{"id":91558,"date":"2016-12-29T10:39:42","date_gmt":"2016-12-29T12:39:42","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91558"},"modified":"2016-12-29T10:39:42","modified_gmt":"2016-12-29T12:39:42","slug":"como-se-fosse-um-sonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/como-se-fosse-um-sonho","title":{"rendered":"Como Se Fosse um Sonho"},"content":{"rendered":"<div id=\"corpo\">\n<p>PERTO de Gudenaa, ao lado da floresta de Silkerborg, se eleva, parecido com uma grande vaga, um cume arredondado chamado Aasen, sob o qual, hoje ainda, se encontra uma pequena casa de camponeses, rodeada por algumas terras de lavoura. Entre as planta\u00e7\u00f5es de centeio e cevada espalhadas, brilha a areia. J\u00e1 se passaram muitos anos ap\u00f3s os acontecimentos que vamos narrar. As pessoas que habitavam ent\u00e3o a pequena morada exploravam as suas terras e mantinham, al\u00e9m delas, duas ovelhas, um porco e dois bois.<\/p>\n<p>Logo, como eles sabiam contentar-se com o pouco que tinham, viviam muito bem. Poderiam at\u00e9 mesmo possuir alguns cavalos, mas diziam como os outros camp\u00f4nios:<\/p>\n<p>&#8211; 0 cavalo come a si mesmo.<\/p>\n<p>Ele emagrece \u00e0 medida que come. Jaques, no ver\u00e3o cultivava seu pequeno campo, e, no inverno, confeccionava tamancos com m\u00e3o h\u00e1bil e diligente.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe faltava nem mesmo um aux\u00edlio: tinha com ele um homem que entendia perfeitamente da fabrica\u00e7\u00e3o de tamancos. Estes eram t\u00e3o s\u00f3lidos quanto leves e de bom gosto. Fabricavam tamancos e colheres de pau; isso representava dinheiro e n\u00e3o se podia dizer que Jaques fosse um homem pobre.<\/p>\n<p>0 pequeno Ib, um garoto de sete anos, filho \u00fanico da casa, sentado perto deles, via-os trabalhar. As vezes cortava um peda\u00e7o de madeira e assim ocupava seus dedos. Um dia, cortou dois peda\u00e7os que se pareciam com dois pequenos tamancos. Era, dizia ele, para dar \u00e0 pequena Cristina.<\/p>\n<p>Esta era a filha de um barqueiro. Era t\u00e3o delicada e encantadora, como uma crian\u00e7a de boa fam\u00edlia. Ningu \u00e9m suporia que ela vinha de uma casa de turfa da charneca de Seis. Era l\u00e1 que morava seu pai, um vi\u00favo que tirava a sua subsist\u00eancia cortando madeira na floresta de Silkerborg.<\/p>\n<p>Muitas vezes, quando ele se dirigia de barco at\u00e9 Randers, a pequena Cristina ia at\u00e9 a casa de Jaques Ib e a pequena Cristina se entendiam \u00e0 maravilha.<\/p>\n<p>Corriam e brincavam, subindo nas arvores e nos montes.<\/p>\n<p>Um dia arriscaram-se a ir at\u00e9 o alto do cume arredondado e penetraram um pouco na floresta. Ali encontraram um ovo de pernalta; foi um acontecimento muito importante.<\/p>\n<p>Ib jamais estivera na charneca de Seis; nunca atravessara os lagos que levam a Gudenaa. Mas isso ia acontecer finalmente. Ele fora convidado pelo barqueiro, e \u00e0 noite, na v\u00e9spera, acompanhara-o at\u00e9 sua casa.<\/p>\n<p>Pela manh\u00e3, bem cedinho, as duas crian\u00e7as estavam sentadas no barco, sobre um grande peda\u00e7o de lenha, comendo p\u00e3o e framboesas. 0 barqueiro e seu rapaz avan\u00e7avam a remo, a corrente facilitando seu trabalho, e eles atravessavam os lagos que pareciam fechados por todos os lados por \u00e1rvores e arbustos. Mas sempre eles encontravam uma passagem.<\/p>\n<p>No entanto, as velhas \u00e1rvores se debru\u00e7avam at\u00e9 eles, com seus galhos estendidos, como se quisessem mostrar seus bra\u00e7os nus e ossudos. Velho troncos, solidamente presos ao solo por suas ra\u00edzes, pareciam ilhas no meio do lago. Os nen\u00fafares balan\u00e7avam-se sobre a \u00e1gua. Foi uma viagem maravilhosa. Finalmente, resolveram pescar. A \u00e1gua borbulhava perto do barco. Que espet\u00e1culo para Ib e Cristina!<\/p>\n<p>Antigamente, n\u00e3o havia ali nem f\u00e1brica nem cidade, mas o velho dique, que n\u00e3o exigia nada dos homens.<\/p>\n<p>0 barulho da \u00e1gua caindo dos a\u00e7udes, os gritos dos patos selvagens, eram os \u00fanicos ind\u00edcios de vida dentro do sil\u00eancio e da natureza.<\/p>\n<p>Depois de descarregar a madeira, o pai de Cristina comprou um grande pacote de enguias e uma vasilha de leite. Foi tudo colocado na parte traseira do barco. Para voltar, era preciso subir a corrente. Mas o vento era favor\u00e1vel; ele inflava as velas e eles avan\u00e7avam t\u00e3o bem, como se fossem puxados por cavalos.<\/p>\n<p>Durante a travessia da floresta, quando j\u00e1 estavam a curta dist\u00e2ncia de casa, o pai de Cristina e o companheiro desceram do barco, recomendando \u00e0s crian\u00e7as que ficassem quietas e ajuizadas. Elas ficaram, mas por pouco tempo: quiseram olhar dentro da cesta que continha as enguias e a vasilha do leite e levant\u00e1-la no ar, mas quando o fizeram, deixaram-na cair dentro da \u00e1gua. E a corrente a levou. Foi espantoso.<\/p>\n<p>Ib, muito angustiado, pulou em terra e correu um pouco. A seguir Cristina o alcan\u00e7ou.<\/p>\n<p>&#8211; Leve-me com voc\u00ea &#8211; gritou ela.<\/p>\n<p>E eles entraram na floresta. Dentro em breve o barco e o rio desapareceram de suas vistas. Correram mais um pouco e Cristina caiu. A menina come\u00e7ou a chorar. Ib a levantou.<\/p>\n<p>&#8211; Venha &#8211; disse ele. &#8211; Nossa casa fica logo ali.<\/p>\n<p>Infelizmente, ela n\u00e3o estava l\u00e1. Os dois caminharam e caminharam sobre as folhas secas e os galhos ca\u00ed dos, que estalavam aos seus p\u00e9s. Subitamente, ouviram um poderoso apelo. Pararam e agu\u00e7aram os ouvidos: uma \u00e1guia come\u00e7ara a gritar terrivelmente.<\/p>\n<p>Ficaram mortos de medo; mas \u00e0 frente deles, no bosque, havia a maior quantidade de aves jamais vista.<\/p>\n<p>Era muito tentador para que eles n\u00e3o parassem. Havia ovos e frutos, e eles ficaram, comeram e mancharam com o suco das frutas a boca e as bochechas de azul. Novamente ouviu-se um grito.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos levar uma surra por causa daquela vasilha de leite &#8211; disse Cristina.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos para minha casa &#8211; disse Ib. Deve ficar aqui no bosque.<\/p>\n<p>Caminharam; chegaram a uma estrada ondulante; mas esta n\u00e3o os levava \u00e0 sua casa. A noite caiu e eles sentiram medo. 0 sil\u00eancio extraordin\u00e1rio em volta deles s\u00f3 era quebrado pelos gritos assustadores dos grandes p\u00e1ssaros e pelo canto de outros que eram desconhecidos para eles.<\/p>\n<p>Afinal eles se perderam num bosquezinho, Cristina come\u00e7ou a chorar e Ib tamb\u00e9m; e depois que choraram um instante, deitaram-se no meio das folhas e adormeceram.<\/p>\n<p>0 sol j\u00e1 estava alto no c\u00e9u quando eles despertaram. Estavam com frio. Mas l\u00e1 no alto, sobre a colina, onde o sol parecia t\u00e3o brilhante atrav\u00e9s das arvores. \u00c9 eles poderiam aquecer-se, pensou Ib. E de l\u00e1, sem d\u00favida, veriam tamb\u00e9m a casa de seus pais.<\/p>\n<p>Mas eles se encontravam muito longe, do outro lado da floresta. A muito custo subiram a colina e chegaram a uma cascata, que ficava sobre um lago claro e transparente. Ali nadavam peixes, sob os raios do sol. Pertinho dali descobriram um lugar cheio de nozes. Colheram-nas, quebraram-nas e comeram-nas.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o estavam sen\u00e3o no in\u00edcio de sua surpresa e temor. De uma moita surgiu uma grande e velha mulher, de pele crestada e cabelos de um negro brilhante.<\/p>\n<p>0 branco de seus olhos brilhava. Levava um feixe de lenha nas costas e um bast\u00e3o nodoso na m\u00e3o. Era uma cigana.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as n\u00e3o entenderam imediatamente o que ela dizia. A mulher tirou do bolso tr\u00eas grandes nozes.<\/p>\n<p>Dentro de cada uma delas, &#8211; contou ela, estavam escondidas as coisas mais espl\u00eandidas: eram nozes m\u00e1gicas.<\/p>\n<p>Ib examinou a mulher: parecia muito simp\u00e1tica. Eis por que, criando coragem, ele pediu-lhe as nozes. Ela as entregou e tratou de colher mais avel\u00e3s a fim de encher seus bolsos.<\/p>\n<p>Ib e Cristina ficaram olhando para as tr\u00eas grandes nozes abrindo os seus grandes olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui se encontra uma carruagem puxada por cavalos? &#8211; perguntou ele.<\/p>\n<p>&#8211; Encontra-se mesmo uma carruagem de ouro com cavalos dourados &#8211; respondeu a mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o d\u00ea-me a noz! &#8211; pediu a pequena Cristina.<\/p>\n<p>Ib entregou-lhe a noz, que a mulher amarrou no len\u00e7o da menina.<\/p>\n<p>&#8211; E nessa aqui? &#8211; perguntou Ib.<\/p>\n<p>H\u00e1 um len\u00e7o t\u00e3o lindo quanto o de Cristina?<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 dois len\u00e7os &#8211; respondeu a mulher &#8211; al\u00e9m de belos trajes, meias e um chap\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o eu a quero tamb\u00e9m &#8211; disse Cristina.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Ib lhe deu a segunda noz. A terceira era pequena e negra.<\/p>\n<p>&#8211; Essa voc\u00ea pode guardar &#8211; disse Cristina. &#8211; Ademais, ela tamb\u00e9m \u00e9 bonita.<\/p>\n<p>&#8211; E que cont\u00e9m ela? &#8211; interrogou Ib.<\/p>\n<p>&#8211; 0 que h\u00e1 de melhor para voc\u00ea respondeu a cigana.<\/p>\n<p>Ib segurou bem a sua noz. A mulher prometeu-lhe coloc\u00e1-los no caminho para sua casa. Puseram-se a caminho, mas justamente na dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0quela que eles desejavam. Mas nem por sombras eles desconfiavam de que a cigana pretendia rapt\u00e1-los.<\/p>\n<p>No meio do bosque, l\u00e1 onde existem v\u00e1rios atalhos, os dois se encontraram com o guarda-florestal, que Ib conhecia. Gra\u00e7as a ele, Ib e a pequena Cristina puderam voltar para a casa, onde havia grande ansiedade por causa deles. Perdoaram-lhes, embora eles merecessem ser surrados, primeiramente porque haviam derramado a vasilha de leite na \u00e1gua e depois porque haviam fugido.<\/p>\n<p>Cristina voltou para a casa dela, na charneca e Ib ficou na sua pequena casa da floresta. A primeira coisa que ele fez, ao chegar a noite, foi apanhar a noz que continha ?aquilo que era melhor para ele?. Colocou- a entre a porta e a parede e fechou a porta. A noz quebrou. N\u00e3o continha uma semente; estava cheia de uma esp\u00e9cie de fumo picado.<\/p>\n<p>?Eu devia ter desconfiado?, pensou Ib. ?Como \u00e9 que dentro de uma pequena noz poderia haver o que h\u00e1 de melhor? Cristina tamb\u00e9m n\u00e3o vai retirar das suas nem belos trajes nem uma carruagem de ouro.? 0 inverno chegou, depois o ano novo.<\/p>\n<p>Muitos anos se passaram. Ib seguia as aulas de catecismo e o padre morava longe dali. Nessa \u00e9poca, o barqueiro foi um dia \u00e0 casa dos pais de Ib e contoulhes que a pequena Cristina j\u00e1 estava na \u00e9poca de trabalhar.<\/p>\n<p>Era &#8211; dizia ele &#8211; uma verdadeira felicidade para ele que ela fosse parar em t\u00e3o boas m\u00e3os e que fosse servir t\u00e3o boa gente. Devia partir para a regi\u00e3o de Herning, para a casa de ricos hoteleiros. Ajudaria a dona da casa e, se correspondesse \u00e0 expectativa, ficariam com ela.<\/p>\n<p>Ib e Cristina se despediram um do outro. Passavam por noivos junto aos seus pais. No momento da partida, ela mostrou-lhe que possu\u00eda ainda as duas nozes que ele lhe dera quando os dois se perderam na floresta. Contou-lhe que guardava os peda\u00e7os num cofre.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a confirma\u00e7\u00e3o, Ib permaneceu na casa de sua m\u00e3e. Ele era h\u00e1bil tamanqueiro e no ver\u00e3o explorava suas terras com grande lucro. Ademais, ela n\u00e3o tinha sen\u00e3o a ele: o pai de Ib tinha morrido.<\/p>\n<p>N\u00e3o se ouvia falar de Cristina sen\u00e3o raramente, geralmente por interm\u00e9dio de um postilh\u00e3o ou de um vendedor ambulante de enguias. A mo\u00e7a estava muito bem na casa dos hoteleiros.<\/p>\n<p>Quando foi confirmada, escreveu ao seu pai e enviou sauda\u00e7\u00f5es para Ib e para a m\u00e3e deste. Falava em sua carta de um presente de seis blusas novas e de um belo vestido que ganhara de seus patr\u00f5es. Em suma, eram boas not\u00edcias.<\/p>\n<p>Na primavera seguinte, bateram um belo dia na porta de Ib e sua m\u00e3e, e o barqueiro entrou com Cristina.<\/p>\n<p>Esta viera de visita por um dia. Aparecera uma companhia para a viagem com uns vizinhos e ela aproveitara a ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Estava linda, graciosa e elegante como uma senhorita e usava belos vestidos, muito bem feitos e que lhe assentavam \u00e0s mil maravilhas. Apareceu em grande ?toalete?, enquanto que Ib usava suas roupas de trabalho.<\/p>\n<p>A alegria e a surpresa tiraram-lhe a fala. Deulhe a m\u00e3o e manteve-a bem apertada, com a maior felicidade irradiando-se de seus olhos., mas sem poder mover os l\u00e1bios. A pequena Cristina foi mais ativa; conversou com muita anima\u00e7\u00e3o e deu um beijo na boca de Ib.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea me reconhece? &#8211; perguntou ela.<\/p>\n<p>Quando ficaram a s\u00f3s, ele ainda segurava a m\u00e3o da mo\u00e7a e s\u00f3 p\u00f4de balbuciar:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea se transformou numa linda dama e aconteceu que eu aparecesse com a roupa suja. Quantas vezes pensei em voc\u00ea e no tempo passado!<\/p>\n<p>De bra\u00e7os dados eles subiram o cume, para os lados de Gudenaa, at\u00e9 os limites da charneca de Seis. Ib n\u00e3o dizia nada.<\/p>\n<p>Mas quando se separaram, pareceu-lhe claramente que era preciso que ela se tornasse sua esposa. Desde crian\u00e7as que todos os chamavam de noivos. Somente eles nunca tinham trocado id\u00e9ias a respeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o puderam ficar v\u00e1rias horas juntos, pois ela precisava voltar ao local de onde viera, a fim de tomar o caminho de volta, de manh\u00e3 cedinho.<\/p>\n<p>Ib e o pai dela a acompanharam. Fazia um lindo luar.<\/p>\n<p>Quando soou a hora da separa\u00e7\u00e3o, Ib n\u00e3o p\u00f4de largar a m\u00e3o dela. Seus olhares significavam claramente os seus desejos mais \u00edntimos. E ele exprimia em poucas palavras o que cada um sentia de seu ser:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, ultimamente voc\u00ea tem levado uma vida um tanto luxuosa, mas se quiser viver comigo, como minha esposa, na casa de minha m\u00e3e, um dia poderemos ser marido e mulher &#8230; E? claro que ainda podemos esperar um pouco.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, Ib, veremos isso mais tarde disse ela.<\/p>\n<p>Ib apertou-lhe a m\u00e3o e beijou-a na boca.<\/p>\n<p>&#8211; Confio em voc\u00ea, Ib &#8211; disse Cristina e gosto de voc\u00ea. Mas deixe-me pensar.<\/p>\n<p>Separaram-se. Ib contou ao barqueiro a sua conversa com Cristina e este achou que tudo se passara como ele esperara. Mais tarde foi at\u00e9 a casa de Ib e os dois dormiram na mesma cama. E n\u00e3o se falou mais em noivado.<\/p>\n<p>Um ano se passou. Ib e Cristina trocaram duas cartas que terminavam com ?Fiel at\u00e9 a morte?. Um dia, o barqueiro entrou na casa de Ib. Trazia-lhe as sauda- \u00e7\u00f5es de Cristina.<\/p>\n<p>Parecia-lhe penoso exprimir aquilo que tinha a dizer; o principal \u00e9 que Cristina estava bem; mesmo, ela era uma linda mo\u00e7a, estimada e considerada.<\/p>\n<p>0 filho do hoteleiro viera v\u00ea-lo, \u00e0 sua casa. Tinha um emprego muito importante em Copenhague numa grande casa de com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Cristina agradava-lhe, e seus pais n\u00e3o se opunham.<\/p>\n<p>Somente Cristina achava que Ib ainda pensava nela e, portanto, estava disposta a renunciar \u00e0 sua felicidade.<\/p>\n<p>No primeiro instante Ib n\u00e3o pronunciou uma s\u00f3 palavra, mas ficou de uma palidez mortal. Depois disse:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso que Cristina renuncie \u00e0 sua felicidade. &#8211; Escreva-lhe dizendo-lhe qual o seu ponto-de-vista &#8211; disse o barqueiro.<\/p>\n<p>Ib escreveu. Mas n\u00e3o conseguia dizer o que queria. Finalmente, ao amanhecer, estava com uma carta pronta para a pequena Cristina.<\/p>\n<p>?Eu li a carta que voc\u00ea escreveu ao seu pai; vejo que est\u00e1 satisfeita e que ainda poder\u00e1 estar mais. Interrogue seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, Cristina, e pense bem neste que a espera. N\u00e3o tenho muito o que lhe oferecer.<\/p>\n<p>N\u00e3o pense em mim, no que me acontecer\u00e1, mas somente no seu pr\u00f3prio interesse.<\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 ligada a mim por nenhuma promessa.<\/p>\n<p>Querida Cristina, desejo-lhe todas as felicidades do mundo e serei feliz tamb\u00e9m ao v\u00ea-la feliz. Deus saber \u00e1 consolar-me. Seu melhor amigo para sempre: Ib.? Esta carta foi enviada e Cristina a recebeu.<\/p>\n<p>0 dia de Sant-Martin foi celebrado na igreja do povo ado de Sis e em Copenhague, onde residia seu noivo.<\/p>\n<p>Cristina foi com sua futura sogra, porque, por causa de seus in\u00fameros neg\u00f3cios, o rapaz n\u00e3o podia fazer a longa viagem.<\/p>\n<p>Cristina devia encontrar-se com seu pai no lugarejo de Funder, por onde passaria, e que n\u00e3o ficava muito longe de Seis. Foi ali que eles se despediram. Pronunciaram algumas palavras, mas Ib n\u00e3o disse nada.<\/p>\n<p>Ele estava muito quieto, dizia sua velha m\u00e3e. Sim, Ib refletia e voltava ao passado; e foi assim que come- \u00e7ou a pensar nas tr\u00eas nozes que recebera quando crian \u00e7a da cigana, das quais dera duas a Cristina.<\/p>\n<p>Eram nozes m\u00e1gicas, que deviam dar a Cristina uma carruagem de ouro puxada por cavalos dourados e os mais belos trajes. Sim, sim, isto estava acontecendo.<\/p>\n<p>L\u00e1 em Copenhague, na linda cidade real, ela iria compartilhar de um destino magn\u00edfico. Para ela o desejo se realizava! Para Ib, n\u00e3o havia mais do que a noz cheia de p\u00f3 e de terra. ?0 melhor para voc\u00ea?, dissera a cigana. Pois bem, isso tamb\u00e9m se realizava.<\/p>\n<p>0 melhor para ele eram o p\u00f3 e a terra. Atualmente ele compreendia o que a cigana quisera dizer: o melhor para ele era ficar dentro da terra negra, numa fria tumba.<\/p>\n<p>Mais alguns anos se passaram &#8211; n\u00e3o muitos, mas que pareceram muito longos a Ib.<\/p>\n<p>Os velhos hoteleiros morreram, com pouco intervalo um do outro. Os filhos herdaram toda a fortuna. Sim, agora Cristina podia rodar numa carruagem de ouro e usar belos vestidos.<\/p>\n<p>Nos dois anos que se seguiram, o pai n\u00e3o recebeu nem uma carta de Cristina. E quando recebeu uma, tinham-se acabado a riqueza e a alegria. Pobre Cristina! Nem ela nem seu marido puderam fugir \u00e0s circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>A riqueza n\u00e3o lhes trouxera nem felicidade e desaparecera como viera.<\/p>\n<p>As \u00e1rvores floriram. As flores murcharam. A neve caiu no inverno sobre a terra de Seis e sobre a colina ao p\u00e9 da qual Ib levava a sua vida tranq\u00fcila. 0 sol da primavera apareceu. Ib cultivava seu campo.<\/p>\n<p>Certa vez, a um solavanco do arado, ele viu que o mesmo batera numa pedra. Um objeto esquisito veio \u00e0 superf\u00edcie, parecido com um peda\u00e7o de madeira negra.<\/p>\n<p>Quando Ib o apanhou, percebeu que ele era de metal.<\/p>\n<p>0 local em que o arado batera brilhava estranhamente. Havia um pesado e grande bracelete de ouro da \u00e9poca pag\u00e3.<\/p>\n<p>Ib acabava de descobrir os ornamentos preciosos de um t\u00famulo antigo. Mostrou sua descoberta ao padre, o qual avaliou-a num grande pre\u00e7o. Ent\u00e3o ele se dirigiu ao conselheiro do distrito, que o enviou a Copenhague e deu a Ib o conselho de que levasse ele mesmo o precioso achado.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea encontrou na terra o que havia de melhor &#8211; disse o conselheiro.<\/p>\n<p>?De melhor!?, pensou 1b. ?0 que havia de melhor para mim e dentro da terra! Ent\u00e3o a cigana tinha raz\u00e3o, se isso \u00e9 o melhor.?<\/p>\n<p>Partiu para a capital com o barco postal. Para ele, que nunca sa\u00edra de Gudenaa, era como se fosse uma viagem para al\u00e9m do Oceano. E chegou a Copenhague.<\/p>\n<p>Pagaram-lhe o pre\u00e7o do ouro encontrado. Era uma grande quantia. A seguir, Ib, que viera das florestas do povoado de Seis, resolveu passear pelas ruas de Copenhague.<\/p>\n<p>Exatamente na noite em que ele ia partir para Aarhus, Ib perdeu-se, tomou uma dire\u00e7\u00e3o totalmente oposta \u00e0quela que desejava, e, passando pela ponte de Roudino, chegou at\u00e9 o porto de Christian, ao lado da porta do Oeste. Tomara nota da dire\u00e7\u00e3o do Oeste, mas enganara-se bastante. N\u00e3o havia viva alma nas ruas.<\/p>\n<p>Finalmente, uma menina saiu de uma casa miser\u00e1vel. Ele perguntou-lhe o caminho.<\/p>\n<p>A pequena sobressaltou-se, fitou-o e as l\u00e1grimas vieram- lhe aos olhos. Ent\u00e3o ele quis saber o que a crian \u00e7a tinha. E ela lhe disse algo que ele n\u00e3o entendeu.<\/p>\n<p>Mas assim que se encontraram sob uma l\u00e2mpada e que a luz bateu no rosto da menina, Ib ficou emocionad\u00edssimo, pois pareceu-lhe estar na frente da pequena Cristina, em carne e osso, aquela de quem ele se lembrava da \u00e9poca em que eram crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Seguiu a menina at\u00e9 a pobre morada, subiu por uma escada estreita e chegou a uma pequena mansarda situada imediatamente sob o teto. Um ar pesado enchia o ambiente, que n\u00e3o era iluminado por nenhuma claridade.<\/p>\n<p>Ouviu uns suspiros e uma respira\u00e7\u00e3o penosa que vinha de um canto. Acendeu um f\u00f3sforo. Era a m\u00e3e da crian\u00e7a que jazia num catre.<\/p>\n<p>&#8211; Posso ajud\u00e1-la em alguma coisa? &#8211; perguntou Ib. &#8211; Encontrei a menina na rua, mas eu mesmo sou estranho na cidade. A senhora n\u00e3o tem uma vizinha ou algu\u00e9m a quem eu possa chamar? Dizendo essas palavras, ele levantou-lhe a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Era a Cristina da terra de Seis.<\/p>\n<p>Havia anos que seu nome n\u00e3o era pronunciado na Jutl\u00e2ndia. A tranq\u00fcilidade de Ib fora totalmente perturbada; os rumores que corriam a respeito dela n\u00e3o eram nada bons. A fortuna que seu marido herdara dos pais tornara-o orgulhoso e leviano. Abandonara a sua situa\u00e7\u00e3o est\u00e1vel e viajara durante seis meses no estrangeiro.<\/p>\n<p>Depois voltara e contraria muitas d\u00edvidas. A situa\u00e7\u00e3o foi indo de mal a pior. Todos os seus alegres comensais declararam que isso era justo, pois ele agira verdadeiramente como louco. E certa manh\u00e3, seu cad\u00e1- ver foi encontrado no fosso do castelo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s sua morte, Cristina s\u00f3 contava consigo mesma. Seu filho mais novo, nascido ainda no tempo da abund \u00e2ncia, n\u00e3o sobrevivera e j\u00e1 estava no t\u00famulo.<\/p>\n<p>E agora Cristina estava no ponto de, agonizante, abandonar- se num quarto miser\u00e1vel, t\u00e3o miser\u00e1vel, que ela, acostumada ao luxo, n\u00e3o conseguia mais suportar. Era a sua filha mais velha, igualmente uma pequena Cristina, que sofria fome como ela e acabava de levar-lhe Ib.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho medo de que em breve a morte me separe de minha pobre filha &#8211; suspirou ela.<\/p>\n<p>&#8211; Que vai ser da menina?<\/p>\n<p>N\u00e3o p\u00f4de dizer mais nada.<\/p>\n<p>Ib acendeu outro f\u00f3sforo e encontrou um peda\u00e7o de vela para iluminar o aposento.<\/p>\n<p>Olhava para a menina e lembrava-se de Cristina na idade dela. Ele podia, pelo amor de Cristina, fazer um bem \u00e0quela crian\u00e7a que lhe era estranha. A moribunda o fitou. Seus olhos se tornaram cada vez maiores.<\/p>\n<p>T\u00ea-lo-ia reconhecido? Ningu\u00e9m podia saber. Ele n\u00e3o a ouviu dizer mais nada.<\/p>\n<p>Estava-se na floresta de Gudenaa, perto da terra de Seis. 0 ar estava cinzento e as flores murchas. 0 vento oeste soprava, espalhando as folhas secas pelo ch\u00e3o; a grande casa estava agora habitada por estranhos.<\/p>\n<p>Mas ao p\u00e9 da colina, \u00e0 sombra das altas \u00e1rvores, a casa pequena estava clara e alegre. Na sala, com o fogo aceso na lareira, havia o sol que brilhava em dois olhos de crian\u00e7a. A vida sorria na morada onde a pequena Cristina fizera a sua entrada.<\/p>\n<p>Estava sentada nos joelhos de Ib. Este fazia o papel de pai e de m\u00e3e, todos dois desaparecidos, como se tudo fosse um sonho, para a crian\u00e7a e para o adulto. Em sua casa, limpa e confort\u00e1vel, Ib estava \u00e0 vontade. A m\u00e3e da menina repousava no cemit\u00e9rio dos pobres, em Copenhague, a cidade real.<\/p>\n<p>Ib tinha dinheiro &#8211; diziam todos &#8211; o ouro encontrado na terra, e tinha tamb\u00e9m a pequena Cristina.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"ads-baixo\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PERTO de Gudenaa, ao lado da floresta de Silkerborg, se eleva, parecido com uma grande vaga, um cume arredondado chamado Aasen, sob o qual, hoje ainda, se encontra uma pequena casa de camponeses, rodeada por algumas terras de lavoura. Entre as planta\u00e7\u00f5es de centeio e cevada espalhadas, brilha a areia. 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