{"id":92093,"date":"2017-01-03T10:19:00","date_gmt":"2017-01-03T12:19:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92093"},"modified":"2018-05-03T15:56:53","modified_gmt":"2018-05-03T17:56:53","slug":"demonios-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/demonios-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"Dem\u00f4nios &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><script async src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\"><\/script><br \/>\n<!-- ads_responsivo --><br \/>\n<ins class=\"adsbygoogle\"\n     style=\"display:block\"\n     data-ad-client=\"ca-pub-7159766377354473\"\n     data-ad-slot=\"3162710741\"\n     data-ad-format=\"auto\"><\/ins><br \/>\n<script>\n(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n<\/script><\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong>I<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#2\">II<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#3\">III <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#4\">IV<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#5\">V<\/a><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#6\"><strong>VI <\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#7\">VII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#8\">VIII<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><a href=\"#9\">IX <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#10\">X<\/a><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#11\"><strong>XI <\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#12\">XII<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O meu quarto de rapaz solteiro era bem no alto; um mirante isolado, por cima<br \/>\ndo terceiro andar de uma grande e sombria casa de pens\u00e3o da rua do<br \/>\nRiachuelo com uma larga varanda de duas portas, aberta contra o nascente,<br \/>\ne meia d\u00fazia de janelas desafrontadas, que davam para os outros pontos,<br \/>\ndominando os telhados da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Um pobre quarto, mas uma vista espl\u00eandida! Da varanda, em que eu tinha<br \/>\nas minhas queridas violetas, as minhas beg\u00f4nias e os meus tinhor\u00f5es,<br \/>\n\u00fanicos companheiros animados daquele meu isolamento e daquela minha<br \/>\ntriste vida de escritor, descortinava-se amplamente, nas encantadoras nuan\u00e7as<br \/>\nda perspectiva, uma grande parte da cidade, que se estendia por ali a fora,<br \/>\ncom a sua pitoresca acumula\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores e telhados,<br \/>\npalmeiras e chamin\u00e9s, torres de igreja e perfis de montanhas tortuosas,<br \/>\ndonde o sol atrav\u00e9s da atmosfera, tirava, nos seus sonhos dourados,<br \/>\nos mais belos efeitos de luz. Os morros, mais perto, mais longe, erguiam-se<br \/>\nalegres e verdejantes, ponteados de casinhas brancas, e l\u00e1 se iam desdobrando,<br \/>\na fazer-se cada vez mais azuis e vaporosos, at\u00e9 que se perdiam de todo,<br \/>\nmuito al\u00e9m, nos segredos do horizonte, confundidos com as nuvens, numa<br \/>\ns\u00f3 colora\u00e7\u00e3o de tintas ideais e castas.<\/p>\n<p>Meu prazer era trabalhar a\u00ed, de manh\u00e3 bem cedo, depois do<br \/>\ncaf\u00e9, olhando tudo aquilo pelas janelas abertas defronte da minha velha<br \/>\ne singela mesa de carvalho, bebendo pelos olhos a alma dessa natureza inocente<br \/>\ne namoradora, que me sorria, sem fatigar-me jamais o esp\u00edrito, com<br \/>\na sua gra\u00e7a ing\u00eanua e com sua virgindade sensual.<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m me viesse falar em quadros e estatuetas; n\u00e3o! queria<br \/>\nas paredes nuas, totalmente nuas, e os m\u00f3veis sem adornos, porque a<br \/>\narte me parecia mesquinha e banal em confronto com aquela fascinadora realidade,<br \/>\nt\u00e3o simples, t\u00e3o despretensiosa, mas t\u00e3o rica e t\u00e3o<br \/>\ncompleta.<\/p>\n<p>O \u00fanico desenho que eu conservava \u00e0 vista, pendurado \u00e0<br \/>\ncabeceira da cama, era um retrato de Laura, minha noiva prometida, e esse<br \/>\nfeito por mim mesmo, a pastel, representando-a com a roupa de andar em casa,<br \/>\no pesco\u00e7o nu e o cabelo preso ao alto da cabe\u00e7a por um la\u00e7o<br \/>\nde fita cor-de-rosa.<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I<\/h2>\n<p>Quase nunca trabalhava \u00e0 noite; \u00e0s vezes, por\u00e9m, quando<br \/>\nme sucedia acordar fora de horas, sem vontade de continuar a dormir, ia para<br \/>\na mesa e esperava lendo ou escrevendo que amanhecesse.<\/p>\n<p>Uma ocasi\u00e3o acordei assim, mas sem consci\u00eancia de nada, como<br \/>\nse viesse de um desses longos sonos de doente a decidir; desses profundos<br \/>\ne silenciosos, em que n\u00e3o h\u00e1 sonhos, e dos quais, ou se desperta<br \/>\nvitorioso para entrar em ampla convalescen\u00e7a, ou se sai apenas um instante<br \/>\npara mergulhar logo nesse outro sono, ainda mais profundo, donde nunca mais<br \/>\nse volta.<\/p>\n<p>Olhei em torno de mim, admirado do longo espa\u00e7o que me separava da<br \/>\nvida e, logo que me senti mais senhor das minhas faculdades, estranhei n\u00e3o<br \/>\nperceber o dia atrav\u00e9s das cortinas do quarto, c n\u00e3o ouvir,<br \/>\ncomo de costume, pipilarem as cambachirras defronte das janelas por cima dos<br \/>\ntelhados.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que naturalmente ainda n\u00e3o amanheceu. Tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\ndeve tardar muito&#8230; calculei, saltando da cama e enfiando o roup\u00e3o<br \/>\nde banho, disposto a esperar sua alteza o sol, assentado \u00e0 varanda<br \/>\na fumar um cigarro.<\/p>\n<p>Entretanto, cousa singular! parecia-me ter dormido em demasia; ter dormido<br \/>\nmuito mais da minha conta habitual. Sentia-me estranhamente farto de sono;<br \/>\ntinha a impress\u00e3o lassa de quem passou da sua hora de acordar e foi<br \/>\nentrando, a dormir pelo dia e pela tarde, como s\u00f3 nos acontece depois<br \/>\nde uma grande extenua\u00e7\u00e3o nervosa ou tendo anteriormente perdido<br \/>\nmuitas noites seguidas.<\/p>\n<p>Ora, comigo n\u00e3o havia raz\u00e3o para semelhante cousa, porque,<br \/>\njustamente naqueles \u00faltimos tempos, desde que estava noivo, recolhia-me<br \/>\nsempre cedo e cedo me deitava. Ainda na v\u00e9spera, lembro-me bem, depois<br \/>\ndo jantar sa\u00edra apenas a dar um pequeno passeio, fizera \u00e0 fam\u00edlia<br \/>\nde Laura a minha visita de todos os dias, e \u00e0s dez horas j\u00e1<br \/>\nestava de volta, estendido na cama, com um livro aberto sobre o peito, a bocejar.<br \/>\nN\u00e3o passariam de onze e meia quando peguei no sono.<\/p>\n<p>Sim! n\u00e3o havia d\u00favida que era bem singular n\u00e3o ter<br \/>\namanhecido!&#8230; pensei, indo abrir uma das janelas da varanda.<\/p>\n<p>Qual n\u00e3o foi, por\u00e9m, a minha decep\u00e7\u00e3o quando,<br \/>\ninterrogando o nascente, dei com ele ainda completamente fechado e negro,<br \/>\ne, abaixando o olhar, vi a cidade afogada em trevas e sucumbida no mais profundo<br \/>\nsil\u00eancio! &#8211; Oh! Era singular, muito singular! No c\u00e9u as estrelas<br \/>\npareciam amortecidas, de um bruxulear difuso e p\u00e1lido; nas ruas os<br \/>\n1ampi\u00f5es mal se acusavam por longas retic\u00eancias de uma luz deslavada<br \/>\ne triste. Nenhum oper\u00e1rio passava para o trabalho; n\u00e3o se ouvia<br \/>\no cantarolar de um \u00e9brio, o rodar de um carro, nem o ladrar de um c\u00e3o.<\/p>\n<p>Singular! muito singular! Acendi a veia e corri ao meu rel\u00f3gio de<br \/>\nalgibeira. Marcava meia-noite. Levei-o ao ouvido, com avidez de quem consulta<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o de um moribundo; j\u00e1 n\u00e3o pulsava: tinha<br \/>\nesgotado toda a corda. Fi-lo come\u00e7ar a trabalhar de novo, mas as suas<br \/>\npulsa\u00e7\u00f5es eram t\u00e3o fracas, que s\u00f3 com extrema<br \/>\ndificuldade conseguia eu distingui-las.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 singular! muito singular! repetia, calculando que, se o rel\u00f3gio<br \/>\nesgotara toda a corda, era porque eu ent\u00e3o havia dormido muito mais<br \/>\nainda do que supunha! eu ent\u00e3o atravessara um dia inteiro sem acordar<br \/>\ne entrara do mesmo modo pela noite seguinte.<\/p>\n<p>Mas, afinal que horas seriam?&#8230;<\/p>\n<p>Tornei \u00e0 varanda, para consultar de novo aquela estranha noite, em<br \/>\nque as estrelas desmaiavam antes de chegar a aurora. E a noite nada me respondeu,<br \/>\nfechada no seu ego\u00edsmo surdo e tenebroso.<\/p>\n<p>Que horas seriam?&#8230; Se eu ouvisse algum rel\u00f3gio da vizinhan\u00e7a!&#8230;<br \/>\nOuvir?&#8230; Mas se em torno de mim tudo parecia entorpecido e morto?&#8230;<\/p>\n<p>E veio-me a d\u00favida de que eu tivesse perdido a faculdade de ouvir<br \/>\ndurante aquele maldito sono de tantas horas; fulminado por esta id\u00e9ia,<br \/>\nprecipitei-me sobre o t\u00edmpano da mesa e vibrei-o com toda a for\u00e7a.<\/p>\n<p>O som fez-se, por\u00e9m, abafado e lento, como se lutasse com grande<br \/>\nresist\u00eancia para vencer o peso do ar.<\/p>\n<p>E s\u00f3 ent\u00e3o notei que a luz da vela, \u00e0 semelhan\u00e7a<br \/>\ndo som do t\u00edmpano, tamb\u00e9m n\u00e3o era intensa e clara como<br \/>\nde ordin\u00e1rio e parecia oprimida por uma atmosfera de catacumba.<\/p>\n<p>Que significaria isto?&#8230; que estranho cataclismo abalaria o mundo?&#8230; que<br \/>\nteria acontecido de t\u00e3o transcendente durante aquela minha aus\u00eancia<br \/>\nda vida, para que eu, \u00e0 volta, viesse encontrar o som e a luz, as duas<br \/>\nexpress\u00f5es mais impressionadoras do mundo f\u00edsico, assim tr\u00f4pegas<br \/>\ne assim vacilantes, nem que toda a natureza envelhecesse maravilhosamente<br \/>\nenquanto eu tinha os olhos fechados e o c\u00e9rebro em repouso?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ilus\u00e3o minha, com certeza! que louca \u00e9s tu, minha pobre<br \/>\nfantasia! Daqui a nada estar\u00e1 amanhecendo, e todos estes teus caprichos,<br \/>\nteus ou da noite, essa outra doida, desaparecer\u00e3o aos primeiros raios<br \/>\ndo sol. O melhor \u00e9 trabalharmos! Sinto-me at\u00e9 bem disposto para<br \/>\nescrever! trabalhemos, que daqui a pouco tudo reviver\u00e1 como nos outros<br \/>\ndias! de novo os vales e as montanhas se far\u00e3o esmeraldinas e alegres;<br \/>\ne o c\u00e9u transbordar\u00e1 da sua refulgente concha de turquesa a<br \/>\nopul\u00eancia das cores e das luzes; e de novo ondular\u00e1 no espa\u00e7o<br \/>\na m\u00fasica dos ventos; e as aves acordar\u00e3o as rosas dos campos<br \/>\ncom os seus melodiosos duetos de amor! Trabalhemos! Trabalhemos! Acendi mais<br \/>\nduas velas, porque s\u00f3 com a primeira quase que me era imposs\u00edvel<br \/>\nenxergar; arranjei-me ao lavat\u00f3rio; fiz uma x\u00edcara de caf\u00e9<br \/>\nbem forte, tomei-a, e fui para a mesa de trabalho.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II<\/h2>\n<p>Da\u00ed a um instante, vergado defronte do tinteiro, com o cigarro fumegando<br \/>\nentre os dedos, n\u00e3o pensava absolutamente em mais nada, sen\u00e3o<br \/>\nno que o bico da minha pena ia desfiando caprichoso do meu c\u00e9rebro<br \/>\npara lan\u00e7ar, linha a linha, sobre o papel.<\/p>\n<p>Estava de veia, com efeito! As primeiras folhas encheram-se logo. Minha<br \/>\nm\u00e3o, a princ\u00edpio lenta, come\u00e7ou, pouco a pouco, a fazer-se<br \/>\nnervosa, a n\u00e3o querer parar, e afinal abriu a correr, a correr, cada<br \/>\nvez mais depressa; disparando por fim \u00e0s cegas, como um cavalo que<br \/>\nse esquenta e se inflama na vertigem do galope. Depois, tal febre de concep\u00e7\u00e3o<br \/>\nse apoderou de mim, que perdi a consci\u00eancia de tudo e deixei-me arrebatar<br \/>\npor ela, arquejante e sem f\u00f4lego, num v\u00f4o febril, num arranco<br \/>\nviolento, que me levava de rastros pelo ideal aos trope\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom as minhas doidas fantasias de poeta.<\/p>\n<p>E p\u00e1ginas e p\u00e1ginas se sucederam. E as id\u00e9ias, que<br \/>\nnem um bando de dem\u00f4nios, vinham-me em borbot\u00e3o, devorando-se<br \/>\numas \u00e0s outras, num del\u00edrio de chegar primeiro; e as frases<br \/>\ne as imagens acudiam-me como rel\u00e2mpagos, fuzilando, j\u00e1 prontas<br \/>\ne armadas da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. E eu, sem tempo de molhar a pena,<br \/>\nnem tempo de desviar os olhos do campo da peleja, ia arremessando para tr\u00e1s<br \/>\nde mim, uma ap\u00f3s outra, as tiras escritas, suando, arfando, sucumbindo<br \/>\nnas garras daquele feroz inimigo que me aniquilava.<\/p>\n<p>E lutei! e lutei! e lutei! De repente acordo desta vertigem, como se voltasse<br \/>\nde um pesadelo estonteado, com o sobressalto de quem, por uma briga de momento,<br \/>\nse esquece do grande perigo que o espera.<\/p>\n<p>Dei um salto da cadeira; varri inquieto o olhar em derredor. Ao lado da<br \/>\nminha mesa havia um monte de folhas de papel cobertas de tinta; as velas bruxuleavam<br \/>\na extinguir-se e o meu cinzeiro estava pejado de pontas de cigarro.<\/p>\n<p>Oh! muitas horas deviam ter decorrido durante essa minha aus\u00eancia,<br \/>\nna qual o sono agora n\u00e3o fora c\u00famplice. Parecia-me imposs\u00edvel<br \/>\nhaver trabalhado tanto, sem dar o menor acordo do que se passava em torno<br \/>\nde mim.<\/p>\n<p>Corri \u00e0 janela.<\/p>\n<p>Meu Deus! o nascente continuava fechado e negro; a cidade deserta e muda.<br \/>\nAs estrelas tinham empalidecido ainda mais, e as luzes dos lampi\u00f5es<br \/>\ntranspareciam apenas, atrav\u00e9s da espessura da noite, como sinistros<br \/>\nolhos que me piscavam da treva.<\/p>\n<p>Meu Deus! meu Deus, que teria acontecido?!&#8230;<\/p>\n<p>Acendi novas velas, e notei que as suas chamas eram mais l\u00edvidas<br \/>\nque o fogo-f\u00e1tuo das sepulturas. Conchei a m\u00e3o contra o ouvido<br \/>\ne fiquei longo tempo a esperar inutilmente que do profundo e gelado sil\u00eancio<br \/>\nl\u00e1 de fora me viesse um sinal de vida.<\/p>\n<p>Nada! Nada! Fui \u00e0 varanda; apalpei as minhas queridas plantas; estavam<br \/>\nfanadas, e as suas tristes folhas pendiam molemente para fora dos vasos, como<br \/>\nembambecidos membros de um cad\u00e1ver ainda quente. Debrucei-me sobre<br \/>\nas minhas estremecidas violetas e procurei respirar-lhes a alma embalsamada.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o tinham perfume! At\u00f4nito e ansioso volvi os olhos<br \/>\npara o espa\u00e7o. As estrelas, j\u00e1 sem contornos, derramavam-se<br \/>\nna tinta negra do c\u00e9u, como indecisas n\u00f3doas luminosas que fugiam<br \/>\nlentamente.<\/p>\n<p>Meu Deus! meu Deus, que iria acontecer ainda? Voltei ao quarto e consultei<br \/>\no rel\u00f3gio. Marcava dez horas.<\/p>\n<p>Oh! Pois j\u00e1 dez horas se tinham passado depois que eu abrira os olhos?&#8230;<br \/>\nPor que ent\u00e3o n\u00e3o amanhecera em todo esse tempo!&#8230; Teria eu<br \/>\nenlouquecido?&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 tr\u00eamulo, apanhei do ch\u00e3o as folhas de papel, uma<br \/>\npor uma; eram muitas, muitas! E por melhor esfor\u00e7o que fizesse, n\u00e3o<br \/>\nconseguia lembrar-me do que eu pr\u00f3prio nelas escrevera.<\/p>\n<p>Apalpei as fontes; latejavam. Passei as m\u00e3os pelos olhos, depois<br \/>\nconsultei o cora\u00e7\u00e3o; batia forte.<\/p>\n<p>E s\u00f3 ent\u00e3o notei que estava com muita fome e estava com muita<br \/>\nsede.<\/p>\n<p>Tomei a bilha d&#8217;\u00e1gua e esgotei-a de uma assentada. Assanhou-se-me<br \/>\na fome.<\/p>\n<p>Abri todas as janelas do quarto, em seguida a porta, e chamei pelo criado.<br \/>\nMas a minha voz, apesar do esfor\u00e7o que fiz para gritar, sa\u00eda<br \/>\nfrouxa e abafada, quase indistingu\u00edvel.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m me respondeu, nem mesmo o eco.<\/p>\n<p>Meu Deus! Meu Deus! E um violento calefrio percorreu-me o corpo. Principiei<br \/>\na ter medo de tudo; principiei a n\u00e3o querer saber o que se tinha passado<br \/>\nem torno de mim durante aquele maldito sono trai\u00e7oeiro; desejei n\u00e3o<br \/>\npensar, n\u00e3o sentir, n\u00e3o ter consci\u00eancia de nada. O meu<br \/>\nc\u00e9rebro, todavia, continuava a trabalhar com a precis\u00e3o do meu<br \/>\nrel\u00f3gio, que ia desfiando os segundos inalteravelmente, enchendo minutos<br \/>\ne formando horas.<\/p>\n<p>E o c\u00e9u era cada vez mais negro, e as estrelas cada vez mais apagadas,<br \/>\ncomo derradeiros e tristes lampejos de uma pobre natureza que morre! Meu Deus!<br \/>\nmeu Deus! o que seria? Enchi-me de coragem; tomei uma das velas e, com mil<br \/>\nprecau\u00e7\u00f5es para impedir que ela se apagasse, desci o primeiro<br \/>\nlance de escadas.<\/p>\n<p>A casa tinha muitos c\u00f4modos e poucos desocupados. Eu conhecia quase<br \/>\ntodos os h\u00f3spedes.<\/p>\n<p>No segundo andar morava um m\u00e9dico; resolvi bater de prefer\u00eancia<br \/>\n\u00e0 porta dele.<\/p>\n<p>Fui e bati; mas ningu\u00e9m me respondeu.<\/p>\n<p>Bati mais forte. Ainda nada.<\/p>\n<p>Bati ent\u00e3o desesperadamente, com as m\u00e3os e com os p\u00e9s.<br \/>\nA porta tremia, abalava, mas nem o eco respondia.<\/p>\n<p>Meti ombros contra ela e arrombei-a. O mesmo sil\u00eancio. Espichei o<br \/>\npesco\u00e7o, espiei l\u00e1 para dentro. Nada consegui ver; a luz da<br \/>\nminha vela iluminava menos que a brasa de um cigarro.<\/p>\n<p>Esperei um instante.<\/p>\n<p>Ainda nada.<\/p>\n<p>Entrei.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>III<\/h2>\n<p>O m\u00e9dico estava estendido na sua cama, embrulhado no len\u00e7ol.<br \/>\nTinha contra\u00edda a boca e os olhos meio abertos.<\/p>\n<p>Chamei-o; segurei-lhe o bra\u00e7o com viol\u00eancia e recuei aterrado,<br \/>\nporque lhe senti o corpo r\u00edgido e frio. Aproximei, tr\u00eamulo, a<br \/>\nminha vela contra o seu rosto im\u00f3vel; ele n\u00e3o abriu os olhos;<br \/>\nn\u00e3o fez o menor gesto. E na palidez das faces notei-lhe as manchas<br \/>\nesverdeadas de carne que vai entrar em decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E o meu terror cresceu. E apoderou-se de mim o medo do incompreens\u00edvel;<br \/>\no medo do que se n\u00e3o explica; o medo do que se n\u00e3o acredita.<br \/>\nE sa\u00ed do quarto querendo pedir socorro, sem conseguir ter voz para<br \/>\ngritar e apenas resbunando uns vagidos guturais de agonizante.<\/p>\n<p>E corri aos outros quartos, e j\u00e1 sem bater fui arrombando as portas<br \/>\nque encontrei fechadas. A luz da minha vela, cada vez mais l\u00edvida,<br \/>\nparecia, como eu, tiritar de medo.<\/p>\n<p>Oh! que terr\u00edvel momento! que terr\u00edvel momento! Era como se<br \/>\nem torno de mim o Nada insond\u00e1vel e tenebroso escancarasse, para devorar-me,<br \/>\na sua enorme boca viscosa e s\u00f4frega.<\/p>\n<p>Por todas aquelas camas, que eu percorria como um louco, s\u00f3 tateava<br \/>\ncorpos enregelados e hirtos.<\/p>\n<p>N\u00e3o encontrava ningu\u00e9m com vida; ningu\u00e9m! Era a morte<br \/>\ngeral! a morte completa! uma trag\u00e9dia silenciosa e terr\u00edvel,<br \/>\ncom um \u00fanico espectador, que era eu. Em cada quarto havia um cad\u00e1ver<br \/>\npelo menos! Vi m\u00e3es apertando contra o seio sem vida os filhinhos mortos;<br \/>\nvi casais abra\u00e7ados, dormindo aquele derradeiro sono, enleados ainda<br \/>\npelo \u00faltimo del\u00edrio de seus amores; vi brancas figuras de mulher<br \/>\nestateladas no ch\u00e3o descompostas na impud\u00eancia da morte; estudantes<br \/>\ncor de cera debru\u00e7ados sobre a mesa de estudo, os bra\u00e7os dobrados<br \/>\nsobre o comp\u00eandio aberto, defronte da l\u00e2mpada para sempre extinta.<br \/>\nE tudo frio, e tudo im\u00f3vel, como se aquelas vidas fossem de improviso<br \/>\napagadas pelo mesmo sopro; ou como se a terra, sentindo de repente uma grande<br \/>\nfome, enlouquecesse para devorar de uma s\u00f3 vez todos os seus filhos.<\/p>\n<p>Percorri os outros andares da casa: Sempre o mesmo abomin\u00e1vel espet\u00e1culo!<br \/>\nN\u00e3o havia mais ningu\u00e9m! n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m!<br \/>\nTinham todos desertado em massa! E por qu\u00ea? E para onde tinham fugido<br \/>\naquelas almas, num s\u00f3 v\u00f4o, arribadas como um bando de aves forasteiras?&#8230;<\/p>\n<p>Estranha greve! Mas por que n\u00e3o me chamaram, a mim tamb\u00e9m,<br \/>\nantes de partir?&#8230; Por que me abandonaram sozinho entre aquele pavoroso despojo<br \/>\nnauseabundo?&#8230;<\/p>\n<p>Que teria sido, meu Deus? que teria sido tudo aquilo?&#8230; Por que toda aquela<br \/>\ngente fugia em segredo, silenciosamente, sem a extrema despedida dos moribundos<br \/>\nsem os gritos de agonia?&#8230; E eu, execr\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o!<br \/>\npor que continuava a existir, acotovelando os mortos e fechado com eles dentro<br \/>\nda mesma catacumba?&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma id\u00e9ia fuzilou r\u00e1pida no meu esp\u00edrito,<br \/>\npondo-me no cora\u00e7\u00e3o um sobressalto horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Lembrei-me de Laura. Naquele momento estaria ela, como os outros, tamb\u00e9m,<br \/>\ninanimada e g\u00e9lida; ou, triste retardat\u00e1ria! ficaria a minha<br \/>\nespera, impaciente por desferir o misterioso v\u00f4o?&#8230;<\/p>\n<p>Em todo o caso era para l\u00e1, para junto dessa adorada e virginal criatura,<br \/>\nque eu devia ir sem perda de tempo; junto dela, viva ou morta, \u00e9 que<br \/>\neu devia esperar a minha vez de mergulhar tamb\u00e9m no tenebroso p\u00e9lago!<br \/>\nMorta?! Mas por que morta?&#8230; se eu vivia era bem poss\u00edvel que ela<br \/>\ntamb\u00e9m vivesse ainda!&#8230;<\/p>\n<p>E que me importava o resto, que me importavam os outros todos, contanto<br \/>\nque eu a tivesse viva e palpitante nos meus bra\u00e7os?!&#8230;<\/p>\n<p>Meu Deus! e se n\u00f3s fic\u00e1ssemos os dois sozinhos na terra, sem<br \/>\nmais ningu\u00e9m, ningu\u00e9m?&#8230; Se nos v\u00edssemos a s\u00f3s,<br \/>\nela e eu, estreitados um contra o outro, num eterno ego\u00edsmo paradis\u00edaco,<br \/>\nassistindo recome\u00e7ar a cria\u00e7\u00e3o em torno do nosso isolamento?&#8230;<br \/>\nassistindo, ao som dos nossos beijos de amor, formar-se de novo o mundo, brotar<br \/>\nde novo a vida, acordando toda a natureza, estrela por estrela, asa por asa,<br \/>\np\u00e9tala por p\u00e9tala?&#8230;<\/p>\n<p>Sim! sim! Era preciso correr para junto dela! IV Mas a fome torturava-me<br \/>\ncada vez mais f\u00faria. Era imposs\u00edvel levar mais tempo sem comer.<\/p>\n<p>Antes de socorrer o cora\u00e7\u00e3o era preciso socorrer o est\u00f4mago.<\/p>\n<p>A fome! O amor! Mas, como todos os outros morriam em volta de mim e eu pensava<br \/>\nem amor e eu tinha fome!&#8230; A fome, que \u00e9 a voz mais poderosa do instinto<br \/>\nda conserva\u00e7\u00e3o pessoal, como o amor \u00e9 a voz do instinto<br \/>\nda conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie! A fome e o amor, que s\u00e3o<br \/>\na garantia da vida; os dois inalter\u00e1veis p\u00f3los do eixo em que<br \/>\nh\u00e1 milh\u00f5es de s\u00e9culos gira misteriosamente o mundo org\u00e2nico!<br \/>\nE, no entanto, n\u00e3o podia deixar de comer antes de mais nada. Quantas<br \/>\nhoras teriam decorrido depois da minha \u00faltima refei\u00e7\u00e3o?&#8230;<br \/>\nN\u00e3o sabia; n\u00e3o conseguia calcular sequer. O meu rel\u00f3gio,<br \/>\nagora in\u00fatil, marcava estupidamente doze horas. Doze horas de qu\u00ea?&#8230;.<br \/>\nDoze horas!&#8230; Que significaria esta palavra?&#8230;<\/p>\n<p>Arremessei o rel\u00f3gio para longe de mim, despeda\u00e7ando-o contra<br \/>\na parede.<\/p>\n<p>\u00d3 meu Deus! se continuasse para sempre aquela incompreens\u00edvel<br \/>\nnoite, como poderia eu saber os dias que se passavam?&#8230; Como poderia marcar<br \/>\nas semanas e os meses?&#8230; O tempo \u00e9 o sol; se o sol nunca mais voltasse,<br \/>\no tempo deixaria de existir! E eu me senti perdido num grande Nada indefinido,<br \/>\nvago, sem fundo e sem contornos.<\/p>\n<p>Meu Deus! meu Deus! quando terminaria aquele supl\u00edcio? Desci ao andar<br \/>\nt\u00e9rreo da casa, apressando-me agora para aproveitar a mesquinha luz<br \/>\nda vela que, pouco a pouco, me abandonava tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Oh! s\u00f3 a id\u00e9ia de que era aquela a derradeira luz que me restava!&#8230;<br \/>\nA id\u00e9ia da escurid\u00e3o completa que seria depois, fazia-me gelar<br \/>\no sangue. Trevas e mortos, que horror! Penetrei na sala de jantar. \u00c0<br \/>\nporta tropecei no cad\u00e1ver de um c\u00e3o; passei adiante. O criado<br \/>\njazia estendido junto \u00e0 mesa, espumando pela boca e pelas ventas; n\u00e3o<br \/>\nfiz caso. Do fundo dos quartos vinha j\u00e1 um bafo enjoativo de putrefa\u00e7\u00e3o<br \/>\nainda recente.<\/p>\n<p>Arrombei o arm\u00e1rio, apoderei-me da comida que l\u00e1 havia e devorei-a<br \/>\ncomo um animal, sem procurar talher. Depois bebi, sem copo, uma garrafa de<br \/>\nvinho. E, logo que senti o est\u00f4mago reconfortado, e, logo que o vinho<br \/>\nme alegrou o corpo, foi-se-me enfraquecendo a id\u00e9ia de morrer com os<br \/>\noutros e foi-me nascendo a esperan\u00e7a de encontrar vivos l\u00e1 fora,<br \/>\nna rua. Mal era que a luz da vela minguara tanto que agora brilhava menos<br \/>\nque um pirilampo. Tentei acender outras. V\u00e3o esfor\u00e7o! a luz<br \/>\nia deixar de existir.<\/p>\n<p>E, antes que ela me fugisse para sempre, comecei a encher as algibeiras<br \/>\ncom o que sobrou da minha fome.<\/p>\n<p>Era tempo! era tempo! porque a miser\u00e1vel chama, depois de espregui\u00e7ar-se<br \/>\num instante, foi-se contraindo, a tremer, a tremer, bruxuleando, at\u00e9<br \/>\nsumir-se de todo, como o extremo lampejo do olhar de um moribundo.<\/p>\n<p>E fez-se ent\u00e3o a mais completa, a mais cerrada escurid\u00e3o que<br \/>\n\u00e9 poss\u00edvel conceber. Era a treva absoluta; treva de morte; treva<br \/>\nde caos; treva que s\u00f3 compreende quem tiver os olhos arrancados e as<br \/>\n\u00f3rbitas entupidas de terra.<\/p>\n<p>Foi terr\u00edvel o meu abalo, fiquei espavorido, como se ela me apanhasse<br \/>\nde surpresa. Inchou-seme por dentro o cora\u00e7\u00e3o, sufocando-me<br \/>\na garganta; gelou-se-me a medula e secou-se-me a l\u00edngua. Senti-me como<br \/>\nentalado ainda vivo no fundo de um t\u00famulo estreito; senti desabar sobre<br \/>\nminha pobre alma, com todo o seu peso de maldi\u00e7\u00e3o, aquela imensa<br \/>\nnoite negra e devoradora.<\/p>\n<p>Im\u00f3vel, arquejei por algum tempo nesta agonia. Depois estendi os<br \/>\nbra\u00e7os e, arrastando os p\u00e9s, procurei tirar-me dali \u00e0s<br \/>\napalpadelas.<\/p>\n<p>Atravessei o longo corredor, esbarrando em tudo, como um cego sem guia,<br \/>\ne conduzi-me lentamente at\u00e9 ao port\u00e3o de entrada.<\/p>\n<p>Sa\u00ed.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, na rua, o meu primeiro impulso foi olhar para o espa\u00e7o;<br \/>\nestava t\u00e3o negro e t\u00e3o mudo como a terra. A luz dos lampi\u00f5es<br \/>\napagara-se de todo e no c\u00e9u j\u00e1 n\u00e3o havia o mais t\u00eanue<br \/>\nvest\u00edgio de uma estrela.<\/p>\n<p>Treva! Treva e s\u00f3 treva! Mas eu conhecia muito bem o caminho da casa<br \/>\nde minha noiva, e havia de l\u00e1 chegar, custasse o que custasse! Dispus-me<br \/>\na partir, tateando o ch\u00e3o com os p\u00e9s sem despregar das paredes<br \/>\nas minhas duas m\u00e3os abertas na altura do rosto.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>IV<\/h2>\n<p>Passo a passo, venci at\u00e9 \u00e0 primeira esquina. Esbarrei com<br \/>\num cad\u00e1ver encostado \u00e0s grades de um jardim; apalpei-o, era<br \/>\num pol\u00edcia. N\u00e3o me detive; segui adiante, dobrando para a rua<br \/>\ntransversal.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava a sentir frio. Uma densa umidade sa\u00eda da terra, tornando<br \/>\naquela maldita noite ainda mais dolorosa. Mas n\u00e3o desanimei, prossegui<br \/>\npacientemente, medindo o meu caminho, palmo a palmo, e procurando reconhecer<br \/>\npelo tato o lugar em que me achava.<\/p>\n<p>E seguia, seguia lentamente.<\/p>\n<p>J\u00e1 me n\u00e3o abalavam os cad\u00e1veres com que eu topava pelas<br \/>\ncal\u00e7adas. Todo o meu sentido se me concentrava nas m\u00e3os; a minha<br \/>\n\u00fanica preocupa\u00e7&amp;atatilde;o era me n\u00e3o desorientar e perder<br \/>\nna viagem.<\/p>\n<p>E l\u00e1 ia, l\u00e1 ia, arrastando-me de porta em porta, de casa em<br \/>\ncasa, de rua em rua, com a silenciosa resigna\u00e7\u00e3o dos cegos desamparados.<\/p>\n<p>De vez em quando, era preciso deter-me um instante, para respirar mais \u00e0<br \/>\nvontade. Do\u00edam-me os bra\u00e7os de os ter continuamente erguidos.<br \/>\nSecava-se-me a boca. Um enorme cansa\u00e7o invadia-me o corpo inteiro.<br \/>\nH\u00e1 quanto tempo durava j\u00e1 esta tortura? n\u00e3o sei; apenas<br \/>\nsentia claramente que pelas paredes, o bolor principiava a formar altas camadas<br \/>\nde uma vegeta\u00e7\u00e3o aquosa, e que meus p\u00e9s se encharcavam<br \/>\ncada vez mais no lodo que o solo ressumbrava.<\/p>\n<p>Veio-me ent\u00e3o o receio de que eu, da\u00ed a pouco, n\u00e3o<br \/>\npudesse reconhecer o caminho e n\u00e3o lograsse por conseguinte chegar<br \/>\nao meu destino. Era preciso, pois, n\u00e3o perder um segundo; n\u00e3o<br \/>\ndar tempo ao bolor e \u00e0 lama de esconderem de todo o ch\u00e3o e as<br \/>\nparedes.<\/p>\n<p>E procurei, numa afli\u00e7\u00e3o, aligeirar o passo, a despeito da<br \/>\nfadiga que me acabrunhava. Mas, ah! era imposs\u00edvel conseguir mais do<br \/>\nque arrastar-me penosamente, como um verme ferido.<\/p>\n<p>E o meu desespero crescia com a minha impot\u00eancia e com o meu sobressalto.<\/p>\n<p>Mis\u00e9ria! Agora j\u00e1 me custava at\u00e9 distinguir o que meus<br \/>\ndedos tateavam, porque o frio os tornara dormentes e sem tato. Mas arrastava-me,<br \/>\narquejante, sequioso, coberto de suor, sem f\u00f4lego; mas arrastava-me.<\/p>\n<p>Arrastava-me.<\/p>\n<p>Afinal uma alegria agitou-me o cora\u00e7\u00e3o: minhas m\u00e3os<br \/>\nacabavam de reconhecer as grades do jardim de Laura. Reanimou-me a alma. Mais<br \/>\nalguns passos somente, e estaria \u00e0 sua porta! Fiz um extremo esfor\u00e7o<br \/>\ne rastejei at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>Enfim! E deixei-me cair prostrado, naquele mesmo patamar, que eu, dantes,<br \/>\ntantas vezes atravessara ligeiro e alegre, com o peito a estalar-me de felicidade.<\/p>\n<p>A casa estava aberta. Procurei o primeiro degrau da escada e a\u00ed ca\u00ed<br \/>\nde rojo, sem for\u00e7as ainda para galg\u00e1-la.<\/p>\n<p>E resfoleguei, com a cabe\u00e7a pendida, os bra\u00e7os abandonados<br \/>\nao descanso, as pernas entorpecidas pela umidade. E, todavia, ai de mim! as<br \/>\nminhas esperan\u00e7as feneciam ao frio sopro de morte que vinha l\u00e1<br \/>\nde dentro.<\/p>\n<p>Nem um rumor! Nem o mais leve murm\u00fario! Nem o mais ligeiro sinal<br \/>\nde vida! Terr\u00edvel desilus\u00e3o aquele sil\u00eancio pressagiava!<br \/>\nAs l\u00e1grimas come\u00e7aram a correr-me pelo rosto tamb\u00e9m silenciosas.<\/p>\n<p>Descansei longo tempo! depois ergui-me e pus-me a subir a escada, lentamente,<br \/>\nlentamente.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a> V<\/h2>\n<p>Ah! Quantas recorda\u00e7\u00f5es aquela escada me trazia!&#8230; Era a\u00ed,<br \/>\nnos seus \u00faltimos degraus, junto \u00e0s grades de madeira polida<br \/>\nque eu, todos os dias, ao despedir-me de Laura, trocava com esta o silencioso<br \/>\njuramento do nosso olhar. Foi a\u00ed que eu pela primeira vez lhe beijei<br \/>\na sua formosa e pequenina m\u00e3o de brasileira.<\/p>\n<p>Estaquei, todo vergado l\u00e1 para dentro, escutando.<\/p>\n<p>Nada! Entrei na sala de visitas, vagarosamente, abrindo caminho com os bra\u00e7os<br \/>\nabertos, como se nadasse na escurid\u00e3o. Reconheci os primeiros objetos<br \/>\nem que tropecei; reconheci o velho piano em que ela costumava tocar as suas<br \/>\npe\u00e7as favoritas; reconheci as estantes, pejadas de partituras, em que<br \/>\nnossas m\u00e3os muitas vezes se encontraram, procurando a mesma m\u00fasica;<br \/>\ne depois, avan\u00e7ando alguns passos de son\u00e2mbulo, dei com a poltrona,<br \/>\na mesma poltrona em que ela, reclinada, de olhos baixos e chorosos ouviu corando<br \/>\no meu protesto de amor, quando, tamb\u00e9m pela primeira vez, me animei<br \/>\na confessar-lho.<\/p>\n<p>Oh! como tudo isso agora me acabrunhava de saudade!&#8230; Conhecemo-nos havia<br \/>\ncousa de cinco anos; Laura ent\u00e3o era ainda quase uma crian\u00e7a<br \/>\ne eu ainda n\u00e3o era bem um homem.<\/p>\n<p>Vimo-nos um domingo, pela manh\u00e3, ao sairmos da missa. Eu ia ao lado<br \/>\nde minha m\u00e3e, que nesse tempo ainda existia e&#8230;<\/p>\n<p>Mas, para que reviver semelhantes recorda\u00e7\u00f5es?&#8230; Acaso tinha<br \/>\neu o direito de pensar em amor?&#8230; Pensar em amor, quando em torno de mim<br \/>\no mundo inteiro se transformava em lodo?&#8230;<\/p>\n<p>Esbarrei contra uma mesinha redonda, tateei-a, achei sobre ela, entre outras<br \/>\ncousas, uma bilha d&#8217;\u00e1gua; bebi sequiosamente. Em seguida procurei achar<br \/>\na porta, que comunicava com o interior da casa; mas vacilei. Tremiam-me as<br \/>\npernas e arquejava-me o peito.<\/p>\n<p>Oh! J\u00e1 n\u00e3o podia haver o menor vislumbre de esperan\u00e7a!<br \/>\nAquele canto sagrado e tranq\u00fcilo, aquela habita\u00e7\u00e3o da honestidade<br \/>\ne do pudor, tamb\u00e9m tinham sido varridos pelo implac\u00e1vel sopro!<br \/>\nMas era preciso decidir-me a entrar. Quis chamar por algu\u00e9m; n\u00e3o<br \/>\nconsegui articular mais do que o murm\u00fario de um segredo indistingu\u00edvel.<\/p>\n<p>Fiz-me forte; avancei \u00e0s apalpadelas. Encontrei uma porta; abri-a.<br \/>\nPenetrei numa saleta; n\u00e3o encontrei ningu\u00e9m. Caminhei para diante;<br \/>\nentrei na primeira alcova, tateei o primeiro cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Pelas barbas reconheci logo o pai de Laura. Estava deitado no seu leito;<br \/>\ntinha a boca \u00famida e viscosa.<\/p>\n<p>Limpei as m\u00e3os \u00e0 roupa e continuei a minha tenebrosa revista.<\/p>\n<p>No quarto imediato a m\u00e3e de minha noiva jazia ajoelhada defronte<br \/>\ndo seu orat\u00f3rio; ainda com as m\u00e3os postas, mas o rosto j\u00e1<br \/>\npendido para a terra. Corri-lhe os dedos pela cabe\u00e7a; ela desabou para<br \/>\no lado, dura como uma est\u00e1tua. A queda n\u00e3o produziu ru\u00eddo.<\/p>\n<p>Continuei a andar.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>VI<\/h2>\n<p>O quarto que se seguia era o de Laura; sabia-o perfeitamente. O cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nagitou-se-me sobressaltado; mas fui caminhando sempre com os bra\u00e7os<br \/>\nestendidos e a respira\u00e7\u00e3o convulsa.<\/p>\n<p>Nunca houvera ousado penetrar naquela casta alcova de donzela, e um respeito<br \/>\nprofundo imobilizou-me junto \u00e0 porta, como se me pesasse profanar com<br \/>\na minha presen\u00e7a t\u00e3o puro e religioso asilo do pudor. Era, por\u00e9m,<br \/>\nindispens\u00e1vel que eu me convencesse de que Laura tamb\u00e9m me havia<br \/>\nabandonado como os outros; que me convencesse de que ela consentira que a<br \/>\nsua alma, que era s\u00f3 minha, partisse com as outras almas desertoras;<br \/>\nque eu disso me convencesse, para ent\u00e3o cair ali mesmo a seus p\u00e9s,<br \/>\nfulminado, amaldi\u00e7oando a Deus e \u00e0 sua loucura! E havia de ser<br \/>\nassim! Havia de ser assim, porque antes, mil vezes antes, morto com ela do<br \/>\nque vivo sem a possuir! Entrei no quarto. Apalpei as trevas. N\u00e3o havia<br \/>\nsequer o rumor da asa de uma mosca. Adianteime.<\/p>\n<p>Achei uma estreita cama, castamente velada por ligeiro cortinado de cambraia.<br \/>\nAfastei-o e, continuando a tatear, encontrei um corpo, mimoso e franzino todo<br \/>\nfechado num roup\u00e3o de flanela. Reconheci aqueles formosos cabelos cetinosos:<br \/>\nreconheci aquela carne delicada e virgem; aquela pequenina m\u00e3o, e tamb\u00e9m<br \/>\nreconheci a alian\u00e7a, que eu mesmo lhe colocara num dos dedos.<\/p>\n<p>Mas oh! Laura, a minha estremecida Laura, estava t\u00e3o fria e t\u00e3o<br \/>\ninanimada como os outros! E um fluxo de solu\u00e7os, abafados e sem eco,<br \/>\nsaiu-me do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ajoelhei-me junto \u00e0 cama e, tal como fizera com as minhas violetas,<br \/>\ndebrucei-me sobre aquele pudibundo rosto j\u00e1 sem vida, para respirar-lhe<br \/>\no b\u00e1lsamo da alma. Longo tempo meus l\u00e1bios, que as l\u00e1grimas<br \/>\nensopavam, \u00e0queles frios l\u00e1bios se colaram, no mais sentido,<br \/>\nno mais terno e profundo beijo que se deu sobre a terra.<\/p>\n<p>&#8211; Laura! balbuciei tremente. \u00d3 minha Laura! Pois ser\u00e1 poss\u00edvel<br \/>\nque tu, pobre e querida flor, casta companheira das minhas esperan\u00e7as!<br \/>\nser\u00e1 poss\u00edvel que tu tamb\u00e9m me abandonasses&#8230;<\/p>\n<p>sem uma palavra ao menos&#8230; indiferente e alheia como os outros?&#8230; Para<br \/>\nonde t\u00e3o longe e t\u00e3o precipitadamente te partiste, doce amiga,<br \/>\nque do nosso m\u00edsero amor nem a mais ligeira lembran\u00e7a me deixaste?&#8230;<\/p>\n<p>E cingindo-a nos meus bra\u00e7os, tomei-a contra o peito, a solu\u00e7ar<br \/>\nde dor e de saudade.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; n\u00e3o! disse-lhe sem voz. N\u00e3o me separarei de<br \/>\nti, ador\u00e1vel despojo! N\u00e3o te deixarei aqui sozinha, minha Laura!<br \/>\nViva, eras tu que me conduzias \u00e0s mais altas regi\u00f5es do ideal<br \/>\ne do amor; viva, eras tu que davas asas ao meu esp\u00edrito, energia ao<br \/>\nmeu cora\u00e7\u00e3o e garras ao meu talento! Eras tu, luz de minha alma,<br \/>\nque me fazias ambicionar futuro, gl\u00f3ria, imortalidade! Morta, h\u00e1s<br \/>\nde arrastar-me contigo ao insond\u00e1vel p\u00e9lago do Nada! Sim! Desceremos<br \/>\nao abismo, os dois, abra\u00e7ados, eternamente unidos, e l\u00e1 ficaremos<br \/>\npara sempre, como duas ra\u00edzes mortas, entretecidas e petrificadas no<br \/>\nfundo da terra! E, em v\u00e3o tentando falar assim, chamei-a de todo contra<br \/>\nmeu corpo, entre solu\u00e7os, osculandolhe os cabelos.<\/p>\n<p>\u00d3 meu Deus! Estaria sonhando?&#8230; Dir-se-ia que a sua cabe\u00e7a<br \/>\nlevemente se movera para melhor repousar sobre meu ombro!&#8230; N\u00e3o seria<br \/>\nilus\u00e3o do meu pr\u00f3prio amor despeda\u00e7ado?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Laura! tentei dizer, mas a voz n\u00e3o me passava da garganta.<\/p>\n<p>E colei de novo os meus l\u00e1bios contra os l\u00e1bios dela.<\/p>\n<p>&#8211; Laura! Laura! Oh! Agora sentira perfeitamente. Sim! sim! n\u00e3o me<br \/>\nenganava! Ela vivia! Ela vivia ainda, meu Deus! VI E comecei a bater-lhe na<br \/>\npalma das m\u00e3os, a soprar-lhe os olhos, a agitar-lhe o corpo entre meus<br \/>\nbra\u00e7os, procurando cham\u00e1-la \u00e0 vida.<\/p>\n<p>E n\u00e3o haver uma luz! E eu n\u00e3o poder articular palavra! E n\u00e3o<br \/>\ndispor de recurso algum para lhe poupar ao menos o sobressalto que a esperava<br \/>\nquando recuperasse os sentidos! Que ansiedade! Que terr\u00edvel tormento!<br \/>\nE, com ela recolhida ao colo, assim prostrada e muda, continuei a murmurar-lhe<br \/>\nao ouvido as palavras mais doces que toda a minha ternura conseguia descobrir<br \/>\nnos segredos do meu pobre amor.<\/p>\n<p>Ela come\u00e7ou a reanimar-se; seu corpo foi a pouco e pouco recuperando<br \/>\no calor perdido.<\/p>\n<p>Seus l\u00e1bios entreabriram-se j\u00e1, respirando de leve.<\/p>\n<p>&#8211; Laura! Laura! Afinal senti as suas pestanas ro\u00e7arem-me na face.<br \/>\nEla abria os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Laura! N\u00e3o me respondeu de nenhum modo, nem tampouco se mostrou<br \/>\nsobressaltada com a minha presen\u00e7a. Parecia son\u00e2mbula, indiferente<br \/>\n\u00e0 escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Laura! minha Laura! Aproximei os l\u00e1bios de seus l\u00e1bios ainda<br \/>\nfrios, e senti um murm\u00fario suave e medroso exprimir o meu nome.<\/p>\n<p>Oh! ningu\u00e9m, ningu\u00e9m pode calcular a como\u00e7\u00e3o<br \/>\nque se apossou de mim! Todo aquele tenebroso inferno por um instante se alegrou<br \/>\ne sorriu.<\/p>\n<p>E, nesse transporte de todo o meu ser, n\u00e3o entrava, todavia, o menor<br \/>\ncontingente dos sentidos.<\/p>\n<p>Nesse momento todo eu pertencia a um delicioso estado m\u00edstico, alheio<br \/>\ncompletamente \u00e0 vida animal. Era como se me transportasse para outro<br \/>\nmundo, reduzido a uma ess\u00eancia ideal e indissol\u00favel, feita de<br \/>\namor e bem-aventuran\u00e7a. Compreendi ent\u00e3o esse v\u00f4o et\u00e9reo<br \/>\nde duas almas aladas na mesma f\u00e9, deslizando juntas pelo espa\u00e7o<br \/>\nem busca do para\u00edso. Senti a terra mesquinha para n\u00f3s, t\u00e3o<br \/>\ngrandes e t\u00e3o alevantados no nosso sentimento. Compreendi a divinal<br \/>\ne suprema vol\u00fapia do noivado de dois esp\u00edritos que se unem para<br \/>\nsempre.<\/p>\n<p>&#8211; Minha Laura! Minha Laura! Ela passou-me os bra\u00e7os em volta do pesco\u00e7o<br \/>\ne tr\u00eamula uniu sua boca \u00e0 minha, para dizer que tinha sede.<\/p>\n<p>Lembrei-me da bilha d&#8217;\u00e1gua. Ergui-me e fui, \u00e0s apalpadelas<br \/>\nbusc\u00e1-la onde estava.<\/p>\n<p>Depois de beber, Laura perguntou-me se a luz e o som nunca mais voltariam.<br \/>\nRespondi vagamente, sem compreender como podia ser que ela se n\u00e3o assustava<br \/>\nnaquelas trevas e n\u00e3o me repelia do seu leito de donzela.<\/p>\n<p>Era bem estranho o nosso modo de conversar. N\u00e3o fal\u00e1vamos,<br \/>\napenas mov\u00edamos com os l\u00e1bios. Havia um mist\u00e9rio de sugest\u00e3o<br \/>\nno com\u00e9rcio das nossas id\u00e9ias; tanto que, para nos entendermos<br \/>\nmelhor, precis\u00e1vamos \u00e0s vezes unir as cabe\u00e7as, fronte<br \/>\ncom fronte.<\/p>\n<p>E semelhante processo de dialogar em sil\u00eancio fatigava-nos, a ambos,<br \/>\nem extremo. Eu sentia distintamente, com a testa colada \u00e0 testa de<br \/>\nLaura, o esfor\u00e7o que ela fazia para compreender bem o meu pensamento.<\/p>\n<p>E interrogamos um ao outro, ao mesmo tempo, o que seria ent\u00e3o de<br \/>\nn\u00f3s, perdidos e abandonados no meio daquele tenebroso campo de mortos?<br \/>\nComo poder\u00edamos sobreviver a todos os nossos semelhantes?&#8230;<\/p>\n<p>Emudecemos por longo espa\u00e7o, de m\u00e3os dadas e com as frontes<br \/>\nunidas.<\/p>\n<p>Resolvemos morrer juntos.<\/p>\n<p>Sim! Era tudo que nos restava! Mas, de que modo realizar esse intento?&#8230;<br \/>\nQue morte descobrir\u00edamos capaz de arrebatar-nos aos dois de uma s\u00f3<br \/>\nvez?&#8230;<\/p>\n<p>Calamo-nos de novo, ajustando melhor as frontes cada qual mais absorto pela<br \/>\nmesma preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela, por fim lembrou o mar. Sair\u00edamos juntos \u00e0 procura dele,<br \/>\ne abra\u00e7ados perecer\u00edamos no fundo das \u00e1guas. Ajoelhou-se<br \/>\ne rezou, pedindo a Deus por toda aquela humanidade que partira antes de n\u00f3s;<br \/>\ndepois ergueu-se, passou-me o bra\u00e7o na cintura, e come\u00e7amos<br \/>\njuntos a tatear a escurid\u00e3o, dispostos a cumprir o nosso derradeiro<br \/>\nvoto.<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>VII<\/h2>\n<p>L\u00e1 fora a umidade crescia, liq\u00fcefazendo a crosta da terra. O<br \/>\nch\u00e3o tinha j\u00e1 uma sorvedora acumula\u00e7\u00e3o de lodo,<br \/>\nem que o p\u00e9 se atolava. As ruas estreitavam-se entre duas florestas<br \/>\nde bolor que nasciam de cada lado das paredes.<\/p>\n<p>Laura e eu, presos um ao outro pela cintura, arriscamos os primeiros passos<br \/>\ne pusemo-nos a andar com extrema dificuldade, procurando a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo mar, tristes e mudos, como os dois enxotados do Para\u00edso.<\/p>\n<p>Pouco a pouco foi-nos ganhando uma profunda indiferen\u00e7a por toda<br \/>\naquela lama, em cujo ventre, n\u00f3s, pobres vermes penosamente nos mov\u00edamos.<br \/>\nE deixamos que os nossos esp\u00edritos, desarmados da faculdade de falar,<br \/>\nse procurassem e se entendessem por conta pr\u00f3pria, num misterioso id\u00edlio<br \/>\nem que as nossas almas se estreitavam e se confundiam.<\/p>\n<p>Agora, j\u00e1 n\u00e3o nos era preciso unir as frontes ou os l\u00e1bios<br \/>\npara trocar id\u00e9ias e pensamentos.<\/p>\n<p>Nossos c\u00e9rebros travavam entre si cont\u00ednuo e silencioso di\u00e1logo,<br \/>\nque em parte nos ado\u00e7ava as penas daquela triste viagem para a Morte;<br \/>\nenquanto os nossos corpos esquecidos, iam maquinalmente prosseguindo, passo<br \/>\na passo, por entre o limo pegajoso e \u00famido.<\/p>\n<p>Lembrei-me das provis\u00f5es que trazia na algibeira; ofereci-lhas; Laura<br \/>\nrecusou-as, afirmando que n\u00e3o tinha fome.<\/p>\n<p>Deparei ent\u00e3o que eu tamb\u00e9m n\u00e3o sentia agora a menor<br \/>\nvontade de comer e, o que era mais singular, n\u00e3o sentia frio.<\/p>\n<p>E continuamos a nossa peregrina\u00e7\u00e3o e o nosso di\u00e1logo.<br \/>\nEla, de vez em quando, repousava a cabe\u00e7a no meu ombro, e par\u00e1vamos<br \/>\npara descansar.<\/p>\n<p>Mas o lodo crescia, e o bolor condensava-se de um lado e de outro lado,<br \/>\nmal nos deixando uma estreita vereda por onde, no entanto, prossegu\u00edamos<br \/>\nsempre, arrastando-nos abra\u00e7ados.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o tate\u00e1vamos o caminho, nem era preciso, porque<br \/>\nn\u00e3o havia que recear o menor choque.<\/p>\n<p>Por entre a densa vegeta\u00e7\u00e3o do mofo, nasciam agora da direita<br \/>\ne da esquerda, almofadando a nossa passagem, enormes cogumelos e fung\u00f5es,<br \/>\npenugentos e veludados, contra os quais escorreg\u00e1vamos como por sobre<br \/>\narminhos podres.<\/p>\n<p>\u00c0quela absoluta aus\u00eancia do sol e do calor, formavam-se e cresciam<br \/>\nesses monstros da treva, disformes seres \u00famidos e moles; tortulhos<br \/>\ngigantescos cujas polpas esponjosas, como imensos tub\u00e9rculos de t\u00edsico,<br \/>\nnossos bra\u00e7os n\u00e3o podiam abarcar. Era horr\u00edvel senti-los<br \/>\ncrescer assim fantasticamente, inchando ao lado e defronte uns dos outros<br \/>\ncomo se toda a atividade molecular e toda a for\u00e7a agregativa e at\u00f4mica<br \/>\nque povoava a terra, os c\u00e9us e as \u00e1guas, viessem concentrar-se<br \/>\nneles, para neles resumir a vida inteira. Era horr\u00edvel, para n\u00f3s,<br \/>\nque nada mais ouv\u00edamos, senti-los inspirar e respirar, como animais,<br \/>\nsorvendo gulosamente o oxig\u00eanio daquela infind\u00e1vel noite.<\/p>\n<p>Ai! desgra\u00e7ados de n\u00f3s, minha querida Laura! De tudo que vivia<br \/>\n\u00e0 luz do sol s\u00f3 eles persistiam; s\u00f3 eles e n\u00f3s<br \/>\ndois, tristes privilegiados naquela fria e tenebrosa desorganiza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo mundo! Meu Deus! Era como se nesse nojento viveiro, borbulhante do lodo<br \/>\ne da treva, viera refugiar-se a grande alma do Mal, depois de repelida por<br \/>\ntodos os infernos.<\/p>\n<p>Respiramos um momento sem trocar uma id\u00e9ia; depois, resignados, continuamos<br \/>\na caminhar para diante, presos \u00e0 cintura um do outro, como dois m\u00edseros<br \/>\ncriminosos condenados a viver eternamente.<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>VIII<\/h2>\n<p>Era-nos j\u00e1 de todo imposs\u00edvel reconhecer o lugar por onde and\u00e1vamos,<br \/>\nnem calcular o tempo que havia decorrido depois que est\u00e1vamos juntos.<br \/>\n\u00c0s vezes se nos afigurava que muitos e muitos anos nos separavam do<br \/>\n\u00faltimo sol; outras vezes nos parecia a ambos que aquelas trevas tinham-se<br \/>\nfechado em torno de n\u00f3s apenas alguns momentos antes.<\/p>\n<p>O que sent\u00edamos bem claro era que os nossos p\u00e9s cada vez mais<br \/>\nse entranhavam no lodo, e que toda aquela umidade grossa, da lama e do ar<br \/>\nespesso, j\u00e1 nos n\u00e3o repugnava como a princ\u00edpio e dava-nos<br \/>\nagora, ao contr\u00e1rio, certa satisfa\u00e7\u00e3o volutuosa embeber-nos<br \/>\nnela, como se por todos os nossos poros a sorv\u00eassemos para nos alimentar.<\/p>\n<p>Os sapatos foram-se-nos a pouco e pouco desfazendo, at\u00e9 nos abandonarem<br \/>\ndescal\u00e7os completamente; e as nossas vestimentas reduziram-se a farrapos<br \/>\nimundos. Laura estremeceu de pudor com a id\u00e9ia de que em breve estaria<br \/>\ntotalmente despida e descomposta; soltou os cabelos para se abrigar com eles<br \/>\ne pediu-me que apress\u00e1ssemos a viagem, a ver se alcan\u00e7\u00e1vamos<br \/>\no mar, antes que as roupas a deixassem de todo. Depois calou-se por muito<br \/>\ntempo.<\/p>\n<p>Comecei a notar que os pensamentos dela iam progressivamente rareando, tal<br \/>\nqual sucedia ali\u00e1s comigo mesmo.<\/p>\n<p>Minha mem\u00f3ria embotava-se. Afinal, j\u00e1 n\u00e3o era s\u00f3<br \/>\na palavra falada que nos fugia; era tamb\u00e9m a palavra concebida. As<br \/>\nluzes da nossa intelig\u00eancia desmaiavam lentamente, como no c\u00e9u<br \/>\nas tr\u00eamulas estrelas que pouco a pouco se apagaram para sempre. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o v\u00edamos; j\u00e1 n\u00e3o fal\u00e1vamos; \u00edamos<br \/>\ntamb\u00e9m deixar de pensar.<\/p>\n<p>Meu Deus! era a treva que nos invadia! Era a treva, bem o sent\u00edamos!<br \/>\nque come\u00e7ava, gota a gota, a cair dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p>S\u00f3 uma id\u00e9ia, uma s\u00f3, nos restava por fim: descobrir<br \/>\no mar, para pedir-lhe o termo daquela horr\u00edvel agonia. Laura passou-me<br \/>\nos bra\u00e7os em volta do pesco\u00e7o, suplicando-me com o seu derradeiro<br \/>\npensamento que eu n\u00e3o a deixasse viver por muito tempo ainda.<\/p>\n<p>E avan\u00e7amos com maior coragem, na esperan\u00e7a de morrer.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>IX<\/h2>\n<p>Mas, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que O nosso esp\u00edrito por tal<br \/>\nestranho modo se neutralizava, fortalecia-se-nos o corpo maravilhosamente,<br \/>\na refazer-se de seiva no meio nutritivo e fertilizante daquela decomposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeral. Sent\u00edamos perfeitamente o misterioso trabalho de reviscera\u00e7\u00e3o<br \/>\nque se travava dentro de n\u00f3s; sent\u00edamos o sangue enriquecer<br \/>\nde flu\u00eddos vitais e ativar-se nos nossos vasos, circulando vertiginosamente<br \/>\na martelar por todo o corpo. Nosso organismo transformavase num laborat\u00f3rio,<br \/>\nrevolucionado por uma chusma de dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>E nossos m\u00fasculos robusteceram-se por encanto, e os nossos membros<br \/>\navultaram num cont\u00ednuo desenvolvimento. E sentimos crescer os ossos,<br \/>\ne sentimos a medula pulular engrossando e aumentando dentro deles. E sentimos<br \/>\nas nossas m\u00e3os e os nossos p\u00e9s tornarem-se fortes, como os de<br \/>\num gigante; e as nossas pernas encorparem, mais consistentes e mais \u00e1geis;<br \/>\ne os nossos bra\u00e7os se estenderem maci\u00e7os e poderosos.<\/p>\n<p>E todo o nosso sistema muscular se desenvolveu de s\u00fabito, em preju\u00edzo<br \/>\ndo sistema nervoso que se amesquinhava progressivamente. Fizemo-nos herc\u00faleos,<br \/>\nde uma pujan\u00e7a de animais ferozes, sentindo-nos capazes cada qual de<br \/>\nafrontar imp\u00e1vidos todos os elementos do globo e todas as lutas pela<br \/>\nvida f\u00edsica.<\/p>\n<p>Depois de apalpar-me surpreso, tateei o pesco\u00e7o, o tronco e os quadris<br \/>\nde Laura. Parecia-me ter debaixo das minhas m\u00e3os de gigante a est\u00e1tua<br \/>\ncolossal de uma deusa pag\u00e3. Seus peitos eram fecundos e opulentos;<br \/>\nsuas ilhargas cheias e grossas como as de um animal bravio.<\/p>\n<p>E assim refeitos pusemo-nos a andar familiarmente naquele lodo, como se<br \/>\nf\u00f4ramos criados nele. Tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o pod\u00edamos<br \/>\nficar um instante no mesmo lugar, inativos; uma irresist\u00edvel necessidade<br \/>\nde exerc\u00edcio arrastava-nos, a despeito da nossa vontade, agora fraca<br \/>\ne mal segura.<\/p>\n<p>E, quanto mais se nos embrutecia o c\u00e9rebro, tanto mais os nossos<br \/>\nmembros reclamavam atividade e a\u00e7\u00e3o; sent\u00edamos gosto<br \/>\nem correr, correr muito, cabriolando por ali a fora, e sent\u00edamos \u00edmpetos<br \/>\nde lutar, de vencer, de dominar algu\u00e9m com a nossa for\u00e7a.<\/p>\n<p>Laura atirava-se contra mim, numa car\u00edcia selvagem e plet\u00f3rica,<br \/>\napanhando-me a boca com os seus l\u00e1bios fortes de mulher irracional<br \/>\ne estreitando-se comigo sensualmente, a morder-me os ombros e os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>E l\u00e1 \u00edamos insepar\u00e1veis naquela nossa nova maneira<br \/>\nde existir, sem mem\u00f3ria de outra vida, amando-nos com toda a for\u00e7a<br \/>\ndos nossos impulsos; para sempre esquecidos um no outro, como os dois \u00faltimos<br \/>\nparasitas do cad\u00e1ver de um mundo.<\/p>\n<p>Certa vez, de surpresa, nossos olhos tiveram a alegria de ver.<\/p>\n<p>Uma enorme e difusa claridade fosforescente estendia-se defronte de n\u00f3s,<br \/>\na perder de vista. Era o mar.<\/p>\n<p>Estava morto e quieto.<\/p>\n<p>Um triste mar, sem ondas e sem solu\u00e7os, chumbado \u00e0 terra na<br \/>\nsua profunda imobilidade de orgulhoso monstro abatido.<\/p>\n<p>Fazia d\u00f3 v\u00ea-lo assim, concentrado e mudo, saudoso das estrelas,<br \/>\nvi\u00favo do luar. Sua grande alma branca, de antigo lutador, parecia debru\u00e7ar-se<br \/>\nainda sobre o resfriado cad\u00e1ver daquelas \u00e1guas silenciosas chorando<br \/>\nas extintas noites, claras e felizes, em que elas, como um bando de n\u00e1iades<br \/>\nalegres, vinham aos saltos, tontas de alegria, quebrar na praia as suas risadas<br \/>\nde prata.<\/p>\n<p>Pobre mar! Pobre atleta! Nada mais lhe restava agora sobre o pl\u00fambeo<br \/>\ndorso fosforescente do que tristes esqueletos dos \u00faltimos navios, ali<br \/>\nfincados, espetrais e negros, como in\u00fateis e partidas cruzes de um<br \/>\nvelho cemit\u00e9rio abandonado.<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>X<\/h2>\n<p>Aproximamo-nos daquele pobre oceano morto. Tentei invadi-lo, mas meus p\u00e9s<br \/>\nn\u00e3o acharam que distinguir entre sua fosforescente gelatina e a lama<br \/>\nnegra da terra, tudo era igualmente lodo.<\/p>\n<p>Laura conservava-se im\u00f3vel como que aterrada defronte do imenso cad\u00e1ver<br \/>\nluminoso. Agora, assim contra a embaciada l\u00e2mina das \u00e1guas, nossos<br \/>\nperfis se destacavam t\u00e3o bem, como, ao longe, se destacavam as ru\u00ednas<br \/>\ndos navios. J\u00e1 nos n\u00e3o record\u00e1vamos da nossa inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde afogar-nos juntos. Com um gesto chamei-a para meu lado. Laura, sem dar<br \/>\num passo, encaroume com espanto, estranhando-me. Tornei a cham\u00e1-la;<br \/>\nn\u00e3o veio.<\/p>\n<p>Fui ter ent\u00e3o com ela; ao ver-me, por\u00e9m, aproximar, deu medrosa<br \/>\num ligeiro salto para tr\u00e1s e p\u00f4s-se a correr pela extens\u00e3o<br \/>\nda praia, como se fugisse a um monstro desconhecido.<\/p>\n<p>Precipitei-me tamb\u00e9m, para alcan\u00e7\u00e1-la. Vendo-se perseguida,<br \/>\natirou-se ao ch\u00e3o, a galopar, quadrupedando que nem um animal. Eu fiz<br \/>\no mesmo, e cousa singular! notei que me sentia muito mais \u00e0 vontade<br \/>\nnessa posi\u00e7\u00e3o de quadr\u00fapede do que na minha natural posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde homem.<\/p>\n<p>Assim galopamos longo tempo \u00e0 beira-mar; mas, percebendo que a minha<br \/>\ncompanheira me fugia assustada para o lado das trevas, tentei det\u00ea-la,<br \/>\nsoltei um grito, soprando com toda a for\u00e7a o ar dos meus pulm\u00f5es<br \/>\nde gigante. Nada mais consegui do que dar um ronco de besta; Laura, todavia<br \/>\nrespondeu com outro. Corri para ela e os nossos berros ferozes perderam-se<br \/>\nlongamente por aquele mundo vazio e morto.<\/p>\n<p>Alcancei-a por fim; ela havia ca\u00eddo por terra, prostrada de fadiga.<br \/>\nDeitei-me ao seu lado, rosnando ofegante de cansa\u00e7o. Na escurid\u00e3o<br \/>\nreconheceu-me logo; tomou-me contra o seu corpo e afagou-me instintivamente.<\/p>\n<p>Quando resolvemos continuar a nossa peregrina\u00e7\u00e3o, foi de quatro<br \/>\np\u00e9s que nos pusemos a andar ao lado um do outro, naturalmente sem dar<br \/>\npor isso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o meu corpo principiou a revestir-se de um p\u00ealo espesso.<br \/>\nApalpei as costas de Laura e observei que com ela acontecia a mesma cousa.<\/p>\n<p>Assim era melhor, porque ficar\u00edamos perfeitamente abrigados do frio,<br \/>\nque agora aumentava.<\/p>\n<p>Depois, senti que os meus maxilares se dilatavam de modo estranho, e que<br \/>\nas minhas presas cresciam, tornando-se mais fortes, mais adequadas ao ataque,<br \/>\ne que, lentamente, se afastavam dos dentes queixais; e que meu cr\u00e2nio<br \/>\nse achatava; e que a parte inferior do meu rosto se alongava para a frente,<br \/>\nafilando como um focinho de c\u00e3o; e que meu nariz deixava de ser aquilino<br \/>\ne perdia a linha vertical, para acompanhar o alongamento da mand\u00edbula;<br \/>\ne que enfim as minhas ventas se patenteavam, arrega\u00e7adas para o ar,<br \/>\n\u00famidas e frias.<\/p>\n<p>Laura, ao meu lado, sofria iguais transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E notamos que, \u00e0 medida que se nos apagavam uns restos de intelig\u00eancia<br \/>\ne o nosso tato se perdia, apurava-se-nos o olfato de um modo admir\u00e1vel,<br \/>\ntomando as propor\u00e7\u00f5es de um faro certeiro e sutil, que alcan\u00e7ava<br \/>\nl\u00e9guas.<\/p>\n<p>E galop\u00e1vamos contentes ao lado um do outro, grunhindo e sorvendo<br \/>\no ar, satisfeitos de existir assim. Agora, o fartum da terra encharcada e<br \/>\ndas mat\u00e9rias em decomposi\u00e7\u00e3o, longe de enjoarnos, chamava-nos<br \/>\na vontade de comer. E os meus bigodes, cujos fios se inteiri\u00e7avam como<br \/>\ncerdas de porco, serviam-me para sondar o caminho, porque as minhas m\u00e3os<br \/>\nhaviam afinal perdido de todo a delicadeza do tato.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o me lembrava por melhor esfor\u00e7o que empregasse,<br \/>\numa s\u00f3 palavra do meu idioma, como se eu nunca tivera falado. Agora,<br \/>\npara entender-me com Laura, era preciso uivar; e ela me respondia do mesmo<br \/>\nmodo.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguia tamb\u00e9m lembrar-me nitidamente de como fora o<br \/>\nmundo antes daquelas trevas e daquelas nossas metamorfoses, e at\u00e9 j\u00e1<br \/>\nme n\u00e3o recordava bem de como tinha sido a minha pr\u00f3pria fisionomia<br \/>\nprimitiva, nem a de Laura. Entretanto, meu c\u00e9rebro funcionava ainda,<br \/>\nl\u00e1 a seu modo, porque, afinal, tinha eu consci\u00eancia de que existia<br \/>\ne preocupava-me em conservar junto de mim a minha companheira, a quem agora<br \/>\ns\u00f3 com os dentes afagava.<\/p>\n<p>Quanto tempo se passou assim para n\u00f3s, nesse estado de irracionais,<br \/>\n\u00e9 o que n\u00e3o posso dizer; apenas sei que, sem saudades de outra<br \/>\nvida, trotando ao lado um do outro, percorr\u00edamos ent\u00e3o o mundo<br \/>\nperfeitamente familiarizados com a treva e com a lama, esfocinhando no ch\u00e3o,<br \/>\n\u00e0 procura de ra\u00edzes, que devor\u00e1vamos com prazer; e sei<br \/>\nque, ao sentir-nos cansados, nos estend\u00edamos por terra, juntos e tranq\u00fcilos,<br \/>\nperfeitamente felizes, porque n\u00e3o pens\u00e1vamos e porque n\u00e3o<br \/>\nsofr\u00edamos.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>XI<\/h2>\n<p>De uma feita, por\u00e9m, ao levantar-me do ch\u00e3o, senti os p\u00e9s<br \/>\ntr\u00f4pegos, pesados, e como que propensos a se entranharem por ele. Apalpei-os<br \/>\ne encontrei as unhas moles e abafadas, a despregarem-se. Laura, junto de mim,<br \/>\nobservou em si a mesma cousa. Come\u00e7amos logo a tir\u00e1las com os<br \/>\ndentes, sem experimentarmos a menor dor; depois passamos a fazer o mesmo com<br \/>\nas das m\u00e3os; \u00e1s pontas dos nossos dedos logo que se acharam<br \/>\ndespojadas das unhas, transformaram-se numa esp\u00e9cie de ventosa do polvo,<br \/>\nnumas bocas de sanguessuga, que se dilatavam e contra\u00edam incessantemente,<br \/>\nsorvendo gulosas o ar e a umidade. Come\u00e7aram-nos os p\u00e9s a radiar<br \/>\nem longos e \u00e1vidos tent\u00e1culos de p\u00f3lipo; e os seus filamentos<br \/>\ne as suas rad\u00edculas eminhocaram pelo lodo fresco do ch\u00e3o, procurando<br \/>\ns\u00f4fregos internar-se bem na terra, para ir l\u00e1 dentro beber-lhes<br \/>\no h\u00famus azotado e nutriente; enquanto os dedos das m\u00e3os esgalhavam,<br \/>\num a um, ganhando pelo espa\u00e7o e chupando o ar voluptuosamente pelos<br \/>\nseus respiradouros, fossando e fungando, irrequietos e morosos, como trombas<br \/>\nde elefante.<\/p>\n<p>Desesperado, ergui-me em toda a minha colossal estatura de gigante e sacudi<br \/>\nos bra\u00e7os, tentando dar um arranco, para soltar-me do solo. Foi in\u00fatil.<br \/>\nNem s\u00f3 n\u00e3o consegui despregar meus p\u00e9s enraizados no<br \/>\nch\u00e3o, como fiquei de m\u00e3os atira das para o alto, numa postura<br \/>\nm\u00edstica como arrebatado num \u00eaxtase religioso, im\u00f3vel.<br \/>\nLaura, igualmente presa \u00e0 terra, ergueu-se rente comigo, peito a peito,<br \/>\nentrela\u00e7ando nos meus seus bra\u00e7os esgalhados e procurando unir<br \/>\nsua boca \u00e0 minha boca.<\/p>\n<p>E assim nos quedamos para sempre, a\u00ed plantados e seguros, sem nunca<br \/>\nmais nos soltarmos um do outro, nem mais podermos mover com os nossos duros<br \/>\nmembros contra\u00eddos. E, pouco a pouco, nossos cabelos e nossos p\u00ealos<br \/>\nse nos foram desprendendo e caindo lentamente pelo corpo abaixo. E cada poro<br \/>\nque eles deixavam era um novo respiradouro que se abria para beber a noite<br \/>\ntenebrosa. Ent\u00e3o sentimos que o nosso sangue ia-se a mais e mais se<br \/>\narrefecendo e desfibrinando, at\u00e9 ficar de todo transformado numa seiva<br \/>\nlinf\u00e1tica e fria. Nossa medula come\u00e7ou a endurecer e revestir-se<br \/>\nde camadas lenhosas, que substitu\u00edam os ossos e os m\u00fasculos;<br \/>\ne n\u00f3s fomos surdamente nos lignificando, nos encascando, a fazer-nos<br \/>\nfibrosos desde o tronco at\u00e9 \u00e0s hastes e \u00e0s estipulas.<\/p>\n<p>E os nossos p\u00e9s, num misterioso trabalho subterr\u00e2neo, continuavam<br \/>\na lan\u00e7ar pelas entranhas da terra as suas longas e insaci\u00e1veis<br \/>\nra\u00edzes; e os dedos das nossas m\u00e3os continuavam a multiplicar-se,<br \/>\na crescer e a esfolhar, como galhos de uma \u00e1rvore que reverdece. Nossos<br \/>\nolhos desfizeram-se em goma espessa e escorreram-nos pela crosta da cara,<br \/>\nsecando depois como resina; e das suas \u00f3rbitas vazias come\u00e7avam<br \/>\na brotar muitos rebent\u00f5es vi\u00e7osos. Os dentes despregaram-se,<br \/>\num por um, caindo de per si, e as nossas bocas murcharam-se in\u00fateis,<br \/>\nvindo, tanto delas, como de nossas ventas j\u00e1 sem faro, novas verg\u00f4nteas<br \/>\ne renovos que abriam novas folhas e novas br\u00e1cteas. E agora s\u00f3<br \/>\npor estas e pelas extensas ra\u00edzes de nossos p\u00e9s \u00e9 que<br \/>\nnos aliment\u00e1vamos para viver.<\/p>\n<p>E viv\u00edamos.<\/p>\n<p>Uma exist\u00eancia tranq\u00fcila, doce, profundamente feliz, em que n\u00e3o<br \/>\nhavia desejos, nem saudades; uma vida imperturb\u00e1vel e surda, em que<br \/>\nos nossos bra\u00e7os iam por si mesmos se estendendo pregui\u00e7osamente<br \/>\npara o c\u00e9u, a reproduzirem novos galhos donde outros rebentavam, cada<br \/>\nvez mais copados e verdejantes. Ao passo que as nossas pernas, entrela\u00e7adas<br \/>\nnum s\u00f3 caule, cresciam e engrossavam, cobertas de armaduras corticais,<br \/>\nfazendo-se imponentes e nodosas, como os estalados troncos desses velhos gigantes<br \/>\ndas florestas primitivas.<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>XII<\/h2>\n<p>Quietos e abra\u00e7ados na nossa silenciosa felicidade, bebendo longamente<br \/>\naquela inabal\u00e1vel noite, em cujo ventre dormiam mortas as estrelas,<br \/>\nque n\u00f3s dantes tantas vezes contempl\u00e1vamos embevecidos e amorosos,<br \/>\ncrescemos juntos e juntos estendemos os nossos ramos e as nossas ra\u00edzes,<br \/>\nn\u00e3o sei por quanto tempo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei tamb\u00e9m se demos flor ou se demos frutos; tenho apenas<br \/>\nconsci\u00eancia de que depois, muito depois, uma nova imobilidade, ainda<br \/>\nmais profunda, veio enrijar-nos de todo. E sei que as nossas fibras e os nossos<br \/>\ntecidos endureceram a ponto de cortar a circula\u00e7\u00e3o dos fluidos<br \/>\nque nos nutriam; e que o nosso polposo \u00e2mago e a nossa medula se foi<br \/>\nalcalinando, at\u00e9 de todo se converter em gr\u00e9s siliciosa e calc\u00e1ria;<br \/>\ne que afinal fomos perdendo gradualmente a natureza de mat\u00e9ria org\u00e2nica<br \/>\npara assumirmos os caracteres do mineral.<\/p>\n<p>Nossos gigantescos membros agora completamente desprovidos da sua folhagem,<br \/>\ncontra\u00edramse hirtos, sufocando os nossos poros; e n\u00f3s dois,<br \/>\nsempre abra\u00e7ados, nos inteiri\u00e7amos numa s\u00f3 mole informe,<br \/>\nsonora e maci\u00e7a, onde as nossas veias primitivas, j\u00e1 secas e<br \/>\ntolhidas, formavam sulcos ferruginosos, feitos como que do nosso velho sangue<br \/>\npetrificado.<\/p>\n<p>E, s\u00e9culo a s\u00e9culo, a sensibilidade foi-se-nos perdendo numa<br \/>\nsombria indiferen\u00e7a de rocha. E, s\u00e9culo a s\u00e9culo, fomos<br \/>\nde gr\u00e9s, de cisto, ao supremo estado de cristaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E vivemos, vivemos, e vivemos, at\u00e9 que a lama que nos cercava principiou<br \/>\na dissolver-se numa subst\u00e2ncia l\u00edquida, que tendia a fazer-se<br \/>\ngasosa e a desagregar-se, perdendo o seu centro de equil\u00edbrio; uma<br \/>\ngaseifica\u00e7\u00e3o geral, como devia ter sido antes do primeiro matrim\u00f4nio<br \/>\nentre as duas primeiras mol\u00e9culas que se encontraram e se uniram e<br \/>\nse fecundaram, para come\u00e7ar a intermin\u00e1vel cadeia da vida, desde<br \/>\no ar atmosf\u00e9rico at\u00e9 ao s\u00edlex, desde o eozoon at\u00e9<br \/>\nao b\u00edpede.<\/p>\n<p>E oscilamos indolentemente naquele oceano fluido.<\/p>\n<p>Mas, por fim, sentimos faltar-nos o apoio, e resvalamos no v\u00e1cuo,<br \/>\ne precipitamo-nos pelo \u00e9ter.<\/p>\n<p>E, abra\u00e7ados a princ\u00edpio, soltamo-nos depois e come\u00e7amos<br \/>\na percorrer o firmamento, girando em volta um do outro, como um casal de estrelas<br \/>\nerrantes e amorosas, que v\u00e3o espa\u00e7o a fora em busca do ideal.<\/p>\n<p>Ora fica a\u00ed leitor paciente, nessa d\u00fazia de cap\u00edtulos<br \/>\ndesenxabidos, o que eu, naquela maldita noite de ins\u00f4nia, escrevi no<br \/>\nmeu quarto de rapaz solteiro, esperando que Sua Alteza, o Sol, se dignasse<br \/>\nde abrir a sua audi\u00eancia matutina com os p\u00e1ssaros e com as flores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I II III IV &nbsp; 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