{"id":92141,"date":"2017-01-03T11:13:58","date_gmt":"2017-01-03T13:13:58","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92141"},"modified":"2026-07-14T11:57:41","modified_gmt":"2026-07-14T13:57:41","slug":"livro-de-uma-sogra-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/livro-de-uma-sogra-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"Livro de uma Sogra &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><script src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\" async=\"\"><\/script><!-- ads_responsivo --> <ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block;\" data-ad-client=\"ca-pub-7159766377354473\" data-ad-slot=\"3162710741\" data-ad-format=\"auto\"><\/ins><script>\/\/ <![CDATA[ (adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); \/\/ ]]><\/script><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"161\" height=\"337\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong>I<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#2\">II<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#3\">III<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#4\">IV<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#5\">V<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#6\">VI\u00a0<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#7\">VII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#8\">VIII <\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"100\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"154\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#9\"><strong>IX<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#10\">X<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#11\">XI<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#12\">XII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#13\">XIII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#14\">XIV<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#15\">XV<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#16\">XVI<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"102\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"161\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#17\"><strong>XVII<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#18\">XVIII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#19\">XIX<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#20\">XX<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#21\">XXI<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#22\">XXII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#23\">XXIII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#24\">XXIV<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#25\">XXV<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8230;ce travail offre un autre d\u00e9couragement: que de choses hardies, et que<br \/>\nje n\u2019avance qu\u2019en tremblant, seront de plats lieux communs dix<br \/>\nans apr\u00e8s ma mort&#8230;<\/p>\n<p>Stendhal, Souvenirs d\u2019\u00c9gotisme.<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I<\/h2>\n<p>De volta da minha \u00faltima peregrina\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa, depois de cinco anos de saudades<br \/>\ndo Brasil, foi que, pela primeira vez, senti todo o peso e toda a tristeza<br \/>\ndo meu isolamento e pensei com menos repugn\u00e2ncia na hip\u00f3tese de casar. Foi<br \/>\na primeira vez e tamb\u00e9m a \u00faltima que semelhante veleidade me passou pelo esp\u00edrito;<br \/>\nda\u00ed a vinte e quatro horas tinha resolvido ficar eternamente solteiro.<\/p>\n<p>Estava ent\u00e3o com trinta e cinco anos. Dessa vez, como sempre me sucedia ao<br \/>\npensar no casamento, veio-me logo \u00e0 id\u00e9ia o meu amigo Leandro, e vou dizer<br \/>\npor qu\u00ea:<\/p>\n<p>Leandro de Oviedo era, entre os meus companheiros da primeira juventude,<br \/>\no \u00fanico que se conservou fiel \u00e0 nossa amizade. Os outros tinham todos desaparecido;<br \/>\nalguns simplesmente do Rio de Janeiro ou do Brasil, mas, ai! a melhor parte<br \/>\nhavia j\u00e1 desertado deste mundo, para nunca mais voltar.<\/p>\n<p>Leandro foi sempre um rapaz bem equilibrado: cora\u00e7\u00e3o generoso, car\u00e1ter s\u00e9rio,<br \/>\nintelig\u00eancia regular, sobriedade nos costumes e tino para arranjar a vida.<br \/>\nDo nosso grupo era ele o mais mo\u00e7o e tamb\u00e9m o mais forte e bem apessoado.<br \/>\nTinha excelente educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, adquirida num col\u00e9gio da Inglaterra; conhecimento<br \/>\nperfeito da esgrima e jogos de exerc\u00edcio; destreza na montaria e plena confian\u00e7a<br \/>\nnos seus m\u00fasculos.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o contava ele vinte anos quando o conheci, e a nossa intimidade foi<br \/>\napenas interrompida pelas minhas viagens. Fui eu o confidente da grande paix\u00e3o<br \/>\nque o levou a casar, quatro anos depois, com uma encantadora rapariga, filha<br \/>\nda velha mais fant\u00e1stica, mais diab\u00f3lica, mais sogra, que at\u00e9 hoje tenho visto.<\/p>\n<p>A f\u00faria, para consentir nesse casamento, aferrou-se \u00e0s mais leoninas exig\u00eancias;<br \/>\nimp\u00f4s condi\u00e7\u00f5es as mais humilhantes para o futuro genro. J\u00e1 me n\u00e3o lembro<br \/>\nao justo quais foram elas, posso afian\u00e7ar por\u00e9m que eram todas originais e<br \/>\nrid\u00edculas. Havia uma, entre tais cl\u00e1usulas, de que nunca me esqueci, a da<br \/>\nassinatura de certo documento, em que o desgra\u00e7ado pedia \u00e0 pol\u00edcia n\u00e3o responsabilizasse<br \/>\nningu\u00e9m pela sua morte, caso ele aparecesse assassinado de um dia para outro.<\/p>\n<p>Mas Leandro estava irremediavelmente perdido de amores; e a mo\u00e7a era muito<br \/>\nrica, e ele o que se pode chamar pobre. N\u00e3o havia para onde fugir; sujeitou-se<br \/>\na tudo e &#8211; casou.<\/p>\n<p>Ainda por\u00e9m n\u00e3o tinha desfrutado o primeiro m\u00eas da sua lua-de-mel, e j\u00e1 a<br \/>\nsogra achava meios e modos de interromp\u00ea-la, separando-o violentamente da<br \/>\nnoiva. E da\u00ed em diante o casal nunca mais teve ocasi\u00e3o de absoluta felicidade.<br \/>\nO dem\u00f4nio da velha parecia n\u00e3o poder ver o genro ao lado da filha, e o pobre<br \/>\nrapaz, que amava cada vez mais apaixonadamente a esposa, n\u00e3o lograva um segundo<br \/>\nde ventura junto desta, sem ver surgir logo entre eles o terr\u00edvel espetro.<br \/>\nN\u00e3o os deixava um instante sossegados, n\u00e3o os perdia de vista um s\u00f3 momento,<br \/>\nrondava-os, fariscava-lhes os passos, como se vigiasse a rapariga contra um<br \/>\nestranho mal-intencionado; perseguia o genro s\u00f3 pelo gostinho de atorment\u00e1-lo;<br \/>\ncontrariava-o nas suas mais justas pretens\u00f5es de marido, azedando-lhe a exist\u00eancia,<br \/>\nintrometendo-se na sua vida \u00edntima, desunindo-o da mulher, sobre quem conservava<br \/>\nos mais desp\u00f3ticos direitos.<\/p>\n<p>Causava-me ele verdadeira compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dia vi-o entrar por minha casa, desesperado, aflito, e atirar-se a uma<br \/>\ncadeira, solu\u00e7ando. Sem que lhe apanhasse uma s\u00f3 palavra das muitas que os<br \/>\nseus solu\u00e7os retalhavam, consegui, de dois dos seus monoss\u00edlabos mais estrangulados,<br \/>\nperfazer a de &#8220;Sogra&#8221;, e exclamei-lhe desabridamente:<\/p>\n<p>&#8211; Mas com um milh\u00e3o de raios! por que n\u00e3o te livras por uma vez dessa v\u00edbora?!<\/p>\n<p>&#8211; Livrar-me, como?! De que modo?! perguntou-me o infeliz entre dois arquejos.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, como?! De que modo?! Seja l\u00e1 como for! Foge, ou torce-lhe o pesco\u00e7o!<br \/>\nAtira-a no meio da ba\u00eda! Sacode-a do alto do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar!<\/p>\n<p>&#8211; Imposs\u00edvel! Amo loucamente minha mulher, e minha mulher adora a m\u00e3e! N\u00e3o<br \/>\nconsentiria em separar-se dela, nem mo perdoaria, se o tentasse!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Hist\u00f3rias!<\/p>\n<p>&#8211; Al\u00e9m de que, sabes qual \u00e9 hoje a minha posi\u00e7\u00e3o na Pra\u00e7a do Rio de Janeiro;<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 das piores! mas sabes tamb\u00e9m que s\u00f3 agora come\u00e7o a colher o resultado<br \/>\nde enormes sacrif\u00edcios feitos para obt\u00ea-la!&#8230; Pois bem, tudo o que sou, devo<br \/>\na minha sogra! O capital \u00e9 dela! O cr\u00e9dito foi ela quem mo deu! Um rompimento<br \/>\nseria a minha ru\u00edna completa!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Oh, diabo!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00c9 o que te digo! V\u00ea tu que posi\u00e7\u00e3o a minha!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, meu amigo, s\u00f3 te restam os extremos &#8211; resigna\u00e7\u00e3o ou&#8230; suic\u00eddio!<\/p>\n<p>Ele, ao que parece, resignou-se.<\/p>\n<p>Um ano depois encontramo-nos em Paris.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ol\u00e1! bradei-lhe. &#8211; Fugiste&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Qual! Estou de passeio. Minha sogra mandou-me passear&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Expulsou-te de casa?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0N\u00e3o. Mandou-me passear por algum tempo. Eu volto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! compreendo! quer que a filha se distraia um pouco pela Europa. Dou-te<br \/>\nos meus parab\u00e9ns!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0N\u00e3o! vim s\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Hein?! E tua mulher?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ficou.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0E tua sogra acompanha-te?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ah! n\u00e3o!<\/p>\n<p>Fiz-lhe, intrigado, ainda algumas perguntas, a que ele respondeu com reserva,<br \/>\nprocurando evit\u00e1-las. Percebi que me n\u00e3o queria falar francamente, talvez<br \/>\npor medo do rid\u00edculo, e n\u00e3o insisti.<\/p>\n<p>Jantamos em companhia um do outro, e desde ent\u00e3o pegamos de ver-nos todos<br \/>\nos dias. Fizemos juntos uma viagem \u00e0 Su\u00ed\u00e7a, e a nossa amizade revigorou-se<br \/>\ncom essa jornada; ficamos insepar\u00e1veis at\u00e9 que ele, meses depois, deixou a<br \/>\nEuropa para tornar ao Brasil.<\/p>\n<p>E eu, agora, aqui no Rio de Janeiro, ao acordar da primeira noite, passada<br \/>\nno detest\u00e1vel Freitas-Hotel, senti cair-me em cima, com o peso de mil arrobas,<br \/>\ntodo o negrume da minha solid\u00e3o. A id\u00e9ia da solid\u00e3o fez-me pensar em Leandro.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade! Que fim teria ele levado?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Vou v\u00ea-lo! deliberei, saltando da cama.<\/p>\n<p>Procurei o endere\u00e7o da sua atual resid\u00eancia. &#8220;Tijuca. Alto da Serra&#8221;. Era<br \/>\nlonge, mas o dia estava magn\u00edfico. Por que pois n\u00e3o ir? Enquanto l\u00e1 estivesse<br \/>\ndisfar\u00e7aria ao menos o meu t\u00e9dio de celibat\u00e1rio. Leandro era afinal o meu<br \/>\nmelhor amigo; al\u00e9m do que, apetecia-me \u00e0 curiosidade saber not\u00edcias do seu<br \/>\ncasamento e da sua fenomenal sogra. N\u00e3o nos v\u00edamos havia quatro anos. Como<br \/>\nseria agora a sua exist\u00eancia? Que fim teria ele dado ao dem\u00f4nio da bruxa?&#8230;<\/p>\n<p>Vesti-me, almocei, sa\u00ed, dei um passeio pela rua do Ouvidor e tomei o tramway<br \/>\nda Tijuca. Na raiz da serra procurei informa\u00e7\u00f5es sobre a casa de Leandro;<br \/>\nderam-nas na mesma cocheira que me alugou uma vit\u00f3ria para l\u00e1 subir.<\/p>\n<p>\u00c0s cinco e meia da tarde entrava na resid\u00eancia do meu amigo. Uma deliciosa<br \/>\nch\u00e1cara, com o seu cottage ao fundo, na fralda da montanha, escondido entre<br \/>\n\u00e1rvores flor\u00edferas e cercado por um jardim de rosas e cam\u00e9lias. Adivinhava-se<br \/>\nlogo, desde o port\u00e3o da rua, haver ali todo o conforto e regalo que nos podem<br \/>\nproporcionar os maravilhosos arrabaldes do Rio de Janeiro. Toquei o t\u00edmpano<br \/>\nna varanda. Fizeram-me entrar para a sala de espera; n\u00e3o mandei o meu cart\u00e3o<br \/>\nintencionalmente, e, quando Leandro chegou e deu comigo, soltou uma sincera<br \/>\nexclama\u00e7\u00e3o de prazer.<\/p>\n<p>Atiramo-nos nos bra\u00e7os um do outro.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Que bela surpresa! &#8211; bradou ele. &#8211; N\u00e3o sabia que tinhas chegado!<\/p>\n<p>&#8211; Cheguei ontem. E tu como vais por aqui? A senhora como est\u00e1? E tua sogra,<br \/>\nque fim levou?<\/p>\n<p>&#8211; Minha mulher n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed. Saiu na minha aus\u00eancia com os filhos e com o<br \/>\nvelho C\u00e9sar. N\u00e3o sei para onde foram&#8230; Mas vai entrando! vai entrando!<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e3o espairecendo naturalmente por a\u00ed perto, aventei, passando para a<br \/>\nsala de visitas.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez, mas talvez n\u00e3o. N\u00e3o sei! Pode ser que voltem j\u00e1 e pode ser que<br \/>\nse demorem. Desconfio que foram fazer uma viagem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como? Pois tu n\u00e3o sabes se tua mulher foi fazer uma viagem, ou se est\u00e1<br \/>\npasseando pela vizinhan\u00e7a da casa?&#8230; Ora esta!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, filho, n\u00e3o sei. Temos uma vida muito especial. Ela \u00e0s vezes me foge,<br \/>\nou eu lhe fujo. Levamos tr\u00eas, quatro dias fora, uma semana, um m\u00eas at\u00e9, longe<br \/>\num do outro, visitando parentes e amigos, ou simplesmente passeando, viajando&#8230;<\/p>\n<p>Calei-me, por falta absoluta de palavras, e comecei a desconfiar que a sogra<br \/>\nafinal acabara por derreter os miolos do meu pobre amigo. Era de esperar!<\/p>\n<p>Depois de uma pausa, aproximei-me dele e perguntei-lhe, em voz soturna, olhando<br \/>\npara os lados:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0E a serpente?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Que serpente?!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ora, qual h\u00e1 se ser? A f\u00faria infernal, o diabo de saias, tua sogra!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Coitada!<\/p>\n<p>E Leandro soltou um grande suspiro.<\/p>\n<p>Escancarei os olhos e a boca, sem compreender.<\/p>\n<p>&#8211; Coitada!&#8230; repetiu ele, com um novo suspiro. &#8211; J\u00e1 n\u00e3o existe&#8230;ah! infelizmente<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o existe!&#8230;<\/p>\n<p>Recuei aterrado; senti o sangue gelar-se-me nas veias. Que estava eu ouvindo,<br \/>\nmeu Deus? que estava dizendo o m\u00edsero rapaz? Oh! agora j\u00e1 n\u00e3o havia a menor<br \/>\nd\u00favida &#8211; era um caso perdido!<\/p>\n<p>&#8211; Regenerou-se afinal&#8230; interroguei-lhe, fingindo sangue-frio, e sem me<br \/>\naproximar muito desta vez.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o zombes, meu amigo! A mem\u00f3ria de minha sogra \u00e9 hoje para mim t\u00e3o sagrada,<br \/>\nou mais, do que a mem\u00f3ria de minha pr\u00f3pria m\u00e3e!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, espera! quantas sogras ent\u00e3o tiveste tu?&#8230; perguntei-lhe receando<br \/>\ntamb\u00e9m j\u00e1 um pouco pelo meu ju\u00edzo.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Uma s\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; E essa, a que te referes agora, \u00e9 aquela mesma, a c\u00e9lebre? aquele terror,<br \/>\naquela mol\u00e9stia, aquele mal que te ro\u00eda a exist\u00eancia? aquele diabo, a quem<br \/>\ndevias o implac\u00e1vel inferno em que te vi espernear de desespero?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0A mesma, Le\u00e3o. Simplesmente eu, nesse tempo, era injusto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Aquela que, s\u00f3 pelo gostinho de contrariar, se metia entre ti e tua mulher,<br \/>\ncortando-lhes no meio as car\u00edcias e perturbando-lhes o amor?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0N\u00e3o a compreendia nessa \u00e9poca. O imbecil era eu!<\/p>\n<p>&#8211; Aquela, que te trazia suspensa sobre a cabe\u00e7a uma amea\u00e7a de morte?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Fazia-o, porque era adoravelmente boa!<\/p>\n<p>&#8211; Aquela, que te n\u00e3o permitiu fosses o dono do primeiro beijo de teu filho?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00c9 verdade, a mesma!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Aquela f\u00faria?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Era uma santa!<\/p>\n<p>E ficou muito s\u00e9rio, com o rosto compungido e contrito.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje ainda n\u00e3o sei como n\u00e3o ca\u00ed para tr\u00e1s, fulminado.<\/p>\n<p>Meti as m\u00e3os nos bolsos das cal\u00e7as, abri as pernas \u00e0 marinheira, ferrei o<br \/>\nolhar no tapete do ch\u00e3o, apertei os l\u00e1bios, arregacei as sobrancelhas, e embatuquei.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Sim, senhor!&#8230;<\/p>\n<p>Estava preparado para ver, sem me alterar, o meu estim\u00e1vel amigo Leandro<br \/>\nde Oviedo atirar as m\u00e3os para o ch\u00e3o e p\u00f4r-se a percorrer a sala de pernas<br \/>\npara o ar.<\/p>\n<p>Que digo? Poderia ver sem pestanejar, o retrato da pr\u00f3pria sogra de Leandro<br \/>\ndesprender-se do seu caixilho dourado, e vir dar-lhe um beijo, ou dan\u00e7ar um<br \/>\nfandango entre n\u00f3s dois.<\/p>\n<p>Naquele instante nada me causaria abalo!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas, ao fim do jantar, reanimado por um velho e generoso Barbera, pedi ao<br \/>\nmeu paradoxal amigo que me explicasse o milagre daquela sua t\u00e3o absoluta invers\u00e3o<br \/>\nde pontos de vista. Sempre queria ouvir!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te darei uma palavra e ter\u00e1s a mais satisfat\u00f3ria explica\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio,<br \/>\ndisse-me ele. &#8211; Dormes aqui, n\u00e3o \u00e9 verdade? Dormes decerto!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Podias at\u00e9 passar alguns dias comigo. Isto por c\u00e1 \u00e9 muito apraz\u00edvel nesta<br \/>\n\u00e9poca. Onde est\u00e1s morando?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0No Freitas.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! N\u00e3o te largo esta semana! Seria desumanidade deixar-te ir! Hospedado<br \/>\nno Freitas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 que&#8230; n\u00e3o contava com isto&#8230; Vou sem d\u00favida incomodar tua fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Minha fam\u00edlia n\u00e3o sei quando vir\u00e1&#8230; Tu agora n\u00e3o tens ainda com<br \/>\ncerteza o que fazer&#8230; De resto n\u00e3o ficas totalmente preso: podes ir \u00e0 cidade<br \/>\nquando quiseres; trazer de l\u00e1 ou mandar buscar o que precisares. Olha! aqui<br \/>\npelo menos est\u00e1s livre de qualquer febre! e podemos dar magn\u00edficos passeios,<br \/>\na cavalo e de carro, pela Floresta, \u00e0 Vista Chinesa, \u00e0 G\u00e1vea. Amanh\u00e3 mostro-te<br \/>\nas minhas estrebarias; se ainda conservas gosto pelo g\u00eanero, encontrar\u00e1s o<br \/>\nque ver.<\/p>\n<p>Confessei-me vencido, mesmo porque sentia j\u00e1 a curiosidade excitada.<\/p>\n<p>Jogamos \u00e0 noite uma partida de bilhar e, \u00e0s onze horas, na ocasi\u00e3o de recolher<br \/>\n\u00e0 c\u00e2mara que me destinaram, exigi de Leandro a prometida explana\u00e7\u00e3o do milagre.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Entra para o teu quarto, que l\u00e1 ta levarei, respondeu ele, afastando-se.<\/p>\n<p>E pouco depois voltava, trazendo com todo o carinho um pequeno estojo de<br \/>\n\u00e9bano. Abriu-o defronte de mim com uma chavezinha de prata, e tirou de dentro<br \/>\num livro preciosamente encadernado.<\/p>\n<p>Mostrou-me o livro, em sil\u00eancio, cheio de gestos e desvelos religiosos. Na<br \/>\ncapa, entre guarni\u00e7\u00f5es de ouro e pedras finas, havia um delicad\u00edssimo esmalte,<br \/>\nretratando em miniatura o busto da sogra. Estava a primor, com o seu distinto<br \/>\ne singelo penteado de cabelos brancos, com as suas lunetas de cristal, e com<br \/>\naquele sutil sorriso malicioso, que lhe conheci noutro tempo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o poderia dar-te maior prova de amizade, do que te confiando este sagrado<br \/>\ntesouro, disse-me Leandro. &#8211; \u00c9 um manuscrito de minha sogra. Come\u00e7a a l\u00ea-lo<br \/>\nhoje antes de dormir, e depois, quando o tenhas conclu\u00eddo, conversaremos a<br \/>\nrespeito da m\u00e3e de minha mulher&#8230;<\/p>\n<p>Tomei nas m\u00e3os, cuidadosamente, a sedutora rel\u00edquia, examinei-a deveras intrigado,<br \/>\ndepu-la de novo no seu estojo, agradeci a Leandro o obs\u00e9quio, impaciente por<br \/>\nv\u00ea-lo pelas costas.<\/p>\n<p>Logo que me pilhei sozinho, fiz em tr\u00eas tempos a toilette, aninhei-me na<br \/>\ncama, cheguei para perto da luz do velador, e, com uma vol\u00fapia repassada da<br \/>\nmais leg\u00edtima curiosidade, abri a primeira p\u00e1gina e comecei a leitura.<\/p>\n<p>Mal sabia eu que grande influ\u00eancia ia exercer esse manuscrito sobre minha<br \/>\nvida&#8230; E como hoje posso public\u00e1-lo, n\u00e3o ponho nisso a menor d\u00favida.<\/p>\n<p>\u00c9 o que se segue:<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II<\/h2>\n<p>Manuscrito de Ol\u00edmpia<\/p>\n<p>La nature a des perfections pour montrer qu\u2019elle est l\u2019image<br \/>\nde Dieu, et des d\u00e9fauts pour montrer qu\u2019elle n\u2019en est que l\u2019image.<\/p>\n<p>PASCAL, Pens\u00e9es.<\/p>\n<p>\u00d3rf\u00e3 de pai e m\u00e3e, tinha eu dezoito anos de idade, quando passei das m\u00e3os<br \/>\nde meu tutor para as m\u00e3os do estimado e simp\u00e1tico Dr. Virg\u00edlio Xavier da C\u00e2mara,<br \/>\nque me recebeu por esposa na igreja de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista em Botafogo.<\/p>\n<p>Meu noivo contava vinte e sete anos.<\/p>\n<p>\u00c9ramos ambos de boa fam\u00edlia, ambos muito bem relacionados, ambos sadios,<br \/>\nambos at\u00e9 bonitos. Ele &#8211; m\u00e9dico, inteligente e trabalhador, conservando intacto<br \/>\num patrim\u00f4nio de quarenta contos, que herdara ainda crian\u00e7a; g\u00eanio feliz,<br \/>\ncostumes irrepreens\u00edveis, nada de v\u00edcios perigosos e nada de paix\u00f5es de qualquer<br \/>\ng\u00eanero, nem mesmo desses perturbadores sonhos de gl\u00f3ria ou dessas ambi\u00e7\u00f5es<br \/>\ndescomedidas, que nos fazem sacrificar \u00e0s vezes a doce tranq\u00fcilidade do presente<br \/>\ngarantido, pela hipot\u00e9tica e fascinadora conquista de um nome no futuro incerto.<br \/>\nEu, pelo meu lado &#8211; inocente e pura, educada sob os mais austeros exemplos<br \/>\nde moral e virtude, tendo feito a minha aprendizagem dom\u00e9stica sem preju\u00edzo<br \/>\ndos meus pequenos dotes sociais; sabendo coser, como sabendo bordar; dirigir<br \/>\no servi\u00e7o dos criados, governar uma casa, como sabendo tocar piano, receber<br \/>\nvisitas e dan\u00e7ar uma valsa; e mais: tinha boa ortografia, alguma leitura,<br \/>\nque n\u00e3o era composta s\u00f3 de maus romances, um pouco de franc\u00eas, um pouco de<br \/>\ningl\u00eas, um pouco de desenho, sessenta contos de dote, princ\u00edpios religiosos<br \/>\nbem regulados, car\u00e1ter sereno, temperamento garantido por hereditariedade<br \/>\nnatural, seguros h\u00e1bitos de asseio, alinho e gosto no vestir, que nada deixavam<br \/>\na desejar, quanto \u00e0 eleg\u00e2ncia, mas que jamais ro\u00e7avam, nem de leve, pelos<br \/>\narrebiques do janotismo equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>Eis como n\u00f3s \u00e9ramos os dois. E eu &#8211; meiga e delicada; e meu marido &#8211; extremoso<br \/>\ne forte.<\/p>\n<p>Casamo-nos por inclina\u00e7\u00e3o de parte a parte, com o aplauso de ambas as fam\u00edlias,<br \/>\ndepois de um calmo namoro de seis meses, regular e honesto, aben\u00e7oado por<br \/>\ntodos os nossos parentes e amigos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se poderia, pois desejar casamento mais equilibrado, nem se poderia conceber<br \/>\num par mais harmonioso, e at\u00e9 mais sim\u00e9trico.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, apesar de que nunca transigi dos meus deveres conjugais; apesar<br \/>\nde que meu marido prosperou sempre de fortuna na sua carreira m\u00e9dica e, depois,<br \/>\nna sua carreira pol\u00edtica; apesar de que ele era bom, e apesar de que sempre<br \/>\nnos estimamos; apesar de tudo isso, tanto ele como eu fomos igualmente muito<br \/>\ndesgra\u00e7ados, enquanto nos n\u00e3o separamos; fomos os dois um casal de infelizes<br \/>\namarrados um ao outro pelo duro e violento la\u00e7o do matrim\u00f4nio; fomos dois<br \/>\ncalcetas, seguros na mesma corrente de ferro, condenados a suportar a exist\u00eancia<br \/>\neternamente juntos.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi poss\u00edvel! Quebramos a cadeia, arrancamo-nos da grilheta. O governo<br \/>\nnomeou-o para uma honrosa comiss\u00e3o fora do Brasil; aproveitamos o ensejo e<br \/>\nseparamo-nos. T\u00ednhamos dois filhos, um de cada sexo; a menina ficou comigo<br \/>\ne o menino seguiu com ele.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do alvitre jur\u00eddico, entendi sempre que, na separa\u00e7\u00e3o de c\u00f4njuges,<br \/>\nmormente abastados, o filho ou filhos var\u00f5es devem acompanhar o pai, e a filha<br \/>\nou filhas devem ficar ao lado da m\u00e3e, porque esta \u00e9 sem d\u00favida mais apta,<br \/>\nque um homem, para zelar pela boa educa\u00e7\u00e3o e pureza de uma menina; ao passo<br \/>\nque aquele outro pode, melhor que a mulher, dirigir e encaminhar a vida de<br \/>\num rapaz.<\/p>\n<p>O contrato moral e \u00edntimo do nosso apartamento foi ainda mais digno e mais<br \/>\nsincero do que o contrato p\u00fablico e material da nossa uni\u00e3o. N\u00e3o nos preocupou<br \/>\na quest\u00e3o de dinheiro, porque \u00e9ramos j\u00e1 bastante ricos, e pod\u00edamos ficar ambos<br \/>\npecuniariamente independentes. Obriguei-me a n\u00e3o macular jamais o nome que<br \/>\nele me dera, e esse preceito foi por mim cumprido \u00e0 risca; ele, pelo seu lado,<br \/>\ncomprometeu-se a se n\u00e3o descuidar nunca de nosso filho, e assim o fez, durante<br \/>\nos curtos anos que viveu ainda o meu pobre Gast\u00e3ozinho.<\/p>\n<p>Separamo-nos bons amigos, mas, ai de n\u00f3s! depois de grandes desaven\u00e7as dom\u00e9sticas<br \/>\ne brigas de cada instante, que fizeram at\u00e9 a\u00ed da nossa vida um triste inferno,<br \/>\ne que para sempre nos tornaram incompat\u00edvel a exist\u00eancia em comum. O que nos<br \/>\nvaleu foi o nosso esp\u00edrito. Num momento l\u00facido compreendemos tudo, encaramos<br \/>\na sangue-frio a situa\u00e7\u00e3o; e abra\u00e7amos com coragem o \u00fanico partido digno de<br \/>\nn\u00f3s. Se continu\u00e1ssemos a viver juntos, ter\u00edamos chegado \u00e0s \u00faltimas degrada\u00e7\u00f5es<br \/>\nda falta de respeito um pelo outro e talvez ao crime. \u00c9 poss\u00edvel que Virg\u00edlio<br \/>\nme batesse, ou me matasse, num dos nossos muitos \u00edmpetos de irreprim\u00edvel c\u00f3lera<br \/>\nnervosa. S\u00f3 os casados, s\u00f3 estes, poder\u00e3o calcular e compreender quanto nos<br \/>\ninjuriamos os dois, quanto nos aviltamos, por palavras e gestos, nessas secretas<br \/>\ne constantes lutas. O arrependimento chegava sempre, por\u00e9m tarde, e nunca<br \/>\naproveitava para impedir novas crises; o arrependimento s\u00f3 servia para mais<br \/>\nnos rebaixarmos aos nossos pr\u00f3prios olhos, com a consci\u00eancia da nossa degrada\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMais do que as rixas, os seq\u00fcentes amores na confirma\u00e7\u00e3o das pazes, deixavam-nos<br \/>\nhumilhados e corridos de vergonha; e este fato, s\u00f3 por si, a deprimente certeza<br \/>\nda nossa ignom\u00ednia, era j\u00e1 um novo rastilho pronto e aceso para uma nova explos\u00e3o<br \/>\nde c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Afinal, o contacto, ou a s\u00f3 presen\u00e7a de qualquer dos dois, tinham se tornado<br \/>\nabsolutamente insuport\u00e1veis para o outro. \u00c0s vezes, sem raz\u00e3o, n\u00e3o podia demorar<br \/>\na vista sobre meu marido: irritavam-me nervosamente os seus gestos mais simples<br \/>\ne naturais. Uma ocasi\u00e3o, em que o contemplei pelas costas, assentado \u00e0 sua<br \/>\nmesa de trabalho, todo embebido no que estava fazendo, com a cabe\u00e7a baixa,<br \/>\num gorro de seda preta, os ombros envolvidos num xale que lhe escondia o pesco\u00e7o,<br \/>\ndesejei-lhe a morte, e tive de fugir dali para n\u00e3o disparatar com ele.<\/p>\n<p>Mas por qu\u00ea? por que raz\u00e3o eu, que sem d\u00favida estimava e compreendia meu<br \/>\nmarido, n\u00e3o podia \u00e0s vezes suport\u00e1-lo?&#8230; por que raz\u00e3o ele, que me amava,<br \/>\nn\u00e3o p\u00f4de continuar a viver junto de mim?<\/p>\n<p>Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Eis o dif\u00edcil de explicar, e eis do que, tendo estudado minuciosamente o<br \/>\nmeu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o e o cora\u00e7\u00e3o de meu marido, e depois de uma longa e paciente<br \/>\nobserva\u00e7\u00e3o de todos os instantes da vida de casados que n\u00f3s dois tivemos,<br \/>\ntirei a base e a subst\u00e2ncia da minha filosofia sobre o amor conjugal e os<br \/>\nmeios pr\u00e1ticos de obter-lhe a dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o o fiz por mim, mas s\u00f3 por minha filha, a minha Palmira, a flor mimosa<br \/>\ndos verdadeiros encantos da minha vida de mo\u00e7a, o ser \u00fanico a quem neste mundo<br \/>\ndei, at\u00e9 certo momento da velhice, todo inteiro o meu cora\u00e7\u00e3o, a quem dei<br \/>\ntodo o meu amor, sem a mais ligeira reserva de ternura e se a menor hipocrisia<br \/>\nnos sorrisos e nos beijos. Amei-a mesmo antes que ela nascesse, amei-a cada<br \/>\nvez mais durante a exist\u00eancia, e creio que ainda a amaria sempre depois da<br \/>\nsua morte. Nunca neste amor descobri as falhas de t\u00e9dio, de cansa\u00e7o, e at\u00e9<br \/>\nde absoluto enj\u00f4o, que infelizmente, logo desde o come\u00e7o da minha vida conjugal,<br \/>\ndescobri no amor que eu votava ao meu bom e querido esposo. No meio do maior<br \/>\naborrecimento, no mais ingrato instante das horas de des\u00e2nimo, a presen\u00e7a<br \/>\nde minha filha era sempre uma consola\u00e7\u00e3o e um repouso; nunca beijo nenhum<br \/>\nque ela me deu foi inoportuno; nunca as suas car\u00edcias chegaram fora de prop\u00f3sito,<br \/>\ne nunca deixaram de produzir em minha alma o mesmo delicioso efeito de suave<br \/>\nrefrig\u00e9rio. Entretanto, quantas vezes, ainda na lua-de-mel, n\u00e3o me revoltei<br \/>\ncontra mim mesma e n\u00e3o amaldi\u00e7oei as rebeldias do meu cora\u00e7\u00e3o, por n\u00e3o poder<br \/>\nevitar que, a despeito da minha trai\u00e7oeira afabilidade externa, o enojo repelisse<br \/>\nno meu \u00edntimo as car\u00edcias que nessa ocasi\u00e3o me dava meu marido?!<\/p>\n<p>Ah! ele n\u00e3o percebia a verdade, porque eu com uma hipocrisia, que nesse tempo<br \/>\nacreditava honesta e generosa; uma hipocrisia, que eu supunha fazer parte<br \/>\ndos meus deveres de boa esposa, obrigava meus olhos, meus l\u00e1bios, meus bra\u00e7os,<br \/>\nmeu corpo inteiro, a mentirem, representando sem vontade essa coisa inconfess\u00e1vel,<br \/>\nign\u00f3bil, que me tinham feito acreditar, secretamente, que era &#8220;o amor&#8221;. Que<br \/>\nblasf\u00eamia! e mais &#8211; que era &#8220;o matrim\u00f4nio&#8221;. Que desilus\u00e3o!<\/p>\n<p>Oh! quantos sorriso, quantos suspiros de vol\u00fapia e quantos beijos dados por<br \/>\nmentira, meu Deus! Oh! quanto me prostitu\u00ed nos bra\u00e7os de meu marido!<\/p>\n<p>E que vergonha, que repugn\u00e2ncia, dele e de mim pr\u00f3pria, n\u00e3o me assaltaram<br \/>\nquando descobri que com Virg\u00edlio se dava a mesma coisa a meu respeito; e que<br \/>\nambos n\u00f3s, procurando iludir um ao outro, represent\u00e1vamos cada qual no seu<br \/>\ntransporte a mesma degradante com\u00e9dia de amor? Quantas vezes percebi que seu<br \/>\nesp\u00edrito bocejava de t\u00e9dio, enquanto seus l\u00e1bios me cobriam de beijos fervorosos?<\/p>\n<p>Mentir\u00e1 todo aquele e mentir\u00e1 toda aquela que disser que a presen\u00e7a de sua<br \/>\nesposa, ou que a presen\u00e7a de seu marido, lhe foi sempre agrad\u00e1vel; e mentir\u00e1,<br \/>\nse n\u00e3o confessar que muita vez se prestou a satisfazer os desejos do c\u00f4njuge<br \/>\ncom sacrif\u00edcio de todo o seu ser.<\/p>\n<p>\u00c9ramos j\u00e1 dois desgra\u00e7ados, e dali em diante come\u00e7amos a ser duas v\u00edtimas<br \/>\ne dois verdugos rec\u00edprocos, chumbados \u00e0 mesma dor e \u00e0 mesma crueldade, a torturarem-se,<br \/>\na devorarem-se num estreito abra\u00e7o de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>Oh! definitivamente n\u00e3o pod\u00edamos continuar a viver juntos! E no entanto,<br \/>\neu amava meu marido, e sei que era amada por ele. Nenhum casal at\u00e9 hoje se<br \/>\nestimou e respeitou mais do que n\u00f3s no foro \u00edntimo da sua alma. Juro que t\u00ednhamos<br \/>\nem segredo um pelo outro a maior e mais sincera considera\u00e7\u00e3o, e que ambos,<br \/>\nde parte a parte, apesar dos constantes atritos, faz\u00edamos de cada qual o mais<br \/>\nalto e digno conceito. Mas juro tamb\u00e9m que muita vez me senti verdadeiramente<br \/>\ndesgra\u00e7ada nos seus bra\u00e7os, e ele nos meus; e que por \u00faltimo, muitas e muitas<br \/>\nvezes nos injuriamos, com as mais duras palavras de desprezo, quando, no fundo<br \/>\nda consci\u00eancia, julg\u00e1vamos mutualmente o contr\u00e1rio do que blasfem\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Que singular monstruosidade!<\/p>\n<p>E n\u00e3o me venham dizer que nos am\u00e1vamos s\u00f3 com a raz\u00e3o e n\u00e3o com os sentidos.<br \/>\nVou copiar fielmente um fragmento das notas p\u00f3stumas de meu esposo, onde o<br \/>\ncontr\u00e1rio se acha bem demonstrado. O que adiante se segue escreveu ele j\u00e1<br \/>\ndepois da nossa disjun\u00e7\u00e3o, longe de mim, na It\u00e1lia, poucos anos antes de morrer.<\/p>\n<p>Descobri essas notas entre os pap\u00e9is do seu esp\u00f3lio. Sem as transcendentes<br \/>\nrevela\u00e7\u00f5es que elas me depararam, \u00e9 natural que nunca chegassem minhas pesquisas<br \/>\nfilos\u00f3ficas a qualquer resultado, e nunca me animasse eu a empreender este<br \/>\ndoloroso manuscrito.<\/p>\n<p>Aten\u00e7\u00e3o! \u00c9 Virg\u00edlio quem agora fala:<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>III<\/h2>\n<p>&#8220;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>Sim! minha mulher foi a \u00fanica mulher que amei. Em meio do maior enj\u00f4o da<br \/>\nvida dom\u00e9stica, sentia eu perfeitamente, no \u00e2mago da minha consci\u00eancia, que<br \/>\nnenhuma outra valia tanto como Ol\u00edmpia, quer no f\u00edsico, quer no moral e at\u00e9<br \/>\nno intelectual; sentia que, se ela n\u00e3o fosse minha esposa, minha companheira<br \/>\nobrigada de cama e mesa, de todo o instante, havia de desej\u00e1-la apaixonadamente;<br \/>\nsentia, adivinhava que, se eu viesse um dia a deixar de possu\u00ed-la, como fatalmente<br \/>\nsucedeu, havia de sofrer muito, como efetivamente sofri, sem nunca mais encontrar<br \/>\nmulher que a substitu\u00edsse ou que lograsse fazer-me-la esquecer.<\/p>\n<p>N\u00e3o! N\u00e3o podia am\u00e1-la mais do que a amei no meu noivado, do que a amei depois<br \/>\nnos intervalos da c\u00f3lera, do que a amo hoje principalmente, nesta irremedi\u00e1vel<br \/>\nviuvez da nossa fatal desuni\u00e3o. Todavia, antes de nos separarmos, s\u00f3 a desejei<br \/>\ndeveras como mulher, al\u00e9m daquela \u00e9poca, uma vez em que tivemos de afastar-nos<br \/>\num do outro por oito meses seguidos; de resto foi sempre o mesmo t\u00e9dio e os<br \/>\nmesmos enfastiamentos na comunh\u00e3o da cama. Muita vez o perfume dos seus belos<br \/>\ncabelos, o cheiro do seu corpo, ali\u00e1s sempre limpo e bem tratado, o contacto<br \/>\nmacio da sua pele e a frescura de seus l\u00e1bios relentados no del\u00edquio amoroso,<br \/>\nme fizeram repugn\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? N\u00e3o achei nunca a explica\u00e7\u00e3o. Mas a verdade \u00e9 que, antes mesmo da<br \/>\nnossa primeira contenda dom\u00e9stica, quando \u00e9ramos ainda um para o outro, s\u00f3<br \/>\nafagos e sorrisos, eu, apesar de am\u00e1-la muito, mas, se por condescend\u00eancia<br \/>\nficava um dia inteiro ao seu lado, depois de passarmos a noite juntos, como<br \/>\nde costume, sentia certo prazer estranho, sentia um inconfess\u00e1vel gozo de<br \/>\nal\u00edvio, se me vinham anunciar que algum amigo, mesmo dos mais insignificantes,<br \/>\nestava \u00e0 minha espera na sala de visitas.<\/p>\n<p>Quantas vezes n\u00e3o detive perto de mim pessoas que o n\u00e3o mereciam, s\u00f3 porque,<br \/>\nenquanto estivesse eu com elas conversando, n\u00e3o estaria conversando ou procurando<br \/>\no que conversar, com a minha querida esposa?&#8230; s\u00f3 porque, enquanto eu estivesse<br \/>\nabrigado naquela visita, n\u00e3o sentiria no meu corpo o calor do corpo de minha<br \/>\nmulher, e n\u00e3o lhe sentiria o cheiro penetrante das carnes e dos cabelos!&#8230;<\/p>\n<p>E como todo esse contradit\u00f3rio mart\u00edrio cresceu depois do nascimento do nosso<br \/>\nprimeiro filho? Como fiquei eu amando moralmente muito mais minha esposa e<br \/>\ndesejando muito menos possu\u00ed-la como mulher?<\/p>\n<p>Depois do nascimento de Palmira, nunca mais o meu esp\u00edrito amou minha mulher<br \/>\nassociado com o meu corpo. Meu esp\u00edrito continuava a am\u00e1-la, como sempre,<br \/>\nmeu corpo continuava, tamb\u00e9m como sempre, a unir-se ao dela para o matrim\u00f4nio;<br \/>\nmas esp\u00edrito e corpo completamente alheios e separados durante o ato conjugal.<br \/>\nO amor do meu esp\u00edrito nada tinha de comum com o amor do meu corpo, como ali\u00e1s<br \/>\nsucedia dantes, na primeira fase do casamento; e ai! s\u00f3 nesse irrecuper\u00e1vel<br \/>\nper\u00edodo o nosso amor foi completo, e foi amor, porque nos unia de corpo e<br \/>\nalma! O amor de meu esp\u00edrito era um sentimento insexual, respeitoso, nobre,<br \/>\nfeito de uma ternura de amigo, de irm\u00e3o mais velho, um sentimento baseado<br \/>\nna prote\u00e7\u00e3o do mais forte que se dedica pelo mais fraco. Havia nele um qu\u00ea<br \/>\nde m\u00edstica do\u00e7ura, de sagrado voto cumprido lealmente, um qu\u00ea da consoladora<br \/>\nsatisfa\u00e7\u00e3o do desempenho de um dever honroso, um qu\u00ea de religi\u00e3o e de ideal.<br \/>\nAo passo que o amor de meu corpo era quase inconsciente, irrespons\u00e1vel at\u00e9,<br \/>\nnem merecia o nome de amor, porque, no fim de algum tempo era, por bem dizer,<br \/>\npreenchido sem o menor concurso do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E pensar que o abuso deste segundo falso amor prejudicou o primeiro, o verdadeiro,<br \/>\na ponto de privar-nos da sua do\u00e7ura e do seu enlevo!<\/p>\n<p>Com minha mulher devia suceder a mesma coisa que sucedia comigo, porque certas<br \/>\nvezes, despertei-a \u00e0 noite para o fim gen\u00e9sico, e mais dormindo que acordada<br \/>\ndeixava indiferentemente, com os olhos fechados, que eu saciasse nela o meu<br \/>\ndesejo material. Tanto o nosso esp\u00edrito j\u00e1 por fim n\u00e3o tomava parte no desempenho<br \/>\nda fun\u00e7\u00e3o matrimonial, que em muitas ocasi\u00f5es, enquanto nos disp\u00fanhamos para<br \/>\ncumpri-la, convers\u00e1vamos de v\u00e1rios interesses dom\u00e9sticos, alheios ambos ao<br \/>\nsupremo destino que naquele instante nos aproximava um do outro.<\/p>\n<p>N\u00e3o! isso n\u00e3o era amor; isso era instinto somente; isso era brutalidade!<br \/>\nEntretanto, hoje, que j\u00e1 n\u00e3o possuo minha mulher; hoje, que me acho para sempre<br \/>\nincompatibilizado com ela, e me vejo na mesquinha conting\u00eancia de recorrer,<br \/>\npara satisfa\u00e7\u00e3o das minhas necessidades fisiol\u00f3gicas, a essas pobres m\u00e1quinas<br \/>\nvaginais que se alugam por instantes, quanto n\u00e3o daria em tais momentos para<br \/>\npoder t\u00ea-la ao alcance de meus bra\u00e7os? Quanto n\u00e3o daria para dispor ent\u00e3o<br \/>\ndaquela valiosa criatura, ao lado de quem n\u00e3o consegui viver, e ao lado de<br \/>\nquem, ainda hoje, me seria imposs\u00edvel suportar a exist\u00eancia, apesar de desej\u00e1-la<br \/>\ntanto?<\/p>\n<p>Sim! ainda aplaudo e compreendo a nossa separa\u00e7\u00e3o, e ainda a amo. E se agora,<br \/>\nneste instante, por um efeito maravilhoso, me dessem a escolha de uma mulher,<br \/>\nentre todas as mais sedutoras e formosas que tenho visto, reclamaria, sem<br \/>\nhesita\u00e7\u00e3o, a minha pr\u00f3pria esposa, e juro que a amaria com o mesmo arrebatamento<br \/>\ndo primeiro desejo que ela me inspirou.<\/p>\n<p>Todavia, rid\u00edculos monstros que somos n\u00f3s! no tempo em que viv\u00edamos juntos,<br \/>\nquantas vezes, deitados no mesmo leito, me senti apesar da sinceridade do<br \/>\nmeu empenho em respeitar o voto nupcial, perturbado pela lembran\u00e7a de outras<br \/>\nmulheres, que sem d\u00favida n\u00e3o valiam a sombra daquela que eu tinha ao lado?<br \/>\nQuantas vezes, com a consci\u00eancia ressentida, n\u00e3o conjecturava eu a hip\u00f3tese<br \/>\ntrai\u00e7oeira de ter nos bra\u00e7os, naquele momento, certa provocadora mulher com<br \/>\nquem estivera conversando essa noite, durante o baile? E isto dava-se estando<br \/>\neu deitado junto de minha esposa! Revoltava-me contra t\u00e3o hip\u00f3crita deslealdade;<br \/>\nrepelia indignado semelhantes pensamentos inconfess\u00e1veis; mas a mulher, que<br \/>\nn\u00e3o era a minha e que n\u00e3o valia tanto quanto ela, mas que eu s\u00f3 avaliava por<br \/>\nconjecturas, e cujo perfume de cabelo ou cheiro de corpo nunca me tinham sido<br \/>\nrevelados na intimidade da posse, impunha-se despoticamente aos meus culposos<br \/>\nsentidos, acordando-me amores fogosos e en\u00e9rgicos, como os j\u00e1 n\u00e3o acordava<br \/>\na minha bonita companheira.<\/p>\n<p>Oh! que me perdoes, Ol\u00edmpia, as vezes que em ti matei desejos que vinham<br \/>\nde outras mulheres!<\/p>\n<p>E, em consci\u00eancia, n\u00e3o ser\u00e1 isto j\u00e1 o adult\u00e9rio? A id\u00e9ia do toque amoroso<br \/>\ncom outra que n\u00e3o seja a pr\u00f3pria esposa, n\u00e3o ser\u00e1 uma trai\u00e7\u00e3o conjugal? Castus<br \/>\nest Qui amorem amore, ignemque igne excludit, diz Santo Agostinho. Se assim<br \/>\n\u00e9, h\u00e1 de ser dif\u00edcil descobrir um casal que se n\u00e3o adultere de parte a parte,<br \/>\npois estou bem convencido de que com minha mulher, por excel\u00eancia virtuosa,<br \/>\ndevia suceder outro tanto; assim como estou amplamente convencido de que tudo,<br \/>\ntudo que em mim observei, se verificou tamb\u00e9m com ela.&#8221;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A\u00ed termina o trecho das notas de meu marido. Ele tinha raz\u00e3o: Amei-o e desejei-o<br \/>\ntamb\u00e9m na sua aus\u00eancia e, justamente quando pensava em tentar uma reconcilia\u00e7\u00e3o,<br \/>\no que hoje compreendo que seria loucura, recebi a triste not\u00edcia de sua morte.<br \/>\nEnt\u00e3o a saudade e o amor que ele de longe me inspirava transformaram-se em<br \/>\nverdadeiro culto. Idolatrei a sua mem\u00f3ria; mas, s\u00f3 depois dos estudos que<br \/>\ndeterminaram este manuscrito, pude compreender de todo quanto esse pobre homem<br \/>\nera bom, digno e reto, e qu\u00e3o nos cabia, a ele e a mim, da responsabilidade<br \/>\nde nossa desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>Demais, o seu lugar no meu cora\u00e7\u00e3o, quando por mais nada, estava garantido<br \/>\ncomo pai que era da minha Palmira, da minha filha idolatrada, la\u00e7o \u00fanico que<br \/>\nme ligava \u00e0 vida e ao mundo. E se fui boa m\u00e3e; se consegui, \u00e0 for\u00e7a de desvelos<br \/>\ne de extremos de amor, aplanar-lhe a exist\u00eancia das mis\u00e9rias que a minha corromperam,<br \/>\ndi-lo-\u00e3o estas p\u00e1ginas, para ela escritas.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>IV<\/h2>\n<p>Sim, minha filha era a minha vida, porque era o meu verdadeiro amor. Se eu<br \/>\nn\u00e3o tivesse outras raz\u00f5es para conservar-me honesta e digna, depois da aus\u00eancia<br \/>\ne da morte de meu marido, t\u00ea-lo-ia feito s\u00f3 pelo muito que a amava.<\/p>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o que Palmira se desenvolvia, fortificava-se o meu car\u00e1ter, apurava-se<br \/>\na minha intelig\u00eancia, e o meu cora\u00e7\u00e3o fazia-se melhor. Meu pensamento pertencia-lhe<br \/>\nquase que exclusivamente, mesmo j\u00e1 nos melhores tempos de minha vida de casada.<br \/>\nSe ent\u00e3o meu marido ganhava terreno na minha estima e eu na dele, era s\u00f3 porque<br \/>\nele era seu pai e eu sua m\u00e3e; e o desenvolvimento dessa afetuosa solidariedade<br \/>\nestava na raz\u00e3o inversa do nosso amor f\u00edsico.<\/p>\n<p>Ah! eram inevit\u00e1veis as tristes conseq\u00fc\u00eancias desse deslocamento de amor.<br \/>\nFoi talvez dessa \u00e9poca que se decidiu a nossa incompatibilidade, e que se<br \/>\noriginou a nossa separa\u00e7\u00e3o; entretanto ainda ent\u00e3o sab\u00edamos conter-nos um<br \/>\ndefronte do outro. Em uma nota, muito anterior \u00e0quela que ficou atr\u00e1s, meu<br \/>\nmarido revela-se claramente a esse respeito. Vou transcrev\u00ea-la e ser\u00e1 esta<br \/>\na \u00faltima; insisto em faz\u00ea-lo, porque todo o estudo que forma cabedal deste<br \/>\nmeu querido livro foi inspirado nessas notas de Virg\u00edlio, e tamb\u00e9m porque<br \/>\nelas dizem o que eu talvez nunca tivesse a coragem de confessar a meu respeito.<\/p>\n<p>Eis o que ele escreveu. Nesse tempo, note-se, ainda se n\u00e3o tinha quebrado<br \/>\na aparente harmonia da nossa vida \u00edntima; ainda n\u00e3o tinha estalado a caldeira,<br \/>\nonde ferviam j\u00e1 os humores da rea\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;Noto que os sutis efeitos desse fato (refere-se ao exclusivismo do seu amor<br \/>\npaterno) come\u00e7am a patentear-se tristemente na intimidade ego\u00edsta da minha<br \/>\nvida conjugal. Come\u00e7o a perceber que o arrefecimento do meu ardor amoroso<br \/>\npara com minha mulher vai lentamente toldando, de vaporosas m\u00e1goas, a sua<br \/>\ncalma exist\u00eancia de esposa infeliz e honesta. Ela se n\u00e3o queixa nunca, mas<br \/>\na progressiva express\u00e3o de desgosto que v\u00e3o adquirindo seus formosos olhos;<br \/>\no indefin\u00edvel sorriso de resigna\u00e7\u00e3o que lhe entreabre os l\u00e1bios quando eu,<br \/>\nao seu lado na cama, lhe falo com entusiasmo de nossos filhos, e s\u00f3 deles,<br \/>\nesquecido do resto do mundo, esquecido de tudo mais, tomado, possu\u00eddo inteiramente<br \/>\npelo amor de pai; tudo isso me faz cair em mim e enche-me de revolta conta<br \/>\no exclusivismo do meu cora\u00e7\u00e3o. Estudo-me e descubro com horror que j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 em mim a menor sombra de entusiasmo amoroso por minha mulher. &#8211; Fico indignado!<br \/>\nQuero convencer os meus rebelados sentidos de que isto \u00e9 uma indigna injusti\u00e7a,<br \/>\ne chamo em socorro dos meus deveres de bom marido a id\u00e9ia dos encantos de<br \/>\nOl\u00edmpia, evocando o ardor com que a desejei durante o noivado e durante a<br \/>\nlua-de-mel.<\/p>\n<p>\u00c9 tudo in\u00fatil!<\/p>\n<p>Minha mulher tem agora vinte e seis anos. Est\u00e1 em pleno desenvolvimento de<br \/>\nsuas gra\u00e7as f\u00edsicas; nunca foi t\u00e3o bela, t\u00e3o sedutora e t\u00e3o mulher. E eu,<br \/>\ncom trinta e cinco anos, na for\u00e7a da idade e da sa\u00fade, reconhe\u00e7o tudo isso,<br \/>\nadmiro-lhe os dotes f\u00edsicos, tenho orgulho da sua beleza e, em consci\u00eancia,<br \/>\nn\u00e3o compreendo mulher mais perfeita e mais digna de amor que a minha. E contudo,<br \/>\no amor entra no com\u00e9rcio da nossa vida \u00edntima apenas como ligeiro e fugitivo<br \/>\nincidente. Apesar de reconhecer o seu inapreci\u00e1vel valimento feminil, a riqueza<br \/>\ndaquele palpitante tesouro de formas brancas e formosas, o pre\u00e7o daquele corpo<br \/>\ncarinhoso e casto, s\u00f3 vejo, s\u00f3 enxergo nela, a m\u00e3e dos meus filhos, s\u00f3 vejo<br \/>\no ventre sagrado, donde nasceu em ondas de sangue a minha felicidade de ser<br \/>\npai.<\/p>\n<p>Beijo-a, acarinho-a sinceramente, ao sair de casa, ao entrar da rua; \u00e0s vezes<br \/>\ninterrompo o meu trabalho para tomar-lhe as m\u00e3os, assent\u00e1-la um instante sobre<br \/>\nos meus joelhos, passar-lhe o bra\u00e7o na cintura. Mas estes afagos, alheios<br \/>\nao transporte amoroso, s\u00e3o feitos de fria ternura de amigo, s\u00e3o meigo reconhecimento<br \/>\nda minha paternidade feliz.<\/p>\n<p>Donde vem, pois, esta estranha coisa, esta incompreens\u00edvel anomalia, de que<br \/>\neu ame cada vez mais minha mulher e menos a deseje amorosamente? Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei, n\u00e3o atino com a verdadeira causa; e a convic\u00e7\u00e3o do fato, que no<br \/>\nmeu esp\u00edrito de marido leal e virtuoso atinge as propor\u00e7\u00f5es de feia monstruosidade,<br \/>\ncome\u00e7a a torturar-me seriamente.<\/p>\n<p>Sim, sim, a certeza de que a felicidade moral de Ol\u00edmpia subsiste em preju\u00edzo<br \/>\nda sua felicidade de mulher, atormenta-me de modo atroz. E percebo ainda,<br \/>\ncom o cora\u00e7\u00e3o envergonhado e a consci\u00eancia em revolta, que a grande dor sa\u00edda<br \/>\ndessa convic\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 determinada pelo mal que ela porventura cause \u00e0 minha<br \/>\npobre esposa, mas pela amea\u00e7a do mesmo mal prometendo cair mais tarde sobre<br \/>\na cabe\u00e7a de minha filha. Sim, porque minha filha h\u00e1 de tamb\u00e9m um dia ser esposa<br \/>\ne ser m\u00e3e, e ter\u00e1 nesse caso de sofrer as mesmas injusti\u00e7as que eu fa\u00e7o hoje<br \/>\n\u00e0 minha mulher, e que agora lhe entristecem a vida e lhe d\u00e3o ao bondoso semblante<br \/>\naquele doloroso ar de resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois se eu, c\u00f4nscio da minha \u00edntima probidade conjugal, amando minha mulher<br \/>\ncomo a amei sempre, n\u00e3o pude furtar-me \u00e0 cruel e misteriosa lei que me obriga,<br \/>\ncontra a pr\u00f3pria raz\u00e3o, a sentir-me farto e cansado da sua ternura, quanto<br \/>\nmais se eu fosse um esposo vulgar, sem escr\u00fapulos, e sem dom\u00ednio sobre si<br \/>\npara chamar a consci\u00eancia, o cora\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 sentidos, ao bom e leal desempenho<br \/>\ndos seus deveres?&#8230; O que seria ent\u00e3o?&#8230; Que horrorosa vida n\u00e3o teria dado<br \/>\n\u00e0 minha mulher se n\u00e3o fora eu t\u00e3o honestamente rigoroso no desempenho do meu<br \/>\npapel de esposo?&#8230; Que mundo de dores e desgostos lhe teria eu proporcionado,<br \/>\nse ela descobrisse o sacrif\u00edcio com que \u00e0s vezes suporto as suas car\u00edcias<br \/>\ne a hipocrisia com que as retribuo ou provoco?&#8230;<\/p>\n<p>O marido de minha filha ter\u00e1, como eu, a delicadeza, a bondade, de se n\u00e3o<br \/>\nrevoltar, de submeter-se passivamente \u00e0 conven\u00e7\u00e3o matrimonial, calcando no<br \/>\n\u00edntimo as revoltas do t\u00e9dio, e resistindo heroicamente \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es externas,<br \/>\ncomo eu resisti sempre at\u00e9 aqui?<\/p>\n<p>A pertinaz sedu\u00e7\u00e3o de mais de uma formosa mulher que encontrei na sociedade,<br \/>\nquebrou-se contra os meus princ\u00edpios de moral; e Ol\u00edmpia, que \u00e9 inteligente,<br \/>\nbem o percebeu e bem mo agradeceu, n\u00e3o com palavras, mas por delicados meios,<br \/>\nque ainda mais me fizeram seu amigo. O marido que milha filha viesse a ter<br \/>\nseria capaz de tanto&#8230;<\/p>\n<p>Eis o que me tortura principalmente!<\/p>\n<p>E minha filha ser\u00e1, como \u00e9 minha mulher, uma virtude inquebrant\u00e1vel, um esp\u00edrito<br \/>\norgulhoso e forte, que resista \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es de procurar fora de casa a felicidade<br \/>\nque o casamento lhe ter\u00e1 prometido e n\u00e3o lhe ter\u00e1 dado; ou, impelida pelo<br \/>\nfastio da vida conjugal, ir\u00e1 refugiar-se nas criminosas ilus\u00f5es de novas crises<br \/>\nde amor; nessa esp\u00e9cie de falsificadas luas-de-mel, que a mulher ad\u00faltera<br \/>\ninventa fora do lar dom\u00e9stico, porque v\u00ea que neste n\u00e3o poder\u00e1 nunca, nunca<br \/>\nmais, obter a reprodu\u00e7\u00e3o da lua-de-mel verdadeira e leg\u00edtima?<\/p>\n<p>E, admitindo mesmo a melhor hip\u00f3tese, admitindo que Palmira herde da m\u00e3e<br \/>\na energia e a honestidade do car\u00e1ter e o rigoroso equil\u00edbrio do temperamento,<br \/>\nser\u00e1 justo deixar que ela passe pelas mesmas prova\u00e7\u00f5es e sofra as mesmas d\u00fabias<br \/>\ne lentas infelicidades que eu observo e estudo em Ol\u00edmpia, e que me enchem<br \/>\nde compaix\u00e3o por ela e de revolta contra mim mesmo e contra estes meus ingratos<br \/>\ne miser\u00e1veis sentidos? Pois ser\u00e1 esse o belo futuro que eu preparo para minha<br \/>\nquerida filha? Destin\u00e1-la a servir de instrumento de t\u00e9dio a um marido, que<br \/>\nn\u00e3o ser\u00e1 talvez t\u00e3o resignado como eu e que n\u00e3o consiga am\u00e1-la como eu amo<br \/>\nminha mulher? Conden\u00e1-la a ser, por toda a melhor parte de sua vida, nada<br \/>\nmais do que um ludibriado recept\u00e1culo de fingidas car\u00edcias? conden\u00e1-la, coitadinha!<br \/>\na apagar com os seus beijos castos o fogo de inconfess\u00e1veis desejos, criados<br \/>\npor outras mulheres, cuja \u00fanica superioridade sobre ela ser\u00e1 a de n\u00e3o serem<br \/>\ncasadas com o homem que for seu marido? E, se este n\u00e3o tiver o meu g\u00eanio e<br \/>\nn\u00e3o conseguir arrancar de si os artif\u00edcios de delicadeza, que eu mantenho<br \/>\npara com minha mulher, terei eu o direito de acusar minha filha, no caso que<br \/>\nse desvie da linha inflex\u00edvel dos seus deveres, e procure fora do tedioso<br \/>\nmatrim\u00f4nio os regalos exigidos pela sua mocidade e pelos reclamos que, no<br \/>\nseu sangue, p\u00f4s a natureza para garantia da esp\u00e9cie e seguran\u00e7a da int\u00e9rmina<br \/>\ncadeia da vida? Se assim acontecer, terei o direito de amaldi\u00e7o\u00e1-la; terei<br \/>\no direito de castig\u00e1-la com o meu desprezo e com o meu abandono?<\/p>\n<p>E n\u00e3o ser\u00e1 mais odioso crime punir semelhante desgra\u00e7a, com outra desgra\u00e7a<br \/>\nainda maior para ela? Para ela e para mim, e para minha esposa; pois que &#8211;<br \/>\ndeserdar qualquer filha do amor de seus pais &#8211; \u00e9 sem d\u00favida para essa infeliz<br \/>\num tremendo mart\u00edrio, por\u00e9m nunca t\u00e3o grande e t\u00e3o doloroso como para os desgra\u00e7ados<br \/>\nque o infligem!&#8221;<\/p>\n<p>Eis a\u00ed fica uma sincera p\u00e1gina, escrita por meu marido, antes da nossa crise<br \/>\ndas contendas e disputas que nos desuniram para sempre. Calculo quanto n\u00e3o<br \/>\nteria ele sofrido mais tarde, pensando no destino de nossa filha e reconhecendo<br \/>\nque nem ele pr\u00f3prio, que se considerava t\u00e3o seguro na sua resigna\u00e7\u00e3o conjugal<br \/>\ne t\u00e3o firme na sua energia para conter as revoltas do t\u00e9dio, pudera evitar<br \/>\na explos\u00e3o nervosa e o fatal rompimento, que nos arredaram, a ele de Palmira,<br \/>\na mim do meu pobre filho! Como meu marido devia ter sofrido longe dela, coitado!<\/p>\n<p>Mas a semente do seu amor paternal foi recolhida pelo meu cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e,<br \/>\ne j\u00e1 vingou, e h\u00e1 de crescer, florir e dar bons frutos!<\/p>\n<p>Sim, meu infeliz irm\u00e3o, se l\u00e1 no duvidoso mundo, para onde voou teu nobre<br \/>\nesp\u00edrito, acompanha-te a m\u00e1goa do destino que ter\u00e1 nossa filha, e se guardas<br \/>\nnessa outra vida mem\u00f3ria dos que nesta te amaram, p\u00f5e a larga o cora\u00e7\u00e3o, porque<br \/>\nestarei ao lado dela para evitar-lhe os escolhos, em que comigo naufragaste;<br \/>\nestarei a seu lado, vigiadora e fiel, para preserv\u00e1-la do mal que nos separou,<br \/>\ne para dar-me toda inteira, de corpo e alma, para sempre \u00e0 conquista de um<br \/>\nmeio de a fazer feliz! Juro-te que nossa filha n\u00e3o passar\u00e1 pelas mesmas ang\u00fastias<br \/>\npor que passei, nem resvalar\u00e1 em nenhum dos muitos modos de ser da prostitui\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>N\u00e3o! Palmira n\u00e3o ter\u00e1 a desgra\u00e7a de ser uma esposa ad\u00faltera e desprez\u00edvel,<br \/>\nnem ser\u00e1 tamb\u00e9m uma v\u00edtima rid\u00edcula da sua pr\u00f3pria virtude, privada, na idade<br \/>\ndo amor sexual, dos direitos e dos gozos que a natureza conferiu a cada uma<br \/>\ndas suas criaturas; nem ser\u00e1 tampouco, como eu fui, a esposa m\u00e3e, cujos beijos<br \/>\ndo marido nada mais eram que os restos frios do seu amor paterno! N\u00e3o! minha<br \/>\nfilha h\u00e1 de amar e ser dignamente amada, com todo o ardor, com todo o entusiasmo,<br \/>\ncom toda a grande e pr\u00f3spera vol\u00fapia de que \u00e9 capaz o verdadeiro amor! E n\u00e3o<br \/>\nsomente durante o noivado, mas sempre, por toda a vida, todos os dias e todos<br \/>\nos instantes.<\/p>\n<p>Minha filha h\u00e1 de ser feliz!<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>V<\/h2>\n<p>Jurara pois a mim mesma, e \u00e0 mem\u00f3ria de meu marido, que minha filha seria<br \/>\nfeliz. Mas como realizar esse ideal?<\/p>\n<p>Eis a quest\u00e3o. Vejamos:<\/p>\n<p>Dar-lhe um marido, quando chegasse \u00e0 idade do amor?&#8230;<\/p>\n<p>Mas, se o meu, que fora t\u00e3o bom, t\u00e3o leal, e t\u00e3o justo, n\u00e3o conseguira proporcionar-me<br \/>\na felicidade?<\/p>\n<p>Dar-lhe um amante?<\/p>\n<p>Mas, sobre ser, debaixo do ponto de vista social, imoral\u00edssimo o fato, em<br \/>\nque poderiam afinal consistir as vantagens de um amante sobre um marido?<\/p>\n<p>N\u00e3o seria o amante nada mais do que um marido ileg\u00edtimo, que trouxesse \u00e0<br \/>\nmulher todas as desvantagens dom\u00e9sticas do casamento e nenhuma das suas vantagens<br \/>\nsociais?<\/p>\n<p>Para o homem, sim, a amante parece incontestavelmente prefer\u00edvel \u00e0 esposa,<br \/>\nporque a mulher de posi\u00e7\u00e3o s\u00f3 aceita um homem para seu concubin\u00e1rio quando<br \/>\no ama fervorosamente; ao passo que pode tomar marido, ou s\u00f3 porque os seus<br \/>\ninteresses de vida social assim o exijam, ou s\u00f3 porque a sua vida particular<br \/>\nn\u00e3o tenha outro meio de manter-se.<\/p>\n<p>O marido \u00e9 sempre para a mulher uma garantia do presente e uma garantia do<br \/>\nfuturo; o amante \u00e9 nada mais do que um incidente arriscado. O marido \u00e9 uma<br \/>\nconquista social; o amante \u00e9 um sacrif\u00edcio feito ao amor. A mulher que n\u00e3o<br \/>\ntem posi\u00e7\u00e3o social, conquista-a com o casamento; e aquela que j\u00e1 a tinha,<br \/>\nperde-a tomando um amante. Por conseguinte o casamento eleva e o concubinato<br \/>\nrebaixa.<\/p>\n<p>No casamento o escravizado \u00e9 o marido; no outro caso a escravizada \u00e9 a mulher.<br \/>\nO casamento \u00e9 o sacrif\u00edcio de um homem em proveito da sociedade; o concubinato<br \/>\n\u00e9 o sacrif\u00edcio de uma mulher feito a um homem. A mulher casada v\u00ea no &#8220;seu&#8221;<br \/>\nmarido uma propriedade sua; e, para manter a felicidade burguesa do seu lar<br \/>\ne para n\u00e3o perturbar a suposta tranq\u00fcilidade da sua vida conjugal, quer que<br \/>\nele, ao entrar casado na c\u00e2mera nupcial, despeje para sempre o cora\u00e7\u00e3o de<br \/>\ntodos os seus sonhos de gl\u00f3ria; quer que ele abdique, em proveito do seu novo<br \/>\nestado, de todas as suas ambi\u00e7\u00f5es brilhantes, de todo o seu ideal de conquistas<br \/>\nna vida p\u00fablica. E desse dia em diante, tudo o que nele for pessoal e de alcance<br \/>\nexterior encontrar\u00e1 nela um inimigo terr\u00edvel. No triunfo individual dele ela<br \/>\nver\u00e1 uma perene amea\u00e7a aos seus direitos de propriet\u00e1ria conjugal. A felicidade<br \/>\nparticular dele, posto que de car\u00e1ter moral, ser\u00e1 por ela considerada um roubo,<br \/>\num atentado cometido contra a solidariedade do casal. Que ele seja um &#8220;Bom<br \/>\nmarido&#8221; \u00e9 o essencial, \u00e9 quanto basta; \u00e9 tudo o que ela exige dele e \u00e9 s\u00f3<br \/>\no que ela consente que ele ambicione.<\/p>\n<p>E para ser um &#8220;Bom marido&#8221; conv\u00e9m que ele seja caseiro, met\u00f3dico, pacato,<br \/>\nprevidente; que disponha de recursos para manter a fam\u00edlia, e n\u00e3o tenha a<br \/>\nmenor ambi\u00e7\u00e3o de nome. O que por a\u00ed se chama &#8220;Bom marido&#8221; \u00e9 um ser gen\u00e9rico<br \/>\ne coletivo, que, por si s\u00f3, particularmente, nada representa, e que n\u00e3o pode<br \/>\nser aproveitado, na cadeia dos interesses gerais da vida humana, sen\u00e3o como<br \/>\nsimples e obscuro elemento de procria\u00e7\u00e3o. Um bom marido \u00e9 \u00fatil somente porque<br \/>\nproduz filhos.<\/p>\n<p>Para ser um bom marido n\u00e3o pode o indiv\u00edduo ser um &#8220;homem de a\u00e7\u00e3o&#8221;, como<br \/>\nn\u00e3o pode ser um &#8220;contemplativo&#8221;. N\u00e3o pode ser um conquistador, um revolucion\u00e1rio<br \/>\nou um grande empreendedor, como n\u00e3o pode ser um poeta, um artista ou um s\u00e1bio.<br \/>\nE como s\u00e3o essas as duas \u00fanicas ordens em que se divide a humanidade produtora,<br \/>\nda soma de cujo esfor\u00e7o de a\u00e7\u00e3o ou de pensamento tira a evolu\u00e7\u00e3o t\u00f3rica a<br \/>\nsua grande for\u00e7a de impulso e de aperfei\u00e7oamento geral, segue-se que o &#8220;Bom<br \/>\nmarido&#8221;, na comunh\u00e3o da vida inteligente e na obra do progresso do mundo,<br \/>\nn\u00e3o tem lugar como homem, mas s\u00f3 como animal, e seu esfor\u00e7o s\u00f3 poder\u00e1 ser<br \/>\naproveitado como passivo instrumento da vontade alheia.<\/p>\n<p>Por isso um bom marido deve ser \u00fanica e exclusivamente um bom marido, e nisso<br \/>\nlimitar todas a sua aspira\u00e7\u00e3o. Um bom marido n\u00e3o deve ter p\u00e1tria, nem id\u00e9ias.<br \/>\nA sua p\u00e1tria \u00e9 a casa, e o programa de todo o seu pensamento \u00e9 o seguinte:<br \/>\nter ou obter meios para a regulada subsist\u00eancia da fam\u00edlia; n\u00e3o perturbar<br \/>\nnunca a paz burguesa do lar; atrair \u00e0 casa, de vez em quando, amigos s\u00e9rios<br \/>\ne respeitadores dos princ\u00edpios estabelecidos; promover partidas de dan\u00e7a,<br \/>\nem que a mulher se divirta, em que as filhas, se j\u00e1 estiverem desenvolvidas,<br \/>\npossam namorar para obter marido; n\u00e3o faltar nunca ao lado da esposa com o<br \/>\nprovimento sexual de que ela, conforme o seu temperamento, care\u00e7a para o seu<br \/>\nbem-estar e perfeita sinergia do organismo; e nunca, nunca, dar ou promover<br \/>\nesc\u00e2ndalos, sejam estes de ordem pol\u00edtica, art\u00edstica, amorosa, dom\u00e9stica,<br \/>\nou sejam de simples e inocente folguedo.<\/p>\n<p>Para o satisfat\u00f3rio desempenho desta \u00faltima parte do programa, deve o bom<br \/>\nmarido abster-se de escrever, com assinatura, artigos em jornais e livros<br \/>\nprincipalmente; n\u00e3o deve ter sen\u00e3o as obras que possa dar tamb\u00e9m a ler \u00e0 sua<br \/>\nfam\u00edlia; n\u00e3o deve expor ao p\u00fablico e \u00e0 venda qualquer produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica de<br \/>\nsua lavra, mas reserv\u00e1-las para ornamento da sua sala de visitas ou de jantar;<br \/>\nno seu modo de vestir nunca trazer a roupa muito \u00e0 moda, nem muito fora da<br \/>\nmoda; deve, enfim, nisto, como em tudo absolutamente, escolher sempre o meio-termo,<br \/>\no regular, o m\u00e9dio, porque a mediocridade deve ser o seu n\u00edvel. Raz\u00e3o esta<br \/>\npara que evite, escrupulosamente, aperfei\u00e7oar-se em qualquer ramo de conhecimento<br \/>\ncient\u00edfico ou art\u00edstico, que da perfei\u00e7\u00e3o pode, mesmo sem querer, cair no<br \/>\nsucesso e aplauso p\u00fablico o que lhe n\u00e3o conv\u00e9m de modo algum, por ser escandaloso.<br \/>\nTodo o sucesso \u00e9 um esc\u00e2ndalo, e o bom marido deve temer o esc\u00e2ndalo antes<br \/>\nde tudo.<\/p>\n<p>E mais: o bom marido deve recolher-se \u00e0 casa sempre cedo; n\u00e3o sair para o<br \/>\npasseio ou para o teatro sem levar a fam\u00edlia; evitar a conviv\u00eancia mundana<br \/>\ncom todo o indiv\u00edduo que for popular e apontado a dedo. N\u00e3o lhe conv\u00e9m igualmente,<br \/>\ne nem por sombra, a menor rela\u00e7\u00e3o de amizade com os agitadores de id\u00e9ias e<br \/>\ncom os artistas reformadores. O seu c\u00edrculo, al\u00e9m da fam\u00edlia, s\u00f3 pode estender-se<br \/>\num bocadinho \u00e0s circunspectas classes conservadoras; o seu nome n\u00e3o deve figurar<br \/>\nnunca sen\u00e3o em listas oficiais e graves. O bom marido deve ser, nos seus atos<br \/>\ne nas suas fun\u00e7\u00f5es, inalter\u00e1vel como uma p\u00eandula: &#8211; Da casa para o trabalho<br \/>\ne do trabalho para casa. Qualquer desvio do movimento estabelecido pode alterar<br \/>\na marcha do rel\u00f3gio, que \u00e9 o lar.<\/p>\n<p>Logicamente, quem deveria perder o nome com o casamento e adotar o do c\u00f4njuge<br \/>\nera o homem e n\u00e3o a mulher, porque se o casamento for o que se chama &#8220;regular&#8221;<br \/>\ne o marido sair &#8220;um bom marido&#8221;, \u00e9 ele quem desaparece engolido pela fam\u00edlia;<br \/>\nao passo que ela, at\u00e9 a\u00ed escondida atr\u00e1s dos parentes, sem ter mesmo at\u00e9 ent\u00e3o<br \/>\no direito de pensar, casando-se, surge desassombradamente \u00e0 tona social e<br \/>\nforma \u00e0 direita do esposo um novo elo na grande cadeia.<\/p>\n<p>E n\u00e3o h\u00e1 mulher que n\u00e3o deseje que seu marido seja um &#8220;Bom marido&#8221;. No seu<br \/>\nindefect\u00edvel ego\u00edsmo, os interesses privados do lar imp\u00f5em-se antes de tudo.<br \/>\nN\u00e3o admitir\u00e1 ela nunca que seu marido perten\u00e7a a qualquer outra coisa ou id\u00e9ia<br \/>\nque n\u00e3o seja o pr\u00f3prio casamento.<\/p>\n<p>Algumas n\u00e3o amam o esposo, mas nem por isso deixam de pesquisar-lhe a vida<br \/>\ninteira, at\u00e9 os mais pequeninos atos da exist\u00eancia. Esse vivo e feminil emprenho<br \/>\nde perquisi\u00e7\u00e3o n\u00e3o vem do interesse carinhoso que ele inspira \u00e0 mulher, mas<br \/>\ndo gozo de desfrutar um direito, o direito de zelar e governar o que lhe pertence,<br \/>\no que \u00e9 s\u00f3 dela e de mais ningu\u00e9m; pois que, na maior parte dos casos, a mulher<br \/>\nn\u00e3o faz quest\u00e3o de que o marido seja este ou aquele, desde que o sujeito preencha<br \/>\nos j\u00e1 citados requisitos de bom marido.<\/p>\n<p>E o que recebe o pobre do bom marido em troca de tudo o que d\u00e1 \u00e0 esposa?<br \/>\nS\u00f3 recebe uma recompensa &#8211; a felicidade de ser pai. S\u00f3 esta resiste: tudo<br \/>\nmais que ele, de longe, nas ilus\u00f5es do desejo, supunha constituir um mundo<br \/>\nde venturas, desfaz-se em t\u00e9dio e obriga\u00e7\u00f5es ma\u00e7antes. A mulher deixa em breve<br \/>\nde ser a esposa para ser &#8220;A minha companheira &#8211; a minha velha &#8211; a madama&#8221;.<br \/>\nDeixam ambos de ser marido e mulher para serem &#8220;Feij\u00e3o com carne-seca&#8221;, como<br \/>\neles l\u00e1 dizem, os imbecis! O lar deixa de ser o ninho da paz e do descanso<br \/>\npara ser &#8220;a obriga\u00e7\u00e3o da casa&#8221;. E em obriga\u00e7\u00e3o, e obriga\u00e7\u00e3o acabrunhadora,<br \/>\ntransforma-se toda a vida do homem, desde a mesa da comida at\u00e9 \u00e0 cama, s\u00f3<br \/>\nlhe ficando intacta a consola\u00e7\u00e3o de ser pai.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Com a amante sucede precisamente o contr\u00e1rio. O homem a quem ela se entregou<br \/>\nimp\u00f4s-se ao seu cora\u00e7\u00e3o por uma irresist\u00edvel fatalidade do amor. Essa liga\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o entrava no programa da sua vida, como o casamento entrava no da vida da<br \/>\noutra; essa liga\u00e7\u00e3o veio como conseq\u00fc\u00eancia inevit\u00e1vel de uma fascina\u00e7\u00e3o imprevista.<br \/>\nEm vez de investigar se o homem a quem se &#8220;deu&#8221; tinha as qualidades e requisitos<br \/>\nnecess\u00e1rios para tomar mulher, o que ela quis saber, s\u00f3, foi se ele a amava<br \/>\ntanto quanto era amado por ela; e, justamente ao inverso do que faz a mulher<br \/>\nna ocasi\u00e3o de arranjar marido, em vez de dizer:<\/p>\n<p>&#8220;Aceito este ou aquele contanto que d\u00ea de si um bom marido&#8221;, o que a amante<br \/>\npensou foi o seguinte: &#8220;s\u00f3 este me conv\u00e9m e quero, s\u00f3 este me pode servir<br \/>\npara amante, ainda mesmo que ele n\u00e3o disponha das necess\u00e1rias qualidades para<br \/>\nser um bom amante&#8221;. E ela assim pensa e faz, porque ama, e como o seu amor<br \/>\nvisa certo e determinado indiv\u00edduo, s\u00f3 esse, tenha ele as qualidades ou defeitos<br \/>\nque tiver, poder\u00e1 ser o seu homem.<\/p>\n<p>E, como, unindo-se a esse homem, ela em vez de subir, apeou-se da sua posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial, todo o seu empenho, depois de unidos, se transforma em desejar v\u00ea-lo<br \/>\ncrescer e elevar-se no conceito p\u00fablico, porque, quanto maior for ele, tanto<br \/>\nmais desculp\u00e1vel ser\u00e1 a queda da mulher que lhe pertence.<\/p>\n<p>Ainda ao contr\u00e1rio do que sucede no casamento, aqui a tranq\u00fcilidade e a \u00edntima<br \/>\nbem-aventuran\u00e7a do lar s\u00e3o sacrificadas aos interesses exteriores do amante,<br \/>\nse este tiver ambi\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter p\u00fablico, quer como artista, quer como homem<br \/>\nde a\u00e7\u00e3o. A paz dom\u00e9stica, os gozos do amor, tudo isso \u00e9 rapidamente atirado<br \/>\npara o lado se a honra ou o interesse abstrato da gl\u00f3ria reclamam o sacrif\u00edcio<br \/>\ndo homem amado.<\/p>\n<p>Quando, nos grandes momentos decisivos para a vida p\u00fablica de um homem, tenha<br \/>\neste, sem hesita\u00e7\u00e3o, de arriscar tudo num lance resoluto, num rasgo de coragem,<br \/>\ne, ou galgar de assalto a vit\u00f3ria completa, ou cair vencido para sempre; se<br \/>\nele \u00e9 casado, a mulher agarra-o com ambas as m\u00e3os, grita, chora, enla\u00e7a-o<br \/>\nnas suas saias e n\u00e3o o deixa sair de junto dela, reclamando egoisticamente<br \/>\nque o infeliz \u00e9 seu marido e que ela n\u00e3o pode consntir que ele se exponha,<br \/>\nporque seria expor tamb\u00e9m a seguran\u00e7a do seu lar e da sua fam\u00edlia; e, se o<br \/>\nhomem n\u00e3o for casado, enquanto a esposa faz aquilo, o que faz a amante?<\/p>\n<p>A amante, esquecendo a sua felicidade privada pelas conveni\u00eancias p\u00fablicas<br \/>\ndo seu amado, e tendo pouco de si mesma que arriscar, porque tudo por ele<br \/>\npr\u00f3prio j\u00e1 arriscou e n\u00e3o temendo cair em posi\u00e7\u00e3o falsa, porque falsa j\u00e1 \u00e9<br \/>\na sua posi\u00e7\u00e3o, \u00e9 a primeira a empurr\u00e1-lo para o seu posto de honra e a instigar-lhe<br \/>\nos brios, gritando-lhe que n\u00e3o perca um instante e cumpra resoluto o seu dever,<br \/>\nsejam quais forem as conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>Ele pode morrer! &#8211; Embora! Mas \u00e9 preciso que v\u00e1, que se n\u00e3o desonre, porque,<br \/>\nse assim acontecer, ela ter\u00e1 perdido de um modo mais triste ainda a sua felicidade<br \/>\nde mulher, porque ter\u00e1 perdido a sua ilus\u00e3o de amor, porque ter\u00e1 perdido moralmente<br \/>\no seu amante.<\/p>\n<p>Que v\u00e1! Que v\u00e1! Antes morto que desonrado!<\/p>\n<p>E nisto consiste a grande vantagem que leva o concubinato sobre o casamento.<br \/>\nSe eu, em vez de uma filha, tivesse um filho, n\u00e3o hesitaria em aconselhar-lhe<br \/>\nque preferisse tomar uma concubina a tomar uma esposa.<\/p>\n<p>Mas, na invers\u00e3o do caso; quer dizer: sob o ponto de vista do interesse da<br \/>\nmulher, o amante ser\u00e1 prefer\u00edvel ao marido?<\/p>\n<p>Vejamos:<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>VI<\/h2>\n<p>\u00c0 primeira vista parece que n\u00e3o; parece que o amante, longe de levar vantagem<br \/>\nsobre o marido, fica-lhe muito inferior, sob o ponto de vista dos interesses<br \/>\nda mulher. A princ\u00edpio parece que um amante traz todas as desvantagens de<br \/>\num marido vulgar e nenhuma das vantagens morais.<\/p>\n<p>J\u00e1 ficou estabelecido que o marido \u00e9 o escravo e que o amante \u00e9 o senhor.<\/p>\n<p>Mas, sob o ponto de vista dos interesses dom\u00e9sticos e da verdadeira felicidade<br \/>\nprivada de uma mulher, n\u00e3o estar\u00e1 justamente nesse fato de ser senhor e n\u00e3o<br \/>\nescravo a superioridade do amante sobre o marido? Qual ser\u00e1 mais apto para<br \/>\nfazer a felicidade de uma mulher &#8211; um homem que a ame como senhor, ou um homem<br \/>\nque a ame como escravo?<\/p>\n<p>Dir-me-\u00e3o talvez que, tanto um como outro, n\u00e3o preenchem o ideal da mulher,<br \/>\ne que o melhor partido \u00e9 o de um homem que a ame de igual para igual.<\/p>\n<p>N\u00e3o. Essa igualdade \u00e9 bonita, mas \u00e9 imposs\u00edvel e, se fosse poss\u00edvel, seria<br \/>\ninconveniente. A mulher, j\u00e1 pela sua especial constitui\u00e7\u00e3o f\u00edsica e intelectual,<br \/>\nj\u00e1 pelo seu natural estado de passividade, n\u00e3o pode em caso algum ser a igual<br \/>\ndo homem com que vive.<\/p>\n<p>O raro caso da absoluta superioridade da mulher \u00e9 uma anomalia que traz fatalmente<br \/>\no desequil\u00edbrio no casal.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente dessa desigualdade perfeita, desse contraste de aptid\u00f5es f\u00edsicas<br \/>\ne morais, que nasce a sublime harmonia do amor. \u00c9 com a variedade de compet\u00eancias<br \/>\ne de necessidades de cada um, que os dois se completam.<\/p>\n<p>Pois se at\u00e9 na idade e na estatura f\u00edsica \u00e9 conveniente, para o bom equil\u00edbrio<br \/>\nde um casal, que haja certa inferioridade da parte da mulher! No que precisa<br \/>\nhaver identidade \u00e9 no ponto de educa\u00e7\u00e3o social e no grau de coloca\u00e7\u00e3o na escala<br \/>\netnol\u00f3gica. E, ainda neste particular, caso n\u00e3o seja poss\u00edvel obter a igualdade,<br \/>\ndada a circunst\u00e2ncia de que uma das partes do casal tenha de ser, na ra\u00e7a<br \/>\nou na condi\u00e7\u00e3o, inferior \u00e0 outra, \u00e9 prefer\u00edvel, para todas as conveni\u00eancias<br \/>\ne efeitos, que a parte inferior na ra\u00e7a ou na condi\u00e7\u00e3o seja a mulher e n\u00e3o<br \/>\no homem. \u00c9 mais natural e aceit\u00e1vel ver um branco casado com uma mulata ou<br \/>\num mulato com uma preta, do que ver uma branca ligada a um preto ou a um mulato;<br \/>\npela simples raz\u00e3o de que, na apura\u00e7\u00e3o e aperfei\u00e7oamento da casta, a mulher<br \/>\ns\u00f3 entra em concorr\u00eancia como passivo auxiliar.<\/p>\n<p>A mulher, regularmente constitu\u00edda, n\u00e3o quer para s\u00f3cio na procria\u00e7\u00e3o, nem<br \/>\ns\u00f3 um indiv\u00edduo que lhe seja etnogenicamente inferior, como n\u00e3o quer um homem<br \/>\norganicamente t\u00e3o ou mais fraco do que ela, nem quer tamb\u00e9m um que lhe seja<br \/>\nigual na falta de energia e de a\u00e7\u00e3o, mas sim quer um ente superior, que lhe<br \/>\nsirva de firme garantia \u00e0 sua fraqueza e a seu pudor; quer um homem que lhe<br \/>\npossa dar conselhos e amparo, e, se tanto for preciso, at\u00e9 o pr\u00f3prio castigo.<\/p>\n<p>Sim, o castigo. &#8211; Um bom e verdadeiro amante \u00e9 sempre um pouco pai da mulher<br \/>\namada.<\/p>\n<p>O marido, esse \u00e9 que nunca \u00e9 mais do que o par de sua mulher, e com ela discute<br \/>\nde igual para igual, com ela dueliza e luta, como um s\u00f3cio disputando sobre<br \/>\nos seus interesses com o outro s\u00f3cio que o quer lograr. Ela n\u00e3o teme desgost\u00e1-lo<br \/>\ncom as suas palavras duras e injuriosas, porque n\u00e3o tem receio que ele lhe<br \/>\nfuja &#8211; o cabresto do casamento \u00e9 rijo e apertado.<\/p>\n<p>Desde que a mulher reconhe\u00e7a no amante a indispens\u00e1vel superioridade, n\u00e3o<br \/>\npode, como aquela, ver nele o seu escravo, mas o seu dono, o dono da sua vontade<br \/>\ne do seu corpo; e, no passivo enternecimento de julgar-se um objeto dele,<br \/>\nreside a sua felicidade de mulher que ama e \u00e9 amada.<\/p>\n<p>A mulher, creiam todos, sente prazer em reconhecer-se passiva, em ver em<br \/>\nsi um ente fraco e por isso mesmo digno de respeito; goza com sentir indispens\u00e1vel<br \/>\no apoio moral e f\u00edsico do homem a quem se entregou toda inteira, toda confiante,<br \/>\nde olhos fechados. Se ama deveras o seu concubin\u00e1rio, pode este fazer dela<br \/>\no que quiser, uma hero\u00edna de abnega\u00e7\u00e3o e bondade, como pode fazer o mais perverso<br \/>\ndos fac\u00ednoras. Dele tudo depende, porque nela \u00e9 ele quem manda, ele \u00e9 o senhor<br \/>\ne governa.<\/p>\n<p>As romanas antigas, talvez se divertissem menos, por\u00e9m deviam ser muito mais<br \/>\nfelizes no interior do lar do que as nossas esposas modernas; e eram mais<br \/>\nfelizes porque eram mais mulher, e os seus homens eram mais homem.<\/p>\n<p>Ao inverso do que sucede no comum dos casamentos de pura conveni\u00eancia burguesa,<br \/>\na mulher mais ama o seu amante quanto mais este avulta e cresce no conceito<br \/>\np\u00fablico, por conseguinte mais o ama quanto mais ela diminui ao lado dele,<br \/>\nat\u00e9 reduzir-se \u00e0s \u00ednfimas propor\u00e7\u00f5es de simples f\u00eamea amorosa. E s\u00f3 ent\u00e3o<br \/>\n\u00e9 verdadeiramente feliz no amor.<\/p>\n<p>Isto, j\u00e1 se v\u00ea, s\u00f3 se pode dar no caso do amante e nunca do esposo, porque<br \/>\n\u00e9 justamente da pr\u00e1tica do oposto desse fato que nasce o invenc\u00edvel desconcerto<br \/>\nentre os casados e o fatal desequil\u00edbrio da vida conjugal. \u00c9 que a mulher<br \/>\ncasada quer, geralmente, emparelhar com o marido e acompanh\u00e1-lo nas regalias<br \/>\nda considera\u00e7\u00e3o p\u00fablica e na gl\u00f3ria das conquistas sociais, sem se lembrar<br \/>\nde que, se ele cresce, \u00e9 pelo talento, ou pela bravura, ou pelas virtudes<br \/>\nen\u00e9rgicas, ou simplesmente pela atividade na intriga pol\u00edtica; cresce enfim<br \/>\npela a\u00e7\u00e3o ou pela produ\u00e7\u00e3o intelectual; cresce porque luta e vence. Ao passo<br \/>\nque ela ambiciona acompanh\u00e1-lo no mesmo v\u00f4o, substituindo aquelas asas fortes<br \/>\nde que ele disp\u00f5e, por uma coisa \u00fanica &#8211; o amor; quando n\u00e3o \u00e9 pela simples<br \/>\ncircunst\u00e2ncia rid\u00edcula de ser esposa dele. Mas, valha-me Deus! o amor f\u00edsico<br \/>\n\u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o material e privada, \u00e9 um instinto, \u00e9 o instinto da conserva\u00e7\u00e3o<br \/>\nda esp\u00e9cie, como a fome \u00e9 o instinto da conserva\u00e7\u00e3o pessoal &#8211; nada mais! E,<br \/>\nse o fato de ser mulher de um homem ilustre lhe desse a ela os mesmos direitos<br \/>\npor ele conquistados pelo talento ou pela a\u00e7\u00e3o, seria isso uma distin\u00e7\u00e3o adquirida<br \/>\nsem esfor\u00e7o e por conseguinte sem m\u00e9rito e at\u00e9 odiosa.<\/p>\n<p>Estou farta de ver todos os dias na imprensa o nome de certas senhoras figurando<br \/>\ncom indecorosa insist\u00eancia \u00e0 frente de subscri\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, de programas<br \/>\nde festas patri\u00f3ticas, de manifesta\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios g\u00eaneros, e at\u00e9 como t\u00edtulo<br \/>\nde estabelecimentos de instru\u00e7\u00e3o ou de caridade, e tudo isso s\u00f3 porque s\u00e3o<br \/>\ncasadas com homens postos em evid\u00eancia pela pol\u00edtica do momento ou pela alta<br \/>\nsoma de seus haveres. Ora, tinha vontade de saber se essas esposas, que t\u00e3o<br \/>\nafoitamente emparelham com os maridos nos seus pr\u00f3speros v\u00f4os de gl\u00f3ria, estariam<br \/>\ntamb\u00e9m dispostas a acompanh\u00e1-los ao pat\u00edbulo, ou a cumprir a pena de gal\u00e9s<br \/>\nperp\u00e9tuas, se a tais fossem eles condenados.<\/p>\n<p>E nada, todavia, seria mais justo, porque &#8211; quem come a carne deve roer os<br \/>\nossos!<\/p>\n<p>O que fatalmente acontece, no caso vulgar dessa tentativa de emparelhamento<br \/>\nno v\u00f4o da ambi\u00e7\u00e3o do homem p\u00fablico, \u00e9 que a mulher n\u00e3o consegue subir com<br \/>\no esposo, nem fica tamb\u00e9m no ponto onde nunca devia ter sa\u00eddo &#8211; o lar, que<br \/>\n\u00e9 o seu posto de honra, e onde, tanto mais ela cresce quanto mais se afunda.<\/p>\n<p>Da\u00ed o desequil\u00edbrio dom\u00e9stico e a infelicidade de parte a parte, quando no<br \/>\ncasamento o marido \u00e9 um homem not\u00e1vel ou ambicioso.<\/p>\n<p>E se a mulher tem elementos individuais para subir tamb\u00e9m, tanto pior para<br \/>\nos dois, porque nesse caso marido e mulher j\u00e1 n\u00e3o representam um casal, que<br \/>\nse ama e se constituiu para procriar, mas t\u00e3o-somente dois \u00eamulos, \u00e1vidos<br \/>\nde gl\u00f3ria, disparados em carreira, a disputarem o passo um ao outro.<\/p>\n<p>Nessa hip\u00f3tese, o conv\u00eanio conjugal desaparece totalmente, sem deixar vest\u00edgios.<br \/>\nObserve-se para exemplo a vida dos artistas, principalmente cantores e atores,<br \/>\nque se casam entre si.<\/p>\n<p>Se a felicidade conjugal fosse coisa poss\u00edvel no casamento como ele \u00e9 entre<br \/>\nn\u00f3s, o \u00fanico tipo de esposo, ainda assim capaz de proporcion\u00e1-la \u00e0 mulher,<br \/>\nseria o pac\u00f3vio que l\u00e1 para tr\u00e1s ficou etiquetado com o r\u00f3tulo de &#8220;Bom marido&#8221;,<br \/>\nou ent\u00e3o, o que infelizmente deve ser muito dif\u00edcil de acontecer, quando a<br \/>\nmulher, por uma feliz intui\u00e7\u00e3o do seu destino, fizesse do pr\u00f3prio esposo o<br \/>\nseu amante e tomasse corajosamente, n\u00e3o \u00e0 sua direita, mas \u00e0 sua esquerda,<br \/>\na posi\u00e7\u00e3o subalterna de uma amiga apaixonada.<\/p>\n<p>A estatura moral da mulher em rela\u00e7\u00e3o ao seu homem dever ser como a sua estatura<br \/>\nf\u00edsica &#8211; ela n\u00e3o deve ficar-lhe nunca abaixo do cora\u00e7\u00e3o, nem t\u00e3o alto que<br \/>\nchegue a nivelar a sua cabe\u00e7a com a dele. O casamento seria talvez suport\u00e1vel,<br \/>\nse a esposa compreendesse esta verdade, mas em geral a mulher casada, nem<br \/>\ns\u00f3 pretende alcan\u00e7ar a estatura oficial do marido, como ainda quer exced\u00ea-la<br \/>\nna considera\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Nada h\u00e1 mais intoleravelmente rid\u00edculo do que a mulher<br \/>\nde um homem ilustre possu\u00edda da sua alta posi\u00e7\u00e3o, quer dizer, da posi\u00e7\u00e3o que<br \/>\nlhe reflete o marido, porque ela s\u00f3 por si nada representa. E, ah! quanto<br \/>\nisto \u00e9 freq\u00fcente nesta nossa sociedade! quanto \u00e9 freq\u00fcente o orgulho em pobres<br \/>\ncriaturas casadas com altos indiv\u00edduos, que todavia s\u00e3o, pelo sue lado, o<br \/>\nmais singelo exemplo da mod\u00e9stia!<\/p>\n<p>Com a amante n\u00e3o h\u00e1 receio que aconte\u00e7a o mesmo. Esta, n\u00e3o podendo acompanhar<br \/>\no amigo nos v\u00f4os empreendidos pela conquista da gl\u00f3ria, porque a sociedade<br \/>\nn\u00e3o lho permite, deixa-se ficar c\u00e1 embaixo, no lar, reduzida ao papel de caseira,<br \/>\ne com isso tem garantido a sua felicidade e a dele.<\/p>\n<p>Conclui-se pois que um amante \u00e9 mais apto que um marido para fazer a felicidade<br \/>\nda mulher; e ent\u00e3o, uma vez que minha filha n\u00e3o tivesse de viver eternamente<br \/>\ns\u00f3, seria prefer\u00edvel dar-lhe um amante.<\/p>\n<p>Mas, e a sociedade?&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Sim, teria eu a coragem de afrontar com inabal\u00e1veis e velhos preconceitos<br \/>\nestabelecidos at\u00e9 hoje?&#8230; S\u00f3 o casamento, segundo os nossos il\u00f3gicos costumes,<br \/>\nt\u00e3o injustos para o meu sexo, d\u00e1 \u00e0 mulher o livre exerc\u00edcio de seus direitos<br \/>\nnaturais e s\u00f3 dele podemos receber a consagra\u00e7\u00e3o da maternidade, que \u00e9 o ato<br \/>\ncapital e mais transcendente no destino gen\u00e9rico de n\u00f3s todas.<\/p>\n<p>Substituir o marido por um amante \u00e9 f\u00e1cil de dizer aqui nestas p\u00e1ginas, mas,<br \/>\nna vida real, \u00e9 coisa delicadamente dif\u00edcil de p\u00f4r em obra.<\/p>\n<p>E minha filha, que n\u00e3o foi criada fora da sociedade, estaria disposta a consentir<br \/>\nnisso? N\u00e3o se julgaria lesada na substitui\u00e7\u00e3o e eternamente ferida no seu<br \/>\ndecoro? E afinal, no fundo, qual de n\u00f3s duas teria raz\u00e3o e bom senso: eu em<br \/>\ndar-lhe um amante; ou ela em rejeit\u00e1-lo? E quem me diz que, assegurando-lhe<br \/>\na felicidade dom\u00e9stica, n\u00e3o iria por outro lado faz\u00ea-la muito mais desgra\u00e7ada,<br \/>\nprivando-a dos gozos e das regalias, que o casamento proporciona \u00e0 mulher,<br \/>\nfora dos limites do leito, e do quarto, e que a sociedade nega formalmente<br \/>\na toda e infeliz que lhe n\u00e3o \u00e9 endossada por um representante leg\u00edtimo?&#8230;<br \/>\nAs quatro paredes de uma alcova de amor podem conter um vasto para\u00edso de int\u00e9rminas<br \/>\nesperan\u00e7as e um mundo de venturas; o pequeno espa\u00e7o de uma cama \u00e9, entre todas<br \/>\nas vastid\u00f5es da terra, o campo mais largo e mais importante no destino do<br \/>\nhomem &#8211; \u00e9 a\u00ed que ele morre. Sim senhor! tudo isso \u00e9 verdade e em tudo isso<br \/>\neu creio; mas n\u00e3o entrar\u00e3o tamb\u00e9m, como requisitos de felicidade na vida de<br \/>\numa mulher de hoje &#8211; os bailes, o l\u00edrico, a esta\u00e7\u00e3o em Petr\u00f3polis, as \u00e1guas<br \/>\nde Caxambu, os domingos de corrida, o jogo, os jantares diplom\u00e1ticos, a palestra<br \/>\ne a conviv\u00eancia enfim com o escol da sociedade?&#8230;<\/p>\n<p>E, o que \u00e9 mais s\u00e9rio, um amante, por melhor escolhido por mim, faria com<br \/>\nefeito a felicidade de Palmira? ou, quem sabe, se a raz\u00e3o do t\u00e9dio e das dolorosas<br \/>\nfalhas da vida conjugal n\u00e3o residiriam particularmente na forma da liga\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmas em qualquer outro fato que tanto entrasse na esfera da liga\u00e7\u00e3o leg\u00edtima<br \/>\ncomo na da ileg\u00edtima!&#8230;<\/p>\n<p>Sim, porque meu marido foi em algum tempo tamb\u00e9m meu amante; uniu-se comigo<br \/>\nporque me amava e era fervorosamente correspondido; eu reconhecia nele um<br \/>\nente superior e sentia-me feliz em precisar da sua prote\u00e7\u00e3o. E tudo isso n\u00e3o<br \/>\nimpediu, apesar de nossa lealdade de conduta, que Virg\u00edlio se sentisse farto<br \/>\nde mim e eu dele igualmente; o que fez de n\u00f3s, at\u00e9 nos separarmos para sempre,<br \/>\ndois desgra\u00e7ados que amaldi\u00e7oavam, cada um no segredo da sua \u00edntima mis\u00e9ria,<br \/>\na exist\u00eancia de gal\u00e9s que arrast\u00e1vamos ao lado um do outro.<\/p>\n<p>Ah! minha filha, minha filha! inda uma vez te digo que em verdade s\u00f3 tu foste<br \/>\na minha consola\u00e7\u00e3o e a minha ventura; n]ao quero que mais tarde possas, por<br \/>\ntua vez, dizer o mesmo, porque a maternidade, s\u00f3 por si, n\u00e3o constitui, ou<br \/>\nn\u00e3o deve constituir, a felicidade completa de uma mulher.<\/p>\n<p>N\u00e3o! H\u00e1s de desfrutar todo inteiro o quinh\u00e3o que te toca no banquete da vida!<br \/>\nh\u00e1s de gozar o que a natureza generosamente criou para o conforto da tua alma<br \/>\ne do teu corpo! Fruir\u00e1s todas as del\u00edcias de que for capaz a poesia do teu<br \/>\namor; ter\u00e1 todos os beijos que te pertencem; ter\u00e1s a realiza\u00e7\u00e3o de todos os<br \/>\nteus castos e voluptuosos sonhos de mo\u00e7a! E ter\u00e1s tamb\u00e9m, ao lado disso, todos,<br \/>\ntodos os prazeres, que a sociedade em que nasceste proporciona dentro do seu<br \/>\norgulho e dentro da sua vaidade!<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>VII<\/h2>\n<p>A promessa estava sinceramente feita, mas qual seria o meio de a cumprir?<br \/>\nOnde estaria afinal a misteriosa causa de se n\u00e3o poder obter essa felicidade<br \/>\nque parece \u00e0 primeira vista t\u00e3o simples, t\u00e3o natural e t\u00e3o justa? Qual seria<br \/>\no meio de tornar, n\u00e3o s\u00f3 poss\u00edvel, mas deliciosa, a vida em comum de dois<br \/>\nentes, que se amem e queiram viver eternamente um para o outro?<\/p>\n<p>Como conseguir a vida reta de um casal, sem a priva\u00e7\u00e3o do amor, que \u00e9 a base<br \/>\nde todas as felicidades da mulher perfeita, mas tamb\u00e9m sem essas intermit\u00eancias<br \/>\ndo t\u00e9dio, sem os tristes desfalecimentos do entusiasmo de parte a parte? Como<br \/>\ndescobrir para a minha Palmira uma exist\u00eancia larga, completa, boa e fecunda,<br \/>\nsem as mis\u00e9rias do casamento e sem as mis\u00e9rias da mancebia; sem os beijos<br \/>\nhip\u00f3critas, sem os vergonhosos recursos do fingimento conjugal, que fazem<br \/>\ndos casados verdadeiros cabotinos do amor; mas igualmente sem as decep\u00e7\u00f5es<br \/>\namargas, e as dores escondidas, e as melancolias da exclus\u00e3o social e o est\u00e9ril<br \/>\narrependimento dos casais ilegalmente constitu\u00eddos?<\/p>\n<p>Oh! Era imposs\u00edvel que n\u00e3o houvesse recurso para obter um ideal l\u00f3gico e<br \/>\nt\u00e3o humano! Era imposs\u00edvel que n\u00e3o pudesse eu evitar para minha filha o grande<br \/>\nmal que me estragou toda a vida! Era imposs\u00edvel que n\u00e3o houvesse um meio de<br \/>\nsalvar a pobre crian\u00e7a da desgra\u00e7a que a esperava; um meio de evitar que ela<br \/>\nnaufragasse como eu naufraguei, apesar da minha virtude e apesar do amor e<br \/>\ndas boas inten\u00e7\u00f5es de meu marido!<\/p>\n<p>Sim, sim! o meio havia de existir, e eu havia de descobri-lo!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E desde esse momento, n\u00e3o descansei mais um instante. Dediquei todo o meu<br \/>\npensamento, todo o meu cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e, todo o meu esfor\u00e7o, em descobrir o<br \/>\nmeio salvador.<\/p>\n<p>Principiei por estudar-me a mim mesma; estudei-me longa e pacientemente,<br \/>\ndissecando, um a um, todos os grandes e pequenos fatos que encheram a minha<br \/>\nvida conjugal, e procurei descobrir quais deles marcavam as \u00e9pocas divis\u00f3rias<br \/>\ndos tr\u00eas estados que conheci ao lado de meu marido; a saber: 1\u00ba) o estado<br \/>\nde completa e franca felicidade moral e fisiol\u00f3gica; 2\u00ba) o estado de transi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nestado de d\u00favida, de tristeza sobressaltada e vago ansiar por uma felicidade,<br \/>\nque eu n\u00e3o podia determinar qual fosse, mas que me fazia muita falta \u00e0 vida<br \/>\ne me tornava inconsol\u00e1vel como mulher. Foi durante esse segundo per\u00edodo que<br \/>\nnasceu, e come\u00e7ou logo a acentuar-se, a minha indiferen\u00e7a gen\u00e9sica por meu<br \/>\nmarido. Foi tamb\u00e9m nesse per\u00edodo que acabei de amamentar Palmira; 3\u00ba) o estado<br \/>\nde crescente hipocondria, depois t\u00e9dio e cansa\u00e7o, e afinal repugn\u00e2ncia absoluta<br \/>\npela vida matrimonial, o que transformava em verdadeiro sacrif\u00edcio, sacrif\u00edcio<br \/>\ninsuport\u00e1vel, a exist\u00eancia em contacto com meu esposo, a quem todavia continuava<br \/>\na estimar muito, n\u00e3o tanto quanto a minha filha, nem tamb\u00e9m em segundo lugar,<br \/>\nmas logo em terceiro. O segundo lugar na minha afei\u00e7\u00e3o cabia j\u00e1 ao homem,<br \/>\nque at\u00e9 hoje ficou sendo o meu amigo e o meu verdadeiro amado, o Dr. C\u00e9sar<br \/>\nVeloso, de quem l\u00e1 para adiante terei muito que dizer. S\u00f3 o conheci j\u00e1 em<br \/>\nmeio deste terceiro per\u00edodo, e desde ent\u00e3o minha alma foi, a pouco e pouco,<br \/>\nse chegando para ele&#8230; mas n\u00e3o \u00e9 disso que se trata por enquanto. Vamos ao<br \/>\nque importa:<\/p>\n<p>O primeiro estado come\u00e7ou na minha \u00e9poca de noiva, e sustentou-se at\u00e9 quase<br \/>\nao termo da aleita\u00e7\u00e3o de Palmira. Esse per\u00edodo feliz foi apenas falhado por<br \/>\nalguns sen\u00f5es da lua-de-mel, como explicarei depois; coisas de grande alcance,<br \/>\nmas de poss\u00edvel corre\u00e7\u00e3o, quando se tratasse do casamento de minha filha.<br \/>\nO segundo estado durou quatro anos, e o terceiro tr\u00eas, at\u00e9 \u00e0 minha definitiva<br \/>\nsepara\u00e7\u00e3o de Virg\u00edlio.<\/p>\n<p>Voltemos ao primeiro: Com a puberdade, como que se abriu defronte de meus<br \/>\nnascentes desejos um mundo de misteriosas del\u00edcias, um vasto caminho de ternura<br \/>\ne de esperan\u00e7as, verde, alegre, risonho, todo iluminado de um sol novo e desconhecido<br \/>\npara mim, que me embriagava a alma. E esse desejado caminho perdia-se infinitamente<br \/>\npelos meus sonhos de donzela, por entre uma cheirosa alameda de laranjeiras<br \/>\nem flor.<\/p>\n<p>Como suspirei estendendo o meu casto desejo por esse longo e misteriosos<br \/>\ncaminho desejado! Como eu ent\u00e3o, pobre de mim! supunha que o meu destino fosse<br \/>\numa indefinida cadeia de satisfa\u00e7\u00f5es de todo o meu ser; e que este, sob o<br \/>\nfecundo efl\u00favio do amor de meu noivo, iria desabotoar amplamente, como uma<br \/>\nrosa ao sol, transbordante de seiva e de aroma! A id\u00e9ia de um filho me vinha<br \/>\nj\u00e1 ao esp\u00edrito, mas na po\u00e9tica imagem de um pequenino bot\u00e3o de flor ao lado<br \/>\nde outra flor maior, plenamente desabrochada, que era eu.<\/p>\n<p>Dores, decep\u00e7\u00f5es, fastios e t\u00e9dios, n\u00e3o entravam jamais no cantante programa<br \/>\nda minha felicidade. E note-se que eu n\u00e3o era, \u00e0 semelhan\u00e7a de muitas das<br \/>\nminhas amigas, o que se pode chamar uma mo\u00e7a rom\u00e2ntica. N\u00e3o sonhei nunca para<br \/>\nmeu noivo algum pr\u00edncipe encantado, nem algum singular e formoso aventureiro,<br \/>\nque viesse de long\u00ednquas paragens, galgando precip\u00edcios e vendendo insuper\u00e1veis<br \/>\nescolhos, para chegar at\u00e9 a mim e depor a meus p\u00e9s o seu cora\u00e7\u00e3o de poeta<br \/>\nenamorado e a sua gloriosa espada de cavalheiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o, e acho que essas donzelas, que sonham assim torto, s\u00e3o verdadeiras aleijadas<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o, deformidade conseq\u00fcente de uma mol\u00e9stia que grassava muito quando<br \/>\neu tinha dezoito anos &#8211; a infec\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica, com car\u00e1ter pernicioso e acompanhada<br \/>\nde crises agudas de del\u00edrio e perturba\u00e7\u00f5es cerebrais. O que eu via no casamento,<br \/>\ngra\u00e7as a Deus o digo, em boa consci\u00eancia e com orgulho do meu bom senso, era<br \/>\no leg\u00edtimo direito de uma felicidade natural e honesta. Sonhava um noivo razo\u00e1vel<br \/>\ne veros\u00edmil; sonhava um rapaz de gravata e fraque, sadio, inteligente, ativo,<br \/>\nhonrado e bem-parecido.<\/p>\n<p>Era ainda sonhar muito, mas, apesar disso, encontrei o ideal dos meus sonhos.<\/p>\n<p>Quando encarei com Virg\u00edlio pela primeira vez, meu cora\u00e7\u00e3o disse-me baixinho:<br \/>\n&#8220;Ei-lo a\u00ed est\u00e1, o invasor! Prepara-te, pobre fortaleza, que vais ser tomada<br \/>\nde assalto e conquistada!&#8221; Rendi-me logo ao primeiro ataque &#8211; o seu primeiro<br \/>\nolhar venceu-me. N\u00e3o sei o que me segredou estar ali naquele mo\u00e7o, t\u00e3o s\u00e9rio<br \/>\ne t\u00e3o am\u00e1vel, quem devia ser o meu companheiro no risonho mundo, que os olhos<br \/>\nda minha alma, e os meus sentidos ainda mal acordados, pressentiam com fr\u00eamitos<br \/>\nde felicidade.<\/p>\n<p>Eu era um bom partido: al\u00e9m do dote, havia de herdar muito de minha av\u00f3;<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o tinha pai nem m\u00e3e. Esta \u00faltima desgra\u00e7ada circunst\u00e2ncia era ainda considerada<br \/>\numa vantagem pelos burgueses mal-educados, que v\u00eaem na sogra e no sogro os<br \/>\nprincipais inimigos da sua tranq\u00fcilidade; como se a tranq\u00fcilidade absoluta<br \/>\nfosse coisa poss\u00edvel no casamento comum.<\/p>\n<p>O casamento \u00e9 quase sempre um duelo, em que um dos dois advers\u00e1rios tem de<br \/>\nser vencido; os sogros nada mais s\u00e3o que as testemunhas oficiais, imediatamente<br \/>\ninteressadas na luta. O meu dote tirava-me pois da rid\u00edcula situa\u00e7\u00e3o em que<br \/>\nse acham muitas mo\u00e7as, coitadas! que n\u00e3o podem, como eu podia, escolher noivo.<br \/>\nVirg\u00edlio, pelo seu lado, era tamb\u00e9m um excelente partido; de sorte que nenhum<br \/>\nde n\u00f3s dois teve de representar, nas salas em que nos encontramos e namoramos,<br \/>\no triste e odioso papel de ca\u00e7ador ou de ca\u00e7a.<\/p>\n<p>Meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o me enganara quando mo apontou como o ente destinado a iniciar-me<br \/>\nna vida sexual. Desde o nosso primeiro encontro, senti logo que ele pensaria<br \/>\nem mim com insist\u00eancia, e comecei a associ\u00e1-lo a todos os meus devaneios de<br \/>\ndonzela; comecei a am\u00e1-lo. A flor da minha c\u00e2ndida feminilidade expandia-se<br \/>\nenamorada, ao id\u00edlico fr\u00eamito das asas de outro, que lhe esvoa\u00e7avam em torno.<br \/>\nCa\u00eda ent\u00e3o em longas cismas deliciosas, suspirava sem saber por qu\u00ea, dormindo,<br \/>\nabra\u00e7ava-me aos travesseiros, estendendo os l\u00e1bios \u00e0 procura dos beijos de<br \/>\nalgu\u00e9m, que meus bra\u00e7os e meu colo reclamavam com impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>E era sempre e s\u00f3 com Virg\u00edlio que eu tinha desses sonhos. Quando ele me<br \/>\npediu em casamento, passei a noite inteira a chorar de alegria. Toda eu palpitava<br \/>\nao anelo daquelas n\u00fapcias. Os seus meses de nosso namoro pareceram-me s\u00e9culos<br \/>\nde invari\u00e1veis m\u00e1goas, tanto eu morria por poder confiar-lhe toda a minha<br \/>\nternura e dar-lhe toda a minha dedica\u00e7\u00e3o. Sentia-me ansiosa para lhe mostrar,<br \/>\npara lhe provar, quanto eu era meiga, pura, casta; para lhe provar quanto<br \/>\ne quanto o amava; para lhe mostrar por palavras, e por atos, e por a\u00e7\u00f5es de<br \/>\ntodo o instante, e por toda, toda a vida, tudo aquilo que eu sentia e que<br \/>\nat\u00e9 a\u00ed n\u00e3o me permitira o pudor que lhe dissesse ou demonstrasse. Oh! Que<br \/>\nloucura apressar essa \u00e9poca feliz!<\/p>\n<p>E amei-o, amei-o com todo o entusiasmo de minha alma desejando-o mais e mais<br \/>\nde dia para dia, vendo nele o melhor, o mais perfeito dos homens, o \u00fanico<br \/>\ndigno de ser amado, o \u00fanico que eu amaria sempre. * * *<\/p>\n<p>E quanto \u00e9 belo o amor de uma virgem! Quanto ele \u00e9 mais forte, mais sincero<br \/>\ne mais corajoso que o primeiro amor do homem!<\/p>\n<p>O adolescente s\u00f3 v\u00ea o seu primeiro sonho de amor atrav\u00e9s do prisma da poesia;<br \/>\ntodo o homem \u00e9 poeta nos arroubos da puberdade; n\u00e3o deseja possuir a mulher<br \/>\nque ama, quer ao contr\u00e1rio diviniz\u00e1-la, fazer dela um \u00eddolo sagrado, diante<br \/>\ndo qual se ajoelhe compungido e contrito, sem l\u00e1bios, e sem voz, e sem m\u00e3os,<br \/>\nsen\u00e3o \u00e1ra a divina prece; sem olhos sen\u00e3o para as estrelas confidentes do<br \/>\nseu enlevo.<\/p>\n<p>E ela<\/p>\n<p>&#8211; n\u00e3o! a mulher desde o seu primeiro amor de donzela, j\u00e1 \u00e9 a mulher, j\u00e1 \u00e9<br \/>\na carne, j\u00e1 \u00e9 o pecado. Menos dominada pela poesia ideal, volta-se mais para<br \/>\no para\u00edso dos c\u00e9us. N\u00e3o v\u00ea no homem desejado e amado um \u00eddolo venerando, mas<br \/>\nnele v\u00ea o senhor e dono do todo o seu ser.<\/p>\n<p>O ideal existe sempre, apenas o dela \u00e9 mais natural e humano. O homem na<br \/>\npuberdade, ama s\u00f3 com o esp\u00edrito; a manifesta\u00e7\u00e3o do seu amor \u00e9 um transbordamento<br \/>\nde res\u00edduos de leituras romanescas e reminisc\u00eancias po\u00e9ticas. O seu primeiro<br \/>\namor nunca aproveita para a gera\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito raro, \u00e9 rar\u00edssimo, encontrar<br \/>\num homem que constitu\u00edsse casal com o seu primeiro amor; em geral todo o pai,<br \/>\ntodo o chefe de fam\u00edlia, tem, guarda, e conserva, depois do casamento, escondido<br \/>\naos olhos da m\u00e3e de seus filhos, a saudade e o culto daquela a quem ele consagrou,<br \/>\nna puberdade, as po\u00e9ticas e suspirosas prim\u00edcias do seu cora\u00e7\u00e3o. E a virgem,<br \/>\nessa ama logo com todo o seu ser, com todo o seu corpo imaculado.<\/p>\n<p>E goza em sentir-se pronta a dar esse mimoso corpo, todo inteiro, ao carnal<br \/>\ndespotismo do seu amante; goza em senti-lo amea\u00e7ado pelas m\u00e3os sensuais que<br \/>\nse estendem avidamente para ele; goza em abandon\u00e1-lo, vencida, e deix\u00e1-lo<br \/>\ninvadir, rasgar, e deix\u00e1-lo alterar todo transformando-o de um corpo de virgem<br \/>\nem um corpo de mulher.<\/p>\n<p>Ela prev\u00ea que o homem n\u00e3o se modificar\u00e1 fisicamente com o novo estado que<br \/>\ncome\u00e7a no leito nupcial; ele era j\u00e1 um homem e continua a ser um homem como<br \/>\ndantes. E ela? ela vai transformar-se toda, invadida pelo amor at\u00e9 \u00e0s entranhas;<br \/>\nela sabe j\u00e1 que os seus delicados pomos virginais avultar\u00e3o, adquirindo novas<br \/>\ncurvas; que os seus estreitos quadris de donzela ganhar\u00e3o voluptuosas protuber\u00e2ncias;<br \/>\nque o seu fino pesco\u00e7o de crian\u00e7a vai carnear-se, formando uma garganta cheia<br \/>\nde ondula\u00e7\u00f5es misteriosas e sedutoras, um branco e t\u00e9pido ninho para os beijos<br \/>\ndele; e que seus olhos se rasgar\u00e3o, banhados de novos fluidos de vol\u00fapias,<br \/>\ne que seus olhares ser\u00e3o outros e outros os seus sorrisos, depois do amor<br \/>\nconsumado; e que seu ventre enfim vai ser consagrado pela maternidade, e seu<br \/>\nsangue transformar-se em leite e seu amor transformar-se em vida. Oh! Pertence-lhe<br \/>\no amor muito mais do que ao homem! O amor no homem \u00e9 um incidente e nela \u00e9<br \/>\num destino, \u00e9 a miss\u00e3o principal de sua vida. O amor pode nascer ou n\u00e3o no<br \/>\nhomem e pode abandon\u00e1-lo sem deixar sinal de ra\u00edzes; na mulher apodera-se<br \/>\nde todo o seu ser, invade-lhe as entranhas, e nelas cresce, enfolha, floreja<br \/>\ne frutifica.<\/p>\n<p>E por isso, porque nesse amor de uma donzela entra j\u00e1 a id\u00e9ia do sacrif\u00edcio<br \/>\nde todo o seu corpo; por isso que ele \u00e9 mais da terra, mais natural e mais<br \/>\nhumano; por isso esse amor \u00e9 sem d\u00favida melhor que o amor do homem, pois que<br \/>\neste precisa para manter-se dos socorros da ilus\u00e3o e do ideal.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso ainda que n\u00f3s mulheres amamos, relativamente, com mais igualdade<br \/>\ne mais firmeza que o homem. Em qualquer casal \u00e9 sempre ele o que primeiro<br \/>\nafrouxa de entusiasmo no amor, sendo ali\u00e1s quem principia com mais intensidade<br \/>\ne com mais \u00edmpeto; ao passo que a mulher, passiva desde o ber\u00e7o, escrava por<br \/>\nnatureza, s\u00f3 chega, em geral, a enfastiar-se do seu companheiro, quando este<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o preenche, como homem, os requisitos de sedu\u00e7\u00e3o, que no mister procriador<br \/>\na natureza exige em benef\u00edcio do filho.<\/p>\n<p>Esta \u00faltima raz\u00e3o \u00e9 um dos pontos capitais da insignific\u00e2ncia do casamento<br \/>\ncomo ele est\u00e1 institu\u00eddo. O encanto, que namora, que aproxima dois indiv\u00edduos<br \/>\nde sexo oposto, empenhados inconscientemente na forma\u00e7\u00e3o de um novo ser, \u00e9<br \/>\ncoisa muito mais importante do que parece \u00e0 primeira vista.<\/p>\n<p>Para que o filho saia um ente perfeito &#8211; forte, inteligente e belo &#8211; \u00e9 indispens\u00e1vel<br \/>\nque venha em conseq\u00fc\u00eancia de um perfeito amor. A natureza, sempre amiga e<br \/>\nprevidente, prepara o terreno para os amantes que t\u00eam de pagar o delicioso<br \/>\ntributo da reprodu\u00e7\u00e3o &#8211; d\u00e1 \u00e0 juventude os atrativos da beleza e a sedu\u00e7\u00e3o<br \/>\nda for\u00e7a e da inoc\u00eancia, como d\u00e1 \u00e0 flor o brilhante matiz, a frescura e o<br \/>\nperfume, com que ela chama o tr\u00eafego inseto condutor do p\u00f3len. Mas, quando<br \/>\nassim n\u00e3o seja, quando mulher ou homem n\u00e3o tenha algum deles verdadeiros atrativos<br \/>\ne reais encantos, o amor, isto \u00e9, o instinto da conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, substitui<br \/>\nno esp\u00edrito do outro, com a imagina\u00e7\u00e3o, os sedutores atributos que faltam<br \/>\nna pessoa amada.<\/p>\n<p>&#8220;Quem o feio ama, bonito lhe parece&#8221;, diz o prov\u00e9rbio, e diz a verdade. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9, pois, indispens\u00e1vel, para a perfei\u00e7\u00e3o do filho, que a mulher seja deveras<br \/>\nformosa e o homem um perfeito ideal do amor; indispens\u00e1vel \u00e9 que eles se amem<br \/>\nde fato, porque, se assim acontecer, no momento capital da irresist\u00edvel atra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um para o outro, ela representa para ele a primeira mulher do mundo, a<br \/>\nmais sedutora, a mais terna, a mais am\u00e1vel, e ele representa para ela o melhor<br \/>\ndos homens, o mais nobre, o mais apaixonado e o mais digno do seu amor.<\/p>\n<p>Nestas condi\u00e7\u00f5es, o filho ser\u00e1 por for\u00e7a de regra, n\u00e3o como s\u00e3o os pais,<br \/>\nmas um ente t\u00e3o perfeito como eles mutuamente se julgavam, convictos, na providencial<br \/>\nilus\u00e3o do seu desejo. Donde se conclui que a forma\u00e7\u00e3o de um filho, rigorosamente<br \/>\nperfeito, isto \u00e9, que a garantia da sele\u00e7\u00e3o humana e o aperfei\u00e7oamento da<br \/>\nesp\u00e9cie, dependem mais da imagina\u00e7\u00e3o dos pais do que das suas verdadeiras<br \/>\nvirtudes e das suas qualidades f\u00edsicas. Mas, pergunto eu agora, essa ilus\u00e3o<br \/>\npode existir sempre, entre os dois mesmos indiv\u00edduos, durante toda a sua exist\u00eancia<br \/>\n\u00edntima de casados? Depois do nascimento e da amamenta\u00e7\u00e3o do primeiro filho,<br \/>\no homem continuar\u00e1 a ver na esposa a mais desej\u00e1vel de todas as mulheres,<br \/>\ne ela continuar\u00e1 a ver no marido o melhor e superior de todos os var\u00f5es? N\u00e3o!<br \/>\nPara isso seria preciso a possibilidade de um novo per\u00edodo de fascina\u00e7\u00e3o amorosa,<br \/>\nde namoro, e uma nova expectativa de lua-de-mel. Para isso seria preciso que<br \/>\nos dois se desejassem de novo como se desejaram da primeira vez, e que se<br \/>\natirassem de novo nos bra\u00e7os um do outro, com o mesmo primitivo entusiasmo,<br \/>\ncom o mesmo ardor, com a mesma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel obter de novo essa ilus\u00e3o, todo o casal, depois<br \/>\nde criado o primeiro filho, comp\u00f5e-se de dois desiludidos. Mas, se, para que<br \/>\no filho seja perfeito, \u00e9 indispens\u00e1vel aquele conjunto de circunst\u00e2ncias auxiliares,<br \/>\ne, se o destino fisiol\u00f3gico do homem \u00e9 procriar, aperfei\u00e7oando a sua esp\u00e9cie,<br \/>\nsegue-se que &#8211; ter um segundo filho, com a mulher inutilizada pelo primeiro<br \/>\n&#8211; \u00e9 um crime perante as conveni\u00eancias gerais da esp\u00e9cie, e \u00e9 um crime perante<br \/>\nos interesses particulares do segundo filho, que ser\u00e1 injustamente lesado,<br \/>\nque ser\u00e1 privado das regalias e das vantagens naturais de seu irm\u00e3o mais velho.<br \/>\nMas isto \u00e9 a execr\u00e1vel lei dos v\u00ednculos e morgadios prevalecendo ainda fisiologicamente<br \/>\nna fam\u00edlia! O segundo filho, concebido j\u00e1 dentro do per\u00edodo da desilus\u00e3o dos<br \/>\nc\u00f4njuges, \u00e9 um brutal atentado contra a natureza!<\/p>\n<p>Entretanto, essa mesma mulher, agora inapta para despertar no pai de seu<br \/>\nfilho aquelas favor\u00e1veis ilus\u00f5es que, aos olhos dele, faziam dela a mais desej\u00e1vel<br \/>\ndas mulheres, pode ainda acordar noutro homem, com quem nunca viveu na intimidade<br \/>\nprocriadora, os mesmos fortes desejos, o mesmo ardor, a mesma febre de posse<br \/>\ncarnal, que dantes levantara no primeiro. E este, que j\u00e1 n\u00e3o serve para encher<br \/>\nde sonhos de amor a fantasia da m\u00e3e de seus filhos, e talvez nesse momento<br \/>\no objeto dos anelos de outra mulher, que o ronda enamorada, e nele v\u00ea o ente<br \/>\nescolhido pelo seu desejo, o eleito da sua carne, o \u00fanico colaborador que<br \/>\nlhe conv\u00e9m para a sua miss\u00e3o reprodutora. A sociedade, por\u00e9m, n\u00e3o quer que<br \/>\nse aproveitem esses dois indiv\u00edduos, ainda t\u00e3o \u00fateis \u00e0 gera\u00e7\u00e3o, e obriga-os<br \/>\na ficarem perniciosamente ao lado um do outro, contra todas as leis da natureza.<\/p>\n<p>Ora se tudo aquilo que for contra a natureza \u00e9 imoral e vicioso, o nosso<br \/>\ncasamento e, passada a crise do primeiro filho, nada menos do que uma conden\u00e1vel<br \/>\nimoralidade.<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>VIII<\/h2>\n<p>O casamento um ato imoral! \u00d3 meu Deus, a que triste conclus\u00e3o me arrastaram<br \/>\nos meus racioc\u00ednios!<\/p>\n<p>Imoral o casamento! &#8211; logo, todo o homem ou toda a mulher que persiste ao<br \/>\nlado um do outro, depois da amamenta\u00e7\u00e3o do primeiro filho, \u00e9 um ente imoral?<\/p>\n<p>E minha filha, minha pobre Palmira, teria de ficar eternamente solteira,<br \/>\nprivada dos seus direitos naturais de mulher, ou teria de ser uma criatura<br \/>\nimoral, quer tomando para companheiro de vida um amante, quer aceitando um<br \/>\nmarido?&#8230; Que horror!<\/p>\n<p>Seria prefer\u00edvel conserv\u00e1-la virgem, ou seria isto ainda maior atentado?<\/p>\n<p>Se o casamento \u00e9 imoral porque \u00e9 contra as leias da natureza, o celibato<br \/>\ncasto tamb\u00e9m o \u00e9 pela mesma raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Conserv\u00e1-la virgem! Mas conserv\u00e1-la virgem seria mat\u00e1-la por dentro, secando-lhe<br \/>\ncom a abstin\u00eancia for\u00e7ada a vida dos seus mais importantes \u00f3rg\u00e3os, os \u00f3rg\u00e3os<br \/>\ndireta e indiretamente empenhados na procria\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Mas uma mulher \u00e9 toda ela, dos seus pequenos p\u00e9s brancos e fracos, aos longos,<br \/>\ncetinosos e t\u00e9pidos cabelos, um simples aparelho de amor!<\/p>\n<p>Tirem-lhe o que foi formado para o conjunto do mister propagador, e o que<br \/>\nfica?<\/p>\n<p>Sim! por que tem ela os quadris mais amplos e volumosos que o homem? por<br \/>\nque tem as coxas grossas, as m\u00e3os mimosas, e pele fina? por que tem peitos<br \/>\nt\u00e3o doces e t\u00e3o macios? por que tem os l\u00e1bios vermelhos e a boca livre e desembara\u00e7ada<br \/>\nde barba, sen\u00e3o para dar beijos? e por que tem o rosto liso e rosado, sen\u00e3o<br \/>\npara provoc\u00e1-los e receb\u00ea-los? por que tem os olhos s\u00faplices, lamentosos,<br \/>\nbanhados em ternura e desejo? por que tem os cabelos t\u00e3o compridos e t\u00e3o perturbadores?<br \/>\ne por que uma longa exist\u00eancia, de menina a octogen\u00e1ria, desde a primeira<br \/>\nboneca ao \u00faltimo netinho, ela s\u00f3 viveu para a car\u00edcia e para o amor? e s\u00f3<br \/>\nteve uma fun\u00e7\u00e3o real e constante &#8211; amar, abra\u00e7ar, beijar?<\/p>\n<p>N\u00e3o! minha filha n\u00e3o ficaria assim perdida para o seu verdadeiro destino<br \/>\nde mulher!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas, se o casamento como a mancebia eram ambos imorais e n\u00e3o podiam proporcionar<br \/>\na felicidade que eu sonhava para ela, Palmira precisava de um novo cooperante<br \/>\ngen\u00e9sico todas as vezes que tivesse de ser m\u00e3e. E isso, valha-me Deus! seria<br \/>\na mais completa e feia prostitui\u00e7\u00e3o; seria perd\u00ea-la irremediavelmente para<br \/>\na moral e para a sociedade! Oh! s\u00f3 agora, depois de pensar em tudo isto, \u00e9<br \/>\nque vejo quanto fui casta e quanto fui boa; quanto fui sacrificada e quanto<br \/>\nfui generosa! Que me n\u00e3o ou\u00e7am as mulheres fracas e vulgares; perder-se-iam<br \/>\ncom a minha dolorosa filosofia. Mas as fortes, as espartanas do lar dom\u00e9stico,<br \/>\nse algum dia souberem do segredo destas confiss\u00f5es, que se consolem com a<br \/>\nminha her\u00f3ica desgra\u00e7a, porque s\u00f3 essas compreender\u00e3o as orgulhosas l\u00e1grimas<br \/>\nque chorei. Triste de mim, pobre m\u00e3e, cujo \u00fanico ideal na vida era agora a<br \/>\ninteira felicidade de minha filha, e acabava de compreender que semelhante<br \/>\nfelicidade era imposs\u00edvel, tanto no celibato casto, como no matrim\u00f4nio, como<br \/>\nna concubinagem, como na prostitui\u00e7\u00e3o. E fora disso, nada havia a explorar.<br \/>\nQue desespero! * * *<\/p>\n<p>Cheguei a lembrar-me do Mormonismo, a amaldi\u00e7oada seita pol\u00edgama de Jos\u00e9<br \/>\nSmith. Mas, no dogma dos m\u00f3rmons, o caso essencial era precisamente contr\u00e1rio<br \/>\nao que me parecia indispens\u00e1vel \u00e0 felicidade fisiol\u00f3gica da mulher e \u00e0s conveni\u00eancias<br \/>\nindividuais do filho. L\u00e1 o homem tem o direito de tomar quantas esposas lhe<br \/>\napete\u00e7am, desde que as possa manter; a mulher, por\u00e9m, essa h\u00e1 de contentar-se<br \/>\ncom um s\u00f3 marido, se \u00e9 que se pode chamar um marido a um homem partilhado<br \/>\npor vinte esposas. Um vig\u00e9simo de marido!<\/p>\n<p>Ora, se um achava eu insuficiente para bem gerar todos os filhos de uma mulher,<br \/>\nquanto mais a vig\u00e9sima parte de um! Entretanto, lendo de boa-f\u00e9 a exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos princ\u00edpios filos\u00f3ficos e religiosos dos m\u00f3rmons, abalei-me com certos<br \/>\npreceitos da moralidade conjugal por eles estabelecida e observada. Afirmam<br \/>\ncom orgulho que, no mundo civilizado, s\u00e3o os \u00fanicos bons e honestos cumpridores<br \/>\ndo sagrado mandamento de Deus: &#8220;Crescei e multiplicai-vos&#8221;, porque um var\u00e3o<br \/>\npode procriar duzentos filhos, e uma mulher nunca mais de vinte.<\/p>\n<p>Como, pois, exigir que seja uma s\u00f3 mulher a m\u00e3e de todos os filhos que produza<br \/>\num homem, quando precisa ela de dois anos para a gesta\u00e7\u00e3o, parto e cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nde cada um?<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 isso constranger o marido a uma destas tr\u00eas coisas: &#8211; ou condenar-se<br \/>\n\u00e0 esterilidade for\u00e7ada, para n\u00e3o faltar a f\u00e9 conjugal;<br \/>\nou transigir das regras da boa higiene, aproximando-se da consorte nos per\u00edodos<br \/>\nem que n\u00e3o deve;<br \/>\nou procriar fora do casal o que lhe far\u00e1 ser pai de alguns filhos leg\u00edtimos<br \/>\ne, ao mesmo tempo, de muitos e muitos filhos inconfess\u00e1veis?<\/p>\n<p>N\u00e3o seria melhor, mais digno e mais generoso, argumentam eles, que o homem,<br \/>\nem vez de ter uma s\u00f3 mulher leg\u00edtima e v\u00e1rias concubinas de ocasi\u00e3o, e que,<br \/>\nem vez de ter filhos reconhecidos e filhos abandonados, aceitasse corajosamente<br \/>\nas imposi\u00e7\u00f5es do seu organismo e vivesse claramente, \u00e0 luz da legalidade,<br \/>\ncom todas as suas consorciadas, sem subterf\u00fagios desleais e dissimula\u00e7\u00f5es<br \/>\nrid\u00edculas?<\/p>\n<p>E os m\u00f3rmons justificam-se com os exemplos da B\u00edblia: Lamech, filho de Methusael,<br \/>\nteve duas mulheres &#8211; Ada e Zilia; Jacob quatro; Abrah\u00e3o muitas mais; David<br \/>\ntodas as que herdou de Saul, e Salom\u00e3o nunca menos de mil. E entendem que<br \/>\ns\u00f3 a poligamia pode realizar o grandioso fim do matrim\u00f4nio &#8211; multiplicar e<br \/>\napurar a esp\u00e9cie; e que ela \u00e9 a regra instintiva e natural em toda a extensa<br \/>\nordem dos mam\u00edferos que povoam a terra, e que ela \u00e9 ainda a garantia da felicidade<br \/>\nconjugal e dos direitos fisiol\u00f3gicos e sociais da descend\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida!<br \/>\nTudo isso pode ser muito justo e muito razo\u00e1vel, apenas acho que os senhores<br \/>\nm\u00f3rmons legislaram conforme os seus interesses de homem e conforme os interesses<br \/>\nda sua descend\u00eancia, mas sem pensar absolutamente nas delicadas conveni\u00eancias<br \/>\nmorais e f\u00edsicas da mulher. E como a minha \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o era o interesse<br \/>\nde minha filha e n\u00e3o o do marido que ela viesse a ter, vi e apreciei o revolucion\u00e1rio<br \/>\ndogma social pelo lado contr\u00e1rio ao ponto de vista dos autores, o que fez<br \/>\ncom que a minha impress\u00e3o fosse diametralmente oposta \u00e0 deles. De resto, quando<br \/>\nfosse com efeito o casamento pol\u00edgamo o melhor e mais aceit\u00e1vel de todos,<br \/>\niria eu carregar com Palmira para Salt Lake City, abandonando a minha p\u00e1tria,<br \/>\nos meus amigos e os meus interesses no Rio de Janeiro? E para qu\u00ea? para a<br \/>\nlevar a um sult\u00e3o? para a deixar cair no serralho de Utah, como se deixasse<br \/>\ncair uma franga dentro de um galinheiro? N\u00e3o! De tudo que li sobre os m\u00f3rmons,<br \/>\ns\u00f3 uma coisa me aproveitou, foi o desejo de consultar a B\u00edblia a respeito<br \/>\ndo que era poss\u00edvel fazer pela felicidade de minha filha. E a\u00ed, sim, encontrei<br \/>\nafinal a chave do problema que me atormentava. * * *<\/p>\n<p>Foi na B\u00edblia, foi nessa inesgot\u00e1vel fonte de consola\u00e7\u00f5es para os que sofrem,<br \/>\nfoi nesse eterno poema de amor, que me orientei sobre o \u00fanico caminho que<br \/>\ntinha a tomar. Depois da li\u00e7\u00e3o dos cap\u00edtulos XII e XV do Lev\u00edtico, convenci-me<br \/>\nde que o mal do nosso casamento n\u00e3o estava precisamente na monogamia, mas<br \/>\ns\u00f3 no meio de exerc\u00ea-la; convenci-me de que um marido, para n\u00e3o perder a ilus\u00e3o<br \/>\ndo seu amor conjugal, precisa afastar-se da mulher em certas ocasi\u00f5es. Eis<br \/>\ntudo! Como afinal \u00e9 sempre intuitiva e simples a base dos maiores problemas<br \/>\nda nossa vida! Mas prossigamos: A eterna perman\u00eancia de um homem ao lado da<br \/>\nesposa obriga-os a prosaicas intimidades inimigas do amor, (amor sexual) e<br \/>\nacaba fatalmente por azedar-lhe o g\u00eanio e trazer a ambos o fastio, o t\u00e9dio,<br \/>\na completa relaxa\u00e7\u00e3o do desejo, e afinal a explos\u00e3o dos caracteres em perene<br \/>\natrito, e as brigas, a troca violenta de inj\u00farias, e, muita vez, se os desgra\u00e7ados<br \/>\npor falta de educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o souberem conter os seus \u00edmpetos nervosos, o pugilato<br \/>\ne at\u00e9 o homic\u00eddio. &#8220;L\u00b4amour finit par s\u2019aigrir, comme le vin qui<br \/>\nreste trop longtemps en bouteille&#8221;, reza a velha filosofia dos prov\u00e9rbios.<br \/>\nO primeiro ponto da minha quest\u00e3o era, pois, fazer desaparecer a imoralidade<br \/>\nde dentro do casamento mon\u00f3gamo. Ora, este casamento era imoral e trazia o<br \/>\nt\u00e9dio e o cansa\u00e7o por parte de cada um dos c\u00f4njuges, s\u00f3 porque depois do desempenho<br \/>\ndo primeiro filho, o pai e a m\u00e3e incompatibilizavam-se entre si para a concep\u00e7\u00e3o<br \/>\nperfeita de um novo descendente. Tratei pois de descobrir em que consistia<br \/>\na causa dessa incompatibilidade. N\u00e3o foi preciso grande esfor\u00e7o de intelig\u00eancia<br \/>\npara dar logo com ela: \u00c9 que o entusiasmo sensual, o amor, de um pelo outro<br \/>\nconsorte, era um puro produto da imagina\u00e7\u00e3o e do desejo de ambos, e desde<br \/>\nque os dois se n\u00e3o separavam nunca, nem s\u00f3 se podiam desejar de novo, como<br \/>\nigualmente n\u00e3o podiam manter, de parte a parte, a m\u00fatua e cativante impress\u00e3o<br \/>\nque os havia ligado.<\/p>\n<p>O instinto da conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, que \u00e9 o amor, deve ser de qualquer<br \/>\nmodo tratado como o instinto da conserva\u00e7\u00e3o pessoal, que \u00e9 a fome. N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nest\u00f4mago que resista a fais\u00e3o-dourado todos os dias; o melhor acepipe, se<br \/>\nn\u00e3o for discretamente servido, enfastiar\u00e1 no fim de algum tempo. O mesmo acontece<br \/>\nno matrim\u00f4nio: os c\u00f4njuges acabam invariavelmente por se enfararem um do outro,<br \/>\nn\u00e3o pelo uso que fazem do seu amor, mas pelo abuso m\u00fatuo da conviv\u00eancia e<br \/>\nda ternura.<\/p>\n<p>Se tens um prato predileto, que se d\u00e1 bem com o teu paladar e com o teu est\u00f4mago,<br \/>\ne o qual n\u00e3o podes ver sem sentires a boca lubrificada pelo apetite, n\u00e3o abuses<br \/>\ndesse estim\u00e1vel prato, para que ele se n\u00e3o inutilize para o teu desejo, e<br \/>\npara que possas continuar a sabore\u00e1-lo com o mesmo gosto; e principalmente<br \/>\nn\u00e3o comas dele sem boa vontade. A pessoa amada ganha sempre valor e novo prest\u00edgio<br \/>\naos olhos do amante, quando dele se afasta por algum tempo. \u00c9 nessa refor\u00e7adora<br \/>\naus\u00eancia que ela \u00e9 mais desejada e querida. Dois amantes, inopinadamente arrancados<br \/>\ndos bra\u00e7os um do outro e desunidos por um pequeno espa\u00e7o de tempo, continuar\u00e3o<br \/>\na amar-se e a cobi\u00e7ar-se com a mesma primitiva intensidade de antes da posse;<br \/>\nenquanto, deixados tranq\u00fcilamente juntos, na mesma casa, na mesma mesa, na<br \/>\nmesma cama, no fim de alguns meses j\u00e1 nenhum dos dois enxergar\u00e1 no companheiro<br \/>\nos elementos de sedu\u00e7\u00e3o que os inodou sacramentalmente, e cada um h\u00e1 de perguntar<br \/>\nde si para si, com a mais sincera estranheza, por que diabo se apaixonou por<br \/>\naquela criatura que ali est\u00e1 a seu lado, a ponto de unir-se com ela para sempre,<br \/>\npor um voto eterno?<\/p>\n<p>E tanto assim \u00e9, que, no caso, infelizmente t\u00e3o comum, de homens casados<br \/>\nque mant\u00eam uma concubina fora da casa em que moram, e com a qual n\u00e3o convivem<br \/>\ntodos os dias, nem todas as noites, mas que freq\u00fcentam a furto, uma vez por<br \/>\noutra, amam sempre e sempre, dado mesmo a hip\u00f3tese de igual valimento f\u00edsico<br \/>\nentre as duas, muito mais a amante do que a mulher leg\u00edtima, e s\u00e3o por ela<br \/>\ncapazes de sacrif\u00edcios e esfor\u00e7os que j\u00e1 lhes n\u00e3o merece a esposa. Dir-me-\u00e3o<br \/>\nalguns que \u00e9 porque mesmo ele nunca amou deveras a consorte; que se enganara<br \/>\nquando supunha am\u00e1-la, e que s\u00f3 depois do casamento, j\u00e1 irremediavelmente<br \/>\ntarde, reconheceu o seu erro; e que na outra mulher fora encontrar afinal<br \/>\na &#8220;afinidade eletiva&#8221;, ensinada por Goethe, e pois sentira-se irresistivelmente<br \/>\narrastado para ela. &#8220;O amor que p\u00f4de extinguir-se n\u00e3o era amor!&#8221; dir-me-\u00e3o<br \/>\noutros com o poeta. Pois sim! era bastante que aquelas duas mulheres trocassem<br \/>\nas posi\u00e7\u00f5es entre si, para que o decantado amor tamb\u00e9m trocasse de objetivo.<br \/>\nFosse a concubina morar com o amante, conviver com ele noite e dia; e come\u00e7asse<br \/>\na esposa a ser visitada pelo marido somente de longe em longe, em furtivas<br \/>\nescapulas, e ver\u00edamos qual delas seria, no fim de algum tempo, a mais amada<br \/>\ne desejada &#8211; a amante de cama e mesa ou a esposa proibida?<\/p>\n<p>H\u00e1 muito exemplo de marido, que s\u00f3 vejo a amar deveras \u00e0 mulher, depois que<br \/>\nesta lhe fugiu para os bra\u00e7os de outro, ou de outros. Quando um homem e uma<br \/>\nmulher s\u00e3o condenados por lei a viver eternamente insepar\u00e1veis, o corpo pode<br \/>\nceder a tal viol\u00eancia, mas a imagina\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a m\u00e3e do amor, essa reage e<br \/>\nfoge, p\u00f5e-se ao largo, onde as suas asas encontrem livre o espa\u00e7o e o v\u00f4o<br \/>\nfranco. O esp\u00edrito do homem \u00e9 por natureza independente e s\u00f3 se poder\u00e1 escravizar<br \/>\na uma mulher, o que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum, quando o fa\u00e7a, n\u00e3o por lei de qualquer<br \/>\nesp\u00e9cie, mas por livre e espont\u00e2nea vontade.<\/p>\n<p>A leg\u00edtima esposa, que vive inalteravelmente ao lado do marido, pode, a for\u00e7a<br \/>\nde virtude e de bondade, conservar e at\u00e9 desenvolver a estima, a considera\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o respeito, que ele lhe tributa; pode ser amada moralmente. Mas o outro<br \/>\namor, o sensual, esse belo instinto t\u00e3o necess\u00e1rio ao bom resultado da prog\u00eanie,<br \/>\nesse vai para a mulher ilegal, para a inconfess\u00e1vel amante, cujos beijos s\u00e3o<br \/>\nmais apreci\u00e1veis, porque s\u00e3o mais raros, cujas horas de conviv\u00eancia s\u00e3o preciosas,<br \/>\nporque s\u00e3o contadas, minuto a minuto, e cujo ligeiro contacto de corpo \u00e9 sempre,<br \/>\npara ele, um gozo conquistado, seja pela ternura, seja pelo dinheiro, e nunca<br \/>\num dever imposto por lei ou um direito exercido com sacrif\u00edcio. Estava afinal<br \/>\nachado o X do meu grande problema. Consistia em nada mais do que uma pequena<br \/>\ninvers\u00e3o de princ\u00edpios. O meu racioc\u00ednio concludente era tudo o que h\u00e1 de<br \/>\nmais simples; era o simples:<\/p>\n<p>Um casal vulgar s\u00f3 pode ser feliz enquanto dura de parte a parte a ilus\u00e3o<br \/>\ndo amor sensual que o determinou; uma vez esgotada a provis\u00e3o de amor ou de<br \/>\nilus\u00e3o, o casal deixa de ter raz\u00e3o de ser e deve ser dissolvido. Logo, a mulher,<br \/>\npara ser fisiologicamente feliz, precisa substituir o seu amante por um novo,<br \/>\ndesde que ele n\u00e3o continue a exercer sobre ela o fascinante prest\u00edgio que<br \/>\na cativou. Ora, sendo de todo imposs\u00edvel substituir assim um esposo, o que<br \/>\nrestava a fazer? &#8211; Substituir a ilus\u00e3o. O ator seria sempre o mesmo, os pap\u00e9is,<br \/>\nrepresentados por ele aos olhos da consorte, \u00e9 que teriam de variar e seriam<br \/>\nsempre novos. Minha filha, pois, conhecendo um s\u00f3 homem, teria nesse homem<br \/>\numa bela e sedutora variedade de amantes. Mas, como chegar a semelhante resultado?<br \/>\nComo obter na vida pr\u00e1tica a execu\u00e7\u00e3o de t\u00e3o revolucion\u00e1rio sistema?<\/p>\n<p>Como vencer a exig\u00eancia dos velhos costumes e arraigados h\u00e1bitos dom\u00e9sticos<br \/>\ne sociais? Como poderia eu dispor assim de meu genro e govern\u00e1-lo na sua \u00edntima<br \/>\nvida conjugal?<\/p>\n<p>Como conseguiria reformar-lhe ou refor\u00e7ar-lhe, de quando em quando, as suas<br \/>\nqualidades insinuativas e os seus dotes de sedu\u00e7\u00e3o e encanto, para desse modo<br \/>\nmanter o amor de minha filha sempre no mesmo grau de entusiasmo?<\/p>\n<p>Eis o que principiei a inquirir com alma e cora\u00e7\u00e3o, at\u00e9 chegar a um resultado<br \/>\nsatisfat\u00f3rio, como exporei neste manuscrito, se Deus para tanto me conservar<br \/>\nvida e sa\u00fade.<\/p>\n<p>Posso afian\u00e7ar desde j\u00e1 \u00e9 que ao amor de m\u00e3e nada \u00e9 imposs\u00edvel por mais transcendente<br \/>\nque pare\u00e7a, quando se trata da felicidade do filho; e que eu, longe de desanimar<br \/>\ncom o peso da tarefa que me impunha, sentia a minha confian\u00e7a cada vez mais<br \/>\nsegura e forte nas energias do meu cora\u00e7\u00e3o materno.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>IX<\/h2>\n<p>A invari\u00e1vel conviv\u00eancia matrimonial \u00e9 coisa muito s\u00e9ria, \u00e9 a grande raz\u00e3o<br \/>\nda corrente infelicidade dom\u00e9stica, \u00e9 a causa imediata da fatal desilus\u00e3o<br \/>\ndos c\u00f4njuges, mesmo daqueles que se casam por amor leg\u00edtimo e verdadeiro,<br \/>\ncomo eu me casei; \u00e9 fonte de inevit\u00e1vel desgra\u00e7a para a vida inteira, desgra\u00e7a<br \/>\nque os noivos ainda mais agravam, imprudentemente, com os recursos artificiais<br \/>\ne hip\u00f3critas do namoro, quando ali\u00e1s a mocidade, a gra\u00e7a natural e o amor,<br \/>\ndeviam ser os \u00fanicos agentes da atra\u00e7\u00e3o que os ajunta e abrocha. Quando um<br \/>\nmo\u00e7o, ou uma mo\u00e7a, quer casar, qual \u00e9 o seu primeiro cuidado? &#8211; Enfeitar-se;<br \/>\nou melhor &#8211; disfar\u00e7ar-se. Ela recorre \u00e0s torturas do espartilho para fazer<br \/>\na cinta inverossimilmente fina, \u00e0s torturas dos sapatinhos apertados para<br \/>\nfazer o p\u00e9 microsc\u00f3pico; recorre aos arrebiques, ao p\u00f3 de arroz, \u00e0s opiatas,<br \/>\nao dentista, ao cabelereiro, \u00e0 modista. De feia pode fazer de si uma dessas<br \/>\nelegantes bonecas de sal\u00e3o, por quem \u00e0s vezes os homens se enfeiti\u00e7am. Ele,<br \/>\npor outro lado, trata logo de dar brilhantina e cosm\u00e9tico ao bigode, cal\u00e7a-se<br \/>\ncom esmero, e estuda os meios, n\u00e3o de conseguir a pr\u00f3pria felicidade e a daquela<br \/>\nque pretende para esposa, mas de tornar-se irresist\u00edvel dan\u00e7ando a valsa;<br \/>\ne p\u00f5e mon\u00f3culo, e faz versos, ou arranja quem lhos fa\u00e7a. E ambos, depois de<br \/>\nbem enfrascados em perfume, depois de bem adornados e convertidos no que n\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o, esfor\u00e7am-se, cada qual com mais empenho, em esconder aos olhos do outro<br \/>\nos seus defeitozinhos e as suas pequenas mis\u00e9rias de entes civilizados.<\/p>\n<p>Ela, coitada! para de si dar c\u00f3pia de um ser po\u00e9tico e vaporoso, recita poesias<br \/>\nsentimentais ao piano, fala de coisas rom\u00e2nticas que pescou de relha, levando<br \/>\na com\u00e9dia ao ponto de n\u00e3o querer \u00e0 mesa, se houver rapazes presentes, quase<br \/>\nque tocar nos pratos; e suspira, e requebra os olhos, e sibila os ss, e remexe-se<br \/>\ntoda, e toma langorosas posturas estudadas; e quando anda, e quando fala,<br \/>\ne quando dan\u00e7a, e quando pousa na cadeira, \u00e9 sempre com a mesma simula\u00e7\u00e3o<br \/>\ne fazendo mil esgares de faceirice, mil trejeitos de ingenuidade e ao mesmo<br \/>\ntempo de provoca\u00e7\u00e3o amorosa.<\/p>\n<p>Ele, bem barbeado, cheiroso, limpo e janota, afeta grande pureza de costumes<br \/>\ne de maneiras, escolhe para a conversa assuntos finos e termos convenientes;<br \/>\nfaz-se terno, cordato, circunspecto, com um g\u00eanio de anjo; e fala do seu amor<br \/>\ne do seu futuro conjugal, com tal do\u00e7ura e t\u00e3o voluptuosa virtude, que uma<br \/>\ndonzela ao ouvi-lo imagina logo que a vida, em companhia de semelhante puritano,<br \/>\nh\u00e1 de ser uma nova edi\u00e7\u00e3o, correta e aumentada, do para\u00edso, antes da gulodice<br \/>\nda ma\u00e7\u00e3.<\/p>\n<p>E assim, mutuamente enganados, mutuamente iludidos e engodados &#8211; casam-se.<br \/>\nEssa ilus\u00e3o servir\u00e1 para a garantia do primeiro filho. Est\u00e1 muito bem! Mas<br \/>\nainda os dois falam entre si e com os amigos em &#8220;lua-de-mel&#8221;, e j\u00e1 cada um<br \/>\npor sua conta come\u00e7a a descobrir no companheiro imprevistas particularidades,<br \/>\nreais e prosaicas, que v\u00e3o surdamente desdourando o insubstitu\u00edvel prest\u00edgio<br \/>\npo\u00e9tico que exerciam um sobre o outro.<\/p>\n<p>Hoje um flato mal disfar\u00e7ado, amanh\u00e3 um ligeiro transbordamento de humor<br \/>\nbilioso, em seguida uma c\u00f3lica desmoralizadora, e em breve o marido j\u00e1 se<br \/>\nn\u00e3o esfor\u00e7a por esconder os seus calos e a sua dispepsia, nem a esposa tem<br \/>\no cuidado de caracterizar-se de mulher bonita: j\u00e1 n\u00e3o mete os cabelos em papelotes<br \/>\npara os trazer crespos sobre a testa, j\u00e1 n\u00e3o aperta com sacrif\u00edcio a cintura<br \/>\ne os p\u00e9s, j\u00e1 n\u00e3o arma aqueles divinos sorrisos provocadores que parecia fazerem<br \/>\nparte integrante da sua fisionomia, e j\u00e1 n\u00e3o arranja aqueles fascinantes olhares<br \/>\nvoluptuosos, que foram talvez o que mais decisivamente determinou a conquista<br \/>\ndo homem que agora \u00e9 seu marido. E as pequenas e apoquentadoras mis\u00e9rias do<br \/>\ng\u00eanio e do car\u00e1ter, que se v\u00e3o revelando dia a dia? E os ego\u00edsmos feminis?<br \/>\nE os desleixos do corpo, que n\u00e3o chegam a ser desasseio, mas que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o,<br \/>\ndecerto, o sedutor perfume que ambos sentiam um do outro, durante o per\u00edodo<br \/>\ndo namoro, e sob cuja influ\u00eancia se amaram, e se desejaram, e se tiveram?<\/p>\n<p>O cheiro! Que importante papel representa ele no amor conjugal e nos destinos<br \/>\nda fam\u00edlia!&#8230; As secre\u00e7\u00f5es da pele s\u00e3o \u00e0s vezes um terr\u00edvel inimigo das ilus\u00f5es<br \/>\ndo nosso amor de hoje, mesmo aquelas que a natureza em n\u00f3s criou ingenuamente<br \/>\npara lubrificante est\u00edmulo dos sentidos. \u00c9 que a natureza n\u00e3o contava com<br \/>\na degenera\u00e7\u00e3o do olfato, produzida pelo abuso, pelo v\u00edcio, dos perfumes, das<br \/>\ness\u00eancias, dos desinfetantes e vinagres arom\u00e1ticos, e mais das bals\u00e2micas<br \/>\npastilhas de serralho e do odorante fumo do tabaco. O homem e a mulher, que<br \/>\nse casam, s\u00f3 v\u00eam a conhecer um do outro o verdadeiro cheiro, depois de rigorosamente<br \/>\nunidos pelos inabroch\u00e1veis fechos do matrim\u00f4nio, quando est\u00e1 mais que provado<br \/>\nque, no amor, o cheiro particular do indiv\u00edduo tem a\u00e7\u00e3o t\u00e3o poderosa como<br \/>\na cor da sua tez e dos seus cabelos, como o timbre da sua voz, a express\u00e3o<br \/>\ndo seu olhar e da sua boca, o feitio do seu corpo e o car\u00e1ter geral do seu<br \/>\nmodo de ser.<\/p>\n<p>O olfato tem as suas idiossincrasias, tem as suas antipatias e as suas inclina\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncomo as t\u00eam o ouvido, o paladar, os olhos e o tato. Nos esponsais, os direitos<br \/>\ndesse sentido, t\u00e3o respeit\u00e1veis como os dos outros seus cong\u00eaneres, s\u00e3o perfeitamente<br \/>\nludibriados pela perfumaria de toucador, sem calcularem os noivos o perigo<br \/>\nque com isso corre a sua futura felicidade dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>O cheiro natural do corpo \u00e9 por vezes o bastante para desfazer o la\u00e7o amoroso<br \/>\nde um par, mormente quando um bom perfume artificial, usado com insist\u00eancia<br \/>\ne regularidade, tenha, de parte a parte, como que servido de medianeiro durante<br \/>\no tempo de namoro. Os perfumistas s\u00e3o, sem dar por isso, grandes promovedores<br \/>\ne grandes dissolvedores de casais. O gosto e o desgosto do olfato t\u00eam m\u00e1xima<br \/>\nimport\u00e2ncia na quest\u00e3o do amor genes\u00edaco. A mulher, durante certos per\u00edodos<br \/>\nfisiol\u00f3gicos, deve ser para o marido um ente inacess\u00edvel, deve ser sagrada;<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o digo s\u00f3 com respeito \u00e0 comunh\u00e3o sexual, mas ainda para a simples coabita\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo leito ou do quarto. Ele, durante esse tempo, nem s\u00f3 n\u00e3o lhe deve tocar<br \/>\nno corpo, como at\u00e9 nem dela se deve aproximar. Eu digo &#8211; sagrada: a B\u00edblia<br \/>\nlhe chama &#8211; imunda.<\/p>\n<p>E j\u00e1 explicou um fil\u00f3sofo humorista que o casamento era sempre uma permuta,<br \/>\nmas n\u00e3o de almas e cora\u00e7\u00f5es, e sim: durante o dia &#8211; de maus humores; durante<br \/>\na noite &#8211; de maus odores. N\u00e3o convenho nesta jocosidade de mau gosto, mas<br \/>\na mulher, com efeito, naquelas ocasi\u00f5es, torna-se repulsiva pelo cheiro. A<br \/>\nmesma natureza como que assim est\u00e1 insinuando que o homem deve ent\u00e3o afastar-se<br \/>\nda esposa. O homem, por\u00e9m, \u00e9 teimoso e deixa-se ficar; fica por falsa compreens\u00e3o<br \/>\ndos seus deveres de ternura, ou fica por neglig\u00eancia e pregui\u00e7osa sujei\u00e7\u00e3o<br \/>\naos h\u00e1bitos.<\/p>\n<p>E a mulher afinal torna-se gr\u00e1vida, e o imprudente continua a dormir ao lado<br \/>\ndela. V\u00eam as enojosas manifesta\u00e7\u00f5es da crise gestante, as dores matrizes,<br \/>\nos enj\u00f4os, as desagrega\u00e7\u00f5es pituit\u00e1rias, os v\u00f4mitos, o mau h\u00e1lito, as aberra\u00e7\u00f5es<br \/>\nhist\u00e9ricas do gosto &#8211; e o teimoso n\u00e3o se despega. E come\u00e7a ent\u00e3o para os dois<br \/>\numa exist\u00eancia de indecoroso promiscuidade; j\u00e1 n\u00e3o escondem absolutamente<br \/>\num para o outro os seus bocejos e as suas mais repulsivas expans\u00f5es do corpo.<br \/>\n\u00c9 como se n\u00e3o estivessem juntos; cada qual, sem poder fugir \u00e0 indefect\u00edvel<br \/>\nnecessidade do isolamento &#8211; pois que todo o homem precisa de horas de solid\u00e3o,<br \/>\ncomo precisa de horas de sono, de horas de trabalho e de horas de conviv\u00eancia<br \/>\ne prazer &#8211; e, n\u00e3o podendo evitar nos seus lazeres a presen\u00e7a do companheiro,<br \/>\nabstrai-o do esp\u00edrito, e acaba por ficar s\u00f3, inteiramente s\u00f3, ao lado dele.<br \/>\nE se um dos dois adoece gravemente, fica o outro a servir-lhe de enfermeiro,<br \/>\na mudar-lhe as roupas enxovalhadas, a aplicar-lhe vesicat\u00f3rios, a dar-lhe<br \/>\npurgantes e a ajud\u00e1-lo em todos os mais \u00edntimos misteres. Mas onde est\u00e1, que<br \/>\nfim levou, aquele airoso dan\u00e7ador de valsas, aquele gentil mancebo, que n\u00e3o<br \/>\nseria capaz de exibir-se a ningu\u00e9m, e muito menos \u00e0 noiva, sen\u00e3o depois de<br \/>\ncaprichosamente apurado na roupa, no cabelo, nos dentes e nas unhas? aquele<br \/>\nirresist\u00edvel galanteador, que dizia coisas t\u00e3o finas e que fazia versos t\u00e3o<br \/>\nlindos, e trescalava a s\u00e2ndalo ou cananga-do-jap\u00e3o? E onde est\u00e1 aquela mocinha<br \/>\nvaporosa, que era toda gra\u00e7a, delicadeza e perfumes, e que mostrava uma cintura<br \/>\ne uns pezinhos t\u00e3o provocadores, e uma cabe\u00e7a t\u00e3o primorosamente penteada,<br \/>\ne um colo, e uns olhos, e uma boca, t\u00e3o misteriosos e divinos?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Isso foi durante o tempo do namoro! dizem eles. &#8211; Hoje somos &#8220;papel<br \/>\nqueimado!&#8221; Hoje somos &#8220;feij\u00e3o com carne-seca!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem! replico eu; mas os dois que se amaram eram aqueles dois que<br \/>\ndesapareceram e n\u00e3o v\u00f3s, que agora a\u00ed estais defronte um do outro, sem saber<br \/>\npor que e para qu\u00ea!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! mas agora n\u00f3s nos estimamos muito mais. Se desapareceu a ilus\u00e3o do<br \/>\namor, ganhamos em compensa\u00e7\u00e3o um pelo outro uma bela amizade que dantes nos<br \/>\nn\u00e3o ligava.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, ador\u00e1vel casal, tu te n\u00e3o constitu\u00edste para formar dois bons amigos<br \/>\n\u00edntimos, que nenhuma reserva t\u00eam entre si e que s\u00f3 desejam conservar a sua<br \/>\nboa amizade! Tu, mancebo desiludido, e tu, querida dama despenteada, n\u00e3o vos<br \/>\nunistes pelos la\u00e7os da amizade, mas sim pelos la\u00e7os do amor, o que \u00e9 muito<br \/>\ndiferente; e, uma vez que j\u00e1 n\u00e3o existe amor entre v\u00f3s, continuai amigos,<br \/>\nmas separai-vos de corpo; que v\u00e1 cada um procurar al\u00e9m novo cons\u00f3rcio para<br \/>\no seu amor, porque ainda podeis ser aproveitados para a \u00fanica verdadeira miss\u00e3o<br \/>\nque a natureza exige de v\u00f3s, procriar, e procriar bem.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ora, respondem eles. Mas n\u00f3s somos felizes assim!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sois tal! Ah! eu conhe\u00e7o j\u00e1 de longa data essa confiss\u00e3o de felicidade<br \/>\na vosso modo! V\u00f3s, maridos, sois todos muito felizes; mas quem tomar a s\u00e9rio<br \/>\nos vossos pr\u00f3prios conselhos, n\u00e3o se casar\u00e1 nunca, porque cada um de v\u00f3s,<br \/>\nenquanto pela pr\u00e1tica justifica o casamento, vai segredando pela boca pequena,<br \/>\nao ouvido de cada um dos amigos: &#8220;Eu, c\u00e1 por mim, n\u00e3o me posso queixar; fui<br \/>\nfeliz! N\u00e3o tenho que dizer; mas, aceita o meu conselho &#8211; n\u00e3o te cases! N\u00e3o<br \/>\nte cases nunca! \u00c9 um conselho de amigo, podes crer!&#8221;<\/p>\n<p>E repetem quase todos eles a mesma cantiga. \u00c9 dif\u00edcil encontrar um marido<br \/>\nque n\u00e3o tenha na ponta da l\u00edngua esta frase: &#8220;Eu n\u00e3o me posso queixar, mas<br \/>\nn\u00e3o te cases!&#8221; sem se lembrarem os rat\u00f5es de que semelhante conselho j\u00e1 \u00e9<br \/>\numa queixa.<\/p>\n<p>Que diabo de felicidade \u00e9 ent\u00e3o essa, que os casados aconselham a todos os<br \/>\nseus amigos solteiros que a evitem? Ser\u00e1 isso ego\u00edsmo na ventura, ou falso<br \/>\nvexame de confessar a pr\u00f3pria desgra\u00e7a?<\/p>\n<p>N\u00e3o, a raz\u00e3o \u00e9 outra. Quereis saber, contradit\u00f3rios casados, por que assim<br \/>\nfalais do casamento? \u00c9 porque nele sois ao mesmo tempo felizes e infelizes<br \/>\n&#8211; felizes na vossa amizade; infelizes no vosso amor.<\/p>\n<p>E sois infelizes no vosso amor, simplesmente porque sois desiludidos.<\/p>\n<p>Olhai o casamento entre a gente do campo. Por que raz\u00e3o o campon\u00eas \u00e9 mais<br \/>\nfeliz no casamento do que a gente civilizada da cidade? \u00c9 que l\u00e1 na ro\u00e7a quando<br \/>\no Jo\u00e3o da Horta vai casar com a Joana dos Porcos j\u00e1 lhe conhece a medida justa<br \/>\nda cintura, e j\u00e1 lhe viu os p\u00e9s descal\u00e7os, as unhas sujas e a cabe\u00e7a despenteada;<br \/>\ne ela vai sabendo j\u00e1 qual o verdadeiro cheiro que ele tem, e quais s\u00e3o os<br \/>\ndefeitos e as boas qualidades que o acompanham.<\/p>\n<p>S\u00e3o antes do matrim\u00f4nio o que s\u00e3o depois &#8211; n\u00e3o sofrem decep\u00e7\u00f5es! E, como<br \/>\na vida exercitada e simples do campo lhes tem naturalmente conservado melhor<br \/>\na integridade do corpo, e lhes tem poupado calos, enxaquecas, hemorr\u00f3idas<br \/>\ne dispepsias, a infinidade de mis\u00e9rias e inconfess\u00e1veis aborrecimentos que<br \/>\nsobrev\u00eam fatalmente na coabita\u00e7\u00e3o dos casais civilizados, quase que n\u00e3o existe<br \/>\nentre eles.<\/p>\n<p>Assim, s\u00f3 entre os simples, ainda se encontram casados que se amam e se desejam<br \/>\nfisicamente depois de ter tido v\u00e1rios filhos; por conseguinte s\u00f3 entre eles<br \/>\nas crian\u00e7as, concebidas depois do primeiro parto, seriam s\u00e3s, fortes e inteligentes,<br \/>\nse nas rela\u00e7\u00f5es matrimoniais dos camponeses concorresse o indispens\u00e1vel elemento<br \/>\npo\u00e9tico da imagina\u00e7\u00e3o, do enlevo espiritual, donde tira o filho a \u00faltima daquelas<br \/>\ntr\u00eas qualidades. S\u00f3 esse elemento lhes falta no amor, e \u00e9 por isso que o filho<br \/>\ndo homem do campo \u00e9 que sempre bem constitu\u00eddo de corpo, mas em geral est\u00fapido,<br \/>\nainda mesmo passando logo a conviver entre gente mais cultivada.<\/p>\n<p>Em toda a ocorr\u00eancia sexual, a ilus\u00e3o fascinadora do esp\u00edrito \u00e9 indispens\u00e1vel<br \/>\npara o perfeito equil\u00edbrio do filho conseq\u00fcente.<\/p>\n<p>Conclu\u00ed pois dos meus racioc\u00ednios, n\u00e3o que Palmira precisasse conhecer bem<br \/>\no noivo antes do casamento, ou vice-versa, porque seria isso perigoso debaixo<br \/>\ndo ponto de vista da ilus\u00e3o amorosa &#8211; ela n\u00e3o era uma camponesa; mas que deviam<br \/>\nambos conservar, eternamente intactas e perfeitas, as boas impress\u00f5es, que<br \/>\num do outro tivessem porventura recebido no per\u00edodo em que se desejaram pela<br \/>\nprimeira vez.<\/p>\n<p>A tarefa, como se v\u00ea, era mais que penosa, delicada, e de muito dif\u00edcil execu\u00e7\u00e3o;<br \/>\neu, por\u00e9m, estava disposta a todos os sacrif\u00edcios por amor de minha filha,<br \/>\ne haveria de triunfar! De resto, com que melhor poderia eu encher a vida?<br \/>\nA id\u00e9ia de escrever estas mem\u00f3rias s\u00f3 mais tarde come\u00e7ou a preocupar-me o<br \/>\nesp\u00edrito.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas prossigamos. Vamos ver agora como cheguei \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o dos meus ideais.<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>X<\/h2>\n<p>Na escolha mental que fiz de um noivo para minha filha, pareceu-me fosse<br \/>\nprefer\u00edvel um oficial de marinha em servi\u00e7o ativo, porquanto o marinheiro<br \/>\nleva no casamento duas vantagens sobre os homens de outras profiss\u00f5es. A primeira<br \/>\nporque o servi\u00e7o de bordo ou em alguma fortaleza o obriga a afastar-se periodicamente<br \/>\nda esposa, cumprindo ele assim, por dever de of\u00edcio, com o higi\u00eanico preceito<br \/>\nda B\u00edblia; a segunda porque os perigos da sua vida aventurosa, a honra militar<br \/>\ne a est\u00e9tica da farda, lhe d\u00e3o certo brilho especial de antiburguesismo e<br \/>\num fascinante prest\u00edgio de altivez e denodo que muito pesam nos interesses<br \/>\ndo amor.<\/p>\n<p>N\u00f3s mulheres gostamos de ver no homem amado tudo aquilo que n\u00e3o possu\u00edmos<br \/>\nnem podemos aspirar. Quanto mais varonil e m\u00e1sculo for ele, tanto mais nos<br \/>\nimpressiona e atrai. A for\u00e7a f\u00edsica, a bravura, a energia de a\u00e7\u00e3o, e a singela<br \/>\nbondade do homem forte, s\u00e3o os dotes masculinos que mais diretamente seduzem<br \/>\numa mulher bem equilibrada. Eu, que amei tanto meu marido, nunca lhe perdoei<br \/>\ntodavia, no \u00edntimo do meu julgamento feminil, que ele fosse de complei\u00e7\u00e3o<br \/>\npouco mais desenvolvido em m\u00fasculos do que eu. E n\u00e3o era fraco.<\/p>\n<p>As mulheres ordin\u00e1rias, que n\u00e3o desgostam de ser batidas pelo seu homem,<br \/>\nt\u00eam a sua absolvi\u00e7\u00e3o na mesma natureza inferior da mulher. Dar-lhes pancada<br \/>\n\u00e9 prova de falta de respeito e \u00e9 brutalidade, mas n\u00e3o \u00e9 prova de falta de<br \/>\namor; antes pelo contr\u00e1rio \u00e9 essa uma das mais naturais expans\u00f5es do dom\u00ednio<br \/>\ne do ci\u00fame; e quer sempre dizer superioridade f\u00edsica. Ora, o que a mulher<br \/>\nvulgar exige do seu homem n\u00e3o \u00e9 respeito, mas s\u00f3 amor; logo prefere a pancada<br \/>\na qualquer outra manifesta\u00e7\u00e3o menos grosseira, por\u00e9m mais deprimente dos seus<br \/>\ninteresses sexuais.<\/p>\n<p>Devia, por conseguinte, o noivo de minha filha ser um oficial de marinha<br \/>\nem servi\u00e7o ativo, e homem forte. Mas, como a for\u00e7a f\u00edsica n\u00e3o basta para conquistar<br \/>\num amor complexo, e para manter no mesmo grau de entusiasmo o enlevo po\u00e9tico<br \/>\nde uma mulher de certa ordem, era preciso que o meu oficial de marinha, al\u00e9m<br \/>\nde s\u00e3o e possante, fosse inteligente, honesto, simp\u00e1tico e carinhoso.<\/p>\n<p>E encontraria eu um sujeito nestas circunst\u00e2ncias, capaz de amar minha filha?&#8230;<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o? Palmira tinha dezoito anos, era bonita e perfeita, bem educada,<br \/>\ninteligentezinha, e com um dote animador. Seria poss\u00edvel que n\u00e3o houvesse<br \/>\npor a\u00ed um rapaz pobre, naquelas condi\u00e7\u00f5es, que se apaixonasse por ela, encaminhando<br \/>\neu as coisas com certo jeito?<\/p>\n<p>Pus m\u00e3os \u00e0 obra: comecei a procurar o meu homem. Em breve, por\u00e9m, convenci-me<br \/>\nde que sozinha n\u00e3o daria conta do recado, e lembrei-me de pedir aux\u00edlio ao<br \/>\nmeu amigo, o Dr. C\u00e9sar Veloso, de quem j\u00e1 prometi falar.<\/p>\n<p>Cumpra-se esta promessa antes de mais nada; C\u00e9sar Veloso era ent\u00e3o um belo<br \/>\nvelho de cinq\u00fcenta a sessenta anos, m\u00e9dico, abastado, vi\u00favo, j\u00e1 sem nenhum<br \/>\nde seus filhos, e vivendo em companhia de uma irm\u00e3, D. Etelvina, \u00fanico parente<br \/>\nque lhe restava e a quem ele estremecia profundamente. Foi o melhor cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o melhor car\u00e1ter que encontrei at\u00e9 hoje no meu caminho. Conheci-o, como<br \/>\ndisse, pouco depois do nascimento de Palmira, e j\u00e1 desde esse tempo o estimava<br \/>\nmais do que a meu pr\u00f3prio esposo, de quem ele, s\u00f3 por minha causa, foi bom,<br \/>\nleal e verdadeiro amigo.<\/p>\n<p>Deu-se na minha vida e no meu cora\u00e7\u00e3o uma coisa muito singular a respeito<br \/>\ndesse homem: Sem nunca formular sobre ele a mais ligeira hip\u00f3tese de amor<br \/>\nsensual, achava-me todavia t\u00e3o sua amiga, amava-o tanto, que era um verdadeiro<br \/>\nprazer, para minha alma, senti-lo perto de mim. Quando as desilus\u00f5es do meu<br \/>\ncasamento me prostraram os sentidos e me enegreceram a exist\u00eancia, foi ele<br \/>\no \u00fanico com quem abri o cora\u00e7\u00e3o. Falei-lhe com toda a franqueza, queixei-me<br \/>\ndo meu destino; disse-lhe tudo quanto eu sofria, e at\u00e9, ainda hoje me parece<br \/>\nextraordin\u00e1rio! chorei em sua presen\u00e7a, o que, juro pela felicidade de Palmira,<br \/>\nseria imposs\u00edvel suceder com outro, mesmo com meu marido.<\/p>\n<p>Desde esse momento capital da minha vida, compreendi que era tamb\u00e9m amada<br \/>\npor ele como a irm\u00e3 eleita por sua alma e por sua intelig\u00eancia. E fizemo-nos<br \/>\namigos para sempre, unificamo-nos em esp\u00edrito, tornamo-nos moralmente insepar\u00e1veis<br \/>\npor um t\u00e1cito cons\u00f3rcio de absoluta confian\u00e7a um pelo outro; cons\u00f3rcio de<br \/>\nimperturb\u00e1vel harmonia de ideais, de alta poesia e de amor imaculado e superior<br \/>\na todas as mis\u00e9rias da carne. E esse amor essencial e puro, que nunca fora<br \/>\nnem de leve perturbado pelo sobressalto dos sentidos, era um canto tranq\u00fcilo<br \/>\ne doce, em que meu pobre esp\u00edrito repousava da infernal campanha dom\u00e9stica<br \/>\ne dos enojos do outro amor.<\/p>\n<p>Mas como se poder\u00e1 explicar essa minha estranha predile\u00e7\u00e3o por um homem,<br \/>\nque n\u00e3o era meu parente, nem meu companheiro de inf\u00e2ncia, e quando n\u00e3o havia<br \/>\nentre n\u00f3s de parte a parte o menor impulso de sexo?&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 preciso notar que eu fora sempre considerada, pelas pessoas que me conheciam,<br \/>\ncomo um car\u00e1ter seco e orgulhoso. E, com efeito, n\u00e3o gostei nunca de revelar,<br \/>\na quem quer que fosse, meus pensamentos e meus \u00edntimos conceitos, nem mesmo<br \/>\na meu marido, com o qual guardei em todos os tempos uma reserva, que ele ali\u00e1s,<br \/>\ncoitado! jamais tivera para comigo. Posso at\u00e9 dizer que com Virg\u00edlio fui,<br \/>\nno \u00faltimo quartel de nossa vida de casados, mais fechada e retra\u00edda do que<br \/>\ncom qualquer outro. No entanto, era bastante demorar-me alguns momentos sozinha<br \/>\nperto de C\u00e9sar, fit\u00e1-lo e descansar por algum tempo o olhar no seu olhar sereno,<br \/>\nfranco e bondoso, para logo me acudir \u00e0 boca tudo o que meu cora\u00e7\u00e3o, t\u00e3o avaramente,<br \/>\ntrazia escondido e fechado para os demais homens.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, espantava-me eu pr\u00f3pria com semelhante fato e, depois de lhe revelar<br \/>\nos meus mais \u00edntimos segredos, perguntava a mim mesma &#8211; como e por que exercia<br \/>\naquele homem t\u00e3o grande e decisiva influ\u00eancia sobre meu esp\u00edrito? Fazia ent\u00e3o<br \/>\nvivos protestos de mudar de norma de conduta da\u00ed em diante. Afinal n\u00e3o havia<br \/>\njustificativa para uma distin\u00e7\u00e3o t\u00e3o acentuada! Chegava a parecer-me desonestidade!<br \/>\nMas, na primeira ocasi\u00e3o, em que de novo a s\u00f3s nos encontr\u00e1vamos, quando dava<br \/>\npor mim, j\u00e1 o meu cora\u00e7\u00e3o se tinha aberto por si mesmo, e despejava-se at\u00e9<br \/>\nao fundo em palavras de amor.<\/p>\n<p>Donde vinha toda essa confian\u00e7a de minha parte? donde procedia esse poderoso<br \/>\ne casto sentimento que a C\u00e9sar me ligava tanto, e que em nada me parecia com<br \/>\no amor que eu mantive por meu marido, nem com o que eu sentia por meus filhos?<br \/>\nN\u00e3o atinava ent\u00e3o com a verdadeira causa do fen\u00f4meno e moralmente supunha-me<br \/>\ndeveras culpada. S\u00f3 muito mais tarde, continuando a estudar, no meu pr\u00f3prio<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o humano, pude compreender, quando afinal o conheci de todo,<br \/>\nque n\u00e3o se tratava com aquele fato de um caso meu particular, mas de uma lei<br \/>\ncomum para a minha esp\u00e9cie. Essa conclus\u00e3o assustou-me profundamente e veio<br \/>\nabalar todas as minhas id\u00e9ias aparelhadas a respeito da felicidade conjugal,<br \/>\ne, se ela j\u00e1 n\u00e3o chegasse muito e muito tarde, ter-me-ia feito sem d\u00favida<br \/>\nreformar o programa de vida, que eu com tanto empenho e tanto cuidado tra\u00e7ara<br \/>\npara minha filha.<\/p>\n<p>Do resultado dessas minhas observa\u00e7\u00f5es, vim a perceber que, sendo a procria\u00e7\u00e3o<br \/>\num instinto, e sendo o amor um sentimento, o grande mal, ou o grande erro,<br \/>\ndo matrim\u00f4nio vulgar, consistia no disparate de querer harmonizar e unir,<br \/>\npara os mesmos fins, essas duas coisas distintas &#8211; sensualidade e amizade<br \/>\n&#8211; t\u00e3o contr\u00e1rias entre si, e t\u00e3o antip\u00e1ticas e at\u00e9 perfeitamente incompat\u00edveis.<\/p>\n<p>Compreendi que a mulher &#8211; para procriar, precisa de um homem, de um var\u00e3o,<br \/>\nescolhido pelos seus sentidos; e &#8211; para amar, precisa de um amigo, de um irm\u00e3o,<br \/>\neleito pela sua alma e pela sua intelig\u00eancia. O associado do seu corpo, em<br \/>\ncaso nenhum, pode ser o associado do seu esp\u00edrito, ou vice-versa.<\/p>\n<p>Os irracionais tamb\u00e9m s\u00e3o, como n\u00f3s, suscet\u00edveis de simpatia e apego de amizade,<br \/>\nmas nunca p\u00f5em esse sentimento, que neles ali\u00e1s n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o elevado e t\u00e3o perfeito<br \/>\ncomo no homem, ao servi\u00e7o da sua sensualidade e do seu destino procriador.<\/p>\n<p>Compreendi que&#8230;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o precipitemos os fatos da minha exposi\u00e7\u00e3o. Vamos por ordem.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Como ia dizendo: Logo que me senti fraca para realizar sozinha o programa<br \/>\nda felicidade de minha filha, recorri naturalmente \u00e0 \u00fanica pessoa com quem<br \/>\neu podia contar, o Dr. C\u00e9sar. Escrevi-lhe, pedindo-lhe uma confer\u00eancia em<br \/>\nminha casa. Ele veio no mesmo dia.<\/p>\n<p>Foi uma longa pr\u00e1tica. Referi-lhe detalhadamente as minhas apreens\u00f5es a respeito<br \/>\ndo futuro de Palmira; expus o que nesse tempo constitu\u00eda o meu cabedal de<br \/>\nobserva\u00e7\u00f5es concernentes ao casamento, e disse-lhe afinal qual era o meu plano<br \/>\nresolvido. C\u00e9sar ouviu-me, durante todo o tempo, em sil\u00eancio, com os olhos<br \/>\nbaixos, sem desviar um s\u00f3 instante a sua ten\u00e7\u00e3o do que eu expunha. Compreendi,<br \/>\npela concentra\u00e7\u00e3o do seu rosto, que as minhas id\u00e9ias e o meu projeto o interessavam<br \/>\ne surpreendiam extremamente.<\/p>\n<p>Quando acabei, ele tomou-me as m\u00e3os entre as suas, com um gesto carinhoso<br \/>\nque lhe era habitual a s\u00f3s comigo; meneou a cabe\u00e7a e disse-me sorrindo que<br \/>\n&#8211; em primeiro lugar, me fazia os seus cumprimentos pela lucidez de cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de intelig\u00eancia que eu acabava de patentear; depois, j\u00e1 em ar s\u00e9rio, falou<br \/>\nda minha ilimitada dedica\u00e7\u00e3o materna, e declarou, ao terminar, sorrindo de<br \/>\nnovo, que, posto n\u00e3o acreditasse na efic\u00e1cia do meu plano, pois que em absoluto<br \/>\nn\u00e3o acreditava na felicidade, punha-se desde logo \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o e pronto<br \/>\na entrar em campanha, na qualidade de meu ajudante-de-ordens.<\/p>\n<p>Rejubilei de contente. Agradeci-lhe com um abra\u00e7o sincero. Dispondo de semelhante<br \/>\najudante-de-ordens, tinha certeza da vit\u00f3ria! C\u00e9sar, amoroso e dedicado como<br \/>\nsempre fora para comigo, havia de tomar a peito a minha causa e destruiria,<br \/>\ncom o seu valor de homem, os obst\u00e1culos que eu n\u00e3o pudesse quebrar com as<br \/>\nminhas m\u00e3os de mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Os seus servi\u00e7os, meu amigo, disse-lhe eu, v\u00e3o ser desde logo necess\u00e1rios<br \/>\npara uma pr\u00e9via inspe\u00e7\u00e3o. Inspe\u00e7\u00e3o rigorosa, na pessoa de quem se propuser<br \/>\npara meu genro. S\u00f3 consentirei que se case com Palmira um rapaz perfeito,<br \/>\nem plena normalidade de sa\u00fade.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Est\u00e1 claro!<\/p>\n<p>&#8211; A menor les\u00e3o, o menor v\u00edcio de organismo ou de sangue, a menor deforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nf\u00edsica, \u00e9 o bastante para p\u00f4-lo fora de combate. N\u00e3o lhe parece?<\/p>\n<p>&#8211; Decerto; e desde j\u00e1 respondo por mim, como m\u00e9dico consciencioso&#8230; disse<br \/>\no meu bom amigo. Mal apare\u00e7a o homem, arranje, Ol\u00edmpia, um meio de p\u00f4-lo em<br \/>\ncontacto comigo, e eu me encarregarei do resto. Desde que eu declare: &#8220;Este<br \/>\nserve! &#8211; Este \u00e9 perfeito &#8211; Este est\u00e1 conforme!&#8221; pode voc\u00ea aceit\u00e1-lo de olhos<br \/>\nfechados, porque n\u00e3o deixarei passar gato por lebre!<\/p>\n<p>Ele ficou para jantar conosco, e toda essa tarde meu cora\u00e7\u00e3o cantou vitorioso,<br \/>\ncomo se efetivamente j\u00e1 tivesse segura a felicidade de Palmira.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>XI<\/h2>\n<p>Mas o homem p\u00f5e, e Deus disp\u00f5e; um ano decorreu sem que eu descobrisse, para<br \/>\nminha filha, um oficial de marinha que lhe conviesse. Ela acabava de fazer<br \/>\ndezenove anos e era um mimo de gra\u00e7a e de inoc\u00eancia; amava-me extremamente,<br \/>\ne jurava que me faria todas as vontades &#8211; s\u00f3 para me ver feliz.<\/p>\n<p>Coitada! &#8211; Ver-me feliz!&#8230; a mim! Como se no mundo houvesse para mim, outra<br \/>\nfelicidade que n\u00e3o fosse a dela pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Durante todo esse ano dei festas em minha casa; comecei a receber, \u00e0s quartas-feiras,<br \/>\ntodas as semanas. Como sabiam por a\u00ed que \u00e9ramos ricas, n\u00e3o faltavam pretendentes<br \/>\n\u00e0 m\u00e3o de minha filha; e o bom acolhimento que dispensei logo \u00e0 farda de marinha<br \/>\nencheu-me as salas de velhos e jovens oficiais dessa mil\u00edcia, com tamanha<br \/>\nprofus\u00e3o, que cheguei a recear ter inutilizado o g\u00eanero, barateando-o aos<br \/>\nolhos de Palmira.<\/p>\n<p>Minha casa parecia j\u00e1 uma reparti\u00e7\u00e3o de Marinha, e no entretanto a rapariga<br \/>\nn\u00e3o se decidia por nenhum dos oficiais. Verdade \u00e9 que bem raros se me afiguravam<br \/>\ncorresponder aos requisitos exigidos. S\u00f3 um Saturnino da Rocha, primeiro-tenente,<br \/>\nde vinte e cinco anos, me deu vivas esperan\u00e7as. Um belo mo\u00e7o! Mas o Dr. C\u00e9sar<br \/>\ndisse que ele tinha a solit\u00e1ria. Pusemo-lo \u00e0 margem.<\/p>\n<p>Com o que eu n\u00e3o contava foi o que sucedeu, como acontece quase sempre. Entre<br \/>\nos candidatos, colhidos pela rede que atirei ao mar para pescar um noivo,<br \/>\nveio, de mistura com os leg\u00edtimos representantes daquele po\u00e9tico elemento,<br \/>\num empregado p\u00fablico, de Segunda ou terceira ordem, um amanuense de secretaria,<br \/>\namador de m\u00fasica; um verdadeiro contrabando, impingido j\u00e1 me n\u00e3o lembra por<br \/>\nquem. Era ainda muito mo\u00e7o, bonito e bem apessoado. Estudei-o de relance;<br \/>\nn\u00e3o me pareceu mau de g\u00eanio e revelou intelig\u00eancia quase regular. Tocava piano<br \/>\ne bandolim com certa gra\u00e7a; falava ingl\u00eas, franc\u00eas e espanhol. Era pobre.<\/p>\n<p>&#8211; Quem sabe?&#8230; pensei eu. Talvez apesar da idade, cuja diferen\u00e7a de Palmira<br \/>\nme parecia pequena demais, estivesse naquele contrabando um rapaz aproveit\u00e1vel<br \/>\npara os fins que eu tinha em vista&#8230; Mas, que pena! n\u00e3o era oficial de marinha!&#8230;<br \/>\nDe todos os proponentes era, todavia, e sem termo de compara\u00e7\u00e3o, o melhor<br \/>\ncomo estampa.<\/p>\n<p>Interpelei minha filha, a respeito dele, frouxamente, como por descargo de<br \/>\nconsci\u00eancia. E qual n\u00e3o foi o meu espanto quando a vi reproduzir fielmente<br \/>\ntodos os gestos retra\u00eddos, que eu pr\u00f3pria fizera quando me consultaram, nas<br \/>\nmesmas condi\u00e7\u00f5es, sobre o meu defunto esposo?<\/p>\n<p>Ela abaixou os olhos, corou, sorriu quase imperceptivelmente, e come\u00e7ou a<br \/>\npercorrer com os dedos da m\u00e3o direita os bot\u00f5es do corpinho do seu vestido.<\/p>\n<p>Tomei-lhe as m\u00e3os; estavam frias e ligeiramente tr\u00eamulas. Interroguei-a de<br \/>\nnovo, e Palmira, em vez de responder, caiu-me nos bra\u00e7os, solu\u00e7ando.<\/p>\n<p>Era a coisa, n\u00e3o havia d\u00favida! Comigo tinha sido tal e qual!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Gostas dele&#8230; N\u00e3o \u00e9 verdade, minha filha?&#8230; perguntei-lhe, beijando-a<br \/>\nna testa.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Eu o amo, minha m\u00e3e&#8230; foi a sua \u00fanica resposta.<\/p>\n<p>&#8211; Tu o amas! &#8211; Sabes l\u00e1 o que \u00e9 isso! Queira Deus que n\u00e3o estejas procurando<br \/>\niludir-te; iludir a ti e a mim! N\u00e3o te deixes levar por falsas impress\u00f5es!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0S\u00f3 com ele me casarei por meu gosto! S\u00f3 com ele serei feliz!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 o que todas n\u00f3s dizemos nas tuas condi\u00e7\u00f5es, minha filha&#8230; Mas n\u00e3o<br \/>\nte mortifiques, que, se o rapaz te ama deveras, e se estiver em condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde casar contigo, n\u00e3o serei eu que a tal me oponha, porque bem sabes que s\u00f3<br \/>\nprocuro e quero a tua felicidade.<\/p>\n<p>Ela, transportada, beijou-me repetidas vezes, agradecendo-me com as suas<br \/>\ncar\u00edcias as minhas palavras.<\/p>\n<p>Todavia, talvez que de n\u00f3s duas fosse eu a mais comovida nesse momento. Quando<br \/>\nme separei de Palmira, encerrei-me no quarto e chorei copiosamente. Por qu\u00ea?<br \/>\nN\u00e3o sei dar a raz\u00e3o; s\u00f3 afian\u00e7o que um doloroso sobressalto se apossou de<br \/>\nmim, e uma dura e fria tristeza, tristeza de velho, encheu-me o cora\u00e7\u00e3o e<br \/>\nescureceu-me a vida.<\/p>\n<p>Procurei consolar-me, refugiando-me na id\u00e9ia da felicidade de minha filha.<br \/>\nAh! pobres cora\u00e7\u00f5es de m\u00e3e! pobres cora\u00e7\u00f5es, que tanto sofreis para depois<br \/>\nainda mais vos amesquinhardes, chorando sob o peso infamante e rid\u00edculo desta<br \/>\nterr\u00edvel palavra &#8211; Sogra!<\/p>\n<p>E apressei-me a procurar o meu amigo. Fui logo no dia seguinte \u00e0 casa dele.<br \/>\nC\u00e9sar, ao receber-me, percebeu a minha tristeza; compreendeu-a talvez. Mas<br \/>\nn\u00e3o me disse uma s\u00f3 palavra a respeito dela; apenas tomou-me a m\u00e3o e afagou-a<br \/>\nentre as suas, como de costume.<\/p>\n<p>Para bem nos entendermos, os dois, bastava-nos o olhar!<\/p>\n<p>Assentei-me junto \u00e0 secret\u00e1ria, bem perto da sua cadeira e, em voz baixa<br \/>\ne comovida, dei-lhe parte de tudo, e conclu\u00ed, pedindo-lhe que viesse \u00e0 minha<br \/>\ncasa na pr\u00f3xima reuni\u00e3o. &#8211; O pretendente l\u00e1 estaria. C\u00e9sar prometeu ir.<\/p>\n<p>E n\u00e3o faltou com efeito.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>T\u00ednhamos muita gente essa noite em casa. Havia concerto e depois dan\u00e7a. Os<br \/>\nuniformes da marinha, rebrilhantes de gal\u00f5es dourados, cruzavam-se em todas<br \/>\nas salas, ofuscando as casacas pretas e dando \u00e0quela minha modesta Quarta-feira,<br \/>\noficiais realces de uma festa de corte. As damas afidalgavam-se, pareciam<br \/>\nat\u00e9 mais am\u00e1veis e mimosas ao reflexo das refulgentes dragonas.<\/p>\n<p>Minha filha cantaria ao piano, acompanhada pelo seu preferido. Ela resplandecia<br \/>\nde sedu\u00e7\u00e3o, naqueles primeiros arrulhos de pomba amorosa, que procura fazer<br \/>\nninho; estava alegre, saltitante, \u00e9bria de ilus\u00f5es e de esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>E pensar eu que, da\u00ed a algum tempo, toda aquela g\u00e1rrula confian\u00e7a no amor,<br \/>\ntoda aquela lou\u00e7ania de inoc\u00eancia e toda aquela frescura de mocidade, poderiam<br \/>\nemurchecer e transformar-se no que eu sofri pouco depois que me casei!&#8230;<br \/>\nAh! mas eu l\u00e1 estaria ao lado dela para vigiar-lhe o leito de rec\u00e9m-casada,<br \/>\ncomo lhe vigilara, outrora, o ber\u00e7o de rec\u00e9m-nascida. E o meu cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e<br \/>\ntremia tanto agora, ao v\u00ea-la assim sorrir de ventura \u00e0s primeiras pulsa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo amor, quanto tremera dantes, aos seus primeiros vagidos e \u00e0s primeiras<br \/>\nl\u00e1grimas que lhe vi nos olhos.<\/p>\n<p>O concerto correu bem, Palmira foi feliz no que cantou acompanhada pelo namorado,<br \/>\ncreio at\u00e9 nunca lhe ter ouvido cantar com tamanha express\u00e3o. Mal deixaram<br \/>\no piano, apontei o rapaz ao meu velho amigo, que come\u00e7ou logo a observ\u00e1-lo<br \/>\ndisfar\u00e7adamente.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco apresentei-os um ao outro, e n\u00e3o os perdi mais de vista.<\/p>\n<p>C\u00e9sar, insinuante como \u00e9, ganhou logo a simpatia, e suponho at\u00e9 que a confian\u00e7a<br \/>\ndo pretendente de Palmira. Vi-os passear juntos durante longo tempo, sem deixarem<br \/>\nnunca de conversar com o mesmo interesse. Depois tomaram uma das janelas da<br \/>\nsaleta de estudo, e continuaram na palestra, mais \u00e0 vontade. Eu, do lugar<br \/>\nem que estava, podia observ\u00e1-los. O m\u00e9dico com certeza falava j\u00e1 de coisas<br \/>\nconcernentes \u00e0 boa disposi\u00e7\u00e3o f\u00edsica, porque notei que o outro sacudia com<br \/>\ndesembara\u00e7o as pernas e os bra\u00e7os, empinando soberbo a cabe\u00e7a e o peito como<br \/>\npara dar id\u00e9ia da sua perfeita complei\u00e7\u00e3o muscular.<\/p>\n<p>N\u00e3o pude deixar de rir, principalmente quando C\u00e9sar, l\u00e1 do fundo de sua janela,<br \/>\nme fez sinal com os olhos de que a coisa caminhava bem.<\/p>\n<p>O rapaz parecia com efeito muito bem constitu\u00eddo. Era delgado e forte, rico<br \/>\nde esp\u00e1dua; boa estatura, pernas e bra\u00e7os bem proporcionados; bom cabelo,<br \/>\nolhos vivos, de azul forte; tez limpa, de um moreno p\u00e1lido, sadio e fresco;<br \/>\nbarba vigorosa, bem preta, luzidia e fina; unhas m\u00e1sculas e rijas. E os dentes<br \/>\npareciam-me de primeira ordem.<\/p>\n<p>J\u00e1 morria de impaci\u00eancia quando o meu bom C\u00e9sar, arranchando-se comigo para<br \/>\ntomar ch\u00e1 a um canto da sala de jantar, me veio dar conta da sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que temos o homem! &#8211; declarou logo, antes de assentar-se ao meu lado.<br \/>\nE segredou-me depois: &#8211; Mas n\u00e3o dou por enquanto a minha opini\u00e3o definitiva&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ah!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ficamos amigos&#8230; acrescentou C\u00e9sar. Ele, sabe? vai depois de amanh\u00e3 \u00e0<br \/>\nminha casa, e, como tem gosto pelos jogos e exerc\u00edcios de for\u00e7a e faz grande<br \/>\nvaidade da sua musculatura, creio que o convencerei de que deve por sistema<br \/>\ntomar duchas no meu estabelecimento hidroter\u00e1pico. Ah! ent\u00e3o sim, poderei<br \/>\ndar com seguran\u00e7a o meu veredicto!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Aqueles dentes?&#8230; Reparou se s\u00e3o verdadeiros?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0S\u00e3o. Afian\u00e7o!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Da\u00ed a dias, o meu zeloso ajudante-de-ordens procurava-me para dizer-me radiante:<\/p>\n<p>&#8211; Completo sucesso! Auscultei e observei minuciosamente o rapaz. Creio at\u00e9<br \/>\nque o magan\u00e3o adivinhou, ou compreendeu, qual era a raz\u00e3o particular que me<br \/>\ndirigia, porque veio, por bem dizer, ao encontro do meu desejo e prestou-se<br \/>\nao exame, sorrindo, sem esconder a sua vaidade de homem forte, consciente<br \/>\nda sua riqueza org\u00e2nica!<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos a s\u00f3s, na biblioteca, l\u00e1 em casa. Aproximei-me mais do meu velho<br \/>\namigo, com interesse; e ele acrescentou, dando com ambas as m\u00e3os duas palmadas<br \/>\nsimult\u00e2neas nas pr\u00f3prias coxas.<\/p>\n<p>&#8211; Um rapag\u00e3o, Ol\u00edmpia! O que se pode chamar um rapag\u00e3o! Equil\u00edbrio perfeito<br \/>\nentre o sistema nervoso e o sistema muscular! \u00d3rg\u00e3os em belo estado de pureza!<br \/>\nUma aut\u00f3psia seria a mais espl\u00eandida vit\u00f3ria para as suas v\u00edsceras! Devia<br \/>\ndeixar-se dissecar, por orgulho!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ent\u00e3o, C\u00e9sar!&#8230; Fale a s\u00e9rio, meu amigo!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o lhe descobri o menor v\u00edcio no organismo. Os pulm\u00f5es s\u00e3o os de um ferreiro;<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o funciona como um Patek Philippe; o f\u00edgado n\u00e3o parece f\u00edgado nacional.<br \/>\nOs rins fariam inveja aos de um atleta! T\u00f3rax soberbo; b\u00edceps de gladiador!<br \/>\nEm minha presen\u00e7a manejou, com a maior facilidade e destreza, halteres de<br \/>\ntrinta quilos cada um!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Sim?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que lhe digo! E a conforma\u00e7\u00e3o geral do corpo, esteticamente falando,<br \/>\n\u00e9 simplesmente maravilhosa! Quando o vi nu, pensei ter defronte dos olhos<br \/>\numa est\u00e1tua grega. Marte e Apolo fundidos, formando um homem. Que belo conjunto<br \/>\nde for\u00e7a e delicadeza anat\u00f4mica! Nem sei como, com a degenera\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a latina<br \/>\ne com a crescente deprava\u00e7\u00e3o de costumes, ainda possa haver &#8211; no Brasil! Um<br \/>\nmo\u00e7o em semelhantes condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas! Verdade \u00e9 que ele \u00e9 de ra\u00e7a catal\u00e3!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Que entusiasmo, meu amigo!<\/p>\n<p>&#8211; Entusiasmou-me com efeito, o dem\u00f4nio do rapaz! Nunca vi, na minha cl\u00ednica,<br \/>\num esp\u00e9cime t\u00e3o puro! \u00c9 verdadeiramente um belo animal!<\/p>\n<p>&#8211; Acha-o ent\u00e3o, C\u00e9sar, quanto ao f\u00edsico&#8230; no caso de preencher cabalmente<br \/>\no nosso ideal de&#8230; de marido de Palmira?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Oh! Por esse lado n\u00e3o poder\u00edamos desejar melhor!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0E, pelo outro! Que tal ser\u00e1 ele? Diga-me, achou-o simp\u00e1tico!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Um homem naquelas condi\u00e7\u00f5es \u00e9 o orgulho de sua esp\u00e9cie e h\u00e1 de ser<br \/>\nfatalmente simp\u00e1tico. O que mais \u00e9 a simpatia sen\u00e3o o reflexo da bondade?<br \/>\ne a bondade \u00e9 um produto l\u00f3gico da sa\u00fade perfeita e da for\u00e7a, como s\u00e3o a coragem<br \/>\ne a alegria. Fiquei gostando dele infinitamente. Ah! se aquele ladr\u00e3o fosse<br \/>\nmeu filho?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ainda bem, meu amigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Pode estar amplamente satisfeita com ele, Ol\u00edmpia, e d\u00e1-lo, quanto<br \/>\nantes, para noivo da nossa formosa Palmira. Aquele, se n\u00e3o for v\u00edtima de algum<br \/>\nacidente, ou n\u00e3o apanha algum diab\u00f3lico micr\u00f3bio que o estrague, morrer\u00e1 de<br \/>\nvelho!<\/p>\n<p>Agradeci penhorad\u00edssima os bons servi\u00e7os do meu querido amigo e pedi-lhe<br \/>\nque me ajudasse a colher, logo desde o dia seguinte, informa\u00e7\u00f5es sobre o passado<br \/>\ne sobre o car\u00e1ter do pretendente de minha filha.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Desde o dia seguinte, com efeito, pusemo-nos em campo. E foram quatro meses<br \/>\nde ininterrompidas pesquisas, em que eu despendi um grande capital de dedica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nde atividade e de paci\u00eancia, cujo segredo s\u00f3 mesmo um cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e poderia<br \/>\nachar. Mas n\u00e3o lamento tais canseiras, porque cheguei ao completo resultado<br \/>\ndo que eu queria.<\/p>\n<p>Eis o que colhemos:<\/p>\n<p>O rapaz chamava-se Jos\u00e9 Leandro de Oviedo. (Isso j\u00e1 eu sabia). Nasceu na<br \/>\nprov\u00edncia do Rio de Janeiro, numa fazenda de Teres\u00f3polis. Era filho de Manoel<br \/>\nOviedo, pinto espanhol, que o teve de uma tal Margarida Porto, senhora brasileira<br \/>\npor ele tomada do marido, um rico fazendeiro de caf\u00e9, e com a qual viveu o<br \/>\npintor dez anos.<\/p>\n<p>Leandro foi o primeiro filho de Oviedo, (Esta circunst\u00e2ncia animou-me a seu<br \/>\nfavor) e o \u00fanico que sobreviveu aos pais. Criou-se na fazenda, mas aos cinco<br \/>\nanos fez com a fam\u00edlia uma viagem \u00e0 Europa, donde voltou com dez, j\u00e1 \u00f3rf\u00e3o<br \/>\nde m\u00e3e. O pai destinava-o ao com\u00e9rcio e quis, ao tornar aqui, p\u00f4-lo de caixeiro<br \/>\nem uma loja de ferragens, mas o padrinho, um tal Gon\u00e7alves, com quem o rapaz<br \/>\nfora habitar de volta ao Brasil, remeteu-o, tr\u00eas anos depois, para um col\u00e9gio<br \/>\nna Inglaterra, donde Leandro voltou aos dezoito de idade, por morte do seu<br \/>\nprotetor. N\u00e3o consegui saber se deste herdou ent\u00e3o alguma coisa; soube, sim,<br \/>\nque nesse tempo fez ele uma excurs\u00e3o pelas prov\u00edncias do sul do Brasil, dando<br \/>\ncom pouco sucesso concertos de piano e bandolim. Dois anos depois morreu-lhe<br \/>\no pai, em completa mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Alguns quadros, e outros objetos que deixou, foram vendidos para pagar o<br \/>\nenterro e o \u00faltimo m\u00eas de tratamento em uma casa de sa\u00fade. Aos vinte anos<br \/>\nentrou Leandro, como amanuense, para a secretaria, onde era segundo oficial<br \/>\nquando pretendeu minha filha.<\/p>\n<p>N\u00e3o me souberam informar se foi bom filho, n\u00e3o descobri quem era ao certo<br \/>\no tal padrinho, que o mandou a educar em Londres, nem tampouco a raz\u00e3o por<br \/>\nque este, homem rico naturalmente, o protegeu tanto em vida, sem dele se lembrar<br \/>\ndepois no testamento; afian\u00e7aram-me, por\u00e9m, que Leandro era mo\u00e7o de bom car\u00e1ter,<br \/>\nregularmente estimado, e que havia rejeitado casamento com a filha de um negociante<br \/>\nforte, mas rapariga feia e pretensiosa. N\u00e3o me constou tamb\u00e9m que se desse<br \/>\nao jogo, tampouco ao \u00e1lcool, nem fizesse loucuras por mulheres de m\u00e1 vida.<br \/>\nDescobri que ultimamente morava ele, havia um ano, numa casa de fam\u00edlia honesta,<br \/>\nque lhe alugava um quarto; e soube que tinha um amigo \u00edntimo, com quem era<br \/>\nvisto sempre aos domingos no clube gin\u00e1stico a que ambos pertenciam, um Le\u00e3o<br \/>\nda Cunha, rapaz rico e viajado, s\u00f3cio comandit\u00e1rio de uma casa de comiss\u00f5es<br \/>\nno Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>E tudo isto descobrimos, C\u00e9sar e eu; tudo desenterramos, por amor de minha<br \/>\nfilha; e foi obtido e foi tudo feito com a m\u00e1xima reserva e discri\u00e7\u00e3o. Leandro,<br \/>\nao que suponho, n\u00e3o desconfiou de coisa nenhuma.<\/p>\n<p>Estudando-o de mais perto reconheci que as suas maneiras eram, de fato, convenientes<br \/>\ne n\u00e3o afetadas para nos engodar durante o namoro; pareceu-me at\u00e9 que, por<br \/>\ndebaixo daquela forte robustez f\u00edsica, havia um car\u00e1ter t\u00edmido e paciente.<br \/>\nNotei com satisfa\u00e7\u00e3o que ele n\u00e3o abusava do fumo e detestava o cachimbo. N\u00e3o<br \/>\nme pareceu absolutamente ambicioso. Falava pouco do seu piano e do seu bandolim.<br \/>\nNo entanto, as suas cartas a Palmira, as quais esta me mostrava sempre, eram<br \/>\ndiscretamente escritas, na forma como no fundo, e pareciam sinceras no que<br \/>\ndiziam de amor.<\/p>\n<p>Convenci-me afinal de que a coisa \u00fanica que me restava a fazer era cas\u00e1-los,<br \/>\ndando ainda gra\u00e7as a Deus por ter-me deparado t\u00e3o bom partido.<\/p>\n<p>Minha filha mostrava-se cada vez mais empenhada por ele, e Leandro cada vez<br \/>\nmais disposto a obedecer-me e respeitar-me nos meus des\u00edgnios. \u00cdamos bem.<\/p>\n<p>Quanto a mim, tomava-lhe j\u00e1 a estima e habituava-me \u00e0 id\u00e9ia de ver nele um<br \/>\nfuturo filho. Tudo, n\u00e3o obstante, dependia da sua boa ou m\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o para<br \/>\naceitar as condi\u00e7\u00f5es do casamento. Deliberei impor-lhe as provas preliminares.<br \/>\nEntrei em campanha &#8211; principiei a contrari\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Comecei a ser sogra!<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>XII<\/h2>\n<p>Meu Deus, como eu, que ali\u00e1s ainda n\u00e3o tinha ent\u00e3o descoberto a terr\u00edvel<br \/>\nlei da incompatibilidade do amor f\u00edsico com o amor moral, me sentia j\u00e1 ansiosa<br \/>\ne apreensiva, pensando no casamento de Palmira! Aquele rapaz, mesmo rigorosamente<br \/>\ndirigido por mim, faria com efeito a felicidade de minha filha?&#8230; Am\u00e1-la-ia<br \/>\ndeveras? Seria ele com efeito um bom mo\u00e7o, ou teria conseguido enganar-nos,<br \/>\ncom os seus gestos de jovem atleta civilizado e com os seus claros sorrisos<br \/>\nde mocidade ol\u00edmpica? Oh! tamb\u00e9m s\u00f3 nisto punha eu todo o meu empenho &#8211; em<br \/>\nque ele n\u00e3o nos iludisse; pois, quanto ao fato da sua pobreza e da sua modesta<br \/>\nproced\u00eancia, longe de fazer-lhe carga, dava-lhe at\u00e9 boas vantagens ao meu<br \/>\nver. Minha filha e eu \u00e9ramos bastante ricas, para n\u00e3o precisarmos perturbar<br \/>\no plano da felicidade dela, e minha, com mais esses frios interesses de dinheiro.<\/p>\n<p>Que era ele um belo exemplar de homem, isso \u00e9 o que ningu\u00e9m poria em d\u00favida,<br \/>\ne isso valia bem pelo dote pecuni\u00e1rio de Palmira; pelo outro, ainda mais bonito<br \/>\nque ela trazia em pureza, inoc\u00eancia e formosura, valeria a boa vontade com<br \/>\nque o noivo aceitasse as estreitas e rigorosas condi\u00e7\u00f5es, que eu lhe ia impor<br \/>\nao casamento. E nesta \u00faltima parte estava o ponto mais delicado da quest\u00e3o;<br \/>\npara realiz\u00e1-la, sem futuros preju\u00edzos dos meus planos de absoluto dom\u00ednio<br \/>\nsobre eles, dispunha-me a empregar todo o esfor\u00e7o e toda a ast\u00facia de que<br \/>\neu fosse capaz; pois, em consci\u00eancia, a verdade era que outro homem j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nqueria eu, nem j\u00e1 me convinha, para cavalheiro de minha filha ou para gerador<br \/>\nde meus netos porque outro com certeza n\u00e3o descobriria eu em condi\u00e7\u00f5es naturais<br \/>\nt\u00e3o boas e perfeitas como Leandro. At\u00e9 a sua pr\u00f3pria mediocridade de intelig\u00eancia<br \/>\nse me afigurava o belo complemento da sua perfei\u00e7\u00e3o de animal humano: &#8211; o<br \/>\ntalento elevado a certo grau \u00e9 sempre, no amor, uma anormalidade perigosa.<br \/>\nAchava-o cada vez melhor e mais pr\u00f3prio para bom marido; achava-o, al\u00e9m disso,<br \/>\nmuito simp\u00e1tico e atraente; achava gra\u00e7a naquele seu tipo moreno p\u00e1lido, de<br \/>\nolhos muito azuis e cabelos muito pretos; at\u00e9 mesmo o crespo sotaque ingl\u00eas,<br \/>\nque a princ\u00edpio lhe estranhei e me fazia torcer o nariz, agora achava eu que<br \/>\nlhe ia bem com o sonoro metal da sua voz masculina e forte.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o me convinha de modo algum que ele alcan\u00e7asse com facilidade<br \/>\na certeza da posse de minha filha. Afastava-os intencionalmente; come\u00e7ava<br \/>\na representar, entre eles dois, o terr\u00edvel papel de linha divis\u00f3ria, de linha<br \/>\nsanit\u00e1ria, estabelecida em guerra contra os trai\u00e7oeiros inimigos das suas<br \/>\nilus\u00f5es de amor. Ah! quanto me custava, e quanto me aprazia ao mesmo tempo,<br \/>\nesse altru\u00edsta e odioso mister de delicada persegui\u00e7\u00e3o! Quanto eu me sentia<br \/>\nir ficando sogra! Mas estava disposta a n\u00e3o me arredar um passo do meu programa,<br \/>\nainda mesmo tendo mais tarde de entestar, como j\u00e1 esperava, com a c\u00f3lera de<br \/>\nmeu genro e com as l\u00e1grimas de minha filha.<\/p>\n<p>Seria muito prefer\u00edvel, em todo o caso, que ela chorasse dessas l\u00e1grimas<br \/>\nde ilus\u00e3o a ter mais tarde de amargar as l\u00e1grimas de desengano que chorei.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O namoro de Leandro ia se tornando tanto mais insistente, quanto mais era<br \/>\npor mim contrariado. S\u00f3 uma vez por semana lhe consentia viesse ver a desejada,<br \/>\nnas noites de recep\u00e7\u00e3o comum, como todos os outros nossos freq\u00fcentadores;<br \/>\ne isso bem percebia eu que o torturava cruelmente.<\/p>\n<p>Vingava-se nas cartas; essas, consentia eu, fingindo ignor\u00e1-las. As cartas<br \/>\nn\u00e3o podiam prejudicar, antes serviam, opostamente, para manter firme a intensidade<br \/>\ndo desejo.<\/p>\n<p>E as coisas assim corriam bem. Ele perseguia e cercava Palmira por toda a<br \/>\nparte e em todos os lugares, no passeio, nos teatros, nas compras \u00e0 rua do<br \/>\nOuvidor; mas, quando me via, antes de ver minha filha, perturbava-se logo,<br \/>\nsem \u00e2nimo de vir ter conosco e contentando-se apenas em cumprimentar-nos com<br \/>\no chap\u00e9u. Coitado! tinha-me medo!<\/p>\n<p>Ah! se ele soubesse todavia quanto o meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 bom!<\/p>\n<p>Pareceu-me chegada a ocasi\u00e3o de preparar o esp\u00edrito de minha filha para a<br \/>\ncampanha j\u00e1 travada. Conversei largamente com ela. Falei-lhe muito do seu<br \/>\ncasamento, n\u00e3o em tom de m\u00e3e ralhadora, mas no de amiga confidente; falei-lhe<br \/>\ncomo se fosse apenas uma sua irm\u00e3 mais velha. Palmira, felizmente, compreendeu<br \/>\ne compenetrou-se do louv\u00e1vel alcance da minha norma de proceder. Disse-lhe<br \/>\nclaramente que a sua felicidade dependia daqueles alicerces; e que ela me<br \/>\ndeixasse, a mim, parecer \u00e0s vezes impertinente e dominada por esp\u00edrito de<br \/>\ncontrariedade; que deixasse, confiante no futuro; n\u00e3o era natural que estivesse<br \/>\neu em erro, porque toda a complicada arquitetura do edif\u00edcio daquela felicidade<br \/>\ntinha a sua base na experi\u00eancia dos fatos essenciais da vida dom\u00e9stica e no<br \/>\nprofundo estudo da desgra\u00e7a do amor conjugal. Ela, ameigando-me contente jurou<br \/>\nque de corpo e alma se entregaria \u00e0s minhas m\u00e3os, e que nem s\u00f3 me obedeceria<br \/>\nsempre, mesmo depois de casada, como ainda havia de ajudar-me na execu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos meus des\u00edgnios.<\/p>\n<p>Abra\u00e7amo-nos, satisfeitas e concertadas com aquela confer\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Olha! disse-lhe, em remate. Asseguro-te \u00e9 que, at\u00e9 hoje, m\u00e3e nenhuma pensou<br \/>\nna felicidade de sua filha com tamanha dedica\u00e7\u00e3o, nem fez por ela os sacrif\u00edcios<br \/>\nque por ti afronto, minha Palmira. O menos que me pode acontecer \u00e9 ser amaldi\u00e7oada<br \/>\npor teu futuro marido, por quem ali\u00e1s devia eu ter o direito de ser amada<br \/>\ncomo verdadeira protetora. Ah! n\u00e3o me iludo neste ponto! N\u00e3o procuro enganar-me<br \/>\n&#8211; bem sei o que me espera!&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte a esta conversa, que sem d\u00favida ia ter uma grande influ\u00eancia<br \/>\nmoral no destino de minha filha, mandei preparar as malas e parti com ela<br \/>\npara Petr\u00f3polis, combinando entre n\u00f3s duas que de nada se daria parte ao pretendente.<br \/>\nManobra de guerra! Queria provocar o inimigo. A minha retirada brusca era<br \/>\nsimples nega\u00e7a feita ao assaltante. Convinha que Leandro, desde logo, se fosse<br \/>\nhabituando ao meu sistema estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>Produziu efeito. Ele, tr\u00eas dias depois, surgia-nos por l\u00e1, com um ar de hesita\u00e7\u00e3o<br \/>\nsolerte e um grande ramo de cam\u00e9lias frescas. Recebi por minha parte a visita<br \/>\num pouco friamente, e nenhuma de n\u00f3s duas insistiu com ele para que se demorasse.<br \/>\nO rapaz, logo \u00e0 primeira despedida, foi-se, escabreado e vermelho de confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Como no outro dia, encontrando-nos na rua, se embandasse conosco para um<br \/>\npasseio \u00e0 Renana e declarasse que passaria o resto do m\u00eas em Petr\u00f3polis, tocamos<br \/>\nna manh\u00e3 seguinte para a cidade, sem que ele desse pela nossa retirada. Palmira<br \/>\ntentara interceder desta vez pelo namorado; arriscara mesmo a s\u00faplica de um<br \/>\ndia mais de demora; eu, por\u00e9m, cortei-lhe a palavra com um olhar, em que a<br \/>\npobre crian\u00e7a leu toda a inutilidade da sua pretens\u00e3o.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Foi um m\u00eas depois disso que se deu o pedido de casamento.<\/p>\n<p>Era domingo; t\u00ednhamos acabado de jantar e hav\u00edamos passado para o gabinete<br \/>\nde trabalho que fora de meu marido, quando, depois de ouvir parar um carro<br \/>\n\u00e0 porta da rua, veio o criado anunciar-me que o Sr. Leandro, vestido de casaca,<br \/>\nestava \u00e0 espera na saleta do corredor e desejava falar-me.<\/p>\n<p>Compreendi logo do que se tratava: C\u00e9sar j\u00e1 me tinha preparado; mas nem por<br \/>\nisso foi menos agudo o choque que senti no cora\u00e7\u00e3o. Troquei um olhar com Palmira,<br \/>\nque abaixou as p\u00e1lpebras enrubescendo. Mandei que o criado conduzisse o visitante<br \/>\npara o sal\u00e3o, e disse depois a minha filha, cujo crescente sobressalto lhe<br \/>\nfazia arfarem os seios, que se n\u00e3o nos apresentasse sem ser chamada; passei-lhe<br \/>\ncom os olhos uma r\u00e1pida revista da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, fiz-lhe ligeiras corre\u00e7\u00f5es<br \/>\nno penteado, dei-lhe um beijo e sa\u00ed do gabinete.<\/p>\n<p>\u00d3 meu Deus! ia travar-se o grande momento, que de antem\u00e3o me fazia tremer<br \/>\nde medo; medo de que o rid\u00edculo, num s\u00f3 instante, derribasse todos os meus<br \/>\ncastelos de m\u00e3e amorosa e sonhadora. O que iria passar-se naquela sala entre<br \/>\nmim e o pretendente de minha filha?&#8230; Mas era preciso n\u00e3o hesitar no que<br \/>\nestava por mim determinado, porque assim exigia a felicidade dela! Entrei<br \/>\num instante no quarto do orat\u00f3rio e, numa ligeira s\u00faplica, pedi coragem a<br \/>\nDeus; segui depois at\u00e9 ao toucador, alisei melhor os cabelos sobre as fontes,<br \/>\ncorri os olhos rapidamente pela roupa, e fui ter com a visita.<\/p>\n<p>Entrei na sala vagarosamente, afetando grande tranq\u00fcilidade; havia, por\u00e9m,<br \/>\nde estar ainda ofegante e p\u00e1lida.<\/p>\n<p>Leandro mostrava-se francamente comovido. Ao ver-me, precipitou-se ao meu<br \/>\nencontro e balbuciou algumas palavras de cortesia, que lhe n\u00e3o passaram dos<br \/>\nl\u00e1bios.<\/p>\n<p>Fi-lo assentar-se e assentei-me perto dele.<\/p>\n<p>Com prazer notei que o belo mo\u00e7o, assim em alto trajo, mais belo ainda me<br \/>\nparecia. Tinha aparado a barba, os dentes luziam-lhe como se fossem de um<br \/>\nmetal branco e polido, e os seus grandes olhos de safira pareciam j\u00f3ias coruscantes.<br \/>\nA casaca assentava-lhe muito bem, desenhando-lhe a cinta esbelta, fazendo<br \/>\nsobressair o seu busto altivo, e deixando em desembara\u00e7o a rica musculatura<br \/>\ndas coxas. E a como\u00e7\u00e3o enriquecia-lhe mais o rosto com uma austera palidez<br \/>\nde m\u00e1rmore consagrado pelos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Depois que o meu esp\u00edrito atingiu o seu pleno desenvolvimento, sempre achei<br \/>\no homem mais belo que a mulher; ou por outra: achei que a beleza do homem<br \/>\nera mais valiosa que a beleza feminina, como de resto se observa geralmente<br \/>\nnas v\u00e1rias esp\u00e9cies de animais inferiores.<\/p>\n<p>A mulher tem encantos, mas o homem tem real beleza. Nos encantos da mulher<br \/>\nh\u00e1 todos os perturbadores mist\u00e9rios da vol\u00fapia terrestre, mas na serena e<br \/>\nm\u00e1scula beleza do homem h\u00e1 sempre um qu\u00ea de divino e sagrado. Nenhum homem<br \/>\nser\u00e1 capaz de impressionar-se pelos encantos f\u00edsicos de uma mulher, sem que<br \/>\nnisso entre o concurso dos seus sentidos; ao passo que qualquer mulher pode<br \/>\nadmirar um homem belo, sem desej\u00e1-lo sensualmente. \u00c9 assim que n\u00f3s mulheres<br \/>\namamos Jesus Cristo; e se Maria, a formosa Virgem Sant\u00edssima, n\u00e3o tivesse,<br \/>\npara resguardar a sua enamorada e fr\u00e1gil boniteza de mulher, a celestial e<br \/>\nsacrossanta aur\u00e9ola de m\u00e3e de Deus, o que seria de ti, \u00f3 doce, po\u00e9tico e venerando<br \/>\nprest\u00edgio do Catolicismo?&#8230;<\/p>\n<p>Cristo atravessa os s\u00e9culos, todo nu, de bra\u00e7os abertos para a humanidade,<br \/>\ne a sua nudez de homem jamais trouxe rubor de pejo \u00e0s faces da donzela, nem<br \/>\nacordou desejos no peito das mulheres.<\/p>\n<p>Mas se despissem Maria das castas vestimentas que lhe escondem o divino corpo,<br \/>\nela deixaria de ser a piedosa e c\u00e2ndida rainha dos c\u00e9us, e seria V\u00eanus, a<br \/>\ndeusa do amor e do pecado.<\/p>\n<p>Estas considera\u00e7\u00f5es fi-las eu defronte do homem a quem minha filha chamava,<br \/>\nde bra\u00e7os abertos e l\u00e1bios postos em beijo, atrav\u00e9s das alvas e rendilhadas<br \/>\np\u00e9talas do seu leito virginal &#8211; grande l\u00edrio branco, embalsamado e puro, que<br \/>\nfranqueava a sua urna de amor ao resplandecente inseto fecundante.<\/p>\n<p>Palmira tinha inteira raz\u00e3o em cham\u00e1-lo e desej\u00e1-lo com tamanho amor: um<br \/>\nhomem perfeito como aquele \u00e9 a melhor obra de Deus. A mulher, essa lhe \u00e9 t\u00e3o<br \/>\ninferior, em todos os sentidos, que n\u00e3o chega a ser o seu par, mas um simples<br \/>\ncomplemento dele. A perfei\u00e7\u00e3o da mulher n\u00e3o \u00e9 absoluta, como a do homem, \u00e9<br \/>\nrelativa. Se o homem tivesse sempre a compreens\u00e3o justa do seu pr\u00f3prio valimento<br \/>\ne da superioridade, havia de ser para a pobre mulher muito melhor do que \u00e9<br \/>\ncom efeito; seria verdadeiramente o seu protetor moral, o seu bom e paternal<br \/>\namigo, e n\u00e3o o seu ego\u00edsta e sensual advers\u00e1rio. E quando um homem se colocasse,<br \/>\ncomo muita vez sucede, ao n\u00edvel da fraqueza de uma mulher, para engan\u00e1-la<br \/>\nde igual a igual, teria vergonha e remorsos de haver com isso cometido a mais<br \/>\ndegradante covardia que \u00e9 poss\u00edvel no seu sexo. Se esse poderoso, belo e adorado<br \/>\nanimal, que tem forma de Deus, e que nos governa brutalmente, compreendesse<br \/>\na responsabilidade da sua for\u00e7a &#8211; quando um homem de trinta anos conseguisse<br \/>\niludir uma rapariga de quinze, ele, e n\u00e3o ela, \u00e9 que ficaria desonrado.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>&#8211; Minha senhora&#8230; balbuciou Leandro, afinal, vergando-se para falar-me de<br \/>\nmais perto.<\/p>\n<p>E eu interrompi meus pensamentos, para escut\u00e1-lo. E inclinei-me tamb\u00e9m, dizendo<br \/>\na meia voz:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Estou \u00e0s suas ordens, am\u00e1vel senhor. Pode dizer qual \u00e9 o motivo da<br \/>\nsua visita&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>XIII<\/h2>\n<p>&#8211; Antes de falar, minha senhora, no delicado objeto que aqui me traz&#8230; principiou<br \/>\nLeandro, com a voz um pouco alterada, preciso da pr\u00e9via garantia do seu perd\u00e3o,<br \/>\nsem o que n\u00e3o teria \u00e2nimo de cometer semelhante atrevimento&#8230;<\/p>\n<p>Autorizei-o a que falasse e prometi a minha indulg\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Imagine, minha generosa senhora, continuou ele, imagine como devo tremer<br \/>\nem sua presen\u00e7a&#8230; Juro-lhe que, se o meu amor n\u00e3o me merecesse todos os sacrif\u00edcios<br \/>\ne n\u00e3o me tivesse roubado a raz\u00e3o, n\u00e3o cometeria eu a loucura, a temeridade,<br \/>\no crime talvez, que estou agora perpetrando&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Continue, acudi, sem modificar a minha fisionomia.<\/p>\n<p>&#8211; Imagine, minha senhora: eu, que nada sou; um pobre diabo sem passado e<br \/>\nsem futuro, filho de uma uni\u00e3o irregular, atrevo-me a vir pedir-lhe me conceda<br \/>\ntudo o que h\u00e1 de melhor no mundo; tudo o que h\u00e1 de mais puro, de mais belo,<br \/>\nde mais ideal! Imagine que eu, um desgra\u00e7ado, tenho o desvairamento de pedir-lhe<br \/>\na m\u00e3o de&#8230;<\/p>\n<p>Hesitou, abaixando os olhos. Compreendi que, a menor palavra de recusa, o<br \/>\npranto rebentaria deles com viol\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor est\u00e1 autorizado por minha filha a fazer-me semelhante pedido?<br \/>\nperguntei-lhe depois de uma pausa, em que ouvia a larga respira\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha senhora.<\/p>\n<p>&#8211; E, no caso que obtenha o meu consentimento, estar\u00e1 o senhor disposto a<br \/>\nfaz\u00ea-la feliz, como eu o entendo?<\/p>\n<p>&#8211; Juro! exclamou o rapaz.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o jure ainda, sem primeiro responder-me, se j\u00e1 sabe como \u00e9 que tem<br \/>\nde a fazer feliz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Minha senhora, volveu Leandro, reanimado por estas palavras e aproximando<br \/>\na sua cadeira para mais perto da minha, ainda h\u00e1 pouco n\u00e3o pude entrar em<br \/>\npormenores, nem disse quase nada do que trago a inten\u00e7\u00e3o de dizer&#8230; V. Ex.a<br \/>\ncompreender\u00e1 sem d\u00favida o meu estado de como\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Fale.<\/p>\n<p>&#8211; Minha senhora, eu adoro sua filha, e sei, e sinto, e afian\u00e7o, que nunca<br \/>\nmais amarei assim outra pessoa em toda a minha vida! Juro que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! &#8211; interrompi. &#8211; N\u00e3o prometa coisa nenhuma! Fale s\u00f3 do presente; deixe<br \/>\nl\u00e1 o futuro que a Deus pertence! Quem pode nesta vida determinar com seguran\u00e7a<br \/>\nalguma coisa futura?&#8230; Pois se pelo passado, que j\u00e1 est\u00e1 vivido, nem sempre<br \/>\npodemos responder, porque ele \u00e0s vezes nos foge da mem\u00f3ria, como quer o senhor<br \/>\nlegislar sobre o porvir, ainda todo incerto? Fale-me do presente!<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz\u00e3o, minha senhora, e consinta que eu prossiga: Amo loucamente a<br \/>\nsenhora sua filha e s\u00f3 com ela posso compreender uma uni\u00e3o eterna&#8230; Mas,<br \/>\nV. Ex.as s\u00e3o ricas e eu sou pobre&#8230; ganho pouco; esse pouco, por\u00e9m, chega<br \/>\ncom economia para duas pessoas resignadas&#8230; Entretanto, se ela pr\u00f3pria me<br \/>\nn\u00e3o tivesse jurado aceitar com satisfa\u00e7\u00e3o o sacrif\u00edcio de partilhar da minha<br \/>\npobreza, n\u00e3o faria a V. Ex.a, nem por pensamento, o temer\u00e1rio pedido que acabo<br \/>\nde fazer. Desejo que V. Ex.a me conceda sua filha, sem outro dote al\u00e9m das<br \/>\nvirtudes que a enobrecem e al\u00e9m dos seus encantos pessoais&#8230;<\/p>\n<p>Eu sorri. N\u00e3o sei se era sincero o que ele dizia. Talvez fosse, porque a<br \/>\nmocidade \u00e9 quase sempre generosa e o primeiro amor \u00e9 leal e adora o sacrif\u00edcio.<br \/>\nMas a id\u00e9ia, de consentir que minha filha partilhasse do magro ordenado de<br \/>\num amanuense de secretaria, pareceu-me infinitamente extravagante.<\/p>\n<p>J\u00e1 se v\u00ea que entrava no meu sorriso um pouco de vaidade; qual \u00e9, por\u00e9m, o<br \/>\nnosso ato social em que a vaidade n\u00e3o entre em grande ou pequena dose?<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Jos\u00e9 Leandro de Oviedo, declarei-lhe formalmente &#8211; o dote de minha<br \/>\nfilha pertence a minha filha. Dele partilhar\u00e1 a pessoa que se casar com ela;<br \/>\ne se dela tiver filhos, herdar\u00e1 de mim, como a esposa, o que eu por minha<br \/>\nvez herdei de meus pais, de meu sogro e de meu marido. Isso \u00e9 quest\u00e3o assentada<br \/>\ne nem \u00e9 disso que conv\u00e9m tratar aqui. Entendo que tanto pode dignamente um<br \/>\nmo\u00e7o pobre casar com uma mo\u00e7a rica, como um rico dar a m\u00e3o de esposo a uma<br \/>\npobre, desde que essa uni\u00e3o seja inspirada no interesse do amor e n\u00e3o no interesse<br \/>\ndo dinheiro. As id\u00e9ias a isso contr\u00e1rias s\u00e3o c\u00f3pia de mal-entendido orgulho<br \/>\ndo homem. Entendem eles que uma mulher deve aceitar tudo das m\u00e3os do marido,<br \/>\ne que este no entanto fica humilhado recebendo iguais benef\u00edcios da m\u00e3o da<br \/>\nconsorte. N\u00e3o \u00e9 m\u00e1 essa moral! Que o homem fa\u00e7a do casamento um meio de enriquecer,<br \/>\nacho indigno, como igualmente acho se o fizer a mulher; se o cons\u00f3rcio, por\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o for obra do dote e sim do amor, nada mais curial que os dois dividam amigavelmente<br \/>\nentre si o que um deles possua, e que vivam felizes. Mas, gra\u00e7as a Deus, tanto<br \/>\nminha filha como eu, somos bastante ricas para nos n\u00e3o preocuparmos em saber<br \/>\nse o noivo dela traz ou n\u00e3o traz bens de fortuna; mesmo porque o casamento<br \/>\nde Palmira n\u00e3o ser\u00e1 um casamento vulgar, e coisas muito mais s\u00e9rias que o<br \/>\ndinheiro t\u00eam de ser discutidas nesta ocasi\u00e3o, aqui entre n\u00f3s dois. Ponhamos<br \/>\npois de parte a quest\u00e3o pecuni\u00e1ria. N\u00e3o se persuada, todavia, o senhor de<br \/>\nque, por n\u00e3o trazer dote, esteja dispensado de dot\u00e1-la. A retribui\u00e7\u00e3o que<br \/>\nexijo \u00e9 de outra esp\u00e9cie, mas n\u00e3o \u00e9 por isso menos valiosa que o dote dela&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; V. Ex.a tenha a bondade de dizer o que exige de mim. Seja o que for, estou<br \/>\npronto a cumprir! E o que n\u00e3o faria eu para alcan\u00e7ar t\u00e3o grande e sublime<br \/>\npr\u00eamio?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Pois responda \u00e0s perguntas que lhe vou fazer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Estou inteiramente \u00e0s suas ordens, minha senhora.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0O senhor ama minha filha tanto quanto diz?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Juro que a amo tanto quanto \u00e9 poss\u00edvel!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0E ser\u00e1 capaz de um grande sacrif\u00edcio para obt\u00ea-la em casamento?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Desde que n\u00e3o seja um sacrif\u00edcio de honra&#8230; estou disposto a tudo!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um sacrif\u00edcio de honra, e antes de prosseguir, declaro-lhe que<br \/>\nminha filha \u00e9 pura, perfeitamente pura!<\/p>\n<p>&#8211; Posso ent\u00e3o jurar que, seja qual for o sacrif\u00edcio, eu o farei, minha senhora!<\/p>\n<p>&#8211; E como me provar\u00e1 o senhor que \u00e9 um homem de honra, para que sua palavra<br \/>\nme sirva de garantia?<\/p>\n<p>&#8211; Pode V. Ex.a indagar a meu respeito de todas as pessoas que me conhecem.<br \/>\nAt\u00e9 hoje tenho sido um homem honrado: nunca faltei \u00e0 minha palavra, nem cometi<br \/>\na\u00e7\u00e3o que pudesse desdourar o meu car\u00e1ter&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E como garantir a sua palavra?<\/p>\n<p>&#8211; Posso assinar um documento, um t\u00edtulo de honra. Aceito as condi\u00e7\u00f5es que<br \/>\nV. Ex.a exigir&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o o senhor assinar\u00e1 uma declara\u00e7\u00e3o, formal e precisa, dirigida<br \/>\n\u00e0 pol\u00edcia, dizendo que a ningu\u00e9m devem atribuir a autoria da sua morte, porque<br \/>\nfoi o senhor mesmo quem p\u00f4s termo aos seus dias. E empenhar\u00e1 comigo a sua<br \/>\npalavra de honra em como a ningu\u00e9m revelar\u00e1 a exist\u00eancia desse documento;<br \/>\ndocumento que ser\u00e1 reformado de tr\u00eas em tr\u00eas meses. Aceita?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0E \u00e9 esse o sacrif\u00edcio que V. Ex.a exige de mim?&#8230; perguntou Leandro,<br \/>\na sorrir.]<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, respondi eu, muito s\u00e9ria &#8211; isso \u00e9 apenas a garantia da sua palavra<br \/>\ne da minha impunidade, caso tenha eu algum dia de elimin\u00e1-lo para sempre de<br \/>\nminha fam\u00edlia. Esse documento s\u00f3 servir\u00e1 na hip\u00f3tese de que o senhor falte<br \/>\nao cumprimento de sua palavra, porque ent\u00e3o, juro-lhe que o farei matar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ah!<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida. E ainda est\u00e1 em tempo de voltar atr\u00e1s. O senhor ainda se n\u00e3o<br \/>\ncomprometeu comigo a coisa alguma.<\/p>\n<p>&#8211; Recuar? Acha V. Ex.a que eu possa recuar, desistir da \u00fanica felicidade<br \/>\nque ambiciono neste mundo?!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Pense bem, antes de responder&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 que pensar! Uma recusa em nada me adiantaria; V. Ex.a disp\u00f5e j\u00e1<br \/>\nde minha vida; tem-na fechada na m\u00e3o! Tanto vale dar-me a morte, negando-me<br \/>\nsua filha, como me fazendo assassinar.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0O senhor s\u00f3 ser\u00e1 assassinado se n\u00e3o cumprir com a sua palavra.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Tenha a bondade de dizer o que exige de mim.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 pouco. O senhor, depois de casado com minha filha, n\u00e3o coabitar\u00e1 com<br \/>\nela; o senhor morar\u00e1 s\u00f3, numa boa casa, bem servida e bem mobiliada, que porei<br \/>\n\u00e0s suas ordens; ao passo que Palmira continuar\u00e1 a residir em minha companhia<br \/>\ne s\u00f3 estar\u00e1 com o marido o tempo e \u00e0s vezes que eu consentir. Serve-lhe?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Mas eu terei ent\u00e3o de viver separado de minha esposa?<\/p>\n<p>&#8211; Separado totalmente, n\u00e3o. O senhor poder\u00e1 v\u00ea-la e estar com ela freq\u00fcentemente,<br \/>\nn\u00e3o digo todos os dias, mas quase todos. Prometo mesmo que minha filha passar\u00e1<br \/>\nao lado do marido um ou mais dias; levo at\u00e9 a condescend\u00eancia a tolerar que<br \/>\nfiquem juntos uma ou outra noite. Mas, desde que eu a reclame ou v\u00e1 busc\u00e1-la,<br \/>\no senhor n\u00e3o poder\u00e1 opor-se a que ela venha para a minha companhia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; V. Ex.a est\u00e1 gracejando com certeza&#8230; ou supor\u00e1 que a minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\npriv\u00e1-la de ver a senhora sua filha todas as vezes que quiser? Mas, se assim<br \/>\nfor, valha-me Deus! n\u00e3o vejo raz\u00e3o para n\u00e3o morarmos juntos!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o! N\u00e3o estou gracejando, nem admitirei, nunca, que o senhor more<br \/>\nconosco. Nunca! E s\u00f3 consinto no casamento, sob as condi\u00e7\u00f5es expostas. Se<br \/>\nelas lhe conv\u00eam, o senhor passar\u00e1 o documento, e minha filha ser\u00e1 sua esposa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Mas, permita, minha senhora, que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 in\u00fatil, senhor, toda e qualquer reclama\u00e7\u00e3o. Repito que s\u00f3 consentirei<br \/>\nno casamento de minha filha com o senhor, ou seja com quem for, nas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\napresentadas. Se quer algum tempo para refletir, pode retirar-se; dou-lhe<br \/>\nquinze dias.<\/p>\n<p>Leandro, que agora parecia ouvir minhas palavras como ouve um condenado a<br \/>\nsenten\u00e7a de morte, apertava os l\u00e1bios, franzia as sobrancelhas e cerrava os<br \/>\npunhos, mal contendo a sua agonia. Afinal, disse com o ar submisso e a voz<br \/>\nresignada:<\/p>\n<p>&#8211; Para que refletir, minha senhora?&#8230; Estou disposto e estou pronto para<br \/>\ntudo. Aceito o compromisso!<\/p>\n<p>&#8211; Pois a\u00ed, na saleta ao lado, declarei, erguendo-me da cadeira &#8211; encontrar\u00e1<br \/>\no senhor papel e tinta; passe o documento pela minuta que lhe vou dar. J\u00e1<br \/>\na tenho escrita. Com licen\u00e7a.<\/p>\n<p>E sa\u00ed da sala, para ir buscar a minuta \u00e0 gaveta da minha secret\u00e1ria, e principalmente<br \/>\npara respirar, no al\u00edvio daquela solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ah! felizmente estava passado o grande escolho!<\/p>\n<p>De volta fui ter com Palmira. \u00c0 minha primeira palavra, ela declarou, enrubescendo<br \/>\ne sorrindo, que ouvira toda a minha conversa com Leandro.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Bisbilhoteira!&#8230; E o que tens tu a observar?&#8230; perguntei-lhe.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Eu?&#8230; Mam\u00e3e bem sabe que sempre acho bem feito tudo o que a senhora<br \/>\nfizer&#8230;<\/p>\n<p>Dei-lhe um beijo na testa e voltei ao sal\u00e3o, depois de fazer-lhe sinal que<br \/>\npodia vir tamb\u00e9m.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>XIV<\/h2>\n<p>Ai, quanto me custou a levar a cabo aquela singular confer\u00eancia com meu futuro<br \/>\ngenro!&#8230; Como devia eu parecer-lhe caprichosa e rid\u00edcula!&#8230; Mas est\u00e1 claro<br \/>\nque n\u00e3o havia de sacrificar minha filha a um falso escr\u00fapulo de momento, a<br \/>\num miser\u00e1vel ego\u00edsmo de minha vaidade pessoal. Seria covardia indigna de mim<br \/>\n&#8211; abandonar, \u00e0 primeira dificuldade da capanha, todo o meu trabalho de tanto<br \/>\ntempo, e comprometer para sempre a felicidade de Palmira e por conseguinte<br \/>\na minha pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Depois do pedido, principiamos logo a cuidar dos aprestos para o casamento.<br \/>\nMandei preparar a casa do noivo, e dispus com todo o esmero, l\u00e1 em minha resid\u00eancia,<br \/>\nos aposentos destinados \u00e0 noiva. Eu e minha filha acompanhamos as obras com<br \/>\nigual empenho e dedica\u00e7\u00e3o. Tanto em uma casa como na outra, tudo se fez para<br \/>\no completo conforto de um par; dir-se-ia que se tratava de acomoda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\nde um, mas de dois casais.<\/p>\n<p>Para meu futuro genro destaquei um pequeno e galante pr\u00e9dio que possu\u00edamos<br \/>\nem Botafogo. Ficou excelente depois de bem mobiliado e guarnecido com esmero.<br \/>\nPara minha filha mandei arranjar, l\u00e1 em nossa casa nas Laranjeiras, onde ela<br \/>\nnascera e onde eu habitava havia vinte e dois anos, uma sala, uma larga alcova<br \/>\nde casados, um quarto de estudo e orat\u00f3rio, outro de vestir, e um c\u00f4modo de<br \/>\ntoucador e banho; tudo isso independente, por modo que ela ficasse em liberdade<br \/>\ne pudesse ter as suas entrevistas com o marido, quando as n\u00e3o realizasse em<br \/>\ncasa dele. Ficou tudo muito bom.<\/p>\n<p>Os enxovais tamb\u00e9m foram aviados em duplicata, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o, bem visto, do vestido<br \/>\nda noiva. Em qualquer das duas habita\u00e7\u00f5es podia um casal instalar-se comodamente.<br \/>\nMinha filha palpitava de alegria no antegozo do seu amor, e eu sentia-me feliz<br \/>\npor v\u00ea-la feliz; mas ningu\u00e9m poder\u00e1 calcular a dose de energia e a const\u00e2ncia<br \/>\nde car\u00e1ter que tive de p\u00f4r em a\u00e7\u00e3o, para impedir que o noivo interferisse<br \/>\ne se intrometesse nestes arranjos dom\u00e9sticos, e n\u00e3o estivesse sempre encarapichado<br \/>\n\u00e0s nossas saias. O pobre rapaz queria tamb\u00e9m, como \u00e9 do costume no Brasil,<br \/>\nvir todas as noites visitar a noive e pespegar-se ao lado dela durante o ser\u00e3o<br \/>\nat\u00e9 o momento de servir-se o ch\u00e1. N\u00e3o faltava mais nada! desalojei-o logo<br \/>\ndessa pretens\u00e3o, declarando que a ningu\u00e9m receb\u00edamos sen\u00e3o \u00e0s quartas-feiras;<br \/>\nmas, o dem\u00f4nio insistiu, recorrendo para vencer-me a todos os carinhosos recursos<br \/>\nda adula\u00e7\u00e3o; e afinal, refor\u00e7ando suas s\u00faplicas com as de Palmira, conseguiram<br \/>\nos dois apanhar-me mais um dia na semana, que ficou sendo o Domingo.<\/p>\n<p>S\u00f3 nas v\u00e9speras do casamento permiti que se vissem todos os dias.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Por essa ocasi\u00e3o realizamos os tr\u00eas, e mais o meu velho amigo C\u00e9sar, um belo<br \/>\npasseio \u00e0 Floresta da Tijuca.<\/p>\n<p>Ao despontar de sol est\u00e1vamos j\u00e1 \u00e0 raiz da serra. Lev\u00e1vamos farnel e um criado<br \/>\npara tomar conta dele. Deixamos na cocheira daquele ponto o carro que nos<br \/>\nconduziu at\u00e9 a\u00ed, e tomamos, para subir a formosa cordilheira, uma vit\u00f3ria<br \/>\nde dois lugares, onde eu iria com C\u00e9sar, e em cuja bol\u00e9ia o criado se arranjaria<br \/>\ncom o farnel. Palmira e Leandro tinham, prontos \u00e0 sua espera, dois cavalos<br \/>\nescolhidos.<\/p>\n<p>Era outubro, e a manh\u00e3 sa\u00edra-nos encantadora. Foi deliciosa a subida at\u00e9<br \/>\no alto da serra, por entre as vegeta\u00e7\u00f5es e os penhascos da estrada, ao primeiro<br \/>\ntransbordamento do dia. A quaresma e a sucupira abriam j\u00e1, na sombra azul<br \/>\ndas matas, flores roxas e amarelas. Inebriava o esp\u00edrito deslizar suavemente<br \/>\nnaquele vasto rescender de aromas resinosos, ao hino matinal dos campos, que<br \/>\nse iam, ainda mal acordados dos seus sonhos de opala, pregui\u00e7osamente desnevoando<br \/>\n\u00e0 dourada fulgura\u00e7\u00e3o da luz nascente.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos quisemos deter na cascatinha, e continuamos a subir para a Floresta.<\/p>\n<p>A Floresta! Ah! quantas recorda\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinha eu desses lugares, onde tantas<br \/>\nvezes passeei pelo bra\u00e7o de Virg\u00edlio, antes do nosso casamento, antes da nossa<br \/>\ndesilus\u00e3o, quando eu ainda o amava com amor de mulher! C\u00e9sar ao meu lado,<br \/>\nno carro, parecia tamb\u00e9m esquecido nas suas saudades, porque ia abstrato e<br \/>\nmudo, olhando fixamente o misterioso horizonte de verdura, com as m\u00e3os sobpostas<br \/>\nao queixo e firmadas no cast\u00e3o da sua bengala.<\/p>\n<p>Palmira e Leandro seguiam adiante cavalgando emparelhados, a rir e a conversar,<br \/>\ng\u00e1rrulos e donairosos. Ah! esses n\u00e3o ficavam quietos e calados um s\u00f3 instante,<br \/>\nporque iam vivendo do presente e do futuro. Avan\u00e7avam a galope, resplendentes<br \/>\ne soberbos no orgulho do seu amor e da sua mocidade, sem volver para tr\u00e1s<br \/>\nos olhos enamorados; alheios a tudo, encarando com desd\u00e9m o resto do mundo,<br \/>\ncomo do alto da montaria olhavam no caminho as pobres cambaxilras, que esvoa\u00e7avam<br \/>\nescorra\u00e7adas fugindo e gralheando \u00e0 sua vitoriosa passagem.<\/p>\n<p>Penetramos no cora\u00e7\u00e3o da Floresta. Minha alma, de comovida, abriu-se de par<br \/>\nem par, num \u00eaxtase contrito, num doce e profundo enlevo religioso. Tive vontade<br \/>\nde ajoelhar-me \u00e0 sombra das velhas \u00e1rvores e chorar.<\/p>\n<p>Como eu te amava ainda, casto para\u00edso das minhas saudades! \u00f3 minha querida<br \/>\nfloresta! N\u00e3o tinhas, como eu, envelhecido, odorante e sombrio templo de verdura!<br \/>\nencontrei-te mo\u00e7a e garrida como te deixara, e como a mim tinhas visto, dantes,<br \/>\nmuito dantes, \u00e0 flor da minha juventude; o que agora te n\u00e3o achei foi t\u00e3o<br \/>\nminha amiga, t\u00e3o minha confidente e t\u00e3o comunicativa como dantes. Eras alegre,<br \/>\npara\u00edso! achei-te triste!<\/p>\n<p>N\u00e3o! j\u00e1 n\u00e3o eras para mim o mesmo \u00e9den carinhoso e sorridente, que com todas<br \/>\nas tuas vozes me falavas de amor e de vida! Reconheci as tuas m\u00edsticas estradas<br \/>\nmurmurantes; os teus brancos caminhos serpeados entre montanhas de veludo<br \/>\nverde; as tuas \u00e1rvores patriarcais, de longas barbas venerandas, em que se<br \/>\nengrimpam e dependuram orqu\u00eddeas e parasitas; o teu lago quieto e melanc\u00f3lico,<br \/>\nem que as taquaras e samambaias se miram furtivamente, por entre a esparsa<br \/>\ne mergulhada cabeleira das algas e nen\u00fafares; reconheci a m\u00fasica plangente<br \/>\ndas tuas \u00e1guas rebatidas, de cascata em cascata, a sombra amor\u00e1vel e doce<br \/>\ndas tuas grutas escondidas; reconheci tudo isso, todas essas paragens encantadas;<br \/>\nmas j\u00e1 n\u00e3o eras a mesma para mim, Floresta, que me embalaste os sonhos de<br \/>\nesperan\u00e7a!<\/p>\n<p>Oh! como Palmira nesse mesmo instante devia achar-te alegre, triste Floresta!<br \/>\nTriste e morto para\u00edso de saudades!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Em que cisma, minha amiga?&#8230; perguntou-me C\u00e9sar, tomando-me uma das<br \/>\nm\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; No mesmo em que voc\u00ea pensava ainda h\u00e1 pouco &#8211; no passado&#8230; Cismas de velho!&#8230;<\/p>\n<p>E suspiramos ambos, desconsoladamente.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Voltei desse longo passeio, de um dia inteiro, com uma fria impress\u00e3o de<br \/>\ntristeza, que se n\u00e3o dissolveu em l\u00e1grimas, mas que enlutou de sombras dolorosas<br \/>\no meu velho cora\u00e7\u00e3o de mulher.<\/p>\n<p>E comigo foi sempre assim, muito antes mesmo da velhice. A contempla\u00e7\u00e3o de<br \/>\nbelas paisagens como a da Floresta, as grandes obras de arte, a m\u00fasica principalmente,<br \/>\ndeixavam-me na alma um amargo ressaibo de melancolia insol\u00favel. Atribu\u00eda isso,<br \/>\nent\u00e3o, ao fato de nunca ter sido, em nenhum tempo de minha vida, completamente<br \/>\nfeliz. Essa tristeza era como que, n\u00e3o a saudade, mas a desconsola\u00e7\u00e3o de quem<br \/>\nentreviu, compreendeu e sentiu a ventura natural do viver inteiro e completo,<br \/>\nsem nunca poder atingi-la, sem esperan\u00e7as de goz\u00e1-la ainda depois, j\u00e1 na velhice,<br \/>\nse acha afinal sem esperan\u00e7as de goz\u00e1-la ainda algum dia, nesta, ou noutra<br \/>\nqualquer exist\u00eancia. Era o fl\u00e9bil ressentimento de um pobre cora\u00e7\u00e3o espoliado<br \/>\ne vencido.<\/p>\n<p>E j\u00e1 agora confesso tudo: cheguei a ter uma incogit\u00e1vel ponta de inveja por<br \/>\nminha filha&#8230; Mas n\u00e3o invejava a noiva, invejava a felicidade de mulher que<br \/>\na esperava, feita e preparada por mim. Ah! eu n\u00e3o tivera m\u00e3e, como ela me<br \/>\npossu\u00eda!&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o me fartava de contempl\u00e1-la, embevecida de amor materno; e<br \/>\nn\u00e3o me cansava de rever-me na sua paradis\u00edaca ventura, achando-a mais feliz<br \/>\ncom seu amado, neste para\u00edso, do que no outro extinto os primitivos amantes,<br \/>\nque esses, ai deles! S\u00f3 chegaram a conhecer o amor pelo prisma da maldi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne do pecado. Contemplei-os, feliz na minha inveja, belos como estavam, minha<br \/>\nfilha e meu genro, naquele passeio \u00e0 Floresta da Tijuca! Como a inteira seguran\u00e7a<br \/>\nda ventura os fazia monarcas absolutos da vida! Ainda agora, enquanto escrevo<br \/>\nestas linhas \u00e0 luz do meu candeeiro de trabalho, tenho-os nitidamente defronte<br \/>\ndos olhos, como os vi nessa linda tarde, depois do almo\u00e7o na gruta dos Dois<br \/>\nIrm\u00e3os. Como eram um lindo par! Ele, com a sua roupa de montaria, assentado<br \/>\nao lado dela, fustigava com o chicote a pedra em que estavam ambos; Palmira,<br \/>\nmais esbelta na sua amazona azul-ferrete, escutava-o sorrindo com os olhos<br \/>\nfitos nos dele. E entre seus l\u00e1bios, que nunca at\u00e9 ent\u00e3o se tinham juntado,<br \/>\nhavia sempre, no murm\u00fario das palavras um sussurrar de beijos.<\/p>\n<p>E vendo-os assim, t\u00e3o \u00edntimos, t\u00e3o confiantes um no outro, t\u00e3o seguros da<br \/>\nsua eterna felicidade e do seu eterno amor, lembrei-me do meu tempo de noiva,<br \/>\nlembrei-me das minhas esperan\u00e7as, e logo tamb\u00e9m das negras decep\u00e7\u00f5es que sobrevieram<br \/>\nao meu casamento. Oh! se eu n\u00e3o tivesse ali, para interpor-me entre eles e<br \/>\nsepar\u00e1-los quando fosse preciso, aquele par, t\u00e3o harmonioso, t\u00e3o sinceramente<br \/>\nunido pelo amor; aqueles dois entes, t\u00e3o talhados um para o outro, como eu<br \/>\nparecia ter sido para meu marido, seriam no fim de algum tempo, se n\u00e3o tivessem<br \/>\nreagido logo, fugindo cada um para seu lado, dois m\u00edseros infelizes, dois<br \/>\nperdidos para a vida, dois inimigos rancorosos, condenados a viver na mesma<br \/>\ncasa, a comer na mesma mesa, a dormir na mesma cama!<\/p>\n<p>Qu\u00e3o diferente fora a minha exist\u00eancia, se eu tivera possu\u00eddo algu\u00e9m capaz<br \/>\nde fazer pela minha felicidade um pouco do que eu fazia pela felicidade de<br \/>\nminha filha! Oh! mas s\u00f3 mesmo um cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e seria capaz de tanto, e s\u00f3<br \/>\nele conseguiria as coisas extraordin\u00e1rias, que ainda tenho a revelar nestas<br \/>\nsagradas p\u00e1ginas.<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>XV<\/h2>\n<p>J\u00e1 pr\u00f3ximos do casamento, consultei Leandro a respeito do seu futuro e aconselhei-o<br \/>\nque deixasse o emprego p\u00fablico pelo com\u00e9rcio. Eu me comprometia a ajud\u00e1-lo<br \/>\ne me encarregaria de encaminhar as coisas, no caso que ele aceitasse o meu<br \/>\nalvitre. C\u00e9sar, que dispunha de boas rela\u00e7\u00f5es na pra\u00e7a, tomou a seu cargo<br \/>\ndescobrir um s\u00f3cio que conviesse ao rapaz. Eu entraria com a metade do capital,<br \/>\nescondida atr\u00e1s da firma de meu genro; a outra metade sairia do dote de Palmira.<\/p>\n<p>O generoso m\u00e9dico, para quem minha fam\u00edlia n\u00e3o tinha segredos, tomava crescente<br \/>\ninteresse pelos noivos. Seria ele um dos padrinhos de Palmira. Entusiasmava-o<br \/>\naquele casamento, assim levado a efeito contra todas as danosas praxes convencionais;<br \/>\nprefigurava-se-lhe o meu original proceder alta li\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica, e dizia que<br \/>\na minha firmeza, em realizar o dif\u00edcil plano concebido, dava uma bela c\u00f3pia<br \/>\nda energia do meu car\u00e1ter, e havia de produzir obra de grande alcance sobre<br \/>\na futura orienta\u00e7\u00e3o da vida conjugal. Fazia-me vaidosa o bom amigo! E come\u00e7ou<br \/>\na empenhar-se por Leandro com t\u00e3o boa vontade, que o rapaz podia dizer encontrar<br \/>\nnele um pai melhor que o verdadeiro. Foi C\u00e9sar, enfim, quem moralmente o preparou<br \/>\npara representar, junto de Palmira, o papel que eu lhe havia designado; sem<br \/>\nessa inteligente e perseverante ajuda, n\u00e3o sei se teria conseguido chegar,<br \/>\nvitoriosa, ao fim da minha empresa.<\/p>\n<p>Leandro pediu a sua exonera\u00e7\u00e3o do emprego p\u00fablico na mesma semana do casamento.<\/p>\n<p>Este foi num s\u00e1bado, \u00e0s cinco horas da manh\u00e3, sem pompas e sem ru\u00eddos; era<br \/>\nnada mais que o meio de coonestar o namoro de Leandro com minha filha. O seu<br \/>\nestado de noivos continuava por bem dizer como dantes; simplesmente, j\u00e1 desposados,<br \/>\ngozavam de mais liberdade entre si, e poderiam, \u00e0 sorrelfa, ir mais longe<br \/>\nnos seus galanteios. Quis, intencionalmente, criar-lhes um transitivo per\u00edodo<br \/>\nde beijos furtados e desejos mal contidos. Isso era necess\u00e1rio. Seria prefer\u00edvel<br \/>\nessa inicia\u00e7\u00e3o da sexualidade a deix\u00e1-los, conforme o costume, promiscuamente<br \/>\nencerrados numa alcova, durante muitos dias seguidos.<\/p>\n<p>\u00c9 torpe lan\u00e7ar na mesma cama, sem transi\u00e7\u00e3o, um rapaz e uma donzela, que<br \/>\nhoras antes se tratavam ainda com certa cerim\u00f4nia e s\u00f3 se amavam por palavras,<br \/>\nolhares e sorriso. O salto \u00e9 muito brusco; h\u00e1 de fatalmente perturb\u00e1-los.<br \/>\nReinar\u00e1 sempre mais vexame do que felicidade entre o casal que se v\u00ea duramente<br \/>\nentalado na decantada lua-de-mel.<\/p>\n<p>N\u00e3o penso, todavia, como o Conde de Tolstoi, que o noviciado do amor seja<br \/>\nan\u00e1logo ao noviciado do v\u00edcio de fumar, e produza no iniciante as mesmas n\u00e1useas<br \/>\ne os mesmos inc\u00f4modos; males terr\u00edveis, que os pacientes, n\u00e3o obstante, disfar\u00e7am<br \/>\nem ambos os casos, sem coragem para dizer francamente que a lua-de-mel \u00e9 uma<br \/>\nrepugnante tortura, e que o fumar n\u00e3o merece as honras de um belo prazer.<br \/>\nN\u00e3o! o amor \u00e9 natural, e por isso n\u00e3o deve causar n\u00e1useas, no come\u00e7o, como<br \/>\nno fim. A lua-de-mel, consoante nossas pr\u00e1ticas, \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 natural, e deve<br \/>\nconstranger tanto a noiva como o noivo. Ela fica mortalmente ferida no seu<br \/>\ning\u00eanito decoro de mulher, e no seu congenial pudor de donzela; e ele, naturalmente<br \/>\nainda mais t\u00edmido que a sua companheira de supl\u00edcio, pois todo o homem, em<br \/>\nquest\u00f5es de amor, \u00e9 sempre mais t\u00edmido que qualquer mulher, sofre revoltado<br \/>\npelo grosseiro e agressivo papel de verdugo, que tem de representar contra<br \/>\numa virgem, pela qual, no seu enlevo de amante, daria a vida se fosse reclamada.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, nas cruentas vicissitudes do iniciamento conjugal, revelam-se<br \/>\nna esposa naturais manifesta\u00e7\u00f5es que, por decoro, devem ser escondidas aos<br \/>\nolhos de todo e qualquer homem, ainda mesmo que seja este o pr\u00f3prio consorte.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, em honra da moral e do respeito \u00e0 natureza, que a consuma\u00e7\u00e3o do<br \/>\namor, venha, n\u00e3o ex-abrupto, mas como o fatal e \u00faltimo elo de uma deliciosa<br \/>\ne progressiva cadeia de ternuras; \u00e9 preciso que ela seja a extrema nota de<br \/>\num crescendo de beijos; \u00e9 preciso que esse momento supremo chegue naturalmente,<br \/>\nchamado por todo o corpo reclamado por todos os sentidos, e n\u00e3o decretado<br \/>\nfriamente por uma lei sacramental, numa situa\u00e7\u00e3o adrede preparada pela fam\u00edlia<br \/>\ndos noivos. Para que t\u00e3o transcendente destino fisiol\u00f3gico se cumpra, sem<br \/>\ndetrimento do pejo feminil e da dignidade virginal, \u00e9 indispens\u00e1vel que os<br \/>\ndois agentes n\u00e3o tenham, no ato, absoluta consci\u00eancia, nem a menor preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde o consumarem; \u00e9 preciso que o seu arroubo amoroso haja chegado \u00e0 loucura,<br \/>\ndepois de vibrada toda a escala de car\u00edcias, e lhes roube, nesse s\u00fabito instante<br \/>\ndelicioso, a luz do julgamento e da raz\u00e3o; e que os dois na ins\u00e2nia do seu<br \/>\ndesejo, sem ju\u00edzo para refletir, sem olhos para ver, esquecidos de tudo e<br \/>\ncada um de si mesmo, se confundam num s\u00f3 desvairamento de vol\u00fapia, e s\u00f3 acordem<br \/>\ndo seu transporte, e s\u00f3 d\u00eaem acordo do seu esp\u00edrito, depois da ampla consuma\u00e7\u00e3o<br \/>\ncarnal.<\/p>\n<p>A crise amorosa, levada pelas car\u00edcias ao auge do desejo, atinge \u00e0s propor\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo del\u00edrio; e esse del\u00edrio, essa moment\u00e2nea inconsci\u00eancia dos atos praticados,<br \/>\n\u00e9 o v\u00e9u providencial com que a natureza esconde, castamente, no supremo instante<br \/>\nda vit\u00f3ria da carne, a nudez do homem aos olhos da mulher, a nudez da mulher<br \/>\naos olhos do homem.<\/p>\n<p>Sem esse v\u00e9u, que os envolve e os oculta \u00e0 vergonha um do outro, o primeiro<br \/>\namor de uma donzela fica t\u00e3o prostitu\u00eddo como esses frios amores que os libertinos<br \/>\ncompram no rega\u00e7o das perdidas. Ao contr\u00e1rio do que disse S. Mateus, no vers\u00edculo<br \/>\n28 do seu livro, e com o que Tolstoi fecha o seu duro libelo niilista contra<br \/>\na propaga\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, todo o contacto carnal, que n\u00e3o vier precedido de<br \/>\num desejo invenc\u00edvel, \u00e9 imoral e vicioso. E, pois, todo o enlace de sexo,<br \/>\nproduzido exclusivamente pela fatalidade dos instintos, sem interven\u00e7\u00e3o absoluta<br \/>\nda vontade moral, n\u00e3o \u00e9 obra da criatura, e sim da natureza, ou de Deus, e<br \/>\ncomo tal deve ser respeit\u00e1vel e sagrado, seja ele na vida dos homens ou na<br \/>\nvida dos brutos, ou na vida das plantas; ou, quem sabe? na vida dos astros!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Haver\u00e1 coisa mais repugnante e mais est\u00fapida do que esse velho costume de<br \/>\npreparar a cama dos noivos? e cobri-la de flores, e cerc\u00e1-la de obscenos cuidados?<br \/>\nE mais: depois de um baile, depois de escandalosas f\u00f3rmulas e cerim\u00f4nias,<br \/>\nem que entram v\u00e9us brancos e grinaldas de flores simb\u00f3licas e depois da vexat\u00f3ria<br \/>\nexposi\u00e7\u00e3o das duas v\u00edtimas a todos os olhares e \u00edntimos ju\u00edzos dos convidados,<br \/>\nconduzir a pobre noiva, toda paramentada, para o quarto que lhes destinam,<br \/>\npara o toro do defloramento, no meio de um cerimonial de palavras e gestos,<br \/>\ntrocados entre madrinhas e padrinhos; e depois &#8211; abandon\u00e1-la ao noivo, de<br \/>\nquem se presume n\u00e3o haja nunca recebido uma car\u00edcia sensual; e deix\u00e1-los a<br \/>\ns\u00f3s, presos na mesma alcova, for\u00e7osamente distra\u00eddos do seu desejo, a olharem-se<br \/>\num para o outro, sem ter nenhum o que dizer, que n\u00e3o seja afetado e banal;<br \/>\nela a tremer, intimidada pelo desconhecido e pelo terror do que a espera;<br \/>\nele constrangido e aflito, por sentir-se fora de seus h\u00e1bitos regulares e<br \/>\nlonge do seu bem-estar, e tendo de despir-se ali mesmo, defronte de uma virgem,<br \/>\ne deitar-se com ela na mesma cama, e, afinal, tom\u00e1-la convencionalmente nos<br \/>\nbra\u00e7os, enquanto a paciente, com toda a lucidez do seu esp\u00edrito, entanguida<br \/>\ne sarapantada de susto, em vez de pensamento de amor, em vez do ap\u00f3crifo &#8220;Enfin<br \/>\nseuls&#8221;, s\u00f3 rumina e babuja entredentes esta frase rid\u00edcula e medrosa: &#8220;\u00c9 agora!&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, haver\u00e1 coisa mais repulsiva e mais b\u00e1rbara do que isto?<\/p>\n<p>Ainda hoje me doem amargamente no cora\u00e7\u00e3o as ang\u00fastias que sofri na minha<br \/>\nprimeira noite de casamento, e juro, n\u00e3o obstante, que amava muito meu marido,<br \/>\ne que, muito e muito, o desejei antes, nos meus enganosos sonhos de felicidade.<br \/>\nMas, quando me vi a s\u00f3s com ele, fechada no mesmo quarto, o meu desejo \u00fanico<br \/>\nfoi fugir e pedir socorro.<\/p>\n<p>Toda aquela indecorosa encena\u00e7\u00e3o de amor; todo aquele cerimonial de que cercaram<br \/>\no meu t\u00e1lamo; todo aquele desusado e insoci\u00e1vel luxo de que sobrecarregaram<br \/>\no aposento, iluminado por uma l\u00e2mpada de vidro azul; e o luxo afetado e espetaculoso<br \/>\nda cama, e o luxo intencional de rendas e fitas na camisa que me vestiram,<br \/>\ne os calculados perfumes que me puseram no corpo; tudo isso, tudo me sobressaltava<br \/>\ne me fazia nervosa. Demais, o ar de Virg\u00edlio tamb\u00e9m me constrangia; ele n\u00e3o<br \/>\ntinha nessa ocasi\u00e3o as suas maneiras simples, o seu ar franco e simp\u00e1tico<br \/>\nde bom rapaz; estava at\u00e9 esquerdo, desajeitado, procurando disfar\u00e7ar o seu<br \/>\ninvenc\u00edvel embara\u00e7o.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que nos sent\u00edamos corridos e vexados, comparecendo assim, um<br \/>\ndefronte do outro, naquele isolamento de alcova, mais que os dois criminosos<br \/>\ndo para\u00edso, no momento do pecado capital. Prenderam-nos ali dentro, para qu\u00ea?<br \/>\nPara uma coisa inconfess\u00e1vel e rid\u00edcula, desde que n\u00e3o era naturalmente provocada<br \/>\npelos transportes da nossa mocidade, posta em jogo pelo amor. N\u00e3o t\u00ednhamos<br \/>\npalavras um para o outro. Virg\u00edlio, todavia, caiu-me aos p\u00e9s, beijou-me as<br \/>\nm\u00e3os e agradeceu-me com bonitos termos &#8211; aquela felicidade &#8211; que lhe era,<br \/>\nafinal, concedida, depois de tanto desejada.<\/p>\n<p>Aquela felicidade! mas eu sentia perfeitamente que tudo isso, afirmado por<br \/>\nele nessa ocasi\u00e3o, n\u00e3o era sincero; dizia-o para dizer alguma coisa, para<br \/>\ndar qualquer solu\u00e7\u00e3o \u00e0quela cena dif\u00edcil; e o que eu lhe respondi foi t\u00e3o<br \/>\nfalso como o que ele me mentiu. Se eu lhe pudesse falar com franqueza, se<br \/>\nn\u00e3o fosse ofend\u00ea-lo confessar-lhe a verdade, dir-lhe-ia que, naquele momento,<br \/>\no meu desejo era s\u00f3, e s\u00f3, que ele se retirasse da minha presen\u00e7a; dir-lhe-ia<br \/>\nque, naquele instante, tudo desejaria, menos fazer a consuma\u00e7\u00e3o carnal do<br \/>\namor que eu lhe dedicava.<\/p>\n<p>E percebi claramente que Virg\u00edlio ia lan\u00e7ar-se nos meus bra\u00e7os, n\u00e3o por impulso<br \/>\ndo seu amor, ali\u00e1s forte e verdadeiro, mas porque era essa a sua obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde noivo; percebi claramente, e afian\u00e7o, que, se ele pudesse saltar por cima<br \/>\ndessa noite dif\u00edcil, sem tocar-me no corpo, e acordar no dia seguinte j\u00e1 familiarizado<br \/>\ncomigo, e j\u00e1 desoprimido do constrangimento que a n\u00f3s ambos vexava &#8211; aceitaria<br \/>\nessa gra\u00e7a como um presente do c\u00e9u. E, no entanto, ia se despindo, afetando<br \/>\num grande empenho em achar-se ao meu lado, na cama&#8230;<\/p>\n<p>Pobre de n\u00f3s! come\u00e7amos a mentir um para o outro desde o primeiro dia do<br \/>\nnosso cons\u00f3rcio!<\/p>\n<p>E eu j\u00e1 n\u00e3o tremia; sentia-me agora revoltada, sentia raiva! contra quem,<br \/>\nn\u00e3o sei; mas sentia \u00f3dio, sentia c\u00f3lera. N\u00e3o que me repugnasse a id\u00e9ia do<br \/>\nprimeiro contacto com um homem; n\u00e3o que tanto me apavorasse o segredo nupcial;<br \/>\nmas porque n\u00e3o caminhara at\u00e9 ali arrebatada pelas garras do meu desejo; arrastada<br \/>\npelos impulsos do meu sexo, e porque tudo aquilo grosseiramente desrespeitava<br \/>\no meu direito de vontade, rebaixava o meu car\u00e1ter e ofendia o meu pudor.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A minha noite de n\u00fapcias foi, pois, uma noite de sacrif\u00edcios, nem s\u00f3 para<br \/>\nmim, como sem d\u00favida para meu marido. N\u00e3o lhe compensara, decerto, tamanho<br \/>\nconstrangimento o complicado prazer, que porventura lhe proporcionou o nosso<br \/>\nprimeiro contacto, no formal desempenho daquele grosseiro enlace.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive o menor gozo; tudo me fez sofrer, sofrer deveras; n\u00e3o s\u00f3 no moral,<br \/>\ncomo fisicamente, e muito. Sofri e padeci, porque, na preocupa\u00e7\u00e3o sobressaltada<br \/>\nde esperar aquela noite, e no constrangimento e no choque daquele primeiro<br \/>\nencontro, assim t\u00e3o cerimonioso, t\u00e3o previsto e t\u00e3o festejado, meu corpo,<br \/>\nsem atingir o necess\u00e1rio grau de apetite sexual, privou-se da indispens\u00e1vel<br \/>\ne ben\u00e9fica lubrifica\u00e7\u00e3o com que a natureza protetoramente habilita e prepara,<br \/>\nem tais casos, os nossos delicados \u00f3rg\u00e3os do amor. E essa falta transformou<br \/>\num ato, que devia ser bom e natural, em verdadeira viol\u00eancia. Fez-me doer;<br \/>\nfez-me chorar.<\/p>\n<p>Apesar de toda a minha ingenuidade de donzela, compreendi que n\u00e3o era aquilo,<br \/>\ncom certeza, o que a natureza queria desempenhado; n\u00e3o era aquilo o que todo<br \/>\no meu corpo adivinhava depois da puberdade, reclamando-o com del\u00edcia, e enchendo-me<br \/>\nos sonhos de amorosos enleios voluptuosos, em que o esp\u00edrito se me aniquilava<br \/>\ne s\u00f3 a mat\u00e9ria palpitava de gozo. N\u00e3o! ali, naquela terr\u00edvel noite, a minha<br \/>\nraz\u00e3o n\u00e3o sucumbiu, nem os meus pr\u00f3prios sentidos tomaram parte na vergonhosa<br \/>\npugna; fiz-me paciente resignada, c\u00f4nscia de estar cumprindo uma obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\npenosa, aflita por ver-me livre de semelhante sacrif\u00edcio. Que fosse o verdugo<br \/>\nmeu marido, fosse Virg\u00edlio ou qualquer outro homem, ser-me-ia igual, porque<br \/>\nn\u00e3o era o amor que lhe votava o que me retinha pregada \u00e0quela cruz, crucificada<br \/>\nnaquele pomposo leito de dores.<\/p>\n<h2><a name=\"16\"><\/a>XVI<\/h2>\n<p>\u00d3 mais tarde comecei a achar prazer nas liga\u00e7\u00f5es com meu marido; os primeiros<br \/>\ndias foram horr\u00edveis. Ainda me lembro do calefrio de medo que tive na segunda<br \/>\nnoite, quando ele quis recome\u00e7ar a campanha da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>Para evitar \u00e0 minha filha todo esse rid\u00edculo infort\u00fanio, entendi e resolvi<br \/>\nque ela devia entrar na sua vida de casada sem &#8220;pagar patente&#8221; com a cl\u00e1ssica<br \/>\nlua-de-mel&#8221;. De sorte que, na mesma manh\u00e3 do casamento, achando-se j\u00e1 tudo<br \/>\ndisposto, carreguei com os noivos para a fazenda de um amigo meu, no interior<br \/>\nda prov\u00edncia, a qual de antem\u00e3o me fora franqueada. A fazenda estava entregue<br \/>\napenas aos cuidados do feitor e da escravatura, enquanto os senhores passeavam<br \/>\nna Europa.<\/p>\n<p>Acomodamo-nos por l\u00e1 como nos foi poss\u00edvel, sem arranjos especiais de quarto<br \/>\nde noivos. Nada disso! Cada um tomou conta de seu aposento e tratou de si.<\/p>\n<p>Durante a viagem de trem, e principalmente depois de chegados \u00e0 fazenda,<br \/>\nmeu genro, que n\u00e3o deixava a mulher um s\u00f3 instante, furtava-lhe beijos sempre<br \/>\nque eu me afastava deles, ou quando me supunham muito distra\u00edda. N\u00e3o os perseguia<br \/>\nnem rondava, mas tamb\u00e9m n\u00e3o lhes facilitava ocasi\u00f5es para os arrulhos. A gente<br \/>\nda casa n\u00e3o sabia se eles eram irm\u00e3os, ou primos, ou casados, ou noivos, ou<br \/>\nsimplesmente namorados. O quarto de Palmira era distante do quarto do marido,<br \/>\ne entre os dois estava o meu. Esta disposi\u00e7\u00e3o foi intencionalmente estabelecida<br \/>\npor mim: se eles com efeito se sentissem arrebatados um para o outro, o pr\u00f3prio<br \/>\ndesejo havia de aproxim\u00e1-los de qualquer modo, n\u00e3o era absolutamente necess\u00e1rio<br \/>\nque os fechasse eu dentro da mesma pris\u00e3o, como fizeram comigo e Virg\u00edlio,<br \/>\ne como se faz com as cadelas e os c\u00e3es de ra\u00e7a que t\u00eam de procriar.<\/p>\n<p>Como eles se uniram pela primeira vez, em que ocasi\u00e3o e em que circunst\u00e2ncias,<br \/>\ns\u00f3 vim a saber meses depois, narrado comovidamente por minha filha, que at\u00e9<br \/>\nhoje guarda a mais doce, a mais po\u00e9tica e consoladora impress\u00e3o desse momento<br \/>\nde completa felicidade.<\/p>\n<p>Nem foi em casa, foi num sombrio, ignorado canto da mata deserta, s\u00edtio protetor<br \/>\nde outros amores, de cujos suspensos ninhos partiam b\u00edblicos duetos de ternura.<br \/>\nN\u00e3o foi sobre colchas bordadas, nem len\u00e7\u00f3is de renda adrede preparados, mas<br \/>\nno rega\u00e7o carinhoso da floresta, ao casto e lascivo respirar da natureza,<br \/>\nna confid\u00eancia maternal da terra.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos chegado \u00e0 fazenda \u00e0s onze horas da manh\u00e3, com tal fome que, mal<br \/>\nnos desfizemos do p\u00f3 da viagem, atiramo-nos ao almo\u00e7o vorazmente. Almo\u00e7o de<br \/>\nro\u00e7a, que s\u00e3o os melhores, porque s\u00e3o os que se comem com mais apetite. Depois<br \/>\nn\u00e3o pude resistir ao cansa\u00e7o daquele dia t\u00e3o cheio, deitei-me, e quando acordei<br \/>\nsoube que minha filha tinha ido dar um giro pelo campo com o &#8211; namorado. Achei<br \/>\nnatural, e nada lhes notei na fisionomia quando os vi de volta \u00e0s cinco horas<br \/>\nda tarde. Apenas uma coisa me impressionou suavemente, \u00e9 que Leandro, ao entrar<br \/>\nem casa, tomou-me as m\u00e3os com meiguice e deu-me um beijo na testa. Com esse<br \/>\nbeijo quis ele naturalmente dizer que j\u00e1 era meu filho, mas na ocasi\u00e3o n\u00e3o<br \/>\ndei por isso, notei sim que as suas roupas, como os cabelos de Palmira, respiravam<br \/>\ncheiro de folhas verdes esmagadas.<\/p>\n<p>Seu eu reproduzisse aqui a descri\u00e7\u00e3o que dela ouvi desse furtivo passeio<br \/>\nao fundo da mata virgem, deixaria entre estas pobres linhas uma vivida p\u00e1gina<br \/>\nde romance, mas como n\u00e3o sou romancista, nem estou fazendo literatura, mas<br \/>\nt\u00e3o-somente escrevendo uma justifica\u00e7\u00e3o de meus atos de m\u00e3e e sogra, destinada<br \/>\na dois \u00fanicos leitores &#8211; minha filha e meu genro, nada direi do que ent\u00e3o<br \/>\nse passou entre eles, mesmo porque, a respeito de tal cena, \u00e9 o caso de afirmar<br \/>\ncom seguran\u00e7a que os meus leitores a conhecem j\u00e1 melhor do que eu.<\/p>\n<p>Foi no mesmo dia, e eu, tola que sou! imaginava ainda que os brejeiros esperassem<br \/>\nao menos pela noite. E o mais curioso \u00e9 que nunca percebi, mesmo depois, as<br \/>\nvezes em que eles se uniram. Durante o dia est\u00e1vamos quase sempre juntos;<br \/>\n\u00e0s horas de recolher cada um ia para o seu quarto, depois de enchermos o ser\u00e3o<br \/>\na fazer m\u00fasica ou canto, ou jogando cartas, at\u00e9 \u00e0 ocasi\u00e3o do ch\u00e1; e durante<br \/>\na noite nunca ouvi o ru\u00eddo de uma porta que se abrisse ou fechasse, nem senti<br \/>\npassos na varanda, nem rumor de cochichos abafados nos aposentos dela ou dele.<br \/>\nPodem gabar-se, os matreiros, de terem sido umas verdadeiras abelhas do amor.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o o meu empenho \u00fanico a respeito deles, era n\u00e3o deixar que faltassem<br \/>\nao preceito imposto pela B\u00edblia no Lev\u00edtico, vers. 19, do seu cap. XV, ficando<br \/>\nao lado um do outro durante o per\u00edodo condenado. E assim foi. Logo que percebi<br \/>\na aproxima\u00e7\u00e3o da crise, mandei fazer as malas e determinei levantarmos acampamento<br \/>\nna manh\u00e3 seguinte, sem dar ouvidos \u00e0s s\u00faplicas e \u00e0s reclama\u00e7\u00f5es dos dois.<\/p>\n<p>Meu genro parecia ter endoidecido com o fato, amuou-se, resmungou, n\u00e3o quis<br \/>\njantar; contentei-me pela minha parte em lembrar-lhe as condi\u00e7\u00f5es do casamento.<\/p>\n<p>Ele, sem se resignar de todo, recorreu ent\u00e3o aos meios humildes; tomou-me<br \/>\nnos bra\u00e7os, beijou-me, pediu-me por amor de Deus que lhe concedesse mais uma<br \/>\nsemana de lua-de-mel, apenas uma semana!<\/p>\n<p>Fui inflex\u00edvel; se cedesse logo \u00e0 primeira vez, estaria desmoralizado para<br \/>\nsempre o meu programa.<\/p>\n<p>A volta da fazendo foi por conseguinte quase muda e muito triste. Palmira<br \/>\nchorava em sil\u00eancio ao canto de um banco do vag\u00e3o; o marido, ao lado dela,<br \/>\nde pernas cruzadas, sobrolho franzido e dentes cerrados, n\u00e3o emitia palavra,<br \/>\nnem desviava os olhos de um s\u00f3 ponto, a n\u00e3o ser para desferir de vez em quando,<br \/>\ncontra mim, um fulminante olhar de ressentimento e raiva. Ia furioso!<\/p>\n<p>E, j\u00e1 na cidade, l\u00e1 em casa nas Laranjeiras, as despedidas foram dolorosas.<\/p>\n<p>Uma cena violenta! &#8211; frases de maldi\u00e7\u00e3o! Houve solu\u00e7os por parte de minha<br \/>\nfilha; l\u00e1grimas por parte de Leandro. Sim, eu vi as suas l\u00e1grimas, ele \u00e9 que<br \/>\nn\u00e3o viu as minhas, porque lhas n\u00e3o mostrei. No entanto o meu pobre cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nchorava&gt; do\u00eda-me separ\u00e1-los t\u00e3o depressa. E quando os contemplei abra\u00e7ados,<br \/>\na despedirem-se, com os rostos escondidos no pesco\u00e7o um do outro, o corpo<br \/>\nde minha Palmira sacudido pelos solu\u00e7os, sem \u00e2nimo nenhum dos dois de largar<br \/>\ndos bra\u00e7os o consorte, apertou-se-me tanto a alma, que, por pouco, n\u00e3o fraquejo<br \/>\ne abro m\u00e3o da disciplina, deixando-os ficar juntos o tempo que entendessem.<\/p>\n<p>Felizmente, por\u00e9m, n\u00e3o sucumbi \u00e0 moment\u00e2nea fraqueza e tive alento para dizer<br \/>\nao rapaz em tom sereno e j\u00e1 com a voz segura:<\/p>\n<p>&#8211; Bom! O caso n\u00e3o \u00e9 assim tamb\u00e9m para t\u00e3o grandes despedidas! A separa\u00e7\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 tamanha! Agora vai o senhor, meu estim\u00e1vel filho, para a sua casa, e<br \/>\nn\u00f3s c\u00e1 ficamos em nosso canto. Pode visitar-nos uma vez por dia, at\u00e9 nova<br \/>\nordem. N\u00e3o durar\u00e1 muito a interdi\u00e7\u00e3o &#8211; descanse! Olhe: venha jantar amanh\u00e3<br \/>\nconosco&#8230; O Dr. C\u00e9sar deve estar a\u00ed, e temos de conversar os tr\u00eas sobre interesses<br \/>\ncomerciais. N\u00e3o venha antes das tr\u00eas horas da tarde. Adeus, adeus.<\/p>\n<p>E Leandro destacou-se com efeito para a sua casa, acompanhado pelos olhos<br \/>\nda esposa, que n\u00e3o saiu da janela enquanto ele n\u00e3o dobrou a esquina da rua,<br \/>\ndepois de repetidos sinais de adeus de parte a parte.<\/p>\n<p>Como passara meu genro essas primeiras horas de isolamento depois de quase<br \/>\num m\u00eas de conviv\u00eancia com a sua amada, s\u00f3 o soube muito mais tarde, repetido<br \/>\npor minha filha, a quem ele no dia seguinte descreveu os seus tormentos. Ela<br \/>\ntamb\u00e9m estava ent\u00e3o inconsol\u00e1vel; chegou a fazer-me biquinho. Eu, por\u00e9m, tinha<br \/>\nde sobra no meu amor materno segredos para o desarmar contra mim. Consolei-a<br \/>\no melhor que pude.<\/p>\n<p>Mas que alegr\u00e3o no outro dia, quando os dois se encontraram de novo! Dir-se-ia<br \/>\nque a aus\u00eancia n\u00e3o fora de vinte e tantas horas, mas de vinte e tantos meses!<br \/>\nLeandro acudiu pontualmente \u00e0 hora marcada por mim. Palmira, ao perceber da<br \/>\njanela que ele chegava, lan\u00e7ara-se com tal \u00edmpeto pelo corredor, que n\u00e3o sei<br \/>\ncomo n\u00e3o rolou a escada. Recebeu-o nos bra\u00e7os, chorando de alegria.<\/p>\n<p>Ele trouxe-nos flores; beijou-me a face, como sinal de que j\u00e1 n\u00e3o estava<br \/>\nagastado comigo, e abra\u00e7ou expansivamente o Dr. C\u00e9sar, que tamb\u00e9m fora ao<br \/>\nseu encontro com um calmo sorriso e uma amor\u00e1vel frase paterna.<\/p>\n<p>E o nosso jantar foi o mais alegre que tivemos at\u00e9 a\u00ed. Abriu-se uma garrafa<br \/>\nde champanha.<\/p>\n<p>Foi bastante a separa\u00e7\u00e3o de um dia para que voltassem ao casal todos os arrulhos<br \/>\nde antes do matrim\u00f4nio. Meu genro tocava com os p\u00e9s, por debaixo da mesa,<br \/>\nos p\u00e9s de Palmira, e segurava-lhe furtivamente a m\u00e3o, e dizia-lhe em voz baixa<br \/>\nsedutoras palavras de amor, requestando-a de novo para um novo casamento.<\/p>\n<p>Eram felizes. E eu me sentia tamb\u00e9m feliz, ao reflexo da ventura dos dois;<br \/>\ne sorria para C\u00e9sar, que esse bem compreendia o alcance da minha felicidade<br \/>\ne orgulhava-se de ter contribu\u00eddo para ela.<\/p>\n<p>\u00c0 meia-noite dissolveu-se a roda. Leandro retirou-se com o m\u00e9dico, ficando<br \/>\najustado que voltariam ambos no dia seguinte \u00e0s mesmas horas. O meu velho<br \/>\ne querido amigo disse-me, ao sair, por ocasi\u00e3o de dar-me a m\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Vai muito bem! Vai muito bem!&#8230; Continue, Ol\u00edmpia!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Creio que consigo fazer o milagre&#8230; segredei-lhe, abra\u00e7ando-o.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Consegue, consegue tudo! Voc\u00ea \u00e9 uma santa, minha amiga! Adeus.<\/p>\n<h2><a name=\"17\"><\/a>XVII<\/h2>\n<p>Foi uma bela inspira\u00e7\u00e3o ter feito Leandro entrar para o com\u00e9rcio. Entrou<br \/>\ncom o p\u00e9 direito. A casa a que ele se reuniu come\u00e7ou, com o novo capital,<br \/>\na prosperar de um modo admir\u00e1vel. Tornou-se rapidamente conhecido na Pra\u00e7a<br \/>\ne conquistou logo bonito cr\u00e9dito. A sua atividade e a sua intelig\u00eancia, ali\u00e1s<br \/>\ncomuns, encontraram bom campo para exercitar-se, sem o menor preju\u00edzo do seu<br \/>\nsistema nervoso.<\/p>\n<p>Agora, j\u00e1 n\u00e3o lamentava eu que ele n\u00e3o fosse oficial de marinha. Reformara<br \/>\ntodo o meu julgamento a esse respeito, por dedu\u00e7\u00f5es que exporei mais adiante.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que sucederia se Leandro fosse meu filho e n\u00e3o meu genro,<br \/>\nalegrava-me com ser ele simples negociante e n\u00e3o not\u00e1vel artista, ou afamado<br \/>\nescritor, ou vulto ilustre na ci\u00eancia. No exclusivismo do meu amor de m\u00e3e,<br \/>\nteria at\u00e9 um grande desgosto se o marido de minha filha se revelasse, de um<br \/>\ndia para outro, homem de talento singular e come\u00e7asse a ser aclamado pelo<br \/>\np\u00fablico. Deus me livre! &#8211; seria uma desgra\u00e7a!<\/p>\n<p>Nem falar nisso \u00e9 bom! o homem de talento n\u00e3o pertence \u00e0 fam\u00edlia, pertence<br \/>\n\u00e0 multid\u00e3o, pertence \u00e0 sua p\u00e1tria, pertence ao mundo pertence ao s\u00e9culo; que<br \/>\nsei eu? pertence ao diabo, pertence a tudo, a tudo, menos \u00e0 pobre mulher com<br \/>\nquem caiu na perniciosa asneira de casar. Al\u00e9m do que, o constante esfor\u00e7o<br \/>\nencef\u00e1lico, para conceber e produzir grandes obras de arte, traz fatalmente<br \/>\nconsigo o precoce esgotamento nervoso; o que, suponho, n\u00e3o preciso dizer que<br \/>\n\u00e9 de suma import\u00e2ncia na felicidade conjugal.<\/p>\n<p>Se eu fosse homem, sacrificaria de bom grado boa parte da minha for\u00e7a nervosa<br \/>\npela gl\u00f3ria de ser um grande escritor, ou um grande artista, ou um grande<br \/>\ns\u00e1bio; se eu tivesse um filho daria prontamente, nem s\u00f3 minha sa\u00fade, mas a<br \/>\nvida, se em troca de tal sacrif\u00edcio alcan\u00e7asse ele aquela gl\u00f3ria; mas o que<br \/>\neu tinha n\u00e3o era um filho, era uma filha; logo precisava de um &#8220;bom genro&#8221;,<br \/>\nde um bom marido para ela; e queria pois que esse meu genro fosse talhado<br \/>\npelas conveni\u00eancias particulares de sua mulher e n\u00e3o pelas conveni\u00eancias gerais<br \/>\nde qualquer homem.<\/p>\n<p>Parece absurdo, mas n\u00e3o \u00e9. Absurdo \u00e9 o protesto que alguns artistas fazem<br \/>\ncontra as competentes sogras, porque estas, na vigil\u00e2ncia do seu amor materno,<br \/>\nse revoltam em guerra aberta contra o absorvente ego\u00edsmo do talento deles<br \/>\ne contra a absorvedoura preocupa\u00e7\u00e3o das suas gl\u00f3rias individuais, c\u00f4nscias<br \/>\nde que nisso reside o terr\u00edvel inimigo da felicidade dom\u00e9stica da filha.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro ouvirem-se deles exclama\u00e7\u00f5es desta ordem:<\/p>\n<p>&#8220;Vejam o que \u00e9 ser sogra! A minha j\u00e1 me declarou, face a face, que preferia<br \/>\nfosse eu um homem vulgar, mas &#8211; bom marido &#8211; a ser quem sou, causando \u00e0 filha,<br \/>\napesar do meu nome e do meu talento, as contrariedades de que ela se queixa!<br \/>\nJ\u00e1 particularizou at\u00e9 com toda a franqueza que preferia para genro um taverneiro<br \/>\nest\u00fapido, por\u00e9m exemplar como esposo, a mim ou ao mais ilustre artista do<br \/>\nuniverso!&#8221;<\/p>\n<p>Decerto! Elas t\u00eam toda a raz\u00e3o. N\u00e3o compreendem esses senhores sonhadores<br \/>\nde gl\u00f3ria que a sogra, assim praticando, est\u00e1 perfeitamente dentro do seu<br \/>\nprograma de m\u00e3e amorosa, ao passo que eles, contraindo casamento, tra\u00edram<br \/>\no programa do seu ideal art\u00edstico, aceitando um novo ideal incompat\u00edvel com<br \/>\no primeiro. \u00c9 imposs\u00edvel viver de corpo e alma para a arte e para a gl\u00f3ria<br \/>\ne viver ao mesmo tempo para a fam\u00edlia! Desses dois ideais um triunfar\u00e1 em<br \/>\nsacrif\u00edcio do outro. H\u00e1 uma coisa pior do que ficar eternamente solteiro &#8211;<br \/>\n\u00e9 casar, sem sentir aptid\u00e3o para ser um bom chefe de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;Quem n\u00e3o pode com o tempo n\u00e3o inventa modas&#8221; diz a sabedoria do povo.<\/p>\n<p>A boa sogra, ou, por outra, a boa m\u00e3e, quer que seu genro seja um bom marido<br \/>\nde sua filha e nada mais. N\u00e3o \u00e9 o talento, nem s\u00e3o as gl\u00f3rias dele que a interessam,<br \/>\nmas \u00e9 s\u00f3 a felicidade dela. Para isso a boa m\u00e3e ou boa sogra procura agradar<br \/>\no genro, fazer-lhe as vontades, n\u00e3o contrari\u00e1-lo, adul\u00e1-lo at\u00e9, levar-lhe<br \/>\na papinha \u00e0 cama; mas n\u00e3o por ele pr\u00f3prio, e sim porque tudo isso se traduz<br \/>\nem benef\u00edcio da filha.<\/p>\n<p>Leandro, pois, ao meu ver, nada por si s\u00f3 representava; valia muito, por\u00e9m,<br \/>\ndesde que eu o julgasse como auxiliar indispens\u00e1vel \u00e0 felicidade de Palmira.<br \/>\nPor conseguinte, sob o ponto de vista do meu ego\u00edstico e extremoso amor materno,<br \/>\nmeu genro, quanto menos individualidade intelectual tivesse, tanto melhor<br \/>\npara mim, porque tanto mais seria ele absorvido pela esposa.<\/p>\n<p>A um genro basta a intelig\u00eancia apenas necess\u00e1ria para n\u00e3o ser rid\u00edculo e<br \/>\npara n\u00e3o fazer maldades conjugais por estupidez. Na fam\u00edlia, em que ele entra,<br \/>\ne \u00e0 qual fica adido, nunca poder\u00e1 atingir no amor dos pais o primeiro plano,<br \/>\nque esse pertence aos filhos. \u00c9 um auxiliar do amor, como certos artistas<br \/>\nde ordem subalterna s\u00e3o os auxiliares dos artistas criadores, ou de primeira<br \/>\nordem. Um genro \u00e9 para nossa filho o que o gravador \u00e9 para o pinto original,<br \/>\nde cujo quadro ele tira o seu desenho; o que o cantor \u00e9 para o compositor<br \/>\nmusical; o que o ator \u00e9 para o autor; o que o executor de est\u00e1tuas \u00e9 para<br \/>\no estatu\u00e1rio que as concebeu; o que o mestre-de-obras \u00e9 para o arquiteto,<br \/>\ne o que o tradutor ou o compositor tipogr\u00e1fico \u00e9 para o escritor. Do mesmo<br \/>\nmodo que o artista criador n\u00e3o pode dispensar o artista auxiliar, porque precisa<br \/>\ndele para o desempenho da sua produ\u00e7\u00e3o, assim, n\u00f3s sogras, n\u00e3o podemos dispensar<br \/>\no genro. N\u00e3o o desprezamos, ao contr\u00e1rio &#8211; tratamo-lo com todo o carinho;<br \/>\nmas o seu papel em nosso amor e em nosso interesse, nunca ser\u00e1 o primeiro<br \/>\ne sim o segundo, porque o primeiro pertence \u00e0 sua mulher, que \u00e9 nossa filha.<\/p>\n<p>O que uma boa sogra tem a pedir ao genro n\u00e3o \u00e9 estima, nem carinhos para<br \/>\nela; n\u00e3o \u00e9 tampouco que tenha talento ou seja um grande homem, \u00e9 pura e simplesmente<br \/>\nque lhe fa\u00e7a a filha feliz. Se o genro fizer isto, a sogra nada mais tem a<br \/>\nexigir dele, e h\u00e1 de ser boa por for\u00e7a de regra.<\/p>\n<p>A sogra s\u00f3 \u00e9 m\u00e1 quando a filha \u00e9 infeliz com o marido, ou quando, o que \u00e9<br \/>\nanormal, n\u00e3o sinta amor de m\u00e3e.<\/p>\n<p>N\u00e3o! para esposo de minha filha n\u00e3o quereria nunca um g\u00eanio, nem algum her\u00f3i<br \/>\nglorioso, fosse ele l\u00e1 de que esp\u00e9cie fosse; para meu genro queria simplesmente<br \/>\num homem &#8211; um bom marido.<\/p>\n<p>Pois bem: o negociante, segundo o meu novo modo de julgar, \u00e9 quem melhor<br \/>\npreenche esse ideal.<\/p>\n<p>Vejamos por qu\u00ea:<\/p>\n<p>O negociante, na comunh\u00e3o do trabalho e da luta pela vida, representa apenas<br \/>\no c\u00f4modo papel de uma m\u00e1quina de especula\u00e7\u00e3o movendo-se t\u00e3o-somente pela avidez<br \/>\ndo lucro pecuni\u00e1rio. Para abra\u00e7ar e exercer a sua carreira, ele n\u00e3o precisou<br \/>\np\u00f4r em contribui\u00e7\u00e3o as suas for\u00e7as nervosas, estudando um curso dif\u00edcil e<br \/>\nfatigante; precisou nada mais do que exercitar-se materialmente na pr\u00e1tica<br \/>\ndo com\u00e9rcio. O indiv\u00edduo, sem t\u00e9cnica, ou habilita\u00e7\u00e3o para produzir qualquer<br \/>\ntrabalho, o indiv\u00edduo intelectualmente nulo, pode abra\u00e7ar, de um dia para<br \/>\noutro, a carreira comercial, e pode ser feliz. N\u00e3o s\u00e3o raros os exemplos de<br \/>\nnegociantes ricos, considerados e poderosos, absolutamente analfabetos e rasos<br \/>\nde intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>A ignor\u00e2ncia e a vulgaridade intelectual s\u00e3o at\u00e9 requisitos indispens\u00e1veis<br \/>\nao bom \u00eaxito dessa carreira, tanto quanto a ilustra\u00e7\u00e3o e o talento s\u00e3o qualidades<br \/>\nnegativas, porque os escr\u00fapulos, as suscetibilidades, a fidalga e generosa<br \/>\nlinha moral de um esp\u00edrito superior e cultivado, representam s\u00e9rios impedimentos<br \/>\npara o pronto alcance de sucesso na vida comercial.<\/p>\n<p>E, se descermos \u00e0 an\u00e1lise do mercador de baixa escala, esse que por a\u00ed se<br \/>\nchama &#8220;negociante a retalho&#8221;, ent\u00e3o poderemos dizer que o homem de neg\u00f3cio<br \/>\n\u00e9 o que menos se gasta nervosamente no atrito do esfor\u00e7o comum, o \u00fanico que<br \/>\nnada produz absolutamente, o \u00fanico por conseguinte que n\u00e3o trabalha, e no<br \/>\nentanto o que mais ganha e acumula dinheiro. Esses formam uma classe especial,<br \/>\ne especial \u00e9 o prisma por que tudo v\u00eaem. At\u00e9 a sua suposta honradez \u00e9 singular:<br \/>\nN\u00e3o pagar, por exemplo, uma conta ao dia e \u00e0 hora certa, \u00e9 para um negociante<br \/>\no ato mais desonesto que se pode cometer, mas furtar no custo de qualquer<br \/>\nobjeto vendido, ou enganar o comprador, impingindo gato por lebre, isso \u00e9<br \/>\nsimplesmente fazer bom neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>E tanto assim \u00e9 que, esse mesmo traficante, que leva a iludir ao pr\u00f3ximo<br \/>\ntodos os dias, a toda a hora, a todo o instante, quando encontra um mais velhaco,<br \/>\ncaso raro, que por sua vez consiga engan\u00e1-lo, comprando-lhe qualquer objeto<br \/>\na cr\u00e9dito e n\u00e3o pagando no prazo ajustado, revolta-se furioso e quer brigar,<br \/>\nem vez de, por coer\u00eancia e por honra aos seus princ\u00edpios, atirar-se-lhe nos<br \/>\nbra\u00e7os, exclamando: &#8220;Ora at\u00e9 que afinal, entre tantos tolos, encontro um esperto<br \/>\ndos meus! Sejamos amigos!&#8221;<\/p>\n<p>A honra do negociante \u00e9 diferente da honra dos outros homens. O militar,<br \/>\npor exemplo, que n\u00e3o solver uma letra no dia do vencimento, n\u00e3o fica por isso<br \/>\ndesonrado, como n\u00e3o fica desonrado o negociante que levar um par de bofetadas;<br \/>\nmas, se invertermos os casos, t\u00e3o desonrado fica um como o outro. Isto quer<br \/>\ndizer que a chamada honra do negociante n\u00e3o reside, como a de toda a gente<br \/>\nhonesta, na consci\u00eancia do respeito a si mesmo e na imputabilidade pessoal,<br \/>\nmas no cr\u00e9dito abstrato da sua firma ou da sua casa de com\u00e9rcio; por isso<br \/>\nque ele, mesmo sem levar bofetadas, mas cometendo toda a sorte de baixezas,<br \/>\nenganando, mentindo, adulando o fregu\u00eas para les\u00e1-lo, continuar\u00e1 a ser um<br \/>\n&#8220;homem honrado&#8221;, desde que pague em dia as suas contas.<\/p>\n<p>O mais interessante, por\u00e9m, \u00e9 que a sociedade brasileira, nem s\u00f3 lhe d\u00e1 acesso,<br \/>\ncomo ainda o coloca no primeiro plano da sua primeira camada, emprestando-lhe,<br \/>\ncomo para justificar-se desse erro, aos olhos dos que n\u00e3o s\u00e3o traficantes<br \/>\ncomerciais, o t\u00edtulo das duas qualidades que ele menos possui: &#8211; trabalhador<br \/>\ne honrado.<\/p>\n<p>Honrado trabalhador! Mas trabalho quer dizer t\u00e9cnica e quer dizer produ\u00e7\u00e3o;<br \/>\ne o negociante n\u00e3o produz e s\u00f3 tem uma ci\u00eancia &#8211; a de enganar o incauto consumidor,<br \/>\npara apanhar-lhe, como as cocotes, o dinheiro que puder. E eu, c\u00e1 por mim,<br \/>\nnesta quest\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o e gatunagem, prefiro, com franqueza, e acho menos<br \/>\nnocivo e mais sincero, o gatuno que rouba o rel\u00f3gio ao transeunte ou arrebata<br \/>\num queijo da porta do s\u00facio, porque esse \u00e9 castigado pelo seu pr\u00f3prio aviltamento<br \/>\ne arrisca a liberdade quando furta; ao passo que o outro a nada se exp\u00f5e e,<br \/>\nem vez do castigo correcional, recebe em pr\u00eamio da sua pr\u00f3spera gan\u00e2ncia todas<br \/>\nas honras e todas as considera\u00e7\u00f5es da nossa melhor sociedade.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m ser\u00e1 capaz de apresentar-me o exemplo de um taverneiro que n\u00e3o furte<br \/>\nou n\u00e3o tenha furtado; no entanto os propriet\u00e1rios prediais, desta aristocr\u00e1tica<br \/>\ncidade, preferem, para a indispens\u00e1vel garantia dos alugu\u00e9is das suas casas,<br \/>\na qualquer outra firma, a firma de um vendeiro.<\/p>\n<p>Isto tudo para explicar que eu, quando falo da conveni\u00eancia de ser o marido<br \/>\nnegociante, n\u00e3o quero dizer que desejaria para esposo de minha filha um taverneiro<br \/>\nou coisa que o valha; mas um desses homens de a\u00e7\u00e3o e de atividade, que conseguem<br \/>\nfazer da inteligente especula\u00e7\u00e3o do capital ou do cr\u00e9dito um bom e rendoso<br \/>\nmeio de vida e de riqueza. Em abono da classe em geral, afirmarei que esses<br \/>\ns\u00e3o incapazes de pequenos furtos e jamais sujam as m\u00e3os no cobre alheio, porque<br \/>\ns\u00f3 tocam em ouro, e ouro n\u00e3o suja, como eles dizem, ainda mesmo que n\u00e3o seja<br \/>\no nosso. S\u00e3o homens limpos, af\u00e1veis, em geral de boas maneiras, vivos, penetrantes<br \/>\ne muita vez inteligente. A um conheci eu, muito polido e galante, que conseguia<br \/>\ncasar com o seu hebraico e frio entusiasmo pelo rei dos metais certo calor<br \/>\nde imagina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Esse dizia, sorrindo de vol\u00fapia, que &#8220;o juro \u00e9 o perfume<br \/>\ndo capital&#8221; e outras tantas coisas assim bonitas e inspiradas. Era um encanto<br \/>\nouvi-lo nos seus sonoros devaneios.<\/p>\n<p>Na sua qualidade de mero especulador parasit\u00e1rio da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica,<br \/>\nindustrial, art\u00edstica, liter\u00e1ria ou agr\u00edcola, n\u00e3o passando nunca de \u00e1vido<br \/>\nintermedi\u00e1rio entre o produtor e o consumidor, o negociante n\u00e3o se esgota<br \/>\nnervosamente, sem todavia deixar-se ficar em completa ociosidade, t\u00e3o enervante<br \/>\ne perniciosa como o excesso de trabalho intelectual; e por isso deve ser um<br \/>\nexcelente procriador. A mulher tem sempre a lucrar fisiologicamente todas<br \/>\nas vezes que o marido, em vez de trabalhos intelectuais, execute servi\u00e7os<br \/>\nmateriais. O esp\u00edrito perde, mas o animal aproveita. E a felicidade dom\u00e9stica,<br \/>\na despeito de tirar da imagina\u00e7\u00e3o o segredo de manter o entusiasmo do amor,<br \/>\nbaseia-se menos no esp\u00edrito que na mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o se suponha que, por ser material a vida do com\u00e9rcio, sejam materialistas<br \/>\nos negociantes e sejam incapazes das ilus\u00f5es do amor. N\u00e3o! o fato justamente<br \/>\ndo positivismo for\u00e7ado da sua profiss\u00e3o, leva-os por uma simples lei de contrastes,<br \/>\na buscar nas coisas idealiz\u00e1veis o necess\u00e1rio repouso do pensamento. Os artistas,<br \/>\nos fil\u00f3sofos e os poetas, esses sim, \u00e9 que, fazendo do ideal mat\u00e9ria de trabalho<br \/>\ne cabedal de of\u00edcio, precisam ser materialistas nas horas de descanso.<\/p>\n<p>O poeta, quanto mais sublime e elevado for na sua obra, tanto mais prosaico<br \/>\ne terrestre ser\u00e1 na vida privada; ao passo que o burgu\u00eas do com\u00e9rcio, depois<br \/>\nde deixar o est\u00fapido servi\u00e7o, come\u00e7a a viver para a fantasia e para o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O poeta sonha quando trabalha e animaliza-se para descansar. O comerciante<br \/>\ntrabalha como animal e repousa com o sonho. Aquele precisa deixar folgar o<br \/>\nc\u00e9rebro com a vida do corpo, e o outro d\u00e1 folga ao corpo com a vida do pensamento.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que todo homem de vida material detesta, em quest\u00f5es de arte,<br \/>\no naturalismo e a verdade, encontre-os na estatu\u00e1ria, na pintura, no romance<br \/>\nou no teatro, e adora o maravilhoso e o fant\u00e1stico. S\u00e3o como as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>O mercador do Brasil, quando n\u00e3o sonhe outras quimeras, com uma nunca deixa<br \/>\nde sonhar &#8211; \u00e9 a da comenda. E, mal a suponha realizada, come\u00e7a a sonhar com<br \/>\no t\u00edtulo de bar\u00e3o, e depois com o de visconde ou conde.<\/p>\n<p>Ora, se o poeta, ou qualquer homem de talento s\u00f3 tem ilus\u00f5es dentro do seu<br \/>\nideal art\u00edstico ou cient\u00edfico, ao contr\u00e1rio do que sucede ao homem de vida<br \/>\npr\u00e1tica, e, se para a felicidade dom\u00e9stica da mulher, \u00e9 indispens\u00e1vel a ilus\u00e3o<br \/>\ndo amor por parte do marido, segue-se que para este fim \u00e9 prefer\u00edvel entre<br \/>\naqueles o segundo e n\u00e3o o primeiro. E, como nos diversos ramos da atividade<br \/>\nmaterial, o com\u00e9rcio leva grandes vantagens sobre todas as outras ocupa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndesse g\u00eanero, conclui-se que o negociante \u00e9 quem melhor preenche o ideal do<br \/>\nesposo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, a mulher s\u00f3 pode ser feliz casando-se com um negociante? perguntar-me-\u00e3o<br \/>\ntalvez.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o digo isso; mas, com efeito, nessa ordem de casamentos, \u00e9 onde relativamente<br \/>\naparece menor n\u00famero de desgra\u00e7as conjugais.<\/p>\n<p>H\u00e1 por\u00e9m um ponto desta quest\u00e3o que jamais foi atendido e que merece todavia<br \/>\nser estudado de perto, porque destr\u00f3i em parte as vantagens do negociante<br \/>\ncomo esposo. Vem a ser o seguinte:<\/p>\n<p>O tipo de negociante em geral n\u00e3o \u00e9 o de um homem fascinador. Al\u00e9m da falta<br \/>\nde talento que o atirou para a vida material, faltam-lhe o h\u00e1bito e as boas<br \/>\nmaneiras da gente fina; falta-lhe eleg\u00e2ncia, bom gosto; falta-lhe educa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOra, sucede quase sempre que a gentil rapariga, ao passar das m\u00e3os dos seus<br \/>\nparentes para os bra\u00e7os dele, entende fazer com isso um sacrif\u00edcio \u00e0 fam\u00edlia,<br \/>\nporque, de si para si, j\u00e1 tinha naturalmente criado na fantasia um ideal de<br \/>\nnoivo muito diferente do que lhe deram; quando j\u00e1 n\u00e3o o tenha escolhido real<br \/>\ne palp\u00e1vel, mas em sil\u00eancio, entre os estudantes acad\u00eamicos ou entre os poetas<br \/>\ne artistas pobres.<\/p>\n<p>O noivo adotado pela fam\u00edlia \u00e9 claro que ser\u00e1 o prevalecente, e mais se o<br \/>\npai da mo\u00e7a for comendador.<\/p>\n<p>Pois vejamos agora quais s\u00e3o as tristes conseq\u00fc\u00eancias desse casamento, feito<br \/>\nassim, s\u00f3 com a vontade do comendador pai e s\u00f3 com a vontade do futuro comendador<br \/>\ngenro. Admitamos, antes de mais nada, que a desposada \u00e9 virtuosa e compreende<br \/>\nperfeitamente os deveres do seu novo estado, o que a torna incapaz de trair<br \/>\no marido. \u00c9 esta a melhor hip\u00f3tese. Ainda assim, o que sucede?<\/p>\n<p>Sucede que ela, desiludida por aquele casamento, que em nada veio realizar<br \/>\nos seus sonhos de felicidade, resigna-se, mas sem fazer o menor empenho para<br \/>\ntornar melhor e mais feliz do que a dela a vida do esposo. N\u00e3o o desonra,<br \/>\nmas tamb\u00e9m n\u00e3o lhe d\u00e1 um s\u00f3 momento de verdadeira alegria e de verdadeiro<br \/>\namor. Ele, pelo seu lado, que esperava achar no matrim\u00f4nio a realiza\u00e7\u00e3o de<br \/>\numa cont\u00ednua felicidade, honesta e calam, fica por sua vez desiludido e desesperado,<br \/>\ne come\u00e7a a ser desde ent\u00e3o nada mais que um burro de carga daquela casa, que<br \/>\nnunca foi o seu lar ou o seu ninho, pois que n\u00e3o se compreende ninho ou lar<br \/>\nsem amor.<\/p>\n<p>Vem o filho, e a desventura dom\u00e9stica dos pais transforma-se ent\u00e3o em novos<br \/>\nelementos de desgra\u00e7a para a gera\u00e7\u00e3o inteira: A m\u00e3e, que at\u00e9 a\u00ed conservou<br \/>\nintacto o cabedal de meiguice feminil com que veio ao mundo, p\u00f5e-se a adorar<br \/>\no beb\u00ea e despeja-lhe de uma s\u00f3 vez, na tenra moleira, todo esse inestim\u00e1vel<br \/>\ntesouro de ternura, que ela trazia no cora\u00e7\u00e3o para gastar durante toda a sua<br \/>\nvida de mulher; o marido, por outro lado, n\u00e3o tendo tido tamb\u00e9m at\u00e9 a\u00ed com<br \/>\nquem aproveitar o seu farnel de dedica\u00e7\u00e3o e de amor, porque encontrou a esposa<br \/>\nsempre de peito fechado para receb\u00ea-lo, recorre ao filho, e come\u00e7a a fazer<br \/>\ndele o exclusivo objeto de todos os seus carinhos e exagerados desvelos. Se<br \/>\no pimpolho n\u00e3o desmedra e morre logo no ber\u00e7o, sufocado de beijos e abra\u00e7os,<br \/>\nqual ser\u00e1 a conseq\u00fc\u00eancia desse excesso de mimos? Ser\u00e1 que a crian\u00e7a fica irremissivelmente<br \/>\nestragada e perdida para todos os efeitos, fica malcriada, voluntariosa, insuport\u00e1vel<br \/>\nde g\u00eanio: fica reduzida a um mimalho adulado pelo pap\u00e1 e pela mam\u00e3. E como<br \/>\no desvelo por ele foi at\u00e9 ao ponto de o n\u00e3o deixarem correr e brincar com<br \/>\nliberdade, e como sempre o trouxeram afogado em ondas de rendas e de fitas,<br \/>\ne de fraldas e cueiros; e como lhe n\u00e3o deixaram descansar o est\u00f4mago das balas<br \/>\nde a\u00e7\u00facar e confeitos e bonecas meladas, fica ainda o desgra\u00e7adinho t\u00e3o minguado<br \/>\nde corpo como de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>E que homem pode vir desse miman\u00e7o? O pai, comendador, destina-o para doutor,<br \/>\nest\u00e1 claro! mas, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que o filho for crescendo, os mimos v\u00e3o aumentando,<br \/>\ne o infeliz ir-se-\u00e1 tornando pior, cada vez mais insuport\u00e1vel para os estranhos,<br \/>\ne cada vez mais adulado pelo pap\u00e1 e pela mam\u00e3. Como at\u00e9 ent\u00e3o ningu\u00e9m o constrangeu<br \/>\nao menor esfor\u00e7o ou dever de trabalho, ningu\u00e9m obter\u00e1 tamb\u00e9m dele que consiga<br \/>\naprender alguma coisa; ficar\u00e1 condenado a ser um belo tolo; adquirir\u00e1 v\u00edcios<br \/>\nantes de ser homem; o seu curso acad\u00eamico, se chegar \u00e0 academia: o que \u00e9 natural<br \/>\nporque \u00e9 f\u00e1cil, ser\u00e1 um curso de bebedeiras, de p\u00e2ndegas e de aprova\u00e7\u00f5es obtidas<br \/>\n\u00e0 custa do aviltamento de seu car\u00e1ter, ou do car\u00e1ter dos pais. E o mimalho<br \/>\nacabar\u00e1 fatalmente por apresentar ao mundo mais um esp\u00e9cime desses milh\u00f5es<br \/>\nde bachar\u00e9is in\u00fateis, pretensiosos e tristes, incapazes da obra mais insignificante,<br \/>\nmantendo-se \u00e0 custa da fam\u00edlia ou da heran\u00e7a at\u00e9 \u00e0 velhice, e s\u00f3 vivendo para<br \/>\ndesorganizar o meio em que vegetam.<\/p>\n<p>Eis por que o negociante nem sempre conv\u00e9m para marido de nossas filhas.<\/p>\n<p>E eis por que, para sintetizar a escala geral da fam\u00edlia brasileira feita<br \/>\npelos portugueses, formei este axioma:<\/p>\n<p>Pais &#8211; comendadores; filhos &#8211; bachar\u00e9is; netos &#8211; mendigos.<\/p>\n<p>Se outras raz\u00f5es n\u00e3o ocorressem para promover eu a todo o transe a conserva\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo amor sexual entre minha filha e meu genro s\u00f3 o fato de que o contr\u00e1rio<br \/>\nseria nocivo a meus netos, mereceria de mim todos os sacrif\u00edcios que \u00e0quela<br \/>\ncausa tenho at\u00e9 hoje dedicado.<\/p>\n<h2><a name=\"18\"><\/a>XVIII<\/h2>\n<p>Com orgulho e com prazer declaro que a vida conjugal de minha filha ia por<br \/>\nadiante, desenrolando-se feliz. Meu genro continuava a morar sozinho em Botafogo<br \/>\ne n\u00f3s duas no bairro de Laranjeiras. Ao fim de vinte meses de casados, Leandro<br \/>\nera para a sua adorada Palmira o mesmo amante dos primeiros dias.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 que nunca se aproximou dela nos per\u00edodo em que a B\u00edblia manda que o<br \/>\nhomem se afaste da mulher &#8211; por imunda; nem jamais demorada promiscuidade<br \/>\ndeu-lhes margem e vagar a que se estudassem em sil\u00eancio, no enojo de bocejados<br \/>\nlazeres, ao lado um do outro na mesma cama, quando o corpo, cansado de amar,<br \/>\ndeixa que s\u00f3 o pensamento trabalhe por sua conta pr\u00f3pria, enquanto ele repousa.<br \/>\nNunca enfim tiveram ocasi\u00e3o de enfastiar-se juntos, consorcialmente, porque<br \/>\no tempo de que dispunham nas suas desejadas entrevistas era pouco para os<br \/>\ninteresses de seu amor e para o muito que cada um, de parte a parte, tinha<br \/>\npara dizer ao companheiro, com respeito \u00e0 felicidade de ambos.<\/p>\n<p>Eram felizes. Contudo, mais de uma vez, tentou Leandro imbecilmente revoltar-se<br \/>\ncontra mim, queixando-se com amargura da suposta falsa posi\u00e7\u00e3o que eu lhe<br \/>\nimpusera ao lado da esposa. Chamei-o \u00e0 raz\u00e3o e ao bom desempenho de sua palavra<br \/>\nde honra, sem lhe dar todavia segura explica\u00e7\u00e3o do meu modo de proceder, porque<br \/>\nme n\u00e3o convinha ainda que ele alcan\u00e7asse por inteiro o secreto esp\u00edrito das<br \/>\nminhas inten\u00e7\u00f5es. Palmira tamb\u00e9m, a princ\u00edpio, n\u00e3o parecia muito disposta<br \/>\na conformar-se com o meu regime estabelecido, mas tal carinho pus no que lhe<br \/>\ndisse, e tal eloq\u00fc\u00eancia emprestou a meu amor de m\u00e3e as minhas palavras, que<br \/>\nse ela em verdade n\u00e3o se deu por convencida, pelo menos entregou-me os pulsos<br \/>\nresignada.<\/p>\n<p>N\u00e3o me desgostava ouvir-lhe as queixas; sinal era de que amava fisicamente<br \/>\no marido, virtude esta que se vai fazendo rara em nossos dias.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, minha filha, disse-lhe uma vez, enquanto costur\u00e1vamos \u00e0 mesma mesa<br \/>\n&#8211; o que n\u00e3o poder\u00e1s negar s\u00e3o as vantagens, que tens sobre as outras esposas,<br \/>\ncom esse sistema de vida conjugal que te arranjei&#8230; O casamento, longe de<br \/>\nroubar-te aos prazeres que dantes desfrutavas na sociedade, veio trazer-te<br \/>\nnovos, sem falar no inestim\u00e1vel gozo de satisfa\u00e7\u00e3o do amor instintivo que<br \/>\nainda n\u00e3o conhecias. Continuas a ter hoje, em minha companhia, os teus bailes,<br \/>\nos teus passeios e os teus teatros, como no tempo de solteira; teu marido,<br \/>\nsempre enamorado de ti, nunca falta aos pontos onde saiba que estejas. Entre<br \/>\nos homens que te galanteiam \u00e9 sempre ele o mais sol\u00edcito em merecer-te as<br \/>\ngra\u00e7as, em req\u00fcestar-te, em perseguir-te como verdadeiro apaixonado.<\/p>\n<p>Ora, quero que me digas quantas senhoras casadas encontras tu por a\u00ed nestas<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es a respeito dos competentes maridos?&#8230;<\/p>\n<p>Nenhuma.<\/p>\n<p>Pudessem eles e nunca em p\u00fablico compareceriam ao lugar onde elas se acha,<br \/>\nainda mesmo quando as amem.<\/p>\n<p>E isso por qu\u00ea? porque sabe cada qual de antem\u00e3o que, ao recolher-se \u00e0 casa,<br \/>\nh\u00e1 de invariavelmente encontrar a mulher \u00e0 sua espera, e que ter\u00e1 a sua companhia<br \/>\npor toda a noite, e por todo o dia seguinte, e pelo outro depois, e por todos<br \/>\nos que seguirem, e enfim por toda a vida! &#8220;Estamos unidos para sempre!&#8221; suspira<br \/>\no desgra\u00e7ado. E v\u00ea, minha filha, repara quanto esta frase \u00e9 terrivelmente<br \/>\nassustadora! repara como \u00e9 ela em tudo oposta a essa outra frase, que teu<br \/>\nmarido repete todas as vezes que t\u00e3o amargamente se queixa de mim: &#8220;Nunca<br \/>\nestou com minha mulher todo o tempo que desejo!&#8221; sem se lembrar, o ingrato!<br \/>\nque nisso consiste justamente o segredo da felicidade de voc\u00eas dois! Vamos,<br \/>\nconfessa qual das duas esposas \u00e9 a mais feliz &#8211; aquela, cujo marido se preocupa<br \/>\ncom a irremedi\u00e1vel eternidade da sua uni\u00e3o; ou tu, minha tolinha, cujo marido<br \/>\nlamenta a cada instante que as horas passadas contigo nunca s\u00e3o tantas e t\u00e3o<br \/>\nlargas quanto ele desejava?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Mas, observou Palmira &#8211; eu amo tanto meu marido!&#8230; N\u00e3o me cansaria<br \/>\nem estar ao lado dele&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00c9 o que te parece agora, como a todo o sujeito, atormentado pelo apetite,<br \/>\nparece que se n\u00e3o cansaria de comer! Estivessem voc\u00eas sempre e sempre juntos,<br \/>\ne haverias de dar raz\u00e3o \u00e0s minhas palavras&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ora, mam\u00e3e, n\u00e3o h\u00e1 de ser tanto assim&#8230; murmurou ela.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0E, se n\u00e3o podes responder por ti, quanto mais por ele!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Oh! Ele me ama deveras! Disso tenho eu certeza!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0E eu tamb\u00e9m. E justamente para que essa bela chama n\u00e3o se extinga,<br \/>\ndou-me ao cuidado de reformar-lhe o combust\u00edvel.<\/p>\n<p>Palmira soltou uma risada e n\u00e3o insistiu no assunto. Mas, \u00e0 noite desse mesmo<br \/>\ndia, a quest\u00e3o voltou com mais for\u00e7a. Meu genro, quando veio para jantar,<br \/>\ntrazendo como de costume, flores para a mulher e uma pequena lembran\u00e7a liter\u00e1ria<br \/>\npara mim, (creio que dessa vez foi um livro de Olavo Bilac) percebeu logo,<br \/>\npela conversa travada entre n\u00f3s duas, que ele essa noite iria para Botafogo,<br \/>\npois havia j\u00e1 tr\u00eas seguidas que ficava com Palmira.<\/p>\n<p>N\u00e3o protestou logo, apenas franziu o nariz. \u00c0 sobremesa, por\u00e9m, come\u00e7ou a<br \/>\nlamentar-se sozinho em casa &#8211; e que, com franqueza, antes n\u00e3o tivesse casado<br \/>\n&#8211; e que era prefer\u00edvel n\u00e3o amar a esposa como ele a amava &#8211; e n\u00e3o sei que<br \/>\nmuitas frases deste g\u00eanero.<\/p>\n<p>Fingi n\u00e3o perceber a sua rabugice e, para mudar de conversa, falei-lhe de<br \/>\ninteresses comerciais, atirando-lhe perguntas sobre perguntas, a que tinha<br \/>\nele de responder a todas. Mas Leandro, que se conservava ao lado da mulher<br \/>\nn\u00e3o descia da sua preocupa\u00e7\u00e3o e, por meias palavras em segredo a gestos dissimulados,<br \/>\ninstigava Palmira a protestar contra o meu arb\u00edtrio. Palmira, a furto, olhava-me<br \/>\nsuplicante.<\/p>\n<p>Findo o jantar fomos jogar o p\u00f4quer, e ele durante o jogo parecia cada vez<br \/>\nmais contrariado. Ao ch\u00e1 mostrou-se ainda carinhoso com minha filha, n\u00e3o obstante<br \/>\nir visivelmente se agravando o seu mau humor \u00e0 medida que se aproximava a<br \/>\nhora da separa\u00e7\u00e3o. E depois do ch\u00e1 deixou-se ficar conversando, sem se resolver<br \/>\na tomar o chap\u00e9u e a bengala.<\/p>\n<p>Levantei-me e chamei o criado para dizer-lhe que se preparasse para apagar<br \/>\nas luzes e fechar a casa, porque o senhor Leandro ia sair. Palmira ent\u00e3o veio<br \/>\nter comigo com o ar embara\u00e7ado, as m\u00e3os um tanto frias; deu-me um beijo, e<br \/>\npediu-me, hesitante, comovida, e em segredo que eu consentisse ao marido passar<br \/>\ncom ela ainda aquela noite.<\/p>\n<p>Durante isto, meu genro, sem abalar donde estava, sacudia com impaci\u00eancia<br \/>\na perna que tinha dobrada sobre a outra. E olhava-me \u00e0 esconsa.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0N\u00e3o! n\u00e3o! respondi \u00e0 minha filha.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Mam\u00e3e!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ele j\u00e1 c\u00e1 ficou tr\u00eas noites seguidas&#8230; \u00c9 preciso que se v\u00e1 embora.<\/p>\n<p>Palmira ia insistir a fazer-me novas car\u00edcias, mas o marido interrompeu-a<br \/>\nsecamente, erguendo-se.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0N\u00e3o insistas! disse. Para qu\u00ea?&#8230; Deixa l\u00e1 tua m\u00e3e! Ela n\u00e3o quer!<br \/>\nAcabou-se!<\/p>\n<p>N\u00e3o dei palavra. E ele acrescentou, sem se poder conter: &#8211; Ora! afinal isto<br \/>\n\u00e9 humilhante e rid\u00edculo para mim! N\u00e3o sei agora que me parece ser preciso<br \/>\nandar eu solicitando, como um grande favor, uma coisa que no fim de contas<br \/>\n\u00e9 do meu direito!<\/p>\n<p>Era a primeira vez que meu genro me falava com semelhante aspereza. At\u00e9 a\u00ed<br \/>\nsempre me guardara respeito, fugindo at\u00e9 a discutir comigo. Produziram-me<br \/>\npois m\u00e1 impress\u00e3o o tom e a forma do seu protesto; mas, no \u00edntimo dos meus<br \/>\ninteresses maternais, ria de gozo por ver aquele desespero com que o pobre<br \/>\nrapaz disputava mais uma noite ao lado da esposa, e a como\u00e7\u00e3o e ardor com<br \/>\nque esta o acompanhava nesse empenho.<\/p>\n<p>Definitivamente o suspirado milagre do amor matrimonial tinha-o eu realizado<br \/>\nem benef\u00edcio de minha filha!<\/p>\n<p>Mas Leandro prosseguiu entredentes:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Afinal, por menos que se pare\u00e7am as sogras, h\u00e3o de ser sempre sogras!<\/p>\n<p>&#8211; Que quer meu genro dizer com isso?&#8230; perguntei; agora ressentida, a despeito<br \/>\nde tudo.<\/p>\n<p>Aquela terr\u00edvel palavra &#8220;Sogra&#8221;, t\u00e3o mal reputada e t\u00e3o corrompida pelo mau<br \/>\ngosto dos zombeteiros da imprensa, lan\u00e7ada assim \u00e0 queima-roupa, produziu-me<br \/>\no efeito do mais feio insulto.<\/p>\n<p>Ele respostou:<\/p>\n<p>&#8211; Ora, que quero dizer!&#8230; Quero dizer que a senhora minha sogra abusa do<br \/>\npacto feito entre n\u00f3s quando me casei! E abusa da sua posi\u00e7\u00e3o de minha benfeitora,<br \/>\ncontrariando-me e torturando-me s\u00f3 pelo gostinho de ser sogra!<\/p>\n<p>Palmira interveio a favor dele, mas em tom modesto.<\/p>\n<p>&#8211; Leandro tem raz\u00e3o, mam\u00e3e! Que mal faz que ele fique hoje comigo? Ele \u00e9<br \/>\nmeu marido!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E a senhora que gosta tanto de citar a B\u00edblia, refor\u00e7ou meu genro, devia<br \/>\nsaber que ela manda \u00e0 mulher deixar pai e m\u00e3e para seguir o marido.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, mam\u00e3e! A B\u00edblia manda!&#8230; confirmou minha filha com uma carinha brejeira.<br \/>\nLembre-se de que Deus Nosso Senhor disse a Eva para obedecer a Ad\u00e3o e acompanh\u00e1-lo<br \/>\npor todo lugar onde ele fosse!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, observei-lhe, Eva n\u00e3o tinha m\u00e3e, a seu lado, que, se a tivesse, n\u00e3o<br \/>\ndaria ouvidos \u00e0 serpente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! exclamou Leandro agastado. Dir-se-ia que a senhora me chamou &#8220;Serpente!&#8221;<br \/>\nSerpente! Tem gra\u00e7a!&#8230; Eu \u00e9 que sou a serpente!&#8230; Pois minha senhora, se<br \/>\naqui temos pomo de disc\u00f3rdia, n\u00e3o sou eu com certeza que o promovo. E, quanto<br \/>\nao fato de Eva n\u00e3o ter m\u00e3e, digo-lhe ent\u00e3o, francamente, que Ad\u00e3o, esse \u00e9<br \/>\nque era deveras um felizardo, porque n\u00e3o tinha sogra! Ouviu, minha senhora?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o tinha sogra<\/p>\n<p>E depois de passear agitado pela sala, respingou ainda, enquanto eu, assentada<br \/>\njunto \u00e0 mesa, percorria as p\u00e1ginas de uma ilustra\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Serpente! Ora esta! &#8211; Serpente!<\/p>\n<p>&#8211; Eu lhe n\u00e3o chamei serpente, homem de Deus! disse afinal, fitando-o atrav\u00e9s<br \/>\ndas minhas lunetas. O senhor n\u00e3o tem raz\u00e3o! Creio que at\u00e9 agora ainda n\u00e3o<br \/>\nexorbitei dos meus direitos ajustados antes do casamento! O senhor \u00e9 que se<br \/>\nest\u00e1 excedendo, meu genro!<\/p>\n<p>E tornei ao meu jornal.<\/p>\n<p>E serenou um pouco e prosseguiu depois, sem deixar de espacear pela sala:<\/p>\n<p>&#8211; Mas enfim, queria que me dissessem que mal viria ao mundo, se eu ficasse<br \/>\nhoje ao lado da Palmira!&#8230;<\/p>\n<p>E parou defronte de mim, para me falar em voz mais baixa: &#8211; Quer que lhe<br \/>\ndiga ent\u00e3o uma coisa, Sr.a D. Ol\u00edmpia? A senhora, com essas suas exig\u00eancias,<br \/>\nfaz-me ter id\u00e9ias que me repugnam! Eu amo muito minha mulher; sou homem, sinto-me<br \/>\ncomovido ao lado dela; desejo-a; (E creio que com isso n\u00e3o cometo um crime!)<br \/>\nmas, depois de jantarmos juntos e juntos passarmos algumas horas, tenho de<br \/>\nretirar-me e meter-me sozinho em casa! Ora diga-me: parece-lhe que seria muito<br \/>\ncensur\u00e1vel, se eu, ao sair daqui, fosse procurar onde n\u00e3o tenho direito as<br \/>\nconsola\u00e7\u00f5es de que a senhora me priva ao lado da \u00fanica mulher que legitimamente<br \/>\nmas pode dar?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Leandro! Leandro, n\u00e3o digas isso! exclamou minha filha, correndo a lan\u00e7ar-se<br \/>\nnos bra\u00e7os do marido. Ou\u00e7a, mam\u00e3e! ou\u00e7a o que ele est\u00e1 dizendo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te podes queixar de mim, filhinha! respondeu meu genro, triunfante<br \/>\ncom o seu estratagema. Queixa-te de tua pr\u00f3pria m\u00e3e!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! protestou ela, passando-lhe os bra\u00e7os em volta do pesco\u00e7o e beijando-\u00ba<br \/>\nN\u00e3o quero que digas isso, mesmo sabendo que serias incapaz de semelhante deslealdade!<\/p>\n<p>E correndo de novo para mim, j\u00e1 com as l\u00e1grimas a quebrarem-lhe a voz: &#8211;<br \/>\nVamos, mam\u00e3e, diga-lhe por amor de Deus que fique! Bem v\u00ea que estas coisas<br \/>\nme p\u00f5em nervosa! &#8211; E batendo com o p\u00e9: &#8211; Eu n\u00e3o consinto que Leandro v\u00e1 hoje<br \/>\ndaqui sozinho! Se mam\u00e3e n\u00e3o o deixa ficar, sou eu que me vou com ele! Sozinho<br \/>\nj\u00e1 o n\u00e3o deixo hoje!<\/p>\n<p>&#8211; Pois fiquem juntos! fiquem! respondi finalmente, erguendo-me, disposta<br \/>\na retirar-me para o quarto. Voc\u00eas no fim de contas n\u00e3o passam de duas crian\u00e7as,<br \/>\ne fazem-me a mim tamb\u00e9m crian\u00e7a!<\/p>\n<p>Palmira p\u00f4s-se a saltar, batendo palmas; e, assim aos saltos, veio at\u00e9 a<br \/>\nmim, apanhou-me o rosto com ambas as m\u00e3os e cobriu-me de beijos estalados.<\/p>\n<p>Leandro, cuja fisionomia fora a pouco e pouco se abrindo e alegrando, chegou-se<br \/>\ntamb\u00e9m para despedir-se de mim.<\/p>\n<p>Notei, no seu olhar, que ele me agradecia sinceramente aquela concess\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1! V\u00e1! disse-lhe eu, batendo-lhe uma amig\u00e1vel palmada no ombro. Mas fica<br \/>\npara outra vez prevenido desde j\u00e1 de que, quanto mais longe forem as suas<br \/>\namea\u00e7as, tanto pior para o senhor&#8230; Deus lhe d\u00ea muito boa noite!<\/p>\n<p>Apertei-lhe a m\u00e3o, beijei inda uma vez Palmira e retirei-me para o meu quarto.<\/p>\n<p>Bem ouvi ainda resmungar meu genro com a mulher. Queixava-se de mim, naturalmente.<br \/>\nCompreendi que nesse momento estava sendo amaldi\u00e7oada por ele, mas sentia-me<br \/>\nradiante, porque tinha ampla convic\u00e7\u00e3o de que minha filha, apesar de casada<br \/>\nhavia j\u00e1 quase dois anos, ia ser feliz, muito feliz, nos bra\u00e7os do esposo.<\/p>\n<p>Recolhida, depois da minha habitual ora\u00e7\u00e3o, em que pedia a Deus continuasse<br \/>\na dar-nos, a ela a felicidade e a mim for\u00e7as para poder zelar por esta, deitei-me<br \/>\ne adormeci, com a alma nadando em j\u00fabilo.<\/p>\n<p>Tinha eu conseguido boa parte do meu ideal. \u00c0 custa daqueles d\u00fabios enfados<br \/>\ne arrufos passageiros, a grande ilus\u00e3o do amor instinto, a deliciosa quimera<br \/>\nda felicidade sensual, mantinha-se equilibrada, sem cair por terra como desalada<br \/>\nmentira, nem perder-se no vago como desvairado sonho.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas, dentro em pouco, uma grande ocorr\u00eancia vinha alterar nossa vida, t\u00e3o<br \/>\ncustosamente bem feita, e revolucionar-nos a casa, abrindo entre minha filha<br \/>\ne meu genro uma cena cruel, cena de l\u00e1grimas e solu\u00e7os, agora verdadeiros,<br \/>\nde verdadeira dor.<\/p>\n<h2><a name=\"19\"><\/a>XIX<\/h2>\n<p>Manifestaram-se em Palmira os sintomas de gravidez. Isto, que em outra fam\u00edlia<br \/>\nseria motivos de regozijo, l\u00e1 conosco foi raz\u00e3o de s\u00e9rias lutas por mim travadas<br \/>\ncontra meu genro e minha filha.<\/p>\n<p>Declarei logo que ela, desde esse dia, deixava de coabitar com o marido,<br \/>\ne que este seguiria no primeiro paquete a sair para a Europa, ou partir\u00edamos<br \/>\nn\u00f3s duas. Se ele fosse, todas as despesas da sua viagem correriam por minha<br \/>\nconta, mas Leandro s\u00f3 tornaria a ver a mulher, quando esta pudesse apresentar-lhe<br \/>\nnos bra\u00e7os o filhinho, j\u00e1 dignamente livre dos cueiros e das cuecas, todo<br \/>\nenfeitado, coberto de rendas e fitas e cheirando como um bot\u00e3o de rosa.<\/p>\n<p>Uma bomba de dinamite n\u00e3o causaria maior explos\u00e3o do que este meu decreto.<br \/>\nFoi fulminante: minha filha quase perde os sentidos ao receb\u00ea-lo; meu genro,<br \/>\nque acabava de almo\u00e7ar conosco, enterrou o chap\u00e9u na cabe\u00e7a e desgalgou de<br \/>\ncasa como um raio, exclamando que fugia &#8211; para n\u00e3o fazer ali mesmo uma loucura.<\/p>\n<p>Eu, por\u00e9m, estava resolvida a n\u00e3o ceder um passo. E n\u00e3o cedi.<\/p>\n<p>Em v\u00e3o minha filha recorreu a todos os modos da s\u00faplica; em v\u00e3o chorou e<br \/>\njurou que morreria se tivesse o filho longe de Leandro; em v\u00e3o amea\u00e7ou-me<br \/>\nde que seria capaz de um infantic\u00eddio para n\u00e3o sofrer aquela minha exig\u00eancia<br \/>\n&#8211; assim t\u00e3o dura, t\u00e3o desumana e t\u00e3o rid\u00edcula.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca pensei, mam\u00e3e, disse-me ela, que a senhora levasse t\u00e3o longa a sua<br \/>\nmania de separar-me de meu marido! Nem parece que vosmec\u00ea \u00e9 m\u00e3e e j\u00e1 esteve<br \/>\ngr\u00e1vida, porque ent\u00e3o devia saber que uma mulher, quando est\u00e1 neste estado<br \/>\ne tem de dar \u00e0 luz, o primeiro filho principalmente, quem mais deseja perto<br \/>\nde si \u00e9 o esposo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 justamente porque j\u00e1 estive gr\u00e1vida; \u00e9 porque te dei \u00e0 luz; \u00e9 porque<br \/>\nsou m\u00e3e; e \u00e9 porque tamb\u00e9m fiz grande quest\u00e3o em que teu pai acompanhasse<br \/>\ntodo o per\u00edodo da minha gravidez, e assistisse, do come\u00e7o ao fim, o parto<br \/>\ndonde nasceste &#8211; que agora n\u00e3o consinto, por forma nenhuma, suceda contigo<br \/>\na mesma coisa! Sei o que fa\u00e7o, minha filha! E, desde j\u00e1, previne teu marido<br \/>\nde que, se se opuser \u00e0s minhas determina\u00e7\u00f5es, n\u00e3o conte ele comigo para mais<br \/>\nnada, a n\u00e3o ser persegui\u00e7\u00e3o e vingan\u00e7a!<\/p>\n<p>Desta vez n\u00e3o fui pedir \u00e0 B\u00edblia o outro vers\u00edculo do Lev\u00edtico, em que o<br \/>\nSenhor, muito expressamente, d\u00e1 a Mois\u00e9s e Aar\u00e3o, para que a transmitam aos<br \/>\nfilho de Israel, a lei especial do afastamento durante o nojo da parturi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da prenhez. J\u00e1 me n\u00e3o animava a citar a B\u00edblia; tal firmeza mostrei por\u00e9m<br \/>\nna minha vontade, que meu genro compreendeu a inutilidade de abrir luta, a<br \/>\nn\u00e3o ser com um rompimento completo e brusco.<\/p>\n<p>O pobre rapaz ficou aflito, bem o vi, e na realidade causava-me pena. Parecia<br \/>\nter perdido a cabe\u00e7a; n\u00e3o se animava a romper comigo por uma vez, nem se queria<br \/>\nresignar tampouco \u00e0 minha inflex\u00edvel ditadura de sogra; n\u00e3o que o preocupasse<br \/>\na sua declara\u00e7\u00e3o escrita, creio eu, mas porque um rompimento comigo seria<br \/>\na sua desgra\u00e7a comercial, ou pelo menos violento golpe dardejado na sua nova<br \/>\ncarreira at\u00e9 a\u00ed t\u00e3o pr\u00f3spera.<\/p>\n<p>Reconheci que desta vez o sacrif\u00edcio imposto ao cora\u00e7\u00e3o de ambos era, com<br \/>\nefeito, muito mais s\u00e9rio que das outras, e por isso procurei suaviz\u00e1-lo n\u00e3o<br \/>\nm agastando com as impertin\u00eancias dele, nem com os ressentimentos de minha<br \/>\nfilha. A tudo resisti serenamente, e, com boas palavras e maneiras calmas,<br \/>\nfiz ver a meu genro que ao lado de sua mulher &#8211; ficava eu; e ao lado da enferma<br \/>\n&#8211; ficava um bom m\u00e9dico, que era o Dr. C\u00e9sar.<\/p>\n<p>Ele pois que embarcasse tranq\u00fcilo e confiante; a compet\u00eancia profissional<br \/>\ndo meu velho amigo e os meus desvelos de m\u00e3e n\u00e3o deixariam sentir a nossa<br \/>\nPalmira a falta dos seus cuidados.<\/p>\n<p>Leandro come\u00e7ou da\u00ed por diante a evitar a minha presen\u00e7a; a falar-me secamente<br \/>\ne o menos que podia; come\u00e7ou a n\u00e3o me tratar sen\u00e3o por &#8220;Minha sogra&#8221;, dando<br \/>\na esta palavra uma express\u00e3o t\u00e3o agressiva e t\u00e3o dura, que por fim j\u00e1 me do\u00eda<br \/>\ne magoava bem cruelmente.<\/p>\n<p>Urgia contudo n\u00e3o perder tempo. Era preciso que meu genro partisse quanto<br \/>\nantes, e, uma vez que ele me n\u00e3o queria falar, fui ter humilhada ao seu encontro.<br \/>\nAnimei-o, como a um filho malcriado e caprichoso, e, apesar da ofensiva secura<br \/>\ncom que me ouviu, achei meios de dizer-lhe que n\u00e3o visse no meu ato uma rid\u00edcula<br \/>\npirra\u00e7a de velha rabugenta, dominada pelo esp\u00edrito de contradi\u00e7\u00e3o; fiz-lhe<br \/>\nsentir que, se ele dentro de poucos dias n\u00e3o despregasse do Rio de Janeiro,<br \/>\nnos obrigava, a mim e a minha filha, duas senhoras &#8211; uma idosa e a outra pejada,<br \/>\na aventurarmo-nos numa viagem, onde Palmira n\u00e3o encontraria decerto o conforto<br \/>\ne os socorros que o seu estado reclamava. Al\u00e9m disso, da Europa ele apenas<br \/>\nmal conhecia Londres, atrav\u00e9s de um col\u00e9gio. Precisava agora v\u00ea-la e estud\u00e1-la<br \/>\ncomo homem. Que melhor ocasi\u00e3o para fazer esse passeio?&#8230; Iria descansar<br \/>\num pouco, espairecer, instruir-se, ganhar novas id\u00e9ias e novos pontos de vista,<br \/>\ncujos bons frutos seriam aproveitados em favor da sua profiss\u00e3o comercial<br \/>\ne em favor da educa\u00e7\u00e3o de seu filho.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, replicou Leandro, desejo ir \u00e0 Europa, e muito, mas em companhia de<br \/>\nminha mulher!<\/p>\n<p>&#8211; Ir\u00e1 depois com ela&#8230; correspondi &#8211; e eu mesma os acompanharei, e mais<br \/>\no nosso herdeirozinho&#8230; \u00c9 at\u00e9 muito mais conveniente que o senhor primeiro<br \/>\nrealiza sozinho essa viagem, para poder ensinar depois sua mulher a ver e<br \/>\napreciar aquilo que o senhor j\u00e1 tenha visto. \u00c9 mais correto! Num casal bem<br \/>\nconstitu\u00eddo, o chefe deve sempre levar vantagens sobre a esposa, tanto no<br \/>\nseu grau de cultura intelectual, como no seu conhecimento pr\u00e1tico da vida<br \/>\ne do mundo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Mas abandonar minha mulher quando a vejo naquele estado?!<\/p>\n<p>&#8211; O senhor n\u00e3o a abandona, meu genro; o senhor a deixa entregue aos meus<br \/>\ndesvelos e ao meu amor de m\u00e3e. Quanto ao estado dela &#8211; n\u00e3o queira tamb\u00e9m exagerar<br \/>\nas coisas! a gravidez e o parto, em boa normalidade de circunst\u00e2ncias, s\u00e3o<br \/>\nfun\u00e7\u00f5es naturais e quase t\u00e3o simples como o pr\u00f3prio amor que os produziu.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Mas \u00e9 o primeiro parto!<\/p>\n<p>&#8211; O que lhe n\u00e3o impedir\u00e1 de ser muito benigno, porque o filho foi concebido<br \/>\nnas melhores condi\u00e7\u00f5es que \u00e9 poss\u00edvel desejar. Fique certo, meu genro, que<br \/>\nem geral &#8211; os filhos gerados com todo o amor e com todo o desejo, nem s\u00f3 s\u00e3o<br \/>\nos \u00fanicos perfeitos, como ainda s\u00e3o os que nascem com a maior e mais lisonjeira<br \/>\nfacilidade. \u00c9 preciso desconfiar sempre da harmonia e boa ventura dom\u00e9stica<br \/>\nde um casal, cujos filhos encontrem dificuldade em entrar na vida, a n\u00e3o ser<br \/>\nque haja v\u00edcio org\u00e2nico por parte da mulher ou v\u00edcio de sangue por parte do<br \/>\nhomem. Entre os dois instintos garantidores da vida &#8211; o amor e a fome, existem<br \/>\nas mais estreitas analogias: Da mesma forma que &#8211; comer sem apetite produz<br \/>\nm\u00e1 digest\u00e3o, conceber sem amor &#8211; produz m\u00e1 gravidez e mau parto; quando n\u00e3o<br \/>\nproduz o aborto, que \u00e9 a leg\u00edtima indigest\u00e3o do amor. Meu neto h\u00e1 de ter um<br \/>\nnascimento feliz, sou eu quem lho assegura! E imagine agora o prazer que lhe<br \/>\nest\u00e1 reservado para a sua volta, meu amigo! Prefigure-se tornando \u00e0 casa depois<br \/>\nde alguns meses de aus\u00eancia e vindo encontrar o seu filhinho nos bra\u00e7os da<br \/>\nnossa Palmira! Hein? n\u00e3o lhe parece que o prazer da volta compensa um pouco<br \/>\nos sacrif\u00edcios da aus\u00eancia?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Aus\u00eancia de quase um ano!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Ela est\u00e1 gr\u00e1vida de tr\u00eas meses, creio. Ponhamos um para a viagem<br \/>\n&#8211; quatro! Ao senhor basta demorar-se l\u00e1 seis ou sete, quando muito&#8230; Ora,<br \/>\nseis meses passam depressa, principalmente em passeio pelo Europa, vendo coisas<br \/>\nbonitas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bonitas! Bonito ser\u00e1 se, daqui em diante, mal perceba que minha mulher<br \/>\nest\u00e1 gr\u00e1vida, tenha de entrouxar as malas a toda a pressa e fugir para a Europa!<\/p>\n<p>&#8211; Ora deixe l\u00e1 o futuro, que a Deus pertence, meu filho, e cuidemos do presente,<br \/>\nque \u00e9 a nossa obriga\u00e7\u00e3o. E j\u00e1 n\u00e3o fazemos pouco!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Quando nos separamos essa noite, depois do ch\u00e1, meu genro estava resignado<br \/>\na fazer a viagem. Faltava-me, por\u00e9m, a outra, que me parecia mais dif\u00edcil<br \/>\nde ceder, sem ficar prostrada pelo sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>E, com efeito, maior resist\u00eancia encontrei em Palmira do que em Leandro.<br \/>\nMas com prazer descobri logo que semelhante rea\u00e7\u00e3o n\u00e3o vinha tanto dos seus<br \/>\nterrores do parto, como dos seus mal disfar\u00e7ados ci\u00fames pelo marido, que se<br \/>\nia ausentar assim por tanto tempo.<\/p>\n<p>Desde que percebi isto, tinha por ganha a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Fiz ver-lhe logo que aquela aus\u00eancia de Leandro, longe de ser desfavor\u00e1vel<br \/>\n\u00e0 esposa, era uma nova garantia para o amor e para a felicidade de ambos.<br \/>\nDeixando-o ir agora, surpreendido assim violentamente no auge do seu enlevo<br \/>\namoroso, ela podia ficar segura de que o marido iria resguardado pela saudade<br \/>\ne nada cometeria que pudesse ser lesivo ao ente estremecido que ele deixava<br \/>\nt\u00e3o distante. Leandro honraria o seu voto sagrado e guardaria fidelidade,<br \/>\njustamente por se achar ent\u00e3o a contragosto separado da sua &#8220;pobre e querida<br \/>\nmulherzinha&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Ficando aqui, disse-lhe eu, vendo-te ele todos os dias, sem ali\u00e1s poder<br \/>\naproximar-se de ti para o matrim\u00f4nio, haveria de trair-te, fatalmente, durante<br \/>\nos resguardos da prenhez e do parto, porque a consci\u00eancia lhe descobriria<br \/>\nabsolvi\u00e7\u00e3o para tal delito nas supostas necessidades do seu organismo de homem<br \/>\ne na tua acidental inutilidade de mulher. Ser-te-ia infiel, convencido de<br \/>\nque com isso n\u00e3o cometeria baixeza, nem maldade, porque havia de resgatar<br \/>\na sua culpa junto \u00e0 tua cama de doente, \u00e0 for\u00e7a de constante dedica\u00e7\u00e3o, \u00e0<br \/>\nfor\u00e7a de desvelos de enfermeiro e pequeninos cuidados de bom amigo. Ao passo<br \/>\nque, por mim arrancado barbaramente dos teus bra\u00e7os e repelido para longe,<br \/>\nh\u00e3o de a aus\u00eancia e a saudade envolver-te, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que os dias se passarem,<br \/>\nnum prestigioso v\u00e9u de poesia e desgra\u00e7a; h\u00e1 de dar-te irresist\u00edvel e fascinante<br \/>\naur\u00e9ola de v\u00edtima resignada, a quem seria baixa perf\u00eddia enganar trai\u00e7oeiramente.<\/p>\n<p>A tua aus\u00eancia ser\u00e1 pois a garantia do seu amor e da sua fidelidade. Ele<br \/>\nter\u00e1 medo de pecar, porque j\u00e1 saber\u00e1 de antem\u00e3o que a sua consci\u00eancia lhe<br \/>\nn\u00e3o perdoar\u00e1 semelhante injusti\u00e7a. Aquilo mesmo que aqui, ao teu lado, seria<br \/>\npor ele admitido como fatal conseq\u00fc\u00eancia do resguardo da crise puerperal,<br \/>\nl\u00e1 atingir\u00e1 no seu foro \u00edntimo \u00e0s negras propor\u00e7\u00f5es de torpe covardia. L\u00e1,<br \/>\nsem elementos de resgate do crime, para fazer calar a consci\u00eancia, sem poder<br \/>\nde resto prestar socorros \u00e0 tua gravidez, nem poder consolar-te do teu estado,<br \/>\nele n\u00e3o ter\u00e1 \u00e2nimo de faltar \u00e0 f\u00e9 conjugal, porque todo o seu cora\u00e7\u00e3o ser\u00e1<br \/>\npouco para se lembrar de ti! Todo ele, minha filha, ser\u00e1 pouco para ter um<br \/>\ns\u00f3 ideal &#8211; tornar a ver-te, e beijar o filho! Todo o seu corpo s\u00f3 ter\u00e1 um<br \/>\ndesejo, uma preocupa\u00e7\u00e3o constante, uma necessidade expansiva: &#8211; o de cair-te<br \/>\nnos bra\u00e7os, solu\u00e7ando palavras de amor, e matar com os teus beijos a grande<br \/>\nsaudade que o devorava longe da tua ternura e longe do teu corpo!<\/p>\n<p>E, vamos l\u00e1&#8230; acrescentei, tomando as m\u00e3os de minha filha, que me escutava<br \/>\nimobilizada, com o olhar ferrado num s\u00f3 ponto. Falemos com franqueza: achas<br \/>\ntu que as coisas correriam deste modo, continuando ele aqui ao teu lado? Sabes<br \/>\ntu, porventura como permanecer\u00e1s gravada no seu esp\u00edrito durante a aus\u00eancia<br \/>\nnecess\u00e1ria \u00e0 tua parturi\u00e7\u00e3o?&#8230; ficar\u00e1s gravada como ele te veja pela \u00faltima<br \/>\nvez, no momento do beijo da despedida; aparecer-lhe-\u00e1s no esp\u00edrito como te<br \/>\ntenho agora defronte dos meus olhos &#8211; com o corpo ainda n\u00e3o deformado como<br \/>\nestar\u00e1 daqui a poucos meses. Por enquanto, Palmira, a gravidez te n\u00e3o prejudicou<br \/>\na beleza, ao contr\u00e1rio: vai bem ao teu rosto essa cor misteriosa e p\u00e1lida<br \/>\ne essa tristeza de sorrir; n\u00e3o te fica mal ainda essa languidez no andar,<br \/>\ncomo essa vaga express\u00e3o que tens nos olhos e nos gestos. Mas, quando o teu<br \/>\nfeto atingir ao seu \u00faltimo per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o, sabes tu, minha filha, como<br \/>\nestar\u00e1s diferente e como ser\u00e1s outra? &#8211; abatida, desbotada, sem cintura, com<br \/>\nos p\u00e9s inchados, a cara intumescida, as pernas tr\u00f4pegas, o ventre enorme,<br \/>\ne o est\u00f4mago em revolta, o que seguro te produzir\u00e1 engulhos e mau h\u00e1lito!&#8230;<\/p>\n<p>Palmira interrompeu o seu sil\u00eancio, sem interromper o seu olhar, para responder<br \/>\ncom um suspiro profundo:<\/p>\n<p>&#8211; Ora! meu marido me amar\u00e1 de qualquer modo!&#8230; N\u00e3o fa\u00e7o quest\u00e3o de ser bonita<br \/>\npara ele!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o para quem fazes tu quest\u00e3o de ser bonita, se n\u00e3o \u00e9 para teu marido?<br \/>\nA mim \u00e9 que agradar\u00e1s do mesmo modo em qualquer estado, porque sou tua m\u00e3e;<br \/>\nmas a ele, e s\u00f3 a ele, te conv\u00e9m seduzir como mulher. E acredita, minha Palmira,<br \/>\nque nesse erro consiste boa parte das comuns infelicidades dom\u00e9sticas! Em<br \/>\ngeral, por a\u00ed, a esposa s\u00f3 se enfeita e faz bonita, para sair \u00e0 rua, quando<br \/>\ndentro de sua casa, \u00e9 que ela precisa ser sedutora, porque \u00e9 dentro de sua<br \/>\ncasa que ela tem um homem a quem agradar por toda a vida!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas a gravidez tamb\u00e9m n\u00e3o dura eternamente. Eu voltaria a ser o que<br \/>\nera dantes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Para teu marido nunca mais, depois do parto, volverias a ser o que<br \/>\ndantes foras! Dantes foste o que agora continuas ainda a ser no esp\u00edrito de<br \/>\nLeandro &#8211; a encantadora e mimosa criatura que se fez mulher nos bra\u00e7os dele;<br \/>\ne depois do parto serias e continuarias a ser para sempre &#8211; a mulher que nos<br \/>\nseus bra\u00e7os se fez m\u00e3e! Todos os teus encantos feminis, todas as gra\u00e7as da<br \/>\ntua mocidade em flor, desapareceriam, para s\u00f3 ficar o ventre sagrado, que<br \/>\nse abriu defronte de seus olhos e lhe despejou um filho nos bra\u00e7os! Bem v\u00eas<br \/>\nque n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0N\u00e3o deve ser tanto assim! Mam\u00e3e exagera com certeza!<\/p>\n<p>&#8211; Exagero?! Sabes l\u00e1 que impress\u00e3o deixa um parto ao homem que o assiste?&#8230;<br \/>\nImpress\u00e3o que escandaliza os olhos, os ouvidos e o olfato! Sangrento drama,<br \/>\nque comove e repugna! que faz d\u00f3 e faz n\u00e1useas! Nele a mulher perde inconscientemente<br \/>\na no\u00e7\u00e3o do seu mais cativante e natural instinto, a sua \u00fanica superioridade<br \/>\nsobre o homem, o seu \u00fanico meio de domin\u00e1-lo e prend\u00ea-lo &#8211; o pudor!<\/p>\n<p>No parto, em presen\u00e7a do esposo amado, o pudor, como todas as outras sedu\u00e7\u00f5es<br \/>\nda mulher, desfazem-se-lhe na lama infecta e generosa do seu sangue de m\u00e3e,<br \/>\npara s\u00f3 prevalecer o filho que, de um salto, imediatamente, se apodera do<br \/>\nprincipal lugar at\u00e9 a\u00ed ocupado por ela no cora\u00e7\u00e3o do marido. E este, embriagado<br \/>\ncom a felicidade daquele novo amor, come\u00e7a desde ent\u00e3o a viver s\u00f3 em reviver<br \/>\nno entezinho rec\u00e9m-nascido e melindroso, que \u00e9 agora todo o encantamento do<br \/>\nseu lar; enquanto a mulher, ainda mesmo que recupere as gra\u00e7as primitivas,<br \/>\nfica, nos intervalos de resfriado matrim\u00f4nio, encostada a um canto, esquecida<br \/>\ncomo uma m\u00e1quina em descanso.<\/p>\n<p>Palmira soltou um suspiro mais longo que o outro, e continuou a fixar o mesmo<br \/>\nponto, com os olhos im\u00f3veis.<\/p>\n<p>Eu prossegui:<\/p>\n<p>&#8211; E depois!&#8230; logo depois do parto?&#8230; Enquanto o filho, nos seus primeiros<br \/>\ndias de vida, com o seu primeiro choro, vai roubando \u00e0 m\u00e3e todos os carinhos<br \/>\nsensuais do marido dela, o que \u00e9 a mulher?&#8230; \u00c9 uma pouca de carne dolorida<br \/>\ne mole que ali est\u00e1 sobre a cama! E \u00e9 preciso defumar o quarto, mudar constantemente<br \/>\nas roupas sujas! Ela, coitada! num resguardo absoluto, sem se poder lavar<br \/>\ncompletamente, nem pentear-se, nem desinfetar os cabelos e o corpo, s\u00f3 vive<br \/>\npara a sua recente maternidade e para o gozo animal do seu estado de al\u00edvio,<br \/>\ndepois que despejou a carga que a oprimia por tantos meses e que lhe fazia<br \/>\nsofrer dores f\u00edsicas e sobressaltos morais. Dos beijos de compaix\u00e3o e de reconhecimento<br \/>\nque o esposo lhe d\u00e1 durante esse per\u00edodo do cheiro de alfazema, nasce entre<br \/>\nos dois uma doce amizade, uma respeitosa estima de bons companheiros, um sentimento<br \/>\nmuito bonito, muito s\u00e9rio, muito duradouro, mas que \u00e9 o inimigo mortal do<br \/>\namor gen\u00e9sico.<\/p>\n<p>A sexualidade que entre eles vier depois, j\u00e1 nada tem que ver com o poderoso<br \/>\ninstinto, que os arrastou abra\u00e7ados ao leito conjugal, e ser\u00e1 mero produto<br \/>\ndo h\u00e1bito, uma pregui\u00e7osa permuta de car\u00edcias frouxas, obra quase inconsciente<br \/>\nda mat\u00e9ria, sem o menor concurso do esp\u00edrito ou da imagina\u00e7\u00e3o, donde faz entretanto<br \/>\no amor fecundo a sua gloriosa for\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o! n\u00e3o! n\u00e3o, minha filha! teu esposo n\u00e3o te ver\u00e1 de ventre crescido, n\u00e3o<br \/>\nte sentir\u00e1 mau h\u00e1lito, n\u00e3o ouvir\u00e1 teus gemidos e gritos de parturiente, nem<br \/>\nassistir\u00e1 a sair-te das entranhas, entre as viscosas esponjosidades da placenta<br \/>\ne a nauseante fedentina dos humores puerperais, um ensang\u00fcentado feto, uma<br \/>\nposta vermelha de lodo vivo! Teu esposo, n\u00e3o te ver\u00e1 amolentada, entre mornos<br \/>\ntravesseiros, impregnada de cheiro de alfazema, parida! N\u00e3o! n\u00e3o h\u00e1 de ver!<br \/>\nN\u00e3o quero!<\/p>\n<p>Ela soltou um novo suspiro e mudou de mira, sem alterar a fixidez dos olhos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! arrematei. H\u00e1s de conservar-te integralmente sedutora na imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nde teu marido! Quero que ele te deixe fresca e bonita, como ainda est\u00e1s agora,<br \/>\ne te venha encontrar depois, ainda mais interessante do que te deixou, com<br \/>\numa linda e cheirosa criancinha ao colo. O teu parto n\u00e3o h\u00e1 de inutilizar<br \/>\naos seus olhos a mulher que ele em ti ama. N\u00e3o quero que ele se converta no<br \/>\nteu amigo extremoso; quero enfim que Leandro se n\u00e3o desiluda contigo, como<br \/>\nhomem, para que ele n\u00e3o precise nunca substituir-te secretamente por outra<br \/>\nmulher!<\/p>\n<p>E, depois de uma pausa, terminei carinhosamente com estas palavras: &#8211; Ora<br \/>\na\u00ed tens tu, minha filha, a raz\u00e3o do meu procedimento. Agora a ti compete apreci\u00e1-lo<br \/>\nbem ou mal&#8230;<\/p>\n<p>Palmira levantou-se, beijou-me, e caiu solu\u00e7ando nos meus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Minha boa m\u00e3e!&#8230; disse ela.<\/p>\n<p>A pobre crian\u00e7a tinha compreendido tudo, e a sua singela frase pagou-me nesse<br \/>\ninstante de todos os desgostos que sofri e de todos os desvelos que por seu<br \/>\namor mantive at\u00e9 a\u00ed com tanta luta.<\/p>\n<p>&#8211; De hoje em diante, segredei-lhe eu, enxugando-lhe as l\u00e1grimas, dormir\u00e1s<br \/>\ncomigo no meu quarto, meu amor, ao lado de mim, na mesma cama, at\u00e9 \u00e0 volta<br \/>\nde teu marido. Est\u00e1 dito?<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Sim, sim, mam\u00e3e!<\/p>\n<h2><a name=\"20\"><\/a>XX<\/h2>\n<p>E assim foi. Durante os poucos dias que precederam a viagem de meu genro,<br \/>\nminha filha dormiu todas as noites comigo.<\/p>\n<p>Imagine-se o que dele n\u00e3o tive de sofrer por semelhante fato. Quando soube<br \/>\nda minha resolu\u00e7\u00e3o, desesperou-se; dessa vez chegou a chamar-me &#8220;jararaca!&#8221;<br \/>\nMas Palmira estava bem convencida das minhas raz\u00f5es e tanto me bastava, porque<br \/>\nera todo o meu empenho n\u00e3o lhe irritar os nervos, contrariando-a. Quanto ao<br \/>\nmarido &#8211; que esbravejasse \u00e0 vontade, contanto que se pusesse ao largo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m era s\u00f3 o que faltava &#8211; que fosse eu agora impressionar-me com o infantil<br \/>\nego\u00edsmo de meu genro! Procurava, \u00e9 exato, esconder aos olhos de Palmira a<br \/>\nminha superioridade sobre ele, fingindo at\u00e9 respeit\u00e1-lo e tem\u00ea-lo, mas s\u00f3<br \/>\npelo receio de que a compreens\u00e3o justa da verdade viesse a prejudicar o ju\u00edzo<br \/>\nque minha filha mantinha com respeito ao valor moral de seu marido. Em uma<br \/>\npalavra &#8211; receava que ele se amesquinhasse aos olhos dela.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m notar que Leandro, depois que aceitara, resmungando, a minha ditadura<br \/>\nde sogra intransigente, come\u00e7ou a ter impertin\u00eancias e rebugices de uma verdadeira<br \/>\ncrian\u00e7a. Ia ao ponto de fazer manha, para que a mulher o consolasse com carinhos<br \/>\ne se fizesse zangada, de mentira, contra mim, fingindo-se revoltada e afetando<br \/>\nindigna\u00e7\u00e3o nas suas palavras, como a ama que, para engodar o beb\u00ea, diz inj\u00farias<br \/>\n\u00e0 cadeira em que ele por acaso deu uma pancada com o corpo.<\/p>\n<p>Nestas coisas de dentro de casa, no segredo do cofre dom\u00e9stico, o marido<br \/>\nquase sempre \u00e9 muito mais pueril e piegas que a mulher. Esta s\u00f3 aparenta infantilidade<br \/>\nna rua ou na exibi\u00e7\u00e3o social, para se fazer inocente e c\u00e2ndida, porque assim<br \/>\ndela exige o p\u00fablico; e aquele, para o efeito contr\u00e1rio, \u00e9 a\u00ed que sustenta,<br \/>\nou simplesmente afeta, a rija linha do seu sexo forte. Da porta da rua para<br \/>\nfora, ela \u00e9 crian\u00e7a e ele \u00e9 gente grande; mas, da porta da rua para dentro,<br \/>\n\u00e9 o homem quem d\u00e1 a nota infantil, ao passo que a mulher em geral \u00e9 quem garante<br \/>\na tranq\u00fcila seriedade do lar, com a sua moral e o seu bom senso pr\u00e1tico, com<br \/>\na sua perspic\u00e1cia e com a sua const\u00e2ncia, resigna\u00e7\u00e3o e for\u00e7a de paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Receosa de que semelhantes pieguices em meu genro viessem a deprimir sobremaneira<br \/>\na ilus\u00e3o do amor que minha filha consagrava, tratei em tempo de providenciar<br \/>\nneste sentido, mas dei logo pouco depois pelo meu erro, percebendo que as<br \/>\nmesmas pequenas separa\u00e7\u00f5es por mim impostas aos dois, como preservativo contra<br \/>\no t\u00e9dio, longe de extinguirem as infantilidades de Leandro, ainda mais lhes<br \/>\ndavam vida. E acabei por convencer-me de que o fato era natural e pr\u00f3prio<br \/>\ndo car\u00e1ter mesmo do amor, e que por conseguinte nunca poderia ser ele desagrad\u00e1vel<br \/>\n\u00e0 mulher amada.<\/p>\n<p>Parece, \u00e0 primeira vista, que o homem, quando se faz piegas e submisso ao<br \/>\nlado de uma mulher, deve tornar-se rid\u00edculo aos olhos dela e pois incompat\u00edvel<br \/>\ncom o seu amor; assim n\u00e3o acontece, por\u00e9m, desde que tal pieguice e tal humilha\u00e7\u00e3o<br \/>\nsejam praticadas s\u00f3 e exclusivamente com essa mulher e rigorosamente escondidas<br \/>\na todos os mais. E se esse homem, assim pueril e mimalho para com essa mulher<br \/>\namada, for opostamente para os outros, como muita vez sucede, um car\u00e1ter en\u00e9rgico<br \/>\ne um esp\u00edrito respeit\u00e1vel, ent\u00e3o a coisa \u00e9 completa no interesse do amor de<br \/>\nambos.<\/p>\n<p>Est\u00e1 bem claro que tudo isso s\u00f3 se pode bem verificar quando o casal goza<br \/>\na felicidade de ter parentes mais velhos que o dominem, e contra os quais<br \/>\npossa o esposo e a esposa queixarem-se entre si. Esta \u00e9 uma das vantagens<br \/>\nde ter sogra; enquanto o genro briga com a sobra n\u00e3o briga com a mulher; antes<br \/>\npelo contr\u00e1rio mais se chega para esta; e os frescos e surdos la\u00e7os da conspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nque os re\u00fane e religa, conseguem em muitos e muitos casos o que os afrouxados<br \/>\nla\u00e7os do instinto sexual j\u00e1 n\u00e3o podiam obter entre eles.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Bem diferente, pois, \u00e9 no homem o seu modo de amar comparado com o modo de<br \/>\namar da mulher, como bem diferente s\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es do amor de cada um.<\/p>\n<p>O homem tem o jogo franco no amor; a mulher tem o jogo encoberto. O homem,<br \/>\ndesde que ame deveras, n\u00e3o pode guardar segredos para a mulher amada; tem,<br \/>\npor uma lei cong\u00eanita \u00e0 sua pr\u00f3pria ternura, de abrir defronte dela o seu<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o, de par em par, como uma carteira, que ele todavia para outros trouxesse<br \/>\navaramente oculta e bem fechada; tem de expor-lhe a alma toda nua, e nu todo<br \/>\no seu mais rec\u00f4ndito pensamento. N\u00e3o lhe esconder\u00e1 nada do que se passa dentro<br \/>\ndele, cavando e desencerrando at\u00e9 \u00e0s mais \u00edntimas e fundas circunst\u00e2ncias,<br \/>\nainda mesmo aquelas que possam ser deprimentes do seu car\u00e1ter, nocivas ao<br \/>\nseu amor, e at\u00e9 mesmo desagrad\u00e1veis e humilhantes para a mulher que as ouve.<\/p>\n<p>O homem, que ama sinceramente, come\u00e7a logo por contar \u00e0 sua amada todas as<br \/>\nparticularidades de sua vida, chegando sempre a ser rid\u00edculo pela insist\u00eancia<br \/>\nem despejar aos p\u00e9s dela todo o seco e frio baga\u00e7o do seu passado. N\u00e3o se<br \/>\nesquece do menor epis\u00f3dio; diz-lhe tudo, tudo, tudo! E a mulher suporta isto<br \/>\na sorrir, e recolhe o in\u00fatil despejo com sua condescend\u00eancia de que o homem<br \/>\nn\u00e3o seria capaz para com ela.<\/p>\n<p>Ao passo que a mulher, por maior amor que consagre a um homem, nunca lhe<br \/>\nmostra a alma por inteiro, nunca lhe franqueia totalmente o cora\u00e7\u00e3o e nunca<br \/>\nlhe confia de todo, nas suas confid\u00eancias mais \u00edntimas, o res\u00edduo do seu passado.<br \/>\nA mulher \u00e9 amiga apaixonada do mist\u00e9rio, apesar de ser a eterna inimiga do<br \/>\nsegredo.<\/p>\n<p>A mulher ama sempre de emboscada, armando la\u00e7os e esparrelas; quer apanhar<br \/>\nde surpresa o homem amado, sem que ele d\u00ea pela armadilha e possa a tempo defender-se.<br \/>\nE da\u00ed o ela conhecer sempre t\u00e3o profundamente o homem que ama e com quem vive;<br \/>\nfato de grande desvantagem para ele, porque n\u00e3o h\u00e1 homem, por superior, capaz<br \/>\nde resistir sem rid\u00edculo a semelhante an\u00e1lise; o que ainda constitu\u00ed, a meu<br \/>\nver, mais um escolho para a conviv\u00eancia matrimonial.<\/p>\n<p>Entretanto, o homem nunca chega a conhecer de todo a mulher que lhe pertence,<br \/>\npor mais que ela o ame. Assim sucede que muita vez, na intimidade de um casal<br \/>\nj\u00e1 de muitos anos constitu\u00eddo, l\u00e1 uma bela ocasi\u00e3o o esposo fica admirado<br \/>\nde ouvir falar \u00e0 mulher de um fato, j\u00e1 velho na vida dela, e no entanto perfeitamente<br \/>\ndesconhecido para ele.<\/p>\n<p>&#8211; Como, diz o homem, pois isso aconteceu?&#8230; N\u00e3o sabia! ignorava-o at\u00e9 agora!<br \/>\nTu nunca mo disseste!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E por que havia de ter dito?&#8230; argumenta a mulher. Nunca tive ocasi\u00e3o<br \/>\nde falar-te em semelhante coisa&#8230; Nunca me perguntaste nada a esse respeito&#8230;<\/p>\n<p>E aqui est\u00e1 justamente a grande diferen\u00e7a no modo de amar dos dois sexos.<br \/>\nO homem diz &#8211; espontaneamente, e a mulher confessa &#8211; interrogada.<\/p>\n<p>Algumas h\u00e1, casadas, que p\u00f5em melindroso empenho em nunca mentir ao marido,<br \/>\ne, sem jamais mentir com efeito, escondem-lhe tudo o que lhes conv\u00e9m ocultar,<br \/>\ne \u00e0s vezes coisas que s\u00e3o a desonra dele. Mas n\u00e3o mentiram.<\/p>\n<p>O homem em conclus\u00e3o, dada mesmo a melhor hip\u00f3tese da sua altivez e energia<br \/>\nde car\u00e1ter, pode ser banal e piegas no seu amor. E meu genro era assim, com<br \/>\na circunst\u00e2ncia, por\u00e9m, de que a sua puerilidade era toda cariciadora e amorosa<br \/>\npara minha filha e era para mim s\u00f3 feita de impertin\u00eancias e rabugens de crian\u00e7a<br \/>\nmalcriada. Como, n\u00e3o obstante, eu sabia pesar e dar o verdadeiro valor a tudo<br \/>\nisso, n\u00e3o o responsabilizava por tais mis\u00e9rias, e \u00edamos vivendo. De resto,<br \/>\ncomo eu s\u00f3 o amava pelo efeito reflexivo do muito que eu queria a Palmira,<br \/>\nachava-o rid\u00edculo, sem contudo sentir por ele \u00f3dio, nem desprezo, como nos<br \/>\nsucede comumente acharmos rid\u00edculas, nos outros, muitas coisas que s\u00e3o naturais<br \/>\ne que observamos em n\u00f3s mesmos e em n\u00f3s mesmos lhes reconhecemos a utilidade.<\/p>\n<p>Todavia, a sua partida comoveu-me bastante. Fomos lev\u00e1-lo a bordo. O Dr.<br \/>\nC\u00e9sar n\u00e3o p\u00f4de ir conosco, porque tinha em casa a irm\u00e3 muito mal com uma pneumonia<br \/>\naguda.<\/p>\n<p>Era em abril, num belo dia de sol. Palmira estava encantadora; fiz-lhe p\u00f4r,<br \/>\nintencionalmente, um vestido preto enfeitado de rendas valencianas, porque<br \/>\nassim convinha \u00e0 sua palidez, que se agravara naquela \u00faltima quinzena; o chap\u00e9u,<br \/>\nmuito simples e tamb\u00e9m preto, guardava-lhe apenas uma parte da cabe\u00e7a, envolvido,<br \/>\ncom o rosto, num vaporoso v\u00e9u cor-de-rosa, que \u00e0 luz da manh\u00e3 fazia real\u00e7ar<br \/>\no tom magoado da sua formosura.<\/p>\n<p>Na lancha, assentada ao lado do marido, com o busto destacando nitidamente<br \/>\ndo fundo brilhante e verde do mar, parecia-me mais bonita do que nunca. Durante<br \/>\na ida, Leandro conservou por toda a viagem uma das m\u00e3os dela entre as suas,<br \/>\nlan\u00e7ando sobre mim, de vez em quando, olhares de feroz ressentimento. Eu fingia<br \/>\nn\u00e3o perceber o seu \u00f3dio, e era toda ouvidos para o que os dois conversavam<br \/>\nem voz baixa, esquecidos um no outro, num alheio ego\u00edsmo de amantes sobressaltados.<\/p>\n<p>Percebi que minha filha lhe murmurava dos ci\u00fames que ia sentir por ele durante<br \/>\na aus\u00eancia e ouvi distintamente a resposta de meu genro:<\/p>\n<p>&#8211; Se tu soubesse como levo este cora\u00e7\u00e3o despeda\u00e7ado, n\u00e3o me falarias nisso&#8230;<br \/>\nMaldita a hora em que empenhei minha palavra!&#8230;<\/p>\n<p>E, depois de desferir contra mim mais um olhar col\u00e9rico, tirou o len\u00e7o da<br \/>\nalgibeira, para esconder o rosto, resmungando com azedume alguma coisa, no<br \/>\nque senti ferir-me ainda a ponta de uma desconhecida inj\u00faria.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ora, coitado! pensei, julga-me mal e me n\u00e3o perdoa o mal que me julga&#8230;<br \/>\nMais tarde me far\u00e1 justi\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>E larguei tudo isso de m\u00e3o, para s\u00f3 pensar no valor daquele vivo e palpitante<br \/>\nci\u00fame de minha Palmira, t\u00e3o amada e t\u00e3o desejada pelo esposo&#8230;<\/p>\n<p>Ah! esse espet\u00e1culo fazia lembrar-me de que eu, infeliz que fui! nunca tivera<br \/>\ntido ci\u00fames de meu marido!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>H\u00e1 muita gente que diz do ci\u00fame o que os franceses ainda n\u00e3o se lembraram<br \/>\nde dizer contra os alem\u00e3es, e eu mesma estou de acordo em que, na maior parte<br \/>\ndos casos, ele nada mais seja do que uma grosseira manifesta\u00e7\u00e3o do despeito<br \/>\ne da vaidade. Mas, quando em vez de vir do orgulho ou do amor-pr\u00f3prio, ele<br \/>\nvem objetivamente do nosso terno e vivedouro entusiasmo por certo e determinado<br \/>\nente querido, \u00e9 uma das mais leg\u00edtimas expans\u00f5es do amor. Todo o indiv\u00edduo<br \/>\nque ama de qualquer modo, cerca de zelos vivos a pessoa amada.<\/p>\n<p>Entre marido e mulher, como o casamento n\u00e3o \u00e9 natural nem l\u00f3gico, o ci\u00fame<br \/>\ncomplica-se e torna-se rid\u00edculo. Ao marido n\u00e3o assiste sequer o direito de<br \/>\nmostrar ci\u00fames pela esposa, porque, das duas uma: &#8211; ou ele tem raz\u00e3o para<br \/>\nrevel\u00e1-los, ou n\u00e3o tem. Se tem raz\u00e3o n\u00e3o deve contentar-se com exp\u00f4-los, deve<br \/>\npor dignidade romper imediatamente os la\u00e7os que a ela o prendem; e, se n\u00e3o<br \/>\ntem raz\u00e3o, para que pois ofender e ferir em cheio na honra uma mulher inocente?<\/p>\n<p>Sei, e posso afian\u00e7ar, \u00e9 que minha filha me fez inveja inda uma vez. Eu nunca<br \/>\nsenti, nem causei ci\u00fames em toda a minha exist\u00eancia; e isso faz muita falta<br \/>\nna vida de uma mulher! A nossa felicidade n\u00e3o \u00e9 como a do homem, comp\u00f5e-se<br \/>\nde um conjunto infinito de pequeninas alegrias e pequeninas m\u00e1goas. A vida<br \/>\nde uma mulher feliz \u00e9 complicad\u00edssimo mosaico de l\u00e1grimas, beijos, suspiros<br \/>\ne sorrisos; mas tudo isso ligeiro e passageiro, que n\u00e3o chegue nunca a prostrar<br \/>\npelo sofrimento, nem pelo gozo.<\/p>\n<p>Eis o que me veio ao esp\u00edrito, quando, j\u00e1 a bordo do paquete ingl\u00eas que tinha<br \/>\nde levar Leandro, vi saltarem dos olhos de Palmira as l\u00e1grimas que ela dava<br \/>\nem sacrif\u00edcio da conserva\u00e7\u00e3o do seu amor conjugal.<\/p>\n<p>Ah! tomara eu aquelas l\u00e1grimas, na minha mocidade! Quem me dera t\u00ea-las um<br \/>\ndia chorado?&#8230;<\/p>\n<p>Meu genro chorou tamb\u00e9m, e isso me comoveu, a despeito do modo frouxo por<br \/>\nque ele, por mera formalidade, me abra\u00e7ou em despedida. Antes assim, por\u00e9m,<br \/>\ndo que ter abra\u00e7os seus bem apertados e sinceros sabendo que os outros, dados<br \/>\n\u00e0 esposa, haviam de afrouxar em breve. Deplor\u00e1vel que \u00e9s tu, meu pobre cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mulher! nesse momento, em que meus olhos choravam tanto como os de Palmira,<br \/>\ntive vontade de chamar para meu peito de m\u00e3e aquele crian\u00e7ola resmung\u00e3o e<br \/>\naquiet\u00e1-lo com car\u00edcias: No fim de contas, apesar de tudo, era ele, sem consci\u00eancia<br \/>\ndisso, o meu associado na obra da felicidade de minha filha. E esta o amava<br \/>\ntanto, que seria imposs\u00edvel deixar de am\u00e1-lo eu tamb\u00e9m. Contudo, Leandro me<br \/>\ndetestava, o ingrato!<\/p>\n<p>E a dor forte daquela separa\u00e7\u00e3o de minha filha e meu genro, lembrou-me outra<br \/>\nsepara\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m entre dois casados, quando meu marido se ausentou de mim<br \/>\npor oito meses. \u00c9ramos ainda bem mo\u00e7os e tamb\u00e9m choramos no abra\u00e7o da despedida,<br \/>\nmas ai! as nossas l\u00e1grimas foram bem diferentes daquelas, e n\u00e3o rescendiam<br \/>\n\u00e0quele triste e po\u00e9tico aroma de amor ainda cego!&#8230; foram l\u00e1grimas de dois<br \/>\nbons amigos incompatibilizados pelo casamento! Meu marido antevia que a viagem,<br \/>\ne depois o est\u00e1dio num pa\u00eds estranho, seriam alegre e salutar variante na<br \/>\nsua exist\u00eancia trabalhosa e mon\u00f3tona do Brasil; e eu por mim, confesso, n\u00e3o<br \/>\nfazia o menor sacrif\u00edcio com aquele apartamento de Virg\u00edlio. J\u00e1 n\u00e3o nos am\u00e1vamos<br \/>\nsexualmente &#8211; eis a verdade!<\/p>\n<p>Palmira, ah! essa ficou inconsol\u00e1vel&#8230; Voltamos tristes de bordo. Por longo<br \/>\ntempo, da nossa lancha, agitamos os len\u00e7os no ar, em resposta a uma pequenina<br \/>\nasa branca que palpitava, l\u00e1 ao longe, no tombadilho do vapor.<\/p>\n<p>Uma vez em terra, dentro do carro, mandei tocar com for\u00e7a para Laranjeiras,<br \/>\ncompreendendo que Palmira, no seu sil\u00eancio amea\u00e7ador, reprimia a explos\u00e3o<br \/>\nde solu\u00e7os que amea\u00e7avam sufoc\u00e1-la.<\/p>\n<p>E a tempestade desencadeou-se com efeito, mal me recolhi \u00e0 casa com minha<br \/>\nfilha. Foi um longo transbordar de solu\u00e7os, que lhe sacudiam nervosamente<br \/>\no corpo inteiro. Ela n\u00e3o quis almo\u00e7ar, enfiou pelo quarto, arrojando o chap\u00e9u,<br \/>\nas luvas, a sombrinha, e atirou-se em seguida \u00e0 cama, com o rosto escondido<br \/>\nnos bra\u00e7os e nos travesseiros, a chorar, a chorar, a chorar!<\/p>\n<p>E eu vi tudo, sorrindo no \u00edntimo ao contemplar satisfeita aquela cena transcendente.<br \/>\nDeixei-a solu\u00e7ar por longo tempo, assim estendida sobre a cama, bela naquele<br \/>\ndesespero de saudade Ah! &#8211; n\u00e3o se sustenta o amor sem o elemento dram\u00e1tico,<br \/>\ne n\u00e3o h\u00e1 drama sem l\u00e1grimas!<\/p>\n<p>Mas, pouco a pouco, o temporal foi serenando, descaindo em longos e espa\u00e7ados<br \/>\nsuspiros de desabafo, e, quando \u00e0 noite nos recolhemos ao mesmo aposento,<br \/>\nPalmira tomou-se o rosto entre as m\u00e3os e, sem uma palavra, beijou-me as faces<br \/>\nrepetidas vezes, e pousou depois a sua cabe\u00e7a no meu ombro, abra\u00e7ando-me em<br \/>\nsil\u00eancio.<\/p>\n<p>Na ora\u00e7\u00e3o que fizemos juntas antes de tomar o leito agradeci a Deus ter-me<br \/>\nconcedido a realiza\u00e7\u00e3o daquele milagre de amor conjugal, e pedi-lhe, do fundo<br \/>\nda alma, que continuasse a proteger a po\u00e9tica felicidade daquelas duas pobres<br \/>\ncriaturas, que eu aninhava sob as asas da minha experi\u00eancia de mulher e do<br \/>\nmeu amor de m\u00e3e.<\/p>\n<h2><a name=\"21\"><\/a>XXI<\/h2>\n<p>o dia seguinte o assunto exclusivo da conversa de Palmira foi s\u00f3 o marido,<br \/>\nmas nos subseq\u00fcentes, sem se esquecer dele por um instante, pensou tamb\u00e9m<br \/>\num pouco no filhinho esperado; at\u00e9 que, da\u00ed a algumas semanas, a sua preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nse dividia por ambos em partes iguais. E o seu ventre foi tranq\u00fcilamente crescendo,<br \/>\ne ela foi cada vez mais se fazendo m\u00e3e, no meio dos cuidados do enxoval, que<br \/>\na n\u00f3s duas traziam ocupadas de manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 noite. O Dr. C\u00e9sar, agora que supunha<br \/>\na irm\u00e3 fora de perigo, aparecia-nos com mais freq\u00fc\u00eancia e ficava \u00e0s vezes<br \/>\npalestrando conosco durante o ser\u00e3o, entre o jantar e o ch\u00e1. A progressiva<br \/>\nmarcha da gravidez de minha filha era fiscalizada por ele com especial solicitude.<\/p>\n<p>Chegou a primeira carta de Leandro. Que alegr\u00e3o para n\u00f3s tr\u00eas! N\u00e3o era uma<br \/>\ncarta de marido, era uma longa, sentida e despejada confid\u00eancia de amante<br \/>\ninfeliz; comovia a for\u00e7a de express\u00e3o e de sinceridade, sem cair jamais no<br \/>\nsentimentalismo pat\u00e9tico; era simples, forte e natural, como o mesmo amor<br \/>\nque a inspirava. Assim de longe sob o dom\u00ednio absoluto de uma dor verdadeira,<br \/>\nmeu genro volvia-se homem, e nem uma s\u00f3 vez recorria \u00e0s manhas e pieguices<br \/>\nque tinha dantes ao lado da fam\u00edlia. Referia-se ao filho secamente, quase<br \/>\ncom azedume, como se falasse de um importuno que viera intrometer-se na sua<br \/>\nfelicidade. E n\u00e3o dizia nunca &#8220;meu filho&#8221; ou &#8220;nosso filho&#8221;, dizia &#8220;essa crian\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>Isto perturbou-me um pouco. Teria eu, quem sabe? preparado com aquela separa\u00e7\u00e3o<br \/>\numa desgra\u00e7a terr\u00edvel, prejudicando meu neto no seu direito de filho ao amor<br \/>\nde seu pai?&#8230; N\u00e3o seria indispens\u00e1vel, para a boa forma\u00e7\u00e3o, que o pai acompanhasse<br \/>\nde perto, lado a lado, todos os fen\u00f4menos patol\u00f3gicos que na mulher precedem<br \/>\no nascimento do filho, e os que ocorrem durante e depois da parturi\u00e7\u00e3o?&#8230;<br \/>\nN\u00e3o teria eu talvez, para conservar o amor de Leandro por minha filha e impedir<br \/>\nque se quebrasse entre estes o encanto do desejo, roubado ao meu pobre netinho<br \/>\na parte que de direito lhe tocava no cora\u00e7\u00e3o de seu pai?&#8230; N\u00e3o estaria eu<br \/>\nmaquinando contra a pobre criaturinha uma tremenda maldade, com fazer que<br \/>\nficasse todo inteiro o cora\u00e7\u00e3o de meu genro em posse da esposa?&#8230; N\u00e3o estaria<br \/>\neu cometendo um crime?&#8230;<\/p>\n<p>Consultei nesse sentido o Dr. C\u00e9sar.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! respondeu-me ele, sem hesitar. N\u00e3o, minha amiga! Afaste do ju\u00edzo semelhante<br \/>\napreens\u00e3o. O amor de pai n\u00e3o se pronuncia antes do nascimento do filho e s\u00f3<br \/>\n\u00e9 formado e desenvolvido com a conviv\u00eancia entre os dois. O amor materno,<br \/>\nsim; existe desde a vida uterina do feto, com ele cresce, avulta quando ele<br \/>\nnasce, e vai aumentando sempre na propor\u00e7\u00e3o do crescimento do filho. E est\u00e1<br \/>\nnisto a raz\u00e3o por que o amor d m\u00e3e \u00e9 sempre, at\u00e9 que o filho atinja \u00e0 puberdade,<br \/>\nmaior e mais intenso que o amor paterno; \u00e9 que ele, na sua carreira, sai com<br \/>\ngrande avan\u00e7o. O outro, quando acorda, encontra-o j\u00e1 vigoroso e adiantado.<\/p>\n<p>A natureza foi muito previdente na constitui\u00e7\u00e3o destas coisas: o filho s\u00f3<br \/>\npoderia ser privado do amor de sua m\u00e3e, se algu\u00e9m conseguisse de uma mulher<br \/>\nfaz\u00ea-la conceber e dar \u00e0 luz sem que ela tivesse consci\u00eancia disso, e ainda<br \/>\nassim n\u00e3o conseguiria priv\u00e1-lo dos desvelos e dos cuidados maternais: a doida<br \/>\nconcebe e tem filhos sem sentir por eles o menor vislumbre de amor, mas sem<br \/>\nnunca ali\u00e1s se descuidar, guiada s\u00f3 pelo seu instinto de f\u00eamea, de prestar-lhe<br \/>\nos socorros maternos. Faz tudo isso como qualquer bruto &#8211; pare, corta com<br \/>\nos dentes o cord\u00e3o umbilical, prepara o filho para a vida: assopra-lhe na<br \/>\nboca, se for preciso dar-lhe aos pulm\u00f5es o primeiro ar; bate-lhe nas palmas<br \/>\ndos p\u00e9s e das m\u00e3os; depois cria-o, e defende-o dos perigos materiais que o<br \/>\nameacem; mas n\u00e3o o ama. Aquele bocado de carne viva e palpitante \u00e9 uma pouca<br \/>\nda sua pr\u00f3pria carne; e a carne, essa nunca enlouquece! Considere agora, minha<br \/>\namiga, que, pelo lado paterno, n\u00e3o h\u00e1 sequer esta circunst\u00e2ncia material do<br \/>\ndesdobramento do corpo, do desdobramento da carne. Na mulher, aquele poderoso<br \/>\ninstinto animal, associado \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 consci\u00eancia n\u00e3o menos poderosas, produz<br \/>\no que se chama o amor materno. E tudo isso se d\u00e1 antes de chegar o amor paterno,<br \/>\nque pode at\u00e9 nunca chegar, se n\u00e3o houver conviv\u00eancia entre o pai e o filho.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 banal que todo o homem \u00e9 muito mais filho da mulher do que do homem;<br \/>\no que me leva a sustentar que na sociedade ele devia apresentar-se com o nome<br \/>\nda m\u00e3e e n\u00e3o do pai!<\/p>\n<p>Fiquei perfeitamente tranq\u00fcila com estas palavras e pus o cora\u00e7\u00e3o a larga.<\/p>\n<p>Na segunda carta, Leandro enviava o retrato \u00e0 mulher, e uma poesia inspirada<br \/>\nna saudade, acompanhando tudo um amor-perfeito colhido em certo jardim, na<br \/>\nocasi\u00e3o em que, diziam os versos, &#8220;no meio da alegria geral e do riso dos<br \/>\nconvivas &#8211; seu cora\u00e7\u00e3o sangrava o mart\u00edrio daquela terr\u00edvel aus\u00eancia, que<br \/>\no privava do estremecido objeto do seu amor&#8230;&#8221; Li e reli essa composi\u00e7\u00e3o<br \/>\npo\u00e9tica; n\u00e3o era um primor da arte, mas Palmira chorou de como\u00e7\u00e3o ao l\u00ea-la.<br \/>\nE comparei mentalmente aquela carta do marido de minha filha com as cartas<br \/>\nque meu marido me escreveu na sua aus\u00eancia dos oito meses. Que diferen\u00e7a!<br \/>\nQue contraste!<\/p>\n<p>E vamos l\u00e1! tinha eu ou n\u00e3o raz\u00e3o para estar orgulhosa com a minha obra?<br \/>\nQual \u00e9 a\u00ed o marido que at\u00e9 \u00e0 presente data j\u00e1 escreveu versos de amor \u00e0 sua<br \/>\nmulher, durante o desgracioso per\u00edodo da gravidez ou da parturi\u00e7\u00e3o? Qual \u00e9<br \/>\nele? Versos ao filho conseq\u00fcente, sim, muitos o t\u00eam feito, esquecidos da pobre<br \/>\ncriatura enfeada pelo parto, que jaz molemente sobre uma cama de colch\u00f5es<br \/>\nmornos, entre mornos travesseiros, defumados de alfazema!<\/p>\n<p>Na carta, onde havia uma p\u00e1gina, toda inteira, dedicada ao Dr. C\u00e9sar, que<br \/>\nali\u00e1s da primeira remessa tinha j\u00e1 recebido uma particularmente a ele dirigida,<br \/>\ns\u00f3 uma fria frase me cabia. Era esta: &#8220;Apresenta meus cordiais respeitos a<br \/>\ntua m\u00e3e e pede-lhe, em nosso nome, que me escreva por ti, quando porventura<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o possas fazer.&#8221; A \u00fanica frase, pois, que ele me concedia fora ainda<br \/>\nassim determinada pelo amor de Palmira. N\u00e3o me revoltei: Era o caso do doente<br \/>\nque, desvairado pela dor, morde a m\u00e3o do m\u00e9dico que o opera. Pois me mordesse!<br \/>\nQue me mordesse quanto quisesse! Contanto que aquela mesma boca, que me mordia<br \/>\na m\u00e3o, continuasse no futuro a beijar com duplicado ardor a boca de minha<br \/>\nfilha!<\/p>\n<p>N\u00e3o me agastei!, nem me senti menos feliz por isso.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A natureza \u00e9 boa amiga! Como sabe ela dar a todas as esta\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia<br \/>\nnovos interesses de vida! novas dores e novos prazeres! Nunca pensei que fosse<br \/>\nt\u00e3o intensa a felicidade de ser av\u00f3!&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o todavia que se aproximava o grande acontecimento, comecei a palpitar<br \/>\nde impaci\u00eancia e sobressalto. Desfazia-me em pequenos cuidados com a enferma;<br \/>\nafigurava-se-me que era eu a \u00fanica respons\u00e1vel pelo que viesse a suceder;<br \/>\nsentia-me t\u00e3o dentro daquela situa\u00e7\u00e3o, que era como se eu fosse o pai e tivesse<br \/>\nde ser a m\u00e3e daquele filho! Talvez n\u00e3o acreditem, mas juro que me impressionei<br \/>\nainda mais do que quando eu pr\u00f3pria estive para dar \u00e0 luz pela primeira vez!<\/p>\n<p>E agora, inesperadas apreens\u00f5es vinham perturbar a confian\u00e7a que eu at\u00e9 a\u00ed<br \/>\ndepositava cegamente nas \u00f3timas circunst\u00e2ncias em que fora aquele filho concebido.<br \/>\nN\u00e3o descansava um instante, n\u00e3o me descuidava um momento da minha Palmira.<br \/>\nDe madrugada era eu a primeira a levantar-me e vencer-lhe a indol\u00eancia, e<br \/>\nobrig\u00e1-la a vestir-se e a sair comigo, para os passeios matutinos. Arrependia-me<br \/>\nagora de lhe ter falado t\u00e3o abertamente do parto, porque ia come\u00e7ando a descobrir<br \/>\nnela tamb\u00e9m receios e sobressaltos. Mas animava-a com tanto carinho e habilidade,<br \/>\nque a boa crian\u00e7a nunca se atreveu a fazer-me a mais leve queixa, mesmo indireta,<br \/>\ncontra a aus\u00eancia do marido.<\/p>\n<p>Minha gaveta da secret\u00e1ria estava cheia de livros de medicina, concernentes<br \/>\nao assunto que inteiro me possu\u00eda. Sempre que eu pilhava alguma folga, ou<br \/>\nquando podia roubar algumas horas ao sono, devorava o Trait\u00e9 de l\u2019art<br \/>\ndes accouchements de Gazeaux, e tomava notas para discutir depois com o Dr.<br \/>\nC\u00e9sar, que nesses \u00faltimos tempos n\u00e3o nos deixava de visitar todos os dias.<br \/>\nDevia j\u00e1 parecer rid\u00edcula aos olhos do bom m\u00e9dico com as fuma\u00e7as de doutora<br \/>\nque eu agora me dava na conversa.<\/p>\n<p>E a crise aproximava-se.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 me n\u00e3o pertencia; n\u00e3o tinha a cabe\u00e7a no lugar; comia sem apetite; passava<br \/>\nnoites de ins\u00f4nia. Estava t\u00e3o abatida, ou mais, que minha pr\u00f3pria filha, e<br \/>\njuro que dentro do meu cora\u00e7\u00e3o palpitava o feto que ela trazia no ventre.<\/p>\n<p>Mas afinal chegou o dia supremo. A casa revolucionou-se. C\u00e9sar estava conosco,<br \/>\nfelizmente. N\u00e3o posso afian\u00e7ar que sofresse eu as dores puerperais, mas sei<br \/>\nque sofri muito e que n\u00e3o abandonei minha filha um s\u00f3 instante, at\u00e9 receber<br \/>\nnos meus bra\u00e7os um belo menino, perfeito, forte, com o cr\u00e2nio coberto j\u00e1 de<br \/>\ncabelo preto.<\/p>\n<p>Oh! Vit\u00f3ria! Vit\u00f3ria completa!<\/p>\n<p>Saltaram-me as l\u00e1grimas dos olhos. Tive vontade de misturar meus cansados<br \/>\nsolu\u00e7os de av\u00f3 com aquele angelical vagido, que meu netinho me trazia do mist\u00e9rio<br \/>\nda antevida, alguma coisa de um balbuciar divino, que ainda n\u00e3o \u00e9 voz humana<br \/>\ne tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 simples eco de puro c\u00e2ntico de anjos! Minha filha, quase<br \/>\nmorta de prostra\u00e7\u00e3o, branca e fria, como se todo o sangue e toda a vida lhe<br \/>\ntivessem escorrido pelo ventre aberto, gemia ainda, devagarinho, e seus gemidos<br \/>\ncortavam a alma.<\/p>\n<p>Entreguei a crian\u00e7a ao m\u00e9dico e a uma parteira que nos acompanhava, e dei-me<br \/>\ntoda aos cuidados da pu\u00e9rpera. N\u00e3o me despeguei mais do seu lado, at\u00e9 que<br \/>\nela serenou de todo.<\/p>\n<p>Ah! correu tudo muito bem: confirmou-se a minha convic\u00e7\u00e3o de que o bom parto<br \/>\ndepende das boas circunst\u00e2ncias de amor em que o filho \u00e9 concebido. Transbordava-me<br \/>\nagora o cora\u00e7\u00e3o de alegria. Quando vi minha filha fora de perigo e prestados<br \/>\na meu neto os primeiros cuidados, corri ao quarto do orat\u00f3rio, ajoelhei-me<br \/>\ndefronte da Virgem-M\u00e3e, e a\u00ed, com a alma tamb\u00e9m parturiente e aliviada das<br \/>\n\u00e2nsias e sobressaltos que a pejavam, agradeci aos c\u00e9us, entre l\u00e1grimas consoladoras,<br \/>\na ventura que eles nos enviavam.<\/p>\n<p>Mas tornei logo para junto da enferma. Tomei-lhe a cabe\u00e7a no rega\u00e7o, e foi<br \/>\nassim que Palmira adormeceu, como nos outros tempos, quando eu era mo\u00e7a e<br \/>\nela pequenina.<\/p>\n<h2><a name=\"22\"><\/a>XXII<\/h2>\n<p>M\u00eas e meio depois do nascimento de meu lindo netinho, recebia Leandro na<br \/>\nEuropa uma carta que o chamava para junto da esposa.<\/p>\n<p>Fomos busc\u00e1-lo a bordo e C\u00e9sar foi conosco.<\/p>\n<p>A mulher que restitu\u00ed aos bra\u00e7os e aos l\u00e1bios sequiosos de meu genro era<br \/>\nde novo a formosa criatura que ele deixara oito meses antes; se n\u00e3o \u00e9 que,<br \/>\ncom cumprir o seu mais alto destino de mulher, ganhara em gra\u00e7a e sedu\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo certas plantas que s\u00f3 s\u00e3o verdadeiramente belas e vi\u00e7osas depois de darem<br \/>\no seu primeiro fruto.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m vinha mais forte e bem disposto. Notei, no seu primeiro olhar<br \/>\ntrocado comigo, depois que cobriu de beijos s\u00f4fregos as faces, as m\u00e3ozinhas<br \/>\ne os pezinhos de seu filho, que Leandro me n\u00e3o guardava rancor, e estive quase<br \/>\na acreditar que ele j\u00e1 tivesse afinal chegado a compreender-me. Mas percebi<br \/>\nlogo o meu engano: ainda era muito cedo para tanto. Um homem vulgar n\u00e3o compreende<br \/>\nassim t\u00e3o facilmente as complicadas delicadezas de um cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e.<\/p>\n<p>C\u00e9sar, esse \u00e9 que me compreendia bem e tomava parte direta nas minhas alegrias<br \/>\ne nas minhas vit\u00f3rias. Com que ar de satisfa\u00e7\u00e3o acompanhou o meu bom amigo,<br \/>\nessa tarde, a reentrada de meu genro em casa da mulher, e com que sinceridade<br \/>\nde contentamento se tornaram a ver!<\/p>\n<p>O nosso jantar foi uma festa. Houve brindes, dirigidos quase todos ao pequerrucho,<br \/>\nque compareceu \u00e0 mesa nos bra\u00e7os da ama, e que, valha a verdade, se portou<br \/>\nmuito incorretamente. Ainda n\u00e3o vi crian\u00e7a para berrar t\u00e3o forte, nem para<br \/>\nensopar cueiros daquele modo!<\/p>\n<p>\u00c0 noite vieram visitas; tocou-se, cantou-se e dan\u00e7ou-se. Atentando para uma<br \/>\ndas amigas de Palmira, acompanhada \u00e0 nossa casa pelo marido, a qual tamb\u00e9m,<br \/>\nhavia poucos meses antes, tivera o seu primeiro filho, n\u00e3o me pude eximir<br \/>\nde comparar esse casal com o meu casal, e reconhecer qu\u00e3o diferente era nos<br \/>\ndois pares o modo por que se mantinha e conduzia cada um de per si. No entanto,<br \/>\no casamento daqueles era sem d\u00favida muito mais recente que o de Leandro com<br \/>\nminha filha.<\/p>\n<p>N\u00e3o me contive e disse ao ouvido desta:<\/p>\n<p>&#8211; Olha! ali tens uma infeliz, cujo parto foi com certeza fiscalizado de perto<br \/>\npelo marido. V\u00ea como os dois nunca se aproximam francamente um do outro, e<br \/>\nrepara como s\u00f3 conversam quando h\u00e1 uma terceira pessoa que forne\u00e7a o assunto.<br \/>\n&#8211; Est\u00e3o separados pelo filho!&#8230;<\/p>\n<p>E, porque Palmira fizesse um vivo gesto de surpresa com esta \u00faltima frase,<br \/>\nacrescentei em segredo, para bem lhe explicar minha senten\u00e7a: &#8211; O filho, desde<br \/>\nque o pai assista ao seu nascimento, \u00e9 um tra\u00e7o de uni\u00e3o moral, um la\u00e7o de<br \/>\namizade, que se estabelece entre os dois indiv\u00edduos donde ele nasce, mas \u00e9<br \/>\nao mesmo tempo uma fria linha isoladora, que se cava para sempre entre o corpo<br \/>\nde um homem e o corpo de uma mulher, que sensualmente at\u00e9 a\u00ed se amavam e se<br \/>\nqueriam.<\/p>\n<p>Ela teve para mim um sorriso inteligente, em que lhe veio ao rosto toda a<br \/>\nsua gratid\u00e3o pelos meus desvelos, e o seu sorriso desabotoou-se num beijo<br \/>\nque recebi na face. Quis det\u00ea-la ainda um instante, Leandro, por\u00e9m, acercou-se<br \/>\nde n\u00f3s, com o seu ar de namorado feliz, passou-lhe o bra\u00e7o na cintura, e os<br \/>\ndois afastaram-se, rindo e conversando intimamente.<\/p>\n<p>Sentia-me um pouco fatigada. As canseiras daqueles \u00faltimos tempos deixaram-me<br \/>\nabatida. Do\u00edam-me as costas e o peito. Levantei-me com inten\u00e7\u00e3o de ir l\u00e1 dentro<br \/>\ntomar um copo de leite quente com uma gota de conhaque, quando um fato, em<br \/>\nextremo desagrad\u00e1vel, veio interromper a nossa festa: Acabava de chegar da<br \/>\ncasa do Dr. C\u00e9sar um recado exigindo que ele seguisse imediatamente para l\u00e1,<br \/>\nporque a irm\u00e3, que nesse dia se mostrara ali\u00e1s muito melhor, fora, ao cair<br \/>\nda noite, acometida por uma terr\u00edvel hemoptise e parecia agora em perigo de<br \/>\nvida.<\/p>\n<p>O bom homem n\u00e3o esperou segunda ordem para tomar \u00e0s pressas o sobretudo,<br \/>\no chap\u00e9u e a bengala. Corri a ter com ele e pedi-lhe, enquanto agitado me<br \/>\napertava a m\u00e3o, que, se o caso fosse com efeito grave, me mandasse prevenir<br \/>\nlogo ao chegar \u00e0 casa.<\/p>\n<p>Infelizmente era. O mesmo cocheiro do nosso carro, em que fora o Dr. C\u00e9sar,<br \/>\nvoltou com a not\u00edcia de que D. Etelvina agonizava. Entreguei logo a casa a<br \/>\nmeus filhos, agasalhei-me, tomei o meu livro de ora\u00e7\u00f5es, despedi-me das visitas,<br \/>\ne segui por minha vez, mandando puxar bem pelos cavalos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>C\u00e9sar morava na praia do Flamengo. Quando cheguei l\u00e1, a pobre senhora expirava<br \/>\nnos bra\u00e7os do irm\u00e3o. Muito magra, muito descorada, com os olhos im\u00f3veis e<br \/>\nsem fito, a boca ressequida babando sangue, o nariz laminoso e com um brilho<br \/>\nsinistro, ela era apenas uma fugitiva sombra humana, que se exinania em solu\u00e7os<br \/>\nde morte.<\/p>\n<p>Havia algumas pessoas presentes, mulheres e homens. Ajoelhei-me ao lado da<br \/>\ncabeceira da cama, abri o meu livro de ora\u00e7\u00f5es e pus-me a rezar em sil\u00eancio.<br \/>\nA moribunda j\u00e1 n\u00e3o dava acordo do que se passava em torno do seu aniquilamento.<br \/>\nUm colega de C\u00e9sar, que com este lhe acompanhara a mol\u00e9stia, sacudia os ombros<br \/>\ndesanimado, pronto j\u00e1 para sair.<\/p>\n<p>E ali, dentro daquele quarto, defronte dos nossos olhos, uma vida apagou-se,<br \/>\ndeixando vazia e fria a quebradi\u00e7a l\u00e2mpada de argila. Ningu\u00e9m dava palavra,<br \/>\ne todos, em volta, contemplavam o cad\u00e1ver, como se a for\u00e7a de fit\u00e1-lo, procurassem<br \/>\ncompreender alguma coisa daquele fato t\u00e3o comum e sempre t\u00e3o extraordin\u00e1rio<br \/>\ne t\u00e3o comovedor.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 n\u00e3o rezava, fitava-o tamb\u00e9m, como os outros, pensando nesse misterioso<br \/>\ndestino de todos n\u00f3s. E lembrei-me de meu neto, que, com o mesmo mist\u00e9rio<br \/>\ndaquela retirada, havia pouco antes entrado na vida. Um a chegar e outro a<br \/>\nsair!&#8230; Donde baixava ele?&#8230; e ela, para onde descia?&#8230; De que v\u00edvido manancial<br \/>\ne para que fundo e soturno dep\u00f3sito &#8211; vinham e iam essas pobres almas, que<br \/>\nvemos passar ruidosamente no cen\u00e1rio da exist\u00eancia, entrando e saindo pelos<br \/>\nbastidores de treva?&#8230; O que haveria l\u00e1 dentro, na misteriosa caixa desse<br \/>\nteatro, onde talvez n\u00e3o repercuta uma s\u00f3 gargalhada ou um \u00fanico solu\u00e7o da<br \/>\ncom\u00e9dia ou da trag\u00e9dia que representamos c\u00e1 fora?&#8230; Por que seria que os<br \/>\natores n\u00e3o voltavam nunca \u00e0 cena, mesmo depois de muito aplaudidos?&#8230; Ou<br \/>\nquem sabe se voltariam, mas j\u00e1 descaracterizados e j\u00e1 irreconhec\u00edveis para<br \/>\naqueles que em vida os vitoriaram com o seu amor ou com o seu \u00f3dio!&#8230;<\/p>\n<p>Trevas e trevas!<\/p>\n<p>Uma velha amiga da morta interrompeu o seu pranto, para pedir aos homens<br \/>\nque se retirassem dali: ia preparar-se o cad\u00e1ver para entrar na terra. Nessa<br \/>\nocasi\u00e3o, C\u00e9sar encarregava um amigo de cuidar do enterro. E nenhuma de n\u00f3s<br \/>\ndescansou um instante at\u00e9 que o corpo de Etelvina, depois de lavado, vestido,<br \/>\npenteado e cal\u00e7ado, foi posto sobre um sof\u00e1 da sala pr\u00f3xima, com as \u00f3sseas<br \/>\nm\u00e3os cruzadas sobre a carca\u00e7a do peito, e com o escaveirado queixo seguro<br \/>\npor um len\u00e7o de seda branca. E, \u00e0 cabeceira do sof\u00e1, armou-se uma mesa, coberta<br \/>\npor uma toalha de rendas, com a imagem de Cristo crucificado, entre duas velas<br \/>\nde cera, que ardiam com uma luz amarela e fumegante.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, assentaram-se todos em volta do cad\u00e1ver, e continuaram a contempl\u00e1-lo.<br \/>\nE o sil\u00eancio foi de novo se condensando, numa oprimidora harmonia com o frio<br \/>\nda madrugada e com o long\u00ednquo ladrar dos c\u00e3es l\u00e1 fora na rua. E mais e mais<br \/>\npesada e \u00famida se foi fazendo a tristeza. As velas, ao lado do crucifixo,<br \/>\npareciam chorar com aquelas suas quentes e longas l\u00e1grimas de cera, a escorrerem-lhe<br \/>\nem vagarosos fios e a pingarem, gota a gota.<\/p>\n<p>A primeira mosca pousou no l\u00e1bio da defunta.<\/p>\n<p>Em torno, numa desola\u00e7\u00e3o muda, ouvia-se de longe em longe, um longo suspiro.<br \/>\nE tristes figuras, negras de luto, permaneciam im\u00f3veis, com o queixo apoiado<br \/>\nna m\u00e3o &#8211; a fitar o cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m o fitava sempre, irresistivelmente, sem saber por qu\u00ea.<\/p>\n<p>Serviu-se caf\u00e9. Tomei a ch\u00e1vena que me levaram e continuei a encarar o cad\u00e1ver&#8230;<br \/>\nMas, de s\u00fabito, uma id\u00e9ia, que nunca at\u00e9 ent\u00e3o me viera ao esp\u00edrito, atravessou-me<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o de lado a lado, como com aquela mesma agulha que eu vira pouco antes<br \/>\ncoser o len\u00e7ol da defunta: &#8220;E se a minha hora estivesse tamb\u00e9m a bater?&#8230;<br \/>\nSim, nada mais natural!&#8230; Achava-me velha, fraca; sentia-me doente&#8230; podia<br \/>\npois morrer de um momento para outro!&#8230; E minha filha?! ficaria para sempre<br \/>\nabandonada \u00e0 imprevid\u00eancia moral do marido, sem ter quem lhes dirigisse a<br \/>\nvida?&#8230; Mas assim, os dois acabariam fatalmente por cair na vulgaridade do<br \/>\ncasamento e no t\u00e9dio da promiscuidade sexual!&#8230; E a minha obra, t\u00e3o penosamente<br \/>\nlevada ao ponto em que se achava, seria perdida, completamente perdida!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Esta id\u00e9ia fez-me fechar os olhos, para n\u00e3o ver o cad\u00e1ver. Compreendi que<br \/>\noutras pessoas que l\u00e1 estavam em redor dele e pareciam dormir, tinham apenas,<br \/>\ncomo eu, fechado os olhos, tamb\u00e9m para n\u00e3o ver a morte.<\/p>\n<p>Como me sucedia sempre ao preocupar-me qualquer id\u00e9ia sem pronta solu\u00e7\u00e3o,<br \/>\npensei em C\u00e9sar, e lembrei-me de que, havia talvez mais de duas horas, notara<br \/>\neu a sua aus\u00eancia da sala, e n\u00e3o tivera por conseguinte trocado com ele sen\u00e3o<br \/>\nalgumas frases de p\u00easame oficial, em presen\u00e7a de estranhos; e que, pois, n\u00e3o<br \/>\nlhe havia recolhido ainda uma s\u00f3 palavra de dor, quando ali\u00e1s devia o meu<br \/>\npobre amigo estar mortalmente ferido no cora\u00e7\u00e3o: &#8211; Aquela sua irm\u00e3, agora<br \/>\nali finda e putrescente, era toda a sua \u00faltima fam\u00edlia, era a sua extinta<br \/>\ncomunh\u00e3o dom\u00e9stica!&#8230; E eu sabia perfeitamente qu\u00e3o extremoso fora o amor<br \/>\nque os ligara por mais de vinte anos. Ainda n\u00e3o lhe tinha visto uma l\u00e1grima<br \/>\n&#8211; devia sofrer muito! Precisava ir para junto dele&#8230;<\/p>\n<p>Levantei-me \u00e0 sua procura. Talvez estivesse no seu gabinete de trabalho.<br \/>\nFui ver.<\/p>\n<p>O gabinete tinha luz e o reposteiro estava corrido. O pobre homem l\u00e1 se achava<br \/>\ncom efeito, sozinho, assentado \u00e0 secret\u00e1ria, o rosto escondido entre as m\u00e3os,<br \/>\nde costas voltadas para a porta de entrada. Os seus cabelos brancos, cortados<br \/>\n\u00e0 escovinha, brilhavam argentinamente ao reflexo da luz do g\u00e1s que lhes batia<br \/>\nde cima.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Posso entrar, C\u00e9sar?&#8230;<\/p>\n<p>Ele ergueu-se com sobressalto e veio receber-me. Tomou-me as m\u00e3os, puxou-me<br \/>\npara junto de si, fechou-me nos bra\u00e7os sobre o peito, e desatou a solu\u00e7ar,<br \/>\ncomo se s\u00f3 esperasse por mim para dar curso \u00e0quela explos\u00e3o de desabafo.<\/p>\n<p>Eu compreendi &#8211; cerrei-o forte no meu colo e pousei a cabe\u00e7a no seu peito<br \/>\ngeneroso, procurando faz\u00ea-lo sentir, bem no fundo do cora\u00e7\u00e3o, que ainda lhe<br \/>\nficava neste mundo de mis\u00e9rias &#8211; uma irm\u00e3, uma amiga, uma camarada fiel, para<br \/>\no amar estremecidamente como a outra o amara durante a vida inteira.<\/p>\n<p>E assim estivemos muito tempo, estreitados nos bra\u00e7os um do outro, a chorarmos<br \/>\nambos, sem achar nenhum de n\u00f3s uma palavra, dele para mim, ou de mim para<br \/>\nele.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Ia, no entanto, naquela ocasi\u00e3o, decidir-se entre n\u00f3s dois o fato mais extraordin\u00e1rio<br \/>\nde toda a nossa exist\u00eancia.<\/p>\n<h2><a name=\"23\"><\/a>XXIII<\/h2>\n<p>Ele afinal fez-me tomar uma cadeira e assentou-se perto de mim. Nunca lhe<br \/>\ntinha visto a fisionomia que lhe vi nesse momento: Ela dizia ao mesmo tempo<br \/>\ntodos os velhos, intemin\u00e1veis desgostos do seu passado ao roto e sem fundo,<br \/>\ne todo o desespero do seu presente restrito e sem sa\u00edda. Num relance veio-me<br \/>\nao esp\u00edrito a s\u00edntese da sua longa exist\u00eancia de sessenta e tantos anos &#8211;<br \/>\num ros\u00e1rio de lutos: Mulher, filhos e genros foram todos pouco a pouco caindo<br \/>\nem torno da sua velha dor sobrevivente, at\u00e9 que a \u00faltima da fam\u00edlia, aquela<br \/>\nretardat\u00e1ria irm\u00e3 que o estremecia, lhe fugia tamb\u00e9m agora, depois de uma<br \/>\ntossegosa e gemebunda exist\u00eancia de h\u00e9tica!<\/p>\n<p>&#8211; Acabou-se tudo!&#8230; murmurou o infeliz, como se seguisse o r\u00e1pido v\u00f4o do<br \/>\nmeu pensamento.<\/p>\n<p>Tomei-lhe as m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o&#8230; disse em segredo, que minhas l\u00e1grimas tornavam mais abafado e \u00edntimo,<br \/>\nainda lhe resta uma amiga, uma irm\u00e3, uma companheira&#8230;<\/p>\n<p>Ele levou \u00e0 boca as minhas m\u00e3os que se orvalharam nas suas barbas \u00famidas<br \/>\nde pranto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas como hei de viver agora?&#8230; prosseguiu. Como hei de viver sozinho aqui,<br \/>\nneste frio hospital abandonado, donde vi sa\u00edrem, um a um, para o cemit\u00e9rio,<br \/>\ntodos os entes que me pertenciam?&#8230; Diga, minha amiga, diga-me como hei de<br \/>\nsuportar esta mis\u00e9ria? &#8211; E cobriu o rosto com o len\u00e7o, solu\u00e7ando mais forte.<br \/>\n&#8211; Ah destino injusto e perverso!&#8230; levar-me a morte os outros todos e deixar-me<br \/>\na mim, o mais velho e o mais necessitado de morrer! O que fico eu fazendo<br \/>\naqui?&#8230; O que fico fazendo?&#8230;<\/p>\n<p>A sua agonia retalhava-me o cora\u00e7\u00e3o. Chamei-lhe a encanecida cabe\u00e7a para<br \/>\no meu colo de amiga, e assim ficamos longo tempo, calados ambos.<\/p>\n<p>As moscas, acordadas essa noite com a presen\u00e7a de um cad\u00e1ver na casa, zumbiam<br \/>\nalegres no sil\u00eancio do quarto.<\/p>\n<p>C\u00e9sar desviou-se do meu colo e deixou-se ficar cabisbaixo, com as suas m\u00e3os<br \/>\nnas minhas. Compreendi que nesse instante o meu pensamento ia caminhando ao<br \/>\nlado do dele, em sil\u00eancio, como dois velhos e tristes companheiros insepar\u00e1veis;<br \/>\ne por fim o nosso pensamento foi se derretendo em palavras, apenas balbuciadas.<br \/>\nC\u00e9sar come\u00e7ou a falar em voz muito baixa, soturnamente, como se temesse acordar<br \/>\na irm\u00e3, que dormia l\u00e1 na sala, no seu leito frio. Falava em segredo, com o<br \/>\nrosto quase unido ao meu, numa surda conspira\u00e7\u00e3o contra a vida. Era o res\u00edduo<br \/>\ndo seu pobre cora\u00e7\u00e3o, j\u00e1 de muito tempo despeda\u00e7ado, que vinha agora assim<br \/>\ndilu\u00eddo pelas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>E ele murmurou, como num sonho:<\/p>\n<p>&#8211; Ultimamente, minha Ol\u00edmpia, uma estranha amargura me persegue&#8230; a nosso<br \/>\nrespeito&#8230; uma dor secreta, penosa como um arrependimento tardio&#8230; alguma<br \/>\ncoisa da m\u00e1goa de n\u00e3o ter colhido a felicidade, no bom momento em que ela<br \/>\nnos passou cantando diante dos olhos&#8230; um irremiss\u00edvel desgosto de n\u00e3o ter<br \/>\nsido em tempo o teu marido ou me ter feito o teu amante&#8230;<\/p>\n<p>Abaixei os olhos. Era a primeira vez que fal\u00e1vamos abertamente do nosso velho<br \/>\namor.<\/p>\n<p>C\u00e9sar prosseguiu no mesmo tom: &#8211; Sim, sim, minha amiga&#8230; n\u00f3s nascemos um<br \/>\npara o outro!&#8230; Foi uma tremenda infelicidade n\u00e3o nos termos encontrado antes<br \/>\ndos nossos loucos casamentos&#8230; ou n\u00e3o termos ent\u00e3o rompido com todas as conveni\u00eancias<br \/>\ne com todas as conven\u00e7\u00f5es &#8211; para nos unirmos para sempre; para nos pertencermos,<br \/>\nexclusivamente, sem o menor desvio da nossa ternura; e para que enfim pud\u00e9ssemos<br \/>\nser agora, minha amada, insepar\u00e1veis companheiros neste fim de vida!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o&#8230; respondi, n\u00e3o meu querido amigo, n\u00e3o seria a mesma coisa: n\u00e3o ser\u00edamos<br \/>\nainda hoje moralmente e virtualmente consorciados como somos. O casamento<br \/>\nou a concubinagem desvirtuariam o esp\u00edrito do nosso amor, t\u00e3o puro e t\u00e3o elevado&#8230;<br \/>\nO matrim\u00f4nio carnal \u00e9 incompat\u00edvel com a sagrada amizade, com a verdadeira<br \/>\ndedica\u00e7\u00e3o, porque vive dos sentidos e n\u00e3o do sentimento&#8230; Se tiv\u00e9ramos algum<br \/>\ndia unido os nossos corpos, as nossas almas estariam hoje separadas! Se algum<br \/>\ndia tiv\u00e9ramos tido em nosso cons\u00f3rcio, que foi t\u00e3o claro e t\u00e3o casto, outros<br \/>\nla\u00e7os que n\u00e3o o desta profunda e delicada afei\u00e7\u00e3o que nos irmana; hoje, que<br \/>\nsomos velhos ambos e pois in\u00fateis para a sensualidade, n\u00e3o ter\u00edamos &#8211; tu em<br \/>\nmim a tua consoladora amiga; eu em ti o meu derradeiro amor&#8230;<\/p>\n<p>C\u00e9sar encarou-me surpreso:<\/p>\n<p>Como assim? Pois eu negava o amor dos sentidos ligados ao sentimento do amor?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Certamente. Na l\u00edngua n\u00e3o h\u00e1 palavras para exprimir essas duas coisas t\u00e3o<br \/>\ndiversas e at\u00e9 t\u00e3o opostas: &#8211; o amor produzido pelo instinto sensual e o amor<br \/>\nproduzido pela simpatia e atra\u00e7\u00e3o moral de dois esp\u00edritos que se procuram<br \/>\ne se casam. O grande erro do casamento vulgar o que o torna insuport\u00e1vel,<br \/>\n\u00e9 pretender aliar o instinto da procria\u00e7\u00e3o com o sentimento do amor ou da<br \/>\namizade, que nada tem a ver com ele e at\u00e9 o repele. O irracional tamb\u00e9m \u00e9<br \/>\ncomo o homem suscet\u00edvel de apego de amizade, nunca por\u00e9m se preocupa com isso,<br \/>\nquando trata de cumprir o seu mister procriador. O homem n\u00e3o deve ter comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\ncarnal com a mulher que ama!<\/p>\n<p>C\u00e9sar mostrava-se cada vez mais surpreso.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0E tua filha!&#8230; interpelou ele; tua filha n\u00e3o ama e n\u00e3o \u00e9 amada pelo<br \/>\nmarido?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ama sensualmente, respondi; mas, para o outro amor, para este que nos ligou<br \/>\nat\u00e9 hoje, ela est\u00e1 perfeitamente incompatibilizada com ele. O marido n\u00e3o pode<br \/>\nser nunca o amigo. O esposo do corpo n\u00e3o pode ser ao mesmo tempo o esposo<br \/>\nda alma; e nisto estava a raz\u00e3o de ser e a grande for\u00e7a dos confessores primitivos.<br \/>\nMas o padre n\u00e3o era amigo sincero e nem foi leal e foi casto; da\u00ed a causa<br \/>\n\u00fanica por que ele n\u00e3o persistiu e n\u00e3o ficou para sempre nos casais junto \u00e0<br \/>\nmulher e ao lado do marido.<\/p>\n<p>C\u00e9sar meditou um instante, e disse depois:<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz\u00e3o talvez&#8230; O que n\u00e3o impede que, apesar de nos amarmos sempre<br \/>\ne apesar de termos nascido um para o outro, e apesar dos meus sessenta e cinco<br \/>\nanos, e apesar de que sejas agora uma av\u00f3 de cabelos brancos, n\u00e3o possamos<br \/>\nviver juntos, como eu vivi at\u00e9 hoje com minha irm\u00e3, porque n\u00e3o somos casados&#8230;<br \/>\nE, se aqui te detenho comigo, assim neste gabinete, se te cingi ao meu peito<br \/>\ne te guardei um instante nos meus bra\u00e7os j\u00e1 tr\u00eamulos, \u00e9 porque h\u00e1 a\u00ed a pequena<br \/>\ndist\u00e2ncia de n\u00f3s um cad\u00e1ver que tudo justifica; ao contr\u00e1rio nem isso mesmo<br \/>\nseria razo\u00e1vel!&#8230; V\u00ea tu que escravid\u00e3o a nossa!]<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0\u00c9 a conven\u00e7\u00e3o social, meu amigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! o c\u00f3digo social! Sofram-se tudo; suportem-se todas as mis\u00e9rias, mas<br \/>\nn\u00e3o se falte nunca aos seus preceitos! Mas, antes de aparecer esse mesquinho<br \/>\nc\u00f3digo arranjado pelo homem, j\u00e1 um outro existia, imposto pela natureza, muito<br \/>\nmais s\u00e1bio, mais justo e mais generoso; e esse mesmo homem que reclama sob<br \/>\npena dos maiores castigos, o bom cumprimento do seu c\u00f3digo, cal\u00e7a aos p\u00e9s,<br \/>\na cada momento, as leis do outro, sem receber por isso, dos seus semelhantes,<br \/>\na menor puni\u00e7\u00e3o! De sorte que eu, tendo uma amiga a quem estreme\u00e7o, com quem<br \/>\npoderia arrastar menos tristemente o sud\u00e1rio da minha velhice, n\u00e3o hei de<br \/>\nvaler-me da companhia dela, nem usar livremente da sua casta amizade, porque<br \/>\no tal c\u00f3digo social n\u00e3o me permite! \u00c9 caso para lamentar n\u00e3o seres tu homem,<br \/>\nou n\u00e3o ser eu mulher!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, C\u00e9sar, nada aproveitar\u00edamos com ser do mesmo sexo&#8230; Nunca houve equil\u00edbrio<br \/>\nperfeito de qualquer amor sen\u00e3o entre pessoas de sexo diferente. O amor que<br \/>\nte tenho, apesar de ideal, nunca poderia eu senti-lo por outra mulher, fosse<br \/>\nesta minha m\u00e3e, minha irm\u00e3 ou minha filha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Mas, meu Deus, isso \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o das tuas teorias sobre o casamento&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0N\u00e3o&#8230; Por qu\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Segundo o que acabas de dizer, duas pessoas de sexo diferente podem ent\u00e3o,<br \/>\nsem incompatibilidade, viver eternamente juntas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Decerto, desde que se amem castamente como n\u00f3s dois nos amamos, e n\u00e3o tenham<br \/>\nentre si a menor aproxima\u00e7\u00e3o carnal. O que incompatibiliza moralmente os c\u00f4njuges<br \/>\n\u00e9 o amor f\u00edsico. Se dois amigos do sexo diferente pudessem, na plenitude da<br \/>\nmocidade, realizar um cons\u00f3rcio naquelas condi\u00e7\u00f5es, e vivessem juntos sem<br \/>\na menor preocupa\u00e7\u00e3o dos sentidos, seriam eternamente felizes e cada vez mais<br \/>\nse amariam, porque para eles a conviv\u00eancia constante, ao contr\u00e1rio do que<br \/>\nsucede aos que se unem pelo sexo, longe de enfraquecer-lhes o amor, havia<br \/>\nde ir cristalizando-o lentamente, at\u00e9 faz\u00ea-lo atingir o supremo estado de<br \/>\npureza, inquebrant\u00e1vel e l\u00edmpido como um diamante. Seria esse o \u00fanico casamento<br \/>\neterno!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0E os filhos?<\/p>\n<p>&#8211; Que filhos? Acaso figuraste semelhante hip\u00f3tese, quando h\u00e1 vinte anos te<br \/>\nuniste eternamente a essa tua pobre irm\u00e3, que acaba de morrer, deixando-te<br \/>\na alma vi\u00fava do seu amor?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu a amava, justamente porque nos amos. E assim deve ser entre todos os<br \/>\nhomens e todas as mulheres que se amam.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! seria isso a extin\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie&#8230; a n\u00e3o ser que, em tal casamento,<br \/>\na cada um dos consortes assistisse o direito de ir buscar fora do casal, onde<br \/>\nmelhor o levassem os seus apetites carnais, a satisfa\u00e7\u00e3o do instinto procriador!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E por que n\u00e3o? O instinto material\u00edssimo da procria\u00e7\u00e3o nada tem que ver<br \/>\ncom o amor, isto \u00e9, com o verdadeiro sentimento de humanidade elevado ao seu<br \/>\nmais alto grau de como\u00e7\u00e3o. A f\u00eamea \u00e9 para o macho &#8211; produzem; a mulher \u00e9 para<br \/>\no homem &#8211; amam-se. Entre os que se ajuntam instintivamente, n\u00e3o pode existir<br \/>\no amor, s\u00f3 h\u00e1 sensualidade! \u00c9 o caso de minha filha e meu genro; \u00e9 o contr\u00e1rio<br \/>\ndo nosso caso!<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Ent\u00e3o, para que fazer quest\u00e3o de sexo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Porque, repito, entre duas pessoas do mesmo sexo, a n\u00e3o ser no caso particular<br \/>\ndo amor materno, que \u00e9 um desdobramento do amor-pr\u00f3prio, s\u00f3 pode haver ligeiras<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es de estima e simpatia. Amor, verdadeiramente amor, s\u00f3 pode existir<br \/>\nentre o homem e a mulher; s\u00f3 entre estes se far\u00e1 inteira confian\u00e7a de parte<br \/>\na parte, inteiro equil\u00edbrio de esp\u00edritos e de cora\u00e7\u00f5es. A sexualidade f\u00edsica<br \/>\nrefletindo-se no moral \u00e9 t\u00e3o poderosa que se estende at\u00e9 aos pais com rela\u00e7\u00e3o<br \/>\naos pr\u00f3prios filhos, ou vice-versa. A filha ama sempre mais o pai do que a<br \/>\nm\u00e3e, e o filho mais a m\u00e3e do que o pai. Pode-se afirmar que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o corpo<br \/>\nque tem sexo, a alma tamb\u00e9m o tem, e s\u00f3 a alma de uma mulher pode compreender<br \/>\na alma de um homem e s\u00f3 por esta pode ser compreendida. H\u00e1 muita coisa que<br \/>\num homem n\u00e3o confia ao esp\u00edrito de outro homem, nem uma mulher ao de outra<br \/>\nmulher. Eu, por exemplo, em caso nenhum teria jamais revelado a outra pessoa<br \/>\ndo meu sexo tudo o que at\u00e9 hoje te relatei da minha vida \u00edntima e dos meus<br \/>\n\u00edntimos pensamentos; e tu, meu velho amigo, juro que tamb\u00e9m n\u00e3o serias capaz<br \/>\nnunca de p\u00f4r a alma nua defronte de nenhum homem, como tantas e tantas vezes<br \/>\na exibiste defronte dos meus olhos. Por qu\u00ea? porque sempre nos amamos sinceramente,<br \/>\ne muito, tanto quanto \u00e9 poss\u00edvel, sem nunca todavia depravarmos o nosso amor<br \/>\nhumano com a rasteira preocupa\u00e7\u00e3o de nossos instintos bestiais! Se o tiv\u00e9ramos<br \/>\nfeito, n\u00e3o te poderia eu falar agora deste modo, nem tu me ouvirias a s\u00e9rio<br \/>\ne de boa-f\u00e9, como me est\u00e1s ouvindo: Rir-nos-\u00edamos um do outro; achar-nos-\u00edamos<br \/>\nrid\u00edculos!&#8230; Os indiv\u00edduos, sujeitados e unidos pela sensualidade, quando<br \/>\nse acham a s\u00f3s os dois, s\u00f3 podem falar com empenho dos interesses do pr\u00f3prio<br \/>\ninstinto que os uniu, seja dos interesses do gozo sexual, ou seja dos interesses<br \/>\ndos filhos; no mais, as poucas e frias palavras que trocam entre si s\u00e3o concernentes<br \/>\na coisas chatas, caseiras e materiais como o mesmo amor que os liga. E n\u00f3s,<br \/>\ndesde o primeiro dia em que nos conhecemos at\u00e9 hoje, conservamos um para o<br \/>\noutro a mesma poesia do amor?<\/p>\n<p>Calei-me, e s\u00f3 ent\u00e3o notamos que o dia acabava de invadir o gabinete por<br \/>\numa larga janela envidra\u00e7ada.<\/p>\n<p>C\u00e9sar ergueu-se, e eu tamb\u00e9m. Ele, l\u00edvido com aquela noite de ins\u00f4nia e de<br \/>\nl\u00e1grimas, parecia um espetro.<\/p>\n<p>Adiantou-se lentamente para mim, estendendo-me as m\u00e3os tr\u00eamulas.<\/p>\n<p>&#8211; Se assim \u00e9&#8230; disse-me comovido e suplicante; n\u00e3o nos separemos mais!&#8230;<br \/>\nVivamos juntos este resto de vida, unidos por este elevado amor de que me<br \/>\nfalas!&#8230; Posto nossas almas h\u00e1 muito se esposaram, casemo-nos, j\u00e1 que assim<br \/>\no quer a sociedade; e que eu te possa ter a meu lado, e que eu te fale e te<br \/>\nveja todos os dias, a qualquer instante; e que eu possa contar contigo, minha<br \/>\namiga, perto do meu leito, quando este pobre corpo morrer de todo!<\/p>\n<p>Abaixei a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois de longa pausa, tartamudeei muito triste:<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m nos compreenderia&#8230; Ser\u00edamos cobertos de rid\u00edculo, por todos,<br \/>\npor minha fam\u00edlia, at\u00e9 por minha filha!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! insistiu ele. N\u00e3o acontecer\u00e1 assim: J\u00e1 todos se habituaram a ver em<br \/>\nti um esp\u00edrito superior, emancipado de preconceitos mesquinhos. Casar-nos-emos<br \/>\npara poder viver perto um do outro, mas separados de corpo, como dois irm\u00e3os.<br \/>\nLembras-te de que hoje tua fam\u00edlia \u00e9 o meu \u00fanico herdeiro e eu preciso justificar<br \/>\npublicamente esse fato. N\u00e3o me abandones aqui com as minhas saudades, sem<br \/>\nter eu um cora\u00e7\u00e3o onde aque\u00e7a esta velha alma tua amiga! Casando-me contigo,<br \/>\nminha querida irm\u00e3, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma companhia que trarei para meu lado; Palmira<br \/>\nser\u00e1 tamb\u00e9m minha filha e Leandro ser\u00e1 meu filho&#8230; E eu terei o direito de<br \/>\nam\u00e1-los e de importun\u00e1-los um pouco com as minhas rabugices de velho&#8230; E<br \/>\nterei, para se rir de mim, para puxar-me as barbas e trepar-me pelas pernas,<br \/>\no teu netinho, Ol\u00edmpia! Ele, o diabrete, vendo-me todos os dias a teu lado<br \/>\ne habituando-se a brincar comigo, acabar\u00e1 por amar-me, como se com efeito<br \/>\nfosse neto de n\u00f3s dois&#8230; E s\u00f3 a id\u00e9ia de que lhe ouvirei ainda chamar-me<br \/>\n&#8220;Vov\u00f4&#8221;! s\u00f3 com esta id\u00e9ia&#8230; v\u00eas tu, minha filha?&#8230; correm-me j\u00e1 as l\u00e1grimas<br \/>\npelo rosto!<\/p>\n<p>Aproximei-me dele, para cingi-lo nos meus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Descansa, respondi-lhe. N\u00e3o ficar\u00e1s abandonado, meu bom amigo! Mesmo nestes<br \/>\npesados dias de nojo serei desde j\u00e1 a tua companheira. Logo mais voltarei<br \/>\ncom Palmira, para passarmos tr\u00eas dias contigo. Leandro ficar\u00e1 l\u00e1 em casa durante<br \/>\nesse tempo.<\/p>\n<p>C\u00e9sar amparou-se em mim, solu\u00e7ando. Entre as suas l\u00e1grimas s\u00f3 uma palavra<br \/>\ncompreendi das que me disse: &#8220;Obrigado! Obrigado!&#8221; Depois tomou-me a cabe\u00e7a<br \/>\nentre as m\u00e3os e beijou-me na testa. Eu lhe respondi com um beijo igual.<\/p>\n<p>Foi o primeiro beijo que trocamos em toda a nossa longa vida de amor.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Ao sair do gabinete, dirigi-me logo para a sala em que estava o cad\u00e1ver.<br \/>\nEm volta dele pareceu-me tudo ainda mais triste com aquela deslavada luz do<br \/>\namanhecer. As raras pessoas que ficaram a guardar a morta dormiam nas suas<br \/>\ncadeiras, com a cabe\u00e7a pendida sobre o peito. As velas choravam sempre, e<br \/>\nmais sinistras achei agora as suas l\u00e1grimas. O corpo, j\u00e1 completamente rijo,<br \/>\nfazia mais frio o ambiente, e um ligeiro fedor \u00famido evolava-se dele.<\/p>\n<h2><a name=\"24\"><\/a>XXIV<\/h2>\n<p>Quando, pela manh\u00e3, cheguei \u00e0 casa, sentia-me muito mal disposta. Era sem<br \/>\nd\u00favida a rea\u00e7\u00e3o de todas aquelas canseiras acumuladas ultimamente. &#8211; Mas tudo<br \/>\nisso passaria com algumas horas de absoluto repouso. &#8211; Recolhi-me ao quarto,<br \/>\nquase sem for\u00e7as para despir-me. Despedi a criada, recomendando-lhe que n\u00e3o<br \/>\nme chamasse enquanto eu estivesse na cama.<\/p>\n<p>Deitei-me, e comecei a pensar, \u00e0 espera do sono; teria eu \u00e2nimo de realizar<br \/>\na boa a\u00e7\u00e3o que vinha de prometer ao meu amigo?&#8230; Teria a coragem de afrontar<br \/>\ncom o rid\u00edculo, que porventura iria despertar aquele casamento feito entre<br \/>\ndois velhos?&#8230; Compreenderiam essa liga\u00e7\u00e3o moral; esse espos\u00f3rio de duas<br \/>\nalmas amigas, que se estremecem e se buscam, atrav\u00e9s de uma exist\u00eancia inteira;<br \/>\ne afinal se abra\u00e7am, n\u00e3o para a satisfa\u00e7\u00e3o do amor, mas para afugentar o medo<br \/>\nque, separadas e sozinhas, sentiria cada uma no frio resto do seu caminho<br \/>\nj\u00e1 ensombrado pela morte?&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, com certeza, ningu\u00e9m compreenderia! N\u00e3o obstante, esse casamento, singular<br \/>\nembora, era perfeitamente l\u00f3gico e era essencialmente humano! Em que e por<br \/>\nque o amor e os reclamos da alma valem e merecem menos que as sensuais necessidades<br \/>\ndo corpo?&#8230; Acaso a solidariedade da carne, instinto de todo animal, \u00e9 mais<br \/>\ndigna que a solidariedade do esp\u00edrito, privil\u00e9gio exclusivo do homem?&#8230; Pois<br \/>\nt\u00e3o facilmente aceitavam todos e compreendiam a conveni\u00eancia de um companheiro<br \/>\npara os nosso sentidos inconscientes, e n\u00e3o compreenderiam a raz\u00e3o de um companheiro<br \/>\npara o nosso esp\u00edrito, que \u00e9 a parte racional do ser humano, o que o sobreleva<br \/>\ndos brutos e o que o aproxima de Deus?&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, ningu\u00e9m compreenderia!&#8230; Entretanto, aquele casamento seria de grande<br \/>\nutilidade, nem s\u00f3 para o meu velho amigo, como para mim pr\u00f3pria. Cansada j\u00e1,<br \/>\nprecisava ter mais perto o meu auxiliar na obra da felicidade matrimonial<br \/>\nde Palmira; precisava de um substituto imediato para as faltas, que eu seguro<br \/>\niria fazer agora no meu posto de vigia. De resto, e talvez principalmente,<br \/>\na expectativa de ter C\u00e9sar a meu lado neste \u00faltimo quartel da vida, enchia-me<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o de uma inef\u00e1vel esperan\u00e7a de completa felicidade moral.<\/p>\n<p>Mas, que diria meu genro?&#8230; que pensaria minha filha?&#8230;<\/p>\n<p>Oh! para esses ficaria tudo, mais tarde, explicado neste manuscrito, que<br \/>\nem tempo lhes chegaria \u00e0s m\u00e3os! E, quanto ao mais &#8211; j\u00e1 muito fazia eu em dar-lhe<br \/>\na p\u00fablica satisfa\u00e7\u00e3o do casamento!<\/p>\n<p>Sim! estava resolvido &#8211; C\u00e9sar viria acabar seus dias a meu lado!<\/p>\n<p>E comecei a pensar na disposi\u00e7\u00e3o da casa para acomod\u00e1-lo convenientemente,<br \/>\ne at\u00e9 em nosso futuro modo de viver.<\/p>\n<p>Havia um aposento magn\u00edfico para ele, e o meu quarto de trabalho, que era<br \/>\nvasto, passaria a ser comum entre n\u00f3s dois. Seria o nosso ponto principal<br \/>\nde conviv\u00eancia: Enquanto C\u00e9sar a\u00ed estivesse ocupado l\u00e1 com os seus trabalhos,<br \/>\nestaria eu costurando, lendo ou escrevendo; e isso n\u00e3o impediria que minha<br \/>\nfilha continuasse a passar nessa mesma sala, as horas que costumava passar<br \/>\ncomigo.<\/p>\n<p>E via j\u00e1 o meu velho camarada, ao almo\u00e7o e ao jantar, assentado ao lado de<br \/>\nmeu neto, a rirem-se os dois um com o outro, a brincarem, como duas crian\u00e7as.<br \/>\nE via-o depois passeando conosco, nas belas manh\u00e3s de Petr\u00f3polis, levando-me<br \/>\npelo bra\u00e7o, feliz com aquela fam\u00edlia toda inteira e completa, que eu lhe dava,<br \/>\ncomo um presente de bodas, para consola\u00e7\u00e3o do resto da sua exist\u00eancia. E via-o<br \/>\n\u00e0 noite, na sala, de cabe\u00e7a coberta e len\u00e7o ao pesco\u00e7o, jogando comigo antes<br \/>\ndo ch\u00e1, enquanto Palmira ao piano acompanhava o enamorado e choroso bandolim<br \/>\ndo marido. E via-o afinal estendido no seu leito extremo, j\u00e1 prestes a deixar<br \/>\na vida, guardando as minhas m\u00e3os nas suas, e entregando-me o \u00faltimo suspiro<br \/>\nda sua alma irm\u00e3 da minha, t\u00e3o generosa, t\u00e3o ador\u00e1vel e t\u00e3o pura.<\/p>\n<p>Mas o sono n\u00e3o vinha e a minha indisposi\u00e7\u00e3o crescia vivamente. Dolorosos<br \/>\ncalefrios obrigavam-me a encolher-me toda debaixo dos cobertores. Sentia doer-me<br \/>\no lado da cintura, a boca seca, o est\u00f4mago ansiado. Compreendi que n\u00e3o podia<br \/>\ndormir. Tateei o t\u00edmpano, vibrei e pedi \u00e0 criada uma ch\u00e1vena de ch\u00e1 bem quente.<br \/>\nAo tomar os primeiros goles, vomitei logo, e senti dores no est\u00f4mago.<\/p>\n<p>Quando minha filha, alvoro\u00e7ada com a not\u00edcia do meu inc\u00f4modo, me procurou<br \/>\naflita, eu ardia em febre e n\u00e3o podia conter os gemidos. Meu genro veio tamb\u00e9m<br \/>\npouco depois, todo de luto, j\u00e1 preparado para o enterro de D. Etelvina, que<br \/>\nseria \u00e0 tarde. Apesar do sofrimento, falei-lhes no abandono em que ia ficar<br \/>\no nosso Dr. C\u00e9sar e no estado de desconsolo em que eu o deixara ao lado do<br \/>\ncad\u00e1ver da irm\u00e3, \u00faltimo parente que lhe fugia para debaixo da terra.<\/p>\n<p>Leandro prometeu-me que lhe faria uma visita logo em seguida ao almo\u00e7o e<br \/>\nficaria com ele at\u00e9 as horas do saimento. Pedi-lhe mais que depois do enterro,<br \/>\no n\u00e3o deixasse sozinho naquele casar\u00e3o triste e solit\u00e1rio; que, em meu nome,<br \/>\no persuadisse de vir para junto de n\u00f3s, ao menos por esses primeiros dias;<br \/>\ne lhe dissesse que eu n\u00e3o podia ir l\u00e1 com Palmira, como prometera e tencionava,<br \/>\nmas que viesse ele; entregasse a casa aos serventes e trouxesse de companhia<br \/>\no seu velho criado Ant\u00f4nio. Era isso o bastante.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Recebidas estas disposi\u00e7\u00f5es, Leandro saiu do quarto, e minha filha come\u00e7ou<br \/>\na tratar de mim, convencida, como eu, de que era passageiro o mal. N\u00e3o valia<br \/>\na pena chamar m\u00e9dico; C\u00e9sar viria \u00e0 tarde ou \u00e0 noite e daria as provid\u00eancias<br \/>\nnecess\u00e1rias. A despeito da minha crescente indisposi\u00e7\u00e3o, perguntei a Palmira<br \/>\nque tal lhe parecia a id\u00e9ia de convidarmos o meu velho amigo para ficar morando<br \/>\nindefinidamente conosco. Ela n\u00e3o se abalou com o alvitre, como esperava eu.<\/p>\n<p>&#8211; Ali, disse, todos queriam e estimavam tanto o Dr. C\u00e9sar, que este era para<br \/>\na fam\u00edlia menos um estranho que um parente.<\/p>\n<p>Recomendei-lhe ent\u00e3o falasse a esse respeito com Leandro e desse-me depois<br \/>\nsincera conta da impress\u00e3o que semelhante id\u00e9ia produzisse no \u00e2nimo dele.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! respondeu minha filha. Leandro \u00e9 deveras amigo do velho C\u00e9sar. Mam\u00e3e<br \/>\nbem sabe que ele o estima e respeita como a um pai! H\u00e1 de sem d\u00favida ficar<br \/>\nsatisfeito com a not\u00edcia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0Sim, mas fala-lhe, porque talvez n\u00e3o fiquem as coisas neste ponto.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que o meu padecimento aumentava, e do meio para o fim do dia, t\u00e3o<br \/>\nmal me achei e t\u00e3o pouco acordo dei de mim, que n\u00e3o posso agora render c\u00f3pia<br \/>\nexata do que se passou. Ca\u00ed em modorra de febre; creio que delirei. Sei apenas<br \/>\nque C\u00e9sar veio logo ao fechar da noite; que me receitou; deu-me a tomar os<br \/>\nrem\u00e9dios e n\u00e3o me abandonou at\u00e9 o momento em que, j\u00e1 tarde, Palmira o constrangeu<br \/>\na recolher-se ao quarto que lhe destin\u00e1vamos.<\/p>\n<p>E eu, que o tinha chamado para alivi\u00e1-lo das suas penas, recebia agora dele<br \/>\nos desvelos de amigo e os cuidados de m\u00e9dico, e de enfermeiro. O que sup\u00fanhamos<br \/>\nfebre passageira era nada menos que uma inflama\u00e7\u00e3o de f\u00edgado. A mol\u00e9stia caracterizou-se<br \/>\nnessa mesma noite com a altera\u00e7\u00e3o na gl\u00e2ndula, e o Dr. C\u00e9sar fez logo o seu<br \/>\ndiagn\u00f3stico: &#8220;Hepatite intersticial, proveniente de impaludismo.&#8221;<\/p>\n<p>E tive de guardar o leito no dia seguinte e nos outros imediatos, mostrando-se<br \/>\nC\u00e9sar ao meu lado de uma solicitude sem igual.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas, ao fim da primeira semana, reconhec\u00edamos j\u00e1 que a nossa posi\u00e7\u00e3o era<br \/>\nfalsa. Desde que constou a minha enfermidade, come\u00e7aram as visitas, algumas<br \/>\nde mera cerim\u00f4nia, outras de verdadeira estima; e o meu pobre amigo confessava-se<br \/>\nconstrangido ali, \u00e0 vista dos estranhos. Al\u00e9m disso, era natural que ele,<br \/>\nsem estar de todo transferido l\u00e1 para casa, sentisse falta dos seus velhos<br \/>\nh\u00e1bitos; homem, como sempre foi, dado metodicamente a longos estudos e a trabalhos<br \/>\ncient\u00edficos. N\u00e3o me animava contudo a propor-lhe a mudan\u00e7a absoluta, sem a<br \/>\njustificativa do casamento. E a situa\u00e7\u00e3o, dentro em pouco, complicou-se ainda<br \/>\nmais, pela conting\u00eancia em que me vi de ter, para seguran\u00e7a da cura, de aproveitar,<br \/>\nainda no primeiro per\u00edodo da mol\u00e9stia, a esta\u00e7\u00e3o das \u00e1guas de Caxambu.<\/p>\n<p>Foi assim que se resolveu em fam\u00edlia, e logo se apressou, o nosso singular<br \/>\ncasamento.<\/p>\n<p>Como ainda n\u00e3o podia eu sair \u00e0 rua, tivemos de solicitar uma licen\u00e7a da Igreja<br \/>\npara realiz\u00e1-lo em casa. N\u00e3o foi dif\u00edcil, e a formalidade religiosa durou<br \/>\npouco tempo, sem grande esc\u00e2ndalo na vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>As pessoas de nossa amizade receberam a comunica\u00e7\u00e3o do fato nos seguintes<br \/>\ntermos:<\/p>\n<p>&#8220;Ol\u00edmpia da C\u00e2mara e o Dr. C\u00e9sar Veloso participam a V. Ex.a que contra\u00edram<br \/>\no direito de passar junto a sua velhice, aparentando-se legalmente pelos v\u00ednculos<br \/>\nconjugais.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se a novidade foi muito comentada l\u00e1 fora, nos v\u00e1rios grupos das<br \/>\nnossas rela\u00e7\u00f5es; n\u00e3o mo disseram, nem eu tampouco a ningu\u00e9m o perguntei. Quanto<br \/>\na l\u00e1 por casa &#8211; Ah! isso foi diferente: O senhor meu genro n\u00e3o procurou sequer<br \/>\ndisfar\u00e7ar o riso que o fato lhe provocava! O leviano, sem atingir o alcance<br \/>\ndo meu proceder, s\u00f3 nele via o rid\u00edculo casamento de dois velhos. Perdoei-lhe,<br \/>\nn\u00e3o obstante, ainda essa descortesia, porque ela n\u00e3o era obra da maldade do<br \/>\nseu cora\u00e7\u00e3o, mas s\u00f3 da sua inferioridade moral.<\/p>\n<p>Palmira, essa n\u00e3o riu logo, pelo menos em minha presen\u00e7a; ficou a cismar,<br \/>\nsem \u00e2nimo de interpelar-me, e da\u00ed por diante evitava at\u00e9 de entrar em conversa<br \/>\ncomigo sobre este assunto. Mas, com C\u00e9sar, j\u00e1 n\u00e3o foi t\u00e3o generosa, porque<br \/>\num dia a surpreendi a faceciar contra o padrasto a respeito do caso. Ele,<br \/>\nn\u00e3o sei o que tinha dito, que ela com aqueles seus modos de rapariga travessa,<br \/>\npois nunca os perdeu de todo, tomou-lhe as lunetas, armou-as no nariz e come\u00e7ou<br \/>\na arremedar os meus gestos e a minha voz, exclamando comicamente, com o dedo<br \/>\nno ar e a cabecinha empertigada:<\/p>\n<p>&#8211; Casaram-se?&#8230; Est\u00e1 muito bem! mas n\u00e3o consinto que fiquem juntos muitos<br \/>\ndias seguidos&#8230; N\u00e3o! n\u00e3o! a felicidade conjugal, meu caro Dr. C\u00e9sar, \u00e9 nisto<br \/>\nque se baseia! E se duvida, vou j\u00e1 buscar-lhe a B\u00edblia!&#8230;<\/p>\n<p>C\u00e9sar p\u00f4s-se a rir, e eu n\u00e3o pude deixar de fazer o mesmo. Ela, ao dar comigo,<br \/>\nque a espreitava, ficou desapontada e corrida; desprendeu as lunetas do nariz,<br \/>\nentregou-as ao dono; e o diabrete veio correndo atirar-me ao pesco\u00e7o e pedir-me<br \/>\ncom seus beijos o beijo do meu perd\u00e3o.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Todavia, eu continuava doente. Realizou-se a mudan\u00e7a definitiva de C\u00e9sar<br \/>\nl\u00e1 para casa, e da\u00ed a dois dias arribamos todos para Caxambu. Fui bem prostrada.<\/p>\n<p>No fim de um m\u00eas de \u00e1guas estava de p\u00e9, mas compreendi que me havia empolgado<br \/>\na mol\u00e9stia que ter\u00e1 de matar-me. Alguma coisa se modificou no meu ser f\u00edsico,<br \/>\nalguma coisa em mim se quebrou para sempre. Reconheci que um novo marco divis\u00f3rio<br \/>\nse firmara na minha exist\u00eancia, separando o \u00faltimo per\u00edodo vivido de um novo<br \/>\nper\u00edodo que come\u00e7ava. Este deve ser naturalmente o \u00faltimo, porque em minha<br \/>\nfam\u00edlia nunca vamos al\u00e9m dos sessenta anos.<\/p>\n<p>Agora, por\u00e9m, que me importava a id\u00e9ia de morrer, se estava tudo bem disposto<br \/>\npara garantir a felicidade dos entres queridos que eu deixava no mundo?<\/p>\n<p>Depois de tr\u00eas meses de Caxambu voltamos \u00e0 casa de Laranjeiras, e de novo<br \/>\nentrou definitivamente nos seus eixos a nossa vida dom\u00e9stica, mais completa<br \/>\nagora com a presen\u00e7a de C\u00e9sar. Pouco a pouco, \u00e0 vista da atitude que guard\u00e1vamos,<br \/>\neu e meu esposo, Leandro foi compreendendo a nossa verdadeira situa\u00e7\u00e3o. Deixou<br \/>\nde rir; e, tanto ele como Palmira, come\u00e7aram a envolver o meu vener\u00e1vel companheiro<br \/>\nna mesma atmosfera de carinhoso respeito em que ela sempre me teve e em que<br \/>\naquele ultimamente me firmava.<\/p>\n<p>A minha alian\u00e7a com C\u00e9sar era a de dois velhos irm\u00e3os amor\u00e1veis; e o exemplo<br \/>\ndo nosso m\u00fatuo respeito, da inalter\u00e1vel delicadeza de palavras e maneiras<br \/>\nque mant\u00ednhamos um pelo outro, e principalmente a a\u00e7\u00e3o constante daquela nossa<br \/>\nprofunda amizade, casta, sagrada e puramente espiritual, n\u00e3o tardaram a dar<br \/>\nde si os frutos que eu pressupunha, refletindo-se diretamente no \u00e2nimo de<br \/>\nminha filha e de meu genro. Foi para eles t\u00e3o eficaz e poderoso o efeito desse<br \/>\nexemplo de amor impoluto, que no fim de alguns meses se tornava de todo desnecess\u00e1ria<br \/>\na minha interven\u00e7\u00e3o para obrig\u00e1-los a cumprir o regime de vida que eu lhes<br \/>\nimpusera, sem haver, n\u00e3o obstante, desfalecimento de amor sensual por parte<br \/>\nde nenhum dos dois. Ou porque tivessem afinal se habituado \u00e0s peri\u00f3dicas separa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde leito, ou porque compreendessem j\u00e1 o seu valor e efic\u00e1cia; ou fosse enfim<br \/>\nque o alto exemplo da nossa calma ternura lhes apurasse o esp\u00edrito e lhes<br \/>\naperfei\u00e7oasse o cora\u00e7\u00e3o, o certo \u00e9 que eles iam agora, sem esfor\u00e7o, naturalmente,<br \/>\nvivendo como lhes ensinara eu a viver, e confessavam-se felizes; e, pela primeira<br \/>\nvez, mostravam-se gratos ao meu maternal desvelo.<\/p>\n<p>Com a conviv\u00eancia Leandro foi cada vez mais se fazendo filho de C\u00e9sar; afinal,<br \/>\nmuitas vezes, nos seus regulares afastamentos do t\u00e1lamo, meu genro dormia<br \/>\nno mesmo quarto com o padrastro, e Palmira e meu neto dormiam comigo. E iam-se<br \/>\nassim os dias passando, sem a mais ligeira nuvem de desarmonia, sem o menor<br \/>\natrito de caracteres, nem sombras de descontentamento, porque, ao contr\u00e1rio<br \/>\ndo que em geral sucede nas fam\u00edlias ainda mesmo pouco numerosas, n\u00e3o form\u00e1vamos<br \/>\npequenos grupos conspiradores; n\u00e3o havia segredos entre todos n\u00f3s, nem por<br \/>\nconseguinte podia haver ressentimento.<\/p>\n<p>A liberdade moral e f\u00edsica de cada um era completa, sem despertar nos outros<br \/>\no vislumbre de uma ofensiva suspeita. Leandro entrava e sa\u00eda de nossa casa<br \/>\nlivremente; ora dormia, ora n\u00e3o dormia perto da mulher, e deixava de aparecer-lhe<br \/>\nnos dias que lhe convinha, sem que isso nela despertasse ci\u00fames ou enfados<br \/>\nde despeito.<\/p>\n<p>Sem o preclaro exemplo da minha comovida e amorosa castidade, n\u00e3o sei se<br \/>\npoderia, apesar do empenho que pus em dirigir a felicidade de Palmira, ter<br \/>\nevitado entre ela e o marido as rid\u00edculas contendas e as enervantes mis\u00e9rias<br \/>\ndo matrim\u00f4nio. E com efeito &#8211; que bela li\u00e7\u00e3o de amor e que virtuoso exemplo<br \/>\nde ventura n\u00e3o era esse casal de velhos, assim vivendo unidos s\u00f3 pelo cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne pelo esp\u00edrito, sem jamais se fatigarem da presen\u00e7a um do outro, sem nunca<br \/>\nprecisar nenhum dos dois fingir nos seus sorrisos e nas suas palavras de ternura!&#8230;<br \/>\nAh! t\u00ednhamos sempre o que conversar, porque bem pouco fal\u00e1vamos de n\u00f3s mesmos,<br \/>\no que equivale a falar dos nossos instintos ou dos nossos interesses materiais.<br \/>\nPod\u00edamos penetrar desassombradamente em todos os assuntos, discutir os pontos<br \/>\nmais elevados da moral e da raz\u00e3o porque n\u00e3o nos t\u00ednhamos jamais incompatibilizado<br \/>\nintelectualmente pelas grosseiras animalidades do corpo. Pod\u00edamos olhar-nos<br \/>\nbem de face um para o outro, sem corar ou sem rir, porque \u00e9ramos igualmente<br \/>\npuros aos nossos olhos, porque nunca entre n\u00f3s esvoa\u00e7ou a asa do mais fugitivo<br \/>\nmenoscabo, e porque t\u00ednhamos sido sempre, na mocidade, e \u00e9ramos e continu\u00e1vamos<br \/>\na s\u00ea-lo na velhice, os mesmos amigos castos, os mesmos irm\u00e3os amorosos, cujas<br \/>\nid\u00e9ias e cujas revela\u00e7\u00f5es de gestos e palavras jamais foram postas entre n\u00f3s<br \/>\nao servi\u00e7o da lux\u00faria e das vergonhosas e inconfess\u00e1veis imund\u00edcias da carne!<\/p>\n<p>Oh! juro que eu era, como esposa, ainda mais feliz que minha filha, para<br \/>\ncuja felicidade trabalhei eficazmente durante toda a minha vida de mulher.<\/p>\n<p>Sim, fui e sou feliz, apesar da mol\u00e9stia que me vai minando a exist\u00eancia.<br \/>\nSou agora, neste momento em que escrevo estas palavras, a mais venturosa das<br \/>\nm\u00e3es, a mais enternecida das av\u00f3s e a mais bem-aventurada das esposas. Enquanto<br \/>\nescrevo isto, sinto perto, bem perto de mim, o meu amigo amado, que a\u00ed est\u00e1<br \/>\na dois passos, descansando numa poltrona, a fumar o seu charuto, enquanto<br \/>\nl\u00ea um jornal. Ou\u00e7o-lhe com vol\u00fapia o fraco e curto resfolegar de velho, afinado<br \/>\npela minha respira\u00e7\u00e3o de enferma e pela d\u00e9bil respira\u00e7\u00e3o do meu netinho. Sinto,<br \/>\npensando nisto, invadirem minha alma a paz e o amor que cercam os meus gemidos<br \/>\ne os meus cabelos brancos&#8230; Sei que Palmira \u00e9 feliz e sei que ela me ama;<br \/>\nsei que meu genro me far\u00e1 justi\u00e7a e me amar\u00e1 um dia tanto quanto minha filha;<br \/>\nsei que morrerei aben\u00e7oada por eles e&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o posso continuar a escrever: C\u00e9sar acaba de levantar-se e vir ter<br \/>\ncomigo. Tomou-me a m\u00e3o esquerda e disse-me com autoridade de m\u00e9dico:<\/p>\n<p>&#8211; Bem! por hoje basta! Qualquer abuso de trabalho, minha amiga, pode prostrar-te<br \/>\nde cama&#8230; Vamos antes dar um passeio pela ch\u00e1cara&#8230; A tarde est\u00e1 magn\u00edfica!<\/p>\n<h2><a name=\"25\"><\/a>XXV<\/h2>\n<p>S\u00e3o passados nada menos de um ano e dois meses depois que escrevi as \u00faltimas<br \/>\npalavras que a\u00ed ficam para tr\u00e1s; s\u00f3 agora pude voltar ao meu manuscrito e<br \/>\ntalvez, quem sabe? para me despedir dele, porque \u00e9 j\u00e1 com bastante custo que<br \/>\nainda lan\u00e7o no papel estas linhas, tr\u00eamulas e p\u00e1lidas como a pr\u00f3pria m\u00e3o que<br \/>\nas tra\u00e7a.<\/p>\n<p>Como estou desfeita e abatida!<\/p>\n<p>Depois das enganadoras melhoras granjeadas com os ares e \u00e1guas de Caxambu,<br \/>\no mal acordou de novo, para seguir vitoriosamente o seu negro curso. O meu<br \/>\nterr\u00edvel f\u00edgado, apesar dos cuidados m\u00e9dicos, aumentou sempre durante o segundo<br \/>\nper\u00edodo da mol\u00e9stia; e agora, j\u00e1 no terceiro, sinto que me matar\u00e1 este depauperamento<br \/>\ngeral de for\u00e7as e esta cruel ascite, que me d\u00e1 o absurdo aspecto de uma t\u00edsica<br \/>\nem \u00faltimo grau e gr\u00e1vida.<\/p>\n<p>Todavia, durante esse tempo fizemos uma excurs\u00e3o pela Europa; j\u00e1 de volta<br \/>\nao Rio de Janeiro, operei a minha hidropsia abdominal, e s\u00f3 hoje consigo,<br \/>\nainda sem deixar a cama, tentar sobre a mesa de cabeceira esta p\u00e1gina dif\u00edcil&#8230;<br \/>\nAi! d\u00f3i-me todo o lado direito; doem-me os pulm\u00f5es e sinto falta de ar!<\/p>\n<p>Mas \u00e9 preciso arrastar-me at\u00e9 ao fim das minhas revela\u00e7\u00f5es. Vamos: Palmira<br \/>\nest\u00e1 pejada de novo; o marido, sem que ningu\u00e9m lhe falasse nisso, declarou<br \/>\nj\u00e1 que iria aos Estados Unidos durante o resguardo puerperal. Recomendei-lhe<br \/>\nque n\u00e3o deixasse de visitar Salt Lake City, capital do territ\u00f3rio de Utah<br \/>\ne procurasse, como o Afonso Celso, conversar com os pros\u00e9litos e sect\u00e1rios<br \/>\nde Jos\u00e9 Smith, patriarca dos m\u00f3rmons. A convic\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica dessa tribo de<br \/>\nhomens fortes pode preparar-lhe o esp\u00edrito para a metade da exist\u00eancia que<br \/>\nlhe falta viver ainda com a mulher.<\/p>\n<p>Meu esposo goza da melhor sa\u00fade que \u00e9 dado gozar a um velho, e seria completamente<br \/>\nfeliz se n\u00e3o foram os meus padecimentos. Creio que s\u00f3 aos seus desvelos de<br \/>\namigo e de m\u00e9dico, tenho ainda conseguido viver; pelo menos&#8230;<\/p>\n<p>Ai! senti agora mesmo nos pulm\u00f5es uma dor aguda! N\u00e3o posso continuar a escrever&#8230;<br \/>\nBem me dizia C\u00e9sar que seria imprud\u00eancia dar-me a este trabalho&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E terminava aqui o curioso manuscrito que Leandro me deu para ler na sua<br \/>\npitoresca vivenda da Tijuca. As \u00faltimas p\u00e1ginas n\u00e3o pareciam escritas pelo<br \/>\nmesmo punho que tra\u00e7ara as primeiras com letra t\u00e3o firme e corrente. As frases<br \/>\nfinais eram quase inintelig\u00edveis.<\/p>\n<p>Devorei-o em duas sec\u00e7\u00f5es: uma \u00e0 noite, antes de dormir, at\u00e9 \u00e0s duas horas<br \/>\nda madrugada seguinte, e a outra entre o almo\u00e7o e o jantar desse mesmo dia.<br \/>\nMal o terminei, corri ao meu amigo para pedir-lhe os pormenores da morte dessa<br \/>\ninteligente e singular senhora, a quem t\u00e3o mal julgara eu at\u00e9 a\u00ed e por quem,<br \/>\ndepois daquela leitura, sentia a mais profunda admira\u00e7\u00e3o e o mais enternecido<br \/>\nrespeito; e eis em subst\u00e2ncia o que me narrou Leandro:<\/p>\n<p>D. Ol\u00edmpia, depois que interrompeu com um gemido aquela sua p\u00e1gina interminada,<br \/>\nnunca mais levantou a cabe\u00e7a dos travesseiros, vindo a falecer da mol\u00e9stia<br \/>\nque a prostrava.<\/p>\n<p>Durou muitos dias a sua agonia mortal. Durante esse tempo, C\u00e9sar fez todos<br \/>\nos milagres da dedica\u00e7\u00e3o e do amor para salv\u00e1-la. Jamais amante nenhum foi<br \/>\nt\u00e3o extremoso e digno desse nome; nem jamais noivo de vinte anos chorou com<br \/>\ntamanha paix\u00e3o o desviver da noiva virginal e formosa.<\/p>\n<p>A casta companheira da sua velhice morreu-lhe nos bra\u00e7os e recebeu o seu<br \/>\nbeijo derradeiro entre as l\u00e1grimas dos filhos. Poucos momentos antes de expirar,<br \/>\nchamou estes dois para bem junto dela e, tomando uma das m\u00e3os de Leandro,<br \/>\ne tomando uma das m\u00e3os de Palmira, falou-lhes com a fl\u00e9bil sombra de voz que<br \/>\nainda lhe restava:<\/p>\n<p>&#8211; Logo que eu feche os olhos, disse-lhes compassadamente, abram aquela gaveta<br \/>\nda minha secret\u00e1ria, cuja chave est\u00e1 debaixo deste travesseiro, e tirem de<br \/>\nl\u00e1 o manuscrito que fui escrevendo depois que Palmira se casou. Encontrar\u00e3o<br \/>\na\u00ed a justifica\u00e7\u00e3o plena de todos os meus atos e de todas as minhas palavras.<br \/>\nFoi por amor de ti, minha filha, que concebi aquelas id\u00e9ias, e foi para ti,<br \/>\nmeu genro, que as escrevi. Leiam-no ambos com aten\u00e7\u00e3o e procurem seguir \u00e0<br \/>\nrisca os preceitos que l\u00e1 se acham estabelecidos, porque essa \u00e9 a minha derradeira<br \/>\ne \u00fanica vontade, ao deixar este mundo. Se o fizerem, h\u00e3o de ser eternamente<br \/>\nfelizes como animais humanos: ter\u00e3o a felicidade material em que se funda<br \/>\na vida org\u00e2nica da nossa esp\u00e9cie; mas, se quiserem desfrutar a outra felicidade,<br \/>\na melhor, a mais alta e mais perfeita; essa, que nenhum dos dois conhece ainda;<br \/>\nessa, que gozei longe e ao lado deste meu atual esposo; essa, em que se baseia<br \/>\ne garante a vida moral &#8211; tenha cada um de voc\u00eas dois o seu amigo, o amado<br \/>\ndo seu esp\u00edrito, o eleito da sua intelig\u00eancia, porque todo o homem, como toda<br \/>\na mulher, precisa tanto de um companheiro para a sua carne, como de um companheiro<br \/>\npara a sua alma! A vida \u00e9 o amor, e o amor n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a procria\u00e7\u00e3o. Cristo n\u00e3o<br \/>\ndeixou filhos, mas a semente de seu amor vive e frutifica at\u00e9 hoje no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos homens&#8230; \u00c9 poss\u00edvel que a ideal melancolia do seu beijo maculado, chorando<br \/>\neternamente atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, secasse muitos ventres, esterilizasse muitos<br \/>\nhomens, mas fecundou de imorredoura ternura muitos e muitos cora\u00e7\u00f5es!&#8230; A<br \/>\ncarne \u00e9 ego\u00edsta &#8211; temam o despotismo da carne! A carne \u00e9 irm\u00e3 degenerada &#8211;<br \/>\n\u00e9 o Caim da alma! Afastem um do outro esses dois irm\u00e3os irreconcili\u00e1veis,<br \/>\npara que o ideal n\u00e3o caia assassinado pela besta! V\u00e1 cada um de voc\u00eas dois,<br \/>\nmeus filhos, buscar o esposo da sua alma, fora e bem longe do leito matrimonial,<br \/>\ncom os olhos bem limpos de lux\u00faria, com a boca despreocupada de beijos terrenos,<br \/>\ncom o sangue tranq\u00fcilo e o corpo deslodado das lubrifica\u00e7\u00f5es carnais! Minha<br \/>\nfilha &#8211; toma um amante &#8211; para teu esp\u00edrito! Meu filho &#8211; elege uma amiga &#8211;<br \/>\npara o teu cora\u00e7\u00e3o de homem!<\/p>\n<p>E calou-se.<\/p>\n<p>Foram estas as suas \u00faltimas palavras. Depois de balbuci\u00e1-las, deixou pender<br \/>\na cabe\u00e7a sobre o colo do esposo, e morreu sem um gemido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I II III IV V VI\u00a0 VII VIII IX X XI XII XIII XIV XV XVI XVII XVIII XIX XX XXI XXII XXIII XXIV XXV &nbsp; &#8230;ce travail offre un autre d\u00e9couragement: que de choses hardies, et que je n\u2019avance qu\u2019en tremblant, seront de plats [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92141","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Livro de uma Sogra - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra Livro de uma Sogra - Alu\u00edsio de Azevedo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Livro de uma Sogra - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Romance, Dona Ol\u00edmpia, Literatura, Livro de uma Sogra - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Livro de uma Sogra - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra Livro de uma Sogra - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Livro de uma Sogra - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Romance, Dona Ol\u00edmpia, Literatura, Livro de uma Sogra - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/livro-de-uma-sogra-aluisio-de-azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-03T13:13:58+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-07-14T13:57:41+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2015\/12\/pontilhado.png\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"290 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/livro-de-uma-sogra-aluisio-de-azevedo#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/livro-de-uma-sogra-aluisio-de-azevedo\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Livro de uma Sogra &#8211; 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