{"id":91748,"date":"2017-01-02T08:31:35","date_gmt":"2017-01-02T10:31:35","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91748"},"modified":"2017-01-02T08:32:39","modified_gmt":"2017-01-02T10:32:39","slug":"o-sino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/o-sino","title":{"rendered":"O Sino"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Hans Christian Andersen<\/strong><\/p>\n<p>UMA tarde, ao por-do-sol, quando entre os tubos das chamin\u00e9s se v\u00eaem fragmentos de nuvens douradas, ouviu-se um som muito estranho.<\/p>\n<p>Primeiro ouviu-o uma pessoa, e outra a seguir; parecia o som de um sino de igreja, mas s\u00f3 durava um instante e se desvanecia abafado pelo barulho dos ve\u00edculos e pelos gritos das pessoas nas ruas.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 soa o sino da tarde &#8211; dizia o povo &#8211; 0 sol chegou ao seu ocaso.<\/p>\n<p>Os que sa\u00edam da cidade e se encontravam nos arredores, onde as casas s\u00e3o separadas e cada uma delas possui um jardim maior ou menor, viam a estrela do Pastor e ouviam muito melhor o tilintar do sino. Parecia vir de uma igreja situada dentro de um bosque silencioso e perfumado e todos olhavam naquela dire\u00e7\u00e3o, com express\u00e3o respeitosa.<\/p>\n<p>Passou-se algum tempo e todos diziam uns aos outros: &#8211; Existir\u00e1 alguma igreja no bosque? Esse sino tem um som extremamente doce. Vamos at\u00e9 l\u00e1, a fim de ver se \u00e9 poss\u00edvel descobri-la.<\/p>\n<p>Os ricos faziam o percurso de carro e os pobres a p\u00e9, mas o caminho era longo. Ao chegarem a um grupo de salgueiros que cresciam nos limites do bosque sentaram- se e olharam por entre os ramos, acreditando j\u00e1 estarem na metade do caminho.<\/p>\n<p>Um confeiteiro da cidade encaminhou-se para l\u00e1 e instalou uma loja. Logo outro confeiteiro apareceu e fez o mesmo. E quando as pessoas voltavam para suas casas, diziam que a excurs\u00e3o fora muito rom\u00e2ntica e falavam em algo mais do que numa ta\u00e7a de ch\u00e1..<\/p>\n<p>Tr\u00eas pessoas asseguraram que haviam penetrado no bosque at\u00e9 chegar ao extremo oposto e que durante todo o trajeto ouviram tocar o sino, mas que ent\u00e3o o som parecia vir da cidade.<\/p>\n<p>Um deles escreveu um poema a respeito do caso e disse que o sino soava como a voz de uma m\u00e3e que se dirigisse a um filho pequenino. Nenhuma melodia poderia ser mais doce do que o tinido daquele sino.<\/p>\n<p>A aten\u00e7\u00e3o do Imperador tamb\u00e9m foi atra\u00edda por ele e ent\u00e3o prometeu que quem descobrisse a proced\u00eancia daquele som receberia o t\u00edtulo de ?sineiro do mundo?, no caso de que o sino existisse realmente.<\/p>\n<p>Muitas foram as pessoas que se dirigiram para o bosque, incitadas pelo desejo de alcan\u00e7ar a recompensa, mas somente uma delas p\u00f4de dar uma explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se afastara muito, nem ele mesmo, mas declarou que o badalar do sino era causado por um mocho gigantesco que estava numa \u00e1rvore oca: era um mocho s\u00e1bio, que batia sempre na \u00e1rvore com a cabe\u00e7a, mas era imposs\u00edvel saber se aquele ru\u00eddo era causado pela \u00e1rvore ou pela cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>De qualquer forma ele foi nomeado 49 sineiro do mundo? e todos os anos escrevia um pequeno tratado a respeito do mocho, mas nem por isso as pessoas ficaram sabendo mais nada a respeito do assunto. Certo dia em que administrava a confirma\u00e7\u00e3o, um sacerdote fez um serm\u00e3o comovente, que impressionou vivamente a todas as crian\u00e7as que recebiam o sacramento.<\/p>\n<p>Para elas, naquele dia se tornavam adultas e sua alma infantil seria respons\u00e1vel por seus atos. 0 dia estava muito lindo e cheio de sol e depois da confirma\u00e7\u00e3o foram muitas as pessoas que sa\u00edram da cidade para passear e assim puderam ouvir com maior intensidade que de costume o repicar do sino, que, na sua opini\u00e3o, vinha do bosque.<\/p>\n<p>Todos sentiram vontade de avan\u00e7ar e ver o sino; todos, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de tr\u00eas. A primeira era uma menina que tinha de voltar para casa, a fim de experimentar seu vestido de festa.<\/p>\n<p>E esse vestido e a festa tinham sido o motivo para que recebesse a confirma\u00e7\u00e3o, pois, de outro modo, teria adiado a cerim\u00f4nia. 0 segundo era um pobre rapaz, que usava uma indument\u00e1ria e umas botas emprestadas pelo filho do dono d\u00e1 casa e precisava devolve-las na hora aprazada.<\/p>\n<p>0 terceiro disse que nunca fora a lugar algum sem seus pais, que sempre fora um bom menino e que desejava continuar a s\u00ea-lo, mesmo que j\u00e1 tivesse recebido a confirma\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m poderia dissuadi-lo, e, apesar de tudo, n\u00e3o p\u00f4de evitar que se rissem dele.<\/p>\n<p>Esses tr\u00eas n\u00e3o foram, por\u00e9m os outros continuaram a caminhar. 0 sol brilhava, os passarinhos cantavam e os meninos que haviam recebido a confirma\u00e7\u00e3o juntaram as m\u00e3os e cantaram junto com os p\u00e1ssaros. Logo dois dos menores se cansaram e voltaram para a cidade:<\/p>\n<p>dois outros se sentaram para fazer coroas e grinaldas de ramos e folhagens e tamb\u00e9m n\u00e3o foram at\u00e9 os salgueiros, onde os confeiteiros tinham as suas lojas, dizendo que o sino n\u00e3o existia e que era fruto da imagina\u00e7\u00e3o do povo.<\/p>\n<p>Justamente nesse instante ouviu-se o repicar do sino no bosque. Quatro ou cinco jovens decidiram penetrar mais a fundo no bosque; o mato era t\u00e3o espesso, que o caminhar se tornava dif\u00edcil.<\/p>\n<p>0 ambiente era muito agrad\u00e1vel, mas n\u00e3o havia caminho para as meninas, cujas saias se rasgavam de encontro aos espinhos. Havia grandes rochas cobertas de musgo e podia-se ouvir o rumorejar das fontes.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que isso n\u00e3o \u00e9 o sino &#8211; exclamou um menino, enquanto se punha a ouvir. &#8211; Mas \u00e9 bom ver o que \u00e9 &#8211; acrescentou, sendo fitado com respeito pelos demais.<\/p>\n<p>Chegaram a uma cabana feita de troncos de \u00e1rvores; uma macieira silvestre estendia seus ramos floridos, como se quisesse deix\u00e1-los cair sobre o telhado, que j\u00e1 estava coberto de rosas.<\/p>\n<p>Outras plantas trepadeiras chegavam at\u00e9 o alpendre e l\u00e1 estava pendurada uma campainha. Seria essa que eles estavam procurando?<\/p>\n<p>Todos concordaram que devia ser \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de um, que disse ser a campainha muito pequena e delicada. para que pudesse ser ouvida a t\u00e3o grande dist\u00e2ncia e que seu som era especial, tendo impressionado a todos.<\/p>\n<p>Quem falava era o filho do rei e todos convieram em que, for\u00e7osamente, ele devia ser mais inteligente do que todos, quando dizia aquelas coisas.<\/p>\n<p>Deixaram que ele continuasse sozinho e, \u00e0 medida que se internava no bosque, ficava mais impressionado por tanta solid\u00e3o; mas continuava a caminhar e ouvia o som do sino que tanto agradava aos seus companheiros e como o vento vinha de l\u00e1, percebia claramente as vozes dos que pediam ch\u00e1 aos confeiteiros.<\/p>\n<p>Mas o sino de tom profundo dominava todos aqueles ru\u00eddos, como se seu tinido viesse de um \u00f3rg\u00e3o. Outrossim, os ru\u00eddos vinham da esquerda, do lugar onde fica o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ouviu uns estalidos na mata e apareceu um menino na frente do filho do rei. Cal\u00e7ava tamancos e vestia uma jaqueta de mangas muito curtas.<\/p>\n<p>Reconheceram-se, porque era o mesmo menino que voltara, a fim de devolver a indument\u00e1ria e as botas.<\/p>\n<p>Depois de devolv\u00ea-las, ele vestira a sua pobre roupa e, atra\u00eddo pelo som do sino, regressara ao bosque.<\/p>\n<p>&#8211; Sigamos juntos &#8211; disse o filho do rei.<\/p>\n<p>Mas o menino dos tamancos estava envergonhado.<\/p>\n<p>Puxou as mangas da jaqueta e disse que temia n\u00e3o caminhar com bastante rapidez. Al\u00e9m disso, achava que era preciso procurar \u00e0 direita, porque aquele lado era m ais bonito.<\/p>\n<p>&#8211; Desse jeito n\u00e3o o encontraremos replicou o filho do rei, enquanto o outro menino entrava pela parte mais densa do bosque, onde os espinhos lhe arranharam o rosto, as m\u00e3os e a roupa, at\u00e9 que se cobriram de sangue.<\/p>\n<p>0 filho do rei tamb\u00e9m recebeu alguns arranh\u00f5es, mas, pelo menos, o seu caminho estava iluminado pelo sol. E agora vamos segui-lo, pois \u00e9 um menino muito inteligente. &#8211; Preciso e quero encontrar o sino &#8211; disse &#8211; nem que para isso tenha de ir at\u00e9 o fim do mundo.<\/p>\n<p>Havia uns macacos muito feios sentados nos ramos das \u00e1rvores, mostrando-lhe os dentes e fazendo caretas.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos esfol\u00e1-lo? &#8211; perguntavam uns aos outros. &#8211; Seria melhor a\u00e7oit\u00e1-lo. O filho do rei.<\/p>\n<p>Mas ele continuou a caminhar, confiante e viu que por ali cresciam flores maravilhosas, havia l\u00edrios brancos, com pistilos vermelhos, tulipas de cor azul-p\u00e1lido que brilhavam ao sol e ma\u00e7\u00e3s e macieiras cujos frutos pareciam brilhantes bolas de sab\u00e3o.<\/p>\n<p>Podem imaginar como luziam aquelas \u00e1rvores ao sol. Havia verdes e formosos prados, onde brincavam veados e cor\u00e7as entre os arbustos.<\/p>\n<p>Musgos e trepadeiras cresciam por todos os lados.<\/p>\n<p>Existiam tamb\u00e9m muitos lagos, onde nadavam brancos cisnes que agitavam as asas.<\/p>\n<p>0 filho do rei parava para ouvir, pois \u00e0s vezes lhe parecia que o sino soava em algum daqueles lagos, mas logo se convencia de n\u00e3o ser assim e cada vez se internava mais no bosque.<\/p>\n<p>0 sol come\u00e7ou. a descer no horizonte e as nuvens adquiriram um tom avermelhado; uma grande paz envolveu o bosque e o menino caiu de joelhos, a fim de rezar a ora\u00e7\u00e3o da tarde e disse:<\/p>\n<p>?Nunca encontrarei o que procuro, pois o sol j\u00e1 vai se ocultar e a noite vem chegando. Talvez ainda consiga ver mais uma vez o disco vermelho do sol, antes que ele se afunde na terra. Subirei numa dessas rochas, que s\u00e3o t\u00e3o altas quanto essas \u00e1rvores?.<\/p>\n<p>Agarrou-se \u00e0s ra\u00edzes das \u00e1rvores, subiu pelas trepadeiras, segurou-se \u00e0s rochas escorregadias, onde se retorciam as serpentes aqu\u00e1ticas e os sapos coaxavam ao v\u00ea-lo. E alcan\u00e7ou o cimo antes do p\u00f4r-do-sol.<\/p>\n<p>Visto daquela altura, que esplendor havia perante seus olhos!<\/p>\n<p>0 oceano, o belo azul do oceano, cujas grandes ondas chegavam at\u00e9 a praia. 0 sol parecia um grande e brilhante altar, perto da linha que separava o mar do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Tudo estava impregnado de cores resplandecentes; e tanto o bosque como o oceano e seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o cantavam alegres hinos. Toda a Natureza era como que um enorme e sagrado templo, do qual as \u00e1rvores e as nuvens eram as colunas, as flores e a grama, os tapetes e o pr\u00f3prio c\u00e9u uma imensa c\u00fapula.<\/p>\n<p>Os tons avermelhados se desvaneceram quando o sol se ocultou, mas apareceram milhares de estrelas, semelhantes a in\u00fameras l\u00e2mpadas de diamantes e o filho do rei estendeu os bra\u00e7os para o c\u00e9u, o mar e o bosque.<\/p>\n<p>Naquele instante, pelo caminho da direita apareceu o menino pobre, das mangas curtas e dos tamancos de madeira. Haviam chegado ao mesmo lugar quase no mesmo instante, cada um seguindo seu pr\u00f3prio caminho.<\/p>\n<p>Correram um para o outro e se abra\u00e7aram e se deram as m\u00e3os no grande templo da Natureza e da Poesia, e sobre eles ressoava o sino santo e invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Esp\u00edritos felizes dan\u00e7avam aos acordes de uma maravilhosa Aleluia, nunca ouvida at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Hans Christian Andersen UMA tarde, ao por-do-sol, quando entre os tubos das chamin\u00e9s se v\u00eaem fragmentos de nuvens douradas, ouviu-se um som muito estranho. 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