nem um col\u00e9gio, &#8220;que a queria com outro saber que n\u00e3o ele, a quem os pais n\u00e3o<br \/>\nmandaram ensinar nada&#8221;. Por \u00faltimo, no corti\u00e7o em que ent\u00e3o moravam, a sua<br \/>\ncasinha era a mais decente, a mais respeitada e a mais confort\u00e1vel; por\u00e9m,<br \/>\ncom a morte do seu patr\u00e3o e com uma reforma est\u00fapida que os sucessores dele<br \/>\nrealizaram em todo o servi\u00e7o da pedreira, o colono desgostou-se dela e resolveu<br \/>\npassar para outra. Foi ent\u00e3o que lhe indicaram a do Jo\u00e3o Rom\u00e3o, que, depois<br \/>\ndo desastre do seu melhor empregado, andava justamente \u00e0 procura de um homem<br \/>\nnas condi\u00e7\u00f5es de Jer\u00f4nimo. Tomou conta da dire\u00e7\u00e3o de todo o servi\u00e7o, e em<br \/>\nboa hora o fez, porque dia a dia a sua influ\u00eancia se foi sentindo no progresso<br \/>\ndo trabalho. Com o seu exemplo os companheiros tornavam-se igualmente s\u00e9rios<br \/>\ne zelosos. Ele n\u00e3o admitia relaxamentos, nem podia consentir que um pregui\u00e7oso<br \/>\nse demorasse ali tomando o lagar de quem precisava ganhar o p\u00e3o. E alterou<br \/>\no pessoal da pedreira, despediu alguns trabalhadores, admitiu novos, aumentou<br \/>\no ordenado dos que ficaram, estabelecendo-lhes novas obriga\u00e7\u00f5es e reformando<br \/>\ntudo para melhor. No fim de dois meses j\u00e1 o vendeiro esfregava as m\u00e3os de<br \/>\ncontente e via, radiante, quanto lucrara com a aquisi\u00e7\u00e3o de Jer\u00f4nimo; tanto<br \/>\nassim que estava disposto a aumentar-lhe o ordenado para conserv\u00e1-lo em sua<br \/>\ncompanhia. &#8220;Valia a pena! Aquele homem era um achado precioso! Aben\u00e7oado fosse<br \/>\no Machucas que lho enviara!&#8221; E come\u00e7ou a distingui-lo e respeit\u00e1-lo como n\u00e3o<br \/>\nfazia a ningu\u00e9m. O prestigio e a considera\u00e7\u00e3o de que Jer\u00f4nimo gozava entre<br \/>\nos moradores da outra estalagem donde vinha, foi a pouco e pouco se reproduzindo<br \/>\nentre os seus novos companheiros de corti\u00e7o. Ao cabo de algum tempo era consultado<br \/>\ne ouvido, quando qualquer quest\u00e3o dif\u00edcil os preocupava. Descobriam-se defronte<br \/>\ndele, como defronte de um superior, at\u00e9 o pr\u00f3prio Alexandre abria uma exce\u00e7\u00e3o<br \/>\nnos seus h\u00e1bitos e fazia-lhe uma ligeira contin\u00eancia com a m\u00e3o no bon\u00e9, ao<br \/>\natravessar o p\u00e1tio, todo fardado, por ocasi\u00e3o de vir ou ir para o servi\u00e7o.<br \/>\nOs dois caixeiros da venda, o Domingos e o Manuel, tinham entusiasmo por ele.<br \/>\n&#8220;Aquele \u00e9 que devia ser o patr\u00e3o, diziam. \u00c9 um homem s\u00e9rio e destemido! Com<br \/>\naquele ningu\u00e9m brinca!&#8221; E, sempre que a Piedade de Jesus ia l\u00e1 \u00e0 taverna fazer<br \/>\nas suas compras, a fazenda que lhe davam era bem escolhida, bem medida ou<br \/>\nbem pesada. Muitas lavadeiras tomavam inveja dela, mas Piedade era de natural<br \/>\nt\u00e3o bom e benfazejo que n\u00e3o deva por isso e a maledic\u00eancia murchava antes<br \/>\nde amadurecer. Jer\u00f4nimo acordava todos os dias \u00e0s quatro horas da manh\u00e3, fazia<br \/>\nantes dos outros a sua lavagem \u00e0 bica do p\u00e1tio, socava-se depois com uma boa<br \/>\npalangana de caldo de unto, acompanhada de um p\u00e3o de quatro; e, em mangas<br \/>\nde camisa de riscado, a cabe\u00e7a ao vento, os grossos p\u00e9s sem meias metidos<br \/>\nem um formid\u00e1vel par de chinelos de couro cru, seguia para a pedreira. A sua<br \/>\npicareta era para os companheiros o toque de reunir. Aquela ferramenta movida<br \/>\npor um pulso de H\u00e9rcules valia bem os clarins de um regimento tocando alvorada.<br \/>\nAo seu retinir vibrante surgiam do caos opalino das neblinas vultos cor de<br \/>\ncinza, que l\u00e1 iam, como sombras, galgando a montanha, para cavar na pedra<br \/>\no p\u00e3o nosso de cada dia. E, quando o sol desfechava sobre o p\u00edncaro da rocha<br \/>\nos seus primeiros raios, j\u00e1 encontrava de p\u00e9, a bater-se contra o gigante<br \/>\nde granito, aquele m\u00edsero grupo de obscuros batalhadores. Jer\u00f4nimo s\u00f3 voltava<br \/>\na casa ao descair da tarde, morto de fome e de fadiga. A mulher preparava-lhe<br \/>\nsempre para o jantar alguma das comidas da terra deles. E ali, naquela estreita<br \/>\nsalinha, sossegada e humilde, gozavam os dois, ao lado<\/p>\n<p>um do outro, a paz feliz dos simples, o voluptuoso prazer do descanso ap\u00f3s<br \/>\num dia inteiro de canseiras ao sol. E, defronte do candeeiro de querosene,<br \/>\nconversavam sobre a sua vida e sobre a sua Marianita, a filhinha que estava<br \/>\nno col\u00e9gio e que s\u00f3 os visitava aos domingos e dias santos. Depois, at\u00e9 \u00e0s<br \/>\nhoras de dormir, que nunca passavam das nove, ele tomava a sua guitarra e<br \/>\nia para defronte da porta, junto com a mulher, dedilhar os fados da sua terra.<br \/>\nEra nesses momentos que dava plena expans\u00e3o \u00e0s saudades da p\u00e1tria, com aquelas<br \/>\ncantigas melanc\u00f3licas em que a sua alma de desterrado voava das zonas abrasadas<br \/>\nda Am\u00e9rica para as aldeias tristes da sua inf\u00e2ncia. E o canto daquela guitarra<br \/>\nestrangeira era um lamento choroso e dolorido, eram vozes magoadas, mais tristes<br \/>\ndo que uma ora\u00e7\u00e3o em alto-mar, quando a tempestade agita as negras asas homicidas,<br \/>\ne as gaivotas doidejam assanhadas, cortando a treva com os seus gemidos pressagos,<br \/>\ntontas como se estivessem fechadas dentro de uma ab\u00f3bada de chumbo.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>VI<\/h2>\n<p>Amanhecera um domingo alegre no corti\u00e7o, um bom dia de abril. Muita luz e<br \/>\npouco calor. As tinas estavam abandonadas; os coradouros despidos. Tabuleiros<br \/>\ne tabuleiros de roupa engomada saiam das casinhas, carregados na maior parte<br \/>\npelos filhos das pr\u00f3prias lavadeiras que se mostravam agora quase todas de<br \/>\nfato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias de chita de<br \/>\ncor. Desprezavam-se os grandes chap\u00e9us de palha e os aventais de aniagem;<br \/>\nagora as portuguesas tinham na cabe\u00e7a um len\u00e7o novo de ramagens vistosas e<br \/>\nas brasileiras haviam penteado o cabelo e pregado nos cachos negros um ramalhete<br \/>\nde dois vint\u00e9ns; aquelas trancavam no ombro xales de l\u00e3 vermelha, e estas<br \/>\nde croch\u00ea, de um amarelo desbotado. Viam-se homens de corpo nu, jogando a<br \/>\nplaca, com grande algazarra. Um grupo de italianos, assentado debaixo de uma<br \/>\n\u00e1rvore, conversava ruidosamente, fumando cachimbo. Mulheres ensaboavam os<br \/>\nfilhos pequenos debaixo da bica, muito zangadas, a darem-lhes murros, a praguejar,<br \/>\ne as crian\u00e7as berravam, de olhos fechados, esperneando. A casa da Machona<br \/>\nestava num rebuli\u00e7o, porque a fam\u00edlia ia sair a passeio; a velha gritava,<br \/>\ngritava Nenen, gritava o Agostinho. De muitas outras saiam cantos ou sons<br \/>\nde instrumentos; ouviam-se harm\u00f4nicas e ouviam-se guitarras, cuja discreta<br \/>\nmelodia era de vez em quando interrompida por um ronco forte de trombone.<br \/>\nOs papagaios pareciam tamb\u00e9m mais alegres com o domingo e lan\u00e7avam das gaiolas<br \/>\nfrases inteiras, entre gargalhadas e assobios. \u00c0 porta de diversos c\u00f4modos,<br \/>\ntrabalhadores descansavam, de cal\u00e7a limpa e camisa de meia lavada, assentados<br \/>\nem cadeira, lendo e soletrando jornais ou livros; um declamava em voz alta<br \/>\nversos de &#8220;Os Lus\u00edadas:, com um empenho feroz, que o punha rouco. Transparecia<br \/>\nneles o prazer da roupa mudada depois de uma semana no corpo. As casinhas<br \/>\nfumegavam um cheiro bom de refogados de carne fresca fervendo ao fogo. Do<br \/>\nsobrado do Miranda s\u00f3 as duas \u00faltimas janelas j\u00e1 estavam abertas e, pela escada<br \/>\nque descia para o quintal, passava uma criada carregando baldes de \u00e1guas servidas.<br \/>\nSentia-se naquela quieta\u00e7\u00e3o de dia in\u00fatil a falta do resfolegar aflito das<br \/>\nm\u00e1quinas da vizinhan\u00e7a, com que todos estavam habituados. Para al\u00e9m do solit\u00e1rio<br \/>\ncapinzal do fundo a pedreira parecia dormir em paz o seu sono de pedra; mas,<br \/>\nem compensa\u00e7\u00e3o, o movimento era agora extraordin\u00e1rio \u00e0 frente da estalagem<br \/>\ne \u00e0 entrada da venda. Muitas lavadeiras tinham ido para o port\u00e3o, olhar quem<br \/>\npassava; ao lado delas o Albino, vestido de branco, com o seu len\u00e7o engomado<br \/>\nao pesco\u00e7o, entretinha-se a chupar balas de a\u00e7\u00facar, que comprara ali mesmo<br \/>\nao tabuleiro de um baleiro fregu\u00eas do corti\u00e7o. Dentro da taverna, os martelos<br \/>\nde vinho branco, os copos de cerveja nacional e os dois vint\u00e9ns de parati<br \/>\nou laranjinha sucediam-se por cima do balc\u00e3o, passando das m\u00e3os do Domingos<br \/>\ne do Manuel para as m\u00e3os \u00e1vidas dos oper\u00e1rios e dos trabalhadores, que os<br \/>\nrecebiam com estrondosas exclama\u00e7\u00f5es de p\u00e2ndega. A Isaura, que fora num pulo<br \/>\ntomar o seu primeiro capil\u00e9, via-se tonta com os apalp\u00f5es que lhe davam. Leonor<br \/>\nn\u00e3o tinha um instante de sossego, saltando de um lado para outro, com uma<br \/>\nagilidade de mono, a fugir dos punhos calosos dos cavouqueiros que, entre<br \/>\nrisadas, tentavam agarr\u00e1-la; e insistia na sua amea\u00e7a do costume: &#8220;que se<br \/>\nqueixava ao juiz de orfe&#8221;, mas n\u00e3o se ia embora, porque defronte da venda<br \/>\nviera estacionar um homem que tocava cinco instrumentos ao mesmo tempo, com<br \/>\num acompanhamento desafinado de bombo, pratos e guizos.<\/p>\n<p>Eram apenas oito horas e j\u00e1 muita gente comia e palavreava na casa de pasto<br \/>\nao lado da venda. Jo\u00e3o Rom\u00e3o, de roupa mudada como os outros, mas sempre em<br \/>\nmangas de camisa, aparecia de espa\u00e7o em espa\u00e7o, servindo os comensais; e a<br \/>\nBertoleza, sempre suja e tisnada, sempre sem domingo nem dia santo, l\u00e1 estava<br \/>\nao fog\u00e3o, mexendo as panelas e enchendo os pratos. Um acontecimento, por\u00e9m,<br \/>\nveio revolucionar alegremente toda aquela confedera\u00e7\u00e3o da estalagem. Foi a<br \/>\nchegada da Rita Baiana, que voltava depois de uma aus\u00eancia de meses, durante<br \/>\na qual s\u00f3 dera noticias suas nas ocasi\u00f5es de pagar o aluguei do c\u00f4modo. Vinha<br \/>\nacompanhada por um moleque, que trazia na cabe\u00e7a um enorme sambur\u00e1 carregado<br \/>\nde compras feitas no mercado; um grande peixe espiava por entre folhas de<br \/>\nalface com o seu olhar embaciado e triste, contrastando com as risonhas cores<br \/>\ndos rabanetes, das cenouras e das talhadas de ab\u00f3bora vermelha. &#8211; P\u00f5e isso<br \/>\ntudo ai nessa porta. Ai no n\u00famero 9, pequeno! gritou ela ao moleque, indicando-lhe<br \/>\na sua casa, e depois pagou-lhe o carreto. &#8211; Podes ir embora, carapeta! Desde<br \/>\nque do port\u00e3o a bisparam na rua, levantou-se logo um coro de sauda\u00e7\u00f5es. &#8211;<br \/>\nOlha! quem ai vem! &#8211; Ol\u00e9! Bravo! \u00c9 a Rita Baiana! &#8211; J\u00e1 te faz\u00edamos morta e<br \/>\nenterrada! &#8211; E n\u00e3o \u00e9 que o demo da mulata est\u00e1 cada vez mais sacudida?&#8230;<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, coisa-ruim! por onde andaste atirando esses quartos? &#8211; Desta vez<br \/>\na coisa foi de esticar, hein?!<\/p>\n<p>Rita havia parado em meio do p\u00e1tio.<\/p>\n<p>Cercavam-na homens, mulheres e crian\u00e7as; todos queriam novas dela. N\u00e3o vinha<br \/>\nem traje de domingo; trazia casaquinho branco, uma saia que lhe deixava ver<br \/>\no p\u00e9 sem meia num chinelo de polimento com enfeites de marroquim de diversas<br \/>\ncores. No seu farto cabelo, crespo e reluzente, puxado sobre a nuca, havia<br \/>\num molho de manjeric\u00e3o e um peda\u00e7o de baunilha espetado por um gancho. E toda<br \/>\nela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas<br \/>\narom\u00e1ticas. Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril baiano, respondia<br \/>\npara a direita e para a esquerda, pondo \u00e0 mostra um fio de dentes claros e<br \/>\nbrilhantes que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador. Acudiu<br \/>\nquase todo o corti\u00e7o para receb\u00ea-la. Choveram abra\u00e7os e as chufas do bom acolhimento.<br \/>\nPor onde andara aquele diabo, que n\u00e3o aparecia para mais de tr\u00eas meses? &#8211;<br \/>\nOra, nem me fales, cora\u00e7\u00e3o! Sabe? pagode de roga! Que hei de fazer? \u00e9 a minha<br \/>\ncacha\u00e7a velha!&#8230; &#8211; Mas onde estiveste tu enterrada tanto tempo, criatura?<br \/>\n&#8211; Em Jacarepagu\u00e1. &#8211; Com quem? &#8211; Com o Firmo&#8230; &#8211; Oh! Ainda dura isso? &#8211; Cala<br \/>\na boca! A coisa agora \u00e9 s\u00e9ria! &#8211; Qual! Quem mesmo? Tu? Passa fora! &#8211; Paix\u00f5es<br \/>\nda Rita! exclamou o Bruno com uma risada. Uma por ano! N\u00e3o contando as mi\u00fadas!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! isso \u00e9 que n\u00e3o! Quando estou com um homem n\u00e3o olho pra outro! Leoc\u00e1dia,<br \/>\nque era perdida pela mulata, saltara-lhe ao pesco\u00e7o ao primeiro encontro,<br \/>\ne agora, defronte dela, com as m\u00e3os nas cadeiras, os olhos \u00famidos de como\u00e7\u00e3o,<br \/>\nrindo, sem se fartar de v\u00ea-la, fazia-lhe perguntas sobre perguntas: &#8211; Mas<br \/>\npor que n\u00e3o te metes tu logo por uma vez com o Firmo? por que n\u00e3o te casas<br \/>\ncom ele? &#8211; Casar? protestou a Rita. Nessa n\u00e3o cai a filha de meu pai! Casar?<br \/>\nLivra! Para qu\u00ea? para arranjar cativeiro? Um marido \u00e9 pior que o diabo; pensa<br \/>\nlogo que a gente \u00e9 escrava! Nada! qual! Deus te livre! N\u00e3o h\u00e1 como viver cada<br \/>\num senhor e dono do que \u00e9 seu! E sacudiu todo o corpo num movimento de desd\u00e9m<br \/>\nque lhe era peculiar. &#8211; Olha s\u00f3 que peste! considerou Augusta, rindo, muito<br \/>\nmole, na sua honestidade pregui\u00e7osa. Esta tamb\u00e9m achava infinita gra\u00e7a na<br \/>\nRita Baiana e seria capaz de levar um dia inteiro a v\u00ea-la dan\u00e7ar o chorado.<br \/>\nFlorinda ajudava a m\u00e3e a preparar o almo\u00e7o, quando lhe cheirou que chegara<br \/>\na mulata, e veio logo correndo, a rir-se desde longe, cair-lhe nos bra\u00e7os.<br \/>\nA pr\u00f3pria Marciana, de seu natural sempre triste e metida consigo, apareceu<br \/>\n\u00e0 janela, para saud\u00e1-la. A das Dores, com as saias arrepanhadas no quadril<br \/>\ne uma toalha por cima amarrada pela parte de tr\u00e1s e servindo de avental, o<br \/>\ncabelo ainda por pentear, mas entrouxado no alto da cabe\u00e7a, abandonou a limpeza<br \/>\nque fazia em casa e veio ter com a Rita, para dar-lhe uma palmada e gritar-lhe<br \/>\nno nariz: &#8211; Desta vez tomaste um fart\u00e3o, hein, mulata assanhada?&#8230; E, ambas<br \/>\na ca\u00edrem de riso, abra\u00e7aram-se em intimidade de amigas, que n\u00e3o t\u00eam segredos<br \/>\nde amor uma para a outra. A Bruxa veio em sil\u00eancio apertar a m\u00e3o de Rita e<br \/>\nretirou-se logo. &#8211; Olha a feiticeira! bradou esta \u00faltima, batendo no ombro<br \/>\nda idiota. Que diabo voc\u00ea tanto reza, tia Paula? Eu quero que voc\u00ea me d\u00ea um<br \/>\nfeiti\u00e7o para prender meu homem! E tinha uma frase para cada um que se aproximasse.<br \/>\nAo ver Dona Isabel, que apareceu toda cerimoniosa na sua saia da missa e com<br \/>\no seu velho xale de Macau, abra\u00e7ou-a e pediu-lhe uma pitada, que a senhora<br \/>\nrecusou, resmungando: &#8211; Sai da\u00ed diabo! &#8211; Cad\u00ea Pombinha? perguntou a mulata.<br \/>\nMas, nessa ocasi\u00e3o, Pombinha acabava justamente de sair de casa, muito bonita<br \/>\ne asseada com um vestido novo de cetineta. As m\u00e3os ocupadas com o livro de<br \/>\nrezas, o len\u00e7o e a sombrinha. &#8211; Ah! Como est\u00e1 chique! exclamou a Rita, meneando<br \/>\na cabe\u00e7a. \u00c9 mesmo uma flor! &#8211; e logo que Pombinha se p\u00f4s ao seu alcance, abra\u00e7ou-lhe<br \/>\na cintura e deu-lhe um beijo. &#8211; O Jo\u00e3o Costa se n\u00e3o te fizer feliz como os<br \/>\nanjos sou capaz de abrir-lhe o casco com o salto do chinelo! Juro pelos cabelos<br \/>\ndo meu homem! &#8211; E depois, tornando-se s\u00e9ria,<\/p>\n<p>perguntou muito em voz baixa a Dona Isabel: &#8211; J\u00e1 veio?&#8230; ao que a velha<br \/>\nrespondeu negativamente com um desconsolado e mudo abanar de orelhas. O circunspecto<br \/>\nAlexandre, sem querer declinar da sua gravidade, pois que estava fardado e<br \/>\npronto para sair, contentou-se em fazer com a m\u00e3o um cumprimento \u00e0 mulata,<br \/>\nao qual retrucou esta com uma contin\u00eancia militar e uma gargalhada que o desconcertaram.<br \/>\nIam fazer coment\u00e1rios sobre o caso, mas a Rita, voltando-se para o outro lado,<br \/>\ngritou: &#8211; Olha o velho Lib\u00f3rio! Como est\u00e1 cada vez mais duro!&#8230; N\u00e3o se entrega<br \/>\npor nada o dem\u00f4nio do judeu! E correu para o lugar, onde estava, aquecendo-se<br \/>\nao belo sol de abril, um octogen\u00e1rio, seco, que parecia mumificado pela idade,<br \/>\na fumar num resto de cachimbo, cujo pipo desaparecia na sua boca j\u00e1 sem l\u00e1bios.<br \/>\n&#8211; \u00cah! \u00eah! fez ele, quando a mulata se aproximou. &#8211; Ent\u00e3o? perguntou Rita,<br \/>\nabaixando-se para tocar-lhe no ombro. Quando \u00e9 o nosso neg\u00f3cio?&#8230; Mas voc\u00ea<br \/>\nh\u00e1 de deixar-me primeiro abrir o bauzinho de folha!&#8230; Lib\u00f3rio riu-se com<br \/>\nas gengivas, tentando apalpar as coxas da Baiana, por ca\u00e7oada, afetando lux\u00faria.<br \/>\nTodos acharam gra\u00e7a nesta pantomimice do velhinho, e ent\u00e3o, a mulata, para<br \/>\ncompletar a brincadeira, deu uma volta entufando as saias e sacudiu-as depois<br \/>\nsobre a cabe\u00e7a dele, que se fingiu indignado, a fungar exageradamente. E entre<br \/>\na alegria levantada pela sua reapari\u00e7\u00e3o no corti\u00e7o, a Rita deu conta de que<br \/>\npintara na sua aus\u00eancia; disse o muito que festou em Jacarepagu\u00e1; o entrudo<br \/>\nque fizera pelo carnaval. Tr\u00eas meses de folia! E, afinal abaixando a voz,<br \/>\nsegredou \u00e0s companheiras que \u00e0 noite teriam um pagodinho de viol\u00e3o. Podiam<br \/>\ncontar como certo! Esta \u00faltima noticia causou verdadeiro j\u00fabilo no audit\u00f3rio.<br \/>\nAs patuscadas da Rita Baiana eram sempre as melhores da estalagem. Ningu\u00e9m<br \/>\ncomo o diabo da mulata para armar uma fun\u00e7\u00e3o que ia pelas tantas da madrugada,<br \/>\nsem saber a gente como foi que a noite se passou t\u00e3o depressa. Al\u00e9m de que<br \/>\n&#8220;era aquela franqueza! enquanto houvesse dinheiro ou cr\u00e9dito, ningu\u00e9m morria<br \/>\ncom a tripa marcha ou com a goela seca!&#8221; &#8211; Diz-me c\u00e1, \u00f3 Leocadinha! quem s\u00e3o<br \/>\naqueles jururus que est\u00e3o agora no 35? indagou ela, vendo o Jer\u00f4nimo \u00e0 porta<br \/>\nda casa com a mulher. &#8211; Ah! explicou a interrogada, \u00e9 o Jeromo e mais a Piedade,<br \/>\num casal que inda n\u00e3o conheces. Entrou ao depois que arribaste. Boa gente,<br \/>\ncoitados! Rita carregou para dentro do seu c\u00f4modo as provis\u00f5es que trouxera;<br \/>\nabriu logo a janela e p\u00f4s-se a cantar. Sua presen\u00e7a enchia de alegria a estalagem<br \/>\ntoda. O Firmo, o mulato com quem ela agora vivia metida, o dem\u00f4nio que a desencabe\u00e7ara<br \/>\npara aquela maluqueira, de Jacarepagu\u00e1, ia l\u00e1 jantar esse dia com um amigo.<br \/>\nRita declarava isto \u00e0s companheiras, amolando uma faquinha no tijolo da sua<br \/>\nporta, para escamar o peixe; enquanto os gatos, aqueles mesmos que perseguiam<br \/>\no sardinheiro, vinham, um a um, chegando-se todos s\u00f3 com o ru\u00eddo da afia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo ferro. Ao lado direito da casinha da mulata, no n\u00famero 8, a das Dores preparava-se<br \/>\ntamb\u00e9m para receber nesse dia o seu amigo e dispunha-se a fazer uma limpeza<br \/>\ngeral nas paredes, nos tetos, no ch\u00e3o e nos m\u00f3veis, antes de meter-se na cozinha.<br \/>\nDescal\u00e7a, com a saia levantada at\u00e9 ao joelho, uma toalha na cabe\u00e7a, os bra\u00e7os<br \/>\narrega\u00e7ados, viam-na passar de carreira, de casa para a bica e da bica outra<br \/>\nvez para casa, carregando pesados baldes cheios de \u00e1gua. E da\u00ed a pouco apareciam<br \/>\najudantes gratuitos para os arranjos do jantar, tanto do lado da das Dores,<br \/>\ncomo do lado da Rita Baiana. O Albino encarregou-se de varrer e arrumar a<br \/>\ncasa desta, entretanto que a mulata ia para o fog\u00e3o preparar os seus quitutes<br \/>\ndo Norte. E veio a Florinda, e veio a Leoc\u00e1dia, e veio a Augusta, impacientes<br \/>\ntodas elas pelo pagode que havia de sair \u00e0 noite, depois do jantar. Pombinha<br \/>\nn\u00e3o apareceu durante o dia, porque estava muito ocupada, aviando a correspond\u00eancia<br \/>\ndos trabalhadores e das lavadeiras: servi\u00e7o este que ela deixava para os domingos.<br \/>\nNuma pequena mesa, coberta por um peda\u00e7o de chita, com o tinteiro ao lado<br \/>\nda caixinha de papel, a menina escrevia, enquanto o dono ou dona da carta<br \/>\nditava em voz alta o que queria mandar dizer \u00e0 fam\u00edlia. ou a algum mau devedor<br \/>\nde roupa lavada. E ia lan\u00e7ando tudo no papel, apenas com algumas ligeiras<br \/>\nmodifica\u00e7\u00f5es, para melhor, no modo de exprimir a id\u00e9ia. Pronta uma carta,<br \/>\nsobrescritava-a, entregava-a ao dono e chamava por outro, ficando a s\u00f3s com<br \/>\num de cada vez, pois que nenhum deles queria dar o seu recado em presen\u00e7a<br \/>\nde mais ningu\u00e9m sen\u00e3o de Pombinha. De sorte que a pobre rapariga ia acumulando<br \/>\nno seu cora\u00e7\u00e3o de donzela toda a s\u00famula daquelas paix\u00f5es e daqueles ressentimentos,<br \/>\n\u00e0s vezes mais f\u00e9tidos do que a evapora\u00e7\u00e3o de um lameiro em dias de grande<br \/>\ncalor. &#8211; Escreva l\u00e1, Nh\u00e3 Pombinha! disse junto dela um cavouqueiro, co\u00e7ando<br \/>\na cabe\u00e7a; mas fa\u00e7a letra grande, que \u00e9 pra mulher entender! Diga-lhe que n\u00e3o<br \/>\nmando desta feita o dinheiro que me pediu, porque agora n\u00e3o o tenho e estou<br \/>\nmuito acossado de apertos; mas que lho prometo pro m\u00eas. Ela que se v\u00e1 arranjando<br \/>\npor l\u00e1, que eu c\u00e1 sabe Deus como me co\u00e7o; e que, se o Lu\u00eds, o irm\u00e3o, resolver<br \/>\nde vir, que mo mande dizer com tempo, para ver se se lhe d\u00e1 furo \u00e0 vida por<br \/>\naqui; que isto de vir sem inda ter p\u2019ronde, \u00e9 fraco neg\u00f3cio, porque<br \/>\nas coisas por c\u00e1 n\u00e3o correm l\u00e1 para que digamos!<\/p>\n<p>E depois que a Pombinha escreveu, acrescentou: &#8211; Que eu tenho sentido muito<br \/>\na sua falta dela; mas tamb\u00e9m sou o mesmo e n\u00e3o me meto em porcarias e relaxamento;<br \/>\ne que tenciono mandar busc\u00e1-la, logo que Deus me ajude, e a Virgem! Que ela<br \/>\nn\u00e3o tem de que se arreliar por mor do dinheiro n\u00e3o ir desta; que, como l\u00e1<br \/>\ndiz o outro: quando n\u00e3o h\u00e1 el-rei o perde! Ah! (ia esquecendo!) quanto \u00e0 Lib\u00e2nia,<br \/>\n\u00e9 tirar da\u00ed o ju\u00edzo! que a Lib\u00e2nia se atirou aos c\u00e3es e faz hoje m\u00e1 vida na<br \/>\nRua de S\u00e3o Jorge; que se esque\u00e7a dela por vez e perca o amor \u00e0s duas coroas<br \/>\nque lhe emprestou! E a menina escrevia tudo, tudo, apenas interrompendo o<br \/>\nseu trabalho para fitar, com a m\u00e3o no queixo, o cavouqueiro, \u00e0 espera de nova<br \/>\nfrase.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>VII<\/h2>\n<p>E assim ia correndo o domingo no corti\u00e7o at\u00e9 \u00e0s tr\u00eas da tarde, horas em que<br \/>\nchegou mestre Firmo, acompanhado pelo seu amigo Porfiro, trazendo aquele o<br \/>\nviol\u00e3o e o outro o cavaquinho. Firmo, o atual amante de Rita Baiana, era um<br \/>\nmulato pachola, delgado de corpo e \u00e1gil como um cabrito; capad\u00f3cio de marca,<br \/>\npern\u00f3stico, s\u00f3 de ma\u00e7adas, e todo ele se quebrando nos seus movimentos de<br \/>\ncapoeira. Teria seus trinta e tantos anos, mas n\u00e3o parecia ter mais de vinte<br \/>\ne poucos. Pernas e bra\u00e7os finos, pesco\u00e7o estreito, por\u00e9m forte; n\u00e3o tinha<br \/>\nm\u00fasculos, tinha nervos. A respeito de barba, nada mais que um bigodinho crespo,<br \/>\npetulante, onde reluzia cheirosa a brilhantina do barbeiro; grande cabeleira<br \/>\nencaracolada, negra, e bem negra, dividida ao meio da cabe\u00e7a, escondendo parte<br \/>\nda testa e estufando em grande gaforina por debaixo da aba do chap\u00e9u de palha,<br \/>\nque ele punha de banda, derreado sobre a orelha esquerda. Vestia, como de<br \/>\ncostume, um palet\u00f3 de lustrina preta j\u00e1 bastante usado, cal\u00e7as apertadas nos<br \/>\njoelhos, mas t\u00e3o largas na bainha que lhe engoliam os pezinhos secos e ligeiros.<br \/>\nN\u00e3o trazia gravata, nem colete, sim uma camisa de chita nova e ao pesco\u00e7o,<br \/>\nresguardando o colarinho, um len\u00e7o alvo e perfumado; \u00e0 boca um enorme charuto<br \/>\nde dois vint\u00e9ns e na m\u00e3o um grosso porrete de Petr\u00f3polis, que nunca sossegava,<br \/>\ntantas voltas lhe dava ele a um tempo por entre os dedos magros e nervosos.<\/p>\n<p>Era oficial de torneiro, oficial perito e vadio; ganhava uma semana para<br \/>\ngastar num dia; \u00e0s vezes, por\u00e9m, os dados ou a roleta multiplicavam-lhe o<br \/>\ndinheiro, e ent\u00e3o ele fazia como naqueles \u00faltimos tr\u00eas meses: afogava-se numa<br \/>\nboa p\u00e2ndega com a Rita Baiana. A Rita ou outra. &#8220;O que n\u00e3o faltava por a\u00ed<br \/>\neram saias para ajudar um homem a cuspir o cobre na boca do diabo!&#8221; Nascera<br \/>\nno Rio de Janeiro, na Corte; militara dos doze aos vinte anos em diversas<br \/>\nmaltas de capoeiras; chegara a decidir elei\u00e7\u00f5es nos tempos do voto indireto.<br \/>\nDeixou nome em v\u00e1rias freguesias e mereceu abra\u00e7os, presentes e palavras de<br \/>\ngratid\u00e3o de alguns importantes chefes de partido. Chamava a isso a sua \u00e9poca<br \/>\nde paix\u00e3o pol\u00edtica; mas depois desgostou-se com o sistema de governo e renunciou<br \/>\n\u00e0s lutas eleitorais, pois n\u00e3o conseguira nunca o lugar de continuo numa reparti\u00e7\u00e3o<br \/>\np\u00fablica &#8211; o seu ideal! -Setenta mil-r\u00e9is mensais: trabalho das nove \u00e0s tr\u00eas.<br \/>\nAquela amiga\u00e7\u00e3o com a Rita Baiana era uma coisa muito complicada e vinha de<br \/>\nlonge; vinha do tempo em que ela ainda estava chegadinha de fresco da Bahia,<br \/>\nem companhia da m\u00e3e, uma cafuza dura, capaz de arrancar as tripas ao Manduca<br \/>\nda Praia. A cafuza morreu e o Firmo tomou conta da mulata; mas pouco depois<br \/>\nse separaram por ci\u00fames, o que ali\u00e1s n\u00e3o impediu que se tornassem a unir mais<br \/>\ntarde, e que de novo brigassem e de novo se procurassem. Ele tinha &#8220;paixa&#8221;<br \/>\npela Rita, e ela, apesar de vol\u00favel como toda a mesti\u00e7a, n\u00e3o podia esquec\u00ea-lo<br \/>\npor uma vez; metia-se com outros, \u00e9 certo, de quando em quando, e o Firmo<br \/>\nent\u00e3o pintava o caneco, dava por paus e por pedras, enchia-a de bofetadas,<br \/>\nmas, afinal, ia procur\u00e1-la, ou ela a ele, e ferravam-se de novo, cada vez<br \/>\nmais ardentes, como se aquelas turras constantes refor\u00e7assem o combust\u00edvel<br \/>\ndos seus amores. O amigo que Firmo trazia aquele domingo em sua companhia,<br \/>\no Porfiro, era mais velho do que ele e mais escuro. Tinha o cabelo encarapinhado.<br \/>\nTip\u00f3grafo. Afinavam-se muito os dois tipos com as suas cal\u00e7as de boca larga<br \/>\ne com os seus chap\u00e9us ao lado; mas o Porfiro tinha outra linha: n\u00e3o dispensava<br \/>\na sua gravata de cor saltando em la\u00e7o frouxo sobre o peito da camisa; fazia<br \/>\nquest\u00e3o da sua bengalinha com cabe\u00e7a de prata e da sua piteira de \u00e2mbar e<br \/>\nespuma, em que ele equilibrava um cigarro de palha. Desde a entrada dos dois,<br \/>\na casa de Rita esquentou. Ambos tiraram os palet\u00f3s e mandaram vir parati,<br \/>\n&#8220;a abrideira para muqueca baiana&#8221;. E n\u00e3o tardou que se ouvissem gemer o cavaquinho<br \/>\ne o viol\u00e3o. Ao lado chegava tamb\u00e9m o homem da das Dores, com um companheiro<br \/>\ndo com\u00e9rcio; vinham vestidos de fraque e chap\u00e9u alto. A Machona, Nenen e o<br \/>\nAgostinho, j\u00e1 de volta do seu passeio \u00e0 cidade, l\u00e1 estavam ajudando. Ficariam<br \/>\npara o rega-bofe. Um rumor quente, de dia de festa, ia-se formando naquele<br \/>\nponto da estalagem. Tanto numa casa, como na outra, o jantar seria \u00e0s cinco<br \/>\nhoras. Rita &#8220;botou&#8221; vestido branco, de cambraia, encanudado a ferro. Leoc\u00e1dia,<br \/>\nAugusta, o Bruno, o Alexandre e o Albino jantariam com ela no n\u00famero 9; e<br \/>\nno n\u00famero 8, com a das Dores, ficariam, al\u00e9m dos parentes desta, Dona Isabel,<br \/>\nPombinha, Marciana e Florinda. Jer\u00f4nimo e sua mulher foram convidados para<br \/>\nambas as mesas, mas n\u00e3o aceitaram o convite para nenhuma, dispostos a passar<br \/>\na tarde ao lado um do outro, tranq\u00fcilamente como sempre, comendo em boa paz<br \/>\no seu cozido \u00e0 moda da terra e bebendo o seu quartilho de verde pela mesma<br \/>\ninfusa.<\/p>\n<p>Entretanto, os dois jantares vizinhos principiaram ruidosos logo desde a<br \/>\nsopa e assanharam-se progressivamente. Meia hora depois vinha das duas casas<br \/>\numa algazarra infernal. Falavam e riam todos ao mesmo tempo; tilintavam os<br \/>\ntalheres e os copos. C\u00e1 de fora sentia-se perfeitamente o prazer que aquela<br \/>\ngente punha em comer e beber \u00e0 farta, com a boca cheia, os bei\u00e7os envernizados<br \/>\nde molho gordo. Alguns c\u00e3es rosnavam \u00e0 porta, roendo os ossos que traziam<br \/>\nl\u00e1 de dentro. De vez em quando, da janela de uma das casas aparecia uma das<br \/>\nmoradoras, chamando a vizinha, para entregar um prato cheio, permutando as<br \/>\nduas entre si os quitutes e as petisqueiras em que eram mais peritas.<\/p>\n<p>&#8211; Olha! gritava a das Dores para o n\u00famero 9, diz \u00e0 Rita que prove deste zor\u00f4,<br \/>\npra ver que tal o acha, e que o vatap\u00e1 estava muito gostoso! Se ela tem pimentas,<br \/>\nque me mande algumas! Do meio para o fim do jantar o baralho em ambas as casas<br \/>\nera medonho. No n\u00famero 8 berravam-se brindes e cantos desafinados. O portugu\u00eas<br \/>\namigo da das Dores, j\u00e1 desengravatado e com os bra\u00e7os \u00e0 mostra, vermelho,<br \/>\nlustroso de suor, intumescido de vinho virgem e leit\u00e3o de forno, repotreava-se<br \/>\nna sua cadeira, a rir forte, sem calar a boca, com a camisa a espipar-lhe<br \/>\npela braguilha aberta. O sujeito que a acompanhara fazia fosquinhas a Nenen,<br \/>\nprotegido no seu namoro por toda a roda, desde a respeit\u00e1vel Machona at\u00e9 ao<br \/>\nendemoninhado Agostinho, que n\u00e3o ficava quieto um instante, nem deixava sossegar<br \/>\na m\u00e3e, gritando um contra o outro como dois possessos. Florinda, sempre muito<br \/>\nrisonha e esperta, divertia-se a valer e, de vez em quando, levantava-se da<br \/>\nmesa, para ir de carreira levar l\u00e1 fora ao n\u00famero 12 um prato de comida \u00e0<br \/>\nsua velha que, \u00e0 \u00faltima hora, vindo-lhe o aborrecimento, resolvera n\u00e3o ir<br \/>\nao jantar. \u00c0 sobremesa o esfogueado amigo da dona da casa exigiu que a amante<br \/>\nse lhe assentasse nas coxas e dava-lhe beijos em presen\u00e7a de toda a companhia,<br \/>\no que fez com que Dona Isabel, impaciente por afastar a filha daquele inferno,<br \/>\ndeclarasse que sentia muito calor e que ia l\u00e1 para a porta esperar mais \u00e0<br \/>\nfresca o caf\u00e9. Em casa de Rita Baiana a anima\u00e7\u00e3o era inda maior. Firmo e Porfiro<br \/>\nfaziam o diabo, cantando, tocando bestial\u00f3gicos, arremedando a fala dos pretos<br \/>\ncassanges. Aquele n\u00e3o largava a cintura da mulata e s\u00f3 bebia no mesmo copo<br \/>\ncom ela; o outro divertia-se a perseguir o Albino, galanteando-o afetadamente,<br \/>\npara fazer rir \u00e0 sociedade. O lavadeiro indignava-se, dava o cavaco&#8221;. Leoc\u00e1dia,<br \/>\na quem o vinho produzira del\u00edrios hilaridade, torcia-se em gargalhadas, t\u00e3o<br \/>\nfortes e sacudidas que desconjuntavam a cadeira em que ela estava; e, muito<br \/>\nlubrificada pela bebedeira, punha os pesados p\u00e9s sobre os de Porfiro, ro\u00e7ando<br \/>\nas pernas contra as dele e deixando-se apalpar pelo capad\u00f3cio. O Bruno, defronte<br \/>\ndela, rubro e suado como se estivesse a trabalhar na forja, falava e gesticulava<br \/>\nsem se levantar, praguejando ningu\u00e9m sabia contra quem. O Alexandre, \u00e0 paisana,<br \/>\nassentado ao lado da mulher, conservava quase toda a sua seriedade e pedia<br \/>\nque n\u00e3o fizessem tanto barulho porque podiam ouvir da rua. E notou, em voz<br \/>\nmisteriosa, que o Miranda tinha vindo j\u00e1 espiar por v\u00e1rias vezes da janela<br \/>\ndo sobrado.<\/p>\n<p>&#8211; Que espie as vezes que quiser! bradou a Rita. Pois ent\u00e3o a gente n\u00e3o \u00e9<br \/>\nsenhora de estar um domingo em casa a seu gosto e com os amigos que entender?!&#8230;<br \/>\nQue v\u00e1 pro diabo que o lixe! Eu n\u00e3o como nem bebo do que \u00e9 dele! Os dois mulatos<br \/>\ne o Bruno tamb\u00e9m eram da mesma opini\u00e3o. &#8220;Pois ent\u00e3o! Desde que se n\u00e3o ofendia,<br \/>\nnem prejudicava a safardana nenhum com aquele divertimento, n\u00e3o havia de que<br \/>\nfalar!&#8221; &#8211; E que n\u00e3o entiquem muito, amea\u00e7ou o Firmo, que comigo \u00e9 nove! E<br \/>\no trunfo \u00e9 paus! O Porfiro exclamou: &#8211; Se se incomodam com a gente&#8230; os incomodados<br \/>\ns\u00e3o os que se mudam! Ora pistolas! &#8211; O domingo fez-se pra gozar!&#8230; resmungou<br \/>\no Bruno, deixando cair a cabe\u00e7a nos bra\u00e7os cruzados sobre a mesa. Mas ergueu-se<br \/>\nlogo, cambaleando, e acrescentou, despindo o bra\u00e7o direito at\u00e9 o ombro: &#8211;<br \/>\nEles que se fa\u00e7am finos, que os racho! O Alexandre procurou acalm\u00e1-lo, dando-lhe<br \/>\num charuto. Em uma outra casinha do corti\u00e7o acabava de estalar uma nova sobremesa,<br \/>\nengrossando o barulho geral: era o jantar de um grupo de italianos mascates,<br \/>\nonde o Delporto, o Pompeo, o Francesco e o Andr\u00e9a representavam as principais<br \/>\nfiguras. Todos eles cantavam em coro, mais afinados que nas outras duas casas;<br \/>\nquase, por\u00e9m, que se lhes n\u00e3o podia ouvir as vozes, tantas e t\u00e3o estrondosas<br \/>\neram as pragas que soltavam ao mesmo tempo. De quando em quando, de entre<br \/>\no grosso e macho vozear dos homens, esguichava um falsete feminino, t\u00e3o estridente<br \/>\nque provocava r\u00e9plica aos papagaios e aos perus da vizinhan\u00e7a. E, daqui e<br \/>\ndali, iam rebentando novas algazarras em grupos formados c\u00e1 e l\u00e1 pela estalagem.<br \/>\nHavia nos oper\u00e1rios e nos trabalhadores decidida disposi\u00e7\u00e3o para pandegar,<br \/>\npara aproveitar bem, at\u00e9 ao fim, aquele dia de folga. A casa de pasto fermentava<br \/>\nrevolucionada, como um est\u00f4mago de b\u00eabedo depois de grande br\u00f3dio, e arrotava<br \/>\nsobre o p\u00e1tio uma baforada quente e ruidosa que entontecia. O Miranda apareceu<br \/>\nfurioso \u00e0 janela, com o seu tipo de comendador, a barriga empinada para a<br \/>\nfrente, de palet\u00f3 branco, um guardanapo ao pesco\u00e7o e um trinchante empunhado<br \/>\nna destra, como uma espada. &#8211; V\u00e3o gritar pra o inferno, com um milh\u00e3o de raios!<br \/>\nberrou ele, amea\u00e7ando para baixo. Isto tamb\u00e9m j\u00e1 \u00e9 demais! Se n\u00e3o se calam,<br \/>\nvou daqui direito chamar a policia! S\u00facia de brutos! Com os berros do Miranda<br \/>\nmuita gente chegou \u00e0 porta de casa, e o coro de gargalhadas, que ningu\u00e9m podia<br \/>\nconter naquele momento de alegria, ainda mais o p\u00f4s fora de si. &#8211; Ah, canalhas!<br \/>\nO que eu devia fazer era atirar-lhes daqui, como a c\u00e3es danados! Uma vaia<br \/>\nun\u00edssona ecoou em todo o p\u00e1tio da estalagem, enquanto em volta do negociante<br \/>\nsurgiam v\u00e1rias pessoas, puxando-o para dentro de casa. &#8211; Que \u00e9 isso, Miranda!<br \/>\nEnt\u00e3o! Est\u00e1s agora a dar palha?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O que eles querem \u00e9 que encordoes!&#8230; &#8211; Saia da\u00ed papai! &#8211; Olhe alguma pedrada,<br \/>\nesta gente \u00e9 capaz de tudo! E via-se de relance Dona Estela, com a sua palidez<br \/>\nde flor meia fanada, e Zulmira, l\u00edvida, um ar de fastio a faz\u00ea-la feia, e<br \/>\no Henriquinho, cada vez mais bonito, e o velho Botelho, indiferente, a olhar<br \/>\npara toda esta porcaria do mundo com o profundo desprezo dos que j\u00e1 n\u00e3o esperam<br \/>\nnada dos outros, nem de si pr\u00f3prios. &#8211; Canalhas! repisava o Miranda. O Alexandre,<br \/>\nque fora de carreira enfiar a sua farda, apresentou-se ent\u00e3o e disse ao negociante<br \/>\nque n\u00e3o era prudente atirar insultos c\u00e1 pra baixo. Ningu\u00e9m o tinha provocado!<br \/>\nSe os moradores da estalagem jantavam em companhia de amigos, l\u00e1 em cima o<br \/>\nMiranda tamb\u00e9m estava comendo com os seus convidados! Era mau insultar, porque<br \/>\npalavra puxa palavra, e, em caso de ter de depor na policia, ele, Alexandre,<br \/>\ndeporia a favor de quem tivesse raz\u00e3o!&#8230; &#8211; Fomente-se! respondeu o negociante,<br \/>\nvoltando-lhe as costas. &#8211; J\u00e1 se viu chubregas mais atrevido?! exclamou Firmo,<br \/>\nque at\u00e9 ai estivera calado, \u00e0 porta da Rita, com as m\u00e3os nas cadeiras, a fitar<br \/>\nprovocadoramente o Miranda. E gritando mais alto, para ser bem ouvido: &#8211; Facilita<br \/>\nmuito, meu boi manso, que te escorvo os galhos na primeira ocasi\u00e3o! O Miranda<br \/>\nfoi arrancado com viol\u00eancia da janela, e esta fechada logo em seguida com<br \/>\nestrondo. &#8211; Deixa l\u00e1 esse labrego! resmungou Porfiro, tomando o amigo pelo<br \/>\nbra\u00e7o e fazendo-o recolher-se \u00e0 casa da mulata. Vamos ao caf\u00e9, \u00e9 o que \u00e9,<br \/>\nantes que esfrie! Defronte da porta de Rita tinham vindo postar-se diversos<br \/>\nmoradores do corti\u00e7o, jornaleiros de baixo sal\u00e1rio, pobre gente miser\u00e1vel,<br \/>\nque mal podia matar a fome com o que ganhava. Ainda assim n\u00e3o havia entre<br \/>\neles um s\u00f3 triste. A mulata convidou-os logo a comer um bocado e beber um<br \/>\ntrago. A proposta foi aceita alegremente. E a casa dela nunca se esvaziava.<br \/>\nAnoitecia j\u00e1. O velho Lib\u00f3rio, que jamais ningu\u00e9m sabia ao certo onde almo\u00e7ava<br \/>\nou jantava, surgiu do seu buraco, que nem jabuti quando v\u00ea chuva. Um tip\u00e3o,<br \/>\no velho Lib\u00f3rio! Ocupava o pior canto do corti\u00e7o e andava sempre a fariscar<br \/>\nos sobejos alheios, filando aqui, filando ali, pedindo a um e a outro, como<br \/>\num mendigo, chorando mis\u00e9rias eternamente, apanhando pontas de cigarro para<br \/>\nfumar no cachimbo, cachimbo que o sum\u00edtico roubara de um pobre cego decr\u00e9pito.<br \/>\nNa estalagem diziam todavia que Lib\u00f3rio tinha dinheiro aferrolhado, contra<br \/>\no que ele protestava ressentido, jurando a sua extrema penaria. E era t\u00e3o<br \/>\nferoz o dem\u00f4nio naquela fome de c\u00e3o sem dono, que as m\u00e3es recomendavam \u00e0s<br \/>\nsuas crian\u00e7as todo o cuidado com ele, porque o diabo do velho, quando via<br \/>\nalgum pequeno desacompanhado, punha-se logo a rond\u00e1-lo, a cerc\u00e1-lo de festas<br \/>\ne a fazer-lhe ratices para o engabelar, at\u00e9 conseguir furtar-lhe o doce ou<br \/>\no vintenzinho que o pobrezito trazia fechado na m\u00e3o. Rita f\u00ea-lo entrar e deu-lhe<br \/>\nde comer e de beber; mas sob condi\u00e7\u00e3o de que o esfomeado n\u00e3o se socasse demais,<br \/>\npara n\u00e3o rebentar ali mesmo. Se queria estourar, fosse estourar para longe!<br \/>\nEle p\u00f4s-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os lados, como<br \/>\nse temesse que algu\u00e9m lhe roubasse a comida da boca. Engolia sem mastigar,<br \/>\nempurrando os bocados com os dedos, agarrando-se ao prato e escondendo nas<br \/>\nalgibeiras o que n\u00e3o podia de uma s\u00f3 vez meter para dentro do corpo. Causava<br \/>\nterror aquela sua implac\u00e1vel mand\u00edbula, assanhada e devoradora; aquele enorme<br \/>\nqueixo, \u00e1vido, ossudo e sem um dente, que parecia ir engolir tudo, tudo, principiando<br \/>\npela pr\u00f3pria cara, desde a imensa batata vermelha que amea\u00e7ava j\u00e1 entrar-lhe<br \/>\nna boca, at\u00e9 as duas bochechinhas engelhadas, os olhos, as orelhas, a cabe\u00e7a<br \/>\ninteira, inclusive a sua grande calva, lisa como um queijo e guarnecida em<br \/>\nredor por uns p\u00ealos pu\u00eddos e ralos como farripas de coco. Firmo prop\u00f4s embebed\u00e1-lo,<br \/>\ns\u00f3 para ver a sorte que ele daria. O Alexandre e a mulher opuseram-se, mas<br \/>\nrindo muito; nem se podia deixar de rir, apesar do espanto, vendo aquele resto<br \/>\nde gente, aquele esqueleto velho, coberto por uma pele seca, a devorar, a<br \/>\ndevorar sem tr\u00e9guas, como se quisesse fazer provis\u00e3o para uma outra vida.<br \/>\nDe repente, um peda\u00e7o de carne, grande demais para ser ingerido de uma vez,<br \/>\nengasgou-o seriamente. Lib\u00f3rio come\u00e7ou a tossir, aflito, com os olhos sumidos,<br \/>\na cara tingida de uma vermelhid\u00e3o apopl\u00e9tica. A Leoc\u00e1dia, que era quem lhe<br \/>\nficava mais perto, soltou-lhe um murro nas costas.<\/p>\n<p>O glut\u00e3o arremessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne j\u00e1 meio triturado.<br \/>\nFoi um nojo geral. &#8211; Porco! gritou Rita, arredando-se. &#8211; Pois se o bruto quer<br \/>\nsocar tudo ao mesmo tempo! disse Porfiro. Parece que nunca viu comida, este<br \/>\nanimal! E notando que ele continuava ainda mais s\u00f4frego por ter perdido um<br \/>\ninstante: &#8211; Espere um pouco, lobo! Que diabo! A comida n\u00e3o foge! H\u00e1 muito<br \/>\nai com que te fartares por uma vez! Com efeito! &#8211; Beba \u00e1gua, tio Lib\u00f3rio!<br \/>\naconselhou Augusta. E, boa, foi buscar um copo de \u00e1gua e levou-lho a boca.<br \/>\nO velho bebeu, sem despregar os olhos do prato. Arre diabo! resmungou Porfiro,<br \/>\ncuspindo para o lado. Este \u00e9 mesmo capaz de comer-nos a todos n\u00f3s, sem achar<br \/>\nespinhas! Albino, esse, coitado! \u00e9 que n\u00e3o comia quase nada e o pouco que<br \/>\nconseguia meter no est\u00f4mago fazia-lhe mal. Rita, para bolir com ele, disse<br \/>\nque semelhante fastio era gravidez com certeza. &#8211; Voc\u00ea j\u00e1 come\u00e7a, hein?&#8230;<br \/>\nbalbuciou o pobre mo\u00e7o, esgueirando-se com a sua x\u00edcara de caf\u00e9. &#8211; Olha, cuidado!<br \/>\ngritou-lhe a mulata. Pouco caf\u00e9, que faz mal ao leite, e a crian\u00e7a pode sair<br \/>\ntrigueira! O Albino voltou para dizer muito s\u00e9rio \u00e0 Rita que n\u00e3o gostava dessas<br \/>\nbrincadeiras. Alexandre, que havia acendido um charuto, depois de oferecer<br \/>\noutros, galantemente, aos companheiros, arriscou, para tamb\u00e9m fazer a sua<br \/>\npilh\u00e9ria, que o sonso do Albino fora pilhado \u00e0s voltas com a Bruxa no capinzal<br \/>\ndos fundos da estalagem, debaixo das mangueiras. S\u00f3 a Leoc\u00e1dia achou gra\u00e7a<br \/>\nnisto e riu a bandeiras despregadas. Albino declarou, quase chorando, que<br \/>\nele n\u00e3o mexia com pessoa alguma, e que ningu\u00e9m, por conseguinte, devia mexer<br \/>\ncom ele. &#8211; Mas afinal, perguntou Porfiro, \u00e9 mesmo exato que este pamonha n\u00e3o<br \/>\nconhece mulher?&#8230; &#8211; Ele \u00e9 quem pode responder! acudiu a mulata. E esta hist\u00f3ria<br \/>\nvai ficar hoje liquidada! Vamos l\u00e1, \u00f3 Albino! confessa-nos tudo, ou mal te<br \/>\nter\u00e1s de haver com a gente! &#8211; Se eu soubesse que era para isto que me chamaram<br \/>\nn\u00e3o tinha vindo c\u00e1, sabe? gaguejou o lavadeiro, amuado. Eu n\u00e3o sirvo de palito!<br \/>\nE ter-se-ia retirado chorando, se a Rita n\u00e3o lhe cortasse a sa\u00edda, dizendo,<br \/>\ncomo se falasse a uma criatura do seu sexo, mais fraca do que ela: &#8211; Ora n\u00e3o<br \/>\nsejas tolo! Deixa-te ficar ai! Se deres o cavaco \u00e9 pior! Albino limpou as<br \/>\nl\u00e1grimas e foi sentar-se de novo. Entretanto, a noite fechava-se, refrescando<br \/>\na tarde com o sudoeste. Bruno roncava no lugar em que tinha jantado. A Leoc\u00e1dia<br \/>\npassara livremente a perna para cima da de Porfiro, que a abra\u00e7ava, bebendo<br \/>\nparati aos c\u00e1lices. Mas o Firmo lembrou que seria melhor irem l\u00e1 para fora;<br \/>\ne todos, menos o Bruno, dispuseram-se a deixar a sala, enquanto o velho Lib\u00f3rio!<br \/>\npedia a Alexandre um cigarro para despejar no cachimbo. Servido, o filante<br \/>\ndesapareceu logo, correndo ao faro de outros jantares. Rita, Augusta e Albino<br \/>\nficaram lavando a lou\u00e7a e arrumando a casa. L\u00e1 fora o coro dos italianos se<br \/>\nprolongava numa cad\u00eancia mon\u00f3tona e arrastada, em que havia muito peso de<br \/>\nembriaguez. Junto \u00e0 porta de v\u00e1rias casas faziam-se grupos de pessoas assentadas<br \/>\nem cadeiras ou no ch\u00e3o; mas a roda da Rita Baiana era a maior, porque fora<br \/>\nengrossada pelos convivas da das Dores. O fumo dos cachimbos e dos charutos<br \/>\nelevava-se de toda a parte. Decrescera o ru\u00eddo geral; fazia-se a digest\u00e3o;<br \/>\nj\u00e1 ningu\u00e9m discutia e todos conversavam. Acendeu-se o lampi\u00e3o do p\u00e1tio. Iluminaram-se<br \/>\ndiversas janelas das casinhas. Agora, no sobrado do Miranda \u00e9 que era o maior<br \/>\nbarulho. Saia de l\u00e1 uma terr\u00edvel gritaria de hipes e hurras, virgulada pelo<br \/>\ndesarrolhar de garrafas de champanha. &#8211; Como eles atacam!&#8230; observou Alexandre,<br \/>\nj\u00e1 de novo sem farda. &#8211; E, no entanto, reprovam que a gente coma o que \u00e9 seu<br \/>\ncom um pouco mais de alegria! comentou a Rita. Uma s\u00facia! Falou-se ent\u00e3o largamente<br \/>\na respeito da fam\u00edlia do Miranda, principalmente de Dona Estela e do Henrique.<br \/>\nA Leoc\u00e1dia afian\u00e7ou que, numa ocasi\u00e3o, espiando por cima do muro, trepada<br \/>\nnum mont\u00e3o de garrafas vazias que havia no<\/p>\n<p>p\u00e1tio do corti\u00e7o, vira a sirigaita com a cara agarrada \u00e0 do estudante, aos<br \/>\nbeijos e aos abra\u00e7os, que era obra; e assim que os dois deram f\u00e9 que ela os<br \/>\nespreitava, deitaram a fugir que nem c\u00e3es apedrejados. A Augusta Carne-Mole<br \/>\nbenzeu-se, com uma invoca\u00e7\u00e3o \u00e0 Virgem Sant\u00edssima, e o companheiro do amigo<br \/>\nda das Dores, que insistia no seu namoro com a Nenen, mostrou-se muito admirado<br \/>\ncom a noticia, &#8220;supunha Dona Estela um modelo de seriedade&#8221;. &#8211; Qual! negou<br \/>\nAlexandre. Isso por ai \u00e9 tudo uma pouca-vergonha, que faz descrer um homem<br \/>\nde si mesmo! Eu tamb\u00e9m j\u00e1 vi de uma feita bem boas coisas pela sombra dela<br \/>\nna parede; mas n\u00e3o era com o estudante, era com um sujeito que l\u00e1 ia \u00e0s vezes,<br \/>\num barbado, careca e comido de bexigas. E a pequena vai pelo mesmo conseguinte&#8230;<br \/>\nEsta novidade produziu grande surpresa no grupo inteiro. Quiseram os pormenores<br \/>\ne o Alexandre n\u00e3o se fez de rogado: o namoro da Zulmira era com um rapazola<br \/>\nmagro, de lunetas, bigode louro, bem vestido, que lhe rondava a casa \u00e0 noite<br \/>\ne \u00e0s vezes de madrugada. Parecia estudante! &#8211; O que eles t\u00eam feito? inquiriu<br \/>\na das Dores. &#8211; Por enquanto a coisa n\u00e3o passa de namorico da janela para a<br \/>\nrua. Conversam sempre naquela \u00faltima do lado de l\u00e1 de fora. J\u00e1 os tenho apreciado<br \/>\nquando estou de servi\u00e7o. Ele fala muito em casamento e a pequena o quer; mas,<br \/>\npelo jeito, o velho \u00e9 que lhe corta as asas. &#8211; Ele n\u00e3o tem entrada na casa?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! Pois isso \u00e9 que eu acho feio&#8230;! Se ele quer casar com a menina, devia<br \/>\nentender-se com a fam\u00edlia e n\u00e3o estar agora daqui debaixo a fazer-lhe fosquinhas!<br \/>\n&#8211; Sim, intrometeu-se o Firmo; mas n\u00e3o v\u00ea que aquele mesmo, o Miranda, vai<br \/>\ndar a filha a um estudante! Guarda-a para um dos seus&#8230; Quem sabe at\u00e9 se<br \/>\no bruto n\u00e3o tem j\u00e1 de olho por ai algum cafezista p\u00e9-de-boi!&#8230; Eu sei o que<br \/>\n\u00e9 essa gente! &#8211; Por isso \u00e9 que se v\u00ea tanta porcaria por esse mundo de Cristo!<br \/>\ndisse a Augusta. Filha minha s\u00f3 se casar\u00e1 com quem ela bem quiser; que isto<br \/>\nde casamentos empurrados \u00e0 for\u00e7a acabam sempre desgra\u00e7ando tanto a mulher<br \/>\ncomo o homem! Meu marido \u00e9 pobre e \u00e9 de cor, mas eu sou feliz, porque casei<br \/>\npor meu gosto! &#8211; Ora! Mais vale um gosto que quatro vint\u00e9ns! Nisto come\u00e7ou<br \/>\na gemer \u00e0 porta do 35 uma guitarra; era de Jer\u00f4nimo. Depois da ruidosa alegria<br \/>\ne do bom humor, em que palpitara \u00e0quela tarde toda a rep\u00fablica do corti\u00e7o,<br \/>\nela parecia ainda mais triste e mais saudosa do que nunca: &#8220;Minha vida tem<br \/>\ndesgostos,<\/p>\n<p>Que s\u00f3 eu sei compreender&#8230;<\/p>\n<p>Quando me lembro da terra<\/p>\n<p>Parece que vou morrer&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E, com o exemplo da primeira, novas guitarras foram acordando. E, por fim,<br \/>\na mon\u00f3tona cantiga dos portugueses enchia de uma alma desconsolada o vasto<br \/>\narraial da estalagem, contrastando com a barulhenta alacridade que vinha l\u00e1<br \/>\nde cima, do sobrado do Miranda. &#8220;Terra minha, que te adoro,<\/p>\n<p>Quando \u00e9 que eu te torno a ver?<\/p>\n<p>Leva-me deste desterro;<\/p>\n<p>Basta j\u00e1 de padecer.&#8221;<\/p>\n<p>Abatidos pelo fadinho harmonioso e nost\u00e1lgico dos desterrados, iam todos,<br \/>\nat\u00e9 mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente,<br \/>\no cavaquinho do Porfiro, acompanhado pelo viol\u00e3o do Firmo, romperam vibrantemente<br \/>\ncom um chorado baiano. Nada mais que os primeiros acordes da m\u00fasica crioula<br \/>\npara que o sangue de toda aquela gente despertasse logo, como se algu\u00e9m lhe<br \/>\nfustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se outras notas, e outras,<br \/>\ncada vez mais ardentes e mais delirantes. J\u00e1 n\u00e3o eram dois instrumentos que<br \/>\nsoavam, eram l\u00fabricos gemidos e suspiros soltos em torrente, a correrem serpenteando,<br \/>\ncomo cobras numa floresta incendiada; eram ais convulsos, chorados em frenesi<br \/>\nde amor; m\u00fasica feita de beijos e solu\u00e7os gostosos; car\u00edcia de fera, car\u00edcia<br \/>\nde doer, fazendo estalar de gozo.<\/p>\n<p>E aquela m\u00fasica de fogo doidejava no ar como um aroma quente de plantas brasileiras,<br \/>\nem torno das quais se nutrem, girando, moscardos sensuais e besouros venenosos,<br \/>\nfreneticamente, b\u00eabedos do delicioso perfume que os mata de vol\u00fapia. E \u00e0 viva<br \/>\ncrepita\u00e7\u00e3o da m\u00fasica baiana calaram-se as melanc\u00f3licas toadas dos de al\u00e9m-mar.<br \/>\nAssim \u00e0 refulgente luz do tr\u00f3picos amortece a fresca e doce claridade dos<br \/>\nc\u00e9us da Europa, como se o pr\u00f3prio sol americano, vermelho e esbraseado, viesse,<br \/>\nna sua lux\u00faria de sult\u00e3o, beber a l\u00e1grima medrosa da deca\u00edda rainha dos mares<br \/>\nvelhos. Jer\u00f4nimo alheou-se de sua guitarra e ficou com as m\u00e3os esquecidas<br \/>\nsobre as cordas, todo atento para aquela m\u00fasica estranha, que vinha dentro<br \/>\ndele continuar uma revolu\u00e7\u00e3o come\u00e7ada desde a primeira vez em que lhe bateu<br \/>\nem cheio no rosto, como uma bofetada de desafio, a luz deste sol orgulhoso<br \/>\ne selvagem, e lhe cantou no ouvido o estribilho da primeira cigarra, e lhe<br \/>\nacidulou a garganta o suco da primeira fruta provada nestas terras de brasa,<br \/>\ne lhe entonteceu a alma o aroma do primeiro bogari, e lhe transtornou o sangue<br \/>\no cheiro animal da primeira mulher, da primeira mesti\u00e7a, que junto dele sacudiu<br \/>\nas saias e os cabelos. &#8211; Que tens tu, Jeromo?&#8230; perguntou-lhe a companheira,<br \/>\nestranhando-o.<\/p>\n<p>&#8211; Espera, respondeu ele, em voz baixa: deixa ouvir!<\/p>\n<p>Firmo principiava a cantar o chorado, seguido por um acompanhamento de palmas.<\/p>\n<p>Jer\u00f4nimo levantou-se, quase que maquinalmente, e seguido por Piedade, aproximou-se<br \/>\nda grande roda que se formara em torno dos dois mulatos. Ai, de queixo grudado<br \/>\n\u00e0s costas das m\u00e3os contra uma cerca de jardim, permaneceu, sem tugir nem mugir,<br \/>\nentregue de corpo e alma \u00e0quela cantiga sedutora e voluptuosa que o enleava<br \/>\ne tolhia, como \u00e0 robusta gameleira brava o cip\u00f3 flex\u00edvel, carinhoso e trai\u00e7oeiro.<\/p>\n<p>E viu a Rita Baiana, que fora trocar o vestido por uma saia, surgir de ombros<br \/>\ne bra\u00e7os nus, para dan\u00e7ar. A lua destoldara-se nesse momento, envolvendo-a<br \/>\nna sua coma de prata, a cujo refulgir os meneios da mesti\u00e7a melhor se acentuavam,<br \/>\ncheios de uma gra\u00e7a irresist\u00edvel, simples, primitiva, feita toda de pecado,<br \/>\ntoda de para\u00edso, com muito de serpente e muito de mulher.<\/p>\n<p>Ela saltou em meio da roda, com os bra\u00e7os na cintura, rebolando as ilhargas<br \/>\ne bamboleando a cabe\u00e7a, ora para a esquerda, ora para a direita, como numa<br \/>\nsofreguid\u00e3o de gozo carnal, num requebrado luxurioso que a punha ofegante;<br \/>\nj\u00e1 correndo de barriga empinada; j\u00e1 recuando de bra\u00e7os estendidos, a tremer<br \/>\ntoda, como se se fosse afundando num prazer grosso que nem azeite, em que<br \/>\nse n\u00e3o toma p\u00e9 e nunca se encontra fundo. Depois, como se voltasse \u00e0 vida,<br \/>\nsoltava um gemido prolongado, estalando os dedos no ar e vergando as pernas,<br \/>\ndescendo, subindo, sem nunca parar com os quadris, e em seguida sapateava,<br \/>\nmi\u00fado e cerrado, freneticamente, erguendo e abaixando os bra\u00e7os, que dobrava,<br \/>\nora um, ora outro, sobre a nuca, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por<br \/>\nfibra, tirilando.<\/p>\n<p>Em torno o entusiasmo tocava ao del\u00edrio; um grito de aplausos explodia de<br \/>\nvez em quando, rubro e quente como deve ser um grito sa\u00eddo do sangue. E as<br \/>\npalmas insistiam, cadentes, certas, num ritmo nervoso, numa persist\u00eancia de<br \/>\nloucura. E, arrastado por ela, pulou \u00e0 arena o Firmo, \u00e1gil, de borracha, a<br \/>\nfazer coisas fant\u00e1sticas com as pernas, a derreter-se todo, a sumir-se no<br \/>\nch\u00e3o, a ressurgir inteiro com um pulo, os p\u00e9s no espa\u00e7o, batendo os calcanhares,<br \/>\nos bra\u00e7os a querer fugirem-lhe dos ombros, a cabe\u00e7a a querer saltar-lhe. E<br \/>\ndepois, surgiu tamb\u00e9m a Florinda, e logo o Albino e at\u00e9, quem diria! o grave<br \/>\ne circunspecto Alexandre.<\/p>\n<p>O chorado arrastava-os a todos, despoticamente, desesperando aos que n\u00e3o<br \/>\nsabiam dan\u00e7ar. Mas, ningu\u00e9m como a Rita; s\u00f3 ela, s\u00f3 aquele dem\u00f4nio, tinha<br \/>\no m\u00e1gico segredo daqueles movimentos de cobra amaldi\u00e7oada; aqueles requebros<br \/>\nque n\u00e3o podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz<br \/>\ndoce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante. E Jer\u00f4nimo via<br \/>\ne escutava, sentindo ir-se-lhe toda a alma pelos olhos enamorados. Naquela<br \/>\nmulata estava o grande mist\u00e9rio, a s\u00edntese das impress\u00f5es que ele recebeu<br \/>\nchegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho<br \/>\ndas sestas da fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que<br \/>\no atordoara nas matas brasileiras; era a palmeira virginal e esquiva que se<br \/>\nn\u00e3o torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o a\u00e7\u00facar gostoso; era<br \/>\no sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com<br \/>\no seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e trai\u00e7oeira, a lagarta viscosa,<br \/>\na muri\u00e7oca doida, que esvoa\u00e7ava havia muito tempo em torno do corpo dele,<br \/>\nassanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras embambecidas pela saudade<br \/>\nda terra, picando-lhe as art\u00e9rias, para lhe cuspir dentro do sangue uma centelha<br \/>\ndaquele amor setentrional, uma nota daquela m\u00fasica feita de gemidos de prazer,<br \/>\numa larva daquela nuvem de cant\u00e1ridas que zumbiam em torno da Rita Baiana<br \/>\ne espalhavam-se pelo ar numa fosforesc\u00eancia afrodis\u00edaca. Isto era o que Jer\u00f4nimo<br \/>\nsentia, mas o que o tonto n\u00e3o podia conceber. De todas as impress\u00f5es daquele<br \/>\nresto de domingo s\u00f3 lhe ficou no esp\u00edrito o entorpecimento de uma desconhecida<br \/>\nembriaguez, n\u00e3o de vinho, mas de mel chuchurreado no c\u00e1lice de flores americanas,<br \/>\ndessas muito alvas, cheirosas e \u00famidas, que ele na fazenda via debru\u00e7adas<br \/>\nconfidencialmente sobre os limosos p\u00e2ntanos sombrios, onde as oiticicas trescalam<br \/>\num aroma que entristece de saudade.<\/p>\n<p>E deixava-se ficar, olhando. Outras raparigas dan\u00e7aram, mas o portugu\u00eas s\u00f3<br \/>\nvia a mulata, mesmo quando, prostrada, fora cair nos bra\u00e7os do amigo. Piedade,<br \/>\na cabecear de sono, chamara-o v\u00e1rias vezes para se recolherem; ele respondeu<br \/>\ncom um resmungo e n\u00e3o deu pela retirada da mulher. Passaram-se horas, e ele<br \/>\ntamb\u00e9m n\u00e3o deu pelas horas que fugiram. O circulo do pagode aumentou: vieram<br \/>\nde l\u00e1 defronte a Isaura e a Leonor, o Jo\u00e3o Rom\u00e3o e a Bertoleza, desembara\u00e7ados<br \/>\nda sua faina, quiseram dar f\u00e9 da patuscada um instante antes de ca\u00edrem na<br \/>\ncama; a fam\u00edlia do Miranda pusera-se \u00e0 janela, divertindo-se com a gentalha<br \/>\nda estalagem; reunira povo l\u00e1 fora na rua; mas Jer\u00f4nimo nada vira de tudo<br \/>\nisso; nada vira sen\u00e3o uma coisa, que lhe persistia no esp\u00edrito: a mulata ofegante<br \/>\na resvalar voluptuosamente nos bra\u00e7os do Firmo. S\u00f3 deu por si, quando, j\u00e1<br \/>\npela madrugada, se calaram de todo os instrumentos e cada um dos folgadores<br \/>\nse recolheu \u00e0 casa. E viu a Rita levada para o quarto pelo seu homem, que<br \/>\na arrastava pela cintura. Jer\u00f4nimo ficou sozinho no meio da estalagem. A lua,<br \/>\nagora inteiramente livre das nuvens que a perseguiam, l\u00e1 ia caminhando em<br \/>\nsil\u00eancio na sua viagem misteriosa. As janelas do Miranda fecharam-se. A pedreira,<br \/>\nao longe, por detr\u00e1s da \u00faltima parede do corti\u00e7o, erguia-se como um monstro<br \/>\niluminado na sua paz. Uma quieta\u00e7\u00e3o densa pairava j\u00e1 sobre tudo; s\u00f3 se distinguiam<br \/>\no bruxulear dos pirilampos na sombra das hortas e dos jardins, e os murm\u00farios<br \/>\ndas \u00e1rvores que sonhavam. Mas Jer\u00f4nimo nada mais sentia, nem ouvia, do que<br \/>\naquela m\u00fasica embalsamada de baunilha, que lhe entontecera a alma; e compreendeu<br \/>\nperfeitamente que dentro dele aqueles cabelos crespos, brilhantes e cheirosos,<br \/>\nda mulata, principiavam a formar um ninho de cobras negras e venenosas, que<br \/>\nlhe iam devorar o cora\u00e7\u00e3o. E, erguendo a cabe\u00e7a, notou no mesmo c\u00e9u, que ele<br \/>\nnunca vira sen\u00e3o depois de sete horas de sono, que era j\u00e1 quase ocasi\u00e3o de<br \/>\nentrar para o seu servi\u00e7o, e resolveu n\u00e3o dormir, porque valia a pena esperar<br \/>\nde p\u00e9.<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>VIII<\/h2>\n<p>No dia seguinte, Jer\u00f4nimo largou o trabalho \u00e0 hora de almo\u00e7ar e, em vez de<br \/>\ncomer l\u00e1 mesmo na pedreira com os companheiros, foi para casa. Mal tocou no<br \/>\nque a mulher lhe apresentou \u00e0 mesa e meteu-se logo depois na cama, ordenando-lhe<br \/>\nque fosse ter com Jo\u00e3o Rom\u00e3o e lhe dissesse que ele estava incomodado e ficava<br \/>\nde descanso aquele dia.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens tu, Jeromo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Morrinhento, filha&#8230; Vai, anda!<\/p>\n<p>&#8211; Mas sentes-te mal?<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 mulher! vai fazer o que te disse e ao depois ent\u00e3o dar\u00e1s \u00e0 l\u00edngua!<\/p>\n<p>&#8211; Valha-me a Virgem! N\u00e3o sei se haver\u00e1 ch\u00e1 preto na venda!<\/p>\n<p>E ela saiu, aflita. Qualquer novidade no marido, por menor que fosse, punha-a<br \/>\ndoida. &#8220;Pois um homem rijo, que nunca caia doente? Seria a febre amarela?&#8230;<br \/>\nJesus, Santo Filho de Maria, que nem pensar nisso era bom! Credo!&#8221;<\/p>\n<p>A not\u00edcia espalhou-se logo ali entre as lavadeiras.<\/p>\n<p>&#8211; Foi da friagem da noite, afirmou a Bruxa, e deu um pulo \u00e0 casa do trabalhador<br \/>\npara receitar. O doente repeliu-a, pedindo-lhe que o deixasse em paz; que<br \/>\nele do que precisava era de dormir. Mas n\u00e3o o conseguiu: atr\u00e1s da Bruxa correu<br \/>\na segunda mulher, e a terceira, e a quarta; e, afinal, fez-se durante muito<br \/>\ntempo em sua casa um entrar e sair de saias. Jer\u00f4nimo perdeu a paci\u00eancia e<br \/>\nia protestar brutalmente contra semelhante invas\u00e3o, quando, pelo cheiro, sentiu<br \/>\nque a Rita se aproximava tamb\u00e9m. &#8211; Ah! E desfranziu-se-lhe o rosto. &#8211; Bons<br \/>\ndias! Ent\u00e3o que \u00e9 isso, vizinho? Voc\u00ea caiu doente com a minha chegada? Se<br \/>\ntal soubera n\u00e3o vinha! Ele riu-se. E era a primeira vez que ria desde a v\u00e9spera<br \/>\nA mulata aproximou-se da cama. Como principiara a trabalhar esse dia, tinha<br \/>\nas saias apanhadas na cintura e os bra\u00e7os completamente nus e frios da lavagem.<br \/>\nO seu casaquinho branco abria-lhe no pesco\u00e7o, mostrando parte do peito cor<br \/>\nde canela. Jer\u00f4nimo apertou-lhe a m\u00e3o. &#8211; Gostei de v\u00ea-la ontem dan\u00e7ar, disse,<br \/>\nmuito mais animado. &#8211; J\u00e1 tomou algum rem\u00e9dio?&#8230; &#8211; A mulher falou ai em ch\u00e1<br \/>\npreto&#8230; &#8211; Ch\u00e1! Que asneira! Ch\u00e1 \u00e9 \u00e1gua morna! Isso que voc\u00ea tem \u00e9 uma resfriagem.<br \/>\nVou-lhe fazer uma x\u00edcara de caf\u00e9 bem forte para voc\u00ea beber com um gole de<br \/>\nparati, e me dir\u00e1 se sua ou n\u00e3o, e fica depois fino e pronto para outra! Espera<br \/>\nai! E saiu logo, deixando todo quarto impregnado dela. Jer\u00f4nimo, s\u00f3 com respirar<br \/>\naquele alm\u00edscar, parecia melhor. Quando Piedade tornou, pesada, triste, resmungando<br \/>\nconsigo mesma, ele sentiu que principiava a enfar\u00e1-lo; e, quando a infeliz<br \/>\nse aproximou do marido, este, fora do costume, notou-lhe o cheiro azedo do<br \/>\ncorpo. Voltou-lhe ent\u00e3o o mal-estar e desapareceu o \u00faltimo vest\u00edgio do sorriso<br \/>\nque ele tivera havia pouco. &#8211; Mas que sentes tu, Jeromo?&#8230; Fala, homem! N\u00e3o<br \/>\nme dizes nada! Assim m\u2019assustas&#8230; Que tens, diz\u2019-lo! &#8211; N\u00e3o cozas<br \/>\no ch\u00e1. Vou tomar outra coisa&#8230; &#8211; N\u00e3o queres o ch\u00e1? Mas \u00e9 o rem\u00e9dio, filhinho<br \/>\nde Deus! &#8211; J\u00e1 te disse que tomo outra mezinha. Oh!<\/p>\n<p>Piedade n\u00e3o insistiu.<\/p>\n<p>&#8211; Queres tu um escalda-p\u00e9s?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Toma-lo tu!<\/p>\n<p>Ela calou-se. Ia a dizer que nunca o vira assim t\u00e3o \u00e1spero e seco, mas receou<br \/>\nimportun\u00e1-lo. &#8220;Era naturalmente a mol\u00e9stia que o punha rezinguento.&#8221;<\/p>\n<p>Jer\u00f4nimo fechara os olhos, para a n\u00e3o ver, e ter-se-ia, se pudesse, fechado<br \/>\npor dentro, para a n\u00e3o sentir. Ela, por\u00e9m, coitada! fora assentar-se \u00e0 beira<br \/>\nda cama, humilde e solicita, a suspirar, vivendo naquele instante, para e<br \/>\nexclusivamente, para o seu homem, fazendo-se muito escrava dele, sem vontade<br \/>\npr\u00f3pria, acompanhando-lhe os menores gestos com o olhar, inquieta, que nem<br \/>\num c\u00e3o que, ao lado do dono, procura adivinhar-lhe as inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; \u2018St\u00e1 bem, filha, n\u00e3o vais tratar do teu servi\u00e7o?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te d\u00ea isso cuidado! N\u00e3o parou o trabalho! Pedi \u00e0 Leoc\u00e1dia que me esfregasse<br \/>\na roupa. Ela hoje tinha pouco que fazer e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Andaste mal&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora! N\u00e3o h\u00e1 tr\u00eas dias que fiz outro tanto por ela&#8230; E demais, n\u00e3o foi<br \/>\nque tivesse o homem doente, era a cala\u00e7aria do capinzal!<\/p>\n<p>&#8211; Bom, bom, filha! n\u00e3o digas mal da vida alheia! Melhor seria que estivesses<br \/>\n\u00e0 tua tina em vez de ficar ai a murmurar do pr\u00f3ximo&#8230; Anda! vai tomar conta<br \/>\ndas tuas obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Mas estou-te a dizer que n\u00e3o h\u00e1 transtorno!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Transtorno j\u00e1 \u00e9 estar eu parado; e o pior ser\u00e1 pararem os dois!<\/p>\n<p>&#8211; Eu queria ficar a teu lado, Jeromo!<\/p>\n<p>&#8211; E eu acho que isso \u00e9 tolice! Vai! anda!<\/p>\n<p>Ela ia retirar-se, como um animal enxotado, quando deu com a Rita, que entrava<br \/>\nmuito ligeira e sacudida, trazendo na m\u00e3o a fumegante palangana de caf\u00e9 com<br \/>\nparati e no ombro um cobertor grosso para dar um suadouro ao doente.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! fez Piedade, sem encontrar uma palavra para a mulata.<\/p>\n<p>E deixou-se ficar.<\/p>\n<p>Rita, despreocupadamente, alegre e benfazeja como sempre, pousou a vasilha<br \/>\nsobre a c\u00f4moda do orat\u00f3rio e abriu o cobertor.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 que o vai p\u00f4r fino! disse. Voc\u00eas tamb\u00e9m, seus portugueses, por qualquer<br \/>\ncoisinha ficam logo pra morrer, com uma cara da \u00faltima hora! E ai, ai, Jesus,<br \/>\nmeu Deus! Ora esperte-se! N\u00e3o me seja maricas!<\/p>\n<p>Ele riu-se assentando-se na cama.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o \u00e9 assim mesmo? perguntou ela a Piedade, apontando para o car\u00e3o<br \/>\nbarbado de Jer\u00f4nimo. Olhe s\u00f3 pr\u2019aquela cara e diga-me se n\u00e3o est\u00e1 a<br \/>\npedir que o enterrem!<\/p>\n<p>A portuguesa n\u00e3o dizia nada, sorria contrafeita, no intimo, ressentida contra<br \/>\naquela invas\u00e3o de uma estranha nos cuidados pelo seu homem. N\u00e3o era a intelig\u00eancia<br \/>\nnem a raz\u00e3o o que lhe apontava o perigo, mas o instinto, o faro sutil e desconfiado<br \/>\nde toda a f\u00eamea pelas outras, quando sente o seu ninho exposto. &#8211; Est\u00e1-me<br \/>\na parecer que agora te achas melhor, hein?&#8230; desembuchou afinal, procurando<br \/>\no olhar do marido, sem conseguir disfar\u00e7ar de todo o seu descontentamento.<br \/>\n&#8211; S\u00f3 com o cheiro! refor\u00e7ou a mulata, apresentando o caf\u00e9 ao doente. Beba,<br \/>\nande! beba tudo e abafe-se! Quero, quando voltar logo, encontr\u00e1-lo pronto,<br \/>\nouviu? &#8211; E acrescentou, falando \u00e0 Piedade, em tom mais baixo e pousando-lhe<br \/>\na m\u00e3o no ombro carnudo: &#8211; Ele daqui a nada deve estar ensopado de suor; mude-lhe<br \/>\ntoda a roupa e d\u00ea-lhe dois dedos de parati, logo que pe\u00e7a \u00e1gua. Cuidado com<br \/>\no vento! E saiu expedida, agitando as saias, de onde se evolavam efl\u00favios<br \/>\nde manjerona. Piedade chegou-se ent\u00e3o para o cavouqueiro, que j\u00e1 tinha sobre<br \/>\nas pernas o cobertor oferecido pela Rita, e, ajudando-o a levar a tigela \u00e0<br \/>\nboca, resmungou: &#8211; Deus queira que isto n\u00e3o te v\u00e1 fazer mal em vez de bem!&#8230;<br \/>\nNunca tomas caf\u00e9, nem gostas!&#8230; &#8211; Isto n\u00e3o \u00e9 por gosto, filha, \u00e9 rem\u00e9dio!<br \/>\nEle com efeito nunca entrara com o caf\u00e9 e ainda menos com a cacha\u00e7a; mas engoliu<br \/>\nde uma assentada o conte\u00fado da tigela, puxando em seguida o cobertor at\u00e9 \u00e0s<br \/>\nventas. A mulher tratou de abafar-lhe bem os p\u00e9s e foi buscar um xale para<br \/>\nlhe cobrir a cabe\u00e7a. &#8211; Trata de sossegar! N\u00e3o te mexas! E disp\u00f4s-se a ficar<br \/>\njunto da cama, a vigi\u00e1-lo, s\u00f3 andando na ponta dos p\u00e9s, abafando a respira\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncorrendo a cada instante \u00e0 porta de casa para pedir que n\u00e3o fizessem tanta<br \/>\nbulha l\u00e1 fora; toda ela desassossegada, numa afli\u00e7\u00e3o quase<\/p>\n<p>supersticiosa por aquele inc\u00f4modo de seu homem. Mas Jer\u00f4nimo n\u00e3o levou muito<br \/>\nque a n\u00e3o chamasse para lhe mudar a roupa. O suor inundava-o. &#8211; Ainda bem!<br \/>\nexclamou ela, radiante. E, depois de fechar hermeticamente a porta do quarto<br \/>\ne meter um punhado de roupa suja numa fresta que havia numa das paredes, sacou-lhe<br \/>\nfora a camisa molhada, enfiando-lhe logo outra pela cabe\u00e7a; em seguida tirou-lhe<br \/>\nas ceroulas e come\u00e7ou, munida de uma toalha, a enxugar-lhe todo o corpo, principiando<br \/>\npelas costas, passando depois ao peito e aos sovacos, descendo logo \u00e0s n\u00e1degas,<br \/>\nao ventre e \u00e0s pernas, e esfregando sempre com tamanho vigor de pulso, que<br \/>\nera antes uma massagem que lhe dava; e tanto assim que o sangue do cavouqueiro<br \/>\nse revolucionou. E a mulher, a rir-se, lisonjeada, ralhava:<\/p>\n<p>&#8211; Tem ju\u00edzo! Acomoda-te! N\u00e3o v\u00eas que est\u00e1s doente?&#8230;<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o insistiu. Agasalhou-se de novo e pediu \u00e1gua. Piedade foi buscar o<br \/>\nparati.<\/p>\n<p>&#8211; Bebe isto, n\u00e3o bebas a \u00e1gua agora.<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 cacha\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; Foi a Rita que disse para te dar&#8230;<\/p>\n<p>Jer\u00f4nimo n\u00e3o precisou de mais nada para beber de um trago os dois dedos de<br \/>\nrestilo que havia no copo.<\/p>\n<p>S\u00f3brio como era, e depois daquele disp\u00eandio de suor, o \u00e1lcool produziu-lhe<br \/>\nlogo de pronto o efeito voluptuoso e agrad\u00e1vel da embriaguez nos que n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nb\u00eabedos: um delicioso desfalecer de todo o corpo; alguma coisa do longo espregui\u00e7amento<br \/>\nque antecede \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o dos sexos, quando a mulher, tendo feito esperar<br \/>\npor ela algum tempo, aproxima-se afinal de n\u00f3s, numa avidez gulosa de beijos.<br \/>\nAgora, no conforto da sua cama, na doce penumbra do quarto, com a roupa fresca<br \/>\nsobre a pele, Jer\u00f4nimo sentia-se bem, feliz por ver-se longe da pedreira ardente<br \/>\ne do sol c\u00e1ustico; ouvindo, de olhos fechados, o ronrom mon\u00f3tono da m\u00e1quina<br \/>\nde massas, arfando ao longe, e o zunzum das lavadeiras a trabalharem, e, mais<br \/>\ndistante, um intermin\u00e1vel cantar de galos a porfia, enquanto um dobre de sinos<br \/>\nrolava no ar, tristemente, anunciando um defunto da par\u00f3quia.<\/p>\n<p>Quando Piedade chegou l\u00e1 fora, dando parte do bom resultado do rem\u00e9dio, a<br \/>\nRita correu de novo ao quarto do doente.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, que me diz agora? Sente-se ou n\u00e3o melhorzinho?<\/p>\n<p>Ele voltou para a rapariga o seu olhar de animal prostrado e, por \u00fanica resposta,<br \/>\npassou-lhe o bra\u00e7o esquerdo na cintura e procurou com a m\u00e3o direita segurar<br \/>\na dela. Queria com isto traduzir o seu reconhecimento, e a mulata assim o<br \/>\nentendeu, tanto que consentiu: mal, por\u00e9m, a sua carne lhe tocou na carne,<br \/>\num desejo ardente apossou-se dele; uma vontade desensofrida de senhorear-se<br \/>\nno mesmo instante daquela mulher e possu\u00ed-la inteira, devor\u00e1-la num s\u00f3 hausto<br \/>\nde lux\u00faria, trinc\u00e1-la como um caju.<\/p>\n<p>Rita, ao sentir-se empolgar pelo cavouqueiro, escapou-lhe das garras com<br \/>\num pulo.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que peste! Fa\u00e7a-se de tolo, que digo \u00e0 sua mulher, hein? Ora vamos<br \/>\nl\u00e1!<\/p>\n<p>Mas, como a Piedade entrava na salinha ao lado, disfar\u00e7ou logo, acrescentando<br \/>\nnoutro tom:<\/p>\n<p>&#8211; Agora \u00e9 tratar de dormir e mudar de roupa, se suar outra vez At\u00e9 logo!<br \/>\nE saiu. Jer\u00f4nimo ouviu as suas ultimas palavras j\u00e1 de olhos fechados e, quando<br \/>\nPiedade entrou no quarto, parecia sucumbido de fraqueza. A lavadeira aproximou-se<br \/>\nda cama do marido em ponta de p\u00e9s, puxou-lhe o len\u00e7ol mais para cima do peito<br \/>\ne afastou-se de novo, abafando os passos. \u00c0 porta da entrada a Augusta, que<br \/>\nfora fazer uma visita ao enfermo, perguntou-lhe por este com um gesto interrogativo;<br \/>\nPiedade respondeu sem falar, pondo a m\u00e3o no rosto e vergando desse lado a<br \/>\ncabe\u00e7a, para exprimir que ele agora estava dormindo. As duas sa\u00edram para falar<br \/>\n\u00e0 vontade; mas, nessa ocasi\u00e3o, l\u00e1 fora no p\u00e1tio da estalagem, acabava de armar-se<br \/>\num esc\u00e2ndalo medonho. Era o caso que o Henriquinho da casa do Miranda ficava<br \/>\n\u00e0s vezes \u00e0 janela do sobrado, nas horas de pregui\u00e7a, entre o almo\u00e7o e o jantar,<br \/>\nentretido a ver a Leoc\u00e1dia lavar, seguindo-lhe os movimentos uniformes do<br \/>\ngrosso quadril e o tremular das redondas tetas \u00e0 larga dentro do cabe\u00e7\u00e3o de<br \/>\nchita. E, quando a pilhava sozinha, fazia-lhe sinais brejeiros, piscava-lhe<br \/>\no olho, batendo com a m\u00e3o direita aberta sobre a m\u00e3o esquerda fechada. Ela<br \/>\nrespondia, indicando com o polegar o interior do sobrado, como se dissesse<br \/>\nque fosse procurar a mulher do dono da casa. Naquele dia, por\u00e9m, o estudante<br \/>\napareceu \u00e0 janela, trazendo nos bra\u00e7os um coelhinho todo branco, que ele na<br \/>\nv\u00e9spera arrematara num leil\u00e3o de festa. Leoc\u00e1dia cobi\u00e7ou o bichinho e, correndo<br \/>\npara o dep\u00f3sito de garrafas vazias, que ficava por debaixo do sobrado, pediu<br \/>\ncom muito empenho ao Henrique que lho desse. Este, sempre com seu sistema<br \/>\nde conversar por m\u00edmica, declarou com um gesto qual era a condi\u00e7\u00e3o da d\u00e1diva.<\/p>\n<p>Ela meneou a cabe\u00e7a afirmativamente, e ele fez-lhe sinal de que o esperasse<br \/>\npor detr\u00e1s do corti\u00e7o, no capinzal dos fundos. A fam\u00edlia do Miranda havia<br \/>\nsa\u00eddo. Henrique, mesmo com a roupa de andar em casa e sem chap\u00e9u, desceu \u00e0<br \/>\nrua, ganhou um terreno que existia \u00e0 esquerda do sobrado e, com o seu coelho<br \/>\ndebaixo do bra\u00e7o, atirou-se para o capinzal. Leoc\u00e1dia esperava por ele debaixo<br \/>\ndas mangueiras. &#8211; Aqui n\u00e3o! disse ela, logo que o viu chegar. Aqui agora podem<br \/>\ndar com a gente!&#8230; &#8211; Ent\u00e3o onde? &#8211; Vem c\u00e1! E tomou \u00e0 sua direita, andando<br \/>\nligeira e meio vergada por entre as plantas. Henrique seguiu-a no mesmo passo,<br \/>\nsempre com o coelho sobra\u00e7ado. O calor fazia-o suar e esfogueava-lhe as faces.<br \/>\nOuvia-se o martelar dos ferreiros e dos trabalhadores da pedreira. Depois<br \/>\nde alguns minutos, ela parou num lugar plantado de bambus e bananeiras, onde<br \/>\nhavia o resto de um telheiro em ru\u00ednas. &#8211; Aqui! E Leoc\u00e1dia olhou para os lados,<br \/>\nassegurando-se de que estavam a s\u00f3s. Henrique, sem largar o coelho, atirou-se<br \/>\nsobre ela, que o conteve: &#8211; Espera! preciso tirar a saia; est\u00e1 encharcada!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o faz mal! segredou ele, impaciente no seu desejo. &#8211; Pode-me vir um corrimento!<br \/>\nE sacou fora a saia de l\u00e3 grossa, deixando ver duas pernas, que a camisa a<br \/>\ncusto s\u00f3 cobria at\u00e9 o joelho, grossas, maci\u00e7as, de uma brancura levemente<br \/>\nr\u00f3sea e toda marcada de mordeduras de pulgas e mosquitos. &#8211; Avia-te! Anda!<br \/>\napressou ela, lan\u00e7ando-se de costas ao ch\u00e3o e arrega\u00e7ando a fralda at\u00e9 a cintura;<br \/>\nas coxas abertas. O estudante atirou-se, s\u00f4frego, sentindo-lhe a frescura<br \/>\nda sua carne de lavadeira, mas sem largar as pernas do coelho. Passou-se um<br \/>\ninstante de sil\u00eancio entre os dois, em que as folhas secas do ch\u00e3o rangeram<br \/>\ne farfalharam. &#8211; Olha! pediu ela, faz-me um filho, que eu preciso alugar-me<br \/>\nde ama-de-leite&#8230; Agora est\u00e3o pagando muito bem as amas! A Augusta Carne-Mole,<br \/>\nnesta \u00faltima barriga, tomou conta de um pequeno ai na casa de uma fam\u00edlia<br \/>\nde tratamento, que lhe dava setenta mil-r\u00e9is por m\u00eas!&#8230; E muito bom passadio!&#8230;<br \/>\nSua garrafa de vinho todos os dias!&#8230; Se me arranjares um filho dou-te outra<br \/>\nvez o coelho!<\/p>\n<p>E o pobre brutinho, cujas pernas o estudante n\u00e3o largava, come\u00e7ou a queixar-se<br \/>\ndos repel\u00f5es que recebia cada vez mais acelerados. &#8211; Olha que matas o bichinho!<br \/>\nreclamou a lavadeira. N\u00e3o batas assim com ele! mas n\u00e3o o soltes, hein! Ia<br \/>\ndizer ainda alguma coisa, mas acudiu-lhe o espasmo e ela fechou os olhos e<br \/>\np\u00f4s-se a dar com a cabe\u00e7a de um lado para o outro, rilhando os dentes. Nisto,<br \/>\npassos r\u00e1pidos fizeram-se sentir galgando as plantas, na dire\u00e7\u00e3o em que os<br \/>\ndois estavam; e Henrique, antes de ser visto, lobrigou a certa distancia a<br \/>\ninsoci\u00e1vel figura do Bruno. N\u00e3o lhe deu tempo a que se aproximasse; de um<br \/>\nsalto galgou por detr\u00e1s das bananeiras e desapareceu por entre o matagal de<br \/>\nbambus, t\u00e3o r\u00e1pido como o coelho que, vendo-se livre, ganhara pela outra banda<br \/>\no caminho do capinzal. Quando o ferreiro, logo em seguida, chegou perto da<br \/>\nmulher, esta ainda n\u00e3o tinha acabado de vestir a saia molhada. &#8211; Com quem<br \/>\nte esfregavas tu, sua vaca?! bradou ele, a botar os bofes pela boca. E, antes<br \/>\nque ela respondesse, j\u00e1 uma formid\u00e1vel punhada a fazia rolar por terra. Leoc\u00e1dia<br \/>\nabriu num berreiro. E foi debaixo de uma chuva de bofetadas e pontap\u00e9s que<br \/>\nacabou de amarrar a roupa. &#8211; Agora eu vi! sabes! Nega se fores capaz! &#8211; V\u00e1<br \/>\n\u00e0 pata que o p\u00f4s! exclamou ela, com a cara que era um tomate. J\u00e1 lhe disse<br \/>\nque n\u00e3o quero saber de voc\u00ea pra nada, seu b\u00eabedo!<\/p>\n<p>E, vendo que ele ia recome\u00e7ar a dan\u00e7a, abaixou-se depressa, segurou com ambas<br \/>\nas m\u00e3os um matac\u00e3o de granito que encontrou a seus p\u00e9s, e gritou, erguendo-o<br \/>\nsobre a cabe\u00e7a: &#8211; Chega-te pra c\u00e1 e ver\u00e1s se te abro aqui mesmo ou n\u00e3o o casco!<br \/>\nO ferreiro compreendeu que ela era capaz de fazer o que dizia e estacou l\u00edvido<br \/>\ne ofegante. &#8211; Arme a trouxa e rua! sabe? &#8211; Olha a desgra\u00e7a! Tinha de muito<br \/>\nassentado de ir! Queria era uma ocasi\u00e3o! Nem preciso de voc\u00ea pra nada, fique<br \/>\nsabendo! E, para meter-lhe mais raiva, acrescentou, empinando a barriga: &#8211;<br \/>\nJ\u00e1 c\u00e1 est\u00e1 dentro com que hei de ganhar a vida! Alugo-me de ama! Ou pensar\u00e1<br \/>\nque todos s\u00e3o como voc\u00ea, que nem para fazer um filho serve, diabo do sem-pr\u00e9stimo?<br \/>\n&#8211; Mas n\u00e3o me h\u00e1s de levar nada de casa! Isso te juro eu, biraia! &#8211; Ah, descanse!<br \/>\nque n\u00e3o levarei nada do que \u00e9 seu, nem preciso! &#8211; P\u00f5e essa pedra no ch\u00e3o!<br \/>\n&#8211; Um corno! Eu arrumo-ta na cabe\u00e7a se te chegas pra c\u00e1! &#8211; Sim, sim, sim, contanto<br \/>\nque te musques por uma vez! &#8211; Pois ent\u00e3o despache o beco! Ele virou-lhe as<br \/>\ncostas e tornou lentamente por onde viera, de cabe\u00e7a pendida, as m\u00e3os nas<br \/>\nalgibeiras das cal\u00e7as, aparentando agora um soberano desprezo pelo que se<br \/>\npassava. S\u00f3 ent\u00e3o foi que ela se lembrou do coelho. &#8211; Ora gaitas! disse, endireitando-se<br \/>\ne tomando dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 do marido. Este fora ai direito ao corti\u00e7o narrar,<br \/>\na quem quisesse ouvir, o que se acabava de dar. O esc\u00e2ndalo assanhou a estalagem<br \/>\ninteira, como um jato de \u00e1gua quente sobre um formigueiro. &#8220;Ora, aquilo tinha<br \/>\nde acontecer mais hoje mais amanh\u00e3! &#8211; Um belo dia a casa vinha abaixo! &#8211; A<br \/>\nLeoc\u00e1dia parecia n\u00e3o desejar sen\u00e3o isso mesmo!&#8221; Mas ningu\u00e9m atinava com quem<br \/>\ndiabo pilhara o Bruno a mulher no capinzal. Fizeram-se mil hip\u00f3teses; lembrando-se<br \/>\nnomes e nomes, sem se chegar a nenhum resultado satisfat\u00f3rio. O Albino tentou<br \/>\nlogo arranjar a reconcilia\u00e7\u00e3o do casal, jurando que o Bruno estava enganado<br \/>\ncom certeza e que vira mal. &#8220;Leoc\u00e1dia era uma excelente rapariga, incapaz<br \/>\nde tamanha safadagem!&#8221; O ferreiro tapou-lhe a boca com uma bolacha, e ningu\u00e9m<br \/>\nmais se meteu a congra\u00e7\u00e1-los. Entretanto, o Bruno entrara em casa e lan\u00e7ava<br \/>\npela janela c\u00e1 para fora tudo o que ia encontrando pertencente \u00e0 mulher. Uma<br \/>\ncadeira fez-se peda\u00e7os contra as pedras, depois veio um candeeiro de querosene,<br \/>\numa trouxa de roupas, saias e casaquinhos de chita, caixas de chap\u00e9us cheias<br \/>\nde trapos, uma gaiola de p\u00e1ssaros, uma chaleira; e tudo era arremessado com<br \/>\nf\u00faria ao meio da \u00e1rea, entre o sil\u00eancio comovido dos que assistiam ao despejo.<br \/>\nUm chim, que entrara para vender camar\u00f5es e parara distra\u00eddo perto da janela<br \/>\ndo ferreiro, levou na cabe\u00e7a com uma bilha da Bahia e berrava como crian\u00e7a<br \/>\nque acaba de ser esbordoada. A Machona, que n\u00e3o podia ouvir ningu\u00e9m gritar<br \/>\nmais alto do que ela, caiu-lhe em cima aos murros e o p\u00f4s fora do port\u00e3o com<br \/>\ntremenda descompostura. &#8220;Era o que faltava que viesse tamb\u00e9m aquele salamaleque<br \/>\ndo inferno para azoinar uma criatura mais do que j\u00e1 estava!&#8221; Dona Isabel,<br \/>\ncom as m\u00e3os cruzadas sobre o ventre, tinha para aquela destrui\u00e7\u00e3o um profundo<br \/>\nolhar de l\u00e1stima. Augusta meneava a cabe\u00e7a tristemente sem conceber como havia<br \/>\nmulheres que procuravam homem, tendo um que lhes pertencia. A Bruxa, indiferente,<br \/>\nn\u00e3o interrompera sequer o seu trabalho; ao passo que a das Dores, de m\u00e3os<br \/>\nnas cadeiras, a sala pelo meio das canelas, um cigarro no canto da boca, encarava<br \/>\ndesdenhosa a sanha daquele marido, t\u00e3o brutal como o dela o fora. &#8211; Sempre<br \/>\nos mesmos peda\u00e7os de asno!&#8230; comentava franzindo o nariz. Se a tola da mulher<br \/>\ns\u00f3 lhes procura agradar e fazer-lhes o gosto, ficam enjoados, e, se ela n\u00e3o<br \/>\ntoma a s\u00e9rio a borracheira do casamento, d\u00e3o por paus e por pedras, como esta<br \/>\nbesta! Uma s\u00facia, todos eles! Florinda ria, como de tudo, e a velha Marciana<br \/>\nqueixava-se de que lhe respingaram querosene na roupa estendida ao sol. Nessa<br \/>\nocasi\u00e3o justamente, um saco de caf\u00e9, cheio de borra, deu duas voltas no ar<br \/>\ne espalhou o seu conte\u00fado, pintalgando de pontos negros os coradouros. Fez-se<br \/>\nlogo um alarido entre as lavadeiras. &#8220;Aquilo n\u00e3o tinha jeito, que diabo! Armavam<br \/>\nl\u00e1 as suas turras e os outros \u00e9 que haviam de aturar?!&#8230; Sebo! que os mais<br \/>\nn\u00e3o estavam dispostos a suportar as f\u00farias de cada um! Quem parira Mateus<br \/>\nque o embalasse! Se agora, todas as vezes que a Leoc\u00e1dia se fosse espojar<br \/>\nno capinzal, o bruto do marido tinha de sujar daquele modo o trabalho da gente,<br \/>\nningu\u00e9m mais poderia ganhar ali a sua vida! Que espiga!&#8221; Pombinha chegara<br \/>\n\u00e0 porta do n\u00famero 15, dando f\u00e9 do barulho, com uma costura na m\u00e3o, e Nenen,<br \/>\ntoda afogueada do ferro de engomar, perguntava, com um frouxo riso, se o Bruno<br \/>\nia reformar a mob\u00edlia da casa. A Rita fingia n\u00e3o ligar import\u00e2ncia ao fato<br \/>\ne continuava a lavar \u00e0 sua tina. &#8220;N\u00e3o faziam tanta festa ao tal casamento?<br \/>\nPois que ag\u00fcentassem! Ela estava bem livre de sofrer uma daquelas!&#8221; O velho<br \/>\nLib\u00f3rio chegara-se para ver se, no meio<\/p>\n<p>da confus\u00e3o, apanhava alguma coisa do despejo, e a Machona, notando que o<br \/>\nAgostinho fazia o mesmo, berrou-lhe do lugar em que se achava: &#8211; Sai da\u00ed,<br \/>\nsafado! Toca l\u00e1 no quer que seja, que te arranco a pele do rabo! Um irm\u00e3o<br \/>\ndo sant\u00edssimo entrara na estalagem, com a sua capa encarnada, a sua vara de<br \/>\nprata em uma das m\u00e3os, na outra a salva do dinheiro, e parara em meio do p\u00e1tio,<br \/>\nsuplicando muito fanhoso: &#8220;Uma esmola para a cera do Sacramento!&#8221; As mulheres<br \/>\nabandonaram por um instante as tinas e foram beijar devotamente a colombina<br \/>\nimagem do Esp\u00edrito Santo. Pingaram na salva moedinhas de vint\u00e9m. Todavia,<br \/>\no Bruno acabava de despejar o que era da mulher e saia de novo de casa, dando<br \/>\numa volta feroz \u00e0 fechadura. Atravessou por entre o murmurante grupo dos curiosos<br \/>\nque permaneciam defronte de sua porta, mudo, com a cara fechada, jogando os<br \/>\nbra\u00e7os, como quem, apesar de ter feito muito, n\u00e3o satisfizera ainda completamente<br \/>\na sua c\u00f3lera. Leoc\u00e1dia apareceu pouco depois e, vendo por terra tudo que era<br \/>\nseu, partido e inutilizado, apoderou-se de f\u00faria e avan\u00e7ou sobre a porta,<br \/>\nque o marido acabava de fechar, arremetendo com as n\u00e1degas contra as duas<br \/>\nfolhas, que cederam logo, indo ela cair l\u00e1 dentro de barriga para cima. Mas<br \/>\nergueu-se, sem fazer caso das risadas que rebentaram c\u00e1 fora e, escancarando<br \/>\na janela com arremesso, come\u00e7ou por sua vez a arrasar e a destruir tudo que<br \/>\nainda encontrara em casa. Ent\u00e3o principiou a verdadeira devasta\u00e7\u00e3o. E a cada<br \/>\nobjeto que ela varria para o p\u00e1tio, gritava sempre: &#8220;Upa! Toma, diabo!&#8221; &#8211;<br \/>\nA\u00ed vai o rel\u00f3gio! Upa! Toma, diabo! E o rel\u00f3gio espatifou-se na cal\u00e7ada. &#8211;<br \/>\nA\u00ed vai o alguidar!<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed vai o jarro!<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed v\u00e3o os copos!<\/p>\n<p>&#8211; O cabide!<\/p>\n<p>&#8211; O garraf\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; O bacio!<\/p>\n<p>Um riso geral, comunicativo, absoluto, abafava o baralho da lou\u00e7a quebrando-se<br \/>\ncontra as pedras. E Leoc\u00e1dia j\u00e1 n\u00e3o precisava acompanhar os objetos com a<br \/>\nsua frase de impreca\u00e7\u00e3o, porque cada um deles era recebido c\u00e1 fora com um<br \/>\ncoro que berrava: &#8211; Upa! Toma, diabo! E a limpeza prosseguia. Jo\u00e3o Rom\u00e3o acudiu<br \/>\nde carreira, mas ningu\u00e9m se incomodou com a presen\u00e7a dele. J\u00e1 defronte da<br \/>\nporta do Bruno havia uma montanha de cacos acumulados; e o destro\u00e7o continuava<br \/>\nainda, quando o ferreiro reapareceu, vermelho como malagueta, e foi galgando<br \/>\na casa, com um raio de roda de carro na m\u00e3o direita. Os circunstantes o seguiram,<br \/>\natropeladamente, num clamor.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o d\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pode!<\/p>\n<p>&#8211; Prende!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o deixa bater!<\/p>\n<p>&#8211; Larga o pau!<\/p>\n<p>&#8211; Segura!<\/p>\n<p>&#8211; Ag\u00fcenta!<\/p>\n<p>&#8211; Cerca!<\/p>\n<p>&#8211; Toma o porrete!<\/p>\n<p>E Leoc\u00e1dia escapou afinal das pauladas do marido, a quem o povar\u00e9u desarmara<br \/>\nnum fecha-fecha.<\/p>\n<p>&#8211; Ordem! Ordem! V\u00e1 de rumor! exclamava o vendeiro, a quem, aproveitando a<br \/>\nconfus\u00e3o, haviam j\u00e1 ferrado um pontap\u00e9 por detr\u00e1s.<\/p>\n<p>O Alexandre, que vinha chegando do servi\u00e7o nesse momento, apressou-se a correr<br \/>\npara o lugar do conflito e cheio de autoridade intimou o Bruno a que se contivesse<br \/>\ne deixasse a mulher em paz, sob pena de seguir para a esta\u00e7\u00e3o no mesmo instante.<\/p>\n<p>&#8211; Pois voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea esta galinha, que apanhei hoje com a boca na botija, n\u00e3o<br \/>\nme vem ainda por cima dar cabo de tudo?!&#8230; interrogou o Bruno, espumando<br \/>\nde raiva e quase sem f\u00f4lego para falar.<\/p>\n<p>&#8211; Porque voc\u00ea p\u00f4s em cacos o que \u00e9 meu! gritou Leoc\u00e1dia.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom! est\u00e1 bom! disse o pol\u00edcia, procurando dar \u00e0 voz inflex\u00f5es autorit\u00e1rias<br \/>\ne reconciliadoras. Fale cada um por sua vez! Seu marido&#8230; acrescentou ele,<br \/>\nvoltando-se para a acusada, diz que a senhora&#8230; &#8211; \u00c9 mentira! interrompeu<br \/>\nela. &#8211; Mentira?! \u00c9 boa! Tinhas a saia despida e um homem por cima! &#8211; Quem<br \/>\nera? &#8211; Quem foi? &#8211; Quem era o homem? interrogaram todos a um s\u00f3 tempo. &#8211; Quem<br \/>\nera ele, no fim de contas? inquiriu tamb\u00e9m Alexandre. &#8211; N\u00e3o lhe pude ver as<br \/>\nfu\u00e7as!&#8230; respondeu o ferreiro; mas, se o apanho, arrancava-lhe o sangue pelas<br \/>\ncostas! Houve um coro de gargalhadas. &#8211; E mentira! repetiu Leoc\u00e1dia, agora<br \/>\nsucumbida por uma rea\u00e7\u00e3o de l\u00e1grimas. H\u00e1 muito tempo que este malvado anda<br \/>\nca\u00e7ando pretexto para romper comigo e, como eu n\u00e3o lho dou&#8230; Uma explos\u00e3o<br \/>\nde solu\u00e7os a interrompeu. Desta vez n\u00e3o riram, mas um bichanar de cochichos<br \/>\nformou-se em torno do seu pranto. &#8211; Agora&#8230; continuou ela, enxugando os olhos<br \/>\nna costa da m\u00e3o; n\u00e3o sei o que ser\u00e1 de mim, porque este homem, al\u00e9m de tudo,<br \/>\nescangalhou-me at\u00e9 o que eu trouxe quando me casei com ele!&#8230; &#8211; N\u00e3o disseste<br \/>\nque j\u00e1 tinhas ai dentro com que ganhar a vida?&#8230; \u00c9 andar! &#8211; \u00c9 falso! solu\u00e7ou<br \/>\nLeoc\u00e1dia. &#8211; Bem, interveio Alexandre, embainhando o seu refle; est\u00e1 tudo terminado!<br \/>\nSeu marido vai receb\u00ea-la em boa paz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu?! esfuziou o ferreiro. Voc\u00ea n\u00e3o me conhece!<\/p>\n<p>&#8211; Nem eu queria! retorquiu a mulher. Prefiro meter-me com um cavalo de t\u00edlburi<br \/>\na ter de aturar este bruto! E, catando em casa alguma coisa sua que ainda<br \/>\nhavia, e recolhendo do mont\u00e3o dos cacos o que lhe pareceu aproveit\u00e1vel, fez<br \/>\nde tudo uma grande trouxa e foi chamar um carregador. A Rita saiu-lhe ao encontro.<br \/>\n&#8211; Para onde vais tu?&#8230; perguntou-lhe em voz baixa. &#8211; N\u00e3o sei, filha, por<br \/>\nai!&#8230; Hei de encontrar um furo!&#8230; Os c\u00e3es n\u00e3o vivem?&#8230; &#8211; Espere um instante&#8230;<br \/>\ndisse a mulata. Olha, empurra a trouxa ai para dentro do meu c\u00f4modo. &#8211; E correndo<br \/>\nao Albino, que lavava: &#8211; Passa-me no sab\u00e3o aquela roupa, ouviste? E, quando<br \/>\nFirmo acordar, diz-lhe que precisei ir a rua. Depois, deu um pulo ao quarto,<br \/>\nmudou a saia molhada, atirou nos ombros o seu xale de croch\u00ea e, batendo nas<br \/>\ncostas da companheira, segredou-lhe: &#8211; Anda c\u00e1 comigo! n\u00e3o ficar\u00e1s \u00e0 toa!<br \/>\nE as duas sa\u00edram, ambas sacudidas, deixando atr\u00e1s de si suspensa a curiosidade<br \/>\ndo corti\u00e7o inteiro.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>IX<\/h2>\n<p>Passaram-se semanas. Jer\u00f4nimo tomava agora, todas as manh\u00e3s, uma x\u00edcara de<br \/>\ncaf\u00e9 bem grosso, \u00e0 moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati &#8220;pra cortar<br \/>\na friagem&#8221;. Uma transforma\u00e7\u00e3o, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia,<br \/>\nhora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho<br \/>\nmisterioso e surdo de cris\u00e1lida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-se<br \/>\ncontemplativo e amoroso. A vida americana e a natureza do Brasil patenteavam-lhe<br \/>\nagora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se dos seus<br \/>\nprimitivos sonhos de ambi\u00e7\u00e3o; para idealizar felicidades novas, picantes e<br \/>\nviolentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar<br \/>\nque de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se pregui\u00e7oso<br \/>\nresignando-se, vencido, \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es do sol e do calor, muralha de fogo com<br \/>\nque o esp\u00edrito eternamente revoltado do \u00faltimo tamoio entrincheirou a p\u00e1tria<br \/>\ncontra os conquistadores aventureiros. E assim, pouco a pouco, se foram reformando<br \/>\ntodos os seus h\u00e1bitos singelos de alde\u00e3o portugu\u00eas: e Jer\u00f4nimo abrasileirou-se.<br \/>\nA sua casa perdeu aquele ar sombrio e concentrado que a entristecia; j\u00e1 apareciam<br \/>\npor l\u00e1 alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos de palestra nas<br \/>\nhoras de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o jantar. A revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nafinal foi completa: a aguardente de cana substituiu o vinho; a farinha de<br \/>\nmandioca sucedeu \u00e0 broa; a carne-seca e o feij\u00e3o-preto ao bacalhau com batatas<br \/>\ne cebolas cozidas; a pimenta-malagueta e a pimenta-de-cheiro invadiram vitoriosamente<br \/>\na sua mesa; o caldo verde, a a\u00e7orda e o caldo de unto foram repelidos pelos<br \/>\nruivos e gostosos quitutes baianos, pela muqueca, pelo vatap\u00e1 e pelo caruru;<br \/>\na couve \u00e0 mineira destronou a couve \u00e0 portuguesa; o pir\u00e3o de fub\u00e1 ao p\u00e3o de<br \/>\nrala, e, desde que o caf\u00e9 encheu a casa com o seu aroma quente, Jer\u00f4nimo principiou<br \/>\na achar gra\u00e7a no cheiro do fumo e n\u00e3o tardou a fumar tamb\u00e9m com os amigos.<br \/>\nE o curioso \u00e9 que quanto mais ia ele caindo nos usos e costumes brasileiros,<br \/>\ntanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em detrimento das suas<br \/>\nfor\u00e7as f\u00edsicas. Tinha agora o ouvido menos grosseiro para a m\u00fasica, compreendia<br \/>\nat\u00e9 as inten\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas dos sertanejos, quando cantam \u00e0 viola os seus amores<br \/>\ninfelizes; seus olhos, dantes s\u00f3 voltados para a esperan\u00e7a de tornar \u00e0 terra,<br \/>\nagora, como os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes<br \/>\nde c\u00e9u e mar, j\u00e1 se n\u00e3o revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre,<br \/>\ndo Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros<br \/>\nilimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espa\u00e7o a espa\u00e7o, surge um<br \/>\nmonarca gigante, que o sol veste de ouro e ricas pedrarias refulgentes e as<br \/>\nnuvens tocam de alvos turbantes de cambraia, num luxo oriental de ar\u00e1bicos<br \/>\npr\u00edncipes voluptuosos. Ao passo que com a mulher, a S\u2019ora Piedade de<br \/>\nJesus, o caso mudava muito de figura. Essa, feita de um s\u00f3 bloco, compacta,<br \/>\ninteiri\u00e7a e tapada, recebia a influ\u00eancia do meio s\u00f3 por fora, na maneira de<br \/>\nviver, conservando-se inalter\u00e1vel quanto ao moral, sem conseguir, \u00e0 semelhan\u00e7a<br \/>\ndo esposo, afinar a sua alma pela alma da nova p\u00e1tria que adotaram. Cedia<br \/>\npassivamente nos h\u00e1bitos de exist\u00eancia, mas no intimo continuava a ser a mesma<br \/>\ncolona saudosa e desconsolada, t\u00e3o fiel \u00e0s suas tradi\u00e7\u00f5es como a seu marido.<br \/>\nAgora estava at\u00e9 mais triste; triste porque Jer\u00f4nimo fazia-se outro; triste<br \/>\nporque n\u00e3o se passava um dia que lhe n\u00e3o notasse uma nova transforma\u00e7\u00e3o; triste,<br \/>\nporque chegava a estranh\u00e1-lo, a desconhec\u00ea-lo, afigurando-se-lhe at\u00e9 que cometia<br \/>\num adult\u00e9rio, quando \u00e0 noite acordava assustada ao lado daquele homem que<br \/>\nn\u00e3o parecia o dela, aquele homem que se lavava todos os dias, aquele homem<br \/>\nque aos domingos punha perfumes na barba e nos cabelos e tinha a boca cheirando<br \/>\na fumo. Que pesado desgosto n\u00e3o lhe apertou o cora\u00e7\u00e3o a primeira vez em que<br \/>\no cavouqueiro, repelindo o caldo que ela lhe apresentava ao jantar, disse-lhe:<br \/>\n&#8211; \u00d3 filha! por que n\u00e3o experimentas tu fazer uns pit\u00e9us \u00e0 moda de c\u00e1?&#8230; &#8211;<br \/>\nMas \u00e9 que n\u00e3o sei&#8230; balbuciou a pobre mulher. &#8211; Pede ent\u00e3o \u00e0 Rita que to<br \/>\nensine&#8230; Aquilo n\u00e3o ter\u00e1 muito que aprender! V\u00ea se me fazes por arranjar<br \/>\nuns camar\u00f5es, como ela preparou aqueles doutro dia. Souberam-me t\u00e3o bem! Este<br \/>\nresvalamento do Jer\u00f4nimo para as coisas do Brasil penalizava profundamente<br \/>\na infeliz criatura. Era ainda o instinto feminil que lhe fazia prever que<br \/>\no marido, quando estivesse de todo brasileiro, n\u00e3o a queria para mais nada<br \/>\ne havia de reformar a cama, assim como reformou a mesa. Jer\u00f4nimo, com efeito,<br \/>\npertencia-lhe muito menos agora do que dantes. Mal se chegava para ela; os<br \/>\nseus carinhos eram frios e distra\u00eddos, dados como por condescend\u00eancia; j\u00e1<br \/>\nlhe n\u00e3o afagava os rins, quando os dois ficavam a s\u00f3s, malucando na sua vida<br \/>\ncomum; agora nunca era ele que a procurava para o matrim\u00f4nio, nunca; se ela<br \/>\nsentia necessidade do marido, tinha de provoc\u00e1-lo. E, uma noite, Piedade ficou<br \/>\ncom o cora\u00e7\u00e3o ainda mais apertado, porque ele, a pretexto de que no quarto<br \/>\nfazia muito calor, abandonou a cama e foi deitar-se no sof\u00e1 da salinha. Desde<br \/>\nesse dia n\u00e3o dormiram mais ao lado um do outro. O cavouqueiro arranjou uma<br \/>\nrede e armou-a defronte da porta de entrada, tal qual como havia em casa da<br \/>\nRita. Uma outra noite a coisa ainda foi pior. Piedade, certa de que o marido<br \/>\nn\u00e3o se chegava, foi ter com ele; Jer\u00f4nimo fingiu-se indisposto, negou-se,<br \/>\ne terminou por dizer-lhe, repelindo-a brandamente:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te queria falar, mas&#8230; sabes? deves tomar banho todos os dias e&#8230;<br \/>\nmudar de roupa&#8230; Isto aqui n\u00e3o \u00e9 como l\u00e1! Isto aqui sua-se muito! \u00c9 preciso<br \/>\ntrazer o corpo sempre lavado, que, ao se n\u00e3o, cheira-se mel!&#8230; Tem paci\u00eancia!<br \/>\nEla desatou a solu\u00e7ar. Foi uma explos\u00e3o de ressentimentos e desgostos que<br \/>\nse tinham acumulado no seu cora\u00e7\u00e3o. Todas as suas m\u00e1goas rebentaram naquele<br \/>\nmomento. &#8211; Agora est\u00e1s tu a chorar! Ora, filha, deixa-te disso! Ela continuou<br \/>\na solu\u00e7ar, sem f\u00f4lego, dando arfadas com todo o corpo. O cavouqueiro acrescentou<br \/>\nno fim de um intervalo: &#8211; Ent\u00e3o, que \u00e9 isto, mulher? P\u00f5es-te agora a fazer<br \/>\ntamanho escarc\u00e9u, nem que se cuidasse de coisa s\u00e9ria! Piedade desabafou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que j\u00e1 n\u00e3o me queres! J\u00e1 n\u00e3o \u00e9s o mesmo homem para mim! Dantes n\u00e3o me<br \/>\nachavas que p\u00f4r, e agora at\u00e9 j\u00e1 te cheiro mal!<\/p>\n<p>E os solu\u00e7os recrudesciam.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o digas asnices, filha!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! eu bem sei o que isto \u00e9!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E bobagem tua, \u00e9 o que \u00e9!<\/p>\n<p>&#8211; Maldita hora em que viemos dar ao raio desta estalagem! Antes me tivera<br \/>\ncaldo um calhau na cabe\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s a queixar-te da sorte sem raz\u00e3o! Que Deus te n\u00e3o castigue.<\/p>\n<p>Esta rezinga chamou outras que, com o correr do tempo, se foram amiudando.<br \/>\nAh! j\u00e1 n\u00e3o havia d\u00favida que mestre Jer\u00f4nimo andava meio caldo para o lado<br \/>\nda Rita Baiana; n\u00e3o passava pelo n\u00famero 9, sempre que vinha \u00e0 estalagem durante<br \/>\no dia, que n\u00e3o parasse \u00e0 porta um instante, para perguntar-lhe pela &#8220;saudinha&#8221;.<br \/>\nO fato de haver a mulata lhe oferecido o rem\u00e9dio, quando ele esteve incomodado,<br \/>\nfoi pretexto para lhe fazer presentes am\u00e1veis; p\u00f4r os seus pr\u00e9stimos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndela e obsequi\u00e1-la em extremo todas as vezes que a visitava. Tinha sempre<br \/>\nqualquer coisa para saber da sua boca, a respeito da Leoc\u00e1dia, por exemplo;<br \/>\npois, desde que a Rita se arvorara em protetora da mulher do ferreiro, Jer\u00f4nimo<br \/>\nafetava grande interesse pela &#8220;pobrezinha de Cristo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Fez bem, Nh\u00e1 Rita, fez bem!&#8230; A se\u2019ora mostrou com isso que tem<br \/>\nbom cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah, meu amigo, neste mundo hoje por mim, amanha por ti!&#8230;<\/p>\n<p>Rita havia aboletado a amiga, a principio em casa de umas engomadeiras do<br \/>\nCatete, muito suas camaradas, depois passou-a para uma fam\u00edlia, a quem Leoc\u00e1dia<br \/>\nse alagou como ama-seca; e agora sabia que ela acabava de descobrir um bom<br \/>\narranjo num col\u00e9gio de meninas.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem! muito bem! aplaudia Jer\u00f4nimo.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, o qu\u00ea! O mundo \u00e9 largo! sentenciou a baiana. H\u00e1 lugar pro gordo e<br \/>\nh\u00e1 lugar pro magro! Bem tolo \u00e9 quem se mata!<\/p>\n<p>Em uma das vezes em que o cavouqueiro perguntou-lhe, como de costume, pela<br \/>\npobrezinha de Cristo, a mulata disse que Leoc\u00e1dia estava gr\u00e1vida.<\/p>\n<p>&#8211; Gr\u00e1vida? mas ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 do marido!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pode bem ser que sim. Barriga de quatro meses&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! mas ela n\u00e3o foi h\u00e1 mais tempo do que isso?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Vai fazer agora pelo S\u00e3o Jo\u00e3o quatro meses justamente.<\/p>\n<p>Jer\u00f4nimo j\u00e1 nunca pegava na guitarra sen\u00e3o para procurar acertar com as modinhas<br \/>\nque a Rita cantava. Em noites de samba era o primeiro a chegar-se e o \u00faltimo<br \/>\na ir embora; e durante o pagode ficava de queixo bambo, a ver dan\u00e7ar a mulata,<br \/>\nabstrato, pateta, esquecido de tudo; bab\u00e3o. E ela, consciente do feiti\u00e7o,<br \/>\nque lhe punha, ainda mais se requebrava e remexia, dando-lhe embigadas ou<br \/>\nfingindo que lhe limpava a baba no queixo com a barra da saia.<\/p>\n<p>E riam-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o! definitivamente estava ca\u00eddo!<\/p>\n<p>Piedade agarrou-se com a Bruxa para lhe arranjar um rem\u00e9dio que lhe restitu\u00edsse<br \/>\no seu homem. A cabocla velha fechou-se com ela no quarto, acendeu velas de<br \/>\ncera, queimou ervas arom\u00e1ticas e tirou sorte nas cartas.<\/p>\n<p>E depois de um jogo complicado de reis, valetes e damas, que ela dispunha<br \/>\nsobre a mesa caprichosamente, a resmungar a cada figura que saia do baralho<br \/>\numa frase cabal\u00edstica, declarou convicta, muito calma, sem tirar os olhos<br \/>\ndas suas cartas: &#8211; Ele tem a cabe\u00e7a virada por uma mulher trigueira. &#8211; \u00c9 o<br \/>\ndiacho da Rita Baiana! exclamou a outra. Bem c\u00e1 me palpitava por dentro! Ai,<br \/>\no meu rico homem! E a chorar, limpando, aflita, as l\u00e1grimas no avental de<br \/>\nc\u00e2nhamo, suplicou \u00e0 Bruxa, pelas alminhas do purgat\u00f3rio, que lhe remediasse<br \/>\ntamanha desgra\u00e7a. &#8211; Ai, se perco aquela criatura, S\u2019ora Paula, lamuriou<br \/>\na infeliz entre solu\u00e7os; nem sei que vir\u00e1 a ser de mim neste mundo de Cristo!&#8230;<br \/>\nEnsine-me alguma coisa que me puxe o Jeromo! A cabocla disse-lhe que se banhasse<br \/>\ntodos os dias e desse a beber ao seu homem, no caf\u00e9 pela manh\u00e3, algumas gotas<br \/>\ndas \u00e1guas da lavagem; e, se no fim de algum tempo, este regime n\u00e3o produzisse<br \/>\no desejado efeito, ent\u00e3o cortasse um pouco dos cabelos do corpo, torrasse-os<br \/>\nat\u00e9 os reduzir a p\u00f3 e lhos ministrasse depois na comida. Piedade ouviu a receita<br \/>\ncom um sil\u00eancio respeitoso e atento, o ar compungido de quem recebe do m\u00e9dico<br \/>\numa senten\u00e7a dolorosa para um doente que estimamos. Em seguida, meteu na m\u00e3o<br \/>\nda feiticeira uma moeda de prata, prometendo dar-lhe coisa melhor se o rem\u00e9dio<br \/>\ntivesse bons resultados. Mas n\u00e3o era s\u00f3 a portuguesa quem se mordia com o<br \/>\ndescaimento do Jer\u00f4nimo para a mulata, era tamb\u00e9m o Firmo. Havia muito j\u00e1<br \/>\nque este andava com a pulga atr\u00e1s da orelha e, quando passava perto do cavouqueiro,<br \/>\nolhava-o atravessado. O capad\u00f3cio ia dormir todas as noites com a Rita, mas<br \/>\nn\u00e3o morava na estalagem; tinha o seu c\u00f4modo na oficina em que trabalhava.<br \/>\nS\u00f3 pelos domingos \u00e9 que ficavam juntos durante o dia e ent\u00e3o n\u00e3o relaxavam<br \/>\no seu jantar de p\u00e2ndega. Uma vez em que ele gazeara o servi\u00e7o, o que n\u00e3o era<br \/>\nraro, foi v\u00ea-la fora das horas do costume e encontrou-a a conversar junto<br \/>\n\u00e0 tina com o portugu\u00eas. Passou sem dizer palavra e recolheu-se ao n\u00famero 9,<br \/>\nonde ela foi logo ter de carreira. Firmo n\u00e3o lhe disse nada a respeito das<br \/>\nsuas apreens\u00f5es, mas tamb\u00e9m n\u00e3o escondeu o seu mau humor; esteve impertinente<br \/>\ne rezingueiro toda a tarde. Jantou de cara amarrada e durante o parati, depois<br \/>\ndo caf\u00e9, s\u00f3 falou em rolos, em dar cabe\u00e7adas e navalhadas, pintando-se terr\u00edvel,<br \/>\nrecordando fa\u00e7anhas de capoeiragem, nas quais sangrara tais e tais tipos de<br \/>\nfama; &#8220;n\u00e3o contando dois galegos que mandara pras minhocas, porque isso para<br \/>\nele n\u00e3o era gente! &#8211; Com um par de cocadas boas ficavam de p\u00e9s unidos para<br \/>\nsempre!&#8221; Rita percebeu os ci\u00fames do amigo e fez que n\u00e3o dera por coisa alguma.<br \/>\nNo dia seguinte, \u00e0s seis horas da manh\u00e3, quando ele saia da casa dela, encontrou-se<br \/>\ncom o portugu\u00eas, que ia para o trabalho, e o olhar que os dois trocaram entre<br \/>\nsi era j\u00e1 um cartel de desafio. Entretanto, cada qual seguiu em sil\u00eancio para<br \/>\no seu lado. Rita deliberou prevenir Jer\u00f4nimo de que se acautelasse. Conhecia<br \/>\nbem o amante e sabia de quanto era ele capaz sob a influ\u00eancia dos ci\u00fames;<br \/>\nmas, na ocasi\u00e3o em que o cavouqueiro desceu para almo\u00e7ar, um novo esc\u00e2ndalo<br \/>\nacabava de explodir, agora no n\u00famero 12, entre a velha Marciana e sua filha<br \/>\nFlorinda. Marciana andava j\u00e1 desconfiada com a pequena, porque o fluxo mensal<br \/>\ndesta se desregrara havia tr\u00eas meses, quando, nesse dia, n\u00e3o tendo as duas<br \/>\nacabado ainda o almo\u00e7o, Florinda se levantou da mesa e foi de carreira para<br \/>\no quarto. A velha seguiu-a. A rapariga fora vomitar ao bacio. &#8211; Que \u00e9 isto?&#8230;<br \/>\nperguntou-lhe a m\u00e3e, apalpando-a toda com um olhar inquiridor. &#8211; N\u00e3o sei,<br \/>\nmam\u00e3e&#8230; &#8211; Que sentes tu?&#8230; &#8211; Nada&#8230; &#8211; Nada, e est\u00e1s lan\u00e7ando?&#8230; Hein?!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sinto nada, n\u00e3o senhora!&#8230; A mulata velha aproximou-se, desatou-lhe<br \/>\nviolentamente o vestido, levantou-lhe as saias e examinou-lhe todo o corpo,<br \/>\ntateando-lhe o ventre, j\u00e1 zangada. Sem obter nenhum resultado das suas dilig\u00eancias,<br \/>\ncorreu a chamar a Bruxa, que era mais que entendida no assunto. A cabocla,<br \/>\nsem se alterar, largou o servi\u00e7o, enxugou os bra\u00e7os no avental, e foi ao n\u00famero<br \/>\n12; tenteou de novo a mulatinha, fez-lhe v\u00e1rias perguntas e mais \u00e0 m\u00e3e, e<br \/>\ndepois disse friamente: &#8211; Est\u00e1 de barriga. E afastou-se, sem um gesto de surpresa,<br \/>\nnem de censura.<\/p>\n<p>Marciana, tr\u00eamula de raiva, fechou a porta da casa, guardou a chave no seio<br \/>\ne, furiosa, caiu aos murros em cima da filha. Esta, embalde tentando escapar-lhe,<br \/>\nberrava como uma louca. Abandonaram-se logo todas as tinas do p\u00e1tio e algumas<br \/>\ndas mesas do frege, e o populacho, curioso e alvoro\u00e7ado, precipitou-se para<br \/>\no n\u00famero 12, batendo na porta e amea\u00e7ando entrar pela janela. L\u00e1 dentro, a<br \/>\nvelha escarranchada sobre a rapariga que se debatia no ch\u00e3o, perguntava-lhe<br \/>\ngritando e repetindo: &#8211; Quem foi?! Quem foi?! E de cada vez desfechava-lhe<br \/>\num sopapo pelas ventas. &#8211; Quem foi?! A pequena berrava, mas n\u00e3o respondia.<br \/>\n&#8211; Ah! n\u00e3o queres dizer por bem? Ora espera! E a velha ergueu-se para apanhar<br \/>\na vassoura no canto da sala. Florinda, vendo iminente o cacete, levantou-se<br \/>\nde um pulo, ganhou a janela e caiu de um salto l\u00e1 fora, entre o povo amotinado.<br \/>\nCoisa de uns nove palmos de altura. As lavadeiras a apanharam, cuidando em<br \/>\ndefend\u00ea-la da m\u00e3e, que surgiu logo \u00e0 porta, amea\u00e7ando para o grupo, terr\u00edvel<br \/>\ne armada de pau. Todos procuraram cham\u00e1-la \u00e0 raz\u00e3o: &#8211; Ent\u00e3o que \u00e9 isso, tia<br \/>\nMarciana?! Ent\u00e3o que \u00e9 isso?! &#8211; Que \u00e9 isto?! \u00c9 que esta assanhada est\u00e1 de<br \/>\nbarriga! Est\u00e1 ai o que \u00e9! Para tanto n\u00e3o lhe faltou jeito, nem foi preciso<br \/>\nque a gente andasse atr\u00e1s dela se matando, como sucede sempre que h\u00e1 um pouco<br \/>\nmais de servi\u00e7o e \u00e9 necess\u00e1rio puxar pelo corpo! Ora est\u00e1 ai o que \u00e9! &#8211; Bem,<br \/>\ndisse a Augusta, mas n\u00e3o lhe bata agora, coitada! Assim voc\u00ea lhe d\u00e1 cabo da<br \/>\npele! &#8211; N\u00e3o! Eu quero saber quem lhe encheu o bandulho! E ela h\u00e1 de dizer<br \/>\nquem foi ou quebro-lhe os ossos! &#8211; Ent\u00e3o, Florinda, diz logo quem foi&#8230; \u00c9<br \/>\nmelhor! aconselhou a das Dores. Fez-se em torno da rapariga um sil\u00eancio \u00e1vido,<br \/>\ncheio de curiosidade. &#8211; Est\u00e3o vendo?&#8230; exclamou a m\u00e3e. N\u00e3o responde, este<br \/>\ndiabo! Mas esperem, que eu lhes mostro se ela fala, ou n\u00e3o! E as lavadeiras<br \/>\ntiveram de agarrar-lhe os bra\u00e7os e tirar-lhe o cacete, porque a velha queria<br \/>\ncrescer de novo para a filha. Ao redor desta a curiosidade assanhava-se cada<br \/>\nvez mais. Estalavam todos por saber quem a tinha emprenhado. &#8220;Quem foi?! Quem<br \/>\nfoi?!&#8221; esta frase apertava-a num torniquete. Afinal, n\u00e3o houve outro rem\u00e9dio:<br \/>\n&#8211; Foi seu Domingos&#8230; disse ela, chorando e cobrindo o rosto com a fralda<br \/>\ndo vestido, rasgado na luta. &#8211; O Domingos!&#8230; &#8211; O caixeiro da venda!&#8230; &#8211;<br \/>\nAh! foi aquele cara de nabo? gritou Marciana. Vem c\u00e1! E, agarrando a filha<br \/>\npela m\u00e3o, arrastou-a at\u00e9 \u00e0 venda. Os circunstantes acompanharam-na ruidosamente<br \/>\ne de carreira. A taverna, como a casa de pasto, fervia de concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>Ao balc\u00e3o daquela, o Domingos e o Manuel aviavam os fregueses, numa roda-viva.<br \/>\nHavia muitos negros e negras. O baralho era enorme. A Leonor l\u00e1 estava, sempre<br \/>\naos pulos, mexendo com um, mexendo com outro, mostrando a dupla fila de dentes<br \/>\nbrancos e grandes, e levando apalp\u00f5es rudes de m\u00e3os de couro nas suas magras<br \/>\ne escorridas n\u00e1degas de negrinha virgem Tr\u00eas marujos ingleses bebiam gengibirra,<br \/>\ncantando, \u00e9brios, na sua l\u00edngua e mascando tabaco.<\/p>\n<p>Marciana na frente do grande grupo e sem largar o bra\u00e7o da filha, que a seguia<br \/>\ncomo um animal puxado pela coleira, ao chegar \u00e0 porta lateral da venda, berrou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 seu Jo\u00e3o Rom\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Que temos l\u00e1? perguntou de dentro o vendeiro, atrapalhado de servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Bertoleza, com uma grande colher de zinco gotejante de gordura, apareceu<br \/>\n\u00e0 porta, muito ensebada e suja de tisna; e, ao ver tanta gente reunida, gritou<br \/>\npara seu homem:<\/p>\n<p>&#8211; Corre aqui, seu Jo\u00e3o, que n\u00e3o sei o que houve!<\/p>\n<p>Ele veio afinal.<\/p>\n<p>Que diabo era aquilo?<\/p>\n<p>&#8211; Venho entregar-lhe esta perdida! Seu caixeiro a cobriu, deve tomar conta<br \/>\ndela!<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rom\u00e3o ficou perplexo.<\/p>\n<p>&#8211; Hein! Que \u00e9 l\u00e1 isso?!<\/p>\n<p>&#8211; Foi o Domingos! disseram muitas vozes.<\/p>\n<p>&#8211; O seu Domingos!<\/p>\n<p>O caixeiro respondeu: &#8220;Senhor&#8230;&#8221; com uma voz de delinq\u00fcente.<\/p>\n<p>&#8211; Chegue c\u00e1!<\/p>\n<p>E o criminoso apresentou-se, l\u00edvido de morte.<\/p>\n<p>&#8211; Que fez voc\u00ea com esta pequena?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fiz nada, n\u00e3o senhor!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Foi ele, sim! desmentiu-o a Florinda. &#8211; O caixeiro desviou os olhos, para<br \/>\na n\u00e3o encarar. &#8211; Um dia de manh\u00e3zinha, \u00e0s quatro horas, no capinzal, debaixo<br \/>\ndas mangueiras&#8230;<\/p>\n<p>O mulherio em massa recebeu estas palavras com um coro de gargalhadas.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o senhor anda-me aqui a fazer conquistas, hein?!&#8230; disse o patr\u00e3o,<br \/>\nmeneando a cabe\u00e7a. Muito bem! Pois agora \u00e9 tomar conta da fazenda e, como<br \/>\nn\u00e3o gosto de caixeiros amigados, pode procurar arranjo noutra parte!&#8230;<\/p>\n<p>Domingos n\u00e3o respondeu patavina; abaixou o rosto e retirou-se lentamente.<\/p>\n<p>O grupo das lavadeiras e dos curiosos derramou-se ent\u00e3o pela venda, pelo<br \/>\nport\u00e3o da esta agem, pelo frege, por todos os lados, repartindo-se em pequenos<br \/>\nmagotes que discutiam o fato. Principiaram os coment\u00e1rios, os ju\u00edzos pr\u00f3 e<br \/>\ncontra o caixeiro; fizeram-se profecias. Entretanto, Marciana, sem largar<br \/>\na filha, invadira a casa de Jo\u00e3o Rom\u00e3o e perseguia o Domingos que preparava<br \/>\nj\u00e1 a sua trouxa. &#8211; Ent\u00e3o? perguntou-lhe. Que tenciona fazer? Ele n\u00e3o deu resposta.<br \/>\n&#8211; Vamos! vamos! fale! desembuche! &#8211; Ora lixe-se! resmungou o caixeiro, agora<br \/>\nmuito vermelho de c\u00f3lera. &#8211; Lixe-se, n\u00e3o!&#8230; Mais devagar com o andor! Voc\u00ea<br \/>\nh\u00e1 de casar: ela \u00e9 menor! Domingos soltou uma palavrada, que enfureceu a velha.<br \/>\n&#8211; Ah, sim?! bradou esta. Pois veremos! E despejou da venda, gritando para<br \/>\ntodos: &#8211; Sabe? O cara de nabo diz que n\u00e3o casa! Esta frase produziu o efeito<br \/>\nde um grito de guerra entre as lavadeiras, que se reuniram de novo, agitadas<br \/>\npor uma grande indigna\u00e7\u00e3o. &#8211; Como, n\u00e3o casa?!&#8230; &#8211; Era s\u00f3 o que faltava! &#8211;<br \/>\nTinha gra\u00e7a! &#8211; Ent\u00e3o mais ningu\u00e9m pode contar com a honra de sua filha? &#8211;<br \/>\nSe n\u00e3o queria casar pra que fez mal? &#8211; Quem n\u00e3o pode com o tempo n\u00e3o inventa<br \/>\nmodas! &#8211; Ou ele casa ou sai daqui com os ossos em sopa!<\/p>\n<p>&#8211; Quem n\u00e3o quer ser loto n\u00e3o lhe vista a pele! A mais empenhada naquela repara\u00e7\u00e3o<br \/>\nera a Machona, e a mais indignada com o fato era a Dona Isabel. A primeira<br \/>\ncorrera \u00e0 frente da venda, disposta a segurar o culpado, se este tentasse<br \/>\nfugir. Com o seu exemplo n\u00e3o tardou que em cada porta, onde era poss\u00edvel uma<br \/>\nescapula, se postassem as outras de sentinela, formando grupos de tr\u00eas e quatro.<br \/>\nE, no meio de crescente algazarra, ouviam-se pragas ferozes e amea\u00e7as: &#8211; Das<br \/>\nDores! toma cuidado, que o patife n\u00e3o espirre por ai! &#8211; \u00d3 seu Jo\u00e3o Rom\u00e3o,<br \/>\nse o homem n\u00e3o casa, mande-no-lo pra c\u00e1! Temos ainda algumas pequenas que<br \/>\nlhe conv\u00eam! &#8211; Mas onde est\u00e1 esse ordin\u00e1rio?! &#8211; Saia o canalha! &#8211; Est\u00e1 fazendo<br \/>\na trouxa! &#8211; Quer escapar! &#8211; N\u00e3o deixe sair! &#8211; Chame a pol\u00edcia! &#8211; Onde est\u00e1<br \/>\no Alexandre?<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m mais se entendia. \u00c0 vista daquela agita\u00e7\u00e3o, o vendeiro foi ter<br \/>\ncom o Domingos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o saia agora, ordenou-lhe. Deixe-se ficar por enquanto. Logo mais lhe<br \/>\ndirei o que deve fazer.<\/p>\n<p>E chegando a uma das portas que davam para a estalagem, gritou:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 de rumor! N\u00e3o quero isto aqui! \u00c9 safar!<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o o homem que case! responderam.<\/p>\n<p>&#8211; Ou d\u00ea-nos pra c\u00e1 o patife!<\/p>\n<p>&#8211; Fugir \u00e9 que n\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o foge! n\u00e3o deixa fugir!<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m se arrede!<\/p>\n<p>E, como a Marciana lhe lan\u00e7asse uma inj\u00faria mais forte, amea\u00e7ando-o com o<br \/>\npunho fechado, o taverneiro jurou que, se ela insistisse com desaforos, a<br \/>\nmandaria jogar l\u00e1 fora, junto com a filha, por um urbano.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos! Vamos! Volte cada uma para a sua obriga\u00e7\u00e3o, que eu n\u00e3o posso perder<br \/>\ntempo!<\/p>\n<p>&#8211; Ponha-nos ent\u00e3o pra c\u00e1 o homem! exigiu a mulata velha.<\/p>\n<p>&#8211; Venha o homem! acompanhou o coro.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 preciso dar-lhe uma li\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; O rapaz casa! disse o vendeiro com ar sisudo. J\u00e1 lhe falei&#8230; Est\u00e1 perfeitamente<br \/>\ndisposto! E, se n\u00e3o casar, a pequena ter\u00e1 o seu dote! V\u00e3o descansados; respondo<br \/>\npor ele ou pelo dinheiro!<\/p>\n<p>Estas palavras apaziguaram os \u00e2nimos; o grupo das lavadeiras afrouxou; Jo\u00e3o<br \/>\nRom\u00e3o recolheu-se: chamou de parte o Domingos e disse-lhe que n\u00e3o arredasse<br \/>\np\u00e9 de casa antes de noite fechada.<\/p>\n<p>&#8211; No mais&#8230; acrescentou, pode tratar de vida nova! Nada o prende aqui. Estamos<br \/>\nquites.<\/p>\n<p>&#8211; Como? se o senhor ainda n\u00e3o me fez as contas?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Contas? Que contas? O seu saldo n\u00e3o chega para pagar o dote da rapariga!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o eu tenho de pagar um dote?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ou casar&#8230; Ah, meu amigo, este neg\u00f3cio de tr\u00eas vint\u00e9ns \u00e9 assim! Custa<br \/>\ndinheiro! Agora, se voc\u00ea quiser, v\u00e1 queixar-se \u00e0 policia&#8230; Est\u00e1 no seu direito!<br \/>\nEu me explicarei em ju\u00edzo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Com que, n\u00e3o recebo nada?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o principie com muita coisa, que lhe fecho a porta e deixo-o ficar<br \/>\n\u00e0s turras l\u00e1 fora com esses danados! Voc\u00ea bem viu como est\u00e3o todos a seu respeito!<br \/>\nE, se h\u00e1 pouco n\u00e3o lhe arrancaram os f\u00edgados, agrade\u00e7a-o a mim! Foi<\/p>\n<p>preciso prometer dinheiro e tenho de cair com ele, decerto! mas n\u00e3o \u00e9 justo,<br \/>\nnem eu admito, que saia da minha algibeira porque n\u00e3o estou disposto a pagar<br \/>\nos caprichos de ningu\u00e9m, e muito menos dos meus caixeiros!<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Basta! Se quiser, por muito favor, ficar aqui at\u00e9 \u00e0 noite, h\u00e1 de ficar<br \/>\ncalado; ao contr\u00e1rio &#8211; rua!<\/p>\n<p>E afastou-se.<\/p>\n<p>Marciana resolveu n\u00e3o ir ao subdelegado, sem saber que provid\u00eancias tomaria<br \/>\no vendeiro. Esperaria at\u00e9 ao dia seguinte &#8220;para ver s\u00f3!&#8221; O que nesse ela fez<br \/>\nfoi dar uma boa lavagem na casa e arrum\u00e1-la muitas vezes, como costumava,<br \/>\nsempre que tinha l\u00e1 as suas zangas.<\/p>\n<p>O esc\u00e2ndalo n\u00e3o deixou de ser, durante o dia, discutido um s\u00f3 instante. N\u00e3o<br \/>\nse falava noutra coisa; tanto que, quando, j\u00e1 \u00e0 noite, Augusta e Alexandre<br \/>\nreceberam uma visita da comadre, a L\u00e9onie, era ainda esse o principal assunto<br \/>\ndas conversas.<\/p>\n<p>L\u00e9onie, com as suas roupas exageradas e barulhentas de cocote \u00e0 francesa,<br \/>\nlevantava rumor quando l\u00e1 ia e punha express\u00f5es de assombro em todas as caras.<br \/>\nO seu vestido de seda cor de a\u00e7o, enfeitado de encarnado sangue de boi, curto,<br \/>\npetulante, mostrando uns sapatinhos \u00e0 moda com um salto de quatro dedos de<br \/>\naltura; as suas lavas de vinte bot\u00f5es que lhe chegavam at\u00e9 aos sovacos; a<br \/>\nsua sombrinha vermelha, sumida numa nuvem de rendas cor-de-rosa e com grande<br \/>\ncabo cheio de arabescos extravagantes; o seu pantafa\u00e7udo chap\u00e9u de imensas<br \/>\nabas forradas de velado escarlate, com um p\u00e1ssaro inteiro grudado \u00e0 copa;<br \/>\nas suas j\u00f3ias caprichosas, cintilantes de pedras finas; os seus l\u00e1bios pintados<br \/>\nde carmim; suas p\u00e1lpebras tingidas de violeta; o seu cabelo artificialmente<br \/>\nlouro; tudo isto contrastava tanto com as vestimentas, os costumes e as maneiras<br \/>\ndaquela pobre gente, que de todos os lados surgiam olhos curiosos a espreit\u00e1-la<br \/>\npela porta da casinha de Alexandre; Augusta, ao ver a sua pequena, a Juju,<br \/>\ncomo vinha t\u00e3o embonecada e catita, ficou com os dela arrasados de \u00e1gua.<\/p>\n<p>L\u00e9onie trazia sempre muito bem cal\u00e7ada e vestida a afilhada, levando o capricho<br \/>\nao ponto de lhe mandar talhar a roupa da mesma fazenda com que fazia as suas<br \/>\ne pela mesma costureira; arranjava-lhe chap\u00e9us escandalosos como os dela e<br \/>\ndava-lhe j\u00f3ias. Mas, naquele dia, a grande novidade que Juju apresentava era<br \/>\nestar de cabelos louros, quando os tinha castanhos por natureza. Foi caso<br \/>\npara uma revolu\u00e7\u00e3o na estalagem; a noticia correu logo de n\u00famero a n\u00famero,<br \/>\ne muitos moradores se abalaram do c\u00f4modo para ver a filhita da Augusta &#8220;com<br \/>\ncabelos de francesa&#8221;.<\/p>\n<p>Tal sucesso p\u00f4s L\u00e9onie radiante de alegria. Aquela afilhada era o seu luxo,<br \/>\na sua originalidade, a coisa boa da sua vida de cansa\u00e7os depravados; era o<br \/>\nque aos seus pr\u00f3prios olhos a resgatava das abje\u00e7\u00f5es do oficio. Prostituta<br \/>\nde casa aberta, prezava todavia com admira\u00e7\u00e3o e respeito a honestidade vulgar<br \/>\nda comadre; sentia-se honrada com a sua estima; cobria-a de obs\u00e9quios de toda<br \/>\na esp\u00e9cie. Nos instantes que estava ali, entre aqueles seus amigos simpl\u00f3rios,<br \/>\nque a matariam de rid\u00edculo em qualquer outro lagar, nem ela parecia a mesma,<br \/>\npois at\u00e9 os olhos lhe mudavam de express\u00e3o. E n\u00e3o queria prefer\u00eancias: assentava-se<br \/>\nno primeiro banco, bebia \u00e1gua pela caneca de folha, tomava ao colo o pequenito<br \/>\nda comadre e, \u00e0s vezes, descal\u00e7ava os sapatos para enfiar os chinelos velhos<br \/>\nque encontrasse debaixo da cama.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, o acatamento que lhe votavam Alexandre e a mulher n\u00e3o tinha<br \/>\nlimites; pareciam capazes dos maiores sacrif\u00edcios por ela. Adoravam-na. Achavam-na<br \/>\nboa de cora\u00e7\u00e3o como um anjo, e muito linda nas suas roupas de espavento, com<br \/>\no seu rostinho redondo, malicioso e petulante, onde reluziam dentes mais alvos<br \/>\nque um marfim. Juju, com um embrulho de balas em cada m\u00e3o, era carregada de<br \/>\ncasa em casa, passando de bra\u00e7o a bra\u00e7o e levada de boca em boca, como um<br \/>\n\u00eddolo milagroso, que todos queriam beijar. E os elogios n\u00e3o cessavam: &#8211; Rica<br \/>\npequena!&#8230; &#8211; \u00c9 um enlevo olhar a gente pro demoninho! &#8211; \u00c9 mesmo uma lindeza<br \/>\nde crian\u00e7a! &#8211; Uma criaturinha dos anjos! &#8211; Uma boneca francesa! &#8211; Uma menina<br \/>\nJesus! O pai acompanhava-a comovido, mas solene sempre, parando a todo momento,<br \/>\ncomo em prociss\u00e3o, \u00e0 espera que cada qual desafogasse por sua vez o entusiasmo<br \/>\npela crian\u00e7a. Silenciosamente risonho, com os olhos \u00famidos, patenteada em<br \/>\ntodo o seu car\u00e3o mulato, de bigode que parecia posti\u00e7o, um ar condolente e<br \/>\nest\u00fapido de um profundo reconhecimento por aquela fortuna, que Deus lhe dera<br \/>\n\u00e0 filha, enviando-lhe dos c\u00e9us o ideal das madrinhas. E, enquanto Juju percorria<br \/>\na estalagem, conduzida em triunfo, L\u00e9onie na casa da comadre, cercada por<br \/>\numa roda de lavadeiras e crian\u00e7as, discreteava sobre assuntos s\u00e9rios, falando<br \/>\ncompassadamente, cheia de inflex\u00f5es de pessoa pr\u00e1tica e ajuizada, condenando<br \/>\nmaus atos e desvarios, aplaudindo a moral e a virtude. E aquelas mulheres,<br \/>\nali\u00e1s t\u00e3o alegres e vivazes, n\u00e3o se animavam, defronte dela, a rir nem levantar<br \/>\na voz, e conversavam a medo cochichando, a tapar<\/p>\n<p>a boca com a m\u00e3o, tolhidas de respeito pela cocote, que as dominava na sua<br \/>\nsobranceria de mulher loura vestida de seda e coberta de brilhantes. A das<br \/>\nDores sentiu-se orgulhosa, quando L\u00e9onie lhe pousou no ombro a m\u00e3ozinha enluvada<br \/>\ne recendente, para lhe perguntar pelo seu homem. E n\u00e3o se fartavam de olhar<br \/>\npara ela, de admir\u00e1-la; chegavam a examinar-lhe a roupa, revistar-lhe as salas,<br \/>\napalpar-lhe as meias, levantando-lhe o vestido, com exclama\u00e7\u00f5es de assombro<br \/>\n\u00e0 vista de tanto luxo de rendas e bordados. A visita sorria, por sua vez comovida.<br \/>\nPiedade declarou que a roupa branca da madama era rica nem como a da Nossa<br \/>\nSenhora da Penha. E Nenen, no seu entusiasmo, disse que a invejava do fundo<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o, ao que a m\u00e3e lhe observou que n\u00e3o fosse besta. O Albino contemplava-a<br \/>\nem \u00eaxtase, de m\u00e3o no queixo, o cotovelo no ar. A Rita Baiana levara-lhe um<br \/>\nramalhete de rosas. Esta n\u00e3o se iludia com a posi\u00e7\u00e3o da loureira, mas dava-lhe<br \/>\napre\u00e7o talvez por isso mesmo e, em parte, porque a achava deveras bonita.<br \/>\n&#8220;Ora! era preciso ser bem esperta e valer muito para arrancar assim da pele<br \/>\ndos homens ricos aquela por\u00e7\u00e3o de j\u00f3ias e todo aquele luxo de roupa por dentro<br \/>\ne por fora!&#8221; &#8211; N\u00e3o sei, filha! pregava depois a mulata, no p\u00e1tio, a uma companheira;<br \/>\nseja assim ou assado, a verdade \u00e9 que ela passa muito bem de boca e nada lhe<br \/>\nfalta: sua boa casa; seu bom carro para passear \u00e0 tarde; teatro toda a noite;<br \/>\nbailes quando quer e, aos domingos, corridas, regatas, pagodes fora da cidade<br \/>\ne dinheirama grossa para gastar \u00e0 farta! Enfim, s\u00f3 o que afian\u00e7o \u00e9 que esta<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 sujeita, como a Leoc\u00e1dia e outras, a pontap\u00e9s e cacha\u00e7\u00f5es de um bruto<br \/>\nde marido! \u00c9 dona das suas a\u00e7\u00f5es! livre como o lindo amor! Senhora do seu<br \/>\ncorpinho, que ela s\u00f3 entrega a quem muito bem lhe der na veneta! &#8211; E Pombinha?&#8230;<br \/>\nperguntou a visita. N\u00e3o me apareceu ainda!&#8230; &#8211; Ah! esclareceu Augusta. N\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 ai, foi \u00e0 sociedade de dan\u00e7a com a m\u00e3e. E, como a outra mostrasse na<br \/>\ncara n\u00e3o ter compreendido, explicou que a filha de Dona Isabel ia todas as<br \/>\nter\u00e7as, quintas e s\u00e1bados, mediante dois mil-r\u00e9is por noite, servir de dama<br \/>\nnuma sociedade em que os caixeiros do com\u00e9rcio aprendiam a dan\u00e7ar. &#8211; Foi l\u00e1<br \/>\nque ela conheceu o Costa&#8230; acrescentou. &#8211; Que Costa? &#8211; O noivo! Ent\u00e3o a Pombinha<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o foi pedida? &#8211; Ah! sei&#8230; E a cocote perguntou depois, abafando a voz:<br \/>\n&#8211; E aquilo?&#8230; J\u00e1 veio afinal?&#8230; &#8211; Qual! N\u00e3o \u00e9 por falta de boa vontade da<br \/>\nparte delas, coitadas! Agora mesmo a velha fez uma nova promessa a Nossa Senhora<br \/>\nda Anuncia\u00e7\u00e3o&#8230; mas n\u00e3o h\u00e1 meio! Da\u00ed a pouco, Augusta apresentou-lhe uma<br \/>\nx\u00edcara de caf\u00e9, que L\u00e9onie recusou por n\u00e3o poder beber. &#8220;Estava em uso de<br \/>\nrem\u00e9dios&#8230;&#8221; N\u00e3o disse, por\u00e9m, quais eram estes, nem para que mol\u00e9stia os<br \/>\ntomava. &#8211; Prefiro um copo de cerveja, declarou ela. E, sem dar tempo a que<br \/>\nse opusessem, tirou da carteira uma nota de dez mil-r\u00e9is, que deu a Agostinho<br \/>\npara ir buscar tr\u00eas garrafas de Carls Berg. A vista dos copos, liberalmente<br \/>\ncheios, formou-se um sil\u00eancio enternecido. A cocote distribuiu-os por sua<br \/>\npr\u00f3pria m\u00e3o aos circunstantes, reservando um para si. N\u00e3o chegavam. Quis mandar<br \/>\nbuscar mais; n\u00e3o lho permitiram, objetando que duas e tr\u00eas pessoas podiam<br \/>\nbeber juntas. &#8211; Para que gastar tanto?&#8230; Que alma grande!<\/p>\n<p>O troco ficou esquecido, de prop\u00f3sito, sobre a c\u00f4moda, entre uma infinita<br \/>\nquinquilharia de coisas velhas e bem tratadas.<\/p>\n<p>&#8211; Quando voc\u00ea, comadre, agora me aparece por l\u00e1?&#8230; quis saber L\u00e9onie<\/p>\n<p>&#8211; Pra semana, sem falta; levo-lhe toda a roupa. Agora, se a comadre tem precis\u00e3o<br \/>\nde alguma&#8230; pode-se aprontar com mais pressa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 bom mandar-me toalhas e len\u00e7\u00f3is&#8230; Camisas de dormir, \u00e9 verdade!<br \/>\ntamb\u00e9m tenho poucas.<\/p>\n<p>&#8211; Depois d\u2019amanh\u00e3 est\u00e1 tudo l\u00e1.<\/p>\n<p>E a noite ia-se passando. Deram dez horas. L\u00e9onie, impaciente j\u00e1 pelo rapaz<br \/>\nque ficara de ir busc\u00e1-la, mandou ver se ele por acaso estaria no port\u00e3o,<br \/>\n\u00e0 espera.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 aquele mesmo que veio da outra vez com a comadre?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. \u00c9 um mais alto. De cartola branca.<\/p>\n<p>Correu muita gente at\u00e9 \u00e0 rua. O rapaz n\u00e3o tinha chegado ainda. L\u00e9onie ficou<br \/>\ncontrariada.<\/p>\n<p>&#8211; Imprest\u00e1vel!&#8230; resmungou. Faz-me ir sozinha por ai ou incomodar algu\u00e9m<br \/>\nque me acompanhe!<\/p>\n<p>&#8211; Por que a comadre n\u00e3o dorme aqui?&#8230; lembrou Augusta. Se quiser, arranja-se<br \/>\ntudo! N\u00e3o passar\u00e1 bem como em sua casa, mas uma noite corre depressa!&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o! n\u00e3o era poss\u00edvel Precisava estar em casa essa noite: no dia seguinte<br \/>\npela manh\u00e3 iriam procur\u00e1-la muito cedo.<\/p>\n<p>Nisto chegou Pombinha com Dona Isabel. Disseram-lhes logo \u00e0 entrada que L\u00e9onie<br \/>\nestava em casa do Alexandre, e a menina deixou a m\u00e3e um instante no n\u00famero<br \/>\n15 e seguiu sozinha para ali, radiante de alegria. Gostavam-se muito uma da<br \/>\noutra. A cocote recebeu-a com exclama\u00e7\u00f5es de agrado e beijou-a nos dentes<br \/>\ne nos olhos repetidas vezes.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, minha flor, como est\u00e1 essa lindeza! perguntou-lhe, mirando-a toda.<\/p>\n<p>&#8211; Saudades suas&#8230; respondeu a mo\u00e7a, rindo bonito na sua boca ainda pura.<\/p>\n<p>E uma conversa amiga, cheia de interesse para ambas, estabeleceu-se, isolando-as<br \/>\nde todas as outras. L\u00e9onie entregou \u00e0 Pombinha uma medalha de prata que lhe<br \/>\ntrouxera; uma tet\u00e9ia que valia s\u00f3 pela esquisitice, representando uma fatia<br \/>\nde queijo com um camundongo em cima. Correu logo de m\u00e3o em m\u00e3o, levantando<br \/>\nespantos e gargalhadas.<\/p>\n<p>&#8211; Por um pouco que n\u00e3o me apanhas&#8230; continuou a cocote na sua conversa com<br \/>\na menina. Se a pessoa que me vem buscar tivesse chegado j\u00e1, eu estaria longe.<br \/>\n&#8211; E mudando de tom, a acarinhar-lhe os cabelos: &#8211; Por que n\u00e3o me apareces!&#8230;<br \/>\nN\u00e3o tens que recear: minha casa \u00e9 muito sossegada&#8230; J\u00e1 l\u00e1 t\u00eam ido fam\u00edlias!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nunca vou \u00e0 cidade&#8230; \u00c9 raro! suspirou Pombinha.<\/p>\n<p>&#8211; Vai amanh\u00e3 com tua m\u00e3e; jantam as duas comigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se mam\u00e3e deixar&#8230; Olha! ela ai vem. Pe\u00e7a.<\/p>\n<p>Dona Isabel prometeu ir, n\u00e3o no dia seguinte, mas no outro imediato, que<br \/>\nera domingo. E a palestra durou animada at\u00e9 que chegou, da\u00ed a um quarto de<br \/>\nhora, o rapaz por quem esperava L\u00e9onie. Era um mo\u00e7o de vinte e poucos anos,<br \/>\nsem emprego e sem fortuna, mas vestido com esmero e muito bem apessoado. A<br \/>\ncocote, logo que o viu aproximar-se, disse baixinho \u00e0 menina: &#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso<br \/>\nque ele saiba que vais l\u00e1 domingo, ouviste? Juju dormia. Resolveram n\u00e3o acord\u00e1-la;<br \/>\niria no dia seguinte. Na ocasi\u00e3o em que L\u00e9onie partia pelo bra\u00e7o do amante,<br \/>\nacompanhada at\u00e9 o port\u00e3o por um s\u00e9quito de lavadeiras, a Rita, no p\u00e1tio, beliscou<br \/>\na coxa de Jer\u00f4nimo e soprou-lhe \u00e0 meia voz: &#8211; N\u00e3o lhe caia o queixo!&#8230; O<br \/>\ncavouqueiro teve um desdenhoso sacudir d\u2019ombros. &#8211; Aquela pra c\u00e1 nem<br \/>\npintada! E, para deixar bem patente as suas prefer\u00eancias, virou o p\u00e9 do lado<br \/>\ne bateu com o tamanco na canela da mulata. &#8211; Olha o bruto!&#8230; queixou-se esta,<br \/>\nlevando a m\u00e3o ao lagar da pancada. Sempre h\u00e1 de mostrar que \u00e9 galego!<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>X<\/h2>\n<p>No outro dia a casa do Miranda estava em preparos de festa. Lia-se no &#8220;Jornal<br \/>\ndo Com\u00e9rcio&#8221; que Sua Excel\u00eancia fora agraciado pelo governo portugu\u00eas com<br \/>\no titulo de Bar\u00e3o do Freixal; e como os seus amigos se achassem prevenidos<br \/>\npara ir cumpriment\u00e1-lo no domingo, o negociante dispunha-se a receb\u00ea-los condignamente.<\/p>\n<p>Do corti\u00e7o, onde esta novidade causou sensa\u00e7\u00e3o, via-se nas janelas do sobrado,<br \/>\nabertas de par em par, surgir de vez em quando Leonor ou Isaura, a sacudirem<br \/>\ntapetes e capachos, batendo-lhes em cima com um pau, os olhos fechados, a<br \/>\ncabe\u00e7a torcida para dentro por causa da poeira que a cada pancada se levantava,<br \/>\ncomo fuma\u00e7a de um tiro de pe\u00e7a. Chamaram-se novos criados para aqueles dias.<br \/>\nNo sal\u00e3o da frente, pretos lavavam o soalho, e na cozinha havia rebuli\u00e7o.<br \/>\nDona Estela, de penteador de cambraia enfeitado de la\u00e7os cor-de-rosa, era<br \/>\nlobrigada de relance, ora de um lado, ora de outro, a dar as suas ordens,<br \/>\nabanando-se com um grande leque; ou aparecia no patamar da escada do fundo,<br \/>\npreocupada em soerguer as saias contra as \u00e1guas sujas da lavagem, que escorriam<br \/>\npara o quintal. Zulmira tamb\u00e9m ia e vinha, com a sua palidez fria e \u00famida<br \/>\nde menina sem sangue. Henrique, de palet\u00f3 branco, ajudava o Botelho nos arranjos<br \/>\nda casa e, de instante a instante, chegava \u00e0 janela, para namoriscar Pombinha,<br \/>\nque fingia n\u00e3o dar por isso, toda embebida na sua costura, \u00e0 porta do n\u00famero<br \/>\n15, numa cadeira de vime, uma perna dobrada sobre a outra, mostrando a meia<br \/>\nde seda azul e um sapatinho preto de entrada baixa; s\u00f3 de longo em longo espa\u00e7o,<br \/>\nela desviava os olhos do servi\u00e7o e erguia-os para o sobrado. Entretanto, a<br \/>\nfigura gorda e encanecida do novo Bar\u00e3o, sobre-casacado, com o chap\u00e9u alto<br \/>\nderreado para tr\u00e1s na cabe\u00e7a e sem largar o guarda-chuva, entrava da rua e<br \/>\natravessava a sala de jantar, seguia at\u00e9 a despensa, diligente esbaforido,<br \/>\nindagando se j\u00e1 tinha vindo isto e mais aquilo, provando dos vinhos que chegavam<br \/>\nem garraf\u00f5es, examinando tudo, voltando-se para a direita e para a esquerda,<br \/>\ndando ordens, ralhando, exigindo atividade, e depois tornava a sair, sempre<br \/>\napressado, e metia-se no carro que o esperava \u00e0 porta da rua. &#8211; Toca! toca!<br \/>\nVamos ver se o fogueteiro aprontou os fogos!<\/p>\n<p>E viam-se chegar, quase sem intermit\u00eancia, homens carregados de gigos de<br \/>\nchampanha, caixas de Porto e Bord\u00e9us, barricas de cerveja, cestos e cestos<br \/>\nde mantimentos, latas e latas de conserva; e outros traziam perus e leit\u00f5es,<br \/>\ncanastras d\u2019ovos, quartos de carneiro e de porco. E as janelas do sobrado<br \/>\niam-se enchendo de compoteiras de doce ainda quente, sa\u00eddo do fogo, e travess\u00f5es,<br \/>\nde barro e de ferro, com grandes pe\u00e7as de carne em vinha d\u2019alhos, prontos<br \/>\npara entrar no forno. \u00c0 porta da cozinha penduraram pelo pesco\u00e7o um cabrito<br \/>\nesfolado, que tinha as pernas abertas, lembrando sinistramente uma crian\u00e7a<br \/>\na quem enforcassem depois de tirar-lhe a pele. Todavia, c\u00e1 embaixo, um caso<br \/>\npalpitante agitava a estalagem: Domingos, o sedutor da Florinda, desaparecera<br \/>\ndurante a noite e um novo caixeiro o substitu\u00eda ao balc\u00e3o. O vendeiro retorquia<br \/>\natravessado a quem lhe perguntava pelo evadido: &#8211; Sei c\u00e1! Creio que n\u00e3o podia<br \/>\ntraz\u00ea-lo pendurado ao pesco\u00e7o!&#8230; &#8211; Mas voc\u00ea disse que respondia por ele!<br \/>\nrepontou Marciana, que parecia ter envelhecido dez anos naquelas \u00faltimas vinte<br \/>\ne quatro horas. &#8211; De acordo, mas o tratante cegou-me! Que havemos de fazer?&#8230;<br \/>\n\u00c9 ter paci\u00eancia! &#8211; Pois ent\u00e3o ande com o dote! &#8211; Que dote? Voc\u00ea est\u00e1 b\u00eabeda?<\/p>\n<p>&#8211; B\u00eabeda, hein? Ah, corja! t\u00e3o bom \u00e9 um como o outro! Mas eu hei de mostrar!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, n\u00e3o me amole!<\/p>\n<p>E Jo\u00e3o Rom\u00e3o virou-lhe as costas, para falar \u00e0 Bertoleza que se chegara.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa estar, malvado, que Deus \u00e9 quem h\u00e1 de punir por mim e por minha filha!<br \/>\nexclamou a desgra\u00e7ada.<\/p>\n<p>Mas o vendeiro afastou-se, indiferente \u00e0s frases que uma ou outra lavadeira<br \/>\nimprecava contra ele. Elas, por\u00e9m, j\u00e1 se n\u00e3o mostravam t\u00e3o indignadas como<br \/>\nna v\u00e9spera; uma s\u00f3 noite rolada por cima do esc\u00e2ndalo bastava para tirar-lhe<br \/>\no m\u00e9rito de novidade.<\/p>\n<p>Marciana foi com a pequena \u00e0 procura do subdelegado e voltou aborrecida,<br \/>\nporque lhe disseram que nada se poderia fazer enquanto n\u00e3o aparecesse o delinq\u00fcente.<br \/>\nM\u00e3e e filha passaram todo esse s\u00e1bado na rua, numa roda-viva, da secretaria<br \/>\ne das esta\u00e7\u00f5es de pol\u00edcia para o escrit\u00f3rio de advogados que, um por um, lhes<br \/>\nperguntavam de quanto dispunham para gastar com o processo, despachando-as,<br \/>\nsem mais considera\u00e7\u00f5es, logo que se inteiravam da escassez de recursos de<br \/>\nambas as partes.<\/p>\n<p>Quando as duas, prostradas de cansa\u00e7o, esbraseadas de calor, tornaram \u00e0 tarde<br \/>\npara a estalagem, na hora em que os homens do mercado, que ali moravam, recolhiam-se<br \/>\nj\u00e1 com os balaios vazios ou com o resto da fruta que n\u00e3o conseguiram vender<br \/>\nna cidade, Marciana vinha t\u00e3o furiosa que, sem dar palavra \u00e0 filha e com os<br \/>\nbra\u00e7os mo\u00eddos de esbordo\u00e1-la, abriu toda a casa e correu a buscar \u00e1gua para<br \/>\nbaldear o ch\u00e3o. Estava possessa.<\/p>\n<p>V\u00ea a vassoura! Anda! Lava! lava, que est\u00e1 isto uma porcaria! Parece que nunca<br \/>\nse limpa o diabo desta casa! \u00c9 deix\u00e1-la fechada uma hora e morre-se de fedor!<br \/>\nApre! isto faz peste!<\/p>\n<p>E notando que a pequena chorava:<\/p>\n<p>&#8211; Agora deste para chorar, hein? mas na ocasi\u00e3o do relaxamento havias de<br \/>\nestar bem disposta!<\/p>\n<p>A filha solu\u00e7ou.<\/p>\n<p>&#8211; Cala-te, coisa-ruim! N\u00e3o ouviste?<\/p>\n<p>Florinda solu\u00e7ou mais forte.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! choras sem motivo?&#8230; Espera, que te fa\u00e7o chorar com raz\u00e3o.<\/p>\n<p>E precipitou-se sobre ela com uma acha de lenha.<\/p>\n<p>Mas a mulatinha, de um salto, pinchou pela porta e atravessou de uma s\u00f3 carreira<br \/>\no p\u00e1tio da estalagem, fugindo em desfilada pela rua.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m teve tempo de apanh\u00e1-la, e um clamor de galinheiro assustado levantou-se<br \/>\nentre as lavadeiras. Marciana foi at\u00e9 o port\u00e3o, como uma doida e, compreendendo<br \/>\nque a filha a abandonava, desatou por sua vez a solu\u00e7ar, de bra\u00e7os abertos,<br \/>\nolhando para o espa\u00e7o. As l\u00e1grimas saltavam-lhe pelas rugas da cara. E logo,<br \/>\nsem transi\u00e7\u00e3o, disparou da c\u00f3lera, que a convulsionava desde a manh\u00e3 da v\u00e9spera,<br \/>\npara cair numa dor humilde enternecida de m\u00e3e que perdeu o filho. &#8211; Para onde<br \/>\niria ela, meu pai do c\u00e9u?<\/p>\n<p>&#8211; Pois voc\u00ea desd\u2019ontem que bate na rapariga!&#8230; disse-lhe a Rita. Fugiu-lhe,<br \/>\n\u00e9 bem feito! Que diabo! ela \u00e9 de carne, n\u00e3o \u00e9 de ferro!<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bem feito! Agora chore na cama que \u00e9 lugar quente!<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha! Minha filha! Minha filha!<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m quis tomar o partido da infeliz, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da cabocla velha, que<br \/>\nfoi colocar-se perto dela, fitando-a im\u00f3vel, com o seu desvairado olhar de<br \/>\nbruxa feiticeira.<\/p>\n<p>Marciana arrancou-se da abstra\u00e7\u00e3o plangente em que ca\u00edra, para arvorar-se<br \/>\nterr\u00edvel defronte da venda, apostrofando com a m\u00e3o no ar e a carapinha desgrenhada:<\/p>\n<p>&#8211; Este galego e que teve a culpa de tudo! Maldito sejas tu, ladr\u00e3o! Se n\u00e3o<br \/>\nme deres conta de minha filha, malvado, pego-te fogo na casa.<\/p>\n<p>A bruxa sorriu sinistramente ao ouvir estas \u00faltimas palavras.<\/p>\n<p>O vendeiro chegou \u00e0 porta e ordenou em tom seco \u00e0 Marciana que despejasse<br \/>\no n\u00famero 12.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 andar! \u00c9 andar! N\u00e3o quero esta berraria aqui! Bico, ou chamo um urbano!<br \/>\nDou-lhe uma noite! amanh\u00e3 pela manh\u00e3 &#8211; rua!<\/p>\n<p>Ah! ele esse dia estava intolerante com tudo e com todos; por mais de uma<br \/>\nvez mandara Bertoleza \u00e0 coisa mais imunda, apenas porque esta lhe fizera algumas<br \/>\nperguntas concernentes ao servi\u00e7o. Nunca o tinha visto assim, t\u00e3o fora de<br \/>\nsi, t\u00e3o cheio de repel\u00f5es; nem parecia aquele mesmo homem inalter\u00e1vel, sempre<br \/>\ncalmo e met\u00f3dico.<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m seria capaz de acreditar que a causa de tudo isso era o fato de<br \/>\nter sido o Miranda agraciado com o titulo de Bar\u00e3o.<\/p>\n<p>Sim, senhor! aquele taverneiro, na apar\u00eancia t\u00e3o humilde e t\u00e3o miser\u00e1vel;<br \/>\naquele sovina que nunca sa\u00edra dos seus tamancos e da sua camisa de riscadinho<br \/>\nde Angola; aquele animal que se alimentava pior que os c\u00e3es, para p\u00f4r de parte<br \/>\ntudo, tudo, que ganhava ou extorquia; aquele ente atrofiado pela cobi\u00e7a e<br \/>\nque parecia ter abdicado dos seus privil\u00e9gios e sentimentos de homem; aquele<br \/>\ndesgra\u00e7ado, que nunca jamais amara sen\u00e3o o dinheiro, invejava agora o Miranda,<br \/>\ninvejava-o deveras, com dobrada amargura do que sofrera o marido de Dona Estela,<br \/>\nquando, por sua vez, o invejara a ele. Acompanhara-o desde que o Miranda viera<br \/>\nhabitar o sobrado com a fam\u00edlia; vira-o nas felizes ocasi\u00f5es da vida, cheio<br \/>\nde import\u00e2ncia, cercado de amigos e rodeado de aduladores; vira-o dar festas<br \/>\ne receber em sua casa as figuras mais salientes da pra\u00e7a e da pol\u00edtica; vira-o<br \/>\nluzir, como um grosso pi\u00e3o de ouro, girando por entre damas da melhor e mais<br \/>\nfina sociedade fluminense; vira-o meter-se em altas especula\u00e7\u00f5es comerciais<br \/>\ne sair-se bem; vira seu nome figurar em v\u00e1rias corpora\u00e7\u00f5es de gente escolhida<br \/>\ne em subscri\u00e7\u00f5es, assinando belas quantias; vira-o fazer parte de festas de<br \/>\ncaridade e festas de regozijo nacional; vira-o elogiado pela imprensa e aclamado<br \/>\ncomo homem de vistas largas e grande talento financeiro; vira-o enfim em todas<br \/>\nas suas prosperidades, e nunca lhe tivera inveja. Mas agora, estranho<\/p>\n<p>deslumbramento! quando o vendeiro leu no &#8220;Jornal do Com\u00e9rcio&#8221; que o vizinho<br \/>\nestava bar\u00e3o &#8211; Bar\u00e3o! &#8211; sentiu tamanho calafrio em todo o corpo, que a vista<br \/>\npor um instante se lhe apagou dos olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Bar\u00e3o!<\/p>\n<p>E durante todo o santo dia n\u00e3o pensou noutra coisa. &#8220;Bar\u00e3o!&#8230; Com esta \u00e9<br \/>\nque ele n\u00e3o contava!&#8230;&#8221; E, defronte da sua preocupa\u00e7\u00e3o, tudo se convertia<br \/>\nem comendas e crach\u00e1s; at\u00e9 os modestos dois vint\u00e9ns de manteiga, que media<br \/>\nsobre um peda\u00e7o de papel de embrulho para dar ao fregu\u00eas, transformava-se,<br \/>\nde simples mancha amarela, em opulenta ins\u00edgnia de ouro cravejada de brilhantes.<br \/>\n\u00c0 noite, quando se estirou na cama, ao lado da Bertoleza, para dormir, n\u00e3o<br \/>\np\u00f4de conciliar o sono. Por toda a mis\u00e9ria daquele quarto s\u00f3rdido; pelas paredes<br \/>\nimundas, pelo ch\u00e3o enlameado de poeira e sebo, nos tetos funebremente velados<br \/>\npelas teias de aranha, estrelavam pontos luminosos que se iam transformando<br \/>\nem gr\u00e3-cruzes, em h\u00e1bitos e veneras de toda a ordem e esp\u00e9cie. E em volta<br \/>\ndo seu esp\u00edrito, pela primeira vez alucinado, um turbilh\u00e3o de grandezas que<br \/>\nele mal conhecia e mal podia imaginar, perpassou vertiginosamente, em ondas<br \/>\nde seda e rendas, velado e p\u00e9rolas, colos e bra\u00e7os de mulheres seminuas, num<br \/>\nfremir de risos e espumar aljofrado de vinhos cor-de-ouro. E nuvens de caudas<br \/>\nde vestidos e abas de casaca l\u00e1 iam, rodando deliciosamente, ao som de langorosas<br \/>\nvalsas e \u00e0 luz de candelabros de mil velas de todas as cores. E carruagens<br \/>\ndesfilavam reluzentes, com uma coroa \u00e0 portinhola, o cocheiro teso, de libr\u00e9,<br \/>\nsopeando parelhas de cavalos grandes. E intermin\u00e1veis mesas estendiam-se,<br \/>\nserpenteando a perder de vista, acumuladas de iguarias, numa encantadora confus\u00e3o<br \/>\nde flores, luzes, baixelas e cristais, cercadas de um e de outro lado por<br \/>\nluxuoso renque de convivas, de ta\u00e7a em punho, brindando o anfitri\u00e3o. E, porque<br \/>\nnada disso o vendeiro conhecia de perto, mas apenas pelo ru\u00eddo namorador e<br \/>\nf\u00e1tuo, ficava deslumbrado com o seu pr\u00f3prio sonho. Tudo aquilo, que agora<br \/>\nlhe deparava o del\u00edrio, at\u00e9 ai s\u00f3 lhe passara pelos olhos ou lhe chegara aos<br \/>\nouvidos como o eco e reflexo de um mundo inating\u00edvel e long\u00ednquo; um mundo<br \/>\nhabitado por seres superiores; um para\u00edso de gozos excelentes e delicados,<br \/>\nque os seus grosseiros sentidos repeliam; um conjunto harmonioso e discreto<br \/>\nde sons e cores mal definidas e vaporosas; um quadro de manchas p\u00e1lidas, sussurrantes,<br \/>\nsem firmezas de tintas, nem contornos, em que se n\u00e3o determinava o que era<br \/>\np\u00e9tala de rosa ou asa de borboleta, murm\u00fario de brisa ou ciciar de beijos.<br \/>\nN\u00e3o obstante, ao lado dele a crioula roncava, de papo para o ar, gorda, estrompada<br \/>\nde servi\u00e7o, tresandando a uma mistura de suor com cebola crua e gordura podre.<br \/>\nMas Jo\u00e3o Rom\u00e3o nem dava por ela; s\u00f3 o que ele via e sentia era todo aquele<br \/>\nvoluptuoso mundo inacess\u00edvel vir descendo para a terra, chegando-se para o<br \/>\nseu alcance, lentamente, acentuando-se. E as d\u00fabias sombras tomavam forma,<br \/>\ne as vozes duvidosas e confusas transformavam-se em falas distintas, e as<br \/>\nlinhas desenhavam-se n\u00edtidas, e tudo se ia esclarecendo e tudo se aclarava,<br \/>\nnum reviver de natureza ao raiar do sol. Os t\u00eanues murm\u00farios suspirosos desdobravam-se<br \/>\nem orquestra de baile, onde se distinguiam instrumentos, e os surdos rumores<br \/>\nindefinidos eram j\u00e1 animadas conversas, em que damas e cavalheiros discutiam<br \/>\npol\u00edtica, artes, literatura e ci\u00eancia. E uma vida inteira, completa, real,<br \/>\ndescortinou-se amplamente defronte dos seus olhos fascinados; uma vida fidalga,<br \/>\nde muito luxo, de muito dinheiro; uma vida de pal\u00e1cio, entre mob\u00edlias preciosas<br \/>\ne objetos espl\u00eandidos, onde ele se via cercado de titulares milion\u00e1rios, e<br \/>\nhomens de farda bordada, a quem tratava por tu, de igual para igual, pondo-lhes<br \/>\na m\u00e3o no ombro. E ali ele n\u00e3o era, nunca fora, o dono de um corti\u00e7o, de tamancos<br \/>\ne em mangas de camisa; ali era o Sr. Bar\u00e3o! O Bar\u00e3o do ouro! o Bar\u00e3o das grandezas!<br \/>\no Bar\u00e3o dos milh\u00f5es! Vendeiro! Qual! era o famoso, o enorme capitalista! o<br \/>\npropriet\u00e1rio sem igual! o incompar\u00e1vel banqueiro, em cujos capitais se equilibrava<br \/>\na terra, como imenso globo em cima de colunas feitas de moedas de ouro. E<br \/>\nviu-se logo montado a cavaleiras sobre o mundo, pretendendo abarc\u00e1-lo com<br \/>\nas suas pernas curtas; na cabe\u00e7a uma coroa de rei e na m\u00e3o um cetro. E logo,<br \/>\nde todos os cantos do quarto, come\u00e7aram a jorrar cascatas de libras esterlinas,<br \/>\ne a seus p\u00e9s principiou a formar-se um formigueiro de pigmeus em grande movimento<br \/>\ncomercial; e navios descarregavam pilhas e pilhas de fardos e caix\u00f5es marcados<br \/>\ncom as iniciais do seu nome; e telegramas faiscavam eletricamente em volta<br \/>\nda sua cabe\u00e7a; e paquetes de todas as nacionalidades giravam vertiginosamente<br \/>\nem torno do seu corpo de colosso, arfando e apitando sem tr\u00e9gua; e r\u00e1pidos<br \/>\ncomboios a vapor atravessam-no todo, de um lado a outro, como se o cosessem<br \/>\ncom uma cadeia de vag\u00f5es. Mas, de repente, tudo desapareceu com a seguinte<br \/>\nfrase: &#8211; Acorda, seu Jo\u00e3o, para ir \u00e0 praia. S\u00e3o horas! Bertoleza chamava-o<br \/>\naquele domingo, como todas as manh\u00e3s, para ir buscar o peixe, que ela tinha<br \/>\nde preparar para os seus fregueses. Jo\u00e3o Rom\u00e3o, com medo de ser iludido, n\u00e3o<br \/>\nconfiava nunca aos empregados a menor compra a dinheiro; nesse dia, por\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o se achou com animo de deixar a cama e disse \u00e0 amiga que mandasse o Manuel.<br \/>\nSeriam quatro da madrugada. Ele conseguiu ent\u00e3o passar pelo sono.<\/p>\n<p>\u00c0s seis estava de p\u00e9. Defronte, a casa do Miranda resplandecia j\u00e1. I\u00e7aram-se<br \/>\nbandeiras nas janelas da frente; mudaram-se as cortinas, armaram-se flor\u00f5es<br \/>\nde murta \u00e0 entrada e recamaram-se de folhas de mangueira o corredor e a cal\u00e7ada.<br \/>\nDona Estela mandou soltar foguetes e queimar bombas ao romper da alvorada.<br \/>\nUma banda de m\u00fasica, em frente \u00e0 porta do sobrado, tocava desde essa hora.<br \/>\nO Bar\u00e3o madrugara com a fam\u00edlia; todo de branco, com uma gravata<\/p>\n<p>de rendas, brilhantes no peito da camisa, chegava de vez em quando a uma<br \/>\ndas janelas, ao lado da mulher ou da filha, agradecendo para a rua; e limpava<br \/>\na testa com o len\u00e7o; acendia charutos, risonho, feliz, resplandecente.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rom\u00e3o via tudo isto com o cora\u00e7\u00e3o mo\u00eddo. Certas d\u00favidas aborrecidas<br \/>\nentravam-lhe agora a roer por dentro: qual seria o melhor e o mais acertado:<br \/>\n&#8211; ter vivido como ele vivera at\u00e9 ali, curtindo priva\u00e7\u00f5es, em tamancos e mangas<br \/>\nde camisa; ou ter feito como o Miranda, comendo boas coisas e gozando \u00e0 farta?&#8230;<br \/>\nEstaria ele, Jo\u00e3o Rom\u00e3o, habilitado a possuir e desfrutar tratamento igual<br \/>\nao do vizinho?&#8230; Dinheiro n\u00e3o lhe faltava para isso&#8230; Sim, de acordo! mas<br \/>\nteria animo de gast\u00e1-lo assim, sem mais nem menos?&#8230; sacrificar uma boa por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde contos de r\u00e9is, t\u00e3o penosamente acumulados, em troca de uma tet\u00e9ia para<br \/>\no peito?&#8230; Teria animo de dividir o que era seu, tomando esposa, fazendo<br \/>\nfam\u00edlia; e cercando-se de amigos?&#8230; Teria animo de encher de finas iguarias<br \/>\ne vinhos preciosos a barriga dos outros, quando at\u00e9 ali fora t\u00e3o pouco condescendente<br \/>\npara com a pr\u00f3pria?&#8230; E, caso resolvesse mudar de vida radicalmente, unir-se<br \/>\na uma senhora bem-educada e distinta de maneiras, montar um sobrado como o<br \/>\ndo Miranda e volver-se titular, estaria apto para o fazer?&#8230; Poderia dar<br \/>\nconta do recado?&#8230; Dependeria tudo isso somente da sua vontade?&#8230; &#8220;Sem nunca<br \/>\nter vestido um palet\u00f3, como vestiria uma casaca?&#8230; Com aqueles p\u00e9s, deformados<br \/>\npelo diabo dos tamancos, criados \u00e0 solta, sem meias, como cal\u00e7aria sapatos<br \/>\nde baile?&#8230; E suas m\u00e3os, calosas e maltratadas, duras como as de um cavouqueiro,<br \/>\ncomo se ajeitariam com a luva?&#8230; E isso ainda n\u00e3o era tudo! O mais dif\u00edcil<br \/>\nseria o que tivesse de dizer aos seus convidados!&#8230; Como deveria tratar as<br \/>\ndamas e cavalheiros, em meio de um grande sal\u00e3o cheio de espelhos e cadeiras<br \/>\ndouradas?&#8230; Como se arranjaria para conversar, sem dizer barbaridades?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E um desgosto negro e profundo assoberbou-lhe o cora\u00e7\u00e3o, um desejo forte<br \/>\nde querer saltar e um medo invenc\u00edvel de cair e quebrar as pernas. Afinal,<br \/>\na dolorosa desconfian\u00e7a de si mesmo e a terr\u00edvel convic\u00e7\u00e3o da sua impot\u00eancia<br \/>\npara pretender outra coisa que n\u00e3o fosse ajuntar dinheiro, e mais dinheiro,<br \/>\ne mais ainda, sem saber para que e com que fim, acabaram azedando-lhe de todo<br \/>\na alma e tingindo de fel a sua ambi\u00e7\u00e3o e despolindo o seu ouro.<\/p>\n<p>&#8220;Fora uma besta!&#8230; pensou de si pr\u00f3prio, amargurado: Uma grande besta!&#8230;<br \/>\nPois n\u00e3o! por que em tempo n\u00e3o tratara de habituar-se logo a certo modo de<br \/>\nviver, como faziam tantos outros seus patr\u00edcios e colegas de profiss\u00e3o?&#8230;<br \/>\nPor que, como eles, n\u00e3o aprendera a dan\u00e7ar? e n\u00e3o freq\u00fcentar sociedades carnavalescas?<br \/>\ne n\u00e3o fora de vez em quando \u00e0 Rua do Ouvidor e aos teatros e bailes, e corridas<br \/>\ne a passeios?&#8230; Por que se n\u00e3o habituara com as roupas finas, e com o cal\u00e7ado<br \/>\njusto, e com a bengala, e com o len\u00e7o, e com o charuto, e com o chap\u00e9u, e<br \/>\ncom a cerveja, e com tudo que os outros usavam naturalmente, sem precisar<br \/>\nde privil\u00e9gio para isso?&#8230; Maldita economia!&#8221; &#8211; Teria gasto mais, \u00e9 verdade!&#8230;<br \/>\nN\u00e3o estaria t\u00e3o bem!&#8230; mas, ora adeus! estaria habilitado a fazer do meu<br \/>\ndinheiro o que bem quisesse!&#8230; Seria um homem civilizado!&#8230; &#8211; Voc\u00ea deu hoje<br \/>\npara conversar com as almas, seu Jo\u00e3o?&#8230; perguntou-lhe Bertoleza, notando<br \/>\nque ele falava sozinho, distra\u00eddo do servi\u00e7o. &#8211; Deixe! N\u00e3o me amole voc\u00ea tamb\u00e9m.<br \/>\nN\u00e3o estou bom hoje! &#8211; \u00d3 gentes! n\u00e3o falei por mal!&#8230; Credo! &#8211; \u2019St\u00e1<br \/>\nbem! Basta! E o seu mau humor agravou-se pelo correr do dia. Come\u00e7ou a implicar<br \/>\ncom tudo. Arranjou logo uma pega, \u00e0 entrada da venda, com o fiscal da rua:<br \/>\n&#8220;Pois ele era l\u00e1 algum parvo, que tivesse medo de amea\u00e7as de multas?&#8230; Se<br \/>\no bolas do fiscal esperava com\u00ea-lo por uma perna, como costumava fazer com<br \/>\nos outros, que experimentasse, para ver s\u00f3 quanto lhe custaria a festa!&#8230;<br \/>\nE que lhe n\u00e3o rosnasse muito, que ele n\u00e3o gostava de c\u00e3es \u00e0 porta!&#8230; Era<br \/>\nandar!&#8221; Pegou-se depois com a Machona, por causa de um gato desta, que, a<br \/>\nsemana passada, lhe fora ao tabuleiro do peixe frito. Parava defronte das<br \/>\ntinas vazias, encolerizado, procurando pretextos para ralhar. Mandava, com<br \/>\num berro, sa\u00edrem as crian\u00e7as de seu caminho: &#8220;Que praga de piolhos! Arre,<br \/>\ndem\u00f4nio! Nunca vira gente t\u00e3o danada para parir! Pareciam ratas!&#8221; Deu um encontr\u00e3o<br \/>\nno velho Lib\u00f3rio. &#8211; Sai tu tamb\u00e9m do caminho, fona de uma figa! N\u00e3o sei que<br \/>\ndiabo fica fazendo c\u00e1 no mundo um caco velho como este, que j\u00e1 n\u00e3o presta<br \/>\npra nada! Protestou contra os galos de um alfaiate, que se divertia a faz\u00ea-los<br \/>\nbrigar, no meio de grande roda entusiasmada e barulhenta. Vituperou os italianos,<br \/>\nporque estes, na alegre independ\u00eancia do domingo, tinham \u00e0 porta da casa uma<br \/>\nesterqueira de cascas de melancia e laranja, que eles comiam tagarelando,<br \/>\nassentados sobre a janela e a cal\u00e7ada. &#8211; Quero isto limpo! bramava furioso.<br \/>\nEst\u00e1 pior que um chiqueiro de porcos! Apre! Tomara que a febre amarela os<br \/>\nlamba a todos! maldita ra\u00e7a de carcamanos! H\u00e3o de trazer-me isto asseado ou<br \/>\nvai tudo para o olho da rua! Aqui mando eu! Com a pobre velha Marciana, que<br \/>\nn\u00e3o tratara de despejar o n\u00famero 12, conforme a intima\u00e7\u00e3o da v\u00e9spera, a sua<br \/>\nf\u00faria tocou ao del\u00edrio. A infeliz, desde que Florinda lhe fugira, levava a<br \/>\nchoramingar e maldizer-se, monologando com persist\u00eancia man\u00edaca. N\u00e3o pregou<br \/>\nolho durante toda a noite; sa\u00edra e entrara na estalagem mais de vinte vezes,<br \/>\nirrequieta, ululando, como uma cadela a quem roubaram o cachorrinho.<\/p>\n<p>Estava apatetada; n\u00e3o respondia \u00e0s perguntas que lhe dirigiam. Jo\u00e3o Rom\u00e3o<br \/>\nfalou-lhe; ela nem sequer se voltou para ouvir. E o vendeiro, cada vez mais<br \/>\nexcitado, foi buscar dois homens e ordenou que esvaziassem o numero 12.<\/p>\n<p>&#8211; Os tarecos fora! e j\u00e1! Aqui mando eu! Aqui sou eu o monarca!<\/p>\n<p>E tinha gestos inflex\u00edveis de d\u00e9spota.<\/p>\n<p>Principiou o despejo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! aqui dentro n\u00e3o! Tudo l\u00e1 fora! na rua! gritou ele, quando os carregadores<br \/>\nquiseram depor no p\u00e1tio os trens de Marciana. L\u00e1 fora do port\u00e3o! L\u00e1 fora do<br \/>\nport\u00e3o!<\/p>\n<p>E a m\u00edsera, sem opor uma palavra, assistia ao despejo acocorada na rua, com<br \/>\nos joelhos juntos, as m\u00e3os cruzadas sobre as canelas, resmungando. Transeuntes<br \/>\nparavam a olh\u00e1-la. Formava-se j\u00e1 um grupo de curiosos. Mas ningu\u00e9m entendia<br \/>\no que ela rosnava; era um rabujar confuso, intermin\u00e1vel, acompanhado de um<br \/>\n\u00fanico gesto de cabe\u00e7a, triste e autom\u00e1tico. Ali perto, o colch\u00e3o velho, j\u00e1<br \/>\nroto e destripado, os m\u00f3veis desconjuntados e sem verniz, as trouxas de molambos<br \/>\n\u00fateis, as lou\u00e7as ordin\u00e1rias e sujas do uso, tinham, tudo amontoado e sem ordem,<br \/>\num ar indecoroso de interior de quarto de dormir, devassado em flagrante intimidade.<br \/>\nE veio o homem dos cinco instrumentos, que, aos domingos, aparecia sempre;<br \/>\ne fez-se o entra-e-sai dos mercadores; e lavadeiras ganharam a rua em trajos<br \/>\nde passeio, e os tabuleiros de roupa engomada, que saiam, cruzaram-se com<br \/>\nos sacos de roupa suja, que entravam; e Marciana n\u00e3o se movia do seu lugar,<br \/>\nmonologando. Jo\u00e3o Rom\u00e3o percorreu o n\u00famero 12, escancarando as portas, a dar<br \/>\narres e empurrando para fora, com o p\u00e9, algum trapo ou algum frasco vazio<br \/>\nque l\u00e1 ficara abandonado; e a enxotada, indiferente a tudo, continuava a sussurrar<br \/>\nfunebremente. J\u00e1 n\u00e3o chorava, mas os olhos tinha-os ainda relentados na sua<br \/>\nmuda fixidez. Algumas mulheres da estalagem iam ter com ela de vez em quando,<br \/>\nagora de novo compungidas, e faziam-lhe oferecimentos, Marciana n\u00e3o respondia.<br \/>\nQuiseram obrig\u00e1-la a comer; n\u00e3o houve meio. A desgra\u00e7ada n\u00e3o prestava aten\u00e7\u00e3o<br \/>\na coisa alguma, parecia n\u00e3o dar pela presen\u00e7a de ningu\u00e9m. Chamaram-na pelo<br \/>\nnome repetidas vezes; ela persistia no seu inintelig\u00edvel mon\u00f3logo, sem tirar<br \/>\na vista de um ponto.<\/p>\n<p>&#8211; Cruzes! parece que lhe deu alguma!<\/p>\n<p>&#8211; A Augusta chegara-se tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Teria ensandecido?&#8230; perguntou \u00e0 Rita, que, a seu lado, olhava para a<br \/>\ninfeliz, com um prato de comida na m\u00e3o. Coitada! &#8211; Tia Marciana! dizia a mulata.<br \/>\nN\u00e3o fique assim!! Levante-se! Meta os seus trens pra dentro! V\u00e1 l\u00e1 pra casa<br \/>\nat\u00e9 encontrar arruma\u00e7\u00e3o!&#8230; Nada! O mon\u00f3logo continuava. &#8211; Olhe que vai chover!<br \/>\nN\u00e3o tarda a cair \u00e1gua! J\u00e1 senti dois pingos na cara. Qual! A Bruxa, a certa<br \/>\ndistancia, fitava-a com estranheza, igualmente im\u00f3vel, como um efeito de sugest\u00e3o.<br \/>\nRita afastou-se, porque acabava de chegar o Firmo, acompanhado pelo Porfiro,<br \/>\ntrazendo ambos embrulhos para o jantar. O amigo da das Dores tamb\u00e9m veio.<br \/>\nDeram tr\u00eas horas da tarde. A casa do Miranda continuava em festa animada cada<br \/>\nvez mais cheia de visitas; l\u00e1 dentro a m\u00fasica quase que n\u00e3o tomava f\u00f4lego,<br \/>\nenfiando quadrilhas e valsas; mo\u00e7as e meninas dan\u00e7avam na sala da frente,<br \/>\ncom muito riso; desarrolhavam-se garrafas a todo instante; os criados iam<br \/>\ne vinham, de carreira, da sala de jantar \u00e0 despensa e \u00e0 cozinha, carregados<br \/>\nde copos em salvas; Henrique, suado e vermelho, aparecia de quando em quando<br \/>\n\u00e0 janela, impaciente por n\u00e3o ver Pombinha, que estava esse dia de passeio<br \/>\ncom a m\u00e3e em casa de L\u00e9onie. Jo\u00e3o Rom\u00e3o, depois de serrazinar na venda com<br \/>\nos caixeiros e com a Bertoleza, tornou ao p\u00e1tio da estalagem queixando-se<br \/>\nde que tudo ali ia muito mal. Censurou os trabalhadores da pedreira, nomeando<br \/>\no pr\u00f3prio Jer\u00f4nimo, cuja for\u00e7a f\u00edsica ali\u00e1s o intimidara sempre. &#8220;Era um relaxamento<br \/>\naquela porcaria de servi\u00e7o! Havia tr\u00eas semanas que estava com uma broca \u00e0-toa,<br \/>\nsem atar, nem desatar; afinal ai chegara o domingo e n\u00e3o se havia ainda lascado<br \/>\nfogo! Uma verdadeira cala\u00e7aria! O tal seu Jer\u00f4nimo, dantes t\u00e3o apurado, era<br \/>\nagora o primeiro a dar o mau exemplo! perdia noites no samba! n\u00e3o largava<br \/>\nos rastros da Rita Baiana e parecia embei\u00e7ado por ela! N\u00e3o tinha jeito!&#8221; Piedade,<br \/>\nouvindo o vendeiro dizer mal do seu homem, saltou em defesa deste com duas<br \/>\npedras na m\u00e3o, e uma contenda travou-se, assanhando todos os \u00e2nimos. Felizmente,<br \/>\na chuva, caindo em cheio, veio dispersar o ajuntamento que se tornava s\u00e9rio.<br \/>\nCada um correu para o seu buraco, num alvoro\u00e7o exagerado; as crian\u00e7as despiram-se<br \/>\ne vieram c\u00e1 fora tomar banho debaixo das goteiras, por pagode, gritando, rindo,<br \/>\nsaltando e atirando-se ao ch\u00e3o, a espernearem; fingindo que nadavam. E l\u00e1<br \/>\ndefronte, no sobrado, ferviam brindes, enquanto a \u00e1gua jorrava copiosamente,<br \/>\nalagando o p\u00e1tio. Quando Jo\u00e3o Rom\u00e3o entrou na venda, recolhendo-se da chuva,<br \/>\num caixeiro entregou-lhe um cart\u00e3o de Miranda. Era um convite para l\u00e1 ir \u00e0<br \/>\nnoite tomar uma ch\u00e1vena de ch\u00e1. O vendeiro, a principio, ficou lisonjeado<br \/>\ncom o obs\u00e9quio, primeiro desse g\u00eanero que em sua vida recebia; mas logo depois<br \/>\nvoltou-lhe a c\u00f3lera com mais \u00edmpeto ainda. Aquele convite irritava-o como<br \/>\num ultraje, uma provoca\u00e7\u00e3o. &#8220;Por que o pulha o convidara, devendo saber que<br \/>\nele decerto l\u00e1 n\u00e3o ia?&#8230; Para que, se n\u00e3o para o enfrenesiar ainda mais do<br \/>\nque j\u00e1 estava?!&#8230; Seu Miranda que fosse \u00e0 t\u00e1bua com a sua festa e com os<br \/>\nseus t\u00edtulos!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o preciso dele para nada!&#8230; exclamou o vendeiro. N\u00e3o preciso, nem dependo<br \/>\nde nenhum safardana! Se gostasse de festas, dava-as eu! No entanto, come\u00e7ou<br \/>\na imaginar como seria, no caso que estivesse prevenido de roupa e aceitasse<br \/>\no convite: figurou-se bem vestido, de pano fino, com uma boa cadeia de rel\u00f3gio,<br \/>\numa gravata com alfinete de brilhantes; e viu-se l\u00e1 em cima, no meio da sala,<br \/>\na sorrir para os lados, prestando aten\u00e7\u00e3o a um, prestando aten\u00e7\u00e3o a outro,<br \/>\ndiscretamente silencioso e af\u00e1vel, sentindo que o citavam dos lados em voz<br \/>\nmorti\u00e7a e respeitosa como um homem rico, cheio de independ\u00eancia. E adivinhava<br \/>\nos olhares aprobativos das pessoas s\u00e9rias; os \u00f3culos curiosos das velhas assestados<br \/>\nsobre ele, procurando ver se estaria ali um bom arranjo para uma das filhas<br \/>\nde menor cota\u00e7\u00e3o. Nesse dia serviu mal e porcamente aos fregueses; tratou<br \/>\naos repel\u00f5es a Bertoleza e, quando, j\u00e1 as cinco horas, deu com a Marciana,<br \/>\nque, uns negros por compaix\u00e3o haviam arrastado para dentro da venda, disparatou:<br \/>\n&#8211; Ora bolas! pra que diabo me metem em casa este estupor?! Gosto de ver tais<br \/>\ncaridades com o que \u00e9 dos outros! Isto aqui n\u00e3o \u00e9 acoito de vagabundos!&#8230;<br \/>\nE, como um pol\u00edcia, todo encharcado de chuva, entrasse para beber um gole<br \/>\nde parati, Jo\u00e3o Rom\u00e3o voltou-se para ele e disse-lhe: &#8211; Camarada, esta mulher<br \/>\n\u00e9 gira! n\u00e3o tem domicilio, e eu n\u00e3o hei de, quando fechar a porta, ficar com<br \/>\nela aqui dentro da venda! O soldado saiu e, da\u00ed a coisa de uma hora, Marciana<br \/>\nera carregada para o xadrez, sem o menor protesto e sem interromper o seu<br \/>\nmon\u00f3logo de demente. Os cacar\u00e9us foram recolhidos ao dep\u00f3sito p\u00fablico por<br \/>\nordem do inspetor do quarteir\u00e3o. E a Bruxa era a \u00fanica que parecia deveras<br \/>\nimpressionada com tudo aquilo. Entretanto, a chuva cessou completamente, o<br \/>\nsol reapareceu, como para despedir-se: andorinhas esgaivotaram no ar; e o<br \/>\ncorti\u00e7o palpitou inteiro na tr\u00eafega alegria do domingo. Nas salas do bar\u00e3o<br \/>\na festa engrossava, cada vez mais estrepitosa; de vez em quando vinha de l\u00e1<br \/>\numa ta\u00e7a quebrar-se no p\u00e1tio da estalagem, levantando protestos e surriadas.<br \/>\nA noite chegou muito bonita, com um belo luar de lua cheia, que come\u00e7ou ainda<br \/>\ncom o crep\u00fasculo; e o samba rompeu mais forte e mais cedo que de costume,<br \/>\nincitado pela grande anima\u00e7\u00e3o que havia em casa do Miranda. Foi um forrobod\u00f3<br \/>\nvalente. A Rita Baiana essa noite estava de veia para a coisa; estava inspirada;<br \/>\ndivina! Nunca dan\u00e7ara com tanta gra\u00e7a e tamanha lubricidade! Tamb\u00e9m cantou.<br \/>\nE cada verso que vinha da sua boca de mulata era um arrulhar choroso de pomba<br \/>\nno cio. E o Firmo, b\u00eabedo de vol\u00fapia, enroscava-se todo ao viol\u00e3o; e o viol\u00e3o<br \/>\ne ele gemiam com o mesmo gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes<br \/>\nde bichos sensuais, num desespero de lux\u00faria que penetrava at\u00e9 ao tutano com<br \/>\nl\u00ednguas fin\u00edssimas de cobra. Jer\u00f4nimo n\u00e3o p\u00f4de conter-se: no momento em que<br \/>\na baiana, ofegante de cansa\u00e7o, caiu exausta, assentando-se ao lado dele, o<br \/>\nportugu\u00eas segredou-lhe com a voz estrangulada de paix\u00e3o: &#8211; Meu bem! se voc\u00ea<br \/>\nquiser estar comigo, dou uma perna ao demo! O mulato n\u00e3o ouviu, mas notou<br \/>\no cochicho e ficou, de m\u00e1 cara, a rondar disfar\u00e7adamente o rival. O canto<br \/>\ne a dan\u00e7a continuavam todavia, sem afrouxar. Entrou a das Dores. Nenen, mais<br \/>\numa amiga sua, que fora passar o dia com ela, rodavam de m\u00e3os nas cadeiras,<br \/>\nrebolando em meio de uma volta de palmas cadenciadas, no acompanhamento do<br \/>\nritmo requebrado da musica. Quando o marido de Piedade disse um segundo cochicho<br \/>\n\u00e0 Rita, Firmo precisou empregar grande esfor\u00e7o para n\u00e3o ir logo \u00e0s do cabo.<\/p>\n<p>Mas, l\u00e1 pelo meio do pagode, a baiana ca\u00edra na imprud\u00eancia de derrear-se<br \/>\ntoda sobre o portugu\u00eas e soprar-lhe um segredo, requebrando os olhos. Firmo,<br \/>\nde um salto, aprumou-se ent\u00e3o defronte dele, medindo-o de alto a baixo com<br \/>\num olhar provocador e atrevido. Jer\u00f4nimo, tamb\u00e9m posto de p\u00e9, respondeu altivo<br \/>\ncom um gesto igual. Os instrumentos calaram-se logo. Fez-se um profundo sil\u00eancio.<br \/>\nNingu\u00e9m se mexeu do lugar em que estava. E, no meio da grande roda, iluminados<br \/>\namplamente pelo capitoso luar de abril, os dois homens, perfilados defronte<br \/>\num do outro, olhavam-se em desafio. Jer\u00f4nimo era alto, espada\u00fado, constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nde touro, pesco\u00e7o de H\u00e9rcules, punho de quebrar um coco com um murro: era<br \/>\na for\u00e7a tranq\u00fcila, o pulso de chumbo. O outro, franzino, um palmo mais baixo<br \/>\nque o portugu\u00eas, pernas e bra\u00e7os secos, agilidade de maracaj\u00e1: era a for\u00e7a<br \/>\nnervosa; era o arrebatamento que tudo desbarata no sobressalto do primeiro<br \/>\ninstante. Um, s\u00f3lido e resistente; o outro, ligeiro e destemido, mas ambos<br \/>\ncorajosos. &#8211; Senta! Senta! &#8211; Nada de rolo! &#8211; Segue a dan\u00e7a, gritaram em volta.<\/p>\n<p>Piedade erguera-se para arredar o seu homem dali.<\/p>\n<p>O cavouqueiro afastou-a com um empurr\u00e3o, sem tirar a vista de cima do mulato.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-me ver o que quer de mim este cabra!&#8230; rosnou ele.<\/p>\n<p>&#8211; Dar-te um banho de fuma\u00e7a, galego ordin\u00e1rio! respondeu Firmo, frente a<br \/>\nfrente; agora avan\u00e7ando e recuando, sempre com um dos p\u00e9s no ar, e bamboleando<br \/>\ntodo o corpo e meneando os bra\u00e7os, como preparado para agarr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Jer\u00f4nimo, esbravecido pelo insulto, cresceu para o advers\u00e1rio com um soco<br \/>\narmado; o cabra, por\u00e9m, deixou-se cair de costas, rapidamente, firmando-se<br \/>\nnas m\u00e3os o corpo suspenso, a perna direita levantada; e o soco passou por<br \/>\ncima, varando o espa\u00e7o, enquanto o portugu\u00eas apanhava no ventre um pontap\u00e9<br \/>\ninesperado.<\/p>\n<p>&#8211; Canalha! berrou possesso; e ia precipitar-se em cheio sobre o mulato, quando<br \/>\numa cabe\u00e7ada o atirou no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Levanta-se, que n\u00e3o dou em defuntos! exclamou o Firmo, de p\u00e9, repetindo<br \/>\na sua dan\u00e7a de todo o corpo.<\/p>\n<p>O outro erguera-se logo e, mal se tinha equilibrado, j\u00e1 uma rasteira o tombava<br \/>\npara a direita, enquanto da esquerda ele recebia uma tapona na orelha. Furioso,<br \/>\ndesferiu novo soco, mas o capoeira deu para tr\u00e1s um salto de gato e o portugu\u00eas<br \/>\nsentiu um pontap\u00e9 nos queixos.<\/p>\n<p>Espirrou-lhe sangue da boca e das ventas. Ent\u00e3o fez-se um clamor medonho.<br \/>\nAs mulheres quiseram meter-se de permeio, por\u00e9m o cabra as emborcava com rasteiras<br \/>\nr\u00e1pidas, cujo movimento de pernas apenas se percebia. Um horr\u00edvel sarilho<br \/>\nse formava. Jo\u00e3o Rom\u00e3o fechou \u00e0s pressas as portas da venda e trancou o port\u00e3o<br \/>\nda estalagem, correndo depois para o lugar da briga. O Bruno, os mascates,<br \/>\nos trabalhadores da pedreira, e todos os outros que tentaram segurar o mulato,<br \/>\ntinham rolado em torno dele, formando-se uma roda limpa, no meio da qual o<br \/>\nterr\u00edvel capoeira, fora de si, doido, reinava, saltando a um tempo para todos<br \/>\nos lados, sem consentir que ningu\u00e9m se aproximasse. O terror arrancava gritos<br \/>\nagudos. Estavam j\u00e1 todos assustados, menos a Rita que, a certa distancia,<br \/>\nvia, de bra\u00e7os cruzados, aqueles dois homens a se baterem por causa dela;<br \/>\num ligeiro sorriso encrespava-lhe os l\u00e1bios. A lua escondera-se: mudara o<br \/>\ntempo; o c\u00e9u, de limpo que estava, fizera-se cor de lousa; sentia-se um vento<br \/>\n\u00famido de chuva. Piedade berrava reclamando pol\u00edcia; tinha levado um troca-queixos<br \/>\ndo marido, porque insistia em tir\u00e1-lo da luta. As janelas do Miranda acumulavam-se<br \/>\nde gente. Ouviam-se apitos, soprados com desespero.<\/p>\n<p>Nisto, ecoou na estalagem um bramido de fera enraivecida: Firmo acabava de<br \/>\nreceber, sem esperar, uma formid\u00e1vel cacetada na cabe\u00e7a. \u00c9 que Jer\u00f4nimo havia<br \/>\ncorrido \u00e0 casa e armara-se com o seu varapau minhoto. E ent\u00e3o o mulato, com<br \/>\no rosto banhado de sangue, refilando as presas e espumando de c\u00f3lera, erguera<br \/>\no bra\u00e7o direito, onde se viu cintilar a lamina de uma navalha.<\/p>\n<p>Fez-se uma debandada em volta dos dois advers\u00e1rios, estrepitosa, cheia de<br \/>\npavor. Mulheres e homens atropelavam-se, caindo uns por cima dos outros. Albino<br \/>\nperdera os sentidos; Piedade clamava, estarrecida e em solu\u00e7os, que lhe iam<br \/>\nmatar o homem; a das Dores soltava censuras e maldi\u00e7\u00f5es contra aquela estupidez<br \/>\nde se destriparem por causa de entrepernas de mulher; a Machona, armada com<br \/>\num ferro de engomar, jurava abrir as fu\u00e7as a quem lhe desse um segundo coice<br \/>\ncomo acabava ela de receber um nas ancas; Augusta enfiara pela porta do fundo<br \/>\nda estalagem, para atravessar o capinzal e ir \u00e0 rua ver se descobria o marido,<br \/>\nque talvez estivesse de servi\u00e7o no quarteir\u00e3o. Por esse lado acudiam curiosos<br \/>\ne o p\u00e1tio enchia-se de gente de fora. Dona Isabel e Pombinha, de volta da<br \/>\ncasa de L\u00e9onie, tiveram dificuldade em chegar ao n\u00famero 15, onde, mal entraram,<br \/>\nfecharam-se por dentro, praguejando a velha contra a desordem e lamentando-se<br \/>\nda sorte que as lan\u00e7ou naquele inferno. Entanto, no meio de uma nova roda,<br \/>\nencintada pelo povo, o portugu\u00eas e o brasileiro batiam-se. Agora a luta era<br \/>\nregular: havia igualdade de partidos, porque o cavouqueiro jogava o pau admiravelmente;<br \/>\njogava-o t\u00e3o bem quanto o outro jogava a sua capoeiragem. Embalde Firmo tentava<br \/>\nalcan\u00e7\u00e1-lo; Jer\u00f4nimo, sopesando ao meio a grossa vara na m\u00e3o direita, girava-a<br \/>\ncom tal per\u00edcia e ligeireza em torno do corpo, que parecia embastilhado por<br \/>\numa teia impenetr\u00e1vel e sibilante. N\u00e3o se lhe via a arma; s\u00f3 se ouvia um zunido<br \/>\ndo ar simultaneamente cortado em todas as dire\u00e7\u00f5es. E, ao mesmo tempo que<br \/>\nse defendia, atacava. O brasileiro tinha j\u00e1 recebido pauladas na testa, no<br \/>\npesco\u00e7o, nos ombros, nos bra\u00e7os, no peito, nos rins e nas pernas. O sangue<br \/>\ninundava-o inteiro; ele rugia e arfava, iroso e cansado, investindo ora com<br \/>\nos p\u00e9s, ora com a cabe\u00e7a, e livrando-se daqui, livrando-se dali, aos pulos<br \/>\ne \u00e0s cambalhotas. A vit\u00f3ria pendia para o lado do portugu\u00eas. Os espectadores<br \/>\naclamavam-no j\u00e1 com entusiasmo; mas, de s\u00fabito, o capoeira mergulhou, num<br \/>\nrelance, at\u00e9 as canelas do advers\u00e1rio e surgiu-lhe rente dos p\u00e9s, grupado<br \/>\nnele, rasgando-lhe o ventre com uma navalhada. Jer\u00f4nimo soltou um mugido e<br \/>\ncaiu de borco, segurando os intestinos. &#8211; Matou! Matou! Matou! exclamaram<br \/>\ntodos com assombro. Os apitos esfuziaram mais assanhados. Firmo varou pelos<br \/>\nfundos do corti\u00e7o e desapareceu no capinzal.<\/p>\n<p>&#8211; Pega! Pega!<\/p>\n<p>&#8211; Ai, o meu rico homem! ululou Piedade, atirando-se de joelhos sobre o corpo<br \/>\nensang\u00fcentado do marido. Rita viera tamb\u00e9m de carreira lan\u00e7ar-se ao ch\u00e3o junto<br \/>\ndele, para lhe afagar as barbas e os cabelos. &#8211; \u00c9 preciso o doutor! suplicou<br \/>\naquela, olhando para os lados \u00e0 procura de uma alma caridosa que lhe valesse.<br \/>\nMas nisto um estardalha\u00e7o de formid\u00e1veis pranchadas estrugiu no port\u00e3o da<br \/>\nestalagem. O port\u00e3o abalou com estrondo e gemeu. &#8211; Abre! Abre! reclamavam<br \/>\nde fora. Jo\u00e3o Rom\u00e3o atravessou o p\u00e1tio, como um general em perigo, gritando<br \/>\na todos: &#8211; N\u00e3o entra a pol\u00edcia! N\u00e3o deixa entrar! Ag\u00fcenta! Ag\u00fcenta! &#8211; N\u00e3o<br \/>\nentra! N\u00e3o entra! repercutiu a multid\u00e3o em coro. E todo o corti\u00e7o ferveu que<br \/>\nnem uma panela ao fogo. &#8211; Ag\u00fcenta! Ag\u00fcenta! Jer\u00f4nimo foi carregado para o<br \/>\nquarto, a gemer, nos bra\u00e7os da mulher e da mulata. &#8211; Ag\u00fcenta! Ag\u00fcenta! De<br \/>\ncada casulo espipavam homens armados de pau, achas de lenha, varais de ferro.<br \/>\nUm empenho coletivo os agitava agora, a todos, numa solidariedade briosa,<br \/>\ncomo se ficassem desonrados para sempre se a pol\u00edcia entrasse ali pela primeira<br \/>\nvez. Enquanto se tratava de uma simples luta entre dois rivais, estava direito!<br \/>\n&#8220;Jogassem l\u00e1 as cristas, que o mais homem ficaria com a mulher!&#8221; mas agora<br \/>\ntratava-se de defender a estalagem, a comuna, onde cada um tinha a zelar por<br \/>\nalgu\u00e9m ou alguma coisa querida. &#8211; N\u00e3o entra! N\u00e3o entra! E berros atroadores<br \/>\nrespondiam \u00e0s pranchadas, que l\u00e1 fora se repetiam ferozes. A pol\u00edcia era o<br \/>\ngrande terror daquela gente, porque, sempre que penetrava em qualquer estalagem,<br \/>\nhavia grande estrop\u00edcio; \u00e0 capa de evitar e punir o jogo e a bebedeira, os<br \/>\nurbanos invadiam os quartos, quebravam o que l\u00e1 estava, punham tudo em polvorosa.<br \/>\nEra uma quest\u00e3o de \u00f3dio velho. E, enquanto os homens guardavam a entrada do<br \/>\ncapinzal e sustentavam de costas o port\u00e3o da frente, as mulheres, em desordem,<br \/>\nrolavam as tinas, arrancavam jiraus, arrastavam carro\u00e7as, restos de colch\u00f5es<br \/>\ne sacos de cal, formando \u00e0s pressas uma barricada. As pranchadas multiplicavam-se.<br \/>\nO port\u00e3o rangia, estalava, come\u00e7ava a abrir-se; ia ceder. Mas a barricada<br \/>\nestava feita e todos entrincheirados atr\u00e1s dela. Os que entravam de fora por<br \/>\ncuriosidade n\u00e3o puderam sair e viam-se metidos no surumbamba. As cercas das<br \/>\nhortas voaram A Machona terr\u00edvel fungara as saias e empunhava na m\u00e3o o seu<br \/>\nferro de engomar. A das Dores, que ningu\u00e9m dava nada por ela, era uma das<br \/>\nmais duras e que parecia mais empenhada na defesa. Afinal o port\u00e3o lascou;<br \/>\num grande rombo abriu-se logo; ca\u00edram t\u00e1buas; e os quatro primeiros urbanos<br \/>\nque se precipitaram dentro foram recebidos a pedradas e garrafas vazias. Seguiram-se<br \/>\noutros. Havia uns vinte. Um saco de cal, despejado sobre eles, desnorteou-os.<br \/>\nPrincipiou ent\u00e3o o salseiro grosso. Os sabres n\u00e3o podiam alcan\u00e7ar ningu\u00e9m<br \/>\npor entre a trincheira; ao passo que os projetis, arremessados l\u00e1 de dentro,<br \/>\ndesbaratavam o inimigo. J\u00e1 o sargento tinha a cabe\u00e7a partida e duas pra\u00e7as<br \/>\nabandonavam o campo, \u00e0 falta de ar. Era imposs\u00edvel invadir aquele baluarte<br \/>\ncom t\u00e3o poucos elementos, mas a pol\u00edcia teimava, n\u00e3o mais por obriga\u00e7\u00e3o que<br \/>\npor necessidade pessoal de desfor\u00e7o. Semelhante resist\u00eancia os humilhava.<br \/>\nSe tivessem espingardas fariam fogo. O \u00fanico deles que conseguiu trepar \u00e0<br \/>\nbarricada rolou de l\u00e1 abaixo sob uma carga de pau que teve de ser carregado<br \/>\npara a rua pelos companheiros. O Bruno, todo sujo de sangue, estava agora<br \/>\narmado de um refle e o Porfiro, mestre na capoeiragem, tinha na cabe\u00e7a uma<br \/>\nbarretina de urbano. &#8211; Fora os morcegos! &#8211; Fora! Fora! E, a cada exclama\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntome pedra! tome lenha! tome cal! tome fundo de garrafa! Os apitos estridulavam<br \/>\nmais e mais fortes. Nessa ocasi\u00e3o, por\u00e9m, Nenen gritou, correndo na dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nda barricada.<\/p>\n<p>&#8211; Acudam aqui! Acudam aqui! H\u00e1 fogo no n\u00famero 12. Est\u00e1 saindo fuma\u00e7a! &#8211; Fogo!<br \/>\nA esse grito um p\u00e2nico geral apoderou-se dos moradores do corti\u00e7o. Um inc\u00eandio<br \/>\nlamberia aquelas cem casinhas enquanto o diabo esfrega um olho! Fez-se logo<br \/>\nmedonha confus\u00e3o. Cada qual pensou em salvar o que era seu. E os policiais,<br \/>\naproveitando o terror dos advers\u00e1rios, avan\u00e7aram com \u00edmpeto, levando na frente<br \/>\no que encontravam e penetrando enfim no infernal reduto, a dar espadeiradas<br \/>\npara a direita e para a esquerda, como quem destro\u00e7a uma boiada. A multid\u00e3o<br \/>\natropelava-se, desembestando num alarido. Uns fugiam \u00e0 pris\u00e3o; outros cuidavam<br \/>\nem defender a casa. Mas as pra\u00e7as, loucas de c\u00f3lera, metiam dentro as portas<br \/>\ne iam invadindo e quebrando tudo, sequiosas de vingan\u00e7a. Nisto, roncou no<br \/>\nespa\u00e7o a trovoada. O vento do norte zuniu mais estridente e um grande p\u00e9-d\u2019\u00e1gua<br \/>\ndesabou cerrado.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>XI<\/h2>\n<p>A Bruxa, por influ\u00eancia sugestiva da loucura de Marciana, piorou do ju\u00edzo<br \/>\ne tentou incendiar o corti\u00e7o. Enquanto os companheiros o defendiam a unhas<br \/>\ne dentes, ela, com todo o disfarce, carregava palha e sarrafos para o n\u00famero<br \/>\n12 e preparava uma fogueira. Felizmente acudiram a tempo; mas as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\nforam do mesmo modo desastrosas, porque muitas outras casinhas, escapando<br \/>\ncomo aquela ao fogo, n\u00e3o escaparam \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. Algumas ficaram<br \/>\ncompletamente assoladas. E a coisa seria ainda mais feia, se n\u00e3o viera o providencial<br \/>\naguaceiro apagar tamb\u00e9m o outro inc\u00eandio ainda pior, que, de parte a parte,<br \/>\nlavrava nos \u00e2nimos. A pol\u00edcia retirou-se sem levar nenhum preso. &#8220;A ir um<br \/>\niriam todos \u00e0 esta\u00e7\u00e3o! Deus te livre! Demais, para qu\u00ea? o que ela queria fazer,<br \/>\nfez! Estava satisfeita!&#8221; Apesar do empenho do Jo\u00e3o Rom\u00e3o, ningu\u00e9m conseguiu<br \/>\ndescobrir o autor da sinistra tentativa, e s\u00f3 muito tarde cada qual cuidou<br \/>\nde pregar olho, depois de reacomodar, entre plangentes lamenta\u00e7\u00f5es, o que<br \/>\nse salvou do destro\u00e7o. O tempo levantou de novo \u00e0 meia-noite. Ao romper da<br \/>\naurora j\u00e1 muita gente estava de p\u00e9 e o vendeiro passava uma revista minuciosa<br \/>\nno p\u00e1tio, avaliando e carpindo, inconsol\u00e1vel e furioso, o seu preju\u00edzo. De<br \/>\nvez em quando soltava uma praga. Al\u00e9m do que escangalharam os urbanos dentro<br \/>\ndas casas, havia muita tina partida, muito jirau quebrado, lampi\u00f5es em fanicos,<br \/>\nhortas e cercas arrasadas; o port\u00e3o da frente e a tabuleta foram reduzidos<br \/>\na lenha. Jo\u00e3o Rom\u00e3o meditava, para cobrir o dano, carregar um imposto sobre<br \/>\nos moradores da estalagem, aumentando-lhes o aluguel dos c\u00f4modos e o pre\u00e7o<br \/>\ndos g\u00eaneros. Viu-se numa dobadoura durante o dia inteiro; desde pela manh\u00e3<br \/>\ndera logo as provid\u00eancias para que tudo voltasse aos seus eixos o mais depressa<br \/>\nposs\u00edvel: mandou buscar novas tinas; fabricar novos jiraus e consertar os<br \/>\nquebrados; p\u00f4s gente a remendar o port\u00e3o e a tabuleta. Ao meio-dia teve de<br \/>\ncomparecer \u00e0 presen\u00e7a do subdelegado na secretaria da pol\u00edcia. Foi mesmo em<br \/>\nmangas de camisa e sem meias; muitos do corti\u00e7o o acompanharam, quer por esp\u00edrito<br \/>\nde camaradagem, quer por simples curiosidade.<\/p>\n<p>Uma verdadeira patuscada esse passeio \u00e0 cidade! Parecia uma romaria; algumas<br \/>\nmulheres levaram os seus pequenitos ao colo; um magote de italianos ia \u00e0 frente,<br \/>\nmacarroneando, a fumar cachimbo; alguns cantavam. Ningu\u00e9m tomou bonde; e por<br \/>\ntoda a viagem discutiram e altercaram em grande tro\u00e7a, comentando com gargalhadas<br \/>\ne chala\u00e7as gordas o que iam encontrando, a chamar a aten\u00e7\u00e3o das ruas por onde<br \/>\ndesfilava a ruidosa far\u00e2ndola. A sala da pol\u00edcia encheu-se.<\/p>\n<p>O interrogat\u00f3rio, exclusivamente dirigido a Jo\u00e3o Rom\u00e3o, era respondido por<br \/>\ntodos a um s\u00f3 tempo, a despeito dos protestos e das amea\u00e7as da autoridade,<br \/>\nque se viu tonta. Nenhum deles nada esclarecia e todos se queixavam da pol\u00edcia,<br \/>\nexagerando as perdas recebidas na v\u00e9spera. A respeito de como se travara o<br \/>\nconflito e quem o provocara, o taverneiro declarou que nada podia saber ao<br \/>\ncerto, porque na ocasi\u00e3o se achava ausente da estalagem. De que tinha certeza<br \/>\nera de que as pra\u00e7as lhe invadiram a propriedade e puseram em cacos tudo o<br \/>\nque encontraram, como se aquilo l\u00e1 fosse roupa de franc\u00eas! &#8211; Bem feito! bradou<br \/>\no subdelegado. N\u00e3o resistissem! Um coro de respostas assanhadas levantou-se<br \/>\npara justificar a resist\u00eancia. &#8220;Ah! Estavam mais que fartos de ver o que pintavam<br \/>\nos morcegos, quando lhes n\u00e3o saia algu\u00e9m pela frente! Esbodegavam at\u00e9 \u00e0 \u00faltima,<br \/>\ns\u00f3 pelo gostinho de fazer mal! Pois ent\u00e3o uma criatura, porque estava a divertir-se<br \/>\num bocado com os amigos, havia de ser aperreada que nem boi ladr\u00e3o?&#8230; Tinha<br \/>\nl\u00e1 jeito? Os rolos era sempre a pol\u00edcia quem os levantava com as suas f\u00farias!<br \/>\nN\u00e3o se metesse ela na vida de quem vivia sossegado no seu canto, e n\u00e3o seria<br \/>\ntanto barulho!&#8230;&#8221; Como de costume, o esp\u00edrito de coletividade, que unia aquela<br \/>\ngente em circulo de ferro, impediu que transpirasse o menor vislumbre de den\u00fancia.<br \/>\nO<\/p>\n<p>subdelegado, depois de dirigir-se inutilmente a um por um, despachou o bando,<br \/>\nque fez logo a sua retirada, no meio de uma alacridade mais quente ainda que<br \/>\na da ida. L\u00e1 no corti\u00e7o, de portas adentro, podiam esfaquear-se \u00e0 vontade,<br \/>\nque nenhum deles, e muito menos a vitima, seria capaz de apontar o criminoso;<br \/>\ntanto que o m\u00e9dico, que, logo depois da invas\u00e3o da pol\u00edcia, desceu da casa<br \/>\ndo Miranda \u00e0 estalagem, para socorrer Jer\u00f4nimo, n\u00e3o conseguiu arrancar deste<br \/>\no menor esclarecimento sobre o motivo da navalhada. &#8220;N\u00e3o fora nada!&#8230; N\u00e3o<br \/>\nfora de prop\u00f3sito!&#8230; Estavam a brincar e sucedera aquilo!&#8230; Ningu\u00e9m tivera<br \/>\na menor inten\u00e7\u00e3o de fazer-lhe mossa!&#8230;&#8221; Rita mostrou-se de uma incans\u00e1vel<br \/>\nsolicitude para com o ferido. Foi ela quem correu a buscar os rem\u00e9dios, quem<br \/>\nserviu de ajudante ao medico e quem serviu de enfermeira ao doente. Muitos<br \/>\nl\u00e1 iam, demorando-se um instante, para dar f\u00e9; ela, por\u00e9m, desde que Jer\u00f4nimo<br \/>\nse achou operado, n\u00e3o lhe abandonou a cabeceira; ao passo que Piedade, aflita<br \/>\ne atarantada, n\u00e3o fazia sen\u00e3o chorar e arreliar-se. A mulata, essa n\u00e3o chorava;<br \/>\nmas a sua fisionomia tinha uma profunda express\u00e3o de m\u00e1goa enternecida. Agora<br \/>\ntoda ela se sentia apegar-se \u00e0quele homem bom e forte; \u00e0quele gigante inofensivo,<br \/>\n\u00e0quele H\u00e9rcules tranq\u00fcilo que mataria o Firmo com uma punhada, mas que, na<br \/>\nsua boa-f\u00e9, se deixara navalhar pelo fac\u00ednora. &#8220;E tudo por causa dela! s\u00f3<br \/>\npor ela!&#8221; Seu cora\u00e7\u00e3o de mulher rendia-se cativo a semelhante dedica\u00e7\u00e3o ensang\u00fcentada<br \/>\ne dolorosa. E ele, o m\u00edsero, interrompia as contra\u00e7\u00f5es do rosto para sorrir<br \/>\ndefronte dos olhos enamorados da baiana, feliz naquela desgra\u00e7a que lhe permitia<br \/>\ngozar dos seus carinhos. E tomava-lhe as m\u00e3os, e cingia-lhe a cintura, resignado<br \/>\ne comovido, sem uma palavra, sem um gesto, mas a dizer bem claro, na sua dor<br \/>\nsilenciosa e quieta de animal ferido, que a amava muito, que a amava loucamente.<br \/>\nRita afagava-o, j\u00e1 sem a menor sombra de escr\u00fapulo, tratando-o por tu, ameigando-lhe<br \/>\nos cabelos sujos de sangue com a polpa macia da sua m\u00e3o feminil. E ali mesmo<br \/>\nem presen\u00e7a da mulher, dele, s\u00f3 faltava beij\u00e1-lo com a boca, que com os olhos<br \/>\no devorava de beijos ardentes e sequiosos. Depois da meia-noite dada, ela<br \/>\ne Piedade ficaram sozinhas velando o enfermo. Deliberou-se que este iria pela<br \/>\nmanh\u00e3 para a Ordem de Santo Ant\u00f4nio, de que era irm\u00e3o. E, com efeito, no dia<br \/>\nimediato, enquanto o vendeiro e seu bando andavam l\u00e1 \u00e0s voltas com a pol\u00edcia,<br \/>\ne o resto do corti\u00e7o formigava, tagarelando em volta do conserto das tinas<br \/>\ne jiraus, Jer\u00f4nimo, ao lado da mulher e da Rita, seguia dentro de um carro<br \/>\npara o hospital. As duas s\u00f3 voltaram de l\u00e1 \u00e0 noite, caindo de fadiga. De resto,<br \/>\ntoda a estalagem estava igualmente prostrada e morrendo pela cama, se bem<br \/>\nque nesse dia as lavadeiras em geral gazeassem o trabalho; as que tinham roupa<br \/>\ncom mais pressa foram lavar fora ou arrastaram bacias de banho para debaixo<br \/>\ndas bicas, \u00e0 falta de melhor vasilha para o servi\u00e7o. Discutiu-se a campanha<br \/>\nda v\u00e9spera sem variar o assunto. Aqui era um que lembrava as suas proezas<br \/>\ncom os urbanos, descrevendo entusiasmado os pormenores da luta; ali, outro<br \/>\nrepetia, cheio de emp\u00e1fia, os desaforos que dissera depois nas bochechas da<br \/>\nautoridade; mais adiante trocavam-se queixas e recrimina\u00e7\u00f5es; cada qual, mulheres<br \/>\ne homens, sofrera o seu preju\u00edzo. ou a sua arranhadura, e mostravam entre<br \/>\nsi, numa febre de indigna\u00e7\u00e3o, os objetos partidos ou a parte do corpo escoriada.<br \/>\nMas \u00e0s nove da noite j\u00e1 n\u00e3o havia viva alma no p\u00e1tio da estalagem. A venda<br \/>\nfechou-se um pouco mais cedo que de costume. Bertoleza atirou-se ao colch\u00e3o,<br \/>\nestrompada; Jo\u00e3o Rom\u00e3o recolheu-se junto dela, porem n\u00e3o conseguiu dormir;<br \/>\nsentia calafrios e pontadas na cabe\u00e7a. Chamou pela amiga, a gemer, e pediu-lhe<br \/>\nque lhe desse alguma coisa para suar. Supunha estar com febre. A crioula s\u00f3<br \/>\ndescansou quando, muitas horas adiante, depois de mudar-lhe a roupa, o viu<br \/>\npegar no sono; e da\u00ed a pouco, \u00e0s quatro da madrugada, erguia-se ela, com estalos<br \/>\nde juntas, a bocejar, fungando no seu estremunhamento pesad\u00e3o, e pigarreando<br \/>\nforte. Acordou o caixeiro para ir ao mercado; gargarejou um pouco d\u2019\u00e1gua<br \/>\n\u00e0 torneira da cozinha e foi fazer fogo para o caf\u00e9 dos trabalhadores, riscando<br \/>\nf\u00f3sforos e acendendo cavacos num fogareiro, donde come\u00e7aram a borbotar grossos<br \/>\nnovelos de fumo espesso. L\u00e1 fora clareava j\u00e1, e a vida renascia no corti\u00e7o.<br \/>\nA luta de todos os dias continuava, como se n\u00e3o houvera interrup\u00e7\u00e3o. Principiava<br \/>\no burburinho. Aquela noite bem dormida punha-os a todos de bom humor. Pombinha,<br \/>\nentretanto, nessa manh\u00e3 acordara abatida e nervosa, sem animo de sair dos<br \/>\nlen\u00e7\u00f3is. Pediu caf\u00e9 \u00e0 m\u00e3e, bebeu, e tornou a abra\u00e7ar-se nos travesseiros,<br \/>\nescondendo o rosto. &#8211; N\u00e3o te sentes melhor hoje, minha filha?&#8230; perguntou-lhe<br \/>\nDona Isabel, apalpando-lhe a testa. Febre n\u00e3o tens. &#8211; Ainda sinto o corpo<br \/>\nmole&#8230; mas n\u00e3o \u00e9 nada&#8230; isto passa!&#8230; &#8211; Foi de tanto gelo, que tomaste<br \/>\nem casa de madama!&#8230; N\u00e3o te dizia?&#8230; Agora, o melhor \u00e9 dar-te um escalda-p\u00e9s!&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, por amor de Deus! Daqui a pouco estou em p\u00e9! \u00c0s oito horas, com<br \/>\nefeito, levantava-se e fazia, indolentemente, o alinho da cabe\u00e7a, defronte<br \/>\ndo seu modesto lavat\u00f3rio de ferro. Dir-se-ia sem for\u00e7as para a menor coisa;<br \/>\ntoda ela transpirava uma contemplativa melancolia de convalescente; havia<br \/>\numa doce express\u00e3o dolorosa na limpidez cristalina de seus olhos de mo\u00e7a enferma;<br \/>\num pobre<\/p>\n<p>sorriso p\u00e1lido a entreabrir-lhe as p\u00e9talas da boca, sem lhe alegrar os l\u00e1bios,<br \/>\nque pareciam ressequidos \u00e0 mingua de beijos de amor; assim delicada planta<br \/>\nmurcha, languesce e morre, se carinhosa borboleta n\u00e3o vai sacudir sobre ela<br \/>\nas asas prenhes de fecundo e dourado p\u00f3len. O passeio \u00e0 casa de L\u00e9onie fizera-lhe<br \/>\nmuito mal. Trouxe de l\u00e1 impress\u00f5es de \u00edntimos vexames, que nunca mais se apagariam<br \/>\npor toda a sua vida. A cocote recebeu-a de bra\u00e7os abertos, radiante com apanh\u00e1-la<br \/>\njunto de si, naqueles div\u00e3s fofos e traidores, entre todo aquele luxo extravagante<br \/>\ne requintado pr\u00f3prio para os v\u00edcios grandes. Ordenou \u00e0 criada que n\u00e3o deixasse<br \/>\nentrar ningu\u00e9m, ningu\u00e9m, nem mesmo o Beb\u00ea, e assentou-se ao lado da menina,<br \/>\nbem juntinho uma da outra, tomando-lhe as m\u00e3os, fazendo-lhe uma infinidade<br \/>\nde perguntas, e pedindo-lhe beijos, que saboreava gemendo, de olhos fechados.<br \/>\nDona Isabel suspirava tamb\u00e9m, mas de outro modo; na sua parva compreens\u00e3o<br \/>\ndo conforto, aqueles impertinentes espelhos, aqueles m\u00f3veis casquilhos e aquelas<br \/>\ncortinas escandalosas arrancavam-lhe saudosas recorda\u00e7\u00f5es do bom tempo e avivavam<br \/>\na sua impaci\u00eancia por melhor futuro. Ai! assim Deus quisesse ajud\u00e1-la!&#8230;<br \/>\n\u00c0s duas da tarde, L\u00e9onie, por sua pr\u00f3pria m\u00e3o serviu \u00e0s visitas um pequeno<br \/>\nlanche de foie-gras, presunto e queijo, acompanhado de champanha, gelo e \u00e1gua<br \/>\nde Seltz, e, sem se descuidar um instante da rapariga, tinha para ela extremas<br \/>\nsolicitudes de namorado; levava-lhe a comida \u00e0 boca, bebia do seu copo, apertava-lhe<br \/>\nos dedos por debaixo da mesa.<\/p>\n<p>Depois da refei\u00e7\u00e3o, Dona Isabel, que n\u00e3o estava habituada a tomar vinho,<br \/>\nsentiu vontade de descansar o corpo; L\u00e9onie franqueou-lhe um bom quarto, com<br \/>\nboa cama, e, mal percebeu que a velha dormia, fechou a porta pelo lado de<br \/>\nfora, para melhor ficar em liberdade com a pequena. Bem! Agora estavam perfeitamente<br \/>\na s\u00f3s! &#8211; Vem c\u00e1, minha flor!&#8230; disse-lhe, puxando-a contra si e deixando-se<br \/>\ncair sobre um div\u00e3. Sabes? Eu te quero cada vez mais!&#8230; Estou louca por ti!<br \/>\nE devorava-a de beijos violentos, repetidos, quentes, que sufocavam a menina,<br \/>\nenchendo-a de espanto e de um instintivo temor, cuja origem a pobrezinha,<br \/>\nna sua simplicidade, n\u00e3o podia saber qual era. A cocote percebeu o seu enleio<br \/>\ne ergueu-se, sem largar-lhe a m\u00e3o. &#8211; Descansemos n\u00f3s tamb\u00e9m um pouco&#8230; prop\u00f4s,<br \/>\narrastando-a para a alcova. Pombinha assentou-se, constrangida, no rebordo<br \/>\nda cama e, toda perplexa, com vontade de afastar-se, mas sem animo de protestar,<br \/>\npor acanhamento, tentou reatar o fio da conversa, que elas sustentavam um<br \/>\npouco antes, \u00e0 mesa, em presen\u00e7a de Dona Isabel. L\u00e9onie fingia prestar-lhe<br \/>\naten\u00e7\u00e3o e nada mais fazia do que afagar-lhe a cintura, as coxas e o colo.<br \/>\nDepois, como que distraidamente, come\u00e7ou a desabotoar-lhe o corpinho do vestido.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! Para qu\u00ea!&#8230; N\u00e3o quero despir-me&#8230; &#8211; Mas faz tanto calor&#8230; P\u00f5e-te<br \/>\na gosto&#8230; &#8211; Estou bem assim. N\u00e3o quero! &#8211; Que tolice a tua&#8230;! N\u00e3o v\u00eas que<br \/>\nsou mulher, tolinha?&#8230; De que tens medo?&#8230; Olha! Vou dar exemplo! E, num<br \/>\nrelance, desfez-se da roupa, e prosseguiu na campanha. A menina, vendo-se<br \/>\ndescomposta, cruzou os bra\u00e7os sobre o seio, vermelha de pudor. &#8211; Deixa! segredou-lhe<br \/>\na outra, com os olhos envesgados, a pupila tr\u00eamula. E, apesar dos protestos,<br \/>\ndas s\u00faplicas e at\u00e9 das l\u00e1grimas da infeliz, arrancou-lhe a \u00faltima vestimenta,<br \/>\ne precipitou-se contra ela, a beijar-lhe todo o corpo, a empolgar-lhe com<br \/>\nos l\u00e1bios o r\u00f3seo bico do peito. &#8211; Oh! Oh! Deixa disso! Deixa disso! reclamava<br \/>\nPombinha estorcendo-se em c\u00f3cegas, e deixando ver preciosidades de nudez fresca<br \/>\ne virginal, que enlouqueciam a prostituta. &#8211; Que mal faz?&#8230; Estamos brincando&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! N\u00e3o! balbuciou a vitima, repelindo-a. &#8211; Sim! Sim! insistiu L\u00e9onie,<br \/>\nfechando-a entre os bra\u00e7os, como entre duas colunas; e pondo em contacto com<br \/>\no dela todo o seu corpo nu. Pombinha arfava, relutando; mas o atrito daquelas<br \/>\nduas grossas pomas irrequietas sobre seu mesquinho peito de donzela imp\u00fabere<br \/>\ne o rogar vertiginoso daqueles cabelos \u00e1speros e crespos nas esta\u00e7\u00f5es mais<br \/>\nsensitivas da sua feminilidade, acabaram por foguear-lhe a p\u00f3lvora do sangue,<br \/>\ndesertando-lhe a raz\u00e3o ao rebate dos sentidos.<\/p>\n<p>Agora, espolinhava-se toda, cerrando os dentes, fremindo-lhe a carne em crispa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde espasmo; ao passo que a outra, por cima, doida de lux\u00faria, irracional,<br \/>\nferoz, revoluteava, em corcovos de \u00e9gua, bufando e relinchando. E metia-lhe<br \/>\na l\u00edngua tesa pela boca e pelas orelhas, e esmagava-lhe os olhos debaixo dos<br \/>\nseus beijos lubrificados de espuma, e mordia-lhe o l\u00f3bulo dos ombros, e agarrava-lhe<br \/>\nconvulsivamente o cabelo, como se quisesse arranc\u00e1-lo aos punhados. At\u00e9 que,<br \/>\ncom um assomo mais forte, devorou-a num abra\u00e7o de todo o corpo, ganindo ligeiros<br \/>\ngritos, secos, curtos, muito agudos, e afinal desabou para o lado, ex\u00e2nime,<br \/>\ninerte, os membros atirados num abandono de b\u00eabedo, soltando de instante a<br \/>\ninstante um solu\u00e7o estrangulado. A menina voltara a si e torcera-se logo em<br \/>\nsentido contr\u00e1rio \u00e0 advers\u00e1ria, cingindo-se rente aos travesseiros e abafando<br \/>\no seu pranto, envergonhada e corrida. A impudica, mal orientada ainda e sem<br \/>\nconseguir abrir os olhos, procurou anim\u00e1-la, ameigando-lhe a nuca e as esp\u00e1duas.<br \/>\nMas Pombinha parecia inconsol\u00e1vel, e a outra teve de erguer-se a meio e pux\u00e1-la<br \/>\ncomo uma crian\u00e7a para o seu colo, onde ela foi ocultando o rosto, a solu\u00e7ar<br \/>\nbaixinho. &#8211; N\u00e3o chores assim, meu amor!&#8230; Pombinha continuou a solu\u00e7ar. &#8211;<br \/>\nVamos! N\u00e3o quero ver-te deste modo!&#8230; Est\u00e1s zangada comigo?&#8230; &#8211; N\u00e3o volto<br \/>\nmais aqui! nunca mais! exclamou por fim a donzela, desgalgando o leito para<br \/>\nvestir-se. &#8211; Vem c\u00e1! N\u00e3o sejas ruim! Ficarei muito triste se estiveres mal<br \/>\ncom a tua negrinha!&#8230; Anda! N\u00e3o me feches a cara!&#8230; &#8211; Deixe-me! &#8211; Vem c\u00e1,<br \/>\nPombinha! &#8211; N\u00e3o vou! J\u00e1 disse! E vestia-se com movimentos de raiva. L\u00e9onie<br \/>\nsaltara para junto dela e p\u00f4s-se a beijar-lhe, \u00e0 for\u00e7a. os ouvidos e o pesco\u00e7o,<br \/>\nfazendo se muito humilde, adulando-a, comprometendo-se a ser sua escrava,<br \/>\ne obedecer-lhe como um cachorrinho, contanto que aquela tirana n\u00e3o se fosse<br \/>\nassim zangada. &#8211; Fa\u00e7o tudo! tudo! mas n\u00e3o fiques mel comigo! Ah! se soubesse<br \/>\ncomo eu te adoro!&#8230; &#8211; N\u00e3o sei! Largue-me!&#8230; &#8211; Espera!<\/p>\n<p>&#8211; Que amola\u00e7\u00e3o! Oh!<\/p>\n<p>&#8211; Deixa de tolice!&#8230; Escuta, por amor de Deus!<\/p>\n<p>Pombinha acabava de encasar o \u00faltimo bot\u00e3o do corpinho, e repuxava o pesco\u00e7o<br \/>\ne sacudia os bra\u00e7os, ajustando bem a sua roupa ao corpo. Mas L\u00e9onie ca\u00edra-lhe<br \/>\naos p\u00e9s, enleando-a pelas pernas e beijando-lhe as saias. &#8211; Olha!&#8230; Ouve!&#8230;<br \/>\n&#8211; Deixa-me sair! &#8211; N\u00e3o! n\u00e3o h\u00e1s de ir zangada, ou fa\u00e7o aqui um esc\u00e2ndalo dos<br \/>\ndiabos! &#8211; E que mam\u00e3e j\u00e1 acordou com certeza!&#8230; &#8211; Que acordasse! Agora a<br \/>\nmeretriz defendia a porta da alcova. &#8211; Oh! meu Deus! Deixe-me sair! &#8211; N\u00e3o<br \/>\ndeixo, sem fazermos as pazes&#8230; &#8211; Que aborrecimento! &#8211; D\u00e1-me um beijo! &#8211; N\u00e3o<br \/>\ndou! &#8211; Pois ent\u00e3o n\u00e3o sais! &#8211; Eu grito! &#8211; Pois grita! Que me importa! &#8211; Arrede-se<br \/>\nda\u00ed, por favor!&#8230; &#8211; Faz as pazes&#8230; &#8211; N\u00e3o estou zangada, creia! Estou \u00e9 indisposta&#8230;<br \/>\nN\u00e3o me sinto boa!<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu fa\u00e7o quest\u00e3o do beijo! &#8211; Pois bem! Est\u00e1 ai! E beijou-a. &#8211; N\u00e3o quero<br \/>\nassim! Foi dado de m\u00e1 vontade!&#8230; Pombinha deu-lhe outro. &#8211; Ah! Agora bem!<br \/>\nEspera um nada! Deixa arranjar-me! \u00c9 um instante! Em tr\u00eas tempos, lavou-se<br \/>\nligeiramente no bid\u00ea, endireitou o penteado defronte do espelho, num movimento<br \/>\nr\u00e1pido de dedos, e empoou-se, perfumou-se, e enfiou camisa, an\u00e1gua e penteador,<br \/>\ntudo com uma expedi\u00e7\u00e3o de quem est\u00e1 habituada a vestir-se muitas vezes por<br \/>\ndia. E, pronta, correu uma vista de olhos pela menina, desenrugou-lhe a saia,<br \/>\nconsertou-lhe melhor os cabelos e, readquirindo o seu ar tranq\u00fcilo de mulher<br \/>\najuizada, tomou-a pela cintura e levou-a vagarosamente at\u00e9 \u00e0 sala de jantar,<br \/>\npara tomarem vermute com gasosa. O jantar foi \u00e0s seis e meia. Correu frio,<br \/>\nn\u00e3o tanto por parte de Pombinha, que ali\u00e1s se mostrava bem incomodada, como<br \/>\nporque Dona Isabel, dormindo at\u00e9 o momento de a chamarem para mesa, sentia-se<br \/>\naziada com o foie-gras. A dona da casa, todavia, n\u00e3o se forrou a desvelos<br \/>\ne fez por alegr\u00e1-las rindo e contando anedotas burlescas. Ao caf\u00e9 apareceu<br \/>\nJuju, que a criada levara a passear desde logo depois do almo\u00e7o, e uma afeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde agrados levantou-se em torno da pequerrucha. L\u00e9onie p\u00f4s-se a conversar<br \/>\ncom ela, falando como crian\u00e7a, dizendo-lhe que mostrasse a Dona Isabel &#8220;o<br \/>\nseu papatinho novo!&#8221;<\/p>\n<p>Mais tarde, no terra\u00e7o, enquanto fumava um cigarro, tomou a m\u00e3o de Pombinha<br \/>\ne meteu-lhe no dedo um anel com um diamante cercado de p\u00e9rolas. A menina recusou<br \/>\no mimo, formalmente. Foi preciso a interven\u00e7\u00e3o da velha para que ela consentisse<br \/>\nem aceit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u00c0s oito horas retiraram-se as visitas, seguindo direitinho para a estalagem.<br \/>\nDurante toda a viagem Pombinha parecia preocupada e triste.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens tu?&#8230; perguntou-lhe a m\u00e3e duas vezes.<\/p>\n<p>E de ambas a filha respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Nada! Aborrecimento&#8230;<\/p>\n<p>No pouco que dormiu essa noite, que foi a do baralho com a pol\u00edcia, teve<br \/>\nsonhos agitados e passou mal todo o dia seguinte, com molezas de febre e dores<br \/>\nno \u00fatero. N\u00e3o arredou p\u00e9 de casa, nem para ver os destro\u00e7os do conflito. A<br \/>\nnoticia do defloramento e da fuga de Florinda, como a da loucura da velha<br \/>\nMarciana, produziu-lhe grande abalo nos nervos.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 imediata, a despeito de fazer-se forte, torceu o nariz ao pobre<br \/>\nalmo\u00e7o que Dona Isabel lhe apresentou carinhosa. Persistiam-lhe as dores uterinas,<br \/>\nn\u00e3o vivas, mas constantes. N\u00e3o teve animo de pegar na costura, e um livro<br \/>\nque ela tentou ler, foi por v\u00e1rias vezes repelido.<\/p>\n<p>As onze para o meio-dia era tal o seu constrangimento e era tal o seu desassossego<br \/>\nentre as apertadas paredes do n\u00famero 15, que, malgrado os protestos da velha,<br \/>\nsaiu a dar uma volta por detr\u00e1s do corti\u00e7o, \u00e0 sombra dos bambus e das mangueiras.<\/p>\n<p>Uma irresist\u00edvel necessidade de estar s\u00f3, completamente s\u00f3, uma afli\u00e7\u00e3o de<br \/>\nconversar consigo mesma, a apartava no seu estreito quarto sufocante, t\u00e3o<br \/>\ntristonho e t\u00e3o pouco amigo. Pungia-lhe na brancura da alma virgem um arrependimento<br \/>\nincisivo e negro das torpezas da antev\u00e9spera; mas, lubrificada por essa recorda\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntoda a sua carne ria e rejubilava-se, pressentindo delicias que lhe pareciam<br \/>\nreservadas para mais tarde, junto de um homem amado, dentro dela balbuciavam<br \/>\ndesejos, at\u00e9 ai mudos e adormecidos; e mist\u00e9rios desvendavam-se no segredo<br \/>\ndo seu corpo, enchendo-a de surpresa e mergulhando-a em fundas concentra\u00e7\u00f5es<br \/>\nde \u00eaxtase. Um inef\u00e1vel quebranto afrouxava-lhe a energia e distendia-lhe os<br \/>\nm\u00fasculos com uma embriaguez de flores trai\u00e7oeiras.<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de resistir: assentou-se debaixo das \u00e1rvores, um cotovelo em terra,<br \/>\na cabe\u00e7a reclinada contra a palma da m\u00e3o.<\/p>\n<p>Na doce tranq\u00fcilidade daquela sombra morna, ouvia-se retinir distante a picareta<br \/>\ndos homens da pedreira e o martelo dos ferreiros na forja. E o canto dos trabalhadores<br \/>\nora mais claro, ora mais duvidoso, acompanhando o marulhar dos ventos, ondeava<br \/>\nno espa\u00e7o, melanc\u00f3lico e sentido, como um coro religioso de penitentes. O<br \/>\ncalor tirava do capim um cheiro sensual. A mo\u00e7a fechou as p\u00e1lpebras, vencida<br \/>\npelo seu delicioso entorpecimento, e estendeu-se de todo no ch\u00e3o, de barriga<br \/>\npara o ar, bra\u00e7os e pernas abertas. Adormeceu.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou logo a sonhar que em redor ia tudo se fazendo de um cor-de-rosa,<br \/>\na princ\u00edpio muito leve e transparente, depois mais carregado, e mais, e mais,<br \/>\nat\u00e9 formar-se em torno dela uma floresta vermelha, cor de sangue, onde largos<br \/>\ntinhor\u00f5es rubros se agitavam lentamente. E viu-se nua, toda nua, exposta ao<br \/>\nc\u00e9u, sob a t\u00e9pida luz de um sol embriagador, que lhe batia de chapa sobre<br \/>\nos seios. Mas, pouco a pouco, seus olhos, posto que bem abertos, nada mais<br \/>\nenxergavam do que uma grande claridade palpitante, onde o sol, feito de uma<br \/>\ns\u00f3 mancha reluzente, oscilava como um p\u00eandulo fant\u00e1stico. Entretanto, notava<br \/>\nque, em volta da sua nudez alourada pela luz, iam-se formando ondulantes camadas<br \/>\nsang\u00fc\u00edneas, que se agitavam, desprendendo aromas de flor. E, rodando o olhar,<br \/>\npercebeu, cheia de encantos, que se achava deitada entre p\u00e9talas gigantescas,<br \/>\nno rega\u00e7o de uma rosa intermin\u00e1vel, em que seu corpo se atufava como em ninho<br \/>\nde veludo carmesim, bordado de ouro, fofo, macio, trescalante e morno. E suspirando,<br \/>\nespregui\u00e7ou-se toda num enleio de vol\u00fapia asc\u00e9tica. L\u00e1 do alto o sol a fitava<br \/>\nobstinadamente, enamorado das suas mimosas formas de menina. Ela sorriu para<br \/>\nele, requebrando os olhos, e ent\u00e3o o fogoso astro tremeu e agitou-se, e, desdobrando-se,<br \/>\nabriu-se de par em par em duas asas e principiou a fremir, atra\u00eddo e perplexo.<br \/>\nMas de repente, nem que se de improviso lhe inflamassem os desejos, precipitou-se<br \/>\nl\u00e1 de cima agitando as asas, e veio, enorme borboleta de fogo, adejar luxuriosamente<br \/>\nem torno da imensa rosa, em cujo rega\u00e7o a virgem permanecia com os peitos<br \/>\nfranqueados. E a donzela, sempre que a borboleta se aproximava da rosa, sentia-se<br \/>\npenetrar de um calor estranho, que lhe acendia, gota a gota, todo o seu sangue<br \/>\nde mo\u00e7a. E a borboleta, sem parar nunca, doidejava em todas as dire\u00e7\u00f5es ora<br \/>\nfugindo r\u00e1pida, ora se chegando lentamente, medrosa de tocar com as suas antenas<br \/>\nde brasa a pele delicada e pura da menina. Esta, delirante de desejos, ardia<br \/>\npor ser alcan\u00e7ada e empinava o colo. Mas a borboleta fugia. Uma sofreguid\u00e3o<br \/>\nl\u00fabrica, desensofrida, apoderou-se da mo\u00e7a; queria a todo custo que a borboleta<br \/>\npousasse nela, ao menos um instante, um s\u00f3 instante, e a fechasse num r\u00e1pido<br \/>\nabra\u00e7o dentro das suas asas ardentes. Mas a borboleta, sempre doida, n\u00e3o conseguia<br \/>\ndeter-se; mal se adiantava, fugia logo, irrequieta, desvairada de vol\u00fapia.<br \/>\n&#8211; Vem! Vem! suplicava a donzela, apresentando o corpo. Pousa um instante em<br \/>\nmim! Queima-me a carne no calor das tuas asas! E a rosa, que tinha ao colo,<br \/>\n\u00e9 que parecia falar e n\u00e3o ela. De cada vez que a borboleta se avizinhava com<br \/>\nas suas nega\u00e7as, a flor arrega\u00e7ava-se toda, dilatando as p\u00e9talas, abrindo<br \/>\no seu pistilo vermelho e \u00e1vido daquele contato com a luz. &#8211; N\u00e3o fujas! N\u00e3o<br \/>\nfujas! Pousa um instante! A borboleta n\u00e3o pousou; mas, num del\u00edrio, convulsa<br \/>\nde amor, sacudiu as asas com mais \u00edmpeto e uma nuvem de poeira dourada desprendeu-se<br \/>\nsobre a rosa, fazendo a donzela soltar gemidos e suspiros, tonta de gosto<br \/>\nsob aquele efl\u00favio luminoso e fecundante. Nisto, Pombinha soltou um ai formid\u00e1vel<br \/>\ne despertou sobressaltada, levando logo ambas as m\u00e3os ao meio do corpo. E<br \/>\nfeliz, e cheia de susto ao mesmo tempo, a rir e a chorar, sentiu o grito da<br \/>\npuberdade sair-lhe afinal das entranhas, em uma onda vermelha e quente. A<br \/>\nnatureza sorriu-se comovida. Um sino, ao longe, batia alegre as doze badaladas<br \/>\ndo meio-dia. O sol, vitorioso, estava a pino e, por entre a copagem negra<br \/>\nda mangueira, um dos seus raios descia em fio de ouro sobre o ventre da rapariga,<br \/>\naben\u00e7oando a nova mulher que se formava para o mundo.<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>XII<\/h2>\n<p>Pombinha ergueu-se de um pulo e abriu de carreira para casa.<\/p>\n<p>No lugar em que estivera deitada o capim verde ficou matizado de pontos vermelhos.<br \/>\nA m\u00e3e lavava \u00e0 tina, ela chamou-a com inst\u00e2ncia, enfiando cheia de alvoro\u00e7o<br \/>\npelo n\u00famero 15. E ai, sem uma palavra, ergueu as saias do vestido e exp\u00f4s<br \/>\na Dona Isabel as suas fraldas ensang\u00fcentadas. &#8211; Veio?! perguntou a velha com<br \/>\num grito arrancado do fundo d\u2019alma. A rapariga meneou a cabe\u00e7a afirmativamente,<br \/>\nsorrindo feliz e enrubescida. As l\u00e1grimas saltaram dos olhos da lavadeira.<br \/>\n&#8211; Bendito e louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! exclamou ela, caindo de<br \/>\njoelhos defronte da menina e erguendo para Deus o rosto e as m\u00e3os tr\u00eamulas.<br \/>\nDepois abra\u00e7ou-se \u00e0s pernas da filha e, no arrebatamento de sua como\u00e7\u00e3o, beijou-lhe<br \/>\nrepetidas vezes a barriga e parecia querer beijar tamb\u00e9m aquele sangue aben\u00e7oado,<br \/>\nque lhes abria os horizontes da vida, que lhes garantia o futuro; aquele sangue<br \/>\nbom, que descia do c\u00e9u, como a chuva benfazeja sobre uma pobre terra esterilizada<br \/>\npela seca. N\u00e3o se p\u00f4de conter: enquanto Pombinha mudava de roupa, saiu ela<br \/>\nao p\u00e1tio, apregoando aos quatro ventos a linda noticia. E, se n\u00e3o fora a formal<br \/>\noposi\u00e7\u00e3o da menina, teria passeado em triunfo a camisa ensang\u00fcentada, para<br \/>\nque todos a vissem bem e para que todos a adorassem, entre hinos de amor,<br \/>\nque nem a uma ver\u00f4nica sagrada de um Cristo.<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha \u00e9 mulher! Minha filha \u00e9 mulher! O fato abalou o cora\u00e7\u00e3o do<br \/>\ncorti\u00e7o, as duas receberam parab\u00e9ns e felicita\u00e7\u00f5es. Dona Isabel acendeu velas<br \/>\nde cera \u00e0 frente do seu orat\u00f3rio, e nesse dia n\u00e3o pegou mais no trabalho,<br \/>\nficou estonteada, sem saber o que fazia, a entrar e a sair de casa, radiante<br \/>\nde ventura. De cada vez que passava junto da filha dava-lhe um beijo na cabe\u00e7a<br \/>\ne em segredo recomendava-lhe todo o cuidado. &#8220;Que n\u00e3o apanhasse umidade! que<br \/>\nn\u00e3o bebesse coisas frias! que se agasalhasse o melhor poss\u00edvel: e, no caso<br \/>\nde sentir o corpo mole, que se metesse logo na cama! Qualquer imprud\u00eancia<br \/>\npoderia ser fatal!&#8230;&#8221; O seu empenho era p\u00f4r o Jo\u00e3o da Costa, no mesmo instante,<br \/>\nao corrente da grande novidade e pedir-lhe que marcasse logo o dia do casamento;<br \/>\na menina entendia que n\u00e3o, que era feio, mas a m\u00e3e arranjou um portador e<br \/>\nmandou chamar o rapaz com urg\u00eancia. Ele apareceu \u00e0 tarde. A velha convidara<br \/>\ngente para jantar; matou duas galinhas, comprou garrafas de vinho, e, \u00e0 noite,<br \/>\nserviu, \u00e0s nove horas, um ch\u00e1 com biscoitos. Nenen e a das Dores apresentaram-se<br \/>\nem trajos de festa; fez-se muita cerim\u00f4nia; conversou-se em voz baixa, formando<br \/>\ntodos em volta de Pombinha uma solicita cadeia de agrados, uma respeitosa<br \/>\npreocupa\u00e7\u00e3o de bons desejos, a que ela respondia sorrindo comovida, como que<br \/>\nexalando da frescura da sua virgindade um vitorioso aroma de flor que desabrocha.<br \/>\nE a partir desse dia Dona Isabel mudou completamente. As suas rugas alegraram-se;<br \/>\nouviam-na cantarolar pela manh\u00e3, enquanto varria a casa e espanava os m\u00f3veis.<br \/>\nN\u00e3o obstante, depois do tremendo conflito que acabou em navalhada, uma tristeza<br \/>\nia minando uma grande parte da estalagem. J\u00e1 se n\u00e3o faziam as quentes noitadas<br \/>\nde viol\u00e3o e dan\u00e7a ao relento. A Rita andava aborrecida e concentrada, desde<br \/>\nque Jer\u00f4nimo partiu para a Ordem; Firmo fora intimado pelo vendeiro a que<br \/>\nlhe n\u00e3o pusesse, nunca mais, os p\u00e9s em casa, sob pena de ser entregue \u00e0 pol\u00edcia;<br \/>\nPiedade, que vivia a dar ais, carpindo a aus\u00eancia do. marido, ainda ficou<br \/>\nmais consumida com a primeira visita que lhe fez ao hospital; encontrou-o<br \/>\nfrio e sem uma palavra de ternura para ela, deixando at\u00e9 perceber a sua impaci\u00eancia<br \/>\npara ouvir falar da outra, daquela maldita mulata dos diabos, que, no fim<br \/>\nde contas, era a \u00fanica culpada de tudo aquilo e havia de ser a sua perdi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne mais do seu homem! Quando voltou de l\u00e1 atirou-se \u00e0 cama, a solu\u00e7ar sem al\u00edvio,<br \/>\ne nessa noite n\u00e3o p\u00f4de pregar olho, sen\u00e3o j\u00e1 pela madrugada. Um negro desgosto<br \/>\ncomia-a por dentro, como tub\u00e9rculos de t\u00edsica, e tirava-lhe a vontade para<br \/>\ntudo que n\u00e3o fosse chorar. Outro que tamb\u00e9m, coitado! arrastava a vida muito<br \/>\ntriste, era o Bruno. A mulher, que a principio n\u00e3o lhe fizera grande falta,<br \/>\nagora o torturava com a sua distancia; um m\u00eas depois da separa\u00e7\u00e3o, o desgra\u00e7ado<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o podia esconder o seu sofrimento e ralava-se de saudades. A Bruxa, a<br \/>\npedido dele, tirou a sorte nas cartas e disse-lhe misteriosamente que Leoc\u00e1dia<br \/>\nainda o amava. S\u00f3 Dona Isabel e a filha andavam deveras satisfeitas. Essas<br \/>\nsim! nunca tinham tido uma \u00e9poca t\u00e3o boa e t\u00e3o esperan\u00e7osa. Pombinha abandonara<br \/>\no curso de dan\u00e7a; o noivo ia agora visit\u00e1-la, invariavelmente, todas as noites;<br \/>\nchegava sempre \u00e0s sete horas e demorava-se at\u00e9 \u00e0s dez; davam-lhe caf\u00e9 numa<br \/>\nx\u00edcara especial, de porcelana; \u00e0s vezes jogavam a bisca, e ele mandava buscar,<br \/>\nde sua algibeira, uma garrafa de cerveja alem\u00e3, e ficavam a conversar os tr\u00eas,<br \/>\ncada qual defronte do seu copo, a respeito dos projetos de felicidade comum;<br \/>\noutras vezes o Costa, sempre muito respeitador, muito bom rapaz, acendia o<br \/>\nseu charuto da Bahia e deixava-se cair numa pasmaceira, a olhar para a mo\u00e7a,<br \/>\ntodo embebido nela. Pombinha punha alegrias naqueles ser\u00f5es com as suas garrulices<br \/>\nde pomba que prepara o ninho. Depois do seu id\u00edlio com o sol fazia-se muito<br \/>\namiga da exist\u00eancia, sorvendo a vida em haustos largos, como quem acaba de<br \/>\nsair de uma pris\u00e3o e saboreia o ar livre. Volvia-se carnuda e cheia, sazonava<br \/>\nque nem uma fruta que nos<\/p>\n<p>provoca o apetite de morder. Dona Isabel, ao lado deles, toscanejava do meio<br \/>\npara o fim da visita, tra\u00e7ando cruzes na boca e afugentando os bocejos com<br \/>\nvoluptuosas pitadas da sua insigne tabaqueira. Fixado o dia do casamento,<br \/>\no assunto inalter\u00e1vel da conversa era o enxoval da noiva e a casinha que o<br \/>\nCosta preparava para a lua-de-mel. Iriam todos tr\u00eas morar juntos; teriam cozinheiro<br \/>\ne uma criada que lavasse e engomasse. O rapaz trouxera pe\u00e7as de linho e de<br \/>\nalgod\u00e3o, e ali, \u00e0 luz amarela do velho candeeiro de querosene, enquanto a<br \/>\nm\u00e3e talhava camisas e len\u00e7\u00f3is, a filha cosia valentemente numa m\u00e1quina que<br \/>\nlhe oferecera o noivo. Uma vez, eram duas da tarde, ela pregava rendas numa<br \/>\nfronha de almofada, quando o Bruno, cheio de hesita\u00e7\u00f5es, a co\u00e7ar os cabelos<br \/>\nda nuca, p\u00e1lido e mal asseado, disse-lhe, encostando-se \u00e0 ombreira da porta:<br \/>\n&#8211; Ora, Nh\u00e3 Pombinha&#8230; tinha-lhe um servicinho a pedir&#8230; mas vosmecezinha<br \/>\nanda agora t\u00e3o tomada com o seu enxoval e n\u00e3o h\u00e1 de querer dar-se a ma\u00e7os&#8230;<br \/>\n&#8211; Que queres tu, Bruno? &#8211; N\u2019\u00e9 nada, \u00e9 que precisava que vosmecezinha<br \/>\nme fizesse uma carta p\u2019raquele diabo&#8230; mas j\u00e1 se v\u00ea que n\u00e3o tem cabimento&#8230;<br \/>\nFica pr\u2019ao depois! &#8211; Uma carta para tua mulher, n\u00e3o \u00e9? &#8211; Coitada! \u00c9<br \/>\nmais doida do que ruim! Pois se a gente at\u00e9 dos brutos tem pena!&#8230; &#8211; Pois<br \/>\nest\u00e1s servido. Queres para j\u00e1? &#8211; N\u00e3o vale estorvar! Continue seu servicinho!<br \/>\nEu volto pr\u2019outra vez!&#8230; &#8211; N\u00e3o! anda c\u00e1, entra! O que se tem de fazer,<br \/>\nfaz-se logo! &#8211; Deus lhe pague! Vosmecezinha \u00e9 mesmo um anjo! N\u00e3o sei a quem<br \/>\nse chegue a gente ao depois que j\u00e1 lhe n\u00e3o tivermos c\u00e1!&#8230; E continuou a louvar<br \/>\na bondade da rapariga, enquanto esta, toda servi\u00e7al, preparava numa mesinha<br \/>\nredonda os seus apetrechos de escrita. &#8211; Vamos l\u00e1, Bruno! que queres tu mandar<br \/>\ndizer \u00e0 Leoc\u00e1dia? &#8211; Diga-lhe, antes de mais nada, que aquilo que quebrei dela,<br \/>\nque dou outro! Que ela fez mal em quebrar tamb\u00e9m o que era meu, mas que fecho<br \/>\nos olhos! \u00c1guas passadas n\u00e3o movem moinho! Que sei que ela agora est\u00e1 desempregada<br \/>\ne aos paus; que est\u00e1 a dever para mais de m\u00eas na estalagem; mas que n\u00e3o precisa<br \/>\ndar cabe\u00e7adas: que me mande c\u00e1 o senhorio, que me entendo com ele. Que acho<br \/>\nbom que ela deixe a casa da crioula onde come, porque a mulher j\u00e1 se queixou<br \/>\ne j\u00e1 disse, a quem quis ouvir, que aquilo l\u00e1 n\u00e3o era ponto de vadios e mulheres<br \/>\nde m\u00e1 vida! Que ela, se tivesse um pouco de tino, nem precisava estar \u00e0s migalhas<br \/>\ndos outros, que eu na forja fazia para a trazer de barriga cheia e mais aos<br \/>\nfilhos que Deus mandasse&#8230; &#8211; Principiava a tomar calor. &#8211; Que a culpada de<br \/>\ntudo isto \u00e9 s\u00f3 ela e mais ningu\u00e9m! tivesse um bocado de ju\u00edzo e n\u00e3o precisava<br \/>\nenvergonhar a cara por ai&#8230; &#8211; Isso j\u00e1 est\u00e1 dito, Bruno! &#8211; Pois arrame-lhe<br \/>\noutra vez a ver se ela toma brio! &#8211; E que mais? &#8211; Que lhe n\u00e3o quero mal, nem<br \/>\nlhe rogo pragas, mas que \u00e9 bem feito que ela amargue um pouco do p\u00e3o do diabo,<br \/>\npra ficar sabendo que uma mulher direita n\u00e3o deve olhar se n\u00e3o pra seu marido;<br \/>\ne que, se ela n\u00e3o fosse t\u00e3o maluca&#8230; &#8211; J\u00e1 a\u00ed vai voc\u00ea repetir inda uma vez<br \/>\na mesma cantiga!&#8230; &#8211; Mas diga-lhe sempre, tenha paci\u00eancia, Nh\u00e3 Pombinha!&#8230;<br \/>\nQue ainda estaria aqui, comigo, como dantes, sem ag\u00fcentar repel\u00f5es de estranhos!&#8230;<br \/>\n&#8211; Adiante, Bruno! &#8211; Diga-lhe&#8230; E interrompeu-se. Ora, que mais ele tinha<br \/>\na dizer?&#8230; Co\u00e7ou a cabe\u00e7a. &#8211; Veja, Bruno, voc\u00ea \u00e9 quem sabe o que precisa<br \/>\nescrever a sua mulher&#8230; &#8211; Diga-lhe&#8230; N\u00e3o se animava. &#8211; Que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Diga-lhe&#8230; N\u00e3o! n\u00e3o lhe diga mais nada!&#8230; &#8211; Posso ent\u00e3o fechar a carta?&#8230;<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 bom&#8230; resmungou o ferreiro, decidindo-se. V\u00e1 l\u00e1! Diga-lhe que&#8230; &#8211;<br \/>\nQue&#8230; Houve um sil\u00eancio, no qual o desgra\u00e7ado parecia arrancar de dentro<br \/>\numa frase que, no entanto, era a \u00fanica id\u00e9ia que o levava a dirigir-se \u00e0 mulher.<br \/>\nAfinal, depois de co\u00e7ar mais vivamente a cabe\u00e7a, gaguejou com a voz estrangulada<br \/>\nde solu\u00e7os: &#8211; Diga-lhe que&#8230; se ela quiser tornar pra minha companhia&#8230;<br \/>\nque pode vir&#8230; Eu esque\u00e7o tudo! Pombinha, impressionada pela transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nda voz dele, levantou o rosto e viu que as l\u00e1grimas lhe desfilavam duas a<br \/>\nduas, tr\u00eas a tr\u00eas, pela cara, indo afogar-se-lhe na moita cerdosa das barbas.<br \/>\nE, coisa estranha, ela, que escrevera tantas cartas naquelas mesmas condi\u00e7\u00f5es;<br \/>\nque tantas vezes presenciara o choro rude de outros muitos trabalhadores do<br \/>\ncorti\u00e7o, sobressaltava-se agora com os desalentados solu\u00e7os do ferreiro. Porque,<br \/>\ns\u00f3 depois que o sol lhe aben\u00e7oou o ventre; depois que nas suas entranhas ela<br \/>\nsentiu o primeiro grito de sangue de mulher, teve olhos para essas violentas<br \/>\nmis\u00e9rias dolorosas, a que os poetas davam o bonito nome de amor. A sua intelectualidade,<br \/>\ntal como seu corpo, desabrochara inesperadamente, atingindo de s\u00fabito, em<br \/>\npleno desenvolvimento, uma lucidez que a deliciava e surpreendia. N\u00e3o a comovera<br \/>\ntanto a revolu\u00e7\u00e3o f\u00edsica Como que naquele instante o mundo inteiro se despia<br \/>\n\u00e0 sua vista, de improviso esclarecida, patenteando-lhe todos os segredos das<br \/>\nsuas paix\u00f5es. Agora, encarando as l\u00e1grimas do Bruno, ela compreendeu e avaliou<br \/>\na fraqueza dos homens, a fragilidade desses animais fortes, de m\u00fasculos valentes,<br \/>\nde patas esmagadoras, mas que se deixavam encabrestar e conduzir humildes<br \/>\npela soberana e delicada m\u00e3o da f\u00eamea. Aquela pobre flor de corti\u00e7o, escapando<br \/>\n\u00e0 estupidez do meio em que desabotoou, tinha de ser fatalmente vitima da pr\u00f3pria<br \/>\nintelig\u00eancia. \u00c0 mingua de educa\u00e7\u00e3o, seu esp\u00edrito trabalhou \u00e0 revelia, e atrai\u00e7oou-a,<br \/>\nobrigando-a a tirar da subst\u00e2ncia caprichosa da sua fantasia de mo\u00e7a ignorante<br \/>\ne viva a explica\u00e7\u00e3o de tudo que lhe n\u00e3o ensinaram a ver e sentir. Bruno retirou-se<br \/>\ncom a carta. Pombinha pousou os cotovelos na mesa e tulipou as m\u00e3os contra<br \/>\no rosto, a cismar nos homens. Que estranho poder era esse, que a mulher exercia<br \/>\nsobre eles, a tal ponto, que os infelizes, carregados de desonra e de ludibrio,<br \/>\nainda vinham covardes e suplicantes mendigar-lhe o perd\u00e3o pelo mal que ela<br \/>\nlhes fizera?&#8230; E surgiu-lhe ent\u00e3o uma id\u00e9ia bem clara da sua pr\u00f3pria for\u00e7a<br \/>\ne do seu pr\u00f3prio valor. Sorriu. E no seu sorriso j\u00e1 havia garras. Uma aluvi\u00e3o<br \/>\nde cenas, que ela jamais tentara explicar e que at\u00e9 ai jaziam esquecidas nos<br \/>\nmeandros do seu passado, apresentavam-se agora n\u00edtidas e transparentes. Compreendeu<br \/>\ncomo era que certos velhos respeit\u00e1veis, cujas fotografias L\u00e9onie lhe mostrara<br \/>\nno dia que passaram juntas, deixavam-se vilmente cavalgar pela loureira, cativos<br \/>\ne submissos, pagando a escravid\u00e3o com a honra, os bens, e at\u00e9 com a pr\u00f3pria<br \/>\nvida, se a prostituta, depois de os ter esgotado, fechava-lhes o corpo. E<br \/>\ncontinuou a sorrir, desvanecida na sua superioridade sobre esse outro sexo,<br \/>\nvaidoso e fanfarr\u00e3o, que se julgava senhor e que no entanto fora posto no<br \/>\nmundo simplesmente para servir ao feminino; escravo rid\u00edculo que, para gozar<br \/>\num pouco, precisava tirar da sua mesma ilus\u00e3o a subst\u00e2ncia do seu gozo; ao<br \/>\npasso que a mulher, a senhora, a dona dele, ia tranq\u00fcilamente desfrutando<br \/>\no seu imp\u00e9rio, endeusada e querida, prodigalizando mart\u00edrios que os miser\u00e1veis<br \/>\naceitavam contritos, a beijar os p\u00e9s que os deprimiam e as implac\u00e1veis m\u00e3os<br \/>\nque os estrangulavam. &#8211; Ah! homens! homens!&#8230; sussurrou ela de envolta com<br \/>\num suspiro. E pegou de novo na costura, deixando que o pensamento vadiasse<br \/>\n\u00e0 solta, enquanto os dedos iam maquinalmente pregando as rendas naquela almofada,<br \/>\nem que a sua cabe\u00e7a teria de repousar para receber o primeiro beijo genital.<br \/>\nNum s\u00f3 lance de vista, como quem apanha uma esfera entre as pontas de um compasso,<br \/>\nmediu com as antenas da sua perspic\u00e1cia mulheril toda aquela esterqueira,<br \/>\nonde ela, depois de se arrastar por muito tempo como larva, um belo dia acordou<br \/>\nborboleta \u00e0 luz do sol. E sentiu diante dos olhos aquela massa informe de<br \/>\nmachos e f\u00eameas, a comichar, a fremir concupiscente, sufocando-se uns aos<br \/>\noutros. E viu o Firmo e o Jer\u00f4nimo atassalharem-se, como dois c\u00e3es que disputam<br \/>\numa cadela da rua; e viu o Miranda, li defronte, subalterno ao lado da esposa<br \/>\ninfiel, que se divertia a faz\u00ea-lo dan\u00e7ar a seus p\u00e9s seguro pelos chifres;<br \/>\ne viu o Domingos, que fora da venda, furtando horas ao sono, depois de um<br \/>\ntrabalho de barro, e perdendo o seu emprego e as economias ajuntadas com sacrif\u00edcio,<br \/>\npara ter um instante de lux\u00faria entre as pernas de uma desgra\u00e7adinha irrespons\u00e1vel<br \/>\ne tola; e tornou a ver o Bruno a solu\u00e7ar pela mulher; e outros ferreiros e<br \/>\nhortel\u00f5es, e cavouqueiros, e trabalhadores de toda a esp\u00e9cie, um ex\u00e9rcito<br \/>\nde bestas sensuais, cujos segredos ela possu\u00eda, cujas \u00edntimas correspond\u00eancias<br \/>\nescrevera dia a dia, cujos cora\u00e7\u00f5es conhecia como as palmas das m\u00e3os,<\/p>\n<p>porque a sua escrivaninha era um pequeno confession\u00e1rio, onde toda a salsugem<br \/>\ne todas as fezes daquela praia de despejo foram arremessadas espumantes de<br \/>\ndor e aljofradas de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>E na sua alma enfermi\u00e7a e aleijada, no seu esp\u00edrito rebelde de flor mimosa<br \/>\ne peregrina criada num monturo, violeta infeliz, que um estrume forte demais<br \/>\npara ela atrofiara, a mo\u00e7a pressentiu bem claro que nunca daria de si ao marido<br \/>\nque ia ter uma companheira amiga, leal e dedicada; pressentiu que nunca o<br \/>\nrespeitaria sinceramente como a um ser superior por quem damos a vida; que<br \/>\nnunca lhe votaria entusiasmo, e por conseguinte nunca lhe teria amor; desse<br \/>\nde que ela se sentia capaz de amar algu\u00e9m, se na terra houvera homens dignos<br \/>\ndisso. Ah! n\u00e3o o amaria decerto, porque o Costa era como os outros, passivo<br \/>\ne resignado, aceitando a exist\u00eancia que lhe impunham as circunst\u00e2ncias, sem<br \/>\nideais pr\u00f3prios, sem temeridades de revolta, sem atrevimentos de ambi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsem v\u00edcios tr\u00e1gicos, sem capacidade para grandes crimes; era mais um animal<br \/>\nque viera ao mundo para propagar a esp\u00e9cie; um pobre-diabo enfim que j\u00e1 a<br \/>\nadorava cegamente e que mais tarde, com ou sem raz\u00e3o, derramaria aquelas mesmas<br \/>\nl\u00e1grimas, rid\u00edculas e vergonhosas, que ela vira decorrendo em quentes camarinhas<br \/>\npelas \u00e1speras e maltratadas barbas do marido de Leoc\u00e1dia. E n\u00e3o obstante,<br \/>\nat\u00e9 ent\u00e3o, aquele matrim\u00f4nio era o seu sonho dourado. Pois agora, nas v\u00e9speras<br \/>\nde obt\u00ea-lo, sentia repugn\u00e2ncia em dar-se ao noivo, e, se n\u00e3o fora a m\u00e3e, seria<br \/>\nmuito capaz de dissolver o ajuste. Mas, da\u00ed a uma semana, a estalagem era<br \/>\ntoda em rebuli\u00e7o desde logo pela manh\u00e3. S\u00f3 se falava em casamento; havia em<br \/>\ncada olhar um sang\u00fc\u00edneo reflexo de noites nupciais. Desfolharam-se rosas \u00e0<br \/>\nporta da Pombinha. \u00c0s onze horas parou um carro \u00e0 entrada do corti\u00e7o com uma<br \/>\nsenhora gorda, vestida de seda cor de p\u00e9rola. Era a madrinha que vinha buscar<br \/>\na noiva para a igreja de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. A cerim\u00f4nia estava marcada para<br \/>\no meio-dia. Toda esta formalidade embatucava os circunstantes, que se alinhavam<br \/>\nim\u00f3veis defronte do n\u00famero 15, com as m\u00e3os cruzadas atr\u00e1s, o rosto paralisado<br \/>\npor uma como\u00e7\u00e3o respeitosa; alguns sorriam enternecidos; quase todos tinham<br \/>\nos olhos ressumbrados d\u2019\u00e1gua. Pombinha surgiu \u00e0 porta de casa, j\u00e1 pronta<br \/>\npara desferir o grande v\u00f4o; de v\u00e9u e grinalda, toda de branco, vaporosa, linda.<br \/>\nParecia comovida; despedia-se dos companheiros atirando-lhes beijos com o<br \/>\nseu ramalhete de flores artificiais. Dona Isabel chorava como crian\u00e7a, abra\u00e7ando<br \/>\nas amigas, uma por uma. &#8211; Deus lhe ponha virtude! exclamou a Machona. E que<br \/>\nlhe d\u00ea um bom parto, quando vier a primeira barriga. A noiva sorria, de olhos<br \/>\nbaixas. Uma f\u00edmbria de desd\u00e9m toldava-lhe a rosada candura de seus l\u00e1bios.<br \/>\nEncaminhou-se para o port\u00e3o, cercada pela b\u00ean\u00e7\u00e3o de toda aquela gente, cujas<br \/>\nl\u00e1grimas rebentaram afinal, feliz cada um por v\u00ea-la feliz e em caminho da<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o que lhe competia na sociedade. &#8211; N\u00e3o! aquela n\u00e3o nascera para isto!&#8230;<br \/>\nsentenciou o Alexandre, retorcendo o reluzente bigode. Seria l\u00e1stima se a<br \/>\ndeixassem ficar aqui! O velho Lib\u00f3rio, cascalhando uma risada decr\u00e9pita, queixou-se<br \/>\nde que o magan\u00e3o do Costa lhe passara a perna roubando-lhe a namorada. Ingrata!<br \/>\nEle que estava disposto a fazer uma asneira! Nenen deu uma corrida at\u00e9 \u00e0 noiva,<br \/>\nna ocasi\u00e3o em que esta chegava \u00e0 carruagem e, estalando-lhe um beijo na boca,<br \/>\npediu-lhe com empenho que se n\u00e3o esquecesse de mandar-lhe um bot\u00e3o da sua<br \/>\ngrinalda de flores de laranjeira. &#8211; Diz que \u00e9 muito bom para quem deseja casar!&#8230;<br \/>\ne eu tenho tanto medo de ficar solteira!&#8230; \u00c9 todo o meu susto!<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>XIII &#8211; XVII<\/h2>\n<p>Mal os carapicus sentiram a aproxima\u00e7\u00e3o dos rivais, um grito de alarma ecoou<br \/>\npor toda a estalagem e o rolo dissolveu-se de improviso, sem que a desordem<br \/>\ncessasse. Cada qual correu \u00e0 casa, rapidamente, em busca do ferro, do pau<br \/>\ne de tudo que servisse para resistir e para matar. Um s\u00f3 impulso os impelia<br \/>\na todos; j\u00e1 n\u00e3o havia ali brasileiros e portugueses, havia um s\u00f3 partido que<br \/>\nia ser atacado pelo partido contr\u00e1rio; os que se batiam ainda h\u00e1 pouco emprestavam<br \/>\narmas uns aos outros, limpando com as costas das m\u00e3os o sangue das feridas.<br \/>\nAgostinho, encostado ao lampi\u00e3o do meio do corti\u00e7o, cantava em altos berros<br \/>\numa coisa que lhe parecia responder \u00e0 m\u00fasica b\u00e1rbara que entoavam l\u00e1 fora<br \/>\nos inimigos; a m\u00e3e dera-lhe licen\u00e7a, a pedido dele, para p\u00f4r um cinto de Nenen,<br \/>\nem que o pequeno enfiou a faca da cozinha. Um mulatinho franzino, que at\u00e9<br \/>\nai n\u00e3o fora notado por ningu\u00e9m no S\u00e3o Rom\u00e3o, postou-se defronte da entrada,<br \/>\nde m\u00e3os limpas, \u00e0 espera dos invasores; e todos tiveram confian\u00e7a nele porque<br \/>\no ladr\u00e3o, al\u00e9m de tudo, estava rindo. Os cabe\u00e7as-de-gato assomaram afinal<br \/>\nao port\u00e3o. Uns cem homens, em que se n\u00e3o via a arma que traziam. Porfiro vinha<br \/>\nna frente, a dan\u00e7ar, de bra\u00e7os abertos, bamboleando o corpo e dando rasteiras<br \/>\npara que ningu\u00e9m lhe estorvasse a entrada. Trazia o chap\u00e9u \u00e0 r\u00e9, com um la\u00e7o<br \/>\nde fita amarela flutuando na copa. &#8211; Ag\u00fcenta! Ag\u00fcenta! Faz frente! clamavam<br \/>\nde dentro os carapicus. E os outros, cantando o seu hino de guerra, entraram<br \/>\ne aproximaram-se lentamente, a dan\u00e7ar como selvagens. As navalhas traziam-nas<br \/>\nabertas e escondidas na palma da m\u00e3o. Os carapicus enchiam a metade do corti\u00e7o.<br \/>\nUm sil\u00eancio arquejado sucedia \u00e0 estrepitosa vozeria do rolo que findara. Sentia-se<br \/>\no hausto impaciente da ferocidade que atirava aqueles dois bandos de capoeiras<br \/>\num contra o outro. E, no entanto, o sol, \u00fanico causador de tudo aquilo, desaparecia<br \/>\nde todo nos limbos do horizonte, indiferente, deixando atr\u00e1s de si as melancolias<br \/>\ndo crep\u00fasculo, que \u00e9 a saudade da terra quando ele se ausenta, levando consigo<br \/>\na alegria da luz e do calor. L\u00e1 na janela do Bar\u00e3o, o Botelho, entusiasmado<br \/>\ncomo sempre por tudo que lhe cheirava a guerra, soltava gritos de aplauso<br \/>\ne dava brados de comando militar. E os cabe\u00e7as-de-gato aproximavam-se cantando,<br \/>\na dan\u00e7ar, rastejando alguns de costas para o ch\u00e3o, firmados nos pulsos e nos<br \/>\ncalcanhares. Dez carapicus sa\u00edram em frente; dez cabe\u00e7as-de-gato se alinharam<br \/>\ndefronte deles. E a batalha principiou, n\u00e3o mais desordenada e cega, por\u00e9m<br \/>\ncom m\u00e9todo, sob o comando de Porfiro que, sempre a cantar ou assoviar, saltava<br \/>\nem todas as dire\u00e7\u00f5es, sem nunca ser alcan\u00e7ado por ningu\u00e9m. Desferiram-se navalhas<br \/>\ncontra navalhas, jogaram-se as cabe\u00e7adas e os voa-p\u00e9s. Par a par, todos os<br \/>\ncapoeiras tinham pela frente um advers\u00e1rio de igual destreza que respondia<br \/>\na cada investida com um salto de gato ou uma queda repentina que anulava o<br \/>\ngolpe. De parte a parte esperavam que o cansa\u00e7o desequilibrasse as for\u00e7as,<br \/>\nabrindo furo \u00e0 vit\u00f3ria; mas um fato veio neutralizar inda uma vez a campanha:<br \/>\nimenso rebent\u00e3o de fogo esgargalhava-se de uma das casas do fundo, o n\u00famero<br \/>\n88. E agora o inc\u00eandio era a valer. Houve nas duas maltas um s\u00fabito espasmo<br \/>\nde terror. Abaixaram-se os ferros e calou-se o hino de morte. Um clar\u00e3o tremendo<br \/>\nensang\u00fcentou o ar, que se fechou logo de fuma\u00e7a fulva. A Bruxa conseguira<br \/>\nafinal realizar o seu sonho de louca: o corti\u00e7o ia arder; n\u00e3o haveria meio<br \/>\nde reprimir aquele cruento devorar de labaredas. Os cabe\u00e7as-de-gato, leais<br \/>\nnas suas justas de partido, abandonaram o campo, sem voltar o rosto, desdenhosos<br \/>\nde aceitar o auxilio de um sinistro e dispostos at\u00e9 a socorrer o inimigo,<br \/>\nse assim fosse preciso. E nenhum dos carapicus os feriu pelas costas. A luta<br \/>\nficava para outra ocasi\u00e3o. E a cena transformou-se num relance; os mesmos<br \/>\nque barateavam t\u00e3o facilmente a vida, apressavam-se agora a salvar os miser\u00e1veis<br \/>\nbens que possu\u00edam sobre a terra. Fechou-se um entra-e-sai de maribondos defronte<br \/>\ndaquelas cem casinhas amea\u00e7adas pelo fogo. Homens e mulheres corriam de c\u00e1<br \/>\npara l\u00e1 com os tarecos ao ombro, numa balb\u00fardia de doidos. O p\u00e1tio e a rua<br \/>\nenchiam-se agora de camas velhas e colch\u00f5es espocados. Ningu\u00e9m se conhecia<br \/>\nnaquela zumba de gritos sem nexo, e choro de crian\u00e7as esmagadas, e pragas<br \/>\narrancadas pela dor e pelo desespero. Da casa do Bar\u00e3o saiam clamores apopl\u00e9ticos;<br \/>\nouviam-se os guinchos de Zulmira que se espolinhava com um ataque. E come\u00e7ou<br \/>\na aparecer \u00e1gua. Quem a trouxe? Ningu\u00e9m sabia diz\u00ea-lo; mas viam-se baldes<br \/>\ne baldes que se despejavam sobre as chamas. Os sinos da vizinhan\u00e7a come\u00e7aram<br \/>\na badalar. E tudo era um clamor. A Bruxa surgiu \u00e0 janela da sua casa, como<br \/>\n\u00e0 boca de uma fornalha acesa. Estava horr\u00edvel; nunca fora t\u00e3o bruxa. O seu<br \/>\nmoreno trigueiro, de cabocla velha, reluzia que nem metal em brasa; a sua<br \/>\ncrina preta, desgrenhada, escorrida e abundante como as das \u00e9guas selvagens,<br \/>\ndava-lhe um car\u00e1ter fant\u00e1stico de f\u00faria sa\u00edda do inferno. E ela ria-se, \u00e9bria<br \/>\nde<\/p>\n<p>satisfa\u00e7\u00e3o, sem sentir as queimaduras e as feridas, vitoriosa no meio daquela<br \/>\norgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em segredo a sua alma extravagante<br \/>\nde maluca. Ia atirar-se c\u00e1 para fora, quando se ouviu estalar o madeiramento<br \/>\nda casa incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca num mont\u00e3o<br \/>\nde brasas. Os sinos continuavam a badalar aflitos. Surgiam aguadeiros com<br \/>\nas suas pipas em carro\u00e7a, alvoro\u00e7ados, fazendo cada qual maior empenho em<br \/>\nchegar antes dos outros e apanhar os dez mil-r\u00e9is da gratifica\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia<br \/>\ndefendia a passagem ao povo que queria entrar. A rua l\u00e1 fora estava j\u00e1 atravancada<br \/>\ncom o despojo de quase toda a estalagem. E as labaredas iam galopando desembestadas<br \/>\npara a direita e para a esquerda do n\u00famero 88. Um papagaio, esquecido \u00e0 parede<br \/>\nde uma das casinhas e preso \u00e0 gaiola, gritava furioso, como se pedisse socorro.<br \/>\nDentro de meia hora o corti\u00e7o tinha de ficar em cinzas. Mas um fragor de repiques<br \/>\nde campainhas e estridente silvar de v\u00e1lvulas encheu de s\u00fabito todo o quarteir\u00e3o,<br \/>\nanunciando que chegava o corpo dos bombeiros. E logo em seguida apontaram<br \/>\ncarros \u00e0 desfilada, e um bando de dem\u00f4nios de blusa clara, armados uns de<br \/>\narchotes e outros de escadilhas de ferro, apoderaram-se do sinistro, dominando-o<br \/>\nincontinenti, como uma expedi\u00e7\u00e3o m\u00e1gica, sem uma palavra, sem hesita\u00e7\u00f5es e<br \/>\nsem atropelos. A um s\u00f3 tempo viram-se fartas mangas d\u2019\u00e1gua chicoteando<br \/>\no fogo por todos os lados; enquanto, sem se saber como, homens, mais \u00e1geis<br \/>\nque macacos, escalavam os telhados abrasados por escadas que mal se distinguiam;<br \/>\ne outros invadiam o cora\u00e7\u00e3o vermelho do inc\u00eandio, a dardejar duchas em torno<br \/>\nde si, rodando, saltando, piruetando, at\u00e9 estrangularem as chamas que se atiravam<br \/>\nferozes para cima deles, como dentro de um inferno; ao passo que outros, c\u00e1<br \/>\nde fora, imperturb\u00e1veis, com uma limpeza de m\u00e1quina moderna, fuzilavam de<br \/>\n\u00e1gua toda a estalagem, n\u00famero por n\u00famero, resolvidos a n\u00e3o deixar uma s\u00f3 telha<br \/>\nenxuta. O povo aplaudia-os entusiasmado, j\u00e1 esquecido do desastre e s\u00f3 aten\u00e7\u00e3o<br \/>\npara aquele duelo contra o inc\u00eandio. Quando um bombeiro, de cima do telhado,<br \/>\nconseguiu sufocar uma ninhada de labaredas, que surgia defronte dele, rebentou<br \/>\nc\u00e1 debaixo uma roda de palmas, e o her\u00f3i voltou-se para a multid\u00e3o, sorrindo<br \/>\ne agradecendo. Algumas mulheres atiravam-lhe beijos, entre brados de ova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2><a name=\"18\"><\/a>XVIII<\/h2>\n<p>Por esse tempo, o amigo de Bertoleza, notando que o velho Lib\u00f3rio, depois<br \/>\nde escapar de morrer na confus\u00e3o do inc\u00eandio, fugia agoniado para o seu esconderijo,<br \/>\nseguiu-o com disfarce e observou que o miser\u00e1vel, mal deu luz \u00e0 candeia, come\u00e7ou<br \/>\na tirar ofegante alguma coisa do seu colch\u00e3o imundo. Eram garrafas. Tirou<br \/>\na primeira, a segunda, meia d\u00fazia delas. Depois puxou \u00e0s pressas a coberta<br \/>\ndo catre e fez uma trouxa. Ia de novo ganhar a sa\u00edda, mas soltou um gemido<br \/>\nsurdo e caiu no ch\u00e3o sem for\u00e7a, arrevessando uma golfada de sangue e cingindo<br \/>\ncontra o peito o misterioso embrulho. Jo\u00e3o Rom\u00e3o apareceu, e ele, assim que<br \/>\no viu, redobrou de afli\u00e7\u00e3o e torceu-se todo sobre as garrafas, defendendo-as<br \/>\ncom o corpo inteiro, a olhar aterrado e de esguelha para o seu interventor,<br \/>\ncomo se dera cara a cara com um bandido. E, a cada passo que o vendeiro adiantava,<br \/>\no tremor e o sobressalto do velho recresciam, tirando-lhe da garganta grunhidos<br \/>\nroucos de animal batido e assustado. Duas vezes tentou erguer-se; duas vezes<br \/>\nrolou por terra moribundo. Jo\u00e3o Rom\u00e3o objurgou-lhe que qualquer demora ali<br \/>\nseria morte certa: o inc\u00eandio avan\u00e7ava. Quis ajud\u00e1-lo a carregar o fardo.<br \/>\nLib\u00f3rio, por \u00fanica resposta, arrega\u00e7ou os bei\u00e7os, mostrando as gengivas sem<br \/>\ndentes e tentando morder a m\u00e3o que o vendeiro estendia j\u00e1 sobre as garrafas.<br \/>\nMas, l\u00e1 de cima, a ponta de uma l\u00edngua; de fogo varou o teto e iluminou de<br \/>\nvermelho a miser\u00e1vel pocilga. Lib\u00f3rio tentou ainda um esfor\u00e7o supremo, e nada<br \/>\np\u00f4de, come\u00e7ando a tremer da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, a tremer, a tremer, grudando-se<br \/>\ncada vez mais \u00e0 sua trouxa, e j\u00e1 estrebuchava, quando o vendeiro lha arrancou<br \/>\ndas garras com viol\u00eancia. Tamb\u00e9m era tempo, porque, depois de insinuar a l\u00edngua;<br \/>\no fogo mostrou a boca e escancarou afinal a goela devoradora. O tratante fugiu<br \/>\nde carreira, abra\u00e7ado \u00e0 sua presa, enquanto o velho, sem conseguir p\u00f4r-se<br \/>\nde p\u00e9, rastreava na pista dele, dificultosamente, estrangulado de desespero<br \/>\nsenil, j\u00e1 sem fala, rosnando uns vagidos de morte, os olhos turvos, todo ele<br \/>\nroxo, os dedos enri\u00e7ados como as unhas de abutre ferido. Jo\u00e3o Rom\u00e3o atravessou<br \/>\no p\u00e1tio de carreira e meteu-se na sua toca para esconder o furto. Ao primeiro<br \/>\nexame, de relance, reconheceu logo que era dinheiro em papel o que havia nas<br \/>\ngarrafas. Enterrou a trouxa na prateleira de um arm\u00e1rio velho cheio de frascos<br \/>\ne voltou l\u00e1 fora para acompanhar o servi\u00e7o dos bombeiros. \u00c0 meia-noite estava<br \/>\nj\u00e1 completamente extinto o fogo e quatro sentinelas rondavam a ru\u00edna das trinta<br \/>\ne tantas casinhas que arderam. O vendeiro s\u00f3 p\u00f4de voltar \u00e0 trouxa das garrafas<br \/>\n\u00e0s cinco horas da manh\u00e3, quando Bertoleza, que fizera prod\u00edgios contra o inc\u00eandio,<br \/>\npassava pelo sono, encostada na cama, com a saia ainda encharcada de \u00e1gua,<br \/>\no corpo cheio de pequenas queimaduras. Verificou que as garrafas eram oito<br \/>\ne estavam cheias at\u00e9 \u00e0 boca de notas de todos os valores, que ai foram metidas,<br \/>\numa a uma, depois de cuidadosamente enroladas e dobradas \u00e0 moda de bilhetes<br \/>\nde rifa. Receoso, por\u00e9m, de que a crioula n\u00e3o estivesse bem adormecida e desse<br \/>\npela coisa, Jo\u00e3o Rom\u00e3o resolveu adiar para mais tarde a contagem do dinheiro<br \/>\ne guardou o tesouro noutro lugar mais seguro. No dia seguinte a pol\u00edcia averiguou<br \/>\nos destro\u00e7os do inc\u00eandio e mandou proceder logo ao desentulho, para retirar<br \/>\nos cad\u00e1veres que houvesse. Rita desaparecera da estalagem durante a confus\u00e3o<br \/>\nda noite; Piedade ca\u00edra de cama, com um febr\u00e3o de quarenta graus; a Machona<br \/>\ntinha uma orelha rachada e um p\u00e9 torcido; a das Dores a cabe\u00e7a partida; o<br \/>\nBruno levara uma navalhada na coxa; dois trabalhadores da pedreira estavam<br \/>\ngravemente feridos; um italiano perdera dois dentes da frente, e uma filhinha<br \/>\nda Augusta Carne-Mole morrera esmagada pelo povo. E todos, todos se queixavam<br \/>\nde danos recebidos e revoltaram-se contra os rigores da sorte. O dia passou-se<br \/>\ninteiro na computa\u00e7\u00e3o dos preju\u00edzos e a dar-se balan\u00e7o no que se salvara do<br \/>\ninc\u00eandio. Sentia-se um fartum aborrecido de estorrilho e cinza molhada. Um<br \/>\nduro sil\u00eancio de desconsolo embrutecia aquela pobre gente. Vultos sombrios,<br \/>\nde m\u00e3os cruzadas atr\u00e1s, permaneciam horas esquecidas, a olhar im\u00f3veis os esqueletos<br \/>\ncarbonizados e ainda \u00famidos das casinhas queimadas. Os cad\u00e1veres da Bruxa<br \/>\ne do Lib\u00f3rio foram carregados para o meio do p\u00e1tio, disformes, horrorosos,<br \/>\ne jaziam entre duas velas acesas, ao relento, \u00e0 espera do carro da Miseric\u00f3rdia.<br \/>\nEntrava gente da rua para os ver; descobriam-se defronte deles, e alguns curiosos<br \/>\nlan\u00e7avam piedosamente uma moeda de cobre no prato que, aos p\u00e9s dos dois defuntos,<br \/>\nrecebia a esmola para a mortalha. Em casa de Augusta, sobre uma mesa coberta<br \/>\npor uma cerimoniosa toalha de rendas, estava o cadaverzinho da filha morta,<br \/>\ntodo enfeitado de flores, com um Cristo de lat\u00e3o \u00e0 cabeceira e dois c\u00edrios<br \/>\nque ardiam tristemente. Alexandre, assentado a um canto da sala, com o rosto<br \/>\nescondido nas m\u00e3os, chorava, aguardando o p\u00easame das visitas; fardara-se,<br \/>\ns\u00f3 para isso, com o seu melhor uniforme, coitado! O enterro da pequenita foi<br \/>\nfeito \u00e0 custa de L\u00e9onie, que apareceu \u00e0s tr\u00eas da tarde, vestida de cetineta<br \/>\ncor de creme, num carrinho dirigido por um cocheiro de cal\u00e7\u00e3o de flanela branca<br \/>\ne libr\u00e9 agaloada de ouro. O Miranda apresentou-se na estalagem logo pela manh\u00e3,<br \/>\no ar compungido, por\u00e9m superior. Deu um ligeiro abra\u00e7o em Jo\u00e3o Rom\u00e3o, falou-lhe<br \/>\nem voz baixa, lamentando aquela cat\u00e1strofe, mas felicitou-o porque tudo estava<br \/>\nno seguro. O vendeiro, com efeito, impressionado com a primeira tentativa<br \/>\nde inc\u00eandio, tratara de segurar todas as suas propriedades; e, com tamanha<br \/>\ninspira\u00e7\u00e3o o fez que, agora, em vez de lhe trazer o fogo preju\u00edzo, at\u00e9 lhe<br \/>\ndeixaria lucros.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, ah, meu caro! Cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a doente!&#8230;<br \/>\nsegredou o dono do corti\u00e7o, a rir. Olhe, aqueles \u00e9 que com certeza n\u00e3o gostaram<br \/>\nda brincadeira! acrescentou, apontando para o lado em que maior era o grupo<br \/>\ndos infelizes que tomavam conta dos restos de seus tarecos atirados em mont\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Ah, mas esses, que diabo! nada t\u00eam que perder!&#8230; considerou o outro. E<br \/>\nos dois vizinhos foram at\u00e9 o fim do p\u00e1tio, conversando em voz baixa. &#8211; Vou<br \/>\nreedificar tudo isto! declarou Jo\u00e3o Rom\u00e3o, com um gesto en\u00e9rgico que abrangia<br \/>\ntoda aquela Babil\u00f4nia desmantelada. E exp\u00f4s o seu projeto: tencionava alargar<br \/>\na estalagem, entrando um pouco pelo capinzal. Levantaria do lado esquerdo,<br \/>\nencostado ao muro do Miranda, um novo correr de casinhas, aproveitando assim<br \/>\nparte do p\u00e1tio, que n\u00e3o precisava ser t\u00e3o grande; sobre as outras levantaria<br \/>\num segundo andar, com uma longa varanda na frente toda gradeada. Negociozinho<br \/>\npara ter ali, a dar dinheiro, em vez de um centena de c\u00f4modos, nada menos<br \/>\nde quatrocentos a quinhentos, de doze a vinte e cinco mil-r\u00e9is cada um! Ah!<br \/>\nele havia de mostrar como se fazem as coisas bem feitas. O Miranda escutava-o<br \/>\ncalado, fitando-o com respeito. &#8211; Voc\u00ea \u00e9 um homem dos diabos! disse afinal,<br \/>\nbatendo-lhe no ombro. E, ao sair de l\u00e1, no seu cora\u00e7\u00e3o vulgar de homem que<br \/>\nnunca produziu e levou a vida, como todo o mercador, a explorar a boa-f\u00e9 de<br \/>\nuns e o trabalho intelectual de outros, trazia uma grande admira\u00e7\u00e3o pelo vizinho.<br \/>\nO que ainda lhe restava da primitiva inveja transformou-se nesse instante<br \/>\nnum entusiasmo ilimitado e cego. &#8211; \u00c9 um filho da m\u00e3e! resmungava ele pela<br \/>\nrua, em caminho do seu armaz\u00e9m. \u00c9 de muita for\u00e7a! Pena \u00e9 estar metido com<br \/>\na peste daquela crioula! Nem sei como um homem t\u00e3o esperto caiu em semelhante<br \/>\nasneira! S\u00f3 l\u00e1 pelas dez e tanto da noite foi que Jo\u00e3o Rom\u00e3o, depois de certificar-se<br \/>\nde que Bertoleza ferrara num sono de pedra, resolveu dar balan\u00e7o \u00e0s garrafas<br \/>\nde Lib\u00f3rio. O diabo \u00e9 que ele tamb\u00e9m quase que n\u00e3o se ag\u00fcentava nas pernas<br \/>\ne sentia os olhos a fecharem-se-lhe de cansa\u00e7o. Mas n\u00e3o podia sossegar sem<br \/>\nsaber quanto ao certo apanhara do avarento. Acendeu uma vela, foi buscar a<br \/>\nimunda e preciosa trouxa, e carregou com esta para a casa de pasto ao lado<br \/>\nda cozinha. Dep\u00f4s tudo sobre uma das mesas, assentou-se, e principiou a tarefa.<br \/>\nTomou a primeira garrafa, tentou despej\u00e1-la, batendo-lhe no fundo; foi-lhe,<br \/>\npor\u00e9m, necess\u00e1rio extrair as notas, uma por uma, porque estavam muito socadas<br \/>\ne peganhentas de bolor. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o que as fisgava, ia logo as desenrolando<br \/>\ne estendendo cuidadosamente em ma\u00e7o, depois de secar-lhes a umidade no calor<br \/>\ndas m\u00e3os e da vela. E o prazer que ele desfrutava neste servi\u00e7o punha-lhe<br \/>\nem jogo todos os sentidos e afugentava-lhe o sono e as fadigas. Mas, ao passar<br \/>\n\u00e0 segunda garrafa, sofreu uma dolorosa decep\u00e7\u00e3o: quase todas as c\u00e9dulas estavam<br \/>\nj\u00e1 prescritas pelo Tesouro; veio-lhe ent\u00e3o o receio de que a melhor parte<br \/>\ndo bolo se achasse inutilizada: restava-lhe todavia a esperan\u00e7a de que fosse<br \/>\naquela garrafa a mais antiga de todas e a pior por conseguinte. E continuou<br \/>\ncom mais ardor o seu delicioso trabalho.<\/p>\n<p>Tinha j\u00e1 esvaziado seis, quando notou que a vela, consumida at\u00e9 o fim, bruxuleava<br \/>\na extinguir-se; foi buscar outra nova e viu ao mesmo tempo que horas eram.<br \/>\n&#8220;Oh! como a noite correra depressa!&#8230;&#8221; Tr\u00eas e meia da madrugada. &#8220;Parecia<br \/>\nimposs\u00edvel!&#8221; &#8221; Ao terminar a contagem, as primeiras carro\u00e7as passavam l\u00e1 fora<br \/>\nna rua. &#8211; Quinze contos, quatrocentos e tantos mil-r\u00e9is!&#8230; disse Jo\u00e3o Rom\u00e3o<br \/>\nentre dentes, sem se fartar de olhar para as pilhas de c\u00e9dulas que tinha defronte<br \/>\ndos olhos. Mais oito contos e seiscentos eram em notas j\u00e1 prescritas. E o<br \/>\nvendeiro, \u00e0 vista de t\u00e3o bela soma, assim t\u00e3o estupidamente comprometida,<br \/>\nsentiu a indigna\u00e7\u00e3o de um roubado. Amaldi\u00e7oou aquele maldito velho Lib\u00f3rio<br \/>\npor tamanho relaxamento; amaldi\u00e7oou o governo porque limitava, com inten\u00e7\u00f5es<br \/>\nvelhacas, o prazo da circula\u00e7\u00e3o dos seus t\u00edtulos; chegou at\u00e9 a sentir remorsos<br \/>\npor n\u00e3o se ter apoderado do tesouro do avarento, logo que este, um dos primeiros<br \/>\nmoradores do corti\u00e7o, lhe apareceu com o colch\u00e3o \u00e0s costas, a pedir chorando<br \/>\nque lhe dessem de esmola um cantinho onde ele se metesse com sua mis\u00e9ria.<br \/>\nJo\u00e3o Rom\u00e3o tivera sempre uma vidente cobi\u00e7a sobre aquele dinheiro engarrafado;<br \/>\nfariscara-o desde que fitou de perto os olhinhos vivos e redondos do abutre<br \/>\ndecr\u00e9pito, e convenceu-se de todo, notando que o miser\u00e1vel dava pronto sumi\u00e7o<br \/>\na qualquer moedinha que lhe caia nas garras. &#8211; Seria um ato de justi\u00e7a! concluiu<br \/>\nJo\u00e3o Rom\u00e3o; pelo menos seria impedir que todo este pobre dinheiro apodrecesse<br \/>\nt\u00e3o barbaramente! Ora adeus! mas sete ricos continhos quase inteiros ficavam-lhe<br \/>\nnas unhas. &#8220;E depois, que diabo! os outros assim mesmo haviam de ir com jeito&#8230;<br \/>\nHoje impingiam-se dois mil-r\u00e9is, amanh\u00e3 cinco. N\u00e3o nas compras, mas nos trocos&#8230;<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o? Algu\u00e9m reclamaria, mas muitos engoliriam a bucha&#8230; Para isso<br \/>\nn\u00e3o faltavam estrangeiros e caipiras!&#8230; E demais, n\u00e3o era crime!&#8230; Sim!<br \/>\nse havia nisso ladroeira, queixassem-se do governo! o governo \u00e9 que era o<br \/>\nladr\u00e3o!&#8221; &#8211; Em todo caso, rematou ele, guardando o dinheiro bom e mau e dispondo-se<br \/>\na descansar; isto j\u00e1 serve para principiar as obras! Deixem estar, que daqui<br \/>\na dias eu lhes mostrarei para quanto presto!<\/p>\n<h2><a name=\"19\"><\/a>XIX<\/h2>\n<p>Da\u00ed a dias, com efeito, a estalagem metia-se em obras. \u00c0 desordem do desentulho<br \/>\ndo inc\u00eandio sucedia a do trabalho dos pedreiros; martelava-se ali de pela<br \/>\nmanh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 noite, o que ali\u00e1s n\u00e3o impedia que as lavadeiras continuassem<br \/>\na bater roupa e as engomadeiras reunissem ao barulho das ferramentas o choroso<br \/>\nfalsete das suas eternas cantigas. Os que ficaram sem casa foram aboletados<br \/>\na trouxe e mouxe por todos os cantos, \u00e0 espera dos novos c\u00f4modos. Ningu\u00e9m<br \/>\nse mudou para o &#8220;Cabe\u00e7a-de-Gato&#8221;.<\/p>\n<p>As obras principiaram pelo lado esquerdo do corti\u00e7o, o lado do Miranda; os<br \/>\nantigos moradores tinham prefer\u00eancia e vantagens nos pre\u00e7os. Um dos italianos<br \/>\nferidos morreu na Miseric\u00f3rdia e o outro, tamb\u00e9m l\u00e1, continuava ainda em risco<br \/>\nde vida. Bruno recolhera-se \u00e0 Ordem de que era irm\u00e3o, e Leoc\u00e1dia, que n\u00e3o<br \/>\nquis atender \u00e0quela carta escrita por Pombinha, resolveu-se a ir visitar o<br \/>\nseu homem no hospital. Que alegr\u00e3o para o infeliz a volta da mulher, aquela<br \/>\nmulher levada dos diabos, mas de carne dura, a quem ele, apesar de tudo, queria<br \/>\nmuito. Com a visita reconciliaram-se, chorando ambos, e Leoc\u00e1dia decidiu tornar<br \/>\npara o S\u00e3o Rom\u00e3o e viver de novo com o marido. Agora fazia-se muito s\u00e9ria<br \/>\ne amea\u00e7ava com pancada a quem lhe propunha brejeirices. Piedade, essa e que<br \/>\nse levantou das febres completamente transformada. N\u00e3o parecia a mesma depois<br \/>\ndo abandono de Jer\u00f4nimo; emagrecera em extremo, perdera as cores do rosto,<br \/>\nficara feia, triste e resmungona; mas n\u00e3o se queixava, e ningu\u00e9m lhe ouvia<br \/>\nfalar no nome do esposo. Esses meses, durante as obras, foram uma \u00e9poca especial<br \/>\npara a estalagem. O corti\u00e7o n\u00e3o dava id\u00e9ia do seu antigo car\u00e1ter, t\u00e3o acentuado<br \/>\ne, no entanto, t\u00e3o misto: aquilo agora parecia uma grande oficina improvisada,<br \/>\num arsenal, em cujo fragor a gente s\u00f3 se entende por sinais. As lavadeiras<br \/>\nfugiram para o capinzal dos fundos, porque o p\u00f3 da terra e da madeira sujava-lhes<br \/>\na roupa lavada. Mas, dentro de pouco tempo, estava tudo pronto; e, com imenso<br \/>\npasmo, viram que a venda, a sebosa bodega, onde Jo\u00e3o Rom\u00e3o se fez gente, ia<br \/>\ntamb\u00e9m entrar em obras. O vendeiro resolvera aproveitar dela somente algumas<br \/>\ndas paredes, que eram de um metro de largura, talhadas \u00e0 portuguesa; abriria<br \/>\nas portas em arco, suspenderia o teto e levantaria um sobrado, mais alto que<br \/>\no do Miranda e, com toda a certeza, mais vistoso. Pr\u00e9dio para meter o do outro<br \/>\nno chinelo; quatro janelas de frente, oito de lado, com um terra\u00e7o ao fundo.<br \/>\nO lugar em que ele dormia com Bertoleza, a cozinha e a casa de pasto seriam<br \/>\nabobadadas, formando, com a parte de taverna, um grande armaz\u00e9m, em que o<br \/>\nseu com\u00e9rcio iria fortalecer-se e alargar-se. O Bar\u00e3o e o Botelho apareciam<br \/>\npor l\u00e1 quase todos os dias, ambos muito interessados pela prosperidade do<br \/>\nvizinho; examinavam os materiais escolhidos para a constru\u00e7\u00e3o, batiam com<br \/>\na biqueira do chap\u00e9u de sol no pinho-de-riga destinado ao assoalho, e afetando-se<br \/>\nbons entendedores, tomavam na palma da m\u00e3o e esfarelavam entre os dedos um<br \/>\npunhado da terra e da cal com que os oper\u00e1rios faziam barro. \u00c0s vezes chegavam<br \/>\na ralhar com os trabalhadores, quando lhes parecia que n\u00e3o iam bem no servi\u00e7o!<br \/>\nJo\u00e3o Rom\u00e3o, agora sempre de palet\u00f3, engravatado, cal\u00e7as brancas, colete e<br \/>\ncorrente de rel\u00f3gio, j\u00e1 n\u00e3o parava na venda, e s\u00f3 acompanhava as obras na<br \/>\nfolga das ocupa\u00e7\u00f5es da rua. Principiava a tomar tino no jogo da Bolsa; comia<br \/>\nem hot\u00e9is caros e bebia cerveja em larga camaradagem com capitalistas nos<br \/>\ncaf\u00e9s do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>E a crioula? Como havia de ser?<\/p>\n<p>Era isto justamente o que, tanto o Bar\u00e3o como o Botelho, morriam por que<br \/>\nlhe dissessem. Sim, porque aquela boa casa que se estava fazendo, e os ricos<br \/>\nm\u00f3veis encomendados, e mais as pratas e as porcelanas que haviam de vir, n\u00e3o<br \/>\nseriam decerto para os bei\u00e7os da negra velha! Conserv\u00e1-la-ia como criada?<br \/>\nImposs\u00edvel! Todo Botafogo sabia que eles at\u00e9 ai fizeram vida comum!<\/p>\n<p>Todavia, tanto o Miranda, como o outro, n\u00e3o se animavam a abrir o bico a<br \/>\nesse respeito com o vizinho e contentavam-se em boquejar entre si misteriosamente,<br \/>\npalpitando ambos por ver a sa\u00edda que o vendeiro acharia para semelhante situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Maldita preta dos diabos! Era ela o \u00fanico defeito, o sen\u00e3o de um homem t\u00e3o<br \/>\nimportante e t\u00e3o digno.<\/p>\n<p>Agora, n\u00e3o se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza fosse jantar<br \/>\n\u00e0 casa do Miranda. Iam juntos ao teatro. Jo\u00e3o Rom\u00e3o dava o bra\u00e7o \u00e0 Zulmira,<br \/>\ne, procurando galante\u00e1-la e mais ao resto da fam\u00edlia, desfazia-se em obs\u00e9quios<br \/>\nbrutais e dispendiosos, com uma franqueza exagerada que n\u00e3o olhava gastos.<br \/>\nSe tinham de tomar alguma coisa, ele fazia vir logo tr\u00eas, quatro garrafas<br \/>\nao mesmo tempo, pedindo sempre o triplo do necess\u00e1rio e acumulando compras<br \/>\nin\u00fateis de doces, flores e tudo o que aparecia. Nos leil\u00f5es das festas de<br \/>\narraial era t\u00e3o feroz a sua febre de obsequiar a gente do Miranda, que nunca<br \/>\nvoltava para casa sem um homem atr\u00e1s, carregado com os mimos que o vendeiro<br \/>\narrematava.<\/p>\n<p>E Bertoleza bem que compreendia tudo isso e bem que estranhava a transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo amigo. Ele ultimamente mal se chegava para ela e, quando o fazia, era com<br \/>\ntal repugn\u00e2ncia, que antes n\u00e3o o fizesse. A desgra\u00e7ada muita vez sentia-lhe<br \/>\ncheiro de outras mulheres, perfumes de cocotes estrangeiras e chorava em segredo,<br \/>\nsem animo de reclamar os seus direitos. Na sua obscura condi\u00e7\u00e3o de animal<br \/>\nde trabalho, j\u00e1 n\u00e3o era amor o que a m\u00edsera desejava, era somente<\/p>\n<p>confian\u00e7a no amparo da sua velhice quando de todo lhe faltassem as for\u00e7as<br \/>\npara ganhar a vida. E contentava-se em suspirar no meio de grandes sil\u00eancios<br \/>\ndurante o servi\u00e7o de todo o dia, covarde e resignada, como seus pais que a<br \/>\ndeixaram nascer e crescer no cativeiro. Escondia-se de todos, mesmo da gentalha<br \/>\ndo frege e da estalagem, envergonhada de si pr\u00f3pria, amaldi\u00e7oando-se por ser<br \/>\nquem era, triste de sentir-se a mancha negra, a indecorosa n\u00f3doa daquela prosperidade<br \/>\nbrilhante e clara.<\/p>\n<p>E, no entanto, adorava o amigo, tinha por ele o fanatismo irracional das<br \/>\ncaboclas do Amazonas pelo branco a que se escravizam, dessas que morrem de<br \/>\nci\u00fames, mas que tamb\u00e9m s\u00e3o capazes de matar-se para poupar ao seu \u00eddolo a<br \/>\nvergonha do seu amor. O que custava aquele homem consentir que ela, uma vez<br \/>\npor outra, se chegasse para junto dele? Todo o dono, nos momentos de bom humor,<br \/>\nafaga o seu c\u00e3o&#8230; Mas qual! o destino de Bertoleza fazia-se cada vez mais<br \/>\nestrito e mais sombrio; pouco a pouco deixara totalmente de ser a amante do<br \/>\nvendeiro, para ficar sendo s\u00f3 uma sua escrava. Como sempre, era a primeira<br \/>\na erguer-se e a ultima a deitar-se; de manh\u00e3 escamando peixe, \u00e0 noite vendendo-o<br \/>\n\u00e0 porta, para descansar da trabalheira grossa das horas de sol; sempre sem<br \/>\ndomingo nem dia santo, sem tempo para cuidar de si, feia, gasta, imunda, repugnante,<br \/>\ncom o cora\u00e7\u00e3o eternamente emprenhado de desgostos que nunca vinham \u00e0 luz.<br \/>\nAfinal, convencendo-se de que ela, sem ter ainda morrido, j\u00e1 n\u00e3o vivia para<br \/>\nningu\u00e9m, nem tampouco para si, desabou num fundo entorpecimento ap\u00e1tico, estagnado<br \/>\ncomo um charco podre que causa nojo. Fizera-se \u00e1spera, desconfiada, sobrolho<br \/>\ncarrancudo, uma linha dura de um canto ao outro da boca. E durante dias inteiros,<br \/>\nsem interromper o servi\u00e7o, que ela fazia agora automaticamente, por um h\u00e1bito<br \/>\nde muitos anos, gesticulava e mexia com os l\u00e1bios, monologando sem pronunciar<br \/>\nas palavras. Parecia indiferente a tudo, a tudo que a cercava. N\u00e3o obstante,<br \/>\ncerto dia em que Jo\u00e3o Rom\u00e3o conversou muito com Botelho, as l\u00e1grimas saltaram<br \/>\ndos olhos da infeliz, e ela teve de abandonar a obriga\u00e7\u00e3o, porque o pranto<br \/>\ne os solu\u00e7os n\u00e3o lhe deixavam fazer nada. Botelho havia dito ao vendeiro:<br \/>\n&#8211; Fa\u00e7a o pedido! \u00c9 ocasi\u00e3o. &#8211; Hein? &#8211; Pode pedir a m\u00e3o da pequena. Est\u00e1 tudo<br \/>\npronto! &#8211; O Bar\u00e3o d\u00e1-ma? &#8211; D\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Tem certeza disso?<\/p>\n<p>&#8211; Ora! se n\u00e3o tivesse n\u00e3o lho diria deste modo!<\/p>\n<p>&#8211; Ele prometeu?<\/p>\n<p>&#8211; Falei-lhe; fiz-lhe o pedido em seu nome. Disse que estava autorizado por<br \/>\nvoc\u00ea. Fiz mal? &#8211; Mal? Fez muito bem. Creio at\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 preciso mais nada!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, se o Miranda n\u00e3o vier logo ao seu encontro \u00e9 bom voc\u00ea lhe falar, compreende?<br \/>\n&#8211; Ou escrever. &#8211; Tamb\u00e9m! &#8211; E a menina? &#8211; Respondo por ela. Voc\u00ea n\u00e3o tem continuado<br \/>\na receber as flores? &#8211; Tenho. &#8211; Pois ent\u00e3o n\u00e3o deixe pelo seu lado de ir mandando<br \/>\ntamb\u00e9m as suas e fa\u00e7a o que lhe disse. Atire-se, seu Jo\u00e3o, atire-se enquanto<br \/>\no angu est\u00e1 quente! Por outro lado, Jer\u00f4nimo empregara-se na pedreira de S\u00e3o<br \/>\nDiogo, onde trabalhava dantes, e morava agora com a Rita numa estalagem da<br \/>\nCidade Nova. Tiveram de fazer muita despesa para se instalarem; foi-lhes preciso<br \/>\ncomprar de novo todos os arranjos de casa, porque do S\u00e3o Rom\u00e3o Jer\u00f4nimo s\u00f3<br \/>\nlevou dinheiro, dinheiro que ele j\u00e1 n\u00e3o sabia poupar. Com o asseio da mulata<br \/>\na sua casinha ficou, todavia, que era um regalo; tinham cortinado na cama,<br \/>\nlen\u00e7\u00f3is de linho, fronhas de renda, muita roupa branca, para mudar todos os<br \/>\ndias, toalhas de mesa, guardanapos; comiam em pratos de porcelana e usavam<br \/>\nsabonetes finos. Plantaram \u00e0 porta uma trepadeira que subia para o telhado,<br \/>\nabrindo pela manh\u00e3 flores escarlates, de que as abelhas gostavam muito; penduraram<br \/>\ngaiolas de passarinho na sala de jantar; sortiram a despensa de tudo que mais<br \/>\ngostavam; compraram galinhas e marrecos e fizeram um banheiro s\u00f3 para eles,<br \/>\nporque o da estalagem repugnou \u00e0 baiana que, nesse ponto, era muito escrupulosa.<br \/>\nA primeira parte da sua lua-de-mel foi uma cadeia de delicias continuas; tanto<br \/>\nele como ela, pouco ou nada trabalharam; a vida dos dois resumira-se, quase<br \/>\nque exclusivamente, nos oitos palmos de colch\u00e3o novo, que nunca<\/p>\n<p>chegava a esfriar de todo. Jamais a exist\u00eancia pareceu t\u00e3o boa e corredia<br \/>\npara o portugu\u00eas; aqueles primeiros dias fugiram-lhe como estrofes seguidas<br \/>\nde uma deliciosa can\u00e7\u00e3o de amor, apenas espacejada pelo estribilho dos beijos<br \/>\nem dueto; foi um prazer prolongado e amplo, bebido sem respirar, sem abrir<br \/>\nos olhos, naquele colo carnudo e dourado da mulata, a que o cavouqueiro se<br \/>\nabandonara como um b\u00eabedo que adormece abra\u00e7ado a um garraf\u00e3o inesgot\u00e1vel<br \/>\nde vinho gostoso. Estava completamente mudado. Rita apagara-lhe a \u00faltima r\u00e9stia<br \/>\ndas recorda\u00e7\u00f5es da p\u00e1tria; secou, ao calor dos seus l\u00e1bios grossos e vermelhos,<br \/>\na derradeira l\u00e1grima de saudade, que o desterrado lan\u00e7ou do cora\u00e7\u00e3o com o<br \/>\nextremo arpejo que a sua guitarra suspirou! A guitarra! substituiu-a ela pelo<br \/>\nviol\u00e3o baiano, e deu-lhe a ele uma rede, um cachimbo, e embebedou-lhe os sonhos<br \/>\nde amante prostrado com as suas cantigas do norte, tristes, deleitosas, em<br \/>\nque h\u00e1 caboclinhos curupiras, que no sert\u00e3o v\u00eam pitar \u00e0 beira das estradas<br \/>\nem noites de lua clara, e querem que todo o viajante que vai passando lhes<br \/>\nceda fumo e cacha\u00e7a, sem o que, ai deles! o curupira transforma-os em bicho-do-mato.<br \/>\nE deu-lhe do seu comer da Bahia, temperado com fogoso azeite-de-dend\u00ea, cor<br \/>\nde brasa; deu-lhe das suas muquecas escandescentes, de fazer chorar, habituou-lhe<br \/>\na carne ao cheiro sensual daquele seu corpo de cobra, lavado tr\u00eas vezes ao<br \/>\ndia e tr\u00eas vezes perfumado com ervas arom\u00e1ticas. O portugu\u00eas abrasileirou-se<br \/>\npara sempre; fez-se pregui\u00e7oso, amigo das extravag\u00e2ncias e dos abusos, luxurioso<br \/>\ne ciumento; fora-se-lhe de vez o esp\u00edrito da economia e da ordem; perdeu a<br \/>\nesperan\u00e7a de enriquecer, e deu-se todo, todo inteiro, \u00e0 felicidade de possuir<br \/>\na mulata e ser possu\u00eddo s\u00f3 por ela, s\u00f3 ela, e mais ningu\u00e9m. A morte do Firmo<br \/>\nn\u00e3o vinha nunca a toldar-lhes o gozo da vida; quer ele, quer a amiga, achavam<br \/>\na coisa muito natural. &#8220;O fac\u00ednora matara tanta gente; fizera tanta maldade;<br \/>\ndevia, pois, acabar como acabou! Nada mais justo! Se n\u00e3o fosse Jer\u00f4nimo, seria<br \/>\noutro! Ele assim o quis- bem feito!&#8221; Por esse tempo, Piedade de Jesus, sem<br \/>\nse conformar com a aus\u00eancia do marido, chorava o seu abandono e ia tamb\u00e9m<br \/>\nagora se transformando de dia para dia, vencida por um desmazelo de chumbo,<br \/>\numa dura desesperan\u00e7a, a que nem as l\u00e1grimas bastavam para ado\u00e7ar as agruras.<br \/>\nA principio, ainda a pobre de Cristo tentou resistir com coragem \u00e0quela viuvez<br \/>\npior que essa outra, em que h\u00e1, para elemento de resigna\u00e7\u00e3o, a certeza de<br \/>\nque a pessoa amada nunca mais ter\u00e1 olhos para cobi\u00e7ar mulheres, nem boca para<br \/>\npedir amores; mas depois come\u00e7ou a afundar sem resist\u00eancia na lama do seu<br \/>\ndesgosto, covardemente, sem forcas para iludir-se com uma esperan\u00e7a f\u00e1tua,<br \/>\nabandonando-se ao abandono, desistindo dos seus princ\u00edpios, do seu pr\u00f3prio<br \/>\ncar\u00e1ter, sem se ter j\u00e1 neste mundo na conta de alguma coisa e continuando<br \/>\na viver somente porque a vida era teimosa e n\u00e3o queria deix\u00e1-la ir apodrecer<br \/>\nl\u00e1 embaixo, por uma vez. Deu para desleixar-se no servi\u00e7o; as suas freguesas<br \/>\nde roupa come\u00e7aram a reclamar; foi-lhe fugindo o trabalho pouco a pouco; fez-se<br \/>\nmadra\u00e7a e moleirona, precisando j\u00e1 empregar grande esfor\u00e7o para n\u00e3o bulir<br \/>\nnas economias que Jer\u00f4nimo lhe deixara, porque isso devia ser para a filha,<br \/>\naquela pobrezita orfanada antes da morte dos pais. Um dia, Piedade levantou-se<br \/>\nqueixando-se de dores de cabe\u00e7a, zoada nos ouvidos e o est\u00f4mago embrulhado;<br \/>\naconselharam-lhe que tomasse um trago de parati. Ela aceitou o conselho e<br \/>\npassou melhor. No dia seguinte repetiu a dose; deu-se bem com a perturba\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que a punha o \u00e1lcool, esquecia-se um pouco durante algum tempo das amofina\u00e7\u00f5es<br \/>\nda sua vida; e, gole a gole, habituara-se a beber todos os dias o seu meio<br \/>\nmartelo de aguardente, para enganar os pesares. Agora, que o marido j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nestava ali para impedir que a filha pusesse os p\u00e9s no corti\u00e7o, e agora que<br \/>\nPiedade precisava de consolo, a pequena ia passar os domingos com ela. Sa\u00edra<br \/>\numa crian\u00e7a forte e bonita; puxara do pai o vigor f\u00edsico e da m\u00e3e a express\u00e3o<br \/>\nbondosa da fisionomia. J\u00e1 tinha nove anos. Eram esses agora os \u00fanicos bons<br \/>\nmomentos da pobre mulher, esses que ela passava ao lado da filha. Os antigos<br \/>\nmoradores da estalagem principiavam a distinguir a menina com a mesma predile\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom que amavam Pombinha, porque em toda aquela gente havia uma necessidade<br \/>\nmoral de eleger para mimoso da sua ternura um entezinho delicado e superior,<br \/>\na que eles privilegiavam respeitosamente, como s\u00faditos a um pr\u00edncipe. Crismaram-na<br \/>\nlogo com o cognome de &#8220;Senhorinha&#8221;. Piedade, apesar do procedimento do marido,<br \/>\nainda no intimo se impressionava com a id\u00e9ia de que n\u00e3o devia contrari\u00e1-lo<br \/>\nnas suas disposi\u00e7\u00f5es de pai. &#8220;Mas que mal tinha que a pequena fosse ali? Era<br \/>\numa esmola que fazia \u00e0 m\u00e3e! L\u00e1 pelo risco de perder-se&#8230; Ora adeus, s\u00f3 se<br \/>\nperdia quem mesmo j\u00e1 nascera para a perdi\u00e7\u00e3o! A outra n\u00e3o se conservara s\u00e3<br \/>\ne pura? n\u00e3o achara noivo? n\u00e3o casara e n\u00e3o vivia dignamente com o seu marido?<br \/>\nEnt\u00e3o?!&#8221; E Senhorinha continuou a ir \u00e0 estalagem, a principio nos domingos<br \/>\npela manh\u00e3, para voltar \u00e0 tarde, depois j\u00e1 de v\u00e9spera, nos s\u00e1bados, para s\u00f3<br \/>\ntornar ao col\u00e9gio na segunda-feira. Jer\u00f4nimo ao saber disto, por interm\u00e9dio<br \/>\nda professora, revoltou-se no primeiro \u00edmpeto, mas, pensando bem no caso,<br \/>\nachou que era justo deixar \u00e0 mulher aquele consolo. &#8220;Coitada! devia viver<br \/>\nbem aborrecida da sorte!&#8221; Tinha ainda por ela um sentimento compassivo, em<br \/>\nque a melhor parte nascera com o remorso. &#8220;Era justo, era! que a pequena aos<br \/>\ndomingos e dias santos lhe fizesse companhia!&#8221; E ent\u00e3o, para ver a filha,<br \/>\ntinha que ir ao col\u00e9gio nos dias de semana. Quase sempre levava-lhe presentes<br \/>\nde doce, frutas, e perguntava-lhe se precisava de roupa ou de cal\u00e7ado. Mas,<br \/>\num belo dia, apresentou-se t\u00e3o \u00e9brio, que a diretora lhe negou a entrada.<br \/>\nDesde essa ocasi\u00e3o, Jer\u00f4nimo teve vergonha de l\u00e1 voltar, e as suas visitas<br \/>\n\u00e0 filha tornaram-se muito raras.<\/p>\n<p>Tempos depois, Senhorinha entregou \u00e0 m\u00e3e uma conta de seis meses da pens\u00e3o<br \/>\ndo col\u00e9gio, com uma carta em que a diretora negava-se a conservar a menina,<br \/>\nno caso que n\u00e3o liquidassem prontamente a divida. Piedade levou as m\u00e3os \u00e0<br \/>\ncabe\u00e7a: &#8220;Pois o homem j\u00e1 nem o ensino da pequena queria dar?! Que lhe valesse<br \/>\nDeus! onde iria ela fazer dinheiro para educar a filha?! &#8221; Foi \u00e0 procura do<br \/>\nmarido; j\u00e1 sabia onde ele morava. Jer\u00f4nimo recusou-se, por vexame; mandou<br \/>\ndizer que n\u00e3o estava em casa. Ela insistiu; declarou que n\u00e3o arredaria dali<br \/>\nsem lhe falar; disse em voz bem alta que n\u00e3o ia l\u00e1 por ele, mas pela filha,<br \/>\nque estava arriscada a ser expulsa do col\u00e9gio; ia para saber que destino lhe<br \/>\nhavia de dar, porque agora a pequena estava muito taluda para ser enjeitada<br \/>\nna roda! Jer\u00f4nimo apareceu afinal, com um ar triste de vicioso envergonhado<br \/>\nque n\u00e3o tem animo de deixar o vicio. A mulher, ao v\u00ea-lo, perdeu logo toda<br \/>\na energia com que chegara e comoveu-se tanto, que as l\u00e1grimas lhe saltaram<br \/>\ndos olhos \u00e0s primeiras palavras que lhe dirigiu. E ele abaixou os seus e fez-se<br \/>\nl\u00edvido defronte daquela figura avelhantada, de peles vazias, de cabelos sujos<br \/>\ne encanecidos. N\u00e3o lhe parecia a mesma! Como estava mudada! E tratou-a com<br \/>\nbrandura, quase a pedir-lhe perd\u00e3o, a voz muito espremida no aperto da garganta.<br \/>\n&#8211; Minha pobre velha&#8230; balbuciou, pousando-lhe a m\u00e3o larga na cabe\u00e7a. E os<br \/>\ndois emudeceram um defronte do outro, arquejantes. Piedade sentiu \u00e2nsias de<br \/>\natirar-se-lhe nos bra\u00e7os, possu\u00edda de imprevista ternura com aquele simples<br \/>\nafago do seu homem. Um s\u00fabito raio de esperan\u00e7a iluminou-a toda por dentro,<br \/>\ndissolvendo de relance os negrumes acumulados ultimamente no seu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nContava n\u00e3o ouvir ali sen\u00e3o palavras duras e \u00e1speras, ser talvez repelida<br \/>\ngrosseiramente, insultada pela outra e coberta de rid\u00edculo pelos novos companheiros<br \/>\ndo marido; mas, ao encontr\u00e1-lo tamb\u00e9m triste e desgostoso, sua alma prostrou-se<br \/>\nreconhecida; e, assim que Jer\u00f4nimo, cujas l\u00e1grimas corriam j\u00e1 silenciosamente,<br \/>\ndeixou que a sua m\u00e3o fosse descendo da cabe\u00e7a ao ombro e depois \u00e0 cintura<br \/>\nda esposa, ela desabou, escondendo o rosto contra o peito dele, numa explos\u00e3o<br \/>\nde solu\u00e7os que lhe faziam vibrar o corpo inteiro. Por algum tempo choraram<br \/>\nambos abra\u00e7ados. &#8211; Consola-te! que queres tu?&#8230; S\u00e3o desgra\u00e7as!&#8230; disse o<br \/>\ncavouqueiro afinal, limpando os olhos. Foi como se eu tivesse te morrido&#8230;<br \/>\nmas podes ficar certa de que te estimo e nunca te quis mal!&#8230; Volta para<br \/>\ncasa; eu irei pagar o col\u00e9gio de nossa filhinha e hei de olhar por ti. Vai,<br \/>\ne pede a Deus Nosso Senhor que me perdoe os desgostos que te tenho eu dado!<br \/>\nE acompanhou-a at\u00e9 o port\u00e3o da estalagem.<\/p>\n<p>Ela, sem poder pronunciar palavra, saiu cabisbaixa, a enxugar os olhos no<br \/>\nxale de l\u00e3, sacudida ainda de vez em quando por um solu\u00e7o retardado.<\/p>\n<p>Entretanto, Jer\u00f4nimo n\u00e3o mandou saldar a conta do col\u00e9gio, no dia seguinte,<br \/>\nnem no outro, nem durante todo o resto do m\u00eas; e ele, coitado! bem que se<br \/>\nmortificou por isso; mas onde ia buscar dinheiro naquela ocasi\u00e3o? o seu trabalho<br \/>\nmal lhe dava agora para viver junto com a mulata; estava j\u00e1 alcan\u00e7ado nos<br \/>\nseus ordenados e devia ao padeiro e ao homem da venda. Rita era desperdi\u00e7ada<br \/>\ne amiga de gastar \u00e0 larga; n\u00e3o podia passar sem uns tantos regalos de barriga<br \/>\ne gostava de fazer presentes. Ele, receoso de contrari\u00e1-la e quebrar o ovo<br \/>\nda sua paz, at\u00e9 ai t\u00e3o completo com respeito \u00e0 baiana, subordinava-se calado<br \/>\ne afetando at\u00e9 satisfa\u00e7\u00e3o; no intimo, por\u00e9m, o infeliz sofria deveras. A lembran\u00e7a<br \/>\nconstante da filha e da mulher apoquentava-o com pontas de remorso, que dia<br \/>\na dia alastravam na sua consci\u00eancia, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que esta ia acordando daquela<br \/>\ncegueira. O desgra\u00e7ado sentia e compreendia perfeitamente todo o mal da sua<br \/>\nconduta; mas s\u00f3 a id\u00e9ia de separar-se da amante punha-lhe logo o sangue doido<br \/>\ne apagava-se-lhe de novo a luz dos racioc\u00ednios. &#8220;N\u00e3o! n\u00e3o!! tudo que quisessem,<br \/>\nmenos isso!&#8221;<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, para fugir \u00e0quela voz irrefut\u00e1vel, que estava sempre a serrazinar<br \/>\ndentro dele, bebia em camaradagem com os companheiros e habituara-se, dentro<br \/>\nem pouco, \u00e0 embriaguez. Quando Piedade, quinze dias depois da sua primeira<br \/>\nvisita, tornou l\u00e1, um domingo, acompanhada pela filha, encontrou-o b\u00eabedo,<br \/>\nnuma roda de amigos.<\/p>\n<p>Jer\u00f4nimo recebeu-as com grande escarc\u00e9u de alegria. F\u00ea-las entrar. Beijou<br \/>\na pequena repetidas vezes e suspendeu-a pela cintura, soltando exclama\u00e7\u00f5es<br \/>\nde entusiasmo.<\/p>\n<p>Com um milh\u00e3o de raios! que linda estava a sua morgadinha!<\/p>\n<p>Obrigou-as logo a tomar alguma coisa e foi chamar a mulata; queria que as<br \/>\nduas mulheres fizessem as pazes no mesmo instante. Era quest\u00e3o decidida!<\/p>\n<p>Houve uma cena de constrangimentos, quando a portuguesa se viu defronte da<br \/>\nbaiana.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos! vamos! Abracem-se! Acabem com isso por uma vez! bradava Jer\u00f4nimo,<br \/>\na empurr\u00e1-las uma contra a outra. N\u00e3o quero aqui caras fechadas!<\/p>\n<p>As duas trocaram um aperto de m\u00e3o, sem se fitarem. Piedade estava escarlate<br \/>\nde vergonha.<\/p>\n<p>&#8211; Ora muito bem! acrescentou o cavouqueiro. Agora para a coisa ser completa,<br \/>\nh\u00e3o de jantar conosco!<\/p>\n<p>A portuguesa op\u00f4s-se, resmungando desculpas, que o cavouqueiro n\u00e3o aceitou.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o as deixo sair! \u00c9 boa! Pois hei de deixar ir minha filha sem matar as<br \/>\nsaudades? Piedade assentou-se a um canto, impaciente pela ocasi\u00e3o de entender-se<br \/>\ncom o marido sobre o neg\u00f3cio do col\u00e9gio. Rita, vol\u00favel como toda a mesti\u00e7a,<br \/>\nn\u00e3o guardava rancores, e, pois, desfez-se em obs\u00e9quios com a fam\u00edlia do amigo.<br \/>\nAs outras visitas sa\u00edram antes do jantar. Puseram-se \u00e0 mesa \u00e0s quatro horas<br \/>\ne principiaram a comer com boa disposi\u00e7\u00e3o, carregando no virgem logo desde<br \/>\na sopa. Senhorinha destacava-se do grupo; na sua timidez de menina de col\u00e9gio<br \/>\nparecia, entre aquela gente, triste e assustada ao mesmo tempo. O pai acabrunhava-a<br \/>\ncom as suas solicitudes brutais e com as suas perguntas sobre os estudos.<br \/>\n\u00c0 exce\u00e7\u00e3o dela, todos os outros estavam, antes da sobremesa, mais ou menos<br \/>\nchumbados pelo vinho. Jer\u00f4nimo, esse estava de todo. Piedade, instigada por<br \/>\nele, esvaziara freq\u00fcentes vezes o seu copo e, ao fim do jantar, dera para<br \/>\nqueixar-se amargamente da vida; foi ent\u00e3o que ela, j\u00e1 com azedume na voz,<br \/>\nfalou na divida do col\u00e9gio e nas amea\u00e7as da diretora. &#8211; Ora, filha! disse-lhe<br \/>\no cavouqueiro. Agora est\u00e1s tu tamb\u00e9m pr\u2019a\u00ed com essa mastiga\u00e7\u00e3o! Deixa<br \/>\nas tristezas pr\u2019outra vez! N\u00e3o nos amargures o jantar! &#8211; Triste sorte<br \/>\na minha! &#8211; Ai, ai! que temos lam\u00faria! &#8211; Como n\u00e3o me hei de queixar, se tudo<br \/>\nme corre mal?! &#8211; Sim! Pois se \u00e9 para isso que aqui vens, melhor ser\u00e1 n\u00e3o tornares<br \/>\nc\u00e1!&#8230; resmungou Jer\u00f4nimo, franzindo o sobrolho. Que diabo! com choradeiras<br \/>\nnada se endireita! Tenho eu culpa de que sejas infeliz?&#8230; Tamb\u00e9m o sou e<br \/>\nn\u00e3o me queixo de Deus! Piedade abriu a solu\u00e7ar. &#8211; A\u00ed temos! berrou o marido,<br \/>\nerguendo-se e dando urna punhada forte sobre a mesa. E aturem-na! Por mais<br \/>\nque um homem se n\u00e3o queira zangar, h\u00e1 de estourar por for\u00e7a! Ora bolas! Senhorinha<br \/>\ncorreu para junto do pai, procurando cont\u00ea-lo. &#8211; Sebo! berrou ele, desviando-a.<br \/>\nSempre a mesma coisa! Pois n\u00e3o estou disposto a aturar isto! Arre! &#8211; Eu n\u00e3o<br \/>\nvim c\u00e1 por passeio!&#8230; prosseguiu Piedade entre l\u00e1grimas!. Vim c\u00e1 para saber<br \/>\nda conta do col\u00e9gio!&#8230; &#8211; Pague-a voc\u00ea, que tem l\u00e1 o dinheiro que lhe deixei!<br \/>\nEu \u00e9 que n\u00e3o tenho nenhum! &#8211; Ah! ent\u00e3o com que n\u00e3o pagas?! &#8211; N\u00e3o! Com um milh\u00e3o<br \/>\nde raios!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que \u00e9s muito pior do que eu supunha!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, hein?! Pois ent\u00e3o deixe-me c\u00e1 com toda a minha ruindade e despache<br \/>\no beco! Despache-o, antes que eu fa\u00e7a alguma asneira! &#8211; Minha pobre filha!<br \/>\nQuem olhar\u00e1 por ela, Senhor dos Aflitos?! &#8211; A pequena j\u00e1 n\u00e3o precisa de col\u00e9gio!<br \/>\ndeixe-a c\u00e1 comigo, que nada lhe faltar\u00e1! &#8211; Separar-me de minha filha? a \u00fanica<br \/>\npessoa que me resta?! &#8211; \u00d3 mulher! voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 separada dela a semana inteira?&#8230;<br \/>\nPois a pequena, em vez de ficar no col\u00e9gio, fica aqui, e aos domingos ir\u00e1<br \/>\nv\u00ea-la. Ora a\u00ed tem! &#8211; Eu quero antes ficar com minha m\u00e3e!&#8230; balbuciou a menina,<br \/>\nabra\u00e7ando-se a Piedade. &#8211; Ah! tamb\u00e9m tu, ingrata, j\u00e1 me fazes guerra?! Pois<br \/>\nv\u00e3o com todos os diabos! e n\u00e3o me tornem c\u00e1 para me ferver o sangue, que j\u00e1<br \/>\ntenho de sobra com que arreliar-me! &#8211; Vamos daqui! gritou a portuguesa, travando<br \/>\nda filha pelo bra\u00e7o. Maldita a hora em que vim c\u00e1! E as duas, m\u00e3e e filha,<br \/>\ndesapareceram; enquanto Jer\u00f4nimo, passeando de um para outro lado, monologava,<br \/>\nfurioso sob a fermenta\u00e7\u00e3o do vinho. Rita n\u00e3o se metera na contenda, nem se<br \/>\nmostrara a favor de nenhuma das partes. &#8220;O homem, se quisesse voltar para<br \/>\njunto da mulher, que voltasse! Ela n\u00e3o o prenderia, porque amor n\u00e3o era obrigado!&#8221;<br \/>\nDepois de falar s\u00f3 por muito espa\u00e7o, o cavouqueiro atirou-se a uma cadeira,<br \/>\ndespejou sombrio dois dedos de laranjinha num copo e bebeu-os de um trago.<br \/>\n&#8211; Arre! Assim tamb\u00e9m n\u00e3o!<\/p>\n<p>A mulata ent\u00e3o aproximou-se dele, por detr\u00e1s; segurou-lhe a cabe\u00e7a entre<br \/>\nas m\u00e3os e beijou-o na boca, arredando com os l\u00e1bios a espessura dos bigodes.<br \/>\nJer\u00f4nimo voltou-se para a amante, tomou-a pelos quadris e assentou-a em cheio<br \/>\nsobre as suas coxas. &#8211; N\u00e3o te rales, meu bem! disse ela, afagando-lhe os cabelos.<br \/>\nJ\u00e1 passou! &#8211; Tens raz\u00e3o! besta fui eu em deix\u00e1-la p\u00f4r p\u00e9 c\u00e1 dentro de casa!<br \/>\nE abra\u00e7aram-se com \u00edmpeto, como se o breve tempo roubado pelas visitas fosse<br \/>\numa interrup\u00e7\u00e3o nos seus amores. L\u00e1 fora, junto ao port\u00e3o da estalagem, Piedade,<br \/>\ncom o rosto escondido no ombro da filha, esperava que as l\u00e1grimas cedessem<br \/>\num pouco, para as duas seguirem o seu destino de enxotadas.<\/p>\n<h2><a name=\"20\"><\/a>XX<\/h2>\n<p>Chegaram a casa \u00e0s nove horas da noite. Piedade levava o cora\u00e7\u00e3o feito em<br \/>\nlama; n\u00e3o dera palavra por todo o caminho e logo que recolheu a pequena, encostou-se<br \/>\n\u00e0 c\u00f4moda, solu\u00e7ando.<\/p>\n<p>Estava tudo acabado! Tudo acabado!<\/p>\n<p>Foi \u00e0 garrafa de aguardente, bebeu uma boa por\u00e7\u00e3o; chorou ainda, tornou a<br \/>\nbeber, e depois saiu ao p\u00e1tio, disposta a parasitar a alegria dos que se divertiam<br \/>\nl\u00e1 fora.<\/p>\n<p>A das Dores tivera jantar de festa; ouviam-se as risadas dela e a voz avinhada<br \/>\ne grossa do seu homem, o tal sujeito do com\u00e9rcio, abafadas de vez em quando<br \/>\npelos berros da Machona, que ralhava com Agostinho. Em diversos pontos cantavam<br \/>\ne tocavam a viola.<\/p>\n<p>Mas o corti\u00e7o j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo; estava muito diferente; mal dava id\u00e9ia<br \/>\ndo que fora. O p\u00e1tio, como Jo\u00e3o Rom\u00e3o havia prometido, estreitara-se com as<br \/>\nedifica\u00e7\u00f5es novas; agora parecia uma rua, todo cal\u00e7ado por igual e iluminado<br \/>\npor tr\u00eas lampi\u00f5es grandes simetricamente dispostos. Fizeram-se seis latrinas,<br \/>\nseis torneiras de \u00e1gua e tr\u00eas banheiros. Desapareceram as pequenas hortas,<br \/>\nos jardins de quatro a oito palmos e os imensos dep\u00f3sitos de garrafas vazias.<br \/>\n\u00c0 esquerda, at\u00e9 onde acabava o pr\u00e9dio do Miranda, estendia-se um novo correr<br \/>\nde casinhas de porta e janela, e da\u00ed por diante, acompanhando todo o lado<br \/>\ndo fundo e dobrando depois para a direita at\u00e9 esbarrar no sobrado de Jo\u00e3o<br \/>\nRom\u00e3o, erguia-se um segundo andar, fechado em cima do primeiro por uma estreita<br \/>\ne extensa varanda de grades de madeira, para a qual se subia por duas escadas,<br \/>\numa em cada extremidade. De cento e tantos, a numera\u00e7\u00e3o dos c\u00f4modos elevou-se<br \/>\na mais de quatrocentos; e tudo caiadinho e pintado de fresco; paredes brancas,<br \/>\nportas verdes e goteiras encarnadas. Poucos lugares havia desocupados. Alguns<br \/>\nmoradores puseram plantas \u00e0 porta e \u00e0 janela, em meias tinas serradas ou em<br \/>\nvasos de barro. Albino levou o seu capricho at\u00e9 \u00e0 cortina de labirinto e ch\u00e3o<br \/>\nforrado de esteira. A casa dele destacava-se das outras; era no andar de baixo,<br \/>\ne c\u00e1 de fora via-se-lhe o papel vermelho da sala, a mob\u00edlia muito brunida,<br \/>\njarras de flores sobre a c\u00f4moda, um lavat\u00f3rio com espelho todo cercado de<br \/>\nrosas artificiais, um orat\u00f3rio grande, resplandecente de palmas douradas e<br \/>\nprateadas, toalhas de renda por toda a parte, num luxo de igreja, casquilho<br \/>\ne defumado. E ele, o p\u00e1lido lavadeiro, sempre com o seu len\u00e7o cheiroso \u00e0 volta<br \/>\ndo pescocinho, a sua cal\u00e7a branca de boca larga, o seu cabelo mole caldo por<br \/>\ndetr\u00e1s das orelhas bambas, preocupava-se muito em arrumar tudo isso, eternamente,<br \/>\ncomo se esperasse a cada instante a visita de um estranho. Os companheiros<br \/>\nde estalagem elogiavam-lhe aquela ordem e aquele asseio; pena era que lhe<br \/>\ndessem as formigas na cama! Em verdade, ningu\u00e9m sabia por que, mas a cama<br \/>\nde Albino estava sempre coberta de formigas. Ele a destru\u00ed-las, e o dem\u00f4nio<br \/>\ndo bichinho a multiplicar-se cada vez mais e mais todos os dias. Uma campanha<br \/>\ndesesperadora, que o trazia triste, aborrecido da vida. Defronte justamente<br \/>\nficava a casa do Bruno e da mulher, toda mobiliada de novo, com um grande<br \/>\ncandeeiro de querosene em frente \u00e0 entrada, cujo rev\u00e9rbero parecia olhar desconfiado<br \/>\nl\u00e1 de dentro para quem passava c\u00e1 no p\u00e1tio. Agora, entretanto, o casal vivia<br \/>\nem santa paz. Leoc\u00e1dia estava discreta; sabia-se que ela dava ainda muito<br \/>\nque fazer ao corpo sem o concurso do marido, mas ningu\u00e9m dizia quando, nem<br \/>\nonde. O Alexandre jurava que, ao entrar ou sair fora de horas, nunca a pilhara<br \/>\nno vicio; e a esposa, a Augusta Carne-Mole, ia mais longe na defesa, porque<br \/>\nsempre tivera pena de Leoc\u00e1dia, pois entendia que aquele assanhamento por<br \/>\nhomem n\u00e3o era maldade dela; era praga de algum boca do diabo que a quis e<br \/>\na pobrezinha n\u00e3o deixou. &#8211; Estava-se vendo disso todos os dias!- tanto que<br \/>\nultimamente, depois que a criatura pediu a um padre um pouco de \u00e1gua benta<br \/>\ne benzeu-se com esta em certos lugares, o fogo desaparecera logo, e ela ai<br \/>\nvivia direita e s\u00e9ria que n\u00e3o dava que falar a ningu\u00e9m! Augusta ficara com<br \/>\na fam\u00edlia numa das casinhas do segundo andar, \u00e0 direita; estava gr\u00e1vida outra<br \/>\nvez; e \u00e0 noite via-se o Alexandre, sempre muito circunspecto, a passear ao<br \/>\ncomprido da varanda, acalentando uma criancinha ao colo, enquanto a mulher<br \/>\ndentro de casa cuidava de outras. A filharada crescia-lhes, que metia medo.<br \/>\n&#8220;Era um no papo outro no saco!&#8221; Moravam agora tamb\u00e9m desse lado os dois c\u00famplices<br \/>\nde Jer\u00f4nimo, o Pataca e o Z\u00e9 Carlos, ocupando juntos o mesmo c\u00f4modo; defronte<br \/>\nda porta tinham um fog\u00e3ozinho e um fogareiro, em que preparavam eles mesmos<br \/>\na sua comida. Logo adiante era o quarto de um empregado do correio, pessoa<br \/>\nmuito calada, bem vestida e pontual no pagamento; saia todas as manh\u00e3s e voltava<br \/>\n\u00e0s dez da noite invariavelmente; aos domingos s\u00f3 ia \u00e0 rua para comer, e depois<br \/>\nfechava-se em casa e, houvesse o que houvesse no corti\u00e7o, n\u00e3o punha mais o<br \/>\nnariz de fora. E, assim como este, notavam-se por \u00faltimo na estalagem muitos<br \/>\ninquilinos novos, que j\u00e1 n\u00e3o eram gente sem gravata e sem meias. A feroz engrenagem<br \/>\ndaquela m\u00e1quina terr\u00edvel, que nunca parava, ia j\u00e1 lan\u00e7ando os dentes a uma<br \/>\nnova camada social que, pouco a pouco, se deixaria arrastar inteira l\u00e1 para<br \/>\ndentro. Come\u00e7avam a vir estudantes pobres, com os seus chap\u00e9us desabados,<br \/>\no palet\u00f3 fouveiro, uma pontinha de cigarro a queimar-lhes a penugem do bu\u00e7o,<br \/>\ne as algibeiras muito cheias, mas s\u00f3 de versos e jornais; surgiram cont\u00ednuos<br \/>\nde reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, caixeiros de botequim, artistas de teatro, condutores<br \/>\nde bondes, e vendedores de bilhetes de loteria. Do lado esquerdo, toda a parte<br \/>\nem que havia varanda foi monopolizada pelos italianos; habitavam cinco a cinco,<br \/>\nseis a seis no mesmo quarto, e notava-se que nesse ponto a estalagem estava<br \/>\nj\u00e1 muito mais suja que nos outros. Por melhor que Jo\u00e3o Rom\u00e3o reclamasse, formava-se<br \/>\nai todos os dias uma esterqueira de cascas de melancia e laranja. Era uma<br \/>\ncomuna ruidosa e porca a dos dem\u00f4nios dos mascates! Quase que se n\u00e3o podia<br \/>\npassar l\u00e1, tal a acumula\u00e7\u00e3o de tabuleiros de lou\u00e7a e objetos de vidro, caixas<br \/>\nde quinquilharia, molhos e molhos de vasilhame de folha-de-flandres, bonecos<br \/>\ne castelos de gesso, realejos, macacos, o diabo! E tudo isso no meio de um<br \/>\nfedor nauseabundo de coisas podres, que empesteava todo o corti\u00e7o. A parte<br \/>\ndo fundo da varanda era asseada felizmente e destacava-se pela profus\u00e3o de<br \/>\np\u00e1ssaros que l\u00e1 tinham, entre os quais sobressaia uma arara enorme que, de<br \/>\nespa\u00e7o a espa\u00e7o, soltava um formid\u00e1vel sibilo<\/p>\n<p>estridente e rouco. Por debaixo ficava a casa da Machona, cuja porta, como<br \/>\na janela, Nenen trazia sempre enfeitada de tinhor\u00f5es e beg\u00f4nias. O pr\u00e9dio<br \/>\ndo Miranda parecia ter recuado alguns passos, perseguido pelo batalh\u00e3o das<br \/>\ncasinhas da esquerda, e agora olhava a medo, por cima dos telhados, para a<br \/>\ncasa do vendeiro, que l\u00e1 defronte erguia-se altiva, desassombrada, o ar sobranceiro<br \/>\ne triunfante. Jo\u00e3o Rom\u00e3o conseguira meter o sobrado do vizinho no chinelo;<br \/>\no seu era mais alto e mais nobre, e ent\u00e3o com as cortinas e com a mob\u00edlia<br \/>\nnova impunha respeito. Foi abaixo aquele grosso e velho muro da frente com<br \/>\no seu largo port\u00e3o de cocheira, e a entrada da estalagem era agora dez bra\u00e7as<br \/>\nmais para dentro, tendo entre ela e a rua um pequeno jardim com bancos e um<br \/>\nmodesto repuxo ao meio, de cimento, imitando pedra. Fora-se a pitoresca lanterna<br \/>\nde vidros vermelhos; foram-se as iscas de f\u00edgado e as sardinhas preparadas<br \/>\nali mesmo \u00e0 porta da venda sobre as brasas; e na tabuleta nova, muito maior<br \/>\nque a primeira, em vez de &#8220;Estalagem de S\u00e3o Rom\u00e3o&#8221; lia-se em letras caprichosas:<\/p>\n<p>&#8220;AVENIDA S\u00c3O ROM\u00c3O&#8221;<\/p>\n<p>O &#8220;Cabe\u00e7a-de-Gato&#8221; estava vencido finalmente, vencido para sempre; nem j\u00e1<br \/>\nningu\u00e9m se animava a comparar as duas estalagens. \u00c0 medida que a de Jo\u00e3o Rom\u00e3o<br \/>\nprosperava daquele modo, a outra deca\u00eda de todo; raro era o dia em que a pol\u00edcia<br \/>\nn\u00e3o entrava l\u00e1 e baldeava tudo aquilo a espadeirada de cego. Uma desmoraliza\u00e7\u00e3o<br \/>\ncompleta! Muitos cabe\u00e7as-de-gato viraram casaca, passando-se para os carapicus,<br \/>\nentre os quais um homem podia at\u00e9 arranjar a vida, se soubesse trabalhar com<br \/>\njeito em tempo de elei\u00e7\u00f5es. Exemplos n\u00e3o faltavam! Depois da partida de Rita,<br \/>\nj\u00e1 se n\u00e3o faziam sambas ao relento com o choradinho da Bahia, e mesmo o cana-verde<br \/>\n35 pouco se dan\u00e7ava e cantava; agora o forte eram os forrobod\u00f3s dentro de<br \/>\ncasa, com tr\u00eas ou quatro m\u00fasicos, ceia de caf\u00e9 com p\u00e3o; muita cal\u00e7a branca<br \/>\ne muito vestido engomado. &#8211; E toca a enfiar para ai quadrilhas e polcas ate<br \/>\nromper a manh\u00e3!<\/p>\n<p>Mas naquele domingo o corti\u00e7o estava banzeiro; havia apenas uns grupos magros,<br \/>\nque se divertiam com a viola \u00e0 porta de casa. O melhor, ainda assim, era o<br \/>\nda das Dores. Piedade dirigiu-se logo para l\u00e1, sombria e cabisbaixa. &#8211; Com<br \/>\no demo! voc\u00ea anda agora que nem o boi castrado! exclamou-lhe o Pataca, assentando-se<br \/>\nao lado dela. As tristezas atiram-se para tr\u00e1s das costas, criatura de Deus!<br \/>\nA vida n\u00e3o d\u00e1 para tanto! O homem deixou-te? Ora sebo! mete-se com outro e<br \/>\np\u00f5e o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 larga! Ela suspirou em resposta, ainda triste; por\u00e9m, a garrafa<br \/>\nde parati correu a roda, de m\u00e3o em m\u00e3o, e, \u00e0 segunda volta, Piedade j\u00e1 parecia<br \/>\noutra. Come\u00e7ou a conversar e a tomar interesse no pagode. Da\u00ed a pouco era,<br \/>\nde todos, a mais animada, falando pelos cotovelos, criticando e arremedando<br \/>\nas figuras ratonas da estalagem. O Pataca ria-se, a quebrar a espinha, caindo<br \/>\npor cima dela e passando-lhe o bra\u00e7o na cintura. &#8211; Voc\u00ea ainda \u00e9 mulher pr\u2019um<br \/>\nhomem fazer uma asneira! &#8211; Olha pra que lhe deu o \u00e9brio! Solta-me a perna,<br \/>\nestupor! O grupo achava gra\u00e7a nos dois e aplaudia-os com gargalhadas. E o<br \/>\nparati a circular sempre de m\u00e3o em m\u00e3o. A das Dores n\u00e3o descansava um momento;<br \/>\nmal vinha de encher a garrafa l\u00e1 dentro de casa, tinha de voltar outra vez<br \/>\npara ench\u00ea-la de novo. &#8220;Olha que estafa! V\u00e3o beber pro diabo!&#8221; Afinal apareceu<br \/>\ncom o garraf\u00e3o e pousou-o no meio da roda. &#8211; Querem saber! Empinem por a\u00ed<br \/>\nmesmo, que j\u00e1 estou com os quartos doendo de tanto andar de l\u00e1 pra c\u00e1! Essa<br \/>\nnoite, a bebedeira de Piedade foi completa. Quando Jo\u00e3o Rom\u00e3o entrou, de volta<br \/>\nda casa do Miranda, encontrou-a a dan\u00e7ar ao som de palmas, gritos e risadas,<br \/>\nno meio de uma grande tro\u00e7a, a saia levantada, os olhos requebrados, a pretender<br \/>\narremedar a Rita no seu choradinho da Bahia. Era a boba da roda. Batiam-lhe<br \/>\npalmadas no traseiro e com o p\u00e9 embara\u00e7avam-lhe as pernas, para a ver cair<br \/>\ne rebolar-se no ch\u00e3o. O vendeiro, de fraque e chap\u00e9u alto, foi direito ao<br \/>\ngrupo, ent\u00e3o muito mais refor\u00e7ado de gente, e intimou a todos que se recolhessem.<br \/>\nAquilo j\u00e1 n\u00e3o eram horas para semelhante algazarra! &#8211; Vamos! Vamos! Cada um<br \/>\npara a sua casa!<\/p>\n<p>Piedade foi a \u00fanica que protestou, reclamando o seu direito de brincar um<br \/>\npouco com os amigos.<\/p>\n<p>Que diabo! n\u00e3o estava fazendo mal a ningu\u00e9m!<\/p>\n<p>&#8211; Ora v\u00e1 mas \u00e9 pra cama cozer a mona! vituperou-lhe Jo\u00e3o Rom\u00e3o, repelindo-a.<br \/>\nVoc\u00ea, com uma filha quase mulher, n\u00e3o tem vergonha de estar aqui a servir<br \/>\nde palha\u00e7o?! Forte b\u00eabada!<\/p>\n<p>Piedade assomou-se com a descompostura, quis despicar-se, chegou a arrega\u00e7ar<br \/>\nas mangas e sungar a saia; mas o Pataca meteu-se no meio e conteve-a, pedindo<br \/>\na Jo\u00e3o Rom\u00e3o que n\u00e3o levasse aquilo em conta, porque era tudo cacha\u00e7a. &#8211; Bom,<br \/>\nbom, bom! mas aviem-se! Aviem-se! E n\u00e3o se retirou sem ver a roda dissolvida,<br \/>\ne cada qual procurando a casa.<\/p>\n<p>Recolheram-se todos em sil\u00eancio; s\u00f3 o Pataca e Piedade deixaram-se ficar<br \/>\nainda no p\u00e1tio, a discutir o ato do vendeiro. O Pataca tamb\u00e9m estava bastante<br \/>\ntocado. Ambos reconheciam que lhes n\u00e3o convinha demorar-se ali, por\u00e9m nenhum<br \/>\ndos dois se sentia disposto a meter-se no quarto. &#8211; Voc\u00ea tem l\u00e1 alguma coisa<br \/>\nque beber em casa?&#8230; perguntou ele afinal. Ela n\u00e3o sabia ao certo; foi ver.<br \/>\nHavia meia garrafa de parati e um resto de vinho. Mas era preciso n\u00e3o fazer<br \/>\nbarulho, por\u2019mor da pequena que estava dormindo. Entraram em ponta de<br \/>\np\u00e9s, a falar surdamente. Piedade deu mais luz ao candeeiro. &#8211; Olha agora!<br \/>\nVamos ficar \u00e0s escuras! Acabou-se o g\u00e1s! O Pataca saiu, para ir a casa buscar<br \/>\numa vela, e de volta trouxe tamb\u00e9m um peda\u00e7o de queijo e dois peixes fritos,<br \/>\nque levou ao nariz da lavadeira, sem dizer nada. Piedade, aos bordos, desocupou<br \/>\na mesa do engomado e serviu dois pratos. O outro reclamou vinagre e pimenta<br \/>\ne perguntou se havia p\u00e3o. &#8211; P\u00e3o h\u00e1. O vinho \u00e9 que \u00e9 pouco! &#8211; N\u00e3o faz mal!<br \/>\nVai mesmo com a caninha! E assentaram-se. O corti\u00e7o dormia j\u00e1 e s\u00f3 se ouviam,<br \/>\nno sil\u00eancio da noite, c\u00e3es que ladravam l\u00e1 fora na rua, tristemente. Piedade<br \/>\ncome\u00e7ou a queixar-se da vida; veio-lhe uma crise de l\u00e1grimas e solu\u00e7os. Quando<br \/>\np\u00f4de falar contou o que lhe sucedera essa tarde, narrou os pormenores da sua<br \/>\nida com a filha \u00e0 procura do marido, o jantar em comum com a peste da mulata,<br \/>\ne afinal a sua humilha\u00e7\u00e3o de vir de l\u00e1 enxovalhada e corrida. Pataca revoltou-se,<br \/>\nn\u00e3o com o procedimento de Jer\u00f4nimo, mas com o dela. Rebaixar-se \u00e0quele ponto!<br \/>\ncom efeito!&#8230; Ir procurar o homem l\u00e1 na casa da outra!&#8230; Oh! &#8211; Ele tratou-me<br \/>\nbem, quando l\u00e1 fui da primeira vez&#8230; Hoje \u00e9 que n\u00e3o sei o que tinha: s\u00f3 faltou<br \/>\np\u00f4r-me na rua aos pontap\u00e9s! &#8211; Foi bem feito! Ainda acho pouco! Devia ter-lhe<br \/>\nmetido o pau, para voc\u00ea n\u00e3o ser tola! &#8211; \u00c9 mesmo! &#8211; Pois n\u00e3o! O que n\u00e3o falta<br \/>\ns\u00e3o homens, filha! O mundo \u00e9 grande! Para um p\u00e9 doente h\u00e1 sempre um chinelo<br \/>\nvelho!- E ferrou-lhe a m\u00e3o nas pernas:- Chega-te para mim, que te esqueceras<br \/>\ndo outro! Piedade repeliu-o. Que se deixasse de asneiras! &#8211; Asneiras! \u00c9 o<br \/>\nque se leva desta vida! A pequena acordara l\u00e1 no quarto e viera descal\u00e7a at\u00e9<br \/>\n\u00e0 porta da sala de jantar, para espiar o que faziam os dois. N\u00e3o deram por<br \/>\nela. E a conversa prosseguiu, esquentando a medida que a garrafa de parati<br \/>\nse esvaziava. Piedade deu de m\u00e3o aos seus desgostos, p\u00f4s-se a papaguear um<br \/>\npouco; as l\u00e1grimas foram-se-lhe; e ela manducou ent\u00e3o com apetite, rindo j\u00e1<br \/>\ndas pilh\u00e9rias do companheiro, que continuava a apalpar-lhe de vez em quando<br \/>\nas coxas. Aquelas coisas, assim, sem se esperar, \u00e9 que tinham gra\u00e7a!&#8230; dizia<br \/>\nele, excitado e vermelho, comendo com a m\u00e3o, a embeber peda\u00e7os de peixe no<br \/>\nmolho das pimentas. Bem tolo era quem se matava! Depois lembrou que n\u00e3o viria<br \/>\nfora de prop\u00f3sito uma xicrinha de caf\u00e9. &#8211; N\u00e3o sei se h\u00e1, vou ver, respondeu<br \/>\na lavadeira, erguendo-se agarrada \u00e0 mesa. E bordejou at\u00e9 \u00e0 cozinha, a dar<br \/>\nesbarr\u00f5es pela direita e pela esquerda. &#8211; Tento no leme, que o mar est\u00e1 forte!<br \/>\nexclamou Pataca, levantando-se tamb\u00e9m, para ir ajud\u00e1-la. L\u00e1 perto do fog\u00e3o<br \/>\nagarrou-a de s\u00fabito, como um galo abafando uma galinha. &#8211; Larga! repreendeu<br \/>\na mulher, sem for\u00e7as para se defender. Ele apanhou-lhe as fraldas. &#8211; Espera!<br \/>\nDeixa! &#8211; N\u00e3o quero! E ria-se por ver a atitude c\u00f4mica do Pataca vergado defronte<br \/>\ndela. &#8211; Que mal faz?.. Deixa! &#8211; Sai da\u00ed, diabo!<\/p>\n<p>E, cambaleando, amparados um no outro, foram ambos ao ch\u00e3o. &#8211; Olha que peste!<br \/>\nresmungou a desgra\u00e7ada, quando o advers\u00e1rio conseguiu saciar-se nela. Marraios<br \/>\nte partam!<\/p>\n<p>E deixou-se ficar por terra. Ele p\u00f4s-se de p\u00e9 e, ao encaminhar-se para a<br \/>\nsala de jantar, sentiu uma ligeira sombra fugir em sua frente. Era a pequena,<br \/>\nque fora espiar \u00e0 porta da cozinha.<\/p>\n<p>Pataca assustara-se.<\/p>\n<p>&#8211; Quem anda aqui a correr como gato?&#8230; perguntou voltando a ter com Piedade,<br \/>\nque permanecia no mesmo lugar, agora quase adormecida.<\/p>\n<p>Sacudiu-a.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1! Queres ficar ai, \u00f3 criatura! Levanta-te! Anda a ver o caf\u00e9!<\/p>\n<p>E, tentando ergu\u00ea-la, suspendeu-a por debaixo dos bra\u00e7os. Piedade, mal mudou<br \/>\na posi\u00e7\u00e3o da cabe\u00e7a, vomitou sobre o peito e a barriga uma golfada f\u00e9tida.<\/p>\n<p>&#8211; Olha o demo! resmungou Pataca. Est\u00e1 que se n\u00e3o pode lamber!<\/p>\n<p>E foi preciso arrast\u00e1-la at\u00e9 a cama, que nem uma trouxa de roupa suja. A<br \/>\ninfeliz n\u00e3o dava acordo de si.<\/p>\n<p>Senhorinha acudira, perguntando aflita o que tinha a m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 nada, filha! explicou o Pataca. Deixe-a dormir, que isso passa! Olha!<br \/>\nse h\u00e1 lim\u00e3o em casa passa-lhe um pouco atr\u00e1s da orelha, e veras que amanh\u00e3<br \/>\nacorda fina e pronta pra outra!<\/p>\n<p>A menina desatou a solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>E o Pataca retirou-se, a dar encontr\u00f5es nos trastes, furioso, porque, afinal,<br \/>\nn\u00e3o tomara caf\u00e9.<\/p>\n<p>Sebo!<\/p>\n<h2><a name=\"21\"><\/a>XXI<\/h2>\n<p>Ao mesmo tempo, Jo\u00e3o Rom\u00e3o, em chinelas e camisola, passeava de um para outro<br \/>\nlado no seu quarto novo. Um aposento largo e forrado de azul e branco com<br \/>\nflorinhas amarelas fingindo ouro; havia um tapete aos p\u00e9s da cama, e sobre<br \/>\na peniqueira um despertador de n\u00edquel, e a mob\u00edlia toda era j\u00e1 de casados,<br \/>\nporque o esperto n\u00e3o estava para comprar m\u00f3veis duas vezes.<\/p>\n<p>Parecia muito preocupado; pensava em Bertoleza que, a essas horas, dormia<br \/>\nl\u00e1 embaixo num v\u00e3o de escada, aos fundos do armaz\u00e9m, perto da comua. Mas que<br \/>\ndiabo havia ele de fazer afinal daquela peste? E co\u00e7ava a cabe\u00e7a, impaciente<br \/>\npor descobrir um meio de ver-se livre dela. \u00c9 que nessa noite o Miranda lhe<br \/>\nfalara abertamente sobre o que ouvira de Botelho, e estava tudo decidido:<br \/>\nZulmira aceitava-o para marido e Dona Estela ia marcar o dia do casamento.<br \/>\nO diabo era a Bertoleza!&#8230; E o vendeiro ia e vinha no quarto, sem achar uma<br \/>\nboa solu\u00e7\u00e3o para o problema. Ora, que raio de dificuldade armara ele pr\u00f3prio<br \/>\npara se coser!&#8230; Como poderia agora mand\u00e1-la passear assim, de um momento<br \/>\npara outro, se o dem\u00f4nio da crioula o acompanhava j\u00e1 havia tanto tempo e toda<br \/>\na gente na estalagem sabia disso? E sentia-se revoltado e impotente defronte<br \/>\ndaquele tranq\u00fcilo obst\u00e1culo que l\u00e1 estava embaixo, a dormir, fazendo-lhe em<br \/>\nsil\u00eancio um mal horr\u00edvel, perturbando-lhe estupidamente o curso da sua felicidade,<br \/>\nretardando-lhe, talvez sem consci\u00eancia, a chegada desse belo futuro conquistado<br \/>\n\u00e0 for\u00e7a de tamanhas priva\u00e7\u00f5es e sacrif\u00edcios! Que ferro! Mas, s\u00f3 com lembrar-se<br \/>\nda sua uni\u00e3o com aquela brasileirinha fina e aristocr\u00e1tica, um largo quadro<br \/>\nde vit\u00f3rias rasgava-se defronte da desensofrida avidez da sua vaidade. Em<br \/>\nprimeiro lagar fazia-se membro de uma fam\u00edlia tradicionalmente orgulhosa,<br \/>\ncomo era, dito por todos, a de Dona Estela; em segundo lagar aumentava consideravelmente<br \/>\nos seus bens com o dote da noiva, que era rica e, em terceiro, afinal, caber-lhe-ia<br \/>\nmais tarde tudo o que o Miranda possu\u00eda, realizando-se deste modo um velho<br \/>\nsonho que o vendeiro afagava desde o nascimento da sua rivalidade com o vizinho.<br \/>\nE via-se j\u00e1 na brilhante posi\u00e7\u00e3o que o esperava: uma vez de dentro, associava-se<br \/>\nlogo com o sogro e iria pouco a pouco, como quem n\u00e3o quer a coisa, o empurrando<br \/>\npara o lado, at\u00e9 empolgar-lhe o lagar e fazer de si um verdadeiro chefe da<br \/>\ncol\u00f4nia portuguesa no Brasil; depois, quando o barco estivesse navegando ao<br \/>\nlargo a todo o pano &#8211; tome l\u00e1 alguns pares de contos de r\u00e9is e passe-me para<br \/>\nc\u00e1 o titulo de Visconde! Sim, sim, Visconde! Por que n\u00e3o? e mais tarde, com<br \/>\ncerteza, Conde! Eram favas contadas!<\/p>\n<p>Ah! ele, posto nunca o dissera a ningu\u00e9m, sustentava de si para si nos \u00faltimos<br \/>\nanos o firme prop\u00f3sito de fazer-se um titular mais graduado que o Miranda.<br \/>\nE, s\u00f3 depois de ter o titulo nas unhas, \u00e9 que iria \u00e0 Europa, de passeio, sustentando<br \/>\ngrandeza, metendo invejas, cercado de adula\u00e7\u00f5es, liberal, pr\u00f3digo, brasileiro,<br \/>\natordoando o mundo velho com o seu ouro novo americano! E a Bertoleza? gritava-lhe<br \/>\ndo interior uma voz impertinente.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 exato! E a Bertoleza?&#8230; repetia o infeliz, sem interromper o seu vaiv\u00e9m<br \/>\nao comprido da alcova. Diabo! E n\u00e3o poder arredar logo da vida aquele ponto<br \/>\nnegro; apag\u00e1-lo rapidamente, como quem tira da pele uma n\u00f3doa de lama! Que<br \/>\nraiva ter de reunir aos v\u00f4os mais fulgurosos da sua ambi\u00e7\u00e3o a id\u00e9ia mesquinha<br \/>\ne rid\u00edcula daquela inconfess\u00e1vel concubinagem! E n\u00e3o podia deixar de pensar<br \/>\nno dem\u00f4nio da negra, porque a maldita ali estava perto, a rond\u00e1-lo amea\u00e7adora<br \/>\ne sombria; ali estava como o documento vivo das suas mis\u00e9rias, j\u00e1 passadas<br \/>\nmas ainda palpitantes. Bertoleza devia ser esmagada, devia ser suprimida,<br \/>\nporque era tudo que havia de mau na vida dele! Seria um crime conserv\u00e1-la<br \/>\na seu lado! Ela era o torpe balc\u00e3o da primitiva bodega; era o aladroado vintenzinho<br \/>\nde manteiga em papel pardo; era o peixe trazido da praia e vendido \u00e0 noite<br \/>\nao lado do fogareiro \u00e0 porta da taberna; era o frege imundo e a lista cantada<br \/>\ndas comezainas \u00e0 portuguesa; era o sono roncado num colch\u00e3o f\u00e9tido, cheio<br \/>\nde bichos; ela era a sua c\u00famplice e era todo seu mal- devia, pois, extinguir-se!<br \/>\nDevia ceder o lagar \u00e0 p\u00e1lida mocinha de m\u00e3os delicadas e cabelos perfumados,<br \/>\nque era o bem, porque era o que ria e alegrava, porque era a vida nova, o<br \/>\nromance solfejado ao piano, as flores nas jarras, as sedas e as rendas, o<br \/>\nch\u00e1 servido em porcelanas caras; era enfim a doce exist\u00eancia dos ricos, dos<br \/>\nfelizes e dos fortes, dos que herdaram sem trabalho ou dos que, a puro esfor\u00e7o,<br \/>\nconseguiram acumular dinheiro, rompendo e subindo por entre o rebanho dos<br \/>\nescrupulosos ou dos fracos. E o vendeiro tinha defronte dos olhos o namorado<br \/>\nsorriso da filha do Miranda, sentia ainda a leve press\u00e3o do bra\u00e7o melindroso<br \/>\nque se apoiara ao seu, algumas horas antes, em passeio pela praia de Botafogo;<br \/>\nrespirava ainda os perfumes da menina, suaves, escolhidos e penetrantes como<br \/>\npalavras de amor; nos seus dedos grossos, curtos, \u00e1speros e vermelhos, conservava<br \/>\na impress\u00e3o da<\/p>\n<p>t\u00e9pida car\u00edcia daquela m\u00e3ozinha enluvada que, dentro em pouco, nos prazeres<br \/>\ngarantidos do matrim\u00f4nio, afagar-lhe-ia as carnes e os cabelos. Mas, e a Bertoleza?&#8230;<br \/>\nSim! era preciso acabar com ela! despach\u00e1-la! sumi-la por uma vez! Deu meia-noite<br \/>\nno rel\u00f3gio do armaz\u00e9m. Jo\u00e3o Rom\u00e3o tomou uma vela e desceu aos fundos da casa,<br \/>\nonde Bertoleza dormia. Aproximou-se dela, p\u00e9 ante p\u00e9, como um criminoso que<br \/>\nleva uma id\u00e9ia homicida. A crioula estava im\u00f3vel sobre o enxerg\u00e3o, deitada<br \/>\nde lado, com a cara escondida no bra\u00e7o direito, que ela dobrara por debaixo<br \/>\nda cabe\u00e7a. Aparecia-lhe uma parte do corpo nua. Jo\u00e3o Rom\u00e3o contemplou-a por<br \/>\nalgum tempo, com asco. E era aquilo, aquela miser\u00e1vel preta que ali dormia<br \/>\nindiferentemente, o grande estorvo da sua ventura!&#8230; Parecia imposs\u00edvel!<br \/>\n&#8211; E se ela morresse?&#8230; Esta frase, que ele tivera, quando pensou pela primeira<br \/>\nvez naquele obst\u00e1culo \u00e0 sua felicidade, tornava-lhe agora ao esp\u00edrito, por\u00e9m<br \/>\nj\u00e1 amadurecida e transformada nesta outra: &#8211; E se eu a matasse? Mas logo um<br \/>\ncalafrio de pavor correu-lhe por todos os nervos. Al\u00e9m disso, como?&#8230; Sim,<br \/>\ncomo poderia despach\u00e1-la, sem deixar sinais comprometedores do crime?&#8230; Envenenando-a?&#8230;<br \/>\nDariam logo pela coisa!&#8230; Mat\u00e1-la a tiro?&#8230; Pior! Lev\u00e1-la a um passeio fora<br \/>\nda cidade, bem longe e, no melhor da festa, atir\u00e1-la ao mar ou por um despenhadeiro,<br \/>\nonde a morte fosse infal\u00edvel?&#8230; Mas como arranjar tudo isso, se eles nunca<br \/>\npasseavam juntos?&#8230; Diabo! E o desgra\u00e7ado ficou a pensar, abstrato, de casti\u00e7al<br \/>\nna m\u00e3o, sem despregar os olhos de cima de Bertoleza, que continuava im\u00f3vel,<br \/>\ncom o rosto escondido no bra\u00e7o. &#8211; E se eu a esganasse aqui mesmo?&#8230; E deu,<br \/>\nna ponta dos p\u00e9s, alguns passos para frente, parando logo, sem deixar nunca<br \/>\nde contempl\u00e1-la. Mas a crioula ergueu de improviso a cabe\u00e7a e fitou-o com<br \/>\nos olhos de quem n\u00e3o estava dormindo. &#8211; Ah! fez ele. &#8211; Que \u00e9, seu Jo\u00e3o? &#8211;<br \/>\nNada. Vim s\u00f3 ver-te&#8230; Cheguei ainda n\u00e3o h\u00e1 muito&#8230; Como vais tu? Passou-te<br \/>\na dor do lado?&#8230; Ela meneou os ombros, sem responder ao certo. Houve um sil\u00eancio<br \/>\nentre os dois. Jo\u00e3o Rom\u00e3o n\u00e3o sabia o que dizer e saiu afinal, escoltado pelo<br \/>\nimperturb\u00e1vel olhar da crioula, que o intimava mesmo pelas costas. &#8211; Teria<br \/>\ndesconfiado? pensou o miser\u00e1vel, subindo de novo para o quarto. Qual! Desconfiar<br \/>\nde qu\u00ea?&#8230; E meteu-se logo na cama, disposto a n\u00e3o pensar mais nisso e dormir<br \/>\nincontinenti. Mas o seu pensamento continuou rebelde a parafusar sobre o mesmo<br \/>\nassunto. &#8211; \u00c9 preciso despach\u00e1-la! \u00c9 preciso despach\u00e1-la quanto antes, seja<br \/>\nl\u00e1 como for! Ela, at\u00e9 agora, n\u00e3o deu ainda sinal de si; n\u00e3o abriu o bico a<br \/>\nrespeito da quest\u00e3o; mas, Dona Estela est\u00e1 a marcar o dia do casamento; n\u00e3o<br \/>\nlevar\u00e1 muito tempo para isso&#8230; o Miranda naturalmente comunica a noticia<br \/>\naos amigos&#8230; o fato corre de boca em boca&#8230; chega aos ouvidos da crioula<br \/>\ne esta, vendo-se abandonada, estoura! estoura com certeza! E agora o ver\u00e1s!<br \/>\nComo deve ser bonito, hein?&#8230; Ir t\u00e3o bem at\u00e9 aqui e esbarrar na oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nda negra!&#8230; E os coment\u00e1rios depois!&#8230; O que n\u00e3o dir\u00e3o os invejosos l\u00e1 da<br \/>\npra\u00e7a?&#8230; &#8220;Ah, ah! ele tinha em casa uma amiga, uma preta imunda com quem<br \/>\nvivia! Que tipo! Sempre h\u00e1 de mostrar que e gentinha de laia muito baixa!&#8230;<br \/>\nE aqui a engazopar-nos com uns ares de capitalista que se trata \u00e0 vela de<br \/>\nlibra! Olha o carapicu pra que havia de dar. Sai sujo!&#8221; E, ent\u00e3o, a fam\u00edlia<br \/>\nda menina, com medo de cair tamb\u00e9m na boca do mundo, volta atr\u00e1s e d\u00e1 o dito<br \/>\npor n\u00e3o dito! Bem sei que ela est\u00e1 a par de tudo; isso, ol\u00e9, se est\u00e1! mas<br \/>\nfinge-se desentendida, porque conta, e com raz\u00e3o, que eu n\u00e3o serei t\u00e3o parvo<br \/>\nque espere o dia do casamento sem ter dado sumi\u00e7o \u00e0 negra! contam que a coisa<br \/>\ncorrer\u00e1 sem o menor esc\u00e2ndalo! E eu, no entanto, t\u00e3o besta que nada fiz! E<br \/>\na peste da crioula est\u00e1 ai senhora do terreiro como dantes, e n\u00e3o descubro<br \/>\nmeio de ver-me livre dela!&#8230; Ora j\u00e1 se viu como arranjei semelhante entala\u00e7\u00e3o?&#8230;<br \/>\nIsto contado n\u00e3o se acredita! E pisava e repisava o caso, sem achar meio de<br \/>\ndar-lhe sa\u00edda! Diabo!<\/p>\n<p>&#8211; Ela h\u00e1 muito que devia estar longe de mim&#8230; fiz mal em n\u00e3o cuidar logo<br \/>\ndisso antes de mais nada!&#8230; Fui um peda\u00e7o d\u2019asno! Se eu a tivesse despachado<br \/>\nlogo, quando ainda se n\u00e3o falava no meu casamento, ningu\u00e9m desconfiaria da<br \/>\nhist\u00f3ria: &#8220;Por que diabo iria o pobre homem dar cabo de uma mulher, com quem<br \/>\nvivia na melhor paz e que era at\u00e9, dentro de casa, o seu bra\u00e7o direito?&#8230;&#8221;<br \/>\nMas agora, depois de todas aquelas reformas de vida; depois da separa\u00e7\u00e3o das<br \/>\ncamas, e principalmente depois que corresse a noticia do casamento, n\u00e3o faltaria<br \/>\ndecerto quem o acusasse, se a negra aparecesse morta de repente! Diabo! Deram<br \/>\nquatro horas, e o desgra\u00e7ado nada de pregar olho; continuava a matutar sobre<br \/>\no assunto, virando-se de um para outro lado da sua larga e rangedora cama<br \/>\nde casados. S\u00f3 pelo abrir da aurora, conseguiu passar pelo sono; mas, logo<br \/>\n\u00e0s sete da manh\u00e3, teve de p\u00f4r-se a p\u00e9: o corti\u00e7o estava todo alvoro\u00e7ado com<br \/>\num desastre. A Machona lavava \u00e0 sua tina, ralhando e discutindo como sempre,<br \/>\nquando dois trabalhadores, acompanhados de um ruidoso grupo de curiosos, trouxeram-lhe<br \/>\nsobre uma t\u00e1bua o cad\u00e1ver ensang\u00fcentado do filho. Agostinho havia ido, segundo<br \/>\no costume, brincar \u00e0 pedreira com outros dois rapazitos da estalagem; tinham,<br \/>\ncabritando pelas arestas do precip\u00edcio, subido a uma altura superior a duzentos<br \/>\nmetros do ch\u00e3o e, de repente, faltara-lhe o equil\u00edbrio e o infeliz rolou de<br \/>\nl\u00e1 abaixo, partindo os ossos e atassalhando as carnes. Todo ele, coitadinho,<br \/>\nera uma s\u00f3 massa vermelha; as canelas, quebradas no joelho, dobravam moles<br \/>\npara debaixo das coxas; a cabe\u00e7a, desarticulada, abrira no casco e despejava<br \/>\no pir\u00e3o dos miolos; numa das m\u00e3os faltavam-lhe todos os dedos e no quadril<br \/>\nesquerdo via-se-lhe sair uma ponta de osso ralado pela pedra.<\/p>\n<p>Foi um alarma no p\u00e1tio quando ele chegou.<\/p>\n<p>Cruzes! que desgra\u00e7a!<\/p>\n<p>Albino, que lavava ao lado da Machona, teve uma s\u00edncope; Nenen ficou que<br \/>\nnem doida, porque ela queria muito \u00e0quele irm\u00e3o; a das Dores imprecou contra<br \/>\nos trabalhadores, que deixavam um filho alheio matar-se daquele modo em presen\u00e7a<br \/>\ndeles; a m\u00e3e, essa apenas soltou um bramido de monstro apunhalado no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne caiu mesquinha junto do cad\u00e1ver, a beij\u00e1-lo, vagindo como uma crian\u00e7a. N\u00e3o<br \/>\nparecia a mesma!<\/p>\n<p>As m\u00e3es dos outros dois rapazitos esperavam im\u00f3veis e l\u00edvidas pela volta<br \/>\ndos filhos, e, mal estes chegaram \u00e0 estalagem, cada uma se apoderou logo do<br \/>\nseu e caiu-lhe em cima, a sov\u00e1-los ambos que metia medo.<\/p>\n<p>&#8211; Mira-te naquele espelho, tenta\u00e7\u00e3o do diabo! exclamava uma delas, com o<br \/>\npequeno seguro entre as pernas a encher-lhe a bunda de chineladas. N\u00e3o era<br \/>\naquele que devia ir, eras tu, peste! aquele, coitado! ao menos ajudava a m\u00e3e,<br \/>\nganhava dois mil-r\u00e9is por m\u00eas regando as plantas do Comendador, e tu, coisa-ruim,<br \/>\ns\u00f3 serves para me dar consumi\u00e7\u00f5es! Toma! Toma! Toma!<\/p>\n<p>E o chinelo cantava entre o berreiro feroz dos dois rapazes.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rom\u00e3o chegou ao terra\u00e7o de sua casa, ainda em mangas de camisa, e de<br \/>\nl\u00e1 mesmo tomou conhecimento do que acontecera. Contra todos os seus h\u00e1bitos<br \/>\nimpressionou-se com a morte de Agostinho; lamentou-a no intimo, tomado de<br \/>\nestranhas condol\u00eancias.<\/p>\n<p>Pobre pequeno! t\u00e3o novo&#8230; t\u00e3o esperto&#8230; e cuja vida n\u00e3o prejudicava a ningu\u00e9m,<br \/>\nmorrer assim, desastradamente!&#8230; ao passo que aquele diabo velho da Bertoleza<br \/>\ncontinuava agarrado \u00e0 exist\u00eancia, envenenando-lhe a felicidade, sem se decidir<br \/>\na despachar o beco!<\/p>\n<p>E o dem\u00f4nio da crioula parecia mesmo n\u00e3o estar disposta a ir s\u00f3 com duas<br \/>\nraz\u00f5es; apesar de triste e acabrunhada, mostrava-se forte e rija. Suas pernas<br \/>\ncurtas e lustrosas eram duas pe\u00e7as de ferro unidas pela culatra, das quais<br \/>\nela trazia um par de balas penduradas em saco contra o peito; as r\u00f3seas lustrosas<br \/>\ndo seu cacha\u00e7o lembravam grossos chouri\u00e7os de sangue, e na sua carapinha compacta<br \/>\nainda n\u00e3o havia um fio branco. Aquilo, arre! tinha vida para o resto do s\u00e9culo!<\/p>\n<p>&#8211; Mas deixa estar, que eu te despacho bonito e asseado!&#8230; disse o vendeiro<br \/>\nde si para si, voltando ao quarto para acabar de vestir-se. Enfiava o colete<br \/>\nquando bateram pancadas familiares na porta do corredor. &#8211; Ent\u00e3o?! Ainda se<br \/>\nest\u00e1 em val de len\u00e7\u00f3is?&#8230; Era a voz do Botelho. O vendeiro foi abrir e f\u00ea-lo<br \/>\nentrar ali mesmo para a alcova. &#8211; Ponha-se a gosto. Como vai voc\u00ea? &#8211; Assim.<br \/>\nN\u00e3o tenho passado l\u00e1 essas coisas&#8230; Jo\u00e3o Rom\u00e3o deu-lhe noticia da morte do<br \/>\nAgostinho e declarou que estava com dor de cabe\u00e7a. N\u00e3o sabia que diabo tinha<br \/>\nele aquela noite, que n\u00e3o houve meio de pegar direito no sono.<\/p>\n<p>&#8211; Calor&#8230; explicou o outro. E prosseguiu depois de uma pausa, acendendo<br \/>\num cigarro: pois eu vinha c\u00e1 falar-lhe&#8230; Voc\u00ea n\u00e3o repare, mas&#8230; Jo\u00e3o Rom\u00e3o<br \/>\nsup\u00f4s que o parasita ia pedir-lhe dinheiro e preparou-se para a defesa, queixando-se<br \/>\ninopinadamente de que os neg\u00f3cios n\u00e3o lhe corriam bem; mas calou-se, porque<br \/>\no Botelho acrescentou com o olhar fito nas unhas: &#8211; N\u00e3o devia falar nisto&#8230;<br \/>\ns\u00e3o coisas suas l\u00e1 particulares, em que a gente n\u00e3o se mete, mas&#8230; O taberneiro<br \/>\ncompreendeu logo onde a visita queria chegar e aproximou-se dele, dizendo<br \/>\nconfidencialmente: &#8211; N\u00e3o! Ao contr\u00e1rio! fale com franqueza&#8230; Nada de receios&#8230;<br \/>\n&#8211; \u00c9 que&#8230; sim, voc\u00ea sabe que eu tenho tratado do seu casamento com a Zulmirinha&#8230;<br \/>\nL\u00e1 em casa n\u00e3o se fala agora noutra coisa&#8230; at\u00e9 a pr\u00f3pria Dona Estela j\u00e1<br \/>\nest\u00e1 muito bem disposta a seu favor&#8230; mas&#8230; &#8211; Desembuche, homem de Deus!<br \/>\n&#8211; \u00c9 que h\u00e1 um pontinho que \u00e9 preciso p\u00f4r a limpo&#8230; Coisa insignificante,<br \/>\nmas&#8230; &#8211; Mas, mas! voc\u00ea n\u00e3o desembuchar\u00e1 por uma vez?&#8230; Fale, que diabo!<br \/>\nUm caixeiro do armaz\u00e9m apareceu \u00e0 porta, prevenindo de que o almo\u00e7o estava<br \/>\nna mesa. &#8211; Vamos comer, disse Jo\u00e3o Rom\u00e3o. Voc\u00ea j\u00e1 almo\u00e7ou? &#8211; Ainda n\u00e3o, mas<br \/>\nl\u00e1 em casa contam comigo&#8230;<\/p>\n<p>O vendeiro mandou o seu empregado dizer l\u00e1 defronte \u00e0 fam\u00edlia do Bar\u00e3o que<br \/>\nseu Botelho n\u00e3o ia ao almo\u00e7o. E, sem tomar o casaco, passou com a visita \u00e0<br \/>\nsala de jantar. O cheiro ativo dos m\u00f3veis, polidos ainda de fresco, dava ao<br \/>\naposento um car\u00e1ter insoci\u00e1vel de lagar desabitado e por alagar. Os trastes,<br \/>\nt\u00e3o nus como as paredes, entristeciam com a sua fria nitidez de coisa nova.<br \/>\n&#8211; Mas vamos l\u00e1! Que temos ent\u00e3o?&#8230; inquiriu o dono da casa, assentando-se<br \/>\n\u00e0 cabeceira da mesa, enquanto o outro, junto dele, tomava lugar \u00e0 extremidade<br \/>\nde um dos lados. &#8211; \u00c9 que, respondeu o velho em tom de mist\u00e9rio, voc\u00ea tem c\u00e1<br \/>\nem sua companhia uma&#8230; uma crioula, que&#8230; Eu n\u00e3o creio, note-se, mas&#8230;<br \/>\n&#8211; Adiante! &#8211; \u00c9! Dizem que ela \u00e9 coisa sua&#8230; L\u00e1 em casa rosnou!&#8230; O Miranda<br \/>\ndefende-o, afirma que n\u00e3o&#8230; Ah! aquilo \u00e9 uma grande alma! mas Dona Estela,<br \/>\nvoc\u00ea sabe o que s\u00e3o as mulheres!&#8230; torce o nariz e&#8230; Em uma palavra: receio<br \/>\nque esta hist\u00f3ria nos traga qualquer embara\u00e7o!&#8230; Calou-se, porque acabava<br \/>\nde entrar um portuguesinho, trazendo uma travessa de carne ensopada com batatas.<br \/>\nJo\u00e3o Rom\u00e3o n\u00e3o respondeu, mesmo depois que o pequeno saiu; ficou abstrato,<br \/>\na bater com a faca entre os dentes. &#8211; Por que voc\u00ea a n\u00e3o manda embora?&#8230;<br \/>\narriscou o Botelho, despejando vinho no seu e no copo do companheiro. Ainda<br \/>\ndesta vez n\u00e3o obteve logo resposta; mas o outro tomando, afinal, uma resolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndeclarou confidencialmente: &#8211; Vou dizer-lhe toda coisa como ela \u00e9&#8230; e talvez<br \/>\nque voc\u00ea at\u00e9 me possa auxiliar!&#8230; Olhou para os lados, chegou mais a sua<br \/>\ncadeira para junto da de Botelho e acrescentou em voz baixa: &#8211; Esta mulher<br \/>\nmeteu-se comigo, quando eu principiava minha vida&#8230; Ent\u00e3o, confesso&#8230; precisava<br \/>\nde algu\u00e9m nos casos dela, que me ajudasse&#8230; e ajudou-me muito, n\u00e3o nego!<br \/>\nDevo-lhe isso! n\u00e3o! ajudar-me ajudou! mas&#8230; &#8211; E depois? &#8211; Depois, ela foi<br \/>\nficando para ai; foi ficando&#8230; e agora&#8230; &#8211; Agora \u00e9 um trambolho que lhe<br \/>\npode escangalhar a igrejinha! \u00c9 o que \u00e9! &#8211; Sim, que d\u00favida! pode ser um obst\u00e1culo<br \/>\ns\u00e9rio ao meu casamento! Mas, que diabo! eu tamb\u00e9m, voc\u00ea compreende, n\u00e3o a<br \/>\nposso p\u00f4r na rua, assim, sem mais aquelas!&#8230; Seria ingratid\u00e3o, n\u00e3o lhe parece?&#8230;<br \/>\n&#8211; Ela j\u00e1 sabe em que p\u00e9 est\u00e1 o neg\u00f3cio?&#8230; &#8211; Deve desconfiar de alguma coisa,<br \/>\nque n\u00e3o \u00e9 tola!&#8230; Eu, c\u00e1 por mim, n\u00e3o lhe toquei em nada&#8230; &#8211; E voc\u00ea ainda<br \/>\nfaz vida com ela? &#8211; Qual! h\u00e1 muito tempo que nem sombras disso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois, ent\u00e3o, meu amigo, \u00e9 arranjar-lhe uma quitanda em outro bairro; dar-lhe<br \/>\nalgum dinheiro e&#8230; Boa viagem! O dente que j\u00e1 n\u00e3o presta arranca-se fora!<br \/>\nJo\u00e3o Rom\u00e3o ia responder, mas Bertoleza assomou \u00e0 entrada da sala. Vinha t\u00e3o<br \/>\ntransformada e t\u00e3o l\u00edvida que s\u00f3 com a sua presen\u00e7a intimidou profundamente<br \/>\nos dois. A indigna\u00e7\u00e3o tirava-lhe fa\u00edscas dos olhos e os l\u00e1bios tremiam-lhe<br \/>\nde raiva. Logo que falou veio-lhe espuma aos cantos da boca. &#8211; Voc\u00ea est\u00e1 muito<br \/>\nenganado, seu Jo\u00e3o, se cuida que se casa e me atira a toa! exclamou ela. Sou<br \/>\nnegra, sim, mas tenho sentimentos! Quem me comeu a carne tem de roer-me os<br \/>\nossos! Ent\u00e3o h\u00e1 de uma criatura ver entrar ano e sair ano, a puxar pelo corpo<br \/>\ntodo o santo dia que Deus manda ao mundo, desde pela manh\u00e3zinha at\u00e9 pelas<br \/>\ntantas da noite, para ao depois ser jogada no meio da rua, como galinha podre?!<br \/>\nN\u00e3o! N\u00e3o h\u00e1 de ser assim, seu Jo\u00e3o! &#8211; Mas, filha de Deus, quem te disse que<br \/>\neu quero atirar-te \u00e0 toa?&#8230; perguntou o capitalista. &#8211; Eu escutei o que voc\u00ea<br \/>\nconversava, seu Jo\u00e3o! A mim n\u00e3o me cegam assim s\u00f3! Voc\u00ea \u00e9 fino, mas eu tamb\u00e9m<br \/>\nsou! Voc\u00ea est\u00e1 armando casamento com a menina de seu Miranda! &#8211; Sim, estou.<br \/>\nUm dia havia de cuidar de meu casamento!&#8230; N\u00e3o hei de ficar solteiro toda<br \/>\na vida, que n\u00e3o nasci para podengo. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o te sacudo na rua, como<br \/>\ndisseste; ao contr\u00e1rio agora mesmo tratava aqui com o seu Botelho de arranjar-te<br \/>\numa quitanda e&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Com quitanda principiei; n\u00e3o hei de ser quitandeira at\u00e9 morrer! Preciso<br \/>\nde um descanso! Para isso mourejei junto de voc\u00ea enquanto Deus Nosso Senhor<br \/>\nme deu for\u00e7a e sa\u00fade! &#8211; Mas afinal que diabo queres tu?! &#8211; Ora essa! Quero<br \/>\nficar a seu lado! Quero desfrutar o que n\u00f3s dois ganhamos juntos! quero a<br \/>\nminha parte no que fizemos com o nosso trabalho! quero o meu regalo, como<br \/>\nvoc\u00ea quer o seu! &#8211; Mas n\u00e3o v\u00eas que isso \u00e9 um disparate?&#8230; Tu n\u00e3o te conheces?&#8230;<br \/>\nEu te estimo, filha; mas por ti farei o que for bem entendido e n\u00e3o loucuras!<br \/>\nDescansa que nada te h\u00e1 de faltar!&#8230; Tinha gra\u00e7a, com efeito, que fic\u00e1ssemos<br \/>\nvivendo juntos! N\u00e3o sei como n\u00e3o me prop\u00f5es casamento! &#8211; Ah! agora n\u00e3o me<br \/>\nenxergo! agora eu n\u00e3o presto para nada! Por\u00e9m, quando voc\u00ea precisou de mim<br \/>\nn\u00e3o lhe ficava mal servir-se de meu corpo e ag\u00fcentar a sua casa com o meu<br \/>\ntrabalho! Ent\u00e3o a negra servia pra um tudo; agora n\u00e3o presta pra mais nada,<br \/>\ne atira-se com ela no monturo do cisco! N\u00e3o! assim tamb\u00e9m Deus n\u00e3o manda!<br \/>\nPois se aos c\u00e3es velhos n\u00e3o se enxotam, por que me h\u00e3o de p\u00f4r fora desta casa,<br \/>\nem que meti muito suor do meu rosto?&#8230; Quer casar, espere ent\u00e3o que eu feche<br \/>\nprimeiro os olhos; n\u00e3o seja ingrato! Jo\u00e3o Rom\u00e3o perdeu por fim a paci\u00eancia<br \/>\ne retirou-se da sala, atirando \u00e0 amante uma palavrada porca. &#8211; N\u00e3o vale a<br \/>\npena encanzinar-se&#8230; segredou-lhe o Botelho, acompanhando-o at\u00e9 a alcova,<br \/>\nonde o vendeiro enterrou com toda a for\u00e7a o chap\u00e9u na cabe\u00e7a e enfiou o palet\u00f3<br \/>\ncom a m\u00e3o fechada em murro. &#8211; Arre! N\u00e3o a posso aturar nem mais um instante!<br \/>\nQue v\u00e1 para o diabo que a carregue! em casa \u00e9 que n\u00e3o me fica! &#8211; Calma, homem<br \/>\nde Deus! Calma! &#8211; Se n\u00e3o quiser ir por bem, ira por mal! Sou eu quem o diz!<br \/>\nE o vendeiro esfuziou pela escada, levando atr\u00e1s de si o velhote, que mal<br \/>\npodia acompanh\u00e1-lo na carreira. J\u00e1 na esquina da rua parou e, fitando no outro<br \/>\no seu olhar flamejante, perguntou-lhe: &#8211; Voc\u00ea viu?! &#8211; \u00c9&#8230; resmungou o parasita,<br \/>\nde cabe\u00e7a baixa, sem interromper os passos. E seguiram em sil\u00eancio, andando<br \/>\nagora mais devagar; ambos preocupados. No fim de uma boa pausa, Botelho perguntou<br \/>\nse Bertoleza era escrava quando Jo\u00e3o Rom\u00e3o tomou conta dela. Esta pergunta<br \/>\ntrouxe uma inspira\u00e7\u00e3o ao vendeiro. Ia pensando em met\u00ea-la como idiota no Hosp\u00edcio<br \/>\nde Pedro 11, mas acudia-lhe agora coisa muito melhor: entreg\u00e1-la ao seu senhor,<br \/>\nrestitu\u00ed-la legalmente \u00e0 escravid\u00e3o. N\u00e3o seria dif\u00edcil&#8230; considerou ele;<br \/>\nera s\u00f3 procurar o dono da escrava, dizer-lhe onde esta se achava refugiada<br \/>\ne aquele ir logo busc\u00e1-la com a pol\u00edcia. E respondeu ao Botelho: &#8211; Era e \u00e9!<br \/>\n&#8211; Ah! Ela \u00e9 escrava? De quem? &#8211; De um tal Freitas de Melo. O primeiro nome<br \/>\nn\u00e3o sei. Gente de fora. Em casa tenho as notas.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! ent\u00e3o a coisa \u00e9 simples!&#8230; Mande-a p\u2019ro dono! &#8211; E se ela n\u00e3o<br \/>\nquiser ir?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como n\u00e3o?! A pol\u00edcia a obrigar\u00e1! \u00c9 boa!<\/p>\n<p>&#8211; Ela h\u00e1 de querer comprar a liberdade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois que a compre, se o dono consentir!&#8230; Voc\u00ea com isso nada mais tem<br \/>\nque ver! E se ela voltar \u00e0 sua procura, despache-a logo; se insistir, v\u00e1 ent\u00e3o<br \/>\n\u00e0 autoridade e queixe-se! Ah, meu caro, estas coisas, para serem bem feiras,<br \/>\nfazem-se assim ou n\u00e3o se fazem! Olhe que aquele modo com que ela lhe falou<br \/>\nh\u00e1 pouco \u00e9 o bastante para voc\u00ea ver que semelhante estupor n\u00e3o lhe conv\u00e9m<br \/>\ndentro de casa nem mais um instante! Digo-lhe at\u00e9: j\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 pelo fato do<br \/>\ncasamento, mas por tudo! N\u00e3o seja mole! Jo\u00e3o Rom\u00e3o escutava, caminhando calado,<br \/>\nsem mais vislumbres de agita\u00e7\u00e3o. Tinham chegado \u00e0 praia. &#8211; Voc\u00ea quer encarregar-se<br \/>\ndisto? prop\u00f4s ele ao companheiro, parando ambos \u00e0 espera do bonde; se quiser<br \/>\npode tratar, que lhe darei uma gratifica\u00e7\u00e3o menos m\u00e1&#8230; &#8211; De quanto?&#8230; &#8211;<br \/>\nCem mil-r\u00e9is! &#8211; N\u00e3o! dobre! &#8211; Ter\u00e1s os duzentos! &#8211; Est\u00e1 dito! Eu c\u00e1, pra tudo<br \/>\nque for p\u00f4r cobro a relaxamento de negro, estou sempre pronto! &#8211; Pois ent\u00e3o<br \/>\nlogo mais \u00e0 tarde lhe darei, ao certo, o nome do dono, o lugar em que ele<br \/>\nresidia quando ela veio para mim e o mais que encontrar a respeito. &#8211; E o<br \/>\nresto fica a meu cuidado! Pode d\u00e1-la por despachada!<\/p>\n<h2><a name=\"22\"><\/a>XXII<\/h2>\n<p>Desde esse dia Bertoleza fez-se ainda mais concentrada e resmungona e s\u00f3<br \/>\ntrocava com o amigo um ou outro monoss\u00edlabo inevit\u00e1vel no servi\u00e7o da casa.<br \/>\nEntre os dois havia agora desses olhares de desconfian\u00e7a, que s\u00e3o abismos<br \/>\nde constrangimento entre pessoas que moram juntas. A infeliz vivia num sobressalto<br \/>\nconstante; cheia de apreens\u00f5es, com medo de ser assassinada; s\u00f3 comia do que<br \/>\nela pr\u00f3pria preparava para si e n\u00e3o dormia sen\u00e3o depois de fechar-se a chave.<br \/>\n\u00c0 noite o mais ligeiro rumor a punha de p\u00e9, olhos arregalados, respira\u00e7\u00e3o<br \/>\nconvulsa, boca aberta e pronta para pedir socorro ao primeiro assalto. No<br \/>\nentanto, em redor do seu desassossego e do seu mal-estar, tudo ali prosperava<br \/>\nforte em grosso, aos contos de r\u00e9is, com a mesma febre com que dantes, em<br \/>\ntorno da sua atividade de escrava trabalhadeira, os vint\u00e9ns choviam dentro<br \/>\nda gaveta da venda. Durante o dia paravam agora em frente do armaz\u00e9m carro\u00e7as<br \/>\ne carro\u00e7as com fardos e caixas trazidos da alf\u00e2ndega, em que se liam as iniciais<br \/>\nde Jo\u00e3o Rom\u00e3o; e rodavam-se pipas e mais pipas de vinho e de vinagre, e grandes<br \/>\npartidas de barricas de cerveja e de barris de manteiga e de sacos de pimenta.<br \/>\nE o armaz\u00e9m, com as suas portas escancaradas sobre o p\u00fablico, engolia tudo<br \/>\nde um trago, para depois ir deixando sair de novo, aos poucos, com um lucro<br \/>\nlind\u00edssimo, que no fim do ano causava assombros. Jo\u00e3o Rom\u00e3o fizera-se o fornecedor<br \/>\nde todas as tabernas e armarinhos de Botafogo; o pequeno com\u00e9rcio sortia-se<br \/>\nl\u00e1 para vender a retalho. A sua casa tinha agora um pessoal complicado de<br \/>\nprimeiros, segundos e terceiros caixeiros, al\u00e9m do guarda-livros, do comprador,<br \/>\ndo despachante e do caixa; do seu escrit\u00f3rio saiam correspond\u00eancias em v\u00e1rias<br \/>\nl\u00ednguas e, por dentro das grades de madeira polida, onde havia um bufete sempre<br \/>\nservido com presunto, queijo e cerveja, faziam-se largos contratos comerciais,<br \/>\ntransa\u00e7\u00f5es em que se arriscavam fortunas; e propunham-se negocia\u00e7\u00f5es de empresas<br \/>\ne privil\u00e9gios obtidos do governo; e realizavam-se vendas e compras de pap\u00e9is;<br \/>\ne conclu\u00edam-se empr\u00e9stimos de juros fortes sobre hipotecas de grande valor.<br \/>\nE ali ia de tudo: o alto e o baixo negociante; capitalistas adulados e mercadores<br \/>\nfalidos; corretores de pra\u00e7a, zang\u00f5es, cambistas; empregados p\u00fablicos, que<br \/>\npassavam procura\u00e7\u00e3o contra o seu ordenado; empres\u00e1rios de teatro e fundadores<br \/>\nde jornais, em aparos de dinheiro; vi\u00favas, que negociavam o seu montepio;<br \/>\nestudantes, que iam receber a sua mesada; e capatazes de v\u00e1rios grupos de<br \/>\ntrabalhadores pagos pela casa; e, destacando-se de todos, pela quantidade,<br \/>\nos advogados e a gente mi\u00fada do foro, sempre inquieta, farisqueira, a meter<br \/>\no nariz em tudo, feia, a papelada debaixo do bra\u00e7o, a barba por fazer, o cigarro<br \/>\nbabado e apagado a um canto da boca. E, como a casa comercial de Jo\u00e3o Rom\u00e3o,<br \/>\nprosperava igualmente a sua avenida. J\u00e1 l\u00e1 se n\u00e3o admitia assim qualquer p\u00e9-rapado:<br \/>\npara entrar era preciso carta de fian\u00e7a e uma recomenda\u00e7\u00e3o especial. Os pre\u00e7os<br \/>\ndos c\u00f4modos subiam, e muitos dos antigos h\u00f3spedes, italianos principalmente,<br \/>\niam, por economia, desertando para o &#8220;Cabe\u00e7a-de-Gato&#8221; e sendo substitu\u00eddos<br \/>\npor gente mais limpa. Decrescia tamb\u00e9m o n\u00famero das lavadeiras, e a maior<br \/>\nparte das casinhas eram ocupadas agora por pequenas fam\u00edlias de oper\u00e1rios,<br \/>\nartistas e praticantes de secretaria. O corti\u00e7o aristocratizava-se. Havia<br \/>\num alfaiate logo \u00e0 entrada, homem s\u00e9rio, de su\u00ed\u00e7as que cosia na sua m\u00e1quina<br \/>\nentre oficiais, ajudado pela mulher, uma lisboeta cor de nabo, gorda, velhusca,<br \/>\ncom um principio de bigode e cavanhaque, mas extremamente circunspecta; em<br \/>\nseguida um relojoeiro calvo, de \u00f3culos, que parecia mumificado atr\u00e1s da vidra\u00e7a<br \/>\nem que ele, sem mudar de posi\u00e7\u00e3o, trabalhava, da manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 tarde; depois<br \/>\num pintor de tetos e tabuletas, que levou a fantasia art\u00edstica ao ponto de<br \/>\nfazer, a pincel, uma trepadeira em volta da sua porta, onde se viam p\u00e1ssaros<br \/>\nde v\u00e1rias cores e feitios, muito comprometedores para o cr\u00e9dito profissional<br \/>\ndo autor; mais adiante instalara-se um cigarreiro, que ocupava nada menos<br \/>\nde tr\u00eas n\u00fameros na estalagem e tinha quatro filhas e dois filhos a fabricarem<br \/>\ncigarros, e mais tr\u00eas oper\u00e1rias que preparavam palha de milho e picavam e<br \/>\ndesfiavam tabaco. Florinda, metida agora com um despachante de estrada de<br \/>\nferro, voltara para o S\u00e3o Rom\u00e3o e trazia a sua casinha em muito bonito p\u00e9<br \/>\nde limpeza e arranjo. Estava ainda de luto pela m\u00e3e, a pobre velha Marciana,<br \/>\nque ultimamente havia morrido no hosp\u00edcio dos doidos. Aos domingos o despachante<br \/>\ncostumava receber alguns camaradas para jantar, e como a rapariga puxava os<br \/>\nfeitios da Rita Baiana, as suas noitadas acabavam sempre em pagode de dan\u00e7a<br \/>\ne cantarola, mas tudo de portas adentro, que ali j\u00e1 se n\u00e3o admitiam sambas<br \/>\ne chinfrinadas ao relento. A Machona quebrara um pouco de g\u00eanio depois da<br \/>\nmorte de Agostinho e era agora visitada por um grupo de mo\u00e7os do com\u00e9rcio,<br \/>\nentre os quais havia um pretendente \u00e0 m\u00e3o de Nenen, que se mirrava j\u00e1 de tanto<br \/>\nesperar a seco por marido. Alexandre fora promovido a sargento e empertigava-se<br \/>\nainda mais dentro da sua farda nova, de bot\u00f5es que cegavam; a mulher, sempre<br \/>\nindiferentemente fecunda e honesta, parecia criar bolor na sua moleza \u00famida<br \/>\ne tinha um ar triste de cogumelo; era vista com freq\u00fc\u00eancia a dar de mamar<br \/>\na um pequerrucho de poucos meses, empinando muito a barriga para a frente,<br \/>\npelo h\u00e1bito de andar sempre gr\u00e1vida. A sua comadre L\u00e9onie continuava a visit\u00e1-la<br \/>\nde vez em quando, aturdindo a atual pacatez daquele cen\u00f3bio com as suas roupas<br \/>\ngritadoras. Uma ocasi\u00e3o em que l\u00e1 fora, um s\u00e1bado \u00e0 tarde, produzira grande<br \/>\nalvoro\u00e7o entre os decanos da estalagem, porque consigo levava Pombinha, que<br \/>\nse atirara ao mundo e vivia agora em companhia dela. Pobre Pombinha! no fim<br \/>\ndos seus primeiros dois anos de casada j\u00e1 n\u00e3o podia suportar o marido; todavia,<br \/>\na principio, para conservar-se mulher honesta, tentou perdoar-lhe a falta<br \/>\nde esp\u00edrito, os gostos rasos e a sua risonha e fatigante palermice de homem<br \/>\nsem ideal; ouviu-lhe, resignada, as confid\u00eancias banais nas horas intimas<br \/>\ndo matrim\u00f4nio; atendeu-o nas suas exig\u00eancias mesquinhas de ciumento que chora;<br \/>\ntratou-o com toda a solicitude, quando ele esteve a decidir com uma pneumonite<br \/>\naguda; procurou afinar em tudo com o pobre rapaz; n\u00e3o lhe falou nunca em coisas<br \/>\nque cheirassem a luxo, a arte, a est\u00e9tica, a originalidade; escondeu a sua<br \/>\nmal-educada e natural intui\u00e7\u00e3o pelo que \u00e9 grande, ou belo, ou arrojado, e<br \/>\nfingiu ligar interesse ao que ele fazia, ao que ele dizia, ao que ele ganhava,<br \/>\nao que ele pensava e<\/p>\n<p>ao que ele conseguia com paci\u00eancia na sua vida estreita de negociante rotineiro;<br \/>\nmas, de repente, z\u00e1s! faltou-lhe o equil\u00edbrio e a m\u00edsera escorregou, caindo<br \/>\nnos bra\u00e7os de um bo\u00eamio de talento, libertino e poeta, jogador e capoeira.<br \/>\nO marido n\u00e3o deu logo pela coisa, mas come\u00e7ou a estranhar a mulher, a desconfiar<br \/>\ndela e a espreit\u00e1-la, at\u00e9 que um belo dia, seguindo-a na rua sem ser visto,<br \/>\no desgra\u00e7ado teve a dura certeza de que era tra\u00eddo pela esposa, n\u00e3o mais com<br \/>\no poeta libertino, mas com um artista dram\u00e1tico que muitas vezes lhe arrancara,<br \/>\na ele, sinceras l\u00e1grimas de como\u00e7\u00e3o, declamando no teatro em honra da moral<br \/>\ntriunfante e estigmatizando o adult\u00e9rio com a ret\u00f3rica mais veemente e indignada.<br \/>\nAh! n\u00e3o p\u00f4de iludir-se!&#8230; e, a despeito do muito que amava \u00e0 ingrata, rompeu<br \/>\ncom ela e entregou-a \u00e0 m\u00e3e, fugindo em seguida para S\u00e3o Paulo. Dona Isabel,<br \/>\nque sabia j\u00e1, n\u00e3o desta \u00faltima falcatrua da filha, mas das outras primeiras,<br \/>\nque bem a mortificaram, coitada! desfez-se em l\u00e1grimas, aconselhou-a a que<br \/>\nse arrependesse e mudasse de conduta; em seguida escreveu ao genro, intercedendo<br \/>\npor Pombinha, jurando que agora respondia por ela e pedindo-lhe que esquecesse<br \/>\no passado e voltasse para junto de sua mulher. O rapaz n\u00e3o respondeu \u00e0 carta,<br \/>\ne, da\u00ed a meses, Pombinha desapareceu da casa da m\u00e3e. Dona Isabel quase morre<br \/>\nde desgosto. Para onde teria ido a filha?&#8230; &#8220;Onde est\u00e1? onde n\u00e3o est\u00e1? Procura<br \/>\ndaqui! procura da\u00ed!&#8221; S\u00f3 a descobriu semanas depois; estava morando num hotel<br \/>\ncom L\u00e9onie. A serpente vencia afinal: Pombinha foi, pelo seu pr\u00f3prio p\u00e9, atra\u00edda,<br \/>\nmeter-se-lhe na boca. A pobre m\u00e3e chorou a filha como morta; mas, visto que<br \/>\nos desgostos n\u00e3o lhe tiraram a vida por uma vez e, como a desgra\u00e7ada n\u00e3o tinha<br \/>\ncom que matar a fome, nem for\u00e7as para trabalhar, aceitou de cabe\u00e7a baixa o<br \/>\nprimeiro dinheiro que Pombinha lhe mandou. E, desde ent\u00e3o, aceitou sempre,<br \/>\nconstituindo-se a rapariga no seu \u00fanico amparo da velhice e sustentando-a<br \/>\ncom os ganhos da prostitui\u00e7\u00e3o. Depois, como neste mundo uma criatura a tudo<br \/>\nse acostuma, Dona Isabel mudou-se para a casa da filha. Mas n\u00e3o aparecia nunca<br \/>\nna sala quando havia gente de fora, escondia-se; e, se algum dos freq\u00fcentadores<br \/>\nde Pombinha a pilhava de improviso, a infeliz, com vergonha de si mesma, fingia-se<br \/>\ncriada ou dama de companhia. O que mais a desgostava, e o que ela n\u00e3o podia<br \/>\ntolerar sem apertos de cora\u00e7\u00e3o, era ver a pequena endemoninhar-se com champanha<br \/>\ndepois do jantar e p\u00f4r-se a dizer tolices e a estender-se ali mesmo no colo<br \/>\ndos homens. Chorava sempre que a via entrar \u00e9bria, fora de horas, depois de<br \/>\numa orgia; e, de desgosto em desgosto, foi-se sentindo enfraquecer e enfermar,<br \/>\nat\u00e9 cair de cama e mudar-se para uma casa de sa\u00fade, onde afinal morreu.<\/p>\n<p>Agora, as duas cocotes, amigas insepar\u00e1veis, terr\u00edveis naquela inquebrant\u00e1vel<br \/>\nsolidariedade, que fazia delas uma s\u00f3 cobra de duas cabe\u00e7as, dominavam o alto<br \/>\ne o baixo Rio de Janeiro. Eram vistas por toda a parte onde houvesse prazer;<br \/>\na tarde, antes do jantar, atravessavam o Catete em carro descoberto, com a<br \/>\nJuju ao lado; \u00e0 noite, no teatro, em um camarote de boca chamavam sobre si<br \/>\nos velhos conselheiros desfibrados pela pol\u00edtica e \u00e1vidos de sensa\u00e7\u00f5es extremas,<br \/>\nou arrastavam para os gabinetes particulares dos hot\u00e9is os sensuais e gordos<br \/>\nfazendeiros de caf\u00e9, que vinham \u00e0 corte esbodegar o farto produto das safras<br \/>\ndo ano, trabalhadas pelos seus escravos. Por cima delas duas passara uma gera\u00e7\u00e3o<br \/>\ninteira de devassos. Pombinha, s\u00f3 com tr\u00eas meses de cama franca, fizera-se<br \/>\nt\u00e3o perita no of\u00edcio como a outra; a sua infeliz intelig\u00eancia, nascida e criada<br \/>\nno modesto lodo da estalagem, medrou logo admiravelmente na lama forte dos<br \/>\nv\u00edcios de largo f\u00f4lego; fez maravilhas na arte; parecia adivinhar todos os<br \/>\nsegredos daquela vida; seus l\u00e1bios n\u00e3o tocavam em ningu\u00e9m sem tirar sangue;<br \/>\nsabia beber, gota a gota, pela boca do homem mais avarento, todo o dinheiro<br \/>\nque a vitima pudesse dar de si. Entretanto, l\u00e1 na Avenida S\u00e3o Rom\u00e3o, era,<br \/>\ncomo a mestra, cada vez mais adorada pelos seus velhos e fi\u00e9is companheiros<br \/>\nde corti\u00e7o; quando l\u00e1 iam, acompanhadas por Juju, a porta da Augusta ficava,<br \/>\ncomo dantes, cheia de gente, que as aben\u00e7oava com o seu est\u00fapido sorriso de<br \/>\npobreza heredit\u00e1ria e humilde. Pombinha abria muito a bolsa, principalmente<br \/>\ncom a mulher de Jer\u00f4nimo, a cuja filha, sua protegida predileta, votava agora,<br \/>\npor sua vez, uma simpatia toda especial, id\u00eantica \u00e0 que noutro tempo inspirara<br \/>\nela pr\u00f3pria \u00e0 L\u00e9onie. A cadeia continuava e continuaria interminavelmente;<br \/>\no corti\u00e7o estava preparando uma nova prostituta naquela pobre menina desamparada,<br \/>\nque se fazia mulher ao lado de uma infeliz m\u00e3e \u00e9bria. E era, ainda assim,<br \/>\ncom essas esmolas de Pombinha, que na casa de Piedade n\u00e3o faltava de todo<br \/>\no p\u00e3o, porque j\u00e1 ningu\u00e9m confiava roupa \u00e0 desgra\u00e7ada, e nem ela podia dar<br \/>\nconta de qualquer trabalho. Pobre mulher! chegara ao extremo dos extremos.<br \/>\nCoitada! j\u00e1 n\u00e3o causava d\u00f3, causava repugn\u00e2ncia e nojo. Apagaram-se-lhe os<br \/>\n\u00faltimos vest\u00edgios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato e sempre \u00e9bria,<br \/>\ndessa embriaguez sombria e m\u00f3rbida que se n\u00e3o dissipa nunca. O seu quarto<br \/>\nera o mais imundo e o pior de toda a estalagem; homens malvados abusavam dela,<br \/>\nmuitos de uma vez, aproveitando-se da quase completa inconsci\u00eancia da infeliz.<br \/>\nAgora, o menor trago de aguardente a punha logo pronta; acordava todas as<br \/>\nmanh\u00e3s apatetada, muito triste, sem animo para viver esse dia, mas era s\u00f3<br \/>\ncorrer \u00e0 garrafa e voltavam-lhe as risadas frouxas, de boca que j\u00e1 se n\u00e3o<br \/>\ngoverna. Um empregado de Jo\u00e3o Rom\u00e3o, que ultimamente fazia as vezes dele na<br \/>\nestalagem, por tr\u00eas vezes a enxotou, e ela, de todas, pediu que lhe dessem<br \/>\nalguns dias de espera, para arranjar casa. Afinal, no dia seguinte ao \u00faltimo<br \/>\nem que Pombinha apareceu por l\u00e1 com L\u00e9onie e deixou-lhe algum dinheiro, despejaram-lhe<br \/>\nos tarecos na rua. E a m\u00edsera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha,<br \/>\nno &#8220;Cabe\u00e7a-de-Gato&#8221; que, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que o S\u00e3o Rom\u00e3o se engrandecia, mais<br \/>\ne mais ia-se rebaixando acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjeto,<br \/>\nmais corti\u00e7o, vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro rejeitava,<br \/>\ncomo se todo o seu ideal fosse conservar inalter\u00e1vel, para sempre, o verdadeiro<br \/>\ntipo da estalagem fluminense, a legitima, a legend\u00e1ria; aquela em que h\u00e1 um<br \/>\nsamba e um rolo por noite; aquela em que se matam homens sem a pol\u00edcia descobrir<br \/>\nos assassinos; viveiro de larvas sensuais em que irm\u00e3os dormem misturados<br \/>\ncom as irm\u00e3s na mesma lama; para\u00edso de vermes, brejo de lodo quente e fumegante,<br \/>\ndonde brota a vida brutalmente, como de uma podrid\u00e3o.<\/p>\n<h2><a name=\"23\"><\/a>XXIII<\/h2>\n<p>\u00c0 porta de uma confeitaria da Rua do Ouvidor, Jo\u00e3o Rom\u00e3o, apurado num fato<br \/>\nnovo de casimira clara, esperava pela fam\u00edlia do Miranda, que nesse dia andava<br \/>\nem compras. Eram duas horas da tarde e um grande movimento fazia-se ali. O<br \/>\ntempo estava magn\u00edfico; sentia-se pouco calor. Gente entrava e saia, a passo<br \/>\nfrouxo, da Casa Pascoal. L\u00e1 dentro janotas estacionavam de p\u00e9, soprando o<br \/>\nfumo dos charutos, \u00e0 espera que desocupassem uma das mesinhas de m\u00e1rmore preto;<br \/>\ngrupos de senhoras, vestidas de seda, faziam lanche com vinho do Porto. Respirava-se<br \/>\num cheiro agrad\u00e1vel de ess\u00eancias e vinagres arom\u00e1ticos; havia um rumor quente<br \/>\ne garrido, mas bem-educado; namorava-se forte, mas com disfarce, furtando-se<br \/>\nolhares no complicado encontro dos espelhos; homens bebiam ao balc\u00e3o e outros<br \/>\nconversavam, comendo empadinhas junto \u00e0s estufas; algumas pessoas liam j\u00e1<br \/>\nos primeiros jornais da tarde; serventes, muito atarefados, despachavam compras<br \/>\nde doces e biscoitos e faziam, sem descansar, pacotes de papel de cor, que<br \/>\nos compradores levavam pendurados num dedo. Ao fundo, de um dos lados do sal\u00e3o,<br \/>\naviavam-se grandes encomendas de banquetes para essa noite, traziam-se l\u00e1<br \/>\nde dentro, j\u00e1 prontas, torres e castelos de balas e trouxas d\u2019ovos e<br \/>\nimponentes pe\u00e7as de cozinha caprichosamente enfeitadas; criados desciam das<br \/>\nprateleiras as enormes baixelas de metal branco, que os companheiros iam embalando<br \/>\nem caix\u00f5es com papel fino picado. Os empregados das secretarias p\u00fablicas vinham<br \/>\ntomar o seu vermute com sif\u00e3o; rep\u00f3rteres insinuavam-se por entre os grupos<br \/>\ndos jornalistas e dos pol\u00edticos, com o chap\u00e9u \u00e0 r\u00e9, \u00e1vidos de noticias, uma<br \/>\ncuriosidade indiscreta nos olhos. Jo\u00e3o Rom\u00e3o, sem deixar a porta, apoiado<br \/>\nno seu guarda-chuva de cabo de marfim, recebia cumprimentos de quem passava<br \/>\nna rua; alguns paravam para lhe falar. Ele tinha sorrisos e oferecimentos<br \/>\npara todos os lados; e consultava o rel\u00f3gio de vez em quando. Mas a fam\u00edlia<br \/>\ndo Bar\u00e3o surgiu afinal. Zulmira vinha na frente, com um vestido cor de palha<br \/>\njusto ao corpo, muito elegante no seu tipo de fluminense p\u00e1lida e nervosa;<br \/>\nlogo depois Dona Estela, grave, toda de negro, passo firme e ar severo de<br \/>\nquem se orgulha das suas virtudes e do bom cumprimento dos seus deveres. O<br \/>\nMiranda acompanhava-as de sobrecasaca, fitinha ao peito, o colarinho at\u00e9 ao<br \/>\nqueixo, botas de verniz, chap\u00e9u alto e bigode cuidadosamente raspado. Ao darem<br \/>\ncom Jo\u00e3o Rom\u00e3o, ele sorriu e Zulmira tamb\u00e9m; s\u00f3 Dona Estela conservou inalter\u00e1vel<br \/>\na sua fria m\u00e1scara de mulher que n\u00e3o d\u00e1 verdadeira import\u00e2ncia sen\u00e3o a si<br \/>\nmesma. O ex-taverneiro e futuro visconde foi, todavia, ao encontro deles,<br \/>\ncheio de solicitude, descobrindo-se desde logo e convidando-os com empenho<br \/>\na que tomassem alguma coisa. Entraram todos na confeitaria e apoderaram-se<br \/>\nda primeira mesa que se esvaziou. Um criado acudiu logo e Jo\u00e3o Rom\u00e3o, depois<br \/>\nde consultar Dona Estela, pediu sandu\u00edches, doces e moscatel de Set\u00fabal. Mas<br \/>\nZulmira reclamou sorvete e licor. E s\u00f3 esta falava; os outros estavam ainda<br \/>\n\u00e0 procura de um assunto para a conversa; afinal o Miranda que, durante esse<br \/>\ntempo contemplava o teto e as paredes, fez algumas considera\u00e7\u00f5es sobre as<br \/>\nreformas e novos adornos do sal\u00e3o da confeitaria. Dona Estela dirigiu, de<br \/>\nm\u00e1, a Jo\u00e3o Rom\u00e3o v\u00e1rias perguntas sobre a companhia l\u00edrica, o que confundiu<br \/>\npor tal modo ao pobre do homem, que o p\u00f4s vermelho e o desnorteou de todo.<br \/>\nFelizmente, nesse instante chegava o Botelho e trazia uma noticia: a morte<br \/>\nde um sargento no quartel; quest\u00e3o entre inferior e superior. O sargento,<br \/>\ninsultado por um oficial do seu batalh\u00e3o, levantara a m\u00e3o contra ele, e o<br \/>\noficial ent\u00e3o arrancara da espada e atravessara-o de lado a lado. Estava direito!<br \/>\nAh! ele era rigoroso em pontos de disciplina militar! Um sargento levantara<br \/>\na m\u00e3o para um oficial superior!&#8230; devia ficar estendido ali mesmo, que d\u00favida!<br \/>\nE faiscavam-lhe os olhos no seu inveterado entusiasmo por tudo que cheirasse<br \/>\na farda. Vieram logo as anedotas an\u00e1logas; o Miranda contou um fato id\u00eantico<br \/>\nque se dera vinte anos atr\u00e1s e Botelho citou uma enfiada deles intermin\u00e1vel.<br \/>\nQuando se levantaram, Jo\u00e3o Rom\u00e3o deu o bra\u00e7o a Zulmira e o Bar\u00e3o \u00e0 mulher,<br \/>\ne seguiram todos para o Largo de S\u00e3o Francisco, lentamente, em andar de passeio,<br \/>\nacompanhados pelo parasita. L\u00e1 chegados, Miranda queria que o vizinho aceitasse<br \/>\num lugar no seu carro, mas Jo\u00e3o Rom\u00e3o tinha ainda que fazer na cidade e pediu<br \/>\ndispensa do obs\u00e9quio. Botelho tamb\u00e9m ficou; e, mal a carruagem partiu, este<br \/>\ndisse ao ouvido do outro, sem tomar f\u00f4lego: &#8211; O homem vai hoje, sabe? Est\u00e1<br \/>\ntudo combinado! &#8211; Ah! vai? perguntou Jo\u00e3o Rom\u00e3o com interesse, estacando no<br \/>\nmeio do largo. Ora gra\u00e7as! J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 sem tempo! &#8211; Sem tempo! Pois olhe, meu<br \/>\namigo, que tenho suado o topete! Foi uma campanha! &#8211; H\u00e1 que tempo j\u00e1 tratamos<br \/>\ndisto!&#8230; &#8211; Mas que quer voc\u00ea, se o homem n\u00e3o aparecia?&#8230; Estava fora! Escrevi-lhe<br \/>\nv\u00e1rias vezes, como sabe, e s\u00f3 agora consegui pilh\u00e1-lo. Fui tamb\u00e9m \u00e0 pol\u00edcia<br \/>\nduas vezes e j\u00e1 l\u00e1 voltei hoje; ficou tudo pronto! mas voc\u00ea deve estar em<br \/>\ncasa para entregar a crioula quando eles l\u00e1 se apresentarem&#8230; &#8211; Isso \u00e9 que<br \/>\nseria bom se se pudesse dispensar&#8230; Desejava n\u00e3o estar presente&#8230; &#8211; Ora<br \/>\nessa! Ent\u00e3o com quem se entendem eles?&#8230; N\u00e3o! tenha paci\u00eancia! \u00e9 preciso<br \/>\nque voc\u00ea l\u00e1 esteja! &#8211; Voc\u00ea podia fazer as minhas vezes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pior! Assim n\u00e3o arranjamos nada! Qualquer d\u00favida pode entornar o caldo!<br \/>\n\u00c9 melhor fazer as coisas bem feitas. Que diabo lhe custa isto?&#8230; Os homenzinhos<br \/>\nchegam, reclamam a escrava em nome da lei, e voc\u00ea a entrega &#8211; pronto! Fica<br \/>\nlivre dela para sempre, e daqui a dias estoura o champanha do cas\u00f3rio! Hein,<br \/>\nn\u00e3o lhe parece? &#8211; Mas&#8230; &#8211; Ela h\u00e1 de choramingar, fazer lam\u00farias e coisas,<br \/>\nmas voc\u00ea p\u00f5e-se duro e deixe-a seguir l\u00e1 o seu destino!&#8230; Bolas! n\u00e3o foi<br \/>\nvoc\u00ea que a fez negra!&#8230; &#8211; Pois vamos l\u00e1! creio que s\u00e3o horas. &#8211; Que horas<br \/>\ns\u00e3o? &#8211; Tr\u00eas e vinte. &#8211; Vamos indo. E desceram de novo a Rua do Ouvidor at\u00e9<br \/>\nao ponto dos bondes de Gon\u00e7alves Dias. &#8211; O de S\u00e3o Clemente n\u00e3o est\u00e1 agora,<br \/>\nobservou o velho. Vou tomar um copo d\u2019\u00e1gua enquanto esperamos.<\/p>\n<p>Entraram no botequim do lugar e, para conversar assentados, pediram dois<br \/>\nc\u00e1lices de conhaque.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, acrescentou o Botelho; voc\u00ea nem precisa dizer palavra&#8230; fa\u00e7a como<br \/>\ncoisa que n\u00e3o tem nada com isso, compreende?<\/p>\n<p>&#8211; E se o homem quiser os ordenados de todo o tempo em que ela esteve em minha<br \/>\ncompanhia?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como, filho, se voc\u00ea n\u00e3o a alugou das m\u00e3os de ningu\u00e9m?!&#8230; Voc\u00ea n\u00e3o sabe<br \/>\nl\u00e1 se a mulher \u00e9 ou era escrava; tinha-a por livre naturalmente; agora aparece<br \/>\no dono, reclama-a e voc\u00ea a entrega, porque n\u00e3o quer ficar com o que lhe n\u00e3o<br \/>\npertence! Ela, sim, pode pedir o seu saldo de contas; mas para isso voc\u00ea lhe<br \/>\ndar\u00e1 qualquer coisa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quanto devo dar-lhe?<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed uns quinhentos mil-r\u00e9is, para fazer a coisa \u00e0 fidalga.<\/p>\n<p>&#8211; Pois dou-lhos.<\/p>\n<p>&#8211; E feito isso &#8211; acabou-se! O pr\u00f3prio Miranda vai logo, logo, ter com voc\u00ea!<br \/>\nVer\u00e1!<\/p>\n<p>Iam falar ainda, mas o bonde de S\u00e3o Clemente acabava de chegar, assaltado<br \/>\npor todos os lados pela gente que o esperava. Os dois s\u00f3 conseguiram lugar<br \/>\nmuito separados um do outro, de sorte que n\u00e3o puderam conversar durante a<br \/>\nviagem. No Largo da Carioca uma vit\u00f3ria passou por eles, a todo o trote. Botelho<br \/>\nvergou-se logo para tr\u00e1s, procurando os olhos do vendeiro, a rir-se com inten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDentro do carro ia Pombinha, coberta de j\u00f3ias, ao lado de Henrique; ambos<br \/>\nmuito alegres, em p\u00e2ndega. O estudante, agora no seu quarto ano de medicina,<br \/>\nvivia \u00e0 solta com outros da mesma idade e pagava ao Rio de Janeiro o seu tributo<br \/>\nde rapazola rico. Ao chegarem \u00e0 casa, Jo\u00e3o Rom\u00e3o pediu ao c\u00famplice que entrasse<br \/>\ne levou-o para o seu escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8211; Descanse um pouco&#8230; disse-lhe.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, se eu soubesse que eles se n\u00e3o demoravam muito ficava para ajud\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez s\u00f3 venham depois do jantar, tornou aquele, assentando-se \u00e0 carteira.<\/p>\n<p>Um caixeiro aproximou-se dele respeitosamente e fez-lhe v\u00e1rias perguntas<br \/>\nrelativas ao servi\u00e7o do armaz\u00e9m, ao que Jo\u00e3o Rom\u00e3o respondia por monoss\u00edlabos<br \/>\nde capitalista; interrogou-o por sua vez e, como n\u00e3o havia novidade, tomou<br \/>\nBotelho pelo bra\u00e7o e convidou-o a sair.<\/p>\n<p>&#8211; Fique para jantar. S\u00e3o quatro e meia, segredou-lhe na escada.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o era preciso prevenir l\u00e1 defronte porque agora o velho parasita comia<br \/>\nmuitas vezes em casa do vizinho. O jantar correu frio e contrafeito; os dois<br \/>\nsentiam-se ligeiramente dominados por um vago sobressalto. Jo\u00e3o Rom\u00e3o foi<br \/>\npouco al\u00e9m da sopa e quis logo a sobremesa. Tomavam caf\u00e9, quando um empregado<br \/>\nsubiu para dizer que l\u00e1 embaixo estava um senhor, acompanhado de duas pra\u00e7as,<br \/>\ne que desejava falar ao dono da casa. &#8211; Vou j\u00e1, respondeu este. E acrescentou<br \/>\npara o Botelho: &#8211; S\u00e3o eles! &#8211; Deve ser, confirmou o velho. E desceram logo.<br \/>\n&#8211; Quem me procura?&#8230; exclamou Jo\u00e3o Rom\u00e3o com disfarce, chegando ao armaz\u00e9m.<\/p>\n<p>Um homem alto, com ar de estr\u00f3ina, adiantou-se e entregou-lhe uma folha de<br \/>\npapel.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rom\u00e3o, um pouco tr\u00eamulo, abriu-a defronte dos olhos e leu-a demoradamente.<br \/>\nUm sil\u00eancio formou-se em torno dele; os caixeiros pararam em meio do servi\u00e7o,<br \/>\nintimidados por aquela cena em que entrava a pol\u00edcia. &#8211; Est\u00e1 aqui com efeito&#8230;<br \/>\ndisse afinal o negociante. Pensei que fosse livre&#8230; &#8211; \u00c9 minha escrava, afirmou<br \/>\no outro. Quer entregar-ma?&#8230; &#8211; Mas imediatamente. &#8211; Onde est\u00e1 ela? &#8211; Deve<br \/>\nestar l\u00e1 dentro. Tenha a bondade de entrar&#8230; O sujeito fez sina! aos dois<br \/>\nurbanos, que o acompanharam logo, e encaminharam-se todos para o interior<br \/>\nda casa. Botelho, \u00e0 frente deles, ensinava-lhes o caminho. Jo\u00e3o Rom\u00e3o ia atr\u00e1s,<br \/>\np\u00e1lido, com as m\u00e3os cruzadas nas costas. Atravessaram o armaz\u00e9m, depois um<br \/>\npequeno corredor que dava para um p\u00e1tio cal\u00e7ado, chegaram finalmente \u00e0 cozinha.<br \/>\nBertoleza, que havia j\u00e1 feito subir o jantar dos caixeiros, estava de c\u00f3coras,<br \/>\nno ch\u00e3o, escamando peixe, para a ceia do seu homem, quando viu parar defronte<br \/>\ndela aquele grupo sinistro. Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo<br \/>\nsenhor, e um calafrio percorreu-lhe o corpo. Num relance de grande perigo<br \/>\ncompreendeu a situa\u00e7\u00e3o; adivinhou tudo com a lucidez de quem se v\u00ea perdido<br \/>\npara sempre: adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria<br \/>\nera uma mentira, e que o seu amante, n\u00e3o tendo coragem para mat\u00e1-la, restitu\u00eda-a<br \/>\nao cativeiro. Seu primeiro impulso foi de fugir. Mal, por\u00e9m, circunvagou os<br \/>\nolhos em torno de si, procurando escapula, o senhor adiantou-se dela e segurou-lhe<br \/>\no ombro. &#8211; \u00c9 esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgra\u00e7ada<br \/>\na segui-los. &#8211; Prendam-na! \u00c9 escrava minha! A negra, im\u00f3vel, cercada de escamas<br \/>\ne tripas de peixe, com uma das m\u00e3os espalmada no ch\u00e3o e com a outra segurando<br \/>\na faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar. Os policiais,<br \/>\nvendo que ela se n\u00e3o despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza ent\u00e3o,<br \/>\nerguendo-se com \u00edmpeto de anta bravia, recuou de um salto e, antes que algu\u00e9m<br \/>\nconseguisse alcan\u00e7\u00e1-la, j\u00e1 de um s\u00f3 golpe certeiro e fundo rasgara o ventre<br \/>\nde lado a lado. E depois embarcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda<br \/>\nnuma lameira de sangue. Jo\u00e3o Rom\u00e3o fugira at\u00e9 ao canto mais escuro do armaz\u00e9m,<br \/>\ntapando o rosto com as m\u00e3os. Nesse momento parava \u00e0 porta da rua uma carruagem.<br \/>\nEra uma comiss\u00e3o de abolicionistas que vinha, de casaca! trazer-lhe respeitosamente<br \/>\no diploma de s\u00f3cio benem\u00e9rito.<\/p>\n<p>Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII &#8211; XVII &nbsp; XVIII XIX XX XXI XXII XXIII &nbsp; I Jo\u00e3o Rom\u00e3o foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92145","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Corti\u00e7o - Alu\u00edsio Azevedo: personagens e resumo do livro<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Corti\u00e7o - Alu\u00edsio de Azevedo, Livro, Romance, , Jo\u00e3o Rom\u00e3o, Miranda, Bertoleza, Literatura, O Corti\u00e7o - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Corti\u00e7o - Alu\u00edsio Azevedo: personagens e resumo do livro\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Corti\u00e7o - Alu\u00edsio de Azevedo, Livro, Romance, , Jo\u00e3o Rom\u00e3o, Miranda, Bertoleza, Literatura, O Corti\u00e7o - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-cortico-aluisio-de-azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-03T13:39:10+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-03-05T20:52:11+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"367 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-cortico-aluisio-de-azevedo#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-cortico-aluisio-de-azevedo\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"O Corti\u00e7o &#8211; 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