{"id":91777,"date":"2017-01-02T09:16:10","date_gmt":"2017-01-02T11:16:10","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91777"},"modified":"2017-01-02T09:16:10","modified_gmt":"2017-01-02T11:16:10","slug":"para-nao-sujar-os-sapatos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/para-nao-sujar-os-sapatos","title":{"rendered":"Para N\u00e3o Sujar os Sapatos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Hans Christian Andersen<\/strong><\/p>\n<p>Era uma menina pobre, de car\u00e1ter orgulhoso e arrogante e sua conduta sempre foi p\u00e9ssima, desde os mais tenros anos. Quando era muito pequena, sua maior alegria era apanhar moscas e arrancar-lhes as asas, para convert\u00ea-las em insetos que s\u00f3 podiam arrastar-se.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m apanhava baratas e escaravelhos e os espetava em alfinetes. Feito isso, chegava-lhes perto uma filha de \u00e1rvore ou um peda\u00e7o de papel, divertindo-se em observar os movimentos desesperados dos pobres insetos.<\/p>\n<p>&#8211; Agora o escaravelho est\u00e1 lendo &#8211; dizia a pequena Inger; &#8211; vejam como quer virar a pagina.<\/p>\n<p>A medida que crescia, tomava-se cada vez pior; todavia, era muito linda e essa deve ter sido a causa da sua desgra\u00e7a, pois, se n\u00e3o fosse isso, teria recebido umas boas palmadas que n\u00e3o lhe deram.<\/p>\n<p>&#8211; Custar\u00e1 muito abaixar essa crista dizia sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8211; Em pequena voc\u00ea pisou meu avental e temo que, quando voc\u00ea for maior, queira pisar meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E assim ela o fez, e por isso recebeu o castigo.<\/p>\n<p>Foi enviada a servir no campo, em casa de uns senhores muito ricos. Estes a trataram como se ela fosse sua pr\u00f3pria filha e a vestiram de acordo. Ficava cada dia mais bonita, mas, ao mesmo tempo em que aumentava a sua beleza, cresciam seu orgulho e altivez.<\/p>\n<p>Estava h\u00e1 um ano no emprego, quando seus amos lhe disseram:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea deveria ir at\u00e9 a sua casa ver seus pais, Inger.<\/p>\n<p>Ela p\u00f4s-se a caminho, mas s\u00f3 se decidiu a faz\u00ea-lo, para exibir-se, para que seus pais pudessem ver em que grandeza vivia e o quanto era formosa. Quando chegou \u00e0s portas da cidade e viu as mo\u00e7as e os rapazes conversando na beira do po\u00e7o e sua m\u00e3e sentada entre eles, com uma acha de lenha que cortara no bosque, Inger voltou-se.<\/p>\n<p>Envergonhava-se de que uma jovem t\u00e3o fina com ela tivesse uma m\u00e3e t\u00e3o esfarrapada e que ia ao bosque cortar lenha. E depois de ter empreendido o regresso. n\u00e3o estava arrependida, mas col\u00e9rica.<\/p>\n<p>Passou mais seis meses longe de sua fam\u00edlia. &#8211; Pequena Inger, voc\u00ea n\u00e3o tem mais rem\u00e9dio do que visitar a sua fam\u00edlia &#8211; disse a senhora. &#8211; A\u00ed est\u00e1 um p\u00e3o bem grande, que voc\u00ea poder\u00e1 levar. V\u00e3o ficar muito contentes em v\u00ea-la.<\/p>\n<p>Inger vestiu o seu melhor traje e cal\u00e7ou seus sapatos novos. Ao caminhar recolhia as saias e olhava bem para onde colocava os p\u00e9s, para n\u00e3o, sujar seus sapatinhos.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m poderia censur\u00e1-la por isso; por\u00e9m, quando chegou ao caminho que atravessava o p\u00e2ntano, viu que uma parte dele estava \u00famida e lodosa, ent\u00e3o largou o p\u00e3o no barro para passar por cima dele e n\u00e3o sujar seus sapatos.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, enquanto estava com um p\u00e9 sobre o p\u00e3o e levantava o outro para dar um passo, o p\u00e3o afundou com grande rapidez, arrastando-a para as profundezas.<\/p>\n<p>E n\u00e3o restou mais nada do que um charco cheio de bolhas.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a est\u00f3ria da orgulhosa e col\u00e9rica Inger.<\/p>\n<p>Mas que teria acontecido a ela? Foi parar nos dom\u00ednios da Mulher do P\u00e2ntano, que tinha a\u00ed a sua f\u00e1brica de cerveja. A Mulher do P\u00e2ntano \u00e9 irm\u00e3 do Rei dos Elfos e tia das solteironas Elfas. J\u00e1 se escreveu muito sobre essas personagens, todavia, quanto \u00e0 Mulher do P\u00e2ntano, todos sabem que, no ver\u00e3o, se a n\u00e9voa invade os prados, \u00e9 devido a ela que est\u00e1 fabricando a sua cerveja.<\/p>\n<p>E justamente no lugar destinado \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o da cerveja \u00e9 que caiu Inger. Mas ningu\u00e9m pode permanecer ali por muito tempo, porque o caminh\u00e3o do lixeiro \u00e9 muito agrad\u00e1vel, em compara\u00e7\u00e3o com a cervejaria da Mulher do P\u00e2ntano. 0 odor que vem dos barris \u00e9 capaz de fazer com que qualquer pessoa perca os sentidos e os mesmos barris est\u00e3o t\u00e3o juntos uns dos outros, que ningu\u00e9m pode passar por ali, sem contar que todos os espa\u00e7os livres est\u00e3o cheios de sapos e de viscosas serpentes.<\/p>\n<p>A pequena Inger caiu naquele lugar horr\u00edvel; fazia tanto frio, que a pobrezinha tremia dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a e seus membros se enregelaram. 0 p\u00e3o estava de tal maneira pregado aos seus p\u00e9s e pesava tanto, que ela n\u00e3o podia se mover.<\/p>\n<p>A Mulher do P\u00e2ntano estava em casa. Naquele instante estava recebendo a visita do velho Espantalho e sua bisav\u00f3. Esta era uma mulher muito ma, que nunca estava inativa. N\u00e3o sa\u00eda de casa sem levar sua tarefa e naquele dia tamb\u00e9m a levara. Ocupava-se em fazer uns fios de couro para colocar nos sapatos das pessoas, a fim de que quem os usasse n\u00e3o pudesse parar um s\u00f3 momento.<\/p>\n<p>Bordava mentiras e unia as palavras ociosas que ca- \u00edam ao solo, para us\u00e1-las em preju\u00edzo de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Sim, realmente, aquela velha devia saber coser e bordar de um modo primoroso.<\/p>\n<p>Ao ver a pequena Inger, colocou o mon\u00f3culo e fitou-a da cabe\u00e7a aos p\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; Essa pequena possui algo not\u00e1vel disse. &#8211; Gostaria de lev\u00e1-la como recorda\u00e7\u00e3o de minha visita. Serviria de est\u00e1tua no corredor da casa de meu bisneto e embelezaria o aposento.<\/p>\n<p>E assim, Inger foi entregue a ela, indo parar no pa\u00eds dos Espantalhos. As pessoas nunca chegam a\u00ed pelo caminho direto, pois \u00e9 mais f\u00e1cil ir at\u00e9 l\u00e1 seguindo as estradas mais compridas. 0 corredor em que a deixaram era enorme, at\u00e9 o ponto em que a pessoa ficava tonta se olhasse na outra dire\u00e7\u00e3o. Havia ali uma grande multid\u00e3o, muito suja, esperando que se abrisse a volta misericordiosa, mas aguardava em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Grandes e gordas aranhas, de patas muito compridas, teciam teias de mil anos em volta dos p\u00e9s daqueles infelizes; e as teias j\u00e1 pareciam toros de madeira, que os imobilizavam. Ademais, em todas as almas reinava uma inquietude incessante: a do tormento. 0 avarento esquecera a chave do cofre e se lembrava de t\u00ea-la deixado na fechadura. Mas seria muito longo enumerar aqui todas as torturas daqueles infelizes.<\/p>\n<p>Inger tentou ficar em p\u00e9, como uma est\u00e1tua, com um p\u00e3o solidamente agarrado aos seus p\u00e9s, como uma grilheta de ferro.<\/p>\n<p>&#8211; Este \u00e9 o resultado de n\u00e3o querer sujar os p\u00e9s &#8211; pensava. &#8211; Como todos olham para mim!<\/p>\n<p>Realmente, todos tinham os olhos fixos nela e todas as suas respectivas m\u00e1s paix\u00f5es se refletiam em seus olhos e falavam silenciosamente. Constitu\u00edam um espet\u00e1culo verdadeiramente terr\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida \u00e9 um prazer para eles fitarem-me &#8211; pensou Inger &#8211; porque tenho um lindo rosto e estou bem vestida.<\/p>\n<p>E, por sua vez, quis se virar para fit\u00e1-los, mas n\u00e3o o conseguiu, porque seu pesco\u00e7o estava entorpecido.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, como estava suja desde que entrara na cervejaria da Mulher do P\u00e2ntano! Nunca lhe acontecera uma coisa dessas.<\/p>\n<p>Tinha a roupa coberta de limo, uma serpente se enrolara em seus cabelos e descia pelas suas costas. Em cada prega de seu vestido alojara-se um sapo, e todos gritavam como cachorros asm\u00e1ticos. Era asqueroso.<\/p>\n<p>&#8211; Mas os outros tamb\u00e9m t\u00eam um aspecto espantoso &#8211; disse Inger \u00e0 guisa de consolo.<\/p>\n<p>0 pior de tudo era a fome horr\u00edvel que sentia e ela n\u00e3o podia inclinar-se para morder um peda\u00e7o do p\u00e3o que lhe estava nos p\u00e9s. Suas costas estavam petrificadas tamb\u00e9m, assim como os bra\u00e7os e as pernas, de forma que todo o seu corpo parecia ser verdadeiramente de pedra.<\/p>\n<p>S\u00f3 podia volver os olhos, mais nada. Era horr\u00edvel. Logo apareceram umas moscas, pousaram em seus olhos e, por mais que ela piscasse, os insetos n\u00e3o se afastavam; n\u00e3o podiam voar, porque eram as mesmas moscas das quais ela arrancara as asas.<\/p>\n<p>Este era um novo tormento que vinha se juntar \u00e0 fome terr\u00edvel que sentia. Dava-lhe a sensa\u00e7\u00e3o de estar completamente vazia. Podem imaginar semelhante tortura?<\/p>\n<p>?Se isso durar muito, n\u00e3o poderei suportar?, pensou. Mas o certo \u00e9 que deveria durar e ela o suportaria. Logo uma l\u00e1grima ardente caiu-lhe no rosto; resvalou pelo peito e foi cair no p\u00e3o; ca\u00edram muitas mais, at\u00e9 que pareciam uma chuva.<\/p>\n<p>Quem chorava pela pequena Inger? Por acaso n\u00e3o possu\u00eda uma m\u00e3e na terra? As l\u00e1grimas de dor por um filho sempre chegam at\u00e9 ele. Todavia, n\u00e3o lhe aliviam a dor, muito pelo contr\u00e1rio, queimam e fazem seu tormento cada vez maior.<\/p>\n<p>Inger continuava a sentir aquela fome terr\u00edvel e n\u00e3o podia alcan\u00e7ar o p\u00e3o que tinha sob os p\u00e9s. Parecia-lhe que seu organismo se alimentava \u00e0 custa de si mesmo e sentiu-se fraca como um cani\u00e7o. Ouvia tudo o que se dizia na terra sobre ela e s\u00f3 podia perceber palavras duras e que soavam mal.<\/p>\n<p>Sua m\u00e3e chorava amargamente e no meio ao maior sofrimento dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Antes de cair, \u00e9 preciso dominar o orgulho. Essa foi a sua desgra\u00e7a, Inger. Quanto sofrimento voc\u00ea causou \u00e0 sua m\u00e3e!<\/p>\n<p>Esta e todo mundo, na terra, estavam inteirados do seu pecado, de que pisara o p\u00e3o e afundara para sempre. 0 pastor de vacas contara, pois do mont\u00edculo onde estava presenciara aquela cena inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto sofrimento voc\u00ea causou \u00e0 sua m\u00e3e, Inger! &#8211; exclamava a pobre mulher. &#8211; Mas eu sempre achei que voc\u00ea acabaria deste modo!<\/p>\n<p>&#8211; Oxal\u00e1 eu n\u00e3o tivesse nascido! &#8211; pensava Inger do seu lado. &#8211; Estaria melhor agora. As l\u00e1grimas de minha m\u00e3e n\u00e3o me servem de nada.<\/p>\n<p>Ouviu seus bondosos patr\u00f5es, que a haviam tratado como filha, enquanto falavam dela.<\/p>\n<p>&#8211; Era uma menina pecadora &#8211; diziam.<\/p>\n<p>N\u00e3o dava o devido valor aos bens de Deus, pelo contr \u00e1rio, pisoteava-os. Muito trabalho ter\u00e1 para abrir a porta da miseric\u00f3rdia e do perd\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Mais valia que me tivessem educado melhor &#8211; pensava Inger.<\/p>\n<p>&#8211; Deveriam ter tirado com pancadas as loucuras que havia em meu corpo, se e que as havia. Isso \u00e9 o que deveriam ter feito.<\/p>\n<p>Ouviu uma can\u00e7\u00e3o que fizeram para ela e que se tornara muito popular no pa\u00eds. ?A arrogante menina que pisou num p\u00e3o para n\u00e3o sujar os sapatos?.<\/p>\n<p>&#8211; E? triste ter de ouvir tantas vezes a mesma est\u00f3ria e que, al\u00e9m do mais, me fa\u00e7a sofrer tanto! &#8211; pensava Inger. &#8211; Tamb\u00e9m os demais deveriam ser castigados por seus pecados. Seria justo, sem d\u00favida alguma. Oh, como estou sendo injustamente atormentada! E seu cora\u00e7\u00e3o se endurecia ainda mais.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m, nesta companhia, poderia corrigir-se, sem contar que n\u00e3o desejo ser melhor do que sou. Como me fitam! &#8230; Como me olham!<\/p>\n<p>Seu cora\u00e7\u00e3o estava cheio de c\u00f3lera contra tudo e contra todos.<\/p>\n<p>&#8211; Agora j\u00e1 t\u00eam assunto para conversarem. Oh, esta tortura!<\/p>\n<p>Ouviu muita gente contar a sua est\u00f3ria as crian\u00e7as e estas a chamarem: ?a malvada Inger?, dizendo que era t\u00e3o ma que merecia ser atormentada. E n\u00e3o ouvia mais do que palavras duras dos l\u00e1bios infantis.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, quando a fome e a c\u00f3lera torturavam sua triste figura, ouviu mencionar o seu nome. Sua est\u00f3ria era contada a uma menina inocente e a pequenina chorava ao ouvir a est\u00f3ria da vaidosa e orgulhosa Inger.<\/p>\n<p>&#8211; E ela n\u00e3o voltar\u00e1 \u00e0 terra: &#8211; perguntou a menina. E, como resposta, lhe disseram:<\/p>\n<p>&#8211; Nunca mais voltar\u00e1 \u00e0 superf\u00edcie da terra.<\/p>\n<p>&#8211; E se ela pedir perd\u00e3o e prometer n\u00e3o fazer mais? &#8211; N\u00e3o pedir\u00e1 perd\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu quero que o fa\u00e7a! &#8211; exclamou a pequenina, que n\u00e3o queria consolar-se. &#8211; Darei a minha casa de bonecas em troca, para que ela possa subir \u00e0 terra, porque \u00e9 espantoso o que tem de sofrer continuamente a pobre Inger.<\/p>\n<p>Estas palavras chegaram at\u00e9 o cora\u00e7\u00e3o de Inger e parece que exerceram um efeito ben\u00e9fico. Era aquela a primeira vez que algu\u00e9m dizia: ?Pobre Inger, sem acrescentar nenhuma palavra de condena\u00e7\u00e3o aos seus erros. Uma crian\u00e7a pequena e inocente chorava e intercedia por ela e isso lhe parecia muito raro. Gostaria de chorar, mas n\u00e3o conseguia mais derramar uma s\u00f3 l\u00e1grima e esse era o maior tormento de todos.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que os anos passavam na terra, passavam tamb\u00e9m debaixo dela, mas sem trazer nenhuma mudan \u00e7a; Inger ouvia falar cada vez menos sobre ela.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, percebeu um profundo suspiro.<\/p>\n<p>&#8211; Quanta dor voc\u00ea me causou, Ingeri Eu sempre disse que voc\u00ea seria a causa de meus sofrimentos.<\/p>\n<p>Era sua m\u00e3e que morria. De vez em quando, ouvia seus patr\u00f5es pronunciarem seu nome e as melhores palavras que sua senhora dizia eram:<\/p>\n<p>&#8211; Tornarei a v\u00ea-la algum dia, Inger? Nunca soube onde teria ido parar aquela infeliz criatura!<\/p>\n<p>E Inger sabia muito bem que sua bondosa patroa n\u00e3o iria parar no lugar em que ela se encontrava.<\/p>\n<p>Passou-se mais um longo per\u00edodo. Inger ouviu pronunciar novamente o seu nome e em cima de sua cabe\u00e7a viu algo que pareciam ser duas brilhantes estrelas. Eram, na realidade, dois olhos bondosos que se fechavam na terra.<\/p>\n<p>Tantos anos haviam passado desde que aquela boa menina exclamara: ?Pobre Ingeri? Agora ela se transformara numa senhora e Deus a chamava para perto de Si. E nos \u00faltimos instantes, ao recordar-se de tudo que lhe acontecera na vida, lembrou-se de que, em menina, derramara l\u00e1grimas de dor ao ouvir a est\u00f3ria de Inger. A impress\u00e3o era t\u00e3o clara, que a senhora exclamou:<\/p>\n<p>?Oh, Deus meu, talvez eu, assim como Inger, tamb\u00e9m tenha pisado nalgum de vossos benditos dons, sem dar-me conta; \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m que meu cora\u00e7\u00e3o tenha dado lugar ao orgulho, mas, em vossa miseric \u00f3rdia, n\u00e3o me deixastes cair! Perdoai-me em minha \u00faltima hora!?<\/p>\n<p>Cerraram-se os olhos da anci\u00e3 e os de sua alma se abriram para fitar as coisas ocultas. E como Inger estivera sempre presente em seus pensamentos, viu ent\u00e3o em que profundezas ca\u00edra; e aquele espet\u00e1culo fez com que derramasse muitas l\u00e1grimas. Logo se viu no Reino dos C\u00e9us, novamente menina e chorando por sua pobre Inger.<\/p>\n<p>Seus solu\u00e7os e suas s\u00faplicas fizeram eco no vazio que rodeava a alma prisioneira e torturada, que ficou aniquilada ao notar aquele inesperado amor que vinha de cima. Um anjo de Deus chorando por ela! Por que era concedido isso? E a alma torturada lembrou-se de todos os seus atos terrestres e por fim come\u00e7ou a chorar.<\/p>\n<p>Estava cheia de pena por si mesma e lhe parecia que jamais poderia abrir-se para ela a porta da miseric\u00f3rdia. Por\u00e9m, quando em humilde contri\u00e7\u00e3o pensava em tudo aquilo, brilhou um raio de luz naquele abismo de destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E em meio \u00e0quela luminosidade, fundiu-se a figura da ?menina que pisou um p\u00e3o? e surgiu um p\u00e1ssaro de plumagem cinzenta, que, depois de muito agitar-se, empreendeu um v\u00f4o, desejoso de alcan\u00e7ar algum lugar, j\u00e1 que a misteriosa ave era muito t\u00edmida e estava envergonhada de si mesma e temerosa de encontrar o olhar de algum ser vivo, de maneira que se apressou a buscar ref\u00fagio em algum canto de parede.<\/p>\n<p>Ali ficou tremendo, sem poder proferir nem um som, pois n\u00e3o tinha voz.<\/p>\n<p>Ficou por muito tempo naquele lugar, antes de alcan- \u00e7ar a serenidade suficiente para observar as coisas maravilhosas que a rodeavam. Sim, eram realmente maravilhosas; o ar era doce e fresco, a lua brilhava intensamente e as \u00e1rvores e as matas despendiam um aroma suave e embriagador; e o mais agrad\u00e1vel de tudo, o que suas penas se tornavam limpas e coloridas.<\/p>\n<p>Toda a Cria\u00e7\u00e3o falava de amor e beleza!<\/p>\n<p>0 passarinho teria cantado com muita alegria os pensamentos que se agitavam em seu peito, mas n\u00e3o era poss\u00edvel.<\/p>\n<p>E o bom Deus, que ouve todos os hinos, tamb\u00e9m percebeu aquele salmo de gratid\u00e3o que tremia no peito do passarinho, assim como os salmos de Davi faziam eco em seu cora\u00e7\u00e3o antes que tomassem forma em versos e em melodia.<\/p>\n<p>Tais pensamentos e os c\u00e2nticos silenciosos cresceram e se difundiram por espa\u00e7o de semanas; era preciso que pudessem expressar-se por meio de uma boa a\u00e7\u00e3o. Chegaram as festas de Natal. Os camponeses levantaram um poste, apoiaram-no na parede e no alto prenderam um molho de aveia, para que os passarinhos pudessem comer com abund\u00e2ncia durante o dia feliz.<\/p>\n<p>Durante o inverno o passarinho reconhecera e dera tantas migalhas de p\u00e3o, que em peso elas se igualavam a todo o p\u00e3o que a pequena Inger pisara para n\u00e3o sujar seus sapatos.<\/p>\n<p>Depois de ter comido a \u00faltima migalha, suas asas se tronaram t\u00e3o brancas que as crian\u00e7as junto ao mar disseram:<\/p>\n<p>&#8211; Vejam ! Uma andorinha do mar branca.<\/p>\n<p>E o p\u00e1ssaro deixou a superf\u00edcie das ondas e voou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 luz do sol.<\/p>\n<p>E resplandecia tanto, que n\u00e3o foi poss\u00edvel saber o que foi feito dele. Algumas pessoas dizem que ele voou diretamente em dire\u00e7\u00e3o ao sol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hans Christian Andersen Era uma menina pobre, de car\u00e1ter orgulhoso e arrogante e sua conduta sempre foi p\u00e9ssima, desde os mais tenros anos. Quando era muito pequena, sua maior alegria era apanhar moscas e arrancar-lhes as asas, para convert\u00ea-las em insetos que s\u00f3 podiam arrastar-se. Tamb\u00e9m apanhava baratas e escaravelhos e os espetava em alfinetes. 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