{"id":91513,"date":"2016-12-29T10:07:01","date_gmt":"2016-12-29T12:07:01","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91513"},"modified":"2016-12-29T10:07:01","modified_gmt":"2016-12-29T12:07:01","slug":"a-sombra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/literatura-infantil\/a-sombra","title":{"rendered":"A Sombra"},"content":{"rendered":"<p>Nos pa\u00edses quentes, o sol possui um outro ardor que o nosso n\u00e3o tem. As pessoas tornam-se acajus. Nas regi\u00f5es mais quentes ainda, chegam a ser negras.<\/p>\n<p>Mas foi justamente para um desses pa\u00edses c\u00e1lidos que um s\u00e1bio de nossos pa\u00edses frios resolveu ir. Imaginava que poderia circular por ali como em nossa p\u00e1tria; mas logo se desiludiu.<\/p>\n<p>Assim como todas as pessoas razo\u00e1veis, ele era for- \u00e7ado a ficar em casa, com as venezianas e as portas fechadas durante o dia inteiro. Dir-se-ia que todos dormiam na casa, ou que esta n\u00e3o era habitada. Al\u00e9m do mais, a rua onde ele morava ficava situada de tal maneira, que desde manh\u00e3 o sol batia na casa toda.<\/p>\n<p>Era verdadeiramente insuport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Este s\u00e1bio dos Pa\u00edses frios era um homem jovem e inteligente. Parecia-lhe estar sobre um fogo em brasa.<\/p>\n<p>Como sofria. Emagrecia ao extremo, mesmo sua sombra diminu\u00eda. Estava bem menor do que em sua p\u00e1tria. Estava ficando assim por causa do sol. S\u00f3 se animava \u00e0 noite, quando o sol desaparecia.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o era um prazer v\u00ea-lo e \u00e0 sua sombra. Assim que ele levava a luz para o apartamento, a sombra se alongava na parede at\u00e9 o teto. Crescia e se estendia a fim de refazer ao for\u00e7as.<\/p>\n<p>0 s\u00e1bio ia para a varanda e assim que as estrelas luziam no c\u00e9u claro, ele era inundado de uma vida nova. Em todas as varandas rua &#8211; e nos pa\u00edses quentes quase todas janelas possuem a sua varanda &#8211; as pessoas se mostravam. Pois \u00e9 preciso tomar ar, mesmo quando se est\u00e1 acostumado a ser acaju.<\/p>\n<p>A vida se manifestava em todas as formas. Muitas pessoas andavam pelas ruas; levavam para fora as mesas e cadeiras; havia luzes por todos os lados. Conversavam e cantavam; havia uma multid\u00e3o de transeuntes e de carros. Cavalos e mulas passavam tilintando, pois possu\u00edam campainhas.<\/p>\n<p>Enterravam seus mortos em meio aos c\u00e2nticos; as crian\u00e7as faziam barulho; os sinos das igrejas tocavam. Havia vida e movimento nas ruas. Somente a casa que ficava em frente \u00e0 do s\u00e1bio estrangeiro permanecia silenciosa.<\/p>\n<p>No entanto, ali devia habitar algu\u00e9m; pois na varanda havia flores que aproveitavam esplendidamente o calor do sol, o que n\u00e3o seria poss\u00edvel se n\u00e3o fossem, regadas, o que queria dizer que algu\u00e9m as regava.<\/p>\n<p>For\u00e7osamente morava algu\u00e9m naquela casa. Al\u00e9m do mais, a porta se abria tamb\u00e9m \u00e0 noite; mas o interior era sombrio, pelo menos no primeiro aposento, pois ouvia-se m\u00fasica vinda do fundo. Esta parecia ao s\u00e1bio incomparavelmente bela.<\/p>\n<p>Talvez fosse fruto da sua imagina\u00e7\u00e3o: ele acharia tudo maravilhoso nos pa\u00edses c\u00e1lidos, se o sol n\u00e3o fosse t\u00e3o forte. 0 senhorio do estrangeiro dizia n\u00e3o saber quem alugara a casa em frente: jamais se via algu\u00e9m. Quanto \u00e0 m\u00fasica, na sua opini\u00e3o, era muito enfadonha; achava que uma criatura exercitava uma pe\u00e7a muito dif\u00edcil para ela, e, j\u00e1 que n\u00e3o conseguia toc\u00e1-la satisfatoriamente, tornava a recome\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8211; Acabar\u00e1 conseguindo, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida.<\/p>\n<p>Mas por mais que tocasse, n\u00e3o o conseguia.<\/p>\n<p>Certa noite o estrangeiro acordou. Ele dormia perto da porta aberta da varanda, da qual pendia uma cortina que balan\u00e7ava ao vento. Pareceu-lhe que da varanda em frente vinha uma luz extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>No meio das flores que brilhavam com as cores mais magn\u00edficas, encontrava-se uma jovem am\u00e1vel e bonita. Parecia at\u00e9 que ela tamb\u00e9m brilhava. Ele ficou completamente cego; l\u00e1 n\u00e3o havia . nada de extraor din\u00e1rio; ele abrira demais os olhos e acabava de sair do sono. De um salto, Z ele abriu a cortina. Mas a mo\u00e7a desaparecera e, com ela, toda a luminosidade.<\/p>\n<p>As flores n\u00e3o &#8211; . brilhavam mais e s\u00f3 tinham a sua beleza costumeira.<\/p>\n<p>A porta estava encostada. E do fundo do apartamento vinha uma m\u00fasica agrad\u00e1vel, suave, pr\u00f3pria para despertar os mais doces pensamentos. Era um verdadeiro encantamento. Quem moraria ali? E onde ficava a entrada? No r\u00e9s-do-ch\u00e3o as ?boutiques? se seguiam e era imposs\u00edvel passar por ali constantemente.<\/p>\n<p>Certa noite, o estrangeiro estava tamb\u00e9m na sua varanda. Atr\u00e1s dele, em seu quarto, a luz estava acesa.<\/p>\n<p>E assim, era natural que sua sombra se desenhasse na parede em frente. Sim, ela estava l\u00e1, na varanda, no meio das flores, e de cada vez que o estrangeiro fazia um movimento, a sombra fazia outro correspondente.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que minha sombra \u00e9 tudo o que possa existir de vivo l\u00e1 dentro &#8211; disse o s\u00e1bio. &#8211; Como \u00e9 ela graciosa assim no meio das flores! A porta n\u00e3o est\u00e1 sen\u00e3o encostada. Ela poderia ser bem sabida para entrar, examinar o que h\u00e1 no interior, e, ao voltar, contar-me o que viu. Sim, sim &#8211; disse ele brincando. &#8211; Voc\u00ea bem podia prestar-me esse servi\u00e7o. Fa\u00e7a o favor de entrar.<\/p>\n<p>Vamos, voc\u00ea n\u00e3o quer ir?<\/p>\n<p>Debru\u00e7ou-se sobre a sua sombra que lhe respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1! mas n\u00e3o fique muito tempo.<\/p>\n<p>0 estrangeiro levantou-se. Na sua frente, na varanda, sua sombra levantou-se tamb\u00e9m. Ele virou-se e a sombra fez o mesmo. E se algu\u00e9m prestasse aten\u00e7\u00e3o, veria a sombra passar pela porta entreaberta da varanda da frente, justamente no momento em que o estrangeiro penetrava em seu quarto, deixando cair a cortina atr\u00e1s dele. Na manh\u00e3 seguinte, o s\u00e1bio saiu a fim de tomar caf\u00e9 e comprar os jornais. &#8211;<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isso? &#8211; gritou ele assim que ficou sob o sol. &#8211; Eis que eu n\u00e3o tenho mais sombra! Ent\u00e3o ela partiu ontem \u00e0 noite e n\u00e3o mais voltou. Isso \u00e9 muito estranho!<\/p>\n<p>N\u00e3o era tanto a perda da sombra que lhe trazia tanto mau humor. Mas na terra dele, nos pa\u00edses frios, todos conheciam a est\u00f3ria do homem que perdera a sombra.<\/p>\n<p>Atualmente, se ele voltasse ao seu pa\u00eds e contasse sua aventura, iriam cham\u00e1-lo de plagi\u00e1rio. E isso o contrariava. Eis por que resolveu n\u00e3o dizer nada, o que era muito sensato.<\/p>\n<p>A noite ele voltou \u00e0 sua varanda; colocara a luz bem atr\u00e1s de si, sabendo que a sombra exige que seu dono esteja entre ela e a luz. Mas n\u00e3o conseguiu faz\u00ea-la voltar. Abaixou-se e levantou-se. N\u00e3o possu\u00eda mais sombra, n\u00e3o apareceu nenhuma.<\/p>\n<p>&#8211; Hum! hum! &#8211; fez ele. 0 que n\u00e3o adiantou de nada.<\/p>\n<p>Era verdadeiramente enfadonho. Felizmente tudo pas sa depressa; no fim de oito dias, ele se deu conta, para grande alegria, que, assim que chegava ao sol, uma nova sombra come\u00e7ava a estender-se aos seus p\u00e9s. Tr\u00eas semanas mais tarde, ele j\u00e1 possu\u00eda uma sombra bem razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>E quando voltou para o seu pais, em dire\u00e7\u00e3o ao Norte, ela crescia \u00e0 medida que ele viajava, crescendo tanto, que dentro em breve alcan\u00e7ou a metade do seu tamanho. 0 s\u00e1bio voltou para casa e escreveu sobre o belo, a verdade e o bem no mundo. Passaram-se anos. Um longo tempo se passou.<\/p>\n<p>Uma noite em que estava sentado em seu apartamento, bateram ligeiramente na porta.<\/p>\n<p>&#8211; Entre &#8211; disse ele.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o entrou ningu\u00e9m. Ent\u00e3o ele mesmo foi abrir.<\/p>\n<p>Na sua frente estava um ente magro ao extremo, que lhe causou uma estranha impress\u00e3o, mas que, ao examin\u00e1-lo, o s\u00e1bio viu que estava elegantemente vestido. Devia ser alguma pessoa de bem.<\/p>\n<p>&#8211; A quem tenho a honra de falar? perguntou o s\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! bem que eu duvidava que voc\u00ea n\u00e3o me reconheceria &#8211; disse o homem elegante. &#8211; Tornei-me muito material.<\/p>\n<p>Ganhei carne e ossos. E, sem d\u00favida n\u00e3o pensava em me ver em t\u00e3o bom estado. N\u00e3o reconhece a sua ve lha sombra? Certamente n\u00e3o esperava que eu voltasse.<\/p>\n<p>Tive uma sorte extraordin\u00e1ria, depois que o deixei.<\/p>\n<p>Consegui meios sob todos os pontos-de-vista. E tive a possibilidade de me livrar da minha servid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo fez soar uma quantidade de berloques preciosos que pendiam de seu rel\u00f3gio e passou a m\u00e3o por uma corrente de ouro maci\u00e7o que trazia ao pesco\u00e7o. Em todos os seus dedos diamantes lan\u00e7avam chispas. E nenhuma dessas j\u00f3ias era falsa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o posso acreditar! &#8211; disse o s\u00e1bio. &#8211; Como \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 muito comum, realmente disse a sombra. &#8211; Mas voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma pessoa comum, e eu, sabe-o muito bem, segui-o desde a inf\u00e2ncia. Assim que me julgou bastante amadurecido para deixar-me s\u00f3 no mundo, segui a minha pr\u00f3pria vida. Encontrome numa situa\u00e7\u00e3o das mais brilhantes. Mas uma esp \u00e9cie de nostalgia tomou conta de mim e a vontade de v\u00ea-lo mais uma vez antes da sua morte, pois voc\u00ea &#8211; \u00e9 claro &#8211; vai morrer um dia. Al\u00e9m do mais, queria rever este pa\u00eds; sempre se ama a pr\u00f3pria p\u00e1tria. Sei que arranjou uma outra sombra. Tenho algo a pagarlhe, ou a ela? Pe\u00e7o-lhe o favor de dizer-me.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! Ent\u00e3o \u00e9 voc\u00ea mesmo! &#8211; disse o s\u00e1bio. &#8211; E? maravilhoso. Nunca pensei que poderia ver novamente a minha velha sombra sob uma forma humana.<\/p>\n<p>&#8211; Diga-me o quanto tenho de pagar disse a sombra.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o gosto de ter d\u00edvidas.<\/p>\n<p>&#8211; Como pode falar dessa maneira &#8211; disse o s\u00e1bio. &#8211; N\u00e3o se trata de d\u00edvida. Use a sua liberdade como todo mundo faz. Estou muito contente com a sua felicidade.<\/p>\n<p>Sente-se, meu velho amigo. e conte-me tudo o que lhe aconteceu e o que voc\u00ea viu nos pa\u00edses quentes na casa do meu vizinho da frente.<\/p>\n<p>&#8211; Contarei tudo &#8211; disse a sombra sentando-se &#8211; mas prometa-me em troca que n\u00e3o dir\u00e1 a ningu\u00e9m aqui, nesta cidade onde ter\u00e1 v\u00e1rias ocasi\u00f5es de encontrarme, que eu fui sua sombra. Estou pretendendo ficar noivo. Possuo o suficiente para manter uma fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8211; Pode ficar tranq\u00fcilo &#8211; disse o s\u00e1bio. &#8211; N\u00e3o contarei a ningu\u00e9m quem voc\u00ea \u00e9 na realidade. Prometo. Um verdadeiro homem s\u00f3 tem uma palavra.<\/p>\n<p>&#8211; Um verdadeiro homem s\u00f3 tem uma palavra &#8211; repetiu a sombra que era obrigada a se exprimir assim.<\/p>\n<p>Era realmente espantoso constatar como ele se tornara um homem perfeito. Seu traje negro era do tecido mais fino; usava botinas de verniz e um chap\u00e9u ?claque? elegante, sem falar nos berloques que j\u00e1 conhecemos, da corrente de ouro e dos an\u00e9is. Sim, a sombra estava impecavelmente trajada e \u00e9 justamente isso que faz um homem.<\/p>\n<p>&#8211; Voou contar-lhe &#8211; disse a sombra pousando o mais forte que p\u00f4de o p\u00e9 cal\u00e7ado de verniz sobre a nova sombra do s\u00e1bio, que jazia \u00e0 sua frente como um travesseiro, fosse por orgulho ou por querer descansar.<\/p>\n<p>A nova sombra, por\u00e9m, quedou-se tranq\u00fcila: sem d\u00favida queria saber tamb\u00e9m como poderia livrar-se de seu amo.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe quem morava na casa nossa vizinha? &#8211; perguntou a sombra. &#8211; 0 que h\u00e1 de mais belo; a poesia.<\/p>\n<p>Fiquei l\u00e1 tr\u00eas semanas, as quais aproveitei como se tivesse vivido tr\u00eas mil anos, lendo todos os poemas e todas as obras dos s\u00e1bios. Estou dizendo a verdade. Li tudo e aprendi tudo.<\/p>\n<p>&#8211; A poesia! &#8211; exclamou o s\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim, ela vive solit\u00e1ria nas grandes cidades. A poesia vi-a um breve instante, mas dormia ainda. Ela estava na varanda, entrou pela porta e depois &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Depois eu fui at\u00e9 a antec\u00e2mara prosseguiu a sombra.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o havia luz; reinava uma esp\u00e9cie de penumbra.<\/p>\n<p>Os aposentos numerosos estavam dispostos em fila e pelas portas abertas podia-se v\u00ea-los com um s\u00f3 olhar. Estavam t\u00e3o claros como em pleno dia e a viol \u00eancia desse mar de luz certamente me teria matado, se eu me aproximasse da jovem. Mas fui prudente e soube o que fazer.<\/p>\n<p>&#8211; Que viu a seguir? &#8211; perguntou o s\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Eu tudo vi. Vi tudo e sei de tudo!<\/p>\n<p>&#8211; Como eram os aposentos l\u00e1 dentro? interrogou o s\u00e1bio. &#8211; Eram como na fresca floresta? Como uma santa igreja? As salas eram como um c\u00e9u de estrelas, como quando se est\u00e1 nas altas montanhas?<\/p>\n<p>&#8211; Tudo estava l\u00e1 &#8211; disse a sombra. N\u00e3o entrei totalmente; permaneci na primeira pe\u00e7a, na penumbra, mas encontrava-me perfeitamente bem. Sei tudo e vi tudo. Eu estava na corte da poesia, na sua antec\u00e2mara.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que foi que viu? Os deuses da antig\u00fcidade estavam nas grandes salas? Os antigos her\u00f3is e os combatentes? Crian\u00e7as am\u00e1veis brincavam e narravam seus sonhos?<\/p>\n<p>&#8211; Vou contar-lhe e voc\u00ea vai compreender o que eu vi e o que havia para ver. Passando pelo outro lado, passaria pelos limites da humanidade. Eduquei-me, aprendi a conhecer a minha pr\u00f3pria natureza e minhas rela- \u00e7\u00f5es com a poesia. Outorga, quando estava ao seu lado, eu n\u00e3o raciocinava. Desde que o sol nascia e se punha, eu me tornava bastante grande.<\/p>\n<p>Ao luar eu ficava do seu tamanho. Naquele tempo eu n\u00e3o conhecia a minha pr\u00f3pria natureza; s\u00f3 percebi a sua ess\u00eancia na antec\u00e2mara da poesia: tornei-me um homem. Somente, como ser humano, envergonhavame de sair como estava: faltavam-me roupas, sapatos, todo o verniz que d\u00e1 significa\u00e7\u00e3o \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>Procurei um abrigo, e &#8211; posso confessar-lhe, pois que voc\u00ea n\u00e3o vai dizer a ningu\u00e9m &#8211; encontrei-o nas vestes de uma cozinheira. A honesta mulher nunca soube da prote\u00e7\u00e3o que me deu. Parti naquela mesma noite. E corri para c\u00e1 e para l\u00e1, na rua, sob o luar. Encostava me nas paredes. Corri da direita para a esquerda, olhei pelas mais altas janelas dos apartamentos e sobre os tetos. Lancei um olhar at\u00e9 onde ningu\u00e9m pode faz\u00ea-lo e onde ningu\u00e9m me poderia ver. Afinal, o mundo \u00e9 mau.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostaria de ser homem, se n\u00e3o fosse admitido comumente que ser homem significa algo. Eu vi, em casa de homens e mulheres, nas casas de pais de crian\u00e7as doces e ang\u00e9licas, as coisas mais incr\u00edveis.<\/p>\n<p>Eu vi, disse a sombra, o que ningu\u00e9m deveria saber, mas que todo mundo precisava conhecer, a maldade de seus vizinhos.<\/p>\n<p>0 que eu teria de leitores se possu\u00edsse um jornal! Mas eu escrevi da mesma forma \u00e0s pessoas interessadas.<\/p>\n<p>0 terror tomou conta de toda as cidades onde eu chegava.<\/p>\n<p>Como me temiam, comportavam-se corretamente para comigo. Os professores me elevaram \u00e0 sua condi \u00e7\u00e3o, os alfaiates deram-me roupas novas, de maneira que pude andar bem vestido.<\/p>\n<p>Deram-me tamb\u00e9m dinheiro e as mulheres diziam que eu era lindo. Foi assim que me transformei no que sou hoje. Agora vou dizer-lhe adeus. Aqui est\u00e1 o meu cart \u00e3o. Moro do lado do sol, e, quando chove, fico sempre em casa.<\/p>\n<p>Depois disso, a sombra se foi.<\/p>\n<p>&#8211; Eis uma coisa not\u00e1vel &#8211; disse o s\u00e1bio.<\/p>\n<p>Passaram-se alguns anos e a sombra voltou inopinadamente.<\/p>\n<p>&#8211; Como v\u00e3o as coisas?<\/p>\n<p>&#8211; Ora! &#8211; respondeu o s\u00e1bio &#8211; escrevi sobre a bondade, a verdade e a beleza; mas para isso s\u00f3 existe gente surda. Estou desesperado, pois isso me entristece muito.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca me entriste\u00e7o &#8211; respondeu a sombra. &#8211; E? por isso que engordo, o que deve ser a finalidade de todo indiv\u00edduo razo\u00e1vel. Voc\u00ea continua a n\u00e3o entender o mundo. Acabar\u00e1 ficando doente. E? preciso viajar. Vou fazer uma viagem neste ver\u00e3o. Quer me acompanhar? Eu gostaria muito de t\u00ea-lo comigo. Pagarei a viagem.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea vai muito longe? &#8211; inquiriu o s\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Isso depende &#8211; disse a sombra.<\/p>\n<p>Uma viagem vai restabelecer-lhe as for\u00e7as. Se vier como minha sombra, farei todos os gastos. &#8211; E? uma loucura &#8211; disse o s\u00e1bio.<\/p>\n<p>&#8211; Assim \u00e9 o mundo &#8211; disse a sombra. E assim ficar\u00e1. a sombra partiu sem dizer mais nada.<\/p>\n<p>O s\u00e1bio n\u00e3o ia bem. Estava cheio de ansiedade e aborrecimento. 0 que ele dizia sobre a verdade, a beleza e o bem, era, para a maioria, o que s\u00e3o as p\u00e9rolas para os porcos. Finalmente caiu verdadeiramente doente.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem mesmo o ar de uma sombra &#8211; diziam-lhe os outros.<\/p>\n<p>E, a esse pensamento, o s\u00e1bio tremia.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea precisa mesmo viajar &#8211; disse a sombra quando foi visit\u00e1-lo. &#8211; N\u00e3o h\u00e1 outro meio. N\u00f3s somos velhos conhecidos, eu o levo. Pagarei a viagem. Voc\u00ea poder\u00e1 escrever mais tarde sobre a mesma e, ao mesmo tempo, ajudar-me-\u00e1 a n\u00e3o me aborrecer. Quero ir para uma esta\u00e7\u00e3o de \u00e1guas: minha barba n\u00e3o cresce como deve. Tamb\u00e9m \u00e9 uma doen\u00e7a, pois todos devem ter barba. Seja condescendente, aceite a minha proposta; viajaremos juntos.<\/p>\n<p>Partiram. Agora a sombra era o mestre e o mestre transformara-se em sombra. Viajaram juntos, de carro ou a cavalo, lado a lado, ou um atr\u00e1s do outro, de acordo com a posi\u00e7\u00e3o do sol. A sombra ficava sempre ao lado do seu mestre, sem que o s\u00e1bio dissesse nada. Tinha muito bom cora\u00e7\u00e3o, era doce e am\u00e1vel.<\/p>\n<p>Eis por que ele disse um dia \u00e0 sombra:<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 que agora n\u00f3s somos companheiros de viagem, e que, al\u00e9m do mais, estamos; ligados desde a inf\u00e2ncia, n\u00e3o poder\u00edamos beber \u00e0 nossa fraternidade? Nossa amizade ficar\u00e1 ainda mais s\u00f3lida.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea acaba de dar a sua opini\u00e3o &#8211; disse a sombra, que agora era o mestre. &#8211; Falou com a liberdade do cora\u00e7\u00e3o e eu farei o mesmo. j\u00e1 que \u00e9 s\u00e1bio, deve saber o quanto a natureza \u00e9 caprichosa. Muitas pessoas n\u00e3o podem ouvir barulho de papel, outras ficam nervosas quando se arranha um vidro com um alfine te. Eu ficava assim quando era obrigado a trat\u00e1-lo como senhor. Veja que n\u00e3o se trata de orgulho, mas de sensa\u00e7\u00e3o. Mas j\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o se incomoda, fa\u00e7o quest\u00e3o que, de agora em diante, me trate como senhor.<\/p>\n<p>E assim, o antigo mestre passou a ser tratado com servo. E o s\u00e1bio, quisesse ou n\u00e3o, tudo suportava.<\/p>\n<p>No entanto, os dois chegaram \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de \u00e1guas.<\/p>\n<p>Muitos estrangeiros descansavam no local, e, entre eles, havia a graciosa filha de um rei, cuja doen\u00e7a consistia em ter uma vista muito aguda, o que n\u00e3o deixa de ser uma coisa s\u00e9ria.<\/p>\n<p>E assim ela logo percebeu que o rec\u00e9m-chegado n\u00e3o era uma pessoa igual aos outros mortais.<\/p>\n<p>?Ele est\u00e1 aqui para fazer crescer a barba, \u00e9 o que dizem; mas eu vejo bem qual o verdadeiro motivo: ele n\u00e3o tem sombra.?<\/p>\n<p>Teve um grande desejo de conhec\u00ea-lo; assim que p\u00f4de iniciou conversa com o estrangeiro, durante um passeio. Sendo a filha de um rei, ela n\u00e3o precisava usar de muitas cerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>&#8211; Sua doen\u00e7a &#8211; disse ela &#8211; consiste em que o senhor n\u00e3o pode projetar uma sombra.<\/p>\n<p>&#8211; Vossa Alteza Real &#8211; replicou a sombra &#8211; est\u00e1 melhorando muito. 0 mal de que sofria, de ter a vista muito aguda, desapareceu. Est\u00e1 curada: eu possuo, pelo contr\u00e1rio, uma sombra extraordin\u00e1ria. N\u00e3o v\u00ea a pes soa que n\u00e3o deixa de me acompanhar? Os outros possuem uma sombra comum, mas eu n\u00e3o gosto do que \u00e9 comum. Da mesma forma que alguns fazem seus servos se vestirem melhor do que eles mesmos, eu transformei a minha sombra em homem. Como pode ver, eu cheguei a dar-lhe at\u00e9 uma sombra pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida \u00e9 uma fantasia dispendiosa, mas gosto de ter algo para mim s\u00f3.<\/p>\n<p>?Como??, pensou a princesa. ?Estarei verdadeiramente curada? Esta esta\u00e7\u00e3o de \u00e1guas \u00e9 certamente a mais proveitosa para o meu estado. A \u00e1gua deve ter virtudes milagrosas. Mas, de qualquer forma, n\u00e3o vou partir daqui, pois isto come\u00e7a a ficar interessante. Gosto muito deste estrangeiro. Contanto que a sua barba n\u00e3o cres\u00e7a! Sen\u00e3o ele iria embora imediatamente.?<\/p>\n<p>A noite, na grande sala de baile, a filha do rei dan\u00e7ou com a sombra. Por mais leve que ela fosse, ele o era ainda mais. jamais ela vira um tal bailarino. Contoulhe de onde vinha. E ele conhecia seu pa\u00eds; l\u00e1 estivera, mas ela n\u00e3o se encontrava em casa. Ele olhara por todas as janelas, altas e baixas e observara tudo.<\/p>\n<p>P\u00f4de assim responder \u00e0 filha do rei e dar-lhe indica- \u00e7\u00f5es que a deixaram estupefata. Devia ser o homem mais s\u00e1bio do mundo. Levou a sua sabedoria em grande considera\u00e7\u00e3o. E quando dan\u00e7aram uma segunda vez juntos, ela apaixonou-se perdidamente por ele, o que a sombra percebeu muito bem. Ao dan\u00e7ar novamente, ela esteve a ponto de confessar seu amor. Mas pensou um pouco em seu pa\u00eds, seu reino e em tudo aquilo que teria de governar um dia. ?Trata-se de um homem s\u00e1bio?, dizia ela para si mesma. ?Dan\u00e7a maravilhosa mente bem. Mas o importante \u00e9 saber se possui tamb \u00e9m conhecimentos fundamentais. Vou fazer-lhe um exame?. Ent\u00e3o ela come\u00e7ou a fazer-lhe as perguntas mais dif\u00edceis. Ela mesma n\u00e3o seria capaz de respond\u00ea- las. A sombra fez um gesto singular.<\/p>\n<p>&#8211; 0 senhor n\u00e3o poder\u00e1 responder dizia a filha do rei.<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu sei o que me pergunta desde os tempos da escola &#8211; respondeu a sombra. Chego at\u00e9 a pensar que minha sombra, que est\u00e1 encostada na porta, poder\u00e1 responder.<\/p>\n<p>&#8211; Sua sombra! &#8211; replicou a filha do rei. &#8211; Eis uma coisa que seria admir\u00e1vel!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o afirmo que ela o fa\u00e7a &#8211; continuou a sombra &#8211; mas acredito que sim. H\u00e1 tantos anos que me acompanha e me ouve. Mas Vossa Alteza Real me permite dizer-lhe que ela tem o orgulho de passar por um homem e que, se estiver de bom humor &#8211; e ela deve estar para poder responder convenientemente &#8211; \u00e9 preciso trat\u00e1-la como tal.<\/p>\n<p>&#8211; Gosto de um tal orgulho &#8211; disse a filha do rei.<\/p>\n<p>Foi reunir-se ao s\u00e1bio, na porta, e falou-lhe sobre o sol e a lua, sobre o homem exterior e interior. E ele respondeu bem e inteligentemente.<\/p>\n<p>?Como deve ser o homem que tem uma sombra t\u00e3o s\u00e1bia!?, pensava ela. ?Ser\u00e1 uma verdadeira b\u00ean\u00e7\u00e3o para meu povo e para o Estado se eu o tomar para marido. Vou faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>A filha do rei e a sombra acertaram tudo. Todavia, ningu\u00e9m devia saber de seus planos antes que ela entrasse em seu reino.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m, nem mesmo a minha sombra &#8211; disse a sombra. Estava pensando em algo.<\/p>\n<p>Logo eles se encontraram no pa\u00eds da filha do rei.<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7a, meu bom amigo &#8211; disse a sombra ao s\u00e1bio: &#8211; Atualmente eu me tornei mais feliz e poderoso do que qualquer outra pessoa no mundo; e vou fazer por voc\u00ea algo de excepcional. Morar\u00e1 constantemente comigo no castelo, viajar\u00e1 em minha carruagem real e ter\u00e1 um grande ordenado anual. Somente \u00e9 preciso que n\u00e3o diga a ningu\u00e9m que \u00e9 um homem; e, uma vez por ano, quando eu estiver sentado ao sol para que todos me vejam, voc\u00ea se deitar\u00e1 aos meus p\u00e9s, como conv \u00e9m a uma verdadeira sombra. Confio-lhe que vou me casar com a filha do rei; o casamento ser\u00e1 celebrado esta noite.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, isso \u00e9 uma loucura! &#8211; disse o s\u00e1bio. &#8211; N\u00e3o quero e n\u00e3o o farei. Seria enganar o pa\u00eds inteiro, e, sobretudo, a filha do rei. Vou contar tudo: que o homem sou eu e que voc\u00ea \u00e9 somente uma sombra que veste roupas de homem.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m vai acreditar &#8211; disse a sombra. &#8211; Tenha ju\u00edzo, sen\u00e3o chamarei os guardas!<\/p>\n<p>&#8211; Vou procurar a filha do rei &#8211; disse o s\u00e1bio partindo.<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m vou &#8211; gritou a sombra. E voc\u00ea ir\u00e1 para a pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu, pois os guardas lhe obedeceram, sabendo que a filha do rei o escolhera para marido.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 tremendo? &#8211; perguntou a filha do rei \u00e0 sombra que chegava. &#8211; Aconteceu alguma coisa? N\u00e3o deve ficar doente justamente na noite de nossas n\u00fapcias.<\/p>\n<p>&#8211; Aconteceu-me a coisa mais espantosa que se poderia conceber<\/p>\n<p>&#8211; disse a sombra. &#8211; Imagine s\u00f3 &#8211; \u00e9 verdade que um pobre c\u00e9rebro de uma sombra n\u00e3o pode ser muito s\u00f3lido &#8211; imagine: minha sombra enlouqueceu. Ela acha que sou eu e que eu sou a sua sombra!<\/p>\n<p>&#8211; E? incr\u00edvel! &#8211; disse a princesa. &#8211; Prenderam-na?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas tenho medo de que nunca mais recupere a raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre sombra! &#8211; replicou a princesa. &#8211; Deve ser muito infeliz.<\/p>\n<p>Seria uma boa a\u00e7\u00e3o, realmente, dispens\u00e1-la da sua vida de sombra. Quanto mais penso, mais me parece de bom alvitre desembara\u00e7armo-nos dela sem esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>&#8211; E? realmente penoso &#8211; disse a sombra. &#8211; Sempre foi um leal servidor.<\/p>\n<p>E suspirou.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem um car\u00e1ter nobre &#8211; disse a filha do rei.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, toda a cidade foi iluminada. 0 canh\u00e3o troou e os soldados apresentaram armas. Era a noite do casamento. A filha do rei e a sombra apareceram no balc\u00e3o para que fossem vistos e saudados mais uma vez pela multid\u00e3o.<\/p>\n<p>0 s\u00e1bio ficou ignorando toda essa solenidade: haviam- lhe tirado a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos pa\u00edses quentes, o sol possui um outro ardor que o nosso n\u00e3o tem. As pessoas tornam-se acajus. Nas regi\u00f5es mais quentes ainda, chegam a ser negras. Mas foi justamente para um desses pa\u00edses c\u00e1lidos que um s\u00e1bio de nossos pa\u00edses frios resolveu ir. 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