{"id":91600,"date":"2016-12-29T11:25:13","date_gmt":"2016-12-29T13:25:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91600"},"modified":"2016-12-29T11:25:13","modified_gmt":"2016-12-29T13:25:13","slug":"lukoie-hans","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/lukoie-hans","title":{"rendered":"Lukoie Hans"},"content":{"rendered":"<p><strong>Christian Andersen<\/strong><\/p>\n<p>NINGU\u00c9M no mundo \u00e9 capaz de contar tantas e t\u00e3o bonitas est\u00f3rias como Ol\u00e9 Lukoie. Quantas est\u00f3rias ele sabe! Quando anoitece e as crian\u00e7as est\u00e3o em volta da mesa, comportando-se da melhor maneira poss\u00edvel, sentadas em suas cadeiras, Ol\u00e9 Lukoie entra cautelosamente.<\/p>\n<p>Sobe as escadas descal\u00e7o, t\u00e3o silenciosamente e abrindo a porta com tanto cuidado, que ningu\u00e9m pode ouvilo.<\/p>\n<p>Imediatamente, puff! joga um punhado de p\u00f3 muito branco e muito fino nos olhos das crian\u00e7as, que j\u00e1 n\u00e3o conseguem t\u00ea-los muito abertos, devido ao sono que est\u00e1 chegando e por isso n\u00e3o o v\u00eaem.<\/p>\n<p>Vai at\u00e9 as suas costas e sopra em seus pesco\u00e7os de tal forma, que as cabecinhas v\u00e3o ficando pesadas, como se fossem de chumbo; mas nunca lhes causa o menor dano, ia que age dessa maneira por gostar muito de crian\u00e7as. S\u00f3 deseja que fiquem quietinhas, para que possa deit\u00e1-las, e quando j\u00e1 est\u00e3o em suas caminhas, conta-lhes as suas est\u00f3rias.<\/p>\n<p>Enquanto as crian\u00e7as est\u00e3o adormecendo, Ol\u00e9 Lukoie se senta na cama. Vai muito bem vestido; sua roupa \u00e9 de seda, mas seria imposs\u00edvel saber de que cor \u00e9, porque de cada vez que se volta ela brilha com reflexos veres, vermelhos e azuis.<\/p>\n<p>Debaixo de cada bra\u00e7o leva um guarda-chuva, um com desenhos no pano, que estende sobre os meninos bondosos, para que sonhem com as est\u00f3rias mais lindas durante a noite.<\/p>\n<p>0 outro guarda-chuva n\u00e3o tem desenhos e ele o abre sobre os meninos que foram maus; assim eles dormem sem sonhar durante toda a noite.<\/p>\n<p>Vou falar-lhes sobre um menino em casa de quem Ol\u00e9 Lukoie apareceu durante uma semana inteira. Chamava-se Marcelo. E aqui lhes conto sete est\u00f3rias, porque, como todos sabem, a semana tem sete dias.<\/p>\n<p><strong>SEGUNDA-FEIRA<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Agora espere &#8211; disse Ol\u00e9 Lukoie a noite, depois que Marcelo se deitara. &#8211; Primeiramente vou arrumar umas coisas.<\/p>\n<p>De repente, todas as plantas que havia nos vasos se transformaram em \u00e1rvores enormes, cujos ramos chegavam at\u00e9 o teto e ao longo das paredes, de modo que o quarto ficou parecendo uma deliciosa pra\u00e7a.<\/p>\n<p>Os ramos estavam cobertos de flores e estas eram mais lindas do que as rosas; exalavam um perfume delicioso e se algu\u00e9m tentasse com\u00ea-las, veria que sabiam muito melhor que o doce mais estranho. Os frutos brilhavam como ouro e havia bolos recheados de ameixas. Uma maravilha!<\/p>\n<p>Subitamente, ouviram-se tristes queixumes vindos da gaveta da mesa, onde estavam guardados os livros escolares de Marcelo.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isso? &#8211; perguntou Ol\u00e9 Lukoie, indo abrir a gaveta.<\/p>\n<p>Era a est\u00f3ria que se queixava e se retorcia, porque havia uma conta errada na soma escrita sobre ela e estava a ponto de quebrar-se em mil peda\u00e7os.<\/p>\n<p>0 l\u00e1pis saltava e patinhava preso por um fio de barbante, esfor\u00e7ando-se por consertar a soma, mas n\u00e3o conseguia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o caderno de escrita de Marcelo queixava-se tristemente; em cada uma de suas p\u00e1ginas havia uma fila de letras mai\u00fasculas manuscritas, com a sua correspondente min\u00fascula ao lado.<\/p>\n<p>Embaixo delas, havia outras letras que davam a ilus \u00e3o de se parecerem com as primeiras. Eram as que Marcelo escrevera. Pareciam ter ca\u00eddo e n\u00e3o poderem ficar em p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Vejam bem como devem ficar &#8211; diziam as letras da primeira linha. &#8211; Assim&#8230; um pouco inclinadas e com um elegante tra\u00e7o para fora.<\/p>\n<p>&#8211; Bem que gostar\u00edamos &#8211; diziam as letras de Marcelo, &#8211; mas n\u00e3o podemos. Fizeram-nos t\u00e3o torcidas!<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso, tomar\u00e3o uma dose de rem\u00e9dio &#8211; disse Ol\u00e9 Lukoie.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, n\u00e3o! &#8211; exclamaram elas, fazendo esfor\u00e7os para se endireitarem da melhor maneira poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, agora j\u00e1 n\u00e3o podemos contar mais nenhuma est\u00f3ria &#8211; disse Ol\u00e9 Lukoie. &#8211; E? preciso que essas letras fa\u00e7am algum exerc\u00edcio. Um, dois! Um, dois!<\/p>\n<p>E assim fez as letras trabalharem, e elas se mantinham t\u00e3o retas, que os modelos da primeira linha n\u00e3o podiam resistir-lhes. Por\u00e9m, quando Ol\u00e9 Lukoie foi embora e Marcelo despertou pela manh\u00e3, observou que elas estavam t\u00e3o torcidas quanto antes.<\/p>\n<p><strong>TER\u00c7A-FEIRA<\/strong><\/p>\n<p>Assim que Marcelo foi para a cama, Ol\u00e9 Lukoie tocou os m\u00f3veis com a sua varinha de madeira e todos come \u00e7aram a falar. Falavam de si mesmos, pois n\u00e3o tinham outro assunto.<\/p>\n<p>Havia um quadro com moldura dourada, que estava colocado sobre a c\u00f4moda; representava uma paisagem, na qual se viam velhas e grandes \u00e1rvores, flores na grama e uma grande extens\u00e3o de \u00e1gua, assim como um rio que nascia nela e se ocultava atr\u00e1s do bosque, passando na frente de muitos castelos antes de desembocar no mar.<\/p>\n<p>Ol\u00e9 Lukoie, tocou o quadro com sua varinha e os p\u00e1ssaros do quadro come\u00e7aram a cantar. Os ramos das \u00e1rvores se agitaram e as nuvens atravessaram lentamente o c\u00e9u. E viam-se tamb\u00e9m suas sombras projetadas no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Ol\u00e9 Lukoie levantou Marcelo at\u00e9 a altura da moldura e o menino enfiou a perna direita no quadro, pousando o p\u00e9 na grama e ali ficou.<\/p>\n<p>0 sol brilhava sobre ele, passando pelos ramos das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Marcelo se aproximou da \u00e1gua e embarcou num bote pequeno que estava ancorado. Fora pintado de branco e vermelho e suas velas brilhavam como se fossem de prata.<\/p>\n<p>Seis cisnes, todos com coroas de ouro em volta do pesco\u00e7o e uma estrela de brilhantes na cabe\u00e7a, levaram o barco para mais longe, no fundo do bosque, onde as \u00e1rvores contavam est\u00f3rias de bruxas e ladr \u00f5es; as flores contavam outros contos sobre os pequenos e lindos elfos, que por sua vez lhe tinham contado as mariposas.<\/p>\n<p>Peixes formosos com escamas de ouro e prata nadavam seguindo o barco; de vez em quando saltavam para fora da \u00e1gua e ruidosamente voltavam a cair nela.<\/p>\n<p>P\u00e1ssaros vermelhos e azuis, grandes e pequenos, voavam, formando duas filas atr\u00e1s do pequeno barco; zumbiam os mosquitos e os besouros voavam com grande ru\u00eddo. Todos queriam acompanhar Marcelo e cada um deles tinha uma est\u00f3ria para contar.<\/p>\n<p>Foi um passeio muito agrad\u00e1vel. \u00c0s vezes ele passava na frente de bosques espessos e escuros ou avistava jardins cheios de sol e flores; e dentro deles havia castelos de cristal e m\u00e1rmore.<\/p>\n<p>Algumas princesas apareciam nas janelas e acontecia que todas eram meninas e conhecidas de Marcelo, meninas com quem ele costumava brincar.<\/p>\n<p>Estendiam as m\u00e3os e todas tinham na m\u00e3o direita um veadinho de a\u00e7\u00facar, o mais lindo com que se podia sonhar.<\/p>\n<p>Marcelo apanhava, ao passar, um peda\u00e7o do veadinho de a\u00e7\u00facar e a princesa o segurava pelo outro lado, de modo que cada um ficava com a sua parte, sendo que a maior correspondia a Marcelo.<\/p>\n<p>Na frente de cada castelo montavam guarda pequenos pr\u00edncipes, que cumprimentavam com suas espadas de ouro e lhe atiravam ameixas confeitadas e soldadinhos de chumbo. N\u00e3o se podia duvidar de que fossem verdadeiros pr\u00edncipes.<\/p>\n<p>Continuando com o passeio, atravessava \u00e0s vezes um bosque, outras vezes um prado, outras vezes v\u00e1rias salas ou um povoado; passou por um onde vivia sua ama, a que cuidava dele quando era muito pequenino e gostava dele ao extremo.<\/p>\n<p>A boa mulher o saudou agitando a m\u00e3o que levava uma can\u00e7\u00e3ozinha de que era a autora e que enviou a Marcelo:<\/p>\n<p>Com voc\u00ea sonho quase sempre, Marcelo, meu menino querido. Quantas vezes o acariciei, Meu querido, amado menino! Seus primeiros balbucios Soaram junto ao meu ouvido. Queira Deus que ainda se lembre De meus bra\u00e7os que eram seu ninho!<\/p>\n<p>Os p\u00e1ssaros cantavam tamb\u00e9m, as flores dan\u00e7avam nos caules e as velhas \u00e1rvores se inclinavam, do mesmo modo como se o velho Ol\u00e9 Lukoie lhes contasse algumas est\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong>QUARTA-FEIRA<\/strong><\/p>\n<p>Como chovia l\u00e1 fora! Mesmo em sonhos Marcelo ouvia o barulho da chuva e quando Ol\u00e9 Lukoie abriu a janela, p\u00f4de ver que a \u00e1gua chegava at\u00e9 o parapeito.<\/p>\n<p>Estava tudo convertido em um lago e a pouca dist\u00e2ncia da casa havia um barco.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea quer navegar comigo, pequeno Marcelo? &#8211; perguntou Ol\u00e9 Lukoie. &#8211; Se for do seu agrado, voc\u00ea poder \u00e1 ir esta noite a long\u00ednquos pa\u00edses e voltar pela manh \u00e3.<\/p>\n<p>Imediatamente Marcelo se viu trajado com a sua melhor roupa de domingo e a bordo do formoso barco; e navegando, eles percorreram v\u00e1rias ruas, passaram na frente da igreja, e, finalmente, chegaram ao altomar. E se afastaram tanto, que perderam a terra de vista.<\/p>\n<p>Admiraram um bando de cegonhas que empreendiam a sua viagem para os pa\u00edses mais quentes. Voavam em fila, uma atr\u00e1s da outra.<\/p>\n<p>Percorreram uma grande dist\u00e2ncia. Uma das cegonhas estava t\u00e3o cansada, que suas asas apenas a podiam levar um pouco mais longe; era a que fechava o cortejo. E logo foi ficando para tr\u00e1s, at\u00e9 que caiu com as asas abertas; foi descendo, descendo, tentou voar novamente, at\u00e9 que se chocou contra as enx\u00e1rcias do barco e deslizou ao longo de uma vela, at\u00e9 chegar ao conv\u00e9s.<\/p>\n<p>Um grumete recolheu-a e colocou-a no galinheiro, em companhia das galinhas, dos patos e perus; a pobre cegonha ficou entre eles e, segundo tudo indicava, estava muito deprimida.<\/p>\n<p>&#8211; Vejam que bicho esquisito! &#8211; exclamaram as galinhas. 0 peru arrepiou as penas para adquirir um aspecto mais majestoso e perguntou-lhe quem era. E os patos retrocediam, ao mesmo tempo em que grasnavam: Qu\u00e1c, Qu\u00e1c!<\/p>\n<p>Imediatamente a cegonha come\u00e7ou a falar-lhes sobre o sol da \u00c1frica, sobre as Pir\u00e2mides e sobre os avestruzes que corriam pelos areais como um cavalo selvagem; mas os patos n\u00e3o entenderam e, dando empurr \u00f5es uns nos outros, disseram:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acham que ela \u00e9 mesmo uma tola?<\/p>\n<p>&#8211; E? mesmo, &#8211; respondeu o peru.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a cegonha silenciou, concentrando seus pensamentos na sua amada \u00c1frica.<\/p>\n<p>&#8211; Bonitas pernas voc\u00ea tem! &#8211; exclamou o peru. &#8211; A quanto vende o metro?<\/p>\n<p>&#8211; Qu\u00e1c, qu\u00e1c, qu\u00e1c! &#8211; exclamaram os patos a rir. Mas a cegonha parecia n\u00e3o escutar.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem a minha permiss\u00e3o para rir disse o peru. &#8211; Foi uma observa\u00e7\u00e3o muito engra\u00e7ada, embora um tanto elevada para voc\u00ea. N\u00e3o possui grandes qualidades &#8211; acrescentou, dirigindo-se aos outros, &#8211; mas servir\u00e1 para nos divertir.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o as galinhas come\u00e7aram a cacarejar e os patos a grasnar. E n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que se divertiam bastante. Marcelo foi at\u00e9 o galinheiro, abriu a porta e chamou a cegonha. Esta saiu com um pulo do galinheiro e se aproximou do menino. j\u00e1 descansara, e, ao chegar junto dele, inclinou a cabe\u00e7a para Marcelo, a fim de agradecer-lhe.<\/p>\n<p>A seguir abriu suas asas e al\u00e7ou o seu v\u00f4o para os pa\u00edses c\u00e1lidos. E as galinhas cacarejaram, os patos grasnaram e a crista do peru ficou vermelha como brasa.<\/p>\n<p>&#8211; Amanh\u00e3 faremos uma sopa de voc\u00ea! &#8211; disse Marcelo- Ent\u00e3o acordou e se viu estendido em sua pr\u00f3pria cama. Na verdade, Ol\u00e9 Lukoie o levara para uma viagem extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>QUINTA-FEIRA<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Vou dizer-lhe uma coisa &#8211; avisou Ol\u00e9 Lukoie. &#8211; N\u00e3o se assuste e eu lhe mostrarei um ratinho. &#8211; Realmente, abriu a m\u00e3o e na palma da mesma apareceu um rato pequeno. &#8211; Ele veio convid\u00e1-lo para um casamento.<\/p>\n<p>Esta noite dois ratos v\u00e3o se casar. Vivem embaixo do solo da despensa de sua mam\u00e3e e dizem que \u00e9 uma resid\u00eancia deliciosa.<\/p>\n<p>&#8211; Mas como poderei entrar pelo buraco do ch\u00e3o que d\u00e1 para a cova dos ratos? perguntou Marcelo.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe isso por minha conta &#8211; respondeu Ol\u00e9 Lukoie. &#8211; Vou faz\u00ea-lo ficar bem pequenino.<\/p>\n<p>Tocou em Marcelo com a sua varinha m\u00e1gica e o menino foi diminuindo de tamanho at\u00e9 ficar do tamanho do dedo m\u00ednimo.<\/p>\n<p>&#8211; Agora \u00e9 melhor que pe\u00e7a emprestado o uniforme do soldadinho de chumbo. Creio que lhe assentar\u00e1 muito bem e voc\u00ea sabe que quando se vai fazer uma visita, deve-se estar vestido de uniforme. Isso \u00e9 muito elegante al\u00e9m de ser necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Tem raz\u00e3o &#8211; replicou Marcelo, que dali a pouco estava trajado como o mais elegante soldadinho de chumbo. &#8211; Agora fa\u00e7a o favor de entrar no dedal de sua mam\u00e3e &#8211; disse o rato &#8211; e eu terei a honra de arrast\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8211; Por que vai ter esse trabalho? perguntou Marcelo com muita galanteria.<\/p>\n<p>Mas o rato insistiu e da\u00ed a pouco eles se dirigiam para a casa dos ratos, a fim de assistirem \u00e0 cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Primeiramente penetraram num local que estava debaixo do solo, seguiram por um comprido corredor, cuja altura era apenas suficiente para dar-lhes passagem.<\/p>\n<p>0 corredor estava muito bem iluminado com iscas.<\/p>\n<p>&#8211; Reparou com o ambiente est\u00e1 perfumado? &#8211; perguntou o rato que o arrastava, &#8211; 0 assoalho todo foi untado com toucinho. N\u00e3o se podia imaginar nada melhor.<\/p>\n<p>Chegaram \u00e0 sala nupcial, onde todas as senhoritas ratazanas se encontravam \u00e0 direita, falando em voz baixa ou rindo, como se estivessem se divertindo uma \u00e0 custa da outra.<\/p>\n<p>A esquerda estavam todos os cavalheiros, que, com as patas dianteiras, alisavam os bigodes. Os noivos ocupavam o centro da sala, num peda\u00e7o de queijo, beijando-se com a maior energia na frente dos convidados, por\u00e9m, como iam casar-se, ningu\u00e9m dava grande import\u00e2ncia ao assunto.<\/p>\n<p>Entraram novas visitas, de maneira que os ratos estavam de tal modo comprimidos um contra o outro, que, afinal, o casal de noivos foi para junto da porta, a fim de que mais ningu\u00e9m pudesse sair ou entrar.<\/p>\n<p>A sala, assim como o corredor, estava toda untada de toucinho; n\u00e3o havia refrigerantes, por\u00e9m, como sobremesa apanharam uma folha de ervilha, na qual a fam\u00edlia gravou com dentadas o nome dos noivos, isto \u00e9, as iniciais de cada um, o que j\u00e1 era uma coisa bem extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Todos os ratos disseram ter sido um casamento magn \u00edfico e a conversa\u00e7\u00e3o sumamente agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Marcelo regressou \u00e0 sua casa; encontrara-se em meio a uma companhia distinta, mas, para chegar at\u00e9 l\u00e1, precisara ficar muito pequenino, o que lhe permitira vestir o uniforme do soldadinho de chumbo.<\/p>\n<p><strong>SEXTA-FEIRA<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; E? assombroso verificar quantas pessoas adultas quiseram apoderar-se de mim! &#8211; exclamou Ol\u00e9 Lukoie. &#8211; Especialmente aquelas que n\u00e3o possuem a consci- \u00eancia tranq\u00fcila. ?Bondoso e velho Ol\u00e9?, me dizem.<\/p>\n<p>?N\u00e3o podemos fechar os olhos e somos obrigados a passar a noite inteira com a lembran\u00e7a de nossas m\u00e1s a\u00e7\u00f5es. S\u00e3o semelhantes a Elfos malvados; chegam para perto de nossas camas, sentam-se nelas e jogam \u00e1gua quente em nossos olhos. Quer vir expuls\u00e1- los, para que possamos dormir??<\/p>\n<p>E suspiram profundamente. ?Pagaremos muito bem, Ol\u00e9, boa noite. Voc\u00ea encontrar\u00e1 o dinheiro no peitoril da janela.? Mas eu n\u00e3o trabalho por dinheiro &#8211; exclamou Ol\u00e9 Lukoie.<\/p>\n<p>&#8211; Que vamos fazer esta noite? &#8211; perguntou Marcelo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei se gostaria de assistir a outro casamento, embora seja diferente do que voc\u00ea assistiu ontem. A boneca mais velha de sua irm\u00e3, aquela que est\u00e1 vestida de homem e que se chama Augusto, vai casar-se com Berta. Al\u00e9m disso, \u00e9 seu anivers\u00e1rio, de forma que os presentes ser\u00e3o numerosos &#8211; Sim, j\u00e1 ouvi falar nisso. Quando as bonecas precisam de roupa nova, minha irm\u00e3 diz que \u00e9 seu anivers\u00e1rio ou que v\u00e3o se casar. Isto j\u00e1 aconteceu centenas de vezes.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas esta noite \u00e9 o casamento n\u00famero cento e um e o cent\u00e9simo e o primeiro s\u00e3o o fim de todas as coisas. Por esse motivo, a cerim\u00f4nia ser\u00e1 espl\u00eandida.<\/p>\n<p>Veja!<\/p>\n<p>Marcelo olhou para a mesa; ali estava a casinhola de papel\u00e3o com luzes nas janelas e na parte externa, todos os soldadinhos de chumbo apresentavam armas. Os noivos estavam sentados no ch\u00e3o, com as costas apoiadas no p\u00e9 da mesa; pareciam muito pensativos e tinham raz\u00f5es de sobra para isso.<\/p>\n<p>Ol\u00e9 Lukoie, vestido com a roupa preta da vov\u00f3, casouos; uma vez terminada a cerim\u00f4nia, todos os m\u00f3veis do aposento entoaram a seguinte can\u00e7\u00e3o, que o l\u00e1pis escrevera. A m\u00fasica era de uma outra can\u00e7\u00e3o muito popular. Dizia assim:<\/p>\n<p>Como o vento oscilar\u00e1 nosso canto, 19 At\u00e9 que os noivos morram de velhos. V\u00e3o custar muito a morrer, Pois seu corpo \u00e9 de madeira. Vivam os noivos! Vivam felizes por mil anos!<\/p>\n<p>Logo chegaram os presentes, mas os noivos se recusaram a receber comest\u00edveis. Para eles o amor era mais do que suficiente e n\u00e3o precisavam de nada mais.<\/p>\n<p>&#8211; Iremos viajar pelo pa\u00eds ou pelo estrangeiro?<\/p>\n<p>Consultaram a andorinha, que viajara muito e perguntaram tamb\u00e9m \u00e0 velha galinha, que chegara a criar cinco ou seis ninhadas. A primeira contou-lhes tudo o que sabia sobre os pa\u00edses c\u00e1lidos, onde cresciam as uvas e o ar era t\u00e3o suave como o das montanhas, e igual n\u00e3o se podia ver em outra parte.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o, possuem as nossas couves verdes &#8211; objetou a galinha. &#8211; Passei um ver\u00e3o no campo, junto com meus franguinhos. Havia um monte de terra que escarv\u00e1vamos todos os dias e depois tivemos permiss \u00e3o para entrar numa horta, onde cresciam as couves.<\/p>\n<p>Que verdes eram! N\u00e3o posso imaginar nada t\u00e3o lindo!<\/p>\n<p>&#8211; Mas uma couve se parece exatamente com outra qualquer &#8211; observou a andorinha &#8211; e, por outro lado, aqui faz muito mau tempo.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 estamos acostumados &#8211; replicou a galinha. Mas faz muito frio e neva.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 ben\u00e9fico para as couves &#8211; exclamou a galinha; &#8211; al\u00e9m do mais, as vezes faz muito calor. H\u00e1 quatro anos, durante cinco semanas, tivemos um ver\u00e3o com um calor tremendo, de tal modo que apenas pod\u00edamos respirar.<\/p>\n<p>Por outro lado, aqui n\u00e3o temos animais venenosos, que s\u00e3o pr\u00f3prios dos pa\u00edses estrangeiros e tampouco existem ladr\u00f5es. Quem pensar que o nosso n\u00e3o seja o melhor pa\u00eds do mundo, n\u00e3o est\u00e1 bom da cabe\u00e7a. E n\u00e3o merece viver aqui.<\/p>\n<p>&#8211; A galinha come\u00e7ou a chorar e, tentando acalmar-se um pouco, acrescentou: &#8211; Eu tamb\u00e9m viajei, por doze milhas, metida num barril e asseguro-lhes que as viagens n\u00e3o d\u00e3o prazer algum.<\/p>\n<p>&#8211; A galinha \u00e9 uma mulher ajuizada &#8211; observou Berta, a noiva. &#8211; Tamb\u00e9m n\u00e3o gosto muito de viajar pelas montanhas, porque primeiro \u00e9 preciso subir, para depois descer. N\u00e3o, ser\u00e1 melhor fazermos uma pequena excurs\u00e3o pelos arredores do monte de terra e depois visitarmos a horta das couves.<\/p>\n<p>E assim terminou a discuss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>S\u00c1BADO<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Esta noite n\u00e3o iremos a lugar algum? perguntou Marcelo, quando Ol\u00e9 Lukoie o obrigou a meter-se na cama.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o temos tempo &#8211; respondeu Ol\u00e9, enquanto abria seu guarda-chuva mais lindo. &#8211; Olhe para estes chine ses. &#8211; 0 guarda-chuva inteiro tinha o aspecto de um conto chin\u00eas, rodeado de \u00e1rvores azuis, muito grandes, pontes arqueadas e nelas umas tantas pessoas que inclinavam a cabe\u00e7a. &#8211; Para amanh\u00e3 todo mundo deve estar bem limpo &#8211; disse Ol\u00e9. &#8211; Lembre-se de que \u00e9 domingo. Subirei at\u00e9 o alto do igreja, a fim de ver se os an\u00f5ezinhos encarregados da limpeza cuidaram bem dos sinos, a fim de que soem bem. Terei de ir aos campos, para verificar se os ventos varreram bem o p\u00f3 da grama e das folhas. Mas o trabalho mais pesado \u00e9 baixar as estrelas, para limp\u00e1- las; coloco-os em meu avental, mas \u00e9 preciso numer\u00e1- las, para poder recoloc\u00e1-las em seus devidos lugares, pois, do contr\u00e1rio, n\u00e3o poderia prend\u00ea-las corretamente e a\u00ed haveria muitas estrelas errantes, pois uma cairia atr\u00e1s da outra.<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7a, Sr. Lukoie &#8211; disse um dos antigos retratos, que estavam pendurados na parede. &#8211; Sou o bisav\u00f4 de Marcelo e estou muito agradecido ao senhor pelas est\u00f3rias que conta, mas conv\u00e9m que n\u00e3o diga disparates. As estrelas s\u00e3o planetas como a nossa pr\u00f3pria Terra, e portanto, n\u00e3o h\u00e1 mais o que dizer e chega de disparates.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigado, senhor bisav\u00f4 &#8211; respondeu Ol\u00e9 Lukoie. &#8211; Aceite, pois, a minha maior gratid\u00e3o; o senhor \u00e9 o chefe da fam\u00edlia, uma antig\u00fcidade, mas eu sou muito mais velho que o senhor. Sou um velho deus pag\u00e3o; os gregos e os romanos me chamavam Morfeu, ou o deus dos sonhos. Tenho entrada nas melhores casas do mundo inteiro e tanto os grandes como os peque nos chamam por mim. E j\u00e1 que n\u00e3o est\u00e1 de acordo comigo, conte o senhor as est\u00f3rias que quiser para o seu bisneto.<\/p>\n<p>Dizendo isto, Ol\u00e9 Lukoie foi embora, carregando o guarda-chuva.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor seria que n\u00e3o tivesse dado a minha opini\u00e3o! &#8211; exclamou o retrato antigo.<\/p>\n<p>\u00c9 depois acordou Marcelo.<\/p>\n<p><strong>DOMINGO<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Boa noite &#8211; disse Ol\u00e9 Lukoie.<\/p>\n<p>Marcelo respondeu, inclinando a cabe\u00e7a. Logo ficou em p\u00e9 de um salto e voltou o rosto do bisav\u00f4 para a parede, a fim de que n\u00e3o pudesse falar como na noite anterior.<\/p>\n<p>&#8211; Agora seria bom que me contasse algumas est\u00f3rias a respeito das ?Cinco ervilhas verdes que viviam em sua vagem? e tamb\u00e9m a do ?Galo que foi cumprimentar a senhora Galinha ou ent\u00e3o a ?Agulha de cerzir?<\/p>\n<p>que era t\u00e3o fina que parecia ser uma agulha corrente.<\/p>\n<p>Nunca se deve abusar do que \u00e9 bom disse o velho Ol\u00e9 Lukoie. &#8211; Prefiro mostrar-lhe uma coisa que voc\u00ea j\u00e1 conhece. Vou lev\u00e1-lo at\u00e9 meu irm\u00e3o; tamb\u00e9m se chama Ol\u00e9 Lukoie, mas nunca faz mais do que uma visita. E ent\u00e3o o leva a visit\u00e1-lo, monta-o em seu cavalo e lhe conta uma est\u00f3ria. S\u00f3 sabe duas; uma \u00e9 t\u00e3o linda que ningu\u00e9m na Terra poderia imaginar algo parecido e a outra, horr\u00edvel at\u00e9 mais n\u00e3o poder.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Ol\u00e9 levantou Marcelo at\u00e9 a janela e acrescentou: &#8211; Veja meu irm\u00e3o, o outro Ol\u00e9 Lukoie. Tamb\u00e9m \u00e9 chamado pelo nome de Morte. Voc\u00ea pode ver que n\u00e3o tem um aspecto t\u00e3o feio como \u00e0s vezes \u00e9 apresentado nos desenhos, nem formado de ossos e ligaduras. N\u00e3o, em torno de seu casaco leva uma tira bordada de prata. Veste um belo uniforme de oficial russo e usa uma capa de veludo, a qual se estende pela garupa de seu cavalo. Veja como galopa.<\/p>\n<p>Marcelo viu, realmente, como cavalgava o outro Ol\u00e9 Lukoie, levando velhos e mo\u00e7os, depois de mont\u00e1-los na garupa de seu cavalo. Tinha um \u00e0 sua frente e outros mais atr\u00e1s, mas antes sempre lhes perguntava: &#8211; Que nota voc\u00ea tem em seu boletim?<\/p>\n<p>Todos respondiam que era boa, mas ele obrigava-os a mostr\u00e1-la. Os que tinham nota ?Muito boa? ou ?Excelente ele montava na parte dianteira do cavalo e lhes contava aquela est\u00f3ria maravilhosa e bela, sobre toda a pondera\u00e7\u00e3o. Mas os que s\u00f3 tinham a nota ?Regular? ou ?M\u00e1?, eram obrigados a montar na garupa e ouvir a est\u00f3ria horr\u00edvel. Estremeciam de medo, choravam e faziam esfor\u00e7os para apear, mas n\u00e3o podiam, porque estavam firmemente presos ao cavalo.<\/p>\n<p>&#8211; Vejo que a Morte \u00e9 formosa, Ol\u00e9 Lukoie, &#8211; disse Marcelo. &#8211; N\u00e3o me d\u00e1 medo algum.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o tem que temer meu irm\u00e3o &#8211; replicou Ol\u00e9 Lukoie, &#8211; contanto que sempre tenha nota boa em seu boletim.<\/p>\n<p>&#8211; Acho isso \u00f3timo &#8211; resmungou o retrato do bisav\u00f4. &#8211; Afinal, \u00e9 sempre bom dar a minha opini\u00e3o.<\/p>\n<p>E sorriu muito contente.<\/p>\n<p>E assim termina a est\u00f3ria de Ol\u00e9 Lukoie. E? muito prov\u00e1vel que esta noite ele mesmo possa contar-lhes muito mais a seu respeito. Esperem por ele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christian Andersen NINGU\u00c9M no mundo \u00e9 capaz de contar tantas e t\u00e3o bonitas est\u00f3rias como Ol\u00e9 Lukoie. Quantas est\u00f3rias ele sabe! 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