{"id":91587,"date":"2016-12-29T11:13:40","date_gmt":"2016-12-29T13:13:40","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91587"},"modified":"2016-12-29T11:13:40","modified_gmt":"2016-12-29T13:13:40","slug":"historias-que-acabam-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/historias-que-acabam-aqui","title":{"rendered":"Hist\u00f3rias que Acabam Aqui"},"content":{"rendered":"<p><strong>Maria Teresa Lobato &amp; Fernandes Pereira Lopes<\/strong><\/p>\n<p>Encontravam-se as duas nos limites dos respectivos reinos, escondidas entre os carvalhos e os abetos que serviam de fronteira. Era um regalo v\u00ea-las juntas, como se este mundo fosse um s\u00f3: a fada sempre vestida de cor-de-rosa, asas de tule a esvoa\u00e7ar ao vento e uma varinha de cond\u00e3o que era a prova incontest\u00e1vel de que ela era realmente uma fada.<\/p>\n<p>A bruxinha, essa vestia sempre de negro, uma t\u00fanica que quase lhe chegava aos p\u00e9s e um chap\u00e9u de alto bico que, dada a sua tenra idade, lhe tombava para o lado, sem, por\u00e9m, nunca lhe ter ca\u00eddo.<\/p>\n<p>Cavalgava, n\u00e3o uma vassoura de pia\u00e7aba, mas um modelo mais recente, semi-a-jacto, que seus pais lhe haviam dado pelo seu \u00faltimo anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>Saladina, a bruxa, e Gilda, a fada, voavam por entre as \u00e1rvores sem lhes tocar, faziam piruetas de sobe-e-desce, e passavam tangentes \u00e0s corujas e \u00e0s andorinhas sem nunca, mas nunca, terem tido o menor acidente.<\/p>\n<p>Quando, por\u00e9m, chegou o dia de frequentarem as respectivas escolas, cada uma seguiu o seu caminho e o tempo para as brincadeiras acabou-se para tristeza de ambas. E nunca mais Saladina viu Gilda. E nunca mais Gilda viu Saladina.<\/p>\n<p>Os anos foram passando, no calend\u00e1rio das bruxas e das fadas, que por acaso \u00e9 o mesmo, at\u00e9 que um dia Saladina completou o d\u00e9cimo segundo ano e teve de escolher uma profiss\u00e3o: queria ser doutora, mas doutora-m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Os pais pasmaram com tamanha pretens\u00e3o.<\/p>\n<p>?Que bruxa \u00e9s tu, minha filha! ? dizia o pai.<\/p>\n<p>?Querer ser m\u00e9dica? ? interrogava-se a m\u00e3e.<\/p>\n<p>?Mas, afinal, tu \u00e9s uma bruxa ou uma fada? ? questionavam ambos.<\/p>\n<p>Saladina estremeceu. Ser\u00e1 que algu\u00e9m tinha descoberto o seu segredo de h\u00e1 tantos anos? Que seria feito de Gilda? N\u00e3o, n\u00e3o era poss\u00edvel. Al\u00e9m de tudo isso ela tinha a certeza que era uma bruxa de pele e osso e ningu\u00e9m conseguiria demov\u00ea-la de seus intentos.<\/p>\n<p>E assim foi. Entre o choro da m\u00e3e e o olhar reprovador do pai, l\u00e1 seguiu para a Grande Escola de Medicina que ficava no reino dos humanos, pois no pa\u00eds das bruxas s\u00f3 havia a Escola Superior de Feiti\u00e7os e de Magia.<\/p>\n<p>Para tr\u00e1s ficou a t\u00fanica negra, o chap\u00e9u alto e a vassoura semi-a-jacto. Ficou tamb\u00e9m a m\u00e1goa n\u00e3o s\u00f3 da fam\u00edlia, mas de toda a comunidade, que estas not\u00edcias espalham-se depressa e ferem a honra.<\/p>\n<p>Sim, que as bruxas tamb\u00e9m t\u00eam honra! Depressa acabou Saladina o seu curso. Aluna brilhante, nunca reprovou nenhum ano e quando se viu com o diploma na m\u00e3o, n\u00e3o cabia em si de felicidade. S\u00f3 havia um problema: que fazer agora? Como iriam seus pais receb\u00ea-la? Quando bateu de mansinho \u00e0 porta de sua casa, o n\u00ba 13 da Rua da Assombra\u00e7\u00e3o, o seu cora\u00e7\u00e3o de bruxa, pela primeira vez, fraquejou. E, apesar de a terem deixado entrar, logo sentiu que a sua atitude n\u00e3o fora perdoada.<\/p>\n<p>?\u00c9s a vergonha das bruxas! ? disse-lhe o pai. ? Mas \u00e9s feiti\u00e7o do meu feiti\u00e7o. Podes ficar nesta casa, embora sejas pouco digna das teias de aranha que te cobrem a cama.<\/p>\n<p>Foi neste ambiente que Saladina se aventurou a abrir o seu consult\u00f3rio. Tudo a rigor, como aprendera com os humanos. \u00c0 entrada, um letreiro que dizia:<\/p>\n<h4>DR\u00aa SALADINA<\/h4>\n<p>M\u00e9dica Para Todos Os Males<\/p>\n<p>Pouca sorte tinha esta nossa amiguinha. Ningu\u00e9m lhe batia \u00e0 porta, nem ningu\u00e9m lhe marcava uma consulta que fosse. Nem uma assistente conseguira arranjar.<\/p>\n<p>Resolveu, ent\u00e3o, na esperan\u00e7a de aparecer alguma emerg\u00eancia, mudar-se de vez para o seu consult\u00f3rio. Ali dormia, ali comia e ali ia espreitando pelas cortinas esfarrapadas da janela, na \u00e2nsia de que algu\u00e9m necessitasse da sua prestimosa sabedoria.<\/p>\n<p>Ora, uma bela noite de lua nova, estando Saladina a contemplar as constela\u00e7\u00f5es, apercebeu-se de grande alvoro\u00e7o no c\u00e9u. Luzes para aqui, luzes para acol\u00e1 e um p\u00f3 dourado que se espalhava por todo o lado. De repente come\u00e7a a ouvir gritinhos de todas as bruxas e bruxos que deambulavam pela rua e que tombavam no ch\u00e3o como cerejas maduras.<\/p>\n<p>Saladina n\u00e3o pensou duas vezes: toca a recolher os doentes no seu consult\u00f3rio. Os que ainda se conseguiam manter de p\u00e9, entravam a correr, tamanha era a sua afli\u00e7\u00e3o. Queriam l\u00e1 saber se ela era a Dr\u00aa Saladina! S\u00f3 queriam cura para doen\u00e7a t\u00e3o s\u00fabita e estranha.<\/p>\n<p>Saladina teve necessidade de se concentrar. Sim, porque havia j\u00e1 algum tempo que n\u00e3o praticava. Curou as feridas que viu, ligou os entorses como muito bem aprendera e esperou que os doentes<\/p>\n<p>acordassem. Nada. N\u00e3o acontecia nada. Ent\u00e3o Saladina, sem perceber como, ergueu os bra\u00e7os e come\u00e7ou a praguejar:<\/p>\n<p>Afasta-te p\u00f3 de fada, Renego teu perfume j\u00e1.<\/p>\n<p>X\u00f4, x\u00f4, penugem de tule, Abracadabra, j\u00e1 est\u00e1!<\/p>\n<p>Como por magia, todos acordaram. Quando se aperceberam de quem os tinha salvo, nem queriam acreditar. Muito a medo, l\u00e1 foram agradecendo \u00e0 doutora-m\u00e9dica. E envergonhados, sa\u00edam fazendo v\u00e9nias, sem ousar voltar as costas! Nos jornais do dia seguinte, a nossa amiga era figura de destaque.<\/p>\n<p>Que tinha sido corajosa enfrentando aquela epidemia misteriosa. Que at\u00e9 os bruxos m\u00e1gicos haviam recorrido aos seus servi\u00e7os.<\/p>\n<p>E nos televisores a not\u00edcia repetia-se constantemente, em emiss\u00f5es de \u00faltima hora.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o entendia muito bem este fen\u00f3meno era a pr\u00f3pria Saladina, que ainda hoje est\u00e1 para saber como lhe foram sair tais palavras da boca.<\/p>\n<p>O que ela tamb\u00e9m n\u00e3o sabe \u00e9 que, naquele dia, os Servi\u00e7os Secretos do Reino das Bruxas tinham registado uma invas\u00e3o do seu espa\u00e7o a\u00e9reo por um pelot\u00e3o de fadas, comandado por Gilda, mais conhecida no meio da espionagem por Agente Secreto Zero-Zero-P\u00f3-Dourado.<\/p>\n<p>Claro est\u00e1 que este facto n\u00e3o veio nos jornais e permaneceu<\/p>\n<p>fechado a setenta chaves no cofre dos segredos da bruxa reinante.<\/p>\n<p>Quando passarem por aquela rua al\u00e9m, aquela logo ali acima, se estiverem atentos, poder\u00e3o ver a fila de clientes que Saladina tem \u00e0 porta do consult\u00f3rio.<\/p>\n<p>E talvez, com um pouco de sorte, consigam vislumbrar um vulto cor-de-rosa que esvoa\u00e7a levemente sobre o edif\u00edcio para n\u00e3o ser detectado pelos radares do reino.<\/p>\n<p>Quem poder\u00e1 ser? Pois se virem tudo isto, n\u00e3o se assustem. \u00c9 que, bem perto de n\u00f3s, h\u00e1 o Reino das Bruxas e o Reino das Fadas. E s\u00f3 n\u00e3o os v\u00ea quem n\u00e3o quer, ou quem tem cora\u00e7\u00e3o de pedra.<\/p>\n<h4>A Bailarina de Degas<\/h4>\n<p>Para a Sara e para a Ana, minhas bailarinas de Degas.<\/p>\n<p>A casa era grande e tinha um jardim. Para l\u00e1 do jardim ficava o bosque de \u00e1rvores imensas que se estendiam at\u00e9 n\u00e3o poderem ser mais vistas, por entre caminhos tra\u00e7ados sob as folhas do Outono.<\/p>\n<p>Telma adorava passear-se pelo bosque. Corria pelos caminhos, inventava outros atalhos e tentava passos de dan\u00e7a, bra\u00e7os ondulando ao sabor de melodias imaginadas.<\/p>\n<p>Ser bailarina era um sonho s\u00f3 seu. Desde que descobrira, na biblioteca, um livro com reprodu\u00e7\u00f5es de quadros c\u00e9lebres, e, nas suas p\u00e1ginas, umas pinturas de bailarinas, a ideia que at\u00e9 ent\u00e3o lhe passara vagamente em seus pensamentos tornou-se numa vontade constante, doentia.<\/p>\n<p>Por isso se dividia Telma entre os passeios pelo bosque e as visitas \u00e0 biblioteca.<\/p>\n<p>As grandes prateleiras repletas de livros tinham-na assustado, no in\u00edcio.<\/p>\n<p>Alguns deles eram antigos e cheiravam a p\u00f3. Outros eram mais novos e as suas capas despertavam a curiosidade da menina, que, por n\u00e3o saber ainda ler bem, se entretinha a olhar as figuras e a tentar descobrir o que estava l\u00e1 dentro.<\/p>\n<p>Foi numa tarde chuvosa de Novembro que Telma descobriu o livro das bailarinas. Na grande capa colorida, um nome que ela soletrou: D-e-g-a-s.<\/p>\n<p>Telma soube, anos mais tarde, que tinha sido um grande pintor franc\u00eas, do s\u00e9c. XIX e que o seu nome se pronunciava como se a letra e tivesse um acento circunflexo. Na altura, n\u00e3o queria a menina saber daquele nome, que nada lhe dizia. S\u00f3 queria ver as figuras e mais figuras e a todas despia com os olhos \u00e1vidos de cor, de movimento e de sinfonias cada vez mais triunfais.<\/p>\n<p>Esperava a hora da sesta. Fingia que dormia. E em passos de algod\u00e3o escondia-se na biblioteca, entre a porta envidra\u00e7ada que dava para o bosque e o grande reposteiro de veludo carmesim.<\/p>\n<p>De todos os quadros, o que mais a fascinava era um que tinha o Edi\u00e7\u00f5es ArcosOnline.com, Hist\u00f3rias Que Acabam Aqui 23 t\u00edtulo de Bailarina com ramo de flores.<\/p>\n<p>Telma entrava ent\u00e3o naquele cen\u00e1rio e juntava-se ao corpo de baile. Vestia o fato em tons de amarelo esbatido, saia de tule querendo voar, sapatinhos de ponta cor de rosa e um ramo de flores na m\u00e3o, o aroma do campo no ar quieto daquela sala.<\/p>\n<p>E Telma bailava, bailava, esvoa\u00e7ava pelo meio das outras bailarinas, tentando imitar os passos que elas davam, erguendo-se na ponta dos p\u00e9s at\u00e9 mais n\u00e3o poder, at\u00e9 a dor ser mais forte que a vontade.<\/p>\n<p>No fim do espect\u00e1culo, agradecia ao p\u00fablico que s\u00f3 ela via e que s\u00f3 a ela aplaudia.<\/p>\n<p>Depois, quando se apanhava de novo no bosque, erguia-se quanto podia nas pontas dos seus sapatos de cetim e largava o sonho que escondia no peito. E imaginava-se pintura em movimento num quadro de Degas.<\/p>\n<p>Ainda hoje ningu\u00e9m entende, naquela casa, por que raz\u00e3o fugia Telma tanto para o bosque.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ningu\u00e9m nunca entendeu o que fazia, no quarto de Telma, um grande ramo de flores campestres, eternamente frescas, pousado sobre a sua mesa de cabeceira.<\/p>\n<p>Nem um par de sapatos de bailarina que pendia, em la\u00e7os de cetim esbatidos pelo tempo, da cabeceira de sua cama.<\/p>\n<h4>H\u00e9lix, o Caracol<\/h4>\n<p>Quando se nasce caracol nunca se pode prever o destino.<\/p>\n<p>Uns passeiam-se languidamente pelos campos de verde-primavera, outros pelos jardins-do-alheio e outros s\u00e3o carac\u00f3is-de-cidade, o que faz com que sobrevivam mais a custo j\u00e1 se v\u00ea.<\/p>\n<p>H\u00e9lix era um caracol-de-prov\u00edncia. Terra pequena, mas farta de jardins e de quintais que at\u00e9 dava gosto morder.<\/p>\n<p>E foi bem no meio de um canteiro cercado de buxo que o nosso amigo nasceu.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe bem como, mas a verdade \u00e9 que, um belo dia de sol, l\u00e1 estava H\u00e9lix, pela primeira vez na sua vida, entre dois pequenos p\u00e9s de jarros, a deitar os corninhos \u00e0 brisa da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Espera-me uma bela vida, pensou H\u00e9lix, n\u00e3o deve haver nada como esta luz quente para me aquecer a casa.<\/p>\n<p>Mas quando umas nuvens escuras foram entrando pela manh\u00e3 e o ar amea\u00e7ou uns pinguitos de chuva, corninhos para dentro, que ele n\u00e3o era flor e n\u00e3o precisava de rega.<\/p>\n<p>Dormiu todo esse dia. Pudera, n\u00e3o \u00e9 a Edi\u00e7\u00f5es ArcosOnline.com, Hist\u00f3rias Que Acabam Aqui 25 toda a hora que se nasce. J\u00e1 muito fizera ele aventurando-se a espreitar o mundo.<\/p>\n<p>E a vida de H\u00e9lix foi prosseguindo \u00e0 volta disto: ora espreitava o sol, ora fugia da chuva. A sua \u00fanica distrac\u00e7\u00e3o era a figura humana mais pequena l\u00e1 de casa, duas tran\u00e7as a escorrer pelos ombros, saia plissada, sapato de verniz acabado de estrear, que volta e meia parava \u00e0 sua frente, aninhava-se \u00e0 espera n\u00e3o se sabia de qu\u00ea, e cantava uma lenga-lenga que, aos ouvidos de um caracol, soava assim: Tu itica, tu inc\u00f3i, Tem c\u00f3ninhos como um b\u00f3i, Lagarato num \u00e9 tu, Fomiguinha tam\u00e9m n\u00e3o.<\/p>\n<p>Que bichinho ser\u00e1 tu? Eu sou um cacar\u00f3i! Verdade, verdadinha, H\u00e9lix n\u00e3o achava piada nenhuma \u00e0quilo.<\/p>\n<p>Mas desde que aquela criatura min\u00fascula n\u00e3o o incomodasse nem o calcasse, tudo bem, que cantasse o que lhe desse na real gana.<\/p>\n<p>E como os carac\u00f3is n\u00e3o sabem o que s\u00e3o dias, nem meses, nem anos, o nosso amigo l\u00e1 foi contando muitos s\u00f3is e muitas chuvas, que s\u00f3 ouvia de dentro da sua casota, muito encolhidinho.<\/p>\n<p>N\u00e3o era mundano nem se dava a conversas. Queria l\u00e1 saber se as rosas tinham florido, se as ameixoeiras estavam carregadinhas de frutos vermelhos. Se os jarros onde morava tinham tido um destino fatal quando foram precisos para enfeitar uma sala l\u00e1 de casa. Queria l\u00e1 ele saber o nome dos p\u00e1ssaros que debicavam \u00e0 sua volta e por todo o<\/p>\n<p>jardim, enchendo o ar com melodias que os ouvidos de H\u00e9lix n\u00e3o conseguiam descodificar. Queria l\u00e1 ele saber.<\/p>\n<p>Ele nascera s\u00f3, pois s\u00f3 viveria. E aquele canteiro chegava e sobejava. Conhecer mais mundo, para qu\u00ea? Mas o destino tem destas coisas. Numa bela tarde de Dezembro, quando H\u00e9lix se preparava para ver que tal estava o tempo do lado de fora da sua mans\u00e3o, viu cair do c\u00e9u umas p\u00e9rolas muito pequenas, da cor mais pura que ele alguma vez vira.<\/p>\n<p>Eram leves como o esvoa\u00e7ar das borboletas. Gelavam-lhe as antenas e permaneciam no ch\u00e3o, como que a querer cham\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Admirou-se. Nunca na sua longa vida tal fen\u00f3meno vira. E extasiou-se de tal maneira, que se esqueceu de recolher os corninhos e de se fechar a sete chaves em sua guarita.<\/p>\n<p>Como a vida \u00e9 bela, pensava H\u00e9lix.<\/p>\n<p>E os pensamentos iam fluindo cada vez com mais lentid\u00e3o.<\/p>\n<p>Que felizardo que eu sou. Pois est\u00e3o a ver que o c\u00e9u veio visitar-me? Que as nuvens desceram das alturas s\u00f3 para me cumprimentar? E sem dar por isso, enquanto olhava os cristais de \u00e1gua, com aqueles olhos que s\u00f3 os carac\u00f3is possuem, H\u00e9lix adormeceu, penetrou no sono mais doce que uma vida de nuvens pode dar&#8230; E nunca mais acordou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Teresa Lobato &amp; Fernandes Pereira Lopes Encontravam-se as duas nos limites dos respectivos reinos, escondidas entre os carvalhos e os abetos que serviam de fronteira. 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