{"id":92104,"date":"2017-01-03T10:48:29","date_gmt":"2017-01-03T12:48:29","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92104"},"modified":"2018-05-03T16:02:51","modified_gmt":"2018-05-03T18:02:51","slug":"girandola-de-amores-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/girandola-de-amores-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"Gir\u00e2ndola de Amores &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><script async src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\"><\/script><br \/>\n<!-- ads_responsivo --><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\"\n     style=\"display:block\"\n     data-ad-client=\"ca-pub-7159766377354473\"\n     data-ad-slot=\"3162710741\"\n     data-ad-format=\"auto\"><\/ins><br \/>\n<script>\n(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#1\"><strong>I &#8211; O RAPTO<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#2\">II, III POL\u00cdCIA E C\u00d3CEGAS<br \/>\n<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#4\">IV CORA\u00c7\u00c3O DE<br \/>\nMULHER<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#5\">V DEPOIMENTOS <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#6\">VI PRIMEIRO ENCONTRO<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#7\">VII, VIII AQUI ANDA COISA!<br \/>\n<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#9\">IX O COMENDADOR PELO AVESSO<br \/>\n<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#10\">X ALGAS <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#11\"><strong>XI, XII PEDRO RUIVO<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#13\">XIII AS M\u00c3ES DE GREG\u00d3RIO<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#14\">XIV OS PAIS DE GREG\u00d3RIO<\/a><br \/>\n<\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#15\">XV AVENIDA ESTRELA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#16\">XVI OL\u00cdMPIA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#17\">XVII A PEDREIRA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#18\">XVIII A GRUTA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#19\">XIX O ACROBATA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#20\">XX D. TERESINHA <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#21\"><strong>XXI \u00c0 BEIRA DO PRECIP\u00cdCIO<br \/>\n<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#22\">XXII TEMPESTADE SOLTA <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#23\">XXIII PORTELA EM APUROS<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#24\">XXIV TIA AGUEDA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#25\">XXV O MARIDO DE OL\u00cdMPIA<br \/>\n<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#26\">XXVI CA\u00c7A AOS DOCUMENTOS<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#27\">XXVII O BEIJO <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#28\">XXVIII PERP\u00c9TUAS,<br \/>\nVIOLETAS E CAM\u00c9LIAS <\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#29\">XXIX O BATIZADO<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#30\">XXX \u00daLTIMO CAP\u00cdTULO<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I &#8211; O RAPTO<\/h2>\n<p>Clorinda acabava de p\u00f4r o seu v\u00e9u de noiva e, de costas para<br \/>\no espelho, olhava por sobre o ombro a cauda do vestido<\/p>\n<p>A velha Janu\u00e1ria pregava-lhe com muita solicitude o \u00faltimo<br \/>\nalfinete dourado, e, como representasse para ela o papel de m\u00e3e, repetia-lhe<br \/>\nbaixinho, com a voz comovida e os \u00f3culos emba\u00e7ados pelas l\u00e1grimas,<br \/>\nos invari\u00e1veis conselhos adequados \u00e0 situa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Aos p\u00e9s de Clorinda, ajoelhada no tapete, uma mucama arranjava-lhe<br \/>\ncuidadosamente a barra do vestido, compunha e ordenava os folhos e desfazia<br \/>\ne ajeitava as pregas do cetim<\/p>\n<p>E a noiva, toda enlevada na cerim\u00f4nia daquela roupa, sorria sem saber<br \/>\nde qu\u00ea e sentia enrubescerem-se-lhe as faces por uma delicada previs\u00e3o<br \/>\ndo seu pudor<\/p>\n<p>Estava linda assim toda de branco, com o seu longo v\u00e9u de fil\u00f3,<br \/>\nque lhe envolvia o busto gracioso, deixando todavia perceber o doce relevo<br \/>\nda cabe\u00e7a, engrinaldada de p\u00e1lidas flores de laranjeira<\/p>\n<p>Tinha os olhos azuis, muito transparentes, a tez de uma brancura imaculada,<br \/>\nos cabelos entre louro e castanho, os dentes ador\u00e1veis e a boca um<br \/>\nmimo cor-de-rosa<\/p>\n<p>Terminado o vestu\u00e1rio, a mucama saiu da alcova para saber se o noivo<br \/>\nj\u00e1 tinha chegado. E a velhinha, a s\u00f3s com a pupila, cruzou as<br \/>\nm\u00e3os na cintura e ficou a olhar para ela, longamente, com a express\u00e3o<br \/>\ncarinhosa de quem se rev\u00ea num filho<\/p>\n<p>Ah! a pobre velha Janu\u00e1ria tamb\u00e9m fora bem bonita e tamb\u00e9m<br \/>\nfora noiva no seu tempo! Aquele corpinho vergado de exist\u00eancia e deformado<br \/>\npela velhice, provocara outrora desejos desenfreados e acendera em mais de<br \/>\num peito paix\u00f5es tempestuosas<\/p>\n<p>Triste viagem \u00e9 a da vida, que termina sempre por um naufr\u00e1gio;<br \/>\nou da qual ainda ningu\u00e9m saiu sem levar a mastrea\u00e7\u00e3o<br \/>\npartida, o farol apagado, e as velas estra\u00e7alhadas pelos terr\u00edveis<br \/>\nvendavais que se encontram no caminho. Um por um, vamos deixando esparsos<br \/>\npelas correntes revoltosas da exist\u00eancia todos os dotes com que nos<br \/>\namaram, e todos os bens com que \u00edamos avassalando os cora\u00e7\u00f5es<br \/>\nalheios. E ao cabo da viagem, sem dentes, sem cabelos, sem brilho nos olhos,<br \/>\ncom a pele encarquilhada e as pernas tr\u00f4pegas, ficamos a esperar o t\u00famulo,<br \/>\nesquecidos e desprezados no mundo, como o casco in\u00fatil do navio que<br \/>\nnaufragou na costa e vai aos poucos despindo as cavernas e mostrando a quilha<\/p>\n<p>O contraste entre as duas mulheres que estavam na alcova \u2014 uma t\u00e3o<br \/>\nfresca e bela, outra t\u00e3o fraca e decr\u00e9pita, levava o esp\u00edrito<br \/>\n\u00e0quelas considera\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>As duas quedaram-se a cismar por algum tempo; a velha embevecida a olhar<br \/>\npara o passado; a mo\u00e7a a sonhar-se nas felicidades futuras. E como<br \/>\ndois viajantes que se encontram no mesmo porto, um a partir, outro a voltar,<br \/>\nas duas sorriam; mas o sorriso da que ia era todo de esperan\u00e7as, enquanto<br \/>\no da outra s\u00f3 transpirava desilus\u00e3o e cansa\u00e7o<\/p>\n<p>\u2014 Por que est\u00e1 t\u00e3o triste, m\u00e3ezinha? perguntou<br \/>\na mo\u00e7a, tomando as m\u00e3os da velha<\/p>\n<p>\u2014 Nem eu sei&#8230; respondeu esta, procurando disfar\u00e7ar o constrangimento.<br \/>\nTalvez seja nervoso, mas sinto alguma coisa no cora\u00e7\u00e3o, alguma<br \/>\ncoisa que me oprime! \u2014 N\u00e3o se deixe levar por essas cismas!&#8230;<br \/>\nLembre-se de que hoje \u00e9 o dia do meu casamento..<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 por isso mesmo&#8230; E acrescentou, mudando de tom: \u00c9<br \/>\nverdade! E o noivo, j\u00e1 teria chegado? A mucama entrou na alcova para<br \/>\ndizer que ainda n\u00e3o<\/p>\n<p>Esta demora ia sendo j\u00e1 comentada, na sala de jantar pela madrinha<br \/>\nde Clorinda e algumas amigas de D. Janu\u00e1ria<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fora bonito da parte do noivo fazer-se esperar daquele<br \/>\nmodo! Eram j\u00e1 quatro horas da tarde e o casamento estava marcado para<br \/>\nas cinco !..<\/p>\n<p>Parou uma carruagem \u00e0 porta, e quase todos correram a ver quem chegava<\/p>\n<p>\u2014 Deve ser ele, considerou a madrinha, armando um sorriso. Mas teve<br \/>\nlogo de desarm\u00e1-lo, vendo entrar o comendador Portela, velho amigo<br \/>\nda casa<\/p>\n<p>O comendador entrou apressado, a pedir mil perd\u00f5es pela demora<\/p>\n<p>Queria vir antes, mas um neg\u00f3cio de alta import\u00e2ncia exigira<br \/>\na sua presen\u00e7a<\/p>\n<p>E, segundo o seu costume, p\u00f4s-se logo a falar de si, das suas grandes<br \/>\npreocupa\u00e7\u00f5es comerciais, do dinheiro que tinha naquele momento<br \/>\narriscado em v\u00e1rias transa\u00e7\u00f5es perigos\u00edssimas,<br \/>\ne, afinal, da prosperidade da sua casa, do bom trato que dava aos seus empregados,<br \/>\ndo projeto de desenvolver certas ind\u00fastrias e de criar certos estabelecimentos<br \/>\nimportantes<\/p>\n<p>\u2014 Bons desejos n\u00e3o me faltam! afirmava ele a rir imodestamente<\/p>\n<p>E, como se achasse ali em um meio relativamente acanhado, empertigava ainda<br \/>\nmais a cabe\u00e7a, remetia para a frente a barriga e com o polegar levantava<br \/>\npretensiosamente a gola condecorada de sua casaca<\/p>\n<p>\u2014 Vai-se fazendo pela vida! vai-se fazendo! repisava ele, sempre com<br \/>\no mesmo riso<\/p>\n<p>Deram cinco horas, e o noivo nada de aparecer! \u2014 \u00c9 demais!<br \/>\nexclamou a madrinha, que afinal perdera a paci\u00eancia e abrira a falar<br \/>\nabertamente contra aquela demora grosseira e imperdo\u00e1vel<\/p>\n<p>Os \u00e2nimos foram-se a pouco e pouco sobressaltando. Havia j\u00e1<br \/>\nno comendador um risinho velhaco de m\u00e1-f\u00e9, e a noiva, sem querer<br \/>\nsair da alcova, sentiu avultar-lhe na garganta um novelo estranho que a sufocava<\/p>\n<p>A madrinha expedira secretamente um portador \u00e0 casa do noivo. O portador<br \/>\nvoltara, declarando que o Sr. Greg\u00f3rio, havia coisa de uma hora, sa\u00edra<br \/>\npara a casa da noiva em companhia de um senhor velho e de boa apar\u00eancia<br \/>\nque o fora buscar. E declarou mais que na porta da rua estava um cocheiro,<br \/>\nque viera da casa do Sr. Greg\u00f3rio, com a recomenda\u00e7\u00e3o<br \/>\nde esper\u00e1-lo a\u00ed<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m mais se animou a dar palavra, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o<br \/>\nda madrinha, que nunca perdia ocasi\u00e3o de falar mal dos homens<\/p>\n<p>\u2014 Todos eles l\u00eaem pela mesma cartilha! considerou ela, trejeitando<br \/>\num ar desdenhoso. Bem fiz eu em nunca tomar a s\u00e9rio semelhante gente!<br \/>\nNada! Antes s\u00f3 do que mal acompanhada! Prefiro ficar solteira toda<br \/>\na vida! \u2014 Descanse, D. Josefina, que ningu\u00e9m a contrariar\u00e1!<br \/>\nrespondeu um sujeitinho magro e ativo, que parecia muito empenhado no bom<br \/>\n\u00eaxito do casamento<\/p>\n<p>Nisto foram interrompidos pelo padrinho do noivo, o dr. Roberto, que vinha<br \/>\nda igreja, farto, como os outros que l\u00e1 estavam, de esperar pelos desposados<\/p>\n<p>\u2014 Pois se ele ainda nem apareceu por c\u00e1!&#8230; exclamou a madrinha,<br \/>\nvermelha de c\u00f3lera<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o veio?! Greg\u00f3rio n\u00e3o apareceu ainda?! disse<br \/>\no doutor muito admirado. Parece incr\u00edvel! \u2014 Pois \u00e9 a pura<br \/>\nverdade! \u2014 Ter-lhe-ia sucedido alguma coisa?! Estar\u00e1 ele doente?!<br \/>\n\u2014 Se est\u00e1 doente n\u00e3o sei, gritou a terr\u00edvel madrinha;<br \/>\nem casa \u00e9 que lhe afian\u00e7o que n\u00e3o est\u00e1, porque<br \/>\nagora mesmo mandei l\u00e1 saber! \u2014 Mas como ent\u00e3o se explica<br \/>\ntudo isto? Eu \u00e0s tr\u00eas e meia estive com Greg\u00f3rio, e disse-me<br \/>\nele que ia preparar-se para o casamento<\/p>\n<p>E o doutor, depois de refletir um instante, tomou o chap\u00e9u e saiu,<br \/>\ncom a inten\u00e7\u00e3o de procurar o amigo<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco, todas as pessoas que esperavam pelos noivos na igreja<br \/>\ninvadiram a casa de D<\/p>\n<p>Janu\u00e1ria, e come\u00e7ou-se ent\u00e3o a tratar francamente do<br \/>\nesc\u00e2ndalo<\/p>\n<p>Clorinda desfez-se do v\u00e9u e da grinalda, pediu \u00e0 m\u00e3e<br \/>\nadotiva que fechasse a porta da alcova, e depois atirou-se-lhe nos bra\u00e7os<br \/>\na chorar desorientadamente<\/p>\n<p>Entretanto, Greg\u00f3rio, o causador inconsciente de todo aquele desgosto,<br \/>\nacabava nessa ocasi\u00e3o de ser carregado, sem sentidos, por dois lacaios<br \/>\nde libr\u00e9 escura, para uma sala de bela apar\u00eancia, na Tijuca<\/p>\n<p>Acompanhava-o um homem de uns cinq\u00fcenta anos, alto, magro, todo vestido<br \/>\nde negro, barba inteira dividida no queixo, ar distinto e maneiras extremamente<br \/>\ndelicadas<\/p>\n<p>Ao chegarem \u00e0 sala, o homem magro disse aos lacaios que depusessem<br \/>\nGreg\u00f3rio sobre um div\u00e3, e ordenou que um deles fosse chamar<br \/>\na condessa<\/p>\n<p>Apareceu ent\u00e3o uma senhora j\u00e1 velha, sumamente simp\u00e1tica,<br \/>\naspecto fino e bem educado<\/p>\n<p>\u2014Ei-lo! Disse o cavalheiro \u00e0 condessa, apontando para Greg\u00f3rio,<br \/>\nque, irrepreensivelmente vestido de casaca, continuava prostrado no div\u00e3.<br \/>\nOs lacaios afastaram-se discretamente<\/p>\n<p>\u2014 Ah! exclamou ela, correndo para o desfalecido. Estou agora mais<br \/>\ntranq\u00fcila!..<\/p>\n<p>E, ajoelhando-se ao lado do div\u00e3 em que estava o mo\u00e7o, tomou<br \/>\nas m\u00e3os deste e ficou a observar-lhe a fisionomia<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio era uma bela figura de vinte e tr\u00eas anos. Fei\u00e7\u00f5es<br \/>\npuras bem conformado de corpo, um todo singularmente meigo e bondoso. O sono<br \/>\ndava-lhe \u00e0 fisionomia tal suavidade que o fazia parecer ainda mais<br \/>\nmo\u00e7o do que era<\/p>\n<p>A condessa, depois de contempl\u00e1-lo por algum tempo, com muita ternura,<br \/>\npassou-lhe a m\u00e3o pelos cabelos e beijou-o na fronte<\/p>\n<p>\u2014 Veja, conde, disse ela ao homem vestido de preto; como \u00e9<br \/>\nformoso! \u2014 \u00c9 o retrato da pobre Cec\u00edlia! respondeu aquele<br \/>\ncom um ar pensativo<\/p>\n<p>E depois de uma pausa: \u2014 Onde o devemos acomodar? \u2014 Na sala<br \/>\namarela, disse a condessa, erguendo-se. O que me sobressalta um pouco \u00e9<br \/>\neste sono. N\u00e3o v\u00e1 fazer-lhe mal..<\/p>\n<p>\u2014 Pode ficar tranq\u00fcila, condessa, n\u00e3o lhe suceder\u00e1<br \/>\nmal nenhum. E, se houvesse alguma novidade, bem sabe que o nosso m\u00e9dico<br \/>\n\u00e9 homem de inteira confian\u00e7a<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio foi conduzido para a sala amarela e s\u00f3 voltou a si<br \/>\n\u00e0s dez horas da noite<\/p>\n<p>Ao acordar, circunscreveu o olhar em torno. Todos os objetos que o cercavam<br \/>\nlhe punham nos sentidos, ainda estonteados pelo sono, um estranho sabor de<br \/>\nconstrangimento e sobressalto<\/p>\n<p>E, sem consci\u00eancia do lugar em que estava, percorria demoradamente<br \/>\na vista pelas velhas tape\u00e7arias suspensas da parede, pelos v\u00e1rios<br \/>\nquadros, simetricamente dispostos nos intervalos das portas, e pelos m\u00f3veis<br \/>\nluxuosos, guarnecidos de metal amarelo, que pousavam elegantemente sobre a<br \/>\nfelpa macia do tapete, cintilando \u00e0 luz aristocr\u00e1tica das velas.<br \/>\nSeus olhos sindicavam de tudo aquilo com a insist\u00eancia dos do juiz que<br \/>\ninterroga as testemunhas de um crime, mas nada correspondia ao inqu\u00e9rito,<br \/>\n\u00e0 exce\u00e7\u00e3o de um velho rel\u00f3gio de bronze, que,<br \/>\nde um dos \u00e2ngulos do aposento, lhe apontava as horas com o dedo de ouro<br \/>\ne lhe dizia os segundos no seu coaxar mon\u00f3tono<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?! dez horas?! perguntou-lhe Greg\u00f3rio, impaciente<br \/>\npor alguma explica\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio n\u00e3o respondeu, mas continuou a apontar para o X<\/p>\n<p>\u2014 Dez horas! exclamou o rapaz, levantando-se de um pulo. S\u00f3<br \/>\nent\u00e3o lhe passara pelo esp\u00edrito a id\u00e9ia l\u00facida<br \/>\ndo seu malogrado casamento<\/p>\n<p>E todas as outras id\u00e9ias, aproveitando a brecha que deixara a primeira,<br \/>\nlhe invadiram turbulentamente o c\u00e9rebro, como se at\u00e9 a\u00ed<br \/>\nestivessem s\u00f3 \u00e0 espera de que lhes abrissem a porta<\/p>\n<p>Perturbou-se a princ\u00edpio, mas tratou logo de reconstruir pacientemente<br \/>\ntudo o que fizera nesse dia. Dividiu as horas e deu a cada uma a sua aplica\u00e7\u00e3o<br \/>\njusta; determinou o tempo gasto com o padre, com o cabeleireiro e com as pessoas<br \/>\nem companhia de quem esteve; chegou a lembrar-se do assunto de suas conversas,<br \/>\no que dissera a tal e tal amigo, e recordou-se expressivamente da impress\u00e3o<br \/>\nque lhe assaltava de vez em quando o esp\u00edrito, sempre que se imaginava<br \/>\nno momento feliz de apoderar-se da noiva<\/p>\n<p>Esta id\u00e9ia trouxe-lhe o mal-estar que nos causa a n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um projeto por muito tempo afagado. E Greg\u00f3rio, como se duvidasse<br \/>\nainda dos seus pr\u00f3prios racioc\u00ednios, procurou fixar bem nas<br \/>\nhoras que precederam de perto o momento em que lhe escapou a raz\u00e3o<\/p>\n<p>\u00c0s tr\u00eas e meia entrara na casa em que morava nas Laranjeiras,<br \/>\na gritar para o Jac\u00f3, seu criado, que lhe desse imediatamente o fato<br \/>\nda casaca e lhe aprontasse um banho morno. \u00c0s quatro e meia, na ocasi\u00e3o<br \/>\nde sair para ir buscar a noiva, Greg\u00f3rio lembrava-se perfeitamente<br \/>\nde que um homem, de modos graves e distintos, se lhe apresentara em casa,<br \/>\npretextando interessarse muito pelo futuro de Clorinda, falando sobre mil<br \/>\ncoisas concernentes ao casamento, entre muitos protestos de simpatia e de<br \/>\nrespeito. Esse homem depois insistiu com Greg\u00f3rio que aceitasse um<br \/>\nlugar na sua carruagem e despediu a que j\u00e1 estava \u00e0 porta. Greg\u00f3rio<br \/>\nconsentiu e tomou lugar ao lado dele. Recordava-se ainda de que, preocupado<br \/>\ncom a id\u00e9ia do seu casamento, n\u00e3o atentara para a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ntomada pelo carro e que, em certa altura, na ocasi\u00e3o de abaixar-se<br \/>\npara apanhar o claque que lhe ca\u00edra das m\u00e3os, o homem misterioso<br \/>\nlhe passara rapidamente um len\u00e7o \u00famido no rosto, e Greg\u00f3rio<br \/>\nperdera os sentidos<\/p>\n<p>S\u00f3 at\u00e9 a\u00ed chegavam as suas reminisc\u00eancias. Havia<br \/>\npor conseguinte em tudo aquilo um plano premeditado e posto em pr\u00e1tica,<br \/>\ndo qual era ele a v\u00edtima, covardemente iludida e ludibriada. E Greg\u00f3rio<br \/>\npor um impulso do orgulho, sentiu um estremecimento de c\u00f3lera<\/p>\n<p>Estava neste ponto, quando se abriu a porta do quarto, deixando passar um<br \/>\ndos lacaios que vimos \u00e0s ordens do conde<\/p>\n<p>\u2014 V. Exa. ordena alguma coisa? perguntou o f\u00e2mulo, curvando-se<br \/>\nhumildemente<\/p>\n<p>\u2014 Ordeno que me expliques o que fa\u00e7o aqui e onde estou! \u2014<br \/>\nInfelizmente n\u00e3o posso..<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso abre as portas, e eu irei procurar quem me responda<\/p>\n<p>\u2014 Infelizmente, tamb\u00e9m n\u00e3o posso franquear-lhe a sa\u00edda..<\/p>\n<p>\u2014 Visto isso estou preso?!..<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, n\u00e3o senhor<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o que diabo sabes tu?! \u2014 Sei que estou aqui para<br \/>\nservir a V. Exa<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado pela solicitude, mas confesso que preferia, antes de mais<br \/>\nnada, uma explica\u00e7\u00e3o do que quer dizer tudo isto<\/p>\n<p>E, depois de dirigir inutilmente mais algumas perguntas ao criado, declarou-lhe<br \/>\nque podia retirar-se quando quisesse. E o pobre rapaz tomou a resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde deixar que as coisas corressem por si<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o terei certamente de ficar aqui o resto de minha vida,<br \/>\nconsiderava ele; por conseguinte, o melhor \u00e9 aguardarmos tranq\u00fcilamente<br \/>\nos acontecimentos<\/p>\n<p>O pior era a d\u00favida em que estava a respeito de Clorinda. Ter-lhe-ia<br \/>\ntamb\u00e9m sucedido alguma coisa, ou, se nada sucedera, que n\u00e3o<br \/>\npensaria ela daquela estranha aus\u00eancia de seu noivo?&#8230; E os amigos,<br \/>\ne os padrinhos do casamento, e os convidados?!..<\/p>\n<p>\u2014 Ora, que papel rid\u00edculo me obrigam a fazer! dizia ele, gesticulando<br \/>\nsozinho; mas foi a pouco e pouco se habituando \u00e0 sua estranha situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne, nestas circunst\u00e2ncias, vestiu-se, cal\u00e7ou-se, acendeu um charuto,<br \/>\nfoi a uma biblioteca que havia no quarto, tirou um volume de versos e p\u00f4sse<br \/>\na ler, disposto a esperar pelo que desse e viesse<\/p>\n<p>Reparou ent\u00e3o que estava caindo de fraqueza e lembrou-se de que os<br \/>\nsobressaltos do casamento n\u00e3o lhe permitiram jantar. Correu \u00e0<br \/>\ncampainha el\u00e9trica e tocou<\/p>\n<p>Apareceu logo o mesmo criado de h\u00e1 pouco<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e1-me o que cear, disse-lhe Greg\u00f3rio e acrescentou<br \/>\nconsigo: Ao menos ficarei entretido enquanto estiver comendo<\/p>\n<p>O criado voltou com uma ceia, caprichosamente preparada, e perguntou que<br \/>\nvinho usava Greg\u00f3rio<\/p>\n<p>\u2014 Deixo isso \u00e0 tua vontade. Traze o que entenderes<\/p>\n<p>Terminada a refei\u00e7\u00e3o, apareceu de novo o criado, perguntando,<br \/>\nem nome do Sr. conde, se Greg\u00f3rio podia receb\u00ea-lo naquela ocasi\u00e3o<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o! respondeu o interrogado. Seja quem for esse Conde,<br \/>\nardentemente desejo entender-me com ele. Diz-lhe que estou absolutamente \u00e0<br \/>\nsua disposi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Pouco depois penetrava o conde no quarto. Greg\u00f3rio mediu-o de alto<br \/>\na baixo, sem se poder furtar a certa impress\u00e3o de respeito causada<br \/>\npelo ar do fidalgo<\/p>\n<p>\u2014 Muito boas noites, disse este entrando<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, respondeu o outro, curvando-se com delicadeza; mas, se<br \/>\nme permite uma pergunta, tenha a bondade de dizer com quem tenho a honra de<br \/>\nfalar..<\/p>\n<p>\u2014 Fala com o conde de S. Francisco, irm\u00e3o da desventurada Cec\u00edlia,<br \/>\nfalecida h\u00e1 quinze anos no convento de Santa Clara no Porto<\/p>\n<p>\u2014 Minha m\u00e3e?! \u2014 Justamente, Sr. Greg\u00f3rio de Souto<br \/>\nMaior; antes por\u00e9m de lhe explicar as estranhas ocorr\u00eancias desta<br \/>\ntarde, tenho de declarar-lhe que foi para seu interesse que o constrangeram<br \/>\na entrar nesta casa. Era preciso evitar a todo transe o seu casamento com<br \/>\na menina Clorinda..<\/p>\n<p>\u2014 Mas, por que, senhor? \u2014 Ou\u00e7a-me primeiro, e depois<br \/>\ncompreender\u00e1 tudo<\/p>\n<p>O conde puxou duas cadeiras, e convidou Greg\u00f3rio a assentar-se defronte<br \/>\ndele<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 natural que n\u00e3o lhe seja agrad\u00e1vel ouvir<br \/>\na maior parte do que lhe vou relatar, principiou o velho, dando uma express\u00e3o<br \/>\nben\u00e9vola \u00e0s suas palavras; como \u00e9 natural tamb\u00e9m<br \/>\nque nunca o fizesse, se a isso n\u00e3o fosse eu agora for\u00e7ado pelas<br \/>\ncircunst\u00e2ncias; mas cumpro um dever, e tanto me basta para completa<br \/>\ntranq\u00fcilidade da minha consci\u00eancia..<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio fez um gesto de assentimento e ouviu a escandalosa narra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seguinte: II CONFID\u00caNCIAS \u201cTinha eu apenas dez anos de idade,<br \/>\nprincipiou o conde, quando meu pai, cinco anos depois de enviuvar, recolheu<br \/>\nem casa, nas suas terras do Alto Douro, uma senhora ainda mo\u00e7a, gentil<br \/>\nde maneiras, cultivada no trato e no esp\u00edrito, mas totalmente desamparada<br \/>\nde recursos pecuni\u00e1rios<\/p>\n<p>\u201cO marido, pois que era casada, havia-se de tal modo incompatibilizado<br \/>\ncom ela, que a infeliz resolveu abandon\u00e1-lo e procurar, s\u00f3 por<br \/>\nsi, com o que sabia de m\u00fasica, desenho, ingl\u00eas e franc\u00eas,<br \/>\nos meios de viver modestamente em qualquer prov\u00edncia de Portugal ou<br \/>\ndo Brasil<\/p>\n<p>\u201cChamava-se Helena<\/p>\n<p>\u201cEra uma criatura loura, franzina de corpo, fei\u00e7\u00f5es<br \/>\nmuito expressivas e olhar inteligente<\/p>\n<p>Parece que ainda estou a v\u00ea-la! \u201cMeu pai, que a princ\u00edpio<br \/>\ns\u00f3 lhe confiara a educa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria dos filhos<br \/>\nmais novos, foi, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se deixava tomar de<br \/>\nsimpatias pela professora, resignando em suas m\u00e3os primeiro a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nespiritual de minhas irm\u00e3s, depois o governo da casa, e afinal o governo<br \/>\nabsoluto do seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. Escravizou-se<\/p>\n<p>Desse cativeiro nasceu uma filha, que se converteu nos \u00faltimos encantos<br \/>\ndo pobre velho. E a contar de ent\u00e3o, meu caro h\u00f3spede, se Helena<br \/>\nj\u00e1 era senhora absoluta de todo o pal\u00e1cio, que n\u00e3o ficaria<br \/>\nsendo com o nascimento da filha?&#8230; Sua vontade, incisiva e nervosa, conquistou<br \/>\ne dominou desde o conde at\u00e9 ao \u00faltimo dos nossos lacaios<\/p>\n<p>\u201cAs desaven\u00e7as e os desgostos entre a fam\u00edlia n\u00e3o<br \/>\nse fizeram esperar: minhas duas irm\u00e3s, que se tornavam mulheres, foram<br \/>\nas primeiras a reagir contra a ditadura que lhes queriam impor<\/p>\n<p>Uma casou logo, para fugir ao jugo da falsa madrasta; a outra exigiu que<br \/>\na metessem em um convento, donde s\u00f3 saiu para unir-se ao homem que<br \/>\na tomou por esposa<\/p>\n<p>\u201cMeu pai n\u00e3o p\u00f4de sobreviver por muito tempo \u00e0<br \/>\naus\u00eancia de minhas duas irm\u00e3s e \u00e0 desorganiza\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua casa, agravaram-se-lhe os padecimentos de que sofria, e faleceu pouco<br \/>\ndepois, legando \u00e0 amante e \u00e0 filha ileg\u00edtima uma boa<br \/>\nparte dos seus bens<\/p>\n<p>\u201cEu que por esse tempo fazia meus estudos em Coimbra, corri \u00e0<br \/>\ncasa paterna e tratei do invent\u00e1rio de meu pai<\/p>\n<p>\u201cHelena havia-se afastado j\u00e1 com a filha, que nessa ocasi\u00e3o<br \/>\nteria quinze anos, e veio a cas\u00e1la alguns anos depois com um capit\u00e3o<br \/>\nde marinha, conhecido pela alcunha de \u201cLe\u00e3o Vermelho\u201d<\/p>\n<p>\u2014 Meu pai! exclamou Greg\u00f3rio<\/p>\n<p>\u2014 Sim, confirmou o conde; o senhor \u00e9 filho desse casal. Sua<br \/>\nm\u00e3e, por\u00e9m, foi abandonada na cidade do Porto pelo marido, ficando-lhe<br \/>\napenas do matrim\u00f4nio, al\u00e9m dos desgostos de uma viuvez for\u00e7ada,<br \/>\num filho de dois anos. O fim dessa pobre mulher j\u00e1 o senhor conhece<br \/>\nnaturalmente: foi o convento e a loucura<\/p>\n<p>\u2014 Sim, disse Greg\u00f3rio<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que talvez n\u00e3o saiba, acrescentou o conde, \u00e9<br \/>\nque, antes disso, teve ela ocasi\u00e3o de salvar a vida da pessoa com quem<br \/>\ndepois me casei<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Foi a enfermeira incans\u00e1vel e desvelada da filha<br \/>\nde um velho amigo de meu pai, a qual sem d\u00favida teria sucumbido sem<br \/>\na dedica\u00e7\u00e3o e os sacrif\u00edcios de Cec\u00edlia<\/p>\n<p>\u2014 E o filho, a crian\u00e7a de que o senhor falou? \u2014 Essa<br \/>\ncrian\u00e7a, logo que a m\u00e3e perdeu a raz\u00e3o, foi reclamada<br \/>\npela fam\u00edlia de minha noiva, e, depois do meu casamento, veio em companhia<br \/>\nde minha mulher para o Brasil, onde foi entregue aos cuidados de certa senhora<\/p>\n<p>\u2014 A senhora que me educou, D. Florentina de Aguiar..<\/p>\n<p>\u2014 Justamente, respondeu o conde<\/p>\n<p>\u2014 E o capit\u00e3o, o pai dessa crian\u00e7a?! \u2014 \u00c9<br \/>\nde quem vamos tratar agora..<\/p>\n<p>E o conde, tendo-se levantado, bebido alguns goles d\u2019\u00e1gua e<br \/>\nafagado a barba, continuou: \u2014 Le\u00e3o Vermelho, depois de repudiar<br \/>\na mulher, o que a levou ao desespero da loucura, partiu para as Antilhas espanholas,<br \/>\nlevando consigo um marinheiro fiel e brioso, que sempre o acompanhara e tinha<br \/>\npor ele uma adora\u00e7\u00e3o sem limites. Conheci esse valente marinheiro;<br \/>\nchamavam-lhe \u201cTubar\u00e3o\u201d. Depois da viagem \u00e0s Antilhas,<br \/>\nLe\u00e3o Vermelho meteu-se no Rio de Janeiro, e a\u00ed travou rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom uma Henriqueta, com quem pouco mais tarde veio a casar<\/p>\n<p>\u2014 A casar?! Mas ent\u00e3o minha m\u00e3e havia j\u00e1 morrido?!..<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o; e essa \u00e9 a causa da persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\nque sofreu seu pai no Rio de Janeiro e da sua fuga r\u00e1pida para Buenos<br \/>\nAires. Era b\u00edgamo. A segunda mulher ficou aqui no Rio com uma filha<br \/>\npor nome Clorinda<\/p>\n<p>\u2014 Clorinda! \u2014 A mesma com quem ontem ia o senhor casar..<\/p>\n<p>\u2014 Clorinda, visto isso, \u00e9 minha irm\u00e3?!..<\/p>\n<p>\u2014 Perfeitamente, sua irm\u00e3<\/p>\n<p>\u2014 E foi por isso que me conduziram para c\u00e1? \u2014 Isso foi<br \/>\numa das raz\u00f5es. A outra vai o senhor conhecer agora<\/p>\n<p>E o conde, depois de uma pausa, acrescentou: \u2014 O senhor tem sem saber<br \/>\numa enorme riqueza \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u2014 Como assim? \u2014 A heran\u00e7a de seu pai<\/p>\n<p>\u2014 De meu pai? Mas, perd\u00e3o, meu pai morreu h\u00e1 seis anos<br \/>\nem Montevid\u00e9u, e pobre<\/p>\n<p>\u2014 Foi o que ele fez constar, para n\u00e3o ser perseguido, mas a<br \/>\nverdade \u00e9 que se passou a Portugal com o nome suposto de \u201cJo\u00e3o<br \/>\nBrasileiro\u201d e apenas h\u00e1 dois meses faleceu<\/p>\n<p>\u2014 Meu pai ainda vivia? \u2014 Sim, eu e minha mulher, somos aqui<br \/>\nos \u00fanicos senhores desse segredo. Sei de toda a vida de seu pai e acompanhava<br \/>\nos seus \u00faltimos passos, porque a condessa muito se interessa por tudo<br \/>\no que diz respeito \u00e0 falecida Cec\u00edlia, sua m\u00e3e. Diga-me,<br \/>\nn\u00e3o lhe consta que Clorinda recebesse uma mesada?..<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o, confirmou Greg\u00f3rio; sei que a velha Janu\u00e1ria<br \/>\nrecebia uma pens\u00e3o misteriosa, da qual ela pr\u00f3pria dizia n\u00e3o<br \/>\nsaber a proced\u00eancia; como sei igualmente que esse dinheiro era o \u00fanico<br \/>\nrecurso que tinham as duas para viver<\/p>\n<p>\u2014 Esse recurso vai desaparecer com a morte de seu pai<\/p>\n<p>\u2014 Pobre Clorinda! Mas eu, se deixo de ser seu marido, principio a<br \/>\nser seu irm\u00e3o, e..<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se trata disso agora. Eu me encarrego de fazer continuar<br \/>\na mesada. Amanh\u00e3 mesmo remeterei a primeira<\/p>\n<p>\u2014 Mas..<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o haja escr\u00fapulos! \u00c9 com o seu dinheiro que<br \/>\nvou socorr\u00ea-las&#8230; N\u00e3o lhe disse h\u00e1 pouco que o senhor<br \/>\ntem uma fortuna \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o?! Pois fa\u00e7a o<br \/>\nfavor de ler isto..<\/p>\n<p>E passou-lhe um jornal portugu\u00eas, indicando-lhe um certo ponto marcado<br \/>\na l\u00e1pis<\/p>\n<p>\u2014 Ser\u00e1 poss\u00edvel?! exclamou o rapaz, lendo as primeiras<br \/>\npalavras<\/p>\n<p>\u2014 Leia tudo, disse o conde. E se estiver disposto a aceitar uma proposta,<br \/>\namanh\u00e3 mesmo partir\u00e1 comigo para a Europa<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio leu a not\u00edcia da morte de seu pai e a confirma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que este deixara uma grande soma de bens, que seriam recolhidos pelos poderes<br \/>\ncompetentes, at\u00e9 aparecer um filho, existente no Brasil, segundo declara\u00e7\u00f5es<br \/>\nexatas<\/p>\n<p>\u2014 E sabe o senhor a quanto montam esses bens? perguntou o conde ao<br \/>\nrapaz. Excedem a quatrocentos contos fortes! \u2014 Bem, disse Greg\u00f3rio;<br \/>\namanh\u00e3 mesmo principio a preparar-me. Vou a..<\/p>\n<p>\u2014 Nada! contrariou o outro; nada disso! O senhor parte daqui mesmo;<br \/>\neu darei as provid\u00eancias necess\u00e1rias para que n\u00e3o venha<br \/>\na faltar coisa nenhuma<\/p>\n<p>\u2014 Mas preciso ao menos despedir-me do lugar em que trabalho; reunir<br \/>\nos objetos que me possam servir para a viagem e dar a Clorinda uma explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda minha aus\u00eancia..<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 justamente o que n\u00e3o conv\u00e9m de forma alguma.<br \/>\nEstas coisas decidem-se assim! E o conde calcou o bot\u00e3o da campainha<br \/>\nel\u00e9trica<\/p>\n<p>Veio o criado<\/p>\n<p>\u2014 Prepara as minhas malas e previne \u00e0 senhora de que lhe desejo<br \/>\nfalar ainda esta noite<\/p>\n<p>O criado curvou a cabe\u00e7a e saiu<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu hei de partir assim sem mais nem menos?&#8230; observou Greg\u00f3rio,<br \/>\nao \u00faltimo ponto contrariado<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 para o seu interesse, meu amigo: a perda de um paquete<br \/>\npodia acarretar consigo a da ocasi\u00e3o. Lembre-se do velho prov\u00e9rbio<br \/>\nindiano: \u201cA fortuna s\u00f3 tem cabelos na frente da cabe\u00e7a<br \/>\ne \u00e9 calva na nuca\u201d; se a n\u00e3o agarrarmos de frente, ela<br \/>\nse ir\u00e1 por uma vez e nunca mais a pilharemos<\/p>\n<p>O senhor s\u00f3 sair\u00e1 daqui para bordo! \u2014 Mas os meus interesses,<br \/>\nos meus compromissos, que me esperam l\u00e1 fora?..<\/p>\n<p>\u2014 Tudo isso n\u00e3o vale a vig\u00e9sima parte do tesouro que<br \/>\no reclama com urg\u00eancia! \u2014 Mas uma coisa n\u00e3o elimina o outra;<br \/>\nbem pod\u00edamos conciliar as duas e..<\/p>\n<p>\u2014 Deixemo-nos de meias medidas, meu caro senhor; j\u00e1 lhe disse<br \/>\no que tinha a dizer; agora s\u00f3 me resta acrescentar que, nas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\napresentadas, estou pronto a acompanh\u00e1-lo; noutras, n\u00e3o! Lembre-se,<br \/>\npor\u00e9m, de que, sem o meu concurso, lhe ser\u00e1 muito dif\u00edcil<br \/>\nchegar a qualquer resultado pr\u00e1tico a respeito da heran\u00e7a de<br \/>\nseu pai!..<\/p>\n<p>\u2014 Mas, Sr. conde, objetou Greg\u00f3rio; se eu fizer o que V. Exa.<br \/>\nme aconselha, fico absolutamente sem recursos: abandono meu emprego, abandono<br \/>\ntudo! \u2014 E que falta lhe podem fazer essas coisas? E o conde, depois<br \/>\nde uma pausa, disse com a mais resoluta calma: Enfim, senhor, eu sigo amanh\u00e3<br \/>\nno paquete que parte para a Europa, quer ou n\u00e3o quer acompanhar-me?!<br \/>\n\u2014 Bem! respondeu Greg\u00f3rio, inspirado pelo ar resoluto do conde.<br \/>\nEstou \u00e0s suas ordens! \u2014 Neste caso, vou apresent\u00e1-lo \u00e0<br \/>\nminha fam\u00edlia, que ir\u00e1 tamb\u00e9m<\/p>\n<p>O rapaz consertou rapidamente o la\u00e7o da gravata, passou a m\u00e3o<br \/>\npelos cabelos, e, pouco depois, em companhia do conde, era anunciado nos aposentos<br \/>\nda condessa<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 porta sentiu logo um doce perfume de paz honesta. Tudo<br \/>\nali era castamente tranq\u00fcilo; havia na atmosfera o aroma grave de flores<br \/>\nsecas, esquecidas no fundo de uma velha gaveta de fam\u00edlia. Os m\u00f3veis,<br \/>\no tapete, os quadros e as cortinas revelavam a mesma sobriedade de gosto,<br \/>\no mesmo recato de simpatias, as mesmas inclina\u00e7\u00f5es finas e aristocr\u00e1ticas<\/p>\n<p>N\u00e3o se encontravam ali as fantasias baratas do luxo moderno; n\u00e3o<br \/>\nhavia as fragilidades douradas da falsa opul\u00eancia; tudo era bom e sincero.<br \/>\nO biscuit n\u00e3o substitu\u00eda o m\u00e1rmore, o gesso pintado n\u00e3o<br \/>\ntomava o lugar do bronze e o cromo litogr\u00e1fico n\u00e3o fazia as<br \/>\nvezes da aquarela e da pintura a \u00f3leo. Cada objeto dizia sinceramente<br \/>\na sua esp\u00e9cie e a sua qualidade<\/p>\n<p>Predominava em tudo a mesma singeleza bem educada. Nada de arrebiques, nada<br \/>\nde frisos de pinho envernizado, nada de guarni\u00e7\u00f5es impertinentes.<br \/>\nAs boas gravuras inglesas e as magn\u00edficas \u00e1guas-fortes destacavam-se<br \/>\nperfeitamente da nudez austera das paredes. Os m\u00f3veis de madeira sem<br \/>\nlustro tinham cada um a sua utilidade imediata. N\u00e3o havia os pregui\u00e7osos<br \/>\ndiv\u00e3s que conduzem \u00e0 vol\u00fapia e ao dolce far niente; n\u00e3o<br \/>\nhavia as d\u00fabias cadeiras que obrigam o corpo a uma posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nenervante e sem-cerim\u00f4nia<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio transp\u00f4s a porta daquele santu\u00e1rio, inteiramente<br \/>\npenetrado pela alma misteriosa que da\u00ed se evaporava, como o perfume<br \/>\nreligioso de um templo<\/p>\n<p>A condessa, assentada junto \u00e0 mesa, lia um grosso volume de capa<br \/>\nazul \u00e0 luz vermelha de um candeeiro de alabastro. Vestia uma roupa<br \/>\ninteira e afogada de casimira indiana, e tinha a cabe\u00e7a resguardada<br \/>\npor uma touca de renda de Valen\u00e7a. N\u00e3o se lhe via luzir uma<br \/>\nj\u00f3ia. Ao lado dela, em uma cadeira mais baixa, bordava a filha, toda<br \/>\npreocupada com o seu trabalho<\/p>\n<p>Maria Lu\u00edsa, \u00e9 este o nome da menina, teria dezessete anos,<br \/>\nn\u00e3o travessos e ruidosos, mas ang\u00e9licos e tranq\u00fcilos, como<br \/>\ntudo o que a cercava. \u00c0 luz do candeeiro destacava-se bem a sua cabecinha<br \/>\nloura, redonda, encimada pelas tran\u00e7as, que a envolviam \u00e0 moda<br \/>\ndas velhas est\u00e1tuas. Sentia-se o azul dos seus olhos por debaixo das<br \/>\np\u00e1lpebras abaixadas sobre o trabalho<\/p>\n<p>N\u00e3o houve o menor alvoro\u00e7o com a entrada de Greg\u00f3rio.<br \/>\nA condessa marcou com uma fita a p\u00e1gina que lia, e pousou devagar o<br \/>\nlivro sobre a mesa; depois estendeu a m\u00e3o para o mo\u00e7o e, com<br \/>\num sorriso muito am\u00e1vel, ofereceu-lhe um lugar perto de si, enquanto<br \/>\no conde o apresentava \u00e0s duas senhoras<\/p>\n<p>\u2014 Minha mulher e minha filha, disse o velho, indicando as duas<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio cumprimentou-as, possu\u00eddo de um forte sentimento<br \/>\nde respeito, e foi sentar-se ao lado da condessa<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 que afinal o temos conosco, disse ela, descansadamente.<br \/>\nE, voltando-se mais para ele, acrescentou, fazendo um ar s\u00e9rio: Fui<br \/>\nmuito amiga de sua m\u00e3e! Era uma excelente pessoa; entre outros obs\u00e9quios,<br \/>\ndevo-lhe a vida! \u2014 O Sr. conde j\u00e1 teve a bondade de contar-me<br \/>\nisso mesmo, sustentou Greg\u00f3rio um pouco perturbado<\/p>\n<p>\u2014 Sim, volveu a condessa, eu pr\u00f3pria lhe havia recomendado<br \/>\nque o fizesse<\/p>\n<p>E depois de dar a entender \u00e0 filha que se retirasse: \u2014 N\u00e3o<br \/>\ntemos tempo a perder. O conde naturalmente j\u00e1 lhe falou sobre a heran\u00e7a<br \/>\nde seu pai, n\u00e3o \u00e9 verdade? \u2014 Sim, minha senhora<\/p>\n<p>\u2014 E est\u00e1 disposto a partir? \u2014 Amanh\u00e3 mesmo<\/p>\n<p>\u2014 Bem, neste caso darei daqui a pouco as provid\u00eancias para a<br \/>\nviagem; por enquanto falemos do senhor..<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a> II, III POL\u00cdCIA E C\u00d3CEGAS<\/h2>\n<p>Justamente no dia do malogrado casamento de Greg\u00f3rio, o Dr. Ludgero,<br \/>\nent\u00e3o chefe de pol\u00edcia da Corte, acabava de entrar na casa de<br \/>\nsua resid\u00eancia \u00e0 rua da Ajuda, quando o ordenan\u00e7a lhe<br \/>\nentregou, por mandado do ativo delegado Benevides, a parte de um grande crime,<br \/>\nque nessa mesma tarde se havia cometido nos armaz\u00e9ns de rap\u00e9<br \/>\ndo popular fabricante Paulo Cordeiro<\/p>\n<p>Ludgero levantou-se incontinenti da mesa, tomou apressado o chap\u00e9u<br \/>\ne a bengala, meteu-se no carro e disse ao cocheiro que tocasse para a ladeira<br \/>\nda Concei\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O carro parou \u00e0 entrada de uma esp\u00e9cie de corredor, que conduzia<br \/>\nsinistramente a um lugar apertado, sujo e abafado pelo teto. Era a\u00ed<br \/>\nque a pol\u00edcia detinha os cad\u00e1veres complicados em qualquer crime.<br \/>\nAinda n\u00e3o existia o Necrot\u00e9rio<\/p>\n<p>Fazia p\u00e9ssima impress\u00e3o entrar naquela pocilga da morte, cujo<br \/>\naspecto repulsivo dizia todos os mist\u00e9rios da mis\u00e9ria humana.<br \/>\nConstava de um pequeno quarto, estreito e \u00famido, com duas mesas de<br \/>\npau. Havia tamb\u00e9m, na parede do fundo, uma cruz negra, que abria na<br \/>\nsombra os bra\u00e7os, muito triste, como se estivesse em v\u00e3o \u00e0<br \/>\nespera do seu crucificado<\/p>\n<p>Sobre uma das mesas, jazia, glacial e r\u00edgido, o corpo ensang\u00fcentado<br \/>\nde um homem branco<\/p>\n<p>Ao lado, dentro de um caix\u00e3o de forma especial e com as t\u00e1buas<br \/>\nensebadas pelo h\u00e1bito de carregar os despojos das aut\u00f3psias,<br \/>\nviam-se mat\u00e9rias informes, de uma cor estranha e repugnante, dentre<br \/>\nas quais sobressa\u00edam v\u00edsceras humanas, gordas e brancas como<br \/>\ncarne de porco, e um cr\u00e2nio, cerrado ao meio, deixando transbordar a<br \/>\nmassa compacta dos miolos. Em torno de tudo isto zumbiam moscas<\/p>\n<p>Veio \u00e0 porta receber o chefe de pol\u00edcia um homenzinho magro<br \/>\ne amarelo, t\u00e3o feio e t\u00e3o morto de fisionomia, que lembrava<br \/>\nos pr\u00f3prios defuntos que lhe cabia vigiar<\/p>\n<p>O of\u00edcio comera-lhe o pavor natural que todo o homem sente \u00e0<br \/>\nvista da morte, e familiarizara-o com as degrada\u00e7\u00f5es pavorosas<br \/>\nda carne sem vida. Dava-se perfeitamente bem no meio de tudo aquilo: ali comia,<br \/>\nali dormia e ali amava. Quando pilhava algum dinheiro para comprar luz, corria<br \/>\n\u00e0 venda a beb\u00ea-lo de aguardente, e \u00e0 noite deixava-se<br \/>\nficar no escuro com os inalter\u00e1veis companheiros de casa, que seguro<br \/>\nn\u00e3o o incomodariam durante o sono<\/p>\n<p>O Ludgero disse-lhe alguma coisa; e o guarda, sem nada responder, conduziu-o<br \/>\npara defronte da mesa em que estava o cad\u00e1ver<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o chefe de pol\u00edcia armou as suas lunetas de vidro graduado,<br \/>\ne ficou a observar o morto por algum tempo<\/p>\n<p>Era um defunto comprido, magro, com barbas empastadas de sangue pelo lado<br \/>\ninferior<\/p>\n<p>Estava descal\u00e7o e tinha o corpo nu, ligeiramente esverdeado. O assassino<br \/>\nrasgara-lhe a garganta \u00e0 faca e puxara o golpe at\u00e9 \u00e0s<br \/>\nregi\u00f5es d\u00e9rmicas do t\u00f3rax<\/p>\n<p>O chefe mandou chamar o escriv\u00e3o e o m\u00e9dico, procedeu ao corpo<br \/>\nde delito, e, depois de apoderar-se de um farrapo de casimira cinzenta, encontrado<br \/>\nna m\u00e3o direita do morto, meteu-se de novo no carro, e tomou o caminho<br \/>\nda Secretaria de Pol\u00edcia, que nesse tempo era ainda na rua do Sab\u00e3o<\/p>\n<p>A\u00ed procurou logo o delegado, com quem conversou algum tempo, terminando<br \/>\npor entregarlhe o farrapo de casimira e recomendar-lhe que procedesse \u00e0s<br \/>\npreliminares do inqu\u00e9rito no local do crime, e desse as provid\u00eancias<br \/>\npara as competentes pesquisas<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o acabava de chegar o Caixa da Casa Paulo Cordeiro, sobre<br \/>\nquem reca\u00eda o preju\u00edzo causado pelo roubo que dera lugar ao<br \/>\ncrime. O delegado tomou-o de parte, e os dois ficaram a falar a meia voz<\/p>\n<p>O chefe entretanto passara \u00e0 sala de audi\u00eancia, onde, entre<br \/>\noutras pessoas, foi introduzida uma senhora ainda mo\u00e7a, de boa apar\u00eancia,<br \/>\nque dizia querer soltar um escravo seu, preso na v\u00e9spera<\/p>\n<p>O chefe ouviu-a com toda a aten\u00e7\u00e3o, chamou um empregado e<br \/>\nmandou lavrar o alvar\u00e1 de soltura. A senhora levantou-se, e agradeceu,<br \/>\nmas, na ocasi\u00e3o em que transpunha a porta para sair, foi detida por<br \/>\numa frase que ouvira destacada da conversa do delegado<\/p>\n<p>Parou, e protegida por um reposteiro, prestou toda a aten\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que lhe digo, Sr. delegado, repisava o queixoso. Nada<br \/>\npodemos fazer sem primeiro ouvirmos o rapaz<\/p>\n<p>\u2014 Mas onde mora esse Greg\u00f3rio? \u2014 Mora nas Laranjeiras<\/p>\n<p>\u2014 Em que se ocupa? \u2014 \u00c9 zang\u00e3o da pra\u00e7a<\/p>\n<p>\u2014 O senhor viu-o hoje? \u2014 Nem hoje, nem ontem<\/p>\n<p>\u2014 E ele ent\u00e3o sabia que o senhor recebeu ontem \u00e0 tarde<br \/>\nos vinte contos de r\u00e9is? \u2014 Foi a \u00fanica pessoa estranha<br \/>\nao neg\u00f3cio, que soube disso<\/p>\n<p>\u2014 Bem, disse o delegado; escreva o nome e a moradia desse rapaz, e<br \/>\ndeixe tudo mais por minha conta<\/p>\n<p>A mulher que os escutava, aproveitou o momento em que os dois se afastaram,<br \/>\npara sair do seu esconderijo e descer precipitadamente a escada<\/p>\n<p>\u00c0 rua tomou um carro e seguiu para a casa de Clorinda. Pelo sobressalto<br \/>\nem que ia e pelo ar de dolorosa ansiedade espalhado em todo o seu rosto, p\u00e1lido<br \/>\ne simp\u00e1tico, conhecia-se facilmente que a pobre mulher estava sob a<br \/>\ninflu\u00eancia de uma grande emo\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Antes por\u00e9m de voltarmos com ela \u00e0 casa da noiva, que em t\u00e3o<br \/>\ntriste situa\u00e7\u00e3o deixamos no primeiro cap\u00edtulo, cumpre<br \/>\ndizermos alguma coisa a respeito deste novo personagem<\/p>\n<p>Imagine o leitor uma mulher cheia de corpo, um tanto baixa, por\u00e9m<br \/>\nesbelta e garrida; d\u00ea-lhe um par de olhos castanhos, vivos e graciosos,<br \/>\numa boca risonha, um narizinho arrebitado, uns cabelos da cor dos olhos, um<br \/>\npesco\u00e7o carnudo e bom torneado; e ter\u00e1 o leitor, pouco mais<br \/>\nou menos, a figura simp\u00e1tica que se dirigia para a casa de Clorinda<\/p>\n<p>Chamava-se J\u00falia Guterres; fora atriz por muito tempo e afinal, a<br \/>\ninst\u00e2ncias do homem com quem casara, teve de abandonar por sua vez o<br \/>\npalco<\/p>\n<p>O marido faleceu cinco anos depois do casamento, deixando \u00e0 vi\u00fava<br \/>\num legado que lhe assegurava o resto da vida<\/p>\n<p>J\u00falia Guterres reuniu o que possu\u00eda, vendeu alguns bens que<br \/>\nlhe n\u00e3o convinham, alugou o pr\u00e9dio em que morara com o marido,<br \/>\ndisp\u00f4s de alguns escravos, comprou um belo chalezinho na Tijuca, e meteu-se<br \/>\na\u00ed, com a inten\u00e7\u00e3o de envelhecer tranq\u00fcilamente<\/p>\n<p>Foi nessa casa que ela travou rela\u00e7\u00f5es de amizade com Greg\u00f3rio.<br \/>\nViram-se os dois \u00e0 primeira vez por ocasi\u00e3o do batizado da filha<br \/>\nde uma amiga. Greg\u00f3rio teria ent\u00e3o vinte anos, gozava de alguma<br \/>\nfama de estr\u00f3ina e figurava na vida rom\u00e2ntica de uma tal Ol\u00edmpia,<br \/>\na quem o leitor mais tarde vir\u00e1 a conhecer perfeitamente<\/p>\n<p>Um dia, sentia-se ela aborrecida e nervosa, sem saber o que tinha, nem o<br \/>\nque queria; tudo nessa ocasi\u00e3o parecia enfasti\u00e1-la profundamente.<br \/>\nVestiu-se, mas n\u00e3o teve a coragem de sair; abriu um livro e n\u00e3o<br \/>\nleu uma p\u00e1gina sequer; acendeu um cigarro e arremessou-o logo pela<br \/>\njanela<\/p>\n<p>Nisto entrou o criado no seu quarto e disse-lhe que o Sr. Greg\u00f3rio<br \/>\na procurava<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o estou em casa! respondeu a senhora, de mau humor<\/p>\n<p>Mas, quando o criado ia a sair, acrescentou consigo: \u2014 Que id\u00e9ia!..<\/p>\n<p>E mandou que se abrisse a porta ao rapaz. O chalezinho da vi\u00fava compunha-se<br \/>\nde poucas pe\u00e7as. Havia a sala de visitas, uma alcova, a sala de jantar,<br \/>\num gabinete de trabalho e mais dois ou tr\u00eas pequenitos c\u00f4modos<br \/>\nde utilidade secund\u00e1ria<\/p>\n<p>Mas tudo isto estava disposto e mobiliado com muito apuro e muita preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde gosto<\/p>\n<p>Desde o jardim, \u00e0 entrada, que se mostrava logo sentimento art\u00edstico<br \/>\nna escolha e coloca\u00e7\u00e3o dos jarros e das est\u00e1tuas; sentia-se<br \/>\na m\u00e3o caprichosa que encaminhara as hastes das trepadeiras para as<br \/>\ngrades da janela, e confrangera as parasitas a se encaracolarem pitorescamente<br \/>\npelos troncos colunares das palmeiras e pelos seixos grotescos do repuxo<\/p>\n<p>O aspecto rico das plantas, os canteiros moldurados de grama e desenhando<br \/>\npequeninas ruas de cascalho, diziam muito bem com o chalezinho alegre, a rir<br \/>\npor entre a exuber\u00e2ncia da verdura, e todo ele enfeitado de cores e<br \/>\narabescos, ao sabor particular das ch\u00e1caras fluminenses; sabor que<br \/>\nresulta naturalmente da fisionomia caracter\u00edstica das paisagens da<br \/>\nCorte<\/p>\n<p>Quem, com efeito, atravessa as prov\u00edncias do norte do Brasil e procura<br \/>\ncompreender o car\u00e1ter quente das suas m\u00faltiplas paisagens, onde<br \/>\npredominam os rios e as plan\u00edcies, chegando ao Rio de Janeiro n\u00e3o<br \/>\nse pode furtar \u00e0 estranha mas agrad\u00e1vel impress\u00e3o que<br \/>\nproduz ao esp\u00edrito esta bela cidade, com a sua opul\u00eancia de palmeiras,<br \/>\na sua variedade pompadouriana de folhagens, a sua pedra original, que aparece<br \/>\npor toda a parte, e as suas montanhas, tristes e silenciosas, que se v\u00e3o<br \/>\nperder no c\u00e9u por entre nuvens<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio penetrou na sala de J\u00falia, tomado j\u00e1 de certo<br \/>\ndes\u00e2nimo: ele h\u00e1 tanto fazia por agradar \u00e0quela mulher,<br \/>\ne ela sempre a desdenhar dos seus protestos, a chamar-lhe crian\u00e7a e<br \/>\na rir dos seus desgostos, dos seus suspiros, das suas atitudes apaixonadas<\/p>\n<p>\u2014 Meu amigo! disse-lhe uma vez a vi\u00fava; o senhor perde o seu<br \/>\ntempo! j\u00e1 n\u00e3o vivo de ilus\u00f5es! passou a \u00e9poca<br \/>\ndos sonhos! hoje, toda a minha felicidade consiste na certeza de que n\u00e3o<br \/>\ntenho absolutamente a quem dar satisfa\u00e7\u00e3o de meus atos! \u2014<br \/>\nMas quem deseja escraviz\u00e1-la? perguntou em resposta, Greg\u00f3rio,<br \/>\nprocurando p\u00f4r uma inten\u00e7\u00e3o sutil nas suas palavras. Quem<br \/>\n\u00e9? \u2014 Quem? interrogou ela, abrindo para o mo\u00e7o apaixonado<br \/>\nseus belos olhos de cor h\u00edbrida<\/p>\n<p>Quem?! O senhor, meu querido sonso. Ande l\u00e1! Tenho muito medo destes<br \/>\ninocentes!&#8230; parece que n\u00e3o s\u00e3o capazes de quebrar um prato,<br \/>\nentretanto..<\/p>\n<p>E fazendo um gesto de graciosa impaci\u00eancia: \u2014 Homem, menino!<br \/>\nmudemos de conversa! Falemos antes de D. Ol\u00edmpia..<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio fez que n\u00e3o ouviu este nome e insistiu em que a vi\u00fava<br \/>\nacabasse a sua frase<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 nem me lembra o que queria dizer..<\/p>\n<p>\u2014 E at\u00e9 onde pode chegar o esp\u00edrito da tirania! Bem!<br \/>\nn\u00e3o a importunarei mais! Adeus<\/p>\n<p>\u2014 Vai suicidar-se ou vai para a casa de Ol\u00edmpia?! perguntou<br \/>\na vi\u00fava, com um espanto exagerado. Se vai suicidar-se, previna, que<br \/>\npreciso preparar o sentimento! \u2014 N\u00e3o me fale desse modo! Para<br \/>\nque h\u00e1 de fingir aquilo que n\u00e3o \u00e9?! Sei que a senhora<br \/>\ntem muito e muito cora\u00e7\u00e3o! N\u00e3o se queira fazer indiferente<br \/>\ne c\u00ednica, quando possui ali\u00e1s tesouros de amor e de ternura..<\/p>\n<p>\u2014 Mau!&#8230; replicou ela; o senhor vai por mau terreno..<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?..<\/p>\n<p>\u2014 Porque j\u00e1 se tinha despedido e deixa-se ficar<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso..<\/p>\n<p>\u2014 Adeus<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 quando, ingrata?..<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 \u00e0 primeira aus\u00eancia da lua<\/p>\n<p>E a vi\u00fava fechou a porta com uma risada<\/p>\n<p>Depois deste significativo tiroteio, Greg\u00f3rio fez ainda duas ou tr\u00eas<br \/>\ntentativas de ass\u00e9dio, mas de todas elas saiu derrotado. \u00c9 por<br \/>\nconseguinte de supor que ele n\u00e3o contasse j\u00e1 absolutamente com<br \/>\no triunfo, quando a criada lhe foi dizer \u00e0 porta do chal\u00e9 que<br \/>\na senhora consentia em ser vista<\/p>\n<p>Entrou vacilante e um pouco entalado na d\u00favida de mais algum desbaratamento.<br \/>\nJ\u00falia recebeu-o sem perturba\u00e7\u00e3o. Estava prostrada sobre<br \/>\numa otomana de cetim e a\u00ed se deixou ficar, com os olhos meio cerrados<br \/>\nde pregui\u00e7a ou de t\u00e9dio, as pernas cruzadas indolentemente,<br \/>\ne a cabe\u00e7a esquecida sobre duas almofadas<\/p>\n<p>\u2014 Vim importun\u00e1-la mais uma vez..<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Assente-se e converse. Traz-me alguma novidade? Que<br \/>\nh\u00e1 por esse mundo do esp\u00edrito? \u2014 Trago-lhe um novo poeta,<br \/>\nTe\u00f3filo Dias, conhece? \u2014 D\u00ea c\u00e1<\/p>\n<p>E a vi\u00fava abriu o livro e leu algumas estrofes<\/p>\n<p>\u2014 Que tal o acha?..<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o respondeu e ficou com os olhos cravados no teto; depois pousou-os<br \/>\nde novo sobre o livro e continuou a leitura<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio foi a pouco e pouco se aproximando e tomou-lhe uma das m\u00e3os.<br \/>\nEla consentiu ou n\u00e3o deu por isso, muito empenhada na leitura<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio recolheu a m\u00e3ozinha que tinha entre as suas e levou-a<br \/>\naos l\u00e1bios com a sofreguid\u00e3o de um faminto<\/p>\n<p>Ela continuou a ler<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio aproximou-se mais e, todo vergado para a frente, chegou<br \/>\nos l\u00e1bios \u00e0 cabe\u00e7a da vi\u00fava e beijou-lhe a polpa<br \/>\nmacia do pesco\u00e7o<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? Que \u00e9 isso! Deixe-me! disse ela, erguendo-se<br \/>\nmelindrada e deixando escapar o livro das m\u00e3os<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio levantou-se tamb\u00e9m, mas prendeu a vi\u00fava nos<br \/>\nbra\u00e7os<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o seja assim! Perdoe! disse ele com a voz cheia de s\u00faplica.<br \/>\nTenha pena de mim! Repare que sofro deveras por sua causa..<\/p>\n<p>A vi\u00fava abaixou a cabe\u00e7a e ficou a pensar<\/p>\n<p>Esta transi\u00e7\u00e3o desconcertou um tanto o pobre namorado<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o?! disse ele afinal; em que pensa?..<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o diabo&#8230; resmungou a bonita vi\u00fava, como se falasse<br \/>\ns\u00f3 consigo. \u00c9 o diabo!..<\/p>\n<p>\u2014 O diabo o qu\u00ea?&#8230; perguntou Greg\u00f3rio com o ar muito<br \/>\ninfeliz<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem vinte anos e eu tenho mais de trinta! \u2014 Oh!<br \/>\nexclamou ele<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o! protestou ela; voc\u00ea no fim de contas \u00e9<br \/>\numa crian\u00e7a e eu sou mais que uma mulher!..<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 vem a mania de chamar-me crian\u00e7a! \u2014 Mas se<br \/>\n\u00e9! \u2014 E quer responsabilizar-me por uma falta de que n\u00e3o<br \/>\nsou culpado?! \u2014 Culpada seria eu se n\u00e3o pensasse um pouco! \u2014<br \/>\nJ\u00falia! \u2014 N\u00e3o! N\u00e3o! \u2014 Meu amor! \u2014 Ent\u00e3o?!<br \/>\n\u2014 Eu te adoro! \u2014 Tenha ju\u00edzo! \u2014 Tu me p\u00f5es<br \/>\nlouco! \u2014 Mas contenha-se, ou chamo a criada! \u2014 Julinha! \u2014<br \/>\nSolte-me o bra\u00e7o! Pior! N\u00e3o fa\u00e7a c\u00f3cegas! Mas<br \/>\nGreg\u00f3rio n\u00e3o respeitou a ordem; e J\u00falia, sem poder sustentar<br \/>\na s\u00e9rio, abriu a rir, a rir muito, a torcer-se toda nas m\u00e3os<br \/>\ndo rapaz, e afinal caiu prostrada na otomana, sem for\u00e7as para nada,<br \/>\na chorar de riso, nervosamente, sem poder falar<\/p>\n<p>E tudo felizmente acabou em pura galhofa<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a> IV CORA\u00c7\u00c3O DE MULHER<\/h2>\n<p>Entre a cena pitoresca das c\u00f3cegas e a sensaborona e triste cena<br \/>\ndo frustrado casamento de Greg\u00f3rio, medeia o per\u00edodo dos amores<br \/>\ndeste com a simp\u00e1tica vi\u00fava da Tijuca. Foram dois belos anos,<br \/>\ndurante os quais o amor teve tempo para percorrer toda a \u00f3rbita do<br \/>\nseu caprichoso sistema planet\u00e1rio, fazendo, j\u00e1 se sabe, as cabriolas<br \/>\nque o endemoninhado costuma dar sempre que se apanha em revolu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Dois anos! Oh! nesse lapso o amor tem tempo para muita coisa! Com as asas<br \/>\nde que disp\u00f5e, pode ir ao z\u00eanite da paix\u00e3o, pairar um<br \/>\npouco no espa\u00e7o e precipitar-se afinal no p\u00e9lago morno da indiferen\u00e7a<br \/>\ne do t\u00e9dio<\/p>\n<p>Todavia, se isto era aplic\u00e1vel a Greg\u00f3rio, n\u00e3o o era<br \/>\ncertamente \u00e0 outra parte interessada \u2014 a vi\u00fava. Em quest\u00f5es<br \/>\nde amor \u00e9 com efeito muito dif\u00edcil encontrar dois partidos iguais;<br \/>\nem geral, um quer e o outro apenas consente<\/p>\n<p>E o mais curioso \u00e9 que a mulher \u00e9 quase sempre quem representa<br \/>\na parte mais ativa e mais importante no conflito<\/p>\n<p>Entre o amor da mulher e o amor do homem h\u00e1 uma diferen\u00e7a<br \/>\ncapital: o amor do homem tende a diminuir com o tempo; e o da mulher, quanto<br \/>\nmais vive, mais avulta e mais espalha e aprofunda as suas ra\u00edzes pelo<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o. \u00c9 que em geral o homem, \u00e0 semelhan\u00e7a<br \/>\ndo fogoso corcel, que dispara na arena com todo o fogo da carreira, gasta<br \/>\nlogo no princ\u00edpio do tiro a melhor parte da atividade de que disp\u00f5e,<br \/>\ne come\u00e7a a minguar de for\u00e7as; ao passo que a mulher, partindo<br \/>\nvagarosamente, vai pouco e pouco se animando na luta, e deixa-se afinal arrebatar<br \/>\npelo ardor e pelo entusiasmo<\/p>\n<p>O homem, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que desvenda os mist\u00e9rios<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o da sua amante, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que<br \/>\nlhe vai devassando a alma e penetrando familiarmente por todas as sutilezas<br \/>\ne todos os esconderijos do seu car\u00e1ter, do seu g\u00eanio, do seu<br \/>\ntemperamento e da sua ternura, sente desfalecerlhe no sangue o primitivo impulso,<br \/>\ne s\u00f3 continua a amar por h\u00e1bito ou por gratid\u00e3o. Violada<br \/>\na \u00faltima gaveta da alma de uma mulher, o homem cai prostrado pela indiferen\u00e7a<\/p>\n<p>Doces e apaixonadas Margaridas! se quiserdes conservar a adora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde vossos inconsistentes sacerdotes, correi duas voltas \u00e0 fechadura<br \/>\ne guardai bem convosco as preciosas chaves! O homem gosta de ser iludido:<br \/>\nmeia verdade o prende, a verdade inteira o repele. A mulher, ao contr\u00e1rio,<br \/>\ns\u00f3 chega a amar deveras depois de muito conviver, depois de muito se<br \/>\nidentificar com o homem a quem se deu. E se alguma grande desgra\u00e7a<br \/>\nos torna solid\u00e1rios das mesmas dores e das mesmas l\u00e1grimas;<br \/>\nse ela tem ocasi\u00e3o de p\u00f4r \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do<br \/>\namado a meiga subst\u00e2ncia da sua abnega\u00e7\u00e3o, do seu sacrif\u00edcio<br \/>\ne do seu hero\u00edsmo, ent\u00e3o o que era amor se converte em fanatismo,<br \/>\ne a mulher deixa de ser amante para ser escrava submissa<\/p>\n<p>O homem principia sempre por dar o seu amor e acaba, quando este se esgota,<br \/>\npor oferecer a sua amizade. A mulher, n\u00e3o! a mulher come\u00e7a por<br \/>\nestimar, e a sua estima vai se consolidando, vai se encarecendo, at\u00e9<br \/>\nque se transforma em amor veemente, fecundo e duradouro<\/p>\n<p>Foi isso justamente o que sucedeu com a vi\u00fava a respeito de Greg\u00f3rio<br \/>\n\u2014 partiram do mesmo ponto, ela a passo, ele a galope; mas, quando a<br \/>\nprimeira se sentia arrebatada pelo ardor da carreira, j\u00e1 o outro jazia<br \/>\nprostrado de cansa\u00e7o, a suplicar, por amor de Deus, que o deixassem<br \/>\nem repouso. E da\u00ed as conseq\u00fc\u00eancias \u2014 o ci\u00fame,<br \/>\no despeito, a raiva, o desespero, a sede de vingan\u00e7a<\/p>\n<p>Mas a mulher, coitada! parece que veio ao mundo predestinada para o sacrif\u00edcio<br \/>\ne para a dedica\u00e7\u00e3o. Uma vez presa pelo sentimento, ou pela sensualidade,<br \/>\nquanto mais a fazem sofrer, quanto mais a pisam e maltratam, tanto mais ela<br \/>\nestremece e adora o objeto do seu amor<\/p>\n<p>Cimo certas plantas arom\u00e1ticas, que mais recendem quanto mais s\u00e3o<br \/>\ntrituradas, a mulher que ama, se logra uma folga no cativeiro com que se oprime<br \/>\no seu verdugo, n\u00e3o \u00e9 para gemer, \u00e9 para beijar-lhe os<br \/>\np\u00e9s e repetir-lhe que o adora<\/p>\n<p>J\u00falia, nestas condi\u00e7\u00f5es, soube que Greg\u00f3rio<br \/>\nia casar. Seu \u00edmpeto instant\u00e2neo foi correr ao primeiro homem<br \/>\ne oferecer-se para ser amada aos olhos do ingrato que assim t\u00e3o cruelmente<br \/>\na apunhalava. Esqueceu-se de tudo, posi\u00e7\u00e3o, interesses, tranq\u00fcilidade,<br \/>\npara s\u00f3 pensar nessa vingan\u00e7a absurda, que lhe parecia t\u00e3o<br \/>\nnecess\u00e1ria \u00e0 sua c\u00f3lera como o vinho a um \u00e9brio<\/p>\n<p>E cega, desvairada, \u00e0s tontas, queria deixar bem patente que a trai\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Greg\u00f3rio n\u00e3o a atormentava, e que ela se sentia, como nunca,<br \/>\nfeliz e indiferente<\/p>\n<p>\u2014 Sofrer?&#8230; mas por qu\u00ea?! monologava a infeliz, a rir for\u00e7adamente,<br \/>\ncom a voz entalada na garganta. Acaso n\u00e3o previa eu tudo isto?&#8230; n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 ele mo\u00e7o, livre e cheio de esperan\u00e7as? A mim que importa<br \/>\npois seu casamento? Que se case quantas vezes quiser! Que fa\u00e7a o que<br \/>\nentender! Mas os solu\u00e7os rebentavam com explos\u00e3o, e a m\u00edsera<br \/>\ndeixava-se cair sobre o div\u00e3, a chorar apaixonadamente, sacudida por<br \/>\num formid\u00e1vel desespero<\/p>\n<p>Depois, sem que ela as chamasse, vinham de enfiada as recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\ndolorosas do seu amor<\/p>\n<p>Os epis\u00f3dios felizes de outrora lhe enchiam agora o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom uma argamassa de desgostos<\/p>\n<p>Via Greg\u00f3rio em todas as situa\u00e7\u00f5es venturosas de outro<br \/>\ntempo; sentia-lhe perfeitamente o cheiro dos cabelos, a luz dos olhos e a<br \/>\ndo\u00e7ura embriagadora dos seus beijos. E perseguida, aguilhoada por estas<br \/>\nid\u00e9ias, queria fugir de si mesma, escapar \u00e0 pr\u00f3pria mem\u00f3ria,<br \/>\nesconder-se das reminisc\u00eancias que lhe rugiam de dentro; mas todo o<br \/>\nseu passado, em alvoro\u00e7o, se enroscava por ela, a chup\u00e1-la para<br \/>\nsi, como um enorme polvo. Definitivamente era indispens\u00e1vel uma vingan\u00e7a!<br \/>\nEra preciso inventar um c\u00famplice, um instrumento, uma arma, com que<br \/>\npudesse fulminar o infame! Pobre vision\u00e1ria! N\u00e3o calculava que<br \/>\no verdadeiro amor s\u00f3 sabe perdoar e n\u00e3o conhece os segredos<br \/>\ndo \u00f3dio e da maldade. N\u00e3o sabia que o l\u00e1bio que conserva<br \/>\no calor dos beijos que o aqueceram, n\u00e3o se pode converter rapidamente<br \/>\nem l\u00e2mina fria de vingan\u00e7a. E tanto assim, que foi bastante lhe<br \/>\nconstar um m\u00eas depois desse desespero, o crime de que suspeito o objeto<br \/>\ndo seu amor, para esquecer-se dos planos de vingan\u00e7a e s\u00f3 se<br \/>\nlembrar de correr a prevenir Greg\u00f3rio e afast\u00e1-lo de qualquer<br \/>\nperigo<\/p>\n<p>Foi nessa resolu\u00e7\u00e3o que a vimos partir rapidamente da pol\u00edcia<br \/>\npara a casa de Clorinda. Sabia a vi\u00fava que era naquela tarde o casamento;<br \/>\nGreg\u00f3rio estaria l\u00e1 com certeza&#8230; Que lhe importava o desespero<br \/>\nde ver a mulher que a preterira? que importava o espet\u00e1culo de uma<br \/>\nfelicidade que a humilhava e enlouquecia de dor? que lhe importava tudo isso,<br \/>\ncontanto que o seu Greg\u00f3rio n\u00e3o sofresse coisa alguma, contanto<br \/>\nque ele fosse prevenido a tempo do grave perigo que o amea\u00e7ava? O carro<br \/>\nde J\u00falia parou \u00e0 porta da noiva. A vi\u00fava conchegou para<br \/>\no colo as pontas do seu mantelete de seda preta, e subiu resolutamente as<br \/>\nescadas da rival<\/p>\n<p>\u2014 A noiva?! perguntou ela \u00e0 primeira pessoa que encontrou.<br \/>\nN\u00e3o se queria entender com Greg\u00f3rio, por um natural impulso<br \/>\nde ressentimento<\/p>\n<p>A noiva estava no quarto e n\u00e3o podia receber ningu\u00e9m<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 tamb\u00e9m para o interesse dela que lhe desejo<br \/>\nfalar. Trata-se de Greg\u00f3rio! \u2014 Como?! Do noivo?! \u2014 Sim<\/p>\n<p>\u2014 Oh! nesse caso, entre! E a pessoa gritou logo para os que estavam<br \/>\nna sala de jantar: \u2014 Temos not\u00edcias do noivo! J\u00falia foi<br \/>\nconduzida para a alcova de Clorinda, enquanto os outros curtiam de fora a<br \/>\nmais impaciente e viva curiosidade. Ao encarar a noiva do amante, sentiu a<br \/>\nvi\u00fava percorrer-lhe no corpo um vivo estremecimento de \u00f3dio,<br \/>\nmas a id\u00e9ia do perigo em que estava Greg\u00f3rio, acalmoulhe o sangue<\/p>\n<p>Clorinda, entretanto, a quem disseram que a rec\u00e9m-chegada trazia<br \/>\nnot\u00edcias de seu noivo, precipitou-se ao encontro de J\u00falia, exclamando<br \/>\naflita: \u2014 Que sucedeu com Greg\u00f3rio?! Diga-me por piedade! \u2014<br \/>\nComo?! Pois j\u00e1 sabe que lhe ia suceder alguma coisa?!..<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que \u00e9?! Diga! diga depressa! \u2014 Ele ent\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 c\u00e1?!..<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! Ainda n\u00e3o apareceu! \u2014 N\u00e3o apareceu?!<br \/>\nexclamou a vi\u00fava, empalidecendo. Oh! Nada consegui evitar! Foi preso!<br \/>\n\u2014 Quem?! interrogou a noiva. Quem? Greg\u00f3rio?! Greg\u00f3rio<br \/>\npreso! mas por qu\u00ea, senhora?! Explique-se! explique-se, por amor de<br \/>\nDeus! E Clorinda, vendo o abatimento em que ca\u00eda a outra, sacudiu-a<br \/>\ncom for\u00e7a: \u2014 Ent\u00e3o, senhora?! Que h\u00e1?! Diga! Mas<br \/>\na vi\u00fava continuava na sua prostra\u00e7\u00e3o e repetia como num<br \/>\ndel\u00edrio: \u2014 Preso! Nada consegui! \u2014 \u00d3 senhora! explique-se<br \/>\npor uma vez! N\u00e3o v\u00ea o estado em que me acho? N\u00e3o v\u00ea<br \/>\nque tenho olhos cheios d\u2019\u00e1gua? n\u00e3o v\u00ea como tremo?<br \/>\nn\u00e3o v\u00ea como sofro?! \u2014 E que me importa a mim o seu sofrimento?!<br \/>\ntamb\u00e9m eu sofro e j\u00e1 padeci bastante! Sua m\u00e1goa tem sa\u00edda;<br \/>\na minha n\u00e3o. Se Greg\u00f3rio voltar, \u00e9 para os seus bra\u00e7os<br \/>\ne n\u00e3o para os meus!..<\/p>\n<p>Que vale por conseguinte a sua tristeza de crian\u00e7a, comparada \u00e0<br \/>\ndor enorme que neste momento me dilacera o cora\u00e7\u00e3o?! \u2014<br \/>\nEu n\u00e3o a compreendo! observou a noiva<\/p>\n<p>\u2014 Nem se pode compreender nada disto na sua idade, como tamb\u00e9m<br \/>\nna sua idade ainda n\u00e3o se pode avaliar a for\u00e7a indomin\u00e1vel<br \/>\ne fatal de um verdadeiro amor! Crian\u00e7a! O amor nos quinze anos \u00e9<br \/>\npouco mais que o \u00faltimo folguedo da meninice, atr\u00e1s dele n\u00e3o<br \/>\nexiste um passado, existe quando muito uma boneca! \u2014 Senhora! \u2014<br \/>\nOh! N\u00e3o vim c\u00e1 para disputar seu noivo; vim com a inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde salv\u00e1-lo; nada consegui<\/p>\n<p>Paci\u00eancia! Volto resignada com a vontade de Deus! Clorinda segurou-a<br \/>\npelo bra\u00e7o<\/p>\n<p>\u2014 Mas, por piedade, explique-me o que h\u00e1? diga-me o que foi<br \/>\nfeito de Greg\u00f3rio! \u2014 \u00c9 acusado de roubo e assassinato!<br \/>\ndeclarou a vi\u00fava, finalmente<\/p>\n<p>\u2014 Ah! gritou a outra, como se s\u00f3 esperasse por aquela frase<br \/>\npara ter a confirma\u00e7\u00e3o de uma terr\u00edvel suspeita<\/p>\n<p>E caiu de costas<\/p>\n<p>O quarto encheu-se logo. Todos queriam saber o que havia. D. Janu\u00e1ria<br \/>\ncorreu a apoderar-se da filha, e os mais principiaram a cruzar entre si olhares<br \/>\ninterrogativos e desconfiados<\/p>\n<p>J\u00falia, sem dar mostras do que se passava em torno de si, afastou-se<br \/>\ndistraidamente e saiu a dizer entre dentes: \u2014 Preso e acusado! Preso<br \/>\ntalvez para sempre! E ao entrar no carro que a esperava na porta, abriu a<br \/>\nsolu\u00e7ar com desespero<\/p>\n<p>Recolheu-se a casa, mas n\u00e3o p\u00f4de sossegar. A d\u00favida<br \/>\nsobre o destino de Greg\u00f3rio trazia-lhe o esp\u00edrito em doido sobressalto.<br \/>\nEra urgente obter not\u00edcias dele naquela mesma noite, fosse de quem<br \/>\nfosse, custasse o que custasse, contanto que J\u00falia soubesse o que era<br \/>\nfeito do seu Greg\u00f3rio! E nesta impaci\u00eancia percorria toda casa;<br \/>\nora ia \u00e0 janela, ora de um quarto para outro<\/p>\n<p>Chamou duas vezes a criada para mandar \u00e0 pol\u00edcia, mas, receando<br \/>\ncomplicar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o, resolveu nada fazer. Afinal<br \/>\npediu a capa e o chap\u00e9u, e deliberou sair. Eram j\u00e1 oito horas<br \/>\nda noite<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 embaixo talvez conseguisse saber alguma coisa a respeito<br \/>\nde Greg\u00f3rio&#8230; calculava a vi\u00fava, descendo comovida a escadinha<br \/>\ndo chal\u00e9. Mas ao chegar ao jardim, soltou um grito: pareceu-lhe haver<br \/>\ndistinguido, encostado ao muro e meio escondido na sombra, o vulto de um homem<br \/>\nque a observava atentamente<\/p>\n<p>\u2014 \u00c2ngela! bradou ela para dentro da casa. \u00c2ngela! traze<br \/>\nluz! E n\u00e3o p\u00f4de acrescentar mais nada, porque as pernas lhe tremiam<br \/>\nj\u00e1 e a voz se lhe embara\u00e7ava na garganta<\/p>\n<p>A criada, tamb\u00e9m, j\u00e1 possu\u00edda de susto, apareceu com<br \/>\numa lanterna<\/p>\n<p>J\u00falia n\u00e3o se havia enganado. Escondido nas moitas do jardim,<br \/>\nestava um homem, que logo se dirigiu humildemente para ela, com o chap\u00e9u<br \/>\nna m\u00e3o<\/p>\n<p>\u2014 Ah! interjeicionou a vi\u00fava, recuando aterrada<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se assuste, minha senhora, disse o desconhecido, com<br \/>\nmuita brandura. Eu n\u00e3o fa\u00e7o mal a ningu\u00e9m&#8230; Sou um pobre<br \/>\nvelho inofensivo..<\/p>\n<p>E J\u00falia, ainda n\u00e3o de todo calmada, viu-lhe com efeito as<br \/>\nlongas barbas e os cabelos brancos<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que fazia voc\u00ea a\u00ed? perguntou ela com dificuldade.<br \/>\nFiquei sobressaltada deste modo!..<\/p>\n<p>\u2014 Perdoe, minha senhora, foi sem sequer&#8230; respondeu o velho<\/p>\n<p>\u2014 Mas, enfim, que deseja? \u2014 Eu vinha dar um recado de certo<br \/>\nmo\u00e7o que foi preso agora \u00e0 noite..<\/p>\n<p>\u2014 Greg\u00f3rio?! exclamou a vi\u00fava, perturbando-se toda.<br \/>\nOh! fale! fale! Diga o que \u00e9! \u2014 Mas ele me recomendou que s\u00f3<br \/>\ndesse o recado a certa mo\u00e7a, com quem tem rela\u00e7\u00f5es h\u00e1<br \/>\ncoisa de dois anos..<\/p>\n<p>\u2014 Sou eu mesma! Fale! \u2014 A senhora ent\u00e3o \u00e9 a vi\u00fava<br \/>\nJ\u00falia Guterres, a mesma que esteve na secretaria de pol\u00edcia<br \/>\nhoje \u00e0 tarde?..<\/p>\n<p>\u2014 Sou. Pode dar o seu recado! Mas o velho, em vez de obedecer, endireitou<br \/>\no corpo, avan\u00e7ou dois passos, e soprou em um apito que trazia consigo<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto?! perguntou J\u00falia, de novo aflita<\/p>\n<p>\u2014 A senhora est\u00e1 citada para depor hoje mesmo na pol\u00edcia<br \/>\no que sabe a respeito de certa pessoa! E o falso velho dirigiu-se a um soldado,<br \/>\nde quatro que acudiram ao seu apito, e ordenou-lhe que acompanhasse aquela<br \/>\nsenhora \u00e0 presen\u00e7a do chefe na secretaria de pol\u00edcia<\/p>\n<p>\u2014 Sim, Sr. delegado! respondeu a pra\u00e7a<\/p>\n<p>\u2014 Bom! agora vamos n\u00f3s \u00e0 casa da noiva! acrescentou<br \/>\no disfar\u00e7ado \u00e0s pra\u00e7as que restavam, tirando as barbas<br \/>\ne a cabeleira<\/p>\n<p>E seguiram para a casa de Clorinda<\/p>\n<p>J\u00falia entretanto, caminhava resignadamente para a pol\u00edcia.<br \/>\nN\u00e3o proferiu durante o caminho uma \u00fanica palavra. Aquela situa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nse por um lado a constrangia, por outro lhe alegrava o esp\u00edrito, prometendo<br \/>\np\u00f4r a limpo tudo o que havia a respeito de Greg\u00f3rio<\/p>\n<p>O chefe recebeu-a em um gabinete onde j\u00e1 esperava por ela; f\u00ea-la<br \/>\nassentar-se, disse-lhe que podia descansar, e, depois de chamar o escriv\u00e3o<br \/>\ne ordenar que se preparasse, principiou O seguinte interrogat\u00f3rio:<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>V DEPOIMENTOS<\/h2>\n<p>\u2014 Seu nome, minha senhora? perguntou o chefe de pol\u00edcia \u00e0<br \/>\nvi\u00fava<\/p>\n<p>\u2014 J\u00falia Guterres, respondeu esta, sem titubear<\/p>\n<p>\u2014 Seu estado? \u2014 Vi\u00fava<\/p>\n<p>\u2014 Profiss\u00e3o? \u2014 Vivo dos meus rendimentos<\/p>\n<p>\u2014 Quais s\u00e3o eles? \u2014 Tenho a\u00e7\u00f5es, pr\u00e9dios<br \/>\ne escravos<\/p>\n<p>\u2014 Conhece Greg\u00f3rio de Souto Maior? \u2014 Muito<\/p>\n<p>\u2014 Desde quando? \u2014 H\u00e1 dois anos<\/p>\n<p>\u2014 E essa pessoa em que lhe diz respeito? \u2014 Em tudo<\/p>\n<p>\u2014 Como assim? Tenha a bondade de explicar-se<\/p>\n<p>\u2014 Eu o amo! \u2014 Perd\u00e3o, observou o Dr. Ludgero, limpando<br \/>\nno len\u00e7o as lunetas, que acabava de desarmar do nariz; pergunto se<br \/>\nessa pessoa se acha porventura implicada de qualquer forma em seus interesses..<\/p>\n<p>\u2014 De que esp\u00e9cie de interesses fala o senhor? \u2014 Dos interesses<br \/>\npecuni\u00e1rios<\/p>\n<p>\u2014 Absolutamente, respondeu J\u00falia com um gesto de impaci\u00eancia<\/p>\n<p>\u2014 E quais s\u00e3o os seus interesses em que ela se acha implicada?<br \/>\nSim! Visto ter a senhora, quando lhe falei dos interesses pecuni\u00e1rios,<br \/>\nlembrando outros, \u00e9 porque..<\/p>\n<p>\u2014 Referia-me aos interesses de meu cora\u00e7\u00e3o, de minha<br \/>\nfelicidade! \u2014 Ah! \u2014 Posso diz\u00ea-lo abertamente, porque sou<br \/>\nlivre e senhora de minhas a\u00e7\u00f5es; pe\u00e7o-lhe todavia que<br \/>\nn\u00e3o insista nesse terreno&#8230; H\u00e1 certas coisas na exist\u00eancia<br \/>\nde uma mulher, que lhe n\u00e3o poderiam ser arrancadas do cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nsem um grande abalo do pudor, ou talvez de dignidade!..<\/p>\n<p>\u2014 Compreendo perfeitamente, respondeu o chefe de pol\u00edcia, colocando<br \/>\nde novo as lunetas; mas a senhora deve saber que eu, no lugar em que estou,<br \/>\ncumpro um dever sagrado! A justi\u00e7a, minha senhora, tem por obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo cargo violar friamente todos os recintos e todos os segredos. Quanto n\u00e3o<br \/>\nme custa ouvir \u00e0s vezes os pormenores de uma desgra\u00e7a vergonhosa<br \/>\nou de alguma negra mis\u00e9ria de fam\u00edlia? Mas assim \u00e9 preciso;<br \/>\neu aqui n\u00e3o sou um homem, sou simplesmente um instrumento da Lei. Tenha<br \/>\npois a bondade de abrir o cora\u00e7\u00e3o e dizer-me tudo o que sabe<br \/>\na respeito de Greg\u00f3rio, que me poupar\u00e1 dessa forma o sacrif\u00edcio<br \/>\nde tortur\u00e1-la com o meu interrogat\u00f3rio<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que quer o Sr. que lhe diga?&#8230; Do que serve a minha pobre<br \/>\nopini\u00e3o a respeito de uma pessoa, a quem acabo de confessar que adoro?&#8230;<br \/>\nGreg\u00f3rio, por pior que fosse para os outros, seria sempre para mim<br \/>\no ideal dos homens! O senhor, que naturalmente conhece o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nda mulher, deve compreender o que h\u00e1 de sincero e verdadeiro nas minhas<br \/>\npalavras. N\u00f3s quando amamos, desejamos por tal modo descobrir boas<br \/>\nqualidades e brilhantes dotes no objeto do nosso amor, que, seja ele a mais<br \/>\nruim das criaturas, nos aparece, \u00e0 luz maravilhosa de nossa dedica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nradiante e belo como o sol! \u2014 Conclui-se do que a senhora acaba de dizer,<br \/>\nque, apesar de supor Greg\u00f3rio o melhor dos homens, n\u00e3o sustentar\u00e1<br \/>\nque ele seja incapaz de cometer um crime..<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tive semelhante id\u00e9ia! Considero Greg\u00f3rio<br \/>\ncom os defeitos da sua idade e do seu temperamento. Ele seria capaz de cometer<br \/>\nqualquer leviandade, qualquer tolice, mas nunca uma inf\u00e2mia!..<\/p>\n<p>\u2014 Sabe do que o suspeitam? \u2014 Ouvi vagamente dizer, aqui mesmo,<br \/>\nque se trata de um roubo e de um assass\u00ednio<\/p>\n<p>\u2014 E o que mais sabe a esse respeito? \u2014 \u00c9 justamente por<br \/>\nn\u00e3o saber mais nada, que lhe vou pedir o obs\u00e9quio de dizer o<br \/>\nque h\u00e1<\/p>\n<p>Constou-me agora \u00e0 noite que ele fora preso, mas tudo isso \u00e9<br \/>\nt\u00e3o vago e t\u00e3o incerto que..<\/p>\n<p>\u2014 Conhece este anel? E o chefe passou a J\u00falia um anel de homem<br \/>\ncom pedra de cornalina<\/p>\n<p>\u2014 Sim, disse ela a examin\u00e1-lo; parece-me que o reconhe\u00e7o.<br \/>\n\u00c9 o mesmo ou \u00e9 muito parecido com um que dei a Greg\u00f3rio<br \/>\nno dia de seus anos<\/p>\n<p>\u2014 Este anel foi encontrado no lugar do crime e corrobora as suspeitas<br \/>\nsobre Greg\u00f3rio<\/p>\n<p>\u2014 Valha-me Deus! exclamou J\u00falia; mas pode n\u00e3o ser o<br \/>\nmesmo!..<\/p>\n<p>\u2014 Temos ainda um outro corpo de delito. Examine bem este farrapo de<br \/>\ncasimira e queira ver se lembra de ter visto algum dia Greg\u00f3rio vestido<br \/>\ncom um palet\u00f3 da cor desta fazenda<\/p>\n<p>A vi\u00fava tomou nas m\u00e3os o farrapo que lhe passou o chefe, e<br \/>\nficou a examin\u00e1-lo atentamente<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o?.. disse a autoridade, vendo que ela n\u00e3o respondia.<br \/>\nLembra-se? \u2014 N\u00e3o sei. Sr. doutor; \u00e9 isto uma circunst\u00e2ncia<br \/>\nt\u00e3o pequena, que foge inteiramente da mem\u00f3ria..<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 destas pequeninas circunst\u00e2ncias que se tiram as<br \/>\nconclus\u00f5es l\u00facidas sobre qualquer crime, minha senhora; n\u00e3o<br \/>\npodemos desprezar nada. Tenha a bondade de declarar se recorda de ter visto<br \/>\nGreg\u00f3rio algum dia vestido desta fazenda<\/p>\n<p>\u2014 Ele usava freq\u00fcentemente roupas escuras, mas algumas vezes,<br \/>\nmuito poucas, a passeio no campo ou de volta de um jantar de amigos, creio<br \/>\nque o vi vestido de cor alvadia..<\/p>\n<p>\u2014 Mas desta cor, precisamente desta, n\u00e3o o viu nunca, minha<br \/>\nsenhora? \u2014 N\u00e3o me recordo absolutamente, Sr. chefe<\/p>\n<p>\u2014 Ele era pr\u00f3digo, extravagante? \u2014 Para ser pr\u00f3digo<br \/>\n\u00e9 preciso ter fortuna, e Greg\u00f3rio vivia do que ganhava com o<br \/>\ntrabalho..<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabe se ele gostava de prazeres ruidosos?..<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; ao que suponho, n\u00e3o<\/p>\n<p>\u2014 Nunca o viu \u00e9brio?..<\/p>\n<p>\u2014 Nunca! \u2014 Recebeu dele muitos obs\u00e9quios? \u2014 De<br \/>\nque esp\u00e9cie?..<\/p>\n<p>\u2014 Obs\u00e9quios de valor, em presentes, em d\u00e1divas de pre\u00e7o..<\/p>\n<p>\u2014 Os objetos que conservo dele, s\u00f3 t\u00eam valor para mim,<br \/>\nporque vieram de suas m\u00e3os..<\/p>\n<p>\u2014 Ele ent\u00e3o n\u00e3o despendia muito com a senhora?..<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o havia necessidade disso..<\/p>\n<p>\u2014 Em que qualidade freq\u00fcentava a sua casa? \u2014 Na qualidade<br \/>\nde meu amigo, a quem me aprouve franquear toda a minha exist\u00eancia e<br \/>\ntodo o meu cora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>\u2014 Desejava v\u00ea-lo ainda?..<\/p>\n<p>\u2014 Com muito gosto! \u2014 Sabe onde ele est\u00e1? \u2014 Disseram-me<br \/>\nhoje que estava preso<\/p>\n<p>\u2014 Sabe que de tinha um casamento marcado para hoje \u00e0 tarde?<br \/>\n\u2014 Sei, respondeu a vi\u00fava, deixando transparecer o desgosto que<br \/>\nlhe causava tal pergunta<\/p>\n<p>\u2014 E sabe o resultado desse casamento? \u2014 A noiva esperou inutilmente;<br \/>\nGreg\u00f3rio n\u00e3o apareceu<\/p>\n<p>\u2014 E por que ele n\u00e3o apareceu? \u2014 Naturalmente porque o<br \/>\nhaviam prendido..<\/p>\n<p>\u2014 Entretanto, ele n\u00e3o foi preso. Escondeu-se ou fugiu, justamente<br \/>\npouco depois do crime<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se sabe ent\u00e3o onde ele est\u00e1?! \u2014 N\u00e3o,<br \/>\nminha senhora, respondeu friamente o Dr. Ludgero, levantando-se, e acrescentou:<br \/>\n\u2014 Bem, por ora nada mais temos a perguntar. Pode retirar-se e esperar<br \/>\nque a citem para um novo interrogat\u00f3rio<\/p>\n<p>J\u00falia saiu e a segunda testemunha foi introduzida no gabinete do<br \/>\nchefe<\/p>\n<p>Era o velho Jac\u00f3, criado de Greg\u00f3rio<\/p>\n<p>\u2014 Espere um instante, disse a autoridade, indo at\u00e9 \u00e0<br \/>\nporta, por onde vira passar um pol\u00edcia secreta<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o?&#8230; perguntou a este em voz baixa; descobriu algu\u00e9m<br \/>\nque possa esclarecer o neg\u00f3cio?..<\/p>\n<p>\u2014 Sim, Sr. chefe<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9? \u2014 A menina do Bandolim, uma mocinha italiana,<br \/>\nque, em companhia do irm\u00e3o, toca bandolim no caf\u00e9 de Java<\/p>\n<p>\u2014 Ah! fez o Dr. Ludgero<\/p>\n<p>Antes de prosseguirmos, \u00e9 necess\u00e1rio, por\u00e9m, dar dois<br \/>\ndedos de explica\u00e7\u00e3o a respeito do que h\u00e1 de comum entre<br \/>\na menina do Bandolim e o suspeito Greg\u00f3rio<\/p>\n<p>Uma noite, sete horas em ponto, o nosso her\u00f3i, vestido com esmero<br \/>\ne corre\u00e7\u00e3o de quem deseja agradar a olhos exigentes, meteu-se<br \/>\nno bonde em caminho da cidade, e s\u00f3 apeou para tomar o da Tijuca. Escusado<br \/>\ndizer que n\u00e3o era o rico panorama do arrabalde o que atra\u00eda<br \/>\no mo\u00e7o \u00e0quelas horas. E n\u00e3o menos escusado \u00e9 declarar<br \/>\nque esp\u00e9cie de \u00edm\u00e3 o puxava para ali com tanta for\u00e7a<\/p>\n<p>Em certa altura Greg\u00f3rio saltou em terra defronte de um chal\u00e9,<br \/>\npintadinho de novo e meio apadrinhado do sol, pela folhagem de algumas \u00e1rvores;<br \/>\napadrinhado durante o dia, bem entendido, porque durante a noite o padrinho<br \/>\nera um formid\u00e1vel c\u00e3o negro, que bradava armas a todo o vulto,<br \/>\nsuspeito ou n\u00e3o, que passasse pela esquina<\/p>\n<p>E tanto assim que, mal Greg\u00f3rio se aproximou do port\u00e3o, j\u00e1<br \/>\no tal padrinho ladrava a bom ladrar<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 quieto, Netuno! exclamou o mo\u00e7o, fazendo vibrar<br \/>\na campainha<\/p>\n<p>Veio logo a criada e Greg\u00f3rio perguntou: \u2014 Ela est\u00e1<br \/>\nem casa? Este modo de saber se a pessoa que vamos a visitar est\u00e1 em<br \/>\ncasa, prova alguma coisa, prova, pelo menos, que Greg\u00f3rio era j\u00e1<br \/>\nt\u00e3o familiar da criada quanto o era de Netuno, e por conseguinte que<br \/>\naquela visita poderia ter todos os m\u00e9ritos, menos o da novidade<\/p>\n<p>\u2014 Saiu, respondeu a criada, abaixando o rosto<\/p>\n<p>O mo\u00e7o n\u00e3o retorquiu, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se foi;<br \/>\nficou a sacudir a perna, apoiado na bengala, assobiando<\/p>\n<p>A criada, com o rosto metido entre dois varais da grade, em que se sustinha<br \/>\ncom ambas as m\u00e3os, esperava que ele resolvesse qualquer coisa<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o saiu, hein?&#8230; insistia Greg\u00f3rio, interrompendo<br \/>\no assobio e bamboleando a perna com mais for\u00e7a<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, disse a criada, bocejando<\/p>\n<p>E os dois ficaram calados por algum tempo; afinal Greg\u00f3rio mostrou<br \/>\ntomar uma resolu\u00e7\u00e3o e acrescentou: \u2014 Ora v\u00e1 dizer-lhe<br \/>\nque eu bem sei que ela est\u00e1 em casa..<\/p>\n<p>\u2014 Minha ama saiu! sustentou a criada, a rir-se<\/p>\n<p>\u2014 Homem, fa\u00e7a o que lhe digo! \u2014 Gentes! Ela n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1!..<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea ent\u00e3o n\u00e3o quer ir?! Bem..<\/p>\n<p>E Greg\u00f3rio fez o movimento de quem se afasta, levando uma inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde vingan\u00e7a<\/p>\n<p>\u2014 Eu vou ver! exclamou a criada, largando os varais do port\u00e3o<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio voltou logo, como se fosse puxado por todo o corpo<\/p>\n<p>A criada desapareceu nas sombras duvidosas do jardim e, pouco depois, ouviu-se<br \/>\no som de uma voz de mulher que parecia ralhar dentro do chal\u00e9<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio sorriu sozinho e retomou o fio da m\u00fasica que assobiava<\/p>\n<p>Quando havia gasto j\u00e1 uns dois minutos de assobio, abriu-se uma das<br \/>\njanelas do chal\u00e9 e desenhou-se contra luz da sala a figura simp\u00e1tica<br \/>\nda vi\u00fava<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 voltou?! disse Greg\u00f3rio, transpondo o port\u00e3o<br \/>\ne indo postar-se debaixo da janela<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o disse que n\u00e3o voltava mais aqui?! perguntou<br \/>\na outra por sua vez<\/p>\n<p>E como Greg\u00f3rio n\u00e3o respondesse:<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m olhe que ningu\u00e9m o iria buscar!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Disso sei eu!&#8230; observou o rapaz, armando um gesto de quem medita.<br \/>\nE acrescentou depois: \u2014 Bem tolo seria se acreditasse em amores&#8230; de<br \/>\nvi\u00favas.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, por que voltou?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Voltei&#8230; nem sei porque&#8230; Antes com efeito n\u00e3o tivesse<br \/>\nvindo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois ainda est\u00e1 em tempo de voltar por onde veio!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o! respondeu Greg\u00f3rio. Boa noite! \u2014<br \/>\nN\u00e3o v\u00ea que era capaz&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea duvida? \u2014 Duvidava! respondeu J\u00falia.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio deu uma volta sobre os calcanhares e encaminhou-se para<br \/>\no port\u00e3o, sem dizer palavra.<\/p>\n<p>\u2014 Nhonh\u00f4! gritou a vi\u00fava, quando o rapaz j\u00e1 transpunha<br \/>\na sa\u00edda.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? perguntou ele, voltando-se com afetada indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Vem c\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que deseja de mim? \u2014 Entre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea? A vi\u00fava fez um movimento de ombros e foi<br \/>\nabrir a porta da sala.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio subiu e ela o recebeu com um beijo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! disse ele; olhe que a senhora \u00e0s vezes tem coisas<br \/>\nbem esquisitas! \u2014 Presumido!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o me esqueci do que se passou aqui no outro dia&#8230;<br \/>\n\u2014 A\u00ed vem a tolice!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tolice n\u00e3o! A senhora riu-se para ele! \u2014 Bem caso fa\u00e7o<br \/>\neu agora daquele tipo! Um esgani\u00e7ado! \u2014 Sim! mas a senhora n\u00e3o<br \/>\nlhe tirava os olhos de cima!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Foi para isso que veio c\u00e1?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o queria entrar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o para que entrou?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Queria ver se me encontrava com o tal bar\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Com que fim? se faz favor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Para pedir-lhe que a tratasse com toda a delicadeza!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o era preciso; o bar\u00e3o \u00e9 a cortesia personificada!<br \/>\n\u2014 Pois case-se com ele! \u2014 Quem sabe, hein?! E os dois continuaram<br \/>\na altercar meio dessentidos, meio alegres, at\u00e9 que Greg\u00f3rio<br \/>\ntomou o chap\u00e9u, despediu-se e saiu, sem fazer pazes completas.<\/p>\n<p>Entre o largo de S. Francisco e o ponto dos bondes de Botafogo, onde tinha<br \/>\nele de tomar o das Laranjeiras, ao passar pelo caf\u00e9 de Java, descobriu<br \/>\nalgu\u00e9m que o fez parar. Encostou-se \u00e0 parede da Notre-Dame e<br \/>\nficou a olhar muito para um sujeito de idade duvidosa, cabelos e barba exageradamente<br \/>\npretos e lustrosos, olhar vivo, gestos cerimoniosos e chap\u00e9u alto.<\/p>\n<p>Era o bar\u00e3o.<\/p>\n<p>A um dos cantos do caf\u00e9 a Menina do Bandolim dedilhava as cordas<br \/>\ndo seu instrumento ao lado do irm\u00e3o, e parecia inteiramente preocupada<br \/>\ncom a m\u00fasica.<\/p>\n<p>O bar\u00e3o devorava-a com os olhos, enquanto em outra mesa mais afastada,<br \/>\num rapaz louro, bastante magro, de mon\u00f3culo, gestos bra\u00e7ais<br \/>\nmuito angulosos, falava a um grupo de quatro ou cinco amigos que o escutavam<br \/>\ncom interesse; tratava-se de pol\u00edtica revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>No fim de meia hora, o bar\u00e3o saiu do caf\u00e9, e, depois de alguns<br \/>\npassos pelo largo de S.<\/p>\n<p>Francisco, falou em particular a um homem que parecia esperar por ele, e<br \/>\nseguiu tranq\u00fcilamente na dire\u00e7\u00e3o da rua do Teatro.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio viu tudo isto e principiou a seguir com a vista o novo personagem.<\/p>\n<p>Todavia, a Menina do Bandolim, que acabava de recolher o instrumento a um<br \/>\nsaco de baeta escura, retirava-se por sua vez com o irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio acompanhou-os a certa dist\u00e2ncia.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a> VI PRIMEIRO ENCONTRO<\/h2>\n<p>Enquanto Greg\u00f3rio acompanha em dist\u00e2ncia a Menina do Bandolim,<br \/>\ntemos que ver ainda alguma coisa no caf\u00e9 donde ela saiu.<\/p>\n<p>V\u00e1rios sujeitos se ergueram logo, e l\u00e1 se foram retirando<br \/>\nvagarosamente; outros se deixaram ficar ainda a beber e a dar \u00e0 l\u00edngua.<br \/>\nA mesa do rapaz louro de mon\u00f3culo n\u00e3o sofreu a menor altera\u00e7\u00e3o;<br \/>\ncontinuava o orador a falar, sempre com loquacidade, e os outros continuavam<br \/>\na ouvilo com a mesma aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dois novos consumidores acabavam de entrar, conversando em voz baixa, muito<br \/>\nanimadamente. Pelo modo que discutiam, adivinhava-se facilmente que o mesmo<br \/>\ninteresse os prendia a um s\u00f3 assunto.<\/p>\n<p>Eram ambos de meia-idade; um, por\u00e9m, apresentava ser mais velho e<br \/>\nde melhores costumes que o companheiro. Em si nada tinham afinal que pudesse<br \/>\nchamar a aten\u00e7\u00e3o ao primeiro lance de vista; trajavam vulgarmente<br \/>\nroupas baratas e cada qual trazia o seu chap\u00e9u de sol, como um s\u00edmbolo<br \/>\nde paz burguesa.<\/p>\n<p>Assentaram-se defronte um do outro, pediram cerveja nacional e prosseguiram<br \/>\nna conversa com o mesmo cauteloso empenho.<\/p>\n<p>Deu meia-noite. Os sujeitos que ainda ocupavam as mesinhas do caf\u00e9,<br \/>\nforam desaparecendo, at\u00e9 que o dono da casa, dirigindo-se aos dois<br \/>\n\u00faltimos, lhes participou que desejava fechar as portas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o que parecia menos velho atirou os olhos para o rel\u00f3gio,<br \/>\nfez um sinal afirmativo e, sempre a conversar, ganhou com o companheiro a<br \/>\nrua.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que lhe digo, segredou-lhe o outro, quando sa\u00edam;<br \/>\npode contar comigo! Diga ao comendador que estou pronto para o que der e vier&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Posso ent\u00e3o dizer ao comendador Portela que voc\u00ea quer?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pode.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, nesse caso, precisamos amanh\u00e3 mesmo entender-nos com<br \/>\nele. Onde nos devemos encontrar?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Onde quiser. Aqui no caf\u00e9 por exemplo.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 dito. Ent\u00e3o at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9! respondeu o companheiro, tomando o largo de S. Francisco.<\/p>\n<p>Mas voltou pouco depois, para perguntar ainda alguma coisa ao ouvido do<br \/>\noutro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! respondeu este; o melhor \u00e9 levar voc\u00ea uma<br \/>\nboa navalha! Deixemo-nos de inova\u00e7\u00f5es! Cada um com o que aprendeu!<br \/>\n\u2014 Bem&#8230;<\/p>\n<p>E separaram-se.<\/p>\n<p>Entretanto, a Menina do Bandolim seguia pela rua do Teatro, com o passo<br \/>\nseguro e apressado de quem n\u00e3o deseja demorar-se pelo caminho. Um homem<br \/>\nsaindo de uma esquina, pretendeu apoderar-se dela: Greg\u00f3rio por\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o lhe dera tempo para isso, colocando-se entre os dois e repelindo<br \/>\no agressor a bengaladas.<\/p>\n<p>A mocinha soltou um grito, chegou-se para o irm\u00e3o, e deitou com este<br \/>\na correr em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 que levavam.<\/p>\n<p>\u2014 Diga ao bar\u00e3o que ainda n\u00e3o foi desta vez! gritou<br \/>\nGreg\u00f3rio para o sujeito a quem espancara, e seguiu o rumo que tomara<br \/>\na sua protegida.<\/p>\n<p>Quando se convenceu de que ela estava fora de perigo, retirou-se para casa.<\/p>\n<p>A menina, com o sobressalto em que ficou na ocasi\u00e3o de ser agredida,<br \/>\nn\u00e3o p&amp;oocirc;de agradecer a generosidade de Greg\u00f3rio, mas guardou<br \/>\nbem na mem\u00f3ria a sua fisionomia e desde ent\u00e3o principiou a distingui-lo<br \/>\nintimamente com certa estima.<\/p>\n<p>S\u00f3 dois meses depois do conflito se tornaram a encontrar. Ela, como<br \/>\nnessa ocasi\u00e3o estivesse em meio de uma pe\u00e7a que tocava, limitou-se<br \/>\na cumpriment\u00e1-lo com a cabe\u00e7a e a sorrir para ele de modo reconhecido;<br \/>\nmas, terminada a m\u00fasica, pousou o bandolim sobre uma cadeira e, depois<br \/>\nde receber a esp\u00f3rtula das mesas, foi agradecer-lhe de viva voz o obs\u00e9quio<br \/>\nque havia recebido.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca mais lhe sucedeu outra? perguntou-lhe Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor. Depois daquela vez fa\u00e7o-me acompanhar<br \/>\nsempre por mais um parente meu, que me vem buscar aqui.<\/p>\n<p>E ficaram um instante a conversar, quando Greg\u00f3rio reparou que uma<br \/>\nmulher havia parado \u00e0 porta do caf\u00e9, a olhar investigadoramente<br \/>\npara ele. Reconheceu-a logo e correu ao seu encontro.<\/p>\n<p>Era a vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bonito!&#8230; disse esta, quando Greg\u00f3rio conseguiu alcan\u00e7\u00e1-la.<br \/>\nPode voltar para onde estava!&#8230;<\/p>\n<p>E como Greg\u00f3rio ficasse a rir com ar de pouco caso: \u2014 O senhor<br \/>\nnem precisava levantar-se para vir ter comigo!&#8230; era melhor que ficasse l\u00e1<br \/>\nmesmo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-te disso! \u2014 Vou deixar-me \u00e9 de ligar tanta import\u00e2ncia<br \/>\na quem n\u00e3o o merece! Neste ponto foram interrompidos por duas senhoras<br \/>\nque pararam para falar com J\u00falia.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio despediu-se e seguiu a dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria<br \/>\nao caf\u00e9 da Menina do Bandolim. No fim da rua parou, comprou charutos<br \/>\ne, \u00e0 vista de um an\u00fancio de espet\u00e1culo, resolveu ir ao<br \/>\nteatro.<\/p>\n<p>Ao entrar na plat\u00e9ia teve de afastar-se para dar passagem a uma fam\u00edlia,<br \/>\ncomposta de tr\u00eas senhoras e um cavalheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! O Greg\u00f3rio! exclamou este ao v\u00ea-lo, e escancarou<br \/>\nos bra\u00e7os expansivamente.<\/p>\n<p>\u2014 Roberto! gritou o rapaz, atirando-se-lhe nos bra\u00e7os. N\u00e3o<br \/>\nsabia que tinhas voltado! \u2014 Vim ontem.<\/p>\n<p>\u2014 Mas como foste l\u00e1 pelo norte? Que fizeste? Que me contas<br \/>\nde novo?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nada, isto \u00e9, casei-me. Olha, aqui tens minha mulher&#8230; E<br \/>\nvoltando-se para uma das senhoras: \u2014 Sinhazinha, este \u00e9 o Greg\u00f3rio,<br \/>\num menino que deixei quase do tamanho desta bengala e venho encontrar mais<br \/>\nalto do que eu! E acrescentou, cortando uma risada e designando as outras<br \/>\nsenhoras: \u2014 D. Janu\u00e1ria, velha amiga de minha mulher, e sua bela<br \/>\nfilha adotiva, D. Clorinda.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3 h\u00e1s de ir jantar comigo e ficas prevenido de que te<br \/>\nn\u00e3o dispenso um s\u00f3 domingo! E o espet\u00e1culo passou-se<br \/>\ntodo em conversa.<\/p>\n<p>Ao levantar-se no dia seguinte, Greg\u00f3rio notou que sentia no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\num desejo vago, e, nesta d\u00favida, neste estado vacilante da vontade,<br \/>\npassou a manh\u00e3 inteira e passou tamb\u00e9m todo o jantar, apesar<br \/>\nda alegria ruidosa de Roberto.<\/p>\n<p>S\u00f3 \u00e0 noite, com a chegada de D. Janu\u00e1ria e da pupila,<br \/>\n\u00e9 que Greg\u00f3rio conseguiu descobrir o que tanto desejava ele<br \/>\nesse dia \u2014 era ver Clorinda.<\/p>\n<p>N\u00e3o esperou segundo convite para jantar todos os domingos com o amigo.<br \/>\nDuas raz\u00f5es o levaram a isso: a primeira porque aquele costumava reunir<br \/>\nem casa algumas pessoas, entre as quais D. Janu\u00e1ria e sua ador\u00e1vel<br \/>\nfilha adotiva; a segunda raz\u00e3o saber\u00e1 o leitor daqui a pouco.<br \/>\nPor enquanto precisamos falar de outra coisa.<\/p>\n<p>As reuni\u00f5es do Dr. Roberto eram muito limitadas; pouca gente aparecia<br \/>\nal\u00e9m da que acabamos de citar.<\/p>\n<p>A mulher, D. Carolina, n\u00e3o dava muito para etiquetas, se bem que<br \/>\nfosse de seu natural amiga de agradar e servir. Gostava, por\u00e9m, que<br \/>\nn\u00e3o a tirassem da sua liberdade e do seu c\u00f4modo.<\/p>\n<p>Isso mesmo dizia o ar descansado e bondoso da sua figura gorda e linf\u00e1tica;<br \/>\ncontudo, era muito raro se lhe surpreender nos l\u00e1bios o menor gesto<br \/>\nde contrariedade.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio, quando a visitou pela primeira vez, passou algumas horas<br \/>\nassentado ao seu lado, e sentiu-se durante esse tempo ir pouco a pouco penetrando<br \/>\ndo ar morno, indiferentemente satisfeito, que respirava dela toda, como a<br \/>\npr\u00f3pria temperatura do corpo.<\/p>\n<p>Carolina n\u00e3o se levantara sequer para o receber, mas demorara nas<br \/>\nsuas m\u00e3os algum tempo a do rapaz e indagara-lhe da sa\u00fade com<br \/>\num riso esparrinhado por todo o rosto. \u00c0s vezes parecia que ela se<br \/>\ndeixava ficar assim a sorrir indeterminadamente, por esquecimento ou por pregui\u00e7a<br \/>\nde suspender o sorriso.<\/p>\n<p>Suas fei\u00e7\u00f5es estavam sempre abertas, como as gavetas de um<br \/>\ndesmazelado; mas olhava-se para dentro delas, com o desinteresse com que se<br \/>\nolha para o interior de gavetas vazias.<\/p>\n<p>Nada a sobressaltava, nada a afligia. Pela manh\u00e3, \u00e0s dez horas,<br \/>\na criada ia ajud\u00e1-la a sair da cama para o banho morno; servia-lhe<br \/>\ndepois uma papa de leite e farinha de mandioca, e passava a pente\u00e1-la,<br \/>\ncal\u00e7\u00e1-la e vesti-la. Durante esse tempo as duas, senhora e criada,<br \/>\nconversavam, devagar, molemente, assuntos bambos, sem interesse para ningu\u00e9m<br \/>\ne ma\u00e7adoramente virgulados de grandes pausas.<\/p>\n<p>Carolina gostava em extremo que lhe mexessem na cabe\u00e7a, estimava<br \/>\nque a criada demorasse bem o arranjo de seus cabelos, durante o qual se repoltreava<br \/>\nela na cadeira, toscanejando uma voluptuosidade surda e espessa, de gata saciada.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes adormecia nessas ocasi\u00f5es e era preciso que a criada<br \/>\na chamasse depois para o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Comia muito compassadamente, aos bocadinhos, como uma crian\u00e7a gulosa.<br \/>\nEra doida por doces e quitutes. Quando passava pelo a\u00e7ucareiro tirava<br \/>\nem geral um pouco de a\u00e7\u00facar, com que cobria a l\u00edngua.<br \/>\nFazia muita quest\u00e3o na escolha dos pratos. Recomendava de v\u00e9spera,<br \/>\ndurante o almo\u00e7o ou o jantar, o que lhe apetecia comer no dia seguinte,<br \/>\ne a algumas iguarias mais do seu gosto, como por exemplo a moqueca de peixe,<br \/>\nela s\u00f3 saboreava sem talher, \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>O marido por muito tempo procurou reagir contra esses h\u00e1bitos sedent\u00e1rios;<br \/>\nexp\u00f4s \u00e0 mulher os inconvenientes de uma exist\u00eancia sem<br \/>\nexerc\u00edcio, sem preocupa\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cie alguma,<br \/>\nofereceu-lhe livros, lembrou-lhe a jardinagem, falou de tudo o que podia honestamente<br \/>\nprender o esp\u00edrito de uma senhora ou obrig\u00e1-la a qualquer esfor\u00e7o<br \/>\nf\u00edsico; mas nada conseguiu; Carolina n\u00e3o se abalara e, quando<br \/>\no marido insistia muito nas suas costumadas censuras, ela respondia com todo<br \/>\no descanso: \u2014 Ora, seu Roberto, deixe cada um com seu g\u00eanio!&#8230;<\/p>\n<p>E Carolina ficou no que era.<\/p>\n<p>Esteve gr\u00e1vida, e a gravidez s\u00f3 lhe parecia antip\u00e1tica,<br \/>\nporque a obrigava a sair um tanto dos seus h\u00e1bitos sedent\u00e1rios.<br \/>\nO filho tomou a resolu\u00e7\u00e3o de morrer antes do nascimento. E fez<br \/>\nbem.<\/p>\n<p>Contrastava vivamente com o tipo da dona da casa, uma de suas visitas mais<br \/>\nconstantes e mais da sua intimidade \u2014 D. Josefina de Brito; a mesma<br \/>\nque no primeiro cap\u00edtulo, por ocasi\u00e3o do gorado casamento de<br \/>\nGreg\u00f3rio, t\u00e3o indignada se mostrou, na qualidade de madrinha,<br \/>\ncom o estranho procedimento do noivo.<\/p>\n<p>D. Josefina era a ant\u00edtese perfeita da amiga. O que tinha esta de<br \/>\nfl\u00e1cida e moleirona, tinha a outra de ativa, impaciente, curiosa e<br \/>\nralhadeira. Nunca ficava sossegada num lugar: de manh\u00e3 \u00e0 noite<br \/>\nvivia a saracotear pela casa, a dar f\u00e9 de tudo, at\u00e9 que enfiava<br \/>\no vestido, punha a capa e corria \u00e0s amigas para boquejar sobre os conhecidos.<\/p>\n<p>Falava de tudo e de todos sem o menor escr\u00fapulo, e desconfiava de<br \/>\ntoda a esp\u00e9cie de homem, passados, presentes e futuros. O longo e rigoroso<br \/>\ncelibato, a que sempre vivera amarrada e que por muito tempo lhe zurzira os<br \/>\nnervos, acabara por torn\u00e1-la fren\u00e9tica e ruim. Josefina tudo<br \/>\nperdoava a qualquer pessoa, menos a felicidade do amor, nem admitia que algu\u00e9m<br \/>\ntomasse a s\u00e9rio isso a que ela chamava \u201cMal de tolos!\u201d<br \/>\nNesse ponto extremava perfeitamente com a outra, que se comprazia em acompanhar<br \/>\nvoluptuosamente o progresso de qualquer namoro, e at\u00e9 a auxili\u00e1-lo;<br \/>\no que muito devia aproveitar a Greg\u00f3rio, como efetivamente teremos<br \/>\nocasi\u00e3o de ver mais adiante.<\/p>\n<p>Mas deixemos tudo isso \u00e0 margem, para nos ocuparmos da segunda raz\u00e3o<br \/>\nque levou Greg\u00f3rio a jantar todos os domingos com o Dr. Roberto.<\/p>\n<p>Essa raz\u00e3o era a circunst\u00e2ncia especial de haver se retirado<br \/>\npara a Europa a fam\u00edlia com quem morava o rapaz.<\/p>\n<p>Tal raz\u00e3o aparecer\u00e1 pouco \u00f3bvia \u00e0 primeira vista,<br \/>\npor\u00e9m n\u00e3o \u00e9. O leitor, se nunca morou em fam\u00edlia<br \/>\nou se nunca teve de separar-se daquela com quem convivera indefinidamente,<br \/>\nn\u00e3o poder\u00e1 avaliar o alcance do que avan\u00e7amos; mas, se<br \/>\nao contr\u00e1rio, o leitor \u00e9 um desses muito infelizes, que de um<br \/>\nmomento para outro se v\u00eaem privados das pessoas com quem habitava, para<br \/>\nseguir um destino de desordem e bo\u00eamia, o leitor nesse caso avaliar\u00e1<br \/>\no peso de nossas considera\u00e7\u00f5es e sentir\u00e1 o valor da opress\u00e3o<br \/>\nem que ficou o nosso pobre her\u00f3i com a partida da fam\u00edlia entre<br \/>\na qual vivia.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ter experimentado o que isso \u00e9, para saber quanto<br \/>\ncusta. Antes da separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00edamos capazes<br \/>\nde imaginar o estado em que ficamos; ent\u00e3o, at\u00e9 se nos afigurava<br \/>\nque a coisa n\u00e3o havia de ser objeto de pena e m\u00e1goa. Suponhamos<br \/>\nque a vida exterior, com seus teatros, as suas palestras de caf\u00e9, os<br \/>\nseus almo\u00e7os ruidosos e cheios de riso, as suas aventuras picantes,<br \/>\nas suas perip\u00e9cias, as suas alegrias ef\u00eameras, compensariam perfeitamente<br \/>\na conviv\u00eancia habitual e burguesmente amiga daqueles com quem mor\u00e1vamos.<br \/>\nIlus\u00e3o! pura ilus\u00e3o! A rua, o teatro, as soir\u00e9es, os<br \/>\npasseios, a conversa descuidosa dos amigos, n\u00e3o substituem absolutamente<br \/>\no que nos falta em casa. Todo esse conjunto de impress\u00f5es, todo esse<br \/>\nbarulho de gozos, mais ou menos passageiros, n\u00e3o nos enchem o v\u00e1cuo<br \/>\ninsond\u00e1vel deixado por aqueles, em cujos cora\u00e7\u00f5es nos<br \/>\npod\u00edamos refugiar confiantemente, quando volt\u00e1vamos desiludidos<br \/>\ne cansados de percorrer toda a escala das falsas sensa\u00e7\u00f5es exteriores.<\/p>\n<p>Aben\u00e7oados lares. Qu\u00e3o pouco \u00e9 necess\u00e1rio para<br \/>\no bom resultado de vosso mister sagrado e consolador! Uma pequena vivenda<br \/>\nhumilde e pobre, um pouco de sol, um pouco de ar, o produto de algumas horas<br \/>\nde trabalho, tudo isto iluminado de amor e boa vontade \u2014 e eis a\u00ed<br \/>\nos elementos de uma felicidade completa.<\/p>\n<p>Comparai os dois sentidos. De um lado o desafei\u00e7oado p\u00e2ndego,<br \/>\nque vive au jour le jour, comprando f\u00f4lego a f\u00f4lego a sua vida<br \/>\nin\u00fatil e ego\u00edsta; de outro lado o trabalhador modesto, que moureja<br \/>\ndurante o dia para prover a subsist\u00eancia da mulher que ama e a dos filhinhos<br \/>\nque \u00e0 noite o esperam. Um vai aos teatros, bebe, ri, galanteia as mulheres,<br \/>\nmas volta para a cama do hotel em que mora ou da amante que lhe pertence na<br \/>\nocasi\u00e3o, com o corpo cansado e gasto e a alma desconfortada e fria.<br \/>\nTudo lhe causa aborrecimento, tudo o enche de t\u00e9dio: os amigos, os<br \/>\nprazeres e o pr\u00f3prio v\u00edcio. Acorda sempre de mau humor, n\u00e3o<br \/>\nencontra em coisa alguma um lado que o seduza e prenda. Enquanto o outro,<br \/>\no burro de carga, aquele que durante o dia, em vez de gastar, ganhou; aquele<br \/>\nque devia ao chegar \u00e0 noite sentir-se cansado e indisposto, esse entra<br \/>\nem casa quase sempre cantarolando e sempre sorrindo; abra\u00e7a a mulher,<br \/>\nbeija os filhos, afaga o c\u00e3o, d\u00e1 uma vista de olhos pelo jardim<br \/>\ne assenta-se ao lado dos seus para cear, feliz, confortado, fortalecido pela<br \/>\ndignidade do seu esfor\u00e7o, aben\u00e7oado por aqueles que vivem da<br \/>\nsua atividade e do seu amor, e afinal deita-se a dormir, tranq\u00fcilamente,<br \/>\ncom o cora\u00e7\u00e3o despreocupado, o sangue fresco e a consci\u00eancia<br \/>\nlisonjeada.<\/p>\n<p>Tais foram as considera\u00e7\u00f5es que fez Greg\u00f3rio, quando<br \/>\nse sentiu s\u00f3 e desamparado de qualquer afei\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Que terr\u00edvel noite a primeira que ele passou depois que partiu a<br \/>\nfam\u00edlia com quem morava! Tudo lhe parecia triste e insoci\u00e1vel;<br \/>\ntudo o encarava com uma fisionomia dura e antip\u00e1tica; os mesmos trastes<br \/>\nda casa, dantes t\u00e3o familiares e amigos nas conversas de depois do<br \/>\njantar, se mostravam agora concentrados e macamb\u00fazios, como se tivessem<br \/>\nalguma raz\u00e3o de queixa contra ele; parecia que os moradores haviam<br \/>\nmorrido todos e que andavam seus esp\u00edritos a pairar nos ares silenciosamente,<br \/>\ncomo o fumo preso dentro de uma sala.<\/p>\n<p>Foi nestas circunst\u00e2ncias que viu pela primeira vez Clorinda e que<br \/>\naceitou sem discutir o convite para jantar aos domingos em casa do Dr. Roberto.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio sonhara quanto n\u00e3o seria bom fazer exist\u00eancia<br \/>\nao lado de uma mulher mo\u00e7a, bonita e carinhosa.<\/p>\n<p>\u2014 Definitivamente era preciso casar! pensava de; aquela vida miser\u00e1vel<br \/>\nde homem solteiro n\u00e3o lhe poderia convir! ganhava o bastante para si<br \/>\ne para a mulher; n\u00e3o tinha por conseguinte raz\u00f5es que o for\u00e7assem<br \/>\na contrariar as suas aspira\u00e7\u00f5es e&#8230; diga-se tudo, o seu amor,<br \/>\nporque afinal de contas j\u00e1 amava Clorinda e j\u00e1 n\u00e3o podia<br \/>\nimaginar a felicidade sen\u00e3o em companhia dessa criatura ador\u00e1vel.<\/p>\n<p>A vi\u00fava, sem que ningu\u00e9m lho dissesse, compreendeu e avaliou<br \/>\ntudo o que se passava no esp\u00edrito do seu amante. Como mulher de experi\u00eancia,<br \/>\nadivinhara, ao primeiro sintoma dos novos amores de Greg\u00f3rio, a tempestade<br \/>\nque se armava, e, ainda como mulher de experi\u00eancia, tratou de disfar\u00e7ar<br \/>\no seu sobressalto e desviar a nuvem carregada de eletricidade.<\/p>\n<p>Mas tudo foi debalde: pouco depois Greg\u00f3rio pediu Clorinda em casamento<br \/>\ne as coisas tomaram o caminho que o leitor j\u00e1 conhece.<\/p>\n<p>Mal sabiam, coitados! o que lhes estava reservado ainda! VII APALPADELAS<br \/>\nJ\u00falia, ao sair da secretaria de pol\u00edcia, levava o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nencharcado de sobressaltos; as d\u00favidas, os terrores, as saudades do<br \/>\namante, enchiam-na toda de uma grande tristeza hist\u00e9rica.<\/p>\n<p>Entrou em casa sem dar uma palavra \u00e0 criada, que a seguia com os<br \/>\nolhos espantados. Depois, arremessou o chap\u00e9u, a capa, e afinal a roupa,<br \/>\ne deitou-se de bru\u00e7os na cama, a solu\u00e7ar desesperadamente.<\/p>\n<p>\u00c0s sete horas da manh\u00e3, quando a criada penetrou no seu quarto,<br \/>\npara lhe entregar um papel que vinha da pol\u00edcia, achou-a j\u00e1<br \/>\nde p\u00e9 e vestida em trajos de sair.<\/p>\n<p>\u2014 Que mais teremos?! perguntou ela consigo, sem disfar\u00e7ar o<br \/>\naborrecimento.<\/p>\n<p>Era uma nova intima\u00e7\u00e3o policial.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda est\u00e1 a\u00ed o portador disto? perguntou \u00e0<br \/>\ncriada, depois de correr os olhos pelo papel que tinha nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhora; retirou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Bem. Eu saio depois do almo\u00e7o. Olha, se na minha aus\u00eancia<br \/>\nvier procurar-me quem quer que seja, dize-lhe que tenha a bondade de esperar<br \/>\num pouco. N\u00e3o me demorarei.<\/p>\n<p>Mal tinha acabado de pronunciar estas palavras, quando vibrou fora a campainha.<br \/>\nA criada correu ao port\u00e3o, e voltou logo, dizendo que um homem de meia-idade<br \/>\ne bem vestido procurava pela senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Faze-o entrar para a sala.<\/p>\n<p>E a criada fez entrar o Dr. Roberto.<\/p>\n<p>\u2014 Desculpe-me, se tomo a liberdade de incomod\u00e1-la, minha senhora,<br \/>\nsem ter a honra de conhec\u00ea-la, mas desde ontem que ando doido por saber<br \/>\nqualquer not\u00edcia a respeito de Greg\u00f3rio; e, j\u00e1 porque<br \/>\nme consta que ele n\u00e3o lhe \u00e9 igualmente indiferente, como porque<br \/>\nsei que V. Exa.<\/p>\n<p>conversou com a noiva e conversou tamb\u00e9m com a pol\u00edcia, n\u00e3o<br \/>\nresisti ao desejo de vir pessoalmente pedir-lhe que me diga com franqueza<br \/>\no que \u00e9 feito desse pobre mo\u00e7o, a quem estimo como se fosse<br \/>\nmeu filho. Ia ser seu padrinho de casamento e fui por bem dizer o padrinho<br \/>\ndo seu amor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Ele conheceu Clorinda em minha casa, e eu, convencido<br \/>\nde que s\u00f3 a fam\u00edlia traz consigo certa estabilidade e certo<br \/>\namor pelo trabalho, procurei o melhor que pude aproxim\u00e1-los um de outro.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Greg\u00f3rio, continuou o Dr. Roberto, tem bom car\u00e1ter,<br \/>\nmuito cora\u00e7\u00e3o, algum talento, mas muito pouco ju\u00edzo.<br \/>\n\u00c9 dos meus! A vida de solteiro acabaria por inutiliz\u00e1-lo completamente;<br \/>\nsonhei aquele malogrado casamento como se fosse eu pr\u00f3prio o noivo!<br \/>\nCalcule, por conseguinte, minha senhora, como n\u00e3o estarei desapontado,<br \/>\ntonto, com o que se passou, e como n\u00e3o estarei louco por saber que<br \/>\nfim levou o nosso pobre Greg\u00f3rio! \u2014 Ele amava muito a noiva?<br \/>\n\u2014 Extraordinariamente.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe disso com toda certeza?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que interesse o poderia levar a casar sen\u00e3o o amor?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E ela correspondia a esse afeto? \u2014 Creio que com o mesmo entusiasmo.<br \/>\nPor que me pergunta isso, minha senhora? \u2014 Naturalmente porque isso<br \/>\nme interessa. O senhor foi o \u00fanico encaminhador do casamento de Greg\u00f3rio?<br \/>\n\u2014 Pelo menos o mais empenhado para que ele se realizasse.<\/p>\n<p>\u2014 E tem ainda esperan\u00e7as nessa realiza\u00e7\u00e3o? \u2014<br \/>\nTerei depois que V. Exa. mas der, declarando o que sabe a respeito de Greg\u00f3rio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei tanto como o senhor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabe nada a esse respeito?! \u2014 Nada?! Pois o senhor<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 a par das pesquisas policiais sobre Greg\u00f3rio?<br \/>\nn\u00e3o sabe que ele \u00e9 acusado de um crime de morte e de roubo?!<br \/>\n\u2014 \u00c9 imposs\u00edvel! exclamou o doutor, fazendo um gesto de<br \/>\nindigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a verdade! sustentou J\u00falia com tristeza. Infelizmente,<br \/>\n\u00e9 a pura verdade! \u2014 Mas o que os leva a supor semelhante coisa?<br \/>\n\u2014 Sei c\u00e1! O fato de haver ele desaparecido por ocasi\u00e3o<br \/>\ndo crime, o fato de ter ele sabido que a v\u00edtima recebera nesse dia<br \/>\nvinte contos em dinheiro, e enfim o fato de ser encontrado no lugar do delito<br \/>\num anel que pertencia ao acusado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 inacredit\u00e1vel!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O que mais me admira \u00e9 n\u00e3o estar o senhor a par de<br \/>\ntudo isto! \u2014 Como poderia estar, se ainda n\u00e3o voltei \u00e0<br \/>\ncasa da noiva; tenho gasto o meu tempo a procurar Greg\u00f3rio por toda<br \/>\na parte. Quando soube que ele desaparecera, corri \u00e0s Laranjeiras; o<br \/>\nJac\u00f3, por\u00e9m, n\u00e3o me adiantou a menor id\u00e9ia&#8230;<\/p>\n<p>E os dois conversaram ainda largamente sobre o mesmo assunto, sem que nenhum<br \/>\ndeles conseguisse achar o fio do enigma.<\/p>\n<p>O Dr. Roberto retirou-se afinal para casa, torturado de incertezas e receoso<br \/>\nde uma grande calamidade.<\/p>\n<p>J\u00falia compareceu ao novo inqu\u00e9rito.<\/p>\n<p>\u2014 Conhece a Menina do Bandolim? perguntou-lhe o chefe de pol\u00edcia<br \/>\nao cabo de seu interrogat\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser, mas se a conhe\u00e7o, n\u00e3o ligo o nome \u00e0<br \/>\npessoa.<\/p>\n<p>\u2014 Tenha a bondade de ver este desenho; ele d\u00e1 uma id\u00e9ia<br \/>\nperfeita de quem falamos.<\/p>\n<p>E o chefe passou \u00e0 vi\u00fava um quarto de papel branco, onde havia<br \/>\num esbo\u00e7o a pena.<\/p>\n<p>J\u00falia mal olhou para o papel, exclamou: \u2014 Ah! J\u00e1 sei!<br \/>\nAgora sei quem \u00e9.<\/p>\n<p>E, apesar da situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o p\u00f4de deixar de rir.<\/p>\n<p>Era uma excelente caricatura da Menina do Bandolim, desenhada a tra\u00e7os<br \/>\nlargos pelo Raul Pomp\u00e9ia. Esse desenho mais tarde foi reproduzido pelo<br \/>\npr\u00f3prio autor e oferecido \u00e0 galeria da saudosa Gazetinha, donde<br \/>\no subtraiu naturalmente algum pol\u00edcia secreta.<\/p>\n<p>\u2014 Donde a conhece? perguntou em seguida o chefe.<\/p>\n<p>\u2014 De uma noite, em que por acaso a vi conversando com Greg\u00f3rio<br \/>\n\u00e0 mesa do caf\u00e9 de Java.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe quais eram as rela\u00e7\u00f5es entre ela e o acusado?<br \/>\n\u2014 Absolutamente; calculo, por\u00e9m, que n\u00e3o passariam de<br \/>\num ligeiro namoro sem conseq\u00fc\u00eancias. Essa menina \u00e9 honesta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Conhece a letra do acusado? \u2014 Perfeitamente.<\/p>\n<p>\u2014 Tenha a bondade de ver esta carta.<\/p>\n<p>E passando-lhe uma carta que tirou de um ma\u00e7o de pap\u00e9is: \u2014<br \/>\nParece-lhe escrita por ele? \u2014 Sim, esta letra \u00e9 de Greg\u00f3rio<br \/>\nou muito se assemelha \u00e0 dele.<\/p>\n<p>\u2014 Fa\u00e7a o favor de ler, disse o chefe.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuerida Teresa\u201d.<\/p>\n<p>Mas como fizesse logo um ar de d\u00favida, o chefe esclareceu: \u2014<br \/>\nTeresa \u00e9 o nome da Menina do Bandolim.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse a vi\u00fava, e continuou a leitura: \u201cOntem n\u00e3o<br \/>\nme foi poss\u00edvel ver-te um s\u00f3 instante: o trabalho prendeu-me<br \/>\nat\u00e9 tarde; hoje, por\u00e9m, creio que terei a ventura de contemplar-te<br \/>\npor muito tempo. Se at\u00e9 l\u00e1 n\u00e3o me houverem j\u00e1<br \/>\ndevorado as saudades, aproveitarei a ocasi\u00e3o para te comunicar que<br \/>\nchegou o momento de transformarmos a nossa sorte. Vai realizar-se aquilo,<br \/>\ne com isso se realizar\u00e1 tamb\u00e9m o nosso casamento. Ah! quanto<br \/>\nsou feliz s\u00f3 com pensar em semelhante coisa&#8230; Adeus, at\u00e9 logo,<br \/>\npensa um pouquinho em mim e tem confian\u00e7a na minha coragem. \u2014<br \/>\nTeu G.\u201d Seguia-se a data.<\/p>\n<p>\u2014 Essa carta foi escrita justamente na v\u00e9spera do crime, afirmou<br \/>\no chefe.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu ent\u00e3o nada entendo de tudo isto, porque a v\u00e9spera<br \/>\ndo crime era igualmente a v\u00e9spera do casamento de Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora possui a letra do acusado? \u2014 Sim, senhor, e creio<br \/>\nque a tenho aqui mesmo, respondeu a vi\u00fava, remexendo na sua bolsa.<\/p>\n<p>Ah! c\u00e1 est\u00e1 um bilhete seu, acrescentou ela, passando uma<br \/>\ntira de papel ao chefe de pol\u00edcia.<\/p>\n<p>O bilhete constava apenas disto: \u201cNhanh\u00e3. \u2014 N\u00e3o<br \/>\nposso ir, como prometi, fazer-te companhia domingo ao jantar. Chegou da Europa<br \/>\num velho amigo meu, o Dr. Roberto, e tenho de estar com ele esse dia. Desculpa<br \/>\ne recebe saudades. \u2014 Do teu.\u201d N\u00e3o havia assinatura. O chefe<br \/>\nperguntou quem era aquele Roberto e, depois de sair a vi\u00fava, ordenou<br \/>\nque o intimassem para comparecer \u00e0 sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Continuava pois o processo, mas a pol\u00edcia principiava a desesperar<br \/>\ndo nenhum \u00eaxito dos seus trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o. Os<br \/>\ndepoimentos seguiam-se quase sem intermit\u00eancia; nada por\u00e9m de<br \/>\naparecer o autor do crime! Os corpos de delito destru\u00edam-se uns aos<br \/>\noutros. Fez o interrogat\u00f3rio do velho Jac\u00f3, da noiva, dos padrinhos,<br \/>\ndos convidados para o casamento e nada! Greg\u00f3rio n\u00e3o aparecia,<br \/>\nnem tampouco aparecia algum ind\u00edcio que servisse de orienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto Clorinda foi pouco a pouco se habituando \u00e0 id\u00e9ia<br \/>\nda aus\u00eancia do seu noivo e voltando aos h\u00e1bitos primitivos de<br \/>\nmenina. A viuvez sem luto n\u00e3o \u00e9 viuvez. Regressavam-lhe em breve<br \/>\nos sorrisos ao rosto, como voltam as flores na primavera.<\/p>\n<p>Passaram o primeiro e o segundo m\u00eas, ao terceiro j\u00e1 as coisas<br \/>\npareciam novamente metidas nos seus eixos. A casa de D. Janu\u00e1ria retomava<br \/>\no ar que possu\u00eda antes do malogrado casamento; veio de novo o comendador<br \/>\nPortela, sempre muito preocupado com a sua pessoa, veio D.<\/p>\n<p>Josefina com o seu mau g\u00eanio, veio o Dr. Roberto, acompanhado pela<br \/>\nsua inalter\u00e1vel esposa, e veio o Jo\u00e3o Rosa, aquele sujeitinho<br \/>\nmagro e ativo, que no primeiro cap\u00edtulo parecia muito empenhado no<br \/>\nbom \u00eaxito do cons\u00f3rcio.<\/p>\n<p>Aos domingos, \u00e0 noite, reuniam-se eles invariavelmente em casa de<br \/>\nD. Janu\u00e1ria, ou em casa do Dr. Roberto.<\/p>\n<p>\u00c9 em uma dessas noitadas de palestras, que os vamos encontrar agora<br \/>\ntodos juntos em casa da boa velha.<\/p>\n<p>S\u00e3o oito horas. O comendador acabara de entrar, de fitinha ao peito,<br \/>\ne corre um por um os circunstantes a cumpriment\u00e1-los com enormes frases.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! A nossa querida Sra. D. Janu\u00e1ria, como tem passado, depois<br \/>\nda \u00faltima vez em que tive o prazer de v\u00ea-la? perguntava ele \u00e0<br \/>\nm\u00e3e adotiva de Clorinda, apertando-lhe a m\u00e3o, todo vergado para<br \/>\nfrente, a bambolear o corpo.<\/p>\n<p>\u2014 Assim, assim&#8230; respondeu aquela, dando um suspiro.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! os tempos n\u00e3o andam bons! n\u00e3o andam! Ainda ontem,<br \/>\nconversando em uma soir\u00e9e do Ministro da Fazenda, com a viscondessa<br \/>\nda Boa Estrela, disse-me ela que ultimamente tem uma pequena febre todas as<br \/>\nnoites&#8230;<\/p>\n<p>E voltando-se para os outros: \u2014 \u00c9 verdade! Sabem quem est\u00e1<br \/>\ntamb\u00e9m incomodado? o bar\u00e3o de Mesquita! Ter\u00e7a-feira,<br \/>\nquando jant\u00e1vamos juntos&#8230; jantar simples, \u00edntimo, sem-cerim\u00f4nias!<br \/>\nAh! Ele \u00e9 muito meu camarada! tanto como o visconde do Bom Retiro!<br \/>\nMas bem! jant\u00e1vamos juntos e o bar\u00e3o de repente leva a m\u00e3o<br \/>\nao est\u00f4mago e empalidece. Coitado! N\u00e3o lhes digo nada! S\u00f3<br \/>\nontem conseguiu deixar a cama! \u2014 Sim? perguntou por condescend\u00eancia<br \/>\no Jo\u00e3o Rosa, a quem mais diretamente parecia dirigir-se o comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o! confirmou o gabarola. Mas o que quer o senhor?!&#8230;<br \/>\nn\u00f3s todos estamos sobre um grande p\u00e2ntano! Sim! o Rio de Janeiro<br \/>\n\u00e9 um grande p\u00e2ntano! N\u00e3o acha, doutor? \u2014 Est\u00e1<br \/>\nvisto! respondeu Roberto.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, quais s\u00e3o as medidas empregadas para sanar o mal?<br \/>\nNenhuma! Projetos n\u00e3o faltam, mas quanto \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nEncarregasse-me eu de providenciar sobre isso, e viriam os resultados! Havia<br \/>\nde arriscar bom dinheiro, havia! Mas juro-lhe que o trabalho apareceria! Oh!<br \/>\nn\u00f3s aqui n\u00e3o temos iniciativa de esp\u00e9cie alguma!&#8230; Uma<br \/>\nvez, em Paris, quando visitei o Thiers, disse-me ele que o Brasil estava fadado<br \/>\na representar um papel important\u00edssimo nos s\u00e9culos futuros;<br \/>\neu lhe respondi, batendo-lhe no ombro: \u201cMeu bom Sr. Thiers, n\u00e3o<br \/>\njulgue o Brasil pelos relat\u00f3rios oficiais e pelas descri\u00e7\u00f5es<br \/>\neurop\u00e9ias. O Brasil&#8230;\u201d Mas foi nisto interrompido por dois rapazes,<br \/>\nque acabavam de entrar na sala.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse D. Janu\u00e1ria, reconhecendo um deles; sempre veio?<br \/>\nE acrescentou para os outros: \u00c9 o Sr. Duque Estrada, filho de uma das<br \/>\nfam\u00edlias que me honram com a sua estima.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 parente do senador?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor, respondeu o rapaz; n\u00e3o temos parentesco<br \/>\nalgum.<\/p>\n<p>E chegando-se mais perto da dona da casa, disse-lhe, indicando o companheiro:<br \/>\n\u2014 Tenho a honra de apresentar-lhe o meu distinto amigo Adelino Fontoura,<br \/>\num belo talento! \u2014 Oh! disse o Fontoura, vergando-se reverentemente,<br \/>\ndentro do seu crois\u00e9 preto.<\/p>\n<p>E, depois de uma troca geral de cumprimentos, os dois rec\u00e9m-chegados<br \/>\nforam colocar-se no v\u00e3o de uma janela.<\/p>\n<p>\u2014 Muito se parece este rapaz com o filho de um lorde que conheci nos<br \/>\nsal\u00f5es da princesa Rattazi, disse o comendador, mostrando o Duque Estrada.<\/p>\n<p>Era este um mo\u00e7o magro, espigado, barba loura partida no queixo;<br \/>\nvestia-se \u00e0 moda, mas com simplicidade, e tinha na fisionomia o ar<br \/>\ncondescendente e atencioso dos homens educados no seio da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O outro era de menor estatura, fei\u00e7\u00f5es mais varonis, mais<br \/>\nrefor\u00e7ado de membros, um pouco \u00e1spero de rosto, cabe\u00e7a<br \/>\ngrande, achatada no cr\u00e2nio e cabelos pretos muito curtos e lustrosos.<\/p>\n<p>\u2014 Aquela \u00e9 que \u00e9 a tal menina do c\u00e9lebre casamento?&#8230;<br \/>\nperguntou Fontoura discretamente ao companheiro, indicando Clorinda, que em<br \/>\num dos \u00e2ngulos da sala conversava animadamente com o Jo\u00e3o Rosa.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, respondeu o outro.<\/p>\n<p>\u2014 Encantadora! acrescentou o Adelino. E aquele esquisito do Urbano<br \/>\nDuarte havia dito, no seu folhetim de domingo, que ela era feia!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora!.. desdenhou o Estrada, que havia chegado o ouvido perto da<br \/>\nboca do amigo; tu bem sabes quem \u00e9 Urbano para julgar mulheres! O Augusto<br \/>\nOff, por exemplo, juro-te que \u00e9 de minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o est\u00e1 ela j\u00e1 de namoro com aquele<br \/>\nsujeito?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo menos conversam muito animadamente! O que s\u00e3o as mulheres&#8230;<br \/>\ndisse o Adelino, sacudindo filosoficamente a cabe\u00e7a! Ainda n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 quatro meses que ia casar com o tal Greg\u00f3rio, e j\u00e1<br \/>\nparece hoje resolvida a aceitar outro. Quem \u00e9 aquele sujeito, conheces?<br \/>\n\u2014 Aquele que conversa com ela? \u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! de vista. \u00c9 um tipo a\u00ed do com\u00e9rcio; creio<br \/>\nque empregado em uma casa de caf\u00e9. Parece estimado.<\/p>\n<p>\u2014 Acho-o com cara de tolo! \u2014 Dizem que n\u00e3o, que \u00e9<br \/>\num sujeito muito fino para neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Clorinda levantou-se e foi para o piano.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 me tardava! resmungou Adelino, quando ouviu as primeiras<br \/>\nnotas de m\u00fasica.<\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o em que os dois companheiros se retiraram, um deles fez<br \/>\nnotar ao outro a insist\u00eancia com que Jo\u00e3o Rosa olhava para Clorinda.<\/p>\n<p>\u2014 Fiem-se em mulheres!&#8230; resmungou Adelino.<\/p>\n<p>Clorinda com efeito recebia agora com menos severidade a corte de Jo\u00e3o<br \/>\nRosa. Resistira a princ\u00edpio, chegou a repeli-lo uma vez com energia,<br \/>\nele por\u00e9m voltara pacientemente, humilde, a repetir os seus protestos<br \/>\nde amor. Ela hesitou; n\u00e3o disse abertamente que n\u00e3o, mas tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o disse que sim. Ficaram no talvez.<\/p>\n<p>D. Janu\u00e1ria \u00e9 que pouco se mostrou preocupada com o novo pretendente<br \/>\nda pupila; outra id\u00e9ia a atormentava: \u00e9 que h\u00e1 dois meses<br \/>\nn\u00e3o recebia a mesada, que at\u00e9 a\u00ed lhe chegava \u00e0s<br \/>\nm\u00e3os, e esta circunst\u00e2ncia a vinha colocar presentemente em s\u00e9rios<br \/>\nembara\u00e7os.<\/p>\n<p>Mais um m\u00eas sem mesada e a mis\u00e9ria abriria as fauces medonhas<br \/>\ne patentearia as unhas desapiedosas.<\/p>\n<p>Foi o que veio a suceder. A suspens\u00e3o da mesada colocou D. Janu\u00e1ria<br \/>\nem formid\u00e1veis apuros. A pobre senhora teve logo de encurtar a m\u00e3o<br \/>\nsobre umas tantas despesas e tomar encomendas de engomagem e costura.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o bastava; o trabalho da mulher, por mais valioso que<br \/>\nseja, \u00e9 sempre estreito e mal recompensado. Embalde, m\u00e3e e pupila,<br \/>\npuxaram heroicamente pela agulha e pelo ferro de engomar; embalde velavam<br \/>\ngrandes ser\u00f5es \u00e0 luz de um bico de g\u00e1s; nada chegava.<br \/>\nOs recursos iam minguando de dia para dia, e a casa ia perdendo o ar pr\u00f3spero<br \/>\nque at\u00e9 a\u00ed gozara.<\/p>\n<p>Conchegavam-se os horizontes, e as duas mulheres estremeciam, sentindo j\u00e1<br \/>\nde perto o tossir impertinente da mis\u00e9ria e o terr\u00edvel estalar<br \/>\ndas suas s\u00f3rdidas moletas. Para onde fugiriam elas do espectro sinistro<br \/>\nque se avizinhava a passos f\u00fanebres? No deserto da sua pobreza n\u00e3o<br \/>\navistavam ref\u00fagio, nem uma s\u00f3 palmeira amiga, que de longe lhes<br \/>\nacenasse, chamando-as \u00e0 sombra hospitaleira.<\/p>\n<p>E, assim, mais e mais se foram ambas retraindo. Fecharam-se \u00e0s visitas<br \/>\nque lhes pudessem acarretar a qualquer despesa; privaram-se de tudo que n\u00e3o<br \/>\nfosse restritamente indispens\u00e1vel. Em breve seria necess\u00e1rio,<br \/>\ndepois de vendidas as j\u00f3ias, arrancar do fundo da gaveta alguns desses<br \/>\nobjetos de valor, que \u00e0s vezes certas velhas conservam como a \u00faltima<br \/>\nlembran\u00e7a de um passado feliz.<\/p>\n<p>Ah! \u00e9 como se os arranc\u00e1ssemos do fundo do cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\nQual \u00e9 a m\u00e3e, qual \u00e9 a avozinha que n\u00e3o guarda,<br \/>\nembrulhados em papel de seda, os brincos com que casou ou a medalha em que<br \/>\nguardava o retrato do marido ou do filho? Quem n\u00e3o possui um desses<br \/>\nlegados da felicidade, que, por mais insignificante n\u00e3o represente<br \/>\ntoda uma exist\u00eancia extinta?&#8230;<\/p>\n<p>Depois de vendido o piano, a mob\u00edlia da sala de visitas e o mais<br \/>\nque podia dar alguma coisa, D. Janu\u00e1ria, na conting\u00eancia de obter<br \/>\ndinheiro, resignou-se \u00e0 separa\u00e7\u00e3o de poucos objetos de<br \/>\nluxo que conservara do tempo do marido. Abriu a velha gaveta de sua c\u00f4moda,<br \/>\nmas, ao tocar em uma caixinha de madeira polida, embalsamada pela antig\u00fcidade,<br \/>\nas m\u00e3os principiaram-lhe a tremer e as l\u00e1grimas saltaram-lhe<br \/>\ndos olhos.<\/p>\n<p>Estava a\u00ed um colar de p\u00e9rolas, que o marido lhe atara ao colo<br \/>\nna noite do casamento. Nesse tempo ela era formosa, mo\u00e7a cheia de esperan\u00e7as.<br \/>\nComo assentavam bem aquelas p\u00e9rolas na sua pele morena e fresca! mas<br \/>\ncomo desmereciam de brilho e brancura, quando ela sorria e mostrava as outras<br \/>\np\u00e9rolas da boca! Estas entretanto amareleceram e ca\u00edram, como<br \/>\nas folhas no outono, e aquelas conservavam o mesmo brilho primitivo e a mesma<br \/>\nsedutora alvura.<\/p>\n<p>Ao ver esses objetos, testemunhas da sua extinta mocidade e c\u00famplice<br \/>\ndiscretos da sua long\u00ednqua ventura, a pobre senhora transportou-se<br \/>\nao passado e ficou a meditar longamente. Que lhe restava de tudo isso?&#8230;<br \/>\nQue ficou de tanto amor, de tanta beleza, de tanta juventude?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nada! S\u00f3 ela! Ela que, por bem dizer, j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nexistia!&#8230;<\/p>\n<p>E, tomando nas m\u00e3os tr\u00eamulas os objetos que tirara da caixinha,<br \/>\nbeijou-os repetidas vezes, a abafar os solu\u00e7os, para que Clorinda n\u00e3o<br \/>\nos ouvisse da sala pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 sempre certo que te tens de separar deles? perguntava-lhe<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o, a gemer. N\u00e3o reparas, velha desalmada! que<br \/>\nesses objetos s\u00e3o a \u00fanica coisa que te fala do passado? n\u00e3o<br \/>\nreparas que em torno de ti j\u00e1 morreram todos aqueles que viveram no<br \/>\nteu tempo, aqueles que te amaram e te viram bela?! Despede-os, vende-os, mas<br \/>\nvai-te tamb\u00e9m embora para a tua cova, que nada mais tens de fazer c\u00e1<br \/>\nno mundo! Clorinda, que se aproximara da m\u00e3e, sem ser sentida, encontrou-a<br \/>\na gesticular neste mudo di\u00e1logo, a mexer com os bra\u00e7os e a sacudir<br \/>\na cabe\u00e7a, desvairadamente, em grande transbordamento de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto, m\u00e3ezinha?! Que tem a senhora?! A velha<br \/>\nolhou-a com sobressalto, e guardou contra o seio despojado o cofre das suas<br \/>\nestremecidas rel\u00edquias.<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e3ezinha! Valha-me Deus! Diga o que tem! A velha n\u00e3o<br \/>\nrespondeu e continuou a encar\u00e1-la com desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>Havia desaparecido de seu rosto a doce express\u00e3o de bondade e ternura,<br \/>\ne os olhos dela cintilaram com f\u00faria.<\/p>\n<p>Clorinda recuou, tomada de um grande terror. O vulto esquel\u00e9tico<br \/>\nda m\u00e3e fazia-lhe medo naquele momento. A velha afastou-se, a olhar<br \/>\nsempre desconfiadamente para os lados, e foi meter-se no canto mais sombrio<br \/>\nda casa, abra\u00e7ada \u00e0 caixinha que levava consigo.<\/p>\n<p>Clorinda n\u00e3o se animou a segui-la; a id\u00e9ia de que a velha<br \/>\nenlouquecera e fosse capaz de estrangul\u00e1-la no mesmo instante, atravessou-lhe<br \/>\no esp\u00edrito e agitou-lhe o corpo inteiro num estremecimento de medo.<br \/>\nQuis chamar por algu\u00e9m, quis pedir socorro, mas nada lhe ocorria nesse<br \/>\nmomento; afinal, ouvindo no interior da casa os passos tr\u00f4pegos de Janu\u00e1ria,<br \/>\nganhou o corredor e atirou-se para a rua.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o era a mesma rapariga. Principiava a emagrecer e descorar.<br \/>\nO trabalho exagerado e as noites de fadiga queimaram-lhe os olhos, ainda pouco<br \/>\nantes t\u00e3o transparentes; as faces secaram com o mau trato; a boca resfriou<br \/>\ncom a aus\u00eancia do riso, que era a sua alma; e o rosto despiu-se daquela<br \/>\nfrescura virginal, como a flor sem sol perde o perfume e deixa pender tristemente<br \/>\nseu c\u00e1lice emurchecido.<\/p>\n<p>Ela parou no meio da rua, at\u00f4nita.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que se achava assim, em trajos de casa, \u00e0s vistas<br \/>\nbrutais dos vizinhos e dos transeuntes.<\/p>\n<p>Mas o que lhe competia fazer?! Para onde devia ir?! Ah! Teve uma id\u00e9ia.<br \/>\nProcurar o Dr. Roberto, contar-lhe o que se passara e pedir-lhe socorro.<\/p>\n<p>Mas o Dr. Roberto morava no Rio Comprido, n\u00e3o sabia ela em que altura,<br \/>\neram mais de seis da tarde, faltava-lhe dinheiro para tomar um carro, e D.<br \/>\nJanu\u00e1ria precisava de cuidados imediatos.<\/p>\n<p>E, nesta conjuntura, aguilhoada pelo pudor e pelo medo, encostou-se \u00e0<br \/>\nparede da casa, e escondeu o rosto para que n\u00e3o vissem as suas l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Neste estado sentiu que algu\u00e9m lhe tocara no ombro, voltou-se rapidamente,<br \/>\ne deu, face a face, com J\u00falia Guterres.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse a pobre menina.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora n\u00e3o \u00e9 a noiva de Greg\u00f3rio? perguntou<br \/>\na outra.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sou eu! N\u00e3o me estranhe ver aqui! M\u00e3ezinha creio<br \/>\nque enlouqueceu! Tenho medo.<\/p>\n<p>Veja como tremo! \u2014 Como est\u00e1 mudada!&#8230; Mas o que tenciona<br \/>\nfazer a senhora? \u2014 N\u00e3o sei! N\u00e3o conhe\u00e7o as ruas,<br \/>\nn\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m! Tenho medo de voltar. Se visse como<br \/>\nela est\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sua m\u00e3e? \u2014 Sim; est\u00e1 furiosa! N\u00e3o sei<br \/>\no que fa\u00e7a! \u2014 Quer ir comigo? \u2014 N\u00e3o tenho \u00e2nimo<br \/>\nde abandonar m\u00e3ezinha! \u2014 Vamos buscar um m\u00e9dico? \u2014<br \/>\nPois sim.<\/p>\n<p>E a vi\u00fava chamou o primeiro carro que atravessou a rua e meteu-se<br \/>\ndentro dele com Clorinda.<\/p>\n<p>Mas logo depois de dobrar a esquina, J\u00falia fez parar o carro e gritou<br \/>\npara aquele rapaz louro que vimos conversar em uma roda no caf\u00e9 em<br \/>\nque tocava a Menina do Bandolim: \u2014 Dr. Trov\u00e3o! Dr. Trov\u00e3o!<br \/>\ntenha a bondade!&#8230;<\/p>\n<p>E depois de falar-lhe em voz baixa, seguiram os tr\u00eas para a casa de<br \/>\nD. Janu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Anoitecia.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a> VII, VIII AQUI ANDA COISA!<\/h2>\n<p>N\u00e3o trocaram uma palavra durante a viagem. Clorinda, a um canto da<br \/>\ncarruagem, resfolegava dos sobressaltos que sofrera essa tarde; o Dr. Trov\u00e3o<br \/>\nmeditava sobre o que lhe dissera a vi\u00fava; e esta, concentrada e triste,<br \/>\nperdia-se a contemplar silenciosamente o rosto desfeito e sombroso da outra.<\/p>\n<p>N\u00e3o era somente o desejo de fazer bem a Clorinda o que a levara a<br \/>\noferecer-lhe servi\u00e7os com tanta solicitude; havia nisso tamb\u00e9m<br \/>\numa parte de interesse pr\u00f3prio: a vi\u00fava precisava ouvir falar<br \/>\nde Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>O leitor, se algum dia se deixou absorver por um amor sem limites, e se,<br \/>\ndepois de haver resignado no objeto dessa paix\u00e3o todos o condutos da<br \/>\nfelicidade e da paz, se viu constrangido a consentir que ele fugisse e que<br \/>\no deixasse, s\u00f3, a bra\u00e7os com o desejo, que consome, e a bra\u00e7os<br \/>\ncom a saudade, que alimenta, deve ter notado que a essa dolorosa ruptura lhe<br \/>\nsobreveio ao cora\u00e7\u00e3o um desejar constante de ver e ouvir tudo<br \/>\naquilo que lhe recordasse o ente fugitivo e saudoso.<\/p>\n<p>Nesse estado passamos a descobrir grande interesse naquilo que h\u00e1<br \/>\npouco nos era alheio e indiferente. Parece que o cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\npodendo possuir inteiro o objeto amado, quer reconstru\u00ed-lo pelos fragmentos<br \/>\ndo seu ser espalhados pela natureza. E assim vamos apanhando, aqui e ali,<br \/>\ntudo que lhe diz respeito, tudo o que o recorde, tudo o que revele um sinal<br \/>\nda sua passagem. As palavras de algu\u00e9m que o conhece e que teve ocasi\u00e3o<br \/>\nde lhe falar, d\u00e3o-nos um prazer extraordin\u00e1rio. A simples presen\u00e7a<br \/>\nde alguma pessoa que nos lembre a mulher amada, faz-nos pulsar com mais for\u00e7a<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o. A cadeira em que ela se assentava quando est\u00e1vamos<br \/>\njuntos, o espelho em que se mirava, endireitando os cabelos antes de partir,<br \/>\ntudo isso nos fala do nosso amor e da nossa saudade, tudo isso nos transporta<br \/>\npara as \u00e9pocas felizes em que a possu\u00edamos.<\/p>\n<p>J\u00falia, com respeito a Greg\u00f3rio, estava justamente nesse caso.<br \/>\nDesde que ele se ausentara, a desditosa vi\u00fava principiou a sentir-se<br \/>\natra\u00edda para tudo aquilo que lhe recordava o amante.<\/p>\n<p>Gostava de encontrar-se com o Dr. Roberto, procurava relacionar-se com alguns<br \/>\noutros amigos de Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>E nestas circunst\u00e2ncias bem se pode calcular o interesse pr\u00f3prio<br \/>\nque a levou a socorrer Clorinda.<\/p>\n<p>Todavia, estava bem longe de imaginar a verdadeira situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nda pobre menina. Ao ver de perto a dura mis\u00e9ria que a cercava, sentiu-se<br \/>\ndeveras comovida.<\/p>\n<p>A casa parecia abandonada; n\u00e3o se ouvia ali o menor rumor. Salas<br \/>\nsem trastes, paredes nuas, arm\u00e1rios vazios, cozinha fria; tudo lhe<br \/>\ndava o melanc\u00f3lico aspecto de uma velha casa sem dono.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas subiram afinal e foram encontrar a velha Janu\u00e1ria estendida<br \/>\nno ch\u00e3o do mesmo quarto em que a deixara a filha adotiva.<\/p>\n<p>Estava im\u00f3vel, com a cabe\u00e7a pendida para o lado esquerdo e<br \/>\ncom os bra\u00e7os cruzados sobre o peito, apertando contra ele a caixinha<br \/>\ndas j\u00f3ias. Descobria-se-lhe a vida somente por um esfor\u00e7o, quase<br \/>\nimpercept\u00edvel, que fazia o corpo para respirar.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas aproximaram-se dela, e a velha, ao sentir o m\u00e9dico<br \/>\nsegurar-lhe um dos pulsos, tentou gritar e apertou mais a caixinha contra<br \/>\no seio.<\/p>\n<p>Clorinda contou as circunst\u00e2ncias que precederam \u00e0quela crise.<\/p>\n<p>\u2014 Compreendo! disse o facultativo, n\u00e3o resistiu \u00e0 prova\u00e7\u00e3o!<br \/>\nPobre criatura!&#8230;<\/p>\n<p>E, depois de examin\u00e1-la por algum tempo, declarou que s\u00f3 um<br \/>\ntratamento muito s\u00e9rio a podia salvar.<\/p>\n<p>Clorinda n\u00e3o respondeu, e as l\u00e1grimas correram-lhe dos olhos.<\/p>\n<p>\u2014 E se fossem l\u00e1 para minha casa?&#8230; lembrou a vi\u00fava<br \/>\ncom muito interesse.<\/p>\n<p>\u2014 Ir\u00edamos incomod\u00e1-la, respondeu Clorinda no auge da<br \/>\nafli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Aqui \u00e9 que ela n\u00e3o se poder\u00e1 curar, observou<br \/>\no Dr. Trov\u00e3o, se n\u00e3o vier algu\u00e9m ao seu aux\u00edlio.<\/p>\n<p>\u2014 Eu ficarei com ela&#8230; disse Clorinda.<\/p>\n<p>\u2014 Mas V. Exa. n\u00e3o precisa menos de tratamento. Se n\u00e3o<br \/>\ntomar cuidado n\u00e3o lhe dou muito tempo para cair de cama.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso aceito, pelo menos at\u00e9 que m\u00e3ezinha se<br \/>\nrestabele\u00e7a, concordou afinal a menina, com o ar acanhado de quem se<br \/>\nv\u00ea na depend\u00eancia dos obs\u00e9quios de um estranho.<\/p>\n<p>\u2014 Pois a mudan\u00e7a se far\u00e1 hoje mesmo, e o doutor ir\u00e1<br \/>\nvisit\u00e1-la com regularidade.<\/p>\n<p>O Dr. Trov\u00e3o receitou, tomou nota do n\u00famero da casa da vi\u00fava<br \/>\ne saiu, prometendo mandar imediatamente algu\u00e9m que se encarregasse<br \/>\nde transferir para l\u00e1 a doente e cuidar do mais que fosse necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia D. Janu\u00e1ria e a filha ficaram aboletadas no pitoresco<br \/>\nchalezinho da Tijuca em que morava J\u00falia.<\/p>\n<p>Clorinda comunicou o ocorrido ao Dr. Roberto e pediu-lhe que aparecesse<br \/>\npara ver a enferma. D. Janu\u00e1ria s\u00f3 no dia seguinte voltou a<br \/>\nsi, mas ainda com muita febre e fraqueza de raz\u00e3o. Uma semana depois<br \/>\napareceu Jo\u00e3o Rosa; Clorinda o recebeu com frieza. Falaram vagamente<br \/>\nsobre v\u00e1rios assuntos, mas, logo que a conversa se encaminhava para<br \/>\no casamento, ela a desviava como por instinto. Jo\u00e3o Rosa, por\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o desistia e continuava de p\u00e9 firme no seu prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>J\u00falia, considerando o estado desvantajoso de Clorinda, achava aquela<br \/>\ninsist\u00eancia extraordin\u00e1ria em um homem que n\u00e3o parecia<br \/>\ntalhado para os sacrif\u00edcios e para a dedica\u00e7\u00e3o. O ar<br \/>\naventureiro de Jo\u00e3o Rosa, o seu olhar cobi\u00e7oso e m\u00f3bil,<br \/>\na sua boca apertada e quase sem l\u00e1bios, o seu todo fur\u00e3o, seco,<br \/>\ninquieto, n\u00e3o podiam esconder um cora\u00e7\u00e3o terno e generoso.<\/p>\n<p>A vi\u00fava desconfiou dele, foi talvez a primeira que se atreveu a suspeitar<br \/>\ndas inten\u00e7\u00f5es de Jo\u00e3o Rosa. At\u00e9 a\u00ed, \u00e0<br \/>\nexce\u00e7\u00e3o do Dr. Roberto, todos os mais censuravam a rapariga<br \/>\npor n\u00e3o aceitar o novo partido que se lhe oferecia.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, que levar\u00e1 este homem a desejar com tanto interesse<br \/>\na m\u00e3o de Clorinda?&#8230; pensava a vi\u00fava. Por que a ama?&#8230; n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 poss\u00edvel; aquele tipo n\u00e3o ama sen\u00e3o o dinheiro!<br \/>\nSer\u00e1 por capricho? N\u00e3o! porque os entes tacanhos n\u00e3o<br \/>\nt\u00eam caprichos!&#8230;<\/p>\n<p>E J\u00falia, por mais tratos que desse ao esp\u00edrito, n\u00e3o<br \/>\nconseguia descobrir coisa alguma.<\/p>\n<p>Uma vez, sem querer, ouviu na pr\u00f3pria casa, o seguinte di\u00e1logo,<br \/>\ntravado entre ele e Clorinda: \u2014 Posso ent\u00e3o ter ao menos uma<br \/>\nesperan\u00e7a? perguntava Jo\u00e3o Rosa.<\/p>\n<p>\u2014 Mudemos de conversa&#8230; respondeu ela.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! A senhora hoje vai dar-me uma resposta. J\u00e1 esperei<br \/>\npor muito tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois a resposta \u00e9 que n\u00e3o. N\u00e3o o aceito para<br \/>\nmarido! \u2014 Mas reflita um pouco, D. Clorinda&#8230; Lembre-se da posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nfalsa em que se acha&#8230; N\u00e3o seria melhor que, em vez de chegarem as<br \/>\ncoisas a este extremo, tivesse a senhora resolvido a casar comigo e assim<br \/>\nevitado vir morar aqui nesta casa por obs\u00e9quio?&#8230; N\u00e3o lhe parece<br \/>\nque eu lhe poderia proporcionar uma exist\u00eancia mais segura e mais definida?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 que eu n\u00e3o quero casar com o senhor! \u2014<br \/>\nE por qu\u00ea? Por que me n\u00e3o ama?! \u2014 N\u00e3o \u00e9 s\u00f3<br \/>\nisso. Tenho-lhe amizade, mas n\u00e3o me posso casar com o senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Mas por qu\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Porque j\u00e1 estou comprometida. Meu noivo desapareceu, mas,<br \/>\nenquanto n\u00e3o me constar a sua morte, s\u00f3 a ele perten\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 E se nunca lhe constar semelhante coisa?! \u2014 Paci\u00eancia!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu n\u00e3o desanimo! Esperarei! esperarei sempre! retorquiu<br \/>\nJo\u00e3o Rosa com firmeza.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que digo! considerou a vi\u00fava. Anda nisto qualquer<br \/>\nsegredo, que obriga aquele homem a perseguir Clorinda.<\/p>\n<p>E a vi\u00fava tinha raz\u00e3o. Jo\u00e3o Rosa era muito da casa<br \/>\nde D. Janu\u00e1ria e fazia o poss\u00edvel por agradar a Clorinda, quando<br \/>\napareceu Greg\u00f3rio e com este a sua completa derrota.<\/p>\n<p>Se at\u00e9 a\u00ed a rapariga pouco se lhe mostrava propensa, quanto<br \/>\nmais depois da chegada do novo pretendente; virou-lhe as costas por uma vez,<br \/>\nvoltando-se abertamente para o outro. Jo\u00e3o Rosa ficou furioso; mas,<br \/>\ncomo n\u00e3o era homem de desistir ao primeiro obst\u00e1culo tratou<br \/>\nde retirar-se e preparar trai\u00e7oeiramente as armas para um combate sem<br \/>\ntr\u00e9guas.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio mal podia desconfiar de semelhante coisa, e continuava a<br \/>\ncultivar a flor, donde esperava colher o fruto saboroso da sua felicidade.<br \/>\nN\u00e3o faltava uma noite \u00e0 casa da noiva e a\u00ed passava horas<br \/>\nda mais doce e tranq\u00fcila esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Clorinda agradava-lhe por todos os motivos. Era bonita, simp\u00e1tica,<br \/>\ntinha bom cora\u00e7\u00e3o e parecia muito inteligente; n\u00e3o seria<br \/>\npor conseguinte de esperar que desse de si uma dessas mulheres caprichosas,<br \/>\ncheia de exig\u00eancias, sequiosas de luxo e atrofiadas pela vaidade. Uma<br \/>\nvez colocada no lar, daria com certeza um belo modelo de virtudes dom\u00e9sticas<br \/>\ne conjugais.<\/p>\n<p>Afinal pediu-a, e, como D. Janu\u00e1ria guardasse sobre a proced\u00eancia<br \/>\nda filha adotiva o mais rigoroso sigilo, ele por seu lado se absteve de indaga\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne guardou para mais tarde qualquer deslindamento. Sabia, entretanto, que a<br \/>\nnoiva n\u00e3o era filha de D. Janu\u00e1ria e sim de uma senhora de Pernambuco,<br \/>\ncujo nome nunca lhe disseram.<\/p>\n<p>Ora, o motivo daquelas reservas da velha, j\u00e1 o leitor sabe qual \u00e9,<br \/>\nnada mais, nada menos, que a bigamia do Le\u00e3o Vermelho, isto \u00e9,<br \/>\ndo pai de Clorinda e de Greg\u00f3rio, como bem se viu pelas confid\u00eancias<br \/>\nque a este fez o conde no seu palacete da Tijuca.<\/p>\n<p>Ficou todavia marcado o casamento, e os noivos pareciam nada mais esperar<br \/>\ndo que o dia feliz da sua uni\u00e3o.<\/p>\n<p>Amavam-se e amavam-se deveras. Mas, Jo\u00e3o Rosa n\u00e3o dormia;<br \/>\na princ\u00edpio lan\u00e7ara m\u00e3o de meios pequeninos para afastar<br \/>\nGreg\u00f3rio de Clorinda; escrevia cartas an\u00f4nimas, metia em circula\u00e7\u00e3o<br \/>\ncertas not\u00edcias escandalosas, que pudessem provocar a desconfian\u00e7a<br \/>\nda parte de D.<\/p>\n<p>Janu\u00e1ria e mais tarde da noiva. Mas nada disso produziu efeito.<\/p>\n<p>Os dois mo\u00e7os continuavam a amar-se mutuamente, alheios a tudo que<br \/>\nse agitava em torno deles; tinham os olhos cravados no disco luminoso da sua<br \/>\nfelicidade, e o clar\u00e3o que da\u00ed vinha os ofuscava tanto que lhes<br \/>\nn\u00e3o deixava perceber mais nada.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rosa estudou com paci\u00eancia o talho da letra do rival,<br \/>\ne com tal jeito se houve em falsific\u00e1-la, que conseguiu enganar \u00e0<br \/>\npr\u00f3pria pol\u00edcia, e, o que \u00e9 mais extraordin\u00e1rio,<br \/>\n\u00e0 pr\u00f3pria vi\u00fava J\u00falia, que de muito se havia j\u00e1<br \/>\nfamiliarizado com as cartas de Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>O leitor deve lembrar-se daquela carta amorosa, dirigida fantasticamente<br \/>\npor Greg\u00f3rio \u00e0 Menina do Bandolim, e que mais tarde figurou<br \/>\nnos autos policiais. Pois essa carta era produto daquela esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio nunca dispensara \u00e0 Menina do Bandolim mais do que<br \/>\ncerta simpatia respeitosa, inspirada pelo desejo de perseguir o bar\u00e3o,<br \/>\nque a requestava, e talvez um tanto pelo seu esp\u00edrito rom\u00e2ntico,<br \/>\nsempre propenso a intervir no que tivesse ressaibos de fantasia. A Jo\u00e3o<br \/>\nRosa n\u00e3o escaparam as poucas vezes que ele se encontrara e conversara<br \/>\ncom tal menina, e procurou tirar disso algum partido. Da\u00ed a carta;<br \/>\ncarta, que nunca chegou \u00e0s m\u00e3os da pessoa a quem era dirigida,<br \/>\nmas que foi maquiavelicamente parar em poder do chefe de pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Nada disso, por\u00e9m, tem valor algum ao lado do que ainda produziu<br \/>\no esp\u00edrito perverso e ambicioso de Jo\u00e3o Rosa.<\/p>\n<p>Antes do aparecimento de Greg\u00f3rio em casa de D. Janu\u00e1ria,<br \/>\nj\u00e1 ele o conhecia de vista no com\u00e9rcio e sabia de seus neg\u00f3cios;<br \/>\nde sorte que, come\u00e7ando depois a persegui-lo na sombra, sabia perfeitamente<br \/>\no rumo dos passos do inimigo e fazia com mais seguran\u00e7a as pontarias<br \/>\ndo seu \u00f3dio.<\/p>\n<p>Mas, ainda assim, nada conseguiu; Greg\u00f3rio parecia protegido por<br \/>\nm\u00e3o misteriosa que o afastava de todos os perigos. Nestas circunst\u00e2ncias<br \/>\nviu Jo\u00e3o Rosa chegar a v\u00e9spera do casamento e teve \u00edmpetos<br \/>\nde cometer tudo para destru\u00ed-lo; lembrou-se dos maiores disparates,<br \/>\npensou em assassinar Greg\u00f3rio, mas faltou-lhe para tanto resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ne coragem.<\/p>\n<p>Na impot\u00eancia suprema deste desespero, o vaso veio proteg\u00ea-lo,<br \/>\npermitindo que fosse ele um dos primeiros contempladores da v\u00edtima<br \/>\nassassinada perto dos armaz\u00e9ns de rap\u00e9 de Paulo Cordeiro. Jo\u00e3o<br \/>\nRosa sabia perfeitamente que Greg\u00f3rio estava muito a par do dinheiro,<br \/>\nque na v\u00e9spera entrara para aquela casa, dando lugar ao crime; e, como<br \/>\npouco antes havia intencionalmente subtra\u00eddo o anel de Greg\u00f3rio,<br \/>\nsem contudo saber ainda que partido tiraria dele, colocou-o ao lado do morto<br \/>\ne tratou em conversas de encaminhar as suspeitas para o dono da j\u00f3ia.<\/p>\n<p>E, como isso talvez n\u00e3o chegasse a tempo de transformar as n\u00fapcias,<br \/>\nenviou logo uma den\u00fancia ao chefe de pol\u00edcia, e correu para<br \/>\na casa da noiva com a id\u00e9ia de preparar por l\u00e1 o terreno.<\/p>\n<p>Calcule agora o leitor qual n\u00e3o foi a princ\u00edpio o seu contentamento,<br \/>\nquando viu que Greg\u00f3rio n\u00e3o aparecia, e depois qual n\u00e3o<br \/>\nfoi a sua surpresa, ao saber que o rapaz n\u00e3o fora apanhado pela pol\u00edcia<br \/>\ne que desaparecera, sem que ningu\u00e9m soubesse explicar por que e para<br \/>\nonde.<\/p>\n<p>Mas qual era o motivo que levava Jo\u00e3o Rosa a desejar com tanta insist\u00eancia<br \/>\nunir-se a Clorinda?! O amor n\u00e3o podia ser! como observou j\u00e1<br \/>\na vi\u00fava. Que seria pois? Eis o que conv\u00e9m quanto antes p\u00f4r<br \/>\n\u00e0s claras: Jo\u00e3o Rosa, de seu natural curioso e bisbilhoteiro,<br \/>\nlogo que se deu em casa de D. Janu\u00e1ria, ficou mordido de interesse<br \/>\npor descobrir donde vinha aquela estranha e gorda mesada, com que ela e a<br \/>\npupila subsistiam t\u00e3o decentemente. E desde ent\u00e3o n\u00e3o<br \/>\ndescansou. Era preciso descobrir a fonte daquele mist\u00e9rio ou ele ficaria<br \/>\ndevorado pela curiosidade. Mas o pior \u00e9 que a velha, por mais que fizesse<br \/>\no bisbilhoteiro, nunca deixava escapar uma \u00fanica palavra que o encaminhasse<br \/>\nno segredo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rosa indagava para todos os lados, espiava de esguelha as gavetas,<br \/>\napanhava sorrateiramente os fragmentos de pap\u00e9is que ca\u00edam no<br \/>\nch\u00e3o, quando em sua presen\u00e7a D. Janu\u00e1ria abria qualquer<br \/>\ncarta. Mas nada conseguia. Afinal, depois de muito excogitar, chegou a descobrir<br \/>\no portador da mesada: era um portugu\u00eas velho e gordo, propriet\u00e1rio<br \/>\nde um pequeno armaz\u00e9m de secos e molhados para os confins da rua da<br \/>\nQuitanda. Meteu-se de amizade com o homem, e tanto fez, tanto virou, que conseguiu<br \/>\nenfim saber que aquele dinheiro era enviado pelo pr\u00f3prio pai de Clorinda,<br \/>\nque vivia em Portugal e passava por morto no Brasil, em virtude de umas tantas<br \/>\ncoisas que ele narrador ignorava.<\/p>\n<p>E terminou declarando que esse tal sujeito de Portugal era homem de grande<br \/>\nfortuna e havia naturalmente de leg\u00e1-la \u00e0 \u00fanica filha<br \/>\nque possu\u00eda \u2014 Clorinda.<\/p>\n<p>Tanto bastou para acender no onzen\u00e1rio cora\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o<br \/>\nRosa a cobi\u00e7a daquela menina, E, quando mais tarde veio a saber que<br \/>\no Le\u00e3o Vermelho falecera em Portugal com o nome de Jo\u00e3o Brasileiro,<br \/>\ndeixando um \u00fanico herdeiro existente no Brasil, justamente como disse<br \/>\no conde a Greg\u00f3rio, Jo\u00e3o Rosa, que ignorava a rela\u00e7\u00e3o<br \/>\ndeste com o falecido, guardou o seu segredo contra D. Janu\u00e1ria e Clorinda,<br \/>\ne tratou de, a todo transe, apoderar-se da suposta legat\u00e1ria.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a> IX O COMENDADOR PELO AVESSO<\/h2>\n<p>Tratemos agora de esclarecer os verdadeiros tr\u00e2mites do crime, de que<br \/>\nfoi injustamente suspeito o pobre Greg\u00f3rio, e puxemos \u00e0s vistas<br \/>\nde quem nos l\u00ea a figura do seu principal autor e a daqueles que lhe<br \/>\nserviram de c\u00famplices.<\/p>\n<p>Deve ainda estar lembrado o leitor de dois tipos de meia-idade, que dialogavam<br \/>\nno caf\u00e9 da Menina do Bandolim e, t\u00e3o empenhados se achavam no<br \/>\nassunto de sua conversa, que s\u00f3 resolveram levantar o v\u00f4o, quando<br \/>\nlhes foi dizer o dono da casa que desejava fechar as portas.<\/p>\n<p>Um desses dois tipos, justamente o que parecia mais mo\u00e7o, estava<br \/>\nh\u00e1 muitos anos ao servi\u00e7o do comendador Portela. Chamava-se<br \/>\nPedro Sarmento e era na sua roda conhecido pelo cognome de Talha-certo. Fora<br \/>\nna inf\u00e2ncia aprendiz marinheiro, depois serviu na guerra do Paraguai,<br \/>\ncomo volunt\u00e1rio do ex\u00e9rcito, e, afinal, sem profiss\u00e3o,<br \/>\nnem padrinhos, ca\u00edra na depend\u00eancia do comendador, a quem servia<br \/>\nde guarda-costas.<\/p>\n<p>O comendador Portela tinha h\u00e1bitos muito especiais, muito seus; h\u00e1bitos<br \/>\nde viver na intimidade, totalmente oposto \u00e0quelas jact\u00e2ncias<br \/>\nque lhe vimos blasonar em casa de D. Janu\u00e1ria.<\/p>\n<p>No privado de sua casa era outro homem. Despia-se ent\u00e3o das fuma\u00e7as<br \/>\nda rua e dava-se todo ao prazer de estar \u00e0s soltas com o criado. A\u00ed<br \/>\nn\u00e3o armava posi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o peneirava a frase, n\u00e3o<br \/>\nlembrava a sua import\u00e2ncia social, nem as suas franquias de homem rico;<br \/>\nao contr\u00e1rio, parecia farejar o que houvesse de mais banal e de mais<br \/>\ndecotado para lhe servir de palestra com o f\u00e2mulo.<\/p>\n<p>E, uma vez achado o fio do assunto, espojava-se nele, voluptuosamente, como<br \/>\nse quisesse refocilar das fidalgas que lhe impunha o seu artificioso viver<br \/>\nsocial.<\/p>\n<p>Ele, que nas salas, ao ouvir falar da quebra do banco tal, da fal\u00eancia<br \/>\ndeste ou daquele negociante, do bom ou mau \u00eaxito de tais e de tais empresas,<br \/>\nsacudia sempre os ombros com desd\u00e9m e dizia entre dentes que tudo isso<br \/>\neram \u201cBagatelas! Bagatelas!\u201d; ouvia, entretanto, com muito interesse<br \/>\nas frioleiras que \u00e0 noite, ao despi-lo para a cama, lhe contava em<br \/>\ncamaradagem o seu Talha-certo. E, quando mais fr\u00edvolo era o assunto,<br \/>\ntanto mais ele o esmiu\u00e7ava, o esmerilhava, interrompendo-o com perguntas<br \/>\ncuriosas, e fazendo exclama\u00e7\u00f5es de surpresa, e obrigando o criado<br \/>\na repetir o fato com mais minud\u00eancia e convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois atirava-se \u00e0 cama e, todo retra\u00eddo nos len\u00e7\u00f3is<br \/>\ne abra\u00e7ado aos travesseiros, deixando s\u00f3 de fora o seu car\u00e3o<br \/>\nafogueado, provocava Talha-certo a novos esclarecimentos, e saboreava as palavras<br \/>\ndo criado com um gosto pueril de crian\u00e7a mexeriqueira.<\/p>\n<p>O Talha-certo, que j\u00e1 lhe conhecia as manhas, dava-lhe a lambiscar<br \/>\nsomente coisinhas lisonjeiras e, com muita adula\u00e7\u00e3o, arranjava<br \/>\nsempre meios de incensar o vaidoso. Ora lhe contava o que a seu respeito lobrigara<br \/>\nde tal dama; ora referia um fato rid\u00edculo de algum sujeito, que pretendesse<br \/>\ncompetir em fortuna com o Portela; ora, finalmente, tirava ele mesmo do tur\u00edbulo<br \/>\ne passava a defumar o patr\u00e3o por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>E estes pequeninos enc\u00f4mios, obscuros e sem garantia, punham no mal-educado<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o do comendador um prazer delicioso.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o o tal sujeito gostava de me ouvir falar, hein, Talha-certo?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?! ficou abismado! disse que vossemec\u00ea falava que<br \/>\nnem um padre!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-os l\u00e1! Ainda n\u00e3o ouviram nada!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! Mas olhe que vossemec\u00ea tem um modo \u00e0s vezes<br \/>\nde dizer as coisas, que faz a gente ficar mesmo pasmado! \u2014 Achas, Talha-certo?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou eu s\u00f3 quem acha, s\u00e3o todos! \u2014<br \/>\nCoisas! No dia seguinte, Portela envergava a sobrecasaca, metia-se no chap\u00e9u<br \/>\nalto de castor, enfiava as luvas, tomava a bengala de cast\u00e3o de ouro<br \/>\ne, quando ganhava a rua com o seu passo arrogante, a sua grande figura aprumada<br \/>\ne sobranceira, ningu\u00e9m seria capaz de adivinhar que ia ali a mesma<br \/>\ntola criatura, que adormecera na v\u00e9spera a babar-se com os gabos de<br \/>\num criado inepto.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m era s\u00f3 o Talha-certo quem desfrutava as privan\u00e7as<br \/>\ndo comendador e quem lhe devassava tais fraquezas de intimidade; para os mais<br \/>\nera Portela o mesmo personagem cioso da sua \u201calta estima\u00e7\u00e3o\u201d<br \/>\ne da sua \u201cirrecus\u00e1vel valia\u201d.<\/p>\n<p>E quem precisasse obter qualquer coisa das m\u00e3os dele, nunca a alcan\u00e7aria<br \/>\nsen\u00e3o por interm\u00e9dio do seu privado. Mas, em compensa\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom esse tudo se obtinha, desde uma simples carta de fian\u00e7a at\u00e9<br \/>\nao melhor empenho para qualquer ministro.<\/p>\n<p>Foi em uma daquelas conversas pueris que o comendador veio a saber que Pedro<br \/>\nRuivo estava no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Pedro Ruivo?! exclamou Portela, saltando da cama e desfazendo o<br \/>\nsemblante piegas, com que costumava ouvir as confid\u00eancias do criado.<br \/>\nPedro Ruivo?! N\u00e3o est\u00e1s enganado, Talha-certo? \u2014 N\u00e3o<br \/>\nestou, n\u00e3o senhor. Era ele em pessoa; apenas tinha as barbas mais crescidos<br \/>\ne a cabe\u00e7a mais calva. Quando o vi, reconheci-o logo, por aquele sestro<br \/>\nantigo de sacudir a cabe\u00e7a para a esquerda &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora esta! rosnou o comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Quando digo que vossemec\u00ea me devia ter deixado aviar com uma<br \/>\nboa navalhada aquela peste!&#8230; Escusava agora de o ter de novo pela proa,<br \/>\nporque o dem\u00f4nio \u00e9 muito capaz de lembrarse ainda do passado<br \/>\ne&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tens raz\u00e3o! interrompeu o Portela, muito preocupado; precisamos<br \/>\ndesembara\u00e7ar-nos de semelhante homem! S\u00f3 a id\u00e9ia de que<br \/>\no posso encontrar na rua e sofrer dele qualquer desfeita, faz-me perder a<br \/>\ncabe\u00e7a!&#8230; Olha c\u00e1! E chegando-se mais para o criado, passou-lhe<br \/>\no bra\u00e7o no ombro e perguntou-lhe brandamente, quase com ternura: \u2014<br \/>\nTu \u00e9s capaz de desempenhar uma comiss\u00e3ozinha de que te quero<br \/>\nencarregar?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sempre fui. Adiante! \u2014 Trata-se de despachar o Ruivo, mas<br \/>\nde modo que ningu\u00e9m venha a suspeitar de ti, e muito menos de mim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 se v\u00ea!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas onde o ter\u00e1s a jeito?! \u2014 Isso indaga-se! Sei que<br \/>\nele \u00e9 empregado dos armaz\u00e9ns de rap\u00e9 de Paulo Cordeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Mas como se arranjar\u00e1 o neg\u00f3cio?&#8230; compreendes que<br \/>\nestas coisas n\u00e3o se podem fazer no ar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deixe tudo por minha conta! \u2014 Que tencionas fazer?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se importe com isso! Amanh\u00e3 mesmo falo ao Tubar\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mau! J\u00e1 queres tu meter mais um na hist\u00f3ria!&#8230; O<br \/>\nmelhor seria fazeres tudo por ti &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu posso l\u00e1 deixar de falar ao Tubar\u00e3o?!&#8230; Vossemec\u00ea<br \/>\nbem sabe que nada fazemos sem combinarmos primeiro os dois. Foi o nosso trato!<br \/>\nNada! juramos sobre as Horas Marianas! Quando ele tem qualquer coisa, diz-me<br \/>\nlogo, e quando eu tenho, tamb\u00e9m lhe digo! N\u00e3o! n\u00e3o sou<br \/>\nhomem de tratar uma coisa e fazer outra! O trato \u00e9 trato! \u2014 \u00c9<br \/>\no diabo! \u00c9 mais um que fica sabendo da coisa!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem?! o Tubar\u00e3o?! Ora, senhor! Ent\u00e3o vossemec\u00ea<br \/>\nn\u00e3o sabe o que est\u00e1 ali! Aquilo \u00e9 fazenda muito boa!<br \/>\nN\u00e3o! por esse lado n\u00e3o tenha receios! O Tubar\u00e3o \u00e9<br \/>\ncoisa s\u00e9ria: dali n\u00e3o sai um pio quando \u00e9 preciso guardar<br \/>\nsegredo! \u2014 V\u00ea l\u00e1 o que vais fazer!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deixe tudo por minha conta, j\u00e1 lhe disse! Descanse que tudo<br \/>\nse far\u00e1, com a ajuda de Deus! O comendador acabou por concordar, e<br \/>\nTalha-certo, na seguinte noite, encontrou-se com o companheiro \u00e0 mesa<br \/>\ndo caf\u00e9 de Java, como j\u00e1 sabemos.<\/p>\n<p>Esse companheiro era o Tubar\u00e3o, um marinheiro reformado, sujeito<br \/>\ncorpulento e vigoros\u00edssimo, por cujo ar modesto e pac\u00edfico ningu\u00e9m<br \/>\ncalcularia que estivesse ali o homem de maior for\u00e7a muscular do Rio<br \/>\nde Janeiro. Contavam dele muitas fa\u00e7anhas, que deixavam em grande dist\u00e2ncia<br \/>\nas do Nogueira lutador e de outros famigerados pulsos, dos quais rezam algumas<br \/>\ncostelas e v\u00e1rios narizes a mais imperec\u00edvel das mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>De uma feita, o comendador Ascole e o Dr. Figueiredo Magalh\u00e3es, que<br \/>\nsentiam pelo Tubar\u00e3o o interesse que experimentamos por um belo fen\u00f4meno,<br \/>\nquiseram medir-lhe toda a extens\u00e3o da for\u00e7a de um dos seus socos<br \/>\ne para isso puseram \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dele um desses dinam\u00f4metros,<br \/>\nvulgarmente conhecidos pelo nome de \u201cCabe\u00e7a de turco\u201d.<\/p>\n<p>O Tubar\u00e3o negou-se a princ\u00edpio, sorrindo com o seu ar de bondade<br \/>\ning\u00eanua, mas, instigado pelos outros, deu um passo atr\u00e1s, recolheu<br \/>\nvagarosamente o bra\u00e7o e depois disparou com este um formid\u00e1vel<br \/>\nmurro contra a almofada de marroquim.<\/p>\n<p>Ouviu-se apenas um ranger e estalar de ferros. E a balan\u00e7a caiu aos<br \/>\np\u00e9s do Tubar\u00e3o, em peda\u00e7os.<\/p>\n<p>De uma outra vez, querendo Tubar\u00e3o arrancar um gancho da parede,<br \/>\np\u00f4s-lhe a m\u00e3o e puxou; mas o gancho estava bem seguro e fez resist\u00eancia.<br \/>\nTubar\u00e3o firmou um p\u00e9 contra o muro e empregou toda a for\u00e7a.<br \/>\nVeio o gancho afinal, mas Tubar\u00e3o havia varado a parede com a perna.<\/p>\n<p>Como esses, mil outros fatos diziam a riqueza dos seus m\u00fasculos;<br \/>\ncontudo, n\u00e3o havia homem que menos gostasse de brigar. Sofria \u00e0s<br \/>\nvezes em sil\u00eancio as mais grosseiras provoca\u00e7\u00f5es, aconselhava<br \/>\nquase sempre ao advers\u00e1rio que o deixasse em paz e recorria a todos<br \/>\nos meios para evitar o choque; at\u00e9 que por fim lhe faltava a paci\u00eancia<br \/>\ne com um murro mandava o provocador passear a dez metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>As suas rela\u00e7\u00f5es com o Talha-certo vinham de certa vez em<br \/>\nque Tubar\u00e3o o encontrou no meio de seis urbanos, a tomar bordoada de<br \/>\ntodos eles. Meteu-se logo no barulho, escudou com o corpo o que apanhava,<br \/>\ne despediu os outros a pontap\u00e9s.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o ficaram amigos. Todavia muito se dissimilavam no car\u00e1ter:<br \/>\nTalha-certo era mau, tinha maus instintos, gostava de perseguir, abusava da<br \/>\nnavalha e vendia-se para qualquer crime; o outro n\u00e3o: arriscava-se<br \/>\nquase sempre para socorrer algu\u00e9m; ressentia-se, \u00e9 verdade,<br \/>\ndo meio em que vivia ultimamente e da falta de educa\u00e7\u00e3o, mas<br \/>\nera dedicado e suscept\u00edvel de brio.<\/p>\n<p>O companheiro, sabendo que ele nunca abanava as orelhas quando qualquer<br \/>\ncolega pedia o seu aux\u00edlio, contava com esse apoio certo, e tal confian\u00e7a<br \/>\no tornava mais atrevido e mais impertinente.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que quer voc\u00ea de mim?&#8230; perguntara Tubar\u00e3o ao<br \/>\noutro, naquela noite em que os vimos a conversar no caf\u00e9 de Java.<\/p>\n<p>\u2014 Quero que voc\u00ea me ajude&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Em qu\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Na fun\u00e7\u00e3o do Pedro Ruivo! \u2014 Ah! O Pedro Ruivo<br \/>\nest\u00e1 a\u00ed?! Ora at\u00e9 que afinal o vou pilhar \u00e0s direitas!<br \/>\nDeixa estar que n\u00e3o me escapar\u00e1s esta vez, grande velhaco! Estas<br \/>\nexclama\u00e7\u00f5es do Tubar\u00e3o significavam que entre ele e o<br \/>\nRuivo havia sem d\u00favida contas velhas a ajustar.<\/p>\n<p>\u2014 Sim! disse o Talha-certo; mas o patr\u00e3o quer ver-se livre<br \/>\ndele por uma vez! \u2014 Quer que o mates? perguntou o outro.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9! Falou-me nisso. Voc\u00ea sabe que o Ruivo tem em seu<br \/>\npoder aqueles documentos do comendador e pode pregar-lhe alguma pe\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas tomam-se-lhe os documentos, e n\u00e3o \u00e9 l\u00e1<br \/>\npreciso matar o pobre diabo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Como n\u00e3o \u00e9 preciso?&#8230; Voc\u00ea sabe quem \u00e9<br \/>\no Ruivo! Homem, quem o inimigo poupa nas m\u00e3os lhe morre!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 tanto assim. Pode arranjar-se tudo sem sangue!<br \/>\nEu me encarrego de arrancar-lhe os documentos! Deixe-o comigo! \u2014 Isso<br \/>\nn\u00e3o basta! segredou-lhe o Talha-certo. Se lhe estou a dizer que o comendador<br \/>\nse quer desfazer daquela bisca! \u2014 Pois ent\u00e3o v\u00e1 voc\u00ea<br \/>\ne mais seu patr\u00e3o para o inferno! C\u00e1 por mim n\u00e3o vejo<br \/>\nnecessidade alguma de matar aquele peda\u00e7o de asno! \u2014 Ah! Eu cuidei<br \/>\nque voc\u00ea ainda era o mesmo para ajudar os companheiros!&#8230; Neste caso,<br \/>\npor\u00e9m, fica o dito por n\u00e3o dito! Ora adeus! \u2014 Espere,<br \/>\nhomem! Eu estou disposto a ajud\u00e1-lo! Voc\u00ea bem sabe que nunca<br \/>\ndesamparei os amigos! Mas, com os diabos! o que n\u00e3o vejo \u00e9 necessidade<br \/>\nde matar ningu\u00e9m! Se a gente s\u00f3 precisa dos pap\u00e9is, para<br \/>\nque lhe d\u00e1 de tirar tamb\u00e9m a vida?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Para maior seguran\u00e7a! Mas uma vez que voc\u00ea p\u00f5e<br \/>\ndificuldades, j\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 quem falou! N\u00e3o<br \/>\nse trata mais disto! \u2014 N\u00e3o! eu vou! Vou para o que der e vier,<br \/>\npor\u00e9m achava melhor n\u00e3o sangrar o sujeito&#8230;<\/p>\n<p>E quando os dois s\u00facios se levantaram da mesinha do caf\u00e9,<br \/>\nestavam perfeitamente combinados.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo costumava sair \u00e0s seis e meia do trabalho, Talha-certo<br \/>\nsabia a dire\u00e7\u00e3o que ele tomava sempre e iria esper\u00e1-lo<br \/>\nno melhor ponto para um ataque. E estava convencido de que uma vez assassinado<br \/>\no Ruivo, os tais documentos, presumidos em seu poder, perderiam todo o valor,<br \/>\nporque s\u00f3 por ele podiam ser explorados.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, de pormenorizarmos o resultado daquele conchavo, temos<br \/>\nque dizer alguma coisa a respeito de Tubar\u00e3o.<\/p>\n<p>Le\u00e3o Vermelho, ainda no come\u00e7o da sua carreira mar\u00edtima,<br \/>\ndistinguia, a bordo da corveta em que estava, um grumete de dezesseis anos,<br \/>\nvivo, dedicado e forte; quando mais tarde Le\u00e3o Vermelho ganhou as suas<br \/>\ndragonas de 1\u00ba tenente e mudou de navio, levou consigo o rapaz e tomou-o<br \/>\npara seu criado.<\/p>\n<p>Nunca mais se separaram, at\u00e9 que o oficial, cansado de vagar pelo<br \/>\noceano, requereu reforma, arranjou um lugar em terra, na cidade do Porto,<br \/>\ne casou pouco tempo depois com a irm\u00e3 bastarda do conde de S. Francisco,<br \/>\nCec\u00edlia, a filha da interessante professora Helena, de quem j\u00e1<br \/>\nfalamos.<\/p>\n<p>Para o leitor n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m novidade saber que, do cons\u00f3rcio<br \/>\nde Le\u00e3o Vermelho com a filha de Helena, resultou o nascimento de Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>Por esse tempo Le\u00e3o Vermelho era amea\u00e7ado de perder o emprego<br \/>\ne correu para a capital, com a inten\u00e7\u00e3o de colocar-se sob a<br \/>\nprote\u00e7\u00e3o imediata do ministro da marinha. Nada obteve; e, em<br \/>\num assomo de raiva, arrancou as dragonas e fez delas presente ao monarca,<br \/>\npedindo que lhe desse quanto antes a demiss\u00e3o da armada. Nisto foi<br \/>\nlogo atendido. E ent\u00e3o, desempregado e tendo de prover a subsist\u00eancia<br \/>\nda fam\u00edlia, resolveu aventurar-se na marinha mercante e partir para<br \/>\no Brasil.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, era preciso dar um pulo ao Porto, tranq\u00fcilizar<br \/>\na mulher e abra\u00e7ar o filho. N\u00e3o gastou muito tempo com isso,<br \/>\ne, j\u00e1 na ocasi\u00e3o de partir, a bordo, no segredo do seu beliche,<br \/>\nabra\u00e7ou o seu antigo criado, aquele que nunca o abandonara, e disse-lhe<br \/>\ncom os olhos cheios d\u2019\u00e1gua: \u2014 Tubar\u00e3o! confio-te<br \/>\nminha mulher e meu filho; n\u00e3o os percas de vista. Sei que \u00e9s<br \/>\nlouco pelo pequeno e isso faz-me partir tranq\u00fcilo.<\/p>\n<p>Aproximou-se mais dele e disse-lhe depois, em segredo, alguma coisa que o<br \/>\nfez estremecer ligeiramente.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ir descansado, capit\u00e3o! respondeu o ex-grumete, prometo<br \/>\nque cumprirei as suas ordens! \u2014 Ent\u00e3o toma l\u00e1! \u00e9<br \/>\no presente que te deixo&#8230;<\/p>\n<p>E passou-lhe um embrulho que tirou do bolso.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado! disse Tubar\u00e3o, ao examinar o objeto recebido.<\/p>\n<p>Era uma boa navalha de marinheiro.<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a> X ALGAS<\/h2>\n<p>Tubar\u00e3o deixou a bordo o seu antigo comandante e voltou cabisbaixo<br \/>\ne triste para casa. As \u00faltimas palavras que lhe segredara Le\u00e3o<br \/>\nVermelho, obrigavam-no a cair em medita\u00e7\u00f5es de sabor estranho<br \/>\ne amargo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel!&#8230; resmungava ele<br \/>\nconsigo. O capit\u00e3o n\u00e3o tem raz\u00e3o! s\u00e3o desconfian\u00e7as!<br \/>\nn\u00e3o pode deixar de ser!&#8230;<\/p>\n<p>Podia l\u00e1 acreditar que a Sra. D. Cec\u00edlia, t\u00e3o meiga,<br \/>\nt\u00e3o simples, fosse capaz disso?!&#8230; N\u00e3o! definitivamente o capit\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o tinha a cabe\u00e7a no lugar quando lhe recomendou que vigiasse<br \/>\na mulher!&#8230;<\/p>\n<p>E, desta forma, ia o Tubar\u00e3o, caminho de casa, a gesticular consigo<br \/>\nno seu mon\u00f3logo.<\/p>\n<p>Nesse tempo teria ele vinte o oito anos. Era ent\u00e3o uma bela estampa,<br \/>\ndestro e rijo, afeito aos temporais e \u00e0s duras fadigas do oceano. A<br \/>\nvida do mar dera-lhe \u00e0 fisionomia esse ar contemplativo e doce que<br \/>\nse nota quase sempre nos marujos, como se lhes acumulasse no semblante o ressaibo<br \/>\ndas velhas saudades da p\u00e1tria e dos amores que ficam em terra.<\/p>\n<p>O marinheiro \u00e9 fatalmente generoso e bom; ama os seus semelhantes,<br \/>\nporque os n\u00e3o conhece; entre eles se antep\u00f5e o oceano, onde<br \/>\nn\u00e3o chegam intrigas e paix\u00f5es mesquinhas. E o imponente aspecto<br \/>\ndo mar fortalece e alarga o cora\u00e7\u00e3o; a alma forma seus horizontes<br \/>\npelos horizontes que os olhos avistam.<\/p>\n<p>Tudo mar! Tudo c\u00e9u! Qual \u00e9 a\u00ed o monumento que nos denuncie<br \/>\no prest\u00edgio enfermo de algum monarca, a quem a inconsci\u00eancia<br \/>\nentregou um cetro e ergueu um trono? Qual o mausol\u00e9u que nos diga a<br \/>\nimport\u00e2ncia da vaidade de algum nababo submergido naqueles in\u00f3spitos<br \/>\ndesertos? Qual \u00e9 o conquistador que tem l\u00e1 a sua est\u00e1tua?<br \/>\nqual \u00e9 a religi\u00e3o que tem l\u00e1 o seu templo? qual o d\u00e9spota<br \/>\nque tem l\u00e1 o seu cadafalso?! Nada! O velho monstro antediluviano n\u00e3o<br \/>\nadmite prerrogativas; eternamente indom\u00e1vel e altivo n\u00e3o quer<br \/>\nque no seu dorso se ergam capit\u00f3lios e obla\u00e7\u00f5es. E \u00e9<br \/>\ndessa austera independ\u00eancia que o mareante forma o seu car\u00e1ter<br \/>\ne o seu cora\u00e7\u00e3o. Forte como o mar, brando como as \u00e1guas,<br \/>\nele maneja t\u00e3o bem os segredos do \u00f3dio, como regula e dirige<br \/>\nos impulsos da dedica\u00e7\u00e3o e do sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m ama com tantos desvelos, mas tamb\u00e9m ningu\u00e9m<br \/>\nodeia com tanta impetuosidade.<\/p>\n<p>Para o Tubar\u00e3o semelhantes leis tinham aplica\u00e7\u00e3o muito<br \/>\njusta. Ele era homem de arriscar a vida pelos seus amigos e de arranc\u00e1-la<br \/>\nbrutalmente \u00e0queles que os tra\u00edssem. Ent\u00e3o pelo seu excomandante,<br \/>\nque n\u00e3o seria capaz de fazer?! Le\u00e3o Vermelho representava para<br \/>\nTubar\u00e3o um \u00eddolo sagrado; a solidariedade nos perigos e nas<br \/>\ncanseiras do mar identificara aquelas duas almas, \u00e1speras e compassivas<br \/>\nao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Depois que os dois abandonaram o navio e se foram refugiar tranq\u00fcilamente<br \/>\n\u00e0 sombra da fam\u00edlia, o marinheiro sentiu-se possu\u00eddo<br \/>\nde grandes nostalgias: faltavam-lhe as melanc\u00f3licas sestas que ele<br \/>\noutrora desfrutava \u00e0 proa, cantando \u00e0 guitarra ao lado dos companheiros,<br \/>\nenquanto o sol, ao longe, descambava no poente, atufando-se nos limbos afogueados<br \/>\ndo horizonte.<\/p>\n<p>E o marinheiro em terra, como a ave que arrancaram do seu bosque, entristeceu<br \/>\ne principiou a depor a subst\u00e2ncia de sua dedica\u00e7\u00e3o aos<br \/>\np\u00e9s da esposa do comandante. Amava-a com um respeito religioso, uma<br \/>\nquase adora\u00e7\u00e3o. Vivia preocupado a afastar de em redor dela<br \/>\ntudo aquilo que de leve a pudesse contrariar.<\/p>\n<p>Durante o tempo em que Cec\u00edlia estava para dar \u00e0 luz Greg\u00f3rio,<br \/>\ns\u00f3 o dedicado marinheiro sabia corresponder \u00e0s exig\u00eancias<br \/>\ne aos caprichos da enferma. Procurava cerc\u00e1-la de distra\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncomo se ela fosse uma criancinha doente; cantava-lhe as modas de sua terra,<br \/>\nnaquela toada mon\u00f3tona dos marujos e, muitas vezes, como estivessem<br \/>\nno ver\u00e3o, iam espairecer um pouco para o terra\u00e7o, e a\u00ed<br \/>\no marinheiro contava as lendas melanc\u00f3licas do mar, onde fugiram louros<br \/>\npr\u00edncipes encantados que v\u00e3o prear sereias nas costas da Normandia.<br \/>\nFalava-lhe das brancas miragens que, em noites de luar, flutuam pelas \u00e1guas,<br \/>\ne entre as quais o navegante apaixonado descobre o vulto estremecido da mulher<br \/>\namada.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia, com os olhos presos no c\u00e9u, os l\u00e1bios mal<br \/>\ncerrados, e toda ela ressentida da profunda ternura que a gravidez traz consigo,<br \/>\nficava embevecida a ouvir as hist\u00f3rias do marujo. Um dia perguntou-lhe<br \/>\nse ele nunca tivera tamb\u00e9m o seu amor.<\/p>\n<p>Tubar\u00e3o n\u00e3o respondeu, co\u00e7ou a cabe\u00e7a, e depois<br \/>\nlimpou com as costas da m\u00e3o duas l\u00e1grimas, que lhe corriam pelas<br \/>\nfaces tostadas do sol.<\/p>\n<p>\u2014 Conte-me antes a sua hist\u00f3ria&#8230; pediu Cec\u00edlia com<br \/>\na voz quebrada; teria prazer em ouvi-la.<\/p>\n<p>Vamos! Conte a hist\u00f3ria dos seus amores&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, patroazinha! Marinheiro n\u00e3o tem amores&#8230; Pobre<br \/>\nde n\u00f3s se nos fica o cora\u00e7\u00e3o c\u00e1 em terra, quando<br \/>\ntemos de embarcar. \u00c0s vezes, no dia em que saltamos em um porto estranho,<br \/>\nsem conhecer ningu\u00e9m, sem encontrar um rosto amigo, l\u00e1 vemos<br \/>\nentre a multid\u00e3o os olhos formosos de alguma mulher que nos cativa,<br \/>\nlevamos a saudade para bordo; s\u00e3o m\u00e1goas para toda a viagem!<br \/>\n\u2014 Mas voc\u00ea comoveu-se ainda h\u00e1 pouco, Tubar\u00e3o, quando<br \/>\nlhe falei nos seus amores&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Lembrei-me de minha m\u00e3e! A pobrezinha chorava quando eu parti,<br \/>\ne ningu\u00e9m lhe tirava da cabe\u00e7a que ela nunca mais me veria&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E depois? \u2014 Quando voltei \u00e0 minha aldeia, j\u00e1<br \/>\nela estava no cemit\u00e9rio. O vig\u00e1rio mostrou-me a sepultura: era<br \/>\nno ch\u00e3o, debaixo de uma grande \u00e1rvore, perto da capela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E o que fez voc\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu ajoelhei-me e rezei as ora\u00e7\u00f5es que ela me ensinara,<br \/>\nquando eu era pequenino. Depois, como o servi\u00e7o me esperava a bordo,<br \/>\n\u00e0s pressas colhi as flores que havia por ali, espalhei-as sobre a sepultura,<br \/>\ne voltei para o trabalho. Fui muito triste; era t\u00e3o boa aquela velhinha!&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o que corria o tempo, ia Tubar\u00e3o mais<br \/>\ne mais se afei\u00e7oando a Cec\u00edlia. S\u00f3 os homens do mar,<br \/>\nessas almas ing\u00eanuas e criadas longe da terra e ao correr franco dos<br \/>\nventos, conhecem os mist\u00e9rios do amor desinteressado e her\u00f3ico.<br \/>\nPara o marujo, a mulher aparece por um prisma muito melhor do que para os<br \/>\noutros homens; pois s\u00f3 lhe conhece ele a influ\u00eancia feminil e<br \/>\ndoce por interm\u00e9dio da saudade: a mulher \u00e9 sempre para o marujo<br \/>\num ente ador\u00e1vel, que se deve amar de joelhos. Um sorriso de seus l\u00e1bios<br \/>\ncor-de-rosa \u00e9 o bastante para prostrar o le\u00e3o valente, que pouco<br \/>\nantes afrontava a f\u00faria dos vendavais e a sanhuda c\u00f3lera dos<br \/>\nmares.<\/p>\n<p>Tubar\u00e3o estava nestas circunst\u00e2ncias a respeito de Cec\u00edlia,<br \/>\nquando o capit\u00e3o, ao partir para o Brasil, lhe segredada aquelas palavras<br \/>\nque o fizeram estremecer.<\/p>\n<p>O marinheiro chegou \u00e0 casa possu\u00eddo de grande pesar. Seria<br \/>\nposs\u00edvel que o seu comandante tivesse qualquer raz\u00e3o para dizer<br \/>\naquilo?&#8230; N\u00e3o! n\u00e3o era poss\u00edvel!&#8230;<\/p>\n<p>Mas o pobre marujo, disposto a seguir os passos da patroa, como lhe ordenara<br \/>\no amo, tinha mais tarde de sofrer as mais dolorosas das decep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando Le\u00e3o Vermelho partiu para o Brasil, seu filhinho Greg\u00f3rio<br \/>\ntinha apenas dois anos.<\/p>\n<p>Tubar\u00e3o, que, ouvia da crian\u00e7a os primeiros vagidos, foi por<br \/>\ntal forma lhe tomando carinho, que acabou por fazer dela toda a sua preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne todo o seu enlevo.<\/p>\n<p>Passava horas esquecidas com o pequenito ao colo ou a brincar com ele, a<br \/>\nsuspend\u00ea-lo no ar e a rol\u00e1-lo entre as suas grossas m\u00e3os.<br \/>\nO beb\u00ea desfazia-se em risadas com o marinheiro e puxavalhe as barbas,<br \/>\nna sua infantil e graciosa irracionalidade.<\/p>\n<p>Assim, quando o amo chegou a partir, j\u00e1 o pobre homem estava preso<br \/>\n\u00e0quela gente por uma amizade sem limites, cuja transpar\u00eancia<br \/>\ns\u00f3 as palavras do comandante, segredadas a bordo, vinham toldar pela<br \/>\nprimeira vez.<\/p>\n<p>Todavia era for\u00e7oso obedecer. O marinheiro principiou ent\u00e3o<br \/>\na seguir os passos de Cec\u00edlia, sem jamais a perder de vista; os menores<br \/>\ngestos da senhora, a mais leve altera\u00e7\u00e3o do seu humor, tudo<br \/>\no marujo observava com cuidado e reserva.<\/p>\n<p>Um dia achou-a sumamente triste e concentrada. \u00c0 mesa n\u00e3o<br \/>\ndera Cec\u00edlia uma palavra, e \u00e0 noite, depois de passar longas<br \/>\nhoras fechada no quarto, apareceu com os olhos inchados e vermelhos. O pr\u00f3prio<br \/>\nfilho, nesse dia n\u00e3o conseguiu distra\u00ed-la; ela, ao contr\u00e1rio,<br \/>\nparecia n\u00e3o lhe poder suportar os gritos e as travessuras.<\/p>\n<p>\u2014 Vossemec\u00ea sente alguma coisa, D. Cec\u00edlia?&#8230; perguntou-lhe<br \/>\no Tubar\u00e3o, quando a pilhou de jeito.<\/p>\n<p>\u2014 Estou nervosa! respondeu ela, afetando desprendimento.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e3o de ser as saudades do capit\u00e3o! aventou o marinheiro,<br \/>\ntorcendo nas m\u00e3os o seu pesado gorro de baeta azul.<\/p>\n<p>Aquela observa\u00e7\u00e3o perturbara sobremaneira a rapariga e trouxera-lhe<br \/>\n\u00e0s faces uma leve corde- rosa.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 seis meses que ele se foi&#8230; acrescentou Tubar\u00e3o,<br \/>\ncom os olhos baixos e o semblante entristecido. Seis meses? Quase sete. Ora<br \/>\nespere! (E depois de contar pelos dedos.) \u00c9 isso, s\u00e3o seis meses<br \/>\ne dezoito dias&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Deve ser isso mesmo! disse Cec\u00edlia, quase com impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>E os dois calaram-se, sem encontrar mais nada para dizer.<\/p>\n<p>\u2014 Vossemec\u00ea precisa de mim para alguma coisa?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Podes recolher-te quando quiseres. N\u00e3o preciso<br \/>\nhoje de companhia.<\/p>\n<p>O marinheiro afastou-se, sacudiu os ombros, e foi para o seu quarto; mas<br \/>\nn\u00e3o p\u00f4de conciliar o sono: a ins\u00f3lita preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nda patroa e as recomenda\u00e7\u00f5es do comandante tiravam-lhe o sossego<br \/>\ndo esp\u00edrito.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! dizia ele de si para si. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9<br \/>\nposs\u00edvel! Al\u00e9m disso, com quem?&#8230; Aqui s\u00f3 aparece o<br \/>\nvelho capit\u00e3o Rego e outros t\u00e3o inofensivos como este! Ela pouco<br \/>\nsai!&#8230; Onde, por conseguinte, poderia apanhar uma rela\u00e7\u00e3o que<br \/>\nautorizasse aquelas palavras do comandante?&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o! definitivamente o que ela tem s\u00e3o saudades do marido!<br \/>\nNem podia ser de outro modo! Sete meses n\u00e3o s\u00e3o sete dias, coitada!<br \/>\nE a fazer destes racioc\u00ednios, o Tubar\u00e3o virava-se de um para<br \/>\no outro lado da sua maca de lona, sem conseguir dormir.<\/p>\n<p>Deram onze horas, doze, uma; e nada! O sono n\u00e3o queria chegar. Tubar\u00e3o<br \/>\nlevantou-se, ia acender um cigarro, mas, antes de riscar o f\u00f3sforo,<br \/>\nsentiu rumor de passos no jardim.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e9! disse consigo. H\u00e1 mais quem n\u00e3o consiga<br \/>\nficar na cama?&#8230; Ora, vamos ver quem \u00e9 o meu companheiro de ins\u00f4nia&#8230;<\/p>\n<p>E, com muito cuidado, espreitou pela janela de modo que n\u00e3o fosse<br \/>\npercebido.<\/p>\n<p>Efetivamente, um vulto negro, que parecia de homem pela estatura, acabava<br \/>\nde saltar a grade e se dirigia para um maci\u00e7o de verdura, justamente<br \/>\npor debaixo das janelas de Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>O marujo sentiu o cora\u00e7\u00e3o agitar-se-lhe por dentro, como se<br \/>\nquisesse saltar-lhe pela boca.<\/p>\n<p>Tremeram-lhe as pernas, faltou-lhe quase a respira\u00e7\u00e3o, e a<br \/>\npele crispou-se-lhe toda em um calafrio de febre.<\/p>\n<p>O vulto chegara \u00e0 janela de Cec\u00edlia e ro\u00e7ara levemente<br \/>\na ponta da bengala pelas gelosias fechadas.<\/p>\n<p>O marinheiro espiava, com uma ansiedade crescente. \u00c0 semelhan\u00e7a<br \/>\ndos n\u00e1ufragos que, sentindo escaparem-lhe os meios de salvamento, v\u00e3o<br \/>\nrefugiando a esperan\u00e7a em tudo que lhes acode \u00e0 fantasia, ele<br \/>\ncontava ainda poder, no fim de tudo aquilo, justificar a inoc\u00eancia de<br \/>\nsua querida ama.<\/p>\n<p>Mas, ao quarto sinal do vulto misterioso, abriu-se discretamente uma das<br \/>\nfolhas da janela, e a cabe\u00e7a encantadora de Cec\u00edlia assomou<br \/>\n\u00e0 luz melanc\u00f3lica das estrelas.<\/p>\n<p>Conversaram os dois, mas Tubar\u00e3o n\u00e3o conseguiu ouvir mais<br \/>\nque um confuso sussurrar de vozes, perdido no sonolento rumorejo da noite.<br \/>\nAo fim de meia hora fechou-se de novo a janela e o vulto encaminhou-se cautelosamente<br \/>\npara o port\u00e3o.<\/p>\n<p>O marinheiro havia j\u00e1 colocado \u00e0 cinta a navalha que lhe dera<br \/>\no comandante. Abriu a porta e, colando-se \u00e0 parede, ganhou, a passo<br \/>\nde gato, o jardim, pelo lado contr\u00e1rio ao que seguia o vulto.<\/p>\n<p>S\u00f3 o conseguiu avistar j\u00e1 na rua, ao dobrar de uma esquina.<br \/>\nTubar\u00e3o correu para ele, mas, antes de alcan\u00e7\u00e1-lo, sa\u00edram-lhe<br \/>\nao encontro dois homens.<\/p>\n<p>\u2014 Que deseja daquela pessoa? perguntou-lhe um destes com acento muito<br \/>\nespanhol.<\/p>\n<p>\u2014 Quero p\u00f4r-lhe a m\u00e3o! \u2014 Pois entenda-se conosco!<br \/>\nO marinheiro respondeu desta vez com um formid\u00e1vel arranco de corpo<br \/>\ninteiro, que atirou por terra os dois sujeitos. E lan\u00e7ou-se de novo<br \/>\na perseguir o vulto do jardim.<\/p>\n<p>Este, por\u00e9m, havia aproveitado o conflito para fugir, e o marinheiro<br \/>\nn\u00e3o conseguiu mais apanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Entretanto, os dois outros homens seguiam de perto Tubar\u00e3o, a falar<br \/>\nem voz baixa, e a bater nas pedras da rua com as suas grossas bengalas.<\/p>\n<p>O marinheiro, quando se convenceu de que j\u00e1 n\u00e3o alcan\u00e7aria<br \/>\no fugitivo, parou, \u00e0 espera dos dois que vinham atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Estes pararam por sua vez, e suspenderam a conversa. S\u00f3 se puseram<br \/>\nde novo a caminhar quando o marinheiro caminhou tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Ora raios! bradou Tubar\u00e3o, avan\u00e7ando de um pulo sobre<br \/>\neles. J\u00e1 me v\u00e3o azedando os f\u00edgados! e num relance segurou-os<br \/>\na ambos, pelo gasnete e atirou-os de cambolhada contra a parede.<\/p>\n<p>Os dois cambalearam por algum tempo, um desabou afinal sobre a cal\u00e7ada<br \/>\ne o outro, sacando uma faca, investiu contra o marinheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Ele \u00e9 isso? rosnou este, desviando o corpo. Pois manda<br \/>\nde l\u00e1 tua faquinha, que te quero dar a resposta! O outro, por\u00e9m,<br \/>\nem vez de mandar a faca, limitou-se a responder: \u2014 Hombre! siga su cami\u00f1o,<br \/>\ny no me embrome usted! \u2014 Ainda bem! resmungou Tubar\u00e3o.<\/p>\n<p>E afastou-se lentamente, com ar de desprezo.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m j\u00e1 era tempo, porque o c\u00e9u principiava a vestir<br \/>\nos pren\u00fancios da aurora.<\/p>\n<p>Tubar\u00e3o entrou em casa apoquentado pelos pr\u00f3prios racioc\u00ednios.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o demo! considerava ele. Se a patroa d\u00e1 para tolices,<br \/>\neu c\u00e1 fa\u00e7o o que me manda a consci\u00eancia! se descobrir<br \/>\nque ela engana ao meu comandante, coso-a com uma naifada e levo o pequeno<br \/>\nao patr\u00e3o! Ora, a\u00ed est\u00e1! \u2014 Mas como diabo podia<br \/>\naquilo acontecer!&#8230; reconsiderava ele depois, j\u00e1 estendido na sua<br \/>\nestreita cama de lona. Aquela criatura que parecia uma santa!&#8230; Ah! peste<br \/>\nde mulheres! Fosse l\u00e1 um homem entender semelhantes dem\u00f4nios!<br \/>\nE quando Tubar\u00e3o se ergueu no dia seguinte, sem haver dormido, tinha<br \/>\nj\u00e1 a sua resolu\u00e7\u00e3o tomada.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a> XI, XII PEDRO RUIVO<\/h2>\n<p>Cec\u00edlia, quando tinha apenas quinze anos e recebia de sua pr\u00f3pria<br \/>\nm\u00e3e a educa\u00e7\u00e3o relativamente boa, que mais tarde fez<br \/>\ndela o encanto de algumas salas do Porto, conheceu um rapaz ainda muito novo,<br \/>\nbonito, janota, boa m\u00e3o de r\u00e9dea e herdeiro presuntivo de uma<br \/>\ndas fam\u00edlias mais ricas daquela cidade.<\/p>\n<p>Esse rapaz era Pedro Ruivo. Teria ent\u00e3o vinte e cinco anos e gozava<br \/>\nj\u00e1 na sua prov\u00edncia de uma enorme fama de \u201chomem perigoso\u201d<br \/>\npara as mulheres de toda a esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia um mimo de frescura, de gra\u00e7a e de inoc\u00eancia,<br \/>\nn\u00e3o lhe poderia passar despercebida.<\/p>\n<p>Pedro fez o poss\u00edvel por conquistar a sua simpatia; passara-lhe muitas<br \/>\nvezes pela porta, picara o cavalo defronte da sua janela, oferecera-lhe em<br \/>\ntodas as ocasi\u00f5es para dan\u00e7ar a valsa e fizera-lhe repetidos<br \/>\nprotestos de amor. Mas a bela menina sorria de tudo isso e n\u00e3o parecia<br \/>\nresolvida a tomar a s\u00e9rio os juramentos do seu ruidoso namorado.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo, ferido no amor-pr\u00f3prio, sentia-se cada vez mais estimulado<br \/>\npela indiferen\u00e7a de Cec\u00edlia, e, longe de desistir, redobrava<br \/>\nde atrevimento e perseveran\u00e7a nos ataques.<\/p>\n<p>Mas qual! O dem\u00f4nio da menina era intransigente. Ria-se com ele, conversava,<br \/>\naceitava-o para uma, duas e tr\u00eas valsas, por\u00e9m n\u00e3o lhe<br \/>\ndava a menor esperan\u00e7a a respeito de amor.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me quer ent\u00e3o definitivamente?&#8230; perguntou-lhe<br \/>\numa vez Pedro Ruivo.<\/p>\n<p>\u2014 Se o quero? para qu\u00ea?&#8230; interrogou ela, em vez de responder.<\/p>\n<p>\u2014 Ora para qu\u00ea?&#8230; exclamou o janota. Para tudo! inclusive para<br \/>\nseu marido&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Marido! O senhor n\u00e3o me parece que sirva para isso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Julga-me ent\u00e3o assim t\u00e3o sem pr\u00e9stimo?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 isso, mas \u00e9 que ainda lhe falta o ju\u00edzo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei o que a leva a supor semelhante coisa!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois se n\u00e3o sabe, procure algu\u00e9m que lho ensine. Eu<br \/>\nconfesso que n\u00e3o tenho muita paci\u00eancia para ensinar!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 porque n\u00e3o saiu \u00e0 sua m\u00e3e!&#8230; observou<br \/>\no Ruivo, com inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Nem a meu pai, respondeu a menina, tornando-se vermelha; meu pai,<br \/>\nque era um insigne picador!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Com licen\u00e7a! disse Cec\u00edlia, erguendo-se<br \/>\ndo lugar em que estava; creio que procuram por mim l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>E Pedro Ruivo ficou s\u00f3 na sala, entalado pela situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! exclamou ele consigo. Esta rapariga h\u00e1 de abaixar a proa<br \/>\nou, n\u00e3o serei eu quem sou! No dia seguinte pediu a um seminarista seu<br \/>\namigo que lhe arranjasse uns versos de amor e publicou-os na folha mais lida<br \/>\ndo Porto, com o seguinte t\u00edtulo: \u201c\u00c0quela por quem morro<br \/>\ne que tanto despreza os meus protestos; a ti, Cec\u00edlia de minha alma!\u201d<br \/>\nAssinava. \u201cP. R.\u201d A menina leu e compreendeu a inten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo suposto poeta. Da\u00ed a quatro dias apareceu outra dose de lirismo.<br \/>\nEsta agora trazia o seguinte r\u00f3tulo: \u201cAinda! Ainda!\u201d E<br \/>\ncontinuou, duas, tr\u00eas e quatro vezes por m\u00eas. Cec\u00edlia habituou-se<br \/>\n\u00e0quela m\u00fasica, e todos os conhecidos principiaram a tratar dos<br \/>\namores ingratos do Ruivo e do pertinaz retraimento da filha de Helena.<\/p>\n<p>O namorado teve afinal de sair do Porto para fazer uma viagem ao Minho,<br \/>\nem companhia da fam\u00edlia, e, durante ano e meio que l\u00e1 esteve,<br \/>\ngrandes mudan\u00e7as se tinham de operar no objeto da sua paix\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 que Cec\u00edlia se tornara de todo mulher; a flor desabrochara.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o era o mesmo bot\u00e3o de rosa, petulante e empertigado,<br \/>\nque parecia sorrir e zombar de tudo; agora a flor desabotoara aos raios de<br \/>\nestranhas aspira\u00e7\u00f5es e deixava-se pender melancolicamente para<br \/>\na haste.<\/p>\n<p>Vieram os sobressaltos dos dezenove anos; os sonhos indefinidos das noites<br \/>\nde vig\u00edlia e as vagas tristezas dessas horas em que o sol parece ir<br \/>\nse deixando morrer de vol\u00fapia no horizonte.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia sentia acordar-lhe no corpo uma nova alma, que j\u00e1<br \/>\nse n\u00e3o contentava s\u00f3 com os folguedos da menina e s\u00f3<br \/>\ncom as doces afei\u00e7\u00f5es dos seus parentes.<\/p>\n<p>Alguma coisa pedia-lhe no cora\u00e7\u00e3o um afeto mais exclusivo<br \/>\ne mais dela. J\u00e1 n\u00e3o podia observar sem como\u00e7\u00e3o<br \/>\no arrulhar de dois p\u00e1ssaros no mesmo ninho. Toda a natureza lhe apresentava<br \/>\nagora um novo aspecto de vida e fecundidade: as \u00e1rvores pareciam-lhe<br \/>\nmais fl\u00e1cidas e mais afetuosas nos seus requebros ao ro\u00e7ar da<br \/>\nbrisa; as noites de luar falavam-lhe agora em linguagem para ela desconhecida<br \/>\nat\u00e9 a\u00ed; e o ar, o c\u00e9u, as \u00e1guas de qualquer regato,<br \/>\ntudo sobre que ela pousava os olhos e demorava os sentidos, vaporava de si<br \/>\numa alma sensual e misteriosa que a envolvia toda como em uma atmosfera de<br \/>\nperfumes inebriantes.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo voltou ao Porto justamente nessa \u00e9poca. Cec\u00edlia<br \/>\nn\u00e3o o recebeu em ar de mofa, como at\u00e9 a\u00ed costumava fazer;<br \/>\ne ele, pelo seu lado, n\u00e3o trazia tamb\u00e9m aquele aspecto banal<br \/>\nde estr\u00f3ina relapso.<\/p>\n<p>\u00c9 que, durante a aus\u00eancia, Pedro Ruivo sentira pela primeira<br \/>\nvez o dente canino da adversidade. Seu pai, que estava \u00e0 morte no Minho,<br \/>\nchamara-o de parte e falara-lhe muito seriamente sobre o futuro.<\/p>\n<p>\u2014 Se eu morrer, dizia o pobre velho a chorar; vais tu, meu Pedro,<br \/>\nficar pobre e desprecatado no mundo. Tens todos os h\u00e1bitos da prodigalidade,<br \/>\nsem possu\u00edres nenhum dos agentes da riqueza.<\/p>\n<p>Que ser\u00e1 de ti, meu filho, se desde j\u00e1 n\u00e3o mudares<br \/>\nde rumo e n\u00e3o cuidares de arranjar meios de vida?! Pedro Ruivo procurou<br \/>\nserenar o pai; prometeu-lhe uma completa regenera\u00e7\u00e3o e chegou<br \/>\na falar em casamento com Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Casar?! interrogou o velho, franzindo a fronte despojada. Sabes<br \/>\nl\u00e1 o que isso \u00e9!&#8230;<\/p>\n<p>O filho apresentou as suas raz\u00f5es, pintou o car\u00e1ter da sua<br \/>\npretendida e descreveu o modo pelo qual resistira ela a todos os meios de<br \/>\nsedu\u00e7\u00e3o por ele empregados.<\/p>\n<p>O velho conformou-se mais com aquela not\u00edcia, quando Pedro lhe disse<br \/>\nque a menina era filha bastarda do conde de S. Francisco e teria um sofr\u00edvel<br \/>\ndote pela morte da m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, meu filho, disse ele. J\u00e1 que tanto o desejas, casa-te.<br \/>\nPode ser que esteja a\u00ed a tua regenera\u00e7\u00e3o e a tua felicidade!&#8230;<\/p>\n<p>E alguns dias depois Pedro Ruivo partia para o lugar em que estava Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Desta vez n\u00e3o andaram as coisas como nos primeiros tempos. Pedro<br \/>\nRuivo desprezou as velhas amizades da p\u00e2ndega e deixou-se das extravag\u00e2ncias<br \/>\nque dantes escandalizavam o Porto; deixou-se de correrias e de namoros arriscados,<br \/>\npara se entregar exclusivamente ao amor de Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>E ela, no fim de contas, j\u00e1 o amava; Pedro Ruivo surpreendera-lhe<br \/>\na alma, justamente quando esta, \u00e0 semelhan\u00e7a das flores, abria<br \/>\nao amor os seus delicados pistilos; nessa ocasi\u00e3o em que o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nda mulher est\u00e1 em branco e pronto a receber para toda a vida a grande<br \/>\nimpress\u00e3o que o fecundar\u00e1 para sempre. Outras vir\u00e3o depois,<br \/>\nmas a primeira h\u00e1 de predominar at\u00e9 \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia palpitou nos primeiros arroubos de mulher sob a impress\u00e3o<br \/>\nde Pedro Ruivo, entregando-lhe o segredo dos seus sonhos e o ideal de seus<br \/>\ndesejos. Ele povoou todo o seu esp\u00edrito com a insubstitu\u00edvel<br \/>\nvantagem do primeiro que o ocupava. Apoderou-se dela, uniu-a ao seu destino,<br \/>\nantes mesmo de uni-la ao seu corpo.<\/p>\n<p>As coisas neste ponto, pediu-a em casamento e D. Helena concedeu-a de muito<br \/>\nboa vontade, indo por bem dizer ao encontro do pedido, como se com este j\u00e1<br \/>\ncontasse.<\/p>\n<p>Havia nos planos da professora uma sutil inten\u00e7\u00e3o de conveni\u00eancia.<br \/>\nO futuro genro, como j\u00e1 tivemos ocasi\u00e3o de declarar, passava<br \/>\npor homem rico e pressuposto de herdar todos os bens de seu pai; Cec\u00edlia<br \/>\nfaria neste caso uma boa aquisi\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o tinha<br \/>\ndote e s\u00f3 com a morte de Helena receberia alguma coisa, se recebesse.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo, por sua vez, desde que percebeu a mis\u00e9ria que lhe estava<br \/>\niminente, via em Cec\u00edlia uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o.<br \/>\nHavia por conseguinte, de parte a parte, a inten\u00e7\u00e3o de se iludirem.<\/p>\n<p>E o receio que tinha cada qual de entrar em claras explica\u00e7\u00f5es<br \/>\na respeito dos pr\u00f3prios bens, a ambos tolhia de indagar sobre os do<br \/>\noutro.<\/p>\n<p>Desta forma caminhavam imperturbavelmente as circunst\u00e2ncias para a<br \/>\nsegura realiza\u00e7\u00e3o do cons\u00f3rcio. Helena desfazia-se em<br \/>\nobs\u00e9quios e franquezas com o noivo, que supunha destinado a trazer,<br \/>\npara sua filha, um futuro opulento e, para ela pr\u00f3pria, a seguran\u00e7a<br \/>\ne o descanso da velhice.<\/p>\n<p>Por outro lado, o rapaz n\u00e3o perdia ocasi\u00e3o de cercar de obs\u00e9quios<br \/>\ne desvelos \u00e0queles a quem julgava dever a salva\u00e7\u00e3o e<br \/>\na felicidade.<\/p>\n<p>Nunca houve talvez no mundo tanta harmonia e tanta gentileza entre um noivo<br \/>\ne a fam\u00edlia da respectiva noiva. Era bastante que algum deles revelasse<br \/>\nqualquer desejo, para todos os outros se precipitarem a satisfaz\u00ea-lo.<br \/>\nOra, cabia a Pedro esta ventura com respeito \u00e0 rapariga, ora, cabia<br \/>\na Helena com respeito ao futuro genro. E neste c\u00edrculo de galanteios<br \/>\nviviam os tr\u00eas em perene dedica\u00e7\u00e3o uns pelos outros.<\/p>\n<p>Dentre eles, s\u00f3 a encantadora Cec\u00edlia andava de boa f\u00e9.<br \/>\nEssa n\u00e3o procurava armar ao efeito para ningu\u00e9m e deixava-se<br \/>\nsimplesmente arrastar pelos impulsos do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o;<br \/>\ntudo o que fazia era perfeitamente por seu gosto, sem constrangimento e sem<br \/>\nc\u00e1lculo.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo julgava ter encontrado a porta do c\u00e9u.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 que sou um dem\u00f4nio deveras feliz?&#8230; considerava<br \/>\nele sozinho; tive dinheiro, esbanjei-o e, quando podia sofrer as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\ndisso, eis que me aparece este anjo, um verdadeiro anjo salvador, a resgatar-me<br \/>\ndo castigo de meus v\u00edcios e da minha prodigalidade! Oh! definitivamente<br \/>\nsou um homem feliz!&#8230; Queixe-se quem quiser da exist\u00eancia, que eu c\u00e1<br \/>\npor mim continuarei a ach\u00e1-la encantadora! E quando Pedro Ruivo, depois<br \/>\nde conversar calorosamente com a noiva, se recolhia ao seu quarto de rapaz<br \/>\nsolteiro, acendia o charuto, atirava as pernas para sobre a mesa e ficava,<br \/>\nou a rever-se nas correrias escandalosas do passado, ou a sonhar-se na tranq\u00fcilidade<br \/>\nendinheirada do seu futuro conjugal.<\/p>\n<p>Mas&#8230; (aqui temos um mas, para autorizar aquele prov\u00e9rbio que sustenta<br \/>\nn\u00e3o haver gosto completo nesta vida) uma intempestiva not\u00edcia<br \/>\ndo Minho veio perturbar os sonhos felizes do Ruivo. Seu pai n\u00e3o deitaria<br \/>\nmais que alguns dias e era necess\u00e1rio que o filho fosse l\u00e1 para<br \/>\ndespedir-se dele.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, com a fortuna! bradou o Ruivo ao receber a not\u00edcia.<br \/>\nL\u00e1 se vai tudo quanto Marta fiou! Se o velho comete a imprud\u00eancia<br \/>\nde morrer agora, fico completamente desmoralizado \u00e0s vistas da fam\u00edlia<br \/>\nde minha noiva e arrisco-me a perder o jogo, pois que logo se espalhar\u00e1<br \/>\na verdade concernente ao estado de meus haveres! \u2014 Nada! considerou<br \/>\nele, receoso de perder o dote da noiva, \u00e9 preciso quanto antes providenciar<br \/>\nde modo a que a morte de meu pai n\u00e3o me destrua os projetos! E, enquanto<br \/>\no velho agonizava no Minho, talvez demorando a morte para ver e aben\u00e7oar<br \/>\no filho pela \u00faltima vez, este meditava junto de Cec\u00edlia novos<br \/>\nplanos de especula\u00e7\u00e3o, os quais foram, com efeito, realizados.<\/p>\n<p>Estavam na primavera. Ruivo combinara com a noiva um passeio no campo. Iria<br \/>\ntamb\u00e9m D.<\/p>\n<p>Helena e mais um casal, muito amigo da casa, o Lobato e a mulher. Cec\u00edlia<br \/>\nrecebeu o convite com grande alvoro\u00e7o, tanto gostava ela de passear<br \/>\nde vez em quando ao ar livre, sob o tr\u00eamulo murmurejar das folhas.<\/p>\n<p>Partiram todos \u00e0s quatro horas da madrugada. Ruivo fizera vir de<br \/>\nv\u00e9spera um grande carro, apropriado para os conduzir \u00e0 quinta<br \/>\nde um seu parente, que nessa ocasi\u00e3o estava a banhos na Figueira da<br \/>\nFoz.<\/p>\n<p>A excurs\u00e3o foi muito alegre, havia em todos o bom humor peculiar<br \/>\n\u00e0s matinadas. O dia apresentava-se cheio de luz e temperado por um<br \/>\ndoce calor voluptuoso. Os cinco companheiros n\u00e3o se calaram um instante.<br \/>\nTudo era pretexto para fazer riso.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia parecia desfrutar o melhor momento de sua vida: toda risonha,<br \/>\nnas suas rendas de linho e no seu claro vestido de fust\u00e3o, estava como<br \/>\nnunca encantadora de frescura e singeleza. O chap\u00e9u de palha de It\u00e1lia<br \/>\ndava-lhe \u00e0 cabe\u00e7a, esperta e redonda, uma express\u00e3o particular<br \/>\nde travessura ing\u00eanua. Parecia uma pensionista que voltava do col\u00e9gio<br \/>\na passar f\u00e9rias com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Sentia-se feliz e disposta a descobrir encantos em tudo o que a cercava.<br \/>\nDurante a viagem quase que n\u00e3o teve uma s\u00f3 ocasi\u00e3o de<br \/>\nesconder os belos dentes brancos.<\/p>\n<p>\u2014 Como tens hoje t\u00e3o boa cor!&#8230; observava D. Helena, a rever-se<br \/>\ncom orgulho na formosura da filha.<\/p>\n<p>E em continua\u00e7\u00e3o de uma conversa, que pouco antes sustentava<br \/>\ncom a senhora do Lobato, disse com refer\u00eancia \u00e0 filha: \u2014<br \/>\nUltimamente est\u00e1 mais animada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Acho at\u00e9 mais gordinha&#8230; observou a outra.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, confirmou a professora; ela agora come com mais apetite.<\/p>\n<p>\u2014 Pudera! disse o Lobato, fazendo um ar cheio de inten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEst\u00e1 noiva!&#8230;<\/p>\n<p>Cec\u00edlia abaixou os olhos, sorrindo, mas ergueu-os logo para ir com<br \/>\neles ao encontro dos de Pedro, que nessa ocasi\u00e3o acabava de tocar com<br \/>\no p\u00e9 a ponta do pezinho da menina.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a melhor \u00e9poca do amor! considerou o Lobato filosoficamente,<br \/>\ndeixando escapar o gesto para cima da mulher.<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e1 l\u00edngua! respondeu esta a rir-se. E continuou na<br \/>\nsua conversa com Helena, que lhe ficava de frente.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo \u00e9 que parecia preocupado exclusivamente com a noiva.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei o que tanto t\u00eam os namorados para dizer um<br \/>\nao outro!&#8230; observou o Lobato, em voz baixa, \u00e0 m\u00e3e de Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Homem! respondeu a mulher, deixe l\u00e1 os outros! Quem sabe<br \/>\nse voc\u00ea no seu tempo n\u00e3o fez a mesma coisa?&#8230;<\/p>\n<p>O Lobato protestou em ar de galhofa. Helena expendeu algumas considera\u00e7\u00f5es<br \/>\na respeito de namoros, e os noivos continuaram a conversar, muito unidos,<br \/>\nmuito seguros da sua felicidade.<\/p>\n<p>\u2014 Quando \u00e9 o dia? perguntou Lobato a Helena.<\/p>\n<p>\u2014 No princ\u00edpio do m\u00eas que vem, respondeu Pedro, interrompendo<br \/>\na sua conversa com Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! ent\u00e3o \u00e9 sempre daqui a uma semana?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Infalivelmente.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 tudo pronto, acrescentou a professora, com ar de satisfa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDaqui a oito dias sou sogra&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E em breve talvez av\u00f3! profetizou o Lobato, rindo.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia abaixou de novo os olhos, corou, enquanto o Ruivo lhe apertava<br \/>\numa das m\u00e3os, como para dar c\u00f3pia da sua impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>E desta forma continuou o passeio, at\u00e9 que chegaram afinal \u00e0<br \/>\nquinta. Era um casar\u00e3o velho e sem cuidados de arte, mas em compensa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncercado de belas \u00e1rvores frondosas e de enormes tabuleiros de verdura,<br \/>\nque alegravam o ar com o cheiro fresco das hortali\u00e7as.<\/p>\n<p>Pedro foi o primeiro a saltar e oferecer a m\u00e3o \u00e0s senhoras.<br \/>\nEstava elegante; vestia um fato alvadio, de casimira-cambraia, tinha polainas,<br \/>\num grande la\u00e7o na gravata de linho e o chap\u00e9u de palha um pouco<br \/>\nderreado sobre a orelha esquerda \u00e0 Marialva. Ia muito bem esse trajar<br \/>\ncom a sua fisionomia alourada e com os seus olhos vivos e enfeitados pelas<br \/>\nlunetas de cor. Destacava-se-lhe bem da pele branca do rosto o bigode retorcido<br \/>\ne bem alinhado, e de todo ele recendia um bom ar de asseio e trato.<\/p>\n<p>Fez-se logo o almo\u00e7o ao ar livre, debaixo de uma \u00e1rvore, e<br \/>\n\u00e0 sobremesa acudiram os brindes \u00e0 felicidade dos noivos e a<br \/>\ntudo aquilo que \u00e9 de costume brindar nessas ocasi\u00f5es. Depois,<br \/>\no Lobato estendeu-se sobre a relva, tirou um jornal do bolso das cal\u00e7as<br \/>\ne p\u00f4s-se a toscanejar sobre o artigo de fundo; enquanto Helena, de camaradagem<br \/>\ncom a mulher dele se entretinha a adiantar um trabalho de agulha que levava<br \/>\ndentro da sua cesta.<\/p>\n<p>Os namorados, sempre juntos, ficaram a conversar.<\/p>\n<p>O sol estava j\u00e1 um tanto alto. Fazia calor. As \u00e1rvores, agora,<br \/>\npareciam convidar a gente para ir deitar \u00e0 tepidez apraz\u00edvel<br \/>\ndas suas sombras. Reinava um grande sil\u00eancio pela quinta; s\u00f3<br \/>\nse ouviam os rumores confusos do campo e a voz long\u00ednqua de algum pastor,<br \/>\ntangendo al\u00e9m o seu rebanho pelas montanhas.<\/p>\n<p>Helena estendera-se mais na cadeira de balan\u00e7o em que se havia assentado,<br \/>\ndeixou cair esquecida sobre os joelhos a costura, e foi pouco a pouco adormecendo<br \/>\nno gozo pl\u00e1cido da digest\u00e3o do almo\u00e7o. A mulher de Lobato,<br \/>\nmal a viu fechar os olhos, levantou-se e foi ter com o marido, que, \u00e0s<br \/>\nvoltas com seu jornal, estava prestes a fazer o mesmo que Helena; assentou-se<br \/>\nao lado dele, tomou-lhe no colo a cabe\u00e7a e come\u00e7ou a acariciar-lhe<br \/>\nos cabelos. O Lobato aninhou-se melhor no rega\u00e7o da mulher, e adormeceu<br \/>\nde todo.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia, entretanto, passeava do lado oposto pelo bra\u00e7o do<br \/>\nnoivo. Pedro Ruivo falava-lhe do seu amor e dizia a impaci\u00eancia que<br \/>\no devorava naqueles \u00faltimos longos dias.<\/p>\n<p>Ela sorria, olhando para o ch\u00e3o, e deixava que o rapaz lhe apertasse<br \/>\napaixonadamente o bra\u00e7o carnudo e bem feito.<\/p>\n<p>\u2014 Se soubesse quanto sofro!&#8230; disse ele, aproximando o rosto do de<br \/>\nCec\u00edlia. \u00c9 um tormento! Hei de ver chegar o instante de minha<br \/>\nfelicidade e ainda me parecer\u00e1 um sonho!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Falta t\u00e3o pouco!&#8230; murmurou ela, com um sorriso ador\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! faltam s\u00e9culos! exclamou ele, beijando-lhe a m\u00e3o.<br \/>\nFaltam s\u00e9culos! E, arrastados pelo prazer de estar juntos, iam andando<br \/>\npor debaixo das \u00e1rvores, esquecidos de tudo e s\u00f3 cuidosos do<br \/>\nseu amor.<\/p>\n<p>A certa altura Cec\u00edlia quis voltar, mas Pedro pediu-lhe que n\u00e3o,<br \/>\ncom um olhar \u00famido de ternura.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o voltemos&#8230; \u00c9 t\u00e3o bom estarmos assim<br \/>\nunidos, a conversar sozinhos! T\u00e3o poucas ocasi\u00f5es temos tido<br \/>\npara as nossas confid\u00eancias &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas \u00e9 que podem reparar. Voltemos! N\u00e3o \u00e9<br \/>\nbonito ficarmos aqui!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Espera! disse o mo\u00e7o, segurando Cec\u00edlia pela cintura;<br \/>\nespera um instante&#8230;<\/p>\n<p>E puxou-a para si: \u2014 N\u00e3o te v\u00e1s! Ouve! Ela fugiu com<br \/>\no rosto, toda vergada para tr\u00e1s, nos bra\u00e7os do noivo, e suplicava:<br \/>\n\u2014 N\u00e3o! N\u00e3o insista! Podemos ser vistos! Deixe-se disso!&#8230;<\/p>\n<p>Mas ele n\u00e3o atendeu, perseguindo-lhe o rosto com os l\u00e1bios<br \/>\nestendidos.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! repetia ela. N\u00e3o! n\u00e3o insista! Oh! Eu<br \/>\nfico zangada.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, meu bem, tu n\u00e3o deves ser assim comigo! N\u00f3s somos<br \/>\nquase casados!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas ainda n\u00e3o somos! \u2014 Tens medo de qualquer coisa?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tenho medo de tudo! \u2014 Ora!&#8230; resmungou Pedro Ruivo.<\/p>\n<p>E ficou muito s\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s zangado?&#8230; perguntou ela com meiguice.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei. \u00c9 melhor n\u00e3o falarmos nisso! E continuaram<br \/>\na andar para diante de bra\u00e7o dado.<\/p>\n<p>N\u00e3o trocaram uma palavra.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s zangado comigo?&#8230; perguntou Cec\u00edlia novamente,<br \/>\nvergando o rosto para encarar o rapaz.<\/p>\n<p>Ele respondeu dando-lhe um beijo em cheio nos olhos.<\/p>\n<p>Ela recuou com um grito, mas Pedro Ruivo empolgou-lhe de novo a cintura<br \/>\ne puxou Cec\u00edlia para um banco de pedra que havia pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Quando tornaram para casa, Helena notou a filha um tanto sobressaltada.<\/p>\n<p>\u2014 Aconteceu-te alguma coisa? perguntou-lhe. Parece que te assustaste.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia negou.<\/p>\n<p>\u2014 Era do calor naturalmente.<\/p>\n<p>E logo que se achou sozinha, cobriu o rosto com as m\u00e3os e desatou<br \/>\na solu\u00e7ar nervosamente.<\/p>\n<p>Contudo o resto do dia correu em paz, e \u00e0 tarde arrumaram-se as cestas<br \/>\ne puseram-se todos de novo a caminho para a cidade.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo encontrou em casa uma carta tarjada de preto: era a not\u00edcia<br \/>\nda morte de seu pai.<\/p>\n<p>Pouco se impressionou, esperava j\u00e1 por isso mesmo, e, como estivesse<br \/>\nmuito fatigado do passeio do dia, adiou para depois os transportes do seu<br \/>\namor filial; deitou-se, e da\u00ed a instantes dormia profundamente.<\/p>\n<p>Causou no Porto e no Minho grande espanto a toda a gente o saber que o pai<br \/>\nde Pedro Ruivo, em vez de deixar ao filho uma boa fortuna, apenas lhe deixara<br \/>\nalgumas d\u00edvidas. D. Helena n\u00e3o o queria acreditar, e s\u00f3<br \/>\nse capacitou da verdade, quando a ouviu narrada entre l\u00e1grimas pelo<br \/>\npr\u00f3prio \u00f3rf\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Com que o Sr. ficou inteiramente pobre?! exclamou ela, com um ar<br \/>\nque nunca at\u00e9 ent\u00e3o lhe vira o futuro genro.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade! respondeu este, sacudindo muito triste a cabe\u00e7a;<br \/>\ninfelizmente, \u00e9 verdade!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora essa!&#8230; resmungou a professora, p\u00e1lida de raiva. H\u00e1<br \/>\ncoisas neste mundo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 a sorte, D. Helena&#8230; acrescentou o Ruivo, limpando os<br \/>\nolhos.<\/p>\n<p>\u2014 E agora?! interrogou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Resta a resigna\u00e7\u00e3o! Eu por mim saberei conformar-me<br \/>\ncom o destino! \u2014 Mas \u00e9 que nem todos pensam como o senhor! H\u00e1<br \/>\nde permitir-me observar-lhe que era do seu dever de cavalheiro prevenir-nos<br \/>\nem tempo da desgra\u00e7a que o amea\u00e7ava. Ora essa! \u2014 Mas se<br \/>\neu n\u00e3o sabia de coisa alguma, D. Helena&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 imposs\u00edvel, senhor! \u2014 Mas se lhe digo que<br \/>\n\u00e9 a verdade, minha senhora?! \u2014 Diga o que quiser&#8230; eu n\u00e3o<br \/>\nacredito! \u2014 Pois n\u00e3o acredite, exclamou Pedro Ruivo, perdendo<br \/>\na paci\u00eancia. Ora p\u00edlulas! \u2014 Faltar-me ao respeito! bradou<br \/>\nHelena, possu\u00edda de c\u00f3lera&#8230; Ainda bem que o senhor mostrou<br \/>\nas unhas antes do casamento. Olha do que escapamos! \u2014 Sim! agora tenho<br \/>\neu todos os defeitos, mas quando me supunham rico, era \u201cum Santo Antoninho<br \/>\nonde te porei!\u201d Pois se n\u00e3o me quiser dar a m\u00e3o de Cec\u00edlia,<br \/>\nn\u00e3o d\u00ea! S\u00f3 lhe afian\u00e7o \u00e9 que n\u00e3o<br \/>\nserei eu s\u00f3 a perder com isso!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Hein?! Que quer dizer na sua?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso dar explica\u00e7\u00f5es, minha senhora! Sua<br \/>\nfilha \u00e9 quem est\u00e1 mais no caso de esclarecer o assunto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Minha filha?! Mas o Sr. graceja, com certeza! \u2014 Pode ser!<br \/>\nV. Exa. falar\u00e1 com Cec\u00edlia. E j\u00e1 agora declaro que n\u00e3o<br \/>\nme casarei sem ser eu o requestado! At\u00e9 logo. Quando precisarem de<br \/>\nmim, que me chamem; antes disso n\u00e3o voltarei! E Pedro Ruivo afastou-se,<br \/>\nno firme prop\u00f3sito de n\u00e3o voltar sem ser chamado. Aquele desespero<br \/>\nde Helena com a not\u00edcia de sua pobreza estava previsto h\u00e1 muito<br \/>\ntempo.<\/p>\n<p>\u2014 Olha se n\u00e3o trato com atividade do neg\u00f3cio!&#8230; Achava-me<br \/>\na estas horas posto \u00e0 margem! disse ele consigo, quando se viu na intimidade<br \/>\ndo seu quartinho de rapaz solteiro.<\/p>\n<p>Entretanto, ao que Helena ouvira de Pedro Ruivo, sobreveio-lhe uma grande<br \/>\nfebre; aquelas amea\u00e7as lhe perturbavam o esp\u00edrito. A vi\u00fava<br \/>\nprocurou inteirar-se do que havia e, com facilidade, chegou a um resultado.<br \/>\nCec\u00edlia estava desonrada.<\/p>\n<p>A desesperada m\u00e3e n\u00e3o p\u00f4de resistir ao golpe, e caiu<br \/>\nfulminada por uma terr\u00edvel congest\u00e3o cerebral. Nada lhe valeu,<br \/>\nnem a dedica\u00e7\u00e3o de Cec\u00edlia, nem os socorros m\u00e9dicos.<br \/>\nExpirou no dia seguinte, \u00e0s duas horas da tarde.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Pedro Ruivo se apresentou de novo \u00e0 \u00f3rf\u00e3,<br \/>\noferecendo-lhe, com um gesto her\u00f3ico a sua m\u00e3o de esposo. Cec\u00edlia<br \/>\nrecebeu-o entre solu\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Ele era a \u00faltima felicidade que lhe restava! \u2014 Pelo<br \/>\nmenos farei o poss\u00edvel de merec\u00ea-la, Cec\u00edlia! Amo-a ardentemente<br \/>\ne todo meu sonho dourado \u00e9 possu\u00ed-la como esposa! \u2014 Casaremos<br \/>\nquanto antes, disse ela; ser\u00e1 um casamento de luto, mas assim \u00e9<br \/>\nnecess\u00e1rio! S\u00f3 ele me poder\u00e1 salvar! No dia seguinte,<br \/>\npor\u00e9m, Pedro Ruivo chegou ao conhecimento de que Helena apenas legara<br \/>\n\u00e0 filha uma pequena nesga de terra herdada de seu pai no Alto Douro.<\/p>\n<p>\u2014 Raios me partam! exclamou o Ruivo, quando recebeu esta not\u00edcia.<\/p>\n<p>E preparou logo as malas, fugindo no mesmo dia para Lisboa, com a inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde passar ao Brasil.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia oprimida de desgostos, de remorsos e de sofrimentos, foi<br \/>\nrecolhida \u00e0 casa daquele velho amigo de seu av\u00f4, de quem fala<br \/>\no come\u00e7o deste romance. A\u00ed teve ela ocasi\u00e3o de servir<br \/>\nde enfermeira \u00e0 filha do seu benfeitor, como dissera o conde de S.<br \/>\nFrancisco a Greg\u00f3rio, quando este se achava detido no palacete da Tijuca.<\/p>\n<p>Mas a desgra\u00e7a n\u00e3o podia ficar tranq\u00fcila: o fruto do<br \/>\ncrime de Pedro Ruivo teria que patentear-se, mais cedo ou mais tarde, aos<br \/>\nolhos de todos, e por conseguinte s\u00f3 na morte ela encontraria ref\u00fagio!<br \/>\nXII A V\u00cdTIMA DE PEDRO RUIVO O velho conde de S. Francisco, o pai putativo<br \/>\nde Cec\u00edlia, na ocasi\u00e3o em que se sentiu ir resvalando para a<br \/>\nsepultura, estava desacompanhado de sua fam\u00edlia leg\u00edtima e completamente<br \/>\ndesprovido das consola\u00e7\u00f5es e dos confortos de qualquer afeto.<br \/>\nA aus\u00eancia das filhas e a desorganiza\u00e7\u00e3o da sua casa,<br \/>\ndantes t\u00e3o met\u00f3dica e bem dirigida, haviam lhe emborcado no<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o esse amargor, espesso e l\u00fagubre, que nos d\u00e1,<br \/>\naos \u00faltimos dias da exist\u00eancia, um estranho antegosto da morte<br \/>\ne nos conduz a sonhar com uma outra vida feita de paz e de esquecimento.<\/p>\n<p>Felizes os que plantam previdentemente na mocidade os colmos com que mais<br \/>\ntarde ter\u00e3o de cobrir seus derradeiros dias, e \u00e0 sombra afetuosa<br \/>\ndos quais lhe ser\u00e1 permitido abrigar o cora\u00e7\u00e3o contra<br \/>\nos ventos frios da velhice e contra os primeiros sobressaltos da morte. Desgra\u00e7ados<br \/>\ndos que descem deste mundo sem calor de beijos, que lhes aque\u00e7am as<br \/>\nm\u00e3os enregeladas, e sem ter um peito amigo que lhes recolha o \u00faltimo<br \/>\ngemido e a \u00faltima palavra! O conde de S. Francisco foi um desses desgra\u00e7ados.<br \/>\nHelena era m\u00e3e, mas n\u00e3o era esposa. S\u00f3 estas sabem ligar<br \/>\nheroicamente o seu destino ao destino do pai de seus filhos; s\u00f3 estas<br \/>\nsabem resistir \u00e0s grandes tempestades do lar e \u00e0s extremas prova\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo amor. Para morrer abra\u00e7ado ao navio \u00e9 preciso ser leg\u00edtimo<br \/>\ncomandante: \u00e9 preciso que a dignidade do seu cargo e a responsabilidade<br \/>\nmoral da posi\u00e7\u00e3o o prendam ao teu posto de honra. O falso capit\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 na altura desses sacrif\u00edcios e dessas abnega\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi justamente o que sucedeu com Helena. Quando rebentaram as primeiras<br \/>\ndesaven\u00e7as no seio da fam\u00edlia do amante, ela puxou a filha para<br \/>\nsi e afastou-se, deixando que o apaixonado velho tragasse, no segredo do seu<br \/>\ndesespero, as dores lancinantes da soledade.<\/p>\n<p>Vieram logo os padecimentos do corpo, a agrava\u00e7\u00e3o das enfermidades<br \/>\nadormecidas at\u00e9 a\u00ed; e o conde caiu prostrado no leito em que<br \/>\ntinha de expirar. O filho em Coimbra; as filhas, uma casada e longe com o<br \/>\nmarido; a outra recolhida ao convento; s\u00f3 lhe restavam f\u00e2mulos<br \/>\ne enfermeiros de aluguel.<\/p>\n<p>Lembrou-se ent\u00e3o de escrever a um seu velho amigo, que noutro tempo<br \/>\nfizera com ele a campanha contra os franceses. Era um veterano reformado com<br \/>\na patente de coronel, e que h\u00e1 seis anos descansava em terras que possu\u00eda<br \/>\nno Porto.<\/p>\n<p>Foi um espalhafato a sua chegada ao castelo do conde. Os dois velhos precipitaram-se<br \/>\nnos bra\u00e7os um do outro e come\u00e7aram a chorar como duas crian\u00e7as.<br \/>\nO conde n\u00e3o podia pronunciar palavra; as l\u00e1grimas corriam-lhe<br \/>\nem borbot\u00e3o pelas barbas brancas. E, todo tr\u00eamulo, a solu\u00e7ar,<br \/>\nhumilhado pela nimiedade daquela como\u00e7\u00e3o, sentiu faltarem-lhe<br \/>\nas derradeiras for\u00e7as e caiu agonizante.<\/p>\n<p>O coronel, estonteado pela situa\u00e7\u00e3o, maldizendo a id\u00e9ia<br \/>\nde apresentar-se t\u00e3o de surpresa, procurava consolar o amigo. Pedia-lhe<br \/>\nque sossegasse um instante e jurava n\u00e3o abandon\u00e1-lo t\u00e3o<br \/>\ncedo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim! sim, meu velho camarada, preciso de algu\u00e9m que me ajude<br \/>\na morrer na f\u00e9 em que me criei! N\u00e3o te roubarei muito tempo!<br \/>\n\u00c9s o \u00fanico que ainda vive dos nossos belos tempos da mocidade!<br \/>\nBem dizia eu c\u00e1 comigo que n\u00e3o faltaria \u00e0 entrevista<br \/>\nda minha morte! Obrigado! obrigado, meu bom amigo! Mas o coronel pouco tempo<br \/>\nteve que ficar ao lado do seu velho camarada: o conde morreu quatro dias depois<br \/>\nde chegar ele ao castelo. Assistiram-lhe os sacramentos; o moribundo, ap\u00f3s<br \/>\nas palavras do confessor, parecia confortado e disposto a deixar o mundo em<br \/>\npaz.<\/p>\n<p>Antes por\u00e9m de morrer, conversou largamente com o amigo a respeito<br \/>\ndos seus que deixava: \u2014 Meus filhos leg\u00edtimos, disse ele, est\u00e3o<br \/>\nabrigados por natureza, t\u00eam o que herdar e n\u00e3o lhes faltar\u00e1<br \/>\nlugar na sociedade. Mas eu tenho uma filha natural, uma filha que adoro e<br \/>\nque, apesar da ingratid\u00e3o com que ela e a m\u00e3e me deixaram neste<br \/>\nisolamento, n\u00e3o me sai da mem\u00f3ria um s\u00f3 instante. Tu<br \/>\nj\u00e1 sabes de quem falo! Pois bem; pensa um pouco em Cec\u00edlia;<br \/>\na infeliz pode algum dia vir a precisar dos teus socorros. Guarda bem estas<br \/>\nminhas recomenda\u00e7\u00f5es! bem sei por que tas fa\u00e7o&#8230; Deixo-lhe<br \/>\nalguma coisa, mas receio que a m\u00e3e n\u00e3o queira que isso aproveite<br \/>\n\u00e0 filha. Por conseguinte, meu velho amigo, segue-a com a tua experi\u00eancia;<br \/>\n\u00e9 este o \u00fanico servi\u00e7o que te imploro para depois da<br \/>\nminha morte! \u2014 Descansa, respondeu o coronel; prometo, sob palavra,<br \/>\nfazer o que me recomendas! \u2014 Bem! posso ent\u00e3o fechar os olhos<br \/>\nem paz. Cec\u00edlia era o meu \u00faltimo cuidado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te aflijas! Eu velarei pelo seu destino.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado! muito obrigado! E o conde morreu no dia seguinte, repetindo<br \/>\nao coronel as suas recomenda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi desta forma que, por ocasi\u00e3o da morte de Helena e da miser\u00e1vel<br \/>\nfuga de Pedro Ruivo, Cec\u00edlia recebeu em casa a visita do velho coronel.<\/p>\n<p>A figura austera e encanecida do veterano, a calma resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo seu porte marcial, e a singela energia das suas palavras, inspiraram a<br \/>\n\u00f3rf\u00e3 imediata confian\u00e7a. Ela, por\u00e9m, n\u00e3o<br \/>\nse podia furtar a certa estranheza que lhe causava semelhante visita, principalmente<br \/>\ndepois de saber que o velho ia resolvido a lev\u00e1-la para a companhia<br \/>\nde sua fam\u00edlia. O coronel compreendeu a surpresa da menina e acrescentou:<br \/>\n\u2014 Cumpro um dever sagrado, minha filha; seu pai recomendou-me que a<br \/>\nn\u00e3o desamparasse quando a visse carecedora de algum aux\u00edlio.<br \/>\nCreio que chegou a ocasi\u00e3o: est\u00e1 \u00f3rf\u00e3 e sem arrimo&#8230;<\/p>\n<p>Cumpre-me ampar\u00e1-la; serei seu pai de hoje em diante! Cec\u00edlia<br \/>\naceitou comovida a generosa m\u00e3o que se lhe estendia; mas a id\u00e9ia<br \/>\ndolorosa do seu estado perturbava-lhe o esp\u00edrito e a fazia recear de<br \/>\nqualquer conseq\u00fc\u00eancia m\u00e1 de tudo aquilo.<\/p>\n<p>Entretanto, que rem\u00e9dio tinha ela sen\u00e3o aceitar de olhos fechados<br \/>\naquele recurso ou voltar ent\u00e3o \u00e0 primitiva id\u00e9ia do suic\u00eddio?&#8230;<\/p>\n<p>Mas \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil morrer, pelas pr\u00f3prias m\u00e3os,<br \/>\nnaquela idade!&#8230; \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil abandonar a vida, quando<br \/>\nainda temos o cora\u00e7\u00e3o cheio de ilus\u00f5es!&#8230; Se aceitasse,<br \/>\npor\u00e9m, como suportar a exibi\u00e7\u00e3o da sua falta?&#8230; como<br \/>\npatentear o corpo de delito, que mais tarde lhe avultaria nas entranhas? como<br \/>\nconseguiria justificar-se de tamanha criminalidade?! Se ao menos pudessem<br \/>\navaliar, julgava a infeliz consigo, quanto n\u00f3s, as mulheres, somos<br \/>\nescravas do cora\u00e7\u00e3o; quanto a natureza nos fez passivas e cr\u00e9dulas!<br \/>\nse pudessem avaliar o modo pelo qual sucumbimos \u00e0 primeira falta; se<br \/>\nsoubessem como acreditamos no homem que nos assalta o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npela primeira vez! Mas n\u00e3o! ningu\u00e9m criminar\u00e1 o sedutor<br \/>\ne todos amaldi\u00e7oar\u00e3o a v\u00edtima! ningu\u00e9m se lembrar\u00e1<br \/>\nde que minha culpa vem da minha inoc\u00eancia, da minha pr\u00f3pria virgindade<br \/>\ne da singela espontaneidade do meu amor! Todos escarnecer\u00e3o de mim,<br \/>\ntodos rir\u00e3o da minha desgra\u00e7a, s\u00f3 porque n\u00e3o fui<br \/>\nt\u00e3o friamente calculada, t\u00e3o previdentemente refletida, que<br \/>\nsoubesse empregar as ast\u00facias e artimanhas necess\u00e1rias para<br \/>\nequilibrar o amor do meu noivo, de modo que este n\u00e3o me fugisse por<br \/>\numa vez desesperan\u00e7ado, nem tampouco me abandonado por haver conseguido<br \/>\nj\u00e1 o que desejava. E porque n\u00e3o tive o talento de ser hip\u00f3crita,<br \/>\nde fazer nega\u00e7as e de tirar partido da minha mocidade e da minha beleza,<br \/>\nhei de passar por uma criatura ruim, por uma mulher de maus instintos, por<br \/>\num ente desprez\u00edvel e perverso, a quem a sociedade fecha as suas portas!<br \/>\nMas se assim \u00e9, continuava ela a considerar, por que singular capricho<br \/>\ncriou a natureza o amor com toda a sua cegueira, com toda a sua boa f\u00e9<br \/>\ne com todos os seus irremedi\u00e1veis perigos?&#8230; Se t\u00ednhamos de<br \/>\nfazer calar todas as vozes interiores, para que ent\u00e3o inventaram na<br \/>\nnatureza outras tantas vozes que \u00e0s nossas correspondem, e que nos<br \/>\nensinam a descobrir no pecado o objeto dos nossos primeiros sonhos de mulher?&#8230;<\/p>\n<p>E Cec\u00edlia revoltava-se de antem\u00e3o contra a injusti\u00e7a<br \/>\nque pressentia \u00e0 sua espera. Na pr\u00f3pria consci\u00eancia e<br \/>\nno pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o nada a acusava; ela n\u00e3o sentia<br \/>\napetites de vingan\u00e7a contra ningu\u00e9m. Se tinha algum desejo,<br \/>\nera de perdoar o homem a quem se barateou t\u00e3o ingenuamente e pedir-lhe<br \/>\nque n\u00e3o amaldi\u00e7oasse o filho.<\/p>\n<p>Resolveu seguir imediatamente para a casa do coronel.<\/p>\n<p>Morava este retirado da cidade, em uma bela e simples vivenda campestre,<br \/>\nna companhia de uma irm\u00e3, t\u00e3o velha como ele, e de uma filha,<br \/>\nque era o encanto de seus olhos j\u00e1 amortecidos e o sol da sua longa<br \/>\nviuvez.<\/p>\n<p>Chamava-se a mo\u00e7a Margarida. Um sonho de vinte e dois anos: olhos<br \/>\nazuis, de uma grande do\u00e7ura ing\u00eanua, cabelos louros, quase sempre<br \/>\nenastrados em uma tran\u00e7a solit\u00e1ria que lhe ca\u00eda singelamente<br \/>\nao comprido das costas.<\/p>\n<p>Contradizia um tanto do seu sorrir triste, de mulher, o doce ar de menina<br \/>\nenferma, que obrigava o velho soldado a constantes sobressaltos pela sa\u00fade<br \/>\nda filha. Receava que ela n\u00e3o tivesse for\u00e7as para viver: Margarida<br \/>\nfora sempre propensa \u00e0s mol\u00e9stias pulmonares; em pequenina os<br \/>\nm\u00e9dicos a desenganaram, e, desde ent\u00e3o, sua vida era tratada<br \/>\ncomo objeto delicad\u00edssimo que se pode quebrar com o menor abalo. E<br \/>\nseria isso o que sem d\u00favida teria sucedido se, com a viuvez do coronel,<br \/>\nn\u00e3o se apresentasse a irm\u00e3 deste, disposta a servir de m\u00e3e<br \/>\na Margarida.<\/p>\n<p>O coronel enviuvara quando a filha tinha apenas cinco anos, e desde ent\u00e3o<br \/>\nnunca mais D.<\/p>\n<p>Germana, sua irm\u00e3, os desamparou. Pode-se, por conseguinte, calcular<br \/>\no estado em que ficou o coronel, sabendo, ao chegar \u00e0 casa, que Germana<br \/>\nestava perigosamente enferma, e que Margarida n\u00e3o lhe abandonava a<br \/>\ncabeceira e passava em claro noites consecutivas.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o tinha de ficar a\u00ed a sua amargura. Dias depois morria<br \/>\na m\u00e3e adotiva de Margarida, e esta por sua vez ca\u00eda seriamente<br \/>\nprostrada pela mol\u00e9stia. Foi ent\u00e3o que, de volta dos estudos,<br \/>\napareceu em casa do coronel o conde de S. Francisco. Ia agradecer os \u00faltimos<br \/>\nobs\u00e9quios prestados pelo veterano a seu pai. Levava de companheiro<br \/>\num capit\u00e3o de marinha ainda bastante mo\u00e7o, com quem travara<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es no mar e de quem se tornara muito amigo.<\/p>\n<p>O conde ofereceu \u00e0 irm\u00e3 bastarda os seus servi\u00e7os e<br \/>\napresentou-lhe o oficial de marinha com as palavras mais lisonjeiras que encontrou<br \/>\npara este. Esse oficial de marinha era o Le\u00e3o Vermelho.<\/p>\n<p>Tencionavam os dois amigos, uma vez desempenhados da obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndelicada que os levara ali, voltar imediatamente, cada um para o seu destino.<br \/>\nMas assim n\u00e3o sucedeu. Os desvelos de Cec\u00edlia \u00e0 cabeceira<br \/>\nde Margarida, o modo carinhoso, a abnega\u00e7\u00e3o, o amor com que<br \/>\nela disputava a amiga \u00e0s garras da morte, foram la\u00e7os que os<br \/>\nseduziram e prenderam.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia com efeito havia, desde logo, tomado muito interesse pela<br \/>\nenferma. Uma certa afinidade de temperamentos, e como que uma estranha necessidade<br \/>\nde padecer pelos outros, a jungiam \u00e0 cabeceira de Margarida. Suas dores<br \/>\nescondidas, talvez j\u00e1 o seu arrependimento de ter sido t\u00e3o cr\u00e9dula<br \/>\ne t\u00e3o fraca, pediam-lhe aqueles trabalhos penosos, como o remorso pede<br \/>\nao criminoso a dura expia\u00e7\u00e3o dos seus delitos.<\/p>\n<p>A v\u00edtima de Pedro Ruivo comprazia-se naquela dedica\u00e7\u00e3o;<br \/>\nachava prazer, conforto, no mart\u00edrio em que se impusera por um reclamo<br \/>\nda sua consci\u00eancia. E dessa forma n\u00e3o abandonava um s\u00f3<br \/>\ninstante a c\u00e2mara da enferma, pronta sempre a correr ao seu mais leve<br \/>\ngemido e a sustent\u00e1la nos bra\u00e7os horas esquecidas, sempre risonha,<br \/>\nsempre meiga, sempre consoladora.<\/p>\n<p>Quando a doente, um m\u00eas depois, principiou a convalescer, adorava<br \/>\na sua enfermeira. O conde de S. Francisco e o seu amigo da marinha foram encontr\u00e1-las<br \/>\nnessa situa\u00e7\u00e3o. Margarida acabava de erguer-se pelo bra\u00e7o<br \/>\nde Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Principiou ent\u00e3o uma nova \u00e9poca para todos eles. Os dois rapazes<br \/>\nse tinham apaixonado pelas duas belas amigas. O conde pretendia a filha do<br \/>\ncoronel e o oficial a outra.<\/p>\n<p>Mas Cec\u00edlia ignorava tudo isso. Uma tarde Margarida tomou-lhe as<br \/>\nm\u00e3os e disse-lhe que tinha um pedido a fazer-lhe.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 um?&#8230; perguntou aquela, beijando-lhe na face.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3, por\u00e9m t\u00e3o s\u00e9rio, que vale por muitos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9? \u2014 \u00c9 o pedido de tua m\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 De minha m\u00e3o? exclamou Cec\u00edlia, empalidecendo.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, e tu j\u00e1 sabes para quem, disfar\u00e7ada!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Para o Le\u00e3o Vermelho!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Justamente; para esse rapaz, que tanto estima teu irm\u00e3o,<br \/>\nquanto te adora&#8230;<\/p>\n<p>Cec\u00edlia n\u00e3o respondeu e deixou-se possuir de um fundo embara\u00e7o.<br \/>\nA outra insistiu, dizendolhe, entre afagos, as vantagens que poderiam vir<br \/>\ndesse casamento.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o para a filha de Helena uma grande luta interior.<br \/>\nSeu car\u00e1ter leal e generoso revoltara-se contra a mentira e a falsidade;<br \/>\nmas o perigo iminente da sua falsa posi\u00e7\u00e3o, a vergonha que a<br \/>\nesperava, sobressalto em que ela vivia, acabaram por lhe sufocar os bons impulsos.<\/p>\n<p>Entretanto Le\u00e3o Vermelho tinha de partir e precisava de uma resposta<br \/>\ndefinitiva.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 muito cedo! interveio o coronel, lembrando que Cec\u00edlia<br \/>\napenas o conhecia havia poucos dias.<\/p>\n<p>\u2014 Estas coisas, ou se resolvem assim ou se n\u00e3o resolvem nunca,<br \/>\nrespondeu o oficial. Tenho muito em breve de partir para uma viagem longa,<br \/>\ntalvez a \u00faltima que fa\u00e7a, e desejo saber se vou feliz e casado,<br \/>\nou se vou triste e consumido pelas saudades que daqui levo! Cec\u00edlia<br \/>\nconcordou finalmente. Da\u00ed a dois dias se casava com Le\u00e3o Vermelho<br \/>\ne seguiam juntos.<\/p>\n<p>A sua aus\u00eancia causou enorme tristeza em casa do coronel, mas o conde<br \/>\nprocurava suaviz\u00e1la do melhor modo poss\u00edvel, o que em grande<br \/>\nparte conseguiu.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico aconselhara a Margarida uma viagem a bons climas antes do<br \/>\ncasamento. Partiram os tr\u00eas, os noivos e o coronel, dentro de quinze<br \/>\ndias. Atravessaram a Espanha, passaram-se depois a Nice, foram a N\u00e1poles<br \/>\ne \u00e0 Sic\u00edlia. De volta a Portugal recolheram-se ao antigo castelo<br \/>\nda fam\u00edlia do conde; reuniram-se ent\u00e3o os parentes deste e celebrou-se<br \/>\nafinal o casamento com muita pompa e com muita alegria.<\/p>\n<p>Entretanto, Le\u00e3o Vermelho voltava ao Porto com a mulher, que j\u00e1<br \/>\nse achava em adiantado estado de gravidez.<\/p>\n<p>O comandante, como vimos, tratou ent\u00e3o de obter a sua reforma, e<br \/>\ncom ela um lugar que lhe deixasse gozar em terra firme o descanso e a felicidade<br \/>\ndo lar dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>Conseguiu, enfim, realizar esse desejo, mas por outro lado principiou a<br \/>\nsofrer na sua vida \u00edntima com Cec\u00edlia. A mulher parecia-lhe<br \/>\nestranhamente reservada; dir-se-ia dissimular algum segredo que a fazia sofrer<br \/>\nconstantemente. Embalde, por\u00e9m, o comandante a espreitou por muito<br \/>\ntempo; embalde procurara apanhar-lhe um gesto, uma palavra, qualquer coisa,<br \/>\nque lhe indicasse a ponta do mist\u00e9rio. Nada! Um dia, afinal, surpreendeu-a<br \/>\na fazer, com muito empenho, uma carta e, na ocasi\u00e3o em que, p\u00e9<br \/>\nante p\u00e9, foi espiar o que ela escrevia, Cec\u00edlia soltou um grito,<br \/>\ncobriu o papel com ambas as m\u00e3os e empalideceu.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe-me ver esta carta! disse Le\u00e3o Vermelho secamente.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia respondeu que tinha vergonha de mostr\u00e1-la; era uma<br \/>\nfutilidade, uma tolice!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faz mal! quero ver! \u2014 N\u00e3o&#8230; objetou a mulher,<br \/>\nprocurando compor um gesto de meiguice e de sangue frio.<\/p>\n<p>\u2014 Pior! exclamou o comandante, encolerizando-se. D\u00ea-me isso<br \/>\npor bem, se n\u00e3o quiser dar \u00e0 for\u00e7a! \u2014 Pois a\u00ed<br \/>\na tens! E Cec\u00edlia sacudiu os ombros, resignadamente.<\/p>\n<p>Le\u00e3o Vermelho leu a carta com vis\u00edveis sinais de c\u00f3lera<br \/>\nna fisionomia. Os olhos parecia crescerem-lhe debaixo das sobrancelhas crespas<br \/>\ne negras, e os l\u00e1bios contra\u00edam-se-lhe, mostrando cada vez mais<br \/>\nos dentes fuliginosos de tabaco.<\/p>\n<p>\u2014 A quem era isto dirigido?! perguntou ele, cerrando as p\u00e1lpebras<br \/>\ne atravessando a mulher com um olhar frio e penetrante.<\/p>\n<p>\u2014 Para que o queres tu saber?! N\u00e3o v\u00eas, pelo que est\u00e1<br \/>\nescrito, a digna posi\u00e7\u00e3o que tomava eu para quem me dirigia?.<\/p>\n<p>\u2014 Nada tenho a ver com isso! Quero saber para quem era esta carta!<br \/>\n\u2014 Mas que lucras tu em saber a quem era ela dirigida?! \u2014 Mau!<br \/>\nresponda \u00e0 minha pergunta e guarde as considera\u00e7\u00f5es para<br \/>\ndepois!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o declaro que te n\u00e3o digo coisa alguma! Le\u00e3o<br \/>\nVermelho segurou Cec\u00edlia pelo bra\u00e7o e repetiu a sua pergunta,<br \/>\nmas ainda assim nenhuma resposta obteve.<\/p>\n<p>\u2014 Bem! disse ele, saberei por outro lado! Todavia a carta, longe de<br \/>\ndepor contra a mulher, dizia o seguinte: \u201cCaro senhor. \u2014 Se como<br \/>\ndiz, \u00e9 cavalheiro, pe\u00e7o-lhe que n\u00e3o insista na sua persegui\u00e7\u00e3o;<br \/>\nse \u00e9 meu amigo, como tamb\u00e9m o diz, poupe-me a inquieta\u00e7\u00e3o<br \/>\na que me obrigam os seus malentendidos protestos de amor. Lembre-se de que<br \/>\nsou casada e procuro todos os dias esquecer-me do passado, desse passado que<br \/>\nme acabrunha, n\u00e3o pelo remorso, mas pelo desgosto e pela afli\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJ\u00e1 sofri em demasia por sua causa, pague-me agora de tudo isso, deixando-me<br \/>\nem paz; n\u00e3o queira aumentar os motivos de queixas que tenho contra<br \/>\no Sr. Se sup\u00f5e que algum la\u00e7o ainda nos une, est\u00e1 completamente<br \/>\niludido, porque meu&#8230;\u201d Le\u00e3o Vermelho guardou a carta consigo,<br \/>\ne principiou desde ent\u00e3o a desconfiar de Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Foi por esse tempo que lhe apareceram as amea\u00e7as de perder o emprego<br \/>\ne que ele se viu obrigado a seguir para Lisboa, a ir entender-se com o ministro<br \/>\nda marinha.<\/p>\n<p>Sabe j\u00e1 o leitor qual foi o resultado da sua viagem e da m\u00e1<br \/>\nvontade do governo portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Le\u00e3o Vermelho demitiu-se e, depois de ir ter com a mulher e o filho,<br \/>\nresolveu dar velas para o Brasil em um navio mercante. Sabe tamb\u00e9m<br \/>\nque ele, na ocasi\u00e3o de seguir, j\u00e1 no beliche, fez ao seu fiel<br \/>\nservo recomenda\u00e7\u00f5es especiais a respeito de Cec\u00edlia e<br \/>\nlhe entregou uma boa navalha de marujo.<\/p>\n<p>O marinheiro, como vimos depois, ficou deveras impressionado pelas palavras<br \/>\ndo comandante. N\u00e3o lhe sa\u00edam elas da cabe\u00e7a; parecia-lhe<br \/>\nestar ainda a ouvir Le\u00e3o Vermelho dizerlhe com a voz engrossada pela<br \/>\ncomo\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o te descuides, meu amigo! o horizonte<br \/>\nanda turvo; cheira-me que teremos borrasca! Olho na b\u00fassola e m\u00e3o<br \/>\nno leme! Se desconfiares da senhora, comunica-me qualquer sinal, e, se descobrires<br \/>\ncoisa s\u00e9rie, j\u00e1 sabes, n\u00e3o precisas esperar por mim&#8230;<br \/>\nd\u00e1-lhe duas naifadas e manda-a de presente aos melros!\u201d Tubar\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o queria ligar muita import\u00e2ncia \u00e0s suspeitas do comandante,<br \/>\nmas a cena do jardim, aquela entrevista fora de horas com um vulto mais que<br \/>\nsuspeito, vieram justificar no \u00e2nimo do bom marinheiro a recomenda\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Le\u00e3o Vermelho.<\/p>\n<p>Quem o havia de acreditar?&#8230; dizia ele consigo. Uma pessoa t\u00e3o s\u00e9ria<br \/>\ne t\u00e3o meiga, que era mesmo a imagem de Nossa Senhora do Socorro!&#8230;<br \/>\nAh! mas, tanto ela como aquele maldito papafigos, que tenham paci\u00eancia;<br \/>\nse os pilho, trabalha a faca! E nunca mais se descuidou, a respeito da patroa,<br \/>\nnas suas observa\u00e7\u00f5es e na sua espionagem.<\/p>\n<p>Entretanto Cec\u00edlia n\u00e3o era absolutamente culpada do que presenciara<br \/>\nTubar\u00e3o: Pedro Ruivo sa\u00edra do Porto com o intento de seguir<br \/>\npara o Brasil, como dissemos, mas, chegando a Lisboa, recolheu-se \u00e0<br \/>\ncasa de uma fam\u00edlia que fora muito da amizade de seu pai, e a\u00ed<br \/>\nse deixou ficar ao saber que Cec\u00edlia afinal havia casado, e que de<br \/>\npor conseguinte n\u00e3o seria perseguido. De volta ao Porto, dois anos<br \/>\ndepois daqueles acontecimentos, Pedro Ruivo, certa manh\u00e3 em que passeava<br \/>\npelo jardim das Virtudes, encontrou Cec\u00edlia acompanhada de uma bela<br \/>\ncrian\u00e7a loura.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o o viu; ele por\u00e9m reconheceu-a logo e come\u00e7ou<br \/>\nde segui-la a dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia, depois de fazer o seu passeio, recolheu-se a casa, e Pedro<br \/>\nRuivo ficou sabendo ao certo onde residia a sua noiva de outro tempo.<\/p>\n<p>\u2014 E n\u00e3o \u00e9 que o dem\u00f4nio da rapariga est\u00e1<br \/>\nainda mais bonita do que era?!&#8230; considerou ele ao voltar pelo mesmo caminho.<br \/>\nE, possu\u00eddo de estranhas como\u00e7\u00f5es, principiou desde ent\u00e3o<br \/>\na sentir-se pender para Cec\u00edlia, por esse est\u00edmulo trai\u00e7oeiro<br \/>\nque aos homens comuns faz desejar as coisas proibidas. Ela nunca lhe pareceu<br \/>\nt\u00e3o desej\u00e1vel, t\u00e3o bela, t\u00e3o digna de ser gozada.<br \/>\nDantes a extrema inoc\u00eancia, a franca confiss\u00e3o do seu amor sem<br \/>\nc\u00e1lculos e sem artif\u00edcios, a candura de suas palavras quase<br \/>\ninfantis, faziam de Cec\u00edlia um tesouro t\u00e3o f\u00e1cil de alcan\u00e7ar,<br \/>\nque Pedro Ruivo nunca se lembrara de calcular-lhe o valor.<\/p>\n<p>Procurou um pretexto para poder aproximar-se dela. Mas a coisa n\u00e3o<br \/>\nseria assim t\u00e3o f\u00e1cil, pensou ele. Cec\u00edlia devia guardar<br \/>\nfundo ressentimento da sua desgra\u00e7a; n\u00e3o era natural que a presen\u00e7a<br \/>\nde Pedro Ruivo lhe fosse muito agrad\u00e1vel. Foi ent\u00e3o que o miser\u00e1vel<br \/>\nse lembrou do filho.<\/p>\n<p>\u2014 Ora esta! exclamou, abrindo os bra\u00e7os com entusiasmo; tenho<br \/>\no melhor condutor que se pode desejar e n\u00e3o me lembrava disso!.. .<br \/>\nNem h\u00e1 de ser preciso grande esfor\u00e7o; ela ser\u00e1 talvez<br \/>\nat\u00e9 a mais interessada em me tornar a ver! E, certo de que o filho<br \/>\nera um instrumento seguro para os seus projetos, escreveu uma extensa carta<br \/>\na Cec\u00edlia, na qual procurava pintar o arrependimento que o pungia nessa<br \/>\nocasi\u00e3o, as saudades que o arrebatavam para ela, e o desejo apaixonado<br \/>\nde ver e de beijar o seu querido filhinho. \u201cContento-me com pouco\u2019<br \/>\ndizia ele; desejo apenas, uma outra vez, contemplar o inocente fruto dos nossos<br \/>\namores infelizes. Sei que deve haver no seu cora\u00e7\u00e3o, Cec\u00edlia,<br \/>\nmuito ressaibo de desgosto mas, se soubesse quanto tenho sofrido por amor<br \/>\ndisso, perdoava-me tudo! Oh! sofri muito! os remorsos n\u00e3o me desampararam<br \/>\num s\u00f3 instante o cora\u00e7\u00e3o. Chorei muita l\u00e1grima!<br \/>\namarguei muito solu\u00e7o! Entretanto era preciso resignar-me ao destino<br \/>\nsombrio, que eu mesmo preparara para mim. Fui culpado! fui muito culpado,<br \/>\nmas o arrependimento foi maior que a culpa. N\u00e3o lhe pe\u00e7o que<br \/>\nme ame; n\u00e3o lhe pe\u00e7o at\u00e9 que me perdoe, contanto que,<br \/>\nse ainda existe no seu cora\u00e7\u00e3o alguma coisa daquela ternura<br \/>\ncompassiva de outrora; se n\u00e3o se apagaram de todo aqueles piedosos<br \/>\nsentimentos, que faziam da senhora uma santa e que depois fizeram de mim um<br \/>\nm\u00e1rtir pelo remorso de n\u00e3o a ter adorado como devia e de n\u00e3o<br \/>\na ter merecido em castigo da minha maldade e da minha cegueira; se ainda existe<br \/>\nno seu cora\u00e7\u00e3o algum res\u00edduo dessas virtudes, permita,<br \/>\npor quem \u00e9, permita, pelo amor que tem naturalmente ao lindo ser que<br \/>\nlhe saiu das entranhas, que eu abrace meu pobre filhinho! Estou convencido<br \/>\nde que as l\u00e1grimas de um pai desgra\u00e7ado n\u00e3o ter\u00e3o<br \/>\nem resposta a indiferen\u00e7a e o desprezo&#8230; Oh! s\u00f3 agora acredito<br \/>\nna c\u00f3lera divina!\u201d Seguiam-se ainda algumas considera\u00e7\u00f5es<br \/>\nsobre a fatalidade, sobre o destino e outros pretextos de que se costumam<br \/>\nservir os sedutores malandros, terminando a carta por um formid\u00e1vel<br \/>\n\u201cAdeus\u201d, com ponto de admira\u00e7\u00e3o e retic\u00eancias.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo contava seguro o efeito daquele chorrilho de falsidades.<\/p>\n<p>\u2014 Em lendo isto, calculava ele, as l\u00e1grimas saltam-lhe dos<br \/>\nolhos, e Cec\u00edlia abre-me logo os bra\u00e7os. E, se assim n\u00e3o<br \/>\nfosse, para que diabo servia ent\u00e3o manter-se a gente a aprender um<br \/>\nbocado de ret\u00f3rica?&#8230;<\/p>\n<p>Mas enganou-se: Cec\u00edlia leu a carta sem a menor como\u00e7\u00e3o<br \/>\ne n\u00e3o deu resposta.<\/p>\n<p>Depois de cinco dias encontraram-se de novo na rua: Desta vez o Ruivo n\u00e3o<br \/>\nesperou que ela o lobrigasse, foi ao seu encontro; mas sofreu nova decep\u00e7\u00e3o,<br \/>\nporque tinha como certo o sobressalto e o espanto de Cec\u00edlia, quando<br \/>\nesta ali\u00e1s lhe falou sem se perturbar absolutamente.<\/p>\n<p>\u2014 Que frieza!&#8230; disse consigo o velhaco, mordido no seu amor-pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>E vaidosamente procurou descobrir naquela pr\u00f3pria indiferen\u00e7a<br \/>\num certo cunho de afeta\u00e7\u00e3o, que traduzia o medo feito por ele<br \/>\na Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quis ent\u00e3o responder \u00e0 minha carta?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 E por qu\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Porque assim o entendi.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o consente ent\u00e3o que eu de vez em quando abrace<br \/>\nesta crian\u00e7a?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, e por qu\u00ea? \u2014 Por qu\u00ea?! Ora essa! porque<br \/>\n\u00e9 meu filho! \u2014 O senhor est\u00e1 gracejando com certeza!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Cec\u00edlia! nega ent\u00e3o que eu seja pai de seu filho?!<br \/>\n\u2014 Com licen\u00e7a.<\/p>\n<p>E a senhora afastou-se muito tranq\u00fcilamente.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo ficou deveras pasmado com aquela indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Al\u00e9m de tudo, pensou ele, gesticulando sozinho; tem a fin\u00f3ria<br \/>\no cinismo de negar que sou eu o pai do pequeno!&#8230; Ora esta! Confesso que<br \/>\nn\u00e3o a supunha t\u00e3o matreira!&#8230;<\/p>\n<p>E depois de cogitar um plano de ataque, bateu com a m\u00e3o na testa,<br \/>\ne exclamou: \u2014 Ah! Tenho uma id\u00e9ia!<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>XIII AS M\u00c3ES DE GREG\u00d3RIO<\/h2>\n<p>O plano de Pedro Ruivo era atemorizar Cec\u00edlia, amea\u00e7\u00e1-la<br \/>\ncom um esc\u00e2ndalo, obrig\u00e1-la a ceder pelo medo.<\/p>\n<p>Aquele homem, que desprezara a ocasi\u00e3o em que a bela rapariga lhe<br \/>\nfranqueara a alma, impregnada de todos os perfumes da inoc\u00eancia e do<br \/>\namor, sentia-se agora estimulado brutalmente por um \u00e1rdego desejo de<br \/>\npossu\u00ed-la. A mesma fisionomia, os mesmos olhos, a mesma boca, o mesmo<br \/>\ncabelo; tudo que dantes lhe parecia nela vulgar e sem interesse, agora ressurgia<br \/>\ndefronte do seu desejo por um prisma novo de sedu\u00e7\u00e3o. A resist\u00eancia<br \/>\nde Cec\u00edlia, o nenhum caso que ela mostrou pela aproxima\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Pedro Ruivo, a sua desdenhosa indiferen\u00e7a, t\u00e3o sincera e<br \/>\nleg\u00edtima quanto fora o primitivo arrebatamento, do seu amor, ca\u00edram<br \/>\nsobre o cora\u00e7\u00e3o do perjuro, espremendo-lhe de dentro todas as<br \/>\nfezes da maldade.<\/p>\n<p>\u201cSe n\u00e3o consentires em falar comigo, escreveu ele, depois de<br \/>\noutras tentativas, farei p\u00fablico o segredo de nosso filho; contarei<br \/>\na hist\u00f3ria do nosso amor e atrairei sobre tua cabe\u00e7a a c\u00f3lera<br \/>\nde teu marido. Amo-te, j\u00e1 o sabes perfeitamente; n\u00e3o \u00e9<br \/>\nmeu filho o que me arrasta para ti, \u00e9s tu pr\u00f3pria! Se me quiseres<br \/>\natender, ter\u00e1s em mim um escravo submisso; se n\u00e3o quiseres,<br \/>\npodes ent\u00e3o contar com um inimigo implac\u00e1vel. Escolhe! Amanh\u00e3<br \/>\n\u00e0 noite estarei debaixo de tua janela; se me n\u00e3o apareceres,<br \/>\njuro-te que farei o que disse. N\u00e3o tens pretexto de recusa: teu marido<br \/>\nest\u00e1 em caminho para o Brasil; previno-te de que qualquer cilada contra<br \/>\nmim urdida, recair\u00e1 sobre ti, que \u00e9s a mais compromiss\u00edvel<br \/>\nnesta empresa.\u201d Essa amea\u00e7adora carta produziu o efeito h\u00e1<br \/>\ntanto ambicionado pelo Ruivo: Cec\u00edlia teve medo; teve medo e foi \u00e0<br \/>\nentrevista, como j\u00e1 sabe o leitor.<\/p>\n<p>\u2014 Que deseja o senhor de mim? perguntou ela com voz tr\u00eamula,<br \/>\nao aparecer entre as folhas da janela mal aberta.<\/p>\n<p>\u2014 Desejo dizer-te o que sinto por ti; o que sofro; contar-te os meus<br \/>\ntormentos e pedir-te que me ames, que te compade\u00e7as do meu desespero<br \/>\ne da minha dor! \u2014 Era s\u00f3 isso o que desejava?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me trate com essa frieza, Cec\u00edlia; lembra-te da<br \/>\npassada ventura; lembra-te dos nossos primitivos amores! Cec\u00edlia n\u00e3o<br \/>\nrespondeu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me d\u00e1s ent\u00e3o uma palavra?! insistiu Pedro<br \/>\nRuivo ao fim de uma pausa.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe hei de dizer? Nada tenho absolutamente para lhe comunicar&#8230;<br \/>\nO senhor amea\u00e7oume de perturbar a paz de minha casa, de envergonhar-me<br \/>\naos olhos da sociedade, de tornar conhecida a \u00fanica falta que cometi,<br \/>\nde incompatibilizar-me enfim com meu marido, se eu n\u00e3o consentisse<br \/>\nem lhe falar. Pois bem: eu tive medo de suas amea\u00e7as e c\u00e1 estou.<br \/>\nSe com isto n\u00e3o se d\u00e1 por satisfeito, fa\u00e7a ent\u00e3o<br \/>\no obs\u00e9quio de dizer o que ainda quer de mim; mas tenha a bondade de<br \/>\napressar-se porque este ar frio da noite pode causar-te mal&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bem! visto isso, preferes que eu publique o nosso segredo, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 verdade?! Queres que amanh\u00e3 todos saibam que sou o pai de<br \/>\nteu filho?! Pois eu te farei a vontade! \u2014 Valha-me Deus! disse Cec\u00edlia,<br \/>\ndeveras impacientada. Como posso preferir semelhante coisa, se c\u00e1 estou;<br \/>\nse consenti, bem a contragosto, em falar-lhe a estas horas e nestas circunst\u00e2ncias?!<br \/>\n\u2014 Isso n\u00e3o basta! Tu bem sabes que o verdadeiro amor n\u00e3o<br \/>\nse contenta com t\u00e3o pouco! Minha amea\u00e7a continua de p\u00e9,<br \/>\nse me n\u00e3o deixares aproximar de ti!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, respondeu Cec\u00edlia, com um gesto de resigna\u00e7\u00e3o,<br \/>\no rem\u00e9dio que tenho \u00e9 abaixar a cabe\u00e7a e sujeitar-me<br \/>\n\u00e0 sua vingan\u00e7a. O senhor dir\u00e1 o que quiser, far\u00e1<br \/>\no que bem entender! Pela minha parte, lancei m\u00e3o do que estava dignamente<br \/>\nao meu alcance para evitar uma calamidade; nada consegui, paci\u00eancia!<br \/>\nN\u00e3o me posso queixar de ningu\u00e9m! \u2014 N\u00e3o! deves queixar-te<br \/>\nde ti mesma, porque com uma palavra tua, com um sorriso, eu cairia a teus<br \/>\np\u00e9s, escravo e submisso.<\/p>\n<p>\u2014 Se ainda tem alguma esperan\u00e7a a esse respeito, pode perd\u00ea-la.<br \/>\nEu n\u00e3o me desviarei dos meus deveres.<\/p>\n<p>\u2014 Cec\u00edlia, reflete um instante! \u2014 \u00c9 justamente<br \/>\nporque muito refleti sobre isso, que me sinto agora t\u00e3o segura na minha<br \/>\nresolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s cruel! \u2014 N\u00e3o, sou razo\u00e1vel; nada lucraria<br \/>\nem esconder uma falta com outra maior. Em vez de uma teria duas! Pois o senhor<br \/>\nque me n\u00e3o perdoa a \u00fanica culpa que cometi em minha vida, e<br \/>\nessa porque fui cr\u00e9dula e inocente, quanto mais se possu\u00edsse<br \/>\no segredo de uma outra, perpetrada agora, quando j\u00e1 conhe\u00e7o<br \/>\nos homens e tenho alguma experi\u00eancia das coisas!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, disse Pedro Ruivo, dominado pelas palavras de Cec\u00edlia;<br \/>\nmas \u00e9 que as duas faltas se destruiriam mutuamente, e eu passaria do<br \/>\npapel de acusador ao de c\u00famplice, tendo, por conseguinte, tanto empenho<br \/>\nquanto tens tu em esconder o nosso mist\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! prefiro a sua raiva, a sua guerra, a toda e qualquer<br \/>\ncumplicidade entre n\u00f3s dois! \u2014 N\u00e3o me amas ent\u00e3o?<br \/>\n\u2014 De certo que n\u00e3o! \u2014 Nesse caso entrega-me meu filho!<br \/>\n\u2014 N\u00e3o tenho em meu poder nada que lhe perten\u00e7a! \u2014<br \/>\nCec\u00edlia, \u00e9 perigoso zombar dessa forma com a minha c\u00f3lera!<br \/>\n\u2014 Fa\u00e7a o que entender! E Cec\u00edlia retirou-se, fechando<br \/>\na janela.<\/p>\n<p>\u2014 Escuta! disse ainda Pedro Ruivo, mas n\u00e3o recebeu resposta<br \/>\nalguma. O jardim havia ca\u00eddo de novo no triste sil\u00eancio da noite;<br \/>\ns\u00f3 se ouvia o confuso sussurrar de algumas \u00e1rvores que se espregui\u00e7avam<br \/>\nna sombra.<\/p>\n<p>Como sabe o leitor, Tubar\u00e3o presenciou aquela cena, sem contudo ouvir<br \/>\no sentido da conversa dos supostos namorados; e perseguiu Pedro Ruivo, tendo<br \/>\nde bater-se com os dois sujeitos que a este guardavam as costas.<\/p>\n<p>No dia seguinte o marinheiro levantou-se da cama, sem ter dormido, saiu<br \/>\nde casa antes que os mais acordassem. Sentia-se muito acabrunhado: a decep\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe causaram as cenas da v\u00e9spera empolgava-lhe o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom uma formid\u00e1vel m\u00e3o de ferro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 que hesitar! pensava o pobre homem na sua brutal<br \/>\ncompreens\u00e3o do dever. O rem\u00e9dio que tenho \u00e9 despach\u00e1-la<br \/>\ne levar o pequeno ao comandante! Mal por\u00e9m assentava nesta delibera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nlogo lhe assistia um profundo desgosto de n\u00e3o poder justificar de qualquer<br \/>\nmodo o procedimento de Cec\u00edlia e convencer-se afinal da sua inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>Neste estado de hesita\u00e7\u00e3o, entrou em uma hospedaria para almo\u00e7ar,<br \/>\ncerto de que, durante o almo\u00e7o, se decidiria por qualquer partido.<br \/>\nTubar\u00e3o, como todo o homem do mar, n\u00e3o tinha o h\u00e1bito<br \/>\nde raciocinar andando pela rua. S\u00f3 podia concentrar as suas id\u00e9ias<br \/>\nem pleno isolamento, ou assentado no fundo de alguma taverna, com os cotovelos<br \/>\nfincados \u00e0 mesa e a cabe\u00e7a segura por ambas as m\u00e3os.<br \/>\n\u00c0s vezes era-lhe at\u00e9 necess\u00e1rio fechar os olhos como<br \/>\nse s\u00f3 quisesse olhar para dentro do c\u00e9rebro, sem esperdi\u00e7ar<br \/>\nnenhuma part\u00edcula da sua aten\u00e7\u00e3o com os objetos externos.<\/p>\n<p>Foi o que ele fez. Meteu-se no fundo de uma casa de pasto e pediu de comer.<\/p>\n<p>\u2014 Verdade &#8230; verdade&#8230; principiou no seu racioc\u00ednio; eu ainda<br \/>\nn\u00e3o sei bem do que se trata&#8230;<\/p>\n<p>Quem sabe l\u00e1 se a mulher do comandante j\u00e1 precisa ser castigada<br \/>\nou precisa ser simplesmente aconselhada?&#8230; Sim, porque no fim de contas,<br \/>\nela apenas conversou com o tal pelintra e n\u00e3o o recebeu em casa. Ora,<br \/>\nse eu for logo \u00e0s do cabo, posso talvez ser precipitado; o melhor ent\u00e3o<br \/>\n\u00e9 espreitar mais algum tempo, porque se houver qualquer coisa, eu ent\u00e3o<br \/>\nsaberei o que fa\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>Nesse ponto, Tubar\u00e3o ouviu perto de si uma voz que lhe chamou logo<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o. Era nada menos, que a voz de um dos sujeitos a quem<br \/>\nele esbordoara na v\u00e9spera.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1! disse consigo o marinheiro, procurando ocultar-se o<br \/>\nmelhor poss\u00edvel \u00e0s vistas do que falava. N\u00e3o pensei encontr\u00e1-lo<br \/>\nt\u00e3o depressa! Ou\u00e7amos o que canta este melro&#8230;<\/p>\n<p>Era com efeito um dos homens de Pedro Ruivo, que acabava de entrar em companhia<br \/>\nde um s\u00facio, e ficara assentado de costas para o marinheiro.<\/p>\n<p>Traziam a conversa principiada de fora, e versava esta justamente sobre<br \/>\nos acontecimentos da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>\u2014 Mas enfim? perguntou o que ainda n\u00e3o era conhecido do Tubar\u00e3o.<br \/>\nQue quer voc\u00ea de mim?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quero que venha comigo; eu j\u00e1 n\u00e3o me fio naquele espanhol!<br \/>\n\u00c9 um chorincas! Se n\u00e3o fora ele, afian\u00e7o que o sujeito<br \/>\nn\u00e3o me sa\u00eda t\u00e3o fresco da brincadeira!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o voc\u00eas n\u00e3o lhe fizeram nada?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois se lhe estou a dizer que o espanhol era o \u00fanico que<br \/>\nestava armado e, em vez de sangrar logo o tratante, p\u00f4s-se a remanchar<br \/>\ne deixou-o ir como veio!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, isso contado n\u00e3o se acredita! Eu n\u00e3o o deixaria<br \/>\nsair, sem provar o feitio c\u00e1 da menina! disse o outro com presun\u00e7\u00e3o,<br \/>\na bater sobre a algibeira em que guardava a sua faca.<\/p>\n<p>E perguntou, depois de uma pausa: \u2014 Para quando ent\u00e3o precisam<br \/>\nvoc\u00eas de mim?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Para depois de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Bem. N\u00f3s nos podemos reunir aqui mesmo ou em casa de Pedro<br \/>\nRuivo.<\/p>\n<p>\u2014 Pedro Ruivo?&#8230; disse consigo o Tubar\u00e3o. Ora espere!&#8230;<\/p>\n<p>E ficou a pensar. Lembrava-se perfeitamente de ter j\u00e1 ouvido muitas<br \/>\nvezes o nome de Pedro Ruivo, quando alguns conhecidos da fam\u00edlia de<br \/>\nCec\u00edlia falavam a respeito desta, com refer\u00eancia ao passado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o tal sujeito que esteve para casar com ela&#8230; concluiu<br \/>\no marinheiro, depois de muito puxar pela mem\u00f3ria. Pretender\u00e1<br \/>\npersegui-la ainda? Maus raios o partam, se s\u00e3o essas as suas inten\u00e7\u00f5es,<br \/>\nporque lhe tor\u00e7o o pesco\u00e7o enquanto o demo esfregar um olho!<br \/>\nE s\u00f3 se retirou quando os dois da outra mesa haviam j\u00e1 sa\u00eddo.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 casa foi logo se encaminhando para a sala de jantar,<br \/>\nonde Cec\u00edlia costumava trabalhar \u00e0quelas horas. E com efeito<br \/>\nela l\u00e1 estava, assentada a uma mesinha de costura, aparentemente toda<br \/>\npreocupada com o servi\u00e7o que tinha em m\u00e3o. O marinheiro parou<br \/>\n\u00e0 porta, sem ser sentido pela patroa.<\/p>\n<p>\u2014 Quem pode l\u00e1 acreditar que aquilo seja uma pecadora!&#8230; disse<br \/>\nele consigo, a contemplar a casta figura da rapariga. Ela nunca lhe parecera<br \/>\nt\u00e3o senhora de si, t\u00e3o tranq\u00fcila. Tinha a fisionomia fresca<br \/>\ne lou\u00e7\u00e3 como quem vive sem pesos na consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O filhinho brincava a seus p\u00e9s, entre um mont\u00e3o de alegres<br \/>\ndestro\u00e7os; bonecos decepados, um peda\u00e7o de urna, espada de pau,<br \/>\num tambor inv\u00e1lido e uma cornetinha j\u00e1 sem feitio.<\/p>\n<p>\u2014 A patroa d\u00e1 licen\u00e7a? disse da porta o criado com a<br \/>\nsua voz rude de marujo.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u00e9 voc\u00ea, Tubar\u00e3o? Entre. Como est\u00e1?<br \/>\n\u2014 Eu, gra\u00e7as \u00e0 Virgem, n\u00e3o vou com mau vento! E<br \/>\nvossemec\u00ea? \u2014 Bem obrigada, respondeu Cec\u00edlia, estalando<br \/>\num suspiro.<\/p>\n<p>E como Tubar\u00e3o ficasse calado: \u2014 Voc\u00ea saiu hoje muito<br \/>\ncedo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, resmungou o marujo, co\u00e7ando a cabe\u00e7a,<br \/>\nsem encontrar um modo de principiar o que desejava dizer. \u00c9 verdade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que tem voc\u00ea hoje, Tubar\u00e3o? Estou o estranhando&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o c\u00e1 coisas. Eu n\u00e3o preguei olho esta noite!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Hein?! perguntou Cec\u00edlia com sobressalto.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, respondeu o outro; passei-a em claro e de p\u00e9!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 De p\u00e9?! No seu quarto naturalmente?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim; \u00e0 minha janela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0 sua janela, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Das onze \u00e0s tr\u00eas da madrugada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! fez Cec\u00edlia, sem levantar os olhos.<\/p>\n<p>E os dois ficaram mudos, defronte um de outro. Ela principiou a coser com<br \/>\nmais empenho, por\u00e9m a agulha tremia-lhe nos dedos.<\/p>\n<p>\u2014 Vou escrever ao patr\u00e3o!&#8230; disse afinal o marinheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Vai escrever? exclamou a senhora, erguendo-se e deixando cair no<br \/>\nch\u00e3o a costura. Mas que tem voc\u00ea para dizer ao capit\u00e3o?!<br \/>\nFale com franqueza! \u2014 Eu vi tudo! explicou secamente o marinheiro.<\/p>\n<p>\u2014 E por que ent\u00e3o n\u00e3o veio ao meu socorro?! Se soubesse<br \/>\no servi\u00e7o que me teria prestado! \u2014 Como?! O servi\u00e7o?&#8230;<br \/>\nvossemec\u00ea ent\u00e3o n\u00e3o estava por seu gosto a aturar aquele<br \/>\nsujeito de ontem?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! Deus sabe por que o aturei! \u2014 E por que foi?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Infelizmente n\u00e3o lhe posso dizer nada, mas juro-lhe que sou<br \/>\nincapaz de faltar com meus deveres de esposa! \u2014 E consente que um homem<br \/>\npenetre fora de horas em sua casa, patroa?&#8230; Ah! Isso n\u00e3o se faz!<br \/>\n\u2014 Em minha casa, n\u00e3o! \u2014 Mas no seu jardim!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! n\u00e3o me crimine por amor de Deus! Juro-lhe que n\u00e3o<br \/>\nsou culpada! \u2014 Sim! eu acredito, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 As apar\u00eancias acusam-me; bem sei! repito-lhe por\u00e9m<br \/>\nque sou incapaz de enganar meu marido! \u2014 Que quer dizer ent\u00e3o<br \/>\na visita daquele homem?&#8230; Desculpe vossemec\u00ea, mas eu tenho de dar contas<br \/>\nao comandante! N\u00e3o! l\u00e1 o que me est\u00e1 em confian\u00e7a<br \/>\nh\u00e1 de ser vigiado! Se aquele sujeito \u00e9 um velhaco, eu o afasto<br \/>\ncom dois murros; se ele aqui veio autorizado pela dona da casa, ent\u00e3o<br \/>\n\u00e9 com ela que me tenho de haver! \u2014 Que quer dizer voc\u00ea?<br \/>\n\u2014 Quero dizer que eu aqui represento a pessoa do meu patr\u00e3o!<br \/>\nSe ele \u00e9 atrai\u00e7oado, tenha vossemec\u00ea paci\u00eancia,<br \/>\nmas eu o vingarei! \u2014 Uma amea\u00e7a?! Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem mais, nem menos! \u00c9 p\u00f4r em pratos limpos<br \/>\no que h\u00e1! Cartas na mesa! Ou ent\u00e3o fa\u00e7o justi\u00e7a<br \/>\na meu modo! \u2014 Meu Deus! exclamou Cec\u00edlia, segurando a cabe\u00e7a.<br \/>\nQue humilha\u00e7\u00e3o! que vergonha! E, vendo que o marinheiro parecia<br \/>\nfirme nas suas amea\u00e7as, procurou abrand\u00e1-lo com ternura. \u2014<br \/>\nMas, Tubar\u00e3o, reflita, lembre-se de que h\u00e1 coisas, segredos,<br \/>\nque se n\u00e3o podem contar assim t\u00e3o facilmente!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Uma mulher honesta n\u00e3o tem segredos para seu marido! \u2014<br \/>\nE se for um segredo que venha do tempo em que eu ainda n\u00e3o era casada?&#8230;<br \/>\nAcaso me poder\u00e3o agora responsabilizar por ele?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Conforme!&#8230; respondeu Tubar\u00e3o, inalter\u00e1vel. Em todo<br \/>\no caso n\u00e3o admito que se engane ao meu comandante! Se vossemec\u00ea<br \/>\nn\u00e3o me quer dizer o que h\u00e1, Pedro Ruivo h\u00e1 de diz\u00ea-lo<br \/>\n\u00e0 for\u00e7a! \u2014 Ah! exclamou Cec\u00edlia, empalidecendo.<br \/>\nEstou perdida! Sabe tudo! murmurou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Que h\u00e1 entre Pedro Ruivo e vossemec\u00ea, D. Cec\u00edlia?!<br \/>\n\u2014 Oh! se sabe tudo, n\u00e3o me obrigue a corar em sua presen\u00e7a!<br \/>\nPoupe-me essa vergonha! O pequenito levantara-se atra\u00eddo por aquela<br \/>\ncena e olhava espantado para Tubar\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o sei coisa alguma! respondeu este. Fale vossemec\u00ea!<br \/>\n\u2014 O meu Deus! Mas que quer que lhe diga?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quero que me fale com franqueza ou comunico o que sei ao comandante.<br \/>\nSe vossemec\u00ea for inocente, n\u00e3o lhe farei mal algum&#8230; pode ficar<br \/>\ndescansada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E jura-me, Tubar\u00e3o, que, se eu lhe provar a minha inoc\u00eancia,<br \/>\npoderei contar com o seu aux\u00edlio para fugir \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Pedro Ruivo?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Palavra de marinheiro! \u2014 Nesse caso vou contar-lhe tudo.<\/p>\n<p>E Cec\u00edlia narrou francamente os fatos de sua vida, j\u00e1 sabidos<br \/>\npelo leitor. Tubar\u00e3o ouviu-os com interesse e, terminada a narra\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncorriam-lhe as l\u00e1grimas dos olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Com mil raios! exclamou ele afinal; h\u00e1 muito homem ruim por<br \/>\neste mundo! E, tendo refletido um instante, perguntou se Greg\u00f3rio n\u00e3o<br \/>\nera ent\u00e3o filho do comandante.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! respondeu Cec\u00edlia; n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Raios me partam! que n\u00e3o sei o que fa\u00e7a! A senhora<br \/>\ndevia ter declarado isso logo, no momento de casar!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Faltou-me a coragem, meu amigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Agora, ou hei de mentir ao patr\u00e3o, ou tenho de acus\u00e1-la;<br \/>\no que deveras me faz pena, porque no fim de contas, o culpado \u00e9 aquele<br \/>\nmaroto! Ah! ele \u00e9 que devia receber uma boa li\u00e7\u00e3o!&#8230;<br \/>\nE h\u00e1 de receb\u00ea-la ou n\u00e3o sou eu quem sou! Cec\u00edlia,<br \/>\nquando o Tubar\u00e3o se despediu, recolheu-se ao quarto muito acabrunhada.<br \/>\n\u00c0 noite apareceram-lhe febres, e no dia seguinte n\u00e3o se p\u00f4de<br \/>\nlevantar da cama.<\/p>\n<p>Entretanto, o marinheiro embalde procurou encontrar-se com Pedro Ruivo.<br \/>\nEste nem s\u00f3 faltara \u00e0 entrevista de que falaram os dois homens<br \/>\nda taverna, como n\u00e3o aparecia em parte alguma; s\u00f3 no fim de<br \/>\nquinze dias constou que ele j\u00e1 n\u00e3o estava no Porto.<\/p>\n<p>\u2014 O velhaco parece que adivinhou! disse consigo o Tubar\u00e3o,<br \/>\ne adiou para mais tarde o que reservava para o Ruivo. Mas n\u00e3o p\u00f4de<br \/>\nficar tranq\u00fcilo; Cec\u00edlia continuava doente, desde o terr\u00edvel<br \/>\ndia em que o rude marinheiro lhe arrancou a confiss\u00e3o da sua falta.<\/p>\n<p>\u2014 Fui um bruto! considerava ele; devia ter feito a coisa de outro<br \/>\nmodo! Fui logo \u00e0s do cabo! E, para penitenciar-se, desfazia-se em desvelos<br \/>\ncom a enferma. A mol\u00e9stia, por\u00e9m, n\u00e3o cedia, e o m\u00e9dico<br \/>\nde Cec\u00edlia principiava a desanimar.<\/p>\n<p>Assim correram dois meses e meio, at\u00e9 que a chegada inesperada do<br \/>\ncomandante veio transformar completamente a situa\u00e7\u00e3o. Le\u00e3o<br \/>\nVermelho trazia consigo uma carta an\u00f4nima em que lhe patenteavam as<br \/>\nculpas da mulher. Pedro Ruivo cumprira a sua promessa: Cec\u00edlia estava<br \/>\ndenunciada. O comandante, que vivia j\u00e1 sobredesconfiado com a primeira<br \/>\ncarta surpreendida nas m\u00e3os da esposa, acabou por se julgar tra\u00eddo<br \/>\ne ultrajado, principalmente \u00e0 vista dos sobressaltos da acusada, quando<br \/>\nouviu falar do crime em que era suspeita, e \u00e0 vista dos embara\u00e7os<br \/>\nde Tubar\u00e3o, quando o amo o interpelou sobre o que se passara com Cec\u00edlia<br \/>\nna sua aus\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9s um canalha! bradou-lhe Le\u00e3o Vermelho, quando percebeu<br \/>\nque Tubar\u00e3o n\u00e3o lhe contava tudo o que sabia.<\/p>\n<p>\u2014 Serei, com mil raios! mas n\u00e3o abro a boca para dizer uma<br \/>\npalavra! \u2014 \u00c9s ent\u00e3o o c\u00famplice daquela miser\u00e1vel?!<br \/>\n\u2014 N\u00e3o! sou o c\u00e3o que lhe guarda a porta! Ningu\u00e9m<br \/>\nentrar\u00e1 ali para lhe fazer o menor mal! Ouviu-se ent\u00e3o uma gargalhada<br \/>\nestranha. E o vulto de Cec\u00edlia, p\u00e1lido e transformado, assomou<br \/>\n\u00e0 porta do seu quarto.<\/p>\n<p>Parecia vir da sepultura.<\/p>\n<p>Le\u00e3o Vermelho recuou assustado, e Tubar\u00e3o olhou com grande<br \/>\nespanto para a figura esqu\u00e1lida, que acabava de surgir no esvazamento<br \/>\nda porta.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia parecia um espectro; a magreza extrema secara-lhe as cores<br \/>\nprovocadoras do rosto; seus olhos bailavam nas cavadas \u00f3rbitas, sinistros<br \/>\nna travessa inconsci\u00eancia da loucura; os cabelos ca\u00edam-lhe desgrenhadamente<br \/>\npelo rosto e pelas costas, dando-lhe a express\u00e3o fant\u00e1stica<br \/>\nde uma f\u00faria de G\u00f3ia; o peito, despojado pela mol\u00e9stia,<br \/>\naparecia na sua profunda palidez por entre os rasg\u00f5es da camisa, e<br \/>\nos bra\u00e7os esquel\u00e9ticos moviam-se vagarosamente, quase sem for\u00e7as<br \/>\npara suportar o pr\u00f3prio peso.<\/p>\n<p>Os dois homens sentiram-se aterrados \u00e0 vista daquela apari\u00e7\u00e3o<br \/>\ninesperada. O pequenito, ao encarar com o medonho espectro da m\u00e3e,<br \/>\nabriu a chorar de medo e a segurar-se nas pernas do marujo.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia, entretanto, continuava a rir estranhamente e a fazer para<br \/>\nos dois momices inintelig\u00edveis. O marinheiro cobriu o rosto com as<br \/>\nm\u00e3os e abafou os solu\u00e7os; s\u00f3 se lhe via arfar o largo<br \/>\npeito, debaixo das grossas barbas rodadas pelo pranto. O comandante passeava<br \/>\nos olhos de um para o outro, como se lhes perguntasse a ambos o que haviam<br \/>\nfeito da sua felicidade.<\/p>\n<p>Depois apoiou-se \u00e0 parede e caminhou tropegamente para o quarto;<br \/>\no pequenito quis acompanh\u00e1lo, mas ele o desviou com a m\u00e3o, sem<br \/>\nvoltar o rosto.<\/p>\n<p>Cec\u00edlia apontou para o filho e soltou uma nova risada. Ent\u00e3o<br \/>\no marinheiro tomou ao colo a crian\u00e7a e come\u00e7ou a ameig\u00e1-la,<br \/>\ncomo fazia dantes nos tempos mais felizes; Greg\u00f3rio s\u00f3 se consolou<br \/>\nde todo com a promessa de que o marujo lhe contaria a hist\u00f3ria da sereia<br \/>\nque furtava os meninos endiabrados. Mas o pobre homem tinha de interromper<br \/>\nde vez em quando a sua narrativa, porque um \u00e1spero novelo lhe tolhia<br \/>\na voz na garganta.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 chorando?&#8230; perguntou o pequeno, muito admirado.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que tenho pena dos meninos que a sereia carrega &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Coitadinhos! disse aquele interessado na hist\u00f3ria, e pediu<br \/>\nao marujo que lhe cantasse certa modinha de que ele gostava muito.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! hoje n\u00e3o se canta! Mas o pequeno insistiu, chorou;<br \/>\ne o marinheiro afinal, para n\u00e3o ser ouvido pela patroa, carregou com<br \/>\nele para o terra\u00e7o e principiou a cantar a mesma loa com que procurava<br \/>\nantigamente distrair Cec\u00edlia. A voz rude e grossa tremia-lhe na garganta.<br \/>\nO pequenito, assentado nas pernas do marujo, olhava para este embebido naquela<br \/>\ntoada mon\u00f3tona, com que tantas vezes adormecera.<\/p>\n<p>Quando Tubar\u00e3o acabou, solu\u00e7ando, a \u00faltima estrofe<br \/>\nda cantiga, deu com a louca, que ali fora atra\u00edda por uma vaga reminisc\u00eancia<br \/>\ndas suas tardes de ver\u00e3o. Essa n\u00e3o chorava.<\/p>\n<p>Veio o m\u00e9dico mais tarde e declarou que a doente precisava sair daquela<br \/>\ncasa. Tubar\u00e3o n\u00e3o sabia o que fazer; procurou falar ao amo;<br \/>\neste, com um formid\u00e1vel grito, exigiu que o deixassem em paz, depois<br \/>\ntornou a fechar a porta do quarto e n\u00e3o apareceu a mais ningu\u00e9m<br \/>\nnesse dia.<\/p>\n<p>Em tais apuros, saiu de casa o marinheiro para providenciar sobre o que<br \/>\nurgia, quando, ao dobrar uma esquina, deu cara a cara com Margarida, que passeava<br \/>\npelo bra\u00e7o do marido.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o Tubar\u00e3o! exclamou o conde, quando o marinheiro<br \/>\nse aproximou dele.<\/p>\n<p>\u2014 Creio que sim! porque eu mesmo j\u00e1 n\u00e3o sei a quantas<br \/>\nando! \u2014 Voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o mora em companhia de Cec\u00edlia?<br \/>\nperguntou Margarida.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9 por causa dela mesma, coitada! que ando nesta dobadoura&#8230;<\/p>\n<p>E o marinheiro em poucas palavras contou o que havia.<\/p>\n<p>\u2014 Conde, depressa! gritou a boa senhora; corramos a socorrer a pobre<br \/>\nCec\u00edlia! O conde deu-lhe o bra\u00e7o e seguiram todos para a casa<br \/>\nde Le\u00e3o Vermelho.<\/p>\n<p>Margarida havia chegado na v\u00e9spera ao Porto, e tinha de partir da\u00ed<br \/>\na tr\u00eas dias. O m\u00e9dico aconselhara ao marido que a fizesse viajar,<br \/>\ne o conde, que adorava a mulher, tremia s\u00f3 com a id\u00e9ia de que<br \/>\nlhe voltassem a ela os antigos padecimentos. Mas desta vez era necess\u00e1rio<br \/>\num clima mais quente, e, como Margarida n\u00e3o se dava bem com os ares<br \/>\ndo sul da It\u00e1lia, ficara resolvido seguirem para o Brasil.<\/p>\n<p>O conde chamou um carro que passava na ocasi\u00e3o, e da\u00ed a pouco<br \/>\neram conduzidos pelo marujo ao lado da louca. Cec\u00edlia n\u00e3o os<br \/>\nreconheceu, ou pelo menos n\u00e3o mostrou o menor interesse em tornar a<br \/>\nv\u00ea-los. Le\u00e3o Vermelho atirou-se nos bra\u00e7os do amigo, e<br \/>\nent\u00e3o desabafou em l\u00e1grimas o desgosto que se lhe havia acumulado<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Sou um desgra\u00e7ado! disse ele, com a cabe\u00e7a no peito<br \/>\ndo conde; imaginei que o casamento me traria a paz na velhice e a consola\u00e7\u00e3o<br \/>\npara as injusti\u00e7as que recebi de toda a parte, quando ali\u00e1s<br \/>\ns\u00f3 me serviu ele para carretar novos dissabores e para me amargurar<br \/>\nde todo o resto da exist\u00eancia! O conde interrogou por v\u00e1rios<br \/>\nmodos o comandante, mas este n\u00e3o lhe quis dar explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ficou decidido que Cec\u00edlia entraria para uma casa de alienados e<br \/>\npassaria, quando melhorasse, para o convento de Santa Clara; quanto a Greg\u00f3rio,<br \/>\na condessa o reclamou para si e encarregouse de educ\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Da\u00ed a tr\u00eas dias seguiam o conde, a esposa e o pequenito para<br \/>\no Brasil; Le\u00e3o Vermelho, acompanhado do seu fiel marinheiro, tomava<br \/>\npassagem para as Antilhas espanholas, onde tencionava especular no com\u00e9rcio,<br \/>\ne a pobre louca recolhia-se ao hospital.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio demorou-se tr\u00eas anos em poder da condessa, e durante<br \/>\nesse tempo recebeu a mais desvelada educa\u00e7\u00e3o que se podia proporcionar<br \/>\na um filho querido. Margarida tomou-lhe verdadeiro carinho e s\u00f3 consentiu<br \/>\nem separar-se dele, quando deu \u00e0 luz a \u00fanica filha que teve,<br \/>\nMaria Lu\u00edsa, aquela bela menina loura, que no come\u00e7o desta narrativa<br \/>\ncosturava \u00e0 luz do candeeiro de alabastro no palacete da Tijuca.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio passou ent\u00e3o para o col\u00e9gio do bar\u00e3o<br \/>\nde Totoepheus, onde cursou os seus primeiros estudos. A condessa, mal convalesceu<br \/>\ndo parto, voltou com o marido a Portugal, deixando tomadas todas as provid\u00eancias<br \/>\nnecess\u00e1rias para que no Brasil nada faltasse ao filho adotivo, e sendo<br \/>\nao lado deste substitu\u00edda por uma sua amiga, D. Florentina de Aguiar.<\/p>\n<p>E agora, que Greg\u00f3rio est\u00e1 aboletado perfeitamente no col\u00e9gio,<br \/>\ncom o seu belo enxoval de roupas brancas, os seus livros novos, a sua cama<br \/>\nde ferro, a sua mesinha de cedro e a sua pequenina estante de madeira pintada,<br \/>\ndeixemos que ele se desenvolva e se v\u00e1 preparando para entrar mais<br \/>\ntarde nas cenas que o esperam; por enquanto, vamos acompanhar o Le\u00e3o<br \/>\nVermelho, cuja vida transcendente tem de explicar muito dos epis\u00f3dios<br \/>\nocorridos nos passados cap\u00edtulos e muitos epis\u00f3dios ainda n\u00e3o<br \/>\nconhecidos do leitor.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a> XIV OS PAIS DE GREG\u00d3RIO<\/h2>\n<p>Le\u00e3o Vermelho pouco tempo se demorou pelas Antilhas; percorreu Cuba<br \/>\ne Porto Seguro; foi feliz no com\u00e9rcio de tabaco, e tentou alarg\u00e1-lo,<br \/>\nentregando-se a novas especula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os desgostos de fam\u00edlia, a aus\u00eancia de carinhos, a falta absoluta<br \/>\nde algu\u00e9m a quem se dedicasse ele de cora\u00e7\u00e3o, deram-lhe<br \/>\nao car\u00e1ter esse esp\u00edrito ganancioso que se nota principalmente<br \/>\nnos judeus desmanados ou nos padres cat\u00f3licos, aos quais as leis can\u00f4nicas<br \/>\npro\u00edbem constituir o lar, a dedica\u00e7\u00e3o \u00edntima e<br \/>\no amor.<\/p>\n<p>Mas o pai oficial de Greg\u00f3rio tinha ineg\u00e1vel queda para fazer<br \/>\nfam\u00edlia. E a prova disso vai ver o leitor.<\/p>\n<p>Dissemos que de se lembrara de ampliar as suas especula\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne acrescentamos agora que Le\u00e3o Vermelho n\u00e3o poderia encontrar<br \/>\nmelhor \u00e9poca para p\u00f4r em pr\u00e1tica semelhante resolu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA guerra do Paraguai estava no seu apogeu; os comiss\u00e1rios de todos<br \/>\nos matizes enriqueciam da noite para o dia; chegar ao Paraguai com um carregamento<br \/>\nde v\u00edveres e objetos de uso vulgar era haver como certo o valor desses<br \/>\nobjetos dobrado vinte vezes a peso de ouro.<\/p>\n<p>Le\u00e3o Vermelho fez um grande carregamento com todo o dinheiro que<br \/>\nganhara nas Antilhas, e resolveu seguir para o Rio da Prata.<\/p>\n<p>Teve por\u00e9m de demorar-se no Rio de Janeiro mais tempo do que supunha,<br \/>\nporque fora acometido pela febre amarela. Morava para as bandas de Catumbi,<br \/>\nnuma casa de pens\u00e3o, dirigida por uma vi\u00fava ainda mo\u00e7a.<br \/>\nFoi esta que se encarregou de o tratar, e com tanto empenho se dedicou a t\u00e3o<br \/>\ndisplicente tarefa, que o capit\u00e3o, ao convalescer da febre, havia adoecido<br \/>\nde uma outra enfermidade, cujos lenitivos s\u00f3 a pr\u00f3pria enfermeira<br \/>\nlhos podia ministrar.<\/p>\n<p>E ministrou-os. N\u00e3o a medir sovinamente as doses, como fazem os m\u00e9dicos,<br \/>\nmas a franque\u00e1las liberalmente, como se quisesse utilizar as suas drogas,<br \/>\nque se iam desvirtuando sem aproveitar a ningu\u00e9m. De sorte que Le\u00e3o<br \/>\nVermelho, ao partir para o Rio da Prata, j\u00e1 levava saudades da corte<br \/>\ne j\u00e1 se sentia consolado quase das suas primeiras adversidades conjugais.<\/p>\n<p>Os ressentimentos desapareceram afinal, mas as saudades foram avultando<br \/>\nde tal forma, que o comiss\u00e1rio acabou por acreditar que j\u00e1 lhe<br \/>\nn\u00e3o era poss\u00edvel dispensar a consoladora companhia da vi\u00fava.<br \/>\nIsso mesmo deixava ele provocado no calor das suas cartas e no interesse que<br \/>\npunha nas palavras, sempre que falava em voltar para a casa de pens\u00e3o<br \/>\nda Sra. D. Henriqueta dos Santos. Esta, pelo seu lado, n\u00e3o podia deixar<br \/>\nde ter na mem\u00f3ria o querido h\u00f3spede, porque Le\u00e3o Vermelho<br \/>\nse fazia representar na sua aus\u00eancia por um fen\u00f4meno fisiol\u00f3gico<br \/>\nmuito conhecido, que ia roubando \u00e0 vi\u00fava uma grande parte da<br \/>\neleg\u00e2ncia, e dando \u00e0 sua cintura uma certa dilata\u00e7\u00e3o<br \/>\nsuspeita e respeit\u00e1vel ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Quando, um ano depois, o comiss\u00e1rio voltou ao Rio de Janeiro, em<br \/>\nvez de ser recebido simplesmente pelos dois belos bra\u00e7os carnudos de<br \/>\nD. Henriqueta, foi tamb\u00e9m recebido por mais outros dois, n\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o provocadores, por\u00e9m talvez mais belos e com certeza mais<br \/>\nador\u00e1veis: eram os bracinhos de uma filha.<\/p>\n<p>O leitor n\u00e3o precisar\u00e1 fazer um grande esfor\u00e7o de intelig\u00eancia<br \/>\npara adivinhar que essa crian\u00e7a \u00e9 Clorinda, a formosa criatura<br \/>\nque havia de mais tarde cair nas garras do nosso Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>Le\u00e3o Vermelho continuava a prosperar; as especula\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Paraguai enchiam-lhe fartamente as algibeiras. D. Henriqueta desfez a casa<br \/>\nde pens\u00e3o, e dela conservou somente uma velha amiga de muitos anos:<br \/>\nD. Janu\u00e1ria; cumprindo deste modo, n\u00e3o s\u00f3 um dever de<br \/>\ngratid\u00e3o para com essa pobre senhora que fora por longo tempo o seu<br \/>\nbra\u00e7o direito, como tamb\u00e9m evitando assim ficar s\u00f3 com<br \/>\na filhinha, durante as repetidas viagens do capit\u00e3o.<\/p>\n<p>O comiss\u00e1rio comprou uma confort\u00e1vel casinha no Campo de Santana,<br \/>\npreparou-a com o desvelo dos homens dados \u00e0 fam\u00edlia, e disp\u00f4s-se<br \/>\na encontrar, nesse modesto ref\u00fagio, a paz e a felicidade que n\u00e3o<br \/>\nconseguiu gozar nos bra\u00e7os da esposa leg\u00edtima.<\/p>\n<p>Clorinda foi batizada muito modestamente; convidou-se para padrinho um rapaz<br \/>\nda vizinhan\u00e7a, que j\u00e1 em algum tempo fora pensionista de Henriqueta:<br \/>\no Portela, belo mo\u00e7o do com\u00e9rcio, pac\u00edfico e apresentando<br \/>\nbons costumes. Diziam dele coisas muito lisonjeiras, e entre os da mesma classe<br \/>\npassava por esp\u00edrito claro e vantajosamente cultivado.<\/p>\n<p>Foi desse modesto padrinho que brotou aquele pretensioso comendador, com<br \/>\nque travamos conhecimento desde o primeiro cap\u00edtulo. Trazia j\u00e1<br \/>\nconsigo certa pontinha de emp\u00e1fia; j\u00e1 naquele tempo, se bem<br \/>\nque os meios lhe n\u00e3o permitissem ainda ablaquear grande figura, gostava<br \/>\nele de empinar o nariz e de emitir opini\u00e3o sobre assuntos de sua ignor\u00e2ncia.<br \/>\nPara madrinha convidou-se quem era de esperar: D. Janu\u00e1ria. A boa senhora<br \/>\nmorria de amores pela filhinha da amiga; ficou satisfeita com a escolha. E<br \/>\ntudo correu muito bem.<\/p>\n<p>Le\u00e3o Vermelho, ainda n\u00e3o saciado, voltou ao campo de suas<br \/>\nespecula\u00e7\u00f5es e, ao que parece, n\u00e3o com menor fortuna<br \/>\ndo que da primeira vez, porque ao voltar agora tratou de desenvolver a sua<br \/>\ncasa; cercou-se de opul\u00eancia, abriu as salas e procurou estender as<br \/>\nsuas rela\u00e7\u00f5es com a melhor sociedade.<\/p>\n<p>O diabo era o fato de n\u00e3o ser casado ou, por outra, de ser j\u00e1<br \/>\ncasado e n\u00e3o poder, assim, justificar as suas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom Henriqueta e apresent\u00e1-la limpamente nos sal\u00f5es que em torno<br \/>\ndele se abriam. Entretanto ningu\u00e9m no Brasil parecia estar ao fato<br \/>\ndo seu casamento em Portugal, e ele pr\u00f3prio ia jurar que Cec\u00edlia<br \/>\nhavia j\u00e1 morrido no tal convento a que afinal se recolhera, pois nunca<br \/>\nmais lhe constou a menor novidade a respeito da pobre louca.<\/p>\n<p>Sob esta impress\u00e3o recebeu a not\u00edcia de que acabava de morrer<br \/>\nem Minas Gerais um tio materno de Henriqueta, do qual nem a pr\u00f3pria<br \/>\nsobrinha se lembrava. Nada menos de uma heran\u00e7a de cem contos de r\u00e9is!<br \/>\nEste fato o decidiu a contrair casamento com a herdeira e partir depois em<br \/>\ncompanhia dela para o lugar onde tinha de receber o legado; mas a fortuna,<br \/>\nque at\u00e9 a\u00ed n\u00e3o o desamparara, entendeu desta vez virar-lhe<br \/>\nas costas. O tio de Henriqueta deixara alguns parentes afastados; esses parentes<br \/>\ncobi\u00e7aram tamb\u00e9m o dinheiro do defunto e trataram de guerrear<br \/>\na pretens\u00e3o da sobrinha. Le\u00e3o Vermelho foi perseguido; os inimigos,<br \/>\nno furor de prejudic\u00e1-lo, descobriram a sua bigamia, levaram o esc\u00e2ndalo<br \/>\npara a imprensa e mais tarde para os tribunais. O comiss\u00e1rio, aflito<br \/>\ncom semelhante persegui\u00e7\u00e3o, deixara a prov\u00edncia e, sendo<br \/>\nacossado igualmente no Rio de Janeiro, fugira para Buenos Aires, ficando a<br \/>\nmulher, a filha e D. Janu\u00e1ria na Corte.<\/p>\n<p>Definitivamente a estrela do pobre Le\u00e3o Vermelho principiava de novo<br \/>\na assombrar-se, porque pouco depois da sua partida, Henriqueta falecia de<br \/>\num terr\u00edvel aborto.<\/p>\n<p>Contudo as persegui\u00e7\u00f5es continuaram, e Le\u00e3o Vermelho<br \/>\nresolveu voltar \u00e0 p\u00e1tria e reclamar depois a filha. Constou<br \/>\nent\u00e3o que ele havia morrido e os inimigos para sempre se apaziguaram.<\/p>\n<p>Clorinda ficara em companhia da madrinha, D. Janu\u00e1ria, que desde<br \/>\nent\u00e3o principiou a servir-lhe de m\u00e3e. Foi nessas condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nque a encontramos j\u00e1 mulher no primeiro cap\u00edtulo, a vestir-se<br \/>\npara o malogrado casamento de Greg\u00f3rio. O pai fazia chegar misteriosamente<br \/>\n\u00e0s m\u00e3os de Janu\u00e1ria uma mesada, que chegava perfeitamente<br \/>\npara ela e Clorinda. O leitor sabe j\u00e1 qual o efeito da suspens\u00e3o<br \/>\ndessa mesada com a morte real do comiss\u00e1rio. Mas o que ainda n\u00e3o<br \/>\ndissemos, e o leitor talvez n\u00e3o desdenhe saber, \u00e9 o que foi<br \/>\nfeito de Tubar\u00e3o, e quais as circunst\u00e2ncias que o colocaram mais<br \/>\ntarde ao lado de Talha-certo, envolvendo-o no crime da casa Paulo Cordeiro.<br \/>\n\u00c9 o que vamos ver.<\/p>\n<p>O marinheiro acompanhou o amo ao Paraguai e, por ordem dele, a\u00ed ficou<br \/>\npara o secundar nos seus neg\u00f3cios; depois, com a segunda viagem de<br \/>\nLe\u00e3o Vermelho, terminaram as especula\u00e7\u00f5es deste, e o<br \/>\nmarujo conseguiu encartar-se a bordo de um navio brasileiro. S\u00f3 voltou<br \/>\n\u00e0 Corte com o fim da guerra e passou ent\u00e3o a trabalhar como<br \/>\ncalafate no arsenal de marinha. Nesse estado \u00e9 que o encontramos no<br \/>\ncaf\u00e9 da Menina do Bandolim.<\/p>\n<p>Sabe agora o leitor a verdadeira causa do espanto, e talvez da alegria,<br \/>\nde Tubar\u00e3o ao ouvir dizer pelo Talha-certo que Pedro Ruivo estava no<br \/>\nRio de Janeiro. O marinheiro nunca perdoara o mal que o tratante fizera a<br \/>\nCec\u00edlia e aguardava ainda, com o mesmo empenho, um seguro momento de<br \/>\nvingar a sua querida ex-ama. Cumpre tamb\u00e9m esclarecer um outro ponto:<br \/>\nquais as rela\u00e7\u00f5es que existem entre o comendador Portela e o<br \/>\ntal Ruivo; rela\u00e7\u00f5es estas que implicam com uns certos documentos<br \/>\ndesfavor\u00e1veis ao comendador e que se supunham em poder do Ruivo.<\/p>\n<p>Vamos a isso, mesmo porque \u00e9 tempo de acentuarmos melhor este tipo,<br \/>\ncujo desenho foi at\u00e9 agora apenas esbo\u00e7ado por alguns fatos<br \/>\nde sua vida.<\/p>\n<p>Ruivo era uma dessas figuras indefinidas e duvidosas, das quais \u00e9<br \/>\nmuito dif\u00edcil determinar, s\u00f3 pelas apar\u00eancias f\u00edsicas,<br \/>\no car\u00e1ter, as inten\u00e7\u00f5es e a idade. A express\u00e3o<br \/>\nda sua fisionomia variava conforme a situa\u00e7\u00e3o; nadavam-lhe \u00e0s<br \/>\nvezes os olhos em um mar de ternura, \u00e0s vezes cintilavam de esperteza<br \/>\ne gan\u00e2ncia, e \u00e0s vezes amorteciam indiferentes e distra\u00eddos.<br \/>\nE todo o rosto acompanhava essa gin\u00e1stica dos olhos, fazendo-se, ora<br \/>\ncompassivo, ora carrancudo, ora imbecil. A tez, t\u00e3o facilmente aparecia<br \/>\ncorada e lustrosa, como se tornava p\u00e1lida e ba\u00e7a. Os l\u00e1bios<br \/>\nmexiam-se de mil modos e davam \u00e0 boca toda as express\u00f5es da<br \/>\ndor, da alegria, da maldade e do hero\u00edsmo; s\u00f3 um tra\u00e7o<br \/>\nse conservava fiel aos seus l\u00e1bios: era um certo arquear do canto da<br \/>\nboca, como se nota em geral nos velhos c\u00f4micos, habituados ao falso<br \/>\nriso.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo talvez tivesse dado de si um bom ator. Ningu\u00e9m como ele<br \/>\ngovernava t\u00e3o despoticamente a fisionomia, e ningu\u00e9m sabia conduzir<br \/>\nas inflex\u00f5es da voz com tanta arte e com tanta felicidade. Quando queria<br \/>\nenganar algu\u00e9m, arrancava da garganta maviosos queixumes doloridos,<br \/>\nou ent\u00e3o gritos indignados, agudas exclama\u00e7\u00f5es de c\u00f3lera,<br \/>\nde amor e de pasmo.<\/p>\n<p>Tudo isto sem o menor esfor\u00e7o, sem o menor estudo. Conhecia por natureza<br \/>\ntodos os segredos da ci\u00eancia de agradar, de abrir os cora\u00e7\u00f5es<br \/>\ne ir penetrando familiarmente por eles, como quem disp\u00f5e do que \u00e9<br \/>\nseu.<\/p>\n<p>Entretanto n\u00e3o tinha amigos e era incapaz de fazer o menor servi\u00e7o<br \/>\ndesinteressado, fosse ele o mais simples deste mundo. Quando se mostrava indignado<br \/>\ndefronte de alguma injusti\u00e7a ou de qualquer perversidade, ningu\u00e9m<br \/>\nacreditaria que ali estivesse o mais c\u00ednico dos homens; da mesma forma,<br \/>\nquando tinha de desagravar o suposto brio de qualquer ofensa, ningu\u00e9m,<br \/>\npelo seu aspecto resoluto e digno, seria capaz de perceber o poltr\u00e3o<br \/>\nque se escondia debaixo dele.<\/p>\n<p>Com semelhantes dotes conseguiu sobreviver ao destro\u00e7o dos seus bens<br \/>\ne conseguiu inspirar simpatia a muita gente. Logo que empobreceu, principiou<br \/>\na tirar partido do jogo; n\u00e3o jogava sem trapacear. Uma noite, justamente<br \/>\nno tempo em que perseguia a mulher de Le\u00e3o Vermelho, foi pilhado em<br \/>\nladroeira, e teve que fugir do Porto. Assim se explica a sua desapari\u00e7\u00e3o,<br \/>\nquando o marinheiro pretendia lan\u00e7ar-lhe as unhas.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo conseguiu passar ao Rio de Janeiro. O Brasil sorria-lhe de longe,<br \/>\ncomo um vasto campo onde podia ele exercer livremente a sua arriscada ind\u00fastria.<br \/>\nCome\u00e7ou logo a correr as prov\u00edncias, j\u00e1 engajado em uma<br \/>\ncompanhia dram\u00e1tica, como secret\u00e1rio; j\u00e1 \u00e0 sombra<br \/>\nde algum amigo remediado de fortuna; j\u00e1 como fac totum de alguma estrela<br \/>\nde brilho suspeito.<\/p>\n<p>E assim se escoaram quinze anos; apareceram-lhe as rugas e os cabelos brancos.<br \/>\nO libertino compreendeu ent\u00e3o que havia esbanjado todos os bens com<br \/>\nque viera ao mundo, e caiu em um grande des\u00e2nimo. Sentia-se cansado<br \/>\nde n\u00e3o haver feito coisa alguma; a id\u00e9ia da sua maldade e da<br \/>\nsua influ\u00eancia perversa sobre aqueles com quem convivera, encheu-lhe<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o de um profundo desgosto envergonhado. Pensou no suic\u00eddio.<br \/>\nA morte apareceu-lhe como aparece a id\u00e9ia de deser\u00e7\u00e3o<br \/>\nao mau soldado; queria fugir da vida, porque esta se convertera para ele em<br \/>\numa mochila dif\u00edcil de suportar. Mas n\u00e3o teve \u00e2nimo de<br \/>\nmorrer; n\u00e3o teve coragem de separar-se por uma vez daquela mat\u00e9ria<br \/>\nvil, que lhe reclamava dia a dia o necess\u00e1rio para aliment\u00e1-la.<br \/>\nQue inferno! considerava ele nos seus momentos terr\u00edveis. Que inferno!<br \/>\nter eu de sustentar esta besta! Era o ego\u00edsmo na sua suprema express\u00e3o.<br \/>\nE a exist\u00eancia tornara-se-lhe assim um verdadeiro tormento. Vivia mal<br \/>\ncuidado, mal nutrido, \u00e0s vezes sem casa, sempre sem esperan\u00e7as<br \/>\ne sem alegrias. A felicidade dos outros o torturava de modo cruel; n\u00e3o<br \/>\npodia ver ningu\u00e9m desfrutar a vida satisfeito.<\/p>\n<p>A mulher, esse ente imperfeito e ador\u00e1vel, que dantes o levava a<br \/>\ncometer tamanhos desatinos, convertera-se agora, para ele, no mais feio objeto<br \/>\nde desprezo; quanto mais bela fosse, quanto mais terna, mais digna de ser<br \/>\namada, tanto mais Pedro Ruivo a execrava. Agora, a um beijo preferia um par<br \/>\nde botas e, de bom grado, trocaria todos os sorrisos feminis do mundo por<br \/>\numa miser\u00e1vel nota de cinco mil r\u00e9is. A fome, o mau trato, os<br \/>\nv\u00edcios dele e os do seu sangue, transformaram-lhe completamente o corpo.<br \/>\nJ\u00e1 nada existia daquele tipo asseado e simp\u00e1tico que vimos no<br \/>\nPorto passear de bra\u00e7o dado \u00e0 Cec\u00edlia no domingo da excurs\u00e3o<br \/>\n\u00e0 quinta. Seus olhos tinham perdido o brilho sensual dos outros tempos,<br \/>\ne deixavam-se agora engolir sonolentamente pelas p\u00e1lpebras bambas e<br \/>\namortecidas; o nariz, de fino e bem feito que fora, transformara-se em um<br \/>\ntorpe objeto, informe, gorduroso e vermelho; a boca perdera dentes e desca\u00edra<br \/>\npelo h\u00e1bito do cachimbo; o velho abuso do \u00e1lcool principiava<br \/>\ntamb\u00e9m a reclamar os seus direitos e sacudia-lhe j\u00e1 com delirium<br \/>\ntremens os membros narcotizados pela aguardente.<\/p>\n<p>Todo ele era incha\u00e7\u00e3o, tosse, reumatismo e maus humores. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o podia beber um trago sem ficar logo embriagado e tr\u00eamulo.<br \/>\nE, sem roupa, sem dinheiro, sem vontade de viver, escrofuloso e porco, arrastava-se<br \/>\npelas tavernas, dormia pelas cal\u00e7adas, bebia nos chafarizes e pedinchava<br \/>\npelas casas de pasto.<\/p>\n<p>Neste estado, dormitava uma tarde nos bancos do Passeio P\u00fablico,<br \/>\nquando ouviu perto de si a conversa de dois tipos, que falavam animadamente.<br \/>\nUm era o comendador Portela; o outro o leitor reconhecer\u00e1 depois.<\/p>\n<p>\u2014 Mas onde est\u00e3o os pap\u00e9is?&#8230; perguntou o Portela,<br \/>\nchegando a boca ao ouvido do companheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e3o ainda no hotel do Caboclo, dentro da minha mala. Posso<br \/>\nir busc\u00e1-los hoje mesmo e entreg\u00e1-los ao senhor, contanto que,<br \/>\nno ato da entrega, o amigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Caia com o continho de r\u00e9is!&#8230; Est\u00e1 dito, pode ficar<br \/>\ndescansado! Leve-me os pap\u00e9is e ter\u00e1 o dinheiro! \u2014 Bem,<br \/>\nvou ent\u00e3o buscar a mala, prometeu o sujeito ao comendador; e levo-lhe<br \/>\ndepois os documentos.<\/p>\n<p>\u2014 Ou ent\u00e3o, olhe! o melhor \u00e9 seguirmos juntos; vamos<br \/>\nl\u00e1 para casa, e mandamos buscar a mala por uma pessoa de confian\u00e7a.<br \/>\nL\u00e1 no hotel saber\u00e3o entreg\u00e1-la? \u2014 Isso \u00e9<br \/>\no menos. N\u00e3o tenho outra malinha de ferro em meu quarto, mas, \u00e9<br \/>\nque certos objetos n\u00e3o devemos confiar a ningu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bom! bom! volveu o comendador; escusa de desconfiar com a gente!<br \/>\nJ\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 quem falou. V\u00e1 voc\u00ea<br \/>\nmesmo buscar a sua mala&#8230;<\/p>\n<p>E os dois, depois de conversarem ainda por algum tempo, sa\u00edram vagarosamente<br \/>\ndo Passeio P\u00fablico.<\/p>\n<p>Mas, Pedro Ruivo, que ouvira toda a conversa, havia j\u00e1 disparado<br \/>\ncom dire\u00e7\u00e3o ao hotel do Caboclo.<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a> XV AVENIDA ESTRELA<\/h2>\n<p>Pedro Ruivo, chegado que foi ao hotel, tratou logo de saber reservadamente<br \/>\ncomo se chamava o h\u00f3spede que ele vira a conversar no Passeio P\u00fablico<br \/>\ncom o comendador Portela.<\/p>\n<p>\u2014 Jo\u00e3o Rosa, disseram-lhe.<\/p>\n<p>O embusteiro dirigiu-se ent\u00e3o ao gerente da casa e explicou-lhe que<br \/>\na pessoa daquele nome mandava que lhe entregassem ali uma pequena caixa de<br \/>\nferro, que estava no seu quarto.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 voc\u00ea mesmo busc\u00e1-la, respondeu o gerente.<br \/>\n\u00c9 aquele o quarto.<\/p>\n<p>E mostrou uma porta ao fundo de um corredor sombrio e mal arejado.<\/p>\n<p>\u2014 A chave! reclamou Pedro Ruivo.<\/p>\n<p>\u2014 A chave? pois voc\u00ea n\u00e3o a traz? O h\u00f3spede desse<br \/>\nquarto nunca a deixa no hotel&#8230;<\/p>\n<p>Pedro Ruivo deu aos diabos a sua m\u00e1 estrela. Queixou-se de Jo\u00e3o<br \/>\nRosa, do gerente, de si pr\u00f3prio, e afinal desceu muito desapontado<br \/>\nas escadas e colocou-se \u00e0 porta do hotel, para ver se mariscava alguma<br \/>\ncoisa.<\/p>\n<p>\u2014 Ora bolas! dizia ele consigo; quando um diabo d\u00e1 para caipora<br \/>\n\u00e9 isto que se v\u00ea!&#8230;<\/p>\n<p>E reconhecendo Jo\u00e3o Rosa em um sujeito que acabava de entrar, apartou-se,<br \/>\nreceoso de que descobrissem a sua tentativa de h\u00e1 pouco. Todavia ningu\u00e9m<br \/>\nno hotel notou sequer a r\u00e1pida entrada e a imediata sa\u00edda daquele.<br \/>\nFora simplesmente buscar o cofre ao seu quarto. Pedro Ruivo estava assentado<br \/>\nao canto, quando o viu passar todo atarefado a sobra\u00e7ar o precioso<br \/>\ncofre.<\/p>\n<p>\u2014 Ali vai o meu tesouro! resmungou o gatuno e, ferido por uma id\u00e9ia<br \/>\ns\u00fabita, levantou-se rapidamente, tirou o chap\u00e9u e disse ao Rosa<br \/>\ncom uma doce voz de bom homem: \u00d3 patr\u00e3ozinho! d\u00ea esse<br \/>\ncarretinho a ganhar \u00e0 gente! V. S. vai a\u00ed a molestar-se&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rosa hesitou a princ\u00edpio, mas julgando bem do peso do<br \/>\ncofre pela m\u00e1 impress\u00e3o que principiava a sentir no bra\u00e7o,<br \/>\nperguntou ao carregador quanto queria para lev\u00e1-lo at\u00e9 \u00e0<br \/>\nrua Direita e, depois de ajustar, passou-o para as m\u00e3os do Ruivo.<\/p>\n<p>Quem visse o modo simples pelo qual este recebeu aquele objeto; o ar modesto<br \/>\ncom que ele, de p\u00e9, esperava humildemente que o outro abrisse caminho,<br \/>\nn\u00e3o seria capaz de suspeitar nem de leve das suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Rosa seguiu adiante, Ruivo acompanhou-o a pequena dist\u00e2ncia; mal<br \/>\npor\u00e9m tinham feito uns quarenta passos, j\u00e1 o \u00faltimo se<br \/>\nhavia enfiado pela porta de um caf\u00e9, que ficava na esquina, e sa\u00eddo<br \/>\npela porta da outra rua, enquanto Rosa mais adiante o procurava com a vista.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo ganhou a primeira viela da Cidade Nova, meteu-se no primeiro<br \/>\nbonde que passou, e seguiu para o Rio Comprido. S\u00f3 parou defronte da<br \/>\nantiga estalagem da Avenida Estrela.<\/p>\n<p>Ele a\u00ed n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m, mas o aspecto do lugar<br \/>\npareceu-lhe magn\u00edfico para um segredo.<\/p>\n<p>Entrou.<\/p>\n<p>A Avenida Estrela \u00e9 uma velha ch\u00e1cara situada ao sop\u00e9<br \/>\nde umas montanhas que ficam \u00e0 esquerda de quem sobe o Rio Comprido.<br \/>\nH\u00e1 na entrada um grande port\u00e3o de ferro, talhado entre um extenso<br \/>\ngradeamento, onde de espa\u00e7o a espa\u00e7o avultam colunas de pedra<br \/>\ne cal, quadradas e encimadas por uma esp\u00e9cie de tulipa aberta para<br \/>\no c\u00e9u. Algumas dessas colunas despiram j\u00e1 a camisa de estuque<br \/>\ne mostravam a cor da pedra e a cor do barro; em outras se nota a aus\u00eancia<br \/>\ndo capitel e das cimalhas.<\/p>\n<p>Mas quem entra na Avenida Estrela esquece-se de tudo isso, arrebatado pela<br \/>\nexuberante vegeta\u00e7\u00e3o que a cerca. De todos os lados a mesma<br \/>\npujan\u00e7a e a mesma opul\u00eancia da natureza! Os montes afogam-se<br \/>\nem um oceano de verdura; as \u00e1rvores amontoam-se desde longe, acumuladas<br \/>\numas sobre outras, formando matizes admir\u00e1veis e planos que se v\u00e3o<br \/>\namortecendo, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se afastam de nossos olhos,<br \/>\nat\u00e9 se confundirem com o violeta das long\u00ednquas serras, l\u00e1<br \/>\nno extremo do horizonte, por entre os vapores do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Principia a ch\u00e1cara por um renque de palmeiras, que parecem brotar<br \/>\ndos maci\u00e7os cercilhados da murta e das compactas moitas de margaridas.<br \/>\nEsses maci\u00e7os formam pequenas ruas, que se entranham pela ch\u00e1cara<br \/>\ne v\u00e3o dar aos tabuleiros de hortali\u00e7a e \u00e0s valas de agri\u00e3o.<br \/>\nDepois \u00e9 que surge a velha escadaria de pedra rajada, e afinal o casar\u00e3o<br \/>\nantigo, misterioso e triste como um medieval castelo abandonado.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo enveredou-se por uma daquelas ruas e caminhou \u00e0 toa por<br \/>\nentre a verdura.<\/p>\n<p>Quando se julgou em lugar seguro, pousou no ch\u00e3o o cofre e principiou<br \/>\na contempl\u00e1-lo, assentado ao seu lado.<\/p>\n<p>\u2014 Que estaria ali dentro?&#8230; pap\u00e9is sem d\u00favida! mas<br \/>\npap\u00e9is que valiam pelo menos um conto de r\u00e9is para o comendador<br \/>\nPortela!&#8230;<\/p>\n<p>E Pedro Ruivo, sem conseguir domar a fantasia, principiou a fazer soberbos<br \/>\ncastelos de fortuna, entre, os quais se sonhava nadando em muito dinheiro.<br \/>\nEra imposs\u00edvel que ali s\u00f3 estivessem os tais documentos que<br \/>\nsobressaltavam o comendador! Com certeza havia muito mais! O cofre n\u00e3o<br \/>\nera t\u00e3o pequeno!&#8230; O pior por\u00e9m \u00e9 que o Ruivo n\u00e3o<br \/>\no conseguia abrir: as quatro faces lisas daquela estranha caixa n\u00e3o<br \/>\napresentavam o menor sinal de fechadura, n\u00e3o davam o menor ind\u00edcio<br \/>\npor onde devia ser ela aberta; eram quatro l\u00e2minas de a\u00e7o, formando<br \/>\num perfeito paralelep\u00edpedo. Havia ali com certeza algum segredo sutil,<br \/>\nalguma mola, com o qual o gatuno n\u00e3o atinava. E o Ruivo possu\u00eddo<br \/>\ninteiramente pela sua presa, olhava-a por todos os lados e experimentava-lhe<br \/>\ntodos os cantos, sem conseguir descobrir coisa alguma.<\/p>\n<p>A noite formou-se de todo. Uma bela noite luminosa, cheia de estrelas, Pedro<br \/>\nRuivo continuava a tatear o cofre, quando de repente sentiu fugir-lhe debaixo<br \/>\ndos dedos a extremidade do \u00e2ngulo de uma das l\u00e2minas.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! exclamou ele sem poder conter a alegria.<\/p>\n<p>Estava tudo descoberto! Tudo, at\u00e9 o pr\u00f3prio Ruivo, porque<br \/>\no seu grito chamara a aten\u00e7\u00e3o do estalajadeiro, Pap\u00e1<br \/>\nFalconnet, que naquela ocasi\u00e3o passeava pela ch\u00e1cara a refazer-se<br \/>\ncom o fresco da noite.<\/p>\n<p>Pap\u00e1 Falconnet era um alegre velho franc\u00eas de setenta e tantos<br \/>\nanos, por\u00e9m ainda muito senhor de todas as suas faculdades f\u00edsicas<br \/>\ne intelectuais. Homem de pouca estatura, grosso de ombros, pulsos rijos, cabe\u00e7a<br \/>\nperfeitamente coberta de cabelos grisalhos, curtos e crespos, bigode e barba<br \/>\n\u00e0 Cavaignac, olhos vivos, pesco\u00e7o refor\u00e7ado e dentes<br \/>\nainda vigorosos. Tinha certa vaidade do seu vigor. \u201cPois olhem que n\u00e3o<br \/>\nfoi porque n\u00e3o aproveitasse eu bem a minha mocidade!\u201d exclamava<br \/>\nele a quem lhe elogiava os seus belos setenta e dois anos. E afian\u00e7ava<br \/>\nsempre que, antes de engolir os trinta e tantos que tinha no Rio de Janeiro,<br \/>\nj\u00e1 havia gramado vinte em Paris, dez na B\u00e9lgica e outros dez<br \/>\nem Bordeaux; e que durante todo esse per\u00edodo s\u00f3 duas coisas<br \/>\nconhecera que verdadeiramente o deixaram assombrado: Era Napole\u00e3o Bonaparte<br \/>\ne a portentosa natureza do Brasil.<\/p>\n<p>Falconnet, nascendo com o s\u00e9culo, palpitara na sua mocidade sob a<br \/>\nimpress\u00e3o dos dramas napole\u00f4nicos e nunca mais pudera fugir \u00e0<br \/>\nrom\u00e2ntica influ\u00eancia desse tempo. Ainda agora, quando algu\u00e9m<br \/>\nlhe falava de Austerlitz, de Marengo, Ratisbonne ou de outra qualquer vit\u00f3ria<br \/>\ndo feliz capit\u00e3o, os olhos enchiam-se-lhe de entusiasmo; erguia a cabe\u00e7a<br \/>\ne, com um bra\u00e7o no ar, principiava ele a cantar a Marselhesa.<\/p>\n<p>Os h\u00f3spedes tratavam-no todos com liberdade amiga; batiam-lhe no<br \/>\nombro e perguntavamlhe: \u201cComo iam os seus amores\u201d. Falconnet ria,<br \/>\nfingia zangar-se, ralhava, mas da\u00ed a pouco se metia de tro\u00e7a<br \/>\ncom os rapazes e n\u00e3o se lembrava mais de que tinha o triplo da idade<br \/>\nde cada um deles.<\/p>\n<p>Pois foi esse homem de setenta e tantos anos quem descobriu Pedro Ruivo<br \/>\nescondido por entre as \u00e1rvores da alameda.<\/p>\n<p>\u2014 Que faz voc\u00ea a\u00ed?! perguntou ele, aproximando-se.<\/p>\n<p>\u2014 Estou a descansar, patr\u00e3o&#8230; disse o gatuno, procurando esconder<br \/>\no cofre.<\/p>\n<p>\u2014 Pois venha descansar c\u00e1 para dentro, aconselhou o velho,<br \/>\naproximando-se mais, disfar\u00e7adamente.<\/p>\n<p>E quando o Ruivo ia abrir carreira por entre o mato, j\u00e1 o franc\u00eas<br \/>\nganhara de um salto a dist\u00e2ncia que os separava e o empolgava pelos<br \/>\nbra\u00e7os. N\u00e3o foi preciso sust\u00ea-lo durante muito tempo,<br \/>\nporque apareceu logo o hortel\u00e3o, que estava perto, e pouco depois os<br \/>\nh\u00f3spedes a cujos ouvidos chegaram os gritos do hoteleiro.<\/p>\n<p>Mas, na ocasi\u00e3o em que conduziam Pedro Ruivo para a casa, deu este<br \/>\num arranco das m\u00e3os que nessa ocasi\u00e3o o seguravam, e ganhou<br \/>\no mato, pelo lado das montanhas.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o deixemos fugir! gritou um dos rapazes que o perseguiam.<br \/>\nAnglada! Augusto! Afonso! Por aqui! Cerquem o gatuno! E os rapazes precipitaram-se<br \/>\nno alcan\u00e7o de Pedro Ruivo.<\/p>\n<p>Se o leitor, em vez de ler simplesmente o que vai escrito, ouvisse tamb\u00e9m<br \/>\no metal da voz que gritou, ficaria sabendo que ali estava Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo continuou a subir de carreira o monte. Mas o cofre dificultava-lhe<br \/>\na fuga; as pernas principiavam-lhe a tremer, o cansa\u00e7o tomava-lhe a<br \/>\nrespira\u00e7\u00e3o, e ele, j\u00e1 sem for\u00e7as, ia render-se,<br \/>\nquando descobriu a gruta.<\/p>\n<p>As pessoas que conhecem a Avenida Estrela sabem a que gruta nos referimos,<br \/>\ne, se o leitor a n\u00e3o conhece, ficar\u00e1 fazendo dela id\u00e9ia<br \/>\ncompleta pela descri\u00e7\u00e3o que mais adiante lhe diremos.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo ocultou o cofre ali, em um canto sombrio. Era tempo, porque<br \/>\ncaiu logo prostrado. A id\u00e9ia, por\u00e9m, de que a sua presen\u00e7a<br \/>\nnesse lugar podia conduzir a aten\u00e7\u00e3o para o objeto que ele acabava<br \/>\nde esconder, obrigou-o a afastar-se, com dificuldade, at\u00e9 chegar a<br \/>\num ponto, onde se assentou \u00e0 espera dos perseguidores.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio, que ia \u00e0 frente dos outros rapazes, ao ver a calma<br \/>\ndo perseguido e o ar triste de mis\u00e9ria e fraqueza espalhado por todo<br \/>\nele, n\u00e3o p\u00f4de conter uma desagrad\u00e1vel impress\u00e3o<br \/>\nde vergonha.<\/p>\n<p>\u2014 Pois era para perseguir aquele desgra\u00e7ado, que se fazia tanto<br \/>\nalarme?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se fie muito!&#8230; sentenciou o Anglada, a procurar as<br \/>\nsuas lunetas que lhe haviam escapado no furor da carreira.<\/p>\n<p>O Augusto e o Afonso tomaram a delibera\u00e7\u00e3o de encarar o epis\u00f3dio<br \/>\npelo lado rid\u00edculo e abriram a rir ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Entretanto Greg\u00f3rio se aproximara do gatuno e o examinava com muito<br \/>\ninteresse. Aquela figura triste e repugnante enchia-o de estranha compaix\u00e3o.<br \/>\nSem saber porque, sentia-se atra\u00eddo para aquele destro\u00e7o de<br \/>\nhomem, que lhe parecia representar ali tudo o que h\u00e1 de doloroso e<br \/>\nresignado na mis\u00e9ria humana.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito! considerava ele; quanto n\u00e3o haver\u00e1 de<br \/>\nextraordin\u00e1rio na vida deste homem!&#8230;<\/p>\n<p>que obscuras circunst\u00e2ncias n\u00e3o o teriam arremessado a tal<br \/>\nextremo?&#8230; que n\u00e3o lhe teria sucedido para chegar a todo este aviltamento?&#8230;<br \/>\nSer\u00e1 simplesmente um gatuno?&#8230; ser\u00e1 um grande libertino ou<br \/>\nser\u00e1 uma pobre v\u00edtima de mil infort\u00fanios?!&#8230;<\/p>\n<p>E Greg\u00f3rio, ou fosse por impulso do seu temperamento, ou fosse por<br \/>\nqualquer outro motivo, sentiu-se sumamente interessado pelo miser\u00e1vel<br \/>\na quem h\u00e1 pouco perseguia; tanto que, depois do seu longo exame, lhe<br \/>\nperguntou amigavelmente o que viera fazer ali.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo sacudiu os ombros.<\/p>\n<p>\u2014 Em que se ocupa o senhor? Onde mora? interrogou Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o me ocupo e n\u00e3o moro, respondeu o vagabundo.<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o como vive? insistiu o rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vivo, respondeu o outro, com um acento de profunda tristeza.<\/p>\n<p>\u2014 E por que n\u00e3o procura trabalhar?&#8230; Por que se n\u00e3o<br \/>\nocupa em qualquer servi\u00e7o?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Porque me falta a coragem para tanto&#8230; Eu sou um desgra\u00e7ado.<br \/>\nEstou completamente perdido! \u2014 Entretanto n\u00e3o me parece um homem<br \/>\ninteiramente sem habilita\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! isso s\u00e3o modos de ver&#8230; Todo homem tem habilita\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndesde que a tal se disponha.<\/p>\n<p>Eu podia dar um bom saltimbanco, mas o maldito reumatismo n\u00e3o me<br \/>\ndeixa senhor de minhas pernas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por que ent\u00e3o n\u00e3o se arranja a\u00ed em qualquer<br \/>\ncoisa? Hoje no Rio de Janeiro \u00e9 muito f\u00e1cil ganhar a vida&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Espero tirar um pr\u00eamio na loteria&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem parentes? \u2014 Tenho.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u2014 Mas est\u00e3o mortos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pergunto-lhe se tem algum vivo.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m tenho disso. Tenho um filho&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Tem um filho? E o que \u00e9 feito dele? \u2014 N\u00e3o<br \/>\nsei&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E o que mais tem al\u00e9m desse filho? \u2014 Uma fome devoradora.<br \/>\nH\u00e1 trinta e tantas horas que n\u00e3o como&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois venha para c\u00e1. Vou dar-lhe o que comer.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, disse Pedro Ruivo, levantando-se, disposto a acompanhar<br \/>\nGreg\u00f3rio.<\/p>\n<p>E da\u00ed a pouco entravam os dois no hotel, seguidos dos outros rapazes,<br \/>\nque j\u00e1 haviam chegado.<\/p>\n<p>O tipo miser\u00e1vel de Pedro Ruivo causou nos h\u00f3spedes uma terr\u00edvel<br \/>\nimpress\u00e3o; desafinava desastradamente do aspecto sossegado e burguesmente<br \/>\nfarto da casa do Pap\u00e1 Falconnet.<\/p>\n<p>Vieram logo todos os h\u00f3spedes para a sala em que estava Pedro Ruivo.<\/p>\n<p>O velho havia j\u00e1 referido os pormenores do seu encontro na ch\u00e1cara,<br \/>\ne, como de costume, exagerara um pouco as circunst\u00e2ncias do fato. Principiou-se<br \/>\na cochichar sobre o rec\u00e9m-chegado e ningu\u00e9m parecia disposto<br \/>\na perdoar a esquisitice de Greg\u00f3rio, recolhendo \u00e0 casa um vagabundo,<br \/>\ndesprez\u00edvel por todos os motivos.<\/p>\n<p>Todavia Greg\u00f3rio ordenou que dessem de comer a Pedro Ruivo e voltou<br \/>\n\u00e0 sala para a palestra.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o acabava de chegar o padre Almeida. Era um homem forte,<br \/>\nsang\u00fc\u00edneo, com uma ruidosa voz de baixo profundo. N\u00e3o gostava<br \/>\nde hipocrisias, contava, no estrondo de formid\u00e1veis gargalhadas, as<br \/>\nescapulas que fazia, e n\u00e3o tinha pelos ma\u00e7ons, pelos positivistas<br \/>\ne pelos ateus a menor sombra de preven\u00e7\u00e3o ou de \u00f3dio.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, nas palestras em casa do Pap\u00e1 Falconnet, o dem\u00f4nio<br \/>\ndo padre n\u00e3o ficava calado um s\u00f3 instante, sem jamais esgotar<br \/>\no seu repert\u00f3rio de anedotas e pilh\u00e9rias. Miravam estas quase<br \/>\nsempre o jovial estalajadeiro ou a sua n\u00e3o menos jovial consorte, que<br \/>\nas ouvia tranq\u00fcilamente, com um pequeno riso de mofa, saracoteando as<br \/>\nsuas vigorosas ilhargas na preocupa\u00e7\u00e3o dos arranjos da casa.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Greg\u00f3rio foi o padre Almeida o \u00fanico h\u00f3spede<br \/>\nque atentara mais fixamente para Pedro Ruivo. Enquanto este na cozinha devorava<br \/>\no que lhe deram para cear, o padre o observava a certa dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Terminada a refei\u00e7\u00e3o, o vagabundo procurou o seu benfeitor<br \/>\npara lhe agradecer o obs\u00e9quio e pedir licen\u00e7a para se ir embora.<\/p>\n<p>\u2014 Este homem cometeu hoje um crime, disse o padre em tom seco, com<br \/>\na sua voz de estrondo.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo estremeceu e olhou energicamente para ele. A fisionomia do gatuno<br \/>\nhavia mudado de express\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Juro-o! sustentou o padre.<\/p>\n<p>\u2014 E o que o leva a avan\u00e7ar semelhante coisa?! Perguntou o Ruivo,<br \/>\nerguendo dramaticamente a cabe\u00e7a e cruzando os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Sua pr\u00f3pria cara, respondeu o interrogado, sem lhe tirar<br \/>\nos olhos de cima.<\/p>\n<p>\u2014 Foi ent\u00e3o para isto que me conduziram aqui?! Antes mo tivessem<br \/>\ndito, porque n\u00e3o aceitaria a esmola.<\/p>\n<p>\u2014 Este homem roubou! acrescentou o padre. E o fruto do seu roubo est\u00e1<br \/>\nescondido na gruta! \u2014 Ah! bradou o gatuno, saltando para a porta, enquanto<br \/>\nos circunstantes repetiam estupefatos as \u00faltimas palavras do padre.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabiam que este, logo ao entrar em casa, pedira ao Pap\u00e1<br \/>\nFalconnet informa\u00e7\u00f5es sobre os fatos concernentes ao homem suspeito<br \/>\nque acabava de ser introduzido no hotel, e por eles tirara a l\u00facida<br \/>\nconseq\u00fc\u00eancia que tanto assombrava Pedro Ruivo.<\/p>\n<p>O embusteiro, ao ver-se denunciado, fugiu sem dar tempo a que o agarrassem,<br \/>\ne precipitouse pelos fundos da casa em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 gruta.<\/p>\n<p>\u2014 Prendam-no! gritou o padre, avan\u00e7ando. Mas foram baldados<br \/>\ntodos os esfor\u00e7os, porque Pedro Ruivo ganhara a ch\u00e1cara e logo<br \/>\ndesaparecera nas sombras da floresta que principiava ali mesmo a pequena dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio recolheu-se ao quarto, envergonhado de ter protegido um<br \/>\nintruj\u00e3o daquela ordem.<\/p>\n<p>Ele ali no hotel sempre fora muito estimado de todos, se bem que para alguns<br \/>\npassasse, debaixo do ponto de vista social, por um simples vision\u00e1rio.<br \/>\nGreg\u00f3rio, como todo o rapaz inteligente, na idade que o nosso her\u00f3i<br \/>\ncontava nessa ocasi\u00e3o, tinha as suas convic\u00e7\u00f5es republicanas<br \/>\ne entusiasmava-se loucamente por tudo aquilo que dissesse respeito \u00e0<br \/>\nliberdade. N\u00e3o podia pactuar com a id\u00e9ia do servilismo e da<br \/>\nescravid\u00e3o; contudo sabia governar perfeitamente o seu temperamento<br \/>\ne passava por mo\u00e7o sossegado e comedido. Morava havia dois anos na<br \/>\nAvenida e, durante esse tempo, ningu\u00e9m tivera mal que dizer do seu<br \/>\nprocedimento. Nunca o viram excederse nas liba\u00e7\u00f5es do jantar,<br \/>\nnem o viram apoquentar com sorrisos intencionados e com olhares pretensiosos<br \/>\nas raras mulheres que por l\u00e1 apareciam; e at\u00e9, se dermos cr\u00e9dito<br \/>\nao pr\u00f3prio dono da casa, Greg\u00f3rio levava o seu puritanismo ao<br \/>\nponto de nunca haver (por acaso, bem entendido) dado algum encontr\u00e3o<br \/>\nna criada, que ali\u00e1s era uma mo\u00e7oila das ilhas, corada como<br \/>\num p\u00eassego maduro e rija como um p\u00eassego verde.<\/p>\n<p>E cremos que as coisas continuariam eternamente nesse p\u00e9, se o mesmo<br \/>\nacaso, que nunca quis fazer abalroar com a rapariga cor-de-p\u00eassego,<br \/>\nn\u00e3o se lembrasse de arrastar at\u00e9 \u00e0 sossegada Avenida<br \/>\nEstrela, um formoso l\u00edrio cor-de-neve, doce e melanc\u00f3lico como<br \/>\num suspiro de amor.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o precipitemos os acontecimentos; ainda nos falta dizer o que<br \/>\nfoi feito do nosso her\u00f3i, depois que o deixamos perfeitamente aboletado<br \/>\nno col\u00e9gio do bar\u00e3o de Tetoepheus.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio chegou aos quinze anos de idade com muito boa disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde corpo e menos mau aproveitamento intelectual. Os cuidados imediatos de<br \/>\nD. Florentina e os desvelos, n\u00e3o menos valiosos, que de longe lhe enviava<br \/>\na condessa, foram-lhe de grande valimento. Mas at\u00e9 a\u00ed nunca<br \/>\nrecebera ele de quem quer que fosse uma explica\u00e7\u00e3o l\u00facida<br \/>\na respeito dos seus antecedentes, nem a respeito das pessoas a quem devia<br \/>\na sua educa\u00e7\u00e3o. Ia quase sempre passar os domingos em companhia<br \/>\nde D. Florentina de Aguiar; sabia que n\u00e3o era seu filho, mas ignorava<br \/>\ncompletamente que esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00f5es havia entre ela<br \/>\ne ele, e quais as raz\u00f5es que a faziam t\u00e3o sol\u00edcita a<br \/>\nseu respeito.<\/p>\n<p>As coisas neste ponto, caiu gravemente enferma D. Florentina, e Greg\u00f3rio,<br \/>\nao visit\u00e1-la, recebeu a not\u00edcia de que ia sair do col\u00e9gio<br \/>\ne passar a praticar na Alf\u00e2ndega, como caixeiro de um despachante geral<br \/>\nparente daquela senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Chegaste \u00e0 idade em que tens de principiar por ti mesmo a<br \/>\nganhar a vida, disse D.<\/p>\n<p>Florentina. Eu me sinto ir acabando muito apressadamente, e s\u00f3 desejo<br \/>\nver-te empregado antes que me fechem os olhos; de hoje em diante, meu filho,<br \/>\nn\u00e3o deves contar no mundo com mais ningu\u00e9m al\u00e9m de ti.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o precisas do aux\u00edlio da pessoa que at\u00e9 agora<br \/>\nprovia a tua subsist\u00eancia; por conseguinte, meu rapaz, faze por ter<br \/>\nju\u00edzo e por ser homem. N\u00e3o queiras nunca barulhentas gl\u00f3rias;<br \/>\nn\u00e3o te queiras fazer saliente e not\u00e1vel, antes procura a doce<br \/>\npaz de uma obscura felicidade. E isto, s\u00f3 a boa mediocridade nos pode<br \/>\nproporcionar de um modo verdadeiramente seguro e constante. \u00c9 poss\u00edvel<br \/>\nque ainda venhas algum dia a conhecer teu pai ou tua m\u00e3e; pedelhes<br \/>\nque te aben\u00e7oe, e tu, perdoa-lhes alguma falta que eles porventura<br \/>\nhajam cometido a teu respeito.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio pediu, embalde, ainda mais alguns esclarecimentos da sua<br \/>\nproced\u00eancia, e desde ent\u00e3o principiou a sentir uma vaga tristeza,<br \/>\nproduzida pela falta de alguma coisa que ele n\u00e3o conseguia determinar<br \/>\nbem o que fosse. Era um desejar indeciso e duvidoso, do qual n\u00e3o conhecia<br \/>\na origem; uma esp\u00e9cie de saudade, sem motivo e por isso mesmo mais<br \/>\ndolorosa. Sentia estranhas nostalgias de um mundo desconhecido, que seu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nsonhava e antevia por entre outras mentiras.<\/p>\n<p>E foi neste melanc\u00f3lico pungir de m\u00e1goas indefinidas, que<br \/>\nele assistiu \u00e0 morte de sua m\u00e3e adotiva. Sobreveio-lhe uma enorme<br \/>\ncrise nervosa, chorou extraordinariamente; chorou com a sofreguid\u00e3o<br \/>\nde quem precisa desabafar tristezas acumuladas no peito h\u00e1 muito tempo,<br \/>\ne at\u00e9 chegara a gozar certo prazer voluptuoso com lhe correrem aquelas<br \/>\nl\u00e1grimas dos olhos. Entretanto alguma coisa lhe dizia de dentro que<br \/>\ntoda essa dor e todo esse pranto n\u00e3o eram formados s\u00f3 pelo muito<br \/>\namor que ele tivesse a D. Florentina. Ele a estremecera muito, n\u00e3o<br \/>\nhavia d\u00favida, mas podia perfeitamente se conformar com a id\u00e9ia<br \/>\nda sua morte. O que o fazia sofrer tanto, o que o punha nervoso e triste daquele<br \/>\nmodo, era outra coisa, era a falta prematura da sua verdadeira m\u00e3e.<\/p>\n<p>Foi com o esp\u00edrito enfermado por estas apreens\u00f5es que Greg\u00f3rio,<br \/>\numa tarde, em que estava assentado debaixo dos bambus da Avenida Estrela,<br \/>\nviu subir vagarosamente a velha escadaria de pedra rajada que conduzia \u00e0<br \/>\ncasa do Pap\u00e1 Falconnet, uma senhora ainda mo\u00e7a, extremamente<br \/>\np\u00e1lida e cheia de l\u00e2nguidas tristezas.<\/p>\n<p>Ia pelo bra\u00e7o de um velho, maior de sessenta anos, que parecia preocupado<br \/>\nexclusivamente com ela. O velho desfazia-se em solicitudes e carinhos; a mo\u00e7a<br \/>\nsorria \u00e0s vezes para ele, apenas por condescender.<\/p>\n<p>Era uma mulher de trinta anos talvez; esbelta, n\u00e3o muito magra, fisionomia<br \/>\ninsinuante; olhos voluptuosos, \u00famidos, de um brilho singular, cabelos<br \/>\nnegros, brilhantes e volumosos, dentes claros, boca bem talhada, mas ligeiramente<br \/>\nconstrangida por um desdenhoso gesto de indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao v\u00ea-la de relance, toda envolvida no seu longo palet\u00f3 de<br \/>\ncasimira alvacenta, sem j\u00f3ias no pesco\u00e7o e nas orelhas, com<br \/>\no rosto nublado na penumbra do seu largo chap\u00e9u de palha, com o seu<br \/>\ntriste caminhar de convalescente, o seu descair de cabe\u00e7a, as suas<br \/>\nm\u00e3os cor-de-neve, como que esquecidas e sem movimento, sentia-se a<br \/>\ngente atrair para ela por uma pl\u00e1cida simpatia compassiva. A express\u00e3o<br \/>\nresignada de seus olhos, ali\u00e1s talhados para os segredos da ternura,<br \/>\no melanc\u00f3lico sorrir dos seus l\u00e1bios, que entretanto pareciam<br \/>\nfeitos somente para executar a m\u00fasica ideal dos beijos, o seu ar abatido<br \/>\ne fraco, a sua respira\u00e7\u00e3o quebrada, a sua voz suplicante e humilde;<br \/>\ntudo que respirava dela penetrava os sentidos com a voluptuosa impress\u00e3o<br \/>\nque nos produzem os perfumes da igreja, os sons plangentes do \u00f3rg\u00e3o,<br \/>\ne os m\u00edsticos arroubos religiosos.<\/p>\n<p>A tarde ia j\u00e1 descaindo no crep\u00fasculo. O sol havia mergulhado<br \/>\nna f\u00edmbria vulc\u00e2nica do horizonte, mas toda a natureza ainda<br \/>\npalpitava sob a sensa\u00e7\u00e3o dos seus \u00faltimos beijos fecundos<br \/>\ne ardentes. As aves recolhiam-se ao mist\u00e9rio dos seus ninhos, e do<br \/>\nfundo sombrio dos arvoredos exalava-se o estridular mon\u00f3tono das cigarras,<br \/>\nsobressaindo dentre os primeiros rumores da noite como um intermin\u00e1vel<br \/>\ngemido solto no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00c9 essa a hora das profundas concentra\u00e7\u00f5es, dos \u00eaxtases<br \/>\nvoluptuosos. Tudo parece que tem uma saudade a carpir; de cada moita de roseiras,<br \/>\nde cada grupo de bambus, partem ternos suspiros e queixumes dolorosos. A natureza<br \/>\ncomo que chora a partida do seu fogoso amante, que desapareceu nas dobras<br \/>\nluminosas do ocidente. Tudo \u00e9 viuvez! tudo \u00e9 saudade! E nessa<br \/>\nhora, transit\u00f3ria, e d\u00fabia, que nos \u00e9 dado surpreender<br \/>\na natureza nos segredos do seu amor; \u00e9 entre o \u00faltimo sorriso<br \/>\ndo sol e a primeira l\u00e1grima da noite, que podemos penetrar no fundo<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o de nossa m\u00e3e comum! Ela como que abre para<br \/>\nchorar \u00e0 vontade, e sente-se ent\u00e3o o orvalho do seu pranto,<br \/>\ne ouvem-se os seus gemidos abafados.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio deixava-se arrebatar por estes devaneios, quando contemplou<br \/>\no vulto melanc\u00f3lico, que subia lentamente a escadaria de pedra pelo<br \/>\nbra\u00e7o do velho; e desde ent\u00e3o aquela triste figura de mulher<br \/>\nn\u00e3o lhe saiu mais da mem\u00f3ria.<\/p>\n<h2><a name=\"16\"><\/a> XVI OL\u00cdMPIA<\/h2>\n<p>Uma semana depois, Greg\u00f3rio havia j\u00e1 travado rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom os dois novos h\u00f3spedes e possu\u00eda alguns esclarecimentos<br \/>\na respeito deles, se bem que o velho, isto \u00e9, o comendador Ferreira,<br \/>\npor \u00edndole natural se mostrasse com todos muito reservado.<\/p>\n<p>A senhora que o acompanhava era sua filha; chamava-se Ol\u00edmpia e vivia,<br \/>\nhavia j\u00e1 quatro anos, separada do marido, aquele mesmo sujeito, caixa<br \/>\nda casa Paulo Cordeiro, que vimos queixar-se na secretaria de pol\u00edcia,<br \/>\nao delegado Benevides, do roubo que acabava de sofrer o referido estabelecimento.<br \/>\nFoi esse sujeito quem chamou sobre Greg\u00f3rio a aten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas autoridades policiais.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia era um espiritozinho muito caprichoso. Educada sentimentalmente,<br \/>\nnunca chegara a compreender a vida positiva que lhe oferecia o marido e nunca<br \/>\nse identificava com os interesses deste e com o seu car\u00e1ter pr\u00e1tico.<br \/>\nDa\u00ed nasceu a separa\u00e7\u00e3o. Mas o pai, a quem n\u00e3o<br \/>\nfaltavam recursos e que seria capaz de tudo sacrificar por amor da filha,<br \/>\nn\u00e3o hesitou em receb\u00ea-la nos bra\u00e7os e fazer dela toda<br \/>\na preocupa\u00e7\u00e3o e todo o encanto da sua velhice.<\/p>\n<p>O pior por\u00e9m \u00e9 que, depois da separa\u00e7\u00e3o, Ol\u00edmpia<br \/>\nprincipiou a padecer extraordinariamente dos nervos. Dentro de seis meses<br \/>\nlogo se lhe operou grande mudan\u00e7a em todo o corpo; ficou muito mais<br \/>\nmagra, mais p\u00e1lida e mais apreensiva e afinal caiu em tal abatimento,<br \/>\nque o velho teve s\u00e9rios receios de perd\u00ea-la. Ela j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nria, j\u00e1 n\u00e3o gostava como dantes de conversar com as amigas,<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o pulava de contentamento quando lhe traziam o camarote<br \/>\ndo l\u00edrico ou algum novo romance do Alencar, e nem mais pensava em dan\u00e7as<br \/>\ne modas. Seu piano adormeceu abandonado a um canto do sal\u00e3o, e ningu\u00e9m<br \/>\nmais lhe ouviu uma daquelas roman\u00e7as de que a sua bela voz tirava tanto<br \/>\npartido.<\/p>\n<p>As amigas de m\u00e1 l\u00edngua, quando souberam do seu rompimento<br \/>\ncom o marido, bradaram logo que tal fato era de esperar, e profetizaram que<br \/>\nOl\u00edmpia principiaria, depois disso, a cultivar abertamente a sua paix\u00e3o<br \/>\npelo luxo e pela opul\u00eancia. Pois saiu tudo ao contr\u00e1rio; desde<br \/>\na desuni\u00e3o do casal, o vulto encantador da festejada senhora desertou,<br \/>\npor uma vez, dos sal\u00f5es do Cassino e dos grupos aristocr\u00e1ticos<br \/>\ndas suas rela\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m mais aprendeu com ela a p\u00f4r<br \/>\nou tirar uma capa, a trazer um novo chap\u00e9u, a escolher uma flor, a<br \/>\ncombinar duas cores num vestido ou a servir uma ch\u00e1vena de ch\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Estar\u00e1 apaixonada pelo marido?&#8230; perguntava-se \u00e0<br \/>\nboca pequena. E esta pergunta provocava as mais desencontradas respostas.<br \/>\nUns admitiam perfeitamente tal esquisitice, considerando o g\u00eanio caprichoso<br \/>\nde Ol\u00edmpia; outros negavam, lembrando o tipo vulgar e peco do marido;<br \/>\nalguns falavam de uma paix\u00e3o rom\u00e2ntica, que teria justamente<br \/>\nsido a causa do div\u00f3rcio; outros afirmavam que a impostora s\u00f3<br \/>\ndesejava armar ao efeito e chamar sobre si a aten\u00e7\u00e3o de todos.<br \/>\nE assim se inventaram mil romances, predominando sempre a singular hip\u00f3tese<br \/>\nde que Ol\u00edmpia estivesse deveras apaixonada pelo esposo. Mas desnortearam<br \/>\nlogo, quando souberam por fonte limpa, que este acabava de propor \u00e0<br \/>\nmulher uma boa reconcilia\u00e7\u00e3o e que tal proposta fora prontamente<br \/>\nrejeitada. A verdade \u00e9 que ela n\u00e3o mais apareceu em nenhuma<br \/>\nfesta, e nunca mais mandou iluminar a sala nas quintas-feiras, que era o seu<br \/>\ndia de recep\u00e7\u00e3o. E como se ainda n\u00e3o bastasse tudo isso<br \/>\ne receasse que as antigas amizades a fossem importunar no seu isolamento,<br \/>\nexigiu do pai que a tirasse de Botafogo para um lugar modesto e sem vizinhos.<\/p>\n<p>O comendador Ferreira recuou assombrado.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea, minha filha?! perguntou ele muito comovido. Que caprichos<br \/>\ns\u00e3o esses? pois j\u00e1 n\u00e3o chega a reclus\u00e3o em que<br \/>\nvives?&#8230; Tu, t\u00e3o mo\u00e7a, t\u00e3o bela, t\u00e3o querida<br \/>\nda sociedade, queres enterrar-te, em um lugar obscuro, ignorado&#8230; Para qu\u00ea<br \/>\ne por qu\u00ea?! N\u00e3o tens vergonha que te impe\u00e7am de aparecer<br \/>\npublicamente!&#8230; n\u00e3o tens desgostos que te privem de gozar!&#8230;<\/p>\n<p>E o velho, depois de passear muito agitado, acrescentou: \u2014 N\u00e3o!<br \/>\nisso l\u00e1, tem paci\u00eancia, n\u00e3o se h\u00e1 de fazer! Ir<br \/>\npara um lugarzinho modesto!&#8230; que id\u00e9ia!&#8230; Antes entrar logo para<br \/>\num convento! \u2014 Quem sabe mesmo se n\u00e3o seria melhor!&#8230; disse<br \/>\nOl\u00edmpia, com os olhos cravados no ar.<\/p>\n<p>\u2014 Melhor o qu\u00ea, minha filha?&#8230; N\u00e3o quero que te mortifiques<br \/>\ndessa forma! Fala-me antes com franqueza; abre esse cora\u00e7\u00e3o<br \/>\na teu pai, dize-me o que sofres! se te falta alguma coisa, confessa-me tudo!<br \/>\nSabes quanto te amo; sabes que tu \u00e9s toda a minha vida, toda a minha<br \/>\nfelicidade! N\u00e3o v\u00eas que estou comovido?&#8230; n\u00e3o v\u00eas<br \/>\nque tu me matas com essa tua m\u00e1goa fechada e ego\u00edsta?&#8230;<\/p>\n<p>E o pobre velho n\u00e3o p\u00f4de continuar, porque a como\u00e7\u00e3o<br \/>\nlhe cortara com efeito a voz. E, com medo de provocar \u00e0 filha alguma<br \/>\ncrise nervosa, procurou mostrar-se tranq\u00fcilo e principiou a afagar-lhe<br \/>\nbrandamente os cabelos; mas Ol\u00edmpia sacudiu com frenesi a cabe\u00e7a<br \/>\ne atirou-se nos bra\u00e7os do pai, com uma explos\u00e3o de solu\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, minha filha, que \u00e9 isto?&#8230; Vamos! n\u00e3o<br \/>\nte aflijas deste modo! Ela, por\u00e9m, nada respondia e continuava a solu\u00e7ar<br \/>\nhistericamente.<\/p>\n<p>Terminada a crise, Ol\u00edmpia caiu num grande abatimento. Embalde procurava<br \/>\no pai distra\u00ed-la, falando-lhe de tudo o que lhe vinha \u00e0 fantasia;<br \/>\nela continuava na sua postura indiferente, a estalar suspiros na garganta<br \/>\ne a menear tristemente a cabe\u00e7a de um para outro lado.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, por chamado do velho, viera o Dr. Roberto, a quem o leitor<br \/>\nj\u00e1 conhece; Ol\u00edmpia sobressaltou-se com a visita.<\/p>\n<p>\u2014 Ora! para que chamar m\u00e9dico?!&#8230; disse ela, visivelmente<br \/>\ncontrariada, quando o pai a foi prevenir de que o doutor a esperava na sala.<\/p>\n<p>E acrescentou, sem sair do lugar em que se achava: \u2014 Eu n\u00e3o<br \/>\nestou doente! Eu n\u00e3o preciso absolutamente de m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, considerou o comendador, procurando abrand\u00e1-la; n\u00e3o<br \/>\nrecebas o m\u00e9dico, mas isso n\u00e3o impede que fales ao Dr. Roberto.<br \/>\nSabes que de \u00e9 amigo velho da casa. N\u00e3o seria bonito que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, senhores! eu n\u00e3o estou para visitas!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, minha filha, isto \u00e9 uma quest\u00e3o de delicadeza!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed est\u00e1 por que desejo esconder-me em qualquer modesto<br \/>\nretiro&#8230; \u00c9 para n\u00e3o ser apoquentada constantemente por semelhantes<br \/>\nimportunos!&#8230; Sempre a delicadeza! sempre a cortesia! sempre as exig\u00eancias<br \/>\nsociais! Mas que diabo tenho eu com tudo isso?! Acaso pe\u00e7o \u00e0<br \/>\nsociedade mais alguma coisa al\u00e9m de que me deixe em paz e n\u00e3o<br \/>\nme aborre\u00e7a?! E depois de assentar-se a uma mesinha e apoiar a cabe\u00e7a<br \/>\nna m\u00e3o esquerda, principiou a bater nervosamente com o p\u00e9 no<br \/>\ntapete.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 muito boa! exclamou ela afinal, com a cara fechada. N\u00e3o<br \/>\nprocuro ningu\u00e9m n\u00e3o cultivo amizade de esp\u00e9cie alguma!<br \/>\npor que ent\u00e3o n\u00e3o me deixam ficar em paz?! E voltando-se para<br \/>\no pai, disse resolutamente: \u2014 N\u00e3o apare\u00e7o ao Dr. Roberto!<br \/>\nPara o m\u00e9dico estou de perfeita sa\u00fade e n\u00e3o preciso dele;<br \/>\npara o amigo da casa estou doente e n\u00e3o posso receb\u00ea-lo! \u2014<br \/>\nMas, minha filha, disse o comendador, beijando-a na cabe\u00e7a; tu te precisas<br \/>\ntratar&#8230; N\u00e3o te quero ver assim fren\u00e9tica e aborrecida. Vamos,<br \/>\nvem ver o Dr. Roberto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tem muito gosto nisso? perguntou ela, passando o bra\u00e7o na<br \/>\ncintura do pai.<\/p>\n<p>\u2014 Se tenho, meu amor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bom; ent\u00e3o fa\u00e7a-o entrar&#8230;<\/p>\n<p>O m\u00e9dico declarou que Ol\u00edmpia precisava de um bom regime;<br \/>\nque estava muito an\u00eamica e muito debilitada. Falou da alimenta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nlembrou os calc\u00e1rios, os ferruginosos, recomendou os banhos de mar,<br \/>\nos passeios ao ar livre e as distra\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>\u2014 Exerc\u00edcio! bastante exerc\u00edcio! dizia ele; e de vez<br \/>\nem quando um pouco de m\u00fasica, n\u00e3o da italiana, da alem\u00e3,<br \/>\nda boa m\u00fasica alem\u00e3! Mas o que ele entendia mais conveniente<br \/>\nera uma viagem \u00e0 Europa. Ol\u00edmpia precisava tomar interesse por<br \/>\nqualquer coisa. Ela estava muito mais enferma do que supunha e tinha os nervos<br \/>\nem peti\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria! E, quando ficou s\u00f3 com<br \/>\no velho, disse-lhe em voz baixa: \u2014 N\u00e3o \u00e9 bom contrari\u00e1-la!&#8230;<br \/>\nnaquilo que o Sr. lhe puder fazer a vontade, fa\u00e7a! Se ela tiver algumas<br \/>\nfantasias, alguns caprichozinhos, procure satisfaz\u00ea-los! A contrariedade<br \/>\npodia vir a prejudic\u00e1-la extraordinariamente e talvez ocasionar um<br \/>\ndesarranjo cerebral.<\/p>\n<p>\u2014 Minha filha ent\u00e3o est\u00e1 muito mal, doutor?! Fale com<br \/>\nfranqueza! disse o comendador em sobressalto, aparando com os olhos as palavras<br \/>\nque ca\u00edam da boca do facultativo.<\/p>\n<p>\u2014 Hum! hum!&#8230; resmungou este, a bambalear a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>E depois de fitar por algum tempo as t\u00e1buas do teto, disse batendo<br \/>\ncom a biqueira do guardachuva na ponta da botina: \u2014 Esta senhora precisava<br \/>\nfazer as pazes com o marido! Isso \u00e9 que seria o verdadeiro rem\u00e9dio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Acha, ent\u00e3o, Dr.?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Indispens\u00e1vel!&#8230; disse o m\u00e9dico, dilatando a palavra<br \/>\ne os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 E \u00e9 justamente o que ela n\u00e3o quer! balbuciou o pai<br \/>\nde Ol\u00edmpia, com um ar triste. Ainda ontem falaram-lhe nisso e ela teve<br \/>\num acesso nervoso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas talvez venha a resolver-se!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual! tornou o velho; conhe\u00e7o aquele geniozinho: quando lhe<br \/>\nd\u00e1 a cabe\u00e7a para um lado, n\u00e3o h\u00e1 quem a tire da\u00ed&#8230;<br \/>\nSaiu nisso tal qual a m\u00e3e&#8230; Teimosas como s\u00f3 elas! \u2014<br \/>\nEm todo o caso, acrescentou o m\u00e9dico, despedindo-se do comendador,<br \/>\nela n\u00e3o perdia nada em fazer uma viagem&#8230; E, j\u00e1 ao sair, ainda<br \/>\nrepetiu da escada: N\u00e3o se esque\u00e7a! Distra\u00e7\u00f5es,<br \/>\nexerc\u00edcios, boa alimenta\u00e7\u00e3o e banhos de mar! O velho<br \/>\nvoltou para o lado da filha, com a cabe\u00e7a baixa e as m\u00e3os nas<br \/>\nalgibeiras do seu rodaque.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes? disse logo que chegou perto dela; vamos \u00e0 Europa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Hein?! perguntou a rapariga, arrega\u00e7ando os l\u00e1bios<br \/>\ne franzindo o belo narizinho.<\/p>\n<p>\u2014 Sim&#8230; respondeu o pai; o Dr. Roberto acha que devemos fazer uma<br \/>\nviagem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed est\u00e1 por que eu n\u00e3o queria visitas de m\u00e9dico!<br \/>\nexclamou ela. Eu n\u00e3o saio do Rio de Janeiro! Logo vi que havia de aparecer<br \/>\nalguma contrariedade! \u2014 Bem, minha filha, n\u00e3o falemos mais nisso!<br \/>\nEle, coitado! se recomenda uma viagem, \u00e9 porque acha naturalmente que<br \/>\nisso te aproveitaria. Ora! tamb\u00e9m est\u00e1s agora com umas esquisitices<br \/>\nque&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que se n\u00e3o podem aturar! N\u00e3o \u00e9 isso o que o<br \/>\nsenhor quer dizer, meu pai?! \u2014 N\u00e3o senhora, n\u00e3o \u00e9<br \/>\nisso! nem admito que estejas agora aqui a imaginar tolices. N\u00e3o queres<br \/>\nfazer a viagem, pois n\u00e3o a faremos!&#8230; E o mesmo suceder\u00e1 com<br \/>\nos banhos, com os passeios e com as distra\u00e7\u00f5es!&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte o comendador falou em tr\u00eas meses de Petr\u00f3polis.<br \/>\nEstava a\u00ed o ver\u00e3o e n\u00e3o havia necessidade de suportar<br \/>\no calor da Corte.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero ir, respondeu laconicamente a filha.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se falou mais nisso.<\/p>\n<p>Foram depois lembrados outros passeios, mas Ol\u00edmpia recusou-os igualmente.<\/p>\n<p>\u2014 Para onde ent\u00e3o queres ir? perguntou o velho, lembrando-se<br \/>\nda recomenda\u00e7\u00e3o que lhe fizera o m\u00e9dico de a n\u00e3o<br \/>\ncontrariar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, disse ela sacudindo os ombros. Podemos passear todos<br \/>\nos dias de manh\u00e3 aqui mesmo pela Corte. Iremos hoje a um arrabalde,<br \/>\namanh\u00e3 a outro&#8230; Quanto aos tais banhos, n\u00e3o! deixemo-nos de<br \/>\nbanhos de mar! No dia seguinte o comendador tratou de adquirir sege e alim\u00e1rias<br \/>\npr\u00f3prias para os passeios campestres. Sairiam cedo de casa e, quando<br \/>\nestivessem em pleno campo, entrariam a andar de p\u00e9 por entre a vegeta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOl\u00edmpia n\u00e3o podia suportar o bonde e tomara medo de montar a<br \/>\ncavalo desde que abriu a sofrer dos nervos.<\/p>\n<p>Uma vez passeavam pelo Rio Comprido. O carro ficara com o cocheiro \u00e0<br \/>\nespera no caminho da Tijuca. Ol\u00edmpia pelo bra\u00e7o do pai, caminhava<br \/>\nvagarosamente, entretida a olhar para os objetos que a cercavam. Em certa<br \/>\naltura parou, impressionada por um canto mon\u00f3tono, que lhe chegava<br \/>\naos ouvidos de modo estranho.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto?&#8230; perguntou ao comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Devem ser os trabalhadores de alguma pedreira por aqui perto. \u00c9<br \/>\nassim que eles cantam quando brocam a pedra, para lhe introduzir a p\u00f3lvora<br \/>\ne lan\u00e7ar fogo depois.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse Ol\u00edmpia muito interessada. E onde \u00e9 a pedreira?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, mas \u00e9 naturalmente para este lado. \u00c9<br \/>\ndaqui que vem o canto. E o velho apontou para a sua direita.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos l\u00e1! prop\u00f4s Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>O pai n\u00e3o se animou a contrari\u00e1-la e os dois continuaram a<br \/>\ncaminhar na dire\u00e7\u00e3o do canto dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Depois de andarem por algum tempo, acharam-se com efeito \u00e0 fralda<br \/>\nde uma grande pedreira, que fica situada aos fundos da Avenida Estrela.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia parou dominada pelo espet\u00e1culo grandioso que tinha<br \/>\ndefronte dos olhos. A montanha com o seu ventre j\u00e1 muito retalhado,<br \/>\nsurgia da terra, como um gigante de pedra, e arrojava-se, imponente para o<br \/>\nc\u00e9u. Via-se o \u00e2mago branco e azulado da rocha reverberar aos<br \/>\nprimeiros raios do sol. Embaixo amontoavam-se as enormes avalanches de granito,<br \/>\nru\u00eddas e arrojadas impetuosamente pela explos\u00e3o da p\u00f3lvora.<br \/>\nDe todos os lados, ouviam-se a trabalhar o pic\u00e3o e o macete; e al\u00e9m,<br \/>\nsobre o calvo p\u00edncaro da montanha, quatro homens cantavam agarrados<br \/>\na um imenso fur\u00e3o de ferro com que penosamente abriam uma nova mina.<\/p>\n<p>Todas as vezes que suspendiam a pesada barra de ferro, repetiam o seu coro<br \/>\nmon\u00f3tono e triste, que ouvido de longe, parecia uma s\u00faplica<br \/>\nreligiosa.<\/p>\n<p>Foram esses os sons que impressionaram Ol\u00edmpia. E, com efeito, havia<br \/>\nalgum encanto melanc\u00f3lico, naquela cansada cantilena dos trabalhadores.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos l\u00e1! disse ela ao pai.<\/p>\n<p>\u2014 Onde, minha filha?&#8230; perguntou o velho assustado.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 em cima, onde aqueles homens est\u00e3o abrindo a pedra.<br \/>\nEu quero ir ver aquilo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s sonhando!&#8230; respondeu o comendador; n\u00e3o sou<br \/>\nt\u00e3o louco que consinta em semelhante imprud\u00eancia! Esta pedreira<br \/>\n\u00e9 muito alta; tu sentirias vertigens e serias capaz de perder os sentidos!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o faz mal; eu quero ir! \u2014 N\u00e3o! deixa-te disso!<br \/>\n\u2014 Ora, meu pai, n\u00e3o me contrarie por amor de Deus! E Ol\u00edmpia<br \/>\nsoltou-se-lhe do bra\u00e7o e foi perguntar ao trabalhador que ficava mais<br \/>\nperto por onde se subia para a pedreira. Depois de informada, encaminhou-se<br \/>\npara o lugar indicado.<\/p>\n<p>\u2014 Espera a\u00ed! gritou o pobre velho, tentando alcan\u00e7\u00e1-la.<br \/>\nEspera, Ol\u00edmpia! eu te acompanho, minha filha! E correu para ela.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia havia j\u00e1 galgado o primeiro lance da pedreira.<\/p>\n<p>A subida foi penosa. O caminho era estreito, irregular e seixoso, \u00e0s<br \/>\nvezes o p\u00e9 n\u00e3o encontrava resist\u00eancia, porque o cascalho<br \/>\nrolava sob ele. Ol\u00edmpia, sem querer dar parte de fraca, segurava arquejante<br \/>\nao bra\u00e7o do comendador, mas este mesmo sabe Deus com que esfor\u00e7os<br \/>\nconseguia n\u00e3o perder o equil\u00edbrio! Pararam tr\u00eas vezes<br \/>\npara descansar, \u00e0 \u00faltima nenhum dos dois podia articular palavra;<br \/>\no suor corria-lhes da fronte e as pernas tremiam-lhes convulsivamente. Mas<br \/>\nOl\u00edmpia n\u00e3o desistiu do seu prop\u00f3sito; queria a todo<br \/>\ntranse chegar ao alto da montanha. Felizmente, o caminho em cima era plano<br \/>\nat\u00e9 conduzir ao pequeno c\u00f4moro onde trabalhavam cantando os quatro<br \/>\nhomens.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia chegou a\u00ed exausta completamente de for\u00e7as;<br \/>\nsacudiu-lhe o corpo inteiro um arrepio, feito ao mesmo tempo de medo e de<br \/>\ngosto; experimentava ela certa sensualidade em defrontar o abismo que se precipitava<br \/>\ndebaixo de seus p\u00e9s. Precisava descansar, mas n\u00e3o tinha \u00e2nimo<br \/>\nde desviar por um segundo a vista do belo panorama que se descortinava em<br \/>\ntorno. E, presa ao espa\u00e7o pelos olhos, sentia-se arrebatar por um \u00eaxtase<br \/>\ndelicioso, como se estivesse desprendida da terra e pairasse voluptuosamente<br \/>\nnos ares.<\/p>\n<p>Assim se quedou por alguns instantes, enquanto o pai ao seu lado descansava,<br \/>\nsentado sobre uma pedra.<\/p>\n<p>Depois, Ol\u00edmpia come\u00e7ou a empalidecer gradualmente; foi pouco<br \/>\na pouco fechando os olhos, e teria ca\u00eddo de costas, se a n\u00e3o<br \/>\namparassem os homens que ali perto trabalhavam.<\/p>\n<p>\u2014 Eu j\u00e1 previa isto mesmo, considerou o pai, ainda n\u00e3o<br \/>\nrestabelecido do cansa\u00e7o. Lembrarse de subir a estas alturas!&#8230; E<br \/>\nagora a volta? \u2014 Pode vossemec\u00ea ficar tranq\u00fcilo, disse um<br \/>\ndos britadores; eu me encarrego de descer esta senhora, sem que lhe aconte\u00e7a<br \/>\na ela a menor l\u00e1stima.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda bem! respondeu o velho.<\/p>\n<p>O trabalhador, que acabava de oferecer-se para levar Ol\u00edmpia, era<br \/>\num mo\u00e7o de uns vinte e cinco anos. Forte, belo de vigor. Estava nu<br \/>\nda cintura para cima, e a riqueza dos seus m\u00fasculos patenteava-se ao<br \/>\nsol com um arrojo de est\u00e1tua. Os cabelos, empastados de suor, ca\u00edam-lhe<br \/>\nem desalinho sobre a fronte tostada.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos! disse-lhe o comendador; n\u00e3o conv\u00e9m demorar-nos<br \/>\naqui&#8230; Veja se a pode trazer carregada! O rapaz passou um dos bra\u00e7os<br \/>\nna cintura de Ol\u00edmpia e com o outro a suspendeu pelas curvas dos joelhos,<br \/>\nchamando-lhe todo o corpo contra o seu largo peito nu. Ela, na inconsci\u00eancia<br \/>\nda s\u00edncope, deixou pender a cabe\u00e7a sobre o ombro dele e continuou<br \/>\nadormecida.<\/p>\n<p>E os dois seguiram pela irregularidade \u00edngreme do caminho. Era preciso<br \/>\nmuito cuidado para n\u00e3o rolarem juntos. \u00c0s vezes em um solavanco<br \/>\nmais forte, o rosto gelado de Ol\u00edmpia ia de encontro \u00e0 face<br \/>\nesfogueada do trabalhador.<\/p>\n<p>Ela afinal soltou um gemido e abriu vagarosamente os olhos. N\u00e3o perguntou<br \/>\nonde estava, n\u00e3o indagou quem a conduzia, apenas esticou nervosamente<br \/>\nos membros num estremecimento pregui\u00e7oso, para de novo se estreitar<br \/>\nao peito do rapaz, cingindo-lhe os bra\u00e7os em volta do pesco\u00e7o.<br \/>\nE tornou a cair no seu entorpecimento; ficou com os olhos a meio cerrados,<br \/>\nas narinas s\u00f4fregas, os seios ofegantes e os l\u00e1bios molemente<br \/>\nseparados por um espasmo voluptuoso.<\/p>\n<p>Sentia-se muito bem no aconchego t\u00e9pido daquele corpo de homem, penetrada<br \/>\npelo calor lascivo e vivificante do colo m\u00e1sculo que a sustinha. O<br \/>\ncontato daquela vigorosa carna\u00e7\u00e3o, criada ao ar livre e enriquecida<br \/>\npelo trabalho, sacudia-lhe os sentidos e acordava-lhe em sobressalto o sangue<br \/>\nentorpecido pela ociosidade.<\/p>\n<p>A descida tornava-se cada vez mais penosa. O mo\u00e7o fazia milagres<br \/>\nde equil\u00edbrio para n\u00e3o lhe faltar o p\u00e9. Ol\u00edmpia<br \/>\nparecia escorregar-lhe dos bra\u00e7os; ele a puxou mais para o ombro e<br \/>\na cingiu mais estreitamente contra o peito. Ela suspirava de leve, como em<br \/>\num sonho de amor, sentindo no rosto a respira\u00e7\u00e3o quente e acelerada<br \/>\ndo cavouqueiro, e nas carnes macias da garganta o ro\u00e7agar das suas<br \/>\nbarbas \u00e1speras e mal tratadas.<\/p>\n<p>Quando chegaram embaixo, j\u00e1 o Pap\u00e1 Falconnet, que assistira<br \/>\nao epis\u00f3dio dos fundos do seu hotel, os esperava com duas cadeiras.<\/p>\n<p>O velho assentou-se logo em uma delas; enquanto na outra o trabalhador depunha<br \/>\nOl\u00edmpia.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que ela abriu de todo os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! exclamou, cobrindo o rosto com as m\u00e3os, sem poder encarar<br \/>\npara o rapaz que a trouxera ao colo. Fazia-lhe mal agora olhar para aquele<br \/>\nhomem de corpo nu, que defronte dela limpava com os dedos o suor da testa.<br \/>\nAs faces tingiram-se-lhe de pronto rubor e uma afli\u00e7\u00e3o terr\u00edvel<br \/>\napoderou-se-lhe da garganta. Ol\u00edmpia chamou com um gesto o pai para<br \/>\njunto de si e entre gritos come\u00e7ou a estrebuchar nervosamente.<\/p>\n<p>Foi uma crise fort\u00edssima. Ela nunca havia sofrido igual. O Pap\u00e1<br \/>\nFalconnet apresentou logo um frasquinho de sais e deu provid\u00eancias para<br \/>\nque se recolhesse a enferma \u00e0 casa dele, sem que fosse necess\u00e1rio<br \/>\ndar a volta pela rua. Abriu-se de improviso, uma passagem na cerca do fundo<br \/>\nda avenida, e Ol\u00edmpia, carregada na cadeira, era da\u00ed a pouco<br \/>\nconduzida a um aposento preparado \u00e0s pressas.<\/p>\n<p>A crise cessou pouco depois, mas Ol\u00edmpia sentiu febre, dores de cabe\u00e7a<br \/>\ne vontade de vomitar. Mandou-se chamar o m\u00e9dico que ficava mais pr\u00f3ximo,<br \/>\ne dentro de tr\u00eas horas a enferma voltava no seu carro para Botafogo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, ainda o pai de Ol\u00edmpia n\u00e3o tinha perdoado<br \/>\na si mesmo a sua condescend\u00eancia da v\u00e9spera de consentir a maldita<br \/>\nascens\u00e3o \u00e0 pedreira, e j\u00e1 a filha lhe surgiu no quarto,<br \/>\nintimando-o para voltarem incontinenti ao Rio Comprido.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?!&#8230; exclamou o velho, muito espantado; pois ainda n\u00e3o<br \/>\nficaste satisfeita de Rio Comprido?&#8230; Queres fazer outra visita \u00e0<br \/>\npedreira?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, disse ela de melhor humor que nos outros dias; quero<br \/>\napenas passar algum tempo naquela casa onde me recolheram.<\/p>\n<p>\u2014 Na Avenida Estrela?! Ora, minha filha! \u2014 \u00c9 verdade,<br \/>\nrespondeu ela; \u00e9 o \u00fanico lugar que agora me conv\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, Ol\u00edmpia, que id\u00e9ia \u00e9 essa t\u00e3o extravagante?!<br \/>\nPois ent\u00e3o tu queres ir meter-te ali, minha filha?&#8230; Ora n\u00e3o<br \/>\npenses em semelhante coisa! Mas, como a caprichosa se mostrasse inabal\u00e1vel<br \/>\nna sua resolu\u00e7\u00e3o, o velho cedeu afinal, e na tarde desse mesmo<br \/>\ndia entraram os dois na Avenida Estrela, como vimos pelo fecho do cap\u00edtulo<br \/>\npassado.<\/p>\n<h2><a name=\"17\"><\/a> XVII A PEDREIRA<\/h2>\n<p>O comendador Manuel Furtado Ribeiro, s\u00f3 por muito amor \u00e0 filha,<br \/>\ne s\u00f3 por muito respeito \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es do Dr.<br \/>\nRoberto, \u00e9 que podia consentir naquela mudan\u00e7a para a Avenida<br \/>\nEstrela.<\/p>\n<p>O bom velho, que havia feito excelente pec\u00falio no alto com\u00e9rcio<br \/>\ndonde se achava agora retirado, tinha as suas baz\u00f3fias e gostava de<br \/>\naparecer e luzir; folgava em ver cintilar ao g\u00e1s das suas salas as<br \/>\ncomendas de alguns ministros e as calvas de alguns senadores; lisonjeava-se<br \/>\nmuito com a amizade do Bom Retiro, com a intimidade de Otaviano Rosa e de<br \/>\noutros gra\u00fados do tempo que sempre o distinguiram. Era conservador<br \/>\n\u00e0s direitas; tinha muito respeito e muita venera\u00e7\u00e3o pelo<br \/>\nseu Imperador, e nos dias de grande gala mandava iluminar o frontisp\u00edcio<br \/>\nda casa. N\u00e3o poderia por conseguinte consentir de cara alegre naquele<br \/>\nnovo capricho da filha.<\/p>\n<p>\u2014 Meter-se na Avenida Estrela!&#8230; dizia ele consigo, furioso por n\u00e3o<br \/>\npoder destruir semelhante id\u00e9ia. Onde se viram caprichos de tal ordem?!&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 por ocasi\u00e3o do casamento de Ol\u00edmpia, o comendador<br \/>\nsofrera um grande choque no seu amor-pr\u00f3prio: sonhara para a filha<br \/>\num partido muito mais brilhante e muito mais honroso do que o caixa do Paulo<br \/>\nCordeiro; tanto assim que, na primeira desaven\u00e7a do casal, disse francamente,<br \/>\nque o genro afinal n\u00e3o passava de um \u201cCaixa-de-rap\u00e9\u201d.<\/p>\n<p>O marido de Ol\u00edmpia nunca perdoou ao sogro semelhante qualifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ne, se at\u00e9 a\u00ed n\u00e3o morria de amores por ele, de ent\u00e3o<br \/>\nem diante quase que o n\u00e3o podia suportar. Verdade \u00e9 que esse<br \/>\ncasamento nunca se teria realizado, se n\u00e3o fosse j\u00e1 nesse tempo<br \/>\nandar o velho perseguido pela necessidade de casar a filha.<\/p>\n<p>O fato por\u00e9m \u00e9 que o comendador Ferreira se mudou com Ol\u00edmpia<br \/>\npara a Avenida Estrela.<\/p>\n<p>O pobre homem, quando entrou na antiga ch\u00e1cara, bem mostrava pelo<br \/>\nrosto o sacrif\u00edcio que ia a fazer; s\u00f3 aquela caprichosa seria<br \/>\ncapaz de constrang\u00ea-lo a tanto! Foi com o cora\u00e7\u00e3o oprimido<br \/>\ne com o semblante fechado que ele transp\u00f4s a saia do hotel. As velhas<br \/>\nparedes, os m\u00f3veis decr\u00e9pitos, o tr\u00eamulo assoalho, a melanc\u00f3lica<br \/>\napar\u00eancia de tudo aquilo, lhe enchiam o cora\u00e7\u00e3o de uma<br \/>\ntristeza dura, de um mal-estar grosseiro e doloroso. Tudo aquilo lhe falava<br \/>\nem desconforto, em falta de recursos, em digest\u00f5es mal feitas e em<br \/>\nnoites mal dormidas.<\/p>\n<p>O comendador, como todo o homem que logrou posi\u00e7\u00e3o \u00e0<br \/>\ncusta dos pr\u00f3prios esfor\u00e7os, ligava extraordin\u00e1ria import\u00e2ncia<br \/>\n\u00e0s suas comodidades. Queria a sua boa cama, o seu bom prato, o seu<br \/>\nbanho f\u00e1cil e pronto e a sua liberdade plena em certas ocasi\u00f5es.<br \/>\nN\u00e3o compreendia a exist\u00eancia sem robe-de-chambre, sem chinelas,<br \/>\nsem a bela pregui\u00e7osa depois da refei\u00e7\u00e3o, o palito ao<br \/>\ncanto da boca e os olhos amortecidos pela digest\u00e3o tranq\u00fcila do<br \/>\njantar. Al\u00e9m disso (para que negar?), gostava que lhe admirassem a<br \/>\ncasa; que lhe falassem das plantas, dos gansos que ele tinha no tanque do<br \/>\njardim; que lhe elogiassem a mob\u00edlia das salas; que lhe perguntassem<br \/>\nqual era o posto de seu pai, cujo retrato l\u00e1 estava no sal\u00e3o,<br \/>\nfardado, dentro da custosa moldura cor-de-ouro. Todas estas nonadas lhe davam<br \/>\nmuito gozo e lhe faziam amar a vida.<\/p>\n<p>Mas o m\u00e9dico lhe recomendara que n\u00e3o contrariasse a enferma!&#8230;<br \/>\nque diabo havia ele de fazer?&#8230; E que n\u00e3o seria capaz de sacrificar<br \/>\npor aquela filha?&#8230; Ele a estremecia tanto!&#8230; De todas as suas afei\u00e7\u00f5es,<br \/>\nOl\u00edmpia era tudo o que lhe restava. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o<br \/>\nque elas se foram extinguindo, a rapariga ia herdando de cada uma dose de<br \/>\nternura que lhe dava o comendador; de sorte que, ao desaparecer a \u00faltima,<br \/>\nOl\u00edmpia ficou senhora do cora\u00e7\u00e3o inteiro de seu pai.<br \/>\nEla, s\u00f3, representava todos aqueles a quem o bom homem amara durante<br \/>\na sua longa vida.<\/p>\n<p>O comendador fora casado duas vezes. A primeira mulher, justamente a que<br \/>\nele mais estimara, ou, talvez, a \u00fanica que ele amou, dera-lhe ainda<br \/>\num outro filho, que nasceu pouco depois de Ol\u00edmpia; a segunda mimoseou-o<br \/>\ncom duas raparigas g\u00eameas. Mas tudo isso morreu; tudo isso desertou;<br \/>\naquele aos treze anos e estas duas antes dos cinco. S\u00f3 Ol\u00edmpia<br \/>\nresistiu e se conservou fiel ao infeliz patriarca. N\u00e3o admira, pois,<br \/>\nque ele a amasse com tanto extremo. E esse belo amor de pai, fazia com que<br \/>\na gente n\u00e3o desse grande aten\u00e7\u00e3o a algum ridiculozinho,<br \/>\nque porventura turvasse o tipo simp\u00e1tico do comendador.<\/p>\n<p>Quanto lhe n\u00e3o seria penoso por conseguinte habitar a Avenida Estrela,<br \/>\npara que o pobre velho ainda se n\u00e3o tivesse habituado a semelhante<br \/>\nid\u00e9ia e ainda se n\u00e3o mostrasse de todo resignado. Definitivamente<br \/>\nera enorme o sacrif\u00edcio! A filha nunca lhe tinha exigido at\u00e9<br \/>\nali t\u00e3o grande prova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E o comendador, pensando assim, deixava-se entristecer. O Pap\u00e1 Falconnet,<br \/>\nentretanto, mal o pilhou desacompanhado da filha, correu ao seu encontro e<br \/>\nprincipiou a falar-lhe minuciosamente da casa: \u2014 V. Exa. aqui ficar\u00e1<br \/>\nmelhor do que em parte alguma!&#8230; afirmava este convicto. N\u00e3o me fica<br \/>\nbem diz\u00ea-lo, mas juro-lhe que escolho do melhor para servir meus h\u00f3spedes!<br \/>\nE, desfazendo-se em cortesias, obrigava o comendador a acompanh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Tenha a bondade! dizia ele; tenha a bondade de passar um instante<br \/>\n\u00e0 nossa sala de bilhar.<\/p>\n<p>\u00c9 o que se v\u00ea! Asseio, simplicidade e c\u00f4modo completo!<br \/>\nAgora temos ali a sala de jantar! Fa\u00e7a o favor de ir entrando&#8230; Aqui<br \/>\njanta-se defronte das \u00e1rvores! \u00c9 como se fosse em plena floresta!&#8230;<\/p>\n<p>Ouvem-se da mesa cantar os passarinhos. Veja, Sr. comendador, tenha um pouco<br \/>\nmais de paci\u00eancia e olhe V. Exa. para isto: \u00e9 a nossa cozinha&#8230;<br \/>\nPouco luxo, mas limpeza por toda a parte.<\/p>\n<p>Agora vou mostrar-lhe os banheiros!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! dispense-me, respondeu o comendador com delicadeza.<br \/>\nEstou muito fatigado e preciso de recolher-me.<\/p>\n<p>E, antes que Pap\u00e1 Falconnet o detivesse, j\u00e1 ele se tinha afastado<br \/>\npara ir visitar a filha.<\/p>\n<p>Os h\u00f3spedes, que foram entrando pouco a pouco \u00e0 propor\u00e7\u00e3o<br \/>\nque anoitecia, olhavam com certa surpresa para o comendador e faziam entre<br \/>\nsi perguntas a seu respeito. Ol\u00edmpia mostrou-se no dia seguinte, e<br \/>\ndispensou que lhe servissem o almo\u00e7o no quarto.<\/p>\n<p>Era um domingo, a mesa encheu-se de h\u00f3spedes, que s\u00f3 nesse<br \/>\ndia comiam no hotel. O comendador assentou-se contrariado ao p\u00e9 da<br \/>\nfilha, depois de cumprimentar os outros comensais.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio estava entre estes e n\u00e3o tirava os olhos de Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>Esta impunha, sem saber, uma inusitada cerim\u00f4nia. Fez constrangimento;<br \/>\nningu\u00e9m se queria servir sem passar o prato ao vizinho. A figura nutrida<br \/>\ndo comendador destacava-se, amplamente, dentre dois rapazes magrinhos que<br \/>\npareciam irm\u00e3os. O Falconnet ocupava a cabeceira e falava, em tom reservado,<br \/>\nsobre a excel\u00eancia do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me fica bem diz\u00ea-lo, repetia ele, mas incontestavelmente<br \/>\nestes camar\u00f5es est\u00e3o soberbos! E voltando-se para Ol\u00edmpia:<br \/>\n\u2014 V. Exa. n\u00e3o quer repetir, minha senhora? Ol\u00edmpia respondeu<br \/>\nque n\u00e3o com o garfo.<\/p>\n<p>Mme. Falconnet distribu\u00eda pratos aos seus h\u00f3spedes. A conversa<br \/>\nem breve come\u00e7ou a estalar de v\u00e1rios pontos da mesa, a princ\u00edpio<br \/>\napenas murmurada, depois em tom mais alto, e afinal livremente solta. Os assuntos<br \/>\nchocavam-se no ar. De um lado discutia-se a respeito da guerra franco-prussiana,<br \/>\nque ainda nessa ocasi\u00e3o tinha cheiro de novidade; falava-se de outro<br \/>\na respeito da \u00faltima esta\u00e7\u00e3o da febre amarela; os dois<br \/>\nrapazinhos parecidos disputavam uma quest\u00e3o sobre um tal Mateus, um<br \/>\ndeles afirmava que o Mateus era filho da Bahia, e o outro sustentava que era<br \/>\nfluminense. \u00c0s vezes falavam pela frente do comendador e estendiam-se<br \/>\nsobre o prato, quase a tocar nariz contra nariz; \u00e0s vezes derreavam<br \/>\na cadeira para tr\u00e1s e gesticulavam agitando os bra\u00e7os pelas<br \/>\ncostas do seu vizinho comum do centro. O comendador, entalado entre os dois,<br \/>\nora se chegava para a frente, ora se empinava para tr\u00e1s, sem querer<br \/>\ninterromper com seu volumoso corpo as vistas dos contendores.<\/p>\n<p>Dava-se com o comendador nessa ocasi\u00e3o um fen\u00f4meno muito vulgar.<br \/>\nEle ali, entre aquela gente singela e pouco escrupulosa na pr\u00e1tica<br \/>\ndas etiquetas, se sentia, mais do que nunca, disposto a conservar a sua austera<br \/>\natitude de homem fino; o contraste estabelecido entre ele e os companheiros<br \/>\nda mesa instigava-o a sustentar com muito empenho um grande ar diplom\u00e1tico<br \/>\nque nem sempre era o seu. Em outros lugares, onde ali\u00e1s qualquer sem-cerim\u00f4nia<br \/>\nn\u00e3o seria perdoada, o bom comendador nunca se mostrava t\u00e3o fiel<br \/>\naos rigores da cortesia e parecia at\u00e9 disposto a abrir m\u00e3o contra<br \/>\nalguns deles.<\/p>\n<p>Todavia Greg\u00f3rio n\u00e3o tirava os olhos de Ol\u00edmpia. Sua<br \/>\nimagina\u00e7\u00e3o cabriolava doida em torno da formosa criatura, procurando<br \/>\npuxar-lhe pelos olhos, pelo riso ou pelo perfume dos cabelos, o fio de algum<br \/>\nsegredo, o segredo de alguma paix\u00e3o, que a tivesse posto assim t\u00e3o<br \/>\npreocupada e t\u00e3o triste, e lhe tivesse dado aquele ar melanc\u00f3lico<br \/>\nde rola sem companheiro.<\/p>\n<p>Depois do almo\u00e7o apareceu o Dr. Roberto. O comendador carregou com<br \/>\neste para o quarto e desabafou ent\u00e3o com ele as suas penas.<\/p>\n<p>\u2014 Fez bem! respondeu-lhe o m\u00e9dico \u00e0 sua primeira pergunta;<br \/>\nfez bem em n\u00e3o contrari\u00e1-la.<\/p>\n<p>Descanse que n\u00e3o levar\u00e3o aqui muito tempo&#8230; Ela se aborrecer\u00e1<br \/>\nem poucos dias!&#8230;<\/p>\n<p>E, depois que o comendador lhe tornara a falar da cena da pedreira, interrogou:<br \/>\n\u2014 Ela estava em jejum?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Havia tomado leite antes de sair de casa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas a crise s\u00f3 veio \u00e0 volta? \u2014 S\u00f3; continuando,<br \/>\npor\u00e9m, com uma tal veem\u00eancia, que fiquei deveras assustado&#8230;<br \/>\nNunca eu a vira assim t\u00e3o mal, doutor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ela teve antes disso alguma contrariedade? \u2014 N\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Viu alguma coisa que a assustasse?&#8230; encontrou-se com qualquer<br \/>\nobjeto que a sobressaltasse?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Nada disso. Teve apenas uma vertigem quando estava l\u00e1<br \/>\nem cima da pedreira; o mo\u00e7o carregou com ela e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que mo\u00e7o?!&#8230; interrompeu o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 Um trabalhador que se ofereceu para a p\u00f4r c\u00e1 em baixo.<\/p>\n<p>\u2014 E trouxe-a? \u2014 Perfeitamente.<\/p>\n<p>\u2014 Ela estava sem sentidos? \u2014 N\u00e3o dava acordo de si.<\/p>\n<p>\u2014 E o rapaz&#8230; que idade ter\u00e1 ele?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Uns vinte e cinco anos.<\/p>\n<p>\u2014 Era homem forte?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Fort\u00edssimo.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! E, depois que o m\u00e9dico recebeu mais algumas informa\u00e7\u00f5es<br \/>\nde outro, bateu com o guardachuva no ch\u00e3o e disse entre dentes: \u2014<br \/>\nCompreendo! compreendo, coitada!&#8230;<\/p>\n<p>E, como o velho quisesse saber o que ele resmungava, Roberto respondeu,<br \/>\nafagando a barba: \u2014 O melhor, meu caro comendador, \u00e9 arranjar-lhe<br \/>\nas pazes com o marido! Isso \u00e9 que era! Tanto para o velho Ferreira,<br \/>\ncomo para a filha, se fez ent\u00e3o uma vida muito especial. Ol\u00edmpia<br \/>\nacordava cedo, tr\u00eas horas antes do que era seu costume em Botafogo,<br \/>\nbanhava-se n\u2019\u00e1gua fria, enfiava um palet\u00f3 de casimira<br \/>\ne sa\u00eda a passear pelo bra\u00e7o do pai. Voltava \u00e0 hora de<br \/>\nalmo\u00e7o, depois do qual lia o seu romance, ou tentava alguma m\u00fasica<br \/>\nem um velho piano adormecido \u00e0s moscas na sala de bilhar. \u00c0s<br \/>\nvezes dormia, de outras vezes costurava ou n\u00e3o fazia coisa alguma,<br \/>\nat\u00e9 que o Pap\u00e1 Falconnet vibrava afinal a campainha chamando<br \/>\npara a mesa. Depois do jantar sa\u00eda de novo a passeio ou ficava entretida<br \/>\na olhar para os trabalhos da pedreira no fundo da ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>Era bem singular o que sentia Ol\u00edmpia \u00e0 vista dos trabalhadores<br \/>\nda pedreira. Seu esp\u00edrito, finamente educado entre carinhos de fam\u00edlia<br \/>\ne amimado pelos costumes de uma vida feliz, contrariava-se sobremaneira com<br \/>\na aus\u00eancia do meio superior em que se desenvolvera; mas o corpo, ao<br \/>\ncontr\u00e1rio, forcejava por saltar fora desses arraiais e precipitar-se<br \/>\naventurosamente nos dom\u00ednios do desconhecido.<\/p>\n<p>Uma vez olhava para os trabalhadores da pedreira, quando viu aproximar-se<br \/>\ndeles uma rapariga. Era ainda mo\u00e7a, forte, e rica de quadris. Levava<br \/>\numa cesta no bra\u00e7o e parecia alegremente empenhada pelo servi\u00e7o<br \/>\nque fazia. Um dos trabalhadores, ao v\u00ea-la, soltou uma estrondosa exclama\u00e7\u00e3o<br \/>\nde prazer e correu ao seu encontro.<\/p>\n<p>A mocetona dep\u00f4s a cesta ao ch\u00e3o e estendeu-lhe a cara. Ele<br \/>\na beijou em cheio na boca e abra\u00e7ou-lhe a cintura. Depois seguiram<br \/>\njuntos para o lado dos companheiros; sentaram-se todos em volta de uma pedra,<br \/>\ndespejaram a cesta e principiaram a comer alegremente, ao sol.<\/p>\n<p>Esta cena produziu na filha do comendador uma impress\u00e3o penosa e<br \/>\nao mesmo tempo agrad\u00e1vel. Fizera-lhe mal aos nervos o espet\u00e1culo<br \/>\ndaquela ternura grosseira e sincera, mas sentira apetite de participar do<br \/>\nalmo\u00e7o daquela pobre gente. Ela, com quem j\u00e1 n\u00e3o iam<br \/>\nos imaginosos acepipes da mesa de seu pai, desejou comer do bocado dos trabalhadores,<br \/>\nbeber do seu vinho ordin\u00e1rio e palestrar com eles, em torno daquela<br \/>\nmesa de pedra, informe e tosca, mas t\u00e3o alta e t\u00e3o alevantada,<br \/>\nque Ol\u00edmpia n\u00e3o podia chegar at\u00e9 l\u00e1 sem perder<br \/>\nos sentidos.<\/p>\n<p>E t\u00e3o empenhada ficou a ver aquele espet\u00e1culo, que a n\u00e3o<br \/>\nconseguiram tirar da\u00ed sen\u00e3o quando os trabalhadores, depois<br \/>\nde beberem pela mesma garrafa, deram o almo\u00e7o por findo e despediram<br \/>\na rapariga.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o Ol\u00edmpia reparou que, a pequena dist\u00e2ncia<br \/>\ndela, estava Greg\u00f3rio, assentado debaixo de uma \u00e1rvore, com<br \/>\numa pasta sobre as pernas cruzadas, na atitude de quem copiava a pedreira.<\/p>\n<p>A hist\u00e9rica ficou logo tomada duma grande curiosidade por aquele<br \/>\ndesenho, e foi pouco a pouco se aproximando do rapaz. Ele a sentia chegar<br \/>\nperfeitamente, mas fingia n\u00e3o dar por isso e afetava grande preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom o seu trabalho; ela afinal estacou discretamente por detr\u00e1s do<br \/>\ndesenhista e ficou a observar-lhe o debuxo por cima do ombro. Greg\u00f3rio<br \/>\nprosseguiu no seu desenho, como se continuasse inteiramente s\u00f3; todavia<br \/>\na presen\u00e7a de Ol\u00edmpia lhe perturbava de leve o esp\u00edrito<br \/>\ne lhe punha no cora\u00e7\u00e3o um doce enleio amoroso. Ele se penetrava<br \/>\ndela sem a ver, aspirando-lhe o perfume sensual do corpo e o h\u00e1lito<br \/>\nsuave da respira\u00e7\u00e3o oprimida.<\/p>\n<p>E ela, presa pelo interesse do desenho, ia cada vez mais se aproximando<br \/>\nde Greg\u00f3rio, sem notar que j\u00e1 lhe tocava com o rosto na cabe\u00e7a.<br \/>\nO rapaz voltou-se finalmente e cumprimentou-a com toda a delicadeza.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse a senhora, em ar de quem pede desculpa. Perd\u00e3o!<br \/>\nn\u00e3o desejava interromper o seu trabalho&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! respondeu ele, procurando disfar\u00e7ar a como\u00e7\u00e3o;<br \/>\nnem vale a pena falarmos a respeito disso&#8230; este pobre desenho n\u00e3o<br \/>\nmerece tanto!&#8230;<\/p>\n<p>E fez um gesto de querer inutiliz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! disse Ol\u00edmpia, defendendo o \u00e1lbum em que<br \/>\ntrabalhava Greg\u00f3rio; n\u00e3o estrague! Fa\u00e7a-me antes presente<br \/>\ndele&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! coitado! n\u00e3o merece semelhante honra!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu quero! disse a caprichosa, com o seu habitual modo de impor.<br \/>\nPreciso deste desenho! \u2014 Est\u00e1 \u00e0s ordens de V. Exa., balbuciou<br \/>\no mo\u00e7o, desprendendo a folha. E acrescentou em tom mais baixo: \u2014<br \/>\n\u00c9 inspirado pelo almo\u00e7o dos trabalhadores da pedreira&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O senhor ent\u00e3o gosta de contemplar a natureza?&#8230; perguntou<br \/>\nela, com os olhos muito abertos sobre Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda n\u00e3o consegui perder essa mania, respondeu ele, desculpando-se.<\/p>\n<p>\u2014 Mania?! N\u00e3o sei por qu\u00ea! s\u00f3 as almas grosseiras<br \/>\ne vulgares n\u00e3o se comovem defronte de certos espet\u00e1culos da<br \/>\nnatureza! Quanto a mim, se me n\u00e3o permitissem contemplar o c\u00e9u,<br \/>\nas \u00e1rvores, o mar, o sol e as montanhas, creio que desistiria da vida!<br \/>\nQue vale este mundo sem o que ele tem de belo?&#8230; Suprimam a m\u00fasica,<br \/>\nas flores os sonhos e o amor, e ver\u00e3o o que restar\u00e1 depois!&#8230;<br \/>\nNada! uns destro\u00e7os de vida est\u00fapida e sem gra\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! V. Exa. tem um cora\u00e7\u00e3o de poeta!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Poeta?! Esta palavra para mim n\u00e3o tem a significa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque em geral lhe emprestam. Todo o homem \u00e9 poeta enquanto n\u00e3o<br \/>\natrofia a sua alma com as paix\u00f5es brutais. Poeta! Mas o que \u00e9<br \/>\nn\u00e3o ser poeta?!&#8230; Como se pode admitir um cora\u00e7\u00e3o insens\u00edvel<br \/>\nao que h\u00e1 de divino espalhado por toda a natureza?&#8230; Como \u00e9<br \/>\nposs\u00edvel conceber a id\u00e9ia de que algu\u00e9m passe nesta exist\u00eancia,<br \/>\nsem notar o que ela tem de ideal?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas a realidade de nossa vida \u00e9 t\u00e3o dura e prosaica!&#8230;<br \/>\nobjetou Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Que realidade? As que eu conhe\u00e7o s\u00e3o todas encantadoras!<br \/>\nA vida, quanto mais dif\u00edcil, quanto mais trabalhosa, quanto mais \u00e1spera,<br \/>\ntanto mais me fascina! Eu seria incapaz de amar verdadeiramente um homem feliz!<br \/>\nEu amo a todos os desgra\u00e7ados! \u2014 Quem me dera ser o mais desgra\u00e7ado<br \/>\ndos homens!&#8230; balbuciou Greg\u00f3rio, com os olhos perdidos pelo espa\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea?&#8230; interrogou Ol\u00edmpia, quase sem mexer com<br \/>\nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>\u2014 Para merecer o amor de um cora\u00e7\u00e3o como o seu! para<br \/>\nesquecer-me de tudo, pensando nesse amor ideal, independente, sem leis e sem<br \/>\nsenhor! para poder um dia adormecer embalado por um dos seus sorrisos e despertar<br \/>\ncantando, esquecido deste miser\u00e1vel mundo em que vegeto! \u2014 O<br \/>\nsenhor tem id\u00e9ias de louco! \u2014 Talvez. Mas a respeito da loucura,<br \/>\ndigo o que V. Exa. me disse a respeito da poesia: Quem n\u00e3o ser\u00e1<br \/>\nlouco?! Que \u00e9 n\u00e3o ser louco?! Que \u00e9 esquecer as leis<br \/>\ndas conveni\u00eancias e calcar debaixo das suas asas tudo aquilo de que<br \/>\nos homens vulgares fizeram o seu ideal e a sua ambi\u00e7\u00e3o?! Que<br \/>\n\u00e9 isso sen\u00e3o loucura?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O Sr. delira! disse Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>\u2014 Sim! confirmou Greg\u00f3rio. Que \u00e9 o amor sen\u00e3o<br \/>\num del\u00edrio?&#8230;<\/p>\n<p>Nisto, foram interrompidos pelo comendador. Os dois mo\u00e7os calaram-se<br \/>\nde s\u00fabito. O velho observou o desenho, cumprimentou o autor, falou<br \/>\nde amigos seus que desenhavam tamb\u00e9m com muito gosto, e profetizou<br \/>\nlisonjeiramente que Greg\u00f3rio seria um segundo Mota.<\/p>\n<p>S\u00f3 na seguinte semana, um acontecimento, verdadeiramente imprevisto<br \/>\npor todos, colocou aqueles dois, com as suas filosofias, em situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmuito mais delicada e s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Foi um passeio \u00e0 gruta.<\/p>\n<h2><a name=\"18\"><\/a> XVIII A GRUTA<\/h2>\n<p>A gruta! Mas saber\u00e1 o leitor porventura o que \u00e9 a gruta que<br \/>\nnos referimos? Acaso j\u00e1 viajou o leitor pelos dif\u00edceis montes<br \/>\ndo Rio Comprido, para saber onde fica esse belo tesouro de pedra, que jaz<br \/>\noculto por entre a luxuriante vegeta\u00e7\u00e3o daquele arrabalde? Se<br \/>\nainda n\u00e3o gozou tal espet\u00e1culo, como \u00e9 muito natural,<br \/>\ntenha a bondade de seguir os passos de Greg\u00f3rio, porque este, de bra\u00e7o<br \/>\ndado \u00e0 cismadora Ol\u00edmpia, vai empreender essa bela excurs\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos em dezembro. O duvidoso rel\u00f3gio do Pap\u00e1 Falconnet<br \/>\nbalbuciou h\u00e1 pouco duas horas da tarde. \u00c9 domingo, e, apesar<br \/>\nda esta\u00e7\u00e3o, o sol n\u00e3o constrange a quem deseja passear.<br \/>\nH\u00e1 um doce recolhimento na floresta, que nasce aos fundos da Avenida<br \/>\nEstrela; dir-se-ia que est\u00e1 para anoitecer, t\u00e3o nuviosa vai<br \/>\na atmosfera. As aves saltam cantando na espessura da folhagem e a luz do c\u00e9u<br \/>\nfiltra-se por entre as nuvens, derramando-se suavemente pela terra.<\/p>\n<p>Faz gosto sair de casa; meter uma flor na gola do palet\u00f3 de brim,<br \/>\ntomar um guarda-sol de linho, derrubar o chap\u00e9u de palha sobre os olhos,<br \/>\ne enveredar por entre os tortuosos caminhos do campo.<\/p>\n<p>\u00c9 bom levar consigo uma forte bengala ou peda\u00e7o de bambu,<br \/>\nporque o terreno \u00e9 muito acidentado e sujeito a cobras. \u00c0s vezes<br \/>\nquase que se torna impratic\u00e1vel a viagem: encontram-se \u00e2ngulos<br \/>\nde pedra nua, que surgem por entre a verdura como os cotovelos de um mendigo<br \/>\npor entre mangas rotas.<\/p>\n<p>Em tais casos o rem\u00e9dio \u00e9 subir de gatinhas e passar depois<br \/>\na ponta do bambu ao companheiro para lhe poupar aquele inc\u00f4modo. Outras<br \/>\nvezes s\u00e3o os espinhos que se apresentam para obstar a passagem; entra<br \/>\nent\u00e3o a gente, deixando-se arranhar \u00e0 vontade pelos espinhos,<br \/>\ne grita para tr\u00e1s aos companheiros que se acautelem.<\/p>\n<p>Se estes porventura s\u00e3o pessoas de expediente, afastam com a bengala<br \/>\nos galhos espinhosos, e passam adiante; se o n\u00e3o s\u00e3o, melhor<br \/>\nser\u00e1 que voltem para casa e se deixem de passeios \u00e0 gruta, porque<br \/>\ndepois dos espinhos aparecem cip\u00f3s da grossura de todos os dedos, e<br \/>\nos quais se nos enredam pelas pernas, pelo tronco e pelo pesco\u00e7o, s\u00f3<br \/>\nnos deixando continuar o passeio depois de os havermos cortado com um fac\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi nestas circunst\u00e2ncias que se achou Ol\u00edmpia no tal domingo<br \/>\na que nos referimos.<\/p>\n<p>\u00c0 mesa do almo\u00e7o, em conversa, se falara da gruta.<\/p>\n<p>\u2014 Que gruta?&#8230; perguntou ela, j\u00e1 mordida de curiosidade.<\/p>\n<p>O Pap\u00e1 Falconnet tratou logo de explicar o que vinha a ser a gruta,<br \/>\nencarecendo-lhe o valor, conforme era de seu costume sempre que se referia<br \/>\na qualquer objeto relacionado com a Avenida Estrela.<\/p>\n<p>\u2014 Vou visit\u00e1-la, disse a filha do comendador, com um gesto<br \/>\nresoluto.<\/p>\n<p>\u2014 Mau! resmungou o pai, sem \u00e2nimo de a contrariar. E acrescentou<br \/>\nem voz alta: \u2014 Fa\u00e7o id\u00e9ia do que n\u00e3o ser\u00e1<br \/>\na tal gruta!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Em todo o caso tenho vontade de ir v\u00ea-la, e irei! respondeu<br \/>\nOl\u00edmpia.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei se V. Exa. far\u00e1 bem&#8230; observou o padre Almeida,<br \/>\nque at\u00e9 a\u00ed parecia n\u00e3o haver prestado aten\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 conversa. Aqueles caminhos s\u00e3o perigosos&#8230;<\/p>\n<p>E, como Ol\u00edmpia o interrogasse com um gesto, ele acrescentou: \u2014<br \/>\n\u00c9 que V. Exa. pode perder-se&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o deve ser tanto assim, replicou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Todavia, \u00e9 bom n\u00e3o se fiar muito, minha senhora! volveu<br \/>\no padre, pondo inten\u00e7\u00e3o nas suas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho medo! disse Ol\u00edmpia, sacudindo os ombros.<br \/>\nE resolveu que depois do almo\u00e7o faria uma excurs\u00e3o \u00e0<br \/>\ngruta. Greg\u00f3rio ofereceu-se logo para acompanh\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Aceito com muito prazer, respondeu ela, agradecendo-lhe o oferecimento.<\/p>\n<p>Outras pessoas aderiram em seguida \u00e0 id\u00e9ia, e ficou decidido<br \/>\no passeio.<\/p>\n<p>\u2014 Queira Deus que te n\u00e3o suceda alguma coisa!&#8230; observou o<br \/>\npai de Ol\u00edmpia, assim que a pilhou s\u00f3. Tu andas fraquinha, minha<br \/>\nfilha; n\u00e3o deves abusar muito!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora! redarguiu ela, sacudindo os ombros; n\u00e3o hei de morrer<br \/>\nde velhice!&#8230; Al\u00e9m de que, o m\u00e9dico me aconselhou fazer exerc\u00edcio!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o indo \u00e0 tal gruta, que, ouvi dizer, \u00e9<br \/>\nmuito longe daqui e quase inacess\u00edvel! \u2014 N\u00e3o deve ser<br \/>\ntanto assim!&#8230;<\/p>\n<p>E \u00e0s duas horas puseram-se todos a caminho. O comendador n\u00e3o<br \/>\nresistiu ao desejo de acompanhar a filha; mas, depois de subir uns duzentos<br \/>\npassos, j\u00e1 n\u00e3o podia ir adiante e debalde procurava convenc\u00ea-la<br \/>\nde que devia voltar com ele. Ol\u00edmpia, apesar de muito cansada, declarou<br \/>\nque o pai queria um absurdo, e continuou a excurs\u00e3o.<\/p>\n<p>O comendador ainda tentou prosseguir na viagem, mas toda a sua boa vontade<br \/>\nfoi in\u00fatil.<\/p>\n<p>Assentou-se por terra com outros companheiros que haviam desistido igualmente,<br \/>\ne pouco depois voltava com estes para casa.<\/p>\n<p>S\u00f3 tr\u00eas n\u00e3o desistiram: Ol\u00edmpia, Greg\u00f3rio<br \/>\ne o Augusto.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo ia \u00e0 frente rompendo a marcha, o que ali\u00e1s<br \/>\npouco lhe custava, gra\u00e7as \u00e0 destreza de que dispunha e ao seu<br \/>\nvivo instinto de fragueiro. \u00c0s vezes o caminho se fechava de todo ou<br \/>\ntomava uma dire\u00e7\u00e3o despercebida \u00e0 primeira vista, Augusto<br \/>\nsuspendia-se ent\u00e3o por um cip\u00f3, ou singrava por entre o mato,<br \/>\ngritando pouco depois aos companheiros.<\/p>\n<p>\u2014 Tomem a esquerda! C\u00e1 est\u00e1 o caminho! Cuidado com os<br \/>\nespinhos \u00e0 direita! Outras vezes era a ladeira que se fazia mais \u00edngreme,<br \/>\ne Augusto tinha de improvisar um corrim\u00e3o para que os outros dois a<br \/>\npudessem galgar.<\/p>\n<p>E, s\u00f3 depois de muito matejar, foi que os tr\u00eas chegaram a um<br \/>\nponto mais elevado da montanha, planalto que se debru\u00e7ava pitorescamente<br \/>\nsobre um vale profundo e sombrio.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 ali em baixo a gruta! exclamou Augusto, apontando para<br \/>\na v\u00e1rzea. \u00c9 preciso agora descobrirmos a descida. Ah! ei-la!<br \/>\nPor aqui! por aqui! Cuidado no sentar o p\u00e9, porque esta pedra escorrega<br \/>\nmuito! Greg\u00f3rio dava a m\u00e3o a Ol\u00edmpia, para ajud\u00e1-la<br \/>\na descer.<\/p>\n<p>Ela quase n\u00e3o falava por toda a viagem, mas sentia um grande encanto<br \/>\nem tudo aquilo.<\/p>\n<p>Nunca fizera um passeio t\u00e3o penoso e t\u00e3o agrad\u00e1vel;<br \/>\nnunca houvera visto de perto os rebent\u00f5es das matas, formando os mais<br \/>\ncaprichosos arabescos; nunca se penetrara desse ar embalsamado dos campos,<br \/>\nque nos alegra o sangue e nos faz amar a natureza; nunca ouvira os sons e\u00f3lios<br \/>\nda floresta, que nos despertam na alma as notas adormecidas da inf\u00e2ncia;<br \/>\nnunca bebera a luz do sol depois de filtrada por uma ab\u00f3bada de verdura,<br \/>\ne nunca ouvira t\u00e3o perto o concerto amoroso dos p\u00e1ssaros e o<br \/>\ncrepitar harmonioso das folhas secas estalando ao sol.<\/p>\n<p>Ao chegarem ao fundo sombroso do vale, Ol\u00edmpia n\u00e3o p\u00f4de<br \/>\nconter a como\u00e7\u00e3o. Era um lugar ameno, misterioso, cheio de encantos.<br \/>\nDe l\u00e1 n\u00e3o se via a terra nem se via o c\u00e9u; tudo era verdura.<\/p>\n<p>O ch\u00e3o desaparecia, alastrado pelas trapoerabas, que recamavam a<br \/>\ngrama com as suas mimosas florzinhas azuis. Das \u00e1rvores s\u00f3 se<br \/>\nviam as grandes copas aveludadas, porque os troncos desciam obliquamente dos<br \/>\nmontes que sitiavam o vale; algumas se equilibravam de cima, presas pelos<br \/>\np\u00e9s, como enormes ramalhetes voltados para a terra. As infinitas trepadeiras,<br \/>\nas caprichosas parasitas vingavam e serpenteavam por todos os lados, como<br \/>\nse quisessem enastrar interiormente aquele ninho ideal de verdura pelo modo<br \/>\npor que fazem os p\u00e1ssaros seus ninhos.<\/p>\n<p>Por todos lados rebentavam flores, por todos lados se penduravam cip\u00f3s,<br \/>\nentrela\u00e7ados de avenca, e se agitavam as palmas esteladas dos coqueiros,<br \/>\nforcejando para romper por entre as largas palhetas dos tinhor\u00f5es e<br \/>\nas l\u00ednguas espinhosas da babosa.<\/p>\n<p>A luz do sol s\u00f3 penetrava naquele doce interior de verdura depois<br \/>\nde peneirada pela folhagem, p\u00e1lida e amortecida como a claridade melanc\u00f3lica<br \/>\nde um crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas excursionistas estacaram sem dar palavra, inteiramente dominados<br \/>\npelo religioso aspecto daquele r\u00fastico santu\u00e1rio pante\u00edsta.<br \/>\nTudo ali respirava uma grande paz, que ia, pouco a pouco, voltando nossos<br \/>\nolhos para Deus, chamando nossos joelhos para a terra e nos abrindo o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\naos \u00eaxtases da prece.<\/p>\n<p>Depois de mais alguns instantes de m\u00edstica contempla\u00e7\u00e3o,<br \/>\nos tr\u00eas seguiram para a gruta.<\/p>\n<p>Entrava-se nela por uma abertura natural, indicada pela pr\u00f3pria folhagem,<br \/>\nque nesse ponto se tornava mais sombria. Mal por\u00e9m transposta essa<br \/>\npassagem, afastando com ambas as m\u00e3os os r\u00edspidos galhos que<br \/>\na defendiam achava-se a gente num lugar inteiramente contr\u00e1rio ao que<br \/>\nse acabava de deixar. Era uma estreita galeria em pedregal escuro e \u00famido,<br \/>\nfeita de penhascos acumulados uns sobre os outros, formando medonhas cavernas,<br \/>\nonde apenas de espa\u00e7o a espa\u00e7o escorria algum tr\u00eamulo<br \/>\nfio de luz.<\/p>\n<p>Os negros pedregulhos, como sustidos por uma for\u00e7a estranha, empinavam-se<br \/>\nmuitos metros fora da sua base, serpenteando por entre eles um corredor irregular<br \/>\ne trevoso. Augusto seguiu por a\u00ed e os outros dois o acompanharam. \u00c0<br \/>\npropor\u00e7\u00e3o que avan\u00e7avam, ia o ar se tornando mais frio<br \/>\ne o sil\u00eancio mais intenso. De todos os rumores de fora s\u00f3 chegava<br \/>\nl\u00e1 dentro um vozear confuso, que esfuziava de rocha em rocha. Ol\u00edmpia<br \/>\nparecia encantada pelo passeio e apertava no seu o bra\u00e7o de Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>Depois de andarem um quarto de hora, deram a um lugar mais amplo e descoberto.<br \/>\nVia-se ent\u00e3o o c\u00e9u por entre o rendilhado da floresta, que l\u00e1<br \/>\nem cima crescia zombando dos rochedos.<\/p>\n<p>Algumas \u00e1rvores se debru\u00e7avam no abismo e estendiam pela aridez<br \/>\nda pedra seus retorcidos bra\u00e7os de gigante.<\/p>\n<p>Mais alguns passos e come\u00e7aram a ouvir o murm\u00fario de uma pequena<br \/>\ncascata que corria l\u00e1 embaixo. Era preciso agora segurar-se a gente<br \/>\ncom mais cuidado, porque o limo dificultava o caminho transformado em ladeira.<br \/>\nA pedra aparecia rachada em v\u00e1rios pontos, cujas fendas s\u00f3 se<br \/>\npodiam galgar com um salto.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia principiava a cansar de novo; as fendas reproduziam-se mais<br \/>\namiudadamente. V\u00e3o agora rareando as pedras; v\u00e3o avultando as<br \/>\nfisgas d\u2019\u00e1gua. Terminou afinal a descida; j\u00e1 se n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 sobre uma rocha, passeia-se num lago, guarnecido de ilhotas negras,<br \/>\nque surgem aqui e ali, como para facilitar a viagem.<\/p>\n<p>\u00c9 este o ponto mais bonito da gruta. A vegeta\u00e7\u00e3o surge<br \/>\nde cima com mais abund\u00e2ncia; os despenhadeiros s\u00e3o enfeitados<br \/>\ncom as trepadeiras e parasitas, que sobem e descem por eles, numa variedade<br \/>\nriqu\u00edssima de flores. A \u00e1gua corre placidamente debaixo de nossos<br \/>\np\u00e9s; ouvem-se cantar os p\u00e1ssaros e sentem-se os sopros embalsamados<br \/>\nda floresta. De um lado principia de novo o campo, v\u00ea-se a terra e ouve-se<br \/>\no marulhar das folhas; do outro se agrupam penhascos, por entre os quais j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel transitar sem risco de vida.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio deu a m\u00e3o a Ol\u00edmpia, f\u00ea-la subir a uma<br \/>\ndas pedras que se erguiam defronte deles e mostrou-lhe a cascata. A rocha<br \/>\nera fendida em toda a sua extens\u00e3o, formando magn\u00edfico efeito<br \/>\ncom os pedregulhos que se entremetiam por ela.<\/p>\n<p>Augusto galgou uma das arestas do rochedo, disse aos companheiros que o<br \/>\nesperassem um instante, enquanto ia ele observar se havia sa\u00edda pelo<br \/>\noutro lado da gruta. Ol\u00edmpia e Greg\u00f3rio opuseram-se; achavam<br \/>\nmuito arriscada semelhante tentativa: a rocha era lisa de todo e escorregadia.<br \/>\nMas antes que os dois tivessem tempo de despersuadi-lo disso, j\u00e1 o<br \/>\ntemer\u00e1rio havia atingido uma das pedras que ficavam entaladas na fenda,<br \/>\ne procurava, equilibrando-se, alcan\u00e7ar uma outra adiante. Afinal conseguiu<br \/>\ne desapareceu pelo lado contr\u00e1rio do penedo.<\/p>\n<p>Os companheiros ficaram sobressaltados. Greg\u00f3rio fez Ol\u00edmpia<br \/>\nassentar-se; procurou distra\u00edla conversando e ofereceu-lhe uns cajus,<br \/>\nque nessa ocasi\u00e3o acabava de colher. Mas Augusto n\u00e3o reaparecia<br \/>\ne a senhora tornava-se cada vez mais inquieta.<\/p>\n<p>Afinal ouviu-se-lhe a voz, chamando pelos outros. A voz sa\u00eda justamente<br \/>\nda parte mais baixa da rocha, no lugar em que principiava a enorme fenda.<\/p>\n<p>\u2014 Onde est\u00e1s tu? perguntou-lhe Greg\u00f3rio, aproximando-se<br \/>\no mais que p\u00f4de do lugar donde vinham os gritos de Augusto.<\/p>\n<p>\u2014 Estou aqui embaixo! S\u00f3 h\u00e1 uma fenda, por onde nem<br \/>\num gato pode passar! \u2014 E por que n\u00e3o voltas por onde foste?!<br \/>\n\u2014 Imposs\u00edvel! Vim deixando-me escorregar e n\u00e3o consigo<br \/>\nsubir! J\u00e1 tentei v\u00e1rias vezes! \u2014 E agora?! \u2014 Agora<br \/>\n\u00e9 seguirem voc\u00eas por a\u00ed, que eu os vou encontrar mais<br \/>\nadiante! \u2014 Mas eu n\u00e3o conhe\u00e7o estes caminhos!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 que errar, disse Augusto, procurando meter<br \/>\na cabe\u00e7a na fenda da rocha; tomas esse caminho, onde est\u00e3o as<br \/>\npalmeiras, e vais sempre seguindo \u00e0 esquerda, at\u00e9 chegares \u00e0<br \/>\npedreira. V\u00e3o. Eu n\u00e3o posso ficar aqui por mais tempo, tenho<br \/>\n\u00e1gua at\u00e9 aos joelhos! \u00c9 verdade! n\u00e3o esque\u00e7as<br \/>\nde levar o saco que trazia eu a tiracolo e que tirei para passar a rocha.<br \/>\nAt\u00e9 logo! \u2014 At\u00e9 logo, repetiu Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Sempre \u00e0 esquerda! ainda recomendou o outro.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia n\u00e3o deu uma palavra durante o di\u00e1logo dos dois<br \/>\nrapazes, mas deixou pela fisionomia bem patente o seu sobressalto.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s o encontraremos ali mais adiante&#8230; disse Greg\u00f3rio,<br \/>\ndando-lhe o bra\u00e7o. Vamos.<\/p>\n<p>E puseram-se a andar silenciosamente. O caminho por onde voltavam era encantador,<br \/>\nmas muito agreste. Ol\u00edmpia por duas vezes queixou-se de que os espinhos<br \/>\nlhe feriam o rosto. Greg\u00f3rio contentou-se em lembrar-lhe a coragem<br \/>\ncom que ela empreendera o passeio.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que tenho medo de nos perdermos aqui!&#8230; respondeu a senhora,<br \/>\ncom um princ\u00edpio de mau humor. Al\u00e9m disso j\u00e1 estou fatigada<br \/>\ne sinto sede! \u2014 Tome um pouco de vinho, e se quiser podemos descansar<br \/>\num instante.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! n\u00e3o! prefiro ir adiante; estou impaciente por<br \/>\nchegar ao tal ponto em que nos encontraremos com o Augusto.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que mudan\u00e7a t\u00e3o r\u00e1pida foi essa?&#8230; ainda<br \/>\nh\u00e1 pouco estava de t\u00e3o bom humor, e agora&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Parece-lhe que n\u00e3o devo estar aflita?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei porqu\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Imagine que n\u00e3o damos com o caminho e nos desencontramos<br \/>\ndo Augusto! \u2014 Hav\u00edamos de achar sa\u00edda!&#8230;<\/p>\n<p>E, assim conversando, encontraram-se defronte de tr\u00eas picadas. Greg\u00f3rio<br \/>\nhesitou qual devia escolher entre as duas que ficavam \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>\u2014 Que lhe dizia eu!&#8230; observou Ol\u00edmpia, cruzando os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Deve ser esta. N\u00e3o se mortifique&#8230; \u00c9 por aqui com<br \/>\ncerteza! E seguiram. Mas pouco depois tiveram novo embara\u00e7o: todos<br \/>\nos caminhos deparados tomavam para a direita.<\/p>\n<p>\u2014 Com certeza j\u00e1 estamos perdidos! observou Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 melhor seguirmos por aqui, disse Greg\u00f3rio. Esta<br \/>\npicada vai com certeza dar ao ponto de que nos falou o Augusto.<\/p>\n<p>A viagem, entretanto, ia cada vez se tornando mais dif\u00edcil. Reproduziam-se<br \/>\nos obst\u00e1culos.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia observou que antes tivessem voltado pelo mesmo caminho. E<br \/>\ncontinuaram a andar. De repente, por\u00e9m, acharam-se defronte de mato<br \/>\nvirgem; era preciso voltar atr\u00e1s, mas na volta j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nencontraram o lugar por onde haviam ido: tomaram o primeiro caminho que apareceu,<br \/>\ne desde ent\u00e3o se puseram a andar \u00e0 toa, ora para a esquerda,<br \/>\nora para a direita. Greg\u00f3rio gritou v\u00e1rias vezes, na esperan\u00e7a<br \/>\nde ser ouvido por Augusto ou por qualquer outra pessoa; nada veio em seu aux\u00edlio.<br \/>\nA floresta continuava a sussurrar indiferentemente.<\/p>\n<p>Assim se escoaram duas horas talvez. Ol\u00edmpia afinal declarou que<br \/>\nn\u00e3o podia dar mais um passo sem ter descansado. Greg\u00f3rio conduziu-a<br \/>\npara debaixo de uma \u00e1rvore e f\u00ea-la repousar.<\/p>\n<p>Depois abriu o saco de Augusto, tirou uma garrafa de vinho, encheu um copo<br \/>\ne passou-o \u00e0 companheira.<\/p>\n<p>\u2014 Temos aqui tamb\u00e9m o que comer, disse ele, apresentando uma<br \/>\nempada, queijo e frutas.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia aceitou sem responder. Greg\u00f3rio foi buscar duas palmas<br \/>\nlargas de pindoba, estendeu-as defronte da rapariga e assentou-se ao lado<br \/>\ndela.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a comer silenciosamente. Ol\u00edmpia parecia muito preocupada;<br \/>\npercebia-se todavia que a dificuldade de achar o caminho n\u00e3o era a<br \/>\ncausa principal do seu mau humor, e Greg\u00f3rio sentia-se constrangido<br \/>\npor aquela situa\u00e7\u00e3o a ponto de n\u00e3o encontrar o que dizer.<\/p>\n<p>Nunca a influ\u00eancia amorosa, que aquela estranha mulher exercia sobre<br \/>\nele, o perturbara tanto, e nunca ele se achou t\u00e3o t\u00edmido como<br \/>\nnaquela ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois da merenda, Greg\u00f3rio convidou Ol\u00edmpia a prosseguir<br \/>\nna jornada.<\/p>\n<p>\u2014 Estou t\u00e3o abatida!&#8230; disse ela, erguendo custosamente as<br \/>\np\u00e1lpebras e estendendo os bra\u00e7os ao mo\u00e7o, para que a<br \/>\nlevantasse.<\/p>\n<p>\u2014 Sente-se indisposta?&#8230; perguntou este com solicitude, segurando-lhe<br \/>\na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, disse ela suspirando e tentando p\u00f4r-se de p\u00e9.<br \/>\nMas Greg\u00f3rio teve que ampar\u00e1-la, porque a hist\u00e9rica fechou<br \/>\nos olhos e, empalidecendo, cambaleou.<\/p>\n<p>\u2014 Que sente, minha senhora?&#8230; interrogou ele, empolgando-lhe a cintura.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia n\u00e3o respondeu e deixou-se cair no colo do rapaz. Vieram<br \/>\nlogo os solu\u00e7os e os suspiros estalados na garganta.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio, na candura dos seus dezoito anos e na predisposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nl\u00edrica do seu pobre esp\u00edrito, n\u00e3o podia apreciar o alcance<br \/>\ndaquela crise: todos os fatos da vida real e todos os fen\u00f4menos humanos<br \/>\ntinham para ele uma explica\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica. Mal-educado<br \/>\npela metaf\u00edsica do col\u00e9gio em que se desenvolveu, e dominado<br \/>\npela corrente sentimentalista da sua \u00e9poca, repugnava-lhe a verdade<br \/>\nfria e tudo aos seus olhos se prestigiava de um sedutor car\u00e1ter de<br \/>\nidealismo po\u00e9tico.<\/p>\n<p>Para ele, Ol\u00edmpia, com os seus \u00e1speros arrebatamentos e com<br \/>\nas suas m\u00edseras ternuras de rola enferma, n\u00e3o podia deixar de<br \/>\nser um mito irresist\u00edvel e ador\u00e1vel. Greg\u00f3rio a amava,<br \/>\nmas n\u00e3o a compreendia; aspirava-lhe o doce perfume atrav\u00e9s do<br \/>\nv\u00e9u nebuloso que a envolvia, aceitando-a na sua cega adora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo o crente religioso aceita um dogma.<\/p>\n<p>Que estranhas como\u00e7\u00f5es n\u00e3o se apoderaram dele enquanto<br \/>\nsustinha no ombro a formosa cabe\u00e7a de Ol\u00edmpia; enquanto lhe<br \/>\nvia de perto a fresca brancura do pesco\u00e7o, e lhe sorvia os perfumes<br \/>\ndo cabelo, e lhe bebia o salmodiar do pranto?&#8230;<\/p>\n<p>Ela parecia ir serenando \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que lhe fugiam<br \/>\nas l\u00e1grimas e os solu\u00e7os. Greg\u00f3rio, cheio de hesita\u00e7\u00e3o<br \/>\ne receoso de afligi-la, mal ousava passar-lhe a m\u00e3o \u00e0 flor dos<br \/>\nseus cabelos.<\/p>\n<p>\u2014 Veja se consegue tranq\u00fcilizar-se um pouco&#8230; aconselhava ele<br \/>\ncom a voz tr\u00eamula, todo possu\u00eddo de uma deliciosa agonia.<\/p>\n<p>E, como se tivesse nos bra\u00e7os uma crian\u00e7a nervosa, batia-lhe<br \/>\ncarinhosamente nas costas e dizia-lhe todas as meiguices do seu amor ing\u00eanuo.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia, sem responder, continuava, n\u00e3o ainda a solu\u00e7ar,<br \/>\nmas a embalar-se num fluxo e refluxo de suspiros, que lhe faziam arfar o corpo<br \/>\ninteiro, como a ressaca ao navio depois que a tempestade passou.<\/p>\n<p>\u2014 Eu talvez a esteja constrangendo&#8230; arriscou Greg\u00f3rio, procurando<br \/>\ndelicadamente desvi\u00e1-la dos seus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! respondeu ela, puxando-se para ele e chegando o rosto<br \/>\npara os l\u00e1bios do rapaz. Mas logo o repeliu, como se arredasse da sua<br \/>\ncarne palpitante um cad\u00e1ver j\u00e1 frio.<\/p>\n<p>Entretanto a tarde principiava a encher a natureza de sombras. As aves despediam-se<br \/>\ndo sol com os seus \u00faltimos gorjeios, e as \u00e1rvores se retra\u00edam<br \/>\nno misterioso recolhimento do crep\u00fasculo.<\/p>\n<h2><a name=\"19\"><\/a> XIX O ACROBATA<\/h2>\n<p>S\u00f3 \u00e0s sete e meia conseguiram alcan\u00e7ar a casa. Todos<br \/>\nos esperavam com ansiedade. Augusto havia chegado muito antes, mas ao saber<br \/>\nque os dois companheiros n\u00e3o tinham aparecido, e receoso de que estivessem<br \/>\nperdidos no campo, voltou \u00e0 procura deles e trouxe-os consigo.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia, com grande espanto geral, longe de chegar aborrecida e contrariada,<br \/>\nentrou em casa muito satisfeita, atirou-se rindo aos bra\u00e7os do pai,<br \/>\ne ordenou gracejando ao hoteleiro que lhe servisse o jantar.<\/p>\n<p>Vinha t\u00e3o expansiva e folgaz\u00e3 que a todos causou verdadeira<br \/>\nsurpresa. O sol emprestara-lhe \u00e0s faces um vivo cor-de-rosa, que lhe<br \/>\nenfeitava o rosto com muita gra\u00e7a; os seus olhos jamais luziram com<br \/>\ntanta vida, e ela toda nunca parecera t\u00e3o bem disposta e t\u00e3o<br \/>\ns\u00e3.<\/p>\n<p>O comendador, que havia passado o dia em sobressaltos com a demora da filha,<br \/>\nera de todos o mais encantado por aquela metamorfose. Ol\u00edmpia parecia-lhe<br \/>\nagora como nos bons tempos, quando governara com o esp\u00edrito toda a<br \/>\nsociedade em que se achasse.<\/p>\n<p>\u2014 O Dr. tinha raz\u00e3o! dizia o velho consigo; os exerc\u00edcios<br \/>\ns\u00e3o de evidente efeito! Hei de faz\u00ea-la, uma vez por outra, visitar<br \/>\na gruta! Se as melhoras continuarem deste modo, em breve tenho minha filha<br \/>\nperfeitamente curada! E o comendador chorava de alegria.<\/p>\n<p>O jantar foi de uma anima\u00e7\u00e3o sem exemplo na Avenida Estrela;<br \/>\nos mesmos h\u00f3spedes que haviam comido j\u00e1, voltaram \u00e0 mesa<br \/>\natra\u00eddos pelas gargalhadas explodidas em torno da descri\u00e7\u00e3o<br \/>\nque Ol\u00edmpia fazia do seu passeio. Greg\u00f3rio, entretanto, n\u00e3o<br \/>\nparecia o mesmo: estava abatido e concentrado. Por duas vezes seus olhos cruzaram-se<br \/>\nno ar com os da caprichosa senhora, e ele por duas vezes os abaixara, dominado<br \/>\npelo mais estranho acanhamento.<\/p>\n<p>\u2014 Pois eu pensei que chegasses aqui sem uma hora de vida! observou<br \/>\no pai, embebido a olhar para a filha, enquanto lhe servia a sobremesa.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca me senti t\u00e3o bem disposta! respondeu ela, a estender<br \/>\no copo ao Falconnet para que lhe desse vinho. Sinto-me t\u00e3o bem que<br \/>\nestou resolvida a ir hoje a qualquer teatro! \u2014 Que dizes?! exclamou<br \/>\no comendador, arredando a cadeira, com um salto.<\/p>\n<p>\u2014 Que espanto! observou a rir a filha.<\/p>\n<p>\u2014 Se te lembra cada loucura! \u2014 Oh! Pois n\u00e3o \u00e9<br \/>\no senhor mesmo que me tem pedido todos os dias para ir aos teatros, aos bailes<br \/>\ne aos passeios?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas n\u00e3o depois de um dia como este!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois em outra qualquer ocasi\u00e3o n\u00e3o me lembraria semelhante<br \/>\ncoisa. Se recusei das outras vezes e aceito agora, \u00e9 porque s\u00f3<br \/>\nagora tenho vontade de ir&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 que talvez venha a fazer-te mal!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isso mesmo me dizia o senhor antes do passeio \u00e0 gruta.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o desejo contrariar-te, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Vai sempre me contrariando, n\u00e3o \u00e9 verdade? \u2014<br \/>\n\u00c9 que j\u00e1 s\u00e3o oito horas; tu deves naturalmente estar<br \/>\nmuito fatigada e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, valha-me a paci\u00eancia! Sinto-me, ao contr\u00e1rio,<br \/>\nperfeitamente disposta.<\/p>\n<p>E Ol\u00edmpia, ameigando o pai, ordenou-lhe que se fosse vestir.<\/p>\n<p>O comendador obedeceu, a dar de ombros. Pap\u00e1 Falconnet trouxe para<br \/>\na mesa os jornais do dia e discutiu-se qual seria o espet\u00e1culo prefer\u00edvel.<br \/>\nOl\u00edmpia, sem se pronunciar por nenhum, recolheu-se ao quarto com a<br \/>\ncriada, enquanto ia chamar-se um carro e \u00e0s dez horas partia com o<br \/>\npai para a cidade.<\/p>\n<p>Em caminho decidiram-se pelo teatro S. Lu\u00eds, onde trabalhava essa<br \/>\nnoite o Furtado Coelho, mas, no momento de comprar os bilhetes, Ol\u00edmpia<br \/>\ntomara outra resolu\u00e7\u00e3o: queria ir ao Chiarini.<\/p>\n<p>E o carro voltou para a Guarda Velha.<\/p>\n<p>Funcionava o segundo ato, quando ela entrou no circo pelo bra\u00e7o do<br \/>\npai. Havia uma grande enchente; o entusiasmo explodia por toda a parte e todos<br \/>\nos lados gritavam: \u2014 Scott! \u00c0 cena o Scott! Dois sujeitos de<br \/>\nlibr\u00e9 azul com alamares dourados conduziam para o interior do teatro<br \/>\num cavalo que acabava de servir. Muitos espectadores estavam de p\u00e9.<br \/>\nDas galerias trovejava um barulho infernal: batiam com as bengalas, com os<br \/>\np\u00e9s; gritavam, gesticulavam. E por entre aquela descarga cont\u00ednua<br \/>\ne atroadora, s\u00f3 um nome sobressa\u00eda, exclamado por mil vozes:<br \/>\n\u2014 Scott! Scott! Ol\u00edmpia sentiu-se aturdida no meio daquele pandem\u00f4nio.<br \/>\nDe repente, um grito un\u00edssono partiu da multid\u00e3o estalaram de<br \/>\nnovo as palmas, choveram os chap\u00e9us, agitaram-se os len\u00e7os,<br \/>\narremessaram-se os leques, os ramalhetes e as bengalas.<\/p>\n<p>Scott havia reaparecido.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo! gritavam. Bravo! E os aplausos estouraram com mais intensidade.<\/p>\n<p>\u2014 Bravo, Scott! Bravo, Scott! O acrobata, que entrara de carreira,<br \/>\nparou em meio do circo, aprumou o corpo, sacudiu a cabeleira, e, voltando-se<br \/>\npara todos os lados, atirava beijos e agradecia sorrindo, entre uma tempestade<br \/>\nde aplausos.<\/p>\n<p>Era um belo americano, rijo, atl\u00e9tico, \u00e1gil e robusto ao mesmo<br \/>\ntempo. Ol\u00edmpia, do lugar em que estava, via-lhe perfeitamente o azul<br \/>\ndos olhos, a linha pura do perfil e a cintila\u00e7\u00e3o dos dentes.<\/p>\n<p>Ele, depois de agradecer, estalou graciosamente os dedos e despediu-se,<br \/>\na dar cambalhotas no ar.<\/p>\n<p>Rebentou de novo a tempestade das palmas, e as bocas dispararam uma sonora<br \/>\ndescarga de bravos.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia, entretanto, com a cabe\u00e7a pendida para frente, olhar<br \/>\nfito, a boca mal cerrada, ca\u00eda na sua habitual tristeza e parecia a<br \/>\ntudo indiferente.<\/p>\n<p>Quando se retirava do teatro com o pai, um menino \u00e0 sa\u00edda<br \/>\napregoava a dez tost\u00f5es, fotografias de Scott.<\/p>\n<p>Ela comprou uma.<\/p>\n<p>No dia seguinte, levantou-se muito tarde e de mau humor. Sua primeira frase,<br \/>\nquando se encontrou com o pai, foi para lhe dizer que n\u00e3o ficava nem<br \/>\nmais um dia na Avenida Estrela.<\/p>\n<p>\u2014 Fizeram-te alguma coisa? perguntou o extremoso velho, esquecendo-se<br \/>\npor um instante do prazer que lhe dava aquela resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O comendador estava, como se costuma dizer, pelos cabelos, para deixar a<br \/>\ncasa do Pap\u00e1 Falconnet. Ol\u00edmpia respondeu que n\u00e3o, com<br \/>\num gesto de cabe\u00e7a, e acrescentou depois muito aborrecida: \u2014<br \/>\nEstou farta de tudo isto! Preciso sair daqui quanto antes! \u2014 Como quiseres,<br \/>\nminha filha! E ficou resolvido que partiriam naquele mesmo dia. \u00c0s<br \/>\nduas horas da tarde apareceu o Dr.<\/p>\n<p>Roberto; o comendador tomou-o de parte e relatou-lhe minuciosamente as caprichosas<br \/>\nmudan\u00e7as de humor que a filha experimentara desde a v\u00e9spera.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico ficou pensativo depois de o ouvir.<\/p>\n<p>\u2014 A que horas voltou ela do tal passeio? perguntou afinal.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c0s sete e meia da noite.<\/p>\n<p>\u2014 Jantou logo que veio?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Logo, e com uma boa disposi\u00e7\u00e3o que h\u00e1 muito<br \/>\ntempo n\u00e3o tinha. Depois quis ir ao teatro, coisa de que ela n\u00e3o<br \/>\npodia ouvir falar&#8230;<\/p>\n<p>A que teatro foram? \u2014 Ao circo, ao Chiarini.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! resmungou o m\u00e9dico. Talvez ficasse nervosa \u00e0 vista<br \/>\ndos equil\u00edbrios arriscados.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei&#8230; disse o pai; o fato \u00e9 que ela estava ontem<br \/>\nmuito bem disposta e hoje, ao contr\u00e1rio, est\u00e1 impertinente como<br \/>\nnunca! E, depois de se conservarem ambos calados por algum tempo, o comendador<br \/>\nacrescentou: \u2014 Agora entendeu que n\u00e3o pode suportar mais esta<br \/>\ncasa e quer mudar-se hoje mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 E o comendador est\u00e1 resolvido a fazer a mudan\u00e7a? \u2014<br \/>\nPois n\u00e3o! j\u00e1 est\u00e1 tudo pronto. Partiremos daqui a pouco.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia apareceu j\u00e1 em trajos de sair. O Dr. Roberto foi pressurosamente<br \/>\nao seu encontro e perguntou-lhe pela sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u2014 Assim&#8230; respondeu ela sacudindo os ombros. Estou muito aborrecida.<\/p>\n<p>\u2014 Tem tido dores de cabe\u00e7a?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um pouco, mas ontem passei muito melhor.<\/p>\n<p>\u2014 Por que n\u00e3o d\u00e1 de vez em quando um passeio como o<br \/>\nde ontem? Eles lhe s\u00e3o de grande utilidade!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Talvez n\u00e3o seja tanto assim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Voltou muito fatigada? \u2014 Muito menos do que supunha. Quando<br \/>\ncheguei \u00e0 gruta, sim, estava t\u00e3o prostrada, que me parecia imposs\u00edvel<br \/>\nvoltar a casa.<\/p>\n<p>\u2014 Veio depois a rea\u00e7\u00e3o? \u2014 \u00c9 verdade, e<br \/>\nfiquei ent\u00e3o muito bem disposta.<\/p>\n<p>\u2014 Foi em companhia de muita gente? \u2014 A princ\u00edpio, respondeu<br \/>\nOl\u00edmpia, impacientando-se com as perguntas insistentes do m\u00e9dico;<br \/>\ndepois ficamos tr\u00eas, apenas.<\/p>\n<p>E, como se quisesse fugir daquela conversa, saltou logo para outros assuntos<br \/>\nmuito diversos, e afinal pediu licen\u00e7a e afastou-se quase com arremesso.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico a viu ir, pensativo.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 esquisito! disse ele consigo, e passou a prestar aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nao Pap\u00e1 Falconnet, que ao seu lado lhe fazia rasgados cumprimentos<br \/>\nem franc\u00eas. O hoteleiro precisava que o doutor fizesse uma visita a<br \/>\num de seus locat\u00e1rios que amanhecera doente.<\/p>\n<p>Tratava-se de Greg\u00f3rio. O m\u00e9dico foi conduzido ao quarto deste.<br \/>\nEntrou quase \u00e0s apalpadelas, porque vinha da grande claridade de fora.<br \/>\nS\u00f3 ao fim de algum tempo come\u00e7ou a distinguir o que tinha defronte<br \/>\ndos olhos. Pap\u00e1 Falconnet o acompanhava, sempre a desfazer-se em cortesias<br \/>\ne palavras agrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u2014 Abra um pouco aquela janela, recomendou-lhe o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Falconnet correu a cumprir a ordem.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio estava assentado na cama, com os travesseiros entalados<br \/>\nnas costas. Tinha o ar muito abatido e preocupado.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9? perguntou ele, ao sentir os passos do m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o doutor, respondeu Falconnet, entrando. Veio ver D. Ol\u00edmpia<br \/>\ne aproveitou a ocasi\u00e3o para fazer-lhe uma visita.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem ela? interrogou o rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1, como sempre, sofrendo dos nervos, explicou o Dr. Roberto.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o tem alguma novidade? \u2014 N\u00e3o, disse o<br \/>\nm\u00e9dico sacudindo os ombros.<\/p>\n<p>E, assentando-se \u00e0 cabeceira do doente, indagou do que este sofria.<\/p>\n<p>\u2014 Indisposi\u00e7\u00e3o de corpo, respondeu Greg\u00f3rio.<br \/>\nNem valia a pena o inc\u00f4modo de vir c\u00e1.<\/p>\n<p>Afinal n\u00e3o estou doente&#8230;<\/p>\n<p>O Falconnet havia se aproximado e explicava que aquilo devia ser da soalheira<br \/>\napanhada na v\u00e9spera.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! o Sr. foi ao tal passeio da gruta? perguntou-lhe o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, respondeu o enfermo.<\/p>\n<p>O Falconnet principiou ent\u00e3o a narrar o que a respeito do passeio<br \/>\nouvira na v\u00e9spera contado por Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>\u2014 A ela entretanto fez bem!&#8230; considerou o Dr. Roberto, tomando o<br \/>\npulso de Greg\u00f3rio. E depois de examin\u00e1-lo, receitou e prometeu<br \/>\nvoltar.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia retirou-se com o pai nesse dia, como estava combinado. N\u00e3o<br \/>\nse despediu de Greg\u00f3rio, mas o comendador foi \u00e0 procura dele<br \/>\npara agradecer o inc\u00f4modo que tomara o rapaz na v\u00e9spera com a<br \/>\nfilha.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio ficou surpreendido com a not\u00edcia da partida de Ol\u00edmpia.<br \/>\nN\u00e3o podia acreditar! Pois ela ia assim, sem mais nem menos, sem lhe<br \/>\ndar uma palavra, como se nada tivesse havido entre eles dois?&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto o comendador lhe oferecera a casa, e Greg\u00f3rio pensava<br \/>\ncom prazer em aproveitar esse obs\u00e9quio. No dia seguinte, sem ter ali\u00e1s<br \/>\nexperimentado melhoras, levantou-se da cama, vestiu-se e saiu. Na ocasi\u00e3o<br \/>\nem que ganhava a rua deu com o Dr. Roberto, que o ia visitar.<\/p>\n<p>\u2014 Pois o senhor j\u00e1 de p\u00e9? perguntou-lhe este com um<br \/>\ngesto de censura.<\/p>\n<p>\u2014 Estou perfeitamente bom, respondeu o outro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me parece. Ainda ontem tinha febre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o era coisa de monta&#8230; O passeio h\u00e1 de fazer-me<br \/>\nbem. Vou visitar o comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! nesse caso vamos juntos; eu tencionava tamb\u00e9m ir para<br \/>\nl\u00e1 quando daqui sa\u00edsse.<\/p>\n<p>E os dois come\u00e7aram a descer a rua do Rio Comprido. O Dr. Roberto<br \/>\nia preocupado: a singular mol\u00e9stia de Greg\u00f3rio e aquela pressa<br \/>\ndo rapaz em visitar, ainda doente, o comendador; as melhoras ef\u00eameras<br \/>\nde Ol\u00edmpia, a circunst\u00e2ncia de haver Greg\u00f3rio tomado parte<br \/>\nno passeio \u00e0 gruta; tudo isso dava tratos \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo m\u00e9dico.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, rapazes, rapazes, dizia ele consigo. E oh, mulheres! mulheres!<br \/>\nEm casa do comendador foram surpreendidos por uma novidade: Ol\u00edmpia<br \/>\nn\u00e3o queria ficar em Botafogo e exigia agora que o pai a levasse para<br \/>\na Tijuca.<\/p>\n<p>Estavam tratando da nova mudan\u00e7a quando os dois entraram. Ol\u00edmpia<br \/>\nrecebeu Greg\u00f3rio com muita frieza, mal lhe deu as pontas dos dedos<br \/>\ne n\u00e3o lhe dirigiu palavra durante o tempo em que estiveram juntos.<br \/>\nParecia que nunca houvera absolutamente nada entre eles. Greg\u00f3rio ficou<br \/>\nenfiado; no seu racioc\u00ednio aquele procedimento significava nada menos<br \/>\nque cinismo. Ol\u00edmpia aparecia-lhe agora ao esp\u00edrito como uma<br \/>\nmulher vulgar, friamente dissimulada e capaz de todas as hipocrisias. Mas<br \/>\nse ela o tratava desse modo, o comendador, pelo contr\u00e1rio, procurava<br \/>\ncerc\u00e1-lo de obs\u00e9quios e cortesias.<\/p>\n<p>\u2014 Apare\u00e7a-nos sempre, dizia o bom velho. O senhor d\u00e1-nos<br \/>\nmuito prazer com a sua visita.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio chegou a casa possu\u00eddo de um aborrecimento extraordin\u00e1rio;<br \/>\ntudo o enfastiava, tudo o constrangia. J\u00e1 n\u00e3o podia suportar<br \/>\nas palestras do Pap\u00e1 Falconnet, quando este disparava no seu entusiasmo<br \/>\na falar de Bonaparte; j\u00e1 n\u00e3o encontrava prazer nos jogos de<br \/>\nexerc\u00edcio com os outros rapazes da Avenida. Tudo o contrariava, tudo<br \/>\no enchia de t\u00e9dio, porque tudo lhe recordava a aus\u00eancia de Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>O velho div\u00e3 da sala de jantar, onde ela \u00e0s vezes se quedava<br \/>\nesquecida com um livro abandonado no rega\u00e7o, as flores que ela preferia<br \/>\npara as suas jarras, a escada em que ela subira no momento em que Greg\u00f3rio<br \/>\na viu pela primeira vez; tudo o atormentava, tudo o mergulhava numa nostalgia<br \/>\ninsuport\u00e1vel e sem fundo. Quanto mais se convencia de que ela o desprezava;<br \/>\nquanto mais se compenetrava de que ela o n\u00e3o queria; mais assanhado<br \/>\no desejo lhe trincava o cora\u00e7\u00e3o e lhe chibateava os sentidos.<\/p>\n<p>O Dr. Roberto foi o \u00fanico que compreendeu tudo isso.<\/p>\n<p>Nestas condi\u00e7\u00f5es Greg\u00f3rio resolveu abandonar a Avenida<br \/>\nEstrela. A preocupa\u00e7\u00e3o do seu amor infeliz absorvia-lhe a melhor<br \/>\nparte da atividade; j\u00e1 n\u00e3o estudava, pouco trabalhava, sentiase<br \/>\nir enfraquecendo e acovardando todos os dias. O desgosto secara-lhe a coragem<br \/>\ncom que at\u00e9 a\u00ed cometia qualquer empresa e que lhe assegurava<br \/>\no bom \u00eaxito antes de dar o primeiro passo. Estava mais magro, mais descorado<br \/>\ne mais t\u00edmido.<\/p>\n<p>O Dr. Roberto principiou ent\u00e3o a interessar-se por ele. Greg\u00f3rio<br \/>\npiorava, s\u00f3 um bom tratamento o salvaria; o pobre mo\u00e7o tinha<br \/>\nos pulm\u00f5es fracos e predispostos para a t\u00edsica, porque, participando<br \/>\nmoralmente do car\u00e1ter generoso e do g\u00eanio d\u00f3cil de Cec\u00edlia,<br \/>\nherdada, pelo lado paterno, as conseq\u00fc\u00eancias m\u00f3rbidas da<br \/>\nvida libertina de Pedro Ruivo.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico, quando o viu em risco de vida, carregou com ele para casa<br \/>\ne transformou-o no objeto dos seus cuidados. \u00c9 que Roberto ainda n\u00e3o<br \/>\ntinha fam\u00edlia e precisava dedicar a algu\u00e9m essa por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde ternura e generosidade que traz consigo todo o cora\u00e7\u00e3o bem<br \/>\nconstru\u00eddo, pronto a franque\u00e1-lo ao primeiro que se apresente<br \/>\ndisposto a conquist\u00e1-la. Em pouco tempo os ligava a mais inquebrant\u00e1vel<br \/>\namizade.<\/p>\n<p>E, de resto, n\u00e3o era dif\u00edcil amar Greg\u00f3rio: ele dispunha<br \/>\nem alto grau dessa irresist\u00edvel simpatia, que \u00e9 como o perfume<br \/>\ndas almas c\u00e2ndidas e que em geral se manifesta pelo sentimento da justi\u00e7a.<br \/>\nN\u00e3o tinha os encantos brilhantes do homem de talento; n\u00e3o possu\u00eda<br \/>\na capitosa sedu\u00e7\u00e3o de um esp\u00edrito original e criador,<br \/>\nmas cativava com a do\u00e7ura da sua voz, com a simplicidade dos seus costumes<br \/>\ne com a meiga ingenuidade do seu cora\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o deslumbrava,<br \/>\nmas seduzia.<\/p>\n<p>No fim de algum tempo o Dr. Roberto tinha por ele a afei\u00e7\u00e3o<br \/>\nque se pode ter por um filho adotivo. O comendador Ferreira, a quem Greg\u00f3rio<br \/>\nfreq\u00fcentava com mais assiduidade depois que se restabeleceu, fora tamb\u00e9m<br \/>\npouco a pouco se penetrando do mesmo sentimento pelo rapaz e acabou por n\u00e3o<br \/>\npoder dispensar a companhia dele.<\/p>\n<p>S\u00f3 faltava Ol\u00edmpia, mas a respeito desta n\u00e3o devemos<br \/>\nadiantar id\u00e9ia, sem primeiro voltarmos ao ponto em que a deixamos \u00e0<br \/>\nsa\u00edda do espet\u00e1culo. Todavia, para fazer justi\u00e7a a Greg\u00f3rio,<br \/>\nconv\u00e9m declarar que este, ao saber com certeza da posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nda sua bem-amada, e logo que reconheceu a afei\u00e7\u00e3o com que o<br \/>\ncomendador o acolhia, se sentiu envergonhado e tratou de retrair os impulsos<br \/>\nque o impeliam para Ol\u00edmpia. Foi o pior. \u00c9 muito perigoso contrariar<br \/>\numa mulher nas circunst\u00e2ncias daquela. Mas deixemos por enquanto tudo<br \/>\nisso de parte e vamos colher a caprichosa filha do comendador na ocasi\u00e3o<br \/>\nem que ela entra no carro que a esperava \u00e0 porta do circo Chiarini.<\/p>\n<p>O pai havia j\u00e1 por duas vezes lhe dirigido a palavra, perguntando-lhe<br \/>\no que a fazia preocupada e triste. Ol\u00edmpia respondera sacudindo os<br \/>\nombros, e durante o caminho n\u00e3o articulou palavra.<\/p>\n<p>Mal, por\u00e9m chegou ao seu quarto, atirou-se sobre o div\u00e3 e<br \/>\nabriu a chorar com desespero.<\/p>\n<p>A nova casa que eles foram habitar na Tijuca era um pequeno e elegante chal\u00e9<br \/>\npintado de azul, com guarni\u00e7\u00f5es de m\u00e1rmore branco. Havia<br \/>\nno jardim um belo renque de palmeiras, que ia desde o port\u00e3o de ferro<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 varanda da sala de visitas.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia quase nunca se mostrava agora, comprazia-se em ficar no quarto,<br \/>\nentretida com algum romance ou a bordar \u00e0 luz da janela. Sa\u00eda<br \/>\n\u00e0s vezes \u00e0 noite com o pai, para ir ao circo Chiarini, mas isso<br \/>\nmesmo j\u00e1 principiava a enfar\u00e1-la. Greg\u00f3rio ia aos domingos<br \/>\njantar com eles; a senhora o tratava com frieza, e muitas vezes nem vinha<br \/>\n\u00e0 sala. O Dr. Roberto teve de fazer uma viagem ao norte e partira,<br \/>\ndeixando a roda do comendador mais reduzida e mais fria. Ol\u00edmpia piorava.<\/p>\n<p>Uma vez estavam no circo, ela, o comendador e Greg\u00f3rio. Ol\u00edmpia<br \/>\nn\u00e3o dava uma palavra; tinha os olhos presos em Scott. O acrobata fazia<br \/>\nnessa ocasi\u00e3o o seu melhor e mais arriscado trabalho.<\/p>\n<p>Era a sorte dos v\u00f4os. Tomava um trap\u00e9zio, deixava-se arrebatar<br \/>\npor ele, depois soltava as m\u00e3os, dava uma cambalhota no ar e ia agarrar-se<br \/>\nafinal a um outro trap\u00e9zio que o esperava do lado oposto.<\/p>\n<p>A cada um desses saltos seguia-se uma explos\u00e3o de palmas.<\/p>\n<p>Scott havia j\u00e1 por duas vezes feito o seu v\u00f4o arriscado, faltava-lhe<br \/>\ns\u00f3 o \u00faltimo e o mais dif\u00edcil. Consistia este no mesmo<br \/>\nque os primeiros, com a diferen\u00e7a de que o acrobata, em vez de se arrojar<br \/>\nde frente, tinha de atirar-se de costas e voltar-se no espa\u00e7o para<br \/>\nalcan\u00e7ar o trap\u00e9zio fronteiro.<\/p>\n<p>Scott assomara no trampolim armado al\u00e9m das torrinhas, ao p\u00e9<br \/>\ndo teto. Havia um grande sil\u00eancio comovido nos espectadores, os cora\u00e7\u00f5es<br \/>\nbatiam com sobressalto. Todos os olhos estavam cravados na esbelta figura<br \/>\ndo acrobata, que, l\u00e1 do alto, nas suas roupas justas de meia, parecia<br \/>\numa bela est\u00e1tua de m\u00e1rmore. Destacava-se-lhe bem o peito largo<br \/>\ne abaulado, via-se-lhe a riqueza dos bra\u00e7os e a nervosa musculatura<br \/>\ndas coxas.<\/p>\n<p>Scott tomou o trap\u00e9zio com uma das m\u00e3os, enquanto limpava com<br \/>\na outra o suor da testa; depois colocou o len\u00e7o a cintura, esfregou<br \/>\npez nas palmas das m\u00e3os e agarrou-se ao bra\u00e7o do trap\u00e9zio.<br \/>\nOuvia-se a respira\u00e7\u00e3o ofegante do p\u00fablico. Scott sacudiu<br \/>\no corpo, experimentou o trap\u00e9zio e deixou-se arrebatar por este, de<br \/>\ncostas. Em meio do c\u00edrculo desprendeu-se, gritou: \u201cHop!\u201d,<br \/>\ndeu uma volta no ar, e lan\u00e7ou-se de bra\u00e7os estendidos para o<br \/>\noutro trap\u00e9zio. Mas o v\u00f4o fora mal calculado e o acrobata n\u00e3o<br \/>\nencontrou onde agarrar-se.<\/p>\n<p>Um terr\u00edvel bramido ecoou por todo o teatro. Viu-se a bela e m\u00e1scula<br \/>\nfigura de Scott, solta no espa\u00e7o, virar para baixo a cabe\u00e7a<br \/>\ne cair estatelada no ch\u00e3o, com as pernas abertas. O recinto do circo<br \/>\nencheu-se logo. Nos camarotes mulheres desmaiavam em gritos; algumas pessoas<br \/>\nfugiam do teatro, espavoridas como se houvesse um inc\u00eandio; outras jaziam<br \/>\np\u00e1lidas, a boca aberta e a voz gelada na garganta. Ningu\u00e9m mais<br \/>\nse entendia; davam-se encontr\u00f5es. Nas torrinhas passavam uns por cima<br \/>\ndos outros para poder ver se distinguiam o acrobata. Este, entretanto, sem<br \/>\nacordo e quase sem vida, agonizava por terra, a vomitar sangue.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia, sem saber como, estonteada, tr\u00eamula da cabe\u00e7a<br \/>\naos p\u00e9s, achou-se ao lado dele.<\/p>\n<p>Ajoelhou-se no ch\u00e3o, tomou a cabe\u00e7a do acrobata e pousou-a<br \/>\nno rega\u00e7o.<\/p>\n<p>Scott estremeceu, esticou os membros, torceu a cabe\u00e7a para tr\u00e1s,<br \/>\nrevirou os olhos, contraiu a boca e deu o \u00faltimo suspiro.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia soltou um grito, caiu de costas e come\u00e7ou a estrebuchar.<\/p>\n<h2><a name=\"20\"><\/a> XX D. TERESINHA<\/h2>\n<p>Ol\u00edmpia s\u00f3 acordou de si em casa, ao lado do pai.<\/p>\n<p>Acompanhara-os desde o circo um m\u00e9dico ainda mo\u00e7o, que se<br \/>\nachava no teatro por ocasi\u00e3o do desastre. Era o Dr. Dermeval da Fonseca.<\/p>\n<p>Dos tr\u00eas parecia ser este o \u00fanico que conservava o sangue frio<br \/>\nna alcova a que recolheram a desfalecida. O comendador nada mais fazia do<br \/>\nque ir de um para outro lado, sem nunca acertar com os objetos que lhe pedia<br \/>\no assistente. Expediram-se receitas para a botica, vieram os rem\u00e9dios,<br \/>\ne \u00e0s onze horas a enferma voltava a si. Abriu os olhos, olhou espantada<br \/>\npor algum tempo para o pai e para o Dr. Dermeval; depois, reconstruindo as<br \/>\nid\u00e9ias, lembrou-se do fato que a fizera desmaiar, soltou um novo grito<br \/>\ne recaiu em convuls\u00f5es. O Dr. Dermeval e o comendador apoderaram-se<br \/>\ndela. Ol\u00edmpia queria morder os pulsos e gritava, agatanhando-se.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio, na sala pr\u00f3xima, passeava muito agitado, impacientado<br \/>\npor descobrir um meio de ser \u00fatil \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas n\u00e3o tinha \u00e2nimo de aproximar-se do quarto de Ol\u00edmpia;<br \/>\nreceava com isso cometer erro maior. Ao mesmo tempo o seu amor-pr\u00f3prio<br \/>\nse sentia acirrado pelo desastre do acrobata: Greg\u00f3rio sentira ci\u00fames<br \/>\ndesde a primeira vez que observara o modo apaixonado pelo qual Ol\u00edmpia<br \/>\nacompanhava com a fisionomia as dif\u00edceis e graciosas evolu\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo gentil fun\u00e2mbulo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que ele contasse ou ambicionasse merecer algum dia o<br \/>\namor da caprichosa senhora; n\u00e3o, porque estava no firme prop\u00f3sito<br \/>\nde nunca deixar transparecer o menor vislumbre dos seus desejos, ainda que<br \/>\npara isso fosse necess\u00e1rio afog\u00e1-los em sangue. Mas o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ntamb\u00e9m vive desse d\u00fabio querer e n\u00e3o querer; desse vago<br \/>\ndesejar, que nasce e avulta em nossos sentidos, sem o menor concurso do racioc\u00ediacute;nio.<br \/>\nGreg\u00f3rio era sem d\u00favida um esp\u00edrito sumamente rom\u00e2ntico<br \/>\ne sempre voltado para o ideal, mas era latino e tinha dezoito anos; n\u00e3o<br \/>\npodia, por conseguinte, furtar-se \u00e0s tend\u00eancias naturais do meio<br \/>\nem que nascera e \u00e0 fatal idiossincrasia de sua ra\u00e7a; educara<br \/>\no seu car\u00e1ter e o seu gosto art\u00edstico pelos velhos moldes l\u00edricos,<br \/>\ncuja influ\u00eancia lhe chegava ao esp\u00edrito por interm\u00e9dio<br \/>\nde alguns livros, \u00e0s vezes mal escolhidos, e de alguns jornais quase<br \/>\nsempre pouco escrupulosos. Lamartine foi um dos primeiros que se apoderaram<br \/>\ndele, que lhe, fascinaram a alma com a sua sedutora tristeza apaixonada; depois<br \/>\nMusset, Gautier e V\u00edtor Hugo terminaram a obra. Greg\u00f3rio n\u00e3o<br \/>\nresistiu ao desejo de sentir com eles. Era t\u00e3o agrad\u00e1vel chorar<br \/>\nna sua idade! \u00c9 t\u00e3o bom sofrer quando sofremos por gosto!&#8230;<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia, depois da morte de Scott, ficou muito pior; o pai j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o contava com ela e deixavase mergulhar em fundo e surdo desespero.<\/p>\n<p>O Dr. Dermeval n\u00e3o poupava esfor\u00e7os para salv\u00e1-la.<br \/>\nFizeram-se v\u00e1rias confer\u00eancias m\u00e9dicas; a opini\u00e3o<br \/>\npredominante era que Ol\u00edmpia, se escapasse da morte, viria a sofrer<br \/>\npara sempre das faculdades mentais. S\u00f3 o Dr. Dermeval discordava.<\/p>\n<p>E principiou este, mais do que nunca, a interessar-se por ela. Ia visit\u00e1-la<br \/>\ntodos os dias, procurava distra\u00ed-la, contava-lhe hist\u00f3rias espirituosas,<br \/>\noferecia-lhe de vez em quando um livro e falava-lhe de teatros e bailes. Ol\u00edmpia,<br \/>\ncom efeito, ao fim de pouco tempo, experimentava melhoras, e da\u00ed a<br \/>\ndois meses passeava no jardim pelo bra\u00e7o do pai.<\/p>\n<p>Depois da mol\u00e9stia ficara muito amiga de Greg\u00f3rio, tratava-o<br \/>\nagora com extrema condescend\u00eancia, quase com amor. Uma vez apareceu<br \/>\nele mais cedo que de costume (acabava-se de tirar a mesa e o comendador fazia<br \/>\na sesta no gabinete). Ol\u00edmpia, ao ver entrar aquele, soltou logo uma<br \/>\nexclama\u00e7\u00e3o de prazer e correu ao seu encontro com os bra\u00e7os<br \/>\nabertos.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! disse ela; o senhor foi hoje verdadeiramente am\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>E abra\u00e7ou-o.<\/p>\n<p>O rapaz ficou perplexo com semelhante recep\u00e7\u00e3o, e nada mais<br \/>\nconseguiu do que gaguejar algumas palavras de agradecimento. Em seguida, assentaram-se<br \/>\nos dois no mesmo div\u00e3 e puseram-se a conversar. Ol\u00edmpia mostrava-se<br \/>\naquela tarde de uma estranha expans\u00e3o, e Greg\u00f3rio, ao contr\u00e1rio,<br \/>\nparecia como nunca retra\u00eddo e contrafeito.<\/p>\n<p>Falaram vagamente sobre todos os assuntos de que se podiam lembrar para<br \/>\nencher a conversa. Ela ofereceu-lhe caf\u00e9, e foi pessoalmente buscar<br \/>\numa garrafa de licor; pediu-lhe depois que lhe desenhasse alguma coisa no<br \/>\n\u00e1lbum. Greg\u00f3rio obedeceu; mal, por\u00e9m, tinha principiado<br \/>\no desenho e j\u00e1 a caprichosa lhe arrancava o l\u00e1pis dos dedos<br \/>\ne lhe pedia para fazer-lhe antes um pouco de leitura. Greg\u00f3rio foi<br \/>\n\u00e0 biblioteca, tomou os Primeiros cantos de Gon\u00e7alves Dias e<br \/>\nprincipiou a recitar o epis\u00f3dio do Pirata.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! disse Ol\u00edmpia, pousando-lhe a m\u00e3o na boca.<br \/>\nLeia-me outra coisa&#8230; faz-me mal esse poeta!&#8230; N\u00e3o gosto de lhe ouvir<br \/>\nos versos sen\u00e3o quando preciso chorar&#8230;<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio lembrou Casimiro de Abreu, ofereceu Castro Alves, intercedeu<br \/>\npor Fagundes Varela. Ela, por\u00e9m, n\u00e3o aceitou nenhum deles.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe! c\u00e1 est\u00e1 o Machado de Assis! Quer?&#8230;<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia respondeu que n\u00e3o, sorrindo com faceirice e agitando<br \/>\no indicador da m\u00e3o direita.<\/p>\n<p>\u2014 O Luiz Guimar\u00e3es?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! C\u00e1 est\u00e1 o Muniz Barreto! \u2014 N\u00e3o! n\u00e3o!<br \/>\n\u2014 Quer antes um poeta franc\u00eas?&#8230; prefere ouvir um trecho de prosa?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! J\u00e1 n\u00e3o quero nada disso. D\u00ea-me aquele<br \/>\n\u00e1lbum que ali est\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio foi buscar sobre o piano o \u00e1lbum indicado.<\/p>\n<p>\u2014 Agora sente-se aqui. Aqui justamente, neste banquinho. Bem; vejamos<br \/>\njuntos estes desenhos.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio ficara muito encostado ao div\u00e3 em que estava Ol\u00edmpia.<br \/>\nEsta abriu o \u00e1lbum sobre os joelhos e passou a primeira folha.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe quem fez isto? perguntou sorrindo.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio inclinou-se mais para ver.<\/p>\n<p>\u2014 Fui eu, explicou Ol\u00edmpia. N\u00e3o est\u00e1 bem feito?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 muito bonito, disse o rapaz, prestando pouca aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nao desenho.<\/p>\n<p>\u2014 E este?&#8230; Que tal acha? continuou ela, voltando a folha.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, respondeu Greg\u00f3rio, quase sem olhar para a p\u00e1gina.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe para c\u00e1! repreendeu Ol\u00edmpia, segurando-lhe a<br \/>\ncabe\u00e7a e obrigando-o a olhar para o \u00e1lbum.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio riu-se.<\/p>\n<p>\u2014 Chegue-se mais! acrescentou ela ainda em ar de repreens\u00e3o.<br \/>\nParece-me tolo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A senhora est\u00e1 hoje muito am\u00e1vel!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Fa\u00e7a-se engra\u00e7ado! Pensa que n\u00e3o sou capaz<br \/>\nde puxar-lhe as orelhas!&#8230;<\/p>\n<p>E terminou esta frase, segurando amorosamente a cabe\u00e7a do rapaz e<br \/>\npuxando-a para junto dos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio retirou a cabe\u00e7a de suas m\u00e3os e ergueu-se.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! n\u00e3o! balbuciava ele a desprender-se-lhe dos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 um idiota! exclamou Ol\u00edmpia, repelindo-o<br \/>\ncom raiva. E afastou-se da sala muito apressada.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o acabava o comendador a sua sesta no gabinete e preparava-se<br \/>\npara apresentarse, como sempre, de colarinho limpo, barba feita e cabelo bem<br \/>\nescovado.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o era homem capaz de aparecer mal a ningu\u00e9m. A filha<br \/>\nnunca o vira em mangas de camisa. Apurava-se muito na roupa; tratava cuidadosamente<br \/>\ndos dentes, que os tinha magn\u00edficos; e trazia freq\u00fcentemente,<br \/>\nna algibeira do seu colete de seda preta, um canivetinho com que \u00e0s<br \/>\nvezes se entretinha a brunir as unhas.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 era o seu bra\u00e7o direito. Era o Jac\u00f3 quem lhe fazia<br \/>\na barba, quem o vestia, quem lhe cuidava dos sapatos, quem lhe metia os bot\u00f5es<br \/>\nna camisa. Ningu\u00e9m mais fazia isso a gosto do comendador.<\/p>\n<p>Ainda em vida da m\u00e3e de Ol\u00edmpia, j\u00e1 o desvelado dom\u00e9stico<br \/>\ninvadia todas essas atribui\u00e7\u00f5es e gozava do valimento do amo.<br \/>\nFoi ele, at\u00e9, entre os \u00edntimos do comendador, quem tomou parte<br \/>\nmais ativa no segundo casamento deste. O comendador consultara a opini\u00e3o<br \/>\ndo criado.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 achava a noiva um pouco mo\u00e7a demais para o amo. O comendador<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o estava crian\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>O pai de Ol\u00edmpia opunha ent\u00e3o a circunst\u00e2ncia de que<br \/>\ntinha filhos, de que precisava de uma senhora que lhe tomasse conta da casa<br \/>\ne dirigisse a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, replicava o velho criado; a Sinhazinha n\u00e3o est\u00e1<br \/>\nt\u00e3o pequena que precise de madrasta!&#8230; (Esta Sinhazinha, a que se<br \/>\nreferia o bom Jac\u00f3, era Ol\u00edmpia). E o Nhonh\u00f4, acrescentava<br \/>\nele, sai do col\u00e9gio apenas duas vezes por ano&#8230;<\/p>\n<p>Mas, apesar de tudo, o comendador contraiu novo matrim\u00f4nio, do qual<br \/>\nlhe resultaram aquelas duas malogradas g\u00eameas de que j\u00e1 tratamos.<br \/>\nN\u00e3o foi feliz nas segundas n\u00fapcias: o criado tinha raz\u00e3o<br \/>\nquase inteira. Ao casar, o comendador n\u00e3o estava totalmente velho,<br \/>\nmas caminhava muito de perto para isso. A velhice \u00e0s vezes \u00e9<br \/>\numa janela que se abre de repente, e por onde fogem no mesmo instante os \u00faltimos<br \/>\nraios da mocidade.<\/p>\n<p>A segunda mulher do comendador or\u00e7ava ent\u00e3o pelos vinte anos<br \/>\ne era rapariga muito bem constitu\u00edda de corpo. Sem ser bonita, ostentava<br \/>\nesse encanto inestim\u00e1vel da sa\u00fade e da for\u00e7a, que tem<br \/>\npara o homem as mesmas qualidades atrativas que a brilhante clorofila das<br \/>\nflores, segundo Darwin, tem para os insetos vol\u00e1teis.<\/p>\n<p>Pelos seus olhos vivos e travessos, pelo moreno quente das suas faces coradas<br \/>\ne vi\u00e7osas, pelos seus l\u00e1bios carnudos e vermelhos, pelo vigor<br \/>\nda sua larga respira\u00e7\u00e3o e pela sedutora frescura dos seus dentes,<br \/>\na segunda mulher do comendador estava a pedir um marido mais esperto e mais<br \/>\nsenhor de si; de sorte que, por ocasi\u00e3o de escancarar-se a janela de<br \/>\nque h\u00e1 pouco falamos, se escaparam logo, de envolta com os \u00faltimos<br \/>\nraios da mocidade do infeliz marido, as estopinhas da fidelidade conjugal,<br \/>\ncujos votos a esposa do comendador principiava a romper com toda a for\u00e7a<br \/>\ndos seus ricos vinte anos.<\/p>\n<p>Uma janela aberta e que se n\u00e3o pode fechar, \u00e9 um perigo constante<br \/>\npara a casa a que pertence, principalmente se nesta houver uma flor, porque<br \/>\nos insetos andam soltos l\u00e1 por fora.<\/p>\n<p>O primeiro inseto que entrou pela janela foi o Portela, aquele morigerado<br \/>\ne belo mo\u00e7o do com\u00e9rcio, convidado por Henriqueta e Le\u00e3o<br \/>\nVermelho para servir de padrinho de batismo \u00e0 nossa Clorinda, e o qual,<br \/>\nmais tarde, vimos transformado em comendador, a conversar em companhia do<br \/>\nAdelino Fontoura e do Duque-Estrada em casa da afilhada.<\/p>\n<p>Portela estava por esse tempo no vigor dos anos; teria quando muito vinte<br \/>\ne cinco, porque justamente na mesma \u00e9poca batizara ele a filha natural<br \/>\nde Le\u00e3o Vermelho.<\/p>\n<p>Vejamos agora quais foram as circunst\u00e2ncias que o aproximaram da mulher<br \/>\ndo comendador Ferreira, porque elas se ligam \u00e0s futuras cenas desta<br \/>\nnarrativa.<\/p>\n<p>O pai de Ol\u00edmpia ainda ent\u00e3o se achava no com\u00e9rcio<br \/>\nativo, de sociedade com um tal Jo\u00e3o Figueiredo, t\u00e3o comendador<br \/>\ncomo ele, por\u00e9m muito menos fino e menos traquejado nas salas. O nosso<br \/>\nPortela era caixeiro da casa. Nesse tempo, como deve saber o leitor, os empregados<br \/>\ndo com\u00e9rcio n\u00e3o gozavam em geral de certas regalias, que s\u00f3<br \/>\nmais tarde lhes foram conferidas pelos patr\u00f5es. O bigode, a gravata,<br \/>\no fraque, por exemplo, eram fruto proibido para os caixeiros.<\/p>\n<p>Entrar em um caf\u00e9, fumar um charuto, saber dan\u00e7ar uma quadrilha<br \/>\nfrancesa, tudo isto, para os infelizes mo\u00e7os, eram verdadeiros crimes<br \/>\nde lesa-moralidade comercial. Mas o comendador Ferreira n\u00e3o se deixava<br \/>\nlevar por t\u00e3o mesquinhos preconceitos e dava aos seus empregados plena<br \/>\nliberdade de deixar crescer o bigode, vestir um fraque, penetrar nos raros<br \/>\ncaf\u00e9s dessa \u00e9poca e fumar os charutos que quisessem.<\/p>\n<p>O Figueiredo opunha-se amargamente contra semelhante liberdade do s\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea me quer estragar os rapazes!&#8230; dizia ele, penetrado<br \/>\nde um grande desgosto. Pois voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea, seu Ferreira,<br \/>\ncomo tudo por a\u00ed anda j\u00e1 t\u00e3o desmoralizado!&#8230; N\u00e3o<br \/>\nv\u00ea como hoje s\u00f3 h\u00e1 pelintras?! N\u00e3o v\u00ea que<br \/>\nhoje em dia os rapazes, em vez de aproveitarem o domingo para ir \u00e0<br \/>\nmissa, querem ir fumar charutos ao Passeio P\u00fablico e meter-se \u00e0<br \/>\ntarde na patifaria do teatro?!&#8230;<\/p>\n<p>E o Figueiredo, possu\u00eddo cada vez mais da sua indigna\u00e7\u00e3o,<br \/>\nrevoltava-se contra o s\u00f3cio; mas o comendador Ferreira n\u00e3o se<br \/>\ndeixava catequizar e continuava a dar folga aos rapazes.<\/p>\n<p>\u00c9 por\u00e9m seguro que, entre os caixeiros da casa, s\u00f3<br \/>\num se aproveitava verdadeiramente dessas regalias, e esse era o Portela. Aos<br \/>\ndomingos, em vez de ir para o canto da rua, como faziam seus companheiros,<br \/>\nassentar-se a um banco de pau e ver quem passava, o pretensioso caixeiro ataviava-se<br \/>\ncom roupas de casimira francesa, metia um charuto entre os dentes, e punha-se<br \/>\nde passeio pelas ruas. Estas especialidades davam-lhe aos olhos das mo\u00e7as<br \/>\nsuas conhecidas certa distin\u00e7\u00e3o simp\u00e1tica: Portela era<br \/>\ncitado por ela como a flor dos rapazes do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>E o fato \u00e9 que ficava um rapag\u00e3o, quando envergava o fraque<br \/>\nde pano fino, vestia um par de cal\u00e7as novas, armava o seu chap\u00e9u<br \/>\nalto e ganhava a rua, rangendo as botinas e picando a cal\u00e7ada com a<br \/>\nbiqueira da bengala. Dos empregados do nosso comendador foi ele o \u00fanico<br \/>\nque compareceu ao casamento do patr\u00e3o. O Figueiredo teve uma vertigem<br \/>\nquando o viu chegar de carro e casaca.<\/p>\n<p>\u2014 Ora com efeito!&#8230; resmungou o caturra, a sacudir a cabe\u00e7a.<br \/>\nE afastou-se para n\u00e3o disparatar ali mesmo com o s\u00f3cio.<\/p>\n<p>Portela dirigiu-se mais de uma vez \u00e0 noiva, felicitou-a, disse-lhe<br \/>\npalavras muito bonitas e pediu-lhe que lhe reservasse um dos seus alfinetes<br \/>\ndourados. \u00c0 mesa ergueu-se com desembara\u00e7o para brindar o patr\u00e3o,<br \/>\ne seu discurso foi muito bem recebido. Desde esse dia o comendador o convidou<br \/>\npara jantar aos domingos, e Portela n\u00e3o faltou a nenhum deles. \u00c0s<br \/>\nvezes havia dan\u00e7a e ele dan\u00e7ava; se havia jogos de prenda, brincava;<br \/>\ne, se havia meninas solteiras, namorava.<\/p>\n<p>D. Teresinha, como tratava ele a mulher do patr\u00e3o, n\u00e3o lhe<br \/>\nvotava entretanto mais do que uma pequena estima, mais generosa que outra<br \/>\ncoisa, e perfeitamente compreendida no c\u00edrculo dos seus deveres conjugais.<\/p>\n<p>Por essa \u00e9poca j\u00e1 ela estava gr\u00e1vida das duas g\u00eameas<br \/>\na que nos referimos. O tempo passou; nasceram as meninas, e Portela sempre<br \/>\na freq\u00fcentar a casa do comendador, cada vez mais considerado e mais querido.<\/p>\n<p>Quando a peste, que nessa \u00e9poca assolava o Rio de Janeiro, entrou<br \/>\nem casa do bom negociante e lhe arrebatou dos bra\u00e7os os ador\u00e1veis<br \/>\nfrutos do seu segundo matrim\u00f4nio, o pobre homem recebeu o golpe em cheio<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o e caiu desanimado e sem for\u00e7as. Portela foi<br \/>\no \u00fanico que teve o segredo de distra\u00ed-lo da desgra\u00e7a,<br \/>\nchamando-o de novo \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que uma forte rajada dos ventos da velhice se atirou de<br \/>\ns\u00fabito contra a tal janela e abriu-a de par em par. O comendador envelheceu<br \/>\nda noite para o dia.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o da virilidade para a decrepitude \u00e9 t\u00e3o<br \/>\nsobressaltada como a passagem da meninice para a puberdade. O desgra\u00e7ado<br \/>\nsentiu faltar-lhe a coragem para tudo; n\u00e3o queria festas, n\u00e3o<br \/>\nqueria distra\u00e7\u00f5es; o pr\u00f3prio trabalho j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ntinha para ele nenhum dos atrativos de outrora. E, enquanto os fatos assim<br \/>\nse sucediam, o Portela empregava todos os esfor\u00e7os para alcan\u00e7ar<br \/>\na m\u00e3o de Ol\u00edmpia, cujos encantos principiavam a vestir as galas<br \/>\nda mulher, resplandecendo dentro da aur\u00e9ola de seus quinze anos. Distinta,<br \/>\nrica, inteligente e formosa, a filha do comendador representava, para o caixeiro,<br \/>\no melhor partido que este poderia ambicionar.<\/p>\n<p>O comendador estava por tudo; s\u00f3 faltava que a menina se resolvesse.<br \/>\nEla recusou. O pai tentou ainda defender a pretens\u00e3o do amigo; Ol\u00edmpia<br \/>\nvoltou-lhe as costas.<\/p>\n<p>Foi por esse tempo que o comendador, sentindo-se esgotado e precisando descansar,<br \/>\nresolveu sair do com\u00e9rcio ativo. Jo\u00e3o Figueiredo, logo que liquidou<br \/>\nas contas do s\u00f3cio e ficou s\u00f3, declarou ao Portela que n\u00e3o<br \/>\no suportaria nem mais uma semana em sua casa.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 ali era preciso respeitar a vontade do comendador Ferreira;<br \/>\nagora n\u00e3o havia raz\u00e3o para atur\u00e1-lo! O comendador, sabendo<br \/>\ndo fato, ficou furioso e chamou o rapaz para sua companhia.<\/p>\n<p>\u2014 Havemos de arranj\u00e1-lo, prometeu ele; mas enquanto n\u00e3o<br \/>\naparecer emprego, ficar\u00e1 ao meu servi\u00e7o. O senhor ter\u00e1<br \/>\num ordenado, casa e comida.<\/p>\n<p>Portela mudou-se logo para a casa do comendador. De muito pouco servi\u00e7o<br \/>\ndispunha este para lhe dar a fazer; n\u00e3o passava todo ele das contas<br \/>\nde suas propriedades alugadas e uma ou outra carta comercial exigida pelas<br \/>\npend\u00eancias com a pra\u00e7a. Compreende-se, por conseguinte, que o<br \/>\nrapaz tinha folga e grande folga.<\/p>\n<p>Trabalhava no pr\u00f3prio escrit\u00f3rio do patr\u00e3o, ao lado<br \/>\nda biblioteca, perto da sala de jantar, onde Teresinha costurava. \u00c0s<br \/>\nvezes o Portela punha de lado a pena, fechava a sua costaneira e ia dar dois<br \/>\ndedos de palestra \u00e0 patroa. Ela o tratava com muita defer\u00eancia.<\/p>\n<p>Um dia, seriam duas horas da tarde e o comendador n\u00e3o estava em casa.<br \/>\nTeresinha parecia entretida de todo com a sua m\u00e1quina de costura, e<br \/>\nOl\u00edmpia passeava na rua do Ouvidor com as amigas.<\/p>\n<p>Fazia muito calor: outubro nunca estivera t\u00e3o insuport\u00e1vel<br \/>\ne t\u00e3o cheio de moscas.<\/p>\n<p>O ar morno e pesado produzia quebrantes no corpo e convidava a gente a estender-se<br \/>\nno ch\u00e3o, sobre a esteira, e deixar-se ficar de olhos fechados em plena<br \/>\npregui\u00e7a. Quase que se n\u00e3o podia respirar. As cortinas da janela<br \/>\ntinham uma imobilidade de pedra.<\/p>\n<p>O comendador morava j\u00e1 em Botafogo, na mesma casa donde mais tarde<br \/>\no arrancou Ol\u00edmpia para dar com ele na Avenida Estrela e depois no<br \/>\nmodesto chalezinho da Tijuca. Via-se da sala de jantar a ba\u00eda defronte<br \/>\nreverberar aos raios do sol: o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, completamente<br \/>\nnu de nuvens, se refletia por inteiro no ardente espelho das \u00e1guas,<br \/>\ne o c\u00e9u, descoberto e brilhante, parecia feito de porcelana azul! Teresinha<br \/>\nlargara o trabalho para resfolegar e refrescar as faces com a palma de sua<br \/>\nm\u00e3o gorda e macia. Portela apareceu \u00e0 porta do gabinete e fez<br \/>\numa exclama\u00e7\u00e3o sobre o calor, despregando com os dedos abertos<br \/>\no seu rico cabelo, preto e anelado, que o suor grudava ao casco da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9! respondeu ela; est\u00e1 horr\u00edvel! \u2014 N\u00e3o<br \/>\nse pode trabalhar, considerou Portela, soprando afrontado. E foi assentar-se<br \/>\nperto de Teresa.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, como passou desde ontem dos seus inc\u00f4modos nervosos?<br \/>\nperguntou a mulher do comendador, referindo-se a uma conversa da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! ainda se lembra disso?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O senhor queixou-se tanto!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual! Eram manhas; o meu mal \u00e9 outro. N\u00e3o sei se mais<br \/>\ndif\u00edcil ou mais f\u00e1cil de curar!&#8230;<\/p>\n<p>E, depois de fazer um gesto de convic\u00e7\u00e3o, acrescentou: Nasci<br \/>\npara ser casado; n\u00e3o me serve a vida de solteiro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o caia nessa asneira!&#8230; aconselhou Teresinha, fazendo-se<br \/>\nmuito s\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u2014 Mas asneira, por qu\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora! \u00c9 uma desilus\u00e3o! Eu preferia estar ainda hoje<br \/>\nsolteira e vivendo como dantes em casa de minha madrasta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Todavia a senhora n\u00e3o tem raz\u00e3o de queixa&#8230;<\/p>\n<p>Teresinha respondeu dando um grande suspiro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vive ent\u00e3o satisfeita?&#8230; perguntou ele, pondo<br \/>\nna voz uma extrema do\u00e7ura.<\/p>\n<p>\u2014 Ai, ai! Mudemos antes de conversa&#8230;<\/p>\n<p>E passou abruptamente a falar sobre uma bela tartaruga amazonas, que o comendador,<br \/>\ndias antes, recebera de presente.<\/p>\n<p>\u2014 Era um bicho esquisito, muito grande, fazia afli\u00e7\u00e3o<br \/>\nolhar para ele! Uma verdadeira raridade! Portela mostrou desejo de ver o animal,<br \/>\ne os dois desceram \u00e0 ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>Levaram algum tempo \u00e0 borda do tanque, ao lado um do outro, acompanhando<br \/>\nos movimentos pregui\u00e7osos do anf\u00edbio. Portela declarou que de<br \/>\ncara o achava parecido com o Jo\u00e3o Figueiredo, e esta rancorosa compara\u00e7\u00e3o<br \/>\nfez rir \u00e0 senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Ali sempre era melhor de estar que l\u00e1 em cima, considerou<br \/>\ndepois o rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 mais fresco, disse Teresinha, dirigindo-se para uma rua<br \/>\nde bambus que costeava a casa e ia dar afinal a um agrupamento de \u00e1rvores<br \/>\nno fundo da ch\u00e1cara. Portela acompanhou-a, oferecendo-lhe o bra\u00e7o.<br \/>\nEla aceitou, e puseram-se ambos a passear muito vagarosamente por entre a<br \/>\nrumorosa sombra da alameda.<\/p>\n<p>Ouviam-se estalar as folhas secas debaixo de seus p\u00e9s. Teresinha<br \/>\nn\u00e3o dava uma palavra, toda segura ao bra\u00e7o do rapaz caminhava<br \/>\nvergada para ele, como se prestasse aten\u00e7\u00e3o a uma conversa de<br \/>\nmuito interesse. A certa altura pararam; e ela parecia fatigada, a julgar<br \/>\npela dificuldade com que respirava. Os dois olhares se encontraram, mas ao<br \/>\nmesmo tempo se fugiram, porque cada um compreendeu de relance o que se passava<br \/>\nno pensamento do outro.<\/p>\n<p>E tornaram a caminhar, sempre em sil\u00eancio, mas desta vez Portela tinha<br \/>\nentre as suas uma das m\u00e3os de Teresinha. Chegados ao fundo da ch\u00e1cara,<br \/>\nsentaram-se juntos debaixo de uma mangueira, sobre um banco que a\u00ed<br \/>\nhavia. A senhora, de olhos baixos, fitava com insist\u00eancia um ponto no<br \/>\nch\u00e3o, e suspirava de vez em quando, como se um pensamento doloroso<br \/>\na torturasse.<\/p>\n<p>Portela chegou-se mais para ela, passou-lhe meigamente um bra\u00e7o sobre<br \/>\no ombro e perguntou-lhe com muito carinho o que a fazia assim t\u00e3o triste.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o era nada!&#8230; segredos de sua pobre vida!&#8230; Coisas que<br \/>\nn\u00e3o poderiam interessar a ningu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>E Teresinha continuava de olhos im\u00f3veis, quase a chorar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! insistia o rapaz com a voz cada vez mais doce; a senhora<br \/>\nsofre qualquer coisa. N\u00e3o me diz o que \u00e9, porque n\u00e3o<br \/>\nlhe mere\u00e7o confian\u00e7a, mas sofre&#8230;<\/p>\n<p>E afagava-lhe os cabelos e o pesco\u00e7o. Teresinha sentia-lhe o tremor<br \/>\nnervoso da m\u00e3o e percebia-lhe a como\u00e7\u00e3o da voz.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 feliz com o comendador?&#8230; perguntou Portela<br \/>\nem voz baixa, chegando a boca ao ouvido dela.<\/p>\n<p>\u2014 Foi uma asneira este casamento! respondeu Teresa. Eu passo uma vida<br \/>\nde vi\u00fava. Ele, por bem dizer, n\u00e3o \u00e9 meu marido. Entretanto,<br \/>\njuro-lhe que desejava ser a esposa mais fiel e dedicada deste mundo!&#8230;<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a chorar aflita.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 mesmo desgra\u00e7a de cada um! acrescentou solu\u00e7ando.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se aflija dessa forma! disse o rapaz, puxando a cabe\u00e7a<br \/>\nde Teresinha para o seu ombro. Tenha uma pouco de resigna\u00e7\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o acha que devo passar uma vida est\u00fapida e aborrecida?!<br \/>\nAndo nervosa, sem apetite, tenho vertigens! tenho coisas de que nunca sofri<br \/>\nat\u00e9 agora! Al\u00e9m disso, ele, porque j\u00e1 aborreceu os divertimentos,<br \/>\nentende que os mais tamb\u00e9m n\u00e3o se devem divertir! Eu n\u00e3o<br \/>\nvou a um baile, n\u00e3o vou a um teatro, n\u00e3o apare\u00e7o a ningu\u00e9m&#8230;<br \/>\nQue diabo! eu tenho apenas vinte seis anos! Portela dava-lhe toda a raz\u00e3o,<br \/>\ne pedia-lhe que n\u00e3o se mortificasse.<\/p>\n<p>\u2014 E voc\u00ea ainda pensa em casar&#8230; continuou ela, j\u00e1 em<br \/>\noutro tom, n\u00e3o caia nessa! \u00c9 uma asneira! \u00c9 um engano!<br \/>\nSe quiser aceitar o meu conselho, fique solteiro toda a vida! Ah! se eu fosse<br \/>\nhomem!&#8230;<\/p>\n<p>E Teresinha suspirou de novo, e sacudiu a cabe\u00e7a com um gesto cheio<br \/>\nde inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Se fosse homem n\u00e3o se casaria? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Eu?! exclamou a rapariga, apertando os olhos, nunca! \u2014 E a<br \/>\nvelhice depois, o abandono, as mol\u00e9stias?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora! eu sei que n\u00e3o chegaria \u00e0 velhice!&#8230; Al\u00e9m<br \/>\nde que h\u00e1 muito quem cuide da gente, sem ser preciso casar.<\/p>\n<p>\u2014 Mas tamb\u00e9m a vida assim, sem termos uma companheira constante<br \/>\nao nosso lado&#8230;<\/p>\n<p>E, passando o bra\u00e7o na cintura de Teresinha, concluiu: \u2014 N\u00e3o<br \/>\npode ser grande coisa! Ela continuou a queixar-se, falou amargamente da sua<br \/>\nvida; disse que naquela casa representava o papel de um \u201cdois de paus\u201d;<br \/>\na verdadeira senhora era Ol\u00edmpia! \u2014 J\u00e1 tenho medo de dar<br \/>\nqualquer ordem aos criados, acrescentou com um gesto desabrido; porque posso<br \/>\nser desmoralizada mais uma vez. Isto \u00e9 vida!? Como senhora n\u00e3o<br \/>\ntenho for\u00e7a moral, como mulher n\u00e3o tenho marido! N\u00e3o<br \/>\ntenho nada! E as recrimina\u00e7\u00f5es recrudesciam, acompanhadas de<br \/>\nsolu\u00e7os. Portela, todas as vezes que lhe puxava a cabe\u00e7a para<br \/>\njunto dele, sentia-lhe o nariz frio e os l\u00e1bios tr\u00eamulos.<\/p>\n<p>Quando o comendador voltou, da\u00ed a uma hora, encontrou-os j\u00e1<br \/>\ndentro de casa; Teresinha a costurar na sala de jantar, e Portela a fazer<br \/>\nescritura\u00e7\u00e3o mercantil no gabinete.<\/p>\n<p>Desde esse dia, a mulher do comendador principiou a melhorar dos nervos;<br \/>\nem breve n\u00e3o se queixava mais das tais vertigens, comia com apetite,<br \/>\ndormia muito bem e cantarolava durante a costura. S\u00f3 quatro meses depois<br \/>\nque o Portela se hospedara em casa do comendador, conseguiu este arranj\u00e1-lo<br \/>\nem uma empresa comercial que se acabava de criar. Tal fato veio alterar um<br \/>\npouco a vida do caixeiro e ench\u00ea-lo de enormes saudades pelas horas<br \/>\nsobressaltadas e felizes que conseguia passar ao lado da amante. O amor de<br \/>\nTeresa constitu\u00edra-se para ele em h\u00e1bito, em necessidade, sem<br \/>\ntodavia perder o encanto dos primeiros tempos, gra\u00e7as \u00e0s circunst\u00e2ncias<br \/>\nque o dificultavam e que faziam dele um objeto proibido.<\/p>\n<p>No dia em que se lhe cortassem as dificuldades e lhe suprimissem o perfume<br \/>\ndo mist\u00e9rio, Portela haveria de aborrecer-se e de enfastiar-se da amante,<br \/>\ncomo sucede fatalmente em todos os casos id\u00eanticos.<\/p>\n<p>Mas, nem ele, nem ela, se lembraram de fazer semelhante reflex\u00e3o,<br \/>\npois se a fizessem, n\u00e3o cometeriam a leviandade de praticar o que vamos<br \/>\nexpor no cap\u00edtulo seguinte.<\/p>\n<h2><a name=\"21\"><\/a> XXI \u00c0 BEIRA DO PRECIP\u00cdCIO<\/h2>\n<p>O comendador principiava a sarar das suas mortifica\u00e7\u00f5es; voltava<br \/>\npouco a pouco aos seus antigos h\u00e1bitos; ia-se finalmente restituindo<br \/>\nao amor pela vida e aos gozos tranq\u00fcilos que lhe permitiam os anos.<\/p>\n<p>A dura morte das suas duas adoradas filhinhas anuviara-lhe o semblante,<br \/>\nazedara-lhe o g\u00eanio, mas n\u00e3o lograra quebrar-lhe a linha.<\/p>\n<p>Nas crises do seu mais fundo desgosto jamais desmanchara o penteado ou amarrotara<br \/>\nos punhos. Chorou sempre engravatado e limpo; as l\u00e1grimas correram-lhe<br \/>\nlivremente pelo rosto escanhoado, e os suspiros sa\u00edram-lhe da boca<br \/>\nimpregnados de cheiroso dentifr\u00edcio. Por triste e magoado n\u00e3o<br \/>\nesqueceu ele nenhum dos requisitos do cavalheirismo com as pessoas que lhe<br \/>\nforam dar p\u00easames; e, no meio da grande opress\u00e3o, encontrou galanterias<br \/>\nsutis para oferecer \u00e0s damas que o acompanharam naquele inconsol\u00e1vel<br \/>\ntranse.<\/p>\n<p>N\u00e3o perdeu o prumo, o que ele perdeu foi o apego da esposa, porque<br \/>\nentre os dois c\u00f4njuges se havia intrometido a pujante figura do Portela.<\/p>\n<p>Meter no cora\u00e7\u00e3o de qualquer fam\u00edlia um homem, que<br \/>\nn\u00e3o seja parente imediato e por conseguinte solid\u00e1rio natural<br \/>\nda sua dignidade e da sua honra, eq\u00fcivale quase sempre a meter um poraqu\u00ea<br \/>\nnum tanque de outros peixes. O choque produzido pelo el\u00e9trico intruso<br \/>\n\u00e9 o bastante para destruir os companheiros de casa.<\/p>\n<p>Teresinha descobriu no Portela todas as regaladoras qualidades f\u00edsicas<br \/>\nque n\u00e3o encontrou no marido. At\u00e9 a\u00ed fazia ela um ju\u00edzo<br \/>\nbem triste do amor; julgava-se desiludida a esse respeito.<\/p>\n<p>\u2014 Sempre supunha que fosse outra coisa! confidenciara a uma amiga<br \/>\npoucos dias depois do casamento.<\/p>\n<p>O amante, por\u00e9m, logo lhe invertera radicalmente t\u00e3o falso<br \/>\nponto-de-vista, apresentando-lhe o amor pelo brilhante prisma da mocidade,<br \/>\nda for\u00e7a e do arrebatamento da paix\u00e3o. Teresinha ficou surpreendida,<br \/>\nficou maravilhada.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto havia sido injusta! dizia depois consigo, toda palpitante<br \/>\nde felicidade.<\/p>\n<p>E, desde ent\u00e3o, tudo se transformou em torno dos seus sentidos: o<br \/>\nmundo exterior apresentava-lhe agora encantos inesperados; tudo lhe sorria,<br \/>\ntudo a namorava, tudo lhe falava com uma voz afetuosa e doce. Os seus gostos<br \/>\ne as suas aptid\u00f5es intelectuais foram acordando, como ao toque da varinha<br \/>\nencantada de uma fada. Achava prazer na leitura, nos divertimentos, no trabalho,<br \/>\nna preocupa\u00e7\u00e3o dos arranjos da casa, e at\u00e9, o que \u00e9<br \/>\nmais extraordin\u00e1rio, principiava a experimentar pelo marido certa simpatia<br \/>\nrespeitosa e compassiva. O comendador, at\u00e9 ent\u00e3o, era perfeitamente<br \/>\ninsuport\u00e1vel a Teresa; ela n\u00e3o o podia ver com a sua calva escondida<br \/>\nnos longos fios de cabelos empl\u00e1sticos, com o seu inalter\u00e1vel<br \/>\nar de diplomata aposentado, e com o seu olhar entorpecido atrav\u00e9s dos<br \/>\n\u00f3culos. Antes de raiar a aurora do seu amor com o caixeiro, ela por<br \/>\nmais de uma vez tivera \u00edmpetos de esbordoar o marido, quando o via<br \/>\nde costas, meio vergado sobre a mesa de trabalho, com o pesco\u00e7o embainhado<br \/>\nno enorme e teso colarinho. O cheiro da \u00e1gua-decol\u00f4nia fazia-lhe<br \/>\nengulhos, porque esse era o perfume predileto do comendador.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que Portela lhe despertava<br \/>\nos sentidos entorpecidos e lhe acordava nas veias o latente calor do sangue,<br \/>\nTeresa ia se conformando com o marido e a ele se prendendo por uma esp\u00e9cie<br \/>\nde amizade filial.<\/p>\n<p>Dormiam em quartos separados. Pela manh\u00e3, Teresa saltava da cama,<br \/>\nfazia a toilette cantarolando, enfiava uma flor no cabelo e ia logo cumprimentar<br \/>\no marido, que a essas horas, j\u00e1 pronto e preparado, tornava o seu ch\u00e1<br \/>\npreto no gabinete de trabalho.<\/p>\n<p>Ela o beijava na face, perguntava com pieguices de crian\u00e7a, como<br \/>\no seu \u201cpaizinho\u201d havia passado a noite e depois de fazer-lhe uma<br \/>\nfestinha no queixo escanhoado, afastava-se, muito sacudida e escorreita, para<br \/>\na ch\u00e1cara, onde suas plantas a esperavam.<\/p>\n<p>O comendador notava com satisfa\u00e7\u00e3o as mudan\u00e7as que<br \/>\na mulher ultimamente apresentava.<\/p>\n<p>Nunca a vira t\u00e3o meiga, t\u00e3o satisfeita e t\u00e3o carinhosa<br \/>\ncom ele; j\u00e1 n\u00e3o o tratava secamente como dantes, agora, ao contr\u00e1rio,<br \/>\ntinha sempre uma palavra afetuosa, um riso agrad\u00e1vel para receb\u00ea-lo<br \/>\ne j\u00e1 n\u00e3o lhe chamava mais \u201cSeu Ferreira\u201d, como antigamente;<br \/>\nagora ela s\u00f3 o tratava por \u201cSeu velho\u201d, por \u201cSeu<br \/>\npaizinho\u201d, por \u201cSeu nhonh\u00f4zinho\u201d.<\/p>\n<p>Mas, uma noite, o comendador, aproximando-se da mulher, ficou muito surpreendido<br \/>\nde a encontrar esquiva.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! dizia Teresa, com um gesto entre meigo e repreensivo;<br \/>\nn\u00e3o!&#8230; Deixe disso!&#8230;<\/p>\n<p>Parecia que o comendador lhe propunha alguma coisa il\u00edcita. O fato<br \/>\nafigurava-se a Teresa como uma esp\u00e9cie de incesto. Queixou-se de que<br \/>\nestava indisposta, fingiu muito sono, e, como o marido insistisse, levantou-se<br \/>\nzangada e deixou escapar uma frase grosseira. O comendador ficou pasmado.<\/p>\n<p>No dia seguinte houve frieza entre o casal; e a gra\u00e7a \u00e9 que<br \/>\nTeresinha era justamente dos dois a que se mostrava mais ressentida. O desventurado<br \/>\nmarido contou discretamente o fato ao Jac\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 Hum! hum! resmungou o criado com um profundo ar de desconfian\u00e7a.<br \/>\nE aconselhou ao amo que abrisse os olhos com a mulher.<\/p>\n<p>Por esse tempo deixara o Portela a casa do comendador. Teresa muito sentida<br \/>\ncom a mudan\u00e7a, n\u00e3o p\u00f4de esconder totalmente o seu desgosto;<br \/>\nmas o rapaz aparecia de vez em quando e havia de passar os domingos em sua<br \/>\ncompanhia.<\/p>\n<p>Ele com efeito cumpriu a promessa; por\u00e9m as suas visitas, longe de<br \/>\nacalmarem a mulher do dono da casa, traziam-na em constante mart\u00edrio.<br \/>\nN\u00e3o havia meio de ficarem a s\u00f3s; ora Ol\u00edmpia, ora o comendador,<br \/>\nora o Jac\u00f3, n\u00e3o os deixavam um momento em liberdade. Portela<br \/>\nera de uma discri\u00e7\u00e3o e de uma prud\u00eancia desesperadoras;<br \/>\nestava sempre receoso de que lhe surpreendessem alguma palavra ou algum gesto<br \/>\ncomprometedor.<\/p>\n<p>\u00c0 mesa Teresinha tocava-lhe nos p\u00e9s e nas pernas, e ele se<br \/>\nretra\u00eda todo, a olhar para os lados.<\/p>\n<p>Se ela se demorava um pouco a apertar-lhe a m\u00e3o, quando Portela chegava<br \/>\nou se despedia, ele lhe opunha um olhar severo e n\u00e3o lhe dava mais<br \/>\npalavra.<\/p>\n<p>E Teresa sofria muito com tais contrariedades. Aquele amor era toda a sua<br \/>\npreocupa\u00e7\u00e3o, o seu bem, a coisa boa de sua vida; era aquele<br \/>\namor o que lhe dava a alegria, o apetite, o sono; privarem-na dele seria priv\u00e1-la<br \/>\nda sa\u00fade e por bem dizer da exist\u00eancia. Levassem-lhe tudo, com<br \/>\na breca! posi\u00e7\u00e3o social, regalias de dinheiro, j\u00f3ias,<br \/>\ncasa, o que quisessem; contanto que lhe deixassem aquele amor! Sem ele do<br \/>\nque lhe poderia servir o resto?! E, quanto mais lhe obstavam o curso dos desejos,<br \/>\nquanto mais lhe cortavam a ela os meios de se aproximar do amante, mais este<br \/>\nlhe enchia o cora\u00e7\u00e3o e lhe tomava o esp\u00edrito. A corrente<br \/>\namea\u00e7ava transformar-se em pororoca; o amor, se insistissem em repres\u00e1-lo,<br \/>\npodia de s\u00fabito converter-se em paix\u00e3o louca e desenfreada.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois de sair da casa do comendador, Portela recebeu o seguinte<br \/>\nbilhete: \u201cMeu Luiz. \u2014 Arranja, por amor de Deus, uma casa, um<br \/>\nlugar, qualquer parte, onde nos possamos encontrar. N\u00e3o posso mais!<br \/>\nMarca uma hora e eu l\u00e1 estarei sem falta. \u2014Tua T.\u201d Portela<br \/>\nsentiu um grande prazer ao receber estas palavras, mas ao mesmo tempo teve<br \/>\nmedo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fossem vir a saber!&#8230; considerava ele. Era o diabo!<br \/>\nDurante toda a noite n\u00e3o pensou noutra coisa. Seu desejo, estimulado<br \/>\npela falta dos carinhos da amante, encarecia-lhe as saudades e fazia avultarem<br \/>\nna sua mem\u00f3ria os encantos de Teresa.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia sossegar: o corpo pedia-lhe aquele amor com uma exig\u00eancia<br \/>\nirracional; desejava amar como o faminto deseja comer.<\/p>\n<p>No dia seguinte, quando foi \u00e0 casa da mulher do comendador, levava<br \/>\npronta a resposta em um pedacinho de papel, receoso de n\u00e3o ter ocasi\u00e3o<br \/>\nde falar com ela.<\/p>\n<p>Arranjara de antem\u00e3o um c\u00f4modo no campo de Santana. O lugar<br \/>\nnesse tempo prestava-se maravilhosamente para as empresas desse g\u00eanero.<\/p>\n<p>A entrevista seria \u00e0s onze e meia da manh\u00e3. Portela apresentara-se<br \/>\n\u00e0s dez, muito aflito.<\/p>\n<p>Nunca se sentira t\u00e3o sobressaltado: desde a v\u00e9spera que o<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o lhe pulsava agoniadamente; n\u00e3o pudera comer,<br \/>\nnem pudera dormir. Do\u00eda-lhe levemente a cabe\u00e7a e amargavalhe<br \/>\nna boca o gosto do fumo de que ele, naquelas \u00faltimas horas, abusara.<br \/>\nN\u00e3o tinham decorrido dez minutos, quando se ouviram duas pancadinhas<br \/>\nna porta da saleta.<\/p>\n<p>Portela correu a abrir.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o era Teresa; era o homem encarregado de limpar a casa.<\/p>\n<p>Luiz Portela atirou-lhe um olhar interrogativo.<\/p>\n<p>\u2014 Vinha varrer o quarto, explicou aquele, um pouco perturbado por<br \/>\nn\u00e3o conhecer o novo locat\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe isso para outra ocasi\u00e3o, aconselhou este.<\/p>\n<p>E, quando o outro ia a sair, acrescentou entregando-lhe uma nota de dois<br \/>\nmil reis: \u2014 Traga-me uma garrafa de cerveja e guarde o resto.<\/p>\n<p>O homem voltou com a garrafa, abriu-a, encheu um copo de cerveja e retirou-se.<br \/>\nPortela fechou de novo a porta, depois de ter recomendado que precisava ficar<br \/>\ns\u00f3.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podia sossegar um instante: ia da alcova \u00e0 janela,<br \/>\nda janela \u00e0 sala; abria um livro sobre a mesa, n\u00e3o conseguia<br \/>\nler duas linhas; sentava-se, para se levantar logo ao menor rumor que sentia<br \/>\nna escada.<\/p>\n<p>E Teresa nada de aparecer. Portela tornava-se cada vez mais inquieto e mais<br \/>\nsobressaltado.<\/p>\n<p>Estava indisposto; os goles de cerveja ca\u00edam-lhe no est\u00f4mago<br \/>\ncomo pedras.<\/p>\n<p>Os minutos arrastavam-se lentamente. Ele acendia cigarros consecutivos;<br \/>\ne passava de vez em quando pelo espelho, olhando a sua figura um pouco desfeita<br \/>\npela irregularidade daquele dia.<\/p>\n<p>Deram as doze. Portela perdeu a paci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Ora! exclamou ele, gesticulando consigo. Isto n\u00e3o se faz!<br \/>\nH\u00e1 duas horas que estou aqui a olhar para as moscas! Mas suspendeu<br \/>\nas suas considera\u00e7\u00f5es, porque sentiu parar na rua uma carruagem<br \/>\ne ouviu, logo em seguida, passos agitados subirem a escada.<\/p>\n<p>O rapaz deu uma carreira para a porta; abriu-a; e disse apressadamente para<br \/>\nquem acabava de chegar: \u2014 Aqui! \u00c9 aqui! Teresa vinha vestida<br \/>\nde preto; um v\u00e9u cobria-lhe o rosto, e toda ela tremia de como\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAo entrar, descobriu logo a cabe\u00e7a; estava muito p\u00e1lida e assustada.<br \/>\nPortela recebeu-a nos bra\u00e7os e levou-a para o sof\u00e1. Ela n\u00e3o<br \/>\npodia dar uma palavra.<\/p>\n<p>\u2014 Descansa, descansa um pouco, dizia ele, a desafront\u00e1-la do<br \/>\nchap\u00e9u e da capa.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! suspirou a mulher do comendador, como quem descarrega a consci\u00eancia<br \/>\nde um grande peso e, sem dar uma palavra, pendurou-se ao pesco\u00e7o do<br \/>\nrapaz e ficou a olhar para ele com a voluptuosidade de quem bebe com muita<br \/>\nsede. Depois principiou a conversar; disse que estivera arriscada a n\u00e3o<br \/>\npoder vir ter ali: todos pareciam acertados em contrari\u00e1-la. Narrou<br \/>\npormenores, contou as pequeninas circunst\u00e2ncias que precederam \u00e0<br \/>\nsua sa\u00edda de casa.<\/p>\n<p>Portela ouviu tudo isso com muito interesse, mas o seu sobressalto, longe<br \/>\nde diminuir com a chegada de Teresa, avultava cada vez mais.<\/p>\n<p>\u2014 Felizmente, acrescentou ela, tenho uma amiga \u00edntima, uma<br \/>\nrapariga de muita confian\u00e7a, que foi minha companheira de col\u00e9gio<br \/>\ne a quem revelei todo o nosso segredo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea? interrompeu Portela contrariado. Pois meteste mais<br \/>\nalgu\u00e9m neste neg\u00f3cio?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u00c9 que tu n\u00e3o conheces a Chiquinha&#8230; daquela n\u00e3o<br \/>\ntemos que recear coisa alguma&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o! l\u00e1 por esse lado estou segura! \u2014 Sim, sim, volveu<br \/>\no rapaz, cada vez mais preocupado; mas \u00e9 que as coisas podem mudar<br \/>\nde um dia para outro! Quem nos diz a n\u00f3s que a tua Chiquinha h\u00e1<br \/>\nde ser sempre a mesma discreta?&#8230;<\/p>\n<p>Teresa censurou aqueles receios do amante.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 homem, disse ela, voc\u00ea tamb\u00e9m tem medo de<br \/>\ntudo! Safa! nem eu que sou mulher! Ah! se eu fosse homem!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas bem, disse ele; como afinal conseguiste vir? \u2014 A Chiquinha<br \/>\nfoi buscar-me a casa para darmos um passeio. Eu estou passando o dia com ela.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas isso \u00e9 um expediente de que se n\u00e3o deve abusar.<br \/>\nNo fim de pouco tempo desconfiariam&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho medo por esse lado. Al\u00e9m disso, eu n\u00e3o<br \/>\npodia deixar de estar hoje contigo! Se soubesses como tenho passado!&#8230; Ah!<br \/>\n\u00e9 uma coisa horr\u00edvel! Era imposs\u00edvel resistir por mais<br \/>\ntempo! Ando estonteada, louquinha! E, tomando a cabe\u00e7a de Luiz Portela,<br \/>\ndisse-lhe com os l\u00e1bios encostados aos dele: \u2014 Tu me enfeiti\u00e7aste!<br \/>\nTu \u00e9s a minha perdi\u00e7\u00e3o! \u2014 E o comendador?&#8230; perguntou<br \/>\nPortela, sem corresponder \u00e0quelas car\u00edcias; n\u00e3o desconfia<br \/>\nainda de coisa alguma?&#8230;<\/p>\n<p>Teresa respondeu com um gesto muito expressivo. E acrescentou depois, com<br \/>\num ar mais s\u00e9rio: \u2014 Coitado! nem lhe passa semelhante coisa pela<br \/>\nid\u00e9ia! Portela fez ainda v\u00e1rias perguntas sobre o Jac\u00f3,<br \/>\nsobre Ol\u00edmpia, sobre as pessoas que apareciam em casa do comendador.<br \/>\nTeresa respondia por comprazer.<\/p>\n<p>Aquele assunto frio e cheio de prud\u00eancias a irritava: \u2014 Deixa<br \/>\nl\u00e1 isso! respondeu ela. Ainda n\u00e3o me deste um beijo!&#8230;<\/p>\n<p>Portela apressou-se a cumprir essa ordem, mas a rapariga notou que o impulso<br \/>\nn\u00e3o era natural. O amante parecia fora de si.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1s insuport\u00e1vel, exclamou ressentida.<\/p>\n<p>Portela confessou que se achava sobressaltado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei o que tenho! disse ele. \u00c9 a primeira vez que<br \/>\nme acho neste estado. Sinto tremores pelo corpo. Olha como tenho as m\u00e3os<br \/>\nfrias! \u2014 Eu tamb\u00e9m estou assim! respondeu ela, abra\u00e7ando-se<br \/>\nao rapaz. Mas n\u00e3o podia deixar de vir! Afigurava-se-me que morreria<br \/>\nse n\u00e3o estivesse hoje contigo&#8230; Ah! tu n\u00e3o calculas o que isto<br \/>\n\u00e9! Que noite! Que dias! Tudo me enjoava, tudo me fazia nervosa! N\u00e3o<br \/>\npodia suportar ningu\u00e9m! Se soubesses como eu ficava, quando te via<br \/>\nperto de mim sem te poder falar! Oh! Luiz! um verdadeiro supl\u00edcio!<br \/>\nE interrompeu-se, reparando que o rapaz, em vez de lhe prestar aten\u00e7\u00e3o,<br \/>\nparecia preocupado com outra coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que diabo tens tu hoje?! Est\u00e1s distra\u00eddo! Quase<br \/>\nque n\u00e3o olhas para mim! Portela respondeu puxando-a para os joelhos<br \/>\ne cobrindo-a de car\u00edcias. Naquela ocasi\u00e3o fazia ele essas coisas<br \/>\npor condescend\u00eancia, por honra da firma. E Teresa compreendeu tudo perfeitamente.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 n\u00e3o gostas de mim! queixou-se ela, tornando-se<br \/>\nigualmente pensativa.<\/p>\n<p>\u2014 Que id\u00e9ia a tua! respondeu o outro, procurando fazer-se apaixonado.<br \/>\nNunca te amei tanto! Nem sei mesmo onde isto ir\u00e1 parar!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas ent\u00e3o por que est\u00e1s assim t\u00e3o esquisito?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sei l\u00e1, disse ele, mas n\u00e3o me sinto bem&#8230;<\/p>\n<p>Dai a duas horas Teresa entrava de novo no carro e seguia para a casa da<br \/>\ntal amiga.<\/p>\n<p>Ia furiosa. Portela naquela entrevista n\u00e3o levara, absolutamente,<br \/>\nnenhuma vantagem ao comendador.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 me n\u00e3o ama! repisava consigo a leviana no seu desapontamento.<br \/>\nJ\u00e1 me n\u00e3o ama! E as l\u00e1grimas saltaram-lhe dos olhos.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que sucedera com o marido, a frieza incidental de<br \/>\nPortela, em vez de a fazer aborrec\u00ea-la, puxava-a cada vez mais para<br \/>\nele com todos os liames do desejo e do ci\u00fame.<\/p>\n<p>Depois daquela entrevista, Teresa de novo piorou de g\u00eanio, tornou-se<br \/>\nfren\u00e9tica e nervosa; voltou a tratar o marido por \u201cSeu Ferreira\u201d,<br \/>\ne a n\u00e3o poder suportar Ol\u00edmpia, nem o Jac\u00f3. As suas plantas<br \/>\nna horta foram abandonadas; afinal j\u00e1 n\u00e3o cantarolava \u00e0<br \/>\ncostura e estava sempre a pedir que a n\u00e3o importunassem.<\/p>\n<p>Portela, como todo homem f\u00fatil, ficara igualmente muito preocupado<br \/>\ncom o malogro da entrevista, e tratou de realizar uma nova, s\u00f3 com<br \/>\na vaidosa inten\u00e7\u00e3o de destruir o mau efeito da primeira. Depois<br \/>\nseguiram-se outras, e outras; at\u00e9 que o rapaz alugou em Catumbi uma<br \/>\ncasinha adequada aos seus amores e principiou a receber a amante, regularmente,<br \/>\nduas vezes por semana.<\/p>\n<p>No fim de dois meses j\u00e1 se riam eles dos seus primeiros sobressaltos.<\/p>\n<p>Teresa tornara-se um pouco descuidada com a vizinhan\u00e7a. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o tinham entre si a menor cerim\u00f4nia; tratavam-se j\u00e1<br \/>\ncomo velhos amigos, \u00e0 vontade, c\u00f4nscios de que qualquer um faria<br \/>\nfalta ao outro, por uma quest\u00e3o de h\u00e1bito. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nhavia entro eles frases apaixonadas, havia agora as pilh\u00e9rias da intimidade<br \/>\nvelhaca e pagodista.<\/p>\n<p>Teresa possu\u00eda uma chave do lat\u00edbulo, entrava sem sobressaltos,<br \/>\nmudava de roupa, porque ela j\u00e1 tinha roupa em casa do Portela, e depois<br \/>\nesperava que chegasse o amante.<\/p>\n<p>Um dia apareceu fora da hora em que costumava, e disse resolutamente que<br \/>\nn\u00e3o estava disposta a voltar para o lado do marido.<\/p>\n<p>Portela fez um grande ar de surpresa.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 o que te digo! sustentou ela; n\u00e3o volto! \u2014<br \/>\nMas filha, pense um pouco antes de fazer semelhante asneira! Tu sabes que<br \/>\nnem tudo neste mundo s\u00e3o rosas!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora! respondeu ela, sacudindo os ombros. Estou farta de ouvir conselhos!<br \/>\n\u2014 Mas \u00e9 que eu&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o podes ter mulher, n\u00e3o \u00e9 isso?&#8230; Ora escuta<br \/>\nl\u00e1 e depois me dar\u00e1s a resposta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o j\u00e1 tens um programa?! perguntou Portela, a sorrir.<\/p>\n<p>\u2014 Um programa? Sim, e tenho tamb\u00e9m coisa ainda melhor! tenho<br \/>\num dote, disse ela; um dote em a\u00e7\u00f5es, que me fez meu marido<br \/>\npor ocasi\u00e3o de casarmos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E da\u00ed?&#8230; perguntou o rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Da\u00ed \u00e9 que deixamos o Rio de Janeiro; metemo-nos em<br \/>\nqualquer prov\u00edncia ou onde melhor te pare\u00e7a, e tu te estabeleces<br \/>\ncom o meu dote, o que ser\u00e1 f\u00e1cil, pois, com o talento que possuis<br \/>\npara o com\u00e9rcio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 asneira! \u2014 Asneira, por qu\u00ea?! \u2014<br \/>\nPorque, desde que abandones o comendador, nenhum direito ter\u00e1s ao dote<br \/>\nque ele te fez.<\/p>\n<p>\u2014 Diz a Chiquinha que n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 A Chiquinha n\u00e3o entende disto! \u2014 Eu ent\u00e3o n\u00e3o<br \/>\ntenho direito a coisa alguma?! \u2014 Sei c\u00e1; s\u00f3 um advogado<br \/>\no poderia dizer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O que me parece \u00e9 que tu n\u00e3o tens vontade de ficar<br \/>\ncomigo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sejas tola! Se n\u00e3o tivesse j\u00e1 o teria declarado<br \/>\nh\u00e1 mais tempo.<\/p>\n<p>E, depois de guardarem ambos um sil\u00eancio de alguns segundos, Portela<br \/>\ndisse vagamente: \u2014 Se o comendador se lembrasse de morrer agora!&#8230;<br \/>\nIsso \u00e9 que seria obra!&#8230;<\/p>\n<p>Teresa olhou para o rapaz com um ar cheio de interroga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9! justificou ele; se o comendador morresse, as coisas correriam<br \/>\nnaturalmente&#8230; Eu casava-me contigo, estabelecia-me, e ir\u00edamos viver<br \/>\njuntos, independentes e felizes&#8230;<\/p>\n<p>E acrescentou, depois de uma pausa: \u2014 Imagina que amanh\u00e3 teu<br \/>\nmarido amanhece indisposto. Vem o m\u00e9dico e declara que a mol\u00e9stia<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 de cuidado. \u201cAchaques da velhice!\u201d Recomenda<br \/>\nregularidade na vida, abstin\u00eancia de uns tantos prazeres e receita qualquer<br \/>\ncalmante. O comendador principia a tomar o rem\u00e9dio, mas, de dia para<br \/>\ndia, se vai sentindo pior. Afinal, uma bela manh\u00e3, quando ningu\u00e9m<br \/>\nespera por isso, encontra-se o homem morto&#8230; O m\u00e9dico passa o seu<br \/>\natestado; tu te cobres de luto, recebes as visitas de p\u00easames das amigas,<br \/>\nchoras naturalmente em presen\u00e7a de algumas delas, e, um ano depois,<br \/>\nos nossos amigos l\u00eaem com prazer a not\u00edcia do nosso casamento&#8230;<br \/>\nUma vez casados, ir\u00edamos morar a\u00ed em qualquer arrabalde, escolher\u00edamos<br \/>\num chalezinho pr\u00f3prio para a lua de mel&#8230;<\/p>\n<p>Eu tratarei de te fazer esquecer a perda de teu comendador, e tu serias<br \/>\nminha, minha, sem sobressaltos, nem receios rid\u00edculos, pertencendo-me<br \/>\na todas as horas e a todos os momentos! E Portela, depois de beijar e abra\u00e7ar<br \/>\na amante, continuou como se falasse em um sonho: \u2014 Parece que j\u00e1<br \/>\nme vejo dentro dessa felicidade, voltando \u00e0 tarde aos teus bra\u00e7os,<br \/>\ncansado do trabalho, comido pela fadiga, mas com o cora\u00e7\u00e3o satisfeito<br \/>\npor encontrar-te em casa alegre, viva, contente com o nosso amor! Parece que<br \/>\npressinto as nossas noites de casados: calmas, doces, descansadas! Teresa<br \/>\nsuspirou.<\/p>\n<p>\u2014 Devia ser delicioso!&#8230; continuou Portela. Uma exist\u00eancia<br \/>\ncompleta entre n\u00f3s dois!&#8230; A mesa bem provida; a casa bem iluminada;<br \/>\no amor bem confortado!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Cala-te! disse Teresa.<\/p>\n<p>\u2014 Al\u00e9m disso, os passeios, os bailes, as noitadas de palestra<br \/>\ncom os amigos, em volta \u00e0 mesa de ch\u00e1. Depois a nossa independ\u00eancia,<br \/>\no nosso bem-estar, a nossa felicidade!&#8230;<\/p>\n<p>Teresa ficou pensativa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o achas que tudo isso seria muito melhor?&#8230; perguntou-lhe<br \/>\no rapaz, beijando-lhe os bra\u00e7os carnudos.<\/p>\n<p>\u2014 Se acho!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois olha que est\u00e1 tudo em tuas m\u00e3os! segredou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Hein?! Como?! Est\u00e1s gracejando! \u2014 N\u00e3o! Para<br \/>\ntudo isso era bastante que o comendador morresse.<\/p>\n<p>Teresa estremeceu e abaixou os olhos, receosa de compreender o pensamento<br \/>\ndo amante.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00eas este frasquinho? perguntou Portela, tirando um frasco<br \/>\nde uma gaveta. Tem cinq\u00fcenta gotas. Dando-se uma delas por dia ao comendador,<br \/>\nno fim de um m\u00eas ele morreria, sem que ningu\u00e9m soubesse qual<br \/>\no motivo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Veneno! \u2014 Sim, mas muito lento!&#8230; \u00c9 um veneno quase<br \/>\ninocente&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho \u00e2nimo de fazer isso! balbuciou Teresa, perturbada<br \/>\nem extremo.<\/p>\n<p>\u2014 Nem eu te aconselho que o fa\u00e7as; apenas disse que, se nos<br \/>\ntiv\u00e9ssemos de desembara\u00e7ar dele, dev\u00edamos preferir este<br \/>\nexpediente a outro qualquer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ele me ama tanto!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o, filha, deixa-te ficar como est\u00e1s. Ora<br \/>\nessa! \u2014 Mas eu n\u00e3o o posso suportar! \u2014 N\u00e3o o suportes!<br \/>\n\u2014 Mas n\u00e3o posso mais viver sem o teu amor! \u2014 Ent\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o sei o que te fa\u00e7a! \u2014 Antes, fug\u00edssemos! Ficar\u00edamos,<br \/>\nbem sei, em uma posi\u00e7\u00e3o muito mais falsa, mas ter\u00edamos<br \/>\nao menos a consci\u00eancia tranq\u00fcila&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois isso \u00e9 que n\u00e3o estou disposto a fazer! L\u00e1<br \/>\nfugir, ser talvez perseguido, vir a sofrer qualquer afronta, ter, quem sabe?<br \/>\nde comparecer a tribunais, n\u00e3o \u00e9 comigo! Gosto muito de ti,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 d\u00favida! tu \u00e9s a \u00fanica mulher pela<br \/>\nqual seria eu capaz de fazer uma inf\u00e2mia; mas arranjar as coisas de<br \/>\nmodo que, afinal de contas, viesse a ficar privado tanto de ti como da minha<br \/>\nliberdade, isso \u00e9 o que n\u00e3o fa\u00e7o! porque, vamos e venhamos!<br \/>\ncontinuando o comendador a existir, que diabo de felicidade pode ser a nossa?!&#8230;<br \/>\nvivermos por a\u00ed odiados, escondidos, sem poder gozar coisa alguma?!<br \/>\nOra seria isso um inferno para qualquer um de n\u00f3s! Ao passo que, n\u00e3o<br \/>\nexistindo o comendador, fico eu herdeiro de todos os seus direitos. Tu nesse<br \/>\ncaso, n\u00e3o ser\u00e1s minha amante, ser\u00e1s minha esposa; eu<br \/>\nte poderei levar para toda a parte, apresentar-te dignamente em todas as rodas,<br \/>\ne, o que \u00e9 melhor, viver sossegado, sem ter de evitar conversas a teu<br \/>\nrespeito, sem ter de quem recear e de quem fugir!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 abomin\u00e1vel matar uma criatura! considerou Teresa,<br \/>\nofegante.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, filha! abomin\u00e1vel \u00e9 um velho daqueles lembrar-se<br \/>\nde casar contigo! Que diabo! quem n\u00e3o quer ser lobo n\u00e3o lhe<br \/>\nveste a pele! Pois aquele homem n\u00e3o devia logo compreender que tu n\u00e3o<br \/>\nte poderias contentar com ele?&#8230; Para que ent\u00e3o casou?! Se algum de<br \/>\nvoc\u00eas dois tem raz\u00e3o, \u00e9s tu, minha tola, porque tu foste<br \/>\na lesada, foste a v\u00edtima! Casando-te, levaste um capital de mocidade,<br \/>\nde frescura e de amor; tinhas direito a exigir de teu noivo uma parte correspondente!<br \/>\nSe o matares, n\u00e3o far\u00e1s com isso mais do que cortar a grilheta<br \/>\ncom que te amarraram os p\u00e9s! Eras inexperiente, n\u00e3o tinhas sequer<br \/>\nid\u00e9ia do que fosse a vida, a felicidade conjugal; teu corpo de virgem<br \/>\nnada exigia, porque nada conhecia. Entretanto; um homem, decr\u00e9pito<br \/>\ne in\u00fatil, ambicionou amarrar o teu destino ao dele; pediu-te \u00e0<br \/>\ntua fam\u00edlia; ele era rico: deram-te ou, melhor, venderamte.<\/p>\n<p>Mas tu, um belo dia, acordaste, mulher; tiveste ent\u00e3o as tuas aspira\u00e7\u00f5es,<br \/>\nos teus desejos; o amor reclamou os seus direitos! Bem; o que te competia<br \/>\ndecidir em semelhante caso?! Das duas uma: ou abra\u00e7ares o papel de<br \/>\nvitima e resignar-te a aturar o trambolho a que te prenderam; ou ent\u00e3o<br \/>\nreagires, entregando-te francamente ao homem que escolhesses. Tu escolheste<br \/>\num; fui eu! Agora est\u00e1 dado o passo; voltar atr\u00e1s seria loucura,<br \/>\ne para prosseguir, s\u00f3 h\u00e1 um meio: \u00e9 dar cabo do comendador!<br \/>\n\u2014 Mas isso \u00e9 um crime horr\u00edvel! respondeu Teresa, segurando<br \/>\na cabe\u00e7a com ambas as m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Crime horr\u00edvel, torno-te a dizer, foi o teu casamento com<br \/>\naquele velho! Isso \u00e9 que \u00e9 um crime horr\u00edvel, porque<br \/>\n\u00e9 a morte sem a morte, \u00e9 a morte sem a insensibilidade e sem<br \/>\no esquecimento! \u2014 Em todo o caso, considerou a rapariga, desafrontando<br \/>\no peito com um enorme suspiro; se ele se casou comigo, \u00e9 porque me<br \/>\namava e porque supunha fazer-me feliz!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Crian\u00e7a! exclamou o outro com um gesto de compaix\u00e3o.<br \/>\nPorque te amava! Grande f\u00faria, na verdade! Compreendo que houvesse<br \/>\nnesse amor alguma por\u00e7\u00e3o de generosidade e abnega\u00e7\u00e3o,<br \/>\nse fosses uma mulher feia e dif\u00edcil de suportar; mas tu, mo\u00e7a,<br \/>\nencantadora e cheia de atrativos; tu que tens esses olhos, esses dentes e<br \/>\nessas carnes, n\u00e3o podes, nem deves receber como um obs\u00e9quio<br \/>\no amor que porventura te consagrem. N\u00e3o! porque esse amor nada mais<br \/>\n\u00e9 que urna manifesta\u00e7\u00e3o do ego\u00edsmo! O comendador<br \/>\ncasou-se contigo, n\u00e3o para te prestar um servi\u00e7o, mas sim para<br \/>\nprestar um servi\u00e7o a ele pr\u00f3prio. Amou-te por amor dele e n\u00e3o<br \/>\npor amor de ti! N\u00e3o h\u00e1 por conseguinte no ato de teu marido<br \/>\na menor id\u00e9ia de sacrif\u00edcio e de abnega\u00e7\u00e3o. Mas,<br \/>\ndada a hip\u00f3tese que ele n\u00e3o se limitasse a dar-te unicamente<br \/>\no nome de esposa e te desse tamb\u00e9m todos os regalos que se possam imaginar<br \/>\nna vida, ainda assim n\u00e3o haveria nas suas a\u00e7\u00f5es a menor<br \/>\ninten\u00e7\u00e3o altru\u00edsta, porque, se ele fizesse tudo isso,<br \/>\nera simplesmente porque sentiria muito prazer em te agradar e estaria, por<br \/>\nconseguinte, tratando de deliciar o seu pr\u00f3prio gosto! \u2014 Acredito!&#8230;<br \/>\nvolveu Teresa meio convencida; mas \u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Em todo caso, filha, uma coisa \u00fanica tenho a dizer-te e \u00e9<br \/>\nque, no p\u00e9 em que estamos, eu, s\u00f3 me casando contigo, tomarei<br \/>\nconta de ti; de outro modo, n\u00e3o! N\u00e3o quero, porque sei que iria<br \/>\ncriar futuras dificuldades. Vai para casa, pensa bem no que me ouviste, e<br \/>\ndepois ent\u00e3o decidiremos!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que j\u00e1 n\u00e3o me amas! disse Teresa, limpando<br \/>\nos olhos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 senhores! n\u00e3o te amo! Mas eu estou justamente disposto<br \/>\na casar contigo, e dizes que n\u00e3o te amo?! Ora deixa-te de tolices!<br \/>\nTeresa retirou-se para casa muito abatida e contrariada. O amante colocara<br \/>\na quest\u00e3o em p\u00e9 deveras espinhoso para ela; mas enfim, era preciso<br \/>\ntomar uma delibera\u00e7\u00e3o. No dia seguinte estaria tudo decidido.<\/p>\n<p>Os desgra\u00e7ados, por\u00e9m, n\u00e3o sabiam que Jac\u00f3 havia<br \/>\nseguido a mulher do patr\u00e3o nesta \u00faltima entrevista e, oculto,<br \/>\nouvira tudo o que os dois disseram.<\/p>\n<p>Vejamos agora como chegou ele a fazer semelhante coisa, e quais foram as<br \/>\ntempestuosas conseq\u00fc\u00eancias do seu ato.<\/p>\n<h2><a name=\"22\"><\/a> XXII TEMPESTADE SOLTA<\/h2>\n<p>Jac\u00f3 desde o momento em que desconfiara que Teresa enganava o marido,<br \/>\nnunca mais a perdeu de vista. Os passeios ao campo de Santana e depois \u00e0<br \/>\nnova casa de Portela em Catumbi n\u00e3o lhe passaram despercebidos; uma<br \/>\nocasi\u00e3o acompanhou de perto a mulher do amo e ficou inteirado do lugar<br \/>\nonde ela ia. Saber ao certo do objeto dessas visitas clandestinas era toda<br \/>\na sua preocupa\u00e7\u00e3o; de sorte que, na \u00faltima, em que vimos<br \/>\nPortela falar t\u00e3o cinicamente a respeito da vantagem de matar o comendador,<br \/>\no fiel Jac\u00f3 se havia precisamente introduzido, pela primeira vez, em<br \/>\ncasa do sedutor, e escutara o conluio entre os dois amantes.<\/p>\n<p>Jac\u00f3, chegando a casa, sem mais rodeios contou tudo ao patr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Hein?! E imposs\u00edvel! exclamou o comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Pois se lhe estou a dizer, meu rico amo!&#8230; Vossemec\u00ea estaria<br \/>\nde passagem tomada para o outro mundo, se a fortuna n\u00e3o me pusesse<br \/>\na par dos projetos daquele malvado. Ele quer dar cabo de vossemec\u00ea,<br \/>\npara ao depois tomar conta da Sra. D. Teresinha&#8230;<\/p>\n<p>O comendador passeou agitado no quarto por alguns segundos, e tornou logo<br \/>\na interrogar o criado. Jac\u00f3 explicou-lhe tudo.<\/p>\n<p>\u2014 Bem! disse o pai de Ol\u00edmpia. Obrigado. Eu tratarei de defender<br \/>\na minha vida! Teresa nesse dia apareceu ao marido muito mais expansiva e risonha.<br \/>\nTodavia, um esp\u00edrito observador teria notado que a sua alegria era<br \/>\nfingida e que toda aquela expans\u00e3o encobria algum projeto trai\u00e7oeiro.<\/p>\n<p>O comendador, \u00e0s horas do ch\u00e1, queixou-se de que estava indisposto<br \/>\ne recolheu-se ao quarto; Teresa n\u00e3o lhe abandonou a cabeceira da cama,<br \/>\nsen\u00e3o quando o doente declarou que precisava ficar s\u00f3.<\/p>\n<p>No dia seguinte, na ocasi\u00e3o em que a esposa lhe foi dar os costumados<br \/>\nbons dias, ele a encarou de modo estranho e disse-lhe, com uma resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nque Teresa lhe conhecia: \u2014 Veja ali o papel e a pena! \u2014 Quer escrever?&#8230;<br \/>\nperguntou a manhosa, fingindo grande solicitude. N\u00e3o v\u00e1 isso<br \/>\nlhe fazer mal!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou eu quem tem de escrever; \u00e9 a senhora! Vamos!<br \/>\nfa\u00e7a o que lhe digo! A porta do quarto estava previamente fechada.<br \/>\nTeresa foi buscar o que o marido lhe ordenara.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, disse o velho, estendendo-se no leito; agora escreva o que<br \/>\nlhe vou ditar.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea?! perguntou Teresa, empalidecendo.<\/p>\n<p>\u2014 Mais tarde o saber\u00e1&#8230; Algu\u00e9m duvida que a senhora<br \/>\nseja uma esposa virtuosa e eu desejo provar o contr\u00e1rio. \u00c9 um<br \/>\ncapricho da velhice ou talvez uma fantasia da enfermidade.<\/p>\n<p>\u2014 Estou \u00e0s suas ordens, balbuciou a mulher com a voz tr\u00eamula.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso fa\u00e7a o favor de escrever: \u201cMeu caro Luiz\u201d.<br \/>\nTeresa sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo; quis opor qualquer raz\u00e3o<br \/>\n\u00e0 ordem do marido, mas n\u00e3o encontrou uma palavra.<\/p>\n<p>\u2014 Escreveu? perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 escrito, respondeu ela; mas confesso-lhe que n\u00e3o<br \/>\ncompreendo o que tudo isto quer dizer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nem \u00e9 necess\u00e1rio, afirmou o comendador tranq\u00fcilamente.<br \/>\nE continuou a ditar: \u201cEstou por tudo o que desejas&#8230;\u201d Teresa<br \/>\nhesitou.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o?!&#8230; reclamou o marido. A senhora escreve ou n\u00e3o<br \/>\nescreve?! \u2014 Mas o senhor exige de mim um sacrif\u00edcio superior<br \/>\n\u00e0s minhas for\u00e7as; eu n\u00e3o sei a quem isto ser\u00e1<br \/>\ndirigido!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A senhora sabe perfeitamente&#8230; Continue! \u2014 N\u00e3o! disse<br \/>\nela; n\u00e3o posso continuar! O senhor com certeza delira sob a influ\u00eancia<br \/>\nda febre! \u2014 \u00c9 poss\u00edvel&#8230; disse o velho sorrindo ironicamente.<br \/>\nPode ser que tudo isto n\u00e3o passe de um del\u00edrio&#8230; em todo caso,<br \/>\na senhora h\u00e1 de escrever o que lhe estou ditando ou me obrigar\u00e1<br \/>\na tomar resolu\u00e7\u00e3o mais s\u00e9ria! \u2014 Mas para que exige<br \/>\no senhor que eu escreva semelhante coisa?! \u2014 J\u00e1 disse que mais<br \/>\ntarde o saber\u00e1! Por enquanto basta que me obede\u00e7a! E o comendador,<br \/>\npossu\u00eddo de inesperada energia, levantou-se de um salto da cama e,<br \/>\nsegurando a mulher por um dos pulsos, exclamou arremessando-a contra a mesa:<br \/>\n\u2014 Escreva, ou eu a mato aqui mesmo! \u2014 Socorro! gritou Teresa.<\/p>\n<p>\u2014 Pode gritar \u00e0 vontade, bramiu ele. A \u00fanica pessoa<br \/>\nque est\u00e1 em casa \u00e9 o Jac\u00f3, e esse n\u00e3o se importar\u00e1<br \/>\ncom os seus gritos! \u2014 Nesse caso \u00e9 melhor que o senhor me d\u00ea<br \/>\nlogo cabo da exist\u00eancia, em vez de obrigar-me a sofrer desta forma!<br \/>\n\u2014 Nessa n\u00e3o caio eu! exclamou o marido. Hei de amarr\u00e1-los,<br \/>\num ao outro, e tanto me bastar&amp;aaaacute; para minha vingan\u00e7a! No dia<br \/>\nem que qualquer responsabilidade os unir, estarei mais que vingado, porque<br \/>\nvoc\u00eas dois, miser\u00e1veis, h\u00e3o de odiar-se em breve! e cada<br \/>\num se encarregar\u00e1 ent\u00e3o de punir o companheiro de crime! \u2014<br \/>\nN\u00e3o o compreendo! disse a mulher, afetando grande surpresa.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o seja hip\u00f3crita! gritou o velho procurando reaver<br \/>\no seu sangue frio. J\u00e1 sei de tudo. Ele espera uma resposta sua para<br \/>\nremeter o veneno com que a senhora me tinha de assassinar! \u2014 Valha-me<br \/>\nDeus! exclamou Teresa. Isso \u00e9 uma terr\u00edvel cal\u00fania! \u2014<br \/>\nPois se \u00e9 cal\u00fania, escreva; que nesse caso a sua carta lhe servir\u00e1<br \/>\nde defesa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas como hei de eu escrever uma coisa que n\u00e3o sinto?! \u2014<br \/>\nN\u00e3o me interrogue, porque n\u00e3o estou disposto a dar-lhe explica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA senhora, ou escreve o que lhe vou ditar, ou n\u00e3o sair\u00e1 viva<br \/>\ndeste quarto! \u2014 O senhor n\u00e3o pode dispor assim de minha vida!<br \/>\n\u2014 E poderia a senhora, por acaso, dispor de minha honra como disp\u00f4s?<br \/>\n\u2014 Eu n\u00e3o o desonrei! \u2014 Veremos agora. Escreva! \u2014<br \/>\nPois escrevo! O senhor ficar\u00e1 convencido de que sou inocente.<\/p>\n<p>O comendador ditou ent\u00e3o: \u2014 \u201cEstou por tudo o que me<br \/>\npropuseste. Manda o frasquinho e&#8230;\u201d \u2014 N\u00e3o fa\u00e7o<br \/>\nsemelhante coisa, exclamou Teresa, arremessando a pena e levantando-se com<br \/>\n\u00edmpeto.<\/p>\n<p>\u2014 Pois farei eu&#8230; disse o comendador, tomando o lugar que a mulher<br \/>\nacabava de deixar. E gritou para fora: \u2014 O Jac\u00f3! O criado bateu<br \/>\n\u00e0 porta.<\/p>\n<p>\u2014 Abre e entra, respondeu o amo.<\/p>\n<p>Ouviu-se ranger a fechadura, e em seguida surgiu no aposento o respeit\u00e1vel<br \/>\nvulto do velho fl\u00e2mulo.<\/p>\n<p>\u2014 Tens de arranjar um portador para este bilhete, ordenou-lhe o comendador.<br \/>\nJ\u00e1 sabes do que se trata. Recomenda que esperem pela resposta e entrega-ma<br \/>\nlogo que chegar.<\/p>\n<p>E voltando-se para a mulher, acrescentou: \u2014 A senhora n\u00e3o sair\u00e1<br \/>\ndaqui enquanto n\u00e3o vier a decis\u00e3o! Teresa atirou-se aos p\u00e9s<br \/>\ndo marido, a solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>\u2014 Perdoa exclamou ela, abra\u00e7ando-lhe os joelhos; perdoa! Eu<br \/>\nn\u00e3o sei o que digo! eu n\u00e3o sei o que fa\u00e7o! Juro-te entretanto<br \/>\nque n\u00e3o sou t\u00e3o culpada como pare\u00e7o! Desejava ser honesta;<br \/>\ndesejava ser o modelo das esposas; todo meu sonho era cumprir \u00e0 risca<br \/>\nos meus deveres! mas a natureza me arrebatava para os crimes de que me acusas;<br \/>\ntudo me impelia para o mal, tudo me puxava para o adult\u00e9rio! Ah! tu<br \/>\nn\u00e3o sabes decerto o que \u00e9 ter a minha idade, o meu temperamento,<br \/>\no meu sangue! Tu n\u00e3o sabes o qu\u00ea \u00e9 a mulher! o que \u00e9<br \/>\na natureza! o que s\u00e3o estes nervos, esta carne, e tudo isto que grita<br \/>\ndentro de n\u00f3s, como bocas com fome! J\u00e1 agora falo-te com toda<br \/>\na franqueza. Eu nunca tive a id\u00e9ia de faltar-te ao respeito; estimava-te,<br \/>\ncomo se fosses meu pai; desejava o teu bem-estar, a tua felicidade, a tua<br \/>\nalegria, como se deseja a ventura do melhor amigo mas eu precisava de amor,<br \/>\nn\u00e3o do amor frio e adormecido que me proporcionavas, mas de um amor<br \/>\nardente, fecundo, apaixonado, de algu\u00e9m que tivesse a minha idade.<br \/>\nSei que fiz mal em sucumbir aos reclamos desta miser\u00e1vel mat\u00e9ria;<br \/>\nmas que queres tu?! n\u00e3o fui eu quem me fez e quem decretou as leis<br \/>\nque haviam de reger os meus sentidos! Sucumbi, mas n\u00e3o sou a respons\u00e1vel<br \/>\npela minha queda! Se quiseres, mata-me; faze o que entenderes de mim; eu te<br \/>\nn\u00e3o amaldi\u00e7oarei; mas, por amor de Deus! poupa aquele mo\u00e7o,<br \/>\nque de nenhuma culpa tem do que sucedeu. Fui eu quem o arrastou, quem o seduziu!<br \/>\nEle n\u00e3o seria capaz de cometer essa inf\u00e2mia, porque \u00e9<br \/>\nhomem e n\u00e3o est\u00e1 como n\u00f3s outras, m\u00edseras mulheres,<br \/>\nseguro pelas carnes e pelos cabelos \u00e0s unhas do pecado! \u2014 Tu<br \/>\no adoras, desgra\u00e7ada! exclamou o comendador, ferido no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Sim! respondeu Teresa, pondo-se de p\u00e9 e olhando friamente<br \/>\npara o marido. Eu o adoro! Se me tivessem casado com um mo\u00e7o, \u00e9<br \/>\nnatural que me n\u00e3o lembrasse de ter um amante; mas tu \u00e9s um<br \/>\nvelho, tu \u00e9s um destro\u00e7o; a ti poderia dedicar minha alma, mas<br \/>\nmeu corpo, esse teria de pertencer fatalmente a algu\u00e9m que o escravizasse,<br \/>\na algu\u00e9m que lhe pudesse domar os \u00edmpetos! E Teresa, ao terminar<br \/>\nestas palavras, caiu arquejante sobre uma cadeira, a resfolegar aliviada,<br \/>\ncomo se acabasse de despejar um grande peso da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>O marido, im\u00f3vel ao lado dela, n\u00e3o lhe tirava de cima o seu<br \/>\nfrio olhar de c\u00f3lera ciumenta.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 nada existe de comum entre n\u00f3s&#8230; disse afinal<br \/>\na desgra\u00e7ada, passando a m\u00e3o pelo rosto.<\/p>\n<p>Foi at\u00e9 melhor que nos entend\u00eassemos por uma vez! Eu, confesso,<br \/>\nn\u00e3o podia suportar o senhor por mais tempo&#8230; Pesava-me engan\u00e1-lo;<br \/>\nn\u00e3o sirvo para a trai\u00e7\u00e3o e para o embuste: sou capaz<br \/>\nde uma loucura, mas repugna-me praticar uma covardia&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por que ent\u00e3o se casou comigo!?&#8230; perguntou o comendador<br \/>\ncom a voz tr\u00eamula. Para que consentiu, se me n\u00e3o podia suportar,<br \/>\nque ligassem o meu triste destino ao seu? Se me n\u00e3o amava, ou se n\u00e3o<br \/>\nsentia a coragem de conservar-se fiel aos votos do matrim\u00f4nio, por que<br \/>\no n\u00e3o declarou com franqueza antes de arriscar meu nome e minha honra?<br \/>\nPara que me iludiu?! Oh! a senhora \u00e9 perversa! Um pouco de bondade<br \/>\na teria levado a proceder de outro modo; se o marido, se o homem, n\u00e3o<br \/>\nlhe merecia amor e dedica\u00e7\u00e3o, o pobre velho devia ao menos inspirar-lhe<br \/>\nd\u00f3 ou piedade! Que lhe custava esperar um pouco que eu fechasse os<br \/>\nolhos?&#8230; N\u00e3o tenho tanto a viver&#8230;<\/p>\n<p>e a senhora depois poderia fartar \u00e0 vontade todos os seus instintos<br \/>\ndesordenados. Mas n\u00e3o! preferiu amargurar-me o resto da vida, preferiu<br \/>\ncobrir-me a velhice de vergonha e desgostos; n\u00e3o consentiu que eu pudesse<br \/>\nretirar-me para a sepultura sem ir amortalhado nos farrapos da minha pobre<br \/>\ndignidade, que a senhora estra\u00e7alhou nos seus momentos desenfreados<br \/>\nde lux\u00faria! \u2014 Oh! exclamou Teresa, cobrindo o rosto com as m\u00e3os.<br \/>\n\u00c9 demais! \u2014 Tarde, bem tarde lhe assiste o pudor, minha senhora!<br \/>\ncontinuou o velho, fazendo um gesto de desprezo. N\u00e3o acredito que minhas<br \/>\npalavras, por muito duras e grosseiras, possam encontrar eco em cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nt\u00e3o corrompido! \u2014 Mas para que me h\u00e1 de o senhor insultar<br \/>\ndesta maneira? perguntou Teresa, erguendo-se de novo. Se me casei com o senhor,<br \/>\nse consenti em ligar-me ao seu destino, n\u00e3o foi, repito, porque o quisesse<br \/>\nenganar; foi porque n\u00e3o conhecia absolutamente os segredos do meu destino<br \/>\nde mulher.<\/p>\n<p>Podia eu, porventura, prever o que me esperava? sabia eu por acaso o que<br \/>\n\u00e9 amar ou aborrecer um homem?&#8230; Uma criatura nas circunst\u00e2ncias<br \/>\nem que me casei nada entende dessas coisas.<\/p>\n<p>Aceita o primeiro marido que atiram sobre ela, como aceitaria qualquer outro!<br \/>\nPor que o iludi? perguntou o senhor; e eu, porventura, n\u00e3o fui tamb\u00e9m<br \/>\niludida?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Iludida?! interrogou o comendador, escancarando os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Decerto! respondeu a ad\u00faltera. O senhor, durante o tempo<br \/>\nem que me procurou agradar, n\u00e3o denunciou nenhum dos seus defeitos,<br \/>\nnenhum dos seus achaques, nenhum dos seus lados antip\u00e1ticos; fez, ao<br \/>\ncontr\u00e1rio, todo o poss\u00edvel para os encobrir com artif\u00edcio<br \/>\ne grande habilidade.<\/p>\n<p>Escondeu-me as suas mis\u00e9rias de velho, disfar\u00e7ou a sua decrepitude<br \/>\ne afetou entusiasmo pelas coisas do esp\u00edrito; volveu-se mo\u00e7o,<br \/>\nterno, apaixonado, estudou frases sedutoras, recitou versos, falou de prazeres<br \/>\nideais, fingiu abnega\u00e7\u00e3o, hero\u00edsmo, coragem, enfeitou-se<br \/>\nenfim de poesia; e, entretanto, uma vez apoderado de mim, uma vez que me julgou<br \/>\nsegura para todo o resto de sua vida, atirou com os disfarces pela janela<br \/>\ne p\u00f4s \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o um resto de homem, ego\u00edsta,<br \/>\nfraco, cheio de asma, rabugento e in\u00fatil! \u2014 Senhora! \u2014<br \/>\n\u00c9 essa a verdade! Iludir! iludir! Iludida fui eu, porque eu era justamente<br \/>\na mais ing\u00eanua, a mais c\u00e2ndida e passiva, a mais f\u00e1cil<br \/>\nde enganar! Acredito que o senhor fosse igualmente iludido, mas foi por si<br \/>\npr\u00f3prio, porque se acreditou capaz de inspirar amor a uma mulher da<br \/>\nidade que eu tinha ent\u00e3o! \u2014 N\u00e3o foi isso o que me cegou,<br \/>\ndisse o comendador. Todo o meu erro foi sup\u00f4-la virtuosa.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, meu caro senhor, a virtude \u00e9 sempre uma coisa muito<br \/>\nrelativa; \u00e9 sempre uma conseq\u00fc\u00eancia e nunca um princ\u00edpio.<br \/>\nToda mulher \u00e9 virtuosa, desde que ela tenha a quem dedicar essa virtude;<br \/>\n\u00e9 uma quest\u00e3o de gratid\u00e3o, de reciprocidade e \u00e0s<br \/>\nvezes de interesse pr\u00f3prio. Mas por onde fez o senhor para merecer<br \/>\nminha virtude?&#8230; Por que era meu marido? Mas que esp\u00e9cie de marido<br \/>\nera o senhor?! Admito que me lan\u00e7asse em rosto aceitar o amor de um<br \/>\nestranho, se eu tivesse \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o o amor que<br \/>\no senhor me dedicasse. Mas onde est\u00e1 ele? por onde mo revelou? Trazendo-me<br \/>\npara esta casa e dando-me o que comer?! Isso n\u00e3o basta! \u2014 Belas<br \/>\nteorias! n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida!&#8230; disse o comendador, sacudindo<br \/>\na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o pelo menos verdadeiras! respondeu Teresa, j\u00e1 cansada<br \/>\nde falar.<\/p>\n<p>E, depois de tomar f\u00f4lego, acrescentou: \u2014 E ainda vem o senhor<br \/>\ndizer, no seu fraseado cheio de afeta\u00e7\u00e3o, que eu devia ao menos<br \/>\nter d\u00f3 ou piedade do pobre velho, j\u00e1 que o homem, o marido,<br \/>\nn\u00e3o me havia merecido amor! Mas valha-me Deus! Eu n\u00e3o me casei<br \/>\npara ter d\u00f3 de quem quer que fosse!&#8230; Eu n\u00e3o me propus ser<br \/>\numa irm\u00e3 de caridade; eu apenas me propus dar amor em troca de amor;<br \/>\nceder o meu valimento de mulher em troca da compet\u00eancia de um homem!<br \/>\n\u201cDevia ao menos ter d\u00f3 do pobre velho!\u201d E o velho teve<br \/>\nporventura d\u00f3 de mim?! N\u00e3o sabia ele que, o ligar-se a uma rapariga<br \/>\nforte, perfeita, em plena sa\u00fade e em pleno vigor do sangue, eq\u00fcivalia<br \/>\na encarcer\u00e1-la num convento, entregue aos sobressaltos da sua mocidade<br \/>\ne ao jugo inquisitorial dos seus desejos?! Se entre n\u00f3s houver um mau,<br \/>\nsem piedade e sem d\u00f3, foi o senhor, porque, jungida como me achei ao<br \/>\nseu destino triste e desconsolado, tinha eu fatalmente, ou de me conformar<br \/>\ncom o c\u00edrculo de ferro que o senhor tra\u00e7ou em volta dos meus<br \/>\nsentidos, ou tinha de romper com ele e cair no desprezo da sociedade, sem<br \/>\nnunca mais poder arrancar de mim o terr\u00edvel estigma do adult\u00e9rio!<br \/>\n\u2014 E \u00e9 isto naturalmente o que me est\u00e1 reservado&#8230; acrescentou<br \/>\nela, depois de uma pausa, enquanto o comendador meditava; com a diferen\u00e7a<br \/>\nde que o senhor continuar\u00e1 a freq\u00fcentar as suas rela\u00e7\u00f5es,<br \/>\njogar\u00e1 o seu voltarete, ouvir\u00e1 o seu bocado de m\u00fasica<br \/>\nem casa dos amigos, ter\u00e1 a sua ch\u00e1vena de ch\u00e1, como dantes,<br \/>\ne continuar\u00e1 a ser respeitado, ouvido e galanteado pela sociedade;<br \/>\nao passo que eu, desde que transponha aquela porta, terei de renunciar a tudo<br \/>\nisso e de conformar-me com a obscuridade e com o abandono do meu novo estado.<br \/>\nQualquer um se julgar\u00e1, desde ent\u00e3o, com o direito de me lan\u00e7ar<br \/>\nem rosto a falta pela qual ali\u00e1s n\u00e3o sou respons\u00e1vel,<br \/>\ne todos me apontar\u00e3o \u00e0s filhas e \u00e0s esposas como um monstro<br \/>\nvenenoso e trai\u00e7oeiro que \u00e9 preciso evitar com o maior desvelo!<br \/>\nPara o senhor: toda a indulg\u00eancia, toda a compaix\u00e3o, todas as<br \/>\nsimpatias de v\u00edtima; para mim: todo o desprezo, todo o \u00f3dio,<br \/>\ntoda a indigna\u00e7\u00e3o e toda a repugn\u00e2ncia! Oh! Esta teoria<br \/>\nsim, esta teoria \u00e9 que o senhor acha sem d\u00favida razo\u00e1vel!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o o seu amante?! Esqueceu-se de que deve contar com<br \/>\nele?! Pois esse grande amor, que os impeliu um para o outro at\u00e9 ao<br \/>\ncrime, n\u00e3o \u00e9 quanto basta para encher a vida de ambos?!&#8230;<\/p>\n<p>E o comendador sorriu sarcasticamente.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor faz-me perder a paci\u00eancia! respondeu Teresa com t\u00e9dio.<br \/>\nA que vem agora semelhante pergunta?! Est\u00e1 bem claro que o amor \u00e9<br \/>\nindispens\u00e1vel para a vida da mulher e que sem ele n\u00e3o encontramos<br \/>\nencanto em coisa alguma; mas a nossa vida comp\u00f5e-se de duas partes:<br \/>\na privada e a exterior; nascem ambas \u00e0 porta de nossa casa, uma, por\u00e9m,<br \/>\nse estende para dentro e a outra para fora. A primeira, com efeito, baseia<br \/>\na sua felicidade essencialmente no amor, mas a segunda precisa de outros alicerces;<br \/>\nsem as considera\u00e7\u00f5es sociais, sem a estima de umas tantas pessoas,<br \/>\nsem o concurso de umas tantas coisas, n\u00e3o poder\u00e1 esta \u00faltima<br \/>\nexistir e nem ter\u00e1 raz\u00e3o de ser. N\u00e3o se confundem as<br \/>\nduas, \u00e9 verdade, mas auxiliam-se mutuamente. Uma \u00e9 o complemento<br \/>\nda outra. Se a vida exterior nos fatiga, a privada nos retempera; e vice-versa.<br \/>\nDe sorte que, por maior felicidade \u00edntima de que possamos gozar, esta<br \/>\nnunca produzir\u00e1 o seu verdadeiro efeito, se n\u00e3o a pudermos constatar<br \/>\nde vez em quando com as regalias do meio exterior; da mesma forma se converter\u00e1<br \/>\neste em puro mart\u00edrio e aborrecimento se, ao sair dele, n\u00e3o<br \/>\nencontrarmos em casa o consolo t\u00e9pido de um amor leg\u00edtimo e<br \/>\nduradouro.<\/p>\n<p>E Teresa, recuperando inteiramente o sangue frio, acrescentou ainda, como<br \/>\nse conversasse com um estranho: \u2014 V\u00ea o senhor, por conseguinte,<br \/>\npelos meus racioc\u00ednios e por esta calma, que, antes de sucumbir, calculei<br \/>\nbem o alcance da minha queda. Sabia eu de antem\u00e3o tudo o que ia perder<br \/>\ne tudo o que tinha de afrontar; e, t\u00e3o grande reconheci meu sacrif\u00edcio,<br \/>\nque desdenhei compadecerme de mais ningu\u00e9m que n\u00e3o fosse eu<br \/>\npr\u00f3pria. Incontestavelmente, meu caro, quem mais perde e quem mais<br \/>\nsofre em tudo isto, n\u00e3o \u00e9 decerto, o senhor&#8230; o senhor continuar\u00e1<br \/>\na ser: \u201cO Sr. comendador Ferreira\u201d e eu irei ser: \u201cUma mulher<br \/>\nde reputa\u00e7\u00e3o suspeita&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Queixe-se de si pr\u00f3pria, disse o comendador.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! n\u00e3o \u00e9 de mim que me tenho de queixar;<br \/>\n\u00e9 do senhor, que nunca devia ter sido meu marido; \u00e9 de meus<br \/>\npais, que consentiram neste casamento imoral e disparatado; \u00e9 da sociedade,<br \/>\nque n\u00e3o sabe fazer justi\u00e7a a ningu\u00e9m; e \u00e9, finalmente,<br \/>\ndas leis que n\u00e3o nos facultam o direito de desfazer-nos licitamente<br \/>\nde um marido, quando este nos sai errado e se torna incompat\u00edvel conosco!<br \/>\nO comendador ia replicar, mas foram ambos interrompidos pelo velho Jac\u00f3,<br \/>\nque voltava com o resultado da sua delicada miss\u00e3o contra o Portela.<\/p>\n<h2><a name=\"23\"><\/a> XXIII PORTELA EM APUROS<\/h2>\n<p>Portela sa\u00eda do escrit\u00f3rio para almo\u00e7ar, quando lhe<br \/>\nentregaram a carta, principiada por Teresa e terminada pelo comendador. Sorriu<br \/>\nao receb\u00ea-la; j\u00e1 contava com aquilo. Teresa, estava segura, havia<br \/>\nde sacrificar tudo por amor dele.<\/p>\n<p>E, na sua presun\u00e7\u00e3o de homem sagaz, sentia-se lisonjeado pelo<br \/>\nbom \u00eaxito daqueles planos.<\/p>\n<p>Foi com um riso vitorioso que ele abriu a carta e leu o seguinte: \u201cMeu<br \/>\ncaro Luiz.<\/p>\n<p>Estou por tudo o que desejas. Manda o frasquinho pelo portador e escreve-me<br \/>\ncomo hei de ao certo ministrar as doses a meu marido. Hoje mesmo podemos principiar<br \/>\na obra.<\/p>\n<p>Tua Teresa.\u201d \u2014 Venha comigo, disse Luiz ao portador da carta,<br \/>\nlogo que terminou a leitura e, sem mais pensar no almo\u00e7o, tomou a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nda casinha em que morava.<\/p>\n<p>Ia muito agitado com as palavras da amante.<\/p>\n<p>\u2014 Agora sim! considerava ele pelo caminho; tudo se vai transformar<br \/>\nem torno da minha vontade! O comendador daqui a dois meses j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nexistir\u00e1&#8230; Algum tempo depois estarei amarrado \u00e0 vi\u00fava<br \/>\ne entrando na fortuna do defunto! E o velhaco, sacudido por estas id\u00e9ias,<br \/>\nsonhava-se j\u00e1 em todas as regalias do dinheiro. Via-se rico, cercado<br \/>\nde adula\u00e7\u00f5es, no meio da opul\u00eancia de um bom palacete;<br \/>\nimaginava a cor da libr\u00e9 dos seus lacaios, o feitio do seu cup\u00ea,<br \/>\na estampa dos seus cavalos. Sentia-se j\u00e1 estendido nos custosos div\u00e3s<br \/>\nde damasco, a olhar para os quadros e para os ricos espelhos do seu sal\u00e3o.<br \/>\nVia-se em viagem para a Europa; imaginava-se em Paris, a passear nos bulevares<br \/>\no seu vigoroso tipo meridional.<\/p>\n<p>E Portela, sem parar na rua, sentia despejar-se-lhe no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\numa abundante cornuc\u00f3pia de deslumbramentos e de prazeres de todos<br \/>\nos g\u00eaneros, cujos vapores lhe subiam \u00e0 cabe\u00e7a como uma<br \/>\nvaga sufocadora, tomando-lhe a respira\u00e7\u00e3o e produzindo-lhe um<br \/>\nprinc\u00edpio de vertigem.<\/p>\n<p>Carruagens, dan\u00e7arinas, bailes, espet\u00e1culos, cavalos, baixelas<br \/>\nde prata, diamantes, crach\u00e1s, banquetes, brindes, todo o bric-\u00e0-brac<br \/>\nda sua ambi\u00e7\u00e3o e da sua fantasia, lhe dan\u00e7ava confusamente<br \/>\ndentro do c\u00e9rebro. Em torno do seu del\u00edrio passavam as sombras<br \/>\ndos transeuntes.<\/p>\n<p>Tudo lhe parecia pequeno, miser\u00e1vel, ao lado dos seus futuros esplendores.<br \/>\nOlhava com desd\u00e9m para os vultos que se cruzavam pela rua, e a sua<br \/>\nfisionomia armava j\u00e1 insensivelmente o ar superior dos ricos fartos<br \/>\ne aborrecidos.<\/p>\n<p>Ao entrar em casa, acompanhado pelo portador da carta, atirou-se a uma cadeira.<\/p>\n<p>\u2014 Espera um pouco, disse ao outro, procurando acalmar-se; e foi a<br \/>\nalcova, encheu um c\u00e1lice de conhaque e bebeu. Depois assentou-se \u00e0<br \/>\nsecretaria e escreveu o seguinte: \u201cTeresinha.<\/p>\n<p>A\u00ed vai o frasco. Uma gota por dia \u00e9 o bastante. No caso que<br \/>\nchamem o m\u00e9dico, procura evitar que ele veja e analise qualquer l\u00edquido<br \/>\nj\u00e1 preparado por ti.<\/p>\n<p>\u00c2nimo! Lembra-te da felicidade que nos espera.<\/p>\n<p>Teu Luiz.\u201d \u2014 Pronto! exclamou, fechando a carta. E passou-a<br \/>\njuntamente com o frasco, ao sujeito que estava \u00e0 espera, entregando-se<br \/>\nele de novo aos seus sonhos de ambi\u00e7\u00e3o, logo que o portador<br \/>\nsaiu.<\/p>\n<p>Apesar da grande sobreexcita\u00e7\u00e3o em que se achava, uma id\u00e9ia<br \/>\nfria atravessou-lhe o esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Era a leviana facilidade com que entregara \u00e0quele homem desconhecido<br \/>\no veneno e a resposta \u00e0 carta de Teresa.<\/p>\n<p>\u2014 Ora! n\u00e3o haver\u00e1 novidade! disse, levantando-se disposto<br \/>\na ir almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>Mal por\u00e9m tinha chegado \u00e0 porta, quando foi surpreendido pelo<br \/>\nbarulho de passos apressados no corredor.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! exclamou Portela, vendo Teresa entrar esbaforida e atirar-se<br \/>\nsobre a primeira cadeira.<\/p>\n<p>Tu aqui?! Que significa isto?! Ela n\u00e3o podia responder logo; vinha<br \/>\nofegante. O caixeiro empalideceu.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo perdido! disse afinal a desgra\u00e7ada entre dois arquejos.<\/p>\n<p>\u2014 Hein?! Como?! perguntou o miser\u00e1vel, sem poder ordenar suas<br \/>\nid\u00e9ias. Perdido?!. Explicate! \u2014 Meu marido sabe de tudo! \u2014<br \/>\nE a tua carta ent\u00e3o? \u2014 Foi escrita por ele&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E a minha resposta?! \u2014 N\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Jesus! exclamou Portela, segurando a cabe\u00e7a com ambas as<br \/>\nm\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Eu disparatei com ele! acrescentou Teresa, respirando com dificuldade.<br \/>\nO Jac\u00f3, escondido aqui, ouvira toda a nossa conversa \u00e0quela<br \/>\ntarde em que combin\u00e1vamos dar cabo da peste! Meu marido quis obrigar-me<br \/>\na escrever-te uma carta e eu n\u00e3o consenti&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas por que n\u00e3o me preveniste, criatura?! \u2014 N\u00e3o<br \/>\npude. Ele prendeu-me no quarto. S\u00f3 agora consegui sair, arrombando<br \/>\numa porta. N\u00e3o volto mais ali, nem \u00e0 ponta de espada! \u2014<br \/>\nOra esta!&#8230; exclamou o rapaz, atirando-se no sof\u00e1 e escondendo a cabe\u00e7a<br \/>\nnas palmas das m\u00e3os.<\/p>\n<p>Ouvia-se Teresa resfolegar de t\u00e3o cansada que estava.<\/p>\n<p>\u2014 E agora?!&#8230; disse afinal Portela, descobrindo o rosto.<\/p>\n<p>\u2014 Agora \u00e9 que estou resolvida a sujeitar-me a tudo&#8230; Fico<br \/>\ncontigo! respondeu a mulher do comendador.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 imposs\u00edvel, filha! sentenciou o perverso, erguendo-se<br \/>\ne pondo-se a passear em todo o comprimento da sala.<\/p>\n<p>\u2014 Hein?! interrogou ela, fazendo-se l\u00edvida.<\/p>\n<p>\u2014 Eu te preveni! S\u00f3 casado podia tomar conta de ti!&#8230;<\/p>\n<p>Teresa ergueu-se; deu dois passos para a frente.<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9s um canalha! gritou com a voz arrastada, e deixou-se<br \/>\ncair sem sentidos.<\/p>\n<p>Portela correu a suspend\u00ea-la do ch\u00e3o. A infeliz havia batido<br \/>\ncom a cabe\u00e7a contra um m\u00f3vel, fazendo uma pequena brecha no<br \/>\ncr\u00e2nio, donde corria sangue.<\/p>\n<p>\u2014 Com todos os diabos! praguejou o caixeiro, sentindo-se entalar cada<br \/>\nvez mais pela situa\u00e7\u00e3o. E eu que nunca me vi nestes apuros!&#8230;<br \/>\n\u00d3 seu Ant\u00f4nio!! seu Ant\u00f4nio! principiou ele a gritar.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio era um sujeito da vizinhan\u00e7a, que se encarregava de<br \/>\nfazer-lhe a limpeza da casa.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Isto n\u00e3o \u00e9 para p\u00f4r um homem doido?! exclamou<br \/>\nPortela, no auge da perplexidade.<\/p>\n<p>Rebentaram ent\u00e3o duas palmas na porta.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9?! perguntou ele.<\/p>\n<p>\u2014 Da parte da justi\u00e7a bradou de fora uma voz.<\/p>\n<p>Portela estremeceu.<\/p>\n<p>\u2014 Abra! \u2014 J\u00e1 vai! respondeu o caixeiro, arrastando Teresa<br \/>\npara a alcova.<\/p>\n<p>O sangue, que escorria da cabe\u00e7a desta, desenhava no ch\u00e3o<br \/>\narabescos vermelhos.<\/p>\n<p>\u2014 Abra! insistiu a voz, fazendo-se desta vez acompanhar por duas fortes<br \/>\npancadas na porta.<\/p>\n<p>Portela abriu finalmente, e deu de cara com um homem magro e alto, vestido<br \/>\nde negro at\u00e9 ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor \u00e9 Luiz Portela? perguntou o rec\u00e9m-chegado.<\/p>\n<p>\u2014 Como?&#8230;<\/p>\n<p>O homem fez um gesto de impaci\u00eancia e repetiu a pergunta.<\/p>\n<p>\u2014 Que deseja dele? indagou o caixeiro, sem conseguir disfar\u00e7ar<br \/>\na sua perturba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Venho intim\u00e1-lo a comparecer em presen\u00e7a do chefe<br \/>\nde pol\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Saber\u00e1 depois.<\/p>\n<p>\u2014 Eu agora n\u00e3o posso ir! Estou muito ocupado&#8230;<\/p>\n<p>O oficial de justi\u00e7a afastou-se um pouco da porta, fez um sinal para<br \/>\nfora, e apareceu ent\u00e3o o comendador, acompanhado de duas pra\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00c9 este o homem? perguntou aquele ao comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Justamente, disse o velho, que havia entrado na sala e olhava atentamente<br \/>\npara as manchas de sangue no soalho.<\/p>\n<p>\u2014 Guardem esse homem \u00e0 vista! ordenou o oficial aos dois soldados,<br \/>\nfranqueando-lhes a entrada. Um destes foi defender as janelas, e o outro se<br \/>\nconservou de vigia \u00e0 porta da sala.<\/p>\n<p>\u2014 Naquele quarto est\u00e1 algu\u00e9m, que acaba talvez de ser<br \/>\nferido neste instante! disse o comendador, apontando para a alcova. Este sangue<br \/>\nainda n\u00e3o coagulou. E dizendo isto investiu para o quarto onde Portela<br \/>\nescondera a amante.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor n\u00e3o pode entrar aqui! op\u00f4s o dono da casa,<br \/>\natravessando-se na porta da alcova.<\/p>\n<p>\u2014 Ali dentro est\u00e1 talvez o corpo do delito de algum novo crime!<br \/>\n\u2014 Vejamos! disse o homem da justi\u00e7a. Creio que n\u00e3o ser\u00e1<br \/>\npreciso empregar a for\u00e7a, acrescentou ele, desviando Portela.<\/p>\n<p>\u2014 Pois entrem, respondeu este; mas pe\u00e7o-lhes que me deixem<br \/>\nao menos explicar a raz\u00e3o por que esta senhora se acha aqui neste estado.<\/p>\n<p>\u2014 Descanse que ter\u00e1 ocasi\u00e3o oportuna de explicar tudo.<br \/>\nA mim n\u00e3o compete sindicar de semelhante coisa.<\/p>\n<p>E dizendo isto, o oficial de justi\u00e7a principiou a tomar notas.<\/p>\n<p>O comendador havia parado perto da cama em que estava Teresa, e olhava para<br \/>\na desfalecida com um frio olhar de \u00f3dio.<\/p>\n<p>\u2014 Conhece esta senhora? perguntou-lhe aquele.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 minha mulher, respondeu secamente o comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Ah!&#8230; disse o outro, mostrando certa solicitude. Que tem ela?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Perdeu os sentidos e quebrou a cabe\u00e7a, explicou Portela.<br \/>\nE preciso socorr\u00ea-la. Os senhores n\u00e3o me deram tempo para isso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bem, disse o marido, isso l\u00e1 com o senhor; eu nada mais tenho<br \/>\nque ver com essa mulher.<\/p>\n<p>\u2014 Sr. comendador, suplicou-lhe Portela em voz baixa; pe\u00e7o-lhe<br \/>\nque n\u00e3o proceda contra mim, antes de ouvir-me&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu nada tenho a lhe ouvir, senhor! Sei, pelos documentos em meu<br \/>\npoder, que algu\u00e9m tentou dar-me cabo da vida; n\u00e3o fa\u00e7o<br \/>\nmais do que a defender e entregar os criminosos \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o quero fugir \u00e0 puni\u00e7\u00e3o da<br \/>\nlei, explicou o rapaz, com um aspecto infeliz; desejo apenas que o senhor<br \/>\nn\u00e3o me fique julgando um monstro; desejo apenas explicar-lhe as circunst\u00e2ncias<br \/>\nque me colocaram na atual situa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E que se adiantava com isso?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Adiantava-se muita coisa, para mim e para o Sr. comendador. Ao menos<br \/>\nficaria bem patente que eu lhe n\u00e3o tenho \u00f3dio e que lamento<br \/>\nem extremo lhe haver causado tamanho desgosto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas afinal o que quer o senhor de mim?! \u2014 Quero que me ou\u00e7a<br \/>\na s\u00f3s por alguns instantes. Tenha a bondade de afastar esses homens.<\/p>\n<p>O comendador ordenou aos soldados que se retirassem para o corredor. Portela<br \/>\ncerrou a porta do quarto em que estava Teresa, e chegando-se para junto do<br \/>\nvelho, disse-lhe com voz alterada e tr\u00eamulo: \u2014 Minha vida est\u00e1<br \/>\nem suas m\u00e3os! O senhor vai decidir da minha sorte! E acrescentou, tirando<br \/>\num rev\u00f3lver da gaveta da secret\u00e1ria: \u2014 Estou resolvido<br \/>\na matar-me aqui mesmo, em sua presen\u00e7a, se o senhor n\u00e3o me conceder<br \/>\no seu perd\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>O comendador sacudiu os ombros, com a mais profunda indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Do que me pode servir a vida, continuou Portela, tendo eu de representar<br \/>\nno mundo o papel de um criminoso, de um homem mau e corrompido? Entretanto,<br \/>\njuro-lhe comendador, que o que acaba de suceder n\u00e3o foi conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\nda perversidade, nem da baixeza de sentimentos. Sei que procedi como um infame,<br \/>\nmas sei igualmente que n\u00e3o podia proceder de outro modo. Na situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que me colocou a fatalidade desta desgra\u00e7a, eu n\u00e3o tinha<br \/>\noutro caminho a seguir! Fui talvez mau e desumano; juro-lhe por\u00e9m que<br \/>\nn\u00e3o o fui por c\u00e1lculo e premedita\u00e7\u00e3o. Para cumprir<br \/>\no meu destino, precisei abafar todas as vozes que me arguiam de dentro, precisei<br \/>\nde amargar todas as l\u00e1grimas envenenadas pela consci\u00eancia do<br \/>\ncrime. Quantas vezes n\u00e3o amaldi\u00e7oei este amor insensato, que<br \/>\nme fazia esquecer tudo o que eu devia \u00e0 sua generosidade e \u00e0<br \/>\nsua filantropia? Oh! sofri! sofri muito! Para sua completa vingan\u00e7a<br \/>\nbastava que o senhor pudesse avaliar a dor, o remorso, a vergonha, a humilha\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque me pungiam constantemente, ao lembrar-me de quanto era eu ingrato e desconhecido!<br \/>\nUma terr\u00edvel m\u00e3o de ferro empolgara-me o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne espremia de dentro dele todo o fel das minhas negras dores. Tudo me atormentava,<br \/>\ntudo me perseguia! Dormindo ou acordado, tinha sempre defronte dos olhos o<br \/>\nfantasma do meu cruel segredo. Nem uma hora de repouso! nem uma hora de felicidade!<br \/>\nN\u00e3o podia encarar para o senhor, sem sofrer todos os tormentos do inferno;<br \/>\na sua figura, austera e veneranda, produzia-me o efeito de punhaladas no cora\u00e7\u00e3o;<br \/>\no seu calmo ar de bondade, brandura do seu g\u00eanio, a franqueza do seu<br \/>\ncar\u00e1ter, eram para mim um supl\u00edcio constante! Pensei na morte;<br \/>\nquis por uma vez destruir esta vida in\u00fatil e miser\u00e1vel, e s\u00f3<br \/>\nDeus sabe quanto me custou n\u00e3o poder consumar esse desejo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Faltava-lhe coragem para suicidar-se, disse o comendador; mas n\u00e3o<br \/>\nlhe faltava para matar-me&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Juro-lhe que me custaria muito mais destruir a sua vida do que a<br \/>\nminha pr\u00f3pria! \u2014 Nega ent\u00e3o que tentou contra os meus<br \/>\ndias?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o nego. Afian\u00e7o-lhe, por\u00e9m, que<br \/>\no fazia, n\u00e3o por mim, mas pelos seus pr\u00f3prios interesses e pelo<br \/>\ninteresse de sua mulher.<\/p>\n<p>\u2014 Explique-se! \u2014 Eu n\u00e3o podia fugir da fascina\u00e7\u00e3o<br \/>\nque Teresa exercia sobre mim, mas igualmente n\u00e3o queria avilt\u00e1-la,<br \/>\nfazendo dela minha amante; como n\u00e3o queria que o senhor em qualquer<br \/>\ntempo corasse defronte da ad\u00faltera. Matando-o, ela passaria a ser minha<br \/>\nesposa leg\u00edtima, e a mem\u00f3ria do primeiro marido ficaria intacta<br \/>\ne respeitada&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 De sorte que ainda lhe tenho de agradecer essa delicadeza?&#8230; observou<br \/>\no outro, com um ligeiro sorriso de ironia amarga.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o zombe, Sr. comendador. Juro-lhe que \u00e9 sincero<br \/>\no que acabo de dizer; eu queria evitar a sua desonra! Entretanto, est\u00e1<br \/>\ntudo perdido; est\u00e1 tudo acabado! Resta-me apenas propor-lhe uma \u00faltima<br \/>\ncoisa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Uma proposta?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E verdade. Estou convencido de que o senhor n\u00e3o me perdoar\u00e1.<br \/>\nPois bem! Tomarei outro expediente: mato-me no mesmo instante, e o comendador,<br \/>\ndepois de minha morte, releva minhas culpas e recolhe de novo Teresa \u00e0<br \/>\nsua prote\u00e7\u00e3o. Aceita?! E, dizendo isto, Portela engatilhou o<br \/>\nrev\u00f3lver e aproximou-o da boca.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca! respondeu o comendador. Para Teresa n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nperd\u00e3o poss\u00edvel! \u2014 Nem com a minha morte? interrogou o<br \/>\nrapaz, desviando a arma.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor n\u00e3o morrer\u00e1! exclamou o velho. Prefiro que<br \/>\nviva e tenha de trazer aquela miser\u00e1vel \u00e0s costas. \u00c9<br \/>\nessa a minha vingan\u00e7a! Mais tarde, ou o senhor a desprezar\u00e1<br \/>\nou ela lhe dar\u00e1 de beber as mesmas amarguras que me entornou ao cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\nEm qualquer dos casos, eu me julgarei satisfeito. O amante ser\u00e1 enganado<br \/>\nmuito mais facilmente do que foi o marido&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas, disse Portela, se era esse o seu prop\u00f3sito, para que<br \/>\nent\u00e3o me denunciou \u00e0 pol\u00edcia?&#8230;<\/p>\n<p>para que me perseguiu desta forma?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Descanse que n\u00e3o o quero punir judicialmente; quero obrig\u00e1-lo<br \/>\na tomar conta da sua c\u00famplice. Foi para isso que vim prevenido! \u2014<br \/>\nN\u00e3o era necess\u00e1rio tanto! respondeu Portela, com um gesto de<br \/>\norgulho. Eu sei cumprir com os meus deveres&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu tenho pouco confian\u00e7a em tais promessas, e prefiro<br \/>\nassegurar melhor o neg\u00f3cio&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que diz o senhor? \u2014 Digo-lhe que exijo uma obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\npor escrito, um termo de responsabilidade em que se comprometa o senhor a<br \/>\ntomar conta de Teresa e manter-lhe os meios de vida enquanto ela existir.<\/p>\n<p>Eu tinha preparado tudo isso para mais tarde, o senhor por\u00e9m precipitou<br \/>\nos acontecimentos. \u00c9 o mesmo! O que tinha de ser feito por intima\u00e7\u00e3o<br \/>\nda autoridade policial, far-se-\u00e1 por minha simples intima\u00e7\u00e3o.<br \/>\nLeia! E o comendador tirou da algibeira um papel selado que passou ao rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Mas para que toda essa formalidade?&#8230; perguntou Portela, depois<br \/>\nde ler.<\/p>\n<p>\u2014 Caprichos de marido enganado respondeu o comendador. Assine! \u2014<br \/>\nEu n\u00e3o assino semelhante coisa! \u2014 Bem! nesse caso o entregarei<br \/>\n\u00e0 justi\u00e7a. Escolha! \u2014 Prefiro isso! Este papel, assinado<br \/>\npor mim, seria uma terr\u00edvel arma com que o senhor poderia perseguir-me<br \/>\nem qualquer tempo! \u2014 Bom, meu caro senhor, visto isso, deixemos seguirem<br \/>\nas coisas o caminho que eu lhes havia tra\u00e7ado, e repito ent\u00e3o<br \/>\no que disse no princ\u00edpio da conversa: \u201cNada tenho a ouvir do<br \/>\nsenhor\u201d. Entenda-se com as autoridades competentes! \u2014 Espere!<br \/>\natalhou Portela, quando o viu disposto a sair. Pense um instante! Que interesse<br \/>\ntem o senhor em perseguir-me deste modo?!&#8230; Para que exige a minha assinatura<br \/>\nem um documento humilhante e vergonhoso para mim?!&#8230; Sei perfeitamente que<br \/>\no comendador n\u00e3o est\u00e1 seguindo os impulsos do seu cora\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nN\u00e3o queira fazer-se mau! N\u00e3o queira fingir o que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9! Lembre-se de que sou pobre e preciso conservar limpa a minha reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\npara poder ganhar a vida&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! disse o comendador. E a sua bela resolu\u00e7\u00e3o de<br \/>\nsuicidar-se?! O outro abaixou a cabe\u00e7a. E o comendador acrescentou:<br \/>\n\u2014 Quanto \u00e0 sua reputa\u00e7\u00e3o&#8230; se o senhor n\u00e3o<br \/>\nse importou com ela, quanto mais eu! \u2014 Mas do que lhe pode servir esse<br \/>\ndocumento assinado por mim? \u2014 Isso \u00e9 c\u00e1 comigo! respondeu<br \/>\no marido de Teresa, e, fazendo nova men\u00e7\u00e3o de sair, acrescentou<br \/>\nresolutamente: \u2014 Ent\u00e3o, assina ou n\u00e3o assina?! \u2014<br \/>\nAssino, malvado, mas juro-te que te h\u00e1s de arrepender desta viol\u00eancia!<br \/>\n\u2014 Pode ser! disse o comendador, perfeitamente calmo.<\/p>\n<p>Portela assinou o documento.<\/p>\n<p>\u2014 A\u00ed o tem! exclamou, empurrando o papel com arremesso.<\/p>\n<p>\u2014 Bem! respondeu o comendador, dobrando o escrito e guardando-o na<br \/>\nalgibeira. Est\u00e1 o senhor livre! Deixo-o em plena liberdade! E saiu,<br \/>\ndepois de despedir os soldados.<\/p>\n<p>Portela deixou-se cair em uma cadeira.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 de ser como sup\u00f5es, meu peda\u00e7o<br \/>\nde asno! monologou ele. Tu n\u00e3o sabes com quem te meteste!<\/p>\n<h2><a name=\"24\"><\/a> XXIV TIA AGUEDA<\/h2>\n<p>Quando Teresa voltou a si, inutilmente chamou repetidas vezes pelo amante;<br \/>\nafinal levantouse, apoiando-se aos m\u00f3veis, e foi at\u00e9 \u00e0<br \/>\nsala pr\u00f3xima. N\u00e3o havia viva alma em casa.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito! disse ela.<\/p>\n<p>Portela antes de sair, pensara-lhe a pequena ferida da cabe\u00e7a com<br \/>\nesparadrapo.<\/p>\n<p>\u2014 Que teria sucedido na aus\u00eancia da sua raz\u00e3o? considerava<br \/>\na infeliz, consultando a mem\u00f3ria; recordava-se vagamente de ter escutado,<br \/>\nna sonol\u00eancia do desmaio, o som de passos repetidos no corredor e a<br \/>\nvoz do marido com as de outras pessoas que pareciam altercar. Mas tudo isso<br \/>\npodia ser causado simplesmente pelo del\u00edrio&#8230;<\/p>\n<p>De repente uma id\u00e9ia lhe atravessou o esp\u00edrito. Calculou que<br \/>\nPortela, denunciado pelo comendador, estivesse \u00e0quela hora detido na<br \/>\npol\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 Com certeza n\u00e3o \u00e9 outra coisa! pensou ela aflita a<br \/>\ncontemplar as suas roupas sujas de sangue. E como havia de sair daquela situa\u00e7\u00e3o?&#8230;<br \/>\nNo estado em que se achava, n\u00e3o tinha \u00e2nimo de aparecer na rua&#8230;<br \/>\nPortela n\u00e3o poderia vir naturalmente em seu aux\u00edlio&#8230; Ah! se<br \/>\nchegasse ao menos o tal Ant\u00f4nio que fazia a limpeza da casa!&#8230;<\/p>\n<p>E Teresa arrastava-se de um para outro lado, cada vez mais ansiada e oprimida.<br \/>\nO sangue que derramara, produzia-lhe certa fraqueza, e os olhos enfuma\u00e7avam-se-lhe<br \/>\ncomo por efeito de uma formid\u00e1vel enxaqueca.<\/p>\n<p>\u2014 Al\u00e9m de tudo, sinto vertigens! disse ela, deitando-se na<br \/>\ncama.<\/p>\n<p>E, da\u00ed a pouco, dormia de novo.<\/p>\n<p>Vejamos, entretanto, o que por esse tempo fazia Portela.<\/p>\n<p>Logo que se retirou o comendador, o astucioso caixeiro, depois de curar<br \/>\na cabe\u00e7a da amante, meteu o rev\u00f3lver na algibeira e ganhou a<br \/>\nrua com dire\u00e7\u00e3o \u00e0 casa do seu compadre Le\u00e3o Vermelho,<br \/>\nque ent\u00e3o, como se deve lembrar o leitor, morava no Campo de Santana,<br \/>\nem companhia daquela nossa conhecida Henriqueta, de cuja extinta casa de pens\u00e3o,<br \/>\nj\u00e1 outrora fizera parte o amante de Teresa.<\/p>\n<p>Le\u00e3o Vermelho sofria por essa \u00e9poca a implac\u00e1vel persegui\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que falamos, e partia no dia seguinte para Buenos Aires.<\/p>\n<p>\u2014 Compadre, exclamou Portela, assim que se achou defronte dele; venho<br \/>\ndisposto a seguir com voc\u00ea! O comiss\u00e1rio fez um gesto de espanto<br \/>\ne pediu ao outro que se explicasse.<\/p>\n<p>\u2014 Vai sempre amanh\u00e3? perguntou o padrinho de Clorinda.<\/p>\n<p>\u2014 Definitivamente.<\/p>\n<p>\u2014 Pois vamos juntos. N\u00e3o me conv\u00e9m ficar mais tempo<br \/>\nno Rio de Janeiro. Tenho poucos recursos; irei como seu empregado, serve-lhe?<br \/>\n\u2014 Mas que resolu\u00e7\u00e3o foi essa? interrogou Le\u00e3o Vermelho.<\/p>\n<p>\u2014 Quest\u00f5es de amor! explicou Portela, fazendo-se contrariado.<br \/>\nN\u00e3o posso ficar aqui&#8230; J\u00e1 deixei o emprego. J\u00e1 liquidei<br \/>\ntodos os meus neg\u00f3cios. S\u00f3 desejo saber se posso ou n\u00e3o<br \/>\ncontar com voc\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o; eu at\u00e9 estimo. Nunca lhe propus semelhante<br \/>\ncoisa, porque sempre me pareceu que ela lhe seria pouco vantajosa; mas uma<br \/>\nvez que voc\u00ea o quer&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Posso ent\u00e3o preparar-me? \u2014 Decerto.<\/p>\n<p>\u2014 Pois at\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>E Portela saiu da casa do compadre para se ir despedir do emprego, que lhe<br \/>\nhavia arranjado o comendador; recolheu as suas economias, pagou uma ou outra<br \/>\npequena d\u00edvida, e seguiu afinal para Catumbi.<\/p>\n<p>Encontrou Teresa dormindo.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?! disse ele entrando assustado no quarto. Pois esta<br \/>\nmulher ainda n\u00e3o voltou a si?!&#8230;<\/p>\n<p>Ela acordou logo, fez um grande espanto quando o viu e desfez-se em perguntas;<br \/>\nqueria saber tudo o que havia sucedido, os perigos a que o amante se expusera.<\/p>\n<p>\u2014 Tu deves estar caindo de fome! observou ele. \u00c9 quase noite.<br \/>\nEu vou arranjar-te o que comer. Espera.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, conta-me primeiro o que h\u00e1, o que se passou aqui.<br \/>\nEstou louca por saber de tudo! \u2014 Resume-se tudo em duas palavras, disse<br \/>\nPortela: Teu marido procedeu contra mim, tenho a justi\u00e7a sobre a cabe\u00e7a<br \/>\ne fujo amanh\u00e3 mesmo do Rio de Janeiro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu vou contigo! exclamou ela, abra\u00e7ando-o.<\/p>\n<p>\u2014 Imposs\u00edvel! respondeu o rapaz. Para fazer semelhante viagem,<br \/>\nprecisei arranjar-me como secret\u00e1rio de um sujeito que sai, amanh\u00e3<br \/>\nou talvez depois, para a Europa; ele consente em levarme com a condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde que eu v\u00e1 s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E eu?! perguntou a mulher do comendador, empalidecendo.<\/p>\n<p>\u2014 Tu voltas para a companhia de teu marido. Ele est\u00e1 resolvido<br \/>\na perdoar-te tudo e a receber-te de novo.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 que \u00e9 imposs\u00edvel, nem tampouco me conv\u00e9m!<br \/>\n\u2014 Mas, filha, olha que \u00e9 o \u00fanico recurso que h\u00e1!<br \/>\n\u2014 Pois ent\u00e3o mato-me! \u2014 Deixa-te de tolices! \u2014 Duvidas?!<br \/>\n\u2014 N\u00e3o duvido, mas reprovo.<\/p>\n<p>E ficaram calados por algum tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu vou buscar-te a ceia, disse afinal Portela, erguendo-se da cama,<br \/>\nonde se tinha assentado.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o quero nada! respondeu ela de mau humor.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-te disso comigo! pediu o outro, ameigando-a por condescend\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 Solta-me! resmungou ela, empurrando-o. Deixa-me! Deixa-me! E p\u00f4s-se<br \/>\na chorar.<\/p>\n<p>\u2014 Agora temos choro! disse o rapaz, co\u00e7ando a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Teresa solu\u00e7ava a chamar-se desgra\u00e7ada, a maldizer-se, a pedir<br \/>\nque a matassem.<\/p>\n<p>\u2014 Tu me fazes perder a paci\u00eancia! exclamou Portela, zangando-se<br \/>\nafinal. Estou a dizer-te os apuros em que me vejo; e tu a te fazeres desentendida!<br \/>\nOra sebo! E depois de passear pelo quarto, com as m\u00e3os nas algibeiras,<br \/>\nparou defronte da amante e disse-lhe em voz \u00e1spera: \u2014 Pois, filha,<br \/>\nse n\u00e3o queres ir para a casa de teu marido, vai para o inferno! Eu<br \/>\nn\u00e3o posso tomar conta de ti! A\u00ed tens! \u2014 Tu \u00e9s um<br \/>\nvil\u00e3o! respondeu ela, quase sem alento.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 melhor n\u00e3o puxarmos pela l\u00edngua! replicou<br \/>\nPortela, porque te sairias muito mal! \u2014 Quem sabe se tenho medo de ti?!<br \/>\n\u2014 Pior! \u2014 Se te parece d\u00e1-me agora bordoada! Tamb\u00e9m<br \/>\n\u00e9 s\u00f3 o que falta! \u2014 \u00d3 mulher! cala-te com todos<br \/>\nos diabos! \u2014 Foi bem feito! Quem me mandou acreditar em um canalha de<br \/>\nsemelhante esp\u00e9cie!? \u2014 N\u00e3o! Isso agora tenha a paci\u00eancia&#8230;<br \/>\nFoi a senhora quem me provocou&#8230; Eu estava perfeitamente sossegado! \u2014<br \/>\nHein?! Como?! Voc\u00ea n\u00e3o me provocou?! \u00c9 a quanto pode chegar<br \/>\no cinismo!&#8230;<\/p>\n<p>E, ambos, de fato convencidos que o sedutor era o outro e n\u00e3o ele<br \/>\npr\u00f3prio, discutiram, a palavr\u00f5es, ainda por algum tempo. Teresa<br \/>\nafinal declarou que n\u00e3o sa\u00eda daquela casa e que o Portela n\u00e3o<br \/>\nfaria a tal viagem, ou ela o havia de acompanhar! \u2014 Esta casa est\u00e1<br \/>\npaga somente at\u00e9 amanh\u00e3. Tu h\u00e1s de ir hoje mesmo para<br \/>\na companhia do comendador! \u2014 Eu n\u00e3o hei de apresentar-me l\u00e1<br \/>\nneste estado! Voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea que estou toda suja de sangue?!<br \/>\nFicou resolvido que Teresa iria primeiramente para a casa da madrasta, que<br \/>\nmorava nesse tempo no Catete, e da\u00ed ent\u00e3o escreveria ao marido.<br \/>\nCom muita repugn\u00e2ncia aceitava ela esse alvitre, porque entre as duas<br \/>\nsenhoras houvera antes do casamento constantes desaven\u00e7as, e depois<br \/>\ndeste poucas vezes se visitaram.<\/p>\n<p>A madrasta de Teresa era mulher de mau g\u00eanio, muito inculta; n\u00e3o<br \/>\nsabia estar em sociedade e dizia asneiras na conversa. O comendador a recebeu<br \/>\nsempre com uma indiferen\u00e7a repulsiva; \u00e0s vezes dava festas e<br \/>\nnunca se lembrava de convid\u00e1-la. Quando havia visitas ent\u00e3o,<br \/>\nera uma desgra\u00e7a! Conhecia-se na cara do homem toda a sua m\u00e1<br \/>\nvontade para com a sogra.<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es, Teresa tinha s\u00e9rios receios de pedir<br \/>\nsocorros \u00e0 madrasta. Parecia-lhe j\u00e1 estar a ver a terr\u00edvel<br \/>\nmatrona a olh\u00e1-la por sobre os \u00f3culos, indignada, com as m\u00e3os<br \/>\nnas cadeiras, a boca muito aberta e um grande espanto na fisionomia.<\/p>\n<p>\u2014 Definitivamente n\u00e3o serei bem recebida!&#8230; observou Teresa<br \/>\nao entrar no carro, que Portela fora buscar. Assentaram-se ao lado um do outro.<br \/>\nEle a acompanharia at\u00e9 \u00e0 porta.<\/p>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o que caminhavam, Teresa parecia cada vez<br \/>\nmais sobressaltada. Que n\u00e3o diria a velha?! Que n\u00e3o suporia?!<br \/>\nE da\u00ed, se a madrasta entendesse de n\u00e3o a receber?! Sim! porque<br \/>\naquela v\u00edbora era capaz de tudo! N\u00e3o gostava de incomodar-se<br \/>\npor ningu\u00e9m e, quando a coisa ent\u00e3o lhe cheirava, a responsabilidade,<br \/>\nn\u00e3o havia meio de obter dela o menor servi\u00e7o! \u2014 H\u00e1<br \/>\nde arranjar-se tudo! disse Portela impaciente. O suor ca\u00eda-lhe em bagas<br \/>\npela testa.<\/p>\n<p>Mas Teresa, ao passar em certa travessa do Catete, teve uma id\u00e9ia:<br \/>\nrecolher-se de prefer\u00eancia \u00e0 casa da preta que a criara, tia<br \/>\nAgueda. Era uma boa mulher, fora escrava de seu pai e sempre a conservara<br \/>\nna mesma estima respeitosa. Essa tamb\u00e9m ficaria espantada com a sua<br \/>\nvisita, mas ao menos havia de prestar-se a socorr\u00ea-la com muito boa<br \/>\nvontade.<\/p>\n<p>O diabo era que a pobre mulher morava em uma esp\u00e9cie de corti\u00e7o,<br \/>\nonde vendia angu.<\/p>\n<p>Teresa talvez n\u00e3o encontrasse l\u00e1 um lugar decente para esconder-se.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo se arranjar\u00e1! repetiu Portela.<\/p>\n<p>E, com efeito, ficou tudo arranjado. Teresa recolheu-se ao domicilio da<br \/>\nboa preta, e Portela voltou a casa para tratar das malas.<\/p>\n<p>Tia Agueda, ao lobrigar a sua querida filha de cria\u00e7\u00e3o, que<br \/>\nela h\u00e1 tanto tempo n\u00e3o via, duvidou dos pr\u00f3prios olhos<br \/>\ne ficou perplexa, a fit\u00e1-la com grande enlevo; afinal abriu os bra\u00e7os<br \/>\ne exclamou sinceramente comovida: \u2014 Gentes! Olha Nen\u00e9m!&#8230;<\/p>\n<p>Teresa quis pedir-lhe que n\u00e3o fizesse espalhafato; quis falar, mas<br \/>\nn\u00e3o p\u00f4de; ao ouvir o doce tratamento familiar que lhe davam em<br \/>\npequenina, as l\u00e1grimas saltaram-lhe logo dos olhos e os solu\u00e7os<br \/>\ntomaram-lhe a garganta.<\/p>\n<p>Ah! nesse bom tempo seu pai ainda era vivo e seu cora\u00e7\u00e3o ainda<br \/>\nera feliz! Que de transforma\u00e7\u00f5es se n\u00e3o tinham produzido<br \/>\nentre esse passado de inoc\u00eancia e aquele presente de dissabores?&#8230;<br \/>\nQue de mudan\u00e7as n\u00e3o sofrera sua alma! que de novas informa\u00e7\u00f5es<br \/>\nn\u00e3o padecera seu corpo! Quantas decep\u00e7\u00f5es em t\u00e3o<br \/>\npouco tempo!&#8230; Quantos desgostos em t\u00e3o pequena exist\u00eancia!&#8230;<br \/>\nDantes n\u00e3o conhecia Teresa as frias responsabilidades da vida, n\u00e3o<br \/>\nsuportava as duras necessidades do sangue, n\u00e3o compreendia outro amor<br \/>\nque n\u00e3o fosse o da fam\u00edlia e o dos folguedos da inf\u00e2ncia.<br \/>\nMas tudo se transformara em torno e dentro dela; as suas mais gratas afei\u00e7\u00f5es,<br \/>\nas suas mais simp\u00e1ticas ilus\u00f5es se foram pouco a pouco dissolvendo<br \/>\ncomo as nuvens transparecendo em dias de estio.<\/p>\n<p>Foi tudo isso o que a presen\u00e7a da pobre negra disse de relance ao<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o oprimido de Teresa. As saudades do passado e as apreens\u00f5es<br \/>\ndo presente chocaram-se no esp\u00edrito da infeliz, produzindo-lhe uma<br \/>\ngrande crise nervosa, que parecia preparada durante o dia e s\u00f3 \u00e0<br \/>\nespera daquele sinal para rebentar.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia meio de suster-lhe as l\u00e1grimas e os solu\u00e7os;<br \/>\nembalde tia Agueda procurava tranq\u00fciliz\u00e1-la. Teresa n\u00e3o<br \/>\npodia dar uma palavra.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, Nen\u00e9m, que \u00e9 isto?! que lhe sucedeu?!&#8230;<\/p>\n<p>E a negra, vendo que Teresa n\u00e3o respondia, carregou-a para o quarto,<br \/>\nf\u00ea-la deitar-se na cama e ajoelhou-se aos seus p\u00e9s, beijando-lhe<br \/>\nas m\u00e3os e afagando-lhe os cabelos.<\/p>\n<p>\u2014 Sossega, Nen\u00e9m! sossega! dizia ela com a mesma ternura dos<br \/>\noutros tempos em que a acalentava no ber\u00e7o.<\/p>\n<p>S\u00f3 meia hora depois Teresa sossegou um pouco. Suas primeiras palavras<br \/>\nforam para pedir o que comer.<\/p>\n<p>Tia Agueda improvisou logo uma ceia.<\/p>\n<p>Descobria-se nela, na sua presteza, nos seus movimentos, a boa vontade com<br \/>\nque fazia tudo aquilo. Em breve, de um quarto pr\u00f3ximo ao em que estava<br \/>\na mulher do comendador, vinha um cheiro picante de peixe que se frigia e chilrava<br \/>\nao fogo. A seguran\u00e7a do lugar, a boa hospitalidade e a expectativa<br \/>\nda ceia principiaram a reanimar totalmente as for\u00e7as de Teresa. Quando<br \/>\na negra acendeu mais um candeeiro, cobriu a mesa com uma branca toalha de<br \/>\nalgod\u00e3o e trouxe o primeiro prato, j\u00e1 n\u00e3o havia sinal<br \/>\nde l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 se incomodando muito, tia Agueda! balbuciou<br \/>\na senhora.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00ea, Nen\u00e9m! N\u00e3o diga tolice! repreendeu a preta,<br \/>\na saracotear pela sala.<\/p>\n<p>E declarou que s\u00f3 o que sentia era n\u00e3o ter uma casa melhor<br \/>\npara receber a sua querida filha de leite.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 tudo muito bom, emendou Teresa, procurando j\u00e1<br \/>\ntentar um sorriso.<\/p>\n<p>Agueda era uma preta muito asseada. As paredes da sua pobre casa estavam<br \/>\nlimpas, o ch\u00e3o cuidadosamente varrido e os raros trastes escovados.<br \/>\nHavia uma c\u00f4moda, j\u00e1 velha, com puxadores de vidro verde, sobre<br \/>\na qual se estendia uma cl\u00e1ssica toalha de rendas e se perfilavam v\u00e1rias<br \/>\nimagens de santos. Pelas paredes viam-se litografias de assuntos religiosos<br \/>\nemolduradas em madeira. A um canto destacava-se um pequeno orat\u00f3rio,<br \/>\nforrado de papel de cor e guarnecido de gal\u00f5es amarelos; duas velas<br \/>\no iluminavam e faziam sobressair de dentro a figura mal talhada de um Santo<br \/>\nAnt\u00f4nio, vivamente colorido e cercado de alecrim seco e de flores vi\u00e7osas.<\/p>\n<p>Uma mesa forrada de len\u00e7\u00f3is e um tabuleiro cheio de camisas<br \/>\nengomadas, denunciavam o trabalho desse dia; e, ao lado, um grande cesto,<br \/>\npejado de roupa lavada, prometia o servi\u00e7o do dia seguinte. Tia Agueda<br \/>\nvestia saia e camisa. Viam-se-lhe as grandes esp\u00e1duas gordas, o pesco\u00e7o<br \/>\nforte, enfeitado de corais e contas redondas de ouro. Os bra\u00e7os sa\u00edam<br \/>\nnus das rendas do cabe\u00e7\u00e3o em toda a sua negra exuber\u00e2ncia;<br \/>\nos quadris jogavam rijamente quando ela apressava o passo nos arranjos da<br \/>\nceia.<\/p>\n<p>Teresa parecia j\u00e1 consolada e gozava intimamente da novidade daquela<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o. O est\u00f4mago reclamava alimento e o corpo pedia<br \/>\nrepouso. Foi com prazer que ela se deixou conduzir para a mesa pela carinhosa<br \/>\nmulher. Os pratos escaldados, as facas de ferro reluzente, os copos nitidamente<br \/>\nareados, faziam apetite. Uma travessa de peixe frito enchia o ar com o seu<br \/>\naroma apimentado e quente.<\/p>\n<p>Tia Agueda foi ao arm\u00e1rio buscar mais o que havia, e convidou Teresa<br \/>\na principiar.<\/p>\n<p>\u2014 Sente-se ent\u00e3o aqui, ao p\u00e9 de mim, reclamou a amante<br \/>\ndo Portela.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 vai Nen\u00e9m; deixa primeiro ver uma garrafa de vinho<br \/>\naqui dentro&#8230;<\/p>\n<p>Ela h\u00e1 muito tempo que possu\u00eda e guardava com cuidado essa<br \/>\ngarrafa. Dera-lhe o seu exsenhor por ocasi\u00e3o de uma festa.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda \u00e9 l\u00e1 de casa, declarou a preta, mostrando a<br \/>\nTeresa a preciosa garrafa. Presente de sinh\u00f4 velho!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E mal sabia voc\u00ea, tia Agueda, que o seu presente ainda havia<br \/>\nde servir para mim&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o?! \u00c9 para uma ocasi\u00e3o destas que se guardam<br \/>\nas coisas! Aberta a garrafa de vinho, Agueda encheu o copo da querida h\u00f3spede,<br \/>\ne foi assentar-se ao lado dela.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, tia Agueda! disse Teresa, comendo com muita vontade; se voc\u00ea<br \/>\nsoubesse o que me tem sucedido ultimamente!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bom, come primeiro, que depois se conversa&#8230;<\/p>\n<p>Mas a rapariga, quando acabou de saciar a sua fome, declarou que se sentia<br \/>\nincomodada; tinha o corpo mole e aborrecido, a comida ca\u00edra-lhe na<br \/>\nfraqueza.<\/p>\n<p>\u2014 Descansa, Nen\u00e9m, aconselhou a negra.<\/p>\n<p>Teresa deitou-se; pediu \u00e0 amiga que a despisse e descal\u00e7asse,<br \/>\ne recomendou-lhe depois que fosse \u00e0 casa do comendador e se entendesse<br \/>\ncom a criada Rosa para lhe trazer roupa limpa.<\/p>\n<p>\u2014 Seu Ferreira n\u00e3o precisa saber que voc\u00ea foi l\u00e1<br \/>\nbuscar roupa&#8230; ouviu?&#8230; disse ela bocejando, com os olhos fechados.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o durma sem tomar caf\u00e9! objetou tia Agueda, apresentando-lhe<br \/>\na x\u00edcara. Teresa tomou o caf\u00e9, quase dormindo.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, v\u00e1, recomendou ela; n\u00e3o se demore, ouviu? E,<br \/>\nvoltando-se na cama, adormeceu.<\/p>\n<p>No dia seguinte, quando acordou, o sol entrava j\u00e1 pela janela e projetava<br \/>\nno ch\u00e3o grandes manchas luminosas. Teresa dormira um sono completo<br \/>\ne acordara bem disposta. Agueda preparou-lhe o banho, e, como desjejum, caf\u00e9<br \/>\ncom leite e p\u00e3o com manteiga.<\/p>\n<p>\u2014 Veio a roupa? perguntou aquela.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 tudo a\u00ed, Nen\u00e9m; mas h\u00e1 o diabo<br \/>\nem casa de seu Ferreira &#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Conta! conta o que h\u00e1! \u2014 Ele caiu doente esta noite&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Doente? de qu\u00ea? \u2014 Ataque. Jac\u00f3 \u00e9 quem<br \/>\nsabe da hist\u00f3ria; diz que estava despindo seu Ferreira, quando o homem<br \/>\ncambaleou, cambaleou, e caiu como morto.<\/p>\n<p>\u2014 Uma congest\u00e3o! exclamou Teresa em sobressalto. E depois,<br \/>\ncomo ficou ele?! \u2014 O Dr. Roberto est\u00e1 l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 D\u00e1-me a capa, tia Agueda; vou j\u00e1 para casa! E Teresa,<br \/>\nagradecia interiormente ao marido aquela mol\u00e9stia, que vinha de qualquer<br \/>\nforma desviar as aten\u00e7\u00f5es assestadas sobre ela.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m, ter de apresentar-se assim em casa, sem mais nem menos,<br \/>\nera o diabo: considerava a leviana, enquanto ajustava o chap\u00e9u e endireitava<br \/>\na roupa. Ol\u00edmpia sem d\u00favida estaria l\u00e1! Que n\u00e3o<br \/>\nficariam julgando de tudo aquilo?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora! concluiu ela, completamente resolvida; \u00e9 preciso tomar<br \/>\numa delibera\u00e7\u00e3o! Luiz afian\u00e7ou-me que Ferreira est\u00e1<br \/>\npronto a receber-me; vou! N\u00e3o tenho outro recurso; al\u00e9m disso,<br \/>\nj\u00e1 estou arrependida!&#8230; Agora \u00e9 ter coragem! E depois de abra\u00e7ar<br \/>\na ama e lhe agradecer os obs\u00e9quios recebidos, meteu-se no carro, que<br \/>\nse fora buscar, e mandou tocar para casa.<\/p>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o por\u00e9m que se aproximava, contra\u00eda-se-lhe<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o e a sua coragem ia minguando. Teresa tinha j\u00e1<br \/>\ndefronte dos olhos a fisionomia repreensiva de Ol\u00edmpia, o riso sarc\u00e1stico<br \/>\nde Jac\u00f3 e a recriminadora figura do comendador; mas contava com o aux\u00edlio<br \/>\nda Rosa, a criada que lhe remetera a roupa, que lhe protegera sempre os amores<br \/>\ncom Portela e que, naquela ocasi\u00e3o, j\u00e1 estaria seguramente \u00e0<br \/>\nsua espera no port\u00e3o traseiro da ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>Rosa era muito discreta e muito fina; falcatruas arranjadas por ela produziam<br \/>\nsempre bom resultado. Teresa dava-lhe roupas, vestidos pouco usados, sapatos<br \/>\nainda novos, leques \u00e0 moda; mandara ornar-lhe a cama com um cortinado<br \/>\ne cedera-lhe at\u00e9 um dos tapetes de seu quarto. Sabia que a criada usava<br \/>\ndos seus perfumes, dos seus sabonetes e dos seus cosm\u00e9ticos, mas fechava<br \/>\nos olhos a tudo isso e ainda intercedia por ela sempre que o comendador a<br \/>\nacusava.<\/p>\n<p>O carro afinal parou defronte do port\u00e3o, e Teresa apeou-se, ligeiramente<br \/>\ntr\u00eamula.<\/p>\n<p>Seriam oito horas da manh\u00e3 e o dia estava magn\u00edfico.<\/p>\n<p>Ficou por um instante \u00e0 porta, sem querer entrar.<\/p>\n<p>A ch\u00e1cara apresentava-lhe uma fisionomia repreensiva e severa; a<br \/>\ncasa, as \u00e1rvores, o repuxo do tanque, tudo tinha ent\u00e3o para<br \/>\nela um duro aspecto de censura e de queixa.<\/p>\n<p>A luz penetrante do sol, derramando-se por toda parte, parecia ralhar, arg\u00fcir,<br \/>\nfazer reprova\u00e7\u00f5es. Toda a natureza a intimidava com a sua mudez<br \/>\naustera e com a sua inalter\u00e1vel tranq\u00fcilidade.<\/p>\n<p>Teresa sentia-se envergonhada, corrida; n\u00e3o tinha \u00e2nimo de<br \/>\nlevantar a cabe\u00e7a. Os empregados p\u00fablicos desciam para os seus<br \/>\nempregos, devagar, no passo met\u00f3dico dos homens que regulam a vida<br \/>\npelo ordenado, a caminharem na imperturbabilidade de funcion\u00e1rios pagos<br \/>\npor m\u00eas. Passavam os bondes, cheios, pesados; singravam os caixeiros<br \/>\nde cobran\u00e7a, os pretos de carga, os vendedores de jornal, as carro\u00e7as<br \/>\nde p\u00e3o, os estudantes, os meninos de col\u00e9gio e as costureiras.<br \/>\nE todo esse mundo da atividade e do trabalho esfervilhava ao sol, como um<br \/>\nexemplo humilhante.<\/p>\n<p>Teresa fechou os olhos para n\u00e3o ver esse doloroso espet\u00e1culo.<br \/>\nA vida real entrava-lhe na imagina\u00e7\u00e3o como um jato de \u00e1gua<br \/>\nfria. Ainda na v\u00e9spera, ela se persuadira que ia por uma vez desprezar<br \/>\ntudo aquilo; que nunca mais veria tal vizinho passar a horas certas para a<br \/>\nsua reparti\u00e7\u00e3o; que n\u00e3o ouviria tal piano de casa pr\u00f3xima<br \/>\ntocar certa e determinada m\u00fasica; que n\u00e3o suportaria mais a<br \/>\nvoz da preta que de manh\u00e3 passava impreterivelmente na rua a apregoar<br \/>\nfrutas; julgara que nunca mais daria com os olhos no vizinho da frente, um<br \/>\ntaverneiro barrigudo, de perninhas curtas e barbas debaixo do queixo; persuadira-se<br \/>\nenfim que se havia por uma vez libertado de todas aquelas mis\u00e9rias<br \/>\npositivas, que a constrangiam, que a matavam de vergonha e de t\u00e9dio.<\/p>\n<p>As pr\u00f3prias casas da vizinhan\u00e7a, a m\u00e1 pintura das tabuletas,<br \/>\no desenho de um boi impass\u00edvel na parede de um a\u00e7ougue que ficava<br \/>\ndefronte, as desgra\u00e7adas alegorias da taverna da esquina, o farmac\u00eautico<br \/>\npequenino, magro, amarelo, que vinha todas as tardes assentar-se debaixo de<br \/>\num flamboyant fronteiro \u00e0 farm\u00e1cia; tudo isso a enjoava, tudo<br \/>\nisso lhe produzia efeitos insuport\u00e1veis.<\/p>\n<p>A malograda fuga com o Portela havia sorrido ao esp\u00edrito de Teresa<br \/>\nmais pelo lado do imprevisto, do desconhecido, do aventuroso, do que mesmo<br \/>\npelo amor que ela lhe pudesse ter.<\/p>\n<p>Desejara aquela fuga como um doente deseja mudar de um lugar para obter<br \/>\nnovos ares; outro qualquer mo\u00e7o, igualmente vigoroso e bem disposto,<br \/>\n\u00e9 natural que produzisse nela iguais efeitos.<\/p>\n<p>A sua imagina\u00e7\u00e3o precisava de atividade dram\u00e1tica,<br \/>\ncomo seu corpo precisava de atividade sexual.<\/p>\n<p>Mas, as decep\u00e7\u00f5es da v\u00e9spera faziam-na por um instante<br \/>\nesquecer tudo isso, para s\u00f3 pensar na possibilidade de restituir-se<br \/>\nde novo ao lar dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! se Deus me tivesse deixado uma de minhas filhas&#8230; dizia ela<br \/>\nconsigo, a subir muito apressada a pequena escada de pedra que conduzia da<br \/>\nch\u00e1cara para o jardim; n\u00e3o estaria eu agora com certeza a sofrer<br \/>\ndeste modo: haveria de sentir-me escudada por ela e pelo meu amor de m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>Rosa veio ao seu encontro e, sem lhe dar uma palavra, sem fazer um gesto<br \/>\nde espanto, abriu com pressa a porta da cozinha que dava para o jardim, e<br \/>\nf\u00ea-la passar, empurrando-a familiarmente pelas costas.<\/p>\n<p>\u2014 Entre a\u00ed para o meu quarto, ordenou a criada. Eu j\u00e1<br \/>\nlhe venho dizer quando deve subir.<\/p>\n<p>Espere um pouco! E Rosa, apanhando as saias, ganhou a primeira escada e<br \/>\ndesapareceu.<\/p>\n<p>Teresa ficou s\u00f3, \u00e0 espera, com o chap\u00e9u na cabe\u00e7a,<br \/>\na capa nas costas, im\u00f3vel, como se estivesse muito empenhada em observar<br \/>\nos objetos que tinha defronte dos olhos. E, sem querer, come\u00e7ou a calcular<br \/>\no efeito da sua apari\u00e7\u00e3o ao lado do marido; via-se toda confusa<br \/>\na fazer-lhe festinhas, a consol\u00e1-lo do que havia sucedido, a adul\u00e1-lo.<br \/>\nE, ainda sem querer, come\u00e7ou a considerar como devia entrar, se depressa<br \/>\nou vagarosamente; se devia deixar embaixo o chap\u00e9u e apresentar-se<br \/>\ninalter\u00e1vel, como se n\u00e3o houvesse a menor novidade; ou se deveria<br \/>\nentrar com espalhafato, fingindo indigna\u00e7\u00e3o por qualquer coisa;<br \/>\nse devia n\u00e3o dar palavra ao marido e esperar que tudo voltasse por<br \/>\nsi mesmo aos seus eixos, ou se devia lan\u00e7ar-se-lhe aos p\u00e9s e<br \/>\npedir-lhe perd\u00e3o com palavras ardentes, com solu\u00e7os e gestos<br \/>\nteatrais.<\/p>\n<p>Mas antes de chegar a qualquer conclus\u00e3o, j\u00e1 a criada voltava<br \/>\na dizer-lhe apressadamente da porta: \u2014 Agora! Agora! Passe agora. Ande!<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m na varanda! Suba e v\u00e1 para o seu<br \/>\nquarto! Teresa cumpriu aquela ordem, como se a recebesse de um superior.<\/p>\n<p>\u2014 Ligeiro! gritou-lhe Rosa, assim que ela atravessou a cozinha e ganhou<br \/>\na escada. E logo que a viu desaparecer, espocou uma risada surda e soltou<br \/>\nentre dentes uma exclama\u00e7\u00e3o injuriosa.<\/p>\n<p>Depois, muito satisfeita com aquele epis\u00f3dio que humilhava a senhora,<br \/>\nentrou no seu quarto, donde acabava de sair Teresa, e principiou por desfastio<br \/>\na arrumar os objetos sobre os m\u00f3veis e a cantar em voz alta, com desembara\u00e7o,<br \/>\numa chula sua favorita.<\/p>\n<p>Quando saiu do quarto, disse \u201cAi, ai!\u201d e subiu a escada lentamente,<br \/>\ncom maneiras de dona de casa.<\/p>\n<p>Teresa n\u00e3o apareceu \u00e0 mesa, almo\u00e7ou nos seus aposentos,<br \/>\nesperando que Ol\u00edmpia deixasse a cabeceira do pai, para ent\u00e3o<br \/>\napresentar-se ela.<\/p>\n<p>Mal, por\u00e9m, havia feito a refei\u00e7\u00e3o, soaram duas pancadinhas<br \/>\n\u00e0 porta. A leviana retraiu-se.<\/p>\n<p>\u2014 Sou eu, abra, disse de fora uma voz amiga.<\/p>\n<p>Era Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>Teresa corou; a outra, por\u00e9m, passando-lhe um bra\u00e7o na cintura,<br \/>\nbeijou-a na face.<\/p>\n<p>A madrasta estranhou muito aquela inesperada amabilidade. A enteada fora<br \/>\nsempre muito seca para com ela; e a sua surpresa cresceu, quando a filha do<br \/>\nmarido come\u00e7ou a declarar que estava muito aflita, receando que m\u00e3ezinha<br \/>\nn\u00e3o voltasse, e que desejava ser a primeira a dar ao pai a boa not\u00edcia<br \/>\nda sua chegada.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! disse Teresa; ele deve estar muito zangado comigo&#8230;<br \/>\no melhor \u00e9 esperarmos que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual! eu obtenho de papai o que bem quero&#8230; Hei de falar-lhe por<br \/>\ntal modo a seu respeito, m\u00e3ezinha, que ele nem s\u00f3 a receber\u00e1<br \/>\nde bra\u00e7os abertos, como ainda me ficar\u00e1 reconhecido.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o; \u00e9 melhor esperar. Talvez que a minha presen\u00e7a<br \/>\nagora lhe fa\u00e7a mal&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso vou consultar primeiro o Dr. Roberto! lembrou a outra<br \/>\ncom um repente de menina esperta.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 doida! Meter nisto um estranho?!&#8230;<\/p>\n<p>Mas Ol\u00edmpia afian\u00e7ava que havia de arranjar tudo. E, com crescente<br \/>\nsurpresa da outra mostrava-se cada vez mais interessada pela madrasta. N\u00e3o<br \/>\nparecia a mesma; aquela falta rid\u00edcula e censur\u00e1vel de Teresa,<br \/>\nlonge de lhe produzir indigna\u00e7\u00f5es, como era de esperar, despertava<br \/>\nnela estranhas simpatias e inexplic\u00e1veis condol\u00eancias.<\/p>\n<p>Entretanto, Ol\u00edmpia fazia tudo isso sem compreender bem por qu\u00ea.<br \/>\nTeresa ganhava a seus olhos certa aur\u00e9ola de poesia e sofrimento; a<br \/>\nsua penosa situa\u00e7\u00e3o dava-lhe, aos olhos da rom\u00e2ntica menina,<br \/>\nuns tons sedutores de hero\u00edna de romance; sem prever a pobre crian\u00e7a<br \/>\nque, toda essa desordem moral e toda essa desorganiza\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica,<br \/>\nhaviam fatalmente de influir na sua pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne determinar, mais tarde, os lament\u00e1veis sucessos de que j\u00e1<br \/>\no leitor tem not\u00edcia desde as primeiras cenas da Avenida Estrela.<\/p>\n<p>Nenhuma li\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o poderosa como a do exemplo.<br \/>\nFiltra-se ela pelo nosso esp\u00edrito sem que o sintamos; e ela nos invade,<br \/>\nnos conquista, nos possui totalmente, sem que possamos determinar ao certo<br \/>\nqual foi o fato, o acontecimento que em n\u00f3s estabeleceu este ou aquele<br \/>\nsintoma, esta ou aquela inclina\u00e7\u00e3o, sem que possamos dizer o<br \/>\nque foi que nos trouxe tal v\u00edcio, tal idiossincrasia, tal propens\u00e3o<br \/>\nboa ou m\u00e1. Tudo mais, que aprendemos de ouvido ou que aprendemos nos<br \/>\nlivros, se evapora com o tempo e desaparece; s\u00f3 essas li\u00e7\u00f5es,<br \/>\nque nos entraram pelos olhos e nos espalharam na alma as suas ra\u00edzes,<br \/>\ns\u00f3 essas conservaremos por toda a vida e levaremos conosco para a sepultura.<\/p>\n<p>Teresa, sem que ela fosse respons\u00e1vel por isso, n\u00e3o por maldade,<br \/>\nmas unicamente em conseq\u00fc\u00eancia das circunst\u00e2ncias especiais<br \/>\ndo seu temperamento, da sua m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o e da despropor\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sua idade com a do marido, havia fatalmente de ser um elemento de corrup\u00e7\u00e3o<br \/>\nao lado de Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>A filha do comendador beijou ainda uma vez a madrasta, e saiu, com destino<br \/>\nao quarto do pai. Ia sondar em que disposi\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito<br \/>\nse achava ele para receber a mulher.<\/p>\n<p>O pobre homem permanecia estendido na cama. Tinha os olhos cerrados, mas<br \/>\nn\u00e3o dormia, porque os abriu logo que a filha pisou na alcova com o<br \/>\nseu andar sutil de ave imp\u00fabere.<\/p>\n<h2><a name=\"25\"><\/a> XXV O MARIDO DE OL\u00cdMPIA<\/h2>\n<p>O comendador levantou-se da mol\u00e9stia pelos bra\u00e7os da filha<br \/>\ne da esposa. Ol\u00edmpia havia triunfado: o pobre doente consentira em<br \/>\nreceber de novo a leviana. Mas, ah! nunca mais lhe dispensou a mesma ternura<br \/>\ndos outros tempos; tratava-a agora com cerimoniosa indiferen\u00e7a, quase<br \/>\ncom desprezo; apenas a suportava por condescend\u00eancia \u00e0 filha<br \/>\nque, desde logo, se convertera na sua \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne no seu \u00fanico afeto. N\u00e3o gostava at\u00e9 que lhe falassem<br \/>\nda mulher, poucas vezes a via e, quando se encontravam juntos \u00e0 mesa,<br \/>\nn\u00e3o trocavam entre si sequer um olhar.<\/p>\n<p>Ela, entretanto, muito se transformara depois da partida do c\u00famplice.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o ostentava os mesmos gostos e as mesmas inclina\u00e7\u00f5es;<br \/>\nparecia indiferente \u00e0s festas e aos passeios; n\u00e3o caprichava<br \/>\nna escolha das roupas e sa\u00eda poucas vezes de casa. Vivia triste, concentrada;<br \/>\nestava muito mais magra, por\u00e9m aparentemente resignada. Ningu\u00e9m<br \/>\nlhe ouvia uma queixa contra o marido; agora ao contr\u00e1rio, parecia procurar<br \/>\ndescobrir-lhe as inten\u00e7\u00f5es, as mais pequeninas vontades, para<br \/>\ncorrer a satisfaz\u00ea-las; adivinhava-lhe os desejos, armava-lhe boas surpresas<br \/>\ne mostrava-se para com ele de uma solicitude e de uma amabilidade de que nunca<br \/>\ndera exemplo em outras \u00e9pocas.<\/p>\n<p>Mas o comendador afetava n\u00e3o atentar para isso; recebia os obs\u00e9quios<br \/>\nque vinham da mulher com a mesma indiferen\u00e7a com que ouvira falar de<br \/>\nqualquer assunto que absolutamente lhe n\u00e3o dissesse respeito. N\u00e3o<br \/>\na contrariava, n\u00e3o desdizia, n\u00e3o a aconselhava, se ela quisesse<br \/>\nsair, que sa\u00edsse; se quisesse ficar em casa, que ficasse; se quisesse<br \/>\nmorrer, que morresse! Para ele era tudo a mesma coisa; contanto que lhe deixassem<br \/>\na sua querida, a sua adorada Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>Para esta, sim, tinha o comendador bons sorrisos, palavras afetuosas e rasgos<br \/>\nde amizade.<\/p>\n<p>Sempre que entrava em casa perguntava logo por ela e nunca sa\u00eda sem<br \/>\nreceber um beijo dos seus l\u00e1bios finos e perfumados.<\/p>\n<p>Assim se passaram seis meses.<\/p>\n<p>Um dia Ol\u00edmpia comunicou-lhe que a madrasta estava doente.<\/p>\n<p>\u2014 Sim? resmungou o pai. E continuou a falar do assunto de que tratava.<\/p>\n<p>\u2014 Oh! disse a menina. H\u00e1 dois dias!&#8230; Pois papai n\u00e3o<br \/>\nv\u00ea que ela n\u00e3o tem vindo \u00e0 mesa?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o reparei, afirmou o velho secamente.<\/p>\n<p>\u2014 E por que n\u00e3o lhe vai fazer uma visita?&#8230; perguntou Ol\u00edmpia,<br \/>\nameigando-o. Ela havia de estimar tanto, coitada!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, sim, eu hei de l\u00e1 ir, prometeu ele para contentar a<br \/>\nfilha.<\/p>\n<p>Mas tr\u00eas dias se passaram depois da promessa, sem que o comendador<br \/>\naparecesse no quarto da mulher.<\/p>\n<p>\u2014 Antes me castigasse de outro modo! disse esta \u00e0 enteada em<br \/>\ncontinua\u00e7\u00e3o a uma conversa.<\/p>\n<p>Nunca pensei que teu pai fosse t\u00e3o pacificamente mau! Estou arrependida<br \/>\nde ter aqui voltado, cr\u00ea! Ol\u00edmpia n\u00e3o se animou a objetar<br \/>\numa palavra em defesa do comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Sei que mere\u00e7o censura, acrescentou a enferma, com a voz<br \/>\nfraca e infeliz; sei que cometi uma grande falta, mas a minha conduta de ent\u00e3o<br \/>\npara c\u00e1 devia obter o seu perd\u00e3o. Ele v\u00ea perfeitamente<br \/>\nque estou bem arrependida, por que ent\u00e3o nesse caso n\u00e3o me trata<br \/>\nde outro modo?&#8230; Oh! eu me sinto triste com a id\u00e9ia da sua vingan\u00e7a,<br \/>\ne, todavia, precisava agora, mais que nunca, de desvelos e de amparo&#8230; Estou<br \/>\ndoente, sinto que estou muito mal, por que pois ele me n\u00e3o vem ver?&#8230;<br \/>\npor que n\u00e3o me vem dar duas palavras de piedade?&#8230; Isso n\u00e3o<br \/>\nseria tamb\u00e9m t\u00e3o grande sacrif\u00edcio&#8230; seria uma simples<br \/>\nobra de miseric\u00f3rdia&#8230;<\/p>\n<p>E, depois de fitar por algum tempo um mesmo ponto, com as m\u00e3os entre<br \/>\nas de Ol\u00edmpia, disse-lhe sem transi\u00e7\u00e3o: \u2014 Nunca<br \/>\nte cases sen\u00e3o com um homem de idade proporcionada \u00e0 tua&#8230;<br \/>\nN\u00e3o cometas nunca semelhante leviandade! Por melhor que seja o teu<br \/>\ncar\u00e1ter, por mais perfeito que seja o teu cora\u00e7\u00e3o, por<br \/>\nmais senhora que fores do teu temperamento, dos teus desejos e das tuas aspira\u00e7\u00f5es,<br \/>\nnunca dar\u00e1s uma esposa perfeita, se ao teu casamento n\u00e3o presidirem,<br \/>\no amor em primeiro lugar, depois a harmonia completa de idades, de esp\u00edrito,<br \/>\nde bens e de educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o calculas o inferno em que<br \/>\nvive uma mulher mo\u00e7a casada com um velho! N\u00e3o \u00e9 simplesmente<br \/>\no fato de lhe n\u00e3o dar o marido o amor de que ela precisa para viver,<br \/>\nmas tamb\u00e9m a desgra\u00e7ada circunst\u00e2ncia de que esse casamento<br \/>\na inutiliza de todo para o amor de qualquer outro homem! Ol\u00edmpia ouvia<br \/>\nas palavras da madrasta com os olhos muito abertos e a fisionomia transbordante<br \/>\nde curiosidade. Era a primeira vez que Teresa se queixava do comendador e<br \/>\ndeixava transparecer francamente o azedume dos seus desgostos.<\/p>\n<p>\u2014 O amante, prosseguiu a madrasta, tamb\u00e9m n\u00e3o satisfaz,<br \/>\nporque n\u00e3o nos pode dar o que constitui a nossa melhor felicidade em<br \/>\nquest\u00f5es de amor. O marido velho est\u00e1 em uma extremidade, o<br \/>\namante est\u00e1 na outra; n\u00e3o podem atingir ao meio termo, o centro<br \/>\ncalmo de um amor leg\u00edtimo, digno e completo, que \u00e9 onde encontramos<br \/>\na verdadeira ventura, o gozo pl\u00e1cido e duradouro da exist\u00eancia.<br \/>\nS\u00f3 um marido mo\u00e7o, amigo, com o seu destino ligado ao nosso,<br \/>\na sua dignidade entrela\u00e7ada com a nossa dignidade, pode colocar-se<br \/>\nnesse meio termo ideal. \u00c9 preciso que os dois caminhem de m\u00e3os<br \/>\ndadas para a velhice, unidos, seguros; o seu amor deve ir custodiado, como<br \/>\num perfume sutil e precioso que se pode derramar pelo caminho. E isso s\u00f3<br \/>\nse consegue com o casamento proporcionado. Ao contr\u00e1rio, no melhor<br \/>\nda viagem, um deixar\u00e1 o outro no meio da estrada. O amante n\u00e3o<br \/>\npode sequer compreender o valor dessa afei\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria,<br \/>\n\u00fatil e sem transportes; ele nada arrisca, nada compromete no seu amor,<br \/>\npara desejar conserv\u00e1-lo puro e digno. A id\u00e9ia de que o marido<br \/>\nconsiga agradar \u00e0 mulher com as suas ternuras, \u00e9 o bastante<br \/>\npara lev\u00e1-lo a imaginar meios e modos de suplantar o rival e, como<br \/>\no jogador que arrisca sobre a mesa os capitais alheios, comete o que o marido<br \/>\nnunca teria \u00e2nimo de fazer. O que vier \u00e9 lucro! Por outro lado,<br \/>\nas circunst\u00e2ncias que o trazem afastado da amante, lhe facultam acumular<br \/>\npor um m\u00eas, dois, e \u00e0s vezes por mais tempo, a por\u00e7\u00e3o<br \/>\nde ternura que o marido vai diariamente dispensando \u00e0 mulher em doses<br \/>\npequenas; de sorte que, na ocasi\u00e3o de se apresentar, gasta brilhantemente,<br \/>\nem uma s\u00f3 entrevista, tudo o que o outro consome durante um prazo longo.<br \/>\nAs mulheres, em geral, deixam-se iludir com isso e sup\u00f5em o amante<br \/>\nmuito mais amoroso que o marido; n\u00e3o se lembram, as desmioladas, que<br \/>\ns\u00f3 o fogo lento \u00e9 suscet\u00edvel de dura\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO amante tem chama peri\u00f3dica como os vulc\u00f5es; o marido conserva<br \/>\nconstantemente aceso o modesto braseiro do lar, o lume da sua casa.<\/p>\n<p>Teresa acrescentou depois: \u2014 N\u00e3o te cases com um velho, minha<br \/>\nquerida Ol\u00edmpia; mas, se porventura vier a suceder-te tamanha desgra\u00e7a,<br \/>\nnunca procures remediar esse mal com o mal muito maior de adotares um amante.<br \/>\nO homem que \u00e9 capaz de aceitar semelhante papel, n\u00e3o \u00e9<br \/>\ndigno da nossa menor estima, porque o fato de ser amante de uma mulher casada<br \/>\nj\u00e1 \u00e9 prova irrecus\u00e1vel de deslealdade e de falta de car\u00e1ter&#8230;<\/p>\n<p>Nisto foi interrompida pelo Dr. Roberto que vinha visit\u00e1-la.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico achou-a mais abatida e gravemente pior, segundo o que disse<br \/>\ndepois Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>O comendador recebeu essa not\u00edcia sem lhe dar a menor import\u00e2ncia.<br \/>\nE quando, \u00e0 noite, Ol\u00edmpia insistiu com ele para que fosse fazer<br \/>\numa visita \u00e0 Teresa, o velho respondeu asperamente que n\u00e3o,<br \/>\nesquecendo-se por um instante do modo carinhoso por que costumava tratar a<br \/>\nfilha.<\/p>\n<p>Dois dias depois o Dr. Roberto declarou que Teresa precisava mudar de ares;<br \/>\ne a enferma mudou-se para um hotel que se acabava de abrir no morro da santa<br \/>\nde seu nome. Foi s\u00f3; o marido n\u00e3o a quis acompanhar.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia iria ter com ela de vez em quando.<\/p>\n<p>O comendador mostrava-se cada vez mais diferente; todavia n\u00e3o p\u00f4de<br \/>\nesconder o abalo que lhe causou a figura transformada da mulher, quando a<br \/>\nviu aparecer, pelo bra\u00e7o de Ol\u00edmpia e de uma escrava, para tomar<br \/>\no carro.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o a teria reconhecido em outro lugar. Estava completamente<br \/>\ndesfeita; os olhos mortos, a pele de uma palidez cadav\u00e9rica, o ar cansado<br \/>\ne aflito, os cabelos embara\u00e7ados e ressequidos pela febre. N\u00e3o<br \/>\npodia quase andar, arrastava os p\u00e9s inchados, e gemia, a tomar respira\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom muita dificuldade.<\/p>\n<p>Ao passar perto do marido, ela o cumprimentou, procurando dificilmente transformar<br \/>\na express\u00e3o agoniada do rosto em um sorriso de amabilidade, mas teve<br \/>\nlogo de cortar o sorriso com um gemido doloroso.<\/p>\n<p>O comendador avan\u00e7ou automaticamente dois passos e procurou ajud\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se incomode! murmurou ela. Eu vou bem!&#8230;<\/p>\n<p>E continuou a manquejar, gemendo ofegante.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o chegava um caixeiro da casa do Figueiredo, que o comendador<br \/>\nmandara pedir para acompanhar Teresa ao hotel.<\/p>\n<p>Era o Jo\u00e3o Rosa; teria nesse tempo uns catorze ou quinze anos. J\u00e1<br \/>\ndenunciava por\u00e9m o que havia de ser para o futuro; cintilava-lhe nos<br \/>\nolhos de crian\u00e7a a cobi\u00e7a adquirida em contacto com os companheiros<br \/>\nde trabalho. Era amarelo, seco, com a cabe\u00e7a grande demais para o corpo,<br \/>\na boca apertada, o nariz grosso, o cabelo cortado \u00e0 escovinha, unhas<br \/>\ne dentes sujos. Passava por muito esperto e aproveit\u00e1vel: os patr\u00f5es<br \/>\ngostavam dele.<\/p>\n<p>\u2014 Acompanhe essa senhora ao lugar a\u00ed indicado, disse-lhe o<br \/>\ncomendador, passando-lhe um cart\u00e3o com o n\u00famero e o nome do<br \/>\nhotel.<\/p>\n<p>E acrescentou-lhe em voz baixa, de modo que a mulher o n\u00e3o ouvisse:<br \/>\n\u2014 Demore-se um pouco \u00e0s ordens dela; pergunte-lhe se precisa<br \/>\nde alguma coisa e, dado este caso, comunique-me o que for. N\u00e3o despe\u00e7a<br \/>\no carro; se houver qualquer novidade, meta-se nele e venha logo falar comigo.<br \/>\nTome l\u00e1 para alguma despesa imprevista.<\/p>\n<p>Entregou-lhe uma nota de cinq\u00fcenta mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rosa guardou o dinheiro e despediu-se do comendador com uma<br \/>\nmesura humilde.<\/p>\n<p>\u2014 Viva! respondeu este; e recolheu-se ao quarto, inalteravelmente,<br \/>\ncomo sempre, teso, limpo, bem penteado.<\/p>\n<p>Mas, depois de fechar a porta por dentro, assentou-se \u00e0 secret\u00e1ria,<br \/>\nfincou os cotovelos na mesa, segurou a cabe\u00e7a com ambas as m\u00e3os,<br \/>\ne come\u00e7ou a chorar.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 passeava de um para o outro lado na sala de espera. Estava preocupado.<br \/>\nOuvia-se sobre o tapete o som discreto dos seus grandes sapatos de bezerro,<br \/>\nmuito engraxados e quase sem salto.<\/p>\n<p>Um gemido mais forte, fizera-o correr para junto dele.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 era o \u00fanico que havia compreendido bem a perturba\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo comendador. Para ele o amo n\u00e3o podia dissimular a mais passageira<br \/>\nimpress\u00e3o, o velho criado adivinhava-lhe os pensamentos, lia-lhe no<br \/>\nrosto tudo o que se passava naquele cora\u00e7\u00e3o amargurado e cheio<br \/>\nde rugas.<\/p>\n<p>Teresa chegou muito fatigada ao hotel, uma enfermeira de contrato trouxe-lhe<br \/>\num caldo e f\u00eala recolher-se \u00e0 cama.<\/p>\n<p>\u2014 Que horas s\u00e3o?&#8230; perguntou a doente, com ar de fastio.<\/p>\n<p>\u2014 Deram duas agora mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Bem. D\u00ea-me aquele livro de capa encarnada. Esse que tem uma<br \/>\ncruz em cima.<\/p>\n<p>Justamente! \u2014 A senhora precisa ainda de mim para alguma coisa?&#8230;<br \/>\nperguntou o Jo\u00e3o Rosa, de quem Teresa j\u00e1 se havia esquecido.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! disse ela. Se voltar l\u00e1 em casa, diga a Ol\u00edmpia<br \/>\nque apare\u00e7a o mais depressa poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Adeus. Obrigado.<\/p>\n<p>O comendador n\u00e3o aparecera \u00e0 mesa de jantar, e \u00e0 noite<br \/>\npouco conversou com a filha.<\/p>\n<p>O pobre velho sofria.<\/p>\n<p>Criaram-se ent\u00e3o duas exist\u00eancias bem diversas, mas igualmente<br \/>\nduras e desconfortadas; a do comendador ao lado da filha, e a de Teresa \u00e0<br \/>\nmerc\u00ea dos cuidados mercen\u00e1rios de um hoteleiro.<\/p>\n<p>A esposa faz muita falta ao homem em qualquer situa\u00e7\u00e3o da<br \/>\nvida, mas essa falta s\u00f3 toma um car\u00e1ter verdadeiramente perigoso<br \/>\ne lament\u00e1vel, quando o homem tem uma filha. E principalmente se a filha<br \/>\nfor da idade de Ol\u00edmpia e, como esta, tiver um car\u00e1ter impression\u00e1vel<br \/>\ne romanesco.<\/p>\n<p>Os pequeninos servi\u00e7os dom\u00e9sticos, os cuidados do lar, os<br \/>\ndesvelos para com o dono da casa, os quais exercidos por uma esposa, feitos<br \/>\nde mulher a marido, s\u00e3o destinados a prend\u00ea-los de parte a parte,<br \/>\na identific\u00e1-los cada vez mais e a torn\u00e1-los indispens\u00e1veis<br \/>\num para o outro; tudo isso que, entre um casal, significa virtude e garantia<br \/>\nde felicidade, uma vez arrancado das m\u00e3os da esposa, para ser confiado<br \/>\n\u00e0s de uma filha, se converte em elemento de efeitos diametralmente<br \/>\nopostos.<\/p>\n<p>O que servia para chamar a consci\u00eancia da mulher aos seus deveres,<br \/>\ns\u00f3 serve, no outro caso, para desencaminhar a delicada ingenuidade<br \/>\nda filha, chegando at\u00e9 a lhe desvirtuar o pudor.<\/p>\n<p>O comendador Ferreira, \u00e0 semelhan\u00e7a de muitos pais, vi\u00favos<br \/>\nou separados da mulher, entregou \u00e0 filha a dire\u00e7\u00e3o da<br \/>\nsua casa.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que ela viu pela primeira vez o homem a quem veio a esposar:<br \/>\no caixa da casa Paulo Cordeiro, o tal Gon\u00e7alves, v\u00edtima de Pedro<br \/>\nRuivo no roubo dos vinte contos; homem forte, trabalhador, econ\u00f4mico,<br \/>\nsenhor de boas economias e apenas com trinta e tantos anos de idade.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia o encontrou em casa de um velho amigo do pai, um conselheiro<br \/>\ndessa \u00e9poca. O Gon\u00e7alves ficou logo muito impressionado por<br \/>\nela; Ol\u00edmpia tocou e cantou. No dia seguinte ele fez uma visita ao<br \/>\ncomendador. No primeiro domingo voltou e aceitou o convite para jantar. Da\u00ed<br \/>\na quinze dias pediu a mo\u00e7a em casamento.<\/p>\n<p>A filha do comendador consentia, sem repugn\u00e2ncia, mas tamb\u00e9m<br \/>\nsem o menor entusiasmo.<\/p>\n<p>O comendador estava no mesmo caso, permitia por n\u00e3o ter outro rem\u00e9dio;<br \/>\no Dr. Roberto havia declarado que Ol\u00edmpia, se n\u00e3o tratasse logo<br \/>\nde casar, podia vir a padecer muito dos nervos, e ent\u00e3o seria mais<br \/>\ndif\u00edcil combater a mol\u00e9stia.<\/p>\n<p>Todavia esse casamento estava destinado a transformar a casa do comendador<br \/>\ne o car\u00e1ter de Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves iria morar com o sogro, fazendo assim a vontade ao comendador,<br \/>\nque n\u00e3o queria separar-se da filha por coisa alguma deste mundo.<\/p>\n<p>Maior que fosse a fam\u00edlia, havia lugar de sobra no preventivo casar\u00e3o<br \/>\nde Botafogo.<\/p>\n<p>O velho, sobre estar muito agarrado ao seu canto, vivia ultimamente aborrecido<br \/>\ne enfermi\u00e7o.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria filha, de algum tempo \u00e0quela parte, n\u00e3o parecia<br \/>\ntomar pelo pai o mesmo afetuoso interesse com que dantes lhe arrimava os dissabores<br \/>\ne as desilus\u00f5es. Andava distra\u00edda; n\u00e3o tinha as alegrias<br \/>\nda sua idade, fugia das amigas, poucas vezes sa\u00eda de casa, e mesmo<br \/>\nassim quase sempre para visitar Teresa. S\u00f3 os romances franceses e,<br \/>\n\u00e0s vezes, o piano, conseguiam prend\u00ea-la por mais algum tempo.<br \/>\nN\u00e3o lhe falassem em festas, passeios e ajuntamentos.<\/p>\n<p>O comendador chamou sobre ela a aten\u00e7\u00e3o do Dr. Roberto. Esse<br \/>\ndeclarou que tudo aquilo desapareceria com o casamento.<\/p>\n<p>Foi essa, como j\u00e1 vimos, a \u00fanica raz\u00e3o que moveu aquele<br \/>\na consentir na uni\u00e3o de Ol\u00edmpia com o Gon\u00e7alves. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9 que desdenhasse das qualidades do pretendente, mas o Gon\u00e7alves<br \/>\nestava longe de ser o ideal que o comendador sonhava para genro. Preferia<br \/>\num homem mais distinto, mais cultivado no trato e nas coisas do esp\u00edrito;<br \/>\nmais brilhante, em suma. E Gon\u00e7alves era ao contr\u00e1rio um sujeito<br \/>\nmodesto e ch\u00e3o; homem de bom senso, mas de ambi\u00e7\u00f5es estreitas.<br \/>\nO que o puxava mais insistentemente para Ol\u00edmpia, n\u00e3o foi a<br \/>\nbeleza da rapariga, que ela nessa ocasi\u00e3o at\u00e9 estava quase feia;<br \/>\nnem tamb\u00e9m o dote, porque Gon\u00e7alves n\u00e3o seria capaz de<br \/>\ncasar por especula\u00e7\u00e3o, mas foi justamente aquela indiferen\u00e7a<br \/>\npela vida exterior, aquele desquerer das coisas ruidosas que ele, \u00e0<br \/>\nprimeira vista, descobriu logo na filha do comendador.<\/p>\n<p>Pobre homem! como se havia enganado! O que supunha cong\u00eanito e natural<br \/>\nem Ol\u00edmpia, n\u00e3o passava de uma crise, de um estado m\u00f3rbido,<br \/>\nque desapareceria prontamente com o matrim\u00f4nio.<\/p>\n<p>Para qualquer outro seria isso um motivo de felicidade, para ele era um<br \/>\ntranstorno.<\/p>\n<p>Com efeito, pouco depois do casamento, a menina insoci\u00e1vel e bisonha<br \/>\nfoi desaparecendo, e Ol\u00edmpia, a verdadeira Ol\u00edmpia, a mulher<br \/>\nformosa, de ombros torneados e peito colombino, surgia entre os bra\u00e7os<br \/>\ndo marido.<\/p>\n<p>Nela tudo se transformou, como por encanto: a pele fez branca e macia; encheu-se<br \/>\no colo e encorparam-se-lhe os bra\u00e7os; as linhas dos quadris serpentearam<br \/>\ncom mais arrojo; os olhos esparsaram-se, rociados de ternura, e a boca desabrochou<br \/>\nem belos sorrisos ao toque dos primeiros beijos sensuais.<\/p>\n<p>E, se por um lado o corpo se aformoseava, por outro o esp\u00edrito se<br \/>\ndesapertava e distendia.<\/p>\n<p>Quatro meses depois de casada, Ol\u00edmpia principiou a sentir-se atrair<br \/>\npara as salas, seus encantos pediam a admira\u00e7\u00e3o e o aplauso<br \/>\ndos homens de bom gosto; precisava de aparecer, precisava de luzir.<\/p>\n<p>Reclamou jornais de moda, freq\u00fcentou as modistas do tom, exigiu um<br \/>\ncabeleireiro, comprou j\u00f3ias, tomou carruagem, escolheu cavalos, e dentro<br \/>\nem pouco foi ela a ordem do dia na rua do Ouvidor e nos sal\u00f5es de Botafogo.<\/p>\n<p>Os folhetins do Otaviano Rosa, no Correio Mercantil falavam de Ol\u00edmpia;<br \/>\ndescreviam-lhe a toilette, endeusavam-lhe as gra\u00e7as. Suas frases foram<br \/>\nrepetidas, seus gostos imitados.<\/p>\n<p>O comendador n\u00e3o se podia furtar \u00e0 influ\u00eancia de todas<br \/>\nas transforma\u00e7\u00f5es e com o que essas refletiam. Era com orgulho<br \/>\nque agora acompanhava ele a filha ao Cassino, ao L\u00edrico e \u00e0<br \/>\nCampesina.<\/p>\n<p>J\u00e1 ningu\u00e9m o via triste e apoquentado. Os alegres h\u00e1bitos<br \/>\ndo outro tempo foram ressurgindo simultaneamente. \u00c0 casa retornou o<br \/>\nar feliz que havia perdido. Bastou que Ol\u00edmpia se casasse, se fizesse<br \/>\nverdadeira dona de casa, para encontrar facilidade em governar os criados,<br \/>\nem dirigir tudo o que estava sujeito \u00e0 sua vontade. Os fornecedores<br \/>\ndeixaram de roubar, os f\u00e2mulos j\u00e1 n\u00e3o esbanjavam como<br \/>\ndantes, a ch\u00e1cara voltou ao que era primitivamente. Tudo endireitou,<br \/>\ntudo entrou nos eixos. Reapareceram as visitas, iluminaram-se as salas, distribu\u00edram-se<br \/>\nch\u00e1venas de ch\u00e1, desarrolharam-se garrafas de vinho caro.<\/p>\n<p>O \u00fanico descontente era Gon\u00e7alves; aquela mulher, que a todos<br \/>\ndeslumbrava com os seus encantos pessoais, aquela ador\u00e1vel Ol\u00edmpia<br \/>\nde quem se falava com tanto entusiasmo por toda a parte, n\u00e3o lhe convinha<br \/>\na ele para esposa.<\/p>\n<p>N\u00e3o era essa a mulher que havia sonhado.<\/p>\n<p>Imaginara ter descoberto na singela filha do comendador uma companheira<br \/>\nsossegada e amiga do lar; quando de repente lhe surgiu aquela doidejana, a<br \/>\nreclamar sedas, carruagens, bailes, e o diabo a quatro! \u2014 Fui lesado!<br \/>\ndizia ele consigo, plenamente arrependido do casamento. Se adivinhasse semelhante<br \/>\ncoisa, nunca a teria tomado para mulher!&#8230; Mas tamb\u00e9m quem poderia<br \/>\ndesconfiar que em tal songamonga estivesse escondida a Ol\u00edmpia de hoje?&#8230;<\/p>\n<p>E o pior \u00e9 que o pobre Gon\u00e7alves n\u00e3o tinha \u00e2nimo<br \/>\nde contrariar a esposa. Esta o arrastava para Petr\u00f3polis, para Nova<br \/>\nFriburgo; obrigava-o a perder noites, a bocejar, assentado em uma cadeira<br \/>\nna sala de jogo, enquanto ela dan\u00e7ava pelo bra\u00e7o dos melhores<br \/>\nvalsistas do tempo.<\/p>\n<p>\u2014 Isso n\u00e3o pode continuar assim!&#8230; resmungava o pobre homem,<br \/>\nentre bocejos. Pois eu tenho l\u00e1 jeito para essas cousas&#8230;<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso era um gastar sem conta. Ora, ele que se casara justamente<br \/>\npara metodizar a vida e ver se conseguia assegurar o futuro com algum pec\u00falio,<br \/>\nn\u00e3o podia suportar de cara alegre semelhantes imposi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde Ol\u00edmpia. Para deix\u00e1-la sozinha, tamb\u00e9m era o diabo;<br \/>\nhavia tantos olhos assestados sobre ela; havia tanta cobi\u00e7a a lhe farejar<br \/>\naqueles ombros nus, que o marido n\u00e3o se animava a arredar p\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Antes me ficasse ela feiazita e magra como era dantes&#8230; suspirava<br \/>\no infeliz; ao menos n\u00e3o gostaria tanto de aparecer!&#8230;<\/p>\n<p>E, apesar de ningu\u00e9m at\u00e9 a\u00ed ter ousado arriscar a menor<br \/>\npalavra contra o procedimento de Ol\u00edmpia, o triste marido sentia zelos<br \/>\ncru\u00e9is apertarem-lhe silenciosamente o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dia, n\u00e3o mais se p\u00f4de ter, e procurou o comendador para<br \/>\ndesabafar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, seu Ferreira! dizia ele muito<br \/>\ndesgostoso; n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuarem as coisas como<br \/>\nv\u00e3o!&#8230; Eu n\u00e3o me casei para perder as noites em pagodes e andar<br \/>\npor a\u00ed em correrias altas!&#8230; N\u00e3o sou nenhum nababo! n\u00e3o<br \/>\nposso com semelhante vida! E passeava agitado pelo gabinete do sogro.<\/p>\n<p>\u2014 Mas que quer voc\u00ea, homem de Deus?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quero endireitar a minha vida! est\u00e1 a\u00ed o que eu quero!<br \/>\nPois meu sogro acha que n\u00e3o tenho raz\u00e3o para estar aborrecido?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas que \u00e9 que lhe falta?! \u2014 Falta-me a paci\u00eancia<br \/>\npara andar todas as noites de casaca, a fazer mesuras pelas salas e a aturar<br \/>\nmassadas consecutivas. Sua filha, ao que parece, n\u00e3o desejava um marido;<br \/>\ndesejava ter um pajem, um criado \u00e0s ordens dos seus caprichos!&#8230; Ora,<br \/>\neu estou l\u00e1 disposto a semelhante coisa! \u2014 Voc\u00ea fala de<br \/>\nboca cheia, meu genro, respondeu o comendador, a sacudir a cabe\u00e7a.<br \/>\nSabe l\u00e1 voc\u00ea a mulher que tem!&#8230; Renda gra\u00e7as a Deus,<br \/>\nmeu amigo, porque principio a acreditar que voc\u00ea nunca a mereceu.<\/p>\n<p>\u2014 Antes mesmo nunca a tivesse merecido! Dou-lhe a minha palavra de<br \/>\nhonra que preferia isso! O outro mordeu os bei\u00e7os e conteve a impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 melhor pararmos aqui, disse ele; nada lucramos em estar<br \/>\na trocar palavras. O senhor, meu genro, me falar\u00e1 quando estiver mais<br \/>\ntranq\u00fcilo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 n\u00e3o tenho momentos de tranq\u00fcilidade! exclamou<br \/>\ndesabridamente o Gon\u00e7alves. Apre! preciso desabafar! H\u00e1 cinco<br \/>\nmeses que estou cheio at\u00e9 aqui! (E mostrava a garganta com a m\u00e3o<br \/>\naberta). Ou entramos em um acordo ou vai cada um para seu lado! Safa! N\u00e3o<br \/>\nposso mais! \u2014 Pois ent\u00e3o v\u00e1 plantar batatas! gritou o<br \/>\ncomendador, perdendo de todo a paci\u00eancia. Quer fazer reclama\u00e7\u00f5es,<br \/>\nfa\u00e7a-as \u00e0 sua mulher. Que diabo! \u2014 Ela faz mesmo muito<br \/>\ncaso do que lhe digo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o queixe-se de si pr\u00f3prio, meu caro senhor!<br \/>\nQuando o marido n\u00e3o se sente com for\u00e7as para governar a mulher,<br \/>\nn\u00e3o pode exigir que o sogro a governe! O que lhe afian\u00e7o \u00e9<br \/>\nhaver por a\u00ed muito homem casado que n\u00e3o se queixa como o senhor,<br \/>\ntendo muito mais raz\u00e3o para isso! Voc\u00ea ao menos n\u00e3o pode<br \/>\ndizer que sua mulher o ilude!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sei c\u00e1! respondeu o marido de Ol\u00edmpia, sacudindo os<br \/>\nombros.<\/p>\n<p>\u2014 Hein?! exclamou o comendador, furioso. N\u00e3o sabe?! Pois o<br \/>\nsenhor se atreve a duvidar da conduta de minha filha?&#8230; Insolente! bradou<br \/>\no velho, tr\u00eamulo de c\u00f3lera. N\u00e3o sei onde estou que&#8230;<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia estava nessa ocasi\u00e3o a passeio. Quando voltou, soube<br \/>\nlogo da contenda entre o pai e o marido.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor foi ent\u00e3o queixar-se de mim a meu pai?!&#8230; perguntou<br \/>\nela a Gon\u00e7alves quando o viu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! \u00e9 que a senhora&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o seja idiota! bradou-lhe a mulher, franzindo o nariz.<br \/>\nQuando quiser pode-se ir embora! \u2014 E sou muito capaz de o fazer!&#8230;<br \/>\nN\u00e3o sei o que parece andar agora uma criatura a correr seca e meca,<br \/>\npara ver dan\u00e7as e ouvir tocar piano!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu \u00e9 que n\u00e3o estou para atur\u00e1-lo! Tenha a bondade<br \/>\nde me n\u00e3o aborrecer! disse Ol\u00edmpia friamente e recolheu-se ao<br \/>\nquarto, sem querer ouvir a r\u00e9plica do marido.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 assistia a toda esta cena, encostado ao aparador com uma toalha<br \/>\nno bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o te parece que eu tenho raz\u00e3o, Jac\u00f3?&#8230;<br \/>\nperguntou-lhe Gon\u00e7alves, aproximando-se dele.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me envolva nessas hist\u00f3rias&#8230; respondeu o velho<br \/>\ndom\u00e9stico, fugindo por sua vez para outro lado.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves cruzou os bra\u00e7os e sacudiu a cabe\u00e7a sozinho,<br \/>\nno meio da sala.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o?! que me dizem a isto?! exclamou ele.<\/p>\n<h2><a name=\"26\"><\/a> XXVI CA\u00c7A AOS DOCUMENTOS<\/h2>\n<p>E, desde ent\u00e3o, n\u00e3o se passava um dia em que n\u00e3o houvesse<br \/>\nalguma nova rezinga entre o casal; mas o marido, por muito que protestasse<br \/>\ncontra os costumes da mulher, nada conseguira. O comendador tomou abertamente<br \/>\no partido da filha e principiou a tratar o genro com frieza.<\/p>\n<p>\u2014 Logo vi que este homem n\u00e3o poderia convir a Ol\u00edmpia,<br \/>\ndizia e repetia ele consigo.<\/p>\n<p>Grande parvo! em vez de agradecer a Deus o presente que lhe fez, ainda tem<br \/>\no desplante de lamentar-se! Idiota.<\/p>\n<p>E, quando se achava a s\u00f3s com a filha e vinha a p\u00ealo falarem<br \/>\nde Gon\u00e7alves, repisava o comendador com o seu ar aprumado: \u2014<br \/>\nN\u00e3o fa\u00e7as caso, minha flor! diverte-te, brinca, dan\u00e7a<br \/>\n\u00e0 vontade, que \u00e9s mo\u00e7a! Brilha, minha Ol\u00edmpia;<br \/>\nbrilha, que \u00e9s bonita, espirituosa e rica! Deixa falar o tolo de teu<br \/>\nmarido; ele o que tem \u00e9 ci\u00fames! N\u00e3o fa\u00e7as caso!<br \/>\nPreza o teu nome, defende a tua reputa\u00e7\u00e3o, cumpre com os teus<br \/>\ndeveres de senhora honesta, mas continua a ofuscar! Mata de inveja essas presumidas<br \/>\nque est\u00e3o todos os dias a descobrir defeitos em ti! E o velho sentia-se<br \/>\ncada vez mais satisfeito com ela. Para ele n\u00e3o havia em todo o mundo<br \/>\noutro ente t\u00e3o completo, t\u00e3o belo, t\u00e3o agrad\u00e1vel<br \/>\ncomo a filha. Ol\u00edmpia, depois que mudara de g\u00eanio e que se alindara<br \/>\nde corpo, era o seu enlevo e a sua vaidade. Quando a via, decotada no rico<br \/>\nvestido de seda, a chamar a aten\u00e7\u00e3o de todos, a jogar com muita<br \/>\ngra\u00e7a o leque, a responder sorrindo \u00e0s palavras que choviam<br \/>\nda direita e da esquerda, o feliz pai ficava embevecido, a acompanhar- lhe<br \/>\ncom a fisionomia os menores gestos e os mais ligeiros movimentos.<\/p>\n<p>\u2014 E queria o senhor meu genro que este mimo de gra\u00e7as n\u00e3o<br \/>\naparecesse nas salas e ficasse em casa, talvez a jogar a bisca! Tinha que<br \/>\nver&#8230;<\/p>\n<p>Por essa \u00e9poca sofreu o comendador um novo desgosto: a morte de seu<br \/>\nfilho, que estava j\u00e1 nos estudos em S. Paulo.<\/p>\n<p>Este fato alterou de alguma forma, e por algum tempo, a vida da fam\u00edlia,<br \/>\nservindo de paliativo aos desgostos de Gon\u00e7alves. Mas, acabado o luto,<br \/>\nOl\u00edmpia cingiu de novo o seu diadema e reapareceu nas salas.<\/p>\n<p>O pobre homem j\u00e1 n\u00e3o podia suportar semelhante exist\u00eancia.<br \/>\nEra preciso que a esposa se decidisse por uma vez a mudar de vida, ou ele<br \/>\npediria a sua demiss\u00e3o de marido.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia declarou que n\u00e3o estava disposta a alterar de forma<br \/>\nalguma os seus h\u00e1bitos. Se ela, com as suas fantasias, obrigasse o<br \/>\nmarido a sacrif\u00edcios e priva\u00e7\u00f5es, muito bem! seria a<br \/>\nprimeira a fugir da sociedade exigente e a submeter-se a uma vida proporcionada<br \/>\n\u00e0 estreiteza dos seus recursos; mas n\u00e3o! o marido nem precisava<br \/>\ntocar nos bens que trouxera: Ol\u00edmpia era rica, tinha muito com que<br \/>\nsustentar o seu luxo e os seus caprichos; Gon\u00e7alves, por conseguinte,<br \/>\nque deixasse de ser ego\u00edsta e n\u00e3o a estivesse contrariando daquele<br \/>\nmodo, porque isso podia ter lament\u00e1veis conseq\u00fc\u00eancias&#8230;<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves opunha carradas de raz\u00e3o: dizia que se casara para<br \/>\nviver com a mulher e n\u00e3o para proporcionar mais um bom par aos dan\u00e7adores<br \/>\nde valsa; que era homem sossegado, amigo dos seus c\u00f4modos, gostando<br \/>\nde passar os domingos na sua ch\u00e1cara, e que n\u00e3o se achava disposto,<br \/>\npor conseguinte, a andar por a\u00ed, num torniquete, de casaca, a cochilar,<br \/>\nque nem o Imperador; que estava j\u00e1 muito farto de bailes, de jantares<br \/>\ne de teatros l\u00edricos; que as tais ceias fora de horas, os sorvetes,<br \/>\nos ponches, que o obrigavam a ingerir todas as noites, lhe punham o est\u00f4mago<br \/>\nem peti\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria e lhe haviam de dar com os ossos<br \/>\nno Caju, se ele n\u00e3o mudasse quanto antes de regime; e, afinal, quando<br \/>\npor mais nada fosse, era porque ele n\u00e3o podia admitir que uma senhora<br \/>\ncasada tivesse adoradores, e ouvisse galanteios, e se deixasse, nas tais dan\u00e7as,<br \/>\nabra\u00e7ar por uns pelintras que ele nem sequer conhecia; como tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o podia tolerar que o nome de sua mulher andasse por a\u00ed, de<br \/>\nboca em boca, de jornal em jornal, tratado por tu, como se ela fosse alguma<br \/>\ndan\u00e7arina ou alguma c\u00f4mica! N\u00e3o! Gon\u00e7alves n\u00e3o<br \/>\nestava por nenhuma dessas coisas e, se a mulher n\u00e3o pretendesse mudar<br \/>\nde sistema de vida, que lhe falasse ent\u00e3o com toda a franqueza, porque<br \/>\nnesse caso quem disparava era ele! Ol\u00edmpia n\u00e3o respondeu uma<br \/>\ns\u00f3 palavra e deixou que o marido ainda acrescentasse muitas outras<br \/>\nqueixas. \u00c0 noite encarregou o pai de tratar da separa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nse \u00e9 que Gon\u00e7alves estava com efeito a isso disposto; mas, caso<br \/>\nestivesse, ficasse ele desde logo prevenido de uma coisa, e era que, em nenhuma<br \/>\nhip\u00f3tese, voltaria ela a fazer pazes com o marido. Gon\u00e7alves,<br \/>\nportanto, que meditasse antes de dar o grande passo. Quanto a ela n\u00e3o<br \/>\nalteraria, de forma alguma, o seu modo de viver! Da\u00ed a tr\u00eas dias<br \/>\nestavam separados.<\/p>\n<p>Sabe j\u00e1 o leitor o que se seguiu ao rompimento: Ol\u00edmpia principiou<br \/>\na emagrecer, foi ficando triste e perdendo, pouco a pouco, o gosto pelas festas<br \/>\nruidosas e pelos prazeres opulentos. Ficou nervosa, doente, aborrecida, e<br \/>\ndentro de seis meses desertou totalmente da sociedade.<\/p>\n<p>O comendador embalde procurou persuadi-la de voltar aos seus h\u00e1bitos<br \/>\nprimitivos; embalde lhe falou do triunfo que outras obtinham j\u00e1 na<br \/>\naus\u00eancia dela; embalde a cercou de objetos da moda, jornais de figurinos,<br \/>\nprogramas de concertos, camarotes de teatros e provoca\u00e7\u00f5es de<br \/>\ntodo o g\u00eanero.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia n\u00e3o se moveu, e em menos de dois anos ningu\u00e9m<br \/>\nmais lhe citava o nome.<\/p>\n<p>Todavia, os seus inc\u00f4modos recrudesciam; o nervoso tomava propor\u00e7\u00f5es<br \/>\nmuito s\u00e9rias; o monstro hist\u00e9rico escancarava as fauces.<\/p>\n<p>O Dr. Roberto, como tamb\u00e9m j\u00e1 sabe o leitor, aconselhou viagens,<br \/>\nfalou em banhos de mar, lembrou passeios ao campo, mas disse positivamente<br \/>\nque o verdadeiro rem\u00e9dio para Ol\u00edmpia seria fazer, quanto antes,<br \/>\nas pazes com o marido.<\/p>\n<p>N\u00e3o fez. E mais dois anos decorreram, at\u00e9 o dia em que a vimos<br \/>\nsubir, pelo bra\u00e7o do pai, a escadaria do Pap\u00e1 Falconnet.<\/p>\n<p>Pela confronta\u00e7\u00e3o das cenas da Avenida Estrela, com as cenas<br \/>\nigualmente mal esbo\u00e7adas deste cap\u00edtulo, pode o leitor sem dificuldade<br \/>\ncalcular os progressos que fez nesses dois anos a mol\u00e9stia de Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>Mas saltemos por sobre isso e vamos rev\u00ea-la no momento em que a deixamos<br \/>\nao lado de Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, cumpre explicar o que foi feito de Teresa. O Dr. Roberto<br \/>\nfazia-lhe de vez em quando uma visita. Achou-a sempre pior; propensa a sofrer<br \/>\ndas faculdades mentais. Teresa derase ultimamente \u00e0 devo\u00e7\u00e3o<br \/>\ne estava muito amiga de rezas e de igrejas. Ol\u00edmpia j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nencontrava nela a mesma amiga e a mesma conselheira; a pobre doente parecia<br \/>\nagora est\u00fapida e mostrava-se desconfiada, de mau humor, \u00e0s vezes<br \/>\nimpertinente e grosseira.<\/p>\n<p>Rosa, aquela criada que na \u00e9poca dos amores de Portela, lhe protegia<br \/>\nas escapulas, fora substitu\u00edda ao lado dela por tia Agueda.<\/p>\n<p>A infeliz pouco se demorou no hotel; queria um lugar mais obscuro e mais<br \/>\nmodesto; transferiu-se para Cascadura. O marido mandava-lhe l\u00e1, todos<br \/>\nos meses, uma pens\u00e3o de cem mil r\u00e9is. Estava feia, sumamente<br \/>\nfeia; a febre crestara-lhe a pele, empobrecera-lhe o cabelo e desfeiara-lhe<br \/>\nas fei\u00e7\u00f5es. N\u00e3o dava j\u00e1 id\u00e9ia do que fora;<br \/>\nmagra, encanecida, meio calva, com os olhos sem express\u00e3o, a boca desadornada<br \/>\nde sorrisos, o pesco\u00e7o bambo, as costas arqueadas, parecia mais uma<br \/>\nfreira velha, comida pelos rigores da vida mon\u00e1stica, do que uma simples<br \/>\ndevota de trinta e oito anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sa\u00eda de casa, sen\u00e3o para ir \u00e0 igreja. Ningu\u00e9m<br \/>\na via \u00e0 janela; apenas, em algumas noites de luar, a custo lobrigavam<br \/>\no seu vulto magro, vestido de chita preta, a passear como um espectro por<br \/>\nentre as pobres \u00e1rvores do seu quintal. Duas vezes fora acometida por<br \/>\ncrises nervosas, que a deixaram prostrada durante muito tempo com todos os<br \/>\nsintomas da loucura.<\/p>\n<p>E o comendador recomendava sempre ao Dr. Roberto que a n\u00e3o deixasse<br \/>\nde ver de quando em quando, e pedia-lhe constantemente not\u00edcias dela.<\/p>\n<p>\u2014 Vai naquilo mesmo&#8230; dizia o m\u00e9dico. Dali para pior&#8230; coitada!<br \/>\n\u2014 Mas pode viver?&#8230; perguntava o velho, com os olhos iluminados por<br \/>\num sinistro brilho de vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! l\u00e1 viver pode, e at\u00e9 muito; mas o que n\u00e3o<br \/>\nconseguir\u00e1 \u00e9 restabelecer-se totalmente.<\/p>\n<p>Est\u00e1 perdida! \u2014 Bem! dizia o velho consigo; minha vingan\u00e7a<br \/>\nser\u00e1 completa&#8230; Aquele miser\u00e1vel h\u00e1 de casar-se com<br \/>\nela logo que eu feche os olhos! Uma tarde, passeava a m\u00edsera, como<br \/>\nsempre triste, por entre as solit\u00e1rias plantas do seu quintal quando<br \/>\num vulto de homem parou \u00e0s grades do port\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Saber\u00e1 dizer-me onde mora por aqui uma senhora chamada Teresa?&#8230;<br \/>\nperguntou o sujeito, apoiando-se aos varais da grade.<\/p>\n<p>Pelo seu todo fatigado via-se logo que de vinha de longe, a fazer at\u00e9<br \/>\nali a mesma pergunta pelas outras casas daquela rua.<\/p>\n<p>Teresa aproximou-se lentamente sem responder; mas, ao chegar perto da grade,<br \/>\nsoltou um grito e exclamou: \u2014 Luiz! \u2014 Meu nome?!&#8230; disse o outro<br \/>\nmuito surpreso.<\/p>\n<p>E sem ter tempo de procurar reconhecer a lastimosa figura que tinha defronte<br \/>\ndos olhos, transp\u00f4s o port\u00e3o, para amparar Teresa, prestes a<br \/>\ncair desfalecida.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 me n\u00e3o conheces?&#8230; perguntou ela com um tom de<br \/>\nprofunda tristeza, logo que p\u00f4de falar. \u00c9 natural! Eu j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o sou a mesma.<\/p>\n<p>\u2014 Esta voz!&#8230; Ser\u00e1 poss\u00edvel?! balbuciou Portela, sem<br \/>\nquerer acreditar no que via. E ficou a olhar, muito aflito, para a pobre mulher.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 aqui o que resta daquela tua Teresa dos outros tempos,<br \/>\nt\u00e3o fresca e t\u00e3o bonita! explicou ela. E acrescentou com os<br \/>\nolhos cheios d\u2019\u00e1gua e a voz muito alterada pela como\u00e7\u00e3o:<br \/>\n\u2014 Contigo, meu Luiz, tudo fugiu! j\u00e1 nada resta do que fui&#8230;<br \/>\nEstes olhos j\u00e1 n\u00e3o falam de amor; estes l\u00e1bios esqueceram<br \/>\no riso; este colo n\u00e3o provoca em mais ningu\u00e9m desejos desenfreados&#8230;<br \/>\nDepois que tu partiste, nunca mais tive um momento de ventura; tudo se converteu<br \/>\nem remorso. Cheguei a amaldi\u00e7oar o nosso amor; cheguei a duvidar se<br \/>\na mem\u00f3ria dele me causava saudade ou me causava t\u00e9dio&#8230; Principiei<br \/>\na tomar aborrecimento por tudo; meu marido apunhalava-me todos os dias com<br \/>\na sua indiferen\u00e7a e com o seu desprezo&#8230; E o meu sofrimento foi crescendo,<br \/>\ncrescendo, at\u00e9 me reduzir a isto que aqui v\u00eas! Portela escutava,<br \/>\nsem desviar os olhos. Tudo aquilo produzia nele uma grande tristeza e um grande<br \/>\nconstrangimento. Como era poss\u00edvel conceber semelhante transforma\u00e7\u00e3o?&#8230;<br \/>\nComo, em doze anos, se podiam extinguir tanta formosura e tanta gra\u00e7a?&#8230;<br \/>\nOh! \u00e9 terr\u00edvel, pensava ele, vermos assim de perto os destro\u00e7os<br \/>\nde uma felicidade que, um dia, passou por n\u00f3s e nos encheu a vida com<br \/>\ntodos os brilhos da paix\u00e3o e do amor. Amor? n\u00e3o! instinto. Um<br \/>\npouco de carne palpitante, cabelos, sangue, dentes, olhos, tudo isso disposto<br \/>\nde certo modo, ordenado com certo encanto, eis quanto basta para nos enlouquecer,<br \/>\npara nos arrastar a todas as loucuras e a todas as degrada\u00e7\u00f5es!<br \/>\nEntretanto, ali estava aquela mesma mulher que o fizera delirar um dia!&#8230;<br \/>\nComo a nossa mat\u00e9ria \u00e9 fraca ou como a natureza \u00e9 h\u00e1bil!<br \/>\nComo esta sabia impor as suas leis de reprodu\u00e7\u00e3o e da vida!<br \/>\nE queriam os homens do rigor e da austeridade que se pudesse fugir despoticamente<br \/>\na todas essas armadilhas t\u00e3o finamente preparadas, t\u00e3o sabiamente<br \/>\nurdidas debaixo de nossos p\u00e9s!&#8230;<\/p>\n<p>E, depois destas considera\u00e7\u00f5es, uma tristeza profunda, um<br \/>\naborrecimento doloroso, negro, \u00famido, entrou-lhe no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne come\u00e7ou a inchar l\u00e1 dentro como um sapo entalado num cano<br \/>\nde esgoto.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o daquele homem era com efeito um cano de esgoto,<br \/>\npor onde lhe desfilavam todas as imund\u00edcies da alma. N\u00e3o se<br \/>\nteria demorado de um instante ao lado de Teresa, se n\u00e3o precisasse<br \/>\ndela para alguma coisa que diretamente o interessava. O triste espet\u00e1culo<br \/>\ndaquela ru\u00edna revoltava o seu ego\u00edsmo; Portela sentia-se impaciente<br \/>\npor conseguir o que desejava da mulher do comendador e p\u00f4r-se a caminho<br \/>\npara longe, para bem longe, onde n\u00e3o chegasse o inquietante cheiro<br \/>\ndaquela desgra\u00e7a e daquela mis\u00e9ria. Sentia-se t\u00e3o apressado<br \/>\nque n\u00e3o esperou pelo fim das divaga\u00e7\u00f5es de Teresa; interrompeu-a,<br \/>\ndeclarando francamente que ia ali levado pela necessidade de alcan\u00e7ar<br \/>\ndas m\u00e3os do comendador um papel assinado por ele.<\/p>\n<p>\u2014 Que papel? perguntou a m\u00edsera.<\/p>\n<p>\u2014 Pois n\u00e3o te lembras que deixei um documento em poder de teu<br \/>\nmarido, declarando os obs\u00e9quios que recebi dele, as rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nque tive contigo, aquele projeto de envenen\u00e1-lo e ainda outras coisas<br \/>\nde que j\u00e1 n\u00e3o me recordo?!&#8230;<\/p>\n<p>Essas tais coisas de que ele j\u00e1 se n\u00e3o recordava, n\u00e3o<br \/>\nlhe fazia conta declarar quais fossem, porque implicava diretamente com o<br \/>\nfuturo de Teresa.<\/p>\n<p>\u2014 Mas afinal, perguntou ela, que desejas de mim?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Desejo em primeiro lugar saber se esse papel n\u00e3o est\u00e1<br \/>\nem teu poder, respondeu ele.<\/p>\n<p>\u2014 Pois se eu at\u00e9 ignorava da exist\u00eancia de semelhante<br \/>\ncoisa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bem, pois ent\u00e3o o que eu desejo \u00e9 que o obtenhas de<br \/>\nteu marido, que o subtraias a todo o transe do lugar em que est\u00e1. Preciso<br \/>\napoderar-me desse documento! N\u00e3o poderei dar um passo aqui no Rio de<br \/>\nJaneiro, enquanto ele existir nas m\u00e3os do comendador&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o vou \u00e0 casa do Ferreira. Al\u00e9m disso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Bom. Nesse caso, adeus.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 te queres ir?&#8230; perguntou Teresa.<\/p>\n<p>\u2014 Desculpa; tenho alguma pressa. Eu te aparecerei mais vezes.<\/p>\n<p>\u2014 Espera ao menos que venha tia Agueda para fazer caf\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! n\u00e3o! Tenho de estar cedo na cidade. Adeus! \u2014<br \/>\nVisto isso, adeus. Olha, espera! vou dar-te uma flor; leva-a para te lembrares<br \/>\nde mim&#8230;<\/p>\n<p>E foi buscar ao orat\u00f3rio uma rosa, que murchava aos p\u00e9s de<br \/>\num santo.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 benta! disse ela.<\/p>\n<p>Portela sentia-se cada vez mais impaciente. Na ocasi\u00e3o de sair, j\u00e1<br \/>\nno corredor, voltou-se e deu com Teresa a fazer-lhe momices por detr\u00e1s<br \/>\ndele. S\u00f3 ent\u00e3o desconfiou que a desgra\u00e7ada sofria de<br \/>\nqualquer desarranjo cerebral.<\/p>\n<p>P\u00f4s-se a caminho com vontade. Iria dali \u00e0 casa de um conhecido;<br \/>\ntalvez lhe desse este informa\u00e7\u00f5es a respeito do comendador e<br \/>\nlhe fizesse encontrar algu\u00e9m capaz de subtrair os documentos de que<br \/>\nele tanto precisava.<\/p>\n<p>Portela, nas suas viagens, arranjara algumas economias e vinha estabelecer-se<br \/>\nna Corte com um s\u00f3cio bastante endinheirado. Tinha em vista um casamento;<br \/>\no futuro sorria-lhe como nunca auspicioso: fora com Le\u00e3o Vermelho mais<br \/>\nfeliz do que contava. O compadre facilitou-lhe os meios pecuni\u00e1rios<br \/>\npara especular em compras de vinho no Porto, e recolheu-se, sequioso de descanso,<br \/>\n\u00e0 sua prov\u00edncia natal, onde tencionava acabar a exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Com este, pouco mais temos que ver. Quanto ao Portela, podemos afian\u00e7ar<br \/>\nque andou com lisura nas suas especula\u00e7\u00f5es e que se despediu<br \/>\nlimpamente do protetor, retirando-se com um forte carregamento de vinhos para<br \/>\no Brasil, em cuja capital pretendia agora estabelecer uma casa especial daquele<br \/>\ng\u00eanero.<\/p>\n<p>O bom desempenho de suas transa\u00e7\u00f5es granjeara-lhe cr\u00e9dito<br \/>\nna pen\u00ednsula, de sorte que, com muita facilidade e pouco capital, poderia<br \/>\nsortir o seu estabelecimento, sem encontrar competidor no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Por esse tempo contava ele uns trinta e tantos anos, e sentia-se vigorosamente<br \/>\ndisposto a fazer carreira. Estava mo\u00e7o e fortalecido de esperan\u00e7as.<br \/>\nCom os elementos materiais de que dispunha, podia ir muito longe; sonhava<br \/>\nj\u00e1 com a comenda. O diabo era aquele documento em poder do marido de<br \/>\nTeresa!&#8230; Se o dem\u00f4nio do velho sa\u00edsse dos seus cuidados e mandasse<br \/>\npublic\u00e1-lo no Jornal do Com\u00e9rcio, Portela estaria perdido. O<br \/>\ncomendador, apesar de retirado da vida ativa, gozava de muito cr\u00e9dito<br \/>\nna pra\u00e7a e era sumamente considerado pelos negociantes de mais peso;<br \/>\nqualquer acusa\u00e7\u00e3o que viesse dele teria, fatalmente, um curso<br \/>\nvertiginoso entre os seus colegas.<\/p>\n<p>Convinha, por conseguinte, que Portela, antes de assentar os alicerces das<br \/>\nsuas especula\u00e7\u00f5es no Rio de Janeiro, tratasse prontamente de<br \/>\ndesarmar o inimigo, sob pena de mais tarde ser precipitado no ch\u00e3o<br \/>\nno melhor do v\u00f4o. Mas de que modo havia ele de alcan\u00e7ar semelhante<br \/>\ncoisa?&#8230; A quest\u00e3o era t\u00e3o delicada que, sem d\u00favida,<br \/>\ndaria volta ao esp\u00edrito mais audacioso e mais fino.<\/p>\n<p>Principiou a sondar, de longe, o comendador.<\/p>\n<p>\u2014 O homem, pensou de, talvez j\u00e1 se n\u00e3o lembrasse do<br \/>\npassado, nem dos seus planos de vingan\u00e7a. Mas qual! Portela conhecia<br \/>\nperfeitamente o g\u00eanio rancoroso do seu antigo patr\u00e3o, para se<br \/>\nn\u00e3o iludir por esse lado. O \u00fanico expediente a tomar era apoderar-se<br \/>\ndo tal documento, fosse como fosse, custasse o que custasse! Em todo caso,<br \/>\nnada disso o incomodaria tanto, se Portela n\u00e3o tivesse em vista mudar<br \/>\nde estado, casando-se com uma rapariga de bons recursos, que encontrou em<br \/>\ncasa de D. Janu\u00e1ria, quando a\u00ed foi visitar a afilhada, pela<br \/>\nprimeira vez, depois da sua volta.<\/p>\n<p>Para esse projeto de casamento \u00e9 que o comendador se tornava verdadeiramente<br \/>\nperigoso, porque Portela, na obriga\u00e7\u00e3o que assinou, se comprometia,<br \/>\nsob palavra de honra, a tomar conta de Teresa e a casar-se com ela, logo que<br \/>\no marido falecesse.<\/p>\n<p>Ora, incontestavelmente, havia em tudo isto uma grande dose de tolice. N\u00e3o<br \/>\nse poderia obrigar um homem a casar, assim sem mais nem mais, s\u00f3 porque,<br \/>\nem certa \u00e9poca, declarou por escrito que o faria. Mas o fato \u00e9<br \/>\nque a sua assinatura l\u00e1 estava, naturalmente reconhecida j\u00e1<br \/>\npelo tabeli\u00e3o, e, se o maldito papel aparecesse pela morte do comendador,<br \/>\nligado ao importante testamento deste, podia, pelo menos, cobri-lo de rid\u00edculo,<br \/>\ne dificultar-lhe a carreira, chamando sobre ele as suspeitas e a desconfian\u00e7a<br \/>\nde pessoas, para as quais lhe convinha passar por homem de vida imaculada.<\/p>\n<p>\u2014 Maldito fosse o momento em que se lembrou de requestar a mulher<br \/>\ndo comendador! Antes tivesse quebrado uma perna na ocasi\u00e3o em que se<br \/>\naproximou dela pela primeira vez! Em tais circunst\u00e2ncias, visitava uma<br \/>\nocasi\u00e3o D. Janu\u00e1ria, quando um rapaz magrinho, feio, de vinte<br \/>\ne tantos anos, se aproximou dele tratando-o pelo nome.<\/p>\n<p>Portela recordava-se de ter visto j\u00e1 aquela cara, mas n\u00e3o<br \/>\nconseguia determinar onde e quando.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se lembra do Jo\u00e3o Rosa?&#8230; perguntou-lhe o rapaz.<br \/>\nAquele que quando o senhor estava em casa do comendador, s\u00f3 chamava<br \/>\no \u201cJo\u00e3o Cabe\u00e7a\u201d?!&#8230;<\/p>\n<p>E riu.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! exclamou Portela. \u00c9 isso mesmo! Ora senhores! como voc\u00ea<br \/>\nmudou! est\u00e1 um homem.<\/p>\n<p>Barbado!&#8230;<\/p>\n<p>E depois de medir por algum tempo a pequena estatura de Jo\u00e3o Rosa,<br \/>\nperguntou-lhe com amig\u00e1vel interesse: \u2014 Ent\u00e3o, que se<br \/>\nfaz agora?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Continuo l\u00e1! disse o outro, armando uma careta.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda est\u00e1 l\u00e1?&#8230; insistiu Portela, admirado, mas<br \/>\npossu\u00eddo j\u00e1 da id\u00e9ia de aplicar o Jo\u00e3o Rosa aos<br \/>\nseus projetos.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda, resmungou o outro.<\/p>\n<p>\u2014 Interessado na casa?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual. J\u00e1 perdi as esperan\u00e7as disso. O Figueiredo n\u00e3o<br \/>\nme tem querido proteger. Um mo\u00e7o, que entrou muito depois de eu l\u00e1<br \/>\nestar, faz parte h\u00e1 um ano da sociedade e eu ainda continuo como empregado&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea casou-se?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Estou ainda solteiro.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! quem sabe se voc\u00ea tem as suas pretens\u00f5es c\u00e1<br \/>\npor casa de D. Janu\u00e1ria!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Dou-me com ela h\u00e1 muito tempo, mas n\u00e3o<br \/>\npassa disso.<\/p>\n<p>\u2014 Pois, seu Jo\u00e3o Rosa, eu vou estabelecer-me aqui no Rio com<br \/>\numa casa de vinhos. Tome o cart\u00e3o. Se voc\u00ea quiser, apare\u00e7a<br \/>\npor l\u00e1, talvez tenhamos o que conversar. Olhe, amanh\u00e3 \u00e0<br \/>\nnoite, voc\u00ea est\u00e1 ocupado? \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso v\u00e1 amanh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem.<\/p>\n<p>No dia seguinte os dois encontraram-se de novo. Falaram muito sobre o passado.<br \/>\nJo\u00e3o Rosa fez refer\u00eancias aos esc\u00e2ndalos de Teresa.<\/p>\n<p>O Portela, sacudiu os ombros com desd\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! replicou o outro, o senhor andava nesse tempo muito<br \/>\nmordido por ela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Tolices! \u2014 Coitada! Est\u00e1 feia, magra ao \u00faltimo<br \/>\nponto, descabelada, meio idiota&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim?&#8230; disse, Portela, fingindo ignorar essas coisas.<\/p>\n<p>\u2014 Se o senhor a visse n\u00e3o reconheceria!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Coitada. Era muito doida aquela rapariga!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Era da pele do diabo, acrescentou o Jo\u00e3o Rosa, com o ar de<br \/>\nquem tem opini\u00e3o segura sobre o fato.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o principiaram a encontrar-se com mais freq\u00fc\u00eancia.<br \/>\nJo\u00e3o Rosa passeava alguns domingos com o Portela e patenteava-lhe,<br \/>\nnessas ocasi\u00f5es, como uma submiss\u00e3o de depend\u00eancia e amizade.<br \/>\nTinha muito em conta o que lhe dizia o amigo e seguia \u00e0 risca os conselhos<br \/>\nque dele recebia.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rosa deu a Portela not\u00edcias completas a respeito da casa<br \/>\ndo comendador; falou do casamento de Ol\u00edmpia com o Gon\u00e7alves;<br \/>\ndisse a vida desordenada que os dois levaram durante quatro anos; contou os<br \/>\npormenores da separa\u00e7\u00e3o dos c\u00f4njuges; circunstanciou as<br \/>\nmudan\u00e7as de g\u00eanio que fizera Ol\u00edmpia depois do rompimento,<br \/>\nos desgostos do velho, a proposta de reconcilia\u00e7\u00e3o apresentada<br \/>\npor Gon\u00e7alves, a recusa da mulher, e enfim as tristezas e o recolhimento<br \/>\nem que esta por \u00faltimo vivia.<\/p>\n<p>\u2014 E o Jac\u00f3?&#8230; que fim levou? quis saber o Portela.<\/p>\n<p>\u2014 L\u00e1 est\u00e1! no mesmo! N\u00e3o faz a menor mudan\u00e7a!<br \/>\n\u2014 O Jac\u00f3!&#8230; reconsiderou aquele, com um ar cheio de recorda\u00e7\u00f5es.<br \/>\nE disse depois: Deve estar bem velho! \u2014 Mas forte&#8230; Parece muito mais<br \/>\nmo\u00e7o que o comendador! \u2014 E este? Sempre o mesmo, hein? \u2014<br \/>\nSempre. Eu vou l\u00e1 duas vezes por semana fazer-lhe a escrita. Pouca<br \/>\ncoisa! \u2014 Ah! voc\u00ea \u00e9 quem faz agora a escrita do comendador?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, por qu\u00ea? \u2014 Por nada&#8230;<\/p>\n<p>E Portela ficou a pensar.<\/p>\n<p>Na primeira ocasi\u00e3o em que esteve de novo com o Jo\u00e3o Rosa,<br \/>\nabriu-se francamente com este a respeito do famoso documento que estava em<br \/>\npoder do comendador.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea sabe o que s\u00e3o estas coisas!&#8230; disse em confid\u00eancia<br \/>\nmuito amig\u00e1vel. Eu estou no com\u00e9rcio&#8230; Aquele velho \u00e9<br \/>\nmuito capaz de cortar-me a carreira&#8230; Ele \u00e9 rancoroso!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh!&#8230; fez o outro, estalando os dedos.<\/p>\n<p>\u2014 Por conseguinte, se voc\u00ea me conseguisse arranjar esses pap\u00e9is&#8230;<br \/>\neu saberia recompensar o seu trabalho&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, homem! Eles devem estar muito bem guardados! em<br \/>\ntodo o caso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, na sua posi\u00e7\u00e3o ser-lhe-\u00e1 muito f\u00e1cil<br \/>\nde os descobrir; e o comendador, quando der pela falta deles, n\u00e3o acreditar\u00e1<br \/>\nque voc\u00ea os tenha subtra\u00eddo, porque aquilo n\u00e3o representa<br \/>\nnenhum valor. Para que diabo podia voc\u00ea precisar de pap\u00e9is velhos?&#8230;<br \/>\nN\u00e3o s\u00e3o documentos de d\u00edvida; n\u00e3o representam<br \/>\ndinheiro, nem objeto de pre\u00e7o!&#8230; O mais que o velhote poderia supor,<br \/>\n\u00e9 que algu\u00e9m os tivesse inutilizado sem saber do que se tratava.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 verdade&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E eu lhe daria um conto de r\u00e9is, se voc\u00ea me arranjasse<br \/>\no que lhe digo. \u00c9 preciso notar: com o documento assinado por mim,<br \/>\ndeve estar uma carta, tamb\u00e9m minha, dirigida a Teresa, e um frasquinho<br \/>\nde vidro com um l\u00edquido transparente. Arranja-me isso e dou-lhe um<br \/>\nconto de r\u00e9is.<\/p>\n<p>Depois, como para ambos conv\u00e9m guardar o segredo, a coisa ficar\u00e1<br \/>\ns\u00f3 entre nos. Hein? Servelhe?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu vou ver se encontro&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea, querendo, acha&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser.<\/p>\n<p>E, quando os dois se separaram, j\u00e1 estavam perfeitamente combinados.<\/p>\n<h2><a name=\"27\"><\/a> XXVII O BEIJO<\/h2>\n<p>Coincidiram com a chegada do Portela ao Rio de janeiro os primeiros sintomas<br \/>\nnervosos que se apoderaram de Ol\u00edmpia, pouco depois do rompimento dos<br \/>\nla\u00e7os conjugais. O comendador, preocupado com os inc\u00f4modos da<br \/>\nfilha, n\u00e3o pensava em outra coisa. Passeios, distra\u00e7\u00f5es,<br \/>\nromances, tudo lembrava ele para distrair a enferma. Ora em Petr\u00f3polis,<br \/>\nora em Teres\u00f3polis, ora em Barbacena, andaram os dois, perto de dois<br \/>\nanos, em in\u00fatil e constante peregrinar.<\/p>\n<p>Isso explica a raz\u00e3o por que Portela n\u00e3o foi logo, desde a<br \/>\nsua chegada, perseguido pelo comendador. N\u00e3o havia tempo para cuidar<br \/>\nda vingan\u00e7a; o velho andava arredado de casa, esquecido de si e s\u00f3<br \/>\ncuidoso da sua adorada Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>Entretanto, Portela, que compreendera perfeitamente a situa\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntratou de n\u00e3o perder tempo e firmar na Corte os seus alicerces, de<br \/>\nmodo a poder mais tarde resistir aos golpes do marido de Teresa, quando este<br \/>\nporventura o quisesse derrocar. Uma vez firmado em terreno s\u00f3lido,<br \/>\nn\u00e3o tinha que recear do inimigo, e quase que podia de antem\u00e3o<br \/>\ncontar com a vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nesta convic\u00e7\u00e3o se estabeleceu e abriu a trabalhar com a f\u00faria<br \/>\nde quem foge de um grande perigo. Todo o seu empenho era granjear simpatias,<br \/>\nganhar posi\u00e7\u00e3o e juntar dinheiro. Tudo isso conseguiu ele em<br \/>\nmuito pouco tempo. Portela n\u00e3o esperdi\u00e7ava um segundo, acumulava<br \/>\nquase todo o trabalho do seu armaz\u00e9m, fazia a correspond\u00eancia,<br \/>\na escrita e a venda ao balc\u00e3o. Dentro de um ano estava a sua casa j\u00e1<br \/>\nperfeitamente acreditada; o com\u00e9rcio dos vinhos desenvolvia-se com<br \/>\num impulso prodigioso. Portela aumentou ent\u00e3o o pessoal, alargou o<br \/>\narmaz\u00e9m, e de novo foi a Portugal. Quatro meses depois era de volta,<br \/>\ncom um novo carregamento e novas especula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Antes de chegar o terceiro ano de seu com\u00e9rcio no Rio de Janeiro,<br \/>\nj\u00e1 lhe havia pingado da p\u00e1tria sobre a gola do casaco a vermelha<br \/>\ntet\u00e9ia por que de tanto suspirava.<\/p>\n<p>Portela definitivamente era um homem feliz. O documento em poder do outro,<br \/>\nlonge de o prejudicar, servira, como vemos, para lhe incutir no \u00e2nimo<br \/>\nresolu\u00e7\u00e3o e coragem. Dois anos depois o Sr. comendador Portela<br \/>\ngozava das melhores simpatias, estava j\u00e1 arranjadinho de fortuna, e<br \/>\nolhava de frente para um futuro de causar inveja.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardaria a abrir-se em torno dele as boas rela\u00e7\u00f5es,<br \/>\nos bons sorrisos, as boas rodas fluminenses. No Rio de Janeiro, com uma casa<br \/>\nde neg\u00f3cio, uma casaca e uma comenda, vai-se a toda parte e percorre-se<br \/>\nfamiliarmente toda a escala social, desde os bailes da Princesa, at\u00e9<br \/>\n\u00e0s bacanais das irmandades carnavalescas.<\/p>\n<p>E o certo \u00e9 que o dem\u00f4nio do Portela tinha um tipo que se apresentava<br \/>\nmaravilhosamente \u00e0s suas aspira\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m daria<br \/>\nmelhor um comendador. Desde que lhe chegou o t\u00edtulo, principiou a transformar-se.<br \/>\nCaminhava agora mais teso, empinava a cabe\u00e7a, esticava as pernas e<br \/>\ndilatava os l\u00e1bios nesse risinho discreto e malicioso dos rica\u00e7os<br \/>\ncondecorados. Uma vez raspado o bigode, talhada a su\u00ed\u00e7a e desfalcados<br \/>\npela calva os cabelos da cabe\u00e7a, ter\u00e1 logo o leitor defronte<br \/>\ndos olhos aquele leg\u00edtimo comendador, com quem t\u00e3o boas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ntravou no primeiro cap\u00edtulo deste romance.<\/p>\n<p>Mas, como j\u00e1 temos o comendador Ferreira, seja-nos permitido continuar<br \/>\na tratar o segundo simplesmente pelo nome. Continuar\u00e1 a ser \u201cO<br \/>\nPortela\u201d.<\/p>\n<p>Quando o Portela chegou ao Rio, justamente ao tempo em que se via o comendador<br \/>\natrapalhado com a mol\u00e9stia da filha, Jo\u00e3o Rosa, ficou exclusivamente<br \/>\nencarregado dos neg\u00f3cios do pai de Ol\u00edmpia. N\u00e3o podia<br \/>\npois desejar melhor ocasi\u00e3o para cumprir o que prometera ao amigo:<br \/>\na casa estava toda em suas m\u00e3os; ningu\u00e9m o surpreenderia enquanto<br \/>\ndesse a busca.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rosa por conseguinte come\u00e7ou a procurar os tais documentos<br \/>\ncom toda a calma e toda seguran\u00e7a; e, com tanto jeito e minuciosidade<br \/>\nmexeu e remexeu nas gavetas e nos segredos do patr\u00e3o, que, em vez de<br \/>\nachar o objeto procurado, achou coisa muito melhor; achou um pequeno cofre<br \/>\nde ferro, que jazia cuidadosamente oculto num esconderijo, feito de prop\u00f3sito<br \/>\npara isso na parede, por detr\u00e1s da burra.<\/p>\n<p>O cofre pesava e tinha um segredo na fechadura. Jo\u00e3o Rosa n\u00e3o<br \/>\ndescansou enquanto o n\u00e3o abriu.<\/p>\n<p>Estava cheio de libras esterlinas. Ningu\u00e9m sabia a proced\u00eancia<br \/>\ndesse dinheiro, nem o destino que o comendador lhe tencionava dar. N\u00e3o<br \/>\nconstava dele em nenhum dos livros de sua escritura\u00e7\u00e3o e em<br \/>\nnenhuma das notas esparsas.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rosa teve uma tenta\u00e7\u00e3o diab\u00f3lica. O comendador<br \/>\ns\u00f3 mais tarde poderia dar por falta do cofre, e aquele dinheiro representava<br \/>\nperfeitamente a independ\u00eancia do caixeiro. Lembrou-se de tomar passagem<br \/>\nno primeiro vapor e fugir do Brasil com o seu tesouro, mas reconsiderou: Para<br \/>\nque fugir?&#8230; Aquele dinheiro estava por tal forma bem escondido, que o comendador<br \/>\nn\u00e3o poderia imaginar que algu\u00e9m desse por ele&#8230; e da\u00ed,<br \/>\nquem sabia l\u00e1 se o pr\u00f3prio comendador tinha ci\u00eancia de<br \/>\nsemelhante coisa?&#8230; se aquele belo segredo n\u00e3o existia ali antes dele<br \/>\ntomar conta da casa?&#8230;<\/p>\n<p>De qualquer forma, concluiu o velhaco: n\u00e3o era preciso fugir; tudo<br \/>\nse poderia arranjar limpamente, sem espalhafatos de viagens.<\/p>\n<p>E adotadas estas reflex\u00f5es, Jo\u00e3o Rosa procurou o Figueiredo,<br \/>\npediu a sua conta e deu-se por despedido. S\u00f3 lhe faltava p\u00f4r<br \/>\nem dia o ex\u00edguo trabalho que estava a seu cargo e esperar pelo comendador,<br \/>\npara se despedir deste tamb\u00e9m por sua vez.<\/p>\n<p>Portela, sempre que o via, lhe perguntava logo pelo resultado daquilo que<br \/>\nos dois haviam combinado entre si. O outro se desculpava; n\u00e3o descobria<br \/>\nos tais documentos, mas que Portela podia ficar descansado, que, se estivessem<br \/>\neles em casa do comendador, lhe haviam de chegar \u00e0s m\u00e3os.<\/p>\n<p>Dias depois o encontrou por acaso. Esteve quase a fazer que o n\u00e3o<br \/>\nvia, t\u00e3o pouca import\u00e2ncia ligava ele agora a semelhante bagatela.<br \/>\nMas uma s\u00fabita id\u00e9ia de especula\u00e7\u00e3o, f\u00ea-lo<br \/>\napoderar-se dos documentos e guard\u00e1-los cuidadosamente consigo.<\/p>\n<p>O comendador chegou nesse dia, sem ser esperado. Vinha aflito; a filha estava<br \/>\npior, o Dr.<\/p>\n<p>Roberto acompanhava-os, prevendo qualquer capricho da mol\u00e9stia. Receava<br \/>\na paralisia, o idiotismo e at\u00e9 a morte.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rosa declarou que n\u00e3o podia continuar ao servi\u00e7o<br \/>\ndo comendador, disse que j\u00e1 n\u00e3o estava em casa do Figueiredo<br \/>\ne precisava tratar-se dos pulm\u00f5es em Barbacena. O velho aborreceu-<br \/>\nse muito com isso. Pois o caixeiro queria abandon\u00e1-lo naquela situa\u00e7\u00e3o?<br \/>\nO Dr. Roberto entendia que o Jo\u00e3o Rosa n\u00e3o tinha necessidade<br \/>\nde partir com tanta pressa. Mas o rapaz insistiu, queixou-se de que estava<br \/>\nmuito mal, tossiu, disse que j\u00e1 expectorava sangue, e dois dias depois<br \/>\nrecebeu o saldo que lhe tocava e entregou em dia o trabalho ao seu substituto.<\/p>\n<p>Constou-lhe no dia seguinte que o comendador ia cham\u00e1-lo ainda para<br \/>\npedir algumas explica\u00e7\u00f5es sobre o trabalho; Jo\u00e3o Rosa,<br \/>\na quem n\u00e3o convinha entrar em mais esclarecimentos, apressou a viagem<br \/>\ne partiu na primeira madrugada, sem ter entregue os pap\u00e9is a Portela,<br \/>\na quem escreveu um bilhete com as seguintes palavras: \u201cPode ficar tranq\u00fcilo;<br \/>\nacha-se tudo em meu poder. Em breve estar\u00e3o com o senhor\u201d. Portela<br \/>\nn\u00e3o se satisfez com isso e foi ao encontro de Jo\u00e3o Rosa. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o o alcan\u00e7ou e retrocedeu para a Corte porque tinha de fazer<br \/>\na viagem de que falamos.<\/p>\n<p>Decorreu um ano, Ol\u00edmpia n\u00e3o tinha melhoras, o comendador<br \/>\ncontinuava sobressaltado.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rosa voltou cautelosamente \u00e0 capital, hospedou-se no<br \/>\nHotel do Caboclo e tratou logo de procurar Portela.<\/p>\n<p>Encontraram-se na rua e seguiram juntos para o Passeio P\u00fablico, porque<br \/>\na\u00ed conversariam mais \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>O que se segue j\u00e1 o leitor sabe. Pedro Ruivo, que fingia dormir em<br \/>\num banco do Passeio, ouviu a conversa dos dois e empregou meios e modos de<br \/>\nfurtar os documentos do Portela; depois foi dar consigo na Avenida Estrela,<br \/>\ndonde afinal saiu, amea\u00e7ado e perseguido, para se esconder na gruta<br \/>\ncom o fruto do seu roubo.<\/p>\n<p>Pois bem; acompanhemos o gatuno e vejamos o que fez de dos pap\u00e9is.<br \/>\nPedro Ruivo, logo que retomou o cofre na gruta, ganhou o mato e desapareceu<br \/>\npor entre as folhas, como a ligeira cotia, quando sente perto de si algum<br \/>\nrumor estranho.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso observar que a gruta do Rio Comprido se estende por todo<br \/>\no sop\u00e9 do monte e abre v\u00e1rias gargantas, oferecendo diversos<br \/>\ncaminhos, uns mais curtos e \u00e0s vezes mais dif\u00edceis, outros longos<br \/>\ne naturalmente mais pitorescos e agrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia, Greg\u00f3rio e Augusto, naquele passeio que descrevemos,<br \/>\nforam pelo caminho mais comprido e pitoresco, e penetraram na gruta justamente<br \/>\npelo lugar onde esta principia. Pedro Ruivo ao contr\u00e1rio, chegou l\u00e1<br \/>\npelo caminho mais curto e entrou por uma das gargantas laterais, que abrem<br \/>\nobscuramente para as bordas da floresta.<\/p>\n<p>O gatuno, uma vez senhor do seu cofre, atravessou obliquamente a gruta e<br \/>\nembrenhou-se no mato pelo lado oposto \u00e0quele por onde havia entrado.<br \/>\nFazia um belo luar, mas a vegeta\u00e7\u00e3o enredava-se por tal forma,<br \/>\nque os raios da lua muito a espa\u00e7o se coavam por entre a mole bals\u00e2mica<br \/>\nda folhagem. Entreteciam-se os cip\u00f3s e as parasitas, formando cortinas<br \/>\nde verdura e como fechando aos forasteiros a passagem da mata.<\/p>\n<p>Se a viagem era dif\u00edcil, tamb\u00e9m era perigosa, porque as cobras<br \/>\ndescem \u00e0 noite dos seus covis, arrastando-se pelo morro \u00e0 procura<br \/>\ndo que comer e beber.<\/p>\n<p>Mas Pedro Ruivo, aguilhoado pelo medo, varava o mato que nem uma anta assustada.<\/p>\n<p>Atravessou o morro e, depois de caminhar tr\u00eas horas seguidas, achou-se<br \/>\nem um p\u00e2ntano sombreado de \u00e1rvores. Palho\u00e7as esparsas<br \/>\nbranquejavam aqui e ali por entre o sil\u00eancio melanc\u00f3lico da noite.<br \/>\nPercebia-se a vizinhan\u00e7a de algum arrabalde pelo long\u00ednquo barulho<br \/>\nde c\u00e3es, que ladravam \u00e0 lua.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo continuou a andar. Estava em Catumbi. Em breve o pared\u00e3o<br \/>\ncomprido do cemit\u00e9rio come\u00e7ou a estender-se diante de seus olhos<br \/>\ncomo, uma mortalha que se desdobra. O bairro modorrava deserto. Ouvia-se ao<br \/>\nlonge a cansada m\u00fasica de uma festa, e um burro inv\u00e1lido passeava<br \/>\nsilenciosamente pela estrada, a manquejar da perna.<\/p>\n<p>O gatuno continuou a andar na dire\u00e7\u00e3o do Campo de Santana.<br \/>\nN\u00e3o se arreceava da pol\u00edcia, porque j\u00e1 a conhecia de<br \/>\nperto. Em certa altura da Cidade Nova parou defronte de uma casa, em cuja<br \/>\nporta brilhava um miser\u00e1vel farol de folha com a seguinte inscri\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u201cHospedaria do Gato\u201d.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo tirou do bolso um pouco de dinheiro, que escamoteara do quarto<br \/>\nde Greg\u00f3rio, e p\u00f4s-se a cont\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Chega, disse ele consigo. E bateu \u00e0 porta da hospedaria.<\/p>\n<p>Veio abrir um homem magro e macilento, com a camisa por fora das ceroulas<br \/>\ne uma lanterna na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 Estica! Como vai essa for\u00e7a? \u2014 Vai se rolando,<br \/>\ne voc\u00ea? \u2014 Mais morto que vivo! Ainda h\u00e1 lugar por a\u00ed?<br \/>\n\u2014 Sim, mas voc\u00ea j\u00e1 deve duas dormidas e sabe que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3, seu vinagre! Eu n\u00e3o lhe disse que queria fiado!<br \/>\n\u2014 Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 preciso zangar-se&#8230; Suba! Pedro<br \/>\nRuivo caminhou na frente, enquanto o Estica fechava a porta, e estendia depois<br \/>\na lanterna para iluminar a escada.<\/p>\n<p>\u2014 Isto por c\u00e1 est\u00e1 preto como o padre! gritou Pedro<br \/>\nRuivo, j\u00e1 em cima, dando um encontr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Espere l\u00e1, criatura! N\u00e3o fa\u00e7a barulho que pode<br \/>\nacordar os h\u00f3spedes! Da\u00ed a pouco se introduziam os dois por<br \/>\num estreito corredor formado de tapumes de madeira.<\/p>\n<p>E depois de uns trinta passos, chegaram ao quarto que o estalajadeiro destinava<br \/>\nao Ruivo.<\/p>\n<p>\u2014 Pronto! disse o homem, pousando a lanterna no ch\u00e3o e procurando<br \/>\nmatar uma pulga que sentiu na perna.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo tirou do bolso uma nota de dez tost\u00f5es e passou-a ao<br \/>\noutro, dizendo-lhe que pagasse as tr\u00eas dormidas e lhe trouxesse parati.<br \/>\nEm seguida assentou-se na esp\u00e9cie de cama que havia no quarto e colocou<br \/>\nao lado de si o cofre.<\/p>\n<p>O Estica, que se tinha afastado, voltou com um pequeno copo de aguardente<br \/>\ne entregou-o ao Ruivo.<\/p>\n<p>\u2014 O troco? reclamou este.<\/p>\n<p>\u2014 Que troco?&#8230;<\/p>\n<p>Seis tost\u00f5es do que eu devia, trezentos r\u00e9is de hoje, tr\u00eas<br \/>\nvint\u00e9ns de parati; ainda tenho quarenta r\u00e9is. Venha! \u2014<br \/>\nVoc\u00ea sabe que depois da meia-noite o parati \u00e9 um tost\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ladr\u00f5es como ratos! resmungou Pedro Ruivo, tirando do bolso<br \/>\num peda\u00e7o de vela, que acendeu na lanterna do hospedeiro.<\/p>\n<p>\u2014 Boa noite! disse este, afastando-se.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo fechou a porta, acendeu o cachimbo e grudou a vela no ch\u00e3o<br \/>\ncom alguns pingos da mesma.<\/p>\n<p>O quarto teria doze palmos sobre seis de largura. A cama, \u00fanico objeto<br \/>\nque l\u00e1 se achava, al\u00e9m de um moringue esborcinado, era de ferro<br \/>\ne sem len\u00e7\u00f3is.<\/p>\n<p>Ruivo assentou-se no ch\u00e3o, abriu o cofre e, depois de beber um gole<br \/>\nde aguardente, come\u00e7ou a examinar-lhe minuciosamente o conte\u00fado.<br \/>\nEncontrou a declara\u00e7\u00e3o assinada pelo Portela, a carta em que<br \/>\neste remetia o veneno \u00e0 amante, e mais uma fotografia de cada um dos<br \/>\ncriminosos, completamente emolduradas.<\/p>\n<p>\u2014 Ora! disse o gatuno quando se convenceu de que mais nada havia.<br \/>\nPara t\u00e3o pouca coisa n\u00e3o era preciso uma caixa deste tamanho!<br \/>\n(E passou a ler com dificuldade os pap\u00e9is, tendo examinado minuciosamente<br \/>\nos retratos).<\/p>\n<p>\u2014 Este deve ser daquele sujeito gordo do Passeio P\u00fablico, considerou<br \/>\nele, procurando mentalmente comparar a fotografia do Portela com o original.<br \/>\nE acrescentou, passando a examinar a de Teresa: \u2014 Esta outra n\u00e3o<br \/>\nconhe\u00e7o, mas deve ser gente gra\u00fada, a julgar pele luxo com que<br \/>\nest\u00e1 vestida! Enfim, haver\u00edamos de ver quanto tudo isto poder\u00e1<br \/>\ndar!&#8230;<\/p>\n<p>Em seguida, tirou um cord\u00e3o do bolso e com ele fez um s\u00f3 pacote<br \/>\ndos pap\u00e9is e dos retratos.<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3 temos tempo para tratar disso!&#8230;<\/p>\n<p>E meteu o pacote na algibeira do palet\u00f3, do qual fez uma rodilha<br \/>\ne improvisou um travesseiro; em seguida deitou-se e adormeceu logo, porque<br \/>\nestava muito cansado.<\/p>\n<p>S\u00f3 da\u00ed a tr\u00eas dias conseguiu encontrar-se com o Portela.<br \/>\nEste, que j\u00e1 vivia desesperado com o sumi\u00e7o dos documentos,<br \/>\ne supunha que Jo\u00e3o Rosa pretendia especular com eles, ficou muito satisfeito<br \/>\ncom as primeiras palavras do Ruivo.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 tudo aqui! disse o gatuno, mostrando o pacote. Se quiser<br \/>\nfazer neg\u00f3cio, \u00e9 quest\u00e3o decidida!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu dou-lhe uma boa gorjeta&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 De quanto? perguntou o gatuno.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe estar que por isso n\u00e3o havemos de brigar&#8230;<\/p>\n<p>E apresentou uma nota de cem mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 l\u00e1 isso!&#8230; Um conto dava o senhor ao outro!<br \/>\n\u2014 Pois voc\u00ea imaginou que eu seria capaz de lhe dar um conto de<br \/>\nr\u00e9is? \u2014 Foi o senhor mesmo quem marcou o pre\u00e7o, l\u00e1<br \/>\nno Passeio P\u00fablico.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas isso era para descontar o que me deve aquele sujeito. Com<br \/>\nvoc\u00ea o caso muda de figura. Tenho de pagar em dinheiro! \u2014 Pois<br \/>\neu s\u00f3 entrego os pap\u00e9is por um conto de r\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! dessa forma n\u00e3o quero.<\/p>\n<p>\u2014 Bom, nesse caso farei deles o que bem entender. J\u00e1 sei quem<br \/>\nnos h\u00e1 de comprar&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o seja tolo, porque esses pap\u00e9is n\u00e3o t\u00eam<br \/>\nvalor para mais ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Paci\u00eancia! Ficar\u00e3o comigo. Eu tamb\u00e9m gosto de<br \/>\nfotografias&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quer duzentos mil r\u00e9is? \u2014 Nem quatrocentos.<\/p>\n<p>\u2014 Pois ent\u00e3o fa\u00e7a o que entender! \u2014 Adeus, disse<br \/>\nRuivo, afastando-se.<\/p>\n<p>\u2014 Olhe! volveu o outro. Dou-lhe quinhentos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vai nada! respondeu o Ruivo. Quer dar o conto ou n\u00e3o<br \/>\nquer? \u2014 Ora, v\u00e1 pentear monos! exclamou Portela certo de que<br \/>\no gatuno havia de voltar, quando se convencesse de que n\u00e3o alcan\u00e7aria<br \/>\nmaior pagamento.<\/p>\n<p>Mas Pedro Ruivo n\u00e3o voltou, e Portela, que por essa \u00e9poca<br \/>\nhavia tomado a seu servi\u00e7o o Talha-certo, encarregou a este tratante<br \/>\nde alcan\u00e7ar os pap\u00e9is das m\u00e3os do s\u00facio.<\/p>\n<p>\u2014 Nem \u00e9 preciso dar-lhe nada! afirmou o capanga com ar de quem<br \/>\nconfia muito em si. Pode ficar descansado, patr\u00e3o, que os pap\u00e9is<br \/>\nh\u00e3o de aqui chegar, quer aquele bisborria queira, quer n\u00e3o queira!<br \/>\nA coisa, por\u00e9m, n\u00e3o era assim t\u00e3o f\u00e1cil. Talha-certo<br \/>\nn\u00e3o conseguiu, como supunha, alcan\u00e7ar imediatamente os pap\u00e9is<br \/>\ndo poder de Pedro Ruivo. E Portela, poucos dias depois, ao passar pela rua<br \/>\ndos Ourives, teve que esconder-se no primeiro corredor, porque o gatuno, logo<br \/>\nque o viu principiou a gritar-lhe com as m\u00e3os nas cadeiras: \u2014<br \/>\nEnt\u00e3o, comendador, seu capanga est\u00e1 encarregado de arrancar-me<br \/>\nos seus documentos, hein?! Quer ver se pilha a coisa sem puxar pela bolsa!<br \/>\nEst\u00e1 enganado, meu amigo, ou o senhor cai com o cobre, ou tudo aquilo<br \/>\nvai publicadinho no jornal. \u00c9 escolher! E, desde ent\u00e3o, o Pedro<br \/>\nRuivo se converteu para o negociante de vinhos em uma sombra perseguidora.<br \/>\nPortela j\u00e1 estava resolvido a dar-lhe o conto de r\u00e9is, ou mais,<br \/>\ncontanto que se visse livre dele por uma vez; por\u00e9m, temia agora entrar<br \/>\nem qualquer ajuste, porque o maldito se punha a\u00ed a gritar e a fazer<br \/>\nesc\u00e2ndalos.<\/p>\n<p>Talha-certo ofereceu-se ainda para o despachar com uma boa navalhada.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 pior! respondeu o Portela; voc\u00ea n\u00e3o lhe<br \/>\ndava cabo da pele e o homem afinal ficava mais assanhado! Al\u00e9m do que<br \/>\nn\u00e3o me conv\u00e9m assassinar pessoa alguma&#8230; O melhor \u00e9<br \/>\ndar-lhe o dinheiro e ficarmos livres por uma vez dessa massada.<\/p>\n<p>E assim resolveram. Talha-certo come\u00e7ou a procurar Pedro Ruivo; mas<br \/>\neste n\u00e3o aparecia.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabia dar not\u00edcias dele.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo n\u00e3o era encontrado na capital pelo simples fato de haver<br \/>\npartido poucos dias antes para S. Paulo, \u00e0 sombra de um fazendeiro<br \/>\nde boa-f\u00e9, que se deixou comover pelas l\u00e1bias do velhaco. O<br \/>\naventureiro ainda possu\u00eda o talento de impressionar, quando estava<br \/>\nde mar\u00e9 para jogar com a fisionomia. O Portela \u00e9 que n\u00e3o<br \/>\npodia ficar tranq\u00fcilo, enquanto n\u00e3o estivesse senhor dos documentos,<br \/>\ne recomendava sem cessar ao seu capanga que se n\u00e3o descuidasse nas<br \/>\npesquisas.<\/p>\n<p>Mas deixemos tudo isso de parte. Tenha a bondade o leitor de unir os p\u00e9s,<br \/>\nencolher os bra\u00e7os, dobrar ligeiramente as pernas e dar ao corpo o<br \/>\nimpulso necess\u00e1rio para um novo salto.<\/p>\n<p>Vamos pular por cima dos epis\u00f3dios, que medeiam desde as cenas da<br \/>\nAvenida Estrela at\u00e9 \u00e0quela cr\u00edtica situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nem que deixamos Greg\u00f3rio ao lado de Ol\u00edmpia no pequenino chal\u00e9<br \/>\nda Tijuca.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisa empregar o leitor toda a sua for\u00e7a de m\u00fasculos,<br \/>\nporque o salto, se comporta muitas cenas, n\u00e3o abrange todavia muito<br \/>\ntempo.<\/p>\n<p>Pronto! Estamos novamente em casa do comendador Ferreira. O Dr. Roberto<br \/>\nsegue viagem para o norte. Ol\u00edmpia parecia j\u00e1 consolada da morte<br \/>\nde Scott, e o velho Jac\u00f3 acompanha fielmente aos amos.<\/p>\n<p>S\u00e3o sete horas da tarde. O sol mergulhou no horizonte, ensang\u00fcentando<br \/>\no c\u00e9u. A natureza envolve-se no crep\u00fasculo da noite para adormecer.<br \/>\nO canto da cigarra vai amortecendo, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que recrudesce<br \/>\nno fundo dos vales o coaxar das r\u00e3s.<\/p>\n<p>Na rua acendem-se os lampi\u00f5es, os bondes passam de um quarto em um<br \/>\nquarto de hora, e um piano da vizinhan\u00e7a solu\u00e7a o Spirito gentil<br \/>\nda Favorita.<\/p>\n<p>Penetramos no gabinete, onde deixamos Greg\u00f3rio, assentado aos p\u00e9s<br \/>\nde Ol\u00edmpia. Ela acaba de erguer-se e de afastar-se, abandonando o pobre<br \/>\nrapaz estarrecido de pasmo sob a impress\u00e3o daquela terr\u00edvel<br \/>\nfrase: \u201cVoc\u00ea \u00e9 um idiota!\u201d O \u00e1lbum, que es<br \/>\ndois folheavam, jaz estatelado no ch\u00e3o. Greg\u00f3rio permanecia<br \/>\nest\u00e1tico no seu tamborete, e olha com espanto para a cortina da porta,<br \/>\nque ainda treme com o repel\u00e3o que lhe deu Ol\u00edmpia ao sair.<\/p>\n<p>O comendador, que acabava de fazer a sua sesta, aparecia ent\u00e3o na<br \/>\nsala de jantar. A filha correra para ele, alvoro\u00e7ada, passara-lhe os<br \/>\nbra\u00e7os em volta do pesco\u00e7o, e dera-lhe um beijo na face.<\/p>\n<p>O velho, meio perturbado pela efus\u00e3o daquela car\u00edcia brusca,<br \/>\nia pedir explica\u00e7\u00e3o dela, quando a rapariga lhe cortou a palavra,<br \/>\nperguntando em que dia sa\u00eda o primeiro paquete para a Europa.<\/p>\n<p>\u2014 Hein?! o primeiro paquete?! Queres viajar?! \u2014 Quero; quando<br \/>\nsai o primeiro vapor? \u2014 N\u00e3o sei ao certo; talvez s\u00f3 no<br \/>\nprinc\u00edpio do m\u00eas que vem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me serve! Quero antes. Que viagem h\u00e1 por estes<br \/>\ndias? \u2014 Mas que resolu\u00e7\u00e3o \u00e9 essa?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00d3 meu Deus! Sempre os mesmos espantos! Pois o m\u00e9dico,<br \/>\ne o senhor mesmo, n\u00e3o t\u00eam aconselhado constantemente que fa\u00e7a<br \/>\nviagens?!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas tu mostravas uma tal repugn\u00e2ncia!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas j\u00e1 n\u00e3o mostro, ora essa! \u2014 Bem. Vamos tratar<br \/>\ndisso&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o seguimos no primeiro vapor que sair! \u2014 Para onde?!<br \/>\nperguntou o pai, assustado.<\/p>\n<p>\u2014 Seja l\u00e1 para onde for&#8230; O destino do primeiro que sair!<br \/>\n\u2014 Isso \u00e9 loucura! \u2014 Pois ent\u00e3o seja! N\u00e3o<br \/>\nviajo! Acabou-se! E Ol\u00edmpia afastou-se para o seu quarto, de mau humor.<\/p>\n<p>O velho foi encontrar-se com Greg\u00f3rio na sala de visitas. Jac\u00f3<br \/>\nacabava de acender o g\u00e1s.<\/p>\n<p>Depois dos cumprimentos, o comendador, que vinha ainda impressionado pelas<br \/>\npalavras da filha, principiou logo a falar sobre o projeto da viagem.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! D. Ol\u00edmpia quer viajar?&#8230; perguntou Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Quer, e \u00e9 sangria desatada; quer meter-se no primeiro vapor<br \/>\nque sair!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E a causa dessa resolu\u00e7\u00e3o? \u2014 Ora! a causa! nervos!<br \/>\nTudo aquilo s\u00e3o os nervos que est\u00e3o trabalhando. Eu s\u00f3<br \/>\npe\u00e7o a Deus que me d\u00ea paci\u00eancia, ao menos at\u00e9 v\u00ea-la<br \/>\ncompletamente restabelecida.<\/p>\n<p>E o paciente velho, depois de dar uma volta pela sala, acrescentou com um<br \/>\ngesto de contrariedade: \u2014 E logo agora \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1<br \/>\na\u00ed o Dr. Roberto. Ao menos se o Dermeval aparecesse!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O comendador o que resolveu? \u2014 Eu, j\u00e1 se sabe, fa\u00e7o-lhe<br \/>\na vontade. O doutor disse que a n\u00e3o contrariasse!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o sempre seguem no primeiro vapor?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei se no primeiro, mas se Ol\u00edmpia n\u00e3o<br \/>\nmudar de resolu\u00e7\u00e3o, iremos quanto antes. \u00c9 o diabo, porque<br \/>\neu at\u00e9 precisava estar aqui por este tempo \u00e0 testa de umas tantas<br \/>\ncoisas; al\u00e9m de que muito me custa deixar a casa assim ao desamparo,<br \/>\ncomo ali\u00e1s ela se acha desde que Ol\u00edmpia caiu doente.<\/p>\n<p>E, depois de urna pausa em que ambos ficaram a pensar, o comendador acrescentou:<br \/>\n\u2014 Homem, o senhor \u00e9 que podia vir conosco!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu, exclamou o rapaz. \u00c9 imposs\u00edvel! Posso l\u00e1<br \/>\nviajar!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! isso at\u00e9 lhe seria muito \u00fatil&#8230; O senhor<br \/>\nest\u00e1 em excelente idade de conhecer a Europa. Olhe, para n\u00e3o<br \/>\nir com as m\u00e3os abanando, eu o encarregaria da minha correspond\u00eancia,<br \/>\npagando-lhe o trabalho. Ent\u00e3o? Que tal lhe parece a id\u00e9ia?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, respondeu Greg\u00f3rio,<br \/>\nperturbado. Tenho muito desejo de visitar a Europa, mas n\u00e3o nessas<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que o senhor nunca encontrar\u00e1 ocasi\u00e3o melhor.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O senhor n\u00e3o tem aqui fam\u00edlia que o prenda; seu emprego<br \/>\nn\u00e3o depende do governo; que, pois, o poderia impedir de fazer-nos companhia?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, balbuciava Greg\u00f3rio,<br \/>\nsem \u00e2nimo de resistir; mas \u00e9 que n\u00e3o sei se farei bem<br \/>\nem aceitar o seu convite&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ora, deixe-se de hist\u00f3rias, Greg\u00f3rio! eu conto com<br \/>\no senhor! N\u00e3o me diga que n\u00e3o! \u2014 Mas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o admito raz\u00f5es! Sei que ser\u00e1 para seu bem!<br \/>\n\u2014 Ora esta!&#8230; disse consigo Greg\u00f3rio, logo que se afastou o<br \/>\ncomendador. Isto n\u00e3o \u00e9 o dem\u00f4nio? Pois eu a fugir do perigo,<br \/>\ne o pr\u00f3prio pai a empurrar-me cada vez mais ao lado da filha!&#8230;<\/p>\n<p>E, tendo refletido por alguns instantes, resolveu aceitar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Vou! concluiu ele; aconte\u00e7a o que acontecer! Aquela mulher<br \/>\nn\u00e3o me tornar\u00e1 a chamar idiota! Mas da\u00ed a pouco, quando<br \/>\nse servia o ch\u00e1, o comendador disse \u00e0 filha: \u2014 Sabe, sinhazinha?<br \/>\nO Greg\u00f3rio vai conosco.<\/p>\n<p>\u2014 Hein? perguntou ela, apertando os olhos. Conosco para onde? \u2014<br \/>\nOra essa! J\u00e1 te n\u00e3o lembras? replicou o velho, rindo. Pois n\u00e3o<br \/>\nestamos com uma viagem projetada? \u2014 Ah! j\u00e1 nem pensava em semelhante<br \/>\ncoisa. E, se f\u00f4ssemos, eu n\u00e3o consentiria que esse senhor se<br \/>\nincomodasse em acompanhar-nos&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Oh! minha senhora, disse Greg\u00f3rio levantando-se; eu teria<br \/>\no maior prazer em&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas eu, repito, \u00e9 que n\u00e3o consentiria! E, quando<br \/>\nela ficou s\u00f3 com o pai, lhe perguntou logo que id\u00e9ia extravagante<br \/>\nera aquela de convidar um estranho para a viagem.<\/p>\n<p>\u2014 Estranho \u00e9 o que est\u00e1s dizendo, menina? \u00c9 a<br \/>\nprimeira vez que te vejo falar assim desse pobre mo\u00e7o. Tu te mostravas<br \/>\nt\u00e3o amiga dele; ficavas t\u00e3o satisfeita quando ele te aparecia;<br \/>\nsempre achavas bem escolhidos os livros, os jornais e as gravuras que ele<br \/>\nte ofertava, e agora chamas extravag\u00e2ncia convid\u00e1-lo para nos<br \/>\nfazer companhia! Pensei at\u00e9 que, convidando-o te fosse eu muito agrad\u00e1vel;<br \/>\nal\u00e9m de que, eu e o Jac\u00f3 nem sempre poder\u00edamos em viagem<br \/>\nestar ao teu lado, conversar contigo, e o Greg\u00f3rio coitado, parecia-me<br \/>\nexcelente para isso; mas, uma vez que j\u00e1 n\u00e3o pensas em viajar,<br \/>\nnem precisamos estar aqui a falar ainda em semelhante coisa!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Eu estou disposta a fazer a viagem; ainda h\u00e1<br \/>\npouco disse aquilo para n\u00e3o ter de declarar francamente que n\u00e3o<br \/>\naceitava a companhia de Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Isso agora \u00e9 que \u00e9 o diabo! resmungou o comendador;<br \/>\nj\u00e1 convidei o rapaz, ele n\u00e3o queria ir; insisti, afinal aceitou.<br \/>\nOra, com que cara vou eu dizer-lhe que fica o dito por n\u00e3o dito?! que<br \/>\ndiabo de desculpa lhe posso eu dar?! \u2014 Pois ent\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nd\u00ea desculpa nenhuma! n\u00e3o se far\u00e1 a viagem! \u2014 Mas<br \/>\ntu tens alguma raz\u00e3o de queixa do Greg\u00f3rio?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o tenho raz\u00e3o de queixa de ningu\u00e9m! \u2014<br \/>\nMas ent\u00e3o por que n\u00e3o queres que ele v\u00e1, minha filha?<br \/>\nSe a tua viagem \u00e9 um pretexto de distra\u00e7\u00e3o, que mal faz<br \/>\nmais um companheiro? \u2014 Temos outra! disse ela. Pode o senhor provar<br \/>\nquantas vezes quiser que ser\u00e1 melhor levarmos o Greg\u00f3rio em<br \/>\nnossa companhia, eu entendo que n\u00e3o e declaro que n\u00e3o estou<br \/>\ndisposta a ser contrariada! \u2014 Est\u00e1 bom, n\u00e3o te zangues,<br \/>\nminha filha, Greg\u00f3rio n\u00e3o ir\u00e1 conosco! Eu retirarei o<br \/>\nconvite que fiz.<\/p>\n<p>No dia seguinte, com efeito, o comendador remeteu ao mo\u00e7o uma carta<br \/>\nmuito atenciosa, dizendo que havia pensado bem no sacrif\u00edcio que exigira<br \/>\ndele e estava agora resolvido a n\u00e3o o aceitar.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio compreendeu tudo, mas dissimulou. \u00c0 noite apareceu<br \/>\nem casa do comendador e Ol\u00edmpia o recebeu friamente. Durante o ser\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o lhe dirigiu a caprichosa uma s\u00f3 vez a palavra.<\/p>\n<p>O rapaz voltou dessa visita muito contrariado e triste.<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de dormir; a imagem de Ol\u00edmpia n\u00e3o lhe<br \/>\nsa\u00eda da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2014 Sou mesmo um idiota! repetia ele, a voltar-se de um para outro lado<br \/>\nda cama. Sou um idiota! ela tem toda a raz\u00e3o! Pois se a desejo, se<br \/>\na adoro e se me n\u00e3o posso fazer seu marido, por que a repeli t\u00e3o<br \/>\nasnaticamente? No dia imediato apresentou-se de novo em casa do comendador,<br \/>\n\u00e0s mesmas horas do c\u00e9lebre epis\u00f3dio do \u00e1lbum.<br \/>\nO velho, como ent\u00e3o, fazia a sua sesta; Ol\u00edmpia passava os olhos<br \/>\npor um livro, assentada no jardim, debaixo de um caramanch\u00e3o.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio entrou sem ser sentido, encaminhou-se para ela, p\u00e9<br \/>\nante p\u00e9, e, quando a teve ao seu alcance, deu um salto para a frente<br \/>\ne surpreendeu-a com um beijo na boca.<\/p>\n<p>Pela noite desse mesmo dia, quando Greg\u00f3rio se retirou da casa do<br \/>\ncomendador, Ol\u00edmpia disse ao pai que j\u00e1 estava resolvida a consentir<br \/>\nna viagem em companhia do rapaz.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o para que me obrigaste a destruir o meu convite?&#8230;<br \/>\nOra a\u00ed est\u00e1 uma dessas coisas com que deveras me aborre\u00e7o!<br \/>\n\u2014 Mudei de resolu\u00e7\u00e3o! respondeu Ol\u00edmpia, sem erguer<br \/>\nos olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Tanto pior para ti, replicou o pai, porque agora o passo est\u00e1<br \/>\ndado! Eu n\u00e3o hei de voltar atr\u00e1s ainda uma vez! Havia de parecer<br \/>\nca\u00e7oada; al\u00e9m do que, ele com certeza n\u00e3o aceitaria!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Encarrego-me eu do convite, disse Ol\u00edmpia, sem se perturbar.<\/p>\n<p>\u2014 Estou pressentindo \u00e9 que acabar\u00e1s por me fazeres rid\u00edculo<br \/>\naos olhos daquele mo\u00e7o.<\/p>\n<p>No dia seguinte estavam de mudan\u00e7a para Botafogo. A viagem ficara<br \/>\nresolvida para a primeira quarta-feira. Iriam para Lisboa em um paquete franc\u00eas<br \/>\nque havia de sair nesse dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o fizeram itiner\u00e1rio. Demorar-se-iam em cada lugar o tempo<br \/>\nque lhes apetecesse. Se Ol\u00edmpia aproveitasse com a viagem, eles seguiriam<br \/>\nadiante, iriam a Paris, talvez chegassem \u00e0 Inglaterra. N\u00e3o sabiam<br \/>\nainda se teriam de demorar meses ou anos.<\/p>\n<p>A casa de Botafogo ficara em uma grande desordem. Durante os poucos dias<br \/>\nque precediam \u00e0 viagem, o comendador n\u00e3o podia descansar um<br \/>\ninstante. Era preciso ordenar seus neg\u00f3cios, escrever cartas para a<br \/>\ndireita e para a esquerda, passar procura\u00e7\u00f5es, fechar o testamento<br \/>\ne deix\u00e1-lo em poder do Figueiredo.<\/p>\n<p>Quatro dias era muito pouco tempo para tanta coisa. Mas o velho n\u00e3o<br \/>\ndescansava.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia parecia reanimada com os sobressaltos daquela viagem. Vivia<br \/>\nalegre, esperta, falava com vivacidade, preparava-se com muito interesse,<br \/>\nconsultava os guias de viajantes, estudava mapas da Europa, discutia sobre<br \/>\nas roupas que mais convinha levar. \u00c0 mesa n\u00e3o se tratava doutra<br \/>\ncoisa; imaginavam-se perip\u00e9cias, calculavam-se os epis\u00f3dios<br \/>\nque haveriam de surgir quando se afastassem do Brasil.<\/p>\n<p>Dois dias antes da sa\u00edda do vapor, o comendador passara a manh\u00e3<br \/>\ntodo ocupado no seu gabinete. Interrompeu o trabalho para almo\u00e7ar,<br \/>\npor\u00e9m mal sorveu o \u00faltimo gole de ch\u00e1, recolheuse de<br \/>\nnovo, fechando a porta sobre si, depois de recomendar que o n\u00e3o interrompessem.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio ficou \u00e0 mesa com Ol\u00edmpia. N\u00e3o disseram<br \/>\npalavras por alguns segundos, mas quedaram-se a olhar um para o outro, embevecidos,<br \/>\nenamorados.<\/p>\n<p>\u2014 Tu gostas muito de mim?&#8230; murmurou ele afinal, segurando-lhe uma<br \/>\ndas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u2014 Se gosto!&#8230; respondeu ela, ameigando os olhos.<\/p>\n<p>Mas tiveram logo de mudar de atitude, porque o copeiro apareceu para levantar<br \/>\na mesa.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia prop\u00f4s que se passassem para a sala de trabalho. Greg\u00f3rio<br \/>\nacompanhou-a.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes de uma coisa? segredou-lhe a filha do comendador, assim que<br \/>\nse viu a s\u00f3s com ele.<\/p>\n<p>Tu ainda \u00e9s muito tolo!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea? perguntou Greg\u00f3rio, tomando-a pela cintura.<\/p>\n<p>\u2014 Por muitas coisas&#8230; respondeu ela, com a voz alterada&#8230; \u00c0s<br \/>\nvezes tenho receio do futuro! Tu \u00e9s muito crian\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que tem isso, se te adoro, minha Ol\u00edmpia? \u2014 Tenho medo<br \/>\ndas conseq\u00fc\u00eancias! Quando me lembro do modo austero pelo qual eu<br \/>\npr\u00f3pria acusava as mulheres levianas&#8230; fico envergonhada, acredita!<br \/>\n\u2014 N\u00e3o penses nisso!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso deixar de pensar. \u00c9 t\u00e3o bonito uma<br \/>\nmulher conservar-se honesta!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o penses nisso, repetiu Greg\u00f3rio, procurando cham\u00e1-la<br \/>\nao amor.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia ia abandonar-se, quando um barulho surdo, de corpo que cai<br \/>\nno soalho, a sobressaltou.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isto?! exclamou ela, correndo para a porta, tr\u00eamula.<\/p>\n<p>Jac\u00f3 e os outros servos haviam j\u00e1 acudido ao estranho ru\u00eddo.<br \/>\nO choque partira do quarto do comendador. Jac\u00f3 come\u00e7ou a bater<br \/>\nna porta do gabinete. Ningu\u00e9m respondia.<\/p>\n<p>\u2014 Que sucedeu a meu pai?! gritou Ol\u00edmpia, j\u00e1 muito p\u00e1lida,<br \/>\nsem poder dar mais um passo, porque o corpo lhe tremia todo.<\/p>\n<p>Ouviram-se ent\u00e3o uns roncos guturais dentro do gabinete.<\/p>\n<p>\u2014 Ai! gritou Ol\u00edmpia, perdendo os sentidos e estrebuchando.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio apoderou-se dela, enquanto os criados arrombavam a porta<br \/>\ndo quarto do comendador.<\/p>\n<p>Encontraram-no estendido no ch\u00e3o, roxo, com os olhos no branco, a<br \/>\nboca aberta, a l\u00edngua inchada, e os membros contra\u00eddos. A burra<br \/>\nestava afastada do seu lugar, via-se o segredo da parede aberto e vazio. Sobre<br \/>\na mesa pap\u00e9is revoltos. O quarto em desordem, denunciava que pouco<br \/>\nantes houvera ali a busca desesperada de qualquer objeto.<\/p>\n<h2><a name=\"28\"><\/a> XXVIII PERP\u00c9TUAS, VIOLETAS E CAM\u00c9LIAS<\/h2>\n<p>A casa ficou logo numa grande atrapalha\u00e7\u00e3o. Ol\u00edmpia<br \/>\nfoi conduzida em gritos para o seu quarto. Dois criados correram a chamar<br \/>\no primeiro m\u00e9dico que encontrassem, e Jac\u00f3 ajoelhou-se solu\u00e7ando<br \/>\nao lado do amo.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m mais se entendia. Figueiredo, que fora prevenido da cat\u00e1strofe,<br \/>\napresentou-se esbaforido, a perguntar o que sucedera naquela casa. Ningu\u00e9m<br \/>\nsabia explicar o que era.<\/p>\n<p>Chegou afinal o m\u00e9dico. O comendador passou carregado para a alcova,<br \/>\ne o seu ex-s\u00f3cio, com o bom senso pr\u00e1tico de que dispunha, tratou<br \/>\nlogo, inalteravelmente, de vedar a quem quer que fosse a entrada no gabinete.<\/p>\n<p>Mais tarde apareceram outros facultativos e come\u00e7aram logo a chegar<br \/>\nvisitas de amizade.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia ficou prostrada de febre; as crises repetiam-se-lhe quase<br \/>\nsem intermit\u00eancia. O Dr.<\/p>\n<p>Dermeval n\u00e3o lhe abandonava a cabeceira.<\/p>\n<p>O comendador expirara \u00e0 meia-noite, depois de esgotados todos os<br \/>\nrecursos da medicina; e, como n\u00e3o pudessem contar com a filha, que<br \/>\ncontinuava sem dar acordo de si, o subdelegado da freguesia, acompanhado de<br \/>\ncompetente escriv\u00e3o, mandou proceder \u00e0 aposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos selos nas portas do gabinete em que se achava o incompleto testamento<br \/>\ndo morto.<\/p>\n<p>S\u00f3 dois dias depois, quando alcan\u00e7aram cinco testemunhas,<br \/>\na mesma autoridade tornou a abrir as portas, para se formar o testamento nuncupativo.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia por esse tempo havia sido conduzida j\u00e1 para a casa<br \/>\ndo Figueiredo. N\u00e3o lhe disseram que o pai deixara de existir.<\/p>\n<p>O enterro saiu \u00e0s cinco horas da tarde do dia imediato ao falecimento<br \/>\ndo comendador. Foi muito concorrido. O com\u00e9rcio abalou-se; os carros<br \/>\nformaram uma serpente negra, que se estendia por toda a praia de Botafogo.<br \/>\nUm poeta da \u00e9poca, amigo de algum dos caixeiros do Figueiredo, recitou<br \/>\numa poesia, de que se falou depois, entre negociantes, com muito agrado, e<br \/>\no Jornal do Com\u00e9rcio publicou, na sua parte ineditorial, um artigo<br \/>\ns\u00e9rio a respeito do falecido, pondo-lhe em relevo as qualidades pr\u00e1ticas,<br \/>\nas suas virtudes de pai de fam\u00edlia e os servi\u00e7os que ele em<br \/>\nvida prestara ao Brasil, como s\u00f3cio benem\u00e9rito de v\u00e1rias<br \/>\ninstitui\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas.<\/p>\n<p>O testamento do comendador Ferreira causou muita impress\u00e3o; era um<br \/>\ntestamento original.<\/p>\n<p>O pobre homem fora surpreendido pela morte, justamente na ocasi\u00e3o<br \/>\nem que reunia os seus pap\u00e9is e formulava as suas disposi\u00e7\u00f5es.<br \/>\nEncontraram um aglomerado de notas e declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Havia v\u00e1rias refer\u00eancias. O falecido deserdava a mulher, porque<br \/>\nse casara com escritura de separa\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua de bens.<br \/>\nReferia-se o testador a uma declara\u00e7\u00e3o de Luiz Portela, a qual<br \/>\nn\u00e3o apareceu no lugar indicado; havia tamb\u00e9m uma refer\u00eancia<br \/>\nacerca de certo cofre de ferro, contendo cinco mil libras esterlinas, que<br \/>\no falecido legava \u00e0 sua filha Ol\u00edmpia. O cofre n\u00e3o apareceu<br \/>\nigualmente.<\/p>\n<p>Deram-se logo as provid\u00eancias para se proceder a inqu\u00e9rito<br \/>\nno empregado que se encarregara da escrita do comendador e no pessoal da casa.<br \/>\nJo\u00e3o Rosa estava ausente.<\/p>\n<p>Constava ainda, nas disposi\u00e7\u00f5es do morto, de um legado de<br \/>\nvinte contos destinados ao advogado que se quisesse encarregar de proceder<br \/>\ncontra Portela. E, no caso que esse dinheiro n\u00e3o pudesse ter semelhante<br \/>\naplica\u00e7\u00e3o, deveria reverter, no fim de dez anos, em benef\u00edcio<br \/>\ndo Gabinete Portugu\u00eas de Leitura. Isso mesmo dizia o falecido em uma<br \/>\ncarta dirigida \u00e0 reda\u00e7\u00e3o do Jornal do Com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>O mais eram disposi\u00e7\u00f5es sobre bens m\u00f3veis e im\u00f3veis.<\/p>\n<p>Portela achou muito prudente ir \u00e0 Europa buscar um novo sortimento<br \/>\nde vinhos. Mas um amigo seu, entendido em tricas do foro, afian\u00e7ou-lhe<br \/>\nque as declara\u00e7\u00f5es do comendador n\u00e3o faziam f\u00e9<br \/>\nperante a lei.<\/p>\n<p>\u2014 Portela que estivesse descansado: n\u00e3o lhe poderia suceder<br \/>\npor a\u00ed viol\u00eancia alguma.<\/p>\n<p>O homem, por\u00e9m, n\u00e3o se tranq\u00fcilizou com isso, e deu de<br \/>\nvelas para Portugal. O que ele temia n\u00e3o era precisamente ter de cumprir<br \/>\ncom as determina\u00e7\u00f5es do defunto; mas era cair no rid\u00edculo<br \/>\ne desmoralizar-se aos olhos da mulher a quem pretendia para esposa: aquela<br \/>\nagregada da casa de D. Janu\u00e1ria, de quem vamos agora tornar a falar.<\/p>\n<p>Chamava-se Matilde.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhecera os pais. O tutor havia tr\u00eas anos, quando ela<br \/>\ntinha quinze, retirou-a do col\u00e9gio para a confiar aos cuidados da velha<br \/>\nJanu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esse tutor era um velho farmac\u00eautico, que enriquecera a curar feridas<br \/>\nde mau car\u00e1ter a cinco mil r\u00e9is por cabe\u00e7a. Homem de<br \/>\ninalter\u00e1vel economia e de uma sa\u00fade inquebrant\u00e1vel. Poucas<br \/>\npessoas, rar\u00edssimas, o conheceram mais mo\u00e7o. H\u00e1 vinte<br \/>\nanos era aquilo mesmo que se via agora.<\/p>\n<p>Cabelos curtos, grisalhos, cara toda raspada, boca seca, dentes magn\u00edficos,<br \/>\nombros largos, pouca barriga e pouca estatura. Enviuvara aos quarenta anos<br \/>\npara nunca mais casar. Agora tinha setenta. A esposa n\u00e3o lhe deixara<br \/>\nfilhos, mas ele arranjara dois naturais, um dos quais trabalhava em sua companhia<br \/>\nna farm\u00e1cia; o outro nunca tomara caminho, ca\u00edra na vagabundagem<br \/>\ne era de vez em quando recolhido \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de pol\u00edcia,<br \/>\nb\u00eabedo.<\/p>\n<p>O velho chegara-lhe ao p\u00ealo por v\u00e1rias vezes uma bengala de<br \/>\ncana da \u00cdndia, que trazia sempre consigo. Mas da \u00faltima o peralta<br \/>\nganhara a rua, gritando ao pai que, em vez de lhe abrir feridas nas costelas,<br \/>\nmelhor seria que as fosse fechar aos fregueses! E nunca mais apareceu.<\/p>\n<p>O farmac\u00eautico tamb\u00e9m n\u00e3o queria ouvir falar em semelhante<br \/>\nbiltre: \u201cQue o leve o diabo!\u201d resmungava ele, quando algu\u00e9m<br \/>\nlhe levava not\u00edcias do filho. \u201cO governo \u00e9 que h\u00e1<br \/>\nmuito tempo lhe devia ter pregado o c\u00f4vado e meio de cano \u00e0s<br \/>\ncostas. Para n\u00e3o ser ruim! Peste de um vadio!\u201d O farmac\u00eautico<br \/>\nera muito exc\u00eantrico, era um tip\u00e3o: n\u00e3o tirava da cabe\u00e7a<br \/>\no seu grande chap\u00e9u de p\u00ealo de seda, cuidadosamente alisado.<br \/>\n\u00c0s seis horas da manh\u00e3 j\u00e1 estava de p\u00e9 ao balc\u00e3o<br \/>\nda botica, a curar feridas, a despachar receitas, a misturar ung\u00fcentos<br \/>\ne embolar p\u00edlulas; \u00e0s nove horas subia para almo\u00e7ar,<br \/>\ne mal terminado o almo\u00e7o, voltava ao trabalho, sem nunca descobrir<br \/>\na cabe\u00e7a. O jantar era justamente a mesma coisa que o almo\u00e7o,<br \/>\ncom a diferen\u00e7a das horas. De resto n\u00e3o ia a teatros, n\u00e3o<br \/>\nvisitava ningu\u00e9m que estivesse de sa\u00fade, e o tiro das nove da<br \/>\nnoite j\u00e1 o encontrava dormindo, n\u00e3o de chap\u00e9u, mas de<br \/>\nbarrete de algod\u00e3o; o outro, o seu companheiro de todo o dia, o chap\u00e9u,<br \/>\nesse descansava ent\u00e3o ao lado da cama, dentro de uma caixa de couro.<\/p>\n<p>Era muito popular, muito conhecido, se bem que pouco estimado. Contavam<br \/>\ndele algumas anedotas engra\u00e7adas e pequeninos fatos de grande mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias que fizeram dele tutor de Matilde, n\u00e3o podem<br \/>\ninteressar a ningu\u00e9m. A rapariga era filha de um sujeito, outrora seu<br \/>\ncaixeiro, e que lhe pedira na hora da sua morte tomasse conta da pequenita.<br \/>\nComo o agonizante deixava para a\u00ed fortuna superior a quatrocentos contos,<br \/>\no farmac\u00eautico encarregou-se da tutoria, chegando-se mais tarde a dizer<br \/>\nat\u00e9, pela boca pequena, que ele especulava com os bens da \u00f3rf\u00e3.<\/p>\n<p>Contos largos! O certo \u00e9 que Moreira, tal se chamava o farmac\u00eautico,<br \/>\npor mais de uma vez dera aos dem\u00f4nios semelhante massada, e jurara,<br \/>\nsem tirar o chap\u00e9u da cabe\u00e7a, que nunca mais cairia na esparrela<br \/>\nde se fazer tutor de ningu\u00e9m! \u201cNem de meu pr\u00f3prio pai,<br \/>\nque se apresentasse!\u201d bradava ele cheio de indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto Matilde bem pouco lhe poderia dar que fazer, porque era de seu<br \/>\nnatural n\u00e3o exigente e sumamente d\u00f3cil.<\/p>\n<p>Nada tinha ela de bonita, nem de espirituosa, mas dispunha de um todo simp\u00e1tico<br \/>\ne bondoso.<\/p>\n<p>N\u00e3o atra\u00eda pelos encantos, mas encantava pela simplicidade<br \/>\ndos seus gostos, pela do\u00e7ura da sua voz e pela docilidade do seu g\u00eanio.<\/p>\n<p>O \u00e1ureo cheiro do dote dava-lhe a muitos olhos certo prest\u00edgio,<br \/>\ne puxava sobre ela as vistas cubi\u00e7osas de uma matilha de galfarros.<br \/>\nMas de todos os pretendentes era Portela o que at\u00e9 a\u00ed parecia<br \/>\npreferido, tanto pela abastada rapariga, como por D. Janu\u00e1ria, cuja<br \/>\nopini\u00e3o n\u00e3o devia ser para desprezar em semelhante assunto.<\/p>\n<p>D. Janu\u00e1ria gozava para o Moreira, e para muita gente, imaculada<br \/>\nreputa\u00e7\u00e3o de honesta. Em sua longa e pobre viuvez ningu\u00e9m<br \/>\nachara jamais com que lhe enodoar a pureza dos costumes e a austeridade da<br \/>\nconduta.<\/p>\n<p>Ser honesta ao lado de um marido mo\u00e7o, e forte, e de cujas m\u00e3os<br \/>\nca\u00edam nas da mulher os recursos necess\u00e1rios para manter confort\u00e1vel<br \/>\ne decentemente a vida, muito pouco ser\u00e1; mas ser honesta, quando \u00e9<br \/>\npreciso tirar da agulha e do ferro de engomar os meios de subsist\u00eancia;<br \/>\nser honesta aos vinte anos, quando temos a bolsa pobre e o sangue rico; quando<br \/>\no arm\u00e1rio est\u00e1 vazio, mas a imagina\u00e7\u00e3o cheia;<br \/>\nquando a cozinha est\u00e1 gelada, mas o cora\u00e7\u00e3o encandecido;<br \/>\nser honesta com os cabelos pretos, a tez limpa e fresca, os olhos brilhantes<br \/>\ne formosos; ser honesta quando se tem todos os dentes e n\u00e3o se tem<br \/>\no que comer; quando se tem um colo branco e macio e n\u00e3o se tem com<br \/>\nque o resguardar \u2014 isso \u00e9 muito, isso \u00e9 extraordin\u00e1rio!<br \/>\nJanu\u00e1ria foi assim. Enviuvou pouco depois de casar e, aos vinte anos,<br \/>\nem plena mocidade, na primavera dos seus encantos, quando lhe verdejavam e<br \/>\nfloresciam as esperan\u00e7as no cora\u00e7\u00e3o, ela resistiu a todas<br \/>\nas vozes sedutoras, que lhe suspiravam e gemiam em torno dos ouvidos, como<br \/>\nse a alma apaixonada de Ten\u00f3rio andasse errante pelo espa\u00e7o,<br \/>\na cantar eternamente os seus amores ego\u00edstas.<\/p>\n<p>Ofereceram-lhe sedas, j\u00f3ias; falaram-lhe em carruagens; mostraram-lhe,<br \/>\nda miser\u00e1vel janela da sua mansarda, o mundo feliz que l\u00e1 embaixo<br \/>\nse embriagava de prazer. E o marulhar daquele oceano de gozos, e o crepitar<br \/>\ndos risos e dos beijos, e o ru\u00eddo quente dos almo\u00e7os no campo,<br \/>\npelas manh\u00e3s de ver\u00e3o, \u00e0 sombra das mangueiras ou ao<br \/>\nsussurrar das cascatas da Tijuca; nada venceu conquist\u00e1-la.<\/p>\n<p>Embalde o champanha transbordou das ta\u00e7as o seu alj\u00f4far inebriante;<br \/>\nembalde Offenbach atirou aos ares as notas endemoninhadas das suas partituras;<br \/>\nembalde os carnavais, os vaudevilles, os hot\u00e9is, os circos e as corridas<br \/>\nestridularam por toda a parte, chamando \u00e0 loucura, ao prazer, ao riso!<br \/>\nA pobre vi\u00fava fechou-se a tudo isso e continuou a aviar encomendas<br \/>\nde costura, ao lado de uma velha patativa, que possu\u00eda do tempo do<br \/>\nmarido.<\/p>\n<p>Foi nesse tempo que conheceu o farmac\u00eautico. Janu\u00e1ria, quando<br \/>\nescassearam as encomendas de costura, desfiava linho usado, para vender o<br \/>\nfio nos hospitais e nas casas de caridade. Moreira era um dos seus bons fregueses.<br \/>\nJ\u00e1 por essa \u00e9poca explorava ele, com muito sucesso, as feridas<br \/>\ndo pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Era mo\u00e7o ent\u00e3o \u2014 teria trinta e cinco anos; n\u00e3o<br \/>\nsabemos se j\u00e1 gozava da singular mania do chap\u00e9u, mas podemos<br \/>\nafirmar que foi ele um dos primeiros dem\u00f4nios dos que tentaram desviar<br \/>\na formosa e r\u00edspida vi\u00fava da perfumada e santa obscuridade em<br \/>\nque vivia.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, o farmac\u00eautico, cujos neg\u00f3cios da botica<br \/>\niam j\u00e1 perfeitamente encaminhados, sup\u00f4s a coisa muito f\u00e1cil<br \/>\nde resolver e declarou francamente a Janu\u00e1ria as inten\u00e7\u00f5es<br \/>\nque mantinha a seu respeito.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora deve ter uma casita melhor e mais guarnecida do que est\u00e1,<br \/>\ndisse ele, com o aspecto desinteressado e superior de quem gosta de fazer<br \/>\no bem pelo bem; deve igualmente passar melhor de boca e poder contar com certas<br \/>\ncomodidades e certos arranjos dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>Roupa, por exemplo: a senhora quase que n\u00e3o tem o que vestir! O querosene<br \/>\nestraga-lhe a vista; e este trabalho, t\u00e3o puxado, pode vir a dar-lhe<br \/>\ncom os ossos no cemit\u00e9rio! Deve a gente trabalhar para viver e n\u00e3o<br \/>\npara matar-se! A senhora puxa demais pelas for\u00e7as, abusa do trabalho;<br \/>\n\u00e9 imposs\u00edvel que isso n\u00e3o lhe venha a fazer mal!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que rem\u00e9dio!&#8230; respondeu ela, com um gesto de resigna\u00e7\u00e3o;<br \/>\nas costuras d\u00e3o agora t\u00e3o pouca coisa!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas para que s\u00f3 conta com as costuras?&#8230; A senhora precisava<br \/>\nde algu\u00e9m que a ajudasse; algum rapaz decente e de bons costumes que<br \/>\na protegesse&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 De que modo? perguntou ela, talvez compreendendo j\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo farmac\u00eautico.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, de que modo! H\u00e1 tantos modo de proteger uma pessoa!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 por isso mesmo que eu pergunto qual deles \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Que modo h\u00e1 de ser?&#8230; ligando-se \u00e0 senhora&#8230; Diga-me<br \/>\numa coisa: se lhe aparecesse um rapaz nessas condi\u00e7\u00f5es e que<br \/>\nestivesse disposto a fazer o que eu disse, a senhora n\u00e3o o aceitaria?<br \/>\n\u2014 Ah! se ele fosse boa criatura e caso se agradasse de mim&#8230; n\u00e3o<br \/>\ndigo que n\u00e3o&#8230; mas qual! interrompeu ela com um sorriso triste e ao<br \/>\nmesmo tempo gracioso; quem hoje escolhe uma vi\u00fava pobre como eu?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem?! exclamou o Moreira esquentando-se. Um rapaz que eu c\u00e1<br \/>\nsei!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O senhor est\u00e1 gracejando!&#8230; observou ela.<\/p>\n<p>\u2014 Por Deus que falo a s\u00e9rio! \u2014 E esse rapaz quem \u00e9?<br \/>\n\u2014 A senhora o conhece&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser, mas eu conhe\u00e7o tanta gente!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ele n\u00e3o est\u00e1 longe daqui&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o entendo&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Um pobre farmac\u00eautico, chamado Moreira; n\u00e3o \u00e9<br \/>\nrico, nem tem dotes f\u00edsicos, mas passa por boa pessoa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 O senhor?! perguntou ela, franzindo as sobrancelhas.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, minha querida Janu\u00e1ria, respondeu ele procurando segurar-lhe<br \/>\numa das m\u00e3os. H\u00e1 muito tempo que estou doido por dizer-te isto,<br \/>\nmas&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Mas como, se o senhor \u00e9 casado?! \u2014 E que tem isso?&#8230;<br \/>\nAcaso, por ser casado, n\u00e3o posso tomar conta de uma mulher a quem ame?&#8230;<\/p>\n<p>A vi\u00fava afastou-se tranq\u00fcilamente, sem um gesto de indigna\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne, quando chegou \u00e0 entrada do seu quarto, voltou-se e disse ao Moreira<br \/>\ncom toda a calma: \u2014 O senhor pode retirar-se e tenha a bondade de n\u00e3o<br \/>\nvoltar aqui, porque n\u00e3o o receberei.<\/p>\n<p>Diga a sua mulher que o vestido de fust\u00e3o est\u00e1 pronto, e que<br \/>\nme desculpe n\u00e3o lhe aparecer mais em casa para ir buscar as outras<br \/>\nencomendas.<\/p>\n<p>E fechou-se no quarto.<\/p>\n<p>O farmac\u00eautico ficou a olhar um instante para a porta fechada.<\/p>\n<p>\u2014 Ora esta! disse ele afinal e ganhou a rua, aborrecido com aquela<br \/>\ndecep\u00e7\u00e3o, mas instintivamente penetrado de respeito pelo car\u00e1ter<br \/>\nda vi\u00fava; o que ali\u00e1s n\u00e3o impediu que, da\u00ed por<br \/>\ndiante, nem s\u00f3 n\u00e3o lhe desse mais trabalho e n\u00e3o lhe<br \/>\ncomprasse o fio, como tamb\u00e9m ainda se empenhasse com alguns seus conhecidos<br \/>\npara que fizessem outro tanto.<\/p>\n<p>O resultado foi que a vi\u00fava, ao fim de pouco tempo, se achava a bra\u00e7os<br \/>\ncom um milh\u00e3o de dificuldades e via, aflita, chegar o momento terr\u00edvel<br \/>\nem que fosse preciso um peda\u00e7o de p\u00e3o para matar a fome, e n\u00e3o<br \/>\nhouvesse.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o resolveu alugar-se como criada em casa de alguma respeit\u00e1vel<br \/>\nfam\u00edlia. Apareceu-lhe arranjo. Era uma gente que morava para al\u00e9m<br \/>\ndo Campo de Santana, nesse tempo ainda muito pouco concorrido.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio custou-lhe bastante afazer-se ao seu novo estado, mas<br \/>\no desejo de viver honestamente, a necessidade ing\u00eanita de conservar-se<br \/>\nvirtuosa, triunfaram de todos os obst\u00e1culos, e Janu\u00e1ria conseguiu<br \/>\npassar alguns anos a servir sem nunca relaxar os seus princ\u00edpios de<br \/>\nperegrina austeridade.<\/p>\n<p>Quando lhe principiaram a secar as faces, e os l\u00e1bios come\u00e7aram<br \/>\na empobrecer de frescura e rubor, foi solicitada por D. Henriqueta dos Santos<br \/>\n(aquela com quem se casou Le\u00e3o Vermelho) para ajud\u00e1-la no servi\u00e7o<br \/>\nda sua casa de pens\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 a morte da m\u00e3e de Clorinda conseguiu separ\u00e1-las.<br \/>\nAs duas, como j\u00e1 sabe o leitor, se tinham feito muito amigas. Janu\u00e1ria<br \/>\npossu\u00eda o segredo de viver bem com uma pessoa do seu sexo, o que ali\u00e1s<br \/>\n\u00e9 muito raro entre mulheres. Era muito condescente asseada, ativa,<br \/>\namiga de servir e agradar. Ningu\u00e9m lhe ouvia uma frase de c\u00f3lera,<br \/>\nningu\u00e9m lhe surpreendia um momento de mau humor. O sorriso parecia<br \/>\nfazer parte intr\u00ednseca de seus l\u00e1bios; seus olhos eram doces<br \/>\ne transparentes como os olhos de uma crian\u00e7a. Naquela fisionomia calma<br \/>\ne cheia de bondade, n\u00e3o havia ressaibo de ressentimento ou de \u00f3dio;<br \/>\nnela tudo respirava resigna\u00e7\u00e3o e paci\u00eancia. As necessidades<br \/>\nmortificadoras da sua triste vida n\u00e3o lograram azedar-lhe o sangue<br \/>\ne derramar-lhe b\u00edlis no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o seria bom o homem que nascesse dessa mulher. Como n\u00e3o<br \/>\nseria feliz a criatura que fosse em pequenina aquecida nas asas daquele anjo!<br \/>\nE ela, que possu\u00eda todas as sutilezas da ternura, todos os mist\u00e9rios<br \/>\ndo amor leg\u00edtimo e fecundo; ela, que parecia ter vindo \u00e0 terra<br \/>\ns\u00f3 para cumprir um destino de sacrif\u00edcios e de abnega\u00e7\u00e3o;<br \/>\nela, como n\u00e3o saberia ser m\u00e3e! como n\u00e3o saberia dar-se<br \/>\ntoda ao entezinho querido que lhe sa\u00edsse das entranhas! Entretanto<br \/>\nJanu\u00e1ria nunca desfrutou essa ventura; e quando nasceu Clorinda, ela<br \/>\ndeu \u00e0 filha da amiga, \u00e0 sua afilhadinha, todo o farto tesouro<br \/>\nde ternura maternal que lhe enchia o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisa o leitor de que lhe lembremos os sucessos determinados<br \/>\npelo casamento de Le\u00e3o Vermelho, e sabe decerto, t\u00e3o bem como<br \/>\nn\u00f3s, que, depois da morte de Henriqueta, a pequenina Clorinda ficou<br \/>\nentregue aos cuidados da madrinha, enquanto o desventurado pai fugia para<br \/>\na p\u00e1tria, desesperado e perseguido.<\/p>\n<p>Foi pouco depois disso que o farmac\u00eautico, j\u00e1 ent\u00e3o<br \/>\nvi\u00favo e adiantado em anos, vendo-se na conting\u00eancia de retirar<br \/>\nMatilde do col\u00e9gio e confi\u00e1-la a alguma senhora verdadeiramente<br \/>\nhonesta, se lembrou de procurar a velha Janu\u00e1ria e lhe pedir que tomasse<br \/>\nconta da abastada \u00f3rf\u00e3.<\/p>\n<p>D. Janu\u00e1ria aceitou; o que mais tarde abriu lugar ao namoro de Portela<br \/>\ncom Matilde.<\/p>\n<p>Mas, deixemos por hora tudo isso de m\u00e3o, para darmos conta final<br \/>\ndos outros personagens que foram ficando abandonados pelo caminho, e irmos<br \/>\nencontrar-nos de novo com Ol\u00edmpia e espreitar a posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque, ao lado dela, toma o nosso Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u00c0 filha do comendador muito custou consolar-se da perda do pai. O<br \/>\nDr. Dermeval viu-se em s\u00e9rias dificuldades para a erguer do estado<br \/>\nde abatimento em que ficara.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia transformou-se durante os quinze dias que sucederam \u00e0<br \/>\nmorte do comendador; fezse muito abatida, muito mais magra e mais nervosa.<br \/>\nEram precisos mil cuidados para evitar-lhe as crises. Em algumas rodas dizia-se<br \/>\nat\u00e9 que a mulher do Gon\u00e7alves n\u00e3o estava muito boa da<br \/>\ncabe\u00e7a. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o tinha fundamento algum; o que<br \/>\nela estava era sumamente hipocondr\u00edaca, profundamente aborrecida e<br \/>\ndesconsolada.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio ficou desapontado com semelhantes transforma\u00e7\u00f5es;<br \/>\nsupunha ele que, depois da morte do comendador, Ol\u00edmpia lhe pertenceria<br \/>\nmais exclusivamente; que desapareceriam os sobressaltos, os riscos, as torturas<br \/>\nde todo o instante. E n\u00e3o se lembrava o inexperto de que \u00e9 precisamente<br \/>\ndesses pequeninos casos, excitantes e provocativos, dessas galantes contrariedades,<br \/>\ndesses passageiros obst\u00e1culos, que se alimentam os amores, cujas ra\u00edzes<br \/>\ngrassam mais pela fantasia do que pelo cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia, logo que se sentiu independente, logo que p\u00f4de estar<br \/>\n\u00e0 vontade com o amante todas as vezes que lhe apetecia, come\u00e7ou<br \/>\na enfraquecer de interesse por ele, a possuir-se de fastio por aquele amor<br \/>\nque ia amornecendo e caindo a pouco e pouco na vulgaridade das coisas f\u00e1ceis<br \/>\ne obscuras.<\/p>\n<p>E, quanto mais Ol\u00edmpia se retra\u00eda, mais se empenhava Greg\u00f3rio<br \/>\nem cham\u00e1-la ao seu afeto; j\u00e1 procurando lembrar-lhe os sonhos<br \/>\nventurosos do passado, j\u00e1 provocando, com artif\u00edcio, novas situa\u00e7\u00f5es<br \/>\narmadas ao sabor do esp\u00edrito romanesco do amante. Tudo, por\u00e9m,<br \/>\nera debalde. Ol\u00edmpia n\u00e3o se mostrava menos enfastiada e parecia<br \/>\nsuportar o rapaz apenas por condescend\u00eancia.<\/p>\n<p>Um belo dia Greg\u00f3rio apareceu pouco antes do que era de costume.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! \u00e9 voc\u00ea?&#8230; disse ela com o ar fatigado.<\/p>\n<p>\u2014 Sei que n\u00e3o devia vir, respondeu ele, da porta, sem largar<br \/>\no chap\u00e9u; j\u00e1 n\u00e3o sou desejado&#8230;<\/p>\n<p>E depois de observar o efeito que produziu a sua frase em Ol\u00edmpia,<br \/>\nacrescentou, pondo uma express\u00e3o de queixa nas palavras: \u2014 Agora<br \/>\nchego sempre cedo demais!&#8230; Reconhe\u00e7o que s\u00f3 posso ser agrad\u00e1vel<br \/>\npela aus\u00eancia!&#8230;<\/p>\n<p>A caprichosa n\u00e3o respondeu, e ficou a olhar demoradamente para as<br \/>\nunhas da m\u00e3o direita.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio de alguns segundos.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio afinal aproximou-se dela e passou-lhe um bra\u00e7o na<br \/>\ncintura.<\/p>\n<p>\u2014 Para que me tratas deste modo? perguntou ele. Que fiz eu para merecer<br \/>\ntamanha indiferen\u00e7a&#8230; Por que me fazes padecer tanto, Ol\u00edmpia?&#8230;<br \/>\nSabes perfeitamente que \u00e9s a \u00fanica consola\u00e7\u00e3o<br \/>\nque me resta na vida! a minha \u00fanica ventura, minha \u00fanica&#8230;<\/p>\n<p>Ela o interrompeu para lhe perguntar onde se encontraria um jardineiro que<br \/>\nse quisesse encarregar da ch\u00e1cara, porque o preto velho que lhe fazia<br \/>\nesse servi\u00e7o, dera ultimamente para beber e estava insuport\u00e1vel;<br \/>\nainda na v\u00e9spera se apresentara t\u00e3o embriagado que, na ocasi\u00e3o<br \/>\nde entrar no jardim, fora de encontro a um belo jarro de lou\u00e7a vidrada<br \/>\ne lan\u00e7ara-o por terra.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia n\u00e3o se podia conformar com semelhante perda! O seu<br \/>\nquerido jarro fazia imensa falta na ch\u00e1cara! Ela o estimava muito!<br \/>\nFora um presente do Porto, de um amigo de seu pai.<\/p>\n<p>Aqueles jarros ali estavam havia anos; era preciso que viesse a lesma do<br \/>\njardineiro para reduzir um deles a cacos! \u2014 Bruto! resumiu ela, empenhada<br \/>\nna sua indigna\u00e7\u00e3o! Quebrar um objeto que eu prezava tanto!&#8230;<\/p>\n<p>As palavras da filha do comendador ca\u00edram sobre Greg\u00f3rio como<br \/>\num jato de \u00e1gua fria dentro de uma caldeira a ferver. Ele empalideceu<br \/>\nde raiva ou talvez de vergonha, e fez um movimento brusco para sair.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 vai? perguntou a rapariga, com um ar entre delicado e<br \/>\nindiferente.<\/p>\n<p>\u2014 Decerto! respondeu Greg\u00f3rio; que fico eu fazendo aqui?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o n\u00e3o se esque\u00e7a do que lhe disse; e, se<br \/>\npuder descobrir um jarro parecido com o que ficou na ch\u00e1cara, tenha<br \/>\na bondade de compr\u00e1-lo. Olhe, o melhor \u00e9 ir l\u00e1 abaixo<br \/>\nv\u00ea-lo antes de sair.<\/p>\n<p>Venha comigo; fa\u00e7o muito empenho nisto! Venha! E largou da sala,<br \/>\na encaminhar-se para a ch\u00e1cara.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio prometeu ir em outra ocasi\u00e3o; naquele momento estava<br \/>\ncom pressa.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia dispunha-se a insistir no seu pedido quando a criada apareceu,<br \/>\nmuito esbaforida, dizendo que o Guterres acabava de expirar.<\/p>\n<p>\u2014 Coitado! J\u00e1!? perguntou a senhora, com o ar de quem esperava<br \/>\npor aquela not\u00edcia. E voltando-se para Greg\u00f3rio: \u2014 \u00c9<br \/>\num vizinho a\u00ed defronte. Estava muito mal. H\u00e1 quinze dias que<br \/>\npenava!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah! balbuciou Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Bom homem. Muito sossegado, muito agarrado \u00e0 mulher. Ele<br \/>\nesteve aqui, dizem, por ocasi\u00e3o da morte de papai e ofereceu-se para<br \/>\najudar no que fosse necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>E depois de uma pausa, acrescentou: \u2014 A J\u00falia, coitada! deve<br \/>\nestar muito aflita&#8230; \u00c9 a mulher, explicou ela, em resposta a um gesto<br \/>\nde Greg\u00f3rio. Bela mo\u00e7a, muito dada, muito amiga de obsequiar.<br \/>\nJ\u00e1 esteve aqui duas vezes.<\/p>\n<p>Eu vou fazer-lhe companhia esta noite&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Talvez isso n\u00e3o lhe fa\u00e7a bem!&#8230; observou Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u2014 Ora! desdenhou Ol\u00edmpia. J\u00e1 n\u00e3o estou doente;<br \/>\nal\u00e9m de que, tenho obriga\u00e7\u00e3o de ir. Ela se mostrou sempre<br \/>\nt\u00e3o minha amiga!&#8230; Est\u00e1 a mandar-me constantemente lembran\u00e7azinhas<br \/>\nde amizade. Vou mostrar-lhe um a\u00e7afate de papel, com o retrato dela.<br \/>\nDeu-mo na semana passada.<\/p>\n<p>Quer ver?&#8230;<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio disse que sim por comprazer.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia foi buscar o a\u00e7afate. O retrato, em fotografia, estava<br \/>\nno fundo, entre uma cercadura de papel bordado.<\/p>\n<p>\u2014 Eu conhe\u00e7o esta mulher! disse Greg\u00f3rio logo que olhou<br \/>\npara o retrato. Esta \u00e9 a J\u00falia Guterres! \u2014 Ah! j\u00e1<br \/>\na conhecia? \u2014 J\u00e1. Uma atriz&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 exato, ela foi do teatro; mas o marido n\u00e3o quis<br \/>\nque continuasse. Voc\u00ea algum dia a viu representar? \u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio saiu afinal, resolvido a n\u00e3o tornar ao lado de Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>Uma semana depois, recebeu dela uma carta. Pedia-lhe que aparecesse. \u201cEle<br \/>\nestava um ingrato; tamb\u00e9m isso n\u00e3o admirava, porque, segundo<br \/>\no que Ol\u00edmpia ouvira dizer, Greg\u00f3rio n\u00e3o perdia uma noite<br \/>\ndo Alcazar, e andava apaixonado por uma francesa. Ela sabia de bonitas coisas<br \/>\na seu respeito!\u201d Falou em certa orgia no Hotel Paris. A carta terminava<br \/>\npedindo ao rapaz que fosse domingo jantar com Ol\u00edmpia. A vi\u00fava<br \/>\nGuterres estaria presente e desejava conhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio leu cinco ou seis vezes aquelas palavras.<\/p>\n<p>\u2014 Devia ou n\u00e3o devia ir?&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o foi. Mandou um bilhete, pedindo desculpas, e n\u00e3o apareceu.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois, nova carta. Era mais extensa e mais recriminat\u00f3ria;<br \/>\nOl\u00edmpia queixava-se amargamente do proceder de Greg\u00f3rio e pedia-lhe<br \/>\nternamente que a fosse ver. Ele ainda desta vez n\u00e3o foi.<\/p>\n<p>Entretanto Greg\u00f3rio principiava a ganhar reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde estroina. Um dos seus companheiros da p\u00e2ndega era o padre Beleza;<br \/>\npadre ainda mo\u00e7o e levado da breca. \u00c0 noite metia-se em roupas<br \/>\nseculares, escondia a coroa e atirava-se para o Alcazar, onde floresciam nesse<br \/>\nbelo tempo as pernas da Aim\u00e9. O Beleza era quase sempre cabe\u00e7a<br \/>\nde motim e jogava capoeira como os mais entendidos da mat\u00e9ria. Contavam<br \/>\ndele fa\u00e7anhas terr\u00edveis. O bispo n\u00e3o conseguia corrigi-lo.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia escreveu ainda duas cartas a Greg\u00f3rio, sem ter melhor<br \/>\n\u00eaxito que das primeiras. Na \u00faltima jurara que, se ele n\u00e3o<br \/>\nlhe aparecesse nesses dias, nunca mais lhe daria uma palavra.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o, isto \u00e9, seis meses depois do rompimento de Greg\u00f3rio<br \/>\ncom Ol\u00edmpia, que o padre Beleza o convidou para uma festa.<\/p>\n<p>Era o batizado da filhinha de uma das suas comadres.<\/p>\n<p>O rapaz aceitou e foi, sem prever que esse passo tinha de representar um<br \/>\nimportante papel na sua vida.<\/p>\n<p>S\u00f3 depois de l\u00e1 estar, soube que a madrinha da crian\u00e7a<br \/>\nse chamava J\u00falia Guterres.<\/p>\n<h2><a name=\"29\"><\/a> XXIX O BATIZADO<\/h2>\n<p>A casa da festan\u00e7a era em Catumbi, pouco adiante do lugar at\u00e9<br \/>\nonde mais tarde havia de chegar a linha de bondes.<\/p>\n<p>Um casar\u00e3o antigo e abafadi\u00e7o, com janelas de peito e dois<br \/>\ndegraus de cantaria \u00e0 porta da rua.<\/p>\n<p>Para se chegar l\u00e1, subia-se uma pequena ladeira \u00e0 esquerda,<br \/>\nenquanto se deixava \u00e0 direita um correr de casas, que l\u00e1 se<br \/>\niam estendendo, at\u00e9 confinarem com o pardacento e melanc\u00f3lico<br \/>\nmuro do cemit\u00e9rio de S. Francisco de Paulo.<\/p>\n<p>Seriam quatro horas da tarde quando os dois se apearam do carro que os conduzia.<br \/>\nO padre Beleza deu o bra\u00e7o a Greg\u00f3rio e seguiram.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 ali! disse ele, apontando para o casar\u00e3o. O outro<br \/>\nolhou indiferentemente na dire\u00e7\u00e3o indicada pelo companheiro.<\/p>\n<p>O tempo estava duvidoso; parecia vir chuva. O c\u00e9u cor de p\u00e9rola,<br \/>\napenas em alguns pontos mais vizinhos do horizonte abria rasg\u00f5es de<br \/>\numa claridade desbotada e brancacenta.<\/p>\n<p>Os montes de Santa Teresa, atufados na verdura felpuda e tr\u00eamula,<br \/>\nenchiam-se de sombra.<\/p>\n<p>Palmeiras, destacadas e solit\u00e1rias, abriam para o c\u00e9u, aqui<br \/>\ne ali, as suas estrelas irrequietas e murmurosas. Toda a natureza se ressentia<br \/>\nde um triste aspecto de recolhimento; s\u00f3 os carrapateiros quebravam<br \/>\na uniformidade melanc\u00f3lica da verdura com o seu verde Paris, cru e<br \/>\nalegre. Em v\u00e1rios lugares, por entre o relvejar do capim, aparecia<br \/>\na custo uma nesga de terra avermelhada, cor de carne em conserva. Mais para<br \/>\no sop\u00e9 dos montes, casinhas, pintadas de claro, apareciam no sombrio<br \/>\ndas matas com os \u00e2ngulos das suas fachadas de madeira.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia raios de sol, nem sombras projetadas no ch\u00e3o. As<br \/>\nmontanhas desenhavam minuciosamente no fundo pl\u00fambeo do c\u00e9u<br \/>\no seu contorno acidentado e guarnecido de \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio e o companheiro acabavam de entrar na casa de batizado.<\/p>\n<p>Veio receb\u00ea-los \u00e0 porta um sujeito gordo e muito alto, cheio<br \/>\nde vermelhid\u00e3o, olhos claros, azul\u00edssimos, cara raspada, pouco<br \/>\ncabelo na cabe\u00e7a e o pouco que havia quase todo branco. Esse sujeito<br \/>\ntocava trompa nas orquestras de teatros e, pelo entrudo, trabalhava de enderecista<br \/>\npara as sociedades carnavalescas. Era homem popular, prezava-se da estima<br \/>\nde algumas pessoas de gravata lavada, mas n\u00e3o desdenhava a amizade<br \/>\ndos colegas.<\/p>\n<p>\u2014 Ol\u00e1! ol\u00e1! Viva o nosso reverendo padre Beleza! exclamou<br \/>\nele. E puxou familiarmente o padre para o corredor, enquanto esse lhe apresentava<br \/>\nGreg\u00f3rio. V\u00e3o subindo! v\u00e3o subindo! Aqui n\u00e3o se<br \/>\nfaz cerim\u00f4nias! Estejam em sua casa! A tro\u00e7a est\u00e1 toda<br \/>\nna dan\u00e7a l\u00e1 em cima&#8230; V\u00e3o entrando! Ouvia-se com efeito<br \/>\nbarulho de m\u00fasica.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio, ao chegar \u00e0 sala, sentiu-se constrangido. N\u00e3o<br \/>\nconhecia aquele meio. Nunca havia penetrado em casa de uma fam\u00edlia<br \/>\nde artistas brasileiros; ignorava da exist\u00eancia desse g\u00eanero de<br \/>\npessoas, incontestavelmente dignas, mas entre as quais a pilh\u00e9ria decotada<br \/>\ntem bom curso, a dan\u00e7a toma um car\u00e1ter assombroso de canc\u00e3,<br \/>\ne as mulheres discutiam simultaneamente sobre tudo, desde os assuntos mais<br \/>\nfamiliares e mais castos at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas extravag\u00e2ncias<br \/>\nda meretriz que estiver na moda.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m todavia fala tanto em conveni\u00eancias, e ningu\u00e9m<br \/>\nse esfor\u00e7a tanto para cumprir com os rigores da hospitalidade. As pequenas<br \/>\nobriga\u00e7\u00f5es da cortesia, nessas casas, tomam \u00e0s vezes<br \/>\nas propor\u00e7\u00f5es de verdadeiros supl\u00edcios \u2014 obrigam-nos<br \/>\na comer e a beber sobre posse. N\u00e3o nos consentem rejeitar nada do que<br \/>\nnos oferecem. H\u00e1 uma febre terr\u00edvel de obsequiar.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio todavia passara quase despercebido, porque um acontecimento<br \/>\nprendia a aten\u00e7\u00e3o dos que n\u00e3o dan\u00e7avam. Era a<br \/>\nchegada do pequenino, que acabavam de batizar, e mais a dos padrinhos e dos<br \/>\nconvidados que o acompanharam \u00e0 igreja. Havia reboli\u00e7o por toda<br \/>\na casa.<\/p>\n<p>Em torno do beb\u00ea forma-se um grupo enorme de homens e mulheres, s\u00f4fregos<br \/>\npor fazerem festinhas ao pequenino her\u00f3i da festa. Este toscanejava<br \/>\nbabando-se, a resmungar, fatigado pela cerim\u00f4nia do batizado.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco chamaram em gritos para a mesa.<\/p>\n<p>Houve ent\u00e3o um rumor ainda mais alegre, e as pilh\u00e9rias da<br \/>\nocasi\u00e3o choveram de todos os lados.<\/p>\n<p>Entretanto, Greg\u00f3rio era nesse momento apresentado \u00e0 dona<br \/>\nda casa pelo padre, com exagerados rasgos de cortesia.<\/p>\n<p>Sobre a mesa enorme, que se havia arranjado especialmente para aquela ocasi\u00e3o<br \/>\ne que parecia entalada na estreiteza da sala, destacavam-se as grandes pe\u00e7as<br \/>\nde forno. Via-se o leit\u00e3o inteiro com os dentes \u00e0 mostra e os<br \/>\nolhos substitu\u00eddos por azeitonas, ao lado o peru empertigava o peito<br \/>\nrecheado; tortas, do tamanho da aba do chap\u00e9u do padre Beleza, recamavam<br \/>\na branca toalha de fust\u00e3o. As garrafas cintilavam alegremente; liam-se<br \/>\nvistosos r\u00f3tulos de Bordeaux, Porto e descobriam-se garrafas de vinho<br \/>\nbranco, cheias de Colares e vinho virgem. As compoteiras de doce de caju,<br \/>\nabacaxi, e laranja, jaziam meio escondidas nos tinhor\u00f5es dos grandes<br \/>\njarros de porcelana. Os quartos de carneiro, as galinhas assadas e os pastel\u00f5es<br \/>\nesperavam resignadamente a hora do ataque. Um cheiro farto e gorduroso de<br \/>\ncomida enchia o ambiente.<\/p>\n<p>A dona da casa disse em voz alta a Greg\u00f3rio que se fosse assentando<br \/>\n\u00e0 mesa. Ali n\u00e3o havia cerim\u00f4nia! Ela, como quase todos<br \/>\nos atores antigos, tinha o costume de falar sempre em voz alta.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio assentou-se.<\/p>\n<p>As mulheres olharam logo para ele com interesse. O seu pequeno rosto branco<br \/>\nembelezado de frescura e de mocidade, sobressa\u00eda ali, como uma coisa<br \/>\nrara e bem trabalhada. O rapaz fazia esfor\u00e7os supremos envergonhado<br \/>\nda natural distin\u00e7\u00e3o das suas maneiras.<\/p>\n<p>Os convidados n\u00e3o cabiam todos \u00e0 mesa; Greg\u00f3rio ergueu-se<br \/>\nduas vezes para oferecer o seu lugar, mas de ambas o obrigaram a ficar assentado,<br \/>\nempurrando-o pelos ombros. Sentia-se ele cada vez mais constrangido no meio<br \/>\ndaquela gente mesclada e ruidosa; fus\u00e3o de fam\u00edlia e bo\u00eamia,<br \/>\nargamassa de sorrisos discretos, olhares pundonorosos, gestos cheios de escr\u00fapulo<br \/>\ne amplos movimentos de caixa de teatro misturados com frases de botequim e<br \/>\npilh\u00e9rias de sociedade carnavalesca.<\/p>\n<p>Luzia Pereira, a dona da casa, apesar de idosa, ainda mostrava ter sido<br \/>\nbonitona na sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>Fora atriz por muitos anos, enviuvara de um ator do tempo de Jo\u00e3o<br \/>\nCaetano e vivera sempre entre gente de teatro. Era em geral estimada como<br \/>\nmulher honesta e querida por muitas fam\u00edlias do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A gordura desformara-lhe um pouco os membros e a fazia parecer mais baixa<br \/>\ne menos elegante; mas os olhos brilhavam ainda com o fulgor dos outros tempos,<br \/>\ne os l\u00e1bios conservavam o fino sorriso espiritual, com que ela arrebatara<br \/>\nas plat\u00e9ias de 1840.<\/p>\n<p>Luzia Pereira era tia leg\u00edtima da nossa bem conhecida J\u00falia<br \/>\nGuterres, que representava uma das principais figuras do batizado.<\/p>\n<p>A atmosfera tornava-se mais e mais abafada. O calor, anunciativo da tempestade<br \/>\nque se formava l\u00e1 fora, quase que n\u00e3o consentia no agrupamento<br \/>\ndos comensais naquela sala estreita e coagida pelo teto. Das janelas, abertas<br \/>\nsobre o quintal, n\u00e3o entrava o menor sopro de ar novo; as luzes do<br \/>\npetr\u00f3leo agravavam a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio desfazia-se em finezas com J\u00falia Guterres, que lhe<br \/>\nficara ao lado direito, mas impacientava-se por sair daquele forno.<\/p>\n<p>Principiaram a comer. N\u00e3o havia m\u00e9todo no jantar; algumas<br \/>\npessoas iam logo se servindo dos assados antes de tudo; outras tomavam \u00e0<br \/>\nsopa os vinhos da sobremesa. Mas todos os copos se esvaziavam alegremente.<br \/>\nFoi preciso fechar as janelas porque come\u00e7avam a cair as primeiras<br \/>\ngotas do aguaceiro, que l\u00e1 fora trovejava j\u00e1 sobre as montanhas.<\/p>\n<p>Redobrou ent\u00e3o o calor. Um sujeito gordo erguera-se, pedindo que<br \/>\no acompanhassem em um brinde a uma pessoa, que se achava presente, muito distinta<br \/>\ne digna de todas as considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Fez-se logo um respeitoso sil\u00eancio, e o orador declarou que se referia<br \/>\na D. Luzia Pereira.<\/p>\n<p>Seguiu-se uma enfiada de elogios, e os hurras rebentaram de todos os lados.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o os brindes apareciam sem intervalo. Os comensais erguiam-se<br \/>\na dar vivas, e estendiam o bra\u00e7os, oferecendo os copos aos vizinhos,<br \/>\npara tocar.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o estava terminado o jantar, quando Greg\u00f3rio pediu<br \/>\nlicen\u00e7a e se retirou ofegante para a sala de visitas.<\/p>\n<p>A chuva percutia com for\u00e7a nas vidra\u00e7as e no telhado. O rapaz<br \/>\nassentou-se no canap\u00e9 e ficou a olhar para as fotografias suspensas<br \/>\nda parede.<\/p>\n<p>L\u00e1 estava o Jo\u00e3o Caetano, o Martinho, o Costa, e outros contempor\u00e2neos.<br \/>\nPor um \u00e1lbum, que Greg\u00f3rio se p\u00f4s a folhear, via-se que<br \/>\nera enorme a fam\u00edlia da Luzia Pereira. Algumas filhas e netos estavam<br \/>\npresentes \u00e0 festa.<\/p>\n<p>Terminada a primeira mesa, assentaram-se os que ainda n\u00e3o haviam<br \/>\njantado, e a sala, onde estava Greg\u00f3rio, encheu-se logo de pessoas<br \/>\na palitarem os dentes.<\/p>\n<p>Em uma alcova cont\u00edgua, dez rapazes preparavam estantes de m\u00fasicas<br \/>\ne acendiam velas.<\/p>\n<p>Pouco depois, cada um desses dez tocavam o seu instrumento de sopro, e um<br \/>\ngrande barulho met\u00e1lico, ensurdecedor, encheu totalmente a sala, impedindo<br \/>\nqualquer conversa.<\/p>\n<p>Era uma polca, composta por um dos m\u00fasicos e oferecida ao pequeno<br \/>\nque se batizara naquele dia.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio foi obrigado a dan\u00e7ar, escolheu J\u00falia Guterres.<br \/>\nEla deixara-se conduzir com certo desprendimento gracioso. Era louca pela<br \/>\ndan\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando acabou a m\u00fasica, houve uma carga de vivas ao autor, vivas<br \/>\nao batizado, vivas \u00e0 dona casa. Abriram-se garrafas de cerveja nacional,<br \/>\ne os copos espalharam-se por todos os convidados.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio sentia-se ir agitando pouco a pouco: tudo aquilo come\u00e7ava<br \/>\na perturb\u00e1-lo; a m\u00fasica, o ar quente, os perfumes de J\u00falia,<br \/>\nproduziam-lhe vertigens e chamavam-lhe o sangue \u00e0 cabe\u00e7a. O<br \/>\npadre Beleza n\u00e3o tinha um momento de descanso, ria, saltava, gritava<br \/>\nfazendo tro\u00e7as, pregando ca\u00e7oadas \u00e0s velhas, abra\u00e7ando<br \/>\nas mulheres, pisando de prop\u00f3sito os homens e rebolando na dan\u00e7a.<br \/>\nTodos lhe achavam gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Entretanto J\u00falia, depois que dan\u00e7ou a segunda vez com Greg\u00f3rio,<br \/>\nlhe pediu que n\u00e3o reparasse naquela desordem: as festas em casa da<br \/>\ntia eram sempre assim&#8230; N\u00e3o havia meio de obter certa seriedade! Ela<br \/>\nia ali, porque a tia era o \u00fanico parente a que estimava deveras no<br \/>\nmundo, mas fazia com isso um verdadeiro sacrif\u00edcio; aquilo era uma<br \/>\ngente levada do diabo! Em seguida come\u00e7aram a falar a respeito de Ol\u00edmpia,<br \/>\na princ\u00edpio por meias palavras, depois abertamente. A vi\u00fava<br \/>\nsabia muita coisa que lhe contara a vizinha.<\/p>\n<p>\u2014 Greg\u00f3rio n\u00e3o havia procedido bem&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 A culpa foi s\u00f3 ela, justificou-se o rapaz; Ol\u00edmpia<br \/>\nse quisesse teria feito de mim um escravo! Eu n\u00e3o pensava em mais nada<br \/>\nque n\u00e3o fosse nela&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 E ainda hoje, observou a outra, pelo entusiasmo com que diz isso,<br \/>\npercebe-se que&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Qual! respondeu ele, sacudindo os ombros. Est\u00e1 tudo acabado!<br \/>\n\u2014 Ela, por\u00e9m, ainda o estima muito!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei! \u00c9 verdade que a mulher s\u00f3 ama quando<br \/>\no homem amado a despreza&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Isso s\u00e3o hist\u00f3rias! contradisse J\u00falia. O senhor,<br \/>\nse n\u00e3o gosta mais dela, \u00e9 porque gosta de outra!&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Juro-lhe que n\u00e3o! afirmou vivamente Greg\u00f3rio, lan\u00e7ando<br \/>\nsobre a vi\u00fava um olhar que era j\u00e1 um programa.<\/p>\n<p>Ela havia compreendido perfeitamente o efeito que produzia no rapaz, e n\u00e3o<br \/>\nprocurou destru\u00ed-lo. As mulheres t\u00eam sempre um gostinho muito<br \/>\nparticular em possuir um homem amado pelas outras.<\/p>\n<p>Quando, \u00e0s seis horas da manh\u00e3, dissolvia-se a festa, e cada<br \/>\num procurava \u00e0s tontas o seu chap\u00e9u e a sua bengala, J\u00falia<br \/>\ne Greg\u00f3rio invadiram um pequeno quarto que ficava ao lado da varanda<br \/>\ne, na febre de achar os chap\u00e9us, seguraram duas vezes por engano as<br \/>\nm\u00e3os um do outro e, por estar o quarto ainda escuro, cremos que os<br \/>\nseus l\u00e1bios tamb\u00e9m se esbarraram.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio saiu palpitante de esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>O diabo era a vizinhan\u00e7a de Ol\u00edmpia e o fato de freq\u00fcentar<br \/>\nesta a casa da vi\u00fava. Oh! mas tudo se haveria de arranjar. Greg\u00f3rio<br \/>\nestava muito satisfeito com a sua nova conquista: notava em J\u00falia certa<br \/>\ngra\u00e7a desdenhosa e sat\u00e2nica, um modo petulante de dizer liberdades,<br \/>\numa semcerim\u00f4nia peculiar \u00e0s atrizes, uma esp\u00e9cie de encantadora<br \/>\nmalignidade, que a filha do comendador nunca possu\u00edra.<\/p>\n<p>E j\u00e1 no dia seguinte principiou ele a formar o seu plano de batalha.<br \/>\nFez-lhe uma visita, mas a vi\u00fava, muito ao contr\u00e1rio do que esperava<br \/>\no assaltante, recebeu-o friamente e n\u00e3o insistiu para que se demorasse.<\/p>\n<p>Foi a primeira esporada. Greg\u00f3rio saltou. Depois da fa\u00edsca,<br \/>\na explos\u00e3o seria fatal.<\/p>\n<p>Principiou a persegui-la por toda a parte, a escrever-lhe cartas apaixonadas,<br \/>\na pedir-lhe ternura por amor de Deus.<\/p>\n<p>Nesse tempo morava ele em Santa Teresa.<\/p>\n<p>Uma noite, mal havia chegado \u00e0 casa, quando sentiu parar \u00e0<br \/>\nporta uma carruagem e logo em seguida algu\u00e9m que subia apressadamente<br \/>\na escada.<\/p>\n<p>Era Ol\u00edmpia. Greg\u00f3rio a reconheceu imediatamente e f\u00ea-la<br \/>\nentrar.<\/p>\n<p>Vinha ofegante, p\u00e1lida de raiva, com a fisionomia endurecida por<br \/>\nqualquer grande contrariedade.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que se animava a tanto; nunca havia penetrado em casa<br \/>\nde um rapaz. De sorte que, logo depois dos primeiros passos, toda a energia<br \/>\nque ela trazia engatilhada para fulminar o p\u00e9rfido amante, rebentou<br \/>\nem solu\u00e7os.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio correu a socorr\u00ea-la; foi repelido com um murro.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa-me! exclamou ela. E tirou da algibeira uma das ultimas cartas<br \/>\ndirigidas por ele \u00e0 vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 um infame! Greg\u00f3rio estava perplexo e<br \/>\nachava tudo aquilo muito estranho. Havia j\u00e1 seis meses que ele se n\u00e3o<br \/>\nentendia com Ol\u00edmpia. Ela, da \u00faltima vez em que estiveram juntos,<br \/>\ntratara-o mal&#8230; Que diabo queria ent\u00e3o tudo aquilo dizer??&#8230; Porventura<br \/>\nera ele casado para ter de dar contas dos seus atos!? Se escrevia cartas era<br \/>\nporque assim o entendia! Ora essa! Ol\u00edmpia n\u00e3o teve uma palavra<br \/>\npara lhe opor. Greg\u00f3rio nunca a tratara daquele modo. At\u00e9 a\u00ed<br \/>\nsempre lhe dispensara delicadeza e considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 A senhora \u00e9 que fez muito mal em vir c\u00e1! disse ele,<br \/>\npasseando agitado pelo quarto. N\u00e3o sei o que a autoriza a supor que<br \/>\nainda existe alguma coisa entre n\u00f3s dois! \u2014 Tem raz\u00e3o!<br \/>\nrespondeu Ol\u00edmpia, afastando-se, na esperan\u00e7a de que ele a chamasse.<\/p>\n<p>Mas Greg\u00f3rio contentou-se em fazer um gesto de despedida.<\/p>\n<p>Ela, assim que se convenceu de que o amante n\u00e3o a ia buscar, voltou<br \/>\nsorrindo humildemente.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o chorava, nem parecia contrariada.<\/p>\n<p>Quando chegou junto de Greg\u00f3rio, atirou-se-lhe nos bra\u00e7os<br \/>\ne principiou a solu\u00e7ar com a cabe\u00e7a pousada no colo do rapaz.<\/p>\n<p>Ele, comovido, beijou-a na face.<\/p>\n<p>As pazes estavam feitas.<\/p>\n<h2><a name=\"30\"><\/a> XXX \u00daLTIMO CAP\u00cdTULO<\/h2>\n<p>Eis a\u00ed como decorreu a in\u00fatil mocidade de Greg\u00f3rio<br \/>\nat\u00e9 aos vinte e dois anos. Mais um passo e chegaremos ao ponto em que<br \/>\nprincipia este pobre romance e onde justamente h\u00e1 de ele acabar; quer<br \/>\ndizer, refluiremos \u00e0 cena do malogrado casamento de Clorinda.<\/p>\n<p>Durante esse r\u00e1pido ano, que liga o primeiro cap\u00edtulo ao \u00faltimo,<br \/>\nsucederam-se poucos mas palpitantes acontecimentos, que justificam muitas<br \/>\noutras cenas.<\/p>\n<p>Nesse pequeno espa\u00e7o de tempo, Ol\u00edmpia sofreu, por amor de<br \/>\nGreg\u00f3rio, todos os mart\u00edrios que nos podem influir nos ci\u00fames.<br \/>\nQuanto mais ele se esquivava, tanto mais atra\u00edda ela se sentia.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia estava na idade em que o amor toma o car\u00e1ter de mol\u00e9stia;<br \/>\nna idade em que a mulher \u00e9 capaz de todas as loucuras pelo objeto amado;<br \/>\nem que ela \u00e9 capaz de todos os sacrif\u00edcios, de todas as abnega\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmenos a de consentir que o her\u00f3i dos seus sonhos a despreze por outra.<br \/>\nE foi isso justamente o que fez Greg\u00f3rio, desde aquela cena absurda<br \/>\nde c\u00f3cegas no pitoresco chalezinho de J\u00falia Guterres.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 sabe o leitor, a vi\u00fava, logo que perdeu o marido,<br \/>\ntratou de recolher os bens que lhe ficaram, e retirou-se para a Tijuca, onde<br \/>\nn\u00f3s e a pol\u00edcia, a encontramos, quando se tratava de descobrir<br \/>\nesclarecimentos a respeito de Greg\u00f3rio; da mesma forma, n\u00e3o<br \/>\nignora o leitor qual foi a dire\u00e7\u00e3o que tomaram os novos amores<br \/>\ndo inconstante rapaz, e como chegou ele a armar casamento com Clorinda.<\/p>\n<p>Pois bem; tratemos de esclarecer o que falta e apressemos o passo, para<br \/>\nchegarmos, quanto antes, aos resultados das cenas dos primeiros cap\u00edtulos.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia n\u00e3o p\u00f4de disfar\u00e7ar por muito tempo o<br \/>\nseu mart\u00edrio, e a dor dos ci\u00fames transformouse para ela em cruel<br \/>\nenfermidade, acelerando o embranquecer do cabelo, o enrugar da tez e o desbotamento<br \/>\ndas faces. Quando o Dr. Roberto voltou do norte, o que proporcionou a Greg\u00f3rio<br \/>\no seu primeiro encontro com a bela Clorinda, quase que n\u00e3o a reconheceu<br \/>\ne declarou que muito pouco lhe daria de vida.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio correu ent\u00e3o para junto dela, mas a sua presen\u00e7a<br \/>\nn\u00e3o conseguiu espantar a morte, que estendia j\u00e1 sobre a infeliz<br \/>\na sombra negra de suas asas.<\/p>\n<p>Ele, por sua parte, n\u00e3o levava o cora\u00e7\u00e3o ainda cativo<br \/>\ndos amores da vi\u00fava, mas j\u00e1 suavemente impregnado pela nova<br \/>\nafei\u00e7\u00e3o que lhe inspirara a filha de Le\u00e3o Vermelho.<\/p>\n<p>Estava outro: n\u00e3o era o mesmo folgaz\u00e3o das correrias com o<br \/>\npadre Beleza; ao contr\u00e1rio, convertido e civilizado, forcejava agora<br \/>\npor vencer as \u00faltimas ondas da mocidade, e abrigar-se enfim no casamento,<br \/>\ncujas praias via branquejarem al\u00e9m, iluminadas por um doce luar de<br \/>\ntranq\u00fcila ventura.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia faleceu numa noite de inverno, depois de grande agonia. O<br \/>\nDr. Roberto n\u00e3o lhe abandonara durante muitos dias a cabeceira, e o<br \/>\nFigueiredo mandara dois de seus empregados para ajudarem nos trabalhos do<br \/>\nenterro.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio chorava ao lado do cad\u00e1ver. Nunca se persuadiu que<br \/>\nsentisse tanto aquela morte.<\/p>\n<p>Ol\u00edmpia entrara na sua vida como um incidente fant\u00e1stico e<br \/>\nromanesco no meio de um livro de apontamentos banais; arrependia-se agora<br \/>\nde n\u00e3o ter sido com ela melhor, mais generoso, mais grato; sentia remorso<br \/>\nde n\u00e3o a ter amado um pouco mais! E, para fugir a essas id\u00e9ias<br \/>\naborrecidas, chamava egoisticamente em seu socorro a imagem adorada de Clorinda.<br \/>\nAh! esta era o futuro, a esperan\u00e7a de felicidade, era a aurora do dia<br \/>\nseguinte.<\/p>\n<p>E s\u00f3 a lembran\u00e7a destas novas claridades lhe secava os \u00faltimos<br \/>\norvalhos daquela noite que fugia, perdendo-se nas sombras inalter\u00e1veis<br \/>\ndo passado.<\/p>\n<p>De todos, enfim, quem parecia mais sentido com tudo aquilo era o velho Jac\u00f3.<br \/>\nO pobre homem viu, em torno de si, ca\u00edrem, a pouco e pouco, as \u00e1rvores<br \/>\nqueridas, a cuja sombra abrigava a fraqueza da sua velhice.<\/p>\n<p>Greg\u00f3rio ofereceu-lhe a casa e insistiu com ele para que fosse fazer-lhe<br \/>\ncompanhia. Jac\u00f3 aceitou, e por isso o vimos figurar no interrogat\u00f3rio<br \/>\npolicial logo no come\u00e7o do romance Em breve, Greg\u00f3rio n\u00e3o<br \/>\ntinha outra id\u00e9ia que n\u00e3o fosse a da sua querida noiva, e J\u00falia<br \/>\nGuterres principiava a curtir os mesmos tormentos por que passara Ol\u00edmpia.<\/p>\n<p>Se as mulheres, e principalmente aquelas que j\u00e1 se despiram das primeiras<br \/>\nilus\u00f5es, soubessem quanto \u00e9 perigoso amar deveras um rapaz que<br \/>\nainda n\u00e3o pagou todos os tributos da mocidade, n\u00e3o se deixariam<br \/>\nt\u00e3o facilmente prender aos ef\u00eameros transportes de um namorado<br \/>\nde vinte anos.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o nessa idade est\u00e1 ainda muito verde para arder.<br \/>\n\u00c9 preciso que o tempo e as lentas decep\u00e7\u00f5es da vida o<br \/>\nressequem, sem o que n\u00e3o pegar\u00e1 fogo.<\/p>\n<p>E dizem os irrefletidos que o cora\u00e7\u00e3o dos velhos \u00e9<br \/>\nque \u00e9 frio. Que injusti\u00e7a! ningu\u00e9m ama com tanto ardor,<br \/>\nningu\u00e9m se apaixona com tanto entusiasmo! Parece at\u00e9 que o homem,<br \/>\n\u00e0 propor\u00e7\u00e3o que envelhece, vai refugiando no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ntodo o calor que lhe foge do resto do corpo.<\/p>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o que lhe caem os dentes, que lhe deserta<br \/>\no cabelo, que se lhe entorpecem as pernas e se lhe tornam mais e mais tr\u00eamulas<br \/>\nas m\u00e3os, tanto mais o cora\u00e7\u00e3o se enrija e fortifica,<br \/>\npara conservar inalter\u00e1vel e firme o seu derradeiro amor. Desaparece<br \/>\no olfato, apagam-se os olhos, somem-se o tato e o paladar, e o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ncada vez mais sente, mais deseja e mais v\u00ea! Por que estranho \u00f3dio<br \/>\nteria a natureza formado assim o cora\u00e7\u00e3o do homem? Se lhe rouba<br \/>\ndo corpo as for\u00e7as, os sentidos, as faculdades, se lhe toma os dentes,<br \/>\no sangue dos l\u00e1bios e a frescura dos cabelos; se o torna feio, velho,<br \/>\ninsuport\u00e1vel, para que lhe deixa ent\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\na pulsar cada vez com mais veem\u00eancia e a pedir um amor que ningu\u00e9m<br \/>\nlhe d\u00e1?! J\u00falia Guterres n\u00e3o se lembrara de fazer considera\u00e7\u00f5es<br \/>\ndestas, ao abrir os bra\u00e7os a Greg\u00f3rio, e depois teve com sacrif\u00edcio<br \/>\nde impor ao seu cora\u00e7\u00e3o que se calasse, quando soube pela primeira<br \/>\nvez que o desleal amante estava de casamento justo com Clorinda.<\/p>\n<p>Corriam as coisas neste ponto, quando se realizou aquela conversa entre<br \/>\nPortela e o seu capanga Talha-certo, ao saberem da reapari\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Pedro Ruivo.<\/p>\n<p>O gatuno havia-se arranjado l\u00e1 por S. Paulo com o tal fazendeiro<br \/>\nde boa-f\u00e9, a quem se agrarrara com tamanho afinco, que a pobre v\u00edtima,<br \/>\npara se ver livre dele, tratou de empreg\u00e1-lo na casa Paulo Cordeiro,<br \/>\nna qualidade de pregador de r\u00f3tulos.<\/p>\n<p>Mas Portela \u00e9 que n\u00e3o ficou muito tranq\u00fcilo desde que<br \/>\no viu, e recomendou ao seu Talhacerto que lhe n\u00e3o perdesse a pista.<\/p>\n<p>Talha-certo tratou imediatamente de procurar Tubar\u00e3o e pedir o seu<br \/>\naux\u00edlio, porque Pedro Ruivo da primeira vez conseguira escapar-lhe<br \/>\ndas unhas. E o leitor j\u00e1 sabe o ajuste que houve entre aqueles dois<br \/>\nno caf\u00e9 da Menina do Bandolim, onde ficaram de encontrar-se no dia<br \/>\nseguinte para realizarem a terr\u00edvel incumb\u00eancia de Portela.<\/p>\n<p>Tubar\u00e3o acompanhara o fl\u00e2mulo deste, pelo simples fato de tratar-se<br \/>\ndo Ruivo; ele n\u00e3o era homem que se prestasse a fazer mal a quem quer<br \/>\nque fosse, se o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o se envolvesse nisso.<\/p>\n<p>Talha-certo sabia perfeitamente da velha rixa que havia entre os dois e,<br \/>\ndesde o seu malogrado bote contra o Ruivo, tratara de preparar o \u00e2nimo<br \/>\ndo outro para a primeira vez que viesse a precisar do seu aux\u00edlio.<\/p>\n<p>Chegara afinal o momento, e Tubar\u00e3o cedera.<\/p>\n<p>Vejamos agora como se sa\u00edram eles dessa empresa.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo parecia regenerado depois que se arranjara na f\u00e1brica.<br \/>\nTrabalhava pontualmente e recolhia-se para dormir a hora certa. Morava com<br \/>\num companheiro num corti\u00e7o perto do Campo de Santana. E nos primeiros<br \/>\ntempos, t\u00e3o enfronhado viveu no servi\u00e7o, que Portela ignorava<br \/>\ncompletamente a sua presen\u00e7a no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>O velhaco, entretanto, meditava novos planos de ladroeira; queria angariar<br \/>\na simpatia e a confian\u00e7a dos superiores, para fazer com mais certeza<br \/>\na sua pontaria, quando porventura se apresentasse uma boa ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa ocasi\u00e3o apareceu. O caixa da casa, aquele Gon\u00e7alves,<br \/>\nvi\u00favo de Ol\u00edmpia, teve uma vez de demorar consigo uma quantia<br \/>\nsuperior, vinte contos de r\u00e9is. Pedro Ruivo n\u00e3o o perdeu mais<br \/>\nde vista, e preparou-se.<\/p>\n<p>Se fosse necess\u00e1rio, o caixa seria assassinado. Mas assim n\u00e3o<br \/>\nsucedeu, porque o gatuno encontrou ensejo de achar-se a s\u00f3s com o dinheiro.<br \/>\nEntrou pelos fundos da casa e penetrou engenhosamente no gabinete do caixa,<br \/>\ntendo para isso preparado de antem\u00e3o os fechos de uma das janelas que<br \/>\ndavam para esse lado.<\/p>\n<p>Uma vez senhor do dinheiro, tratou de ganhar a rua e de encaminhar-se para<br \/>\no seu corti\u00e7o.<\/p>\n<p>Mal por\u00e9m teria feito alguns cinq\u00fcenta passos, quando um homem<br \/>\nlhe saiu ao encontro e lhe arremessou uma formid\u00e1vel cabe\u00e7ada<br \/>\ncontra o ventre. Era Talha-certo.<\/p>\n<p>Pedro Ruivo perdeu o equil\u00edbrio e caiu de costas.<\/p>\n<p>O outro, trepando nele, lhe perguntou pelos documentos de Portela. O agredido,<br \/>\nem vez de responder, soltou um grito e segurou com ambas as m\u00e3os o<br \/>\npeito, como se quisesse defender alguma coisa que a\u00ed trouxesse escondida.<\/p>\n<p>Talha-certo, conduzido por esse movimento espont\u00e2neo, imaginou que<br \/>\nali estivessem os pap\u00e9is que procurava, e intimidou o Ruivo a que se<br \/>\ndeixasse revistar. O Ruivo resistiu.<\/p>\n<p>Talha-certo chamou ent\u00e3o o marinheiro em seu aux\u00edlio e, depois<br \/>\nde vendarem a boca do Ruivo, dispuseram-se a revistar-lhe o peito.<\/p>\n<p>O Ruivo debatia-se furiosamente.<\/p>\n<p>\u2014 Tratante! gritou-lhe Tubar\u00e3o; d\u00e1-me por bem esses<br \/>\npap\u00e9is, se n\u00e3o quiseres ficar aqui mesmo reduzido a postas!<br \/>\nRuivo, em vez de responder, arrancou-se das m\u00e3os de Talha-certo e sacou<br \/>\ndo bolso uma navalha.<\/p>\n<p>Talha-certo, por\u00e9m, havia de um salto avan\u00e7ado para ele, e<br \/>\ncortara-lhe a garganta com uma navalhada. O Ruivo rosnou por baixo da venda<br \/>\nque tinha na boca e, depois de tentar em v\u00e3o segurar-se nas pernas,<br \/>\ncaiu de borco sobre a cal\u00e7ada.<\/p>\n<p>O assassino revistou-lhe o peito; mas, em vez dos documentos do comendador<br \/>\nPortela, encontrou os contos de r\u00e9is, que a sua v\u00edtima havia<br \/>\npouco antes roubado.<\/p>\n<p>\u2014 Como vinha o ladr\u00e3o carregado! disse o Talha-certo, sacudindo<br \/>\nde alegria pela descoberta que acabava de fazer.<\/p>\n<p>\u2014 E os documentos?&#8230; perguntou Tubar\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o est\u00e3o naturalmente com ele, mas temos aqui coisa<br \/>\nmelhor: Um dinheir\u00e3o! O maroto havia feito hoje uma linda colheita!<br \/>\n\u2014 Ent\u00e3o tudo isso \u00e9 dinheiro? perguntou o Tubar\u00e3o,<br \/>\nadmirado por sua vez.<\/p>\n<p>\u2014 Em magn\u00edficas notas do tesouro! respondeu o Talha-certo.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o foi algum roubo&#8230; n\u00e3o te parece?&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Sei c\u00e1; o que te afian\u00e7o \u00e9 que isto n\u00e3o<br \/>\nnos far\u00e1 peso nas algibeiras&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou dessa opini\u00e3o! resmungou o seu c\u00famplice.<br \/>\nDinheiro roubado pesa sempre, quando menos na consci\u00eancia! \u2014 Ora!<br \/>\nreplicou o Talha-certo, depois de acabar a revista das algibeiras do Ruivo,<br \/>\ne tratando de afastar-se com o dinheiro para longe. Quem rouba a ladr\u00e3o<br \/>\ntem cem anos de perd\u00e3o! \u2014 Est\u00e1s enganado! gritou-lhe o<br \/>\noutro. Quem rouba a ladr\u00e3o, fica ladr\u00e3o como ele! Esse dinheiro<br \/>\nser\u00e1 entregue ao dono, quer queiras, quer n\u00e3o queiras! \u2014<br \/>\nEssa agora tinha gra\u00e7a!&#8230; considerou o outro. Era melhor que f\u00f4ssemos<br \/>\nn\u00f3s daqui direitinhos entregar-nos \u00e0 pol\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 Podemos faz\u00ea-lo chegar \u00e0s m\u00e3os do dono, sem<br \/>\nque se saiba donde ele procede&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Nesse caso, restituir\u00e1s tu a tua parte. Vamos dividi-lo;<br \/>\ncada um dar\u00e1 o destino que quiser aquilo que lhe tocar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o! contradisse o Tubar\u00e3o. Havemos de entreg\u00e1-lo<br \/>\ntodo ao dono! \u2014 Isso agora j\u00e1 passa \u00e0 birra, replicou<br \/>\nTalha-certo, impacientando-se. Que voc\u00ea fa\u00e7a f\u00farias com<br \/>\no que \u00e9 seu, v\u00e1 l\u00e1, mas com o que \u00e9 dos outros!..<\/p>\n<p>\u2014 Aqui n\u00e3o h\u00e1 meu, nem teu! n\u00f3s n\u00e3o temos<br \/>\ndireito a ficar com aquilo que n\u00e3o ganhamos, nem tampouco nos deram!<br \/>\n\u2014 Mas que achamos! replicou ainda Talha-certo. Em todo o caso, vamos<br \/>\na casa dividir o cobre, e voc\u00ea da sua parte far\u00e1 o que quiser&#8230;<br \/>\nA minha pertence-me! \u2014 N\u00e3o! Tu me vais passar todo o dinheiro.<br \/>\nEu me encarregarei de restitui-lo ao dono.<\/p>\n<p>\u2014 Ora veja se tenho algum T na testa! \u2014 Eu \u00e9 que te afian\u00e7o<br \/>\nque o dinheiro se h\u00e1 de restituir! Vamos! em teu poder n\u00e3o ficar\u00e1<br \/>\nele! Talha-certo, vendo que n\u00e3o conseguiria nada pela arrog\u00e2ncia,<br \/>\nresolveu comover o companheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, que \u00e9 isso, Tubar\u00e3o?&#8230; Que mania de<br \/>\nescr\u00fapulo \u00e9 essa de tua parte com um velhaco daquela ordem?<br \/>\nOlha! quem o mau poupa nas m\u00e3os lhe morre&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se trata agora disso! replicou Tubar\u00e3o: n\u00e3o<br \/>\nse trata de dar cabo de nenhum mau; trata-se \u00e9 de entregar um valor<br \/>\nque nos n\u00e3o pertence. Enquanto querias uma ajuda para despachar aquele<br \/>\nmaroto, pronto! e n\u00e3o me arrependo disso; mas l\u00e1 para roubar<br \/>\n\u00e9 que n&amp;aatilde;o me presto! Ou tu me entregas o dinheiro, ou eu te<br \/>\ndenuncio \u00e0 pol\u00edcia. Escolhe! \u2014 Ora, deixa-te disso, pediu<br \/>\nainda o outro, procurando torcer o car\u00e1ter do marinheiro.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 te disse o que tinha a dizer! volveu este. Ou entregas<br \/>\no cobre, ou vai tudo ao ouvido do Dr. Ludgero. Eu c\u00e1 n\u00e3o sirvo<br \/>\nde capa a ladroeiras! N\u00e3o sou santo, mas nunca estas m\u00e3os se<br \/>\nsujaram com o alheio! E Tubar\u00e3o, com ar firme de homem resoluto, ia<br \/>\nfor\u00e7ar o companheiro a que lhe entregasse o roubo, quando este, recuando<br \/>\nna a\u00e7\u00e3o destra da capoeiragem, acometeu contra de, procurando<br \/>\nabrir-lhe o pesco\u00e7o com a navalha.<\/p>\n<p>Mas Tubar\u00e3o desviou-se prontamente, e a l\u00e2mina, mudando de<br \/>\ndire\u00e7\u00e3o, entranhou-se-lhe pelo pequeno peitoral do lado direito.<\/p>\n<p>Talha-certo recuou com um novo salto e de novo investiu contra o companheiro,<br \/>\nferindo-o ent\u00e3o no bra\u00e7o, porque o rijo marujo, apesar do sangue<br \/>\nque lhe saltava da ferida, ainda se ag\u00fcentava bem nas pernas e ainda<br \/>\nse defendia, tentando apoderar-se do fac\u00ednora.<\/p>\n<p>Este deitou a correr, Tubar\u00e3o tentou persegui-lo, mas a vista principiou<br \/>\na escurecer-lhe, as pernas a lhe fraquejarem, e com muito custo conseguiu<br \/>\nde chegar onde morava pobremente com um seu velho companheiro do mar.<\/p>\n<p>O companheiro n\u00e3o estava em casa. Tubar\u00e3o recolheu-se \u00e0<br \/>\ncama e perdeu de todo os sentidos. S\u00f3 os recuperou muito depois, quando<br \/>\na febre principiou a ceder. O m\u00e9dico, que o companheiro de casa fora<br \/>\nbuscar, recomendara que o n\u00e3o obrigassem a falar e n\u00e3o lhe dessem<br \/>\na beber sen\u00e3o os medicamentos receitados.<\/p>\n<p>Entretanto, sabe j\u00e1 o leitor o caminho que, durante esse tempo, tomaram<br \/>\nas coisas concernentes ao assass\u00ednio do Pedro Ruivo e ao roubo perpetrado<br \/>\nna casa Paulo Cordeiro. A pol\u00edcia continuava a trabalhar, mas trabalhava<br \/>\nmuito reservadamente e quase sem resultado algum.<\/p>\n<p>De Greg\u00f3rio ningu\u00e9m dava not\u00edcias.<\/p>\n<p>Nestas circunst\u00e2ncias, chegaram as coisas ao ponto em que as deixamos,<br \/>\nquando a desventurosa Clorinda se recolheu \u00e0 casa de J\u00falia Guterres,<br \/>\nonde a pobre velha Janu\u00e1ria conseguia escapar ao peso dos seus sofrimentos.<\/p>\n<p>Como vimos, a penetrante vi\u00fava foi a \u00fanica que suspeitou das<br \/>\ninten\u00e7\u00f5es de Jo\u00e3o Rosa e principiou a estudar a atitude<br \/>\nque o antip\u00e1tico rapaz tomava ao lado da sua h\u00f3spede.<\/p>\n<p>Por ent\u00e3o, um paquete europeu ancorava na Guanabara e uma fam\u00edlia<br \/>\nsaltava no cais Pharoux.<\/p>\n<p>Nada menos que o conde de S. Francisco, a esposa, a filha e um mo\u00e7o<br \/>\nde uns vinte e cinco anos, no qual o leitor, se o visse, reconheceria logo<br \/>\no nosso Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>Ao lado deste caminhava o Dr. Ludgero, com o ar satisfeito de quem alcan\u00e7a<br \/>\nvit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Seguiu-se ent\u00e3o o mais estranho e enovelado processo de que se pode<br \/>\ngabar a justi\u00e7a brasileira. Nesse tempo n\u00e3o se falava noutra<br \/>\ncoisa: o esc\u00e2ndalo agitou por muitos dias a curiosidade do p\u00fablico<br \/>\ne fechou todos os personagens deste romance no mesmo c\u00edrculo de interesse.<\/p>\n<p>O conde de S. Francisco trazia consigo, felizmente, os documentos justificativos<br \/>\nda heran\u00e7a que Greg\u00f3rio acabava de receber do Minho. Entretanto,<br \/>\nera necess\u00e1rio descobrir os verdadeiros autores do roubo e do assass\u00ednio.<br \/>\nO processo continuava.<\/p>\n<p>Apresentaram a Greg\u00f3rio a fotografia de Pedro Ruivo. Greg\u00f3rio<br \/>\ndisse francamente o que sabia da vida daquele homem, contou as aventuras da<br \/>\nAvenida Estrela; o delegado fez vir \u00e0 sua presen\u00e7a o Pap\u00e1<br \/>\nFalconet, o padre Almeida, o Augusto e o Afonso, mas nenhum deles adiantou<br \/>\no menor esclarecimento.<\/p>\n<p>Estava reservado a Tubar\u00e3o destruir as trevas acumuladas em torno<br \/>\ndo crime. Foi ele quem chamou a aten\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a sobre<br \/>\no comendador Portela, quem falou nos documentos deste, quem contou a interven\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Jo\u00e3o Rosa, o motivo do ataque que sofreu Pedro Ruivo e, finalmente,<br \/>\no roubo cometido pelo Talha-certo, que Tubar\u00e3o afirmou se achar naquele<br \/>\nmomento escondido em casa do Portela.<\/p>\n<p>Talha-certo, com efeito, foi encontrado ali e conduzido imediatamente para<br \/>\na casa de corre\u00e7\u00e3o. O Gon\u00e7alves reembolsou parte do dinheiro<br \/>\nroubado; o ladr\u00e3o e assassino foi condenado a gal\u00e9s perp\u00e9tuas,<br \/>\ne o Portela gramou quatro meses de pris\u00e3o e multa correspondente, al\u00e9m<br \/>\nde perder de todo a esperan\u00e7a de casar com Matilde, a rica pupila do<br \/>\nbotic\u00e1rio Moreira, a qual havia coisa de um ano deixara a casa de D.<br \/>\nJanu\u00e1ria, para acompanhar uma fam\u00edlia conhecida da sua, que<br \/>\nseguia para S. Paulo.<\/p>\n<p>Bem previa Portela que os tais documentos ainda lhe haviam de dar \u00e1gua<br \/>\npela barba! O que causou grande impress\u00e3o nos tribunais, foi a vida<br \/>\ndo marinheiro, contada por ele pr\u00f3prio, com toda a eloq\u00fcente singeleza<br \/>\nda sua linguagem expressiva e grosseira.<\/p>\n<p>Tubar\u00e3o disse tudo o que sabia a respeito do seu saudoso comandante<br \/>\ne falou em Clorinda, em Henriqueta e D. Janu\u00e1ria. Esta circunstanciou<br \/>\no que havia a respeito de sua filha adotiva e relatou as particularidades<br \/>\nda mesada, cuja suspens\u00e3o coincidia com a morte de Le\u00e3o Vermelho.<\/p>\n<p>O conde pediu perd\u00e3o a Clorinda por lhe haver t\u00e3o violentamente<br \/>\narrancado o noivo dos bra\u00e7os, e disse que, daquele dia em diante, ela<br \/>\ndevia olhar para Greg\u00f3rio como para um irm\u00e3o, pois que eram<br \/>\nfilhos do mesmo pai. Mas o marinheiro, com uma simples carta de Cec\u00edlia,<br \/>\ndirigida no Porto a Pedro Ruivo, provou que os dois mo\u00e7os nenhum parentesco<br \/>\ntinham entre si e, na sua rude franqueza, patenteou a verdadeira proced\u00eancia<br \/>\nde Greg\u00f3rio.<\/p>\n<p>Este compreendeu tudo, compreendeu que era filho do ladr\u00e3o assassinado,<br \/>\ne afastou-se do j\u00fari sumamente triste.<\/p>\n<p>No dia seguinte, quando o velho Jac\u00f3, que acompanhava Greg\u00f3rio<br \/>\nno pal\u00e1cio do conde de S.<\/p>\n<p>Francisco na Tijuca, entrou de manh\u00e3 no aposento do amo, encontrou-o<br \/>\nmorto e coberto de sangue. Ao lado, sobre o velador, havia uma carta dirigida<br \/>\nao dono da casa.<\/p>\n<p>A carta explicava minuciosamente que Clorinda era a \u00fanica pessoa<br \/>\nque tinha direito a herdar os bens de Le\u00e3o Vermelho.<\/p>\n<p>Esta inesperada e nobre morte abalou o Rio de Janeiro. O processo havia<br \/>\nj\u00e1 atra\u00eddo sobre Greg\u00f3rio a aten\u00e7\u00e3o do<br \/>\np\u00fablico e ligado aos fatos rom\u00e2nticos de sua vida a curiosidade<br \/>\ndos homens e o voluptuoso interesse das mulheres.<\/p>\n<p>N\u00e3o se falou noutra coisa durante muitos dias.<\/p>\n<p>Alguns meses depois do enterro, que foi deslumbrante, encontramos Teresa.<br \/>\nEstava muito acabada, muito desfeita. Com a morte de Ol\u00edmpia, que era<br \/>\no seu \u00fanico socorro, ficou completamente ao desamparo. Andava tirando<br \/>\nesmolas e rezava na porta das igrejas ajoelhada sobre as pedras da rua.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes viam-na dormindo nos degraus do convento da Ajuda.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m mais soube dar not\u00edcias do Jo\u00e3o Rosa, e consta<br \/>\nque o Dr. Roberto continua a viver muito bem com a sua inalter\u00e1vel<br \/>\ne moleirona esposa, que ultimamente o presenteou de uma s\u00f3 vez com<br \/>\ndois pequenitos.<\/p>\n<p>J\u00falia Guterres vendeu a Clorinda o seu chalezinho da Tijuca, e retirou-se<br \/>\npara Niter\u00f3i. Jac\u00f3 acompanha a fam\u00edlia do conde de S.<br \/>\nFrancisco, e, ao que parece ainda hoje vive.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I &#8211; O RAPTO II, III POL\u00cdCIA E C\u00d3CEGAS IV CORA\u00c7\u00c3O DE MULHER V DEPOIMENTOS VI PRIMEIRO ENCONTRO VII, VIII AQUI ANDA COISA! IX O COMENDADOR PELO AVESSO X ALGAS &nbsp; XI, XII PEDRO RUIVO XIII AS M\u00c3ES DE GREG\u00d3RIO XIV OS PAIS DE GREG\u00d3RIO XV [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92104","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Gir\u00e2ndola de Amores - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra Gir\u00e2ndola de Amores - Alu\u00edsio de Azevedo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Gir\u00e2ndola de Amores - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Clorinda, Janu\u00e1ria, Greg\u00f3rio, Romance, Literatura, Gir\u00e2ndola de Amores - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Gir\u00e2ndola de Amores - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra Gir\u00e2ndola de Amores - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Gir\u00e2ndola de Amores - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Clorinda, Janu\u00e1ria, Greg\u00f3rio, Romance, Literatura, Gir\u00e2ndola de Amores - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/girandola-de-amores-aluisio-de-azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-03T12:48:29+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2018-05-03T18:02:51+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"510 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/girandola-de-amores-aluisio-de-azevedo#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/girandola-de-amores-aluisio-de-azevedo\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Gir\u00e2ndola de Amores &#8211; 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