{"id":92098,"date":"2017-01-03T10:30:57","date_gmt":"2017-01-03T12:30:57","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92098"},"modified":"2018-05-03T16:00:14","modified_gmt":"2018-05-03T18:00:14","slug":"filomena-borges-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/filomena-borges-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"Filomena Borges &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><script async src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\"><\/script><br \/>\n<!-- ads_responsivo --><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\"\n     style=\"display:block\"\n     data-ad-client=\"ca-pub-7159766377354473\"\n     data-ad-slot=\"3162710741\"\n     data-ad-format=\"auto\"><\/ins><br \/>\n<script>\n(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#1\"><strong>I &#8211; FLORES DE LARANJEIRA<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#2\">II &#8211; O FERROLHO<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#3\">III &#8211; COME\u00c7AM AS PROVA\u00c7\u00d5ES<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#4\">IV &#8211; VEREMOS QUEM VENCE<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#5\">V &#8211; LUTA ABERTA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#6\">VI &#8211; PRIMEIRA DESILUS\u00c3O<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#7\">VII &#8211; O RAPTO<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#8\">VIII &#8211; ENFIM<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#9\"><strong>IX &#8211; V\u00d4OS ALTOS<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#10\">X &#8211; DE VOLTA A P\u00c1TRIA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#11\">XI &#8211; QUAL DOS DOIS MARIDOS<br \/>\nSER\u00c1 O MAIS INFELIZ?<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#12\">XII &#8211; AMOR DE FILOMENA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#13\">XIII &#8211; NOVAS TORTURAS<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#14\">XIV &#8211; MIS\u00c9RIA<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#15\">XV &#8211; COISAS EXTRAORDIN\u00c1RIAS<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#16\">XVI &#8211; SEGREDOS DE BASTIDOR<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#17\"><strong>XVII &#8211; SUPREMA EXIG\u00caNCIA<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#18\">XVIII &#8211; CELEBRIDADES<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#19\">XIX &#8211; PETR\u00d3POLIS<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#20\">XX &#8211; VOLTA-SE A DAN\u00c7A<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#21\">XXI &#8211; TORNIQUETES<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#22\">XXII &#8211; DISSOLVEM-SE AS \u00daLTIMAS<br \/>\nILUS\u00d5ES<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#23\">XXIII &#8211; PAQUET\u00c1<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I &#8211; FLORES DE LARANJEIRA<\/h2>\n<p>O Borges n\u00e3o cabia em si de contente no dia de seu cons\u00f3rcio com a filha<br \/>\nde D. Clementina.<\/p>\n<p>Estava a perder a cabe\u00e7a &#8211; ia e vinha por toda a casa, radiante, cheio, abra\u00e7ando<br \/>\nos convidados, for\u00e7ando-os a participarem daquela felicidade que marcava a<br \/>\nmelhor e a mais extraordin\u00e1ria \u00e9poca de sua vida.<\/p>\n<p>Era homem de meia idade, quarenta a quarenta e cinco anos, robusto, socado,<br \/>\nfisionomia franca e extremamente bondoso, movimentos acanhados de quem n\u00e3o<br \/>\nconvive em alta sociedade, e um perene sorriso de dentes puros e perfeitos.<\/p>\n<p>Usava o bigode rapado e uma barbinha de orelha a orelha, por baixo do queixo,<br \/>\no que o fazia parecer mais feio e mais velho. Nunca sa\u00eda de suas cal\u00e7as de<br \/>\nbrim mineiro, do seu invari\u00e1vel palet\u00f3 de alpaca, dos seus sapat\u00f5es de bezerro<br \/>\ne do seu chap\u00e9u do Chile. Um enorme guarda-chuva sempre debaixo do bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Todo ele estava a revelar a sua inf\u00e2ncia no campo, descal\u00e7o, o corpo \u00e0 vontade,<br \/>\nas madrugadas feitas de p\u00e9, ao primeiro sol.<\/p>\n<p>Nascera em Paquet\u00e1, onde se criou \u00e0 larga com leite de jumenta, e onde residiu<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 ocasi\u00e3o de perder o pai, um afamado e rico mestre de obras, portugu\u00eas,<br \/>\nantigo, econ\u00f4mico e r\u00edspido, que, ao morrer, lhe legou uma d\u00fazia de pr\u00e9dios<br \/>\nbem edificados, alguns terrenos, que mais tarde valeriam muito, e o inestim\u00e1vel<br \/>\nh\u00e1bito de ganhar a vida.<\/p>\n<p>Borges sucedeu ao pai no trabalho, fez-se construtor como ele, e, em poucos<br \/>\nanos, tornou-se um dos propriet\u00e1rios mais ricos da Corte. Todavia, o muito<br \/>\ndinheiro, se n\u00e3o conseguiu fazer dele um extravagante, muito menos logrou<br \/>\nprecipit\u00e1-lo no orgulho e na avareza &#8211; o cora\u00e7\u00e3o do bom homem continuou t\u00e3o<br \/>\nfranqueado \u00e0s virtudes, quanto sua bolsa fechada \u00e0s loucuras e \u00e0s vaidades.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desses dotes, tinha uma sa\u00fade de ferro e dispunha de urna for\u00e7a f\u00edsica<br \/>\nde tal ordem, que se tornou lend\u00e1ria entre as pessoas que o conheciam de perto.<\/p>\n<p>Citavam anedotas a esse respeito: Um dia, estando a administrar umas obras,<br \/>\nescapara dos andaimes um dos pedreiros, e o Borges apanhou-o no ar, como quem<br \/>\napanha um chap\u00e9u de palha; outra vez, tratando-se de safar um pobre diabo,<br \/>\nque ficara entalado entre uma andorinha e uma parede &#8211; o nosso Borges arranjou<br \/>\num ponto de apoio, meteu os ombros contra a andorinha, e esta virou e caiu<br \/>\nimediatamente para o lado oposto. 1<\/p>\n<p>E, como estes, muitos outros fatos, verdadeiros ou n\u00e3o, corriam de boca em<br \/>\nboca; a respeito do possante mestre de obras.<\/p>\n<p>Verdade \u00e9 que bastava observar aquela carne transpirante e sadia, aqueles<br \/>\npulsos rijos e cabeludos, aquele peito largo, aquele pesco\u00e7o nervoso e duro,<br \/>\npara que a gente fizesse logo uma id\u00e9ia justa do que seria capaz o Borges<br \/>\nem mat\u00e9ria de forca muscular.<\/p>\n<p>Contudo, ningu\u00e9m era menos amigo de quest\u00f5es. Nunca se metia em barulho;<br \/>\n\u00e0s vezes at\u00e9, coitado, suportava em sil\u00eancio certos desaforos: mas tamb\u00e9m,<br \/>\nquando lhe chegasse a mostarda ao nariz, o contendor podia entregar o seu<br \/>\nao botic\u00e1rio, porque o esborrachamento havia de ser memor\u00e1vel.<\/p>\n<p>Devido a essa pujan\u00e7a excepcional, davam-lhe a alcunha significativa de Jo\u00e3o<br \/>\nTouro.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Touro era geralmente tido e havido pelo mais completo modelo de bondade<br \/>\ne de bom senso. Ningu\u00e9m lhe fosse pedir manifesta\u00e7\u00f5es brilhantes de talento,<br \/>\nconcep\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, descobertas cient\u00edficas; ele, coitado! n\u00e3o era &#8220;homem<br \/>\nde estudos&#8221; e nunca tamb\u00e9m lhe &#8220;puxaram muito pela mem\u00f3ria&#8221;. Aos doze anos,<br \/>\nsa\u00edra da aula de primeiras letras para se meter logo no trabalho; mas tinha<br \/>\nmuito &#8220;bom pensar&#8221; e um tino admir\u00e1vel para os neg\u00f3cios. Seu \u00fanico v\u00edcio consistia<br \/>\nno rap\u00e9zinho Paulo Cordeiro &#8211; nada de charutos! &#8211; nada de bebidas! &#8211; e grande<br \/>\navers\u00e3o \u00e0s mulheres que n\u00e3o fossem t\u00e3o puras como ele.<\/p>\n<p>Antes do casamento, ningu\u00e9m lhe conheceu uma inclina\u00e7\u00e3o amorosa, uma fraqueza;<br \/>\ne nunca ningu\u00e9m lhe descobriu outra preocupa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fosse a do seu trabalho<br \/>\ne a do seu &#8220;Urso&#8221;.<\/p>\n<p>Urso vinha a ser um enorme c\u00e3o de S\u00e3o Bernardo, que o acompanhava, havia<br \/>\nmuitos anos. Animal bonito, todo negro, e de uma apar\u00eancia t\u00e3o feroz, que<br \/>\nlhe dava inteiro direito de usar do nome.<\/p>\n<p>Todavia, o mestre de obras fora algumas vezes requestado pelas mulheres.<br \/>\nV\u00e1rias trintonas lhe lan\u00e7aram a rede, mas ele sempre se desviara &#8211; sorrindo&#8230;<br \/>\ne corando&#8230;<\/p>\n<p>Entre essas, distinguia-se D. Chiquinha Perdig\u00e3o, mulher de firma comercial;<br \/>\nnegociante, muito rica, com um bonito nome na pra\u00e7a &#8211; Vi\u00fava Perdig\u00e3o &amp;<br \/>\nCia.<\/p>\n<p>O Borges, por\u00e9m, n\u00e3o queria outros neg\u00f3cios com ela, al\u00e9m dos de puro interesse<br \/>\npecuni\u00e1rio, e embalde o dem\u00f4nio da vi\u00fava empregava todos os meios para obrig\u00e1-lo<br \/>\na desistir de tal resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma vez, chegou a tomar-lhe as m\u00e3os, confessar que o amava, que s\u00f3 ele a<br \/>\npodia fazer feliz; e o bom homem, sem ter uma resposta, p\u00f4s-se a suar, a suar,<br \/>\nat\u00e9 que fugiu. at\u00f4nito e espavorido, como se levasse uma fera atr\u00e1s de si.<\/p>\n<p>S\u00f3 a filha de D. Clementina, a flor das mo\u00e7as do Catete, a bela Filomena,<br \/>\nteve o dom de acordar naquele cora\u00e7\u00e3o encruado as fibras adormecidas do amor.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio n\u00e3o atinara como &#8220;aquilo&#8221; se dera: Um dia, a convite de Guterres,<br \/>\nfoi \u00e0 casa de D. Clementina, viu a pequena, ouviu-a cantar ao piano um romance<br \/>\nde Tosti, e desde esse momento n\u00e3o ficou mais senhor de si.<\/p>\n<p>E o amor, o desejo, a paix\u00e3o, rebentaram-lhe por dentro, como um monstro<br \/>\nque se levanta, espeda\u00e7ando a velha calma de quarenta anos.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que amava. O Borges, que at\u00e9 a\u00ed vivera para as suas propriedades<br \/>\ne para os seus pr\u00e9dios em constru\u00e7\u00e3o, desde que viu Filomena, desde que concebeu<br \/>\na id\u00e9ia de possui-la, nunca mais pode compreender a exist\u00eancia sem a companhia<br \/>\ndessa formosa criatura, por quem logo se sentiu capaz de todos os sacrif\u00edcios.<\/p>\n<p>Lamentava, contudo n\u00e3o ser mais novo; n\u00e3o dispor de mais atrativos, para<br \/>\nmelhor merec\u00ea-la. Desejava ser mais fino, mais terno, mais civilizado; temia<br \/>\nassust\u00e1-la com a sua medonha figura de touro. Receava o contraste formid\u00e1vel<br \/>\nde sua grossa corpul\u00eancia, do seu abdome redondo e farto, de suas m\u00e3os curtas<br \/>\ne vermelhas, de seus p\u00e9s enormes, postos em confronto com aquele corpinho<br \/>\nt\u00e3o delicado, t\u00e3o bem feito, com aquela pele t\u00e3o branca, com aqueles p\u00e9zinhos<br \/>\nt\u00e3o sutis.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! aquele casamento realizava o melhor sonho de sua vida! Ele queria-a<br \/>\ntanto!&#8230;<\/p>\n<p>Os amigos ficaram pasmados quando tiveram not\u00edcia do fato:<\/p>\n<p>&#8211; Que?!&#8230; &#8211; Pois o Borges, o &#8220;Jo\u00e3o Touro&#8221;, aquele pax vobis ia casar! e<br \/>\nlogo com quem?&#8230; &#8211; com a filha de D. Clementina &#8211; a mo\u00e7a mais rom\u00e2ntica e<br \/>\nmais cheia de fuma\u00e7as que havia no mundo!&#8230; Oh! &#8211; O Jo\u00e3o Touro com certeza<br \/>\nn\u00e3o estava em seu ju\u00edzo! &#8211; Ningu\u00e9m lhe dizia que n\u00e3o casasse; mas, que diabo!<br \/>\nfosse buscar uma mulher mais pr\u00f3pria para isso e n\u00e3o uma cabecinha de vento,<br \/>\nque s\u00f3 cuidava em patacoadas e maluquices!<\/p>\n<p>O seu amigo mais \u00edntimo e mais antigo, o Borroso, n\u00e3o se pode conter&gt;<br \/>\nquando o Borges lhe falou nisso:<\/p>\n<p>&#8211; Enlouqueceste, homem de Deus?! N\u00e3o v\u00eas que vais fazer uma reverend\u00edssima<br \/>\nasneira?! N\u00e3o v\u00eas que aquilo n\u00e3o e mulher que te convenha?! N\u00e3o desconfias,<br \/>\npeda\u00e7o d&#8217;asno, que aquela sirigaita e mais a raposa da m\u00e3e est\u00e3o a farejar-te<br \/>\nos cobres?!&#8230; N\u00e3o compreendes que elas te querem, porque tens para mais de<br \/>\nquinhentos contos?! Ora vai deitar um caustico na nuca?!<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Touro, por\u00e9m, n\u00e3o estava em circunst\u00e2ncias de pensar. Todo ele era pouco<br \/>\npara a sua paix\u00e3o e, depois de uma conversa agitada com o Barroso, concluiu,<br \/>\nperdendo a paci\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8211; Homem! queres saber de uma coisa?! Voc\u00eas podem rosnar como entenderem;<br \/>\no que lhes afian\u00e7o \u00e9 que s\u00f3 a pr\u00f3pria D. Filomena seria capaz de me fazer<br \/>\ndesistir do casamento. S\u00f3 ela! Entendes tu?! s\u00f3 ela!<\/p>\n<p>&#8211; Bem, filho! respondeu o Barroso com o gesto de quem solta alguma coisa<br \/>\ndas m\u00e3os. &#8211; Tua alma, tua palma! Assim o queres, assim o ter\u00e1s. &#8211; Ora essa!<br \/>\nNa certeza de que &#8211; para mim &#8211; se levares a cabo a tua doidice &#8211; perdeste<br \/>\ntudo!<\/p>\n<p>&#8211; Pois que perca! \u00c9 boa!<\/p>\n<p>&#8211; E desde ent\u00e3o n\u00e3o contes comigo para coisa alguma!<\/p>\n<p>&#8211; Vai para o diabo! gritou-lhe o Borges, enterrando o chap\u00e9u na cabe\u00e7a, e<br \/>\nsaindo furioso.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Entretanto a Filomena custou bastante resolver-se a dar o &#8220;sim&#8221;.<\/p>\n<p>Muito sonhadora, muito saturada de romantismo n\u00e3o se conformava com a id\u00e9ia<br \/>\nde se ligar a um burgu\u00eas rat\u00e3o como o Borges.<\/p>\n<p>Tinha l\u00e1 o seu ideal, seu tipo e, s\u00f3 com muito sacrif\u00edcio, desistiria da<br \/>\nesperan\u00e7a de encontr\u00e1-lo no mundo.<\/p>\n<p>Sempre fora muito dessas coisas. Aos quinze anos, perdia noites a ler novelas,<br \/>\nv\u00e1rias vezes foi a m\u00e3e encontr\u00e1-la assentada no jardim, olhos no c\u00e9u, a cismar,<br \/>\na cismar, perdida nos seus devaneios.<\/p>\n<p>Era ent\u00e3o franzina, muito descorada, e tinha grandes pupilas negras de um<br \/>\nrebrilhar de t\u00edsica. Quase nunca expunha o colo, e seus vestidos, sempre afogados,<br \/>\ncosidos \u00e0 garganta por um estreito colarinho de rendas, davam-lhe o ar passivo<br \/>\ne contrafeito de uma pensionista das irm\u00e3s de caridade.<\/p>\n<p>Quando ria, o que era raro, mostrava dentes grandes, alinhados e extremamente<br \/>\nclaros. De perto, bem examinada, notava-se-lhe no canto dos olhos, estalando<br \/>\no p\u00f3 de arroz, uma redezinha de pequenas rugas tr\u00eamulas, que se espalhavam<br \/>\npelas fontes, at\u00e9 \u00e0 entran\u00e7a dos cabelos. Em torno das sobrancelhas, finas<br \/>\ne delgadas, nas mucosas das p\u00e1lpebras, das orelhas, do nariz e da boca &#8211; um<br \/>\ntom arroxeado de umidade serosa e doentia. As pestanas, muito escuras e rama1hudas,<br \/>\npareciam despregar e cair a cada movimento dos olhos.<\/p>\n<p>Nas soir\u00e9es fazia impress\u00e3o v\u00ea-la assentada horas esquecidas a um canto da<br \/>\nsala; mito direita no seu espartilho, o corpo teso, os longos e vagarosos<br \/>\nbra\u00e7os cruzados sobre o ventre, os ombros empinados e contra\u00eddos, como por<br \/>\numa sensa\u00e7\u00e3o de medo, trazia sempre o cabelo com singeleza; quando n\u00e3o era<br \/>\nsolto, apenas enrodilhado na nuca, acentuando o desenho puro de sua cabecinha<br \/>\ne deixando lobrigar parte do pesco\u00e7o, que j\u00e1 ent\u00e3o principiava a ser belo<br \/>\nna sua cor de cam\u00e9lia fanada.<\/p>\n<p>Perdera o pai por essa idade, e sua m\u00e3e D. Clementina de Ara\u00fajo, uma senhora<br \/>\nmagra e comida de desgosto, impacientava-se silenciosamente por ver casada<br \/>\n&#8220;aquela filha que Deus lhe dera&#8221;.<\/p>\n<p>Era essa toda a sua preocupa\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m toda a sua esperan\u00e7a: &#8211; &#8220;S\u00f3 um bom<br \/>\ncasamento as salvaria da triste situa\u00e7\u00e3o em que se achavam&#8221;.<\/p>\n<p>O chefe da casa &#8211; o defunto conselheiro &#8211; n\u00e3o fora homem previdente, e gastara-se<br \/>\nquase todo em procurar luzir; os bens, que sobejaram da pol\u00edtica, ca\u00edram na<br \/>\nvoragem do jogo e das confeitarias. Ainda assim, durante a vida, nunca lhe<br \/>\nperceberam sombra de dificuldades, nem houve jamais quem melhor soubesse guardar<br \/>\nas conveni\u00eancias de sua posi\u00e7\u00e3o social. Os ch\u00e1s do defunto conselheiro eram<br \/>\ndeliciosos.<\/p>\n<p>Quando uma apoplexia veio cham\u00e1-lo para a cova, os amigos tiveram que se<br \/>\ncotizar para o fim de lhe pagarem as d\u00edvidas, a vi\u00fava teve que trabalhar para<br \/>\nmanter decentemente a filha &#8211; essa pobre filha, que da exist\u00eancia apenas conhecia<br \/>\nalguns noturnos ao piano e alguns romances traduzidos do franc\u00eas; essa filha,<br \/>\nque crescera \u00e0 luz do g\u00e1s, dan\u00e7ando desde os quatro anos, e arruinando o est\u00f4mago<br \/>\ncom os mesmos doces que arruinaram a fortuna do pai.<\/p>\n<p>Trabalhar! Trabalhar seria o menos; esconder a precis\u00e3o do trabalho \u00e9 que<br \/>\nera mais dif\u00edcil! Felizmente, o pr\u00e9dio em que moravam pertencia \u00e0 \u00f3rf\u00e3, e<br \/>\no imperador, que fora amigo do defunto &#8211; amigo e compadre &#8211; havia de ajud\u00e1-la.<\/p>\n<p>Assim foi: Sua Majestade n\u00e3o negou o seu augusto aux\u00edlio \u00e0 comadre, e esta,<br \/>\npor sua vez, tratou de alugar q pr\u00e9dio e refugiar-se com a filha em uma casa<br \/>\nmais em conta.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o seria, por\u00e9m, metidas entre quatro paredes, que a menina arranjaria<br \/>\num bom casamento! &#8211; Era preciso aparecer! &#8211; Mas os bailes, os teatros, os<br \/>\npasseios, custavam tanto! &#8211; As modistas e os armarinhos &#8220;pediam os olhos da<br \/>\ncara por qualquer trapo mais no tom!&#8221;<\/p>\n<p>Todavia, n\u00e3o desertaram da boa sociedade.<\/p>\n<p>Mas quanto sacrif\u00edcio! Quanta luta! Quanto hero\u00edsmo ignorado! Que de l\u00e1grimas<br \/>\nn\u00e3o havia escondidas naqueles vestidos enfeitados pela quarta vez! Quanta<br \/>\namargura naqueles penteados, naquelas capas, naqueles chap\u00e9us! Quanto sofrimento,<br \/>\nquanta resigna\u00e7\u00e3o naqueles leques, naqueles sapatinhos e naqueles sorrisos<br \/>\nde amabilidade?<\/p>\n<p>As vezes, tinham ambas que passar pior de boca, para n\u00e3o faltarem ao baile<br \/>\ndo Sr. Conde de tal ou \u00e0 soir\u00e9e do Sr. Bar\u00e3o de tal e tal. Uma verdadeira<br \/>\ncampanha, um verdadeiro mart\u00edrio, principalmente para a rapariga, que, em<br \/>\nconstante revolta com a realidade, estava sempre a sonhar coisas extraordin\u00e1rias<br \/>\ne regalias de alto pre\u00e7o.<\/p>\n<p>A longa peregrina\u00e7\u00e3o pelas salas e pelas ruas dera-lhes um grande tato, uma<br \/>\ngrande experi\u00eancia. Conheciam a gente \u00e0 primeira vista. M\u00e3e e filha entravam<br \/>\nj\u00e1 familiarmente pelas almas dos indiv\u00edduos e iam devassando o que l\u00e1 estava<br \/>\npor dentro, como se bisbilhotassem uma gaveta franqueada.<\/p>\n<p>Para a velha, ent\u00e3o, n\u00e3o havia cora\u00e7\u00e3o, por mais fechado, que se n\u00e3o tra\u00edsse.<br \/>\nEmbalde procuravam outros, em id\u00eanticas circunst\u00e2ncias, dissimular a falta<br \/>\nde certos recursos; embalde se endomingavam caixeiros pobres, literatos necessitados,<br \/>\ndoutores sem meios de vida, procurando iludir, aparentar grandezas: &#8211; era<br \/>\nbastante que D. Clementina corresse por qualquer deles uma olhadela de alto<br \/>\na baixo, para ficar sabendo quanto o sujeito pesava ao certo &#8211; quanto ganhava,<br \/>\nquanto possu\u00eda, que lugar, enfim, devia ocupar na bitola de sua considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Porque, \u00e9 preciso notar, a vi\u00fava do conselheiro tinha j\u00e1 uma bitola para<br \/>\naferir os pretendentes da filha. Essa bitola marcava desde o marido &#8220;\u00f3timo&#8221;<br \/>\nat\u00e9 ao marido &#8220;p\u00e9ssimo&#8221;. Quando a velha se referia a algum deles dizia secamente<br \/>\n&#8220;regular&#8221; ou &#8220;bom&#8221;, &#8220;sofr\u00edvel para bom&#8221;, etc. E essas simples palavras, ditas<br \/>\n\u00e0 socapa, determinavam as maneiras que Filomena devia usar para com o tal<br \/>\nsujeito, se este se apresentasse.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que muita gente a cortejava. D. Clementina de vez em quando abria<br \/>\na casa aos seus amigos.<\/p>\n<p>Que talento desenvolvido nesses modestos ch\u00e1s de fam\u00edlia! Nada deixava perceber<br \/>\no mecanismo posto em a\u00e7\u00e3o para que n\u00e3o viesse a faltar coisa alguma no melhor<br \/>\nda festa. Havia sempre piano, canto, recitativos, e \u00e0s vezes dan\u00e7a, muita<br \/>\ndan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas tudo isso era por conta, peso e medida. N\u00e3o se gastava um f\u00f3sforo que<br \/>\nn\u00e3o estivesse inventariado. Acabada a festa, procedia-se a um balan\u00e7o minucioso;<br \/>\nguardava-se com todo o cuidado o que pudesse servir para outra vez, e, antes<br \/>\nde se deitarem, as duas senhoras arrumavam tudo, escovavam as roupas, acondicionavam<br \/>\nas botinas, os leques e as j\u00f3ias falsas.<\/p>\n<p>Filomena lan\u00e7ava-se depois aos travesseiros, devorada por um estranho desgosto<br \/>\nda vida, por uma vaga necessidade de horizontes largos, um desejar pungente<br \/>\nde coisas imprevistas e grandes, uma sede indefinida de empresas arriscadas<br \/>\ne situa\u00e7\u00f5es transcendentes, que sua louca imagina\u00e7\u00e3o mal podia delinear.<\/p>\n<p>E chorava muito aflitivamente, sem saber porque. No outro dia, eram suspiros<br \/>\ne mais suspiros, queixas, tristezas, e um fastio e um t\u00e9dio de causarem d\u00f3.<\/p>\n<p>A m\u00e3e ca\u00eda-lhe em cima, a ralhar, a aconselhar. &#8220;Filomena que se deixasse<br \/>\nde bobagens, que os tempos n\u00e3o davam para isso!&#8221; E dizia-lhe tintim por tintim<br \/>\no que lhe convinha praticar, como devia proceder. Ensinava-lhe os segredinhos<br \/>\nde agradar a todos, de prender, de &#8220;prometer sem dar, de negar, sem desistir&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Ag\u00fcenta-te, minha filha&#8217; Ag\u00fcenta-te como vais, e um belo dia, quando menos<br \/>\no esperares, cai-te do c\u00e9u um noivo &#8220;dos bons&#8221;, que nos indenizar\u00e1 de todos<br \/>\nestes sacrif\u00edcios.<\/p>\n<p>O belo dia chegou com efeito, e o Borges caiu.<\/p>\n<p>&#8211; Hem? que te dizia eu?&#8230; perguntou a velha, abra\u00e7ando-se \u00e0 filha, com as<br \/>\nl\u00e1grimas nos olhos. &#8211; Chegou ou n\u00e3o chegou a tua vez?<\/p>\n<p>Filomena abaixou o rosto e fez um gesto de descontentamento.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, deixa-te dessas coisas, minha filha! Observou m\u00e3e, apanhando no ar<br \/>\na inten\u00e7\u00e3o daquele desgosto. Quem dera a muitas a tua fortuna!<\/p>\n<p>A outra soltou um grande suspiro.<\/p>\n<p>&#8211; Que mais querias tu, ent\u00e3o?!&#8230; volveu D. Clementina entre meiga e repreensiva.<br \/>\n&#8211; Quem sabe se preferias por algum bonifrates, que nos viesse atrapalhar ainda<br \/>\nmais cap\u00edtulo? &#8230;<\/p>\n<p>A filha emplumou-se com altivez, franziu o nariz, e estalou um muxoxo desdenhoso.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o?! prosseguiu a vi\u00fava do conselheiro. &#8211; Borges n\u00e3o \u00e9 de certo nenhum<br \/>\nAd\u00f3nis; mas \u00e9 um marido que vale quanto pesa!<\/p>\n<p>E engrossando a voz, respeitosamente:<\/p>\n<p>&#8211; Muito benquisto, muito bem relacionado&#8230; n\u00e3o \u00e9 nenhum p\u00e9 de boi. tem sua<br \/>\neduca\u00e7\u00e3ozinha&#8230; e, olha, filha que aquilo tudo \u00e9 s\u00f3lido!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, fa\u00e7a-me o favor! &#8230; disse a rapariga, impacientado-se &#8211; s\u00f3lido ser\u00e1,<br \/>\nmas n\u00e3o me venha dizer, que o Borges tem educa\u00e7\u00e3o!&#8230; \u00c9 um bruto! \u00c9 mesmo<br \/>\num &#8220;Jo\u00e3o Touro&#8221;!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 tanto assim, menina!<\/p>\n<p>&#8211; E o que fez ele outro dia aqui em casa?! Aquilo \u00e9 quem tem educa\u00e7\u00e3o?! Um<br \/>\nhomem que come com a faca! Ora minha m\u00e3e!&#8230;<\/p>\n<p>_ De acordo de acordo, mas tu tamb\u00e9m deves fechar olhos a umas certas coisas,<br \/>\noh!&#8230; Os bons maridos fazem-se, preparam-se &#8211; os diamantes n\u00e3o se encontram<br \/>\nj\u00e1 lapidados! E, ent\u00e3o, aquele, coitado! que a gente o leva para onde quer&#8230;<br \/>\nAli, \u00e9 teres um pouco de paci\u00eancia e o por\u00e1s a teu jeito!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acredito que daquele lorpa se possa fazer alguma coisa! retrucou a<br \/>\nmenina com desd\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Parece-te agora, ver\u00e1s depois que \u00e9 justamente o contr\u00e1rio!&#8230; Em quest\u00f5es<br \/>\nde casamento, minha filha, as apar\u00eancias quase sempre enganam muito! Em geral<br \/>\nos maridos que nos parecem mais f\u00e1ceis de tragar, s\u00e3o justamente os ma amargos;<br \/>\nao passo que os outros, os tipos, os &#8220;Borges&#8221;, esses s\u00e3o os bons, os doces!<br \/>\nC\u00e1 por mim, nunca aconselharia mulher alguma a unir-se a um homem, que julgasse<br \/>\no seu esp\u00edrito superior ao dela. Nada! Para haver perfeito equil\u00edbrio num<br \/>\ncasal, \u00e9 sempre indispens\u00e1vel que o marido conhe\u00e7a alguma superioridade na<br \/>\nmulher; seja essa superioridade de fortuna, de intelig\u00eancia, de educa\u00e7\u00e3o ou<br \/>\nmesmo de forca f\u00edsica. Desgra\u00e7ada da tola que n\u00e3o pense sobre isso antes do<br \/>\ncasamento &#8211; n\u00e3o ser\u00e1 uma esposa, ser\u00e1 uma escrava!<\/p>\n<p>E D. Clementina, depois de dar uma pequena volta na sala terminou, batendo<br \/>\ncom ternura no ombro da filha: &#8211; N\u00e3o te queixes da sorte, ingrata! O que no<br \/>\nBorges agora se te afigura defeitos, s\u00e3o justamente qualidades muito aproveit\u00e1veis!<br \/>\nN\u00e3o avalias o tesouro que ali est\u00e1! Digo-te com experi\u00eancia! E, se duvidas,<br \/>\ndeixa correr o tempo, e dir-me-\u00e1s depois!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Filomena n\u00e3o se decidiu logo; por\u00e9m, da\u00ed a poucos dias, a morte inesperada<br \/>\nda m\u00e3e obrigou-a a tomar uma delibera\u00e7\u00e3o. Seis meses depois, voltava ela de<br \/>\numa igreja, casada com o Borges.<\/p>\n<p>Seguiram logo para Botafogo, onde iam morar, segundo exigira a noiva. Jo\u00e3o<br \/>\nTouro n\u00e3o poupara esfor\u00e7os para festejar o seu casamento, e, como sujeito<br \/>\nconsiderado, que era, conseguiu reunir uma sociedade bem escolhida. S\u00f3 o Barroso<br \/>\nn\u00e3o quis comparecer: &#8211; tinha l\u00e1 a sua opini\u00e3o sobre o fato e n\u00e3o havia quem<br \/>\no demovesse da\u00ed.<\/p>\n<p>Os convivas, n\u00e3o obstante, estavam todos de acordo em que o Borges n\u00e3o poderia<br \/>\nencontrar mulher mais formosa e mais simp\u00e1tica.<\/p>\n<p>Filomena, com efeito, apesar dos dissabores, j\u00e1 n\u00e3o lembrava aquela rapariga<br \/>\nseca e descorada de outros tempos. Toda ela se carneara: a pele, atufada pela<br \/>\ngordura, estendeu-se numa transpar\u00eancia macia e provocadora: o colo abriu-se<br \/>\nem deliciosas curvas; a garganta enformou-se completamente; os bra\u00e7os encheram-se;<br \/>\nos quadris ampliaram-se; a voz acentuou-se, e os olhos amorteceram com os<br \/>\ncruentos mist\u00e9rios da puberdade.<\/p>\n<p>&#8211; E que ar de inoc\u00eancia! comentavam em voz baixa, a contempl\u00e1-la no seu rico<br \/>\nvestido de chamalote branco &#8211; que candura!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! dizia o Borges, que estava perto. &#8211; N\u00e3o! nisso n\u00e3o tenho que invejar<br \/>\nningu\u00e9m! &#8211; fui feliz!&#8230;<\/p>\n<p>E esfregando as m\u00e3os:<\/p>\n<p>&#8211; Fui muito feliz! A respeito de g\u00eanio, n\u00e3o h\u00e1 outra: d\u00f3cil, meiga, modesta,<br \/>\nincapaz de uma exig\u00eancia, de uma recrimina\u00e7\u00e3o! Nunca lhe vi o narizinho torcido,<br \/>\nnunca lhe ouvi uma palavra mais \u00e1spera, um arremesso, uma impertin\u00eancia! Sempre<br \/>\naquele mesmo sorriso de bondade, aquele mesmo arzinho de santa! \u00c9 um anjo!<br \/>\n\u00c9 uma pomba de do\u00e7ura a minha Filoca! a minha rica F\u00edloqu\u00ednha!<\/p>\n<p>E o Borges, sem poder conter os \u00edmpetos da felicidade, andava de um lado<br \/>\npara outro, a contar os segundos, dando repetidas palmadinhas na barriga.<\/p>\n<p>A casa tinha dois andares. Estava combinado que, \u00e0 meia-noite, os noivos<br \/>\nfugiriam para o de cima, enquanto no primeiro a festa continuaria, at\u00e9 entrar<br \/>\npela madrugada. Mal os ponteiros do rel\u00f3gio se reuniram nas doze horas, o<br \/>\nBorges, impaciente, aproximou-se da esposa e, com a voz tr\u00eamula, o olhar suplicante<br \/>\ne o h\u00e1lito em brasa, disse-lhe ao ouvido:<\/p>\n<p>&#8211; Podemos fugir&#8230; S\u00e3o horas&#8230; n\u00e3o acha?&#8230;<\/p>\n<p>Ela ergueu os olhos e sorriu; depois levantou-se, deu-lhe o bra\u00e7o, e ambos<br \/>\ndesapareceram pelos fundos da sala de jantar. A madrinha j\u00e1 estava \u00e0 espera<br \/>\nda noiva, para a cerimonia do despojamento das roupas.<\/p>\n<p>Mas o Borges, quando atravessava a sala cont\u00edgua \u00e0 alcova nupcial, ficou<br \/>\nmuito surpreendido com a mudan\u00e7a brusca, que acabava de se operar na desposada.<br \/>\nO tal arzinho de santa fora substitu\u00eddo por uma express\u00e3o dura de m\u00e1 vontade.<br \/>\nE a surpresa de Jo\u00e3o Touro aumentou ainda na ocasi\u00e3o em que, tentando segurar<br \/>\nFilomena pela cintura para dar-lhe o primeiro beijo, ouviu-lhe dizer com um<br \/>\nrepel\u00e3o en\u00e9rgico: &#8211; Deixe-se disso, homem!<\/p>\n<p>E ainda aumentou quando, depois que a madrinha a deixou s\u00f3 no quarto, ele<br \/>\n&#8211; o noivo &#8211; querendo tamb\u00e9m recolher-se, levou com a porta no nariz, e ouviu<br \/>\nranger um ferrolho que a fechava por dentro.<\/p>\n<p>&#8211; Ora esta! resmungou o Borges, sem saber que fizesse&#8230;<\/p>\n<p>E bateu, a princ\u00edpio devagarinho, depois mais forte, mais forte ainda. S\u00f3<br \/>\nresolveu abandonar o posto, quando Filomena lhe gritou da cama:<\/p>\n<p>&#8211; Com efeito! O senhor n\u00e3o tenciona acabar com isso?! V\u00e1 dormir, e deixe-se<br \/>\nde imprud\u00eancias! Se espera que eu lhe abra a porta, perde o seu tempo. Boa<br \/>\nnoite!<\/p>\n<p>&#8211; Bonito! disse o pobre noivo, cruzando os bra\u00e7os.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II &#8211; O FERROLHO<\/h2>\n<p>O Borges passou toda a noite na tal saleta cont\u00edgua \u00e0 alcova da mulher, estirado<br \/>\nnum div\u00e3, a ouvir o coaxar insuport\u00e1vel de um velho rel\u00f3gio suspenso na parede,<br \/>\njustamente sobre sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Que noite, coitado! Que terr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o para um pobre homem que, durante<br \/>\nos seus calmos quarenta anos, nunca passou uma noite fora de sua cama,. nunca<br \/>\ndormiu menos de sete horas, deitando-se invariavelmente \u00e0s onze e acordando<br \/>\n\u00e0s seis.<\/p>\n<p>Ele! Ele, que nunca entrara numa p\u00e2ndega, passar uma noite inteira enfronhado<br \/>\nem cal\u00e7as pretas, camisa bordada e gravata branca!<\/p>\n<p>E o pior \u00e9 que o infeliz, no cego empenho de parecer agrad\u00e1vel aquela noite<br \/>\n\u00e0 esposa, metera-se num banho de perfumes, e sentia por todo o corpo, atabafado<br \/>\nna roupa preta, uma comich\u00e3o desenfreada.<\/p>\n<p>Pobre noivo! Quanto n\u00e3o sofreste essa noite!<\/p>\n<p>O Borges, mesmo no tempo de rapaz, fora o prot\u00f3tipo da ordem, do arranjo<br \/>\ne do m\u00e9todo. Gostou sempre das coisas no seu lugar &#8211; o almo\u00e7o \u00e0s tantas, o<br \/>\njantar \u00e0s tantas, o seu ch\u00e1 com torradas antes de dormir &#8211; e nada de se afastar<br \/>\ndesse regime.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia compreender como houvesse no mundo quem, por gosto, perdesse as<br \/>\nhoras sagradas do sono, vergado sobre uma banca de jogo, a beber numa taverna,<br \/>\nou a fumar em companhia de mulheres.<\/p>\n<p>Santo homem! uma simples palavra mais decotada era bastante para fazer refluir-lhe<br \/>\n\u00e0s faces o mais pronto e leg\u00edtimo rubor. Por isso, alguns amigos lhe faziam<br \/>\ntro\u00e7a, \u00e0s vezes; mas, no fundo, todos o respeitavam, todos o amavam. Sabiam<br \/>\nj\u00e1 que daquela boca cor de rosa, os dentes imaculados, daquela boca sem v\u00edcios,<br \/>\nn\u00e3o sairiam a cal\u00fania ou a intriga. Tinham certeza que daquele cora\u00e7\u00e3o, virgem<br \/>\nde paix\u00f5es, n\u00e3o poderiam brotar o \u00f3dio, a inveja e a perversidade.<\/p>\n<p>Conheciam, por longa experi\u00eancia, a sinceridade daqueles olhos doces e compassivos,<br \/>\nque muita vez se umedeceram com as desgra\u00e7as alheias, e que, aos domingos,<br \/>\nnos espet\u00e1culos da tarde, iam chorar tr\u00eas horas ao S. Pedro de Alc\u00e2ntara,<br \/>\ndefronte de um dramalh\u00e3o de D&#8217;Ennery.<\/p>\n<p>Pobre homem! Foi preciso que te casasses para passares mal a tua primeira<br \/>\nnoite! Tu! que vias no casamento &#8220;a \u00faltima express\u00e3o da paz e da estabilidade&#8221;.<br \/>\nTu! que procuravas no matrimonio &#8220;o sossego completo, a dignidade do teu lar<br \/>\ne o cumprimento de teus deveres de homem com a sociedade e para com a natureza&#8221;!<br \/>\nOh! como n\u00e3o te devias sentir indignado!<\/p>\n<p>N\u00e3o estava, por\u00e9m, no seu g\u00eanio o revoltar-se. &#8211; N\u00e3o gostava de contendas<br \/>\n&#8211; n\u00e3o queria estrear por uma desaven\u00e7a a sua vida de casado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, amava-a tanto! &#8212; adorava-a de tal forma, que se sentia perfeitamente<br \/>\nincapaz de reagir.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fez aquilo com m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o! &#8230; pensou ele. &#8211; Foi talvez por pudor,<br \/>\ncoitada! ou, quem sabe? talvez tivesse medo desta minha figura!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isso! com certeza n\u00e3o foi outra coisa! &#8212; concluiu de si para si, a<br \/>\nco\u00e7ar-se, quando a aurora j\u00e1 lhe invadia a sala pelos vidros da janela.<\/p>\n<p>E foi nas pontas dos p\u00e9s acordar um criado.<\/p>\n<p>&#8211; Arranja-me um banho morno quanto antes! gritou &#8211; e v\u00ea se descobres por<br \/>\na\u00ed alguma roupa, aquilo l\u00e1 por cima est\u00e1 ainda tudo fechado! Olha! v\u00ea tamb\u00e9m<br \/>\nse me d\u00e1s caf\u00e9 e algumas bolachinhas; estou a cair de fraqueza!<\/p>\n<p>O criado. tonto de sono, porque o baile havia acabado pouco antes, ergueu-se<br \/>\na roncar, resmungando, muito intrigado por ver o amo j\u00e1 t\u00e3o cedo \u00e0s voltas<br \/>\ncom ele e, o que era mais ainda, com a roupa da v\u00e9spera e a dar ordens com<br \/>\numa tal impertin\u00eancia, que n\u00e3o parecia o mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vai! J\u00e1 vai! respondeu, ouvindo novas reclama\u00e7\u00f5es do Borges. E p\u00f4s-se<br \/>\nem movimento, a parafusar no que diabo teria sucedido ao amo, para andar t\u00e3o<br \/>\ncedo \u00e0 procura de banhos mornos, de roupas e caf\u00e9s com bolachinhas! &#8211; Aquilo<br \/>\nfoi grande espalhafato l\u00e1 por cima! resolveu ele, tratando de executar as<br \/>\nordens. Ora, queira Deus que este casamento ainda n\u00e3o lhe venha a dar na cabe\u00e7a!<br \/>\n&#8230; Eu nunca achei grande coisa a tal senhora D. Filomena! Pode ser que me<br \/>\nengane&#8230; mas aquela boneca de engon\u00e7os h\u00e1 de dar \u00e1gua pela barba ao patr\u00e3o!<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco o Borges, j\u00e1 restaurado, metido numa fatiota de brim branco,<br \/>\na barbinha feita, o seu farto cabelo bem penteado, lia o Jornal do Com\u00e9rcio,<br \/>\nno sal\u00e3o do segundo andar, \u00e0 espera de que a mulher se levantasse.<\/p>\n<p>Quando Filomena, \u00e0s dez horas da manh\u00e3, saiu do quarto para o sal\u00e3o, encontrou-o<br \/>\nrep\u00edmpado na cadeira de balan\u00e7o, dormindo de papo para o ar, a boca aberta,<br \/>\na barriga espipando por dentro do colete e do rodaque de brim, os bra\u00e7os soltos,<br \/>\ne numa das m\u00e3os o jornal.<\/p>\n<p>Schocking! exclamou ela, arrevezando um olhar de nojo.<\/p>\n<p>O marido bocejou, despertado por aquela exclama\u00e7\u00e3o. E, ao dar com a mulher,<br \/>\nendireitou-se atrapalhadamente, contendo os bocejos, as carnes a tremerem-lhe<br \/>\ne os olhos sumidos na r\u00e1pida congest\u00e3o do estremunhamento.<\/p>\n<p>Ela vinha formosa a mais n\u00e3o ser. O sono completo dera-lhe \u00e0s fei\u00e7\u00f5es a ol\u00edmpica<br \/>\nserenidade das V\u00eanus antigas. Trazia a rastros um longo penteador de linho<br \/>\nbordado; o cabelo preso ao alto da cabe\u00e7a, como dantes, mas agora enriquecido,<br \/>\n\u00e0 moda japonesa, por um gancho encastoado de pedras preciosas. Em volta do<br \/>\nm\u00e1rmore sem brilho de seu pesco\u00e7o, reluziam p\u00e9rolas e toda ela respirava um<br \/>\ncheiro bom de sa\u00fade e de asseio.<\/p>\n<p>&#8211; Como passou? disse, aproximando-se do marido e estendendo-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>Borges adiantou-se cerimoniosamente para cumpriment\u00e1-la. Um acanhamento espesso<br \/>\ntolheu-o dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a. Quis responder e apenas gaguejou algumas palavras<br \/>\nsem sentido. Naquele instante lhe passava pela id\u00e9ia o receio de que a mulher<br \/>\ndesconfiasse do ressentimento, que porventura nele tivesse produzido o fato<br \/>\nda v\u00e9spera. &#8211; Como chegara a imaginar, pensou num relance &#8211; que aquela mulher,<br \/>\nt\u00e3o delicada e t\u00e3o altiva, consentisse em receb\u00ea-lo ao seu lado, na sua cama,<br \/>\nlogo na primeira noite do casamento! &#8211; Onde tinha ele a cabe\u00e7a para esperar<br \/>\nsemelhante coisa?!<\/p>\n<p>Filomena, como se adivinhasse o pensamento do marido, expediu-lhe generosamente<br \/>\num sorriso de indulg\u00eancia e disse-lhe, devagar, enfiando o seu bra\u00e7o no dele:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor seria muito am\u00e1vel se quisesse fazer-me companhia ao almo\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>E vendo um gesto de surpresa no Borges. &#8211; Isto significa que desejo almo\u00e7ar<br \/>\naqui, no segundo andar, sozinha com o senhor, sem a presen\u00e7a de estranhos,<br \/>\nnem mesmo a dos criados &#8211; um verdadeiro t\u00eate-a-t\u00e9te&#8230; N\u00e3o acha boa a id\u00e9ia?<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230; se acho!&#8230; Eu n\u00e3o ousava ambicionar tanto!&#8230; Sim, quero dizer&#8230;<br \/>\neu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o tenha a bondade de dar as provid\u00eancias para isso. Quanto \u00e0s<br \/>\nnossas visitas de hoje &#8211; s\u00f3 me pilhar\u00e3o ao jantar.<\/p>\n<p>E no fim de uma pausa, tocando-lhe no ombro:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o! V\u00e1! Mexa-se!<\/p>\n<p>O Borges, encolheu a cabe\u00e7a e precipitou-se de carreira para o primeiro andar.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>S\u00f3 se tornaram a ver \u00e0 mesa do almo\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bom que esteja tudo \u00e0 m\u00e3o para n\u00e3o termos de chamar pelos criados, observou<br \/>\nela, acomodando-se na sua cadeira, defronte uma pilha de ostras cruas.<\/p>\n<p>E desdobrando o guardanapo sobre o peito:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma provid\u00eancia dispormos deste segundo andar; fica-se aqui perfeitamente<br \/>\n\u00e0 vontade. \u00c9 t\u00e3o desagrad\u00e1vel mostrar-se a gente a visitas logo pela manh\u00e3,<br \/>\ndepois de um casamento!<\/p>\n<p>O Borges sorriu. \u00c9 desagrad\u00e1vel&#8230; \u00e9! disse ele corando levemente.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 brutal! emendou Filomena, passando o copo de vidro, para que o marido<br \/>\nlhe servisse o Sauterne que tinha ao lado.<\/p>\n<p>E depois de beber:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o compreendo como ainda se conservam na sociedade moderna certos costumes<br \/>\nverdadeiramente b\u00e1rbaros. As cerim\u00f4nias do casamento est\u00e3o nesse caso. Nada<br \/>\nh\u00e1 mais grotesco, mais rid\u00edculo, do que essa esp\u00e9cie de festim pag\u00e3o em que<br \/>\nse celebra o sacrif\u00edcio de uma virgem. Horroriza-me, faz-me nojo, toda essa<br \/>\nformalidade que usamos no casamento &#8211; a exposi\u00e7\u00e3o do leito nupcial, os cl\u00e1ssicos<br \/>\nconselhos da madrinha, o ato formalista de despir a noiva, e, no dia seguinte,<br \/>\nos coment\u00e1rios, as costumadas pilh\u00e9rias dos parentes e dos amigos&#8230; Oh! \u00e9<br \/>\nindecente! Mas agora reparo: o senhor n\u00e3o come!&#8230;<\/p>\n<p>De fato, enquanto Filomena falava, o marido era todo olhos sobre ela, n\u00e3o<br \/>\nse fartava de contemplar aquele ador\u00e1vel busto que tinha defronte de si. Causavam-lhe<br \/>\nestranhos arrepios o modo desembara\u00e7ado, a gra\u00e7a natural, com que a mulher<br \/>\nprendia uma ostra na pontinha dos dedos cor de rosa para lev\u00e1-la \u00e0 boca, numa<br \/>\nriqueza de bra\u00e7os arremangados, onde tilintavam dois portebonheurs de metal<br \/>\nbranco.<\/p>\n<p>&#8211; Ao menos beba! replicou ela, vendo que o Borges n\u00e3o se resolvia a comer.<\/p>\n<p>E encheu-lhe o copo.<\/p>\n<p>O pobre homem teve acanhamento de confessar que nunca toda a sua vida, bebera<br \/>\no mais pequeno trago de vinho.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o&#8230; fez a mulher. &#8211; Vamos! E tocando o seu copo no dele: &#8211; Ao nosso<br \/>\ncasamento!<\/p>\n<p>Borges emborcou o seu de um f\u00f4lego, com uma careta.<\/p>\n<p>Filomena n\u00e3o se p\u00f4de conter, e soltou uma dessas risadas retumbantes, que<br \/>\nchegam para encher toda uma casa. Aquele ar esquerdo do mestre de obras, engasgado,<br \/>\nroxo de tosse, fazia-lhe c\u00f3cegas pelo corpo inteiro. E ela ria, ria, ria,<br \/>\nsem se dominar, cobrindo o rosto com as m\u00e3os,. torcendo-se como uma cobra,<br \/>\nenquanto o Borges, muito enfiado, procurava posi\u00e7\u00f5es na cadeira, ardendo por<br \/>\nsair daquela situa\u00e7\u00e3o que o torturava.<\/p>\n<p>&#8211; Coma sempre alguma coisa! disse-lhe por fim a esposa, fazendo in\u00fateis esfor\u00e7os<br \/>\npara reprimir a hilaridade &#8211; olhe que n\u00e3o \u00e9 cedo!&#8230; uma hora, creio eu.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado! N\u00e3o tenho apetite&#8230; respondeu ele, cada vez mais confuso, a<br \/>\nlimpar o suor que j\u00e1 lhe sobrevinha ao rosto.<\/p>\n<p>Ela continuava a rir.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 de ser porque passei mal a noite&#8230; acrescentou o Borges. N\u00e3o preguei<br \/>\nolho!&#8230; Isto para quem nunca saiu de seus h\u00e1bitos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, meu amigo, acudiu Filomena, solicitamente, tornando-se s\u00e9ria &#8211; para<br \/>\nque faz o senhor loucuras dessa ordem? Isso pode causar-lhe mal!&#8230; Lembre-se<br \/>\nde que j\u00e1 n\u00e3o tem vinte anos, e a sua sa\u00fade, na sua idade, \u00e9 coisa muito preciosa!<\/p>\n<p>O Borges desta vez perdeu de todo o bom humor. Ou fosse por efeito do vinho,<br \/>\nque ele bebia pela primeira vez, ou fosse que as palavras da mulher o irritassem<br \/>\ndeveras, o caso \u00e9 que fechou o rosto e respondeu quase com azedume:<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o perdi a noite pelo gostinho de a passar em claro! N\u00e3o foi minha<br \/>\na culpa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De quem foi, nesse caso?&#8230; indagou Filomena, j\u00e1 com o riso a espiar pelos<br \/>\ncantos da boca.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, minha senhora!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que foi minha?!<\/p>\n<p>&#8211; A senhora bem o sabe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, meu amigo, conv\u00e9m que nos entendamos! O senhor ter\u00e1 bastante bom<br \/>\nsenso para compreender o que lhe digo: ou\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tenho at\u00e9 para mais&#8230; apartou o Borges, encavacado.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho para compreender o papel rid\u00edculo que a senhora quer me fazer representar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Rid\u00edculo? Por qu\u00ea?!<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?! Porque eu n\u00e3o tinha a menor necessidade de passar a noite no<br \/>\nsof\u00e1 e ainda por cima servir de galhofa! Ora a\u00ed tem porque?<\/p>\n<p>&#8211; Mas que queria o senhor que eu lhe fizesse?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, minha senhora! Por amor de Deus!<\/p>\n<p>&#8211; Pois acha que devo ter plena confian\u00e7a em um homem que mal conhe\u00e7o?! Um<br \/>\nhomem, que eu n\u00e3o sei se me ama, ou que, pelo menos, ainda n\u00e3o me deu provas<br \/>\ndisso?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o dei provas! exclamou Borges ofendendo-se. &#8211; N\u00e3o dei provas!&#8230; Homessa!&#8230;<br \/>\nQuer ent\u00e3o uma prova superior ao casamento!&#8230; Ent\u00e3o o fato de me fazer seu<br \/>\nesposo, n\u00e3o vale nada?!<\/p>\n<p>&#8211; Vale tanto como o de fazer-me eu sua esposa. Foi uma permuta, uma troca.<br \/>\nE por ora \u00e9 s\u00f3 o que h\u00e1 &#8211; estamos quites &#8211; nem o senhor por enquanto tem direitos<br \/>\nadquiridos, nem eu! Salvo se entende que o noivo vale muito mais que a noiva!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o entendo nada! respondeu ele, triste; &#8211; sei apenas que me casei com<br \/>\na senhora porque a estimo muito&#8230;<\/p>\n<p>E baixando a voz, ainda com mais amargura: &#8211; A senhora, sim! \u00e9 que nunca<br \/>\nme teve afei\u00e7\u00e3o, e principio a duvidar que isso venha a suceder algum dia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Depende unicamente do senhor, meu amigo!&#8230; retrucou Filomena.<\/p>\n<p>Agora parecia comovida. Estava muito s\u00e9ria; o olhar ferrado no prato.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio. Ela, afinal, continuou a falar, im\u00f3vel, sem descravar<br \/>\nos olhos donde estavam, e a bater compassos na mesa com a faca.<\/p>\n<p>&#8211; O cora\u00e7\u00e3o de uma mulher nas minhas condi\u00e7\u00f5es, disse, medindo as palavras<br \/>\ne recitando, como se tivesse os per\u00edodos decorados &#8211; n\u00e3o \u00e9 coisa que se conquiste<br \/>\nassim com um simples casamento: n\u00e3o haveria nada melhor! O senhor, se quer<br \/>\nter a minha confian\u00e7a plena, a minha dedica\u00e7\u00e3o, a minha ternura, fa\u00e7a por<br \/>\nmerec\u00ea-las&#8230; N\u00e3o ser\u00e1 de certo com esses modos e com essa cara fechada, que<br \/>\nconseguir\u00e1 abrir-me o cora\u00e7\u00e3o! Eu, at\u00e9, se soubesse que o senhor havia de<br \/>\nse portar desta forma, n\u00e3o o teria convidado para almo\u00e7ar em minha companhia&#8230;<br \/>\nO senhor fala de farto!&#8230; Em vez de agradecer \u00e0 sua boa estrela a bela ocasi\u00e3o<br \/>\nque lhe faculto para principiar a conquistar-me, p\u00f5e-se nesse estado e parece<br \/>\ndisposto a incompatibilizar-se comigo por uma vez!<\/p>\n<p>Borges ouviu tudo isso, vergado na cadeira, sem um movimento, os olhos corridos,<br \/>\no rosto anuviado por uma funda express\u00e3o de m\u00e1goa resignada. Quando a mulher<br \/>\nterminou, ele estendeu-lhe um olhar de s\u00faplica e tentou agarrar-lhe as pontas<br \/>\ndos dedos.<\/p>\n<p>Filomena retirou a m\u00e3o com um movimento r\u00e1pido, e voltou-se para o outro<br \/>\nlado, dando as costas ao marido. Este arrastou-se com a cadeira para junto<br \/>\nda esposa, e, em segredo, a voz medrosa e submissa, perguntou-lhe o que ent\u00e3o<br \/>\nqueria que lhe fizesse?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tudo! respondeu Filomena na mesma posi\u00e7\u00e3o, a sacudir uma perna, que havia<br \/>\ndobrado sobre a outra.<\/p>\n<p>&#8211; Mas tudo, como?&#8230; perguntou Borges, tentando acarinh\u00e1-la.<\/p>\n<p>Ela ergueu-se, demovendo o corpo, e acrescentou, encarando-o:<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7a! &#8211; Por ora, meu amigo, perten\u00e7o-lhe de direito, porque nos casamos,<br \/>\ne isso tornava-se inevit\u00e1vel na situa\u00e7\u00e3o em que o senhor me achou; mas declaro-lhe<br \/>\nabertamente que s\u00f3 lhe pertencerei de fato no dia em que o senhor tiver conquistado<br \/>\no meu amor \u00e0 custa de dedica\u00e7\u00e3o e de perseveran\u00e7a! S\u00f3 lhe pertencerei de fato<br \/>\nno dia em que o senhor se houver cabalmente habilitado para isso! Compreende,<br \/>\nagora?&#8230;<\/p>\n<p>O marido deixou cair a cabe\u00e7a e ficou a pensar, enquanto a mulher atravessava<br \/>\no gabinete, depois ~ saleta, e fora assentar-se no div\u00e3 do sal\u00e3o. No fim de<br \/>\ncinco minutos, Borges levantou-se resolutamente e foi ter com ela:<\/p>\n<p>&#8211; De sorte que a senhora tenciona continuar com a porta do seu quarto fechada,<br \/>\nat\u00e9 que eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A porta e o cora\u00e7\u00e3o, acudiu Filomena &#8211; at\u00e9 que o senhor os consiga abrir<br \/>\ncom os seus desvelos!<\/p>\n<p>&#8211; Quer ent\u00e3o que lhe fa\u00e7a a corte?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De certo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois tomo a liberdade de declarar a V. Ex. que foi justamente por n\u00e3o ter<br \/>\njeito para essas coisas ~ que me casei! Se eu tivesse g\u00eanio para atirar-me<br \/>\naos p\u00e9s de uma mulher e fazer-lhe a minha declara\u00e7\u00e3o com palavreados de romance,<br \/>\nse eu tivesse queda para galante, n\u00e3o procuraria uma esposa, bastava-me ter<br \/>\numa&#8230;<\/p>\n<p>Filomena n\u00e3o lhe deu tempo de concluir a frase. Ergueu-se num s\u00f3 movimento,<br \/>\ne, depois de medi-lo de alto a baixo com um olhar de rainha ofendida, afastou-se<br \/>\nlentamente em silencio, os passos firmes, a cabe\u00e7a altiva.<\/p>\n<p>Borges correu logo atr\u00e1s dela e segurou-lhe uma das m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Solte-me! exclamou Filomena, arrecadando o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>E fugiu para a saleta, atirou-se sobre o div\u00e3 em que o marido passara a noite,<br \/>\ne a\u00ed rompeu a solu\u00e7ar com um frenesi hist\u00e9rico.<\/p>\n<p>Borges ajoelhou-se-lhe aos p\u00e9s e cobriu-lhe as m\u00e3os de beijos e de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o leves a mal aquilo, minha santa! Desculpa, exclamou ele, escondendo<br \/>\no rosto no colo da esposa. Reconhe\u00e7o que n\u00e3o fui muito delicado excedi-me,<br \/>\nmas n\u00e3o sei onde tenho a cabe\u00e7a &#8211; n\u00e3o estou em mim! \u00c9 que me p\u00f5es doido com<br \/>\ntuas palavras! Oh! mas n\u00e3o fiques zangada, n\u00e3o chores; tudo aquilo prova justamente<br \/>\no bem que eu te quero, minha vida, minha mulherzinha do cora\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Filomena n\u00e3o respondia e continuava a chorar, toda prostrada no div\u00e3: a cabe\u00e7a<br \/>\nvergada para tr\u00e1s, o rosto encoberto por um len\u00e7o de rendas, que ela segurava<br \/>\nem uma das m\u00e3os, ao passo que abandonava a outra aos beijos apaixonados do<br \/>\nmarido. Agora os solu\u00e7os eram espa\u00e7ados e mais secos, como os \u00faltimos rumores<br \/>\nde uma tempestade que acalma.<\/p>\n<p>De repente, ergueu-se. Fitou por instantes o marido, que jazia a seus p\u00e9s<br \/>\najoelhado, a encar\u00e1-la lacrimoso e s\u00faplice; depois estendeu os bra\u00e7os, deu-lhe<br \/>\num empurr\u00e3o e fugiu para o seu quarto, fechando-se logo por dentro, violentamente.<\/p>\n<p>O Borges ficou meio assentado e meio deitado no ch\u00e3o, amparando-se \u00e0s m\u00e3os<br \/>\ne aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; E esta &#8211; balbuciou ele dai a pouco, erguendo-se de mau humor. \u00c9 gira ou<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 gira?&#8230;<\/p>\n<p>E p\u00f4s-se a percorrer todo o pavimento, rondando o quarto fechado da mulher,<br \/>\ncomo um gato que fareja o guarda-petiscos&#8230; No fim de uma hora de exerc\u00edcio,<br \/>\nindo e revindo incessantemente, de l\u00e1, para c\u00e1, as m\u00e3os nas algibeiras das<br \/>\ncal\u00e7as, o olhar cravado na esteirinha do soalho, Borges estacou no meio do<br \/>\nsal\u00e3o:<\/p>\n<p>\u00c9 de mais! pensou ele. &#8211; \u00c9 para um homem perder a cabe\u00e7a!<\/p>\n<p>E atirou-se prostrado \u00e0 cadeira de balan\u00e7o, passando uma revista mental a<br \/>\ntodas as contrariedades e decep\u00e7\u00f5es que o afligiam desde a v\u00e9spera.<\/p>\n<p>&#8211; Ora a\u00ed estava para que se tinha casado!&#8230; Passar por tudo aquilo!&#8230; Ele!<br \/>\nEle, que em sua longa vida de solteiro nunca amargara uma noite t\u00e3o m\u00e1 e um<br \/>\ndia t\u00e3o levado da breca! &#8211; Quem te mandou, Jo\u00e3o Borges, meter em camisa de<br \/>\nonze varas?&#8230; Maldito fosse o Guterres, que o levou \u00e0 casa da defunta Clementina!<br \/>\nAntes tivessem ambos quebrado as pernas nessa ocasi\u00e3o! Maldito Guterres!<\/p>\n<p>E, acabrunhado por esses racioc\u00ednios, sentindo perfeitamente que n\u00e3o tinha<br \/>\nfor\u00e7as para arrancar de si a paix\u00e3o enorme que lhe inspirava a esposa, levantou-se<br \/>\nde novo, foi e veio por todo o segundo andar, suspirando e tossindo todas<br \/>\n\u00e0s vezes que passava defronte da porta de Filomena. Afinal, no fim de outra<br \/>\nhora de passeio, convencido de que a mulher n\u00e3o aparecia, desceu ao primeiro<br \/>\npavimento.<\/p>\n<p>Os amigos j\u00e1 l\u00e1 estavam para o jantar. Guterres foi o primeiro que correu<br \/>\nao seu encontro, abrindo-lhe os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>E, discretamente, enquanto o estreitava: &#8211; Voc\u00ea est\u00e1 abatido, seu magan\u00e3o!<\/p>\n<p>Borges sorriu, protestando vagamente:<\/p>\n<p>&#8211; Uma enxaqueca!&#8230; Uma pequena enxaqueca!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E sua senhora?&#8230; perguntou um dos amigos.<\/p>\n<p>&#8211; Vem j\u00e1, vem j\u00e1&#8230; Ela, tamb\u00e9m, coitadinha!&#8230; n\u00e3o passou l\u00e1 para que digamos!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Outra enxaqueca?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente! Considerou um terceiro a rir.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! estes noivos! estes noivos!&#8230; volveu o Guterres a bater no ombro do<br \/>\nBorges. &#8211; N\u00e3o precisa fazer-se vermelho, que diabo! J\u00e1 sei o que isso \u00e9, meu<br \/>\namigo, j\u00e1 passei duas vezes por esses transes!&#8230;<\/p>\n<p>O Borges teve um novo sorriso, ainda mais amarelo que o primeiro, e foi continuando<br \/>\na receber os parab\u00e9ns dos outros convidados, cujas pilh\u00e9rias, cujas pequenas<br \/>\nfrases de sentido d\u00fabio e malicioso, ditas ali\u00e1s com a inten\u00e7\u00e3o de lisonje\u00e1-lo,<br \/>\nmais a mais o indispunham e frenesiavam.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>III &#8211; COME\u00c7AM AS PROVA\u00c7\u00d5ES<\/h2>\n<p>O jantar correu melhor do que se podia esperar; Filomena mostrou-se muito<br \/>\nam\u00e1vel \u00e0s suas visitas e, sem se dar mais a uma do que a outra, sempre risonha,<br \/>\naf\u00e1vel e cheia de esp\u00edrito, dividindo-se por todas elas a um s\u00f3 tempo, mostrou<br \/>\nquanto era profunda na complicada ci\u00eancia de agradar em casa, na mesma ocasi\u00e3o,<br \/>\nmuita gente reunida.<\/p>\n<p>Fez-se m\u00fasica; houve canto e conversou-se a valer.<\/p>\n<p>Ao retirarem-se \u00e0s dez e meia, iam todos penhorados pela dona da casa e plenamente<br \/>\nconvencidos de que n\u00e3o havia no mundo inteiro um marido mais feliz do que<br \/>\nJo\u00e3o Touro.<\/p>\n<p>O que, entretanto, n\u00e3o obstou que o pobre homem tr\u00eas dias depois ca\u00edsse numa<br \/>\nmelancolia taciturna e pesada, que lhe tirava o gosto para tudo, at\u00e9 para<br \/>\no trabalho. Emagrecia a olho visto, e com as suas gorduras fugiam-lhe as belas<br \/>\ncores do rosto e escapava-lhe dos l\u00e1bios aquele calmo sorriso de felicidade,<br \/>\nseu bom companheiro de tantos anos.<\/p>\n<p>\u00c9 que a portinha do quarto da esposa continuava fechada por dentro.<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo n\u00e3o era mulher para o Borges! murmuravam os maldizentes, ao v\u00ea-lo<br \/>\nt\u00e3o puxado e abatido.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que ela o tem derreado! considerava outro.<\/p>\n<p>E a verdade \u00e9 que o infeliz estava apaixonado e apaixonado deveras. Para<br \/>\nfazer as pazes (restritas, bem entendido&gt; com a mulher, depois do primeiro<br \/>\narrufo do almo\u00e7o, teve que lan\u00e7ar m\u00e3o de todos os recursos da humildade e<br \/>\nda s\u00faplica.<\/p>\n<p>&#8211; Procure ser-me agrad\u00e1vel! aconselhou Filomena, e o senhor obter\u00e1 de mim<br \/>\ntudo quanto quiser!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas em que lhe posso ser agrad\u00e1vel, minha querida&#8230; A senhora bem v\u00ea que<br \/>\nfa\u00e7o para isso tudo que est\u00e1 nas minhas m\u00e3os!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Talvez assim lhe pare\u00e7a, mas juro-lhe que o n\u00e3o \u00e9! Por exemplo &#8211; por que<br \/>\nraz\u00e3o n\u00e3o se resolve desde j\u00e1 o meu caro esposo a abandonar esse h\u00e1bito insuport\u00e1vel<br \/>\nde rape&#8230; h\u00e1bito, que, s\u00f3 por si. \u00e9 quanto basta para o incompatibilizar<br \/>\ncomigo?<\/p>\n<p>Borges corou e prometeu nunca mais tomar rap\u00e9: &#8211; N\u00e3o fosse essa a raz\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed tem j\u00e1 o senhor por onde principiar: &#8211; Eu tanto abomino o vil e baixo<br \/>\nrap\u00e9, quanto gosto do aristocr\u00e1tico perfume do charuto. Experimente fumar<br \/>\num! Eu mesmo posso encarregar-me de prepar\u00e1-lo. J\u00e1 v\u00ea que n\u00e3o sou t\u00e3o m\u00e1 &#8211;<br \/>\nat\u00e9 lhe aponto os meios, que o seu cora\u00e7\u00e3o devia ser o \u00fanico a descobrir para<br \/>\nconquistar o meu.<\/p>\n<p>E, depois de fazer vir uma caixa dos melhores charutos que se encontraram,<br \/>\ntomou um, trincou-lhe graciosamente a ponta, e disse, passando-o ao marido:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos l\u00e1! Sente-se aqui ao p\u00e9 de mim&#8230; Muito bem.<\/p>\n<p>E, riscando um f\u00f3sforo: &#8211; Principiemos!<\/p>\n<p>Borges hesitava.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que eu nunca fumei, filhinha&#8230; objetava ele timidamente.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! que grande sacrif\u00edcio! E encheu a boca com a frase &#8211; &#8220;Nunca fumou!&#8221;<br \/>\nE os outros?&#8230; os que fumam?&#8230; acenderam o primeiro charuto s\u00f3 depois de<br \/>\nhabituados a fumar?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isto pode fazer-me mal&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o n\u00e3o fume! Ora essa! respondeu ela, erguendo-se j\u00e1 amuada. Quando<br \/>\npara fumar \u00e9 isto, quanto mais&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vem c\u00e1, menina, vem c\u00e1! Oh! Tu tamb\u00e9m te esquentas por qualquer coisa!<br \/>\nEu n\u00e3o disse que n\u00e3o fumava!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o vamos l\u00e1! tornou a formosa mulher corri uma pontinha da faceirice.<br \/>\n&#8211; Acenda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tu \u00e9s os meus pecados!&#8230; disse o Borges obedecendo.<\/p>\n<p>&#8211; Acenda direito&#8230; recomendou Filomena, fazendo-se am\u00e1vel. &#8211; N\u00e3o chupe com<br \/>\ntanta for\u00e7a! Assim&#8230; assim! Veja como vai bem agora!<\/p>\n<p>E o Borges fumava afinal, interrompendo-se a cada momento para tossir sufocado,<br \/>\nsem dar vencimento \u00e0 saliva que lhe acudia.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 horroroso! afirmava ele alguns minutos depois, segurando o charuto com<br \/>\nambas as m\u00e3os. &#8211; Faz-me vir \u00e1gua aos olhos!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 delicioso! contestava a mulher ao lado, derreada para tr\u00e1s, aspirando<br \/>\nvoluptuosamente o fumo que o marido expelia da boca.<\/p>\n<p>Borges, quando se levantou, sentia tonturas, vontade de vomitar e suores<br \/>\nfrios.<\/p>\n<p>&#8211; Continue, continue, que em breve se habituar\u00e1! disse-lhe a mulher, enquanto<br \/>\nele se afastava para o quarto muito p\u00e1lido, cheio de calafrios, agarrando-se<br \/>\n\u00e0s cadeiras.<\/p>\n<p>E desde ent\u00e3o Filomena n\u00e3o consentiu que o marido se aproximasse dela, sem<br \/>\nvir fumando.<\/p>\n<p>&#8211; E promete que me deixa depois dar-lhe um beijinho na face?&#8230; perguntou<br \/>\nele na ocasi\u00e3o de submeter-se ao sacrif\u00edcio do segundo charuto.<\/p>\n<p>&#8211; Prometo que lhe consentirei beijar-me a testa &#8211; a testa! &#8211; no dia em que<br \/>\nfumar o \u00faltimo charuto da caixa.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Filomena cumpriu a promessa; o Borges, depois de fumar cem charutos, beijou<br \/>\npela primeira vez a fronte da esposa.<\/p>\n<p>Ela, por\u00e9m, tornava-se mais exigente de dia para dia. O marido teve que p\u00f4r<br \/>\nabaixo a sua barbinha \u00e0 portuguesa e deixar crescer o bigode; teve que abandonar<br \/>\nas suas queridas cal\u00e7as de brim mineiro, de que tanto gostava, teve que suportar<br \/>\ncosm\u00e9ticos e brilhantinas, contra os quais protestava o seu delicado olfato<br \/>\nde homem duro. O que, por\u00e9m, mais lhe custou, o que atingiu as propor\u00e7\u00f5es<br \/>\nde um verdadeiro sacrif\u00edcio, foi ter de submeter-se a &#8220;usar pastinhas&#8221;. Ele!<br \/>\no Borges! de pastinhas! &#8211; que n\u00e3o diriam os seus velhos e respeit\u00e1veis amigos<br \/>\ndo com\u00e9rcio?!&#8230; Que n\u00e3o suporia o Barroso?!.<\/p>\n<p>Mas enfim&#8230; usou.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! o amor! o amor! gemia ele, quando no seu quarto entregava a cabe\u00e7a<br \/>\naos ferros quentes do cabeleireiro.<\/p>\n<p>&#8211; Deus me d\u00ea paci\u00eancia!<\/p>\n<p>A dois passes, o criado observava-o em sil\u00eancio, com um ar de compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; A que bonito estado o reduziu aquela mulherzinha dos dem\u00f4nios. Quando eu<br \/>\ndigo as coisas!&#8230;<\/p>\n<p>E de uma feita, vendo os esfor\u00e7os que o amo fazia por disfar\u00e7ar o abdome<br \/>\ncom um espartilho, ficou t\u00e3o indignado, que saiu do quarto, para n\u00e3o cometer<br \/>\nalguma imprud\u00eancia. Em baixo foi desabafar a sua indigna\u00e7\u00e3o com o copeiro<br \/>\ne o cozinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Eu \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o estou disposto, disse este, a suportar as impertin\u00eancias<br \/>\nda patroa! Tenho servido em casas muito mais ricas do que esta, e nunca sofri<br \/>\no que me fazem aqui. Todo o dia s\u00e3o reclama\u00e7\u00f5es e mais reclama\u00e7\u00f5es! N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nmeio de agradar! Se fa\u00e7o assim, \u00e9 mau; se n\u00e3o fa\u00e7o, \u00e9 pior! E nada presta!<br \/>\ne &#8220;tudo \u00e9 uma porcaria!&#8221; Hoje \u00e9 com a sopa, amanh\u00e3 com o assado! V\u00e1 para o<br \/>\ndiabo um tal sistema!<\/p>\n<p>&#8211; Al\u00e9m disso, acudiu o copeiro &#8211; n\u00e3o h\u00e1 horas certas para a comida! Uma vez<br \/>\nquerem o almo\u00e7o \u00e0s sete da manh\u00e3 e j\u00e1 do dia seguinte s\u00f3 o reclamam \u00e0s duas<br \/>\nda tarde. O jantar, tanto pode ser \u00e0s quatro, como \u00e0s seis, como \u00e0s oito e<br \/>\nat\u00e9 como \u00e0s onze da noite! E eu que me amole! N\u00e3o! Assim tamb\u00e9m n\u00e3o se atura!<\/p>\n<p>&#8211; E comigo, ent\u00e3o?! perguntou a criada, que se havia metido j\u00e1 na conversa<br \/>\n&#8211; comigo \u00e9 que s\u00e3o elas! &#8211; Falte \u00e1gua no jarro, falte qualquer coisa, n\u00e3o<br \/>\ncorra eu ao primeiro chamado, para ver como fica a bicha! Outro dia, porque<br \/>\nquebrei o bra\u00e7o de uma pestezinha de figura que ela tem sobre a c\u00f4moda, deu-me<br \/>\num tal pesco\u00e7\u00e3o que me fez cair de encontro \u00e0 quina da secret\u00e1ria! Ainda estou<br \/>\ncom este quadril todo roxo! Bruta!<\/p>\n<p>O jardineiro, que tamb\u00e9m se achegara do grupo, contou que, n\u00e3o havia uma<br \/>\nsemana, a senhora varrera com um pontap\u00e9 os vasos da escada do jardim, s\u00f3<br \/>\nporque uma das beg\u00f4nias parecia mal tratada. &#8211; \u00c9 uma mulherzinha de g\u00eanio!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E agora v\u00e3o ver! tornou a criada. &#8211; Para ralhar e atirar com as coisas<br \/>\nna gente, \u00e9 isto que se sabe; entretanto, a casa pode cair aos peda\u00e7os que<br \/>\nela n\u00e3o se incomoda. Se o patr\u00e3o que \u00e9 aquele mesmo, n\u00e3o der as provid\u00eancias<br \/>\nningu\u00e9m as dar\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Que ela tem pancada na bola, n\u00e3o resta d\u00favida!<\/p>\n<p>E os coment\u00e1rios da criadagem foram-se desenvolvendo de tal forma, que chegaram<br \/>\naos ouvidos de Filomena.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo na rua! J\u00e1! disse esta, sem se alterar. &#8211; N\u00e3o quero semelhante s\u00facia<br \/>\nnem mais um instante em casa! acrescentou ao marido. &#8211; Despede-os, e anuncia,<br \/>\nquanto antes, que precisamos de nova gente! Preferem-se estrangeiros!<\/p>\n<p>O Borges tratou de executar as ordens da mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, o senhor p\u00f5e-me fora?&#8230; perguntou-lhe o criado, quando recebeu<br \/>\na intima\u00e7\u00e3o para sair.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, Manuel, sustentou o Borges &#8211; tem paci\u00eancia, mas n\u00e3o h\u00e1 outro<br \/>\nrem\u00e9dio&#8230; Reconhe\u00e7o que \u00e9s um bom rapaz, mas n\u00e3o podes continuar ao meu servi\u00e7o.<br \/>\nVai-te e acredita que n\u00e3o \u00e9 por meu gosto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas por que sou despedido? H\u00e1 seis anos que estou ao servi\u00e7o de vocemec\u00ea,<br \/>\ne creio que at\u00e9 agora ainda n\u00e3o dei motivos para ser posto na rua como um<br \/>\ncachorro.<\/p>\n<p>&#8211; Tens raz\u00e3o! tens raz\u00e3o, mas, j\u00e1 te disse, filho! N\u00e3o h\u00e1 outro rem\u00e9dio!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que \u00e9 duro ficar a gente assim desempregado de um momento para o outro,<br \/>\nquando ali\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu recomendar-te-ei aos meus amigos. N\u00e3o ficar\u00e1s desamparado. E se te vires<br \/>\nem algum aperto, procura-me&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 duro! insistia Manuel. &#8211; \u00c9 muito duro! Ah! mas vocemec\u00ea me despede porque<br \/>\nlhe foram encher os ouvidos a meu respeito!<\/p>\n<p>&#8211; Homem, rapaz, \u00e9 melhor que te v\u00e1s logo e n\u00e3o me estejas a causticar a paci\u00eancia.<br \/>\nSe te despe\u00e7o \u00e9 porque assim o entendo, sebo!<\/p>\n<p>&#8211; Qual o que! vocemec\u00ea despede-me a mandado da patroa!<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 seu mariola! gritou o amo. &#8211; Ponha-se j\u00e1 na rua!<\/p>\n<p>&#8211;Isto \u00e9 uma casa de S. Gon\u00e7alo&#8230; principiou ainda o criado, quando o Borges,<br \/>\nperdendo de todo a paci\u00eancia, saltou sobre ele, e t\u00ea-lo-ia rachado com um<br \/>\npontap\u00e9, se o respond\u00e3o n\u00e3o tratasse de ganhar a porta da rua.<\/p>\n<p>&#8211; Atrevido! rosnou o Borges. &#8211; Insolente! Faltar-me ao respeito! A mim!<\/p>\n<p>No dia seguinte, principiou a escolha do novo pessoal. O Borges, j\u00e1 bastante<br \/>\nimportunado com ter de suportar comida de hotel, viu-se tonto no meio da chusma<br \/>\nde cozinheiros, copeiros, jardineiros, serventes de ambos os sexos e de todas<br \/>\nas nacionalidades, que choviam de sul e norte, entre uma algazarra infernal.<\/p>\n<p>A coisa durou dias. Filomena vacilava na escolha &#8211; queria gente especial,<br \/>\nfora do comum e pronta a cumprir estritamente os seus caprichos, sem tugir<br \/>\nnem mugir; ainda que com isso custasse muito mais caro.<\/p>\n<p>Para a cozinha preferia um chim; para o servi\u00e7o da copa um ingl\u00eas, um groom<br \/>\nlegitimo, e para sua criada grave alguma coisa de francesa ou russa ou espanhola,<br \/>\numa criada, enfim, que n\u00e3o fosse de cor, nem tivesse a menor sombra de portuguesa.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! os portugueses eram incompat\u00edveis com a sua fantasia!<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o encontrou gente nessas condi\u00e7\u00f5es, e, enquanto esperava por ela, resignou-se<br \/>\na tomar para seu servi\u00e7o uma Cec\u00edlia, t\u00e3o brasileira como um Roberto, que<br \/>\nfoi substituir o Manuel e tamb\u00e9m como o novo jardineiro, e como o novo copeiro,<br \/>\ne como o novo cozinheiro. &#8211; Uma l\u00e1stima! &#8211; todos brasileiros!<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 agora mais satisfeitinha com seu marido?!&#8230; perguntou-lhe o Borges<br \/>\nmeigamente.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, respondeu ela, deixando-o beijar-lhe a m\u00e3o. Vais muito bem. Continua,<br \/>\ncontinua dessa forma, que um dia, talvez&#8230; consigas captar-me a estima.<\/p>\n<p>&#8211; Ora!&#8230; balbuciou o mestre de obras, j\u00e1 meio desanimado. &#8211; \u00c9 s\u00f3 &#8220;continua!<br \/>\ncontinua!&#8221; e as coisas \u00e9 que v\u00e3o continuando na mesma!&#8230;<\/p>\n<p>E o bom homem, no desespero de merecer as gra\u00e7as da esposa, transformava-se<br \/>\npouco a pouco.<\/p>\n<p>O Guterres, indo visit\u00e1-lo, tr\u00eas meses depois do casamento, soltou um grito<br \/>\nde estupefa\u00e7\u00e3o e abriu grandes olhos espantados:<\/p>\n<p>&#8211; Que! Pois \u00e9 o Jo\u00e3o Borges?!&#8230; que metamorfose, meu Deus! que mudan\u00e7a!<\/p>\n<p>E contemplando-o de alto a baixo. Sim senhor! sim senhor! &#8211; Est\u00e1 mo\u00e7o e bonito!<br \/>\nOnde foi voc\u00ea, seu magan\u00e3o, arranjar esses bigodes t\u00e3o pretos e t\u00e3o petulantes?!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que aquela barba por debaixo do queixo principiava a incomodar-me&#8230;<br \/>\nrespondeu o marido de Filomena, abaixando os olhos e enrubescendo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas agora reparo! tornou o outro. &#8211; Fraque \u00e0 inglesa! colarinho da moda!<br \/>\nprastron! meias de cor! polainas! sapatos de verniz! flor \u00e0 gola! &#8211; Bravo!<br \/>\nseu Jo\u00e3o! Bravo! N\u00e3o h\u00e1 como uma mulherzinha bonita para fazer desses milagres!<\/p>\n<p>E vendo o amigo acender um charuto. &#8211; Tamb\u00e9m fuma?!&#8230; \u00d3 senhores! estou<br \/>\nmaravilhado!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9&#8230; gaguejou o janota \u00e0 for\u00e7a; &#8211; o rap\u00e9 ultimamente, n\u00e3o me fazia bem&#8230;<br \/>\nDou-me muito melhor com o charuto!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E digam mal do casamento!&#8230; considerou o Guterres.<\/p>\n<p>&#8211; Queria que se mirassem neste espelho!<\/p>\n<p>E em resposta a um gesto de impaci\u00eancia do Borges:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meu amigo, isto tenha paci\u00eancia! Em tr\u00eas vidas que voc\u00ea vivesse n\u00e3o<br \/>\nme pagaria o servi\u00e7o que lhe prestei, levando-o \u00e0 casa da defunta D. Clementina!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim&#8230; respondeu o outro, cortando a conversa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que ordena afinal, o meu amigo?<\/p>\n<p>O Guterres, mudando logo de aspecto, disse ent\u00e3o o motivo de sua visita;<br \/>\n&#8211; se o outro lhe pudesse adiantar ainda uns duzentos mil r\u00e9is, seria um grande<br \/>\nfavor&#8230;<\/p>\n<p>O Borges co\u00e7ou a cabe\u00e7a. &#8211; Era o diabo!&#8230; As coisas n\u00e3o iam l\u00e1 muito bem&#8230;<br \/>\nO casamento trouxera despesas consider\u00e1veis!&#8230; Agora o neg\u00f3cio fiava mais<br \/>\nfino; tinha de pensar no futuro!&#8230; os filhos n\u00e3o tardariam por a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bom, senhor! retorquiu o Guterres, transformando-se de novo. &#8211; Bom! Eu<br \/>\ntamb\u00e9m n\u00e3o exijo sacrif\u00edcios!&#8230;<\/p>\n<p>E deixando escapar aos poucos como o vapor comprimido de uma caldeira, a<br \/>\nraiva que se lhe desenvolvia por dentro.<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe! Desculpe! &#8211; Pensei que voc\u00ea fosse o mesmo homem!&#8230; ou que pelo<br \/>\nmenos o fosse para mim&#8230; a quem&#8230; digo-lhe ent\u00e3o!&#8230; devia trazer nas palminhas,<br \/>\nse&#8230; se soubesse ser mais reconhecido!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, v\u00e1 plantar batatas! exclamou o Borges, contendo a custo o que tinha<br \/>\npara dizer a respeito dos tais favores do Guterres. &#8211; N\u00e3o esteja ai a dizer<br \/>\nbarbaridades!<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea nega ent\u00e3o que s\u00f3 a mim deve estar casado?<\/p>\n<p>&#8211; Homem! n\u00e3o me amole, homem de Deus! Se, para &#8211; o ver pelas costas, tenho<br \/>\nde dar duzentos mil r\u00e9is &#8211; aqui est\u00e3o! mas, por quem \u00e9, deixe-me em paz! &#8211;<\/p>\n<p>&#8211; Ingrato!<\/p>\n<p>A\u00ed os tem, leve-os e n\u00e3o se incomode em voltar c\u00e1 para restitui-los! V\u00e1,<br \/>\nv\u00e1 &#8211; com Deus!<\/p>\n<p>&#8211; Sim! disse o Guterres com \u00eanfase, tomando o chap\u00e9u e a bengala &#8211; sim! levo<br \/>\ncomigo o vil dinheiro, porque desgra\u00e7adamente n\u00e3o tenho outro rem\u00e9dio; mas<br \/>\ntamb\u00e9m sabendo que, de sua parte, \u00e9 uma covardia aproveitar o aperto em que<br \/>\nme acho, para injuriar-me desse modo!<\/p>\n<p>&#8211; Fomente-se! respondeu o Borges, dando-lhe as costas.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O outro, desde a\u00ed, n\u00e3o o poupou mais. Logo no dia seguinte, em uma roda onde<br \/>\nse falava do mestre de obras, teve ocasi\u00e3o de lhe meter as botas. &#8211; Al\u00e9m de<br \/>\num grande peda\u00e7o d&#8217;asno, \u00e9 um impostor! bradou e]e. Pensa, l\u00e1 por ter os seus<br \/>\nmil r\u00e9is, que \u00e9 superior a todo o mundo! Um tolo!<\/p>\n<p>E apontou as toucas do Borges, as transforma\u00e7\u00f5es que sofrera o basbaque depois<br \/>\ndo casamento. Mas quase todos lan\u00e7aram esses coment\u00e1rios \u00e0 conta da inveja,<br \/>\ne o marido da encantadora Filomena ia, cada vez mais, ganhando a reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um homem completamente feliz.<\/p>\n<p>Entretanto, as exig\u00eancias daquela multiplicavam-se, e o Borges continuava<br \/>\na submeter-se, estribado sempre na grata esperan\u00e7a de possu\u00ed-la um dia.<\/p>\n<p>Vieram as festas, os bailes; Filomena principiou a luzir nas salas, a ofuscar.<br \/>\nSua beleza, sua vivacidade espiritual e romanesca, postos agora em relevo<br \/>\npelos mil r\u00e9is do marido, tomaram propor\u00e7\u00f5es dominadoras.<\/p>\n<p>Era sempre a rainha dos lugares onde se achava; a mais querida, a mais falada,<br \/>\na mais desejada.<\/p>\n<p>Todos viam no Borges um c\u00famulo de fortunas &#8211; os homens invejavam-no, mas<br \/>\nnenhum deles se podia gabar de ir um ponto al\u00e9m de sua inveja. Filomena a<br \/>\ntodos prendia igualmente na mesma rede de atra\u00e7\u00f5es, sem dar a nenhum direito<br \/>\nde avan\u00e7ar, nem \u00e2nimo de fugir. Se o sorriso prometia &#8211; o olhar negava; e<br \/>\nse de seus olhos escapava porventura uma dessas faunas sat\u00e2nicas, que acendem<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o mil esperan\u00e7as a um tempo &#8211; era uma frase, en\u00e9rgica e pronta, que<br \/>\nvinha destruir de chofre a indiscreta promessa dos olhos.<\/p>\n<p>E o Borges, apesar de marido, n\u00e3o estava ileso dessas condi\u00e7\u00f5es; feliz aos<br \/>\nolhos de todos, ia arrastando ele o seu desgosto, sem poder confessar a pessoa<br \/>\nalguma os tormentos que o devoravam. Esta circunstancia ainda o fazia sofrer<br \/>\nmais.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s um felizardo! Repetiram-lhe a todo o instante. E essa maldita frase<br \/>\nproduzia-lhe o efeito de um ferro em brasa. Evitava j\u00e1 ficar a s\u00f3s, nas janelas<br \/>\nou nos cantos da sala, com os amigos mais chegados, para n\u00e3o ouvir a constante<br \/>\nglorifica\u00e7\u00e3o daquela felicidade, que s\u00f3 existe na imagina\u00e7\u00e3o deles.<\/p>\n<p>&#8211; Para voc\u00ea \u00e9 que \u00e9 esta vida!&#8230; diziam-lhe. &#8211; Meu caro. quem nasce sob<br \/>\numa boa estr\u00e9ia, n\u00e3o tem que se apoquentar com a sorte!<\/p>\n<p>E o Borges sacudia os ombros, sorrindo contrafeito. Mas a sua tristeza aumentava;<br \/>\no seu vigor descrecia, e todo ele ia parecendo v\u00edtima de uma grande enfermidade.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea precisa ter um pouco de cuidado, segredou-lhe uma vez o m\u00e9dico. &#8211;<br \/>\nOlhe que o mundo n\u00e3o se acaba, meu amigo! Isso pode prejudicar mesmo a sua<br \/>\nsenhora, que, em todo o caso, \u00e9 uma mulher e tem a constitui\u00e7\u00e3o mais delicada!<br \/>\nN\u00e3o conv\u00e9m abusar! N\u00e3o conv\u00e9m abusar!<\/p>\n<p>&#8211; E isto \u00e9 dito a mim! a mim! exclamava o Borges, a bater no peito, chorando,<br \/>\nlogo que se achava s\u00f3. Mas n\u00e3o desanimava, certo de que os sacrif\u00edcios dedicados<br \/>\n\u00e0 cruel deusa de seus sonhos teriam, mais cedo ou mais tarde, uma recompensa.<br \/>\n&#8211; Oh! s\u00f3 de pensar em tal, o cora\u00e7\u00e3o saltava-lhe por dentro.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, as exig\u00eancias continuavam a surgir, e ele continuava a render-se,<br \/>\ncada vez mais submisso e mais vencido.<\/p>\n<p>Agora j\u00e1 lhe n\u00e3o custava suportar os bailes de cerim\u00f4nia, e recebia duas<br \/>\nvezes por m\u00eas. Aquele homem, que dantes, ao bater das onze, se recolhia invariavelmente<br \/>\naos seus travesseiros, passava agora todas as noites em uma roda de etiquetas,<br \/>\na cortejar para a direita e para a esquerda, a rir, a lisonjear, a fazer-se<br \/>\nfino. Suas reuni\u00f5es tornavam-se famosas pela suntuosidade, profus\u00e3o bem escolhida<br \/>\ndos vinhos, excel\u00eancia dos bufetes, boa m\u00fasica e espl\u00eandida variedade de convivas<br \/>\nde ambos os sexos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida! E um felizardo! insistiam os amigos.<\/p>\n<p>&#8211; Que mulher possui o ladr\u00e3o! &#8211; formosa, distinta, elegante, inteligente<br \/>\ne, al\u00e9m de tudo, honesta! Parece que s\u00f3 vive para o marido! Definitivamente,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 outro mais feliz!&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 o m\u00edsero esposo n\u00e3o pensava dessa forma. Agora os caprichos da mulher<br \/>\nimpunham-lhe uma prova\u00e7\u00e3o terr\u00edvel para ele, e a pior de todas que at\u00e9 a\u00ed<br \/>\ncometera; Filomena exigiu que o desgra\u00e7ado aprendesse a valsar.<\/p>\n<p>Valsar o Borges! O Borges! o homem mais incompat\u00edvel com a dan\u00e7a!<\/p>\n<p>Foi preciso arranjar um professor discreto, que lhe desse as li\u00e7\u00f5es em casa,<br \/>\n\u00e0s ocultas, todos os dias, das tr\u00eas \u00e0s cinco da tarde.<\/p>\n<p>Que luta, santo Deus! Que longas horas de tormento! Que hero\u00edsmo para n\u00e3o<br \/>\ndesanimar no meio da empresa!<\/p>\n<p>Foi uma campanha formid\u00e1vel! Seus vastos e pesados p\u00e9s n\u00e3o se queriam sujeitar<br \/>\n\u00e0quela viol\u00eancia implac\u00e1vel dos passos e dos saltinhos; seus nodosos tornozelos,<br \/>\ngrossos como troncos de \u00e1rvore, protestavam energicamente contra os inquisitoriais<br \/>\nritornelos das valsas puladas. Recalcitravam-se os joanetes, revoltavam-se<br \/>\nos calos; tremia o soalho; vinham abaixo as bugigangas que estavam sobre os<br \/>\nconsolos da sala; o Borges suava, afogueava-se e n\u00e3o conseguia passar das<br \/>\nprimeiras figuras.<\/p>\n<p>Mas Filomena estava ali para lhe dar coragem, como nos cavalheirescos torneios<br \/>\nda idade m\u00e9dia. A imagem dela animava-o, como a presen\u00e7a de um grande pr\u00eamio<br \/>\nambicionado. S\u00f3 valsando conseguiria transpor o limiar daquele para\u00edso.<\/p>\n<p>Pois bem! Valsaria, custasse o que custasse!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! ela adorava a dan\u00e7a! N\u00e3o podia sofrer um homem que n\u00e3o soubesse valsar.<br \/>\nA dan\u00e7a foi sempre uma de suas paix\u00f5es mais fortes; em pequena chegou a imitar<br \/>\nv\u00e1rios passos dif\u00edceis que vira no teatro. Sabia o solo ingl\u00eas, a gavota1<br \/>\no minuete, a cachucha e muitos outros.<\/p>\n<p>O Borges, no fim de cinco meses de estudo ac\u00e9rrimo, conseguia dan\u00e7ar, n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 a valsa, como a polca, a mazurca, o schottisch, os lanceiros e as quadrilhas<br \/>\nfrancesas. Filomena ent\u00e3o exigiu que ele, enquanto descansava da \u00faltima campanha,<br \/>\nse entregasse \u00e0 leitura escolhida de certos poetas e romancistas. Apresentou-lhes<br \/>\nos livros e marcou as li\u00e7\u00f5es que o marido havia de decorar.<\/p>\n<p>&#8211; Quero que tenhas de mem\u00f3ria um bom repert\u00f3rio de versos, para m&#8217;os recitares<br \/>\nnas ocasi\u00f5es de aborrecimento. A prosa todos os dias fatiga muito!<\/p>\n<p>O Borges obedeceu, como de costume, e da\u00ed a pouco tempo atroava nas salas<br \/>\na sua voz de baixo profundo, recitando os trechos mais declamat\u00f3rios de Manha,<br \/>\nde Gonzaga.<\/p>\n<p>Um amigo, que ia visit\u00e1-lo, n\u00e3o se animou a tocar a campainha, intimidado<br \/>\npor aquela gritaria, e desgalgou a escada, benzendo-se. A criada bispou-o<br \/>\ne foi logo contar o fato \u00e0 senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Pois de hoje em diante quero a porta da rua fechada, enquanto durar a declama\u00e7\u00e3o,<br \/>\nordenou Filomena; e, a partir desse momento, fechavam-se sempre ao meio-dia<br \/>\ne ca\u00edam no recitativo.<\/p>\n<p>Filomena, que tinha muitos versos de mem\u00f3ria, lembrou-se de dialogar com<br \/>\no marido as poesias mais pr\u00f3prias para isso. Depois veio-lhe a id\u00e9ia de recorrer<br \/>\n\u00e0s trag\u00e9dias de Gon\u00e7alves Dias e fazer a coisa mais ao vivo; tomando cada<br \/>\num o traje e o caracter\u00edstico que exigia o papel.<\/p>\n<p>&#8211; Queres saber de uma coisa?!&#8230; disse ela afinal. O verdadeiro \u00e9 arranjarmos<br \/>\num teatro.<\/p>\n<p>O Borges levou as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Um teatro! Pois eu tenho de representar?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E que h\u00e1 nisso de extraordin\u00e1rio?&#8230; Na Europa o teatro em fam\u00edlia \u00e9 um<br \/>\ndivertimento da melhor sociedade. Convidam-se algumas pessoas para nos ajudar<br \/>\n&#8211; o Barradinhas, por exemplo, serve, que tem muito jeito. V\u00ea-se tamb\u00e9m o Chico<br \/>\nSerra, Gon\u00e7alves, o Morais, chama-se a vi\u00fava Perdig\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A vi\u00fava Perdig\u00e3o?!&#8230; perguntou o marido, sentindo um arrepio.<\/p>\n<p>&#8211; Sim! h\u00e1 de dar uma excelente dama central. E muito desembara\u00e7ada e tem<br \/>\ngra\u00e7a. Enfim, n\u00e3o faltar\u00e1 quem nos ajude. O teatro pode ser na ch\u00e1cara; estende-se<br \/>\nmais aquele pavilh\u00e3o que l\u00e1 est\u00e1 e rouba-se um pouco do jardim para a plat\u00e9ia.<\/p>\n<p>O Borges ainda tentou algumas obje\u00e7\u00f5es; mas no dia seguinte vieram os trabalhadores,<br \/>\ne as obras principiaram.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>IV &#8211; VEREMOS QUEM VENCE<\/h2>\n<p>Foi esse um tempo magn\u00edfico para Filomena; vivia muito entretida com a constru\u00e7\u00e3o<br \/>\nde seu teatrinho. Era ela pr\u00f3pria quem dirigia as obras; quem arranjava os<br \/>\ndesenhos decorativos da sala e do frontisp\u00edcio; quem administrava e conduzia<br \/>\nos trabalhos do cen\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Quinze dias depois, estava em ensaios a primeira pe\u00e7a. A casa tomou um car\u00e1ter<br \/>\nbo\u00eamio de atelier; encheu-se de amadores dram\u00e1ticos, de m\u00fasicos. Havia certo<br \/>\nmovimento, certa agita\u00e7\u00e3o alegre, feita de conversas em voz alta, de risadas,<br \/>\nde afina\u00e7\u00f5es de instrumentos. Viam-se carpinteiros, de cachimbo ao canto da<br \/>\nboca, trabalhando e cantarolando em mangas de camisa; panos enormes, estendidos<br \/>\nno ch\u00e3o, cobertos de tinta; costureiras, aderecistas, oper\u00e1rios de todos os<br \/>\ng\u00eaneros, a entrar e a sair, numa atividade ruidosa.<\/p>\n<p>O Borges andava muito atrapalhado com tudo aquilo, e principalmente com o<br \/>\nseu papel.<\/p>\n<p>&#8211; Ora que diabo me havia agora de cair na cabe\u00e7a!&#8230; dizia ele consigo. Eu<br \/>\nnunca tive queda para ator. Esta s\u00f3 a mim sucede!<\/p>\n<p>Mas a pe\u00e7a ficou ensaiada; expediram-se os convites, e no dia do espet\u00e1culo<br \/>\no teatrinho de Filomena encheu-se de amigos.<\/p>\n<p>O Barradinhas era o melhor dos curiosos, e fazia de gal\u00e3. Devia ir muito<br \/>\nbem; tinha enorme talento para a cena; &#8220;uma figura de arrebatar&#8221;! Bonito,<br \/>\ncabelos crespos e uma voz &#8220;que nem um tenor italiano&#8221;! Filomena representava<br \/>\na sua amante; ele ca\u00eda-lhe aos p\u00e9s, v\u00e1rias vezes, e dizia-lhe longas frases<br \/>\nretoricamente apaixonadas.<\/p>\n<p>O Borges \u00e9 que n\u00e3o ficava muito satisfeito com a hist\u00f3ria. &#8211; Ele, para que<br \/>\no havia de negar?&#8230; n\u00e3o morria de amores por &#8211; aquele g\u00eanero de divertimento!&#8230;<\/p>\n<p>E cuidava muito mais em vigiar o gal\u00e3 do que em estudar o seu papel. Pode<br \/>\nser que se enganasse&#8230; mas ia jurar que aquele pelintra n\u00e3o tinha por ali<br \/>\nmuito boas inten\u00e7\u00f5es!&#8230; Ah! ele sabia perfeitamente que a mulher n\u00e3o era<br \/>\ndas mais f\u00e1ceis&#8230; (Oh! se sabia!) n\u00e3o estava, por\u00e9m, em suas m\u00e3os afastar<br \/>\nos olhos de cima do tal gal\u00e3! Era l\u00e1 uma cisma!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m! Pobrezinho dele, se me cai na arara de tentar alguma! jurava o<br \/>\nmestre de obras. Racho-o de meio a meio!<\/p>\n<p>E &#8211; rachava. Mas o bonito curioso, bem a contragosto, n\u00e3o tinha achado ainda<br \/>\numa boa ocasi\u00e3o para dizer em particular a Filomena o que lhe repetia todos<br \/>\nos dias, ajoelhado a seus p\u00e9s, defronte do marido. Por v\u00e1rias vezes estivera<br \/>\nat\u00e9 &#8220;vai-n\u00e3o-vai&#8221;, chegara a supor que a coisa se decidia; mas o diabo do<br \/>\nBorges apresentava-se de repente, e&#8230; l\u00e1 se ia a ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Por ela, coitada! estou garantido! considerava o Barradinhas, pensando<br \/>\nnos olhares prometedores de Filomena. Est\u00e1 ca\u00eddinha! Assim dispusesse eu de<br \/>\num momento!&#8230; N\u00e3o queria mais que um momento!&#8230; Dizer-lhe uma palavra; entregar-lhe<br \/>\numa carta; fazer-lhe um sinal &#8211; bastava!<\/p>\n<p>Mas o dem\u00f4nio do marido nem isso permitia!<\/p>\n<p>A peste n\u00e3o fazia outra coisa sen\u00e3o vigiar a mulher! &#8211; Cacete!<\/p>\n<p>Chegou o dia do espet\u00e1culo, sem que o Barradinhas tivesse oportunidade de<br \/>\nouvir dos l\u00e1bios de Filomena aquilo que havia tanto tempo diziam os olhos<br \/>\nindiscretos da formosa criatura.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 para ma\u00e7ar! pensava ele indignado. \u00c9 para fazer um homem perder a paci\u00eancia!<br \/>\nSei que sou amado por uma mulher que adoro; caio-lhe aos p\u00e9s, tomo-lhe as<br \/>\nm\u00e3os, bebo-lhe nos olhos a confiss\u00e3o de sua ternura, &#8211; e, a despeito de tudo<br \/>\nisso, n\u00e3o consigo estar com ela um s\u00f3 instante; porque essa mulher tem um<br \/>\nmarido imposs\u00edvel, um marido \u00fanico, um marido que n\u00e3o a larga, um marido que<br \/>\nn\u00e3o vai cuidar de seus neg\u00f3cios, um marido-calamidade! Diabo leve quem inventou<br \/>\nsemelhante homem!<\/p>\n<p>E o lindo curioso dram\u00e1tico, quando fazia esses racioc\u00ednios, ficava col\u00e9rico,<br \/>\nfurioso, a passear no lugar em que estivesse, com as m\u00e3os nos bolsos, o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\noprimido como por uma injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! ela ser\u00e1 minha! Isso juro eu! Para que serve ent\u00e3o ter talento e ser<br \/>\nmo\u00e7o e bonito?&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>\u00c0s oito horas da noite estava o teatrinho completamente cheio; a orquestra<br \/>\nhavia j\u00e1 tocado a sua sinfonia, e esperava o sinal para lan\u00e7ar a m\u00fasica com<br \/>\nque tinha de principiar a pe\u00e7a. Corria nos espectadores um suspiro de impaci\u00eancia.<br \/>\nFilomena, nervosa, tr\u00eamula, esperava atr\u00e1s de um bastidor que o pano subisse,<br \/>\npara mostrar-se ao p\u00fablico, espl\u00eandida na sua roupa de car\u00e1ter, com o seu<br \/>\npapel na ponta da l\u00edngua. O contra-regra corria de um para outro lado, perguntando<br \/>\nse todos estavam prontos e declarando que ia principiar o espet\u00e1culo. &#8220;Fora<br \/>\nde cena! Fora de cena!&#8221; O ponto correu a esconder-se no seu buraco. E, na<br \/>\nconfus\u00e3o que se fazia na caixa, cada um tratou de tomar o seu lugar. Mas ningu\u00e9m<br \/>\nsabia dar not\u00edcias do Borges.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, onde diabo se foi meter este homem?!&#8230; perguntou o contra-regra,<br \/>\naflito.<\/p>\n<p>Por esse tempo, o Barradinhas, que vira Filomena pela primeira vez sem o<br \/>\nmarido, meio oculta no v\u00e3o sombrio de um bastidor, concebeu logo a id\u00e9ia de<br \/>\naproveitar a ocasi\u00e3o; deu uma volta pelo fundo da caixa, e, surgindo misteriosamente<br \/>\npor detr\u00e1s dela, ia a segurar-lhe a cintura e ferrar-lhe um beijo, quando<br \/>\na bela mulher vira-se de s\u00fabito, recua dois passos e solta em cheio no lindo<br \/>\nrosto do gal\u00e3 a mais sonora bofetada.<\/p>\n<p>O regente, supondo ser aquela palmada o sinal que ele esperava, rompeu a<br \/>\norquestra, o pano ergueu-se logo, e os espectadores viram o seguinte:<\/p>\n<p>Filomena, sem poder conter as gargalhadas, torcia-se num div\u00e3o; o Barradinhas,<br \/>\nvestido de cal\u00e7\u00e3o e meia, procurava uma sa\u00edda, perseguido pelo Borges, que,<br \/>\nem mangas de camisa e botas, de montar, numa cabeleira a escapar-lhe pelo<br \/>\npesco\u00e7o, cercava-o por toda a parte, a dordejar bengaladas. No meio do palco<br \/>\numa das amadoras escabujava com um ataque de nervos, entre o grupo assustado<br \/>\ndos curiosos, que iam e vinham, num fluxo e refluxo de encontr\u00f5es promovidos<br \/>\npelo Borges.<\/p>\n<p>O p\u00fablico, defronte daquela cena t\u00e3o agitada e t\u00e3o ao vivo, tomou a resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde aplaudir; enquanto o dono da casa, repetindo as bengaladas, bramia possesso:<\/p>\n<p>&#8211; Pensava que eu n\u00e3o te via, grande velhaco? N\u00e3o sabias que trago h\u00e1 muito<br \/>\na pulga atr\u00e1s da orelha, grande maroto?!<\/p>\n<p>O Borges, com efeito, n\u00e3o perdera de vista o gal\u00e3, na ocasi\u00e3o em que se vestia<br \/>\nno camarim, farejou-lhe os planos e tanto bastou para ir, munido de bengala,<br \/>\nesconder-se sorrateiramente perto da mulher, por detr\u00e1s de uma empanada, sem<br \/>\nmais pensar no drama, e surdo completamente aos reclamos do contra-regra.<\/p>\n<p>Entretanto, o Barradinhas, vendo que n\u00e3o conseguia fugir pelos fundos do<br \/>\nteatro, arremessa-se sobre a orquestra, salta por cima dos rabequistas, enfia<br \/>\npela plat\u00e9ia e ganha a ch\u00e1cara, e afinal a rua, onde se lan\u00e7ou de carreira,<br \/>\nna frente do populacho, que a sua estranha roupa de veludo chamava e atra\u00eda.<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil acrescentar que este fato cortou pela raiz a id\u00e9ia das representa\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne induziu o Borges a fazer um bom conceito da mulher. Esta circunst\u00e2ncia em<br \/>\nparte o consolou de seus duros infort\u00fanios; mas&#8230; desgra\u00e7ado! uma nova prova\u00e7\u00e3o<br \/>\nj\u00e1 o esperava.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Filomena descobriu que o Urso lhe fazia mal aos nervos, e declarou positivamente<br \/>\nn\u00e3o estar disposta a sofrer em casa semelhante bicho.<\/p>\n<p>&#8211; Por\u00e9m, que mal te fez o pobre c\u00e3o?&#8230; perguntou o Borges, sobressaltado<br \/>\ncom a id\u00e9ia de separar-se daquele fiel amigo de tanto tempo.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! respondeu ela. \u00c9 um animal feio! feio, e est\u00e1 sempre a pregar-me sustos!<br \/>\nAinda n\u00e3o h\u00e1 dois dias, achava-me eu descuidada na sala de jantar, quando<br \/>\no maldito surge-me pelas costas. N\u00e3o imaginas que susto apanhei! Demais, s\u00f3<br \/>\ngosto dos c\u00e3es em certas e muitas determinadas circunst\u00e2ncias: &#8211; como acess\u00f3rio<br \/>\npitoresco de uma paisagem, n\u00e3o s\u00e3o maus; na qualidade de guia de cego, ao<br \/>\nlongo da rua, num dia chuvoso, tamb\u00e9m n\u00e3o desgosto; ou ent\u00e3o dentro de casa<br \/>\nnum gabinete de trabalho &#8211; um c\u00e3ozinho felpudo, asseiado, muito gordinho,<br \/>\num king-charles esquecido sobre as cadeiras &#8211; tem sua gra\u00e7a. Mas o Urso n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 em nenhum desses casos; \u00e9 um c\u00e3o detest\u00e1vel, feio, sem pitoresco, sem<br \/>\nraz\u00e3o de ser, sem p\u00e9s nem cabe\u00e7a de c\u00e3o; parece um monstro, \u00e9 grande de mais,<br \/>\n\u00e9 bruto, n\u00e3o se lhe v\u00eaem os olhos, n\u00e3o vai bem em parte alguma; t\u00e3o mal fica<br \/>\nsobre o tapete da sala, como sobre a grama da ch\u00e1cara! Al\u00e9m disso, enche-me<br \/>\na casa de pulgas e tem uma morrinha insuport\u00e1vel! Se soubesses como ficas<br \/>\nrepulsivo depois de brincar alguns instantes com ele!&#8230;<\/p>\n<p>Esta \u00faltima considera\u00e7\u00e3o resolveu o Borges a separar-se do querido Urso.<br \/>\nMand\u00e1-lo-ia para a casa de um amigo, morador do Engenho Novo, visto que na<br \/>\nocasi\u00e3o n\u00e3o dispunha em Paquet\u00e1 de algu\u00e9m que se pudesse encarregar disso.<\/p>\n<p>Foi com os olhos cheios d&#8217;\u00e1gua que o bom homem viu no dia seguinte partir<br \/>\no seu fiel companheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Vai! disse consigo. Vai, meu pobre Urso! N\u00e3o contavas naturalmente que<br \/>\neu te enxotasse de casa, como se enxotam os Guterres e os Barradinhas &#8211; tu!<br \/>\nque sempre foste bom e verdadeiro!<\/p>\n<p>&#8211; Pobre animal! pobre animal! dizia o Borges, fechando-se no quarto. Como<br \/>\ntudo se vai transformando em minha vida! J\u00e1 n\u00e3o possuo os meus dois melhores<br \/>\namigos, os \u00fanicos que me restavam &#8211; o Barroso e o Urso!<\/p>\n<p>E chorava. O Barroso fora o seu companheiro de inf\u00e2ncia, em Paquet\u00e1. Principiaram<br \/>\na vida trabalhando no mesmo servi\u00e7o e \u00e0s ordens do mesmo patr\u00e3o, pois que<br \/>\no Barroso era neste tempo caixeiro do pai de Borges; antes do casamento, nunca<br \/>\ntinham tido a mais ligeira rusga &#8211; foram sempre unha com carne, unidos &#8211; insepar\u00e1veis;<br \/>\nmas depois&#8230; esfriaram, nunca mais se deram, e por conseguinte s\u00f3 restava<br \/>\no outro &#8211; o Urso, o fiel, o sempre o mesmo, o \u00fanico que lhe n\u00e3o fazia recrimina\u00e7\u00f5es!&#8230;<\/p>\n<p>E agora era este que se ia tamb\u00e9m&#8230; talvez para sempre! Oh! quantas vezes<br \/>\nn\u00e3o passaram juntos, horas esquecidas, como dois iguais!&#8230; Com que prazer<br \/>\no Borges, ao voltar do trabalho, n\u00e3o recebia no ombro as patas do companheiro<br \/>\ne n\u00e3o lhe corria a m\u00e3o pelo enorme lombo felpudo?&#8230;<\/p>\n<p>Ah! Mas ele, sem que Filomena o soubesse, havia de ir visit\u00e1-lo, pelo menos<br \/>\nduas vezes em cada m\u00eas.<\/p>\n<p>E desde ent\u00e3o, efetivamente, o Borges, quando lhe apertavam as saudades do<br \/>\nUrso, metia-se no trem e l\u00e1 ia passar com ele alguns instantes. &#8211; Que id\u00edlios<br \/>\nnessas curtas visitas clandestinas! Que festas n\u00e3o trocavam entre si os dois<br \/>\namigos!<\/p>\n<p>O animal parecia compreender aquela afei\u00e7\u00e3o do Borges, porque, mal o via<br \/>\napontar ao longe, disparava a correr para ele, grunhindo, a sacudir a cauda,<br \/>\na fazer-lhe nega\u00e7as, a cerc\u00e1-lo, a pular, a morder-lhe os calcanhares, num<br \/>\nalvoro\u00e7o de prazer. Mas um belo dia em que o mestre de obras foi visit\u00e1-lo,<br \/>\ndisseram-lhe que o dono da casa havia na v\u00e9spera fugido aos credores, e ningu\u00e9m<br \/>\nsabia dar not\u00edcias dele, e muito menos do Urso.<\/p>\n<p>O Borges voltou muito triste, e assim se conservou durante o resto do dia.<br \/>\nA mulher veio a saber a causa dessas m\u00e1goas, e, para o consolar, tomou-lhe<br \/>\na cabe\u00e7a, entre as m\u00e3os e deu-lhe um beijo em plena boca; mas fugiu logo,<br \/>\ndeixando o marido na doce esperan\u00e7a de ver terminar ali as suas prova\u00e7\u00f5es<br \/>\ne com elas o longo supl\u00edcio de T\u00e2ntalo, que o devorava.<\/p>\n<p>Assim n\u00e3o sucedeu.<\/p>\n<p>Nem s\u00f3 o trinco permanecia corrido, como a paix\u00e3o de Filomena pelas festas<br \/>\ne pelos requintes de luxo exacerbara-se de um modo assustador. Agora, n\u00e3o<br \/>\nse passava um dia, uma hora, que lhe n\u00e3o acudissem novos meios de gastar &#8220;carradas<br \/>\nde contos&#8221;. Ela quis carruagens, parelhas de ra\u00e7a, lacaios gordos \u00e0 moda parisiense,<br \/>\ngrooms de cara raspada, que servissem o ch\u00e1 de gravata branca e casaca; quis<br \/>\nas esquisitices do gosto, os S\u00eavres, as sedas de Macau, os m\u00f3veis caprichosos<br \/>\ne as j\u00f3ias empobrecedoras para quem as d\u00e1.<\/p>\n<p>O Borges principiava a temer uma ru\u00edna. Ele era rico&#8230; mas; afinal, que<br \/>\ndiabo! n\u00e3o tinha \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o as \u00cdndias Inglesas! Daquele modo onde iriam<br \/>\nparar?&#8230; Verdade \u00e9 que ultimamente, instigado pela mulher, que desejou sentir<br \/>\nas como\u00e7\u00f5es comerciais, arriscara na Bolsa grandes quantias que lhe trouxeram<br \/>\nlucros consider\u00e1veis.<\/p>\n<p>Mas a fortuna tamb\u00e9m cansa! refletia o capitalista. E se me desanda a roda,<br \/>\nposso dar com os burros n&#8217;\u00e1gua.<\/p>\n<p>Por esse tempo exercitava-se ele no bilhar. J\u00e1 sabia tomar grogs, dizer mal<br \/>\ndos cantadores do l\u00edrico, e perder dinheiro nas corridas do Prado.<\/p>\n<p>&#8211; Contudo, ainda te falta uma coisa, observou-lhe a mulher uma vez em que<br \/>\nele queria valer os seus progressos.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda! Qual?<\/p>\n<p>&#8211; Um t\u00edtulo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas para que um t\u00edtulo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o posso compreender um homem sem qualquer distin\u00e7\u00e3o. Um t\u00edtulo serve<br \/>\npara disfar\u00e7ar a nulidade do nome. Creio que n\u00e3o ter\u00e1s a pretens\u00e3o de imaginar<br \/>\nque possu\u00eds um nome!<\/p>\n<p>&#8211; Como assim?! Pois eu n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Teu nome n\u00e3o existe; n\u00e3o tens uma individualidade, n\u00e3o tens por onde te<br \/>\npossas distinguir dos outros! Se se disser o &#8211; Jo\u00e3o Borges &#8211; \u00e9 como se se<br \/>\ndissesse o &#8211; Jos\u00e9 da Silva; ningu\u00e9m sabe quem \u00e9, ningu\u00e9m conhece!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, filha, cada um \u00e9 conhecido na sua roda. Eu sou conhecido na pra\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que pra\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A pra\u00e7a do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! fez a mulher com desd\u00e9m &#8211; isso n\u00e3o \u00e9 ser conhecido; ainda se fosse<br \/>\nna pra\u00e7a p\u00fablica, v\u00e1!<\/p>\n<p>O Borges fez um gesto severo.<\/p>\n<p>&#8211; Se tivesse talento, acrescentou a mulher, lan\u00e7ar-te-ias na literatura,<br \/>\nou na pol\u00edtica, ou no teatro, ou na guerra de qualquer pa\u00eds. Mas nem \u00e9 bom<br \/>\npensar nisso! Tuas ambi\u00e7\u00f5es limitam-se a uma patente da guarda-nacional, a<br \/>\numa faixa de subdelegado ou \u00e0 presid\u00eancia de alguma irmandade religiosa; coisinhas<br \/>\nque eu abomino, como a express\u00e3o mais chata e mais rid\u00edcula da estupidez burguesa!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, filha, nem eu sou subdelegado, nem nunca prestei servi\u00e7o \u00e0 guarda-nacional;<br \/>\ne, desde que torceste o nariz \u00e0s irmandades, nunca mais aceitei cargos, tanto<br \/>\nda ordem de Nossa Senhora da Candel\u00e1ria, como do Sacramento e da de S. Francisco!<\/p>\n<p>&#8211; Grande f\u00faria! exclamou a mulher. O que sei \u00e9 que n\u00e3o tens um t\u00edtulo, e<br \/>\n\u00e9 preciso que o tenhas!<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 o que menos custa! disse o Borges. &#8211; Serei comendador, arranjarei<br \/>\na comenda da Rosa!<\/p>\n<p>&#8211; Comendador! Est\u00e1s doido! Isso n\u00e3o \u00e9 um t\u00edtulo! Eu s\u00f3 aceito de bar\u00e3o para<br \/>\ncima. Comendador! Comendador todo o mundo o \u00e9! Ora, comendador! Com efeito!<\/p>\n<p>&#8211; E se eu arranjar um baronato? Hem?! Se eu o arranjar, prometes ser mais<br \/>\ncondescendente?&#8230;<\/p>\n<p>Filomena respondeu passando-lhe os bra\u00e7os em volta do pesco\u00e7o, e dando-lhe<br \/>\num beijo na face.<\/p>\n<p>&#8211; Pois juro-te que ser\u00e1s baronesa ou coisa que o valha. Hoje tudo isso se<br \/>\nobt\u00e9m com muita facilidade do governo portugu\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas receio a demora! volveu Filomena. Ardo de impaci\u00eancia por ser alguma<br \/>\ncoisa &#8211; baronesa! condessa! viscondessa! oh! como \u00e9 bonito! como \u00e9 po\u00e9tico.<br \/>\n&#8220;A Sra. condessa quer se dar ao inc\u00f4modo de entrar?&#8230; A Sra. baronesa j\u00e1<br \/>\nse retira?&#8230;&#8221; Oh! ~ excelente! ~ encantador! Lamento apenas n\u00e3o ter me lembrado<br \/>\ndisto h\u00e1 mais tempo; a estas horas pod\u00edamos estar j\u00e1 no gozo do titulo! Receio<br \/>\na demora!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; talvez n\u00e3o demore muito, Sra. viscondessa! disse o marido galhofeiramente,<br \/>\ntomando as m\u00e3os da mulher.<\/p>\n<p>&#8211; E se f\u00f4ssemos a Portugal tratar disso?&#8230; lembrou ela. Ainda n\u00e3o fizemos<br \/>\numa viagem!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois vamos l\u00e1 a Portugal! disse o Borges.<\/p>\n<p>E ficou resolvido que partiriam, logo que estivessem dadas as provid\u00eancias<br \/>\nnecess\u00e1rias para a compra do t\u00edtulo.<\/p>\n<p>Durante o resto desse dia, Filomena mostrou-se muito chegada ao marido. \u00c0<br \/>\nnoite, \u00e0s costumadas visitas, n\u00e3o se cansaram de falar na pr\u00f3xima viagem.<br \/>\nBorges estava radiante, a mulher nunca o tratara t\u00e3o carinhosamente. Os amigos<br \/>\nchegavam a estranh\u00e1-lo. Abriram-se garrafas de um Tokai magn\u00edfico, que o futuro<br \/>\ntitular recebia diretamente da Hungria, e o mestre de obras bebeu entusiasmado<br \/>\n\u00e0 sua felicidade.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 agora! dizia consigo esfregando as m\u00e3os. \u00c9 agora que se decide o neg\u00f3cio!<\/p>\n<p>Mas o ferrolho ainda n\u00e3o se abriu dessa vez.<\/p>\n<p>&#8211; Pois veremos quem vence, exclamou ele, atirando-se furioso na sua cama<br \/>\nde solteiro. Ou eu conseguirei, quanto antes, entrar naquele quarto, ou leva<br \/>\ntudo o diabo nesta casa! Arre! Nem sei at\u00e9 o que me parece semelhante coisa!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de dormir o pouco que lhe restava da madrugada, e, mal surgiam no horizonte<br \/>\nos primeiros raios do dia, j\u00e1 o Borges estava de p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Cec\u00edlia! gritou ele, vendo passar a criada por defronte da porta do seu<br \/>\nquarto. Espere a\u00ed, que tenho o que lhe dizer.<\/p>\n<p>A criada fez um gesto de surpresa, vendo o marido de sua ama t\u00e3o sobressaltado.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 uma boa rapariga! principiou ele. \u00c9 fiel, bem procedida e diligente!&#8230;<\/p>\n<p>Cec\u00edlia olhou-o espantada.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sempre tive boas inten\u00e7\u00f5es a seu respeito, continuou o Borges. Minha<br \/>\nmulher est\u00e1 satisfeit\u00edssima com o seu servi\u00e7o!<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o bondades&#8230; balbuciou a rapariga, abaixando os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! A verdade diz-se!&#8230; Sou-lhe grato, sou! Para que negar?&#8230; e fique<br \/>\nsabendo que hei de ajud\u00e1-la no seu casamento!&#8230;<\/p>\n<p>A fisionomia da criada iluminou-se, e, sem dizer palavra, ela p\u00f4s-se a torcer<br \/>\ne destorcer o seu avental de algod\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Sei das suas inten\u00e7\u00f5es com o Roberto, e estimo que se casem. Pode contar<br \/>\ncom o enxoval!<\/p>\n<p>Cec\u00edlia quis beijar-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem que agradecer. Olhe! guarde isto para comprar um vestido novo.<\/p>\n<p>E o Borges meteu-lhe nos dedos uma nota de vinte mil r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! meu rico amo! exclamou ela com os olhos \u00famidos de como\u00e7\u00e3o &#8211; como vocemec\u00ea<br \/>\n\u00e9 bom! Eu e mais o Roberto havemos de lhe agradecer por toda a vida!<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem! disse o Borges, mas preciso que voc\u00ea me preste um servi\u00e7o, um<br \/>\npequeno servi\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Cec\u00edlia adiantou-se mais, cheia de solicitude.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 quase nada!<\/p>\n<p>E abaixando a voz depois de olhar cautelosamente para os lados:<\/p>\n<p>&#8211; Desejo penetrar hoje no quarto de minha mulher.<\/p>\n<p>A criada recuou estupefata. Agora o seu rico amo lhe parecia simplesmente<br \/>\ndoido. Que diabo queria dizer aquilo?!&#8230;<\/p>\n<p>O Borges compreendeu o espanto da rapariga e disfar\u00e7ou:<\/p>\n<p>&#8211; Sim; sim! N\u00e3o era uma simples quest\u00e3o de l\u00e1 ir!&#8230; Isso seria o menos.<br \/>\nPuf!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o? animou-se a perguntar Cec\u00edlia.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 que eu queria entrar sem que minha mulher contasse comigo, percebe?&#8230;<\/p>\n<p>A criada fez-se vermelha.<\/p>\n<p>&#8211; Vosmec\u00ea ent\u00e3o desconfia de minha ama?! Que aleive, meu Deus! Uma injusti\u00e7a<br \/>\nassim! Desconfiar de uma senhora que \u00e9 mesmo um anjo! Uma senhora que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o \u00e9 isso, filha! Quem lhe falou aqui em desconfian\u00e7a?! Ningu\u00e9m desconfia<br \/>\nde sua ama. Est\u00e1 a tomar o pi\u00e3o \u00e0 unha! &#8211; ningu\u00e9m conhece melhor minha mulher<br \/>\ndo que eu!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! respirou a criada, credo! at\u00e9 me deu uma coisa na boca do est\u00f4mago!<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 claro que sua ama, nesse sentido, \u00e9 o beijinho das esposas! N\u00e3o tenho<br \/>\nque me queixar, gra\u00e7as a Deus! Mas eu queria l\u00e1 ir, sem que ela me esperasse;<br \/>\npercebe? \u00c9 uma fantasia como outra qualquer!&#8230; Vocemec\u00ea nem tem que se comprometer<br \/>\ncom isso&#8230; Ela, no fim de contas, \u00e9 minha mulher, que diabo!<\/p>\n<p>&#8211; Meu amo quer que eu lhe arranje a chave do quarto?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Isso n\u00e3o adianta nada! Ela tem um ferrolho, fechadinho por dentro.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 exato, \u00e9! disse a criada, lembrando-se de j\u00e1 ter visto o tal ferrolho.<\/p>\n<p>&#8211; Pois a\u00ed \u00e9 que bate o ponto! Trata-se de arranjar os modos de abri-lo por<br \/>\ndentro, sem que ela o saiba, compreende?<\/p>\n<p>A criada ficou a pensar. Mas para que exigia o amo semelhante coisa?&#8230; A<br \/>\nsenhora podia ficar massada e voltar-se contra ela!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenha receio! disse o Borges. Eu respondo por tudo! Valha-me Deus!<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 nenhum crime querer um homem entrar no quarto da sua mulher!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vocemec\u00ea ent\u00e3o promete?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que a n\u00e3o deixo ficar mal? Ora! nem tem que saber!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o e isso&#8230; digo: ajudar-me no meu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; No seu casamento?&#8230; Pode ir descansada, contanto que arranje o que lhe<br \/>\ndisse.<\/p>\n<p>Ficou assentado que Cec\u00edlia nessa noite se esconderia no quarto da senhora,<br \/>\ne, quando esta j\u00e1 estivesse dormindo, abriria cautelosamente o tal ferrolho,<br \/>\nque ela, por cautela, untaria previamente com azeite. E se a criada guardasse<br \/>\nbem o segredo de tudo isso, nem s\u00f3 teria o seu enxoval prometido, como ainda<br \/>\nhavia de chimpar um par de brincos \u00e0 moda.<\/p>\n<p>&#8211; Mas veja l\u00e1 agora se vai dar com a l\u00edngua nos dentes!&#8230;<\/p>\n<p>Foram as \u00faltimas palavras de Borges.<\/p>\n<p>A criada saiu dali para ir ter com o Roberto.<\/p>\n<p>&#8211; Esta noite n\u00e3o te posso aparecer sen\u00e3o mais tarde, disse-lhe ao v\u00ea-lo.<br \/>\nTenho que ficar no quarto da senhora.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 alguma novidade?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! \u00c9 c\u00e1 uma coisa. \u00c9 c\u00e1 um neg\u00f3cio com o patr\u00e3o! &#8211; E ria-se. &#8211; Eu n\u00e3o<br \/>\nte posso dizer mais nada!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e9! Ent\u00e3o, \u00e9 coisa de segredo?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estou a dizer que \u00e9, homem!<\/p>\n<p>&#8211; Segredo! Voc\u00ea tem segredos com o patr\u00e3o?!<\/p>\n<p>&#8211; Mau, que me tomas o p\u00e1ssaro no ar! Eu nada tenho com o patr\u00e3o! Tenho \u00e9<br \/>\nde ficar no quarto da senhora!<\/p>\n<p>Roberto mordeu a ponta do bigode:<\/p>\n<p>&#8211; Tu premeditas alguma, raio de uma peste! J\u00e1! dessem bucha p&#8217;r&#8217;a\u00ed, se n\u00e3o<br \/>\nqueres que eu te fa\u00e7a falar por outro modo!<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9, que eu n\u00e3o te posso dizer nada! S\u00f3 o que te afian\u00e7o, \u00e9 que as coisas<br \/>\nv\u00e3o mudar de figura! N\u00e3o tens mais raz\u00e3o de demorar o nosso casamento; o amo<br \/>\ncai com o enxoval e ainda com uma ajuda de custas! Hem? que te parece?<\/p>\n<p>&#8211; Parece que tudo isso me cheira a patifaria! Donde saiu agora essa bondade<br \/>\ndo patr\u00e3o?!<\/p>\n<p>E vendo que a criada n\u00e3o respondia:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tencionas desembuchar, criatura?!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que se dou com a l\u00edngua nos dentes, vai tudo por \u00e1gua a baixo!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, deixa-te de tolices e conta l\u00e1 o que houve! Bem sabes que entre n\u00f3s<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 segredos!<\/p>\n<p>&#8211; E antes houvesse! Mal fiz eu em permitir umas certas coisas antes do casamento!&#8230;<br \/>\nSe n\u00e3o fosse isso, voc\u00ea com certeza n\u00e3o me trataria desse modo, e j\u00e1 teria<br \/>\nme levado \u00e0 Igreja!<\/p>\n<p>O Roberto sacudiu os ombros.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9! fez Cec\u00edlia, muito queixosa. At\u00e9 aqui toda a dificuldade era o enxoval;<br \/>\nvenho dizer-lhe que o patr\u00e3o se encarrega disso, e voc\u00ea, em lugar de despachar-se<br \/>\npor uma vez, ainda me d\u00e1 muxoxos e p\u00f5e-se a desconfiar de mim! Tola fui eu<br \/>\nem ir atr\u00e1s de cantigas! Diabo do traste!<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-te tu de cantigas e vamos ao que interessa!&#8230; Despeja p&#8217;r&#8217;a\u00ed o que<br \/>\nhouve!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o despejo nada! Voc\u00ea n\u00e3o me merece coisa alguma, \u00e9 um velhaco; enquanto<br \/>\neu me fiz tesa, n\u00e3o lhe faltaram maneiras; agora \u00e9 isto que se v\u00ea!&#8230;<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a chorar:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 preciso n\u00e3o possuir um bocado de consci\u00eancia para enganar desta forma<br \/>\numa pobre rapariga, que nunca teve pecha que lhe botassem.<\/p>\n<p>&#8211; Guarda as lam\u00farias para outra ocasi\u00e3o, filha!<\/p>\n<p>&#8211; Pois se \u00e9 como eu digo!&#8230; Ingrato! Se eu n\u00e3o o quisesse tanto, n\u00e3o estava<br \/>\nagora aqui me arreliando!<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-te de asneiras&#8230; fez o criado, passando-lhe por condescend\u00eancia<br \/>\na m\u00e3o na cabe\u00e7a. N\u00e3o te podes queixar &#8211; eu tamb\u00e9m gosto de ti!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim: mas o casamento n\u00e3o ata nem desata! dizia ela, solu\u00e7ando.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! E que ter\u00edamos lucrado n\u00f3s em nos termos j\u00e1 casado?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que ter\u00edamos lucrado! Olha o disparate! Voc\u00ea talvez n\u00e3o lucrasse nada,<br \/>\nmas eu?! Penso nisso todos os dias! At\u00e9 estou mais magra! Lembrar-me s\u00f3 de<br \/>\nque voc\u00ea \u00e9 muito capaz de deixar-me neste estado&#8230; d\u00e1-me venetas de acabar<br \/>\ncom a vida!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o digas asneiras, toleirona! O que tem de ser teu, \u00e0s m\u00e3os te chegar\u00e1!<\/p>\n<p>E depois de beij\u00e1-la, sem carinho:<\/p>\n<p>&#8211; Mas vamos l\u00e1. Conta o que houve entre voc\u00eas, tu e o basbaque do patr\u00e3o!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Prometes guardar segredo?&#8230; perguntou Cec\u00edlia, fazendo por esticar as<br \/>\ncar\u00edcias do noivo!<\/p>\n<p>&#8211; Ora!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, l\u00e1 vai! O patr\u00e3o quer entrar, sem ser esperado, no quarto da patroa!<\/p>\n<p>&#8211; Com que fim?!<\/p>\n<p>&#8211; Sei c\u00e1! Diz ele que \u00e9 uma fantasia como outra qualquer!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas da\u00ed?&#8230; Que diabo tens tu a ver com isso?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois a\u00ed \u00e9 que bate o ponto. A patroa fecha-se por dentro; eu fico escondida<br \/>\nno quarto para abrir a porta ao marido! Creio que aquilo \u00e9 arrufo entre os<br \/>\ndois!<\/p>\n<p>Roberto co\u00e7ou a parte inferior do queixo:<\/p>\n<p>&#8211; Hun-hun! resmungando. N\u00e3o sei, n\u00e3o sei! Queira Deus que essa hist\u00f3ria n\u00e3o<br \/>\nte de na cabe\u00e7a!&#8230; Olha que n\u00e3o se encontram duas casas como esta!&#8230; Isto<br \/>\naqui, filha, vale mais que o c\u00e9u!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora o que! fez a criada. &#8211; N\u00e3o \u00e9 crime introduzir um marido no quarto de<br \/>\nsua mulher!&#8230; Aquilo foi arrufo com certeza; ela n\u00e3o quer dar o bra\u00e7o a torcer;<br \/>\nmas eu que a conhe\u00e7o, sei que n\u00e3o lhe vou cair em desagrado; ao contr\u00e1rio<br \/>\n&#8211; ver\u00e1s como me agradece!<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 l\u00e1 entre voc\u00eas, mulheres, que se entendem! Em todo o caso, \u00e9 bom<br \/>\npensares antes no que vai fazer!<\/p>\n<p>&#8211; Deixa correr o barco por minha conta!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Entretanto, o Borges, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a noite se aproximava, sentia o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\npulsar-lhe com mais for\u00e7a. Ah! desta vez, sem d\u00favida, iam acabar os seus tormentos.<br \/>\nAquele novo plano n\u00e3o poderia falhar!<\/p>\n<p>Namorado algum, dos mais ardentes, palpitou com tanta febre no antegozo de<br \/>\numa aventura. Nunca uma alma apaixonada ansiou tanto pela entrevista de seu<br \/>\nideal; nunca os segundos foram contados com tanta impaci\u00eancia; nunca o momento<br \/>\nsupremo da ventura foi atra\u00eddo com tanta sofreguid\u00e3o.<\/p>\n<p>Borges, assim que viu a casa completamente recolhida, tratou de tirar as<br \/>\nbotas e subiu p\u00e9 ante p\u00e9 ao segundo andar.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode conceber o sobressalto em que ia o pobre homem; tremiam-lhe as<br \/>\npernas; a cabe\u00e7a andava-lhe \u00e0 roda; o sangue aflu\u00eda ao cora\u00e7\u00e3o, que parecia<br \/>\nquerer saltar-lhe pela boca.<\/p>\n<p>&#8211; Filomena j\u00e1 devia ter pegado no sono, ou pelo menos estar adormecendo.<\/p>\n<p>Esperou mais um instante. Nada, por\u00e9m, de aparecer a criada!<\/p>\n<p>Decorreu mais algum tempo &#8211; um quarto de hora, uma hora talvez; ele n\u00e3o o<br \/>\npodia determinar: sua impaci\u00eancia fazia parecer uma noite inteira, uma eternidade.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Como o torturava aquela tardan\u00e7a!<\/p>\n<p>E Cec\u00edlia nada de aparecer; Borges principiava a desesperar. Haveria alguma<br \/>\nnovidade&#8230; Ela teria ido contar tudo \u00e0 senhora? pensou o namorado, rangendo<br \/>\nos dentes e fechando os punhos!<\/p>\n<p>&#8211; Se me tra\u00edste, miser\u00e1vel, ver\u00e1s o que te sucede! Ver\u00e1s o que te sucede!<\/p>\n<p>Mas um rumor quase impercept\u00edvel veio nesse instante do lado do quarto de<br \/>\nFilomena; a porta abriu-se muito de mansinho, e a criada saiu cautelosamente,<br \/>\n\u00e0s apalpadelas, como se n\u00e3o quisesse tocar com os p\u00e9s no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 dormindo?&#8230; perguntou-lhe o Borges em segredo, indo ter com ela.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 respondeu Cec\u00edlia no mesmo tom. Pode entrar. Mas veja se me vai comprometer&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Descansa. A\u00ed tens para os teus alfinetes&#8230;<\/p>\n<p>Deu-lhe mais dinheiro.<\/p>\n<p>A rapariga afastou-se, pensando no pobre noivo, o Roberto, que \u00e0quelas horas<br \/>\nj\u00e1 devia estar farto de esper\u00e1-la; e o Borges, cheio de mil cautelas, penetrou<br \/>\nno quarto perfumado e virginal de sua esposa.<\/p>\n<p>Uma d\u00favida claridade de lamparina aquarelava meias sombras vagas e transparentes<br \/>\nem torno do leito, onde Filomena se aninhava entre nuvens de linho branco.<br \/>\nOuvia-se um respirar tranq\u00fcilo e cadenciado, que vinha da cama.<\/p>\n<p>Quando o marido sentou o primeiro p\u00e9 no tapete da alcova, a mulher estremeceu,<br \/>\nencolhendo-se toda com um suspiro.<\/p>\n<p>Borges retraiu-se maquinalmente, e procurou esconder-se atr\u00e1s do reposteiro<br \/>\nda porta; mas o arfar ansiado de seu peito denunciou-o.<\/p>\n<p>Filomena virou-se em um novo arrepio, e, depois de algum sil\u00eancio, perguntou<br \/>\ncom a voz alterada:<\/p>\n<p>&#8211; Quem est\u00e1 ai?&#8230;<\/p>\n<p>Borges n\u00e3o tugiu nem mugiu.<\/p>\n<p>&#8211; Quem est\u00e1 a\u00ed? N\u00e3o ouve?! tornou ela, erguendo a cabe\u00e7a e fitando a porta.<\/p>\n<p>O marido viu-a levantar a meio, desembara\u00e7ar um bra\u00e7o dos len\u00e7\u00f3is e procurar<br \/>\ntateando alguma coisa na gavetinha do velador; ele, por\u00e9m, n\u00e3o respondeu,<br \/>\ne apenas se traiu por um estalo seco das juntas do joelho.<\/p>\n<p>&#8211; Quem est\u00e1 a\u00ed, fale, com os diabos, se n\u00e3o quer receber uma bala nos miolos!<\/p>\n<p>E engatilhou um rev\u00f3lver, fazendo pontaria ao reposteiro.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>V &#8211; LUTA ABERTA<\/h2>\n<p>&#8211; Sou eu! disse o Borges, correndo para ela. &#8211; N\u00e3o dispares! \u00c9 teu marido!<\/p>\n<p>Filomena, ao senti-lo perto da cama, repeliu a arma e, embrulhando-se no<br \/>\nlen\u00e7ol, saltou pelo lado contr\u00e1rio, prestes a fugir.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sair\u00e1s! gritou o esposo, cortando-lhe a passagem.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 ent\u00e3o uma viol\u00eancia?! perguntou a mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Seja o que for, mas n\u00e3o me escapar\u00e1s desta vez!<\/p>\n<p>&#8211; Socorro! gritou ela. Socor&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de continuar, porque o marido tomara-a nos bra\u00e7os e abafava-lhe com<br \/>\nos beijos a voz.<\/p>\n<p>Filomena debatia-se violentamente; afinal, soltou um grito desesperado, e<br \/>\ncaiu sem sentidos.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, mais esta!&#8230; resmungou o Borges, depondo a mulher sobre um div\u00e3.<br \/>\nFilomena! Filomena! Ent\u00e3o?! Que \u00e9 isso?!<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o respondia.<\/p>\n<p>&#8211; Ora senhores! &#8211; \u00d3 Filoquinha! Anda! Volta a ti!<\/p>\n<p>Filoquinha estrebuchava. Borges correu \u00e0 procura de sais. Acudiram os criados.<br \/>\nCec\u00edlia, aflita, andava de um para outro lado, sem saber que fizesse, a olhar<br \/>\nespavorida para o amo, como quem olha para um bandido.<\/p>\n<p>No entanto, o pobre esposo n\u00e3o sa\u00eda de ao p\u00e9 da mulher. S\u00f3 no fim de meia<br \/>\nhora, esta voltou a si, olhando estranhamente para os lados e a passar a m\u00e3o<br \/>\nrepetidas vezes pela fronte.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! exclamou, dando com o marido. E escondeu o rosto, gritando entre solu\u00e7os<br \/>\n&#8211; que estava perdida, desonrada, chamando-se infeliz, pedindo a morte.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, meu amor, dizia-lhe o marido. Lembra-te de que sou teu esposo! Lembra-te<br \/>\nde que n\u00e3o estou cometendo um crime!<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-me! Deixa-me! respondia Filomena desorientada, em solu\u00e7os. &#8211; Fuja!<br \/>\nRetire-se! J\u00e1! N\u00e3o quero que o vejam aqui! V\u00e1! V\u00e1-se embora! Siga esta mesma<br \/>\nnoite para longe! Saia do Rio de Janeiro! do Brasil! da Am\u00e9rica! Saia, se<br \/>\nn\u00e3o quer que eu lhe de cabo da vida! Infame! Sedutor!<\/p>\n<p>E chorava, desesperada, como se lhe tivesse sucedido uma grande desgra\u00e7a<br \/>\nO marido dizia-lhe palavras de ternura, animando-a; ela, por\u00e9m, n\u00e3o se queria<br \/>\nconformar com a situa\u00e7\u00e3o, e solu\u00e7ava cada vez mais fortemente.<\/p>\n<p>O Borges, afinal, tamb\u00e9m se p\u00f4s a chorar. O dia veio encontr\u00e1-los numa orgia<br \/>\nde l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed tem a minha bela vida de casado!&#8230; dizia ele entre dentes, na ocasi\u00e3o<br \/>\nde abandonar a alcova de sua mulher. Esta, ainda em cima, o queria ver pelas<br \/>\ncostas!&#8230; Que vida a sua! Que vida, santo Deus!<\/p>\n<p>Retirou-se para o seu quarto, desesperado, e atirou-se \u00e0 cama, sem se despir,<br \/>\nsolu\u00e7ando, escondendo o rosto entre os travesseiros.<\/p>\n<p>Ia a pegar no sono, quando foi surpreendido por algu\u00e9m, que chorava e gritava<br \/>\ndesesperadamente ao seu lado.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Era Cec\u00edlia, que acabava de entrar no quarto, dizendo a berros que o Borges<br \/>\nhavia causado a sua desgra\u00e7a; que a senhora pusera-a no olho da rua e que<br \/>\nela, pobre de si! desse momento em diante n\u00e3o tinha onde cair morta! Que o<br \/>\npatr\u00e3o fora a causa \u00fanica de tudo aquilo! Que, infeliz que era! ia separar-se<br \/>\ndo Roberto, do homem destinado a ser seu marido e a quem dera por conta o<br \/>\nseu cora\u00e7\u00e3o e a sua ternura! E que agora&#8230;<\/p>\n<p>Uma explos\u00e3o de solu\u00e7os sufocou-a.<\/p>\n<p>&#8211; Sou muito desgra\u00e7ada! berrava. &#8211; Sou muito desgra\u00e7ada!<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o me amoles tu tamb\u00e9m! gritou o Borges, erguendo-se da cama.<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 que a senhora me despediu!<\/p>\n<p>&#8211; Pois que a despedisse. V\u00e3o todos para o diabo! Eu tamb\u00e9m estou despedido<br \/>\ne n\u00e3o me queixo! Arre!<\/p>\n<p>&#8211; Mas a quest\u00e3o \u00e9 que, se eu me for embora, o Roberto ser\u00e1 muito capaz de&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois o Roberto que se v\u00e1 tamb\u00e9m! Est\u00e1 despedido! Sou eu que o ponho na<br \/>\nrua!<\/p>\n<p>Roberto, que escutava tudo isso atr\u00e1s da porta, entrou por sua vez no quarto<br \/>\ne correu ao patr\u00e3o, implorando-lhe piedade. &#8211; Que seria uma revoltante injusti\u00e7a<br \/>\np\u00f4-lo na rua! Ele! que cumpria t\u00e3o bem com os seus deveres! Ele! que, por<br \/>\namor dos amos, era capaz de ir \u00e0s profundas do inferno! &#8211; Oh! Uma coisa assim<br \/>\nat\u00e9 bradava aos c\u00e9us!<\/p>\n<p>E cada um dos criados agarrou-se a um dos bra\u00e7os do Borges, e principiaram<br \/>\nambos a choramingar, implorando-lhe compaix\u00e3o por tudo que ele mais amasse<br \/>\nnesta vida.<\/p>\n<p>&#8211; Olhem que voc\u00eas me est\u00e3o fazendo um berreiro nos ouvidos! bradou o amo,<br \/>\nquerendo arrancar-se daquela posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Arre! Pois tenho tamb\u00e9m de aturar este par de galhetas?! V\u00e3o para o diabo!<br \/>\nDeixem-me! Deixem-me! S\u00facia de doidos!<\/p>\n<p>E o Borges de um salto agarrou o chap\u00e9u, enterrou-o na cabe\u00e7a, e ganhou em<br \/>\ntr\u00eas pernadas a porta da rua.<\/p>\n<p>&#8211; Safa! Safa! dizia ele a marche marche pela cal\u00e7ada. &#8211; Que inferno! Isto<br \/>\nl\u00e1 \u00e9 vida!<\/p>\n<p>E assim andou at\u00e9 \u00e0s dez horas pela cidade; tonto, sem destino. furioso,<br \/>\na abalroar com todo o mundo, a dar encontr\u00f5es nas quitandeiras, e meter os<br \/>\np\u00e9s no que encontrava, a praguejar, a promover barulhos.<\/p>\n<p>Num restaurante, onde entrou para almo\u00e7ar, \u00e0 primeira r\u00e9plica do servente,<br \/>\natirou-lhe com o sif\u00e3o e fez voar a mesa diante de si com um soco. Um sujeito,<br \/>\nque a recebeu pelas pernas, desafrontou-se, arremetendo contra o Borges o<br \/>\nprato que tinha mais \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>Levantou-se grande desordem, e a coisa teria acabado na pol\u00edcia, se o marido<br \/>\nde Filomena, depois de lan\u00e7ar uma nota de cem mil r\u00e9is ao dono do hotel, n\u00e3o<br \/>\ndistribu\u00edsse v\u00e1rios ponta-p\u00e9s para os lados e n\u00e3o ganhasse a rua, levando<br \/>\nna sua frente todos os obst\u00e1culos que se lhe antepunham.<\/p>\n<p>Chegou \u00e0 casa ao meio-dia, esbaforido, aniquilado, sem querer a presen\u00e7a<br \/>\nde ningu\u00e9m, disposto a fechar-se no quarto e deixar que aquela maldita vida<br \/>\ngirasse em torno dele, como bem entendesse.<\/p>\n<p>Mas o aspecto revolucionado de seu &#8220;lar dom\u00e9stico&#8221; o surpreendeu logo \u00e0 entrada.<br \/>\nTudo estava em reviravolta. Cec\u00edlia e Roberto arrastavam malas, despejavam<br \/>\na roupa dos gavet\u00f5es da c\u00f4moda, empacotavam objetos de uso, acumulavam trouxas.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isto? perguntou o Borges.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora deu-nos ordem de preparar o necess\u00e1rio para uma viagem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Viagem de quem?!<\/p>\n<p>&#8211; Nossa n\u00e3o \u00e9, com certeza, porque n\u00f3s j\u00e1 estamos despedidos<\/p>\n<p>&#8211; Quem vai viajar?! Desembuchem, com os diabos!<\/p>\n<p>&#8211; A senhora, naturalmente; pelo menos esta roupa \u00e9 dela.<\/p>\n<p>Borges subiu ao segundo andar; encontrou a mulher muito tranq\u00fcila, sentada<br \/>\nno div\u00e3, a ler.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora tenha a bondade de explicar que desordem \u00e9 aquela l\u00e1 em baixo?<br \/>\nQue significam aquelas malas, aqueles preparativos de viagem?!<\/p>\n<p>&#8211; O que v\u00ea. Trata-se justamente de uma viagem.<\/p>\n<p>&#8211; Viagem de quem?<\/p>\n<p>&#8211; Minha. Vou, uma vez que o senhor n\u00e3o quis ir. Juntos \u00e9 que n\u00e3o ficaremos<br \/>\npor coisa alguma! N\u00e3o me quero arriscar a uma segunda agress\u00e3o! N\u00e3o posso<br \/>\nficar numa casa, onde n\u00e3o tenho a menor garantia, onde nem o meu quarto de<br \/>\ndormir \u00e9 respeitado!<\/p>\n<p>&#8211; Mas a senhora esquece-se de que \u00e9 minha esposa? A senhora n\u00e3o v\u00ea logo que<br \/>\neu n\u00e3o a deixo sair assim, sem mais nem menos?&#8230;<\/p>\n<p>Filomena ergueu-se em sil\u00eancio, sacudiu os ombros e retirou-se da sala.<\/p>\n<p>O Borges acompanhou-a.<\/p>\n<p>&#8211; Filomena! disse ele.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; A senhora n\u00e3o tencionar\u00e1 acabar com essas coisas por uma vez?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que coisas?<\/p>\n<p>&#8211; Esses caprichos! Ent\u00e3o est\u00e1 sempre resolvida a fazer a viagem?<\/p>\n<p>&#8211; Estou.<\/p>\n<p>&#8211; Pois nesse caso irei tamb\u00e9m! Acompanh\u00e1-la-ei ainda que seja para o inferno.<br \/>\nRoberto! \u00f3 Roberto do diabo! Corre! arranja-me uma mala!<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Nesse caso n\u00e3o irei, disse Filomena, fechando o livro, que tinha entre<br \/>\nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 ent\u00e3o um prop\u00f3sito firme de contrariar-me em tudo?! perguntou o marido,<br \/>\ntr\u00eamulo de raiva.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 que est\u00e1 nesse prop\u00f3sito! Parece que anda inventando meios e<br \/>\nmodos de mortificar-me! \u00c9 bastante que eu mostre gosto em qualquer coisa para<br \/>\no senhor fazer logo justamente o contr\u00e1rio! Isso prova que o senhor n\u00e3o me<br \/>\nama! Que o senhor n\u00e3o deseja ter uma esposa; deseja \u00e9ter uma mulher \u00e0s suas<br \/>\nordens! Animal! Bruto! Est\u00fapido!<\/p>\n<p>E, possu\u00edda de um violento sobressalto de nervos, atirou-se de bru\u00e7os no<br \/>\ndiv\u00e3 a solu\u00e7ar, a morder-se.<\/p>\n<p>Borges correu para junto dela; tomou-a nos bra\u00e7os, f\u00ea-la encostar a cabe\u00e7a<br \/>\nno seu colo, e, com muita ternura, os olhos \u00famidos, come\u00e7ou a acarinh\u00e1-la,<br \/>\na dizer-lhe todas as meiguices que lhe inspirava o amor.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Mas para que havia de se mortificar daquela forma?&#8230; Para que se maltratar<br \/>\nassim? para que nodoar com os dentes aquelas m\u00e3ozinhas t\u00e3o formosas?&#8230; O<br \/>\nfato da v\u00e9spera n\u00e3o justificava semelhante desespero! Se algum dos dois devia<br \/>\nestar ressentido, era ele de certo, porque&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! N\u00e3o! Tu procedeste como um selvagem!,.. Tu foste violento! Tu foste<br \/>\nbrutal!<\/p>\n<p>&#8211; Porque te adoro, minha vida!<\/p>\n<p>&#8211; E juras que me amas?! Juras que n\u00e3o conheces outro ideal, outra preocupa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque n\u00e3o seja eu?! Juras que ser\u00e1s capaz de todos os sacrif\u00edcios por minha<br \/>\ncausa?!<\/p>\n<p>&#8211; Ainda o duvidas?!<\/p>\n<p>&#8211; Bem! Iremos juntos nesse caso; faremos os dois a viagem!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas n\u00e3o \u00e9 bonito, nem h\u00e1 raz\u00e3o para sairmos t\u00e3o precipitadamente!<\/p>\n<p>&#8211; Mau! J\u00e1 principias tu com as obje\u00e7\u00f5es do costume!&#8230; Dessa forma n\u00e3o teremos<br \/>\nnada feito!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, vem c\u00e1, minha santa, \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 a menor necessidade de irmos como<br \/>\ndois criminosos, que fogem \u00e0 justi\u00e7a! Para que havemos de nos sujeitar a umas<br \/>\ncertas coisas, quando, gra\u00e7as a Deus, n\u00e3o nos faltam recursos para termos<br \/>\ntodas as comodidades?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Eu mesmo fa\u00e7o muito caso das comodidades!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas h\u00e1s de confessar que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! meu amigo! se tens medo de sair de teus h\u00e1bitos, o melhor \u00e9 desistirmos<br \/>\nda viagem! Quem quer estar a gosto fica em casa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 isso! n\u00e3o \u00e9 isso! J\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 quem falou! Oh! Tu tamb\u00e9m te espinhas<br \/>\npor qualquer coisa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o, nem mais uma palavra sobre o assunto, e, no primeiro vapor<br \/>\nque sair para a Europa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estamos de partida!<\/p>\n<p>&#8211; Ora muito bem!<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>VI &#8211; PRIMEIRA DESILUS\u00c3O<\/h2>\n<p>N\u00e3o obstante, o Borges ainda n\u00e3o se podia considerar feliz. A mulher, depois<br \/>\nda cena da alcova, tornou-se mais esquiva; enquanto que a paix\u00e3o dele, como<br \/>\nse recebesse um novo impulso, recrudescia de um modo fant\u00e1stico. Mas continuava<br \/>\na ser o seu amante plat\u00f4nico, o seu namorado, disputando um sorriso, um olhar<br \/>\nde ternura, \u00e0 custa de enormes sacrif\u00edcios.<\/p>\n<p>Durante os dias que precederam \u00e0 viagem, o m\u00edsero n\u00e3o fez outra coisa al\u00e9m<br \/>\nde procurar meios engenhosos de seduzir a esposa. Certo de que a viol\u00eancia<br \/>\nn\u00e3o produzia bons resultados, tentou capt\u00e1-la com presentes de grande valor;<br \/>\npunha, a todo momento, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dela, j\u00f3ias car\u00edssimas, cortes de seda<br \/>\ndo que havia de melhor. Depois, desiludido tamb\u00e9m por esse lado, lan\u00e7ou m\u00e3o<br \/>\nde outros recursos &#8211; tentou fascin\u00e1-la com a grandeza, falou-lhe em belas<br \/>\nposi\u00e7\u00f5es sociais, falou no seu t\u00edtulo, que n\u00e3o devia demorar muito; mas, ainda<br \/>\nassim, nada conseguiu: o maldito ferrolho estava, inabal\u00e1vel e frio, como<br \/>\numa lei da natureza.<\/p>\n<p>Ele, por\u00e9m, em vez de sucumbir, redobrava de coragem. Procurou afinar os<br \/>\nseus gostos pelos dela; fazia-se triste, propenso \u00e0s melancolias e aos \u00eaxtases;<br \/>\napertava muito a roupa ao corpo para figurar mais magro: fingia-se poeta &#8211;<br \/>\nroubava os versos dos almanaques, torcendo-lhes os nomes e \u00e0s vezes o sentido,<br \/>\nversos que ele copiava pacientemente durante a madrugada e que deixava, como<br \/>\nesquecidos, no seu escrit\u00f3rio, sobre a pasta, molhados de pingos d&#8217;\u00e1gua, que<br \/>\nrepresentavam l\u00e1grimas arrancadas do cora\u00e7\u00e3o. Outras vezes. quando a via de<br \/>\nbom humor, fazia-se muito estouvado, cheio de rapaziadas, risonho, com fuma\u00e7as<br \/>\nde estroinice fidalga.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que agora se decide o neg\u00f3cio!&#8230; pensava ele esfregando as m\u00e3os<br \/>\n&#8211; desta vez parece que vai.<\/p>\n<p>Efetivamente, se tudo isso n\u00e3o conseguia logo a aboli\u00e7\u00e3o do tal ferrolho,<br \/>\nn\u00e3o deixava, entretanto, de modificar as reservas de Filomena e de faze-la<br \/>\nmais d\u00f3cil e mais chegada ao esposo. Mostrava-se agora muito agradecida \u00e0s<br \/>\nfinezas que dele recebia; mostrava-se am\u00e1vel e prometedora; ao jantar, tocavam<br \/>\nos p\u00e9s por debaixo da mesa; tinham apertos de m\u00e3o ligeiros e assustados, beijinhos<br \/>\nfurtados e longos id\u00edlios ao luar, nos bancos do jardim ou debru\u00e7ados no balc\u00e3o<br \/>\nda mesma janela.<\/p>\n<p>&#8211; A bordo \u00e9 que eu te quero pilhar!&#8230; dizia o Borges de si para si, mentalizando<br \/>\nplanos de ataque. &#8211; A bordo \u00e9 que ser\u00e3o elas!<\/p>\n<p>E tratou de realizar a viagem. A casa ficaria entregue aos criados.<\/p>\n<p>Dias depois embarcavam num paquete franc\u00eas, que seguia para Lisboa.<\/p>\n<p>&#8211; Ora at\u00e9 que afinal!&#8230; considerou ele, quando viu a mulher j\u00e1 instalada<br \/>\nno beliche. &#8211; Ora at\u00e9 que afinal estou livre do maldito&#8230;<\/p>\n<p>E, de fato, pelo seu ar condescendente, por sua linguagem doce e pelas maneiras<br \/>\nde tratar agora o esposo, Filomena parecia muito pouco disposta a morrer de<br \/>\nsaudades pelo ferrolho.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mal, por\u00e9m, come\u00e7ou a caminhar o paquete, que um terr\u00edvel enj\u00f4o apoderou-se<br \/>\ndo pobre marido apaixonado e o prostrou no fundo de seu beliche, in\u00fatil e<br \/>\narquejante.<\/p>\n<p>Filomena n\u00e3o lhe perdoou semelhante coisa. Enjoar!&#8230; enjoar em sua companhia!<br \/>\nOh! o Borges acabava de perder todo o prest\u00edgio que ultimamente havia conquistado!<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o \u00e9 culpa minha! lembrou ele, sem \u00e2nimo para erguer a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Reagisse! Tivesse mais dom\u00ednio sobre si! Os esp\u00edritos fortes governam a<br \/>\nmat\u00e9ria! Enjoar! Oh! Shocking!<\/p>\n<p>E s\u00f3 acalmou um pouco a sua indigna\u00e7\u00e3o, lembrando-se de que D. Juan, de Byron,<br \/>\nenjoara tamb\u00e9m na primeira viagem que empreendeu. Todavia, em Lisboa, foram<br \/>\nocupar aposentos separados no Hotel de Bragan\u00e7a.<\/p>\n<p>Apenas se demorariam o tempo necess\u00e1rio para tratar do t\u00edtulo e seguiriam<br \/>\nlogo caminho de Espanha, porque Filomena declarou que aquela cidade lhe fazia<br \/>\nmal aos nervos.<\/p>\n<p>Todo o seu ideal era a It\u00e1lia; sonhava-a atrav\u00e9s das descri\u00e7\u00f5es que lhe depararam<br \/>\ncentenas de romances. Queria N\u00e1poles, com o cl\u00e1ssico Ves\u00favio em plena erup\u00e7\u00e3o,<br \/>\no seu golfo lend\u00e1rio, o seu famoso c\u00e9u azul, estrelado de pombos.<\/p>\n<p>Exigia Veneza. Veneza com todos os seus acess\u00f3rios pitorescos &#8211; as suas serenatas<br \/>\nem g\u00f4ndola, o seu pal\u00e1cio dos Doges, os seus romances debaixo de velhas e<br \/>\nmelanc\u00f3licas ab\u00f3badas, consagradas pelos s\u00e9culos. Reclamava excurs\u00f5es ao Lido,<br \/>\n\u00e0s ilhas decantadas da Laguna, a S. L\u00e1zaro dos Arm\u00eanios, a Murano, a Torcelo.<br \/>\nQueria saturar-se bem da &#8220;filha gentil do Adri\u00e1tico&#8221;, mergulhar nas sombras<br \/>\nazuis de seus canais, onde rebrilham de espa\u00e7o a espa\u00e7o as competentes lanternas<br \/>\ndos gondoleiros; n\u00e3o morreria sem passar algumas horas de concentra\u00e7\u00e3o m\u00edstica<br \/>\ne deliciosa sob a melanc\u00f3lica ponte dos Suspiros. &#8211; Oh! a ponte dos Suspiros!<\/p>\n<p>Depois, G\u00eanova, &#8220;cidade de m\u00e1rmore!&#8221;, com a sua acumula\u00e7\u00e3o de pal\u00e1cios c\u00e9lebres,<br \/>\nseus jardins silenciosos, suas colinas fortificadas! &#8211; Oh! a It\u00e1lia, a It\u00e1lia<br \/>\nera ent\u00e3o toda a sua ambi\u00e7\u00e3o, todo o seu viver!<\/p>\n<p>E deixaram-se os dois seguir o itiner\u00e1rio comum das viagens \u00e0 Europa. Atravessaram<br \/>\na Espanha, a ruidosa Fran\u00e7a, percorreram a Su\u00ed\u00e7a, &#8220;a livre Helv\u00e9cia&#8221;, como<br \/>\npoeticamente a classificou Filomena, e, afinal, depois de uma semana de M\u00f4naco,<br \/>\nonde ela teve a fantasia de ver o marido perder dinheiro ao jogo, acharam-se<br \/>\nem caminho de Nice, da qual, mediante nove horas de mar, passaram-se a G\u00eanova.<\/p>\n<p>Chegaram \u00e0s oito da manh\u00e3, quando um sol espl\u00eandido punha em relevo as magnific\u00eancias<br \/>\nda cidade de m\u00e1rmore. Filomena, por\u00e9m, estava sequiosa de N\u00e1poles e, como<br \/>\nseu vaporzinho seguia para a\u00ed, mal deu um passeio em terra, tornou a embarcar<br \/>\ncom o esposo.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! N\u00e1poles! N\u00e1poles, dizia ela, entusiasmada, ao chegar \u00e0 famosa cidade.<br \/>\nComo desejava eu viver e morrer sob o teu sol dourado, passando os dias e<br \/>\nas noites a contemplar o teu c\u00e9u azul, o teu golfo da cor do teu c\u00e9u!&#8230; E<br \/>\nter perto de mim, ao alcance de meus olhos, Capri, Ischia e o Ves\u00favio, e essa<br \/>\nextensa costa, que vai de Portici a Castellamare e aos belos penhascos de<br \/>\nSorrento! \u00d3 N\u00e1poles!<\/p>\n<p>O Borges escutava essas e outras declama\u00e7\u00f5es com um profundo silencio de<br \/>\nrespeito. &#8211; Sim senhor! N\u00e3o fazia a mulher t\u00e3o entendida em geografia!&#8230;<br \/>\npensava ele, ensoberbecendo-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, a rom\u00e2ntica senhora sofreu uma triste decep\u00e7\u00e3o ao saltar na<br \/>\ndesejada cidade. N\u00e3o era o seu N\u00e1poles que tinha defronte dos olhos; n\u00e3o o<br \/>\nreconhecia; faltava-lhe fosse o que fosse &#8211; um certo pitoresco, um certo encanto,<br \/>\nque ela, por mais que procurasse, n\u00e3o encontrava ali.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! decididamente n\u00e3o era aquele o N\u00e1poles de seus sonhos! O que ela via<br \/>\ndefronte de si era uma popula\u00e7\u00e3o agitada e desordeira, que a acotovelava grosseiramente,<br \/>\nobrigando-a a segurar-se ao bra\u00e7o do marido, o qual, por mais de uma vez,<br \/>\nesteve a cair com os encontr\u00f5es que recebia de todos os lados.<\/p>\n<p>&#8211; Safa! gritou o Borges, tonto. &#8211; Assim nem a praia do Peixe!<\/p>\n<p>Sobre o cais e nas longas ruas agitadas, que v\u00e3o a Chiaja, a Santa Luzia,<br \/>\n\u00e0 rua de Toledo, ao Forte de Sant\u2019Elmo &#8211; o mesmo formigar, o mesmo borborinho<br \/>\nimpertinente e grosseiro.<\/p>\n<p>E que confus\u00e3o de pescadores, camponeses, frades, mercadores, garotos nus<br \/>\ne lazarones de todos os feitios e de todas as cores.<\/p>\n<p>&#8211; Isto parece uma cidade de doidos! observou Filomena ao marido &#8211; isto nunca<br \/>\nfoi N\u00e1poles.<\/p>\n<p>E aquela multid\u00e3o irrequieta parecia justamente um bando enorme de doidos,<br \/>\nque iam e vinham em vertigens, empurrando-se uns aos outros, metendo-se pelas<br \/>\npernas dos estrangeiros, invadindo-lhes a bolsa e as algibeiras com olhares<br \/>\nde gan\u00e2ncia, e, \u00e0s vezes, com os dedos. Vendedores d&#8217;\u00e1gua, de frutas e de<br \/>\npeixe, passavam a gritar como perdidos; burros carregados de legumes seguiam<br \/>\na trote, chocalhando guizos barulhentos; transeuntes de todos os matizes sociais,<br \/>\nconversavam e gesticulavam agitadamente. E carruagens a galope cortavam as<br \/>\nruas, em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es, num estardalha\u00e7o febril de matracas, ferragens e<br \/>\ncampainhas. E tudo, at\u00e9 as casas, as \u00e1rvores e as pedras da rua, pareciam<br \/>\ngritar, mover-se, espolinhar-se num frenesi estrepitoso, sem tr\u00e9guas.<\/p>\n<p>Filomena declarou que estava roubada!<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Pois aquilo era l\u00e1 um N\u00e1poles! Imposs\u00edvel! Bem longe estava de ser<br \/>\no N\u00e1poles que ela queria &#8211; o seu rico N\u00e1poles! &#8211; Aquele era um N\u00e1poles de<br \/>\nsegunda m\u00e3o! Um N\u00e1poles pulha! Antes n\u00e3o tivesse l\u00e1 ido! Mil vezes antes!<\/p>\n<p>Que lhe mostrassem as belas cenas napolitanas, que ela vira em pequena nas<br \/>\nlitografias coloridas! Que lhe apontassem os bem conhecidos e muito pitorescos<br \/>\npescadores napolitanos, com as suas Calezoni, a perna nua, a faixa e o gorro<br \/>\nvermelho, e o amuleto ao pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>A excurs\u00e3o ao Ves\u00favio, como um passeio que fez \u00e0 Torre d&#8217;el Greco, impressionou-a<br \/>\nmediocremente. No Ves\u00favio n\u00e3o viu erup\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cie alguma; n\u00e3o percebeu<br \/>\nvest\u00edgios de salteadores. &#8211; A Cal\u00e1bria desacreditou-se para ela. Nada encontrou<br \/>\nde tudo aquilo que reclamava a sua terr\u00edvel sede de como\u00e7\u00f5es<\/p>\n<p>&#8211; Experimenta a tal Pomp\u00e9ia! aconselhou o marido, incomodado por v\u00ea-la contrariada.<br \/>\nPode ser que te d\u00eas bem&#8230; E lembrou tamb\u00e9m Herculanum, de cujo nome n\u00e3o se<br \/>\nrecordava.<\/p>\n<p>&#8211; Qual Pomp\u00e9ia, nem qual hist\u00f3rias! respondeu a mulher furiosa contra os<br \/>\nseus poetas e romancistas. Canalhas! S\u00facia de empulhadores!<\/p>\n<p>E, muito indignada, abandonou N\u00e1poles, para tomar a dire\u00e7\u00e3o de Veneza, \u00e0<br \/>\nqual sua imagina\u00e7\u00e3o insistia em agarrar-se como a um recurso extremo.<\/p>\n<p>Mas a bela filha do Adri\u00e1tico, a p\u00e1tria do amor e do arrepio, a sede da como\u00e7\u00e3o<br \/>\ne da poesia, a cidade dos pal\u00e1cios de ab\u00f3badas mouriscas a terra, enfim, das<br \/>\npatr\u00edcias apaixonadas, tamb\u00e9m n\u00e3o correspondeu \u00e0 expectativa de Filomena.<\/p>\n<p>L\u00e1 estava a ponte triangular do Rialto; o cais dos Escravos; as c\u00fapulas de<br \/>\nS. Marcos; os indispens\u00e1veis pombos; as ramalheteiras, que vendem flores aos<br \/>\nestrangeiros; os oficiosos cicerones; os gondoleiros, encapotados como monges,<br \/>\nque passeiam tristemente por baixo das pontes; l\u00e1 estava tudo isso de que<br \/>\nconstavam as notas de Filomena, mas, valha-me Deus! &#8211; nada a satisfazia, nada<br \/>\na saciava, nada correspondia ao que ela julgara encontrar, nada realizava<br \/>\no que anteviera nos seus sonhos cheios de impaci\u00eancia e de sobressalto.<\/p>\n<p>Passearam em carruagem de Burgano a Leco, sobre as margens do lago de Como;<br \/>\nforam depois a Menaggio, na margem oposta, e da\u00ed partiram resolutamente para<br \/>\na calma Su\u00ed\u00e7a, fartos de It\u00e1lia, cujos nomes de grandes e pequenas cidades,<br \/>\naqueles mesmos que dantes arrebatavam Filomena e lhe punham no esp\u00edrito uma<br \/>\nnostalgia doce e melanc\u00f3lica, j\u00e1 nem ao menos tinham para ela a mesma sonoridade<br \/>\nde ent\u00e3o. Livurnia, Civit\u00e0-Vechia, Chija, Bellinzona, Ischia, Gaeta, nada,<br \/>\nnada possu\u00eda j\u00e1 o primitivo encanto!<\/p>\n<p>E um grande v\u00e1cuo abriu-se nas suas aspira\u00e7\u00f5es; um de seus sonhos acabava<br \/>\nde esfacelar-se como uma nuvem dissolvida pelo vento. E Filomena, desde que<br \/>\nse convenceu de que, se quisesse a como\u00e7\u00e3o e a aventura, tinha de prepar\u00e1-las<br \/>\npor suas pr\u00f3prias m\u00e3os, caiu num estado sombrio de atonia e des\u00e2nimo.<\/p>\n<p>O Borges, sobressaltado com essas tristezas, procurava cerc\u00e1-la de mil cuidados,<br \/>\nfazia-se meigo, muito seu camarada, seu amigo, adivinhando-lhe as vontades,<br \/>\ncorrendo ao encontro de seus caprichos.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens tu, meu anjo, minha vida? Fala! Conta-me tudo.<\/p>\n<p>Ela, em vez de responder, atirava-se-lhe nos bra\u00e7os e escondia entre solu\u00e7os<br \/>\no rosto no peito dele.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>VII &#8211; O RAPTO<\/h2>\n<p>Mas, uma noite, achavam-se ent\u00e3o em Sevilha &#8211; sultana do Guadalquivir &#8211; como<br \/>\nlhe chamava Filomena, sempre fecunda nas suas par\u00e1frases po\u00e9ticas; Borges,<br \/>\nfamiliarizado j\u00e1 com os gostos rom\u00e2nticos da mulher, resolveu p\u00f4r de parte<br \/>\nuns certos escr\u00fapulos e assaltar-lhe o quarto pela janela.<\/p>\n<p>&#8211; Era imposs\u00edvel que Filomena resistisse ao encanto de uma viol\u00eancia t\u00e3o<br \/>\npitoresca!&#8230;<\/p>\n<p>Moravam em Triana, num modesto e confort\u00e1vel hotelzinho. A caprichosa, segundo<br \/>\no louv\u00e1vel costume, exigira que o marido alugasse dois quartos bem separados,<br \/>\ne n\u00e3o teve grande empenho em declarar-se casada; ao Borges, por outro lado,<br \/>\ntamb\u00e9m n\u00e3o convinha dizer a verdade, receioso de que esta o tornasse rid\u00edculo<br \/>\naos olhos de todos, como havia j\u00e1 sucedido em v\u00e1rias partes.<\/p>\n<p>O terno marido, depois de bem estudar o seu plano de ataque, tratou de realiz\u00e1-lo.<br \/>\nVestiu-se como os do povo, arranjou uma escada e, logo que s\u00f3 ouviu em todo<br \/>\no quarteir\u00e3o a voz long\u00ednqua dos serenos, meteu m\u00e3os \u00e0 obra.<\/p>\n<p>E, com certeza, teria obtido o melhor \u00eaxito, se algu\u00e9m, que o vira tentando<br \/>\npenetrar de um modo t\u00e3o suspeito no hotel, n\u00e3o fosse denunciar o fato aos<br \/>\ntais serenos, que sem demora acudiram armados de suas lanternas e de seus<br \/>\nchusos.<\/p>\n<p>Houve esc\u00e2ndalo; reuniu gente, e o Borges escapou de ser catrafilado, gra\u00e7as<br \/>\n\u00e0 l\u00f3gica de sua algibeira, que conseguiu provar ao honesto estalajadeiro a<br \/>\nconveni\u00eancia de arranjar-lhe em menos de dois minutos um esconderijo no pr\u00f3prio<br \/>\nhotel.<\/p>\n<p>Por esse tempo, Filomena, tendo chamado em v\u00e3o pelo marido, e talvez at\u00e9<br \/>\ndesconfiando ser ele o autor do malogrado assalto, exigia do oficial de ronda<br \/>\n(estavam em \u00e9pocas revolucion\u00e1rias) que lhe deparasse um lugar decente, onde<br \/>\numa estrangeira honesta ficasse ao abrigo do primeiro malfeitor, que lhe quisesse<br \/>\nentrar pela janela.<\/p>\n<p>O oficial tinha fam\u00edlia e p\u00f4s a sua casa \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da queixosa, at\u00e9 que<br \/>\no juiz designasse, com as devidas formalidades, o s\u00edtio onde ela devia ser<br \/>\ndepositada judicialmente.<\/p>\n<p>O fato ganhou logo circula\u00e7\u00e3o no bairro e, \u00e0 falta de esclarecimentos verdadeiros,<br \/>\nInventou-se toda sorte de legendas. Uns juravam que Filomena n\u00e3o era mulher<br \/>\ne sim um grande sonso que namoriscava a esposa do oficial e usara daquele<br \/>\nexpediente para ir ter com ela; outros afian\u00e7avam que a tal estrangeira era<br \/>\npura e simplesmente uma cocotte, sequiosa por chamar sobre si a aten\u00e7\u00e3o do<br \/>\np\u00fablico; outros lhe atribu\u00edam inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Este notara que ela trazia<br \/>\nno corpo as mais belas j\u00f3ias do mundo, que lhe vira nas orelhas e no colo<br \/>\nbrilhantes de um tamanho fabuloso; aquele protestava que nunca ouvira uma<br \/>\nvoz t\u00e3o estranha e todavia t\u00e3o melodiosa como a dela; outro dava a sua palavra<br \/>\nde honra em como a tal sujeitinha era de uma formosura e de uma gra\u00e7a, que<br \/>\nnem as virgenes de Murilo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m a opini\u00e3o mais seguida rezava que a encantadora e misteriosa estrangeira<br \/>\nera nada menos do que a filha de rico negociante portugu\u00eas, de cuja companhia<br \/>\ndesertara por n\u00e3o querer casar com um fidalgo velho e debochado que o pai<br \/>\nlhe impunha. Pelo menos era esta a vers\u00e3o que mais se compadecia com o que<br \/>\nnoticiavam a esse respeito os jornais do dia seguinte:<\/p>\n<p>&#8220;GRANDE ATENTADO CRIMINAL, dizia um. A noche a las doce poco m\u00e1s o menos<br \/>\num malhechor de los muchos que infelizmente \u00ednfestan esta hermosa ciudad,<br \/>\nintent\u00f3 introducirse por la ventana de una de nuestras mas acreditadas fondas,<br \/>\ncom ei fin perverso de raptar una joven extrangera que ali residia esperando<br \/>\nsu anciano padre, hidalgo portuguez, cuyo nombre nos abstenemos de publicar<br \/>\npor motivos f\u00e1ciles de comprender.<\/p>\n<p>La belia nifia, que casi fue v\u00edctima de tanta atrocidad, hallase, a su ruego,<br \/>\ndepositada em casa dei oficial Sr. D. Jos\u00e9 Nuflez, hasta que eI competente<br \/>\njuez decida de su destino.<\/p>\n<p>Debido a\u00ed delicado estado de natural sobre-excitacion nerviosa, la seflorita<br \/>\naludida aun no ha podido explicar los pormenores dei crimen dei cual fue objeto.<\/p>\n<p>El malvado desapareci\u00f3, pero la policia emplea todos los medios para alcarzarlo<br \/>\ny cremos que sus esfuerzos no seran defraudados.<\/p>\n<p>A medida que nos lheguem nuevos pormenores los transmitiremos a nuestros<br \/>\nlectores.&#8221;<\/p>\n<p>Outros jornais iam mais longe. Um chegou a fazer engenhosas considera\u00e7\u00f5es<br \/>\nsobre o fato estranho de se achar &#8220;desacompanhada num hotel j\u00e1 por si suspeito<br \/>\n(o dono do hotel era federalista e o jornal apoiava o governo) uma senhora<br \/>\nt\u00e3o distinta, t\u00e3o bem tratada e com todas as apar\u00eancias de donzela! N\u00e3o estaria<br \/>\na\u00ed a ponta de algum importante enigma pol\u00edtico?&#8230; Em \u00e9pocas de revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 preciso desconfiar de tudo e de todos&#8221;.<\/p>\n<p>Estas not\u00edcias excitaram a curiosidade geral. N\u00e3o faltou quem deixasse de<br \/>\nenxergar no misterioso homem da escada um malhechor ordinario &#8211; como diziam<br \/>\nalgumas folhas, e atribuir-lhe fins de grande alcance pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O dono do hotel foi um desses, e, como bom cantonalista que era, n\u00e3o lhe<br \/>\npodia passar despercebido que o seu misterioso h\u00f3spede usava um len\u00e7o de seda<br \/>\nencarnada, uma gravata ainda mais encarnada que o len\u00e7o; n\u00e3o podia deixar<br \/>\nde notar que nas caixinhas de f\u00f3sforos do seu protegido encontrara sempre<br \/>\no retrato de alguns dos chefes dos cant\u00f5es &#8211; encontrou o retrato do general<br \/>\nContreras, o de Antonio Galvez e de Duarte e o de Rafael Grul\u00edleu.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida! pensou ele. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que o homem \u00e9 dos nossos!<\/p>\n<p>E o fino estalajadeiro, considerando o modo despejado pelo qual o seu correligion\u00e1rio<br \/>\ngastava ouro, notando a riqueza de suas bagagens e atentando para o inc\u00f3gnito<br \/>\nem que se fechara esse homem, estrangeiro sem d\u00favida, mas estrangeiro amigo<br \/>\ne respeit\u00e1vel, n\u00e3o vacilou em descobrir nele um vulto importante da causa<br \/>\nfederal, e resolveu p\u00f4r-se discretamente ao seu servi\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Talvez, quem sabe?&#8230; considerou o cantonalista com os seus bot\u00f5es. &#8211; Mais<br \/>\ntarde, quando subirem os nossos homens, isto at\u00e9 me venha a render um lugar<br \/>\nimportante na pol\u00edtica!<\/p>\n<p>E foi logo ter com o Borges.<\/p>\n<p>&#8211; Cidad\u00e3o! disse-lhe resolutamente. Escusa negar; sei que tenho a honra de<br \/>\nrefugiar em minha casa um dos cantonalistas mais distintos do mundo!&#8230;<\/p>\n<p>Borges recuou de boca aberta.<\/p>\n<p>&#8211; Descanse! volveu o outro em tom de mist\u00e9rio. Pode ficar tranq\u00fcilo! N\u00e3o<br \/>\ntem de que temer aqui &#8211; eu sou seu correligion\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, senhor! &#8230; ia a protestar o Borges.<\/p>\n<p>&#8211; Nem quero que me diga quais s\u00e3o as suas inten\u00e7\u00f5es &#8211; as inten\u00e7\u00f5es de um<br \/>\ncantonalista s\u00e3o sempre as melhores!<\/p>\n<p>O que eu desejo \u00e9 saber em que lhe posso ser \u00fatil! Tenha confian\u00e7a em mim<br \/>\ne fale com franqueza.<\/p>\n<p>E o estalajadeiro, sacando do bolso um barrete fr\u00edgio, que ele possu\u00eda para<br \/>\nas ocasi\u00f5es de levantamento, meteu-o na cabe\u00e7a e perfilou-se defronte do Borges.<\/p>\n<p>&#8211; Bem vejo, bem vejo!&#8230; respondeu este, compreendendo a situa\u00e7\u00e3o e hesitando,<br \/>\nna qualidade de homem s\u00e9rio, se devia ou n\u00e3o aproveit\u00e1-la em seu favor. Bem<br \/>\nvejo, mas&#8230;<\/p>\n<p>E franziu o sobrolho. &#8211; Era o diabo! Aquilo n\u00e3o lhe podia ficar bem!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Compreendo! tornou o outro, guardando o barrete e fazendo um gesto de arrependimento.<br \/>\nFui indiscreto!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Certamente! confirmou o Borges. Imagine se, em meu lugar, estivesse aqui<br \/>\num inimigo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Este federal \u00e9 chefe com certeza de algum cant\u00e3o! disse consigo o estalajadeiro.<br \/>\nE sabe Deus qual n\u00e3o ser\u00e1 a import\u00e2ncia de sua presen\u00e7a por estas alturas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Em todo caso&#8230; acrescentou o Borges, tomando uma resolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me despe\u00e7o<br \/>\nde seus favores, talvez precise deles.<\/p>\n<p>E chegando-se por sua vez ao ouvido do outro, em tom de segredo:<\/p>\n<p>&#8211; Preciso fazer chegar uma carta \u00e0s m\u00e3os daquela senhora que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei; de quem se trata, interrompeu o estalajadeiro. Trata-se da fidalguinha<br \/>\nportuguesa. Bem tinha eu c\u00e1 um pressentimento!&#8230; Preparai o amigo a carta,<br \/>\nque eu a farei chegar ao seu destino, custe o que custar! E vou daqui ver<br \/>\nmais cinco companheiros, t\u00e3o bons como eu, com os quais podemos contar para<br \/>\na vida e para a morte!<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, respondeu o Borges, pondo-se a jeito de escrever.<\/p>\n<p>E logo que terminou a carta, chamou o seu correligion\u00e1rio, e entregou-lha<br \/>\njuntamente com algumas libras esterlinas.<\/p>\n<p>O cantonalista repeliu energicamente o dinheiro, dizendo frases de abnega\u00e7\u00e3o<br \/>\nher\u00f3ica. E, com t\u00e3o boa vontade se p\u00f4s em a\u00e7\u00e3o, de tal modo providenciou as<br \/>\ncoisas, que pouco depois uma correspond\u00eancia cerrada se estabelecia entre<br \/>\no Borges e a mulher.<\/p>\n<p>Eram belas cartas de amor, escritas com entusiasmo de parte a parte. O marido,<br \/>\nnas frases mais po\u00e9ticas que conseguiu arranjar, suplicava \u00e0 esposa que desistisse<br \/>\ndo abrigo em que se achava e fosse ter com ele ao hotel, para fugirem juntos<br \/>\ndaquela maldita cidade, que s\u00f3 lhes trazia canseiras e dissabores.<\/p>\n<p>Filomena, por\u00e9m, exigia um rapto. Estava disposta a acompanhar o marido,<br \/>\nmas n\u00e3o queria ir ao encontro dele, queria que ele a fosse buscar.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 in\u00fatil insistires&#8221;, terminava a vision\u00e1ria, em seguida a uma exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nminuciosa do que o Borges tinha a fazer para alcan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8220;Se me amas, como dizes, prova-mo, arrancando-me daqui violentamente. O verdadeiro<br \/>\namor n\u00e3o conhece dificuldades! N\u00e3o encontra obst\u00e1culos quando se precipita<br \/>\nem torrentes vertiginosas de um cora\u00e7\u00e3o apaixonado! Vem! Vem conquistar-me<br \/>\n\u00e0 for\u00e7a de intrepidez e coragem, vem disputar-me com o risco de tua vida e<br \/>\neu serei tua, eu viverei para beijar os grilh\u00f5es com que me prenderes ao teu<br \/>\ndestino! Tua, F.&#8221;<\/p>\n<p>O Borges ficou irresoluto, co\u00e7ou a cabe\u00e7a, passeou longas horas com as m\u00e3os<br \/>\ncruzadas atr\u00e1s. &#8211; Faltava-lhe mais essa, resmungou furioso: &#8211; ter de perpetrar<br \/>\num rapto! Eu! &#8211; Diabo leve tal viagem e mais quem me meteu na cabe\u00e7a a id\u00e9ia<br \/>\nde casar! Ah! que se n\u00e3o fosse a esperan\u00e7a de que as coisas n\u00e3o durar\u00e3o neste<br \/>\nbelo gosto por muito tempo, eu&#8230; eu nem sei o que faria!&#8230;<\/p>\n<p>Mas, afinal, impaciente por sair do seu esconderijo, farto daquela situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque o tornava rid\u00edculo aos seus pr\u00f3prios olhos, deliberou fazer a vontade<br \/>\n\u00e0 mulher. &#8211; J\u00e1 agora seria o que Deus quisesse!&#8230;<\/p>\n<h3>* * *<\/h3>\n<p>Entretanto, o estalajadeiro, mal teve conhecimento das inten\u00e7\u00f5es do seu ilustre<br \/>\nprotegido, tratou de dar as provid\u00eancias para o rapto.<\/p>\n<p>Chegado o momento, armou os seus homens: vestiu-se de cocheiro (profiss\u00e3o<br \/>\nque exercera por muito tempo), muniu-se de um par de tiros, preparou a bagagem<br \/>\ndo raptor pela maneira que mais convinha \u00e0 conjuntura, isto \u00e9, reduzindo-a<br \/>\no melhor que p\u00f4de, e meteu-a dentro de um coche apropriado, do qual tomaria<br \/>\na bol\u00e9ia; e, depois de erguer com os outros v\u00e1rios brindes ao Cantonalismo,<br \/>\n\u00e0 Espanha, \u00e0 Liberdade; e depois de embolsados os protestos de gratid\u00e3o que<br \/>\no Borges lhes apresentava na forma de moedinhas de ouro, puseram-se todos<br \/>\na caminho da casa do oficial, dispostos a derramar a \u00faltima gota de sangue<br \/>\nem prol da gloriosa empresa que cometiam.<\/p>\n<p>E quem os visse, t\u00e3o formid\u00e1veis nos seus capotes de conspiradores, os colones<br \/>\nconvictamente puxados sobre a orelha, os gestos amea\u00e7adores e tr\u00e1gicos, n\u00e3o<br \/>\nseria capaz de supor que se tratava de raptar uma donzela, mais que ningu\u00e9m<br \/>\nsenhora de seu nariz.<\/p>\n<p>Filomena, \u00e9bria de prazer com a id\u00e9ia de ser furtada, palpitante de como\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfez a trouxa em segredo e retirou-se ao quarto, pretextando inc\u00f4modos para<br \/>\ndissimular os seus projetos de fuga.<\/p>\n<p>\u00c0 meia-noite, chegava o terr\u00edvel grupo dos conspiradores, acompanhando o<br \/>\ncoche que devia conduzir o precioso fruto daquela empresa delicad\u00edssima. Borges<br \/>\nseparou-se de seus companheiros, mudo e sombrio. E, com o passo firme, a m\u00e3o<br \/>\narmada, penetrou resolutamente no jardim da casa em que estava a mulher. N\u00e3o<br \/>\nfoi dif\u00edcil, porque, felizmente, o port\u00e3o achava-se apenas encostado.<\/p>\n<p>Ao chegar debaixo de certa janela tirou da algibeira um pequeno assobio de<br \/>\nmetal e apitou devegarinho. A janela abriu-se logo e, ao doce clar\u00e3o da lua,<br \/>\napareceu o vulto rom\u00e2ntico de Filomena, toda de branco, os cabelos soltos,<br \/>\nos bra\u00e7os nus.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos com isto! segredou-lhe o Borges, levando as m\u00e3os \u00e0 boca em forma<br \/>\nde porta-voz.<\/p>\n<p>&#8211; Trouxeste a escada?&#8230; perguntou Filomena no mesmo tom.<\/p>\n<p>&#8211; Trouxe. Arreia o barbante.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed vai.<\/p>\n<p>&#8211; Pronto, disse o Borges, depois de amarrar a escada no cord\u00e3o.<\/p>\n<p>Filomena da\u00ed a pouco lan\u00e7ava-se nos bra\u00e7os do marido, a exclamar: &#8211; Fujamos,<br \/>\nmeu amor! Fujamos!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o grites! ralhou o sedutor. Olha que te podem ouvir!<\/p>\n<p>E, com efeito, algu\u00e9m abria j\u00e1 uma janela.<\/p>\n<p>&#8211; Estamos perdidos! bradou a fugitiva.<\/p>\n<p>O Borges, por\u00e9m, havia j\u00e1 alcan\u00e7ado a rua com a mulher nos bra\u00e7os, quando<br \/>\no sujeito da janela berrou com uma voz de trov\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 da guarda! \u00d3 da guarda!<\/p>\n<p>Ouviu-se um estardalha\u00e7o de portas que se abrem precipitadamente fechaduras<br \/>\nque rangem e vozes que se altercam.<\/p>\n<p>Mas Filomena, tr\u00eamula e sobressaltada, achava-se j\u00e1 dentro do carro, ao lado<br \/>\ndo raptor, e os cavalos galopavam fustigados a valer pelo estalajadeiro.<\/p>\n<p>Enquanto fugiam, os cinco cantonalistas, no meio de grande algazarra, de<br \/>\ngritos e de apitos, simulavam uma altera\u00e7\u00e3o na rua, atraindo sobre si os serenos,<br \/>\nque acudiam de v\u00e1rios quarteir\u00f5es.<\/p>\n<p>O carro, entretanto, voava pelas ruas de Triana, para os lados de Lora-del-rio.<br \/>\nA cidade desaparecia atr\u00e1s deles, vertiginosamente. Mal avistavam j\u00e1 o cume<br \/>\nquadrado da Giralda, que o luar fazia sobressair no horizonte.<\/p>\n<p>No fim de tr\u00eas horas de carreira, penetravam no campo.<\/p>\n<p>&#8211; Estamos salvos! exclamou Filomena. No campo n\u00e3o seremos alcan\u00e7ados!<\/p>\n<p>&#8211; Ao contr\u00e1rio, respondeu o estalajadeiro, o campo e menos favor\u00e1vel \u00e0 fuga,<br \/>\nporque temos de evitar os guardias civiles, muito mais perigosos que os serenos.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou a surgir ao longe o primeiro par de tais guardias.<\/p>\n<p>&#8211; Quem vai l\u00e1?! gritou um deles.<\/p>\n<p>O estalajadeiro em resposta fustigou melhor os cavalos e precipitou-se em<br \/>\ndire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao lugar donde vinha aquela voz.<\/p>\n<p>&#8211; Alto! gritou o guarda campestre.<\/p>\n<p>Novas e mais fortes chicotadas.<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7a alto! gritou o outro guarda engatilhando a sua espingarda.<\/p>\n<p>O estalajadeiro, que conhecia muito bem as prerrogativas da sentinela do<br \/>\ncampo na Espanha, apertou o galope de seus animais e vergou-se todo para a<br \/>\nfrente, sobre as coxas.<\/p>\n<p>Uma bala veio cravar-se na traseira do carro. Em seguida outro tiro, depois<br \/>\noutro; mas as bestas n\u00e3o afrouxaram e o carrinho sumiu-se por entre as sombras<br \/>\nde um olival que nascia a algumas bra\u00e7as da\u00ed.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c2nimo! gritou o intr\u00e9pido cocheiro aos fugitivos. Dentro em pouco estaremos<br \/>\nlivres de perigo; trata-se apenas de ganhar a outra margem do rio!<\/p>\n<p>E fustigou as bestas com energia.<\/p>\n<p>Mas no fim de meia hora de galope cerrado, o estalajadeiro soltou um grito,<br \/>\nque aterrou os companheiros. Na sua precipita\u00e7\u00e3o, invadira, sem dar por isso,<br \/>\nas terras de um tal marqu\u00eas de Saltilio, e agora, auxiliado pela aurora, que<br \/>\nia repontando, via-se no meio de uma vasta dehesa, cujos touros gozavam da<br \/>\nfama dos mais perigosos de toda aquela redondeza.<\/p>\n<p>&#8211; Ira de Dios! bradou ele, enquanto o Borges e Filomena, estarrecidos de<br \/>\nmedo, espiavam pelas portinholas.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9?! perguntaram.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que podemos ser assaltados pelos touros! explicou o cantonalista, tratando<br \/>\nde fugir ao perigo.<\/p>\n<p>A dehesa era enorme, estendia-se at\u00e9 muito longe; nessa ocasi\u00e3o, por felicidade,<br \/>\nos touros achavam-se entretidos para o lado contr\u00e1rio ao do carro, e o estalajadeiro<br \/>\nn\u00e3o precisou puxar muito pelos cavalos, porque estes fariscando logo o risco<br \/>\nque corriam, abriram a rinchar e, mau grado da fadiga, desembestaram para<br \/>\nas bandas do campo.<\/p>\n<p>Ma]ditos rinchos! Um touro acabava de despertar ao seu fragor e, encapotando<br \/>\na cabe\u00e7a nas pernas dianteiras, corria assanhado na dire\u00e7\u00e3o do carro.<\/p>\n<p>O federal chicoteou os cavalos com toda a for\u00e7a e o pobre coche rodou por<br \/>\nentre o mato como uma bala perdida.<\/p>\n<p>&#8211; Anda! Anda! berrava o Borges de p\u00e9, a tocarolar as costas do cocheiro.<br \/>\n&#8211; Olha que o diabo do bicho a\u00ed vem!<\/p>\n<p>Com efeito, o touro perseguia-os na dist\u00e2ncia de uns cinq\u00fcenta passos.<\/p>\n<p>&#8211; Preparem as armas! bramiu Filomena. Aqui o recurso que h\u00e1 \u00e9 lutar.<\/p>\n<p>Mal terminava essa frase, quando se sentiu decair com o marido para a direita;<br \/>\numa das rodas do carro estava por terra, em peda\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Jesus! fez ela, agarrando-se \u00e0 portinhola.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 a\u00ed vem o conocedor e j\u00e1 ou\u00e7o o chocalho do cabestro. Estamos salvos!<\/p>\n<p>De fato, tr\u00eas homens a cavalo e seguidos de um boi velho e manso, vinham<br \/>\ncom os seus cajados em punho \u00e0 pista da r\u00eas que se desgarrara da dehesa. O<br \/>\ntouro logo que ouviu o chocalho, parou, sorveu o ar por alguns segundos e<br \/>\nfoi humildemente emparelhar-se ao cabestro.<\/p>\n<p>&#8211; Diabos te consumam! rosnou o federal, considerando o estado de seu pobre<br \/>\ncarro e de seus pobres animais. Como hei de agora arranjar-me para a volta?!&#8230;<\/p>\n<p>Felizmente j\u00e1 n\u00e3o estavam muito longe da esta\u00e7\u00e3o de Lora, e o Borges, se<br \/>\nn\u00e3o quisesse tomar a\u00ed o caminho de ferro, podia ficar em algum hotel, onde<br \/>\ncom facilidade arranjaria meios de condu\u00e7\u00e3o para o lugar que melhor entendesse.<\/p>\n<p>Mas Filomena declarou logo que n\u00e3o se sentia disposta, por coisa alguma,<br \/>\na passar a sua lua de mel enterrada num quarto de hospedaria. N\u00e3o foi para<br \/>\nisso que viera \u00e0 Espanha! Queria um s\u00edtio pitoresco, ignorado, po\u00e9tico, silencioso&#8230;<br \/>\nO marido que tivesse paci\u00eancia; ela, por\u00e9m, n\u00e3o descansaria antes de encontrar<br \/>\num lugarzinho nessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Pois tranq\u00fciliza-te, que, custe o que custar, havemos de descobri-lo, respondeu<br \/>\no Borges. J\u00e1 agora, com mais um empurr\u00e3o leva-se a caixa ao por\u00e3o!<\/p>\n<p>Durante esse di\u00e1logo, o estalajadeiro carregou pelo melhor os seus animais<br \/>\ncom a bagagem dos fugitivos. E os tr\u00eas, seguidos das cavalgaduras, puseram-se<br \/>\ncorajosamente a caminho, dispostos a n\u00e3o acampar, sem terem descoberto o tal<br \/>\ns\u00edtio indispens\u00e1vel para os amores de Filomena.<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>VIII &#8211; ENFIM<\/h2>\n<p>Foram dar com os ossos a Cordova, num destro\u00e7o de castelo \u00e1rabe, constru\u00eddo<br \/>\n\u00e0 margem de um bra\u00e7o do Guadalquivir, ainda nos tempos do dom\u00ednio mu\u00e7ulmano,<br \/>\ne em cujas ru\u00ednas se aboletavam agora os pescadores do lugar e um ou outro<br \/>\ngitano, que a fome e a fadiga trouxessem de rastros at\u00e9 a\u00ed.<\/p>\n<p>Filomena ficou arrebatada; confessou que o lugar n\u00e3o podia ser melhor para<br \/>\numa lua de mel e resolveu instalar-se nas ru\u00ednas.<\/p>\n<p>&#8211; Que?! exclamou o Borges, assustando-se. Ficar aqui?! Ficar neste covil<br \/>\nde vagabundos?!.. &#8211; Ora, qual! A mulher com certeza estava gracejando!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! disse ela, sem se alterar, n\u00e3o gracejo, nem admito que te queiras<br \/>\nfazer insens\u00edvel a estas magnific\u00eancias do belo! Olha! Contempla estas ab\u00f3badas<br \/>\nlascadas, tudo isto \u00e9 maravilhoso! Onde mas tu descobrir um lugar mais prop\u00edcio<br \/>\naos nossos amores?&#8230;<\/p>\n<p>Borges ainda tentou despersuadi-la de semelhante id\u00e9ia. Op\u00f4s-lhe os mais<br \/>\nsensatos argumentos, apresentou-lhe com todo o peso de seu bom senso os inconvenientes<br \/>\nque os esperavam &#8211; o sol, a chuva, os mosquitos, os insetos venenosos, talvez<br \/>\na morte nas m\u00e3os daqueles b\u00e1rbaros! Filomena que pensasse um instante, que<br \/>\nrefletisse um momento, antes de dar aquele passo! por\u00e9m, nada obteve &#8211; a mulher<br \/>\nn\u00e3o cedia uma polegada; e o infeliz, disfar\u00e7ando o seu desgosto e auxiliado<br \/>\npelo cantonalista, procurou entrar em bom acordo com os pescadores.<\/p>\n<p>Tudo arranjado pelo melhor que foi poss\u00edvel, o estalajadeiro descansou um<br \/>\npouco, depois embolsou a recompensa de seus trabalhos e a indeniza\u00e7\u00e3o de seus<br \/>\npreju\u00edzos, abra\u00e7ou o suposto correligion\u00e1rio, jurou ainda uma vez que estaria<br \/>\nsempre disposto a derramar a \u00faltima gota de sangue pela p\u00e1tria, e afinal retirou-se.<\/p>\n<p>O Borges ent\u00e3o cuidou de resignar-se \u00e0s circunst\u00e2ncias. Aquele capricho da<br \/>\nmulher n\u00e3o poderia deitar muito longe! &#8230; Que a deixassem l\u00e1 com as suas<br \/>\nru\u00ednas, o primeiro p\u00e9 d&#8217;\u00e1gua que ca\u00edsse havia de ensin\u00e1-la!&#8230;<\/p>\n<p>Contudo, a\u00ed ficaram tr\u00eas semanas, expostos ao sol e ao sereno, quase ao relento,<br \/>\nalimentando-se sabe Deus como, e dormindo sob as velhas ab\u00f3badas lascadas<br \/>\ne cheias de verdura. Felizmente tinham consigo alguma roupa, uma boa mala<br \/>\ne ainda bastante dinheiro.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed, nesse canto ignorado da velha Espanha despojada, ao ciciar das brisas<br \/>\ndo Guadalquivir e \u00e0 sombra murmurosa dos gigantescos loureiros e dos sic\u00f4moros,<br \/>\nque Filomena se identificou pela primeira vez com o marido. E f\u00ea-lo sem a<br \/>\nmais leve reserva, nem o mais ligeiro rebu\u00e7o, chegando at\u00e9 a am\u00e1-lo com transporte,<br \/>\ncom del\u00edrio, chamando-lhe &#8220;seu raptor, seu amante!&#8221; Refugiando-se nos bra\u00e7os<br \/>\ndele, cheia de ternura e de medo, unidos, sobressaltados, como dois criminosos<br \/>\nque ardessem na chama da mesma paix\u00e3o clandestina,<\/p>\n<p>O bom homem n\u00e3o desejava melhor; &#8220;assim n\u00e3o fosse ela t\u00e3o caprichosa&#8221;!<\/p>\n<p>Filomena agora o obrigava a longos passeios por entre canaviais bravios por<br \/>\nentre matagais de cactos, escolhendo lugares dif\u00edceis, quase intransit\u00e1veis,<br \/>\nonde \u00e0s vezes era preciso que ele a carregasse nos ombros para vadear pequenos<br \/>\nregatos, coalhados de nen\u00fafares, ou lev\u00e1-la ao colo pelo meio de barrancos<br \/>\nperigosos, cobertos de limo e salsas espinhosas. Outras vezes lhes sucedia<br \/>\nperderem-se, e os dois tinham de descansar sobre a relva, sofrendo sede e<br \/>\nfome, sempre foragidos, evitando as vistas de quem quer que fosse, como se<br \/>\nfugissem de inimigos implac\u00e1veis.<\/p>\n<p>Borges, temendo contrari\u00e1-la, submetia-se a tudo isso de cara alegre. Fingia<br \/>\ndesfrutar o mesmo encanto que ela desfrutava; fazia-se entusiasmado pela natureza,<br \/>\namando as \u00e1guas do regato, admirando os passarinhos, correndo atr\u00e1s das borboletas<br \/>\ne deitando-se de bru\u00e7os \u00e0 beira do rio; o queixo na palma das m\u00e3os, a balbuciar<br \/>\nversos; os olhos perdidos no serpentear mon\u00f3tono da corrente.<\/p>\n<p>Mas no fundo sentia-se muito mal \u00e0 vontade e extremamente contrariado. &#8211;<br \/>\nPor que n\u00e3o havia sua mulher de ser como as outras?&#8230; Seria t\u00e3o bom que os<br \/>\ndois, \u00e0quela hora, estivessem gozando juntos, numa boa casa, em plena seguran\u00e7a<br \/>\ne em plena dignidade do lar, a mais completa e a mais doce felicidade a que<br \/>\ntinham direito por todos os motivos! Oh! ele, por\u00e9m, amava-a tanto, tanto,<br \/>\nque seria capaz de todos os sacrif\u00edcios para v\u00ea-la alegre e satisfeita! &#8211;<br \/>\nAl\u00e9m de que, Filomena com o tempo havia de mudar de g\u00eanio!&#8230; Estava ainda<br \/>\nmuito mo\u00e7a, muito cheia de fantasias, por\u00e9m tinha o principal, que era &#8211; boa<br \/>\n\u00edndole e bom cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E ele subordinava-se, abafando os seus ressentimentos, sem um olhar de queixa,<br \/>\nsem um gesto de desgosto, sem nunca desmentir aquele bom humor primitivo,<br \/>\naquela mesma condescend\u00eancia delicada e simples, aquela mesma extrema amizade,<br \/>\nleal e generosa.<\/p>\n<p>Mas os caprichos de Filomena multiplicavam-se a cada momento. Era j\u00e1 a id\u00e9ia<br \/>\nde acompanhar os pescadores ao rio, \u00e0 noite, munidos de archotes e vestidos<br \/>\ncomo eles; era j\u00e1 a fantasia de uma ca\u00e7ada pela Serra-Morena, em horas de<br \/>\ncalor, ou ent\u00e3o a mania de uma pastorada nos vales sombrios e pac\u00edficos, acompanhando<br \/>\no gado, a cantarem de m\u00e3os dadas pelas ribanceiras, ou ent\u00e3o deitados na grama,<br \/>\nnos bra\u00e7os um do outro, \u00e0 espera que o sol acabasse de descer no horizonte<br \/>\na sua escadaria de fogo.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>De repente veio-lhe uma febre de viajar &#8211; viajar muito, sem destino, n\u00e3o<br \/>\npelas cidades muito conhecidas e palmilhadas cotidianamente por centenas de<br \/>\nestrangeiros taciturnos, encapotados nos seus ulsters, de bin\u00f3culo em bandolin<br \/>\ne chap\u00e9u de sol encapado de verniz. &#8211; N\u00e3o! nada disso! Queria lugares totalmente<br \/>\nimprevistos, que ainda n\u00e3o tivessem sido muito decantados pelos poetas como<br \/>\na &#8220;sua It\u00e1lia&#8221; e que lhe deparassem como\u00e7\u00f5es inesperadas. &#8211; Queria os verdadeiros<br \/>\nperigos, as fadigas dos desertos arenosos, a c\u00f3lera dos simouns, o risco das<br \/>\nflorestas virgens, as jornadas por \u00ednvios sert\u00f5es desconhecidos, os horizontes<br \/>\neternos e as longas noites perdidas nos cumes silenciosos das montanhas, ouvindo<br \/>\no sanhudo sibilar dos ventos e os roncos desesperados das feras que tem fome!<\/p>\n<p>O Borges sentiu um calefrio percorrer-lhe o corpo inteiro ao receber dos<br \/>\nl\u00e1bios da mulher aquela terr\u00edvel senten\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Precisamos de uma vida mais agitada! explicou ela, vendo o gesto surpreso<br \/>\ndo marido.<\/p>\n<p>&#8211; Mais agitada?!&#8230; &#8230;.. &#8211; balbuciou este.<\/p>\n<p>&#8211; Sim! mais agitada! Sinto-me morrer de inani\u00e7\u00e3o! Basta de repouso! \u00c9 preciso<br \/>\ndar come\u00e7o a uma nova exist\u00eancia!<\/p>\n<p>O Borges esteve a perder os sentidos.<\/p>\n<p>&#8211; Pois agora \u00e9 que ia principiar o exerc\u00edcio?! pensou ele numa verdadeira<br \/>\nvagabundagem?!&#8230; Mas ent\u00e3o que n\u00e3o ser\u00e1 ela?! &#8211; Se at\u00e9 aqui descansei, qual<br \/>\nn\u00e3o ser\u00e1 minha pobre vida de hoje em diante?!&#8230;<\/p>\n<p>Filomena n\u00e3o percebeu o sobressalto do marido, porque estava j\u00e1 a cismar<br \/>\nno Oriente.<\/p>\n<p>Julgava-o numa desordem de impress\u00f5es recebidas de Antony Rich, Ren\u00e9 Menard<br \/>\ne principalmente de Lady Anna Brunt, cuja originalidade e cujo esp\u00edrito m\u00e1sculo<br \/>\na fascinavam. N\u00e3o lhe era estranho tamb\u00e9m o Dicion\u00e1rio Arqueol\u00f3gico de E.<br \/>\nBosc e por mais de uma vez folheara o itiner\u00e1rio do Dr. Emilio Isambert.<\/p>\n<p>Com todo esse combust\u00edvel a fumegar-lhe dentro da cabe\u00e7a, via-se j\u00e1 dentro<br \/>\ndas muralhas venerandas de Jerusal\u00e9m; sonhava o consagrado Sinai, a Abiss\u00ednia,<br \/>\nMalta, a N\u00fabia e &#8211; o Egito.<\/p>\n<p>O Egito! o longo e tortuoso Egito, cheio de passado e reslumbrante de tristeza.<\/p>\n<p>Imaginava-se j\u00e1 de sand\u00e1lia e bombachas de brocado, assentada \u00e1 japonesa<br \/>\nno dorso emp\u00edrico de um camelo, ao lado do Borges, que sumido no seu albornoz<br \/>\ncaracter\u00edstico, as m\u00e3os esquecidas sobre o adequado kandyjar, e tamb\u00e9m de<br \/>\ncanelas em cruz, toscanejava orientalmente sobre o macio shedad. A imita\u00e7\u00e3o<br \/>\nde sua querida Lady Brunt, sentia-se j\u00e1 preada por um formid\u00e1vel ghaz\u00fa e conduzida<br \/>\naventurosamente ao castelo de Djot.<\/p>\n<p>No dia seguinte, estavam de partida.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>IX &#8211; V\u00d4OS ALTOS<\/h2>\n<p>Desde ent\u00e3o, foi um peregrinar sem tr\u00e9guas.<\/p>\n<p>Viram muito, atravessarem regi\u00f5es in\u00f3spitas, extens\u00f5es selvagens, participando<br \/>\nde ca\u00e7adas temer\u00e1rias, fazendo l\u00e9guas sobre elefantes, experimentando o enj\u00f4o<br \/>\nde mil paquetes, a indiferen\u00e7a de mil povos diversos a monotonia das cidades<br \/>\ndesconhecidas, a dura insociabilidade dos hot\u00e9is e o tempestuoso embate de<br \/>\ntodas as paix\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>E Filomena Borges tomou notas, escreveu mem\u00f3rias, fez apontamentos, criou<br \/>\ngosto pelas investiga\u00e7\u00f5es, pelo estudo; enfim, tornou-se fil\u00f3sofa e sentiu<br \/>\nnecessidade de compendiar em volume as impress\u00f5es que recebia.<\/p>\n<p>&#8220;O Egito&#8221;, contava ela depois de longas considera\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas, &#8220;desenrolou-se<br \/>\ndebaixo de meus p\u00e9s, triste como um sud\u00e1rio. Ajoelhei-me com o meu companheiro<br \/>\n(o companheiro era o Borges) defronte dos Sp\u00e9us arruinados de Ibsambul e dos<br \/>\nesborcinados templos d&#8217;Efu! Percorri os imensos labirintos subterr\u00e2neos de<br \/>\nSilsilis, o templo d&#8217;Ombos; vi os monumentos da ilha de Philoe, contemplei<br \/>\na esfinge de Gizeh, surgindo da areia ardente do deserto, como um fantasma<br \/>\nde granito, que se ergue a meio de um estranho oceano, com os olhos de pedra<br \/>\nfitos no levante, o ar atento e concentrado de quem escuta e de quem espera!<br \/>\nQue esperas, tu, sentinela do passado?! Monstro! que perscrutas com esse teu<br \/>\nolhar im\u00f3vel de pedra?!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Minhalma&#8221;, afirmava ela em ponto das mem\u00f3rias, &#8220;como que se dilatou ao sopro<br \/>\nembalsamado das melanc\u00f3licas lendas do Oriente. Pareceu-lhe ouvir ainda, perdidos<br \/>\nno espa\u00e7o, os \u00faltimos ecos dos coros religiosos dos sacerdotes de Horus e<br \/>\no c\u00e2ntico venerando dos escribas reais&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ouvisse ou n\u00e3o ouvisse, o fato \u00e9 que, uma vez, depois da costumada excurs\u00e3o<br \/>\npelas ru\u00ednas, ela tomou de repente as m\u00e3os do marido e perguntou-lhe em segredo,<br \/>\ncom a voz tr\u00eamula de como\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, n\u00e3o sentes alguns sons doces e lamentosos, que rumorejam neste<br \/>\nvasto e profundo azul do deserto? &#8230;<\/p>\n<p>O Borges vergou a cabe\u00e7a para o lado donde vinha o vento, concheou as m\u00e3os<br \/>\nnas orelhas e, depois de escutar durante alguns minutos, disse que sim, por<br \/>\ncondescend\u00eancia. &#8211; Que sim, supunha ouvir, qualquer coisa &#8211; assim como unia<br \/>\nesp\u00e9cie de zunido! &#8211; Que vinha a ser isso?&#8230; perguntou ele, estimulado pelo<br \/>\nolhar estranho da mulher.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, respondeu Filomena muito grave &#8211; \u00e9 a alma errante do passado que chora<br \/>\nas suas grandezas extintas, ou talvez sejam as notas derradeiras dos lamentosos<br \/>\nsalmos das adoradoras de Hathor!<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; fez o marido, fingindo interesse, mas sem compreender patavina.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E, enfronhados nas suas roupas eg\u00edpcias, j\u00e1 iam aquelas duas almas perdidas,<br \/>\na jornadear dia e noite, de sol a sol, de ru\u00edna em ru\u00edna; ela em busca de<br \/>\ncomo\u00e7\u00f5es; ele em busca de coisa alguma, aborrecido, cansado, pedindo a Deus<br \/>\nde instante a instante que fizesse a mulher desistir daquela terr\u00edvel mania<br \/>\nde andar a trocar as pernas, pelo mundo e fosse com ele repousar a um canto<br \/>\nfeliz e calmo de sua terra.<\/p>\n<p>Contudo n\u00e3o se revoltava, nem lhe fugia \u00e0s mais caras exig\u00eancias. Na ocasi\u00e3o<br \/>\nem que visitavam a quase extinta Menfis. ela mostrou desejos de que o marido<br \/>\nchorasse defronte do colosso mutilado de Rams\u00e9s II, que jazia estendido na<br \/>\nareia e o Borges choramingou para fazer-lhe a vontade. Quando desembarcaram<br \/>\nno Luqzor, \u00e0 margem direita de Tebas &#8220;a cidade de cem portas, decantada pelo<br \/>\nsublime cego de Smyrna&#8221; como parafraseava ela, cheia de entusiasmo, o pobre<br \/>\nhomem j\u00e1 estava mais morto que vivo; Filomena, entretanto, n\u00e3o admitiu que<br \/>\nse esbanjasse o precioso tempo com o repouso e exigiu que o Borges prestasse<br \/>\nsuma aten\u00e7\u00e3o \u00e0s maravilhas que surgiam defronte de seus olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Sabes?&#8230; disse-lhe ela&gt; atravessando com um passo solene o corpo principal<br \/>\ndo despojado templo de Luqzor &#8211; foi daqui que o solit\u00e1rio de Santa Helena<br \/>\nlevou o obelisco que orna hoje a pra\u00e7a da Conc\u00f3rdia, em Paris!<\/p>\n<p>&#8211; Boa pedra para constru\u00e7\u00e3o! respondeu o mestre de obras, batendo com a ponta<br \/>\nferrada de seu cajado no granito vermelho das velhas e consagradas esculturas<br \/>\nde Secos. Boa pedrinha! Isto deita s\u00e9culos!<\/p>\n<p>Felizmente, a mulher n\u00e3o o ouvia, gra\u00e7as ao encanto melanc\u00f3lico daquelas<br \/>\nrel\u00edquias, que a arrebatavam para as \u00e9pocas esplendorosas de Sesostris e a<br \/>\nfaziam reconstruir mentalmente toda a extinta grandeza da margem ocidental<br \/>\nde Tebas,<\/p>\n<p>Neste dia, n\u00e3o houve um momento de descanso. Filomena n\u00e3o tinha \u00e2nimo de<br \/>\nabandonar as ru\u00ednas, e como que as queria ver todas ao mesmo tempo. &#8211; Oh!<br \/>\n\u00d3 Karnak! \u00d3 Karnak com a sua avenida de esfinges decimbradas e os mon\u00f3litos<br \/>\ngloriosos de Amenhotep III !<\/p>\n<p>No fim de cinco horas de \u00eaxtases e exclama\u00e7\u00f5es desse g\u00eanero, o Borges cujo<br \/>\nest\u00f4mago reclamava os seus direitos disse, batendo-lhe meigamente no ombro:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te apetece agora uma costelazinha com batatas?&#8230; Creio que n\u00e3o ser\u00e1<br \/>\nmal lembrado&#8230; hein?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! disse Filomena, repreensivamente. &#8211; O que me apetece neste instante<br \/>\n\u00e9 o Medinet-Abu na outra margem do Nilo. Creio que esse prod\u00edgio de sete s\u00e9culos<br \/>\nvaler\u00e1 sempre mais alguma coisa que uma costeleta!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! de certo, de certo! apressou-se a confirmar o Borges, pronto j\u00e1 a seguir<br \/>\na esposa, sem o menor vest\u00edgio de oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, pelo caminho, indiscretos suspiros partiam-lhe a mi\u00fado dos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>&#8211; Triste fado o meu! resmungava o pobre homem com os seus bot\u00f5es. &#8211; Triste<br \/>\nfado!<\/p>\n<p>E l\u00e1 ia caminhando, de cabe\u00e7a baixa, a puxar pelo cabresto o seu burrico<br \/>\ne o da mulher.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O desgra\u00e7ado esteve a desfalecer, quando, no fim da estafadora peregrina\u00e7\u00e3o<br \/>\npelo Egito, Filomena tratou com assombro de Babil\u00f4nia, na qual, segundo vagas<br \/>\nrecorda\u00e7\u00f5es de Her\u00f4doto e Deodoro de Sic\u00edlia, pensava encontrar panos para<br \/>\nas mangas nas est\u00e1tuas de ouro e nos pal\u00e1cios de Korsabad e Nemrod e nos baixos<br \/>\nrelevos e nos caracteres da escritura ass\u00edria.<\/p>\n<p>Ah! s\u00f3 encontrou de tudo isso ind\u00edcios, quase apagados &#8211; ru\u00ednas e deserto!<br \/>\nsempre o deserto! sempre o deserto!<\/p>\n<p>Veio-lhe ent\u00e3o a id\u00e9ia de recorrer \u00e0 Gr\u00e9cia. &#8220;a\u00ed com certeza encontraria<br \/>\nalguma coisa; pelo menos os sublimes destro\u00e7os do Acrop\u00f3lio, do Partenon,<br \/>\ndo Agora!&#8221;<\/p>\n<p>J\u00e1 vejo que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o cedo que isto acaba!&#8230; considerou o Borges, quando<br \/>\na mulher lhe falou nas riquezas descobertas pelo professor Ihlismann, na Arg\u00f3lida.<\/p>\n<p>E, custasse o que custasse, ela havia de fazer um almo\u00e7o no tesouro de Atr\u00e9us<br \/>\ncomo fizera seu padrinho!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que padrinho \u00e9 esse? perguntou o Borges.<\/p>\n<p>&#8211; D. Pedro II, o nosso imperador.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230;<\/p>\n<p>Coitada! Mal ent\u00e3o sabia ela a influ\u00eancia que o monarca estava destinado<br \/>\na exercer na sua vida!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem! disse o Borges, depois do passeio \u00e0 Gr\u00e9cia. Agora, creio que basta<br \/>\nde ru\u00ednas e que podemos voltar para o nosso canto! Ah! se soubesse, Filomena,<br \/>\nas saudades que tenho de meu querido Paquet\u00e1!&#8230; Aquilo, sim, \u00e9 que \u00e9 terra!<br \/>\nEstou aqui a ver-me debaixo de uma mangueira, contigo ao lado, depois do jantar&#8230;<br \/>\nQue bom, meu Deus! que coisa boa1&#8230;.<\/p>\n<p>&#8211; Enlouqueceste?! exclamou ela. Pois n\u00f3s havemos de voltar sem conhecer a<br \/>\n\u00cdndia?!&#8230; A fan\u00e1tica! A terra das supersti\u00e7\u00f5es brutais! dos faquires sobre-humanos!<br \/>\nA \u00cdndia, com todos os seus formid\u00e1veis budas! A \u00cdndia, com o seu Both-Jattr\u00e1,<br \/>\nessa deslumbrante festa dos carros! Oh! n\u00e3o! isso seria imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>O Borges empalideceu.<\/p>\n<p>E depois da \u00cdndia, acrescentou ela por que n\u00e3o um pouco da Ar\u00e1bia, onde faremos<br \/>\nbelas peregrina\u00e7\u00f5es ao Nedjed, onde percorreremos aldeolas e lugarejos singulares,<br \/>\nestudando a vida das mulheres de Hail, com o seu uso original de trazer argolas<br \/>\nde ouro nas ventas e nas orelhas; onde teremos ocasi\u00e3o de apreciar os dan\u00e7ados<br \/>\ndas donzelas de Shakik?!&#8230; E a \u00c1frica?! A \u00c1frica ent\u00e3o?! Esquecia-se o Borges<br \/>\nde que a \u00c1frica era a \u00fanica paragem do mundo, em que ainda se podiam encontrar<br \/>\nregi\u00f5es desconhecidas? E, al\u00e9m disso, n\u00e3o valeriam a pena de alguns passos<br \/>\nas famosas cascatas de Samba-nagoshi, a aldeia de Mayolo, t\u00e3o estimada pelos<br \/>\nnaturalistas?! E as ca\u00e7adas dos elefantes pretos nas terras dos Aponos, e<br \/>\na ca\u00e7ada dos le\u00f5es de Mogiana e dos gorilas de Olenda?!&#8230; Acaso n\u00e3o reconhecia<br \/>\no Borges a necessidade urgente de ver e experimentar todas essas coisas?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 se vai tudo quanto Marta fiou!&#8230; disse o pobre homem, gemendo debaixo<br \/>\ndaquele bombardeamento.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o reagiu. E, no fim de algum tempo; ia-se j\u00e1 habituando ao viver bo\u00eamio<br \/>\nque a mulher lhe impunha. D\u00f3cil, como era, para escravizar-se aos h\u00e1bitos,<br \/>\nafez-se pouco a pouco \u00e0quele duro vagabundear, e estaria disposto a seguir<br \/>\nFilomena ao inferno, contanto que esta nunca mais lhe fechasse o ferrolho<br \/>\nsobre o nariz.<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>X &#8211; DE VOLTA A P\u00c1TRIA<\/h2>\n<p>E assim se transformava completamente sem dar por isso. N\u00e3o parecia o mesmo;<br \/>\nsabia montar a cavalo, atirar v\u00e1rias armas, bater-se em duelo, andar em veloc\u00edpede,<br \/>\ncorrer no gelo, jogar o soco e a bengala e at\u00e9 servir-se do terr\u00edvel bowie-knife<br \/>\nde dois gumes.<\/p>\n<p>E no fim de algum tempo, quem o visse \u00e0 tolda de um paquete ingl\u00eas, numa<br \/>\ndessas madrugadas cor de p\u00e9rola, enluvado no seu ulster de xadrezinho, o chap\u00e9u<br \/>\nao lado, a toalha ca\u00edda sobre as costas, o bigode retorcido, mon\u00f3culo no olho,<br \/>\nbin\u00f3culo a tiracolo, e t\u00e3o pronto ao prazer como ao perigo, l\u00e9pido, terr\u00edvel,<br \/>\nnamorador; quem o visse &#8211; seria capaz de acreditar que ali estava aquele mesmo<br \/>\nBorges, aquele pacato Jo\u00e3o Touro, que alguns anos antes atravessava as ruas<br \/>\ncomerciais do Rio de Janeiro, agenciando a vida, muito atarefado, dentro de<br \/>\nsuas calcinhas de brim mineiro?!&#8230;<\/p>\n<p>Onde iria j\u00e1 o casto, o puro, o doce Jo\u00e3o Touro do outro tempo?&#8230;<\/p>\n<p>As repetidas viagens, o atrito com as popula\u00e7\u00f5es estranhas, a familiaridade<br \/>\ncom os costumes de mil povos diversos, a experi\u00eancia das como\u00e7\u00f5es transcendentes,<br \/>\nderam-lhe grande desembara\u00e7o aos movimentos, certa eleg\u00e2ncia m\u00e1scula, de trappeur,<br \/>\nque de alguma forma dizia bem com os seus m\u00fasculos atl\u00e9ticos. Agora tinha<br \/>\nexclama\u00e7\u00f5es em todas as l\u00ednguas, anedotas de toda a esp\u00e9cie, termos e frases<br \/>\nde todo o mundo. E as correrias, os exerc\u00edcios, os perigos, fizeram-no intr\u00e9pido,<br \/>\naventuroso, despejado de maneiras, en\u00e9rgico como um her\u00f3i do romantismo.<\/p>\n<p>Por outro lado, o constante entusiasmo de Filomena pelas coisas do esp\u00edrito<br \/>\nacabara por domin\u00e1-lo: ensinara-lhe a ter, ou pelo menos suportar de cara<br \/>\nalegre certos prazeres delicados, como a m\u00fasica dos cl\u00e1ssicos, a conversa<br \/>\nsutil das senhoras de boa sociedade, os segredos da literatura, as linhas<br \/>\nmisteriosas da arquitetura, os primores de estatu\u00e1ria e o valor dos quadros<br \/>\nc\u00e9lebres.<\/p>\n<p>Ele! O Borges, aquele mesmo que, em Tebas, classificara o granito vermelho<br \/>\ndo Syena &#8211; boa pedra para constru\u00e7\u00e3o! &#8211; Quem o diria?&#8230;<\/p>\n<p>Alguns olhos femininos principiavam de voltar-se para ele com certa insist\u00eancia;<br \/>\nas mulheres descobriam-lhe j\u00e1 na eleg\u00e2ncia do todo e no esp\u00edrito da conversa,<br \/>\npretextos de amor e elementos de sedu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De volta ao Rio de Janeiro, os amigos mal o reconheceram. Acharam-no transformado<br \/>\nem tudo; descobriram-lhe novos dotes e novos defeitos, por\u00e9m estes em n\u00famero<br \/>\nmuito maior que aqueles. Fizeram-lhe boas e m\u00e1s aus\u00eancias.<\/p>\n<p>O Borges, o querido Borges, que at\u00e9 aos quarenta anos n\u00e3o conhecera o gostinho<br \/>\nde uma inimizade sequer, ficou pasmado quando, alguns dias depois de sua chegada<br \/>\n\u00e0 p\u00e1tria, come\u00e7ou de redominhar em torno dele um enxame de maledicentes, que<br \/>\no intrigavam, descompunham e malqueriam, tecendo intrigas, publicando mofinas,<br \/>\nremetendo-lhe cartas an\u00f4nimas, cheias de inj\u00farias, procurando covardemente,<br \/>\npor todos os meios e modos, injetar-lhe o fel e a amargura no cora\u00e7\u00e3o, como<br \/>\nse, ofuscados pelas apar\u00eancias, n\u00e3o pudessem admitir um t\u00e3o completo exemplo<br \/>\nde felicidade. As inj\u00farias versavam principalmente sobre o car\u00e1ter da mulher.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um desgosto sombrio principiou a persegui-lo; abominou a p\u00e1tria &#8211; esse<br \/>\ncovil de maus e de invejosos &#8211; qualificou ele, revesando o seu t\u00e9dio!<\/p>\n<p>Em breve, qualquer maledic\u00eancia a seu respeito, que lhe chegava aos ouvidos,<br \/>\npunha-o num estado lastim\u00e1vel de irrita\u00e7\u00e3o. E, no despenhadeiro de seu azedume,<br \/>\ntudo foi aos poucos lhe parecendo mau e mesquinho; chegou a desconfiar da<br \/>\nmulher; e sup\u00f4-la sem amor, sem gratid\u00e3o, capaz talvez de uma deslealdade;<br \/>\nsuspeitou de todos que o cercavam, detestou a sociedade, e, por n\u00e3o encontrar<br \/>\nsobre quem descarregasse diretamente o seu ressentimento, bramou contra o<br \/>\natraso do Brasil, contra a falta de distra\u00e7\u00f5es, contra a ignor\u00e2ncia geral<br \/>\ndo p\u00fablico, contra a incompet\u00eancia dos poderes, contra toda a &#8220;podrid\u00e3o social<br \/>\nenfim&#8221;!<\/p>\n<p>Uma terra de bugres! dizia e repetia ele aos amigos, que o visitavam todas<br \/>\nas noites. Uma terra de bugres! Aqui, um homem, para n\u00e3o morrer de t\u00e9dio,<br \/>\npara divertir-se um bocado, precisa atirar-se aos v\u00edcios, ou n\u00e3o sair de casa!<br \/>\n&#8211; Pa\u00eds de lama!<\/p>\n<p>E para esquecer-se de seu desgosto, jogava.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>De resto, o governo portugu\u00eas acabava de o fazer bar\u00e3o de Itassu, e o Rio<br \/>\nde Janeiro fariscava em torno de sua casa, atra\u00eddo pelo som da m\u00fasica e pelo<br \/>\nbarulho dos pratos.<\/p>\n<p>A casa! A casa, ou antes o museu do Borges, que outra coisa n\u00e3o era esse<br \/>\nninho de raridades de que se falava em toda a Corte, dessas magnifici\u00eancias<br \/>\ndo luxo antigo e moderno, desses ricos objetos da arte de todos os tempos<br \/>\ne de todas as paragens. A casa transformara-se, como o dono.<\/p>\n<p>Tudo foi reformado. Exibiram-se novos trastes, novas cortinas, tape\u00e7arias,<br \/>\npeles, cachemiras, bronzes, faian\u00e7as, cristais, porcelanas, quadros, estatuetas,<br \/>\naqu\u00e1rios, \u00e1lbuns, mosaicos, vasos florentinos, lustres de vermeil, espelhos<br \/>\nvenezianos talhados \u00e0 bisseau, cari\u00e1tides de Jean Goujon, servindo de peanhas<br \/>\na esculturas de Germam Pilou, e uma variedade intermin\u00e1vel de tet\u00e9ias e rel\u00edquias,<br \/>\nque a baronesa colecionara por todo o mundo. Expuseram-se velhas cadeiras<br \/>\ncom espaldar e assento de couro de C\u00f3rdova, lavrado, e tacheado de metal amare]o;<br \/>\nleitos \u00e0 Renascen\u00e7a de colunas retorcidas e m\u00e9topes talhados em madeira fusca;<br \/>\njarras do Oriente, sarapintadas de hier\u00f3glifos; objetos preciosos de marfim,<br \/>\nmanufaturados na China; molduras delicad\u00edssimas de porcelana, a Luiz XIV,<br \/>\nrepresentando grinaldas coloridas; consolos de br\u00eache-antique, sustentados<br \/>\npor delfins de olhos e barbatanas douro, luzido; sem contar as otomanas asi\u00e1ticas,<br \/>\nos div\u00e3s, os fauteuils, as etag\u00e8res de xar\u00e2o, de palissandra, de \u00e9bano; enfim<br \/>\no que podia haver de raro, de singular, de extraordin\u00e1rio. N\u00e3o era uma casa,<br \/>\nera um prolongamento do Hotel Cluny. Cada objeto, cada m\u00f3vel, cada pe\u00e7a representava<br \/>\numa \u00e9poca, um reinado, uma escola.<\/p>\n<p>Mas o bar\u00e3o, quando ficava a s\u00f3s no meio de tudo isso, sentia-se acabrunhar<br \/>\npor uma esp\u00e9cie de remorso; afigurava-se lhe fugir debaixo dos p\u00e9s o ch\u00e3o<br \/>\ns\u00f3lido e \u00e1spero do dever, para dar lugar aos tapetes felpudos e voluptuosos;<br \/>\nparecia-lhe ouvir uma voz austera, que se levantava de tudo aquilo para o<br \/>\narg\u00fcir e reprovar.<\/p>\n<p>&#8211; Pois foi nisto que esbanjaste o teu dinheiro, Jo\u00e3o Borges?!&#8230; Foi nestas<br \/>\nquinquilharias que enterraste essa fortuna, que teu pai, \u00e0 custa de tanto<br \/>\nsacrif\u00edcio, conseguiu juntar para ti, insensato? Perdul\u00e1rio! &#8230; E agora v\u00e3o<br \/>\nver!&#8230; Tudo por que? &#8211; Porque o peda\u00e7o d&#8217;asno adora cegamente uma mulher,<br \/>\num dem\u00f4nio, a quem se entrega de corpo e alma e que faz dele o que bem entende,<br \/>\nsem talvez lhe dedicar um pouco de afei\u00e7\u00e3o, pois, se dedicasse n\u00e3o seria a<br \/>\nprimeira a cavar-lhe deste modo a ru\u00edna!&#8230; Oh, sim! dizia o infeliz, deixando-se<br \/>\ncair em uma de suas cadeiras preciosas. &#8211; Oh, sim! sou um miser\u00e1vel, mas amo-a<br \/>\ntanto! adoro-a t\u00e3o extremosamente, que ainda seria capaz de muito mais para<br \/>\nconserv\u00e1-la sempre ao meu lado!<\/p>\n<p>E procurando fugir ao ferretear dessas considera\u00e7\u00f5es, refugiava-se no entorpecimento<br \/>\nda embriagues, nos sobressaltos do jogo e na conversa agitada dos amigos,<br \/>\nque o iam cardando e descodeando todas as noites.<\/p>\n<p>Filomena, por outro lado, n\u00e3o se mostrava, apesar do titulo, completamente<br \/>\nfeliz.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que te falta ainda?&#8230; perguntou-lhe o marido, sem se poder conter,<br \/>\numa vez que a viu mais triste e desconsolada. &#8211; Creio que at\u00e9 hoje tenho cumprido<br \/>\n\u00e0 risca, e com sacrif\u00edcio de nosso futuro, todos os teus desejos e todos os<br \/>\nteus caprichos! Possu\u00eds uma casa como ambicionaste; \u00e9s requestada pela melhor<br \/>\nsociedade; ostentas um t\u00edtulo, e tens plena certeza de que eu, teu marido,<br \/>\nteu amante apaixonado, s\u00f3 vivo por ti, e para ti! Sabes perfeitamente que<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 em todo o mundo, por toda a parte onde estivemos, uma \u00fanica mulher,<br \/>\nescrava ou rainha, que me fizesse esquecer um instante de ti, minha querida<br \/>\nFilomena! E, no entanto, eu, tu! que \u00e9s a minha \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o, o meu cativeiro,<br \/>\ntu, nem por isso te mostras mais satisfeita e mais agradecida! Mas, com todos<br \/>\nos dem\u00f4nios! Se te falta ainda alguma coisa, fala com franqueza! Exige! ordena!<br \/>\nMas por amor de Deus n\u00e3o me tortures com essas tristezas e com esses suspiros<br \/>\nque me desesperam! Bem sabes que \u00e9s tudo quanto possuo? \u00c9s a minha vida! a<br \/>\nminha felicidade! Vamos! Fala! fala! dize o que te oprime, Filomena de minhalma<\/p>\n<p>&#8211; Nada! N\u00e3o tenho nada! respondia a mulher com um esgar fastidioso. Quero<br \/>\napenas que me deixem!&#8230; Que me n\u00e3o apoquentem com perguntas! &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tudo isso prova que nunca me amaste!&#8230; disse o Borges retraindo-se.<\/p>\n<p>&#8211; AI temos outra! observou Filomena, e, depois de um novo gesto de t\u00e9dio,<br \/>\nafastou-se, resmungando &#8211; que n\u00e3o estava disposta \u00e0quilo!<\/p>\n<p>Borges atirou-se sobre uma das tais cadeiras, e escondeu o rosto nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Que desgra\u00e7a a sua! Que desgra\u00e7a! &#8230; pensava. Ora vissem se era poss\u00edvel<br \/>\nhaver um homem mais infeliz do que ele!..- Pois a despeito de tudo que fazia<br \/>\npela mulher, ainda n\u00e3o merecia amor! Mas ent\u00e3o Filomena estaria disposta a<br \/>\nser sempre a mesma ingrata? &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! bradou ele, erguendo-se. N\u00e3o! decididamente \u00e9 preciso fazer-se forte!<br \/>\n\u00c9 preciso reagir! Talvez at\u00e9 seja este o meio de lhe cair em gra\u00e7a por uma<br \/>\nvez!<\/p>\n<p>Mas da\u00ed a duas horas, vendo que a mulher n\u00e3o saia do quarto, foi ter com<br \/>\nela.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o? Ainda dura a rabugem? &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-me! respondeu Filomena com uma voz de choro.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que te aflige, meu amor? Fala, fala com franqueza! N\u00e3o sou eu porventura<br \/>\no teu amiguinho, o teu confidente, o teu \u00edntimo?&#8230; Olha, se est\u00e1s aborrecida,<br \/>\nprocura meios de distrair-te; bem sei que aqui n\u00e3o h\u00e1 muito aonde ir, mas<br \/>\ninventa! V\u00ea se descobres alguma id\u00e9ia. \u00c9 verdade &#8211; tu ainda n\u00e3o festejaste<br \/>\no nosso t\u00edtulo&#8230; a\u00ed tens! Porque n\u00e3o d\u00e1s tu um baile, um jantar ou coisa<br \/>\nque o valha?<\/p>\n<p>Filomena abra\u00e7ou o marido, balbuciando palavras de reconhecimento.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda bem! Ainda bem! disse ele, sem mais se lembrar das apoquenta\u00e7\u00f5es.<br \/>\nE, sentindo que a mulher animava-se-lhe aos beijos. &#8211; Assim! assim \u00e9 que te<br \/>\nquero ver sempre?<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a falar, muito amigavelmente, sobre os projetos da festa. Aproximava-se<br \/>\no entrudo. &#8211; E se dessem um baile de m\u00e1scaras?!&#8230;<\/p>\n<p>Esta id\u00e9ia trouxe a Filomena uma alegria convulsiva. &#8211; Um baile de m\u00e1scaras!<br \/>\num baile de m\u00e1scaras! exclamava ela fora de si. &#8211; Mas como j\u00e1 n\u00e3o me tinha<br \/>\neu lembrado disto?!&#8230;<\/p>\n<p>E saltou ao pesco\u00e7o do Borges, radiante. &#8211; Que belo! que belo! Um baile de<br \/>\nm\u00e1scaras!<\/p>\n<p>Deram logo princ\u00edpio aos preparativos da festa, e durante esses dias, Filomena<br \/>\nn\u00e3o deixou transparecer sinal de aborrecimento. Ao contr\u00e1rio, muito animada,<br \/>\nmuito contente de sua vida, era ela pr\u00f3pria quem tomava as provid\u00eancias para<br \/>\na fun\u00e7\u00e3o. &#8211; Ah! mas havia de ser uma festa sem exemplo no Brasil! Uma festa<br \/>\nque desse que falar por muito tempo.<\/p>\n<p>Todavia, Borges andava meio atrapalhado nos seus neg\u00f3cios, e, para n\u00e3o desgostar<br \/>\na mulher, escondia-lhe, sabe Deus com que hero\u00edsmo, certas dificuldades de<br \/>\ndinheiro, que o principiavam a perseguir.<\/p>\n<p>&#8211; Em todo o caso, Filomena teria o seu baile de m\u00e1scaras!&#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>XI &#8211; QUAL DOS DOIS MARIDOS SER\u00c1 O MAIS INFELIZ?<\/h2>\n<p>Nas v\u00e9speras do grande dia, quando o Borges andava de baixo para cima, tratando<br \/>\nde p\u00f4r em pr\u00e1tica as ordens da mulher, deu cara a cara com o Barroso, uma<br \/>\nnoite em que entrava no Passeio P\u00fablico.<\/p>\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel que os dois companheiros de inf\u00e2ncia nem se<br \/>\ncumprimentassem, pois nunca mais se tinham visto depois da resinga do casamento;<br \/>\nmas encontrados assim, de supet\u00e3o, ambos colhidos de surpresa, n\u00e3o puderam<br \/>\nconter o cl\u00e1ssico- Oh! &#8211; dos momentos de circunst\u00e2ncia, e, quando deram por<br \/>\nsi, j\u00e1 estavam nos bra\u00e7os um do outro.<\/p>\n<p>Ah! eles haviam sido t\u00e3o camaradas, t\u00e3o parecidos nos gostos e nos costumes!<br \/>\nusando da mesma moral e dos mesmos princ\u00edpios! Durante quarenta anos tinham<br \/>\nseguido sempre a mesma linha tesa das conveni\u00eancias comerciais: &#8211; O Borges,<br \/>\ncomo sabemos, transviara-se com o impulso que lhe deu Filomena; mas o Barroso,<br \/>\nn\u00e3o senhor! &#8211; foi cada vez mais acentuando a sua circunspec\u00e7\u00e3o e enrijando<br \/>\nos seus cr\u00e9ditos de homem s\u00e9rio.<\/p>\n<p>De sorte que, atirados agora um defronte do outro, em flagrante contraste<br \/>\n&#8211; o Barroso t\u00e3o grave, t\u00e3o r\u00edspido, t\u00e3o Invulner\u00e1vel dentro de seu palet\u00f3<br \/>\nsaco, fiel ao seu permanente chap\u00e9u alto de pelo e ao seu guarda-chuva desenrolado;<br \/>\n&#8211; e o Borges, t\u00e3o catita t\u00e3o gamenho, t\u00e3o moderno nos seus sapat\u00f5es ingleses<br \/>\ne na sua bengalinha de junco &#8211; n\u00e3o podiam fugir ao mais completo embara\u00e7o.<\/p>\n<p>Sentaram-se ambos no primeiro banco, ao lado um do outro. sem uma palavra,<br \/>\nmudos como dois frades de pedra.<\/p>\n<p>Borges, no fim de alguns instantes de completo sil\u00eancio, caiu de novo nos<br \/>\nbra\u00e7os do amigo e abriu a chorar copiosamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o era o bar\u00e3o de Itassu quem chorava ali, era o Jo\u00e3o Touro, o primitivo,<br \/>\no bom Jo\u00e3o Touro doutros tempos, que agora reaparecia, como por encanto, \u00e0<br \/>\nvista de um companheiro de seu doce passado, t\u00e3o tranq\u00fcilo e singelo.<\/p>\n<p>Chorou muito, muito, como se desabafasse naquele momento toda a acumula\u00e7\u00e3o<br \/>\nde contrariedade, de desgosto e de fadigas, que se lhe foram amontoando no<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o desde a primeira noite do casamento. Era um pranto velho, h\u00e1 muito<br \/>\ntempo represado \u00e0 falta de uma ocasi\u00e3o para rebentar.<\/p>\n<p>O Barroso recebia no peito as l\u00e1grimas do antigo camarada, sem fazer um movimento,<br \/>\nnem ter uma palavra para lhe dizer. Enquanto chorava o Borges, ele fazia por<br \/>\nexplicar a si mesmo como diabo se podia conciliar toda aquela lam\u00faria com<br \/>\na jubilosa apar\u00eancia do amigo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9s ent\u00e3o feliz com tua mulher? &#8230; perguntou-lhe afinal.<\/p>\n<p>&#8211; Adoro-a! respondeu o outro, limpando os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 que a minha vida de casado tem sido uma tempestade constante! Ainda<br \/>\nn\u00e3o o disse a ningu\u00e9m, digo-te a ti, que \u00e9s o \u00fanico amigo em quem deposito<br \/>\nconfian\u00e7a. Ah! n\u00e3o imaginas! n\u00e3o imaginas, Barroso, o que tenho experimentado!<br \/>\nN\u00e3o calcules de que for\u00e7a \u00e9 minha mulher&#8230; Bem me dizias tu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas por que n\u00e3o a p\u00f5es a teu jeito, filho?<\/p>\n<p>&#8211; Porque a adoro, como te disse. Porque s\u00f3 a id\u00e9ia de lhe cair em desagrado<br \/>\nme faz tremer! P\u00f4-la a meu jeito &#8211; dizes tu! \u00c9 que n\u00e3o a conheces! \u00c9 que,<br \/>\nfelizmente para ti ~, nunca te deixaste arrastar por uma paix\u00e3o como a minha!<\/p>\n<p>E, depois de uma pausa, enquanto o outro se torcia sob aquela expans\u00e3o sentimental:<\/p>\n<p>&#8211; P\u00f4-la a meu jeito!&#8230; foi ela quem me p\u00f4s ao seu! Foi ela que me torceu<br \/>\na seu bel-prazer!<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! E quem te mandou consentir?<\/p>\n<p>&#8211; Repito! nunca amaste, que se j\u00e1 o houvesse feito, n\u00e3o estranharias a minha<br \/>\nfraqueza.<\/p>\n<p>E, baixando a voz, disse-lhe alguma coisa no ouvido.<\/p>\n<p>O Barroso fez um gesto de indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Desaforo! N\u00e3o havia de ser comigo, juro-te!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! S\u00f3 Deus sabe pelo que tenho passado!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! contradisse o Barroso. N\u00e3o! Uma mulher dessa ordem, manda-a a gente<br \/>\nplantar batatas!<\/p>\n<p>&#8211; Imposs\u00edvel! Se te estou a dizer que a adoro!<\/p>\n<p>O outro sacudiu os ombros:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o era isso o que ele supunha! Pelo que ouvira por ai, ia jurar que o<br \/>\nBorges era o homem mais feliz do mundo!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que todos julgam&#8230; tugiu o bar\u00e3o com tristeza.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo menos \u00e9 o que leva a acreditar esse teu modo de viver, de tempos para<br \/>\nc\u00e1! S\u00e3o s\u00f3 pagodes e mais pagodes! Eu&#8230; confesso-te &#8211; sempre estranhei!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! gemeu o outro. S\u00f3 Deus sabe quanto me custa tudo isto! Meu amigo, v\u00eas-me<br \/>\na cara e n\u00e3o me v\u00eas o cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vamos tomar alguma coisa, disse o Barroso erguendo-se do banco e seguindo<br \/>\nna dire\u00e7\u00e3o do botequim. Creio que agora j\u00e1 bebes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se bebo! tartamudeou o outro, acompanhando-o. Se bebo!<\/p>\n<p>E foram ambos sentar-se a uma mesinha no lugar das bebidas.<\/p>\n<p>&#8211; Pois muito me contas!&#8230; prosseguiu o Barroso, enchendo os copos de cerveja.<\/p>\n<p>&#8211; E ainda n\u00e3o te disse nada!&#8230; acrescentou o Borges, a olhar muito s\u00e9rio<br \/>\npara um buraco que fazia no ch\u00e3o com a ponta da bengala.<\/p>\n<p>E depois, encarando o amigo:<\/p>\n<p>&#8211; Mas olha! Isto que n\u00e3o passe daqui. Imagina que pape1 faria eu, se viessem<br \/>\na saber que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Borges! interrompeu o Barroso, ofendendo-se. Eu ainda sou o mesmo! Ainda<br \/>\nsou aquele mesmo amigo para a vida e para a morte! Por que est\u00e1s mudado e<br \/>\nporque j\u00e1 n\u00e3o d\u00e1s id\u00e9ia do que foste, n\u00e3o se segue que os mais tamb\u00e9m se tenham<br \/>\ntransformado! Oh!<\/p>\n<p>&#8211; Bem sei, bem sei, meu bom amigo; perdoa! E olha, vai s\u00e1bado l\u00e1 \u00e0 casa;<br \/>\na mulher arranjou uma festa&#8230; leva contigo quem quiseres.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre as festas! censurou o Barroso acremente. Sempre as festas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que queres tu? Filomena obriga-me a estas coisas! Hoje, creio at\u00e9 que eu<br \/>\npr\u00f3prio j\u00e1 n\u00e3o poderia passar sem isso! Tudo vai do h\u00e1bito!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 imperdo\u00e1vel, mas irei, irei \u00e0 tua casa&#8230;<\/p>\n<p>E meneando a cabe\u00e7a: &#8211;<\/p>\n<p>&#8211; Pobre Borges! Pobre Borges!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Traze mais cerveja! disse este ao caixeiro, com uma voz plangente.<\/p>\n<p>&#8211; Pois vais beber ainda?&#8230; observou o outro admirado.<\/p>\n<p>&#8211; Quero festejar o restabelecimento de nossa amizade!<\/p>\n<p>&#8211; Seja; mas eu n\u00e3o te posso acompanhar. Bem sabes que a minha conta \u00e9 um<br \/>\ncopo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sei, sei! Quantas vezes noutro tempo, assentados invariavelmente nos fundos<br \/>\nda venda do Sampaio, n\u00e3o fiz caretas ao teu copinho de cerveja!&#8230; Ent\u00e3o era<br \/>\neu quem se admirava de que &#8220;houvesse no mundo algu\u00e9m que a bebesse por gosto&#8230;&#8221;<br \/>\nentretanto&#8230; tu continuas a tomar a tua cervejinha todas as noites, ao passo<br \/>\nque eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Todas as noites&#8230; confirmou o Barroso. \u00c9 o meu v\u00edcio! Com a diferen\u00e7a<br \/>\nde que agora, em vez de a tomar na casa do Sampaio, tomo-a quase sempre ao<br \/>\nlado de minha mulher.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade! N\u00e3o me lembrava que havias tamb\u00e9m casado. E como vais te dando<br \/>\ncom a vida?<\/p>\n<p>&#8211; Bem! N\u00e3o tenho raz\u00e3o de queixa! A Sabina, justi\u00e7a se lhe fa\u00e7a, \u00e9 uma excelente<br \/>\nmulher! Bom g\u00eanio&#8230; acomoda-se com tudo&#8230; n\u00e3o gosta de festas!&#8230; \u00c0s vezes<br \/>\nat\u00e9 \u00e9 preciso que eu a obrigue a sair de casa para distrair-se um bocado,<br \/>\ncoitada!<\/p>\n<p>&#8211; Sim? hein?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vivemos como Deus com os anjos!&#8230;<\/p>\n<p>Houve uma pausa.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 temos um pequeno, sabes?&#8230; acrescentou ele depois.<\/p>\n<p>Borges continuou silencioso, a cabe\u00e7a derreada numa taciturnidade invejosa.<br \/>\nS\u00f3 mudou de posi\u00e7\u00e3o para esgotar o copo e tornar a enche-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda?! censurou o outro.<\/p>\n<p>&#8211; Que queres, homem?!&#8230;<\/p>\n<p>E depois de alguns goles:<\/p>\n<p>&#8211; Com que ent\u00e3o, \u00e9s feliz?&#8230; E suspirou.<\/p>\n<p>&#8211; Sou, gra\u00e7as a Deus! sou! respondeu o Barroso estirando-se na cadeira. L\u00e1<br \/>\na minha Eva n\u00e3o \u00e9 nenhuma senhora que meta vista, l\u00e1 isso n\u00e3o \u00e9!&#8230; Ao contr\u00e1rio,<br \/>\ncoitada! n\u00e3o serve para se haver com etiquetas e cerim\u00f4nias; por\u00e9m, no que<br \/>\nse diz &#8211; arranjo de casa, do\u00e7ura de g\u00eanio, tratamento do filho e mimos c\u00e1<br \/>\ncom o nhonh\u00f4&#8230; nisso n\u00e3o quero que haja segunda! Meiguice ali! Ela \u00e9 incapaz<br \/>\nde uma resinga! Sempre a mesma! Sempre! Al\u00e9m disso muito asseiada, muito amiga<br \/>\nde arrumar e ativa, ativa que faz gesto! Ainda h\u00e1 pouco tempo ficamos tr\u00eas<br \/>\ndias sem criada. Pois, filho! acredita que a Sabina, arrega\u00e7ou as mangas,<br \/>\nmeteu-se na cozinha, agarrou-se a uma vassoura, e, tantas voltas deu, tanto<br \/>\nvirou, que a criada n\u00e3o fez falta! Foi preciso que eu ralhasse para a ver<br \/>\nsossegar um instante! N\u00e3o! como dona de casa n\u00e3o quero que haja outra!&#8230;<br \/>\nmas tamb\u00e9m podes ver de que maneira a trato!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ai. ai! suspirou o Borges. Gar\u00e7on!, mais cerveja.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o bebas mais!, aconselhou o Barroso.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-me!, balbuciou o outro limpando os olhos. Deixa-me!<\/p>\n<p>Quando se levantaram para sair, o marido de Filomena, muito atacado dos nervos,<br \/>\nmuito excitado pela cerveja, chorava como uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Consola-te, homem! dizia o amigo, batendo-lhe no ombro. Consola-te! Mais<br \/>\ntem Deus para dar que o diabo para tomar!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Por\u00e9m, no dia seguinte, quem fosse \u00e0 casa do Sr. bar\u00e3o de Itassu, das nove<br \/>\nda noite \u00e0s seis da madrugada e o visse fantasiado de chicard no meio da dan\u00e7a,<br \/>\nn\u00e3o seria capaz de acreditar que ali estivesse o mesmo homem da v\u00e9spera.<\/p>\n<p>Era de um c\u00f4mico o Borges de cabeleira de arminho e capacete com penacho<br \/>\nvermelho. O seu vigoroso tipo de montanh\u00eas n\u00e3o se acomodava bem dentro da<br \/>\nextravagante camisola de seda cor de rosa, franjada de ouro, que lhe mostrava<br \/>\nos ombros e os grossos bra\u00e7os nus, e parecia reagir contra as pitorescas botas<br \/>\nde montar, que lhe iam at\u00e9 ao joelho.<\/p>\n<p>&#8211; Falta-te qualquer coisa!&#8230; dissera-lhe a mulher a consider\u00e1-lo de alto<br \/>\na baixo, na ocasi\u00e3o em que ele lhe perguntou que tal o achava. Deves dar mais<br \/>\nelasticidade aos movimentos; n\u00e3o trazer esse capacete assim ca\u00eddo sobre a<br \/>\nnuca, e puxar o canh\u00e3o das botas mais para cima.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 que apareceu encantadora numa fantasia espanhola, que lhe deixava bem<br \/>\npatente o rijo desenho do corpo e mostrava um princ\u00edpio de pernas, parte do<br \/>\ncolombino seio, e completo aquele famoso pesco\u00e7o cor de cam\u00e9lia, tormento<br \/>\nde muita gente nas poucas vezes que se expunha.<\/p>\n<p>Os adoradores crivavam-no \u00e0 ponta de olhares gulosos, e desfaziam-se em galanteios.<\/p>\n<p>A festa foi no primeiro pavimento, e toda ela de um brilho original e deslumbrante.<\/p>\n<p>Plantas e flores por toda parte, entre decora\u00e7\u00f5es de bandeiras e galhardetes;<br \/>\nlongos ros\u00e1rios de pequenas lanternas redondas, desenhando os mais graciosos<br \/>\narabescos em uma bela variedade de cores; palmeiras, tinhor\u00f5es, grutas artificiais,<br \/>\nrepuxos, s\u00e1tiros e faunos, engendravam grupos artisticamente distribu\u00eddos.<\/p>\n<p>A m\u00fasica, que n\u00e3o se sabia donde vinha, chegava \u00e0s salas t\u00e9pidas, abafada<br \/>\ne voluptuosa, como gemidos, beijos e solu\u00e7os errantes pelo ar. A luz, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nda m\u00fasica, era tamb\u00e9m distribu\u00edda suavemente, em tons opalinos e duvidosos.<\/p>\n<p>Tudo era morno e misterioso: os tapetes de seda fina, Imitando relva, bebiam<br \/>\no som dos passos; os coxins de damasco da \u00c1sia, os div\u00e3s bojudos e rasteiros,<br \/>\ncomo bonzos deitados de bru\u00e7os no ch\u00e3o, tinham a maciez fofa e mole de carnes<br \/>\ngordas; enquanto que dos maci\u00e7os de verdura se desprendia, numa sutil pulveriza\u00e7\u00e3o,<br \/>\num delicioso chuvisco de perfumes, que ado\u00e7ava e refrescava o ambiente e punha<br \/>\nnos sentidos um vago entorpecimento de vol\u00fapia.<\/p>\n<p>Como para contrastar com toda essa suavidade de tons e sons, havia no fundo<br \/>\ndo sal\u00e3o principal um enorme t\u00edmpano de metal polido, em forma de quadrante<br \/>\nde rel\u00f3gio, que servia para marcar as v\u00e1rias pe\u00e7as da dan\u00e7a. Era bastante<br \/>\nque o regente da orquestra tocasse, l\u00e1 do seu esconderijo, num bot\u00e3ozinho<br \/>\nel\u00e9trico, que tinha ao lado, para que o grande t\u00edmpano, nem s\u00f3 com um ponteiro,<br \/>\nmas em badaladas sonoras, anunciasse por toda a casa a quadrilha ou a valsa<br \/>\nque se ia dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Um terra\u00e7o, iluminado \u00e0 luz el\u00e9trica, estabelecia comunica\u00e7\u00e3o entre as salas<br \/>\ne a ch\u00e1cara, onde pequenos quiosques transparentes, como gigantescas lanternas<br \/>\nde papel pousadas sobre a grama, ofereciam aos convidados a mais completa<br \/>\nvariedade de vinhos e refrescos.<\/p>\n<p>Com efeito! disse o Barroso, olhando com um ar de censura para tudo aquilo.<br \/>\nCom efeito! \u00c9 at\u00e9 onde pode chegar a maluquice de um homem!&#8230;<\/p>\n<p>E n\u00e3o conseguiu reprimir a sua indigna\u00e7\u00e3o ao ver o Borges aproximar-se dele<br \/>\naos saltos, agitando o irrequieto e escandaloso penacho do seu ofuscante capacete<br \/>\ncor de prata:<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo \u00e9 isso?!&#8230; exclamou, deste para maluco! Pois n\u00e3o v\u00eas, homem,<br \/>\nque j\u00e1 n\u00e3o te ficam bem essas coisas?!&#8230; Queres acabar num hosp\u00edcio?!&#8230;<br \/>\nOra, o que parece um marmanj\u00e3o da tua idade a pular no meio da casa, vestido<br \/>\nde princ\u00eas?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que queres, meu amigo?&#8230; o amor! o amor! disse o Borges, procurando ser<br \/>\ngrave e conseguindo apenas ficar mais c\u00f4mico debaixo da sua cabeleira a Lu\u00eds<br \/>\nXV.<\/p>\n<p>&#8211; Qual o amor, nem qual carapu\u00e7a! retrucou o outro, ralhando.- Eu amo muito<br \/>\nminha mulher, e, ai dela se me viesse para c\u00e1 com pantominices dessa ordem!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 por que n\u00e3o est\u00e1s nas minhas condi\u00e7\u00f5es! Fosses tu casado com Filomena<br \/>\ne dir-me-ias depois!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual o que!, contradisse o Barroso. Tu o que precisavas era de um c\u00e1ustico<br \/>\nna nuca!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, com a breca! querias ent\u00e3o que eu contrariasse minha mulher?!&#8230; repontou<br \/>\no Borges, perdendo a paci\u00eancia. Que diabo! eu desejava estar casado de outro<br \/>\nmodo!&#8230; juro-te que preferia uma esposa como dizes ser a tua! &#8230; Mas a sorte<br \/>\nn\u00e3o quis assim; que lhe hei de eu fazer? &#8230; Agora \u00e9 levar a cruz ao Calv\u00e1rio!<br \/>\nSe eu n\u00e3o a estimasse, bem! mas eu adoro-a, como j\u00e1 te confessei um milh\u00e3o<br \/>\nde vezes; e ela, meu amigo, formosa, querida, desejada como \u00e9, vendo-se contrariada,<br \/>\nseria, em repres\u00e1lia, muito capaz de fugir dos meus bra\u00e7os para os de outro<br \/>\nqualquer!<\/p>\n<p>&#8211; Pois que fugisse! \u00c9 boa!<\/p>\n<p>&#8211; Que fugisse, n\u00e3o! bradou o Borges encolerizando-se. Vai para o diabo com<br \/>\no teu agouro! Prefiro tudo a ver-me privado da sua companhia! Serei um louco,<br \/>\num libertino, um criminoso, se preciso for, contanto que a tenha sempre ao<br \/>\nmeu lado, que a veja, que a sinta, que a ame, que a possua! Deix\u00e1-la ir! E<br \/>\nnesse caso de que me serviria a vida?!&#8230; Sem ela de que me serviria a posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial, a estima p\u00fablica e todas as grandezas da terra?!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o era dessa forma que me falavas h\u00e1 poucos dias&#8230; observou o Barroso,<br \/>\ndeveras surpreso com a transforma\u00e7\u00e3o r\u00e1pida que se acabava de operar no amigo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que ent\u00e3o n\u00e3o me aconselhavas que a deixasse fugir de meus bra\u00e7os!&#8230;<br \/>\nrespondeu o marido de Filomena.<\/p>\n<p>&#8211; O que te afian\u00e7o, acrescentou o outro, \u00e9 que, se desconfiasse que havias<br \/>\nde mudar t\u00e3o depressa, n\u00e3o teria vindo \u00e0 tua casa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s arrependido?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, filho! n\u00e3o estou arrependido&#8230; mas \u00e9 que ainda h\u00e1 t\u00e3o poucos dias<br \/>\ntu te queixavas daquela forma de tua mulher, e hoje saltas-me com tr\u00eas pedras<br \/>\nna m\u00e3o, s\u00f3 porque eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! tornou o Borges, passando o bra\u00e7o na cintura do amigo e procurando<br \/>\nfalar-lhe em segredo. Ah! &#8230; \u00e9 que nesse momento eu estava longe de Filomena,<br \/>\nfora do alcance de sua fascina\u00e7\u00e3o, do perfume de seus cabelos, do eco de sua<br \/>\nvoz, da reflex\u00e3o de seus olhos!&#8230;<\/p>\n<p>O Barroso fitou-o assombrado, e fez um gesto para fugir-lhe do bra\u00e7o. Que<br \/>\ndiabo de palavr\u00f3rio era aquele?!&#8230;<\/p>\n<p>O outro n\u00e3o fez caso e segurou-o melhor.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00ea!&#8230; disse-lhe entusiasmado apontando para a mulher, que atravessava<br \/>\na sala pr\u00f3xima. Olha! V\u00ea como vai formosa! Contempla aquela garganta de m\u00e1rmore,<br \/>\naquele porte de rainha eg\u00edpcia, aqueles olhos mais formosos que as estrelas!<br \/>\nContempla-a toda, e dir-me-\u00e1s depois, desgra\u00e7ado! se h\u00e1 no mundo coisa alguma<br \/>\nque valha a posse de todo aquele tesouro vivo e palpitante!&#8230; se h\u00e1 coisa<br \/>\nalguma, seja ela a do\u00e7ura do lar, as gl\u00f3rias do talento, a consola\u00e7\u00e3o do trabalho,<br \/>\nas honrarias sociais, o respeito, o acatamento de seus semelhantes, o amor<br \/>\nde uma gera\u00e7\u00e3o inteira &#8211; se h\u00e1 alguma coisa que possa corresponder \u00e0 suprema<br \/>\nventura de ser seu escravo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tu bebeste demais! exclamou o Barroso, conseguindo afinal arrancar-lhe<br \/>\ndos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o bebi demais! respondeu o bar\u00e3o, fazendo um gesto dram\u00e1tico.<\/p>\n<p>&#8211; Mas lembraste a prop\u00f3sito: Champanhe! exclamou para um criado. Champanhe!<br \/>\nDepressa!<\/p>\n<p>E depois, erguendo a ta\u00e7a, que se lhe entornava sobre os dedos: &#8211; Ao amor,<br \/>\nBarroso! Ao sempre belo! ao sempre novo! ao nunca vencido! ao amor!<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s insuport\u00e1vel! resmungou o amigo, pensando j\u00e1 em escamugir-se na primeira<br \/>\nocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>E mal pilhou uma escapula, foi-se.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Em casa, a mulher, que ainda estava de p\u00e9, admirou-se de o ver entrar t\u00e3o<br \/>\ncedo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu estou l\u00e1 disposto a aturar bebedeiras de quem quer que seja?!&#8230;<br \/>\nexclamou ele, desabridamente, a desenfiar a sobrecasaca. O Borges est\u00e1 insuport\u00e1vel!<br \/>\nEst\u00e1 um libertino! A mulher faz dele o que quer. Eu, se adivinhasse semelhante<br \/>\ncoisa, at\u00e9 nem lhe tinha falado quando o vi! Um pancada!<\/p>\n<p>&#8211; Mas que fez ele?&#8230; perguntou D. Sabina, emperrando com as palavras do<br \/>\nmarido.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Faz todas as loucuras que vem \u00e0 cabe\u00e7a da mulher! N\u00e3o Imaginas! -..<br \/>\n\u00c9 bastante que ela mostre desejo de uma coisa, seja qual for, a mais extravagante,<br \/>\na mais irrealiz\u00e1vel, a\u00ed est\u00e1 o homem tratando de p\u00f4-la em pr\u00e1tica! Deus te<br \/>\nlivre!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, faz-lhe todas as vontades? &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois se ele est\u00e1 apaixonado loucamente pela mulher! se est\u00e1 mesmo pelo<br \/>\nbei\u00e7o!<\/p>\n<p>E o Barroso passou a contar tudo o que presenciara a respeito do Borges.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor! disse D. Sabina, quando ele terminou. Sim senhor! \u00c9 um marido<br \/>\n\u00e1s direitas! Assim \u00e9 que eu os entendo &#8211; ou bem que um casal se ama ou bem<br \/>\nque se n\u00e3o ama!<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 l\u00e1 isso?&#8230; perguntou Barroso espantado. &#8211; Pois achas que aquele<br \/>\nidiota procede bem, fazendo todas as vontades \u00e0 mulher?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De certo! acudiu Sabina &#8211; de certo. E h\u00e1 de ser muito amado e muito respeitado<br \/>\npela esposa&#8230; Eu, no caso dele, faria o mesmo! Pois se a mulher \u00e9 todo o<br \/>\nseu encanto, todo o seu feiti\u00e7o&#8230; nada mais natural que o homem lhe fa\u00e7a<br \/>\nas vontades para v\u00ea-la feliz e satisfeita! N\u00e3o tem que saber &#8211; gosto do Borges!<br \/>\n\u00c9 um marido que me enche as medidas!<\/p>\n<p>&#8211; Ora! ora! ora! fez o Barroso, sacudindo a cabe\u00e7a &#8211; ora esta!&#8230;<\/p>\n<p>Sabina prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; De uma mulherzinha como a dele \u00e9 que voc\u00ea precisava para o ensinar, seu<br \/>\nunha de fome! N\u00e3o devia ser uma toleirona, como eu, que levo aqui a matar-me,<br \/>\n\u00e0s vezes at\u00e9 fazendo o despejo! e, quando quero ir a qualquer divertimento,<br \/>\nquando apete\u00e7o um teatro, um passeio, uma visita, ou quando preciso de um<br \/>\nvestidinho mais assim ou de um chap\u00e9u mais assado, voc\u00ea nunca est\u00e1 pela coisa!<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o sou doido! respondeu o Barroso com mau modo. &#8211; Estaria bem servido<br \/>\nse fosse a fazer-te todas as vontades! &#8211; a estas horas n\u00e3o teria onde cair<br \/>\nmorto!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, n\u00e3o me venha contar hist\u00f3rias, seu Barroso! N\u00e3o haviam de ser essas<br \/>\nmis\u00e9rias que o poriam mais pobre! Hoje, por exemplo&#8230; por que n\u00e3o me levou<br \/>\n\u00e0 casa de seu amigo?&#8230; Eu tinha tanta vontade de l\u00e1 ir!&#8230; Dizem que estava<br \/>\ntudo preparado com tanto luxo, t\u00e3o bonito!&#8230; E voc\u00ea, s\u00f3 para n\u00e3o me fazer<br \/>\na vontade, deixou-me ficar em casa!<\/p>\n<p>&#8211; Pergunta antes se tinha dinheiro para te levar!<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 vem a tal hist\u00f3ria do &#8220;Pergunta se eu tenho dinheiro!&#8221; O mesmo n\u00e3o diz<br \/>\nvoc\u00ea aos procuradores dessas sociedades, que n\u00e3o lhe largam a porta! Principalmente<br \/>\na tal Ma\u00e7onaria! Meu Deus, \u00e9 um cesto roto para comer dinheiro! Entretanto,<br \/>\no mais insignificante objeto de que eu precise&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olha! queres saber de uma coisa?! exclamou o Barroso, interrompendo-a.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o estou disposto a ouvir essa lengalenga! Por hoje j\u00e1 basta de maluquices!<br \/>\nSe te n\u00e3o levei \u00e0 casa do Borges foi porque n\u00e3o quis, entendes tu! Porque<br \/>\nn\u00e3o quis! e n\u00e3o tenho que te dar satisfa\u00e7\u00f5es! Ora, vamos a ver se temos aqui<br \/>\na Filomena Borges!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! fale assim! retrucou a mulher enraivecendo-se. &#8211; Fale desse modo e<br \/>\nn\u00e3o venha para c\u00e1 com fingimentos! Voc\u00ea n\u00e3o me levou \u00e0 casa do bar\u00e3o, porque<br \/>\nteve pena de comprar um vestido! porque n\u00e3o teve coragem para alugar um carro!<br \/>\nSom\u00edtico!<\/p>\n<p>&#8211; O&#8217; mulher! berrou o marido. &#8211; J\u00e1 te disse que n\u00e3o estou disposto a essa<br \/>\nseringa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Pois que n\u00e3o esteja! Eu tamb\u00e9m n\u00e3o estou disposta a muita coisa e vou ag\u00fcentando!<br \/>\nS\u00f3 n\u00e3o pilho o que desejo! h\u00e1 mais de uma semana pedi-lhe que comprasse um<br \/>\ntapete, ali para o p\u00e9 da cama, que, sempre que me levanto, \u00e9 uma constipa\u00e7\u00e3o<br \/>\ncerta&#8230; e, que \u00e9 dele?!<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed temos outra!<\/p>\n<p>&#8211; Pois se \u00e9 assim mesmo! Eu nada lhe pe\u00e7o que voc\u00ea fa\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho onde cavar dinheiro! Arre!<\/p>\n<p>&#8211; Mas tem por fora onde enterr\u00e1-lo! Quem sabe se o Borges \u00e9 mais rico do<br \/>\nque voc\u00ea?!<\/p>\n<p>&#8211; Mulher! mulher! mulher! Est\u00e1s a fazer chegar-me a mostarda ao nariz! &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Diabo do sovina!<\/p>\n<p>&#8211; Cala esta boca, dem\u00f4nio! trovejou o Barroso; amea\u00e7ando a mulher com o punho<br \/>\nfechado.<\/p>\n<p>&#8211; Bate, malvado! guinchou ela, empertigando-se com as m\u00e3os nas cadeiras,<br \/>\nl\u00edvida, defronte do marido. Bate! Tamb\u00e9m \u00e9 s\u00f3 para que serves, ordin\u00e1rio!<\/p>\n<p>E, voltando-se com desprezo. &#8211; Um pulha desta ordem a querer falar dos outros!&#8230;<br \/>\nPor isso \u00e9 que se v\u00ea tanta coisa por a\u00ed!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Hein?! berrou o marido, saltando para junto da mulher. Que \u00e9 que se v\u00ea<br \/>\npor a\u00ed? H\u00e1s de dizer o que se v\u00ea por a\u00ed!<\/p>\n<p>E cego de c\u00f3lera, a sacudir um bra\u00e7o de Sabina:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1s de dizer! h\u00e1s de dizer!<\/p>\n<p>&#8211; Solte-me o bra\u00e7o, seu bruto!<\/p>\n<p>&#8211; Atrevida! Quero s\u00f3 que vejam a inten\u00e7\u00e3o perversa daquela amea\u00e7a!<\/p>\n<p>E empurrando-a: &#8211; Vai-te, peste! Voc\u00eas t\u00e3o todas a mesma s\u00facia! E ainda h\u00e1<br \/>\nquem de os homens como culpados das patifarias das mulheres! &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E s\u00e3o! respondeu Sabina. E s\u00e3o! E fazem elas muito bem! Era do que voc\u00ea<br \/>\nprecisava para n\u00e3o ser bruto!<\/p>\n<p>O Barroso, que se havia afastado, voltou rapidamente ao ouvir a nova amea\u00e7a,<br \/>\ne com tal for\u00e7a arremessou um p\u00e9 contra a mulher, que a fez ir aos trambolh\u00f5es<br \/>\nde encontro \u00e0 mesa de jantar.<\/p>\n<p>&#8211; Bate, danado! bate! que n\u00e3o me h\u00e1s de tapar a boca!<\/p>\n<p>O pequeno, no quarto, acabava de despertar com o barulho e p\u00f4s-se a fazer<br \/>\nberreiro.<\/p>\n<p>A mulher correu logo para junto dele e foi lhe assistindo palmadas nas perninhas<br \/>\ntenras, a exclamar:<\/p>\n<p>&#8211; Tu tamb\u00e9m, pestezinha? tu tamb\u00e9m queres entrar no sarilho?! Pois toma!<br \/>\nToma!<\/p>\n<p>E o pequeno redobrava a gritaria na propor\u00e7\u00e3o das palmadas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o mates a crian\u00e7a! rugiu o Barroso, puxando a mulher pelo bra\u00e7o e fazendo-a<br \/>\ncair por terra. Ela n\u00e3o tem culpa que a acordasses tu com os teus berros!<\/p>\n<p>&#8211; Dou! posso dar! retorquiu Sabina, esgani\u00e7ando-se. \u00c9 meu filho! n\u00e3o \u00e9 seu!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 meu, cachorra?!<\/p>\n<p>E a pancadaria recome\u00e7ou.<\/p>\n<p>Mas afinal, a desgra\u00e7ada foi deitar-se, a chorar, a maldizer-se, e o marido<br \/>\nda\u00ed a pouco fez o mesmo, ao lado dela, resmungando.<\/p>\n<p>Algumas horas depois, dormiam profundamente nos bra\u00e7os um do outro.<\/p>\n<p>&#8211; Vivemos como Deus com os anjos! &#8230; balbuciava ele, sonhando, a conversa<br \/>\nque tivera com o Borges no Passeio P\u00fablico. &#8211; Meiguice ali!&#8230; Mas tamb\u00e9m<br \/>\npodes ver de que maneira a trato!&#8230;<\/p>\n<p>Ah! hip\u00f3critas! hip\u00f3critas!<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>XII &#8211; AMOR DE FILOMENA<\/h2>\n<p>Por esse tempo, a festa do Borges atingia o seu apogeu.<\/p>\n<p>Chegava ao momento do completo del\u00edrio, do prazer sem bordas que embala e<br \/>\narrebata os sentidos, como um vasto oceano de del\u00edcias, sem horizontes. Chegava<br \/>\nao ponto em que a gente perde a no\u00e7\u00e3o justa das coisas e cai num doce modorrar<br \/>\nvoluptuoso e alheiado; quando tudo o que nos cerca vai-se confundindo, dissolvendo,<br \/>\nperdendo os contornos num esbatimento de sonho; quando todos os h\u00e1litos se<br \/>\nmisturam no ar; quando os perfumes das mulheres, os gemidos das rabecas, e<br \/>\ntodas as cintila\u00e7\u00f5es da carne, e todas as rebrilha\u00e7\u00f5es dos diamantes se fundem<br \/>\ne confundem numa atmosfera opalina, que nos penetra at\u00e9 os mais \u00edntimos refolhos<br \/>\nda alma.<\/p>\n<p>Mas, no meio de tanta del\u00edcia, Filomena recebeu em pleno cora\u00e7\u00e3o uma abalo<br \/>\nque ela estava longe de prever.<\/p>\n<p>Este abalo foi causado por uma carta ca\u00edda do cinto do marido. Filomena apanhou-a,<br \/>\nrefugiou-se no quarto, abriu-a e leu-a.<\/p>\n<p>Era dirigida por aquela c\u00e9lebre vi\u00fava rica, a Chiquinha Perdig\u00e3o, a mulher<br \/>\nde firma comercial, a mesma que em algum tempo tentara seduzir o Borges e<br \/>\nque, afinal, a julgar pelo sentido do que vinha escrito, conseguira pouco<br \/>\nmais ou menos os seus des\u00edgnios.<\/p>\n<p>Eis o que dizia ela, \u00e0 tinta encarnada, numa pequena folha de papel de seda,<br \/>\nrescendente a couro da R\u00fassia:<\/p>\n<p>&#8220;Querido bar\u00e3o.<\/p>\n<p>Em data de ontem, recebi a sua am\u00e1vel cartinha e tenho o mais vivo prazer<br \/>\nem cumprir com o que ela me determina.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que vou ouvir de seus l\u00e1bios, mas adivinha-me o cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o<br \/>\nser\u00e1 nada de mau.<\/p>\n<p>Durante a sexta quadrilha estarei \u00e0 sua espera no caramanch\u00e3o, que fica ao<br \/>\nfundo da avenida de bambus.<\/p>\n<p>A essa hora ningu\u00e9m se lembrar\u00e1 de l\u00e1 ir, e poderemos ent\u00e3o conversar \u00e0 vontade,<br \/>\nsem que D. Filomena, venha a suspeitar de nossa entrevista.<\/p>\n<p>Por mais cautela levarei um domin\u00f3 escuro, que previamente ficar\u00e1 depositado<br \/>\nno gabinete das senhoras, e acho que o bar\u00e3o deve tamb\u00e9m se disfar\u00e7ar com<br \/>\noutro domin\u00f3.<\/p>\n<p>Por conseguinte, n\u00e3o se comprometa com pessoa alguma para a sexta quadrilha<br \/>\ne, \u00e0 hora marcada, esteja no ponto, sem falta.<\/p>\n<p>Aquela que o estima e sempre o estimou,<\/p>\n<p>C . Perdig\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Miser\u00e1veis! exclamou Filomena, amarrotando a carta. &#8211; Miser\u00e1veis!<\/p>\n<p>E, depois que o seu pensamento percorreu num v\u00f4o toda a \u00f3rbita do fato que<br \/>\nali estava provado naquele peda\u00e7o de papel, sentiu uma grande indigna\u00e7\u00e3o pelo<br \/>\nmarido.<\/p>\n<p>&#8211; Trair-me! Trair-me o infame! E logo com quem?&#8230; Com a Chiquinha!&#8230; uma<br \/>\nmulher que pinta os cabelos e usa enchimentos de algod\u00e3o! Oh! \u00c9 indigno!<\/p>\n<p>E, sem se poder dominar, deixou-se possuir de um desespero sombrio, de uma<br \/>\naflitiva sede de vingan\u00e7a; mas, caiu logo em si, e circunvagou olhares sobressaltados,<br \/>\ncomo se receasse ser apanhada na intimidade daquele sofrimento.<\/p>\n<p>Desconheceu-se.<\/p>\n<p>&#8211; Pois que&#8230; Teria ela ci\u00fames do marido?&#8230; Seria cr\u00edvel que ela &#8211; Filomena<br \/>\nBorges! &#8211; amasse aquele homem, aquele impostor?! Oh! n\u00e3o! n\u00e3o era poss\u00edvel!<\/p>\n<p>Ergueu-se da otomana, em que se havia prostrado, e p\u00f4s-se a passear pelo<br \/>\nquarto, rindo nervosamente, a afetar que n\u00e3o ligava &#8220;a menor import\u00e2ncia \u00e0queles<br \/>\namores rid\u00edculos do marido&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Que amasse! que amasse \u00e0 vontade a quem melhor entendesse, que diabo tinha<br \/>\nela com isso?!&#8230;<\/p>\n<p>E, sentindo um novelo enrodilhar-se-lhe na garganta, foi \u00e0 janela e abriu-a<br \/>\nbruscamente de par em par.<\/p>\n<p>Sua fantasia fugiu logo noite fora, como ave ominosa e amiga das trevas e<br \/>\ndo sil\u00eancio. E ela ficou, ficou a olhar, a olhar para o espa\u00e7o, como se acompanhasse<br \/>\ncom a vista o doido remigiar do p\u00e1ssaro fant\u00e1stico e agoureiro.<\/p>\n<p>A noite era calma e de uma transpar\u00eancia azul. Sentiam-se no ar emana\u00e7\u00f5es<br \/>\nbals\u00e2micas que se despediam do jardim, onde ainda bruxuleavam tristemente<br \/>\nos \u00faltimos bal\u00f5ezinhos venezianos; ao passo que das salas do primeiro andar,<br \/>\nem um tom cansado e arquejante, subiam de rastros longos gemidos de outras<br \/>\nvalsas alem\u00e3s.<\/p>\n<p>Filomena apoiou os cotovelos no balc\u00e3o da janela, cobriu o rosto com as m\u00e3os<br \/>\ne p\u00f4s-se a chorar.<\/p>\n<p>Nisto, a lua, afastando a cortina de nuvens que a velava, entornou da concha<br \/>\nde prata a sua luz tranq\u00fcila e misteriosa, que \u00e9, como um doce orvalho refrigerante<br \/>\npara os cora\u00e7\u00f5es abrasados na febre do amor.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma infinidade de considera\u00e7\u00f5es veio grupar-se no esp\u00edrito magoado<br \/>\nde Filomena Borges.<\/p>\n<p>Agora, que pela primeira vez o esposo lhe aparecia capaz de esquec\u00ea-la por<br \/>\noutra, \u00e9 que ela o desejava e queria como nunca. As palavras da vi\u00fava enchiam-na<br \/>\ntoda de um amor inesperado e punham-lhe no esp\u00edrito o sobressalto de quem<br \/>\nd\u00e1 de repente pela falta de um objeto precioso que trazia consigo; enquanto<br \/>\na pontinha sorrateira de um nascente remorso aproveitava a perturba\u00e7\u00e3o em<br \/>\nque ela estava para ir desfibrando, um por um, todos os v\u00e9us que escondiam<br \/>\nas qualidades simp\u00e1ticas do marido.<\/p>\n<p>E o vulto do Borges, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se descobria aos olhos da mulher, ia<br \/>\ncrescendo, crescendo, e tomando dimens\u00f5es extraordin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Filomena j\u00e1 o via generoso, bom, intr\u00e9pido e apaixonado. &#8211; Sim!&#8230; murmurou<br \/>\nela, como se despertasse de um longo entorpecimento. &#8211; Sim!&#8230; Ele era digno<br \/>\nde muito mais amor! \u00c9 um homem completo, um cora\u00e7\u00e3o enorme, um car\u00e1ter sublime!<br \/>\nEu, s\u00f3 eu, fui a culpada de o haver perdido: nunca o apreciei devidamente!<br \/>\nnunca lhe paguei em amor bastante tudo que a sua dedica\u00e7\u00e3o punha aos meus<br \/>\np\u00e9s! Imprudente que fui!&#8230; Mas ele?!&#8230; Ele! como p\u00f4de esquecer-se de mim<br \/>\npor aquela mulher detest\u00e1vel?! Oh! Eu detesto-o! Eu abomino-o!<\/p>\n<p>E, escondendo de novo o rosto, abriu de novo a chorar.<\/p>\n<p>Estava agora mais formosa na sua fantasia espanhola: toda vergada sobre o<br \/>\nbalc\u00e3o da janela, os quadris empinados, suspendendo um pouco mais a saia de<br \/>\nseda amarela, guarnecida de rendas pretas; as pernas cruzadas, os ombros vagamente<br \/>\niluminados pela lua, faziam estranha harmonia naquela express\u00e3o de ang\u00fastia,<br \/>\ncasada com o salero de seu tipo a Fort\u00fanio.<\/p>\n<p>Mas um beijo \u00e0 queima-roupa, recebido em cheio no pesco\u00e7o, f\u00ea-la soltar um<br \/>\ngrito e voltar-se r\u00e1pida como uma espada em duelo.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A seu lado tremulava o irrequieto penacho vermelho do marido, cujas m\u00e3os<br \/>\nlhe haviam j\u00e1 empolgado a cinta e a puxavam brandamente sobre ele.<\/p>\n<p>Filomena, em vez da costumada resist\u00eancia, passou-lhe os bra\u00e7os em volta<br \/>\ndo pesco\u00e7o e come\u00e7ou a disparar-lhe beijos por todo o rosto, com um tal ardor<br \/>\ne com uma tal obstina\u00e7\u00e3o, que o pobre homem, pouco habituado \u00e0queles ataques,<br \/>\nesteve a perder o f\u00f4lego.<\/p>\n<p>&#8211; Upa! exclamou ele afinal, atordoado e cheio de espanto.<\/p>\n<p>A mulher fitou-o por alguns segundos e, de repente, atirou-se-lhe de novo<br \/>\nnos bra\u00e7os como uma descarga. O Borges, ainda desorientado com a primeira,<br \/>\nhesitou entre a resolu\u00e7\u00e3o de fugir ou implorar gra\u00e7as. Daquela forma a mulher<br \/>\ndava-lhe cabo do canastro!&#8230; Que menina!<\/p>\n<p>&#8211; Tu amas-me Borges?! interrogou ela, segurando-lhe as m\u00e3os com transporte.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, que pergunta! Pois ainda tens alguma d\u00favida a esse respeito?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei! Quero que respondas! Quero que digas se me amas, se \u00e9s s\u00f3 meu!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Tu at\u00e9 me ofendes com isso, filhinha! Bem sabes que sim&#8230; Mas, anda<br \/>\nda\u00ed. H\u00e1 meia hora que estou \u00e0 tua procura. &#8211; alguns dos nossos convidados<br \/>\nj\u00e1 se querem raspar. Anda, vem da\u00ed!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Espera, espera um instante! Desejo ter-te ainda algum tempo nos meus<br \/>\nbra\u00e7os! N\u00e3o me fujas! Vem c\u00e1!<\/p>\n<p>O Borges, cada vez mais surpreso, n\u00e3o teve for\u00e7as para resistir, e os dois,<br \/>\nassentados no mesmo div\u00e3 abra\u00e7ados como dois amantes de quinze dias, juravam<br \/>\ne tornavam a jurar uma afei\u00e7\u00e3o eterna, quando, no fim de meia hora, o sinal<br \/>\nda sexta quadrilha os foi interromper.<\/p>\n<p>&#8211; Ouviste? exclamou ele, pondo-se de p\u00e9. &#8211; V\u00e3o tocar uma quadrilha; n\u00e3o devemos<br \/>\nficar aqui. A caminho!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9&#8217; a sexta, disse Filomena.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9! \u00e9 a sexta&#8230; repetiu ele.<\/p>\n<p>&#8211; Pois vamos. Ser\u00e1s o meu par; ainda n\u00e3o dan\u00e7aste hoje comigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Imposs\u00edvel, balbuciou o Borges, j\u00e1 tenho par. Dan\u00e7aremos a seguinte.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero! Quero esta!<\/p>\n<p>&#8211; Mas meu amor, se te estou dizendo que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 o teu par?!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A Chiquinha&#8230; Aposto!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 exato, \u00e9 justamente a Chiquinha, disse o marido enrubescendo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois vai! Vai!, respondeu a mulher repelindo-o. Eu fico.<\/p>\n<p>&#8211; Ficas aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Fico.<\/p>\n<p>&#8211; E os nossos convidados?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que esperem.<\/p>\n<p>&#8211; Acho que fazes mal; devias dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 dan\u00e7aria contigo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, at\u00e9 logo.<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 j\u00e1.<\/p>\n<p>E ele foi-se.<\/p>\n<p>A mulher, mal o viu pelas costas, correu ao guarda-roupa, abriu-o, sacou<br \/>\num domin\u00f3 preto, enfiou-o rapidamente no corpo, p\u00f4s m\u00e1scara, tomou o seu chicote<br \/>\nde montaria, e, depois de vencer ligeira o segundo andar, ganhou as escadas<br \/>\ndo fundo e desapareceu.<\/p>\n<p>Atravessou a ch\u00e1cara como um p\u00e1ssaro que foge, entrou na avenida de bambus<br \/>\ne dirigiu-se ofegante, tr\u00eamula, para o ponto da entrevista.<\/p>\n<p>A fronde compacta de \u00e1rvores e o tear das trepadeiras acumulavam sombras.<br \/>\nFilomena embrenhou-se por entre elas, s\u00f3 diminuiu a for\u00e7a da carreira nas<br \/>\nproximidades do caramanch\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao entrar, sentiu dois bra\u00e7os prenderem-lhe o pesco\u00e7o, ouviu uma voz que<br \/>\nse queixava de medo, enquanto um corpo de mulher procurava unir-se ao dela.<\/p>\n<p>Filomena recuou incontinenti, e, puxando da chibata, remeteu duas vergatadas<br \/>\ncontra o domin\u00f3 que tinha defronte de si.<\/p>\n<p>Este soltou um grito, menos de raiva que de dor e, arrancando a m\u00e1scara,<br \/>\nexclamou:<\/p>\n<p>&#8211; Bar\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 o bar\u00e3o, \u00e9 a baronesa!, respondeu a outra, tirando tamb\u00e9m a sua m\u00e1scara.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim! A quem queria trair, miser\u00e1vel!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 falso!<\/p>\n<p>&#8211; Nem uma palavra, e some-te daqui, j\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; Mas ou\u00e7a-me!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero ouvir nada! Sai j\u00e1 de minha casa! Traidora! P\u00f5e-te j\u00e1 daqui para<br \/>\nfora, se n\u00e3o queres ser desfeiteada l\u00e1 em cima, na presen\u00e7a de todos os meus<br \/>\namigos. Rua!<\/p>\n<p>A vi\u00fava soltou uma rebanada e fez men\u00e7\u00e3o de entrar na avenida de bambus.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! disse a baronesa, cortando-lhe a passagem. N\u00e3o h\u00e1s de sair pela frente;<br \/>\npassar\u00e1s por onde sai a gente de tua esp\u00e9cie!<\/p>\n<p>E levou-a aos empurr\u00f5es at\u00e9 os fundos da ch\u00e1cara, onde havia um port\u00e3o, que<br \/>\nFilomena abriu, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Vai, e quando me vires em qualquer parte, abaixa os olhos!<\/p>\n<p>&#8211; Havemos de nos encontrar!&#8230; amea\u00e7ou a vi\u00fava, depois de atravessar a porta.<br \/>\nJuro-te que me pagar\u00e1s tudo isto!<\/p>\n<p>&#8211; Rua! insistiu Filomena, fechando a porta com estrondo; e, j\u00e1 de volta ao<br \/>\ncaramanch\u00e3o, disse entre dentes:<\/p>\n<p>&#8211; Agora o outro!&#8230;<\/p>\n<p>Ao chegar a\u00ed, um calafrio percorreu-lhe o corpo &#8211; j\u00e1 l\u00e1 estava o marido.<\/p>\n<p>N\u00e3o disfar\u00e7ado de domin\u00f3, como recomendava a carta, mas com a sua camisa<br \/>\ncor de rosa, as suas botas de montar e o seu penacho vermelho. E passeava<br \/>\nde um para outro lado, cheio de preocupa\u00e7\u00e3o, as m\u00e3os cruzadas atr\u00e1s, o capacete<br \/>\nna nuca, o ar de quem espera no corredor que lhe abram a porta da sala.<\/p>\n<p>Filomena armou a m\u00e1scara no rosto, conteve, a melhor que pode, a sua c\u00f3lera,<br \/>\ne avan\u00e7ou de bra\u00e7os abertos para o chicard.<\/p>\n<p>Mas qual n\u00e3o foi a sua surpresa ao ver-se repelida brandamente por ele!<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, disse o Borges, a senhora pelo que parece, compreendeu mal o meu<br \/>\nconvite.<\/p>\n<p>E oferecendo-lhe lugar num banquinho que havia perto:<\/p>\n<p>&#8211; Tenha a bondade de sentar-se. N\u00e3o levarei muito tempo a dizer o que me<br \/>\nobrigou a incomod\u00e1-la. Devia ter ido procur\u00e1-la em casa, mas \u00e9 que se trata<br \/>\nde um neg\u00f3cio urgente, um verdadeiro aperto! Um aperto s\u00e9rio! Se amanh\u00e3 n\u00e3o<br \/>\nconseguir levantar vinte contos, estou perdido! N\u00e3o me conv\u00e9m recorrer aos<br \/>\nbancos por todo este ano&#8230;<\/p>\n<p>E, vendo que a suposta vi\u00fava n\u00e3o ia ao encontro de seu pedido:<\/p>\n<p>&#8211; Podemos arranjar uma hipoteca &#8211; se n\u00e3o lhe conv\u00e9m o n.0 6 das Laranjeiras,<br \/>\nv\u00ea-se outro, contanto que&#8230;<\/p>\n<p>E j\u00e1 incomodado com o sil\u00eancio do domin\u00f3:<\/p>\n<p>&#8211; Creio que a proposta \u00e9 razo\u00e1vel!&#8230; Que acha?&#8230; A senhora pode servir-me,<br \/>\nse&#8230; N\u00e3o quis falar ao Fontes, o seu s\u00f3cio, sem saber de antem\u00e3o se podia<br \/>\ncontar com o seu apoio.<\/p>\n<p>Novo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>O Borges, j\u00e1 enfiado, caiu ent\u00e3o nas minud\u00eancias comerciais. Falou de letras,<br \/>\ntransa\u00e7\u00f5es, lembrou firmas, com que ele podia contar.<\/p>\n<p>Por\u00e9m o sil\u00eancio continuava.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o?! Que diz?! perguntou ele, muito desconcertado.<\/p>\n<p>Filomena arrancou a m\u00e1scara e atirou-se-lhe nos bra\u00e7os desfeita em solu\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; Tu?! Que significa isto?!<\/p>\n<p>Ela puxou do bolso a carta da vi\u00fava e entregou-a ao marido.<\/p>\n<p>&#8211; Pois imaginaste que eu seria capaz de&#8230; Oh!&#8230;<\/p>\n<p>E ferido de s\u00fabito por uma id\u00e9ia:<\/p>\n<p>&#8211; E ela?! A vi\u00fava Perdig\u00e3o, que fim levou?!<\/p>\n<p>Filomena contou-lhe o que se havia passado.<\/p>\n<p>Borges deixou cair a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os:<\/p>\n<p>&#8211; Fizeste-a bonita!&#8230; exclamou ele. &#8211; Vais ver as conseq\u00fc\u00eancias!<\/p>\n<p>&#8211; Que queres? Tive ci\u00fames! balbuciou a mulher. Dizem tanta coisa de Chiquinha,<br \/>\nque&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tolinha! interrompeu o marido, abra\u00e7ando-a de novo.<\/p>\n<p>&#8211; E por que n\u00e3o me falaste com franqueza?&#8230; acrescentou ela.<\/p>\n<p>&#8211; Temia afligir-te&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fizeste mal! Se me tivesses prevenido, nada disto sucederia!&#8230;<\/p>\n<p>E notando o acabrunhamento do esposo:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, enfim que h\u00e1?! Creio que agora j\u00e1 posso saber! De que apuros falavas<br \/>\ntu ainda h\u00e1 pouco?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estou sobre um abismo! disse o Borges, afinal &#8211; sobre um abismo, minha<br \/>\nquerida!&#8230; Se n\u00e3o arranjar certos neg\u00f3cios at\u00e9 o vencimento de umas letras<br \/>\nque tenho, creio que ir\u00e1 tudo por \u00e1gua abaixo! A ru\u00edna ser\u00e1 inevit\u00e1vel!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois que venha a ru\u00edna! respondeu Filomena erguendo-se. &#8211; Eu terei bastante<br \/>\ncoragem para afront\u00e1-la!<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>XIII &#8211; NOVAS TORTURAS<\/h2>\n<p>O Borges n\u00e3o conseguiu arranjar os tais neg\u00f3cios de que tratava, e a roda<br \/>\nde sua fortuna recebeu o primeiro impulso para desandar.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o tudo lhe foi contr\u00e1rio; todas as suas especula\u00e7\u00f5es falharam;<br \/>\ntodos os capitais que arriscou foram-se pela correnteza.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de uma ru\u00edna completa torturava-o principalmente por causa de Filomena.<\/p>\n<p>&#8211; Que seria, se lhes viessem a faltar os elementos do luxo e do prazer?&#8230;<br \/>\nDesgra\u00e7ado que sou! pensava ele. Agora que possuo a confian\u00e7a e a dedica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde minha esposa, \u00e9 que a fortuna entende de se ir embora! De que me serve<br \/>\numa coisa sem outra?!<\/p>\n<p>E na sua febre de agarrar pela nuca a deusa que lhe fugia, arriscou tudo<br \/>\nque lhe restava: vendeu casa, empenhou t\u00edtulos e atirou-se ao jogo como a<br \/>\numa t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. As suas propriedades foram desaparecendo a pouco e<br \/>\npouco, passando a outros; as suas a\u00e7\u00f5es de v\u00e1rias companhias foram-se dissolvendo;<br \/>\nas suas ap\u00f3lices derretiam-se; os seus \u00faltimos recursos evaporavam-se.<\/p>\n<p>Vi\u00fava Perdig\u00e3o &amp; Cia. Faziam-lhe uma guerra atroz; para qualquer lado<br \/>\nque se voltasse o Borges encontrava logo a sanha implac\u00e1vel do inimigo. E<br \/>\ntudo parecia apostado para destru\u00ed-lo, para mat\u00e1-lo por uma vez. Um jornal<br \/>\ndi\u00e1rio, de grandes propor\u00e7\u00f5es, comercial, amigo do governo, em cuja funda\u00e7\u00e3o<br \/>\nBorges arriscara cinq\u00fcenta contos, acabava de estalar, como estalou o Banco<br \/>\nMau\u00e1, onde ele possu\u00eda em dep\u00f3sito o duplo dessa quantia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o seu maior desastre foi com as empresas teatrais: o Borges, que ultimamente<br \/>\nfreq\u00fcentava todos os teatros, aparecendo familiarmente nas caixas, n\u00e3o podia<br \/>\npassar despercebido aos empres\u00e1rios vazios de dinheiro e transbordantes de<br \/>\nprojetos e planos gigantescos.<\/p>\n<p>Vira-se em breve cercado de homens de todos os matizes e nacionalidades,<br \/>\nque desejavam associ\u00e1-lo em mil empresas diversas. Um queria estabelecer um<br \/>\ngrande &#8220;jardim-recreio&#8221;, no qual, \u00e0 moda do antigo Trivoli parisiense, se<br \/>\nencontrasse toda sorte de divertimentos &#8211; representa\u00e7\u00e3o, sala de tiro, dan\u00e7a,<br \/>\nconcerto, apostas, e uma infinidade de jogos para toda esp\u00e9cie e categoria<br \/>\nde gente: outro pretendia inaugurar o teatro nacional &#8220;levantar a pobre arte<br \/>\ndram\u00e1tica brasileira, que Jo\u00e3o Caetano plantara com tanto g\u00eanio!&#8221;; outro queria<br \/>\ndesenvolver o Alcazar, fazer vir uma boa companhia francesa; outro queria<br \/>\na \u00f3pera em portugu\u00eas, com m\u00fasica nacional e cantores estrangeiros; este trazia<br \/>\no plano de um circo de cavalinhos; aquele o projeto de uma tourada; aquele<br \/>\noutro a id\u00e9ia de um Skating-Rink.<\/p>\n<p>E na f\u00faria de ganhar dinheiro \u00e0s pressas, Borges, se n\u00e3o aceitou todas aquelas<br \/>\npropostas, aceitou grande parte. E tudo isso rebentou, e tudo isso deu com<br \/>\nos burros n&#8217;\u00e1gua, e os capitais do marido de Filomena acompanharam os burros.<\/p>\n<p>Afinal, restava-lhe apenas uma empresa; tamb\u00e9m, essa a mais importante e<br \/>\nfelizmente nada tinha de comum com os teatros: &#8211; Tratava-se pura e simplesmente<br \/>\nde explorar o carneiro.<\/p>\n<p>&#8211; Essa ind\u00fastria completamente desconhecida no Brasil, dizia o proponente,<br \/>\nespanhol sagaz e viajado &#8211; essa ind\u00fastria, Sr. Bar\u00e3o, est\u00e1 destinada a representar<br \/>\num papel important\u00edssimo neste belo pa\u00eds. Ela vir\u00e1 fornecer ao povo elementos<br \/>\nnovos de riqueza; aumentar\u00e1 o valor das terras, equilibrar\u00e1 os capitais, reformar\u00e1<br \/>\na vida dos agricultores, educar\u00e1 o fazendeiro, dando-lhe novos conhecimentos<br \/>\nzoot\u00e9cnicos, novos costumes e novas necessidades: enfim, essa ind\u00fastria est\u00e1<br \/>\ndestinada a fazer aqui uma revolu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social, e levar \u00e0 posteridade<br \/>\no nome daquele que entre n\u00f3s a firmar corajosamente,. como em Buenos Aires<br \/>\nsucedeu com o c\u00f4nsul norte-americano Haley.<\/p>\n<p>O Borges podia, se quisesse, nem s\u00f3 fazer uma fortuna colossal, como ainda<br \/>\nimortalizar-se.<\/p>\n<p>A\u00ed estavam os exemplos da Austr\u00e1lia, do Cabo da Boa Esperan\u00e7a e da Rep\u00fablica<br \/>\nArgentina, os tr\u00eas grandes fornecedores de l\u00e3 para o mundo inteiro. Ora, por<br \/>\nque raz\u00e3o o Brasil, situado t\u00e3o perto dessas regi\u00f5es, o Brasil que n\u00e3o est\u00e1<br \/>\nsujeito aos frios da Austr\u00e1lia e aos bochornos do Cabo, por que raz\u00e3o o Brasil<br \/>\nn\u00e3o havia de explorar o carneiro?! A alimenta\u00e7\u00e3o desse precioso animal seria<br \/>\nmuito mais f\u00e1cil aqui do que em outra qualquer parte!&#8230; Aqui, com as nossas<br \/>\nvastas campinas, sempre cobertas de verdura, n\u00e3o se daria o que se d\u00e1 na Europa,<br \/>\nonde a carestia de feno constitui o maior tormento dos criadores de gado lan\u00edgero.<\/p>\n<p>E fazia c\u00e1lculos, apresentava cifras muito bonitas &#8211; tr\u00eas tosquias por ano<br \/>\n&#8211; mais de quinhentos por cento de lucro! E citava os carneiros prefer\u00edveis<br \/>\nao Brasil, falava com entusiasmo no merino espanhol, melhorado pelos m\u00e9todos<br \/>\nzoot\u00e9cnicos, o merino da Sax\u00f4nia, o Bambouillet, o merino da Mauchamp, o merino<br \/>\nSoyeuse, os de Lanraguais, os dishley de Montcavrel, o negretti eleitoral!<br \/>\nE se o Borges tamb\u00e9m quisesse explorar a carne do carneiro, podia importar<br \/>\nda Inglaterra os Soutdown, os Dixley, os Dixley-Leicester, conhecidos pelo<br \/>\nnome de &#8211; ra\u00e7a precoce, e cujo esqueleto diminui na raz\u00e3o do aumento das banhas<br \/>\ne da carne.<\/p>\n<p>Acumulava termos t\u00e9cnicos; fazia divis\u00f5es de esp\u00e9cies, lembrava os carneiros<br \/>\nbraquic\u00e9falos e os carneiros dolicoc\u00e9falos.<\/p>\n<p>O Borges sucumbia debaixo dessa terminologia estranha aos seus ouvidos.<\/p>\n<p>&#8211; E o leite?! gritava o espanhol. &#8211; Quem poderia Impedir que o Bar\u00e3o, com<br \/>\no leite de suas ovelhas, viesse a fazer concorr\u00eancia aos c\u00e9lebres queijos<br \/>\nde Roquefort?&#8230; E o com\u00e9rcio das peles?&#8230; Para o cortume das peles bem se<br \/>\npodia aproveitar com vantagem a casca de certas \u00e1rvores brasileiras muito<br \/>\nabundantes e n\u00e3o fazer como o Rio da Prata, que exporta as suas peles em bruto.<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, Sr. Bar\u00e3o, para V. S. ter Id\u00e9ia do lucro fabuloso que vamos fruir<br \/>\ncom os nossos carneiros, basta considerar que, s\u00f3 com o produto do esterco,<br \/>\nvendido pela m\u00ednima, temos quase salvo o capital! Berion trata disso minuciosamente!<br \/>\nLeia o grande veterin\u00e1rio Sanson! Leia Jos\u00e9 Hernandez!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O Borges s\u00f3 compreendeu que era o \u00fanico carneiro explorado naquela empresa,<br \/>\nno dia em que viu o espanhol desaparecer, levando consigo o dinheiro que lhe<br \/>\np\u00f4de apanhar.<\/p>\n<p>Dizia-se que havia fugido para S. Paulo; Borges, sem perda de tempo, tomou<br \/>\no caminho dessa prov\u00edncia; mas os seus esfor\u00e7os foram baldados &#8211; ningu\u00e9m lhe<br \/>\nsoube dar not\u00edcias do gatuno.<\/p>\n<p>Contudo, a viagem sempre lhe aproveitou alguma coisa: pareceu-lhe que em<br \/>\nS. Paulo faria dinheiro; o caso era achar um amigo que lhe desse a m\u00e3o, e<br \/>\ndisp\u00f4s-se a labutar com o mesmo ardor de quando principiou a vida.<\/p>\n<p>&#8211; O mesmo ardor!&#8230; Ah! mas nesse tempo n\u00e3o conhecia ele outra preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque n\u00e3o fosse o seu trabalho! Nesse tempo n\u00e3o tinha v\u00edcios, n\u00e3o tinha desgosto,<br \/>\nn\u00e3o tinha inimigos, n\u00e3o tinha responsabilidades sociais!<\/p>\n<p>&#8211; Onde iria ele agora descobrir a coragem e a resigna\u00e7\u00e3o que dantes possu\u00eda?!&#8230;<br \/>\nComo levantar-se \u00e0s seis da manh\u00e3 e s\u00f3 deixar o servi\u00e7o \u00e0s seis da tarde?!<\/p>\n<p>Entretanto, estava disposto a principiar de novo a exist\u00eancia; chegou mesmo<br \/>\na fazer algumas propostas de constru\u00e7\u00e3o; agora toda a dificuldade era descobrir<br \/>\no tal amigo que o ajudasse!<\/p>\n<p>Voltou \u00e0 corte; percorreu os bancos, consultou v\u00e1rios negociantes &#8211; nada!<br \/>\nA vi\u00fava Perdig\u00e3o cortava-lhe todas as vasas.<\/p>\n<p>Mas ainda havia o Barroso. &#8211; Era Imposs\u00edvel que este tamb\u00e9m lhe virasse as<br \/>\ncostas.<\/p>\n<p>Procurou-o.<\/p>\n<p>&#8211; Homem, filho!, respondeu o austero marido de Sabina. &#8211; Para falar-te com<br \/>\nfranqueza, n\u00e3o vieste bater a muito boa porta &#8211; n\u00e3o estou, para que digamos,<br \/>\nem estado de arriscar a quantia que desejas; mas enfim&#8230; havemos de ver&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio tratarmos disto quanto antes!&#8230; observou o Borges.<br \/>\nEstou com a corda no pesco\u00e7o; tenho de seguir de muda para S. Paulo at\u00e9 o<br \/>\nfim do m\u00eas; n\u00e3o posso ficar nem mais um instante no Rio de Janeiro!<\/p>\n<p>&#8211; Havemos de ver!&#8230; Havemos de ver!&#8230; E como vais tu com tua mulher?<\/p>\n<p>&#8211; Assim, assim&#8230; Ela ultimamente est\u00e1 mais meiga e menos caprichosa. Mas<br \/>\nent\u00e3o prometes que para a semana realizamos o neg\u00f3cio?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 poss\u00edvel! \u00c9 poss\u00edvel! disse o Barroso fugindo ao assunto. Pois l\u00e1 a minha<br \/>\nSabina continua no mesmo. N\u00e3o! nisso tenho sido feliz&#8230;<\/p>\n<p>O bar\u00e3o tornou a puxar a conversa para o seu neg\u00f3cio. O outro afinal, prometeu<br \/>\najud\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Mas, desde esse dia, Borges principiou a n\u00e3o encontr\u00e1-lo em parte alguma,<br \/>\nat\u00e9 que uma vez, indo procur\u00e1-lo em casa, antes das sete da manh\u00e3, e tendo<br \/>\npenetrado familiarmente pela ch\u00e1cara, ouviu o amigo ordenar \u00e0 mulher em tom<br \/>\nmisterioso:<\/p>\n<p>&#8211; Dize-lhe que n\u00e3o estou. Ora sebo! N\u00e3o gastasse o que tinha! Ningu\u00e9m est\u00e1<br \/>\ndisposto a se amolar pelos outros!&#8230; Fosse mais poupado, fizesse como eu!<br \/>\n\u00c9 boa!<\/p>\n<p>Borges voltou na ponta dos p\u00e9s, sem esperar a resposta. Ia aniquilado, desiludido.<\/p>\n<p>&#8211; Pois at\u00e9 o Barroso?!&#8230; O \u00fanico amigo em que ele ainda depositava confian\u00e7a!<br \/>\no seu velho camarada dos primeiros anos! o seu companheiro de lutas! o seu<br \/>\n&#8220;outro eu&#8221;! tamb\u00e9m lhe voltava o rosto, tamb\u00e9m o repelia?! Oh! Com efeito!<\/p>\n<p>Chegou \u00e0 casa desorientado, perdido. J\u00e1 l\u00e1 estava uma carta an\u00f4nima \u00e0 sua<br \/>\nespera, para mais lhe envenenar a ferida.<\/p>\n<p>&#8211; Era do Guterres, naturalmente; talvez da vi\u00fava Perdig\u00e3o, talvez do Barradinhas!<\/p>\n<p>O pobre homem, depois de l\u00ea-la, atirou-se \u00e0 cama, desesperado, mordendo os<br \/>\ntravesseiros para abafar os solu\u00e7os e n\u00e3o ser ouvido pela esposa.<\/p>\n<p>Esta, por\u00e9m, correu ao encontro dele, tomou-o nos bra\u00e7os, consolou&#8211;o com<br \/>\nos seus beijos e procurou transmitir-lhe a sua coragem.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o desanimes! bradava-lhe. &#8211; N\u00e3o desanimes, que o mundo \u00e9 vasto e havemos<br \/>\nde descobrir um canto, onde se possa abrigar o nosso amor! Deus h\u00e1 de proteger-nos!&#8230;<br \/>\nEnquanto tivermos um pouco de sol, um pouco de ar e um pouco de azul, n\u00e3o<br \/>\nnos devemos revoltar contra o destino!<\/p>\n<p>Mas os credores surgiam de todos os lados. Era preciso entregar tudo, tudo,<br \/>\ndespedir os criados, abandonar aquela casa, aqueles trastes, os cavalos, os<br \/>\ncarros, as telas preciosas, as porcelanas de S\u00e8vres, os talheres de vermeil.<\/p>\n<p>&#8211; Seja! exclamou ela, atirando-se radiante nos bra\u00e7os do marido. Que levem<br \/>\ntudo, contanto que tu fiques!<\/p>\n<p>E com a estreiteza da situa\u00e7\u00e3o redobrava o seu amor pelo Borges, como se<br \/>\no reflexo de toda aquela desgra\u00e7a o tornasse maior e mais brilhante aos olhos<br \/>\ndela.<\/p>\n<p>E, na ocasi\u00e3o de sair, antes de abandonar o ninho, Filomena, entre os trastes<br \/>\ndesarrrumados para o leil\u00e3o, na desordem daquela casa espl\u00eandida que eles<br \/>\niam deixar para sempre, soltou uma gargalhada, foi buscar a \u00faltima garrafa<br \/>\nde Champanhe que havia na sua adega, outrora t\u00e3o rica, quebrou-lhe o gargalo<br \/>\nde encontro ao m\u00e1rmore secular de um m\u00f3vel, e, enchendo uma ta\u00e7a, e colando<br \/>\nos l\u00e1bios nos do marido, e chorando de prazer, brindou \u00e0 nova exist\u00eancia que<br \/>\nse ia abrir defronte deles alegre e luminosa, como uma aurora que surge.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>XIV &#8211; MIS\u00c9RIA<\/h2>\n<p>Seguiram para S. Paulo, quase sem recursos, levando as j\u00f3ias na algibeira<br \/>\ne, todavia, satisfeitos, cheios de esperan\u00e7a, orgulhosos daquela situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nextraordin\u00e1ria, que os unia mais, que os identificava e como que os tinha<br \/>\nabra\u00e7ados e enlelados pela mesma desgra\u00e7a, cosidos dentro da mesma mortalha.<\/p>\n<p>Hospedaram-se no Grande Hotel, fazendo uma exist\u00eancia dif\u00edcil, vivendo de<br \/>\nexpedientes, empenhando diamantes, jogando.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que se manifestaram em Filomena os primeiros sintomas de gravidez,<br \/>\ne este fato, que noutro tempo teria causado a felicidade do pobre Borges,<br \/>\nagora representava nada menos que um novo obst\u00e1culo a vencer.<\/p>\n<p>Ah! O bom homem fazia esfor\u00e7os supremos para n\u00e3o deixar transparecer o quanto<br \/>\nsofria com aquele viver t\u00e3o contr\u00e1rio ao seu g\u00eanio! Mostrava-se forte, resignado,<br \/>\nseguro numa f\u00e9 que n\u00e3o existia, falando a cada instante de fortunas imprevistas,<br \/>\nsonhando acasos de grande felicidade que, de um momento para outro, lhe restitu\u00edsse<br \/>\na sua antiga posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas passavam-se os dias, e a fortuna sempre esquiva. Embalde furava o Borges<br \/>\npor todos os lados, \u00e0 procura de trabalho, \u00e0 procura de emprego. Ningu\u00e9m o<br \/>\nqueria.<\/p>\n<p>Vinham-lhe ent\u00e3o grandes des\u00e2nimos, que o desgra\u00e7ado j\u00e1 n\u00e3o podia esconder<br \/>\nda mulher. \u00c0s vezes, at\u00e9, depois de um dia de in\u00fatil campanha em busca de<br \/>\nservi\u00e7o, ou quando, em vez de ganhar, perdia tudo ao jogo, ou quando se gastava<br \/>\npelos caf\u00e9s e pelas ruas, cansando-se na conviv\u00eancia dos vadios, tinha acessos<br \/>\nde desespero. Entrava em casa brutalmente aniquilado, dando com a cabe\u00e7a pelas<br \/>\nparedes, blasfemando, pedindo em berros a morte e atirando-se tragicamente<br \/>\nao ch\u00e3o, l\u00edvido e arquejante.<\/p>\n<p>Oh! mas como Filomena o amava nesses momentos! Com que transporte o recebia<br \/>\nno colo, beijando-lhe os olhos em chama, afagando-lhe os cabelos empastados<br \/>\nde suor, ameigando-lhe o grosso bigode conspurcado de cerveja e nicotina.<\/p>\n<p>Estranha exist\u00eancia a dessas duas criaturas, que a natureza fez t\u00e3o diversas.<br \/>\nt\u00e3o contr\u00e1rias, mas que o acaso lan\u00e7ou no mesmo destino. abra\u00e7adas a uma s\u00f3<br \/>\nonda, sofrendo e gozando promiscuamente, sem nunca poderem determinar onde<br \/>\nprincipiava a dor, onde terminava o gozo.<\/p>\n<p>A mesma coisa, que a um fazia padecer, dava ao outro transportes de alegria.<br \/>\nDa\u00ed esse equil\u00edbrio da l\u00e1grima e do riso, que era a fonte de toda a sua coragem<br \/>\ne de toda a sua for\u00e7a. N\u00e3o podia sucumbir nunca, porque um deles estava sempre<br \/>\nde p\u00e9 para amparar o companheiro, quando este porventura vacilasse.<\/p>\n<p>E assim se passaram meses, sem que o Borges conseguis-se arranjar meios seguros<br \/>\nde vida. Entretanto, os recursos iam decrescendo; o circulo apertava-se em<br \/>\ntorno deles, \u00e0 medida que se desenvolvia a gravidez de Filomena.<\/p>\n<p>Tiveram que deixar o primeiro hotel por um outro mais modesto, depois este<br \/>\npor outro, at\u00e9 que afinal, sempre fustigados por uma terr\u00edvel adversidade,<br \/>\nrefugiaram-se numa hospedaria de terceira ordem, no largo de S. Bento.<\/p>\n<p>Era uma casa t\u00e9rrea, mal frequentada, abafadi\u00e7a, tresandando a cocheira.<\/p>\n<p>Quando o Borges se apresentou com a mulher, os quartos estavam quase todos<br \/>\nocupados por uma companhia de saltimbancos, que trabalhava da\u00ed a dois passos,<br \/>\ntodas as noites, em uma barraca armada no largo. Um inferno de c\u00e3es e macacos<br \/>\ns\u00e1bios!<\/p>\n<p>De vez em quando uma briga. Ent\u00e3o vinha a pol\u00edcia: dava-se bordoada, fazia-se<br \/>\nmuita bulha; mas tudo, no fim de contas, acabava em boa paz.<\/p>\n<p>Imagine-se agora como viveria o Borges nesse meio; ao passo que Filomena,<br \/>\nlonge de acompanhar o ressentimento do marido, descobria em tudo aquilo um<br \/>\nsedutor aspecto de aventura e de bo\u00eamia, inteiramente novo para a sua fantasia.<br \/>\nAquela miser\u00e1vel espelunca, habitada por gente de circo, mascates e engraxadores,<br \/>\nvista pelo prisma de sua loucura, tomou as dimens\u00f5es rom\u00e2nticas de um antro<br \/>\nmisterioso a Eug\u00eania Sue.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, o implac\u00e1vel circulo mais e mais se contraia em torno deles;<br \/>\nas pequenas necessidades de todos os dias multiplicavam-se, trazendo cada<br \/>\numa a sua gota de fel, como uma praga de insetos venenosos. A necessidade<br \/>\nprincipiava a transpirar o seu f\u00e9tido horrendo, que a todos revolta e afugenta;<br \/>\nenquanto que a inimizade, a desconsidera\u00e7\u00e3o, a antipatia, o \u00f3dio, o desprezo<br \/>\nvinham-se chegando para eles, como um bando de corvos ao cheiro da carni\u00e7a.<\/p>\n<p>O dono da casa, ao ver o Borges, fazia j\u00e1 uma careta de raiva; a lavadeira<br \/>\nde Filomena escrevia-lhe bilhetes grosseiros, exigindo o pagamento de seu<br \/>\ntrabalho, e todos, todos os que os cercavam, tinham para eles palavras duras,<br \/>\nolhares maus, gestos de desconfian\u00e7a ou sorrisos de desprezo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o Borges, pela primeira vez, compreendeu que a pureza de seu car\u00e1ter<br \/>\ne a bondade de seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram dotes naturais, mas uma simples resultante<br \/>\ndas circunst\u00e2ncias felizes de sua vida.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! dinheiro! dinheiro! pensou ele, tu \u00e9s o \u00fanico que nos d\u00e1s o direito<br \/>\nde sermos bons, generosos e aben\u00e7oados pelos nossos semelhantes. Tu \u00e9s o \u00fanico<br \/>\nque conquistas a simpatia e o respeito do mundo inteiro! Tudo me perdoavam<br \/>\n&#8211; a estupidez, a brutalidade, a do\u00e7ura, a fraqueza, at\u00e9 os crimes, se os cometesse;<br \/>\ns\u00f3 n\u00e3o me perdoara j\u00e1 te n\u00e3o possuir. \u00d3 meu chorado companheiro de tanto tempo!<br \/>\nQue importa que do nosso dinheiro n\u00e3o participe ningu\u00e9m? Que importa que ele<br \/>\ns\u00f3 preste ao ego\u00edsta que o possui; que importa? O dono ser\u00e1 sempre &#8220;um homem<br \/>\nhonesto!&#8221; Ter\u00e1 quem o defenda, quem o elogie, quem o ame, quem o proteja,<br \/>\nquem lhe ofere\u00e7a e d\u00ea aquilo que ele n\u00e3o pede e do que n\u00e3o precisa. &#8220;N\u00e3o ter<br \/>\nonde cair morto&#8221;. Isto \u00e9 que ningu\u00e9m perdoa! Furta, mata, prostitui-te; mas,<br \/>\nse deres \u00e0 tua m\u00e3e o dinheiro que furtaste, ser\u00e1s &#8220;um bom filho&#8221;; se deres<br \/>\n\u00e0 tua mulher o fruto de tua prostitui\u00e7\u00e3o ser\u00e1s &#8220;um bom marido&#8221;; se o deres<br \/>\n\u00e0 tua amante, ser\u00e1s &#8220;um fidalgo, um excelente cavalheiro, um homem de bem&#8221;.<br \/>\nE todos te aben\u00e7oar\u00e3o! Ter\u00e1s em redor de ti o acatamento, o sorriso, a lisonja,<br \/>\nporque \u00e9s, ou porque podes ser &#8220;bom&#8221;. Porque o teu dinheiro vale pelo destino<br \/>\nque h\u00e1 de ter e n\u00e3o pela proced\u00eancia que teve!<\/p>\n<p>Depois de semelhantes considera\u00e7\u00f5es, o Borges sentiu um profundo rancor pelo<br \/>\ng\u00eanero humano e uma pesada indiferen\u00e7a pelo bom cumprimento do dever.<\/p>\n<p>&#8211; Ilus\u00e3o! tudo ilus\u00e3o!&#8230; dizia ele, a sacudir a cabe\u00e7a, sem se lembrar de<br \/>\nque no meio de toda essa tempestade, o seu amor conjugal, aquilo que ele mais<br \/>\nestimava no mundo, havia-se enfolhado e frutescido.<\/p>\n<p>Mas o maldito c\u00edrculo est\u00e1 prestes a esmag\u00e1-los.<\/p>\n<p>Vendeu-se a \u00faltima j\u00f3ia; esgotou-se o \u00faltimo recurso.<\/p>\n<p>Filomena, entretanto, n\u00e3o se mostrava aflita; n\u00e3o amaldi\u00e7oava o marido e,<br \/>\nquando o via entrar da rua com a barba por fazer, a roupa esgar\u00e7ada, os sapatos<br \/>\nrotos, a camisa cheia de p\u00f3 e de suor, e a cara transformada por um desespero<br \/>\nsupremo; ela, igualmente transfigurada, cheia de prenhez e mau trato, descarnada,<br \/>\nsem cor, ca\u00eda-lhe nos bra\u00e7os freneticamente, louca, ressuscitando-lhe, com<br \/>\nos seus beijos de fogo, todas as feras adormecidas do amor.<\/p>\n<p>Um belo dia, acordaram sem um real. O dono da casa negou-se logo a fornecer<br \/>\ncomida, enquanto n\u00e3o pagassem o que j\u00e1 deviam.<\/p>\n<p>&#8211; Ao menos hoje! disse-lhe o Borges, tomando-o de parte. &#8211; n\u00e3o quero nada<br \/>\npara mim, \u00e9 s\u00f3 para ela, para minha mulher!&#8230; coitada! Ainda se n\u00e3o estivesse<br \/>\nnaquele estado&#8230; mas, assim a menor contrariedade pode lhe ser fatal! Tenha<br \/>\npaci\u00eancia!&#8230; o senhor receber\u00e1 depois tudo o que ficarmos a dever!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o diabo!&#8230; resmungou o estalajadeiro. &#8211; \u00c9 o diabo! os g\u00eaneros n\u00e3o me<br \/>\nvem de gra\u00e7a para casa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas tamb\u00e9m eu n\u00e3o estou lhe pedindo que nos d\u00ea de gra\u00e7a! Ora essa! Apenas<br \/>\nquero que espere um instante mais pelo pagamento!<\/p>\n<p>&#8211; E qual \u00e9 a garantia que tenho eu disto?! interrogou o locandeiro, picado<br \/>\nj\u00e1 pelo tom em que lhe falava o h\u00f3spede.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o sei se o senhor pagar\u00e1 ou n\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 homem! bradou o Borges. &#8211; N\u00e3o hei de carregar minha mulher naquele estado,<br \/>\nsem ter ainda para onde ir! Descanse, que hoje mesmo hei de dar um jeito \u00e0s<br \/>\ncoisas!<\/p>\n<p>&#8211; Pois d\u00ea primeiro o tal jeito, que eu c\u00e1 estou para o servir do que quiser&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea que ela n\u00e3o pode ficar sem comer at\u00e9 que eu volte?!&#8230;<\/p>\n<p>O estalajadeiro sacudiu os ombros.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea que isto \u00e9 um caso s\u00e9rio?!&#8230; tornou o Borges.<\/p>\n<p>&#8211; Nada tenho com isso, respondeu aquele.<\/p>\n<p>&#8211; Mas voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea que \u00e9 uma quest\u00e3o de vida?! Voc\u00ea quer mat\u00e1-la?!<\/p>\n<p>&#8211; Que a leve o diabo!<\/p>\n<p>&#8211; Maroto! exclamou o Borges, perdendo de todo a paci\u00eancia e erguendo o estalajadeiro<br \/>\npela braguilha. Nem mais uma palavra. tratante! se n\u00e3o queres ficar em peda\u00e7os!<\/p>\n<p>O homenzinho, \u00e0 volta do passeio a\u00e9reo que deu, estava j\u00e1 disposto \u00e0 atender<br \/>\n\u00e0s reclama\u00e7\u00f5es do Borges.<\/p>\n<p>&#8211; Uf! gemeu ele, quando se pilhou no ch\u00e3o. &#8211; Olha que o senhor tamb\u00e9m \u00e9 de<br \/>\num g\u00eanio! Safa! n\u00e3o se lhe pode dizer nada!&#8230; Toma logo o pi\u00e3o \u00e0 unha! Pois<br \/>\neu era l\u00e1 capaz de maltratar uma senhora, que se acha em um estado t\u00e3o melindroso!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E maltrate, para ver o que lhe sucede! berrou o Borges, mostrando-lhe o<br \/>\npulso fechado. &#8211; Experimente que ver\u00e1 o bom e o bonito!<\/p>\n<p>E saiu furioso, a praguejar.<\/p>\n<p>&#8211; Ladr\u00e3o! rosnou o outro, quando o calculou j\u00e1 na rua &#8211; o que tu merecias<br \/>\nera uma facada nesse bandulho, grand\u00edssimo sem-vergonha!<\/p>\n<p>E, passando enfurecido pela porta do quarto de Filomena, acrescentou de modo<br \/>\na ser ouvido por ela:<\/p>\n<p>&#8211; Diabos dos cafres! Arranjam galinhas chocas e querem que os mais as sustentem!<br \/>\nV\u00e3o roubar para o inferno! S\u00facia de vagabundos!<\/p>\n<p>Filomena, que estava de cama, porque nesse dia amanhecera mais incomodada,<br \/>\nergueu-se l\u00edvida e lan\u00e7ou-se instintivamente para a porta.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 contigo mesmo, peste de uma bruxa! replicou o locandeiro, cuspindo sobre<br \/>\nela um olhar insolente.<\/p>\n<p>&#8211; Canalha! gritou Filomena, correndo ao fundo do quarto para tomar o chicote.<br \/>\nMas, em meio do caminho, parou, levando com um gemido as m\u00e3os ao ventre.<\/p>\n<p>&#8211; Ai! gritou ela, e deixou-se cair aos p\u00e9s da cama, desfeita em sangue. Tinha<br \/>\nabortado.<\/p>\n<p>Uma acrobata americana, sua vizinha, que lhe ouvira o grito, acudiu logo<br \/>\nem seu socorro.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Por esse tempo o Borges vagava de rua em rua, Inquieto, tonto, \u00e0 procura<br \/>\nde um conhecido, de algu\u00e9m, de qualquer dinheiro, com que pudesse tapar a<br \/>\nboca do maldito usur\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas as horas Iam-se e vinham, sem trazer em nenhum de seus sessenta minutos<br \/>\numa s\u00f3 moeda de vinte r\u00e9is&#8230; E, contudo n\u00e3o podia voltar \u00e0 casa com as m\u00e3os<br \/>\nvazias. Era preciso obter dinheiro, fosse como fosse &#8211; tratava-se da seguran\u00e7a<br \/>\nde Filomena!<\/p>\n<p>Deram quatro horas &#8211; nada; deram cinco &#8211; nada; nada! seis &#8211; ainda a mesma<br \/>\ncoisa!<\/p>\n<p>Borges deixou-se cair exausto sobre um banco do Passeio P\u00fablico. Ai! Como<br \/>\nse sentia fatigado e como lhe do\u00eda todo o corpo! Palmilhara a cidade desde<br \/>\npela manh\u00e3, sem comer nem descansar, alimentando-se apenas com o fel de seus<br \/>\ndesgostos.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava a fazer-se noite. A hora melanc\u00f3lica do crep\u00fasculo ainda mais lhe<br \/>\nensombrava o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sentia necessidade de morrer, desertar do mundo, lan\u00e7ar fora aquela exist\u00eancia,<br \/>\nque lhe pesava sobre os ombros.<\/p>\n<p>Escondeu o rosto nas m\u00e3os, fechou os olhos, e um torpor voluptuoso o foi<br \/>\ninvadindo a pouco e pouco.<\/p>\n<p>Achou-se como num sonho; a realidade esbatia-se em torno de seus sentimentos<br \/>\namodorrados, espalhando-se at\u00e9 o pleno dom\u00ednio da fantasia.<\/p>\n<p>E toda a sua vida principiou ent\u00e3o a lhe deslizar pelo esp\u00edrito, como um<br \/>\nintermin\u00e1vel cord\u00e3o de espectros, que se precipitavam vertiginosamente. Viu-se<br \/>\nde todos os efeitos e em todas as idades; desde antes de se conhecer, at\u00e9<br \/>\numa \u00e9poca que ainda n\u00e3o conhecia; desde a primeira inf\u00e2ncia, at\u00e9 a completa<br \/>\ndecrepitude.<\/p>\n<p>Viu-se em Paquet\u00e1, descal\u00e7o, em mangas de camisa, a cabe\u00e7a ao sol; depois,<br \/>\nao servi\u00e7o do pai, ajudando-o no trabalho, fazendo cobran\u00e7as no fim do m\u00eas,<br \/>\nperseguindo os maus pagadores; depois, homem s\u00e9rio, j\u00e1 estabelecido, de cal\u00e7as<br \/>\nbrancas, palet\u00f3 de alpaca, chap\u00e9u do Chile; depois, de casaca, luvas de pelica,<br \/>\n\u00e0 espera da noiva; viu-se, no dia seguinte ao casamento, enfronhado no seu<br \/>\nrodaque de brim, ajoelhado aos p\u00e9s de Filomena; viu-se fumando o seu primeiro<br \/>\ncharuto e bebendo o seu primeiro trago de vinho; viu-se de barba raspada,<br \/>\nbigode retorcido, fraque \u00e0 moda; de espanhol, a raptar a esposa; de albornoz,<br \/>\na percorrer o Egito; de t\u00fanica, a passear na \u00cdndia; de touriste, a bordo dos<br \/>\npaquetes; de chicard1 a dirigir o cotillon; viu-se de todos os modos; viu-se<br \/>\nreduzido a bo\u00eamio, empenhando j\u00f3ias; mendigo, a sentir fome, e afinal sonhou-se<br \/>\nvelho, arrastando-se pelas ruas, a pedir uma esmola por amor de Deus.<\/p>\n<p>E toda essa variada cole\u00e7\u00e3o de tipos, todos esses Borges, giravam e rodopiavam<br \/>\nde m\u00e3os dadas uns aos outros, saltando, esperneando, fazendo caretas, em torno<br \/>\nde uma mulher espl\u00eandida, coberta de diamantes, que se torcia de riso com<br \/>\numa ta\u00e7a na m\u00e3o, a transbordar de champanhe, e olhava para todos eles, atirando<br \/>\na cada um, simultaneamente, frases de amor e de ironia, beijos e muchochos,<br \/>\nsuspiros e reviretes.<\/p>\n<p>Foi surpreendido nesse ponto da vertigem por dois grossos pulsos que lhe<br \/>\nbatiam no ombro. Borges acordou sobressaltado; por\u00e9m, mal voltou a si, um<br \/>\ngrito de prazer escapou-lhe dos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Defronte dele estava o Urso, a fit\u00e1-lo, de orelha em p\u00e9, a sacudir a cauda.<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo! meu verdadeiro amigo! exclamou o pobre homem abra\u00e7ando-se ao<br \/>\nc\u00e3o, enquanto lhe corriam dos olhos as mais verdadeiras l\u00e1grimas de ternura.<\/p>\n<p>Urso respondia a lamber-lhe as m\u00e3os, a farej\u00e1-lo todo, a grunhir.<\/p>\n<p>&#8211; Bom e fiel amigo, acrescentou o Borges, sem se fartar de contempl\u00e1-lo.<br \/>\nBem se v\u00ea que n\u00e3o \u00e9s um homem! Injusto fui eu em n\u00e3o contar contigo na mis\u00e9ria,<br \/>\napesar de te haver abandonado no tempo da minha ventura! Mas que te hei de<br \/>\ndar agora, fiel camarada; eu, que nada tenho para mim?!&#8230; Em todo caso, sinto-me<br \/>\nmais forte! Vamos l\u00e1 &#8211; havemos de viver!<\/p>\n<p>E, dizendo isto, levantou-se, passou ainda uma vez a m\u00e3o na cabe\u00e7a do Urso<br \/>\ne seguiu na dire\u00e7\u00e3o do hotel. Talvez tenha fome!&#8230; pensava ele. Mas \u00e9 imposs\u00edvel<br \/>\nque eu n\u00e3o descubra alguma coisa para lhe dar.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>\u00c2 porta da estalagem, quando o Borges se aproximou com o Urso, estava o empres\u00e1rio<br \/>\nda companhia de saltimbancos, de pernas cruzadas, a fumar cachimbo.<\/p>\n<p>Era um italiano calvo, muito magro, alto, de grandes barbas negras, chamava-se<br \/>\nBela.<\/p>\n<p>&#8211; Bom animal para um circo! pensou ele, atentando no Urso; se o tivessem<br \/>\nensinado valeria quanto pesa!<\/p>\n<p>E os olhos do fun\u00e2mbulo cresceram sobre o c\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Quer dez mil r\u00e9is pelo bicho? perguntou, tocando no ombro do Borges.<\/p>\n<p>Este fitou o italiano, sem responder.<\/p>\n<p>&#8211; Dou-lhe quinze.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, respondeu o outro secamente, penetrando j\u00e1 na estalagem.<\/p>\n<p>&#8211; Vinte.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o! disse o Borges, fugindo a uma id\u00e9ia que lhe acabava de atravessar<br \/>\no pensamento. &#8211; N\u00e3o! seria infame!<\/p>\n<p>&#8211; Pois se quiser vinte, \u00e9 meu; mais n\u00e3o dou! gritou ainda da porta o empres\u00e1rio.<\/p>\n<p>Borges j\u00e1 n\u00e3o o podia ouvir, porque a acrobata americana vinha de lhe comunicar<br \/>\no estado de Filomena.<\/p>\n<p>Correu ao quarto da mulher. Encontrou-a estendida no leito, a gemer, a voltar-se<br \/>\nincessantemente de um lado para outro.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isto?! perguntou ele, desvairado.<\/p>\n<p>E, mal disseram a causa do acidente, precipitou-se, como louco, para a sala<br \/>\nde jantar. O estalajadeiro, assim que o viu, calculou o risco que corria,<br \/>\ne tratou de fugir; mas s\u00f3 teve tempo de se esconder dentro de um arm\u00e1rio despratelado,<br \/>\nque jazia a um canto da sala.<\/p>\n<p>Este jogo de cena fez alguma bulha e atraiu todos os de casa. Quiseram logo<br \/>\nimpedir que o Borges se aproximasse do arm\u00e1rio.<\/p>\n<p>V\u00e3o esfor\u00e7o. Jo\u00e3o Touro, com o primeiro arranco, lan\u00e7ou por terra os que<br \/>\no tentavam segurar e atirou-se contra o arm\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deu ao trabalho de abri-lo, abarcou-se sobre o peito, ergueu-o, e,<br \/>\ndepois de sacudi-lo duas ou tr\u00eas vezes, arremessou-o pela sala, varando tudo<br \/>\nque estava no caminho.<\/p>\n<p>Um clamor estrepitoso rebentou em volta dele. No meio do barulho, ouviam-se<br \/>\nos gritos do estalajadeiro, o ladrar do Urso, que acompanhava aos saltos os<br \/>\nmovimentos do amo e, de todos os lados, um coro terr\u00edvel de exclama\u00e7\u00f5es cheias<br \/>\nde assombro, de raiva e de terror.<\/p>\n<p>Mas os que ficaram machucados logo ao primeiro encontro acudiam j\u00e1 contra<br \/>\no Borges, armados de cadeira; a companhia em peso, tomando as dores pelo dono<br \/>\nda casa, n\u00e3o tardou igualmente a lan\u00e7ar-se sobre ele, e, em menos de dois<br \/>\nsegundos, travou-se o mais formid\u00e1vel sarilho.<\/p>\n<p>Foi uma coisa horrorosa!<\/p>\n<p>O Borges, fora de si, ia agarrando o que lhe ca\u00eda nas m\u00e3os e arremessando<br \/>\npara frente. Voaram mesas, cadeiras, estantes, aparadores, garrafas, tudo!<\/p>\n<p>A sala, em breve, ficou completamente vazia, e ele, s\u00f3 ele, passeava de um<br \/>\npara outro lado, rugindo e fungando como um verdadeiro touro.<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>XV &#8211; COISAS EXTRAORDIN\u00c1RIAS<\/h2>\n<p>&#8211; Foi o empres\u00e1rio da companhia, o Belo, o primeiro que se animou a voltar<br \/>\n\u00e0 sala&#8230; Mas n\u00e3o trazia aspecto de briga; ao contr\u00e1rio, aproximou-se do Borges<br \/>\ncom toda a calma, e disse-lhe em voz baixa:<\/p>\n<p>&#8211; Tenho uma proposta a fazer-lhe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9?! gritou o marido de Filomena.<\/p>\n<p>&#8211; Contrat\u00e1-lo para a minha companhia. O senhor, com a for\u00e7a de que disp\u00f5e<br \/>\ne com o seu Urso, pode fazer chicanas. Dou-lhe duzentos mil r\u00e9is por m\u00eas.<br \/>\nAceita?<\/p>\n<p>&#8211; Aceito, respondeu o Borges, sem vacilar. Mas com a condi\u00e7\u00e3o de que o senhor<br \/>\npagar\u00e1 imediatamente o que devo nesta casa.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 dito, respondeu o italiano. \u00c9 s\u00f3 fecharmos o contrato; isso faz-se<br \/>\nnum instante.<\/p>\n<p>E o estalajadeiro, uma vez embolsado, declarou que retirava o que dissera<br \/>\npela manh\u00e3, e pediu que lhe perdoassem o mal que havia causado e afian\u00e7ou<br \/>\nque sua casa e os seus servi\u00e7os estavam sempre \u00e0s ordens de Borges.<\/p>\n<p>Este tratou logo de p\u00f4r a esposa ao corrente do passo que acabava de dar.<\/p>\n<p>&#8211; Magn\u00edfico! exclamou ela. Oh! magn\u00edfico! Contanto que o italiano esteja<br \/>\ndisposto a me arranjar igualmente um lugar na sua companhia.<\/p>\n<p>&#8211; Hem?! Um lugar&#8230; um lugar para ti? Est\u00e1s gracejando com certeza!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Juro-te que n\u00e3o. E desde j\u00e1 te previno de que s\u00f3 nesse caso consentirei<br \/>\nque cumpras o teu contrato!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, meu amor, aquilo n\u00e3o te pode convir&#8230; do que iria te encarregar numa<br \/>\ncompanhia de acrobatas?! \u00c9 preciso ver a coisa por este lado!<\/p>\n<p>&#8211; Ora! E o meu talento coreogr\u00e1fico, e a minha voz de contralto, a minha<br \/>\nbeleza, e o meu esp\u00edrito, n\u00e3o valem tanto como a tua for\u00e7a e o teu c\u00e3o?!<\/p>\n<p>No dia seguinte, Filomena estava tamb\u00e9m contratada. Esperariam apenas que<br \/>\nse restabelecesse completamente para met\u00ea-la em servi\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo era se iam encontrar na plat\u00e9ia algum velho conhecido dos bons tempos!&#8230;<br \/>\nAinda se fosse eu s\u00f3!&#8230; pensava o Borges. Mas a quest\u00e3o \u00e9 minha mulher!<\/p>\n<p>O empres\u00e1rio cortou essa dificuldade lembrando que Filomena, para n\u00e3o ser<br \/>\nconhecida, podia muito bem se disfar\u00e7ar em \u00edndia, pondo uma cabeleira e pintando-se<br \/>\nde cabocla, e que o Borges, ainda com mais facilidade podia caracterizar-se<br \/>\nde ingl\u00eas. &#8211; Um pouco de vermelh\u00e3o, um par de su\u00ed\u00e7as ruivas, e a\u00ed teriam o<br \/>\nmais leg\u00edtimo e completo atleta deste mundo! Quanto ao Urso &#8211; pouco seria<br \/>\nnecess\u00e1rio para reduzi-lo a um urso verdadeiro.<\/p>\n<p>Ficou tudo combinado.<\/p>\n<p>Borges lutaria com a sua fera e com os homens que se apresentassem; faria<br \/>\nexerc\u00edcios de for\u00e7a, suspenderia barras de ferro, carregaria e dispararia<br \/>\numa pe\u00e7a ao ombro, jogaria enormes balas de cinco arrobas, etc&#8230; etc&#8230; Filomena<br \/>\ndan\u00e7aria v\u00e1rios passos dif\u00edceis e cantaria os seus tangos e as suas can\u00e7onetas.<\/p>\n<p>Convinha \u00e9 que ela se restabelecesse quanto antes, para poder abandonar aquela<br \/>\nmaldita estalagem e cuidar dos primeiros ensaios. Felizmente a cura foi r\u00e1pida<br \/>\ne, gra\u00e7as aos novos recursos, de que dispunham, Filomena, a primitiva, a formosa,<br \/>\na deslumbrante Filomena Borges, surgiu da cama ainda mais bela, mais petulante,<br \/>\ncomo se a id\u00e9ia de farandulagem que a esperava lhe fizesse ressaltar os encantos,<br \/>\najuntando-lhes uma nota diab\u00f3lica de desordem e de bo\u00eamia.<\/p>\n<p>O empres\u00e1rio esfregava as m\u00e3os de contente, quando a viu no dia da mudan\u00e7a.<br \/>\nOu ele muito se enganava, ou aquela mulherzinha ia fazer uma revolu\u00e7\u00e3o no<br \/>\np\u00fablico!<\/p>\n<p>Principiaram os ensaios, logo depois que sa\u00edram da estalagem. Filomena, as<br \/>\nprimeiras tentativas, revelou uma tal habilidade para a sua nova profiss\u00e3o,<br \/>\nque o Bela ficou deveras encantado.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m seria capaz de dan\u00e7ar e cantar um tango brasileiro com mais gra\u00e7a<br \/>\nnem com mais originalidade.<\/p>\n<p>Em corpo algum de mulher diziam t\u00e3o bem as penas sensuais da tanga, as axorcas<br \/>\norientais e o emplumado e pitoresco cocar ind\u00edgena.<\/p>\n<p>&#8211; Achei a sorte grande, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida! considerava o Bela com os seus bot\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 que, al\u00e9m de Filomena, o Borges enchia-lhe as medidas. A luta deste com<br \/>\no Urso faria furor! O c\u00e3o efetivamente, depois de certos arranjos no focinho,<br \/>\nnas patas e na cauda, n\u00e3o deixava, nem de leve, suspeitar a sua modesta proced\u00eancia.<\/p>\n<p>Espalharam-se logo por todas as esquinas imensos cartazes, anunciando os<br \/>\n&#8220;dois c\u00e9lebres artistas, que acabavam de chegar de Paris, contratados para<br \/>\no Pavilh\u00e3o Chin\u00eas&#8221;.<\/p>\n<p>Pavilh\u00e3o Chin\u00eas era o circo de Bela.<\/p>\n<p>&#8220;- Grande sucesso do dia! A linda V\u00eanus Americana, o invenc\u00edvel H\u00e9rcules<br \/>\nIngl\u00eas e o indom\u00e1vel e terr\u00edvel Urso Negro&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>Acompanhava esses nomes um pomposo programa de espet\u00e1culo, onde vinham as<br \/>\nmais provocadoras considera\u00e7\u00f5es a respeito daquelas tr\u00eas celebridades.<\/p>\n<p>Apesar, por\u00e9m, de tudo isso e das bandeiras e lumin\u00e1rias com que o Bela enfeitou<br \/>\nseu pavilh\u00e3o, a estr\u00e9ia dos novos artistas n\u00e3o foi muito concorrida. Mas,<br \/>\nda segunda noite em diante, a formosura irresist\u00edvel de Filomena principiou<br \/>\na atrair extraordin\u00e1ria concorr\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou a rebentar em toda a cidade um entusiasmo apopl\u00e9tico por aquela<br \/>\nV\u00eanus cor de am\u00eandoa, que parecia ter furtado \u00e0s serpentes do Brasil o segredo<br \/>\nde suas curvas sensuais, quando ao som dos lundus e das habaneras, quebrava<br \/>\ne retorcia o corpo, como numa agonia de amor.<\/p>\n<p>A Faculdade de Direito em peso n\u00e3o abandonou mais as galerias do Pavilh\u00e3o<br \/>\nChin\u00eas: os jornais acad\u00eamicos apareceram repletos de artigos, cr\u00f4nicas, versos,<br \/>\no diabo! a respeito de Filomena. E o povo, o grosso povo, acudia de todos<br \/>\nos lados, a um mil r\u00e9is por cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Ah! mas Filomena tinha um corpo admir\u00e1vel e excepcionalmente correto. Ela<br \/>\nn\u00e3o punha espartilhos e, com uma simples camisa de meia cosida \u00e0 pele, principiava<br \/>\na sapatear, a torcer-se toda aos gemidos das habaneras, fazendo e desfazendo<br \/>\nas curvas magn\u00e9ticas dos rins, expondo corajosamente a pureza grega de sua<br \/>\ncintura el\u00e1stica e vibrante, como se a alma de uma danseuse da Grande \u00f3pera<br \/>\ntivesse tido a fantasia de encarnar-se num dos velhos m\u00e1rmores do Partenon.<\/p>\n<p>Era um del\u00edrio, quando a banda de m\u00fasica rompia o tango, e Filomena, vestida<br \/>\nde \u00edndia, saltava ao meio do circo, a jogar o corpo para a direita e para<br \/>\na esquerda, ora num p\u00e9, ora no outro, os bra\u00e7os no ar, a cabe\u00e7a bamba, a boca<br \/>\na sorrir, os olhos a requebrarem-se.<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! Bravo a V\u00eanus! Quebra! gritavam de todos os cantos.<\/p>\n<p>E choviam flores. E os chap\u00e9us, os len\u00e7os e as bengalas juncavam o tapete<br \/>\nque ela pisava.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Por outro lado, o H\u00e9rcules Ingl\u00eas ia conquistando as simpatias do p\u00fablico.<br \/>\nA sua melhor sorte era a que ele executava com o bom Urso: &#8220;a vida pelo combate<br \/>\nou a luta terr\u00edvel do homem com a fera&#8221;, segundo diziam os an\u00fancios.<\/p>\n<p>Consistia no seguinte:<\/p>\n<p>Seis homens arrastavam para o meio do circo uma enorme gaiola de grossos<br \/>\nvar\u00f5es de ferro, pousado sobre quatro rodas, na qual vinha o pobre animal,<br \/>\narvorado em fera e preparado de modo a iludir os mais espertos.<\/p>\n<p>Logo depois, com as suas su\u00ed\u00e7as ruivas, as suas faces cor de sangue, aparecia<br \/>\no Borges, vestido de guerreiro romano, cheio de escamas e cintilante de lantejoulas:<br \/>\nna cabe\u00e7a um grande capacete de folha de Flandres e na m\u00e3o uma pequena vara<br \/>\nde ponta encarnada.<\/p>\n<p>A terr\u00edvel fera, ao ver surgir o domador, come\u00e7ava a agitar-se, a espolinhar-se<br \/>\ncomo sequiosa de sangue.<\/p>\n<p>Ouviam-se ent\u00e3o por todo o circo uns rugidos medonhos e atroadores, que Bela,<br \/>\nescondido debaixo da gaiola, soltava com o aux\u00edlio de uma trombeta de sua<br \/>\ninven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos emudeciam. E, entre o resfolegar ansiado do p\u00fablico, caminhava o domador<br \/>\na passos firmes para a jaula. Abria a portinhola, entrava, e de carreira ia<br \/>\nlan\u00e7ar-se ao monstro, que se erguia logo nas pernas de tr\u00e1s e roncava com<br \/>\nmais for\u00e7a.<\/p>\n<p>Principiava a luta.<\/p>\n<p>Por vezes ca\u00eda o homem, quase vencido, mas de pronto se levantava e de novo<br \/>\ninvestia contra o formid\u00e1vel advers\u00e1rio, at\u00e9 conseguir dom\u00e1-lo, segurando-lhe<br \/>\no pesco\u00e7o com uma das m\u00e3os e paralizando-lhe com os p\u00e9s o movimento das pernas.<\/p>\n<p>Nisto, de todas as curvas da barraca, rompiam os aplausos. E, dentre a enorme<br \/>\ngritaria, s\u00f3 se destacava uma palavra, que era repetida por mil bocas:<\/p>\n<p>&#8211; Basta! Basta! Basta!<\/p>\n<p>E o H\u00e9rcules, inalter\u00e1vel e frio como se tivesse plena consci\u00eancia de seu<br \/>\nvalor, sa\u00eda da jaula, fechava bem a cancela, cumprimentava o p\u00fablico e recolhia-se<br \/>\nmodestamente ao interior do circo.<\/p>\n<p>Quando porventura aparecia algu\u00e9m que quisesse lutar, ele nunca se negava;<br \/>\ne, quando n\u00e3o aparecia, era o Bela que desfrutava essa honra, deixando-se<br \/>\nvencer no fim de um quarto de hora, e retirando-se depois para os fundos do<br \/>\nbarrac\u00e3o debaixo de uma tremenda vaia do p\u00fablico.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, dentro de pouco tempo o empres\u00e1rio levantou a cabe\u00e7a, gra\u00e7as<br \/>\naos seus novos artistas, que eram j\u00e1 considerados os primeiros da troupe.<br \/>\nMas, se quis conserv\u00e1-los, e conseguir que eles o acompanhassem numa excurs\u00e3o<br \/>\npelas outras prov\u00edncias, teve que lhes dobrar o ordenado, oferecendo-lhes<br \/>\ndepois novas vantagens, e, afinal, associ\u00e1-los \u00e0 empresa.<\/p>\n<p>Borges e a mulher faziam progressos admir\u00e1veis. Depois de percorrerem Bahia,<br \/>\nSergipe, Alagoas, Pernambuco, Para\u00edba, Cear\u00e1, Maranh\u00e3o, Par\u00e1 e Amazonas, achavam-se<br \/>\npossuidores de alguns contos de r\u00e9is e podiam, como desejava o marido, abandonar<br \/>\na vida de saltimbancos e abra\u00e7ar uma carreira menos repugnante.<\/p>\n<p>Mas, no cora\u00e7\u00e3o romanesco e aventureiro de Filomena, o prazer do aplauso,<br \/>\no gozo da nomeada, encontraram terreno prop\u00edcio e haviam j\u00e1 cravado bem fundo<br \/>\nas suas ra\u00edzes.<\/p>\n<p>Entretanto, a vaidade de artista festejada pedia-lhe horizontes mais largos<br \/>\ne conquistas mais nobres. Agora toda sua ambi\u00e7\u00e3o era ligar o seu verdadeiro<br \/>\nnome, o. seu nome de batismo, \u00e0s gl\u00f3rias que conquistava em p\u00fablico.<\/p>\n<p>N\u00e3o hesitou em separar-se do Bela, contratar por sua conta novos artistas,<br \/>\nformar um novo plano de trabalho e, com o seu vasto repert\u00f3rio de lundus,<br \/>\ntangos e modinhas brasileiras, que ela colecionara pelas prov\u00edncias, e, com<br \/>\nas vestimentas ind\u00edgenas, que trouxera do Amazonas, levantou ferro para as<br \/>\nrep\u00fablicas vizinhas.<\/p>\n<p>Mau grado os conselhos de Borges, que ardia por um momento de descanso, percorreu-as<br \/>\nde Patag\u00f4nia a Venezuela. Seguiu depois para a Am\u00e9rica do Norte, onde, durante<br \/>\num ano, ganhou rios de dinheiro, e por fim, aguilhoada pela id\u00e9ia de aparecer<br \/>\nna Europa, despediu todo o pessoal e, apenas acompanhada pelo marido e pelo<br \/>\nUrso, levantou a proa sobre Paris.<\/p>\n<h2><a name=\"16\"><\/a>XVI &#8211; SEGREDOS DE BASTIDOR<\/h2>\n<p>O Borges, a despeito de sua constante revolta com o destino, nunca estacionou<br \/>\num momento.<\/p>\n<p>Aprendeu a executar os jogos malabares, exerc\u00edcios no trap\u00e9zio, gin\u00e1stica<br \/>\nsobre o cavalo, m\u00e1gicas e prestidigita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De H\u00e9rcules Ingl\u00eas passou a equilibrista japon\u00eas, fazendo-se anunciar com<br \/>\no nome de Tch\u00edm-Chim-Fu. E trabalhava vestido de seda amarela, uma grande<br \/>\nmitra encarnada, um leque na m\u00e3o, todo cheio de mesuras e saltinhos, sem que<br \/>\nningu\u00e9m pudesse suspeitar que aquelas pantom\u00edmices escondiam um cora\u00e7\u00e3o puro<br \/>\ne singelo, talhado para o amor da fam\u00edlia, para a dignidade do lar dom\u00e9stico<br \/>\ne para os exemplos da honra e da perseveran\u00e7a no trabalho.<\/p>\n<p>E promiscuamente foi tudo quanto se pode ser dentro de um circo, desde o<br \/>\npalha\u00e7o vulgar, de cabeleira ponteaguda e cor de fogo, a cara empastada de<br \/>\nalvaiade, at\u00e9 o empres\u00e1rio de casaca e luva, que dirige os trabalhos e manobra<br \/>\nos cavalos, de chicote em punho e comenda ao peito.<\/p>\n<p>Mas em Paris faria de selvagem. Estudou bem um botocudo e escolheu o pseud\u00f4nimo<br \/>\nde Bu-ru-cu-lu-lu, que, com certeza, iria produzir muito boa impress\u00e3o nos<br \/>\nan\u00fancios.<\/p>\n<p>A mulher conservaria as suas roupas ind\u00edgenas, mas n\u00e3o havia de pintar mais<br \/>\no rosto, nem esconderia o nome, seria limpa e claramente: &#8220;Filomena Borges<br \/>\n&#8211; A Brasileira&#8221;.<\/p>\n<p>O Urso \u00e9 que ficara de melhor partido &#8211; ia deixar a cena e recolher-se \u00e0<br \/>\nsua primitiva e sossegada posi\u00e7\u00e3o de animal dom\u00e9stico. J\u00e1 n\u00e3o era sem tempo,<br \/>\ncoitado! O pobre c\u00e3o estava velho e sentia fugirem-lhe progressivamente as<br \/>\nfaculdades.<\/p>\n<p>Estrearam no Cirque d&#8217;hiver.<\/p>\n<p>Que sucesso! Os parisienses cansados de boa m\u00fasica e fartos de artistas c\u00e9lebres;<br \/>\nos parisienses desiludidos, esgotados, blas\u00e9s, ainda tiveram fibra para um<br \/>\narrepio novo, quando ouviram os chorados da Bahia e as modinhas do Par\u00e1, gemidos<br \/>\nem portugu\u00eas por aquela deliciosa filha dos tr\u00f3picos, que n\u00e3o precisava de<br \/>\nespartilhos e peitos de borracha para dizer na linguagem cl\u00e1ssica e singela<br \/>\ndas curvas carnais toda a velha sensualidade paradis\u00edaca.<\/p>\n<p>O Borges, na sua humilde qualidade de botocudo, n\u00e3o tinha mais que afetar<br \/>\ngrande selvageria e deixar-se expor com os seus botoques nos bei\u00e7os e nas<br \/>\norelhas, como um bicho perigoso e raro. Foi esse o meio \u00fanico que descobriu<br \/>\no pobre homem para n\u00e3o se fatigar em extremo, pois v\u00e1rias vezes teve de sair<br \/>\nde seu sossego e amea\u00e7ar com as suas flechas de ub\u00e1 e com os seus guinchos<br \/>\natroadores os gommeux embei\u00e7ados pela mulher.<\/p>\n<p>Ingleses silenciosos e tradicionais exc\u00eantricos, russos viajantes, pr\u00edncipes<br \/>\nde v\u00e1rias partes do mundo, vinham Cirque d&#8217;hiver atirar o cora\u00e7\u00e3o e a bolsa<br \/>\naos p\u00e9s da formosa brasileira. Filomena, por\u00e9m, n\u00e3o era mulher que sucumbisse<br \/>\na tais sedu\u00e7\u00f5es e, j\u00e1 com a t\u00e1tica que apanhara nos teatros, j\u00e1 com os conselhos<br \/>\nque em pequena recebera de D. Clementina, sabia pilhar de seus adoradores<br \/>\ntudo que entendesse sem lhes dar em troca mais que os seus famosos olhares<br \/>\nde ternura e os seus belos sorrisos de esperan\u00e7a. S\u00f3 nas ocasi\u00f5es supremas<br \/>\n\u00e9 que o terr\u00edvel botocudo se mostrava, armado, de tamarana, uirupara e esgaravatana,<br \/>\ne, tal gritaria e tais amea\u00e7as punha em jogo, que ningu\u00e9m levaria a sua intrepidez<br \/>\na ponto de avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, ele \u00e0s vezes ficava sobressaltado e receoso.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acho muito prudente que te exponhas deste modo, meu amor! dizia em<br \/>\nsegredo \u00e0 mulher &#8211; podes vir a cair em algum la\u00e7o&#8230; Conhecemos muito pouco<br \/>\nesta cidade, e os parisienses, minha vida, gozam a esse respeito de uma fama<br \/>\nterr\u00edvel!&#8230; Quanto a mim, acho que o melhor seria deixarmos por uma vez esta<br \/>\nmaldita vida de teatro e irmos descansai a um canto sossegado e feliz da nossa<br \/>\nterra!&#8230; O que j\u00e1 possu\u00edmos, com alguma economia, chegar-nos-\u00e1 perfeitamente<br \/>\npara o resto da exist\u00eancia, e, confesso-te, minha santa, desde que me casei,<br \/>\nn\u00e3o fa\u00e7o outra coisa sen\u00e3o suspirar por um momentozinho de repouso!&#8230;<\/p>\n<p>Filomena sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, queira Deus que te n\u00e3o venhas a arrepender!&#8230; acrescentou o Borges.<br \/>\nTenho pressentimentos horr\u00edveis com esta cidade infernal!<\/p>\n<p>&#8211; Descansa, meu bom amigo, respondeu a esposa. S\u00e3o de todo infundados os<br \/>\nteus receios! Descansa, eu sei o que fa\u00e7o; n\u00e3o me h\u00e1 de suceder coisa alguma!<\/p>\n<p>&#8211; Hum, hum!&#8230; resmungou o botocudo, sacudindo a cabe\u00e7a. N\u00e3o sei que te diga!&#8230;<br \/>\nOlha, esse tal duque louro, por exemplo, esse que te mandou ontem aquele diamante<br \/>\nnegro, n\u00e3o me passa da garganta! \u00c9 de todos o que mais me incomoda! N\u00e3o sei<br \/>\nque diabo acho na cara de semelhante homem!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Nesta noite, j\u00e1 no teatro, quando ela se preparava para entrar em cena e<br \/>\no marido metia no pesco\u00e7o o seu barulbento aiucar\u00e1. feito de b\u00fazios e dentes<br \/>\nde animais ferozes, foram surpreendidos por uma voz que, da porta do camarim,<br \/>\ndizia no melhor portugu\u00eas:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 permitido cumprimentar a formosa brasileira?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o! respondeu esta, ordenando \u00e0 criada que fizesse entrar a visita<br \/>\nna pequena sala pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>E, quando apareceu, j\u00e1 pronta: &#8211; Oh! o duque!&#8230; N\u00e3o sabia que V. Ex. falava<br \/>\nportugu\u00eas, e com tanta perfei\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Pois se eu sou portugu\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>Ah! fez ela, considerando o tipo louro que tinha diante de si.<\/p>\n<p>Dir-se-ia um alem\u00e3o. Era baixo e gordo, vermelho, bigode e barba \u00e0 Cavaignac,<br \/>\ncabelos de um amarelo frio e seco.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o falemos nisso, interrompeu ele &#8211; tratemos de outra qualquer coisa!&#8230;<br \/>\nDe seu espl\u00eandido pa\u00eds, por exemplo.<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. duque conhece o Brasil?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Nunca fui ao Brasil, mas tenho l\u00e1 muitos parentes e amigos.<\/p>\n<p>Parentes! Na corte ou nas prov\u00edncias?<\/p>\n<p>&#8211; Na corte.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Ent\u00e3o devo conhecer algum deles. Eu sou filha da corte.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 in\u00fatil insistirmos: n\u00e3o conhece com certeza&#8230; \u00e9 uma fam\u00edlia de estrangeiros&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! balbuciou Filomena, tornando-se mais cort\u00eas, porque havia j\u00e1 suspeitado<br \/>\nquem vinha a ser aquela inc\u00f3gnita visita. &#8211; \u00c9 ele, com certeza&#8230; pensou de<br \/>\nsi para si.<\/p>\n<p>Mas, nesse momento, o Borges acabava de entrar na pequena sala e, no seu<br \/>\npapel de botocudo, foi assentar-se a um canto, sem mais cerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>&#8211; Tomo a liberdade de apresentar-lhe meu marido, disse Filomena, mostrando-o<br \/>\nao duque.<\/p>\n<p>O selvagem monologou alguns sons guturais e sem sentido e encarou a visita,<br \/>\nfranzindo as sobrancelhas.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o conseguiu familiarizar-se com as l\u00ednguas estranhas, explicou<br \/>\nFilomena.<\/p>\n<p>E percebendo no duque um gesto de contrariedade:<\/p>\n<p>&#8211; Pode conversar \u00e0 vontade em portugu\u00eas; Bu-ru-cu-lu-lu n\u00e3o entender\u00e1 uma<br \/>\npalavra do que ouvir. S\u00f3 eu posso fazer-me compreender por ele, gra\u00e7as ao<br \/>\npouco que sei do tupi.<\/p>\n<p>&#8211; Mas como foi a senhora, t\u00e3o bonita e t\u00e3o delicada, descobrir esse monstro<br \/>\npara seu marido?&#8230; quis saber o fidalgo.<\/p>\n<p>&#8211; Devo-lhe a vida!&#8230; respondeu Filomena. &#8211; Se n\u00e3o fosse esse bravo ind\u00edgena,<br \/>\nteria sido devorada pelos seus compatriotas numa lament\u00e1vel excurs\u00e3o que fiz<br \/>\nao Alto Amazonas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! E sabe o que o levou a salv\u00e1-la?<\/p>\n<p>&#8211; O amor, creio eu. Este pobre monstro viu-me de longe entre os seus companheiros,<br \/>\ncorreu-me aos p\u00e9s, ajoelhou-se, em seguida tomou a minha defesa, matou os<br \/>\nque me queriam fazer mal, carregou comigo para um lugar seguro, e desde este<br \/>\ninstante me segue como um c\u00e3o. \u00c9 de supor que me tomasse por alguma divindade!&#8230;<br \/>\nPelo menos, assim me leva a crer o respeito religioso que ele me tributa!<\/p>\n<p>&#8211; Ah!<\/p>\n<p>&#8211; De resto, n\u00e3o tem absoluta consci\u00eancia do que faz &#8211; \u00e9 uma esp\u00e9cie de bicho!<br \/>\nN\u00e3o sabe a raz\u00e3o por que aparece em p\u00fablico; n\u00e3o compreende nada do que o<br \/>\ncerca. Uma ocasi\u00e3o, perguntei-lhe, por curiosidade, que efeito lhe produzia<br \/>\nParis, e, pela resposta que deu, conclu\u00ed que o tolo se sup\u00f5e numa exist\u00eancia<br \/>\nde al\u00e9m t\u00famulo, julga-se no para\u00edso de sua religi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim? perguntou o duque intrigado.<\/p>\n<p>Filomena apressou-se a explicar:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que, na ocasi\u00e3o de defender-me de seus companheiros, Bu-ru-cu-lu-lu ficou<br \/>\nmuito ferido e, ao chegar a Manaus, acometeram-lhe febres t\u00e3o fortes, que<br \/>\no fizeram delirar tr\u00eas dias consecutivos. Pois bem, o toleir\u00e3o imagina que<br \/>\nsucumbiu \u00e0 mol\u00e9stia e que voou logo \u00e0s mans\u00f5es siderais, onde eu represento<br \/>\npara ele a veneranda encarna\u00e7\u00e3o do poder alt\u00edssimo e da suprema divindade!<\/p>\n<p>&#8211; De sorte que ele se julga j\u00e1 falecido?&#8230; perguntou o duque com interesse.<\/p>\n<p>&#8211; Em plena bem-aventuran\u00e7a eterna. Julga-se como alma do outro mundo. Paris,<br \/>\nque \u00e9 o \u00e9dem terrestre dos estrangeiros, para ele, coitado! \u00e9 nada menos que<br \/>\no para\u00edso celeste!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 singular!<\/p>\n<p>&#8211; Singular e extremamente c\u00f4modo para mim, prosseguiu a brasileira, gozando<br \/>\ndo efeito que as suas palavras produziam na visita. &#8211; Imagine o Sr. Duque<br \/>\nque o fato de meu marido se julgar morto faz que ele me tenha comigo a menor<br \/>\nexig\u00eancia e se submeta humildemente ao que eu lhe ordene. Entretanto, \u00e9 o<br \/>\nmeu guarda, \u00e9 a minha defesa: quando o sinto ao meu lado, n\u00e3o tenho que recear<br \/>\nqualquer agress\u00e3o, venha ela de um le\u00e3o das salas ou de um le\u00e3o das florestas!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 muito singular! repisou o duque, reconsiderando com um ar de pasmo a<br \/>\ngrossa e taciturna figura do Borges, acocorado ao canto da sala. Sim, senhora!<br \/>\nEst\u00e1 garantida!<\/p>\n<p>&#8211; Ah! perfeitamente garantida! J\u00e1 v\u00ea o Sr. Duque que eu n\u00e3o poderia encontrar<br \/>\nmelhor marido em parte alguma do mundo!<\/p>\n<p>&#8211; Ele ent\u00e3o n\u00e3o consente que lhe toquem sequer com o &#8211; dedo?&#8230; perguntou<br \/>\no louro, fazendo um ar de desgosto.<\/p>\n<p>Experimente! disse Filomena, fa\u00e7a que me vai prender o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>O duque estendeu a sua m\u00e3o cal\u00e7ada de luva da Esc\u00f3cia e fingiu que ia tocar<br \/>\nno carnudo bra\u00e7o da artista.<\/p>\n<p>O Borges ergueu-se logo e, movendo lentamente a cabe\u00e7a para os lados, com<br \/>\nmovimentos de urso velho, principiou a rondar em torno dos dois, farejando.<\/p>\n<p>&#8211; E se eu me arriscasse a dar-lhe um abra\u00e7o?&#8230; perguntou o duque.<\/p>\n<p>&#8211; Deus o defenda! Nem \u00e9 bom pensar nisso! Bu-ru-cu-lu-lu seria capaz de estrangul\u00e1-lo<br \/>\nno mesmo instante! N\u00e3o queira experimentar, que eu n\u00e3o respondo pelas conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o havia meio de estar um momento em sua companhia sem a presen\u00e7a desta<br \/>\nalimaria?!<\/p>\n<p>&#8211; Pode haver, mas \u00e9 muito arriscado! Ele tem um faro mais sutil que o de<br \/>\nqualquer c\u00e3o de ca\u00e7a!&#8230; Iria descobrir-me no inferno, se no inferno eu me<br \/>\nescondesse!<\/p>\n<p>&#8211; E por que n\u00e3o se desfaz a senhora de semelhante bruto?! No fim de contas,<br \/>\ndeve ser aborrecido suportar eternamente este orangotango.<\/p>\n<p>&#8211; Se lhe estou dizendo, Sr. Duque, que o dem\u00f4nio do bicho tem faro!<\/p>\n<p>&#8211; Era fazer presente dele ao museu zoot\u00e9cnico de Fran\u00e7a, em nome do Imperador<br \/>\nde seu pa\u00eds, que \u00e9 um s\u00e1bio. E com isso a senhora ainda prestaria um relevante<br \/>\nservi\u00e7o \u00e0 biologia. Se quiser eu encarrego-me de o remeter \u00e0 comiss\u00e3o que<br \/>\nrecebe os donativos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! disse Filomena, por ora n\u00e3o. Mais tarde pode ser que aceite o seu<br \/>\noferecimento.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, quando quiser, estou \u00e0s suas ordens, acrescentou a ilustre visita,<br \/>\nerguendo-se e tomando a m\u00e3o de Filomena para depor um beijo.<\/p>\n<p>Mas o Borges afastou-se da mulher, metendo-se entre os dois grosseiramente.<\/p>\n<p>&#8211; Este animal n\u00e3o me deixa p\u00f4r o p\u00e9 em ramo verde! pensou o fidalgo, saindo<br \/>\ncontrariado, depois de cortejar a brasileira.<\/p>\n<p>Borges acompanhou-o at\u00e9 fora da porta e, ao voltar para junto da mulher,<br \/>\ndisse-lhe esta:<\/p>\n<p>&#8211; Conheces?<\/p>\n<p>&#8211; Quem? Este tipo? N\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! o D. Lu\u00eds, homem!<\/p>\n<p>&#8211; Que D. Lu\u00eds?<\/p>\n<p>&#8211; O D. Lu\u00eds, de Portugal.<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa!<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 ele<\/p>\n<p>&#8211; Queira Deus que estas brincadeiras n\u00e3o te venham a dar na cabe\u00e7a!&#8230; observou<br \/>\no botocudo.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-te de receios, meu selvagem &#8211; e vem da\u00ed, que j\u00e1 deu o segundo sinal<br \/>\npara principiar o espet\u00e1culo!<\/p>\n<h2><a name=\"17\"><\/a>XVII &#8211; SUPREMA EXIG\u00caNCIA<\/h2>\n<p>Foi dessa forma que Filomena logrou conciliar os ganhos de dan\u00e7arina requestada<br \/>\ncom as suas intransig\u00eancias de mulher honesta e com os eternos desvarios de<br \/>\nseu temperamento rom\u00e2ntico, fazendo sempre do amor do marido um instrumento<br \/>\nde sua fantasia, transformando-o e disfar\u00e7ando-o sob as singularidades de<br \/>\nseus caprichos, dando-lhe atra\u00e7\u00f5es que ele por si n\u00e3o tinha, e sem as quais<br \/>\nela n\u00e3o o poderia suportar.<\/p>\n<p>As ternuras do Borges s\u00f3 lhe alcan\u00e7avam o cora\u00e7\u00e3o depois de filtradas por<br \/>\numa rede de sobressaltos; essa rede era para aquele amor o que uma flauta<br \/>\n\u00e9 para o sopro &#8211; o meio de o transformar em notas harmoniosas e comovedoras.<\/p>\n<p>Queria todos os beijos do esposo, sim! contanto que n\u00e3o viessem naturalmente,<br \/>\nsem obst\u00e1culos a vencer ou conveni\u00eancias a guardar. Era preciso que houvesse<br \/>\nnecessidade de escond\u00ea-los de algu\u00e9m, de obt\u00ea-los com sacrif\u00edcio de alguma<br \/>\ncoisa; era preciso enganar, fingir, despertar suspeitas, levantar desconfian\u00e7as,<br \/>\npromover coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>N\u00e3o consentia por isso que o Borges se denunciasse a quem quer que n\u00e3o fosse<br \/>\nela. Exigia que o marido s\u00f3 deixasse de ser aquele selvagem repulsivo e terr\u00edvel,<br \/>\nquando estivesse ao seu lado, em completa intimidade de alcova. Essa mistifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ntornava-se indispens\u00e1vel para a ventura de Filomena.<\/p>\n<p>O botocudo intrigava muita gente: &#8211; Seria cr\u00edvel que uma mulher, t\u00e3o formosa<br \/>\ne t\u00e3o l\u00facida, tivesse por marido aquela besta do Alto Amazonas?&#8230; O monstro<br \/>\nseria de fato seu amante, ou ela o conservaria como uma simples r\u00e9clame?&#8230;<\/p>\n<p>E os coment\u00e1rios reproduziam-se entre os freq\u00fcentadores do Cirque d&#8217;hiver<br \/>\n\u00e0 propor\u00e7\u00e3o que Filomena ia se tornando conhecida e sendo cada vez mais desejada<br \/>\ne menos condescendente.<\/p>\n<p>Em alguns passeios de distra\u00e7\u00e3o que fez aos arredores de Paris, quase sempre<br \/>\nescoltada por uma corte de adoradores, o Borges, que n\u00e3o queria acompanhada<br \/>\nde selvagem, tinha de segui-la a certa dist\u00e2ncia, usando de todos os expedientes<br \/>\npara n\u00e3o ser descoberto e para que n\u00e3o suspeitassem de leve que ele ia \u00e0 pista<br \/>\nda brasileira.<\/p>\n<p>Estava nisto empenhada a sua honra, isto \u00e9, a honra do marido de Filomena.<\/p>\n<p>Que lida, que trabalho, que tortura, para gozar com ela nessas ocasi\u00f5es alguns<br \/>\nmomentos de felicidade! Era preciso recorrer aos mais engenhosos estratagemas;<br \/>\ntinha de saltar muros, \u00e0s vezes servir-se da chamin\u00e9, introduzir-se-lhe no<br \/>\nquarto, por alta noite, a tripetrepe, quando n\u00e3o fosse pressentido por nenhum<br \/>\ndos apaixonados da sua mulher, que estavam todos de orelha em p\u00e9, \u00e0 espera<br \/>\ndo primeiro esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>E tudo isso o torturava abertamente. &#8211; Maldita fosse a hora em que ele se<br \/>\nfez botocudo! em que ele se meteu na casca daquele bicho.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Entretanto, o nome da original e formosa brasileira derramava-se por Paris<br \/>\ninvadindo as reda\u00e7\u00f5es das folhas, os sal\u00f5es, os ateliers, os boulevards, os<br \/>\ncaf\u00e9s, as corridas, os foyers de todos os teatros, as mansardas das tristes<br \/>\ncostureiras e o quinto andar dos magros estudantes.<\/p>\n<p>Atribu\u00edram-lhe anedotas, inventaram-lhe legendas, fizeram-lhe can\u00e7\u00f5es e trolets,<br \/>\npublicaram-lhe a biografia em pequenas revistas teatrais.<\/p>\n<p>E o mundo inteiro viu-a, admirou-a, em caricatura, em fotografias, em cromos,<br \/>\nem caixinhas de f\u00f3sforos, em bustos de gesso, em nervoso grev\u00edns de terre<br \/>\nculte. E por toda a parte a pareceram chap\u00e9us, fazendas, penteados \u00e0 Filomena<br \/>\nBorges. Seu nome serviu de t\u00edtulo a casas de neg\u00f3cios; suas toillettes serviram<br \/>\nde modelo; suas frases foram repetidas, publicadas, decoradas. traduzidas<br \/>\nem todas as l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Quando ela terminou a longa excurs\u00e3o que fez pelo norte da Europa, possu\u00eda<br \/>\nem dinheiro e em j\u00f3ias mais que o necess\u00e1rio para viver tranq\u00fcilamente o resto<br \/>\nde sua vida.<\/p>\n<p>Por outro lado, o Borges, que ao sair de Paris abandonara finalmente o inc\u00f4modo<br \/>\npapel de botocudo e retomara o seu titulo de bar\u00e3o de Itassu, rogava-lhe com<br \/>\ninst\u00e2ncia que deixasse o diabo do teatro e fosse por uma vez descansar com<br \/>\nele a um cantinho feliz da p\u00e1tria &#8211; a Paquet\u00e1, por exemplo, a Paquet\u00e1 de que<br \/>\nele tinha as mais vivas saudades!<\/p>\n<p>&#8211; Havia perto de dez anos que vagabundeavam por esse mundo de Cristo. Era<br \/>\nmais que tempo de regressarem! Ele estava farto de nunca ser aquilo que era,<br \/>\nde nunca desfrutar em paz a felicidade que lhe pertencia de direito!&#8230; Para<br \/>\nque ir mais longe?&#8230; Achavam-se ricos pela segunda vez; tinham j\u00e1 experimentado<br \/>\ntodas as como\u00e7\u00f5es; haviam percorrido j\u00e1 toda a escala da vida humana &#8211; riram-se<br \/>\ncom os felizes, choraram com os desgra\u00e7ados &#8211; sofreram e gozaram; tiveram<br \/>\no que h\u00e1 de bom e o que h\u00e1 de mau, tiveram tudo! Para que continuar?!<\/p>\n<p>A baronesa, por\u00e9m, sorria desdenhosamente \u00e0s palavras do marido:<\/p>\n<p>&#8211; Ela voltaria \u00e0 p\u00e1tria, sim, estava disposta a voltar, mas havia de ser<br \/>\nprecedida de r\u00e9clames e an\u00fancios retumbantes! Queria entrar no Brasil com<br \/>\nru\u00eddo, levantando a poeira da capital em peso, sobressaltando a popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndesencaxilhando-a de seus eixos, perturbando a vida burguesa dessa aldeola,<br \/>\nque tinha i suprema honra de lhe haver dado o ber\u00e7o!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o iria trabalhar do mesmo feitio que trabalhara em Paris nos circos e<br \/>\nvaudevilles, ou como trabalhara em S. Paulo, numa barraca de saltimbancos;<br \/>\nnunca mais vestiria a sua pitoresca fantasia de penas e tecidos de palha;<br \/>\nn\u00e3o seria a ind\u00edgena que tantos cora\u00e7\u00f5es fez pulsar, mas em compensa\u00e7\u00e3o havia<br \/>\nde ser a &#8220;Exma. Sra. Baronesa de Itassu&#8221;. Enorme cauda de veludo! j\u00f3ias deslumbrantes!<br \/>\nluvas at\u00e9 o ombro!<\/p>\n<p>E s\u00f3 se dignaria de cantar algumas notas em concertos muito escolhidos, na<br \/>\nmelhor sociedade; ou ent\u00e3o, l\u00e1 uma vez por outra para quebrar o seu t\u00e9dio<br \/>\nde mulher c\u00e9lebre e obrigar o Rio de Janeiro a ir ajoelhar-se-lhe aos p\u00e9s,<br \/>\nmostrar-se-ia condescendentemente no teatro Pedro II, entre o que houvesse<br \/>\nde mais fino na roda dos artistas. Tinha certeza de que seu nome, enxertado<br \/>\nnum programa de espet\u00e1culo, esse nome que os parisienses decoraram, seria<br \/>\no bastante para encabrestar a popula\u00e7\u00e3o da corte e traze-la de rastros aos<br \/>\ndegraus de seu trono.<\/p>\n<p>E queria o Borges que ela fosse descansar a Paquet\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, santo Deus! estaria nas suas m\u00e3os porventura sumir-se por uma vez,<br \/>\ndesaparecer, fugir?!&#8230; Isso vinha a ser pior que a morte, vinha a ser o aniquilamento<br \/>\nem vida!<\/p>\n<p>Do que havia experimentado at\u00e9 ali, do que havia sentido, do que sofrera,<br \/>\ndo que gozara &#8211; nada a satisfizera completamente! Ainda lhe faltava qualquer<br \/>\ncoisa! No seu cora\u00e7\u00e3o ainda existiam fibras intactas, que precisavam vibrar!<\/p>\n<p>&#8211; Ai, ai, ai! gemeu o Borges, levando as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a. &#8211; Valha-me Jesus<br \/>\nCristo! que ainda temos fibras para vibrar! Ainda n\u00e3o \u00e9 desta vez que sossego?<\/p>\n<p>&#8211; E para que sossegar?! interrompeu Filomena. &#8211; Que significa o repouso?<br \/>\nPensar\u00e1s que eu hoje seria capaz de resignar-me \u00e0 morbidez est\u00fapida de uma<br \/>\nexist\u00eancia sem id\u00e9ias nem aspira\u00e7\u00f5es? Pensar\u00e1s que eu consentirei em abandonarmos<br \/>\na vida p\u00fablica, sem que te hajas celebrizado ao menos uma vez, sem que tenhas<br \/>\nconquistado um nome digno de mim e digno de teu m\u00e9rito?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Hem?! Como \u00e9 l\u00e1 isto?!&#8230; exclamou o Borges com um salto. Pois tencionas<br \/>\nfazer ainda de mim uma celebridade? Contas que eu venha a ser um &#8220;grande homem&#8221;?!<\/p>\n<p>&#8211; Certamente! certamente! Ao contr\u00e1rio n\u00e3o valeria a pena gastarmos tanto<br \/>\ntempo e tanto esfor\u00e7o em preparar o teu esp\u00edrito!<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa! De sorte que at\u00e9 agora&#8230; eu nada mais fiz que preparar-me?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para conquistar uma posi\u00e7\u00e3o eminente, concluiu a mulher. Foi nessa esperan\u00e7a<br \/>\nque te dediquei a minha vida e o meu amor!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas Filoquinha de minhalma! eu n\u00e3o disponho de aptid\u00f5es para isso!&#8230; Bem<br \/>\nv\u00eas que at\u00e9 hoje tenho feito por ti tudo que est\u00e1 nas minhas m\u00e3os&#8230; Como,<br \/>\npor\u00e9m, hei de ser aquilo para que me faltam certos conhecimentos e uma certa<br \/>\ndose de talento?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 o que pensas, e a mod\u00e9stia com que te julgas \u00e9 mais uma prova de<br \/>\ntua compet\u00eancia! O verdadeiro m\u00e9rito \u00e9 sempre assim!<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu dou-te a minha palavra de honra em como n\u00e3o tenho o menor talento!<br \/>\nAcredita que \u00e9 esta a pura verdade! Sinto perfeitamente que n\u00e3o serei jamais<br \/>\num &#8220;grande homem&#8221;!<\/p>\n<p>&#8211; Se sentisses o contr\u00e1rio, \u00e9 que nunca o poderias ser!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, que desgra\u00e7a a minha!&#8230; considerou o Borges de si para si. &#8211; Ora,<br \/>\nque eu n\u00e3o consiga entrar um momento nos seus eixos, sem ter de contrariar<br \/>\nminha mulher! De que havia agora de se lembrar &#8211; querer que eu seja um &#8220;grande<br \/>\nhomem&#8221;. Eu, que n\u00e3o sirvo para essas coisas! eu, que abomino a popularidade,<br \/>\no esc\u00e2ndalo, o ru\u00eddo! eu, que j\u00e1 me impacientava de a ver t\u00e3o conhecida, e<br \/>\nsuspirava todos os dias por sair desta inferneira!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! disse ele em voz alta. N\u00e3o! Tem paci\u00eancia! Isso \u00e9 imposs\u00edvel! Pede<br \/>\no que quiseres, mas n\u00e3o exijas de mim uma coisa de que eu n\u00e3o disponho!<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto, assim \u00e9 preciso, respondeu Filomena, a n\u00e3o ser que estejas<br \/>\nresolvido a destruir num segundo a \u00fanica esperan\u00e7a que me resta!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas a quest\u00e3o \u00e9 que a gente n\u00e3o \u00e9 &#8220;grande homem&#8221; quando quer!&#8230; Ora essa!<br \/>\nreplicou o Borges.<\/p>\n<p>&#8211; E muito menos quando n\u00e3o quer! volveu a outra. &#8211; N\u00e3o exijo de ti mais do<br \/>\nque um pouco de boa vontade; o resto fica por minha conta!<\/p>\n<p>&#8211; De boa vontade?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, de resolu\u00e7\u00e3o. Contento-me com isso!<\/p>\n<p>&#8211; Mas se tenho toda a certeza de que esse esfor\u00e7o ser\u00e1 baldado!&#8230; Eu bem<br \/>\nme conhe\u00e7o, minha mulher!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Seja ou n\u00e3o seja baldado, ele \u00e9 necess\u00e1rio para a minha felicidade e para<br \/>\na seguran\u00e7a do amor que te dedico! Agora, se entendes que n\u00e3o vale a pena&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o disse semelhante coisa!&#8230; Valha-me Deus! Teu amor est\u00e1 acima de<br \/>\ntudo, e creio j\u00e1 ter dado provas disso. Mas, deixa que te diga, com franqueza:<br \/>\neu, isto aqui entre n\u00f3s, eu nem sei em que consiste o tal esfor\u00e7o de que me<br \/>\nfalas; n\u00e3o sei os passos que \u00e9 preciso dar; n\u00e3o sei como a gente se faz c\u00e9lebre<br \/>\nou o que melhor queres que eu seja!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil como te parece \u00e0 primeira vista. &#8211; Se o Brasil estivesse<br \/>\nem guerra, sentarias pra\u00e7a quanto antes e dentro em pouco tempo poderia alcan\u00e7ar<br \/>\num posto elevado. Farias uma bela carreira nas armas!<\/p>\n<p>&#8211; Deus me livro!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, continuou Filomena &#8211; desgra\u00e7adamente estamos numa paz absoluta, e,<br \/>\npor conseguinte, s\u00f3 nos resta a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&#8211; A pol\u00edtica?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, visto que nas artes ou nas ci\u00eancias j\u00e1 n\u00e3o poder\u00e1s fazer nada. Agora<br \/>\n\u00e9 escolher uma causa pol\u00edtica e caminhar desassombradamente!<\/p>\n<p>&#8211; Uma causa?!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, uma id\u00e9ia, um princ\u00edpio patri\u00f3tico, qualquer coisa que esteja articulada<br \/>\naos atuais interesses do Brasil! Descoberta a tua id\u00e9ia, n\u00e3o tens mais que<br \/>\ndefende-la; ent\u00e3o escrever\u00e1s, escrever\u00e1s sem cessar; publicar\u00e1s tudo que te<br \/>\nvier \u00e0 cabe\u00e7a a respeito de tua causa; dar\u00e1s por paus e por pedras; falar\u00e1s<br \/>\nde tudo e de todos, at\u00e9 que sejas um homem perfeitamente conhecido, e o imperador<br \/>\nte chame para junto de seu trono. Uma vez ao lado de meu padrinho, s\u00f3 n\u00e3o<br \/>\nobter\u00e1s o que n\u00e3o quiseres. Entendes tu?<\/p>\n<p>Borges apertou os bei\u00e7os. E, sacudindo a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 dif\u00edcil!<\/p>\n<p>&#8211; Que dif\u00edcil o que! retrucou a mulher. &#8211; Dif\u00edcil era conquistar o meu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a minha confian\u00e7a, e conquistaste-os! N\u00e3o queiras parar em meio do caminho;<br \/>\nconquista tamb\u00e9m o meu entusiasmo e a minha admira\u00e7\u00e3o. Faze-te grande! Faze-te<br \/>\nc\u00e9lebre! coloca-te ao meu lado! Sobe \u00e0 minha altura! acompanha-me no v\u00f4o!<\/p>\n<p>&#8211; Veremos, veremos&#8230; prometeu o marido vagamente. &#8211; Hei de fazer a dilig\u00eancia!<\/p>\n<p>Se fosse coisa que estivesse em suas m\u00e3os, a mulher nem precisava p\u00f4r tanto<br \/>\nna carta! Mas que diabo! Aquela hist\u00f3ria de descobrir uma causa para defender;<br \/>\no fato de ter de publicar artigos sobre artigos; falar de tudo e de todos;<br \/>\nisso \u00e9 que lhe fazia confus\u00e3o e dava-lhe volta ao miolo; mas, enfim, estava<br \/>\ndisposto a empregar a dilig\u00eancia. &#8211; J\u00e1 agora, seria o que Deus quisesse!&#8230;<\/p>\n<p>E nessa disposi\u00e7\u00e3o acompanhou de novo a mulher para o Rio de Janeiro.<\/p>\n<h2><a name=\"18\"><\/a>XVIII &#8211; CELEBRIDADES<\/h2>\n<p>Filomena n\u00e3o se enganara quanto \u00e0 previs\u00e3o do entusiasmo que havia de causar<br \/>\nno Rio de Janeiro. Bastou constar que vinha a\u00ed a famosa cancionista, t\u00e3o apreciada<br \/>\nde Paris, para que toda a cidade se mostrasse tomada de uma loucura instant\u00e2nea.<\/p>\n<p>E desde ent\u00e3o at\u00e9 a sua chegada foi ela a ordem do dia; n\u00e3o se falava noutra<br \/>\ncoisa. Esperavam-se contando os minutos; um sussurro un\u00edssono de elogios evolava-se<br \/>\nda opini\u00e3o p\u00fablica, sem que ningu\u00e9m pudesse explicar a causa de semelhante<br \/>\nalacridade.<\/p>\n<p>Afinal, chegou.<\/p>\n<p>Que frenesi! Todos queriam ser o primeiro a v\u00ea-la. O cais Pharoux parecia<br \/>\ndiminuir sob a multid\u00e3o que o coalhava. Viam-se enormes grupos, esparsos,<br \/>\npor aqui e por ali, galgando a muralha, invadindo as lanchas e os escaleres.<br \/>\nNas ruas faziam-se coment\u00e1rios a respeito da baronesa de Itassu; os jornais<br \/>\npregavam na parede not\u00edcias a respeito dela; vendia-se o seu retrato em todas<br \/>\nas propor\u00e7\u00f5es; inventavam-se biografias.<\/p>\n<p>Uns afirmavam que Filomena Borges era um modelo de virtudes; outros que era<br \/>\numa grande velhaca. Este jurava que a vira j\u00e1 muito por baixo, num hotel;<br \/>\naquele dizia que ela fora sempre riqu\u00edssima, e que s\u00f3 trabalhava em p\u00fablico<br \/>\npor amor \u00e0 arte. Aqui afian\u00e7avam hav\u00ea-la visto, em tal \u00e9poca dan\u00e7ar uma habanera<br \/>\nem casa de tal figur\u00e3o; logo, ali, negavam: &#8211; Que n\u00e3o! que essa Filomena era<br \/>\noutra, falecida havia j\u00e1 coisa de cinco anos, e que esta, a nova, a do teatro,<br \/>\nn\u00e3o tinha absolutamente nada de comum com a outra, com a tal Filomena, cujos<br \/>\nbailes, por t\u00e3o luxuosos e originais, ainda se conservavam na mem\u00f3ria de toda<br \/>\na gente!<\/p>\n<p>E as discuss\u00f5es reproduziam-se, cada qual mais disparatada.<\/p>\n<p>Entretanto, no meio desse borborinho que se fazia no cais, dois homens, depois<br \/>\nde se abalroarem, soltaram exclama\u00e7\u00f5es de reconhecimento.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1! Voc\u00ea tamb\u00e9m por aqui, Sr. Barroso?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade. Como vai o amigo Guterres?<\/p>\n<p>Guterres ia bem, muito agradecido, mas sempre apoquentado. O outro, ao contr\u00e1rio,<br \/>\ndizia-se feliz. Gra\u00e7as a Deus continuava \u00e0s mil maravilhas com a sua cara<br \/>\nmulherzinha e com o seu pequerrucho. Ah! a mulher e o filho eram a sua preocupa\u00e7\u00e3o,<br \/>\neram o seu enlevo!<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 quem goza esta vida! considerou o outro.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. Deus louvado n\u00e3o tenho de que me queixar!&#8230; sustentou o Barroso. Sou<br \/>\nfeliz, n\u00e3o nego! Coube-me por sorte uma esposa que \u00e9 um anjo, um verdadeiro<br \/>\nanjo de bondade! Tamb\u00e9m, meu amigo, olhe que lhe pago na mesma moeda&#8230; trato-a<br \/>\ncomo vocemec\u00ea n\u00e3o imagina!<\/p>\n<p>&#8211; Mas fa\u00e7o uma id\u00e9ia! fa\u00e7o uma id\u00e9ia!&#8230; respondeu o Guterres, cheio de acordo.<\/p>\n<p>E mudando de tom e chegando-se mais perto do outro:<\/p>\n<p>&#8211; Ora, diga-me c\u00e1 uma coisa, seu Barroso; tire-me de uma d\u00favida: &#8211; Quem vem<br \/>\na ser esta Filomena Borges?&#8230; Dir-se-ia a mulher do Jo\u00e3o Touro!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pelo menos, o nome \u00e9 o mesmo e foi justamente essa d\u00favida o que me trouxe<br \/>\npor c\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; O nome e o t\u00edtulo! acudiu o outro, que ela se anuncia como baronesa de<br \/>\nItassu. Afian\u00e7o-lhe, porque vi!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 outra com certeza! disse o Barroso &#8211; e se duvido, quero que<br \/>\nme rachem de meio a meio!<\/p>\n<p>&#8211; Ora o diabo!<\/p>\n<p>&#8211; Nem era de esperar outra coisa de semelhante doida! Uma sujeita toda cheia<br \/>\nde caprichos e de fantasias!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, tornou o Guterres, como consente aquele homem que a mulher levante<br \/>\num espalhafato desta ordem?&#8230; Isto at\u00e9 faz desconfiar!<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o sabe que o Borges sempre foi um bar\u00e3o pela mulher?&#8230;<br \/>\nEla faz dele o que bem entende!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas segundo me consta, o Jo\u00e3o Touro n\u00e3o saiu l\u00e1 muito recheado aqui<br \/>\ndo Rio!&#8230; considerou o Guterres.<\/p>\n<p>&#8211; Recheado saiu ele, mas foi de d\u00edvidas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>O Barroso Ia responder, mas Interrompeu-se:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe! A\u00ed chegam eles! S\u00e3o os mesmos &#8211; \u00e9 a Filomena e o pancada do marido!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, para que havia de dar aquele maluco!&#8230; exclamou Guterres, considerando<br \/>\no casal que o outro lhe mostrava.<\/p>\n<p>&#8211; E como v\u00eam t\u00e3o esquisitos! Parecem dois estrangeiros! Ora o Borges!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Filomena, com efeito, vinha t\u00e3o a europ\u00e9ia pelo bra\u00e7o do marido, que n\u00e3o<br \/>\nparecia a mesma.<\/p>\n<p>E como estava formosa! como estava cada vez mais linda!<\/p>\n<p>A quantidade de curiosos que os cercavam era t\u00e3o grande, que os dois mal<br \/>\npodiam caminhar.<\/p>\n<p>Nunca o entusiasmo brutal do povo chegou \u00e0quele auge. As ruas, por onde seguia<br \/>\na desejada bailarina, ficavam completamente cheias. As janelas transbordavam.<br \/>\nDe todos os lados, choviam versos; duas sociedades filarm\u00f4nicas acudiram com<br \/>\na pancadaria de sua m\u00fasica. Um verdadeiro del\u00edrio!<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a surgir as ova\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Do dia seguinte \u00e0 chegada em diante, Filomena Borges transformou-se no alvo<br \/>\nde mil protestos de amor, de presentes e oferecimentos, propostas de todos<br \/>\nos sentidos. Os apaixonados calam-lhe em redor aos bandos, como p\u00e1ssaros prostrados<br \/>\npelo calor.<\/p>\n<p>E a sedutora, sem desenganar a nenhum deles, nem lhes dar mais nada al\u00e9m<br \/>\nde vagas esperan\u00e7as, governava com o macio e delicioso cabresto de seus sorrisos<br \/>\ne de seus olhares de ternura, toda aquela imensa matilha de namorados.<\/p>\n<p>Na primeira noite em que ela se mostrou no Pedro II, o teatro foi pequeno<br \/>\npara a concorr\u00eancia que havia. As senhas atingiram o valor de j\u00f3ias. Viam-se<br \/>\ncasacas nas torrinhas. E todos aplaudiam, todos se entusiasmavam, n\u00e3o pela<br \/>\narte, nem pelo talento de Filomena, mas pelo gracioso de seus gestos, pela<br \/>\noriginalidade de sua beleza, pelo satanismo de sua faceirice, que iam maravilhosamente<br \/>\ncom os requebros dos tangos e das modinhas.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 francesa! N\u00e3o h\u00e1 nada que se compare a isto!&#8230; dizia-se.<\/p>\n<p>Um mandarim, que por esse tempo estava no Rio de Janeiro, encarregado de<br \/>\numa comiss\u00e3o diplom\u00e1tica, mandou-lhe no dia seguinte ao primeiro espet\u00e1culo,<br \/>\npor quatro dos seus criados de rabicho, uma bela urna de s\u00e2ndalo, incrustada<br \/>\nde ouro e repleta de coisas preciosas, entre as quais havia um bilhete de<br \/>\npapel de arroz, escrito a pincel, que no melhor franc\u00eas, punha \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Filomena os sete aposentos que ocupava o chim no Hotel dos Estrangeiros.<\/p>\n<p>Logo em seguida, um lord viajante, cuja fragata havia tr\u00eas semanas estava<br \/>\nancorada no porto do Rio de Janeiro, apresentou-se-lhe em casa, oferecendo-lhe<br \/>\num dote de meio milh\u00e3o de libras esterlinas, se ela quisesse abandonar o marido<br \/>\ne acompanhar o sedutor \u00e0 Inglaterra, onde casariam sob a religi\u00e3o protestante.<\/p>\n<p>E, como esses, outros, e mais outros oferecimentos vinham amontoar-se-lhe<br \/>\ndefronte dos olhos; e- ela sempre meiga, sempre am\u00e1vel, nunca dizia que &#8220;n\u00e3o&#8221;<br \/>\ne tamb\u00e9m nunca dizia que &#8220;sim&#8221;, justamente como em pequena lhe ensinara a<br \/>\nvelha D. Clementina.<\/p>\n<p>O Borges, coitado! \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o podia ag\u00fcentar com aquele dem\u00f4nio de vida.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o era o teatro, eram as visitas, os jornalistas, as repetidas festas<br \/>\n&#8211; um jamais acabar de ma\u00e7adas! \u00e9 certo que j\u00e1 n\u00e3o pisava no palco, mas em<br \/>\ncompensa\u00e7\u00e3o as suas lides de empres\u00e1rio, de caixa e de gerente, absorviam-lhe<br \/>\ntodos os instantes. Tinha de atender para a direita e para a esquerda, pagar<br \/>\ncontas, contratar empregados, administrar o servi\u00e7o do teatro, escriturar<br \/>\na receita dos espet\u00e1culos &#8211; um inferno de preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E quando afinal, pela manh\u00e3, ganhava a cama, mo\u00eddo e prostrado, l\u00e1 estava<br \/>\na mulher para perguntar-lhe pela &#8220;id\u00e9ia&#8221;, para perguntar-lhe como iam &#8220;as<br \/>\nsuas ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas&#8221;. Se o Borges havia j\u00e1 deliberado alguma coisa a esse<br \/>\nrespeito; se aprontara o seu primeiro artigo para a imprensa. &#8211; que fizera,<br \/>\nafinal, depois que estavam na corte.<\/p>\n<p>&#8211; Matar-me! \u00c9 o que tenho feito! respondia o infeliz, gemendo no seu cansa\u00e7o.<br \/>\n&#8211; Esta vida d\u00e1-me cabo da pele! N\u00e3o sirvo para isto!&#8230; Como queres tu que<br \/>\neu pense, que eu escreva, se n\u00e3o tenho um momento de repouso, se todas as<br \/>\nminhas horas s\u00e3o poucas para o tal teatro?!<\/p>\n<p>&#8211; Entretanto, \u00e9 mister que te resolvas a principiar!&#8230; N\u00e3o podes de forma<br \/>\nalguma permanecer no estado em que te achas!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim, resmungava o Borges, entre bocejos. &#8211; Hei de dar um jeito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tenho uma id\u00e9ia! exclamou a mulher de uma dessas vezes &#8211; tenho uma excelente<br \/>\nid\u00e9ia! &#8211; Est\u00e1 a chegar o ver\u00e3o; iremos pass\u00e1-lo em Petr\u00f3polis e, durante esse<br \/>\ntempo de completo repouso, tu far\u00e1s o que j\u00e1 combinamos. Hein? que tal te<br \/>\nparece?<\/p>\n<p>&#8211; Bom, parece-me bom, respondeu o infeliz, mais animado com a id\u00e9ia daquele<br \/>\ndescanso. &#8211; Irei para Petr\u00f3polis, irei de muito boa vontade, mas h\u00e1s de afian\u00e7ar<br \/>\nprimeiro que n\u00e3o voltaremos antes do inverno e que durante todo esse tempo<br \/>\nnem sequer pensaremos em teatro!<\/p>\n<p>&#8211; Podes ficar descansado! prometeu a mulher.<\/p>\n<p>O Guterres, apesar daquela conversa com o Barroso, foi um dos primeiros que,<br \/>\n\u00e0 chegada do Borges, o procurou.<\/p>\n<p>Apresentou-se muito comovido, disposto a perdoar generosamente as afrontas<br \/>\n&#8211; que recebera do amigo.<\/p>\n<p>E, desde essa visita, n\u00e3o lhe deixou mais a casa. Jantava l\u00e1 quase todos<br \/>\nos dias e \u00e0 noite era infal\u00edvel no teatro.<\/p>\n<p>Borges apenas conseguiu suport\u00e1-lo, mas Filomena tinha-o em certa estima.<br \/>\nGuterres n\u00e3o se cansava de elogi\u00e1-la; ao lado dela s\u00f3 falava nos sucessos<br \/>\nextraordin\u00e1rios que a formosa bailarina obtinha todas as noites. E a vaidosa<br \/>\nexperimentava certo gostinho em sentir a seus p\u00e9s aquele constante incensador,<br \/>\naquele louvaminheiro incans\u00e1vel, que a glorificava sempre no mesmo diapas\u00e3o,<br \/>\ncomo uma caixa de m\u00fasica que n\u00e3o precisasse de corda, mas que s\u00f3 tivesse uma<br \/>\npe\u00e7a.<\/p>\n<p>Todavia, o Guterres, pronto sempre a obsequiar l\u00e1 a seu modo, fazia-se muito<br \/>\nsol\u00edcito com o Borges, dava-lhe conselhos, mostrava-se interessado por ele.<br \/>\nPassava os dias no teatro, querendo ajud\u00e1-lo em tudo e n\u00e3o fazendo coisa alguma;<br \/>\nassentando-se familiarmente ao lado do bilheteiro, examinando a receita e<br \/>\na despesa, interrogando os trabalhadores, consultando os m\u00fasicos, tomando<br \/>\ncontas \u00e0s costureiras, repreendendo os que conversavam em voz alta nos ensaios,<br \/>\napaixonando-se nas discuss\u00f5es a respeito de Filomena ou do Borges, pedindo<br \/>\ndesculpas aos espectadores que porventura ficavam mal acomodados na plat\u00e9ia,<br \/>\ne indo e vindo, da caixa para os corredores, a fiscalizar, a saber como corria<br \/>\no neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Quem o visse ali, t\u00e3o inquieto, t\u00e3o empenhado, t\u00e3o comprometido com aquele<br \/>\nservi\u00e7o, ficava supondo que o Guterres tinha parte na empresa.<\/p>\n<p>Quando ele se referia ao Borges, dizia sempre: &#8220;O Jo\u00e3o, o nosso amigo Jo\u00e3o&#8221;.<br \/>\nMas se estivesse presente algum estranho, acrescentava logo, com respeito,<br \/>\ncomo para justificar aquela amizade: &#8220;O Bar\u00e3o de Itass\u00fa&#8221;!<\/p>\n<p>Borges no fim de contas j\u00e1 n\u00e3o o achava t\u00e3o ruim, e aos poucos o ia admitindo<br \/>\nnos seus particulares. Um dia de mais expans\u00e3o, chegou a falar-lhe muito em<br \/>\nsegredo, nos projetos pol\u00edticos, que ultimamente o preocupavam.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 coisa minha! disse, justificando-se. &#8211; S\u00e3o hist\u00f3rias l\u00e1 de minha<br \/>\nmulher! Deu-lhe p&#8217;r&#8217;a\u00ed. Acha que devo meter-me na pol\u00edtica!&#8230;<\/p>\n<p>O outro recebeu a not\u00edcia com um acolhimento cheio de assombro.<\/p>\n<p>&#8211; E por que n\u00e3o?!<\/p>\n<p>&#8211; Achas ent\u00e3o que a coisa \u00e9 exeq\u00fc\u00edvel? perguntou o Borges.<\/p>\n<p>&#8211; Mas certamente! Dessa massa \u00e9 que eles se fazem! Nas condi\u00e7\u00f5es em que est\u00e1s<br \/>\ne dispondo da influ\u00eancia de tua mulher, seria um crime at\u00e9 n\u00e3o cuidares do<br \/>\nfuturo! O]h\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>E chegando-se misteriosamente ao ouvido do outro: &#8211; Eu estou aqui para te<br \/>\najudar&#8217; Depressa!<\/p>\n<p>Mas o Borges n\u00e3o podia descansar; as palavras do Guterres inspiravam-lhe<br \/>\nmuito pouca confian\u00e7a, continuava a ver nele o mesmo pregui\u00e7oso vulgar, o<br \/>\nmesmo &#8220;pobre diabo&#8221;, o mesmo parasita incorrig\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 certo que vais para Petr\u00f3pol\u00eds?&#8230; perguntou-lhe o amigo na v\u00e9spera<br \/>\nda viagem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, respondeu o marido de Filomena; &#8211; sigo amanh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo, antes fosses mais tarde! n\u00e3o me convinha sair daqui sem acabar o<br \/>\nm\u00eas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas que necessidade tens tu de sair?&#8230; ponderou o Borges, temendo que<br \/>\no outro lhe quisesse duplicar as despesas do passeio.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu havia l\u00e1 de consentir que partisses sem levar um amigo em tua companhia!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! n\u00e3o te incomodes por minha causa! apressou-se a dizer o Borges.<br \/>\nAgrade\u00e7o-te do fundo do cora\u00e7\u00e3o a boa vontade; mas acredita que n\u00e3o h\u00e1 a menor<br \/>\nnecessidade de&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, deixa-te dessas coisas! Queres romper cedo comigo, Jo\u00e3o?&#8230; Bem sei<br \/>\nque \u00e9s escrupuloso, que tens receio de me importunares, aceitando estes pequenos<br \/>\nobs\u00e9quios; eu, por\u00e9m, julgo-me no dever de cumpri-los, mesmo contra o que<br \/>\ndisseres.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, filho, dou-te a minha palavra de honra, que fico muito mais agradecido<br \/>\nse n\u00e3o fores! oh!<\/p>\n<p>&#8211; E eu dou-te tamb\u00e9m a minha palavra que, nem a tiro, conseguir\u00e1s que eu<br \/>\nmude de resolu\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso \u00ea birra! exclamou o Borges, sem poder disfar\u00e7ar a impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 o que tu quiseres! bradou o teimoso. &#8211; Mas eu considero do meu dever<br \/>\nn\u00e3o te deixar ir s\u00f3!<\/p>\n<p>E com orgulho:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Que n\u00e3o sou desses amigos que s\u00f3 aparecem pelo bom tempo!&#8230; N\u00e3o senhor!&#8230;<br \/>\nSei que vais doente, cansado, prostrado&#8230; sei que h\u00e1s de precisar de um bom<br \/>\namigo ao p\u00e9 de ti, que te d\u00ea coragem, que te anime! Sei que levas projetos<br \/>\nde escrever artigos pol\u00edticos, de lutar, de resistir, e sei que te faltar\u00e3o<br \/>\nas for\u00e7as para tanto! E pensares que eu seria capaz de te deixar ir s\u00f3. Oh!<br \/>\nn\u00e3o te mere\u00e7o semelhante injusti\u00e7a! Eu supunha, Jo\u00e3o, que fizesses de mim<br \/>\num melhor ju\u00edzo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora essa!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o! Seria cometer a mais revoltante indignidade, se eu n\u00e3o te acompanhasse!&#8230;<\/p>\n<p>Borges ainda protestou, n\u00e3o, por\u00e9m, com o mesmo ardor; as palavras do amigo<br \/>\na respeito dos tais projetos pol\u00edticos o interessaram sobremaneira. O Guterres<br \/>\ngozava de certa fama de homem fino, perspicaz e muito inteligente. Verdade<br \/>\n\u00e9 que seria dif\u00edcil citar-lhe as obras; Borges n\u00e3o se lembrava de haver posto<br \/>\nos olhos em alguma coisa escrita por ele; nunca lhe descobrira o menor trabalho<br \/>\nde imprensa, mas, por v\u00e1rias vezes ouvira conversar a respeito do talento<br \/>\ndo Guterres: &#8211; &#8220;Se n\u00e3o fosse t\u00e3o pregui\u00e7oso, diziam, seria a nossa primeira<br \/>\npena!&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Bem podia ser que o dem\u00f4nio do homem entendesse deveras do riscado e viesse<br \/>\na prestar-lhe muito bons servi\u00e7os!&#8230; Em tricas de pol\u00edtica, pelo menos, ningu\u00e9m<br \/>\nlhe podia negar compet\u00eancia.<\/p>\n<p>Borges ainda se lembrava perfeitamente das formid\u00e1veis discuss\u00f5es, em que<br \/>\no vira por in\u00fameras vezes empenhado com os grandes da mat\u00e9ria. &#8211; Ora, se assim<br \/>\nera, valia a pena abrir m\u00e3o de umas certas coisas e aceitar abertamente o<br \/>\naux\u00edlio que lhe oferecia o tipo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O diabo seriam as despesas!<\/p>\n<p>Borges j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo algibeiras rotas em quest\u00f5es de dinheiro: depois<br \/>\ndas suas adversidades, ficara econ\u00f4mico e desconfiado. &#8211; Mas enfim! ora adeus!&#8230;<br \/>\nQuem precisa tem que puxar pela bolsa!<\/p>\n<p>E resolveu ag\u00fcentar a carga.<\/p>\n<h2><a name=\"19\"><\/a>XIX &#8211; PETR\u00d3POLIS<\/h2>\n<p>Era ainda no tempo das pitorescas dilig\u00eancias, e Filomena, que nunca tinha<br \/>\nido a Petr\u00f3polis, ficou maravilhada com o passeio.<\/p>\n<p>Principalmente a subida da serra, com a sua estrada muito branca, em ziguezague,<br \/>\nque serpeia e se arrasta por sobre ela, \u00e0 semelhan\u00e7a de uma cobra fant\u00e1stica<br \/>\nde marfim, causou-lhe arrebatamentos vertiginosos.<\/p>\n<p>Vales e montanhas, p\u00edncaros e despenhadeiros, tudo surgia amplamente defronte<br \/>\nde seus olhos, banhado de tons cer\u00faleos, num multicor ideal, vaporoso e fugitivo.<br \/>\nAs roxas grimpas da serrania alcandoravam-se por entre flocos transparentes<br \/>\nde neblina, que se iam rasgando as primeiras irradia\u00e7\u00f5es do sol, como tr\u00eamulas<br \/>\ncambraias sopradas pelo vento.<\/p>\n<p>E pouco a pouco descortinavam-se as plan\u00edcies afogadas num oceano compacto<br \/>\nde verdura, e logo depois enormes penhascos debru\u00e7ados sobre elas, como gigantes<br \/>\nadormecidos de p\u00e9, e l\u00e1 em baixo, ao fundo, muito ao longe, acentuava-se a<br \/>\nba\u00eda entre nuvens de cordilheiras, que se acumulavam a perder de vista, formando<br \/>\nlargos horizontes cor de p\u00e9rola.<\/p>\n<p>&#8211; Espl\u00eandido! balbuciou Filomena, com a boca meio aberta, os olhos iluminados<br \/>\nde inspira\u00e7\u00f5es, o seio ofegante, as narinas s\u00f4fregas e dilatadas. &#8211; Esplendido!<\/p>\n<p>E com os olhos ia-se-lhe a alma por aquela imensidade deslumbrante, precipitando-se<br \/>\nde plano em plano, derramando-se at\u00e9 ao fundo misterioso dos vales ou voando<br \/>\naos alcantis que se perdiam no c\u00e9u.<\/p>\n<p>Nada do que vira pelo mundo inteiro a comovera tanto, nada lhe afetara t\u00e3o<br \/>\npoderosamente a sua fina sensibilidade de artista; nada lhe penetrara t\u00e3o<br \/>\nfundo a alma apaixonada e contemplativa.<\/p>\n<p>Entretanto, o Borges, defronte dela, assentado ao lado do Guterres, discutia<br \/>\ncom este os seus projetos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>&#8211; Agora s\u00f3 o que me falta \u00e9 a &#8220;id\u00e9ia&#8221;! disse o bar\u00e3o ao ouvido do outro.<\/p>\n<p>&#8211; Id\u00e9ia? de qu\u00ea? .. perguntou o Guterres, sem compreender. A id\u00e9ia, homem,<br \/>\na Causa que eu tenha de abra\u00e7ar, de defender! Sim! \u00e9 preciso decidir-me por<br \/>\nalguma!<\/p>\n<p>O amigo olhou multo s\u00e9rio para ele:<\/p>\n<p>&#8211; Tu ainda n\u00e3o tens partido?!<\/p>\n<p>E depois de um gesto negativo do outro:<\/p>\n<p>&#8211; Mas isso \u00e9 ouro sobre azul! N\u00e3o sabes a fortuna que possu\u00eds! O Imperador<br \/>\nd\u00e1 a vida pelos homens nessas condi\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>&#8211; Achas, hem!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tenho certeza! Mas, vem c\u00e1, o partido conservador \u00e9 o \u00fanico que te conv\u00e9m,<br \/>\n\u00e9 o \u00fanico que te pode oferecer algumas vantagens! Homem, sempre \u00e9 melhor estar<br \/>\ncom o poder&#8230; n\u00e3o acredites que os liberais levantem t\u00e3o cedo a cabe\u00e7a! E,<br \/>\nse levantarem, melhor! porque nesse caso colocar-te-\u00e1s na oposi\u00e7\u00e3o, ficas<br \/>\nna brecha! ter\u00e1s a luta, ter\u00e1s a rea\u00e7\u00e3o \u00e0s tuas ordens! S\u00f3 o que te falta<br \/>\n\u00e9 a pr\u00e1tica, s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. &#8211; Isso obter\u00e1s rapidamente, juro-te<br \/>\neu, que conhe\u00e7o essa gente como a palma de minhas m\u00e3os!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Enfim, n\u00e3o te faltam os elementos! &#8230; segredou depois uma pausa, piscando<br \/>\no olho e fazendo com os dedos sinal de dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 tanto como sup\u00f5es! respondeu o Borges.<\/p>\n<p>E, assim conversando, chegaram \u00e0 esta\u00e7\u00e3o do desembarque, onde, segundo o<br \/>\ncostume, havia j\u00e1 uma confus\u00e3o de curiosos, e onde j\u00e1 estavam os empregados<br \/>\ndos hot\u00e9is, que vinham com os seus carros \u00e0 pesca de h\u00f3spedes.<\/p>\n<p>De todos os grupos se exalava um cheiro penetrante de luxo e de riqueza.<\/p>\n<p>Borges entregou a bagagem a um mo\u00e7o do hotel Bragan\u00e7a, deu-lhe o bilhete<br \/>\nda carga que chegaria mais tarde, e, com a mulher e mais o Guterres, tomou<br \/>\no carro que lhe competia, e os tr\u00eas seguiram alegremente, devorados de apetite.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Petr\u00f3polis produziu no Borges uma impress\u00e3o inteiramente contr\u00e1ria \u00e0 que<br \/>\nproduziu em Filomena.<\/p>\n<p>Para esta a transformada fazenda do Sr. D. Pedro II apareceu como um para\u00edso<br \/>\nda eleg\u00e2ncia, colocado entre rochedos; ador\u00e1vel com as suas pequenas ruas<br \/>\nencentradas pelo rio e contornadas de arvoredos, formando, vistas a certa<br \/>\ndist\u00e2ncia, belos canteiros de verdura, onde a magn\u00f3lia, a cam\u00e9lia, o cravo,<br \/>\na a\u00e7ucena e a rosa disputam a primazia em n\u00famero e beleza.<\/p>\n<p>A acumula\u00e7\u00e3o dos jardins, a riqueza das flores, a pureza do c\u00e9u, a frescura<br \/>\ndo ar, prontamente impressionaram o seu esp\u00edrito, sempre voltado ao pitoresco,<br \/>\nao recreativo, ao Ideal. Al\u00e9m disso, as criancinhas louras, descal\u00e7as, caminhando<br \/>\nem bando para a escola, as criadas alem\u00e3s, de olhos azuis, a boca vermelha<br \/>\ne a pele branca, faziam-na esquecer, por instantes, o africano e repulsivo<br \/>\naspecto geral das cidades do Brasil, e imaginar-se num canto feliz da lend\u00e1ria<br \/>\ne melanc\u00f3lica Germ\u00e2nia.<\/p>\n<p>E no Borges as primeiras impress\u00f5es foram justamente o contr\u00e1rio de tudo<br \/>\nisso. Espirito pr\u00e1tico, e por demais ferrenho, n\u00e3o se cegou logo pelas apar\u00eancias<br \/>\ndo mimalho de Sua Majestade e tratou de julgar Petr\u00f3polis friamente, com todo<br \/>\no peso do seu bom senso grosseiro e burgu\u00eas.<\/p>\n<p>O que ele notou, em primeiro lugar, foi o engano em que ali viviam todos,<br \/>\nsupondo luzir com o reflexo que vinha do monarca; quando ali\u00e1s Sua Majestade,<br \/>\nastro sem brilho pr\u00f3prio, n\u00e3o podia emprest\u00e1-lo a quem quer que fosse.<\/p>\n<p>Enquanto a mulher se extasiava defronte dos jardins, das fontes e dos rios,<br \/>\nele, o Borges, notava que Petr\u00f3polis, com os seus decr\u00e9pitos laud\u00eamios, com<br \/>\nas suas sesmarias, as suas enfiteuses, os seus canons, os seus foros territoriais,<br \/>\ncontinuava a ser uma fazenda, uma feitoria do imperador, e que era bastante<br \/>\ntocar em qualquer coisa, que l\u00e1 estivesse, para se sentir logo a dois passos,<br \/>\no olho vigilante e repreensivo do propriet\u00e1rio, do dono.<\/p>\n<p>Por toda a parte, em tudo, o mesmo prest\u00edgio do &#8220;Senhor&#8221;. A mesma impertin\u00eancia<br \/>\ndo &#8220;Amo&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Bela rua! exclamou o bar\u00e3o, considerando a rua D. Afonso, depois de percorrer<br \/>\nas ruas do Imperador e da Princesa Janu\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, exato! responderam-lhe &#8211; o Imperador acha-a bonita!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o morro de amores pela cerveja que aqui se fabrica, disse ele doutra<br \/>\nvez.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! contradisseram-lhe, esta cerveja \u00e9 magn\u00edfica &#8211; o Imperador gosta!&#8230;<\/p>\n<p>E assim era, sempre que o Borges fazia qualquer pergunta ou pedia qualquer<br \/>\ninforma\u00e7\u00e3o. As id\u00e9ias, as frases giravam sempre sobre o mesmo parafuso &#8211; o<br \/>\nImperador. Era ele sempre o ponto da partida, o termo de compara\u00e7\u00e3o, a base,<br \/>\no princ\u00edpio, o fim, o meio.<\/p>\n<p>&#8211; Ora bolas! exclamou o Borges, afinal j\u00e1 importunado com aquele servilismo.<br \/>\n&#8211; Para qualquer lado, que me vire, dou sempre com o mesmo espantalho! Sebo!<br \/>\nNo fim de contas que diabo tenho eu com o tal Imperador? N\u00e3o estou aqui por<br \/>\nobs\u00e9quio, n\u00e3o estou na casa de ningu\u00e9m; estou num hotel, a tanto por dia!<br \/>\nOra essa! pago com o meu dinheiro!<\/p>\n<p>O Guterres ent\u00e3o contrapunha argumentos cheios de prud\u00eancia e reflex\u00e3o. &#8211;<br \/>\nO amigo fazia mal em pronunciar-se daquele modo! N\u00e3o era isso que mais convinha<br \/>\naos seus projetos pol\u00edticos! Que diabo! N\u00e3o custava coisa alguma guardar umas<br \/>\ntantas conveni\u00eancias!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estou vendo \u00e9 que mando para o inferno a tal id\u00e9ia de minha mulher e musco-me<br \/>\ndaqui quanto antes! &#8211; Ah! meu Paquet\u00e1! meu Paquet\u00e1!<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia porque, mas sentia-se muito contra a vontade na tal cidadezinha!<br \/>\nFaziam-lhe mal aos nervos aquela eleg\u00e2ncia convencional, aquele falso luxo,<br \/>\naquela preocupa\u00e7\u00e3o de &#8220;parecer rico&#8221;, que notava em quantos iam passar ali<br \/>\no ver\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00facia de pulhas! resumia o bom homem, fazendo uma careta de t\u00e9dio.<\/p>\n<p>E experimentava arrepios de indigna\u00e7\u00e3o quando, \u00e0 tarde, num alvoro\u00e7o posti\u00e7o,<br \/>\nreuniam-se \u00e0 porta do Bragan\u00e7a grupos casquilhos de damas e cavalheiros, macaqueando<br \/>\numa aristocracia que n\u00e3o tinham, fazendo uma exist\u00eancia fina e superior, que<br \/>\nmal conheciam de tradi\u00e7\u00e3o. Por debaixo daquelas roupas \u00e0 inglesa, daquelas<br \/>\nrendas e daquelas sedas; por debaixo daqueles movimentos largos de fidalguia<br \/>\nendinheirada, o Borges lobrigava o brasileirinho, ou o portugues\u00e3o, meticuloso,<br \/>\nruim, amigo da intriguinha, reparador dos defeitos alheios e cheio de v\u00edcios.<\/p>\n<p>Os phaetons, as berlindas, os landaus, as cestinhas puxadas a dois e tr\u00eas<br \/>\ntiros de cavalos, as corridas \u00e0 marcha inglesa pelas ruas, a conversa ruidosa<br \/>\ndos falsos elegantes, a febre de gastar dinheiro inutilmente, enfim tudo que<br \/>\nn\u00e3o tinha o cunho do h\u00e1bito e o car\u00e1ter de coisa adquirida insensivelmente<br \/>\ncom a educa\u00e7\u00e3o, com o ber\u00e7o, tudo isso se lhe afigurava tacanho, rid\u00edculo,<br \/>\ninsuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>E por toda a parte e em todos os objetos, nas casas de neg\u00f3cio, nos costumes,<br \/>\nnas toilettes, na linguagem, nas rela\u00e7\u00f5es, nos amores, em tudo descobriu o<br \/>\nmesmo fingimento, a mesma mentira, a mesma preocupa\u00e7\u00e3o de mostrar uma grandeza<br \/>\nque n\u00e3o havia.<\/p>\n<p>Isto, quanto a mim, classificou ele finalmente, em confid\u00eancia com o Guterres<br \/>\n&#8211; cheira-me assim a mulata forra com pretens\u00f5es a cocotte.<\/p>\n<p>E o Borges, aquele paz vobis, aquele homem que n\u00e3o sabia quais eram os passos<br \/>\nnecess\u00e1rios para entrar na pol\u00edtica, resolveu ao fundo do seu bom senso burgu\u00eas<br \/>\nque Petr\u00f3polis n\u00e3o passava de uma cidadezinha dissolvente, cara, preciosa,<br \/>\nque se alimentava do calor enervante de um sol no ocaso, um sol, ou antes<br \/>\num par\u00e9lio, que ia desaparecendo lentamente para nunca mais voltar.<\/p>\n<p>E profetizou, o toleir\u00e3o?. que, dentro de vinte anos Petr\u00f3polis deixaria<br \/>\nde existir ou transformar-se-ia, completamente, numa dessas muitas cidadelas<br \/>\ndo prazer e do v\u00edcio como M\u00f4naco ou Monte Cano, alimentadas pelo jogo, pagando<br \/>\no &#8220;barato&#8221; ao governo e servindo exclusivamente aos libertinos do bom tom.<\/p>\n<p>Entretanto, todo esse conjunto de coisas, que, observadas a olhos nus, repugnavam<br \/>\nao paladar simples do burgu\u00eas, apareciam a Filomena radiantes e encantadoras,<br \/>\nvistas atrav\u00e9s do prisma fant\u00e1stico de sua imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Filomena, Petr\u00f3polis continuava a ser o &#8220;t\u00e9pido retiro das almas delicadas,<br \/>\na fina corte do esp\u00edrito e da eleg\u00e2ncia&#8221;. Uma esp\u00e9cie de ninho art\u00edstico,<br \/>\nfeito de ramos e folhas naturais, por\u00e9m borrifado de leve com algumas gotas<br \/>\nde ylang-ylang.<\/p>\n<p>Os mesmos elementos, que levantavam a antipatia do marido, para ela serviam<br \/>\nde bom pasto aos seus gostos e caprichos. O prestigio do monarca, por exemplo,<br \/>\nlonge de lhe ser desafei\u00e7oado, constitu\u00eda um dos pontos que mais a interessavam.<br \/>\nE, se nisto havia ainda qualquer coisa a desejar, era justamente n\u00e3o ser mais<br \/>\ncompleto, mais cavalheiresco, mas ao sabor da Idade m\u00e9dia.<\/p>\n<p>Queria D. Pedro no seu castelo feudal, mais mo\u00e7o e mais bonito, amando os<br \/>\ncombates encarni\u00e7ados e as mulheres formosas; devoto e libertino a um tempo;<br \/>\nsupersticioso e malvado; indom\u00e1vel e forte defronte dos esquadr\u00f5es inimigos,<br \/>\nsuplicante e humilde aos p\u00e9s de uma dama fraca e delicada.<\/p>\n<p>N\u00e3o o desejava de casaca e chap\u00e9u alto, por\u00e9m, de gorro emplumado e gib\u00e3o<br \/>\nde veludo, todo ele resplandecente de ouro nas suas bordaduras preciosas.<br \/>\nPreferia-o de longos cabe-los da cor do sol, a barba dividida ao meio do queixo,<br \/>\no nariz firme e audacioso, como o dos antigos her\u00f3is da Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>A gorda figura do Imperador, com o seu abd\u00f4men saliente, as suas pernas finas,<br \/>\na testa abaulada, os olhos vulgares, causavam-lhe um desgosto profundo. N\u00e3o<br \/>\nlhe podia perdoar aquele aspecto de bom velho, aquele ar pacato, aquela proverbial<br \/>\nhonestidade, aquela express\u00e3o moleirona de homem linf\u00e1tico e turgido pela<br \/>\nvida sedent\u00e1ria. A voz branda e fanhosa, o ar giboso de Sua Majestade avultavam<br \/>\nno espirito de Filomena como o mais grave atentado que se pudesse opor \u00e0s<br \/>\nmagnific\u00eancias da coroa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 um rei! dizia ela consigo, cheia de indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 um rei, \u00e9 um pai de fam\u00edlia, um fazendeiro rico, um tipo comum!&#8230;<\/p>\n<p>Mas para que se afligir com essas pequenas mis\u00e9rias do mundo, se ali estava<br \/>\na sua bela imagina\u00e7\u00e3o, pronta sempre a torcer e dissimular os fatos que a<br \/>\nrealidade lhe grupava brutalmente em torno da exist\u00eancia?!<\/p>\n<p>E, com o aux\u00edlio dessa fiel companheira, tudo se lhe afigurou entretecido<br \/>\nde ouro e azul. Petr\u00f3polis converteu-se defronte de seus olhos nos dom\u00ednios<br \/>\nde um belo infante apaixonado, que vivia a bater nas suas terras o javali<br \/>\nbravio.<\/p>\n<p>E Filomena, soltando as r\u00e9deas de sua indom\u00e1vel fantasia, transpunha-se aos<br \/>\ntempos medievos e sonhava as cl\u00e1ssicas manh\u00e3s de ca\u00e7a, em que os reis, cercados<br \/>\nde uma corte luzidia e fugace, partiam galhardamente para o campo, ao agreste<br \/>\nsom de retorcidas trompas de metal.<\/p>\n<p>E formosas damas, p\u00e1lidas na vertigem do galope, deslizavam nos seus palafr\u00e9ns<br \/>\ncobertos de pedrarias, o amazona desfraldado aos ventos. E fidalgos poderosos,<br \/>\ne pajens, lindos como arcanjos, e donz\u00e9is de falc\u00e3o ao dedo, e ligeiros batedores,<br \/>\ne nuvens ululantes de c\u00e3es que se precipitavam em matilhas; tudo, tudo perpassava<br \/>\nvertiginosamente defronte de seus olhos, num rebrilhar fantasmag\u00f3rico de opul\u00eancias.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Por isso, ao entardecer dos dias quentes, quando as cigarras estridulam nas<br \/>\nmatas e a natureza se recolhe na concentra\u00e7\u00e3o m\u00edstica e voluptuosa da sesta,<br \/>\nFilomena furtava-se de todas as vistas e sa\u00eda a bordejar silenciosamente os<br \/>\nlargos misteriosos da cidade ou a deixar-se perder pela alfombra embalsamada<br \/>\ndos caminhos de bambus.<\/p>\n<p>Em um desses passeios, encontrou-se com o monarca. Ele caminhava em dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ncontr\u00e1ria \u00e0 dela, inteiramente desacompanhado.<\/p>\n<p>Viu-a, fitou-a rapidamente, fez-lhe um gracioso cumprimento, e l\u00e1 se foi<br \/>\npor diante, muito sombrio, com a cabe\u00e7a enterrada nos ombros, as m\u00e3os cruzadas<br \/>\natr\u00e1s, os olhos presos na terra.<\/p>\n<p>Filomena havia parado e ficou alguns instantes a contempl\u00e1-lo. Depois fez<br \/>\num gesto de impaci\u00eancia com a boca, sacudiu as esp\u00e1duas e continuou o seu<br \/>\npasseio.<\/p>\n<h2><a name=\"20\"><\/a>XX &#8211; VOLTA-SE A DAN\u00c7A<\/h2>\n<p>Naturalmente, o monarca falou a algu\u00e9m do seu ligeiro encontro com a afilhada,<br \/>\nporque esta, se at\u00e9 ent\u00e3o conseguira em Petr\u00f3polis furtar-se um pouco ao borborinho<br \/>\ndas salas, da\u00ed em diante n\u00e3o foi mais senhora de si.<\/p>\n<p>Viu-se logo cercada de manifesta\u00e7\u00f5es, querida, reclamada a todos os instantes,<br \/>\nservindo de alvo a todas as aten\u00e7\u00f5es, discutida, invejada, luzindo e ofuscando<br \/>\ncom a sua beleza, com os seus gostos, com o seu esp\u00edrito e com o seu nome,<br \/>\nque se impunha aos ouvidos de toda gente, alta ou baixa, como o t\u00edtulo de<br \/>\numa can\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>Organizaram-se concertos, inventaram-se meios de a ouvir, de a ter perto,<br \/>\nde a obsequiar. Os seus gostos foram imitados, as suas toilettes decretaram<br \/>\na moda da esta\u00e7\u00e3o, as suas frases mais insignificantes converteram-se em ap\u00f3temas.<\/p>\n<p>&#8211; Isto vai mal!&#8230; considerava todavia o Borges, vendo que os seus horizontes,<br \/>\nem vez de se acalmarem de todo, mais e mais se perturbavam. &#8211; Isto vai muito<br \/>\nmal!&#8230; muito mal! Desde que cheguei a este inferninho de cidade, ainda n\u00e3o<br \/>\ntive um momento de verdadeiro descanso, e j\u00e1 pressinto ali\u00e1s que as coisas<br \/>\nv\u00e3o tomando um car\u00e1ter amea\u00e7ador! Confesso que n\u00e3o estou nada satisfeito!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sou dessa opini\u00e3o, contrap\u00f4s o Guterres. &#8211; Entendo que o neg\u00f3cio caminha<br \/>\n\u00e0s mil maravilhas! N\u00f3s, o que precisamos \u00e9 n\u00e3o dormir com o trabalho!<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 homem! exclamou o outro. &#8211; Pois voc\u00ea acha que temos trabalhado pouco?<br \/>\nVoc\u00ea acha que \u00e9 pouco o que temos feito?! Ainda n\u00e3o abandonei a pena sen\u00e3o<br \/>\npara comer e dormir algumas horas!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 pouco! \u00e9 quase nada!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um artigo!<\/p>\n<p>E com efeito, os quatro dias que tinham de Petr\u00f3polis foram devorados na<br \/>\nconfec\u00e7\u00e3o de um artigo pol\u00edtico, uma esp\u00e9cie de autobiografia a jeito de programa<br \/>\nao mesmo tempo, pe\u00e7a original e divertida, na qual criticava o autor a lament\u00e1vel<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil, censurando e lamentando certas coisas, aplaudindo<br \/>\noutras com entusiasmo, fazendo-se muito patri\u00f3tico e empenhado na salva\u00e7\u00e3o<br \/>\ndesse &#8220;pais espl\u00eandido, destinado por Deus a um grande destino, mas infelizmente<br \/>\nv\u00edtima todos os dias do ego\u00edsmo e do desamor daqueles que, se compreendessem<br \/>\nos seus deveres, deviam ser os primeiros a defend\u00ea-lo e honr\u00e1-lo perante o<br \/>\ns\u00e9culo dezenove e n\u00e3o procurar precipit\u00e1-lo no aviltamento e na vergonha&#8221;.<\/p>\n<p>O Borges tomara no hotel um gabinete especial para esses trabalhos. E a sua<br \/>\nmesa, coberta de tiras de papel, cheia de livros abertos, coalhada de jornais,<br \/>\nn\u00e3o parecia ter quatro dias naquele servi\u00e7o; parecia ter vinte anos.<\/p>\n<p>E ele, todo vergado sobre a pasta, a olhar carrancudo, a ponta da l\u00edngua<br \/>\na brincar fora da boca, como a cabe\u00e7a de um boneco de engon\u00e7o, enchia e reenchia<br \/>\ncentenas de tiras, caprichando na letra, recorrendo aos dicion\u00e1rios, consultando<br \/>\no c\u00f3digo, manuseando jornais velhos e lendo em voz alta .0 que ficava escrito,<br \/>\ndeclamando enfaticamente as frases que lhe pareciam de mais efeito.<\/p>\n<p>O Guterres nunca escrevia, apenas ditava; ora repimpado na cadeira de balan\u00e7o,<br \/>\no copo de cerveja ao lado, a cabe\u00e7a envergada para tr\u00e1s, a fisionomia cheia<br \/>\nde preocupa\u00e7\u00e3o, os olhos quase fechados, espiando atentamente por entre os<br \/>\ndedos que ensarilhava no ar, defronte do rosto.<\/p>\n<p>Ou ent\u00e3o passeava pelo quarto, fitando o soalho, as m\u00e3os nas algibeiras das<br \/>\ncal\u00e7as, o charuto fumegando a um canto da boca. E s\u00f3 se alterava para fazer<br \/>\numa visita ao copo ou dar uma vista d&#8217;olhos ao que escrevia o Borges.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, depois de correr uma olhadela pelo trabalho tomava em sil\u00eancio<br \/>\na pena das m\u00e3os do outro, emendava alguma palavra mal escrita, largava de<br \/>\nnovo a pena sobre a mesa e prosseguia no seu passeio.<\/p>\n<p>&#8220;Patriota e defensor ac\u00e9rrimo da Carta Constitucional&#8221;&#8230; bradava ele, destacadamente,<br \/>\nacentuando a frase com um movimento de bra\u00e7o: &#8220;sempre tive por \u00fanico objeto<br \/>\nde meus esfor\u00e7os a prosperidade e a gl\u00f3ria de meu pa\u00eds!&#8221; Escreva!<\/p>\n<p>O Borges escrevia.<\/p>\n<p>&#8220;No meu livro sobre o Oriente&#8221; (\u00c9 bom falar nisso!) &#8220;escrito de colabora\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom minha mulher, a Exma. Sra. baronesa de Itassu, e que muito breve ver\u00e1<br \/>\na luz da publicidade, hei de provar o que h\u00e1 pouco avancei!&#8221;.<\/p>\n<p>E depois de dar ao Borges o tempo de escrever:<\/p>\n<p>&#8220;Na pol\u00edtica espanhola, na qual tive a honra de tomar parte durante as \u00faltimas<br \/>\nrevolu\u00e7\u00f5es do Cantonalismo&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, filho, eu n\u00e3o tomei parte nisto! protestou o Borges, largando a pena<br \/>\ne limpando o suor da testa. &#8211; O que se passou foi s\u00f3 aquilo que te contei!<br \/>\nPara que havemos n\u00f3s de dizer uma coisa que n\u00e3o \u00e9 verdade?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cala a boca, homem de Deus!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! H\u00e1s de convir que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mau! Se voc\u00ea conta escrever s\u00f3 a verdade, esta bem servido nas suas pretens\u00f5es!<br \/>\n\u00c9 melhor ent\u00e3o cuidar de outra coisa!<\/p>\n<p>O Borges co\u00e7ou a cabe\u00e7a, sem responder&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Em pol\u00edtica, meu amigo, disse o outro &#8211; verdadeiro \u00e9 s\u00f3 aquilo que nos<br \/>\nconv\u00e9m. Que diabo h\u00e1 de ent\u00e3o voc\u00ea dizer, no caso que esteja resolvido a alegar<br \/>\nem seu favor somente os seus servi\u00e7os reais prestados \u00e0 pol\u00edtica?&#8230; Sim!<br \/>\nQueres saber o que foi que voc\u00ea j\u00e1 fez por este ou por aquele partido! Se<br \/>\nh\u00e1 qualquer coisa, diga, porque, olhe! n\u00e3o me conta!<\/p>\n<p>O Borges olhou para ele, sempre a co\u00e7ar a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Por conseguinte deixe-se de hist\u00f3rias, e escreva! Escreva, que o resto<br \/>\nfica por minha conta!<\/p>\n<p>Dai h\u00e1 pouco, suscitou a mesma quest\u00e3o a respeito de D. Lu\u00eds de Portugal.<br \/>\nO Guterres queria que o amigo desse a entender no seu artigo que havia em<br \/>\nParis gozado &#8220;a estima e a confian\u00e7a do bom e af\u00e1vel Duque do Porto&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Essa agora \u00e9 que n\u00e3o passa! reagiu o Borges energicamente. &#8211; Ainda<br \/>\ncom o Cantonalismo &#8211; v\u00e1! porque enfim o basbaque do estalajadeiro, tomou-me<br \/>\npor um correligion\u00e1rio; mas com o D. Lu\u00eds valha-me Deus! a coisa \u00e9 muito diversa!<br \/>\nHomem, pois se ele nem mesmo chegou a trocar uma palavra comigo, que at\u00e9 supunha<br \/>\nque eu n\u00e3o entendesse o portugu\u00eas!&#8230; Eu estava de botocudo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 a mesma coisa, Jo\u00e3o! Voc\u00ea n\u00e3o entende disto! Fa\u00e7a o que lhe digo<br \/>\ne deixe-se de escr\u00fapulos sem raz\u00e3o de ser!<\/p>\n<p>Afinal entraram em acordo, e o primeiro artigo ficou pronto. O Guterres iria<br \/>\nlev\u00e1-lo pessoalmente ao Jornal do Comm\u00e9rcio.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! soprou o Borges, atirando-se a uma cadeira. &#8211; Deste estou livre!<\/p>\n<p>Mas foi logo interrompido pela mulher, que lhe vinha dar parte que no dia<br \/>\nseguinte, antes de principiar o baile do Cassino, organizado no pr\u00f3prio hotel<br \/>\nBragan\u00e7a, onde havia um teatrinho, ela dan\u00e7aria um de seus tangos e cantaria<br \/>\numa de suas modas para fazer a vontade ao padrinho.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 tudo perdido! calculou o Borges, empalidecendo.<\/p>\n<p>&#8211; Adeus sossego! O diabo \u00e9 dan\u00e7ar a primeira vez!<\/p>\n<p>E o pobre homem tinha raz\u00e3o. A noticia de que Filomena ia dan\u00e7ar levantou<br \/>\nentusiasmo. Petr\u00f3polis assanhou-se; o hotel Bragan\u00e7a encheu-se de curiosos;<br \/>\npor toda a cidade s\u00f3 se falava na baronesa de Itassu; todos queriam ajudar<br \/>\nnos preparativos da festa; foi preciso fechar o sal\u00e3o do baile para conseguir-se<br \/>\nfazer alguma coisa. O Borges viu-se atrapalhado.<\/p>\n<p>No dia da fun\u00e7\u00e3o, \u00e0s sete horas da noite, j\u00e1 se n\u00e3o podia transitar na rua<br \/>\ndo Imperador. De todos os lados acudia gente; os carros grupavam-se em todo<br \/>\no comprimento do rio. Uma curiosidade febril agitava os cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E quando, acesos os candeeiros de querosene, organizada a plat\u00e9ia, distribu\u00eddos<br \/>\nos lugares, o monarca j\u00e1 instalado com o seu semin\u00e1rio, ergueu-se o pequeno<br \/>\npano do teatrinho e Filomena principiou a dan\u00e7ar o tango, o entusiasmo difundiu-se<br \/>\nde tal modo, que foi preciso empregar todos os meios para cont\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que o sal\u00e3o do frio e sisudo Cassino experimentava uma<br \/>\nfebre daquela ordem.<\/p>\n<p>Terminado o ato, o Imperador dignou-se cumprimentar pessoalmente a formosa<br \/>\nartista e prometeu que dan\u00e7aria com ela uma quadrilha francesa.<\/p>\n<p>Este ato foi aplaudido em geral, como um rasgo de verdadeira justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Afastaram-se logo as cadeiras e os bancos da plat\u00e9ia, desembara\u00e7ando-se o<br \/>\nsal\u00e3o para a dan\u00e7a e, da\u00ed a pouco a linda baronesa de Itassu, em grande uniforme<br \/>\nde baile, era a soberana daquela festa. O padrinho dirigiu-lhe por v\u00e1rias<br \/>\nvezes a palavra e disse-lhe que simpatizava muito com o bar\u00e3o e que mais tarde<br \/>\nhavia de dar provas dessa simpatia.<\/p>\n<p>Espalhou-se logo o boato de que o imperador estava deveras apaixonado pela<br \/>\nirresist\u00edvel afilhada e que esta lhe correspondia de um modo escandaloso.<\/p>\n<p>Verdade \u00e9 que, depois do primeiro baile, n\u00e3o se passava um dia em Petr\u00f3polis,<br \/>\nsem que D. Pedro tivesse ocasi\u00e3o de se encontrar com ela; e, quando havia<br \/>\ndan\u00e7a, o bom pr\u00edncipe n\u00e3o lhe dispensava a sua quadrilhazinha e os seus dois<br \/>\ndedos de palestra.<\/p>\n<p>&#8211; Belo monarca! Belo monarca! dizia o Guterres. E ainda havia por a\u00ed toleir\u00f5es<br \/>\nque falavam em rep\u00fablica e revolu\u00e7\u00e3o! Onde iriam encontrar um chefe mais lhano,<br \/>\nmais condescendente, mais generoso, mais democrata que aquele?&#8230; um verdadeiro<br \/>\namigo de seu povo!<\/p>\n<p>&#8211; E fazia-se muito dele, muito amigo da monarquia, muito pronto a defend\u00ea-la.<br \/>\nSe, em sua presen\u00e7a, algu\u00e9m se animava a falar no suposto namoro de Filomena<br \/>\ncom o padrinho, Guterres respondia logo, fazendo voz de choro e cara de lam\u00faria:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, coitado! \u00e9 uma injusti\u00e7a! O pobre homem n\u00e3o pode se divertir um instante!&#8230;<br \/>\nAh! tamb\u00e9m voc\u00eas de tudo querem armar esc\u00e2ndalo&#8217;.<\/p>\n<p>O Borges \u00e9 que n\u00e3o se conformava com a brincadeira, se bem que a mulher empregasse<br \/>\ntodos os meios para convenc\u00ea-lo de que tais sobressaltos n\u00e3o tinham o menor<br \/>\nfundamento.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era s\u00f3 por causa disso que ele se apoquentava &#8211; \u00e9 que a despeito<br \/>\ndo esfor\u00e7o que fazia o infeliz para evitar as conviv\u00eancias ruidosas e resignar-se<br \/>\n\u00e0 ma\u00e7adora companhia do Guterres, n\u00e3o conseguia fugir \u00e0s constantes visitas<br \/>\nde cerim\u00f4nia, e a sua vida ia-se tornando cada vez mais cheia de etiquetas<br \/>\ne mortifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vejo que \u00e9 mesmo sorte minha!&#8230; resmungava ele. &#8211; E eu que supunha<br \/>\nvir encontrar aqui, neste inferno de intrigas, um momento de repouso!&#8230;<\/p>\n<p>A presen\u00e7a do imperador, a sua conversa constrangedora, virgulada de gestos<br \/>\nincompreens\u00edveis, era de tudo o que mais o amofinava. Borges, por melhor vontade<br \/>\nque empregasse, n\u00e3o podia entrar com as praxes estabelecidas da cortesania.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o nascera para aquilo!<\/p>\n<p>Burgu\u00eas completo, amigo sincero do povo, donde safra e onde crescera, livre<br \/>\npor h\u00e1bito e por princ\u00edpio, conhecendo o governo apenas pelos seus impostos,<br \/>\npelas suas exig\u00eancias, pelas suas opress\u00f5es, era, sem nunca o ter dito, talvez<br \/>\nat\u00e9 sem o saber, um inimigo natural do trono, um tipo perfeito do revolucion\u00e1rio<br \/>\nmoderno, um verdadeiro, um puro republicano.<\/p>\n<p>Todavia, nunca se envolveu nem de leve com a pol\u00edtica de seu pa\u00eds; nunca<br \/>\nse declarou mais simp\u00e1tico a este ou \u00e0quele partido. At\u00e9 aos quarenta anos<br \/>\ncedera os seus votos ao primeiro amigo que o mendigasse, sempre indiferente<br \/>\naos atos do governo, aos neg\u00f3cios do estado, chegando at\u00e9 a evit\u00e1-los instintivamente,<br \/>\ncomo uma mulher honesta evita por impulso natural o contato de certas pessoas.<\/p>\n<p>Amava os homens pela pureza do car\u00e1ter e n\u00e3o pela cor do partido ou pela<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o social. Se a mulher n\u00e3o o tivesse obrigado a comprar um t\u00edtulo, n\u00e3o<br \/>\nseria ele de certo quem se havia de lembrar de semelhante patacoada.<\/p>\n<p>Desde pequeno habituado ao trabalho livre, sem jamais precisar do governo,<br \/>\na quem sempre considerou um parasita importuno, educado por um pai da mesma<br \/>\nforma trabalhador e independente, Borges nunca se lembrou de p\u00f4r a sua consci\u00eancia<br \/>\nem leil\u00e3o, nunca precisou dobrar aquela grossa cabe\u00e7a de plebeu \u00e0s conveni\u00eancias<br \/>\ndesta ou daquela id\u00e9ia. Al\u00e9m disso, quando se viu sem recursos de vida e abandonado<br \/>\nna mais dura mis\u00e9ria, tudo, nesse momento, lhe teria passado pelo c\u00e9rebro,<br \/>\nmenos a lembran\u00e7a de que possu\u00eda uma p\u00e1tria, para a seguran\u00e7a da qual tinha<br \/>\nele contribu\u00eddo, durante muitos anos, com o seu esfor\u00e7o e com a sua coragem.<\/p>\n<p>De sorte que, lan\u00e7ado agora bruscamente, por um capricho da mulher, aos p\u00e9s<br \/>\nde um soberano, que, at\u00e9 ai, era para ele simplesmente um princ\u00edpio, que a<br \/>\ngente aceita, para n\u00e3o se dar ao trabalho de dizer a raz\u00e3o por que n\u00e3o aceita,<br \/>\natirado assim de improviso aos degraus de um trono, que nada de comum podia<br \/>\nter com ele, um trono de que ele nada podia esperar por motu pr\u00f3prio, o Borges<br \/>\nsentiu-se como esmagado por uma desgra\u00e7a que o humilhava, sentia-se coagido,<br \/>\npreso, inutilizado, e, cada vez mais, furioso de sua vida.<\/p>\n<p>Entretanto, obedecia \u00e0 fatalidade das circunst\u00e2ncias que o arremessavam \u00e0quela<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o falsa e constrangedora.<\/p>\n<p>Ia tudo suportando, sem \u00e2nimo de reagir: fazia-se cortes\u00e3o a pouco e pouco,<br \/>\nhabituava-se ao sorriso do Pa\u00e7o; acompanhava os outros na adula\u00e7\u00e3o e no servilismo;<br \/>\nat\u00e9 que, de repente, sem esperar por isso, recebeu como um augusto favor ou<br \/>\ntalvez como recompensa do seu aviltamento, a nomea\u00e7\u00e3o de &#8220;superintendente<br \/>\ndos trabalhos privados do Pa\u00e7o&#8221;, com um bonito ordenado, casa, comida, roupa<br \/>\nlavada e engomada.<\/p>\n<p>A mulher atirou-se-lhe ao pesco\u00e7o: &#8211; Bravo! bravo, meu amor! Principias maravilhosamente!<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu, em consci\u00eancia, n\u00e3o devo aceitar este cargo&#8230; objetou o Borges<br \/>\nmuito atrapalhado. &#8211; Eu n\u00e3o entendo nada disto! N\u00e3o sei o que \u00e9 ser superintendente,<br \/>\nn\u00e3o sei quais sejam as atribui\u00e7\u00f5es desse lugar! N\u00e3o sei finalmente o que tenho<br \/>\nde dar em troca do ordenado que me oferecem!<\/p>\n<p>Feriu-se uma tremenda discuss\u00e3o entre os dois.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, est\u00e1 bom! disse afinal a baronesa. &#8211; Acho que deves guardar essas<br \/>\ndiscuss\u00f5es para quando estivermos em casa &#8211; neste hotel ouve-se tudo o que<br \/>\nse diz um pouco mais alto!<\/p>\n<p>Borges calou-se, mas, receoso de fazer algum disparate, saiu \u00e0 procura do<br \/>\nGuterres. &#8211; Precisava desabafar! Arre!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o d\u00eas com o p\u00e9 na fortuna&#8217; disse-lhe o amigo. &#8211; Que diabo queres tu ent\u00e3o,<br \/>\nhomem de Deus?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei c\u00e1 o que quero! Quero fazer a vontade a Filomena, mas isso, j\u00e1 se<br \/>\nv\u00ea, sem me colocar na cr\u00edtica situa\u00e7\u00e3o em que me acho! Eu l\u00e1 sei p&#8217;ra que<br \/>\nlado fica o servi\u00e7o de que me querem encarregar!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E que necessidade tens tu de entender disso?&#8230; Acaso algu\u00e9m te reclama<br \/>\nhabilita\u00e7\u00f5es?&#8230; Algu\u00e9m te pede compet\u00eancia?&#8230; Porventura os mais que s\u00e3o<br \/>\nnomeados para os outros cargos apresentam-se aptos para desempenh\u00e1-los?&#8230;<br \/>\nOra, por amor de Deus! Est\u00e1s na aldeia, e n\u00e3o v\u00eas as casas? Quem sabe se pretendes<br \/>\nreformar os costumes!&#8230; Quem sabe se queres ser a palmat\u00f3ria do mundo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nada disso me convence de que devo aceitar um cargo, sem ter habilita\u00e7\u00f5es<br \/>\npara exerc\u00ea-lo!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Jo\u00e3o, vem c\u00e1, repara que est\u00e1s no Brasil e lembra-te de que aqui os<br \/>\nempregos de confian\u00e7a do governo, sejam eles de que g\u00eanero for, nada tem que<br \/>\nver com as aptid\u00f5es individuais de quem os vai desempenhar! Que diabo! N\u00e3o<br \/>\nv\u00eas a\u00ed todos os dias ministros da guerra, que n\u00e3o conhecem patavina do militarismo?<br \/>\nN\u00e3o v\u00eas que os ministros da agricultura n\u00e3o sabem para que lado fica a lavoura;<br \/>\nque o ministro do imp\u00e9rio, a cargo de quem est\u00e1 a instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica, j\u00e1 faz<br \/>\nmuito quando sabe ler e escrever corretamente?&#8230; N\u00e3o v\u00eas que o ministro da<br \/>\nfazenda n\u00e3o pesca nada de economia pol\u00edtica; que o da pasta de estrangeiros<br \/>\nn\u00e3o entende coisa alguma de pol\u00edtica internacional? E assim o da marinha!<br \/>\ne assim todos eles! e assim todo o mundo! Oh!<\/p>\n<p>Essas raz\u00f5es, longe de convencerem o Borges, mais lhe irritavam os nervos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! bradou ele, furioso. N\u00e3o! N\u00e3o posso, n\u00e3o devo aceitar semelhante cargo!<br \/>\nseria uma velhacaria! N\u00e3o quero!<\/p>\n<p>&#8211; Bem diz o prov\u00e9rbio que Deus d\u00e1 nozes a quem n\u00e3o tem dentes! sentenciou<br \/>\no outro. &#8211; Ah! se fosse eu o nomeado; havia de te mostrar que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Queres tu ficar com o emprego?!&#8230; perguntou o bar\u00e3o, limpando o rosto,<br \/>\nque se inundava o suor.<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Se fosse poss\u00edvel, que d\u00favida!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vais ver se \u00e9 ou n\u00e3o poss\u00edvel!<\/p>\n<p>E nesse mesmo dia, o Borges, logo que pilhou o Imperador, foi-se atravessando<br \/>\ndefronte dele e dizendo abertamente que n\u00e3o podia aceitar o cargo de superintendente,<br \/>\nmas que designava o Guterres para o substituir.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um pouco dif\u00edcil de contentar seu marido! observou D. Pedro a Filomena,<br \/>\nquando se encontrou com ela.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabia que era t\u00e3o exigente!<\/p>\n<p>&#8211; Exigente?!&#8230; perguntou a baronesa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se d\u00e1 por satisfeito com o cargo que lhe ofereci. E, no entanto, agora<br \/>\n\u00e9 quase imposs\u00edvel dar-lhe coisa melhor!&#8230;<\/p>\n<p>Filomena surpreendeu-se muito agradavelmente com essas palavras do monarca:<br \/>\n&#8211; Pois seria poss\u00edvel que o Borges j\u00e1 fizesse daquilo?&#8230; Ah! N\u00e3o julgava<br \/>\nque o marido fosse capaz de um rasgo de ambi\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! bravo! aplaudiu ela consigo. E tratou logo de confirmar a opini\u00e3o<br \/>\ndo esposo. &#8211; No fim de contas, ele n\u00e3o deixa de ter alguma raz\u00e3o, coitado!<br \/>\nVossa Majestade h\u00e1 de concordar que o tal cargo \u00e9 muito insignificante para<br \/>\num homem de aspira\u00e7\u00f5es e de talento! Superintendente! Ora, que vale isso!<\/p>\n<p>Bom! bom! J\u00e1 sei! j\u00e1 sei o que devo fazer enquanto n\u00e3o lhe arranjo melhor<br \/>\nemprego! Vou trocar-lhe o t\u00edtulo por outro, por um t\u00edtulo brasileiro e mais<br \/>\nalto &#8211; vou faz\u00ea-lo visconde! N\u00e3o ficar\u00e1 ele satisfeito?!<\/p>\n<p>Filomena apressou-se a beijar a m\u00e3o de seu augusto padrinho: &#8211; Oh! Vossa<br \/>\nMajestade \u00e9 magn\u00e2nimo!<\/p>\n<p>&#8211; Engana-se! N\u00e3o sou: &#8211; fa\u00e7o-me, para dar-lhe o exemplo disse o monarca piscando<br \/>\no seu olho azul do lado esquerdo.<\/p>\n<p>Mas teve logo de disfar\u00e7ar, porque algu\u00e9m se aproximava.<\/p>\n<h2><a name=\"21\"><\/a>XXI &#8211; TORNIQUETES<\/h2>\n<p>Foram in\u00fateis todos os novos esfor\u00e7os do Borges para recusar o cargo. Teve<br \/>\nde entrar logo em exerc\u00edcio de suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ora a minha vida! lamentava ele, sozinho, a espacear pela quinta do Imperador.<br \/>\nTer de entrar na carreira p\u00fablica depois dos cinq\u00fcenta anos de idade! Esta<br \/>\ns\u00f3 a mim sucede!<\/p>\n<p>Sua Majestade n\u00e3o tardou a pux\u00e1-lo bem para junto de si faz\u00ea-lo dos do seu<br \/>\npeito. E, com enorme espanto do Borges, chegava a consult\u00e1-lo em quest\u00f5es<br \/>\ncompletamente estranhas ao pobre homem. \u00c1s vezes, pedia-lhe conselhos.<\/p>\n<p>&#8211; Homem, majestade!&#8230; para falar com franqueza, eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei, j\u00e1 sei! N\u00e3o lhe \u00e9 simp\u00e1tico o neg\u00f3cio! Eu tamb\u00e9m sou quase desse<br \/>\nparecer&#8230;<\/p>\n<p>Perd\u00e3o, perd\u00e3o! n\u00e3o \u00e9 isso!&#8230; mas \u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>E o Borges, a contragosto, ia pesando nas coisas do Estado, ia-se articulando<br \/>\n\u00e0s engrenagens do governo, ia-se deixando invadir secretamente por todas as<br \/>\nsutilezas da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Eu, jurava ele com os seus bot\u00f5es &#8211; eu, quando menos o esperarem, fujo! desapare\u00e7o<br \/>\npor uma vez, e ningu\u00e9m saber\u00e1 para onde fui! Posso l\u00e1 com semelhante modo<br \/>\nde vida!<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, quatro meses depois disso, a condessa de Itassu era j\u00e1 o melhor<br \/>\nempenho para o Sr. D. Pedro de Alc\u00e2ntara. Pretendente que se apadrinhasse<br \/>\ncom ela podia ter a certeza de obter o que desejasse.<\/p>\n<p>De suas m\u00e3ozinhas aristocr\u00e1ticas sa\u00edram nomea\u00e7\u00f5es important\u00edssimas, licen\u00e7as<br \/>\nescandalosas, remo\u00e7\u00f5es, transfer\u00eancias, acessos de empregos, privil\u00e9gios de<br \/>\ncompanhias, concess\u00f5es de engenhos centrais. Muita quest\u00e3o importante se resolveu<br \/>\ncom um simples sorriso.<\/p>\n<p>Quando regressaram de Petr\u00f3polis foram habitar em S. Crist\u00f3v\u00e3o, perto do<br \/>\npal\u00e1cio de sua Majestade. O monarca n\u00e3o queria o visconde de Itassu muito<br \/>\nlonge de si.<\/p>\n<p>A casa deste transformou-se logo em um centro pol\u00edtico. A\u00ed, todas as noites<br \/>\nse reuniam as figuras mais volumosas dos poderes p\u00fablicos; a\u00ed se discutiam<br \/>\nas mais graves quest\u00f5es do Estado; formavam-se e destru\u00edam-se gabinetes; criavam-se<br \/>\ne resolviam-se crises, conforme o capricho de Filomena.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, d\u00e1-se por isso?&#8230; Ser\u00e1 cr\u00edvel que eu nunca mais obtenha um momento<br \/>\nde repouso?&#8230; pensava o Borges.<\/p>\n<p>Com efeito, sua pobre vida jamais esteve t\u00e3o cheia de preocupa\u00e7\u00f5es e t\u00e3o<br \/>\ncarregada de responsabilidade. Quando o desgra\u00e7ado sa\u00eda do quarto, depois<br \/>\nde uma noite mal dormida, j\u00e1 uma enorme selva o esperava, transbordante de<br \/>\njornais de cartas, requerimentos, of\u00edcios, comunicados e o diabo, cujo expediente<br \/>\nera preciso aviar e fazer subir quanto antes ao conhecimento de seu augusto<br \/>\namo.<\/p>\n<p>Depois, tinha audi\u00eancias; neg\u00f3cios inteiramente fora de sua compet\u00eancia vinham-lhe<br \/>\nsuplicar um parecer, pedir um aux\u00edlio.<\/p>\n<p>Que luta!<\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m de tudo isso, era preciso atender aos colegas, aos amigos, aos<br \/>\npol\u00edticos em atividade, que o procuravam todos os dias. De certo, era preciso<br \/>\nconstantemente envergar \u00e0 farda, suportar as exig\u00eancias do cargo, acompanhar<br \/>\no monarca, comparecer aos atos solenes da corte ou \u00e0s reuni\u00f5es particulares<br \/>\ndos ministros.<\/p>\n<p>E o Borges em v\u00e3o se arrepelava, se maldizia e se punha fora de si.<\/p>\n<p>Filomena, ao contr\u00e1rio, \u00e0 semelhan\u00e7a de certas plantas caprichosas, que s\u00f3<br \/>\nvingam bem nos abrasados e altaneiros p\u00edncaros do rochedo, cada vez mais e<br \/>\nmais se identificava \u00e0s exig\u00eancias do seu novo meio.<\/p>\n<p>E protegia o marido \u00e0 sombra de seus conselhos, amparava-o, conduzia-o, emprestando-lhe<br \/>\num lugar no, ginete de suas ambi\u00e7\u00f5es e cedendo-lhe liberalmente todas as armas<br \/>\ndo seu esp\u00edrito e toda a for\u00e7a da sua vontade.<\/p>\n<p>O Imperador n\u00e3o disfar\u00e7ava o bom conceito em que tinha a opini\u00e3o do experimentado<br \/>\ne sensato visconde de Itassu.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um homem de peso&#8230; dizia. &#8211; N\u00e3o tem fulgura\u00e7\u00f5es de talento, mas sobra-lhe<br \/>\no tino! Homem de gabinete!<\/p>\n<p>O Borges, o modesto e inofensivo Borges, viu ent\u00e3o circularem ao redor de<br \/>\nsi os mais lisonjeiros coment\u00e1rios a respeito de qualidades, que ele nunca<br \/>\ndesconfiara que possu\u00eda. Viu atribu\u00edrem-lhe compet\u00eancia, das quais ele podia<br \/>\njurar que n\u00e3o dispunha; viu darem-lhe a paternidade de fatos de grande t\u00e1tica<br \/>\npol\u00edtica, dos quais s\u00f3 chegara ao conhecimento pelas not\u00edcias do &#8220;Di\u00e1rio Oficial&#8221;.<\/p>\n<p>Mas, em compensa\u00e7\u00e3o, os jornais ilustrados, os \u00f3rg\u00e3os republicanos e algumas<br \/>\nfolhas di\u00e1rias surgiam pejados de s\u00e1tiras, de pilh\u00e9rias e de caricaturas contra<br \/>\nele, a mulher e o monarca.<\/p>\n<p>Deram-lhe alcunhas rid\u00edculas, inventaram-lhe biografias vergonhosos, crivaram-no<br \/>\nde triolets insultuosos. Afirmou-se que Filomena Borges era de fato a imperatriz<br \/>\ndo Brasil; que ela, se n\u00e3o reinava sobre a na\u00e7\u00e3o, reinava sobre o monarca;<br \/>\nque Sua Majestade, tomado de amores, deixava fazer de si o que bem quisesse<br \/>\na viscondessinha de Itassu, e que esta, abusando da posi\u00e7\u00e3o, pintava o diabo<br \/>\ncom o pobre pa\u00eds, erguia e desmanchava gabinetes, com o mesmo capricho com<br \/>\nque armava e desfazia os seus penteados e&#8230; os do marido.<\/p>\n<p>Borges n\u00e3o sabia resistir a tais diatribes; ficava a ponto perder a cabe\u00e7a<br \/>\nquando as lia; mas, em vez de revoltar-se contra a pr\u00f3pria fraqueza, atirava<br \/>\nsua indigna\u00e7\u00e3o sobre os inimigos do Estado, ao passo que a este ia se prendendo<br \/>\ncada vez mais.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o d\u00eas a menor import\u00e2ncia! acudiu o Guterres. &#8211; Deixa ladrar a inveja!<\/p>\n<p>&#8211; Mas que necessidade tenho eu de ouvir diariamente esses desaforos?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 uma quest\u00e3o de h\u00e1bito, filho! Bem se v\u00ea que ainda n\u00e3o est\u00e1s calejado<br \/>\nnesta coisa! Pois querias fazer posi\u00e7\u00e3o sem ouvir descomposturas?&#8230; Serias<br \/>\naqui o primeiro! &#8211; Quem tem m\u00e9rito, tem inimigos! Mais tarde, quando os jornais<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o disserem nada a teu respeito, h\u00e1s de sentir at\u00e9 a falta desses mesmos<br \/>\ndesaforos que hoje te mortificam!<\/p>\n<p>Mas o visconde, em vez de habituar-se ao que diziam dele, ia se enterrando<br \/>\nprogressivamente no azedume e no t\u00e9dio; deixava-se tomar de um desespero irritativo<br \/>\ne constante assanhava-se j\u00e1 por qualquer coisa, andava sempre de cara fechada,<br \/>\ntinha palavras duras e gestos desabridos3 at\u00e9 com o pr\u00f3prio Imperador.<\/p>\n<p>O Imperador!&#8230;<\/p>\n<p>Pobre homem! bem longe estava ele de merecer as acusa\u00e7\u00f5es que lhe faziam<br \/>\na respeito da afilhada!<\/p>\n<p>Que estivesse impressionado pela gentil criatura, pode ser; mas \u00e9 que o diabrete<br \/>\narranjava as coisas de tal jeito; que o bom monarca n\u00e3o conseguia ir al\u00e9m<br \/>\nde seus desejos, se \u00e9 que os tinha.<\/p>\n<p>Por mais esfor\u00e7os que empregasse, se os empregava, a viscondessinha fugia-lhe<br \/>\npor entre os dedos, com desculpas banais, como por exemplo a da circunst\u00e2ncia<br \/>\nde ser sua afilhada, deixando o cora\u00e7\u00e3o do soberano ainda mais abrasado e<br \/>\nansioso, o que \u00e9 poss\u00edvel, porque desgra\u00e7adamente os imperadores s\u00e3o feitos<br \/>\nda mesma carne fraca e tilitante de que se formam as outras criaturas suscet\u00edveis<br \/>\nao amor.<\/p>\n<p>Por esse tempo, era o Borges indigitado para exercer fora do pa\u00eds um importante<br \/>\ncargo diplom\u00e1tico, que acabava de vagar.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 que este homem embirrou deveras comigo?!&#8217;.. exclamou ele, quando<br \/>\nlhe chegou aos ouvidos tal not\u00edcia.. &#8211; Agora quer me fazer ministro plenipotenci\u00e1rio<br \/>\nl\u00e1 por onde o diabo perdeu o cachimbo! Ora, os meus pecados!<\/p>\n<p>Filomena preferia ficar na corte, mas declarou logo que, se o marido aceitasse<br \/>\no cargo, ela o acompanharia, fosse l\u00e1 para onde fosse.<\/p>\n<p>Cassou-se imediatamente a nomea\u00e7\u00e3o do visconde, e, \u00e0 noite, quando este teve<br \/>\nocasi\u00e3o de ver o amo, notou-lhe na fisionomia um certo ar de m\u00e1 vontade.<\/p>\n<p>L\u00e1 se ia por \u00e1gua abaixo o prest\u00edgio do Borges e mais da mulher.<\/p>\n<h2><a name=\"22\"><\/a>XXII &#8211; DISSOLVEM-SE AS \u00daLTIMAS ILUS\u00d5ES<\/h2>\n<p>Todo o empenho de Filomena Borges, todo o seu sonho dourado, era ver o marido<br \/>\nno poder, \u00e0 frente de um minist\u00e9rio; ordenan\u00e7as atr\u00e1s do carro, casaca resplandescente<br \/>\nde gal\u00f5es amarelos, chap\u00e9u armado, espada \u00e0 cinta e comenda ao peito.<\/p>\n<p>Queria v\u00ea-lo ministro! Ministro, ainda que fosse por pouco tempo! &#8211; por uma<br \/>\nsemana, por um dia ao menos!<\/p>\n<p>&#8211; Mas meu amor, dizia-lhe o esposo com a voz suplicante &#8211; teu marido j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\npode com semelhante vida! Hei de fatalmente arriar a carga; estou exausto,<br \/>\nestou seco, sem uma pitada de miolo! &#8211; mais uma semana &#8211; estouro! levo o diabo!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Por amor de Deus n\u00e3o desanimes! exclamava a viscondessa, lan\u00e7ando-se-lhe<br \/>\nnos bra\u00e7os. &#8211; Concentra todas as tuas for\u00e7as e luta mais um instante! Juro-te,<br \/>\nmeu amigo, que, mal te vejas ministro, eu te acompanharei para onde quiseres<br \/>\ne farei tudo o que me ordenares! N\u00e3o penses em abandonar covardamente o posto<br \/>\nde honra, agora que \u00e0 custa de sacrif\u00edcios, conseguimos vencer a parte mais<br \/>\ndif\u00edcil da ladeira! \u00c2nimo, visconde de Itassu! N\u00e3o cedas o terreno aos teus<br \/>\nadvers\u00e1rios, que nos cobrem de ultrajes e cal\u00fanias! N\u00e3o queiras realizar o<br \/>\nque eles nos profetizaram! Se me tens amor, se me adoras, visconde, se te<br \/>\nmerece alguma coisa o muito que te quero e a forma imaculada pela qual tenho<br \/>\nat\u00e9 hoje conduzido o teu nome, n\u00e3o fa\u00e7as uma fugida vergonhosa&#8217; N\u00e3o queiras<br \/>\nser o meu algoz, porque eu n\u00e3o saberia resistir a tanta humilha\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o diabo!&#8230; respondeu o Borges, co\u00e7ando a cabe\u00e7a. \u00c9 o diabo! Se tudo<br \/>\nisso dependesse s\u00f3 de minha vontade, j\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o estaria quem falou! Mas a quest\u00e3o<br \/>\n\u00e9 que eu j\u00e1 n\u00e3o sei a quantas ando!&#8230; j\u00e1 n\u00e3o tenho cara para mostrar a todos<br \/>\nesses homens, que confiam no meu valor e que esperam de mim o que eu nunca<br \/>\nesperei! &#8211; \u00c9 o diabo! N\u00e3o calculas o quanto me pesa esta responsabilidade;<br \/>\nn\u00e3o imaginas com que impaci\u00eancia desejo atirar para longe as cangalhas que<br \/>\nme puseram nas costas, e fugir, contigo para um canto obscuro, onde n\u00e3o haja<br \/>\npreocupa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, compromissos, artigos a responder, e onde n\u00e3o tenhamos<br \/>\nque amargar as descomposturas da imprensa e as cuspalhadas dos inimigos! Ah,<br \/>\nmeu Paquet\u00e1! meu belo e tranq\u00fcilo Paquet\u00e1, como te desejo, como te ambiciono!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! N\u00f3s n\u00e3o nos enterraremos em Paquet\u00e1, n\u00e3o nos condenaremos ao ostracismo,<br \/>\nsem que tenhamos triunfado dos nossos esfor\u00e7os! H\u00e1s de governar! Juro-te eu!<br \/>\nH\u00e1s de ser grande e poderoso!<\/p>\n<p>Mas, ai! a linda ambiciosa contava dispor ainda do \u00fanico elemento com que<br \/>\nlhe era dado realizar tudo isso &#8211; a prote\u00e7\u00e3o do padrinho. N\u00e3o desconfiava<br \/>\nainda, a vision\u00e1ria! que j\u00e1 n\u00e3o tinha \u00e0s suas ordens essa vontade maravilhosa;<br \/>\nque tudo determina no Brasil. E, ao reconhecer os primeiros sintomas de sua<br \/>\nimpot\u00eancia, teve \u00edmpetos de estrangular-se.<\/p>\n<p>Todavia procurou iludir-se. N\u00e3o desanimou logo e, a despeito dos protestos<br \/>\ndo marido, que parecia cada vez mais aflito, reuniu todo o seu empenho em<br \/>\num \u00faltimo esfor\u00e7o, a ver se conseguia reatar o sonho, sem ter de poluir o<br \/>\nseu contrato de fidelidade conjugal.<\/p>\n<p>&#8211; Lutaremos! Lutaremos! bradava ela, a sacudir o marido violentamente. &#8211;<br \/>\nAs principais influ\u00eancias conservadoras est\u00e3o conosco! Havemos de vencer ou<br \/>\nmorreremos juntos, esmagados pelo mesmo destino!<\/p>\n<p>O Borges tomou f\u00f4lego, depois de uma reviravolta que lhe deu a mulher, e<br \/>\ndeclarou que entendia muito mais acertado irem eles acabar os seus dias tranq\u00fcilamente<br \/>\nem um canto obscuro e feliz.<\/p>\n<p>&#8211; Pensa em quanto \u00e9 tempo, meu amor! dizia o pobre homem. Resolve-te quanto<br \/>\nantes, porque, para falar com. franqueza, desconfio que as coisas n\u00e3o v\u00e3o<br \/>\nboas; creio que teremos novidade l\u00e1 por cima! E, assim por assim, \u00e9 muito<br \/>\nmelhor que a bomba rebente quando j\u00e1 estivermos longe! Que te parece?&#8230;<\/p>\n<p>Filomena n\u00e3o respondeu \u00e0s considera\u00e7\u00f5es do marido e jurou que estava &#8220;disposta<br \/>\na lutar at\u00e9 ao \u00faltimo momento&#8221;.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas um fato inevit\u00e1vel, e talvez precipitado justamente pelo soberano, veio<br \/>\ntolher-lhe as asas logo no come\u00e7o do v\u00f4o, e decidir a derrota de Filomena:<br \/>\n&#8211; declarou-se no minist\u00e9rio conservador a memor\u00e1vel crise que produziu a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde 5 de Janeiro de 78.<\/p>\n<p>O velho partido estalou nas ra\u00edzes, estremeceu todo, rangeu e afinal caiu<br \/>\npor terra, como um carvalho secular, esmagando de uma s\u00f3 vez a caterva de<br \/>\npol\u00edticos que dormiam \u00e0 sombra dele.<\/p>\n<p>Foi um charivari furioso.<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro despertou sobressaltado com o baque formid\u00e1vel do poder.<br \/>\nMil exist\u00eancias desarticularam-se de seus eixos, mil interesses feneceram;<br \/>\nmil esperan\u00e7as espocaram, para dar lugar a outras tantas, que surgiram&#8230;<br \/>\nOs liberais atiraram-se a campo, assanhados, famintos, depois de um jejum<br \/>\nde dez anos. E um redemoinho vertiginoso formou-se em volta do trono, arrancando<br \/>\npela raiz todas as plantas mal seguras ao fundo limoso daquele oceano de ego\u00edsmos.<\/p>\n<p>E tudo veio \u00e0 superf\u00edcie d&#8217;\u00e1gua; velhas mis\u00e9rias abafadas ressurgiam. E os<br \/>\ncorpos que boiavam depois do cataclismo, chocaram-se uns contra os outros,<br \/>\na lutarem, a morderem-se, a engalfinharem-se, num supremo desespero de n\u00e1ufragos.<\/p>\n<p>O Borges nunca experimentara um dia t\u00e3o levado dos diabos; viu-se tonto,<br \/>\nperdido, naquele labirinto de paix\u00f5es pol\u00edticas e conveni\u00eancias particulares;<br \/>\nlabirinto de que ele n\u00e3o conhecia o norte, nem o sul, nem lugar de entrada,<br \/>\nnem o lugar da sa\u00edda. O Imperador virou-lhe as costas \u00e0 primeira pergunta;<br \/>\no Guterres desapareceu, sem lhe deixar ao menos duas palavras que o animassem.<\/p>\n<p>Todavia exigiam dele a explica\u00e7\u00e3o de fatos cuja exist\u00eancia o pobre homem<br \/>\nat\u00e9 ignorava; responsabilizavam-no por outros completamente alheios \u00e0 sua<br \/>\ncompet\u00eancia; fizeram dele um bode expiat\u00f3rio; envolveram-no em uma rede de<br \/>\nintrigas; reduziram-no a peteca e atiraram-no de m\u00e3o em m\u00e3o crivado de pilh\u00e9rias,<br \/>\nde dichotes, de rabos de palha, inutilizado, cheio de rid\u00edculo, cuspido por<br \/>\ntodas as bocas da publicidade.<\/p>\n<p>Safa! safa! bufava o desgra\u00e7ado, quando afinal se viu em caminho de casa.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e3o todos para o diabo que os carregue, s\u00facia de bandidos! Agora, haja<br \/>\no que houver, n\u00e3o os aturo nem mais um instante! Minha mulher que tenha paci\u00eancia,<br \/>\nmas em coisas que cheire a pol\u00edtica, nunca mais meterei o bedelho! Nada! hei<br \/>\nde ver-me livre daquele inferno e ainda me parecer\u00e1 um sonho!<\/p>\n<p>S\u00f3 \u00e0 noite conseguiu chegar ao lado de Filomena, j\u00e1 tarde e caindo de fome,<br \/>\nporque nesse dia nem lhe deram tempo para comer.<\/p>\n<p>Encontrou-a toda vergada sobre a secret\u00e1ria, a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os, os cabelos<br \/>\ndespenteados e soltos ao ombro.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, hem?!&#8230; Que me dizes tu \u00e0 brincadeira?.. exclamou ele, indo ter<br \/>\ncom a mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Pe\u00e7o-te que n\u00e3o me d\u00eas uma palavra a respeito da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica! respondeu<br \/>\nFilomena, erguendo-se muito triste<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E a partir dai deixou-se tomar de uma grande melancolia,<\/p>\n<p>Foi preciso chamar um m\u00e9dico logo ao amanhecer do dia seguinte. Filomena<br \/>\nsentia-se mal, vieram-lhe irrita\u00e7\u00f5es nervosas, derramamento de b\u00edlis, e depois<br \/>\nfebre, acompanhada de del\u00edrios.<\/p>\n<p>Assim levou tr\u00eas dias, sem obter melhoras de esp\u00e9cie alguma.<\/p>\n<p>Durante esse tempo, Borges penou e labutou mais do que em toda a sua trabalhosa<br \/>\nexist\u00eancia. Andava num torniquete incessante das secretarias para S. Crist\u00f3v\u00e3o,<br \/>\nde S. Crist\u00f3v\u00e3o para casa, arranjando a sua demiss\u00e3o e ao mesmo tempo servindo<br \/>\nde enfermeiro \u00e0 esposa.<\/p>\n<p>Uma dobadoura infernal! Faltava-lhe cabe\u00e7a para tanta coisa. J\u00e1 n\u00e3o podia<br \/>\nsuportar as perguntas que lhe faziam sobre os trabalhos do pa\u00e7o, fugia-lhe<br \/>\na paci\u00eancia, dava respostas atravessadas, queria brigar, esbordoar os que<br \/>\nlhe exigiam explica\u00e7\u00f5es, praguejava, insultava e pedia por amor de Deus que<br \/>\no despachassem quanto antes, que o pusessem na rua.<\/p>\n<p>Afinal, convencidos de que o pobre diabo sofria de dem\u00eancia e talvez tamb\u00e9m<br \/>\nporque j\u00e1 estivessem fartos de rir e de o aturar, deram-lhe com a demiss\u00e3o,<br \/>\ne ele, sem perda de tempo, correu para junto da enferma, disposto a n\u00e3o pensar<br \/>\nnoutra coisa que n\u00e3o fosse restituir-lhe a sa\u00fade, a for\u00e7a, a alegria, que<br \/>\neram igualmente a sua alegria e a sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>Chegou \u00e0 casa caindo de fadiga. A mulher estava t\u00e3o fraca, abatida, que n\u00e3o<br \/>\nparecia a mesma.<\/p>\n<p>Ele ajoelhou-se a seus p\u00e9s, tomou-lhe uma das m\u00e3os entre as suas e cobriu-a<br \/>\nde beijos.<\/p>\n<p>A doente agradeceu-lhe com um sorriso triste.<\/p>\n<p>&#8211; Como te sentes? &#8230; perguntou ele. Est\u00e1s melhorzinha, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p>Filomena respondeu que sim com a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Isso nada vale!&#8230; Diz o m\u00e9dico que ficar\u00e1s boa, logo que mudes de ar.<br \/>\nAgora mesmo venho de estar com ele; amanha tratarei da viagem.<\/p>\n<p>E, chegando-se mais para a esposa, principiou com multa ternura a dizer os<br \/>\nseus projetos:<\/p>\n<p>&#8211; Seguiriam juntos e mais o Urso para um lugar que escolhessem no campo.<br \/>\n&#8211; Paquet\u00e1, por exemplo, &#8220;Paquet\u00e1, que ele n\u00e3o via h\u00e1 quanto tempo!&#8230; e da<br \/>\nqual sentia tamanhas saudades!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! que bom! uma exist\u00eancia calma e despreocupada nessa querida ilha, onde<br \/>\nele nascera e passara os primeiros anos! Teriam a sua casinha, muito bem arranjada,<br \/>\nsempre multo limpa, muito bem ventilada; teriam o seu pomar, o seu jardim,<br \/>\nde que eles pr\u00f3prios se encarregariam para matar o tempo; teriam uma vaca<br \/>\nde leite, algumas cabras, carneiros, porcos, um pequeno tanque, onde os marrecos<br \/>\ne patos tomassem banho, muita cria\u00e7\u00e3o de galinhas e pombos, pombos a perder<br \/>\nde vista. A casa seria \u00e0 beira-mar, teriam o seu botezinho para a pesca e<br \/>\npara os passeios \u00e0 tarde pela costa ou at\u00e9 a ilhota de Brocoi\u00f3!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que gosto em ter a gente \u00e0 mesa as frutas que viu crescer no seu quintal!&#8230;<br \/>\ndizia o Borges comovido. Que prazer em passar os dias a cuidar do que \u00e9 seu,<br \/>\nconsertando, indireitando, plantando, regando, colhendo. Demais, ali n\u00e3o tens<br \/>\nque fazer etiquetas; podes andar por toda a ilha com o teu vestidinho de chita,<br \/>\no teu chap\u00e9u de palha, o cabelo \u00e0 vontade, que ningu\u00e9m repara nisso!<\/p>\n<p>E entusiasmando-se progressivamente com aquela expectativa de felicidade<br \/>\ntranq\u00fcila:<\/p>\n<p>&#8211; Isso que sentes agora nada vale&#8230; H\u00e1s de ver como ficas esperta logo que<br \/>\nestivermos em nossa casinha de Paquet\u00e1!&#8230; E que passeios n\u00e3o havemos de fazer<br \/>\nao ar livre, pela praia, nas manh\u00e3s de sol ou nas noites de luar!&#8230; Havemos<br \/>\nde ter pequenas reuni\u00f5es de amigos; tu tocar\u00e1s o teu piano, cantar\u00e1s, enquanto<br \/>\neu estiver cuidando da ch\u00e1cara!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! como havemos de ser felizes! como havemos de ser felizes! exclamava<br \/>\no bom homem, j\u00e1 transportado mentalmente \u00e0 sua terra, e sentindo-se em pleno<br \/>\ngozo daquela doce exist\u00eancia que ele tanto ambicionava.<\/p>\n<p>Filomena ouvia-o em sil\u00eancio, a olhar im\u00f3vel, a boca levemente arqueada pelo<br \/>\nesfor\u00e7o que ela fazia para sorrir \u00e0s palavras carinhosas do marido.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o fiques triste desse modo, que me matas&#8230; suplicava ele, com a<br \/>\nvoz tr\u00eamula e os olhos embaciados. &#8211; Espalha essas m\u00e1goas, que s\u00e3o a causa<br \/>\n\u00fanica de tua mol\u00e9stia, minha querida Filomena! Se n\u00e3o quiseres vir para a<br \/>\nro\u00e7a, como aconselhou o m\u00e9dico, se Paquet\u00e1 n\u00e3o te agrada, dize ent\u00e3o o que<br \/>\nte apetece, o que te serve&#8230; bem sabes que todo o meu empenho \u00e9 s\u00f3 fazer-te<br \/>\na vontade, \u00e9 s\u00f3 ver-te feliz e satisfeita, minha santa, minha querida mulherzinha!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meu amigo, n\u00e3o! Eu irei para onde quiseres; tenho obriga\u00e7\u00e3o de acompanhar-te&#8230;<br \/>\nrespondeu Filomena em voz baixa, fazendo esfor\u00e7os para conter as l\u00e1grimas.<\/p>\n<h2><a name=\"23\"><\/a>XXIII &#8211; PAQUET\u00c1<\/h2>\n<p>Borges n\u00e3o descansou mais um instante, sem ter arranjado o necess\u00e1rio para<br \/>\nabandonar a cidade.<\/p>\n<p>Obteve uma casa em Paquet\u00e1; comprou tudo que lhe pareceu mais ao gosto da<br \/>\nmulher, pois que esta se obstinava a guardar sil\u00eancio, e n\u00e3o se pronunciava<br \/>\npor coisa alguma, como se tudo lhe fosse indiferente.<\/p>\n<p>&#8211; Faze o que entenderes..- respondia ela, sem abrir os olhos. Quanto fizeres<br \/>\nser\u00e1 bem feito. Tudo me agradar\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o fiques desse modo!&#8230; pedia o esposo afagando-a.<\/p>\n<p>Ela sorria tristemente e n\u00e3o dava mais palavra.<\/p>\n<p>Partiram na manh\u00e3 seguinte para Paquet\u00e1.<\/p>\n<p>Havia um belo sol. Toda a natureza palpitava \u00e0s car\u00edcias da luz; um panorama<br \/>\nradiante desenrolava-se em torno da poltrona, onde Filomena se sumia entre<br \/>\ngrandes almofadas.<\/p>\n<p>Os horizontes iam fugindo e azulando; as \u00e1guas da ba\u00eda estendiam-se a perder<br \/>\nde vista, refletindo nas suas l\u00e2minas de prata as pequenas ilhas verdejantes<br \/>\nque surgiam de todos os lados. E a serra dos \u00f3rg\u00e3os aparecia ao longe, apunhalando<br \/>\no c\u00e9u com as suas pontas cor de a\u00e7o, enquanto as nebulosas cordilheiras derramavam-se-lhe<br \/>\naos p\u00e9s, formando grupos de nuvens paralisadas.<\/p>\n<p>Filomena, entretanto, parecia indiferente a esses mesmos esplendores que<br \/>\ndantes a arrebatavam.<\/p>\n<p>Embalde o marido fazia por cham\u00e1-la \u00e0s antigas impress\u00f5es; embalde procurava<br \/>\ndespertar-lhe na alma o extinto entusiasmo: &#8211; Filomena, muito abatida, os<br \/>\nolhos mortos, as m\u00e3os esquecidas sobre o rega\u00e7o, queixava-se ficar no seu<br \/>\nentorpecimento doentio.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o era a mesma Filomena de dois meses atr\u00e1s. Seu sorriso agora era triste<br \/>\ne cansado; sua cabecinha redonda e outrora esperta como a cabe\u00e7a de uma rola,<br \/>\nca\u00eda-lhe sobre o peito em uma prostra\u00e7\u00e3o de luto e viuvez.<\/p>\n<p>O resto da viagem correu f\u00fanebre.<\/p>\n<p>Ao chegarem \u00e0 casa, Filomena n\u00e3o se mostrou interessada por coisa alguma;<br \/>\nentrava ali como se entrasse para um hospital; a criada, que encontrou \u00e0s<br \/>\nsuas ordens, pareceu-lhe uma irm\u00e3 de caridade. Em v\u00e3o o marido pedia a sua<br \/>\nopini\u00e3o sobre o que tinha preparado para receb\u00ea-la ou sobre a beleza natural<br \/>\ndo lugar, a espl\u00eandida vista que se desfrutava deste ou daquele ponto.<\/p>\n<p>Filomena sacudia os ombros, sem uma palavra; o Urso em v\u00e3o lhe farejava os<br \/>\np\u00e9s, \u00e0 espera de uma car\u00edcia.<\/p>\n<p>Veio o almo\u00e7o. Borges, para chamar a mulher ao bom humor, lembrava tudo que<br \/>\nlhe parecia ter gra\u00e7a: e inventava anedotas, recorria a todos os meios de<br \/>\ndistra\u00ed-la, fazendo-se pilh\u00e9rico, fingindo-se alegre, procurando reconstruir<br \/>\nas mesmas fisionomias, os mesmos movimentos rid\u00edculos, com os quais ele, dantes,<br \/>\nsem querer, fazia-a rebentar de riso. &#8211; Engasgava-se com o vinho, tossia,<br \/>\nfingia-se parvo, imbecilizava-se propositadamente.<\/p>\n<p>Mas tudo era baldado. E o infeliz, sentindo acudirem-lhe as l\u00e1grimas, fugia,<br \/>\nabafando os solu\u00e7os com as m\u00e3os, para que a mulher os n\u00e3o percebesse.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E no entanto, a melancolia de Filomena avultava de instante a instante, como<br \/>\numa nuvem que se espalha no c\u00e9u. E tudo se foi tornando sombrio, carregado,<br \/>\ntrevoso, at\u00e9 que a \u00faltima r\u00e9stia de azul desapareceu totalmente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a. enferma deixou-se ficar de cama, sem querer ouvir falar de coisa<br \/>\nalguma desta vida, nem querer suportar outra companhia que n\u00e3o fosse a do<br \/>\nmarido.<\/p>\n<p>Ele, s\u00f3 andava na ponta dos p\u00e9s, s\u00f3 falando em segredo, tresnoitado, aflito,<br \/>\ncomo louco, servindo a um tempo de enfermeiro e de criado. N\u00e3o queria que<br \/>\nningu\u00e9m se aproximasse do quarto da mulher, com receio de incomod\u00e1-la. Ela<br \/>\nn\u00e3o podia ouvir a menor bulha; o mais leve som de passos eq\u00fcivalia marteladas<br \/>\nna cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>E o Borges, em meias, com pisadas de ladr\u00e3o, o ar sobressaltado, n\u00e3o ficava<br \/>\nquieto num lugar, andava por toda a casa, evitando o que pudesse contrariar<br \/>\na doente. E quando se punha ao lado dela, seguia-lhe os movimentos da p\u00e1lida<br \/>\nfisionomia, como um c\u00e3o ao lado do senhor, pronto a lan\u00e7ar-se de carreira<br \/>\npara a direita ou para a esquerda, conforme o decrete o olhar do dono.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 minha Filomena! minha querida companheira, dizia em segredo, sem poder<br \/>\ndistrair as l\u00e1grimas que lhe transbordavam dos olhos. &#8211; Que tens?&#8230; que sentes&#8230;<br \/>\nQue te falta? Dize! fala, minha vida! Pode ser que isso te fa\u00e7a bem!&#8230; Desabafa,<br \/>\nordena &#8211; eu sou o teu escravo, estou aqui para te obedecer! Vamos, por quem<br \/>\n\u00e9s! dize o que queres!&#8230;<\/p>\n<p>Filomena desviou o rosto vagarosamente, pedindo ao marido, com um gesto,<br \/>\nque se afastasse, e dois grossos fios luminosos principiaram a lhe correr<br \/>\npela nublada palidez do rosto. Depois, no fim de alguns minutos, como se ganhasse<br \/>\nal\u00edvio com aquele choro, fechou os olhos e adormeceu tranq\u00fcilamente. Borges,<br \/>\nencostado \u00e0 porta do quarto, vigiou todo esse sono, que durou mais de cinco<br \/>\nhoras.<\/p>\n<p>S\u00f3 se animou a entrar, quando a sentiu novamente acordada.<\/p>\n<p>Eram seis da tarde: de uma tarde melanc\u00f3lica de Julho.<\/p>\n<p>Ouvia-se grunhir l\u00e1 fora, o vento nos flabelados ramos das palmeiras, e o<br \/>\nmar estrebuxava em solu\u00e7os pela extens\u00e3o da costa.<\/p>\n<p>No aposento da enferma crescia o sil\u00eancio escuro das igrejas. Tudo era triste<br \/>\ne concentrado; ao longe, vozes de crian\u00e7as rezavam em coro a Ave-Maria.<\/p>\n<p>Borges parou defronte do leito da mulher.<\/p>\n<p>Viu-a toda branca, destacando-se do claro-escuro dos len\u00e7\u00f3is como uma figura<br \/>\nde cera. Mas a fisionomia dela repousava numa express\u00e3o de inef\u00e1vel do\u00e7ura.<\/p>\n<p>Aproximou-se lentamente, son\u00e2mbulo, e foi ajoelhar-se aos p\u00e9s daquela imagem<br \/>\nadorada; tomou-lhe uma das m\u00e3os, que pendia fora da cama.<\/p>\n<p>&#8211; Meu amigo, disse Filomena com dificuldade, derramando sobre o marido um<br \/>\nsuplicante olhar de extrema ternura, como se lhe quisesse pedir perd\u00e3o. &#8211;<br \/>\nMeu bom amigo, sinto que morro, e s\u00f3 me punge a id\u00e9ia do bem que n\u00e3o te fiz<br \/>\ne do muito que merecias!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 minha querida! n\u00e3o penses nessas coisas!&#8230; &#8211; Espalha essas id\u00e9ias de<br \/>\nmorte!&#8230;<\/p>\n<p>Filomena meneou a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! disse-lhe o marido, tomando-a nos bra\u00e7os. &#8211; Tu n\u00e3o morrer\u00e1s!<br \/>\nHavemos de viver ainda muito! &#8211; felizes! &#8211; eternamente unidos como dois pombos!<br \/>\nEu continuarei a ser o teu escravo, o teu amante, o teu fiel companheiro;<br \/>\ntudo aquilo que entenderes! Voltarei alegre para onde quiseres! Tornaremos<br \/>\n\u00e0 agita\u00e7\u00e3o da corte, \u00e0 febre das paix\u00f5es; principiarei de novo a minha vida!<br \/>\nSaltimbanco, touriste, superintendente, jornalista, homem c\u00e9lebre, serei tudo<br \/>\nde novo, contanto que tu vivas, meu amor, minha felicidade! Contanto que n\u00e3o<br \/>\nte deixes assassinar por essa tristeza, que te abafa a exist\u00eancia, \u00f3 minha<br \/>\nvida! \u00f3 minha doce esposa!<\/p>\n<p>E o Borges, tomado de um desespero febril, estorcia-se ao lado da cama, desfazendo-se<br \/>\nem l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigada! muito obrigada, meu generoso e honrado amigo! De tal modo te<br \/>\nhabituaste \u00e0s minhas quimeras e \u00e0 minha loucura, que n\u00e3o podes acreditar que<br \/>\neu tenha um momento l\u00facido antes de morrer.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o! n\u00e3o penses em morrer, minha querida!<\/p>\n<p>Filomena, em resposta passou os bra\u00e7os em volta do pesco\u00e7o do marido e repousou<br \/>\na cabe\u00e7a no colo dele.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 tu \u00e9s bom!&#8230; dizia arquejando &#8211; s\u00f3 tu mereces todas as b\u00ean\u00e7\u00e3os do c\u00e9u!&#8230;<br \/>\nComo eu te adoro e como eu te amo, meu&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de acabar. E, depois de uma breve afli\u00e7\u00e3o, retesou as pernas e os bra\u00e7os,<br \/>\nexalando, num estremecimento geral, o \u00faltimo suspiro.<\/p>\n<p>&#8211; Filomena! Filomena! bradou o esposo, sem a largar das m\u00e3os, mas afastando-a<br \/>\nrapidamente a toda a dist\u00e2ncia dos bra\u00e7os e encarando-a desvairado e s\u00f4frego:<br \/>\n&#8211; Fala! fala! Dize por amor de Deus que n\u00e3o est\u00e1s morta!<\/p>\n<p>Ela, por\u00e9m, em vez de responder, deixou pender a cabe\u00e7a para um dos lados<br \/>\ne, assim, ficou na sua imobilidade de cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Borges ainda a encarou em sil\u00eancio, arquejante. Depois, sacudiu-a toda, com<br \/>\nimpaci\u00eancia; chegou repetidas vezes ao seu rosto esfogueado o l\u00e1bio frio da<br \/>\nmorta, para ver se lhe descobria um \u00faltimo sopro de vida. E, afinal, soltando<br \/>\num bramido formid\u00e1vel, repeliu-a de s\u00fabito e atirou-se ao ch\u00e3o, a espolinhar-se,<br \/>\na rolar por todo o quarto, entre gargalhadas de louco.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Entretanto, l\u00e1 fora continuava o surdo marulhar das vagas; zumbia ainda o<br \/>\nvento nos palmares; e as crian\u00e7as, no seu coro de arcanjos, pediam \u00e0 Virgem<br \/>\nSant\u00edssima que as amparasse neste vale de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Dias depois, no modesto cemit\u00e9rio de Paquet\u00e1, \u00e0 sombra de um velho cajueiro,<br \/>\nvia-se uma pobre sepultura, em cuja l\u00e1pide dois nomes se entrela\u00e7avam com<br \/>\no mesmo apelido. E defronte, est\u00e1tico e silencioso, como uma esfinge de m\u00e1rmore<br \/>\nnegro, um enorme c\u00e3o velho e tr\u00f4pego, fitava-a, deitado, sobre a relva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I &#8211; FLORES DE LARANJEIRA II &#8211; O FERROLHO III &#8211; COME\u00c7AM AS PROVA\u00c7\u00d5ES IV &#8211; VEREMOS QUEM VENCE V &#8211; LUTA ABERTA VI &#8211; PRIMEIRA DESILUS\u00c3O VII &#8211; O RAPTO VIII &#8211; ENFIM &nbsp; IX &#8211; V\u00d4OS ALTOS X &#8211; DE VOLTA A P\u00c1TRIA XI [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92098","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Filomena Borges - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra Filomena Borges - Alu\u00edsio de Azevedo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Filomena Borges - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Romance, D. 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