{"id":91634,"date":"2016-12-29T14:01:37","date_gmt":"2016-12-29T16:01:37","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91634"},"modified":"2016-12-29T14:01:37","modified_gmt":"2016-12-29T16:01:37","slug":"o-cristo-do-mar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/o-cristo-do-mar","title":{"rendered":"O Cristo do Mar"},"content":{"rendered":"<p>Naquele ano, v\u00e1rios pescadores de Saint-Val\u00e9ry afogaram-se no mar. Os corpos, atirados \u00e0 praia pela mar\u00e9, foram encontrados de mistura com os restos dos seus barcos, e durante nove dias foram vistos, na trilha montanhosa que conduz \u00e0 igreja, esquifes carregados nos ombros e acompanhados por vi\u00favas em pranto, sob grandes mantos negros, como as mulheres da B\u00edblia.<\/p>\n<p>Assim, foram o patr\u00e3o Jean Leno\u00e8l e seu filho D\u00e9sir\u00e9 depostos na grande nave, sob a mesma arcada a que haviam pouco antes pendurado, em oferenda \u00e0 Santa Virgem, um navio com todo o seu massame. Tinham sido homens justos e tementes a Deus, e o abade Guillaume Truph\u00e8me, vig\u00e1rio de Saint-Val\u00e9ry, tendo-lhes dado a absolvi\u00e7\u00e3o, disse em voz lacrimosa:<\/p>\n<p>\u2014 Jamais foram depostas em solo sagrado, para a\u00ed aguardarem o ju\u00edzo do Senhor, criaturas mais virtuosas e crist\u00e3os mais devotos que Jean Leno\u00e8l e seu filho D\u00e9sir\u00e9.<\/p>\n<p>E enquanto os barcos com seus donos pereciam ao longo da costa, grandes navios so\u00e7obravam ao largo, e n\u00e3o se passava dia sem que o oceano produzisse algum destro\u00e7o. Ent\u00e3o, certa manh\u00e3, meninos que remavam num batel viram uma figura em dec\u00fabito \u00e0 tona do mar. Era um Cristo, em tamanho de homem, esculpido em madeira dura, pintado em cores naturais, e parecia uma obra antiga. O Cristo flutuava nas \u00e1guas de bra\u00e7os estendidos. Os meninos o guindaram para bordo e o conduziram a Saint-Val\u00e9ry. A coroa de espinhos cingia-lhe a fronte. Os p\u00e9s e as m\u00e3os estavam traspassados. Mas faltavam os cravos, assim como a cruz. Com os bra\u00e7os ainda abertos para oferecer-se e bendizer, tinha a mesma postura em que o haviam visto Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia e as santas mulheres no momento de o amortalhar.<\/p>\n<p>Os meninos o levaram ao vig\u00e1rio Truph\u00e8me, que lhes disse:<\/p>\n<p>\u2014 Esta imagem do Messias \u00e9 de valor antigo, e quem o executou certamente de h\u00e1 muito n\u00e3o pertence aos vivos. Ainda que os negociantes de Amiens e de Paris vendam hoje por cem francos, e at\u00e9 mais, est\u00e1tuas primorosas, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que os artes\u00e3os de outrora tinham tamb\u00e9m o seu merecimento. Mas o que me alegra \u00e9 sobretudo o pensamento de que, se o Salvador vem assim, de bra\u00e7os abertos, a Saint-Val\u00e9ry, \u00e9 para aben\u00e7oar a par\u00f3quia t\u00e3o cruelmente provada, e mostrar a sua piedade por essa pobre gente que na pesca arrisca a sua vida. Ele \u00e9 o Deus que caminhou sobre as \u00e1guas, e aben\u00e7oou as redes de Cefas.<\/p>\n<p>E o cura Truph\u00e8me, tendo mandado depositar o Cristo na igreja, sobre a toalha do altar-mor, tratou de encomendar ao carpinteiro Lemerre uma bela cruz em lenho de carvalho.<\/p>\n<p>Pronta esta, nela pregaram o Cristo com pregos novos, e o colocaram na nave, por sobre o banco dos mordomos.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que se viu que os seus olhos estavam repletos de miseric\u00f3rdia e pareciam umedecidos por uma celeste compaix\u00e3o. Um dos tesoureiros, que assistia \u00e0 instala\u00e7\u00e3o do crucifixo, acreditou ver l\u00e1grimas correrem pela divina face.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, entrando com o ac\u00f3lito na igreja para dizer a missa, o vig\u00e1rio surpreendeu-se ao ver na parede a cruz vazia, e o Cristo deitado sobre o altar.<\/p>\n<p>T\u00e3o logo acabou de celebrar o santo of\u00edcio, mandou chamar o carpinteiro e perguntou-lhe por que ele havia tirado o Cristo da cruz. Mas o carpinteiro respondeu que n\u00e3o lhe havia tocado. E, depois de interrogar o sacrist\u00e3o e os fabriqueiros, o abade Truph\u00e8me assegurou-se de que ningu\u00e9m entrara na igreja desde o momento em que o Cristo fora dependurado.<\/p>\n<p>Ocorreu-lhe ent\u00e3o que aquelas coisas fossem milagrosas, e meditou sobre elas com prud\u00cdncia. No domingo seguinte referiu-as na pr\u00e9dica aos seus paroquianos, e convidou-os a contribuir com donativos para a eleva\u00e7\u00e3o de uma nova cruz mais bela que a primeira e mais digna de suster o Redentor do mundo.<\/p>\n<p>Os pobres pescadores de Saint-Val\u00e9ry deram todo o dinheiro que puderam, e as vi\u00favas entregaram as suas alian\u00e7as. Com o que o abade Truph\u00e8me p\u00f4de ir imediatamente a Abbeville encomendar uma cruz de madeira negra, muito reluzente, encimada por uma tabuleta com a inscri\u00e7\u00e3o INRI em letras douradas.<\/p>\n<p>Dois meses mais tarde plantaram-na no lugar da primeira, e a ela pregaram o Cristo entre a lan\u00e7a e a esponja. Mas Jesus deixou-a como \u00e0 outra, e foi, depois do anoitecer, estender-se sobre o altar.<\/p>\n<p>Ao encontr\u00e1-lo de manh\u00e3, o vig\u00e1rio caiu de joelhos e orou por muito, tempo. A not\u00edcia do milagre espalhou-se por toda a redondeza, e as damas de Amiens promoveram pedit\u00f3rios para o Cristo de Saint-Val\u00e9ry. O abade Truph\u00e8me recebeu de Paris dinheiro e j\u00f3ias, e a mulher do ministro da Marinha, Sr\u00aa. Hyde de Neuville, enviou-lhe um cora\u00e7\u00e3o de diamantes. Com todas essas riquezas, um ourives da Rue de Saint-Sulpice comp\u00f4s, em dois anos, uma cruz de ouro e pedrarias, que foi inaugurada em meio a grande pompa na igreja de Saint-Val\u00e9ry, no segundo domingo ap\u00f3s a P\u00e1scoa do ano de 18&#8230; Mas Aquele que n\u00e3o recusara o madeiro doloroso escapou-se daquela cruz t\u00e3o rica e foi de novo estender-se sobre o linho branco do altar.<\/p>\n<p>Com medo de ofend\u00ea-lo, deixaram-no ficar desta vez, e ele ali repousava por mais de dois anos quando Pierre, filho de Pierre Caillou, veio dizer ao senhor cura Truph\u00e8me que tinha encontrado na areia da praia a verdadeira cruz de Nosso Senhor.<\/p>\n<p>Pierre era um inocente, e como n\u00e3o tivesse entendimento bastante para ganhar a vida, davam-lhe p\u00e3o, por caridade; e gostavam dele, porque era incapaz de fazer mal. Mas costumava engrolar coisas sem nexo, a que ningu\u00e9m dava ouvidos.<\/p>\n<p>Contudo, o abade Truph\u00e8me, que incessantemente matutava no mist\u00e9rio do Cristo do Mar, deixou-se impressionar pelo que contara o pobre idiota. Com o sacrist\u00e3o e dois fabriqueiros, dirigiu-se ao lugar onde o rapaz afirmava ter visto uma cruz, e ali encontrou duas pranchas guarnecidas de pregos, que as vagas haviam rolado durante muito tempo, e que efetivamente formavam uma cruz.<\/p>\n<p>Eram detritos de um antigo naufr\u00e1gio. Em uma das pranchas distinguiam-se ainda duas letras pintadas em preto, um J e um L, e n\u00e3o cabia duvidar que fosse um fragmento do barco de Jean Leno\u00e8l que, cinco anos antes, perecera no mar com seu filho D\u00e9sir\u00e9.<\/p>\n<p>Vendo aquilo, o sacrist\u00e3o e os fabriqueiros come\u00e7aram a rir de um inocente que tomava as t\u00e1buas esfaceladas de um barco pela cruz de Jesus Cristo. Mas o vig\u00e1rio Truph\u00e8me lhes atalhou as zombarias. Ele meditara muito e muito orara desde que o Cristo do Mar fizera a sua apari\u00e7\u00e3o em meio aos pescadores, e o mist\u00e9rio da infinita caridade come\u00e7ava a se lhe revelar. Ele ajoelhou-se na areia, recitou a ora\u00e7\u00e3o pelos fi\u00e9is defuntos, depois ordenou ao sacrist\u00e3o e aos fabriqueiros que carregassem aos ombros o destro\u00e7o e o depositassem na igreja. Feito isto, ergueu o Cristo de sobre o altar, colocou-o sobre as pranchas do barco e pregou-o, com suas pr\u00f3prias m\u00e3os, com os pregos corro\u00eddos pelo mar.<\/p>\n<p>Por ordem sua, a nova cruz ocupou, a partir do dia seguinte, sobre o banco dos mordomos, o lugar da cruz de ouro e pedrarias. E nunca mais o Cristo do Mar dali se despregou. Aprouve-Lhe permanecer naquele lenho sobre o qual homens morreram a invocar-Lhe o nome e o de sua M\u00e3e. E ali, entreabrindo a boca augusta e dolorosa, Ele parece dizer: &#8220;A minha cruz \u00e9 feita dos sofrimentos dos homens, pois em verdade vos digo que eu sou o Deus dos pobres e dos desvalidos.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Naquele ano, v\u00e1rios pescadores de Saint-Val\u00e9ry afogaram-se no mar. 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