{"id":91711,"date":"2016-12-29T15:34:48","date_gmt":"2016-12-29T17:34:48","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91711"},"modified":"2016-12-29T15:34:48","modified_gmt":"2016-12-29T17:34:48","slug":"o-rouxinol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/o-rouxinol","title":{"rendered":"O Rouxinol"},"content":{"rendered":"<p><strong>Hans Christian Andersen<\/strong><\/p>\n<p>COMO todos sabem, na China o Imperador \u00e9 chin\u00eas, assim como s\u00e3o chineses todos aqueles que o rodeiam.<\/p>\n<p>Passaram-se muitos anos desde que aconteceu o que vou lhes contar, mas esta \u00e9 mais uma raz\u00e3o para narrar a est\u00f3ria, a fim de que n\u00e3o seja esquecida.<\/p>\n<p>0 pal\u00e1cio do Imperador era considerado a coisa mais bela do mundo inteiro; era todo feito com a porcelana mais fina, mais cara, mas ao mesmo tempo t\u00e3o fr\u00e1gil, que s\u00f3 se poderia toc\u00e1-la com o maior cuidado.<\/p>\n<p>No jardim existiam as flores mais extraordin\u00e1rias; as mais bonitas tinham campainhas de prata presas nela, as quais repicavam continuamente, de maneira que era imposs\u00edvel passar por perto das flores sem fit\u00e1- las.<\/p>\n<p>At\u00e9 os m\u00ednimos detalhes do jardim tinham sido dispostos com e, que o muita habilidade e ele era t\u00e3o grande pr\u00f3prio jardineiro n\u00e3o sabia onde ele terminava.<\/p>\n<p>Depois de muito caminhar pelo jardim, chegava-se a um grande bosque, onde havia \u00e1rvores majestosas e lagos profundos. 0 bosque se estendia ate o mar, que era azul e profundo, permitindo que os barcos navegassem pr\u00f3ximo \u00e0 margem, por debaixo das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>No meio destas vivia um rouxinol que cantava de maneira t\u00e3o deliciosa, que at\u00e9 os pobres pescadores, ocupados em outras tantas coisas, se detinham para ouvi-lo, quando, \u00e0 noite, cuidavam de suas redes repletas de peixe.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e9us! Que coisa t\u00e3o linda! &#8211; exclamavam.<\/p>\n<p>Mas logo tinham que voltar ao trabalho e acabavam se esquecendo novamente do passarinho. E quando na noite seguinte o ouviam outra vez, soltavam a mesma exclama\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os viajantes que chegavam \u00e0 corte do Imperador, vindos de todos os pa\u00edses do mundo, admiravam tudo maravilhados, especialmente o pal\u00e1cio e os jardins, mas quando ouviam o rouxinol, diziam:<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 o melhor de tudo quanto vimos e ouvimos. Ao chegarem aos seus pa\u00edses descreviam tudo. Os mais instru\u00eddos escreviam muitos livros a respeito da capital, do pal\u00e1cio e do jardim, mas ningu\u00e9m se esquecia do rouxinol, que sempre colocavam acima do restante.<\/p>\n<p>Os viajantes, que eram poetas, escreviam os mais lindos poemas, todos a respeito do rouxinol que habitava no bosque que ficava ao lado do mar profundo.<\/p>\n<p>Esses livros se espalharam pelo mundo inteiro e, depois de algum tempo, chegaram at\u00e9 o Imperador. Este sentou-se em seu trono de ouro e lia muito, inclinando a cabe\u00e7a, entretido e feliz em ler todas aquelas maravilhosas descri\u00e7\u00f5es da sua capital, do pal\u00e1cio e do jardim. ?Mas o rouxinol \u00e9 o melhor de todos?, leu ele.<\/p>\n<p>&#8211; Que significa isso? &#8211; inquiriu o Imperador, &#8211; 0 rouxinol? N\u00e3o conhe\u00e7o nada a respeito dele. Existe um tal p\u00e1ssaro em meu reino e eu nunca ouvi falar nele. E? extraordin\u00e1rio que eu me tenha inteirado a respeito por meio de um livro.<\/p>\n<p>Chamou imediatamente o primeiro mordomo, um personagem t\u00e3o importante, que quando um inferior queria falar com ele e lhe fazia uma pergunta, ele se limitava a responder ?P?, o que n\u00e3o significava nada em absoluto.<\/p>\n<p>Dizem que aqui existe um p\u00e1ssaro maravilhoso, chamado rouxinol; &#8211; e garantem que \u00e9 o que de melhor existe em todo o meu reino. Como se explica que eu nunca tenha ouvido falar nele?<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m nunca ouvi falar &#8211; respondeu o primeiro mordomo; &#8211; nunca foi apresentado na corte.<\/p>\n<p>&#8211; Desejo que seja trazido para c\u00e1 esta mesma noite, para que cante na minha presen\u00e7a &#8211; disse o Imperador.<\/p>\n<p>&#8211; Todos sabem que possuo esse p\u00e1ssaro, e eu, em troca, n\u00e3o sei de nada sobre ele.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca ouvi falar nele &#8211; respondeu o primeiro mordomo -. Mas vou procur\u00e1-lo e o encontrarei.<\/p>\n<p>Todavia, onde poderia encontrar-se? 0 mordomo come \u00e7ou a subir e a descer escadas, a entrar e sair de habita\u00e7\u00f5es e a caminhar por corredores e ruas. Ningu \u00e9m ouvira falar no rouxinol.<\/p>\n<p>Em vista disso, o mordomo apresentou-se novamente ao Imperador, para dizer-lhe que aquilo devia ser um mito, inventado pelos autores dos livros.<\/p>\n<p>&#8211; Vossa Majestade imperial n\u00e3o deve acreditar em tudo o que se escreve; geralmente os livros n\u00e3o passam de inven\u00e7\u00f5es, quando n\u00e3o pertencem ao que denominamos de magia negra.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o livro que li me foi enviado pelo poderoso Imperador do Jap\u00e3o, de forma que n\u00e3o pode mentir. Quero ouvir esse rouxinol e insisto em que seja trazido para c\u00e1 esta mesma noite. Dar-lhe-ei a minha graciosa prote\u00e7\u00e3o e se ele n\u00e3o estiver aqui esta noite, depois do jantar, mandarei chicotear todos os indiv\u00edduos da corte.<\/p>\n<p>&#8211; Tsing-pe! &#8211; exclamou o enf\u00e1tico mordomo.<\/p>\n<p>E novamente percorreu toda a cidade, examinando casas e ruas e caminhando para l\u00e1 e para c\u00e1; quase a metade dos cortes\u00e3os o acompanhava, porque nenhum gostava da id\u00e9ia de ser a\u00e7oitado.<\/p>\n<p>Fizeram muitas perguntas a respeito do rouxinol, conhecido por todas as pessoas que moravam fora do pal\u00e1cio, mas que na corte ningu\u00e9m conhecia. Finalmente, na cozinha, encontraram uma pobre menina, que, ao ser interrogada, respondeu.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! 0 rouxinol? Conhe\u00e7o-o muito bem. Sim, \u00e9 verdade que canta maravilhosamente bem. Todas as noites me permitem que leve um pouco da carne que sobra \u00e0 minha ame, que est\u00e1 enferma. Ela vive a pouca dist \u00e2ncia da praia.<\/p>\n<p>E, ao regressar, quando estou muito cansada, descanso um pouco no bosque e ent\u00e3o posso ouvir o rouxinol.<\/p>\n<p>Seu canto faz virem as l\u00e1grimas aos meus olhos e tenho a impress\u00e3o de que minha m\u00e3e me beija.<\/p>\n<p>&#8211; Pequena ajudante de cozinha disse o primeiro mordomo, &#8211; obterei para voc\u00ea um emprego permanente na cozinha e lhe darei permiss\u00e3o para que v\u00e1 cear com o Imperador, se nos levar at\u00e9 onde se encontra o rouxinol. Ele tem ordens de se apresentar esta noite na corte.<\/p>\n<p>Dirigiram-se todos para o bosque, na dire\u00e7\u00e3o do lugar onde o rouxinol costumava cantar. Quase a metade dos cortes\u00e3os tomava parte na excurs\u00e3o. E, enquanto andavam com toda a pressa poss\u00edvel, uma vaca come \u00e7ou a mugir.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! &#8211; exclamou um jovem cortes\u00e3o. Aqui o temos!<\/p>\n<p>Que voz t\u00e3o poderosa para um animal t\u00e3o pequeno! Mas eu j\u00e1 a ouvi.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, isso \u00e9 uma vaca que muge. Ainda estamos longe do lugar em que canta o rouxinol, &#8211; respondeu a menina.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o algumas r\u00e3s come\u00e7aram a coaxar.<\/p>\n<p>&#8211; E? muito lindo! &#8211; exclamou o capel\u00e3o chin\u00eas. &#8211; Parece- se com o toque do campan\u00e1rio da igreja.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, essas s\u00e3o as r\u00e3s &#8211; replicou a menina- &#8211; Mas me parece que n\u00e3o tardaremos a ouvi-lo. Ent\u00e3o o rouxinol come\u00e7ou a cantar.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed est\u00e1! &#8211; disse a menina. &#8211; Ou\u00e7am!<\/p>\n<p>E apontou para um p\u00e1ssaro cinzento que estava pousado num galho.<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 poss\u00edvel? &#8211; exclamou o primeiro mordomo.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca o teria imaginado assim. Que aspecto vulgar!<\/p>\n<p>Talvez, ao ver tanta gente distinta, esteja assustado e tenha perdido as suas lindas cores.<\/p>\n<p>&#8211; Pequeno rouxinol &#8211; disse a menina em voz alta, &#8211; nosso gracioso Imperador deseja ouvi-lo cantar.<\/p>\n<p>&#8211; Com muito prazer &#8211; replicou o rouxinol, gorjeando de modo delicioso.<\/p>\n<p>&#8211; Parece o tilintar de umas campainhas de cristal &#8211; observou o primeiro mordomo. &#8211; Vejam como se move ao cantar. E? estranho que at\u00e9 agora n\u00e3o tenhamos ouvido falar nele. Estou certo de que alcan\u00e7ar\u00e1 um \u00eaxito estrondoso na corte.<\/p>\n<p>&#8211; Quereis que cante novamente para o Imperador? &#8211; perguntou o rouxinol, pensando que este se achava entre os presentes.<\/p>\n<p>&#8211; Meu gracioso e pequeno rouxinol &#8211; disse o primeiro mordomo, &#8211; tenho a honra de ordenar-lhe que compare \u00e7a esta noite na corte, a fim de tomar parte na festa que foi preparada para que voc\u00ea, com seu canto fascinante, maravilhe a sua graciosa majestade o Imperador.<\/p>\n<p>Meu canto soa melhor entre as \u00e1rvores &#8211; replicou o rouxinol.<\/p>\n<p>De qualquer forma, acompanhou-os de boa vontade ao inteirar-se dos desejos do Imperador.<\/p>\n<p>0 pal\u00e1cio fora extraordinariamente iluminado em aten- \u00e7\u00e3o \u00e0 festa. As paredes e os assoalhos, que eram de porcelana, brilhavam \u00e0 luz de muitos milhares de l\u00e2mpadas de ouro.<\/p>\n<p>As mais lindas flores, todas com suas campainhas, estavam artisticamente dispostas nas passagens; havia um grande movimento de servidores e convidados de um lado para outro e uma forte corrente de ar, cuja finalidade era fazer soar as campainhas, de maneira a que todos os ouvidos se enchessem com seu som harmonioso.<\/p>\n<p>No centro da grande sala de recep\u00e7\u00e3o sentava-se o Imperador e fora colocado um poleiro de ouro, para que nele se acomodasse o rouxinol.<\/p>\n<p>Toda a corte ali estava reunida e a pequena ajudante de cozinha teve permiss\u00e3o para ficar atr\u00e1s de uma porta, pois estava vestida de cozinheira.<\/p>\n<p>Todos vestiam seus melhores trajes de gala e os olhos dos convidados fitavam o pequeno p\u00e1ssaro cinzento, saudando o Imperador com uma inclina\u00e7\u00e3o de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>0 rouxinol cantava de um modo delicioso; as l\u00e1grimas assomaram aos olhos do Imperador e come\u00e7aram a rolar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o rouxinol cantou de uma maneira ainda mais bela e harmoniosa e as notas de seu canto comoveram todos os cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>0 Imperador estava encantado e disse que o rouxinol receberia o sapinho de ouro, para que o levasse em torno do pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas o rouxinol agradeceu a distin\u00e7\u00e3o recusando-se e dizendo j\u00e1 se considerar suficientemente recompensado. E cantou novamente de maneira celestial.<\/p>\n<p>&#8211; Foi o canto mais maravilhoso que j\u00e1 ouvi em toda a minha vida &#8211; diziam as damas e todos os cortes\u00e3os.<\/p>\n<p>E algumas delas encheram a boca com \u00e1gua, tentando imitar os gorjeios do passarinho, quando algu\u00e9m lhes fazia uma pergunta.<\/p>\n<p>At\u00e9 os lacaios e os camaristas do Imperador deram a entender que estavam muito satisfeitos, o que \u00e9 muito importante, porque s\u00e3o pessoas dif\u00edceis de contentar. Sim, realmente o rouxinol obtivera um ruidoso sucesso. Dai por diante deveria viver no pal\u00e1cio, teria uma gaiola, assim como a devida liberdade para dar seus passeios tanto durante o dia quanto \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Era sempre seguido por doze lacaios, cada um dos quais segurava uma fita que estava atada ao seu pezinho. Pode-se perceber que esses passeios n\u00e3o tinham nada de agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Todos os habitantes da capital falavam no p\u00e1ssaro maravilhoso e quando duas pessoas se encontravam, uma dizia \u00e0 outra:<\/p>\n<p>&#8211; Rou&#8230;<\/p>\n<p>E a outra respondia:<\/p>\n<p>&#8211; . . . xinol.<\/p>\n<p>E suspiravam, entendendo-se muito bem. Onze filhos de outros tantos vendedores de queijo receberam o nome de Rouxinol, mas nenhum deles possu\u00eda a voz maviosa do p\u00e1ssaro.<\/p>\n<p>Um dia chegou \u00e0s m\u00e3os do Imperador um grande embrulho. Dentro estava escrito: ?Rouxinol?.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui temos outro livro a respeito deste celebrado p\u00e1ssaro &#8211; disse o Imperador.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era um livro, mas uma pequena obra de arte numa caixa, um rouxinol artificial, exatamente igual ao vivo, mas recoberto de diamantes, rubis e safiras.<\/p>\n<p>E quando se deu corda ao p\u00e1ssaro mec\u00e2nico, este cantou uma ou duas can\u00e7\u00f5es iguais \u00e0s que eram entoadas pelo rouxinol verdadeiro; ao mesmo tempo agitava a cauda, que resplandecia por ser de prata e ouro. Em volta do pesco\u00e7o levava uma fita, na qual estava escrito:<\/p>\n<p>0 rouxinol do Imperador do Jap\u00e3o \u00e9 muito pobre, em compara\u00e7\u00e3o com o do Imperador da China.<\/p>\n<p>&#8211; Que lindo! &#8211; exclamavam todos extasiados.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 pessoa que levara o p\u00e1ssaro \u00e0 corte recebeu o t\u00edtulo de ?Introdutor em Chefe dos Rouxin\u00f3is Imperiais?.<\/p>\n<p>&#8211; Agora ser\u00e1 preciso que cantem juntos. Ser\u00e1 um duo maravilhoso.<\/p>\n<p>Realmente, fizeram-nos cantar juntos, mas o resultado n\u00e3o poderia ser pior. Cada um dos rouxin\u00f3is cantava por sua conta, isto \u00e9, o verdadeiro criava a todo instante novas harmonias, enquanto que o outro s\u00f3 repetia as duas \u00fanicas can\u00e7\u00f5es que podia entoar e que eram em tempo de valsa.<\/p>\n<p>&#8211; Este n\u00e3o tem culpa alguma &#8211; observou o mestre de m\u00fasica da corte; &#8211; canta perfeitamente no compasso e respeita todas as regras musicais.<\/p>\n<p>Logo depois o p\u00e1ssaro artificial teve que cantar sozinho. Alcan\u00e7ou tanto \u00eaxito quanto o verdadeiro e ainda tinha a vantagem de ser mais bonito, pois resplandecia de modo extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Cantou a mesma can\u00e7\u00e3o trinta e tr\u00eas vezes e n\u00e3o se cansou. Todos o ouviram desde o come\u00e7o, at\u00e9 que o Imperador declarou ter chegado a vez do rouxinol verdadeiro.<\/p>\n<p>Mas, onde estava ele? Ningu\u00e9m reparara quando ele sa\u00edra pela janela aberta em dire\u00e7\u00e3o ao bosque.<\/p>\n<p>&#8211; Que significa isso? &#8211; perguntou o Imperador.<\/p>\n<p>Todos os cortes\u00e3os se manifestaram escandalizados e declararam ser o p\u00e1ssaro muito ingrato.<\/p>\n<p>&#8211; De qualquer forma, ficamos com o melhor &#8211; disseram todos.<\/p>\n<p>E o rouxinol artificial teve de cantar novamente e, embora fosse a trig\u00e9sima quarta vez, ningu\u00e9m aprendera a melodia, pois esta era realmente dif\u00edcil.<\/p>\n<p>0 mestre de m\u00fasica louvou extraordinariamente o rouxinol artificial e insistiu em dizer que era melhor que o verdadeiro, n\u00e3o s\u00f3 em seu aspecto exterior, por causa das pedras e dos metais preciosos, como tamb\u00e9m por dentro.<\/p>\n<p>&#8211; Porque devem levar em conta, senhoras e senhores, e, antes de todos o Imperador, que com o verdadeiro rouxinol jamais se sabe o que vai ouvir, ao passo que com o artificial isso est\u00e1 de antem\u00e3o decidido.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 e assim ser\u00e1, porque n\u00e3o pode ser de outra maneira. Aqui se podem explicar as coisas, \u00e9 poss\u00edvel abrir o p\u00e1ssaro e demonstrar o engenho humano ao dispor as valsas; pode-se ver como funciona o engenho e de que maneira uma nota se segue \u00e0 outra.<\/p>\n<p>&#8211; Essa \u00e9 exatamente a nossa opini\u00e3o responderam todos em coro.<\/p>\n<p>0 mestre de m\u00fasica teve licen\u00e7a para mostrar a todo mundo, no domingo seguinte, o p\u00e1ssaro maravilhoso.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, na opini\u00e3o do Imperador, poderiam ouvi-lo cantar. Realmente, todos o viram e ouviram e todos se entusiasmaram, como se estivessem embriagados de ch\u00e1, pois todos sabem que esse \u00e9 o costume chin \u00eas.<\/p>\n<p>Exclamaram admirados, apontaram-no com o dedo e inclinaram as cabe\u00e7as. Mas os pobres pescadores que ouviram o verdadeiro rouxinol, disseram:<\/p>\n<p>&#8211; Este canta muito bem e se parece extremamente com o verdadeiro, mas falta-lhe algo, embora n\u00e3o saibamos o que seja.<\/p>\n<p>E o verdadeiro rouxinol foi desterrado do reino. 0 p\u00e1ssaro artificial tinha para seu uso uma almofada de seda, junto \u00e0 cama do Imperador; todos os presentes de ouro e pedras preciosas que recebera estavam espalhados em sua volta.<\/p>\n<p>Recebera o t\u00edtulo de Cantor Imperial em Chefe do Dormit\u00f3rio com lugar de primeira classe \u00e0 esquerda; porque o Imperador afirmava que o lado preferido era o do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E todos sabem que os Imperadores , como todos, possuem o cora\u00e7\u00e3o do lado esquerdo.<\/p>\n<p>0 mestre de m\u00fasica escreveu vinte e cinco volumes acerca do p\u00e1ssaro artificial; o tratado era muito extenso e estava escrito nos caracteres chineses mais dif\u00edceis.<\/p>\n<p>Todos afirmavam terem lido e entendido a obra, porque, se assim n\u00e3o fosse, seriam considerados est\u00fapidos, e em tal caso, teriam seus corpos a\u00e7oitados.<\/p>\n<p>E tudo continuou assim durante o espa\u00e7o de um ano.<\/p>\n<p>0 Imperador, a corte e todos os demais chineses conheciam perfeitamente os trinados e gorjeios do p\u00e1ssaro artificial; todavia, justamente por isso eles gostavam ainda mais, porque podiam acompanh\u00e1-lo em seu canto.<\/p>\n<p>E at\u00e9 as crian\u00e7as na rua cantavam ?zizizi? e ?chichichi?. 0 pr\u00f3prio Imperador, sem se dar conta, fazia o mesmo que os demais.<\/p>\n<p>Uma noite, por\u00e9m, quando o rouxinol estava cantando cada vez melhor e o Imperador, estendido na cama o ouvia, algo no interior do p\u00e1ssaro produziu um chiado.<\/p>\n<p>Uma das molas saltou e todas as rodas do mecanismo pararam em seco.<\/p>\n<p>0 Imperador levantou-se de um salto e mandou buscar todos os seus m\u00e9dicos particulares, mas, que podiam eles fazer?<\/p>\n<p>Chamaram um relojoeiro, o qual, depois de muito falar e examinar, conseguiu reparar a avaria, recolocando todas as pe\u00e7as do mecanismo em seu devido lugar; no entanto, avisou que, da\u00ed por diante, seria preciso abster-se o mais poss\u00edvel de fazer o mecanismo funcionar, porque estava muito gasto e n\u00e3o se poderia renovar algumas pe\u00e7as sem alterar o canto do p\u00e1ssaro. Esse foi um golpe terr\u00edvel! S\u00f3 se atreviam a fazer o rouxinol cantar uma vez por ano e assim mesmo tinham medo de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Mas o mestre de m\u00fasica fez um pequeno discurso, usando as palavras mais dif\u00edceis que encontrou. E disse que o p\u00e1ssaro continuava t\u00e3o bom como sempre e todos acreditaram.<\/p>\n<p>Passaram-se cinco anos e, de repente, um grande pesar caiu sobre a na\u00e7\u00e3o inteira, pois todos gostavam muito do seu Imperador e este estava muito doente e n\u00e3o poderia sobreviver, conforme o que diziam os m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Elegeu-se um novo Imperador e o povo aglomerou- se nas ruas.<\/p>\n<p>E ao ver aparecer o primeiro mordomo, alguns lhe perguntaram sobre o estado de sa\u00fade do monarca.<\/p>\n<p>&#8211; P &#8211; respondeu tristemente, balan\u00e7ando a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>0 Imperador jazia p\u00e1lido e frio em seu magn\u00edfico leito.<\/p>\n<p>Os cortes\u00e3os pensaram que ele morrera e foram todos oferecer seus respeitos ao novo Imperador. Os lacaios andavam de um lado para o outro atarefados e as camareiras celebraram o acontecimento reunindo-se para tomar caf\u00e9.<\/p>\n<p>Colocaram no ch\u00e3o longos peda\u00e7os de passadeira, com o fim de amortecer os ru\u00eddos, de maneira que no pal \u00e1cio reinava um sil\u00eancio absoluto.<\/p>\n<p>Mas o Imperador ainda n\u00e3o morrera. Estava estendido, enfraquecido e p\u00e1lido, na sua cama luxuosa incrustada de ouro. Sobre ela havia uma janela aberta e os raios da lua vieram iluminar o Imperador e o rouxinol artificial que estava ao seu lado.<\/p>\n<p>E o pobre Imperador apenas podia respirar; parecialhe carregar um peso no peito. Abriu os olhos e viu que a Morte estava sentada em cima dele e que usava a sua coroa de ouro.<\/p>\n<p>Com uma das m\u00e3os empunhava a espada dourada do Imperador e com a outra sustentava o estandarte imperial.<\/p>\n<p>Em volta do leito e por entre as cortinas de tecido precioso muitos rostos curiosos o fitavam, alguns horr\u00edveis e outros am\u00e1veis e apraz\u00edveis. Eram as a\u00e7\u00f5es boas e m\u00e1s do Imperador, que, no momento em que a morte queria lev\u00e1-lo, fitavam-no cara a cara.<\/p>\n<p>&#8211; Lembra-se disto? &#8211; murmuravam uma atr\u00e1s da outra. &#8211; Recorda-se daquilo?<\/p>\n<p>E lhe diziam tantas e tais coisas, que o rosto do enfermo se enchia de suor.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca soube disso &#8211; replicava o Imperador. &#8211; M\u00fasica!<\/p>\n<p>M\u00fasica! Que soem os grandes tambores chineses! &#8211; exclamou. &#8211; Assim n\u00e3o ouvirei o que dizem. Mas aqueles rostos continuaram falando e a Morte \u00e0s vezes baixava a cabe\u00e7a, exatamente como fazem os chineses para confirmar o que lhe dizem.<\/p>\n<p>&#8211; M\u00fasica! M\u00fasica! &#8211; repetiu o Imperador. &#8211; Voc\u00ea, precioso rouxinol de ouro, cante, cante! Enchi-o de pedras preciosas e fiz com que levasse ao pesco\u00e7o o meu sapatinho de ouro.<\/p>\n<p>Ordeno-lhe, pois, que cante, a fim de levar-lhe \u00e2nimo, consolo e esperan\u00e7a. E, \u00e0 medida que ia cantando, empalideciam e desapareciam por momentos os rostos que rodeavam o leito do Imperador; o sangue circulava com mais vigor no corpo deste, reanimandoo e dando maior movimento aos seus membros.<\/p>\n<p>E at\u00e9 a Morte, ouvindo enlevada a can\u00e7\u00e3o, disse:<\/p>\n<p>&#8211; Continue, pequeno cantor. Continue.<\/p>\n<p>Mas o p\u00e1ssaro continuou silencioso, pois n\u00e3o havia ningu\u00e9m que lhe desse corda, e, como era natural, n\u00e3o podia cantar.<\/p>\n<p>A Morte continuava fitando o moribundo com o vazio de seus olhos e tudo o mais no pal\u00e1cio estava silencioso, terrivelmente silencioso.<\/p>\n<p>Subitamente, a curta dist\u00e2ncia da janela, ouviu-se um formosa canto; era o rouxinol vivo, que pousara no ramo de uma \u00e1rvore que crescia em frente \u00e0 janela.<\/p>\n<p>Soubera do estado e do desejo do Imperador e acudira imediata-<\/p>\n<p>&#8211; Continuarei se me der essa magn\u00edfica espada; continuarei cantando se voc\u00ea me entregar o estandarte imperial e, finalmente, a coroa do imperador.<\/p>\n<p>A Morte entregou essas tr\u00eas coisas em troca de uma can\u00e7\u00e3o e o rouxinol continuou emitindo as suas maviosas notas.<\/p>\n<p>Cantou acerca do apraz\u00edvel cemit\u00e9rio quando as rosas florescem, onde as j\u00e1 desabrochadas perfumam o ambiente e onde a fresca erva sempre se v\u00e1 vivificada pelas l\u00e1grimas dos que choram pelos mortos.<\/p>\n<p>A can\u00e7\u00e3o inspirou na Morte o desejo de ver novamente o seu pr\u00f3prio jardim e como n\u00e9voa cinzenta e amea \u00e7adora, saiu voando pela janela.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, oh, muito obrigado! exclamou o Imperador. &#8211; Eu o conhe\u00e7o, passarinho celestial! Desterrei-o de meu imp\u00e9rio, e, no entanto, voc\u00ea veio afastar de meu leito a Morte e as sinistras vis\u00f5es e com suas can\u00e7\u00f5es conseguiu afastar tamb\u00e9m a Morte que reinava em meu cora\u00e7\u00e3o. Como poderei recompens\u00e1-lo?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 me recompensastes &#8211; respondeu o rouxinol. &#8211; Fiz que viessem l\u00e1grimas aos vossos olhos e nunca o esquecerei. Estas s\u00e3o as pedras preciosas que alegram o cora\u00e7\u00e3o de um artista. Agora dormi para que desperteis s\u00e3o e forte. Enquanto isso, eu cantarei.<\/p>\n<p>Realmente, come\u00e7ou a cantar, ao passo que o Imperador se entregava a um sono reparador.<\/p>\n<p>E o sol brilhava na janela quando ele despertou, refeito de todo. Nenhum de seus servidores estava ao seu lado, pois todos j\u00e1 o acreditavam morto, mas o rouxinol. continuava cantando.<\/p>\n<p>&#8211; De hoje em diante voc\u00ea sempre ficar\u00e1 ao meu lado &#8211; disse o Imperador- &#8211; Cantar\u00e1 somente quando quiser e eu quebrarei em mil peda\u00e7os o rouxinol artificial.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fa\u00e7a tal coisa &#8211; disse o rouxinol. &#8211; Esse p\u00e1ssaro artificial fez tudo o que lhe era poss\u00edvel. Guardai-o pois, tal como est\u00e1 agora. N\u00e3o posso fazer meu ninho nem viver neste pal\u00e1cio, por\u00e9m, permita que eu venha quando me parecer melhor e ent\u00e3o eu pousarei neste ramo e cantarei para v\u00f3s.<\/p>\n<p>E cantarei tamb\u00e9m para faz\u00ea-lo refletir; cantarei sobre os que s\u00e3o felizes e os que sofrem; cantarei sobre o bem e o mal, que est\u00e3o ocultos aos vossos olhos.<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros como eu voam por todo lado, at\u00e9 a morada do campon\u00eas e a do pescador e mesmo daqueles que moram muito longe de vossa corte.<\/p>\n<p>Prefiro vosso cora\u00e7\u00e3o a esta coroa, embora tamb\u00e9m haja em volta desta uma aura de santidade. Voltarei sempre e cantarei para v\u00f3s. Mas antes \u00e9 preciso que me prometais uma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo o que voc\u00ea quiser! &#8211; replicou o Imperador, que j\u00e1 estava vestido com seu traje imperial e que empunhava em frente ao cora\u00e7\u00e3o a espada imperial de ouro, adornada de pedras preciosas.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 vos pe\u00e7o uma coisa. N\u00e3o digais a ningu\u00e9m que tendes um passarinho que vos conta tudo. Ser\u00e1 muito melhor assim.<\/p>\n<p>E dizendo isso, o rouxinol foi embora voando. Os cortes \u00e3os e os criados acorreram a ver o Imperador, que j\u00e1 supunham morto e encontraram-no de p\u00e9, dandolhes as boas vindas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hans Christian Andersen COMO todos sabem, na China o Imperador \u00e9 chin\u00eas, assim como s\u00e3o chineses todos aqueles que o rodeiam. 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