{"id":92087,"date":"2017-01-03T10:12:38","date_gmt":"2017-01-03T12:12:38","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92087"},"modified":"2018-05-03T15:55:08","modified_gmt":"2018-05-03T17:55:08","slug":"casa-de-pensao-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/casa-de-pensao-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"Casa de Pens\u00e3o &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><script src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\" async=\"\"><\/script><!-- ads_responsivo --> <ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block;\" data-ad-client=\"ca-pub-7159766377354473\" data-ad-slot=\"3162710741\" data-ad-format=\"auto\"><\/ins><script>\/\/ <![CDATA[\n(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n\/\/ ]]><\/script><\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong>I<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#2\">II<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#3\">III <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#4\">IV<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#5\">V<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#6\"><strong>VI <\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#7\">VII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#8\">VIII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#9\">IX <\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#10\">X<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#11\"><strong>XI <\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#12\">XII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#13\">XIII<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#14\">XIV<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#15\">XV<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I<\/h2>\n<p>Desconfia de todo aquele que se arreceia da verdade.<\/p>\n<p>Seriam onze horas da manh\u00e3. O Campos, segundo o costume, acabava de descer<br \/>\ndo almo\u00e7o e, a pena atr\u00e1s da orelha, o len\u00e7o por dentro do colarinho, dispunha-se<br \/>\na prosseguir no trabalho interrompido pouco antes. Entrou no seu escrit\u00f3rio<br \/>\ne foi sentar-se \u00e0 secret\u00e1ria. Defronte dele, com uma gravidade oficial, empilhavam-se<br \/>\ngrandes livros de escritura\u00e7\u00e3o mercantil. Ao lado, uma prensa de copiar, um<br \/>\ncopo d \u00e1gua, sujo de p\u00f3, e um pincel chato; mais adiante, sobre um mocho de<br \/>\nmadeira preta, muito alto, via-se o Di\u00e1rio deitado de costas e aberto de par<br \/>\nem par. Tratava-se de fazer a correspond\u00eancia para o Norte. Mal, por\u00e9m, dava<br \/>\ncome\u00e7o a uma nova carta, lan\u00e7ando cuidadosamente no papel a sua bonita letra,<br \/>\ndesenhada e grande, quando foi interrompido por um rapaz, que da porta do<br \/>\nescrit\u00f3rio lhe perguntou se podia falar com o Sr. Lu\u00eds Batista de Campos.<br \/>\n&#8211; Tenha a bondade de entrar, disse este. O rapaz aproximou-se das grades de<br \/>\ncedro polido, que o separavam do comerciante. Era de vinte anos, tipo do Norte,<br \/>\nfranzino, amornado, pesco\u00e7o estreito, cabelos crespos e olhos vivos e penetrantes,<br \/>\nse bem que alterados por um leve estrabismo. Vestia casimira clara, tinha<br \/>\num alfinete de esmeralda na camisa, um brilhante na m\u00e3o esquerda e um grossa<br \/>\ncadeia de ouro sobre o ventre. Ao p\u00e9s, coagidos em apertados sapatinhos de<br \/>\nverniz, desapareciam-lhe casquilhamente nas amplas bainhas da cal\u00e7a. &#8211; Que<br \/>\ndeseja o senhor, perguntou o Campos, metendo de novo a pena atr\u00e1s da orelha<br \/>\ne pousando um peda\u00e7o de papel mata-borr\u00e3o sobre o trabalho. O mo\u00e7o avan\u00e7ou<br \/>\ndois passos, com ar muito acanhado; o chap\u00e9u. de p\u00ealo seguro por ambas as<br \/>\nm\u00e3os; a bengala debaixo do bra\u00e7o. &#8211; Desejo entregar esta carta, disse, cada<br \/>\nvez mais atrapalhado com o seu chap\u00e9u e a sua bengala, sem conseguir tirar<br \/>\nda algibeira um grosso ma\u00e7o de pap\u00e9is que levava. N\u00e3o havia onde p\u00f4r o maldito<br \/>\nchap\u00e9u, e a bengala tinha-lhe j\u00e1 ca\u00eddo no ch\u00e3o, quando o Campos foi em seu<br \/>\nsocorro. &#8211; Cheguei hoje do Maranh\u00e3o, acrescentou o provinciano, sacando as<br \/>\ncartas finalmente. As \u00faltimas palavras do mo\u00e7o pareciam interessar deveras<br \/>\no negociante, porque este, logo que as ouviu, passou a consider\u00e1-lo da cabe\u00e7a<br \/>\naos p\u00e9s, e exclamou depois: &#8211; Ora espere&#8230;O senhor \u00e9 o Am\u00e2ncio !<\/p>\n<p>O outro sorriu, e , entregando-lhe a carta, pediu-lhe com um gesto que a<br \/>\nlesse. N\u00e3o foi preciso romper o sobrescrito, porque vinha aberta. &#8211; \u00c9 de meu<br \/>\npai&#8230;disse Am\u00e2ncio. &#8211; Ah! \u00e9 do velho Vasconcelos ?&#8230;Como vai ele ? &#8211; Assim,<br \/>\nassim&#8230;O que o atrapalha mais \u00e9 o reumatismo. Agora est\u00e1 em uso da Sal\u00e7a-e-caroba<br \/>\n, do Holanda. &#8211; Coitado! lamentou o Campos com um suspiro. &#8211; Ele sofre h\u00e1<br \/>\ntanto tempo!&#8230; E passou a ler a carta, depois de dar uma cadeira a Am\u00e2ncio,<br \/>\nque j\u00e1 estava para dentro das grades. &#8211; Pois , sim, senhor ! disse ao terminar<br \/>\na leitura . &#8211; Est\u00e1 o meu amigo na Corte, e homem ! Como corre o tempo !&#8230;<br \/>\nAm\u00e2ncio tornou a sorrir. &#8211; Parece que ainda foi outro dia que o vi, deste<br \/>\ntamanho, a brincar no armaz\u00e9m do seu pai. E mostrou com a m\u00e3o aberta o tamanho<br \/>\nde Am\u00e2ncio naquela \u00e9poca. &#8211; Foi h\u00e1 seis anos, observou o mo\u00e7o, limpando o<br \/>\nsuor que lhe corria abundantemente pelo rosto. Fez-se uma pequena pausa e<br \/>\nem seguida o Campos falou do muito que devia ao falecido irm\u00e3o e s\u00f3cio do<br \/>\nvelho Vasconcelos; citou os obs\u00e9quios que lhe merecera; disse que encontrara<br \/>\nnele &#8220;um segundo pai &#8220;e terminou perguntando quais eram as inten\u00e7\u00f5es de Am\u00e2ncio<br \/>\nna Corte. &#8211; Se vinha estudar ou empregar-se. &#8211; Estudar ! acudiu o provinciano.<br \/>\nQueria ver se era poss\u00edvel matricular-se esse ano na Escola de Medicina .N\u00e3o<br \/>\nnegava que se havia demorado um pouquito nos preparat\u00f3rios&#8230;mas seria dele<br \/>\na culpa ?&#8230; S\u00f3 com umas sez\u00f5es que apanhara na fazenda da av\u00f3, perdera tr\u00eas<br \/>\nanos. Campos escutava-o com aten\u00e7\u00e3o. Depois lhe perguntou, se j\u00e1 havia almo\u00e7ado.<br \/>\nAm\u00e2ncio disse que sim, por cerim\u00f4nia. &#8211; Venha ent\u00e3o jantar conosco; precisamos<br \/>\nconversar mais \u00e0 vontade .Quero apresent\u00e1-lo \u00e0 minha gente. O rapaz concordou,<br \/>\nmas ainda tinha que entregar v\u00e1rias cartas e varias encomendas que trouxera.<br \/>\nO Campos talvez conhecesse os destinat\u00e1rios. Mostrou-lhe as cartas ; eram<br \/>\nquase todas de recomenda\u00e7\u00e3o. &#8211; O melhor \u00e9 tomar um carro, aconselhou o negociante.<br \/>\n&#8211; Olhe, vou dar-lhe um mo\u00e7o, a\u00ed de casa, para o guiar. E, pelo ac\u00fastico ,<br \/>\nque havia a um canto do escrit\u00f3rio, chamou um caixeiro. Da\u00ed a pouco, Am\u00e2ncio<br \/>\nsa\u00eda, acompanhado por este, prometendo voltar para o jantar. A casa de Lu\u00eds<br \/>\nCampos era na Rua Direita. Um desses casar\u00f5es do tempo antigo, quadrados e<br \/>\nsem gosto, cujo ar severo e recolhido est\u00e1 a dizer no seu sil\u00eancio os rigores<br \/>\ndo velho com\u00e9rcio portugu\u00eas. Compunha-se do vasto armaz\u00e9m ao r\u00e9s-do-ch\u00e3o,<br \/>\ne mais dois andares ; no primeiro dos quais estava o escrit\u00f3rio e \u00e0 noite<br \/>\naboletavam-se os caixeiros, e no segundo morava o negociante com a mulher<br \/>\n&#8211; D. Maria Hort\u00eansia, e uma cunhada- D. Carlotinha. A mesa era no andar de<br \/>\ncima .Faziam-se duas : uma para o dono da casa ,a fam\u00edlia, o guarda-livros<br \/>\ne h\u00f3spedes, se os havia, o que era freq\u00fcente ;e a outra s\u00f3 para os caixeiros,<br \/>\nque subiam ao n\u00famero de cinco ou seis. Apesar de inteligente e de brasileiro,<br \/>\nCampos nunca logrou espantar de sua casa o ar triste que a ensombrecia. \u00c0<br \/>\nmesa, quando raramente se palestrava, era sempre com muita reserva ;n\u00e3o havia<br \/>\nrisadas expansivas, nem livres exclama\u00e7\u00f5es de alegria. Os h\u00f3spedes, pobre<br \/>\ngente de prov\u00edncia, faziam uma cerim\u00f4nia espessa ; o guarda-livros poucas<br \/>\nvezes arriscava a sua anedota e, s\u00f3 se determinava a isso, tendo de antem\u00e3o<br \/>\nescolhido um assunto discreto e conveniente. Campos n\u00e3o apertava a bolsa em<br \/>\nquest\u00f5es de comida :queria mesa farta ;quatro pratos ao almo\u00e7o, caf\u00e9 e leite<br \/>\n\u00e0 discri\u00e7\u00e3o ; ao jantar seis , sopa e vinho .Os caixeiros falavam com orgulho<br \/>\ndessa generosidade e faziam em geral boa aus\u00eancia do patr\u00e3o, que, entretanto,<br \/>\nfora sempre de uma sobriedade rara :comia pouco, bebia ainda menos e n\u00e3o conhecia<br \/>\nos v\u00edcios sen\u00e3o de nome. Aos domingos, e \u00e0s vezes mesmo em dias de semana,<br \/>\naparecia para o jantar um ou outro estudante comprovinciano do Campos ou algum<br \/>\nfregu\u00eas do interior, que estivesse de passagem na Corte e a quem lhe convinha<br \/>\nagradar. Lu\u00eds Campos era homem ativo, caprichoso no servi\u00e7o de que ser encarregava<br \/>\ne extremamente suscet\u00edvel em pontos de honra ; quer se tratasse de sua individualidade<br \/>\nprivada, que de sua responsabilidade comercial. N\u00e3o descia nunca ao armaz\u00e9m,<br \/>\nou simplesmente ao escrit\u00f3rio, sem estar bem limpo e preparado. Caprichava<br \/>\nno asseio do corpo :as unhas, os cabelos e os dentes mereciam-lhe bons desvelos<br \/>\ne aten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Entre os companheiros, passava por homem de vistas largas e esp\u00edrito adiantado<br \/>\n; nos dias de descanso dava-se todo ao Figuier, ao Flammarion e ao J\u00falio Verne,<br \/>\noutras vezes, poucas, atirava-se \u00e0 literatura ; mas os verdadeiros mestres<br \/>\naborreciam-no e entreturbavam-no com os rigorismos da forma. &#8211; \u00c8 um bom tipo<br \/>\n! diziam os estudantes \u00e0 volta do jantar, e seguinte domingo l\u00e1 estavam de<br \/>\nnovo. O &#8220;bom tipo&#8221; tratava-os muito bem, levava-os com a fam\u00edlia para a sala,<br \/>\noferecia-lhes charutos, cerveja, e nunca exigia que lhe restitu\u00edssem os livros<br \/>\nque lhes emprestava. Quanto \u00e0 sua vida comercial, pouco se tem a dizer. At\u00e9<br \/>\naos dezoito anos, Campos estivera no Maranh\u00e3o, para onde fora em pequeno de<br \/>\nsua prov\u00edncia natal, o Cear\u00e1. No Maranh\u00e3o fez os primeiros estudos e deu os<br \/>\nprimeiros passos no com\u00e9rcio, pela m\u00e3o de um velho negociante, amigo de seu<br \/>\npai. Esse velho foi seu protetor e o seu guia ;s\u00f3 com a morte dele se passou<br \/>\no Campos para o Rio de Janeiro, onde, gra\u00e7as ainda a certas rela\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia<br \/>\nde seu benfeitor, consegui arranjar-se logo, como ajudante de guarda-livros,<br \/>\nem uma casa de comiss\u00f5es. Desta saiu para outra, melhorando sempre de fortuna,<br \/>\nat\u00e9 que afinal o admitiram, como gerente, no armaz\u00e9m de uns tais Garcia, Costa<br \/>\n&amp; Cia. O Garcia morreu, Campos passou a ser interessado na casa ;depois<br \/>\nmorreu o Costa, e Campos chamou um s\u00f3cio de fora, um capitalista, e ficou<br \/>\nsendo a principal figura da firma. Por esse tempo encontrou D. Maria Hort\u00eansia,<br \/>\nmenina de boa fam\u00edlia, sofrivelmente ajuizada e com dote. Pouco levou a pedi-la<br \/>\ne a casar-se. Nunca se arrependera de semelhante passo. Hort\u00eansia sa\u00edra uma<br \/>\nexcelente dona -de- casa, muito arranjadinha, muito amiga de poupar, muito<br \/>\npresa aos interesses de seu marido, e limpa, &#8220;limpa ,que fazia gosto!&#8221; O segundo<br \/>\nandar vivia, pois, num brinco ; nem um escarro seco no ch\u00e3o. Os m\u00f3veis luziam,<br \/>\ncomo se tivessem chegado na v\u00e9spera da casa do marceneiro ;as roupas da cama<br \/>\neram de uma brancura fresca e cheirosa ;n\u00e3o havia teias de aranha nos tetos<br \/>\nou nos candeeiros e os globos de vidro n\u00e3o apresentavam sequer a n\u00f3doa de<br \/>\numa mosca. E Campos sentia-se bem no meio dessa ordem, desse m\u00e9todo. Procurava<br \/>\ntodos os dias enriquecer os trens de sua casa, j\u00e1 comprando umas jardineiras,<br \/>\nque lhe chamaram a aten\u00e7\u00e3o em tal rua ; j\u00e1 trazendo uma estatueta, um quadro,<br \/>\numa nova m\u00e1quina de fazer sorvetes , ou um sistema aperfei\u00e7oado para esta<br \/>\nou aquela utilidade dom\u00e9stica. Gostava que em sua casa houvesse um pouco de<br \/>\ntudo. N\u00e3o aparecia por a\u00ed qualquer novidade ,qualquer novo aparelho de bater<br \/>\novos, gelar vinho, regar plantas, que o Campos n\u00e3o fosse um dos primeiros<br \/>\na experimentar. A mulher, \u00e0s vezes, j\u00e1 se ria, quando ele entrava da rua abra\u00e7ado<br \/>\na um embrulho. &#8211; Que foi que se inventou ?&#8230;perguntava com uma pontinha de<br \/>\nmofa.<br \/>\nO marido n\u00e3o fazia esperar a justifica\u00e7\u00e3o do seu novo aparelho, e, tal interesse<br \/>\npunha em jogo ,que parecia tratar de uma obra pr\u00f3pria, de cujo sucesso dependesse<br \/>\na sua felicidade. E, logo que encontrasse algum amigo, n\u00e3o deixava de falar<br \/>\nnisso ;gabava-se da compra que fizera, encarecia a utilidade do objeto e aconselhava<br \/>\na todos que comprassem um igual. Campos, depois do casamento, principiou a<br \/>\nprosperar de um modo assombroso ;dentro de tr\u00eas anos era, o que vimos, &#8211; rico,<br \/>\nmuito acreditado e seguro na pra\u00e7a. E, contudo, n\u00e3o tinha mais do que trinta<br \/>\ne seis anos de idade. &#8211; \u00c9 um felizardo ! resmungavam os colegas, com olhar<br \/>\nfito. &#8211; \u00c9 um felizardo !Quem o viu, como eu, h\u00e1 t\u00e3o pouco tempo !&#8230; &#8211; Mas<br \/>\nsempre teve boa cabe\u00e7a !&#8230; &#8211; S\u00e3o fortunas, homem !Outros h\u00e1 por a\u00ed , que<br \/>\nfazem o dobro e n\u00e3o conseguem a metade ! &#8211; N\u00e3o ! ele merece, coitado ! \u00c9 muito<br \/>\nbom mo\u00e7o, muito expedito e trabalhador ! &#8211; Homem! Todos n\u00f3s somos bons !&#8230;O<br \/>\nque lhe afian\u00e7o \u00e9 que nunca em minha vida consegui p\u00f4r de parte um bocado<br \/>\nde dinheiro ! E o caso era que o Campos ,ou devido \u00e0 fortuna ou ao bom tino<br \/>\npara ao neg\u00f3cios, prosperava sempre.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>\u00c0s quatro da tarde apareceu de novo Am\u00e2ncio. Vinha esbaforido. O dia estava<br \/>\nhorr\u00edvel de calor. Campos foi receb\u00ea-lo com muito agrado. &#8211; Ent\u00e3o ?disse-lhe.<br \/>\nEst\u00e1 livre das cartas ? &#8211; Qual ! respondeu o mo\u00e7o. &#8211; tenho ainda cinco para<br \/>\nentregar&#8230;Uma estafa ! No Maranh\u00e3o nunca senti tanto calor !&#8230; &#8211; Falta de<br \/>\nh\u00e1bito ! observou o outro. Daqui a dias ver\u00e1 que isto \u00e9 muito mais fresco<br \/>\n!<\/p>\n<p>&#8211; Estou desta forma !&#8230;queixava-se Am\u00e2ncio, quase sem f\u00f4lego, a mostrar<br \/>\no colarinho desfeito e os punhos encardidos. &#8211; Suba, volveu o Campos, empurrando-o<br \/>\nbrandamente .- tome qualquer coisa. V\u00e1 entrando sem cerim\u00f4nia. E, j\u00e1 na escada<br \/>\ndo segundo andar, perguntou de s\u00fabito :- \u00c9 verdade !e a sua bagagem ?&#8230; &#8211;<br \/>\nEst\u00e1 tudo na Coroa de Ouro. Hospedei-me l\u00e1. &#8211; Bem. E subiram. Am\u00e2ncio deixou-se<br \/>\nficar na sala de visita; o outro correu a prevenir a mulher. &#8211; Nen\u00e9m !disse<br \/>\nele. Sabes ? hoje temos ao jantar um mo\u00e7o que chegou do Norte, um estudante.<br \/>\n\u00c9 preciso oferecer-lhe a casa. Hort\u00eansia respondeu com um gesto de m\u00e1 vontade.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o ! replicou o negociante. \u00c9 uma quest\u00e3o de gratid\u00e3o !&#8230;Devo muitos obs\u00e9quios<br \/>\n\u00e0 fam\u00edlia deste rapaz ! Lembras-te daquele velho, de que te falei, aquele<br \/>\nque foi que me deu a m\u00e3o l\u00e1 no Norte ?&#8230;Pois este \u00e9 o sobrinho, \u00e9 filho do<br \/>\nVasconcelos. N\u00e3o nos ficaria bem receb\u00ea-lo assim ,sem mais nem menos !&#8230;<br \/>\n&#8211; Mas, Lulu, isto de meter estudantes em casa \u00e9 o diabo !Dizem que \u00e9 uma gente<br \/>\nt\u00e3o esbodegada ! &#8211; Ora ,coitado !ele at\u00e9 me parece meio tolo ! Al\u00e9m disso,<br \/>\nn\u00e3o seria o primeiro h\u00f3spede!&#8230; &#8211; Queres agora comparar um estudante com<br \/>\naqueles tipos de Minas que se hospedam aqui !&#8230; &#8211; Mas se estou dizendo que<br \/>\no rapaz at\u00e9 parece tolo&#8230; &#8211; Manhas, homem ! Todos eles parecem muito inocentes,<br \/>\ne depois&#8230;Enfim, tu far\u00e1s o que entenderes !&#8230; S\u00f3 te previno de que esta<br \/>\ngente \u00e9 muito reparadeira ! &#8211; N\u00e3o h\u00e1 de ser tanto assim!&#8230; E Campos voltou<br \/>\n\u00e0 sala. Am\u00e2ncio soprava, estendido em uma cadeira de balan\u00e7o, a abanar-se<br \/>\ncom o len\u00e7o. &#8211; Muito calor, hein? perguntou o Campos, entrando. &#8211; Est\u00e1 horroroso,<br \/>\ndisse aquele. E resfolegou com mais for\u00e7a. &#8211; Venha antes para este lado. Aqui<br \/>\npara a sala de jantar \u00e9 mais fresco. Venha ! Eu vou dar-lhe um palet\u00f3 de brim.<br \/>\nAm\u00e2ncio esquivava-se, fazendo cerim\u00f4nia ; mas o outro, com o segredo da hospitalidade<br \/>\nque em geral possui o cearense, obrigou-o a entrar para um quarto e mudar<br \/>\nde roupa. O jantar, como sempre, correu frio e contrafeito. Am\u00e2ncio n\u00e3o tinha<br \/>\napetite, porque pouco antes comera m\u00e3es-bentas em um caf\u00e9 ;Campos, por\u00e9m,<br \/>\ndesfazia-se e empregava todos os meios de lhe ser agrad\u00e1vel. &#8211; V\u00e1, mais uma<br \/>\nfatia de pudim, insistia ele a tent\u00e1-lo. &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, respondia<br \/>\no h\u00f3spede, limpando sempre o rosto com o len\u00e7o. \u00c0 sobremesa falou-se no velho<br \/>\nVasconcelos e mais no irm\u00e3o. O negociante lembrou ainda as obriga\u00e7\u00f5es que<br \/>\ndevia \u00e0 fam\u00edlia de Am\u00e2ncio, citou pormenores de sua vida no Maranh\u00e3o ; elogiou<br \/>\nmuito a prov\u00edncia ;disse que havia l\u00e1 mais sociabilidade que no Rio de Janeiro<br \/>\n, e acabou brindando a mem\u00f3ria de seu benfeitor , de seu segundo pai. Maria<br \/>\nHort\u00eansia parecia tomar parte no reconhecimento do marido e, sempre que se<br \/>\ndirigia ao estudante, tinha nos l\u00e1bios um sorriso de amabilidade. Carlotinha<br \/>\nn\u00e3o dera uma palavra durante o jantar. Comia vergada sobre o seu prato e s\u00f3<br \/>\nergueu a cabe\u00e7a na ocasi\u00e3o de deixar a mesa. Am\u00e2ncio, todavia, n\u00e3o a perdera<br \/>\nde vista. \u00c0s sete horas da tarde, quando se despediu, estava j\u00e1 combinado<br \/>\nque no dia seguinte ele voltaria com as malas, para hospedar-se em casa do<br \/>\nCampos. &#8211; \u00c9 melhor&#8230;disse este &#8211; \u00e9 muito melhor !Ali o senhor n\u00e3o pode estar<br \/>\nbem ;sempre \u00e9 vida de hotel ! Venha para c\u00e1 ;fa\u00e7a de conta que minha fam\u00edlia<br \/>\n\u00e9 a sua. Am\u00e2ncio prometeu, e saiu, reconsiderando pelo caminho todas as impress\u00f5es<br \/>\ndesse dia. Mais tarde, deitado na cama do Coroa de Ouro, com o corpo mo\u00eddo,<br \/>\no esp\u00edrito saturado de sensa\u00e7\u00f5es, procurava recapitular o que tinha a fazer<br \/>\nno dia seguinte ; e, bocejando, via de olhos fechados, o vulto amoroso de<br \/>\nHort\u00eansia a sorrir para ele, estendendo-lhe no ar os belos bra\u00e7os, palpitantes<br \/>\ne carnudos .<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II<\/h2>\n<p>No dia seguinte mudava-se Am\u00e2ncio para a casa do Campos. Seria por pouco<br \/>\ntempo, &#8211; at\u00e9 que descobrisse um &#8220;c\u00f4modo definitivo&#8221;. Deixou com algum pesar<br \/>\no hotel. Aquela vida bo\u00eamia, com os seus almo\u00e7os em mesa-redonda, o seu quartinho,<br \/>\numa janela sobre os telhados, e a plena liberdade de estar como bem entendesse,<br \/>\ntinha para ele um sedutor encanto de novidade. Nunca sa\u00edra do Maranh\u00e3o ;vira<br \/>\nde longe a Corte atrav\u00e9s do prisma fantasmag\u00f3rico de seus sonhos. O Rio de<br \/>\nJaneiro afigurava-se-lhe um Paris de Alexandre Dumas ou de Paulo de Kock,<br \/>\num Paris cheio de can\u00e7\u00f5es de amor, um Paris de estudantes e costureiras, no<br \/>\nqual podia ele \u00e0 vontade correr as suas aventuras, sem fazer esc\u00e2ndalo como<br \/>\nno diabo da prov\u00edncia. H\u00e1 muito tempo ardia de impaci\u00eancia por tal viagem<br \/>\n: pensara nisso todos os dias; fizera c\u00e1lculos, imaginara futuras felicidades.<br \/>\nQueria teatros bufos, ceias ruidosas ao lado de francesas, passeios fora de<br \/>\nhoras, a carro, pelos arrabaldes. Seu esp\u00edrito, excessivamente rom\u00e2ntico,<br \/>\ncomo o de todo maranhense nessas condi\u00e7\u00f5es, pedia uma grande cidade, velha,<br \/>\ncheia ruas tenebrosas, cheia de mist\u00e9rios, de hot\u00e9is, de casas de jogo, de<br \/>\nlugares suspeitos e de mulheres caprichosas :fidalgas encantadoras e libertinas,<br \/>\ncapazes de tudo, por um momento de gozo. E Am\u00e2ncio sentia necessidade de dar<br \/>\ncome\u00e7o \u00e0quela exist\u00eancia que encontrara nas p\u00e1ginas de mil romances. Todo<br \/>\nele reclamava amores perigosos, segredos de alcova e loucuras de paix\u00e3o. Entretanto,<br \/>\no seu tipo franzino, meio imberbe, meio ing\u00eanuo, dizia justamente o contr\u00e1rio.<br \/>\nNingu\u00e9m, contemplando aquele insignificante rosto moreno, um tanto chupado,<br \/>\naqueles p\u00f4mulos salientes, aqueles olhos negros, de uma vivacidade quase infantil,<br \/>\naquela boca estreita, guarnecida de bons dentes, claros e alinhados, ningu\u00e9m<br \/>\nacreditaria que ali estivesse um sonhador , um sensual um louco. Sua pequena<br \/>\ntesta, curta e sem espinhas, margeada de cabelos crespos, n\u00e3o denunciava o<br \/>\nque naquela cabe\u00e7a havia de voluptuoso e ruim. Seu todo acanhado, fraco e<br \/>\nmodesto n\u00e3o deixava transparecer a brutalidade daquele temperamento c\u00e1lido<br \/>\ne desensofrido. Am\u00e2ncio fora muito mal-educado pelo pai, portugu\u00eas antigo<br \/>\ne austero, desses que confundem o respeito com o terror. Em pequeno levou<br \/>\nmuita bordoada ; tinha um medo horroroso de Vasconcelos; fugia dele como de<br \/>\num inimigo, e ficava todo frio e a tremer quando lhe ouvia a voz ou lhe sentia<br \/>\nos passos. Se acaso algumas vezes se mostrava d\u00f3cil e amoroso, era sempre<br \/>\npor conveni\u00eancia : habituou-se a fingir desde esse tempo. Sua m\u00e3e, D. \u00c2ngela,<br \/>\numa santa de cabelos brancos e rosto de mo\u00e7a, n\u00e3o raro se voltava contra o<br \/>\nmarido e apadrinhava o filho. Am\u00e2ncio agarrava-se-lhe \u00e0 saias, fora de si,<br \/>\nsufocado de solu\u00e7os. Aos sete anos entrou para a escola. Que horror ! O mestre,<br \/>\num tal Ant\u00f4nio Pires, homem grosseiro, bruto, de cabelo duro e olhos de touro,<br \/>\nbatia nas crian\u00e7as por gosto, por um h\u00e1bito do of\u00edcio. Na aula s\u00f3 falava a<br \/>\nberrar, como se dirigisse uma boiada. Tinha as m\u00e3os grossas, a voz \u00e1spera,<br \/>\na catadura selvagem ; e quando metia para dentro um pouco mais de vinho, ficava<br \/>\npior. Am\u00e2ncio, j\u00e1 na Corte, s\u00f3 de pensar no bruto, ainda sentia os calafrios<br \/>\ndos outros tempos, e com eles vagos desejos de vingan\u00e7a. Um malquerer doentio<br \/>\ninvadia-lhe o cora\u00e7\u00e3o, sempre que se lembrava do mestre e do pai. Envolvia-os<br \/>\nno mesmo ressentimento, no mesmo \u00f3dio surdo e inconfess\u00e1vel. Todos os pequenos<br \/>\nda aula tinham birra do Pires. Nele enxergavam o carrasco, o tirano, o inimigo<br \/>\ne n\u00e3o o mestre ; mas, visto que qualquer manifesta\u00e7\u00e3o de antipatia redundava<br \/>\nfatalmente em castigo, as pobres crian\u00e7as fingiam-se satisfeitas ;riam muito<br \/>\nquando o beberr\u00e3o dizia alguma chala\u00e7a e afinal, coitadas ! iam-se habitualmente<br \/>\nao servilismo e \u00e0 mentira. Os pais ignorantes, viciados pelos costumes b\u00e1rbaros<br \/>\ndo Brasil, atrofiados pelo h\u00e1bito de lidar com escravos, entendiam que aquele<br \/>\nanimal era o \u00fanico professor capaz de &#8220;endireitar os filhos&#8221;. Elogiavam-lhe<br \/>\na rispidez, recomendavam-lhe sempre que &#8220;n\u00e3o passasse a m\u00e3o&#8221; pela cabe\u00e7a dos<br \/>\nrapazes e que, quando fosse preciso, &#8220;dobrasse por conta dele a dose de bolos&#8221;.<br \/>\n\u00c2ngela, por\u00e9m, n\u00e3o era dessa opini\u00e3o :n\u00e3o podia admitir que seu querido filho,<br \/>\naquela criaturinha fraca, delicada, um mimo de inoc\u00eancia e de gra\u00e7a, um anjinho,<br \/>\nque ela afagara com tanta ternura e com tanto amor, que ela podia dizer criada<br \/>\ncom os seus beijos &#8211; fosse l\u00e1 apanhar palmatoadas de um brutalh\u00e3o daquela<br \/>\nordem &#8220;Ora ! isso n\u00e3o tinha jeito ! &#8221; Mas o Vasconcelos saltava-lhe logo em<br \/>\ncima : Que deixasse l\u00e1 o pequeno com o mestre!&#8230; Mais tarde ele havia de<br \/>\nagradecer aquelas palmatoadas ! Assim n\u00e3o sucedeu. Am\u00e2ncio alimentou sempre<br \/>\ncontra o Pires o mesmo \u00f3dio e a mesma repugn\u00e2ncia. Verdade \u00e9 que tamb\u00e9m fora<br \/>\nsempre tido e havido pelo pior dos meninos da aula, pelo mais atrevido e insubordinado.<br \/>\nAdquiriu tal fama com o seguinte fato :<\/p>\n<p>Havia na escola um rapazito, implicante e levado dos diabos, que se assentava<br \/>\nao lado dele e com quem vivia sempre de turra. Um dia pegaram-se mais seriamente<br \/>\n.Am\u00e2ncio teria ent\u00e3o oito anos. Estava a coisa ainda em palavras, quando entrou<br \/>\no professor, e os dois contendores tomaram \u00e0 pressa os seus competentes lugares.<br \/>\nFez-se respeito. Todos os meninos come\u00e7aram a estudar em voz alta, com afeta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas, de repente, ouviu-se o estalo de uma bofetada. Houve rumor. O Pires levantou-se,<br \/>\ntocou uma campainha, que usava para esses casos, e sindicou do fato. Am\u00e2ncio<br \/>\nfoi o \u00fanico acusado. &#8211; Sr. Vasconcelos !- gritou o mestre &#8211; porque espancou<br \/>\no senhor aquele menino ? Am\u00e2ncio respondera humildemente que o menino insultara<br \/>\nsua m\u00e3e . &#8211; \u00c9 mentira ! protestou o novo acusado. Am\u00e2ncio repetiu o insulto<br \/>\nque recebera. Toda a escola rebentou em gargalhadas. &#8211; Cale-se, atrevido !berrou<br \/>\no professor encolerizado, a tocar a campainha.- Mariola! Dizer tal coisa em<br \/>\npleno recinto de aula ! E, puxando a pura for\u00e7a o delinq\u00fcente para junto de<br \/>\nsi, ferrou-lhe meias d\u00fazia de palmatoadas. Am\u00e2ncio, logo que se viu livre,<br \/>\nfez um gesto de raiva. &#8211; Ah ! ele \u00e9 isso?! Exclamou o professor. &#8211; Tens g\u00eanio,<br \/>\ntratante ?! Ora espera ! isso tira-se ! E voltando-se para o rapazito que<br \/>\nlevou a bofetada, entregou-lhe a f\u00e9rula e disse-lhe que aplicasse outras tantas<br \/>\npalmatoadas em Am\u00e2ncio. Este declarou fortemente que se n\u00e3o submetia ao castigo.<br \/>\nO professor quis submet\u00ea-lo \u00e0 for\u00e7a; Am\u00e2ncio n\u00e3o abriu as m\u00e3os. Os dedos pareciam<br \/>\ncolados contra a palma. O professor, ent\u00e3o, desesperado com semelhante contrariedade,<br \/>\nmuito nervoso, deixou escapar a mesma frase que pouco antes provocara tudo<br \/>\naquilo. Am\u00e2ncio recuou dois passos e soltou uma nova bofetada, mas agora na<br \/>\ncara do pr\u00f3prio mestre. Em seguida deitou a fugir, correndo. Um &#8221; Oh &#8220;formid\u00e1vel<br \/>\nencheu a sala . O Pires, rubro de c\u00f3lera, ordenou que prendessem o atrevido.<br \/>\nA aula ergueu-se em peso, com grande desordem. Ca\u00edram bancos e derramaram-se<br \/>\ntinteiros. Todos os meninos abra\u00e7aram sem hesitar a causa do mestre, e Am\u00e2ncio<br \/>\nfoi agarrado no corredor quando ia alcan\u00e7ar a rua. Mas, quatro pontap\u00e9s puseram<br \/>\nem fugida os dois primeiros rapazes que lhe lan\u00e7aram os dedos. Dois outros<br \/>\nacudiram logo e o seguraram de novo, depois vieram mais tr\u00eas, mais oito, vinte,<br \/>\nat\u00e9 que todos os quarenta ou cinq\u00fcenta estudantes o levaram \u00e0 presen\u00e7a do<br \/>\nPires, alegres, vitoriosos, risonhos, como se houvessem alcan\u00e7ado uma gl\u00f3ria.<br \/>\nAm\u00e2ncio sofreu novo castigo ;serviu de esc\u00e1rnio aos seus condisc\u00edpulos e,<br \/>\nquando chegou \u00e0 casa, o pai, informado do que sucedera na escola, deu-lhe<br \/>\nainda uma boa sova e obrigou-o a pedir perd\u00e3o, de joelhos, ao professor e<br \/>\nao menino da bofetada Desde esse instante, todo o sentimento de justi\u00e7a e<br \/>\nde honra que Am\u00e2ncio possu\u00eda, transformou-se em \u00f3dio sistem\u00e1tico pelos seus<br \/>\nsemelhantes. Ficou fazendo um triste ju\u00edzo dos homens. &#8211; Pois se at\u00e9 seu pr\u00f3prio<br \/>\npai, diretamente ofendido na quest\u00e3o, abra\u00e7ara a causa do mais forte!&#8230;.<br \/>\nS\u00f3 \u00c2ngela, sua adorada, sua santa m\u00e3e, \u00e0 noite, ao beij\u00e1-lo antes de dormir,<br \/>\ndepois de lhe perguntar se ficara muito magoado com o castigo, segredara-lhe<br \/>\nentre l\u00e1grimas que &#8220;ele fizera muito bem &#8230;&#8221; Como aquele ,outros fatos se<br \/>\nderam na meninice de Am\u00e2ncio. Todas as vezes que lhe aparecia um \u00edmpeto de<br \/>\ncoragem, sempre que lhe assistia um assomo de dignidade, sempre que pretendia<br \/>\nrepelir uma afronta ,castigar um insulto, o pai ou o professor ca\u00eda-lhe em<br \/>\ncima, abafando-lhe os impulsos pundonorosos. Ficou medroso e descarado. No<br \/>\nfim de algum tempo j\u00e1 podiam na escola , insultar a m\u00e3e quantas vezes quisessem,<br \/>\nque ele n\u00e3o se abalaria ;podiam lan\u00e7ar-lhe em rosto as ofensas que entendessem<br \/>\nporque ele se conservaria impass\u00edvel. Temia as conseq\u00fc\u00eancias de desafronta.<br \/>\n&#8221; Estava domesticado&#8221; ,segundo a frase do Pires. Todavia, esses pequenos epis\u00f3dios<br \/>\nda inf\u00e2ncia, t\u00e3o insignificantes na apar\u00eancia, decretaram a dire\u00e7\u00e3o que devia<br \/>\ntomar o car\u00e1ter de Am\u00e2ncio. Desde logo habituou-se a fazer uma falsa id\u00e9ia<br \/>\ndos seus semelhantes ;julgou os homens por seu pai, seu professor e seus condisc\u00edpulos.<br \/>\n&#8211; E abominou-os. Principiou a aborrec\u00ea-los secretamente, por uma fatalidade<br \/>\ndo ressentimento; principiou a desconfiar de todos, a prevenir-se contra tudo,<br \/>\na disfar\u00e7ar, a fingir que era o que exigiam brutalmente que ele fosse. Nunca<br \/>\nlhe deram liberdade de esp\u00e9cie alguma :Se lhe vinha uma id\u00e9ia pr\u00f3pria e desejava<br \/>\np\u00f4-la em pr\u00e1tica, perguntavam-lhe &#8220;a quem vira ele fazer semelhante asneira<br \/>\n?<\/p>\n<p>Convenceram-no de que s\u00f3 devemos praticar aquilo que os outros j\u00e1 praticaram.<br \/>\nOpunham-lhe sempre o exemplo das pessoas mais velhas ;exigiam que ele procedesse<br \/>\ncom o mesmo discernimento de que dispunham seus pais. E os rebent\u00f5es da individualidade,<br \/>\ne o que pudesse haver de original no seu car\u00e1ter e na sua intelig\u00eancia , tudo<br \/>\nse foi mirrando e falecendo, como os renovos de uma planta, que regassem diariamente<br \/>\ncom \u00e1gua morna. \u00c0 mesa devia ter a sisudez de um homem. Se lhe apetecia rir,<br \/>\ncantar, conversar, gritavam-lhe logo : &#8220;Tenha modo, menino! Esteja quieto<br \/>\n! comporte-se!&#8221; E Am\u00e2ncio, com medo da bordoada, fazia-se grave, e cada vez<br \/>\nia-se tornando mais hip\u00f3crita e reservado. Sabia afetar seriedade, quando<br \/>\ntinha vontade de rir; sabia mostrar-se alegre, quando estava triste; calar-se,<br \/>\ntendo alguma recrimina\u00e7\u00e3o a fazer; e , na igreja, ao lado da fam\u00edlia, sabia<br \/>\nfingir que rezava e sabia ag\u00fcentar por mais de uma hora a m\u00e1scara de um devoto.<br \/>\nComo o pai o queria inocente e d\u00f3cil, ele afetava grande toleima, fazia-se<br \/>\nmuito ing\u00eanuo, muito admirado das cosas mais simples. &#8211; \u00c9 uma menina!&#8230;dizia<br \/>\na m\u00e3e ,convicta &#8211; Amancinho tem j\u00e1 dez anos e conserva a candura de um anjo<br \/>\n! Vasconcelos nunca o puxava para junto de si, nem conversava com ele, nem<br \/>\no interrogava ;e, quando a infeliz crian\u00e7a, justamente na idade em que a intelig\u00eancia<br \/>\nse desabotoa, \u00e1vida de fecunda\u00e7\u00e3o, fazia qualquer pergunta, respondiam-lhe<br \/>\ncom um berro : &#8221; N\u00e3o seja bisbilhoteiro, menino!&#8221; Am\u00e2ncio emudecia e abaixava<br \/>\nos olhos, mas, logo que o perdiam de vista, ia escutar e espreitar pelas portas.<br \/>\nCom semelhante esterco, n\u00e3o podia desabrochar e melhor no seu temperamento<br \/>\no leite escravo, que lhe deu a mamar uma preta da casa. Diziam que era uma<br \/>\nexcelente escrava : tinha muito boas maneiras ;n\u00e3o respingava aos brancos,<br \/>\nn\u00e3o era respondona :aturava o maior castigo, sem dizer uma palavra mais \u00e1spera,<br \/>\nsem fazer um gesto mais desabrido. Enquanto o chicote lhe cantava nas costas,<br \/>\nela gemia apenas e deixava que as l\u00e1grimas lhe corressem silenciosamente pelas<br \/>\nfaces. Al\u00e9m disso &#8211; forte, rija para o trabalho. Poderia nesse tempo valer<br \/>\nbem um conto de r\u00e9is. Vasconcelos a comprara , todavia, muito em conta, &#8221;<br \/>\numa verdadeira pechincha !&#8221; porque o dem\u00f4nio da negra estava ent\u00e3o que n\u00e3o<br \/>\nvalia duas patacas ;mas o senhor a metera em casa, dera-lhe algumas garrafadas<br \/>\nde laranja-da-terra, e a preta em breve come\u00e7ou a deitar corpo e a indireitar,<br \/>\nque era aquilo que se podia ver ! O m\u00e9dico, por\u00e9m, n\u00e3o ia muito em que a deixassem<br \/>\namamentar o pequeno. &#8211; Esta mulher tem reuma no sangue &#8230;dizia ele &#8211; e o<br \/>\nmenino pode vir a sofrer no futuro. Vasconcelos sacudiu os ombros e n\u00e3o quis<br \/>\noutra ama. &#8211; O doutor que se deixasse de partes ! A negra tomou muita afei\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 cria. Desvelava por elas noites consecutivas e, t\u00e3o carinhosa, t\u00e3o sol\u00edcita<br \/>\nse mostrou, que o senhor, quando o filho deixou a mama, consentiu em passar-lhe<br \/>\na carta de alforria por seiscentos mil-r\u00e9is, que ela ajuntara durante quinze<br \/>\nanos. Mas a preta n\u00e3o abandonou a casa de seus brancos e continuou a servir,<br \/>\ncomo dantes ;menos ,est\u00e1 claro, no que dizia respeito aos castigos, porque<br \/>\na desgra\u00e7ada, al\u00e9m de forra ia j\u00e1 caindo na idade. Am\u00e2ncio dera-lhe bastante<br \/>\nque fazer. Fora um menino levado da breca ;s\u00f3 n\u00e3o chorava enquanto dormia<br \/>\ne, quando se punha a espernear, n\u00e3o havia meio de cont\u00ea-lo. Era muito feio<br \/>\nem pequeno. Um nariz disforme, uma boca sem l\u00e1bios e dois rasg\u00f5es no lugar<br \/>\ndos olhos. N\u00e3o tinha um fio de cabelo e estava sempre a fazer caretas. A princ\u00edpio<br \/>\n&#8211; muito achacado de feridas, coitadinho! Os p\u00e9s frios, o ventre duro constantemente.<br \/>\nLevou muito para andar e custou-lhe a balbuciar as primeiras palavras :\u00c2ngela<br \/>\nadorava-o com entusiasmo do primeiro parto ;por duas vezes sup\u00f4s v\u00ea-lo morto<br \/>\ne deu promessas aos santos da sua devo\u00e7\u00e3o. Conseguiram faz\u00ea-lo viver, mas<br \/>\nsempre fraquinho, an\u00eamico, muito propenso aos ingurgitamentos escrofulosos.<br \/>\nQuando acabou as primeiras letras, n\u00e3o era, entretanto, dos rapazes mais d\u00e9beis<br \/>\nda aula do Pires. Para isso contribu\u00edram em grande parte uns passeios que<br \/>\ncostumava dar, pelas f\u00e9rias ,\u00e0 fazenda de sua av\u00f3 materna, em S\u00e3o Bento. Esses<br \/>\npasseios representavam para Am\u00e2ncio a melhor \u00e9poca do ano. A av\u00f3, uma velha<br \/>\nquase analfabeta, supersticiosa e devota, permitia-lhe todas as vontades e<br \/>\nbabava-se de amores por ele. O rapaz escondia-lhe o cachimbo, pisava-lhe os<br \/>\ncanteiros da horta, divertia-se em quebrar a pedradas as lamparinas dos santos,<br \/>\nsuspensas na capela, e, \u00e0 vezes, quando n\u00e3o estava de boa mar\u00e9, atirava com<br \/>\nos pratos nos escravos que serviam \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>A av\u00f3 ralhava , mas n\u00e3o podia conter o riso .O netinho era o seu encanto,<br \/>\no fraco de sua velhice; s\u00f3 um pedido daquele diabrete faria suspender o castigo<br \/>\ndos negros e desviar do servi\u00e7o da ro\u00e7as algum dos moleques &#8211; para ir brincar<br \/>\ncom Nhozinho. Estava sempre a dizer que se queixava ao genro e que o devolvia<br \/>\npara a cidade ;mas, no ano seguinte, se Am\u00e2ncio n\u00e3o aparecia logo no come\u00e7o<br \/>\ndas f\u00e9rias, choviam os recados da velha em casa de Vasconcelos, rogando que<br \/>\nlhe mandassem o neto. &#8211; Mande ! mande o pequeno !aconselhava o m\u00e9dico. E l\u00e1<br \/>\nia Am\u00e2ncio. S\u00f3 aos doze anos fez o seu exame de portugu\u00eas na aula do Pires.<br \/>\nHouve muita formalidade. A congrega\u00e7\u00e3o era presidida pelo Sotero dos Reis<br \/>\n;havia vinte e tantos examinandos. Am\u00e2ncio tremia naqueles apuros. N\u00e3o tinha<br \/>\nem si a menor confian\u00e7a. Foi, contudo, &#8221; aprovado plenamente&#8221; .Mas n\u00e3o sabia<br \/>\nnada, quase que n\u00e3o sabia ler. Da gram\u00e1tica apenas lhe ficaram de cor algumas<br \/>\nregras, sem que ele compreendesse patavina do que elas definiam. O Pires nunca<br \/>\nexplicava :- se o pequeno tinha a li\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria, passava outra, e, se n\u00e3o<br \/>\ntinha, dava-lhe algumas palmatoadas e dizia-lhe que trouxesse a mesma para<br \/>\no dia seguinte. Mas, enfim, estava habilitado a entrar para o Liceu onde iria<br \/>\ncursar as aulas de franc\u00eas e geografia. O Liceu, que bom !- Oh ! A\u00ed n\u00e3o havia<br \/>\ncastigos, n\u00e3o havia as pequenas mis\u00e9rias aterradoras da escola !N\u00e3o poderia<br \/>\nfaltar \u00e0s aulas , \u00e9 certo ! mas, em todo o caso, estudaria quando bem entendesse<br \/>\ne, l\u00e1 uma vez por outra, havia de &#8220;fazer a sua parede&#8221;. E, s\u00f3 com pensar nisso,<br \/>\ns\u00f3 com se lembrar de que j\u00e1 n\u00e3o estava ao alcance das garras do maldito Pires,<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o lhe saltava por dentro, tomado de uma alegria nervosa.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O Vasconcelos quis festejar o exame do filho, com um jantar oferecido aos<br \/>\nsenhores examinadores e aos velhos amigos da fam\u00edlia. \u00c0 noite houve dan\u00e7a.<br \/>\nAm\u00e2ncio convidou os companheiros do ano ;compareceram somente os pobres, &#8211;<br \/>\nos que n\u00e3o tinham em casa tamb\u00e9m a sua festa. O pai, por inst\u00e2ncias de \u00c2ngela,<br \/>\nfizera-lhe presente de um rel\u00f3gio com a competente cadeia tudo de ouro. A<br \/>\nav\u00f3, que se abalara da fazenda pra assistir ao regozijo do seu querido mimalho<br \/>\n, trouxera-lhe um moleque , o Sabino. Am\u00e2ncio, todo cheio de si, a rever-se<br \/>\nna sua corrente e a consultar as horas de vez em quando, foi nesse dia o alvo<br \/>\nde mil felicita\u00e7\u00f5es, de mil brindes e de mil abra\u00e7os. Alguns amigo do pai<br \/>\nprofetizavam nele uma gl\u00f3ria da p\u00e1tria e diziam que o Jo\u00e3o Lisboa, o Galv\u00e3o<br \/>\ne outros n\u00e3o tinham tido melhor princ\u00edpio. Lembraram-se todas as partidas<br \/>\nengra\u00e7adas de Am\u00e2ncio, vieram \u00e0 baila os repentes felizes que o diabrete tivera<br \/>\nat\u00e9 a\u00ed. Na cozinha, a m\u00e3e preta , a ama, contava \u00e0s parceiras as travessuras<br \/>\ndo menino e, com olhos embaciados de ternura, com uma esp\u00e9cie de orgulho amoroso,<br \/>\nreferia sorrindo os trabalhos que lhe dera ele, as noites que ela desvelara.<br \/>\n&#8211; J\u00e1 em pequeno, diziam &#8211; era muito sabido, muito esperto !enganava os mais<br \/>\nvelhos ;tinha l\u00e1bias, como ningu\u00e9m, para conseguir as coisas, e sabia empregar<br \/>\nmil artimanhas para obter o que desejava! &#8211; N\u00e3o !definitivamente n\u00e3o havia<br \/>\noutro ! \u00c2ngela, a um canto da varanda, assentada entre as suas visitas, seguia<br \/>\no filho com um olhar temperado de m\u00e1goa e do\u00e7ura. &#8211; O que lhe estaria reservado?&#8230;o<br \/>\nque o esperaria no futuro ?&#8230;cismava a boa senhora, meneando tristemente<br \/>\na cabe\u00e7a &#8211; Oh! \u00c0s vezes cria-se um filho com tanto amor, com tantas l\u00e1grima<br \/>\n, para depois v\u00ea-lo andar por a\u00ed aos trambolh\u00f5es, nesse mundo de Cristo !&#8230;E<br \/>\na id\u00e9ia de que, talvez, nem sempre o teria perto de si, que nem sempre o poderia<br \/>\nobrigar a mudar a camisa, quando estivesse suado ;obrig\u00e1-lo a tomar o rem\u00e9dio,<br \/>\nquando estivesse doente ;obrig\u00e1-lo a comer, a dormir com regularidade ;a evitar,<br \/>\nenfim tudo que pudesse-lhe prejudicar a sa\u00fade ;oh ! a id\u00e9ia de tudo isso lhe<br \/>\nent6rava no cora\u00e7\u00e3o, como um sopro gelado, e fazia tremer a pobre m\u00e3e. &#8211; Ai<br \/>\n! ai ! disse ela. &#8211; Que suspiros s\u00e3o esses, D. \u00c2ngela? perguntou o Dr. Silveira,<br \/>\nque estava ao seu lado. Homem \u00edntimo da casa e figura conhecida na pol\u00edtica<br \/>\nda terra. &#8211; Malucando c\u00e1 comigo,. respondeu a senhora .E como o outro estranhasse<br \/>\na resposta:- Quem tem filho, tem cuidados ,senhor doutor !&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh ! Oh! Exclamou este, com um gesto autorizado, abrindo muito a boca e<br \/>\nos olhos. &#8211; A quem o diz, Sra. D. \u00c2ngela, a quem o diz !&#8230;S\u00f3 eu sei o que<br \/>\nme custam esses quatro pecados que a\u00ed tenho!&#8230;<br \/>\nE para provar que dizia a verdade, teria falado nos seus cabelos brancos,<br \/>\nse n\u00e3o os pintasse. &#8211; Quando \u00c2ngela se afligia daquele modo, sendo rica ;quanto<br \/>\nmais ele- pobre jurisconsulto, com pequenos vencimentos e uma fam\u00edlia enorme<br \/>\n!&#8230; &#8211; Ah! Os tempos v\u00e3o muito maus&#8230; Puseram-se logo a falar na ruindade<br \/>\ndos tempos. &#8221; Estava tudo pela hora da morte! &#8211; Comia-se dinheiro ! &#8221; Mas<br \/>\no Silveira voltara-se rapidamente, para dar aten\u00e7\u00e3o a Am\u00e2ncio, que acabava<br \/>\nde aproximar-se, em sil\u00eancio, com ar presumido de quem tinha consci\u00eancia de<br \/>\nque toda aquela festa lhe pertencia. &#8211; Ent\u00e3o, meu estudante !- disse o jurisconsulto,<br \/>\nempinando a cabe\u00e7a &#8211; J\u00e1 escolheu a carreira que deseja seguir ? &#8211; Marinha,<br \/>\nrespondeu Am\u00e2ncio secamente. A farda seduzia-o. Nada conhecia &#8221; t\u00e3o bonito&#8221;<br \/>\ncomo um oficial de marinha. A m\u00e3e riu-se com aquela resposta, e olhou em torno<br \/>\nde si, chamando a aten\u00e7\u00e3o dos mais para o desembara\u00e7o do filho.<br \/>\n\u00c0 meia-noite foram todos de novo para a mesa. O Vasconcelos era muito rigoroso<br \/>\nquando recebia gente em casa ;queria que houvesse toda a fartura de vinhos<br \/>\ne comida. Os brindes reapareceram. Abriram-se as garrafas de Moscato d&#8217;Asti,<br \/>\nChateau Yquem e Champagne. Conversou-se a respeito dos vinhos de Vasconcelos.<br \/>\n&#8221; O Maranh\u00e3o era incontestavelmente uma das prov\u00edncias onde melhor se bebia<br \/>\n!&#8221; Do meio para o fim da ceia, Am\u00e2ncio sentiu-se outro. Em uma ocasi\u00e3o, que<br \/>\no pai se afastara da mesa, ele pediu um brinde e cumprimentou as &#8220;pessoas<br \/>\npresentes&#8221;. Este fato causou del\u00edrios. O pr\u00f3prio pai n\u00e3o se p\u00f4de conter e<br \/>\ndisse entredentes, a rir : &#8211; Ora o rapaz saiu-me vivo ! \u00c2ngela abra\u00e7ou o filho,<br \/>\nchorando de comovida. &#8211; Que lhe disse eu ?&#8230;resmungou delicadamente o Silveira<br \/>\nao ouvido dela &#8211; Este menino promete !D\u00eaem-lhe asas e h\u00e3o de ver &#8230;d\u00eaem-lhe<br \/>\nasas !&#8230; Am\u00e2ncio foi coberto de ova\u00e7\u00f5es. Batiam-lhe no copo, faziam-lhe sa\u00fades.<br \/>\nEle a todos respondia, rindo e bebendo. Da\u00ed a uma hora recolheram-no \u00e0 cama<br \/>\nda m\u00e3e, porque lhe aparecera uma afli\u00e7\u00e3o na boca do est\u00f4mago ;mas vomitou<br \/>\nlogo e adormeceu depois , completamente aliviado. Foi a sua primeira bebedeira.<\/p>\n<p>Aos quatorze anos prestou exame de franc\u00eas e geografia e matriculo-se nas<br \/>\naulas de gram\u00e1tica geral e ingl\u00eas. J\u00e1 eram v\u00e1lidos, felizmente, os exames<br \/>\ndo Liceu do Maranh\u00e3o, e com as cartas que da\u00ed houvesse, podia entrar nas academias<br \/>\nda Corte. Am\u00e2ncio, de[pois da escola do Pires, nunca mais voltou a passar<br \/>\nf\u00e9rias na fazenda da av\u00f3. Preferia ficar na cidade :tinha namoros, gostava<br \/>\nloucamente de dan\u00e7ar, j\u00e1 fumava, e j\u00e1 fazia p\u00e2ndegas grossas com os colegas<br \/>\ndo Liceu. Como o pai n\u00e3o lhe dava liberdade , nem dinheiro, e como exigia<br \/>\nque ele \u00e0s nove horas da noite se recolhesse a casa, Am\u00e2ncio arranjava com<br \/>\na m\u00e3e os cobres que podia e, quando a fam\u00edlia j\u00e1 estava dormindo, evadia-se<br \/>\npelos fundos do quintal. Era Sabino quem lhe abria e fechava o port\u00e3o. O moleque<br \/>\ngostava muito dessas patuscadas. O senhor &#8211; mo\u00e7o levava-o \u00e0 vezes em sua companhia.<br \/>\nAmigos esperavam por eles l\u00e1 fora, reuniam-se ; tinham um farnel de sardinhas,<br \/>\np\u00e3o, queijo, charutos e vinho. Era pagodear at\u00e9 pela madrugada ! Se havia<br \/>\nchinfrim &#8211; entravam, ou ent\u00e3o iam tomar banho no Apicum ou cear ao Caminho<br \/>\nGrande. Em noites de luar faziam serenatas ;aparecia sempre algu\u00e9m que tocasse<br \/>\nviol\u00e3o ou flauta ou soubesse cantar chulas e modinhas. Aos s\u00e1bados o passeio<br \/>\nera maior; no dia seguinte Am\u00e2ncio estava a cair de cansa\u00e7o, aborrecido, necessitando<br \/>\nde repouso. Mas n\u00e3o deixava de ir. &#8211; Era t\u00e3o bom passear pela rua , quando<br \/>\ntoda a popula\u00e7\u00e3o dormia; fumar, quando tinha certeza de que nenhum dos amigos<br \/>\nde seu pai o pilharia com o charuto no queixo ;era t\u00e3o bom beber pela<\/p>\n<p>garrafa, comer ao relento e perseguir ima ou outra mulher, que encontrassem<br \/>\ndesgarrada, a vagar pelos becos mal iluminados da cidade ! Tudo isso lhe sorria<br \/>\npor um prisma voluptuoso e romanesco. \u00c0s vezes entrava em casa ao amanhecer.<br \/>\nN\u00e3o podia dormir logo ;vinha excitado, sacudido pelas impress\u00f5es e pela bebedeira<br \/>\nda noite. Atirava-se \u00e0 rede, com uma vertigem impotente de conceber poesias<br \/>\nbyronianas, escrever coisas no g\u00eanero de \u00c1lvares de Azevedo, cantar orgias,<br \/>\nextravag\u00e2ncias, del\u00edrios. E afinal adormecia, lendo Mademoiselle de Maupuin,<br \/>\nOlympia de Cl\u00e8ves ou Confession d&#8217;un enfant du si\u00e8cle. N\u00e3o penetrava bem na<br \/>\ninten\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo livro, mas tinha-o em grande conta e, visto conhecer<br \/>\na biografia de Musset, embriagava-se com essa leitura; ficava a sonhar fantasias<br \/>\nestranhas, amores c\u00e9ticos, viagens misteriosas e paix\u00f5es indefinidas. As criadas<br \/>\nda casa ou as mulatinhas da vizinhan\u00e7a j\u00e1 o enfaravam :era preciso descobrir<br \/>\namores mais finos, mais dignos, que, nem s\u00f3 lhe contentassem a carne, como<br \/>\nigualmente lhe socorressem as \u00e2nsias da imagina\u00e7\u00e3o. Por esse tempo leu a Graziella<br \/>\ne o Raphael de Lamartine .Ficou possu\u00eddo de uma grande tristeza ;as l\u00e1grimas<br \/>\nsaltaram-lhe sobre as p\u00e1ginas do livro. Sentiu necessidade de amar por aquele<br \/>\nprocesso, mergulhar na poesia ,esquecer-se de tudo o que o cercava, para viver<br \/>\nmentalmente nas praias de N\u00e1poles, ou nas ilhas ador\u00e1veis da Sic\u00edlia, cujos<br \/>\nnomes sonoros e musicais lhe chegavam ao cora\u00e7\u00e3o como o efeito de uma saudade<br \/>\n,amarga e doce, de uma nostalgia inef\u00e1vel, profunda, sem contornos, que o<br \/>\natra\u00eda para outro mundo desconhecido, para uma exist\u00eancia , que lhe acenava<br \/>\nde longe, a pux\u00e1-lo com todos os tent\u00e1culos de seu mist\u00e9rio e da sua irresist\u00edvel<br \/>\nmelancolia. Uma ocasi\u00e3o, deitado ao p\u00e9 da janela de seu quarto, pensava em<br \/>\n&#8220;Graziella&#8221;. A tarde precipitava-se no crep\u00fasculo e enchia a natureza de tons<br \/>\nplangentes e doloridos. A um canto da rua um italiano tocava uma pe\u00e7a no seu<br \/>\nrealejo. Era a Marselhesa. Am\u00e2ncio conhecia algumas passagens da revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Fran\u00e7a :lera os Girondinos de Lamartine. E a reminisc\u00eancia do sentimentalismo<br \/>\nenf\u00e1tico dessa obra, coada pela ret\u00f3rica poderosa da m\u00fasica de Lisle , trouxe-lhe<br \/>\naos nervos um sobressalto muito mais veemente que das outras vezes. Julgou-se<br \/>\ninfeliz, sacrificado nas suas aspira\u00e7\u00f5es, no seu ideal. Precisava viver, gozar<br \/>\nsem limites!&#8230;N\u00e3o ali, perto da fam\u00edlia, estudando miser\u00e1veis li\u00e7\u00f5es do Liceu,<br \/>\nmas al\u00e9m, muito al\u00e9m, onde n\u00e3o fosse conhecido , onde tudo para ele apresentasse<br \/>\nsurpresas de que sua imagina\u00e7\u00e3o mal podia delinear. Por isto estimou deveras<br \/>\nter de seguir para o Rio de Janeiro. A Corte era &#8220;um Paris&#8221;, diziam na prov\u00edncia,<br \/>\ne ele, por conseguinte, havia de l\u00e1 encontrar boas aventuras, cenas imprevistas,<br \/>\nimpress\u00f5es novas, e amores, &#8211; oh ! amores principalmente ! E, com efeito,<br \/>\ndesde que p\u00f4s o p\u00e9 a bordo, principiou a gozar de novidade, produzida no seu<br \/>\nesp\u00edrito pela viagem. A circunst\u00e2ncia de achar-se em um paquete, sozinho,<br \/>\nouvindo o ronrom mon\u00f3tono da m\u00e1quina e sentindo, como nos romances, as vozes<br \/>\nmisteriosa dos elementos sussurrarem \u00e0 volta de seus ouvidos &#8211; encantava-o<br \/>\n.Prestava muita aten\u00e7\u00e3o aos mais pequeninos epis\u00f3dios de bordo :olhava interessado<br \/>\npara a grossa figura dos marinheiros que baldeavam pela manh\u00e3 o tombadilho,<br \/>\na dan\u00e7ar com a vassoura aos p\u00e9s; estudava o tipo dos outros passageiros, procurando<br \/>\ndescobrir em cada qual um personagem de seus livros favoritos; ao abrir e<br \/>\nfechar das portas dos camarotes, espiava sempre, e \u00e0s vezes lobrigava de relance,<br \/>\nao fundo do beliche, uma figura p\u00e1lida , ofegante, toda descomposta na imprud\u00eancia<br \/>\ndo enj\u00f4o. Ele \u00e9 que nunca enjoava. \u00c0 noite ia fumar para a tolda, estendido<br \/>\nsobre um banco, as pernas cruzadas, os olhos perdidos pelo oceano. Vinham-lhe<br \/>\nent\u00e3o as nostalgias da prov\u00edncia; o cora\u00e7\u00e3o dilatava-se por um sentimento<br \/>\nmorno de saudade. Via defronte de si o vulto carinhoso de sua m\u00e3e, a chorar,<br \/>\ncom o rosto escondido no len\u00e7o, o corpo sacudido pelos solu\u00e7os. Quanto n\u00e3o<br \/>\ncustou \u00e0 pobre mulher separar-se do filho ?&#8230;Que viol\u00eancia n\u00e3o foi preciso<br \/>\npara lho arrancarem dos bra\u00e7os !foi como se pela Segunda vez lho tirassem<br \/>\na ferro das entranhas. Antes mesmo da partida de Am\u00e2ncio, muito sofrera a<br \/>\nm\u00edsera com a id\u00e9ia daquela separa\u00e7\u00e3o. Pensava nisso a todo instante, sem se<br \/>\npoder capacitar de que ele devia ir, atirado a bordo de um vapor, t\u00e3o sozinho,<br \/>\nt\u00e3o em risco de perigos. &#8220;Oh ! era muito duro !Era muito duro ! &#8230;&#8221; Mas Vasconcelos<br \/>\nopunha-lhe argumentos terr\u00edveis : &#8211; O rapaz precisava fazer carreira, Ter<br \/>\numa posi\u00e7\u00e3o ! N\u00e3o seria agarrado \u00e0s saias da m\u00e3e que iria pra diante !H\u00e1 muito<br \/>\nmais tempo devia Ter seguido &#8211; o filho de fulano fora aos quinze anos ; o<br \/>\nde beltrano com vinte e tr\u00eas , e Am\u00e2ncio j\u00e1 tinha vinte. Ia tarde ! \u00c2ngela<br \/>\nque se deixasse de pieguices. Justamente por estim\u00e1-lo \u00e9 que devia ser a<\/p>\n<p>primeira a querer que ele fosse, que se instru\u00edsse, que se fizesse homem<br \/>\n! Al\u00e9m disso o rapaz a poderia visitar pelas f\u00e9rias, nem sempre, mas de doeis<br \/>\nem dois anos. \u00c2ngela parecia resignar-se com as palavras de Vasconcelos ;fazia-se<br \/>\nforte :jurava que &#8221; n\u00e3o era ego\u00edsta &#8221; que &#8221; n\u00e3o seria capaz de cortar a carreira<br \/>\nde seu filho&#8221; ; mal, por\u00e9m o marido lhe dava as costas, voltava-lhe a fraqueza<br \/>\n:vinham-lhe as l\u00e1grimas, tornavam as agonias. Por vezes, no meio do jantar,<br \/>\nenquanto os outros riam e conversavam, ela, que at\u00e9 a\u00ed estivera a pensar,<br \/>\nabria numa explos\u00e3o de solu\u00e7os e retirava-se para o quarto, aflita, envergonhada<br \/>\nde n\u00e3o poder dominar aquele desespero. Outras vezes acordava por alta noite,<br \/>\na gritar, a debater-se, a reclamar o filho, a disput\u00e1-lo contra os fantasmas<br \/>\ndo pesadelo. No dia da viagem n\u00e3o se p\u00f4de levantar da cama, tinha febre, vertigens<br \/>\n; a cabe\u00e7a andava-lhe \u00e0 roda. E n\u00e3o queria mais ningu\u00e9m perto de si, al\u00e9m<br \/>\ndo filho, s\u00f3 ele ! &#8220;N\u00e3o a privassem de Am\u00e2ncio ao menos naquele dia ! &#8220;E tomava-o<br \/>\nnos bra\u00e7os, procurava agasalh\u00e1-lo ao colo, como fazia dantes, quando ele era<br \/>\npequenino. Afagava-lhe a cabe\u00e7a beijava-lhe de novo as m\u00e3os, os olhos, o pesco\u00e7o,<br \/>\nenvolvia-o todo em mimos, como, se, na santa loucura de seu amor, imaginasse<br \/>\nque eles lhe preservariam o filho contra os escolhos da jornada e contra os<br \/>\nfuturos perigos que o amea\u00e7avam. &#8211; Minha pobre m\u00e3e !&#8230;suspirava Am\u00e2ncio no<br \/>\ntombadilho, derramando o olhar lacrimoso pela inconstante plan\u00edcie das \u00e1guas.<br \/>\n&#8211; Minha pobre m\u00e3e!&#8230; E vinham-lhe ent\u00e3o fundas saudades de sua terra, de<br \/>\nsua casa e de seus parentes. As palavras de \u00c2ngela palpitavam-lhe em torno<br \/>\nda cabe\u00e7a, com uma express\u00e3o de beijos estalados. Lembrava-se dos \u00faltimos<br \/>\nconselhos que ela lhe dera, das suas recomenda\u00e7\u00f5es, das suas pequeninas previd\u00eancias;<br \/>\nde tudo isso, por\u00e9m, o que mais lhe ficara grudado \u00e0 mem\u00f3ria foi o que lhe<br \/>\ndisse a boa velha muito em particular, a respeito de dinheiro. &#8220;Se n\u00e3o te<br \/>\nchegar a mesada, ou se te vierem a faltar os recursos, escreve-me logo duas<br \/>\nlinhas, que eu te mandarei o que precisares. Mas n\u00e3o conv\u00e9m que teu pai saiba<br \/>\ndisso&#8230;&#8221; Para as primeiras despesas na Corte e para os gastos nas prov\u00edncias,<br \/>\njuntou ao que dera Vasconcelos ao filho, mais quinhentos mil-r\u00e9is ;n\u00e3o achava<br \/>\nbom, entretanto, que Am\u00e2ncio saltasse em todos os portos. &#8221; Era muito arriscado<br \/>\n!Ele n\u00e3o se deveria expor de semelhante forma !&#8221; E a lembran\u00e7a do dinheiro<br \/>\npuxou logo outros consigo e arremessou-o no fr\u00edvolo terreno de seus devaneios<br \/>\ntolos e voluptuosos. Vieram as recorda\u00e7\u00f5es ;come\u00e7ou a desenfiar mentalmente<br \/>\no ros\u00e1rio dos amores que acumulara dos quinze anos at\u00e9 ali. Era um ros\u00e1rio<br \/>\nextravagante ;havia contas de todos os matizes e de todos os feitios. Entre<br \/>\nelas, por\u00e9m, s\u00f3 tr\u00eas se destacavam, tr\u00eas belas contas de marfim :- a filha<br \/>\nmais velha do Costa Lobo, a mulher de um comendador , amigo de seu pai, e<br \/>\numa vi\u00fava de um oficial do Ex\u00e9rcito. E s\u00f3. Todas as outras suas conquistas<br \/>\nn\u00e3o valiam nada ;de algumas tinha, contudo, bem boas recorda\u00e7\u00f5es: a Francisca<br \/>\nde Vila do Pa\u00e7o. Por exemplo, &#8211; uma caboclinha, que se apaixonou por ele e<br \/>\nvinha persegui-lo at\u00e9 a cidade ;uma espanhola, mulher de um tipo barbado e<br \/>\ncalvo, que andava a mostrar figuras de cera pelas prov\u00edncias do Norte, uma<br \/>\nsenhora gorda, Amasiada com um botic\u00e1rio, da qual elogiavam muito as virtudes,<br \/>\nmas que um dia atirou-se brutalmente sobre Am\u00e2ncio , dizendo que o amava e<br \/>\ntrincando-lhe os bei\u00e7os. E como estas, outras e outras recorda\u00e7\u00f5es foram-se<br \/>\nenfiando e desenfiando pelo esp\u00edrito sensual e mesquinho do vaidoso, at\u00e9 deix\u00e1-lo<br \/>\nmergulhado na apatia dos entes sem ideais e sem aspira\u00e7\u00f5es. Mas, j\u00e1 n\u00e3o queria<br \/>\npensar nesses amores da prov\u00edncia ;tudo isso agora se lhe afigurava rid\u00edculo<br \/>\ne acanhado. A Corte , sim! \u00e9 que lhe havia de proporcionar boas conquistas.<br \/>\n&#8221; Ia principiar a vida!&#8221; E, nessa disposi\u00e7\u00e3o chegou ao Rio de Janeiro.<\/p>\n<h2><a name=\"3\"><\/a>III<\/h2>\n<p>Estava hospedado h\u00e1 dois dias em casa do Campos; esse tempo levara ele a<br \/>\nentregar cartas e encomendas. \u00c0 noite, fatigado e entorpecido pelo calor,<br \/>\nmal tinha \u00e2nimo para dar uma vista de olhos pelas ruas da cidade. Entretanto,<br \/>\na vida externa o atra\u00eda de um modo desabrido; estalava por cair no meio desse<br \/>\nformigueiro, desse bul\u00edcio vertiginoso, cuja vibra\u00e7\u00e3o lhe chegava aos ouvidos,<br \/>\ncomo os ecos long\u00ednquos de uma saturnal. Queria ver de perto o que vinha a<br \/>\nser essa grande Corte, de que tanto lhe falavam ;ouvira contar maravilhas<br \/>\na respeito das cortes\u00e3s c\u00ednicas e formosas, ceias pela madrugada, passeios<br \/>\nao Jardim Bot\u00e2nico, em carros descobertos, o champanha ao lado, o cocheiro<br \/>\nb\u00eabado; &#8211; e tudo isso o atra\u00eda em sil\u00eancio, e tudo isso o fascinava, o visgava<br \/>\ncom o dom\u00ednio secreto de um v\u00edcio antigo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, por onde havia de principiar ?&#8230;N\u00e3o tinha rela\u00e7\u00f5es, n\u00e3o tinha amigos<br \/>\nque o encaminhassem ! Al\u00e9m disso, o Campos estava sempre a lhe moer o ju\u00edzo<br \/>\ncom as matr\u00edculas, com a entrada na academia, com o inferno de obriga\u00e7\u00f5es<br \/>\na cumprir, cada qual mais pesada, mais antip\u00e1tica, mais insuport\u00e1vel ! &#8211; Olhe<br \/>\n, seu Am\u00e2ncio, que o tempo n\u00e3o espicha &#8211; encolhe !&#8230;\u00c9 bom ir cuidando disso!&#8230;<br \/>\nRepetia-lhe negociante, fazendo ar s\u00e9rio e comprometido. &#8211; Veja agora se vai<br \/>\nperder o ano ! Veja se quer arranjar por a\u00ed um par de botas !&#8230; Am\u00e2ncio fingia-se<br \/>\nlogo muito preocupado com os estudos e falava calorosamente na matr\u00edcula.<br \/>\nMexa-se ent\u00e3o, homem de Deus! Bradava o outro. &#8211; Os dias est\u00e3o correndo. Afinal,<br \/>\ngra\u00e7as aos esfor\u00e7os de Campos, consegui matricular-se na academia, duas semanas<br \/>\ndepois de Ter chegado ao Rio de Janeiro. O medo \u00e0s matem\u00e1ticas levara-o a<br \/>\ndesistir da Marinha e agarrar-se \u00e0 Medicina, como quem se agarra a uma t\u00e1bua<br \/>\nde salva\u00e7\u00e3o ; pois o Direito, se bem que, para ele, fosse de todas a mais<br \/>\nrisonha, n\u00e3o lhe servia igualmente, visto que Am\u00e2ncio n\u00e3o estava disposto<br \/>\na deixar a Corte e ir ser estudante na prov\u00edncia. A medicina, contudo longe<br \/>\nde seduzi-lo, causava-lhe um t\u00e9dio atroz. Seu temperamento aventuroso e fr\u00edvolo<br \/>\nn\u00e3o se conciliava com as frias verdades da cirurgia e com as pacientes investiga\u00e7\u00f5es<br \/>\nda terap\u00eautica. Pressentia claramente que nunca daria um bom m\u00e9dico, que jamais<br \/>\nteria amor \u00e0s sua profiss\u00e3o. Esteve a desistir logo nos primeiros dias de<br \/>\naula : o cheiro nauseabundo do anfiteatro da escola, o aspecto nojento dos<br \/>\ncad\u00e1veres, as ma\u00e7antes li\u00e7\u00f5es de Qu\u00edmica, F\u00edsica e Bot\u00e2nica, as tro\u00e7as dos<br \/>\nveteranos, a descri\u00e7\u00e3o minuciosa e fatigante da osteologia, a cara insoci\u00e1vel<br \/>\ndos explicadores; tudo isso o fazia vacilar ;tudo isso lhe punha no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\num duro sentimento de m\u00e1 vontade, uma antipatia angustiosa, um n\u00e3o querer<br \/>\ndoloroso e taciturno. \u00c0s vezes, no entanto, pretendia reagir :atirava-se ao<br \/>\nBaunis Bouchard e ao Vale, disposto a ler durante horas consecutivas ,disposto<br \/>\na prestar aten\u00e7\u00e3o, a compreender ; mal, por\u00e9m, ele se entregava aos comp\u00eandios,<br \/>\no pensamento, p\u00e9 ante p\u00e9, ia-se escapando da leitura, fugia sorrateiramente<br \/>\npela janela, ganhava a rua, e prendia-se ao primeiro frufru da saia que encontrasse.<br \/>\nE Am\u00e2ncio continuava a ler a estranha tecnologia da ci\u00eancia, a repetir maquinalmente,<br \/>\nde cor, os caracteres distintivos das v\u00e9rtebras, ou a cismar abstrato nas<br \/>\npropriedades do cloro e do bromo, sem todavia conseguir que patavina daquilo<br \/>\nlhe ficasse na cabe\u00e7a. &#8211; N\u00e3o haver uma academia de Direito no Rio de Janeiro<br \/>\n!lamentava ele, bocejando, a olhar vagamente a sua enfiada de v\u00e9rtebras, que<br \/>\nhavia comprado no dia anterior. Porque, no fim de contas, tudo que cheirasse<br \/>\na ci\u00eancia de observa\u00e7\u00e3o o enfastiava : &#8220;Deixassem l\u00e1 , que a tal osteologia<br \/>\ne a tal Qu\u00edmica nada ficavam a dever \u00e0s matem\u00e1ticas !&#8230;&#8221; Ah ! o Direito,<br \/>\no Direito \u00e9 que , incontestavelmente, devia ser a sua carreia. Preferia-o<br \/>\npor ach\u00e1-lo menos \u00e1spero, mais tang\u00edvel, mais d\u00f3cil, que outra qualquer mat\u00e9ria.<br \/>\nE esse mesmo&#8230;Valha-me Deus ! tinha ainda contra si o diabo do latim, que<br \/>\nera bastante para o tornar dif\u00edcil. E lembrar-se Am\u00e2ncio de que havia por<br \/>\na\u00ed criaturas t\u00e3o dotadas de paci\u00eancia, t\u00e3o resignadas, t\u00e3o perseverantes,<br \/>\nque se votavam de corpo e alma ao cultivo das artes !&#8230;das artes, que, segundo<br \/>\nv\u00e1rias opini\u00f5es, exigiam ainda mais const\u00e2ncia e mais firmeza do que as ci\u00eancias<br \/>\n!&#8230;Com efeito,! Era preciso Ter muita coragem, muito hero\u00edsmo, porque as<br \/>\ntais belas-artes, no Brasil, nem sequer ofereciam posi\u00e7\u00e3o social, nem davam<br \/>\nsequer um titulozinho de doutor ! &#8211; Qual! N\u00e3o seria com ele !&#8230;Fosse gastando<br \/>\nquem melhor quisesse a exist\u00eancia na concep\u00e7\u00e3o de um bom quadro, de uma boa<br \/>\nest\u00e1tua, de uma \u00f3pera genial ou de um bom livro de literatura, que ele ficava<br \/>\nc\u00e1 de fora &#8211; para apreciar. O mais que podia fazer, era &#8211; aplaudir; aplaudir<br \/>\ne pagar ! &#8211; E j\u00e1 n\u00e3o fazia pouco !&#8230; Isso justamente ouviu, por mais de uma<br \/>\nvez, da boca de seu pai .O velho .Vasconcelos nunca tomou a s\u00e9rio os artistas<br \/>\n&#8220;Uns peda\u00e7o-d&#8217;asnos!&#8221; qualificava ele, e, de uma feita em que o Franco de<br \/>\nS\u00e1 lhe comunicou os seus projetos de estudar pintura na Europa, o negociante<br \/>\nfez uma careta e exclamou, batendo-lhe no ombro: &#8220;Homem, seu Sazinho !n\u00e3o<br \/>\nseria eu que lhe aconselhasse semelhante cabe\u00e7ada. .porque, meu amigo, isto<br \/>\nde artes \u00e9 uma cadelagem! Procure meios de obter cobres, e o senhor ter\u00e1 \u00e0<br \/>\nsua disposi\u00e7\u00e3o os artistas que quiser !&#8221; &#8211; E nisto tinha o velho toda a raz\u00e3o,<br \/>\npensava Am\u00e2ncio. Acho apenas que devia estender a sua teoria at\u00e9 o estudo<br \/>\nde certas ci\u00eancias&#8230;como a Medicina&#8230;Sim ! porque , afinal, com o dinheiro<br \/>\ntamb\u00e9m obtemos os m\u00e9dicos de que precisamos, e n\u00e3o vale a pena, por conseguinte,<br \/>\ngramar seis anos de academia e curtir as ma\u00e7adas que estou suportando, sabe<br \/>\nDeus como ! &#8211; Mas ,neste caso, a quest\u00e3o muda muito de figura !dizia-lhe em<br \/>\nresposta uma voz que vinha de dentro de seu pr\u00f3prio racioc\u00ednio N\u00e3o se trata<br \/>\naqui de fazer um &#8220;m\u00e9dico&#8221;, trata-se de fazer um &#8220;doutor&#8221;, seja ele do que<br \/>\nbem quiser !N\u00e3o se trata de ganhar uma &#8220;profiss\u00e3o&#8221;, trata-se de obter um &#8220;t\u00edtulo&#8221;.<br \/>\nTu n\u00e3o precisas de meios de vida, precisas \u00e9 de uma posi\u00e7\u00e3o na sociedade.<\/p>\n<p>&#8211; Visto isso, por\u00e9m, objetava Am\u00e2ncio, &#8211; quero crer que o mais acertado seria<br \/>\ncomprar uma carta na B\u00e9lgica ou na Alemanha ,e mandar ao diabo, uma vez por<br \/>\ntodas, aquela peste de Medicina ! Ora, Medicina, Medicina servia para algum<br \/>\nmo\u00e7o pobre que precisasse viver da cl\u00ednica; ele n\u00e3o estava nessa circunst\u00e2ncias.<br \/>\nEra rico ! s\u00f3 com o que lhe tocava por parte materna, podia passar o resto<br \/>\nda vida sem se fatigar !&#8230;Por que, pois, sofrer aquelas apoquenta\u00e7\u00f5es do<br \/>\nestudo ? Por que raz\u00e3o havia de ficar preso aos livros, entre quatro paredes,<br \/>\nquando dispunha de todos os elementos para estar l\u00e1 fora , em liberdade, a<br \/>\nse divertir e a gozar ?!&#8230; Mais uma id\u00e9ia sustinha-lhe o v\u00f4o do pensamento<br \/>\n;o vulto ang\u00e9lico de sua m\u00e3e vinha colocar-se defronte dele, abrindo os bra\u00e7os,<br \/>\ncomo se o quisesse proteger de um abismo. Ah! quanto empenho n\u00e3o fazia a pobre<br \/>\nvelha em v\u00ea-lo formado \u00e0s direitas, numa faculdade do Brasil ! &#8230; V\u00ea-lo doutor<br \/>\n!&#8230; &#8211; Doutor, hein?! repetia Am\u00e2ncio, meio animado com o prest\u00edgio que ao<br \/>\nnome lhe daria o t\u00edtulo. E ligava-os mentalmente, para ver o efeito que juntos<br \/>\nproduziam : &#8211; Doutor Am\u00e2ncio ! Doutor Am\u00e2ncio de Vasconcelos ! N\u00e3o fica mal<br \/>\n! n\u00e3o fica !A m\u00e3e tinha raz\u00e3o : &#8211; Era preciso ser doutor !&#8230; E quanto ao<br \/>\ngosto, que prazer, n\u00e3o sentiria nisso a querida velha !&#8230;Oh ! ele agora pensava<br \/>\nem \u00c2ngela com muito mais ternura ;nela resumia toda a fam\u00edlia e tudo que houvesse<br \/>\nde bom no seu passado. S\u00f3 com a aus\u00eancia p\u00f4de avaliar o muito que a respeitava<br \/>\ne o muito que a estremecia. Ele, que n\u00e3o chorara ao despedir-se da m\u00e3e; ele,<br \/>\nque, algumas vezes chegou at\u00e9 a se aborrecer de seus desvelos e da insist\u00eancia<br \/>\nde seus carinhos &#8211; agora n\u00e3o a podia ter na mem\u00f3ria, sem ficar com cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nopresso e os olhos relentados de pranto. Pungia-lhe a consci\u00eancia uma esp\u00e9cie<br \/>\nde remorso por n\u00e3o se ter mostrado mais afetuoso e mais amigo, enquanto a<br \/>\npossuiu perto de si, por n\u00e3o ter melhor aproveitado essa ocasi\u00e3o para deixar<br \/>\nbem patente que sabia ser &#8220;bom filho&#8221;. E punha-se ent\u00e3o a mentalizar planos<br \/>\nde melhor conduta para quando voltasse ao lado de \u00c2ngela; considerava os mimos<br \/>\nque teria com ela, os afagos que lhe havia de dispensar, os beijos que lhe<br \/>\nhavia de pedir. &#8211; Ah ! Se naquele momento ele a tivesse ali , o que n\u00e3o lhe<br \/>\ndiria ! E, por uma necessidade urgente de expans\u00e3o, levantou-se da cadeira<br \/>\nem que estava e correu \u00e0 secret\u00e1ria , disposto a escrever uma carta, longa,<br \/>\na sua m\u00e3e. Precisava queixar-se do isolamento em que vivia, contar-lhe as<br \/>\nsuas tristezas; as suas contrariedades, justamente com o fazia dantes, em<br \/>\npequeno, ao voltar da aula do Pires. Sua alma tornava atr\u00e1s , fazia-se infantil,<br \/>\nmuito crian\u00e7a, muito ing\u00eanua e carecida de amparo. A m\u00e3e, enquanto esteve<br \/>\nao lado dele, foi sempre um cora\u00e7\u00e3o aberto para lhe receber as l\u00e1grimas e<br \/>\nos queixumes. Tamb\u00e9m , s\u00f3 elas, s\u00f3 as m\u00e3es, podem servir a t\u00e3o delicado mister.<br \/>\nO que se lan\u00e7a ao peito da amante desde logo arde e se evapora, porque a\u00ed<br \/>\no fogo \u00e9 por demais intenso; o que se atira ao de um estranho gela-se de pronto<br \/>\nna indiferen\u00e7a e na aridez; mas, tudo aquilo que um filho semeia no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nmaterno &#8211; brota, floreja e produz consola\u00e7\u00f5es. Neste n\u00e3o h\u00e1 chama que devore,<br \/>\nnem, frio que enregele, mas um doce amornecer, suave e fecundo, como a trepidez<br \/>\nde um seio intumescido e ressumbrante de leite. E escreveu : &#8220;Mam\u00e3e &#8221; Hesitou<br \/>\nlogo. Aquele modo de tratar n\u00e3o lhe pareceu conveniente; queria uma carta<br \/>\nde efeito, com estilo, uma carta a primor, que desse id\u00e9ia de seu talento<br \/>\ne ao mesmo tempo de sua afei\u00e7\u00e3o : &#8220;Minha querida m\u00e3e. Eis-me na grande Corte,<br \/>\nque ali\u00e1s me parece est\u00fapida e acanhada por achar-me longe de vossemec\u00ea&#8230;&#8221;<br \/>\nVinham, em seguida, muitos protestos de amor filial e depois uma extensa descri\u00e7\u00e3o<br \/>\nda cidade, a qual ocupava duas laudas da carta . Na terceira escreveu o seguinte:<br \/>\n&#8221; Desde que vim da\u00ed, o Sabino s\u00f3 me tem dado ma\u00e7adas; a bordo vivia a brigar<br \/>\ncom os outros criados; aqui nunca me aparece; sai pela manh\u00e3 e j\u00e1 faz muito<br \/>\nquando volta \u00e0 noite. Pilhou-se sem castigo e abusa desse modo. Ainda n\u00e3o<br \/>\nlhe consegui arranjar a matr\u00edcula no Tesouro e nem sei como isso se obt\u00e9m;<br \/>\no Campos \u00e9 que h\u00e1 de ver. &#8221; Como sabe, h\u00e1 m\u00eas e meio que me acho hospedado<br \/>\nem cada deste. Aqui nada me falta, \u00e9 certo, mas igualmente nada me satisfaz,<br \/>\nporque estou muito isolado e aborrecido. A fam\u00edlia \u00e9 atenciosa o quanto pode<br \/>\nser comigo; eu, por\u00e9m , apesar disso , n\u00e3o deixo de ser para eles um estranho<br \/>\ne , como tal, apenas recebo cortesias e hospitalidade. D. Maria Hort\u00eansia<br \/>\n\u00e9 am\u00e1vel, mas por uma simples quest\u00e3o de delicadeza; da irm\u00e3, D. Carlotinha,<br \/>\nnem \u00e9 bom falar !Esta, se j\u00e1 me dispensou duas palavras, foi o m\u00e1ximo, parece<br \/>\nat\u00e9 que tem medo de olhar para mim ;talvez com receio de desagradar ao guarda-livros,<br \/>\nque, pelos modos, \u00e9 l\u00e1 o seu namorado. Do que n\u00e3o resta d\u00favida \u00e9 que o tal<br \/>\nguarda-livros \u00e9 de todos o mais antip\u00e1tico e dif\u00edcil de suportar. Um hip\u00f3crita<br \/>\n!Est\u00e1 sempre com a carinha n&#8217; \u00e1gua e j\u00e1, por v\u00e1rias vezes, se tem querido<br \/>\nmeter a espirituoso c\u00e1 para o meu lado. &#8211; S\u00e3o ditinhos,<\/p>\n<p>indiretas de instante a instante. Eu, qualquer dia destes, o chamo \u00e0 ordem!<br \/>\nAinda n\u00e3o h\u00e1 uma semana, veja isto! fui a um espet\u00e1culo dram\u00e1tico no S\u00e3o Pedro<br \/>\nde Alc\u00e2ntara e \u00e0 volta, quando cheguei \u00e0 casa, quis acender a vela para estudar.<br \/>\nQuem disse?&#8230;o fogo n\u00e3o se comunicava ao pavio. Verifico :- no lugar da torcida<br \/>\nhaviam posto um prego ;fiquei com os dedos queimados. E esta gra\u00e7a n\u00e3o foi<br \/>\nde outro sen\u00e3o o tal cara de mono ! &#8221; J\u00e1 me lembrou mudar-me ;o Campos, por\u00e9m,<br \/>\nacha que o n\u00e3o devo fazer enquanto n\u00e3o descobrir por a\u00ed um bom c\u00f4modo, em<br \/>\nalguma casa de pens\u00e3o.&#8221; E no mesmo teor ia por diante , at\u00e9 encher duas folhas<br \/>\nde papel marca pequena. Am\u00e2ncio narrava \u00e0 m\u00e3e todos os seus passos e todos<br \/>\nos seus desgostos, sem lhe confessar, todavia, que o principal motivo daquele<br \/>\ndescontentamento estavas em n\u00e3o poder recolher de noite \u00e0s horas que entendesse;<br \/>\nem Ter por \u00fanico companheiro de passeios o Lu\u00eds Campos, cuja sobriedade nos<br \/>\ngestos e costumes, discri\u00e7\u00e3o nos termos, cujo aspecto repreensivo e pedag\u00f3gico,<br \/>\nde mentor, faziam-no j\u00e1 perfeitamente insuport\u00e1vel aos olhos do estudante.<br \/>\n&#8211; Ora adeus !considerava este, deveras enfiado. &#8211; N\u00e3o foi para a me fazer<br \/>\nsanto, que vim ao Rio de Janeiro ! Boas !Podia l\u00e1 estar disposto a sofrer<br \/>\naquele ele ma\u00e7ante do Campos !&#8230;Mas tamb\u00e9m n\u00e3o seria muito divertido andar<br \/>\nsozinho pela cidade, a trocar pernas, sem um companheiro, sem um amigo. Al\u00e9m<br \/>\ndisso temia do seu provincialismo, receava &#8220;fazer figura triste&#8221;; ainda n\u00e3o<br \/>\nconhecia o pre\u00e7o das coisa e o nome das ruas. No Maranh\u00e3o falavam com tanto<br \/>\nassombro dos gatunos da Corte! _os tais capoeiras! E Am\u00e2ncio sobressaltava-se<br \/>\npensando num encontro desagrad\u00e1vel, em que lhe cambiassem o dinheiro e as<br \/>\nj\u00f3ias por uma navalhada. Seu maior desejo era Ter ali um dos amigos da prov\u00edncia,<br \/>\na quem confiasse as impress\u00f5es recebidas e com quem pudesse conversar livremente,<br \/>\n\u00e0 franca , sem medir palavras, nem tomar as enfadonhas reservas e composturas,<br \/>\nque lhe impunha a cens\u00f3ria presen\u00e7a do negociante. Por isso, numa ocasi\u00e3o<br \/>\n, em que atravessava pela manh\u00e3 o Beco do Cotovelo, sentiu grande alegria<br \/>\nao dar cara a cara com o Paiva Rocha. O Paiva era seu comprovinciano e fora<br \/>\nseu condisc\u00edpulo; pertenceram \u00e0 mesma turma de exames na aula do Pires e matricularam-se<br \/>\njuntos no Liceu. Mas, enquanto o filho do Vasconcelos estudou as tr\u00eas primeiras<br \/>\nmat\u00e9rias, o outro fez todos os preparat\u00f3rios. Abra\u00e7aram-se. Houve exclama\u00e7\u00f5es<br \/>\nde parte a parte. &#8211; Ora o Paiva !disse Am\u00e2ncio afinal, encarando o amigo com<br \/>\num olhar muito satisfeito. &#8211; N\u00e3o te fazia aqui na Corte ! &#8211; Estou na Polit\u00e9cnica.<br \/>\n&#8211; Ah! exclamou Am\u00e2ncio ,com interesse. &#8211; Que ano ? &#8211; Terceiro. &#8211; Bom. Est\u00e1s<br \/>\nquase livre !- &#8211; Qual! resmungou o Paiva, mascando o cigarro. &#8211; tenho ainda<br \/>\nmuito que aturar! E passaram ent\u00e3o a falar de estudos. Am\u00e2ncio fazia recrimina\u00e7\u00f5es:<br \/>\n&#8220;S\u00f3 encontrara dificuldades&#8221;. Disse a sua antipatia pelas ci\u00eancias pr\u00e1ticas<br \/>\n;queixou-se de alguns veteranos, que por serem mais antigos na escola, se<br \/>\njulgavam com direito de maltratar os outros. &#8220;Era est\u00fapido! simplesmente est\u00fapido!&#8221;<br \/>\n&#8211; Tradi\u00e7\u00f5es ! respondeu o Paiva, com a indiferen\u00e7a de quem n\u00e3o preocupam tais<br \/>\nbagatelas. &#8211; Isso h\u00e1 de acabar&#8230;A natureza n\u00e3o d\u00e1 saltos ! Am\u00e2ncio, como<br \/>\nqualquer provinciano que ainda n\u00e3o tivesse ocasi\u00e3o de apreciar o Rio de Janeiro,,<br \/>\njulgava-se t\u00e3o desiludido a respeito dele, quanto a respeito de estudos. &#8211;<br \/>\nSempre imaginei que fosse outra coisa !&#8230;disse. &#8211; A tal Rua do Ouvidor, por<br \/>\nexemplo!&#8230; Paiva j\u00e1 n\u00e3o o ouvia, era todo aten\u00e7\u00e3o para um cartaz de teatro,<br \/>\nque um sujeito pregava na parede defronte. Am\u00e2ncio prosseguiu, declarando<br \/>\nque, at\u00e9 ali, nada encontrara de extraordin\u00e1rio na Corte. &#8211; Com franqueza<br \/>\n&#8211; _antes o Maranh\u00e3o ! Com franqueza que antes ! N\u00e3o achas?&#8230;perguntou. &#8211;<br \/>\n\u00c9 ! respondeu o outro, distra\u00eddo. Mas Am\u00e2ncio precisava desabafar e n\u00e3o se<br \/>\ncontentou com aquela resposta. Insistiu na pergunta; chamou a aten\u00e7\u00e3o do Paiva,<br \/>\nagarrando-se-lhe \u00e0 gola esgar\u00e7ada do fraque. &#8211; N\u00e3o, filho, deixa-te disso,<br \/>\nretorquiu o interrogado. &#8211; A Corte sempre \u00e9 Corte!&#8230; &#8211; Ora qual ! &#8211; \u00c9 porque<br \/>\nainda n\u00e3o est\u00e1s acostumado, ainda n\u00e3o conheces o Rio! H\u00e1s de ver depois !&#8230;<br \/>\nAm\u00e2ncio duvidava. &#8211; Ver\u00e1s ! repetia o Paiva.- Daqui a um ou dois anos \u00e9 que<br \/>\nte quero ouvir. E passaram de novo a falar de estudos, matr\u00edcula e de exames.<br \/>\nPaiva bocejou; o outro estava &#8220;caceteando&#8221; .Quis safar-se. &#8211; Espera ! implorou<br \/>\nAm\u00e2ncio, apoderando-se-lhe de novo da gola do fraque &#8211; Espera!<\/p>\n<p>Onde vais tu ?&#8230; Conversa mais um pouco! suplicava ele com a voz infeliz<br \/>\nde quem pede uma esmola. N\u00e3o te v\u00e1s ainda ! Que pressa ! Paiva tinha de ir<br \/>\nalmo\u00e7ar com um amigo. Estava muito ocupado! &#8220;Naquele dia n\u00e3o dispunha de um<br \/>\nmomento seu&#8221; Depois ,depois se encontrariam ! &#8211; N\u00e3o! Vem c\u00e1! Espera! O Paiva<br \/>\nlevantou as sobrancelhas, impacientando-se. &#8211; Mas, vem c\u00e1, dize-me uma coisa:<br \/>\no que \u00e9 que tanto tens hoje a fazer?&#8230;inquiriu o outro. &#8211; Filho, quest\u00f5es<br \/>\nde interesse! respondeu aquele, procurando abreviar explica\u00e7\u00f5es. Veio-lhe,<br \/>\npor\u00e9m, um \u00edmpeto de raiva e come\u00e7ou a falar alto sobre dinheiro; havia brigado<br \/>\nna v\u00e9spera com o seu correspondente. &#8211; Um burro! exclamava,- um vinagre! Imagina<br \/>\ntu que o malvado sabe perfeitamente que n\u00e3o tenho ningu\u00e9m por mim aqui no<br \/>\nRio, e p\u00f5e-se com d\u00favidas para me dar a mesada! &#8230;Como se aquele dinheiro<br \/>\nlhe sa\u00edsse do bolso! Diabo da peste! &#8211; Ele ent\u00e3o n\u00e3o te quis dar a mesada<br \/>\n?&#8230;perguntou Am\u00e2ncio muito espantado. &#8211; \u00c9 o costume aqui !retrucou o Paiva<br \/>\ndesabridamente.- Eles julgam que nos fazem grande obs\u00e9quio em dar-nos aquilo<br \/>\nque nos pertence! E, olhando para Am\u00e2ncio com os olhos apertados: &#8211; Mas tamb\u00e9m,<br \/>\nfilho, disse-lhe meia d\u00fazia de desaforos, como ele nunca ouviu em sua vida!<br \/>\nC\u00e3o! E exp\u00f4s a descompostura por inteiro, na qual as palavras galego ,ladr\u00e3o,<br \/>\ncachorro entravam repetidas vezes. &#8211; De sorte que, terminou o estudante mais<br \/>\ntranq\u00fcilo, como se houvesse despejado um peso nas costas,- n\u00e3o tenho l\u00e1 ido<br \/>\n! Quest\u00e3o de capricho, sabes ? olha, estou assim ! E bateu nas algibeiras.<br \/>\n&#8211; Isso arranja-se &#8230;disse Am\u00e2ncio timidamente, receoso de humilhar o colega.<br \/>\nE depois, com um vislumbre: Vamos almo\u00e7ar a um hotel ?! O Paiva concordou,<br \/>\nsacudindo os ombros. E, como Am\u00e2ncio perguntasse onde deviam ir, come\u00e7ou a<br \/>\ncitar os melhores hot\u00e9is; j\u00e1 sem deixar transparecer o menor ind\u00edcio de pressa.<br \/>\nFazia-se grande conhecedor da Corte, muito carioca, saboreando muito voluptuosamente<br \/>\no efeito de pasmaceira, que a sua superioridade causava no amigo. Deu-se logo<br \/>\nares de cicerone ; mostrou-se habituad\u00edssimo com tudo aquilo que pudesse causar<br \/>\nadmira\u00e7\u00e3o a um provinciano rec\u00e9m-chegado; fingiu desd\u00e9m por umas tantas coisas,<br \/>\nque \u00e0 primeira vista pareciam boas e falou de outras, menos conhecidas, com<br \/>\nentusiasmo, com interesse pessoal e com orgulho. Am\u00e2ncio escutava-o em recolhido<br \/>\nsil\u00eancio, mas, como estivesse a cair de apetite, voltou logo \u00e0 id\u00e9ia do almo\u00e7o:<br \/>\nlembrou que poderiam ir ao Coroa de Ouro. Paiva fitou-o espantado, e espocou<br \/>\ndepois uma risada falsa: &#8211; Aquela era mesma de quem vinha do Norte! Almo\u00e7ar<br \/>\nno Coroa de Ouro Vade retro ! Am\u00e2ncio n\u00e3o teve \u00e2nimo de defender a sua proposta,<br \/>\ne seguiu o companheiro que pusera a andar com \u00edmpeto. Entram na Rua do Carmo,<br \/>\natravessaram a de S\u00e3o Jos\u00e9 e, ao ca\u00edrem na da Assembl\u00e9ia, Paiva, que ia a<br \/>\npensar, voltou-se de s\u00fabito para Am\u00e2ncio e perguntou-lhe decisivamente : &#8211;<br \/>\nTu queres almo\u00e7ar bem ?! E feriu a \u00faltima palavra. &#8211; \u00c9 ! respondeu o outro.<br \/>\n&#8211; Pois ent\u00e3o vamos ao Hotel dos Pr\u00edncipes ! E seguiram pela Rua Sete de Setembro<br \/>\nat\u00e9 o Rocio.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Ao penetrarem no largo, uma menina italiana, de alguns dez anos de idade,<br \/>\ntoda vestida de luto, morena, o ar suplicantemente risonho e cheio de mis\u00e9ria<br \/>\n,abra\u00e7ou-se \u00e0s pernas de Am\u00e2ncio, pedindo-lhe dinheiro &#8211; para levar \u00e0 m\u00e3e<br \/>\nque estava em casa morrendo de fome. &#8211; Sai ! gritou-lhe o Paiva, procurando<br \/>\narred\u00e1-la. Mas a pequena ajoelhou-se, sem largar as pernas do calouro, de<br \/>\numa de cujas m\u00e3os j\u00e1 se tinha apoderado e cobria de beijos &#8211; Ent\u00e3o, papai!<br \/>\npapaizinho bonito ! uma esmolinha, sim?&#8230;dizia ela, voltando para o mo\u00e7o<br \/>\nseus belos olhos de crian\u00e7as, rindo com uns dentes muito brancos que se lhe<br \/>\ndestacavam vivamente da cor morena do rosto.<\/p>\n<p>&#8211; Coitadinha ! lamentou Am\u00e2ncio, fazendo-lhe uma festa no queixo e procurando<br \/>\ndinheiro na algibeira das cal\u00e7as.. Puxou um ma\u00e7o grosso de c\u00e9dulas. &#8211; N\u00e3o<br \/>\nsejas tolo! gritou-lhe o companheiro. &#8211; Isto \u00e9 especula\u00e7\u00e3o de algum vadio!<br \/>\nVestem por a\u00ed essas bichinhas de luto e mandam-nas perseguir a humanidade!<br \/>\n\u00c9 uma esperteza, n\u00e3o sejas tolo ! A pequena lan\u00e7ou ao Paiva um gesto de raiva<br \/>\ne sorriu para Am\u00e2ncio, suplicando. &#8211; Em todo o caso faz d\u00f3, coitada! murmurou<br \/>\neste, dando-lhe uma c\u00e9dula de dois mil-r\u00e9is. A italianinha agarrou-se ao dinheiro<br \/>\ne olhou surpresa para o calouro. Depois beijou-lhe novamente as m\u00e3os, e fugiu,<br \/>\natirando-lhe beijos. &#8211; Coitada ! repetiu ele. &#8211; Ainda est\u00e1 muito peludo! resmungou<br \/>\no Paiva.- Olha que isto por c\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o Maranh\u00e3o! E p\u00f4s-se logo a falar nas<br \/>\nespecula\u00e7\u00f5es do Rio de Janeiro. Contou fatos horrorosos de cinismo e gatunagem.<br \/>\n&#8220;Am\u00e2ncio que se acautelasse: no caminho em que ia, lhe haviam de arrancar<br \/>\nat\u00e9 os olhos.- Ali, a ci\u00eancia de cada um consistia em fazer com que o dinheiro<br \/>\npassasse das algibeiras dos outros para as pr\u00f3prias algibeiras&#8221;. Estava indignado<br \/>\n! &#8220;N\u00e3o podia, a sangue -frio, ver assim se atirar \u00e0 rua &#8211; dois mil-r\u00e9is !Ah!<br \/>\nse o outro soubesse quanto o dinheiro custava a ganhar, n\u00e3o teria as m\u00e3os<br \/>\nt\u00e3o rotas !&#8221; E mostrava-se extremamente empenhado nos interesses do colega<br \/>\n: dava-lhe conselhos ; havia de abrir-lhe os olhos, indicar-lhe o verdadeiro<br \/>\ncaminho a segui. &#8221; N\u00e3o !Que ele n\u00e3o era desses, que s\u00f3 querem desfrutar !&#8230;<br \/>\nQuando simpatizava com um rapaz, sabia ser amigo ! Am\u00e2ncio o veria no futuro!&#8230;<br \/>\n&#8211; Olha ! segredou-lhe ,passando-lhe um bra\u00e7o nas costas, &#8211; H\u00e1s de encontrar<br \/>\npor a\u00ed muito artista !Acautela-te, filho !acautela-te, que os cabras sabem<br \/>\nlevar \u00e1gua ao seu moinho !Digo-te isto, porque te estimo, porque sou teu amigo,<br \/>\npercebes ? Am\u00e2ncio percebia e jurava ser muito grato \u00e0quela dedica\u00e7\u00e3o. Tiveram<br \/>\n. por\u00e9m, de interromper o di\u00e1logo :dois outros estudantes acabavam de parar<br \/>\ndefronte deles. Eram amigos do Paiva. Houve logo novas exclama\u00e7\u00f5es e cumprimentos<br \/>\nrasgados. &#8211; Meus senhores, exclamou aquele. apresentando Am\u00e2ncio. O nosso<br \/>\ncolega, Am\u00e2ncio de Vasconcelos, estudante de medicina. Escuso dizer que \u00e9<br \/>\nmuito talentoso e um car\u00e1ter excelente. Os dois apertaram a m\u00e3o de Am\u00e2ncio<br \/>\ncom solenidade, e afian\u00e7aram que tinham imenso gosto em conhec\u00ea-lo. &#8211; Jo\u00e3o<br \/>\nCoqueiro e Salustiano Sim\u00f5es !nomeou o Paiva, indicando os dois. &#8211; S\u00e3o ambos<br \/>\nda Polit\u00e9cnica E acrescentou em voz baixa, ao ouvido de Am\u00e2ncio, mas de modo<br \/>\nque fosse ouvido por todos: &#8211; Muito distintos !&#8230; O Coqueiro observava em<br \/>\nsil\u00eancio o novo colega ;enquanto o Paiva e o Salustiano reatavam um velho<br \/>\ncol\u00f3quio, interrompido \u00e0 \u00faltima vez que estiveram juntos; saiu do seu recolhimento<br \/>\npara indagar de que prov\u00edncia era Am\u00e2ncio, como ia-se dando nos estudos e<br \/>\nonde estava hospedado. Entretanto, o Sim\u00f5es afrouxava lentamente na conversa<br \/>\ncom o outro e ca\u00eda aos poucos na sua habitual concentra\u00e7\u00e3o; j\u00e1 respondia apenas<br \/>\npor monoss\u00edlabos e s\u00f3 despregava o cigarro dos dentes para bocejar. Afinal,<br \/>\nsem conter a impaci\u00eancia, quis dissolver o grupo; mas Am\u00e2ncio tolheu-lhe a<br \/>\nid\u00e9ia perguntando-lhe e mais ao Coqueiro se j\u00e1 tinham almo\u00e7ado e, visto que<br \/>\nn\u00e3o, pediu-lhes que lhe fizessem companhia. Aceitaram, depois de alguma resist\u00eancia<br \/>\npor parte do \u00faltimo; e os quatro rapazes seguiram imediatamente caminho do<br \/>\nhotel, a rir e dar de l\u00edngua, como se fossem todos amigos de muito tempo.<br \/>\nPaiva Rocha pediu um gabinete particular e a\u00ed se instalou com os outros. Am\u00e2ncio<br \/>\nestava maravilhado. O aspecto daquelas salas afestoadas, cheias de espelhos,<br \/>\nde cortinas e douraduras , no g\u00eanero pretensioso dos hot\u00e9is, ar parisiense<br \/>\ndos criados, vestidos de preto e avental branco; a cor estridente do gabinete;<br \/>\no perfume das flores que guarneciam jarras de propor\u00e7\u00f5es luxuosas; o alvoro\u00e7o<br \/>\npalavroso e alegre dos que faziam a sobremesa; o crepitar do riso das mulheres,<br \/>\ncujos penteadores branquejavam sobre o escuro dos tapetes; a reverbera\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos cristais; a expectativa de um bom almo\u00e7o, que seria devorado com apetite,<br \/>\ne finalmente a circunst\u00e2ncia de que Am\u00e2ncio, havia muito n\u00e3o gozava uma p\u00e2ndega;<br \/>\ntudo isso lhe refrescava o humor e o fazia feliz naquele momento &#8211; Gar\u00e7on!<br \/>\nGritou o Paiva, entrando no gabinete com um ar sem &#8211; cerim\u00f4nia.- La carte<br \/>\n! O criado disparou. &#8211; Tu falas franc\u00eas ?&#8230;inquiriu Am\u00e2ncio, j\u00e1 com admira\u00e7\u00e3o<br \/>\nna voz.<\/p>\n<p>&#8211; Ora ! respondeu o Paiva, levantando os ombros. Aqui na Corte ser\u00e1 dif\u00edcil<br \/>\nencontrar algu\u00e9m que n\u00e3o fale franc\u00eas!&#8230; &#8211; Pois eu ainda n\u00e3o sei&#8230;disse<br \/>\naquele tristemente.. &#8211; Quest\u00e3o de pr\u00e1tica! observou o outro. Coqueiro, que<br \/>\nacabava nesse momento de entrar no gabinete, conversando com Sim\u00f5es, prop\u00f4s<br \/>\nque se despissem os palet\u00f3s. Principiaram a comer. O Paiva encarregara-se<br \/>\ndo menu. Estava radiante; parecia empenhado na dire\u00e7\u00e3o do almo\u00e7o, como se<br \/>\ntratasse de um trabalho dif\u00edcil e glorioso. Escolhia pratos esquisitos e determinava<br \/>\nos vinhos que os deviam acompanhar. &#8211; Este Paiva \u00e9 terr\u00edvel para um menu!<br \/>\nobservou o Sim\u00f5es em ar de tro\u00e7as. &#8211; N\u00e3o! disse aquele. &#8211; N\u00e3o admito que ningu\u00e9m<br \/>\ndirija um almo\u00e7o melhor do que eu! &#8211; Sim, considerou o Coqueiro &#8211; mas vais<br \/>\nver por que pre\u00e7o sai tudo isso !&#8230; &#8211; N\u00e3o faz mal !&#8230;apressou-se Am\u00e2ncio<br \/>\na declarar.- Sinto-me t\u00e3o bem entre os senhores&#8230;h\u00e1 tanto tempo n\u00e3o tinha<br \/>\num momento livre, que&#8230; &#8211; Bem, de acordo, respondeu Coqueiro &#8211; mas \u00e9 preciso<br \/>\ndeixar esse tratamento de &#8220;senhor&#8221;. Entre rapazes n\u00e3o deve haver cerim\u00f4nias,<br \/>\nmal-entendidos; somos colegas, temos de ser amigos, por conseguinte tratemo-nos<br \/>\ndesde j\u00e1 por &#8220;tu &#8220;! N\u00e3o \u00e9s da mesma opini\u00e3o, \u00f3 Paiva ? &#8211; In totum! respondeu<br \/>\neste, abra\u00e7ando Am\u00e2ncio pela cintura. &#8211; N\u00f3s c\u00e1 somos camaradas velhos! vem<br \/>\nde longe! E parecia querer provar que seus direitos sobre o comprovinciano<br \/>\neram muito mais leg\u00edtimos que os dos outros dois; que Am\u00e2ncio lhe pertencia<br \/>\nquase exclusivamente, como um tesouro, como uma fortuna que se traz do ber\u00e7o.<br \/>\nE, para deixar isso bem patente, fazia-se muito \u00edntimo com ele: batia-lhe<br \/>\nnas pernas; evocava recorda\u00e7\u00f5es; lembrava-lhes as correrias das prov\u00edncia:<br \/>\n&#8211; Ah ! N\u00f3s \u00e9ramos muito camaradas ! Lembras-te Am\u00e2ncio daquele passeio que<br \/>\nfizemos ao Portinho ?&#8230; &#8211; Em que o Malheiros tomou uma bebedeira de charuto,<br \/>\nperguntou o interrogado a rir. &#8211; Naquele dia do barulho no Liceu; quando o<br \/>\nChico moleque foi expulso !&#8230; &#8211; \u00c9 verdade! que fim levou esse rapaz! Quis<br \/>\nsaber o Paiva. &#8211; Era um bom tipo. Inteligente! &#8211; Morreu, coitado! de bexigas.<br \/>\nUltimamente estava no com\u00e9rcio. &#8211; E aquele pequeno, o &#8230; &#8211; Qual ? &#8211; Aquele<br \/>\nbonito, de cabelos grandes &#8230;ora, como se chamava ele? &#8230; o &#8230; &#8211; Ah ! exclamou<br \/>\nAm\u00e2ncio, soltando uma risada &#8211; o Dominguinhos ? &#8211; Isso ! isso! Dominguinhos<br \/>\njustamente ! Que fim levou ? &#8211; N\u00e3o sei, n\u00e3o! Creio que seguiu para Manaus<br \/>\ncom a fam\u00edlia. Um bobo ! Lembras-te da tro\u00e7a que lhe fizemos no convento?&#8230;<br \/>\nE os dois riram-se muito com a mesma id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Sim\u00f5es, que at\u00e9 ali parecia pouco disposto \u00e0 p\u00e2ndega, foi-se animando na<br \/>\npropor\u00e7\u00e3o das garrafas que se enxugavam. O almo\u00e7o aquecia. Jo\u00e3o Coqueiro prop\u00f4s<br \/>\num brinde a Am\u00e2ncio e declarou, depois de lhe fazer muitos elogios, que folgaria<br \/>\nimenso com ser recebido no rol de seus amigos. Am\u00e2ncio abra\u00e7ou-o e prometeu<br \/>\nque o iria visitar no primeiro Domingo. &#8211; V\u00e1 feito ! sustentou o Coqueiro.<br \/>\nAli n\u00e3o h\u00e1 cerim\u00f4nia, minha fam\u00edlia \u00e9 muito despida dessa coisas. &#8211; Ah ! mora<br \/>\ncom a fam\u00edlia ? interrogou o provinciano. &#8211; Sou casado, respondeu o outro.-<br \/>\nIsso, por\u00e9m ,nada quer dizer. Apare\u00e7a. Ficou decidido que Am\u00e2ncio iria sem<br \/>\nfalta no pr\u00f3ximo Domingo. Sim\u00f5es principiou ent\u00e3o a falar sobre o casamento<br \/>\n;da\u00ed passou \u00e0s mulheres: descreveu a sua indiferen\u00e7a por elas. S\u00f3 lhes conhecia<br \/>\ndois g\u00eaneros : &#8220;a mulher c\u00ednica e a mulher hip\u00f3crita&#8221;. Paiva Rocha protestava:<br \/>\n&#8211; Havia muita mulher honesta, verdadeiros anjos de virtude ! E que deixassem<br \/>\nde falar ! em certas ocasi\u00f5es uma boa rapariga tinha o seu cabimento ! Sim<br \/>\n!Quem n\u00e3o gostava da est\u00e9tica ?&#8230; Am\u00e2ncio era da mesma opini\u00e3o, e queixou-se<br \/>\nde sua infelicidade no Rio a esse respeito. &#8211; Ainda \u00e9 cedo ! elucidou o Salustiano<br \/>\n.- Quando te come\u00e7arem as aventuras, h\u00e1s de ver o quer vai por essa sociedade<br \/>\n! &#8211; N\u00e3o \u00e9 tanto assim! op\u00f4s o Coqueiro.- Voc\u00eas s\u00e3o todos homens dos extremos!<br \/>\nE voltando-se confidencialmente para Am\u00e2ncio :<\/p>\n<p>&#8211; O doutor, decerto, encontrar\u00e1 uma mulher perigosa, de quem deve fugir como<br \/>\no diabo da cruz; mas ter\u00e1 tamb\u00e9m ocasi\u00e3o de ver algumas raparigas bem educadas,<br \/>\nhonestas e inteligentes. N\u00e3o as v\u00e1 procurar na alta sociedade, n\u00e3o ,que a\u00ed<br \/>\nse escondem as piores! mas indague-as por baixo, na mediocracia, que as h\u00e1<br \/>\nde descobrir. E olhe, se quer aceitar um conselho de amigo, case-se! N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nmelhor vidinha! Estou casado h\u00e1 tr\u00eas anos e ainda n\u00e3o tive um segundo de arrependimento<br \/>\n!&#8230;Ao menos conserva-se a sa\u00fade, desenvolve-se o esp\u00edrito e trabalha-se mais<br \/>\n&#8230;O m\u00e9todo, homem ! o m\u00e9todo \u00e9 o segredo da exist\u00eancia ! E, puxando a cadeira<br \/>\npar mais perto de Am\u00e2ncio, falou-lhe em voz baixa. Que no Rio de Janeiro era<br \/>\npreciso ter um amigo sincero, n\u00e3o que &#8220;primasse nos menus &#8220;, mas que fosse<br \/>\ncapaz, que tivesse imputabilidade moral ! &#8211; Am\u00e2ncio estava defronte de duas<br \/>\nestradas; uma que conduzia \u00e0 verdadeira felicidade e outra que conduzia \u00e0<br \/>\ndesordem, ao v\u00edcio e \u00e0 completa desmoraliza\u00e7\u00e3o! Que se n\u00e3o deixasse levar<br \/>\npelos p\u00e2ndegos !&#8230; (E olhava \u00e0 esconsa os dois outros companheiros. ) Aquilo<br \/>\nera gente sem nada a perder!&#8230; Am\u00e2ncio, enfim, que aparecesse no Domingo<br \/>\ne teriam ocasi\u00e3o de falar mais de espa\u00e7o. N\u00e3o deixasse de ir: havia muito<br \/>\nque dizer e conversar. Am\u00e2ncio prometeu de novo. O almo\u00e7o chegara ao ponto<br \/>\nem que todos os comensais falam todos ao mesmo tempo e em voz alta. Havia<br \/>\nagita\u00e7\u00e3o; afogueavam-se as faces ao reflexo vermelho das paredes do gabinete.<br \/>\nSim\u00f5es discutia com o Paiva a incompet\u00eancia dos professores da Polit\u00e9cnica.<br \/>\n&#8211; Uma s\u00facia ! uma cambada ! sintetizava ele. &#8211; Se fosse preciso despedir dali<br \/>\nos que n\u00e3o prestam, n\u00e3o ficaria nenhum! O outro protestava, gritando e batendo<br \/>\npunhadas sobre a mesa. Havia j\u00e1 dois copos quebrados. O criado trouxera a<br \/>\nsobremesa, &#8211; uma salada russa. Paiva pediu gelados e quis que lhe dessem uma<br \/>\nomelette au rhum. &#8220;N\u00e3o podia passar sem isso ao almo\u00e7o!&#8221; Suavam. Am\u00e2ncio tornava-se<br \/>\nexpansivo: falou de seus amores na prov\u00edncia; contou as suas inten\u00e7\u00f5es a respeito<br \/>\nda mulher do Campos. &#8211; Ela parece que o que tem \u00e9 medo. dizia.- Mas eu sou<br \/>\nperseverante ! Espero ! &#8211; Menino, segredou-lhe o Paiva. &#8211; Vai aproveitando,<br \/>\nporque \u00e9 isso o que se leva deste mundo! &#8211; E o mais s\u00e3o hist\u00f3rias !&#8230;concluiu<br \/>\no filho de Vasconcelos. E fazia-se muito fino, perigoso, e continuava a parolar<br \/>\ncom emb\u00f3fia, loquaz um pouco sacudido pelo almo\u00e7o. Coqueiro estudava-o de<br \/>\nsocapa, a seguir-lhe os gestos, a fariscar-lhe as inten\u00e7\u00f5es. Dos quatro era<br \/>\no \u00fanico que n\u00e3o estava tonto: seus olhos, pequenos e de cor duvidosa, conservavam<br \/>\na mesma penetra\u00e7\u00e3o e a mesma fixidez incisiva de ave de rapina; sua boca estreita,<br \/>\nbem guarnecida e quase sem l\u00e1bios, tinha o mesmo riso arqueado, mal seguro<br \/>\ne frio, de quem escuta e observa. Era de altura regular, complei\u00e7\u00e3o \u00e9tica,<br \/>\nrosto comprido, de um moreno embaciado, pouca barba, pesco\u00e7o magro , nariz<br \/>\nagudo, m\u00e3os p\u00e1lidas e secas, voz doce e cabelo muito crespo, de colorido incerto,<br \/>\nentre castanho e fulvo. Tinha vinte e sete anos, mas aparentava, quando muito,<br \/>\nvinte e dois. O Paiva erguera-se para fazer um bestial\u00f3gico, e soltava de<br \/>\nenfiada frases sonoras e ocas de sentido: ouvia-se falar em &#8220;gazofil\u00e1ceos,<br \/>\ncamelos da Patag\u00f4nia e constela\u00e7\u00f5es h\u00edbridas do mapa-m\u00fandi&#8221;. Sim\u00f5es, o macamb\u00fazio,<br \/>\nderreara a cadeira contra a parede e jazia a palitar a boca, estendido para<br \/>\ntr\u00e1s, em uma posi\u00e7\u00e3o de homem farto: barriga ao vento, bra\u00e7os moles e um olhar<br \/>\nmuito pando, que se lhe entornava por todo o rosto em sorrisos de pregui\u00e7a.<br \/>\nAm\u00e2ncio reatava a sua conversa com o Coqueiro &#8211; \u00c9 como lhe digo, recapitulava<br \/>\neste. &#8211; Aquilo n\u00e3o \u00e9 um hotel, \u00e9 uma &#8211; casa de fam\u00edlia !N\u00e3o temos h\u00f3spedes,<br \/>\ntemos amigos! Minha mulher \u00e9 quem toma conta de tudo!&#8230;E dando \u00e0 voz um tom<br \/>\ngrave :- Ela \u00e9 muito asseada, muito exigente em quest\u00f5es de comida! Voc\u00ea n\u00e3o<br \/>\nimagina !&#8230;Ao almo\u00e7o temos tr\u00eas pratos, a escolher, leite, ch\u00e1 ou caf\u00e9, e<br \/>\nvinho ;pelo almo\u00e7o pode calcular o que n\u00e3o ser\u00e1 o jantar !- E depois \u00e9 preciso<br \/>\nobservar a qualidade dos g\u00eaneros !&#8230;enfim, s\u00f3 mesmo voc\u00ea indo ver ! Am\u00e2ncio<br \/>\nreprometia. &#8211; Fica-se muito melhor em uma casa de fam\u00edlia, continuava o outro.<br \/>\nA vida em hotel ou a vida em rep\u00fablica \u00e9 o diabo: estraga-se tudo, &#8211; o est\u00f4mago,<br \/>\no car\u00e1ter, a bolsa ;ao passo que ali voc\u00ea tem o seu banho frio pela manh\u00e3,<br \/>\ntorradas \u00e0 noite e, se cair doente ( o que lhe n\u00e3o desejo ), h\u00e1 quem o trate,<br \/>\nquem lhe prepare um rem\u00e9dio, um caldo, um suadouro, um escalda-p\u00e9s&#8230;Olhe<br \/>\n! at\u00e9, se voc\u00ea quiser eu&#8230; Mas a porta abriu-se com violento empux\u00e3o , e<br \/>\numa mulher loura, gorda, vestida de seda amarela, precipitou-se no gabinete,<br \/>\nespavorida, a soltar gritos. Vinha-lhe no encal\u00e7o um sujeito idoso, cheio<br \/>\nde corpo, o chap\u00e9u a r\u00e9, o olhar desvairado e convulso.<\/p>\n<p>&#8211; Podes ir para onde quiseres, que eu n\u00e3o te deixo ! berrava ele em f\u00faria,<br \/>\na dardejar o guarda-chuva sobre as costas da perseguida; esta corria de um<br \/>\nlado para outro, procurando escapar-lhe, mas o sujeito agarrou-a pelos cabelos<br \/>\ne consegui traz\u00ea-la contra si, levando os dois aos trambolh\u00f5es tudo o que<br \/>\nencontravam no caminho. Em menos de um segundo era completa a desordem no<br \/>\ngabinete. Ca\u00edram cadeiras; a mesa estremeceu com um encontr\u00e3o, e a saleira<br \/>\ne duas garrafas perderam o equil\u00edbrio e tombaram, varrendo copos e esmagando<br \/>\npratos. O tal guarda -chuva havia num dos golpes espatifado os globos do candeeiro,<br \/>\ne um dos fragmentos do vidro fora de encontro ao espelho e o fizera em peda\u00e7os.<br \/>\n&#8211; Isto n\u00e3o tem jeito !Gritou o Paiva ao homem. &#8211; O senhor faz mal em invadir<br \/>\ndesta forma um gabinete ocupado! Mas o invasor j\u00e1 n\u00e3o ouvia coisa alguma e<br \/>\nacabava de sair aos pesco\u00e7\u00f5es com a sujeita. Paiva atirou-se-lhe \u00e0 pista,<br \/>\narmado de uma garrafa. O gerente do hotel apareceu, por\u00e9m, cortando-lhe o<br \/>\npasso e pedindo-lhe, por amor de Deus que n\u00e3o fizesse caso, que deixasse l\u00e1<br \/>\nos dois se esbordoarem \u00e0 vontade ! &#8211; Era o costume ! Acabariam por entender-se<br \/>\nperfeitamente!. &#8211; O senhor ent\u00e3o acha que isto \u00e9 razo\u00e1vel ?! perguntou o Paiva<br \/>\nfurioso. &#8211; N\u00e3o, decerto ! E o gerente dava aos rapazes toda a raz\u00e3o: Deviam<br \/>\nestar ma\u00e7ados, mas que tivessem paci\u00eancia! que desculpassem! N\u00e3o fora poss\u00edvel<br \/>\nevitar t\u00e3o grande sensaboria: O Br\u00e1s, em quest\u00f5es de mulheres, perdia sempre<br \/>\na cabe\u00e7as! E ele n\u00e3o sabia que diabo de rabicho tinha o basbaque pelo dem\u00f4nio<br \/>\nda Rita Baiana, que, de vez em quando, era aquilo ! &#8211; Pois que se v\u00e1 enrabichar<br \/>\npara o diabo que o carregue ! &#8211; Decerto, decerto ! apoiava o gerente , procurando<br \/>\nacalmar o estudante. &#8211; Ajuste as contas onde quiser, menos nos gabinetes ocupados<br \/>\npelos outros ! Arre ! &#8211; \u00c9 exato ! Os senhores t\u00eam todo o direito, mas por<br \/>\nquem s\u00e3o, n\u00e3o fa\u00e7am caso ! N\u00e3o fa\u00e7am caso. &#8211; E esta ! insistia o Paiva.- Pois<br \/>\nse a gente paga muito mais para ficar em liberdade, como diabo h\u00e1 de se admitir<br \/>\nisto ?!&#8230; &#8211; Tem toda a raz\u00e3o !Tem toda a raz\u00e3o !&#8230;repetia o gerente, erguendo<br \/>\nas cadeiras e apanhando do tapete os cacos de vidro. S\u00f3 ent\u00e3o intervieram<br \/>\nos outros rapazes. Am\u00e2ncio, at\u00e9 a\u00ed, parecia colado \u00e0 cadeira .Estava l\u00edvido<br \/>\ne as pernas tremiam-lhe. O gerente ia responder a todos, quando a porta se<br \/>\ntornou a abrir, e o Br\u00e1s, ainda transformado pela como\u00e7\u00e3o da briga, ofegante<br \/>\ne p\u00e1lido, quase sem poder falar, entrou, dizendo, &#8211; que ia pedir desculpa<br \/>\nda grosseria por ele praticada h\u00e1 pouco. &#8211; Mas estava possesso! justificava-se<br \/>\nele. &#8211; Aquela n\u00e3o-sei-que-diga lhe fazia perder as estribeiras ! Que o desculpassem,<br \/>\nporque um homem em certas ocasi\u00f5es nem se podia conter! Uma mulher, com quem<br \/>\nj\u00e1 havia gasto para mais de dez contos de r\u00e9is!&#8230;exclamava ele fora de si.<br \/>\nUma mulher que erguera da lama podia assim dizer! Uma desgra\u00e7ada que antes<br \/>\nde o conhecer, n\u00e3o podia ir a parte alguma por n\u00e3o Ter um vestido capaz!&#8230;Uma<br \/>\nmiser\u00e1vel, que dantes, para matar a fome, precisava aviar encomendas de costura<br \/>\ne se andar alugando na casa de modistas!&#8230;Era duro! Pois n\u00e3o achavam ?! Os<br \/>\nestudantes meneavam a cabe\u00e7a ,afirmativamente. &#8211; Ah ! continuou o Br\u00e1s.- Aquelas<br \/>\ncontas tinham-se de ajustar na primeira ocasi\u00e3o em que ele a encontrasse com<br \/>\no tal troca-tintas ! Ah ! J\u00e1 n\u00e3o podia ! Era demais ! U ! E passeava no gabinete,<br \/>\na empurrar com o p\u00e9 os cacos esquecidos no ch\u00e3o, e a sorver o ar em grandes<br \/>\nhaustos, consoladamente, como se acabasse de alijar um peso da consci\u00eancias.<br \/>\nAs palavras do Br\u00e1s tranq\u00fcilizaram os rapazes, cuja embriaguez parecia ter<br \/>\nfugido com o susto. O Sim\u00f5es chegou mesmo a rir do fato, jactando-se mais<br \/>\numa vez da sua eterna indiferen\u00e7a pelas mulheres. &#8211; Com ele \u00e9 que nunca haveria<br \/>\nde suceder semelhante coisa!&#8230;afirmava. Am\u00e2ncio convidou o Br\u00e1s a beber,<br \/>\ne vazou-lhe vinho num copo. &#8211; Aquela descarada! resmungava o ciumento, examinando<br \/>\numa arranhadura que vinha de descobrir na m\u00e3o direita. &#8211; Ela, por\u00e9m, comigo<br \/>\nest\u00e1 iludida !- ou me anda muito direitinha ou h\u00e1 de me ficar debaixo dos<br \/>\np\u00e9s ! Peda\u00e7o de uma ingrata ! E, voltando-se para o gerente que acabava de<br \/>\nentrar; &#8211; O sujeitinho foi-se, hein ? &#8211; Ora !&#8230;respondeu aquele com um riso<br \/>\nservil. &#8211; Ganhou logo a rua e&#8230;por aqui \u00e9 o caminho! Ela \u00e9 que pelos modos,<br \/>\nficou bem convidada! Meteu-se no quarto a chorar. &#8211; Pois que chore na cama<br \/>\nque \u00e9 lugar quente! N\u00e3o fosse ordin\u00e1ria! Fa\u00e7a l\u00e1 o que bem entender, mas,<br \/>\ncom os diabos! n\u00e3o enquanto estiver comigo! V\u00e1 divertir-se com o boi ! Sebo!<\/p>\n<p>E passado logo em seguida pra um tom de voz calma e amiga. disse baixo ao<br \/>\ngerente : &#8211; Veja de quanto foi o preju\u00edzo e fa\u00e7a uma conta a parte. Pediu<br \/>\nainda uma vez desculpa aos rapazes, afian\u00e7ou que eles tinham um criado na<br \/>\nLadeira da Gl\u00f3ria, n\u00famero tantos, e saiu, sempre \u00e0s voltas com a sua arranhadura<br \/>\nda m\u00e3o direita. Am\u00e2ncio quis condenar o fato, mas o Paiva observou-lhe que<br \/>\naquilo se dava todos os dias no Rio de Janeiro. &#8211; Eu j\u00e1 n\u00e3o estranho ! disse.<br \/>\n&#8211; Falta de educa\u00e7\u00e3o !&#8230; &#8211; Bem, meus senhores, s\u00e3o horas de eu me ir tamb\u00e9m<br \/>\nchegando, advertiu Coqueiro, erguendo-se enfiando o palet\u00f3. O Sim\u00f5es fez igual<br \/>\nmovimento e declarou que o acompanhava. &#8211; Ent\u00e3o, que \u00e9 isto j\u00e1? Exclamou Am\u00e2ncio,<br \/>\nquerendo det\u00ea-los. &#8211; \u00c9. Est\u00e1 se fazendo tarde, respondeu Coqueiro, a consultar<br \/>\no rel\u00f3gio. &#8211; Tr\u00eas horas. &#8211; Imposs\u00edvel !negou Am\u00e2ncio. &#8211; Era exato. E Coqueiro,<br \/>\nj\u00e1 de chap\u00e9u na cabe\u00e7a e guarda-chuva debaixo do bra\u00e7o, apertou-lhe a m\u00e3o<br \/>\ncom as duas, dizendo que folgava em extremo haver travado rela\u00e7\u00f5es com ele<br \/>\ne que o esperava, sem falta, no Domingo. Sim\u00f5es fez igualmente as suas despedidas,<br \/>\ne os dois sa\u00edram a conversar sobre o quanto poderia custar a Am\u00e2ncio aquele<br \/>\nalmo\u00e7o. &#8211; Tamb\u00e9m, que diabo, ficamos n\u00f3s fazendo aqui? lembrou o Paiva, quando<br \/>\nse viu a s\u00f3s com o amigo. &#8211; Paga isso e vamo-nos embora. Queres tu ir at\u00e9<br \/>\nl\u00e1 a casa ?&#8230; &#8211; Mas eu j\u00e1 estou a tanto tempo na rua &#8230;considerou Am\u00e2ncio.<br \/>\n&#8211; E o que tem isso ?!&#8230;Deves contas de ti a algu\u00e9m ?!Ora essa ! &#8211; \u00c9 que o<br \/>\nCampos pode reparar !&#8230; &#8211; Pois que repare! Manda plantar batatas ao tal de<br \/>\nCampos! Tu n\u00e3o \u00e9s nenhum caixeiro dele&#8230;Eu, no teu caso, nem ficava ali mais<br \/>\num dia !Que necessidade tens agora de passar \u00e0s sopas de um negociante, e<br \/>\nsujeitares-te a regulamentos comerciais ? \u00c9 de mau gosto estar hospedado em<br \/>\ncasa de neg\u00f3cio! Olha! Se quiseres, muda-te l\u00e1 para a rep\u00fablica. Sempre \u00e9<br \/>\noutra coisa morar com rapazes! Aprende-se! O criado, a quem j\u00e1 tinham pedido<br \/>\na conta, entrou com uma pequena salva na m\u00e3o e foi, instintivamente, dep\u00f4-la<br \/>\nem frente de Am\u00e2ncio. &#8211; Espere, disse este, tirando dinheiro do bolso. E entregou-lhe<br \/>\numa nota de cem mil -r\u00e9is. O mo\u00e7o saiu correndo. &#8211; Quanto foi ? desejou saber<br \/>\no Paiva. Oitenta e cinco mil-r\u00e9is, respondeu o outro. &#8211; Oitenta e cinco mil-r\u00e9is<br \/>\n! Oh! Que grande ladroeira ! E logo que o criado voltou com o troco: &#8211; Homem,<br \/>\nfa\u00e7a o favor de dizer em que se gastou aqui oitenta e cinco mil-r\u00e9is !&#8230;Salvo<br \/>\nse vossemec\u00eas metem tamb\u00e9m na conta o que quebrou o Br\u00e1s ! &#8211; N\u00e3o senhor! Eu<br \/>\ns\u00f3 cobrei os copos, que j\u00e1 estavam partidos antes do rolo. &#8211; Que enorme ladroeira<br \/>\n! insistia o Paiva, a sacudir a cabe\u00e7a. &#8211; Deixa l\u00e1 ! aconselhou Am\u00e2ncio, puxando-o<br \/>\npara fora. Precisava andar e tomar fresco . Aquele gabinete era um forno &#8211;<br \/>\nsentia-se mal. &#8211; \u00c9 que n\u00e3o posso ver extorquir desta forma o dinheiro a ningu\u00e9m!<br \/>\ndisse o Paiva indignado. E principiou a fazer as contas pelo que se lembrava<br \/>\nde ter vindo \u00e0 mesa. Am\u00e2ncio o puxou de novo : &#8211; Deixa l\u00e1 isso ,homem ! &#8211;<br \/>\nNada ! Pelo menos hei de vingar-me aqui em alguma coisa ! O criado havia sa\u00eddo.<br \/>\nPaiva Rocha principiou a derramar o resto das garrafas no a\u00e7ucareiro, a emporcalhar<br \/>\no damasco da cortina e a cuspir dentro das ch\u00e1venas. Am\u00e2ncio ria-se formalmente,<br \/>\nmas, no \u00edntimo aborrecido: &#8211; Agora podemos ir ! disse afinal o outro. &#8211; Ao<br \/>\nmenos deixo-lhe um preju\u00edzo ! E ainda meteu no bolso um paliteiro e duas colheres.<br \/>\n&#8211; L\u00e1 na rep\u00fablica, precisava-se daqueles objetos ! acrescentou rindo. J\u00e1 na<br \/>\nrua, Am\u00e2ncio reparou que a cabe\u00e7a lhe estava muito pesada e queixou-se de<br \/>\nsuores frios. Paiva chamou um carro , e, uma vez dentro com o colega, mandou<br \/>\ntocar par a Rua de Mata- Cavalos.<\/p>\n<p>&#8211; Esqueceste aquilo de que falamos? perguntou em viagem ao companheiro. Am\u00e2ncio<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o se lembrava. Paiva respondeu, fazendo um sinal com os dedos . &#8211; Ah<br \/>\n! Quanto Queres ? &#8211; D\u00e1 c\u00e1 uns cinq\u00fcenta ou sessenta&#8230;depois tos pagarei.<br \/>\n&#8211; Pois n\u00e3o! gaguejou Am\u00e2ncio, passando-lhe tr\u00eas notas de vinte mil-r\u00e9is.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>IV<\/h2>\n<p>Am\u00e2ncio chegou \u00e0 rep\u00fablica muito indisposto. Quase que n\u00e3o dava conta dos<br \/>\nquatro lances de escada, que a precediam. Tamb\u00e9m foi s\u00f3 chegar e atirar-se<br \/>\n\u00e0 primeira cama, gemendo e resbunando ao peso de uma grande afli\u00e7\u00e3o. Estava<br \/>\nmais branco do que a cal da parede; o suor escorria-lhe por todo o corpo;<br \/>\nrespirava com dificuldade; a abrir a boca e a retorcer os olhos. &#8211; Ent\u00e3o!<br \/>\ndisse o Paiva, batendo-lhe no ombro. &#8211; Mal! respondeu Am\u00e2ncio , sem levantar<br \/>\na cabe\u00e7a, que deixara cair sobre o peito. E com um gesto pediu \u00e1gua. &#8211; Isso<br \/>\npassa! afian\u00e7ou o colega, entregando-lhe o p\u00facaro cheio. Est\u00e1s \u00e9 com um formid\u00e1vel<br \/>\npif\u00e3o. E riu-se. &#8211; Eu quero vomitar ! exclamou Vasconcelos, apressado pela<br \/>\nagonia, e mal teve tempo de erguer o rosto. &#8211; \u00c9s um fracalh\u00e3o! Ponderou o<br \/>\ncompanheiro, amparando-o pela testa. &#8211; Que diabo! Quem n\u00e3o pode com o tempo<br \/>\nn\u00e3o inventa modas! &#8211; Am\u00e2ncio n\u00e3o respondia: Os engulhos vinham-lhe uns sobre<br \/>\nos outros. &#8211; Ai! ai! gemia oprimido . &#8211; Ora que tipo! disse o Paiva , atirando-o<br \/>\nsobre os travesseiros.- V\u00ea se consegues dormir! Isto n\u00e3o \u00e9 nada! E narrou<br \/>\num caso id\u00eantico, que experimentara. Am\u00e2ncio sentia-se um pouco mais aliviado,<br \/>\ncontinuava, por\u00e9m, a suar frio; tinha a cabe\u00e7a completamente ensopada e n\u00e3o<br \/>\ndispunha de for\u00e7as para coisa alguma. Os olhos fechavam-se-lhe com um entorpecimento<br \/>\npesado de sono. Pediu mais \u00e1gua. E, depois de a tomar , deu a entender que<br \/>\nera preciso que o despissem e descal\u00e7assem . Paiva entrou a tirar-lhe a roupa,<br \/>\nsafou-lhe com dificuldade as botinas , porque as meias estavam suadas. Am\u00e2ncio,<br \/>\nmuito prostrado, mole, a virar-se de uma para outra banda, aiava sempre. A<br \/>\nfinal sossegou, parecia adormecido; mas, ergueu-se logo, com \u00edmpeto, e come\u00e7ou<br \/>\na vomitar de novo, sem dizer palavras. &#8211; Que pif\u00e3o! reconsiderava o colega,<br \/>\nencarando-o com as m\u00e3os cruzadas atr\u00e1s. &#8211; Homem! V\u00ea -se lhe d\u00e1s um pouco de<br \/>\nam\u00f4nia! lembrou do fundo do quarto uma voz arrastada e um pouco fanhosa. S\u00f3<br \/>\nent\u00e3o Am\u00e2ncio percebeu que ali, a seis ou sete passos distante dele, estava<br \/>\num rapaz magro , muito amarelo, em ceroulas e corpo nu, estendido numa cama,<br \/>\na ler, todo preocupado, um grosso volume que tinha sobre o est\u00f4mago. Parecia<br \/>\ndeveras ferrado no seu estudo, porque at\u00e9 a\u00ed n\u00e3o dera f\u00e9 do que se lhe passava<br \/>\nem derredor. &#8211; Olha! disse ao Paiva.- Creio que est\u00e1 acol\u00e1 , sobre a banca,<br \/>\npor detr\u00e1s do Comte. \u00c9 um frasquinho quadrado, com rolha de vidro. Dito isto,<br \/>\nrecolheu-se de novo \u00e0 leitura, como se nada houvesse sucedido. Am\u00e2ncio serenou<br \/>\nde todo com algumas gotas de amon\u00edaco em um copo d&#8217;\u00e1gua , e afinal pegou no<br \/>\nsono profundamente. S\u00f3 acordou no dia seguinte, quando o sol j\u00e1 entrava pela<br \/>\n\u00fanica janela do quarto. Sentia a boca amarga e o corpo mo\u00eddo. Assentou-se<br \/>\nna cama e circunvagou em torno os olhos assombrados, com a estranheza de um<br \/>\ndoido ao recuperar o entendimento. O sujeito magro da v\u00e9spera l\u00e1 estava no<br \/>\nmesmo s\u00edtio; agora , por\u00e9m dormia, amortalhado a custo num insuficiente peda\u00e7o<br \/>\nde chita vermelha. Do lado oposto, no ch\u00e3o, sobre um len\u00e7ol encardido e cheio<br \/>\nde n\u00f3doas, a cabe\u00e7a pousada num jogo de dicion\u00e1rios latinos, jazia o Paiva,<br \/>\na sono solto, apenas resguardado por um colete de flanela. Mais adiante, em<br \/>\numa cama estreita de lona, viam-se dois mo\u00e7os, ressonando de costas um para<br \/>\no outro, com as nucas unidas, a disputarem silenciosamente o mesmo travesseiro.<br \/>\nO quarto respirava todo um ar triste de desmazelo e bo\u00eamia. Fazia m\u00e1 impress\u00e3o<br \/>\nestar ali: o v\u00f4mito de Am\u00e2ncio secava-se no ch\u00e3o, azedando a ambiente; a lou\u00e7a,<br \/>\nque servira ao \u00faltimo jantar, ainda coberta de gordura<\/p>\n<p>coalhada, aparecia dentro de uma lata abomin\u00e1vel, cheia de contus\u00f5es e comida<br \/>\nde ferrugem. Uma banquinha , encostada \u00e0 parede, dizia com o seu frio aspecto<br \/>\ndesarranjado que algu\u00e9m estivera a\u00ed a trabalhar durante a noite, at\u00e9 que se<br \/>\nextinguira a vela, cujas \u00faltimas gotas de estearina se derramavam melancolicamente<br \/>\npelas bordas de um frasco vazio de xarope Larose, que lhe fizera as vezes<br \/>\nde casti\u00e7al. Num dos cantos amontoava-se roupa suja; em outro repousava uma<br \/>\nm\u00e1quina de fazer caf\u00e9, ao lado de uma garrafa de esp\u00edrito de vinho. Nas cabeceiras<br \/>\ndas tr\u00eas camas e ao comprido das paredes, sobre jornais velhos e desbotados,<br \/>\ndependuravam-se cal\u00e7as e fraques de casimira: em uma das ombreiras da janela<br \/>\nhavia umas lunetas de ouro, cuidadosamente suspensas de um prego. Por aqui<br \/>\ne por ali pontas esmagadas de cigarro e cuspalhadas ressequidas. No meio do<br \/>\nsoalho, com o gargalo decepado, luzia uma garrafa. A luz franca e penetrante<br \/>\nda manh\u00e3 dava a tudo isso um relevo ainda mais duro e repulsivo: o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Am\u00e2ncio ficou vexado e corrido, como se todos os \u00e2ngulos daquela imund\u00edcie<br \/>\no espetassem a um s\u00f3 tempo. Ergueu -se cautelosamente, para n\u00e3o acordar os<br \/>\noutros, e foi \u00e0 janela. O vasto panorama l\u00e1 de fora estremulhou-lhe os sentidos<br \/>\ncom o seu aspecto. A rep\u00fablica era muito no alto, sobre tr\u00eas andares, dominando<br \/>\numa grande extens\u00e3o. Viam-se de cima as casa acavaladas uma pelas outras,<br \/>\nformando ruas, contornando pra\u00e7as. As chamin\u00e9s principiavam a fumar; deslizavam<br \/>\nas carrocinhas multicores dos padeiros; as vacas de leite caminhavam com o<br \/>\nseu passo vagaroso, parando \u00e0 porta dos fregueses, tilintando o chocalho ;<br \/>\nos quiosques vendiam caf\u00e9 a homens de jaqueta e chap\u00e9u desabado; cruzavam-se<br \/>\nna rua os libertinos retardios com os oper\u00e1rios que se levantavam para a obriga\u00e7\u00e3o;<br \/>\nouvia-se o ru\u00eddo estalado dos carros d&#8217;\u00e1gua, o rodar mon\u00f3tono dos bondes.<br \/>\nMais para al\u00e9m pressentiam-se cordilheiras, graduando planos esfumados de<br \/>\nneblina. O horizonte rasgava-se \u00e0 luz do sol, num deslumbramento de cores<br \/>\nsiderais. E l\u00e1 muito ao longe, quase a perder de vista , reverbava a ba\u00eda,<br \/>\nlaminando as \u00e1guas na praia. Embaixo, na \u00e1rea da casa, uma ilhoa, de bra\u00e7os<br \/>\nnus, a cabe\u00e7a embrulhada em um len\u00e7o de ramagens, lavava a um tanque de cimento<br \/>\nromano; um homem, em mangas de camisa, varria as pedras do ch\u00e3o, cantarolando<br \/>\ncom os dentes cerrados, para n\u00e3o deixar cair a ponta do cigarro. Numa janela,<br \/>\num sujeito, de \u00f3culos azuis, areava os dentes e com a boca atirava duchas<br \/>\nsobre um papagaio, cuja gaiola pousava no balc\u00e3o. Dentro de um cercado cacarejavam<br \/>\ngalinhas, mariscando na terra; e o homem do lixo entrava e saia, familiarmente,<br \/>\ncom o seu gigo \u00e0s costas. Um rel\u00f3gio da vizinhan\u00e7a bateu seis horas. Am\u00e2ncio<br \/>\nreparou que estava com muita sede, mas n\u00e3o descobria a talha d&#8217;\u00e1gua. Afinal<br \/>\nencontrou-a, num s\u00f3t\u00e3o que havia ao lado do quarto e onde s\u00f3 se entrava vergando<br \/>\no corpo. Bebeu at\u00e9 \u00e0 saciedade. Depois lavou o rosto e a boca. E, com a id\u00e9ia<br \/>\nde sair antes que os mais acordassem, vestiu-se apressado, contou o dinheiro<br \/>\nque lhe restava, lamentando interiormente o que na v\u00e9spera esbanjara; viu<br \/>\nno ch\u00e3o uma escova de fato, apanhou-a, escovou a roupa, e, todo cautela e<br \/>\nponta de p\u00e9, abriu a porta e ganhou a escada. Entre o primeiro e o segundo<br \/>\nandar encontrou uma rapariguita de alguns dezesseis anos, que subia com dois<br \/>\ncopos de leite, um em cada m\u00e3o, fazendo mil esfor\u00e7os para n\u00e3o os entornar.<br \/>\nAo ver Am\u00e2ncio ela emperrou, cosendo -se \u00e0 parede, a fim de lhe dar passagem,<br \/>\ne olhou-o de esguelha, com medo de afastar a vista dos copos. Era bonitinha,<br \/>\ncorada, os cabelos castanhos apanhados na nuca. Parecia portuguesa. Am\u00e2ncio<br \/>\nao passar por ela, estacou tamb\u00e9m, \u00e0 fit\u00e1-la. De repente lan\u00e7ou-lhe as m\u00e3os.<br \/>\nA pequena, muito contrariada fez uma cara de raiva e gritou- que a soltasse!<br \/>\nque n\u00e3o fosse atrevido! E desviava o corpo, querendo defender-se mas sem se<br \/>\ndescuidar dos copos. &#8211; Mau ! mau ! siga o seu caminho e deixe os outros em<br \/>\npaz! Am\u00e2ncio n\u00e3o fez caso e conseguiu beij\u00e1-la \u00e0 pura for\u00e7a. Derramaram-se<br \/>\nalgumas gotas de leite. &#8211; Maus raios te partam! clamou a rapariga, assim que<br \/>\no viu pelas costas.- Peste ruim de um estudante!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A peste ruim do estudante saiu, e s\u00f3 interrompeu a caminhada para entrar<br \/>\nnum botequim, onde pediu caf\u00e9. Ent\u00e3o, defronte do espelho, p\u00f4de admirar o<br \/>\nbelo estado em que se achava. &#8211; Como diabo havia de apresentar-se naquele<br \/>\ngosto em casa do Campos?&#8230; Tamb\u00e9m que triste id\u00e9ia a sua &#8211; de se enterrar<br \/>\nnuma casa comercial? N\u00e3o! Com certeza estava mal hospedado&#8230; nem lhe convinha<br \/>\npermanecer ali ! &#8211; Oh ! Bastava j\u00e1 de ser governado, de ser vigiado a todo<br \/>\ninstante ! &#8211; J\u00e1 era tempo de gozar um pouco de liberdade. E, enquanto sorvia<br \/>\ncompassadamente o caf\u00e9, recapitulava na mem\u00f3ria todo o seu passado de terror<br \/>\ne submiss\u00e3o: &#8211; Antes de entrar para a escola de primeiras letras, nunca lhe<br \/>\ndeixaram transpor a porta da rua ou a porta do quintal; os outros meninos<br \/>\nde sua idade tinham licen\u00e7a para empinar papagaios, brincar entrudo,<\/p>\n<p>queimar fogos pelo tempo de S\u00e3o Pedro; &#8211; ele n\u00e3o! depois caiu nas garras<br \/>\ndo professor, &#8211; aquela fera! Nunca saia de casa, sem levar atr\u00e1s de si um<br \/>\nescravo para o vigiar, para impedi-lo de fazer travessuras e obrig\u00e1-lo a caminhar<br \/>\ncom modo, direito, s\u00e9rio como homem. Afinal escapou ao professor, sim! mas<br \/>\ncontinuou sob a dura vigil\u00e2ncia do pai, do tio e das tias; todos rondavam;<br \/>\ntodos o traziam &#8220;num cortado&#8221;. S\u00f3 na fazenda da av\u00f3 conseguia desfrutar alguma<br \/>\nliberdade, mas essa mesma n\u00e3o era completa e, ai! durava t\u00e3o pouco tempo!&#8230;<br \/>\nAgora compreendia a raz\u00e3o pela qual, no m\u00eas de f\u00e9rias que passava a\u00ed, se tornava<br \/>\nt\u00e3o maligno, &#8211; \u00e9 que naturalmente queria desforrar o resto do ano, que levava<br \/>\ncoagido em casado pai. De sua inf\u00e2ncia eram aqueles meses privilegiados a<br \/>\ncoisa \u00fanica que lhe merecia verdadeira saudade; ao mais estrangulavam tristes<br \/>\nreminisc\u00eancias de castigos, de sustos, apoquenta\u00e7\u00f5es de todo o g\u00eanero. A pr\u00f3pria<br \/>\nid\u00e9ias de sua m\u00e3e nunca lhe vinha s\u00f3; havia sempre ao lado da venerada imagem<br \/>\nalguma recorda\u00e7\u00e3o enfadonha e constrangedora.- As poucas vezes em que estavam<br \/>\njuntos, o pai chegava no melhor da intimidade e \u00c2ngela se retra\u00eda, cortando<br \/>\nem meio as car\u00edcias do filho, como se as recebera de um amante, em plena ilegalidade<br \/>\ndo adult\u00e9rio. E a mem\u00f3ria desses beijos a furto e medrosos, a mem\u00f3ria desses<br \/>\ncarinhos cheios de sobressalto, relembravam-lhe as vezes que ele em pequeno<br \/>\nse metia no quarto dos engomados, de camaradagem com as mulatas da casa que<br \/>\na\u00ed trabalhavam conjuntamente. Era quase sempre pelo intervalo das aulas, ao<br \/>\nmeio-dia, quando o calor quebrava o corpo e punha nos sentidos uma pasmaceira<br \/>\nvoluptuosa. Em casa do velho Vasconcelos havia, segundo o costume da prov\u00edncia,<br \/>\ngrande n\u00famero de criadas; s\u00f3 no &#8220;quarto da goma&#8221;, como l\u00e1 se diz, reuniam-se<br \/>\nquatro ou cinco. Umas costuravam; outras faziam renda, assentadas no ch\u00e3o,<br \/>\ndefronte da almofadas de bilros; outras, vergadas sobre a &#8220;t\u00e1bua de engomar&#8221;,<br \/>\npassavam roupa a ferro. Am\u00e2ncio ,quando crian\u00e7a, gostava de se meter com elas,<br \/>\nparticipar de suas conversas picadas de brejeirice, e deixar correr o tempo,<br \/>\ndeitado sobre saias, amolentando-se ao calor penetrante das raparigas, a ouvir,<br \/>\nnum \u00eaxtase mofino, o que elas entre si cochichavam com risadinhas estaladas<br \/>\n\u00e0 socapa. Por outro lado, as mulatas folgavam em t\u00ea-lo perto de si, achavam-no<br \/>\nvivo e atilado, provocavam-lhe ditos de gra\u00e7a, mexiam com ele, faziam-lhe<br \/>\nperguntas maliciosas, s\u00f3 para &#8221; ver o que o dem\u00f4nio do menino respondia&#8221; .E,<br \/>\nlogo que Am\u00e2ncio dava a r\u00e9plica, piscando os olhos e mostrando a ponta da<br \/>\nl\u00edngua, ca\u00edam todas num ataque de riso , a olharem umas para as outras com<br \/>\ninten\u00e7\u00e3o. De resto, ningu\u00e9m melhor do que ele para subtrair da despensa um<br \/>\npunhado de a\u00e7\u00facar ou de farinha, sem que \u00c2ngela desse por isso. &#8211; O demoninho<br \/>\nera levado! E assim se foi tornando mulherengo, fraldeiro, amigo de saias.<br \/>\nA m\u00e3e, quando ouvia da varanda as risadas da criadagem, gritava jogo pelo<br \/>\nfilho. &#8211; J\u00e1 vou mam\u00e3e ! respondia Am\u00e2ncio. L\u00e1 estava o diabrete do menino<br \/>\n\u00e0s voltas com as raparigas no quarto da goma! Oh! que birra tinha ela disso!&#8230;<br \/>\nMas Am\u00e2ncio n\u00e3o se corrigia. \u00c9 que ali ao menos n\u00e3o chegaria o pai. As vezes<br \/>\n,quando ia passear \u00e0 casa de alguma fam\u00edlia conhecida, arranjava-se com as<br \/>\nmo\u00e7as, gostava de acompanha-las por toda parte, fazendo-se muito d\u00f3cil e amigo<br \/>\nde servir. Como era ainda perfeitamente crian\u00e7a e bonitinho, elas lhe faziam<br \/>\nfesta e davam-lhe doces, figurinos de papel recortado e caixinhas vazias.<br \/>\nAlgumas lhe perguntavam brincando se ele as queria para mulher, se queria<br \/>\n&#8220;ser seu noivo&#8221;. Am\u00e2ncio respondia que sim com um arrepio. E da\u00ed a pouco ficavam<br \/>\nas mo\u00e7as muito surpreendidas quando o dem\u00f4nio do menino lhes saltava ao colo<br \/>\ne principiava a beijar-lhes sofregamente o pesco\u00e7o e os cabelos ou a meter-lhes<br \/>\na l\u00edngua pelos ouvidos. &#8211; Credo ! disse uma delas em situa\u00e7\u00e3o id\u00eantica..-<br \/>\nQue menino ! V\u00e1 para longe com as suas brincadeiras. ! Outras, por\u00e9m, lhe<br \/>\nachavam muita gra\u00e7a e eram as primeira s a puxar por ele. De todos os brinquedos<br \/>\no que Am\u00e2ncio mais estimava era o de &#8220;fazer casa&#8221;. A casa fazia-se sempre<br \/>\ndebaixo de uma mesa, com um len\u00e7ol em volta, figurando as paredes. Uma de<br \/>\nsuas primas, filha do protetor de Campos, ou alguma menina que estivesse passando<br \/>\no dia com ele, representava de mulher; Am\u00e2ncio de marido. A menina ficava<br \/>\ndebaixo da mesa, enquanto ele andava por fora, &#8220;a ganhar a vida &#8221; at\u00e9 que<br \/>\nse recolhia tamb\u00e9m a casa, levando compras e preparos para o almo\u00e7o. Amarravam<br \/>\num len\u00e7o em duas pernas da mesa, fingindo rede, e a\u00ed metiam uma boneca, que<br \/>\nera o filho. Gostava infinitamente dessa brincadeira. Mas um belo dia veio<br \/>\nabaixo o len\u00e7ol que servia de parede, e desde ent\u00e3o \u00c2ngela n\u00e3o consentiu que<br \/>\no filho se divertisse a fazer casa.<\/p>\n<p>Muitos anos depois, aos quinze anos, notou-se incomodado por um padecimento<br \/>\nestranho. N\u00e3o disse nada \u00e0 fam\u00edlia e procurou um homem que havia na prov\u00edncia<br \/>\ncom grande habilidade para curar mol\u00e9stias, viessem elas at\u00e9 do mau-olhado<br \/>\ne do feiti\u00e7o. Santo homem ! O mal do nosso estudante desapareceu como por<br \/>\nmilagre; o que, ali\u00e1s, n\u00e3o impediu que tivesse da\u00ed a pouco de voltar \u00e0 cama,<br \/>\ndebaixo de um novo e mais formid\u00e1vel carregamento que o ia varrendo ao cemit\u00e9rio..<br \/>\nForam esses tr\u00eas anos de sez\u00f5es a que se referia, quando pela primeira vez<br \/>\nfalou ao Campos. E Am\u00e2ncio ,quanto mais rememorava tudo isso, quanto mais<br \/>\nremexia no cinzeiro do passado, tanto mais impacientes lhe rosnavam os sentidos<br \/>\ne tanto mais desabrida lhe vinha a necessidade de gozar, de viver em liberdade,<br \/>\nde recuperar o tempo que levou sopeado e preso. &#8211; Enfim ! concluiu ele, erguendo-se<br \/>\ndistra\u00eddo e abandonando o caf\u00e9 &#8211; a casa do Campos n\u00e3o me conv\u00e9m ! n\u00e3o me conv\u00e9m<br \/>\nde forma alguma! Mas a id\u00e9ia de Hort\u00eansia, que, para se apresentar, s\u00f3 esperava<br \/>\no termo daquelas considera\u00e7\u00f5es, invadiu-lhe o esp\u00edrito e foi a pouco e pouco<br \/>\nse estendendo e se esticando por todo ele, at\u00e9 ocup\u00e1-lo inteiramente com a<br \/>\nsua imagem branca e palpitante, como uma bela mulher que desperta e, entre<br \/>\nvoluptuosos espregui\u00e7amentos , alonga pela cama os seus membros entorpecidos<br \/>\nde sono. E ele, quando deu por si, estava a fazer conjeturas sobre o amor<br \/>\nde Hort\u00eansia : &#8211; Seria ardente ou calmo? Meigo ou arrebatado? Que atitude<br \/>\ntomaria a bela mulher nos momentos supremos de ventura? Quais seriam as suas<br \/>\npalavras, as frases do seu del\u00edrio?&#8230; E, aguilhoado pelos sentidos, perdia-se<br \/>\nem c\u00e1lculos infames, em degradantes suposi\u00e7\u00f5es; tentando, embalde, adivinhar-lhe<br \/>\nos pensamentos, penetrar-lhe nos escaninhos do cora\u00e7\u00e3o e devassar-lhe todos<br \/>\nos segredos do corpo. &#8211; Oh! Como seria ?&#8230; E seu desejo vil come\u00e7ava a despi-la,<br \/>\npe\u00e7a por pe\u00e7a, at\u00e9 deix\u00e1-la completamente nua. &#8211; Mas n\u00e3o! n\u00e3o havia possibilidade!<br \/>\ncontrapunha-lhe a raz\u00e3o.- Tudo aquilo era loucura, simples loucura! Hort\u00eansia<br \/>\nn\u00e3o podia ser mais s\u00e9ria, mais amiga do marido! Qual fora a palavra, o gesto,<br \/>\nque lhe dera a ele o direito de pensar em semelhante coisa?&#8230; Sim! que fizera<br \/>\na pobre senhora para autoriz\u00e1-lo a tanto ?&#8230; Onde estava o fundamento daqueles<br \/>\nsonhos, pelos quais queria trocar a sua liberdade, os seus prazeres, tudo,<br \/>\ne ficar encurralado em uma casa comercial, com obriga\u00e7\u00e3o de entrar \u00e0s tantas,<br \/>\ncomer \u00e0s tantas e guardar todas as conveni\u00eancias ao lado de uma gente imposs\u00edvel<br \/>\n?!&#8230;Ora ! que se deixasse de asneiras! N\u00e3o fosse tolo! Hort\u00eansia Campos aparecia-lhe<br \/>\nent\u00e3o como em verdade o era: carinhosa e altiva, af\u00e1vel para todos igualmente,<br \/>\nsem dar a nenhum o direito de supor uma prefer\u00eancia. Am\u00e2ncio j\u00e1 n\u00e3o a tinha<br \/>\ndescompostas defronte dos olhos mas respeitosamente restitu\u00edda ao seu vestidinho<br \/>\nde chita, \u00e0 suas botinas de duraque, quase sem salto, e \u00e0s tran\u00e7as honestamente<br \/>\npenteadas. &#8211; Mudava-se !Que d\u00favida !Sim !Uma vez que Hort\u00eansia nada mais era<br \/>\ndo que uma senhora virtuosa, que diabo ficava ele fazendo ali ?&#8230;N\u00e3o seria<br \/>\ndecerto pelos bonitos olhos do Campos !<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>As oito horas, quando entrou em casa tinha j\u00e1 resolvido n\u00e3o ficar ali nem<br \/>\nmais um dia. &#8211; Era fazer as malas e bater quanto antes a bela plumagem ! Mas<br \/>\ntamb\u00e9m, se por um lado n\u00e3o lhe convinha ficar em companhia do Campos: por<br \/>\noutro , a id\u00e9ia de se meter na rep\u00fablica do Paiva n\u00e3o o seduzia absolutamente.<br \/>\nAquela mis\u00e9ria e aquela desordem lhe causavam repugn\u00e2ncia. Queria liberdade,<br \/>\na bo\u00eamia ,a p\u00e2ndega- sim senhor ! tudo isso, por\u00e9m, com um certo ar , com<br \/>\numa certa distin\u00e7\u00e3o aristocr\u00e1tica. N\u00e3o admitia uma cama sem travesseiros,<br \/>\num almo\u00e7o sem talheres e uma alcova sem espelhos. Desejava a bela cr\u00e1pula,-<br \/>\npor Deus que desejava !mas n\u00e3o bebendo pela garrafa e dormindo pelo ch\u00e3o de<br \/>\n\u00e1guas &#8211; furtadas ! &#8211; Que diabo !- n\u00e3o podia ser t\u00e3o dif\u00edcil conciliar as duas<br \/>\ncoisas!&#8230; Pensando deste modo, subiu ao quarto. Sobre a c\u00f4moda estava uma<br \/>\ncarta que lhe era dirigida; abriu-a logo : &#8220;Querido Am\u00e2ncio. Desculpe trat\u00e1-lo<br \/>\ncom esta liberdade; como, por\u00e9m, j\u00e1 sou seu amigo, n\u00e3o encontro jeito de lhe<br \/>\nfalar doutro modo. Ontem, quando combinamos no Hotel dos Pr\u00edncipes a sua visita<br \/>\npara Domingo, n\u00e3o me passava pela cabe\u00e7a que hoje era dia santo e faz\u00edamos<br \/>\nmelhor em aproveit\u00e1-lo; por conseguinte, se o amigo n\u00e3o tem compromisso, venha<br \/>\npassar a tarde conosco, que nos dar\u00e1 com isso grande prazer. Minha fam\u00edlia,<br \/>\ndepois que lhe falei a seu respeito, est\u00e1 impaciente para conhec\u00ea-lo e desde<br \/>\nj\u00e1 fica \u00e0 sua espera.&#8221; Assinava &#8220;Jo\u00e3o Coqueiro&#8221; e havia o seguinte post-scriptum<br \/>\n: &#8220;Se n\u00e3o puder vir, previna-mo por duas palavrinhas; mas venha. Resende n&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio hesitou em se devia ir ou n\u00e3o. O Coqueiro ,com a sua figurinha de<br \/>\nt\u00edsico, o seu rosto chupado e quase verde, os seus olhos pequenos e penetrantes,<br \/>\nde uma mobilidade de olho de p\u00e1ssaro, com a sua boca fria, o seu nariz agudo,<br \/>\no seu todo seco ego\u00edsta, desenganado da vida, n\u00e3o era das coisa que, mais<br \/>\no atra\u00edssem. No entanto, bem podia ser que ali estivesse o que ele procurava,<br \/>\n&#8211; um c\u00f4modo limpo, confort\u00e1vel, um pouquinho de luxo, e plena liberdade. Talvez<br \/>\naceitasse o convite. &#8211; Esta gente onde est\u00e1 ?perguntou ,indicando o andar<br \/>\nde cima a um caixeiro que lhe apareceu no corredor, com a sua cal\u00e7a domingueira,<br \/>\ncor de alecrim, o charuto ao canto da boca. &#8211; Foram passear ao Jardim Bot\u00e2nico,<br \/>\nrespondeu aquele, descendo as escadas. &#8211; Todos? Ainda interrogou Am\u00e2ncio.<br \/>\n&#8211; Sim, disse o outro entre os dentes, sem voltar o rosto. E saiu. &#8211; Est\u00e1 resolvido<br \/>\n!pensou o estudante. &#8211; Vou \u00e0 casa do Coqueiro. Ao menos estarei entretido<br \/>\ndurante esse tempo ! E voltando ao quarto : &#8211; N\u00e3o! \u00c9 que tudo ali em casa<br \/>\ndo Campos j\u00e1 lhe cheirava mal !..Olhassem para o ar impertinente com que aquele<br \/>\ngaleguinho lhe havia falado !&#8230;Em tudo o mais era pelo mesmo teor. &#8211; Uma<br \/>\ns\u00facia d&#8217; asnos ! Come\u00e7ou a vestir-se de mau humor, arremessando a roupa, atirando<br \/>\ncom as gavetas. O jarro vazio causou-lhe febre, sentiu venetas de arroj\u00e1-lo<br \/>\npela janela ;ao tomar uma toalha do cabide, porque ela se n\u00e3o desprendesse<br \/>\nlogo, deu-lhe tal empux\u00e3o que a fez em tiras. &#8211; Um horror! Resmungava, a vestir-se<br \/>\nfurioso, sem saber de qu\u00ea. &#8211; Um horror ! E ,quando passou pela porta da rua,<br \/>\nteve \u00edmpetos de esbordoar o caixeiro, que nesse dia estava de plant\u00e3o.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>V<\/h2>\n<p>Jo\u00e3o Coqueiro era fluminense e fluminense da gema. Nascera na Rua do Parto<br \/>\nem uma das casas de seus pais, quando estes eram ricos. Que o foram. Viera-lhes<br \/>\na fortuna do av\u00f4 materno, um portugu\u00eas ambicioso e econ\u00f4mico, que a conquistara<br \/>\nno tr\u00e1fico dos negros africanos; ao morrer legou \u00e0 filha, ainda crian\u00e7a, para<br \/>\ncima de quinhentos contos de r\u00e9is. Esta, mais tarde, foi solicitada em casamento<br \/>\npelo homem a que pertenceu para sempre, &#8211; Louren\u00e7o Coqueiro, os maiores bigodes<br \/>\nque nesse tempo negrejavam na Corte do Imp\u00e9rio. Louren\u00e7o, todavia, era j\u00e1<br \/>\num destro\u00e7o quando casou. Do que fora e do que possu\u00edra, apenas lhe restava,<br \/>\nal\u00e9m do bigode, o h\u00e1bito de n\u00e3o fazer coisa alguma; nos melhores grupos citava-se,<br \/>\nentretanto, o seu ar distinto de fidalgo e falava-se Dom boa vontade de seus<br \/>\ndotes pessoais e do seu belo esp\u00edrito eternamente galhofeiro. O casamento<br \/>\nrepresentou para ele uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. A mulher adorava-o; tinha-o na<br \/>\nconta de um ente superior; jamais vira homem t\u00e3o lindo de rosto, t\u00e3o insinuante<br \/>\nno falar, t\u00e3o delicado de maneiras. Mas, pouco depois de casado, Louren\u00e7o<br \/>\ncome\u00e7ou a desgost\u00e1-la: era um nunca terminar de festas; a casa vivia num rebuli\u00e7o<br \/>\nconstante; os intervalos das p\u00e2ndegas n\u00e3o davam sequer para a trazer arrumada<br \/>\ne limpa. Quando n\u00e3o fossem bailes, eram passeios, piqueniques , manh\u00e3s no<br \/>\ncampo, dias passados na Tijuca ou no Jardim Bot\u00e2nico. Louren\u00e7o, \u00e0s vezes,<br \/>\nvoltava \u00e9brio, a cachimbar no fundo do carro, e a fazer car\u00edcias piegas \u00e0<br \/>\nmulher, que, ao lado, chorava silenciosamente. Ela, coitada! Tinha muito medo<br \/>\nsempre que o via nesse gosto, porque o dem\u00f4nio do homem dava ent\u00e3o para brigar,<br \/>\nmexia com quem passava, metia a bengala nos cocheiros e quebrava com os p\u00e9s<br \/>\ntudo que encontrasse no caminho. Tiveram o primeiro filho &#8211; Janj\u00e3o. Criancinha<br \/>\nfeia, dessangrada, cheia de asma. At\u00e9 aos cinco anos parecia idiota; passava<br \/>\nos dias a babar-se debaixo da mesa de jantar, ao p\u00e9 de um moleque encarregado<br \/>\nde vigi\u00e1-lo. A m\u00e3o desfazia-se em mil cuidadozinhos com a crian\u00e7a; era esta<br \/>\no seu enlevo, a sua vida. Mas o pai n\u00e3o estava por isso: &#8211; temia que o rapaz<br \/>\nlhe sa\u00edsse um maricas. Desejava-o &#8211; forte, decidido! E, com enormes sobressaltos<br \/>\nda mulher, tomava-o pelas perninhas magras e suspendia-o no ar. &#8211; Os homens<br \/>\nassim \u00e9 que se fazem, minha filha! Dizia ele a rolar o pequeno entre as m\u00e3os.<br \/>\nE n\u00e3o admitia igualmente que o menino tivesse outra cama que n\u00e3o fosse um<br \/>\nenxerg\u00e3o. N\u00e3o o queria cal\u00e7ado, nem vestido e, em vez de estar ali a babar-se<br \/>\ndefronte do moleque, seria muito melhor que fosse correr para a ch\u00e1cara. &#8211;<br \/>\nEle pode se machucar, Louren\u00e7o , cair! Observava a esposa timidamente. &#8211; Pois<br \/>\ndeixa-o cair! Deixa-o machucar-se! Quanto mais trambolh\u00f5es levar em pequeno,<br \/>\nmelhor depois se ag\u00fcentar\u00e1 nas pernas ! &#8211; Mas ele \u00e9 t\u00e3o fraquito, coitadinho!<\/p>\n<p>&#8211; Por isso mesmo! Por isso mesmo precisamos torn\u00e1-lo forte! E previno-te<br \/>\nde que j\u00e1 \u00e9 mais que tempo de acabar com esse insuport\u00e1vel tratamento de &#8220;Janj\u00e3o&#8221;!<br \/>\nAqui n\u00e3o h\u00e1 janj\u00f5es! Meu filho chama-se &#8211; Jo\u00e3o! Tem o nome do av\u00f4, um her\u00f3i,<br \/>\num fidalgo! N\u00e3o desses que hoje se fazem a\u00ed a tr\u00eas por dois, mas dos leg\u00edtimos,<br \/>\ndos bons! Entendes tu? &#8211; dos bons! E inflamava-se, como sempre que se referia<br \/>\n\u00e0 sua proced\u00eancia. Vinha, com efeito, de fidalgos: era sobrinho bastardo de<br \/>\num conde portugu\u00eas. \u00c0 mesa exigia que o filho lhe ficasse ao lado e obrigava-o<br \/>\na comer bifes sangrentos e tomar vinho sem \u00e1gua. Um dias a esposa revoltou-se:<br \/>\n&#8211; Pois tu vais dar conhaque ao menino, Louren\u00e7o? ! exclamou ela escandalizada.<br \/>\n&#8211; Deixa-o c\u00e1 comigo , senhora! Eu sei o que fa\u00e7o! &#8211; Olha que isso pode sufoc\u00e1-lo,<br \/>\nhomem de Deus ! &#8211; Qual sufocar o qu\u00ea ! Por essas e outras \u00e9 que, para os estrangeiros,<br \/>\nn\u00e3o passamos de &#8220;uns macacos&#8221;! A mulher que se desse ao trabalho de saber<br \/>\ncomo se fazia na Europa a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica das crian\u00e7as ! Queria que ela visse<br \/>\na cria\u00e7\u00e3o que tiveram D. Pedro e D. Miguel ! E eram pr\u00edncipes ! &#8211; Entendia<br \/>\n? &#8211; eram pr\u00edncipes leg\u00edtimos ! E voltando-se para o filho, gritou, arregalando<br \/>\nos olhos e soprando os bigodes, que j\u00e1 ent\u00e3o se faziam cinzentos: &#8211; Tu n\u00e3o<br \/>\nqueres ser um homem forte, Jo\u00e3o ? ! Queres ser um descendente degenerado de<br \/>\nteus av\u00f3s ?! Janj\u00e3o olhou o pai com medo, e abriu a chorar. &#8211; A\u00ed tens o que<br \/>\nprocuravas ! disse a mulher, correndo para junto do filho. &#8211; Assustar desse<br \/>\nmodo a pobre crian\u00e7a ! Janj\u00e3o chorava mais. &#8211; Isso ! Isso \u00e9 que o h\u00e1 de p\u00f4r<br \/>\npra diante! Berrou Louren\u00e7o encolerizando-se. Beba j\u00e1 esse conhaque, menino!<br \/>\n&#8211; Deixa a crian\u00e7a ! &#8230;suplicava a m\u00e3e. &#8211; Olha como treme o pobrezinho!&#8230;<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o parece que lhe quer saltar! &#8230; &#8211; E tomou-o no colo. &#8211; \u00c9 melhor<br \/>\nmesmo que leves da\u00ed esse mono ! Rira-mo dos olhos ! J\u00e1 estou vendo a boa lesma<br \/>\nque isso h\u00e1 de dar! &#8211; M\u00e3es ignorantes !.. Quando Janj\u00e3o principiou a crescer,<br \/>\no pai levava-o a toda a parte, dava-lhe charutos, obrigava-o a tomar cerveja<br \/>\nnos caf\u00e9s. Foi, por\u00e9m, uma campanha conseguir uma vez que o pequeno se assentasse<br \/>\npor dois minutos na dela de um cavalo em que Louren\u00e7o havia chegado do seu<br \/>\npasseio favorito a Botafogo. Janj\u00e3o, tr\u00eamulo da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, agarrava-se<br \/>\ncom ambas as m\u00e3os nas crinas do animal e berrava pela m\u00e3e com toda a for\u00e7a<br \/>\nde que era capaz. Tiveram de desmont\u00e1-lo para n\u00e3o o verem rebentar ali mesmo<br \/>\n. &#8211; Ora, como diabo me havia de sair este mono! Lamentava o pai desesperado.<br \/>\n&#8211; Ningu\u00e9m acreditaria que aquele choramingas era seu filho ! N\u00e3o foram mais<br \/>\nfelizes com as primeiras tentativas de nata\u00e7\u00e3o ou as primeiras experi\u00eancias<br \/>\nde atirar ao alvo: Janj\u00e3o , s\u00f3 com a vista do mar ou a presen\u00e7a de um rev\u00f3lver<br \/>\n, desatava a solu\u00e7ar e a berrar pela m\u00e3e. &#8211; N\u00e3o ! Isso agora h\u00e1s de Ter paci\u00eancia!<br \/>\nresmungava Louren\u00e7o. &#8211; Tu ao menos ficar\u00e1s sabendo dar um tiro ! Sou eu quem<br \/>\nto assegura! E, com muita sutileza, comprou para o filho uma bela pistolinha<br \/>\nde brinquedo, que estalava fulminantes, e depois uma outra, mais s\u00e9ria, que<br \/>\nadmitia carga de p\u00f3lvora. Janj\u00e3o era, por\u00e9m, cada vez mais refrat\u00e1rio a tudo<br \/>\nisso. Preferia ficar a um canto da sala, entretido a vestir os seus bonecos<br \/>\nou a fazer de cozinheiro. A m\u00e3e por esse tempo dava-lhe uma irm\u00e3zinha, que<br \/>\nse ficou chamada Am\u00e9lia, e desde a\u00ed o maior encanto do menino era tomar conta<br \/>\ndo caix\u00e3o em que estava a pequerrucha toda envolvida em panos, e n\u00e3o consentir<br \/>\nque as moscas lhe pousassem na moleira. Um dia, o pai, descendo ao quintal,<br \/>\nencontrou-o muito empenhado com o moleque a armar um orat\u00f3rio. Iam fazer prociss\u00e3o:<br \/>\no andor e o santo estavam prontos; uma sombrinha, enfeitada de franjas, faria<br \/>\nas vezes de p\u00e1lio. Louren\u00e7o ficou desesperado, e com dois pontap\u00e9s reduziu<br \/>\ntudo aquilo a frangalhos. &#8211; Era o que lhe faltava ! &#8211; que o basbaque do filho,<br \/>\nal\u00e9m de tudo, lhe sa\u00edsse carola! E, quando subiu, disse terminantemente \u00e0<br \/>\nmulher que n\u00e3o admitia que o filho corrompesse o esp\u00edrito com patacoadas daquela<br \/>\nordem.<\/p>\n<p>&#8211; Se me constar, bradou ele ao pequeno,- que me tornas a fazer igrejinhas,<br \/>\nracho-te de meio a meio, peda\u00e7o de uma lesma! Ora vamos a ver! Cai noutra,<br \/>\ne ter\u00e1s uma sapeca que te deixe a paninhos de sal! Experimenta e ver\u00e1s! Ele<br \/>\nqueria l\u00e1 filhos devotos! Era s\u00f3 o que lhe faltava! Era s\u00f3! Aquele menino<br \/>\nparecia o seu castigo! Parecia a sua maldi\u00e7\u00e3o! Aos doze anos Janj\u00e3o entrou<br \/>\npara o internato de Pedro II. A princ\u00edpio custou-lhe bastante compreender<br \/>\nas li\u00e7\u00f5es, mas, como era muito estudioso e muito paciente, os professores<br \/>\nem breve o elogiavam. Tinham &#8211; no em boa estima pelo seu esp\u00edrito cat\u00f3lico,<br \/>\npela docilidade de seu g\u00eanio e pelo irrepreens\u00edvel de sua conduta. Jo\u00e3o Coqueiro,<br \/>\nde fato, fora sempre um menino sossegado, metido consigo, respeitador dos<br \/>\nmestres e dos preceitos estabelecidos, devoto e extremamente cuidadoso de<br \/>\nseus livros e de suas obriga\u00e7\u00f5es. Ningu\u00e9m lhe ouvia palavra mais \u00e1spera ou<br \/>\ngesto menos conveniente, e \u00e0s vezes entrava pela hora do recreio grudado aos<br \/>\nlivros sem os querer deixar. O pai via-o ent\u00e3o com orgulho. Profetizava j\u00e1<br \/>\nque ali estivesse um s\u00e1bio. Tirou distin\u00e7\u00e3o nos primeiros exames. A m\u00e3e quase<br \/>\nmorre de alegria. Louren\u00e7o quis solenizar o acontecimento com um banquete<br \/>\ncorrelativo; mas as suas condi\u00e7\u00f5es de fortuna j\u00e1 n\u00e3o eram as mesmas; o dinheiro<br \/>\nia minguando de um modo assustador. Se lhe viesse a falhar uma especula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nem que se havia lan\u00e7ado ultimamente, como recurso extremo &#8211; Adeus! estaria<br \/>\ntudo perdido! A ru\u00edna seria inevit\u00e1vel! Fez-se a festa, n\u00e3o obstante, e o<br \/>\nmenino voltou aos estudos. Mas Louren\u00e7o principiava a sofrer gravemente de<br \/>\numa les\u00e3o card\u00edaca. Tinha ataques nervosos, sufoca\u00e7\u00f5es, e ca\u00eda de vez em quando<br \/>\nem fundas melancolias, durante as quais se enterrava no quarto, sem poder<br \/>\nsuportar a presen\u00e7a de ningu\u00e9m, muito fren\u00e9tico, cheio de apreens\u00f5es, com<br \/>\ngrande medo de morrer. A mulher assustava-se: o marido n\u00e3o lhe parecia o mesmo<br \/>\nhomem. Estava acabado; crescera-lhe o ventre, o nariz tomara uma vermelhid\u00e3o<br \/>\ngordurosa, o cabelo encanecera totalmente, a cabe\u00e7a despira-se, a pele do<br \/>\nrosto fizera-se opada e suja. Comprazia-se, agora, a ir \u00e0 noite pelas igrejas,<br \/>\nembrulhado na sua sobrecasaca russa, apoiando-se \u00e0 grossa bengala de cana<br \/>\nda \u00cdndia, os p\u00e9s \u00e0 vontade em sapatos rasos. Ajoelhava-se a um canto da nave,<br \/>\nem cima das pedras, e a\u00ed permanecia longamente, a ouvir os sons lamentosos<br \/>\ndo \u00f3rg\u00e3o, com o rosto descansado sobre as m\u00e3os que se cruzavam no cast\u00e3o da<br \/>\nbengala. \u00c0s vezes chorava. Seu est\u00f4mago irritado j\u00e1 n\u00e3o queria os alimentos<br \/>\n; era preciso engan\u00e1-lo de instante a instante com um pouco de noz-v\u00f4mica<br \/>\nou carbonato de magn\u00e9sia. N\u00e3o se lhe podia suportar o h\u00e1lito. Quando recebeu<br \/>\na not\u00edcia de que a sua especula\u00e7\u00e3o falhara, estava no quarto, n\u00e3o conseguiu<br \/>\nsair do lugar em que se achava. Uma onda vermelha subira-lhe \u00e0 cabe\u00e7a :os<br \/>\nobjetos principiaram a dan\u00e7ar-lhe em torno dos olhos; o ch\u00e3o fugia-lhe debaixo<br \/>\ndos p\u00e9s. Tentou ainda dar alguns passos, mas cambaleou e caiu afinal sobre<br \/>\nas pernas embambecidas, &#8211; como uma trouxa. Morreu no dia seguinte.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A fam\u00edlia ficou pobre. Foi preciso vender o melhor de dois pr\u00e9dios que restavam,<br \/>\npara saldar as d\u00edvidas do defunto. A vi\u00fava principiou ent\u00e3o a tomar encomendas<br \/>\nde costura e de engomagem. Isso, por\u00e9m n\u00e3o bastava; era necess\u00e1rio, a todo<br \/>\no transe, que o menino continuasse nos estudos. Em tal aperto, lembrou-se<br \/>\na pobre m\u00e3e de admitir h\u00f3spedes; a casa que ficou tinha bastante c\u00f4modos e<br \/>\nprestava-se admiravelmente para a coisa. Vieram os primeiros inquilinos; arranjaram-se<br \/>\nfregueses para o almo\u00e7o e o jantar, e o \u00f3rf\u00e3o prosseguiu nas sua aulas. Dentro<br \/>\nde pouco tempo, o sobrado da vi\u00fava de Louren\u00e7o era a mais estimada e popular<br \/>\ncasa de pens\u00e3o do Rio de Janeiro. Foi nela que Janj\u00e3o se fez homem. A\u00ed o viram<br \/>\nbacharelar-se e a\u00ed se matriculou na Escola Central. A irm\u00e3o respeitava-o como<br \/>\na um pai. Am\u00e9lia, por conseguinte, cresceu em uma casa de pens\u00e3o. Cresceu<br \/>\nno meio da ego\u00edstica indiferen\u00e7a de v\u00e1rios h\u00f3spedes, vendo e ouvindo todos<br \/>\nos dias novas caras e novas opini\u00f5es, absorvendo o que apanhava da conversa<br \/>\nde caixeiros e estudantes irrespons\u00e1veis; afeita a comer em mesa-redonda,<br \/>\na sentir perto de si , ao seu lado, na intimidade dom\u00e9stica, &#8211; homens estranhos,<br \/>\nque se n\u00e3o preocupavam com lhe aparecer em mangas de camisa, chinelas e peito<br \/>\nnu.<\/p>\n<p>Ainda assim deram-lhe mestres. Aprendera a ler e a escrever, tocava j\u00e1 o<br \/>\nseu bocado de piano e, &#8211; se Deus n\u00e3o mandasse o contr\u00e1rio- havia de ir muito<br \/>\nmais longe. Um novo desastre veio, por\u00e9m, alterar todos esses planos: a vi\u00fava<br \/>\nde Louren\u00e7o, depois de dois meses de cama , sucumbiu a uma pneumonia. Jo\u00e3o<br \/>\nCoqueiro estava ent\u00e3o no segundo ano da Polit\u00e9cnica; Am\u00e9lia a fazer-se mulher<br \/>\npor um daqueles dias; parentes &#8211; n\u00e3o os tinham &#8230; capitais &#8211; ainda menos&#8230;Como<br \/>\npois sustentar a casa de pens\u00e3o? &#8230;Oh! Era preciso despedir os h\u00f3spedes,<br \/>\nalugar o pr\u00e9dio, abandonar estudos e obter um emprego. Arranjou-o de fato<br \/>\n&#8211; na estrada de ferro de Pedro II. Coqueiro dissolveu logo a casa de pens\u00e3o<br \/>\ne foi mais a irm\u00e3 residir em companhia de uma francesa, muito antiga no Brasil<br \/>\ne que durante longo tempo se mostrou amiga \u00edntima da defunta. Chamava-se Mme.<br \/>\nBrizard. Era mulher de cinq\u00fcenta anos, vi\u00fava de um afamado hoteleiro, que<br \/>\nlhe deixara muitas saudades e d\u00fazia e meia de ap\u00f3lices da d\u00edvida publica.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Estava ainda bem disposta, apesar da idade. Gorda, mas elegante e com uns<br \/>\nvest\u00edgios assaz pronunciados de antigas formosura, .Tinha os olhos azuis e<br \/>\nos cabelos pretos, no tipo peculiar ao meio-dia da Fran\u00e7a. Carne opulenta<br \/>\ne quadril vigoroso. Notava-se-lhe a boca, com um desses l\u00e1bios superiores<br \/>\nque formam como que duas camadas; o que ali\u00e1s n\u00e3o obstava a que Mme. Brizard<br \/>\ntivesse um sorriso gracioso, e ainda tirasse partido da brancura privilegiada<br \/>\nde seus dentes. Mas a sua riqueza e a sua vaidade era o pesco\u00e7o, um grande<br \/>\npesco\u00e7o p\u00e1lido, cheio de ondula\u00e7\u00f5es macias e fartas. Nascera em Marselha.<br \/>\nDepois de certa idade tornara-se muito ca\u00edda para o romantismo; desde ent\u00e3o<br \/>\napreciava uma noite de luar; dava-se \u00e0 leitura prolongada de poetas tristes;<br \/>\nfazia-se mais infeliz do que era de fato, e contava a todos a sua hist\u00f3ria.<br \/>\n&#8211; _Um romance! &#8220;Aos quinze anos sa\u00edra da fam\u00edlia pelo bra\u00e7o de um diplomata<br \/>\nrusso, que a idolatrava;- ia casada. O russo tresandava a genebra e rescendia<br \/>\na sarro de cachimbo; ela abominou-o logo, abominou-o entre uma enorme corte<br \/>\nde adoradores fascinados por sua beleza e sequiosos por um de seus sorrisos;<br \/>\nera, por\u00e9m, honesta: &#8211; conservou-se pura e fiel ao marido.&#8221; Mme. Brizard,<br \/>\nquando chegava a este ponto do romance, abaixava os olhos, levando lentamente<br \/>\no leque \u00e0 boca para disfar\u00e7ar um suspiro. &#8220;Enviuvou aos vinte anos; o russo<br \/>\nn\u00e3o lhe deixara filhos;- voltou \u00e0 fam\u00edlia. A\u00ed lhe apareceu ent\u00e3o Mr. Brizard,<br \/>\nhomem de talento, pol\u00edtico e escritor, grande republicano. A subida de Lu\u00eds<br \/>\nFelipe ao trono atirou com ele ao Brasil, onde se fez hoteleiro. Tiveram aqui<br \/>\ntr\u00eas filhos: duas mulheres e um homem. Este era o \u00faltimo e muito se distanciava<br \/>\ndas irm\u00e3s em idade; quando lhe faltou o pai tinha apenas sete anos. A filha<br \/>\nmais velha representava a gl\u00f3ria da fam\u00edlia: unira-se a um ministro plenipotenci\u00e1rio;<br \/>\na outra, coitada, n\u00e3o casou mal, por\u00e9m com a morte do marido, e de um filhinho<br \/>\nque lhe ficara, tornou-se muito nervosa, hist\u00e9rica, e at\u00e9, meio pateta; agora<br \/>\nvivia e mais o irm\u00e3o em companhia da m\u00e3e&#8221;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es, a proposta de Jo\u00e3o Coqueiro pareceu vantajosa a Mme. Brizard.<br \/>\n&#8211; Ele que trouxesse a irm\u00e3 a bela Amelita, e tudo se arranjaria prelo melhor.<br \/>\nJuntaram-se Mme. Brizard revelou pronto interesse pelos dois h\u00f3spedes, principalmente<br \/>\npelo &#8220;Coqueirinho&#8221; como lhe chamavam em fam\u00edlia. Fazia-se mito carinhosa com<br \/>\nele, queria ser a sua &#8220;segunda m\u00e3e&#8221;, apreciava-lhe o talento, e andava a mostrar<br \/>\nos versos do rapaz a todas as pessoas que apareciam \u00e0 noite, para as torradas.<br \/>\nReuniam-se em volta da mesa de jantar; iam buscar o loto e jogavam. Coqueiro<br \/>\nlia a um canto, ou ficava no quarto, a cachimbar soturnamente, olhando o fumo<br \/>\ne cismando na vida.<\/p>\n<p>Mme. Brizard fazia perfeitamente as honras da casa; dava-se por mulher de<br \/>\nmuito esp\u00edrito e de uma educa\u00e7\u00e3o peregrina. Se havia ent\u00e3o algu\u00e9m que a visitasse<br \/>\npela primeira vez &#8211; a coisa ia mais longe. Desenfiava os seus melhores ditos,<br \/>\ncontava como por incidente, as suas anedotas de mais efeito, falava gravemente<br \/>\nde sua filha casada com o ministro e exibia todos os seus conhecimentos liter\u00e1rios.<br \/>\nQue os tina, inegavelmente. Lamartine l\u00e1 estava no quarto dela ,sobre o velador,<br \/>\nencadernado com esmero. Mas n\u00e3o desdenhava os poetas brasileiros e lia Cam\u00f5es.<br \/>\nUma sua amiga, muito chegada, dizia que lhe ouvira p\u00e1ginas in\u00e9ditas de um<br \/>\nlivro sobre o Brasil, &#8211; livro para fazer &#8220;sensa\u00e7\u00e3o&#8221;! Mme. Brizard confirmava<br \/>\neste boato, sorrindo com mod\u00e9stia. Jo\u00e3o Coqueiro, esse, n\u00e3o sorria,. Ao contr\u00e1rio,<br \/>\nparecia cada vez mais triste; passava tempos sem aparecer a ningu\u00e9m, depois<br \/>\nque largava o trabalho. Por mais de uma vez houver que lhe visse l\u00e1grimas<br \/>\nnos olhos. A francesa, que se achava ent\u00e3o no seu per\u00edodo mais agudo de sentimentalismo,<br \/>\nrespeitava muito as melancolias do pobre mo\u00e7o, falava a respeito dele com<br \/>\na voz baixa, cheia de um acatamento religioso. S\u00f3 lhe passava pelo quarto<br \/>\nna pontinha dos p\u00e9s, e, quando o triste h\u00f3spede sa\u00eda para o emprego, ela corria<br \/>\na lhe arrumar a mesa, com desvelo, ordenando os livros, reunindo os pap\u00e9is<br \/>\nesparsos, lendo, sobre a pasta, os versos come\u00e7ados na v\u00e9spera. Uma tarde,<br \/>\nacharam-se os dois um defronte do outro, assentados sozinhos na varanda da<br \/>\nsala de jantar, que dava para um lugar plantado de bananeiras. O sol descia<br \/>\nlentamente no horizonte por uma escadaria de fogo; as cigarras estridulavam<br \/>\nno fundo da ch\u00e1cara; a noite ia emanando. Coqueiro olhava \u00e0 toa para isso,<br \/>\nabsorto e mudo; depois suspirou e escondeu o rosto nas m\u00e3os. Mme. Brizard<br \/>\npassou-lhe um bra\u00e7o no ombro. &#8211; Coqueirinho! que \u00e9 isso?&#8230; Queria saber o<br \/>\nmotivos daquelas tristezas. Come\u00e7ou a interrog\u00e1-lo, com a voz untuosa, cheia<br \/>\nde amor. Ele ent\u00e3o falou abertamente de suas aspira\u00e7\u00f5es, de seus estudos interrompidos,<br \/>\nde sua incompatibilidade com o emprego que exercia. &#8211; Sou muito caipora! Exclamava.<br \/>\n&#8211; Sou muito caipora! E chorava. Mme. Brizard procurou consol\u00e1-lo, falou do<br \/>\nfuturo,, lembrou a idade de coqueiro e aconselhou-o a que n\u00e3o desanimasse.<br \/>\nFoi da\u00ed que lhes veio a id\u00e9ia de casamento. Mme. Brizard era muito mais velha<br \/>\ndo que ele, mas, talvez, por isso mesmo, fosse a esposa que melhor lhe convinha.<br \/>\n&#8211; Ah! ela estava no caso de faz\u00ea-lo feliz, porque o amava! Oh! Se o amava!<br \/>\nSeria talvez uma loucura; talvez viessem a censur\u00e1-la; &#8211; ela mesma n\u00e3o sabia<br \/>\nexplicar o que aquilo era, como aquilo acontecera! Mas, dava a sua palavra<br \/>\nde honra, jurava pela mem\u00f3ria de seu pai- em como nunca sentira por ningu\u00e9m<br \/>\no que ent\u00e3o sentia por Coqueiro! Ah! sabia perfeitamente que bem poucos compreenderiam<br \/>\na sua paix\u00e3o! Sabia que muitos haveriam de ridiculariz\u00e1-la, haveriam de escarnece-la;<br \/>\nela pr\u00f3pria, at\u00e9 ali, nunca imaginara que se pudesse amar tanto!&#8230; Durante<br \/>\na sua vida , nunca se sentiu possu\u00edda por uma id\u00e9ia , t\u00e3o escrava, t\u00e3o vencida,<br \/>\ncomo naquele instante! Contudo, se desejava o casamento n\u00e3o era decerto pelo<br \/>\nfato de possuir um homem. &#8211; _ Oh, n\u00e3o !- deixava isso para as almas grosseiras&#8230;<br \/>\ne Coqueiro bem sabia o quanto seu cora\u00e7\u00e3o tinha de espiritual e de puro!&#8230;<br \/>\nDesejava aquele enlace para licitamente [pode aplicar todo o seu esfor\u00e7o,<br \/>\ntoda a sua coragem, todas as sua dilig\u00eancias, na conquista de um bom futuro<br \/>\npara o esposo. Queria casar-se, porque entendia que isso se tornava necess\u00e1rio<br \/>\n\u00e0 felicidade de Coqueiro. Toda a sua vida, todos os seus recursos dela, seriam<br \/>\nempregados para o mesmo fim: &#8211; facultar ao marido os meios de estudar, os<br \/>\nmeios de crescer, desenvolver-se, luzir. Alcan\u00e7asse ele um nome, uma posi\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrilhante, uma atitude gloriosa, e tudo o mais lhe seria indiferente. Que<br \/>\nlhe importava o resto?&#8230; Se ela, porventura, fosse esquecida, fosse desprezada,<br \/>\nse viesse mesmo a falecer da\u00ed a pouco tempo &#8211; que valia tudo isso, se o objeto<br \/>\nde seus extremos era ditoso e vivia cercado de admira\u00e7\u00e3o e aplauso?&#8230; E Mme.<br \/>\nBrizard , depois de lhe falar na posteridade e depois de convencer ao Coqueiro<br \/>\nde que aquele casamento era um dever sagrado, pois que n\u00e3o realiz\u00e1-lo eq\u00fcivalia<br \/>\na privar o Brasil de uma de suas gl\u00f3rias futuras e ao s\u00e9culo um de seus vultos<br \/>\ntalvez mais grandiosos, Mme. Brizard, depois disso, entrou nos pormenores<br \/>\nde seu plano. &#8211; Uma vez casados, ressuscitariam a antiga casa de pens\u00e3o. Ela<br \/>\ndispunha de algum dinheiro; o outro dispunha de um pr\u00e9dio: &#8211; era restaur\u00e1-lo<br \/>\ne dar come\u00e7o \u00e0 vida! Coqueiro abandonaria o emprego e voltava de novo aos<br \/>\nestudos;&#8221; ela encarregava-se da ger\u00eancia da casa e, nesse ponto, deitando<br \/>\nde parte a mod\u00e9stia, supunha-se mais habilitada que ningu\u00e9m. At\u00e9 j\u00e1 tinha<br \/>\nprojetos, j\u00e1 tinha asa suas id\u00e9ias sobre a instala\u00e7\u00e3o da casa!&#8230;Sentia-se<br \/>\nde disposta a trabalhar por vinte!&#8230;Coqueiro havia de ver! Seu estabelecimento<br \/>\nseria uma casa de pens\u00e3o modelo! Coisa para dar &#8220;uma<\/p>\n<p>fortuna e render \u00e0 Amelinha um bom casamento._ Um casament\u00e3o!&#8221; Ah! Ela ,<br \/>\na francesa, sabia perfeitamente como tudo isso se arranjava no Brasil. E concluiu<br \/>\n, jurando inda uma vez, que- para si n\u00e3o queria nada! Que s\u00f3 desejava a felicidade<br \/>\ndo Coqueiro e de sua irm\u00e3 dele. Era assim que entendia o amor! Tr\u00eas meses<br \/>\ndepois estavam casados. Boquejou-se alegremente sobre isso na Escola Polit\u00e9cnica<br \/>\n. Os amigos do Coqueiro acharam ocasi\u00e3o de rir, e a tal mulher do ministro<br \/>\nplenipotenci\u00e1rio, a gloria da fam\u00edlia, escreveu \u00e0 m\u00e3e uma carta carregada<br \/>\nde recrimina\u00e7\u00f5es, declarando que nunca lhe perdoaria semelhante loucura.-<br \/>\nLoucura , de que para o futuro haveria Mme. Brizard de se arrepender muito<br \/>\nseriamente. Os rec\u00e9m-casados fecharem , por\u00e9m ,ouvidos a tais palavras e cuidaram<br \/>\nde ir pondo em pr\u00e1tica os seus novos planos de vida Meteram m\u00e3os \u00e0 obra. Coqueiro<br \/>\ndeixou o emprego, contratou um empreiteiro para restaurar o seu velho pr\u00e9dio<br \/>\nda Rua do Resende, e a casa de pens\u00e3o de Mme. Brizard ( como teimosamente<br \/>\ninsistiam em lhe chamar a mulher ) surgiu amea\u00e7adora, escancarando para a<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro a sua boca de monstro.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>VI<\/h2>\n<p>Foi justamente tr\u00eas anos depois disso que Am\u00e2ncio chegou ao Rio de Janeiro.<br \/>\nA casa de Mme. Brizard estava ent\u00e3o no seu apogeu; de todos os lados choviam<br \/>\nh\u00f3spedes, entre os quais se notavam pessoas de import\u00e2ncia. Pelo tempo das<br \/>\nc\u00e2maras reuniam-se ali alguns deputados da prov\u00edncia, homens s\u00e9rios, em geral<br \/>\ngordos, o ar discreto, um sorriso infantil \u00e0 superf\u00edcie dos l\u00e1bios e um fraseado<br \/>\nimaginoso, cheio de poesia. Fazia-se pol\u00edtica no sal\u00e3o, depois da comida,<br \/>\nem chinelas de tapete, ao remansado soprar do fumo da Bahia. A dona da casa<br \/>\ngozava para eles de muita considera\u00e7\u00e3o; s\u00f3 um ou outro, mais atirado \u00e0 pilh\u00e9ria,<br \/>\nousava atribuir a algum dos seus &#8220;nobres colegas &#8220;os sorrisos de Mme. Brizard.<br \/>\nOutros entusiasmavam-se por ela. &#8211; N\u00e3o! diziam. &#8211; Aquela mulher devia ter<br \/>\nsido um pancad\u00e3o no seu tempo! Tudo que era pesco\u00e7o e ombros ainda se podia<br \/>\nver! Quem dera a muitas novas um colo daqueles! De uma feita , um deputado<br \/>\nde Minas, criatura baixa, socada, rosto curto, poucas palavras e muita barba,<br \/>\nempalmou-lhe a cintura, quando a pilhou sozinha na sala de jantar. A francesa<br \/>\nabaixou os olhos, afastou-se dignamente e foi logo dizer ao marido que era<br \/>\nnecess\u00e1rio p\u00f4r aquele homem na rua. &#8211; O Moura! Por qu\u00ea ? &#8211; N\u00e3o te posso dizer<br \/>\npor que&#8230;mas afian\u00e7o que o Moura n\u00e3o nos conv\u00e9m!&#8230; &#8211; Fez-te alguma? &#8211; Faltou-me<br \/>\nao respeito! &#8211; Hein?! &#8211; Agarrou-me a cintura e ter-me-ia beijado o pesco\u00e7o<br \/>\n,se eu lho permitisse. Esta \u00faltima parte da queixa fazia mais honra ao esp\u00edrito<br \/>\ninventivo de Mme. Brizard do que ao seu esp\u00edrito de verdade; ela, por\u00e9m, n\u00e3o<br \/>\nresistia ao gostinho de falar no seu rico pesco\u00e7o, sempre que se oferecia<br \/>\na ocasi\u00e3o. E o Moura teria posto os ossos na rua, se a pr\u00f3pria Mme. Brizard<br \/>\nn\u00e3o intercedesse por ele no dia seguinte, alegando que o pobre homem havia<br \/>\nna v\u00e9spera carregado um pouco mais no virgem. Tamb\u00e9m foi s\u00f3. Nunca mais, que<br \/>\nconstasse palpitou ali sombra de esc\u00e2ndalo, e a famosa casa de pens\u00e3o continuava<br \/>\na sustentar a melhor apar\u00eancia deste mundo. At\u00e9 se dizia \u00e0 boca cheia que,<br \/>\npor mais de uma vez, j\u00e1 se hospedaram verdadeiras celebridades, e eram todos<br \/>\nde acordo que no Rio de Janeiro ningu\u00e9m fazia espetadas de camar\u00e3o t\u00e3o saborosas<br \/>\ncomo as da simp\u00e1tica irm\u00e3zinha do Jo\u00e3o Coqueiro, a Amelita. Uma verdadeira<br \/>\nespecialidade. Constava at\u00e9 que vinha gente de longe ao cheiro daqueles camar\u00f5es.<br \/>\nA casa tinha dois andares e uma boa ch\u00e1cara no fundo. O sal\u00e3o de visitas era<br \/>\nno primeiro. &#8211; Mob\u00edlia antiga, um tanto mesclada; ao centro, grande lustre<br \/>\nde cristal, coberto de fil\u00f3 amarelo; tr\u00eas largas janelas de sacada, guarnecida<br \/>\nde cortinas brancas, davam para a rua; do lado oposto, um enorme espelho de<br \/>\nmoldura dourada e gasta inclinava-se pomposamente sobre um sof\u00e1 de molas;<br \/>\nem uma das paredes laterais, um detest\u00e1vel retrato em \u00f3leo de Mme. Brizard,<br \/>\nvinte anos mais mo\u00e7a, olhava sorrindo para um velho piano, que lhe ficava<br \/>\nfronteiro; por cima dos consolos vasos bonitos de lou\u00e7a da \u00cdndia, cheios de<br \/>\nareia at\u00e9 \u00e0 boca. Imediato \u00e0 sala, com uma janela igual \u00e0quelas outras, havia<br \/>\numa gabinete, comprido e muito estreito, onde Coqueiro tinha a sua biblioteca<br \/>\ne a sua banca de estudo. Via-se a\u00ed uma pasta cheia de pap\u00e9is, um tinteiro<br \/>\ne<\/p>\n<p>um dep\u00f3sito de fumo, representando o busto de um barbadinho; ao fundo, uma<br \/>\nconversadeira de palhinha, encostada \u00e0 parede, por debaixo de um pequeno caixilho<br \/>\nde madeira com o retrato de Victor Hugo em gravura. Seguia-se o aposento de<br \/>\nMme. Brizard e mais do marido, onde tamb\u00e9m dormia o menino C\u00e9sar, que teria<br \/>\nent\u00e3o doze anos; logo depois estava o quarto de Amelinha e da tal vi\u00fava hist\u00e9rica,<br \/>\nLeonie, a quem a fam\u00edlia s\u00f3 tratava por &#8220;Nini&#8221;. Vinha depois a grande sala<br \/>\nde jantar, forrada de papel alegre; nas paredes distanciavam-se pequenos cromos<br \/>\namarelados, representando marujos de chap\u00e9u- de- palha, tomando genebra, e<br \/>\nassuntos de conventos, &#8211; frades muito n\u00e9dios e vermelhos refestelados \u00e0 mesa<br \/>\nou a brincarem com mulheres suspeitas. Um guarda-lou\u00e7a expunha, por detr\u00e1s<br \/>\ndas vidra\u00e7as, os aparelhos de porcelana e os cristais; defronte &#8211; um aparador<br \/>\ncheio de garrafas, ao lado de outro em que estavam os moringues. Ainda havia<br \/>\num corredor, a despensa, a cozinha, uma escada que conduzia &#8216;a ch\u00e1cara, outra<br \/>\nao segundo andar, e mais tr\u00eas alcovas para h\u00f3spedes, todas do mesmo tamanho<br \/>\ne numeradas. A numera\u00e7\u00e3o dos quartos principiava a\u00ed nesses tr\u00eas par continuar<br \/>\nem cima. Em cima \u00e9 que estava o grande recurso da casa, porque Mme. Brizard<br \/>\ndividira todo o segundo pavimento em oito cub\u00edculos iguais; ficando quatro<br \/>\nde cada lado e o corredor no centro. Os da frente davam janelas para a rua<br \/>\ne os do fundo para a ch\u00e1cara. As paredes divis\u00f3rias eram de madeira e forradas<br \/>\nde papel nacional.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Coqueiro, quando saiu do Hotel dos Pr\u00edncipes na manh\u00e3 do almo\u00e7o, ia<br \/>\npreocupado; o Sim\u00f5es, que caminhava \u00e0 sua esquerda um pouco sacudido pelos<br \/>\nvinhos, em v\u00e3o tentou, repetidas vezes, pux\u00e1-lo \u00e0 palestra; o outro respondia<br \/>\napenas por monoss\u00edlabos e, na primeira esquina, despediu-se e correu logo<br \/>\npara casa. Ao chegar foi direito \u00e0 mulher, dizendo-lhe em voz baixa, antes<br \/>\nde mais nada: &#8211; Olha c\u00e1, Lol\u00f3&#8230; E encaminhou-se para o quarto. Mme. Brizard<br \/>\nlargou o que tinha entre as m\u00e3os e segui-o atentamente. &#8211; Sabes? Disse ele,<br \/>\nsem transi\u00e7\u00e3o, assentando-se ao rebordo da cama. &#8211; \u00c9 preciso arranjarmos c\u00f4modo<br \/>\npara um rapaz que h\u00e1 de vir por a\u00ed Domingo. &#8211; Um rapaz! Mas tu sabes perfeitamente<br \/>\nque os quartos acham-se todos ocupados. Se tivesses prevenido&#8230; o n\u00b0<br \/>\n2 ainda ontem estava vazio&#8230;Mas quem \u00e9? &#8211; H\u00e1 de se arranjar, seja l\u00e1 como<br \/>\nfor! Disse o Coqueiro. &#8211; Mas quem \u00e9?&#8230;insistiu Mme. Brizard. &#8211; \u00c9 um achado<br \/>\nprecioso! Ainda n\u00e3o h\u00e1 dois meses que chegou do Norte, anda \u00e0s apalpadelas!<br \/>\nEstivemos a conversar por muito tempo: &#8211; \u00e9 filho \u00fanico e tem a herdar uma<br \/>\nfortuna! Ah! N\u00e3o imaginas: s\u00f3 pela morte da av\u00f3, que \u00e9 muito velha, creio<br \/>\nque a coisa vai para al\u00e9m de quatrocentos contos!&#8230; Mme. Brizard escutava,<br \/>\nsem despregar os olhos de um ponto, os p\u00e9s cruzados e com uma das m\u00e3os apoiando-se<br \/>\nno espaldar da cama. &#8211; Ora , continuou o outro gravemente. &#8211; N\u00f3s temos de<br \/>\npensar no futuro de Amelinha&#8230; ela entrou j\u00e1 nos vinte e tr\u00eas !&#8230; se n\u00e3o<br \/>\nabrirmos os olhos&#8230; adeus casamento! &#8211; Mas da\u00ed &#8230; perguntou a mulher, fugindo<br \/>\na participar da confian\u00e7a que o marido revelava naquele plano. &#8211; Da\u00ed &#8211; \u00e9 que<br \/>\ntenho c\u00e1 um palpite! explicou ele. &#8211; N\u00e3o conheces o Am\u00e2ncio!&#8230; A gente leva-o<br \/>\npara onde quiser!&#8230; Um simpl\u00f3rio , mas o que se pode chamar um simpl\u00f3rio!<br \/>\nMme Brizard fez um gesto de d\u00favida. &#8211; Afian\u00e7o-te , volveu Coqueiro, &#8211; que<br \/>\n, se o metermos em casa e se conduzirmos o neg\u00f3cio com um certo jeito, n\u00e3o<br \/>\nlhe dou tr\u00eas meses de solteiro!<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>VII<\/h2>\n<p>Nessa mesma tarde Mme Brizard entendeu-se com a cunhada. Falou-lhe sutilmente<br \/>\nno &#8220;futuro&#8221;, disse-lhe que &#8220;uma menina pobre, fosse quanto fosse bonita, s\u00f3<br \/>\ncom muita habilidade e alguma esperteza poderia apanhar um marido rico&#8221;. E<br \/>\ntocando lhe intencionalmente no queixo: &#8211; Anda l\u00e1 , minha sonsa, que sabes<br \/>\ndisso t\u00e3o bem como eu!&#8230;<\/p>\n<p>Am\u00e9lia riu, concentrou-se um instante e prometeu fazer o que estivesse no<br \/>\nseu alcance, para agradar ao tal sujeitinho. Ardia, com efeito por achar marido,<br \/>\npor se tornar dona de casa. A posi\u00e7\u00e3o subordinada de menina solteira n\u00e3o se<br \/>\ncompadecia com a sua idade e com as desenvolturas do seu esp\u00edrito. Gra\u00e7as<br \/>\nao meio em que se desenvolveu, sabia perfeitamente o que era p\u00e3o e o que era<br \/>\nqueijo; por conseguinte as precau\u00e7\u00f5es e as reservas, que o irm\u00e3o tomava para<br \/>\ncom ela, faziam-na sorrir. \u00c0s vezes tinha vontade de acabar com isso. &#8220;Que<br \/>\ndiabo significavam tais cautelas?&#8230;Se a supunham uma toleirona, enganavam-se<br \/>\n&#8211; ela era muito capaz de os enfiar a todos pelo ouvido de uma agulha!&#8221; &#8211; Agora,<br \/>\npor exemplo, neste caso do tal Am\u00e2ncio, que custava ao Coqueiro explicar-se<br \/>\ncom ela francamente?&#8230;Por que raz\u00e3o, se ele precisava de seu aux\u00edlio, n\u00e3o<br \/>\na procurou e n\u00e3o lhe disse \u00e0s claras: &#8220;Fulana, Domingo vem aqui um rapaz,<br \/>\nnestas e nestas condi\u00e7\u00f5es; v\u00ea se o cativas, porque ali est\u00e1 o noivo que te<br \/>\nconv\u00e9m!&#8221; Mas, n\u00e3o senhor! &#8211; meteu-se nas encolhas e entregou tudo nas m\u00e3os<br \/>\nda mulher! &#8211; Ora! Disse consigo a rapariga. &#8211; Isto at\u00e9 nem sei que me parece!<br \/>\nOu bem que somos, ou bem que n\u00e3o somos!&#8230;Se Janj\u00e3o queria alguma coisa de<br \/>\nmim, era falar com franqueza e deixar-se de recadinhos por detr\u00e1s da cortina!<br \/>\nE Am\u00e9lia, quanto mais refletia no caso, tanto mais se revoltava contra a reserva<br \/>\ndo irm\u00e3o: &#8211; Ele j\u00e1 a devia conhecer melhor! Pelo menos j\u00e1 devia saber que<br \/>\naquela que ali estava era incapaz de cair em qualquer asneira; aquela n\u00e3o<br \/>\n&#8220;dava ponto sem n\u00f3 &#8220;.Outra que fosse, quanto mais &#8211; ela, que conhecia os homens,<br \/>\ncomo quem conhece a palma das pr\u00f3prias m\u00e3os ! &#8211; Ela, que viu de perto, com<br \/>\nos seus olhos de virgem, toda a sorte de tipos!- ela, que lhes conhecia as<br \/>\nmanhas, que sabia das l\u00e1bias empregadas pelos velhacos para obter o que desejavam<br \/>\ne o modo pelo qual ser portam depois de servidos!_ Ela! tinha gra\u00e7a! &#8211; Ela,<br \/>\nque at\u00e9 ali dera as melhores provas de sagacidade e de esperteza; j\u00e1 &#8220;convencendo&#8221;<br \/>\ntal fregu\u00eas remisso que n\u00e3o queria pagar, nem a m\u00e3o de Deus Padre, o aluguel<br \/>\ndo quarto pelo pre\u00e7o cobrado; j\u00e1 respondendo a tal credor, que, em tal \u00e9poca,<br \/>\nveio receber tal conta; j\u00e1 sofismando tal compromisso; j\u00e1 resolvendo tal aperto,<br \/>\numa vez em que nem a pr\u00f3pria Mme. Brizard sabia que fazer! E ainda a suporiam<br \/>\ncrian\u00e7a?&#8230;ainda teriam medo de qualquer asneira sua parte?&#8230;Pois ent\u00e3o que<br \/>\nse lembrassem da quest\u00e3o do Pereirinha! O Pereirinha foi um dos primeiros<br \/>\nh\u00f3spedes do Coqueiro. Rapaz bonito, perfumado, muito prosa. Am\u00e9lia representava<br \/>\npara ele a mesma inoc\u00eancia em pessoa, s\u00f3 lhe falava de olhos baixos, voz sumida,<br \/>\no ar todo candura e vexame. Pereirinha jurava-lhe uma paix\u00e3o sem bordas, fazia-lhe<br \/>\nversos, tocava-lhe nos p\u00e9s por baixo da mesa, e, depois do jantar, quando<br \/>\nos mais se alheavam no ego\u00edsmo da saciedade, ele a fitava tristemente, pedindo,<br \/>\ncom os olhos fosse l\u00e1 o que fosse. Pois bem, ela a tudo isso correspondia<br \/>\ncom muito agrado, submetia-se resignadamente a todos esses requisitos do namoro<br \/>\nvulgar, mas&#8230;um belo dia em que o peda\u00e7o de asno do Pereirinha quis ir adiante,<br \/>\nAm\u00e9lia aconselhou-o sorrindo a que primeiro a fosse pedir em casamento ao<br \/>\nirm\u00e3o. E, quando se convenceu de que o tipo n\u00e3o queria casar, disse-lhe abertamente:<br \/>\n&#8221; Ora, meu amigo, outro of\u00edcio!&#8221; E Coqueiro sabia de tudo isso, t\u00e3o bem como<br \/>\na pr\u00f3pria Am\u00e9lia &#8211; para que pois aqueles escr\u00fapulos rid\u00edculos e amoladores?.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>S\u00f3 \u00e0 noite,, \u00e0 acostumada palestra em torno da mesa de jantar, lembraram-se<br \/>\nde que o dia seguinte era de grande gala. &#8211; \u00d3 diabo! considerou Coqueiro.-<br \/>\nE eu que podia Ter dito ao Am\u00e2ncio para vir amanh\u00e3! Escus\u00e1vamos de esperar<br \/>\nat\u00e9 domingo. &#8211; Ora, senhores! Onde diabo tinha a cabe\u00e7a!&#8230; &#8211; Queres saber<br \/>\nde uma coisa? Disse, tomando a mulher de parte. &#8211; Vai tu e mais Amelinha arranjar<br \/>\no gabinete, que eu escrevo uma carta ao nosso homem; pode ser que amanh\u00e3 mesmo<br \/>\no tenhamos por c\u00e1. Anda, vai! O segredo das grandes coisas est\u00e1 \u00e0s vezes nesta<br \/>\npequenas delibera\u00e7\u00f5es! E, enquanto Mme. Brizard aprontava com Am\u00e9lia o gabinete,<br \/>\nescreveu ele a carta que Am\u00e2ncio encontrou sobre a c\u00f4moda. N\u00e3o descansaram<br \/>\nmais um instante. Desde pela manh\u00e3 do dia seguinte andava a casa em grande<br \/>\nalvoro\u00e7o. Foi preciso varrer, escovar, remover do gabinete os m\u00f3veis que o<br \/>\natravancavam. Preparou-se uma bela caminha, coberta de len\u00e7\u00f3is claros e cheirosos;<br \/>\nestendeu-se um tapete no ch\u00e3o; colocou-se a um canto o lavat\u00f3rio, encheu-se<br \/>\no jarro que ficou dentro da bacia, ao lado das toalha. E feito isto, puseram-se<br \/>\ntodos \u00e0 espera de Am\u00e2ncio. Ele, at\u00e9 aquelas horas, n\u00e3o havia declarado por<br \/>\nescrito se iria ou n\u00e3o, logo &#8211; era prov\u00e1vel que fosse.<\/p>\n<p>E com efeito, pela volta do meio-dia, um t\u00edlburi parou \u00e0 porta, e Am\u00e2ncio,<br \/>\nmuito intrigado com a numera\u00e7\u00e3o das casa, entrou no corredor, a olhar para<br \/>\ntodos os lados. Um moleque, que ficara de alcat\u00e9ia \u00e0 espera dele, correu logo<br \/>\nao primeiro andar, gritando que &#8220;o mo\u00e7o j\u00e1 estava a\u00ed&#8221; &#8211; Cala a boca, diabo!<br \/>\nRespondeu Mme. Brizard em voz abafada e discreta. Coqueiro ergueu-se prontamente<br \/>\ndo lugar onde se achava e atirou-se com espalhafato para o corredor, alegre<br \/>\ne expansivo, como se recebera, depois de longa aus\u00eancia, um velho amigo da<br \/>\ninf\u00e2ncia. &#8211; Bravo! Exclamava, sacudindo os bra\u00e7os e correndo ao encontro de<br \/>\nAm\u00e2ncio. &#8211; Bravo! Assim \u00e9 que entendo os amigos! N\u00e3o te perdoaria se faltasses!<br \/>\nE com muita festa ,a apress\u00e1-lo: &#8211; Vem entrando para a sala de jantar! Est\u00e1s<br \/>\nem tua casa! Entra! Entra! Am\u00e2ncio deixava-se conduzir, em sil\u00eancio. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ntinha o mesmo tipo mal ajeitado com que se apresentara ao Campos; agora, um<br \/>\nterno de casimira cinzenta, comprado nessa mesma manh\u00e3 a um alfaiate da Rua<br \/>\ndo Ouvidor. Dava-lhe ares domingueiros de janotismo. Vinha de barba feita,<br \/>\nas unhas limpas, os dentes cintilantes, o cabelo dividido ao meio, formando<br \/>\nsobre a testa duas grandes pastas lustrosas e do feitio de uma borboleta de<br \/>\nasas abertas. Os olhos n\u00e3o denunciavam os inc\u00f4modos da v\u00e9spera, e de todo<br \/>\nele respirava um cheiro ativo de s\u00e2ndalo &#8211; Estimei bem que me escrevesses&#8230;<br \/>\ndisse atravessando o corredor, ao lado do Coqueiro. N\u00e3o tinha para onde ir<br \/>\nhoje. O Campos est\u00e1 de passeio com a fam\u00edlia l\u00e1 para o tal Jardim Bot\u00e2nico..<br \/>\n&#8211; Pois eu estimei ainda mais que viesses. Entra! Penetraram na sala de jantar.<br \/>\nEstava tudo bem arrumado e muito limpo; n\u00e3o se podia desejar melhor aspecto<br \/>\nde felicidade caseira; em tudo &#8211; a mesma apar\u00eancia austera e calma de uma<br \/>\nvelha paz inquebrant\u00e1vel e honesta. Mme. Brizard, assentada \u00e0 cabeceira da<br \/>\nmesa, parecia ler atentamente um livro que tinha aberto defronte dos olhos;<br \/>\nmais adiante trabalhava Amelinha em uma m\u00e1quina de costura, a cabe\u00e7a vergada,<br \/>\nos olhos baixos, numa express\u00e3o tranq\u00fcila de inoc\u00eancia. Logo que Am\u00e2ncio apareceu<br \/>\nna varanda, Mme. Brizard desviou os olhos do livro, deixou cair as lunetas<br \/>\ndo nariz e foi receb\u00ea-lo solicitamente; a outra limitou-se a cumpriment\u00e1-lo<br \/>\ncom um modesto e gracioso movimento de cabe\u00e7a. &#8211; O Dr. Am\u00e2ncio de Vasconcelos!<br \/>\nGritou o Coqueiro, empurrando o colega para junto das senhoras. E acrescentou,<br \/>\ndesignando-as: &#8211; Minha mulher e minha irm\u00e3&#8230;O amigo j\u00e1 sabe que s\u00e3o duas<br \/>\ncriadas que aqui tem \u00e0s suas ordens! Am\u00e2ncio agradecia, desfazendo-se em rever\u00eancias<br \/>\ne apertando as m\u00e3os de ambas, todo vergado para a frente, as faces incendiadas<br \/>\npela como\u00e7\u00e3o daquela primeira visita. &#8211; P\u00f5e-te \u00e0 vontade, filho! Disse-lhe<br \/>\no Coqueiro, em ar quase de censura. &#8211; Olha uma cadeira. Senta-te! E tirando-lhe<br \/>\na bengala e o chap\u00e9u : &#8211; Aqui est\u00e1s em tua casa! Minha gente n\u00e3o \u00e9 de cerim\u00f4nias!<br \/>\nEntretanto Mme. Brizard o tomava a si com perguntas: &#8211; H\u00e1 quanto tempo havia<br \/>\nchegado; de que prov\u00edncia era filho; se tinha saudades da fam\u00edlia; se gostava<br \/>\ndo Rio de Janeiro; que tal achava as fluminenses, e se j\u00e1 estava embei\u00e7ado<br \/>\npor alguma. E vinham os risos exagerados e sem pretexto, de quando se deseja<br \/>\nagradar as visitas. O provinciano respondia a tudo, inclinando a cabe\u00e7a, procurando<br \/>\narmar bem a frase e fazendo esfor\u00e7os para se mostrar de boa educa\u00e7\u00e3o. Ia-lhe<br \/>\nj\u00e1 fugindo o primitivo acanhamento e as palavras acudiam-lhe \u00e0 ponta da l\u00edngua,<br \/>\nsonoras e f\u00e1ceis. &#8211; N\u00e3o tenho desgostado da Corte, dizia a brincar com a sua<br \/>\nmedalha da corrente, &#8211; mas, confesso, esperava melhor&#8230;L\u00e1 de fora, sabe V.<br \/>\nEx.\u00aa a coisa parece outra! Fala-se tanto do Rio!&#8230;Pintam-no t\u00e3o grande, t\u00e3o<br \/>\nbonito, que o pobre provinciano, ao chegar aqui, logo sofre uma terr\u00edvel decep\u00e7\u00e3o!&#8230;Pelo<br \/>\nmenos comigo foi assim! &#8211; O Sr. Vasconcelos j\u00e1 visitou os arrabaldes?&#8230;perguntou<br \/>\nMme. Brizard muito delicadamente. &#8211; Ainda n\u00e3o, minha senhora. Apenas fui a<br \/>\nBotafogo, de passagem, para entregar uma carta; mas tenciono percorr\u00ea-los<br \/>\ntodos, na primeira ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>A sala iluminada tinha um car\u00e1ter imponente. O gentleman encaminhou a conversa<br \/>\ngeral para a m\u00fasica, aconselhou a Am\u00e2ncio que solicitasse da Sr.\u00aa D. L\u00facia<br \/>\num pouco do Guarani, que ela tocava admiravelmente.<\/p>\n<p>L\u00facia queixou-se de que ultimamente sofria de certa fraqueza nos dedos e<br \/>\nn\u00e3o tocava com a mesma express\u00e3o , mas sempre foi pelo bra\u00e7o de Lambertosa<br \/>\ntomar ao piano o lugar que Am\u00e9lia deixara nesse instante. E logo as primeiras<br \/>\nnotas da introdu\u00e7\u00e3o do Guarani encheram a sala com a sua corajosa e dominadora<br \/>\nsolenidade. Fizeram sil\u00eancio. Ela tocava bem, com muita energia e destreza.<br \/>\nAm\u00e2ncio encostara-se sozinho ao canto de uma janela e sentia-se ir a pouco<br \/>\ne pouco arrastando pela irresist\u00edvel corrente daquelas frases musicais Seu<br \/>\nest\u00f4mago, perfeitamente confortado, dava-lhe ao corpo um bem-estar beat\u00edfico<br \/>\ne predispunha-lhe o esp\u00edrito para as vagas concentra\u00e7\u00f5es e para os m\u00edsticos<br \/>\narrebatamentos da fantasia. Um profundo langor, muito voluptuoso, apoderava-se<br \/>\nde todo ele, e os vapores duvidosos de um princ\u00edpio de embriaguez, acamavam-se<br \/>\nem torno de sua cabe\u00e7a, anuviando-lhe os objetos exteriores. E ali, da janela<br \/>\nsuspenso ainda pelas novas impress\u00f5es que lhe deparavam os novos aspectos<br \/>\nde sua exist\u00eancia, abstrato e perdido em cismas indefinidas, enxergava, por<br \/>\nentre as n\u00e9voas do seu enlevo, o vulto melanc\u00f3lico de L\u00facia, assentada defronte<br \/>\ndo piano, a picar o teclado com os dedos, num frenesi delicioso. Depois da<br \/>\nm\u00fasica principiou a simpatizar com ela; j\u00e1 gostava de a ver, misteriosa e<br \/>\np\u00e1lida, arrastando a vida com a languidez de uma convalescente. Estava todo<br \/>\nembevecido a pensar nesta simpatia, quando voltou por acaso o rosto e deu<br \/>\ncom os olhos de Nini, que o fitavam sem pestanejar. &#8211; \u00c9 birra, n\u00e3o tem que<br \/>\nver! Pensou ele aborrecido..<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Duas horas depois tornavam \u00e0 sala de jantar. Serviam-se as torradas. Pereira,<br \/>\ncom o C\u00e9sar adormecido sobre as pernas, ressonava profundamente na mesma pregui\u00e7osa<br \/>\nem que o tinham deixado. Mme. Brizard chamou o copeiro e ordenou-lhe que recolhesse<br \/>\no menino. Pereira espregui\u00e7ou-se, abriu vagarosamente os olhos , mas tornou<br \/>\na fech\u00e1-los, bocejando. J\u00e1 estavam \u00e0 mesa, quando os h\u00f3spedes principiaram<br \/>\na chegar. Veio o Paula Mendes e mais a mulher. Ele de pequena estatura, grosso,<br \/>\nos movimentos acanhados, a voz branda e a fisionomia triste; ela muito alta,<br \/>\ncheia de corpo, despejada de maneiras e com fei\u00e7\u00f5es de homem. Chamava-se Catarina,<br \/>\nestava sempre a implicar com as coisas e tinha muita for\u00e7a de g\u00eanio. Entrou<br \/>\ncomo uma f\u00faria; o marido atr\u00e1s. Cumprimentou a todos com um &#8211; &#8220;boas-noites&#8221;<br \/>\nterr\u00edvel, e, atirando-se a uma cadeira, declarou , a bater com a m\u00e3o na mesa,<br \/>\nque vinha desesperada! &#8211; Pois, se em vez de piano, lhe haviam dado um tacho,<br \/>\num verdadeiro tacho, para executar um noturno de Chopin! Dific\u00edlimo! &#8211; Pouca<br \/>\nvergonha! Exclamava ela, rangendo os dentes. &#8211; canalhas! E voltando-se para<br \/>\no marido com um furor crescente: &#8211; Mas o culpado foste tu, lesma de uma figa!-<br \/>\nj\u00e1 devias conhecer melhor aquela s\u00facia! &#8211; Mas&#8230; ia responder o marido. Cale-se,<br \/>\nberrou ela. &#8211; N\u00e3o me d\u00ea uma palavra, que n\u00e3o estou disposta a lhe ouvir a<br \/>\nvoz! Diabo do basbaque Fez uma pausa, estava arquejante, mas continuou logo:<br \/>\n&#8211; Tamb\u00e9m ali, acabou-se! Cruz na porta! Nunca mais! Nunca mais! Nem admito<br \/>\nque me falem na rua! Corja! E, levantando-se com \u00edmpeto, cumprimentou a todos<br \/>\ncom um arremesso, e subiu para o segundo andar, levando o marido na frente,<br \/>\naos empurr\u00f5es Safa, disse Am\u00e2ncio consigo. O Dr. Tavares \u00e9 que vinha satisfeito.<br \/>\nEstivera em casa de um amigo, pessoa de muita considera\u00e7\u00e3o, onde se reunia<br \/>\na mais fina sociedade. E, necessitado de expandir o seu bom humor, entabulou<br \/>\nconversa com Am\u00e2ncio. Falou-lhe a um s\u00f3 tempo de mil coisas diferentes; tratou<br \/>\nmuito de si; das suas pretens\u00f5es na Corte que apenas conhecia de alguns meses;<br \/>\ndas suas esperan\u00e7as de obter o que desejava; do que lhe dissera tal ministro;<br \/>\ndo que prometera tal conselheiro ,e, afinal , da sua profiss\u00e3o de advogado,<br \/>\nprofiss\u00e3o que ele exercia com entusiasmo, com del\u00edrio, porque, desde pequeno,<br \/>\ntoda a sua queda fora sempre para falar em p\u00fablico, para dominar as massas.<br \/>\nE, esquentando-se ao calor de suas pr\u00f3prias palavras, discursava, como se<br \/>\nj\u00e1 estivesse no tribunal. Armava posi\u00e7\u00f5es; recorria aos efeitos da tribuna,<br \/>\nvergava para tr\u00e1s. a cabe\u00e7a, amea\u00e7ando espetar o audit\u00f3rio com a ponta de<br \/>\nsua barba triangular. Sentia-se radiante por ver que todos os mais n\u00e3o abriam<br \/>\na boca, enquanto ele estivesse com a palavra.<\/p>\n<p>Seu tipo indeciso, de cearense do interior, uma dessas fisionomias confusas<br \/>\ne duvidosas, nas quais o fulvo castanho dos cabelos quase que n\u00e3o se distingue<br \/>\ndo moreno da pele e do pardo verdoengo dos olhos, seu tipo transformava-se<br \/>\nna febre da eloq\u00fc\u00eancia e parecia acentuar-se por instantes. E, j\u00e1 de p\u00e9, com<br \/>\numa das m\u00e3os apoiada nas costas da cadeira, jogava freneticamente com a outra,<br \/>\nora espalmando-a em cheio sobre o peito, ora apontando terr\u00edvel para o teto<br \/>\n, ora indicando o ch\u00e3o , horrorizado, como se ai estivesse um abismo, ora<br \/>\ndando com o indicador ligeiras e repetidas facadinhas no ar; ao passo que<br \/>\na voz, pelo contr\u00e1rio, se lhe arrastava em tr\u00eamulos prolongados, como as notas<br \/>\ngraves de um harmonium. Enquanto ele parolava, outros h\u00f3spedes se recolhiam<br \/>\naos competentes quartos, atravessando a varanda pelo fundo na ponta dos p\u00e9s,<br \/>\ncom medo da &#8220;cacetea\u00e7\u00e3o&#8221;. Aquele homem era o terror da casa. \u00c0s vezes,, depois<br \/>\ndo jantar, quando ele abria as torneiras da loquacidade,, iam todos, um por<br \/>\num, fugindo sorrateiramente, at\u00e9 deix\u00e1-lo a s\u00f3s com o Pereira que, afinal,<br \/>\nadormecia. Am\u00e2ncio principiava a sentir cansa\u00e7o. Quis retirar-se; n\u00e3o lho<br \/>\nconsentiram. &#8211; Passava j\u00e1 de meia-noite; a casa do Campos devia estar fechada<br \/>\n\u00e0quela hora.- O melhor seria ficar, observou a francesa. &#8211; Que diabo, acudiu<br \/>\nCoqueiro. &#8211; Fica, n\u00e3o incomodar\u00e1s ningu\u00e9m&#8230;Est\u00e1s tudo providenciado; a cama<br \/>\nfeita&#8230;Al\u00e9m disso, olha! E mostrando o c\u00e9u pela janela:- Vamos ter chuva!<br \/>\nCom efeito sopravam os ventos do sul. Am\u00e2ncio ainda op\u00f4s algumas raz\u00f5es, mas<br \/>\nfinalmente cedeu.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Era mais de uma hora quando se dispersou a roda e cada um, depois de novos<br \/>\nprotestos e oferecimentos se recolheu \u00e0 competente alcova. Mme. Brizard recomendou<br \/>\nmuito a Am\u00e2ncio que ficasse \u00e0 vontade; que n\u00e3o tivesse escr\u00fapulos em reclamar<br \/>\nqualquer coisa de eu sentisse falta. Supunha, por\u00e9m , n\u00e3o haver ocasi\u00e3o disso,<br \/>\nporque fora ela pr\u00f3pria e mais a Amelinha quem lhe arranjara o quarto. Coqueiro<br \/>\nacompanhou-o at\u00e9 a cama, examinou rapidamente se estava tudo no seu lugar<br \/>\ne depois, dando mais luz aso bico de g\u00e1s, e tirando um folheto da algibeira<br \/>\ndisse-lhe com um sorriso: Sempre te vou mostrar os versos&#8230; Am\u00e2ncio, j\u00e1 meio<br \/>\ndespido, estremeceu, mas n\u00e3o op\u00f4s a menor considera\u00e7\u00e3o, e meteu-se debaixo<br \/>\ndos len\u00e7\u00f3is. O outro em p\u00e9 ao lado da cama, folheava amorosamente o seu caderno<br \/>\nde versos, \u00e0 procura do que deveria ler em, primeiro lugar Descobriu afinal<br \/>\ne, com a voz clara e sonora , principiou: &#8221; Estamos em plena Roma. Os C\u00e9sares<br \/>\ndevassos&#8230;&#8221;<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>VIII<\/h2>\n<p>Am\u00e2ncio sentiu um grande al\u00edvio, quando se achou afinal inteiramente s\u00f3;<br \/>\na porta do quarto bem fechada e a luz do bico de g\u00e1s quase extinta. Estava<br \/>\nmorto de fadiga. As enfadonhas conversas de Coqueiro e Mme. Brizard, o jugo<br \/>\ninquisitorial das cerim\u00f4nias, a p\u00e2ndega da v\u00e9spera, tudo isso dava \u00e0quela<br \/>\ncaminha fresca, de len\u00e7\u00f3is limpos, um encanto superior ao que houvesse de<br \/>\nmelhor no mundo. Seu corpo quebrado de impress\u00f5es diversas e na maior parte<br \/>\nconsumidoras e lascivas, bebia aquele repouso por todos os poros, voluptuosamente,<br \/>\ncomo um sequioso que se metesse dentro da \u00e1gua.. Aninhou-se , encolheu-se,<br \/>\nabra\u00e7ado aos travesseiros, ouvindo com uma certa del\u00edcia esfuziar o vento<br \/>\nnas portas e, l\u00e1 fora, desencadear-se o temporal, arremessando \u00e1gua aos punhados<br \/>\ncontra telhas e paredes. E deixava-se arrebatar pelo sono, como se deslizasse<br \/>\npor uma ladeira intermin\u00e1vel de algod\u00e3o em rama. Os acontecimentos d dia come\u00e7aram<br \/>\na desfilar em torno de sua cabe\u00e7a, em prociss\u00f5es fant\u00e1sticas de sombras duvidosas<br \/>\ne fugitivas. Dentre estas, era o vulto de L\u00facia o que melhor se destacava,<br \/>\ncom o seu andar quebrado e voluptuoso, a remexer os quadris, atirando a barriga<br \/>\npara frente. Chegava a distinguir-lhe perfeitamente os grandes olhos amortecidos<br \/>\ne a sentir-lhe o perfume que ela trazia essa tarde no len\u00e7o e nos cabelos.<br \/>\nEm seguida, vinha a outra, a Amelinha, mas n\u00e3o com a lucidez da primeira.<br \/>\nE logo depois Mme. Brizard, com o seu todo pretensioso; Nini, a fit\u00e1-lo, muito<br \/>\naflita, as m\u00e3os inchadas e sem tato, o cabelo escorrido sobre a<\/p>\n<p>cabe\u00e7a, cheirando a pomada alv\u00edssima, bata el\u00e3, escura e sinistra como um<br \/>\nburel. E, depois, numa confus\u00e3o vertiginosa, &#8211; o Coqueiro a berrar versos,<br \/>\ndan\u00e7ando no ar e a sacudir em uma das m\u00e3os um punhado de feij\u00f5es pretos; e<br \/>\no Paula Mendes a jogar os murros com a mulher; e o Dr. Tavares a discursar<br \/>\ncom os bra\u00e7os erguidos para ao ar; e o C\u00e9sar, o menino prod\u00edgio, a esgarafunchar<br \/>\no nariz freneticamente; e o Pereira, de olhos fechados, a andar como son\u00e2mbulo;<br \/>\ne o &#8230; Mas os vultos de todos se confundiam e desfibravam, como nuvens que<br \/>\no vento enxota. Am\u00e2ncio j\u00e1 os n\u00e3o distinguia. Acordou \u00e0s oito horas do dia<br \/>\nseguinte, meio inconsciente do lugar onde se achava. Logo, por\u00e9m, que caiu<br \/>\nem si, levantou-se de um pulo e abriu a janela de par em par. Um jato de luz<br \/>\ndourada invadiu-lhe a alcova. Olhou a ,manh\u00e3, que estava de uma transpar\u00eancia<br \/>\nadmir\u00e1vel. A chuva da v\u00e9spera limpara a atmosfera; corria fresco. Os bondes<br \/>\npassavam cheios de empregados p\u00fablicos; viam-se amas-de-leite acompanhando<br \/>\nos beb\u00eas; senhoras que voltavam do banho de mar, o cabelo solto, uma toalha<br \/>\nno ombro. Aquele movimento era comunicativo. Am\u00e2ncio sentiu vontade de sair<br \/>\ne andar \u00e0 toa pelas ruas. Todo ele reclamava longos passeios ao campo, por<br \/>\ndebaixo de \u00e1rvores, em companhia de amigos. Foi para o lavat\u00f3rio cantarolando;<br \/>\no sono completo da noite fazia-o bem disposto e animado. Mal acabara de se<br \/>\npreparar quando bateram de leve na porta. Era uma mucamazinha, que j\u00e1 na v\u00e9spera<br \/>\nlhe chamara por v\u00e1rias vezes a aten\u00e7\u00e3o durante o jantar. Teria quinze anos,<br \/>\nforte, cheia de corpo, um sorriso alvar mostrando dentes largos e curtos,<br \/>\nde uma brancura sem brilho. Vinha saber se o Dr. Am\u00e2ncio queria o caf\u00e9 antes<br \/>\nou depois do banho. Am\u00e2ncio, em vez de responder, agarrou-lhe o bra\u00e7o com<br \/>\num agrado violento e grosseiro. Ela p\u00f4s-se a rir aparvalhadamente.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>\u00c0s dez horas, ao terminar o almo\u00e7o, estava j\u00e1 resolvido que o rapaz, naquele<br \/>\nmesmo dia, se mudava definitivamente para a casa de pens\u00e3o. Com efeito, pouco<br \/>\ndepois, no escrit\u00f3rio do Campos, dizia a este, cheio de maneiras de pessoa<br \/>\najuizada, &#8220;que afinal descobrira em casa da fam\u00edlia de um amigo o c\u00f4modo que<br \/>\nprocurava&#8221;. Agradeceu muito os obs\u00e9quios recebidos das m\u00e3os do negociante,<br \/>\ndesculpou-se pelas ma\u00e7adas que causara naturalmente e pediu licen\u00e7a para despedir-se<br \/>\nde D. Maria Hort\u00eansia. O Campos, logo que soube qual era a casa de pens\u00e3o<br \/>\nde que se tratava, aprovou a escolha, citou pessoas distintas que l\u00e1 estiveram<br \/>\nmorando por muito tempo, e recomendou ao estudante &#8211; que lhe aparecesse de<br \/>\nvez em quando; que n\u00e3o se acanhasse de bater \u00e0quela porta nas ocasi\u00f5es de<br \/>\napuro, porque seria atendido, e, afinal, perguntou se Am\u00e2ncio queria receber<br \/>\na mesada, j\u00e1 ou mais tarde. &#8211; Como quiser&#8230; respondeu o provinciano, sem<br \/>\nter ali\u00e1s a menor necessidade de dinheiro. E foi embolsando a quantia. D.<br \/>\nMaria Hort\u00eansia recebeu-o com muito agrado. A irm\u00e3 n\u00e3o estava em casa. Conversaram.<br \/>\nEla sentia que Am\u00e2ncio se retirasse assim t\u00e3o depressa; &#8211; mas, quem sabe?<br \/>\nTalvez n\u00e3o se desse bem ali; n\u00e3o fosse tratado como merecia&#8230; O estudante<br \/>\nprotestava, jurando que n\u00e3o podia ambicionar melhor tratamento do que lhe<br \/>\ndispensaram; reconhecia, por\u00e9m, que j\u00e1 causava muito inc\u00f4modo, e por conseguinte<br \/>\ndevia retirar-se. N\u00e3o queria abusar. Hort\u00eansia afian\u00e7ava e repetia que ele<br \/>\nn\u00e3o dera inc\u00f4modo de esp\u00e9cie alguma.- Tudo aquilo era feito com muito gosto!<br \/>\nAgora parecia mais familiarizada com o provinciano. Chegou a dirigir-lhe gracejos;<br \/>\ndisse, com um sorriso de inten\u00e7\u00e3o, que &#8220;sabia perfeitamente o que aquilo era!&#8230;<br \/>\nO que eram rapazes! &#8211; N\u00e3o se queriam sujeitar a certo regime; s\u00f3 lhes servia<br \/>\npagodear \u00e0 solta ! Enfim!&#8230;tinham l\u00e1 a sua raz\u00e3o&#8230; Se ela fosse rapaz faria<br \/>\no mesmo, naturalmente!&#8221; Am\u00e2ncio estranhou que tais palavras viessem de quem<br \/>\nvinham, e, n\u00e3o querendo perder a vaza, retorquiu com febre: &#8220;Que Hort\u00eansia<br \/>\nestava enganada a respeito dele, que n\u00e3o o conhecia! Se, \u00e0 primeira vista<br \/>\nele parecia um p\u00e2ndego ou um sujeito mau, n\u00e3o o era todavia no fundo! Ningu\u00e9m<br \/>\namava tanto a fam\u00edlia; ningu\u00e9m desejava o lar com tanto ardor e com tanto<br \/>\ndesespero! Oh! Que inveja n\u00e3o tinha do Campos!&#8230;que inveja n\u00e3o tinha de todo<br \/>\nhomem, a cujo lado enxergava uma esposa bonita e carinhosa!&#8230;&#8221; Hort\u00eansia<br \/>\nagradeceu com um sorriso. &#8211; Oh! Quanto fora injusta!&#8230;prosseguiu Am\u00e2ncio,<br \/>\ncomo rosto esfogueado de como\u00e7\u00e3o. &#8211; Quanto fora injusta! O seu ideal, dele,<br \/>\nera justamente o casamento; era possuir uma mulherzinha, cheirosa e meiga,<br \/>\ncom quem<\/p>\n<p>passasse a exist\u00eancia, ditosos e obscuros no seu canto, vivendo um para o<br \/>\noutro, ignorados, ego\u00edstas, n\u00e3o cedendo nenhum dos dois, a mais ningu\u00e9m a<br \/>\nmenor particularzinha de si,- um sorriso que fosse, um olhar amigo, um aperto<br \/>\nde m\u00e3o! &#8211; Que rigor! Exclamou Hort\u00eansia, tomando certo interesse pelo que<br \/>\ndizia o estudante.- Que rigor! N\u00e3o o supunha assim, seu Am\u00e2ncio!&#8230; &#8211; Oh!<br \/>\nEra assim que ele entendia o verdadeiro amor!&#8230; E, cada vez mais quente:<br \/>\n&#8211; Era assim que ele amaria! Era assim que ele cercaria de beijos o anjo estremecido<br \/>\nque o quisesse recolher \u00e0 tepidez consoladora de suas asas! Era assim que<br \/>\nsonhava a exist\u00eancia de duas almas g\u00eameas, soltas no azul, gozando a voluptuosidade<br \/>\ndo mesmo v\u00f4o!&#8230; &#8211; Pois \u00e9 casar-se, meu amigo&#8230; aconselhou a mulher do Campos,<br \/>\npasmada de ouvir Am\u00e2ncio falar daquele modo.- N\u00e3o o fazia t\u00e3o prosa!&#8230; E,<br \/>\ncomo era preciso dizer qualquer coisa, acrescentou muito am\u00e1vel: &#8211; Quem sabe<br \/>\nse alguma fluminense j\u00e1 n\u00e3o lhe voltou o miolo!&#8230; Ele confessou que sim,<br \/>\nsacudindo tristemente a cabe\u00e7a . E, de tal modo exprimiu o seu amor por &#8220;essa<br \/>\nfluminense&#8221;, t\u00e3o ardente e t\u00e3o apaixonado se mostrou, que Hort\u00eansia instintivamente<br \/>\nse ergueu, a olhar para os lados, sobressaltada como se tivesse cometido uma<br \/>\nfalta. N\u00e3o quis saber de quem se tratava. Deu uma volta pela sala, foi ao<br \/>\naparador, tomou alguns goles de \u00e1gua e, procurando mudar de conversa, falou<br \/>\ndo baile que havia essa noite em casa do Melo. &#8211; Devia ser muito bom, constava<br \/>\nque havia quinze dias se preparavam para a festa. Era em Botafogo. O Campos,<br \/>\nlogo que recebeu o convite, lembrou-se de levar Am\u00e2ncio consigo, este, por\u00e9m,<br \/>\nt\u00e3o raramente aparecia em casa, e agora, com esta mudan\u00e7a&#8230; &#8211; N\u00e3o. O Campos<br \/>\nfalou-me, disse o estudante. &#8211; Ah! sempre chegou a lhe falar? &#8211; H\u00e1 tr\u00eas ou<br \/>\nquatro dias; mas eu n\u00e3o tencionava ir&#8230; &#8211; Por qu\u00ea? O senhor \u00e9 mo\u00e7o, deve<br \/>\ndivertir-se. &#8211; A senhora vai? &#8211; Sim, vou. &#8211; Nesse caso irei tamb\u00e9m. E Am\u00e2ncio<br \/>\nligou t\u00e3o expressiva entona\u00e7\u00e3o \u00e0quelas palavras, que Hort\u00eansia abaixou os<br \/>\nolhos, j\u00e1 impaciente, sem mais vontade de conversar. &#8211; Seria poss\u00edvel, pensava<br \/>\nela &#8211; que aquele estudante lhe quisesse fazer a corte?&#8230; N\u00e3o! n\u00e3o seria capaz<br \/>\ndisso, e, se fosse , ela saberia desengan\u00e1-lo! Ah! com certeza que o desenganava!<br \/>\nCampos subiu da\u00ed a um instante, e Am\u00e2ncio, depois de combinar com ele que<br \/>\nvoltaria \u00e0 noite para irem juntos \u00e0 casa do Melo, entregou as suas malas a<br \/>\num carregador e saiu. Sentia-se alegre; a nova atitude de Hort\u00eansia dava-lhe<br \/>\num vago antegosto de prazeres; previa com del\u00edcia os bons momentos que o esperavam.<br \/>\n&#8211; E agora \u00e9 que vou deixar a casa!&#8230;pensava ele j\u00e1 na rua .- Que tolo fui!<br \/>\nAbandonar a empresa, justamente quando me sorri a primeira esperan\u00e7a! &#8220;Mas<br \/>\npeda\u00e7o de asno, argumentava com seus bot\u00f5es &#8211; n\u00e3o calculaste logo que aquela<br \/>\nmulher mais dia menos dia, havia de escorregar? Porque diabo ent\u00e3o n\u00e3o esperaste<br \/>\num pouco?&#8230;&#8221;Ora! mas que caiporismo o meu! Sair nesta ocasi\u00e3o! Perder uma<br \/>\nconquista t\u00e3o boa! Agora tamb\u00e9m que rem\u00e9dio lhe ei de dar? O que est\u00e1 feito,<br \/>\nest\u00e1 feito! A este momento minhas malas talvez j\u00e1 tenham chegado \u00e0 casa do<br \/>\nCoqueiro! E com este nome assaltaram-lhe logo o esp\u00edrito as imagens de L\u00facia<br \/>\ne Amelinha. Bem me dizia o Sim\u00f5es, pensou ele. &#8211; Bem me dizia o Sim\u00f5es: &#8220;Quando<br \/>\nte come\u00e7arem as aventuras, h\u00e1s de ver o que vai por esta sociedade!&#8221; E Am\u00e2ncio,<br \/>\nque n\u00e3o conseguia reter na cabe\u00e7a as palavras dos seus professores, Am\u00e2ncio,<br \/>\nque era incapaz de guardar na mem\u00f3ria um fato, um algarismo, uma f\u00f3rmula cient\u00edfica,<br \/>\nconservava, entretanto, com toda a inteireza aquela frase banal, pronunciada<br \/>\npor um p\u00e2ndego em um almo\u00e7o de hotel, depois de meia d\u00fazia de garrafas de<br \/>\nvinho. &#8211; O Sim\u00f5es tinha toda a raz\u00e3o&#8230; principiavam as aventuras! Diabo era<br \/>\naquela asneira de abandonar t\u00e3o intempestivamente a casa do Campos! Fora uma<br \/>\ntriste id\u00e9ias, que d\u00favida! Mas, ele tamb\u00e9m n\u00e3o podias adivinhar quais seriam<br \/>\nas inten\u00e7\u00f5es de Hort\u00eansia!&#8230; O melhor por conseguinte era n\u00e3o se apoquentar<br \/>\n&#8211; o que lhe estivesse destinado havia de chegar-lhe \u00e0s m\u00e3os!&#8230; E j\u00e1 nem pensava<br \/>\nnisso quando subiu as escadas da casa de pens\u00e3o. Sorrisos am\u00e1veis de Amelinha<br \/>\ne Mme.Brizard o receberam desde a entrada. Coqueiro estava na rua.<\/p>\n<p>Veio a conversa do baile dessa noite. Am\u00e2ncio, pela primeira vez, ia conhecer<br \/>\numa sala da Corte. As duas senhoras profetizavam que ele voltaria cativo por<br \/>\nalguma carioca. &#8211; Duvido! Respondeu o estudante, a rir. &#8211; \u00c9! Disse a francesa<br \/>\n&#8211; voc\u00eas do Norte s\u00e3o todos uns santinhos! Eu j\u00e1 os conhe\u00e7o! Nunca vi gente<br \/>\nt\u00e3o assanhada. Amelinha abaixou os olhos, depois de lan\u00e7ar \u00e0 outra um gesto<br \/>\nrepreensivo. Mme. Brizard n\u00e3o fez caso e acrescentou: &#8211; Os dem\u00f4nios n\u00e3o podem<br \/>\nver um rabo-de-saia! &#8211; Lol\u00f3! Censurou Amelinha em voz baixa. &#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 tanto assim!&#8230;contradisse o provinciano. Mme. Brizard citou logo os exemplos<br \/>\nde casa, at\u00e9 ali entre todos os seus h\u00f3spedes, s\u00f3 os nortistas davam sorte<br \/>\nem quest\u00e3o de amor. &#8211; Um deles, um tal Benfica Duarte, chegara a raptar com<br \/>\nesc\u00e2ndalo uma crioula, e crioula feia! Amelinha, bem contra a vontade, soltou<br \/>\numa risada, que lhe desfez por instantes o ar inocente da fisionomia; mas<br \/>\nrecuperou-o logo, e lembrou \u00e0 cunhada &#8220;que n\u00e3o deviam estar ali a roubar o<br \/>\ntempo a seu Am\u00e2ncio. Ele tinha que cuidar das malas que j\u00e1 o esperavam no<br \/>\nquarto!&#8221; &#8211; N\u00f3s podemos ajud\u00e1-lo nesse trabalho, acudiu a velha.- Certas coisas<br \/>\ns\u00f3 ficam bem feitas por m\u00e3o de mulher! O estudante aceitou oferecimento, e<br \/>\nos tr\u00eas seguiram para o gabinete, sempre a rir e a conversar. Amelinha, enquanto<br \/>\nAm\u00e2ncio estrava no quarto, observou, em voz baixa a Mme. Brizard, que n\u00e3o<br \/>\nachava conveniente que esta arriscasse em sua presen\u00e7a pilh\u00e9rias como as de<br \/>\nainda h\u00e1 pouco. &#8211; O rapaz, por muito ing\u00eanuo que fosse, podia desconfiar com<br \/>\naquilo e persuadir-se de que ela, Amelinha, n\u00e3o daria uma noiva bastante s\u00e9ria<br \/>\ne digna dele! Que, \u00e0s vezes, por estas e outras indiscri\u00e7\u00f5es, desmanchavam-se<br \/>\ncasamentos! &#8211; Como te enganas! Respondeu a velha- j\u00e1 compreendi bem esse sujeito:<br \/>\na sua corda sens\u00edvel s\u00e3o as mulheres! Gosta que lhe falem nisso! Tu, do que<br \/>\nprecisas, \u00e9 opor-lhe dificuldades, sem que o desenganes por uma vez; nega,<br \/>\nmas promete, que obter\u00e1s a vit\u00f3ria. Quando ele te pedir um beijo, d\u00e1-lhe um<br \/>\nsorriso; e, quando quiser muito mais, d\u00e1-lhe ent\u00e3o o beijo, contando que te<br \/>\nmostres logo arrependida, envergonhada, chorosa, inconsol\u00e1vel, disposta a<br \/>\nn\u00e3o lhe ceder mais nada, e disposta a nunca lhe pertenceres, a nunca lhe perdoares<br \/>\naquele atrevimento. E, se ele insistir, repele-o, insulta-o, jura que o desprezas<br \/>\ne f\u00e1-lo acreditar que amas a outro. &#8211; \u00c9 dessa forma que o h\u00e1s de agarrar,<br \/>\npercebes? L\u00e1 quando \u00e0s minhas chala\u00e7as de ainda h\u00e1 pouco, descansa que por<br \/>\na\u00ed n\u00e3o ir\u00e1 o gato \u00e0s filhoses. Nesse momento, o rapaz acabava de abrir as<br \/>\nmalas. As duas senhoras apareceram no quarto. Ele tinha muita roupa branca,<br \/>\ne tudo bom. Camisas finas de linho, ricas toalhas de renda marcadas cuidadosamente<br \/>\npor sua m\u00e3e, fronhas bordadas, mostrando o seu nome entre labirintos e desenhos<br \/>\ncaprichosos. Sentia-se o amor, o desvelo, com que tudo aquilo fora arrumado;<br \/>\ncada objeto parecia conservar ainda a marca da m\u00e3o carinhosa que o acondicionara<br \/>\na um canto da arca. Alguns denunciavam o trabalho paciente de longos tempos,<br \/>\ntraziam \u00e0 id\u00e9ia calmos ser\u00f5es \u00e0 luz do candeeiro. Adivinhava-se, pelo completo<br \/>\ndaquele enxoval, a provid\u00eancia de um cora\u00e7\u00e3o materno; nada faltava. \u00c0 propor\u00e7\u00e3o<br \/>\nque se iam tirando as pe\u00e7as de roupa, uma tepidez embalsamada respirava dentre<br \/>\nelas; parecia que um perfume ideal de beijos se exalava ao desdobrar dos brancos<br \/>\nlen\u00e7\u00f3is de linhos ; percebia-se que muita l\u00e1grima e muito solu\u00e7o ficaram abafados<br \/>\nno fundo daquelas arcas. Vieram ao provinciano novas e mais vivas saudades<br \/>\nde \u00c2ngela. Uma vaga tristeza apoderou-se dele, ficou distra\u00eddo, a olhar silenciosamente<br \/>\npara as roupas que as duas mulheres empilhava no ch\u00e3o e sobre a cama. Sentiu,<br \/>\ncompreendeu, que ele pr\u00f3prio, \u00e0 semelhan\u00e7a daquelas arcas, havia tamb\u00e9m de<br \/>\nir perdendo, pouco a pouco, todas as ilus\u00f5es, todos os perfumes, com que sa\u00edra<br \/>\nimpregnado dos bra\u00e7os de sua m\u00e3e. E afastou-se do quarto para limpar as l\u00e1grimas.<br \/>\nAs l\u00e1grimas, sim, que o fato de sua primeira viagem, as impress\u00f5es da Corte,<br \/>\na saudade, as aventuras amorosas, as ceatas pelos hot\u00e9is, davam-lhe ultimamente<br \/>\numa sensibilidade muito nervosa e feminil. Elas acudiam-lhe agora com extrema<br \/>\nfacilidade; chorava sempre que se comovia. \u00c0s vezes no teatro, assistindo<br \/>\n\u00e0 representa\u00e7\u00e3o De qualquer drama de efeitos, ficava envergonhado por n\u00e3o<br \/>\npoder impedir que os olhos se lhe enchessem de \u00e1gua; a simples descri\u00e7\u00e3o de<br \/>\numa desgra\u00e7a perturbava-o todo; a m\u00fasica italiana o entristecia; a id\u00e9ia de<br \/>\num feito er\u00f3tico ou de um rasgo de perversidade era o bastante para lhe agitar<br \/>\na circula\u00e7\u00e3o do sangue e formar-lhe godilh\u00f5es na garganta. Quando voltou ao<br \/>\nquarto, j\u00e1 os ba\u00fas estavam despejados.<\/p>\n<p>Mme. Brizard n\u00e3o se fartava de elogiar a boa qualidade das fazendas, o bem<br \/>\ncosido das roupas, a pachorra e asseio com que tudo fora feiro. Apreciava<br \/>\no trabalho das marcas; chamava a ten\u00e7\u00e3o de Am\u00e9lia para os bordados, para os<br \/>\nlabirintos e para as rendas. &#8211; Olha! Disse-lhe, mostrando um pano de croch\u00ea,<br \/>\n&#8211; o desenho \u00e9 justamente como aquele da toalha do orat\u00f3rio. S\u00f3 faltam aqui<br \/>\nas duas borboletas do canto. E arrumava tudo, com muito cuidado, nas gavetas<br \/>\nda c\u00f4moda. Tomava religiosamente sobre os bra\u00e7os os pesados len\u00e7\u00f3is, os ma\u00e7os<br \/>\nde ceroulas em folha, os pacotes intactos de meias listradas, os de len\u00e7os<br \/>\nbarrados de seda, os colarinhos de todos os feitios, as gravatas de todas<br \/>\nas cores. E n\u00e3o acondicionava uma pe\u00e7a sem afag\u00e1-la, sem lhe passar por cima<br \/>\nas m\u00e3os abertas. &#8211; O rapaz estava provido de tudo! Disse em voz baixa. E,<br \/>\ndepois acrescentou alto, rindo: &#8211; Podia at\u00e9 se casar se quisesse! &#8211; Falta<br \/>\no principal&#8230; respondeu ele. &#8211; Que \u00e9? Acudiu logo Am\u00e9lia. &#8211; A noiva! Explicou<br \/>\no mo\u00e7o, olhando intencionalmente para a rapariga. &#8211; Deve estar \u00e0 sua espera<br \/>\nno Maranh\u00e3o&#8230; volveu ela. E abaixou os olhos com um movimento de inoc\u00eancia,<br \/>\nmuito bem feito. &#8211; N\u00e3o v\u00ea! Exclamou a velha. &#8211; Ent\u00e3o um rapaz desta ordem<br \/>\ndeixava as meninas da Corte para amarrar-se a uma provinciana?&#8230; Seria de<br \/>\nmau gosto! &#8211; N\u00e3o sei por que, retorquiu Am\u00e2ncio, ligeiramente escandalizado.<br \/>\n&#8211; Na prov\u00edncia h\u00e1 senhoras bem educadas, muito chiques! &#8211; Sei, sei, perfeitamente,<br \/>\ndisse Mme. Brizard, evitando contrari\u00e1-lo. Sei que as h\u00e1 &#8230; mas \u00e9 que o Sr.<br \/>\nVasconcelos tem elementos para desejar muito melhor! Seria pena que um rapaz<br \/>\nt\u00e3o perfeito n\u00e3o escolhesse uma noivinha comme il faut.- Bonita, instru\u00edda,<br \/>\nque soubesse entrar e sair numa sala, conversar, fazer m\u00fasica, recitar, servir<br \/>\num almo\u00e7o, dirigir uma soir\u00e9e. Al\u00e9m de que, meu caro senhor, as provincianas,<br \/>\nem geral, saem muito mais exigentes do que as filhas da Corte. E, como Am\u00e2ncio<br \/>\nfizesse um ar de espanto: &#8211; Sim, porque a fluminense, habituada como est\u00e1<br \/>\nna capital e familiarizada com os bailes, com os espet\u00e1culos do l\u00edrico, com<br \/>\nos passeios, j\u00e1 se n\u00e3o se preocupa com essas coisas e, uma vez casada, dedica-se<br \/>\nexclusivamente ao lar, ao marido e aos filhinhos; ao passo que com as outras,<br \/>\nas provincianas, sucede justamente o contr\u00e1rio, visto que ainda n\u00e3o conhecem<br \/>\naqueles gozos e s\u00f3 desejam o casamento para conhec\u00ea-los. Da\u00ed as suas exig\u00eancias;<br \/>\nnada as satisfaz, porque tudo fica muito aqu\u00e9m dos seus sonhos da prov\u00edncia;<br \/>\no que para as outras \u00e9 tudo, para elas n\u00e3o \u00e9 nada. Bailes e teatros toda a<br \/>\nnoite, carruagens, lacaios, vestidos de seda, dez ou vinte criados, nada as<br \/>\ncontenta, nada corresponde ao que elas ambicionam. E o marido, o pobre marido<br \/>\nde semelhante gente, depois de arruinado e depois de passar uma exist\u00eancia<br \/>\nsem amor e sem aconchegos de fam\u00edlia, ainda ter\u00e1 de suportar as queixas e<br \/>\nos ressentimentos de uma mulher desiludida e blas\u00e9. &#8211; Perd\u00e3o! Replicou o estudante.<br \/>\n&#8211; Isso prova simplesmente que toda a mulher, seja da prov\u00edncia ou da Corte,<br \/>\napresenta sempre certa dose de ambi\u00e7\u00f5es. Com a diferen\u00e7a, por\u00e9m, de que a<br \/>\nprovinciana, por isso mesmo que o Rio de Janeiro \u00e9 o seu ideal, \u00e9 o seu sonho<br \/>\ndourado, contenta-se com ele; enquanto que a outra, visto que o supradito<br \/>\nRio de Janeiro para ela nada mais \u00e9 que o comum, estende naturalmente a sua<br \/>\nambi\u00e7\u00e3o &#8211; e quer Paris. O Passeio P\u00fablico j\u00e1 n\u00e3o a satisfaz, \u00e9 preciso dar-lhe<br \/>\nBois de Boulogne; j\u00e1 n\u00e3o lhe chegam carruagens, criados e teatros; quer tudo<br \/>\nisso e mais um t\u00edtulo, de baronesa pelo menos! E, encantado com a clareza<br \/>\ndo seu argumento, continuou a discutir, chegando \u00e0 conclus\u00e3o de que seria<br \/>\nloucura desejar uma mulher isenta de ambi\u00e7\u00f5es e caprichos, e que ele j\u00e1 se<br \/>\ndaria por muito satisfeito se encontrasse alguma, cujo ideal n\u00e3o fosse al\u00e9m<br \/>\ndo Rio de Janeiro. Am\u00e9lia era precisamente dessa opini\u00e3o, mas entendia que,<br \/>\nmesmo na Corte, se encontravam meninas bem educadas e ali\u00e1s muito modestas.<br \/>\nAm\u00e2ncio declarou que n\u00e3o argumentava com exce\u00e7\u00f5es.- Sabia perfeitamente que<br \/>\nnem todas as fluminenses cal\u00e7avam pela mesma forma, e n\u00e3o tinha a pretens\u00e3o<br \/>\nde dizer &#8220;desta \u00e1gua n\u00e3o beberei, deste p\u00e3o n\u00e3o comerei!&#8221; apenas n\u00e3o admitia<br \/>\naquela raz\u00e3o, que apresentava Mme. Brizard, para provar que as provincianas<br \/>\neram mais dispendiosas do que as filhas da Corte. Isso n\u00e3o! que o desculpassem,<br \/>\nmas n\u00e3o podia admitir! Sempre queria v\u00ea-lo casado com uma provinciana!&#8230;<br \/>\nobservou a francesa, tomando a roupa que lhe passava a outra. &#8211; Ent\u00e3o sim!<br \/>\nAposto que n\u00e3o teria a mesma opini\u00e3o! Am\u00e2ncio n\u00e3o respondeu logo, porque estava<br \/>\nmuito ocupado a apanhar do ch\u00e3o uma grande pilha de camisas engomadas, que<br \/>\nAmelinha deixara cair. Mme. Brizard acudiu tamb\u00e9m a ajud\u00e1-los, e, na precipita\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom que todos tr\u00eas, agachados um defronte dos outros, queriam ao mesmo tempo<br \/>\nrecolher a roupa espalhada no soalho, as m\u00e3os do estudante encontraram-se<br \/>\ncom umas m\u00e3ozinhas finas que n\u00e3o eram certamente as de Mme. Brizard.<\/p>\n<p>Mas todas as vezes que ele tentou ret\u00ea-las entre as suas, as tais m\u00e3ozinhas<br \/>\nfugiam t\u00e3o ligeiras, como se lhes houvessem chegado uma brasa.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>IX<\/h2>\n<p>O baile em casa do Melo esteve bom. Este, muito magro, de su\u00ed\u00e7as negras,<br \/>\nolhos fundos e movimentos r\u00e1pidos, n\u00e3o descansava um instante; t\u00e3o depressa<br \/>\no viam conduzindo senhoras pela escada, como a receber apresenta\u00e7\u00f5es na sala<br \/>\nde jantar, como a formar quadrilhas; voltando-se para todos os lados e atendendo<br \/>\na todas as pessoas. O Melo tinha boas rela\u00e7\u00f5es e alguns bens adquiridos no<br \/>\ncom\u00e9rcio; nunca se envolveu diretamente com a pol\u00edtica, mas prezava o monarca<br \/>\ne esperava , com resigna\u00e7\u00e3o, um h\u00e1bito que h\u00e1 dez anos lhe haviam prometido<br \/>\npingar sobre a lapela da casaca. A mulher, que j\u00e1 n\u00e3o era crian\u00e7a, ainda metia<br \/>\nmuita vista e passava por bonita; homens, que envelheceram com ela, citavam-na<br \/>\ncomo um tipo de formosura. Am\u00e2ncio foi recebido com especial agrado, gra\u00e7as<br \/>\na Lu\u00eds Campos que era \u00edntimo do dono da casa. A circunst\u00e2ncia de que ali se<br \/>\nachava s\u00f3, no meio de tanta gente estranha, como que apertava o c\u00edrculo de<br \/>\nsuas rela\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia do correspondente. Fazia-se muito deles, muito<br \/>\naparentado; n\u00e3o dispunha de mais ningu\u00e9m para desabafar as suas impress\u00f5es<br \/>\ne para conversar um pouco mais \u00e0 vontade. Assim, quando saltamos num porto<br \/>\npela primeira vez, sentimos estreitarem-se de repente nossas rela\u00e7\u00f5es com<br \/>\nos companheiros de bordo, ainda mesmo que os conhe\u00e7amos de poucos dias. At\u00e9<br \/>\nCarlotinha parecia mais expansiva, principalmente depois que Am\u00e2ncio se revelou<br \/>\ninsigne dan\u00e7ador de valsa. Ela era louca pela dan\u00e7a. Maria Hort\u00eansia notara<br \/>\nigualmente que o provinciano tinha um certo talento coreogr\u00e1fico muito peculiar,<br \/>\ne n\u00e3o ficou isolada nesse ju\u00edzo, porque v\u00e1rias senhoras se declararam a mesma<br \/>\nopini\u00e3o. N\u00e3o tardou muito a que semelhante julgamento se estendesse pelas<br \/>\noutras salas ,. E em breve estavam todas as damas de acordo em que Am\u00e2ncio<br \/>\nera o melhor par daquela noite. Com efeito, se ele em outra qualquer coisas<br \/>\nn\u00e3o conseguiu a perfei\u00e7\u00e3o , na dan\u00e7a ao menos nada se lhe tinha a desejar;<br \/>\ndan\u00e7ava admiravelmente, por voca\u00e7\u00e3o, por \u00edndole, por um jeito especial do<br \/>\ncorpo, e com um amaneirado gracioso que sabia dar aos bra\u00e7os, \u00e0 cabe\u00e7a e \u00e0s<br \/>\npernas. Pode-se dizer que na valsa dispunha de um estilo pr\u00f3prio, original.<br \/>\nQuando, sacudido pela m\u00fasica, os olhos meio cerrados, a boca meio aberta,<br \/>\narremessava-se com a dama no turbilh\u00e3o da sala, tinha alguma coisa de p\u00e1ssaro<br \/>\nque desprende o v\u00f4o. Ficava at\u00e9 mais bonito; os cabelos crespos tremiam-lhe<br \/>\nromanticamente sobre a testa; o cansa\u00e7o dava ao moreno de suas faces uma palidez<br \/>\nmisteriosa e doce. E, com o bra\u00e7o direito engranzado \u00e0 cintura do par, o esquerdo<br \/>\nrepuxando nervosamente a m\u00e3o que a dama estendia sobre a sua, ele empertigava-se<br \/>\ntodo com del\u00edcia, a fechar os olhos e a rodar extasiado, embevecido como se<br \/>\nfora arrebatado por entre nuvens de arminho. No seu temperamento, excessivamente<br \/>\nlascivo, gozava com sentir ligado ao corpo precioso de uma mulher de estima\u00e7\u00e3o;<br \/>\ncomprazia-se em beber-lhe o h\u00e1lito acelerado pela dan\u00e7a, embebedava-se com<br \/>\nrespirar-lhe os perfumes agudos do cabelo e o infiltrante cheiro animal da<br \/>\ncarne. Afinal, depois de uma valsa, estonteado e ofegante, atirou-se ao canto<br \/>\ndo div\u00e3 em que estava Hort\u00eansia. Confessava-se prostrado, a limpar o suor<br \/>\ndo pesco\u00e7o e da fronte. Fora imensa a valsa e ele cansara tr\u00eas pares, que<br \/>\nse abateram in\u00fateis, como as espadas de Ney na batalha de Waterloo. &#8211; Apre!<br \/>\nDisse. As senhoras olhavam-no j\u00e1 com respeito, acompanhavam-lhe os menores<br \/>\nmovimentos com enorme interesse. &#8211; Muito bem! Muito bem! Cochichou-lhe a mulher<br \/>\ndo Campos. &#8211; Ignorava que o senhor fosse t\u00e3o forte na valsa! E come\u00e7aram a<br \/>\nconversar sobre o mal que se dan\u00e7ava ultimamente. Ela declarou que uma das<br \/>\ncoisas que mais apreciava era uma boa valsa. Isso desde crian\u00e7a; no col\u00e9gio,<br \/>\n\u00e0s vezes, as meninas passavam a hora do recreio dan\u00e7ando umas com as outras.<br \/>\n&#8211; Ningu\u00e9m o diria&#8230;considerou Am\u00e2ncio, fazendo-se muito seu camarada.- A<br \/>\nsenhora hoje s\u00f3 tem querido dan\u00e7ar quadrilhas. Ela respondeu com um risinho<br \/>\nsignificativo. &#8211; Quer uma valsa comigo?.. perguntou o rapaz, em segredo, requebrando<br \/>\nos olhos. N\u00e3o posso! Disse ela, quase com um suspiro. &#8211; Aceitaria de bom grado,<br \/>\nmas n\u00e3o posso&#8230; &#8211; Valha-me Deus! Por qu\u00ea? Porque&#8230;<\/p>\n<p>Hort\u00eansia sorriu de novo, sem \u00e2nimo de confessar a verdade. &#8211; o marido n\u00e3o<br \/>\ngostava de a ver valsar. Tamb\u00e9m n\u00e3o se podia desculpar, dizendo que n\u00e3o sabia,<br \/>\nporque ainda h\u00e1 pouco dissera justamente o contr\u00e1rio; afinal sem fazer empenho<br \/>\nde ser acreditada acrescentou gracejando. &#8211; Porque&#8230; porque me faz mal&#8230;<br \/>\nAm\u00e2ncio prometeu que a conduziria devagar e que n\u00e3o dan\u00e7aria longo tempo seguido;<br \/>\naceitava todas as condi\u00e7\u00f5es, contanto que desfrutasse a suprema ventura de<br \/>\nlhe merecer uma valsa. Hort\u00eansia n\u00e3o respondeu; tinha o olhar esquecido sobre<br \/>\num grande quadro que lhe ficava defronte suspenso da parede. E abanava-se,<br \/>\nlentamente, como seguindo o v\u00f4o de um vago pensamento voluptuoso. O quadro<br \/>\nrepresentava uma cena de Fausto e Margarida, no jardim ( um longo beijo apaixonado<br \/>\nque parecia solu\u00e7ar entre a folhagem do painel. O encantado fil\u00f3sofo tomava<br \/>\nnas m\u00e3os brancas a loura cabe\u00e7a de sua amante, e sorvia-lhe alma pelos l\u00e1bios.<br \/>\nO sol morria ao longe, dourando a paisagem, e um casal de pombos arrulhava<br \/>\n\u00e0 sombra azulada de uma planta). Hort\u00eansia olhava para isso, enquanto, ao<br \/>\ngemer das rabecas, cruzavam-se na sala os pares, marcando contradan\u00e7as. O<br \/>\naroma das flores, que se fanavam em grandes vasos japoneses, misturava-se<br \/>\nao cheiro das mulheres, e penetrava a carne com a sutilidade de um veneno<br \/>\nlento e delicioso como o fumo do charuto. Os ombros l\u00e1cteos das senhoras,<br \/>\nexpunha-se nus \u00e0 grande claridade artificial do g\u00e1s; as j\u00f3ias faiscavam; os<br \/>\nolhos desfaleciam, e um calor gostoso ia infirmando os sentidos e entorpecendo<br \/>\na alma. &#8211; Ent\u00e3o?&#8230;pediu Am\u00e2ncio, pondo do\u00e7ura na voz,- dance comigo, sim?&#8230;Fa\u00e7a-me<br \/>\na vontade. Eu sentiria nisso tanto gosto&#8230; E todo ele suplicava aquele obs\u00e9quio,<br \/>\ncom o empenho apaixonado de que pede uma concess\u00e3o de amor. Ela dizia que<br \/>\nn\u00e3o, meneando a cabe\u00e7a; mas, um sorriso que se lhe escapava dos l\u00e1bios, dizia<br \/>\no contr\u00e1rio. &#8211; Ent\u00e3o!&#8230;sim?&#8230;sim? um bocadinho s\u00f3! Insistia o estudante,<br \/>\na devor\u00e1-la com os olhos. Estava ainda cansado; a voz n\u00e3o lhe vinha inteira,<br \/>\nmas quebrada, como por um espasmo; os olhos dele arqueavam-se luxuriosamente;<br \/>\nas pernas principiavam-lhe a tremer &#8211; O que lhe custa \u00e0 senhora dan\u00e7ar um<br \/>\npouquinho comigo? E, vendo que ela n\u00e3o respondia, balbuciou em tom magoado,<br \/>\nde crian\u00e7a ressentida: &#8211; Bem, bem, n\u00e3o lhe pe\u00e7o mais nada, n\u00e3o a importunarei<br \/>\nde hoje em diante. Desculpe! Hort\u00eansia voltou-se para ele, ia talvez desengan\u00e1-lo;<br \/>\nmas a orquestra, que havia emudecido depois da quadrilha, deu sinal par a<br \/>\n&#8220;valsa&#8221;. Era o Dan\u00fabio de Strauss. O rapaz ergueu-se como um soldado que ouvisse<br \/>\ntocar a rebate. Ela n\u00e3o resistiu, levantou-se de um salto e entregou-lhe a<br \/>\ncintura. Dan\u00e7aram. A princ\u00edpio vagarosamente: depois, como a m\u00fasica se acelerasse,<br \/>\nAm\u00e2ncio arrebatou-a. Ela deixou-se levar, a cabe\u00e7a descansada nos ombros dele,<br \/>\nas m\u00e3os frias, a respira\u00e7\u00e3o doida. A m\u00fasica redobrou de carreira. Foi ent\u00e3o<br \/>\num rodar convulso, fren\u00e9tico: a casa, os m\u00f3veis, as paredes, tudo girava em<br \/>\ntorno deles. Hort\u00eansia dan\u00e7ava t\u00e3o bem como o rapaz. Os dois pareciam n\u00e3o<br \/>\ntocar no ch\u00e3o; os passos casavam-se como por encanto; as pernas gravitavam<br \/>\nem volta uma das outras com precis\u00e3o mec\u00e2nica. Encheu-se a sala de pares.<br \/>\nAm\u00e2ncio fugiu com Hort\u00eansia, sem interromper a valsa; pareciam empenhados<br \/>\nnuma conjuntura amorosa. Ela arfava sacudindo o colo com a respira\u00e7\u00e3o; os<br \/>\nseus bra\u00e7os nus tinham uma frescura \u00famida; os olhos amorteciam-se defronte<br \/>\ndos dele; n\u00e3o podia fechar a boca, e seu h\u00e1lito misturava-se ao h\u00e1lito fogoso<br \/>\ndo estudante. De repente, Am\u00e2ncio parou exausto. Ouvia-se-lhe de longe as<br \/>\nrespira\u00e7\u00e3o. &#8211; N\u00e3o! n\u00e3o! balbuciava ela, quase sem poder falar. &#8211; Ainda! Mais<br \/>\num pouco! E abra\u00e7aram-se e novo, freneticamente. Quando parou a m\u00fasica Hort\u00eansia<br \/>\ncaiu sobre um div\u00e3 pelos bra\u00e7os de Am\u00e2ncio. N\u00e3o podia dar uma palavra; n\u00e3o<br \/>\npodia abrir os olhos. Sua respira\u00e7\u00e3o parecia longos suspiros cont\u00ednuos e estalados.<br \/>\nV\u00e1rios cavalheiros se aproximaram. &#8211; Ficou muito fatigada?&#8230;Perguntou Am\u00e2ncio,<br \/>\ninclinando-se sobre ela, a m\u00e3o apoiada nas costas do div\u00e3. Hort\u00eansia n\u00e3o respondeu.<br \/>\nCobriu o rosto com o len\u00e7o de rendas e continuou recostada. Foi a voz do marido<br \/>\nque a despertou. &#8211; Que loucura e esta, Nen\u00e9m?&#8230;Perguntou ele sorrindo com<br \/>\no seu bom ar de homem honesto. Ela sorriu tamb\u00e9m, e pediu desculpas com o<br \/>\nolhar. &#8211; Sabes que te faz mal, para que valsas?&#8230; Hort\u00eansia soltou uma risadinha<br \/>\nde inten\u00e7\u00e3o e disse baixo: &#8211; N\u00e3o \u00e9 o mal que me faz que te d\u00e1 cuidado&#8230; &#8211;<br \/>\nComo assim?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, \u00e9 que tu n\u00e3o gostas muito de me ver valsar&#8230; &#8211; Porque te faz mal,<br \/>\nfilha!&#8230; &#8211; \u00c9 s\u00f3 por isso? Afian\u00e7as que n\u00e3o tens outro motivo? Campos respondeu<br \/>\ncom um movimento de ombros. &#8211; Olha l\u00e1!&#8230;amea\u00e7ou a bonita senhora, sacudindo<br \/>\num dedinho da m\u00e3o direita..- Olha que sou capaz de ,hoje em diante, n\u00e3o perder<br \/>\numa s\u00f3 valsa!&#8230; Ele repetiu o movimento de ombros, e acrescentou: &#8211; Isto<br \/>\n\u00e9 l\u00e1 contigo, filha; a sa\u00fade \u00e9 tua, faze o que entenderes, ora essa! Algumas<br \/>\npessoas perceberam o seu mal humor e riram com disfarce. Nessa ocasi\u00e3o, Am\u00e2ncio<br \/>\nencostado ao bufete, pedia que lhe servissem um grogue \u00e0 americana<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 retemperando a fibra? Perguntou-lhe um sujeito magrinho, elegante,<br \/>\nmeio calvo, a bater-lhe amigavelmente no ombro. O estudante voltou-se apressado<br \/>\ne, logo que viu o outro, exclamou: &#8211; Oh! O Dr. Freitas? Como passou? N\u00e3o sabia<br \/>\nque estava tamb\u00e9m por c\u00e1! Freitas respondeu com a sua voz gasta- que chegara<br \/>\nhavia pouco; n\u00e3o lhe fora poss\u00edvel vir antes; tivera que acompanhar o enterro<br \/>\nde um parente.- Coitado! cacete at\u00e9 depois de morto, tr\u00eas necrol\u00f3gios de hora<br \/>\ne meia cada um!&#8230;Ah! os parentes! Os parentes eram uma desgra\u00e7ada inven\u00e7\u00e3o,<br \/>\nprincipalmente se n\u00e3o deixavam alguma coisa! E, depois de retesar o peito<br \/>\ne puxar a gola da casaca:- Mas ent\u00e3o como ia o Sr. Am\u00e2ncio de Vasconcelos?&#8230;Pela<br \/>\nfisionomia jurava-se que tinha sa\u00fade para dar e vender, e, pelos atos, n\u00e3o<br \/>\nparecia menos disposto, porque o Freitas presenciara a conversa do amigo com<br \/>\nHort\u00eansia. E rindo: &#8211; Homem, faz voc\u00ea muito bem! Aproveite enquanto est\u00e1 no<br \/>\ntempo! Se eu tivesse a sua idade, com a experi\u00eancia de que disponho hoje,<br \/>\nn\u00e3o havia de proceder como procedi! Oh! Aquele aforismo tem muito fundo! &#8220;Si<br \/>\nJeunesse savait&#8230;&#8221; E a olhar para os p\u00e9s, com um gesto cheio de t\u00e9dio:- Gostei<br \/>\nde o ver na valsa, gostei seriamente! Ah! Eu \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o sou homem para estas<br \/>\ncoisas! Aceito tudo, menos o que me obrigue \u00e0 fadiga!.. Am\u00e2ncio fez-se modesto;<br \/>\nnegava que dan\u00e7asse bem; mas o outro, em vez de insistir nos elogios, como<br \/>\nesperava ele, perguntou-lhe muito descansadamente por que raz\u00e3o n\u00e3o lhe apareceu<br \/>\ndepois da primeira visita? O estudante desculpou-se com a falta de empo e<br \/>\no excesso de estudo. Havia ,por\u00e9m, de aparecer, mais tarde. As suas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom o Dr. Freitas procediam de uma carta de recomenda\u00e7\u00e3o, que um amigo do<br \/>\nvelho Vasconcelos lhe arranjara. Freitas era uma excelente amizade para qualquer<br \/>\nestudante pouco escrupuloso; dispunha de \u00f3timas rela\u00e7\u00f5es, que podiam servir<br \/>\nde empenho nas \u00e9pocas apertadas de exame. Tinha alguma coisas, gostava de<br \/>\nir \u00e0 Europa de vez em quando, e o seus quarenta n\u00e3o espantavam a ningu\u00e9m;<br \/>\nao contr\u00e1rio, ainda havia muito olho esperto de mulher que se arregalava para<br \/>\no ver. Isso sem falar nas senhoras que se foram aposentando, enquanto ele<br \/>\nparecia eternamente empalhado nos seus fraques irrepreens\u00edveis, nos seus chap\u00e9us<br \/>\n\u00e0 moda e nos seus enormes sapatos \u00e0 inglesa, de um elegantismo feroz. Em consci\u00eancia,<br \/>\nningu\u00e9m o poderia qualificar sen\u00e3o de rapaz. As mulheres eram o seu fraco,<br \/>\no seu v\u00edcio mais acentuado; v\u00e1rias anedotas suas, inspiradas neste assunto,<br \/>\ncorriam de boca em bocas h\u00e1 vinte anos. Am\u00e2ncio ficou muito seu camarada,<br \/>\ndesde a primeira visita. Em menos de uma horas de conversa\u00e7\u00e3o, falavam j\u00e1<br \/>\nsobre as cocotes mais conhecidas na Corte; e , alguns dias depois, quando<br \/>\nse encontraram na F\u00eanix, o Freitas apresentou-lhe uma espanholona de bu\u00e7o<br \/>\nlouro, a qual nessa ocasi\u00e3o passava pelo corpo mais bonito do mundo equ\u00edvoco.<br \/>\n&#8211; Pois voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 um fluminense acabado! Disse o elegante, a medir Am\u00e2ncio<br \/>\nde alto a baixo. &#8211; N\u00e3o imaginei que andasse t\u00e3o depressa&#8230; E, porque voltasse<br \/>\n\u00e0 conversa sobre mulheres, continuou o que dizia h\u00e1 pouco: &#8211; Infelizmente<br \/>\ns\u00f3 chegamos a conhec\u00ea-las quando vamos caindo na idade; de sorte que \u00e9 preciso<br \/>\naproveitar o espa\u00e7o que medeia dos trinta aos quarenta anos; antes disso &#8211;<br \/>\nn\u00e3o sabemos, depois- n\u00e3o podemos. Ah! se aos vinte j\u00e1 se conhecesse a mulher&#8230;<br \/>\nse ent\u00e3o j\u00e1 se soubesse quais s\u00e3o os seus gostos e suas prefer\u00eancias&#8230;se<br \/>\ntal acontecesse, nem uma s\u00f3 se conservaria virtuosa!&#8230;Mas, nesse per\u00edodo<br \/>\ndoas sonhos e das ilus\u00f5es, no per\u00edodo em que est\u00e1 o senhor, meu amigo,<\/p>\n<p>ningu\u00e9m \u00e9 capaz de ma aud\u00e1cia! Para chegar a fazer qualquer coisa \u00e9 preciso<br \/>\nser provocado, mas muito provocado! Am\u00e2ncio protestava com um sorriso pretensioso.<br \/>\n&#8211; Oh! Oh! Exclamou o outro, cheio de experi\u00eancia, a calcar o mon\u00f3culo sobre<br \/>\no olho. &#8211; J\u00e1 tive a sua idade, meu amigo, j\u00e1 tive a sua idade Pensava ent\u00e3o<br \/>\nque , para agradar mulheres , era indispens\u00e1vel fazer-me bonito, meigo, rom\u00e2ntico,<br \/>\natencioso, que sei eu!&#8230;Engano! puro engano! Elas aborrecem tudo isso, e<br \/>\ns\u00f3 exigem tr\u00eas coisas num homem: A primeira &#8211; muita aud\u00e1cia; a Segunda &#8211; um<br \/>\npouco de intelig\u00eancia; a terceira &#8211; algumas rela\u00e7\u00f5es na boa sociedade! E&#8230;<br \/>\nainda temos uma de que me esquecia e que entretanto \u00e9 a base de todas as outras:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o ser seu marido!&#8230;Com estas quatro habilidades, desde que se tenha mocidade<br \/>\ne boa disposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 mulher que resista! Quanto \u00e0 beleza, boas maneiras<br \/>\ne bom car\u00e1ter &#8211; hist\u00f3rias, homem! hist\u00f3rias! Elas, ao contr\u00e1rio, detestam<br \/>\nos tipos afeminados e n\u00e3o morrem de amores pelos sujeitos rigorosamente honestos,<br \/>\ne bem comportados. Qual! Querem o seu bocado de v\u00edcio; o belo do deboche de<br \/>\nvez em quando, para variar!&#8230; E, metendo as m\u00e3os nos bolsos da cal\u00e7a, e jogando<br \/>\no corpo com ar canalha: L\u00e1 para a seriedade basta-lhe o marido! \u00c9 boa! Am\u00e2ncio<br \/>\nria-se, abarrotado de inten\u00e7\u00f5es. O Freitinhas foi nesse momento apreendido<br \/>\npelo dono da casa: &#8220;As damas reclamavam as sua presen\u00e7a, dele, nas salas!<br \/>\nEra preciso n\u00e3o se meter pelos cantos!&#8221; O Dr. Freitas deixou-se levar, sempre<br \/>\nmuito enfastiado; mas, antes de ir, bateu no ombro de Am\u00e2ncio e segredou-lhe<br \/>\ncom a sua voz de tuberculoso: Aproveita, menino, aproveita! N\u00e3o mandes nada<br \/>\nao bispo!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Iam j\u00e1 desaparecendo os convidados. Os pais de fam\u00edlia toscanejavam encostados<br \/>\n\u00e0s ombreiras das portas, esperando, com os bra\u00e7os carregados de capas e mantas,<br \/>\nque as mulheres e as filhas se resolvessem a seguir para casa. Havia um vago<br \/>\ntom de cansa\u00e7o nas fisionomias; entretanto, alguns cavalheiros jogavam ainda,<br \/>\nem um quarto pr\u00f3ximo, \u00e0 luz tr\u00eamula das velas de estearina. O melo conduzia<br \/>\nsenhoras pelo bra\u00e7o \u00e0 porta da rua, agradecendo-lhes muito o obs\u00e9quio de aceitarem<br \/>\no seu convite. Foi Am\u00e2ncio que ajudou Hort\u00eansia a entrar na carruagem. O Campos<br \/>\nparecia contrariado com a demora. &#8211; h\u00e1 duas horas que desejava se retirar.<br \/>\nEncurtaram-se as despedidas. O horizonte principiava a franjar-se com os gal\u00f5es<br \/>\nprateados da aurora, e , do lado das montanhas desciam tons matutinos da natureza<br \/>\nque desperta. Hort\u00eansia, muito embrulhada na sua capa de casimira branca e<br \/>\nguarnecida de arminhos, atirou-se com impaci\u00eancia sobre as almofadas do carro,<br \/>\nlevantando um luxuoso farfalhar de sedas que se amarrotam. Logo, por\u00e9m, que<br \/>\no cocheiro sacudiu as r\u00e9deas, ela chegou o rosto \u00e0 portinhola, e gritou para<br \/>\nfora: &#8211; Aparece Domingo! V\u00e1 jantar conosco. Adeus! Am\u00e2ncio, perfilado na cal\u00e7ada,<br \/>\no chap\u00e9u suspenso na m\u00e3o direita, em atitude de quem faz um cumprimento respeitoso,<br \/>\ndisse, agitando o bra\u00e7o:- Adeus , minha senhora. Hei de ir. O carro do Campos<br \/>\ntomou a dire\u00e7\u00e3o da Praia de Botafogo; o rapaz ainda o acompanhou com a vista;<br \/>\ndepois, levantando os ombros e abotoando melhor o sobretudo, meteu-se num<br \/>\nt\u00edlburi que se aproximava lentamente e mandou tocar para a casa de pens\u00e3o.<br \/>\nO animal disparou, sacudindo as crinas ao vento fresco da manh\u00e3.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio acendeu um charuto e, com os olhos meio cerrados, derreou-se para<br \/>\np fundo do t\u00eflburi. Naquele momento fazia gosto em se fazer muito farto, muito<br \/>\ncansado de amores. Sua \u00faltimas impress\u00f5es enchiam-lhe o c\u00e9rebro de uma esp\u00e9cie<br \/>\nda vapor azotado, que asfixiava todos os outros pensamentos. &#8211; A continuarem<br \/>\nas coisas daquele modo, dizia ele consigo, chupando o charuto aos solavancos<br \/>\ndo carro, &#8211; em breve o tempo ser\u00e1 pouco para tratar s\u00f3 dos namoros! A cada<br \/>\npasso que dera na sua in\u00fatil exist\u00eancia, rasgara com o p\u00e9 uma p\u00e1gina do livro<br \/>\ndas ilus\u00f5es. Mas, a presen\u00e7a deste racioc\u00ednio, longe de afligi-lo, dava-lhe<br \/>\n\u00e0 vaidade um certo prazer doentio e picante. &#8211; Como poderia acreditar agora<br \/>\nnas tais virtudes femininas?&#8230;Pois se at\u00e9 falhara a pr\u00f3pria mulher do Campos!&#8230;<\/p>\n<p>Quando poderia ele imaginar que Hort\u00eansia, t\u00e3o severa e t\u00e3o grave ainda h\u00e1<br \/>\npouco, uma criatura por quem todos &#8221; metiam a m\u00e3o no fogo&#8221;, fosse assim leviana<br \/>\ne f\u00e1cil, com as outras?&#8230; E Am\u00e2ncio saboreava esta convic\u00e7\u00e3o, porque, a despeito<br \/>\ndo que dissera aos amigos no Hotel dos Pr\u00edncipes , sua consci\u00eancia, por conta<br \/>\npr\u00f3pria, tomara sempre a defesa de Hort\u00eansia e insistia em mostr\u00e1-la cercada<br \/>\nde um grande prest\u00edgio venerando e respeit\u00e1vel. &#8211; A consci\u00eancia agora que<br \/>\nfalasse! E refocilava-se todo com o seu triunfo. &#8211; Agora \u00e9 que ele queria<br \/>\nsaber quem tinha raz\u00e3o; sim, porque enquanto procurava se convencer de que<br \/>\ndeveria esperar de Hort\u00eansia aquilo mesmo, a rezingueira da consci\u00eancia saltava-lhe<br \/>\nem cima com um nunca terminar de raz\u00f5es e apresentava-lhe a &#8220;excelente senhora&#8221;<br \/>\ncada vez mais pura e menos acess\u00edvel! E eis que , de supet\u00e3o, quando menos<br \/>\nse esperava, os fatos se erguiam brutalmente para desmentir a impostura. E<br \/>\nele sorria ,vendo as asas do anjo baquearem a seus p\u00e9s, murchas e retra\u00eddas<br \/>\n, como os galhos de uma \u00e1rvore arrancados pelo nordeste. &#8211; Bem dizia o Sim\u00f5es:<br \/>\n&#8220;Quando te come\u00e7arem as aventuras&#8230;&#8221;E melhor ainda o Dr. Freitas: &#8220;Para conquistar<br \/>\nas mulheres s\u00e3o apenas quatro coisas necess\u00e1rias: aud\u00e1cia, boas rela\u00e7\u00f5es,<br \/>\num pouco de intelig\u00eancia e n\u00e3o ser seu marido!&#8221; E os fatos, como disciplinados<br \/>\npor estas palavras, formavam ala e come\u00e7avam a cantar as vit\u00f3rias do estudante..<br \/>\nNa sua l\u00f3gica indiscut\u00edvel afirmavam eles que Hort\u00eansia, o tal modelo de severidade<br \/>\ne pureza, morria de amores por Am\u00e2ncio, que o desejava ardentemente, que se<br \/>\nentregaria na primeira ocasi\u00e3o, fazendo loucuras, dando esc\u00e2ndalos, que nem<br \/>\numa hero\u00edna de romance! &#8211; Est\u00e1 segura! Exclamou o rapaz, sacudido por estas<br \/>\nid\u00e9ias. O sangue saltava-lhe no corpo; aquela aventura se lhe afigurava a<br \/>\nmelhor de sua vida; seu orgulho pueril, de namorador vulgar, espinoteava qual<br \/>\npotro que se pilha \u00e0s soltas no prado verdejante e proibido. As outras conquistas<br \/>\nvinham logo chamadas por aquela, e todas as v\u00edtimas de sua sensualidade, ou<br \/>\nas c\u00famplices de seu temperamento e da sua m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o, enfileiravam-se defronte<br \/>\ndele, como um submisso batalh\u00e3o de prisioneiros. Chegou a casa ao amanhecer<br \/>\ne n\u00e3o dormiu logo. Os pensamentos revoavam-lhe no c\u00e9rebro com o frenesi de<br \/>\nfolhas secas, redemoinhadas pelo vento.<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>X<\/h2>\n<p>Dormiu mal ; os sonhos n\u00e3o o deixaram em paz. A princ\u00edpio, todavia, foram<br \/>\nagrad\u00e1veis: ternos epis\u00f3dios de amores f\u00e1ceis que se encadeavam confusamente,<br \/>\ne nos quais a sensa\u00e7\u00f5es vinham e fugiam de um modo incerto e deleitoso; depois<br \/>\nchegavam os sonhos maus, os pesadelos. Neste, as mulheres entravam por incidente,<br \/>\nsempre duvidosas; vultos sinistros, e cabelos desgrenhados, rostos l\u00edvidos,<br \/>\nsurgiam em torno dele e iam-se aproximando, at\u00e9 lhe ficarem cara a cara, num<br \/>\ncontato frio e inc\u00f4modo de carne morta.. Depois sonhava-se em casa da fam\u00edlia,<br \/>\nvoltando, por\u00e9m , justamente do bile do Melo; tinha muita necessidade de repouso,<br \/>\nqueria continuar a dormir, mas a voz r\u00edspida do pai berrava por ele da porta<br \/>\ndo quarto: &#8220;Anda da\u00ed, mandri\u00e3o!, Basta de cama! V\u00ea se queres que eu te v\u00e1<br \/>\nbuscar!&#8221; E aquela voz terr\u00edvel dava-lhe a todo o corpo tremor de medo, e,<br \/>\nao estrondo que ela fazia, vultos cor- de -rosa, de cabelos louros, fugiam<br \/>\nespavoridos, como r\u00e3s que se atiram n&#8217;\u00e1gua , assustadas pela presen\u00e7a de um<br \/>\nboi. Am\u00e2ncio queria tamb\u00e9m fugir, mas suas pernas pareciam troncos de \u00e1rvores<br \/>\nseguros ao ch\u00e3o; queria gritar, mas a l\u00edngua inchava-lhe na boca. Acordou<br \/>\nmuito fatigado e aborrecido \u00e0s duas horas da tarde. Logo que apareceu na sala<br \/>\nde jantar, Mme. Brizard fez-lhe entrega de um belo ramilhete, que lhe haviam<br \/>\nremetido, a ele, com um cart\u00e3o. Am\u00e2ncio apressou-se a ler. O escrito dizia<br \/>\nsimplesmente: &#8220;Ao Dr. Vasconcelos &#8211; uma sua amiga&#8221;. Cruzaram-se os penetrantes<br \/>\nrisos adequados ao fato. O rapaz, intimamente lisonjeado, fingiu n\u00e3o se impressionar<br \/>\ncom aquela manifesta\u00e7\u00e3o; leu, por\u00e9m, o bilhete mais duas, tr\u00eas, quatro vezes.<br \/>\nEra letra de mulher, de Hort\u00eansia sem d\u00favida. Estava ali a sua alma, o fogo<br \/>\nde seus olhos. Ele cheirou o pequeno peda\u00e7o de papel, e pensou sentir o mesmo<br \/>\nperfume que, na v\u00e9spera, durante a valsa, o tinha penetrado at\u00e9 \u00e0 medula.<br \/>\nAchavam-se presentes o Dr. Tavares, o Pereira, o gentleman e L\u00facia. Disseram<br \/>\nalguma coisa sobre aquelas flores, menos a \u00faltima, que, junto \u00e0 janela, parecia<br \/>\npreocupada com um livro da capa roxa. O gentleman falou de Bot\u00e2nica a prop\u00f3sito<br \/>\nde uma d\u00e1lia vermelha que havia no ramo. Afian\u00e7ou que esta flor possu\u00eda em<br \/>\nsi tantas outras flores quantas eram as p\u00e9talas de que constava. &#8211; Flores<br \/>\nperfeitas, com todos os \u00f3rg\u00e3os, Sr. Am\u00e2ncio &#8211; estames, c\u00e1lice, tudo!<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio, enquanto o Lambertosa discorria sobre a d\u00e1lia, leu ainda uma vez<br \/>\no cart\u00e3o, e, ao levantara vista, reparou que Nini o fixava, cada vez mais<br \/>\ninsistente. Am\u00e9lia dera-se por incomodada e n\u00e3o vira \u00e0 mesa. O jantar correu,<br \/>\npois, muito frio e constrangido ao princ\u00edpio; pouco se conversava e quase<br \/>\nningu\u00e9m tinha vontade de rir. Dir-se-ia que s\u00f3 Am\u00e2ncio a todos comunicava<br \/>\no seu fastio e o seu cansa\u00e7o. S\u00f3 pela sobremesa o Dr. Tavares narrou, como<br \/>\nde costume, algumas anedotas jur\u00eddicas que presenciara na prov\u00edncia. Uma delas<br \/>\ntinha refer\u00eancia a ma certa velha que fora aos tribunais por haver desancado<br \/>\nas costelas do genro. Mme. Brizard tomou a defesa das sogras, e aproveitou<br \/>\na ocasi\u00e3o para falar no marido de sua filha mais velha. Vai muito da educa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne tamb\u00e9m um pouco do costume em que a gente os p\u00f5e!&#8230;acrescentou ela autoritariamente.<br \/>\n&#8211; Mas, genro, n\u00e3o queria que houvesse outro como o defunto marido de Nini..<br \/>\n&#8211; Era um perfeito cavalheiro! Mme. Brizard nunca lhe vira a cara fechada,<br \/>\nnem lhe surpreendera um gesto mais arrevesado. Ele s\u00f3 a chamava, a ela, de<br \/>\n&#8220;m\u00e3ezinha&#8221;; sempre lhe trazia guloseimas da rua, e, aos domingos, pela manh\u00e3,<br \/>\ndava-lhe um beijo na testa , impreterivelmente! &#8211; Ah! Era uma santa criatura!<br \/>\nNini suspirou e p\u00f4s-se a chorar em sil\u00eancio. &#8211; Agora temos choro!&#8230;pensou<br \/>\nAm\u00e2ncio com t\u00e9dio. Nini, como se adivinhara tal pensamento, olhou para ele<br \/>\ne pediu perd\u00e3o com um sorriso, ainda mais triste que o choro &#8211; Eu sou aqui<br \/>\nda opini\u00e3o do Ser. Am\u00e2ncio de Vasconcelos&#8230;disse o gentleman a Mme. Brizard,<br \/>\nem tom discreto. Mme. Brizard n\u00e3o sabia, por\u00e9m, do que tratava o Lambertosa.<br \/>\n&#8211; Ah! volveu este. &#8211; Refiro-me ao que avan\u00e7ou anteontem o nosso ilustre companheiro,<br \/>\ne indicou Am\u00e2ncio com um gesto, _que avan\u00e7ou a respeito da vantagem que um<br \/>\nnovo casamento traria, sem d\u00favida ,\u00e0 senhora sua filha. &#8211; Ah! fez Mme. Brizard<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o me lembrava disso. O Sr&#8230;. &#8211; Lambertosa, minha senhora, Lambertosa&#8230;<br \/>\nO Sr. Lambertosa \u00e9 ent\u00e3o de opini\u00e3o que o casamento conv\u00e9m \u00e0s enfermidades<br \/>\nnervosas?&#8230; O gentleman concentrou a fisionomia, limpou o bigode ao guardanapo,<br \/>\nergueu uma faca, e principiou a emitir o seu judicioso e meditado parecer.<br \/>\nSurgiram logo as contendas. L\u00facia marcou a p\u00e1gina do livro de capa roxa e<br \/>\nolhou muito s\u00e9ria para os outros, pronta a dar a sua r\u00e9plica. Mme. Brizard,<br \/>\nenquanto os mais discutiam, tamborilava com os dedos sobre a mesa, afitar<br \/>\num queijo de Minas, com um gesto profundo e repassado de filosofismo. O Pereira<br \/>\ncomia consecutivos peda\u00e7os de p\u00e3o, sem abrir os olhos, e Am\u00e2ncio procurava<br \/>\numa evasiva para se escafeder. Afinal, o Coqueiro, que havia j\u00e1 formado um<br \/>\ngrupo \u00e0 parte com o Dr. Tavares, quis fechar a discuss\u00e3o; mas o advogado ergueu-se<br \/>\nde s\u00fabito, segurou as costas da cadeira, arregalou os olhos, e desencadeou<br \/>\na sua eloq\u00fc\u00eancia . Em pouco, s\u00f3 ele falava, esquecido, como de costume, do<br \/>\nlugar e da situa\u00e7\u00e3o. Imaginava-se j\u00e1 num tribunal, em pleno exerc\u00edcio de suas<br \/>\nfun\u00e7\u00f5es. Pintou floreadamente o lament\u00e1vel estado de Nini. Qualificou-a de<br \/>\n&#8220;v\u00edtima inocente dos impenetr\u00e1veis caprichos de Deus&#8221;; descreveu a dolorosa<br \/>\nexpress\u00e3o do semblante da &#8220;&#8216;infeliz mo\u00e7a&#8221;; disse que os olhos dela falavam<br \/>\na misteriosa linguagem do amor, e, quando se dispunha a dar afinal a sua esperada<br \/>\nopini\u00e3o sobre o casamento, a pobre enferma, muito vendida com o que vociferava<br \/>\no tagarela a seu respeito, abriu a solu\u00e7ar estrepitosamente. A francesa ergueu-se,<br \/>\nde mau humor, para pedir ao Dr. Tavares que se deixasse daquilo, &#8220;por amor<br \/>\nde Deus!&#8221; Doutro lado o Coqueiro tamb\u00e9m lhe suplicava que se calasse. Mas<br \/>\no dem\u00f4nio do homem j\u00e1 se n\u00e3o podia conter. As palavras borbotavam-lhe da l\u00edngua,<br \/>\ncomo o sangue de uma facada. Fez imagens po\u00e9ticas sobre o casamento , citou<br \/>\nnomes hist\u00f3ricos, e jurou, \u00e0 f\u00e9 de suas convic\u00e7\u00f5es,, &#8220;que aquela desventurada<br \/>\ncriatura precisava de um esposo, mais do que as flores carecem do orvalho,<br \/>\nmais do que as aves carecem do ar; mais do que os c\u00e9rebros carecem de luz!&#8221;<br \/>\nE, erguendo as m\u00e3os tr\u00eamulas, recuou dos passos e foi dar de encontro ao copeiro<br \/>\nque, por detr\u00e1s dele, embasbacado, o escutava atentamente, com a bandeja do<br \/>\ncaf\u00e9 nos bra\u00e7os, \u00e0 espera de uma ocasi\u00e3o para apresentar as x\u00edcaras. Mme.<br \/>\nBrizard assustou-se , o gentleman deu um salto para n\u00e3o sujar as cal\u00e7as; rolou<br \/>\nao ch\u00e3o uma garrafa, e C\u00e9sar, o menino sublime, vendo que os mais velhos faziam<br \/>\ntanta bulha, tamb\u00e9m se p\u00f4s a berrar. Coqueiro gritava que se acomodassem por<br \/>\npiedade.<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo n\u00e3o tinha jeito! Parecia haver ali uma s\u00facia de doidos! Oh! A mucama<br \/>\nacudiu da cozinha, e Am\u00e9lia, com um len\u00e7o amarrado na cabe\u00e7a, apareceu na<br \/>\nporta de seu quarto, muito intrigada com o motim. S\u00f3 o Pereira continuava,<br \/>\ninalteravelmente, a comer peda\u00e7os de p\u00e3o; \u00e9 verdade que abriu os olhos duas<br \/>\nvezes. Mas tornou logo a fech\u00e1-los e, segundo todas as probabilidades, adormeceu.<br \/>\nAm\u00e2ncio tratou de aproveitar a confus\u00e3o para fugir da varanda. &#8211; Que esp\u00e9cie<br \/>\nde gente t\u00e3o esquisita!&#8230; dizia ele em caminho do quarto. &#8211; Nada! Aqui ainda<br \/>\nestou pior do que na casa do Campos! Antes de chegar ao gabinete, percebeu<br \/>\nque algu\u00e9m o seguia com dificuldade. A sala de visitas estava j\u00e1 totalmente<br \/>\n\u00e0s escuras. Voltou-se, e, sem ter tempo de dizer palavra, sentiu cair sobre<br \/>\nele um corpo gordo e mole. Era Nini. Am\u00e2ncio, surpreso e contrariado, quis<br \/>\narred\u00e1-la, mas a hist\u00e9rica passou-lhe os bra\u00e7os em volta do pesco\u00e7o e desatou<br \/>\na chorar, com o rosto escondido no seu colo. &#8211; Hein?! Disse Am\u00e2ncio. &#8211; Que<br \/>\nhist\u00f3ria \u00e9 esta?! Mas lembrou-se logo das recomenda\u00e7\u00f5es de Mme. Brizard: &#8220;qualquer<br \/>\ncontrariedade poderia provocar \u00e0 infeliz rapariga uma crise perigosa!&#8221; &#8211; Ora<br \/>\nesta!&#8230; pensou ele aborrecido.- Ora esta!&#8230; e procurou afastar Nini, brandamente.<br \/>\nE, como a teimosa n\u00e3o quisesse obedecer e continuasse a chorar, ele disse-lhe<br \/>\npalavras amigas, pediu-lhe, quase com ternura, que voltasse \u00e0 varanda; lembrou<br \/>\nque n\u00e3o era prudente ficarem ali, sozinhos e no escuro. &#8211; Podiam ser surpreendidos!<br \/>\nEsta id\u00e9ias o aterrava mais pelo rid\u00edculo do que pela responsabilidade daquela<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o. Nini, entretanto, parecia n\u00e3o ouvir coisa alguma e continuava a<br \/>\nabra\u00e7a-lo freneticamente, com \u00edmpetos nervosos. Am\u00e2ncio perdeu de todo a paci\u00eancia<br \/>\ne arrancou-se violentamente dos bra\u00e7os dela. &#8211; Deixe-me! Gritou, e correu<br \/>\npara o quarto. Nini acompanhou-o chorando, e conseguiu agarr\u00e1-lo de novo,<br \/>\npelo palet\u00f3. Estava muito nervosa e dispunha agora de uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria.<br \/>\n&#8211; Isto n\u00e3o ser\u00e1 um inferno?!&#8230; exclamou o rapaz, puxando a roupa das m\u00e3os<br \/>\nde Nini. E, vendo que ela n\u00e3o o largava: &#8211; Solte-me, com a breca! Ora essa!<br \/>\nQue diabo quer a senhora de mim?! Solte-me! Arre! A enferma n\u00e3o fez caso e<br \/>\napertou-lhe os pulsos; seus dedos pareciam tenazes. Am\u00e2ncio debatia-se brutalmente,<br \/>\nouvindo-a bufar, muito agoniada, e sentindo-lhe de vez em quando o suor do<br \/>\npesco\u00e7o e do rosto. Na sala de jantar serenara a discuss\u00e3o; s\u00f3 a voz do Tavares<br \/>\nainda se destacava. De repente puseram-se todos a chamar por Nini. &#8211; Olhe,<br \/>\ndisse-lhe Am\u00e2ncio. &#8211; L\u00e1 dentro a est\u00e3o chamando! V\u00e1! V\u00e1! Ela, nem assim. &#8211;<br \/>\nOra p\u00edlulas! Resmungou o estudante, desprendendo-se com um empurr\u00e3o. E ganhou<br \/>\no quarto, puxando a porta sobre si. Ouviu-se ent\u00e3o o baque surdo do corpo<br \/>\npesado de Nini, que foi por terra; em seguida gritos muito agudos. Correram<br \/>\ntodos par a sala de visitas; acenderam-se os candeeiros. Nini escabujava no<br \/>\nch\u00e3o, a gritar, esfrangalhando as roupas e mordendo os punhos. Coqueiro e<br \/>\nMme. Brizard apoderaram-se logo da infeliz. Am\u00e2ncio apareceu com o seu frasquinho<br \/>\nde vinagre; o Lambertosa receitou uma dose homeop\u00e1tica e correu ao quarto<br \/>\nem busca da botica (a homeopatia era uma de suas paix\u00f5es); L\u00facia voltou para<br \/>\na varanda. &#8220;Que a desculpassem, mas n\u00e3o podia assistir, a sangue-frio, cenas<br \/>\ndaquela ordem&#8230; N\u00e3o estava mais em suas m\u00e3os!&#8221;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O Pereira j\u00e1 se havia levantado da mesa e ressonava na costumada pregui\u00e7osa.<br \/>\nL\u00facia, ao passar por ele, atirou-lhe um olhar de t\u00e9dio e disse consigo: &#8211;<br \/>\nOlha que estafermo!&#8230; ela \u00e0s vezes tomava-lhe grande nojo, n\u00e3o o podia ver<br \/>\ncom aquele ar mole, de mulher gr\u00e1vida, com aquelas p\u00e1lpebras desca\u00eddas, a<br \/>\ncomerem-lhe os olhos, com aquele sorriso apalermado, aquela voz derramada<br \/>\npelos cantos da boca , que nem um caldo frio e seboso.<\/p>\n<p>De quando em quando sofria de ins\u00f4nias, e, justamente nessas ocasi\u00f5es, nas<br \/>\nhoras compridas da noite em claro, \u00e9 que mais detestava o Pereira. Punha-se<br \/>\na contempl\u00e1-lo longamente, com asco, fartando-se de olhar para aquele &#8220;pamonha&#8221;,<br \/>\naquele &#8220;coisa in\u00fatil&#8221;, que ali, ao seu lado, dormia todo encolhido, com as<br \/>\nm\u00e3os entre as coxas. Vinham-lhe frenesis de ench\u00ea-lo de pesco\u00e7\u00f5es. J\u00e1 lhe<br \/>\nn\u00e3o podia suportar o cheiro doentio do corpo; n\u00e3o lhe podia sentir a umidade<br \/>\npegajosa do suor e a morna fedentina do h\u00e1lito. A sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0quele mono<br \/>\nera uma hist\u00f3ria muito triste e muito sensaborona. Poucos, bem poucos a sabiam,<br \/>\nporque L\u00facia se esfor\u00e7ava quanto lhe era poss\u00edvel por escond\u00ea-la, como quem<br \/>\nesconde uma chaga vergonhosa. Ela &#8220;a m\u00edsera senhora&#8221;, vinha, entretanto, de<br \/>\ngente honesta e bem conceituada, se bem que muito pouco escrupulosa em pontos<br \/>\nde educa\u00e7\u00e3o. deram-lhe professores de franc\u00eas, de m\u00fasica, de desenho; entregaram-lhe<br \/>\nenfiadas de romances banais e livros de maus versos; e, todavia, n\u00e3o lhe deram<br \/>\nmoral, nem trataram de lhe formar o car\u00e1ter. A desgra\u00e7ada percorreu bailes<br \/>\ndesde pequena; ouviu o primeiro galanteio aos dez anos de idade; teve a primeira<br \/>\npaix\u00e3o aos doze; aos quinze julgava-se desiludida e sonhava com o t\u00famulo;<br \/>\naos vinte, como \u00e9 natural, sucumbiu ao palavreado de um primo em segundo grau<br \/>\ne bacharel pelo Pedro II. O primo, assim que a viu pejada, azulou para o Rio<br \/>\nGrande do Sul, onde tinha a fam\u00edlia, e nunca mais lhe deu sinal de si. Foi<br \/>\nent\u00e3o que surgiu em L\u00facia a id\u00e9ias de utilizar-se do Pereira. Entre as pessoas<br \/>\nque freq\u00fcentavam a casa de seus pais, era ele o \u00fanico aproveit\u00e1vel para casamento.<br \/>\nNesse tempo vivia o dorminhoco \u00e0s sopas de um tio suspeito de riqueza aferrolhada,<br \/>\ne de quem mais tarde, diziam, havia de herdar o dinheiro. L\u00facia meteu as m\u00e3os<br \/>\n\u00e0 obra, mas, por pouco que n\u00e3o desanimou; Pereira n\u00e3o dava de si coisa alguma,<br \/>\nparecia n\u00e3o compreender as provoca\u00e7\u00f5es. Era quase imposs\u00edvel tirar algum partido<br \/>\ndaquele animalejo! Ela, por\u00e9m, n\u00e3o se quis dar como vencida, e lutou. Lutou,<br \/>\nempregando os meios mais ardilosos, para injetar nos nervos daquele son\u00e2mbulo<br \/>\numa fa\u00edsca magn\u00e9tica de amor. Trabalho in\u00fatil! Afinal, vendo que o peda\u00e7o<br \/>\nde asno era incapaz de qualquer a\u00e7\u00e3o ou rea\u00e7\u00e3o, tomou ela a parte agressiva;<br \/>\ne a coisa resolveu-se no mesmo instante. Depois, como n\u00e3o havia tempo a perder<br \/>\ne porque j\u00e1 conhecia bem a pachorra do seu homem, foi pessoalmente ao encontro<br \/>\ndele, meteu-se-lhe em casa e protestou que faria um esc\u00e2ndalo dos diabos,<br \/>\nse o &#8220;sedutor&#8221; n\u00e3o tratasse, quanto antes, de tomar uma resolu\u00e7\u00e3o muito s\u00e9ria<br \/>\na respeito de casamento. Pereira n\u00e3o tratou de tomar coisa alguma desta vida<br \/>\ne nem se abalou com a presen\u00e7a de L\u00facia. Aceitou-a, como aceitaria outra qualquer<br \/>\nimposi\u00e7\u00e3o, porque ele era dos tais que, \u00e0s ma\u00e7adas da cura, preferem os inc\u00f4modos<br \/>\nda mol\u00e9stia. S\u00f3 no fim de quatro dias de lua-de-mel, como L\u00facia insistisse<br \/>\nnas suas id\u00e9ias matrimoniais, o pachorrento declarou, com toda a calma, que<br \/>\nlhe n\u00e3o podia fazer a vontade nesse ponto, em virtude de que, desde os dezoito<br \/>\nanos, o haviam casado com uma velha, um f\u00faria, que o Pereira n\u00e3o sabia, nem<br \/>\nqueria saber, por onde andava. L\u00facia perdeu os sentidos; esteve \u00e0 morte. Os<br \/>\npais, envergonhados com o procedimento indigno da filha, tinham-se ido refugiar<br \/>\nna cidade de Campos. Foi o tio do Pereira, o tal das riquezas aferrolhadas,<br \/>\nque a salvou; era um velho ainda bem forte e muito mais esperto que o sobrinho.<br \/>\nDeu -lhe casa, comida, roupa e dinheiro. Uma irm\u00e3 dele, senhora de inveterado<br \/>\namor a crian\u00e7as, solteirona, de quarenta a cinq\u00fcenta anos e que, com o olho<br \/>\nno testamento, desejava a todo o transe ser agrad\u00e1vel ao mano, encarregou-se<br \/>\ndo filho do bacharel. Correram quatro anos. L\u00facia n\u00e3o viu mais a fam\u00edlia,<br \/>\napenas visitava o filho, de quando em quando. O Pereira continuava \u00e0s sopas<br \/>\ndo tio, indiferentemente, como se tudo aquilo n\u00e3o lhe dissesse respeito. Acordava,<br \/>\nquer dizer. Levantava-se \u00e0s dez horas, tomava no quarto o seu banho morno,<br \/>\ndepois um copo de leite fervido, almo\u00e7ava \u00e0s onze, fazia as digest\u00e3o estendido<br \/>\nno sof\u00e1 da sala; \u00e0s duas horas dormia, depois passeava pela ch\u00e1cara \u00e0 espera<br \/>\ndo jantar, cujo quilo era de rigor ser feito a sono solto em uma rede que<br \/>\nele tinha no quarto. \u00c0 noite, quando conseguia levantar-se, jogava o gam\u00e3o<br \/>\ncom o tio. Cochilavam ambos, at\u00e9 que se servia o ch\u00e1 , e cada um se retirava<br \/>\npara a cama. &#8211; A noite fez-se para dormir! Sentenciava um deles. &#8211; E o dia<br \/>\npara se descansar, resmungava o outro espregui\u00e7ando-se. E recolhiam-se. O<br \/>\nvelho morreu de repente; uma congest\u00e3o que lhe sobreveio ao encontrar L\u00facia<br \/>\nno fundo do jardim \u00e0s voltas com um estudante da vizinhan\u00e7a. &#8211; Bom! Dissera<br \/>\nL\u00facia, alijada afinal daquela obriga\u00e7\u00e3o que j\u00e1 lhe ia pesando demais. E fariscou<br \/>\no testamento. Mas o velhaco apenas deixava algumas d\u00edvidas \u00e0 pra\u00e7a e dois<br \/>\nterrenos hipotecados ao Banco Predial. A coisa \u00fanica que ela aproveitou foi<br \/>\nCora, mulatinha de cria\u00e7\u00e3o, cuja matr\u00edcula e cuja escritura de compra estavam<br \/>\nem seu nome.<\/p>\n<p>Era preciso, pois, deixar a casa; os credores reclamavam tudo que pudesse<br \/>\ndar dinheiro. Pereira sacudia os ombros; dir-se-ia que n\u00e3o houvera a menor<br \/>\naltera\u00e7\u00e3o na sua vida. Continuava a dormir tranq\u00fcilamente, como se as sopas<br \/>\ndo tio ainda o fossem procurar \u00e0s horas da refei\u00e7\u00e3o. L\u00facia compreendeu que<br \/>\nn\u00e3o devia contar com ele, e tratou em pessoa em c\u00f4modo para os dois, num hotel<br \/>\nde arrabalde,. Sentia-se resoluta e forte; era ela agora o cabe\u00e7a do casal;<br \/>\ntinha belos projetos de trabalho: daria li\u00e7\u00f5es de piano, de desenho e de franc\u00eas,<br \/>\nat\u00e9 que aparecesse um homem para substituir o estafermo do Pereira. O homem,<br \/>\npor\u00e9m, n\u00e3o aparecia, como n\u00e3o apareciam os disc\u00edpulos. Principiou ent\u00e3o para<br \/>\neles um viver perfeitamente de bo\u00eamios. Sem trates, nem dinheiro, nem futuro,<br \/>\nnem rela\u00e7\u00f5es constitu\u00eddas, andavam aquelas duas almas perdidas e mais a Cora,<br \/>\nque andava a senhora, a percorrer as casa de pens\u00e3o: sempre sobressaltados,<br \/>\nsempre perseguidos pelos credores que iam deixando atr\u00e1s de si. Em cada lugar<br \/>\nse demoravam o maior tempo que podiam, dois, tr\u00eas, quando muito quatro meses;<br \/>\nat\u00e9 que lhe suspendiam o cr\u00e9dito e dos dois levantavam novamente o v\u00f4o, deixando<br \/>\na d\u00edvida em aberto e o dono da casa l\u00edvido, col\u00e9rico, sem saber ao menos que<br \/>\ndire\u00e7\u00e3o tomavam os vagabundos. Nesse peregrinar, L\u00facia teve uma contrariedade<br \/>\nmais profunda &#8211; achou-se gr\u00e1vida de novo. Cora deu-lhe conselho, trouxe-lhe<br \/>\nrem\u00e9dios para fazer abortar; nada, entretanto, produziu efeito. O dem\u00f4nio<br \/>\nda crian\u00e7a parecia disputar o seu quinh\u00e3o de vida com uma persist\u00eancia desesperadora.<\/p>\n<p>Nasceu afinal, no quarto de um portugu\u00eas na F\u00e1brica de Chitas, entre os cuidados<br \/>\nmercen\u00e1rios do locandeiro e o obs\u00e9quio de alguns amigos, que L\u00facia fora conquistando<br \/>\ncom as simpatias de seu talento musical,. O diabinho pouco durou, felizmente.<br \/>\nDesapareceu uns trinta dias depois de ter vindo ao mundo. Morreu mesmo na<br \/>\nrua, quando os pais, dentro de um carro de aluguel, fugiam aflitos da F\u00e1brica<br \/>\nde Chitas para uma casa de pens\u00e3o na Rua do Catete. Cora encarregou-se de<br \/>\natir\u00e1-lo ao mar. Ningu\u00e9m viu. Seriam duas horas da madrugada e as brisas marinhas<br \/>\npulverizavam no ar um chuvisco mi\u00fado, de fevereiro. O menino fora muito franzino<br \/>\ne muito mole; sa\u00edra ao pai, o Pereira. Durante o seu pobre m\u00eas de vida s\u00f3<br \/>\nabriu os olhos uma vez, ao expirar. A casa de pens\u00e3o era a Sexta que L\u00facia<br \/>\npercorria com o suposto marido. Apresentavam-se sempre como casados; ele muito<br \/>\ntranq\u00fcilo de sua vida, feliz; ela inquieta, s\u00f4frega pelo tal sujeito, que<br \/>\ncom tanto empenho procurava. Quando constou a L\u00facia que Am\u00e2ncio era rico e<br \/>\natoleimado, uma nova esperan\u00e7a radiou-lhe no cora\u00e7\u00e3o. &#8211; \u00c9 agora!&#8230; disse.<br \/>\nE preparou-se para o combate.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Foi por isso que o estudante recebeu , no dia seguinte ao baile do Melo,<br \/>\naquele ramilhete, t\u00e3o falsamente atribu\u00eddo a Hort\u00eansia., e porque, uma semana<br \/>\ndepois, outro ramo, bastante parecido com o primeiro, se achava \u00e0s onze horas<br \/>\nda noite no do rapaz, sobre a c\u00f4moda. &#8211; Ol\u00e9!, disse ele. E, satisfeito com<br \/>\na intriga, principiou a fazer conjeturas. &#8211; De quem viriam aquelas flores!&#8230;Ah!<br \/>\nexclamou, descobrindo um bilhetinho, escondido entre duas rosas. E leu: &#8220;N\u00e3o<br \/>\nsaibam nunca esp\u00edritos indiferentes, nem mesmo tu, adorado fantasista, quem<br \/>\nte envia essas pobres flores. N\u00e3o o procures descobrir; deixa que o meu segredo<br \/>\nviceje e cres\u00e7a na tepidez do mist\u00e9rio, &#8216;semelhan\u00e7a das plantas melanc\u00f3licas<br \/>\nque reverdecem nas sombras ignoradas dos rochedos. Eu te amo!&#8221; &#8211; Seria de<br \/>\nAm\u00e9lia, seria de L\u00facia, ou seria de Hort\u00eansia? De Nini \u00e9 que n\u00e3o poderia ser,<br \/>\nporque a desgra\u00e7ada, com certeza, n\u00e3o sabia escrever coisas daquela ordem!<br \/>\nN\u00e3o dormiu essa noite; as palavras do ramilhete voejavam-lhe dentro da cabe\u00e7a,<br \/>\ncomo um bando de mariposas. &#8211; De quem seria?&#8230;De Am\u00e9lia n\u00e3o, n\u00e3o era de supor;<br \/>\npois que a bonita menina, longe de o provocar, fugia sempre que ele tentava<br \/>\nse abrir com ela em quest\u00f5es de amor; de Hort\u00eansia tamb\u00e9m n\u00e3o, n\u00e3o era natural<br \/>\nque fosse, porque, em tal caso, Mme. Brizard, ou qualquer outra pessoa de<br \/>\ncasa, teria visto o portador. Al\u00e9m disso, a mulher do Campos n\u00e3o seria capaz<br \/>\ndaquilo; estava caidinha &#8211; \u00e9 certo! Mas n\u00e3o levaria a leviandade ao ponto<br \/>\nde lhe<\/p>\n<p>escrever e enviar semelhante declara\u00e7\u00e3o. O que , por\u00e9m, n\u00e3o sofria d\u00favida<br \/>\n\u00e9 que os ramos tinham a mesma proced\u00eancia. E L\u00facia?&#8230;\u00c9 verdade! E L\u00facia?<br \/>\nCom certeza n\u00e3o era de outra! Sim! Tudo estava a dizer que o tal bilhetinho<br \/>\nsa\u00edra de suas m\u00e3os!&#8230;aquelas frases po\u00e9ticas, aquele mist\u00e9rio, aquela franqueza<br \/>\nde confessar o seu amor em duas palavras&#8230;N\u00e3o tinha que ver! Era da mulher<br \/>\ndo Pereira! E um palpite brutal, inadi\u00e1vel, substituiu logo a calma simpatia<br \/>\nque lhe inspirara L\u00facia. Desde que se capacitou de que eram dela os ramilhetes,<br \/>\ndesejou-a com urg\u00eancia; queria que ela surgisse ali, naquele mesmo instante,<br \/>\nna silenciosa escurid\u00e3o daquele quarto. E voltava-se de um para outro lado<br \/>\nda cama, sem conseguir pegar no sono. Esperar at\u00e9 o dia seguinte o momento<br \/>\nde estar com ela afigurava-se-lhe um sacrif\u00edcio enorme, quase invenc\u00edvel.<br \/>\nComo podia l\u00e1 descansar, dormir, com semelhante preocupa\u00e7\u00e3o a remexer-se-lhe<br \/>\npor dentro, como um feto doido que lhe mordesse as entranhas? Definitivamente<br \/>\nn\u00e3o conseguia adormecer. Levantou-se, acendeu um cigarro, abriu a janela,<br \/>\ne p\u00f4s-se a olhar para a lua que estava boa essa noite. Vieram-lhe logo as<br \/>\nconjeturas sobre o como seria a situa\u00e7\u00e3o, no caso que L\u00facia aparecesse ali,<br \/>\nnaquele instante &#8220;Que sucederia?&#8230;Que fariam eles?&#8230;&#8221; Duas horas bateram<br \/>\nna sala de jantar. &#8211; Diabo! Resmungou Am\u00e2ncio, sentindo arrepios por todo<br \/>\no corpo. &#8211; Desta forma perco a noite inteira, e amanh\u00e3 estou impossibilitado<br \/>\nde ir \u00e0 academia!&#8230; A id\u00e9ia do estudo apresentava-se-lhe sempre com um sabor<br \/>\nmuito amargo de sacrif\u00edcio. Lembrou-se, todavia, de aproveitar a ins\u00f4nia para<br \/>\ncorrer uma vista de olhos pela li\u00e7\u00e3o; acendeu a vela, corajosamente, assentou-se<br \/>\n\u00e0 mesinha que havia no quarto e abriu um comp\u00eandio. Mas n\u00e3o conseguia prestar<br \/>\naten\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura; percorreu distra\u00eddo duas ou tr\u00eas p\u00e1ginas e ficou a olhar<br \/>\na chama tr\u00eamula da vela, cada vez mais abstrato e mais febril. Sentiu vontade<br \/>\nde beber.- Se n\u00e3o estava enganado &#8211; a garrafa de conhaque ficara sobre o aparador,<br \/>\nna varanda. Ergueu-se, enfiou o sobretudo e saiu da alcova. O sangue n\u00e3o lhe<br \/>\nqueria ficar quieto. A continuar daquele modo, o rem\u00e9dio que tinha era p\u00f4r-se<br \/>\nao fresco e vagar pelas ruas, at\u00e9 encontrar sossego. O conhaque n\u00e3o estava<br \/>\nno aparador. Am\u00e2ncio, contrariado, desceu \u00e0 ch\u00e1cara, e foi assentar-se a um<br \/>\nbanco de pedra. &#8211; Naquele momento comeria alguma coisa, se houvesse, pensou<br \/>\nele, resolvido a organizar no dia seguinte um bufete no seu pr\u00f3prio quarto.<br \/>\nA lua escondia-se agora entre nuvens; as \u00e1rvores rumorejavam; tudo parecia<br \/>\nconcentrado e adormecido. Debaixo viam-se as janelas dos quatro c\u00f4modos do<br \/>\nsegundo andar, que davam para a ch\u00e1cara. L\u00e1 estava o n.\u00b0 8, o 9 o 10 e<br \/>\no 11. Come\u00e7ou a pensar nos h\u00f3spedes daqueles quartos: o 11 era do tal Correia<br \/>\no m\u00e9dico que s\u00f3 aparecia ali de quando em quando, &#8220;para fazer uns trabalhos<br \/>\nque os filhos n\u00e3o lhe permitiam em casa da fam\u00edlia&#8221;; o 10 era do gentleman<br \/>\n&#8211; Bom ma\u00e7ante! Am\u00e2ncio lembrou-se de que lhe prometera acompanh\u00e1-lo uma qualquer<br \/>\nnoite ao Passeio P\u00fablico. &#8211; Havia de ir, disseram-lhe que \u00e0s vezes se encontravam<br \/>\na\u00ed bem boas coisas!&#8230; O 9 \u00e9 que ele n\u00e3o se lembrava a quem pertencia&#8230;Ah!<br \/>\nera do tal Melinho, &#8221; a p\u00e9rola&#8221;, como o qualificava Jo\u00e3o Coqueiro constantemente.<br \/>\nE o 8 de L\u00facia! da misteriosa L\u00facia! Ela estava ali!&#8230; fazendo o qu\u00ea?&#8230;pensando<br \/>\nnele talvez&#8230;talvez dormindo&#8230;talvez at\u00e9 nem dela fossem o bilhetinho amoroso<br \/>\ne os dois ramilhetes!&#8230;Quem sabia l\u00e1!&#8230; E esta d\u00favida o apoquentava. &#8211; Ora<br \/>\nadeus! disse. &#8211; A ocasi\u00e3o havia de chegar!&#8230; Veio-lhe, por\u00e9m uma tenta\u00e7\u00e3o<br \/>\naguda de subir ao n.\u00b0 8 _Que mal podia vir da\u00ed?&#8230;O marido com certeza<br \/>\nestava dormindo!&#8230;Que poderia acontecer?&#8230; Levantou-se resolvido; mas as<br \/>\nvidra\u00e7as do quarto do tal m\u00e9dico, que s\u00f3 aparecia de quando em quando, acabavam<br \/>\nde se iluminar. &#8211; Ol\u00e1 !&#8230; considerou Am\u00e2ncio, detendo-se. \u00cb o n. \u00b011!<br \/>\nPor detr\u00e1s dos vidros havia cortinas de cassa; nada se podia ver para dentro,<br \/>\napenas duas sombras difusas projetavam-se na cambraia, ora aumentando, ora<br \/>\ndiminuindo. Am\u00e2ncio deixou-se ficar onde estava , mordido j\u00e1 de curiosidade.<br \/>\nDa\u00ed a uns dez minutos, pela escadinha do fundo, desciam cautelosamente, um<br \/>\nsujeito alto, todo de escuro, e mais uma mulher gorda, de enorme chap\u00e9u, cujas<br \/>\nabas lhe ca\u00edam sobre os olhos, ensombrando-lhe o rosto. Vinha um atr\u00e1s do<br \/>\noutro, porque a escada era estreita. Atravessaram a ch\u00e1cara, falando em voz<br \/>\nbaixa, e entraram no corredor.<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio acompanhou-os, de longe, e tripetrepe. A porta da rua estava aberta,<br \/>\ncomo de costume; um carro esperava pelos dois l\u00e1 fora; o cocheiro dormia na<br \/>\nbol\u00e9ia. O sujeito do n.\u00b0 11 deu a m\u00e3o \u00e0 mulher das grandes abas, ajudou-a<br \/>\na entrar na carruagem e, seguida, entrou tamb\u00e9m. O cocheiro fechou sobre eles<br \/>\na portinhola, sem lhes dar palavra, depois saltou para o se posto e tocou<br \/>\nos animais. &#8211; E que tal?&#8230;interrogou Am\u00e2ncio de si para si, quando os viu<br \/>\npartir. Lembrou-se ent\u00e3o do que lhe dissera o velhaco do Coqueiro por ocasi\u00e3o<br \/>\nde mostrar-lhe a casa: &#8220;Quanto a certas visitas&#8230;isso tem paci\u00eancia&#8230; l\u00e1<br \/>\nfora o que quiseres, mas, daquela porta para dentro&#8230;&#8221; &#8211; Hip\u00f3critas! pluralizou<br \/>\no estudante. E encaminhou-se para o segundo andar.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Subiu pela escadinha do fundo, n\u00e3o a do m\u00e9dico, mas pela outra do lado oposto;<br \/>\nporque havia duas. O primeiro andar continuava em completo sil\u00eancio; no segundo<br \/>\napenas se ouvia, de espa\u00e7o a espa\u00e7o, um tossir seco e agoniado, que vinha<br \/>\nnaturalmente do n.\u00b0 7 onde morava o tal mo\u00e7o doente. O pobre-diabo piorava<br \/>\n\u00e0 falta absoluta de meios. Am\u00e2ncio entrou \u00e0s apalpadelas no corredor que dividia<br \/>\nos oito quartos. O luar filtrava-se a custo pelas venezianas e pelas vidra\u00e7as<br \/>\nda janela e sarapintava o ch\u00e3o de pequeninos pontos brancos. O n. \u00b0 5,<br \/>\nonde residia o Paula Mendes com a mulher, era o \u00fanico que tinha luz; uma forte<br \/>\nclaridade rebentava por cima da porta fechada e ia projetar-se na parede do<br \/>\nn.\u00b010 que lhe ficava fronteiro. Mas ainda assim o corredor estava bem<br \/>\nescuro. Am\u00e2ncio parou defronte do n.\u00b0 8 .- Era ali! Encostou o ouvido<br \/>\n\u00e0 fechadura; nem sinal de vida &#8211; L\u00facia com certeza dormia profundamente. &#8211;<br \/>\nDormia! Pensou o estudante. &#8211; Dormia , sem preocupa\u00e7\u00f5es nem cuidados; ao passo<br \/>\nque ele, por n\u00e3o encontrar descanso, errava pelos corredores desertos, como<br \/>\numa alma penada!. &#8211; Para que ent\u00e3o se lembrara aquela mulher de ir mexer com<br \/>\nele?!&#8230; Se a sua inten\u00e7\u00e3o era dormir, para que o foi provocar? Para que lhe<br \/>\nfoi bulir com o sangue? Oh! Aquele sil\u00eancio do n.\u00b0 8 o irritava! Aquela<br \/>\nindiferen\u00e7a afigurava-se-lhe uma afronta ao seu amor-pr\u00f3prio, um atentado<br \/>\ncontra o seu orgulho E, quanto mais se convencia da impossibilidade de falar<br \/>\nessa noite a L\u00facia, mais e mais osd seus sentidos se assanhavam! Afinal, j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o fazia grande quest\u00e3o de ser com ela pr\u00f3pria; aceitaria qualquer outra<br \/>\nque o arrancasse daquela ansiedade em que se via entalado, como se estivesse<br \/>\ndentro de uma armadura em brasa. &#8211; Que inferno! Dizia ele consigo, rangendo<br \/>\nos dentes.- Que inferno! E, sem \u00e2nimo de ir embora, permanecia encostado \u00e0<br \/>\nporta do n.\u00b0 8, deixando -se comer aos bocadinhos pela febre do seu desejo;<br \/>\nao passo que o corpo inteiro arfava com o resfolegar aflitivo dos pulm\u00f5es.<br \/>\n&#8211; Todavia, pensou ele &#8211; quantas mulheres n\u00e3o o desejariam Ter junto de si<br \/>\nnaquele momento?&#8230;Donzelas at\u00e9, quantas, naquele instante, n\u00e3o se estorceriam<br \/>\nno leito e n\u00e3o morderiam os travesseiros, desvairadas pela isola\u00e7\u00e3o? E saborosas<br \/>\nlembran\u00e7as de amores extintos, que o tempo e a aus\u00eancia tornavam, mais perfeitos<br \/>\ne mais desej\u00e1veis, acudiam-lhe simultaneamente ao esp\u00edrito, para lhe aumentar<br \/>\nas torturas da carne. As suas amantes do passado eram agora ainda mais atraentes<br \/>\ne formosas; em todas elas n\u00e3o havia um l\u00e1bio sem sorriso, um olhar sem fogo;<br \/>\nera tudo opulento de gra\u00e7as e de meiguices, era tudo encantador e completo<br \/>\nP\u00f4s-se a arranhar devagarinho a porta, dizendo quase em segredo o nome de<br \/>\nL\u00facia. Nada, por\u00e9m respondia; o mesmo sil\u00eancio compacto enchia as trevas do<br \/>\ncorredor. Seu desejo, estimulado e tonto, evocava ent\u00e3o todos os meios de<br \/>\nsaciar-se; descobria hip\u00f3teses absurdas, inventava possibilidades que n\u00e3o<br \/>\nexistiam. Am\u00e2ncio chegou a pensar em Am\u00e9lia, em Mme. Brizard, na mucama, e<br \/>\nat\u00e9, que horror! Em Nini!. &#8211; Ai , meu Deus, gemeu nesse instante o doente<br \/>\ndo n. \u00b0 7. O estudante deixou a porta de L\u00facia e segui em ponta de p\u00e9s<br \/>\npelo corredor. Ao passar defronte do quarto do Paula Mendes, suspendeu o passo;<br \/>\na luz continuava com a mesma intensidade; o curioso n\u00e3o resistiu a uma tenta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne espiou pela fechadura. O pobre homem trabalhava, vergado sobre ma mesinha<br \/>\nestreita e todas coberta de pap\u00e9is de m\u00fasica. Ao lado, pelas cadeiras e sobre<br \/>\num sof\u00e1 de couro negro encostado a um biombo havia folhas esparsas e cadernetas<br \/>\nempilhadas.<\/p>\n<p>Recebera nessa tarde a encomenda de organizar uma sinfonia, que tinha de<br \/>\nser executada da\u00ed a quatro dias em uma festa fora da cidade. O Imperador prometeu<br \/>\nque iria. Mendes estava ainda organizando as partes cavadas. Ouviam-se o ranger<br \/>\nda pena no papel grosso de Holanda, o tique-taque de um despertador de metal<br \/>\nbranco, pousado sobre a c\u00f4moda, e o grosso ressonar da mulher, que dormia<br \/>\npor detr\u00e1s do biombo. O rabequista parecia menos triste naquela ocasi\u00e3o do<br \/>\nque nas outras em que o vira Am\u00e2ncio. &#8211; \u00c9 porque a mulher est\u00e1 dormindo, calculou<br \/>\neste, lembrando-se do mal g\u00eanio de Catarina. E considerou sobre a exist\u00eancia<br \/>\nordin\u00e1ria que levariam ali, encurraladas no mesmo cub\u00edculo, aquelas criaturas<br \/>\nt\u00e3o opostas. O Mendes, sem desprender a pena do papel, come\u00e7ou a solfejar<br \/>\nem voz baixa o que escrevia; mas, como l\u00e1 dentro cessaram os roncos da mulher<br \/>\ne esta remexeu na cama, resmungando, ele incontinenti calou a boca e prosseguiu<br \/>\nem sil\u00eancio no seu trabalho &#8211; Ainda est\u00e1s com isto?! Perguntou ela, afinal,<br \/>\ndepois de uma pausa. O marido respondeu afirmativamente. &#8211; Pois, homem, v\u00ea<br \/>\nse acabas com essa porcaria! Bem sabes que, enquanto houver luz no quarto,<br \/>\nn\u00e3o posso pregar olho! E, fazendo ranger as t\u00e1buas da cama, virou-se de um<br \/>\nlado para outro; acrescentando com a sua voz de homem: &#8211; Deixa isso! Anda!<br \/>\nE apaga o diabo dessa luz! &#8211; N\u00e3o , filha, respondeu o artista brandamente.<br \/>\n&#8211; \u00c9 preciso que este servi\u00e7o fique pronto amanh\u00e3&#8230; E, depois de um muxoxo<br \/>\nda mulher: &#8211; Sabes o quanto precisamos deste dinheiro&#8230;A diretora do col\u00e9gio<br \/>\nainda ontem protestou que despediria a pequena, se seu n\u00e3o lhe arranjasse<br \/>\nalguma coisas por conta do que devemos; o Jo\u00e3ozinho, coitado, h\u00e1 quase dois<br \/>\nmeses pediu-me que lhe levasse um sobretudo, porque l\u00e1 no trapiche onde ele<br \/>\nagora est\u00e1 trabalhando, faz pela manh\u00e3 um frio de rachar; Mme Brizard, voc\u00ea<br \/>\nn\u00e3o ignora, tem-nos apoquentado e&#8230; &#8211; \u00cb isto! interrompeu a mulher.<br \/>\n&#8211; \u00cb sempre a mesma cantiga!- De tudo voc\u00ea se lembra, menos do que eu<br \/>\npreciso! &#8211; Ah! se me lembro , filha! Mas \u00e9 que nem sempre a gente pode fazer<br \/>\no que deseja&#8230;Descansa, por\u00e9m, que as coisa h\u00e3o de endireitar e tu possuir\u00e1s<br \/>\nde novo o teu piano de cauda! Tem um pouco de paci\u00eancia&#8230; &#8211; J\u00e1 me tardava<br \/>\nessa m\u00fasica! J\u00e1 me tardava a &#8220;paci\u00eancia&#8221;! A paci\u00eancia inventou-se para consolar<br \/>\nos tolos! Farte-se voc\u00ea com ela! De conselhos estou cheia, meu amigo! Quero<br \/>\nobras e n\u00e3o palavras! Mendes n\u00e3o respondeu e continuou a trabalhar meneando<br \/>\na cabe\u00e7a resignadamente. Catarina remexeu-se com mais agita\u00e7\u00e3o e rangidos<br \/>\nda cama e, da\u00ed a pouco levantou-se de um salto, gritando: &#8211; Arre, com os diabos!<br \/>\nQue nem se pode dormir! &#8211; Olha os vizinhos, filha!&#8230;arriscou o marido. &#8211;<br \/>\nLembra-te de que s\u00e3o tr\u00eas horas da madrugada&#8230; &#8211; Os vizinhos que se fomentem!<br \/>\nBerrou ela, embrulhando-se na colcha e fazendo tremer o soalho com seus passos<br \/>\nde granadeiro. &#8211; N\u00e3o como em casa deles, n\u00e3o preciso deles para nada! E, depois<br \/>\nde ir beber um copo d&#8217;\u00e1gua ao fundo do quarto: &#8211; Tinha gra\u00e7a! Que eu, al\u00e9m<br \/>\nde tudo, n\u00e3o pudesse falar \u00e0 minha vontade! Melhor seria, nesse caso, que<br \/>\nme amarrassem uma bala aos p\u00e9s e mandassem, atirar comigo ao mar! &#8211; Est\u00e1s<br \/>\nde mau humor, filha! V\u00ea se descansas. &#8211; N\u00e3o \u00e9 de espantar, levando a vida<br \/>\nque eu levo! Sempre numas porcarias de quartos! Se se precisa de qualquer<br \/>\ncoisa, \u00e9 um &#8220;ai Jesus&#8221; Nunca h\u00e1 dinheiro! O almo\u00e7o \u00e9 aquilo que se sabe; o<br \/>\njantar pior um pouco! Se fico doente, se tenho uma debilidade, n\u00e3o h\u00e1 quem<br \/>\nme traga um caldo! n\u00e3o h\u00e1 quem me d\u00ea um rem\u00e9dio! Arrenego de tal vidas, diabo!<br \/>\n&#8211; \u00d6 Catarina!&#8230;disse o Mendes ressentindo-se &#8211; Pois eu n\u00e3o estou aqui?&#8230;Algum<br \/>\ndia j\u00e1 me afastei de teu lado, ao te sentires incomodada? &#8211; E antes se afastasse,<br \/>\ncreia! Porque j\u00e1 me custa a suport\u00e1-lo quando estou de sa\u00fade, quanto mais<br \/>\ndoente! Casca! &#8211; atirar-me em roto uns miser\u00e1veis servi\u00e7os que qualquer um<br \/>\nfaria!&#8230;Pois n\u00e3o os fa\u00e7a!, que at\u00e9 \u00e9 favor! Passo muito melhor sem eles!<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 bom, senhora, est\u00e1 bom! N\u00e3o precisa se arreliar! Veja se descansa,<br \/>\nque eu agora tenho que fazer! &#8211; Descansada queria voc\u00ea me ver, mas era no<br \/>\nCaju, por uma vez, seu malvado! Pensa que encontraria o dem\u00f4nio de alguma<br \/>\ntola que ca\u00edsse na asneira em que eu ca\u00ed de se amarrar a um homem de sua laia?<br \/>\nUm pingas! Que anda sempre com a sela na barriga! E, avan\u00e7ando para o marido<br \/>\nde olhos arregalados e um punho no ar: &#8211; Mas, podes perder as esperan\u00e7as,<br \/>\nque eu n\u00e3o morro antes de ti, Man\u00e9 Boc\u00f3! Primeiro h\u00e1s de ir tu, entendeste?!<br \/>\n&#8211; Ah! Supunhas que eu levaria a roer uma vida de chifre e depois rebentava<br \/>\npra a\u00ed, enquanto ficavas<\/p>\n<p>por c\u00e1 a te lamberes de contente! &#8211; Um sebo! Hei de ir, sim, mas depois de<br \/>\nte haver feito amargar tamb\u00e9m um bocado, meu burro velho! &#8211; \u00d3 mulher! cala<br \/>\nessa boca do diabo! Gritou, afinal, o Mendes, arrojando a pena e empurrando<br \/>\nos pap\u00e9is que tinha defronte de si. &#8211; Arre! \u00cb muito! Arre! O mo\u00e7o do<br \/>\nn.\u00b0 7 expectorou com mais for\u00e7a e p\u00f4s-se a gemer. Ora, com um milh\u00e3o de<br \/>\ndem\u00f4nios! Gritou o guarda-livros, morava no n.\u00b0 6 &#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sossegar<br \/>\nneste inferno! Quando n\u00e3o \u00e9 a tosse e o gemido da direita, \u00e9 a rezinga e a<br \/>\nbriga da esquerda! Apre! Antes morar num hospital de doidos! Mendes levantou-se<br \/>\n,segurando a cabe\u00e7a com uma das m\u00e3os, e come\u00e7ou a passear agitado pelo quarto<br \/>\n. Catarina continuava a serrazinar, atirando com os p\u00e9s o que topava no meio<br \/>\ndas casa. O marido parou de s\u00fabito, sacudiu a cabe\u00e7a, depois foi-se chegando<br \/>\npara a mulher e correu-lhe a m\u00e3o pela esp\u00e1dua nua e lustrosa, timidamente,<br \/>\ncomo se afagasse anca de uma \u00e9gua bravia &#8211; Ent\u00e3o, filha?&#8230;disse com ternura.-<br \/>\nVai deitar, vai!&#8230;Estamos aqui a incomodar os outros&#8230; Anda, vai! &#8211; Os incomodados<br \/>\ns\u00e3o os que se mudam! gritou ela. &#8211; E \u00e9 o que vou tratar de fazer amanh\u00e3 mesmo!<br \/>\nBerrou o guarda-livros. &#8211; Estou farto! Quem trabalha durante o dia, precisa<br \/>\nda noite para descansar! Arre! &#8211; N\u00e3o fa\u00e7a caso, senhor!&#8230;Disse o Mendes,<br \/>\ne encaminhou-se para a porta. Am\u00e2ncio, assim que o sentiu aproximar-se, fugiu<br \/>\np\u00e9 ante p\u00e9, com ligeireza. Nesse momento, o Campelo, o tal esquisit\u00e3o do n.\u00b0<br \/>\n4, que at\u00e9 a\u00ed n\u00e3o dera sinal de si, levantou-se tranq\u00fcilamente, tomou o seu<br \/>\nclarinete, e come\u00e7ou por acinte, a tirar do instrumento as notas mais estranhas<br \/>\ne atormentadoras que se podem imaginar. O guarda -livros respondeu-lhe batendo<br \/>\ncom a bengala nas paredes de tabique e berrando, como um doido, o Z\u00e9 Pereira.<br \/>\n&#8211; Ai, meu Deus!, ai, meu Deus!, continuava a gemer arrastadamente o pobre<br \/>\nsujeito do n.\u00b0 7. J\u00e1 pelas escadas, Am\u00e2ncio ouviu as vozes do gentleman<br \/>\n, do Melinho e de L\u00facia, que acordaram espantados, e em gritos reclamavam<br \/>\ncontra semelhante abuso. No andar de baixo, o Piloto, o Dr. Tavares, o Fontes,<br \/>\ne a mulher, abriam as portas dos competentes quartos, para indagar que diabo<br \/>\nqueria aquilo dizer. S\u00f3 o dorminhoco do Pereira n\u00e3o se deu por achado. Am\u00e2ncio<br \/>\nj\u00e1 estava enter os len\u00e7\u00f3is, quando o Coqueiro percorreu toda a casa, de robe-de-chambre<br \/>\ne um casti\u00e7al na m\u00e3o.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>XI<\/h2>\n<p>O guarda-livros, no dia seguinte pela manh\u00e3, declarou a Mme. Brizard que<br \/>\nse retirava da casa de pens\u00e3o. &#8211; Oh! Disse. &#8211; N\u00e3o estava disposto a suportar<br \/>\npor mais tempo aquele zungu! Os seus vizinhos eram uma gente imposs\u00edvel! &#8211;<br \/>\nN\u00e3o se passava uma noite em que n\u00e3o houvesse chinfrinada!&#8230;N\u00e3o! definitivamente<br \/>\nn\u00e3o podia ficar! De mais &#8211; O t\u00edsico do n.\u00b0 7 n\u00e3o lhe dava um momento de<br \/>\ndescanso com o diabo de uma tosse, que parecia aumentar todos os dias! Nada!<br \/>\nAntes tomar um quarto no inferno! Mme. Brizard e o marido procuravam dissuadi-lo<br \/>\nde tal resolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o lhes convinha perder um h\u00f3spede t\u00e3o bom. O guarda-livros,<br \/>\ncom efeito, era muito pontual nos pagamentos e n\u00e3o incomodava pessoa alguma,<br \/>\nporque s\u00f3 queria o quarto para dormir; verdade \u00e9 que n\u00e3o fazia o gasto da<br \/>\ncomida, mas em compensa\u00e7\u00e3o estava sempre a encomendar ceiatas e jantares que<br \/>\ndeixavam bem bom lucro. A Ter por conseguinte, de sair algu\u00e9m, antes fosse<br \/>\no tal rabequista, o tal Paula Mendes, que, sobre possuir uma mulher insuport\u00e1vel,<br \/>\nachava-se j\u00e1 atrasado nas suas contas, e os donos da casa n\u00e3o viam muito certo<br \/>\no recebimento. Catarina, assim que soube de semelhantes considera\u00e7\u00f5es, desceu<br \/>\nem tr\u00eas pulos ao primeiro andar e, atravessando-se defronte do Coqueiro, com<br \/>\nas m\u00e3os nas ilhargas, gritou-lhe, refilando as presas: &#8211; Repita voc\u00ea o que<br \/>\nteve o atrevimento de dizer a meu respeito e a respeito de meu marido! Repita<br \/>\na\u00ed, se for capaz, que lhe mostro j\u00e1 para quanto presto, seu cara de fome!<br \/>\nJo\u00e3o Coqueiro, muito p\u00e1lido e com o l\u00e1bio superior a tremer, exclamou que<br \/>\n&#8220;sua casa n\u00e3o era Praia do Peixe&#8221;; que ele n\u00e3o estava habituado &#8220;\u00e0queles banz\u00e9s&#8221;!<br \/>\nQuem quisesse dar esc\u00e2ndalos que fosse l\u00e1 para o meio da rua, que se fosse<br \/>\nentender com as regateiras! &#8211; Regateiras e regateiros s\u00e3o voc\u00eas, corja de<br \/>\ngatunos! Replicou a outra. Mme. Brizard, que por essa ocasi\u00e3o, ainda no quarto,<br \/>\nenfiava as botinas, acudiu logo, um p\u00e9 cal\u00e7ado e outro n\u00e3o, e, com tal f\u00faria<br \/>\navan\u00e7ou contra a mulher do Paula Mendes, que Am\u00e9lia, o Coqueiro e Nini n\u00e3o<br \/>\na puderam conter<\/p>\n<p>As duas atracaram-se. Os h\u00f3spedes, que estavam em casa, acudiram todos igualmente.<br \/>\nHouve bordoada, gritos, palavr\u00f5es. Nini teve um ataque de nervos. O ilustre<br \/>\nLambertosa teve v\u00e1rios empurr\u00f5es e caiu contra uma cesta de ovos, que o copeiro<br \/>\nacabava de pousar no ch\u00e3o, para socorrer as senhoras E, no meio de toda esta<br \/>\ndesordem, destacava-se a voz sibilante do advogado Tavares. &#8211; Calma, senhores!<br \/>\nCalma! Bradava ele. &#8211; Calma por quem sois! Esquecei-vos de que a \u00fanica arma<br \/>\ndo homem civilizado deve ser a palavra, escrita ou falada, a id\u00e9ia, enfim?!<br \/>\nEsquecei-vos de que cada um de v\u00f3s possui um c\u00e9rebro, onde reside uma part\u00edcula<br \/>\nda sabedoria divina, e que s\u00f3 com esse cabedal podeis cruzar as vossa opini\u00f5es,<br \/>\nsem que seja necess\u00e1rio vos agatanhardes como animais selvagens ferozes?!&#8230;Virg\u00edlio,<br \/>\nmeus senhores, o imortal Virg\u00edlio, o verdadeiro fundador da eloq\u00fc\u00eancia, diz<br \/>\nmuito acertadamente na sua Eneida, Livro IV, com refer\u00eancia \u00e0 desditosa Dido<br \/>\n&#8211; Pendet que iteram narrantis ab ore ! Se podemos, pois, convencer com palavras,<br \/>\npara que havemos de recorrer aos murros?!. E , loco do costumado . entusiasmo,<br \/>\ndava punhadas fren\u00e9ticas na mesa e perguntava em torno com os olhos enviesados<br \/>\ne as cordoveias intumescidas: &#8211; E o que dizia Salom\u00e3o?! E o que dizia Salom\u00e3o,<br \/>\nna sua inquebrant\u00e1vel sabedoria?! Salom\u00e3o, meus senhores&#8230; Mas o orador foi<br \/>\ninterrompido violentamente pelo Coqueiro, que desejava saber se ele podia<br \/>\ndispensar o seu quarto ao guarda -livros e mudar-se para o n.\u00b0 6 do segundo<br \/>\nandar. Haviam combinado essa mudan\u00e7a enquanto o tagarela discursava. &#8211; Salom\u00e3o!<br \/>\nSr. Dr. Coqueiro, Salom\u00e3o foi um prod\u00edgio! &#8211; Pois bem, j\u00e1 sabemos disso, e<br \/>\nagora o que nos conv\u00e9m saber \u00e9 se V. S.a cede ou n\u00e3o cede o seu quarto&#8230;<br \/>\nMas n\u00e3o foi necess\u00e1rio tal assentimento, porque Am\u00e2ncio, depois de um sinal<br \/>\nde L\u00facia, declarou que cederia o seu gabinete por qualquer um dos quartos<br \/>\ndo segundo andar. Coqueiro espantou-se. &#8211; Querer trocar o gabinete por um<br \/>\nquarto do segundo andar!&#8230;Ora, seu Am\u00e2ncio! &#8211; Faz-me conta, respondeu secamente<br \/>\no provinciano. E, chegando-se para o locandeiro, acrescentou-lhe ao ouvido:<br \/>\n&#8211; Logo mais te direi a raz\u00e3o por que&#8230; Ficou resolvido que o guarda -livros<br \/>\npassaria a ocupar o gabinete de Am\u00e2ncio; este iria para o n.\u00b0 6, e o Paula<br \/>\nMendes e mais mulher deixariam de comer \u00e0 mesa de Mme. Brizard, continuando,<br \/>\npor\u00e9m no n.\u00b0 5, at\u00e9 que liquidassem as suas contas.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Na tarde desse mesmo dia, como fizesse bom tempo, as senhoras combinaram<br \/>\nem tomar o caf\u00e9 na ch\u00e1cara. Mme. Brizard, Amelinha, L\u00facia e Nini, mal acabaram<br \/>\nde jantar, desceram ao terra\u00e7o. Coqueiro e Am\u00e2ncio j\u00e1 iriam tamb\u00e9m para o<br \/>\ncavaco. &#8211; Tinham primeiro que dar dois dedos de conversa. Os dois rapazes<br \/>\nmeteram-se no v\u00e3o de uma janela da sala de visitas, e Am\u00e2ncio, com acentua\u00e7\u00f5es<br \/>\nde quem detesta imoralidades, disse ao outro , sem transi\u00e7\u00e3o: &#8211; Coqueiro,<br \/>\nestou aqui h\u00e1 pouco tempo, mas estimo tua fam\u00edlia, como se fosse a minha pr\u00f3pria,<br \/>\ne, por conseguinte, entendo que \u00e9 do meu dever me abrir contigo, sempre que<br \/>\nnesta casa descobrir qualquer coisa que possa Ter conseq\u00fc\u00eancias graves&#8230;<br \/>\n&#8211; Mas que h\u00e1? Perguntou o outro a fit\u00e1-lo, com muito empenho. &#8211; Trata-se de<br \/>\nNini, disse o provinciano em voz soturna. Coqueiro remexeu-se no canto da<br \/>\njanela. &#8211; Sabes, continuou aquele, &#8211; que a pobre menina sofre horrivelmente<br \/>\ndos nervos, e creio at\u00e9 que tem qualquer desarranjo na cabe\u00e7a&#8230; &#8211; Sim, por<br \/>\nqu\u00ea? &#8211; \u00cb uma enferma, que, e n\u00e3o tivermos muito cuidado com ela, pode<br \/>\nvir a dar s\u00e9rios desgostos a ti e tua fam\u00edlia&#8230; Mas, desembucha, o que \u00e9<br \/>\nque houve?&#8230; &#8211; \u00cb que ela, naturalmente em conseq\u00fc\u00eancia da mol\u00e9stia,<br \/>\ncoitada, \u00e0s vezes faz certas coisas que&#8230;para mim ou qualquer outro rapaz<br \/>\nde bons princ\u00edpios n\u00e3o valem nada, mas que, se ca\u00edrem nas m\u00e3os de um desalmado&#8230;sim!<br \/>\nTu sabes que h\u00e1s homens para tudo neste mundo!&#8230; E, Am\u00e2ncio, inflamado pelos<br \/>\nprinc\u00edpios morais que ele s\u00f3 cultivava teoricamente, parecia mais que ningu\u00e9m<br \/>\npreocupado com a pureza dos costumes.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, afinal, que fez ela? Perguntou o Coqueiro, impacientando-se. &#8211; Ora,<br \/>\ndisse o colega , desgostosamente, &#8211; tem feito o diabo&#8230;Ainda ontem, quando<br \/>\nme levantei da mesa , segui-me at\u00e9 \u00e0 sala e&#8230; &#8211; E&#8230; &#8211; Principiou a fazer<br \/>\ntolices. A pobrezinha estava como n\u00e3o calculas!&#8230;Tive que recorrer \u00e0 viol\u00eancia<br \/>\npara cont\u00ea-la; o resultado foi aquele ataque!&#8230; E, vendo o ar de espanto<br \/>\nque fazia o Coqueiro:: &#8211; Digo-te isto, porque me parece que tenho obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde to dizer se, por\u00e9m fa\u00e7o mal, desculpa!&#8230; &#8211; Mal? Ao contr\u00e1rio! Decerto<br \/>\nque ao contr\u00e1rio! Fico-te muito grato! E abra\u00e7ando-o: &#8211; Acabas de provar que<br \/>\n\u00e9s um homem de bem! A tua a\u00e7\u00e3o \u00e9 de um verdadeiro amigo: n\u00e3o imaginas o quanto<br \/>\neu a aprecio. &#8211; Cumpri com o meu dever&#8230;observou o provinciano modestamente.<br \/>\n&#8211; Obrigado! Muito obrigado! Fico prevenido. De hoje em diante n\u00e3o acontecer\u00e1<br \/>\noutra! &#8211; E agora, compreendes por que n\u00e3o me convinha ficar embaixo, no gabinete?&#8230;concluiu<br \/>\nAm\u00e2ncio. &#8211; Oh!&#8230;Isso , por\u00e9m, n\u00e3o era motivo para que deixasses o teu gabinetezinho&#8230;<br \/>\nEu daria as provid\u00eancias necess\u00e1rias!&#8230; &#8211; N\u00e3o, filho, nesta quest\u00f5es de fam\u00edlia<br \/>\nsou muito rigoroso. E agora, o que est\u00e1 feito, est\u00e1 feito! Vou para o segundo<br \/>\nandar; \u00e9 at\u00e9 mais fresco!&#8230; E, depois de algumas ligeiras considera\u00e7\u00f5es sobre<br \/>\no mesmo assunto, os dois rapazes trocaram comovidos um en\u00e9rgico aperto de<br \/>\nm\u00e3o e desceram juntos \u00e0 ch\u00e1cara, onde, debaixo das latadas de maracuj\u00e1, os<br \/>\nesperavam as senhoras, palestrando em familiar camaradagem.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Dias depois, quando Am\u00e2ncio j\u00e1 estava transferido para o n.\u00b0 6 do segundo<br \/>\nandar, chegaram-lhe \u00e0s m\u00e3os duas cartas; uma de sua m\u00e3e, outra de seu pai.<br \/>\nEra a primeira vez que o velho Vasconcelos se dirigia ao filho em carta especial.<br \/>\nAbriu logo a de \u00c2ngela, sofregamente, e a imagem da santa, que as \u00faltimas<br \/>\nagita\u00e7\u00f5es da vida do rapaz haviam nublado por instantes, como nuvens que escondem<br \/>\numa estrela guiadora, mal come\u00e7ou a leitura, ressurgiu inteira e l\u00facida \u00e0<br \/>\nmem\u00f3ria dele. A boa m\u00e3e queixava-se de que o filho, ultimamente, j\u00e1 lhe n\u00e3o<br \/>\nescrevia com a mesma assiduidade e com a mesma expans\u00e3o: &#8220;Que significava<br \/>\nsemelhante mudan\u00e7a? Donde vinha aquela reserva? Por que aqueles bilhetes t\u00e3o<br \/>\napressados, quase telegr\u00e1ficos?&#8230;&#8221;perguntava ela com a sua letra redonda<br \/>\ne um pouco tr\u00eamula. &#8220;Por que n\u00e3o me escreves mais ami\u00fade e mais extensamente?&#8221;<br \/>\ninsistia a carta, &#8220;por que, meu querido filho, n\u00e3o me contas toda a tua vida;<br \/>\nn\u00e3o me dizes como passas, e em que te ocupas? Desejo saber se o Campos continua<br \/>\na ser teu amigo, se na casa dele continuas tratado como dantes. Quero que<br \/>\nme relates tudo, que te diga respeito, meu Am\u00e2ncio. Se soubesses a falta que<br \/>\ntu me fazes, os cuidados que me d\u00e1 a tua aus\u00eancia, com certeza serias melhor<br \/>\npara tua m\u00e3e.&#8221; E, sempre a mesma, sempre extremosa, sempre com o filho na<br \/>\nid\u00e9ia, enviava-lhe conselhos, recomendava-lhe certas precau\u00e7\u00f5ezinhas; as medidas<br \/>\nque devia tomar contra tais e tais perigos; o modo pelo qual devia proceder<br \/>\nem tais e tais perigos; o modo pelo qual devia proceder em tais e tais situa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAm\u00e2ncio releu v\u00e1rias vezes o que lhe dizia \u00c2ngela, e respirou largamente,<br \/>\ncomo quem sai de um quarto apertado para um grande ar livre. Mas, se a carta<br \/>\nmaterna o impressionou, a outra o surpreendeu, porque, de t\u00e3o af\u00e1vel e condescendente,<br \/>\nn\u00e3o parecia derivar daquele terr\u00edvel Vasconcelos, que at\u00e9 em sonhos o aterrava,<br \/>\ne sim das m\u00e3os amigas de um velho camarada dos bons tempos da inf\u00e2ncia. Estranhou-o<br \/>\nlogo, desde as primeiras palavras. &#8220;Meu filho&#8221;. At\u00e9 ent\u00e3o, nunca recebera<br \/>\nde seu pai esse carinhoso tratamento. O Vasconcelos nem ao menos o tratara<br \/>\npor tu; nunca lhe dera a beijar a m\u00e3o ou a face, nunca lhe abrira, enfim o<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o, quando este se achava ainda brando e male\u00e1vel, para depor a\u00ed as sementes<br \/>\nde ternura, que desabrochariam mais tarde produzindo os bons sedimentos do<br \/>\nhomem.. Como exigir de Am\u00e2ncio que tivesse agora as virtudes que, em esta\u00e7\u00e3o<br \/>\nprop\u00edcia, lhe n\u00e3o plantaram na alma? Como exigir-lhe dedica\u00e7\u00e3o, hero\u00edsmo,<br \/>\ncoragem, energia, entusiasmo e honra, se de nenhuma dessas coisas lhe inocularam<br \/>\nem tempo o germe necess\u00e1rio?<\/p>\n<p>Ele, coitado, havia fatalmente de ser mau, covarde, e trai\u00e7oeiro. Na ramifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nde seu car\u00e1ter a sensualidade era o galho \u00fanico desenvolvido e enfolhado,<br \/>\nporque de todos s\u00f3 esse podia crescer e medrar sem aux\u00edlios exteriores. Vasconcelos,<br \/>\npor conseguinte, chegou tarde; encontrou j\u00e1 enrijado e duro o cora\u00e7\u00e3o do filho.<br \/>\nE, no entanto, toda a sus carta, fazia o que, por in\u00e9pcia nunca fizera de<br \/>\nperto, &#8211; dirigia-se amorosamente ao rapaz. Contava-lhe novidades da prov\u00edncia,<br \/>\ncomentava certos fatos escandalosos, falava sem reservas de umas tantas coisas,<br \/>\ndas quais at\u00e9 a\u00ed nunca se permitira tratar na presen\u00e7a de Am\u00e2ncio. O t\u00f3pico<br \/>\nseguinte levou o provinciano ao c\u00famulo da admira\u00e7\u00e3o: &#8220;N\u00e3o digo que te fa\u00e7as<br \/>\num santo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o te afogues no torvelinho dos prazeres. Goza, meu<br \/>\nfilho, por isso que \u00e9s mo\u00e7o, goza, por\u00e9m, com prud\u00eancia e com ju\u00edzo; diverte-te,<br \/>\nmas evitando sempre tudo aquilo que te possa prejudicar. Lembra-te de que<br \/>\nsa\u00fade s\u00f3 tens uma, e mol\u00e9stias h\u00e1 muitas. O mundo n\u00e3o se acaba! Adeus. Nunca<br \/>\ndeixes de me escrever e, quando te vires a\u00ed em qualquer apuro, fala-me com<br \/>\nfranqueza.&#8221; Tudo isso vinha tarde. Muita coisa, \u00e0 semelhan\u00e7a do leite materno,<br \/>\ns\u00f3 nos aproveitam at\u00e9 certa \u00e9poca. Depois, em vez de fazerem bem, fazem mal.<br \/>\nAs palavras de Vasconcelos que, aplicadas no tempo competente, dariam \u00f3timos<br \/>\nresultados em benef\u00edcio do filho, eram agora para este um simples pretexto<br \/>\nde galhofa. Am\u00e2ncio sorriu da aparente transforma\u00e7\u00e3o de seu pai. &#8211; Ora para<br \/>\nque havia de dar o velho!&#8230; N\u00e3o obstante, um vago sentimento, ao mesmo tempo<br \/>\namargo e agrad\u00e1vel, apoderou-se dele. Desfrutava um certo gosto em merecer<br \/>\naquela intimidade paterna; mas, por outro lado, do\u00eda-lhe a consci\u00eancia por<br \/>\nn\u00e3o Ter sido melhor filho; como se o pobre rapaz de qualquer forma contribu\u00edra<br \/>\npara semelhante falta. E, ent\u00e3o, acudiu-lhe \u00e0 mem\u00f3ria uma circunst\u00e2ncia de<br \/>\nque jamais se havia lembrado, &#8211; a despedida do pai. Vasconcelos estava bastante<br \/>\ncomovido nesse momento e abra\u00e7ava-o chorando. Am\u00e2ncio nunca lhe tinha visto<br \/>\no rosto com aquela simp\u00e1tica express\u00e3o de sofrimento; mas, bem pouco se impressionou<br \/>\nna ocasi\u00e3o; os olhos conservavam-se-lhe enxutos e o cora\u00e7\u00e3o quase alegre com<br \/>\na id\u00e9ia da liberdade que ia principiar S\u00f3 agora, depois da carta, depois que<br \/>\nsoube que era amado pelo velho, uma grande tristeza invadiu-o todo, e as l\u00e1grimas<br \/>\nrebentaram-lhe com explos\u00e3o. Assim sucede sempre aos filhos educados \u00e0 portuguesa,<br \/>\ncujos pais como que sentem vexame de lhes patentear o seu amor. Pobres pais!<br \/>\nQuantas vezes n\u00e3o estar\u00e3o morrendo por afagar o filho e, todavia, em vez de<br \/>\nlhe darem um sorriso carinhoso, um beijo, uma palavra de do\u00e7ura, fingem-se<br \/>\nindiferentes e afastam-se para que o pequeno n\u00e3o lhes perceba a como\u00e7\u00e3o. N\u00e9scios!<br \/>\nJulgam que com isso estabelecem uma corrente de respeito entre eles e os filhos;<br \/>\njulgam que isso \u00e9 indispens\u00e1vel para o bom \u00eaxito da educa\u00e7\u00e3o; quando toda<br \/>\nessa anomalia s\u00f3 pode servir para lhes roubar a confian\u00e7a e a estima dos entes<br \/>\npredestinados a dedicar-lhes todas as prim\u00edcias de sua ternura. Os pais dessa<br \/>\nesp\u00e9cie levam a tal exagero a sua convencional rispidez, que, se acham gra\u00e7a<br \/>\nem alguma coisa feita pelo filho, sufocam o riso, medrosos de que qualquer<br \/>\nexpans\u00e3o acarrete uma quebra ao respeito filial. Foi tudo isso, ao justo,<br \/>\nque se deu com Vasconcelos a respeito de Am\u00e2ncio. Amou-o, mas com disfarce;<br \/>\nfingiu-se diretor inflex\u00edvel, quando era simplesmente um pai como qualquer<br \/>\noutro. Muita vez chorou de ternura, mas sempre \u00e0s escondidas; muita vez sentiu<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o saltar para o filho, mas sempre se conteve, receoso de cair no rid\u00edculo.<br \/>\nE n\u00e3o se lembrava, o imprudente, de que o amor de pai \u00e9 bem contr\u00e1rio ao amor<br \/>\nde filho; n\u00e3o se lembrava de que aquele nasce e subsiste por si e que este<br \/>\nprecisa ser criado; que aquele \u00e9 um princ\u00edpio e que este \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia;<br \/>\nque um vem de dentro para fora e que o outro vem de fora para dentro. N\u00e3o<br \/>\nse lembrava, o infeliz, de que o primeiro existir\u00e1 fatalmente, por uma lei<br \/>\nindefect\u00edvel da natureza; ao passo que o segundo s\u00f3 aparecer\u00e1 se lhe derem<br \/>\nelementos da vida. Foi desses elementos que Am\u00e2ncio nunca disp\u00f4s para poder<br \/>\namar o pai<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que , depois da leitura da carta, o estudante sentiu, pela primeira<br \/>\nvez, algum desejo de dar not\u00edcias suas a Vasconcelos; at\u00e9 a\u00ed s\u00f3 o fazia por<br \/>\nhonra da firma. Campos, que lhe apareceu em seguida, veio transformar esse<br \/>\ndesejo em vontade, falando-lhe da correspond\u00eancia extraordin\u00e1ria que, pelo<br \/>\nmesmo paquete, recebera do Maranh\u00e3o. O velho Vasconcelos tamb\u00e9m<\/p>\n<p>lhe havia escrito, e, com tanto interesse lhe falara de Am\u00e2ncio, t\u00e3o inconsol\u00e1vel<br \/>\nse mostrara e t\u00e3o saudoso pelo filho, e com tal insist\u00eancia pedira ao negociante<br \/>\npara olhar pelo rapaz, que o bom homem n\u00e3o hesitou em correr logo \u00e0 casa de<br \/>\npens\u00e3o de Mme. Brizard. O estudante carregou com ele para o quarto. &#8211; A\u00ed conversariam<br \/>\nmais \u00e0 vontade. &#8211; Pois, meu nobre amigo, disse o marido de Hort\u00eansia, assentando-se<br \/>\ndefronte de Am\u00e2ncio , e batendo-lhe uma palmada na coxa, &#8211; seu pai n\u00e3o se<br \/>\ncansa de falar a seu respeito. S\u00e3o as saudades, coitado! E tirando uma carta<br \/>\ndo bolso para entregar ao outro: &#8211; Leia, leia e veja como est\u00e1 triste o pobre<br \/>\nvelho! Ah! meu amigo, acredite que &#8211; possuir um pai \u00e9 a maior fortuna que<br \/>\nse pode ambicionar neste mundo! Am\u00e2ncio, entre outras coisas, leu o seguinte:<br \/>\n&#8220;N\u00e3o imagina o Sr. Campos os cuidados em que eu e a minha boa \u00c2ngela nos temos<br \/>\nvisto por c\u00e1 com a aus\u00eancia do rapaz. Nunca pensei que nos fizesse tanta falta.<br \/>\nEla, coitada, leva a chorar desde que amanhece, e \u00e0 noite \u00e9 aquela certeza<br \/>\ndos sonhos ruins a mais n\u00e3o ser! Acho-a muito magra e abatida de tempos a<br \/>\nesta parte. Ent\u00e3o quando n\u00e3o recebe cartas do filho, o que j\u00e1 se observa h\u00e1<br \/>\ntr\u00eas vapores consecutivos, fica prostrada de tal modo que se n\u00e3o pode levantar<br \/>\nda cama. &#8220;Veja, por conseguinte, se alcan\u00e7a que o nosso estudante nunca nos<br \/>\ndeixe de escrever; duas palavras que sejam , dizendo como est\u00e1 de sa\u00fade e<br \/>\nque vai bem nos seus estudos. Isso, que a ele n\u00e3o custar\u00e1 muito, poupa todavia<br \/>\nc\u00e1 por casa muitas horas de sofrimento e de desgosto. &#8220;At\u00e9 j\u00e1 me lembrou providenciar<br \/>\nno sentido de faz\u00ea-lo vir no fim do ano passar as f\u00e9rias conosco, n\u00e3o sei,<br \/>\npor\u00e9m, se tal coisa ser\u00e1 conveniente ainda t\u00e3o no princ\u00edpio da carreira. O<br \/>\namigo dispensar-me-\u00e1 o obs\u00e9quio de escrever a esse respeito.<\/p>\n<p>&#8220;Em todo o caso, a id\u00e9ia de que o senhor est\u00e1 a\u00ed, perto dele, e que , pelo<br \/>\nque tem mostrado, \u00e9 deveras nosso amigo, tranq\u00fciliza-nos em grande parte.<br \/>\nConto, pois , que olhar\u00e1 sempre por Am\u00e2ncio. Tenha paci\u00eancia, sei que o importuno<br \/>\ncom estas coisas , mas que hei de fazer? Dizem tanto dessa Corte; falam de<br \/>\ntal forma do clima e dos mil perigos a que a\u00ed esta sujeita a mocidade, que,<br \/>\ns\u00f3 a lembran\u00e7a de uma t\u00edsica galopante ou de um desses desvios, uma dessas<br \/>\nloucuras que \u00e0s vezes acometem aos rapazes e inutiliza-os para o resto da<br \/>\nvida; uma dessas desgra\u00e7as, Sr. Campos, que lhes sucedem facilmente, quando<br \/>\neles n\u00e3o disp\u00f5em de um bom amigo que os encaminhe e aconselhe; s\u00f3 a lembran\u00e7a<br \/>\nde tudo isso, meu caro senhor, \u00e9 o bastante para me tirar o sossego do esp\u00edrito.<br \/>\n&#8220;Tenha a bondade, sempre que falar ao meu rapaz, de lembrar-lhe as obriga\u00e7\u00f5es<br \/>\ne dizer-lhe com franqueza a responsabilidade que agora lhe assiste. Ele est\u00e1<br \/>\nse fazendo homem e precisa prepara futuro. Sirva-lhe de pai; acompanhe-o e<br \/>\nproteja-o com o mesmo desvelo de que usou meu irm\u00e3o para guiar a sua mocidade.&#8221;<br \/>\n&#8211; V\u00ea, disse o Campos, abalado com as palavras do irm\u00e3o de seu protetor.- S\u00e3o<br \/>\nestes os desejos de seu pai; ao senhor compete agora, como bom filho, fazer-lhe<br \/>\no gosto, e dar-lhe a felicidade de que ele precisa para o resto da vida. O<br \/>\nque estiver em minhas for\u00e7as est\u00e1 \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o mas o senhor tamb\u00e9m deve<br \/>\nfazer por si, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o crian\u00e7a para n\u00e3o ver o que lhe fica bem e o que<br \/>\nlhe fica mal! Enfim, tenho toda a confian\u00e7a no senhor, seu Am\u00e2ncio, e estou<br \/>\nconvencido de que n\u00e3o me desmentir\u00e1! Am\u00e2ncio, que at\u00e9 a\u00ed ouvia o Campos em<br \/>\nsil\u00eancio e com os olhos presos a um ponto, agradeceu-lhe muito aquele interesse<br \/>\ne jurou que todo o seu empenho era corresponder \u00e0 expectativa de seus pais<br \/>\ne ser agrad\u00e1vel o mais poss\u00edvel aos verdadeiros amigos de sua fam\u00edlia. E a<br \/>\nconversa, tomando novas dire\u00e7\u00f5es, ,descaiu em assuntos menos circunspectos.<br \/>\nVeio ent\u00e3o \u00e0 bulha o baile do Melo, e Campos se queixou de que Am\u00e2ncio, depois<br \/>\ndisso, nunca mais lhe aparecera em casa. &#8211; J\u00e1 tinha a inten\u00e7\u00e3o de l\u00e1 ir domingo.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, contradisse o negociante.- V\u00e1 antes s\u00e1bado, amanh\u00e3, que \u00e9 anivers\u00e1rio<br \/>\nde meu casamento. N\u00e3o h\u00e1 festa, mas re\u00fanem-se alguns camaradas e toca-se um<br \/>\nbocado de piano. Adeus. N\u00e3o deixe de ir. Olhe, se quiser pode levar seus amigos.<br \/>\nAdeusinho. Am\u00e2ncio acompanhou-o at\u00e9 a porta da rua e voltou ao quarto. Estava<br \/>\npreocupado; n\u00e3o mais com as cartas da fam\u00edlia, mas com a deliciosa inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nde reatar no dia seguinte o namoro de Hort\u00eansia. S\u00f3 uma pequena circunst\u00e2ncia<br \/>\nlhe mareava o antegozo desses sonhados momento s de ventura: era a id\u00e9ia dos<br \/>\nseus compromissos como estudante; sentia-os agravados perante a confian\u00e7a<br \/>\nque lhe depositavam, e agora, mais que nunca, a consci\u00eancia do seu relaxamento,<br \/>\na lembran\u00e7a da haver faltado \u00e0s aulas tantas vezes e de n\u00e3o Ter aberto livro<br \/>\ndurante a \u00faltima semana, agonizavam-no desabridamente. &#8211; Oh! Os estudos! Os<br \/>\nestudos eram o ponto negro de sua vida, o seu desgosto, o terr\u00edvel espectro<br \/>\nde todos os seus sonhos! As regalias que da\u00ed viessem mais tarde, fossem elas<br \/>\nquais fossem, nunca poderiam compensar aquela profunda tristeza, aquele aborrecimento<br \/>\ninvenc\u00edvel, que o devoravam.<\/p>\n<p>Semelhante preocupa\u00e7\u00e3o tirava-lhe o gosto para tudo, azedava-lhe todos os<br \/>\nmelhores instantes de sua vida. Cada minuto, que se escoava na ociosidade,<br \/>\nera mais uma gota de remorso ca\u00edda no sombrio p\u00e9lago de seu t\u00e9dio. E, contudo,<br \/>\nos minutos, os dias e as semanas iam escapando, sem que Am\u00e2ncio lograsse vencer<br \/>\na sua antipatia pelo trabalho. Olhava com repugn\u00e2ncia para os melanc\u00f3licos<br \/>\ncomp\u00eandios da faculdade, e, quando teimavam muito em os conservar abertos<br \/>\ndefronte dos olhos, quase sempre adormecia. Um verdadeiro tormento!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio obteve de Jo\u00e3o Coqueiro que o acompanhasse \u00e0 soir\u00e9e do Campos. Foi<br \/>\numa noite cheia para ambos; se bem que Hort\u00eansia ,de t\u00e3o preocupada com os<br \/>\narranjos da casa, muito pouco se dera \u00e0s visitas. Carlotinha, sim, mostrava-se<br \/>\nalegre e comunicativa que nem parecia a mesma. Chegou-se muito para Am\u00e2ncio,<br \/>\nmeteu-se com ele de palestra,, a fazer pilh\u00e9ria, a criticar das outras senhoras,<br \/>\ncom visagens disfar\u00e7adas e pequeninos risos estalados por detr\u00e1s do leque.<br \/>\nO estudante ficou pasmo, quando descobriu que toda essa intimidade procedia<br \/>\ndo namoro dele com Hort\u00eansia. \u00c0 primeira indireta da rapariga, o rapaz corou<br \/>\ne respondeu titubeando. Carlotinha, por\u00e9m, o tranq\u00fcilizou, dando a entender<br \/>\nque era discreta e interessada nos segredos da irm\u00e3. E, j\u00e1 sem ind\u00edcios de<br \/>\ngracejo, aconselhou-o a que freq\u00fcentasse a casa com mais assiduidade; um Domingo<br \/>\nsim, outro n\u00e3o, para jantar. Seria muito bem recebido, algu\u00e9m fazia quest\u00e3o<br \/>\ndessas visitas&#8230; Am\u00e2ncio, no seu papel de inocente, quis saber quem era esse<br \/>\nalgu\u00e9m , mas a rapariga negou os esclarecimentos e pediu-lhe em segredo que<br \/>\nse calasse, piscando o olho para o lado esquerdo, onde acabava de se assentar<br \/>\num sujeito gordo, de barba toda raspada. &#8211; \u00c9 o Costa ! Nada lhe escapa!&#8230;<br \/>\nsoprou ao estudante por debaixo do leque. E depois em voz alta, disfar\u00e7ando:<br \/>\n&#8211; Pois o baile do Melo esteve muito bom!&#8230; &#8211; _Muito&#8230;confirmou Am\u00e2ncio.<br \/>\n&#8211; H\u00e1 longo tempo n\u00e3o me divirto assim!&#8230;Mas, para a senhora creio que ainda<br \/>\nseria melhor, as l\u00e1 estivesse certa pessoa!&#8230; &#8211; Quem? O guarda-livros?&#8230;Ora!&#8230;<br \/>\nE, com ar desdenhoso, declarou que h\u00e1 quinze dias ficara tudo acabado. &#8211; Seriamente?<br \/>\nperguntou o estudante. &#8211; S\u00e9rio! E n\u00e3o me sinto com isso, at\u00e9 estimo! No fim<br \/>\nde contas aquilo \u00e9 um tipo imposs\u00edvel; t\u00e3o depressa est\u00e1 para o norte como<br \/>\npara o sul! &#8211; Mas a senhora parecia gostar dele tanto&#8230; &#8211; Pensei que fosse<br \/>\noutra coisa&#8230;respondeu Carlotinha, franzindo os l\u00e1bios. &#8211; Quando, por\u00e9m descobri<br \/>\no que ali estava, dei tudo por acabado! Foi muito bom; antes assim do que<br \/>\ndepois do casamento!&#8230; E, para mostrar a sinceridade daquela indiferen\u00e7a,<br \/>\nria com exagero e dava a sua palavra de honra em como n\u00e3o tinha paix\u00e3o por<br \/>\nhomem nenhum deste mundo. Havia de casar sim, porque isso era necess\u00e1rio,<br \/>\nmas n\u00e3o que preferisse este ou aquele. Todos eles eram a mesma coisas _uns<br \/>\ntipos! Am\u00e2ncio defendia o seu sexo, experimentando j\u00e1 pela rapariga uma nascente<br \/>\nrepugn\u00e2ncia instintiva. Quando, \u00e0s tr\u00eas horas da madrugada, os dois estudantes<br \/>\nse despediram, Campos, entre muitos oferecimentos, pediu ao &#8220;Sr. Dr. Jo\u00e3o<br \/>\nCoqueiro&#8221; que voltasse qualquer dia, mas com a fam\u00edlia. Ele tinha nisso muito<br \/>\nbom gosto. Coqueiro prometeu fazer-lhe a vontade e retirou-se com o amigo.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Quase nada conversaram pelo caminho. Am\u00e2ncio parecia aflito por se meter<br \/>\nna cama; uma vez, por\u00e9m , recolhido ao seu novo quartinho do segundo andar,<br \/>\nn\u00e3o sentia as menor disposi\u00e7\u00e3o para dormir. A circunst\u00e2ncia de saber que L\u00facia<br \/>\nestava ali t\u00e3o perto, a quatro ou cinco passos, mas inteiramente fora do seu<br \/>\nalcance, o indispunha como se fosse uma pirra\u00e7a levantada com o fim \u00fanico<br \/>\nde o afligir. N\u00e3o resistiu ao desejo de ir, como da outra vez, espreitar pela<br \/>\nfechadura do quarto em que ela morava, e encaminhou-se sorrateiramente para<br \/>\no n.\u00b0 8. Nesta tentativa, por\u00e9m, foi ainda mais infeliz do que da primeira,<br \/>\nporque a janela do corredor ficara aberta, e Am\u00e2ncio principiou a espirrar<br \/>\n, constipado.<\/p>\n<p>O doente do n.\u00b0 7 tossicava, de vez em quando. Am\u00e2ncio voltou ao quarto,<br \/>\nmuito aborrecido. Abriu um livro, mas repeliu-o logo, com t\u00e9dio. Lembrou-se<br \/>\nde fazer caf\u00e9. (Na v\u00e9spera comprara uma maquinazinha e os apetrechos necess\u00e1rios<br \/>\npara isso.)- O melhor, por\u00e9m, seria melhor tomar o caf\u00e9 depois de um banho<br \/>\nDeu lume \u00e0 m\u00e1quina e desceu ao primeiro andar, j\u00e1 despido e rebu\u00e7ado no len\u00e7ol.<br \/>\nQueria passar pelo quarto da mucama, que ele agora sabia ao certo onde era;<br \/>\nmas, na ocasi\u00e3o em que entrara na sala de jantar, deteve-se cautelosamente<br \/>\ncom a presen\u00e7a de um vulto que acabava de aparecer do lado oposto. A custo<br \/>\nreconheceu Coqueiro; do lugar onde se achava podia observar sem ser visto.<br \/>\nO dono da casa atravessou a p\u00e9 a varanda e, encaminhando-se para o fundo do<br \/>\ncorredor, sumiu-se no tal s\u00edtio, por onde justamente queria passar o outro.<br \/>\n&#8211; Ser\u00e1 poss\u00edvel?&#8230;considerou Am\u00e2ncio, que se adiantara precatamente para<br \/>\ncertificar-se do que vira. &#8211; Que grande velhaco! E era aquele tipo que, &#8220;por<br \/>\nmoralidade n\u00e3o admitia em casa certas visitas!&#8230;&#8221; &#8211; Ah!, meu pulha! Pensou<br \/>\no estudante. &#8211; Como podia agora tomar a s\u00e9rio a casa de Mme. Brizard?&#8230;Que<br \/>\nju\u00edzo devia fazer de toda aquela gente? E Amelinha ? o que vinha a ser aquela<br \/>\nAmelinha?&#8230; Dois espirros cortaram-lhe a teia dos racioc\u00ednios, e em seguida<br \/>\num calafrio muito penetrante lhe percorreu o lombo. Sentiu-se indisposto;<br \/>\nn\u00e3o obstante, desceu ao banheiro. &#8211; Aquilo desapareceria com um pouco d&#8217;\u00e1gua<br \/>\npela cabe\u00e7a. Mas, quando voltou ao quarto, j\u00e1 lhe do\u00eda o corpo e tinha as<br \/>\npernas entorpecidas levemente. Tomou uma ch\u00e1vena de caf\u00e9, bebeu um gole de<br \/>\nconhaque, e meteu-se na cama, tiritando. N\u00e3o se p\u00f4de erguer no dia seguinte.<br \/>\nCoqueiro apresentou-se-lhe no quarto, logo pela manh\u00e3, muito sobressaltado<br \/>\ncom os inc\u00f4modos do querido h\u00f3spede. Estava mais inquieto do que se tratasse<br \/>\nde salvar a vida de um parente insubstitu\u00edvel. Perguntou se Am\u00e2ncio queria<br \/>\nm\u00e9dico; se precisava de alguma coisa. &#8211; Que diabo! Dispusesse com franqueza.<br \/>\nEle estava ali \u00e0s suas ordens!&#8230; O doente apenas desejava que o amigo desse<br \/>\num pulo \u00e0 ag\u00eancia dos vapores e trouxesse o constante de um conhecimento ,<br \/>\nque lhe pediu para procurar nas algibeiras do fraque. Coqueiro obedeceu prontamente.<br \/>\nEra um pacote de doces que lhe enviava a m\u00e3e. Havia frasco de bacuris em calda.<br \/>\nMuricis, cajus cristalizados e buritis em massa para refresco. Am\u00e2ncio , logo<br \/>\nque o colega voltou com o presente, fez acondicionar tudo sobre a mesa, defronte<br \/>\nde sua cama. Nesse instante, Mme. Brizard e Amelinha invadiam-lhe o quarto,<br \/>\n\u00e1vidas de informa\u00e7\u00f5es. &#8211; Que tinha o Sr. Vasconcelos? &#8211; Que sentia? Como lhe<br \/>\naparecera febre? E a francesa, depois de consultar o pulso ao rapaz, afian\u00e7ou<br \/>\nque aquilo n\u00e3o valia nada. Ele que tomasse um suadouro, que se deixasse ficar<br \/>\nna cama e havia dever que no dia seguinte estava pronto. Lambertosa, chegando<br \/>\nlogo em seguida, pediu ao doente que aceitasse uma dose de ac\u00f4nito e deixasse<br \/>\no resto por sua conta. Mas a febre recrudesceu depois do almo\u00e7o. Am\u00e2ncio queixava-se<br \/>\nde dores na cabe\u00e7a, na espinha e nos quadris. &#8211; Tudo isto \u00e9 ar! Afirmou o<br \/>\ngentleman autoritariamente. &#8211; Ac\u00f4nito! D\u00ea-lhe com o ac\u00f4nito! Foi Amelinha<br \/>\na encarregada de ministrar ao doente, de hora em hora , uma colher do rem\u00e9dio.<br \/>\nMme. Brizard falou muito da inconst\u00e2ncia do clima do Rio de Janeiro, das precau\u00e7\u00f5es<br \/>\nque se deviam tomar contra as umidades; do risco que havia em comer certas<br \/>\nfrutas e, afinal, retirou-se, tendo apalpado ainda uma vez o pulso e a testa<br \/>\ndo h\u00f3spede. Amelinha revelava-se extremamente sol\u00edcita. Andava no bico dos<br \/>\np\u00e9s, a borboletear pelo quarto, arrumando os livros sobre a mesa, apanhando<br \/>\na roupa espalhada pelo ch\u00e3o, acudindo a qualquer movimento do estudante, que<br \/>\ndormia entanguecido de baixo dos len\u00e7\u00f3is. Ele, coitado, parecia cada vez pior.<br \/>\nArdiam-lhe os olhos desabridamente; o h\u00e1lito queimava; n\u00e3o podia suportar<br \/>\no cheiro do fumo e queixava-se de muita sede e comich\u00e3o pelo corpo. Amelinha,<br \/>\nsempre irrequieta e passarinheira, preparava-lhe copos d&#8217;\u00e1gua com a\u00e7\u00facar.<br \/>\nAgachava-se \u00e0 borda da cama, mexia e remexia com a colher o sacar\u00edfero calmante<br \/>\ne, depois de o provar com a pontinha da l\u00edngua, passava-o \u00e0s m\u00e3os de Am\u00e2ncio.<br \/>\nEste, por\u00e9m, mal bebia, voltava-se de novo para a parede, gemendo de olhos<br \/>\nfechados. Pelas duas horas da tarde, L\u00facia pediu licen\u00e7a para lhe fazer uma<br \/>\nvisita. Entrou cheia de cerim\u00f4nia, e assentou-se gravemente em uma cadeira,<br \/>\n\u00e0 cabeceira do leito.<\/p>\n<p>O doente voltou-se logo e agradeceu aquela fineza com um olhar muito triste<br \/>\ne injetado de sangue. Ela mostrava-se interessada; pedia informa\u00e7\u00f5es a respeito<br \/>\nda mol\u00e9stia. Am\u00e2ncio respostava com dificuldade. Parecia moribundo. Mas, quando<br \/>\nAm\u00e9lia saiu e desceu ao primeiro andar, ele tomou rapidamente as m\u00e3os da outra<br \/>\ne cobriu-as de beijos que a febre tornava mais ardentes e mais queimosos.<br \/>\n&#8211; Eu te amo! Eu te amo! dizia ele. &#8211; Bem, mas fique quieto! Isso lhe pode<br \/>\nfazer mal! Retrucava a suposta mulher do Pereira. &#8211; Nada de tolices! Deite-se!<br \/>\nDeite-se! Am\u00e2ncio libertou os bra\u00e7os do cobertor, apoderou-se da cabe\u00e7a de<br \/>\nL\u00facia , e come\u00e7ou a beijar-lhe os olhos, a boca e os cabelos, numa sofreguid\u00e3o<br \/>\nirracional. As lunetas da &#8220;ilustrada senhora&#8221; haviam ca\u00eddo, e ela encarava<br \/>\no rapaz , sem dizer palavra, a lhe cravar os seus grandes olhos de m\u00edope,<br \/>\nalterados pelo abuso do vidro de gradua\u00e7\u00e3o. Tiveram de disfar\u00e7ar, porque algu\u00e9m<br \/>\nse aproximava. O enfermo voltou logo aos len\u00e7\u00f3is e p\u00f4s-se novamente a gemer.<br \/>\nEra o Coqueiro quem vinha. Desde a entrada mostrou-se contrariado com a presen\u00e7a<br \/>\nde L\u00facia. Transpareciam-lhe no rosto os sintomas da desconfian\u00e7a. Dir-se-ia<br \/>\num ciumento a penetrar de chofre nas rec\u00e2maras da amante. &#8211; Aquela mulher<br \/>\nn\u00e3o podia estar ali com boas inten\u00e7\u00f5es!&#8230; E foi de mau humor que o Coqueiro<br \/>\nrespondeu a uma pergunta dirigida por ela a respeito da mol\u00e9stia. L\u00facia, tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o deu mais palavra e, logo depois saiu muito enfiada.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>\u00c0 noite apresentou-se o Campos, a quem o Coqueiro , de passagem, prevenira<br \/>\ndos inc\u00f4modos de Am\u00e2ncio; trazia consigo um m\u00e9dico. Este declarou incontinenti<br \/>\nque o rapaz tinha bexigas; mas antes que fizessem espalhafato, afian\u00e7ou que<br \/>\neram benignas. &#8220;Bexigas do\u00eddas, cataporas, como vulgarmente chamavam por a\u00ed.<br \/>\nFicassem tranq\u00fcilos , que o caso n\u00e3o era grave; convinha , por\u00e9m, ter algum<br \/>\ncuidado com o doente: &#8211; evitar a a\u00e7\u00e3o do vento e muita limpeza com a roupa<br \/>\nda cama.&#8221; Receitou e saiu, prometendo voltar no dia seguinte. Campos seguiu-o<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 escada do e tornou ao segundo andar. A mulher do Paula Mendes, que abrira<br \/>\na porta do quarto para escutar o que dizia o m\u00e9dico, rompeu logo a falar dobre<br \/>\no abuso de consentirem ali &#8220;um bexigoso!&#8221; Daquela forma, em breve a casa se<br \/>\ntransformava num hospital! J\u00e1 l\u00e1 tinham um t\u00edsico, que \u00e0 noite n\u00e3o a deixava<br \/>\ndormir com o gogo; agora era um bexiguento; amanh\u00e3 seria a febre amarela e<br \/>\ndepois a lepra! &#8211; Arre! Em chegando o marido havia de mostrar o que faria!<br \/>\nLambertosa, a pretexto de que sentia muito calor, empacotou o que tinha no<br \/>\nquarto e l\u00e1 se foi moscando \u00e0 francesa. &#8211; Nada! segredou ele embaixo ao Fontes,<br \/>\nque jogava o domin\u00f3 com a mulher na sala de jantar. &#8211; Tenho medo disto que<br \/>\nme p\u00e9lo; em pequeno vi morrer tr\u00eas sujeitos de pancada com as tais cataporas!<br \/>\nVou para a ch\u00e1cara de um amigo nas Laranjeiras! E, se a madame n\u00e3o tratar<br \/>\nde p\u00f4r fora o doente, eu tamb\u00e9m aqui n\u00e3o porei mais os p\u00e9s! E, vendo que o<br \/>\nFontes parecia impressionado com as suas palavras: &#8211; Pois n\u00e3o acha o amigo<br \/>\nque n\u00e3o tenho raz\u00e3o?&#8230;Pode-se l\u00e1 admitir um varioloso dentro de uma casa<br \/>\ncomo esta, cheia de h\u00f3spedes?&#8230; &#8211; &#8216;St\u00e1 claro! Disse a mulher do Fontes, empurrando<br \/>\nas pedras do domin\u00f3. &#8211; Eu tamb\u00e9m aqui n\u00e3o fico! Ou o doente se mudas ou ent\u00e3o<br \/>\nmudo-me eu! E logo o qu\u00ea! &#8211; bexigas! Deus nos defenda! At\u00e9 parece que j\u00e1 sinto<br \/>\num formigueiro por todo o corpo&#8230;Credo! &#8211; Sim, disse o marido, &#8211; mas n\u00e3o<br \/>\nacredito que Mme. Brizard esteja disposta a ficar com ele dentro de casa!<br \/>\nO gentleman havia desaparecido, como se levasse uma fera atr\u00e1s de si; os dois<br \/>\noutros ergueram-se conversavam assustados sobre o grande fato; enquanto Nini,<br \/>\nque, desde \u00e0s cinco horas jazia estendida em uma cadeira ao canto da varanda,<br \/>\ncom um len\u00e7o amarrado na cabe\u00e7a, escutava-os silenciosamente, os olhos pendurados<br \/>\nno vago<\/p>\n<p>Depois daquela cena violenta com Am\u00e2ncio, a pobre criatura se quedara mais<br \/>\napreensiva e mais triste. Eram suspiros sobre suspiros e nem uma palavra durante<br \/>\no dia inteiro; \u00e0s vezes dava-lhe para chorar e n\u00e3o havia meio de a conter.<br \/>\nEm cima o Campos tomou o chap\u00e9u e o guarda-chuva, mas, antes de sair, consultou<br \/>\na opini\u00e3o do Coqueiro e de Mme. Brizard sobre o que melhor convinha fazer<br \/>\na respeito do varioloso. &#8220;Talvez fosse mais acertado lev\u00e1-lo para uma boa<br \/>\ncasa de sa\u00fade!&#8230; &#8211; Eles que se n\u00e3o constrangessem: se era inconveniente ficar<br \/>\nali o rapaz, falassem com franqueza, porque tudo se podia arranjar perfeitamente.<br \/>\nMas os locandeiros protestaram logo, com energia: &#8211; Longe de ficarem constrangidos,<br \/>\ntinham muito gosto em ser \u00fateis ao Dr. Am\u00e2ncio.- Que o j\u00e1 estimavam tanto,<br \/>\nque n\u00e3o teriam \u00e2nimo de o desamparar, justamente quando o pobre mo\u00e7o, longe<br \/>\nda fam\u00edlia, mais precisava de cuidados! &#8211; Verdade \u00e9 que as bexigas n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\ndas m\u00e1s&#8230;considerou o negociante, alisando o p\u00ealo de seu chap\u00e9u alto. &#8211; Mas<br \/>\nos outros h\u00f3spedes talvez n\u00e3o pensem como a senhora e seu marido&#8230;E da\u00ed,<br \/>\nquem sabe?&#8230;queiram deixar a casa e&#8230; Mme. Brizard declarou que por esse<br \/>\nlado estava sossegada. &#8220;Os bons h\u00f3spedes n\u00e3o desertariam por t\u00e3o pouco, e<br \/>\nquanto aos maus, se fossem n\u00e3o fariam falta.&#8221; Campos agradeceu pelo recomendado<br \/>\naquela boa vontade; tornou a dizer que n\u00e3o poupassem despesas com a mol\u00e9stia<br \/>\ne, quando porventura houvesse alguma d\u00edvida ou alguma dificuldade, era mandar<br \/>\nimediatamente um recadinho \u00e0 Rua Direita, que ele l\u00e1 estava sempre \u00e0s ordens.<br \/>\nE ainda voltou ao quarto do rapaz para lhe rogar mis uma vez que n\u00e3o tivesse<br \/>\nreceio de importun\u00e1-lo em qualquer ocasi\u00e3o e, outrossim, para saber se, por<br \/>\nenquanto, ele n\u00e3o precisava de mais alguma coisa. Am\u00e2ncio desejava unicamente<br \/>\nque o amigo procurasse por onde andava o Sabino, que agora lhe fazia falta;<br \/>\ne, caso o encontrasse, tivesse a bondade de remeter-lho; pois seria um grande<br \/>\nfavor. Veio \u00e0 quest\u00e3o o quanto madraceavam os escravos ultimamente. Mme. Brizard<br \/>\njurou que n\u00e3o havia melhor vida do que a deles; disse que Am\u00e2ncio fizera mal;<br \/>\nem consentir que um negro de sua propriedade andasse por a\u00ed tanto tempo, sem<br \/>\nlhe prestar contas; quando, alugado, lhe podia dar de rendimento pelo menos<br \/>\nquarenta mil-r\u00e9is mensais. E, de sua parte recomendou de Campos que fizesse<br \/>\ndilig\u00eancias para descobrir o tratante e o deixasse ali, que ela mostraria<br \/>\nse punha ou n\u00e3o a bom caminho. O negociante retirou-se afinal, entre novos<br \/>\nprotestos e novos oferecimentos. Mme. Brizard, o Coqueiro e Amelinha n\u00e3o abandonaram<br \/>\no quarto do doente at\u00e9 mais de meia-noite; ora um, ora outro, acompanhavam-no<br \/>\nsempre. L\u00facia tamb\u00e9m aparecia de quando em quando; ao passo que o marido,<br \/>\nsem jamais acordar completamente, nem dera pelo reboli\u00e7o em que ia a casa.<br \/>\nPor toda a parte sentia-se j\u00e1 o cheiro de alfazema queimada. O esquisit\u00e3o<br \/>\ndo n.\u00b0 4, muito comprido no seu poncho de brim pardo, que lhe batia desairosamente<br \/>\nnas t\u00edbias mal compostas, espaceava no corredor, cantarolando , em voz soturna<br \/>\no De Profundis . Olha que agouro! Resmungou a mulher do Paula Mendes ao v\u00ea-lo<br \/>\npassar e, j\u00e1 encolerizada pela demora do marido, fechou a porta do quarto<br \/>\ncom um pontap\u00e9. &#8211; Logo aquela noite \u00e9 que o diabo do homem entendia de se<br \/>\ndemorara mais tempo na rua! Raios o partissem, diabo! O Melinho, a p\u00e9rola<br \/>\ndo n.\u00b0 9 , tamb\u00e9m aparecera; e o Piloto, a saber ,ainda na porta da rua,<br \/>\nque havia um bexigoso no segundo andar, fez uma careta, benzeu-se comicamente,<br \/>\ndesgalgou pelo mesmo caminho que trazia, afetando trejeitos exagerado de medo.<br \/>\nO guarda-livros \u00e9 que bem pouco se incomodou com a not\u00edcia, tinha l\u00e1 o seu<br \/>\ngabinete ao lado da sala de visitas, e a\u00ed com certeza n\u00e3o chegariam os miasmas.<br \/>\nEstava em cima o Coqueiro a discutir com a fam\u00edlia sobre quem devia acompanhar<br \/>\no enfermo durante o resto das noite, quando entro o Paula Mendes, estranhamente<br \/>\nalegre, a cantar em voz alta. O dono da casa correu logo ao seu encontro e<br \/>\nlhe pediu que n\u00e3o fizesse bulha. &#8211; O h\u00f3spede do n.\u00b0 6 estava de cama!<br \/>\nMendes respondeu com descostumada grosseria, arrastando a voz. Catarina ao<br \/>\nv\u00ea-lo naquele estado, fechou bruscamente a porta do quarto, que nesse mesmo<br \/>\ninstante havia aberto, e gritou-lhe de dentro &#8220;Que fosse cozinhar para longe<br \/>\na bebedeira! Que voltasse para onde se tinha emborrachado! Era s\u00f3 tamb\u00e9m o<br \/>\nque faltava! &#8211; que, al\u00e9m de tudo, tivesse de aturar b\u00eabados! Estavam bem servidos!&#8221;<br \/>\nE, todos, com grande espanto , se convenceram de que efetivamente o Paula<br \/>\nMendes vinha \u00e9brio, logo que o viram principiar a bater, como um possesso,<br \/>\nna porta do quarto, berrando pela mulher, sem se poder ag\u00fcentar nas pernas.<br \/>\n&#8211; Pois senhores, disse Mme. Brizard, que acudira com o barulho, &#8211; estou pasma!<br \/>\nDesde que o rabequista mora aqui \u00e9 a primeira vez que o vejo assim!&#8230; &#8211; Naturalmente<br \/>\nisto foi coisa que lhe fizeram&#8230; opinou Coqueiro. &#8211; Ele, coitado, \u00e9 at\u00e9 homem<br \/>\nde bons costumes!&#8230;<\/p>\n<p>Todos concordaram nesse ponto, e o hoteleiro, uma vez capacitado de que a<br \/>\npeste da Catarina n\u00e3o abria a porta ao marido, carregou com este para o quarto<br \/>\nque o Lambertosa acabava de despejar. &#8211; Diabo! Resmungou, deixando-o cair<br \/>\nsobre a cama. &#8211; H\u00f3spedes que s\u00f3 d\u00e3o de lucro estas ma\u00e7adas! Resolveu-se que<br \/>\nseria o copeiro quem acompanharia o enfermo durante o resto da noite. O m\u00e9dico<br \/>\nrecomendara que dessem o rem\u00e9dio de tr\u00eas em tr\u00eas horas. L\u00facia lamentou que,<br \/>\njustamente nessa ocasi\u00e3o, a sua Cora estivesse em Cascadura ajudando a uma<br \/>\namiga a morrer, porque ao contr\u00e1rio Am\u00e2ncio n\u00e3o teria outra enfermeira. &#8220;Ah!<br \/>\nn\u00e3o havia como aquela mulata para tratar de um doente!&#8230;&#8221; Mas o copeiro assumiu<br \/>\no posto que lhe designaram, e cada um se recolheu ao competente dormit\u00f3rio.<br \/>\nCatarina ainda rabujou sozinha por algum tempo; o Paula Mendes caiu num sono<br \/>\nde chumbo, e a casa foi a pouco e pouco se atufando nas brumas silenciosas<br \/>\nda noite. S\u00f3 ent\u00e3o , de t\u00e3o fracos que eram , ouviam-se os bufidos cavernosos<br \/>\ndo t\u00edsico que, no triste abandono de sua mis\u00e9ria, continuava a gemer, sufocado<br \/>\npela dispn\u00e9ia. O desgra\u00e7ado j\u00e1 n\u00e3o tinha for\u00e7as par sair \u00e0 rua. A sua mol\u00e9stia<br \/>\nentrara no segundo per\u00edodo; cresciam-lhe as dores do peito e apareciam-lhe<br \/>\nagora, pela madrugada, acessos febris, acompanhados de suores frios e gordurosos.<br \/>\nA magreza desnudara-lhe os ossos, e o alimentos faziam-lhe repugn\u00e2ncia. Como<br \/>\nera muito pobre, ningu\u00e9m se interessava por ele; os criados serviam-no mal<br \/>\ne a m\u00e1s horas. Traziam-lhe a comida e depunham-na sobre o velador.&#8221; bodega<br \/>\nl\u00e1 que se arranjasse!&#8221; Mme. Brizard, por mais de uma vez dissera: &#8211; Tamb\u00e9m<br \/>\naquele estafermo n\u00e3o ata nem desata!&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Por volta das quatro da madrugada, Am\u00e2ncio sentiu passarem-lhe brandamente<br \/>\na m\u00e3o pela testa, e despertou estremunhado. Um candeeiro de azeite derramava<br \/>\nno quarto a sua meia claridade tr\u00eamula e duvidosa. Era tudo sil\u00eancio e quieta\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; L\u00facia! disse ele, reconhecendo-a e tentando passar-lhe o bra\u00e7o na cintura.<br \/>\n&#8211; Psiu! Fez a ilustrada senhora com um dedo nos l\u00e1bios.- Tenha modo! O copeiro<br \/>\nest\u00e1 dormindo e, como o m\u00e9dico recomendou que n\u00e3o deixassem de lhe dar de<br \/>\nhora em hora uma colherada do rem\u00e9dio, eu &#8230; &#8211; Meu amor! &#8211; Nada de bulha!<br \/>\nTome o rem\u00e9dio e trate de dormir, que voc\u00ea est\u00e1 doente. Am\u00e2ncio bebeu a tisana<br \/>\ne com um gemido arrastado pousou de novo a cabe\u00e7a nos travesseiros. &#8211; Como<br \/>\nse acha ensopada esta camisa! Observou L\u00facia, apalpando-lhe as costas solicitamente.<br \/>\nE perguntou logo onde estava a roupa branca. O rapaz apontou com dificuldade<br \/>\npara a gaveta inferior da c\u00f4moda, e acrescentou careteando: &#8211; No fundo, ao<br \/>\nesquerdo. Ela foi abrir o gavet\u00e3o, muito de mansinho, para n\u00e3o acordar o copeiro<br \/>\nque dormia a sono solto sobre um enxerg\u00e3o no soalho, e reveio, toda desvelos,<br \/>\ncom uma camisa aberta nos bra\u00e7os. &#8211; Vamos ! mude essa roupa. O rem\u00e9dio est\u00e1<br \/>\nproduzindo efeito. \u00c9 preciso n\u00e3o resfriar. O estudante despiu a camisa suada<br \/>\ne vestiu a outra. &#8211; Agora, sente-se melhor? Perguntou a mulher do Pereira.<br \/>\nEstava assim, assim&#8230; Ainda lhe do\u00eda o corpo, e a comich\u00e3o n\u00e3o tinha diminu\u00eddo.<br \/>\nParecia que lhe passeavam formigas pelas pernas. &#8211; Trate de repousar. Adeus.<br \/>\nEu voltarei de manh\u00e3, para lhe dar outra dose do rem\u00e9dio. At\u00e9 logo. Am\u00e2ncio<br \/>\npediu-lhe que se demorasse mais um pouco, que se assentasse um instante ao<br \/>\nseu lado; ela, por\u00e9m, muito senhora de si, negou-se formalmente, dizendo com<br \/>\na cabe\u00e7a que n\u00e3o e recomendando-lhe com um gesto que se acomodasse. &#8211; Ao menos<br \/>\num beijinho&#8230; pediu ele. A outra n\u00e3o respondeu e saiu na ponta dos p\u00e9s. Voltou<br \/>\npela manh\u00e3, como prometera, mas o copeiro j\u00e1 havia dado o rem\u00e9dio ao doente.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o! Como passou? Perguntou ela, indo apertar-lhe a m\u00e3o. &#8211; Ora, mais incomodado<br \/>\ncom a sua aus\u00eancia do que com a minha mol\u00e9stia&#8230; respondeu o mo\u00e7o, fazendo<br \/>\num ar infeliz.<\/p>\n<p>&#8211; Impress\u00f5es de momento&#8230; retorquiu L\u00facia, sorrindo. &#8211; Daqui a pouco n\u00e3o<br \/>\nse lembrar\u00e1 mais de mim&#8230; E logo, que viu sair o preto: &#8211; Para s\u00f3 pensar<br \/>\nna Amelinha&#8230; Am\u00e2ncio fez um gesto de repugn\u00e2ncia. &#8211; Tem toda a raz\u00e3o!&#8230;<br \/>\nprosseguiu ela &#8211; toda! Amelinha \u00e9 mo\u00e7a, \u00e9 bonita, e pode casar! &#8211; Comigo,<br \/>\nnunca!&#8230; afirmou o rapaz. &#8211; N\u00e3o poria a m\u00e3o no fogo&#8230; insistiu L\u00facia. &#8211;<br \/>\nAgora eu, sim, j\u00e1 sou papel queimado, e estou velha&#8230; &#8211; Velha? D\u00ea-me ent\u00e3o<br \/>\na sua b\u00ean\u00e7\u00e3o&#8230; L\u00facia sorriu e estendeu-lhe a m\u00e3o, que ele beijou avidamente,<br \/>\nficando depois a examin\u00e1-la, como se contemplasse uma obra de arte. &#8211; \u00c9 feia&#8230;<br \/>\ndisse a senhora &#8211; \u00e9 comprida demais e magra. &#8211; \u00c9 ador\u00e1vel! Desmentiu o estudante.<br \/>\nE tornou a beijar, com exagerado transporte, a m\u00e3ozinha que conservava entre<br \/>\nas suas. &#8211; Est\u00e1 bom. Chega! Para b\u00ean\u00e7\u00e3o j\u00e1 basta! E ela puxou o bra\u00e7o. &#8211; Deve<br \/>\nestar a surgir o batalh\u00e3o de seus enfermeiros! Adeus. &#8211; Eu os trocaria a todos<br \/>\npor ti, minha santa! &#8211; Isso \u00e9 o que havemos de ver! Replicou ela intencionalmente.<br \/>\nE saiu do quarto. O Coqueiro, que chegou logo depois, percebeu que L\u00facia acabava<br \/>\nde estar ali, mas n\u00e3o deixou transparecer a sua contrariedade. &#8211; Ent\u00e3o?! perguntou.<br \/>\nO doente fez uma careta de des\u00e2nimo. &#8211; Tiveste alguma novidade durante a noite?<br \/>\n&#8211; Nenhuma, respondeu Am\u00e2ncio. &#8211; O rem\u00e9dio, tomaste-o? &#8211; Tomei. Coqueiro deu<br \/>\numa volta pelo quarto, para demorar um pouco mais a visita, e disse frouxamente:<br \/>\n&#8211; Bem, tenho que ir pras aulas. At\u00e9 j\u00e1! &#8211; Lol\u00f3 e Amelinha n\u00e3o tardam por a\u00ed.<br \/>\nE retirou-se, a gritar desde cima pela mucama: &#8211; Que viesse arrumar o quarto<br \/>\ndo Sr. Dr. Am\u00e2ncio! Mme. Brizard e Amelinha , com efeito, n\u00e3o tardaram a aparecer,<br \/>\nfalando muito sobre o terror que a mol\u00e9stia de Am\u00e2ncio produzia nos outros<br \/>\nh\u00f3spedes, confessando as ma\u00e7adas que tiveram as duas na v\u00e9spera; e, por fim,<br \/>\na mais velha desceu para cuidar da casa e a menina ficou para tratar do enfermo.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Coqueiro, \u00e0 volta da academia, chamou a mulher ao quarto e perguntou-lhe,<br \/>\ncruzando os bra\u00e7os e sacudindo a cabe\u00e7a: &#8211; E o que me dizes tu da Sr.\u00aa D.<br \/>\nL\u00facia?&#8230; Mme. Brizard respondeu com um movimento de ombros. &#8211; Bem desconfiava<br \/>\neu!&#8230;Ajuntou o especulador, depois de uma pausa. Acredita, Lol\u00f3, que desde<br \/>\na chegada do Am\u00e2ncio, tive c\u00e1 um palpite de que aquela mulher seria um estorvo<br \/>\npara os nossos projetos! A francesa fez um esgar de d\u00favida. E o esposo acrescentou<br \/>\ncom raiva: &#8211; Pois se ela n\u00e3o o larga um s\u00f3 instante! Leva a escor\u00e1-lo, o dem\u00f4nio!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o credites que Amelinha se deixe codilhar assim s\u00f3 !&#8230;observou a esperta<br \/>\nlocandeira. &#8211; Ora qual! Volveu o outro zangado. &#8211; Ningu\u00e9m me tira da cabe\u00e7a<br \/>\nque esta mudan\u00e7a do rapaz para o segundo andar, foi coisa arranjada por aquela<br \/>\nsirigaita! E, tendo percorrido tr\u00eas vezes o quarto, parou de repente, muito<br \/>\nagitado: &#8211; Mas comigo, bradou &#8211; Est\u00e1 enganada! Tenho a faca e o queijo na<br \/>\nm\u00e3o! Posso despach\u00e1-los, quando bem entender, a ela mais o bolas do tal marido!<br \/>\nE nem preciso inventar pretextos para os p\u00f4r na rua, porque eles j\u00e1 devem<br \/>\na\u00ed perto de dois meses! &#8211; Pois n\u00f3s havemos de perder esse dinheiro?! Interrogou<br \/>\nMme. Brizard assustando-se. &#8211; Sim, mas \u00e9 que eu n\u00e3o os deixo ir, sem ficar<br \/>\ngarantido! E se quiserem fazer de espertos, confisco-lhes a mulatinha! N\u00e3o!<br \/>\nAqui para o meu lado \u00e9 que n\u00e3o se arranjam! E, recaindo nos projetos a respeito<br \/>\nde Am\u00e2ncio: &#8211; Uma ocasi\u00e3o t\u00e3o boa para a Amelinha o cativar, se o diabo da<br \/>\nintrusa n\u00e3o se metesse entre eles no melhor da coisa! Ah! peste!<\/p>\n<p>Mme. Brizard, que se havia assentado, meditava de cabe\u00e7a baixa. &#8211; Eu at\u00e9<br \/>\no acho agora mais reservado e mais frio! &#8230; prosseguiu o hoteleiro-estudante.<br \/>\n&#8211; J\u00e1 n\u00e3o me consulta quando quer dar algum passo &#8230; j\u00e1 n\u00e3o se abre comigo!<br \/>\nE aproximando-se da mulher, exemplificou em voz de mist\u00e9rio: &#8211; Sabes, aquele<br \/>\ndoce que ele recebeu do Maranh\u00e3o? Foi quase todo para ela! A mim deu unicamente<br \/>\num frasco do tal bacuri (por sinal que n\u00e3o lhe acho gra\u00e7a); para si, creio<br \/>\nque guardou uma latinha de geleia, e tudo mais lambeu a gata arrepiada! &#8211;<br \/>\nQue! Pois ele lhe fez presente de todo o doce que recebeu do Norte?&#8230; &#8211; Ora!<br \/>\nSe te estou a dizer! &#8211; N\u00e3o! exclamou a Brizard escandalizada.- Isso agora<br \/>\nn\u00e3o lhe perd\u00f4o! A gente aqui a se matar, a desfazer-se em carinhos, e ele<br \/>\na socar no bandulho daquela bicha os mimos que recebe da fam\u00edlia! N\u00e3o! Isto<br \/>\nn\u00e3o se faz! &#8211; Pois fez! Sustentou Coqueiro. &#8211; E, se n\u00e3o abrirmos os olhos,<br \/>\nela \u00e9 capaz de arrancar-lhe at\u00e9 a \u00faltima camisa! &#8211; Dar todo o doce \u00e0quela<br \/>\ncriatura!&#8230; repisava a francesa. &#8211; \u00c9 quanto pose ser!&#8230; &#8211; Pois deu! &#8211; Sempre<br \/>\no supunha outra esp\u00e9cie de gente!&#8230; &#8211; N\u00e3o \u00e9 pelo doce, explanou o marido<br \/>\n&#8211; mas sim pelo alcance do fato! N\u00f3s, o que devemos fazer e, quanto antes,<br \/>\ntomar medida muito seria a respeito de tudo isto! E, fitando a mulher com<br \/>\nresolu\u00e7\u00e3o: &#8211; Vamos a saber! Achas que os devemos p\u00f4r no olho da rua ?! &#8211; Mas,<br \/>\nfilho, sem pagarem?! &#8230; &#8211; Ainda que n\u00e3o paguem, ora essa! Dos males o menor!<br \/>\nLembra-te de que o Am\u00e2ncio n\u00e3o inventou a p\u00f3lvora e pode, muito bem, ser visgado<br \/>\npor aquela lambisg\u00f3ia!&#8230; A cabra n\u00e3o tem nada de tola!&#8230; Que achas tu?!<br \/>\n&#8211; Sim, mas tamb\u00e9m par deix\u00e1-los ir com o nosso cobre&#8230; &#8211; Fica-se com um documento<br \/>\nselado e podemos persegu\u00ed-los a todo o tempo! &#8211; Isso \u00e9 asneiras! &#8211; Asneiras<br \/>\n\u00e9 perdermos o futuro de Amelinha por causa de alguns mil-r\u00e9is Mme. Brizard<br \/>\nainda hesitou. &#8211; Ent\u00e3o? insistiu Coqueiro. &#8211; A termos de tomar esta resolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndeve ser j\u00e1 e j\u00e1, que a oportunidade \u00e9 magn\u00edfica; talvez at\u00e9 nunca mais pilhemos<br \/>\num ensejo t\u00e3o favor\u00e1vel! &#8211; Minha filha, nem sempre h\u00e1 cataporas!&#8230; A outra,<br \/>\nafinal, consentiu, e ficou deliberado que o Pereira e L\u00facia seriam postos<br \/>\nna rua, se n\u00e3o saldassem imediatamente as suas contas. &#8211; Est\u00e3o ali, est\u00e3o<br \/>\nfora!&#8230; profetizou o locandeiro, esfregando as m\u00e3os.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Algumas horas depois, quando o Pereira descrevia tropegamente a sua \u00f3rbita<br \/>\nconsuetudin\u00e1ria entre a mesa do jantar e a pregui\u00e7osa, Coqueiro, entrepondo-se-lhe<br \/>\nno caminho, meteu-lhe na m\u00e3o uma folha de papel dobrada sobre o comprido,<br \/>\ne disse-lhe em tom seguro e repassado de urg\u00eancias: &#8211; \u00c9 uma nova continha<br \/>\nde suas despesas. O amigo desculpe, mas, se me pudesse pagar isto at\u00e9 amanh\u00e3,<br \/>\nn\u00e3o seria nada mau, porque tenho de satisfazer os fornecedores. &#8211; Havemos<br \/>\nde ver&#8230; balbuciou o h\u00f3spede, correndo pelo papel os olhos meio fechados.<br \/>\nO credor advertiu-o em voz baixa de que havia j\u00e1 esperado muito e que o Se.<br \/>\nPereira, pelos modos, n\u00e3o se lembrara dele. &#8211; Tem toda a raz\u00e3o&#8230; concordou<br \/>\no dorminhoco. &#8211; Juro-lhe, por\u00e9m, que me n\u00e3o esqueci do senhor. Ainda n\u00e3o recebi<br \/>\ndinheiro, sabe? Sim , retorquiu o outro &#8211; mas o senhor tamb\u00e9m sabe que eu<br \/>\npreciso fazer face aos gastos da casa e &#8230; &#8211; Tenha paci\u00eancia &#8230; bocejou<br \/>\no Pereira. &#8211; Tenha um pouco de paci\u00eancia. Hei de cuidar disso. &#8211; Mas \u00e9 que<br \/>\nn\u00e3o posso esperar mais, Sr. Pereira! &#8211; N\u00e3o h\u00e1 novidade ! Pode ficar descansado,<br \/>\nque n\u00e3o h\u00e1 novidade, respondeu aquele espregui\u00e7ando-se, j\u00e1 importunado com<br \/>\no transtorno de n\u00e3o se poder estirar na cadeira. E entregou a conta a L\u00facia,<br \/>\nque se aproximava em ar de curiosidade. Feiro isto, deixou-se cair na pregui\u00e7osa,<br \/>\ninalteravelmente, com nos outros dias. Da\u00ed a pouco ressonava. A mulher leu<br \/>\na conta de princ\u00edpio a fim, sem um gesto, nem uma palavra; depois, ainda em<br \/>\nsil\u00eancio, dobrou-a de novo e meteu-a no seio.<\/p>\n<p>No dia seguinte pela manh\u00e3 o copeiro, apresentava-se-lhe no quarto, exigindo,<br \/>\nem nome do patr\u00e3o, a resposta do pedido que este na v\u00e9spera fizera ao Sr.<br \/>\nPereira. L\u00facia, molestada com semelhante pressa, respondeu de mau humor que<br \/>\n&#8211; mais tarde daria uma resposta&#8230; O marido ia sair para buscar dinheiro!<br \/>\nO criado retirou-se, e ela foi logo, muito zangada, despertar o Pereira com<br \/>\num violento empux\u00e3o. &#8211; Voc\u00ea \u00e9 uma lesma! Exclamou. &#8211; P\u00f5e-se a dormir desse<br \/>\nmodo, e c\u00e1 fico eu para me haver com as contas! &#8211; Que contas?&#8230; perguntou<br \/>\no homem, esfregando os olhos pachorrentamente e escancarando a boca. &#8211; Que<br \/>\ncontas! Voc\u00ea sempre \u00e9 um traste muito in\u00fatil! &#8211; Deixa disso, nhanh\u00e3&#8230; &#8211; Que<br \/>\ncontas! A conta da casa! A conta do que voc\u00ea e eu comemos! &#8211; Havemos de ver<br \/>\nisso&#8230; &#8211; Havemos de ver, n\u00e3o! que \u00e9 preciso resolver qualquer coisa! O homem<br \/>\nquer dinheiro; n\u00e3o me larga a porta! E, puxando-o por um bra\u00e7o: &#8211; Ande! Mexa-se!<br \/>\nPereira n\u00e3o fez caso e tornou aninhar-se na cama, encolhendo as pernas e os<br \/>\nbra\u00e7os. &#8211; Voc\u00ea n\u00e3o ouve?! Berrou a mulher, desfechando-lhe um murro nas costas.<br \/>\n&#8211; \u00cb preciso que lhe d\u00ea com os p\u00e9s para o acordar, seu burro?! &#8211; N\u00e3o me<br \/>\namole! Tartamudeou ele, sem voltar o rosto. L\u00facia, que j\u00e1 se n\u00e3o podia conter,<br \/>\nsaltou-lhe ao gasganete e encheu-lhe a cara de bofet\u00f5es. &#8211; Pereira ergueu-se<br \/>\nnum pulo, e, muito estremunhado, olhou s\u00e9rio para a mulher: &#8211; Ora , vamos<br \/>\nl\u00e1!&#8230; disse, e come\u00e7ou a espregui\u00e7ar-se, retesando os bra\u00e7os. &#8211; Diabo do<br \/>\nsem-pr\u00e9stimo! Resmungou a outra com desprezo, enviesando a boca e cuspindo<br \/>\no olhar por cima do ombro. &#8211; N\u00e3o t\u00eam um vislumbre de brio naquela cara ! &#8211;<br \/>\nJ\u00e1 trouxeram o caf\u00e9?&#8230; perguntou o sem-pr\u00e9stimo, cuidando de lavar o rosto<br \/>\ne os dentes. L\u00facia respondeu-lhe com uma inj\u00faria e saiu do quarto arremessando<br \/>\na porta; mas reveio logo e gritou em tom de ordem: &#8211; Vista-se j\u00e1 e ponha-se<br \/>\nem caminho, que \u00e9 preciso arranjar dinheiro! Pereira vestiu-se demoradamente,<br \/>\nsempre abrir a boca, depois seguiu para o primeiro andar no seu passo mi\u00fado,<br \/>\nos bra\u00e7os a jogarem-lhe num movimento pendular, como se os tivesse seguros<br \/>\n\u00e0 omoplata apenas por um atilho. Tomou o seu caf\u00e9 com leite e o seu p\u00e3o com<br \/>\nmanteiga e foi espa\u00e7ar para a ch\u00e1cara, \u00e0 espera do almo\u00e7o. A mulher segui-o<br \/>\ne, logo que o alcan\u00e7ou, bateu-lhe no ombro: &#8211; Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o se avia, criatura?!<br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o v\u00ea que o homem quer dinheiro e que estamos amea\u00e7ados de ir para o<br \/>\nolho da rua, seu Pereira?! &#8211; Mas, que hei de eu fazer, nhanh\u00e3?&#8230; &#8211; Ponha-se<br \/>\nem movimento! V\u00e1 aos seus parentes, v\u00e1 aos seus amigos, v\u00e1 ao inferno! Contanto<br \/>\nque arranje alguma coisa para tapar a boca daquele judeu! N\u00e3o me volte de<br \/>\nm\u00e3os abanando, porque n\u00e3o lhe abro a porta do quarto, percebe?! Voc\u00ea bem sabe<br \/>\nque, se bem o digo, melhor o fa\u00e7o! E, vendo que Pereira n\u00e3o se mexia: &#8211; Ent\u00e3o!<br \/>\n&#8211; Mas eu hei de sair sem almo\u00e7ar, nhanh\u00e3?&#8230; &#8211; Pois v\u00e1 l\u00e1! Almoce. Mas \u00e9 engolir<br \/>\ne p\u00f4r-se a andar! &#8211; E dinheiro para o bonde? &#8211; Que? Voc\u00ea j\u00e1 gastou os cinco<br \/>\nmil-r\u00e9is que lhe dei anteontem?! Pereira explicou que os havia gasto contra<br \/>\na vontade, porque uns sujeitos o obrigaram a pagar cerveja e doces numa confeitaria.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 um palerma! Disse a mulher. &#8211; Tome l\u00e1 mil e quinhentos. Mas veja<br \/>\nagora se tamb\u00e9m os vais comer de doce!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Desde a v\u00e9spera, entretanto, que Amelinha n\u00e3o se despregava do lado de Am\u00e2ncio,<br \/>\nsen\u00e3o quando este dormia ou quando precisava ficar s\u00f3; levou a costura para<br \/>\no segundo andar, e p\u00f4s-se a coser no corredor, assentada \u00e0 porta do quarto<br \/>\ndo seu doente.<\/p>\n<p>Uma esposa n\u00e3o se mostraria mais afetuosa; ao menor gemido do enfermo, corria<br \/>\nlogo para ele, sempre meiga, sempre desvelada. Procurava ajud\u00e1-lo a suportar<br \/>\na monotonia da mol\u00e9stia; procurava anim\u00e1-lo, distra\u00ed-lo, fazendo por Ter gra\u00e7a,<br \/>\nrecorrendo, para o entreter, ao que sabia de mais esp\u00edrito. Seu p\u00e9zinho, leve<br \/>\ne cal\u00e7ado de duraque, parecia n\u00e3o tocar no ch\u00e3o; seu rostinho, mimoso e fresco<br \/>\ncomo um jambo, n\u00e3o se contra\u00eda ao fartum insalubre das variol\u00f3ides.<br \/>\nE dir-se-ia que tudo aquilo n\u00e3o visava ouro interesse que n\u00e3o fora a mesma<br \/>\ncaridade e a mesma dedica\u00e7\u00e3o. Nem uma queixa, nem um suspiro, nem um olhar,<br \/>\nnem um gesto, que tra\u00edssem a esperan\u00e7a de recompensas futuras, era o bem pelo<br \/>\nbem.<br \/>\nO provinciano, muito desvigorizado com a mol\u00e9stia, sentia perfeitamente que<br \/>\nos l\u00fabricos impulsos, que dantes lhe inspirava a graciosa rapariga, iam-se<br \/>\nagora destecendo e dissipando \u00e0 luz de um novo sentimento de gratid\u00e3o e respeito.<br \/>\nA primitiva Am\u00e9lia desaparecia aos poucos, para dar lugar \u00e0quela extremosa<br \/>\ncrian\u00e7a, \u00e0quela irm\u00e3zinha vener\u00e1vel, que lhe enchia o quarto com o frescor<br \/>\nbals\u00e2mico de sua virgindade e rociava-lhe o cora\u00e7\u00e3o com a tr\u00eafega mimalhice<br \/>\nde sua ternura.<br \/>\nNos momentos da comida \u00e9 que se podia ver. Am\u00e2ncio tinha grande inapet\u00eancia<br \/>\ne torcia o nariz aos alimentos; mas a pequena metia-o em brios, chamando-lhe<br \/>\npiegas , fracalh\u00e3o, dizendo que ele &#8220;parecia um nen\u00e9m e que precisava levar<br \/>\nuns petelecos para tomar ju\u00edzo&#8221;.<br \/>\nE atava-lhe ao pesco\u00e7o o guardanapo, esfriava-lhe a canja, soprando amorosamente<br \/>\nas colheradas, e, para lhe provar o apetite, paparicava tamb\u00e9m o que vinha<br \/>\ne, com estalinhos de l\u00edngua, dizia e repetia que estava tudo muito bom e muito<br \/>\ngostoso.<br \/>\nEle, \u00e0s vezes, j\u00e1 se fazia mais doente e mais carecido de cuidados, s\u00f3 para<br \/>\ndesfrutar os mimos da enfermeira.<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>XII<\/h2>\n<p>Dias depois, o m\u00e9dico declarou que Am\u00e2ncio estava livre do maior perigo.<br \/>\n&#8211; As bexigas foram boas e secariam prontamente, sem quase deixar sinal na<br \/>\npele.<br \/>\nDentre em pouco abria-se a janela do n.o 6 , recolhia-se a ultima roupa que<br \/>\nservira \u00e0 mol\u00e9stia, defumava-se o quarto pela \u00faltima vez, e o mimalho entrava<br \/>\nafinal na convalescen\u00e7a.<br \/>\nLogo por\u00e9m, que deixou a cama , apareceram-lhe dores reum\u00e1ticas na caixa do<br \/>\npeito e nas articula\u00e7\u00f5es de uma das pernas. Era o sangue de sua ama &#8211; de-<br \/>\nleite de leite que principiava a rabear. Bem dizia outrora o m\u00e9dico a seu<br \/>\npai, quando este a encarregou de amamentar o filho.<br \/>\nE, pois, vieram os rem\u00e9dios para a nova enfermidade, e Am\u00e2ncio, a despeito<br \/>\nde sua impaci\u00eancia para ganhar a rua, continuou encurralado na casa de pens\u00e3o<br \/>\ne submetido a uma dieta rigorosa. Sabino, que o Campos lhe remetera na v\u00e9spera,<br \/>\ntomou conta do lugar que o copeiro exercia durante a noite.<br \/>\nNesses dias , L\u00facia muito pouco se chegou para o estudante, receava com isso<br \/>\nprovocar. da parte do Coqueiro alguma viol\u00eancia contra si.- Ah! ela bem sabia<br \/>\nque era guardada \u00e0 vista; toda aquela fam\u00edlia j\u00e1 nem ao menos disfar\u00e7ava a<br \/>\nvigil\u00e2ncia em que a trazia; andavam todos eles, desde a velha at\u00e9 ao pequeno,<br \/>\na lhe fariscar os passos, descaradamente empenhados em afast\u00e1-la o mais poss\u00edvel<br \/>\nde Am\u00e2ncio. &#8211; S\u00facia de bandidos!<br \/>\nCom efeito, nunca mais lhe foi poss\u00edvel at\u00e9 a\u00ed fazer ao rapaz uma ou outra<br \/>\nvisita noturna. Mas, justamente no dia em que se arejou o quarto, estava Am\u00e2ncio<br \/>\nestendido na cama, a reler um esfacelado volume do Alencar, quando de repente<br \/>\nse abriu a porta e L\u00facia surgiu , aflita e apressada, correndo para ele num<br \/>\nformid\u00e1vel alvoro\u00e7o.<br \/>\nSeriam mais de onze horas da noite e a fam\u00edlia do Coqueiro estava j\u00e1 recolhida.<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio assustou-se com a visita, mas nem por isso a estimou menos.<br \/>\nQuis, antes de tudo, saber que terrores eram aqueles.<br \/>\n&#8211; Que diabo havia acontecido? &#8211; Mas se alguma coisas ruim acabava de suceder<br \/>\na L\u00facia, era, com certeza, por castigo, que ela estava uma ingrata muito grande;<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o aparecia aos pobres; naturalmente tinha medo das bexigas!&#8230;<br \/>\n&#8211; Oh! n\u00e3o! n\u00e3o! vozeou a ilustrada senhora, agarrando-lhe ambas a m\u00e3os com<br \/>\ntransporte. &#8211; N\u00e3o! Tudo que vier de ti, Am\u00e2ncio, tudo que te pertence e diz<br \/>\nrespeito \u00e9 bom e sublime para mim!<br \/>\nE correu de novo \u00e0 porta, certificou-se de que a casa estava bem sossegada,<br \/>\ne tornou para junto do estudante, apalpando dos lados e circunvagando olhares<br \/>\ninquietos.<\/p>\n<p>Sabino j\u00e1 se havia esgueirado discretamente pelo corredor; enquanto o senhor-mo\u00e7o,,<br \/>\nainda meio aturdido com a agress\u00e3o melodram\u00e1tica de que fora v\u00edtima, apanhava,<br \/>\numa por uma, as folhas do Alencar, que se tinham espalhado aos p\u00e9s da cama.<\/p>\n<p>&#8211; Pois olhe, ningu\u00e9m o acreditaria!&#8230; disse ele voltando afinal, do seu espanto<br \/>\ne pousando o livro sobre o velador.<br \/>\n&#8211; Porqu\u00ea? Interrogou L\u00facia muito s\u00e9ria e muito dura defronte do rapaz.<br \/>\n&#8211; Ora, Porqu\u00ea!&#8230;Porque j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 quem a veja! Porque a senhora arribou deste<br \/>\nquarto, como se aqui algu\u00e9m lhe quisesse fazer mal!<br \/>\nEla respondeu com um sorriso de tristeza e um resignado sacudimento da cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Os fatos, pelo menos, assim o acrescentou o doente.<br \/>\n&#8211; Mas, valha-me Deus! Tornou a outra. &#8211; Pois n\u00e3o v\u00eas a persegui\u00e7\u00e3o que sofro<br \/>\naqui por tua causa? N\u00e3o v\u00eas que sou espiada, seguida e vigiada a todos os<br \/>\ninstantes?! N\u00e3o v\u00eas o ci\u00fame que Mme. Brizard, o Coqueiro, a tal Am\u00e9lia, Nini,<br \/>\no diabo! Afetam por ti?!<br \/>\n&#8211; O ci\u00fame?&#8230;perguntou Am\u00e2ncio , deveras espantado. &#8211; Mas o ci\u00fame, como? Por<br \/>\nqu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Crian\u00e7a!&#8230;disse ela. E passou a m\u00e3o na testa.- Est\u00e1s na aldeia e n\u00e3o v\u00eas<br \/>\nas casas!<br \/>\n&#8211; Eu?!<br \/>\n&#8211; Sim, tu!<br \/>\nE, assentando-se \u00e0 beira da cama, para lhe ficar mais perto, continuou, diminuindo<br \/>\no tom da voz:<br \/>\n&#8211; Pois n\u00e3o percebes, filho, que toda esta gente quer fazer de ti uma propriedade<br \/>\nsua; que esta gente te considera um tesouro precioso e teme que lho furtem?<br \/>\nN\u00e3o percebes, meu Am\u00e2ncio, que h\u00e1 aqui um plano velho, tramado para te fazer<br \/>\ncasar com Amelinha, isso porque \u00e9s rico e, na tua qualidade de homem de espirito,<br \/>\npouca import\u00e2ncia ligas ao dinheiro?!&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! Dou-te a minha palavra em como, at\u00e9 aqui nada percebia de tudo isto!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois fica, ent\u00e3o sabendo que h\u00e1 uma grande conspira\u00e7\u00e3o contra ti ou, por<br \/>\noutra, contra os teus bens!<br \/>\n&#8211; Ora essa! disse ele em voz baixa.<br \/>\n&#8211; Todos esses carinhos que eles ostentam, todos esses cuidados e desvelos<br \/>\nart\u00edsticos, s\u00e3o la\u00e7os armados \u00e0 tua ingenuidade!<br \/>\n&#8211; Est\u00e3o bem arranjados!&#8230;respondeu Am\u00e2ncio, &#8211; se esperam que eu case com<br \/>\nAmelinha!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sejas hip\u00f3crita!&#8230;acudiu a outra. &#8211; Tu gostas dela; n\u00e3o negues.<br \/>\n&#8211; Ah! gosto, n\u00e3o nego. Mas gosto, sem inten\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cie alguma; gosto, coitada,<br \/>\nporque ela nunca me fez mal, porque at\u00e9 lhe sou grato aos seus obs\u00e9quios!<br \/>\nMas da\u00ed para casar!&#8230;<br \/>\nE, depois de um assovio de grande esperteza:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o \u00e9 o meu tipo, o meu ideal! Demais, ainda n\u00e3o penso em casamento, nem<br \/>\nsei se algum dia pensarei nisso!<br \/>\n&#8211; Por qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Ora, respondeu ele &#8211; n\u00e3o vale a pena a gente se casar! H\u00e1 por a\u00ed tanta desgra\u00e7a,<br \/>\ntanta decep\u00e7\u00e3o que, para falar com franqueza, n\u00e3o tenho \u00e2nimo&#8230;<br \/>\n&#8211; Julgas assim t\u00e3o mal as mulheres?&#8230;<br \/>\n&#8211; Com franqueza \u00e9 exato, filha! N\u00e3o digo que n\u00e3o haja mulheres virtuosas;<br \/>\nisto, por\u00e9m, \u00e9 raro!&#8230;Prefiro n\u00e3o arriscar!&#8230;<br \/>\n&#8211; Desconfio de tanto ceticismo na tua idade!<br \/>\nEle agitou os ombros.<br \/>\n&#8211; Um homem com esses princ\u00edpios \u00e9 incapaz de amar&#8230;ajuntou ela.<br \/>\n&#8211; Tens em mim a prova do contr\u00e1rio&#8230;retorquiu Am\u00e2ncio sorrindo.<br \/>\n&#8211; Em ti?&#8230;<br \/>\n&#8211; Sim, e sabes disso perfeitamente!<br \/>\n&#8211; Disso, o qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Que te amo&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o creio&#8230;<br \/>\n&#8211; Nesse caso, o c\u00e9tico n\u00e3o sou eu!<br \/>\n&#8211; Se me amasses, j\u00e1 mo terias provado&#8230;<br \/>\n&#8211; Provado?<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 claro. N\u00e3o acredito nesse amor cauteloso e met\u00f3dico, que de tudo se<br \/>\narreceia, que se n\u00e3o quer expor, que tem calma para medir todas as conveni\u00eancias,<br \/>\nque teme os olhares, os ditos, as considera\u00e7\u00f5es de todo o mundo, quer vem<br \/>\nfinalmente muito mais da cabe\u00e7a que do cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o acreditas, ent\u00e3o , que eu te ame?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, decerto! Nem te crimino por isso!&#8230;\u00c9s ainda muito crian\u00e7a, para sentires<br \/>\no verdadeiro amor, a verdadeira paix\u00e3o. Essa que n\u00e3o conhece obst\u00e1culos; que<br \/>\ntudo pode e tudo vence; que \u00e9 capaz de todos os sacrif\u00edcios, sejam do bem<br \/>\nou sejam do mal; essa que levanta os grandes crimes ou os grandes hero\u00edsmos!<br \/>\nAmar, tu! E porventura saber\u00e1s ao menos o que \u00e9 o amor?! Algum dia experimentaste,<br \/>\npor acaso, o ci\u00fame, o desespero, a loucura, a que nos conduz o objeto amado?<br \/>\nN\u00e3o! N\u00e3o queiras amesquinhar o \u00fanico sentimento que at\u00e9 hoje se tem conservado<br \/>\npuro! N\u00e3o queiras amesquinhar a coisa \u00fanica respeit\u00e1vel que resta sobre a<br \/>\nterra! Para que possas falar a esse respeito, primeiro \u00e9 necess\u00e1rio que ames!<br \/>\n\u00c9 preciso que d\u00eas alma, vida , futuro, esperan\u00e7as, tudo , a uma mulher! \u00e9<br \/>\npreciso primeiro que te esque\u00e7as de teus sonhos mais queridos, de tuas melhores<br \/>\naspira\u00e7\u00f5es, para s\u00f3 cuidares nelas, viveres delas e para ela! Ent\u00e3o, sim!<br \/>\neu acreditaria em ti!<br \/>\nE L\u00facia apoderou-se novamente das m\u00e3os de Am\u00e2ncio, e as palavras borbulharam-lhe<br \/>\ncom mais febre:<br \/>\n&#8211; Amor \u00e9 o que sinto por ti, entendes?! Amor \u00e9 o que me faz esquecer a minha<br \/>\nresponsabilidade, o meu destino, o meu dever, para estar aqui a teus p\u00e9s,<br \/>\nalheia a tudo, esquecida do passado, descuidosa do futuro; s\u00f3 para te ver<br \/>\n, s\u00f3 para te ouvir, s\u00f3 para me saturar toda de tua presen\u00e7a!..<br \/>\nEntretanto&#8230; disse Am\u00e2ncio, procurando afinar a voz pelo tom enf\u00e1tico com<br \/>\nque falava a outra, &#8211; entretanto, nunca me permitiste fruir contigo os verdadeiros<br \/>\ne mais saborosos proveitos do amor! Tiveste a cruel habilidade de transformar<br \/>\num manancial de gozos em fonte perene de tormentos e dissabores! Se me amas,<br \/>\ndigo-te eu agora, por que evitas a todo transe que eu v\u00e1 al\u00e9m dos nossos beijos?&#8230;<br \/>\nSe me amas, por que imp\u00f5es o supl\u00edcio do teu rigor? Ah! eu s\u00f3 acreditaria<br \/>\nna sinceridade de tais protestos se fosses generosa comigo&#8230;.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o! contrap\u00f4s ela abra\u00e7ando-o_ Nunca faltarei aos meus deveres! Nunca<br \/>\ntrairei meu marido! Serei capaz de uma loucura; n\u00e3o, por\u00e9m de uma inf\u00e2mia!<br \/>\nSeria capaz de fugir contigo, abandonar tudo por tua causa; mas introduzir-te<br \/>\ncovardemente na minha alcova, nunca! Aceitaria um crime, sim! mas havia de<br \/>\naceit\u00e1-lo sob todas as responsabilidades, com todas as conseq\u00fc\u00eancias que ele<br \/>\nviesse a produzir! Seria tua, mas n\u00e3o enganando a um outro; seria tua, mas<br \/>\ntoda, inteira, lealmente! Abandonaria por tua causa meu marido; antes, por\u00e9m<br \/>\nde o fazer, dir-lhe-ia com franqueza: &#8220;Fulano! Amo um outro N\u00e3o posso continuar<br \/>\nao teu lado, sem que te engane todo os dias e a todos os instantes! Por isso-<br \/>\nvou! Amaldi\u00e7oa-me , se quiseres, mas n\u00e3o te perturbes a minha felicidade&#8221;<br \/>\nDeixaria de ser esposa, para ser concubina! Trocaria meu nome, minha posi\u00e7\u00e3o,<br \/>\npor algumas horas de del\u00edrio, por algumas horas de sonho; mas, em todo o caso,<br \/>\na consci\u00eancia nunca me acusaria, o cora\u00e7\u00e3o jamais se teria de maldizer!<br \/>\n&#8211; V\u00eas?! Disse ela, esfolegando cansada de falar. &#8211; \u00c9 por isso que at\u00e9 hoje<br \/>\nme tenho portado deste modo contigo; \u00e9 por isso que domo os meus impulsos<br \/>\ne os meus arrebatamentos! &#8211; Sou de outro, n\u00e3o me possuo, n\u00e3o posso dispor<br \/>\ndisto!<br \/>\nE sacudia todo o corpo, com uma obstina\u00e7\u00e3o provocadora e canalha.<br \/>\nAm\u00e2ncio olhava para ela , mordendo os bei\u00e7os.<br \/>\n&#8211; Se \u00e9 verdade que me queres possuir&#8230;disse a intransigente, depois de uma<br \/>\npausa em que se ouvia a respira\u00e7\u00e3o dos dois. &#8211; Arranca-me das m\u00e3os de meu<br \/>\nmarido e leva-me para onde bem quiseres, faze de mim o que entenderes! Serei<br \/>\ntua amante, tua companheira, tua escrava; serei tudo que ordenares, contanto<br \/>\nque eu j\u00e1 n\u00e3o perten\u00e7a a nenhum outro, contanto que eu tenha comprado com<br \/>\no risco de minha vida a felicidade de n\u00f3s ambos!<br \/>\nE L\u00facia, agitando romanticamente os cabelos, que ela por c\u00e1lculo trazia soltos<br \/>\nessa noite, perguntou com \u00edmpeto:<br \/>\n&#8211; Compreendes agora a minha reserva?! Compreendes que , apesar de minhas recusas,<br \/>\neu te adoro, meu Am\u00e2ncio, meu amor, minha vida?!<br \/>\nEntretanto, acrescentou ela, quando se convenceu de que Am\u00e2ncio n\u00e3o queria<br \/>\ncair no la\u00e7o &#8211; tenho fatalmente de abafar todos os meus sentimentos, tenho<br \/>\nde calcar todos os meus desejos, porque amanh\u00e3 nos separamos.<br \/>\nAm\u00e2ncio ergueu-se, pasmado.<br \/>\n&#8211; Como nos separamos?&#8230;interrogou.<br \/>\n&#8211; Eu amanh\u00e3 me retiro desta casa&#8230;esclareceu L\u00facia, sem erguer os olhos.<br \/>\n&#8211; Vou, e ainda nem sei para onde! Mas, n\u00e3o poso deixa de ir: manda-me a dignidade<br \/>\nque aqui n\u00e3o fique nem mais um instante!<br \/>\n&#8211; Como assim? Explica-te!<br \/>\n&#8211; Oh! n\u00e3o me perguntes nada! N\u00e3o me perguntes nada, porque, s\u00f3 o que te posso<br \/>\nafirmar \u00e9 que esta s\u00facia&#8230;E indicava o andar de baixo com um gesto tr\u00e1gico.<br \/>\n&#8211; Esta s\u00facia, receosa de que eu te dispute a Amelinha, obriga-me a sair, obriga-me<br \/>\na separa-me de ti! Ah! os miser\u00e1veis sabem o quanto eu te amo, meu Am\u00e2ncio!<br \/>\nTemem que eu seja um estorvo ao teu casamento com ela.<br \/>\n&#8211; Mas, filha, como te podem eles constranger a sair?&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o me obrigues a falar, por amor de Deus! Eu n\u00e3o quero, n\u00e3o devo dizer<br \/>\nmais nada!<\/p>\n<p>&#8211; Ora1 Isso n\u00e3o \u00e9 generoso de tua parte! Se n\u00e3o podes usar de franqueza,<br \/>\npara que ent\u00e3o me excitas deste modo a curiosidade?<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! N\u00e3o te poso dizer mais nada! Repele-me, se assim entendes, manda-me<br \/>\nembora, mas, por piedade, n\u00e3o me obrigues a corar em tua presen\u00e7a!..<br \/>\n&#8211; Corar em minha presen\u00e7a?&#8230;N\u00e3o te entendo , filha! Fala por uma vez. Abre<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\n&#8211; Nunca! Nunca!<br \/>\n&#8211; Mas \u00e9 que tu me torturas L\u00facia!<br \/>\nE acariciando-a:<br \/>\n&#8211; Vamos! N\u00e3o sejas crian\u00e7a, fala com franqueza&#8230;Dize o que te fizeram! N\u00e3o<br \/>\nacreditas ent\u00e3o que sou teu amigo? teu amiguinho? N\u00e3o cr\u00eas que representas<br \/>\nem minha vida uma preocupa\u00e7\u00e3o constante, um sonho, uma esperan\u00e7a?&#8230;<br \/>\n&#8211; Sim, sim, acredito, meu amor, mas n\u00e3o me obrigues a tratar de coisas, nas<br \/>\nquais ainda n\u00e3o tenho o direito de falar!&#8230;<br \/>\n&#8211; Ora! Que segredo pode ser esse, t\u00e3o negro, t\u00e3o repugnante, que n\u00e3o mo queiras<br \/>\ndizer?&#8230;\u00c9 preciso que eu mere\u00e7a muito pouco a tua confian\u00e7a!..<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso, mas \u00e9 eu me falta o \u00e2nimo para confess\u00e1-lo&#8230;Mudemos de<br \/>\nconversa&#8230;.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o queres dizer? Bem! Acabou-se!<br \/>\n&#8211; Oh! n\u00e3o me fales desse modo, meu querido!<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o dize o que \u00e9.<br \/>\n&#8211; E prometes que n\u00e3o me achar\u00e1s rid\u00edcula?&#8230;prometes que a revela\u00e7\u00e3o do que<br \/>\nte vou dizer n\u00e3o me amesquinhar\u00e1 aos teus olhos?&#8230;<br \/>\n&#8211; Juro!<br \/>\nL\u00facia tirou uma carta do seio e entregou-a ao estudante<br \/>\nLogo que este principiou a leitura, ela cobriu o rosto com as m\u00e3os, como para<br \/>\nesconder a vergonha.<br \/>\nAm\u00e2ncio leu o seguinte em voz baixa:<br \/>\n&#8221; Sr.\u00aa D. L\u00facia Pereira.. H\u00e1 quatro dia que entreguei a seu marido uma Segunda<br \/>\nconta do m\u00eas passado e deste m\u00eas, e, visto que at\u00e9 agora n\u00e3o tenho recebido<br \/>\nsen\u00e3o desculpas e promessas, tomo a liberdade de participa-lhes que, de hoje<br \/>\nem diante, n\u00e3o posso continuar a lhes fornecer comida e que preciso urgentemente<br \/>\ndo c\u00f4modo ocupado pela senhora e seu marido. Espero, pois, que at\u00e9 amanh\u00e3<br \/>\nesteja o quarto n.\u00ba 8 desembara\u00e7ado e a minha conta selada e assinada pelo<br \/>\nSr. Pereira; sem o que, pesa-me diz\u00ea-lo, n\u00e3o consinto que V.S.as levem consigo<br \/>\na sua mulata, que \u00e9 o \u00fanico bem de que posso lan\u00e7ar m\u00e3o para garantir a d\u00edvida<br \/>\n&#8221;<br \/>\nEstava assinado por extenso o nome de Jo\u00e3o Coqueiro.<br \/>\nAm\u00e2ncio dobrou a carta silenciosamente, ao passo que L\u00facia continuava a esconder<br \/>\no rosto.<br \/>\n&#8211; Em quanto importa?&#8230;perguntou ele depois.<br \/>\nEla, conservando uma das m\u00e3os nos olhos, tirou com a outra a conta do seio,<br \/>\ne passou-lha, sem dizer nada.<br \/>\n&#8211; &#8220;Quatrocentos e sessenta mil-r\u00e9is&#8221;, leu o mo\u00e7o para si. E fez um trejeito<br \/>\ncom os olhos.<br \/>\nL\u00facia, ao lado, solu\u00e7ava, sempre com o rosto coberto.<br \/>\nAm\u00e2ncio pensou um instante, e disse:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o te aflijas&#8230;Eu poso, se quiseres, arranjar o dinheiro para amanh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>Ela, ent\u00e3o , descobriu a cara e, sem uma palavra, abra\u00e7ou-se ao rapaz e come\u00e7ou<br \/>\na chorar.<br \/>\n&#8211; E hoje, perguntou ele, quando L\u00facia j\u00e1 se dispunha a sair &#8211; hoje mere\u00e7o<br \/>\num beijo?&#8230;<br \/>\nEla correu para Am\u00e2ncio, sorrindo, e com os olhos fechados, estendeu-lhe os<br \/>\nl\u00e1bios.<br \/>\nO estudante, com as duas m\u00e3os abertas, segurou-lhe a nuca e principiou a sorver<br \/>\no &#8220;seu beijo&#8221;, demoradamente, voluptuosamente, como se estivesse bebendo por<br \/>\num canjir\u00e3o.<br \/>\nL\u00facia, por\u00e9m, ao perceber que a coisa se demorava muito, arrancou a cabe\u00e7a<br \/>\ndas m\u00e3os do rapaz e fugiu.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>As nove horas da manh\u00e3 subseq\u00fcente, voltava o Sabino da casa do Campos com<br \/>\na resposta de uma carta em que o senhor-mo\u00e7o pedia o dinheiro necess\u00e1rio para<br \/>\nsatisfazer as d\u00edvidas de L\u00facia.<br \/>\nJo\u00e3o Coqueiro ficou assombrado quando recebeu a quantia; correu logo em busca<br \/>\nda mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Sabes? Disse assim que a viu. &#8211; Pagaram ?<br \/>\n&#8211; Hein?! Fez Mme. Brizard, com espanto. &#8211; Pagaram?! Tudo ?!&#8230;<br \/>\n&#8211; Integralmente! C\u00e1 est\u00e1 o cobre!<br \/>\nE, depois do sil\u00eancio da admira\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8211; E que te parece, a ti, hein, Lol\u00f3?!..<br \/>\n&#8211; Parece-me bom&#8230; a metade est\u00e1 feito; agora j\u00e1 n\u00e3o se trata de receber-lhe<br \/>\na conta, \u00e9 s\u00f3 de os p\u00f4r fora de casa?<br \/>\n&#8211; Sim &#8230; mastigou o marido.- mas agora tamb\u00e9m \u00e9 mais dif\u00edcil faz\u00ea-lo desarvorar!<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o temos um pretexto para isso!&#8230;<br \/>\n&#8211; Pretextos n\u00e3o faltar\u00e3o&#8230; respondeu a francesa, e acrescentou: &#8211; O que me<br \/>\nfaz cismar \u00e9 este dinheiro arranjado assim \u00e0 \u00faltima hora&#8230; porque eles, ainda<br \/>\nontem, estavam bem apertados e o Pereira n\u00e3o arredou o p\u00e9 de casa durante<br \/>\no dia!<br \/>\nO marido refletiu um instante, e depois exclamou, com vislumbres de quem se<br \/>\nsente roubado:<br \/>\n&#8211; Ora, querem ver que aquela raposa arrancou estes cobres ao Am\u00e2ncio?!&#8230;<\/p>\n<p>Mme Brizard confirmou alvitre com um gesto de cabe\u00e7a.<br \/>\n&#8211; E olha que n\u00e3o \u00e9 outra coisa! Repetiu o Coqueiro. &#8211; Que hoje o Sabino, desde<br \/>\nmuito cedo, tinha j\u00e1 que fazer \u00e0 rua!<br \/>\n&#8211; Ora essa!&#8230; resmungou a Brizard, indignada e ressentida, como se aquele<br \/>\ndesfalque na carteira do estudante lhe trouxesse um preju\u00edzo imediato.- Ora<br \/>\nessa!&#8230; sempre se v\u00eaem coisas neste mundo !&#8230;<br \/>\n&#8211; Mas deixa estar que hei de saber de tudo!&#8230; Prometeu o locandeiro.<br \/>\nE , com efeito, da\u00ed a pouco o pr\u00f3prio Sabino lhe confessava que fora pela<br \/>\nmanh\u00e3 \u00e0 casa do Campos levar uma carta e que voltara com outra, recheadinha<br \/>\nde dinheiro em papel.<br \/>\nO locandeiro revoltou-se, mas a usa indigna\u00e7\u00e3o subiu verdadeiramente ao c\u00famulo,<br \/>\nfoi quando lhe constou que o bom do Am\u00e2ncio para ter ocasi\u00e3o de estar mais<br \/>\ntempo com L\u00facia recorria a todos os meio e modos de afastar Am\u00e9lia do quarto.<\/p>\n<p>&#8211; Diz que n\u00e3o quer ser importuno ,contou a rapariga, &#8211; Que j\u00e1 basta os inc\u00f4modos<br \/>\nque me tem dado, que n\u00e3o se acha com o direito de fazer de mim uma irm\u00e3 de<br \/>\ncaridade, e de obrigar-me a suportar as suas amola\u00e7\u00f5es! E que eu viesse aqui<br \/>\npara baixo rir e conversar com os outro, que ele teria nisso muito mais prazer.<\/p>\n<p>&#8211; E tu, que lhe disseste? Perguntou o irm\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Eu disse que sentia o maior gosto em prestar ao Sr. Am\u00e2ncio aquelas insignific\u00e2ncias<br \/>\nde servi\u00e7os; que, se os fazia, era por motu pr\u00f3prio!<br \/>\n&#8211; E ele?<br \/>\n&#8211; Ele disse que n\u00e3o, que n\u00e3o admitia, e que ficava at\u00e9 muito contrariado,<br \/>\nse eu n\u00e3o viesse embora!<br \/>\n&#8211; V\u00eas?! Perguntou Jo\u00e3o Coqueiro \u00e0 esposa, apontando para a irm\u00e3.- V\u00eas?! Tudo<br \/>\nisso \u00e9 obra da Sra. L\u00facia!.<br \/>\nE, depois de uma pausa aflita:<br \/>\n&#8211; Aquela mulher n\u00e3o nos pode ficar em casa! Haja o que houver \u00e9 preciso que<br \/>\nela se v\u00e1 daqui quanto antes!<br \/>\nE deu a sua palavra de honra em como havia de p\u00f4r cobro a semelhante patifaria.<\/p>\n<p>N\u00e3o sossegou essa noite. Enquanto os mais dormiam, andava ele l\u00e1 por cima,<br \/>\na farejar nas trevas, grudando-se contra as paredes e escondendo-se pelos<br \/>\ncantos.<br \/>\nPassou assim algumas horas; mas afinal, viu L\u00facia sair do quarto, p\u00e9 ante<br \/>\np\u00e9, atravessar a medo o corredor e sumir-se \u00e0s apalpadelas, na porta do n.\u00ba<br \/>\n6 .<br \/>\nA sua primeira id\u00e9ia foi a de chamar o Pereira e mostrar-lhe a mulher no lat\u00edbulo<br \/>\ndo amante, mas considerou que o homem seria capaz de romper com ela e, nesse<br \/>\ncaso, a liga\u00e7\u00e3o de L\u00facia com o provinciano tornar-se-ia inevit\u00e1vel. &#8211; Nada!<br \/>\npensou ele .Deixemo-nos disso.<br \/>\nMas, tamb\u00e9m, n\u00e3o convinha esperdi\u00e7ar uma ocasi\u00e3o t\u00e3o boa para desmascarar<br \/>\na tal sujeira.<br \/>\nEncaminhou-se, pois , na dire\u00e7\u00e3o do quarto do estudante. L\u00facia, ao sentir<br \/>\nque algu\u00e9m se aproximava, correu a fechar a porta por dentro, e fez sinal<br \/>\nde sil\u00eancio ao enfermo.<br \/>\nCoqueiro parou defronte do n.\u00ba 6 e bateu.<br \/>\n&#8211; Quem \u00e9? Perguntou Am\u00e2ncio, no fim de pequena pausa, com a voz levemente<br \/>\nalterada.<br \/>\n&#8211; Sou eu, disse o outro. Precisava dar-te duas palavras&#8230; como vi luz no<br \/>\nquarto&#8230;<br \/>\n&#8211; Desculpa ! respondeu o doente. &#8211; Mas agora n\u00e3o me posso levantar. At\u00e9 logo!<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite! Resmungou o dono da casa, e afastou-se.<br \/>\nL\u00facia fingiu-se muito assustada com aquilo: &#8211; O Coqueiro, se veio ali, foi<br \/>\npara mostrar que sabia de tudo! Naturalmente espiara pela fechadura!<\/p>\n<p>E pendurou logo uma toalha na chave.<br \/>\n&#8211; \u00c9 o que se chama ter fama sem proveito!&#8230; Observou Am\u00e2ncio, a quem as nega\u00e7as<br \/>\nda mulher do Pereira j\u00e1 impacientavam.<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 em tuas m\u00e3os!&#8230; Volveu ela. &#8211; J\u00e1 expus com franqueza as circunst\u00e2ncias&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tirar-te do marido&#8230;<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 claro!<br \/>\n&#8211; Isso por ora \u00e9 imposs\u00edvel!&#8230; Mais tarde, n\u00e3o digo que n\u00e3o, mas por enquanto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 porque n\u00e3o me amas, disse a ilustrada senhora, abaixando os olhos.<br \/>\n&#8211; Se te amo, minha vida! Se te amo!&#8230;<br \/>\nE ameigava-a, procurando beij\u00e1-la.<br \/>\nEla fugia com o rosto, dizendo aflitivamente que preferia nunca o ter visto.<br \/>\n&#8220;Antes de conhec\u00ea-lo, ainda conseguia suportar o marido abomin\u00e1vel a que a<br \/>\nprendera o destino, mas, depois que fantasiara a possibilidade de viver com<br \/>\nAm\u00e2ncio, de possu\u00ed-lo, todo, sem que outra o disputasse, n\u00e3o mais podia entestar<br \/>\ncom a miser\u00e1vel exist\u00eancia que levava e com os dilacerantes sacrif\u00edcios que<br \/>\nlhe cumpriam!&#8221;<br \/>\nDito este fraseado, foi-se do quarto , como das outras vezes, a fazer-se rogada,<br \/>\na medir os beijos que dava, a prometer que n\u00e3o voltaria mais, se Am\u00e2ncio persistisse<br \/>\nnas costumadas exig\u00eancias.<br \/>\n&#8211; Ora bolas!&#8230; praguejou este, quando se achou s\u00f3. &#8211; Desta forma \u00e9 melhor<br \/>\nmesmo que n\u00e3o venha! P\u00f5e-me neste estado e afinal musca-se, ainda por cima<br \/>\nemburrada! Gaitas!<br \/>\nMas a id\u00e9ia de que aquela resist\u00eancia talvez n\u00e3o durasse mais do que o tempo<br \/>\nda mol\u00e9stia o consolava em parte.- Sim, porque, em ficando bom, as coisas<br \/>\nseriam de outro feitio! Tinha gra\u00e7a que ele estivesse a pagar contas de quatrocentos<br \/>\ne tantos mil-r\u00e9is, s\u00f3 para desfrutar a certeza de que a Sra. D. L\u00facia o amava<br \/>\ncom todo ardor de que \u00e9 capaz uma alma pura e apaixonada! Qual! Por semelhante<br \/>\npre\u00e7o preferia n\u00e3o ser amado!<br \/>\nE adormeceu, impaciente por sair da mol\u00e9stia, e entrar no gozo da felicidade<br \/>\nque ele acabava de pagar adiantado, como se abrisse para todo o ano uma assinatura<br \/>\nde amor.<br \/>\nA ilustrada senhora conseguira o que esperava: as suas nega\u00e7as faziam-na mais<br \/>\ndesejada pelo rapaz e davam-lhe, aos olhos deste irresist\u00edveis fascina\u00e7\u00f5es<br \/>\nde coisas proibida.<br \/>\nCertas mulheres, quando se negam, est\u00e3o recuando para melhor armar o salto<br \/>\nsobre a presa.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Logo pela manh\u00e3 do dia seguinte, j\u00e1 o Coqueiro se apresentava no quarto do<br \/>\nprovinciano, mas com o aspecto muito ressentido, os gestos duros, o olhar<br \/>\ncheio de recrimina\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o, ontem \u00e0 noite, tinhas aqui a L\u00facia?&#8230;inquiriu de chofre, depois<br \/>\nde cumprimentar Am\u00e2ncio secamente.<br \/>\nO interrogado fez uma cara de espanto.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o podes negar! Eu a vi sair!&#8230;<br \/>\n&#8211; \u00cb exato, respondeu o doente, franzindo as sobrancelhas.<br \/>\n&#8211; H\u00e1s , por\u00e9m de permitir que eu te diga que andaste muito mal!&#8230;repontou<br \/>\no Coqueiro. &#8211; Tens de concordar que eu n\u00e3o posso, nem devo consentir em casa<br \/>\nsemelhante coisa!<br \/>\nE foi at\u00e9 a janela, olhou a rua pelas vidra\u00e7as. Am\u00e2ncio n\u00e3o dava uma palavra<\/p>\n<p>O outro voltou, muito comprometido.:<br \/>\n&#8211; Isto aqui \u00e9 uma casa de fam\u00edlia! Sabes perfeitamente que temos conosco uma<br \/>\nmenina solteira, &#8211; uma virgem! N\u00e3o \u00e9 por mim, nem por ti, nem tampouco pela<br \/>\nL\u00facia; mas \u00e9 por ela, sebo! por &#8211; minha irm\u00e3! &#8211; a quem sirvo de pai! \u00c9 por<br \/>\nminha mulher, \u00e9 por minha enteada e pelo menino, \u00e9 pelos h\u00f3spedes, enfim!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois acredita que n\u00e3o houve nada demais!&#8230;balbuciou Am\u00e2ncio.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, filho, tem paci\u00eancia! L\u00e1 fora o que quiseres, mas daquela porta para<br \/>\ndentro, n\u00e3o admito, nem posso admitir!&#8230;E passeando pelo quarto com as m\u00e3os<br \/>\nnas algibeiras: &#8211; Que diabo! Eu te preveni!&#8230;<br \/>\n&#8211; Ora o qu\u00ea! Resmungou Am\u00e2ncio , indignado com a hipocrisia do colega, mas<br \/>\nsem coragem para dizer o que sabia a respeito dele e dos costumes da casa.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o abro o exemplo!&#8230;acrescentou.<br \/>\n&#8211; O que queres dizer com isso?<br \/>\n&#8211; Quero dizer que sei, t\u00e3o bem como tu, que aqui nem todos s\u00e3o santos!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te percebo&#8230;-<br \/>\n&#8211; E \u00e9 melhor mesmo justamente que n\u00e3o percebas<\/p>\n<p>Mas , como o outro ainda se quisesse fazer de desentendido, ele declarou,<br \/>\nfrisando as palavras, que nem sempre ficava a dormir no quarto durante a noite<br \/>\ne que ent\u00e3o enxergava, \u00e0s vezes&#8230;,melhor do que mesmo de dia&#8230;E falou indiretamente<br \/>\nnas entrevistas do m\u00e9dico do n.\u00ba 11 e no que sabia do pr\u00f3prio Coqueiro com<br \/>\nrefer\u00eancia \u00e0 mucama.<br \/>\n&#8211; Olha! Concluiu: &#8211; O que te posso afian\u00e7ar \u00e9 que a mulher do Pereira s\u00f3 vem<br \/>\naqui ao quarto depois que me acho doente, e, longe de ser com mau fim, coitada,<br \/>\n\u00e9 at\u00e9 com muito boa inten\u00e7\u00e3o! &#8211; Entra, cavaqueia um pouco, d\u00e1-me a tomar o<br \/>\nrem\u00e9dio e assim como veio se vai embora, entendes tu?!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida&#8230;gaguejou o hoteleiro, cuja f\u00faria se esvaziara de repente<br \/>\n\u00e0s bicadas do outro, que nem um bal\u00e3ozinho de borracha. &#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que<br \/>\ntu \u00e9s incapaz de cometer qualquer leviandade dentro de uma casa de fam\u00edlia;<br \/>\nmas, a quest\u00e3o s\u00e3o as apar\u00eancias, s\u00e3o as m\u00e1s l\u00ednguas, s\u00e3o os outros h\u00f3spedes!<br \/>\nN\u00e3o os conheces, filho! Nenhum deles acreditar\u00e1 que L\u00facia venha ao teu quarto<br \/>\ns\u00f3 para te dar o rem\u00e9dio e meio dedo da palestra!&#8230;Sei perfeitamente que<br \/>\nisso \u00e9 exato, basta que o digas; eles , por\u00e9m, n\u00e3o ter\u00e3o a mesma boa &#8211; f\u00e9!<br \/>\nMuito mais sabendo, como sabem, de quanto \u00e9 capaz aquela sujeita! Logo quem!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! interjeicionou Am\u00e2ncio. &#8211; Uma senhora casada!&#8230;<br \/>\n&#8211; Casada o qu\u00ea!&#8230;Da missa n\u00e3o sabes nem a metade!<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o ela n\u00e3o \u00e9 casada com o pereira?&#8230;<br \/>\n&#8211; Nunca o foi! Com ele, nem com pessoa alguma! Conhe\u00e7o at\u00e9 a mulher do Pereira,<br \/>\na leg\u00edtima, &#8211; uma velhusca, de \u00f3culos, gorda, com um olho agachado, cheio<br \/>\nd &#8216;\u00e1gua. Mora na Rua da Pedreira.<br \/>\nAm\u00e2ncio estava t\u00e3o pasmo quanto indignado; aquela den\u00fancia do colega produzia-lhe<br \/>\no mau efeito que experimentamos ao dar por falta do rel\u00f3gio. &#8211; Pois o dem\u00f4nio<br \/>\nda mulher nem ao menos era casada?!&#8230;Ele, ent\u00e3o, que diabo de papel representara?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; C\u00ednica! Disse em voz alta.<br \/>\n&#8211; Ora! Fez o outro. &#8211; N\u00e3o trates de abrir os olhos e dir-me-\u00e1s depois as conseq\u00fc\u00eancias!&#8230;<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, prossegui- havia muito artista daquela for\u00e7a! Am\u00e2ncio precisava<br \/>\nacautelar-se, se n\u00e3o queria ser esfolado completamente. L\u00facia o que desejava<br \/>\nera agarr\u00e1-lo para amante: farejava-lhe os cobres! Ele, por\u00e9m, que n\u00e3o fosse<br \/>\ntolo! Que se n\u00e3o deixasse visgar por uma tipa de t\u00e3o baixa esp\u00e9cie!<br \/>\nO provinciano jurava que , at\u00e9 ali, jamais conseguira coisa alguma das m\u00e3os<br \/>\ndela.<br \/>\n&#8211; Isso sei eu!&#8230;Tornou o Coqueiro, com um riso de velha experi\u00eancia, &#8211; isso<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que me digas, porque j\u00e1 conhe\u00e7o a t\u00e1tica das L\u00facias! Negam-se,<br \/>\nfingem-se dif\u00edceis, para valer mais! Quer obrigar-te a cair, toleir\u00e3o!<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 bem aviada! Exclamou Am\u00e2ncio, justamente como ainda na v\u00e9spera havia<br \/>\nrespondido \u00e0 L\u00facia, quando esta lhe falou a respeito de Am\u00e9lia.<br \/>\nAinda nesse dia o Coqueiro aproveitou a ocasi\u00e3o em que o Pereira fazia a sesta<br \/>\ne foi se entender com a L\u00facia.<br \/>\nDisse-lhe o que sabia a respeito das visitas noturnas ao quarto de Am\u00e2ncio<br \/>\ne declarou terminantemente que n\u00e3o estava disposto a consentir em casa semelhantes<br \/>\nesc\u00e2ndalos. Ela que tivesse paci\u00eancia, mas fosse tratando de fazer as malas<br \/>\ne cuidando de p\u00f4r-se ao fresco, se n\u00e3o queria sofrer alguma decep\u00e7\u00e3o maior!<\/p>\n<p>A ilustrada senhora ficou l\u00edvida, e disparou sobre o locandeiro o mais terr\u00edvel<br \/>\ndos seus olhares. Uma c\u00f3lera massuda principiou a entupir-lhe a garganta.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o queria acreditar em tamanho atrevimento!<br \/>\n&#8211; \u00cb, gritou por fim, trincando as palavras. &#8211; Voc\u00ea p\u00f5e-me fora de casa,<br \/>\nporque tem medo que eu lhe tome o amante da irm\u00e3!<br \/>\n&#8211; Insolente! Bradou o Coqueiro, avan\u00e7ando um passo.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o te tenho medo, ordin\u00e1rio! Retrucou L\u00facia empinando o peito contra ele.<br \/>\n&#8211; Sairei daqui se bem quiser! N\u00e3o te devo nada, entendes tu?! Nada!<br \/>\n&#8211; Ah! N\u00e3o deve porque ele pagou!<br \/>\n&#8211; E que tem voc\u00ea com isso?! Que tem voc\u00ea com o dinheiro dos outros?! Ou, quem<br \/>\nsabe se a donzela da irm\u00e3 passou-lhe procura\u00e7\u00e3o!&#8230;<br \/>\nSeja l\u00e1 pelo que for! Eu \u00e9 que n\u00e3o a quero aqui, nem mais um instante. \u00c9 fazer<br \/>\na trouxa e &#8211; rua!<br \/>\n&#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o preciso ficar nesse bordel! Exclamou ela, e rabanou com dire\u00e7\u00e3o<br \/>\nao segundo andar.<br \/>\n&#8211; Que diz voc\u00ea, sua aquela?! Assistiu Mme. Brizard, cortando-lhe o caminho.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isso mesmo! Respondeu L\u00facia, escarrando no ch\u00e3o com desd\u00e9m. E as duas<br \/>\nmulheres ficaram alguns segundos a olhar em sil\u00eancio uma para a outra, de<br \/>\nm\u00e3os nas cadeiras.<br \/>\nCoqueiro e Dr. Tavares meteram-se entre elas.<br \/>\nL\u00facia subiu ao n.\u00ba 8, aprontou as malas num abrir e fechar de olhos, em seguida<br \/>\nvestiu-se para sair, e j\u00e1 de chap\u00e9u, a sombrinha na m\u00e3o, o indispens\u00e1vel enfiado<br \/>\nno bra\u00e7o, correu ao quarto de Am\u00e2ncio.<\/p>\n<p>&#8211; Sabes? Bradou logo ao entrar, empurrando a porta com f\u00faria. &#8211; Aquela b\u00eabada<br \/>\ne o marido acabam de me enxotar daqui por tua causa! T\u00eam medo que eu te coma!<br \/>\nN\u00e3o posso ficar nem mais um instante! Desejo que me emprestes o Sabino!<br \/>\n&#8211; O Sabino estava \u00e0s ordens, mas para onde se atirava ela com tanta precipita\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabia! Havia, por\u00e9m , de encontrar um canto, onde se metesse! Havia<br \/>\nde descobrir um buraco, ainda que fosse no cemit\u00e9rio!<br \/>\nE L\u00facia levantou os punhos at\u00e9 \u00e0s fontes como para se esmurrar, mas cobriu<br \/>\no rosto com as m\u00e3os e abriu num pranto muito nervoso. Era a rea\u00e7\u00e3o que chegava.<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio saltou da cama e correu para ela. Desembara\u00e7ou-a do chap\u00e9u, da bolsa<br \/>\ne da sombrinha e puxou-a depois sobre si.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o te consumas&#8230;disse &#8211; n\u00e3o te mortifiques desse modo.<br \/>\n&#8211; Sou uma desgra\u00e7ada! respondeu a mulher, assoando as l\u00e1grimas . &#8211; Nada se<br \/>\ncumpre do que eu desejo! Nada! O melhor \u00e9 dar cabo desta vida miser\u00e1vel!<br \/>\nE solu\u00e7ava com o rosto escondido no peito do rapaz.<br \/>\nNa febre daquele choro agitado, os seus movimentos transformavam-se em car\u00edcias.<br \/>\nAm\u00e2ncio sentia-lhe as l\u00e1grimas quentes e o contacto carnal dos l\u00e1bios, que<br \/>\nelas ensopavam. Os desejos assanhavam-se-lhe de novo pelo corpo, como insetos<br \/>\nque voltam com o calor.<br \/>\n&#8211; E tornava a cobi\u00e7a-la com os mesmos ardores primitivos.<br \/>\nN\u00e3o me queria separar de ti&#8230;queixou-se ela, afinal, virgulando as sua frases<br \/>\ncom solu\u00e7os suspirados. &#8211; Em ti havia firmado todas as minhas esperan\u00e7as de<br \/>\nventura, todos os sonhos de minha vida! Amava agora a exist\u00eancia, s\u00f3 porque<br \/>\nalguma coisa me fazia acreditar que ainda um dia ser\u00edamos felizes!<br \/>\n&#8211; E porque n\u00e3o havemos de ser?&#8230;perguntou Am\u00e2ncio condolentemente.<br \/>\n&#8211; Ora!&#8230;prosseguiu ela, &#8211; tudo me persegue, tudo me sai contr\u00e1rio&#8230;Foi bastante<br \/>\nque eu te amasse, foi bastante pensar que poder\u00edamos ser um do outro, para<br \/>\nque aqui se levantassem todos contra mim e ferissem a guerra que tens visto!<\/p>\n<p>E, desagarrando-se de Am\u00e2ncio, para segurar de novo a cabe\u00e7a, num movimento<br \/>\nde embara\u00e7o doloroso:<br \/>\nMas, imagina tu, que estou inteiramente sem recursos!&#8230;Tenho que fazer a<br \/>\nmudan\u00e7a e ainda n\u00e3o sei como pagar o carreto das malas!&#8230;V\u00ea tu que situa\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio beijou-a na boca e perguntou se ela n\u00e3o lhe dava uma esperan\u00e7azinha<br \/>\npara depois que se mudasse.<br \/>\nL\u00facia respondeu que dava, n\u00e3o uma esperan\u00e7a, mas uma certeza&#8221;. E sem desprender<br \/>\nos l\u00e1bios dos l\u00e1bios do rapaz, afian\u00e7ou &#8211; que lhe mandaria dizer por escrito<br \/>\no lugar onde seria encontrada; e que ele fosse por l\u00e1 as vezes que entendesse.<br \/>\n&#8211; A\u00ed ao menos estariam livres do Coqueiro e das outras pestes!<br \/>\n&#8211; prometes ent\u00e3o?&#8230;insistiu ele , procurando garantir o compromisso.<br \/>\n&#8211; Prometo, prometo o que quiseres, tudo! Disse ela, ainda chorosa.<br \/>\nAm\u00e2ncio foi \u00e0 algibeira do fraque, abriu a carteira. Havia trezentos mil-r\u00e9is,<br \/>\ntomou uma nota de cem e entregou-a a L\u00facia, dizendo com pesar que era o \u00fanico<br \/>\ndinheiro que possu\u00eda na ocasi\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Talvez te fa\u00e7am falta&#8230;considerou ela escrupulosamente, sem querer tocar<br \/>\nna c\u00e9dula.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o! apressou-se a declarar o rapaz. &#8211; Desculpa n\u00e3o te poder ser mais<br \/>\nagrad\u00e1vel.<br \/>\nL\u00facia beijou-o de novo, e desceu enfim ao primeiro andar, acompanhada pelo<br \/>\nSabino que j\u00e1 estava \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOrdenou ao moleque de buscar, num pulo, uma carrocinha, e logo que esta chegou<br \/>\nfez embarcar as malas e mandou chamar uma carruagem.<br \/>\nEnquanto esperava, reclamou a sua conta, atirou com o dinheiro sem olhar para<br \/>\nquem o recebia, embolsou o troco e, em seguida, foi acordar o Pereira.<br \/>\n&#8211; Onde vamos? Perguntou este entre dois bocejos, assim que a viu em trajes<br \/>\nde sair.<br \/>\n&#8211; Venha da\u00ed, homem! E deixe-se de perguntas!<br \/>\nPereira levantou-se espregui\u00e7ando-se e acompanhou a mulher.<br \/>\nEsta o fez entrar na carruagem que j\u00e1 havia chegado, assentou-se junto dele<br \/>\ne disse ao cocheiro que tocasse par a Tijuca. Deu-lhe o n\u00famero.<br \/>\nEra o n\u00famero de uma outra hospedaria nas mesmas condi\u00e7\u00f5es da que deixavam.<br \/>\nL\u00facia, que j\u00e1 pressupunha aquelas r\u00e1pidas mudan\u00e7as, tinha, por cautela, uma<br \/>\nlista das principais casa de pens\u00e3o da Corte e, \u00e0 medida que se servia de<br \/>\ncada uma, riscava-a da cole\u00e7\u00e3o. A do Coqueiro era no rol a Sexta inutilizada<br \/>\ncom o tra\u00e7o en\u00e9rgico de seu l\u00e1pis.<br \/>\nEntretanto, ia o Pereira silenciosamente se atufando nas almofadas e, aos<br \/>\nbalan\u00e7os mon\u00f3tonos do carro, procurava reatar o sono interrompido<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>XIII<\/h2>\n<p>A casa de pens\u00e3o de Mme. Brizard sofreu muito com as variol\u00f3ides de Am\u00e2ncio.<br \/>\nDesmanavam-se h\u00f3spedes que era uma coisa por demais. O gentleman, o Piloto<br \/>\ne a p\u00e9rola do n.\u00ba 9, &#8220;o estim\u00e1vel Melinho&#8221;, desde a fatal noite das cataporas,<br \/>\nn\u00e3o davam not\u00edcias suas; Fontes e a mulher sumiram-se logo no dia imediato,<br \/>\ne, por conseguinte, n\u00e3o metendo o tal m\u00e9dico do n.\u00ba 11, que j\u00e1 n\u00e3o aparecia<br \/>\nh\u00e1 bastante tempo, apenas seis h\u00f3spedes restavam dos quatorze primitivos.<br \/>\nE ainda mesmo destes seis nem todos eram aproveit\u00e1veis; porque o Paula Mendes<br \/>\ne mais a mulher levantariam o v\u00f4o, assim que lhes chegasse uma aragenzinha<br \/>\nde dinheiro, e o estafermo do n.\u00ba 7 tamb\u00e9m estava a se despedir por um daqueles<br \/>\ndias, n\u00e3o da casa, mas do mundo. Certos, s\u00f3 Am\u00e2ncio, o guarda-livros, e o<br \/>\nesquisit\u00e3o do Campelo que, fugindo ao pigarro do t\u00edsico, mudara-se para o<br \/>\nandar de baixo, mal pilhara um c\u00f4modo desocupado. Mme. Brizard estava, pois,<br \/>\ninconsol\u00e1vel. &#8211; Em sua vida de hospedeira jamais tivera um m\u00eas t\u00e3o ruim! E<br \/>\nazoinada por essas contrariedades e j\u00e1 de natureza um tanto supersticiosa,<br \/>\nagora em tudo descobria sinais de agouro e motivos para desconfian\u00e7a. &#8211; Pois<br \/>\nse at\u00e9 o ilustre Sr. Lambertosa, &#8220;o respeit\u00e1vel gentleman, a flor dos homens<br \/>\nfinos, uma criatura t\u00e3o cheia de circunspe\u00e7\u00e3o&#8221;, quem diria?&#8230;aproveitar ao<br \/>\nensejo das bexigas para lhe passar a perna! E o Melinho? &#8220;estim\u00e1vel Melinho!<br \/>\nA p\u00e9rola do n.\u00ba 9, o homem das frutas cristalizadas!&#8221; tamb\u00e9m n\u00e3o deixara as<br \/>\nsuas contas em aberto?&#8230; S\u00f3 o Piloto, o est\u00fardio, aquele de quem menos se<br \/>\nesperava, aparecera tr\u00eas dias depois da fugas, perguntando, ainda muito escabreado,<br \/>\nde quanto era a sua d\u00edvida. &#8211; \u00c9 mesmo caiporismo! Gemia a francesa. O marido,<br \/>\npor\u00e9m, soprava-lhe a coragem: _Ela que n\u00e3o desanimasse por t\u00e3o pouco! Nem<br \/>\ntudo se perdera! Enquanto tivessem o Am\u00e2ncio n\u00e3o se podiam queixar da sorte;<br \/>\neste valia por todos os outros! Mas o precioso Am\u00e2ncio n\u00e3o estava tamb\u00e9m muito<br \/>\nsatisfeito com a casa, talvez desconfiado que a esta coubesse em parte a responsabilidade<br \/>\ndaquele maldito reumatismo que, ora parecia extinto e ora o obrigava a guardara<br \/>\ncama, tolhido de dores. A noite, quando lho permitiam as pernas, descia a<br \/>\ncavaquear na varanda com os senhorios. Agora os ser\u00f5es tinham um car\u00e1ter mais<br \/>\n\u00edntimo e eram freq\u00fcentemente animados com a presen\u00e7a de uma fam\u00edlia, que voltara<br \/>\n\u00e0s rela\u00e7\u00f5es de Mme. Brizard depois de seis meses de inimizade. Tocava-se de<br \/>\npiano, jogava-se a v\u00edspora quase todos os dias e, \u00e0s vezes, se dan\u00e7ava A casa<br \/>\nde pens\u00e3o nunca ofereceu aos seus h\u00f3spedes um aspecto t\u00e3o divertido; menos<br \/>\npara o rabequista, o Paula Mendes, que parecia cada vez mais triste e apoquentado<br \/>\nda vida. A circunst\u00e2ncia de j\u00e1 n\u00e3o comer \u00e0 mesa do Coqueiro obrigava-o a desperdi\u00e7ar<br \/>\nmuito tempo com o restaurante e dificultava-lhe a subsist\u00eancia da mulher,<br \/>\ncujo mau humor ia azedando ao peso da tanta necessidade e de tanta humilha\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO infeliz marido conseguiu afinal que ela fosse passar alguns meses na companhia<br \/>\ndos parentes em Niter\u00f3i. Mme. Brizard, ao v\u00ea-la partir, receou a premedita\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma fuga e exigiu logo que o Mendes, para garantir a d\u00edvida, hipotecasse<br \/>\no piano que tinha no quarto O pobre homem consentiu, sem dizer palavra, mas,<br \/>\nde envergonhado, deixou de aparecer nos ser\u00f5es da sala de jantar. E desde<br \/>\nent\u00e3o, por alta noite, quando toda a casa era sil\u00eancio, Am\u00e2ncio ouvia no corredor<br \/>\no som de passos tr\u00f4pegos e um vozear confuso de algu\u00e9m quer monologava..<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A casa de pens\u00e3o, definitivamente, ia se tornando insuport\u00e1vel ao estudante.<br \/>\nN\u00e3o podia sair \u00e0 rua; o m\u00e9dico, havia quase um m\u00eas, jurara p\u00f4-lo pronto em<br \/>\nquatro dias, se Am\u00e2ncio n\u00e3o fizesse alguma extravag\u00e2ncia; as conversa de toda<br \/>\na fam\u00edlia Coqueiro, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de Amelinha, o enfastiava; a leitura muito pouco<br \/>\no distra\u00eda, e, para complemento do enj\u00f4o, o maldito tossegoso do n.\u00ba 7, o<br \/>\nqual por caridade entregara ele ultimamente ao seu m\u00e9dico, parecia morrer<br \/>\nde cinco em cinco minutos e n\u00e3o lhe dava um momento de sossego.<\/p>\n<p>Mas a causa principal desse t\u00e9dio era, sem d\u00favida, a aus\u00eancia de L\u00facia. Desde<br \/>\nque ela se foi, o cora\u00e7\u00e3o do rapaz turgia de saudade; longe de esquec\u00ea-la,<br \/>\ncada vez a desejava com mais sofreguid\u00e3o. AS trevas da aus\u00eancia faziam-na<br \/>\ndestacar melhor e mais linda, como um fundo negro a uma est\u00e1tua de m\u00e1rmore.<br \/>\nSentiu sobressaltos deliciosos quando recebeu a primeira carta das m\u00e3os dela.<br \/>\nEra extensa, cheia de imagens po\u00e9ticas e figuras de grande alcance amoroso;<br \/>\nterminava dizendo que&#8221; Am\u00e2ncio, logo que pusesse os p\u00e9s na rua, a fosse procurar&#8221;.<br \/>\nO endere\u00e7o vinha \u00e0 parte, num pedacinho de papel. E n\u00e3o poder ir quanto antes!&#8230;Que<br \/>\nespiga!, considerou ele, sinceramente penalizado. E cresciam-lhe os enj\u00f4os.<br \/>\nS\u00f3 Am\u00e9lia, com os estiletes da sua perceptibilidade feminina, consegui penetrar<br \/>\nno \u00e2mago daquelas tristezas, mas n\u00e3o se deu por achada e redobrou de desvelos<br \/>\ne meiguices para com ele. Am\u00e2ncio, por mais de uma vez, beijou-lhe as m\u00e3os<br \/>\nsuspirando que ela era o seu bom anjo, a sua consola\u00e7\u00e3o \u00fanica no meio de &#8220;tantos<br \/>\ndissabores&#8221;! Assim se passaram quinze dias. O apaixonado j\u00e1 a tratava por<br \/>\ntu, por voc\u00ea e raras vezes por senhora. Era a piedosas Amelinha quem lhe arrumava<br \/>\no quarto, quem lhe cuidava da roupa, e, j\u00e1 por fim,. Era at\u00e9 quem lhe levava<br \/>\no cafezinho pela manh\u00e3. Mas n\u00e3o entrava, apenas metia o bra\u00e7o pela abertura<br \/>\nda porta que ficava sempre encostada, depunha cautelosamente a x\u00edcara sobre<br \/>\nsoalho, e, se Am\u00e2ncio ainda dormia, gritava-lhe no seu falsete apraz\u00edvel:<br \/>\n&#8211; Pregui\u00e7oso, acorde! S\u00e3o horas! Depois, apanhava novamente as saias e descia<br \/>\na escada, ligeira e sem rumor. Outras vezes, ao anoitecer, subia para lhe<br \/>\npedir um livro emprestado, para saber se ele queria ch\u00e1 no quarto ou se preferia<br \/>\ndescer \u00e0 sala de jantar. Sempre havia um pretexto para l\u00e1 ir e, depois de<br \/>\nl\u00e1 estar, sempre arranjava um motivo de demora. Entretinha-se a ver o que<br \/>\nse achava sobre a mesas; examinava tudo; lia a lombada dos livros, e brincava<br \/>\ncom um esqueleto que jazia pendurado a um canto do quarto. Am\u00e2ncio, de uma<br \/>\nfeita, n\u00e3o p\u00f4de deixar de rir, quando a encontrou muito espantada a examinar<br \/>\nas gravuras de um tratado fisiol\u00f3gico de Vernier. Estava ,por\u00e9m , mais e mais<br \/>\nconvencido de que toda aquela familiaridade e toda aquela confian\u00e7a da rapariga<br \/>\nprocediam do modo e das maneiras respeitosas e fraternais com que ele, at\u00e9<br \/>\nali, a tratara. E ent\u00e3o fazia por domar os seus impulsos luxuriosos, receoso<br \/>\nde cair-lhe em desagrado. Verdade \u00e9 que , em grande parte, contribu\u00eda para<br \/>\nesse estranho hero\u00edsmo do garanh\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 a mol\u00e9stia, como a ilimitada confian\u00e7a<br \/>\nque, muito propositalmente depositavam nele o Coqueiro e a mulher. Se Am\u00e9lia<br \/>\ne L\u00facia trocassem os pap\u00e9is, isto \u00e9, se aquela se negasse e esta se oferecesse,<br \/>\n\u00e9 de supor que Am\u00e2ncio desdenhasse a \u00faltima e ambicionasse a primeira. Mas<br \/>\no Sr. Jo\u00e3o Coqueiro, apesar de t\u00e3o fino, n\u00e3o calculou que, em naturezas viciadas<br \/>\ncomo a de Am\u00e2ncio, o mais forte est\u00edmulo para o amor \u00e9 a proibi\u00e7\u00e3o. Embalde<br \/>\ndeixavam o rapaz horas e horas no sal\u00e3o, \u00e0s voltas com a menina; embalde Mme.<br \/>\nBrizard lhe dava a perceber o quanto era ele amado pela cunhada; embalde lhe<br \/>\nchamava &#8220;cora\u00e7\u00e3o de gelo&#8221;; embalde lhe preparava todos os la\u00e7os. &#8211; Nada produzia<br \/>\no efeito desejado; Am\u00e2ncio tornava-se cada vez mais respeitoso e mais frio<br \/>\nem presen\u00e7a de Am\u00e9lia. Era para desesperar! Uma ocasi\u00e3o, todavia, estava ele<br \/>\nno quarto, de costas para a porta e muito entretido a ler defronte o g\u00e1s,<br \/>\nquando Am\u00e9lia, p\u00e9 ante p\u00e9, entrou sem ser sentida e, encaminhando-se contra<br \/>\no mo\u00e7o, tomou-lhe a cabe\u00e7a nas m\u00e3os e cobriu-lhe o rosto de beijos. Am\u00e2ncio<br \/>\nquis prend\u00ea-la, mas a rapariga n\u00e3o se deixou enlear, e fugiu, como um p\u00e1ssaro<br \/>\nassustado.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O rapaz, ent\u00e3o, nunca mais receou lhe cair em desagrado. Mas o dem\u00f4nio do<br \/>\nreumatismo l\u00e1 estava erguido entre ele e a provocadora menina. A despeito<br \/>\ndo tratamento, as dores recrudesciam-lhe de vez em quando e assanhavam-lhe<br \/>\na b\u00edlis. Am\u00e2ncio principiou a emagrecer, tomado de uma estranha prostra\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmuito assustadora. O m\u00e9dico aconselhou-o, logo a que se mudasse para um arrabalde<br \/>\nde bons ares, como Santa Tereza, por exemplo, e esta not\u00edcia produziu enormes<br \/>\nsobressaltos na fam\u00edlia dos locandeiros. Mme. Brizard parecia ter um filho<br \/>\nem risco de vida; Coqueiro declarou, cheio de dedica\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o deixaria<br \/>\no &#8220;pobre amigo &#8221; ir assim desamparado para uma casa de sa\u00fade ou para um hotel;<br \/>\nAmelinha choramingava ao lado da cama do enfermo, e, quando se achava a com<br \/>\neste, beijava-lhe as m\u00e3os, afagava-lhe os cabelos e solu\u00e7ava palavras de ternura.<\/p>\n<p>Nesses dias Am\u00e2ncio era o assunto obrigado das conversas da casa. \u00c0 mesa<br \/>\ne durante os ser\u00f5es n\u00e3o se falava noutra coisa. Lembravam-se todos os expedientes:<br \/>\n&#8211; uma mudan\u00e7a geral da fam\u00edlia; alugar fora uma casinha e lev\u00e1-lo de passeio<br \/>\nat\u00e9 que se restabelecesse; abandonar a casa de pens\u00e3o ou entreg\u00e1-la aos cuidados<br \/>\nde alguma pessoa de confian\u00e7a. Nada, por\u00e9m, ficava resolvido. A conversa turbinava<br \/>\nem volta do mesmo assunto, sem descobrir uma sa\u00edda. Nini era a \u00fanica que parecia<br \/>\nn\u00e3o se importar com tudo aquilo; de olhos muito abertos, son\u00e2mbula, ouvia<br \/>\nem sil\u00eancio as conversas da fam\u00edlia, apenas suspirando de espa\u00e7o a espa\u00e7o.<br \/>\nN\u00e3o obstante, j\u00e1 uma noite estava a casa recolhida, quando despertaram alarmados<br \/>\ncom o baque de um corpo que, entre medonhos gritos , rolava pela escada do<br \/>\nsegundo andar. Acudiram todos, num levante. &#8211; _Que acontecera?! Que acontecera?!<br \/>\nNini, coberta de sangue, jazia estendida sem sentidos ao sop\u00e9 da escada. Rolara<br \/>\nvinte degraus e partira a cabe\u00e7a em dois lugares. Ia fazer uma visita ao seu<br \/>\nesquivoso enfermo, mas no patamar da maldita escada, perdera o equil\u00edbrio<br \/>\ne baqueara desastradamente. Tomaram-lhe as feridas a pontos falsos, friccionaram-lhe<br \/>\no corpo inteiro com aguardente canforada e deram-lhe a beber cerveja preta.<br \/>\nSupunham, todavia, que amanhecesse morta. Foi o contr\u00e1rio: Nini melhorou muito<br \/>\nde seus antigos padecimentos e apresentou uma inesperada lucidez de id\u00e9ias,<br \/>\ncomo h\u00e1 muito n\u00e3o possu\u00eda. &#8211; O choque fizera-lhe bem e n\u00e3o menos o sangue<br \/>\nque derramou da cabe\u00e7a, afian\u00e7ou o m\u00e9dico. Aquele trambolh\u00e3o era uma provid\u00eancia!<br \/>\n\u00c0 noite, conversou-se bastante a esse respeito; vieram as amigas de Mme. Brizard;<br \/>\nchoveram os coment\u00e1rios sobre Nini; citaram-se as anedotas correlativas ao<br \/>\nfato, e Am\u00e2ncio, que se achava ent\u00e3o mais desembara\u00e7ado das pernas, entendeu<br \/>\nde sua obriga\u00e7\u00e3o fazer uma visita \u00e0 pobre criatura. Nini estava melhor que<br \/>\nnunca, tranq\u00fcila; havia comido regularmente e mostrava-se at\u00e9 mais satisfeita<br \/>\ne mais comunicativa; ao dar, por\u00e9m, com Am\u00e2ncio, que entrara no quarto com<br \/>\no seu risinho de boa amizade, abriu de repente a estrebuchar na cama, bramindo<br \/>\nimprop\u00e9rios e atassalhando as roupas. Para sossegar um pouco foi preciso que<br \/>\no rapaz fugisse o mais depressa de sua presen\u00e7a. E, desde ent\u00e3o, a desgra\u00e7ada<br \/>\nn\u00e3o o podia ver, que lhe n\u00e3o voltassem logo as ins\u00e2nias e os frenesis Estabeleceu-se<br \/>\num cuidado enorme para evitar que os dois se encontrassem. J\u00e1 n\u00e3o era permitido<br \/>\na Am\u00e2ncio dar um passo fora do quarto, sem se precaver e indagar se Nini estava<br \/>\npor ali perto. O m\u00e9dico declarou que um novo encontro exacerbaria os padecimentos<br \/>\nda enferma e talvez lhe produzisse a loucura absoluta. Mme. Brizard pranteava-se<br \/>\ntoda, quando lhe falavam na filha. &#8211; Era uma desgra\u00e7ada, dizia, com os olhos<br \/>\nepispados pelo esfor\u00e7o que faziam &#8211; era uma grande desgra\u00e7a! Antes Deus a<br \/>\nlevasse logo para si, coitada! Um encontro, que Am\u00e2ncio n\u00e3o pudera evitar,<br \/>\na despeito de suas precau\u00e7\u00f5es, deixou Nini em tal excita\u00e7\u00e3o nervosa, que o<br \/>\ndoutor proibiu que a consentissem fora do quarto. Ficou presa desde esse dia.<br \/>\nMalgrado a felicidade prevista ao lado de Am\u00e9lia, o provinciano sentia j\u00e1<br \/>\nbastante desejo de se tirar dali. &#8211; Assim estivesse bom! Campos, em uma visita<br \/>\nque lhe fez por essa ocasi\u00e3o, falou muito na generosidade com que se portara<br \/>\na fam\u00edlia do Coqueiro durante a mol\u00e9stia do rapaz. &#8211; Que aquilo era uma fortuna<br \/>\nque nem todos abichavam! Citou principalmente as canseiras de Amelinha e concluiu<br \/>\ndeclarando que, segundo o seu fraco modo de pensar, Am\u00e2ncio tinha obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde fazer \u00e0 menina um qualquer presente de valor. Sim! porque, no fim de contas.<br \/>\nEra muito dif\u00edcil encontrar daquilo nas casa de pens\u00e3o ! Outros foram eles,<br \/>\nque Am\u00e2ncio teria de P\u00f4r os quartos na rua! &#8211; N\u00e3o. Inquestionavelmente, era<br \/>\npreciso dar o presente! E, depois de se concentrar numa pausa: &#8211; A\u00ed uma j\u00f3ia<br \/>\nde uns cem mil-r\u00e9is&#8230;Que diabo! Esse dinheiro n\u00e3o o faria pobre&#8230; Mas o<br \/>\nestudante, em voz discreta e abafada, confessou ao Campos que a brincadeira<br \/>\nn\u00e3o lhe havia sa\u00eddo t\u00e3o de gra\u00e7a, como parecia \u00e0 primeira vista: S\u00f3 no m\u00eas<br \/>\npassado gastara perto de seiscentos mil-r\u00e9is, sem contar que o Sabino vivia<br \/>\nnuma dobadoura, de casa para a botica e da botica para a casa, e eram rem\u00e9dios<br \/>\npara Nini, rem\u00e9dios para o t\u00edsico do n.\u00ba 7, \u00e1gua de flor de laranja para Mme.<br \/>\nBrizard, xaropes para o Coqueiro; um inferno!&#8230;E que toda essa droga ca\u00eda<br \/>\nna sua conta! &#8211; E os dinheiros emprestados?&#8230;E as fitas, os bot\u00f5es, as linha,<br \/>\nas tiras bordadas, que Amelinha estava sempre a lhe pedir que mandasse buscar<br \/>\nnos armarinhos sem nunca dar dinheiro para isso?&#8230;N\u00e3o! O Sr. Lu\u00eds Campos<br \/>\nn\u00e3o lhe podia calcular o que havia! &#8211; Hoje cinco mil-r\u00e9is, amanh\u00e3 vinte! E,<br \/>\nno tirar<\/p>\n<p>das contas, parecia que tudo isso, em vez de ser descontado, era aumentado<br \/>\nnas suas despesas!&#8230;Que tal?!- Recebera obs\u00e9quios, sim senhor! mas tamb\u00e9m<br \/>\npuxara muito pela bolsa! Campos ignorava aquelas particularidades!&#8230;Mas entendia<br \/>\nque Am\u00e2ncio, nem menos por isso devia menos obriga\u00e7\u00f5es \u00e0 fam\u00edlia do Coqueiro.<br \/>\nE ofereceu a &#8220;sua modesta choupana&#8221;, caso o estudante n\u00e3o quisesse continuar<br \/>\nali. Am\u00e2ncio rejeitou, um tanto por se lembrar das esperan\u00e7as que embalava<br \/>\na respeito de Am\u00e9lia, um tanto por se n\u00e3o querer sujeitar ao regime do negociante<br \/>\ne um tanto por mera cerim\u00f4nia. &#8211; Enfim, disse o marido de Hort\u00eansia, despedindo-se-<br \/>\nacho que o senhor deve fazer o presente e tratar logo de sair daqui; j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ndigo pela quest\u00e3o da despesa, mas porque lhe conv\u00e9m \u00e0 sa\u00fade. Escolha um arrabalde<br \/>\nde bons ares ou ent\u00e3o d\u00ea um passeio a Petr\u00f3polis; o m\u00e9dico afian\u00e7ou-me que<br \/>\no senhor tem amea\u00e7os de uma febre paludosa, e isso \u00e9 o diabo na \u00e9poca que<br \/>\natravessamos: a febre amarela grassa por a\u00ed que n\u00e3o \u00e9 brinquedo!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Logo que constaram as novas disposi\u00e7\u00f5es de Am\u00e2ncio a respeito de mudan\u00e7a,<br \/>\nhouve uma grande consterna\u00e7\u00e3o por toda a casa. &#8211; Deixar-nos?! Exclamou Mme.<br \/>\nBrizard em sobressalto. &#8211; N\u00e3o consentimos! Se para o seu completo restabelecimento<br \/>\n\u00e9 necess\u00e1rio um arrabalde, vamos todos para o arrabalde! S\u00f3 &#8211; isso \u00e9 que n\u00e3o!<br \/>\nSeria at\u00e9 uma falta de humanidade, coitado! E formou-se um zunzum de opini\u00f5es.<br \/>\nCochichava-se pelos cantos, em magotes, discreteando-se projetos em voz de<br \/>\nmist\u00e9rio, como se se tratasse de um moribundo. O Coqueiro andava de um para<br \/>\noutro lado, co\u00e7ando desesperadamente a cabe\u00e7a, gesticulando, \u00e0 procura de<br \/>\num meio de conciliar os seus interesses. Am\u00e9lia, afinal, subiu ao quarto do<br \/>\ndoente, e, com uma afli\u00e7\u00e3o a quebrar-lhe a voz, toda a tremer, os olhos \u00famidos,<br \/>\nperguntou se ele tencionava deixar a casa. Am\u00e2ncio, ignorando o que ia por<br \/>\nbaixo a seu respeito, trejeitou uns momos de indiferen\u00e7a e respondeu: &#8220;que<br \/>\nn\u00e3o sabia ainda ao certo&#8230;havia de ver!&#8230;mas o m\u00e9dico lhe ordenara que fosse&#8230;&#8221;<br \/>\nComo se s\u00f3 esperasse por aquelas palavras, o pranto da menina irrompeu violentamente.<br \/>\nEle, meio surpreso, a tomou nos bra\u00e7os, indagando com ternura &#8220;o que significava<br \/>\naquilo?&#8230;&#8221; Am\u00e9lia n\u00e3o respondeu logo, mas depois, levantando a cabe\u00e7a, que<br \/>\nlhe havia pousado no colo, exclamou entre solu\u00e7os angustiados: &#8211; N\u00e3o! n\u00e3o!<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1s de ir ! pe\u00e7o-te que n\u00e3o v\u00e1s! O provinciano quis saber por qu\u00ea. &#8211; Eu<br \/>\nte amo! disse ela, escondendo de novo o rosto. &#8211; Eu te amo e n\u00e3o posso me<br \/>\nseparar de ti! Vejo a sua indiferen\u00e7a ! percebo que me detesta, mas que hei<br \/>\nde eu fazer?! Adoro-te, meu amor! &#8211; Ah! se eu n\u00e3o estivesse t\u00e3o doente!&#8230;suspirou<br \/>\nAm\u00e2ncio.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>XIV<\/h2>\n<p>O t\u00edsico do n.\u00ba 7 h\u00e1 dias esperava o seu momento de morrer, estendido na<br \/>\ncama, os olhos cravados no ar, a boca muito aberta , porque j\u00e1 lhe ia faltando<br \/>\no f\u00f4lego. N\u00e3o tossia; apenas, de quando em quando, o esfor\u00e7o convulsivo para<br \/>\natravessar os pulm\u00f5es desfeitos sacudia-lhe todo o corpo e arrancava-lhe da<br \/>\ngarganta um a ronqueira l\u00fagubre, que lembrava o arrulhar ominoso dos pombos.<br \/>\nContavam que expirasse a todo o instante. Am\u00e2ncio cedera o seu moleque para<br \/>\nlhe fazer companhia, e dos brancos da casa era o \u00fanico que lhe aparecia l\u00e1<br \/>\numa vez por outra. N\u00e3o \u00e9 que o espet\u00e1culo daquele aniquilamento lhe tocasse<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o, mas porque lhe mordiscava a curiosidade com esse fr\u00edvolo interesse<br \/>\nde pavor, que nos esp\u00edritos rom\u00e2nticos provocam os loucos e os defuntos. Uma<br \/>\nnoite, seriam duas horas da madrugada, o t\u00edsico gemeu com tal insist\u00eancia<br \/>\nque acordou o estudante. Am\u00e2ncio levantou-se, tomou uma vela e foi at\u00e9 o quarto<br \/>\ndele. Ficou impressionado. O homem estava muito aflito, debatendo-se contra<br \/>\nos len\u00e7\u00f3is, no desespero da sua ortopn\u00e9ia A cabe\u00e7a vergada para tr\u00e1s, o magro<br \/>\npesco\u00e7o estirado em curva, a barba tesa, piramidal, apontando para o teto;<br \/>\nsentiam-se-lhe por detr\u00e1s da pele empobrecida do rosto os \u00e2ngulos da caveira;<br \/>\nacusavam-se-lhe os ossos por todo o corpo; os olhos, extremamente vivos e<br \/>\nesbugalhados, de uma fixidez inconsciente, pareciam saltar das \u00f3rbitas, e,<br \/>\npelo esvazamento da boca toda aberta, via-se-lhe a l\u00edngua dura e seca, de<br \/>\npapagaio, e divisavam-se-lhe as duas filas de dentadura.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia sossegar. O seu corpo, chupado lentamente pela t\u00edsica, nu e esquel\u00e9tico,<br \/>\nvirava-se de uma para outra banda, entre manchas excrement\u00edcias, a porejar<br \/>\num suor gorduroso e frio, que umedecia as roupas da cama e dava-lhe \u00e0 pele,<br \/>\ncor de osso velho, um brilho repugnante. Faltava-lhe o ar e, todavia, pela<br \/>\njanela aberta para o nascente, os ventos frescos da noite entravam impregnados<br \/>\nda m\u00fasica de um baile distante, e punham no triste abandono daquele quarto<br \/>\numa melancolia dura, um \u00e1spero sentimento de ego\u00edsmo; alguma coisa da indiferen\u00e7a<br \/>\ndos que vivem pelos que se v\u00e3o meter silenciosamente dentro da terra. O m\u00e9dico<br \/>\nrecomendara que lhe dessem todo o ar poss\u00edvel e lhe fizessem beber de espa\u00e7o<br \/>\na espa\u00e7o uma por\u00e7\u00e3o do calmante que lhe receitara. Uma lamparina de azeite<br \/>\nfazia tremer a sua miser\u00e1vel chama e cuspia o \u00f3leo quente. Havia um cheiro<br \/>\nenjoativo de mol\u00e9stia e desasseio. Sabino dormia a sono solto no corredor.<br \/>\nAm\u00e2ncio acordou-o com o p\u00e9. &#8211; \u00c9 dessa forma que velas pelo homem? perguntou.<br \/>\nO moleque ergueu-se estremunhado e deu alguns passos, esbarrando pelas paredes,<br \/>\nsem cair em si. &#8211; Vamos! Desperta por uma vez e d\u00e1-lhe o rem\u00e9dio! Ele parece<br \/>\nque tem sede! O t\u00edsico, ao ouvir a voz de Am\u00e2ncio, principiou a agitar os<br \/>\nbra\u00e7os, como se o chamasse, grugulejando sons roucos e inintelig\u00edveis. O estudante<br \/>\nn\u00e3o quis atender, mas o doente insistia com tamanho desespero, que ele, afinal,<br \/>\nvencendo a repugn\u00e2ncia, se aproximou, a conchear a m\u00e3o contra a l\u00edngua tr\u00eamula<br \/>\nda vela. Apesar de seus fracos estudos de medicina, fazia-lhe mal aos nervos<br \/>\naquela figura descarnada, que se exinania na impud\u00eancia aterradora da morte;<br \/>\nfaziam-lhe mal aqueles membros despojados em vida, aquele esqueleto animado,<br \/>\nque, na sua distanasia, parecia convid\u00e1-lo para um passeio no cemit\u00e9rio. E<br \/>\no t\u00edsico rouquejava sempre, agitando os bra\u00e7os. O moleque, ao lado, derramava-lhe<br \/>\ncolheradas de rem\u00e9dio na boca; mas o l\u00edquido voltava em fios pelo canto dos<br \/>\nl\u00e1bios do moribundo e escorria-lhe ao comprido do pesco\u00e7o e pela aridez escalavrada<br \/>\ndo peito. Am\u00e2ncio tomou-lhe um dos pulsos. O contacto pegajoso e \u00famido fez-lhe<br \/>\nretirar-lhe logo a m\u00e3o com um arrepio. &#8211; Creio que n\u00e3o deita esta noite! Disse<br \/>\nao moleque, afetando tranq\u00fcilidade, mas com a voz sumida e alterada. &#8211; Qual,<br \/>\nnh\u00f4, ele est\u00e1 assim a um ror de dias! Leva nisto e n\u00e3o decide!&#8230; &#8211; N\u00e3o! Creio<br \/>\nque agora est\u00e1 morrendo&#8230; E olhou para o doente. Este espichou a cabe\u00e7a e<br \/>\nrespondeu que n\u00e3o, com um movimento demorado. &#8211; Ele ouviu?&#8230;Perguntou Am\u00e2ncio,<br \/>\nimpressionado com a interven\u00e7\u00e3o inesperada do moribundo. A caveira tornou<br \/>\na agitar-se nos travesseiros para dizer que sim. &#8211; Olha!&#8230;fez o estudante<br \/>\narregalando os olhos. E aproximou-se da porta, recomendando ao Sabino que<br \/>\nse n\u00e3o descuidasse da pobre criatura; que se n\u00e3o pusesse a dormir como ainda<br \/>\nh\u00e1 pouco! O t\u00edsico, que havia serenado alguma coisa com a presen\u00e7a do rapaz,<br \/>\nprincipiou de novo a espolinhar-se, rilhando os dentes e agitando os bra\u00e7os<br \/>\ne as pernas. Am\u00e2ncio, por\u00e9m, n\u00e3o atendeu desta vez e saiu. O t\u00edsico rosnou<br \/>\ncom mais \u00e2nsia, procurando lan\u00e7ar-se fora do leito, numa afli\u00e7\u00e3o crescente.<br \/>\n&#8211; Fica quieto! Gritou Sabino, obrigando-o a deitar-se.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Logo que o estudante se afastou com a vela, o quarto recaiu na sua d\u00fabia<br \/>\nclaridade modorrenta. Os ventos frios da madrugada continuavam a soprar. O<br \/>\nmoleque foi at\u00e9 a janela, olhou a rua em sil\u00eancio, acendeu um cigarro e, quando<br \/>\nviu que o seu homem parecia serenado, tratou de reassumir o sono. O senhor<br \/>\n\u00e9 que n\u00e3o podia sossegar, com a id\u00e9ia naquele pobre rapaz, que ali morria<br \/>\naos poucos, sem fam\u00edlia, nem carinhos de esp\u00e9cie alguma; sem Ter ao menos<br \/>\nquem o tratasse, nem dispor de um amigo que se compadecesse dele. &#8211; Infeliz<br \/>\ncriatura! Pensava .- Al\u00e9m do mais, longe da p\u00e1tria, longe de tudo que lhe<br \/>\npodia ser caro! E, sacudido de estanhas condol\u00eancias, imaginava o pobre desterrado<br \/>\nsaindo de sua aldeia em Portugal, atravessando os mares, atirado no conv\u00e9s<br \/>\nde um navio, afinal no Brasil, neste pa\u00eds-sonho, a trabalhar dia a dia<\/p>\n<p>durante uma mocidade, e economizar, e sofrer priva\u00e7\u00f5es; depois &#8211; falir, perder<br \/>\ntudo de repente, achar-se em plena mis\u00e9ria e com a ladra da t\u00edsica a comer-lhe<br \/>\nos pulm\u00f5es! Oh! cortava a alma! N\u00e3o se podia esquecer do desespero com que<br \/>\no desgra\u00e7ado o chamava, como se lhe quisesse pedir alguma coisa, fazer alguma<br \/>\nrevela\u00e7\u00e3o: &#8211; Talvez, quem sabe? At\u00e9 o tomasse, no seu del\u00edrio, por algum amigo:<br \/>\nporque Am\u00e2ncio se se n\u00e3o enganava, chegara a distinguir-lhe balbuciar o nome<br \/>\nde algu\u00e9m. &#8211; N\u00e3o podia ser outra coisa, o m\u00edsero chama v apor um amigo! &#8211;<br \/>\nMas, tamb\u00e9m, que id\u00e9ia, a sua, de andar por aquelas horas a visitar moribundos!<br \/>\nQue diabo tinhas ele, no fim de contas, com o tal t\u00edsico?&#8230;Ora essa! O vulto<br \/>\nesquel\u00e9tico n\u00e3o lhe sa\u00eda. por\u00e9m, de defronte dos olhos, com a sua ronqueira<br \/>\nl\u00fagubre, sempre a lhe estender os longos bra\u00e7os sem m\u00fasculos e a rolar nas<br \/>\n\u00f3rbitas, convulsivamente, aqueles dois bugalhos luminosos. Fechou a porta<br \/>\ndo quarto, despiu o sobretudo que havia enfiado, apagou a vela e recolheu-se<br \/>\n\u00e0 cama.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Era in\u00fatil; o sono n\u00e3o vinha; o quarto \u00e0s escuras fazia-lhe mal aos nervos.<br \/>\nNo fim de meia hora, ergueu-se novamente, tentou acender um bico de g\u00e1s, haviam<br \/>\nfechado no registro; recorreu \u00e0 vela e assentou-se \u00e0 mesinha diante de um<br \/>\nlivro. O t\u00edsico gemia. &#8211; Que ma\u00e7ada! resmungou Am\u00e2ncio, sem se poder safar<br \/>\nda impress\u00e3o que trouxera do quarto &#8220;daquele diabo&#8221;! E cansava os olhos contra<br \/>\nas p\u00e1ginas do livro, lendo sem compreender. Vinham-lhe bocejos repetidos,<br \/>\nardiam-lhe os olhos.- Agora talvez dormisse. O importuno parecia sossegado,<br \/>\npelo menos n\u00e3o se lhe ouvia gemer. Am\u00e2ncio voltou \u00e0 cama, sem \u00e2nimo de apagar<br \/>\na vela. Quando estava quase adormecido, passos agitados no corredor o despertaram<br \/>\nem sobressalto e uma pancada em cheio na porta f\u00ea-lo erguer-se de pulo e precipitar-se<br \/>\npara ela. Sabino e o t\u00edsico vieram-lhe \u00e0 mem\u00f3ria. Ouri\u00e7aram-se-lhe os cabelos,<br \/>\nenlixou-se-lhe a pele, e o cora\u00e7\u00e3o bateu-lhe com mais for\u00e7a. &#8211; Que teria sucedido?<br \/>\nA m\u00e3o tremia-lhe ao for\u00e7ar o trinco. A porta afinal cedeu, e Am\u00e2ncio sentiu<br \/>\ncair desamparadamente no ch\u00e3o o corpo comprido e nu do h\u00e9ctico. Estava horr\u00edvel.<br \/>\nQueria erguer-se, e em v\u00e3o agitava as pernas e os bra\u00e7os. Am\u00e2ncio tentou ajud\u00e1-lo,<br \/>\ngritando ao mesmo tempo pelo Sabino. Os membros do t\u00edsico pareciam quebrar-se-lhe<br \/>\nnas m\u00e3os, que escorregavam com a gordura fria do suor, e no soalho manchas<br \/>\nde umidade desenhavam-lhe j\u00e1 o feitio do corpo. O estudante desejava chamar<br \/>\npor algu\u00e9m. &#8211; O Sabino dormia com certeza! &#8211; Peste! Fez um movimento para<br \/>\nsair; mas o esqueleto agarrou-lhe violentamente os pulsos e pediu-lhe com<br \/>\nuns vagidos dolorosos que ficasse. De seus olhos corriam duas l\u00e1grimas compridas.<br \/>\nDepois de um esfor\u00e7o terr\u00edvel, conseguiu falar. Eram sons apenas murmurados,<br \/>\nfracos, quase impercept\u00edveis Am\u00e2ncio tinha raz\u00e3o: O desgra\u00e7ado, no del\u00edrio<br \/>\nde sua fraqueza, o tomara por algum bom amigo. Suas palavras vinham-lhe aos<br \/>\nl\u00e1bios roxos impregnadas de confian\u00e7a e de amor. Falava de coisas estranhas<br \/>\nao outro; perguntava-lhe por indiv\u00edduos desconhecidos para Am\u00e2ncio e reprochava-lhe<br \/>\na culpa de n\u00e3o ter vindo mais cedo. Depois referiu-se dolentemente \u00e0 sua terra;<br \/>\ntratou da inf\u00e2ncia, rindo, com os olhos cheios d&#8217;\u00e1gua. Pediu que Am\u00e2ncio,<br \/>\nlogo que l\u00e1 voltasse, fosse \u00e0 procura do senhor padre, e encomendasse-lhe<br \/>\ntr\u00eas missas. Em seguida, fez um esfor\u00e7o para chegar ao ouvido do rapaz e come\u00e7ou,<br \/>\nem ar de mist\u00e9rio, a ensinar-lhe um caminho longo, muito longo&#8230; Explicava-lhe<br \/>\nruas, as voltas que era necess\u00e1rio fazer para chegar l\u00e1; afinal, dava-se com<br \/>\numa choupana. Uma velhinha entrevada fazia meia a um canto da casa. Am\u00e2ncio<br \/>\nque se aproximasse dela e lhe dissesse em segredo que o Jo\u00e3o, o seu querido<br \/>\nfilho&#8230; Uma agonia violenta tolheu-lhe a fala. Ele ainda tentou dizer alguma<br \/>\ncoisa, mas o sangue purulento j\u00e1 lhe golfeava da boca e ca\u00eda-lhe um jorro<br \/>\npelo corpo. Estirou-se todo, dobrou a cabe\u00e7a para tr\u00e1s e, depois de entesar<br \/>\nnum estremecimento os membros rechupados, foi pouco a pouco cerrando os l\u00e1bios<br \/>\ne empenando o corpo com um gemido longo e sentid\u00edssimo. L\u00e1 fora, a m\u00fasica<br \/>\nduvidosa continuava, ao longe, entristecendo. Am\u00e2ncio teve um assomo de c\u00f3lera;<br \/>\nseu temperamento nervoso e ego\u00edsta revolucionava-se com o choque daquele incidente<br \/>\ndesagrad\u00e1vel, que lhe n\u00e3o dizia respeito e vinha-lhe todavia roubar despoticamente<br \/>\no sossego.<\/p>\n<p>Logo que o t\u00edsico expirou, correu a acordar Sabino com um murro. O moleque<br \/>\nlevantou-se, como da primeira vez, e correu \u00e0 cama do t\u00edsico. A lamparina<br \/>\nbruxuleava sobre o velador, projetando em volta, pelas paredes, sombras que<br \/>\nse iam dobrar no teto. Sabino abismou-se ao dar com o leito vazio, olhou em<br \/>\ntorno, muito pasmo, chegou a levantar a colcha e a espiar para debaixo da<br \/>\ncama; depois correu \u00e0 janela e interrogou a solid\u00e3o fria da rua. &#8211; U\u00e9! disse<br \/>\n. &#8211; \u00c9s uma peste! Gritou-lhe Am\u00e2ncio. &#8211; Por tua causa o t\u00edsico foi morrer<br \/>\nno meu quarto! Ande! V\u00e1 chamar o Dr. Coqueiro ou algu\u00e9m que trate do corpo!<br \/>\nAqui em cima, creio que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m, nem sequer o Paula Mendes. O rabequista,<br \/>\ncom efeito, havia ficado essa noite em companhia da mulher em Niter\u00f3i . A<br \/>\nnot\u00edcia levantou embaixo um rebuli\u00e7o. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o do Campelo e do guarda-livros,<br \/>\nningu\u00e9m mais se conservou na cama. Mme. Brizard arrepelava-se, praguejando<br \/>\ncontra o maldito caiporismo que a perseguia ultimamente. &#8211; At\u00e9 j\u00e1 lhe vinham<br \/>\nos t\u00edsicos morrer em casa! Era demais! Causou grande impress\u00e3o a narrativa<br \/>\nde Am\u00e2ncio sobre os \u00faltimos momentos do homem. O Dr. Tavares desfez-se em<br \/>\naltas considera\u00e7\u00f5es a esse respeito. Coqueiro proibiu \u00e0 irm\u00e3 que subisse ao<br \/>\nsegundo andar, enquanto o cad\u00e1ver n\u00e3o estivesse convenientemente amortalhado<br \/>\ne deposto no sof\u00e1 que \u00e0s pressas se carregou para cima. Por toda a casa distribu\u00edram-se<br \/>\nfogareiros de incenso e alfazema. Sabino fora, de um pulo, buscar \u00e0 botica<br \/>\numa garrafa de labarraque , e o copeiro sa\u00edra para lan\u00e7ar \u00e0 primeira praia<br \/>\no colch\u00e3o, os len\u00e7\u00f3is e os travesseiros que serviam ao defunto. Descarregou-se<br \/>\no quarto. A francesa quis abrir um velho ba\u00fa de folha, que jazia a um canto<br \/>\ne que era o \u00fanico objeto deixado pelo morto; mas o Dr. Tavares op\u00f4s-se-lhe<br \/>\nenergicamente, citando artigos do c\u00f3digo criminal e dizendo em tom de autoridade<br \/>\nque o falecido era um s\u00fadito portugu\u00eas e, por conseguinte, s\u00f3 ao c\u00f4nsul de<br \/>\nsua na\u00e7\u00e3o competia fazer-lhe o esp\u00f3lio dos bens! &#8211; E o que nos ficou ele a<br \/>\ndever?! E mais a despesa dos len\u00e7\u00f3is, do colch\u00e3o e do diabo?! Perguntou Mme.<br \/>\nBrizard. &#8211; Recebe-se do consulado portugu\u00eas ou n\u00e3o se recebe de pessoa alguma,<br \/>\napressou-se a explicar o Coqueiro, que j\u00e1 sabia perfeitamente n\u00e3o haver dentro<br \/>\ndo tal ba\u00fa coisa alguma de valor.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O corpo saiu no dia seguinte, em um carro da miseric\u00f3rdia. E Am\u00e2ncio declarou<br \/>\npositivamente que n\u00e3o estava disposto a ficar na casa de pens\u00e3o em mais um<br \/>\ndia. &#8211; Pois ent\u00e3o vamos todos para um arrabalde! &#8211; deliberou Mme. Brizard<br \/>\n, em conseq\u00fc\u00eancia dos repetidos conchavos que fizera com o marido. Diabo era<br \/>\no estado de Nini, a pobrezita achava-se agora completamente desarranjada.<br \/>\nComia encostando a boca ao prato, como um bicho; n\u00e3o trocava palavra com pessoa<br \/>\nalguma e nem mais podia ficar em liberdade , porque de vez em quando lhe acometiam<br \/>\nfrenesis, que lhe davam para morder os outros e espatifar as roupas, at\u00e9 ficar<br \/>\nnua. O m\u00e9dico entendia, por\u00e9m, que, com um bom regime hidroter\u00e1pico, ela ainda<br \/>\npodia se restabelecer. Citou exemplos animadores, &#8220;bonitos casos&#8221;, disse os<br \/>\nbelos resultados que ultimamente se obtinham por meio das duchas de \u00e1gua fria<br \/>\nno tratamento das enfermidades nervosas, e terminou declarando que, s\u00f3 por<br \/>\nesse meio, havia esperan\u00e7a de uma cura radical. E o doutor, logo que esteve<br \/>\na s\u00f3s com Am\u00e2ncio, confidenciou-lhe, rindo: &#8211; J\u00e1 toquei \u00e0 velha sobre aquilo<br \/>\nque falamos; creio que desta vez fica o senhor livre da hist\u00e9rica! Venceram-se,<br \/>\ncom efeito, os escr\u00fapulos de Mme. Brizard, e Nini foi para a casa de sa\u00fade<br \/>\ndo Dr. Eiras. A m\u00e3e teria not\u00edcias dela todos os dias e havia de lhe aparecer<br \/>\nem pessoa duas vezes por semana. &#8211; Aquela rapariga era o tormento de sua vida!<br \/>\nAntes Deus a tivesse chamado para si! Agora, o que n\u00e3o seria necess\u00e1rio gastar<br \/>\ncom a tal casa de sa\u00fade?&#8230; talvez uns vinte mil-r\u00e9is di\u00e1rios, se n\u00e3o foram<br \/>\nmais! Onde iria tudo aquilo parar? Era caiporismo, definitivamente! Como desejavam,<br \/>\ndescobrir-se uma casa em Santa Teresa. O Dr. Tavares e o guarda-livros acompanhariam<br \/>\na fam\u00edlia; Campelo, o esquisit\u00e3o, \u00e9 que n\u00e3o estava pela mudan\u00e7a. Logo que<br \/>\nlhe falaram nisso, pediu secamente a nota de suas despesas, pagou-a, e retirou-se<br \/>\nmuito calmo, assoviando, de m\u00e3o no bolso, cabe\u00e7a erguida, na mesma fleuma<br \/>\ninalter\u00e1vel com que costumava sair todas as manh\u00e3s para o trabalho.<\/p>\n<p>Todo ele ia como a dizer no seu sil\u00eancio indiferente e ego\u00edsta: &#8220;A mim tanto<br \/>\nse me d\u00e1 seis como meia d\u00fazia &#8230;morar com Pedro ou morar com Paulo, tudo<br \/>\npara mim \u00e9 a mesma coisa, desde que, em troca do &#8211; meu dinheiro &#8211; , me apresentem<br \/>\num quarto limpo e a comida a horas certas. Se dez anos continuasse aqui Mme.<br \/>\nBrizard, dez anos ficaria eu na Rua do Resende; mas, uma vez que se muda para<br \/>\nSanta Teresa &#8211; Adeus! vou bater a outra freguesia&#8230; o que por a\u00ed n\u00e3o faltam<br \/>\ns\u00e3o casas de pens\u00e3o.&#8221; O Paula Mendes, ao entra pouco depois, recebeu em cheio<br \/>\na not\u00edcia de a fam\u00edlia Coqueiro ia deixar a casa e que por conseguinte era<br \/>\npreciso que ele saldasse as suas contas. Mas o rabequista n\u00e3o tinha dinheiro<br \/>\nna ocasi\u00e3o. &#8211; Logo que o tivesse havia de pagar integralmente. Os locandeiros<br \/>\nn\u00e3o estavam por isso, j\u00e1 lhes bastavam os calos do gentleman e do Melinho!<br \/>\nE , depois de uma troca agitada de palavras, Mendes prop\u00f4s deixar o piano,<br \/>\nficando-lhe o direito de resgat\u00e1-lo mais tarde com a devida import\u00e2ncia. Mme.<br \/>\nBrizard queria do dinheiro e n\u00e3o instrumentos de m\u00fasica! O Sr. Paula Mendes<br \/>\nque vendesse o piano e liquidasse depois as suas contas! Assim foi. O rabequista<br \/>\nsaiu, e, quando \u00e0 tarde voltou \u00e0 casa de pens\u00e3o, trazia consigo um homenzinho<br \/>\nde barbas compridas, que fechou o neg\u00f3cio por quatrocentos mil r\u00e9is. Mendes<br \/>\npagou o que devia, fez tristemente as suas malas, e afinal se retirou de cabe\u00e7a<br \/>\nbaixa e m\u00e3os cruzadas par tr\u00e1s. C\u00e9sar, que o fora espreitar ao corredor, voltou<br \/>\n\u00e0 varanda, dizendo espantado que ele chorava ao descer as escadas. &#8211; Deixa-o<br \/>\nl\u00e1, menino! Resmungou a locandeira, e tocou a sineta, chamando para a mesa.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O jantar j\u00e1 n\u00e3o tinha o car\u00e1ter de uma refei\u00e7\u00e3o de hotel, em mesa-redonda.<br \/>\nAgora compareciam apenas cinco pessoas: Am\u00e2ncio, Amelinha, Mme. Brizard, Coqueiro,<br \/>\nC\u00e9sar e o Dr. Tavares. O guarda-livros, esse continuava a n\u00e3o comer em casa.<br \/>\nMme. Brizard suspirava \u00e0 vista dos lugares vazios. &#8211; Oh! que aperto de cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nlhe fazia aquilo! N\u00e3o podia resistir a tanta contrariedade ao mesmo tempo!&#8230;<br \/>\nPelo corredor do jantar, falou a respeito de Nini, queixou-se de saudades.<br \/>\nJ\u00e1 \u00e0 sobremesa, recrudesceram-lhe as ternuras maternais, vieram-lhe nostalgias,<br \/>\numa l\u00e1grima saltou-lhe do olho esquerdo. Chamou C\u00e9sar para junto de si, abra\u00e7ou-o<br \/>\ne beijou-o repetidas vezes e ficou a passar-lhe a m\u00e3o pela cabe\u00e7a. Um silencioso<br \/>\nconstrangimento se apoderou das pessoas presentes; depois, ainda com a voz<br \/>\nquebrada de como\u00e7\u00e3o, ela pediu ao Coqueiro que se n\u00e3o descuidasse de cobrar<br \/>\no que o Lambertosa e o Melinho ficaram a dever. &#8211; Agora precisavam muito e<br \/>\nmuito de dinheiro!&#8230; Mudaram-se no dia seguinte. Am\u00e2ncio ia muito incomodado,<br \/>\namanhecera pior, quase que n\u00e3o podia mexer com as pernas; todos lhe profetizavam,<br \/>\nentretanto, r\u00e1pidas melhoras em Santa Teresa. O c\u00f4modo que lhe destinaram<br \/>\nera da casa o mais espa\u00e7oso e arejado. Amelinha n\u00e3o o desamparava, j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nescondia at\u00e9 os seus carinhos, chegava-se abertamente para o rapaz, como se<br \/>\nfora casada com ele. \u00c0s vezes dizia-lhe segredos na presen\u00e7a do irm\u00e3o ou da<br \/>\nfrancesa; prestava-lhe pequeninos servi\u00e7os amorosos: levantar-lhe, por exemplo,<br \/>\na gola do fraque, se fazia frio; abotoar-lhe o colarinho, se estava desabotoado;<br \/>\natar-lhe a gravata, se o la\u00e7o se desmanchava; chegar-lhe para junto a escarradeira<br \/>\nse Am\u00e2ncio queria fumar. Em Santa Teresa esses desvelos multiplicaram-se .<br \/>\na\u00ed j\u00e1 era a menina quem lhe metia os bot\u00f5es na camisa e as fivelas no colete,<br \/>\nquem lhe escovava a roupa e o chap\u00e9u, quem lhe punha o perfume no len\u00e7o e<br \/>\nlhe dava corda ao rel\u00f3gio, e, quando fazia bom tempo e o rapaz tentava um<br \/>\npasseio pelo morro, era ela quem corria a lhe trazer a bengala ou o chap\u00e9u-de-sol,<br \/>\nperguntando muito sol\u00edcita se ele n\u00e3o se esquecera dos charutos e dos f\u00f3sforos,<br \/>\nsem j\u00e1 tinha len\u00e7o, se levava dinheiro. Mas, \u00e0s vezes, rezingava, quase que<br \/>\nralhava com o estudante. Fazia-lhe censuras, tomava-lhe contas de umas muitas<br \/>\ncoisas: se Am\u00e2ncio passara por tal rua, se estivera durante a aus\u00eancia a passear<br \/>\nsempre ou se encontrara algu\u00e9m porventura em alguma parte; quando lhe sentia<br \/>\ncheiro de \u00e1lcool queria saber o que o rapaz bebera. Am\u00e9lia, enfim, se derramava<br \/>\npor todo ele, sem Am\u00e2ncio dar por isso; invadia-o sutilmente, como um bicho<br \/>\nque entra na carne. A nova resid\u00eancia punha-os muito mais juntos, muito mais<br \/>\nunidos do que a da Rua do Resende. Os quartos eram pequenos, chegados uns<br \/>\ndos outros; havia um s\u00f3t\u00e3o com escadaria para a sala de jantar. Am\u00e2ncio morava<br \/>\na\u00ed, sozinho.<\/p>\n<p>Tinha de seu uma alcova e um pequeno gabinete de trabalho; janelas para o<br \/>\nnascente e para o ocaso, despejando sobre o jardim. Embaixo, ent\u00e3o, era a<br \/>\nsala de visitas, a de jantar e mais quatro c\u00f4modos, sem meter os quartos da<br \/>\ncriadagem, a cozinha, a despensa e o banheiro. Num daqueles c\u00f4modos ficou<br \/>\no Jo\u00e3o Coqueiro com a mulher; noutro Amelinha; noutro o guarda-livros, e o<br \/>\nDr. Tavares no \u00faltimo. A respeito de mob\u00edlia, s\u00f3 se carregou da Rua do Resende<br \/>\na que era de todo indispens\u00e1vel. N\u00e3o se vendeu sequer um objeto; o casar\u00e3o<br \/>\nrenderia muito mais com os trastes e, al\u00e9m disso, Mme. Brizard contava, mais<br \/>\ndia, menos dia, reabilitar a sua antiga e afamada casa de pens\u00e3o. &#8211; Porque,<br \/>\ndizia ela &#8211; era imposs\u00edvel que as coisas n\u00e3o voltassem ao estado primitivo!&#8230;<br \/>\nCoqueiro \u00e9 que parecia, como nunca, satisfeito de sua vida. Cuidava da nova<br \/>\ncasa com muito interesse; falava em melhoramentos e aconselhava a Am\u00e2ncio<br \/>\na que comprasse uma mobiliazinha catita para ver como &#8220;ficava ent\u00e3o naquele<br \/>\ns\u00f3t\u00e3o melhor que um pr\u00edncipe no seu castelo&#8221;. A casa, de fato, convidava \u00e0s<br \/>\nfantasias do gosto, porque era perfeitamente nova e bem feita; o papel das<br \/>\nparedes estava imaculado, o ch\u00e3o limpo e os tetos virgens ainda de moscaria<br \/>\nAm\u00e2ncio experimentou r\u00e1pidas melhoras; quis logo descer \u00e0 cidade, mas o Coqueiro<br \/>\nn\u00e3o lhe permitiu ir s\u00f3. Aproveitaram o passeio par comprar a mob\u00edlia. O provinciano<br \/>\nrecebera nesse m\u00eas dinheiro do Norte e retirara mais algum da casa do Campos;<br \/>\nJo\u00e3o Coqueiro levou-o a uma loja de trastes e escolheu ele pr\u00f3prio o que podia<br \/>\nconvir ao outro; isto \u00e9, uma c\u00f4moda, um lavat\u00f3rio, uma boa cama de casados,<br \/>\numa secret\u00e1ria, duas estantes, um velador, e seis cadeiras; tudo de mogno<br \/>\ne trabalhado a gosto moderno. Estes arranjos pediam outras coisas; escolheram-se<br \/>\ntamb\u00e9m dois quadros para o intervalo das portas, um belo espelho de parede,<br \/>\num rel\u00f3gio de p\u00eandulo, tapetes, capachos e escarradeiras.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O Coqueiro, muito empenhado na condu\u00e7\u00e3o dos trastes, havia-se afastado alguns<br \/>\npassos de Am\u00e2ncio, quando este sentiu baterem-lhe no ombro. Era o Paiva Rocha.<br \/>\n&#8211; Oh! exclamou, satisfeito com o encontro.- Como vais tu? H\u00e1 quanto tempo<br \/>\nn\u00e3o nos vemos!&#8230; Que \u00e9 feito de ti? &#8211; Ai, filho apoquentado! Respondeu o<br \/>\nPaiva. Ultimamente tem sido uma enfiada de coisas m\u00e1s!&#8230;H\u00e1 dois meses que<br \/>\nn\u00e3o recebo dinheiro do correspondente; tinha a\u00ed um lugar de revisor numa folha<br \/>\ne os ladr\u00f5es passaram-me a perna em mais de duzentos mil-r\u00e9is; al\u00e9m de que,<br \/>\na besta do diretor l\u00e1 da escola lembrou-se agora do exigir uma infinidade<br \/>\nde ma\u00e7adas e obrigar-nos a despesas imposs\u00edveis! O diabo! E, mudando de tom,<br \/>\nperguntou como ia Am\u00e2ncio; onde se metera, que ningu\u00e9m o via? O outro prestou<br \/>\ncontas de sua vida, exp\u00f4s os pormenores de sua mol\u00e9stia, falou nos inc\u00f4modos<br \/>\nque dera \u00e0 fam\u00edlia do Coqueiro, principalmente a D. Am\u00e9lia, que, por sinal,<br \/>\nera uma excelente menina. &#8211; Magan\u00e3o!&#8230; disse o comprovinciano, esbarrando-lhe<br \/>\nintencionalmente no bra\u00e7o. Am\u00e2ncio repeliu com febre aquela insinua\u00e7\u00e3o. O<br \/>\ncolega fazia uma tremenda injusti\u00e7a, tanto a ele, Am\u00e2ncio, como \u00e0 pobre rapariga!<br \/>\n&#8211; Ora, filho! Queres tu agora dizer a mim o que \u00e9 a gente do Coqueiro!&#8230;<br \/>\nAm\u00e2ncio abriu grandes olhos. &#8211; Morde aqui! Acrescentou o outro, apresentando-lhe<br \/>\no dedo. E em troca de um gesto negativo do amigo: &#8211; N\u00e3o queres falar por ora,<br \/>\ne fazes tu muito bem! Mas \u00e9 imposs\u00edvel que a tua ingenuidade chegue ao ponto<br \/>\nde tomares a s\u00e9rio a irm\u00e3o do Coqueiro, &#8211; a Am\u00e9lia dos camar\u00f5es!&#8230; &#8211; Juro-te<br \/>\nque, at\u00e9 aqui, s\u00f3 a tenho tratado com todo o respeito! O outro soltou uma<br \/>\nrisada. &#8211; \u00c9 fato! Insistiu Am\u00e2ncio, aborrecido j\u00e1 com aquela tro\u00e7a do companheiro,<br \/>\nmas ao mesmo tempo feliz por imaginar que as suas esperan\u00e7as sobre a rapariga<br \/>\neram perfeitamente justific\u00e1veis. &#8211; Pois, se \u00e9 fato, acredita que tens representado<br \/>\num papel de tolo! Fazem-te a barba, filho! Am\u00e2ncio, ent\u00e3o, para provar a pureza<br \/>\nde sua conduta, pintou o estado em que se achara ultimamente, &#8211; entrevecido<br \/>\nde reumatismo, sem pr\u00e9stimo para nada. E contou o que sofrera com as bexigas.<br \/>\n&#8211; Ora, dize-me c\u00e1&#8230;volveu o outro em tom de segredo. &#8211; O Coqueiro j\u00e1 te n\u00e3o<br \/>\ntem dado algumas facadinhas&#8230;Confessa&#8230;<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio, nem s\u00f3 confessou, como disse at\u00e9 o dinheiro que por v\u00e1rias vezes<br \/>\nemprestara ao senhorio. &#8211; Hein?! Bradou o Paiva, fazendo-se muito fino. &#8211;<br \/>\nQueres mais claro?&#8230;E ainda tens escr\u00fapulos, crian\u00e7a! Pois olha que te n\u00e3o<br \/>\nfazem nenhum favor &#8211; tu pagas, filho, e pagas bem! E lembrou que n\u00e3o seria<br \/>\nmau tomarem alguma coisa num botequim pr\u00f3ximo. O outro declarou que estava<br \/>\nali \u00e0 espera do Coqueiro. &#8211; Deixa l\u00e1 o Coqueiro, homem! Tens medo de ir s\u00f3<br \/>\npara casa ?&#8230; &#8211; Mas \u00e9 que n\u00e3o sei se me far\u00e1 mal beber alguma coisa. Ainda<br \/>\nestou em uso de rem\u00e9dios. &#8211; N\u00e3o sejas idiota! Exclamou o Paiva, puxando-o<br \/>\npelo bra\u00e7o. Am\u00e2ncio deixou-se levar, n\u00e3o tanto pelo prazer da companhia, como<br \/>\npela circunst\u00e2ncia de se livrar do Coqueiro, o que lhe dava esperan\u00e7as de<br \/>\nver L\u00facia ainda essa tarde. No caf\u00e9, defronte dos copos, a conversa voltou<br \/>\nde novo \u00e0 gente de Mme. Brizard. &#8211; Gentinha! qualificou o Paiva, atirando<br \/>\na palavra com o desprezo de quem lan\u00e7a fora o sobejo de um copo. E, depois,<br \/>\nentornando os l\u00e1bios, numa obstina\u00e7\u00e3o torpe: &#8211; A quest\u00e3o est\u00e1 no pagamento!<br \/>\nAm\u00e2ncio riu. Sentia-se feliz; aquele dia de liberdade, depois de tamanho recolhimento,<br \/>\nos c\u00e1lices de xerez, as palavras degotadas do Rocha; tudo isso lhe picava<br \/>\no esp\u00edrito com uma pontinha de alegria devassa. Seus gostos, suas tend\u00eancias<br \/>\nluxuriosas, volviam-lhe em revoada, como p\u00e1ssaro de arriba\u00e7\u00e3o. Ficou expansivo,<br \/>\ndisposto aos desabafamentos da vaidade. Em breve, contava tudo o que se passara<br \/>\ncom ele na casa de Mme. Brizard, descrevia as maneiras de Amelinha com sua<br \/>\npessoa, os pequenos cuidados amorosos, as pequeninas frases significativas;<br \/>\nnarrou minuciosamente as cenas com L\u00facia e disse que, ao sair do caf\u00e9, iria<br \/>\nvisit\u00e1-la \u00e0 Tijuca. &#8211; Est\u00e1 claro! Trejeitou o outro, cuspilhando a areia branca<br \/>\ndo ch\u00e3o de pedra e batendo com a ponta da bengala sobre os p\u00e9s cruzados. &#8211;<br \/>\nEu, no teu caso, j\u00e1 teria desforrado melhor os cobres! &#8211; Achas ent\u00e3o que eu<br \/>\ndevo?&#8230; &#8211; Ora, filho, \u00e9 o que se leva deste mundo! A respeito de virtudes<br \/>\ntemos conversado! Eu c\u00e1 s\u00f3 acredito numa castidade &#8211; a da velhice!&#8230; tirando<br \/>\nda\u00ed&#8230; e concluiu a sua id\u00e9ia com um gesto feio. Am\u00e2ncio j\u00e1 recorria \u00e0 mol\u00e9stia<br \/>\npara justificar aos olhos do amigo a atitude respeitosa que ocupara ao lado<br \/>\nde Am\u00e9lia &#8211; o colega que n\u00e3o o julgasse um tolo!&#8230; Mas que diabo havia ele<br \/>\nde fazer, tolhido de dores, como estava, numa cama?&#8230; Quando se despediram,<br \/>\no Paiva deu a entender que precisava de dinheiro; mas Am\u00e2ncio negou-o, apesar<br \/>\nde bem provido, dizendo com voz triste que &#8220;sentia muito n\u00e3o poder servir<br \/>\nnaquela ocasi\u00e3o&#8221;. O outro, sem mais querer ouvir coisa alguma, retirou-se<br \/>\nlogo.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio, assim que se viu livre, correu a tomar um t\u00edlburi e bateu para a<br \/>\ncasa de pens\u00e3o, onde estava L\u00facia. Era um palacete, com magn\u00edfica apar\u00eancia.<br \/>\nJanelas de sacada, grande corredor ladrilhado de m\u00e1rmore e velhas escadarias<br \/>\nencentradas de tapete de oleado, preso a cada degrau por um fio de metal amarelo.<br \/>\nFoi recebido cerimoniosamente no sal\u00e3o por uma mulhera\u00e7a muito gorda, de luneta,<br \/>\nextremamente degotada, mostrando entre as almofadas do peito ramifica\u00e7\u00f5es<br \/>\nde veiazinhas escarlates, que pareciam miniaturas de \u00e1rvores secas desenhadas<br \/>\na bico de pena. Em um dos bra\u00e7os luzia-lhe uma j\u00f3ia e, por debaixo do vestido<br \/>\nde cambraia, aparecia-lhe o p\u00e9 quase redondo e empantufado de veludo azul.<br \/>\nTinha a voz grossa, cheia de uu, e o l\u00f3bulo do queixo coberto de penugem negra.<br \/>\nAi saber que Am\u00e2ncio n\u00e3o ia com a inten\u00e7\u00e3o de tomar algum c\u00f4modo, mas sim<br \/>\npara falar com L\u00facia, retirou-se sacudindo os rins; e da sala o estudante<br \/>\nlhe ouviu gritar ao criado &#8220;que fosse prevenir \u00e0 senhora do Sr. Pereira de<br \/>\nque a\u00ed estava um cavalheiro que lhe desejava falar&#8221;. L\u00facia mostrou-se no fim<br \/>\nde meia hora, a pedir mil perd\u00f5es por se haver demorado mais um pouco. Fizera<br \/>\ntoilette especial para receb\u00ea-lo e parecia muito lisonjeada com a visita.<br \/>\nDeclarou, logo, que o achava mais gordo, de melhor fisionomia. &#8211; Aben\u00e7oada<br \/>\nmol\u00e9stia, a dele! E, em resposta ao que o rapaz lhe perguntava sobre aquela<br \/>\nnova resid\u00eancia , elogiou muito a casa, o servi\u00e7o. &#8220;Sempre era outra coisa!<br \/>\nNem havia termo de compara\u00e7\u00e3o entre esta e a de Mme. Brizard!&#8221; Am\u00e2ncio voltou-se<br \/>\ntodo na cadeira, considerando a sala. Uma rica sala, apesar de velha, &#8211; grande<br \/>\n, espelhada, cortinas de ramagem, consolos cobertos de jarras com flores artificiais<br \/>\nde pena. A um dos cantos um<\/p>\n<p>piano antigo e no centro do teto de estuque, no lugar donde espipava o lustre,<br \/>\num grande escudo de cores, rebentando em cabecinhas de anjos. Falaram logo<br \/>\nsobre as novidades da casa de pens\u00e3o do Coqueiro: a sa\u00edda dos h\u00f3spedes, a<br \/>\nmorte do t\u00edsico, a mudan\u00e7a para Santa Teresa. &#8211; Voc\u00ea ali est\u00e1 seguro!&#8230; disse<br \/>\nL\u00facia. O estudante protestou com um gesto, em que j\u00e1 havia alguma coisa das<br \/>\nrevela\u00e7\u00f5es que pouco antes lhe fizera o Paiva Rocha. E, discutindo os amores<br \/>\nde Amelinha, foram pouco e pouco empurrando a conversa para o verdadeiro motivo<br \/>\nda visita, at\u00e9 que Am\u00e2ncio conseguiu tratar de si, das suas saudades do quanto<br \/>\ndesejava L\u00facia, do quanto sofria por causa daquela ingrata que ali estava!<br \/>\n&#8211; Mais baixo! Olha que te podem ouvir!&#8230; ele ent\u00e3o chegou-se mais para a<br \/>\nilustrada senhora, tomando-lhe as m\u00e3os que cobria de beijos, e, no seu ardor,<br \/>\ncom a voz abafada, os olhos acendidos, procurava arrancar-lhe uma resposta<br \/>\ndefinitiva, uma palavra qualquer que o restitu\u00edsse por uma vez \u00e0 tranq\u00fcilidade.<br \/>\n&#8211; Est\u00e1 quieto! Respondeu a tirana. &#8211; Est\u00e1 quieto! E, vendo que o dem\u00f4nio n\u00e3o<br \/>\na escutava, em risco de compromet\u00ea-la aos olhos de quem por acaso entrasse<br \/>\nna sala, prop\u00f4s mostrar-lhe a ch\u00e1cara enquanto esperavam pelo jantar. &#8211; Que<br \/>\nela j\u00e1 o n\u00e3o deixava sair sem ter jantado!&#8230; Havia duas descidas; uma pelo<br \/>\ncorredor e outra pela varanda. Tomaram por resta. L\u00facia, muito disfar\u00e7ada,<br \/>\nia-lhe apontando os c\u00f4modos e as benfeitorias da casa, com tanto empenho e<br \/>\ngosto como se fora mesma a propriet\u00e1ria; mostrou-lhe o banheiro, os tanques<br \/>\npara a lavagem de roupa, o coradouro, o cercado das galinhas e por \u00faltimo<br \/>\no jardim. Colheu logo uma rosa e, por suas pr\u00f3prias m\u00e3os enfiou-a na gola<br \/>\ndo fraque de Am\u00e2ncio. Em seguida atravessaram a hora. Canteiros grandes, cobertos<br \/>\nde verdura, saturavam o ar de um cheiro de hortali\u00e7as. As alfaces brilhavam<br \/>\nao sol dourado de julho. Mais para adiante havia um sombrejar melanc\u00f3lico<br \/>\ne deliciosos de \u00e1rvores grandes; era a ch\u00e1cara; viam-se no ar as folhas largas<br \/>\ne recortadas da fruta-p\u00e3o faiscarem, como l\u00e2minas de metal brunido; ao passo<br \/>\nque as bojudas mangueiras se debru\u00e7avam sobre a terra numa concentra\u00e7\u00e3o pesada<br \/>\nde sono. Os dois prosseguiram de bra\u00e7o dado por entre o murmurejar tristonho<br \/>\ndaquelas sombras. E lentamente, e sem trocarem uma palavra, se deixaram ir<br \/>\nat\u00e9 a espalda de um morro, que servia de limite \u00e0 ch\u00e1cara. Havia um grosseiro<br \/>\nbanco de pau meio escondido entre bambus e trepadeira. Assentaram-se. Um fio<br \/>\nde \u00e1gua corria da montanha e os passarinhos remigiavam trilando na mole embalsamada<br \/>\ndas estevas. Am\u00e2ncio passou um bra\u00e7o na cintura de L\u00facia e chamou-lhe o corpo<br \/>\npara junto do seu. Ela deixou-se arrebatar, bambeando a cabe\u00e7a, num encontro<br \/>\napaixonado de l\u00e1bios. O rapaz parecia louco no seu desejo. &#8211; N\u00e3o! Isso n\u00e3o!<br \/>\ndizia a outra. &#8211; Mostra que \u00e9 um homem de esp\u00edrito! N\u00e3o se queira confundir<br \/>\ncom esses material\u00f5es que h\u00e1 por a\u00ed! Ele opunha as raz\u00f5es que lhe vinham \u00e0<br \/>\ncabe\u00e7a para justificar os seus rogos: &#8220;L\u00facia que n\u00e3o quisesse desvirtuar o<br \/>\namor, o verdadeiro amor, fazendo de um sentimento real e fecundo uma pieguice<br \/>\nrom\u00e2ntica e desenxabida&#8221;. Lembrou-lhe o que ela pr\u00f3pria dissera, quando pela<br \/>\nprimeira vez estiveram juntos. E, num esfolegar febril e ruidoso, suplicava-lhe<br \/>\num pouco de compaix\u00e3o, ao menos; que n\u00e3o o torturasse daquele modo; que n\u00e3o<br \/>\no obrigasse a sucumbir ao desespero de sua paix\u00e3o! L\u00facia n\u00e3o entendeu. &#8211; Ele<br \/>\nque deixasse a casa de Mme. Brizard e viesse tomar um c\u00f4modo ali na Tijuca.<br \/>\nAssim &#8230; bem! Mas, naquele momento e naquelas circunst\u00e2ncias&#8230; N\u00e3o! n\u00e3o!<br \/>\ne n\u00e3o! Apesar de en\u00e9rgica recusa, Am\u00e2ncio insistia sempre. &#8211; N\u00e3o seja teimoso,<br \/>\nrepreendeu ela, arrancando-lhe as saias da m\u00e3o. &#8211; Oh! ele, porem, n\u00e3o se desenganava<br \/>\ne at\u00e9 j\u00e1 recorria \u00e0 viol\u00eancia. &#8211; Pior! Disse a mulher, notando que o estudante<br \/>\nlhe desgrenhava os cabelos e machucava-lhe as roupas. &#8211; J\u00e1 n\u00e3o vou gostando<br \/>\nmuito da brincadeira! E, a um movimento desabrido do rapaz: &#8211; Ora p\u00edlulas!<br \/>\nIsso agora tamb\u00e9m j\u00e1 \u00e9 estupidez! Am\u00e2ncio ao lado bufava, im\u00f3vel, emitindo<br \/>\nsobre ela olhares de c\u00f3lera. &#8211; O senhor faz-se desentendido! Exclamou L\u00facia,<br \/>\nafinal, endireitando o penteado e armando as lunetas. &#8211; H\u00e1 muito devia compreender<br \/>\nque nada alcan\u00e7ar\u00e1 de mim, enquanto eu estiver com meu marido! &#8211; Marido o<br \/>\nqu\u00ea! Desmentiu o provinciano, com a voz sufocada. &#8211; T\u00e3o marido como eu! L\u00facia<br \/>\nolhou para ele, apertando os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isso! Sustentou aquele. &#8211; Sei de tudo! A senhora quer fazer de mim um<br \/>\ntolo, pois fique sabendo que n\u00e3o faz! Trate de arranjar outro, porque comigo<br \/>\nperde o seu tempo! Ela o mediu de alto a baixo, levantou desdenhosamente o<br \/>\nl\u00e1bio superior, e afastou-se com um grande ar emproado e senhoril, murmurando<br \/>\nentredentes. &#8211; Ordin\u00e1rio! Am\u00e2ncio calcou o chap\u00e9u sobre os olhos, e, de cabe\u00e7a<br \/>\nbaixa e passos lentos, retomou pelo caminho andando, a fustigar com a bengala<br \/>\nas erv\u00ednculas da estrada. Saiu pelo port\u00e3o da ch\u00e1cara. J\u00e1 na rua, sacudia<br \/>\nos ombros e disse a meia voz: &#8211; Que a leve o diabo!<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>XV<\/h2>\n<p>O rapaz acordou muito bem disposto no outro dia, estava, ou pelo menos parecia,<br \/>\nrestabelecido completamente. Os ares tonificantes da Santa Teresa produziram-lhe<br \/>\nefeitos miraculosos. &#8211; At\u00e9 que enfim podia mandar ao diabo os xaropes e as<br \/>\ntisanas que, de tempos a essa parte, lhe melancolizavam a vida e relaxavam<br \/>\no est\u00f4mago. E, ainda, metido entre os len\u00e7\u00f3is, na matinal pregui\u00e7a das sete<br \/>\ne meia, dispunha-se a filosofar sobre o rid\u00edculo epis\u00f3dio da v\u00e9spera, quando<br \/>\num leve rumor na porta do quarto lhe desviou o curso das id\u00e9ias. Era a menina<br \/>\nque trazia o caf\u00e9. Viu-lhe a p\u00e1lida m\u00e3ozinha medrosamente surdir por entre<br \/>\na fisga da porta mal cerrada, para depor no ch\u00e3o, como era de costume, a ch\u00e1vena<br \/>\nde porcelana. Am\u00e2ncio. por\u00e9m, desta vez saltou da cama e, correndo da gatinhas,<br \/>\na empolgou nas suas. A m\u00e3ozinha quis fugir, ele n\u00e3o consentiu, e com ela veio<br \/>\num bra\u00e7o que as folhas da porta arremangavam. Come\u00e7ou a beij\u00e1-lo sofregamente,<br \/>\ndesde a ponta dos dedos at\u00e9 os b\u00edceps; enquanto Am\u00e9lia, sempre escondida ia<br \/>\nconsentindo, toda ela arrepiada em c\u00f3cegas. &#8211; Um beijinho&#8230;pediu ele mostrando<br \/>\no rosto. &#8211; Logo! &#8211; Com certeza?&#8230; &#8211; Com certeza! E a pequena desapareceu<br \/>\nmuito ligeira, &#8211; tique, tique, tique, pela escada. Pouco depois combinaram<br \/>\na primeira entrevista. Ela subiria ao s\u00f3t\u00e3o, logo que a casa estivesse completamente<br \/>\nrecolhida. Am\u00e2ncio que a esperasse no escuro e com a porta do quarto apenas<br \/>\ncerrada. O rapaz n\u00e3o p\u00f4de ficar tranq\u00fcilo mais um instante. As horas nunca<br \/>\nlhe pareceram t\u00e3o longas e as conversas t\u00e3o intermin\u00e1veis. Um sobressalto<br \/>\nfeliz perturbava-o todo, tirava-lhe o apetite e n\u00e3o lhe permitia um pensamento<br \/>\nque n\u00e3o fosse cair aos p\u00e9s de Am\u00e9lia. Por maior caiporismo, o Dr. Tavares<br \/>\ntinha essa noite uma visita que parecia disposta a n\u00e3o larg\u00e1-lo. Era um velho<br \/>\nde sua prov\u00edncia, muito falador de pol\u00edtica, apaixonado pelas elei\u00e7\u00f5es, pelos<br \/>\nconservadores, mas que, nem \u00e0 m\u00e3o de Deus Padre, pronunciava os rr e os ss<br \/>\ne dizia: &#8220;Os partido liber\u00e1, os senad\u00f4&#8221;, e outras barbaridades. &#8211; Quando se<br \/>\nir\u00e1 este cacete?&#8230;pensava Am\u00e2ncio, tr\u00eamulo de impaci\u00eancia. E o Tavares a<br \/>\npuxar pelo dem\u00f4nio do homem, a fazer-lhe perguntas sobre perguntas e a despejar<br \/>\ncontra ele a sua ret\u00f3rica inexaur\u00edvel. At\u00e9 o guarda-livros que \u00e0s vezes passava<br \/>\ndias e dias sem dar uma palavra, estava essa noite disposto a falar pelos<br \/>\ncotovelos. Ainda pilhara o ch\u00e1 e, repimpando na cadeira, com um brilhante<br \/>\na luzir num dedo, o ar satisfeito, os punhos bem engomados, taramelava a respeito<br \/>\ndos seus projetos de casamento. &#8220;Sim, que ele, havia coisas de ano e meio,<br \/>\nestava para desposar uma linda menina e de educa\u00e7\u00e3o esmerad\u00edssima. J\u00e1 h\u00e1 tempos<br \/>\na pedira!&#8230; S\u00f3 esperava que a casa, onde trabalhava desde os seus quinze<br \/>\nanos, lhe desse sociedade, como ali\u00e1s, havia j\u00e1 prometido. &#8211; Ah! Toda a sua<br \/>\nambi\u00e7\u00e3o era fazer fam\u00edlia! Que vidinha melhor que a do casado?&#8230;o matrim\u00f4nio<br \/>\nera um complemento do homem&#8230;A gente enquanto mo\u00e7a n\u00e3o sentia a falta da<br \/>\nesposa, mas depois?&#8230;quando chegasse a velhice?&#8230;A\u00ed \u00e9 que seriam elas! N\u00e3o!<br \/>\nn\u00e3o podia admitir um eterno celibato!&#8230;A vida do solteiro tinha seus encantos,<br \/>\ntinha, para que negar?&#8230;os espinhos, por\u00e9m, eram em maior n\u00famero; se eram!&#8230;<br \/>\nE citava os casos. Am\u00e2ncio retirou-se da varanda, sufocado de raiva. Preferia<br \/>\nesperar no quarto. Deram onze horas. Amelinha pediu licen\u00e7a e tamb\u00e9m se recolheu.<br \/>\nMme. Brizard, \u00e0 cabeceira da mesa, j\u00e1 bocejava, entretendo os dedos, a fazer<br \/>\np\u00edlulas das migalhas de p\u00e3o que ficaram do ch\u00e1; o marido, ao lado dela, estudava<br \/>\nmec\u00e2nica racional.<\/p>\n<p>Veio finalmente o copeiro levantar a mesa e buscar o C\u00e9sar para a cama. O<br \/>\nguarda-livros apertou as m\u00e3os de todos e sumiu-se; o sujeito dos partido liber\u00e1<br \/>\n, a despeito das insist\u00eancias do amigo, despediu-se igualmente e, quando o<br \/>\nadvogado, que o fora acompanhar at\u00e9 o port\u00e3o da ch\u00e1cara voltou \u00e0 varanda,<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o encontrou ningu\u00e9m. Em pouco a casa era todo sil\u00eancio e trevas. Ent\u00e3o,<br \/>\nAmelinha, deixou o quarto sorrateiramente, tirou as botinas, apanhou as saias<br \/>\ne galgou a escada do s\u00f3t\u00e3o. Am\u00e2ncio, que a esperava na porta, logo que a teve<br \/>\nao alcance da m\u00e3o, puxou-a para dentro, e deu uma volta \u00e0 fechadura.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Desde esse momento, a vida em casa de Mme Brizard tornou-se para ele uma<br \/>\ncoisa muito agrad\u00e1vel. Ningu\u00e9m mostrava desconfiar, ao menos, de suas intimidades<br \/>\ncom Am\u00e9lia, que pelo seu lado parecia satisfeita com o estado de coisas. S\u00f3<br \/>\numa ligeira circunst\u00e2ncias covardemente o arreceava: \u00c9 que a pequena n\u00e3o lhe<br \/>\nexibira em quarta ou quinta edi\u00e7\u00e3o, como dizia o Paiva, mas em comprometedoras<br \/>\nprim\u00edcias, com todos os cruentos requisitos de uma estr\u00e9ia. Fugiu o primeiro<br \/>\nm\u00eas de lua-de-mel, sem o menor eclipse. Contudo, ele agora puxava um pouco<br \/>\nmais pela bolsa: a fam\u00edlia estava em crise; a pens\u00e3o de Nini absorvia os proventos<br \/>\nque se obtinham do Tavares e do guarda-livros; o casar\u00e3o da Rua do Resende<br \/>\napenas se conseguira alugar em parte; os g\u00eaneros de primeira necessidade eram<br \/>\nmais caros em Santa Teresa. Mas que valia tudo isso posto em confronto aos<br \/>\ngozos que lhe proporcionava a deliciosa rapariga? Ela parecia viver exclusivamente<br \/>\npara lhe dar carinhos e afagos. Era como se fora sua esposa; deixava tudo<br \/>\nde m\u00e3o para s\u00f3 cuidar do amante. &#8211; Ele estava em primeiro lugar! Agora a pequena<br \/>\nlhe fazia a cama; levava-lhe ao quarto o moringue d&#8217;\u00e1gua, penteava-lhe os<br \/>\ncabelos, e exigia que o rapaz lhe dissesse os passos que dava, por onde estivera,<br \/>\ncom quem falara e o dinheiro que gastara. Revistava-lhe conjugalmente as algibeiras,<br \/>\nlia-lhe as cartas e, sempre desconfiada, cheirava-lhe as roupas. Am\u00e2ncio sorria<br \/>\nde tais ci\u00fames, com o ar seguro de quem desfruta em paz uma felicidade leg\u00edtima<br \/>\ne aben\u00e7oada por todos. J\u00e1 n\u00e3o furtava beijinhos assustados por detr\u00e1s das<br \/>\nportas; n\u00e3o ro\u00e7avam os joelhos por debaixo da mesa, e n\u00e3o se serviam das m\u00e3os<br \/>\ncomo instrumentos de amor; guardavam-se para as liberdades da noite, para<br \/>\na independ\u00eancia do quarto. Na ocasi\u00e3o, por\u00e9m, em que ele saia para as aulas<br \/>\nou \u00e0 noite para o passeio, beijocavam-se, sempre, como dois bons casados.<br \/>\nEntretanto, as \u00e9pocas de exame batiam \u00e0 porta. Am\u00e2ncio vivia em desassossego<br \/>\ncom os seus estudos t\u00e3o mal apercebidos; mas o Coqueiro dava-lhe coragem,<br \/>\nensinando-lhe como devia proceder, dizendo-lhe o que devia estudar de preferencia,<br \/>\naconselhando-o a que n\u00e3o tivesse medo. &#8220;Am\u00e2ncio que se apresentasse de cabe\u00e7a<br \/>\nerguida: o bom \u00eaxito nos exames dependia quase sempre do desembara\u00e7o mais<br \/>\nou menos atrevido do concorrente!&#8221; E citava exemplos: &#8220;Fulano que apenas conhecia<br \/>\ndois pontos de tal mat\u00e9ria, chimpara distin\u00e7\u00e3o, s\u00f3 porque era de um descaramento<br \/>\nimperturb\u00e1vel; ao passo que sicrano, apesar de muito bem preparado, n\u00e3o conseguira<br \/>\npassar com a sua vozinha tr\u00eamula e o seu todo raqu\u00edtico e assustado!&#8221; Um novo<br \/>\nacontecimento veio, por\u00e9m, desviar Am\u00e2ncio daquela preocupa\u00e7\u00e3o: por telegrama<br \/>\nde sua prov\u00edncia, constou-lhe que o velho Vasconcelos morrera de berib\u00e9ri<br \/>\nfulminante. Os pormenores chegaram no primeiro vapor: &#8220;Vasconcelos fora atacado<br \/>\ncomo hoje e morrera como depois de amanh\u00e3. Ia pela rua, muito senhor de si,<br \/>\nquando, de repente, sentiu afrouxarem-se-lhe as pernas e teria desabado no<br \/>\nch\u00e3o, se dois homens que passavam n\u00e3o o socorressem prontamente. &#8220;Foi recolhido<br \/>\n\u00e0 primeira casa, que era felizmente de um amigo. Meia hora depois j\u00e1 lhe principiava<br \/>\na faltar a respira\u00e7\u00e3o: a mol\u00e9stia subia, amea\u00e7ando-lhe o est\u00f4mago. Fez-se<br \/>\numa junta de m\u00e9dicos; ficou resolvido que o doente devia seguir, sem perda<br \/>\nde tempo, para qualquer parte, &#8211; Caxias, Ros\u00e1rio, mesmo Alc\u00e2ntara, a Vila<br \/>\ndo Pa\u00e7o, que fosse; contanto que sa\u00edsse da cidade, quanto antes, at\u00e9 aparecer<br \/>\num vapor que o levasse para mais longe. &#8220;Partiu nesse mesmo dia, dentro de<br \/>\numa rede, com dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Vila do Pa\u00e7o. Mas o terr\u00edvel berib\u00e9ri subia sempre;<br \/>\nos membros por onde ele atravessava iam ficando paralisado e frios como membros<br \/>\nde defunto. A onda maldita galgara finalmente a caixa tor\u00e1cica, Vasconcelos<br \/>\nn\u00e3o p\u00f4de respirar de todo e morreu&#8221;. Am\u00e9lia, ao receber a inesperada not\u00edcia,<br \/>\nrebentou num berreiro e tratou de cobrir-se de luto fechado. O irm\u00e3o tamb\u00e9m<br \/>\nse vestiu de preto, fez cerrar as portas e as janelas da casa por sete dias<br \/>\ne, durante esse tempo, andou tristonho e anojado.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio perturbou-se deveras com a morte do pai. H\u00e1 bastante tempo mentalizava<br \/>\nprojetos de , em voltando \u00e0 prov\u00edncia, trat\u00e1-lo de modo t\u00e3o carinhoso e t\u00e3o<br \/>\namigo, que sua consci\u00eancia ficasse, por uma vez, tranq\u00fcila a esse respeito.<br \/>\nHavia no segredo de tal inten\u00e7\u00e3o o sabor inef\u00e1vel de um voto religioso. E<br \/>\nseus planos, assim malogrado de repente, enchiam-lhe agora o cora\u00e7\u00e3o de tristeza<br \/>\ne as noites de sonhos tormentosos. Mas Amelinha l\u00e1 estava para o consolar,<br \/>\npara lhe reprimir os gemidos com a polpa vermelha de seus l\u00e1bios, e espantar-lhe<br \/>\nos negrumes do desgosto com a luz voluptuosa de seus olhos e com a do\u00e7ura<br \/>\ncristalina de suas palavras. Veio o Campos. Trataram longamente do &#8220;triste<br \/>\nacontecimento&#8221;: Am\u00e2ncio queria dar um pulo ao Norte: a m\u00e3e com certeza precisava<br \/>\ndele as seu lado, quando mais n\u00e3o fosse para tratar do invent\u00e1rio. O negociante<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o compreendia assim: &#8221; Estavam a chegar os exames; Am\u00e2ncio, ase sa\u00edsse<br \/>\nda Corte naquele momento, perderia o ano; o melhor, por conseguinte, seria<br \/>\nesperar pelas f\u00e9rias. Pois ent\u00e3o! eram mais alguns dias de demora que n\u00e3o<br \/>\nprejudicavam a ningu\u00e9m!&#8230;&#8221; Coqueiro pensava do mesmo modo. &#8220;Nem o colega<br \/>\nencontraria algu\u00e9m com um bocadinho de ju\u00edzo que lhe aconselhasse uma semelhante<br \/>\nviagem antes do ato. Era at\u00e9 loucura pensar nisso!&#8221; Cruzaram-se cartas entre<br \/>\no Rio de Janeiro e Maranh\u00e3o. Am\u00e2ncio foi considerado maior pelo Juiz de \u00f3rf\u00e3os,<br \/>\npodia receber o que lhe tocavas na heran\u00e7a. Mas a firma liquidante ofereceu-lhe<br \/>\nsociedade em comandita; ele aceitou, a conselho de Campos, e insti5tuiu na<br \/>\nprov\u00edncia um advogado de confian\u00e7a para lhe curar os bens. Escolheu-se o Dr.Silveira,<br \/>\no dos cabelos pintados, aquele mesmo que, no dia do exame de portugu\u00eas, se<br \/>\nmostrara t\u00e3o entusiasmado pelo rapaz. At\u00e9 que enfim estava Am\u00e2ncio livre e<br \/>\nsenhor de sua bolsa; podia gastar \u00e0 farta, sem sofrer da\u00ed em diante as peias<br \/>\nda mesada. E n\u00e3o o amedrontava igualmente o risco de cair na pen\u00faria, porque<br \/>\nainda havia para reserva o que tinha a herdar da m\u00e3e e da av\u00f3. Os carinhos<br \/>\ne as solicitudes da fam\u00edlia Coqueiro inflamaram-se, j\u00e1 se v\u00ea, com os \u00faltimos<br \/>\nacontecimentos. O estudante era cada vez mais adulado e em compensa\u00e7\u00e3o mais<br \/>\nexplorado. Agora, o irm\u00e3o de Am\u00e9lia n\u00e3o punha o menor escr\u00fapulo lhe aceitar<br \/>\nos obs\u00e9quios e a casa ia ficando a pouco e pouco \u00e0s costas do provinciano.<br \/>\nEra sempre por interm\u00e9dio de Am\u00e9lia que ele sofria a cardadura. Hoje tratava-se<br \/>\ndo aluguel da casa, amanh\u00e3 seria a conta do Eiras, depois a dos fornecedores;<br \/>\nse entrava um barril de vinho para a despensa, ou um saco de feij\u00e3o; se aparecia<br \/>\num novo aparelho de porcelana \u00e0 mesa do almo\u00e7o ou do jantar, Am\u00e2ncio ficava<br \/>\n\u00e0 espera da fatura que, \u00e0 noite, impreterivelmente, passava as m\u00e3os da rapariga<br \/>\npara as suas. Amelinha, essa ent\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o procurava rodeios para lhe arranjar<br \/>\nas coisas. Quando precisava de um vestido, de uma j\u00f3ia, de um chap\u00e9u, dizia-lhe<br \/>\nsecamente:&#8221; Deixe-me tanto, que amanh\u00e3 tenho de fazer compras&#8221;. E as despesas<br \/>\ndas casa recrudesciam, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que minguavam os lucros. O guarda-livros<br \/>\ndespedira-se, porque afinal chegara a \u00e9poca do seu casamento, e ningu\u00e9m o<br \/>\nsubstituiu; s\u00f3 ficou advogado que deixaria por m\u00eas, quando muito, uns duzentos<br \/>\nmil-r\u00e9is. Am\u00e2ncio ia suportando a carga silenciosamente, certo de que n\u00e3o<br \/>\nencontraria dificuldade em despej\u00e1-la, assim que a coisa lhe cheirasse mal.<br \/>\nTodavia, o dinheiro era j\u00e1 o \u00fanico recurso de que dispunha para fazer calar<br \/>\na amante, quando esta lhe falava em casamento. Em tais ocasi\u00f5es, a rapariga<br \/>\nchorava quase sempre; dizia-se infeliz; queixava-se da sorte. &#8220;Que Am\u00e2ncio<br \/>\nfora a sua perdi\u00e7\u00e3o! Que ela cedera aos rogos dele na persuas\u00e3o de que era<br \/>\namada e de que mais tarde seria sua esposa!&#8221; &#8211; Ora, filha! N\u00f3s, antes de cairmos<br \/>\nna asneira em que ca\u00edmos, n\u00e3o tocamos uma s\u00f3 vez em casamento! E , se queres<br \/>\nque te diga com franqueza, eu at\u00e9 nem supunha ser o primeiro com quem tivesses<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es!&#8230; Ela irritava-se ao ponto de amea\u00e7\u00e1-lo com um esc\u00e2ndalo. Am\u00e2ncio<br \/>\nque se n\u00e3o enganasse, pois que havia um Jo\u00e3o Coqueiro sobre a terra! Ele que<br \/>\nn\u00e3o ca\u00edsse no descoco de querer desampar\u00e1-la, porque ent\u00e3o as coisas lhe sairiam<br \/>\nmais atravessadas! Estas rezingas terminavam sempre por uma nova exig\u00eancia<br \/>\nde Am\u00e9lia. E j\u00e1 n\u00e3o se contentava com um chap\u00e9u ou com um par de botinas,<br \/>\nqueria vestidos de seda, j\u00f3ias de valor e dinheiro para gastar. Uma noite,<br \/>\nAm\u00e2ncio ficou abismado por lhe ouvir falar na compra de um chal\u00e9 nas Laranjeiras.<br \/>\n&#8211; Sim! refor\u00e7ou ela, ao perceber que o rapaz n\u00e3o tomava a s\u00e9rio suas palavras.<br \/>\n&#8211; Despedia-se o Tavares e ficar\u00edamos \u00e0 vontade por uma vez! Eu n\u00e3o estou satisfeita<br \/>\naqui!&#8230; Ele tornou a sorrir. &#8211; Am\u00e9lia com certeza estava gracejando&#8230;<\/p>\n<p>Mas a rapariga jurou que n\u00e3o, recorrendo a todos os segredos de sua ternura.<br \/>\nAfinal, vendo que o amante n\u00e3o cedia, zangou-se como de costume. &#8211; Tu assim<br \/>\no queres; disse arrancando-se dos bra\u00e7os dele,- pois bem, tu assim o ter\u00e1s!<br \/>\nAmanh\u00e3 h\u00e1s de ver o que sai nesta casa! Am\u00e2ncio encolheu os ombros. &#8211; N\u00e3o<br \/>\nte importas?! Pois veremos quem tem raz\u00e3o!! E limpando os olhos: &#8211; Ingrato!<br \/>\nPor que sabe que a gente o estima, abusa deste modo! Tola fui eu em me deixar<br \/>\nseduzir!&#8230; &#8211; Eu n\u00e3o a seduzi! Ora essa! &#8211; At\u00e9 fez mais, replicou ela &#8211; Desonrou-me!<br \/>\n&#8211; Pois desonrada ou seduzida, n\u00e3o tenho dinheiro para comprar casas! Am\u00e9lia<br \/>\nsaiu essas noite do quarto do estudante amea\u00e7ando fazer estourar a bomba no<br \/>\ndia seguinte. E, pela manh\u00e3, quando Am\u00e2ncio , ao seguir para as aulas, lhe<br \/>\nfoi dar o beijo favorito, . ela muito amuada, voltou o rosto, resmungando<br \/>\n&#8220;que a deixasse&#8221;. O rapaz prometeu que &#8220;ia pensar&#8221; e \u00e0 noite daria uma resposta.<br \/>\nMas nessa noite, Am\u00e9lia, pela primeira vez, depois do seu novo estado, n\u00e3o<br \/>\nse apresentou \u00e0s horas habituais no quarto do estudante. Am\u00e2ncio, sem perder<br \/>\nas esperan\u00e7as de a ver surgir de um momento para outro e precipitar-se-lhe<br \/>\nnos bra\u00e7os, n\u00e3o conseguira ficar tranq\u00fcilo. Aquele procedimento, vindo de<br \/>\nquem vinha, o revoltava como a mais infame das ingratid\u00f5es! Ouviu dar tr\u00eas<br \/>\nhoras, quatro, cinco. N\u00e3o se conteve, levantou-se, pisando forte, desceu \u00e0<br \/>\nvaranda e foi bater \u00e0 porta de Am\u00e9lia. Nada. Bateu mais rijo. &#8211; Que \u00e9?! Perguntou<br \/>\nela asperamente. &#8211; Preciso falar-lhe. &#8211; N\u00e3o s\u00e3o horas para isso! &#8211; Ou\u00e7a! Quero<br \/>\ndizer-lhe uma coisa&#8230; &#8211; N\u00e3o tenho neg\u00f3cios! Entenda-se com meu irm\u00e3o! Am\u00e2ncio<br \/>\nvoltou ao quarto, desesperado. N\u00e3o que o acovardassem as amea\u00e7as da rapariga,<br \/>\nbem percebia que as suas rela\u00e7\u00f5es com ela n\u00e3o eram em casa nenhum segredo<br \/>\ne, al\u00e9m disso, desde que aceitavam o pagamento, &#8211; ora adeus! nada podiam dizer!<br \/>\nMas apoquentava-se com a falta que j\u00e1 fazia o diabrete da pequena. Habituara-se<br \/>\na dormir ao calor perfumado daquele corpinho branco, ajeitara-se ao c\u00f4modo<br \/>\namor daquela mulherzinha nova e palpitante e, agora, n\u00e3o podia voltar, assim<br \/>\nsem mais nem menos, \u00e0s suas tristes noites desacompanhadas do outro tempo.<br \/>\nAcordou muito tarde no dia seguinte. Am\u00e9lia , quando ele saiu do quarto, n\u00e3o<br \/>\nlhe deu palavra; estava arrumando uma caixa de retalhos, e arrumando ficou.<br \/>\nMme. Brizard havia sa\u00eddo para ver Nini. &#8211; O Coqueiro e os h\u00f3spedes se achavam<br \/>\ntamb\u00e9m na rua. &#8211; Ent\u00e3o o senhora n\u00e3o me quer falar? Perguntou Am\u00e2ncio, fitando-lhe<br \/>\nas costas. Ela interrompeu o que cantarolava e, sem se voltar, disse friamente:<br \/>\n&#8211; A culpa \u00e9 sua &#8230; E continuou a cantarejar, muito embebida nos seus retalhos<br \/>\nde fazenda. Aquele desd\u00e9m, namorado e art\u00edstico, a tornava ainda mis desej\u00e1vel<br \/>\naos olhos do rapaz. Parecia-lhe at\u00e9 mais vela esse dia; como se os seus encantos,<br \/>\nintervindo na perrice, florejassem caprichosamente durante aquela noite de<br \/>\nsoledade. Am\u00e2ncio nunca lhe achou a pele t\u00e3o fina, os dentes t\u00e3o brancos,<br \/>\nos olhos t\u00e3o vivos e t\u00e3o formosos. O p\u00e1lido e ondulante pesco\u00e7o da menina<br \/>\njamais lhe pareceu t\u00e3o misterioso: a sua garganta, macia e doce, jamais o<br \/>\ncativara t\u00e3o despoticamente. Ele, enfim, nunca a sentira t\u00e3o necess\u00e1ria, t\u00e3o<br \/>\nindispens\u00e1vel. E as cenas venturosas dos seus primeiros dias de amor lhe perpassaram<br \/>\nvertiginosamente diante dos olhos, derramando-lhe por todo o corpo um apetite<br \/>\nbrutal de readquirir, no mesmo instante, aquela riqueza, que lhe fugia por<br \/>\nentre os dedos, como um vinho precioso que se derrama. &#8211; Ent\u00e3o a culpa \u00e9 minha?&#8230;disse<br \/>\nele, afinal, apalpando com a vista a carne esperta dos quadris e dos bra\u00e7os<br \/>\nda amante. &#8211; Pois voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea, respondeu ela, voltando-se espevitada &#8211; que<br \/>\nas coisas n\u00e3o podem continuar como at\u00e9 aqui?! \u00c9 uma canseira insuport\u00e1vel!<br \/>\nQuase que j\u00e1 n\u00e3o durmo! Preciso esperar de olho aberto que toda a casa ser<br \/>\nrecolha e recolher-me ao quarto antes que os mais se levantem! O resultado<br \/>\n\u00e9 que n\u00e3o descanso; ando tresnoitada;<\/p>\n<p>estou enfraquecendo! J\u00e1 tenho at\u00e9 uma dor do lado. Quem pode com esta vida?!<br \/>\nAh! voc\u00ea n\u00e3o sente, bem certo! Porque muita vez o encontro a dormir, e dormindo<br \/>\no deixo quando saio! Mas eu?! Se quero que n\u00e3o aconte\u00e7a como outro dia (que<br \/>\nnem sei como n\u00e3o deram pela coisa !) o rem\u00e9dio que tenho \u00e9 ficar alerta e<br \/>\nn\u00e3o deixar que o dia me surpreenda a dormir no seu quarto! V\u00ea voc\u00ea?! &#8211; Mas<br \/>\nda\u00ed?&#8230;perguntou Am\u00e2ncio, no fundo compenetrado de que &#8220;a pobre menina&#8221; n\u00e3o<br \/>\ndeixava de ter o seu bocadinho de raz\u00e3o. &#8211; Da\u00ed&#8230;esclareceu Am\u00e9lia, &#8211; \u00e9 que<br \/>\nnessa tal casa de que lhe falei, e que est\u00e1 para se vender muito em conta,<br \/>\nh\u00e1, al\u00e9m dos c\u00f4modos necess\u00e1rios para Lol\u00f3 e Janj\u00e3o, dois quartos magn\u00edficos,<br \/>\ncom entradas independentes e comunic\u00e1veis entre si por uma pequena alcova.<br \/>\nOra, um dos quartos d\u00e1 para a sala de visitas e o outro para a sala de jantar;<br \/>\nno caso de que arranj\u00e1ssemos o neg\u00f3cio, voc\u00ea ficaria com um e eu ficaria com<br \/>\no outro, e dessa forma acabavam-se os sustos e as canseiras; porque durante<br \/>\no dia abriam-se as portas do lado de fora e fecham-se as de dentro, mas \u00e0<br \/>\nnoite praticava-se justamente o contr\u00e1rio, e fic\u00e1vamos nos em completa liberdade!<br \/>\nCompreende voc\u00ea agora?&#8230; &#8211; Sim, Am\u00e2ncio compreendia e at\u00e9 achava o plano<br \/>\nmuito bem lembrado, mas a quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o via necessidade d comprar a casa,<br \/>\nera bastante alug\u00e1-la&#8230; &#8211; Sim, sim! mas \u00e9 que o dono n\u00e3o a aluga, quer vend\u00ea-la.<br \/>\nE onde ia voc\u00ea encontrar outra casa nessas condi\u00e7\u00f5es?&#8230; &#8211; Hei de passar por<br \/>\nl\u00e1&#8230; &#8211; N\u00e3o. Vamos hoje mesmo, \u00e0 tarde. Lol\u00f3 j\u00e1 prometeu que nos acompanha.<br \/>\n&#8211; Pois sim. E Am\u00e2ncio puxou Am\u00e9lia pelo bra\u00e7o, para lhe dar um beijo. &#8211; Deixe-me&#8230;rezingou<br \/>\nela, ainda com um restinho do arrufo. Voc\u00ea s\u00f3 cuida de si e das suas comodidades&#8230;Ego\u00edsta!<br \/>\n&#8211; N\u00e3o digas isso, meu bem! &#8211; Pois n\u00e3o \u00e9 assim?! Qual foi a vontade s\u00e9ria que<br \/>\nvoc\u00ea j\u00e1 me fez? \u00c9 bastante que eu mostre gosto numa coisa, para voc\u00ea fazer<br \/>\njustamente o contr\u00e1rio&#8230;Entretanto, eu, por sua causa, sacrifiquei tudo que<br \/>\npossu\u00eda! E come\u00e7ou a chorar, muito infeliz, a dizer que Am\u00e2ncio tinha raz\u00e3o!<br \/>\n&#8211; Ningu\u00e9m lhe mandara ser tola! Ela nunca deveria ter-se entregado sen\u00e3o depois<br \/>\ndo casamento! E as suas l\u00e1grimas enxugavam-se nos l\u00e1bios dele. E assim ficaram<br \/>\nalguns minutos, at\u00e9 que Am\u00e9lia, de repente, se lhe tirou dos bra\u00e7os e, abrindo<br \/>\ndistancias, declarou de longe, em plena atra\u00e7\u00e3o de seus encantos, que &#8220;n\u00e3o<br \/>\nfaria nenhum caso de Am\u00e2ncio enquanto n\u00e3o possu\u00edsse o chal\u00e9&#8221;. Nessa mesma<br \/>\nnoite ficou assentado que o rapaz, em nome da amante, compraria a casa das<br \/>\nLaranjeiras.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Com efeito, umas semana depois, tratava-se da escritura de compra. O neg\u00f3cio<br \/>\ncorreu a galope, visto que a propriedade era de um p\u00e2ndego sequioso por dinheiro.<br \/>\nPodiam cuidar logo da nova mudan\u00e7a; Am\u00e9lia, por\u00e9m, n\u00e3o consentiu em tal, sem<br \/>\nque se realizassem umas tantas benfeitorias que a &#8220;sua&#8221; casa reclamava; substituir,<br \/>\npor exemplo, o papel da sala de visitas, que era de mau gosto; meter-lhe \u00e1gua,<br \/>\nque n\u00e3o havia, e fazer esteirar os aposentos destinados para si junto com<br \/>\nseu homem. Mas Am\u00e2ncio n\u00e3o podia distrais tempo com essas coisas: andava muito<br \/>\nabsorvido pela id\u00e9ia dos exames que se aproximavam. Ultimamente viera-lhe<br \/>\numa febre de formatura, queria a todo o custo &#8220;passar &#8220;no primeiro ano. &#8211;<br \/>\nTamb\u00e9m era s\u00f3 do que fazia quest\u00e3o, &#8220;passar no primeiro&#8221;, porque, quanto aos<br \/>\noutros, tinha certeza de se preparar melhor e com mais anteced\u00eancia. agora,<br \/>\nlamentava o tempo perdido na pregui\u00e7a e na mol\u00e9stia; dava ao diabo os seus<br \/>\namores, e vivia numa dobadoura a arranjar empenhos e cartas de prote\u00e7\u00e3o. Agarrou-se<br \/>\nao Campos; agarrou-se \u00e0quele Dr. Freitinhas (do baile do Melo ) que era unha<br \/>\ncom carne de um dos examinadores. E furou, e virou, e percorreu amigos e desconhecidos,<br \/>\nat\u00e9 se julgar &#8220;garantido'&#8221; . Ent\u00e3o, pagou a Segunda matr\u00edcula e entregou-se<br \/>\nde olhos fechados a destino. &#8220;Seria o que Deus quisesse!&#8221; Era ,pois, o Coqueiro<br \/>\nquem dirigia as obras da casa da irm\u00e3. O met\u00f3dico rapaz sempre tivera paix\u00e3o<br \/>\npor esse g\u00eanero de trabalho. &#8211; Se fosse rico, afirmava ele, &#8211; muito pr\u00e9dio<br \/>\nhavia de fazer, s\u00f3 pelo gostinho de acompanhar as obras!<\/p>\n<h2>XVI<\/h2>\n<p>Chegou, finalmente a v\u00e9spera do amaldi\u00e7oado exame. Que ansiedade! Que de<br \/>\nang\u00fastias para o pobre Am\u00e2ncio! que noite, a sua! &#8211; N\u00e3o descansou um segundo;<br \/>\napenas, j\u00e1 quase ao amanhecer, conseguiu passar pelo sono; antes, por\u00e9m, n\u00e3o<br \/>\ndormisse, tais eram os pesadelos e b\u00e1rbaros sonhos que o perseguiam. Via-se<br \/>\nentalado num enorme ros\u00e1rio de v\u00e9rtebras que se enroscava por ele, como uma<br \/>\ncobra de ossos; grandes t\u00edbias dan\u00e7avam-lhe em derredor, atirando-lhe pancadas<br \/>\nnas pernas; as f\u00f3rmulas mais dif\u00edceis da qu\u00edmica e da f\u00edsicas individualizavam-se<br \/>\npara o torturar com a sua presen\u00e7a; os examinadores surgiam-lhe terr\u00edveis,<br \/>\nr\u00edspidos, armados de palmat\u00f3ria, todos com aquela feia catadura do seu ex-professor<br \/>\nde portugu\u00eas no Maranh\u00e3o. Pelo incoerente prisma do sonho, o concurso acad\u00eamico<br \/>\namesquinhava-se \u00e0s rid\u00edculas propor\u00e7\u00f5es do exame de primeiras letras. Era<br \/>\na mesma salinha do mestre-escola, a mesma banca de papara\u00faba manchada de tinta,<br \/>\no mesmo fanhoso Sotero dos Reis presidindo a mesa, Jo\u00e3o Coqueiro, o Paiva<br \/>\ne o Sim\u00f5es, vestidos de menino, fitavam o examinando com um petulante riso<br \/>\nde esc\u00e1rnio. Am\u00e2ncio sentia corre-lhe o suor por todo o corpo e agulhas invis\u00edveis<br \/>\npenetrarem-no at\u00e9 \u00e0 medula. O professor, transformado em juiz e ostentando<br \/>\nas fei\u00e7\u00f5es do falecido Vasconcelos, inquiria-o com asperezas de senhor; mas<br \/>\nas suas perguntas, em vez de concernirem \u00e0s mat\u00e9rias do ato, s\u00f3 se referiam<br \/>\na Am\u00e9lia. &#8211; Por que matou voc\u00ea a pobre menina?! Bramia o pai cravando-lhe<br \/>\nolhares de fogo: &#8211; Responda, seu canalha! Responda! Ah! Pensa que ainda n\u00e3o<br \/>\nsei de que voc\u00ea, para melhor a seduzir, lhe havia prometido casamento e jurado<br \/>\nolhar sempre para ela, seu cachorro?! O Coqueiro ,l\u00e1 do canto, sacudia a cabe\u00e7a<br \/>\nafirmativamente e enviava a Am\u00e2ncio caretas de vingan\u00e7a. Ao lado deste, o<br \/>\ncad\u00e1ver de Am\u00e9lia fazia-se todo vermelho com o sangue que lhe gotejava golpeava<br \/>\nde golpejava de um dos seios rasgados de alto a baixo O r\u00e9u queria responder,<br \/>\njustificar-se, expor a verdade; eram, por\u00e9m, baldados os seus esfor\u00e7os: n\u00e3o<br \/>\nconsegui articular uma palavra; gelatinava-se-lhe a voz. na garganta ,empacando-lhe<br \/>\na fala. &#8211; Bem! Gritou o velho Vasconcelos \u00e0 meia d\u00fazia de soldados que escoltavam<br \/>\nAm\u00e2ncio. &#8211; Conduzam esse miser\u00e1vel ao cepo e cortem-lhe a cabe\u00e7a! O estudante<br \/>\natirou-se de joelhos, com as m\u00e3os postas, chorando, suplicando que o n\u00e3o matassem.<br \/>\nmas os soldados apoderaram-se dele com viol\u00eancia e ataram-lhe os bra\u00e7os. O<br \/>\nJuiz, Coqueiro, Sim\u00f5es, o Paiva, sumiram-se de repente, soltando gargalhadas.<br \/>\nAm\u00e2ncio foi conduzido por um corredor muito escuro e apertado; os soldados,<br \/>\nquando o percebiam vacilar, batiam-lhe no ombro com a coronha das espingardas.<br \/>\nChegou a um p\u00e1tio lajeado e \u00famido, onde milhares de homens armados formavam<br \/>\nalas; no centro, sobre um toro de madeira conspurcada de sangue, reluzia um<br \/>\nmachado \u00e0 sua espera; e, de joelhos, abra\u00e7ado a um crucifixo, um padre velho,<br \/>\nde longos cabelos brancos, engrolava latins Fizeram sil\u00eancio. No meio das<br \/>\nrespira\u00e7\u00f5es abafadas, s\u00f3 se ouviam os passos tr\u00f4pegos e o aflitivo resfolegar<br \/>\ndo condenado que, \u00e0 ponta de baioneta, subia os degraus do cadafalso. Veio<br \/>\no carrasco, despiu-lhe a camisa, tosou-lhe os cabelos, e empunhou o ferro.<br \/>\nAm\u00e2ncio n\u00e3o se resolvia a entregar o pesco\u00e7o, mas o velho Vasconcelos, que<br \/>\nsurgira por detr\u00e1s dele, atirou-lhe um murro \u00e0 nuca e f\u00ea-lo cair de bru\u00e7os<br \/>\ncontra o cepo. Ent\u00e3o, para lhe abafar os gemidos, romperam todos os soldados<br \/>\nnum rufo estridente de tambores. Am\u00e2ncio sentiu o a\u00e7o frio entrar-lhe na carne<br \/>\ndo touti\u00e7o, espipar o sangue, e o corpo, de um salto, arrojar-se \u00e0s lajes.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Havia saltado, com efeito, mas da cama. E o despertador , que ficara de v\u00e9spera<br \/>\ncom toda a corda para as seis da manh\u00e3, continuava o rufo penetrante dos tambores.<br \/>\nO estudante abriu os olhos e passou em sobressalto a m\u00e3o pela testa; os dedos<br \/>\nvoltaram ensopados de suor. Com a perceptibilidade das coisas foi aos poucos<br \/>\nsaindo daquele estado de excita\u00e7\u00e3o, mas voltando lentamente \u00e0 taciturna agonia<br \/>\nda v\u00e9spera. Vestiu-se quase sem consci\u00eancia do que fazia; esqueceu-se at\u00e9<br \/>\nde escovar os dentes, porque, mal voltou a si, correu aos livros, sem ali\u00e1s,<br \/>\nconseguir firmar a aten\u00e7\u00e3o sobre coisa alguma.<\/p>\n<p>E Am\u00e2ncio tremia todo s\u00f3 com a id\u00e9ia de sua inabilidade. \u00c0 medida que as<br \/>\nhoras se esgotavam e o momento fatal se lhe antepunha, um langor covarde e<br \/>\nmulheril crescia dentro dele, produzindo-lhe arrepios que principiavam na<br \/>\nponta dos p\u00e9s e iam-se estendendo pela espinha dorsal, at\u00e9 lhe interessar<br \/>\na cabe\u00e7a, depois de percorrer as regi\u00f5es abdominais. Mas embaixo, na varanda,<br \/>\nem presen\u00e7a de Am\u00e9lia e Mme. Brizard, fazia-se forte, a despeito da palidez<br \/>\nque lhe alterava as fei\u00e7\u00f5es. Nem de leve falou nos sonhos dessa noite, e o<br \/>\nCoqueiro, a t\u00edtulo de met\u00ea-lo em brios, contou v\u00e1rias anedotas de examinandos<br \/>\nrid\u00edculos. Os dois tomaram caf\u00e9 e por fim sa\u00edram. O trajeto de casa \u00e0 escola<br \/>\nfoi um mart\u00edrio para Am\u00e2ncio, afigurava-se-lhe, como no sonho, que se dirigia<br \/>\nao pat\u00edbulo. Chegou \u00e0s dez horas. Alguns companheiros de ato j\u00e1 l\u00e1 estacionavam<br \/>\nem magotes de quatro e cinco pelos corredores ou \u00e0 porta da secretaria; fumavam-se<br \/>\ncigarros consecutivos, discreteavam-se os assuntos da ocasi\u00e3o. Am\u00e2ncio cumprimentou<br \/>\nos conhecidos, parando aqui e ali falando sobre os pontos do exame; &#8211; qual<br \/>\npreferia que sa\u00edsse, em qual se presumia menos fraco e capaz de fazer figura.<br \/>\nAgora, sim, estava mais animado; a presen\u00e7a dos colegas o robustecia com um<br \/>\nvago esp\u00edrito de coletividade. Sentia-se maios forte e resoluto ao lado dos<br \/>\ncompanheiros de perigo, como se a vit\u00f3ria dependesse do n\u00famero de combatentes.<br \/>\nEntretanto, faziam-se horas. Os examinadores estavam j\u00e1 reunidos na sala de<br \/>\nexames, em torno da sua mesa forrada de pano verde. Am\u00e2ncio lobrigava-os pela<br \/>\nfrincha da porta entreaberta e ouvia-lhes o murmurar descuidoso da conversa,<br \/>\nintercaladas de risotas e baforadas de charuto \u00c0 vista daqueles homens resfriaram-lhe<br \/>\nde novo as m\u00e3os e voltaram-lhe os calafrios do terror, algum resto de confian\u00e7a,<br \/>\nque ainda teria em si, evaporou-se de todo. E, para n\u00e3o sucumbir, procurava<br \/>\nacreditar na efic\u00e1cia dos empenhos que arranjara; seu esp\u00edrito, como o n\u00e1ufrago<br \/>\nque braceja nas agonias da morte, j\u00e1 n\u00e3o escolhia os pontos a que se agarrava;<br \/>\ntudo ser ia naqueles apuros, tudo era pretexto de esperan\u00e7a; mas a consci\u00eancia<br \/>\nda verdadeira situa\u00e7\u00e3o vinha meter-se-lhe de permeio, arrancando, uma por<br \/>\numa, todas as t\u00e1buas de salva\u00e7\u00e3o. E Am\u00e2ncio arquejava, desorientado, perdido.<br \/>\n&#8211; Que diabo viera fazer ali?! Para que se apresentara? por que n\u00e3o se guardou<br \/>\npara o ano seguinte ou, quando menos para mar\u00e7o? Antes n\u00e3o tivesse pago a<br \/>\nSegunda matr\u00edcula! Oh! se o arrependimento salvasse!&#8230; E, `propor\u00e7\u00e3o que<br \/>\nse avizinhava o momento supremo, mais e mais imprudente lhe parecia a sua<br \/>\ntemeridade. &#8211; Naquela ocasi\u00e3o, pensava ele, &#8211; bem podia estar na prov\u00edncia,<br \/>\n\u00e0 testa dos seus neg\u00f3cios, ao lado de sua querida m\u00e3e, passeando, rindo, gozando,<br \/>\ncomo nos outros tempos!&#8230;Era rico, era j\u00e1 t\u00e3o estimado antes da academia,<br \/>\npara que ent\u00e3o sofrer semelhantes torturas, passar por aqueles maus quartos<br \/>\nde hora, que ali estava curtindo?&#8230; E vinham-lhe venetas de fugir, abandonar<br \/>\ntudo aquilo, sem dar satisfa\u00e7\u00f5es a ningu\u00e9m, correr \u00e0 casa do Campos, encher-se<br \/>\nde dinheiro e arribar para a Europa, para o inferno! Contanto que se livrasse<br \/>\nda obriga\u00e7\u00e3o de expor uma ci\u00eancia que n\u00e3o tinha, escrever id\u00e9ias de que n\u00e3o<br \/>\ndispunha! Mas o bedel havia surgido e principiava a &#8220;chamada&#8221;, e, a cada nome,<br \/>\nrecitado pausadamente, o seu olhar m\u00f3rbido, de funcion\u00e1rio p\u00fablico no cumprimento<br \/>\nde um velho dever enfadonho, consultava a multid\u00e3o de estudantes, que em sussurros<br \/>\nse apinhava pelo esvazamento das portas, empurrando-se uns aos outros, impacientes,<br \/>\ncuriosos, o pesco\u00e7o espichado, a boca aberta, o calcanhar suspenso. &#8211; Am\u00e2ncio<br \/>\nda Silva Bastos e Vasconcelos, disse aquele arrastando a voz. Am\u00e2ncio sentiu<br \/>\numa pontada no cora\u00e7\u00e3o e tartamudeou: &#8211; Presente. Os companheiros, que lhe<br \/>\nficavam por diante, arredaram-se logo, dando-lhe passagem, e ele foi ocupar<br \/>\numa das banquinhas que havia na sala. A chamada ainda durou algum tempo, porque<br \/>\nAm\u00e2ncio era dos primeiros; afinal, o bedel mastigou o \u00faltimo nome; fecho-se<br \/>\na porta da sala; e um sil\u00eancio formalista espalhou-se entre a turma dos estudantes<br \/>\ne o grupo dos examinadores. O presidente da mesa tomou a lista dos examinandos,<br \/>\narranjou os \u00f3culos, tossicou e, com um bocejo, chamou pelo que estava em primeiro<br \/>\nlugar.<\/p>\n<p>Um rapazote louro, de bu\u00e7o, ergueu-se e foi ter com ele. O presidente, com um<br \/>\nsegundo bocejo e um gesto de cabe\u00e7a, ordenou-lhe que tomasse um dos pontos da<br \/>\nurna. Am\u00e2ncio ofegava. &#8211; Ia decretar-se o ponto! &#8211; Qual seria?&#8230; E se, por<br \/>\ncaiporismo, fosse justamente um dos mais crus? E o sangue trepava-lhe \u00e0 cabe\u00e7as,<br \/>\npondo-lhe latejos nas fontes.<\/p>\n<p>O rapazote louro meteu enfim a m\u00e3o na urna e tirou com a ponta dos dedos<br \/>\ntr\u00eamulos uma pequena torcida de papel, que passou ao presidente Este desenrolou-a<br \/>\ne leu: &#8220;Hidrog\u00eanio&#8221;. Am\u00e2ncio respirou: o ponto n\u00e3o podia ser melhor para ele<br \/>\ndo que era! Talvez fosse at\u00e9 entre todos o menos mal sabido; ainda essa manh\u00e3<br \/>\nlhe passara uma vista de olhos. Contudo, uma vez imposto o Hidrog\u00eanio, quis<br \/>\nlhe parecer vagamente que havia outros pontos prefer\u00edveis.. Estava mais tranq\u00fcilo,<br \/>\nque era o principal; j\u00e1 quase nada lhe tremia a m\u00e3o ao receber das do bedel<br \/>\numa folhas de papel alma\u00e7o, rubricada pelos lentes, das que ia aquele distribuindo<br \/>\npor todas banquinhas dos examinandos. &#8211; Ali, naqueles miser\u00e1veis dois vint\u00e9ns<br \/>\nder papel, tinha ele de determinar o seu futuro, a sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade,<br \/>\ntalvez a pr\u00f3pria vida de sua m\u00e3e, dizendo o que sabia a respeito do tal Hidrog\u00eanio!&#8230;<br \/>\nExperimentou a pena, endireitou-se na cadeira, e escreveu, caprichando na<br \/>\nletra e procurando obter estilo. A areia da ampulheta esgotava-se defronte<br \/>\nda calva e dos bocejos do senhor presidente. Correu meia hora; Am\u00e2ncio ergueu-se<br \/>\nafinal, entregou a sua prova e saiu das sala, a esfregar, muito preocupado,<br \/>\nos dedos das m\u00e3o direita contra a palma da esquerda. \u00c0 porta, mal acendera<br \/>\nsofregamente o cigarro, contava j\u00e1 aos seus amigos o que havia exposto pouco<br \/>\nmais ou menos. &#8211; Ah! com certeza pilhava uma &#8211; nota boa! &#8211; N\u00e3o era por querer<br \/>\nfalar, mas a sua prova sa\u00edra limpa. &#8220;Assim n\u00e3o fosse o ponto t\u00e3o ingrato!&#8230;&#8221;<br \/>\nE ficaria a prosar sobre o caso, se o Coqueiro, aguilhoado pela aus\u00eancia do<br \/>\nalmo\u00e7o, n\u00e3o o arrancasse dali.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A nota foi boa, efetivamente. Soube-o Am\u00e2ncio no dia seguinte, logo que correu<br \/>\n\u00e0 secretaria. N\u00e3o contava, por\u00e9m ficar tranq\u00fcilo, sen\u00e3o depois do resultado<br \/>\nde sua provas oral. Novos sobressaltos foram se agravando durante os dias<br \/>\nque era preciso esperar. Votavam-lhe as afli\u00e7\u00f5es; no fim de algum tempo j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o podia comer, n\u00e3o podia ligar duas id\u00e9ias sobre qualquer coisa e n\u00e3o conseguia<br \/>\nrepousar duas horas seguidas. Ficou ainda mais desnorteado que da primeira<br \/>\nvez. Amelinha, ent\u00e3o, o estimulava com as suas garrulices e pomba que j\u00e1 fez<br \/>\nninho. Puxava por ele, tentando arranc\u00e1-lo daquele estado, mas n\u00e3o conseguia<br \/>\nlhe despertar um s\u00f3 dos antigos momentos de bom humor, nem lhe merecer uma<br \/>\nde suas primitivas caricias O rapaz andava tonto, cheio de pressentimentos<br \/>\ne de sustos. Tornou-se at\u00e9 supersticioso. &#8211; N\u00e3o podia ver entrar no quarto<br \/>\numa borboleta de cor mais escura; n\u00e3o podia suportar o grunhir dos c\u00e3es, nem<br \/>\nqueria que a amante prognosticasse &#8220;um bom resultado nos exames&#8221; &#8211; \u00c9 melhor<br \/>\nn\u00e3o falar!&#8230;dizia ele, muito esmalmado. Mas que prazer o seu ao voltar pronto<br \/>\nda escola! Jamais tivera um contentamento t\u00e3o agudo. Ria sem motivo, sentia<br \/>\n\u00edmpetos de abra\u00e7ar a toda gente, pulava, cantava, parecia doido.. Soubera<br \/>\ndo resultado no mesmo dia da prova oral, por interm\u00e9dio de um dos professores.<br \/>\n&#8211; Sa\u00edra aprovado plenamente. Vencera! Colegas o acompanharam at\u00e9 a casa. L\u00e1<br \/>\nia o Paiva, sempre com o seu olhinho irrequieto e mexeriqueiro, o seu todo<br \/>\nenfrenesiado e farto &#8220;desta porcaria de mundo&#8221;. L\u00e1 ia o triste Salustiano<br \/>\nSim\u00f5es, encasmurrado no seu ar incr\u00e9dulo e bamba, a mascar o cigarro, a aba<br \/>\ndo chap\u00e9u encostada \u00e0 gola sebosa do fraque Abriram-se garrafas de champanha;<br \/>\nfizeram-se brindes. Jo\u00e3o Coqueiro desmanchava-se em sorrisos, como se partilhasse<br \/>\ndiretamente de todas aquelas manifesta\u00e7\u00f5es. Foi muito elogiado o exame de<br \/>\nAm\u00e2ncio, tocaram-se os copos, entre fervorosas palavras de anima\u00e7\u00e3o; falou-se<br \/>\nem &#8220;filhos diletos da ci\u00eancia&#8221;, em &#8220;liberdade&#8221;. Em &#8220;gera\u00e7\u00e3o nova&#8221;, em &#8220;mineiros<br \/>\ndo progresso&#8221;. Todavia, Am\u00e2ncio, em ar feliz e pretensioso, confessava o pouco<br \/>\nque estudara e gabava-se de sua fortuna. &#8211; Podia dar a palavra de honra em<br \/>\ncomo mal havia tocado nos livros durante o ano. &#8211; O Coqueiro e a fam\u00edlia estavam<br \/>\nali, que dissessem!&#8230; E basofiava a respeito de sua presen\u00e7a de esp\u00edrito<br \/>\nparticularizando circunst\u00e2ncias comprobativas de uma sagacidade a toda prova.<br \/>\n&#8211; C\u00e1 o menino n\u00e3o se aperta! Dizia ele, muito satisfeito consigo.<\/p>\n<p>Expediu-se um telegrama para o Maranh\u00e3o, dando noticia do grande &#8220;acontecimento&#8221;.<br \/>\nO Sim\u00f5es e o Paiva ficaram para jantar. J\u00e1 estavam todos \u00e0 mesa, quando apareceu<br \/>\no copeiro com uma carta que um portuguesito acabava de trazer. Era do Campos.<br \/>\nO bom negociante queria festejar o \u00eaxito feliz do &#8211; jovem acad\u00eamico &#8211; com<br \/>\n&#8220;uma pequena reuni\u00e3o familiar. Pena era que o Dr. Am\u00e2ncio estivesse de luto&#8221;.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o h\u00e1 festa&#8221;, explanava a carta, &#8220;apenas se re\u00fanem alguns amigos para lhe<br \/>\nbeber \u00e0 sa\u00fade; e o doutor bem pode trazer em sua companhia mais alguns&#8221;. Am\u00e2ncio<br \/>\ndeclarou logo que n\u00e3o dispensava o Sim\u00f5es e o Paiva Rocha e exigiu que o Coqueiro<br \/>\nlevasse consigo a fam\u00edlia. Pois iriam, iriam todos, at\u00e9 o C\u00e9sar. Mas o festejado<br \/>\nteve de franquear o seu guarda-roupa \u00e0queles dois colegas que n\u00e3o queriam<br \/>\napresentar-se mal amanhados em uma casa, onde entravam pela primeira vez.<br \/>\nO Coqueiro, em particular, exprobrou-lhe essa franqueza: &#8211; Foge da bo\u00eamia!&#8230;<br \/>\ndisse-lhe, no seu diapas\u00e3o de homem s\u00e9rio. &#8211; Foge da bo\u00eamia, rapaz! Esses<br \/>\ntipos n\u00e3o merecem que se lhes fa\u00e7a a menor coisa!&#8230; metem os p\u00e9s &#8211; sempre!<br \/>\nJ\u00e1 os conhe\u00e7o; n\u00e3o seria eu quem os convidara para a casa de ningu\u00e9m! \u00c9 gentinha<br \/>\nque s\u00f3 est\u00e1 habituada a caf\u00e9s e botequins, n\u00e3o respeitam fam\u00edlia! Para eles<br \/>\nas mulheres s\u00e3o todas iguais!&#8230; Am\u00e2ncio sorriu. &#8211; Ora Deus queira que n\u00e3o<br \/>\ntenhamos de nos arrepender!&#8230; acrescentou o outro.- E, \u00e0quela roupa, podes<br \/>\nrezar-lhe por alma&#8230; o ali cai, fica! O provinciano afastou-se sem responder<br \/>\ne lamentando interiormente que, logo nessa tarde, n\u00e3o estivesse em casa o<br \/>\neloq\u00fcente Dr. Tavares, que seria uma excelente perna dos brindes da sobremesa.<br \/>\nMandaram-se vir dois carros. Num iria o Coqueiro mais a fam\u00edlia e no outro<br \/>\nAm\u00e2ncio com os dois amigos. Partiram \u00e0s oito horas, alegremente, num alvoro\u00e7o<br \/>\ng\u00e1rrulo de festa. Mme Brizard dera toda for\u00e7a \u00e0 sua eleg\u00e2ncia: atirou-se ao<br \/>\ndecote, p\u00f4s a pedraria ainda do tempo do primeiro marido, e exibiu aquele<br \/>\nrico pesco\u00e7o, &#8220;que ela n\u00e3o trocava pelo de ningu\u00e9m&#8221;! Amelinha estreou um belo<br \/>\nvestido de escumilha azul que lhe dera o amante. No seu colo, cor de cam\u00e9lia<br \/>\nfanada, assentavam muito bem as p\u00e9rolas e os rubis; seus bra\u00e7os, levemente<br \/>\ndourados de penugem, sabiam, no meio da confus\u00e3o caprichosa das rendas valencianas,<br \/>\nfazer tilintar com gra\u00e7a os braceletes que se enroscavam nas compridas e transparentes<br \/>\nluvas de retr\u00f3s. A cunhada, ao v\u00ea-la sair do quarto, dissera: &#8211; N\u00e3o parece<br \/>\numa brasileira!&#8230; T\u00e3o linda est\u00e1!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Foram recebidos com transportes de j\u00fabilo por toda a fam\u00edlia do negociante.<br \/>\nCampos entregou a casa ao festejado, &#8220;que a este competia, naquela noite,<br \/>\nobsequiar \u00e0s pessoas presentes; fazer as honras da copa e da mesa; promover<br \/>\nquadrilhas e prender as mo\u00e7as at\u00e9 pela manh\u00e3. Era o dono da festa, que se<br \/>\narranjasse!&#8221; Am\u00e2ncio tomou posse do cargo, sem caber em si de contente. Muito<br \/>\no sensibilizava tudo aquilo que, de qualquer modo, lhe pudesse afagar o amor-pr\u00f3prio.<br \/>\nE em suas m\u00e3os a festa tomou um car\u00e1ter assustador: o pianista n\u00e3o tinha tempo<br \/>\npara fumar um cigarro; os convidados eram constrangidos a beber nos intervalos<br \/>\nda dan\u00e7a e a dan\u00e7ar nos intervalos das liba\u00e7\u00f5es. Paiva Rocha e o Salustiano,<br \/>\na despeito de todas as suas garantias de fil\u00f3sofos, intransigentes e p\u00e9ssimos<br \/>\ndan\u00e7adores, tiveram de entrar, por mais de uma vez, nas intermin\u00e1veis contradan\u00e7as.<br \/>\nAo inverso do que pressagiara o Coqueiro a respeito destes dois, tanto um<br \/>\ncomo o outro se houveram admiravelmente. Ningu\u00e9m melhor que eles para respeitar<br \/>\nsenhoras; um espesso acanhamento os encascava e tolhia, que nem a concha ao<br \/>\nmolusco. Salustiano, principalmente, estava mais tenro e inofensivo que uma<br \/>\ncrian\u00e7a; na quadrilha, mal ousava erguer os olhos para sua dama e, querendo<br \/>\nser muito delicado, apenas lograva, com os exageros da cortesia, trair a sua<br \/>\nnenhuma freq\u00fc\u00eancia nas salas. Para os intimidar bastava as cerimoniosa presen\u00e7a<br \/>\nde senhoras de boa sociedade. Aqueles dois p\u00e2ndegos, t\u00e3o c\u00e9ticos em teoria<br \/>\na respeito da mulher, ali, governados pelo meio, eram os homens mais tolerantes<br \/>\ndeste mundo; seriam capazes de defender a exist\u00eancia de Deus ou do diabo,<br \/>\nse elas o entendessem. Fato \u00e9 que o dono da casa gostou deles em extremo e<br \/>\npediu-lhes que aparecessem aos domingos, uma vez por outra, para jantar. A<br \/>\nfesta correu sempre animada at\u00e9 as tr\u00eas horas da manh\u00e3, quando Am\u00e2ncio convidou<br \/>\nas senhoras a tomar lugar na mesa. Ao desrolhar do champanha, ergueu-se este<br \/>\nresolutamente e exigiu que o acompanhassem num brinde.<\/p>\n<p>Abstiveram-se da bulha, e o estudante grupou em torno do nome inteiro do<br \/>\nCampos todo o velho arsenal de ret\u00f3rica aplic\u00e1vel \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Em subst\u00e2ncia<br \/>\nnada afirmou, mas a sua palavra sonora e cheia; as frases gorgolhavam-lhe<br \/>\ndos l\u00e1bios com essa verbosidade oca e retumbante que se observa nos filhos<br \/>\ndo Norte do Brasil, e que, ali\u00e1s, tem valido a muitos posi\u00e7\u00e3o eminente na<br \/>\npol\u00edtica. Aquela voz, estalada e aberta, ferindo as vogais, tinha um sabor<br \/>\nmuito picante de ironia, vibrava no ar como uma flecha selvagem e feria os<br \/>\nt\u00edmpanos como um insulto inverso. As damas interessaram-se pelo discurso e<br \/>\nalguns homens o ouviram sem pestanejar. E todos eram de acordo que Am\u00e2ncio<br \/>\nestava talhado para o Direito e que havia de fazer &#8220;uma brilhante figura&#8221;,<br \/>\nquer na advocacia, quer na pol\u00edtica, se por acaso abra\u00e7asse uma dessas carreiras.<br \/>\n&#8211; \u00c9 rapaz de talento!&#8230; diziam j\u00e1 as senhoras cochichando. &#8211; A mim comoveu<br \/>\ntanto o dem\u00f4nio do mo\u00e7o, que chorei!&#8230; segredou uma quarentona de chin\u00f3,<br \/>\nque passava entre os conhecidos por mulher de maus bofes. E principiaram a<br \/>\nolhar com uma certa submiss\u00e3o para o esperan\u00e7oso Am\u00e2ncio. E, com efeito o<br \/>\nseu tipo nervoso e moreno de nortista, o seu modo sem-cerim\u00f4nia de abrir muito<br \/>\na boca, mostrando num gesto de pasmo a dentadura, o desembara\u00e7o de sua gesticula\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsempre que entornava para dentro um pouco mais de vinho, e principalmente<br \/>\no metal daquela voz enf\u00e1tica e encrespada pelo tal sotaque da prov\u00edncia; tudo<br \/>\nisso, sem d\u00favida alguma agradava depois de uma boa ceia, quando cada um n\u00e3o<br \/>\nexige de ningu\u00e9m sen\u00e3o que lhe deixem tomar me paz o seu caf\u00e9 e lhe permita<br \/>\nacender o seu charuto. O caso \u00e9 que Am\u00e2ncio se converteu numa esp\u00e9cie de presidente<br \/>\nda mesa. Era a ele que se dirigiam os que propunham novos brindes; era para<br \/>\nele que mais se voltavam durante o discurso, e, tal e qual no jantar de seu<br \/>\npai por ocasi\u00e3o do c\u00e9lebre exame de primeiras letras, ainda era ele o alvo<br \/>\ndas melhores felicita\u00e7\u00f5es; com a diferen\u00e7a de que, neste agora, em vez de<br \/>\nconsultar de instante a instante o famoso rel\u00f3gio alcan\u00e7ado naquele dia, o<br \/>\nque Am\u00e2ncio consultava eram os olhos de Hort\u00eansia, nele igualmente presos<br \/>\nmas por uma cadeia doutra esp\u00e9cie. E, ainda como na primeira festa, o estudante<br \/>\nabusou um pouco dos licores; mas, agora, em vez de pegar no sono, deu-lhe<br \/>\na bebedeira para abrir \u00e0s francas com a dona da casa, logo que a pilhou sozinha<br \/>\nno terra\u00e7o, ao fundo do segundo andar. Hort\u00eansia n\u00e3o se indignou com isso,<br \/>\nmas tamb\u00e9m n\u00e3o se mostrou satisfeita; n\u00e3o repeliu com energia as palavras<br \/>\ndo sedutor, mas n\u00e3o se pode dizer que as acolhesse de boa cara; n\u00e3o lhe deu<br \/>\nenfim, os beijos que ele pedia, mas por outro lado n\u00e3o retirou a m\u00e3o que o<br \/>\nrapaz agarrara entre as suas. &#8211; Eu te adoro, meu amor, minha vida! dizia-lhe<br \/>\no velhaco, cheirando-lhe os grossos bra\u00e7os revestidos de fil\u00f3. &#8211; N\u00e3o to disse<br \/>\nh\u00e1 mais tempo por falta de coragem, juro-te, por\u00e9m, que \u00e9 verdade! Amo-te,<br \/>\nminha Hort\u00eansia, amo-te com todo o entusiasmo, com toda a paix\u00e3o de que sou<br \/>\ncapaz! Ela o ouvia em sil\u00eancio, a pensar, os olhos ferrados a um ponto, o<br \/>\nar todo ca\u00eddo e acabrunhado como por uma esp\u00e9cie de desgosto; n\u00e3o se mexia,<br \/>\napenas, quando Am\u00e2ncio teimava muito em querer beij\u00e1-la, desviava o corpo,<br \/>\nsem voltar a cabe\u00e7a. &#8211; Mas, ent\u00e3o?&#8230;perguntou ele. &#8211; Ent\u00e3o, o qu\u00ea?&#8230;fez<br \/>\na outra como interrompendo um longo pensamento. &#8211; N\u00e3o aceita o meu amor?..<br \/>\n&#8211; N\u00e3o, decerto, n\u00e3o posso aceitar semelhante coisa! &#8211; Por que, minha santa?&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o tenho esse direito; conhe\u00e7o os meus deveres e a minha responsabilidade<br \/>\n.O mais que lhe posso dar \u00e9 uma afei\u00e7\u00e3o de irm\u00e3, de amiga, uma afei\u00e7\u00e3o sagrada<br \/>\ne pura ! Am\u00e2ncio declarou que pensava desse modo justamente, mas agora queria<br \/>\num beijo, um s\u00f3! O primeiro e \u00faltimo! &#8211; nada mais sagrado e puro do que um<br \/>\nbeijo!&#8230; &#8211; Nunca! Disse ela, fugindo com o rosto. Ele a tomou \u00e0 for\u00e7a e a<br \/>\nsenhora ficou ressentida, chegou a ter um gesto de impaci\u00eancia e teria fugido,<br \/>\nse o estudante n\u00e3o a segurasse pela cintura. &#8211; Solte-me! &#8211; Perdoa, perdoa,<br \/>\nmeu amor! Segredava ele, quase ajoelhado .- Bem quisera ser para contigo o<br \/>\nmais respeitoso dos homens, mas n\u00e3o me pude dominar&#8230;Perdoa! &#8211; E jura que<br \/>\n, de hoje em diante, n\u00e3o cair\u00e1 noutra?&#8230; &#8211; Juro! Juro! Mas n\u00e3o te revoltes<br \/>\ncontra mim! &#8211; E que nunca mais me faltar\u00e1 ao respeito?&#8230; Am\u00e2ncio fez um gesto<br \/>\nafirmativo, em o qual seus olhos , agora mais estr\u00e1bicos sob a influ\u00eancia<br \/>\ndo vinho e do desejo, luziam suplicantes, como os olhos de um c\u00e3o que tem<br \/>\nfome.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, murmurou ela, meio compadecida. &#8211; v\u00e1 l\u00e1 por esta vez! Est\u00e1 perdoado,<br \/>\nmas fique prevenido de que, se repetir a gra\u00e7a n\u00e3o, respondo pelas conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\nAm\u00e2ncio ia fazer novos protestos , quando sentiu que algu\u00e9m se aproximava;<br \/>\nergueram-se ambos, instintivamente, e ,fugindo ao rumor, seguiram de bra\u00e7o<br \/>\ndado para a sala. Tocava-se uma valsa. Ele , sem consultar Hort\u00eansia, enla\u00e7ou-lhe<br \/>\na cintura, e puseram-se os dois a rodar, a rodar, t\u00e3o certos e t\u00e3o leves,<br \/>\nque prendiam a aten\u00e7\u00e3o de quantos l\u00e1 s achavam. E o Coqueiro, encostado \u00e0<br \/>\nombreiras de uma porta, acompanhava-os com um sorriso de felicidade, no qual<br \/>\nhavia alguma coisa de orgulho de pai que se rev\u00ea num filho prodigioso. Mas<br \/>\no querido estudante, para o fim da festa, j\u00e1 n\u00e3o pareci o mesmo: as bebidas<br \/>\ne o cansa\u00e7o davam-lhe um ar grosseiro e desalinhado; j\u00e1 se lhe n\u00e3o via o colarinho,<br \/>\nnem os punhos; a roupa empastava-se-lhe com o suor e a cabeleira desguedelhava-se<br \/>\nsobre a testa. E vinham-lhe ent\u00e3o pilh\u00e9rias de mau gosto; tratava Amelinha<br \/>\nquase licenciosamente e regamboleava as pernas e os bra\u00e7os no meio da quadrilha,<br \/>\ncomo se estivesse num baile p\u00fablico. J\u00e1 n\u00e3o dava excel\u00eancia a ningu\u00e9m e queria,<br \/>\npor for\u00e7a ,que o Sim\u00f5es e o Paiva, depois da festa, o acompanhassem a um passeio<br \/>\nao alto da Tijuca. &#8211; Que diabo! Rosnava ele, cuspilhando para os lados. &#8211;<br \/>\nOu bem que a gente se mete na p\u00e2ndega ou bem que se n\u00e3o mete! S\u00f3 se retiraram<br \/>\nao despontar da aurora. C\u00e9sar, que adormecera desde as onze horas da noite,<br \/>\nficou para passar o dia com a fam\u00edlia do Campos. Am\u00e2ncio p\u00f4s um carro \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Paiva e do Sim\u00f5es e seguiu no outro com as duas senhoras e o Coqueiro.<br \/>\nEste toscanejava durante a viagem, ao lado da mulher que se sumia na abund\u00e2ncia<br \/>\nde uma formid\u00e1vel capa de l\u00e3; enquanto que Am\u00e2ncio, a charutar derreado para<br \/>\num canto da carruagem, adormecia com a m\u00e3o direita esquecida entre as de Am\u00e9lia<\/p>\n<h3>XVII<\/h3>\n<p>Recebeu no dia seguinte uma carta de \u00c2ngela; era a segunda que ela escrevia<br \/>\nao filho depois da morte do marido. J\u00e1 na primeira lhe suplicava que a fosse<br \/>\nver, logo ao entrar das f\u00e9rias, pois agora estava muito s\u00f3 e acabrunhada de<br \/>\ndesgostos; al\u00e9m disso, os seus padecimentos se agravavam. Am\u00e2ncio que se n\u00e3o<br \/>\ndemorasse; a infeliz tinha para si que a presen\u00e7a do filho substituiria com<br \/>\nvantagem todos os rem\u00e9dios da botica. Na segunda carta ainda se mostrava mais<br \/>\nimpaciente e mais aflita pelo rapaz. Falava at\u00e9 no receio de morrer sem abra\u00e7\u00e1-lo,<br \/>\ncaso Am\u00e2ncio n\u00e3o se apressasse a ir em seu socorro.- A presen\u00e7a dele tornava-se<br \/>\nprecisa , mesmo com refer\u00eancias aos interesses do invent\u00e1rio; por quanto D.<br \/>\nAngela come\u00e7ava a desconfiar do Silveira, que n\u00e3o fazia outra coisa sen\u00e3o<br \/>\nlhe pedir dinheiro e mais dinheiro para as tais custas. &#8211; Enfim, por todos<br \/>\nos motivos, era urgente que Am\u00e2ncio desse, quanto antes, um pulo ao Maranh\u00e3o.<br \/>\nAmelinha, que j\u00e1 n\u00e3o ficara muito tranq\u00fcila com a primeira carta, assustou-se<br \/>\ndeveras quando o amante lhe mostrou a segunda . &#8211; Eu n\u00e3o consinto nesta viagem!<br \/>\nDisse-lhe terminantemente. &#8211; Mas n\u00e3o v\u00eas que se trata de um caso urgente,<br \/>\nque se trata de defender meus interesses, que se trata de salvar a vida de<br \/>\nminha m\u00e3e?&#8230;Ou queres tu que eu a mate, hein?&#8230; &#8211; Am\u00e9lia n\u00e3o tinha nada<br \/>\nquer ver com isso!&#8230;A sua quest\u00e3o resumia-se no seguinte: &#8220;Dera-se a um homem,<br \/>\nporque o amava e porque se supunha amada por ele; esse homem a possuiu como<br \/>\nbem quis, gozou-a como muito bem entendeu, e, um belo dia, talvez por j\u00e1 estar<br \/>\nfarto, resolvia meter-lhe os p\u00e9s e p\u00f4r-se ao fresco!&#8230;&#8221; Boas! N\u00e3o havia de<br \/>\nser com ela! Am\u00e2ncio que n\u00e3o ca\u00edsse em semelhante asneira, porque ent\u00e3o veria<br \/>\no bom e o bonito! Quem o afian\u00e7ava era &#8220;a Amelinha dos camar\u00f5es&#8221;! &#8211; Mas ,<br \/>\nfilha, que queres tu que eu fa\u00e7a?&#8230;Bem v\u00eas que esta viagem ao Norte \u00e9 inevit\u00e1vel!<br \/>\n&#8211; Pois ent\u00e3o vamos juntos&#8230;Casa-te primeiro comigo! A id\u00e9ia foi t\u00e3o intempestiva<br \/>\nque o estudante respondeu com uma gargalhada. Mas o dem\u00f4nio da rapariga, tornando<br \/>\n\u00e0s boas de repente, saltou-lhe ao pesco\u00e7o e disse-lhe, entre beijos: &#8211; E por<br \/>\nque n\u00e3o ?&#8230;Por que n\u00e3o te casa logo comigo, meu amor?&#8230; &#8211; Porque era imposs\u00edvel!&#8230;explicava<br \/>\nele. &#8220;Casar n\u00e3o \u00e9 casaca&#8221; Era muito cedo para cuidar nisso!&#8230;Primeiro tinha<br \/>\nde formar-se, praticar algum tempo em Paris, e depois ent\u00e3o&#8230;sim senhor,<br \/>\nn\u00e3o dizia o contr\u00e1rio e havia de ser o mais empenhado em que a coisa se realizasse!<br \/>\nMas por ora&#8230;&#8221;Deus nos acuda!&#8221; era at\u00e9 loucura pensar em semelhante hist\u00f3ria!&#8230;<\/p>\n<p>Am\u00e9lia fez-se logo de mau humor; vieram os remoques e o s reviretes do costume,<br \/>\nhouve palavras duras de parte a parte e, afinal, como estabelecido imposto<br \/>\nde reconcilia\u00e7\u00e3o, ficou assentado que Am\u00e2ncio arranjaria mob\u00edlia nova para<br \/>\no chalezinho das Laranjeiras. E o rapaz l\u00e1 foi comprar os trastes. Dois dias<br \/>\ndepois, realizava-se a terceira mudan\u00e7a. O Dr. Tavares, o \u00faltimo h\u00f3spede da<br \/>\nfamigerada Mme. Brizard, pagou a sua \u00faltima conta e recebeu da francesa um<br \/>\nabra\u00e7o de despedida. &#8211; Ah! suspirou elas. &#8211; At\u00e9 que enfim se podia descansar<br \/>\num pouco! J\u00e1 n\u00e3o era sem tempo! O chalezinho de Am\u00e9lia ficou muito catita;<br \/>\nparecia um ninho de noivos. Estava a pedir lua-de-mel! A cachorra da pequena<br \/>\ntinha gosto. Exigiu tapetes, espelhos, cortinas de chita indiana para a sala<br \/>\nde jantar, cortinas de renda para a salas d visitas; quis moldura dourada<br \/>\nnos quadros, estatuetas pelas paredes; n\u00e3o dispensou nos aparadores e nos<br \/>\nconsolos jarras de porcelana das mais \u00e0 moda; jardineiras aqui e ali, vasos<br \/>\ncaprichosos com beg\u00f4nias e tinhor\u00f5es sobre a mesa de jantar; cestinhas art\u00edsticas,<br \/>\ncom para sitas, para dependurar nas janelas; e ainda fez substituir na cozinha,<br \/>\nnos arranjos da comida e no arranjo dos quartos, tudo aquilo que lhe parecia<br \/>\nem condi\u00e7\u00f5es de reformas. E s\u00f3 com essas coisas e s\u00f3 com a satisfa\u00e7\u00e3o de tanta<br \/>\nexig\u00eancia \u00e9 que Am\u00e2ncio conseguia paliar as revoltas da amante. O desgra\u00e7ado<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o tinha \u00e2nimo de contrari\u00e1-la, porque bem conhecia o pre\u00e7o das rezingas<br \/>\ne, sem achar meio de reagir, via claramente que as reconcilia\u00e7\u00f5es se tornavam<br \/>\nmais caras de dia para dia.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Entretanto, depois da mudan\u00e7a, o amor dos dois tomou um car\u00e1ter mais digno<br \/>\ne decente. J\u00e1 n\u00e3o era necess\u00e1rio que a rapariga andasse \u00e0 noite em ponta de<br \/>\np\u00e9s pela casa, tateando a escurid\u00e3o para ir ter com o seu homem. agora dormiam<br \/>\n\u00e0 vontade, com as portas bem fechadas por dentro. E s\u00f3 se despregavam do lado<br \/>\num do outro, quando tinham que abandonar o quarto. Ent\u00e3o, cada um se servia<br \/>\nda porta competente: Am\u00e9lia tomava a da varanda e Am\u00e2ncio a da sala de visitas!<br \/>\nN\u00e3o podiam desejar melhor! Melhor, bem certo para o descanso do corpo e repouso<br \/>\ndo esp\u00edrito; n\u00e3o, por\u00e9m, para garantia do amor, essa estranha fun\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica<br \/>\nque s\u00f3 alimenta asa suas ra\u00edzes nos sobressaltos e no perigo. Tamanha seguran\u00e7a<br \/>\ne tamanha liberdade de a\u00e7\u00e3o deviam fatalmente levantar a pontas do t\u00e9dio,<br \/>\ncujo novelo existe, mais ou menos escondido, no fundo de todas as coisas.<br \/>\nN\u00e3o vinha longe a saciedade; Am\u00e2ncio j\u00e1 lhe ouvia o bocejar. Iam-se-lhe pouco<br \/>\na pouco amornecendo os primitivos arrebatamentos do desejo; os dois tinham-se<br \/>\nj\u00e1 frouxamente, sem lumes de entusiasmo, sem os esfor\u00e7adores aux\u00edlios da imagina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAssuntos pr\u00e1ticos, positivos, agora se lhes intercalavam nas car\u00edcias, puxando-os<br \/>\ngrosseiramente \u00e0 calma realidade da vida. Amelinha j\u00e1 lhe n\u00e3o surgia no quarto<br \/>\ncom aquele tr\u00eafego ru\u00e7ar-se de pomba assustada, o que lhe enchia as fei\u00e7\u00f5es<br \/>\ne os movimentos de uma gra\u00e7a t\u00e3o maliciosa e provocadora; agora se apresentava<br \/>\ncom um ar muito tranq\u00fcilo, de casada, a arrastar os chinelos, o roup\u00e3o desabotoado<br \/>\ne solto, num farto abandono de alcova. Despia-se defronte de Am\u00e2ncio, co\u00e7ando<br \/>\nnegligentemente as partes do corpo que estiveram comprimidas durante o dia,<br \/>\ncomo a cinta, o lugar das ligas e dos canos das botinas. Despenteava-se ali<br \/>\nmesmo, alado da cama do rapaz, sacudindo o cabelo com ambas as m\u00e3os, num movimento<br \/>\nde bra\u00e7os erguidos que lhe mostrava a grenha das axilas; ele, tamb\u00e9m, parecia<br \/>\nn\u00e3o dar por isso, eras todo do livro que lia \u00e0 luz de uma vela pousada no<br \/>\ncriado-mudo. E os assuntos de suas conversas materializavam-se completamente.<br \/>\nJ\u00e1 s\u00f3 discutiam interesses pr\u00e1ticos, arranjos de vida e conveni\u00eancias dom\u00e9sticas:<br \/>\n&#8220;Era preciso arranjar um jardineiro, que viesse uma vez por semana cuidar<br \/>\ndas plantas e limpar os tanques. &#8211; Era preciso chamar o homem do g\u00e1s para<br \/>\nconsertar tal candeeiro que n\u00e3o dava boa luz. &#8211; Era conveniente alugar uma<br \/>\ncriada que soubesse lavar; porque a ladra da lavadeira trocava as camisas<br \/>\ne encardia a roupa, que fazia l\u00e1stima!&#8221; E, \u00e0 vezes, na intimidade dessas conversas,<br \/>\ncriticavam os atos de Mme. Brizard e do Coqueiro; censuravam-lhes umas tantas<br \/>\ncoisas, como, por exemplo: a neglig\u00eancia destes para com o C\u00e9sar. &#8220;O pequeno<br \/>\nia por um tal caminho, que, se n\u00e3o abrissem os olhos, havia de amargar mais<br \/>\ntarde! &#8211; Que diabo custava ao Janj\u00e3o arranj\u00e1-lo a\u00ed em qualquer casa de com\u00e9rcio<br \/>\nou, pelo menos, faz\u00ea-lo aprender um of\u00edcio?&#8230;Em casa mesmo j\u00e1 lhe podiam<br \/>\nter metido nas unhas a carta do ABC e j\u00e1 lhe podiam ter ensinado alguma coisa&#8230;Mas<br \/>\nLol\u00f3 n\u00e3o se queria incomodar! E sen\u00e3o, vissem o que se passava a respeito<br \/>\nde Nini; outra fosse a boa da m\u00e3e, que as pobre rapariga n\u00e3o levaria semanas<br \/>\ne semanas l\u00e1 na casa de sa\u00fade, sem ter uma pessoa que olhasse por ela.&#8221; Eram<br \/>\nsempre deste teor os motivos de sua conversa. Am\u00e9lia, n\u00e3o obstante, fazia-se<br \/>\nmuito ligada aos menores interesses do amigo: queria saber o que ele gastava<br \/>\npor fora, com quem estivera; reprovava-lhe certas rela\u00e7\u00f5es, certas companhias<br \/>\n&#8220;que n\u00e3o punham ningu\u00e9m pra diante&#8221;, e aconselhava-o a que se n\u00e3o descuidasse<br \/>\nde<\/p>\n<p>outras que lhe podiam ainda vir a servir; pregava-lhe serm\u00f5es a respeito<br \/>\nde economias. &#8220;O mundo estava cheio de espertos: ele que desconfiasse de todos;<br \/>\ncada um s\u00f3 procurava chamar a brasa para a sua sardinha!&#8221; Queria estar a par<br \/>\nde como iam os neg\u00f3cios do amante na prov\u00edncia. &#8220;Se o dinheiro ficara em boas<br \/>\nm\u00e3os; se n\u00e3o havia risco de uma quebra ou de alguma ladroeira&#8221;. E muito ego\u00edsta,<br \/>\nmuito mulher, muito agarrada ao que lhe pertencia, desde Am\u00e2ncio at\u00e9 ao p\u00f3<br \/>\nde suas gavetas, fazia justamente como fazem os s\u00f3cios comerciais que parecendo<br \/>\ntratar dos interesses abstratos de uma firma, est\u00e3o mas \u00e9 tratando dos pr\u00f3prios<br \/>\ninteresses. Outras vezes boquejavam sobre os conhecidos, sobre as pessoas<br \/>\nde amizade. Uma noite, em que , durante o ser\u00e3o da varanda, se conversou muito<br \/>\na respeito de Hort\u00eansia, Am\u00e9lia, j\u00e1 no quarto, em fralda, com um joelho dobrado<br \/>\nem cima da cama, enquanto tirava grampos da cabe\u00e7a e os arremessava para o<br \/>\nvelador, disse, como se continuasse um pensamento: &#8211; Ela, fim de contas, n\u00e3o<br \/>\npassa de uma mulher como as outras!&#8230;Lol\u00f3 e Janj\u00e3o. \u00c9 que, quando gostam<br \/>\nde uma pessoa tiram tudo dos outros para enfeit\u00e1-la! &#8211; Quem? D. Maria Hort\u00eansia?<br \/>\nPerguntou Am\u00e2ncio, procurando num livro o lugar em que na v\u00e9spera deixara<br \/>\na leitura. E, depois de um movimento afirmativo da rapariga: &#8211; N\u00e3o, o Coqueiro<br \/>\ntem raz\u00e3o &#8211; a mulher do Campos \u00e9 uma excelente senhora. Muito honesta! &#8211; Ora!<br \/>\n\u00c9 uma mulher como as outras&#8230;sustentou Am\u00e9lia, galgando a cama por cima do<br \/>\namante, para se aninhar ao lado da parede. &#8211; Como as outras, como? Em que<br \/>\nsentido? &#8211; N\u00e3o \u00e9 l\u00e1 essas purezas que a querem fazer! N\u00e3o \u00e9 nenhuma santa!<br \/>\n&#8211; Est\u00e1s enganada, filha! A Hort\u00eansia \u00e9 uma mulher muito s\u00e9ria!&#8230; &#8211; Quando<br \/>\nn\u00e3o se ri&#8230; &#8211; Pelo menos at\u00e9 aqui, que me conste, ningu\u00e9m ainda se animou<br \/>\na dizer nada de sua conduta! Am\u00e9lia, ent\u00e3o, possu\u00edda de um rancor instintivo<br \/>\nde classe, de uma surda antipatia de mulher suspeita por mulher honesta, desencadeou<br \/>\nos seus argumentos e as suas raz\u00f5es. Trouxe a lume conversas inteiras, que<br \/>\nbispara na tal noite do exame. &#8220;Am\u00e2ncio via caras e n\u00e3o via cora\u00e7\u00f5es!&#8230;Aquele<br \/>\n&#8211; meu bem pra c\u00e1, meu bem pra l\u00e1, &#8211; que todos notavam entre o Campos e a mulher,<br \/>\nera s\u00f3 dos dentes para fora! No \u00edntimo, Hort\u00eansia detestava o marido! Achava-o<br \/>\nmuito bom homem, \u00e9 verdade, muito generoso, n\u00e3o podia se queixar de que lhe<br \/>\nfaltasse nada, &#8211; boa mesa, boa casa, criados pra servir, teatros, bailes,<br \/>\nseu bom carro, seu vestido de pre\u00e7o, &#8211; sim senhor! Mas s\u00f3 ! Quanto a carinhos<br \/>\n&#8211; nicles! A respeito de certos confortos de que uma mulher precisas, &#8211; era<br \/>\numa mis\u00e9ria! \u00c0s vezes, passavam-se meses e meses sem que o marido a procurasse!<br \/>\nO pobre homem andava l\u00e1 com os seus neg\u00f3cios, coitado! E a doida, em lugar<br \/>\nde conformar-se com a sorte, punha a boca no mundo e eram queixas e mais queixas<br \/>\npra frente! Que ela, Am\u00e9lia, n\u00e3o soubera de tudo isso, por parte deste ou<br \/>\ndaquele &#8211; escutara com seus pr\u00f3prios ouvidos!&#8221; &#8211; Pois bem, ainda me ajudas!&#8230;volveu<br \/>\nAm\u00e2ncio, tomando extremo interesse pela conversa, &#8211; ainda me ajudas, porque,<br \/>\nse \u00e9 como dizes, o bom comportamento de D. Hort\u00eansia torna-se muito mais digno<br \/>\nde admira\u00e7\u00e3o!&#8230; &#8211; Sim!&#8230;Retrucou a rapariga ironicamente. &#8211; Tamb\u00e9m acho<br \/>\nbom, mas moro longe! &#8211; De um, quando mais n\u00e3o seja, sei eu, por quem o tal<br \/>\n&#8220;anjo de pureza&#8221; seria capaz de dar uma perna ao diabo! E olha que, se ainda<br \/>\nn\u00e3o a deu, foi porque ainda n\u00e3o teve ocasi\u00e3o para isso! Vontade n\u00e3o lhe falta!<br \/>\nEle que se apresentasse e ver\u00edamos! Am\u00e2ncio quis logo saber quem era o sujeito.<br \/>\n&#8211; Um tipo! N\u00e3o o conheces. &#8211; Mas como se chama? Am\u00e9lia, depois de alguma hesita\u00e7\u00e3o,<br \/>\nconfessou. &#8211; Era o Sousa Antunes&#8230;A\u00ed tinha! &#8211; Que Antunes? Interrogou Am\u00e2ncio,<br \/>\nj\u00e1 mordido. &#8211; O Antunes, homem! Aquele sujeito da C\u00e2mara. Alto, de cavanhaque,<br \/>\naquele de castor branco, que uma vez encontramos nas regatas, em Botafogo.<br \/>\n&#8211; Ah!&#8230;J\u00e1 sei, j\u00e1 sei&#8230; E Am\u00e2ncio procurou disfar\u00e7ar a sua contrariedade,<br \/>\nfingindo que se abismava na leitura. E parecia muito preso \u00e0 p\u00e1gina, enquanto<br \/>\nali\u00e1s o seu pensamento buscava descobrir no tipo de Sousa Antunes os atrativos<br \/>\nque cativaram a mulher do Campos. &#8211; Imposs\u00edvel! O tal Antunes era um vi\u00favo<br \/>\ntalvez de quarenta anos, pai de filhos, e vulgar, sem talento de esp\u00e9cie alguma,<br \/>\nvivendo de um ordenado oficial de secretaria, nem tendo, ao menos, qualidades<br \/>\nf\u00edsicas que inspirassem paix\u00e3o a qualquer mulher, quanto mais \u00e0quela! aquela<br \/>\nque n\u00e3o p\u00f4s d\u00favida em lhe atirar com uma recusa pelas ventas!&#8230; &#8211; N\u00e3o! Isso<br \/>\ndeve ser hist\u00f3ria!&#8230;considerou ele em voz alta.<\/p>\n<p>&#8211; Qual hist\u00f3ria, o qu\u00ea! Retorquiu logo Am\u00e9lia. &#8211; \u00c9 louca por ele! Quando<br \/>\no avista, fica tonta! Eu vi! ( e arregalou um dos olhos com o dedo. ) Ainda<br \/>\noutro dia, no S\u00e3o Pedro- que esc\u00e2ndalo! N\u00e3o lhe tirava o bin\u00f3culo de cima!<br \/>\nO que a cegou, sei eu&#8230; &#8211; Mas como viste tu a saber disto?&#8230; &#8211; Ora! Lol\u00f3<br \/>\n\u00e9 toda das Fonsecas, que est\u00e3o agora de cama e mesa com a Hort\u00eansia!&#8230; &#8211;<br \/>\nFonsecas?&#8230; &#8211; Aquelas mo\u00e7as esquisitas, aquelas que foram \u00e0 soir\u00e9e!&#8230; Lembras-te?&#8230;\u00d3<br \/>\nhomem! as Fonsecas&#8230;as de Catumbi!&#8230; A Am\u00e2ncio pouco lhe importavam as Fonsecas,<br \/>\no quer ele desejava eram mais algumas informa\u00e7\u00f5es a respeito do esc\u00e2ndalo.<br \/>\nN\u00e3o podia suportar a id\u00e9ia de que Hort\u00eansia, a mesma Hort\u00eansia que lhe repelira<br \/>\nos beijos, tivesse um fraco pelo Antunes, o Antunes do cavanhaque! &#8211; Que horror!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E, depois dessa conversa, principiou a freq\u00fcentar a casa do Campos com mais<br \/>\nassiduidade. Aparecia regularmente duas vezes por semana e quase sempre se<br \/>\ndemorava at\u00e9 as horas do ch\u00e1. &#8211; Mas Hort\u00eansia &#8211; qual! N\u00e3o atava, nem desatava.<br \/>\nEra sempre a mesma criatura incompreens\u00edvel; sempre aquela mesma ambig\u00fcidade,<br \/>\na mesma d\u00favida, o mesmo querer e n\u00e3o querer! Hoje &#8211; Um sorriso de esperan\u00e7as;<br \/>\namanh\u00e3 &#8211; uma frieza esmagadora; depois &#8211; ora muito coloridos de ternura, ora<br \/>\nlulados de orgulho; t\u00e3o depressa altiva e sobranceira, como suplicante e humilde;<br \/>\nt\u00e3o depressa risonha como triste, generosa como sovina, dando com uma das<br \/>\nm\u00e3os para tomar logo com a outra. O rapaz impacientava-se: &#8211; Fossem l\u00e1 compreender<br \/>\nsemelhante mulher! Um dia &#8211; toda condescend\u00eancia, toda interesse por ele,<br \/>\nno outro &#8211; gestos desabridos, amea\u00e7as, palavras duras . &#8211; Sebo! &#8211; J\u00e1 passava<br \/>\na debique! No fim de contas n\u00e3o valia a pena! Mas o ladr\u00e3o da mulher tinha<br \/>\nuns olhos t\u00e3o doces, uns decentes t\u00e3o brancos, uma pele t\u00e3o vi\u00e7osa!&#8230;&#8221;N\u00e3o<br \/>\nsenhor! Era preciso acabar com aquilo! Ele estava fazendo um papel rid\u00edculo!&#8230;&#8221;<br \/>\nE deliberava n\u00e3o pensar mais na mulher do Campos. &#8220;Que diabo! Se se queria<br \/>\ndivertir, comprasse um boneco de engon\u00e7os!&#8230;&#8221; Quando , por\u00e9m , dava por si<br \/>\nno dia imediato, j\u00e1 os passos o tinham conduzido para a casa do negociante.<br \/>\nEntraria, mas l\u00e1 dentro havia de ser forte, inabal\u00e1vel! E trepava pelas escadas,<br \/>\nimaginando o improvisar um namoro com a Carlotinha, estudando os assuntos<br \/>\nde que teria de usar na conversa, calculando os efeitos que a sua afetada<br \/>\nindiferen\u00e7a devia produzir no esp\u00edrito da caprichosa. Bastava, por\u00e9m, um sorriso<br \/>\nde Hort\u00eansia,, uma palavra mais terna, um gesto mais amoroso, para o fazer<br \/>\nficar ca\u00eddo, desarmado, seguro como nunca. &#8211; Era o diabo! Voltava para casa<br \/>\nfurioso, atirando com as portas, respondendo de m\u00e1 vontade \u00e0s perguntas que<br \/>\nlhe dirigiam. Am\u00e9lia o estranhava, sem dar contudo, a perceber coisa alguma.<br \/>\nApenas lhe perguntava, ali\u00e1s como sempre, onde estivera e, quando o rapaz<br \/>\ndizia secamente &#8220;Com o Campos&#8221;, ela fazia: &#8211; Ah!&#8230; E n\u00e3o tocava mais em semelhante<br \/>\ncoisa. Uma noite ele entrou ainda pior que das outras. N\u00e3o quis ir \u00e0 varanda,<br \/>\nmeteu-se no quarto, abriu um livro e a\u00ed ficou, junto \u00e0 secret\u00e1ria, com a fisionomia<br \/>\nfechada sobre a p\u00e1gina. Todavia, seu pensamento trabalhava: &#8220;Era preciso acabar<br \/>\ncom aquilo, custasse o que custasse! Era preciso definir as posi\u00e7\u00f5es! &#8211; Ou<br \/>\na mulher do Campos se explicava, ou ele n\u00e3o poria l\u00e1 mais os p\u00e9s!&#8221; E resolveu<br \/>\nque o melhor seria escrever-lhe uma carta en\u00e9rgica, decisiva, exigindo um<br \/>\n&#8220;sim&#8221; ou um &#8220;n\u00e3o&#8221;. Fosse a resposta qual fosse, contanto que viesse, contanto<br \/>\nquer Hort\u00eansia desembuchasse por uma vez! Mas n\u00e3o queria escrever enquanto<br \/>\nAm\u00e9lia n\u00e3o pegasse no sono. &#8211; Ele bem sabia o quanto era a rapariga desconfiada<br \/>\ne fina. S\u00f3 quando a pilhou quieta e presumiu que j\u00e1 estivesse dormindo, foi<br \/>\nque se animou a minutar a carta. Frases e frases desesperadas e cheias de<br \/>\nfogo acavalavam-se umas pelas outras, falando em mart\u00edrios infernais, em supl\u00edcios<br \/>\ndantescos e terr\u00edveis aniquilamentos. E Am\u00e2ncio, no seu epicurismo estrepitoso<br \/>\ne brutal, declarava que &#8220;j\u00e1 n\u00e3o podia suportar as meias promessas, os d\u00fabios<br \/>\nsorrisos e as lentas torturas que ao sangue recalcado lhe impunham as atitudes<br \/>\nperplexas de Hort\u00eansia. Preferia a dor por inteiro, completa, de um s\u00f3 golpe.<br \/>\nEla que tomasse uma resolu\u00e7\u00e3o, que despachasse! Se lhe n\u00e3o convinha o amor<br \/>\nque ele propunha, declarasse-o com franqueza: &#8211; ficaria o dito por n\u00e3o dito!<br \/>\nE, assim, escusavam de prosseguir naquele encarni\u00e7amento desabrido, de<\/p>\n<p>cujo oscilante resultado as d\u00favidas e incertezas o acabrunhavam e consumiam,<br \/>\nmais dolorosamente do que tudo que pudesse haver de terr\u00edvel e cruel em uma<br \/>\nsolu\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel!&#8221; Quando deu por coreto e limado o que escrevera, tirou<br \/>\na limpo uma c\u00f3pia, sobrescritou-a e, para que Am\u00e9lia n\u00e3o descobrisse nada,<br \/>\nescondeu todos os corpos de delito no fundo de uma das gavetas da secret\u00e1ria.<br \/>\nDepois, como se tivesse alijado um novelo da garganta, respirou desafrontadamente,<br \/>\namorteceu o bico da g\u00e1s e, abafando os passos e desfazendo-se em cautelas,<br \/>\nfoi meter-se nos len\u00e7\u00f3is, muito empenhado em n\u00e3o acordar a amante. N\u00e3o levou<br \/>\ndez minutos a cair no sono. Ent\u00e3o, Am\u00e9lia, ergueu-se, ainda com mais cuidado<br \/>\ndo que ele se recolhera, foi p\u00e9 ante p\u00e9 \u00e0 secret\u00e1ria, tirou a carta e, depois<br \/>\nde guard\u00e1-la em lugar seguro, tornou de novo \u00e0 cama, e desta vez adormeceu<br \/>\ndeveras.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Leu-a precatadamente no banho, \u00e0s oito horas da manh\u00e3, enquanto esperava<br \/>\nque o tanque de m\u00e1rmore se enchesse. Am\u00e2ncio ainda ficara no quarto. Ela,<br \/>\nj\u00e1 despida, encostada ao rebordo da banheira, os ombros curvos, uma perna<br \/>\nsobre a outra, a cabe\u00e7a desca\u00edda molemente para os combros polposos do seio,<br \/>\ntinha em uma das m\u00e3os a pequena folha de papel e, de tal modo a fitava, que<br \/>\nparecia disposta a consumi-la com o brilho de seu olhos. Aquela carta a revoltava<br \/>\nmuito; n\u00e3o por ele, mas por si mesma; n\u00e3o pelo afeto que teria ao estudante,<br \/>\nmas pelo ressentimento de seu amor-pr\u00f3prio ofendido. N\u00e3o lhe podia sofrer<br \/>\na vaidade que um homem, a quem, por merecer, ele fizera tudo que estava em<br \/>\nsuas m\u00e3os; um homem por quem lan\u00e7ar em ju\u00edzo jogo todos os recursos de sua<br \/>\nfeminilidade; um homem por quem barateara todo o valimento do seu corpo, tivesse<br \/>\n\u00e2nimo de desprez\u00e1-la por outra mulher! E, com o olhar im\u00f3vel sobre a nudez<br \/>\noriental de seus membros, a boca entreaberta, o colo palpitante, Am\u00e9lia se<br \/>\nconcentrava toda na id\u00e9ia de uma vingan\u00e7a completa, t\u00e3o completa, t\u00e3o grande<br \/>\nque lhe atulhasse o rombo cavado no seu orgulho e mulher tra\u00edda. A \u00e1gua, que<br \/>\nescorria da torneira com um trapejar mon\u00f3tono, punha no ambiente desagasalhado<br \/>\ndo banheiro uma impress\u00e3o ainda mais fria de umidade e desconforto; e aquele<br \/>\nnu destacava-se ali como uma bela est\u00e1tua desprezada. Sua carne tersa e maci\u00e7a<br \/>\ncontra\u00eda-se, empinando os l\u00f3bulos do peito e enrijando a vermicular protuber\u00e2ncia<br \/>\ndos quadris. Nisto, uma abelha voejou \u00e0 roda da cabe\u00e7a de Am\u00e9lia, tentando<br \/>\npousar-lhe nos cabelos; ela agachou-se toda, fugindo logo num movimento medroso<br \/>\nde ca\u00e7a que se assusta. Em seguida, puxou a toalha do cabide e p\u00f4s-se a dardej\u00e1-la<br \/>\ncontra o dourado importuno. Foi uma luta. O inseto fugia; ela trepava-se \u00e0<br \/>\nborda do tanque, equilibrando-se, ora num p\u00e9 , ora no outro, segurando-se<br \/>\n\u00e0 parede, vindo, recuando, a despedir para todos os lados golpes perdidos<br \/>\nda toalha. Mas a abelha n\u00e3o se deixava prender. Ia e revinha no ar, zumbindo,<br \/>\na sacudir as sua tr\u00eamulas asas de escumilha; at\u00e9 que o sol, por uma frincha<br \/>\ndo telhado, veio busc\u00e1-la numa aresta de luz, ainda mais dourada do que ela.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o, Am\u00e2ncio, no quarto, perdia a cabe\u00e7a, \u00e0 procura da carta. &#8211;<br \/>\nPois se eu a guardei aqui, com estas minutas!&#8230;resmungava ele sozinho, depois<br \/>\nde ter j\u00e1 desarrumado toda a gaveta. Imaginar que Am\u00e9lia desse com ela, n\u00e3o<br \/>\n! n\u00e3o era poss\u00edvel! N\u00e3o descobriria o lugar, onde Am\u00e2ncio, t\u00e3o previdentemente,<br \/>\nsepultara a maldita carta; al\u00e9m disso, quando ele se meteu na cama, j\u00e1 a pequena<br \/>\ndormia a bom dormir e, pela manh\u00e3 bem a viu acordar e escafeder-se para banho&#8230;Que<br \/>\ndiabo teria ent\u00e3o mexido ali?&#8230;As portas ficavam sempre fechadas por dentro!&#8230;Supor<br \/>\nque tivesse guardado o dem\u00f4nio da carta em outra parte&#8230;mas como? Se a deixara<br \/>\njustamente dentro das minutas, e as minutas l\u00e1 estavam?&#8230; Mas Am\u00e9lia vinha<br \/>\nde entrar no quarto ao p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Amelinha! Viste por acaso por a\u00ed alguma carta?&#8230;perguntou o rapaz indo ao<br \/>\nseu encontro. &#8211; Que carta? Fez ela com o ar mais calmo e mais natural deste<br \/>\nmundo. &#8211; Uma carta que nem \u00e9 minha!&#8230;Guardei-a naquela gaveta, &#8211; desapareceu!&#8230;agora<br \/>\nn\u00e3o sei que contas preste ao dono! \u00c9 uma entala\u00e7\u00e3o! Uma verdadeira entala\u00e7\u00e3o!<br \/>\nQueixava-se o rapaz convictamente. &#8211; Mas , onde a puseste? &#8211; Na gaveta da secret\u00e1ria;<br \/>\nestou-te a dizer!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o deve estar l\u00e1. Procura bem. &#8211; J\u00e1 vi. N\u00e3o est\u00e1! &#8211; Pois aqui n\u00e3o entra<br \/>\nmais ningu\u00e9m&#8230;Eu c\u00e1 por mim, n\u00e3o mexo nunca nos teus pap\u00e9is, e ainda nem<br \/>\nabri, uma vez sequer, qualquer dessas gavetas&#8230;Se puseste a carta a\u00ed, a\u00ed<br \/>\ndeve estar por for\u00e7a! &#8211; Qual est\u00e1 o qu\u00ea! J\u00e1 despejei a gaveta! J\u00e1 remexi tudo.<br \/>\nE a desordem em que se achava o quarto dizia isso mesmo. &#8211; Ent\u00e3o n\u00e3o sei&#8230;concluiu<br \/>\nAm\u00e9lia, sacudindo os ombros. E continuou tranq\u00fcilamente a enxugar os cabelos,<br \/>\ncujo servi\u00e7o havia interrompido para atender \u00e0s perguntas do amante. &#8211; Mas<br \/>\na carta tamb\u00e9m n\u00e3o podia voar! Declarou este em tom \u00e1spero. &#8211; Sei l\u00e1! Replicou<br \/>\na outra. &#8211; Comigo que n\u00e3o a tenho&#8230;isso afian\u00e7o! Diabo! Praguejou Am\u00e2ncio,<br \/>\nsem se poder dominar. Pois, nem uma miser\u00e1vel carta posso ter nessa casa?!<br \/>\nArre! Que inferno! &#8211; Inferno s\u00e3o esses modos que tens ultimamente! De certo<br \/>\ntempo para c\u00e1 \u00e9 esta boniteza ! Parece que falas ao Sabino! Outra que sabe!&#8230;quem<br \/>\nsabe se tenho aqui algum senhor?!&#8230; &#8211; Est\u00e1 bom! Basta! &#8211; Basta v\u00e1 ele! Seu<br \/>\natrevido! Quero saber que culpa t\u00eam os mais com os sumi\u00e7os que levam as cartas,<br \/>\npara ouvir improp\u00e9rios destra ordem! &#8211; Eu n\u00e3o me dirigi a ningu\u00e9m! Sebo! Falo<br \/>\nc\u00e1 comigo! Creio que ao menos tenho o direito de zangar-me quando entender!<br \/>\n&#8211; Sim, mas \u00e9 que os outros tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o dispostos a aturar esses repel\u00f5es<br \/>\na todo o instante! &#8211; Pois que n\u00e3o aturem! &#8211; Malcriado! Agora, por qualquer<br \/>\ncoisinha \u00e9 isso que se v\u00ea! &#8211; Qualquer coisinha, n\u00e3o! berrou Am\u00e2ncio. &#8211; \u00c9 que<br \/>\nontem pus aqui uma carta (soltou um murro na secret\u00e1ria) 3 e a carta desapareceu!<br \/>\nIrra! &#8211; Mas quem \u00e9 que te podia vir aqui tirara a carta, criatura de Deus?!<br \/>\nPerguntou Am\u00e9lia mais branda, encaminhado-se para o amante, a modos de querer<br \/>\ncham\u00e1-lo \u00e0 raz\u00e3o. &#8211; N\u00e3o sei! O fato \u00e9 que a pus aqui, e ela c\u00e1 n\u00e3o est\u00e1! &#8211;<br \/>\nH\u00e1 de estar, homem! N\u00e3o a encontras agora porque j\u00e1 n\u00e3o tens cabe\u00e7a, mas,<br \/>\nlogo que te acalmes, h\u00e1s de descobri-la&#8230; &#8211; Mas onde?! J\u00e1 corri tudo! &#8211; Deixas<br \/>\nestar; eu me encarrego de procur\u00e1-la assim que sa\u00edres. &#8211; Mas \u00e9 quer eu precisava<br \/>\nlev\u00e1-la comigo! \u00c9 neg\u00f3cio urgente! Am\u00e9lia, como em resposta \u00e0 \u00faltima frase<br \/>\ndo rapaz, abaixou-se sobre os pap\u00e9is espalhados no ch\u00e3o e come\u00e7ou a examin\u00e1-los,<br \/>\num por um. &#8211; N\u00e3o est\u00e1 a\u00ed! Observou Am\u00e2ncio zangado, a passear de um lado para<br \/>\noutro. &#8211; J\u00e1 revistei tudo isso mais de cem vezes! Furtaram a carta, n\u00e3o tem<br \/>\nque ver! Am\u00e9lia j\u00e1 n\u00e3o respondia e continuava, muito afoita, a esquadrinhar<br \/>\no que havia pelo quarto. &#8211; Se me lembro perfeitamente que a meti naquela gaveta,<br \/>\nao fundo, dentro destas minutas!&#8230;Acrescentou Am\u00e2ncio, depois de um sil\u00eancio<br \/>\ncol\u00e9rico. &#8211; Mas quando a trouxeste?&#8230;disse Am\u00e9lia, sem tirara os olhos do<br \/>\nque rebuscava. &#8211; Ontem \u00e0 noite. &#8211; Mas eu n\u00e3o te vi com ela&#8230; &#8211; J\u00e1 estavas<br \/>\ndormindo, quando a pus na gaveta. &#8211; Quem sabe se ficou naquela algibeira?&#8230;<br \/>\nE a manhosa, com um vislumbre, largou tudo de m\u00e3o para correr a examinar a<br \/>\nroupa do cabide. &#8211; \u00d3 filha! Eu n\u00e3o estrava b\u00eabado quando me recolhi! observou<br \/>\nAm\u00e2ncio. E saiu para se lavar, tra\u00e7ando furioso len\u00e7ol em volta do corpo,<br \/>\nnum gesto melodram\u00e1tico. Quando tornou ao quarto, Am\u00e9lia j\u00e1 havia arrumado<br \/>\nas gavetas e dispunha sobre a cama a roupa que o rapaz devia vestir \u00e0 volta<br \/>\ndo banho. &#8211; Ent\u00e3o?&#8230;perguntou ele , ao entrar. &#8211; Nada! volveu elas, com admira\u00e7\u00e3o<br \/>\nna voz. &#8211; Com efeito! Isto contado n\u00e3o se acredita!&#8230;Rosnou Am\u00e2ncio, enfiando<br \/>\nas meias. E gritou para fora: &#8211; \u00d3 Sabino! Olha essas botas, moleque! Am\u00e9lia,<br \/>\nao lado, metia-lhe os bot\u00f5es numa camisa engomada. E depois , a escovar-lhe<br \/>\no palet\u00f3 no corpo, quando o estudante j\u00e1 estava pronto:<\/p>\n<p>&#8211; E a carta, de quem era?&#8230; &#8211; Do Campos, respondeu ele, sem hesitar. E saiu.<br \/>\nAm\u00e9lia acompanhou-o pelas costas com um riso de asco.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E logo que se viu s\u00f3, tirou do seio o seu furto e releu-o mais uma vez. &#8211;<br \/>\nQue devia fazer daquela carta?&#8230;como se devia servir daquela arma?&#8230;Denunciar<br \/>\no infame? &#8211; atirar-lhe \u00e0 cara a prova de sua vilania e nunca mais o procurar<br \/>\npara nada, ou devia simplesmente fingir que n\u00e3o sabia de coisa alguma, e,<br \/>\nem segredo, tomar a vingan\u00e7a que lhe parecesse melhor? Despedi-lo por uma<br \/>\nvez &#8211; n\u00e3o convinha! Isso nem por sonhos! Ficar, por\u00e9m, eternamente resignada<br \/>\ne submissa, tamb\u00e9m seria asneira! Seu amor-pr\u00f3prio estava mordido e sangrava.<br \/>\nO procedimento desleal de Am\u00e2ncio assumia no tribunal ego\u00edstico de seu esp\u00edrito<br \/>\nignorante e mal-educado as propor\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas de um crime, de um monstruoso<br \/>\nabuso de confian\u00e7a, um estelionato. N\u00e3o podia conformar com a id\u00e9ia daquela<br \/>\ntremenda inj\u00faria, lan\u00e7ada contra os seus direitos de mulher nova e bonita.<br \/>\n&#8211; Canalha! Murmurava consigo, a esmoer o fato. &#8211; Bem me dizia o cora\u00e7\u00e3o!&#8230;Agora,<br \/>\no que precisavas que te fizesse, sei eu! Ah! Mas descansa que h\u00e1s de pagar<br \/>\ncom l\u00edngua de palmo! Para n\u00e3o seres c\u00e3o, meu safardana! Foi-se por\u00e9m, todo<br \/>\no dia, sem que Am\u00e9lia deliberasse o destino que deveria dar \u00e0 carta. S\u00f3 na<br \/>\nmanh\u00e3 seguinte apareceu-lhe uma resolu\u00e7\u00e3o. Foi ter com o mano, chamou-o de<br \/>\nparte e entregou-lha. &#8211; V\u00ea isto, disse. Coqueiro abismou-se logo desde as<br \/>\nprimeiras palavras: &#8220;Minha adorada e incompreens\u00edvel Hort\u00eansia&#8221;. &#8211; Que vem<br \/>\na ser isto?&#8230;Perguntou ele intrigado. &#8211; L\u00ea! Respondeu ela. E, enquanto o<br \/>\nirm\u00e3o devorava o que vinha escrito: &#8211; V\u00ea tu s\u00f3 a hipocrisia daquele sonso!&#8230;<br \/>\n&#8211; Ele j\u00e1 sabe que esta carta est\u00e1 em teu poder? Interrogou Coqueiro depois<br \/>\nda leitura. &#8211; Qual! Nem pode descobrir! &#8211; Ainda n\u00e3o deu pela falta? &#8211; J\u00e1.<br \/>\nZangou-se um bocado, arrepelou-se, mas afinal creio que se convenceu de que<br \/>\na tinha perdido. &#8211; E agora o que tencionas fazer disto? &#8211; N\u00e3o sei&#8230;Que achas<br \/>\ntu?&#8230; &#8211; Acho que por ora n\u00e3o conv\u00e9m fazer nada! &#8211; Calar-me?! &#8211; Por ora, decerto!<br \/>\nEsta carta pode vir a servir-te de muito , mas \u00e9 preciso que, em primeiro<br \/>\nlugar, apare\u00e7a a ocasi\u00e3o. Se quiseres, deixa-a comigo, que eu sei o destino<br \/>\nque lhe devo dar. E guardou-a no bolso, depois de um gesto aprobativo da irm\u00e3:<br \/>\n&#8211; Ele a teria escrito de novo e feito chegar \u00e0s m\u00e3os de Hort\u00eansia, sabes?&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei, mas posso ver. &#8211; Bem. Em todo o caso, n\u00e3o te d\u00eas por achada! Nem<br \/>\numa palavra a este respeito! Precisamos dar tempo ao tempo&#8230;podes, todavia,<br \/>\nficar desde j\u00e1 tranq\u00fcila, que o que tem de ser &#8211; traz for\u00e7a! A justi\u00e7a n\u00e3o<br \/>\nse fez para os c\u00e3es!&#8230; &#8211; \u00c9 por isso mesmo que eu n\u00e3o confio muito na tal<br \/>\njusti\u00e7a! Observou a rapariga.<\/p>\n<h3>XVIII<\/h3>\n<p>Mas, no fundo, Jo\u00e3o Coqueiro principiava a &#8220;cismar com o neg\u00f3cio&#8221;. Segundo<br \/>\nos seus c\u00e1lculos, a irm\u00e3, por aquela \u00e9poca, j\u00e1 deveria estar pejada: circunst\u00e2ncia<br \/>\nesta que daria oportunidade a um esc\u00e2ndalo, de antem\u00e3o, preparado, for\u00e7ando<br \/>\nAm\u00e2ncio a &#8220;reparar sua falta&#8221;. E, no entanto, Amelinha &#8220;nada de aviar&#8221;! O<br \/>\nbom irm\u00e3o sentia at\u00e9 como um peso na consci\u00eancia por haver contribu\u00eddo diretamente<br \/>\npara aquela situa\u00e7\u00e3o. &#8211; Era sempre assim!&#8230;pensava ele enraivecido. &#8211; Se<br \/>\nn\u00e3o precis\u00e1ssemos de um filho, \u00e9 que os pestinhas haviam de aparecer a\u00ed de<br \/>\nenfiada!<\/p>\n<p>E o receio amargo de ter sacrificado a menina, talvez sem os belos resultados<br \/>\nque esperava para si e para ela, invadia-lhe o cora\u00e7\u00e3o e punha-lhe momentos<br \/>\nmaus na vida. Mme. Brizard j\u00e1 n\u00e3o pensava do mesmo modo. Aquela exist\u00eancia<br \/>\npronta, inteiramente desocupada, lhe viera muito a prop\u00f3sito. &#8220;Ela, coitada<br \/>\nde si! Bem precisava de um bocado de descanso!&#8221; As coisas, de fato, iam-lhe<br \/>\nagora admiravelmente: Tinha a sua mesa boa e farta, um bom quarto de dormir,<br \/>\na mucama para lavar-lhe e engomar-lhe a roupa, um camarote no teatro de quando<br \/>\nem quando, aos domingos um passeio \u00e0 cidade, e l\u00e1 uma vez por outra uma soir\u00e9e<br \/>\nem casa de alguma amiga. &#8220;Ah! N\u00e3o se podia comparar a exist\u00eancia que levava<br \/>\nagora com a peste de vida que curtira na Rua do Resende!&#8221; &#8216;E que ent\u00e3o n\u00e3o<br \/>\nhavia a menor folga; n\u00e3o se podia arredar p\u00e9 do servi\u00e7o! E todo o dia reclama\u00e7\u00f5es!<br \/>\nE todo o dia &#8211; o banho morno de fulano! O chocolate de beltrano! Este queria<br \/>\nir sem pagar a conta ; o outro se entendia no direito de dizer desaforos porque<br \/>\npagava! Apre! Assim tamb\u00e9m n\u00e3o era viver! Seu corpo h\u00e1 muito tempo pedia aquele<br \/>\nrepouso! Se continuasse a labutar como dantes, &#8211; credo! &#8211; estourava por a\u00ed<br \/>\num dia, esfalfada! E, com medo de perder a &#8220;pepineira&#8221; cercava Am\u00e2ncio de<br \/>\nadula\u00e7\u00f5es. Tinha-o na conta de um patr\u00e3o, de uma amo; com direito a todos<br \/>\nos carinhos e desvelos. Assim, jamais o contrariava, nunca lhe opunha censuras.<br \/>\n&#8211; Aquilo que o rapaz fizesse estava sempre muito bem feito! No seu entendimento<br \/>\nmercantil de locandeira, Am\u00e2ncio n\u00e3o aparecia &#8216;como isto ou com aquilo&#8221; representava<br \/>\npura e simplesmente &#8220;um bom arranjo&#8221; . Ali n\u00e3o havia favores, havia neg\u00f3cio,<br \/>\nningu\u00e9m ficava a dever obriga\u00e7\u00f5es. &#8211; Ele despendia tanto em dinheiro, mas<br \/>\nrecebia em car\u00edcias e bom trato um valor correspondente. &#8211; Estavam quites!<br \/>\nApenas, como o neg\u00f3cio era rendoso e agradava a boa mulher, esta fazia o que<br \/>\nestava ao seu alcance por ag\u00fcent\u00e1-lo o maior tempo poss\u00edvel, como de resto,<br \/>\nqualquer um procederia com refer\u00eancia a um bom emprego. Quanto \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de<br \/>\nAm\u00e9lia, Mme. Brizard a dava por natural e coerente. N\u00e3o via na cunhada uma<br \/>\nv\u00edtima ou coisa que o valha, mas t\u00e3o-somente um membro solid\u00e1rio naquela empresa,<br \/>\nenviando os esfor\u00e7os de sua compet\u00eancia para o comum interesse da associa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nIsto, j\u00e1 de deixa ver, era o que pensava a francesa, mas n\u00e3o o que ela expunha;<br \/>\nde sorte que o marido ficou muito espantado, quando, falando sobre a necessidade<br \/>\nde tratar do casamento de Am\u00e9lia com o h\u00f3spede, lhe ouviu dizer: &#8211; Homem&#8230;para<br \/>\nfalar com franqueza&#8230;acho que o melhor \u00e9 deixar seguir o barco como vai!&#8230;<br \/>\n&#8211; Como vai!&#8230; E o Coqueiro engoliu a frase indignado: &#8211; Ora essa! Tu, com<br \/>\ncerteza, n\u00e3o est\u00e1s falando s\u00e9rio! &#8211; \u00e0s vezes, quem tudo quer, tudo perde!&#8230;sentenciou<br \/>\na mulher. &#8211; Mas que diabo quero eu?! Retrucou aquele. &#8211; Eu n\u00e3o quero sen\u00e3o<br \/>\no que \u00e9 de justi\u00e7a! Quero apenas que eles se casem! A outra, para quem o casamento<br \/>\nde Am\u00e9lia n\u00e3o trazia vantagens imediatas e podia, ali\u00e1s, comprometer o estado<br \/>\nfeliz das coisas, saltou logo com uma bateria de opini\u00f5es contr\u00e1rias:&#8221; Coqueiro<br \/>\nfaria muito mal em precipitar os acontecimentos! Naquela situa\u00e7\u00e3o o mais razo\u00e1vel<br \/>\ne o mais prudente era sem d\u00favida esperar! A natureza n\u00e3o dava saltos! As coisas<br \/>\nhaviam de atingir a um bom resultado, sem ser preciso lan\u00e7ar m\u00e3o de meios<br \/>\nviolentos!&#8230; &#8211; Mas \u00e9 que ele nos pode escapar!&#8230;argumentou Coqueiro. &#8211; N\u00e3o<br \/>\ncreias! Retorquiu a velha com um gesto arraigado na experi\u00eancia. &#8211; Mas filha,<br \/>\nvem c\u00e1! &#8211; N\u00e3o v\u00eas como o Am\u00e2ncio est\u00e1 ultimamente? J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo! Amelinha<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o tem sobre ele dom\u00ednio de esp\u00e9cie alguma! O maroto j\u00e1 n\u00e3o pensa nela,<br \/>\n\u00e9 todo da Hort\u00eansia! &#8211; E que tem isso! O que tem que ele farisque a Hort\u00eansia?!<br \/>\nEst\u00e1 no seu direito! &#8211; \u00e9 mo\u00e7o, tem dinheiro! &#8211; Ora essa!&#8230;exclamou de novo<br \/>\no Coqueiro, ainda mais indignado que da outra vez. &#8211; O que em isso?!&#8230; E<br \/>\ncruzando os bra\u00e7os: &#8211; \u00c9 muito boa!&#8230; Mas tornou logo : &#8211; Tem, que ele deve<br \/>\numa repara\u00e7\u00e3o \u00e0 minha irm\u00e3! Tem , que ele, apaixonado pela Hort\u00eansia, pode<br \/>\nvirar as costas \u00e0 pobre menina e abandon\u00e1-la no estado em que a p\u00f4s! &#8211; Desonrada,<br \/>\nperdida! &#8220;Que tem isso?! &#8220;Ora fa\u00e7a-me o favor! &#8211; Tolo! Disse a francesa com<br \/>\num riso cheio de filosofia, cuja tranq\u00fcilidade contrastava com as irrita\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo marido. &#8211; Tolo! Bem se v\u00ea que n\u00e3o conheces os homens!&#8230;pois acreditas<br \/>\nl\u00e1 que o Am\u00e2ncio despreze a rapariga por ter agora um capricho pela outra?&#8230;N\u00e3o<br \/>\nsabes que a \u00fanicas mulher capaz de prender o homem \u00e9 aquela com quem ele convive<br \/>\ndia e noite; aquela com quem ele se habituou; aquela que j\u00e1 lhe conhece as<br \/>\nfraquezas, os rid\u00edculos, as pequeninas mis\u00e9rias da intimidade?! Abandon\u00e1-la!&#8230;Digo-te<br \/>\nmais: &#8211; Hort\u00eansia \u00e9 at\u00e9 necess\u00e1ria! Deixa<\/p>\n<p>que ele a persiga, que ele a conquiste \u00e0 for\u00e7a de mil sacrif\u00edcios e de mil<br \/>\nsofrimentos; deixa que ele a possua, que a tenha inteira na m\u00e3o! Deixa, porque<br \/>\nele h\u00e1 de voltar, e voltar farto!&#8230;Meu amigo, paix\u00e3o \u00e9 fogo de palha! &#8211; n\u00e3o<br \/>\ndura! Nas ocasi\u00f5es de fadiga e abatimento \u00e9 com o amorzinho de casa que a<br \/>\ngente se acha! E fica ent\u00e3o sabendo que, para um homem amar deveras uma mulher,<br \/>\n\u00e9 preciso que ele se tenha j\u00e1 desiludido com muitas outras! Tristes de n\u00f3s,<br \/>\nse assim, n\u00e3o fosse! H\u00e1 maridos que, ao voltar de suas correrias, apaixonam-se<br \/>\npelas mesmas esposas, a quem dantes s\u00f3 chegavam por obriga\u00e7\u00e3o! E a francesa<br \/>\nvelha, saboreando o sil\u00eancio que cava ra no advers\u00e1rio, concluiu depois de<br \/>\ntomar f\u00f4lego: &#8211; O rapaz quer, por gra\u00e7a, dar cabe\u00e7adas?&#8230;pois deixe-as dar!<br \/>\nQue ele, quando partir a cabe\u00e7a, h\u00e1 de fazer justi\u00e7a \u00e0 tua irm\u00e3. Este fato<br \/>\nda mulher do Campos, cr\u00ea tu, foi uma provid\u00eancia, foi um atalho que se abriu<br \/>\nnos teus planos!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E o fato \u00e9 que o Coqueiro acabou por concordar com a mulher. &#8220;Am\u00e9lia, desde<br \/>\nque se convertesse numa necessidade para a vida de Am\u00e2ncio, este, com certeza,<br \/>\nseria o mais interessado em fazer dela sua esposa; por conseguinte, agora<br \/>\no que convinha era que a rapariga tamb\u00e9m ajudasse de sua parte, empregando<br \/>\ntodo o jeito e boa vontade de que pudesse dispor; devia mostrar-se cordata,<br \/>\nsimples nos seus gostos, bem arranjadinha, amiga do asseio, honesta, digna,<br \/>\nenfim, de um marido!&#8221; E dominado por esta id\u00e9ia, aconselhou logo \u00e0 irm\u00e3 que<br \/>\nse fizesse meiga com o &#8220;noivo&#8221;, d\u00f3cil, boa companheira e fiel principalmente,<br \/>\nfiel quanto poss\u00edvel, que todo o futuro dela, bom ou mau, s\u00f3 disso dependia!<br \/>\nMas a rapariga, com um a pontinha de des\u00e2nimo, contrapunha-lhe o feio procedimento<br \/>\nde Am\u00e2ncio para com ela naqueles \u00faltimos tempos. Apontou as cenas de alterca\u00e7\u00e3o<br \/>\nque mais a humilharam; disse as frases grosseiras que ouvira do amante, as<br \/>\namea\u00e7as que recebera, as palavras que lhe escaparam, a ele, na febre das contendas;<br \/>\npalavras, onde se enxergavam claramente o fastio e a m\u00e1 vontade! &#8211; N\u00e3o fa\u00e7as<br \/>\ncaso! Discreteou o irm\u00e3o. &#8211; Isto n\u00e3o vale nada!&#8230;Fecha por enquanto os olhos<br \/>\na todas essas coisas! N\u00e3o conv\u00e9m o menor espalhafato antes que o tenhas seguro<br \/>\nde p\u00e9s e m\u00e3os! Nada de espantar a ca\u00e7a!&#8230; Lembra-te, minha rica, de que,<br \/>\nno estado em que te achas, s\u00f3 ele te poder\u00e1 proporcionar uma posi\u00e7\u00e3o leg\u00edtima<br \/>\ne definida ! Depois desta confer\u00eancia, o Coqueiro ficou mais tranq\u00fcilo. Agora,<br \/>\na sua maior preocupa\u00e7\u00e3o era o sobrado da Rua do Resende . &#8211; J\u00e1 l\u00e1 se iam meses,<br \/>\nsem que o conseguisse alugar; o diabo do pr\u00e9dio era grande demais para a fam\u00edlia<br \/>\ne, na disposi\u00e7\u00e3o em que estavam os quartos, s\u00f3 mesmo podia servir para casa<br \/>\nde pens\u00e3o. Nesta conjuntura, resolveu alug\u00e1-lo a varias pessoas; mas, para<br \/>\nisso, tinha de fazer obras e faltava-lhe um homem de confian\u00e7a, que estivesse<br \/>\ndisposto a ir para l\u00e1 e tomar conta de tudo. &#8211; Ah! Se n\u00e3o fora a fam\u00edlia!&#8230;ningu\u00e9m<br \/>\nmais se encarregava disso sen\u00e3o o pr\u00f3prio Coqueiro! E f\u00e1-lo-ia at\u00e9 por gosto!<br \/>\nEncontrou , por\u00e9m, o seu homem num velho conhecido, empregado no correio e<br \/>\nque, j\u00e1 em algum tempo, tomara a seu cargo, nas mesmas condi\u00e7\u00f5es, a casa de<br \/>\num outro amigo. Chamava-se Dami\u00e3o &#8211; bom rapaz, ativo e zeloso. Estava talhado<br \/>\npara a coisa. O Dami\u00e3o, mediante a faculdade de n\u00e3o pagar a parte que ocupasse<br \/>\nna casa, comprometia-se a cobrar o aluguel dos outros inquilinos e entreg\u00e1-lo<br \/>\npontualmente ao senhorio; ite, obrigava-se a fiscalizar a conserva\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio<br \/>\na pregar escritos quando houvesse c\u00f4modos desabitados e administraria enfim<br \/>\no servi\u00e7o da pessoa que se encarregasse de fazer a limpeza dos quartos, de<br \/>\nvarrer os corredores, encher os jarros e moringues, tomar conta da chavaria<br \/>\ne ter olho sobre quem entrasse e que sa\u00edsse. Para estes \u00faltimos cuidados arranjou-se<br \/>\num homenzinho meio corcunda, portugu\u00eas, esperto e rafeiro como um rato um<br \/>\npouco falador, mas muito experimentado naqueles servi\u00e7os. Coqueiro dar-lhe-ia<br \/>\nalguma coisa por m\u00eas e um canto da casa para dormir. &#8220;Uma pechincha!&#8221; Fechado<br \/>\no neg\u00f3cio, tratou o propriet\u00e1rio de dividir a sala de visitas e a varanda<br \/>\ndo sobrado em pequenos repartimentos de tabique, forrados de papel nacional.<br \/>\n\u00c9 in\u00fatil dizer que neste ponto foi indispens\u00e1vel a interven\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria<br \/>\nde Am\u00e2ncio, que ficou por conseguinte com direito sobre uma parte dos rendimentos<br \/>\ndo pr\u00e9dio. E tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 menos in\u00fatil declarar que o provinciano, nem de<br \/>\nlonge, sentiu jamais o cheiro da tais rendimentos.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas o certo \u00e9 que as obras se fizeram, e a c\u00e9lebre casa de pens\u00e3o de Mme.<br \/>\nBrizard, outrora t\u00e3o animada e concorrida, transformou-se num desses melanc\u00f3licos<br \/>\nsobrad\u00f5es de alugar quartos, que se observam a cada canto do Rio de Janeiro<br \/>\ne onde, promiscuamente, se aninha toda a sorte de indiv\u00edduos, mas de indiv\u00edduos<br \/>\nque j\u00e1 foram alguma coisa ou de indiv\u00edduos que ainda n\u00e3o s\u00e3o nada. A\u00ed, as<br \/>\nmais belas e atrevidas ilus\u00f5es vivem paredes-meias com o mais denso a absoluto<br \/>\nceticismo. Velhos bo\u00eamios, curtidos nos venenos e todos os v\u00edcios e no segredo<br \/>\nde todas as mis\u00e9rias, encontram-se diariamente , ombro a ombro, com os vision\u00e1rios<br \/>\nestudantes de preparat\u00f3rios. \u00c9 nessas praias desamparadas \u00e0 ventania da sorte<br \/>\nque a sociedade costuma arrevessar o destro\u00e7o dos que naufragaram nas suas<br \/>\nsua \u00e1guas, mas \u00e9 da\u00ed tamb\u00e9m que ela pesca \u00e0s vezes novas p\u00e9rolas para p o<br \/>\nseu diadema. H\u00e1 de tu &#8211; homens de todas as nacionalidades, sujeitos devida<br \/>\nmisteriosa, solteir\u00f5es libertinos e neutralizados pelo ven\u00e9reo, artistas completamente<br \/>\ndesconhecidos que se imaginam v\u00edtimas do meio, e supostos talentos que vivem<br \/>\npara amaldi\u00e7oar a fortuna dos que conseguiram v3encer na vida. Quase todos<br \/>\neles t\u00eam na sua vida um fato, uma \u00e9poca, uma coisa extraordin\u00e1ria, para contar:<br \/>\num, apresenta a honra de lhe haver morrido nos bra\u00e7os tal homem c\u00e9lebre; outro,<br \/>\ndiz que foi amante da senhora condessa de tal; outro afian\u00e7a e jura ser o<br \/>\nverdadeiro , se bem que obscuro, promotor e tal acontecimento hist\u00f3rico; outro,<br \/>\nrevela um romance de amor que lhe cortou a carreira, mas que o imortalizar\u00e1<br \/>\nem vendo a luz da publicidade; outro, confia numa inven\u00e7\u00e3o, &#8220;\u00e9 o seu segredo&#8221;,<br \/>\num projeto mec\u00e2nico, ou industrial ou econ\u00f4mico -pol\u00edtico ; outro, n\u00e3o aceita<br \/>\nemprego nenhum do atual governo, e espera a ocasi\u00e3o de &#8220;pegar numa espingarda<br \/>\ne fuzilar as velhas institui\u00e7\u00f5es de seu miserando pa\u00eds&#8221;; outro, enfim, ( e<br \/>\ns\u00e3o os menos raros) t\u00eam apenas para exibir em honra pr\u00f3pria a circunst\u00e2ncia<br \/>\nde algum parentesco ilustre. Ah! N\u00e3o se encontram a\u00ed notabilidades de nenhuma<br \/>\nesp\u00e9cie, mas sim parentes. Este , \u00e9 sobrinho de tal poeta ilustre; aquele<br \/>\n,\u00e9 irm\u00e3o do ministro tal, que deu o nome a tal rua; estoutro, cunhado ou primo<br \/>\nem terneiro grau do glorioso artista Fulano dos anz\u00f3is. E os tipos, quando<br \/>\nlhe tocam nisso, enchem-se de orgulho, como se participassem das gl\u00f3rias do<br \/>\nfestejado parente; pelo menos, ningu\u00e9m os apresenta a qualquer pessoa, sem<br \/>\nacrescentar logo, com assombro: &#8220;\u00d3 senhor! Por quem \u00e9&#8230;n\u00e3o me confunda!&#8230;&#8221;<br \/>\n\u00c9 tamb\u00e9m desses viveiros sombrios e malcheirosos que surgem certas figuras<br \/>\nque, \u00e0s vezes, nos espantam na rua, &#8211; tossicar dentro de um sobretudo enorme,<br \/>\num xale &#8211; _manta em volta do pesco\u00e7o, um bengal\u00e3o entre os dedos e na fisionomia<br \/>\num ar melanc\u00f3lico e ao mesmo tempo irritado. \u00c9 da\u00ed, desses quartos silenciosos,<br \/>\n\u00famidos e tristonhos, como sepulturas vazias, que surgem com o seu passo inalter\u00e1vel<br \/>\ne pousado os sinistros aranh\u00f5es, que vemos passear estranhamente pelos jardinas<br \/>\np\u00fablicos, ao sol das boas manh\u00e3s de inverno. Coitados! S\u00e3o em geral homens<br \/>\nsem meios de vida, protegidos por algum figur\u00e3o qualquer, de quem, ou foram<br \/>\ncolegas na academia, ou ainda continuam a ser parentes com a mais cruel pertin\u00e1cia.<br \/>\nQuando falam desse protetor feliz e rico n\u00e3o se animam a dizer mal, mas \u00e0<br \/>\nsua fisionomia acode invenc\u00edvel sorriso cheio de velha b\u00edlis acumulada e s\u00f4frega<br \/>\npor transbordar. Uns v\u00e3o regularmente comer a certas casas comerciais, outros<br \/>\nse arranjam pelas imposs\u00edveis casas de pasto da Cidade &#8211; Nova, os &#8220;freges&#8221;,<br \/>\nonde as refei\u00e7\u00f5es n\u00e3o passam de duzentos r\u00e9is. Alguns t\u00eam o almo\u00e7o seguro<br \/>\n\u00e0 mesa de um velho amigo de melhores tempos, o jantar em casa doutro;\u00e0s sextas<br \/>\n&#8211; feiras s\u00e3o infal\u00edveis nas comezainas gratuitas dos frades de S\u00e3o Bento.<br \/>\nUns, passam a noite na jogatina, percorrendo espeluncas, tomando caf\u00e9 nos<br \/>\nquiosques \u00e0s quatro e meia da manh\u00e3 e ent\u00e3o, durante o dia seguinte, dormem<br \/>\na fartar; outros, recebem donativos de alguma irmandade religiosa, \u00e0 qual<br \/>\nse filiaram em \u00e9pocas de prosperidade. S\u00e3o sempre vistos, em horas determinadas,<br \/>\nno jardim do Rocio, n Passeio P\u00fablico, assentados nos bancos de pedra, lendo<br \/>\njornais \u00e0 sombra das amendoeiras, \u00e0s vezes t\u00eam ao lado a botina que descal\u00e7aram<br \/>\npor amor dos calos; s\u00e3o vistos igualmente nos edif\u00edcios p\u00fablicos em constru\u00e7\u00e3o,<br \/>\nacompanhando as obras com interesse, como se estivessem encarregados disso,<br \/>\nfazendo perguntas, ralhando com os oper\u00e1rios, numa necessidade irresist\u00edvel<br \/>\nde aplicar, seja como for, a sua atividade desocupada e vadia. N\u00e3o h\u00e1 motim,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 incinere de rua, por mais ligeiro, em que eles n\u00e3o intervenham, tomando<br \/>\nlogo a parte principal na coisa, repreendendo o agressor, conciliando o agredido,<br \/>\nfazendo enfim acreditar que ali est\u00e1 uma autoridade civil em pleno exerc\u00edcio<br \/>\nde suas fun\u00e7\u00f5es. S\u00e3o violentos quando lhes falam de pol\u00edtica e s\u00f3 se referem<br \/>\naos homens do poder com palavr\u00f5es brutais e desabridos; a alguns nomeiam sempre<br \/>\ncom alcunhas determinadas e todos os outros, que ainda n\u00e3o recegbveram o batismo<br \/>\nde sua c\u00f3lera invejosa, s\u00e3o indistintamente &#8220;os ladr\u00f5es, os patoteiros, os<br \/>\nvis, os traidores, os capachos do rei&#8221;! Atrav\u00e9s dos cerrados negrumes daquela<br \/>\nmis\u00e9ria e daquele ressentimento, nada enxergam de bom e de leg\u00edtimo O Coqueiro,<br \/>\nn\u00e3o obstante, se mostrava satisfeito com os seus inquilinos e dizia ter encontrado<br \/>\nno Dami\u00e3o o &#8220;homem que lhe convinha&#8221;.<\/p>\n<p>Aparecia por l\u00e1 constantemente; gostava de ver como ia o pr\u00e9dio, gostava<br \/>\nde dar uma vista de olhos pelos cantos da casa, em sil\u00eancio, de m\u00e3os no bolso,<br \/>\ne sentia um verdadeiro prazer sempre que encontrava alguma coisinha par consertar<br \/>\n, &#8211; algum peda\u00e7o de papel solto da parede, alguma r\u00e9gua despregada, alguma<br \/>\nt\u00e1bua fora do lugar. A exist\u00eancia nunca lhe parecera t\u00e3o corredia e t\u00e3o f\u00e1cil;<br \/>\ns\u00f3 faltava, para complemento das ventura, que o ma\u00e7ante do colega desembuchasse<br \/>\npor uma vez com aquele maldito casamento. &#8211; Ah! ent\u00e3o \u00e9 que seriam elas!&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas o &#8220;ma\u00e7ante do colega&#8221; estava bem longe de pensar em casamento; todo ele<br \/>\nera pouco para sofrer a c\u00e1ustica impassibilidade de Hort\u00eansia. A caprichosa<br \/>\ncontinuava no seu terr\u00edvel sistema de n\u00e3o aviar nem desaviar. Am\u00e2ncio fizera-lhe<br \/>\nir ter \u00e0s m\u00e3os uma segunda c\u00f3pia da carta subtra\u00edda, e ela em resposta aconselhou-o<br \/>\na que n\u00e3o escrevesse outra, sob pena de entreg\u00e1-la ao marido. &#8211; Pois que v\u00e1<br \/>\npara o diabo que a carregue! Pensou o estudante, furioso, e resolveu dar o<br \/>\nneg\u00f3cio por acabado. Com efeito, durante um m\u00eas inteiro, nas poucas vezes<br \/>\nem que teve de falar ao Campos sobre quest\u00f5es de interesses materiais, n\u00e3o<br \/>\npassou do escrit\u00f3rio. &#8211; Homem! dizia-lhe o negociante. &#8211; Voc\u00ea s\u00f3 aparece aqui<br \/>\npor fruta, e faz visitinhas de m\u00e9dico! N\u00e3o h\u00e1 meios de apanh\u00e1-lo l\u00e1 em cima!<br \/>\nNen\u00e9m at\u00e9 j\u00e1 se queixou! Am\u00e2ncio defendia-se com os seus estudos e com os<br \/>\nsobressaltos em que andava depois das \u00faltimas cartas do Norte. &#8211; Por qu\u00ea?<br \/>\nH\u00e1 alguma novidade?!&#8230; perguntou o amigo cheio de solicitude. &#8211; A velha n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 boa!&#8230; explicou o rapaz. &#8211; Desde que morreu meu pai, a pobre de Cristo<br \/>\nainda n\u00e3o levantou a cabe\u00e7a! Confesso-lhe que tenho meus receios, tenho!&#8230;<br \/>\nE quedava-se abstrato, a fitar o ch\u00e3o, com a fisionomia paralisada por uma<br \/>\ntristeza vidente e ao mesmo tempo irresoluta. O outro n\u00e3o sem animava a interromper<br \/>\naquele sil\u00eancio doloroso e respeit\u00e1vel, mas, por fim, lembrou discretamente,<br \/>\ncom delicadeza, que n\u00e3o seria m\u00e1 uma viagem \u00e0 prov\u00edncia; talvez com isso se<br \/>\nevitasse um desgosto maior&#8230; Am\u00e2ncio era a menina dos olhos de D. \u00c2ngela&#8230;bem<br \/>\npodia ser que, s\u00f3 com a presen\u00e7a dele, a pobre senhora melhorasse!&#8230; O estudante<br \/>\nmostrou-lhe a \u00faltima carta da m\u00e3e; e os dois, tendo ainda conversado com o<br \/>\nmesmo recolhimento, vieram a concordar em que era indispens\u00e1vel um passeio<br \/>\nao Maranh\u00e3o; Am\u00e2ncio retirou-se, fazendo j\u00e1 os planos da viagem. &#8211; Oh! exclamava<br \/>\nele por dentro. &#8211; Vou! N\u00e3o tem que ver! Vou definitivamente! E provo \u00e0quela<br \/>\nmulher que n\u00e3o ligo a menor import\u00e2ncia ao que ela me fez! Hei de provar-lhe<br \/>\nque o seu procedimento em nada me alterou. Que at\u00e9 sigo muito satisfeito e<br \/>\nmuito satisfeito e muito senhor de mim. E via-se j\u00e1 na ocasi\u00e3o da despedidas<br \/>\n&#8211; frio, indiferente, sorrindo \u00e0s l\u00e1grimas de Hort\u00eansia . e sua fantasia, gozando<br \/>\ndo efeito desses devaneios, armava-lhe, ao sabor da vaidade, cenas muito espetaculosas,<br \/>\nnas quais representava ele sempre o papel mais brilhante e mais elevado. Via<br \/>\nHort\u00eansia a seus p\u00e9s, lacrimosa e m\u00edsera, suplicando-lhe por piedade que n\u00e3o<br \/>\nse fosse, que a perdoasse, que se compadecesse de tamanho desespero. &#8220;Ela<br \/>\nali estava submissa e arrependida, pronta a cumpri de olhos fechados as ordens<br \/>\nde seu querido Am\u00e2ncio, do seu senhor, do seu Deus, do seu tudo!&#8221; Ele, ent\u00e3o,<br \/>\ncom um riso cruel, voltando-lhe o rosto e acendendo um charuto: &#8220;N\u00e3o , filha,<br \/>\ntem paci\u00eancia! E se insistes, vai tudo \u00e0s m\u00e3os do Campos!&#8230;&#8221; Hort\u00eansia, ao<br \/>\nouvir estas palavras, estorcia-se numa afli\u00e7\u00e3o teatral, e logo que Am\u00e2ncio<br \/>\nse dispunha a partir, desabava de costa, quase morta, justamente como as hero\u00ednas<br \/>\ndos romances que ele devorara aos quinze anos. Mas a terr\u00edvel concupisc\u00eancia<br \/>\ndo nortista, sobrepujando logo a fantasia do vaidoso, n\u00e3o resistia \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde possuir, ao menos em sonho, aquele belo corpo desfalecido e, como dantes,<br \/>\ncome\u00e7ava mentalmente a despi-lo, pe\u00e7a por pe\u00e7a, at\u00e9 deix\u00e1-lo em pleno esc\u00e2ndalo<br \/>\nda carne.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Entrou em casa resolvido a levantar o v\u00f4o, custasse o que custasse. &#8211; Sim,<br \/>\nera preciso ir! Por Hort\u00eansia, por sua m\u00e3e, por Am\u00e9lia, por mera distra\u00e7\u00e3o,<br \/>\npor tudo! Precisava afastar-se daquele inferno, onde duas mulheres, como duas<br \/>\nsombras, o torturavam; uma fugindo e a outra o perseguindo. Desde que recebeu<br \/>\na tremenda resposta de Hort\u00eansia, sentia-se muito nervoso e irasc\u00edvel; Am\u00e9lia<br \/>\nsuportava-o, sabe Deus como, fazendo milagres de paci\u00eancia para n\u00e3o se afastar<br \/>\ndos conselhos que lhe dera o irm\u00e3o. Quase que j\u00e1 se n\u00e3o podiam sofrer um ao<br \/>\noutro. Al\u00e9m disso, as cartas de \u00c2ngela repetiam-se agora desesperadamente.<br \/>\n&#8220;Estaria a pobre m\u00e3e com efeito em risco de vida?&#8230;&#8221;pensava Am\u00e2ncio. &#8220;Dependeria<br \/>\ndele o salv\u00e1-la? &#8230; E os seus interesses que havia tanto tempo o reclamavam?&#8230;<br \/>\nE as saudades da p\u00e1tria? E os prazeres que encontraria \u00e0 volta do primeiro<br \/>\nano acad\u00eamico?&#8221; Os prazeres, sim, que Am\u00e2ncio, pelo derradeiro paquete, recebera<br \/>\nem uma das principais folhas di\u00e1rias de sua prov\u00edncia a seguinte not\u00edcia:<br \/>\n&#8220;MARANHENSE DISTINTO. Acaba de fazer brilhantemente o primeiro ano de seu<br \/>\ncurso na Escola de Medicina na Corte o nosso talentoso comprovinciano Am\u00e2ncio<br \/>\nda Silva Bastos e Vasconcelos, filho de h\u00e1 pouco falecido e sempre chorado<br \/>\nComendador Manoel Pedro de Vasconcelos, um dos mais estimados negociantes<br \/>\nque foi desta pra\u00e7a, enquanto n\u00e3o podemos pessoalmente abra\u00e7ar o digno jovem<br \/>\ne esperan\u00e7oso disc\u00edpulo de Hip\u00f3crates, apressamo-nos a enviar-lhe daqui os<br \/>\nnossos sinceros parab\u00e9ns, futurando em S. S.a mais uma gl\u00f3ria leg\u00edtima para<br \/>\na nossa Atenas, j\u00e1 t\u00e3o rica, ali\u00e1s, em talentos privilegiados!&#8221; Ningu\u00e9m poder\u00e1<br \/>\nimaginar o efeito que produziram tais palavras no esp\u00edrito presun\u00e7oso de Am\u00e2ncio.<br \/>\nera a primeira vez que ele via o seu nome em letra redonda, seguido de alguns<br \/>\nadjetivos laudat\u00f3rios. Por detr\u00e1s daquela not\u00edcia pressentia o rapaz um para\u00edso<br \/>\nde novas considera\u00e7\u00f5es que o esperava na prov\u00edncia; antevia o sorriso das<br \/>\ndamas, a rever\u00eancia dos pais de fam\u00edlia e a inveja dos ex-colegas do Liceu.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o! n\u00e3o podia deixar de ir. O Maranh\u00e3o, naquele momento, e por todos os<br \/>\nmotivos, representava para ele uma necessidade urgente. &#8211; Havia de meter a<br \/>\ncabe\u00e7a e varar por quantos obst\u00e1culos se lhe antepusessem.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Am\u00e9lia ficou estonteada quando o amante lhe deu parte dos seus projetos de<br \/>\nviagem, t\u00e3o calmo e resoluto foi o tom em que o fez; mas, voltando do primeiro<br \/>\nchoque, rompeu num grande pranto e atirou-se de bru\u00e7os na cama, solu\u00e7ando<br \/>\nmuito aflita. &#8220;Que era uma desgra\u00e7ada! Que Am\u00e2ncio a queria abandonar, depois<br \/>\nde a ter desonrado e perdido!&#8221; &#8211; Eu volto, filha! Disse ele, procurando fazer-se<br \/>\nmeigo. &#8211; Vou tratar de meus interesses, ver minha m\u00e3e, e volto para o teu<br \/>\nlado! N\u00e3o tenhas receio de que te engane! Eu ainda se quisesse, n\u00e3o podia<br \/>\nficar por l\u00e1, j\u00e1 n\u00e3o digo por ti, mas, que diabo! Pelos meus estudos. Pois<br \/>\nacreditas que eu cairia na asneira de abandon\u00e1-los, agora que estou t\u00e3o bem<br \/>\nencaminhado?&#8230; &#8211; N\u00e3o sei! Respondeu a rapariga, erguendo-se rapidamente,<br \/>\ncom as fei\u00e7\u00f5es sumidas na vermelhid\u00e3o do choro. &#8211; Voc\u00ea, \u00e9 imposs\u00edvel que n\u00e3o<br \/>\ntenha no Maranh\u00e3o algu\u00e9m \u00e0 sua espera!&#8230; E essa com certeza n\u00e3o h\u00e1 de ser<br \/>\npobre como eu, n\u00e3o ter\u00e1 a boa-f\u00e9 que eu tive!&#8230;com essa voc\u00ea n\u00e3o por\u00e1 d\u00favidas<br \/>\nnenhuma para casar!&#8230; E voltaram-lhe os solu\u00e7os, como um temporal que recresce.<br \/>\n&#8211; Est\u00e1s a dizer tolices, filha! Dou-te a minha palavra de honra em como nunca<br \/>\nme esquecerei de ti! Que mais queres?! &#8211; Pois ent\u00e3o casemo-nos e partir\u00e1s<br \/>\ndepois!&#8230; &#8211; Isso \u00e9 imposs\u00edvel! J\u00e1 te disse um milh\u00e3o de vezes! Oh! &#8211; Minha<br \/>\nm\u00e3e espera-me h\u00e1 quatro vapores seguidos! Imagina tu como n\u00e3o estar\u00e1 ela,<br \/>\ncoitada, com a morte do velho! n\u00e3o hei de agora, em vez de minha pessoa, lhe<br \/>\napresentar uma carta pedindo licen\u00e7a para casar!&#8230; Que esp\u00e9cie de filho seria<br \/>\neu nesse caso?! Enquanto a pobre vi\u00fava se desfaz em l\u00e1grimas; enquanto na<br \/>\nfam\u00edlia tudo \u00e9 luto e desgosto, o bom do filho pensa em casamento e, sem d\u00favida,<br \/>\nprepara as festas do noivado!&#8221; N\u00e3o! gritou ele energicamente. &#8211; Isso n\u00e3o faria<br \/>\neu, nem se me cosessem a facadas! Pelo menos, enquanto estiver com esta roupa<br \/>\nsobre o corpo&#8230; E sacudiu com for\u00e7a a aba de seu fraque de lustrina. &#8211; Enquanto<br \/>\nestiver com esta roupa, n\u00e3o penso em mulher! nada! antes de tudo, sou filho!<br \/>\nPercebes?! Antes de tudo, tenho de olhar por minha pobre m\u00e3e, que \u00e9 muito<br \/>\ncapaz de morrer se n\u00e3o me ver ao seu lado! E foi, cheio de excita\u00e7\u00e3o, debru\u00e7ar-se<br \/>\nno peitoril da janela, fitando as plantas do jardim, a roer as unhas. Houve<br \/>\num sil\u00eancio. Am\u00e9lia j\u00e1 n\u00e3o chorava; im\u00f3vel, apoiando-se ao espaldar da cama,<br \/>\nentontecia a vista contra as ramagens cruas do tapete. &#8211; Nesse caso, ele que<br \/>\nvenha ter contigo&#8230; disse, afinal, sem erguer os olhos. &#8211; Ora! Resmungou<br \/>\nAm\u00e2ncio, voltando-se vivamente na janela.<\/p>\n<p>&#8211; Ou ent\u00e3o iremos n\u00f3s&#8230; acrescentou a rapariga, fazendo um biquinho de enfado.<br \/>\nE depois, com pieguice: &#8211; Tenho muito medo das maranhenses!&#8230; O estudante<br \/>\nn\u00e3o respondeu, foi ter com ela, tomou-lhe meigamente a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os.<br \/>\n&#8211; Esta cabecinha!&#8230; &#8211; disse &#8211; esta cabecinha n\u00e3o sei quando ter\u00e1 ju\u00edzo!&#8230;<br \/>\nE, passando a falar em tom s\u00e9rio, protestou que era at\u00e9 injusti\u00e7a sup\u00f4-lo<br \/>\ncapaz de cometer uma perf\u00eddia daquela ordem! Am\u00e9lia j\u00e1 devia estar perfeitamente<br \/>\nconvencida de que ele a amava deveras; de que ele n\u00e3o seria t\u00e3o mau que a<br \/>\nabandonasse, depois de receber tantos carinhos. Ela que n\u00e3o estivesse a descobrir<br \/>\nperigos, onde nem sombras disso havia!&#8230; A tal viagem ao Norte, no fim de<br \/>\ncontas, era uma quest\u00e3o de dois ou tr\u00eas meses, e ele deixaria uma mesada regular<br \/>\ne escreveria por todos os vapores!&#8230; &#8211; N\u00e3o acreditas ainda que te estou falando<br \/>\ncom sinceridade?&#8230; concluiu, a beij\u00e1-la nos olhos. &#8211; Que precis\u00e3o tinha eu<br \/>\nde te enganar?&#8230; &#8211; Sim, creio, creio que por ora assim seja, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida!<br \/>\nMas tamb\u00e9m estou persuadida de que, logo que passes a barra, tudo muda de<br \/>\nfigura!&#8230; Nos primeiros dias ainda te lembrar\u00e1s da infeliz que aqui deixaste,<br \/>\nmas depois&#8230; com a presen\u00e7a de outras, com os novos passatempos que te esperam&#8230;<br \/>\nat\u00e9 h\u00e1s de perguntar aos teus bot\u00f5es &#8220;como foi que em algum dia chegaste a<br \/>\npensar a s\u00e9rio neste casamento?&#8230;&#8221; &#8211; Bem se v\u00ea que n\u00e3o me conheces!&#8230; retorquiu<br \/>\no rapaz. &#8211; N\u00e3o! n\u00e3o! n\u00e3o ir\u00e1s! Sustentou Am\u00e9lia. &#8211; Adoro-te, \u00e9s meu, n\u00e3o te<br \/>\nquero perder! Ora essa! &#8211; Mas, filha, observou Am\u00e2ncio impacientando-se, &#8211;<br \/>\nlembra-te de que \u00e9 mais decente fazermos a coisa por bons modos&#8230; afinal,<br \/>\ntu n\u00e3o me podes constranger a ficar, e, eu, em vez de ir, deixando um compromisso<br \/>\nde cavalheiro, sou capaz de ir, sem deixar coisa alguma! Ora a\u00ed tens! &#8211; Hein?!<br \/>\nBradou ela, transformando-se a contragosto. &#8211; Cai nessa! Experimenta s\u00f3, para<br \/>\nveres o gosto que lhe achas! Am\u00e2ncio respondeu com um gesto desabrido, enterrou<br \/>\no chap\u00e9u na cabe\u00e7a, e saiu \u00e0 toa, sem destino, com uma f\u00faria surda a espezinhar-lhe<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Mas, ao voltar, encontrou Am\u00e9lia no mesmo estado. E a quest\u00e3o reapareceu<br \/>\n\u00e0 noite, reapareceu na manh\u00e3 seguinte, e todos os dias, tomando um car\u00e1ter<br \/>\nde rezinga permanente. Am\u00e2ncio perdeu de todo a paci\u00eancia. &#8211; Era demais! Sebo!<br \/>\nEle, no fim de contas, n\u00e3o tinha obriga\u00e7\u00e3o nenhuma de aturar semelhante gaita<br \/>\nnos ouvidos! Que mastiga\u00e7\u00e3o! Arre! Am\u00e9lia que fosse atenazar o pai! Ela respondeu<br \/>\npossessa, deixando escapar palavr\u00f5es, &#8220;Supunha ter encontrado um homem, mas<br \/>\nencontrara um quidam, um canalha, um desfrutador!&#8221; &#8211; Desfrutadores s\u00e3o voc\u00eas<br \/>\ntodos! Percebes tu?! Berrou ele, col\u00e9rico. &#8211; Desfrutadores &#8211; \u00e9 teu irm\u00e3o,<br \/>\n&#8211; \u00e9 tua madrasta e \u00e9s tu! Que s\u00f3 faltam me arrancar a pele! S\u00facia de filantes!<br \/>\nE lembrou o que at\u00e9 a\u00ed gastara com eles, o que lhes dera, o que comprara e<br \/>\no que lhe desaparecia dos algibeiras. &#8211; N\u00e3o me est\u00e1s de gra\u00e7a, n\u00e3o! exclamou,<br \/>\nsaindo afinal do quarto como da outra vez. Desta, por\u00e9m, quando voltou \u00e0 casa,<br \/>\nvinha com o ar mais despreocupado que se pode desejar. E, logo que Am\u00e9lia<br \/>\nlhe falou na quest\u00e3o da viagem, ele respondeu tranq\u00fcilamente que j\u00e1 n\u00e3o havia<br \/>\nnada a esse respeito. &#8220;Resolvera ficar.&#8221; A rapariga compreendeu o disfarce<br \/>\ne, no dia seguinte, tratou de prevenir o irm\u00e3o de que abrisse os olhos, se<br \/>\nn\u00e3o queria ver o Sr. Am\u00e2ncio escapar-lhe por entre os dedos. Jo\u00e3o Coqueiro<br \/>\nficou de orelha em p\u00e9.<\/p>\n<h3>XIX<\/h3>\n<p>A pequena tinha toda a raz\u00e3o; Am\u00e2ncio, se parecia resolvido a desistir da<br \/>\nviagem, era porque nessa mesma tarde encontrara o Paiva e, na sua necessidade<br \/>\nde expans\u00e3o, levou-o para o fundo de um caf\u00e9 e abriu-se com ele. Contou-lhe<br \/>\nas dificuldades que o afligiam, e pediu-lhe conselhos. &#8211; N\u00e3o h\u00e1 que saber!&#8230;disse<br \/>\no consultado. &#8211; N\u00e3o h\u00e1 que saber!&#8230;A\u00ed s\u00f3 vejo dois partidos a tomar: &#8211; Ser<br \/>\ntolo &#8211; ou &#8211; n\u00e3o ser tolo! E, como o outro fizesse um trejeito de m\u00e1 compreens\u00e3o:<br \/>\n&#8211; Tolo, se ficares e &#8211; n\u00e3o tolo &#8211; se te puseres ao fresco! &#8211; Mas, Paiva, voc\u00ea<br \/>\nent\u00e3o que devo ir?&#8230;perguntou Am\u00e2ncio, hesitando , a morder as unhas. &#8211; Homem!<br \/>\nvolveu aquele, &#8211; se precisas ir ao Norte, prepara-te caladinho e vai! Que<br \/>\nnecessidade tens tu de que a gente do Coqueiro saiba disso?&#8230;Deves-lhe satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde teus atos?&#8230;Se n\u00e3o deves, \u00e9 aprontar as malas<\/p>\n<p>e&#8230;por aqui \u00e9 o caminho! Olha! Deixa-lhe uma carta, muito delicada, j\u00e1 se<br \/>\nv\u00ea, muito cheia de promessas. &#8220;Que voltas, que h\u00e1s de fazer, que h\u00e1s de acontecer!&#8221;<br \/>\nE, no entanto, vai-te raspando&#8230;Porque estas coisas, filho, assim \u00e9 que se<br \/>\ndecidem. E, quanto aos arranjos da viagem&#8230;c\u00e1 estou eu para te ajudar!&#8230;<br \/>\nCalaram-se por alguns instantes. Paiva Rocha pediu um novo cherry &#8211; cobler<br \/>\ne prosseguiu enquanto o amigo, muito pensativo, fitava o m\u00e1rmore da mesa:<br \/>\n&#8211; Agora, se est\u00e1s t\u00e3o embei\u00e7ado pela sujeita, que n\u00e3o tenhas \u00e2nimo de a deixar,<br \/>\nisso \u00e9 outra coisa!&#8230;Neste caso, o melhor \u00e9 escrever \u00e0 velha, dizendo-lhe<br \/>\nque venha, arranjar um novo advogado de confian\u00e7a que se encarregue de teus<br \/>\nneg\u00f3cios no Maranh\u00e3o, &#8211; e faze a vontade \u00e0 pequena &#8211; casa-te! Am\u00e2ncio torceu<br \/>\no nariz com enfado: &#8211; &#8211; Qual! &#8211; Ent\u00e3o, filho, que esperas?&#8230;\u00c9 perder o amor<br \/>\naos objetos que l\u00e1 tens, e fazer o que j\u00e1 te disse! &#8211; Mas o Coqueiro n\u00e3o poder\u00e1<br \/>\ntoma r alguma vingan\u00e7a?&#8230; &#8211; N\u00e3o sejas parvo! Resmungou o outro, bebendo de<br \/>\num trago o que ainda tinha no copo; e ergueu-se disposto a sair. &#8211; Amanh\u00e3,<br \/>\n\u00e0s mesmas horas, c\u00e1 estou! Traze o cobre e deixa o resto por minha conta!<br \/>\nSepararam-se concordes de que no dia seguinte ficariam depositados na rep\u00fablica<br \/>\ndo Paiva os apetrechos da fuga. Em casa do Coqueiro. Todos, \u00e0 semelhan\u00e7a de<br \/>\nAmelinha, nem de leve mostravam suspeitar de coisa alguma; pareciam at\u00e9 mais<br \/>\ntranq\u00fcilos e satisfeitos. Nem um gesto de ressentimento, nem uma palavra indiscreta<br \/>\nque os denunciasse. Tudo era paz e bem-aventuran\u00e7a. Reapareceram as primitivas<br \/>\nnoites de amor, como boa esta\u00e7\u00e3o que volta carregada de flores. Os dois amantes<br \/>\nnunca se possu\u00edram t\u00e3o satisfeitos um do outro e nunca se patentearam t\u00e3o<br \/>\nconvictos da mesma felicidade. No empenho comum de se enganarem, cada qual<br \/>\nredobrava de carinhos e meiguices; enquanto por dentro os cora\u00e7\u00f5es lhes bocejavam,<br \/>\naborrecidos e fatigados. O dia da viagem chegou sem novidade alguma. Am\u00e2ncio<br \/>\nlevantou-se como das outras vezes, apenas um pouco mais cedo. Olhou por um<br \/>\nmomento Am\u00e9lia que ainda dormia, toda sumida nos len\u00e7\u00f3is, vestiu-se cautelosamente<br \/>\npara n\u00e3o a acordar; depois foi `varanda, bebeu caf\u00e9 e saiu em ar de passeio.<br \/>\nNo Largo do Machado tomou um carro e bateu para a rep\u00fablica do Paiva. N\u00e3o<br \/>\nencontrou o colega, havia j\u00e1 sa\u00eddo. &#8211; Devia estar \u00e0 sua espera com a bagagem,<br \/>\nno cais Pharoux. Am\u00e2ncio mandou tocar o carro para l\u00e1. E, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que<br \/>\nse aproximava do mar, crescia-lhe por dentro um vago sobressalto de impaci\u00eancia<br \/>\ne de medo &#8211; Anda! Gritou ao cocheiro, espiando repetidas vezes pela portinhola<br \/>\ne apalpando de instante a instante o bilhete da passagem que tinha no bolso.<br \/>\nEstava comovido, principiava a sentir pena de deixar a Corte; apareciam-lhe<br \/>\nsaudades das boas noites com Am\u00e9lia, das patuscadas com os amigos. E um mundo<br \/>\nde recorda\u00e7\u00f5es formava-se e transformava-se atr\u00e1s dele, fugindo, desaparecendo<br \/>\ncomo sombras que se esbatem. Para disfar\u00e7ar a impress\u00e3o desagrad\u00e1vel de tais<br \/>\nm\u00e1goas, procurava embriagar-se com a id\u00e9ia das aventuras que o esperavam na<br \/>\nprov\u00edncia, grupando na fantasia tudo aquilo que o pudesse interessar de qualquer<br \/>\nmodo; e compunha, e constru\u00eda, inventava epis\u00f3dios, cenas, dramas inteiros,<br \/>\nnos quais lhe cabia sempre a principal figura. E, depois de bem mergulhado<br \/>\nnos seus devaneios, depois de bem envolvido na alacridade de seus sonhos de<br \/>\ngl\u00f3ria, o Maranh\u00e3o aparecia-lhe risonho e brilhante como a \u00faltima express\u00e3o<br \/>\ndo que h\u00e1 de melhor sobre a terra Mas, na ocasi\u00e3o em que se apeava, um tipo<br \/>\nmal &#8211; encarado, olhando por cima dos \u00f3culos, a barba grisalha, um tom geral<br \/>\nde porcaria no seu velho fato de pano preto, nas sua botas alcacanhadas, no<br \/>\nseu chap\u00e9u de p\u00ealo cheio de manchas amarelas, aproximou-se dele e, com voz<br \/>\nenxuta e morfanha, intimou-o &#8220;a comparecer imediatamente em presen\u00e7a do delegado<br \/>\nde semana na secretaria de pol\u00edcia&#8221;. Era um oficial de justi\u00e7a. &#8211; Mas que<br \/>\ndesejam de mim?&#8230;perguntou o estudante, empalidecendo e procurando o Paiva<br \/>\ncom os olhos. &#8211; Eu n\u00e3o tenho nada com a pol\u00edcia! E recuou dois passos. &#8211; O<br \/>\nsenhor est\u00e1 intimado! Repetiu secamente o outro, e, em voz baixa, disse a<br \/>\ndois sujeitos que se haviam adiantado: &#8211; Cerca! Cerca o homem! Ent\u00e3o aqueles<br \/>\navan\u00e7aram logo, jogando o corpo num p\u00e9 s\u00f3, o chap\u00e9u para tr\u00e1s, um grosso porrete<br \/>\nna m\u00e3o. &#8211; Comigo \u00e9 onze! Exclamou um deles, muito canalha, a cuspilhar para<br \/>\nos lados. &#8211; Mas por que me prendem?!&#8230;perguntou o estudante, sentindo-se<br \/>\ntolhido. &#8211; S\u00e3o coisas!&#8230; responderam-lhe, fazendo-o entrar no carro. Am\u00e2ncio<br \/>\nainda procurou descobrir o Paiva ; depois, azoinado pela gentalha que se reunia<br \/>\nem torno dele, saltou para a almofada, perseguido sempre pelos tr\u00eas sujeitos.<br \/>\nO oficial segredou alguma coisa ao cocheiro, e o carro deu volta e rodou em<br \/>\nsentido contr\u00e1rio aso cais.<\/p>\n<p>Am\u00e2ncio cobriu o rosto com o len\u00e7o e principiou a solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Coqueiro, desde a preven\u00e7\u00e3o que lhe fez a irm\u00e3, n\u00e3o se descuidou mais um<br \/>\ninstante de vigiar a sua presa: segui-lhe os passos, farejando, at\u00e9 o momento<br \/>\nem que Am\u00e2ncio tomou o bilhete de passagem para o Norte. Ent\u00e3o, correu para<br \/>\n\u00e0 casa do Dr. Teles de Moura. O Teles era um advogado velho, muito respeitado<br \/>\nno foro; n\u00e3o pelo car\u00e1ter, que o n\u00e3o mostrava nunca, nem pela sua ci\u00eancia,<br \/>\nque a n\u00e3o tinha; nem tampouco pelos seus cabelos brancos, que a estes nem<br \/>\nele pr\u00f3prio respeitava, invertendo-lhes a cor; mas sim pela sua proverbial<br \/>\nsagacidade, pelas suas manhas de chicanista, pela sua terr\u00edvel figura de raposa<br \/>\nvelha, pelos sues olhinhos irrequietos e matreiros, pelo seu nariz \u00e0 bico<br \/>\nde p\u00e1ssaro e pela sua boca sem l\u00e1bios, donde a palavra sa\u00eda seca e penetrante<br \/>\ncomo uma bala. O passado do Teles era toda uma legenda de vit\u00f3rias judiciais;<br \/>\natribu\u00edam-lhe anedotas mais antigas de que ele; muito processo se anulou naquelas<br \/>\nunhas aduncas e tamandu\u00e1; muito criminoso escapou \u00e0s penas da lei por entre<br \/>\nas malhas das sua ast\u00facia; muito inocente foi parar \u00e0 cadeia ensarilhado nas<br \/>\npontas de seus sofismas. Para ele n\u00e3o havia causas m\u00e1s; em suas m\u00e3os qualquer<br \/>\nprocesso se enformava ao capricho dos dedos como uma bola de miolo de p\u00e3o.<br \/>\nE o irm\u00e3o de Am\u00e9lia sabia de tudo isso perfeitamente quando lhe foi bater<br \/>\n\u00e0 porta. Seriam ent\u00e3o nove horas da manh\u00e3, a raposas almo\u00e7ava. Coqueiro esperou<br \/>\num instante e, s\u00f3 terminado o barulho dos pratos, animou-se a tocar a campainha.<br \/>\nApareceu um moleque, tomou o recado no corredor e pouco depois trouxe a resposta.<br \/>\n&#8220;O amo estava muito cheio de ocupa\u00e7\u00f5es naquele dia, n\u00e3o falava com pessoa<br \/>\nalguma. Coqueiro que voltasse noutra ocasi\u00e3o.&#8221; Mas Coqueiro recalcitrou. &#8220;Esperaria&#8230;Tinha<br \/>\nque falar ao Dr. Teles, custasse o que custasse. Tratava-se de uma causa important\u00edssima!&#8221;<br \/>\nVeio afinal o doutor, palitando os dentes, o ar muito ocupado, os movimentos<br \/>\nde quem tem pressa. &#8211; Que era ? O que desejavam? Coqueiro, com a voz alterada,<br \/>\nos gestos dramaticamente desesperados, disse que ia ali buscar prote\u00e7\u00e3o e<br \/>\njusti\u00e7a. &#8220;Era pobre, sim, mas estudioso e trabalhador. Sua vida a\u00ed estava,<br \/>\n&#8211; limpa! Podia at\u00e9 servir de modelo! &#8211; Casara-se na idade em que os rapazes<br \/>\nem geral s\u00f3 pensam nos prazeres e nas loucuras!&#8230;Adorava a fam\u00edlia; sim!<br \/>\nadorava, porque a fam\u00edlia era o bem \u00fanico de que ele dispunha na terra! Tinha<br \/>\numa irm\u00e3, inocente e indefesa, a quem at\u00e9 a\u00ed servira de pai e de tutor&#8230;&#8221;<br \/>\nO advogado deixou escapar uma tossezinha de impaci\u00eancia. &#8211; Pois bem, senhor<br \/>\ndoutor! Exclamou o outro, puxando com ambas as m\u00e3os, contra o peito, o seu<br \/>\nchap\u00e9u de feltro. &#8211; Pois bem! Essa menina, que era todo o meu orgulho, que<br \/>\nera como o documento vivo do bom cumprimento de meu dever&#8230;essa menina, que<br \/>\neduquei sob os maiores sacrif\u00edcios&#8230;essa pobre menina&#8230; &#8211; Que fez? Perguntou<br \/>\no velho muito calmo. &#8211; Arribou de casa?&#8230; N\u00e3o senho, acaba de ser v\u00edtima<br \/>\nda maior trai\u00e7\u00e3o, da mais degradante maldade, que&#8230; &#8211; Mas, afinal, o que<br \/>\nhouve?&#8230;interrogou o doutor, fugindo \u00e0s preliminares. &#8211; Foi desvirtuada por<br \/>\num rapaz, um colega meu, que , h\u00e1 coisa de um ano, hospedei, por amizade,<br \/>\ndebaixo de minhas telhas!&#8230; &#8211; E ele? Perguntou o advogado, sem se comover.<br \/>\n&#8211; Ele j\u00e1 est\u00e1 de passagem comprada para o Maranh\u00e3o e foge amanh\u00e3 mesmo, se<br \/>\nn\u00e3o houver uma alma reta e caridosa que lhe embargue a viagem. &#8211; Ela ficou<br \/>\npejada? &#8211; N\u00e3o senhor. &#8211; \u00c9 menor? &#8211; Tem vinte e tr\u00eas anos, respondeu o queixoso,<br \/>\ntriste porque sua irm\u00e3 n\u00e3o tinha menor idade. &#8211; Est\u00e1 o diabo!&#8230;Resmungou<br \/>\na raposa; espetando os dentes com o palito. &#8211; E ele? &#8211; Ele tem vinte e um.<br \/>\n&#8211; Feitos? &#8211; Feitos, sim senhor. &#8211; Bem. E acendeu um cigarro que levara a preparar<br \/>\nlentamente. &#8211; \u00c9 o diabo!&#8230;repisava. &#8211; N\u00e3o se pode fazer nada, sem a verifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo fato&#8230;\u00c9 o diabo!! E calaram-se ambos. O velho a pensar; o outro, de cabe\u00e7a<br \/>\nbaixa, o aspecto infeliz, a choramingar baixinho.<\/p>\n<p>&#8211; Ele tem recurso? Perguntou aquele afinal. &#8211; \u00c9 rico, bastante rico, respondeu<br \/>\no Coqueiro, sem tirara os olhos do ch\u00e3o. &#8211; Emancipado?&#8230; &#8211; Totalmente. \u00f3rf\u00e3o<br \/>\nde pai! \u00c9 at\u00e9 s\u00f3cio comandit\u00e1rio de uma importante casa comercial. Tem para<br \/>\nmais de quatrocentos contos de r\u00e9is. &#8211; Bem. Arranja-se a queixa &#8211; crime. Olhe!<br \/>\nDeixe-me a\u00ed o seu nome, o dele, o da v\u00edtima, o dos competentes pais, se os<br \/>\ntiverem, as respectivas moradas, profiss\u00f5es, etc., etc. Enfim a subst\u00e2ncia<br \/>\nda queixa&#8230; &#8211; O senhor doutor acha ent\u00e3o que&#8230; &#8211; Veremos! Veremos o que<br \/>\nse pode fazer!&#8230;N\u00e3o perca tempo &#8211; escreva. Coqueiro escreveu prontamente,<br \/>\ninterrompendo-se de vez em quando o para pedir informa\u00e7\u00f5es. &#8211; &#8216;St\u00e1 direito!<br \/>\nSussurrou o advogado, correndo os olhinhos pelas folha de papel que o outro<br \/>\nlhe acabava de passar. &#8211; Pode ir descansado. V\u00e1. E seu todo impaciente estava<br \/>\na despedir a visita. Esta, por\u00e9m, fazia n\u00e3o dar por isso e desejava mais esclarecimentos;<br \/>\nqueria saber ao certo o tempo que deitaria aquela quest\u00e3o. &#8220;Se era de esperar<br \/>\nque Am\u00e2ncio cassasse com a v\u00edtima; se havia recursos na lei para o perseguir,<br \/>\netc., etc. &#8221; O velho palitou os dentes mais vivamente. &#8220;Que diabo! Um processo<br \/>\nera um processo! Tinha de percorrer todos os competentes sacramentos! N\u00e3o<br \/>\nse chegava ao fim, sem passar pelos meios!&#8230;Am\u00e2ncio podia furtar-se \u00e0 cita\u00e7\u00e3o,<br \/>\nesconder-se; os oficiais de justi\u00e7a eram t\u00e3o f\u00e1ceis de ser comprados!&#8230;t\u00e3o<br \/>\nordin\u00e1rios!&#8230;vendiam-se por qualquer lambujem, por um rel\u00f3gio, por um pouco<br \/>\nde dinheiro!&#8230; E principiou a encarecer a causa, grupando termos jur\u00eddicos,<br \/>\napontando dificuldades. Sua voz transformava-se ao sabor daquela terminologia<br \/>\nespecial. &#8220;Em primeiro lugar tinham de apresentar uma queixa perante o Juiz<br \/>\nde Direito do distrito criminal. Deferida a peti\u00e7\u00e3o, intimar-se-ia o indiciado<br \/>\npara a audi\u00eancia que se designasse. &#8211; E os interrogat\u00f3rios? E a pron\u00fancia?<br \/>\nE os recursos?&#8230;Enfim havia de se fazer o que fosse poss\u00edvel!&#8230; &#8211; E por<br \/>\nenquanto&#8230;acrescentou o chicanista, consultando apressado o rel\u00f3gio- n\u00e3o<br \/>\ntenho de meu nem mais um segundo! E despedindo o outro com um aperto de m\u00e3o:<br \/>\n&#8211; Olhe! Procure-me logo mais na pol\u00edcia, ao meio-dia. Estou l\u00e1 \u00e0 sua espera.<br \/>\nPode ir descansado. Adeus! E empurrando-o brandamente: &#8211; N\u00e3o deixe de ir,<br \/>\nhein?&#8230;Meio-dia em ponto! Adeus! Desculpe! Coqueiro saiu, mastigando agradecimentos.<br \/>\nEstava agora mais tranq\u00fcilo; &#8211; a fama do Dr. Teles de Moura enchia-o de esperan\u00e7as<br \/>\nradiosas. &#8220;Sua causa n\u00e3o podia cair em melhores m\u00e3os!&#8221;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>E a verdade \u00e9 que ele, industriado pela raposa velha, obteve um mandado de<br \/>\nnotifica\u00e7\u00e3o, obrigando Am\u00e2ncio a comparecer na pol\u00edcia, imediatamente, para<br \/>\ninvestiga\u00e7\u00f5es policiais, e peitou o oficial de justi\u00e7a e arranjou dois secretas<br \/>\ne, afinal, o amante da irm\u00e3 foi conduzido \u00e0 presen\u00e7a do delegado de semana<br \/>\ne da\u00ed levado \u00e0 deten\u00e7\u00e3o, donde s\u00f3 sairia para responder ao primeiro interrogat\u00f3rio..<br \/>\nO advogado requereu corpo de delito na ofendida e, para a seguinte audi\u00eancia,<br \/>\no comparecimento dos outros dois inquilinos que, por ocasi\u00e3o do crime, moravam<br \/>\nna casa de pens\u00e3o, &#8211; O Dr. Tavares e o guarda-livros. No inqu\u00e9rito, duas testemunhas<br \/>\nfizeram-se ouvir contra Am\u00e2ncio; um taverneiro das Laranjeiras &#8211; bicho gordo,<br \/>\ncabeludo, a pele cor de telha e dono de uma venda que encostava os fundos<br \/>\ncom os da casa de Am\u00e9lia, e um alferesinho de pol\u00edcia, noutro tempo vizinho<br \/>\ndo queixoso em Santa Teresa e agora morador do casar\u00e3o da Rua do Resende,<br \/>\n&#8211; Homenzinho magro, pobre de sangue, olhos fundos e a boca devastada por uma<br \/>\nanodontia horrorosa. Am\u00e2ncio , que ainda n\u00e3o conhecia de perto o que vinhas<br \/>\na ser &#8220;um processo&#8221; e estava longe de imaginar as tricas e os ardis de que<br \/>\ncostumam lan\u00e7ar m\u00e3o os litigantes para defender ou acusar um pobre &#8211; diabo<br \/>\nque a justi\u00e7a lhe atira \u00e0s unhas, ficou pasmo, quando, na ocasi\u00e3o de assinar<br \/>\nos atos e termos, leu a mat\u00e9ria do fato criminoso que lhe arg\u00fc\u00edam. O alferes<br \/>\ndeclarou em subst\u00e2ncia que: &#8220;na noite de 16 de julho do ano tal, pela uma<br \/>\nhora da madrugada, estando em Santa Teresa, no s\u00f3t\u00e3o que ent\u00e3o ocupava, (<br \/>\no qual era m\u00edstico ao s\u00f3t\u00e3o de uma outra casa onde, viera a saber mais tarde,<br \/>\nresidira Am\u00e2ncio ) , ouviu da\u00ed partirem gemidos angustiados e uma voz fraca,<br \/>\nde mulher, a dizer: Solte-me! Solte-me! N\u00e3o me force! E que tomado de curiosidade,<br \/>\ntrepara-se ao muro do quintal e pusera-se a<\/p>\n<p>espreitar para a casa do vizinho, e, ent\u00e3o, percebera distintamente que um<br \/>\nhomem violentava uma rapariga; e que depois cessaram as vozes e s\u00f3 se ouviram<br \/>\nsuspiros e solu\u00e7os abafados&#8221;. O taverneiro depunha que: &#8220;naquela mesma noite,<br \/>\nestando casualmente de passeio em Santa Teresa, ouvira, ao passar pela casa<br \/>\nonde ent\u00e3o residia Jo\u00e3o Coqueiro com a fam\u00edlia, uma alterca\u00e7\u00e3o de duas vozes,<br \/>\nna qual se destacava uma de mulher que chorava, implorando piedade e suplicando,<br \/>\npor amor de Deus, que a n\u00e3o desonrassem&#8221; . E tudo isso estava perfeitamente<br \/>\nde acordo com que j\u00e1 havia declarado o Coqueiro. Dissera este que: &#8220;nessa<br \/>\nmesma noite se recolhera \u00e0s tr\u00eas horas da madrugada, pois estivera at\u00e9 ent\u00e3o<br \/>\nem Botafogo, na companhia de seu colega Firmino de Azevedo, e que, ao entrar<br \/>\nem casa, ouvira leves gemidos no quarto da irm\u00e3 e, chamando por esta da varanda<br \/>\ne perguntando-lhe o que tinha, ela respondera que &#8211; n\u00e3o era nada, apenas havia<br \/>\nacordado \u00e0s voltas com um pesadelo; mas que ele, Coqueiro, apesar dessa explica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nficou muito sobressaltado e ainda mais, quando, depois de acordar a esposa,<br \/>\nque dormia profundamente, e perguntar-lhe se houvera em casa alguma novidade<br \/>\ndurante a sua aus\u00eancia, lhe ouvira dizer que &#8211; at\u00e9 \u00e0s nove horas da noite<br \/>\npodia afian\u00e7ar que nada acontecera, mas que, da\u00ed em diante, n\u00e3o sabia, visto<br \/>\nque, sentindo-se \u00e0quela hora muito incomodada, se havia recolhido ao quarto<br \/>\ncom seu filho C\u00e9sar e, como usava \u00e1gua de flor de laranja para os padecimentos<br \/>\nnervosos, supunha ter essa noite medido mal a dose e tomado demais o rem\u00e9dio,<br \/>\nem virtude do estranho e profundo sono que se apoderou dela at\u00e9 o momento<br \/>\nem que o marido a chamara. &#8211; Por conseguinte, das nove horas da noite \u00e0s tr\u00eas<br \/>\nda madrugada, Am\u00e2ncio e Am\u00e9lia haviam ficado em plena liberdade&#8221;. E mais:<br \/>\n&#8220;que , no dia seguinte \u00e0quela noite fatal, Am\u00e9lia n\u00e3o quis sair do quarto<br \/>\ne que ele, indo ter com a irm\u00e3 e perguntando-lhe se sofria de alguma coisa<br \/>\ne se precisava de m\u00e9dico, notou-lhe certa perturba\u00e7\u00e3o, certo constrangimento<br \/>\ne um grande embara\u00e7o na resposta negativa que deu; e que ela, todas as vezes<br \/>\nque era interrogada, fugia com o rosto para o lado contr\u00e1rio e abaixava os<br \/>\nolhos, como tolhida de vergonha; e que, examinando-a melhor, lhe descobrira<br \/>\nsinais roxos nos l\u00e1bios, nas faces, e pequenas escoria\u00e7\u00f5es no pesco\u00e7o, nas<br \/>\nm\u00e3os e nos bra\u00e7os; e que , ent\u00e3o fulminado por uma suspeita terr\u00edvel, exigiu<br \/>\nenergicamente a revela\u00e7\u00e3o de tudo que ase passara na v\u00e9spera durante a sua<br \/>\naus\u00eancia, e que ela, empalidecendo, abrira a chorar e, s\u00f3 depois de muito<br \/>\nresistir, confessou que fora violentada por Am\u00e2ncio , mas que este prometera,<br \/>\nsob palavra de honra, em breve reparar com o casamento a falta cometida&#8221;.<br \/>\nMme. Brizard confirmou o que disse o marido a seu respeito. Am\u00e2ncio, por\u00e9m,<br \/>\nlogo que foi novamente interrogado, negou: 1.\u00ba &#8211; Que conhecesse as duas testemunhas<br \/>\ndeponentes contra ele;2.\u00ba &#8211; Que em tempo algum houvesse sucedido o que elas<br \/>\nafirmavam; 3.\u00ba &#8211; Que tivesse empregado viol\u00eancia contra Am\u00e9lia; 4.\u00ba &#8211; _Que<br \/>\nfizesse promessa de casamento a quem quer que fosse e debaixo de quaisquer<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es. E confirmou: 1.\u00ba_Que em a noite, n\u00e3o de 16, mas de 2o de julho<br \/>\ndaquele ano, estabelecera rela\u00e7\u00f5es carnais com a queixosa; 2.\u00ba &#8211; Que nessa<br \/>\nnoite, permanecendo de p\u00e9 o conchavo de uma entrevista combinada entre eles,<br \/>\nAm\u00e9lia, logo que a casa se achou de todo recolhida, apresentara-se-lhe no<br \/>\nquarto e a\u00ed ficara at\u00e9 \u00e0s cinco horas da manh\u00e3, sem mostrar durante esse tempo<br \/>\no menor ind\u00edcio de contrariedade, e parecendo, ali\u00e1s, muito satisfeita e feliz<br \/>\ncom o que se dera, como se alcan\u00e7ara a realiza\u00e7\u00e3o do seu melhor desejo; 3.\u00ba-<br \/>\nQue de tudo isso nada absolutamente terias sucedido, se Am\u00e9lia n\u00e3o o perseguisse<br \/>\ncom os seus repetidos protestos amorosos, com as suas provoca\u00e7\u00f5es de todo<br \/>\no instante, chegando um dia a surpreend\u00ea-lo \u00e0 banca do trabalho com uma aluvi\u00e3o<br \/>\nde beijos! Que n\u00e3o teria sucedido, se todos os de casa, todos!- o irm\u00e3o, a<br \/>\ncunhada, ela, o C\u00e9sar, os f\u00e2mulos, n\u00e3o concorressem direta ou indiretamente<br \/>\npara aquilo, armando situa\u00e7\u00f5es, preparando conjunturas arriscadas para ambos,<br \/>\nexplanando ocasi\u00f5es escorregadias, nas quais fora inevit\u00e1vel uma queda! E<br \/>\nAm\u00e2ncio acrescentou, arrebatado pela correnteza de suas palavras: &#8211; Nada disso<br \/>\nteria acontecido, senhor Juiz, se me n\u00e3o desafiassem, se me n\u00e3o sobressaltassem<br \/>\nos instintos, atirando-a a todo momento contra mim; se nos n\u00e3o empurrassem<br \/>\num para o outro, com insist\u00eancia, com tenacidade, deixando-nos a s\u00f3s horas<br \/>\ne horas consecutivas, fazendo-a enfermeira ao lado de minha cama; pespegando-a<br \/>\ntodos os dias, todas as noites, diante de meus olhos, ao alcance de minhas<br \/>\nm\u00e3os, &#8211; enfeitada, perfumada, preparada, como uma armadilha, com uma tenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nviva e constante! O delegado observou discretamente que Am\u00e2ncio se excedia<br \/>\nnas suas declara\u00e7\u00f5es; mas o audit\u00f3rio, na maior parte formado de estudantes,<br \/>\nprotestava, atra\u00eddo por aquela setentrional verbosidade que enchia toda a<br \/>\nsala. Rebentavam j\u00e1 daqui e dali, algumas exclama\u00e7\u00f5es de aplauso. E a voz<br \/>\ndo nortista, ir\u00f4nica e crespa no seu sotaque provinciano, ainda se fez ouvir<br \/>\npor alguns instantes, em meio do quente rumor que se alevantava. &#8211; Ah! Por<br \/>\nDeus! Por Deus, que bem longe estava ele de imaginar um fim t\u00e3o dram\u00e1tico<br \/>\n\u00e0quela com\u00e9dia! Bem longe estava de imaginar que, depois de o escodearem por<br \/>\ntantas maneiras; j\u00e1 o fazendo chefe de uma fam\u00edlia que n\u00e3o era a sua; j\u00e1 lhe<br \/>\nexigindo a compra de uma casa, exigindo vestidos, j\u00f3ias, carros, dinheiro<br \/>\npara despesas<\/p>\n<p>di\u00e1rias, dinheiro para a botica, dinheiro para o a\u00e7ougue, para o m\u00e9dico,<br \/>\npara tudo! &#8211; ainda se lembrassem de extorquir-lhe a coisa \u00fanica que at\u00e9 a\u00ed<br \/>\nn\u00e3o haviam cobi\u00e7ado &#8211; seu nome! &#8211; o nome que herdara de seus pais! &#8211; Bravo!<br \/>\nBravo! Muito bem! E a matinadas dos estudantes rebentou com entusiasmo, sufocando<br \/>\nos novos protestos que apareciam. O delegado reclamava sil\u00eancio, e Am\u00e2ncio,<br \/>\nmuito p\u00e1lido, a resta luzente de suor, tinha os bra\u00e7os cruzados, a cabe\u00e7a<br \/>\nbaixa, numa atitude dram\u00e1tica de altiva resigna\u00e7\u00e3o. Findo o inqu\u00e9rito e dada<br \/>\na queixa, o sum\u00e1rio caminhou sem mais incidente. Todavia, o provinciano, sempre<br \/>\nque era interrogado, deixava-se arrebatar como da primeira vez. As testemunhas,<br \/>\ncom mais ou menos tergiversa\u00e7\u00e3o, reproduziam as suas patranhas; concederam-se<br \/>\nos dias da lei ao indiciado, para que juntasse a sua defesa escrita e os seus<br \/>\ndocumentos; e, afinal, subiram os autos \u00e0 Rela\u00e7\u00e3o, onde foi sustentada a pron\u00fancia,<br \/>\ne o processo esperou que designassem a sess\u00e3o em que Am\u00e2ncio teria de entrar<br \/>\nem julgamento.<\/p>\n<h3>XX<\/h3>\n<p>O acidente de Am\u00e2ncio causou enorme impress\u00e3o nos seus conhecidos. Campos,<br \/>\nao receber a not\u00edcia, ficou fulminado e atirou-se no mesmo instante para a<br \/>\ncasa de corre\u00e7\u00e3o, sem mais se lembrar de que nesse dia estava cheio de servi\u00e7o<br \/>\nat\u00e9 os olhos. Seu primeiro \u00edmpeto foi de repreender severamente o culpado,<br \/>\nverberar-lhe com energia a &#8220;a\u00e7\u00e3o indigna&#8221; que acabava de praticar; mas pouco<br \/>\ndepois, veio-lhe uma grande comisera\u00e7\u00e3o. &#8220;Porque , enfim, coitado, o pobre<br \/>\nmo\u00e7o era ainda uma crian\u00e7a&#8230;naturalmente fraco&#8230;e da\u00ed&#8230;Quem sabia l\u00e1 o<br \/>\nque teriam feito para o precipitar naquele crime?&#8230; &#8220;Sem saber por que, afigurava-se-lhe<br \/>\nque o papel de v\u00edtima cabia mais a Am\u00e2ncio do que ao Coqueiro. Este surgia-lhe<br \/>\nagora \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, como um Satan\u00e1s de m\u00e1gica que deixou fugir de repente,<br \/>\npelo al\u00e7ap\u00e3o do teatro, a sua t\u00fanica de bom velho peregrino. Seria at\u00e9 capaz<br \/>\nde jurar que, a despeito do disfarce, j\u00e1 de muito lhe havia bispado a sali\u00eancia<br \/>\ndos cornos diab\u00f3licos por debaixo do religioso capuz. E pequeninos fastos,<br \/>\nque at\u00e9 a\u00ed jaziam dispersos e abandonados no seu esp\u00edrito , vinham, acordando<br \/>\nde repente, justificar semelhante transforma\u00e7\u00e3o. &#8211; Sim! J\u00e1 em certa \u00e9poca<br \/>\ndescobrira no Coqueiro tais e tais sintomas de hipocrisia; ouvira-lhe tais<br \/>\ne tais frase que o fizeram desconfiar de seu car\u00e1ter!&#8230; n\u00e3o tina que ver!<br \/>\n&#8211; J\u00e1 l\u00e1 estavam as tais pontas diab\u00f3licas a espetar o capuz! E arrependia-se<br \/>\nde n\u00e3o haver em tempo desviado o pobre Am\u00e2ncio daquele perigo: &#8211; Andara mal!<br \/>\nDevia preveni-lo!&#8230;devia ter dado qualquer provid\u00eancia a esse respeito!&#8230;<br \/>\nE voltando-se contra si: &#8211; Mas, onde diabo tinha eu esta cabe\u00e7a, para n\u00e3o<br \/>\nver logo que um homem, &#8211; que se casa especulativamente com uma velha do feitio<br \/>\nde Mme. Brizard; um homem que consentir \u00e0 irm\u00e3 receber presentes e mais presentes<br \/>\nde um estranho; um homem que especula com tudo e com todos, um maroto! &#8211; N\u00e3o<br \/>\nse mostraria t\u00e3o agarrado ao rapaz, sen\u00e3o com o prop\u00f3sito firme de lhe pregar<br \/>\nalguma?!&#8230;Oh! andei mal! Andei mal, como um peda\u00e7o de asno!&#8230; E apressou-se<br \/>\na socorrer a &#8216;Pobre v\u00edtima&#8221; &#8211; Ainda se houvesse a hip\u00f3tese de uma fian\u00e7a&#8230;reconsiderava<br \/>\nele, j\u00e1 em caminho das deten\u00e7\u00e3o. &#8211; Mas qual! O Dr. Tavares, que lhe levara<br \/>\nao escrit\u00f3rio a not\u00edcia do esc\u00e2ndalo, dissera-lhe que &#8220;&#8221;o crime era inafian\u00e7\u00e1vel<br \/>\ne que por conseguinte n\u00e3o se podia evitar a pris\u00e3o!&#8221; Infeliz mo\u00e7o! Infeliz<br \/>\nmo\u00e7o! Resmungava o Campos , quase chorando. &#8211; Antes nunca ele viesse ao Rio<br \/>\nde janeiro! &#8211; Que dem\u00f4nio hei de eu agora escrever \u00e0 fam\u00edlia?&#8230;E a pobre<br \/>\nD.\u00c2ngela?! Coitada, como ficar\u00e1, quando, em vez do filho, receber a not\u00edcia<br \/>\nde tanta desgra\u00e7a?!&#8230;Valha-me Deus! E foi nesse estado que o Campos chegou<br \/>\n\u00e0 Rua do Conde. Hort\u00eansia n\u00e3o ficou menos impressionada; ao saber do caso<br \/>\nempalideceu extraordinariamente e come\u00e7ou a tremer toda. Desde ent\u00e3o se tornou<br \/>\napreensiva e nervosa de um modo lastim\u00e1vel; tinha pesadelos, ataques de choro,<br \/>\namea\u00e7as de febre e um fastio enorme. Carlotinha, que se achava nessa ocasi\u00e3o<br \/>\nde passeio em casa das Fonsecas de Catumbi, foi logo reclamada a lhe fazer<br \/>\ncompanhia. Em casa do negociante quase que se n\u00e3o falava de outra coisa que<br \/>\nn\u00e3o fosse o processo de Am\u00e2ncio; pareciam todos empenhados com o mesmo ardor<br \/>\nna sorte do &#8220;pobre rapaz&#8221; Os caixeiros murmuravam pelos cantos<\/p>\n<p>do armaz\u00e9m e os criados, sempre desejosos de merecer a aten\u00e7\u00e3o dos amos,<br \/>\ntraziam da rua os cometr\u00e1rios que ouviam ou que inventavam sobre o fato. E<br \/>\no esc\u00e2ndalo, como um l\u00edquido derramado, ia escorrendo pelas ruas, pelos becos,<br \/>\npenetrando por aqui e por ali, invadindo as reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, os escrit\u00f3rios<br \/>\ncomerciais, as reda\u00e7\u00f5es das folhas e as casa particulares. Os jornais come\u00e7avam<br \/>\na explor\u00e1-lo. Na Academia de Medicina e na Escola Polit\u00e9cnica levantavam-se<br \/>\npartidos. Jo\u00e3o Coqueiro bem poucos colegas tinha se seu lado; nem s\u00f3 porque<br \/>\nlhe cabia na quest\u00e3o o papel , sempre mais antip\u00e1tico, de agressor, com em<br \/>\nvirtude de seu g\u00eanio insoci\u00e1vel e seco. Antigos ressentimentos, que pareciam<br \/>\nesquecidos, ressurgiam agora, aproveitando a ocasi\u00e3o para tirar vingan\u00e7as;<br \/>\nda\u00ed,- opini\u00f5es mal &#8211; intencionadas; coment\u00e1rios atrevidos sobre a conduta<br \/>\nde Am\u00e9lia, sobre o car\u00e1ter mercantil de Mme. Brizard, sobre as velhas brejeirices<br \/>\nda Ruas do Resende. Uns se contentavam em fazer conjeturas, outros, por\u00e9m,<br \/>\ntiravam conclus\u00f5es, e alguns iam ainda mais longe, contando fatos: &#8220;Em tal<br \/>\nbaile do Mozart&#8221;, dizia um quartanista de medicina, &#8220;estivera com a irm\u00e3 do<br \/>\nCoqueiro, dan\u00e7ara com ela duas valsas e desde ent\u00e3o ficara sabendo de quer<br \/>\nfor\u00e7a era a tal bichinha!&#8230;&#8221;E seguiam-se pormenores degradantes e revela\u00e7\u00f5es<br \/>\ndescaradas. Este, sustentava que o Jo\u00e3o Coqueiro sabia perfeitamente de tudo<br \/>\nque lhe ia por casa e que era at\u00e9 o primeiro a mercadejar com a irm\u00e3, como<br \/>\nseria capaz de fazer com a pr\u00f3pria mulher, se houvesse um homem de bastante<br \/>\ncoragem para afrontar aquele drag\u00e3o! Estouro, afirmava que lhe n\u00e3o se lamberia<br \/>\ncom a prote\u00e7\u00e3o do carola Teles de Moura, se n\u00e3o foram as legend\u00e1ria rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nde Mme. Brizard com o falecido c\u00f4nego Muniz, ex &#8211; redator de um jornal cat\u00f3lico.<br \/>\nE choviam as insimula\u00e7\u00f5es, as den\u00fancias &#8220;Coqueiro era um hip\u00f3crita, um jesu\u00edta!<br \/>\n&#8211; Fingia-se muito devoto na escola para agradar ao professor fulano; defendia<br \/>\na escravid\u00e3o e a monarquia para lisonjear Beltrano; &#8211; Se entrava numa p\u00e2ndega<br \/>\ncom os companheiros, no outro dia punha-se a dizer que s\u00f3 ele n\u00e3o se embebedara<br \/>\ne n\u00e3o fizera papel triste! _ se lhe tocavam mulheres, o velhaco abaixava os<br \/>\nolhos e ficava todo estomagado, e debaixo da capa de santarr\u00e3o, ia fazendo<br \/>\ndas suas! &#8211; Era um c\u00e3o! Um tartufo! Toda essa m\u00e1 vontade contra o Jo\u00e3o o coqueiro<br \/>\nredundava em benef\u00edcio de Am\u00e2ncio, por quem alguns estudantes pareciam sentir<br \/>\nverdadeiro entusiasmo. Na faculdade de Medicina n\u00e3o se encontrava um s\u00e9 rapaz<br \/>\nem favor daquele; ao passo que este tinha por si quase toda a Polit\u00e9cnica.<br \/>\nNas duas escolas falava-se muito em &#8220;explora\u00e7\u00e3o, em roubo, em piratagem&#8221;.A<br \/>\ncifra dos bens de Am\u00e2ncio, \u00e0 medida que passava de boca em boca, ia tomando<br \/>\npropor\u00e7\u00f5es fabulosas, faziam-na de mil, quatro mil, dez mil contos de r\u00e9is.<br \/>\nO Paiva era agora requestado pelos colegas, como um boletim sanit\u00e1rio que<br \/>\ntraz os \u00faltimos telegramas da guerra. Por saberem de sua intimidade com o<br \/>\nr\u00e9u e das visitas cotidianas que ele fazia \u00e0 casa de corre\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o largavam<br \/>\num s\u00f3 instante; cercavam-no, cobriam-no de perguntas &#8220;Como estava Am\u00e2ncio,<br \/>\nse triste, abatido, desesperan\u00e7ado, ou se alegre, indiferente, risonho?!&#8230;E<br \/>\na tal Amelinha dos camar\u00f5es?&#8230;que fazia\/ como se portava no neg\u00f3cio? &#8211; ia<br \/>\nvisitar o amante? Escrevia-lhe? aparecia a algum! Comprazia-se com desdita<br \/>\ndo preso ou era solid\u00e1ria nos sofrimentos dele?&#8221; Paiva respondia para todos<br \/>\nos lados, n\u00e3o tina m\u00e3os a medir; os esp\u00edrito s, por\u00e9m, longe de se acalmarem<br \/>\ncom isso, mais se sofregavam e acendiam. A impaci\u00eancia tomava o lugar da curiosidade;<br \/>\num sobressalto febril, de jogo, preava o cora\u00e7\u00e3o dos estudantes; os \u00e2nimos<br \/>\npalpitavam na expectativa de um, desfecho escandaloso. Previam-se, com arrepios<br \/>\nde gozo antecipado, o impudico espet\u00e1culo dos depoimentos , as brutais declara\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos m\u00e9dicos e todo o cortejo descomposto de um, j\u00fari de desfloramento. O artigo<br \/>\n222 do C\u00f3digo Criminal l\u00e1 estava pairando nos ares, c\u00ednico e espetaculoso<br \/>\ncomo o flammeum de Nero no banquete de Tigelino.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O Campos, entretanto, n\u00e3o podia descansar com a id\u00e9ia daquela desgra\u00e7a. Abandonava<br \/>\ntudo, esquecia os pr\u00f3prios interesses para correr \u00e0s bancas dos advogados,<br \/>\nconsultando, propondo defesas; mais tonto, mais aflito do que se tratasse<br \/>\nde salvar um filho. A situa\u00e7\u00e3o relacionara com o Dr. Tavares. O qual, um pouco<br \/>\nem repres\u00e1lia ao Coqueiro por hav\u00ea-lo despedido de casa, sem as explica\u00e7\u00f5es<br \/>\ndevidas ao seu alto merecimento, e um, pouco talvez na esperan\u00e7a de lucros<br \/>\npecuni\u00e1rios, mostrava-se ferozmente empenhado na quest\u00e3o. Nunca esteve t\u00e3o<br \/>\nverboso, t\u00e3o cheio de entusiasmo e t\u00e3o fecundo em cita\u00e7\u00f5es latinas. Viam-no,<br \/>\na cada passo, em todos os grupos da Rua do Ouvidor, berrando., gesticulando<br \/>\nsobre o assunto, como se tudo aquilo lhe trocasse diretamente. &#8211; \u00c9 incontest\u00e1vel,<br \/>\nexclamava ele a quem lhe ca\u00eda nas garras, &#8211; \u00e9 incontest\u00e1vel que Am\u00e2ncio foi<br \/>\nv\u00edtima de uma arbitrariedade esse delegado das d\u00fazias que, sem mais nem menos,<br \/>\no mandou recolher \u00e0 pris\u00e3o, &#8211; prevaricopui! Prevaricou, principalmente porque<br \/>\nAm\u00e2ncio nada mais fez do que desflorar mulher virgem maior de<\/p>\n<p>dezessete anos, o que, perante a nossa lei, n\u00e3o constitui crime! Por cons3efguinte,<br \/>\na pris\u00e3o preventiva n\u00e3o devia ser efetuada! E a sua voz, aguda e sistem\u00e1tica,<br \/>\nrepetindo a palavra friamente obscena da lei, causavas no audit\u00f3rio o efeito<br \/>\nvexativo que nos produz um cad\u00e1ver nu. Hort\u00eansia j\u00e1 se escondia no quarto,<br \/>\nquando o ma\u00e7ante se lhe pespegava em casa. &#8211; Ah! Ele havia de mostrar a esses<br \/>\nadvogadozinhos de meia- tigela, os quais, mal surge um processo andam se oferecendo<br \/>\ncomo protetores de qualquer uma das partes e comprometendo a causa!- Ele havia<br \/>\nde mostrar o que \u00e9 dignidade e retid\u00e3o na justi\u00e7a! E, se n\u00e3o tivesse outro<br \/>\nmeio, escreveria uma s\u00e9rie de artigos, que os poria a todos na rua da amargura!<br \/>\nCampos havia de ver! E, chegando-se para este, em atitude misteriosa: &#8211; Mas<br \/>\no senho, justamente, \u00e9 que me podia ajudar se quisesse!&#8230; &#8211; Ajud\u00e1-lo? &#8211; Sim!<br \/>\nN\u00f3s dois, brincando, d\u00e1vamos cabo da panelinha do Coqueiro! Que julga? Sei<br \/>\nde tudo! Vi &#8211; com estes olhos! Sei, melhor que ningu\u00e9m, como se arrumou a<br \/>\ncilada ao pobre mo\u00e7o! Campos declarou que , em benef\u00edcio de Am\u00e2ncio, estava<br \/>\npronto a fazer o que fosse preciso. &#8211; Encarrega-se da publica\u00e7\u00e3o dos artigos?!<br \/>\nExclamou o advogado. &#8211; Pago-os at\u00e9 quem os fizer&#8230;disse o Campos &#8211; contanto<br \/>\nque isso aproveitar ao rapaz! Todo o meu desejo \u00e9 livr\u00e1-lo o mais depressa<br \/>\nposs\u00edvel! \u00c9 uma quest\u00e3o de consci\u00eancia! &#8211; Pois ent\u00e3o, meu caro amigo, pode<br \/>\nescrever que, ou o seu protegido n\u00e3o sofrer\u00e1 menor desgosto ou leva o diabo<br \/>\na caranguejola desta justi\u00e7a de borra! Sou eu quem o afirma! amanh\u00e3 mesmo<br \/>\ntrago-lhe o primeiro artigo! Ver\u00e1! &#8211; Est\u00e1 dito! Mas , nesse mesmo dia, quando<br \/>\no Campos se dispunha a sair de casa, para se entender com o Saldanha Marinho,<br \/>\nque parecia resolvido a tomar a causa de Am\u00e2ncio, entregaram-lhe uma carta.<br \/>\nEra o Coqueiro e dizia simplesmente: &#8220;Para que V. S. \u00aa n\u00e3o continue iludido<br \/>\ne n\u00e3o se sacrifique por quem n\u00e3o lhe merece mais do que o desprezo, junto<br \/>\nremeto-lhe um documento que nos torna quase companheiros de infort\u00fanio e que<br \/>\nlhe dar\u00e1 uma id\u00e9ia justa do car\u00e1ter desse mo\u00e7o perverso, cuja inten\u00e7\u00e3o aso<br \/>\nlado de sua fam\u00edlia era desonr\u00e1-la como desonrou a minha!&#8221; O negociante desdobrou,<br \/>\na tremer, o papel que vinha incluso, e leu aquela c\u00e9lebre carta subtra\u00edda<br \/>\npor Am\u00e9lia, alguns tempos antes. N\u00e3o quis logo acreditar no que via escrito.<br \/>\nUma nuvem passara-lhe diante dos olhos. &#8220;Mas n\u00e3o havia d\u00favida! Era a letra<br \/>\nde Am\u00e2ncio , era a letra daquele miser\u00e1vel, por quem ele ultimamente passara<br \/>\ndias t\u00e3o penoso! &#8211; Que ingratid\u00e3o! E o Campos que o tinha na conta de um rapaz<br \/>\nhonesto!&#8230;Como vivera iludido!&#8230;Agora, dava toda a raz\u00e3o ao Coqueiro! Calculava<br \/>\nj\u00e1 o que n\u00e3o teria feito o biltre na casa de pens\u00e3o! As tais pontas de Mefist\u00f3feles<br \/>\niam desaparecendo da cabe\u00e7a do irm\u00e3o de Am\u00e9lia para se revelarem na cabe\u00e7a<br \/>\nde Am\u00e2ncio. &#8211; E Hort\u00eansia?! Gritou-lhe de surpresa o cora\u00e7\u00e3o. &#8211; Ah! por esse<br \/>\nlado estava tranq\u00fcilo!&#8230;Por ela meteria a m\u00e3o no fogo! &#8211; Demais, o teor da<br \/>\ncarta bem claro mostrava que o infame n\u00e3o conseguira seus l\u00fabricos des\u00edgnios!<br \/>\n&#8211; no desespero brutal daquelas palavras via-se indubitavelmente que a &#8220;virtuosa<br \/>\nsenhora&#8221; fechara ouvidos ao malvado! Mas, como se podia conceber tanta perversidade<br \/>\ne tanta hipocrisia em uma criatura de vinte anos?!&#8230;E lembrar-se o Campos<br \/>\nde que, ainda naquela manh\u00e3, nem conseguira almo\u00e7ar direito, de t\u00e3o preocupado<br \/>\nque estava com o destino de semelhante cachorro!&#8230; Agora, nem de longe queria<br \/>\nouvir falar de Am\u00e2ncio ou do que a estie se referisse. As sua boas inten\u00e7\u00f5es<br \/>\nsobre o rapaz fugiram de um s\u00f3 v\u00f4o e o cora\u00e7\u00e3o esvaziou-se-lhe de repente,<br \/>\ncomo um pombal abandonado. Mas ainda l\u00e1 ficou uma id\u00e9ia branda e compassiva<br \/>\nque respeitava ao ingrato; ainda l\u00e1 ficou uma mesquinha pomba esquecida, que<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o tinha for\u00e7as para acompanhar as revoada das companheiras, &#8211; era a comisera\u00e7\u00e3o<br \/>\ninspirada pela m\u00e3e do criminoso. Essa ficou. &#8211; Que desgra\u00e7a da infeliz senhora!<br \/>\nPossuir um filho daquela esp\u00e9cie! E o Campos, com as m\u00e3o cruzadas atr\u00e1s, encaminhou-se<br \/>\nlentamente para o segundo andar, em busca da mulher. N\u00e3o a acusou; n\u00e3o lhe<br \/>\nfez de leve ima pergunta de desconfian\u00e7a; apenas disse, pondo-lhe a carta<br \/>\ndefronte dos olhos: &#8211; Mira-te neste espelho. Hort\u00eansia ficou l\u00edvida.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00ea tu em que eu me metia!&#8230;acrescentou ele. &#8211; Defender aquele miser\u00e1vel!<br \/>\nCalculo quanto n\u00e3o te incomodaste, minha santa! E beijou-a na testa. Ela sacudiu<br \/>\nos ombros numa express\u00e3o de confian\u00e7a na pr\u00f3pria virtude: &#8211; O marido a conhecia<br \/>\nbem, para que pudesse recear uma deslealdade de sua parte! Logo, por\u00e9m, que<br \/>\nlhe escapou da presen\u00e7a, sentiu uma grande vontade de chorar. Correu ao quarto,<br \/>\nfechou-se por dentro, e atirou-se \u00e0 cama, abafando os solu\u00e7os com os travesseiros<br \/>\nque se inundavam.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Era um desespero nervoso, uma estranha m\u00e1goa por alguma coisa que ela n\u00e3o<br \/>\npodia determinar o que fosse, mas que s\u00f3 se abrandava com aquela orgia de<br \/>\nl\u00e1grimas. Sentia gosto em vert\u00ea-las, abundantes, fartas, como se as derramasse<br \/>\nno fogo que a devorava. N\u00e3o obstante, ao receber aquela carta, ainda lhe sobejara<br \/>\ncoragem para responder, sem afrouxar nos seus princ\u00edpios de honestidade; mas,<br \/>\nagora, uma s\u00fabita transforma\u00e7\u00e3o ganhava-lhe os sentidos e parecia chamar-lhe<br \/>\n\u00e0 cabe\u00e7a as ondas quentes de seu sangue revolucionado. &#8211; E quem n\u00e3o se revoltaria,<br \/>\npensava Hort\u00eansia, &#8211; defronte da sorte t\u00e3o contr\u00e1ria do lastim\u00e1vel mo\u00e7o, cujo<br \/>\ngrande crime consistia apenas no muito amor que ela lhe inspirara?&#8230;Ah! Era<br \/>\nisso decerto o que a enchia de afli\u00e7\u00e3o e desalento! &#8211; era a desgra\u00e7a dessa<br \/>\npobre criatura, contra a qual tudo parecia conspirar, como se um g\u00eanio fant\u00e1stico<br \/>\ne mau a perseguisse! Que seria agora do m\u00edsero, sem a prote\u00e7\u00e3o do Campos?&#8230;Que<br \/>\nseria do desgra\u00e7ado, sem esse \u00faltimo companheiro que lhe restava no meio de<br \/>\ntamanhas lutas?&#8230; Violou uma donzela, \u00e9 verdade! Mas deveriam responsabiliz\u00e1-lo<br \/>\npor isso?&#8230;Seria ele o verdadeiro culpado ou simplesmente uma v\u00edtima?&#8230;Falava-se<br \/>\ntanto nos costumes de toda aquela gente do Coqueiro!&#8230;rosnavam com tanta<br \/>\ninsist\u00eancia sobre os planos, os c\u00e1lculos, as armadilhas tramadas ao dinheiro<br \/>\ndo rapaz!&#8230;De que lado estaria a raz\u00e3o?&#8230;E, quando se revoltassem toso contra<br \/>\no infeliz, teria ela, Hort\u00eansia, o direito de fazer o mesmo?&#8230;N\u00e3o lhe caberia<br \/>\ngrande parte na culpa de que o acusavam? N\u00e3o poderias ela, s\u00f3 ela, ter evitado<br \/>\naquilo tudo com um simples palavra de amor?&#8230;Por que , afinal o que lan\u00e7ou<br \/>\nAm\u00e2ncio nos bra\u00e7os da tal rapariga?&#8230;Foi a paix\u00e3o? foi a beleza? Foi o talento?<br \/>\n&#8211; n\u00e3o! foi unicamente o despeito! Foi o del\u00edrio, o desespero de um cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nrepudiado! &#8211; Sim! sim! Tudo aquilo sucedera, porque ela o repelira; porque<br \/>\nela, a imprudente, fechara-lhe os bra\u00e7os, quando o desgra\u00e7ado, louco de paix\u00e3o,<br \/>\nlhe suplicava por um bocado de amor, um pouco de caridade!&#8230; Antes tivesse<br \/>\ncedido!&#8230; E embravecia-lhe o pranto. &#8211; Antes tivesse, porque, se assim fosse,<br \/>\no pobre mo\u00e7o, com certeza, n\u00e3o pensaria na outra! &#8211; Mas o infeliz, coitado!<br \/>\nviu-se aflito, enraivecido, sofrendo , saber Deus o qu\u00ea! E sucumbiu, ora essa!<br \/>\nSucumbiu como aconteceria a qualquer nas mesmas condi\u00e7\u00f5es! Sucumbiu por desalento,<br \/>\ntalvez por vingan\u00e7a, talvez por n\u00e3o ter outro rem\u00e9dio &#8211; N\u00e3o! definitivamente<br \/>\nsentia muita pena daquele desditoso rapaz! Amava-o agora. Seu espirito atrasado<br \/>\ne muito brasileiro descobria nele uma v\u00edtima da fatalidades amorosas, e esse<br \/>\nprisma rom\u00e2ntico emprestava ao estudante uma irresist\u00edvel simpatia de tristeza,<br \/>\numa deliciosa atra\u00e7\u00e3o de desgra\u00e7a. Hort\u00eansia sonhava-o &#8220;p\u00e1lido, melanc\u00f3lico,<br \/>\ndesprezado no fundo de umas pris\u00e3o, tendo por leito &#8211; um catre abomin\u00e1vel,<br \/>\npor \u00fanica luz &#8211; uma tr\u00eamula aresta do sol que se filtrava pelas grades negras<br \/>\ndo c\u00e1rcere&#8221;,. E aquela encantadora figura de prisioneiro, com a cabe\u00e7a languidamente<br \/>\napoiada nas m\u00e3os, os olhos \u00famidos de pranto, os cabelos em desalinho sobre<br \/>\na fronte, &#8211; a penetrava toda, enchia-lhe o cora\u00e7\u00e3o ,num aflitivo trasbordamento<br \/>\nde l\u00e1grimas. &#8211; Oh! Aquela ador\u00e1vel figura de vinte anos sofria tudo aquilo<br \/>\nporque a amava! &#8211; porque uma paix\u00e3o insensata lhe entrara no peito; sofria<br \/>\nporque Hort\u00eansia recusaras os beijos que o desventurado lhe pedira com tanta<br \/>\nansiedade. Pobre mo\u00e7o! Pobres vinte anos! Dizia ela quase com as mesma frases<br \/>\ndo marido. &#8211; Mas por que se haviam de ter visto?&#8230;por que se haviam de amar?&#8230;<br \/>\nE a mulher do Campos, que at\u00e9 a\u00ed n\u00e3o sentira dificuldade em resistir \u00e0s sedu\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo estudante, agora, fascinada pela dramatiza\u00e7\u00e3o daquela cat\u00e1strofe que o<br \/>\nheroificava, via-o belo, indispens\u00e1vel, grande na sua situa\u00e7\u00e3o especial, conhecido<br \/>\ndas mulheres, temido e odiado dos homens, vivendo na curiosidade do p\u00fablico,<br \/>\npercorrendo todas as fantasias, sobressaltando todos os cora\u00e7\u00f5es. E o contraste<br \/>\nda sofredora condi\u00e7\u00e3o em que o vias presentemente com as atitudes brilhantes<br \/>\nque ele outrora estadeara naquela pr\u00f3pria casa, quando, de ta\u00e7a em punho,<br \/>\nespargia a sua bela palavra quente e sonora, prendendo a aten\u00e7\u00e3o de velhos<br \/>\ne mo\u00e7os, dominando, conquistando, &#8211; esse contraste ainda mais a arrebatava<br \/>\npara ele com toda a viol\u00eancia de uma alucina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o mais se possuiu, &#8211; um desgosto mofino apoderou-se dela; ficou insoci\u00e1vel<br \/>\ne muito triste; entregou-se a longas leituras m\u00edsticas, acompanhando com interesse<br \/>\namores infelizes, lentos mart\u00edrios da alma, que s\u00f3 terminavam no esquecimento<br \/>\nda morte ou do claustro. Decorou entre l\u00e1grimas a carta do r\u00e9u. &#8211; Como ele<br \/>\nme amava! Dizia solu\u00e7ando, &#8211; como ele sofrias, quando arrancou do cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nestas palavras , ainda quentes do seu sangue! De sorte que, ao lhe comunicar<br \/>\no marido a resolu\u00e7\u00e3o de escrever a Am\u00e2ncio , remetendo-lhe a terr\u00edvel carta<br \/>\ndenunciador prevenindo-o de que lhe retirava a sua amizade, ela, com uma agonia<br \/>\na sufoc\u00e1-la, resolveu tamb\u00e9m escrever ao mo\u00e7o uma carta que servisse, ao menos,<br \/>\npara suavizar o golpe da outra.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O estudante, no dia seguinte, recebia na pris\u00e3o as duas cartas. N\u00e3o se pode<br \/>\ndeterminar qual delas o surpreendeu mais; notando-se , por\u00e9m, que a do Campos<br \/>\nproduziu completo o efeito a que se propunha; ao passo que a outra, em vez<br \/>\nde o consolar, enraiveceu-o &#8211; Pois aquela mulher ainda n\u00e3o estava satisfeita<br \/>\ne queria insistir nas provoca\u00e7\u00f5es?&#8230;Ela talvez fosse a culpada \u00fanica de tudo<br \/>\nque de mau lhe acontecera! &#8211; As coisas n\u00e3o tomariam decerto o mesmo caminho,<br \/>\nse a maldita n\u00e3o lhe fizesse as nega\u00e7as que fez e n\u00e3o lhe acordasse desejos<br \/>\nque se n\u00e3o podiam saciar! &#8211; E agora?&#8230;al\u00e9m de perder a amizade do Campos,<br \/>\njustamente quando mais precisava dela, havia de suportar a prosa l\u00edrica da<br \/>\nSr.a D. Hort\u00eansia!&#8230;&#8221;Que estava arrependida, que o adorava, que seria capaz<br \/>\nde tudo por lhe dar um momento de ventura e que o esperava de bra\u00e7os abertos,<br \/>\nlogo eu ele se achasse em liberdade.&#8221;<\/p>\n<p>Fosse para o inferno com as suas adora\u00e7\u00f5es! Diabo da pamonha! &#8220;Que o esperava<br \/>\nde bra\u00e7os abertos!&#8221; Era quanto podia ser! Aquilo at\u00e9 lhe cheirava a debique!<br \/>\nAquilo parecia um insulto \u00e0 sua desgarra, \u00e0 sua terr\u00edvel posi\u00e7\u00e3o! E chorava,<br \/>\no infeliz chorava como se quisesse vingar nas l\u00e1grimas. Depois da carta de Hort\u00eansia,<br \/>\na vida se lhe fazia mais escura e mais apertada entre as paredes da sua pris\u00e3o.<br \/>\nQuase que j\u00e1 n\u00e3o podia ag\u00fcentar a presen\u00e7a do Paiva, do Sim\u00f5es e de alguns outros<br \/>\ncolegas que l\u00e1 iam. No meio das sombras, progressivamente acentuadas em torno<br \/>\ndele, s\u00f3 a imagem tranq\u00fcila e doce de sua m\u00e3e permanecia com a mesma consoladora<br \/>\nsuavidade; sempre aquela mesma carinhosa figura de cabelos brancos. Aquele corpo<br \/>\nfraco, vergado e t\u00e3o mesquinho que parecia pequeno demais para sustentar tamanho<br \/>\namor. &#8211; Minha m\u00e3e! Minha santa m\u00e3e! Exclamava o preso, quando seu esp\u00edrito ,<br \/>\nesfalfado pelas desilus\u00f5es, precisava remansear ao abrigo morno e quieto de<br \/>\num bom pensamento. &#8211; Minha santa m\u00e3e!<\/p>\n<h3>XXI<\/h3>\n<p>Tr\u00eas meses depois, a Escola Polit\u00e9cnica e a Escola de Medicina apresentavam<br \/>\no quente aspecto de uma sedi\u00e7\u00e3o. &#8211; Am\u00e2ncio fora absolvido. Os estudantes formigavam<br \/>\nassanhados como se acabassem de ganhar uma vit\u00f3ria. O nome do nortista era<br \/>\nrepetido com transporte; um grupo enorme de rapazes, capitaneado pelo Paiva<br \/>\nRocha e pelo Sim\u00f5es, aguardava o colega \u00e0 sa\u00edda do j\u00fari, para o conduzir em<br \/>\ntriunfo ao Hotel Paris , onde havia \u00e0 sua espera um almo\u00e7o e a banda de m\u00fasicos<br \/>\nalem\u00e3es. Fora muito extenso o \u00faltimo j\u00fari, quarenta horas seguidas; a defesa<br \/>\nde Am\u00e2ncio principiou \u00e0 meia &#8211; noite e acabou \u00e0s seis da manh\u00e3. O advogado,<br \/>\nque &#8220;estava feliz como nunca&#8221;, ainda aproveitou engenhosamente essa circunst\u00e2ncia<br \/>\npara afestoar o remate de seu pomposo discurso ;&#8221;N\u00e3o queria que o rei dos<br \/>\nastros se envergonhasse com aquele nojento espet\u00e1culo de pequenas mis\u00e9rias!<br \/>\nN\u00e3o queria que o sol tivesse de corar defronte de semelhante tolina! Pedia<br \/>\nque se varressem de pronto as consci\u00eancias; que se descarregassem os esp\u00edritos,<br \/>\npara que limpamente recebessem a espl\u00eandida visita da aurora! &#8211; A\u00ed chegava<br \/>\no dia! A\u00ed chegava a luz, enxotando os fantasmas tenebrosos da noite e precipitando-os<br \/>\nem debandada pelo espa\u00e7o!&#8221; &#8221; Pois bem! Pois bem, meus senhores! Se ainda permanece<br \/>\nnos vossos esp\u00edritos alguma sombra, alguma d\u00favida, alguma opini\u00e3o vacilante<br \/>\nsobre a inoc\u00eancia daquele pobre mancebo&#8230;( e mostrava Am\u00e2ncio com um gesto<br \/>\nsupremo) &#8211; que essa d\u00favida se apague! Que essa opini\u00e3o vacilante se resolva<br \/>\nna luz que nos assalta! Que essa \u00faltima sombra se retire espavorida de envolta<br \/>\ncom as \u00faltimas sombras da noite que foge!&#8221; &#8211; Bravo! Bravo! Apoiado! Muito<br \/>\nbem! E, no conflito da luz fresca, que entrava pelas janelas do edif\u00edcio,<br \/>\ncom a luz vermelha do g\u00e1s que amortecia, as palavras retumbantes do orador<br \/>\ntomavam uma express\u00e3o de tr\u00e1gica solenidade. E os rostos l\u00edvidos e tresnoitados<br \/>\niam se esbatendo nas sombras da sala, como p\u00e1lidas manchas brancas que se<br \/>\ndissolvem.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sa\u00edra antes de terminar a defesa; um empenho nervoso os prendia ali;<br \/>\nas palavras do advogado eram aplaudidas com febre; &#8211; todos queriam a absolvi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Am\u00e2ncio. \u00c0s nove horas da manh\u00e3 a cidade parecia ter enlouquecido. Interrompeu-se<br \/>\no trabalho; os empregados p\u00fablicos demoravam-se na rua; os caf\u00e9s enchiam-se<br \/>\ncom a gente que vinhas do j\u00fari. \u00c0 porta das reda\u00e7\u00f5es dos jornais n\u00e3o se podia<br \/>\npassar com o povo que se aglomerava para ler as derradeiras not\u00edcias do processo,<br \/>\npregadas na parede \u00e0 \u00faltima hora. Por toda a parte discutia-se a brilhante<br \/>\ndefesa de Am\u00e2ncio de Vasconcelos: &#8220;Estivera magn\u00edfica! &#8211; Surpreendente! &#8211;<br \/>\nUma verdadeira obra- prima! Uma gl\u00f3ria para o advogado Fulano! &#8220;Repetiam-se<br \/>\nfrases inteiras do imenso discurso; faziam-se compara\u00e7\u00f5es &#8220;Ma\u00eetre Lachaud<br \/>\nn\u00e3o e sairia melhor!&#8221; A Rua dos Ourives estava quase intransit\u00e1vel com a multid\u00e3o<br \/>\nque se precipitava freneticamente para ver sair o absolvido. \u00c1 porta do j\u00fari,<br \/>\no tal grupo de estudantes capitaneado pelo Paiva, esperava-0 formando alas<br \/>\nruidosas. Tudo era impaci\u00eancia e sofreguid\u00e3o. Afinal, apareceu o homem. Vinha<br \/>\nmuito p\u00e1lido e um pouco mais magro. Ouviu-se ent\u00e3o um rugido formid\u00e1vel que<br \/>\nse prolongava por toda a rua. Os chap\u00e9us agitaram-se no ar. &#8211; Viva Am\u00e2ncio<br \/>\nde Vasconcelos! &#8211; Viv\u00f4! repetiram os colegas. &#8211; Morram os locandeiros &#8211; Morram<br \/>\nos piratas! Am\u00e2ncio passava de bra\u00e7o a bra\u00e7o, afagado. Beijado, querido, como<br \/>\numa mulher formosa. Mas o Paiva e Sim\u00f5es apoderaram-se dele, e, seguidos pelo<br \/>\nenorme grupo de estudantes, puseram-se a caminho para o hotel, entre as cont\u00ednuas<br \/>\nexclama\u00e7\u00f5es de entusuasmo, que rompiam de todos os pontos. Entraram na Rua<br \/>\ndo Ouvidor. {Por onde passava o bando alegre dos rapazes, um rumor ardente,<br \/>\nancho de vida, enchia a rua num del\u00edrio de vozes confundidas. As portas das<br \/>\ncasa comerciais atulhavam-se de gente; pelas janelas os dentistas, das costureiras<br \/>\ne dos hot\u00e9is, surgiam com o mesmo alvoro\u00e7o, cabe\u00e7as femininas de todas as<br \/>\ngradua\u00e7\u00f5es: &#8211; senhoras que andavam em compras, raparigas que estavam no trabalho,<br \/>\nprofessoras de piano, atrizes, cocotes; e, em todas igual sorriso de pasmo,<br \/>\nolhares incendiados, bocas entreabertas a balbuciar o nome de Am\u00e2ncio. Bara\u00e7os<br \/>\nde carne branca apontavam para ele num tilintar nervoso de braceletes. &#8211; \u00c9<br \/>\naquele! Diziam. &#8211; Aquele moreno, de cabelo crespo, que ali vai! &#8211; Mam\u00e3e! mam\u00e3e!<br \/>\nGritavam doutro lado, &#8211; venha ver o mo\u00e7o rico que saiu hoje da pris\u00e3o! E flores<br \/>\ndesfolhadas choviam-lhe sobre a cabe\u00e7a, e os len\u00e7os de renda borboleteavam<br \/>\ne iam cair-lhe aos p\u00e9s, como uma provoca\u00e7\u00e3o, e olhares de amor entornavam-se<br \/>\ndas janelas entre o ruidoso e pitoresco catassol das mulheres em grupo. E<br \/>\nAm\u00e2ncio, tonto de prazer, caminhava no meio dos amigos, abra\u00e7ado a um grande<br \/>\nramo de flores naturais, que um preto lhe acabava de entregar e em cuja larga<br \/>\nfita pendente via-se o nome dele em letras de ouro. Era uma lembran\u00e7a de Hort\u00eansia.<br \/>\nE o bando crescia sempre. O Largo de S\u00e3o Francisco j\u00e1 estava cheio e ainda<br \/>\na Rua do Ouvidor n\u00e3o se tinha esvaziado. Ao passar pela Escola Polit\u00e9cnica,<br \/>\nouviram-se estalar foguetes e os vivas a Am\u00e2ncio e \u00e0 Liberdade reproduziram-se<br \/>\ncom mais veem\u00eancia. Os m\u00fasicos alem\u00e3es responderam da porta do hotel com a<br \/>\nMarselhesa. &#8211; A vertigem chegou ent\u00e3o ao seu c\u00famulo, inflamada pela vibra\u00e7\u00e3o<br \/>\ncorajosa dos instrumentos de metal. A Rua do Teatro, o Rocio e todos os becos<br \/>\ne travessas circunvizinhas j\u00e1 se achavam tolhidas de povo; as janelas do Hotel<br \/>\nParis destacavam-se embandeiradas e cheias de gente, como nos dias de carnaval.<br \/>\nE aquela festa, ali, no cora\u00e7\u00e3o da cidade, tomava um largo car\u00e1ter de manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\np\u00fablica. J\u00e1 ningu\u00e9m se entendia com o estardalha\u00e7o das vozes, da m\u00fasica e<br \/>\ndos foguetes. Am\u00e2ncio, carregado em triunfo nos ombros dos colegas, entrou<br \/>\nno hotel ao som do grande hino, chorando de emo\u00e7\u00e3o e agitando freneticamente<br \/>\no seu velho chap\u00e9u de feltro, desabado e bo\u00eamio. Francesas de cabelo amarelo<br \/>\ndesciam com espalhafato ao primeiro andar do Paris , para ver de perto o &#8220;tipo<br \/>\nda ordem do dia&#8221;, o belo mo\u00e7o de que todo o Rio de Janeiro se ocupava naquele<br \/>\nmomento, &#8211; o her\u00f3i daquele romance de amor que havia meses apressava tantos<br \/>\nesp\u00edritos e sobressaltava tantos cora\u00e7\u00f5es. Ele, que at\u00e9 ali parecia sufocado<br \/>\ne n\u00e3o dera palavra, como que despertou \u00e0s primeiras notas da Marselhesa recobrou<br \/>\nde s\u00fabito a sua equatorial verbosidade de brasileiro nortista; acenderam-se-lhe<br \/>\nrepentinamente as faces;<\/p>\n<p>os olhos luziram-lhe como duas j\u00f3ias, e a sua voz era j\u00e1 segura e vibrante<br \/>\nquando ao teto voaram as primeiras rolhas de champanha. E, de p\u00e9, dominando<br \/>\na extensas mesa coberta de iguarias, &#8211; a ta\u00e7a erguida ao alto, o corpo torcido<br \/>\nem uma posi\u00e7\u00e3o teatral, desencadeou o seu verbo apaixonado e brilhante.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Entretanto, a essas horas, Coqueiro se dirigia tristemente para casa. As<br \/>\nm\u00e3o cruzadas atr\u00e1s, a cabe\u00e7a baixa, as sobrancelhas franzidas, com o ar tr\u00e1gico<br \/>\nde um her\u00f3i vencido. Vira e ouvira tudo! Oculto num botequim, vira passar<br \/>\no bando fogoso dos colegas que festejavam o amante de sua irm\u00e3; ouvira os<br \/>\n&#8220;morra ao locandeiro! Ao pirata!&#8221; ouvira as galhofas, os risos de esc\u00e1rnio,<br \/>\nque lhe atiravam como a um inimigo de guerra. E uma raiva negra, um desespero<br \/>\nsurdo e profundo entraram-lhe no corpo, que nem um bando de corvos, para lhe<br \/>\ncomer a carni\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o. Um duro desgosto pela vida o levava a pensar na<br \/>\nmorte, revoltado contar o mundo , contra a sociedade, contra sua fam\u00edlia,<br \/>\ncontra a hora em que nascera. &#8211; Maldito fosse tudo isso! Malditos seus pais!<br \/>\nSua p\u00e1tria! Sua convic\u00e7\u00f5es! Malditas as leis todas que regiam aquela miser\u00e1vel<br \/>\nexist\u00eancia! Chegou l\u00edvido, sombrio, com os l\u00e1bios a tremer na sua como\u00e7\u00e3o<br \/>\nmort\u00edfera. Um silencio f\u00fanebre enchia a casa; dir-se-ia que acabava de sair<br \/>\ndali um enterro. Am\u00e9lia chorava fechada no quarto e Mme. Brizard, estendida<br \/>\nna pregui\u00e7osa, tinha a cabe\u00e7a entre as m\u00e3os e meditava soturnamente. Sobre<br \/>\na mesa o almo\u00e7o h\u00e1 que horas esfriava, esquecido e \u00e0s moscas. \u00c9 que j\u00e1 sabiam<br \/>\ndo terr\u00edvel desfecho do j\u00fari: &#8211; Am\u00e2ncio estava livre, senhor de si por uma<br \/>\nvez! Podendo ir para a prov\u00edncia quando bem quisesse, porque, al\u00e9m de tudo,<br \/>\nnem o dinheiro lhe faltava!&#8230; &#8211; E eles que ali ficassem, a roer um chifre!<br \/>\n&#8211; sem recursos, e obrigados a ocupar aquela casa, que era o pre\u00e7o de sua desonra<br \/>\ncomum. &#8211; Mas , o culpado foste tu e s\u00f3 tu! Berrou de supet\u00e3o Mme. Brizard,<br \/>\nerguendo-se da cadeira com um movimento de c\u00f3lera. &#8211; Se me tivesses ouvido,<br \/>\nn\u00e3o ficarias agora com essa cara de asno. &#8220;Que tudo quer, tudo perde!&#8221; Foi<br \/>\nbem feito! Foi muito bem feito, para que, de hoje em diante, prestes mais<br \/>\naten\u00e7\u00e3o ao que te digo! &#8211; Agora- pega-lhe com trapos quentes! O marido deixou<br \/>\ncair a cabe\u00e7a sobre o peito e quedou-se a fitar o ch\u00e3o. Mme. Brizard, depois<br \/>\nde voltear agitada pela sala acrescentou: &#8211; Se fosses o \u00fanico a sofrer as<br \/>\nconseq\u00fc\u00eancias de tuas cabe\u00e7adas, v\u00e1! Mas \u00e9 que n\u00f3s todos temos de as ag\u00fcentar!<br \/>\nagora s\u00f3 quero ver como te arranjas! Onde vais tu descobrir dinheiro para<br \/>\nsustentar a casa! \u00c9 preciso ser muito cavalo, para ter a fortuna nas m\u00e3os<br \/>\ne atir\u00e1-la pela janela fora! Agora \u00e9 que eu quero ver! Anda! Vai arranjar<br \/>\nh\u00f3spedes! V\u00ea se descobres um novo Am\u00e2ncio! ou quem sabe se contas viver do<br \/>\nque der o corti\u00e7o da Rua do Resende?! Fizeste-a bonita; os outros que amarguem!..<br \/>\nCalou-se por um instante, arquejando, mas repinchou logo: &#8211; Olha! Por estes<br \/>\ntr\u00eas meses j\u00e1 podes avaliar o que n\u00e3o ser\u00e1 o resto! &#8211; N\u00e3o h\u00e1 mais um punhado<br \/>\nde farinha em casa; a companhia j\u00e1 ontem nos cortou o g\u00e1s, porque n\u00e3o lhe<br \/>\npagamos o trimestre vencido; o \u00faltimo criado que nos restava foi-se h\u00e1 mais<br \/>\nde quatro semanas, dizendo a\u00ed o diabo; s\u00f3 nos fresta a mucamas, que \u00e9 aquele<br \/>\nestafermo que sabemos; o Eiras reclama todos os dias o tratamento de Nini!<br \/>\n&#8211; E tu!&#8230;tu! &#8211; sem um emprego, sem um rendimento, sem nada! &#8211; Ent\u00e3o?! ( E<br \/>\np\u00f4s as m\u00e3os nas cadeiras, com um riso abomin\u00e1vel de ironia. ) Ent\u00e3o?! Estamos<br \/>\nou n\u00e3o estamos arranjadinhos?!&#8230;O que te afian\u00e7o \u00e9 que n\u00e3o me sinto nada<br \/>\ndisposta a tornar a inferno da exist\u00eancia que curti na Rua do Resende! V\u00ea<br \/>\nl\u00e1 como te arranjas! Coqueiro fugiu para o quarto, sem responder \u00e0 mulher.<br \/>\n&#8220;Tinha medo de fazer um desprop\u00f3sito.! &#8220;- Que mis\u00e9ria de vida, a sua! Refletia<br \/>\nele. &#8211; Nem ao menos a pr\u00f3pria fam\u00edlia o consolava! Por toda a parte a mesma<br \/>\npersegui\u00e7\u00e3o, o mesmo \u00f3dio, a mesma luta! &#8211; Que seria de si?! Que fim poderia<br \/>\nter tudo aquilo?! Onde iria cavar dinheiro para manter os seus?! &#8211; E as custas<br \/>\ndo processo, e as despesas que fizera?! &#8211; O alferes e o homem da venda exigiam<br \/>\no pagamento do que depuseram contra Am\u00e2ncio, a quem mal conheciam de vista;<br \/>\naquele o amea\u00e7ava com um esc\u00e2ndalo, se Coqueiro n\u00e3o lhe &#8220;cuspisse pr&#8217;ali os<br \/>\ncobres &#8220;;o outro o abocanhava pela vizinhan\u00e7a, fazendo acreditar que o devedor<br \/>\nera, nem s\u00f3 um caloteiro, como um b\u00eabado! E n\u00e3o havia dinheiro para nenhuma<br \/>\ndessas coisas! &#8211; Um inferno! Um verdadeiro inferno! &#8211; Os moradores da Rua<br \/>\ndo Resende h\u00e1 que tempos que n\u00e3o pingavam vint\u00e9m; &#8211; O Dami\u00e3o estava j\u00e1 pelos<br \/>\ncabelos para arriar a carga: &#8220;N\u00e3o podia mais aturar semelhante corja!&#8221; dizia<br \/>\ne contava at\u00e9 que um dos inquilinos lhe tentara chegar a roupa ao p\u00ealo por<br \/>\nquest\u00f5es de alugu\u00e9is.<\/p>\n<p>E o Coqueiro viu arrastar-se todo aquele mau dia na mesma inferneira. \u00c0 noite,<br \/>\nfoi preciso acender velas em substitui\u00e7\u00e3o do g\u00e1s suprimido. Am\u00e9lia n\u00e3o comera<br \/>\ndesde a v\u00e9spera e queixava-se agora de muitas dores de cabe\u00e7a, n\u00e1useas, tonturas<br \/>\nde febre e um fastio mortal; apareciam-lhe por todo o corpo0 pequenas manchas<br \/>\nroxas. Mme. Brizard s\u00f3 abria a boca para fazer novas recrimina\u00e7\u00f5es e praguejar;<br \/>\nna sua c\u00f3lera chegara alguns tabefes ao filho, e este rabujava a um canto,<br \/>\nembesourado e casmurro. &#8211; Antes morresse! Antes, mil vezes antes! Repisava<br \/>\no Coqueiro, sentindo-se esmagar debaixo daquele desmoronamento. &#8211; Que faria<br \/>\nagora de uma irm\u00e3 prostitu\u00edda, e de uma mulher desesperada?!&#8230; E as horas<br \/>\narrastavam-se pesadas como cadeias de ferro. A casa mal esclarecida tinha<br \/>\numa tristeza l\u00fagubre de igreja deserta. Afinal, Mme. Brizard foi para a cama<br \/>\ncom o filho, Am\u00e9lia parecia mais tranq\u00fcila; s\u00f3 o Coqueiro velava, s\u00f3 ele,<br \/>\ncom o seu desespero a tritur\u00e1-lo por dentro. N\u00e3o podia sossegar um minuto<br \/>\n&#8211; era deixar-se ir consumindo pelo sofrimento., at\u00e9 que a dor cansasse de<br \/>\ndoer e os tais bichos negros do cora\u00e7\u00e3o lhe comessem o \u00faltimo bocado de carni\u00e7a.<br \/>\nSentia, por\u00e9m, uma esp\u00e9cie de vol\u00fapia pungente em reler as cartas an\u00f4nimas<br \/>\nque lhe enviaram durante o dia; encolerizava-se com isso, mas n\u00e3o podia deixar<br \/>\nde as ler, como quem n\u00e3o resiste a tocar numa parte dorida do corpo. Tr\u00eas,<br \/>\nnada menos do que tr\u00eas cartas an\u00f4nimas, e cada qual a mais insultuosa e mais<br \/>\nperversa; n\u00e3o lhe poupavam coisa alguma: &#8211; a vergonha real da situa\u00e7\u00e3o, o<br \/>\nrid\u00edculo que havia de o acompanhar para sempre, a ojeriza que o p\u00fablico lhe<br \/>\nvotava espontaneamente; tudo l\u00e1 estava; tudo vinha descrito com uma minuciosidade<br \/>\ncruel, e com pequeninas considera\u00e7\u00f5es ultrajantes, com o terr\u00edvel cuidado<br \/>\nde quem se vinga. E, para o efeito ser mis completo, falavam intencionalmente,<br \/>\ncom entusiasmo, nas conquistas e nas simpatias do outro, do querido, do &#8220;feliz&#8221;!<br \/>\nN\u00e3o se esqueciam da menor circunst\u00e2ncia lisonjeira para Am\u00e2ncio: &#8211; o modo<br \/>\npelo qual o receberam ao sair da pris\u00e3o &#8211; os vivas, &#8211; as flores desfolhadas<br \/>\nsobre ele, &#8211; os oferecimentos, &#8211; as declara\u00e7\u00f5es de amor, &#8211; os ramilhetes que<br \/>\nlhe deram, &#8211; os brindes; tudo, tudo fora metido ali, para ferir, para danar,<br \/>\npara moer. Reconheceu logo quer uma das cartas era de L\u00facia; as outras deviam<br \/>\nser de seus pr\u00f3prios colegas ou, quem sabe?&#8230;de algum velho inimigo j\u00e1 esquecido<br \/>\npor ele!- Tanta gente sa\u00edra despeitada da sua casa de pens\u00e3o!&#8230;Ser credor<br \/>\n\u00e9 ser algoz!&#8230;exigir pagamento de uma conta a quem n\u00e3o tem dinheiro \u00e9 exigir<br \/>\na sua inimizade eterna! Al\u00e9m disso, com os seu modos secos e retra\u00eddos, ele<br \/>\nsempre fora t\u00e3o pouco estimado na academia!&#8230;n\u00e3o tinha, como o &#8220;prosa&#8221; do<br \/>\nAm\u00e2ncio, g\u00eanio para agradar a todo o mundo; n\u00e3o tinha as l\u00e1bias do outro:<br \/>\nn\u00e3o sabia fazer&#8221; discursatas e fala\u00e7\u00f5es&#8221;a prop\u00f3sito de tudo!&#8230;Era um infeliz,<br \/>\nque todos evitavam &#8211; um leproso! um lazeiro! E a dor, sem se resolver nas<br \/>\nl\u00e1grimas que lhe faltavam, encaro\u00e7ava-se-lhe por dentro, numa grande afli\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Agora, como se apresntar nas aulas?!&#8230;Com que cara suportar o riso sarc\u00e1stico<br \/>\ndos colegas?!&#8230;Como resistir \u00e0 curiosidade brutal do p\u00fablico que o esperava<br \/>\nimpaciente por cuspir-lhe no rosto?!&#8230;Como passar debaixo daquelas mesmas<br \/>\njanelas que despejaram flores \u00e0 cabe\u00e7a de Am\u00e2ncio?!&#8230;- Am\u00e2ncio! o homem que<br \/>\ndormiu com sua irm\u00e3!&#8230; E, maquinalmente foi \u00e0 secret\u00e1ria e tirou o velho<br \/>\nrev\u00f3lver que fora do pai. Que estranhas recorda\u00e7\u00f5es \u00e0 vista daquela arma!<br \/>\nDaquela arma que na sua inf\u00e2ncia o fizera chorar tantas e tantas vezes!&#8230;Belos<br \/>\ntempos que n\u00e3o voltam!&#8230; E contemplava distra\u00eddo os bonitos do rev\u00f3lver &#8211;<br \/>\nos arabescos de prata e madrep\u00e9rolas com o bras\u00e3o do velho Louren\u00e7o Coqueiro<br \/>\nem ouro. Rica pe\u00e7a! Art\u00edstica, bem trabalhada; n\u00e3o se lhe enxergava sinal<br \/>\nde ferrugem, nem desarranjo nas molas. &#8211; Tamb\u00e9m, que havia nisso para admirar<br \/>\nse o dono tinha por ela uma esp\u00e9cie de fetichismo e andava sempre a bruni-la<br \/>\ne a azeit\u00e1-la! Q Era o \u00fanico objeto que lhe falava ainda das extintas grandezas<br \/>\ndo pai: Quantas vezes ele n\u00e3o ouvira o pobre velho cavaquear sobre as alegorias<br \/>\ndaquele rico bras\u00e3o!&#8230;E quantas vezes, a tremer de medo, n\u00e3o o vira descarregar<br \/>\naquela mesma arma contra uma laranja que um escravo segurava com a m\u00e3o erguida!<br \/>\n&#8211; Ah! bem que se recordava de tudo isso!&#8230;Parecia-lhe ouvir ainda gritar<br \/>\no pai, quando lhe metia \u00e0 for\u00e7a o rev\u00f3lver entre os dedos. &#8220;N\u00e3o! Isso agora<br \/>\nh\u00e1s de ter paci\u00eancia! Tu, ao menos, ficar\u00e1s sabendo dar um tiro!&#8221; E todavia,<br \/>\nn\u00e3o fiquei sabendo&#8230;balbuciou o filho de Louren\u00e7o, a experimentar nos l\u00e1bios<br \/>\no contacto frio do cano de a\u00e7o. &#8211; N\u00e3o fiquei sabendo dar um tiro, que, se<br \/>\no soubesse, acabaria aqui mesmo com esta vida est\u00fapida e misser\u00e1vel!&#8230; S<br \/>\neu tivesse \u00e2nimo&#8230;pensou ele, estremecido com a id\u00e9ia da morte &#8211; amanh\u00e3 encontravam<br \/>\no meu cad\u00e1veres e n\u00e3o ficariam naturalmente fazendo de mim um ju\u00edzo t\u00e3o triste<br \/>\ne t\u00e3o rid\u00edculo! &#8211; Talvez at\u00e9 chegassem a amaldi\u00e7oar o outro e erguessem em<br \/>\nvolta de meu nome uma legenda respeitosa e compassiva&#8230; Foi \u00e0 gaveta, havia<br \/>\nl\u00e1 algumas balas, carregou a arma.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, \u00e9 a melhor coisa que eu poderias fazer&#8230;reconsiderava Coqueiro,<br \/>\nim\u00f3vel, a olhar indeciso para o rev\u00f3lver que tinha na m\u00e3o. Mas era bastante<br \/>\ncheg\u00e1-lo contra a boca ou contra um dos ouvidos, para que os seus dedos logo<br \/>\nse paralisassem e para que um arrepio muito agudo lhe corresse pela espinha<br \/>\ndorsal. Faltava-lhe a coragem. Duas vezes ergueu-o \u00e0 altura da cabe\u00e7a, duas<br \/>\nvezes o desviou, com as m\u00e3os tr\u00eamulas e o corpo entalado numa agonia insuport\u00e1vel.<br \/>\n&#8211; \u00c9 horr\u00edvel! Resmungava ele. &#8211; \u00c9 horr\u00edvel! Ia principiar de novo as tentativas,<br \/>\nquando da rua uma forte matinada lhe prendeu a aten\u00e7\u00e3o. Um grupo se aproximava,<br \/>\nentre cantarolas e algazarras de risos. Eram dez ou doze dos \u00faltimos convivas<br \/>\nde Am\u00e2ncio; haviam passado todo o dia e grande parte da noite a folgazar no<br \/>\nParis; muitos, como o autor da p\u00e2ndega, l\u00e1 ficaram prostrados pela bebida,<br \/>\nmas aqueles tiveram a fantasia de um passeio matinal ao Jardim Bot\u00e2nico e<br \/>\nmeteram-se barulhosamente no bonde. J\u00e1 no Largo do Machado, um deles, um,<br \/>\nque de h\u00e1 muito trazia o Coqueiro atravessado na garganta , lembrou que seria<br \/>\nmais divertido apearem-se ali e seguirem a Rua das Laranjeira. &#8220;A casa do<br \/>\nvelhaco era a alguns passos &#8211; bem lhe podiam cantar uma serenata debaixo das<br \/>\njanelas!&#8221; A id\u00e9ia foi bem acolhida, e a ruidosa far\u00e2ndola despejou-se pelo<br \/>\ncaminho das Laranjeiras numa hilaridade plet\u00f3rica de b\u00eabados. S\u00f3 pararam defronte<br \/>\nda porta de Jo\u00e3o Coqueiro. Atrav\u00e9s das vidra\u00e7as e das cortinas de uma das<br \/>\njanelas, viram transparecer dubiamente a tr\u00eamula morte &#8211; cor de uma luz avermelhada.<br \/>\n&#8211; Est\u00e1s dormindo, \u00f3 Jo\u00e3ozinho dos camar\u00f5es?! Berrou cambaleando o que tivera<br \/>\na id\u00e9ia daquela romaria. &#8211; Dorme, dorme! \u00c9 assim que fazem os sem &#8211; vergonhas<br \/>\nde tua esp\u00e9cie!- vendem a irm\u00e3 e p\u00f5em-se a descansar no colch\u00e3o que lhe deixou<br \/>\no amante! Seguiu-se um estrupido de gritos e risos: &#8211; Fora! Fora! &#8211; Fiau,<br \/>\nfiau! &#8211; Larga essa casa que n\u00e3o \u00e9 tua, gritou aquele. &#8211; \u00c9 da outra! Ganhou-a<br \/>\ncom o suor de seu rosto! &#8211; Sai, parasita! &#8211; Sai! Sai! E espocavam gargalhadas<br \/>\nno grupo, e os guinchos sibilantes iam at\u00e9 o fim da rua :- Fora! &#8211; Fora! &#8211;<br \/>\nFiau &#8211; Sai, c\u00e3o! &#8211; Deixa a casa, que n\u00e3o \u00e9 tua !- Fora! &#8211; Fora o c\u00e1ften! &#8211;<br \/>\nFiau! Os vizinhos chegavam \u00e0s janelas, vozeando furiosos contra semelhante<br \/>\nberraria. &#8211; \u00c9 o que sucede a quem mora perto de um Jo\u00e3o Coqueiro! Bradou um<br \/>\nda turma. &#8211; Quem mora junto ao chiqueiro sente o fedor da lama! Gritou um<br \/>\nsegundo. &#8211; Queixe-se \u00e0 C\u00e2mara Municipal! Acudiu outro. E formid\u00e1vel matac\u00e3o<br \/>\nfoi de encontro \u00e0 vidra\u00e7a iluminada do chal\u00e9 de Am\u00e9lia. Um dos vizinhos apitou<br \/>\ne outro despediu um jarro de \u00e1gua sobre os desordeiros Ouvi-se logo o estardalha\u00e7o<br \/>\nimpetuoso dos gritos, das descomposturas e do crepitar dos vidros que se partiam<br \/>\nsob um chuveiro de pedras. &#8211; Morra! &#8211; Morra o infame! bramia a malta , j\u00e1<br \/>\nde carreira para o Largo do Machado. &#8211; Morra o c\u00e1ften!<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Coqueiro presenciara tudo aquilo, grudado a um canto da janela, mordendo<br \/>\nos n\u00f3s da m\u00e3o, os olhos injetados, o sangue a saltar-lhe nas veias. &#8211; Oh!<br \/>\nEra demais, pensava ele desesperado. &#8211; Era demais tanta inj\u00faria! &#8211; Se Am\u00e2ncio<br \/>\nestivesse ali, naquela ocasi\u00e3o, por Deus que o estrangulava! Abriu a janela.<br \/>\nO dia repontava j\u00e1, mas enevoado e triste. N\u00e3o havia azul; c\u00e9u e horizontes<br \/>\nformavam uma s\u00f3 pasta cor de p\u00e9rola, onde vultos cinzentos se esfumavam.<\/p>\n<p>O homem da venda abria tamb\u00e9m as sus portas. Coqueiro cumprimentou-o, ele<br \/>\nrespondeu com um risinho insolente, acompanhado de pigarro. Uma cale\u00e7a rodejava<br \/>\nlentamente ao largo da rua, o cocheiro vergado sobre as r\u00e9deas, o seu casquete<br \/>\nsumido na gola do capot\u00e3o. Coqueiro fez-lhe sinal que esperasse, embrulhou-se<br \/>\nno sobretudo, enterrou o chap\u00e9u na cabe\u00e7a, meteu o rev\u00f3lver no bolso e saiu.<br \/>\n&#8211; Hotel Paris! Disse ao da bol\u00e9ia, atirando-se no fundo da carruagem. O cocheiro<br \/>\nendireitou-se sobre a almofada, espichou o pesco\u00e7o, sacudiu as r\u00e9deas e os<br \/>\nanimais dispararam, assoprando grossamente contra o ar frio da manh\u00e3.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Coqueiro enfiou pela escadaria do hotel. Estava tudo deserto e silencioso;<br \/>\napenas, no sal\u00e3o principal, viam-se um preto velho e um caixeiro desdormido<br \/>\nque, entre bocejos, se dispunha a principiar a limpeza da casa. Dir-se-ia<br \/>\nque ali passara um ex\u00e9rcito de b\u00eabados. Por toda a parte vinho derramado,<br \/>\ncopos partidos, cacos de garrafa e destro\u00e7os do vasilhame que servira \u00e0 mesa;<br \/>\no oleado do ch\u00e3o escorregava com uma crusta gordurosa de restos de comida<br \/>\ne v\u00f4mito pezinhado; um espelho ficara em fanicos e um aqu\u00e1rio desabara, fazendo-se<br \/>\npeda\u00e7os e alagando o pavimento, onde peixinhos dourados e vermelhos jaziam,<br \/>\nuns mortos e outros ainda estrebuchando. O preto, de gatinhas, em manga de<br \/>\ncamisa e cal\u00e7as arregambiadas , procurava desencardir o sobrado com um esfreg\u00e3o<br \/>\nde coco, que ia embeber ao canto da sala numa tina cheia d&#8217; \u00e1gua; enquanto<br \/>\no caixeiro, a jogar o corpo, muito esbodegado, erguia o que estava pelo ch\u00e3o<br \/>\ne empilhava as cadeiras sobre as mesinhas de m\u00e1rmore, ao comprido das paredes.<br \/>\n&#8211; Onde \u00e9 o quarto do Am\u00e2ncio? perguntou-lhe Jo\u00e3o Coqueiro. &#8211; Am\u00e2ncio?&#8230;repetiu<br \/>\naquele, emperrando no meio da sala para fitar o interlocutor com um olhar<br \/>\nmorto de sono! &#8211; Ah! bocejou. &#8211; O tal mo\u00e7o do pagode de ontem?&#8230; Coqueiro<br \/>\nsacudiu a cabe\u00e7a perpendicularmente. &#8211; \u00c9 c\u00e1, no n\u00famero dois, mas escusa bater,<br \/>\nque ele a\u00ed n\u00e3o est\u00e1. Ficou l\u00e1 em cima, no onze, com a Janete. E, voltando<br \/>\nao servi\u00e7o: &#8211; Se n\u00e3o \u00e9 coisa de pressa, o melhor seria procur\u00e1-lo mais logo&#8230;Deve<br \/>\nde estar agora ferrado no sono, que levou na p\u00e2ndega at\u00e9 as quatro e meia!&#8230;<br \/>\nCoqueiro voltou-lhe as costas e dirigiu-se para o segundo andar. Bateu \u00e0 porta<br \/>\nno n.\u00ba 11. Ningu\u00e9m respondeu. Tornou a bater. Bateu de novo. &#8211; Qui est l\u00e0!&#8230;perguntou<br \/>\nna rouquid\u00e3o do estremunhamento uma voz de mulher. &#8211; Preciso falar a esse<br \/>\nrapaz que a\u00ed est\u00e1, o Am\u00e2ncio! Ouviu-se um farfalhar de panos, chinelas arrastaram,<br \/>\ne em seguida a porta abriu-se cautelosamente, mostrando pela fisga um rosto<br \/>\ngordo, de olhos azuis. &#8211; Qui est l\u00e0&#8230; Mas o Coqueiro, em vez de responder,<br \/>\nafastou a porta com um murro e atirou-se para dentro do quarto; ao passo que<br \/>\na Jeanete, esfandogada de medo, desgalgava em fralda o escadar\u00e3o que ia ter<br \/>\nao primeiro andar. Am\u00e2ncio, em uma cama muito cortinada e muito larga, dormia<br \/>\nprofundamente, de barriga para o ar, pernas abertas e bra\u00e7os atirados sobre<br \/>\na desordem das colchas e dos len\u00e7\u00f3is. No ch\u00e3o, ao lado do escarrador, um travesseiro<br \/>\nca\u00eddo, e em torno, por todo o desarranjo da alcova, roupas espalhadas. O Coqueiro<br \/>\nolhou um instante para ele, sem pestanejar; depois, sacou tranq\u00fcilamente o<br \/>\nrev\u00f3lver da algibeira e deu-lhe um tiro \u00e0 queima &#8211; roupa. Am\u00e2ncio soltou um<br \/>\nai. A segunda bala j\u00e1 o n\u00e3o pilhou, mas o irm\u00e3o de Am\u00e9lia, abstrato, pateta,<br \/>\ncontinuava a disparar os outros tiros at\u00e9 que a arma lhe caiu das m\u00e3os. Nisto,<br \/>\ncomo se acordasse de uma vertigem, saiu a correr trope\u00e7ando em tudo. No primeiro<br \/>\nandara um pol\u00edcia lan\u00e7ou-lhe as garras aos c\u00f3s das cal\u00e7as e o foi conduzindo<br \/>\n\u00e0 sua frente, sem lhe dizer palavra. Entretanto, Am\u00e2ncio despertou com um<br \/>\nnovo gemido e levou ao peito as m\u00e3os que se ensoparam no sangue da ferida.<br \/>\nOlhou em torno, \u00e0 procura de algu\u00e9m; mas o quarto estava abandonado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, fechou novamente os olhos estremecendo, esticou o corpo &#8211; e uma palavra<br \/>\ndoce esvoa\u00e7ou-lhe nos l\u00e1bios entreabertos, coimo um fraco e lamentoso apelo<br \/>\nde crian\u00e7a: &#8211; Mam\u00e3e!.. E morreu.<\/p>\n<h3>XXII<\/h3>\n<p>Come\u00e7ou logo a reunir povo na porta do hotel. Faziam-se grupos; os rep\u00f3rteres<br \/>\nandavam num torniquete; via-se o Piloto por toda a parte, irrequieto, farisqueiro;<br \/>\ne o fato ia ganhando circula\u00e7\u00e3o, com uma rapidez el\u00e9trica. P\u00e2nico sobressalto<br \/>\nquebrava violentamente a pl\u00e1cida monotonia da Corte; mulheres de toda a esp\u00e9cie<br \/>\ne de todas as idades empenhavam-se com a mesma febre na sorte dram\u00e1tica do<br \/>\ninfeliz estudante, e o Coqueiro, alado pela transcend\u00eancia de seu crime, principiava<br \/>\na real\u00e7ar no esp\u00edrito p\u00fablico, sob a irradia\u00e7\u00e3o simp\u00e1tica e brilhante de sua<br \/>\ncorajosa desafronta. \u00c0s dez horas da manh\u00e3 j\u00e1 se n\u00e3o podia entra facilmente<br \/>\nno necrot\u00e9rio, para onde fora, sem perda de tempo, conduzido o cad\u00e1ver de<br \/>\nAm\u00e2ncio, entre um cortejo imenso de curiosos. Choviam as interpreta\u00e7\u00f5es, os<br \/>\ncoment\u00e1rios sobre o fato; todos queriam dar esclarecimentos, explicar os pontos<br \/>\nmais obscuros do grande sucesso. &#8220;A bala atravessara-lhe as regi\u00f5es tor\u00e1cicas<br \/>\ne fora cravar-se num osso da espinha&#8221;, afirmava um homem alto, elegante, de<br \/>\ncabelos brancos, cujo ar empantufado prendia a aten\u00e7\u00e3o dos mais. Esse homem,<br \/>\nque alguns tomavam por um m\u00e9dico, outros por qualquer autoridade policial;<br \/>\noutros por um jornalista, outros por um dos professores da faculdade, onde<br \/>\nestudava o defunto, n\u00e3o era sen\u00e3o o Lambertosa &#8211; o ilustre &#8211; gentleman da<br \/>\ncasa de pens\u00e3o da Mme. Brizard. E, sempre distinto, sempre viajado, pronto<br \/>\nsempre a explicar as coisas cientificamente, agitava a bengala afagando a<br \/>\nbarriga bem abotoada, e de pernas abertas, pesco\u00e7o duro, ia estadeando a sua<br \/>\n&#8220;grande intimidade&#8221; com o c\u00e9lebre morto; citando fatos, contando magn\u00edficas<br \/>\nanedotas que se deram entre os dois. Ah! Era um mo\u00e7o de invej\u00e1vel talento!<br \/>\n&#8211; Boa mem\u00f3ria, compreens\u00e3o f\u00e1cil e gosto cultivado. Para a ret\u00f3rica ainda<br \/>\nn\u00e3o vi outro&#8230;N\u00e3o, minto &#8211; em Londres, em Londres, confesso que encontrei<br \/>\num outro nessas condi\u00e7\u00f5es!&#8230; E punha-se a falar de Londres, e passava depois<br \/>\n\u00e0 Fran\u00e7a, \u00e0 It\u00e1lia, \u00e0 Europa inteira, e chegaria at\u00e9 aos p\u00f3los, se algu\u00e9m<br \/>\nquisesse acompanh\u00e1-lo na viagem. Muitos outros dos antigos inquilinos de Mme.<br \/>\nBrizard tamb\u00e9m apareceram no necrot\u00e9rio. L\u00e1 esteve a p\u00e1lida L\u00facia, cheia de<br \/>\nmelancolia, a fitar o cad\u00e1ver, em sil\u00eancio, com os seus belos olhos alterados<br \/>\npelo abuso das lunetas. Agora morava ela com o seu Pereira em Niter\u00f3i, numa<br \/>\ncasa de pens\u00e3o de um italiano, educador de c\u00e3es e macacos. Era a terceira<br \/>\nque percorria depois da da Rua do Resende. L\u00e1 esteve, de passagem, o Fontes,<br \/>\ncom as suas amostras de renda debaixo do bra\u00e7o; l\u00e1 esteve o triste Paula Mendes,<br \/>\npara fazer a vontade \u00e0 mulher, que exigira ver a &#8220;v\u00edtima daquele grande c\u00e3o!&#8217;;<br \/>\nl\u00e1 esteve o Dr. Tavares que parecia tomar cada vez mais interesse no &#8220;escandaloso<br \/>\nassass\u00ednio&#8221;. E, quem diria? At\u00e9 l\u00e1 esteve o esquisit\u00e3o do Campelo que muito<br \/>\ndificilmente se abalava com as quest\u00f5es alheias. Por toda a cidade s\u00f3 se pensava<br \/>\nno &#8220;crime do Hotel Paris&#8221;; os jornais sa\u00edam carregados de not\u00edcias e artigos<br \/>\nsobre ele, esgotavam-se as edi\u00e7\u00f5es da defesa e da acusa\u00e7\u00e3o de Am\u00e2ncio; vendia-se<br \/>\nna rua o retrato deste em todas as posi\u00e7\u00f5es, feitios e tamanhos; moribundo,<br \/>\nem vida, na escola, no passeio. E tudo ia direito para os \u00e1lbuns, para as<br \/>\nparedes e para as cole\u00e7\u00f5es de raridades. Hort\u00eansia, quando lhe constou o terr\u00edvel<br \/>\ndesfecho daquele epis\u00f3dio que, na sua fantasia rom\u00e2ntica, tomava as propor\u00e7\u00f5es<br \/>\nde um poema, caiu sem sentidos e ficou prostrada na cama por uma febre violenta.<br \/>\nDurante esse tempo, o marido procurava na pris\u00e3o o assassino para lhe oferece<br \/>\nos seus servi\u00e7os e p\u00f4r \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dele o dinheiro de que precisasse. &#8220;Coqueiro<br \/>\npodia ficar tranq\u00fcilo &#8211; nada lhe havia de faltar \u00e0 fam\u00edlia, nem mesmo a pens\u00e3o<br \/>\nde Nini.&#8221; E foi em pessoa dar as provid\u00eancias para o enterro do outro.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O funeral atingiu dimens\u00f5es gigantescas; parecia que se tratava das morte<br \/>\nde um grande benem\u00e9rito das P\u00e1tria.<\/p>\n<p>Por influ\u00eancia do advogado de Am\u00e2ncio, que era pol\u00edtico e bem relacionado,<br \/>\ncompareceram muitos figur\u00f5es e at\u00e9 alguns homens do poder. Houve senadores,<br \/>\nministros em vigor, titulares de v\u00e1rios matizes, altos funcion\u00e1rios p\u00fablicos,<br \/>\nartistas de nome, doutores de toda a esp\u00e9cie, clubes de todas as ordens, ordens<br \/>\nde todas as devo\u00e7\u00f5es, jornalistas, negociantes, empres\u00e1rios, capitalistas<br \/>\ne estudantes; estudantes que era uma coisa por demais. A cidade inteira abalou-se,<br \/>\ndemoveu-se, para deixar passar aquela estranha prociss\u00e3o de um magro cad\u00e1ver<br \/>\nde vinte anos. Veio muita gente dos arrabaldes. De todos os cantos do Rio<br \/>\nde Janeiro acudia povo e mais povo a ver o enterro. As ruas, os largos, por<br \/>\nonde ele ia, ficavam acogulados de gente; os garotos grimpavam-se aos muros,<br \/>\nescalavam as \u00e1rvores, subiam \u00e0s grades das ch\u00e1caras; as janelas regurgitavam,<br \/>\ncomo num domingo de festa. O caix\u00e3o foi carregado a pulso , coberto de coroas;<br \/>\nno cemit\u00e9rio ningu\u00e9m se podia mexer com a multid\u00e3o que aflu\u00eda. Um del\u00edrio!<br \/>\nE no dia seguinte, descri\u00e7\u00f5es e mais descri\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas; necrol\u00f3gios,<br \/>\nartigos f\u00fanebres, not\u00edcias biogr\u00e1ficas e poesias dedicadas \u00e0 &#8220;triste morte<br \/>\ndaquelas vinte primaveras&#8221;. E, o que \u00e9 mais raro, o fato n\u00e3o caiu logo no<br \/>\nesquecimento , porque a\u00ed estava o novo processo do assassino para lhe entreter<br \/>\no calor, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o de um banho-maria. Continuavam, pois, as not\u00edcias jur\u00eddicas;<br \/>\nCoqueiro ia se popularizando, ia conquistando opini\u00f5es e simpatias; ia aos<br \/>\npouco se instalando no lugar vago pelo desaparecimento do outro. Mitos colegas<br \/>\nse voltavam j\u00e1 a favor dele; at\u00e9 o Sim\u00f5es &#8211; at\u00e9 o Paiva! O Paiva, sim! que<br \/>\nagora , completamente restaurado com as roupas herdadas de Am\u00e2ncio , deixava-se<br \/>\nver a mi\u00fado nos pontos mais concorridos da cidade e, entre as palestras dos<br \/>\namigos, mostrava-se todo propenso a justificar o ato do irm\u00e3o de Am\u00e9lia. &#8211;<br \/>\nN\u00e3o!, dizia ele, quando lhe tocavam nesse ponto &#8211; n\u00e3o! O Coqueiro andou bem!&#8230;Eu,<br \/>\nse tivesse uma irm\u00e3, fosse ela quem fosse , faria o mesmo naturalmente!&#8230;<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Entretanto, pouco depois do enterro, no meio do burburinho de passageiros<br \/>\nchegando no vapor do Norte, uma senhora j\u00e1 idosa, coberta de luto, saltava<br \/>\nno cais Pharoux. Vinha acompanhada por uma mulata, que trazia constantemente<br \/>\nos bra\u00e7os cruzados em sinal de respeito, e por um velho gordo e bem vestido,<br \/>\ncujas maneiras faziam adivinhar que ele ali n\u00e3o passava de um simples companheiro<br \/>\nde viagem. Como se j\u00e1 tivessem resolvido no escaler o que deviam fazer logo<br \/>\nque saltassem, o velho, mal se viu em terra, chamou por um carroceiro, deu<br \/>\na este a sua bagagem com o competente endere\u00e7o, fez sinal \u00e0 mulata que seguisse<br \/>\na carro\u00e7a e, depois de ajudar a senhora a sair do bote, perguntou, solicitamente,<br \/>\nse ela queria tomar um carro. A senhora, muito inquieta, respondeu que preferia<br \/>\nir a p\u00e9,, e os dois, de bra\u00e7o dado, puseram-se a andar na dire\u00e7\u00e3o da Rua Direita.<br \/>\nEssa senhora era D. \u00c2ngela. O Campos j\u00e1 lhe havia escrito, comunicando a pris\u00e3o<br \/>\ndo filho. A princ\u00edpio, n\u00e3o se achou com \u00e2nimo de falar nisso \u00e0 pobre m\u00e3e;<br \/>\nmas seus escr\u00fapulos fugiram totalmente, desde que lhe chegou \u00e0s m\u00e3os aquela<br \/>\nterr\u00edvel den\u00fancia do Coqueiro. \u00c2ngela n\u00e3o esperava pelo golpe e ficou a ponto<br \/>\nde perder a cabe\u00e7a. &#8220;Como?! Seria cr\u00edvel?&#8230;Seu filho, seu querido filho na<br \/>\npris\u00e3o, com um processo \u00e0s costas e sem ter quem lhe valesse!&#8230;\u00d3 Santo Deus!<br \/>\nSanto Deus! Que isso era demais para um pobre cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e! &#8211; Que mal teria<br \/>\nela feito para merecer t\u00e3o grande castigo?!&#8221; E resolveu seguir para a Corte,<br \/>\nimediatamente, no mesmo vapor. Sentia-se corajosa, capaz de todas as lutas,<br \/>\nde todas as viol\u00eancias, para salvar seu filho. Esqueceu-se s de seus achaques,<br \/>\ndo estado melindroso de seu peito, para s\u00f3 cuidar dele; s\u00f3 pensar nessas criatura<br \/>\nidolatrada que valia mais, no fanatismo de seu afeto, do que todas as grandezas<br \/>\nda terra, todos os esplendores do mundo e todas a pot\u00eancias do c\u00e9u. &#8211; Oh!<br \/>\nHaviam de restituir-lhe o filho!&#8230;Estava resolvida a atirar-se aos p\u00e9s dos<br \/>\njuizes, das autoridades, do Imperador, se preciso fosse, para resgat\u00e1-lo!<br \/>\n_N\u00e3o era poss\u00edvel que s\u00f3 encontrasse cora\u00e7\u00f5es to duros, que resistissem a<br \/>\ntanta l\u00e1grima, a tamanha dor e a tamanho desespero! No primeiro paquete achava-se<br \/>\nabordo, apenas seguida de uma escrava que, entre as suas, lhe merecia mais<br \/>\nconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas, agora, pelo bra\u00e7o de um estranho que a n\u00e3o desamparava por mera delicadeza,<br \/>\nou talvez por compaix\u00e3o; agora, no grosseiro tumulto do cais, estremunhada<br \/>\nno meio daquela gente desconhecida &#8211; a infeliz sentia-se fraquear. N\u00e3o sabia<br \/>\nque fazer, &#8211; se ir em busca do Campos ou correr \u00e0 toa por aquelas ruas, a<br \/>\ngritar pelo filho, a reclam\u00e1-lo daquele mundo indiferente que formigava em<br \/>\ntorno de sua perplexidade. E, por mais que se quisesse fingir forte, uma afli\u00e7\u00e3o<br \/>\ncrescia-lhe dentro e tomava-lhe a garganta. Tremiam-lhe as pernas e os olhos<br \/>\nmarejavam-se-lhe de l\u00e1grimas. &#8211; Mas V. Ex.\u00aa n\u00e3o disse que seu filho morava<br \/>\nnas Laranjeiras?&#8230;perguntou o velho, compreendendo a perturba\u00e7\u00e3o de \u00c2ngela.<br \/>\n&#8211; Sim, foi para a\u00ed que ele me mandou dirigir as cartas&#8230;Tenho at\u00e9 aqui comigo<br \/>\no n\u00famero da casa, mas, depois disso, j\u00e1 recebi a tal not\u00edcia da pris\u00e3o , e&#8230;<br \/>\n&#8211; Bem, interrompeu o outro &#8211; o mais certo \u00e9 irmos at\u00e9 l\u00e1. &#8211; Se n\u00e3o encontrarmos<br \/>\no rapaz, havemos de achar algu\u00e9m que nos d\u00ea informa\u00e7\u00f5es. \u00c9 mais um instante!<br \/>\nEu ainda posso acompanh\u00e1-la ;n\u00e3o tenho pressa; o melhor, por\u00e9m, seria tomarmos<br \/>\num carro. &#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! respondeu a senhora, sempre inquieta, a olhar para todos<br \/>\nos lados, como se esperasse, por um acaso feliz, descobrir Am\u00e2ncio , de um<br \/>\nmomento para outro. Estavam j\u00e1 na Rua Direita. Ela, de repente, estacou e<br \/>\np\u00f4s-se a fitar a vidra\u00e7a de um armarinho. &#8211; Algum conhecido? Perguntou o velho.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o. \u00c9 que estes chap\u00e9us&#8230;tenha a bondade de ver se consegue ler aquele<br \/>\nnome&#8230;eu, talvez me enganasse&#8230; O velho leu distintamente&#8221;` Am\u00e2ncio de Vasconcelos&#8221;.<br \/>\n&#8211; \u00c9 o t\u00edtulo! Disse. &#8211; Eles agora batizam as mercadorias com os nomes que<br \/>\nest\u00e3o na moda. Algum tenor! &#8211; \u00c9 singular!&#8230;balbuciou a senhora. &#8211; Por qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; \u00c9 esse justamente o nome de meu filho. &#8211; Oh! n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 uma Maria no mundo!&#8230;<br \/>\nMas D. \u00c2ngela fugira-lhe outra vez do bra\u00e7o para correr a uma nova vidra\u00e7a.<br \/>\nEram agora bengalas e gravatas &#8220;\u00e0 Am\u00e2ncio de Vasconcelos&#8221; que lhe prendiam<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o. Acabavam de entrar na Rua do Ouvidor. &#8211; V\u00ea?&#8230;interrogou ela, muito<br \/>\npreocupada e procurando esconder a como\u00e7\u00e3o. &#8211; Ainda! &#8211; Ah! fez o companheiro,<br \/>\nj\u00e1 impaciente. &#8211; V. Ex.\u00aa vai encontrar o mesmo nome por toda parte. &#8211; \u00c9 o<br \/>\ncostume! Olhe! Se me n\u00e3o engano, l\u00e1 est\u00e1 o retrato do tal Am\u00e2ncio! Tenha a<br \/>\nbondade de ver! D. \u00c2ngela aproximou-se do retrato, correndo, e soltou logo<br \/>\numa exclama\u00e7\u00e3o: &#8211; Mas \u00e9 ele! O meu Am\u00e2ncio! E come\u00e7ou a rir e a chorar muito<br \/>\nperturbada. O velho, meio comovido e meio vexado com aquela expans\u00e3o em plena<br \/>\nRua do Ouvidor, principiava talvez a arrepender-se de ter sido t\u00e3o cavalheiro<br \/>\n\u00c2ngela, quando esta, que estivera at\u00e9 a\u00ed a percorrer, como uma doida, outros<br \/>\nmostradores, arrancou do peito um formid\u00e1vel grito e caiu de bru\u00e7os na cal\u00e7ada.<br \/>\nTinha visto seu filho, representado na mesa do necrot\u00e9rio , com o tronco nu,<br \/>\no corpo em sangue. E por debaixo, em, letras garrafais: Am\u00e2ncio de Vasconcelos,<br \/>\nassassinado por Jo\u00e3o Coqueiro no Hotel Paris, em tantos de tal.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I II III IV V VI VII VIII IX X XI XII XIII XIV XV &nbsp; I Desconfia de todo aquele que se arreceia da verdade. Seriam onze horas da manh\u00e3. 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