{"id":91273,"date":"2016-12-28T14:40:30","date_gmt":"2016-12-28T16:40:30","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91273"},"modified":"2022-03-01T17:35:23","modified_gmt":"2022-03-01T19:35:23","slug":"zumbi-dos-palmares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/historia\/historia-do-brasil\/zumbi-dos-palmares","title":{"rendered":"Zumbi dos Palmares"},"content":{"rendered":"<p><strong>Zumbi dos Palmares &#8211; Hist\u00f3ria do Brasil<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nascimento:\u00a0<\/strong>1655, Uni\u00e3o dos Palmares, Alagoas.<\/p>\n<p><strong>Morte:<\/strong>\u00a020 de novembro de 1695, Serra Dois Irm\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>Zumbi dos Palmares<\/strong>\u00a0nasceu livre na regi\u00e3o de Palmares do Brasil no ano de 1655, o \u00faltimo dos l\u00edderes militares da palavra Quilombo (kimbundo: \u201d Kilombo \u201c, da l\u00edngua do Norte Mbundu Bantu em Angola, que significa \u201cGuerreiros da Aldeia ou liquida\u00e7\u00e3o\u201d ) de Palmares.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Quilombo dos Palmares<\/strong>\u00a0era uma sociedade livre, uma antiga rep\u00fablica sul-americana, que inclu\u00eda o Estado costeiro brasileiro atual de Alagoas, Brasil.<\/p>\n<p>Hoje,\u00a0<strong>Zumbi<\/strong>\u00a0\u00e9 conhecido como um dos grandes l\u00edderes hist\u00f3ricos do Brasil.<\/p>\n<p><strong>Zumbi dos Palmares &#8211; Morte<\/strong><\/p>\n<p><strong>Zumbi dos Palmares<\/strong>, cuja morte, em 20 de novembro de 1695, motiva a celebra\u00e7\u00e3o, amanh\u00e3, em todo o pa\u00eds, do Dia da Consci\u00eancia Negra, foi um dos l\u00edderes do Quilombo dos Palmares, o mais conhecido n\u00facleo de resist\u00eancia negra \u00e0 escravid\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Segundo cronologia publicada na p\u00e1gina da Secretaria Especial de Pol\u00edticas de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial (Seppir), \u00f3rg\u00e3o ligado \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Palmares surgiu a partir da reuni\u00e3o de negros fugidos da escravid\u00e3o nos engenhos de a\u00e7\u00facar da Zona da Mata nordestina, em torno do ano de 1600.<\/p>\n<p>Eles se estabeleceram na Serra da Barriga, onde hoje \u00e9 o munic\u00edpio de Uni\u00e3o dos Palmares (AL). Ali, devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de dif\u00edcil acesso, puderam organizar-se em uma comunidade que, estima-se, chegou a reunir mais de 30 mil pessoas<\/p>\n<p>Muitos dos quilombolas eram \u00edndios e brancos pobres, como conta texto na p\u00e1gina da internet da Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco, outro \u00f3rg\u00e3o federal, com sede em Recife.<\/p>\n<p>Nabuco foi expoente do movimento abolicionista. \u201cA vida de Zumbi, o rei do Quilombo dos Palmares, \u00e9 pouco conhecida e envolta em mitos e discuss\u00f5es\u201d, alerta o texto \u2013 v\u00e1rios dos trechos abaixo, portanto, s\u00e3o objeto de pol\u00eamicas entre os historiadores.<\/p>\n<p>Ao longo do s\u00e9culo 17, Palmares resistiu a investidas militares dos portugueses e de holandeses \u2013 que dominaram parte do Nordeste de 1630 a 1654. Segundo o historiador Pedro Paulo Funari, no artigo \u201cA Rep\u00fablica de Palmares e a Arqueologia da Serra da Barriga\u201d, em 1644, um ataque holand\u00eas vitimou 100 pessoas e aprisionou 31, de um total de 6 mil que viviam no quilombo.<\/p>\n<p>Funari tamb\u00e9m afirma que o quilombo (termo derivado de l\u00edngua da regi\u00e3o de Angola) era chamado pelos portugueses de Rep\u00fablica dos Palmares, nos documentos da \u00e9poca, e termos como mocambo foram posteriormente utilizados no sentido pejorativo.<\/p>\n<p>O quilombo era composto por v\u00e1rias aldeias, de nomes africanos, como Aqualtene, Dombrabanga, Zumbi e Andalaquituche, ind\u00edgenas, como Subupira, ou Tabocas, e portugueses, como Amaro. A capital era Macacos, termo de origem incerta (pode ser portugu\u00eas ou corrutela do banto macoco).<\/p>\n<p><strong>Zumbi<\/strong>\u00a0nasceu livre, em Palmares, provavelmente em 1655, e, segundo historiadores, seria descendente do povo imbamgala ou jaga, de Angola. Ainda na inf\u00e2ncia, durante uma das tentativas de destrui\u00e7\u00e3o do quilombo, ele foi raptado por soldados portugueses e teria sido dado ao padre Antonio Melo, de Porto Calvo (hoje, em Alagoas), que o batizou de Francisco e ensinou-lhe portugu\u00eas e latim. Aos dez anos tornou-o seu coroinha.<\/p>\n<p>Com 15 anos, Francisco foge, retorna a Palmares e adota o nome de Zumbi \u2013 termo de significado incerto. O nome de Zumbi apareceu pela primeira vez em 1673, em relatos portugueses sobre a expedi\u00e7\u00e3o chefiada por J\u00e1come Bezerra, que foi desbaratada pelos quilombolas.<\/p>\n<p>Aos 20 anos, Zumbi destacou-se na luta contra os militares comandados pelo portugu\u00eas Manuel Lopes. Nesses combates, chegou a ser ferido com um tiro na perna.<\/p>\n<p>Em 1678, o governador de Pernambuco, Pedro de Almeida, prop\u00f5e a Palmares anistia e liberdade a todos os quilombolas. Segundo o historiador Edison Carneiro, autor do livro \u201cO Quilombo dos Palmares\u201d, ao longo dos quase 100 anos de resist\u00eancia dos palmarinos, foram in\u00fameras as ofertas como essa.<\/p>\n<p>Ganga Zumba (possivelmente um t\u00edtulo \u2013 nganga significa sacerdote, e nzumbi \u201cpossui conota\u00e7\u00f5es militares e religiosas\u201d, segundo Funari), ent\u00e3o l\u00edder de Palmares, concorda com a tr\u00e9gua, enquanto Zumbi \u00e9 contra, por argumentar que o acordo favoreceria a continuidade do regime de escravid\u00e3o praticado nos engenhos. Zumbi vence a disputa, \u00e9 aclamado l\u00edder pelos que discordavam do acordo e, aos 25 anos, torna-se l\u00edder do quilombo.<\/p>\n<p>Ao longo da vida, Zumbi teria tido pelo menos cinco filhos. Uma das vers\u00f5es diz que ele teria se casado com uma branca, chamada Maria. Ao longo de seu reinado, Zumbi passou a comandar a resist\u00eancia aos constantes ataques portugueses.<\/p>\n<p>Em 1692, o bandeirante paulista Domingo Jorge Velho, uma esp\u00e9cie de mercen\u00e1rio da \u00e9poca, comandou um ataque a Palmares e teve suas tropas arrasadas. O quilombo foi sitiado e s\u00f3 capitulou em 6 de fevereiro de 1694, quando os portugueses invadem o principal n\u00facleo de resist\u00eancia, a Aldeia do Macaco.<\/p>\n<p>Ferido,\u00a0<strong>Zumbi<\/strong>\u00a0foge. Baleado, ele teria ca\u00eddo de um desfiladeiro, o que deu origem \u00e0 hist\u00f3ria de que teira se suicidado para evitar a pris\u00e3o. Resistiu na mata por mais de um ano, atacando aldeias portuguesas. Em 20 de novembro do ano seguinte, depois de ser tra\u00eddo por um antigo companheiro, Antonio Soares, Zumbi \u00e9 localizado pelas tropas portuguesas.<\/p>\n<p>Preso,\u00a0<strong>Zumbi<\/strong>\u00a0\u00e9 morto, esquartejado, e sua cabe\u00e7a \u00e9 levada a Olinda para ser exposta publicamente.<\/p>\n<p>Entre outros objetivos, o de acabar com os boatos que corriam entre os negros escravizados do litoral de que o l\u00edder quilombola era imortal.<\/p>\n<p><strong>Zumbi dos Palmares \u2013 Vida<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-91277 size-full\" title=\"Zumbi dos Palmares\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/zumbi-dos-palmares-04.jpg\" alt=\"Zumbi dos Palmares\" width=\"270\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/zumbi-dos-palmares-04.jpg 270w, https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/zumbi-dos-palmares-04-231x300.jpg 231w\" sizes=\"(max-width: 270px) 100vw, 270px\" \/><\/strong><strong>Zumbi dos Palmares<\/strong><\/p>\n<p><strong>Zumbi\u00a0<\/strong>foi um escravo afro-brasileira e um dos mais famosos l\u00edderes dos Palmares.<\/p>\n<p><strong>Zumbi\u00a0<\/strong>foi o \u00faltimo dos l\u00edderes do Quilombo dos Palmares, no estado atual de Alagoas, Brasil.<\/p>\n<p>Criado pelo padre Ant\u00f4nio Melo, aos 15 anos foge para Palmares e adota o nome Zumbi, que significa guerreiro. Logo ascende ao comando militar do quilombo, governado ent\u00e3o por Ganga Zumba.<\/p>\n<p>Em 1678, renega um acordo com as autoridades coloniais e provoca uma guerra civil no quilombo. Manda envenenar Ganga Zumba e assume seu lugar. Lidera a resist\u00eancia contra os portugueses, que dura 14 anos.<\/p>\n<p>Com a destrui\u00e7\u00e3o de Palmares, em 1694, foge com outros sobreviventes e esconde-se na mata. \u00c9 morto numa emboscada. Seu corpo \u00e9 mutilado e a cabe\u00e7a \u00e9 enviada para o Recife, onde \u00e9 exposta em pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>O MITO DE PALMARES<\/strong><\/p>\n<p>Para o poder colonial, destruir Palmares era mais que uma necessidade imposta pelas regras do projeto colonial. Era uma quest\u00e3o de honra. Em 20 de novembro de 1695 era morto Zumbi, o Grande Chefe da \u201cprimeira rep\u00fablica verdadeiramente livre das Am\u00e9ricas\u201d.<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo 16, as terras pernambucanas eram as mais pr\u00f3speras das novas col\u00f4nias portuguesas. Fazia poucas d\u00e9cadas que os portugueses tinham pisado ali, mas a Capitania de Pernambuco j\u00e1 era politicamente relevante. Havia 66 grandes engenhos na regi\u00e3o e, no litoral, toda uma estrutura de suporte, criada para permitir o escoamento dos produtos.<\/p>\n<p>O trabalho fren\u00e9tico dos engenhos se refletia na cidade do Recife, cada dia mais estruturada e organizada. O mesmo n\u00e3o ocorria no sul do pa\u00eds, onde os poucos europeus ali chegados ainda lutavam para conquistar a terra e se instalar de forma definitiva. Eram desbravadores, fundamentalmente. Ali\u00e1s, sua fama de conquistadores tinha ultrapassado as fronteiras da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Em todo o pa\u00eds se dizia que os paulistas eram homens valentes e grandes lutadores. Cronistas escreviam que eles eram \u201ccriados entre as brenhas, como feras\u201d.Foi essa reputa\u00e7\u00e3o guerreira que, na segunda metade do s\u00e9culo 17, levou o governador de Pernambuco a procurar o bandeirante Domingos Jorge Velho, chefe de um bando paulista em a\u00e7\u00e3o no interior brasileiro. Queria resolver seu problema maior.<\/p>\n<p>Para ele, Palmares j\u00e1 estava deixando de ser preocupa\u00e7\u00e3o para virar verdadeiro pesadelo.<\/p>\n<p><strong>O SONHO DOS QUILOMBOS<\/strong><\/p>\n<p>Em Pernambuco falava-se, sobretudo, de Palmares. Ningu\u00e9m sabia certo onde ficava. Era l\u00e1 nas montanhas, na parte superior do rio S\u00e3o Francisco, mata fechada, inacess\u00edvel.<\/p>\n<p>Diziam que precisava dias e mais dias para se chegar at\u00e9 esse lugar. Mas ningu\u00e9m duvidava de que Palmares existisse de verdade. N\u00e3o eram s\u00f3 hist\u00f3rias. Palmares havia surgido no final do s\u00e9culo 16, quando os primeiros negros ali se refugiaram. Desde ent\u00e3o, o mito de Palmares n\u00e3o havia feito outra coisa sen\u00e3o crescer e crescer.<\/p>\n<p>Era a meta dos que buscavam liberdade, negros, \u00edndios e inclusive brancos. Havia lugar para todos. Em 1630, as autoridades pernambucanas calculavam que o quilombo de Palmares contava com uma popula\u00e7\u00e3o superior a 3 mil pessoas. Sabiam o que estavam dizendo.<\/p>\n<p>Apoiavam-se no n\u00famero de fugas escravas que diariamente deviam registrar. Independente do mito, o quilombo de Palmares representou uma estrutura alternativa \u00e0 sociedade colonial.<\/p>\n<p>Os negros viviam da agricultura. Uma agricultura, por sinal, mais avan\u00e7ada que a da col\u00f4nia. O mundo escravocrata s\u00f3 conhecia a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar. Em Palmares plantavam-se milho, mandioca, feij\u00e3o, cana, legumes, batatas, frutas. Palmares tinha leis que regulamentavam a vida das pessoas, algumas, inclusive, bastante r\u00edgidas. Roubo, adult\u00e9rio, deser\u00e7\u00e3o ou homic\u00eddio eram punidos com a morte. As fun\u00e7\u00f5es sociais estavam definidas.<\/p>\n<p>A autoridade era reconhecida por todos. As decis\u00f5es mais importantes eram tomadas em assembleias, da qual participavam todos os habitantes adultos. Mais do que isso. Palmares n\u00e3o era apenas uma cidade.<\/p>\n<p>Chegou a ser uma rede de cidades. Na metade do s\u00e9culo 17, contava onze povoados. Macaco, na Serra da Barriga, era a capital.<\/p>\n<p>Possu\u00eda 1.500 casas, dos dois lados de ruas espa\u00e7osas. Os artes\u00e3os trabalhavam em suas oficinas, enquanto outros plantavam e colhiam. As crian\u00e7as brincavam livres. Havia tamb\u00e9m igreja para as ora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>A popula\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Mais de 8 mil pessoas. Depois, havia Amaro \u2013 com 5 mil habitantes e uma estrutura igualmente bastante organizada -, Subupira \u2013 a 36 quil\u00f4metros de Macaco \u2013 e, ainda, Zumbi, Tabocas, Acotirene, Danbrapanga, Sabalang\u00e1, Andalaquituche\u2026<\/p>\n<p><strong>GRANDE CHEFE ZUMBI<\/strong><\/p>\n<p>Uma cr\u00f4nica de 1678 dava conta de que os palmarinos eram 20 mil. O governador ia mais longe. Dizia que, na realidade, eram mais de 30 mil. Uma multid\u00e3o de gente que, al\u00e9m de p\u00f4r em xeque o projeto colonial, amea\u00e7ava fisicamente a sociedade pernambucana.<\/p>\n<p>Era preciso esmagar Palmares, custasse o que custasse. A Coroa j\u00e1 tinha dado essa ordem em diferentes ocasi\u00f5es.\u00a0 Havia, ainda, a quest\u00e3o do mito, que incomodava mais que qualquer coisa. Nos engenhos e senzalas, Palmares era sin\u00f4nimo de Terra Prometida, e Zumbi, considerado imortal, era visto como seu guardi\u00e3o fiel e valente.<\/p>\n<p>Para destruir o quilombo, o poder colonial organizou dezesseis expedi\u00e7\u00f5es oficiais. Quinze fracassaram. As montanhas pareciam intranspon\u00edveis.<\/p>\n<p>E o que as montanhas n\u00e3o faziam ficava por conta dos negros e de suas estrat\u00e9gias militares.<\/p>\n<p>O ex\u00e9rcito de Palmares era competente, embora carente de armas e muni\u00e7\u00f5es. Tinha estabelecido seu quartel- general em Subupira, um povoado de oitocentas casas, todas elas cercadas de madeira, pedras e armadilhas. Chegar at\u00e9 Subupira era muito dif\u00edcil. Superar os obst\u00e1culos e entrar na fortaleza, quase imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>A tarefa de destruir Palmares foi confiada pelo governador de Pernambuco a Domingos Jorge Velho, um bandeirante paulista sem escr\u00fapulos, especialista na ca\u00e7a aos \u00edndios e l\u00edder de uma tropa de renegados.<\/p>\n<p>Um bispo da \u00e9poca deixou escrito que Jorge Velho era um dos maiores selvagens com quem ele tinha topado.<\/p>\n<p>Comandava um pequeno ex\u00e9rcito de 2 mil homens, armados de arcos, flechas e espingardas.<\/p>\n<p>Em 1695, se preparou para a a\u00e7\u00e3o decisiva. Depois de ultrapassar mil barreiras, chegou a Macaco, descarregando contra a comunidade todo o seu poder de fogo e toda a sua raiva. A cidade resistiu durante 22 dias.<\/p>\n<p><strong>Zumbi<\/strong>, depois de lutar bravamente, fugiu e se escondeu. P\u00f4de ser capturado e morto s\u00f3 depois de ter sido tra\u00eddo por companheiros.<\/p>\n<p><strong>A data:\u00a0<\/strong>20 de novembro de 1695. (J\u00f5ao Munari, p. 19)<\/p>\n<p><strong>Ataque aos Macacos<\/strong><\/p>\n<p>O Governador Caetano de Melo de Castro, armado de poderes extraordin\u00e1rio conforme o Alvar\u00e1 Real de 7 de Abril de 1693 para levar a guerra ao cora\u00e7\u00e3o dos Palmares, e cercado dos melhores combatentes da capitania, dentre eles o grande Bernardo Vieira de Melo em Dezembro de 1693 iniciou os preparativos em Porto Calvo com o apoio das melhores e mais abastadas fam\u00edlias de Olinda e de Recife, e em 16 de Janeiro de 1694 com o Mestre de Campo Domingos Jorge Velho no comando teve in\u00edcio a marcha das tropas para o Outeiro da Barriga e em 23 de Janeiro junto aos seus batedores Domingos Jorge Velho remeteu-se a um assalto contra posi\u00e7\u00f5es de negros.<\/p>\n<p>Da qual sofreu tremenda resist\u00eancia dos comandados do\u00a0<strong>Rei Zumbi<\/strong>\u00a0deus e senhor da guerra que aparecia em todos os \u00e2ngulos da fortifica\u00e7\u00e3o que era precedida pela parte de fora, em toda a sua extens\u00e3o de fossos, buracos, po\u00e7os de \u00e1gua, paus de ponta agu\u00e7adas e tran\u00e7ados, enfim toda a sorte de empecilhos para os avan\u00e7os inimigos que os palmerinos conseguiram arranjar na sua industria rudimentar, posta a servi\u00e7o da guerra, a estimular com sua presen\u00e7a os destemidos defensores.<\/p>\n<p>Fracassado o primeiro \u00edmpeto do ataque, Domingos Jorge Velho tomou a decis\u00e3o de dispor as suas tropas ao centro da fortaleza sob o comando de Bernardo Vieira de Melo; a esquerda da estrada ficando Sebasti\u00e3o Dias e a direita da estacada Domingos Jorge Velho se colocou com a sua gente, desta maneira formou-se um verdadeiro cerco a cidadela negra em cujo interior sem alarido homens e mulheres se dispuseram a defend\u00ea-la a todo transe, sendo que os primeiros avan\u00e7aram e alcan\u00e7aram a cerca galgaram-na por meio de escada e bail\u00e9us para ca\u00edrem nos tachos de \u00e1gua fervente colocadas pelos defensores do Rei Zumbi, encontraram mortes horr\u00edveis devido a ousadia de t\u00e3o temer\u00e1rio avan\u00e7o, os que se aproximaram foram repulsados pelas flechas e armas de fogo disparadas pelos palmerinos.<\/p>\n<p>Devido a resist\u00eancia encontrada as tropas atacantes esmoreceram por um instante e retrocederam para n\u00e3o serem dizimadas pelos negros vigilantes. Desta maneira o ataque geral empregado foi sem resultado, onde as tropas atacantes perderam muitos dos seus combatentes, por este motivo o Capit\u00e3o mor Bernardo Vieira de Melo diante da impossibilidade de um avan\u00e7o geral e temendo uma sortida dos negros sobre sua gente, resolveu com os seus homens fazer uma estacada frente a frente \u00e0 dos palmerinos em todo o seu setor e em pouco tempo a cerca do\u00a0<strong>Rei Zumbi<\/strong>\u00a0estava envolvida por uma contracerca dos portugueses.<\/p>\n<p>E no dia 29 de Janeiro efetuaram o segundo ataque geral contra os palmerinos que com a mesma energia e a mesma ferocidade, defenderam a cidadela, obrigando as tropas do bravo Capit\u00e3o mor Bernardo Vieira de Melo a recuar devido as sens\u00edveis perdas e na ala esquerda as tropas do Sargento mor tamb\u00e9m sofrera duros reveses, n\u00e3o sendo totalmente desbaratada por ter sido socorrida pelas tropas do centro comandadas pelo Mestre de Campo Domingos Jorge Velho, que recuou vencido, desta dantesca batalha, sendo perseguido pelos negros que ao cair da noite desistiram do intento.<\/p>\n<p>O Rei Zumbi recomp\u00f4s as suas legi\u00f5es e determinou que os velhos, mulheres, inv\u00e1lidos e as crian\u00e7as empregassem seus esfor\u00e7os na industria de guerra para defesa geral do mocambo, ap\u00f3s a refrega que sofrera o Mestre de Campo Domingos Jorge Velho determinou que a cerca de pau-a-pique fosse refor\u00e7ada para evitar uma sortida dos negros, trabalho este efetuado debaixo de fechadas e estrepes atirados pelos negros palmerinos furiosos e vingativos e a partir deste momento a vigil\u00e2ncia dos portugueses teve que se dobrado, permanecendo atentos de armas nas m\u00e3os, contra qualquer ataque.<\/p>\n<p>Os assaltos a cerca do Rei Zumbi dos dias 23 e 29 de Janeiro de 1694 deixaram as tropas de Domingos Jorge Velho desfalcadas de muitos homens por este motivo o mestre de campo solicitou que fossem enviado para ele refor\u00e7os de homens e artilharia, e estabeleceu o cerco total dos mocambos, impedido desta maneira que os negros tivessem contato com o mundo exterior do mocambo, pois deste modo venceriam os negros pela fome e pelo desespero.<\/p>\n<p>O Rei Zumbi sentia a falta de armas e muni\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o havia recebido durante este per\u00edodo de sitio, por\u00e9m restavam-lhes o moral e o hero\u00edsmo, as \u00fanicas for\u00e7as ainda intang\u00edveis para antepor aos sitiantes, os negros sofriam as maiores priva\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, por este motivo estavam se convencendo que toda resist\u00eancia seria in\u00fatil, a repulsa aos atacantes estava cada vez menos impetuosa, e quando Gabriel de Gois, bravo alferes do Ter\u00e7o de Infantaria do Recife chegou de Alagoas com os refor\u00e7os mandado pelo Governador Caetano de Melo de Castro se dirigiu para o Outeiro da Barriga e conseguiu abrir a cerca do Rei Zumbi com diversos tiros de artilharia.<\/p>\n<p>Quebrando-lhes o moral e abrindo passagens para as tropas sitiantes ao mando de Bernardo Vieira Melo e Sebasti\u00e3o Dias, a rea\u00e7\u00e3o no interior da cidadela foi medonho, dantesca e terr\u00edvel, devido a selvageria dos invasores por todas os \u00e2ngulos da cidadela, com os dois lados se enfrentando corpo a corpo trucidando-se mutuamente e o baluarte resistindo bravamente protegido pela escurid\u00e3o da noite, foi quando o Rei Zumbi reuniu as suas tropas na extremidade da cerca na ala da direita saltando do penhasco para a fuga, que levou de rold\u00e3o as for\u00e7as ali dispostas por Bernardo Vieira de Melo, escapando-se assim do cerco tenebroso de vinte e dois dias que foram impostos pelo mestre de Campo Domingos Jorge Velho.<\/p>\n<p>O desfecho inesperado que o Rei Zumbi dera ao sitio do Mocambo dos Macacos, precipitando-se do penhasco pela estreita faixa aberta na cerca, quando se vira perdido e impotente para conter pelas armas o ataque dos invasores, fora para os portugueses t\u00e3o inopinado e brusco que eles n\u00e3o sabiam se faziam a persegui\u00e7\u00e3o aos fugitivos ou se entravam no Mocambo.<\/p>\n<p>O her\u00f3ico Zumbi preferiu lan\u00e7ar-se do penhasco a estender com os seus bravos comandados os pulsos as algemas do cativeiro, pois somente ele possu\u00eda o poder de fascina\u00e7\u00e3o de arrastar a tamanho sacrifico muitos homens dispostos a lutar, homens estes nascidos no magn\u00edfico altiplano da Serra da Barriga e ali criado e fascinados pela liberdade.<\/p>\n<p>Passados cinco meses da tomada e destrui\u00e7\u00e3o da cidade negra dos Macacos e da espantosa mortandade dos negros que a habitava e a defendiam e do heroico protesto de Zumbi que se atirou no despenhadeiro com seus bravos guerreiros, os negros fugitivos ainda dispersos pelas matas e pelas furnas ou pelos alcantis das serras palmerinas n\u00e3o preferiam mais resist\u00eancia, pois famintos e maltrapilhos, enfermos e desenganados de obterem a liberdade que tanto se bateram e lutaram durante tantos anos iam sendo aos pouco capturados pelos capit\u00e3es do mato e seus \u00edndios.<\/p>\n<p>Rei morto, rei posto \u2013 sentenciaram os sobreviventes em demanda pela mata fechada na procura de outro sitio para instala\u00e7\u00e3o de outro mocambo, e segundo as ultimas disposi\u00e7\u00f5es do grande rei morto na reuni\u00e3o que precedera \u00e0 arrancada decisiva na orla do despenhadeiro! Surgir\u00e1 outro grande Rei Zumbi, sobrinho do que havia morrido para continuar a guerra por mais alguns tempo, at\u00e9 ser tra\u00eddo por Ant\u00f4nio Soares, mulato de sua confian\u00e7a.<\/p>\n<p>O novo Rei Zumbi, foi preso e morto pelas tropas de Andr\u00e9 Furtado em 20 de Novembro de 1695 e a sua cabe\u00e7a foi enviada para Recife, onde foi exposta para servir de escarmento aos negros fugidos, por ordem do Governador da Capitania de Pernambuco Caetano de Melo de Castro.<\/p>\n<p><strong>Os Primeiros Quilombos<\/strong><\/p>\n<p>Foram formados em \u00e9poca incerta, n\u00e3o coincidindo com a entrada dos primeiros negros no Brasil por volta de 1538 e nem foram origin\u00e1rios das ra\u00e7as importadas da \u00c1frica no primeiro s\u00e9culo da descoberta, pois as numerosas tribos importadas da Guin\u00e9, representados por grupos \u00e9tnicos importantes que foram distribu\u00eddos proporcionalmente pelas diversas se\u00e7\u00f5es regionais da col\u00f4nia portuguesa, porque n\u00e3o era conveniente que se juntasse na mesma capitania um grande n\u00famero de negros escravos da mesma na\u00e7\u00e3o, o que facilmente poderiam resultar em perniciosas consequ\u00eancias, no entanto tudo leva a crer que tais intuitos de separar as na\u00e7\u00f5es de negros se tivessem frustrado na pratica, pois na Bahia fortemente se fez sentir a ascend\u00eancia dos Sudaneses, ao passo que em Pernambuco e no Rio de Janeiro prevaleceram os do grupo Banto.<\/p>\n<p>Os\u00a0<strong>primeiros quilombos<\/strong>, que a principio foram reduzidos, de poucos negros, muitos dos quais famintos, e doentes, que fugiam dos engenhos, das fazendas e dos eitos, s\u00f3 foram poss\u00edvel gra\u00e7a a associa\u00e7\u00e3o que o negro efetuou com o \u00edndio, na causa da resist\u00eancia a escravid\u00e3o, e no s\u00e9culo XVIII foi o de grandes protesto da ra\u00e7a africana, quando se formaram os maiores e mais tremendos quilombos que tantos apreens\u00f5es causaram aos colonos e aos governos.<\/p>\n<p>Alguns historiadores fixam a data de 1630 para o inicio dos quilombos constitutivos dos Palmares pela entrada e distribui\u00e7\u00e3o de negros escravos provenientes de Angola pertencentes a tribo Jagas que eram indom\u00e1veis e amantes da liberdade, pelas fazendas de Pernambuco e Alagoas.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o preponderantes da forma\u00e7\u00e3o dos quilombos no Brasil assentam-se na ferocidade atroz do colono dominante nos engenhos e nas fazendas, nos leitos e na minera\u00e7\u00e3o, protegidos pela mais brutal legisla\u00e7\u00e3o negra que inclu\u00eda os castigos, as penas e os maus tratos infligidos desde o momento de sua captura na \u00c1frica. Diversos fatos sociais tais como; de serem presos a correntes de ferro a um cepo, de trabalharem junto das caldeiras nos engenhos, de ser chicoteados para trabalharem, a alimenta\u00e7\u00e3o e vestu\u00e1rio limitado, concorreram para acirrar o \u00f3dio entre o negro e o colono.<\/p>\n<p>O negro que chegava, era considerado como pe\u00e7a de trabalho, por mais abatido e rebaixado que fosse em sua dignidade, em sua vontade de liberdade, pela prepotencia de seu semelhante tendeu a sacudir o jugo, fugindo da sociedade que o acabrunhava e o esmagava, procurando a expans\u00e3o de sua liberdade, em algumas vez em insurrei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O quilombo era sem duvida a ultima fase do protesto \u2013 pois o negro na sua afli\u00e7\u00e3o de liberdade, n\u00e3o sentia dificuldade nem hesitava em privar-se da vida para se livrar de seus sofrimentos infligidos pelos senhores e por isto s\u00f3 restava ao escravo a fuga para as montanhas, para os quilombos, para os ermos e para os antros e historicamente os Jagas da ra\u00e7a Banto que eram belicosos da tribo indom\u00e1vel do sobado do famoso N`gola Bandi, aprisionado pelos portugueses durante o governo de Luiz Mendes de Vasconcelos em Angola e mandados para o Brasil lhe cabe a paternidade do grande movimento palmerino j\u00e1 anteriormente iniciado com alguns negros desgarrados que seguiam para o Maranh\u00e3o marchando dos centos da Bahia e pelos sert\u00f5es a dentro de Caxias onde o africano ergueu as portas do grande sert\u00e3o, uma cidade rica e prospera.<\/p>\n<p>A regi\u00e3o escolhida pelos negros aquilombados nas faldas da Serra da Barriga, no territ\u00f3rio de Alagoas, pela semelhan\u00e7a dos seus c\u00f4moros, colinas, montes, rochedo e sua flora e fauna dir-se-ia um peda\u00e7o de ch\u00e3o transplantado da \u00c1frica para lhes servir de abrigo das primeiras levas que por ali passaram acorrentados e voltaram os seus olhos para a regi\u00e3o montanhosa que vinha desde o planalto de Garanhus no sert\u00e3o pernambucano at\u00e9 as serras dos dois irm\u00e3os e do Bananal no munic\u00edpio de Vi\u00e7osa em Alagoas que compreendia as serras do Cafuchi, Jussara e Pesqueira, Comonati e da Barriga de terras virgens e extremamente f\u00e9rtil.<\/p>\n<p>Cortada pelos rios Ipojuco, Serinha\u00e9m, Una em Pernambuco e pelos rios Para\u00edba, Mandau, Panema, Camaragibe, Porto Calvo e Jac\u00fape em Alagoas, com uma floresta povoada de arvores frut\u00edferas e outras arvores excelentes para uso industrial, que cresciam em volta das palmeiras pindoba-palma attalea, pindoba, buriti-mauritia vinifera, catol\u00e9 e in\u00fameros coqueiros de dend\u00ea- elaeis guineensis e no meio a essa mata se movimentava uma variada popul\u00e7ao animal onde puderam encontrar suas ca\u00e7as e pesca.<\/p>\n<p>Esta era a regi\u00e3o aben\u00e7oada o valhacouto dos negros palmerinos, na realidade era as matas das palmeiras \u00e0s mais ricas e bonan\u00e7osas de todas as regi\u00f5es, cuja pujan\u00e7a convidava as ra\u00e7as oprimidas a se aquilombarem na forma\u00e7\u00e3o do maior e mais renhido centro de resist\u00eancia negra em todo o per\u00edodo colonial, e n\u00e3o foi um simples acidente geogr\u00e1fico e nem tampouco um campo de batalhas sangrentas que deu o nome a regi\u00e3o de Palmares no altiplano da Serra da Barriga; foi a frondosa e grande \u00c1lea de Palmares que ali se estendiam, ululante e vi\u00e7osa, magnetizada pela natureza portentosa dos tr\u00f3picos, caprichosa na sua beleza e rica na sua fartura, onde se encontrava as titaras com suas guirlandes enfeitadas de espinhos galgando as arvores pr\u00f3ceras, que mais tarde seria a coroa de espinho dos tombados em lutas feroz pela liberdade.<\/p>\n<p>Todas as palmeiras desta floresta deram aos negros aquilombados os alimento para o corpo e para o esp\u00edrito, material para seus tijupares de amor e seus pal\u00e1cios e fibras para suas roupagens e estrepes na constru\u00e7\u00e3o de suas defesas tiradas de seus caules endurecidos e fibrosos. E se mais n\u00e3o dessem, deram na saudade da \u00c1frica um pouco de esperan\u00e7a na terra magn\u00edfica que delas recebeu o nome Palmares !<\/p>\n<p><strong>O Negro<\/strong><\/p>\n<p><strong>Homem negro<\/strong>\u00a0era uma continua\u00e7\u00e3o do meio na sua brutal grandiosidade geof\u00edsica, meio absorvente e b\u00e1rbaro e na sua entomologia, a ra\u00e7a Bantu a mais adiantada, detentora das ricas terras do Congo e de Angola, caminhou a passos de gigante para a regress\u00e3o em face dos usos e dos costumes de suas tribos e na\u00e7\u00f5es incapazes de absorver a civiliza\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a branca para l\u00e1 mandada pelos portugueses, tinha o culto da liberdade at\u00e9 extremos desconhecidos.<\/p>\n<p>Eram naturalmente an\u00e1rquicos, n\u00e3o tinham uni\u00e3o pol\u00edtica entre si, e suas autoridades entre eles quase sempre eram tir\u00e2nicas, absoluta e absorvente eram indisciplinados e desobedientes, por estes motivos foi f\u00e1cil de serem vencidos em toda parte e em todos os tempos, esta ra\u00e7a robusta e por isto ela foi facilmente escravizada, podemos dizer-se que a na\u00e7\u00e3o de autoridade, s\u00f3 lhe veio depois do contato com a ra\u00e7a branca, depois que a rainha Ginga Bandi conseguiu tirar todo o partido das a\u00e7\u00f5es missionarias com o qual melhorou a sua ra\u00e7a em civiliza\u00e7\u00e3o e costume de cr\u00ea-se que o esp\u00edrito dessa formosa e famosa rainha tenha acompanhado um punhado de negros descendentes dos N`gola que foram vendidos para o Brasil e aquilombados em Mato Grosso e que fundaram o reinado negro de Quariter\u00ea, onde tanto sangue se derramou como em Palmares.<\/p>\n<p>E os costumes das tribos africanas em geral pareciam estar no \u00ednfimo grau de desenvolvimento a julgar por alguns signos caracter\u00edsticos destas habita\u00e7\u00f5es em cavernas por\u00e9m tais exemplos n\u00e3o poderiam ser representativo da ra\u00e7a africana em regra geral.<\/p>\n<p>Pois o negro j\u00e1 estava fixado no solo e j\u00e1 constitu\u00eda a sua tenda e quase todas os t\u00edtulos protegiam as suas aldeias por uma cerca de arvores de troncos grossos e no recinto fortificado constru\u00edam as tendas formadas de juncos e palmas de forma c\u00f4nica com teto de palha, que n\u00e3o possu\u00eda divis\u00f5es salvo as vezes as dos chefes da tribo.<\/p>\n<p>Os utens\u00edlios dom\u00e9sticos eram todos de madeiras e pedra que serviam de assento, os pratos eram de argilas, cuias, facas de pedra e de ferro, vasos para \u00e1gua e para o preparo da comida, algumas tribos dormiam no ch\u00e3o sobre palhas ou peles e algumas tribos constru\u00edam tarimbas.<\/p>\n<p>A ordem domestica era perfeita pois cada tenda era ocupada por uma fam\u00edlia onde o homem exercia a autoridade suprema do lar e na sua aus\u00eancia era exercida pela primeira esposa, pois a poligamia era um costume em todas as tribos, e todo o trabalho domestico e nas pequenas lavouras ficava a cargo das mulheres, tanto os homens como as mulheres enfeitavam-se com muito capricho, particularmente da cabeleira, entre muitas tribos era costume se tatuarem e furar as orelhas, o l\u00e1bio superior e o septo nasal.<\/p>\n<p>Os homens cuidavam de preparar as terras para as grandes planta\u00e7\u00f5es, em algumas aldeias existiam as industrias pastoril, tamb\u00e9m a ca\u00e7a e pesca era atribui\u00e7\u00f5es parta os homens das tribos.<\/p>\n<p>Sendo a ca\u00e7a no interior da \u00c1frica um servi\u00e7o fatigante e arriscad\u00edssimo, demandando grandes esfor\u00e7os, agilidade e coragem e de todos os animais eles aproveitavam a carne, o couro e do elefante o marfim.<\/p>\n<p>Era muito raras as aldeias n\u00e3o terem em forno para fundir ferro e uma forja para fabrica\u00e7\u00e3o de ferramentas, armas e artigos de uso comum, as armas que usavam era o arco e a flecha, a zagaia, a lan\u00e7a e o cajado nodoso, a antropofagia era usada por algumas tribos do interior e da costa ocidental, todos negros africanos tinham grandes conhecimentos das virtudes de muitas plantas medicinas e a sua medicina consistia no emprego destas plantas acompanhadas de muitos exorcismo.<\/p>\n<p>Eram muitos supersticiosos e tinham, entre eles os adivinhos e os feiticeiros que eram venerados por todos das tribos, se tatuavam com desenhos significativos que constitu\u00edam-se de figuras de anima\u00e7\u00e3o de plantas e de desenhos geom\u00e9tricos o desenho era indel\u00e9vel e feito no corpo humano em geral no peito e nos bra\u00e7os e as l\u00ednguas eram todas aglutinantes e os usos e costumes sempre varriam de tribos para tribos conforme o seu grau de civiliza\u00e7\u00e3o e de car\u00e1ter religioso, a concep\u00e7\u00e3o da arte nos povos negros n\u00e3o eram de ordem est\u00e9tica mas t\u00e3o simplesmente religiosa, a idolatria foi o mais forte motivo da arte negra em consequ\u00eancia do meio b\u00e1rbaro em que viviam e os brutais contraste que o cercaram desde o alvorecer de sua idade, o negro criou a arte segundo a sua emo\u00e7\u00e3o e essa arte e arte e \u00e9 beleza porque representa o seu conhecimento de tristeza, a sua dor e o seu medo.<\/p>\n<p>A ra\u00e7a negra sempre tiveram grande pendor para as dan\u00e7as e a mais caracter\u00edstica \u00e9 o batuque, que o acompanhou na trajet\u00f3ria dolorosa de sua migra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada para o cativeiro, e as suas dan\u00e7as consistiam num circulo formado pelas dan\u00e7adores, indo para o meio de um preto que depois de executar v\u00e1rios passos, dava uma imbicada a quem chamava de semba na pessoa que escolhe entre as da roda, a qual ia para o meio do circulo substitui-lo.<\/p>\n<p>Os instrumentos musicais eram mais guerreiros que de divers\u00f5es e o principal deles era o tong-tong empregados nas solenidade de guerra, nas festas populares usavam o balafo muito usado na costa do ouro, tinham o berimbau, canz\u00e1, e o tambaque e estes instrumentos acompanharam os palmerinos para amenizar os seus sofrimentos e resistir as dores e aos desesperos.<\/p>\n<p><strong>A Escravid\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A origem da\u00a0<strong>escravid\u00e3o humana<\/strong>\u00a0perde-se no tempo e se acha ainda oculta pela poeira dos s\u00e9culos que envolvem a pr\u00f3pria historia do homem sobre a terra.<\/p>\n<p>\u00c9 a luz do saber humano ainda n\u00e3o se projetou sobre a primeiro escravo, se branco ou negro, se asi\u00e1tico, africano ou europeu.<\/p>\n<p>Admite-se, todavia, que surgiu a escravid\u00e3o do homem com as primeiras lutas e teve origem no direito da for\u00e7a que foi corporificando e se espalhando entre os homens isolados, destes \u00e0s fam\u00edlias, \u00e0s tribos e por fim, \u00e0s na\u00e7\u00f5es e aos estados organizados.<\/p>\n<p>A ferocidade do vencedor exaltada sobre o vencido fora a causa potencial da escravid\u00e3o do homem desde a mais remota Antiguidade, desde os ass\u00edrios, os eg\u00edpcios, os judeus negros e romanos e bem assim os demais povos da mais alta Antiguidades, adotaram a escravid\u00e3o e legislaram sobre ela, sobretudo os romanos que coibiram os abusos que se cometiam \u00e0 sombra dos usos e costumes dos demais povos, estabelecendo princ\u00edpios do modo de ser escravos, estes princ\u00edpios constitu\u00edram um grande avan\u00e7o em prol da liberdade humana, mas tarde duas poderosas for\u00e7as vieram modificar os modos de ser escravos; o advento do Cristianismo e a evolu\u00e7\u00e3o natural do direito.<\/p>\n<p>O escravo era considerado como produto de venda era ou troca. No rosto mostra o sofrimento de dores e desgra\u00e7as.<\/p>\n<p>Foram criadas varias leis, as leis tinham disposi\u00e7\u00f5es excepcionais que permitiam que os escravos sofressem torturas para fazerem declara\u00e7\u00f5es, as marcas de ferro quente, as mutila\u00e7\u00f5es de alguma parte do corpo, e a pena de morte estavam contidas no livro V das ordena\u00e7\u00f5es portuguesas, e ampliadas constantemente pelas Cartas R\u00e9gias expedidas pela corte, para atender a cada caso, seja no engenho, nas minas.<\/p>\n<p>Por toda a parte havia tortura, penas e castigos horrendos impostos aos negros e os arsenais de tortura se multiplicavam com as Cartas R\u00e9gias e as ordena\u00e7\u00f5es e os alvar\u00e1s que n\u00e3o eram de liberdade e sim de senten\u00e7as condenat\u00f3rias, e a imagina\u00e7\u00e3o humana esgotou os recursos na inven\u00e7\u00e3o de penas e tormentos que subjugavam os negros escravos, por isto criaram virasmundos, algemas, gargalheiras, cadeira ajustada aos pulsos e ao tornozelo, a pescoceira de ponta curva, a mascara de ferro, a focinheira, o a\u00e7oite, a palmat\u00f3ria, o tronco chin\u00eas, o cinto com seu cadeado pendente, as letras de fogo que eram impressas na esp\u00e1dua do negro fuj\u00e3o e o libando era o que compunha o arsenal de dor, macera\u00e7\u00e3o, tortura e mortifica\u00e7\u00e3o dos negros a servi\u00e7o do senhor dono do escravo que comprava o negro escravo e desumanizava-o, para o tornar manso e obediente, as vezes eles preferiam matar o escravos, antes de lhe permitir uma rea\u00e7\u00e3o, que se estendesse a toda a col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Matava-o quando se insurgia; e mutilava-o para purifica-lo, por\u00e9m o branco era ego\u00edsta e t\u00edmido, pois necessitava de companhia que o seguisse para lhe resguardar pelos caminhos, sendo assim selecionava os pretos bons e fortes e os armava para sua seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o na \u00c1frica foi uma imita\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o dos Mouros e Sarracenos, que cresceu, desenvolveu-se, agigantou-se e envolveu todas as grandes pot\u00eancias mar\u00edtimas, que eram a Inglaterra, Fran\u00e7a, Espanha e Portugal e outras quase todas arrastadas pelas rendas que o mercado de escravo oferecia, a \u00c1frica por conseguinte, passou a ser o grande palco da escravid\u00e3o do homem pelo homem e quando criaram-se hordas de penetra\u00e7\u00e3o ao interior desconhecido para aprisionamento dos negros, em vez de miss\u00f5es civilizadoras, e para legitimar a escravid\u00e3o negra criou-se o principio hediondo, imoral e mentiroso do resgate.<\/p>\n<p>O homem foi transformado em mercadorias e classificados nas alf\u00e2ndegas como objeto de utilidade para pagamento de imposto de exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E os primeiros negros introduzidos em Portugal constitu\u00edram, os fundamentos naturais da organiza\u00e7\u00e3o de empresas de transporte de pe\u00e7as e despertaram a cobi\u00e7a de seu comercio rendoso e pela facilidade de aprisionar os negros em toda costa africana onde os maometanos faziam suas presas para trocarem pelos prisioneiros que os portugueses lhe faziam nas suas conquistas pelos mares afora, e as Ilhas da Madeira e as Ilhas Can\u00e1rias tornaram-se o principal foco de comercio de escravos, que logo se propagou nos mercados de Lisboa e de Sevilha.<\/p>\n<p>Mouros, portugueses e espanh\u00f3is desfraldaram a bandeira de horrores em todos os rochedos da costa africana para a apreens\u00e3o dos negros dispersos pelas orlas mar\u00edtima, foi quando que os duzentos e trinta e cinco negros desembarcados no Algarves pelo escudeiro La\u00e7arote em 1444 constituiu o pr\u00f3logo que se ensaiava para ser levado no s\u00e9culo seguinte, e estas apanha de negros tornou-se t\u00e3o desumana e b\u00e1rbara que os pr\u00f3prios governos interessados nela, se viram obrigados a tomar providencias para que as mesmas fossem mais humana, por isto provocaram algumas medidas dos poderes temporais romanos e para ameniza-la a igreja interviu desde o principio contra as barbaridades aplicadas aos negros invocando as leis divinas e naturais quando o Papa Pio II, em Bula de 7 de Outubro de 1462 o censurou, e com especialidade a redu\u00e7\u00e3o dos ne\u00f3fitos da \u00c1frica \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>A compra de escravos aos poucos foi se organizando, com aquiesc\u00eancia e apoio e prote\u00e7\u00e3o de todos os governos; a competi\u00e7\u00e3o mais forte dava-se entre os especuladores da Fran\u00e7a, Inglaterra, Holanda e Portugal que com os novos descobrimentos haviam aumentado a extens\u00e3o de terras aproveit\u00e1veis, e para elas eram necess\u00e1rias os escravos, riqueza sem a qual a terra nada valeria, e de inicio as ilhas de S\u00e3o Tom\u00e9 e de Portugal e outras do Golfo da Guin\u00e9, tornaram-se entrepostos do tr\u00e1fico onde o negro se submetia a um certo aprendizado a estes entrepostos eram compostos de um pequeno forte destinado a proteger a mercadoria, de algumas casas para os contratantes e de v\u00e1rios barrac\u00f5es para abrigar as levas de negros que vinham do interior.<\/p>\n<p>No inicio os Mouros eram os intermedi\u00e1rios entre os portugueses e os grandes fornecedores com o decorrer do tempo os entendimentos passaram a ser feito diretamente com os r\u00e9gulos em suas aldeias de onde os negros eram quase sempre ca\u00e7ados pelos pr\u00f3prios mercadores, mediante ao pagamento de um tributo junto aos r\u00e9gulos, os negros desde a sua apanha e durante o tempo de viagem eram conservados ligado uns aos outros com um peda\u00e7o de madeira semelhante a um brid\u00e3o, amarrado \u00e0 boca e em volta do pesco\u00e7o ficavam presos a uma forquilha, com as m\u00e3os presas atr\u00e1s das costas, amarrados por uma corda na cintura do condutor para evitar os gritos e fugas!<\/p>\n<p>At\u00e9 a feitoria onde eram abrigados em barrac\u00f5es durante um certo per\u00edodo que se da o nome de refresco a espera de navios para serem embarcados, e as levas de escravos negros antes de serem embarcados para o novo mundo eram batizados pelo Bispo de Luanda e desta maneira ficavam os traficantes livre do pagamento de imposto, quando os se destinavam ao Brasil.<\/p>\n<p><strong>Os negros lutaram, mas a gl\u00f3ria ficou com Isabel<\/strong><\/p>\n<p>Em 1850, Eus\u00e9bio de Queiroz motivou a lei contra o tr\u00e1fico negreiro, entre outras coisas, pelo medo de o grande n\u00famero de negros ( 3.500.000 para 1.500.000 brancos ) viesse a perturbar a ordem estabelecida.<\/p>\n<p>Queiroz chegou a propor a contrata\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito de mercen\u00e1rios estrangeiros para manter submissos os escravos, pois os soldados brasileiros se recusavam a cumprir tal oficio. Na verdade, boa parte dos escravos estavam se insubordinando.<\/p>\n<p><strong>Em 1823, cantava-se nas ruas de Pernambuco:\u00a0<\/strong>Marinheiros e caiados, Todos devem se acabar, Porque s\u00f3 pardos e pretos, O pa\u00eds h\u00e3o de habilitar ! Em 1821, os pretos ocuparam Vila Rica, ap\u00f3s sangrentos combates, declarando sua liberdade e igualdades aos brancos.<\/p>\n<p>Em 1849, em Queimados, Esp\u00edritos Santo, 200 escravos tentaram um levante, visando atingir todo o estado.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Lei do Ventre Livre:\u00a0<\/strong>Em 28 de setembro de 1871 o governo conservador do Visconde do Rio Branco promulga a Lei do Ventre Livre. De poucos efeitos pr\u00e1ticos, a lei d\u00e1 liberdade aos filhos de escravos, mas deixa-os sob tutela dos senhores at\u00e9 21 anos de idade.<strong><br \/>\nLei dos Sexagen\u00e1rios:\u00a0<\/strong>Em 28 de setembro de 1885 o governo imperial promulga a Lei Saraiva-Cotegipe, conhecida como Lei dos Sexagen\u00e1rios, que liberta os escravos com mais de 65 anos. A decis\u00e3o \u00e9 considerada de pouco efeito, pois a expectativa de vida do escravo n\u00e3o ultrapassa os 40 anos.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Aboli\u00e7\u00e3o no Cear\u00e1<\/strong><\/p>\n<p>A campanha abolicionista no Cear\u00e1 ganha a ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o pobre. Os jangadeiros encabe\u00e7am as mobiliza\u00e7\u00f5es, negando-se a transportar escravos aos navios que se dirigem ao sudeste do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Apoiados pela Sociedade Cearense Libertadora, os \u201chomens do mar\u201d mant\u00eam sua decis\u00e3o, apesar das fortes press\u00f5es governamentais e da a\u00e7\u00e3o repressiva da pol\u00edcia.<\/p>\n<p><strong>O movimento \u00e9 bem-sucedido:\u00a0<\/strong>a vila de Acarape (CE), atual Reden\u00e7\u00e3o, \u00e9 a primeira a libertar seus escravos, em janeiro de 1883. A escravid\u00e3o \u00e9 extinta em todo o territ\u00f3rio cearense em 25 de mar\u00e7o de 1884.<\/p>\n<p>O Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds do continente a abolir formalmente a escravid\u00e3o mas, a liberdade veio mesmo por motivos econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Entre estes, os historiadores apontam a necessidade da cria\u00e7\u00e3o de um mercado consumidor para os produtos industrializados, provenientes da Inglaterra. Os portos brasileiros foram, ent\u00e3o, abertos aos imigrantes europeus, tendo sido permitido aos escravos alforriados, ou libertos, que retornassem \u00e0 \u00c1frica.<\/p>\n<p>Em 1888, a Princesa Isabel assinou a lei que abolia a escravid\u00e3o. Lei \u00c1urea \u2013 Em 13 de maio de 1888, o gabinete conservador de Jo\u00e3o Alfredo apresenta, e a princesa Isabel assina, a Lei \u00c1urea, extinguindo a escravid\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o agrada aos latifundi\u00e1rios, que exigem indeniza\u00e7\u00e3o pela perda dos \u201cbens\u201d. Como isso n\u00e3o acontece, passam a apoiar a causa republicana. Em 1899 partiu o \u00faltimo navio \u2013 \u201d o Alian\u00e7a \u201d \u2013 levando de volta \u00e0 \u00c1frica um grupo de ex-escravos. Uma crian\u00e7a que seguiu para a \u00c1frica naquele navio, Maria Romana da concei\u00e7\u00e3o, chegou a visitar o Brasil em 1963.<\/p>\n<p><strong>ZUMBI, HER\u00d3I DE PALMARES<\/strong><\/p>\n<p>Ele entrou para a hist\u00f3ria como o \u00faltimo l\u00edder do maior foco de resist\u00eancia negra \u00e0 escravid\u00e3o no Brasil, no s\u00e9culo 17.<\/p>\n<p>Em fevereiro de 1685, uma carta quase inacredit\u00e1vel cruzou o Atl\u00e2ntico e chegou a Pernambuco. Estava assinada simplesmente \u201cRei\u201d.<\/p>\n<p><strong>O texto dizia:<\/strong>\u00a0\u201cEu El-Rei fa\u00e7o saber a v\u00f3s Capit\u00e3o Zumbi dos Palmares que hei por bem perdoar-vos de todos os excessos que haveis praticado (\u2026), e que assim o fa\u00e7o por entender que vossa rebeldia teve raz\u00e3o nas maldades praticadas por alguns maus senhores em desobedi\u00eancia \u00e0s minhas reais ordens.<\/p>\n<p>Convido-vos a assistir em qualquer est\u00e2ncia que vos convier, com vossa mulher e vossos filhos, e todos os vossos capit\u00e3es, livres de qualquer cativeiro ou sujei\u00e7\u00e3o, como meus leais e fi\u00e9is s\u00faditos, sob minha real prote\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Quem capitulava na mensagem era o pr\u00f3prio rei de Portugal, dom Pedro II (o deles, n\u00e3o o nosso). Mas n\u00e3o sabemos se o \u201ccapit\u00e3o\u201d aceitou o convite. Na verdade, n\u00e3o sabemos nem se a carta chegou um dia a ser entregue. Mas sabemos que o destinat\u00e1rio, tratado nessa linguagem cheia de honor\u00edficos e rapap\u00e9s, era mesmo o guerreiro Zumbi, um opositor quase m\u00edtico do dom\u00ednio portugu\u00eas no Brasil.<\/p>\n<p>Se ele j\u00e1 era um mito no s\u00e9culo 17, os debates e pesquisas dos \u00faltimos 300 anos tampouco revelaram muito sobre o verdadeiro Zumbi.<\/p>\n<p><strong>Isso se deve em boa parte ao fato de que os relatos acerca de sua vida foram, sem exce\u00e7\u00e3o, feitos por seus inimigos:\u00a0<\/strong>os colonos e portugueses que se puseram a combat\u00ea-lo, a soldo de senhores escravistas.<\/p>\n<p>\u201cToda a documenta\u00e7\u00e3o sobre a vida de Zumbi e de Palmares est\u00e1 meio cifrada, vista pelos olhos das expedi\u00e7\u00f5es que tentavam tomar o quilombo\u201d, diz a historiadora Silvia Hunold Lara, da Universidade Estadual de Campinas. Segundo ela, a incerteza \u00e9 t\u00e3o brutal que se estende at\u00e9 a forma do nome do l\u00edder palmarino \u2013 o certo \u00e9 Zumbi ou Zambi? A primeira forma \u00e9 mais comum nos relatos lusos, mas isso n\u00e3o quer dizer que seja a certa.<\/p>\n<p>Para valorizar o pr\u00f3prio esfor\u00e7o ou para justificar os fracassos em captur\u00e1-lo, os primeiros relatos acerca de Zumbi, feitos em sua maioria por militares portugueses, ajudaram a criar o personagem que acabaria se tornando um fundador da identidade dos descendentes de africanos no Brasil. Um homem forte, orgulhoso, inconformado com sua condi\u00e7\u00e3o social, que resolveu enfrentar seus algozes e libertar seu povo.<\/p>\n<p>Mas tampouco essa imagem de um Zumbi revolucion\u00e1rio se sustenta em fatos. Sua biografia est\u00e1 envolta em diversas d\u00favidas. Entre as mais elementares est\u00e1 sua origem.<\/p>\n<p><strong>Era ele um chefe africano trazido \u00e0 for\u00e7a para ser escravo? Ou teria nascido no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sobre uma coisa, pelo menos, os especialistas concordam:<\/strong>\u00a0ele viveu e morreu em Palmares, um quilombo \u2013 ou seja, um reduto de ex-escravos e seus descendentes.<\/p>\n<p><strong>Vida em Palmares<\/strong><\/p>\n<p>Os primeiros relatos sobre o quilombo de Palmares s\u00e3o desencontrados e datam do in\u00edcio do s\u00e9culo 17. Eles indicam que ele surgiu em fins do s\u00e9culo 16, no sul da ent\u00e3o capitania de Pernambuco.<\/p>\n<p>Fugindo provavelmente de um engenho de cana nordestino, um grupo de escravos africanos deixou o litoral e foi para o interior \u2013 tentando evitar ca\u00e7adores de recompensa e soldados que, a mando dos senhores de engenho, capturavam e matavam fugitivos.<\/p>\n<p><strong>A jornada a p\u00e9, que pode ter durado at\u00e9 dois anos, levou os ex-escravos para a serra da Barriga, regi\u00e3o conhecida genericamente como \u201cos Palmares\u201d:<\/strong>\u00a0um peda\u00e7o de mata Atl\u00e2ntica coberto por palmeiras, encravado no meio do sert\u00e3o (atualmente territ\u00f3rio de Alagoas). Aquelas terras tinham fama de ser f\u00e9rteis, mas a combina\u00e7\u00e3o entre mata fechada e terreno \u00edngreme fazia dela uma fortaleza natural.<\/p>\n<p>Se os criadores do quilombo realmente vieram de um engenho, a grande maioria deveria ser homem, pois as fazendas abrigavam poucas mulheres.<\/p>\n<p>A propor\u00e7\u00e3o de escravos nascidos no Brasil tamb\u00e9m devia ser muito baixa, uma vez que era raro que africanos conseguissem viver o suficiente para ter sua pr\u00f3pria fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cTudo indica que africanos do complexo angolano (regi\u00e3o que englobava, al\u00e9m de Angola, uma parte do atual Congo) teriam tido um papel determinante em Palmares\u201d, afirma M\u00e1rio Maestri, do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria da Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. H\u00e1, por exemplo, a tradi\u00e7\u00e3o de que eles chamavam seu reduto de Angola Janga, ou \u201cAngola Pequena\u201d.<\/p>\n<p>Se essa id\u00e9ia estiver correta, o povo original de Palmares era composto, em grande parte, por gente do grupo ling\u00fc\u00edstico banto \u2013 um dos primeiros na \u00c1frica a desenvolver a agricultura, a cria\u00e7\u00e3o de animais e o uso do ferro, tendo se expandido por boa parte de seu continente.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos primeiros anos de organiza\u00e7\u00e3o, o aglomerado de fugitivos se tornou uma pedra no sapato dos portugueses. Os habitantes de Palmares, periodicamente, invadiam engenhos para libertar escravos, roubar comida e armas e raptar mulheres, artigo raro no quilombo em forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1602, o governador-geral do Brasil, Diogo Botelho, mandou uma expedi\u00e7\u00e3o contra eles \u2013 a primeira de 40, ou at\u00e9 mais de 60, de acordo com alguns historiadores.<\/p>\n<p>Depois de destruir cabanas e fazer alguns prisioneiros, os portugueses pensaram ter acabado com a vila.<\/p>\n<p>Mas, sempre que uma tropa aparecia, os palmarinos migravam para o mato, deixando para tr\u00e1s ro\u00e7as e cabanas que eram destru\u00eddas e queimadas. Dias depois, outras eram erguidas.<\/p>\n<p>Esse modo de vida limitava o crescimento do povoado. Mas, em 1630, a sorte sorriu para Palmares. Foi quando os holandeses desembarcaram em Pernambuco, na tentativa de tirar os lucros do a\u00e7\u00facar das m\u00e3os de portugueses e espanh\u00f3is, ent\u00e3o governados pelo mesmo rei.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o colocou em polvorosa o Nordeste. Com a vit\u00f3ria inicial dos holandeses, em 1645, parte dos luso-brasileiros manteve uma esp\u00e9cie de guerrilha. Donos de engenho alistaram seus escravos para a luta, o que facilitava as fugas. Em meio \u00e0 instabilidade, Palmares cresceu, recebeu milhares de novos moradores e, quando enfim os holandeses foram expulsos, em 1654, a vila tinha virado uma pot\u00eancia formada por v\u00e1rios aglomerados populacionais.<\/p>\n<p>Os dados sobre as dimens\u00f5es de Palmares s\u00e3o desencontrados. Documentos coloniais falam em 30 mil pessoas, n\u00famero provavelmente superestimado.<\/p>\n<p>O crescimento demogr\u00e1fico deu-se principalmente pela chegada de novos moradores.<\/p>\n<p>Existe tamb\u00e9m a possibilidade de que a popula\u00e7\u00e3o de Palmares fosse polig\u00e2mica e at\u00e9 poli\u00e2ndrica \u2013 o que significa que uma mulher podia ter v\u00e1rios maridos. Para alimentar a popula\u00e7\u00e3o crescente, a economia local era composta por uma mistura de ca\u00e7a, coleta e agricultura, em que se plantavam g\u00eaneros como mandioca, batata-doce e feij\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que tamb\u00e9m havia com\u00e9rcio com os vizinhos. \u201cA ideia de que Palmares era um ref\u00fagio isolado no mato pode at\u00e9 ser verdadeira para os primeiros anos de assentamento. No entanto, ap\u00f3s a metade do s\u00e9culo, o relacionamento entre os negros e seus vizinhos certamente j\u00e1 evolu\u00edra para um intenso interc\u00e2mbio com \u00edndios e at\u00e9 com brancos\u201d, diz Fl\u00e1vio Gomes, pesquisador do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de brancos em Palmares ainda \u00e9 motivo de discuss\u00e3o, mas sabe-se que isso ocorreu depois em quilombos de outras regi\u00f5es. Apesar da suposta hostilidade em rela\u00e7\u00e3o aos brancos, h\u00e1 ind\u00edcios de que criadores de gado levavam seus rebanhos para pastar na regi\u00e3o de Palmares e mantinham com\u00e9rcio com os quilombolas, a ponto de serem chamados, com desd\u00e9m, de \u201ccolonos dos negros\u201d.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o aos \u00edndios, o conv\u00edvio parece ser mais evidente. Escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas t\u00eam encontrado cer\u00e2mica ind\u00edgena, provavelmente contempor\u00e2nea ao quilombo.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 tentador fazer essa associa\u00e7\u00e3o e dizer que havia \u00edndios dentro do quilombo, mas pode se tratar tamb\u00e9m de algum tipo de com\u00e9rcio\u201d, diz o arque\u00f3logo americano Scott Allen, da Universidade Federal de Alagoas.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 segundo Pedro Paulo Funari, historiador e arque\u00f3logo da Unicamp que integrou a primeira equipe a fazer sondagens no local, h\u00e1 15 anos, a cer\u00e2mica indica que havia \u00edndias em Palmares:<\/strong>\u00a0\u201cA produ\u00e7\u00e3o de cer\u00e2mica estava ligada \u00e0s atribui\u00e7\u00f5es das mulheres. A presen\u00e7a desse material em Palmares pode querer dizer que os ex-escravos tinham esposas ind\u00edgenas\u201d.<\/p>\n<p>Coisa perfeitamente consistente com a escassez de mulheres negras por l\u00e1. De qualquer modo, a mesti\u00e7agem estava na ponta da l\u00edngua dos palmarinos.<\/p>\n<p>Seu idioma parecia ter uma base africana misturada a palavras e estruturas tiradas do portugu\u00eas e do tupi \u2013 os colonos precisavam de int\u00e9rpretes para falar com eles.<\/p>\n<p>A consolida\u00e7\u00e3o do quilombo culminou na cria\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de confedera\u00e7\u00e3o entre os v\u00e1rios povoados de Palmares. A popula\u00e7\u00e3o local escolheu como chefe um guerreiro conhecido como Ganga-Zumba, que governava a partir de Macaco, a principal vila do ref\u00fagio. N\u00e3o se sabe se Ganga-Zumba seria nome pr\u00f3prio ou um t\u00edtulo dado ao l\u00edder. \u201cA palavra ganga significava \u2018poder\u2019, ou \u2018sacerdote\u2019 em v\u00e1rias sociedades da \u00c1frica central\u201d, diz Fl\u00e1vio Gomes.<\/p>\n<p>Para a maioria dos especialistas, foi nessa \u00e9poca de relativa calmaria que Zumbi teria nascido em Palmares. Um dos motivos para sustentar que o l\u00edder nasceu ali mesmo e n\u00e3o chegou depois, fugindo da escravid\u00e3o, \u00e9 o fato de que ele seria sobrinho de Ganga-Zumba.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o tra\u00e7o familiar \u00e9 tamb\u00e9m incerto. Para M\u00e1rio Maestri, a designa\u00e7\u00e3o de \u201csobrinho\u201d n\u00e3o deve ser entendida literalmente. \u201cA trama de parentescos deve ter sido sobretudo simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas n\u00e3o teriam permitido a forma\u00e7\u00e3o de um cl\u00e3 familiar que dominasse politicamente Palmares\u201d, diz Maestri. Assim, dizer que Zumbi era \u201csobrinho\u201d de Ganga-Zumba equivaleria a afirmar que ele era um protegido do chefe.<\/p>\n<p>A origem de Zumbi permanece controversa. Ter nascido ou n\u00e3o em Palmares determina se ele foi ou n\u00e3o escravo. E caso ele tenha nascido livre em Palmares, onde, como diz o professor Funari, a miscigena\u00e7\u00e3o entre negros e \u00edndios era comum, n\u00e3o se pode afastar a chance de que ele pr\u00f3prio fosse mesti\u00e7o de pai africano e m\u00e3e \u00edndia.<\/p>\n<p><strong>D\u00e1 para imaginar o tamanho da pol\u00eamica em que estamos nos metendo aqui?<\/strong>\u00a0\u201cN\u00e3o se pode dizer o quanto essa possibilidade \u00e9 confi\u00e1vel. Mas que \u00e9 poss\u00edvel, \u00e9\u201d, diz Funari.<\/p>\n<p>Se a origem de Zumbi \u00e9 incerta, a inf\u00e2ncia \u00e9 definitivamente lend\u00e1ria. D\u00e9cio Freitas, historiador ga\u00facho morto no ano passado, escreveu um texto cl\u00e1ssico sobre Palmares, em que dizia ter descoberto um relato da captura de Zumbi ainda beb\u00ea por uma expedi\u00e7\u00e3o portuguesa ao local.<\/p>\n<p>Ele teria sido vendido ao padre Ant\u00f4nio Melo, que o teria criado para ser coroinha. Aos 15 anos, no entanto, Zumbi teria fugido. \u201cEssa \u00e9 uma vers\u00e3o fantasiosa, mas n\u00e3o imposs\u00edvel\u201d, diz Fl\u00e1vio Gomes. \u201cD\u00e9cio jamais mostrou o documento em que apoiava essa biografia de Zumbi. E, al\u00e9m disso, ele ficou conhecido por romancear sistematicamente sua produ\u00e7\u00e3o\u201d, diz Maestri.<\/p>\n<p>Exceto pelo texto de D\u00e9cio, n\u00e3o h\u00e1 outro relato sobre a juventude de Zumbi. Ele deve ter crescido num per\u00edodo anterior \u00e0 guerra que os portugueses moveram contra o quilombo, impulsionados pela falta de m\u00e3o-de-obra nos engenhos.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, a vida social em Palmares era um arremedo daquilo que seus habitantes conheciam dos antepassados na \u00c1frica, talvez com elementos ind\u00edgenas e at\u00e9 portugueses incorporados ao seu cotidiano.<\/p>\n<p>Seus l\u00edderes, a exemplo de Ganga-Zumba, deviam ser guerreiros e guias religiosos. N\u00e3o sabemos se Zumbi se casou ou teve filhos (embora a carta do rei de Portugal, reproduzida no in\u00edcio desta reportagem, sugira isso). Zumbi \u00e9 geralmente descrito como guerreiro porque os relatos sobre ele aparecem num per\u00edodo de guerra. Mas n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar que, em tempos de paz, Zumbi plantasse mandioca e ca\u00e7asse porcos-do-mato.<\/p>\n<p><strong>General Zumbi<\/strong><\/p>\n<p>Foi num relat\u00f3rio do comando militar da capitania de Pernambuco, escrito por volta de 1670, que o nome Zumbi apareceu citado pela primeira vez. O documento atribui a ele o sucesso dos ex-escravos \u201cfugidos\u201d nos combates com colonos nas cercanias da serra da Barriga.<\/p>\n<p>Zumbi seria o homem de confian\u00e7a do chefe Ganga-Zumba, uma esp\u00e9cie de general dos ex\u00e9rcitos de Palmares. Outros documentos da mesma \u00e9poca destacam a capacidade militar de Zumbi. Um deles diz que, ao enfrentar uma expedi\u00e7\u00e3o liderada por Manuel Lopes Galv\u00e3o, Zumbi levou um tiro na perna que o teria deixado manco, mas n\u00e3o o impedira de continuar lutando.<\/p>\n<p>Sob ataques constantes, Palmares se tornou uma fortaleza, com diversos povoados cercados por muralhas refor\u00e7adas de pau-a-pique. Na encosta que levava at\u00e9 a vila de Macaco, os quilombolas cavavam buracos, colocavam estacas no fundo e as cobriam com folhas secas.<\/p>\n<p>Isso era t\u00e3o comum que o local entrou para os mapas dos soldados coloniais com o apelido de Outeiro dos Mund\u00e9us (mund\u00e9u, ou mund\u00e9, \u00e9 justamente o nome dessa armadilha).<\/p>\n<p>E os palmarinos tamb\u00e9m partiam para a ofensiva. \u201cDiversas expedi\u00e7\u00f5es quilombolas atacaram, entre 1660 e 1670, os povoados de Serinha\u00e9m, Porto Calvo, Penedo e Alagoas, principalmente para capturar armas e muni\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m para saquear fazendas e estabelecimentos comerciais\u201d, escreveu D\u00e9cio Freitas em seu Palmares \u2013 A Guerra dos Escravos.<\/p>\n<p>Por volta de 1675, as comunidades atacadas financiaram uma grande expedi\u00e7\u00e3o militar sob o comando de Fern\u00e3o Lopes Carrilho, que j\u00e1 tinha enfrentado e vencido \u00edndios e escravos rebeldes em outros cantos do Nordeste. Ele aprisionou ou matou v\u00e1rios dos principais chefes do quilombo, feriu o pr\u00f3prio Ganga-Zumba e quase capturou a m\u00e3e do l\u00edder. Carrilho chegou a anunciar que tinha destru\u00eddo Palmares de vez. N\u00e3o era verdade, mas, pela primeira vez em d\u00e9cadas, a situa\u00e7\u00e3o for\u00e7ou Ganga-Zumba a negociar.<\/p>\n<p>Em 1678, uma miss\u00e3o enviada pelo \u201crei de Palmares\u201d, como foi anunciado, adentrou o Recife.<\/p>\n<p><strong>Um cronista escreveu:\u00a0<\/strong>\u201cNot\u00e1vel foi o alvoro\u00e7o que causou a vista daqueles b\u00e1rbaros. Porque entraram com seus arcos e flechas, e uma arma de fogo (\u2026), corpulentos e valorosos todos\u201d.<\/p>\n<p>O acordo de paz previa que os nascidos em Palmares ficariam livres, ganhariam terra para cultivar, direito de comercializar com seus vizinhos e a condi\u00e7\u00e3o de vassalos de Portugal. Parecia \u00f3timo, n\u00e3o fosse o fato de que os escravos libertados (e talvez o pr\u00f3prio Zumbi, de acordo com aqueles que defendem a tese de ele nasceu escravo e fugiu para Palmares) teriam de voltar para seus senhores.<\/p>\n<p>Ganga-Zumba decidiu aceitar as cl\u00e1usulas e se mudou com algumas centenas de seguidores e seu irm\u00e3o Gana-Zona para a localidade de Cuca\u00fa. Zumbi se recusou a ir e declarou ser o novo l\u00edder de Palmares (Ganga-Zumba morreu logo depois e as hist\u00f3rias da \u00e9poca d\u00e3o conta de que Zumbi teria mandado envenen\u00e1-lo). Seguiu-se uma guerra entre partid\u00e1rios de Zumbi e de Gana-Zona que levou \u00e0 interven\u00e7\u00e3o dos portugueses e \u00e0 extin\u00e7\u00e3o do \u201cquilombo livre\u201d de Cuca\u00fa.<\/p>\n<p>As autoridades coloniais e o pr\u00f3prio rei de Portugal tentaram repetidas vezes oferecer ao novo chefe um acordo semelhante ao que fizeram com Ganga-Zumba, mas Zumbi nunca aceitou. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1690, o bandeirante Domingos Jorge Velho foi chamado e recebeu a miss\u00e3o de liderar uma expedi\u00e7\u00e3o para ca\u00e7ar e exterminar de vez os focos de resist\u00eancia em Palmares.<\/p>\n<p>\u00c0 frente de mateiros experientes e conhecidos pelos m\u00e9todos particularmente sanguin\u00e1rios, Jorge Velho n\u00e3o escapou de tomar algumas sovas dos guerreiros de Zumbi. Em 1692, num combate de tr\u00eas semanas, sua tropa de cerca de mil homens foi reduzida pela metade, antes de fugir e se perder no mato. Dois anos depois, Jorge Velho voltou.<\/p>\n<p><strong>Tinha sob seu comando um incr\u00edvel ex\u00e9rcito para a \u00e9poca<\/strong>: 9 mil homens \u2013 e alguns canh\u00f5es.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia de Palmares dependia de manter a artilharia inimiga longe das muralhas de Macaco. Depois de um cerco que durou semanas, no entanto, Jorge Velho conseguiu se aproximar com seus canh\u00f5es.<\/p>\n<p>Zumbi liderou pessoalmente um ataque desesperado para evitar a destrui\u00e7\u00e3o das barreiras, mas falhou. Os bandeirantes mataram centenas de guerreiros e invadiram a capital palmarina. Zumbi fugiu.<\/p>\n<p>O \u00faltimo ano da vida do l\u00edder foi marcado por ataques esparsos, ao lado de um punhado de companheiros, que tentavam manter viva a rebeli\u00e3o escrava. Foi por meio de um membro desse grupo, Ant\u00f4nio Soares, que os homens de Jorge Velho chegaram a Zumbi.<\/p>\n<p>Capturado e torturado, Soares aceitou levar os bandeirantes em sigilo at\u00e9 o esconderijo rebelde. L\u00e1 chegando, ele mesmo teria matado Zumbi com uma trai\u00e7oeira punhalada. De posse do corpo do l\u00edder, os mercen\u00e1rios arrancaram-lhe um dos olhos e cortaram-lhe a m\u00e3o direita. O p\u00eanis de Zumbi foi decepado e enfiado em sua pr\u00f3pria boca. J\u00e1 a cabe\u00e7a foi salgada e levada para Recife, onde apodreceu em pra\u00e7a p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Zumbi dos Palmares \u2013 L\u00edder<\/strong><\/p>\n<p>Nascido em Palmares, coube a Zumbi liderou a gente do quilombo num momento decisivo da luta contra os escravistas, empenhados em sufocar a semente da liberdade que teimava por crescer no solo brasileiro.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria daquele que seria o Zumbi come\u00e7a quando Br\u00e1s da Rocha ataca Palmares, no ano de 1655, levando um rec\u00e9m-nascido, entre os adultos capturados, a crian\u00e7a foi entregue ao chefe da coluna atacante, que por sua vez resolveu fazer um presente ao padre Melo cura de Porto Calvo que decidiu cham\u00e1-lo Francisco, Padre Melo achava Francisco inteligent\u00edssimo por este motivo resolveu desasn\u00e1-lo em portugu\u00eas, latim e religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez olhasse com orgulho o moleque passar com o tur\u00edbulo. Numa noite em 1670, ao completar quinze anos, Francisco fugiu em busca da liberdade deixando a liberdade e o conforto de Padre Mela para voltar a Palmares como Zumbi, onde foi livremente constitu\u00edda sua fam\u00edlia \u2013 pai, irm\u00e3os, tias e tios, e dentre os seus parentes o principal se chamava Ganga Zumba, mais tarde, aos vinte e tr\u00eas anos rejeitou a paz firmada por Ganga Zumba com os escravistas, paz que garantia sua liberdade, aos vinte e cinco anos continuava em Palmares para liderar sua gente no quilombo num momento decisivo da luta contra os escravistas, empenhados em sufocar a semente da liberdade que teimava por crescer no solo brasileiro.<\/p>\n<p>Independente do mito o quilombo de Palmares representou uma estrutura alternativa \u00e0 sociedade colonial, aonde os negros viviam da agricultura, por sinal, mais avan\u00e7ada que a da col\u00f4nia num mundo escravocrata que s\u00f3 conhecia a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Pois em Palmares plantavam-se milho, mandioca, feij\u00e3o, cana, legumes, batatas, frutas. Palmares tinha leis que regulamentavam a vida das pessoas, sendo que algumas inclusive eram bastante r\u00edgido onde roubo, adult\u00e9rio, deser\u00e7\u00e3o ou homic\u00eddio era punido com a morte, as fun\u00e7\u00f5es sociais estavam definidas, a autoridade era reconhecida por todos, as decis\u00f5es mais importantes eram tomadas em assembleias da qual participavam todos os habitantes adultos.<\/p>\n<p>Mais do que isso, Palmares n\u00e3o era apenas uma cidade, chegou a ser uma rede de cidades e na metade do s\u00e9culo XVII contava onze povoados que tinha a sua capital no quilombo do Macaco, na Serra da Barriga.<\/p>\n<p>Depois, havia Amaro com uma estrutura bastante organizada, Subupira e, ainda, Zumbi, Tabocas, Acotirene, Danbrapanga, Sabalang\u00e1, Andalaquituche.<\/p>\n<p>Em Pernambuco falava-se, sobretudo, de Palmares por\u00e9m ningu\u00e9m sabia certo onde ficava, era l\u00e1 nas montanhas, na parte superior do rio S\u00e3o Francisco, mata fechada, inacess\u00edvel, diziam que precisava dias e mais dias para se chegar at\u00e9 esse lugar, mas ningu\u00e9m duvidava de que Palmares existisse de verdade, n\u00e3o eram s\u00f3 hist\u00f3rias, Palmares havia surgido no final do s\u00e9culo XVI, quando os primeiros negros ali se refugiaram, desde ent\u00e3o, o mito de Palmares n\u00e3o havia feito outra coisa sen\u00e3o crescer e crescer, era a meta dos que buscavam liberdade, negros, \u00edndios e inclusive brancos.<\/p>\n<p>Sendo as terras pernambucanas as mais pr\u00f3speras das novas col\u00f4nias portuguesas, fazia poucas d\u00e9cadas que os portugueses tinham pisado ali, mas a Capitania de Pernambuco j\u00e1 era politicamente relevante havia sessenta e seis grandes engenhos na regi\u00e3o e, no litoral, toda uma estrutura de suporte, criada para permitir o escoamento dos produtos, o trabalho fren\u00e9tico dos engenhos se refletia na cidade do Recife, cada dia mais estruturada e organizada, enquanto isto o mesmo n\u00e3o ocorria no sul do pa\u00eds, aonde os poucos europeus ali chegados ainda lutavam para conquistar a terra e se instalar de forma definitiva, eram desbravadores, fundamentalmente.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, sua fama de conquistadores tinha ultrapassado as fronteiras da regi\u00e3o, em todo o pa\u00eds se dizia que os paulistas eram homens valentes e grandes lutadores e devido a esta reputa\u00e7\u00e3o guerreira foi que na segunda metade do s\u00e9culo XVII levou o governador de Pernambuco a procurar o bandeirante Domingos Jorge Velho, chefe de um bando paulista em a\u00e7\u00e3o no interior brasileiro no comandando um pequeno ex\u00e9rcito de dois mil homens, armados de arcos, flechas e espingardas sem escr\u00fapulos na ca\u00e7a aos \u00edndios.<\/p>\n<p>Nos engenhos e senzalas, Palmares era sin\u00f4nimo de Terra Prometida, e Zumbi, considerado imortal, era visto como seu guardi\u00e3o fiel e valente, e para destruir o quilombo o poder colonial organizou dezesseis expedi\u00e7\u00f5es oficiais onde quinze fracassaram.<\/p>\n<p>As montanhas pareciam intranspon\u00edveis, e o que as montanhas n\u00e3o faziam ficava por conta dos negros e de suas estrat\u00e9gias militares. O ex\u00e9rcito de Palmares era competente, embora carente de armas e muni\u00e7\u00f5es e tinha estabelecido seu quartel-general em Subupira, um povoado de oitocentas casas, todas elas cercadas de madeira, pedras e armadilhas e para chegar at\u00e9 Subupira era muito dif\u00edcil pois era preciso superar os obst\u00e1culos e entrar na fortaleza, quase imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Domingos Jorge Velho, comandante do ex\u00e9rcito colonial, nunca tinha visto nada parecido em toda sua vida.<\/p>\n<p>Custava a crer que fosse obra de negros entre o verde do mato e o azul pur\u00edssimo do c\u00e9u numa extens\u00e3o semicircular de cinco quil\u00f4metros e meio se erguia a escura muralha de troncos e pedras e tinha redentes, guaritas, quebrava em diversos lugares, abria torneiras para atiradores a cada dois metros.<\/p>\n<p>E no momento em que Domingos Jorge Velho ordenou que seus batedores se aproximassem dos fossos que circundavam a fortifica\u00e7\u00e3o eles foram duramente atacados<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um dos subcomandantes lhe deu, ent\u00e3o, a ideia de construir contracercas de prote\u00e7\u00e3o, enquanto tra\u00e7avam o plano final de ataque, e para isto foram erguidas de troncos de \u00e1rvores rapidamente. E na manha do dia 23 de janeiro, somente um capit\u00e3o, com cinquenta homens, conseguiu sob uma chuva de flechas e balas encostar-se \u00e0 muralha palmarina atacando-a com machados, enquanto isto os quilombolas, l\u00e1 do alto, lhes abriam as cabe\u00e7as com pedregulhos enormes, pescando os sobreviventes a gancho, pelas costas.<\/p>\n<p>Fracassado o assalto, Domingos Jorge Velho temeu pela pr\u00f3pria seguran\u00e7a do seu acampamento, e por isto mandou buscar na cidade de Recife um refor\u00e7o de duzentos homens e seis canh\u00f5es que se tornaram in\u00fatil, mesmo sob prote\u00e7\u00e3o das contracercas devido \u00e0 dist\u00e2ncia \u00e0 demasiada para o alcance dos canh\u00f5es.<\/p>\n<p>E na noite de 5 de fevereiro, a raiva de Domingos Jorge Velho cedeu vez \u00e0 intelig\u00eancia e para isto chamou os subcomandantes e tra\u00e7ou a \u00fanica sa\u00edda e imediatamente ordenou que come\u00e7assem, em sil\u00eancio, a constru\u00e7\u00e3o desta nova contracercas, obl\u00edqua \u00e0 muralha palmarina que deveria ser erguida at\u00e9 encostar no grande precip\u00edcio esquerda do Macaco de maneira t\u00e3o r\u00e1pida que tivesse pronta a clarear do dia seguinte.<\/p>\n<p>Quando, no meio da noite, Zumbi de Palmares descobriu o ardil de Domingos Jorge Velho, sua primeira provid\u00eancia foi executar a sentinela que n\u00e3o dera o alarme, e no desespero de uma guerra total.<\/p>\n<p><strong>Zumbi de Palmares<\/strong>\u00a0estava mais uma vez encurralado e com uma \u00fanica chance de escapar e para isto Zumbi juntou os comandantes e oficiais e confessou o fracasso do plano que urdira, ao atrair o ex\u00e9rcito colonial em peso para uma grande batalha \u00e0s portas da capital e massacr\u00e1-lo e se caso perdesse os sobreviventes poderiam recome\u00e7ar a vida em outro lugar onde eles seriam o novo Palmares.<\/p>\n<p>Se vencessem, o governo colonial ficaria de tal forma fraco e desmoralizado que aceitaria Palmares como na\u00e7\u00e3o soberana. Na beira do abismo, do lado ocidental da fortifica\u00e7\u00e3o, restava uma passagem que o inimigo n\u00e3o tivera tempo de fechar e por ali sairiam os guerreiros \u2013 r\u00e1pidos e mudos para serem recompostos em algum ponto de onde recome\u00e7ariam as guerras.<\/p>\n<p>E no momento em que passaram os \u00faltimos guerreiros aconteceu que algumas pedras rolaram e um mameluco abriu fogo sobre eles, e sem saberem se combatiam ou escapavam, os guerreiros palmarinos se entrecochavam em p\u00e2nico, e perto de duas centenas de negros despencaram pela cratera sem fundo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m Domingos Jorge Velho n\u00e3o quis persegui-los pois a melhor ca\u00e7a estava dentro do quilombo e para isto ele mandou os canh\u00f5es cuspirem fogo contra a cidadela, onde Zumbi e seus guerreiros lutaram como nunca o \u00faltimo momento contra os canh\u00f5es de Domingos Jorge Velho, e pelos escombros da formid\u00e1vel parede, a multid\u00e3o de \u00edndios, mamelucos e soldados finalmente penetraram em Palmares em uma f\u00faria que n\u00e3o deixou nada de p\u00e9 ou inteiro em Palmares quando seus soldados massacraram mulheres e crian\u00e7as sem um pingo de compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Zumbi vendo a batalha perdida, fugiu para tentar construir um novo Palmares, mas um ano mais tarde, foi tra\u00eddo, vindo a ser morto nas brenhas da Serra Dois Irm\u00e3os por volta de cinco horas da manh\u00e3 de 20 de novembro de 1695<\/p>\n<p>Seu corpo foi esquartejado, sua cabe\u00e7a ficou exposta em uma pra\u00e7a em Recife para servir de exemplo para aqueles que quisessem resistir a escravid\u00e3o, morreu, mas n\u00e3o se entregou ao cativeiro, que apesar de toda a viol\u00eancia e da selvageria dos prepostos do sistema colonial, n\u00e3o conseguiu derrotar o s\u00edmbolo do hero\u00edsmo do povo brasileiro, da resist\u00eancia \u00e0 domina\u00e7\u00e3o, Zumbi dos Palmares \u00e9 refer\u00eancia legada tanto \u00e0s gera\u00e7\u00f5es africanas trazidas ao Brasil quanto aos seus descendentes afro-brasileiros, mestre na luta pela liberdade, seu vulto se confunde com o caminho para a consci\u00eancia do povo brasileiro, de forma exemplar, Zumbi encarna os horrores do escravismo.<\/p>\n<p>E este \u00e9, para sempre, um cad\u00e1ver insepulto, um morto vivo. Sua lembran\u00e7a sobreviver\u00e1 aos tempos que nos obrigam a sonhar, \u00e0 historiografia oficial que insiste em ignorar sua real import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Permanecer\u00e1 como s\u00edmbolo das atrocidades infind\u00e1veis do poder ilimitado, arbitr\u00e1rio, prepotente. Ficar\u00e1, acima de tudo, como exemplo a todos que resistem \u00e0 opress\u00e3o e lutam por liberdade e justi\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>20 de Novembro \u00e9 o Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-91278\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/zumbi-dos-palmares-05.jpg\" alt=\"Zumbi, s\u00edmbolo da resist\u00eancia negra\" width=\"161\" height=\"356\" srcset=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/zumbi-dos-palmares-05.jpg 161w, https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/zumbi-dos-palmares-05-136x300.jpg 136w\" sizes=\"(max-width: 161px) 100vw, 161px\" \/><strong>Zumbi, s\u00edmbolo da resist\u00eancia negra<\/strong><\/p>\n<p>A data \u2013 transformada em\u00a0<strong>Dia Nacional da Consci\u00eancia Negra\u00a0<\/strong>pelo Movimento Negro Unificado em 1978 \u2013 n\u00e3o foi escolhida ao acaso, e sim como homenagem a Zumbi, l\u00edder m\u00e1ximo do Quilombo de Palmares e s\u00edmbolo da resist\u00eancia negra, assassinado em 20 de novembro de 1695.<\/p>\n<p>O Quilombo dos Palmares foi fundado no ano de 1597, por cerca de 40 escravos foragidos de um engenho situado em terras pernambucanas. Em pouco tempo, a organiza\u00e7\u00e3o dos fundadores fez com que o quilombo se tornasse uma verdadeira cidade.<\/p>\n<p><strong>Os negros que escapavam da lida e dos ferros n\u00e3o pensavam duas vezes:<\/strong>\u00a0o destino era o tal quilombo cheio de palmeiras.<\/p>\n<p>Com a chegada de mais e mais pessoas, inclusive \u00edndios e brancos foragidos, formaram-se os mocambos, que funcionavam como vilas. O mocambo do macaco, localizado na Serra da Barriga, era a sede administrativa do povo quilombola. Um negro chamado Ganga Zumba foi o primeiro rei do Quilombo dos Palmares.<\/p>\n<p>Alguns anos ap\u00f3s a sua funda\u00e7\u00e3o, o Quilombo dos Palmares foi invadido por uma expedi\u00e7\u00e3o bandeirante. Muitos habitantes, inclusive crian\u00e7as, foram degolados.<\/p>\n<p>Um rec\u00e9m-nascido foi levado pelos invasores e entregue como presente a Ant\u00f4nio Melo, um padre da vila de Recife.<\/p>\n<p>O menino, batizado pelo padre com o nome de Francisco, foi criado e educado pelo religioso, que lhe ensinou a ler e escrever, al\u00e9m de lhe dar no\u00e7\u00f5es de latim, e o iniciar no estudo da B\u00edblia. Aos 12 anos o menino era coroinha. Entretanto, a popula\u00e7\u00e3o local n\u00e3o aprovava a atitude do p\u00e1roco, que criava o negrinho como filho, e n\u00e3o como servo.<\/p>\n<p>Apesar do carinho que sentia pelo seu pai adotivo, Francisco n\u00e3o se conformava em ser tratado de forma diferente por causa de sua cor.<\/p>\n<p>E sofria muito vendo seus irm\u00e3os de ra\u00e7a sendo humilhados e mortos nos engenhos e pra\u00e7as p\u00fablicas. Por isso, quando completou 15 anos, o franzino Francisco fugiu e foi em busca do seu lugar de origem, o Quilombo dos Palmares.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s caminhar cerca de 132 quil\u00f4metros, o garoto chegou \u00e0 Serra da Barriga. Como era de costume nos quilombos, recebeu uma fam\u00edlia e um novo nome.<\/p>\n<p>Agora, Francisco era Zumbi. Com os conhecimentos repassados pelo padre, Zumbi logo superou seus irm\u00e3os em intelig\u00eancia e coragem. Aos 17 anos tornou-se general de armas do quilombo, uma esp\u00e9cie de ministro de guerra nos dias de hoje.<\/p>\n<p>Com a queda do rei Ganga Zumba, morto ap\u00f3s acreditar num pacto de paz com os senhores de engenho, Zumbi assumiu o posto de rei e levou a luta pela liberdade at\u00e9 o final de seus dias.<\/p>\n<p>Com o exterm\u00ednio do Quilombo dos Palmares pela expedi\u00e7\u00e3o comandada pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, em 1694, Zumbi fugiu junto a outros sobreviventes do massacre para a Serra de Dois Irm\u00e3os, ent\u00e3o terra de Pernambuco.<\/p>\n<p>Contudo, em 20 de novembro de 1695 Zumbi foi tra\u00eddo por um de seus principais comandantes, Ant\u00f4nio Soares, que trocou sua liberdade pela revela\u00e7\u00e3o do esconderijo. Zumbi foi ent\u00e3o torturado e capturado. Jorge Velho matou o rei Zumbi e o decapitou, levando sua cabe\u00e7a at\u00e9 a pra\u00e7a do Carmo, na cidade de Recife, onde ficou exposta por anos seguidos at\u00e9 sua completa decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cDeus da Guerra\u201d, \u201cFantasma Imortal\u201d ou \u201cMorto Vivo\u201d.<\/p>\n<p><strong>Seja qual for a tradu\u00e7\u00e3o correta do nome Zumbi, o seu significado para a hist\u00f3ria do Brasil e para o movimento negro \u00e9 praticamente un\u00e2nime:<\/strong>\u00a0Zumbi dos Palmares \u00e9 o maior \u00edcone da resist\u00eancia negra ao escravismo e de sua luta por liberdade. Os anos foram passando, mas o sonho de Zumbi permanece e sua hist\u00f3ria \u00e9 contada com orgulho pelos habitantes da regi\u00e3o onde o negro-rei pregou a liberdade.<\/p>\n<p><strong>Zumbi dos Palmares &#8211; Resumo<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s quase um s\u00e9culo de sucessivos fracassos, em 20 de dezembro de 1695, uma tropa mercen\u00e1ria, contratada pela Coroa portuguesa e os usineiros de a\u00e7\u00facar da ent\u00e3o capitania de Pernambuco no nordeste brasileiro, trucidavam o \u00faltimo foco da resist\u00eancia armada dos escravos que passaria \u00e0 hist\u00f3ria como o Quilombo dos Palmares. Seu l\u00edder, conhecido pelo nome de guerreiro africano, Zumbi, era morto em um combate her\u00f3ico e desigual. Sua cabe\u00e7a seria decepada do corpo, enfiada em uma estaca e exibida em na pra\u00e7a principal de Olinda at\u00e9 descarnar-se totalmente para mostrar que o grande l\u00edder negro n\u00e3o era imortal e para meter medo nos escravos e prevenir futuras rebeli\u00f5es.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o contra o Quilombo n\u00e3o se esgotou com a morte de Zumbi.<\/p>\n<p><b>A historiografia oficial procurou retirar legitimidade hist\u00f3rica \u00e0 resist\u00eancia negra, com o argumento de que, caso sa\u00edssem vitoriosos, os quilombolas teriam transformado o Brasil em um outro Haiti, ou seja, liquidado a cultura europeia, lusitana, substituindo-a pela barb\u00e1rie africana e condenando o pa\u00eds a um atraso sem perspectivas de reden\u00e7\u00e3o, concep\u00e7\u00e3o esta que ignora o atraso nacional existente causado justamente pela predomin\u00e2ncia e longa sobreviv\u00eancia da escravid\u00e3o:<\/b>\u00a0\u201cA todos os respeitos menos indiscut\u00edvel \u00e9 o servi\u00e7o relevante prestado pelas armas portuguesas e coloniais, destruindo de uma vez a maior das amea\u00e7as \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o do futuro povo brasileiro, nesse novo Haiti, refrat\u00e1rio a todo o progresso e inacess\u00edvel a toda civiliza\u00e7\u00e3o, que Palmares vitorioso tria plantado no cora\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d (Os Africanos no Brasil, Nina Rodrigues)<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 40 iniciam-se no Brasil o estudos negros voltados para recuperar a verdade hist\u00f3rica sobre a escravid\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o do negro e suas lutas. Um dos pioneiros deste g\u00eanero de historiografia, \u00c9dison Carneiro, escreve o cl\u00e1ssico O Quilombo dos Palmares onde, pela primeira vez, a hist\u00f3ria da epopeia dos escravos \u00e9 relatada sobre a base de uma documenta\u00e7\u00e3o rigorosa e um m\u00e9todo cient\u00edfico.<\/p>\n<p>Escrito em pleno Estado Novo \u2013 que foi, entre outras coisas, um regime de segrega\u00e7\u00e3o racial \u2013 o livro \u00e9 proibido e tem que ser publicado pela primeira no estrangeiro.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 70, a luta dos escravos ser\u00e1 restada pelas tend\u00eancias nacionalistas e foquistas, sendo Zumbi transformado em s\u00edmbolo da resist\u00eancia nacional ao imperialismo, da mesma forma que em outros pa\u00edses latino-americanos o foram os l\u00edderes das grandes rebeli\u00f5es ind\u00edgenas como Tupac Amaru e Tupac Catari. Os historiadores deste per\u00edodo (D\u00e9cio Freitas, Palmares, a guerra dos escravos, originalmente, Palmares, a guerrilha dos escravos; Cl\u00f3vis Moura, Quilombos e rebeli\u00e3o negra).<\/p>\n<p>A crise da ditadura militar, onde novamente intensificou-se a opress\u00e3o do negro, com manifesta\u00e7\u00f5es de aberta segrega\u00e7\u00e3o racial, levou ao surgimento de um novo movimento negro como parte da luta antiditatorial do movimento estudantil e oper\u00e1rio.<\/p>\n<p>Esta nova vaga da mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do negro brasileiro ter\u00e1 maior envergadura que o do per\u00edodo 45-64, expressa nos Congressos negros da d\u00e9cada de 40 inspirados pelo pr\u00f3prio \u00c9dison Carneiro e outros, cuja atividade pol\u00edtica se colocava claramente nos marcos do nacionalismo burgu\u00eas varguista. O movimento do final dos anos 70 levar\u00e1 \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o do Movimento Negro Unificado, um primeiro esfor\u00e7o de dar um car\u00e1ter unificado e nacional \u00e0s tend\u00eancias pol\u00edtica do movimento negro e, pela primeira, vez de claras caracter\u00edsticas nacionalistas, ou seja, de afirma\u00e7\u00e3o do negro parte oprimida da sociedade e de condena\u00e7\u00e3o das tentativas de \u201cintegra\u00e7\u00e3o racial\u201d que, em absolutamente nada, modificaram a sorte da segundo maior popula\u00e7\u00e3o negra do planeta, maior que todos os pa\u00edses africanos, com a exce\u00e7\u00e3o da Nig\u00e9ria.<\/p>\n<p>O impasse do incipiente nacionalismo negro brasileiro \u2013 que nunca conseguiu definir um programa ou criar uma verdadeira organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, apesar do seu come\u00e7o vigoroso na luta contra a ditadura \u2013 n\u00e3o impediu o crescimento de uma consci\u00eancia e uma mobiliza\u00e7\u00e3o negra, impulsionada pela situa\u00e7\u00e3o geral do negro, formando a camada mais miser\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o, que abrange a maioria dos desempregados, dos sem-teto, ganhando sal\u00e1rios mais baixos que os brancos, continuando a v\u00edtima preferencial da arbitrariedade judici\u00e1ria e da viol\u00eancia policial e tendo bloqueada todas as possibilidades de ascens\u00e3o social, a come\u00e7ar pela pr\u00f3pria universidade, onde os negros que perfazem cerca de 60% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds constituem menos de 5% do total de matr\u00edculas.<\/p>\n<p>A grande repercuss\u00e3o dos 300 anos do mart\u00edrio de Zumbi, que a pr\u00f3pria imprensa burguesa reconhece ser um \u201cher\u00f3i ignorado pela hist\u00f3ria\u201d, inclusive com a in\u00e9dita ben\u00e7\u00e3o oficial \u00e9 express\u00e3o do crescimento das contradi\u00e7\u00f5es sociais e da revolta do negro(Fernando Henrique Cardoso, ladeado pelo ex-rei do futebol e ministro dos Esportes, Pel\u00e9, e a senadora petista Benedita da Silva, compareceu ao munic\u00edpio de Uni\u00e3o dos Palmares, no Estado de Alagoas, na Serra da Barriga, pr\u00f3ximo ao legend\u00e1rio mocambo do Macaco, centro da resist\u00eancia Palmarina para prestar a homenagem c\u00ednica dos opressores ao her\u00f3i dos oprimidos).<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e culturais da cultura negra \u2013 que se recusa a ser enterrada segundo os desejos da classe dominante que se julga mais pr\u00f3xima da Europa do que da \u00c1frica ou das Antilhas \u2013 mostram que o passado est\u00e1 alcan\u00e7ando o presente e a quest\u00e3o negra, assim como na \u00c1frica do Sul e nos EUA, desloca-se rumo ao centro da crise pol\u00edtica, como resultado da gigantesca crise capitalistas que acentuou as tend\u00eancias a empurrar os setores mais oprimidos e explorados da popula\u00e7\u00e3o para o \u00faltimo degrau da mis\u00e9ria e da viol\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>A escravid\u00e3o africana no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>A escravid\u00e3o africana no Brasil foi uma parte fundamental de um dos maiores empreendimentos mercantis dos prim\u00f3rdios do capitalismo, a ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar, somente suplantada pela extra\u00e7\u00e3o de metais preciosos na Am\u00e9rica hisp\u00e2nica e, posteriormente, no pr\u00f3prio Brasil.<\/p>\n<p>O atraso brasileiro foi uma consequ\u00eancia direta da excel\u00eancia das condi\u00e7\u00f5es naturais que permitiam a monocultura de produtos tropicais de grande valor comercial na Europa dos s\u00e9culos XV e XVI.<\/p>\n<p>Os objetivos comerciais da coloniza\u00e7\u00e3o determinaram o monop\u00f3lio da terra, de alto valor como investimento e a reuni\u00e3o de m\u00e3o-de-obra escrava necess\u00e1ria \u00e0s grandes planta\u00e7\u00f5es de cana e aos engenhos de a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Da mesma forma que as terras relativamente inf\u00e9rteis da Nova Inglaterra terminaram por dar lugar \u00e0 pequena propriedade agr\u00edcola e a uma acumula\u00e7\u00e3o de capital nativo, as terras tropicais do nordeste brasileiro, de extraordin\u00e1ria capacidade produtiva, deram lugar ao latif\u00fandio escravagista que bloqueou o caminho para um desenvolvimento capitalista pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>A m\u00e3o-de-obra africana foi trazida ao pa\u00eds por meio de uma viol\u00eancia sem paralelo na hist\u00f3ria da humanidade nos c\u00e9lebres navios negreiros, onde se amontavam seres humanos em um por\u00e3o infecto, em viagens de dois e tr\u00eas meses que transformavam uma parcela da carga em cad\u00e1veres e mutilava definitivamente uma outra, de tal forma que a contabilidade dos traficantes de escravos sempre previa com uma perda como resultado da viagem.<\/p>\n<p>No tempos do embargo ao tr\u00e1fico tornou-se comum os navios negreiros arrojaram a sua carga de mis\u00e9ria humana ao mar para evitar a repress\u00e3o da marinha brit\u00e2nica.<\/p>\n<p>Nas fazendas de a\u00e7\u00facar, a sorte do escravo africano n\u00e3o melhorava em nada. Os feitores faziam os escravos trabalharam at\u00e9 o limite das suas for\u00e7as e, para disciplinar as tentativas de rebeldia, faziam uso das mais violentas formas de tortura que iam desde as chibatadas at\u00e9 as mais hediondas formas de mutila\u00e7\u00e3o como arrancar dentes, l\u00edngua, olhos, dedos, orelhas e os seios no caso das mulheres.<\/p>\n<p>O estupro das negras tornou-se uma verdadeira institui\u00e7\u00e3o, praticada inclusive pelos piedosos frades da Igreja Cat\u00f3lica, o que deu origem ao abomin\u00e1vel com\u00e9rcio que os pais faziam dos pr\u00f3prios filhos, como ocorreu com o not\u00e1vel l\u00edder abolicionista e poeta, Luiz Gama, filho de um comerciante portugu\u00eas com uma escrava e que foi vendido pelo pr\u00f3prio pai.<\/p>\n<p>Esse mart\u00edrio inacredit\u00e1vel chegou ao extremo de dar lugar a uma forma de resist\u00eancia passiva, conhecida como banzo, onde os negros morriam de uma inani\u00e7\u00e3o espiritual que era na realidade uma forma de suic\u00eddio por falta de vontade de viver.<\/p>\n<p>Esse quadro dantesco de horrores inacredit\u00e1veis n\u00e3o impediu que boa parcela da intelectualidade burguesa, inclusive do modernismo do s\u00e9culo XX, difundissem a extraordin\u00e1ria vers\u00e3o de que a escravid\u00e3o no Brasil teria sido uma domina\u00e7\u00e3o \u201cbranda e humanit\u00e1ria\u201d (Gilberto Freyre) e exaltassem o car\u00e1ter naturalmente \u201ccordial\u201d (S\u00e9rgio Buarque de Hollanda) do homem e da cultura brasileira, tudo o que teria desaguado em uma sociedade que seria um modelo de \u201cdemocracia racial\u201d!<\/p>\n<p>Calcula-se que cerca de 50 milh\u00f5es de almas foram trazidas ao Brasil durante os mais de 300 anos de escravid\u00e3o partidas principalmente das possess\u00f5es portuguesas de Angola, Mo\u00e7ambique, Cabo Verde e Guin\u00e9 Bissau.<\/p>\n<p>A selvageria inaudita do regime escravista \u2013 que n\u00e3o dava ao escravo nenhuma alternativa \u2013 despertou uma dura e permanente resist\u00eancia dos negros que se traduziram em milhares de revoltas de todos os tamanhos e por todo o pa\u00eds, algumas das quais como as revoltas dos negros isl\u00e2micos, os mal\u00eas e huss\u00e1s na Bahia, no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX ou ainda os levantes escravos realizados como parte da campanha abolicionista como a grande marcha em S\u00e3o Paulo e as rebeli\u00f5es em Campos no Rio de Janeiro no final do mesmo s\u00e9culo assumiram a forma de verdadeiras insurrei\u00e7\u00f5es contra o regime escravagista.<\/p>\n<p>As rebeli\u00f5es escravas, no entanto, assumiram, mais comumente, a forma dos quilombos, os quais durante todos os tr\u00eas s\u00e9culos de escravid\u00e3o brotaram por todos os estados do pa\u00eds como cogumelos ap\u00f3s a chuva, n\u00e3o se excetuando os estados mais distantes e menos povoados como os do norte do pa\u00eds, na regi\u00e3o amaz\u00f4nica. Nos estados originais da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesas os escravos rebelados criaram centenas de quilombos, o mesmo ocorrendo em Minas Gerais, Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e at\u00e9 Santa Catarina no sul do pa\u00eds,alguns dos quais sobreviveram at\u00e9 os dias de hoje como comunidades que reivindicam a posse das terras dos antigos quilombos que lhe deram origem.<\/p>\n<p>Os quilombos t\u00eam sido retratados, de maneira completamente equivocada, por muitos historiadores como sendo uma forma subalterna de resist\u00eancia \u00e0 escravid\u00e3o, na medida em que n\u00e3o tinha uma concep\u00e7\u00e3o de conjunto, um \u201cprojeto pol\u00edtico\u201d etc. mas se \u201climitavam\u201d a agrupar os escravos fugidos das fazendas.<\/p>\n<p>Na realidade, o quilombo, ou seja, a fuga e a cria\u00e7\u00e3o de um foco de resist\u00eancia em forma de comunidade produtiva \u00e9 a forma mais tradicional de revolta de escravos na hist\u00f3ria da humanidade.<\/p>\n<p><strong>No princ\u00edpio das guerras servis em Roma, encontrava-se o mesmo m\u00e9todo inevit\u00e1vel:<\/strong>\u00a0a fuga de escravos, muitas vezes com a liquida\u00e7\u00e3o dos donos, dava lugar a comunidades fortificadas as quais inevitavelmente, na medida em que cresciam eram obrigadas, para sobreviver, a engajar um combate de vida ou morte contra o regime escravagista.<\/p>\n<p>A atribui\u00e7\u00e3o de um car\u00e1ter in\u00f3cuo aos quilombos como instrumento de destrui\u00e7\u00e3o do regime escravagista parte de uma ilus\u00e3o de \u00f3tica.<\/p>\n<p>A maioria dos quilombos foram focos relativamente isolados de resist\u00eancia porque a revolta do escravos n\u00e3o havia podido se aproveitar de uma crise interna do regime, ou, para utilizar, uma express\u00e3o conhecida, a crise \u201cpor baixo\u201d n\u00e3o havia se combinado com uma crise \u201cpor cima\u201d, ou ainda, embora os \u201cde baixo\u201d n\u00e3o pudessem mais ser governados como antes, os \u201cde cima\u201d continuavam conseguido manter a sua domina\u00e7\u00e3o como antes.<\/p>\n<p>Justamente a import\u00e2ncia hist\u00f3rica do quilombo dos Palmares \u00e9 que mostra que, diante da crise do regime colonial, a revolta escrava apresentava um alto potencial subversivo em rela\u00e7\u00e3o ao regime escravagista em seu conjunto.<\/p>\n<p><strong>A crise das metr\u00f3poles e da col\u00f4nia<\/strong><\/p>\n<p>Portugal constituiu-se como reino independente de Castela apenas em 1385, onde um levante nacional inaugurou com D. Jo\u00e3o I a dinastia de Aviz. Com a vit\u00f3ria das for\u00e7as portuguesas na batalha de Aljubarrota, consolidou-se o novo reino que conhecer\u00e1 sua fase de maior prosperidade a partir de 1415 quando, com a conquista de Ceuta, inicia-se o expansionismo portugu\u00eas que, ap\u00f3s a conquista da passagem do Cabo das Tormentas (\u00c1frica do Sul) por Bartolomeu Dias, alcan\u00e7ar\u00e1 o apogeu no reino de D. Manuel I (1495-1521), conhecido como \u201co venturoso\u201d, durante cujo reinado realiza-se o ciclo principal das navega\u00e7\u00f5es portuguesas com a famosa viagem de Vasco Gama estabelecendo o caminho mar\u00edtimo para o oriente.<\/p>\n<p>A descoberta e o in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o do Brasil vieram a culminar esta obra.<\/p>\n<p>Ao final do s\u00e9culo XVI, a dinastia de Aviz inicia o seu nadir, extinguindo-se com a morte do rei D. Sebasti\u00e3o I (1557-78), morto com boa parte do seu ex\u00e9rcito nas cruzadas na batalha de Alc\u00e1cer-quibir contra os mouros.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, enfraquecido, a nobreza mercantil Portugal submete-se \u00e0 coroa espanhola, ent\u00e3o a maior pot\u00eancia europeia, em busca de estabilidade pol\u00edtica e econ\u00f4mica e assim permanecer\u00e1 de 1580, com Felipe I (Felipe II da Espanha) at\u00e9 1640, quando o levante da aristocracia portuguesa contra Felipe III (Felipe IV da Espanha) separa os dois reinos, estabelecendo no trono portugu\u00eas a dinastia bragantina com D. Jo\u00e3o IV (1640-56).<\/p>\n<p>Em 1624, os holandeses, atrav\u00e9s da chamada Companhia das \u00cdndias ocidentais invadem a Bahia, centro da col\u00f4nia, e s\u00e3o expulsos por uma for\u00e7a conjunta hispano-lusitana. Em uma segunda tentativa, seis anos depois, os holandeses conseguem se apoderar da capit\u00e2nia de Pernambuco, segundo centro produtor das possess\u00f5es portuguesas, a\u00ed permanecendo at\u00e9 1654.<\/p>\n<p>\u00c9 neste marco, do que foi provavelmente a maior crise da col\u00f4nia portuguesa, com os holandeses se apoderando concomitantemente das terras africanas de Portugal que se d\u00e1 o crescimento do Quilombo de Palmares.<\/p>\n<p>A guerra leva a extremos a debilidade do regime escravagista, a tal ponto que os portugueses oferecem aos negros a alforria em troca de participarem da guerra contra a pot\u00eancia dos pa\u00edses baixos e \u00e9 formado o \u201cter\u00e7o\u201d (forma\u00e7\u00e3o militar tradicional do ex\u00e9rcito espanhol da \u00e9poca) do comandante negro Henrique Dias que, gra\u00e7as aos servi\u00e7os prestados, n\u00e3o apenas contra os holandeses, mas tamb\u00e9m contra o pr\u00f3prio Palmares, al\u00e7a-se \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de fidalgo negro em uma terra de escravos.<\/p>\n<p>As forma\u00e7\u00f5es quilombolas da regi\u00e3o dos Palmares datavam j\u00e1 do final do s\u00e9culo XVI. Ali reuniam-se os escravos fugitivos das fazendas da regi\u00e3o, \u00edndios e inclusive homens brancos que, por um motivo ou outro, sofressem a opress\u00e3o ou a persegui\u00e7\u00e3o do regime colonial. Durante a guerra contra a ocupa\u00e7\u00e3o holandesa, as comunidades embrion\u00e1rias receberam o refor\u00e7o de um incremento das fugas e de v\u00e1rias rebeli\u00f5es que, n\u00e3o raro, terminavam com a morte dos donos e feitores dos engenhos e a fuga em massa dos escravos.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, o Quilombo dos Palmares j\u00e1 n\u00e3o era uma comunidade \u00fanica, mas um conjunto de quilombos chamados de mocambos, os quais podem ter atingido uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 30 mil pessoas, um n\u00famero extraordin\u00e1rio para a \u00e9poca. Segundo D\u00e9cio Freitas (op. cit.) \u201cconhecemos o nome e a localiza\u00e7\u00e3o de onze povoa\u00e7\u00f5es palmarinas. Macaco, sobre a serra da Barriga, num ponto a sudoeste da atual cidade alagoana de Uni\u00e3o dos Palmares, era a maior e mais importante. Possu\u00eda 1.500 casas e uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de oito mil habitantes.<\/p>\n<p>Estrategicamente era quase inexpugn\u00e1vel e por isso veio a converter-se na capital da rep\u00fablica negra. Seguia-se Amaro, 54 quil\u00f4metros a noroeste de Serinha\u00e9m, com uma extens\u00e3o de seis quil\u00f4metros, mil casas e uma popula\u00e7\u00e3o avaliada em cinco mil habitantes. Nas cabeceiras do rio Satuba e imedia\u00e7\u00f5es da serra da Ju\u00e7ara, numa dist\u00e2ncia de 36 quil\u00f4metros do Macaco, erguia-se Subupira. Media 6 quil\u00f4metros de extens\u00e3o e situava-se na dist\u00e2ncia de tr\u00eas montes. Entre os ribeiros Paraibinha e Jundi\u00e1, perto do lugar onde mais tarde existiu o aldeamento do limoeiro, ficava a povoa\u00e7\u00e3o de Osenga, 20 quil\u00f4metros a oeste de Macaco. Zumbi situava-se 96 quil\u00f4metros a noroeste de Porto Calvo.<\/p>\n<p>Acotirene estava 30 quil\u00f4metros ao norte de Zumbi e 180 quil\u00f4metros a noroeste de Porto Calvo. havai duas povoa\u00e7\u00f5es cont\u00edguas chamadas Tabocas, e Acotirene a leste de Zumbi. Danbrabanga se erguia a 84 quil\u00f4metros de Tabocas, no lugar onde depois existiu o povoado de Sabalang\u00e1, no caminho da serra Dois Irm\u00e3os, atual munic\u00edpio de Vi\u00e7osa. A noroeste de Alagoas, 150 quil\u00f4metros, na serra do Cafuxi, ficava Andalaquituche. Nas redondezas da atual cidade de Garanhuns estavam as povoa\u00e7\u00f5es de Alto Magano e Curiva\u201d (Palmares, a guerra do escravos).<\/p>\n<p><strong>Quilombo dos Palmares<\/strong><\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica dos quilombos deu lugar a in\u00fameras especula\u00e7\u00f5es e confus\u00f5es entre os historiadores de diversas tend\u00eancias. Alguns acreditam terem sido os Palmares uma rep\u00fablica, outros uma monarquia. Aparentemente os l\u00edderes eram eleitos por um conselho de caracter\u00edsticas militares e havia uma autoridade pessoal que seria o rei dos quilombos, o que d\u00e1 a entender que seria uma monarquia eletiva, como assinalaram alguns historiadores. No per\u00edodo final do quilombo, este posto estava ocupado pelo Ganga Zumba, nome que para alguns designaria o cargo, mas que para outros seria o nome pr\u00f3prio do rei. O mesmo ocorre com Zumbi, que alguns historiadores acreditaram ser a designa\u00e7\u00e3o de um cargo militar que corresponderia ao posto de general.<\/p>\n<p>A historiografia mais moderna estabeleceu, de forma relativamente s\u00f3lida que ambas personagens existiram de fato e que seus nomes n\u00e3o se referem a cargos e posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Longe de ter sido um aglomerado ca\u00f3tico, os Palmares parecem ter tido uma organiza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica complexa e muito bem estruturada, com institui\u00e7\u00f5es, leis e costumes definidos.<strong>\u00a0Mais ainda, seriam rigorosas estas institui\u00e7\u00f5es refletindo o estado de guerra permanente do quilombo:<\/strong>\u00a0\u201ctodos os negros fugitivos que conquistaram a sua liberdade, a conservam entre os habitantes de Palmares; todos os que se arrancavam das ro\u00e7as ficavam escravos. Melhor se desenvolveu e apurou esta pol\u00edcia (pol\u00edtica NR) na defesa externa e interna em um esbo\u00e7o de organiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e da guerra.<\/p>\n<p>Ali eram punidos de morte o homic\u00eddio, o adult\u00e9rio e o roubo; de morte se puniam ainda aqueles que, j\u00e1 sendo livros em Palmares, voluntariamente regressavam ao cativeiro em casa dos seus antigos senhores; menor era a pena em que incorriam os escravos de Palmares que se evadiam. Devia ser assim.\u00a0<strong>A suprema lex na manuten\u00e7\u00e3o de Palmares era a capacidade de manter a liberdade adquirida:<\/strong>\u00a0faltar a esse dever era desertar e trair a causa comum e o m\u00e1ximo da puni\u00e7\u00e3o devia correr em aux\u00edlio dela, a soerguer e sustentar os \u00e2nimos d\u00fabios\u201d (Nina Rodrigues, op. cit.).<\/p>\n<p>O historiador hostil aos quilombolas retrata a extraordin\u00e1ria tens\u00e3o de for\u00e7as na luta pela liberdade e o princ\u00edpio constitutivo da organiza\u00e7\u00e3o do quilombo de maneira insofism\u00e1vel.<\/p>\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, os quilombos teriam se organizado atrav\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola e do artesanato \u2013 muitos escravos detinham conhecimento em profiss\u00f5es t\u00e9cnicas, inclusive como metal\u00fargicos e armeiros \u2013 voltado para as necessidades da comunidade e realizada em car\u00e1ter comunit\u00e1rio. parece n\u00e3o haver d\u00favida do \u00eaxito econ\u00f4mico do quilombo retratado nos diversos relatos de intenso com\u00e9rcio entre os moradores do quilombo e os habitantes da regi\u00f5es pr\u00f3ximas, com os quais os ex-escravos trocavam produtos agr\u00edcolas e gado principalmente por armas e muni\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Segundo Edison Carneiro, \u201cuma das atividades principais dos negros palmarinos era a agricultura. Os homens do quilombo lavravam e disciplinavam a terra, beneficiando-se da experi\u00eancia que traziam como trabalhadores do eito, na fazendas e canaviais dos brancos.<\/p>\n<p>\u201cA lavoura mais importante era a do milho, que plantavam e colhiam duas vezes por ano, descansando depois de duas semanas, \u2018entregando-se soltamente ao prazer\u2019, mas tamb\u00e9m plantavam, de acordo com Barleus, feij\u00e3o, batata-doce, mandioca. A expedi\u00e7\u00e3o Blaer-Reijmbach (1645) encontrou com efeito, grandes planta\u00e7\u00f5es, \u2018na maior parte de milho novo\u2019.<\/p>\n<p>Lavouras igualmente importantes eram a da banana e a da cana-de-a\u00e7\u00facar. Os holandeses, em 1645, tiveram de atravessar, no caminho dos Palmares, \u2018um denso canavial na extens\u00e3o de duas milhas\u2019 e, depois de passar o \u2018velho\u2019 Palmares, andaram cerca de milha e meia, \u201csempre por dentro de ro\u00e7as ou planta\u00e7\u00f5es abandonadas\u2019, onde acharam pacovas e canas para matar a fome\u201d (op. cit.).<\/p>\n<p>O mesmo autor assinala ainda que \u201ca expedi\u00e7\u00e3o holandesa de 1645 encontrou quatro forjas nos Palmares e o governador Fern\u00e3o Coutinho, em 1671, dizia que os negros rebelados j\u00e1 possu\u00edam \u2018tendas de ferreiro, e outras oficinas, com que poder\u00e3o fazer armas, pois usam de algumas de fogo que de c\u00e1 levam; e este sert\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e9rtil de metais, e salitre, que tudo lhes oferece para a sua defesa, se lhes n\u00e3o faltar a ind\u00fastria que tamb\u00e9m se pode temer dos muitos que fogem, j\u00e1 pr\u00e1ticos em todas as mec\u00e2nicas\u2026\u2019\u201d Em contraste com esta situa\u00e7\u00e3o, assinala que, \u201cem volta do quilombo, os moradores arrastavam uma exist\u00eancia miser\u00e1vel empobrecidos pelo dom\u00ednio holand\u00eas e pelas cont\u00ednuas contribui\u00e7\u00f5es, mais tarde, para a guerra contra os Palmares. Especialmente os moradores das vilas de Alagoas, Porto Calvo, Serinha\u00e9m e Rio de S\u00e3o Francisco (Penedo)\u201d (op. cit.).<\/p>\n<p><strong>A guerra contra Palmares<\/strong><\/p>\n<p>Durante todo o per\u00edodo de exist\u00eancia do quilombo, a coroa portuguesa e, por um per\u00edodo, o governo holand\u00eas do Brasil, enviaram contra Palmares dezenas de expedi\u00e7\u00f5es, das quais cerca de 30 apenas ap\u00f3s a expuls\u00e3o dos holandeses de Pernambuco.<\/p>\n<p>Terminado o longo per\u00edodo de guerra contra os holandeses, os senhores de engenho e o governo portugu\u00eas intensificaram a campanha contra Palmares, colhendo na maioria das oportunidades retumbantes fracassos nas m\u00e3os dos quilombolas, decididos, bem armados e fortificados. Os redutos dos palmarinos eram protegidos pelas condi\u00e7\u00f5es naturais, em meio a selvas e montanhas que dificultavam o acesso das expedi\u00e7\u00f5es repressivas, bem como o transporte de armamentos e a comunica\u00e7\u00e3o com as cidades.<\/p>\n<p>A primeira expedi\u00e7\u00e3o bem-sucedida, que abre uma aguda crise no quilombo foi dirigida por Fern\u00e3o Carrilho, em 1677. Soldado de carreira, Carrilho conquistara a patente de capit\u00e3o de infantaria atrav\u00e9s da repress\u00e3o dos mocambos e quilombos na regi\u00e3o. Ap\u00f3s uma s\u00e9rie de incidentes, em que perdeu metade dos homens, a expedi\u00e7\u00e3o conseguiu invadir a povoa\u00e7\u00e3o de Amaro, ferindo o chefe Ganga Zumba, matando v\u00e1rios importantes l\u00edderes quilombolas e fazendo cerca de 200 prisioneiros.<\/p>\n<p>Voltando a Porto Calvo, Carrilho apresentou o resultado da expedi\u00e7\u00e3o como \u201cdestru\u00eddos os Palmares e vencidos os negros\u201d, o que estava longe da realidade. No entanto, o sucesso relativo da expedi\u00e7\u00e3o abriu uma cis\u00e3o no interior dos Palmares. O chefe Ganga Zumba decide estabelecer uma negocia\u00e7\u00e3o com os brancos e procurar um tratado de paz.<\/p>\n<p>Uma delega\u00e7\u00e3o \u00e9 enviada \u00e0 cidade para parlamentar com o governador geral que a recebe como uma delega\u00e7\u00e3o governamental.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed fica estabelecido um acordo em que o governo se compromete a respeitar a liberdade e a autonomia dos palmarinos, com a condi\u00e7\u00e3o de que estes abandonem os Palmares \u2013 cujas terras f\u00e9rteis j\u00e1 eram cobi\u00e7adas pelos brancos \u2013 estabelecendo uma comunidade no interior em um lugar chamado Cuca\u00fa, que entregassem todos os escravos fugidos n\u00e3o nascidos nos Palmares e depusessem as armas. O acordo final foi firmado em Recife, capital da capitania, pessoalmente pelo pr\u00f3prio Ganga Zumba em 5 de novembro de 1678.<\/p>\n<p>As terras do quilombo foram distribu\u00eddas pelo governador geral entre os grandes propriet\u00e1rios fundi\u00e1rios da capitania.<\/p>\n<p>Contra o que pensaram os senhores de engenho e o governo colonial, o Quilombo ainda estava longe de terminar. Seriam necess\u00e1rios mais 18 anos de luta.<\/p>\n<p><strong>Zumbi<\/strong><\/p>\n<p>A maioria dos quilombolas acabar\u00e1 voltando as costas ao chefe Ganga Zumba e continuar\u00e1 a luta sob o comando de um novo chefe, Zumbi, comandante militar do Quilombo.<\/p>\n<p>As incertezas quanto \u00e0\u00a0<strong>hist\u00f3ria de Palmares<\/strong>\u00a0s\u00e3o ainda maiores no caso do famoso chefe negro. Alguns historiadores sustentam que se chamava Francisco, fora escravo de um padre que o educara e o ensinara a ler e escrever e algum conhecimento do latim para o of\u00edcio de coroinha. Segundo esta vers\u00e3o, o menino educado no catolicismo, teria fugido, abandonado suas cren\u00e7as e adotado nome africano. Mais prov\u00e1vel \u00e9 que, como defende D\u00e9cio Freitas, teria nascido livre em Palmares, seria casado e teria filhos.<\/p>\n<p>Mais recentemente, o antrop\u00f3logo Luiz Mott levantou a suposi\u00e7\u00e3o de que o l\u00edder negro seria homossexual, o que provocou uma injustificada e reacion\u00e1ria rea\u00e7\u00e3o agressiva de v\u00e1rios setores do movimento negro.<\/p>\n<p>O que \u00e9 certo \u00e9 que ao redor de Zumbi agrupou-se a maioria dos quilombolas e apenas mil pessoas seguiram com Ganga Zumba para o Cuca\u00fa. Zumbi retomou o Macaco, impossibilitando a coloniza\u00e7\u00e3o planejada pelos latifundi\u00e1rios e organizou um plano para destruir o Cuca\u00fa que se erguia como uma amea\u00e7a \u00e0 luta contra o opressor branco.<\/p>\n<p>Os adeptos de\u00a0<strong>Zumbi<\/strong>\u00a0infiltraram-se entre os moradores do Cuca\u00fa e elaboraram um plano para envenenar Ganga Zumba e, a partir da\u00ed, deflagar uma insurrei\u00e7\u00e3o que tomasse conta da povoa\u00e7\u00e3o levando os seus habitantes de volta para os Palmares. Segundo a vers\u00e3o apresentada por \u00c9dison Carneiro, os conspiradores chegaram a envenenar Ganga Zumba, mas a conspira\u00e7\u00e3o foi revelada prematuramente por alguns dos homens de confian\u00e7a do antigo chefe o que possibilitou a interven\u00e7\u00e3o de tropas governamentais que esmagaram a insurrei\u00e7\u00e3o, o que de qualquer maneira levou \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do Cuca\u00fa.<\/p>\n<p>Confrontado com uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia, Zumbi estabeleceu nos Palmares, uma esp\u00e9cie de governo de salva\u00e7\u00e3o publica, ou seja, uma ditadura revolucion\u00e1ria, impondo a lei marcial, a militariza\u00e7\u00e3o de todo o quilombo e a pena morte para os renegados. Segundo D\u00e9cio Freitas, \u201ch\u00e1 informa\u00e7\u00f5es precisas de que Zumbi sem perda de tempo subordinou toda a vida de Palmares \u00e0s exig\u00eancias da guerra implac\u00e1vel que se anunciava. Deslocou povoa\u00e7\u00f5es inteiras para lugares mais remotos. Incorporou \u00e0s mil\u00edcias e submeteu a adestramento intensivo todos os homens v\u00e1lidos. Multiplicou os postos de vigil\u00e2ncia e observa\u00e7\u00e3o na orla das matas. Despachou agentes para reunirem armas e muni\u00e7\u00f5es. Refor\u00e7ou as fortifica\u00e7\u00f5es do Macaco a ponto de torn\u00e1-la quase inexpugn\u00e1vel.<strong>Finalmente, decretou a lei marcial:\u00a0<\/strong>os que tentassem desertar para o Cuca\u00fa, seriam passados pelas armas\u201d (Op. cit.).<\/p>\n<p>A reviravolta na situa\u00e7\u00e3o dos acordos conclu\u00eddos por Ganga Zumba com o governo colonial colocam em evid\u00eancia o valor como l\u00edder pol\u00edtico e militar de Zumbi e uma determina\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria que justificam plenamente a compara\u00e7\u00e3o com o grande l\u00edder das revoltas escravas da antiguidade, que quase colocou o imp\u00e9rio romano de joelhos, Esp\u00e1rtaco.<\/p>\n<p>O grande m\u00e9rito de Zumbi foi o de que, com a sua rejei\u00e7\u00e3o do acordo feito por Ganga Zumba, denunciou de maneira insofism\u00e1vel a ilus\u00e3o que consistia a tentativa de um acordo entre os escravizados e os escravizadores para estabelecer um modus vivendi nos marcos do regime escravagista.<\/p>\n<p><strong>A destrui\u00e7\u00e3o de Palmares<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s o fracasso do acordo entre o governo colonial e os quilombolas novas expedi\u00e7\u00f5es foram tentadas, inclusive sob o comando do mesmo Fern\u00e3o Carrilho, que havia obtido a primeira vit\u00f3ria sobre o Macaco, mas fracassaram. Finalmente, tendo superado os problemas externos, a coroa portuguesa pode preparar-se com calma e superar relativamente as suas contradi\u00e7\u00f5es internas de forma a organizar uma ofensiva mais efetiva sobre o reduto de rebeldia negra.<\/p>\n<p>A derrota do legend\u00e1rio quilombo passaria \u00e0 hist\u00f3ria como obra de um paulista, o que, naqueles tempos, era sin\u00f4nimo da popula\u00e7\u00e3o mais selvagem do pa\u00eds, sendo a capitania de S\u00e3o Vicente, onde ser localizava a cidade de S\u00e3o Paulo de Piratininga, a mais atrasada de todo o pa\u00eds. Ali criaram-se as famosas \u201cbandeiras\u201d, tropas mercen\u00e1rias de brancos, mesti\u00e7os e \u00edndios cuja miss\u00e3o era fazer a guerra \u2013 principalmente aos \u00edndios \u2013 por encomenda e expedi\u00e7\u00f5es arriscadas pelo sert\u00e3o em busca de ouro e pedras preciosas. Os nomes dos principais \u201cbandeirantes\u201d (chefes das bandeiras) \u2013 apresentados idilicamente na hist\u00f3ria oficial como pioneiros e desbravadores \u2013 como Fern\u00e3o Dias Paes Leme, Raposo Tavares, Borba Gato, o \u201cAnhanguera\u201d, que enfeitam as estradas de S\u00e3o Paulo, est\u00e3o relacionados com os piores massacres e conflitos com a Igreja pela escraviza\u00e7\u00e3o dos \u00edndios, tendo sido os respons\u00e1veis pela destrui\u00e7\u00e3o da famosa \u201crep\u00fablica comunista\u201d-crist\u00e3\u201d dos \u00edndios guaranis na fronteira do Brasil.<\/p>\n<p>Foi um dos mais brutais destes chefes mercen\u00e1rios, o bandeirante Domingos Jorge Velho, o homem chamados para comandar a destrui\u00e7\u00e3o da resist\u00eancias de Zumbi.\u00a0<strong>Mameluco, ou seja, mesti\u00e7o de \u00edndio com branco, o paulista foi caracterizado pelos pr\u00f3prios senhores de engenho pernambucanos, brutais donos de escravos, nas palavras do pr\u00f3prio bispo de Pernambuco:\u00a0<\/strong>\u201ceste homem \u00e9 um dos maiores selvagens com que tenho topado: quando se avistou comigo trouxe consigo l\u00edngua (tradutor NR), porque nem falar sabe, nem se diferencia do mais b\u00e1rbaro tapuia mais que em dizer que \u00e9 crist\u00e3o, e n\u00e3o obstante o haver-se casdo de pouco, lhe assistem sete \u00edndias concubinas, e daqui se pode inferir como procede no mais; tendo sido a sua vida, desde que teve uso da raz\u00e3o, \u2013 se \u00e9 que a teve porque, se assim foi, de sorte a perdeu que entendo que n\u00e3o achar\u00e1 com facilidade, \u2013 se at\u00e9 o presente, andar metido pelos matos \u00e0 ca\u00e7a de \u00edndios e \u00edndias, estas para o exerc\u00edcio de suas tropezas, e aqueles para os granjeios de seus interesses\u201d (citado por Edison Carneiro, op. cit.)<\/p>\n<p>Depois de muitas indas e vindas, relativas a negocia\u00e7\u00f5es sobre o pagamento das tropas, a recompensa aos bandeirantes, a ajuda em homens e muni\u00e7\u00f5es e vencidas as resist\u00eancias dos donos de engenho, estava pronta a expedi\u00e7\u00e3o final contra os Palmares. Na primeira tentativa, os paulistas lan\u00e7aram-se contra um mocambo pr\u00f3ximo da capital do quilombo e foram recha\u00e7ados pelos guerreiros de Zumbi sofrendo pesadas perdas e de homens e equipamento.<\/p>\n<p>As tropas de Alagoas e de Porto Calvo foram tomadas de p\u00e2nico e fugiram. Jorge Velho, que havia chegado com mais de mil homens, entre brancos e \u00edndios, voltou para Porto Calvo com 600 \u00edndios e 45 brancos.<\/p>\n<p>O bandeirante pediu refor\u00e7os ao governador-maior e \u201cEm novembro de 1793 come\u00e7aram a chegar a Porto Calvo os comboios de mantimentos e material b\u00e9lico da Bahia.<\/p>\n<p><strong>Em dezembro chegam os grandes efetivos:\u00a0<\/strong>3.000 homens recrutados em Olinda e recife, comandados pelo capit\u00e3o Bartolomeu Sim\u00f5es da Fonseca; 2.000 de Alagoas e Porto Calvo, sob as ordens do sargento-mor Sebasti\u00e3o Dias Mineli, mais um corpo de elite, sob o comando o capit\u00e3o-mor Barros Pimentel.<\/p>\n<p>De Penedo e S\u00e3o Miguel chegaram 1.500 homens. Os irm\u00e3o Bernado eAnt\u00f4nio Viera de Mello se apresentaram \u00e0 frente de 300 homens e uma boiada. Da Bahia, para\u00edba e Rio Grande do Norte vieram mais 800 homens. Eram ao todo mais de nove mil homens \u2013 brancos afildagados, mamelucos bronzeados, mulatos bei\u00e7udos, \u00edndios, pernambucanos, paulistas, baianos, piauienses, reunidos no maior contingente militar at\u00e9 ent\u00e3o organizado na col\u00f4nia.<\/p>\n<p>\u201cA guerra dos Palmares transformara-se em uma cruzada contra os negros\u201d (Domingos Jorge Velho e a penetra\u00e7\u00e3o paulista no Nordeste, Renato Castelo Branco).<\/p>\n<p>Em janeiro de 1794, esta for\u00e7a armada chegou ao mocambo do Macaco e estabeleceu seu quartel general defronte da enorme pali\u00e7ada montada por Zumbi, conhecida como a Cerca Real do Macaco. Ali constitu\u00edram acampamento e constru\u00edram um pequeno forte denominado Nossa Senhora das Brotas. Do outro lado da cerca estavam preprados para lutar cerca de 11 mil guerreiros negros do quilombo.<\/p>\n<p>O cerco \u00e0 capital, no entanto, n\u00e3o estava dando resultado.<\/p>\n<p><strong>Os palmarinos recha\u00e7aram mais um ataque com grande perdas aos sitiantes que n\u00e3o conseguiam aproximar-se da Cerca Real:<\/strong>\u201cFoi ent\u00e3o que o capit\u00e3o-mor Bernado Vieira de Melo, que comandava a tropa pernambuca, postada do outro lado das for\u00e7as de Domigos Jorge Velho, \u2018por ind\u00fastria sua\u2019 construiu, com seus escravos e solados, uma cerca de 270 bra\u00e7as (594 metros) de pau a pique, acompanhando a dos negros. Os outros comandantes \u2013 por ordem do mestre de Campo \u2013 foram fzendo o mesmo nas \u2018testadas\u2019 que defendiam, envolvendo, por fim, numa contra-cerca de enromes dimens\u00f5es, o reduto plamarino (\u2026) Ainda assim, a luta parecia indecisa. paulistas, alagoanos e pernambucanos n\u00e3o podiam paroximar-se da \u2018cerca\u2019 do Zumbi sem perigo de vida\u2026 O Mestre de Campo \u2018excogitou\u2019, ent\u00e3o, construir uma nova cerca, \u2018obliquamente, desde seu quartel a uma ponta daquela do inimigo, a qual n\u00e3o era defendida de posto nenhum, fiada com que se terminava em um precip\u00edcio inacess\u00edvel\u2019 (\u2026) Na sexta-feira, 5 de fevereiro de 1694, o Zumbi passou em revista as defesas da pra\u00e7a e ao chegar a esse \u00e2ngulo notou que faltava somente \u2018coisa de\u2019 duas bra\u00e7as (4,40 metras) para que a cerca obl\u00edqua encontrasse com a sua. (Os homens de Domingos Jorge Velho s\u00f3 podiam trabalhar durante a noite e a manh\u00e3 os surpreendera sem terminar a tarefa).<\/p>\n<p><strong>O chefe negro repreendeu severamente o guarda local e deu um \u2018catan\u00e1sio\u2019 no comandante do posto, dizendo-lhe, de acordo com a narrativa do Mestre de Campo:<\/strong>\u00a0\u2013 \u2018E tu deixaste fazer essa cerca aos brancos? Amanh\u00e3 seremos entrados, e mortos, e nossas mulheres e filhos cativos!\u2019\u201d<\/p>\n<p>A alternativa que restou aos guerreiros de Zumbi foi tentar escapar pela brecha que havia junto ao precip\u00edcio. Na noite seguinte, centenas de pessoas procuraram escapar em sil\u00eancio por ali e, descobertos pelas sentinelas, sofreram pesadas baixas com muitos despencando pelo abismo e centenas de feriados, a tal ponto que, no dia senguinte, as sentinelas puderam seguir os fugitivos por um amplo rastro de sangue, tendo sido o pr\u00f3prio Zumbi um dos feridos.<\/p>\n<p>Bernardo Vieira de Mello perseguiu os fugitivos e iniciou-se um massacre aterrados. Segundo relatos, degolou mais de 200 guerreiros, somente deixando com vida duas mulheres e duas crian\u00e7as. Pela manh\u00e3, entraram na cidadela do Macaco. \u201cOs expedcion\u00e1rios degolavam e matavam sem miseric\u00f3rdia. menciona-se que o alferez Jo\u00e3o Montez como um dos qua mais se distinguiram na carnificina. Os soldados, disse Jorge Velho, \u2018degolaram os que puderam\u2019. Desvairados pela sede de sangue, n\u00e3o pensavam em fazer presas. Conta Frei Loreto de Couto que avan\u00e7avam cortando e matando tudo o que econtravam\u2019 e os cad\u00e1veres se amontoavam \u2018tendidos tantos que lhes faltou a muitos terreno para ca\u00edrem\u2019 (\u2026) Arrasada e incendiada, a cidadela negra ardeu a noite inteira em uma enorme fogueira cujos rubros clar\u00f5es puderam \u2013 assim reza a tradi\u00e7\u00e3o \u2013 ser divisados de Porto Calvo. Apenas quinhentos e dez negros apareceram vivos como prisioneiros\u201d(D\u00e9cio Freitas, op. cit.).<\/p>\n<p>A f\u00faria das hostes repressivas fora t\u00e3o intensa que esqueceram-se de capturar os homens para reescraviz\u00e1-los, apesar do seu alto valor comercial.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a derrota do Macaco, os mercen\u00e1rios de Domingos Jorge Velho capturaram um por um os demais mocambos dos Palmares matando, incendiando e degolando com a mesma intensidade em todos os lugares, de tal forma que somente sobreviveram mulheres e crian\u00e7as. Em muitos casos as mulheres se suicidavam e matavam seus filhos para escapar \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia, por\u00e9m, ainda n\u00e3o havia terminado. Zumbi escapara \u00e0 carnificina e havia reorganizada uma pequena quantidade de guerreiros em torno a ele, ingressando agora em uma guerra de guerrilhas contra os brancos. Os sobreviventes come\u00e7aram a atacar em v\u00e1rios lugares atrav\u00e9s de pequenos grupos armados.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o perdurou at\u00e9 o final do ano, quando finalmente, um dos grupos dirigido por Antonio Soares foi capturado por Andr\u00e9 Furtado de Mendon\u00e7a que torturou o prisioneiro e, finalmente, conseguiu obter a localiza\u00e7\u00e3o do esconderijo de Zumbi.<\/p>\n<p>\u201cO esconderijo se situava em um ponto rec\u00f4ndito da mata, provavelmente na serra Dois Irm\u00e3os, lugar de desfiladeiros, penhascos abruptos e gargantas profundas por uma das quais se precipita o rio Para\u00edba. Zumbi mantinha sempre junto a si uma guarda de 20 homens, mas quando Soares chegou seguido \u00e0 dist\u00e2ncia pelos paulistas a guarda se achava reduzida a 6 homens.<\/p>\n<p>\u201cO drama foi r\u00e1pido. Cercado o lugar por Furtado de Menen\u00e7a, encaminhou-se Soares para o chefe, que o acolheu confiadamente. Ent\u00e3o, bruscamente, Soares enterrou-lhe um punhal no est\u00f4mago e deu sinal aos paulistas. Acudido logo pelos companheiros e apesar de mortalmente ferido, Zumbi ainda lutou com bravura. Em carta de 14 de mar\u00e7o de 1696 para o rei, Melo e Castro contou que Zumbi \u2018pelejou valorosa e desesperadamente, matando um, ferindo alguns e, n\u00e3o querendo render-se nem aos companheiros, foi preciso mat\u00e1-lo e n\u00e3o s\u00f3 a um se apanhou vivo\u201d (D\u00e9cio Freitas, op. cit.).<\/p>\n<p><strong>Uma luta sem perspectivas?<\/strong><\/p>\n<p>Se a historiografia burguesa oficial, como Nina Rodrigues, procurou tirar legitimidade hist\u00f3rica \u00e0 luta do Quilombo, impugando-o por ser uma perspectiva de acentuar o atraso nacional, a historiografia da esquerda nacionalista em foquista n\u00e3o foi capaz de atribuir \u00e0 luta de Zumbi uma perspectiva hist\u00f3rica real, ou seja, que se caracterizava como uma tentativa historicamente invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Segundo D\u00e9cio Freitas, um dos principais historiadores do Quilombo e da luta dos negros brasileiros em geral, a derrota dos Palmares \u201cestava selada por limita\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas objetivamente intranspon\u00edveis\u201d (Op. cit.).<\/p>\n<p>Para o autor, a sociedade colonial brasileira, criada nos marcos do mercado mundial capitalista e dependente dele, \u00e9 assimilada \u00e0 sociedade escravista antiga, ou seja, pr\u00e9-capitalista, esquecendo-se que o Quilombo \u00e9 contempor\u00e2neo da revolu\u00e7\u00e3o burguesa na Inglaterra e que, hist\u00f3rica e socialmente, est\u00e1 mais pr\u00f3ximo, principalmente em suas perspectivas, das rebeli\u00f5es camponesas (como por, exemplo, na Alemanha no s\u00e9culo anterior) do que das rebeli\u00f5es de escravos da Roma antiga.<\/p>\n<p>No entanto, mesmo na Roma antiga, n\u00e3o \u00e9 correto dizer que as rebeli\u00f5es escravas estavam inevitavelmene fadadas ao insucesso.<\/p>\n<p>A rebeli\u00e3o de Esp\u00e1rtaco esteve muito pr\u00f3xima de derrotar os ex\u00e9rcitos romanos e de invadir e ocupar a pr\u00f3pria Roma, o que n\u00e3o ocorreu em fun\u00e7\u00e3o das dificuldades da lideran\u00e7a dos rebelados que, naturalmente, se atemorizaram diante de t\u00e3o extraordin\u00e1ria perspectiva. A demonstra\u00e7\u00e3o de que poderia ter liquidado com o regime escravagista estava em que, ap\u00f3s as guerras servis, o regime escravagista entrou em decl\u00ednio em todos os lados, tendo inclusive uma express\u00e3o jur\u00eddica na forma de in\u00fameras leis que colocavam limites \u00e0 escravid\u00e3o, feitas pelo pr\u00f3prio patriciado romano.<\/p>\n<p>Segundo o autor, \u201ca tr\u00e1gica contradi\u00e7\u00e3o que pesava sobre as rebeli\u00f5es escravas consistia em quem por um lado, n\u00e3o podiam triunfar a menos que ganhassem a ades\u00e3o de alguma categoria social importante e, por outro lado, esta possibilidade estava objetivamente exclu\u00edda nos marcos da sociedade escravista. Deste modo, lutando pateticamente s\u00f3s, contra tudo e contra todos n\u00e3o tinham perspectiva.<\/p>\n<p>Suas tentativas se limitavam a uma s\u00e9rie de insurrei\u00e7\u00f5es, de repress\u00f5es, de novas insurrei\u00e7\u00f5es\u201d (Op. cit.).<\/p>\n<p>A experi\u00eancia hist\u00f3ria da pr\u00f3pria escravid\u00e3o latino-americana desmente esta an\u00e1lise, como ficou comprovado cerca de 150 anos depois no caso do Haiti, onde os escravos, aproveitando-se da crise da metr\u00f3pole acabaram com a escravid\u00e3o e com toda a classe dominante colonial branca da ilha. O caso do Quilombo de Palmares n\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o com o Haiti est\u00e1 longe de ser coincid\u00eancia, mas expressa o temor que se apoderou da classe dominante desde o pr\u00f3prip crescimento da resist\u00eancia escrava na Serra da Barrga no in\u00edcio do s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00f3rio o empenho colocado pela administra\u00e7\u00e3o colonial em sufocar a comunidade rebelde e o pensamento de que esta se erguia como uma amea\u00e7a \u00e0 pr\u00f3pria ordem escravagista.<\/p>\n<p>Por outro lado, em v\u00e1rios momentos a classe dominante nativa, particularmente a partir do final do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do s\u00e9culo XIX formulou a extin\u00e7\u00e3o do cativeiro.<\/p>\n<p>Outra coisa \u00e9 que a burguesia que propugnava a emancipa\u00e7\u00e3o nacional, a emancipa\u00e7\u00e3o do escravos, ou seja, as tarefas da revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica se mostrassem capazes de lev\u00e1-las adiante.<\/p>\n<p>De um ponto de vista te\u00f3rico, ou seja potencialmente real, a perspectiva para a liberta\u00e7\u00e3o do escravo era a revolu\u00e7\u00e0o burguesa contra o regime colonial em seu conjunto. Neste sentido, a pr\u00f3pria aboli\u00e7\u00e3o, resultado de uma mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria manipulada e frustrada, n\u00e3o realizou a verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o do negro justamente porque foi a express\u00e3o da incapacidade da burguesia brasileira de realizar as tarefas da democracia plenamente.<\/p>\n<p><strong>O fim da escravid\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O regime de trabalho escravo no Brasil foi o \u00faltimo a ser eliminado em todo o mundo, chegando at\u00e9 1888, quando todo o seu potencial como regime de produ\u00e7\u00e3o encontrava-se exaurido.<\/p>\n<p>As derrotas dos incont\u00e1veis movimentos de luta dos escravos na col\u00f4nia e dos in\u00fameros movimentos revolucion\u00e1rios diante do poder centralizado do \u201cimp\u00e9rio\u201d est\u00e1 na raiz deste desenvolvimento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Para liquid\u00e1-lo, mesmo assim, foi necess\u00e1rio uma das maiores mobiliza\u00e7\u00f5es de massas a que o pa\u00eds assistiu em toda a sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Referindo-se \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do \u201cQuilombo\u201d fantoche do Cuca\u00fa, a revista Veja, em mat\u00e9ria recente (22\/11) caracteriza que \u201cestava destru\u00edda a experi\u00eancia de negocia\u00e7\u00f5es que poderia ter aberto precedentes important\u00edssimos nas futuras rela\u00e7\u00f5es entre senhores e escravos.<\/p>\n<p>Se Cuca\u00fa, onde a liberdade e o direito \u00e0 propriedade dos negros eram reconhecidos, n\u00e3o tivesse fracassado pelo racha interno e pela hostilidade dos brancos, a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o no Brasil poderia ter sido diferente \u2013 e Ganga Zumba hoje talvez fosse reconhecido como um Nelson Mandela avant la lettre, um negociador refinado que encontrara uma solu\u00e7\u00e3o de conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o aconteceu assim e quem ficou para encabe\u00e7ar a resist\u00eancia sem concess\u00f5es foi Zumbi. Entrincheirado em Palmares, com um regime extremamente militarizado, ela partiu para o tudo ou nada\u201d.<\/p>\n<p>Claro que esta delirante \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o\u201d da hist\u00f3ria da escravid\u00e3o nada mais \u00e9 que uma transposi\u00e7\u00e3o nada sutil das ilus\u00f5es pol\u00edticas do presente para o s\u00e9culo XVII, mas estabelece as perspectivas pol\u00edticas que se colocam, inclusive hoje.<\/p>\n<p>Deixando de lado a ideia fant\u00e1stica da conviv\u00eancia pac\u00edfica entre escravos e seus donos, garantidos os direitos pol\u00edticos e sociais dos primeiros, a hist\u00f3ria do pa\u00eds comprovou que a pr\u00f3pria ideia de uma solu\u00e7\u00e3o negociada para o problema do negro n\u00e3o tem qualquer fundamento.<\/p>\n<p>Muitos estudiosos esquerdistas, inclusive participantes dos diferentes movimentos pelos direitos dos negros, disseminaram a tese de que a aboli\u00e7\u00e3o foi uma d\u00e1diva das classes dominantes (dos senhores de escravos!) e de que o negro n\u00e3o teria participado do movimento abolicionista, da\u00ed o car\u00e1ter limitado da emancipa\u00e7\u00e3o do trabalho servil.<\/p>\n<p>Na realidade, tanto uma tese quanto a outra s\u00e3o extraordinariamente falsa. Primeiro, que o fim da escravid\u00e3o foi o resultado de uma das maiores mobiliza\u00e7\u00f5es de massa j\u00e1 realizadas no pa\u00eds. A chamada Lei \u00c1urea \u2013 apresentada como uma magnanimidade da princesa Isabel, regente do pa\u00eds \u2013 foi aprovada pelo parlamento como \u00fanica alternativa \u00e0s tend\u00eancias revolucion\u00e1rias que j\u00e1 come\u00e7avam a provocar uma profunda crise institucional, inclusive com o amotinamento do Ex\u00e9rcito, que se recusava abertamente a cumprir as ordens governamentais referentes \u00e0 repress\u00e3o dos escravos fugitivos das fazendas do Rio e de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o dos escravos \u00e9 outro mito. Nos momentos finais da campanha abolicionista, que havia obtido at\u00e9 ent\u00e3o prec\u00e1rios resultados, a tend\u00eancia ao levante dos escravos era patente. Em Campos, no interior do Rio de Janeiro, os escravos levantavam-se em s\u00e9rie de queimavam as fazendas, obrigando os fazendeiros, diante da paralisia que havia acometido o Ex\u00e9rcito, a organizar verdadeiras mil\u00edcias p\u00e1ra-militares para enfrentar a rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, a crescente fuga de escravos, auxiliadas por uma ampla organiza\u00e7\u00e3o nas cidades (os \u201ccaifazes\u201d de Ant\u00f4nio Bento) j\u00e1 estava se transformando em um levante, com a fuga em massa conhecida como a \u201cgrande marcha\u201d, a qual, tamb\u00e9m havia paralisado o Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>O regime pol\u00edtico foi obrigado a conceder a emancipa\u00e7\u00e3o (sem o ressarcimento reivindicado pelos fazendeiros, muitos dos quais foram simplesmente \u00e0 fal\u00eancia) para evitar uma crise revolucion\u00e1ria de consequ\u00eancias imprevis\u00edveis, principalmente se apoiada em um levante generalizado dos escravos concentrados naquele momento na regi\u00e3o Sudeste do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Apresentava-se, uma vez mais, a f\u00f3rmula tradicional do \u201cprussianismo\u201d brasileiro da solu\u00e7\u00e3o tardia e castrada por cima para prevenir a eclos\u00e3o iminente da rebeli\u00e3o generalizada dos de baixo.<\/p>\n<p>Este fato \u00e9 confundido com uma aus\u00eancia de mobiliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Evidentemente que tais solu\u00e7\u00f5es somente foram poss\u00edveis diante do car\u00e1ter capitulador da dire\u00e7\u00e3o burguesa do movimento abolicionista (Nabuco, Patroc\u00ednio etc.) cujo programa colocava-se em aberta oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o dos escravos e da fraqueza dos setores pequeno-burgueses revolucion\u00e1rios (e ainda mais da classe oper\u00e1ria, extremamente incipiente naquele momento) \u2013 organizativa, mas, principalmente, program\u00e1tica, uma vez que n\u00e3o colocavam nem a quest\u00e3o da Rep\u00fablica, nem a quest\u00e3o agr\u00e1ria de maneira consequentemente democr\u00e1tica \u2013 deste mesmo movimento (os irm\u00e3os Lacerda no Rio, Silva Jardim, Luiz Gama e, depois, Ant\u00f4nio Bento, em S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da hist\u00f3ria assinala claramente que nada, absolutamente nada, que diga respeito \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es dos explorados \u2013 e. particularmente, da enorme popula\u00e7\u00e3o negra do pa\u00eds entre eles \u2013 foi conseguido sem uma luta encarni\u00e7ada, prolongada e cruel. E isto serve para a situa\u00e7\u00e3o presente do negro no pa\u00eds.\u00a0<strong>Rui Costa Pimenta<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0blackwomenofbrazil.co\/www.segal1945.hpg.ig.com.br\/ruicpimenta.com.br<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zumbi dos Palmares &#8211; Hist\u00f3ria do Brasil Nascimento:\u00a01655, Uni\u00e3o dos Palmares, Alagoas. Morte:\u00a020 de novembro de 1695, Serra Dois Irm\u00e3os. 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