{"id":92078,"date":"2017-01-03T09:49:29","date_gmt":"2017-01-03T11:49:29","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=92078"},"modified":"2018-05-03T15:50:20","modified_gmt":"2018-05-03T17:50:20","slug":"a-mortalha-de-alzira-aluisio-de-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-mortalha-de-alzira-aluisio-de-azevedo","title":{"rendered":"A Mortalha de Alzira &#8211; Alu\u00edsio de Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><script src=\"\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/js\/adsbygoogle.js\" async=\"\"><\/script><!-- ads_responsivo --> <ins class=\"adsbygoogle\" style=\"display: block;\" data-ad-client=\"ca-pub-7159766377354473\" data-ad-slot=\"3162710741\" data-ad-format=\"auto\"><\/ins><script>\/\/ <![CDATA[\n(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({});\n\/\/ ]]><\/script><\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td valign=\"top\" width=\"156\" height=\"195\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#1\"><strong>I &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#2\">II &#8211; Frei Oz\u00e9as e o enjeitado<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#3\">III &#8211; Virgindade no homem<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#4\">IV &#8211; Vem! Que te chamo!<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#5\">V &#8211; Triunfo Inconsciente<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#6\"><strong>VI &#8211; Um homem paro discutido por mulheres<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#7\">VII &#8211; Fr\u00e1gil como uma l\u00e1grima!<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#8\">VIII &#8211; Fulmina\u00e7\u00e3o<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#9\">IX &#8211; Um olhar de mulher<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#10\">X &#8211; Acedo<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" alt=\"\" height=\"100\" \/><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><a href=\"#11\"><strong>XI &#8211; \u00c2ngelo amea\u00e7ado<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><a href=\"#12\">XII &#8211; Florans em telas de aranha<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#13\">XIII &#8211; Ah, mulheres! mulheres<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#14\">XIV &#8211; Era o Amor<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#15\">XV &#8211; Duas vezes enjeitado<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a name=\"1\"><\/a>I &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>No ano de 17**, Paris ent\u00e3o muito governado pela Pompadour e um pouco por<br \/>\nLu\u00eds XV, palpitava de entusiasmo com um esc\u00e2ndalo original.<\/p>\n<p>Por um instante, a grande cidade libertina distra\u00eda-se dos seus desregramentos<br \/>\nhabituais e esquecia a ordem dos Aphrodites e dos Hermaphrodites, e esquecia<br \/>\nas picantes palha\u00e7adas de Taconnet e o obsceno macaco de Nicolet e os expressivos<br \/>\nfogos de vista de Torr\u00e9, e esquecia Ruggieri com a sua exibi\u00e7\u00e3o de pernas<br \/>\ne colos importados da Am\u00e9rica, e esquecia les spetacles pyrrhiques e o Wauxhall,<br \/>\ne esquecia as velhacas e c\u00e9lebres representa\u00e7\u00f5es do bar\u00e3o d&#8217;Esclapon e da<br \/>\nduquesa de Mazarin, e esquecia-se at\u00e9 de ouvir as pilh\u00e9rias da magra, feia<br \/>\ne adorada Guimard, para s\u00f3 ter aten\u00e7\u00e3o para o novo esc\u00e2ndalo que acabava de<br \/>\nsurgir inesperadamente.<\/p>\n<p>Era o caso que o famoso pregador La Rose tinha como todos os anos, de pregar<br \/>\no seu serm\u00e3o da quinta-feira santa na capela real, e f\u00f4ra acometido por um<br \/>\nformid\u00e1vel ataque de asma, justamente na v\u00e9spera d\u00easse dia. Escreveu logo<br \/>\nao vig\u00e1rio-geral, seu amigo particular, dando-lhe parte do fato e pedindo-lhe<br \/>\nque, sem perda de tempo, tratasse de descobrir algu\u00e9m que o substitu\u00edsse.<\/p>\n<p>Ora, o caso era deveras apertado! Quem teria a coragem de ir, \u00e0 \u00faltima hora<br \/>\nsubstituir La Rose no p\u00falpito da capela real, num dos serm\u00f5es mais importantes<br \/>\nda quaresma?. . .<\/p>\n<p>Substituir La Rose!&#8230; La Rose, &#8220;o segundo Bossuet&#8221;, como lhe chamavam seus<br \/>\nin\u00fameros admiradores! La Rose, o amimado pregador da c\u00f4rte, o protegido de<br \/>\nAntoinette Poison, o querido tanto por parte dos Molinistas como por parte<br \/>\ndos Jansenistas, o aclamado por todo o alto e baixo p\u00fablico de Paris! La Rose,<br \/>\no indispens\u00e1vel! La Rose, o insubstitu\u00edvel!<\/p>\n<p>E era preciso que \u00eale com efeito estivesse deveras doente, para faltar ao<br \/>\nserm\u00e3o de quinta-feira santa, porque La Rose prezava muito aos seus triunfos<br \/>\nna tribuna sacra, e n\u00e3o esperdi\u00e7aria f\u00e0cilmente uma boa ocasi\u00e3o de orar perante<br \/>\no rei e t\u00f4da sua c\u00f4rte de fidalgos e t\u00f4da a sua c\u00f4rte de letrados.<\/p>\n<p>Entretanto, sabia-se tamb\u00e9m que La Rose, desde que sentisse a menor altera\u00e7\u00e3o<br \/>\nna voz, n\u00e3o seria capaz de falar em p\u00fablico, nem \u00e0 m\u00e3o de Deus Padre, porque<br \/>\nera precisamente na maneira especial de jogar com a sua bela e sedutora voz,<br \/>\nque consistia o grande segr\u00eado dos seus incompar\u00e1veis triunfos.<\/p>\n<p>\u00c9 in\u00fatil dizer que, por melhores esfor\u00e7os empregados, nenhum pregador se<br \/>\ndescobriu, bom ou mau, que quisesse ir tomar o lugar do querido mestre. Davam-se<br \/>\ntodos por igualmente atacados da garganta, como se a asma de La Rose, \u00e0 semelhan\u00e7a<br \/>\ndo que sucedia com o seu estilo orat\u00f3rio, se estendesse de improviso por todos<br \/>\n\u00eales, desde o mais pretensioso at\u00e9 ao m\u00ednimo dos numerosos pregadores sagrados,<br \/>\nque nesse piedoso e alegre tempo enchiam os p\u00falpitos de Paris com as suas<br \/>\nfrases retumbantes e com os seus eloq\u00fcentes e art\u00edsticos solu\u00e7os.<\/p>\n<p>O rei aborreceu-se e chegou a franzir as sobrancelhas. Lu\u00eds XV, se era folgaz\u00e3o,<br \/>\nera tamb\u00e9m devoto. E se era devoto era tamb\u00e9m homem de gosto exigente; n\u00e3o<br \/>\ncompreendia uma quinta-feira santa sem La Rose. Al\u00e9m disso, tinha na v\u00e9spera<br \/>\nabusado da sua suntuosa adega, e a melhor \u00e1gua de Selters para as suas ressacas<br \/>\nera ainda La Rose.<\/p>\n<p>Que diabo! O caso era s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Empregaram-se os \u00faltimos recursos para descobrir algu\u00e9m que, sem grande esc\u00e2ndalo,<br \/>\nfosse capaz de improvisar um serm\u00e3o digno da real ressaca; ofereceram-se bonitas<br \/>\nsomas, fizeram-se as mais lindas promessas. O cabido inteiro agitou-se, remexeu-se,<br \/>\nsorveu consecutivas pitadas, esfregou mil vezes o len\u00e7o encarnado no nariz,<br \/>\nmas ningu\u00e9m teve coragem para aceitar a espinhosa miss\u00e3o.<\/p>\n<p>As salas do pal\u00e1cio arquiepiscopal pareciam formigueiros; as batinas esfervilhavam<br \/>\nirrequietas, entrando e saindo, trazendo e levando recados. Cochichava-se<br \/>\ndaqui, cochichava-se dali, bichanava-se por todos os cantos e recantos do<br \/>\npal\u00e1cio, sem nada se resolver que aproveitasse.<\/p>\n<p>E, no entanto o tempo fugia e era preciso tomar uma resolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O arcebispo, j\u00e1 desesperado, ia estender o bra\u00e7o para tomar ao acaso o primeiro<br \/>\ndos seus sufrag\u00e2neos, e ordenar-lhe que subisse ao p\u00falpito e despejasse, com<br \/>\num milh\u00e3o de raios! um serm\u00e3o qualquer, quando de improviso rasgou-se o reposteiro<br \/>\nda sala, em que \u00eale se achava entre uma negra nuvem de batinas, e viu-se surgir<br \/>\na veneranda figura de frei Oz\u00e9as, com as suas grandes barbas brancas e a sua<br \/>\nenorme calva de profeta.<\/p>\n<p>Encaminhou-se diretamente para o arcebispo e disse-lhe, depois das rever\u00eancias<br \/>\ndo estilo:<\/p>\n<p>-Comprometo-me, se mo permitirem, a apresentar hoje no p\u00falpito da capela<br \/>\nreal algu\u00e9m a que ir\u00e1 dignamente substituir o padre La Rose.<\/p>\n<p>Fez-se em t\u00f4rno destas simples palavras um profundo sil\u00eancio de pasmo e de<br \/>\ndesabafo.<\/p>\n<p>Bastava s\u00f3, por\u00e9m, a presen\u00e7a do frei Oz\u00e9as naquela sala do pa\u00e7o arcebispal<br \/>\npara levantar a supr\u00easa do cabido inteiro, porque todos lhe conheciam a vida<br \/>\nobscura e solit\u00e1ria, e todos sabiam que era muito e muito raro v\u00ea-lo fora<br \/>\ndo seu modesto convento a n\u00e3o ser para algum ato de caridade.<\/p>\n<p>Frei Oz\u00e9as era um homem singular\u00edssimo, como mais adiante apreciar\u00e1 o leitor.<br \/>\nHavia vinte e tantos anos que em t\u00f4rno d\u00eale se formara, de dia para dia a<br \/>\nmais s\u00f3lida reputa\u00e7\u00e3o de virtude e santidade.<\/p>\n<p>De quem disporia o singular frade para fazer substituir La Rose?&#8230;<\/p>\n<p>E come\u00e7ou logo o sussurro dos coment\u00e1rios.<\/p>\n<p>O arcebispo, entretanto, tomara-o \u00e0vidamente pelo bra\u00e7o, e desaparecera com<br \/>\n\u00eale pela porta que conduzia ao interior do pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>Pouco depois, descia frei Oz\u00e9as as escadas do pa\u00e7o, metia-se no carro que<br \/>\no esperava \u00e0 entrada do jardim, dizia ao cocheiro que tocasse depressa para<br \/>\no convento de S. Francisco de Paulo, e da\u00ed a meia hora, atravessava o longo<br \/>\np\u00e1tio ladrilhado de pedra e subia a pesada escada do claustro, em que ele<br \/>\nse havia condenado a viver para sempre em dura penit\u00eancia.<\/p>\n<p>Apesar do tremor dos seus setenta anos, venceu ligeiro os extensos corredores<br \/>\nabobadados, galgou uma estreita escada que conduzia a um sombrio mirante,<br \/>\ne, tendo v\u00e1rias vezes volvido os olhos para tr\u00e1s, como se temesse ser acompanhado<br \/>\npor algu\u00e9m, chegou-se a uma pequena porta inteiri\u00e7a, e bateu tr\u00eas pancadas<br \/>\ns\u00eacas com as falanges dos seus dedos ossudos e p\u00e1lidos.<\/p>\n<p>A porta abriu-se sem ru\u00eddo. \u00cale entrou, e a porta fechou-se de novo, silenciosamente.<\/p>\n<p>O lugar em que o venerando religioso acabava de penetrar, era uma triste<br \/>\ncela, sombria e espa\u00e7osa, com uma janela gradeada e fechada, e apenas frouxamente<br \/>\nesclarecida por uma clarab\u00f3ia do teto. As paredes, nuas de alto a baixo, tinham<br \/>\numa c\u00f4r sinistra de osso velho. Em uma delas havia um grande nicho com a imagem<br \/>\nda Virgem da Concei\u00e7\u00e3o, quase de tamanho natural; a um dos cantos, uma negra<br \/>\nestante t\u00f4scamente feita, pejada de grossos alfarr\u00e1bios amarelecidos pelo<br \/>\ntempo; no centro, uma mesa de madeira escura com um brevi\u00e1rio em cima, ao<br \/>\nlado de uma candeia de azeite, um peda\u00e7o de p\u00e3o duro e um cil\u00edcio cru; junto<br \/>\n\u00e0 mesa, um banco de pau<\/p>\n<p>Oz\u00e9as fora recebido \u00e0 porta por um mancebo de uns vinte anos, muito p\u00e1lido,<br \/>\nainda imberbe, vestido com uma esfarrapada batina de seminarista.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia mais ningu\u00e9m na cela.<\/p>\n<p>O mancebo beijou-lhe a m\u00e3o. Oz\u00e9as abra\u00e7ou-o e disse-lhe depois, tocando-lhe<br \/>\ncarinhosamente no ombro:<\/p>\n<p>-Meu filho, vais hoje pela primeira vez atravessar as ruas de Paris e entrar<br \/>\nna capela real.<\/p>\n<p>-Para que, meu pai?<\/p>\n<p>-Para pregar o serm\u00e3o de quinta-feira santa.<\/p>\n<p>-Eu? mas o que vou dizer?. . .<\/p>\n<p>-Vais dizer pura e simplesmente o que sabes e o que sentes a respeito da<br \/>\npaix\u00e3o de Jesus Cristo. . . N\u00e3o te preocupes com a multid\u00e3o que l\u00e1 encontrares,<br \/>\nn\u00e3o te preocupes com o que vires. Fecha-te contigo mesmo e fala como se conversasses<br \/>\ncom o teu anjo da guarda. Abre o teu cora\u00e7\u00e3o, quando abrires os teus l\u00e1bios,<br \/>\ne deixa dele sair, imperturb\u00e1vel e cristalina, a tua alma de bem-aventurado.<\/p>\n<p>-Bem, meu pai.<\/p>\n<p>-Daqui a pouco vir\u00e1 a roupa com que tens de ir. Dentro de uma hora virei<br \/>\nbuscar-te.<\/p>\n<p>-Estarei pronto e \u00e0s suas ordens, meu pai.<\/p>\n<p>-Reza a Nossa Senhora enquanto me esperas. Adeus.<\/p>\n<p>-Sua b\u00ean\u00e7\u00e3o, meu pai.<\/p>\n<p>-Deus te aben\u00e7oe.<\/p>\n<p>E frei Oz\u00e9as tornou a sair, fechando-se de novo sobre ele a porta, silenciosamente.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II &#8211; Frei Oz\u00e9as e o enjeitado<\/h2>\n<p>As m\u00e1scaras de hipocrisia que escondiam a corrup\u00e7\u00e3o da corte de Lu\u00eds XIV,<br \/>\nca\u00edram com a morte desse pr\u00edncipe. Os fidalgos e cortes\u00e3s pareciam impacientes<br \/>\npor sair da for\u00e7ada e falsa compostura, em que se mantinham durante a velhice<br \/>\ndevota do Rei Sol.<\/p>\n<p>At\u00e9 a\u00ed fingiu-se ainda; da\u00ed em diante ningu\u00e9m mais procurou ocultar os seus<br \/>\nv\u00edcios.<\/p>\n<p>A ferocidade e a perf\u00eddia dos tempos b\u00e1rbaros, os crimes do feudalismo, todos<br \/>\nos erros, todos os abusos e todos os desregramentos de um governo c\u00ednico e<br \/>\nperverso e de uma magistratura e uma jurisprud\u00eancia feitas de ignom\u00ednia e<br \/>\nadula\u00e7\u00e3o, eis do que se compunham os costumes desse infeliz come\u00e7o de s\u00e9culo.<\/p>\n<p>A administra\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia criava e dirigia casas de jogo e casas de prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Paris era policiado por malfeitores, vestidos de farda. S\u00f3 uma cousa divertia<br \/>\no p\u00fablico:-a cr\u00e1pula.<\/p>\n<p>Mas o que caracterizava particularmente essa \u00e9poca, era o dourado verniz<br \/>\nde eleg\u00e2ncia, com que o escol da sociedade de ent\u00e3o disfar\u00e7ava a libertinagem<br \/>\nmais desenfreada e brutal.<\/p>\n<p>A duquesa de Bourbon, apesar de casada, vivia publicamente com Du Chayla.<br \/>\nLaw levava a sua amante \u00e0 corte. A princesa de Conti, filha do rei, posto<br \/>\nque devota, j\u00e1 velhusca e cheia de aparentes escr\u00fapulos, confessava n\u00e3o poder<br \/>\ndispensar a consola\u00e7\u00e3o de seu sobrinho La Valli\u00e8re. A outra princesa de Conti,<br \/>\na mo\u00e7a, essa, a despeito dos ci\u00fames que mantinha pelo marido, s\u00f3 deixou o<br \/>\nseu amante La Fare, quando o substituiu por Clermont; a irm\u00e3 dela, M&#8217;le de<br \/>\nCharolais, dava os mais terr\u00edveis esc\u00e2ndalos com o duque de Richelieu. As<br \/>\nfilhas do duque de Orl\u00e9ans, ent\u00e3o regente, levaram mais longe a sua deprava\u00e7\u00e3o,<br \/>\nporque tinham no pr\u00f3prio pai 0 principal c\u00famplice das suas orgias. A irm\u00e3<br \/>\nda duquesa de Bourbon, Mlle de la Roche-surYon, c\u00e9lebre pela sua beleza, n\u00e3o<br \/>\nse separava de Marton, estivesse onde estivesse, e amea\u00e7ava de furar os olhos<br \/>\ncom um punhal, que ela trazia sempre na liga, \u00e0quela que lho roubasse ainda<br \/>\nque por um instante. Mme du Maire, tendo ali\u00e1s como amante vital\u00edcio o cardeal<br \/>\nde Polignac, \u00edntimo de seu esposo, disfar\u00e7ava-se freq\u00fcentemente em regateira,<br \/>\npara correr as ruas e vielas de Paris em busca de aventureiros de todo o g\u00eanero.<\/p>\n<p>O pior no entanto, estava no que n\u00e3o se pode contar nestas p\u00e1ginas. Toute<br \/>\nchair \u00e9tail d\u00e9tourn\u00e9e de sa voie, como disse Voltaire a esse respeito, e como<br \/>\no provaram com os fatos mais indecorosos as pr\u00f3prias delfinas de Lu\u00eds XIV<br \/>\ne Mme de Maintenon, e o chevalier de Vend\u00f4me, e o Sr. de Chambonas, e, mais<br \/>\nque todos e que todas, a formosa duquesa de Chartres, que se recolheu ainda<br \/>\nmo\u00e7a ao convento de Chelles, n\u00e3o para se penitenciar dos seus pecados contra<br \/>\na natureza, por\u00e9m, sim, para poder, ali, naquele doce e obscuro viveiro de<br \/>\nalmas adolescentes, agrav\u00e1-los mais \u00e0 farta e mais \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Frei Oz\u00e9as tinha nessa \u00e9poca vinte e cinco anos.<\/p>\n<p>Havia feito seus estudos e recebera as primeiras ordens no semin\u00e1rio de Borgonha,<br \/>\nsua prov\u00edncia natal; depois atirou-se para Paris, onde se ordenou, justamente<br \/>\nno come\u00e7o da reg\u00eancia do Duque de Orl\u00e9ans.<\/p>\n<p>Dotado de temperamento bastante sensual para arrast\u00e1-lo, e sem for\u00e7a na sua<br \/>\nf\u00e9 para poder resistir \u00e0 corrente de perdi\u00e7\u00f5es desse tempo ele, se n\u00e3o foi<br \/>\nt\u00e3o ferozmente devasso como Dubois ou t\u00e3o friamente libertino como Dorat,<br \/>\nacompanhou todavia o exemplo dos seus confrades e com eles arrastou a batina<br \/>\npelos antros mais escorregadios do jogo, da embriaguez e da prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegou a fazer parte dessas rid\u00edculas e terr\u00edveis sociedades secretas, que<br \/>\ninfestavam o reinado de Lu\u00eds XV, centros criados com o fim exclusivo de exercer<br \/>\no gozo, mas o gozo requintado, torturado, burilado a ponta de agulha; gozo<br \/>\ncomo s\u00f3 se inventou nesse tempo, gozo \u00e0 Chambonas e \u00e0 Pompadour, de quem ele<br \/>\ntirou 0 estilo complicado e extravagante. Vintimille, ent\u00e3o arcebispo de Paris,<br \/>\ndevasso como os demais parisienses dessa \u00e9poca, mas enfim arcebispo, esteve<br \/>\na ponto de mandar Oz\u00e9as para a Bastilha, como sucedeu com o padre Tencin,<br \/>\ncom Adrien Aubert, com Chegny, Pierre de Galon e outros muitos religiosos<br \/>\nde sangue quente.<\/p>\n<p>Mas quando Oz\u00e9as chegou aos quarenta e cinco a cinq\u00fcenta anos, come\u00e7ou a<br \/>\ncair em si, e pela primeira vez pensou na perdi\u00e7\u00e3o da sua alma, t\u00e3o comprometida;<br \/>\ne, ou fosse que os requintados prazeres lhe desfibrassem as energias da carne,<br \/>\nou fosse que uma grande e miraculosa transforma\u00e7\u00e3o moral se operasse com efeito<br \/>\nem todo o seu ser, o fato \u00e9 que ele, fulminado de s\u00fabito pela consci\u00eancia<br \/>\ndos seus pecados sem remiss\u00e3o, desabou em fundo arrependimento e protestou<br \/>\nnunca mais, nunca mais cometer a menor a\u00e7\u00e3o que de longe pudesse envergonhar<br \/>\na sua responsabilidade de sacerdote.<\/p>\n<p>Era tarde. Nada mais hipot\u00e9tico do que apagar um passado. Por mais brilhante<br \/>\ne intensa que fosse a luz do seu arrependimento, l\u00e1 estava o gigantesco espectro<br \/>\ndos crimes cometidos, para antepor-se entre eles, e encher de sombra o remorso<br \/>\naquela consci\u00eancia de sacerdote pecador. Por mais sincera e convicta que fosse<br \/>\na<\/p>\n<p>sua nova lei de conduta, por mais leal e verdadeira a sua nova linha de virtude,<br \/>\nsua alma chorava perdida para sempre, porque para sempre se sentia corrompida<br \/>\ne suja.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Oz\u00e9as come\u00e7ou a dar-se todo, de esp\u00edrito e corpo, \u00e0 sua reabilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Cegava-o ardente desejo de conseguir o seu fim.<\/p>\n<p>Principiou por deixar de ser padre, para meter-se na ordem dos mission\u00e1rios<br \/>\nde S. Francisco de Paulo, denominados-&#8220;Os m\u00ednimos&#8221;. Fez voto de pobreza absoluta<br \/>\ne abriu m\u00e3o de tudo, tudo que possu\u00eda; o que, ali\u00e1s, n\u00e3o era pouco, porque<br \/>\nal\u00e9m dos seus bens de fam\u00edlia, Oz\u00e9as metera-se a especular no jogo feroz que<br \/>\nLaw criara sob a reg\u00eancia, e chegara a acumular uma bonita soma de seis milh\u00f5es<br \/>\nde francos.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, noite e dia, hora a hora, instante a instante, a sua \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nera expurgar a alma das passadas conspurca\u00e7\u00f5es. E nunca ningu\u00e9m se mostrou<br \/>\nt\u00e3o empenhado em reabilitar-se do passado. Por mais escabroso que fosse o<br \/>\nato de piedade, Oz\u00e9as n\u00e3o desdenhava afront\u00e1-lo, como se a sua f\u00e9, por muito<br \/>\ntempo adormecida, acordasse de s\u00fabito, \u00e0 vida de sacrif\u00edcios e prova\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quer onde houvesse solu\u00e7os e dores, chagas e l\u00e1grimas a suster, afli\u00e7\u00f5es<br \/>\na reprimir, ali estava ele apresentando os ombros para todas as cruzes, que<br \/>\nos seus semelhantes n\u00e3o pudessem suster.<\/p>\n<p>A sua velha t\u00fanica, de sarja grossa e sem dobras, n\u00e3o lhe pertencia mais<br \/>\ndo que ao primeiro mendigo que sentisse frio; o seu p\u00e3o s\u00f3 lhe chegava \u00e0 boca,<br \/>\ndepois de rejeitado pelos que j\u00e1 tinham matado a fome; a sua luz s\u00f3 alumiava<br \/>\no seu covil de santo, quando nenhum gemido suspirava na treva.<\/p>\n<p>Para esse arrependido egresso, criado nas orgias do come\u00e7o do s\u00e9culo passado;<br \/>\npara esse arrependido devasso, que se embriagava com os restos do incestuoso<br \/>\nprazer do duque de Orl\u00e9ans, a febre do arrependimento converteu-se em loucura,<br \/>\nconverteu-se numa nevrose que o arrastava de joelhos, com o rosto na terra,<br \/>\na todos os del\u00edrios da f\u00e9, a todos os hero\u00edsmos da abnega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A peste de Marselha foi um dos mais brilhantes teatros para 0 seu desespero<br \/>\nde ser santo. Como um verdadeiro revolucion\u00e1rio do bem, fez dos farrapos do<br \/>\nseu burel uma bandeira de caridade e agitou-a pelos alcouces abandonados,<br \/>\nem que era vergonha entrar, ainda que fosse para socorrer os que morriam.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00faltima e mais leprosa das perdidas n\u00e3o negava sua boca o beijo da consola\u00e7\u00e3o,<br \/>\nenviado por Deus aos desamparados pelos homens.<\/p>\n<p>E assim, no fim de alguns anos de arrependimento, Oz\u00e9as ganhara reputa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde santo; e, com efeito, se nenhum religioso at\u00e9 antes fora mais culpado,<br \/>\nnenhum tamb\u00e9m levou t\u00e3o longe o esfor\u00e7o da sua reabilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, apesar de tamanhas prova\u00e7\u00f5es, Oz\u00e9as n\u00e3o se sentia purificado. Sua alma<br \/>\nsangrava ainda, pedindo mais sacrif\u00edcios, e ele ca\u00eda de joelhos, arranhando<br \/>\nas carnes do peito com as unhas, e suplicando a Deus que lhe inspirasse um<br \/>\nmeio de resgatar-se, completamente, aos olhos da sua pr\u00f3pria consci\u00eancia vergonhosa.<\/p>\n<p>Que meio poderia ser esse que ele exigia de Deus?<\/p>\n<p>Eis ao que nem o pr\u00f3prio Oz\u00e9as seria capaz de responder.<\/p>\n<p>Todavia, n\u00e3o cessava de pedir ao senhor misericordioso que lhe mandasse dos<br \/>\nc\u00e9us uma luz guiadora do caminho da completa salva\u00e7\u00e3o, certo de que Deus,<br \/>\nonipotente e compassivo, havia de achar, nos segredos de sua bondade, recursos<br \/>\npara apagar aquela dor incur\u00e1vel e profunda.<\/p>\n<p>Foi nessa conjuntura que ele uma vez de madrugada, saindo do seu convento<br \/>\npara uma piedosa excurs\u00e3o, encontrou \u00e0 porta do jardim uma pequena cesta,<br \/>\nde onde um fraco e quase impercept\u00edvel vagido partia como de um ber\u00e7o.<\/p>\n<p>Abaixou-se logo, apoderou-se da cesta, e verificou que dentro dela havia<br \/>\numa crian\u00e7a do sexo masculino.<\/p>\n<p>Um enjeitado!<\/p>\n<p>Tomou-o nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Mas um enjeitado de quem?. . . Por aquelas alturas n\u00e3o lhe apontava a mem\u00f3ria<br \/>\nqualquer pessoa que fosse capaz desse crime.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, porque o depunham \u00e0 porta de um mosteiro, frio lugar onde s\u00f3<br \/>\nhavia alguns pobres religiosos sem recursos para nada?. . .<\/p>\n<p>Era como se o lan\u00e7assem ao surdo port\u00e3o de um cemit\u00e9rio!<\/p>\n<p>Qual seria a m\u00e3es t\u00e3o n\u00e9scia, que, procurando passar seu filho \u00e0s m\u00e3os de<br \/>\nquem o pudesse fazer viver, fosse procurar um lugar onde eram crime a voz<br \/>\ne o choro desses anjinhos da terra?&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o uma estranha id\u00e9ia acudiu ao esp\u00edrito sobressaltado do infeliz frade.<\/p>\n<p>Quem sabe, pensou ele; se esta inocente criatura, ser\u00e1 um enviado de Deus?.<br \/>\n. . Sim! Sim! bem pode ser o Senhor misericordioso, compenetrado da sinceridade<br \/>\ndo meu arrependimento e da amargura da minha dor, me enviasse dos c\u00e9us este<br \/>\nmeio de resgate para minha alma! . . . Sim! Sim! eu, que n\u00e3o consegui ser<br \/>\num padre digno e puro; eu, a quem faltaram amparo e for\u00e7as para lutar com<br \/>\nas tenta\u00e7\u00f5es mundanas, tenho aqui, nesta pequena por\u00e7\u00e3o de carne imaculada,<br \/>\no cabedal para fazer um sacerdote casto e sagrado, como eu devia ter sido<br \/>\ne n\u00e3o fui!<\/p>\n<p>E Oz\u00e9as como que se encontrava a si mesmo, encontrando aquela criatura ang\u00e9lica.<\/p>\n<p>Era Deus, sem d\u00favida, que o restitu\u00eda ao ber\u00e7o e ao seu supremo estado de<br \/>\npureza, para que ele come\u00e7asse de novo a viver, armado, entretanto, para todas<br \/>\nas lutas.<\/p>\n<p>-Sim! Sim! exclamou ele erguendo nas m\u00e3os tr\u00eamulas a criancinha, e cobrindo-lhe<br \/>\nos p\u00e9s de beijos e de l\u00e1grimas de alegria. Sim! Sim! Desta cera virgem poderia<br \/>\nfazer um sacerdote digno de Deus! Obrigado, obrigado, meu Pai de bondade,<br \/>\nque ouviste as minhas s\u00faplicas e me enviaste do teu peito de amor um meio<br \/>\nde salva\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>E louco de contentamento, despiu sem hesitar o seu velho capote, envolveu<br \/>\nnele a crian\u00e7a e correu \u00e0 casa mais pr\u00f3xima, para pedir que a ela prestassem<br \/>\nos primeiros socorros.<\/p>\n<p>Logo que p\u00f4de, levou-a \u00e0 igreja, batizou-a com o nome de \u00c2ngelo; depois tratou<br \/>\nde descobrir uma mulher honesta, que se quisesse encarregar da aleit\u00e1-la at\u00e9<br \/>\na \u00e9poca competente.<\/p>\n<p>E, quando o pequenino \u00c2ngelo pode enfim dispensar os cuidados da ama, Oz\u00e9as<br \/>\ncarregou com ele para o seu convento, e encerrou-o misteriosamente numa cela<br \/>\nignorada e sombria.<\/p>\n<p>A bem poucos dos seus confrades confiou o segredo do que ele chamava &#8220;a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Messias da sua alma&#8221;. E, desde essa \u00e9poca, \u00c2ngelo viveu sem nunca sair<br \/>\ndo convento e nem sequer chegar a uma janela para ver a rua.<\/p>\n<p>Oz\u00e9as foi o seu companheiro, e o seu guia, e o seu mestre, e o seu pai espiritual.<br \/>\nS\u00f3 o confiava a algum dos outros religiosos ou a algum professor do semin\u00e1rio,<br \/>\nquando as exig\u00eancias do ensino assim o determinavam.<\/p>\n<p>O sigilo da exist\u00eancia e da cria\u00e7\u00e3o de \u00c2ngelo no convento, n\u00e3o foi quebrado<br \/>\npor nenhum dos frades que o conheciam. Uma cadeia de respeitoso interesse<br \/>\nformou-se em torno dessa crian\u00e7a, que todos eles acreditavam predestinada,<br \/>\npelos mist\u00e9rios do c\u00e9u, a cumprir na terra uma alta e sagrada miss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo cresceu, pois, fechado na sua religiosa estufa, sem ter nem ao menos<br \/>\ndesconfian\u00e7a do que se passava l\u00e1 fora, nessa cidade do prazer e do v\u00edcio.<br \/>\nCresceu casto como uma flor, que as abelhas e as borboletas n\u00e3o alcan\u00e7am.<\/p>\n<p>Apenas conhecia a religi\u00e3o e a B\u00edblia. At\u00e9 aos vinte anos, fez todos os seus<br \/>\nestudos e recebeu as ordens ao lado do pai espiritual. Mas tal era a confian\u00e7a<br \/>\nque o velho Oz\u00e9as tinha no seu disc\u00edpulo, que n\u00e3o hesitou em apresent\u00e1-lo<br \/>\npara substituir La Rose no serm\u00e3o de quinta-feira santa na capela real.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo ia sair \u00e0 rua pela primeira vez.<\/p>\n<h2><a id=\"3\" name=\"3\"><\/a>III &#8211; Virgindade no homem<\/h2>\n<p>Logo que Oz\u00e9as deixara a sombria cela do convento de S. Francisco de Paulo<br \/>\ne a porta se fechara sobre ele silenciosamente, \u00c2ngelo, em obedi\u00eancia \u00e0s suas<br \/>\nordens, ajoelhara-se defronte do orat\u00f3rio e come\u00e7ara a rezar.<\/p>\n<p>Na sua alma inocente n\u00e3o passava a id\u00e9ia da responsabilidade que o esperava.<br \/>\nSem nunca ter sa\u00eddo \u00e0 rua, sem conhecer Paris e os parisienses, n\u00e3o podia<br \/>\ndesconfiar sequer do que era nesse tempo um serm\u00e3o pregado na capela real,<br \/>\ndefronte do rei e da corte.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia que nesse tempo, piedoso e devasso, fazia-se da religi\u00e3o um prazer<br \/>\nrequintado, e que o p\u00falpito era, como o palco, ou como o livro, ou como o<br \/>\nsal\u00e3o e o \u00e1lbum, um meio de exibi\u00e7\u00f5es de talento esquisito e complica\u00e7\u00f5es<br \/>\nde arte. N\u00e3o sabia, o pobre \u00c2ngelo, que o pregador do que menos precisava,<br \/>\nnesse bom tempo do estilo equilibrado em cinco palitos, era de ser sincero<br \/>\ne convicto, mas sim de ter originalidade na maneira, gra\u00e7a na exposi\u00e7\u00e3o da<br \/>\nfrase, eleg\u00e2ncia nos gestos e naturalidade galante nos solu\u00e7os e nos gemidos<br \/>\nde pecador.<\/p>\n<p>Essa mistura do sagrado \u00e1spero com o profano macio, do prazer aveludado com<br \/>\na devo\u00e7\u00e3o capitosa, produziu as c\u00e9lebres festas h\u00edbridas, que ent\u00e3o se organizavam<br \/>\nem uma das salas das Tulherias durante a quaresma, e as quais deram gamenhamente,<br \/>\no nome de Concertos espirituais.<\/p>\n<p>Lu\u00eds XV gostava de presenci\u00e1-las, sentado a um canto entre algumas formosas<br \/>\nmulheres, e bebendo vinho da S\u00edria, que era o seu vinho predileto. Pestanejava<br \/>\ne sorria para todos os lados. Liam-se versos ternos e religiosos, cantavam-se<br \/>\no Miserere, o De profundis, o Stabat, e outras cousas tristes, mas tudo com<br \/>\nmuita gra\u00e7a e requebros faceiros.<\/p>\n<p>Era o amor temperado com \u00f3leo cheiroso de Santa Luzia.<\/p>\n<p>Havia sempre para estrear, no p\u00falpito desses concertos, um ou mais jovens<br \/>\neclesi\u00e1sticos, sempre mo\u00e7os bonitos, aos quais, durante o serm\u00e3o, serviam<br \/>\n\u00e1gua rosada e licor de violetas. E o que deles se exigia, era apenas voz doce,<br \/>\nolhar meigo, dentes bem claros, l\u00e1bios vermelhos, rendas alv\u00edssimas na camisa,<br \/>\ne m\u00e3os brancas de unhas limpas. \u00c0s vezes criava-se uma bela reputa\u00e7\u00e3o e fazia-se<br \/>\numa bonita carreira, s\u00f3 com uma palavra feliz ou com um gemido suspirado com<br \/>\nchiste em ocasi\u00e3o oportuna. O caso era que as gentis devotas se impressionassem.<br \/>\nE s\u00f3 se falava \u00e0 meia voz, s\u00f3 se namorava a meio sorriso e s\u00f3 se andava lentamente<br \/>\naos pulinhos, abafando os passos nos arminhosos tapetes a que Pompadour deu<br \/>\no seu nome.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo, coitado, nada conhecia disso nem por not\u00edcia sequer; como igualmente<br \/>\nn\u00e3o conhecia o outro g\u00eanero de pregadores, n\u00e3o menos comum nesse tempo, o<br \/>\ndo pregador terr\u00edvel, de pulso forte e cabe\u00e7a dura, que ia para o p\u00falpito<br \/>\nde cacete escondido debaixo do capote, e cujos serm\u00f5es eram por via de regra<br \/>\numa descarga pol\u00edtica e uma tremenda descompostura, contra o partido dos Jansenistas<br \/>\nou contra o partido dos Molinistas, conforme a filia\u00e7\u00e3o do orador, e que,<br \/>\nem geral, acabavam tamb\u00e9m por solu\u00e7os e gemidos, mas estes agora bem sinceros<br \/>\ne bem reais, e grossa pancadaria no \u00e1trio da igreja.<\/p>\n<p>At\u00e9 certa idade, \u00c2ngelo chegou a acreditar que o mundo se resumia no seu<br \/>\nconvento, e que a humanidade se compunha apenas daquela meia d\u00fazia de frades,<br \/>\ning\u00eanuos e quase santos, que ele conhecia. Oz\u00e9as, com um cuidado enorme, um<br \/>\nzelo de guarda do Para\u00edso, isolava-o dos seminaristas e dos empregados do<br \/>\nsemin\u00e1rio, e lhe n\u00e3o deixava cair nas m\u00e3os a mais inofensiva p\u00e1gina de qualquer<br \/>\nlivro que n\u00e3o fosse religioso.<\/p>\n<p>E, no entanto, \u00c2ngelo era dotado de um poderoso talento de assimila\u00e7\u00e3o e<br \/>\ndevorava sofregamente tudo, bom ou mau, que lhe davam para ler. As mat\u00e9rias<br \/>\nreligiosas que plantaram no fundo do seu esp\u00edrito, desabrocharam logo, produzindo<br \/>\numa intrincada floresta de filosofia teol\u00f3gica, que abismava aos pr\u00f3prios<br \/>\nseus professores.<\/p>\n<p>Aquela crian\u00e7a, diziam estes, estava destinada a fazer o verdadeiro renascimento<br \/>\nda religi\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p>E cresciam os desvelos em torno de \u00c2ngelo, or\u00e7ando j\u00e1 pelo fanatismo. N\u00e3o<br \/>\nlhe permitiam olhar para o p\u00e1tio do convento, onde havia uma cria\u00e7\u00e3o de galinhas<br \/>\ne coelhos. Receavam, e com raz\u00e3o, que o espet\u00e1culo dos instintos procriadores<br \/>\ndos inocentes bichos despertasse no outro inocente id\u00e9ias que a igreja reprovava.<br \/>\nEscondiam-lhe o pr\u00f3prio sol em dias de grande calor, como se a exibi\u00e7\u00e3o daquela<br \/>\nvida que se derramava sobre a terra para fecundar com a luz germinadora e<br \/>\nben\u00e9fica, fosse bastante para acordar na carne p\u00e1lida do seminarista a revolucion\u00e1ria<br \/>\ncentelha do amor.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00c2ngelo bem pouco se impressionava com essas cousas, e tinha para<br \/>\ntodas essas lubrifica\u00e7\u00f5es com que a natureza estimula a vida, um profundo<br \/>\nolhar de indiferen\u00e7a, como se todo ele estivesse<\/p>\n<p>perenemente voltado para a fria religi\u00e3o ideal e azul, em que os anjos, \u00fanicos<br \/>\nque a povoam e habitam, n\u00e3o t\u00eam idade nem sexo.<\/p>\n<p>N\u00e3o era uma criatura humana, n\u00e3o era um mo\u00e7o que ia entrar na adolesc\u00eancia;<br \/>\nera a sombra incolor de um obscuro beijo que se fizera carne, e que o crep\u00fasculo<br \/>\nda tarde, pedia-lhe que o n\u00e3o deixasse corromper-se \u00e0 sensual e perturbadora<br \/>\nluz do sol.<\/p>\n<p>As vezes, ao cair da noite, quando a natureza parece abrir o peito, para<br \/>\nchorar em gotas de orvalho as misteriosas dores do seu parto de todos os dias,<br \/>\nele o p\u00e1lido enjeitado, que vivia \u00e0 sombra das paredes sonolentas e \u00famidas<br \/>\nde um claustro, sa\u00eda a passear pelo maltratado jardim que havia nos fundos<br \/>\ndo convento. E a\u00ed, entre as cheirosas moitas das rosas silvestres, t\u00e9pidas<br \/>\nainda do derradeiro sol que as dourara no \u00faltimo poente, o seu vulto triste<br \/>\ne meigo transparecia, como um sonho de poeta ou um fugitivo devaneio de donzela.<\/p>\n<p>Pobre \u00c2ngelo! De tudo que sua alma podia conceber, s\u00f3 uma cousa lhe n\u00e3o esconderam-a<br \/>\nB\u00edblia. E era com o aux\u00edlio desse poema quente e cheiroso como os perfumes<br \/>\nde Cedar, que ele, o infeliz, enchia de estrelas os seus devaneios de sonhador<br \/>\nimp\u00fabere.<\/p>\n<p>Nesses momentos, o canto que o seu cora\u00e7\u00e3o cantava chorando, e chorando lhe<br \/>\nfazia agitar da boca as p\u00e9talas trementes, era o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, o livro<br \/>\ndo poeta rei, amante de todas as mulheres formosas do Oriente.<\/p>\n<p>Ironia dolorosa! \u00c2ngelo, o casto, arrebatava-se nas asas da inspira\u00e7\u00e3o do<br \/>\npoeta de mil amantes!<\/p>\n<p>&#8220;Eu durmo e o meu cora\u00e7\u00e3o vela; eis a voz do meu amado que bate, dizendo:-Abre-me,<br \/>\nirm\u00e3 minha, amiga minha, pomba minha, imaculada minha; porque a minha cabe\u00e7a<br \/>\nest\u00e1 cheia de orvalho, e me est\u00e3o correndo pelos an\u00e9is do cabelo as gotas<br \/>\nda noite.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eu abri a minha porta ao meu amado, mas ele j\u00e1 se tinha ido, era j\u00e1 passado<br \/>\na outra parte. A minha alma se derreteu, assim que ele falou: busquei-o, mas<br \/>\nn\u00e3o o achei; chamei-o, e ele me n\u00e3o respondeu.&#8221;<\/p>\n<p>E \u00c2ngelo, quando estes versetes lhe vinham ao esp\u00edrito, misturados com os<br \/>\nsuspiros da vaga saudade, que ele mal definia e em que mal acreditava, ca\u00eda<br \/>\nem fundas cismas, para as quais s\u00f3 havia uma consola\u00e7\u00e3o: -escrever. N\u00e3o versos,<br \/>\ndesses que o p\u00fablico exige dos poetas mundanos, porque \u00c2ngelo n\u00e3o conhecia<br \/>\nregras de arte, mas lan\u00e7ava sobre o papel frases como as que lia no livro<br \/>\nde Salom\u00e3o, ao correr da pena, e impregnados da quente virgindade de sua alma.<\/p>\n<p>Quem roubasse da escura cela as tiras de papel, esquecidas sobre a tosca<br \/>\nmesa de pinho, leria nas tr\u00eamulas linhas, a\u00ed tra\u00e7adas todas as noites com<br \/>\nm\u00e3o nervosa, estranhos pensamentos como os que foram o cap\u00edtulo a seguir.<\/p>\n<h2><a name=\"4\"><\/a>IV &#8211; Vem! Que te chamo!<\/h2>\n<p>&#8220;Amado da minha alma, aponta-me onde \u00e9 que apascentas o teu gado, onde te<br \/>\nencostas pelo meio-dia, para que n\u00e3o entre eu a andar feito uma vagabunda<br \/>\natr\u00e1s dos rebanhos dos teus companheiros.<\/p>\n<p>&#8220;O meu amado \u00e9 para mim como um ramilhete de mirra. Ele morrer\u00e1 entre meus<br \/>\npeitos.<\/p>\n<p>&#8220;Meu amado, vem comigo pelos campos, d\u00e1-me a tua m\u00e3o; que eu perfume nela<br \/>\nos meus cabelos e que eu sorva tremente o cheiro da tua boca, como a cabra<br \/>\nmontesa que morde os l\u00edrios da ladeira.<\/p>\n<p>&#8220;Tu \u00e9s belo e forte como o cedro, suave como a ribeira, e tua voz \u00e9 como<br \/>\no gemido das pombas.<\/p>\n<p>&#8220;As tuas faces t\u00eam toda a maravilha de um prado iluminado por dois s\u00f3is,<br \/>\ne onde os meus beijos, como um rebanho, descansam \u00e0 sombra dos teus cabelos.<\/p>\n<p>&#8220;Vem, amado meu do meu cora\u00e7\u00e3o, que eu por ti definho de amor e morro de<br \/>\ntristeza.<\/p>\n<p>&#8220;O amado do meu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 bonito que nem essa cabra arisca, que grimpa \u00e0<br \/>\ntardinha pelos escaldados outeiros sem relva, e que de noite e de manh\u00e3 a<br \/>\ngente n\u00e3o bispa mais. ele \u00e9 como o veadinho branco, que corre mais depressa<br \/>\ne se some, se lhe querem p\u00f4r a m\u00e3o em cima. ele \u00e9 como aquilo que n\u00f3s mais<br \/>\nqueremos, e que n\u00e3o est\u00e1 dentro dos nossos bra\u00e7os e junto dos nossos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>&#8220;Mas n\u00e3o, alma minha mentirosa, ei-lo que ali est\u00e1 ele, todo amoroso e rubicundo,<br \/>\nposto de p\u00e9 por detr\u00e1s da parede do meu quarto, olhando o meu leito pelas<br \/>\nfrestas da janela, chorando de amor e estendendo a vista dos seus olhos por<br \/>\nentre as gelosias.<\/p>\n<p>&#8220;Lavei os meus p\u00e9s assentada no meu leito. Como os hei de sujar agora?<\/p>\n<p>&#8220;O s\u00e2ndalo e a murta est\u00e3o recendendo.<\/p>\n<p>&#8220;Vem, amado de minha alma, as vinhas j\u00e1 puseram o primeiro cacho de seus<br \/>\nfrutos, e as mo\u00e7as de Jerusal\u00e9m est\u00e3o dormindo \u00e0 sombra das parras, para sonhar<br \/>\ncom aqueles que as querem para amar.<\/p>\n<p>&#8220;Eu s\u00f3, amado das minhas entranhas; eu s\u00f3, a mais mesquinha entre filhas<br \/>\nde Jerusal\u00e9m, n\u00e3o durmo o sono da noite, e estou \u00e0 espera que a minha vinha<br \/>\namadure\u00e7a e tome cor, para te puxar para meu lado e repartir contigo a minha<br \/>\nuva doce.<\/p>\n<p>&#8220;Vir\u00e1s, que te chamo com as minhas m\u00e3os, e te abro meus peitos.<\/p>\n<p>&#8220;Tu \u00e9s, amado de minha vida, o escolhido do meu cora\u00e7\u00e3o. Tua cabe\u00e7a \u00e9 como<br \/>\na espiga de ouro que o sol beija de manh\u00e3, pensando que beija a mesma cabe\u00e7a<br \/>\nde seu filho, os teus cabelos s\u00e3o como as fibras que as palmeiras choram,<br \/>\nquando lhe arrancam as pencas dos seus frutos que elas produziram. S\u00e3o leves,<br \/>\nmacios, correntes e ondulosos, s\u00e3o como os cabelos do milho doce, e mais doce<br \/>\nque o mel gostoso da flor da banana.<\/p>\n<p>&#8220;Eu te amo, porque tu \u00e9s formoso. Mira-te, tu, nos meus olhos amorosos, e<br \/>\nver\u00e1s se te mentem minhas palavras. N\u00e3o me fujas como a ave que deseja a irm\u00e3<br \/>\nsozinha no ninho, sem o companheiro para cobrir os ovos. Teu rebanho n\u00e3o se<br \/>\nperder\u00e1 na montanha, enquanto tu dormires com a cabe\u00e7a entre meus peitos de<br \/>\namor.<\/p>\n<p>&#8220;Vem, amado meu. As nossas noites ser\u00e3o como os regatos tranq\u00fcilos, em que<br \/>\nse abrem os nen\u00fafares, brancos e perfumados como sonhos de amor. Teus l\u00e1bios<br \/>\nser\u00e3o dos meus l\u00e1bios, teus cabelos ser\u00e3o dos meus cabelos, teu seio do meu<br \/>\nseio, como a raiz \u00e9 da terra, como a flor \u00e9 da abelha. Vem, p\u00f5e a cabe\u00e7a em<br \/>\ncima de mim e dorme o teu sono, que eu tamb\u00e9m dormirei, mas desfalecida de<br \/>\namor. D\u00e1 o teu \u00faltimo pensamento vivo para os meus l\u00e1bios, para que eu o guarde<br \/>\ndentro de mim, e te o restitua depois na tua boca. Fala-me para dentro, e<br \/>\nminha alma te ouvir\u00e1 cativa e amorosa.<\/p>\n<p>&#8220;Conjuro-te, amado meu, que des\u00e7as da montanha pelo teu p\u00e9 e venhas at\u00e9 a<br \/>\nmim, que te quero. Traze tu o teu rebanho branco, e iremos, n\u00f3s juntos, apascent\u00e1-lo<br \/>\nmuito longe pelas campinas, at\u00e9 que morra o sol e a noite chegue sacudindo<br \/>\nos cabelos orvalhados de estrelas.<\/p>\n<p>&#8220;Junta-te comigo, que eu sou o mel de que teus l\u00e1bios gostam. Bebe a do\u00e7ura<br \/>\nda minha boca, e tu me pedir\u00e1s o favo inteiro.<\/p>\n<p>&#8220;A asa procura a flor, porque a flor esconde o mel doce nos seus seios. Vem;<br \/>\nvem e fecha nas tuas asas de sol as p\u00e9talas do meu desejo.<\/p>\n<p>&#8220;Desce donde estiveres, vem, que te espero eu, sem poder fechar o meu tormento,<br \/>\nenquanto n\u00e3o chegares para me amar.<\/p>\n<p>&#8220;Mas quem \u00e9s tu, amado de minha alma, que meus olhos te n\u00e3o distinguem por<br \/>\nentre as sombras da minha vida, nem meu bra\u00e7o te alcan\u00e7a, quando de noite<br \/>\nte busco nos meus sonhos?. . . Quem \u00e9s tu, amada vis\u00e3o, que eu busco e que<br \/>\nme acompanha?. . . Quem \u00e9s tu, que te evoco e me n\u00e3o vales, quando todo meu<br \/>\ndesejo \u00e9 que me desejes e me tenhas?<\/p>\n<p>&#8220;Minha porta dorme t\u00e3o aberta como meu peito. Meu leito n\u00e3o tem muros, e<br \/>\nmeus bra\u00e7os n\u00e3o se cruzar\u00e3o para o teu encontro, posto sejas tu o senhor e<br \/>\neu escrava que te espera.<\/p>\n<p>&#8220;Tu me reconhecer\u00e1s na sombra, se chegares; basta que ponhas a m\u00e3o sobre<br \/>\nminha carne. E isso ser\u00e1 um selo para que tu nunca mais me percas.<\/p>\n<p>&#8220;Vem, amado do meu cora\u00e7\u00e3o! Vem! Vem, que toda eu te quero!&#8221;<\/p>\n<p>E, no entanto, \u00c2ngelo era um inocente, ou, pelo menos, nunca tinha visto<br \/>\numa mulher.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"><\/a>V &#8211; TRIUNFO INCONSCIENTE<\/h2>\n<p>Dotado, como ficou dito, de grande atividade intelectual e poderoso talento<br \/>\nde assimila\u00e7\u00e3o, \u00c2ngelo aos quinze anos j\u00e1 embasbacada os seus ing\u00eanuos professores,<br \/>\ncom as arg\u00facias das suas r\u00e9plicas e com os engenhosos coment\u00e1rios que fazia<br \/>\ndo Velho e do Novo Testamento.<\/p>\n<p>Oz\u00e9as, cada vez mais profundamente convencido da proced\u00eancia divina do seu<br \/>\npupilo, guardava-o e escondia-o afinal com o respeitoso carinho e desvelo<br \/>\ncom que se guarda uma rel\u00edquia consagrada.<\/p>\n<p>E a cren\u00e7a de que \u00c2ngelo era um inspirado por Deus, foi ganhando o esp\u00edrito<br \/>\nde todos que com ele praticavam no convento.<\/p>\n<p>Havia com efeito no ar daquele pobre adolescente prisioneiro de um claustro,<br \/>\nalguma cousa que impressionava a quem o observasse de perto. Os seus grandes<br \/>\nolhos azuis, muito escuros, quase negros, tinham uma h\u00edbrida express\u00e3o feita<br \/>\nde inoc\u00eancia e perspic\u00e1cia; eram vivos como os da \u00e1guia, mas transparentes<br \/>\ne doces como os de uma crian\u00e7a, e tinham, ao mesmo tempo que deixavam transluzir<br \/>\ntoda a virgindade daquela alma imaculada, s\u00fabitos clar\u00f5es, Inteligentes, que<br \/>\ndenunciavam um esp\u00edrito agudo e forte. Na suavidade das suas faces de mo\u00e7o,<br \/>\nhavia a sombra das duras penit\u00eancias e das grandes vig\u00edlias m\u00edsticas sobre<br \/>\nas p\u00e1ginas do brevi\u00e1rio, ou defronte do altar da Virgem Sant\u00edssima, mas havia<br \/>\ntamb\u00e9m uma juvenil frescura de flor, dessas misteriosas e p\u00e1lidas, que s\u00f3<br \/>\n\u00e0 noite desabrocham e recendem. A sua boca imberbe era um conjunto fascinador<br \/>\nde gra\u00e7a e de tristeza, seus l\u00e1bios, um tanto cheios e sang\u00fc\u00edneos, pareciam<br \/>\ntodavia talhados mais para os beijos de amor do que para o frouxo balbuciar<br \/>\ndas ora\u00e7\u00f5es. Seus cabelos negros, crescidos \u00e0 nazarena, como ent\u00e3o usavam<br \/>\nos religiosos de Fran\u00e7a, derramavam-se-lhe em fartos an\u00e9is sobre a brancura<br \/>\ndo pesco\u00e7o e ca\u00edam-lhe em tr\u00eamulas madeixas de lado a lado do rosto.<\/p>\n<p>Devia ter sido um rapaz muito forte, se n\u00e3o fora a enervadora clausura a<br \/>\nque o condenara seu infeliz destino. Era de natural esbelto e airoso, tinha<br \/>\nos dentes brancos e rijos, o queixo en\u00e9rgico, o nariz feito de uma s\u00f3 linha,<br \/>\na fronte alta e severa.<\/p>\n<p>As macera\u00e7\u00f5es dos jejuns e das \u00e1speras disciplinas n\u00e3o conseguiram desfibrar-lhe<br \/>\nde todo a s\u00f3lida complei\u00e7\u00e3o com que a natureza o dotara. Apesar de tudo, era<br \/>\nainda, nos seus c\u00e2ndidos vinte anos, uma garbosa e gentil figura, que havia<br \/>\nfatalmente de impressionar \u00e0s damas sensuais da corte de Lu\u00eds XV.<\/p>\n<p>Efetivamente assim foi.<\/p>\n<p>Conduzido at\u00e9 ao p\u00falpito por seu pai espiritual, \u00c2ngelo, mal se mostrou e<br \/>\npercorreu com os olhos inexperientes o audit\u00f3rio que o aguardava ansioso,<br \/>\num s\u00fabito rumor de simpatia percorreu toda a igreja. As mulheres, instaladas<br \/>\nnas tribunas, alongaram o pesco\u00e7o para o ver melhor. O rei sorriu interessado,<br \/>\ne logo toda a sua corte sorriu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A capela, completamente cheia, palpitava de curiosidade. Paris elegante estava<br \/>\ntodo ali, entre aquelas bonitas paredes de m\u00e1rmore cor-de-rosa, guarnecida<br \/>\nde flor\u00f5es e filetes de ouro rebrilhante. Sentia-se o tilintar dos pingentes<br \/>\nde cristal dos imensos lustres de mil velas, e sentia-se por entre o farfalhar<br \/>\ndos veludos e das sedas, o fremir dos leques de tartaruga e madrep\u00e9rola, suavemente<br \/>\nagitados contra os adere\u00e7os preciosos. O cheiro sagrado da mirra e do incenso<br \/>\nconfundia-se no espa\u00e7o com os voluptuosos perfumes do toucador.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo, im\u00f3vel, de p\u00e9, m\u00e3os pousadas no retordo do p\u00falpito, olhos postos<br \/>\nno alto e l\u00e1bios entreabertos, fazia a sua ora\u00e7\u00e3o preparadora, inteiramente<br \/>\nalheio a toda aquela luzida e refulgente corte que o cercava.<\/p>\n<p>Compreendia-se que sua alma, arrebatada no enlevo da prece, vagava naquele<br \/>\ninstante pelos infinitos p\u00e1ramos do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Toda a sua f\u00e9, toda a sinceridade das suas cren\u00e7as e toda a pureza do seu<br \/>\ncorpo e do seu esp\u00edrito, vieram-lhe ao semblante naquele momento de profundo<br \/>\n\u00eaxtase.<\/p>\n<p>Parecia um arcanjo em dulc\u00edssimo id\u00edlio com a Divindade. Dir-se-ia que ele,<br \/>\nde um instante para outro, ia desprender-se da terra e partir lentamente para<br \/>\nDeus, como a pr\u00f3pria suplica que lhe agitava as rosas da boca e se evaporava<br \/>\ncomo um perfume.<\/p>\n<p>Quando as suas primeiras palavras sa\u00edram-lhe do cora\u00e7\u00e3o, num doce murm\u00fario<br \/>\nde voz ang\u00e9lica, houve em todas aquelas pobres criaturas, estafadas pelo v\u00edcio<br \/>\ne pela libertinagem, uma inesperada como\u00e7\u00e3o que lhes umedecia os olhos.<\/p>\n<p>E ele, sempre arrebatado no v\u00f4o do seu enlevo religioso, continuava a falar,<br \/>\ncomo se estivesse sonhando, cercado de uma nuvem de anjos.<\/p>\n<p>A sua voz, de cristal e ouro, virgem e sonora, enchia o recinto, produzindo<br \/>\nnaquele ext\u00e1tico e maravilhado audit\u00f3rio o efeito de uma estranha m\u00fasica desconhecida,<br \/>\nque baixasse dos c\u00e9us para acordar-lhe, no corrompido e morto cora\u00e7\u00e3o, uma<br \/>\nid\u00e9ia generosa e consoladora.<\/p>\n<p>Foi geral e profunda a como\u00e7\u00e3o. As mulheres arfavam, sem despregar os olhos<br \/>\nda encantadora figura de \u00c2ngelo. O rei deixara pender a cabe\u00e7a sobre o peito<br \/>\ne cismava, possu\u00eddo de uma express\u00e3o de bondade, que at\u00e9 a\u00ed ningu\u00e9m lhe tinha<br \/>\njamais visto. A condessa de Pampadour, debru\u00e7ada no seu genuflex\u00f3rio de veludo<br \/>\ncarmesim, tinha a fisionomia paralisada e parecia orar contritamente.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00c2ngelo falava sempre, e sempre alheio ao que o cercava. Suas<br \/>\nfrases vinham-lhe aos l\u00e1bios naturalmente, sem que houvesse nele a mais ligeira<br \/>\npreocupa\u00e7\u00e3o de agradar ao p\u00fablico ou armar ao efeito. Era nada mais do que<br \/>\na confiss\u00e3o do seu entranhado amor pelo m\u00e1rtir do G\u00f3lgota, um descrever de<br \/>\ndores cruciantes, que ele sofria dizendo-as ali, como se naquela ocasi\u00e3o as<br \/>\nexperimentasse possu\u00eddo de uma revolta de arcanjo fiel e cheio de piedoso<br \/>\nentusiasmo por esse Deus humilde, que abandonou o seu trono celeste para vir<br \/>\npadecer, na terra ingrata, como o derradeiro dos homens.<\/p>\n<p>Falava de Jesus como se falasse de um desgra\u00e7ado companheiro, a quem arrancaram<br \/>\nde seus bra\u00e7os para lev\u00e1-lo de rastos por essas ruas, cuspindo-lhe sobre as<br \/>\nferidas, rasgando-lhe as carnes nas pedras do caminho, e matando-o afinal<br \/>\nnum poste infame, onde se justi\u00e7aram os ladr\u00f5es e os assassinos.<\/p>\n<p>A sua dor era sincera, e por isso se apoderava do cora\u00e7\u00e3o de todos que o<br \/>\nescutavam; tanto que \u00c2ngelo, ao terminar a pr\u00e9dica, lan\u00e7ando o derradeiro<br \/>\nlamento de desespero pela morte do Redentor, e pedindo a Deus que o fulminasse<br \/>\ntamb\u00e9m naquele mesmo instante, para nunca mais ter olhos, nem boca, nem ouvidos<br \/>\npara este mundo de maldades, viu erguerem-se todos em volta dele e um grito<br \/>\nde entusiasmo acompanhar as suas \u00faltimas palavras, como se de repente acordassem<br \/>\nem sobressaltos, depois da embriaguez em que os lan\u00e7ara aquela estranha e<br \/>\ncapitosa eloq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas, antes que tivessem tempo de apoderar-se dele, e antes que as damas descessem<br \/>\ndas tribunas para felicit\u00e1-lo, j\u00e1 frei Oz\u00e9as, cioso do seu tesouro, arrastava-o<br \/>\npelos corredores da sacristia e metia-se com ele no carro, mandando tocar<br \/>\na toda pressa para o convento.<\/p>\n<p>Quando o rei lhe mandou dizer pelo seu primeiro criado particular, o Sr.<br \/>\nde Laborde, que viesse \u00e0 sua presen\u00e7a para falar-lhe, j\u00e1 a sege de pra\u00e7a em<br \/>\nque ele ia com o frade, havia desaparecido muito tempo antes.<\/p>\n<h2><a name=\"6\"><\/a>VI &#8211; Um homem paro discutido por mulheres<\/h2>\n<p>O serm\u00e3o de \u00c2ngelo foi um verdadeiro acontecimento, que logo se apoderou<br \/>\nda curiosidade de Paris inteiro.<\/p>\n<p>Por toda a parte se falava em tal, e se comentava aquele p\u00e1lido e meigo seminarista,<br \/>\nque vinha, da sombra silenciosa de um pobre mosteiro, abalar o cora\u00e7\u00e3o de<br \/>\ntoda a corte de Lu\u00eds XV.<\/p>\n<p>Discutiam-lhe os olhos, a boca, os cabelos. Falava-se do seu ar ang\u00e9lico,<br \/>\nda sua encantadora express\u00e3o de santo inspirado, e da maravilhosa do\u00e7ura da<br \/>\nsua voz.<\/p>\n<p>Formaram-se logo mil lendas a respeito dele, e sabia-se que o rei, depois<br \/>\nde lhe oferecer um lagar na capela real, o que foi imediatamente recusado<br \/>\npelo velho Oz\u00e9as, prop\u00f4s-se a assistir \u00e0 sua missa nova, gra\u00e7a que n\u00e3o tinha<br \/>\nat\u00e9 a\u00ed concedido a nenhum outro iniciado, e prometeu tamb\u00e9m presente\u00e1-lo com<br \/>\nas vestes e paramentos que o seminarista tinha de p\u00f4r nesse dia, o que equivalia<br \/>\na dizer que \u00c2ngelo iria ordenar-se cercado de todos os esplendores.<\/p>\n<p>E come\u00e7aram, tanto os que presenciaram o famoso serm\u00e3o de quinta-feira santa,<br \/>\ncomo os que apenas ouviram falar dele com insist\u00eancia, a esperar o dia da<br \/>\ninicia\u00e7\u00e3o de \u00c2ngelo, para ter, ao menos, o prazer de ver esse imberbe e afortunado<br \/>\npregador, que assim abalava escandalosamente o alto e baixo p\u00fablico de Paris.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo era o assunto de todas as palestras da rua e das salas. No teatrinho<br \/>\nque o duque de Orl\u00e9ans tinha no seu pal\u00e1cio de Bagnolet, c\u00e9lebre pelas cenas<br \/>\nlicenciosas que a\u00ed se representavam, tratava-se j\u00e1 de fazer subir \u00e0 ribalta<br \/>\numa pe\u00e7a com o nome dele, na qual o duque desempenharia um dos principais<br \/>\npap\u00e9is.<\/p>\n<p>No sal\u00e3o teatral da duquesa de Villeroi, onde o rei da Dinamarca viera uma<br \/>\nvez para ouvir declamar o popular\u00edssimo Le Kain e M\u00baClairon, pensava-se tamb\u00e9m<br \/>\nem montar uma com\u00e9dia de assunto sacro, cuja a\u00e7\u00e3o se passava na capela real,<br \/>\ne cujo protagonista era um pregador de vinte anos.<\/p>\n<p>E, assim, no teatro do bar\u00e3o de Esclapon, no da duquesa de Mazarin, no do<br \/>\nSr. de Magnaville, no do pr\u00edncipe de Cond\u00e9, no da Guimard, e nas salas alegres<br \/>\nde Sofia Arnoud, pontos esses de reuni\u00e3o em que melhor se fazia esp\u00edrito e,<br \/>\ncom mais gra\u00e7a e mais picante maldade, se discutiam as novidades e os esc\u00e2ndalos<br \/>\ndo dia, era ainda \u00c2ngelo o assunto da palestra e o objeto de mil epigramas,<br \/>\ns\u00e1tiras e trocadilhos.<\/p>\n<p>Mas onde incontestavelmente o assunto despertou maior esc\u00e2ndalo, foi no sal\u00e3o<br \/>\nda condessa Alzira, bela, c\u00ednica e espirituosa cortes\u00e3, c\u00e9lebre por ser nessa<br \/>\n\u00e9poca a mulher mais insens\u00edvel e mais fria de Paris. Juravam todos que a formosa<br \/>\ncondessa jamais sentira por ningu\u00e9m a menor part\u00edcula de amor, e que o seu<br \/>\nmelhor momento de alegria era quando, por causa dela, algum dos seus in\u00fameros<br \/>\napaixonados ca\u00eda morto em duelo ou metia uma bala nos miolos.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando pelo rei, que fora o seu primeiro amante, pertencera ela depois<br \/>\nsimultaneamente, ora mais ora menos tempo, a toda a gente da corte capaz de<br \/>\nmanter mulheres caras.<\/p>\n<p>Tinha uma virtude: a ningu\u00e9m enganava, porque, n\u00e3o s\u00f3 confessava francamente<br \/>\nao seu dono da ocasi\u00e3o toda a sua insensibilidade, fosse l\u00e1 por quem fosse,<br \/>\ncomo n\u00e3o repartia com um segundo aquilo que um primeiro houvesse arrematado<br \/>\nj\u00e1 e pago \u00e0 vista.<\/p>\n<p>Esta sinceridade original em uma pessoa das suas condi\u00e7\u00f5es, valeu-lhe a estima<br \/>\nde alguns homens de esp\u00edrito. De sorte que as quintas-feiras de Alzira eram<br \/>\nfreq\u00fcentadas por boa roda de rapazes, e a gente se n\u00e3o aborrecia entre as<br \/>\nquatro paredes das suas riqu\u00edssimas salas.<\/p>\n<p>Como fi\u00e9is, reuniam-se l\u00e1 todas as semanas suas amigas, a cantora Sofia Verri\u00e9re,<br \/>\nGabriela Vanguyon, Margarida Duclos, o conde de Saint-Mal\u00f4, Artur Bouvier,<br \/>\ne, principal e invariavelmente, o seu velho amigo, o \u00fanico homem para quem<br \/>\nAlzira tinha \u00e0s vezes um sorriso de amizade, o Dr. Cobalt, m\u00e9dico de nomeada,<br \/>\nque fazia algum ru\u00eddo em volta do pr\u00f3prio nome com os seus estudos sobre o<br \/>\nmaterialismo, ent\u00e3o apenas nascente em Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>E as reuni\u00f5es eram boas quase sempre. Na imediata ao serm\u00e3o de quinta-feira<br \/>\nsanta, era \u00c2ngelo o assunto for\u00e7ado em todos os grupos.<\/p>\n<p>-Um triunfo! exclamava Sofia; um verdadeiro triunfo! Em alguns dias o tal<br \/>\ndisc\u00edpulo do velho Oz\u00e9as tornou-se quase t\u00e3o popular como a Pompadour!<\/p>\n<p>-\u00c9 exato! confirmou o conde de Saint-Mal\u00f4; depois de Bossuet, n\u00e3o se ouviu<br \/>\nem Paris uma pr\u00e9dica t\u00e3o not\u00e1vel. Nem as melhores de La Rose!<\/p>\n<p>-Ah! interveio Artur Bouvier; o serm\u00e3o de quinta-feira foi com efeito uma<br \/>\nobra-prima no seu g\u00eanero! Vi desfazerem-se em pranto criaturas, a quem eu<br \/>\nsupunha fosse imposs\u00edvel arrancar uma l\u00e1grima!<\/p>\n<p>-Pois se at\u00e9 a Guimard chorou!. . . disse Margarida, mostrando os seus dentes<br \/>\ngrandes como os de uma inglesa.<\/p>\n<h3>Bouvier replicou:<\/h3>\n<p>-A Guimard n\u00e3o admira, \u00e9 uma mulher! Feia \u00e9 verdade; magr\u00edssima, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida;<br \/>\nsarapintado de marcas de bexiga, ningu\u00e9m o nega; mas afinal \u00e9 uma mulher!<br \/>\nComover, por\u00e9m, o duque de Fronsac e o marqu\u00eas de Sade at\u00e9 \u00e0 l\u00e1grima. . .<br \/>\nisso \u00e9 que \u00e9 verdadeiramente extraordin\u00e1rio!. . .<\/p>\n<p>-Pois esses dois monstros choraram?&#8230; perguntou Gabriela, afetando grande<br \/>\nsurpresa. Oh! como hoje em dia a l\u00e1grima est\u00e1 ao alcance de todas as bolsas!<br \/>\n. . .<\/p>\n<p>-Pois choraram. . . insistiu Bouvier. Tanto que a prop\u00f3sito Sofia Arnoud<br \/>\ndisse que o jovem pregador, fazendo brotar \u00e1gua de tais rochedos, conseguira<br \/>\nmaior milagre do que o seu legend\u00e1rio colega Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>-Ah! suspirou Margarida. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que o talento sabe fazer todos os<br \/>\nmilagres!. . .<\/p>\n<p>O Dr. Cobalt, que a um canto da sala conversava com Alzira, mas aplicava<br \/>\nmeio ouvido \u00e0 palestra dos outros, exclamou de l\u00e1:<\/p>\n<p>-N\u00e3o! n\u00e3o! perd\u00e3o! n\u00e3o foi o talento que fez o milagre, minhas gentis amigas;<br \/>\nn\u00e3o foi o talento, nem tampouco a ilustra\u00e7\u00e3o teol\u00f3gico do jovem seminarista,<br \/>\no que t\u00e3o profundamente impressionou Paris&#8230;<\/p>\n<p>Estas palavras do m\u00e9dico abriram na sala um sil\u00eancio de surpresa e indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>-Como? Pois o Dr. Cobalt tinha a coragem de negar talento ao pregador de<br \/>\nquinta-feira santa? . . . Oh!<\/p>\n<p>O conde de Saint-Mal\u00f4 aprumou-se ainda mais sob os bofes bordados da sua<br \/>\ncamisa de rendas. Bouvier cerrara os l\u00e1bios revoltado, e Gabriela assentara<br \/>\nsobre o doutor o seu lorgnon de tartaruga.<\/p>\n<p>-Negar talento ao pobre mo\u00e7o!. . . Com efeito!<\/p>\n<p>Cobalt sorriu, levantou-se, e, indo colocar-se entre eles, respondeu com<br \/>\na sua fleuma habitual, afagando o ventre:<\/p>\n<p>-Sim senhor, sim senhor; n\u00e3o foi o talento, nem foi a ilustra\u00e7\u00e3o do seminarista,<br \/>\no que impressionou Paris inteiro. H\u00e1 por aqui milhares de te\u00f3logos, muito<br \/>\nmais fortes na mat\u00e9ria e mais oradores do que \u00c2ngelo, que n\u00e3o conseguem abalar<br \/>\num s\u00f3 dos seus ouvintes.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o o que \u00e9 que foi?&#8230; interrogou a formosa Gabriela, sem abaixar o lorgnon.<\/p>\n<p>-Uma cousa muito simples, minha querida senhora, uma cousa extremamente simples.<br \/>\n. .<\/p>\n<p>Todos se aproximaram dele, vencidos pela curiosidade.<\/p>\n<p>-Que foi &#8211; Que foi?-Que foi ent\u00e3o?. . .<\/p>\n<p>-A sinceridade, respondeu o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>-A sinceridade?. . . exclamaram em coro.<\/p>\n<p>-Sim, meus caros amigos. A verdadeira convic\u00e7\u00e3o nas suas cren\u00e7as, o verdadeiro<br \/>\nsentimento do que ele afirmou no p\u00falpito. Foi s\u00f3 da\u00ed que lhe veio aquela poderosa<br \/>\ne dominadora eloq\u00fc\u00eancia. \u00c2ngelo falou mais com o cora\u00e7\u00e3o do que com a cabe\u00e7a,<br \/>\ne s\u00f3 por isso Paris o ouviu t\u00e3o comovido.<\/p>\n<p>E depois de uma pausa:-Sim, porque \u00e9 preciso confessarmos uma cousa, meus<br \/>\nidolatrados amigos: os parisienses de hoje disp\u00f5em de muito esp\u00edrito e de<br \/>\nmuita enciclop\u00e9dia, mas, em quest\u00e3o de sentimento e de sinceridade. . . s\u00e3o<br \/>\nde uma pobreza franciscana.<\/p>\n<p>-N\u00e3o \u00e9 tanto assim!. . . arriscou Artur.<\/p>\n<p>-N\u00f3s, os parisienses de hoje, prosseguiu o m\u00e9dico, somos muito corteses,<br \/>\nmuito engra\u00e7ados, sim senhor, mas. . . falsos e hip\u00f3critas como ningu\u00e9m. .<br \/>\n.<\/p>\n<p>-Ora essa, doutor!. . . resmungou o conde com um trejeito de ressentimento.<\/p>\n<p>Cobalt acrescentou, torcendo para baixo a linha fria da sua boca barbeada:<\/p>\n<p>&#8211; Paris admirou em \u00c2ngelo o que Paris j\u00e1 n\u00e3o possui e s\u00f3 por isso considera<br \/>\nextraordin\u00e1rio. Foi o assombro do homem desfibrado e gasto, produzido pelo<br \/>\nhomem ainda forte e perfeito. Admirou a fresca e delicada flor do sentimento,<br \/>\nque ele supunha h\u00e1 muito tempo extinta; admirou esse estranho \u00c2ngelo como<br \/>\nse admirasse uma raridade preciosa, uma das nossas armaduras dos tempos gauleses<br \/>\npor exemplo.<\/p>\n<p>-N\u00e3o sou dessa opini\u00e3o! op\u00f4s Gabriela, voltando o rosto.<\/p>\n<p>Alzira, que n\u00e3o deixara o canto do seu div\u00e3, ia cada vez mais se mostrando<br \/>\nempenhada no que dizia o m\u00e9dico. Agora tinha o cotovelo fincado na almofada,<br \/>\na m\u00e3o amparando o rosto, e os olhos espetados no teto.<\/p>\n<p>-Era muito natural, continuou aquele; muit\u00edssimo natural que, em meio de<br \/>\numa sociedade devassa, em meio da Fran\u00e7a da Pompadour, aquele verbo sincero,<br \/>\ning\u00eanuo, convicto e apaixonado, a todos fulminasse, como se fora ele raios<br \/>\nde luz vingadora enviada diretamente por Deus. Paris, meio eletrizado de Champagne,<br \/>\nhavia adormecido embalado por uma can\u00e7\u00e3o de Bouflers, guinchada por qualquer<br \/>\nespalier do teatro de Audinot, e acordou estremunhado no dia seguinte \u00e0 voz<br \/>\ncristalina e matinal de uma crian\u00e7a, que vinha repetir em linguagem b\u00edblica<br \/>\no que h\u00e1 quase dezoito s\u00e9culos apregoavam em Galil\u00e9la os disc\u00edpulos de Cristo.<br \/>\n\u00c9 natural que se comovesse&#8230; e foi isso justamente o que sucedeu. Paris,<br \/>\nque h\u00e1 tanto tempo s\u00f3 sabe fazer uma cousa bem feita e com gra\u00e7a,-a orgia,-ficou<br \/>\nembasbacado defronte da casta e simples palavra de um pobre seminarista sem<br \/>\npretens\u00f5es. Nada mais justo! Mas o que lhes afian\u00e7o, meus amigos, \u00e9 que, se<br \/>\no simpl\u00f3rio do padreca visasse a qualquer efeito; se desconfiasse, ao menos,<br \/>\nda impress\u00e3o que ia produzir no p\u00fablico, a ningu\u00e9m teria comovido. Se ele<br \/>\nconhecesse a sociedade que hoje o aclama; se ele tivesse tido a menor aspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nde gl\u00f3ria; se ele n\u00e3o fosse, enfim, coitado! mais inocente e mais puro do<br \/>\nque a menina mais inocente de Paris, juro-lhe que n\u00e3o conseguiria o triunfo<br \/>\nque obteve. O choque foi grande, porque foi inesperado. Os parisienses morrem<br \/>\npelo imprevisto e pela novidade; e ningu\u00e9m, hoje em dia, lhes poderia proporcionar<br \/>\nmelhor novidade, do que o singular\u00edssimo caso de um rapaz de vinte anos perfeitamente<br \/>\nimaculado e puro!<\/p>\n<p>-Mas, doutor, ele ser\u00e1 com efeito t\u00e3o puro como se diz por a\u00ed?&#8230; perguntou<br \/>\nGabriela em ar de riso. N\u00e3o creio!<\/p>\n<p>-O que h\u00e1 de mais puro, confirmou o m\u00e9dico.<\/p>\n<p>-Um homem virgem em pleno s\u00e9culo dezoito! . . . Qual! disse Sofia Verri\u00e8re,<br \/>\nsoltando uma risada. Tamb\u00e9m n\u00e3o acredito!<\/p>\n<p>-Nem eu! refor\u00e7ou Margarida, sem rir.<\/p>\n<p>-O Dr. Cobalt exagera com certeza. . . observou Gabriela.<\/p>\n<p>-N\u00e3o exagero, tornou o materialista; e digo mais, que ele nenhum m\u00e9rito revela<br \/>\ncom semelhante raridade, porque tal pureza n\u00e3o \u00e9 obra sua, mas sim de frei<br \/>\nOz\u00e9as.<\/p>\n<p>-Mas, afinal, perguntou Alzira, saindo da sua abstra\u00e7\u00e3o e encaminhando-se<br \/>\npara o doutor; afinal, qual dessas mil e uma lendas, que correm por a\u00ed a respeito<br \/>\nde \u00c2ngelo, \u00e9 a verdadeira?<\/p>\n<p>-Quais sejam as mil e uma, n\u00e3o sei. . . disse o m\u00e9dico, sentando-se no meio<br \/>\ndo grupo; mas a verdadeira \u00e9 esta que vou contar:<\/p>\n<p>-Pois venha a lenda!<\/p>\n<p>-Venha a lenda!<\/p>\n<p>-Aten\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<h2><a name=\"7\"><\/a>VII &#8211; Fr\u00e1gil como uma l\u00e1grima!<\/h2>\n<p>O Dr. Cobalt. com o esp\u00edrito alegre de que era dotado e com a sua pitoresca<br \/>\ne original maneira de contar as cousas, narrou \u00e0s damas e cavalheiros que<br \/>\nse achavam no palpitante sal\u00e3o da condessa Alzira, a curiosa e singela hist\u00f3ria<br \/>\nde \u00c2ngelo.<\/p>\n<p>Foi escutado com o m\u00e1ximo interesse. A formosa e fria dona da casa, essa<br \/>\nmulher que diziam de cora\u00e7\u00e3o surdo a todas as ternuras e de olhos secos e<br \/>\nfechados para todas as dores, era todavia a que se mostrava presa dos l\u00e1bios<br \/>\ndo narrador, e a que mais avidamente lhe bebia as palavras.<\/p>\n<p>-Oz\u00e9as, disse o m\u00e9dico, concluindo, queria enfim fazer um padre perfeito,<br \/>\npara poder dar algu\u00e9m por si, quando, despido da trai\u00e7oeira carne, tivesse,<br \/>\ncomo sacerdote, de prestar contas do que praticara nesta vida. Queria fazer<br \/>\num grande cora\u00e7\u00e3o, muito forte e muito amoroso; amoroso para Deus, forte para<br \/>\no mundo. Queria que o seu disc\u00edpulo amado fosse uma torre de cristal, invulner\u00e1vel<br \/>\ne incorrupt\u00edvel, mas t\u00e3o alta e t\u00e3o s\u00f3lida que ligasse a terra ao c\u00e9u e o<br \/>\nhomem a Deus!<\/p>\n<p>Dito isto, calou-se por um instante; depois sorriu para o atento grupo que<br \/>\no cercava silencioso, e acrescentou, pondo-se de p\u00e9 e abrindo os bra\u00e7os, na<br \/>\ngalante rever\u00eancia de uma quase mesura:<\/p>\n<p>&#8211; Ora a\u00ed tem, meus ador\u00e1veis amigos, tudo o que sei de fonte pura a respeito<br \/>\ndo singular mo\u00e7o, que t\u00e3o formid\u00e1vel impress\u00e3o deixou sobre Paris na quinta-feira<br \/>\nsanta.<\/p>\n<p>Alzira quebrou o seu silencio para perguntar, com os olhos fitos no m\u00e9dico:<\/p>\n<p>-E ele, antes de quinta-feira, nunca ent\u00e3o havia sa\u00eddo \u00e0 rua?. . .<\/p>\n<p>-Nunca, afirmou aquele. Fez todos os seus estudos e recebeu as ordens sem<br \/>\narredar p\u00e9 do convento, ao qual o semin\u00e1rio \u00e9 anexo. Seus dias, desde a mais<br \/>\ntenra idade, foram todos, dedicados de corpo e alma aos livros santos e aos<br \/>\nmisteres da igreja.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o \u00e9 um ente perfeitamente puro? interrogou ela.<\/p>\n<p>-Puro como um anjo.<\/p>\n<p>-\u00c9 extraordin\u00e1rio! exclamou Margarida, sem poder conter o seu entusiasmo.<\/p>\n<p>-\u00c9 inacredit\u00e1vel! disse Sofia, meneando a cabe\u00e7a com um gesto de incredulidade.<\/p>\n<p>Gabriela Vanguyon soltou um suspiro e deixou escapar esta frase, que fez<br \/>\nrir a sociedade:<\/p>\n<p>-Um homem puro em Paris! A dois passas de n\u00f3s!. . .<\/p>\n<p>E o Dr. Cobalt, que saboreava o efeito da not\u00edcia da castidade de \u00c2ngelo<br \/>\nsobre aquelas mulheres, cujo olfato j\u00e1 de h\u00e1 muito se tinha esquecido do delicioso<br \/>\nperfume da flor de laranjeira, acrescentou, para alfinetar-lhes as fibras<br \/>\nda admira\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>-Um homem pur\u00edssimo, virginal! Imaculado como a Virgem Sant\u00edssima! Um homem<br \/>\ncompletamente inocente, sem a menor id\u00e9ia do que seja sociedade, nem paix\u00f5es<br \/>\nmundanas, nem sexos, nem. . .<\/p>\n<p>-Nem sexos?! inquiriu Gabriela, escancarando os olhos, sinceramente pasmada.<\/p>\n<p>-Nem nada! nada! nada! respondeu o m\u00e9dico, sorrindo e apertando os l\u00e1bios.<br \/>\nNada, minhas ador\u00e1veis pecadoras! Mas o que se chama &#8220;nada&#8221;!<\/p>\n<p>&#8211; Estudava e lia muito, n\u00e3o \u00e9 verdade, Dr. Cobalt?. . . quis saber Margarida<br \/>\nDuclos.<\/p>\n<p>-Sim, mas s\u00f3 cousas sagradas. . . biografias de santos, anedotas religiosas<br \/>\ne disserta\u00e7\u00f5es espirituais. . . Ora, sucedeu por acaso que essa m\u00edsera crian\u00e7a,<br \/>\nque o mesmo acaso atirou \u00e0s m\u00e3os do padre Oz\u00e9as. dispusesse das mais valentes<br \/>\nfaculdades mentais, e, n\u00e3o conhecendo ela outro meio al\u00e9m daquele em que vegetou,<br \/>\ne, n\u00e3o tendo outro pasto para seu esp\u00edrito al\u00e9m da doutrina crist\u00e3 e da manhosa<br \/>\nteologia, deu-se todo inteiro a estas duas est\u00e9reis e sedutores senhoras,<br \/>\ne no fim de contas apresentou escandalosamente aquele imprevisto tipo, que<br \/>\nfez as nossas del\u00edcias da corte na quinta-feira passada.<\/p>\n<p>-Ah! disse o conde de Saint-Mal\u00f4; n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, por\u00e9m, de que ele tem muito<br \/>\ntalento orat\u00f3rio; \u00e9 uma capacidade em mat\u00e9ria de religi\u00e3o. . .<\/p>\n<p>-Qual! desdisse o materialista em ar de pouca import\u00e2ncia. Acho que aquele<br \/>\npobre mo\u00e7o \u00e9 mais uma intelig\u00eancia aproveit\u00e1vel que se perde, e mais um infeliz<br \/>\ndoente que ganham os hospitais!<\/p>\n<p>-E por qu\u00ea?&#8230; exclamou Alzira vivamente.<\/p>\n<p>-Ora! desdenhou aquele. Porque toda a sua ci\u00eancia, se \u00e9 que ele a tem, baseia-se<br \/>\nnos mais falsos princ\u00edpios. A sua filosofia \u00e9 bonita, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, mas completamente<br \/>\nin\u00fatil. N\u00e3o passar\u00e1 nunca de um metaf\u00edsico. Construiu o seu edif\u00edcio intelectual<br \/>\nsobre areia movedi\u00e7a; e no dia em que o primeiro sopro quente de vida real<br \/>\ncair-lhe em cima, l\u00e1 se ir\u00e1 por terra a igrejinha! No dia em que a natureza,<br \/>\nindefect\u00edvel nas suas leis, o chamar friamente \u00e0 verdade das cousas e exigir<br \/>\nque ele cumpra com o seu destino fisiol\u00f3gico de homem, o seu pr\u00f3prio talento<br \/>\nh\u00e1 de revolucionar-se com o seu sangue, e ele ter\u00e1 de abrir guerra aos falsos<br \/>\ne arbitr\u00e1rios princ\u00edpios em que o educaram. E ent\u00e3o, o desespero e a decep\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquela pobre v\u00edtima do vision\u00e1rio Oz\u00e9as. ser\u00e3o tamanhos e t\u00e3o fortes, que<br \/>\no desgra\u00e7ado talvez n\u00e3o tenha for\u00e7as para resistir ao golpe!<\/p>\n<p>Alzira estremeceu.<\/p>\n<p>-Infeliz. . . balbuciou ela.<\/p>\n<p>Artur Bouvier tinha-se aproximado do Dr. Cobalt, e disse-lhe pousando-lhe<br \/>\na m\u00e3o no ombro:<\/p>\n<p>-Pode ficar tranq\u00fcilo, meu amigo, que o inocente \u00c2ngelo n\u00e3o conservar\u00e1 por<br \/>\nmuito tempo as suas penugens de anjo. A quest\u00e3o foi p\u00f4r o nariz \u00e0 primeira<br \/>\nvez fora do convento, ainda que para pregar serm\u00e3o; respirou este ar de Paris,<br \/>\nest\u00e1 pronto! Um \u00e1tomo desta complicada atmosfera, composta da exala\u00e7\u00e3o de<br \/>\ntodos os luxos e de todas as mis\u00e9rias, de todas as febres e de todas as paix\u00f5es,<br \/>\n\u00e9 o bastante para revolucionar-lhe o esp\u00edrito e corromper-lhe o corpo at\u00e9<br \/>\n\u00e0 medula. Al\u00e9m de que, o rei, com certeza, j\u00e1 o tem de olho, e n\u00e3o deixara<br \/>\nescapar uma j\u00f3ia t\u00e3o rara; \u00e9 natural que a cobice para a sua corte. N\u00e3o dou<br \/>\nmuito tempo para vermos o tal santinho de olhos bonitos entrando para o quadro<br \/>\nda capela real, com uma boa sinecura e um bom ordenado que lhe chegue para<br \/>\nter carruagem e para pagar uma gentil preceptora, encarregada de completar-lhe<br \/>\na educa\u00e7\u00e3o. E juro-lhe que essa ter\u00e1 tanta paci\u00eancia e tanta solicitude, quanta<br \/>\nteve o santarr\u00e3o do velho Oz\u00e9as. mas para lhe ensinar aquilo justamente que<br \/>\neste lhe n\u00e3o quis velar. . .<\/p>\n<p>-E n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil encontrar quem se queira encarregar de completar-lhe<br \/>\na educa\u00e7\u00e3o.. observou Sofia; porque, segundo a opini\u00e3o geral, o tal anjo de<br \/>\npureza \u00e9 notavelmente simp\u00e1tico. . .<\/p>\n<p>-Sim, tornou Cobalt, mas para isso era preciso que o &#8220;Santarr\u00e3o&#8221;, como disse<br \/>\naqui o nosso Bouvier, n\u00e3o estivesse de olhos bem abertos.<\/p>\n<p>-Ora! op\u00f4s Margarida por detr\u00e1s do seu leque; o velho Oz\u00e9as tem mais de setenta<br \/>\nanos! J\u00e1 deve estar com a vista curta. . .<\/p>\n<p>-E as pernas tr\u00f4pegas. . . acrescentou Gabriela.<\/p>\n<p>-E n\u00e3o viver\u00e1 eternamente. . . completou Sofia. Se o santinho n\u00e3o tiver por<br \/>\nsi outra guarda, pode ir desde j\u00e1 rezando por alma da sua virginal capela!.<br \/>\n. .<\/p>\n<p>-Sim! apoiou o conde. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que est\u00e1 a\u00ed, est\u00e1 cantando a primeira<br \/>\nmissa e entrando logo em seguida para a capela real. E h\u00e1 de fazer carreira!<\/p>\n<p>-Pois engana-se, caro conde, acudiu o doutor; engana-se redondamente. \u00c2ngelo<br \/>\nn\u00e3o entrar\u00e1 para o quadro da capela real, posto que o rei j\u00e1 o convidasse.<br \/>\nO velho Oz\u00e9as. tenciona carregar com ele para Roma, depois para Jerusal\u00e9m,<br \/>\ncom o fim de alargar-lhe quanto poss\u00edvel o cabedal das suas luzes; e, quando<br \/>\no rapaz estiver bem homem, bem forte, completamente desenvolvido, ent\u00e3o o<br \/>\nvelho Oz\u00e9as o atirar\u00e1 sobre Paris, opondo o disc\u00edpulo como um terr\u00edvel protesto<br \/>\nvivo contra a grande e desenfreada decad\u00eancia moral dos nossos tempos. Conta<br \/>\nque a luta se travar\u00e1 um dia afinal, tremenda e sem tr\u00e9guas. De um lado, o<br \/>\ninvenc\u00edvel ap\u00f3stolo, fechado na armadura da sua virtude e armado at\u00e9 aos dentes<br \/>\ncom a sua sabedoria divina; do outro lado, Paris, Paris friamente inabal\u00e1vel<br \/>\nnos seus v\u00edcios e na sua libertinagem, Paris cr\u00e1pula, Paris abje\u00e7\u00e3o, Paris<br \/>\nlodo!<\/p>\n<p>-Ah! essa luta h\u00e1 de ser fatal! disse Artur Bouvier no meio do silencio dos<br \/>\noutros.<\/p>\n<p>-N\u00e3o! acrescentou o materialista, perdendo por um instante a sua fleuma natural<br \/>\ne deixando escapar dos olhos uma estranha cintila\u00e7\u00e3o, que lhe transformou<br \/>\no ar bondoso da fisionomia. N\u00e3o h\u00e1 de ser com s\u00faplicas e serm\u00f5es que a Fran\u00e7a<br \/>\nse resgatar\u00e1, mas a metralha, a canh\u00e3o e a ponta de baionetas!<\/p>\n<p>-A sangue?! exclamou o conde.<\/p>\n<p>-Sim, a sangue. . . confirmou o m\u00e9dico, sacudindo a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>E calaram-se.<\/p>\n<p>O sorriso havia desaparecido de todos os l\u00e1bios; as mulheres tinham desmaiado<br \/>\nde cor ligeiramente. Cobalt acrescentou em voz cava, como se falasse consigo<br \/>\nmesmo:<\/p>\n<p>-O que talvez n\u00e3o esteja longe!. . .<\/p>\n<p>E um indeciso sobressalto agitou-lhes o sangue e oprimiu-lhes vagamente o<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o, nem que naquele momento entrasse ali, como um sopro pressagio, agitando<br \/>\nas cortinas da sala e empalidecendo a luz das velas, um clar\u00e3o vermelho vindo<br \/>\ndas bandas setentrionais da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Era o an\u00e9lito da revolu\u00e7\u00e3o que se aproximava lentamente da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Se prestassem ouvidos, quem sabe? talvez escutassem um surdo ru\u00eddo subterr\u00e2neo:<br \/>\nDiderot e d&#8217;Alembert abriram j\u00e1 a sua mina por debaixo da terra, para depois<br \/>\nVoltaire lan\u00e7ar-lhe fogo.<\/p>\n<p>S\u00f3 Alzira n\u00e3o parecia sobressaltada. Encaminhando-se para o Dr. Cobalt, tomou-o<br \/>\npelo bra\u00e7o, afastou-o para um canto da sala e perguntou-lhe, reclinando no<br \/>\nombro dele a sua formosa cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>-J\u00e1 sabe qual \u00e9 o dia marcado para a missa nova do padre \u00c2ngelo?. . .<\/p>\n<p>&#8211; Segunda-feira.<\/p>\n<p>-Onde?<\/p>\n<p>-Em Notre-Dame.<\/p>\n<p>-Quer ir comigo?<\/p>\n<p>&#8211; Com mil desejos, minha encantadora amiga.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigada. Iremos juntos.<\/p>\n<h2><a name=\"8\"><\/a>VIII &#8211; Fulmina\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>No dia marcado para a missa nova de \u00c2ngelo, a catedral de Paris, onde devia<br \/>\nela efetuar-se, come\u00e7ou desde muito cedo, a encher-se de gente de todas as<br \/>\nclasses, desde a mais alta at\u00e9 \u00e0 mais baixa camada social.<\/p>\n<p>Iria o rei, e com ele l\u00e1 estaria, sem d\u00favida, a corte em peso. A corte arrastaria<br \/>\no que de mais brilhante houvesse no alegre c\u00edrculo das loureiras; estas, por<br \/>\nsua vez, chamariam atr\u00e1s de si um mundo de namorados, de poetas, de artistas<br \/>\ne folgaz\u00f5es, aos quais acompanharia espont\u00e2neo o povo, sempre curioso e \u00e1vido<br \/>\nde festas.<\/p>\n<p>Num dos longos corredores laterais da sacristia, corredor abobadado e feito<br \/>\ntodo de pedra, o Dr. Cobalt conversava tranq\u00fcilamente com um padre velho chamado<br \/>\nAzarias, e com um sacrist\u00e3o que se mostrava muito entusiasmado com a escandalosa<br \/>\ne original fortuna do seminarista.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico n\u00e3o tinha perdido a sua calma habitual; dir-se-ia que ele estava<br \/>\nali mais para observar do que para se divertir. Com os seus frios l\u00e1bios sempre<br \/>\ncontra\u00eddos, parecia abstrato e afagava o queixo escanhoado, cheirando de vez<br \/>\nem quando uma pitada. O sacrist\u00e3o, esse n\u00e3o ficava quieto um s\u00f3 instante,<br \/>\nia e vinha de carreira, furando por toda a parte, e procurando saber quem<br \/>\nestava na igreja.<\/p>\n<p>-Chih! exclamava ele esfregando as m\u00e3os defronte o padre Azarias. Que furor!<br \/>\nQue furor! N\u00e3o imaginam que de gente cada vez mais chega, para assistir \u00e0<br \/>\nmissa nova do disc\u00edpulo de frei Oz\u00e9as! J\u00e1 vi a Sr.a marquesa de Vandenesse<br \/>\ne a sua encantadora irm\u00e3: a Sr.a De Conti, a Sr.a condessa de Laranguais,<br \/>\nde quem dizem que o rei. . .<\/p>\n<p>E interrompeu-se para declarar, dando um salto e apontando para uma das portas<br \/>\npor onde se via quem chegava:<\/p>\n<p>-Olhem! Olhem! ali vai o poeta Bouflers!. . . vai com o conde de Saint-Malo<br \/>\ne com o cavalheiro Artur Bouvier. Agora entrou a Sra. marquesa de Tourneles!<\/p>\n<p>-Ora! disse Azarias. Pois se at\u00e9 a rainha, que agora pouco sai \u00e0 rua, aposto<br \/>\nque h\u00e1 de vir!. . .<\/p>\n<p>O sacrist\u00e3o, depois de novas carreiras e novo esfregar de m\u00e3os, veio segredar<br \/>\nquase ao ouvido do padre:<\/p>\n<p>-E veio tamb\u00e9m, reverendo, o que h\u00e1 de mais espaventoso entre o mulherio<br \/>\nparisiense!. . .<\/p>\n<p>-\u00d3 maroto! resmungou o velho sacerdote. Algu\u00e9m aqui te perguntou por isso?<br \/>\nAnda! Sai de junto de mim, tinhoso!<\/p>\n<p>O sacrist\u00e3o voltou-se ent\u00e3o para o m\u00e9dico, e disse, contando pelos dedos:<\/p>\n<p>-Est\u00e1 a\u00ed a falada Dut\u00ea, com o seu eterno vestido cor-de-rosa e com o seu<br \/>\natual amante, o duque de Durfort! Est\u00e1 a\u00ed Sofia Arnould com o seu c\u00e3ozinho-<br \/>\no duque de Chartres!<\/p>\n<p>-N\u00e3o te calar\u00e1s?! bradou o padre velho, tornando-se vermelho.<\/p>\n<p>O sacrist\u00e3o n\u00e3o fez caso e continuou, dirigindo-se ao m\u00e9dico, como se esse<br \/>\nlhe desse aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>-Vieram tamb\u00e9m as Barri\u00e8re, com as quais confesso que embirro solenemente,<br \/>\na Dervieux, de quem eu cada vez mais gosto, a Guimard, a Cleofile, e, mais<br \/>\nbela que todas, mais sedutora e mais diab\u00f3lica, a c\u00e9lebre condessa Alzira,<br \/>\na mulher mais insens\u00edvel de Paris! veio com o seu amante destes \u00faltimos tempos,<br \/>\no marqu\u00eas de Florans!<\/p>\n<p>-liste sacrist\u00e3o \u00e9 entendido no g\u00eanero!&#8230; Observou o materialista a rir-se.<\/p>\n<p>O padre resmungou, em resposta, co\u00e7ando a calva:<\/p>\n<p>-Ah! Paris! Paris das Pompadours!&#8230;<\/p>\n<p>-Tamb\u00e9m acaba de chegar! exclamou o endemoninhado sacrist\u00e3o. Est\u00e1 na primeira<br \/>\ntribuna da esquerda, com o pr\u00edncipe de Henin e o conde de Aranda.<\/p>\n<p>O velho tornou a co\u00e7ar a cabe\u00e7a e disse com azedume.<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei que tem a cheirar na casa de Deus semelhante gente!&#8230; Mas que quer?<br \/>\nFizeram desta missa um divertimento! O culpado \u00e9 o rei. Aposto que est\u00e1 a\u00ed<br \/>\ntamb\u00e9m o duque de Fronsac, esse maldito libertino, que herdou todos os v\u00edcios<br \/>\nde seu pai, o cardeal de Richelieu, sem herdar nenhuma das virtudes! Vem ao<br \/>\nfaro das aventuras, o desavergonhado!<\/p>\n<p>-E o que a\u00ed est\u00e1 de homens ilustres. . . observou Cobalt ao ouvido do padre.<br \/>\nJ\u00e1 avistei Favart, Gentil Bernard, Condorcet, Luchot, Fr\u00e9ron, d&#8217;Alembert,<br \/>\nDiderot, Beaumarchais, Mali, Lavoisier&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Este seminarista, declarou o outro, \u00e9 com efeito de uma fortuna inacredit\u00e1vel!<br \/>\nCreia, meu doutor Cobalt, que nunca vi tanta gente boa reunida numa igreja<br \/>\npara ouvir missa! E uma missa nova! \u00c9 extraordin\u00e1rio!<\/p>\n<p>Mas \u00c2ngelo nesse momento saltava do carro para entrar com Oz\u00e9as na porta<br \/>\nlateral da sacristia, e um rumor geral se levantava provocado pela sua chegada.<\/p>\n<p>O Dr. Cobalt afastou-se de carreira, a ver se arranjava um lugar na capela,<br \/>\nem que devia ser a inicia\u00e7\u00e3o do adorado presb\u00edtero.<\/p>\n<p>A capela, suntuosamente preparada para a cerim\u00f4nia, refulgia, fulgurando<br \/>\nde luzes e de ouro, de alvas rendas preciosas, brilhantes colgaduras de damasco<br \/>\ne riqu\u00edssimas alfaias de mil cores.<\/p>\n<p>Grande esplendor! Grande riqueza! Grande deslumbramento!<\/p>\n<p>O altar-mor, onde \u00c2ngelo ia celebrar, parecia sair de dentro de um imenso<br \/>\nramalhete, t\u00e3o grande era a profus\u00e3o de rosas, que as damas lan\u00e7avam nos seus<br \/>\ndegraus \u00e0 medida que iam chegando.<\/p>\n<p>As tribunas regurgitavam de mulheres luxuosamente vestidas, e venustamente<br \/>\ndecotadas \u00e0 moda caprichosa do tempo. Viam-se formid\u00e1veis penteados, em que<br \/>\ncintilavam diamantes por entre p\u00e9rolas e plumas de cristal fin\u00edssimo.<\/p>\n<p>Legros, ent\u00e3o o mais querido entre os mil e duzentos cabeleireiros do bom-tom,<br \/>\npassara tr\u00eas noites em claro a aviar toucados, sem conceder mais de dez minutos<br \/>\na nenhuma cabe\u00e7a, e ocupando sob suas ordens, naqueles \u00faltimos dias, mais<br \/>\nde quinhentos ajudantes.<\/p>\n<p>E toda aquela gamenha gente, com as suas fantasiosas roupas de sedas multicores;<br \/>\nas mulheres de saia e panier \u00e0 Pompadour; os homens de casaca \u00e0 la Ramponneau,<br \/>\ncom as suas cabeleiras empoladas, de tr\u00eas e quatro canudos, \u00e0 la Sartines,<br \/>\ngrandes bofes de cambraia, chap\u00e9u de tr\u00eas bicos debaixo do bra\u00e7o e florete<br \/>\n\u00e0 cinta; toda essa gente, aglomerada, sussurrante e irrequieta, apresentava,<br \/>\nno interior daquela austera e formosa catedral, o foli\u00e3o e brilhante aspecto<br \/>\nde um luxuoso carnaval da corte.<\/p>\n<p>Conversava-se e ria-se.<\/p>\n<p>Mas, de repente, calaram-se todos e todos se agitaram. Os que estavam assentados<br \/>\npuseram-se r\u00e1pido de p\u00e9.<\/p>\n<p>Era o rei que chegava, acompanhado por sua pomposa comitiva.<\/p>\n<p>Com um gesto frio e distra\u00eddo Lu\u00eds XV fez um ligeiro cumprimento de cabe\u00e7a,<br \/>\ne deixou-se cair na cadeira \u00e0 frente da real tribuna, cruzando as pernas negligentemente<br \/>\ne bocejando de t\u00e9dio.<\/p>\n<p>O olhar que ele lan\u00e7ou para os sorrisos e para as rever\u00eancias, que de todos<br \/>\nos lados 0 recebiam, foi um p\u00e1lido olhar de desd\u00e9m e cansa\u00e7o. A ceia da v\u00e9spera<br \/>\ndevia ter sido prolongada.<\/p>\n<p>Ouviram-se, ent\u00e3o, do lado do coro, as primeiras notas, severas e plangentes,<br \/>\ndo \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>Ia come\u00e7ar a missa.<\/p>\n<p>Algumas pessoas preparavam-se j\u00e1 para a contri\u00e7\u00e3o. Muitos ajoelhavam, de<br \/>\nm\u00e3os postas e cabe\u00e7a baixa. O silencio estendia-se respeitoso. Vieram do alto<br \/>\nvozes de cantores, e o vermelho cabido respondeu c\u00e1 de baixo, tamb\u00e9m cantando,<br \/>\njunto \u00e0s suas estreitas cadeiras de alto espaldar de madeira negra.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo, ricamente paramentado com as vestes talares com que o presenteara<br \/>\no rei, tinha chegado ao altar, e, dentre uma nuvem de incenso, erguia-se no<br \/>\n\u00eaxtase da sua ora\u00e7\u00e3o, com os bra\u00e7os abertos, os olhos postos na doce imagem<br \/>\nde Cristo crucificado. Estava belo como um jovem Deus!<\/p>\n<p>Assim, nos seus suntuosos damascos bordados, parecia um anjo todo vestido<br \/>\nde ouro. E o seu formoso rosto era bem o rosto de marfim, de que falava na<br \/>\nB\u00edblia a triste e voluptuosa filha de Jerusal\u00e9m, decantando o seu amado.<\/p>\n<p>Oz\u00e9as servia-lhe de ac\u00f3lito. E a sua curva figura, detr\u00e1s daquele mo\u00e7o, lembrava,<br \/>\nno tr\u00eamulo arrebatamento da contri\u00e7\u00e3o, o vulto de um velho rei louro, irm\u00e3o<br \/>\nde Lear, guardando com os olhos ansiosos o seu lindo pr\u00edncipe desejado por<br \/>\ntodas as mulheres.<\/p>\n<p>E, com efeito, sobre \u00c2ngelo, de todas as tribunas, desciam raios de tenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Alzira fitava-o como uma serpente paradis\u00edaco.<\/p>\n<p>A missa, entretanto, seguia o seu curso, inalteravelmente, por entre o vago<br \/>\nmurm\u00fario dos colos que arfavam, n\u00e3o de piedade, mas de desejo e de amor.<\/p>\n<p>Mas, quando \u00c2ngelo, terminado o divino sacrif\u00edcio, erguia o olhar pela derradeira<br \/>\nvez, procurando o c\u00e9u, seus olhos de repente se fecharam fulminados, e todo<br \/>\no seu corpo estremeceu da cabe\u00e7a aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Em vez do c\u00e9u, seus olhos tinham encontrado o olhar de Alzira.<\/p>\n<p>Oz\u00e9as, soltando um grito, correu para ele, tomou-o violentamente nos bra\u00e7os,<br \/>\nescondeu-lhe a cabe\u00e7a entre as suas m\u00e3os tr\u00eamulas, tapando-lhe o rosto contra<br \/>\nseu peito.<\/p>\n<p>E ficou por longo tempo a fitar, amea\u00e7adoramente, a linda cortes\u00e3.<\/p>\n<p>A multid\u00e3o precipitou-se para junto dos dois eletrizada de curiosidade. Todos<br \/>\nqueriam saber no mesmo instante o que havia acontecido.<\/p>\n<p>Mas os sinos come\u00e7aram a repicar alegremente; a orquestra tocava j\u00e1 uma m\u00fasica<br \/>\nprofana; nuvens de incenso ergueram-se de novo. A missa estava terminada.<\/p>\n<p>E \u00c2ngelo, sem levantar a cabe\u00e7a do colo de seu pai, afastou-se do altar e<br \/>\nsaiu da capela, vagarosamente, arrastando os p\u00e9s como um cego.<\/p>\n<p>N\u00e3o se lhe ouviam os solu\u00e7os, mas todo o seu corpo se agitava nas convuls\u00f5es<br \/>\ndo choro.<\/p>\n<h2><a name=\"9\"><\/a>IX &#8211; UM OLHAR DE MULHER<\/h2>\n<p>\u00c2ngelo, de volta da igreja, assim que se achou no carro a s\u00f3s com Oz\u00e9as,<br \/>\nabriu a solu\u00e7ar, numa convulsa explos\u00e3o de todo o seu ser.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia, entretanto, determinar o que se passava em sua alma. Era uma agonia<br \/>\nestranha e dolorosa, que a revolucionava sem dizer porque; um \u00edntimo mart\u00edrio,<br \/>\nfeito de vagas apreens\u00f5es, que a atordoavam de terror por iminentes e desconhecidos<br \/>\nperigos.<\/p>\n<p>Sem ter a menor id\u00e9ia da vida comum, sem desconfiar sequer do maravilhoso<br \/>\nefeito que o seu serm\u00e3o de quinta-feira santa produzira sobre o p\u00fablico, que<br \/>\npoderia o m\u00edsero compreender de todo aquele ruidoso entusiasmo que o cercara,<br \/>\ne de todos aqueles \u00e1vidos olhares feminis que o devoravam de curiosidade?<\/p>\n<p>Seu pr\u00f3prio nome, ouvira-o ele repetido por tantas bocas ao mesmo tempo,<br \/>\nque agora lhe chegava \u00e0 mem\u00f3ria como o estribilho de uma singular can\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfalada em l\u00edngua alheia.<\/p>\n<p>Oz\u00e9as, ao seu lado, meditava sem erguer a cabe\u00e7a, recolhido em profunda preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o deram ambos uma s\u00f3 palavra durante a viagem, at\u00e9 chegar ao mosteiro.<\/p>\n<p>Entraram na cela como duas sombras.<\/p>\n<p>O presb\u00edtero foi direito ao altar da Virgem, caiu de joelhos defronte dela<br \/>\ne quedou-se a fit\u00e1-la, enquanto as l\u00e1grimas lhe escorriam pelo rosto, agora<br \/>\nsilenciosamente.<\/p>\n<p>Depois ergueu-se e come\u00e7ou a considerar, abstrato, tudo que o cercava ali,<br \/>\ncomo se visse aqueles objetos pela primeira vez.<\/p>\n<p>E tudo aquilo nunca lhe pareceu t\u00e3o miser\u00e1vel, t\u00e3o ermo e turvo, como naquele<br \/>\ninstante. Aquela dura pris\u00e3o, onde surdamente se escoara a triste mocidade,<br \/>\nnunca lhe pareceu t\u00e3o \u00e1rida e t\u00e3o mesquinha. Aquelas nuas paredes, empalidecidas<br \/>\npelo tempo, nunca lhe pareceram t\u00e3o apertadas, e aquele sombrio teto, t\u00e3o<br \/>\nbaixo e t\u00e3o sufocante.<\/p>\n<p>Olhou longamente para as suas velhas estantes carregadas de pesados livros<br \/>\nreligiosos, olhou para a sua tosca e tranq\u00fcila mesa de estudo, para a sua<br \/>\npobre enxerga de condenado, e ficou a considerar o cil\u00edcio pendido da parede<br \/>\njunto ao altar da Virgem.<\/p>\n<p>Oz\u00e9as observava-o, im\u00f3vel at\u00e9 ali, de bra\u00e7os cruzados, com uma inconsol\u00e1vel<br \/>\ne funda express\u00e3o de m\u00e1goa no olhar.<\/p>\n<p>Afinal, foi ter com ele, e tocou-lhe no ombro.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo despertou sobressaltado.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o, meu filho, disse o velho com voz segura; continua a tua perturba\u00e7\u00e3o?.<br \/>\n. .<\/p>\n<p>\u00c2ngelo n\u00e3o deu resposta.<\/p>\n<p>-Vamos! Fala!<\/p>\n<p>-Sim, meu pai, tartamudeou o pobre mo\u00e7o, volvendo para ele os olhos inocentes.<br \/>\nE pe\u00e7o-lhe que me deixe a s\u00f3s; preciso concentrar-me, at\u00e9 voltar \u00e0 minha primitiva<br \/>\ntranq\u00fcilidade. . .<\/p>\n<p>O velho insistiu, segurando-lhe as m\u00e3os e fitando-o, como se procurasse arrancar-lhe<br \/>\npelos olhos a confiss\u00e3o da revolta que lhe ia na alma.<\/p>\n<p>-Mas como explicar semelhante perturba\u00e7\u00e3o?. . . exclamou ele. Pois ent\u00e3o<br \/>\njustamente hoje, hoje que tua alma devia, melhor que nunca, resplandecer de<br \/>\nsanto j\u00fabilo; hoje, que deste o teu \u00faltimo passo para chegar ao cora\u00e7\u00e3o da<br \/>\nigreja; hoje, que deste o teu supremo voto; hoje \u00e9 que te sentes conturbado<br \/>\ne aflito?!&#8230; Como explicar semelhante anomalia?!. ..<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei. . . n\u00e3o sei. . . balbuciou \u00c2ngelo. Deixe-me ficar s\u00f3, meu pai!<br \/>\nDeixe-me conversar com a minha pobre alma!. . .<\/p>\n<p>-Mas tu nunca faltaste a nenhum dos teus deveres. . . tornou o frade. Tu<br \/>\nnunca pecaste, por palavras, nem por obras, nem por pensamentos. . . tu, que<br \/>\nfoste por bem dizer educado pela m\u00e3o de Deus, porque at\u00e9 hoje te n\u00e3o afastaste<br \/>\numa linha do seu divino ritual. . . tu, que n\u00e3o tens sequer a id\u00e9ia da culpa.<br \/>\n. . tu, \u00e9s t\u00e3o inocente e t\u00e3o puro como no dia em que te trouxe em meu colo<br \/>\npara este convento. . . tu, que vieste das m\u00e3os de Deus para<\/p>\n<p>as minhas, e das minhas tornaste hoje diretamente para as m\u00e3os de Deus&#8230;<br \/>\nporque tremes agora e por que me olhas desse modo, \u00c2ngelo?!<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei, n\u00e3o sei, meu pai!<\/p>\n<p>E \u00c2ngelo, como se receasse a trai\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios olhos, sentou-se no banco<br \/>\ne escondeu o rosto nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Oz\u00e9as chegou-se mais para ele e disse, depois de contempl\u00e1-lo em sil\u00eancio<br \/>\npor algum tempo:<\/p>\n<p>-Acaso estar\u00e1 o dem\u00f4nio a cercar-te, cobi\u00e7oso de tua alma t\u00e3o branca e tenra?.<br \/>\n. . ou a tua perturba\u00e7\u00e3o ser\u00e1 causada pelo eco profano dessa capital que te<br \/>\nadmira e te aclama, e cuja multid\u00e3o s\u00f3 hoje atravessaste pela primeira vez?.<br \/>\n. .<\/p>\n<p>\u00c2ngelo ergueu-se e descobriu o rosto.<\/p>\n<p>A sua fisionomia tinha-se transformado.<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei! exclamou. N\u00e3o posso explicar o que sinto, o efeito que me produz<br \/>\no confuso rumor que ou\u00e7o em torno de mim!. . . N\u00e3o posso determinar qual \u00e9<br \/>\no fato que me perturba, qual \u00e9 o ponto de onde me vem esta agonia, mas sinto-me<br \/>\nespavorido e frio, como se estivesse abandonado sobre o p\u00edncaro de um rochedo<br \/>\nnu, em torno do qual se agitam todos os mares do globo. Sinto em derredor<br \/>\ndo meu c\u00e9rebro o terr\u00edvel vozear desse intermin\u00e1vel oceano&#8230; E no arru\u00eddo<br \/>\ndas suas vozes amea\u00e7adoras, h\u00e1 como que a repercuss\u00e3o de um inferno sufocado<br \/>\npelas \u00e1guas! Afigura-se-me a cada instante que o oceano se vai abrir defronte<br \/>\ndos meus olhos, e que ent\u00e3o o inferno aparecer\u00e1 com as suas goelas de fogo,<br \/>\npronto a devorar-me. N\u00e3o compreendo, nem distingo uma s\u00f3 dessas vozes, n\u00e3o<br \/>\nconsigo destacar uma palavra ou uma nota musical de todo esse murmurar de<br \/>\nespetros, n\u00e3o sei o que \u00e9 que me preocupa e consterna, mas sinto a alma pequena<br \/>\ne transida de medo, como se em volta dela girasse rosnando um bando de le\u00f5es<br \/>\nesfaimados!<\/p>\n<p>E lan\u00e7ando os bra\u00e7os em torno do pesco\u00e7o de Oz\u00e9as, terminou com uma explos\u00e3o<br \/>\nde solu\u00e7os, deixando cair a cabe\u00e7a sobre o peito dele.<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei o que me cerca! n\u00e3o sei o que me amea\u00e7a! Mas tenho medo, meu pai!<br \/>\nTenho medo! Salve-me, por piedade!<\/p>\n<p>-Tens medo! bradou Oz\u00e9as. Entretanto, hoje n\u00e3o devias ouvir, nem ver, nem<br \/>\nsentir outras vozes que n\u00e3o fossem as vozes do c\u00e9u! Tua alma devia estar toda<br \/>\nvoltada para ele e s\u00f3 a ele refletindo, como um grande lago quieto, cristalino<br \/>\ne l\u00edmpido, cuja superf\u00edcie n\u00e3o toldasse sequer a asa de uma abelha. . .<\/p>\n<p>-Bem sei, bem sei, meu pai! solu\u00e7ou \u00c2ngelo; mas, a despeito dos meus esfor\u00e7os,<br \/>\noutras vozes vinham ainda h\u00e1 pouco misturar-se \u00e0s vozes celestiais, outros<br \/>\nperfumes perturbavam os aromas da igreja, outras id\u00e9ias distra\u00edam minha alma,<br \/>\noutro sangue me pulsava em todo o corpo! Afigurava-se-me at\u00e9 ter dentro do<br \/>\npeito outro cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o o meu, dentro do c\u00e9rebro pensamentos que me n\u00e3o<br \/>\npertenciam!<\/p>\n<p>Oz\u00e9as, ouvindo estas palavras, teve um forte sobressalto de terror, e apossou-se<br \/>\nde \u00c2ngelo como se o quisesse resguardar do mundo inteiro.<\/p>\n<p>-Oh! bramiu ele, aterrorizado. \u00c9 preciso que fujas, quanto antes, deste covil<br \/>\nde tenta\u00e7\u00f5es diab\u00f3licas! \u00c9 preciso deixar Paris, imediatamente, j\u00e1! \u00c9 preciso<br \/>\nque te refugies na par\u00f3quia mais humilde, mais pobre, mais miser\u00e1vel, e onde<br \/>\ns\u00f3 possas encontrar sacrif\u00edcios e dores a sofrer! E se a\u00ed mesmo, arredado<br \/>\nde tudo que for brilhante e fascinador, isolado das perdi\u00e7\u00f5es mundanas, aproximar-se<br \/>\noutra vez de ti o dem\u00f4nio e fizer com que o sangue te volva ao c\u00e9rebro, amea\u00e7ando<br \/>\nestrangular os teus votos sagrados, ent\u00e3o agarra aquele cil\u00edcio e fustiga<br \/>\ne martiriza com ele a tua carne, at\u00e9 que a fa\u00e7as calar para sempre!<\/p>\n<p>E, chegando-lhe a boca ao ouvido, segredou-lhe misterioso, a tremer, a tremer,<br \/>\nconvulsionadamente, como se naquele instante todo o seu passado se erguesse<br \/>\nde novo, para vir, ainda, como dantes, pedir mais puni\u00e7\u00e3o para os desvarios<br \/>\nda sua juventude:<\/p>\n<p>-E se, apesar de tudo, encontrares alguma mulher, que te leve a sonhar estranhas<br \/>\nventuras. . . bate com os punhos cerrados contra o peito, dilacera as tuas<br \/>\ncarnes com as unhas at\u00e9 sangrares de todo o veneno da tua mocidade! Esmaga,<br \/>\n\u00e0 for\u00e7a de penit\u00eancia, toda a animalidade que em ti exista! aperta os teus<br \/>\nsentidos dentro do voto de ferro da tua castidade, at\u00e9 lhes espremeres toda<br \/>\na seiva vital! Fecha-te, enfim, dentro do teu voto de castidade, como se te<br \/>\nfechasse dentro de um t\u00famulo!<\/p>\n<p>\u00c2ngelo soltou um grito e caiu de joelhos, balbuciando uma prece por entre<br \/>\nos seus solu\u00e7os.<\/p>\n<p>Oz\u00e9as acalmou-se e estendeu o bra\u00e7os aben\u00e7oando-lhe a cabe\u00e7a com a m\u00e3o aberta.<\/p>\n<p>-Sim, reza! disse; reza, meu filho, ao pai misericordioso o maior tempo que<br \/>\npuderes!<\/p>\n<p>E depois acrescentou, inspirado por uma s\u00fabita id\u00e9ia:<\/p>\n<p>-O velho cura de Monteli acaba de sucumbir \u00e0 peste que se manifestou nessa<br \/>\npobre aldeia. Vou ter com o arcebispo e pe\u00e7o-lhe que te nomeie para l\u00e1. Em<br \/>\nMonteli n\u00e3o ter\u00e1s tenta\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>E saiu vivamente, enquanto \u00c2ngelo, ajoelhado ao meio da cela, de bra\u00e7os e<br \/>\nolhos erguidos para o c\u00e9u, em v\u00e3o procurava alar-se como dantes no v\u00f4o dos<br \/>\nseus \u00eaxtases.<\/p>\n<p>Era in\u00fatil. Seu pensamento ca\u00eda por terra e ia arrastando-se at\u00e9 \u00e0 espl\u00eandida<br \/>\ncatedral, \u00e0 procura de um bem, em busca de uma ventura, que ele n\u00e3o sabia<br \/>\nqual era, mas t\u00e3o doce e t\u00e3o irresist\u00edvel que lhe deixava alma e cora\u00e7\u00e3o vagamente<br \/>\nenleados de desejo.<\/p>\n<h2><a name=\"10\"><\/a>X &#8211; Acedo<\/h2>\n<p>\u00c2ngelo n\u00e3o conseguira concentrar-se.<\/p>\n<p>-Mas que estranha perturba\u00e7\u00e3o ser\u00e1 esta?&#8230; exclamou ele desistindo da s\u00faplica<br \/>\ne erguendo-se dos joelhos. Que teria eu feito para estar assim?. . . Que teria<br \/>\neu cometido, sem consci\u00eancia minha, para que a ora\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o exer\u00e7a no meu<br \/>\nesp\u00edrito a efic\u00e1cia consoladora que tinha dantes?. . .<\/p>\n<p>E nada respondia \u00e0s suas palavras ansiosas. E em torno da sua afli\u00e7\u00e3o era<br \/>\ntudo cada vez mais surdo, mais fechado e mais morto. Voz amiga n\u00e3o lhe acudia<br \/>\nnenhuma em seu socorro, quer viesse ela de dentro dele mesmo, quer baixasse<br \/>\ndo c\u00e9u para ampar\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O m\u00edsero lan\u00e7ou em torno do seu abandono os olhos suplicantes, e deu com<br \/>\na B\u00edblia.<\/p>\n<p>Correu a busc\u00e1-la, tomou-a nas m\u00e3os sofregamente, levou-a aos l\u00e1bios e beijou-a.<\/p>\n<p>-Minha boa amiga! disse apertando-a contra o peito; minha fiel companheira<br \/>\nde tantos e tantos anos! foste tu a minha doce consola\u00e7\u00e3o, o meu ref\u00fagio carinhoso,<br \/>\no meu confidente, o escr\u00ednio das minhas primeiras l\u00e1grimas e dos meus \u00faltimos<br \/>\nsorrisos; foste tu a discreta testemunha dos meus \u00eaxtases e o grande manancial<br \/>\ndas minhas alegrias religiosas, vale-me tamb\u00e9m agora! vale-me tu, que me abrigaste<br \/>\ndurante o longo tempo, em que vivemos os dois encerrados com as minhas m\u00e1goas<br \/>\nnesta pris\u00e3o sombria! Ah! como eu era ent\u00e3o feliz! . . . como tinha a alma<br \/>\ntranq\u00fcila e descuidosa!. . . Vale-me amada minha, que talvez consigas o que<br \/>\na ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode!<\/p>\n<p>E, sentando-se no banco, abriu a B\u00edblia sobre os joelhos e leu, ao acaso,<br \/>\nalguns vers\u00edculos do primeiro cap\u00edtulo que seus olhos encontraram.<\/p>\n<p>Era o livro de J\u00f3.<\/p>\n<p>&#8220;A minha alma tem t\u00e9dio \u00e0 minha vida; soltarei a minha l\u00edngua contra mim;<br \/>\nfalarei na amargura de minha dor desconhecida.<\/p>\n<p>&#8220;Direi a Deus: As tuas m\u00e3os me fizeram, e me formaram todo em roda, e assim<br \/>\nde repente me despenhas?<\/p>\n<p>&#8220;Lembra-te, eu te pe\u00e7o, que com barro me formaste e que me h\u00e1s de reduzir<br \/>\na p\u00f3.<\/p>\n<p>&#8220;Vida e miseric\u00f3rdia me concedeste, e a tua assist\u00eancia conservou o meu esp\u00edrito.<\/p>\n<p>&#8220;Se eu pequei, tu me perdoaste na mesma hora; porque n\u00e3o permitiste tu que<br \/>\neu esteja limpo da minha iniq\u00fcidade?<\/p>\n<p>&#8220;Tu multiplicas contra mim a tua ira, e as penas combatem contra mim.<\/p>\n<p>&#8220;Por que me tiraste tu do ventre de minha m\u00e3e? Oxal\u00e1 que eu tivesse perecido,<br \/>\npara que nenhuns olhos me vissem. Que tivera sido como se n\u00e3o fora, desde<br \/>\no ventre transladado para a sepultura.<\/p>\n<p>&#8220;Deixa-me, pois, que eu chore um pouco a minha dor!<\/p>\n<p>&#8220;Antes que v\u00e1 para n\u00e3o tornar para aquela terra tenebrosa, e coberta da escuridade<br \/>\nda noite. Terra da mis\u00e9ria e do terror.&#8221;<\/p>\n<p>Mas o seu esp\u00edrito rebelado fugia da p\u00e1gina da B\u00edblia, e punha-se a cantar-lhe<br \/>\nao ouvido as palavras do velho Oz\u00e9as: &#8220;E, se apesar de tudo, encontrares alguma<br \/>\nmulher, que te leve a sonhar estranhas venturas . . . &#8221;<\/p>\n<p>\u00c2ngelo estremecia, tornava \u00e0 p\u00e1gina e punha-se a ler. Mas aqueles lamentosos<br \/>\nvers\u00edculos, que dantes o arrebatavam para Deus, agora nada mais conseguiam<br \/>\ndo que deix\u00e1-lo num vago entorpecimento de desanimo.<\/p>\n<p>E vinha-lhe uma frouxa vontade de morrer, ou pelo menos de envelhecer logo,<br \/>\nde repente, ali mesmo; um desejar que seu corpo se fizesse de s\u00fabito alquebrado<br \/>\ne frio, que seu cabelo, de preto e lustroso se tornasse branco e desbotado,<br \/>\nque os seus dentes amarelecessem, e que a sua fronte se despojasse naquele<br \/>\nmesmo instante, e abrisse toda em rugas.<\/p>\n<p>Desejava refugiar-se covardemente na velhice, como dentro de um abrigo seguro<br \/>\ncontra a feroz matilha que lhe rosnava no sangue. Mas a misteriosa frase de<br \/>\nseu pai, vinha-lhe de novo \u00e0 superf\u00edcie dos pensamentos furando e abrindo<br \/>\ncaminho por entre todas as outras id\u00e9ias.<\/p>\n<p>&#8220;E, se apesar de tudo, encontrares alguma mulher, que te leve a sonhar estranhas<br \/>\nventuras, bate com os punhos cerrados contra o peito, dilacera as tuas carnes<br \/>\ncom as unhas, at\u00e9 sangrares de todo o veneno da tua mocidade!&#8221;<\/p>\n<p>-Mas que estranhas venturas ser\u00e3o essas que as mulheres nos levam a sonhar?.<br \/>\n. . interrogou-se ele, erguendo o rosto e cruzando as m\u00e3os sobre a p\u00e1gina<br \/>\nda B\u00edblia. Ent\u00e3o a mulher n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma criatura de Deus?. . . um ente,<br \/>\nt\u00e3o aben\u00e7oado e protegido por ele, que at\u00e9 foi por ele escolhido para servir<br \/>\nde m\u00e3e a seu filho Jesus?. . . Pois t\u00e3o grande honra se concederia a um ente<br \/>\ndesprez\u00edvel, posto neste mundo s\u00f3 para tentar os justos e desvi\u00e1-los do caminho<br \/>\nda virtude?&#8230; Se a mulher \u00e9 m\u00e1, por que existe?. . . Se existe, por que Deus<br \/>\na fez m\u00e1 e perigosa?.. . Por que me \u00e9 vedado am\u00e1-la tanto quanto me cumpre<br \/>\namar aos homens?. . . A ela ainda devia amar muito mais, porque \u00e9 mais fraca,<br \/>\nmais mesquinha, mais amorosa e mais desamparada. Por que n\u00e3o devo amar as<br \/>\nmulheres?&#8230; N\u00e3o ser\u00e3o minhas irm\u00e3s?&#8230; N\u00e3o seremos todos filhos do mesmo<br \/>\npai?. . .<\/p>\n<p>Fechou os olhos, como se quisesse fugir a estes pensamentos; mas a id\u00e9ia<br \/>\nda frase de Oz\u00e9as alastrava-se-lhe pelo c\u00e9rebro, estrangulando todas as outras,<br \/>\nque nem a planta ego\u00edsta e daninha que n\u00e3o permite viver e crescer ao seu<br \/>\nlado nenhuma outra planta.<\/p>\n<p>-Se a mulher \u00e9 produto dos infernos. . . continuou ele a pensar; todos temos<br \/>\nem n\u00f3s um pouco de Deus e um pouco do dem\u00f4nio, porque todo o homem nasce,<br \/>\ntanto do homem como da mulher. N\u00e3o compreendo bem este fen\u00f4meno do nascimento.<br \/>\n.. nunca mo explicaram. . . Mas sei que o homem nasce da mulher, como Jesus<br \/>\nnasceu do ventre de Maria&#8230; N\u00e3o mo explicaram, e todavia ensinaram-me a odiar<br \/>\na mulher. . . Por que?<\/p>\n<p>Nisto, entrou na sombria cela um alegre casal de borboletas brancas, e come\u00e7ou<br \/>\na cruzar-se no ar, doudejando em volta da cabe\u00e7a de \u00c2ngelo. Depois uma delas,<br \/>\nenquanto a outra a perseguia, foi pousar tranq\u00fcilamente na amarelenta p\u00e1gina<br \/>\nda B\u00edblia, que ele conservava aberta e esquecida sobre os joelhos.<\/p>\n<p>O presb\u00edtero p\u00f4s-se a fit\u00e1-la. A borboleta fugiu para o teto, \u00e0 procura da<br \/>\ncompanheira, e ele a seguiu com a vista.<\/p>\n<p>-Um casal de borboletas!&#8230; disse consigo. Duas!. . . Um par!. . . E por<br \/>\nque duas?. . . Por que andam juntas? Por que n\u00e3o veio uma s\u00f3?. . .<\/p>\n<p>Elas interromperam de novo o seu a\u00e9reo e irrequieto id\u00edlio, e foram pousar,<br \/>\numa ao lado da outra, na pequena cruz latina que encimava o orat\u00f3rio da Virgem.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo continuava a pensar:<\/p>\n<p>-Se o sexo \u00e9 uma imund\u00edcie condenada por Deus, por que Deus ent\u00e3o fez as<br \/>\nsuas criaturas aos pares, e por que fez o sexo?. . . Por que os homens n\u00e3o<br \/>\ncontinuam a nascer como Ad\u00e3o e Eva?&#8230; &#8220;Por castigo&#8221; diz a Escritura Sagrada&#8230;<br \/>\nLogo, a procria\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um bem, \u00e9 um mal; logo, o mundo inteiro \u00e9 um purgat\u00f3rio,<br \/>\ne a vida um tormento!. . .<\/p>\n<p>As borboletas come\u00e7aram de novo a doudejar no espa\u00e7o.<\/p>\n<p>-E estas desgra\u00e7adinhas, interrogou \u00c2ngelo a si mesmo; estas tamb\u00e9m pecaram<br \/>\nno Para\u00edso, para que Deus as obrigasse a viver e procriar?. . .<\/p>\n<p>As borboletas, redobrando de impaci\u00eancia&#8217; iam e vinham por toda a cela, \u00e0<br \/>\nprocura de uma sa\u00edda.<\/p>\n<p>O padre compadeceu-se delas e quis dar-lhes o ar livre. Foi abrir a janela,<br \/>\nmas encontrou resist\u00eancia; os gonzos oxidados n\u00e3o queriam acordar do seu ferruginoso<br \/>\nsono de vinte anos. \u00c2ngelo empregou toda a for\u00e7a e conseguiu afinal abri-la.<\/p>\n<p>Um jacto de luz alegre e cantante inundou a fria pris\u00e3o. Um mundo de vida<br \/>\npatenteou-se no ar, \u00e0 doiradora claridade que vinha l\u00e1 de fora.<\/p>\n<p>O presb\u00edtero correu \u00e0s grades da janela.<\/p>\n<p>-Que belo! Que belo! exclamou ele, defrontando com extensa paisagem que se<br \/>\ndescortinava aos seus olhos deslumbrados.<\/p>\n<p>Estava a uns cem metros de altura. O ponto de vista era espl\u00eandido. Primeiro,<br \/>\no grande parque do convento, todo cercado de altos muros; depois, as ruas<br \/>\nda cidade, as pra\u00e7as e os jardins, e logo em seguida o Sena, coberto de barcos,<br \/>\ne afinal as long\u00ednquas \u00e1rvores do campo, que se perdiam suavemente nas tintas<br \/>\nduvidosas do horizonte.<\/p>\n<p>-Que belo! Que belo!<\/p>\n<p>E vendo o casal de borboletas, que fugia espa\u00e7o afora:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Como v\u00e3o ligeiras. . . Como brincam no espa\u00e7o&#8230; Agora dizem um segredo&#8230;<br \/>\nVoam de novo&#8230; Desaparecem&#8230;<\/p>\n<p>Abaixando o olhar, descobriu sobre um telhado um casal de pombos que arrulhava.<\/p>\n<p>-Como s\u00e3o lindos! pensou. Como s\u00e3o brancos e amorosos! Agora se beijam! Que<br \/>\nbelo! Que belo!<\/p>\n<p>Na rua descobriu um homem de bra\u00e7o dado a uma mulher, levando ele um pequenito<br \/>\npela m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o casados!&#8230; A crian\u00e7a parece com ambos!&#8230; Oh! agora conversam&#8230; ele<br \/>\ntomou as m\u00e3os dela entre as suas; ela sorri, abaixa os olhos&#8230; S\u00e3o felizes!<\/p>\n<p>Afastou-se bruscamente da janela. O espet\u00e1culo daquela tranq\u00fcila ventura<br \/>\nfazia-lhe mal, e quase o irritava.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia dizer por que, mas num \u00edntimo e profundo malquerer, contra tudo<br \/>\ne contra todos, principiava a tortur\u00e1-lo com uma dura e secreta agonia de<br \/>\ninveja.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o felizes! s\u00e3o felizes! solu\u00e7ou de punhos cerrados e com o cora\u00e7\u00e3o oprimido.<br \/>\nE por que h\u00e3o de eles rir e eu chorar! Qual \u00e9 o meu crime?! Por que todos<br \/>\nnesta vida tem uma companheira e eu n\u00e3o a posso ter?! Por que hei de ser s\u00f3,<br \/>\neternamente s\u00f3, quando a natureza deu um par a cada uma das suas criaturas?!.<br \/>\n. .<\/p>\n<p>Mas caiu logo em si, e derramando pela cela um olhar de quem desperta de<br \/>\ntrai\u00e7oeiro sonho, deu com a imagem da Virgem, que, de dentro do seu nicho<br \/>\nde pedra, parecia lan\u00e7ar-lhe um triste sorriso de ressentimento.<\/p>\n<p>-N\u00e3o! bradou ele, atirando-se de joelhos e arrastando-se at\u00e9 os p\u00e9s da Santa.<br \/>\nN\u00e3o estou s\u00f3! nunca estarei s\u00f3! Sou um padre e a minha esposa sois v\u00f3s, Senhora<br \/>\namoros\u00edssima, l\u00edrio celeste, perfei\u00e7\u00e3o dos c\u00e9us! Perdoai-me se por um instante<br \/>\nde del\u00edrio me esqueci do nosso amor!<\/p>\n<p>E correndo \u00e0 janela, bramiu, amea\u00e7ando l\u00e1 fora, com a m\u00e3o fechada:<\/p>\n<p>-Oh! Bem te compreendo, natureza p\u00e9rfida e sedutora! bem compreendo os teus<br \/>\nembustes! \u00c9s pior ainda que a tua rival, a sociedade! Mas em v\u00e3o te enfeitas<br \/>\ncom as tuas galas e com os teus sorrisos de amor! N\u00e3o me seduzir\u00e1s, p\u00e2ntano<br \/>\nde lama coberto de flores! N\u00e3o me corromper\u00e1s, porque tenho na alma bastante<br \/>\nenergia para governar os meus sentidos, e tenho o meu cora\u00e7\u00e3o cercado por<br \/>\numa muralha de f\u00e9! Atira-me aos p\u00e9s o ouro do teu sol, atira-me o perfume<br \/>\ndas tuas flores, o mel dos teus frutos, o mist\u00e9rio dos teus crep\u00fasculos, a<br \/>\nm\u00fasica das tuas florestas, os deslumbramentos das tuas auroras! tudo ser\u00e1<br \/>\nbaldado! Hei de resistir a todas as tuas provoca\u00e7\u00f5es! hei de lutar contra<br \/>\ntodos os inimigos da minha pureza, e, ou cairei morto, ou hei de suport\u00e1-los<br \/>\na todos, um por um!<\/p>\n<p>E sentindo-se arrebatado no del\u00edrio da sua f\u00e9, bradou como um louco:<\/p>\n<p>-Venham! Venham filhos do inferno! Podem vir todos, que me encontrar\u00e3o armado<br \/>\ne de p\u00e9 firme!<\/p>\n<p>Em seguida atirou-se de novo aos p\u00e9s da Virgem e come\u00e7ou a rezar fervorosamente.<\/p>\n<p>Quatro horas depois foi surpreendido pelo velho Oz\u00e9as, que lhe bateu no ombro.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo voltou para ele os olhos desvairados.<\/p>\n<p>-Amanh\u00e3, disse aquele, partiremos de madrugada para Monteli.<\/p>\n<p>-Estou \u00e0s suas ordens, meu pai.<\/p>\n<h2><a name=\"11\"><\/a>XI &#8211; \u00c2ngelo amea\u00e7ado<\/h2>\n<p>Era a antec\u00e2mara da formosa Alzira rigorosamente posta ao caprichoso gosto<br \/>\nda \u00e9poca.<\/p>\n<p>Guarneciam-na m\u00f3veis de madeira, esculpida e pintada de branco, com arabescos<br \/>\nde ouro, que variava entre o fusco e o luzente, formando torturados desenhos<br \/>\nde ornato. Pombas aos pares e anjinhos rechonchudos serviam de adorno \u00e0s guarni\u00e7\u00f5es<br \/>\ndas portas. Sobre peanhas e cantoneiras havia jarras de Sevres, com pinturas<br \/>\nassinadas, em que se viam pastores enfeitados de fitas azuis e cor-de-rosa,<br \/>\nna cinta, nos joelhos, no pesco\u00e7o e nos tornozelos, tocando avena e flauta,<br \/>\nao lado de roli\u00e7as raparigas de saia curta listrada com sobre-saia de tufos<br \/>\nde seda clara, chap\u00e9u de palha, coberto de flores, uma corbelha enfiada no<br \/>\nbra\u00e7o, sapatinhos quase invis\u00edveis, e um dos peitos \u00e0 mostra, branco e levemente<br \/>\nrosado, como tr\u00eamula gota de leite sobre uma p\u00e9tala de rosa.<\/p>\n<p>As cortinas de estofo alvadio, adamascado de prata, eram arrepanhadas ao<br \/>\nmeio por grandes flor\u00f5es de penas multicores.<\/p>\n<p>Os espelhos tinham cercaduras de florinhas de porcelana, primorosamente acabadas<br \/>\ne coloridas com muita arte. Era uma recorda\u00e7\u00e3o do luxo de Lu\u00eds XIV.<\/p>\n<p>Em cima do fog\u00e3o, dourado quase todo, havia um grande rel\u00f3gio de Boule, tirado<br \/>\npor le\u00f5es de ouro, entre v\u00e1rias l\u00e2mpadas e espevitadores tamb\u00e9m de ouro.<\/p>\n<p>Nas paredes, forradas de uma tape\u00e7aria azul celeste, destacavam-se suavemente,<br \/>\npor cima das portas e contornando os m\u00f3veis, desenhos do mesmo azul um pouco<br \/>\nmais escuro, representando alegorias pastoris.<\/p>\n<p>Prendiam a tape\u00e7aria cord\u00f5es de arame de prata entran\u00e7ando, com grandes n\u00f3s<br \/>\nde espa\u00e7o a espa\u00e7o, terminando em amplas borlas do mesmo metal, que afinavam<br \/>\nadmiravelmente com os bordados das cortinas.<\/p>\n<p>O tapete era felpudo e azul sombrio, \u00e0 moda dos voluptuosos tapetes da Turquia.<br \/>\nOs batentes das portas eram forrados de veludo cor de p\u00e9rola e fechavam como<br \/>\ntampas de estojo.<\/p>\n<p>Alzira, ainda em penteador, estendida negligentemente num div\u00e3 fofo e rasteiro,<br \/>\nfumava uma dourada cigarrilha oriental, e acompanhava distra\u00edda as espirais<br \/>\ndo fumo com as p\u00e1lpebras semicerradas.<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio marcava meio-dia. Ela acabava de levantar-se do leito, onde fizera<br \/>\na sua refei\u00e7\u00e3o da manh\u00e3; uma pequena x\u00edcara de chocolate e dois biscoitos<br \/>\nde Reims.<\/p>\n<p>Um rico domin\u00f3 de seda negra, arremessado sabre uma cadeira, e uma meia m\u00e1scara<br \/>\nca\u00edda sobre o tapete, diziam que nessa madrugada se recolhera ela depois de<br \/>\num baile; e um pobre len\u00e7o de rendas preciosas, que jazia a um canto estra\u00e7alhado<br \/>\nem tiras, denunciava todo o frenesi de t\u00e9dio com que a linda condessa, \u00e0 volta<br \/>\ndo baile, entrara nos seus aposentos.<\/p>\n<p>Mas agora, sozinha no perfumado e t\u00e9pido remanso da sua antec\u00e2mara, parecia<br \/>\nj\u00e1 esquecida dos aborrecimentos da v\u00e9spera, alheia a tudo que a cercava, e<br \/>\ns\u00f3 entregue e abandonada, voluptuosamente, \u00e0 mem\u00f3ria do venturoso sonho dessa<br \/>\nmanh\u00e3.<\/p>\n<p>Pensava em \u00c2ngelo. Via o em meio dos esplendores da igreja, cercado de \u00e1vidos<br \/>\nolhares, surgindo, todo paramentado de ouro, dentre uma nuvem de incenso.<br \/>\nVia-o, formoso e c\u00e2ndido, de bra\u00e7os abertos, defronte do altar, com os olhos<br \/>\nvirginais voltados para o c\u00e9u. Via o tr\u00eamulo sorrir da sua boca de anjo, via<br \/>\no melanc\u00f3lico balancear dos seus negros cabelos de meridional. Tinha-o todo<br \/>\ninteiro e todo vivo defronte da sua alma, pela primeira vez enamorada; tinha-o<br \/>\nali, defronte dela, com a sua misteriosa palidez de flor de estufa; tinha-o<br \/>\ncom aqueles l\u00e1bios t\u00e3o divinos e t\u00e3o puros, com aqueles gestos donairosos<br \/>\ne tranq\u00fcilos, com aquela voz embriagadora, que parecia sair de uma garganta<br \/>\nde cristal e s\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Tinha-o todo inteiro, e sentia-lhe at\u00e9 os perfumes do damasco da sua vestimenta,<br \/>\no aroma do seu h\u00e1bito e o b\u00e1lsamo dos seus cabelos.<\/p>\n<p>E Alzira espregui\u00e7ou-se com um profundo suspiro, de olhos fechados e l\u00e1bios<br \/>\nentreabertos, dilatando o pesco\u00e7o, como se procurasse alcan\u00e7ar com a boca<br \/>\na sombra de uma outra boca fugitiva.<\/p>\n<p>E deixou-se cair sobre a almofada do div\u00e3, suspirando de novo, inconsol\u00e1vel<br \/>\nna sua deliciosa m\u00e1goa de amor.<\/p>\n<p>O que em \u00c2ngelo a fascinava daquele modo, o que a arrastava para ele t\u00e3o<br \/>\nirresistivelmente n\u00e3o era, todavia, a singular formosura do p\u00e1lido presb\u00edtero,<br \/>\nmas a sua fenomenal pureza de corpo e de alma; era aquela sedutora virgindade,<br \/>\nligada a t\u00e3o altiva e clara intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Ela, que vira rendida a seus p\u00e9s a fina flor de esp\u00edrito parisiense e a flor<br \/>\nbrilhante de toda a fidalguia do seu tempo, e que nunca se deixara escravizar<br \/>\npelo ouro dos nababos, nem pela vermelha gl\u00f3ria dos her\u00f3is vitoriosos, ou<br \/>\npela gl\u00f3ria azul dos poetas endeusados; ela, que at\u00e9 a\u00ed jamais entregara os<br \/>\npulsos, sequer por um instante, a uma dessas paix\u00f5es, que fazem da pessoa<br \/>\namada o dono e senhor exclusivo da nossa vida e dos nossos pensamentos; ela,<br \/>\na insens\u00edvel Alzira, a cortes\u00e3 de m\u00e1rmore, sentia-se agora cativa de \u00c2ngelo,<br \/>\no casto; e seria capaz de trocar, por um beijo daqueles l\u00e1bios imaculados,<br \/>\ntodos os seus tesouros, todas as suas j\u00f3ias, todas as suas baixelas e todo<br \/>\no valimento do seu corpo escultural.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que amava, era a primeira vez que todo o seu ser desejava<br \/>\nalgu\u00e9m; a primeira vez que ela se sentia pequena, humilde, miser\u00e1vel, defronte<br \/>\nde um homem; a primeira vez que se supunha capaz de ajoelhar-se aos p\u00e9s do<br \/>\nseu amante e beij\u00e1-lo doida de amor, pedindo ternura como um c\u00e3o pede car\u00edcias<br \/>\naos p\u00e9s do dono, suplicando-lhe que a fizesse morrer sufocada nos seus bra\u00e7os,<br \/>\npara que fosse dele a \u00faltima vibra\u00e7\u00e3o daquela fr\u00e1gil carne de mulher, e dele<br \/>\nfosse o extremo beijo daquela pobre alma apaixonada.<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>Era mulher pela primeira vez: pela primeira vez chorava.<\/p>\n<p>Da\u00ed a instantes, agitou-se o reposteiro de uma das portas, e um negro, de<br \/>\nlibr\u00e9 vermelha, entrou na antec\u00e2mara, com os bra\u00e7os cruzados e os olhos baixos.<\/p>\n<p>-Que \u00e9, Amilcar?. . . perguntou Alzira sem tirar o len\u00e7o dos olhos.<\/p>\n<p>-O Dr. Cobalt. .. respondeu o africano com a sua acentua\u00e7\u00e3o et\u00edope.<\/p>\n<p>-Cobalt, sim, pode entrar. . . E mais ningu\u00e9m, ouviste? nem o marques!<\/p>\n<p>O negro retirou-se. E o m\u00e9dico entrou pouco depois, risonho e prazenteiro<br \/>\ncomo sempre.<\/p>\n<p>Foi logo beijar a m\u00e3o da condessa e ficou a tomar-lhe o pulso.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o?&#8230; indagou, olhando-a no fundo dos olhos. O mal tem progredido?<\/p>\n<p>Ela respondeu com um suspiro, e ofereceu-lhe um lugar a seu lado no div\u00e3.<\/p>\n<p>Cobalt assentou-se e deu um estalo com a l\u00edngua.<\/p>\n<p>-N\u00e3o estou nada contente com isto, sabe?&#8230; declarou ele, em ar de paternal<br \/>\ncensura. No seu melindroso estado de sobreexcita\u00e7\u00e3o nervosa, produzida pelo<br \/>\nexcesso dos prazeres, pode ser-lhe fatal este singular capricho da fantasia,<br \/>\nporque nunca poder\u00e1 ser satisfeito. \u00c2ngelo, como homem, \u00e9 um caso perdido.<br \/>\n. . n\u00e3o podemos contar com ele para nada E receio que esta circunst\u00e2ncia traga<br \/>\nperigosas conseq\u00fc\u00eancias. . . Ora, a condessa nunca amou, nunca sofreu esse<br \/>\nador\u00e1vel g\u00eanero de loucura; o seu organismo n\u00e3o tem por conseguinte a menor<br \/>\npr\u00e1tica da mol\u00e9stia de que agora se sente atacado, e aquilo que para outra<br \/>\nmulher nada valeria, pode nestas condi\u00e7\u00f5es transformar-se em cousa muito s\u00e9ria!<br \/>\n. . .<\/p>\n<p>-Mas que hei eu de fazer, meu amigo?<\/p>\n<p>-Oh! Se fosse poss\u00edvel, receitava-lhe: &#8220;\u00c2ngelo em estado simples, duas doses<br \/>\npor dia, uma antes e outra depois do sono. E&#8217; bom sacudir o rem\u00e9dio antes<br \/>\nde o tomar.&#8221; E pronto! Afian\u00e7o que ficaria boa!<\/p>\n<p>Alzira teve um gesto de impaci\u00eancia, e o m\u00e9dico, percebendo-o, tomou-lhe<br \/>\nas m\u00e3os e disse, como se falasse com uma crian\u00e7a caprichosa e doente:<\/p>\n<p>-O que h\u00e1 de fazer?. .. Ora essa! nada mais simples: evitar semelhante preocupa\u00e7\u00e3o!.<br \/>\n. .<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 imposs\u00edvel!<\/p>\n<p>-Viaje! V\u00e1 at\u00e9 \u00e0 It\u00e1lia! Corra o mundo inteiro, se for preciso; e leve o<br \/>\nmarqu\u00eas. . .<\/p>\n<p>-N\u00e3o me fale no marqu\u00eas!<\/p>\n<p>-Aqui \u00e9 que n\u00e3o conv\u00e9m ficar, deixando-se consumir por um desejo, que naturalmente<br \/>\nnunca ser\u00e1 satisfeito. .. Pelos seus olhos, percebe-se que j\u00e1 hoje chorou!<br \/>\n\u00c9 muito bonito, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida!<\/p>\n<p>-N\u00e3o ralhe comigo, doutor!<\/p>\n<p>-Ralho com raz\u00e3o! Sempre lhe perdoei as fantasias, mas. ..<\/p>\n<p>-Sabe se \u00e9 verdade o que disseram?<\/p>\n<p>-A respeito de que?<\/p>\n<p>-A respeito dele. Parte?<\/p>\n<p>&#8211; Sim. \u00c9 exato; parte para Monteli.<\/p>\n<p>-Quando?<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei. Por estes dias.<\/p>\n<p>-Monteli! Irei tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>-Est\u00e1 sonhando, condessa?&#8230; Monteli \u00e9 hoje o lugar de mais peste! N\u00e3o ir\u00e1,<br \/>\nque n\u00e3o consinto!<\/p>\n<p>-H\u00e1 de consentir e at\u00e9 h\u00e1 de acompanhar-me. . .<\/p>\n<p>-Eu?! qual! -Nesse caso irei s\u00f3. Vai ver! E foi ao t\u00edmpano e vibrou-o. Reapareceu<br \/>\nAm\u00edlcar.<\/p>\n<p>-O marqu\u00eas j\u00e1 est\u00e1 vis\u00edvel?&#8230; perguntou-lhe ela. Vai a ver, e, se estiver,<br \/>\ndize-lhe que fa\u00e7a o favor de vir c\u00e1.<\/p>\n<p>Quando da\u00ed a pouco o marques, com a sua desafinada figura de homem muito<br \/>\nalto e muito gordo, entrou na perfumada antec\u00e2mara de Alzira, esta, antes<br \/>\nque ele tivesse tempo de apresentar-lhe uma galanteadora frase de sauda\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne antes que ele correspondesse ao cumprimento do Dr. Cobalt, disse-lhe sem<br \/>\nmais pre\u00e2mbulos e no tom de quem d\u00e1 uma ordem irrevog\u00e1vel.<\/p>\n<p>-Meu amigo, de hoje at\u00e9 depois de amanh\u00e3 o mais tardar, preciso de uma casa<br \/>\nde campo nas imedia\u00e7\u00f5es de Monteli! V\u00e1! n\u00e3o se descuide! \u00c9 caso urgente!<\/p>\n<p>O marques contentou-se, na sua surpresa, de fazer uma cara de assombrado.<\/p>\n<p>E sorriu constrangidamente.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico tamb\u00e9m sorriu, mas sem nenhum constrangimento.<\/p>\n<h2><a name=\"12\"><\/a>XII &#8211; Florans em telas de aranha<\/h2>\n<p>Na subseq\u00fcente quinta-feira achava-se no sal\u00e3o de Alzira a roda do costume,<br \/>\ne conversava-se ainda a respeito de \u00c2ngelo e da sua perturba\u00e7\u00e3o ao terminar<br \/>\na missa em Notre-Dame, quando Amilcar apareceu para anunciar que a ceia estava<br \/>\nservida.<\/p>\n<p>-Meus amigos, disse a condessa, n\u00e3o fa\u00e7o<\/p>\n<p>Afastaram-se os comensais para a sala de jantar, e o Dr. Cobalt correu a<br \/>\nencontrar-se com a dona da casa.<\/p>\n<p>-Sente alguma cousa, minha amiga?&#8230; perguntou-lhe sol\u00eccitadamente, apoderando-se<br \/>\nde uma das m\u00e3os dela.<\/p>\n<p>-N\u00e3o, doutor. E diga-me: sabe se ele partiu ontem, como estava previsto?<\/p>\n<p>-Ainda n\u00e3o. Foi detido por uma febre.<\/p>\n<p>-Mol\u00e9stia grave?&#8230;<\/p>\n<p>-Qual! Sobreexcita\u00e7\u00e3o nervosa, produzida naturalmente pelo fanatismo.<\/p>\n<p>-E quando parte?<\/p>\n<p>-N\u00e3o sei, condessa, Logo que possa fazer a viagem. O marques j\u00e1 comprou a<br \/>\ncasa?<\/p>\n<p>-J\u00e1.<\/p>\n<p>-Onde?<\/p>\n<p>-Em Raismes.<\/p>\n<p>-Bom.<\/p>\n<p>E vendo que o marques se aproximava:<\/p>\n<p>-A\u00ed vem o seu verdugo. Vou tomar ch\u00e1. . .<\/p>\n<p>Afastou-se.<\/p>\n<p>-Pensei que n\u00e3o nos deixassem um momento em liberdade!. . . disse o amante<br \/>\nde Alzira, encaminhando-se para ela.<\/p>\n<p>-Ah! Estava a\u00ed, marques? N\u00e3o vai \u00e0 mesa?. . . perguntou a formosa mulher,<br \/>\nafetando um gesto de interesse.<\/p>\n<p>Florans franziu a testa.<\/p>\n<p>-Minha presen\u00e7a a incomoda, condessa, segredou ele, chegando-se mais. Impacientava-me<br \/>\npor me ver a seu lado. . . sozinhos. . .<\/p>\n<p>-Est\u00e1 no seu direito&#8230;<\/p>\n<p>-N\u00e3o me fale em direito, minha flor. N\u00e3o \u00e9 por um direito que eu desejo priv\u00e1-la<br \/>\ndos seus momentos de solid\u00e3o . . .<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o por que mais \u00e9?&#8230;<\/p>\n<p>-Desejava que fosse por seu gosto, pelo prazer que a condessa, encontrasse<br \/>\nem conversar a s\u00f3s comigo. . .<\/p>\n<p>-Isso n\u00e3o \u00e9 cousa que dependa s\u00f3 da vontade. . .<\/p>\n<p>E como o marques fizesse um triste ar de ressentimento:-N\u00e3o se pode queixar,<br \/>\nmeu amigo, creio que, depois que estamos juntos, ainda n\u00e3o deixei uma s\u00f3 vez<br \/>\ntransparecer m\u00e1 vontade em suportar a sua companhia . . .<\/p>\n<p>-Suportar!. . . repetiu o pobre marques com um suspiro. Suportar!&#8230; eis<br \/>\num termo que, s\u00f3 por si, patenteia toda a indiferen\u00e7a que a senhora tem por<br \/>\nminha pessoa. . .<\/p>\n<p>-Suport\u00e1-lo \u00e9 a minha obriga\u00e7\u00e3o, e fa\u00e7o por cumpri-la o melhor que me \u00e9 poss\u00edvel.<br \/>\n. . Repito que o marques n\u00e3o tem o direito de queixar-se&#8230;<\/p>\n<p>-Ah! suspirou ele de novo. N\u00e3o! n\u00e3o tenho! Sou t\u00e3o infeliz que nem esse direito<br \/>\npossuo. . . Juro-lhe, entretanto, que preferia menos zelo no que fala, e um<br \/>\npouco mais de escr\u00fapulo no que me diz \u00e0s vezes. A franqueza, minha cara amiga,<br \/>\nem certos casos e usada de certo modo, \u00e9 ofensa. . . e a senhora, creio eu.<br \/>\n. . n\u00e3o tem motivo algum para me ofender. . .<\/p>\n<p>-Ah! que o senhor hoje est\u00e1 num dos seus maus dias! . . . respondeu ela,<br \/>\nmeneando a cabe\u00e7a com impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>E, notando que ele se afastava, acrescentou a meia voz, como se receasse<br \/>\ndet\u00ea-lo com as palavras:-Desculpe se o ofendi. . .<\/p>\n<p>Mas o marques voltou, e ela ent\u00e3o acudiu desabridamente: -Se a sua inten\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 dizer-me qualquer cousa, ou exigir de mim seja o que for, fale logo com<br \/>\nfranqueza e por uma vez. Bem sabe que estou \u00e0s suas ordens! . . .<\/p>\n<p>-\u00c0s minhas ordens!&#8230; resmungou o infeliz. \u00c0s minhas ordens!. . . Tem gra\u00e7a!<br \/>\nPreferia estar eu \u00e0s suas, como estou, mas que lhe n\u00e3o ouvisse a cada instante<br \/>\npalavras duras apoquentadoras. . .<\/p>\n<p>Alzira perdeu a paci\u00eancia.<\/p>\n<p>-Oh! Basta! Exclamou. Que impertin\u00eancia! Est\u00e1 sempre a queixar-se. . .<\/p>\n<p>-Queixo-me com raz\u00e3o-retorquiu ele, por sua vez irritado, e fazendo-se vermelho.<br \/>\nA condessa bem sabe que a minha liga\u00e7\u00e3o com a senhora n\u00e3o foi um simples impulso<br \/>\ndos sentidos!&#8230;<\/p>\n<p>-E que tenho eu com isso?&#8230; interrogou ela, apertando os olhos. Que tenho<br \/>\neu com os motivos que o levaram a ligar-se comigo?. . .<\/p>\n<p>O marqu\u00eas, coitado! j\u00e1 se n\u00e3o podia conter, e prosseguiu com a voz tr\u00eamula:<\/p>\n<p>-A senhora bem sabe que, para ficar a seu lado, tive de sacrificar tudo que<br \/>\nde melhor e mais sagrado possu\u00eda no mundo! Sabe que esse amor invenc\u00edvel que<br \/>\na senhora me inspirou, foi a causa da morte de minha esposa e ser\u00e1 a desgra\u00e7a<br \/>\nde meus filhos.<\/p>\n<p>-Mas o marqu\u00eas tamb\u00e9m sabe e h\u00e1 de convir, replicou Alzira, que eu n\u00e3o tenho<br \/>\nculpa alguma em tudo isso! H\u00e1 de convir que n\u00e3o dei o menor passo, nem empreguei<br \/>\no menor esfor\u00e7o, para provocar esta uni\u00e3o!. . . O marques viu-me um dia, apaixonou-se;<br \/>\nfez uma proposta, que eu aceitei porque me convinha. . . Nesse contrato n\u00e3o<br \/>\nme comprometi a am\u00e1-lo, comprometi-me apenas a n\u00e3o pertencer a outro, enquanto<br \/>\nestivesse na sua depend\u00eancia. . . Ora, creio que at\u00e9 hoje ainda n\u00e3o faltei<br \/>\ncom a minha palavra!. . .<\/p>\n<p>-Tem raz\u00e3o, condessa&#8230; disse o marqu\u00eas, j\u00e1 vencido. Tem toda a raz\u00e3o. Mas<br \/>\ntudo isso \u00e9 porque a amo, muito, loucamente!<\/p>\n<p>Quis tomar-lhe as m\u00e3os; ela n\u00e3o deixou, e respondeu virando-lhe as costas:<\/p>\n<p>-Ama-me muito! Isso n\u00e3o diminui a impertin\u00eancia de suas palavras! N\u00e3o \u00e9 a<br \/>\nprimeira vez que o senhor me lan\u00e7a em rosto a morte de sua mulher e o futuro<br \/>\nde seus filhos!. . .<\/p>\n<p>-Perdoe, Alzira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se lhe n\u00e3o convenho, se lhe sou perniciosa, afaste-se de mim! Ningu\u00e9m o<br \/>\nobriga a ficar a meu lado!<\/p>\n<p>E arredou-se dele, para ir assentar-se em um div\u00e3. O marqu\u00eas acompanhou-a.<\/p>\n<p>-Se o tra\u00edsse, v\u00e1! continuou ela; se lhe desse ocasi\u00e3o de ter ci\u00fames, ainda<br \/>\nv\u00e1; mas, que diabo, eu cumpro lealmente com o que prometi e, quando n\u00e3o estivesse<br \/>\ndisposta a faz\u00ea-lo, di-lo-ia com franqueza, porque afinal sou livre! Como,<br \/>\npois, admitir que me exprobre fatos, pelos quais n\u00e3o sou respons\u00e1vel O senhor,<br \/>\nse fez sacrif\u00edcios para obter-me, n\u00e3o foi sem d\u00favida com o intuito de praticar<br \/>\numa boa a\u00e7\u00e3o, mas simplesmente para proporcionar a si mesmo um prazer que<br \/>\nlhe apetecia. Se fez sacrif\u00edcios, n\u00e3o foi por mim, foi pela sua pr\u00f3pria pessoa;<br \/>\ne, se n\u00e3o tinha elementos para a empresa, por que a empreendeu?. . .<\/p>\n<p>-Porque a amava!<\/p>\n<p>-E amava-me, porque sou bela, sou mo\u00e7a e estou na moda! Ora, meu caro marqu\u00eas,<br \/>\nh\u00e1 de convir que com isso n\u00e3o teve originalidade alguma!&#8230; (E soltou uma<br \/>\nrisada de esc\u00e1rnio). Original seria se tivesse a<\/p>\n<p>desvairada pretens\u00e3o de ser, durante algum tempo, o amante exclusivo da condessa<br \/>\nAlzira, sem despender alguns milh\u00f5es de francos!. . .<\/p>\n<p>-A senhora bem sabe que n\u00e3o \u00e9 o dinheiro despendido o que eu deploro. . .<\/p>\n<p>-Pois eu com o resto nada tenho que ver!&#8230; S\u00e3o-me indiferentes a morte de<br \/>\nsua mulher e o futuro de seus filhos!. . . Quando o senhor se descuidou deles,<br \/>\nquanto mais eu! . . . O senhor que fosse melhor marido e melhor pai! Se h\u00e1<br \/>\num criminoso entre n\u00f3s, n\u00e3o sou eu decerto: na minha qualidade de cortes\u00e3,<br \/>\nsou l\u00f3gica, n\u00e3o me afasto uma linha do meu programa; o senhor \u00e9 que se afastou<br \/>\ndos seus deveres, na qualidade de chefe de fam\u00edlia. Queixe-se por conseguinte<br \/>\nde si mesmo e n\u00e3o me aborre\u00e7a!<\/p>\n<p>-E \u00e9 a senhora quem me diz isto?!. . . exclamou o marques, abrolhando os<br \/>\nolhos.<\/p>\n<p>-Certamente, respondeu Alzira, com toda a calma.<\/p>\n<p>-No entanto, volveu ele, a condessa, sabe perfeitamente que eu a tudo me<br \/>\nresignaria, se a senhora fosse para mim um pouco mais amorosa&#8230; eu tudo perdoaria,<br \/>\nse. . .<\/p>\n<p>-Perdoaria?. . . mas eu \u00e9 que n\u00e3o quero o seu perd\u00e3o para cousa alguma. .<br \/>\n. N\u00e3o me sinto absolutamente culpada.<\/p>\n<p>-Pois devia sentir-se! disparatou o fidalgo, fazendo-se outra vez vermelho.<br \/>\nTenho o direito de ser tratado melhor nesta casa!<\/p>\n<p>Alzira olhou para ele sem voltar o rosto.<\/p>\n<p>-Minhas palavras s\u00e3o amargas?&#8230; disse. \u00c9 o senhor quem as provoca. . . Quantos<br \/>\naos meus atos- s\u00e3o irrepreens\u00edveis!&#8230;<\/p>\n<p>Esta \u00faltima frase teve o encanto de transformar 0 marqu\u00eas.<\/p>\n<p>-Tudo isso, resmungou o queixoso, prova que a senhora nunca sentiu por mim<br \/>\no menor vislumbre de amor . . .<\/p>\n<p>Alzira soltou uma gargalhada sincera.<\/p>\n<p>-Ora, marqu\u00eas, n\u00e3o me fa\u00e7a rir! disse depois, cobrindo o rosto com o len\u00e7o.<\/p>\n<p>-N\u00e3o \u00e9 debalde que todos a citam como a mulher mais insens\u00edvel do mundo!<\/p>\n<p>-Mas por que raz\u00e3o queria o marqu\u00eas que o amasse? . . .<\/p>\n<p>-Quando por mais n\u00e3o fosse, por gratid\u00e3o. . .<\/p>\n<p>A condessa, j\u00e1 s\u00e9ria, mediu-o de alto a baixo.<\/p>\n<p>-Nunca lhe pedi obs\u00e9quios! disse<\/p>\n<p>-Mas aceitou-os. ..<\/p>\n<p>-Engana-se!<\/p>\n<p>-Com a senhora despendi o necess\u00e1rio para enriquecer cinco fam\u00edlias!. . .<\/p>\n<p>-Basta! (E ela desta vez bateu com o p\u00e9). J\u00e1 me tardava que o senhor me lan\u00e7asse<br \/>\ntamb\u00e9m em rosto esse dinheiro que sup\u00f5e ter gasto comigo!<\/p>\n<p>E encaminhou-se lentamente at\u00e9 ao t\u00edmpano e vibrou-o com for\u00e7a.<\/p>\n<p>-A senhora vai p\u00f4r-me fora?&#8230; gaguejou o marques, fazendo-se p\u00e1lido.<\/p>\n<p>-N\u00e3o, explicou ela, muito tranq\u00fcila. Vou ordenar ao criado que n\u00e3o o receba<br \/>\nquando o senhor voltar. N\u00e3o tenho o direito de o mandar sair, mas tenho o<br \/>\nde nunca mais o receber!<\/p>\n<p>Um raio n\u00e3o fulminaria tanto o marques como estas palavras. De p\u00e1lido passou<br \/>\nnovamente \u00e0 cor de cereja. Hesitou um instante, limpou o suor da testa e,<br \/>\nafinal, foi ter com Alzira, e disse empregando todo o esfor\u00e7o para sorrir:<\/p>\n<p>-A senhora dessa forma obriga-me a n\u00e3o voltar. .. (Ela sacudiu os ombros.)<br \/>\nE, para evitar que isso aconte\u00e7a. . . s\u00f3 vejo um meio. . . \u00e9 n\u00e3o sair mais<br \/>\ndaqui . . .<\/p>\n<p>Foram interrompidos pelo criado, que exclamou da porta, fazendo uma contin\u00eancia:<\/p>\n<p>-O cavalheiro Bouflers!<\/p>\n<p>-Bouflers?. . . repetiu Alzira.<\/p>\n<p>-Bouflers aqui!&#8230; resmungou entredentes o marqu\u00eas.<\/p>\n<p>E acrescentou, dirigindo-se \u00e0 condessa:<\/p>\n<p>-Eis a\u00ed um. . . com quem a senhora n\u00e3o usaria da franqueza que usa comigo.<br \/>\n. .<\/p>\n<p>-Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>-Porque \u00e9 mo\u00e7o, \u00e9 belo e tem talento. . .<\/p>\n<p>Alzira gritou para o pajem:<\/p>\n<p>-Dizer-lhe que ainda desta vez o n\u00e3o recebo. . .<\/p>\n<p>-N\u00e3o lhe conv\u00e9m receb\u00ea-lo em minha presen\u00e7a condessa?. . .<\/p>\n<p>-Ah! Sim?. . . disse ela.<\/p>\n<p>E voltou-se de novo para o criado:<\/p>\n<p>-Faze-o entrar.<\/p>\n<p>O criado saiu.<\/p>\n<p>-Mas eu, exigiu o marqu\u00eas, quero ficar ali, por detr\u00e1s daquela cortina. .<br \/>\n.<\/p>\n<p>-Com uma condi\u00e7\u00e3o, prop\u00f4s a condessa, haja<\/p>\n<p>o que houver, o senhor n\u00e3o se bater\u00e1 com ele. . .<\/p>\n<p>-Prometo, mas a senhora n\u00e3o lhe dir\u00e1 que o ama. . .<\/p>\n<p>-Ah! N\u00e3o! Isso n\u00e3o direi com certeza. . .<\/p>\n<p>-Pois ent\u00e3o juro que me n\u00e3o baterei.<\/p>\n<p>-Pode esconder-se.<\/p>\n<p>O criado reapareceu, erguendo o reposteiro, para dar entrada ao sat\u00edrico<br \/>\ne famoso poeta Bouflers.<\/p>\n<h2><a name=\"13\"><\/a>XIII &#8211; AH, MULHERES! MULHERES<\/h2>\n<p>Bouflers entrou aos pulinhos. Estacou no meio do sal\u00e3o e fez a mais extraordin\u00e1ria<br \/>\nmesura que \u00e9 poss\u00edvel imaginar, mesmo conhecendo os complicados e genuflex\u00f3rios<br \/>\nsalamaleques desse tempo galante. Os altos e empoados canudos da sua cabeleira<br \/>\nro\u00e7aram-lhe tr\u00eas vezes pelos joelhos, e o rabicho, guarnecido por um la\u00e7o<br \/>\nde fita preta, tr\u00eas vezes se agitou no ar, como a irrequieta cauda de um c\u00e3ozinho<br \/>\nfraldiqueiro.<\/p>\n<p>Vinha vestido a rigor e com extrema eleg\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Trazia uma casaca de seda cor de p\u00e9rola. forrada de branco e guarnecida de<br \/>\nbot\u00f5es de prata. Bofes de rendas de Veneza, nobremente salpicados de p\u00f3 de<br \/>\ntabaco espanhol, saltavam-lhe do peito por entre um colete de veludo cor de<br \/>\n\u00e2mbar; tinha cal\u00e7\u00f5es da mesma seda da casaca e meias bordadas a ouro, sapatos<br \/>\nde salto vermelho, e espada, n\u00e3o de barba de baleia, como ent\u00e3o alguns usavam,<br \/>\nmas de bom e bem temperado a\u00e7o de Toledo, com bainha de couro, forrada de<br \/>\nveludo branco, e guarda coberta de vistosa pedraria multicor.<\/p>\n<p>Deu alguns passos para Alzira, e, assim que se viu defronte dela, perfilou-se<br \/>\nde novo e p\u00f4s a m\u00e3o esquerda sobre o punho da espada, de modo a arrebitar<br \/>\ncom a ponta desta a grande aba da sua casaca \u00e0 la Ramponeau.<\/p>\n<p>E, empertigado, conservou-se um instante com o chap\u00e9u de tr\u00eas bicos debaixo<br \/>\ndo bra\u00e7o, e disse depois fazendo um passo de minuete:<\/p>\n<p>&#8220;Ora gra\u00e7as a Cupido,<\/p>\n<p>Neste emp\u00edreo da beleza<\/p>\n<p>Enfim me foi permitido<\/p>\n<p>Entrar, sem maior<\/p>\n<p>despesa!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Trazia a musa em sua companhia Bouflers?. . . Nesse caso devia ter pedido<br \/>\nlicen\u00e7a para dois. . . -Descanse, formosa estrela; minha musa \u00e9 rapariga discreta.<br \/>\n. . n\u00e3o contar\u00e1 ao marqu\u00eas o que entre n\u00f3s dois se passar aqui&#8230; -Discreta?&#8230;<br \/>\n-N\u00e3o diz mal de ningu\u00e9m. . . &#8211; Informe a pobre senhora de Dufort. . . -Uma<br \/>\ns\u00e1tira inocente. . . -Oh! muito inocente! . . . &#8211; T\u00e3o inocente como o padre<br \/>\n\u00c2ngelo. -Ah! J\u00e1 o conhece?. . . -Pudera!<\/p>\n<p>E, armando de novo a sua coreogr\u00e1fica mesura, improvisou:<\/p>\n<p>&#8220;Dizem que Paris<\/p>\n<p>inteira,<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o c\u00e9lebre serm\u00e3o<\/p>\n<p>Da sagrada quinta-feira,<\/p>\n<p>Anda toda em<\/p>\n<p>devo\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Traz no peito as m\u00e3os cruzadas, Os olhos fitos no c\u00e9u, Cal\u00e7a meias encarnadas,<br \/>\nP\u00f5e estola e solid\u00e9u!<\/p>\n<p>At\u00e9 consta que a<\/p>\n<p>marquesa<\/p>\n<p>De Pompadour vai al\u00e9m;<\/p>\n<p>Quer obrigar sua alteza<\/p>\n<p>A tomar ordens<\/p>\n<p>tamb\u00e9m&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E, chegando-se mais para Alzira, segredou intencionalmente:<\/p>\n<p>&#8220;Que certa mo\u00e7a galante, Ouvindo a missa, fitou Por tal modo o celebrante,<br \/>\nQue o celebrante&#8230; corou!<\/p>\n<p>E ficaria engasgado<\/p>\n<p>Com o pr\u00f3prio corpo de<\/p>\n<p>Deus,<\/p>\n<p>Se n\u00e3o bebesse, coitado!<\/p>\n<p>Duas gotas de Bord\u00e9us&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>-Isto \u00e9 uma sensaboria de mau gosto!. . . declarou a condessa.<\/p>\n<p>-Por que? Dar-se-\u00e1 o caso de que a insens\u00edvel e tirana condessa Alzira tamb\u00e9m<br \/>\nesteja com o peito ferido pelo casto pregador de quinta-feira?&#8230;<\/p>\n<p>-Como &#8220;tamb\u00e9m&#8221;?&#8230; H\u00e1 ent\u00e3o muitas que o estejam?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Oh!<\/p>\n<p>&#8220;Foi o caso que o sujeito,<\/p>\n<p>Tendo as damas convertido,<\/p>\n<p>Tanto as fez bater no peito,<\/p>\n<p>Que o peito lhes p\u00f3s ferido!.. .&#8221;<\/p>\n<p>-Fale antes em prosa Bouflers! O verso fatiga muito.<\/p>\n<p>-Pois seja! exclamou ele, encaminhando-se para a condessa com um belo sorriso<br \/>\nde namorado, e disse tomando-lhe uma das m\u00e3os que levou aos l\u00e1bios: Eu te<br \/>\namo, Alzira, flor insens\u00edvel! flor dos meus sonhos! flor das minhas desventuras!<br \/>\ne quero saber quando ser\u00e1 o dia venturoso em que receba eu de tua formosa<br \/>\nboquinha . . .<\/p>\n<p>-Um sorriso?&#8230;<\/p>\n<p>-N\u00e3o! Uma palavra de anima\u00e7\u00e3o. . .<\/p>\n<p>-Bravo!<\/p>\n<p>-Bravo?!<\/p>\n<p>-N\u00e3o conhe\u00e7o melhor palavra de anima\u00e7\u00e3o. . .<\/p>\n<p>-N\u00e3o zombe de mim, condessa!&#8230;<\/p>\n<p>-Zombar de Bouflers!. . . Oh!. . . Se o conseguisse, vingaria meia humanidade,<br \/>\nt\u00e3o ferozmente satirizada pelos seus versos maus e pelos seus maus versos!<\/p>\n<p>-Conclua-se destes trocadilhos, que sairei daqui sem ouvir uma palavra de<br \/>\nesperan\u00e7a. . .<\/p>\n<p>-Est\u00e1 falando s\u00e9rio, meu pobre amigo?. . .<\/p>\n<p>-Juro-lhe que sim, condessa. Juro-lhe pelas musas, que a minha maior felicidade<br \/>\nseria merecer-lhe uma palavra de amor. . .<\/p>\n<p>-E por que raz\u00e3o havia eu de am\u00e1-lo?. . .<\/p>\n<p>-Ora essa! Por que raz\u00e3o \u00e9 que os outros se amam? . . .<\/p>\n<p>-Mulheres da minha esp\u00e9cie, caro poeta, s\u00f3 amam, quando as fascina qualquer<br \/>\ncousa extraordin\u00e1ria, muito extraordin\u00e1ria! Seja o que for, mas que seja-<br \/>\nextraordin\u00e1ria!<\/p>\n<p>-Paci\u00eancia!. . . Todavia, quero crer que o marqu\u00eas de Florans nada tem em<br \/>\nsi de extraordin\u00e1rio, e no entanto. . .<\/p>\n<p>-\u00c9 meu amante&#8230; Ah! O caso \u00e9 outro! O marqu\u00eas \u00e9 muito rico&#8230; pode dar-se<br \/>\na esse luxo!&#8230; Ama-me, da\u00ed por\u00e9m a ser amado-vai um abismo!<\/p>\n<p>-Se o marqu\u00eas a ouvisse?. . .<\/p>\n<p>Alzira sacudiu os ombros.<\/p>\n<p>-Ele sabe disso t\u00e3o bem como eu; a ningu\u00e9m engano! . . .<\/p>\n<p>-Nem ama, tampouco!<\/p>\n<p>-Quem sabe l\u00e1?.. . Talvez&#8230;<\/p>\n<p>-A condessa? Qual! Duvido! A senhora n\u00e3o \u00e9 mulher! N\u00e3o tem cora\u00e7\u00e3o!. . .<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o que sou eu?. . .<\/p>\n<p>-E um lindo cofre de marfim rosado, com o competente orif\u00edcio para receber<br \/>\no ouro dos papalvos.<\/p>\n<p>-E era para dizer-me semelhante galanteria, que o poeta h\u00e1 tanto tempo fazia<br \/>\nempenho de vir \u00e0 minha casa?<\/p>\n<p>-N\u00e3o! Era na esperan\u00e7a de ser correspondido no meu amor. . .<\/p>\n<p>-O cavalheiro \u00e0s vezes n\u00e3o me parece um homem de esp\u00edrito&#8230;<\/p>\n<p>-Em quest\u00f5es de amor todos os homens s\u00e3o igualmente est\u00fapidos!&#8230;<\/p>\n<p>-Mas, valha-me Deus, Bouflers! por que raz\u00e3o havia eu de am\u00e1-lo?.. . O senhor<br \/>\n\u00e9 um bonito rapaz, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida; est\u00e1 na flor da idade, n\u00e3o lhe falta talento,<br \/>\nmas. . . \u00e9 s\u00f3 isso!. . .<\/p>\n<p>-E acha pouco?. . . mo\u00e7o bonito e com talento. Tenho os encantos das tr\u00eas<br \/>\ngra\u00e7as-mocidade, amor e beleza, e ainda me sobra um!<\/p>\n<p>-N\u00e3o-dois-o talento e a vaidade.<\/p>\n<p>-Ou isso!<\/p>\n<p>-Mas falta-lhe o principal. . .<\/p>\n<p>-O que n\u00e3o falta ao marqu\u00eas. . . dinheiro?. . .<\/p>\n<p>-Qual! O dinheiro n\u00e3o se conta. . .<\/p>\n<p>-N\u00e3o se conta?. . .<\/p>\n<p>-Gasta-se!<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o que me falta? Ju\u00edzo, talvez. ..<\/p>\n<p>-Ainda menos! O ju\u00edzo \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito! . . .<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o n\u00e3o sei que me falta!&#8230;<\/p>\n<p>-Sei-o eu! exclamou uma voz grossa.<\/p>\n<p>E o marqu\u00eas surgiu defronte de Bonflers, fulo e tr\u00eamulo de raiva.<\/p>\n<p>-Oh! Oh! interjeicionou este, zombeteiramente e sem se alterar. Estava escondido,<br \/>\nsenhor marqu\u00eas?. . . Divertia-se a escutar-nos. . . Magn\u00edfico!<\/p>\n<p>E voltando para Alzira:-Obrigado, condessa! Depois resmungou de si para si:<\/p>\n<p>-Pag\u00e1-lo-\u00e3o bem caro!<\/p>\n<p>O marques, sem poder domar a c\u00f3lera que o sufocava, prosseguiu no tom em<br \/>\nque come\u00e7ou:<\/p>\n<p>-A qualidade que lhe falta, senhor poeta, n\u00e3o \u00e9 dinheiro, nem ju\u00edzo; \u00e9 prud\u00eancia!<br \/>\n\u00c9 grande temeridade dizer mal de quem quer que seja \u00e0 pr\u00f3pria amante dessa<br \/>\npessoa!<\/p>\n<p>-N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 temeridade&#8230; respondeu Bouflers, pondo a m\u00e3o na cintura e empinando<br \/>\na cabe\u00e7a: \u00e9 insol\u00eancia. Estou \u00e0s suas ordens! Avie-se!<\/p>\n<p>A condessa correra para junto de Florans.<\/p>\n<p>-Lembre-se do que me prometeu!&#8230; disse-lhe ela rapidamente e em voz baixa.<\/p>\n<p>-S\u00f3 n\u00e3o me baterei. . . segredou o marqu\u00eas ao ouvido da amante, se a senhora<br \/>\nn\u00e3o me fechar a sua porta. . .<\/p>\n<p>-N\u00e3o fecharei, marqu\u00eas!<\/p>\n<p>-Pois n\u00e3o me baterei, Alzira!<\/p>\n<p>Bouflers, que durante este curto di\u00e1logo, media os dois com ar de desprezo,<br \/>\nentortando a cabe\u00e7a e sacudindo a perna gritou para o marqu\u00eas, como se falasse<br \/>\nao seu cocheiro:<\/p>\n<p>-Ol\u00e1, senhor pregador de prud\u00eancia, \u00e9 esta que o aconselha a consultar a<br \/>\nsua amante, antes de p\u00f4r a limpo as inj\u00farias que lhe fazem. . . Creio ter<br \/>\ndito bem alto que estou \u00e0s suas ordens!<\/p>\n<p>-N\u00e3o me bato com o senhor&#8230; balbuciou o outro.<\/p>\n<p>-Ah! Ah! escarneceu o poeta. J\u00e1 o desconfiava! . . .<\/p>\n<p>E cal\u00e7ando de novo a luva, que ele havia principiado a despir: &#8211; Pois chega-me<br \/>\na vez de dar-lhe tamb\u00e9m um conselho: quando n\u00e3o se reconhecer com animo de<br \/>\nassumir dignamente a responsabilidade dos seus atos, me\u00e7a melhor as palavras<br \/>\ne n\u00e3o se apresente como se apresentou defronte de mim!<\/p>\n<p>-Insolente! bradou o marqu\u00eas, avan\u00e7ando de punho fechado sobre Bouflers.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o!&#8230; interveio Alzira, metendo-se entre os dois.<\/p>\n<p>-Mas este atrevido afronta-me! exclamou Florans.<\/p>\n<p>-Pois \u00e9 desafrontar-se! retorquiu o poeta. Para isso tem uma espada \u00e0 cinta!<\/p>\n<p>Alzira chegou os l\u00e1bios ao ouvido do marqu\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Se aceitar o duelo, disse-lhe; n\u00e3o ponha mais os p\u00e9s aqui!<\/p>\n<p>O fidalgo fez cor de cera e murmurou imperceptivelmente:<\/p>\n<p>-Esta mulher despoja-me de tudo!. . .<\/p>\n<p>Bouflers sorriu e acrescentou:<\/p>\n<p>-Registre, condessa, mais esta qualidade a meu favor:-a coragem!<\/p>\n<p>-Vale menos que as outras neste instante&#8230; desdenhou Alzira.<\/p>\n<p>E tomando as m\u00e3os do marqu\u00eas: -Em certos casos, o forte \u00e9 aquele que resiste<br \/>\n\u00e0 provoca\u00e7\u00e3o. Obrigado, meu amigo! Poupou-me remorsos!&#8230; Ah! j\u00e1 os tenho<br \/>\nem demasia!. . . Creia que lhe estou grata!. . . Quanto ao senhor, cavalheiro.<br \/>\n. .<\/p>\n<p>E voltou-se para Bouflers, fazendo-lhe um gesto de despedida.<\/p>\n<p>-Obrigado! respondeu este. Antes, por\u00e9m, de sair, permita que a felicite<br \/>\npela bela escolha que fez para seu amante!&#8230; liste ador\u00e1vel palerma merece<br \/>\nbem uma c\u00ednica da sua ordem!<\/p>\n<p>E pondo o chap\u00e9u na cabe\u00e7a, encaminhou-se para a sa\u00edda.<\/p>\n<p>-Miser\u00e1vel! exclamou o marqu\u00eas, correndo sobre ele.<\/p>\n<p>-Infame! disse Alzira acompanhando-o.<\/p>\n<p>Mas foram detidos pelo conde de Saint-Mal\u00f4, Artur Bouvier, Cobalt e as damas<br \/>\nque acudiram l\u00e1 de dentro em sobressalto.<\/p>\n<p>-Que foi?!<\/p>\n<p>&#8211; Que significa isto?!<\/p>\n<p>-Bouflers!<\/p>\n<p>-Um esc\u00e2ndalo?!<\/p>\n<p>-Que sucedeu?!<\/p>\n<p>&#8211; Covarde! covarde! covarde! exclamou Alzira, procurando chegar at\u00e9 onde<br \/>\nestava Bouflers.<\/p>\n<p>-Todos os teus insultos, respondeu este. armando a carreira para fugir, n\u00e3o<br \/>\nvalem uma palavra, uma s\u00f3, que qualquer homem tem o direito de atirar-te \u00e0<br \/>\ncara!<\/p>\n<p>E r\u00e1pido, chegando a boca ao rosto dela, segredou um termo que a fulminou.<\/p>\n<p>E fugiu.<\/p>\n<p>-Ah! gritou a cortes\u00e3, levando as m\u00e3os ao peito e cambaleando.<\/p>\n<p>E correu ao marques para bradar-lhe, segurando-lhe o bra\u00e7o:<\/p>\n<p>-V\u00e1! Siga-o! Alcance-o ainda que no inferno! N\u00e3o me volte aqui sem o haver<br \/>\nmatado!<\/p>\n<p>-Oh! Obrigado, condessa! exclamou Florans.<\/p>\n<p>E, desembainhando a espada, desapareceu da sala e bateu pelas escadas, ligeiro<br \/>\ncomo um raio.<\/p>\n<h2><a name=\"14\"><\/a>XIV &#8211; ERA O AMOR<\/h2>\n<p>Quando Bouflers chegou \u00e0 rua, lan\u00e7ou para o pal\u00e1cio de Alzira um olhar de<br \/>\nindiferen\u00e7a e disse, cruzando a capa sobre os ombros:<\/p>\n<p>-Ora! N\u00e3o perdi grande cousa! Alzira e o marqu\u00eas que v\u00e3o para o diabo!<\/p>\n<p>E depois cantarolou, seguindo em dire\u00e7\u00e3o da tavolagem do conde de Charolais,<br \/>\npr\u00edncipe de sangue:<\/p>\n<p>&#8220;Corramos ao<\/p>\n<p>jogo,<\/p>\n<p>Que o prov\u00e9rbio<\/p>\n<p>diz:<\/p>\n<p>Amor sem ventura,<\/p>\n<p>-\u00c9 jogo feliz!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Mas, ao dobrar a esquina, o marqu\u00eas, que desgalgara a escada a quatro e quatro,<br \/>\nassomou \u00e0 porta da rua e gritou-lhe, correndo:<\/p>\n<p>-Ol\u00e1! \u00d3 poeta b\u00eabado! Se n\u00e3o \u00e9s um covarde, espera!<\/p>\n<p>Bouflers voltou-se incontinenti e levou a m\u00e3o aberta sobre os olhos.<\/p>\n<p>-Quem \u00e9?!<\/p>\n<p>Reconheceu o marqu\u00eas, e perguntou com impaci\u00eancia:<\/p>\n<p>-Que queres de mim, basbaque?. . .<\/p>\n<p>-Castigar-te, miser\u00e1vel, como se castiga um perro!<\/p>\n<p>-Ah! Ah! Chegou-te afinal a indigna\u00e7\u00e3o?. .. Ainda bem! (E desembainhou a<br \/>\nespada). V\u00e1 l\u00e1! Antes tarde do que nunca!. . . J\u00e1 fizeste a tua ora\u00e7\u00e3o, bruto?.<br \/>\n. . N\u00e3o te quero despachar para a eternidade com a alma suja! Vamos! Dei-te<br \/>\ntempo de sobra!<\/p>\n<p>-A rua \u00e9 escura e deserta!&#8230; considerou o marqu\u00eas. N\u00e3o precisamos ir mais<br \/>\nlonge. Aqui defronte da porta de Alzira, temos a claridade suficiente. . .<\/p>\n<p>Aproximaram-se da porta, procurando colocar-se no foco da luz que vinha do<br \/>\ncorredor.<\/p>\n<p>-V\u00ea l\u00e1 onde queres que te fira, fanfarr\u00e3o! exclamou Bonflers pondo-se em<br \/>\nguarda.<\/p>\n<p>Artur Bouvier, o conde de Saint-Mal\u00f4 e o Dr. Cobalt tinham descido a escada<br \/>\ndo pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>As damas o seguiram.<\/p>\n<p>-Marqu\u00eas, disse o conde, tem em mim uma testemunha.<\/p>\n<p>-E eu por ti, Bouflers! exclamou Artur.<\/p>\n<p>-E o m\u00e9dico, pronto! acrescentou Cobalt.<\/p>\n<p>-N\u00e3o \u00e9 preciso!&#8230; faceciou Bouflers. De qualquer modo se mata o c\u00e3o! . .<br \/>\n.<\/p>\n<p>-Defende-te, poeta libertino! bramiu o marqu\u00eas; porque a minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\nmatar-te!<\/p>\n<p>O outro retrucou, aparando-lhe destramente os golpes:<\/p>\n<p>-Antes guardasses tanto empenho para defender tua mulher, alma de Menelau!<\/p>\n<p>E gritou, caindo-lhe em cheio:-Toma!<\/p>\n<p>Florans desviou o tiro e fez-lhe pontaria de fundo. -Toma tu l\u00e1 este. em<br \/>\npaga da tua insol\u00eancia, bandido!<\/p>\n<p>Mas Bouflers soltou uma risada, e, depois de um salto para tr\u00e1s, desferiu-lhe<br \/>\num bote certeiro, que lhe atravessou o peito.<\/p>\n<p>-Ai! gemeu o marqu\u00eas<\/p>\n<p>E caiu estatelado no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>-J\u00e1?&#8230; perguntou o poeta, inclinando-se. \u00c9<\/p>\n<p>pena! Principiava a tomar interesse pela brincadeira!<\/p>\n<p>E tirou do bolso o seu len\u00e7o de rendas, para limpar a lamina da espada que<br \/>\nescorria sangue.<\/p>\n<p>Alzira acudira com um grito e lan\u00e7ara-se de joelhos ao lado do amante, beijando-lhe<br \/>\na fronte.<\/p>\n<p>-Meu bom amigo, dizia entre solu\u00e7os; perdoe-me! perdoe-me! Oh! Quanto sou<br \/>\ndesgra\u00e7ada!<\/p>\n<p>Bouvier, o conde e o m\u00e9dico aproximaram-se tamb\u00e9m e cercaram o ferido.<\/p>\n<p>-Ai! Eu morro! gorgolejou o marqu\u00eas, aflito virando a cabe\u00e7a de uma banda<br \/>\npara outra.<\/p>\n<p>-Agradece-o a esse dem\u00f4nio que a\u00ed tens a teu lado! . . . exclamou Bouflers,<br \/>\nlan\u00e7ando fora o len\u00e7o com que limpara a espada.<\/p>\n<p>E voltando-se para as damas: -Boas noites, gentis mulheres!<\/p>\n<p>Depois falou aos outros: &#8211; Cavalheiros, boas noites!<\/p>\n<p>E bateu no ombro de Artur:-Obrigado, Bouvier!<\/p>\n<p>Em seguida tra\u00e7ou a capa e perdeu-se na sombra da rua, cantarolando de novo:<\/p>\n<p>Corramos ao jogo,<\/p>\n<p>Que o prov\u00e9rbio<\/p>\n<p>diz:<\/p>\n<p>Amor sem ventura,<\/p>\n<p>-\u00c9 jogo feliz!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E desapareceu.<\/p>\n<p>-Marqu\u00eas! marques! chamava o conde de Saint-Mal\u00f4, enquanto Alzira, desesperada,<br \/>\nlevantava solu\u00e7ando os bra\u00e7os para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>-\u00d3 meu Deus! \u00f3 meu Deus! lamentava-se ela. \u00c9 mais um que me vai pesar na<br \/>\nconsci\u00eancia! \u00c9 mais um que morre por minha causa!<\/p>\n<p>Nesse instante, do lado contr\u00e1rio ao que Bouflers tomara, surgiam na treva<br \/>\nda noite dois vultos negros, que lentamente se aproximavam, silenciosos e<br \/>\ntristes como duas sombras.<\/p>\n<p>Vinham envoltos, da cabe\u00e7a aos p\u00e9s, em grandes capas talares, que lhes davam<br \/>\nao aspecto um tom sinistro.<\/p>\n<p>-Anda, meu filho. . . dizia um deles ao companheiro. Tem resigna\u00e7\u00e3o, e apresse<br \/>\nos passos, que precisamos alcan\u00e7ar a dilig\u00eancia de Raismes, para chegarmos<br \/>\na Monteli antes de raiar o dia. . .<\/p>\n<p>-Sim, meu pai. . .<\/p>\n<p>-Ai! gemeu de novo o marqu\u00eas, debatendo-se no seu estertor. Morro sem confiss\u00e3o!<br \/>\nMorro sem confiss\u00e3o! . . .<\/p>\n<p>Ouvindo isto, um dos dois embu\u00e7ados precipitou-se sobre o moribundo, exclamando<br \/>\naflito:<\/p>\n<p>&#8211; Que vejo?.. . Um corpo coberto de sangue!<\/p>\n<p>E, arriando o capuz, para mostrar a sua veneranda cabe\u00e7a de cabelos brancos,<br \/>\ninterrogou ao grupo que o cercava:<\/p>\n<p>-Quem feriu este homem?<\/p>\n<p>-Um advers\u00e1rio em duelo. . . murmurou o pr\u00f3prio marqu\u00eas. Ai! morro! morro!<\/p>\n<p>O misterioso velho arrancou do seio um crucifixo, e levou-o com a m\u00e3o tr\u00eamula<br \/>\n\u00e0 boca do agonizante.<\/p>\n<p>-Pede a Deus perd\u00e3o das tuas culpas. . . segredou ele com a voz comovida.<br \/>\nEntrega-lhe a tua alma em plena confian\u00e7a, porque eu rogarei por ela ao Senhor<br \/>\nmisericordioso!<\/p>\n<p>E ouviu-se o d\u00e9bil sussurro de um gemido de amor esvoa\u00e7ar entre os l\u00e1bios<br \/>\ndo moribundo.<\/p>\n<p>Era o nome de Alzira, que ele chamava pela \u00faltima vez.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico abaixou-se para auscultar-lhe o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>-Est\u00e1 morto. . . disse.<\/p>\n<p>Houve uma triste concentra\u00e7\u00e3o em que se ouviram prantos abafados.<\/p>\n<p>E o negro vulto de barbas brancas p\u00f4s-se a rezar, ao lado do cad\u00e1ver, com<br \/>\nas m\u00e3os postas, o p\u00e1lido rosto pendido sobre o seio.<\/p>\n<p>Entretanto, Alzira, num transporte de afli\u00e7\u00e3o, correra a ter com a outra<br \/>\nsombra, que se quedava \u00e0 distancia, de cabe\u00e7a baixa e rosto escondido sob<br \/>\no capuz, e exclamou entre solu\u00e7os, estendendo-lhe os bra\u00e7os suplicantes:<\/p>\n<p>-Meu padre! Meu padre! Sou eu a culpada de tudo isto! Sou muito, muito desgra\u00e7ada!<br \/>\nPe\u00e7a perd\u00e3o a Deus por mim!<\/p>\n<p>O vulto se agitou e tremeu todo, atrav\u00e9s do mist\u00e9rio da sua negra t\u00fanica.<\/p>\n<p>Ouvia-se-lhe o ansioso arquejar do peito.<\/p>\n<p>Depois, como se precisasse de ar, arremessou para traz o capelo do h\u00e1bito<br \/>\ne recuou aterrado.<\/p>\n<p>Alzira soltou um grito.<\/p>\n<p>-Ele!<\/p>\n<p>E teria ca\u00eddo no ch\u00e3o, desfalecida, se \u00c2ngelo a n\u00e3o amparasse nos bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Acudiram todos e se apoderaram dela.<\/p>\n<p>O presb\u00edtero puxou de novo o seu capuz sobre o rosto, deu o bra\u00e7o \u00e0 outra<br \/>\nsombra, e come\u00e7aram os dois de novo a seguir o seu caminho.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo tinha afinal compreendido bem a verdadeira causa da sua perturba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A sua perturba\u00e7\u00e3o era o amor.<\/p>\n<h2><a name=\"15\"><\/a>XV &#8211; Duas vezes enjeitado<\/h2>\n<p>\u00c2ngelo chegou a Monteli, acompanhado por Oz\u00e9as, \u00e0s sete da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Veio receb\u00ea-lo \u00e0 porta da casa uma velha chamada Salom\u00e9, antiga criada que<br \/>\nfora do falecido p\u00e1roco do lugar.<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o? ent\u00e3o, meu filho?&#8230; perguntou-lhe o egresso. Que em ti significa<br \/>\ntamanha tristeza?&#8230; Pareces-me um vil criminoso sobrecarregado de remorsos!.<br \/>\n. . Vamos! N\u00e3o te conv\u00e9m esse aspecto! Dize-me com franqueza o que sentes.<br \/>\n. .<\/p>\n<p>-Nada! Nada, meu pai! S\u00e3o \u00edntimas tristezas sem raz\u00e3o de ser!. . . s\u00e3o desgostos<br \/>\ns\u00f3 meus, que s\u00f3 eu mesmo compreendo! . . . A viagem fatigou-me. Preciso repousar&#8230;<br \/>\nBem sabe que ainda n\u00e3o estou bom de todo . . .<\/p>\n<p>-Pois sim, recolhe-te! Ali est\u00e1 o teu quarto. J\u00e1 mandei p\u00f4r l\u00e1 a imagem da<br \/>\nVirgem. Eu ficarei aqui. At\u00e9 breve.<\/p>\n<p>-At\u00e9 breve, meu pai.<\/p>\n<p>E \u00c2ngelo, arrastando a sua melancolia, entrou no pequeno aposento que lhe<br \/>\nera destinado.<\/p>\n<p>Um triste quarto, em que a formosa imagem da Virgem se destacava, como na<br \/>\noutra cela do convento de S. Francisco de Paulo. Paredes nuas e velhas, teto<br \/>\nesborcinado e sem forro.<\/p>\n<p>\u00c2ngelo sentou-se no catre que havia a um canto, e come\u00e7ou a solu\u00e7ar, com<br \/>\no rosto afogado nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Chorava, e n\u00e3o sabia dizer por qu\u00ea. Sofria e n\u00e3o se animava a confessar a<br \/>\nsi mesmo de onde lhe vinha aquela dor, que assim lhe arrancava t\u00e3o quentes<br \/>\nl\u00e1grimas do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas seu desejo era poder naquele momento apertar nos bra\u00e7os algu\u00e9m, cujo<br \/>\nnome seus l\u00e1bios n\u00e3o se atreviam a balbuciar, receosos de magoarem a candidez<br \/>\nda sua alma virginal, branca noiva de Deus! O seu desejo era poder dizer o<br \/>\nque lhe ensinara a B\u00edblia, era poder cantar a capitosa m\u00fasica do C\u00e2ntico dos<br \/>\nC\u00e2nticos, que nunca alma nenhuma jamais no mundo sonhou e repetiu sozinha.<br \/>\nO seu desejo era poder dizer: &#8220;Eu te amo!&#8221; e sentir a miragem desta doce palavra<br \/>\nrefletida inteira nuns l\u00e1bios de mulher, que lhe n\u00e3o falavam, porque j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\ntinham voz sen\u00e3o para solu\u00e7ar de amor.<\/p>\n<h5>O seu desejo era Alzira!<\/h5>\n<p>Era Alzira de carnes brancas e olhos negros! O seu desejo eram longos cabelos<br \/>\nnus, soltos no vendaval de todos os desejos. O seu desejo eram l\u00e1bios trementes<br \/>\ne vermelhos, eram doces bra\u00e7os de veludo, eram a funda morte do supremo gozo,<br \/>\nbebido de barco sabre um n\u00edveo colo de Eva paradis\u00edaco!<\/p>\n<p>O seu desejo era o pecado.<\/p>\n<p>E \u00c2ngelo chorava.<\/p>\n<p>Mas, de repente, como se o espetro do dever lhe tocara no ombro, ele ergueu-se<br \/>\nestremunhado e trocou um olhar, ansioso e suplicante, com o triste e quieto<br \/>\nolhar da Virgem.<\/p>\n<p>Correu para junto dela e ajoelhou-se a seus p\u00e9s, mesquinho de remorso e tr\u00eamulo<br \/>\nde arrependimento.<\/p>\n<p>-Valei-me! disse, erguendo para a imagem os olhos lacrimosos. Valei-me a<br \/>\nmim, a mais desgra\u00e7ada de todas as vossas criaturas!<\/p>\n<p>E solu\u00e7ava.<\/p>\n<p>-Maria! Maria pur\u00edssima! exclamou ele depois, como um desprezado amante aos<br \/>\np\u00e9s da sua cruel amada. Vede! Atendei, flor dos c\u00e9us! Vede bem que sou eu<br \/>\nquem aqui vos fala e quem vos chama neste momento!<\/p>\n<p>E arrastando-se de joelhos, com os l\u00e1bios estendidos para alcan\u00e7ar-lhe a<br \/>\nf\u00edmbria do vestido:-M\u00e3e casta! m\u00e3e sempre virgem, valei-me! V\u00f3s sois o meu<br \/>\n\u00faltimo recurso, a minha \u00faltima salva\u00e7\u00e3o! Escondei dentro da urna de marfim<br \/>\nda vossa miseric\u00f3rdia a pureza da minha pobre alma, que a besta imunda a cerca,<br \/>\nfarejando! Salvai-me, virgem m\u00e3e sem m\u00e1cula; abrigai-me numa das dobras do<br \/>\nvosso manto azul, constelado de estrelas! Defendei-me contra mim pr\u00f3prio e<br \/>\ncontra o meu sangue trai\u00e7oeiro! V\u00f3s, que sois o eterno prod\u00edgio da castidade,<\/p>\n<p>protegei a minha castidade contra os meus \u00edntimos inimigos! N\u00e3o me deixeis<br \/>\ncair em pensamentos depravados! Exorcizai de dentro do meu corpo o dem\u00f4nio<br \/>\nque me morde as carnes e cospe fogo no meu sangue! Enxotai a lux\u00faria, que<br \/>\nbaba minha alma para sorv\u00ea-la depois!<\/p>\n<p>Salvai-me! Salvai-me, rainha de bondade! Se quereis abandonar-me assim, \u00e0<br \/>\nmerc\u00ea dos meus sentidos, por que pois me aninhastes carinhosa, durante tanto<br \/>\ntempo, sob as asas brancas da vossa divina gra\u00e7a?. . . Se a vossa inten\u00e7\u00e3o<br \/>\nera atirar-me assim \u00e0s garras do pecado, por que pois, me ensinastes a amar-vos<br \/>\nt\u00e3o castamente desde a minha inf\u00e2ncia mais inocente?. . . Dormi t\u00e3o confiante<br \/>\nem vossa guarda, respirando as rosas m\u00edsticas do vosso divino amor, e de repente<br \/>\nacordo, sobressaltado, entre uivos de fera que me cerca, para devorar-me!<\/p>\n<p>&#8220;Onde estais v\u00f3s, m\u00e3e pur\u00edssima, onde, que desde aqueles malditos olhos t\u00e3o<br \/>\nformosos e tentadores, j\u00e1 me n\u00e3o ouvis as s\u00faplicas e j\u00e1 me n\u00e3o enxugais, com<br \/>\no vosso alvo sud\u00e1rio cor de neve, as l\u00e1grimas deste desespero?<\/p>\n<p>&#8221;\u00d3 peito de amor! entranhas de piedade! como \u00e9 que assim vos fechais para<br \/>\nquem vos ama?&#8230; Oh! volvei para mim os vossos lindos olhos misericordiosos!<br \/>\nVoltai a ter comigo, a s\u00f3s, na minha cela, como dantes, quando eu era um dos<br \/>\nanjos rubicundos do vosso trono de nuvens!&#8230; Tornai a ter comigo, Maria,<br \/>\ncheia de gra\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8220;Se t\u00ednheis de abandonar-me e perder-me num segundo, para que ent\u00e3o vos dei<br \/>\ntoda a minha exist\u00eancia de vinte anos, mais brancos do que a torre de David?.<br \/>\n. . Se assim tinha de ser, amada minha, n\u00e3o valia a pena ent\u00e3o conservar-me<br \/>\nt\u00e3o puro e t\u00e3o c\u00e2ndido!. . .<\/p>\n<p>&#8220;Maria! Virgem amoros\u00edssima! vida e do\u00e7ura&#8217; esperan\u00e7a nossa! se n\u00e3o quereis<br \/>\nvir em meu socorro, matai-me! eu aqui estou a vossos p\u00e9s, e n\u00e3o me levanta<br \/>\nrei dos meus joelhos sen\u00e3o por um ar da vossa divina gra\u00e7a! . . . &#8221;<\/p>\n<p>E \u00c2ngelo, de olhos fitos na Virgem, esperava um milagre, esperava alguma<br \/>\ncousa que lhe restitu\u00edsse a sua antiga tranq\u00fcilidade de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Nada! A imagem parecia surda ao seu desespero de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Oh! por piedade! por piedade, minha m\u00e3e querida! envia-me do vosso peito<br \/>\nde amor a inspira\u00e7\u00e3o do meu resgate!&#8221;<\/p>\n<p>Nada! Nada!<\/p>\n<p>\u00c2ngelo deixou cair o rosto para a terra; abandonou os bra\u00e7os, com as m\u00e3os<br \/>\nentre os joelhos, e quedou-se pensativo.<\/p>\n<p>Infeliz! infeliz!<\/p>\n<p>N\u00e3o era a primeira m\u00e3e que o enjeitada! . . .<\/p>\n<p>E as l\u00e1grimas de abandonado correram-lhe tristes pelo m\u00e1rmore das faces,<br \/>\ne o m\u00edsero deixou-se levar de rastos pelas garras da sua dor imensa, para<br \/>\no inferno da sua desesperan\u00e7a sem consolo.<\/p>\n<p>Foi despertado pela velha criada, que, depois de bater v\u00e1rias vezes, resolveu-se<br \/>\na entrar no quarto.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, senhor vig\u00e1rio. Queira desculpar interromper as suas ora\u00e7\u00f5es, mas.<br \/>\n. .<\/p>\n<p>-Fale, minha irm\u00e3. . .<\/p>\n<p>-\u00c9 que est\u00e1 a\u00ed uma dama toda vestida de negro e coberta por um longo v\u00e9u,<br \/>\nque deseja falar a vossa merc\u00ea. . .<\/p>\n<p>&#8212; Uma mulher?. . . E n\u00e3o disse quem era?. . .<\/p>\n<p>-N\u00e3o quis dizer, senhor vig\u00e1rio.<\/p>\n<p>-Bem, minha filha, fa\u00e7a-a entrar para a capela e diga a frei Oz\u00e9as que tenha<br \/>\na bondade de vir c\u00e1.<\/p>\n<p>A criada saiu e o egresso apareceu pouco depois.<\/p>\n<p>-H\u00e1, a\u00ed, disse-lhe o presb\u00edtero, uma mulher que me procura. Devo escut\u00e1-la,<br \/>\nmeu pai?. . .<\/p>\n<p>-Que estranha pergunta, \u00c2ngelo!&#8230; Deves, decerto! \u00c9 talvez alguma desgra\u00e7ada<br \/>\nque precisa de quem a conduza ao arrependimento. A consci\u00eancia pura e bem<br \/>\napoiada na f\u00e9 jamais teme as ciladas do inferno. Vai! Fala-lhe! E, se for<br \/>\numa pecadora, suplica a Deus, noite e dia, at\u00e9 conseguires o perd\u00e3o para sua<br \/>\nalma.<\/p>\n<p>-Bem, meu pai. . .<\/p>\n<p>E \u00c2ngelo afastou-se lentamente, tomando a dire\u00e7\u00e3o da capela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: I &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o II &#8211; Frei Oz\u00e9as e o enjeitado III &#8211; Virgindade no homem IV &#8211; Vem! Que te chamo! V &#8211; Triunfo Inconsciente VI &#8211; Um homem paro discutido por mulheres VII &#8211; Fr\u00e1gil como uma l\u00e1grima! VIII &#8211; Fulmina\u00e7\u00e3o IX &#8211; Um olhar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-92078","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Mortalha de Alzira - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra A Mortalha de Alzira - Alu\u00edsio de Azevedo<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Mortalha de Alzira - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Romance, Folhetim, \u00c2ngelo, Frei Oz\u00e9as, Literatura, A Mortalha de Alzira - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Mortalha de Alzira - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra A Mortalha de Alzira - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A Mortalha de Alzira - Alu\u00edsio de Azevedo, Obra, Romance, Folhetim, \u00c2ngelo, Frei Oz\u00e9as, Literatura, A Mortalha de Alzira - Alu\u00edsio de Azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-mortalha-de-alzira-aluisio-de-azevedo\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2017-01-03T11:49:29+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2018-05-03T17:50:20+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"118 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-mortalha-de-alzira-aluisio-de-azevedo#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-mortalha-de-alzira-aluisio-de-azevedo\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"A Mortalha de Alzira &#8211; 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