{"id":91542,"date":"2016-12-29T10:18:53","date_gmt":"2016-12-29T12:18:53","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91542"},"modified":"2016-12-29T10:18:53","modified_gmt":"2016-12-29T12:18:53","slug":"baltasar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/baltasar","title":{"rendered":"Baltasar"},"content":{"rendered":"<p>I<br \/>\nNesse tempo, Baltasar, que os gregos chamaram Sarraceno, reinava na Eti\u00f3pia. Negro, mas belo de rosto, era de esp\u00edrito simples e de cora\u00e7\u00e3o generoso. Durante o terceiro ano de seu reinado, que era o vig\u00e9simo segundo de sua idade, saiu para visitar Balkis, rainha de Sab\u00e7. Acompanhavam-no o mago Sembobitis e o eunuco Menkera. Seguiam-no setenta e cinco camelos, carregados de cinamomo, mirra, ouro em p\u00f3 e dentes de elefante. No decorrer da caminhada, Sembobitis ensinava-lhe n\u00e3o s\u00f3 a influ\u00eancia dos planetas como tamb\u00e9m as virtudes das pedras e Menkera cantava-lhe can\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas; mas ele n\u00e3o os ouvia e distra\u00eda-se a olhar os pequenos chacais sentados, de orelhas em p\u00e9, contra o horizonte de areia.<\/p>\n<p>Enfim, ap\u00f3s doze dias de viagem, Baltasar e seus companheiros sentiram um perfume de rosas, e, dentro em pouco, avistaram os jardins que contornavam a cidade de Sab\u00e1. Nesse lugar, iam encontrar mo\u00e7oilas que dan\u00e7avam debaixo de romeiras em flor.<\/p>\n<p>\u2013 A dan\u00e7a \u00e9 uma prece, disse o mago Sembobitis.<\/p>\n<p>\u2013 Vender-se-iam por elevado pre\u00e7o essas mulheres, disse o eunuco Menkera.<\/p>\n<p>Assim que entraram na cidade, maravilharam-se da grandeza das lojas, dos galp\u00f4es e dep\u00f3sitos que diante deles se estendiam e, ainda, da quantidade de mercadorias que neles se acumulavam. Caminharam muito tempo pelas ruas cheias de carretas e carregadores, de asnos e almocreves, e depararam, quando menos esperavam, com as muralhas de m\u00e1rmore, os pavilh\u00f4es de p\u00farpura, as c\u00fapulas de ouro do pal\u00e1cio de Balkis. Recebeu-os a rainha de Sab\u00e1 num p\u00e1tio refrescado por chafarizes de \u00e1gua perfumada que se desmanchava em p\u00e9rolas com l\u00edmpido murm\u00fario. De p\u00e9, vestindo uma t\u00fanica de pedrarias, ela sorria.<\/p>\n<p>Assim que a viu, Baltasar foi tomado de grande perturba\u00e7\u00e3o. Parecia-lhe ela mais doce que o sonho e mais bela que o desejo.<\/p>\n<p>\u2013 Senhor, disse-lhe baixinho Sembobitis, cuidai de ajustar com a rainha um bom tratado de com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>\u2013 Acautelai-vos, senhor, acrescentou Menkera. Dizem que ela emprega a magia para se fazer amada pelos homens.<\/p>\n<p>Em seguida, depois de se prosternarem, o mago e o eunuco retiraram-se.<\/p>\n<p>Ao ficar a s\u00f3s com Balkis, Baltasar tentou falar, abriu a boca, mas n\u00e3o pode dizer uma \u00fanica palavra. Pensou ent\u00e3o consigo mesmo: A rainha ir\u00e1 aborrecer-se com o meu sil\u00eancio.<\/p>\n<p>No entanto, ela estava a sorrir e n\u00e3o tinha ar de enfado. Foi a primeira a falar, e disse com voz mais suave que a mais suave m\u00fasica:<\/p>\n<p>\u2013 Sede bem-vindo e assentai-vos junto de mim.<\/p>\n<p>E com o dedo, que a um raio de luz clara se assemelhava, indicou-lhe os coxins de p\u00farpura espalhados pelo ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Exalando profundo suspiro Baltasar acomodou-se e, agarrando uma almofada em cada m\u00e3o, exclamou de repente:<\/p>\n<p>\u2013 Senhora, quisera que estes dois coxins fossem dois gigantes, inimigos vossos, para que eu lhes torcesse o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>E, assim dizendo, cerrava t\u00e3o fortemente as almofadas nas m\u00e3os, que o estofo se rompeu, deixando sair uma nuvem de pequeninas plumas brancas. Uma delas voltejou por momento no ar e depois foi pousar no colo da rainha.<\/p>\n<p>\u2013 Senhor Baltasar, disse Balkis corando, por que desejais matar gigantes?<\/p>\n<p>\u2013 Porque vos amo, respondeu Baltasar.<\/p>\n<p>\u2013 Dizei-me, indagou Balkis, se em vossa capital \u00e9 boa a \u00e1gua das cisternas?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, respondeu surpreso Baltasar.<\/p>\n<p>\u2013 Tamb\u00e9m tenho curiosidade de saber, prosseguiu Balkis, como se fabricam os doces secos na Eti\u00f3pia.<\/p>\n<p>O rei n\u00e3o sabia o que responder. Ela insistiu:<\/p>\n<p>\u2013 Dizei, dizei, que me agradareis.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, fazendo grande esfor\u00e7o de mem\u00f3ria, ele descreveu os processos dos cozinheiros eti\u00f3picos, que confei\u00e7oam marmelos com mel. Ela por\u00e9m n\u00e3o o ouvia.<\/p>\n<p>De repente interrompeu-o:<\/p>\n<p>\u2013 Senhor, dizem que amais a rainha Candace, vossa vizinha. N\u00e3o me enganeis: ela \u00e9 mais bela do que eu?<\/p>\n<p>\u2013 Mais bela, senhora, exclamou Baltasar caindo a seus p\u00e9s, ser\u00e1 poss\u00edvel?\u2026<\/p>\n<p>A rainha prosseguiu:<\/p>\n<p>\u2013 Sim! seus olhos? sua boca? sua tez? seu colo? . .<br \/>\n.<br \/>\nBaltasar estendeu os bra\u00e7os para ela e suplicou:<\/p>\n<p>\u2013 Deixai-me remover a plumazinha que em vosso colo pousou e dar-vos-ei a metade de meu reino mais o s\u00e1bio Sembobitis e o eunuco Menkera.<\/p>\n<p>Ela por\u00e9m ergueu-se e afastou-se rindo sonoramente.<\/p>\n<p>Quando o mago e o eunuco retornaram, encontraram o seu senhor em inusitada atitude pensativa.<\/p>\n<p>\u2013 Senhor, n\u00e3o haveis conclu\u00eddo um bom tratado comercial? inquiriu Sembobitis.<\/p>\n<p>Nesse dia, Baltasar ceou com a rainha de Sab\u00e1 e bebeu vinho de palmeira. Enquanto ceiavam, Balkis tornou a perguntar-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, \u00e9 verdade? A rainha Candace n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bela quanto eu?<\/p>\n<p>\u2013 A rainha Candace \u00e9 negra, replicou Baltasar.<\/p>\n<p>Balkis encarou vivamente Baltasar e comentou:<\/p>\n<p>\u2013 Pode-se ser negro sem ser feio.<\/p>\n<p>\u2013 Balkis! exclamou o rei.<\/p>\n<p>Mais nada pode acrescentar. Tomando-a nos bra\u00e7os, inclinara sob os seus l\u00e1bios a fronte .da rainha. Mas viu que ela chorava. Falou-lhe ent\u00e3o em surdina, com voz carinhosa e um pouco cantante, tal como fazem as amas, e chamou-a sua pequena flor e sua pequena estrela.<\/p>\n<p>\u2013 Por que chorais? perguntou ele. E que \u00e9 preciso fazer para que n\u00e3o choreis mais? Se tendes algum desejo dizei-me, para que eu possa realiz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o chorava mais, por\u00e9m ficou absorta. Durante muito tempo, Baltasar instou para que ela lhe confiasse o seu desejo.<\/p>\n<p>Enfim ela acedeu:<\/p>\n<p>\u2013 Eu quisera ter medo.<\/p>\n<p>Como Baltasar parecesse n\u00e3o ter compreendido, explicou-lhe que h\u00e1 muito sentia necessidade de correr algum perigo desconhecido, coisa que n\u00e3o lhe era poss\u00edvel, pois os guardas e os deuses sabeus velavam por ela.<\/p>\n<p>\u2013 Contudo, acrescentou suspirando, quisera sentir durante a noite o delicioso frio do pavor penetrar em minha carne. Quisera sentir arrepiarem-se-me os cabelos. Oh! seria t\u00e3o bom ter medo!<\/p>\n<p>E, enla\u00e7ando os bra\u00e7os ao pesco\u00e7o do rei negro, disse-lhe com a voz de uma crian\u00e7a que suplica:<\/p>\n<p>\u2013 Eis que j\u00e1 chegou a noite. Partamos disfar\u00e7ados para a cidade. Quereis?<\/p>\n<p>Ele assentiu. Correu Balkis ent\u00e3o \u2021 janela e pela r\u00f3tula olhou a pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p>\u2013 Um mendigo, disse ela, est\u00e1 deitado junto ao muro do pal\u00e1cio. Dai-lhe as vossas roupas e pedi-lhe em troca o seu turbante de p\u00ealo de camelo e o pano grosseiro que lhe cinge os rins. Apressai-vos, que me vou aprontar.<\/p>\n<p>E saiu correndo da sala do banquete a bater palmas para melhor manifestar a sua alegria. Baltasar tirou sua t\u00fanica de linho, bordada de ouro, e cingiu-se com o saiote do mendigo. Tinha assim a apar\u00eancia de um verdadeiro escravo. A rainha reapareceu dali a pouco, vestindo a saia azul sem costura das mulheres que trabalham nos campos.<\/p>\n<p>\u2013 Vamos! disse ela.<\/p>\n<p>E guiou Baltasar por estreitos corredores at\u00e9 uma pequena porta que se abria para a campina.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Escura era a noite e, dentro da noite, Balkis parecia mais pequena ainda. Conduziu ela Baltasar a uma tasca onde brutamontes e carregadores da cidade se reuniam com prostitutas. Nesse lugar, assentados a uma mesa, viam, a luz de infecta l\u00e2mpada, em atmosfera espessa, homenzarr\u00f4es mal cheirosos que trocavam murros e facadas por uma barreg\u00e3 ou por um caneco de bebida fermentada, enquanto outros roncavam, de punhos fechados, debaixo das mesas. O taverneiro, recostado sobre uns sacos, observava prudentemente, com o canto dos olhos, as rixas dos beberr\u00f4es. Avistando uns peixes salgados que pendiam das traves do teto, Balkis declarou ao companheiro:<\/p>\n<p>\u2013 Bem que eu gostaria de comer um desses peixes com cebola esmagada.<\/p>\n<p>Baltasar ordenou que a servissem. Quando ela acabou de comer, o rei percebeu que n\u00e3o havia trazido dinheiro. Mas isto n\u00e3o lhe causou nenhuma inquieta\u00e7\u00e3o por supor que poderiam sair sem pagar a despesa. O taverneiro barrou-lhes por\u00e9m o caminho, chamando-lhes vil\u00e3o, escravo e s\u00f3rdida vagabunda. Com um soco Baltasar estendeu-o por terra. V\u00e1rios bebedores atiraram-se de faca em punho contra os dois desconhecidos. Mas o negro, munindo-se de um enorme pil\u00e3o, que era usado para amassar cebolas do Egito, desancou dois dos agressores e obrigou os outros a recuarem. Ao mesmo tempo, sentia o calor do corpo de Balkis enroscado no dele, e por isso era invenc\u00edvel. Os amigos do bodegueiro, n\u00e3o mais ousando se aproximar, atiraram contra Baltasar, do fundo da espelunca, jarras de \u00f3leo, canecos de estanho, tochas acesas e at\u00e9 o enorme caldeir\u00e3o de bronze onde se cozinhava um carneiro de uma s\u00f3 vez. O panel\u00e3o atingiu com horr\u00edvel estrondo a fronte de Baltasar e lhe fez um enorme corte na cabe\u00e7a. Por momentos ele ficou aturdido, mas em seguida, recuperando as for\u00e7as, arremessou de volta o marmit\u00e3o, por\u00e9m com tamanho vigor que o seu peso foi decuplicado. Ao choque do bronze misturaram-se uivos inauditos e estertores de morte. Aproveitando-se do p\u00e2nico dos sobreviventes e temendo que Balkis pudesse ser ferida, tomou-a nos bra\u00e7os e com ela fugiu pelas ruelas sombrias e desertas. O sil\u00eancio da noite envolvia a terra, e os fugitivos ouviam decrescer atr\u00e1s deles o clamor dos bebedores e do femea\u00e7o, que os perseguiam ao acaso na escurid\u00e3o. Logo nada mais ouviam a n\u00e3o ser o fraco ru\u00eddo das gotas de sangue que ca\u00edam, uma a uma, da testa de Baltasar sobre o colo de Balkis.<\/p>\n<p>\u2013 Amo-te! murmurava a rainha.<\/p>\n<p>E a lua, irrompendo de uma nuvem, permitiu ao rei ver um clar\u00e3o \u00famido e nevoento nos olhos entre cerrados de Balkis. Desceram ambos ao leito ressequido de uma corrente. De repente, o p\u00e9 de Baltasar escorregou nos musgos e os dois ca\u00edram abra\u00e7ados. Pareceu-lhes que se haviam afundado num delicioso abismo sem fim e o mundo dos vivos deixou de existir para eles.<\/p>\n<p>Gozavam ainda do fascinante esquecimento do tempo, do n\u00famero e do espa\u00e7o, quando, \u00e1 aurora, as gazelas vieram beber no c\u00f4ncavo das pedras. Nesse momento, uns salteadores que passavam viram os dois amantes deitados no musgo.<\/p>\n<p>\u2013 S\u00e3o pobres, disseram, mas n\u00f3s os venderemos por bom pre\u00e7o, pois s\u00e3o jovens e belos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o se aproximaram do casal, amarraram os dois e, atando-os \u00e0 cauda de um asno,<br \/>\nprosseguiram seu caminho. O negro, acorrentado, proferia contra os bandidos amea\u00e7as de morte. Mas Balkis, tiritando ao ar frio da manh\u00e3, parecia sorrir a algo de invis\u00edvel.Caminharam por desolados desertos at\u00e9 que se acentuou o calor do dia. J\u00e1 ia alto o sol quando os fac\u00ednoras desamarraram os prisioneiros e, fazendo-os assentarem-se ao p\u00e9 deles, \u00e0 sombra de um rochedo, jogaram-lhes um peda\u00e7o de p\u00e3o bolorento, que Baltasar desdenhou de apanhar, mas que Balkis comeu avidamente.<\/p>\n<p>Ela ria. O chefe dos salteadores perguntou-lhe por que ria:<\/p>\n<p>\u2013 Rio-me, respondeu-lhe ela, por pensar que vos mandarei enforcar a todos.<\/p>\n<p>\u2013 De verdade! zombou o chefe dos assaltantes. Eis um estranho intento na boca de uma lavadeira de escudelas como tu, minha querida! Sem d\u00favida \u00e9 com a ajuda de teu galante negro que nos far\u00e1s enforcar?<\/p>\n<p>Ouvindo t\u00e3o ultrajantes palavras, Baltasar foi tomado de grande furor. Atirou-se sobre o bandido e apertou-lhe t\u00e3o fortemente a garganta que quase o estrangulou. Mas este enterrou-lhe at\u00e9 o cabo uma faca no ventre. O pobre rei, rolando por terra, volveu a Balkis um olhar de moribundo, que se extinguiu quase no mesmo instante.<\/p>\n<p>III<br \/>\nNesse instante, ouviu-se grande estr\u00e9pito de homens, cavalos e armas, e Balkis reconheceu o bravo Abner que, \u00e0 frente de sua guarda, vinha livrar a rainha, de cuja misteriosa desapari\u00e7\u00e3o desde a v\u00e9spera tivera conhecimento.<\/p>\n<p>Depois de prosternar-se tr\u00eas vezes aos p\u00e9s de Balkis, .mandou avan\u00e7ar uma liteira de antem\u00e3o preparada para receb\u00ea-la. Enquanto isso, os guardas amarravam as m\u00e3os dos assaltantes. Voltando-se para o chefe deles, disse-lhe com suavidade a rainha:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o me censurar\u00e1s, amigo, de te haver feito v\u00e3 promessa quando garanti que serias enforcado.<\/p>\n<p>O mago Sembobitis e o eunuco Menkera, que ladeavam Abner, puseram-se aos gritos mal viram o seu pr\u00edncipe estendido no ch\u00e3o, im\u00f3vel, com uma faca enterrada no ventre. Soergueram-no com precau\u00e7\u00e3o. Sembobitis, que excercia na arte da medicina, viu que ele ainda respirava. Fez-lhe um r\u00e1pido curativo, enquanto Menkera enxugava a baba que escorria da boca do rei. Amarraram-no, em seguida, sobre um cavalo e conduziram-no vagarosamente at\u00e9 o pal\u00e1cio da rainha.<\/p>\n<p>Durante quinze dias Baltasar esteve subjugado por violento del\u00edrio. Falava sem cessar no panel\u00e3o fumegante, no musgo do c\u00f3rrego e chamava aos gritos por Balkis. Finalmente, no d\u00e9cimo sexto dia, abrindo os olhos, viu \u00e0 sua cabeceira Sembobitis e Menkera, mas n\u00e3o avistou a rainha.<\/p>\n<p>\u2013 Onde est\u00e1 ela? Que faz ela?<\/p>\n<p>\u2013 Senhor, respondeu-lhe Menkera, ela est\u00e1 encerrada com o rei de Comagena.<\/p>\n<p>\u2013 Combinam, sem d\u00favida, trocas de mercadorias, ajuntou o s\u00e1bio Sembobitis. Mas n\u00e3o vos perturbeis dessa forma, senhor, porque vossa febre recome\u00e7ar\u00e1.<\/p>\n<p>\u2013 Quero v\u00ea-la! exclamou Baltasar.<\/p>\n<p>E atirou-se em dire\u00e7\u00e3o do apartamento da rainha sem que o anci\u00e3o ou o eunuco pudessem ret\u00ea-lo. Ao chegar diante da alcova, dela viu sair o rei de Comagena todo coberto de ouro e brilhante como um sol.<\/p>\n<p>Balkis, reclinada sobre leito de p\u00farpura, sorria, de olhos fechados.<\/p>\n<p>\u2013 Minha Balkis, minha Balkis! solu\u00e7ou Baltasar.<\/p>\n<p>Ela por\u00e9m nem voltou a cabe\u00e7a e parecia prolongar um sonho.<\/p>\n<p>Baltasar, aproximando-se, tomou-lhe uma das m\u00e3os que ela retirou bruscamente.<\/p>\n<p>\u2013 Que quereis de mim? perguntou a mulher.<\/p>\n<p>\u2013 Sois v\u00f3s que perguntais! respondeu o rei negro desfazendo-se em l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Balkis volveu-lhe uns olhos tranq\u00fcilos e duros, e Baltasar compreendeu que ela de tudo esquecera. Recordou-lhe ent\u00e3o, a noite da torrente.<\/p>\n<p>\u2013 Na verdade, n\u00e3o sei que pretendeis dizer, senhor. N\u00e3o vos fez bem o vinho de palmeira! Estivestes sonhando por certo.<\/p>\n<p>\u2013 Como! exclamou o infeliz pr\u00edncipe torcendo os bra\u00e7os, teus beijos e a facada de que guardo o sinal, s\u00e3o por acaso sonhos! . . .<\/p>\n<p>Ela se levantou. As pedrarias de sua veste produziram ru\u00eddo semelhante \u00e0 saraiva e expediram cintila\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2013 Senhor, disse ela, esta \u00e9 a hora em que se re\u00fane o meu conselho. N\u00e3o disponho de tempo para esclarecer os sonhos de vosso c\u00e9rebro enfermo. Ide repousar. Adeus!<\/p>\n<p>Baltasar, sentindo-se desfalecer, esfor\u00e7ou-se por n\u00e3o mostrar sua fraqueza \u00e0 perversa mulher, e correu para sua c\u00e2mara, onde tombou desmaiado, com a ferida reaberta.<\/p>\n<p>Tr\u00eas semanas permaneceu insens\u00edvel e feito morto, mas, sentindo-se reanimado no vig\u00e9simo segundo dia, segurou a m\u00e3o de Sembobitis, que o velava em companhia de Menkera, e protestou solu\u00e7ando:<\/p>\n<p>\u2013 Oh! meus amigos, quanto sois felizes, um por ser velho e outro por aos velhos assemelhar-se! . . . Mas n\u00e3o! N\u00e3o h\u00e1 felicidade no mundo, nele tudo \u00e9 mau, pois que o amor \u00e9 um mal e Balkis \u00e9 m\u00e1.<\/p>\n<p>\u2013 A sabedoria restitui a felicidade, respondeu Sembobitis.<\/p>\n<p>\u2013 Gostaria de experimentar, disse Baltasar. Mas partamos imediatamente para a Eti\u00f3pia.<\/p>\n<p>Como perdera o que amava, resolveu consagrar-se \u00e0 sabedoria e vir a ser um mago. Se esta resolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe dava prazer, trar-lhe-ia, ao menos, um pouco de calma. Toda a noite, sentado no terra\u00e7o de seu pal\u00e1cio, em companhia do mago Sembobitis e do eunuco Menkera, contemplava ele as palmeiras im\u00f3veis no horizonte, ou atentava, \u00e0 luz da lua, para os crocodilos que, como troncos de \u00e1rvores, flutuavam sobre o Nilo.<\/p>\n<p>\u2013 Nunca se cansa de admirar a natureza, dizia Sembobitis.<\/p>\n<p>\u2013 Sem d\u00favida, respondia Baltasar. Mas h\u00e1 na natureza coisas mais belas que as palmeiras e os crocodilos.<\/p>\n<p>E assim falava porque se lembrava de Balkis.<\/p>\n<p>Sembobitis, que era velho, retomava:<\/p>\n<p>\u2013 H\u00e1 o fen\u00f4meno das enchentes do Nilo que \u00e9 admir\u00e1vel e que j\u00e1 expliquei. O homem \u00e9 feito para compreender.<\/p>\n<p>\u2013 Ele \u00e9 feito para amar, retrucava Baltasar suspirando. H\u00e1 coisas que n\u00e3o se explicam.<\/p>\n<p>\u2013 Quais? perguntava Sembobitis.<\/p>\n<p>\u2013 A trai\u00e7\u00e3o de uma mulher, respondia o rei.<\/p>\n<p>Contudo, estando Baltasar resolvido a ser um mago, mandou construir uma torre do alto da qual se descortinavam diversos reinos e toda a extens\u00e3o do c\u00e9u. Era de tijolos e elevava-se acima das demais torres. Levou dois anos a ser constru\u00edda e nela despendeu Baltasar todo o tesouro do rei seu pai. Toda noite subia ele ao topo dessa torre, e, l\u00e1, observava o c\u00e9u sob a dire\u00e7\u00e3o de Sembobitis.<\/p>\n<p>\u2013 As figuras do c\u00e9u s\u00e3o os signos de nossos destinos, dizia-lhe Sembobitis.<\/p>\n<p>Ao que o rei replicava:<\/p>\n<p>\u2013 \u2026 preciso admitir que esses signos s\u00e3o obscuros. Mas, enquanto eu os estudo, n\u00e3o penso em Balkis, o que \u00e9 um grande bem.<\/p>\n<p>O mago ensinava-lhe, entre outras verdades de \u00fatil conhecimento, que as estrelas s\u00e3o fixas como pregos na ab\u00f3bada celeste e que h\u00e1 cinco planetas, a saber: Bel, Merodach e Nebo, que s\u00e3o machos, e Sin e M\u00edlita que s\u00e3o f\u00eameas.<\/p>\n<p>\u2013 A prata, dizia-lhe ele ainda, corresponde a Sin, que \u00e9 a lua, o ferro a Merodach, o estanho a Bel.<\/p>\n<p>E o bom Baltasar dizia:<\/p>\n<p>\u2013 Eis a\u00ed conhecimentos que desejo adquirir. Enquanto estudo a astronomia, n\u00e3o penso nem em Balkis nem no que quer que seja deste mundo. As ci\u00eancias s\u00e3o ben\u00e9ficas: elas impedem os homens de pensar. Sembobitis, ensina-me os conhecimentos que destroem nos homens a paix\u00e3o e eu te cumularei de honrarias entre o meu povo.<\/p>\n<p>Eis por que Sembobitis ensinou a sabedoria ao rei. Com ele Baltasar aprendeu apotelesm\u00e1tica, segundo os princ\u00edpios de Astrampsicos, de Gobrias e de Pazatas. Baltasar, \u00e0 medida que observava as doze casas do sol, pensava menos em Balkis. Menkera, que disso se apercebeu, demonstrou grande alegria:<\/p>\n<p>\u2013 Confessai, senhor, disse-lhe um dia, que a rainha Balkis ocultava debaixo das vestes de ouro p\u00e9s fendidos como s\u00e3o os das cabras\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Quem te contou semelhante tolice? perguntou o rei.<\/p>\n<p>\u2013 \u2026 a cren\u00e7a p\u00fablica, senhor, tanto em Sab\u00e1 quanto na Eti\u00f3pia, respondeu o eunuco. Todos por a\u00ed afirmam que a rainha Balkis tem a perna cabeluda e o p\u00e9 feito de dois chifres pretos.<\/p>\n<p>Baltasar deu de ombros. Sabia que as pernas e os p\u00e9s de Balkis eram feitos como os p\u00e9s e as pernas de outras mulheres e perfeitamente belos. No entanto, essa id\u00e9ia prejudicou-lhe a lembran\u00e7a daquela que tanto amara. Pareceu-lhe afrontoso que a beleza de Balkis n\u00e3o estivesse isenta de ofensas na imagina\u00e7\u00e3o dos que a ignoravam. A id\u00e9ia de que possu\u00edra uma mulher, na verdade bela, mas que passava por monstruosa, provocou verdadeiro mal-estar e n\u00e3o desejou mais rever Balkis. De alma simples era Baltasar, mas o amor \u00e9 sempre um sentimento assaz complicado. A contar desse dia, o rei fez grandes progressos em magia e em astrologia. Era extremamente atento \u00e0s conjun\u00e7\u00f5es dos astros e tirava os hor\u00f3scopos com tanta exatid\u00e3o quanto o pr\u00f3prio s\u00e1bio Sembobitis.<\/p>\n<p>\u2013 Sembobitis, dizia-lhe, tu respondes com a cabe\u00e7a pelo acerto dos meus hor\u00f3scopos?<\/p>\n<p>E o s\u00e1bio Sembobitis respondia-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 Senhor, a ci\u00eancia \u00e9 infal\u00edvel, mas os s\u00e1bios sempre se enganam.<\/p>\n<p>Baltasar tinha um belo talento natural, e afirmava:<\/p>\n<p>\u2013 Nada existe de mais verdadeiro do que o que \u00e9 divino, mas o divino nos \u00e9 oculto. Procuramos em v\u00e3o a verdade. Contudo, eis que descobri uma estrela nova no c\u00e9u. \u2026 bela, parece vivente e, quando cintila, dir-se-ia um olho celeste que pisca com do\u00e7ura. Feliz, feliz, feliz, quem nascer sob essa estrela! Sembobitis, v\u00ea que olhar nos lan\u00e7a esse astro encantador e magn\u00edfico.<\/p>\n<p>Mas Sembobitis n\u00e3o viu a estrela, porque n\u00e3o a queria ver. S\u00e1bio e velho, n\u00e3o gostava de novidades.<\/p>\n<p>E Baltasar repetia sozinho no sil\u00eancio da noite:<\/p>\n<p>\u2013 Feliz, feliz, feliz, quem nascer sob essa estrela!<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Ora, por toda a Eti\u00f3pia e pelos reinos vizinhos propagou-se o rumor de que o rei Baltasar n\u00e3o mais amava Balkis.<\/p>\n<p>Quando a not\u00edcia atingiu o pa\u00eds dos sabeus, Balkis indignou-se como se tivesse sido tra\u00edda. Correu para o rei de Comagena, que na cidade de Sab\u00e1 esquecia o seu imp\u00e9rio, e exclamou:<\/p>\n<p>\u2013 Sabeis, amigo, do que acabo de ter conhecimento?<\/p>\n<p>Baltasar n\u00e3o mais me ama.<\/p>\n<p>\u2013 Que importa! respondeu sorrindo o rei de Comagena, se n\u00f3s nos amamos.<\/p>\n<p>\u2013 Mas n\u00e3o sentis, ent\u00e3o, a afronta que esse negro me faz?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, respondeu o rei de Comagena, n\u00e3o a sinto.<\/p>\n<p>Balkis despediu-o ignominiosamente e ordenou ao seu gr\u00e3o-vizir tudo preparar para uma viagem \u00e0 Eti\u00f3pia.<\/p>\n<p>\u2013 Partiremos esta noite mesmo, disse ela. Se antes do p\u00d9r-do-sol, n\u00e3o estiver tudo preparado, mando cortar-te a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois, quando se viu sozinha, p\u00f4s-se a solu\u00e7ar:<\/p>\n<p>\u2013 Amo-o! Ele n\u00e3o mais me ama e eu o amo! suspirava com toda a sinceridade de seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, certa noite em que estava no topo da torre, a observar a estrela miraculosa, Baltasar, descendo o olhar para a terra, viu uma longa fileira negra, que serpenteava ao longe, sobre a areia do deserto, como um ex\u00e9rcito de formigas. Pouco a pouco, o que lhe parecera formigas avultou e tornou-se assaz n\u00edtido para que o rei verificasse que eram cavalos, camelos e elefantes.<\/p>\n<p>Aproximando-se da cidade a caravana, Baltasar distinguiu as cimitarras resplandecentes e os cavalos negros dos guardas da rainha de Sab\u00e1. E, reconhecendo a pr\u00f3pria rainha, sentiu-se fortemente perturbado. Percebeu que ia am\u00e1-la outra vez. A<br \/>\nestrela brilhava no z\u00eanite com esplendor maravilhoso. Embaixo, Balkis, reclinada numa liteira de p\u00farpura e ouro, era pequena e brilhante como a estrela.<\/p>\n<p>Baltasar sentiu-se atra\u00eddo para ela por uma for\u00e7a violenta. Todavia, num esfor\u00e7o desesperado, voltou a cabe\u00e7a e, levantando os olhos, reviu a estrela. Ent\u00e3o a estrela assim falou<br \/>\n\u2013 Gl\u00f3ria a Deus nos c\u00e9us e paz na terra aos homens de boa vontade. Apanha uma medida de mirra, bom rei Baltasar, e segue-me. Eu te conduzirei aos p\u00e9s do menino que acaba de nascer num est\u00e1bulo, entre o asno e o boi. Esse menino \u00e9 o rei dos reis. Ele consolar\u00e1 os que querem ser consolados. Ele te chama, Baltasar, a ti cuja alma \u00e9 t\u00e3o sombria quanto o rosto, mas cujo cora\u00e7\u00e3o \u00e9 simples como o de uma crian\u00e7a. Ele te escolheu porque sofreste, e ele te dar\u00e1 a riqueza, a alegria e o amor. Ele te dir\u00e1: s\u00ea pobre com j\u00fabilo, essa \u00e9 a verdadeira riqueza. Ele te dir\u00e1 ainda: a verdadeira alegria est\u00e1 na ren\u00fancia \u00e0 alegria. Ama-me e n\u00e3o ames as criaturas sen\u00e3o em mim, porque somente eu sou o amor.\u00ee<\/p>\n<p>A estas palavras, uma paz divina difundiu-se como uma luz sobre o semblante sombrio do rei. Baltasar, arrebatado, escutava a estrela. E sentia que estava se tornando um novo homem. Sembobitis e Menkera, prosternados, as frontes tocando a pedra, tamb\u00e9m a adoravam. A rainha Balkis observava Baltasar e compreendeu que jamais haveria amor para ela naquele cora\u00e7\u00e3o transbordante do amor divino. Empalideceu de<br \/>\ndespeito e deu ordem \u00e0 caravana de regressar imediatamente \u00e0s terras de Sab\u00e1.<\/p>\n<p>Quando a estrela cessou de falar, o rei e seus dois companheiros desceram da torre. Em seguida, preparada a medida de mirra, organizaram uma caravana e sa\u00edram para onde os conduzia a estrela. Viajaram longo tempo por desconhecidas terras, sendo que a estrela marchava adiante deles.<\/p>\n<p>Um dia, achando-se num lugar onde tr\u00eas caminhos se encontravam, viram eles dois reis que avan\u00e7avam com numeroso s\u00e9quito. Um era jovem e branco de rosto. Saudou Baltasar e disse-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 Chamo-me Gaspar, sou rei e vou levar ouro como presente ao menino que acaba de nascer em Bel\u00e9m de Jud\u00e1.<\/p>\n<p>O segundo rei adiantou-se por sua vez. Era um velho cuja barba branca lhe cobria o peito.<\/p>\n<p>\u2013 Chamo-me Melchior, disse ele, sou rei e vou levar incenso \u00e0 divina crian\u00e7a que vem ensinar a verdade aos homens.<\/p>\n<p>\u2013 Sigo o mesmo caminho de v\u00f3s, respondeu Baltasar; venci minha lux\u00faria, e por isso a estrela me falou.<\/p>\n<p>\u2013 Eu venci meu orgulho, disse Melchior, e por isso fui chamado.<\/p>\n<p>\u2013 Eu venci minha crueldade, disse Gaspar, e por isso vou convosco.<\/p>\n<p>E os tr\u00eas reis magos prosseguiram juntos a viagem. A estrela, que eles tinham visto no<br \/>\nOriente, precedeu-os sempre at\u00e9 que se deteve ao chegar sobre o lugar onde estava o menino.<\/p>\n<p>Ora, vendo parar a estrela, eles se alegraram profundamente. E, entrando no est\u00e1bulo, encontraram o menino com Maria, sua m\u00e3e, e, prosternando-se, adoraram-no. E, abrindo seus tesouros, ofertaram-lhe ouro, incenso e mirra, tal como est\u00e1 dito no Evangelho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I Nesse tempo, Baltasar, que os gregos chamaram Sarraceno, reinava na Eti\u00f3pia. Negro, mas belo de rosto, era de esp\u00edrito simples e de cora\u00e7\u00e3o generoso. Durante o terceiro ano de seu reinado, que era o vig\u00e9simo segundo de sua idade, saiu para visitar Balkis, rainha de Sab\u00e7. Acompanhavam-no o mago Sembobitis e o eunuco Menkera. 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