{"id":91050,"date":"2016-12-28T09:15:00","date_gmt":"2016-12-28T11:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91050"},"modified":"2016-12-28T09:15:00","modified_gmt":"2016-12-28T11:15:00","slug":"folhas-caidas-almeida-garrett","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/folhas-caidas-almeida-garrett","title":{"rendered":"Folhas Ca\u00eddas &#8211; Almeida Garrett"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"750\" height=\"148\" cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td height=\"1\" colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\" height=\"116\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#1\">I &#8211; Ignoto Deo<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"><a href=\"#2\">II &#8211; Adeus!<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#3\">III &#8211; Quando eu sonhava<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#4\">IV &#8211; Aquela noite!<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#5\">V &#8211; O Anjo ca&iacute;do<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#6\">VI &#8211; O &Aacute;lbum<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#7\">VII &#8211; Saudades<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#8\">VIII &#8211; Este inferno de amar<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#9\">IX &#8211; Destino<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\"> <\/td>\n<td width=\"151\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><font size=\"2\"><strong><a href=\"#10\">X &#8211; Gozo e dor<\/a><\/strong><\/font><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#11\">XI &#8211; Perfume da rosa<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#12\">XII &#8211; Rosa sem espinhos<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#13\">XIII &#8211; Rosa p&aacute;lida<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#14\">XIV &#8211; Flor de ventura<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#15\">XV &#8211; Bela d&#8217;amor<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#16\">XVI &#8211; Os cinco sentidos<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#17\">XVII &#8211; Rosa e l&iacute;rio<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#18\">XVIII &#8211; Coquette dos prados<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\"> <\/td>\n<td width=\"157\" valign=\"top\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#19\">XIX &#8211; Cascais<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#20\">XX &#8211; Estes s&iacute;tios!<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#21\">XXI &#8211; N&atilde;o te amo<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#22\">XXII &#8211; N&atilde;o &eacute;s<br \/>\n              tu<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#23\">XXIII &#8211; Beleza<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#24\">XXIV &#8211; Anjo &eacute;s<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<p><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#25\">XXV &#8211; V&iacute;bora<\/a><\/font><\/strong><\/p>\n<\/p><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h2>Advert&ecirc;ncia<\/h2>\n<p> Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que<br \/>\n    por a&iacute; ca&iacute;ram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena<br \/>\n    conservar, ainda que n&atilde;o seja sen&atilde;o para mem&oacute;ria. <br \/>\n    A outros versos chamei eu j&aacute; as &uacute;ltimas recorda&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    da minha vida po&eacute;tica. Enganei o p&uacute;blico, mas de boa-f&eacute;,<br \/>\n    porque me enganei primeiro a mim. Protestos de poetas que sempre est&atilde;o<br \/>\n    a dizer adeus ao mundo, e morrem abra&ccedil;ados com o louro &#8211; &agrave;s<br \/>\n    vezes imagin&aacute;rio, porque ningu&eacute;m os coroa. <\/p>\n<p>Eu pouco mais tinha de vinte anos quando publiquei certo poema, e jurei que<br \/>\n    eram os &uacute;ltimos versos que fazia. Que juramentos! <\/p>\n<p>Se dos meus se rirem, t&ecirc;m raz&atilde;o; mas saibam que eu tamb&eacute;m<br \/>\n    primeiro me ri deles. Poeta na primavera, no estio e no outono da vida, hei-de<br \/>\n    s&ecirc;-lo no inverno, se l&aacute; chegar, e hei-de s&ecirc;-lo em tudo.<br \/>\n    Mas dantes cuidava que n&atilde;o, e nisso ia o erro. <\/p>\n<p>Os cantos que formam esta pequena colec&ccedil;&atilde;o pertencem todos<br \/>\n    a uma &eacute;poca de vida &iacute;ntima e recolhida que nada tem com as minhas<br \/>\n    outras colec&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>Essas mais ou menos mostram o poeta que canta diante do p&uacute;blico. Das<br \/>\n    Folhas Ca&iacute;das ningu&eacute;m tal dir&aacute;, ou bem pouco entende<br \/>\n    de estilos e modos de cantar. <\/p>\n<p>N&atilde;o sei se s&atilde;o bons ou maus estes versos; sei que gosto mais<br \/>\n    deles do que de nenhuns outros que fizesse. Porqu&ecirc;? &Eacute; imposs&iacute;vel<br \/>\n    diz&ecirc;-lo, mas &eacute; verdade. E, como nada s&atilde;o por ele nem para<br \/>\n    ele, &eacute; prov&aacute;vel que o p&uacute;blico sinta bem diversamente<br \/>\n    do autor. Que importa?<\/p>\n<p>Apesar de sempre se dizer e escrever h&aacute; cem mil anos o contr&aacute;rio,<br \/>\n    parece-me que o melhor e mais recto juiz que pode ter um escritor &eacute;<br \/>\n    ele pr&oacute;prio, quando o n&atilde;o cega o amor-pr&oacute;prio. Eu sei<br \/>\n    que tenho os olhos abertos, ao menos agora. <\/p>\n<p>Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar<br \/>\n    os seus versos, que s&atilde;o seus filhos; mas o sentimento paterno n&atilde;o<br \/>\n    impede de ver os defeitos das crian&ccedil;as. <\/p>\n<p>Enfim, eu n&atilde;o queimo estes. Consagrei-os ignoto deo. E o deus que<br \/>\n    os inspirou que os aniquile, se quiser: n&atilde;o me julgo com direito de<br \/>\n    o fazer eu. <\/p>\n<p>Ainda assim, no ignoto deo n&atilde;o imaginem alguma divindade meia velada<br \/>\n    com cendal transparente, que o devoto est&aacute; morrendo que lhe caia para<br \/>\n    que todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido &eacute; realmente aquele<br \/>\n    misterioso, oculto e n&atilde;o definido sentimento de alma que a leva &agrave;s<br \/>\n    aspira&ccedil;&otilde;es de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.\n  <\/p>\n<p>Imagina&ccedil;&atilde;o que porventura se n&atilde;o realiza nunca. E da&iacute;,<br \/>\n    quem sabe? A culpa &eacute; talvez da palavra, que &eacute; abstracta de mais.<br \/>\n    Sa&uacute;de, riqueza, mis&eacute;ria, pobreza e ainda coisas mais materiais,<br \/>\n    como o frio e o calor, n&atilde;o s&atilde;o sen&atilde;o estados comparativos,<br \/>\n    aproximativos. Ao infinito n&atilde;o se chega, porque deixava de o ser em<br \/>\n    se chegando a ele. <\/p>\n<p>Logo o poeta &eacute; louco, porque aspira sempre ao imposs&iacute;vel. N&atilde;o<br \/>\n    sei. Essa &eacute; uma disputa&ccedil;&atilde;o mais <\/p>\n<p>longa. , <\/p>\n<p>Mas sei que as presentes Folhas Ca&iacute;das representam o estado de alma<br \/>\n    do poeta nas variadas, incertas e vacilantes oscila&ccedil;&otilde;es do esp&iacute;rito,<br \/>\n    que, tendendo ao seu fim &uacute;nico, a posse do Ideal, ora pensa t&ecirc;-lo<br \/>\n    alcan&ccedil;ado, ora estar a ponto de chegar a ele, ora ri amargamente porque<br \/>\n    reconhece o seu engano, ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade<br \/>\n    v&atilde;. <\/p>\n<p>Deixai-o passar, gente do mundo, devotos do poder, da riqueza, do mando,<br \/>\n    ou da gl&oacute;ria. Ele n&atilde;o entende bem disso, e v&oacute;s n&atilde;o<br \/>\n    entendeis nada dele. <\/p>\n<p>Deixai-o passar, porque ele vai onde v&oacute;s n&atilde;o ides; vai, ainda<br \/>\n    que zombeis dele, que o calunieis, que o assassineis. Vai, porque &eacute;<br \/>\n    esp&iacute;rito, e v&oacute;s sois mat&eacute;ria. <\/p>\n<p>E v&oacute;s morrereis, ele n&atilde;o. Ou s&oacute; morrer&aacute; dele<br \/>\n    aquilo em que se pareceu e se uniu convosco. E essa falta, que &eacute; a<br \/>\n    mesma de Ad&atilde;o, tamb&eacute;m ser&aacute; punida com a morte. <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o triunfeis, porque a morte n&atilde;o passa do corpo, que &eacute;<br \/>\n    tudo em v&oacute;s, e nada ou quase nada no poeta. <\/p>\n<p>Janeiro, 1853.<\/p>\n<h2><a name=\"1\">I &#8211; Ignoto Deo<\/a><\/h2>\n<p>D.D.D.<\/p>\n<p>Creio em ti, Deus: a f&eacute; viva <\/p>\n<p>De minha alma a ti se eleva. <\/p>\n<p>&Eacute;s &#8211; o que &eacute;s n&atilde;o sei. Deriva <\/p>\n<p>Meu ser do teu: luz&#8230; e treva, <\/p>\n<p>Em que &#8211; indistintas! &#8211; se envolve <\/p>\n<p>Este esp&iacute;rito agitado, <\/p>\n<p>De ti vem, a ti devolve. <\/p>\n<p>O Nada, a que foi roubado <\/p>\n<p>Pelo sopro criador <\/p>\n<p>Tudo o mais, o h&aacute;-de tragar. <\/p>\n<p>S&oacute; vive de eterno ardor <\/p>\n<p>O que est&aacute; sempre a aspirar <\/p>\n<p>Ao infinito donde veio. <\/p>\n<p>Beleza &eacute;s tu, luz &eacute;s tu, <\/p>\n<p>Verdade &eacute;s tu s&oacute;. N&atilde;o creio <\/p>\n<p>Sen&atilde;o em ti; o olho nu. <\/p>\n<p>Do homem n&atilde;o v&ecirc; na terra <\/p>\n<p>Mais que a d&uacute;vida, a incerteza, <\/p>\n<p>A forma que engana e erra. <\/p>\n<p>Ess&ecirc;ncia!, a real beleza, <\/p>\n<p>O puro amor &#8211; o prazer <\/p>\n<p>Que n&atilde;o fatiga e n&atilde;o gasta&#8230;<\/p>\n<p>S&oacute; por ti os pode ver <\/p>\n<p>O que inspirado se afasta, <\/p>\n<p>Ignoto Deus, das ronceiras,<\/p>\n<p>Vulgares turbas: despidos <\/p>\n<p>Das coisas v&atilde;s e grosseiras <\/p>\n<p>Sua alma, raz&atilde;o, sentidos, <\/p>\n<p>A ti se d&atilde;o, em ti vida, <\/p>\n<p>E por ti vida t&ecirc;m. Eu, consagrado<\/p>\n<p>A teu altar, me prosto e a combatida<\/p>\n<p>Exist&ecirc;ncia aqui ponho, aqui votado<\/p>\n<p>Fica este livro &#8211; confiss&atilde;o sincera<\/p>\n<p>Da alma que a ti voou e em ti s&oacute; &#8216;spera.<\/p>\n<h2><a name=\"2\"><\/a>II &#8211; Adeus!<\/a><\/h2>\n<p>Adeus!, para sempre adeus!, <\/p>\n<p>Vai-te, oh!, vai-te, que nesta hora <\/p>\n<p>Sinto a justi&ccedil;a dos C&eacute;us <\/p>\n<p>Esmagar-me a alma que chora. <\/p>\n<p>Choro porque n&atilde;o te amei, <\/p>\n<p>Choro o amor que me tiveste; <\/p>\n<p>O que eu perco, bem no sei, <\/p>\n<p>Mas tu&#8230; tu nada perdeste: <\/p>\n<p>Que este mau cora&ccedil;&atilde;o meu <\/p>\n<p>Nos secretos escaninhos <\/p>\n<p>Tem venenos t&atilde;o daninhos <\/p>\n<p>Que o seu poder s&oacute; sei eu. <\/p>\n<p>Oh!, vai&#8230; para sempre adeus! <\/p>\n<p>Vai, que h&aacute; justi&ccedil;a nos C&eacute;us. <\/p>\n<p>Sinto gerar na pe&ccedil;onha <\/p>\n<p>Do ulcerado cora&ccedil;&atilde;o <\/p>\n<p>Essa v&iacute;bora medonha <\/p>\n<p>Que por seu fatal cond&atilde;o <\/p>\n<p>H&aacute;-de rasg&aacute;-lo ao nascer: <\/p>\n<p>H&aacute;-de, sim, ser&aacute;s vingada, <\/p>\n<p>E o meu castigo h&aacute;-de ser <\/p>\n<p>Ci&uacute;me de ver-te amada, <\/p>\n<p>Remorso de te perder.<\/p>\n<p>Vai-te, oh!, vai-te, longe, embora, <\/p>\n<p>Que sou eu capaz agora <\/p>\n<p>De te amar &#8211; Ai!, se eu te amasse! <\/p>\n<p>V&ecirc; se no &aacute;rido pragal<\/p>\n<p>Deste peito se ateasse <\/p>\n<p>De amor o inc&ecirc;ndio fatal!<\/p>\n<p>Mais negro e feio no Inferno <br \/>\n    N&atilde;o chameja o fogo eterno. <\/p>\n<p>Que sim? Que antes isso? &#8211; Ai, triste! <\/p>\n<p>N&atilde;o sabes o que pediste.<\/p>\n<p>N&atilde;o te bastou suportar<\/p>\n<p>o cepo-rei; impaciente <\/p>\n<p>Tu ousas a deus tentar <\/p>\n<p>Pedindo-lhe o rei-serpente! <\/p>\n<p>E cuidas amar-me ainda? <\/p>\n<p>Enganas-te: &eacute; morta, &eacute; finda, <\/p>\n<p>Dissipada &eacute; a ilus&atilde;o. <\/p>\n<p>Do meigo azul de teus olhos <\/p>\n<p>Tanta l&aacute;grima verteste, <\/p>\n<p>Tanto esse orvalho celeste <\/p>\n<p>Derramado o viste em v&atilde;o <\/p>\n<p>Nesta seara de abrolhos, <\/p>\n<p>Que a fonte secou. Agora <\/p>\n<p>Amar&aacute;s&#8230; sim, h&aacute;s-de amar,<\/p>\n<p>Amar deves&#8230; Muito embora&#8230; <\/p>\n<p>Oh!, mas noutro h&aacute;s-de sonhar<\/p>\n<p>Os sonhos de oiro encantados<\/p>\n<p>Que o mundo chamou amores. <\/p>\n<p>E eu r&eacute;probo&#8230; eu se o verei?<\/p>\n<p>Se em meus olhos encovados <\/p>\n<p>Der a luz de teus ardores&#8230; <\/p>\n<p>Se com ela cegarei? <\/p>\n<p>Se o nada dessas mentiras <\/p>\n<p>Me entrar pelo v&atilde;o da vida&#8230; <\/p>\n<p>Se, ao ver que feliz deliras, <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m eu sonhar &#8230;Perdida, <\/p>\n<p>Perdida ser&aacute;s &#8211; perdida. <\/p>\n<p>Oh!, vai-te, vai, longe, embora! <\/p>\n<p>Que te lembre sempre e agora <\/p>\n<p>Que n&atilde;o te amei nunca&#8230; ai!, n&atilde;o: <\/p>\n<p>E que pude a sangue-frio, <\/p>\n<p>Covarde, infame, vil&atilde;o, <\/p>\n<p>Gozar-te &#8211; mentir sem brio, <\/p>\n<p>Sem alma, sem d&oacute;, sem pejo, <\/p>\n<p>Cometendo em cada beijo <\/p>\n<p>Um crime&#8230; Ai!, triste, n&atilde;o chores, <\/p>\n<p>N&atilde;o chores, anjo do C&eacute;u, <\/p>\n<p>Que o desonrado sou eu. <\/p>\n<p>Perdoar-me, tu?&#8230; N&atilde;o mere&ccedil;o. <\/p>\n<p>A imundo cerdo voraz <\/p>\n<p>Essas p&eacute;rolas de pre&ccedil;o <\/p>\n<p>N&atilde;o as deites: &eacute; capaz <\/p>\n<p>De as desprezar na torpeza <\/p>\n<p>De sua bruta natureza. <\/p>\n<p>Irada, te h&aacute;-de admirar, <\/p>\n<p>Despeitosa, respeitar, <\/p>\n<p>Mas indulgente&#8230; Oh!, o perd&atilde;o <\/p>\n<p>&Eacute; perdido no vil&atilde;o, <\/p>\n<p>Que de ti h&aacute;-de zombar. <\/p>\n<p>Vai, vai&#8230; para sempre adeus! <\/p>\n<p>Para sempre aos olhos meus <\/p>\n<p>Sumido seja o clar&atilde;o <\/p>\n<p>De tua divina estrela. <\/p>\n<p>Faltam-me olhos e raz&atilde;o <\/p>\n<p>Para a ver, para entend&ecirc;-la: <\/p>\n<p>Alta est&aacute; no firmamento <\/p>\n<p>De mais, e de mais &eacute; bela <\/p>\n<p>Para o baixo pensamento <\/p>\n<p>Com que em m&aacute; hora a fitei; <\/p>\n<p>Falso e vil o encantamento <\/p>\n<p>Com que a luz lhe fascinei. <\/p>\n<p>Que volte a sua beleza <\/p>\n<p>Do azul do c&eacute;u &agrave; pureza, <\/p>\n<p>E que a mim me deixe aqui <\/p>\n<p>Nas trevas em que nasci, <\/p>\n<p>Trevas negras, densas, feias, <\/p>\n<p>Como &eacute; negro este aleij&atilde;o <\/p>\n<p>Donde me vem sangue &agrave;s veias, <\/p>\n<p>Este que foi cora&ccedil;&atilde;o, <\/p>\n<p>Este que amar-te n&atilde;o sabe <\/p>\n<p>Porque &eacute; s&oacute; terra &#8211; e n&atilde;o cabe <\/p>\n<p>Nele uma ideia dos C&eacute;us &#8230; <\/p>\n<p>Oh!, vai, vai; deixa-me adeus!<\/p>\n<h2><a name=\"3\">III &#8211; Quando eu sonhava<\/a><\/h2>\n<p> Quando eu sonhava, era assim <\/p>\n<p>Que nos meus sonhos a via; <\/p>\n<p>E era assim que me fugia, <\/p>\n<p>Apenas eu despertava, <\/p>\n<p>Essa imagem fugidia <\/p>\n<p>Que nunca pude alcan&ccedil;ar. <\/p>\n<p>Agora, que estou desperto, <\/p>\n<p>Agora a vejo fixar&#8230; <\/p>\n<p>Para qu&ecirc;? &#8211; Quando era vaga,<\/p>\n<p>Uma ideia, um pensamento, <\/p>\n<p>Um raio de estrela incerto <\/p>\n<p>No imenso firmamento, <\/p>\n<p>Uma quimera, um v&atilde;o sonho, <\/p>\n<p>Eu sonhava &#8211; mas vivia: <\/p>\n<p>Prazer n&atilde;o sabia o que era, <\/p>\n<p>Mas dor, n&atilde;o na conhecia &#8230; <\/p>\n<h2><a name=\"4\">IV &#8211; Aquela noite!<\/a><\/h2>\n<p>Era a noite da loucura, <\/p>\n<p>Da sedu&ccedil;&atilde;o, do prazer, <\/p>\n<p>Que em sua mantilha escura <\/p>\n<p>Costuma tanta ventura, <\/p>\n<p>Tantas gl&oacute;rias esconder. <\/p>\n<p>Os felizes&#8230; e ai!, s&atilde;o tantos&#8230; <\/p>\n<p>Eu, por tantos os contava! <\/p>\n<p>Eu, que o sinal de meus prantos <\/p>\n<p>Do aflito rosto lavava &#8211; <\/p>\n<p>Os felizes presun&ccedil;osos <\/p>\n<p>Iam nos coches ruidosos <\/p>\n<p>Correndo aos sal&otilde;es doirados <\/p>\n<p>De mil fogos alumiados, <\/p>\n<p>Donde em torrentes sa&iacute;a <\/p>\n<p>A clamorosa harmonia <\/p>\n<p>Que &agrave; festa, ao prazer tangia. <\/p>\n<p>Eu sentia esse ru&iacute;do <\/p>\n<p>Como o confuso bramar <\/p>\n<p>De um mar ao longe movido <\/p>\n<p>Que &agrave; praia vem rebentar: <\/p>\n<p>E disse comigo: &laquo;Vamos, <\/p>\n<p>Os lutos d&#8217;alma dispamos, <\/p>\n<p>&Agrave; festa hei-de ir tamb&eacute;m eu!&raquo; <\/p>\n<p>E fui: e a noite era bela, <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o vi a minha estrela <\/p>\n<p>Que eu sempre via no c&eacute;u:<\/p>\n<p>Cobriu-a de espesso v&eacute;u <\/p>\n<p>Alguma nuvem a ela, <\/p>\n<p>Ou era que j&aacute; vendado<\/p>\n<p>Me levava o negro fado <\/p>\n<p>Onde a vida me perdeu? <\/p>\n<p>Fui; meu rosto macerado, <\/p>\n<p>A funda melancolia <\/p>\n<p>Que todo o meu ser revia, <\/p>\n<p>Qual o ata&uacute;de levado <\/p>\n<p>A eg&iacute;pcio festim, dizia: <\/p>\n<p>&laquo;Como v&oacute;s fui eu tamb&eacute;m; <\/p>\n<p>Folgai, que a morte a&iacute; vem!&raquo; <\/p>\n<p>Dizia-o, sim, meu semblante, <\/p>\n<p>Que, onde eu chegava, o prazer <\/p>\n<p>Cessava no mesmo instante; <\/p>\n<p>E o l&aacute;bio, que ia a dizer <\/p>\n<p>Do&ccedil;uras de amor, gelava; <\/p>\n<p>E o riso, que ia a nascer <\/p>\n<p>Na face linda, expirava. <\/p>\n<p>Era eu &#8211; e a morte em mim, <\/p>\n<p>Que s&oacute; ela espanta assim! <\/p>\n<p>Quantas mulheres t&atilde;o belas <\/p>\n<p>&Eacute;brias de amor e desejos, <\/p>\n<p>Quantas vi saltar-lhe os beijos <\/p>\n<p>Da boca ardente e lasciva! <\/p>\n<p>E eu, que ia chegar-me a elas&#8230;<\/p>\n<p>Para logo a fronte esquiva <\/p>\n<p>De recatos se envolvia<\/p>\n<p>E, toda pudor, tremia. <\/p>\n<p>Quantas o seio anelante, <\/p>\n<p>Nu, ardente e palpitante <\/p>\n<p>Andavam como entregando <\/p>\n<p>&Agrave; cobi&ccedil;a mal desperta, <\/p>\n<p>Gasta j&aacute; e desdenhosa, <\/p>\n<p>Dos que as estavam mirando <\/p>\n<p>Com vaga luneta incerta <\/p>\n<p>Que diz: &laquo;Aquela &eacute; formosa, <\/p>\n<p>N&atilde;o se me dava de a ter.<\/p>\n<p>E esta? &Eacute; s&oacute; baronesa, <\/p>\n<p>Vale menos que a duquesa: <\/p>\n<p>N&atilde;o sei a qual atender.&raquo;<\/p>\n<p>E a isto chamam prazer!<\/p>\n<p>A grande ventura &eacute; esta?<\/p>\n<p>Vale a pena vir &agrave; festa<\/p>\n<p>E vale a pena viver.<\/p>\n<p>Como ent&atilde;o quis &agrave; tristura<\/p>\n<p>Do meu viver isolado!<\/p>\n<p>Fique-se embora a ventura,<\/p>\n<p>Que eu quero ser desgra&ccedil;ado.<\/p>\n<p>Levantei alto a cabe&ccedil;a,<\/p>\n<p>Senti-me crescer &#8211; e a frente<\/p>\n<p>Desanuviar-se contente<\/p>\n<p>Do feio negrume espesso<\/p>\n<p>Que assustava aquela gente.<\/p>\n<p>Logo os sorrisos ca&iacute;ram<\/p>\n<p>Para o meu lado tamb&eacute;m;<\/p>\n<p>J&aacute; como um dos seus me viam,<\/p>\n<p>Que em mim n&atilde;o viam ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>Eu, de olhos desencantados,<\/p>\n<p>A elas, como as eu via!<\/p>\n<p>Meus entusiasmos passados,<\/p>\n<p>Oh!, como deles me ria!<\/p>\n<p>Frio o sarcasmo sa&iacute;a<\/p>\n<p>De meus l&aacute;bios descorados,<\/p>\n<p>E sem d&oacute; e sem pudor<\/p>\n<p>A todas falei de amor&#8230;<\/p>\n<p>Do amor bruto, degradante,<\/p>\n<p>Que no seio palpitante,<\/p>\n<p>Na esp&aacute;dua nua se acende&#8230;<\/p>\n<p>Amor lascivo que ofende,<\/p>\n<p>Que faz corar&#8230; elas riam<\/p>\n<p>E oh, que n&atilde;o, n&atilde;o se ofendiam!<\/p>\n<p>Mas o orquestra bradou alta:<\/p>\n<p>&laquo;Festa, festa!, e salta, salta!&raquo;<\/p>\n<p>os seus guizos delirantes<\/p>\n<p>Sacode louca a Folia&#8230;<\/p>\n<p>Adeus, requebros de amantes!<\/p>\n<p>Suspiros, quem nos ouvia?<\/p>\n<p>As palavras meias ditas, <\/p>\n<p>Meias nos olhos escritas, <\/p>\n<p>Voavam todas perdidas <\/p>\n<p>Dispersas, rotas no ar; <\/p>\n<p>Que se foram almas, vidas, <\/p>\n<p>Tudo se foi a valsar. <\/p>\n<p>Quem &eacute; esta que mais voltas <\/p>\n<p>Gira, gira sem cessar? <\/p>\n<p>Como as roupas leves, soltas,<\/p>\n<p>A&eacute;reas leva a ondular <\/p>\n<p>Em torno &agrave; forma graciosa, <\/p>\n<p>T&atilde;o flex&iacute;vel, t&atilde;o airosa, <\/p>\n<p>T&atilde;o fina! &#8211; Agora parou, <\/p>\n<p>E tranquila se assentou. <\/p>\n<p>Que rosto! Em linhas severas <\/p>\n<p>Se lhe desenha o profil; <\/p>\n<p>E a cabe&ccedil;a, t&atilde;o gentil, <\/p>\n<p>Como se fora deveras <\/p>\n<p>A rainha dessa gente, <\/p>\n<p>Como a levanta insolente! <\/p>\n<p>Vive Deus!, que &eacute; ela&#8230; aquela, <\/p>\n<p>A que eu vi na tal janela, <\/p>\n<p>E que triste me sorria <\/p>\n<p>Quando passando me via <\/p>\n<p>T&atilde;o pasmado a olhar para ela. <\/p>\n<p>A mesma melancolia <\/p>\n<p>Nos olhos tristes &#8211; de luz <\/p>\n<p>Obl&iacute;qua, viva mas fria; <\/p>\n<p>A mesma alta intelig&ecirc;ncia <\/p>\n<p>Que da face lhe transluz; <\/p>\n<p>E a mesma altiva impaci&ecirc;ncia <\/p>\n<p>Que de tudo, tudo cansa, <\/p>\n<p>De tudo o que foi, que &eacute;, <\/p>\n<p>E na erma vida s&oacute; v&ecirc; <\/p>\n<p>O raio da vaga esp&#8217;ran&ccedil;a. <\/p>\n<p>&laquo;Pois isto sim, que &eacute; mulher&raquo;, <\/p>\n<p>Disse eu &#8211; &laquo;e aqui h&aacute; que ver&raquo;.<\/p>\n<p>J&aacute; vinha a p&aacute;lida aurora <\/p>\n<p>Anunciando a manh&atilde; fria, <\/p>\n<p>E eu falava e eu ouvia <\/p>\n<p>O que at&eacute; &agrave;quela hora <\/p>\n<p>Nunca disse, nunca ouvi&#8230; <\/p>\n<p>Toda a mem&oacute;ria perdi <\/p>\n<p>Das palavras proferidas&#8230; <\/p>\n<p>N&atilde;o eram destas sabidas, <\/p>\n<p>Nem quais eram n&atilde;o no sei &#8230; <\/p>\n<p>Sei que a vida era outra em mim,<\/p>\n<p>Que era outro ser o meu ser, <\/p>\n<p>Que uma alma nova me achei <\/p>\n<p>Que eu bem sabia n&atilde;o ter. <\/p>\n<p>E da&iacute;? &#8211; Da&iacute;, a hist&oacute;ria <\/p>\n<p>N&atilde;o deixou outra mem&oacute;ria<\/p>\n<p>Dessa noite de loucura, <\/p>\n<p>De sedu&ccedil;&atilde;o, de prazer&#8230; <\/p>\n<p>Que os segredos da ventura <\/p>\n<p>N&atilde;o s&atilde;o para se dizer.<\/p>\n<h2><a name=\"5\"> V &#8211; O Anjo ca&iacute;do<\/a><\/h2>\n<p> Era um anjo de Deus <\/p>\n<p>Que se perdera dos C&eacute;us <\/p>\n<p>E terra a terra voava. <\/p>\n<p>A seta que lhe acertava <\/p>\n<p>Partira de arco traidor, <\/p>\n<p>Porque as penas que levava <\/p>\n<p>N&atilde;o eram penas de amor. <\/p>\n<p>O anjo caiu ferido, <\/p>\n<p>E se viu aos p&eacute;s rendido <\/p>\n<p>Do tirano ca&ccedil;ador. <\/p>\n<p>De asa morta e sem &#8216;splendor <\/p>\n<p>O triste, peregrinando <\/p>\n<p>Por estes vales de dor, <\/p>\n<p>Andou gemendo e chorando. <\/p>\n<p>Vi-o eu, o anjo dos C&eacute;us, <\/p>\n<p>O abandonado de Deus, <\/p>\n<p>Vi-o, nessa tropelia <\/p>\n<p>Que o mundo chama alegria, <\/p>\n<p>Vi-o a ta&ccedil;a do prazer <\/p>\n<p>P&ocirc;r ao l&aacute;bio que tremia&#8230; <\/p>\n<p>E s&oacute; l&aacute;grimas beber. <\/p>\n<p>Ningu&eacute;m mais na Terra o via,<\/p>\n<p>Era eu s&oacute; que o conhecia&#8230; <\/p>\n<p>Eu que j&aacute; n&atilde;o posso amar! <\/p>\n<p>Quem no havia de salvar? <\/p>\n<p>Eu, que numa sepultura <\/p>\n<p>Me fora vivo enterrar? <\/p>\n<p>Loucura! ai, cega loucura! <\/p>\n<p>Mas entre os anjos dos C&eacute;us <\/p>\n<p>Faltava um anjo ao seu Deus; <\/p>\n<p>E remi-lo e resgat&aacute;-lo <\/p>\n<p>Daquela inf&acirc;mia salv&aacute;-lo <\/p>\n<p>S&oacute; for&ccedil;a de amor podia. <\/p>\n<p>Quem desse amor h&aacute;-de am&aacute;-lo, <\/p>\n<p>Se ningu&eacute;m o conhecia? <\/p>\n<p>Eu s&oacute;. &#8211; E eu morto, eu descrido, <\/p>\n<p>Eu tive o arrojo atrevido <\/p>\n<p>De amar um anjo sem luz. <\/p>\n<p>Cravei-a eu nessa cruz <\/p>\n<p>Minha alma que renascia, <\/p>\n<p>Que toda em sua alma pus. <\/p>\n<p>E o meu ser se dividia, <\/p>\n<p>Porque ela outra alma n&atilde;o tinha, <\/p>\n<p>Outra alma sen&atilde;o a minha&#8230; <\/p>\n<p>Tarde, ai!, tarde o conheci, <\/p>\n<p>Porque eu o meu ser perdi, <\/p>\n<p>E ele &agrave; vida n&atilde;o volveu&#8230; <\/p>\n<p>Mas da morte que eu morri <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m o infeliz morreu.<\/p>\n<h2><a name=\"6\">VI &#8211; O &Aacute;lbum<\/a><\/h2>\n<p> Minha J&uacute;lia, um conselho de amigo; <\/p>\n<p>Deixa em branco este livro gentil: <\/p>\n<p>Uma s&oacute; das mem&oacute;rias da vida <\/p>\n<p>Vale a pena guardar, entre mil. <\/p>\n<p>E essa n&#8217;alma em sil&ecirc;ncio gravada <\/p>\n<p>Pelas m&atilde;os do mist&eacute;rio h&aacute;-de ser; <\/p>\n<p>Que n&atilde;o tem l&iacute;ngua humana palavras, <\/p>\n<p>N&atilde;o tem letra que a possa escrever. <\/p>\n<p>Por mais belo e variado que seja <br \/>\n    De uma vida o tecido matiz , <\/p>\n<p>Um s&oacute; fio da tela bordada, <\/p>\n<p>Um s&oacute; fio h&aacute;-de ser o feliz. <\/p>\n<p>Tudo o mais &eacute; ilus&atilde;o, &eacute; mentira, <\/p>\n<p>Brilho falso que um tempo seduz, <\/p>\n<p>Que se apaga, que morre, que &eacute; nada <\/p>\n<p>Quando o sol verdadeiro reluz. <\/p>\n<p>De que serve guardar monumentos <\/p>\n<p>Dos enganos que a esp&#8217;ran&ccedil;a forjou? <\/p>\n<p>V&atilde;os reflexos de um sol que tardava <\/p>\n<p>Ou v&atilde;s sombras de um sol que passou! <\/p>\n<p>Cr&ecirc;-me, J&uacute;lia: mil vezes na vida <\/p>\n<p>Eu coa minha ventura sonhei; <\/p>\n<p>E uma s&oacute;, dentre tantas, o juro, <\/p>\n<p>Uma s&oacute; com verdade a encontrei. <\/p>\n<p>Essa entrou-me pela alma t&atilde;o firme, <\/p>\n<p>T&atilde;o segura por dentro a fechou, <\/p>\n<p>Que o passado fugiu da mem&oacute;ria, <\/p>\n<p>Do porvir nem desejo ficou. <\/p>\n<p>Toma pois, J&uacute;lia bela, o conselho: <\/p>\n<p>Deixa em branco este livro gentil, <\/p>\n<p>Que as mem&oacute;rias da vida s&atilde;o nada, <\/p>\n<p>E uma s&oacute; se conserva entre mil.<\/p>\n<h2><a name=\"7\">VII &#8211; Saudades<\/a><\/h2>\n<p> Leva este ramo, Pepita, <br \/>\n    De saudades portuguesas; <\/p>\n<p>&Eacute; flor nossa; e t&atilde;o bonita <\/p>\n<p>N&atilde;o na h&aacute; noutras devesas. <\/p>\n<p>Seu perfume n&atilde;o seduz, <\/p>\n<p>N&atilde;o tem variado matiz, <\/p>\n<p>Vive &agrave; sombra, foge &agrave; luz, <\/p>\n<p>As gl&oacute;rias d&#8217;amor n&atilde;o diz; <\/p>\n<p>Mas na modesta beleza <\/p>\n<p>De sua melancolia <\/p>\n<p>&Eacute; t&atilde;o suave a tristeza, <\/p>\n<p>Inspira tal simpatia!&#8230; <\/p>\n<p>E tem um dote esta flor <\/p>\n<p>Que de outra igual se n&atilde;o diz: <\/p>\n<p>N&atilde;o perde vi&ccedil;o ou frescor <\/p>\n<p>Quando a tiram da raiz. <\/p>\n<p>Antes mais e mais floresce <\/p>\n<p>Com tudo o que as outras mata; <\/p>\n<p>At&eacute; &agrave;s vezes mais cresce <\/p>\n<p>Na terra que &eacute; mais ingrata. <\/p>\n<p>S&oacute; tem um cruel sen&atilde;o, <\/p>\n<p>Que te n&atilde;o devo esconder: <\/p>\n<p>Plantada no cora&ccedil;&atilde;o, <\/p>\n<p>Toda outra flor faz morrer. <\/p>\n<p>E, se o quebra e despeda&ccedil;a <\/p>\n<p>Com as ra&iacute;zes mofinas, <\/p>\n<p>Mais ela tem brilho e gra&ccedil;a,<\/p>\n<p>&Eacute; como a flor das ru&iacute;nas. <\/p>\n<p>N&atilde;o, Pepita, n&atilde;o ta dou&#8230; <\/p>\n<p>Fiz mal em dar-te essa flor, <\/p>\n<p>Que eu sei o que me custou <\/p>\n<p>Trat&aacute;-la com tanto amor.<\/p>\n<h2><a name=\"8\">VIII &#8211; Este inferno de amar<\/a><\/h2>\n<p> Este inferno de amar &#8211; como eu amo! &#8211; <\/p>\n<p>Quem mo p&ocirc;s aqui n&#8217;alma &#8230; quem foi?<\/p>\n<p>Esta chama que alenta e consome, <\/p>\n<p>Que &eacute; a vida &#8211; e que a vida destr&oacute;i &#8211; <\/p>\n<p>Como &eacute; que se veio a atear, <\/p>\n<p>Quando &#8211; ai quando se h&aacute;-de ela apagar? <\/p>\n<p>Eu n&atilde;o sei, n&atilde;o me lembra: o passado, <\/p>\n<p>A outra vida que dantes vivi <\/p>\n<p>Era um sonho talvez&#8230; &#8211; foi um sonho- <\/p>\n<p>Em que paz t&atilde;o serena a dormi! <\/p>\n<p>Oh!, que doce era aquele sonhar &#8230; <\/p>\n<p>Quem me veio, ai de mim!, despertar? <\/p>\n<p>S&oacute; me lembra que um dia formoso <\/p>\n<p>Eu passei&#8230; dava o Sol tanta luz! <\/p>\n<p>E os meus olhos, que vagos giravam, <\/p>\n<p>Em seus olhos ardentes os pus. <\/p>\n<p>Que fez ela?, eu que fiz? &#8211; N&atilde;o no sei; <\/p>\n<p>Mas nessa hora a viver comecei &#8230;<\/p>\n<h2><a name=\"9\">IX &#8211; Destino<\/a><\/h2>\n<p> Quem disse &agrave; estrela o caminho <\/p>\n<p>Que ela h&aacute;-de seguir no c&eacute;u? <\/p>\n<p>A fabricar o seu ninho <\/p>\n<p>Como &eacute; que a ave aprendeu? <\/p>\n<p>Quem diz &agrave; planta &laquo;Florece!&raquo; <\/p>\n<p>E ao mudo verme que tece <\/p>\n<p>Sua mortalha de seda <\/p>\n<p>Os fios quem lhos enreda? <\/p>\n<p>Ensinou algu&eacute;m &agrave; abelha <\/p>\n<p>Que no prado anda a zumbir <\/p>\n<p>Se &agrave; flor branca ou &agrave; vermelha <\/p>\n<p>O seu mel h&aacute;-de ir pedir? <\/p>\n<p>Que eras tu meu ser, querida, <\/p>\n<p>Teus olhos a minha vida, <\/p>\n<p>Teu amor todo o meu bem&#8230; <\/p>\n<p>Ai!, n&atilde;o mo disse ningu&eacute;m. <\/p>\n<p>Como a abelha corre ao prado, <\/p>\n<p>Como no c&eacute;u gira a estrela,<\/p>\n<p>Como a todo o ente o seu fado<\/p>\n<p>Por instinto se revela, <\/p>\n<p>Eu no teu seio divino . <\/p>\n<p>Vim cumprir o meu destino&#8230; <\/p>\n<p>Vim, que em ti s&oacute; sei viver, <\/p>\n<p>S&oacute; por ti posso morrer.<\/p>\n<h2><a name=\"10\">X &#8211; Gozo e dor<\/a><\/h2>\n<p>Se estou contente, querida, <\/p>\n<p>Com esta imensa ternura <\/p>\n<p>De que me enche o teu amor? <\/p>\n<p>&#8211; N&atilde;o. Ai!, n&atilde;o; falta-me a vida, <\/p>\n<p>Sucumbe-me a alma &agrave; ventura: <\/p>\n<p>O excesso de gozo &eacute; dor. <\/p>\n<p>D&oacute;i-me alma, sim; e a tristeza <\/p>\n<p>Vaga, inerte e sem motivo, <\/p>\n<p>No cora&ccedil;&atilde;o me poisou, <\/p>\n<p>Absorto em tua beleza, <\/p>\n<p>N&atilde;o sei se morro ou se vivo, <\/p>\n<p>Porque a vida me parou. <\/p>\n<p>&Eacute; que n&atilde;o h&aacute; ser bastante <\/p>\n<p>Para este gozar sem fim <\/p>\n<p>Que me inunda o cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Tremo dele, e delirante <\/p>\n<p>Sinto que se exaure em mim <\/p>\n<p>Ou a vida &#8211; ou a raz&atilde;o. <\/p>\n<h2><a name=\"11\">XI &#8211; Perfume da rosa<\/a><\/h2>\n<p> Quem bebe, rosa, o perfume <\/p>\n<p>Que de teu seio respira? <\/p>\n<p>Um anjo, um silfo? Ou que nume <\/p>\n<p>Com esse aroma delira? <\/p>\n<p>Qual &eacute; o deus que, namorado, <\/p>\n<p>De seu trono te ajoelha, <\/p>\n<p>E esse n&eacute;ctar encantado <\/p>\n<p>Bebe oculto, humilde abelha? <\/p>\n<p>&#8211; Ningu&eacute;m? &#8211; Mentiste: essa frente <\/p>\n<p>Em languidez inclinada, <\/p>\n<p class=\"text\">Quem ta p&ocirc;s assim pendente? <\/p>\n<p>Dize, rosa namorada. <\/p>\n<p>E a cor de p&uacute;rpura viva <\/p>\n<p>Como assim te desmaiou? <\/p>\n<p>E essa palidez lasciva <\/p>\n<p>Nas folhas quem ta pintou? <\/p>\n<p>Os espinhos que t&atilde;o duros <\/p>\n<p>Tinhas na rama lustrosa, <\/p>\n<p>Com que magos esconjuros <\/p>\n<p>Tos desarmaram, &oacute; rosa?<\/p>\n<p>E porqu&ecirc;, na h&aacute;stia sentida <\/p>\n<p>Tremes tanto ao p&ocirc;r do Sol?<\/p>\n<p>Porque escutas t&atilde;o rendida <\/p>\n<p>O canto do rouxinol? <\/p>\n<p>Que eu n&atilde;o ouvi um suspiro <\/p>\n<p>Sussurrar-te na folhagem? <\/p>\n<p>Nas &aacute;guas desse retiro <\/p>\n<p>N&atilde;o espreitei a tua imagem? <\/p>\n<p>N&atilde;o a vi aflita, ansiada&#8230; <\/p>\n<p>&#8211; Era de prazer ou dor? &#8211; <\/p>\n<p>Mentiste, rosa, &eacute;s amada, <\/p>\n<p>E tu tamb&eacute;m tu amas, flor. <\/p>\n<p>Mas ai!, se n&atilde;o for um nume <\/p>\n<p>O que em teu seio delira, <\/p>\n<p>H&aacute;-de mat&aacute;-lo o perfume <\/p>\n<p>Que nesse aroma respira. <\/p>\n<h2><a name=\"12\">XII &#8211; Rosa sem espinhos<\/a><\/h2>\n<p>Para todos tens carinhos, <\/p>\n<p>A ningu&eacute;m mostras rigor! <\/p>\n<p>Que rosa &eacute;s tu sem espinhos? <\/p>\n<p>Ai, que n&atilde;o te entendo, flor! <\/p>\n<p>Se a borboleta vaidosa <\/p>\n<p>A desd&eacute;m te vai beijar, <\/p>\n<p>O mais que lhe fazes, rosa, <\/p>\n<p>&Eacute; sorrir e &eacute; corar. <\/p>\n<p>E quando a sonsa da abelha, <\/p>\n<p>T&atilde;o modesta em seu zumbir, <\/p>\n<p>Te diz: &laquo;&Oacute; rosa vermelha, <\/p>\n<p>&raquo; Bem me podes acudir: <\/p>\n<p>&raquo; Deixa do c&aacute;lix divino <\/p>\n<p>&raquo; Uma gota s&oacute; libar&#8230; <\/p>\n<p>&raquo; Deixa, &eacute; n&eacute;ctar peregrino, <\/p>\n<p>&raquo; Mel que eu n&atilde;o sei fabricar &#8230;&raquo; <\/p>\n<p>Tu de l&aacute;stima rendida, <\/p>\n<p>De maldita compaix&atilde;o, <\/p>\n<p>Tu &agrave; s&uacute;plica atrevida <\/p>\n<p>Sabes tu dizer que n&atilde;o?<\/p>\n<p>Tanta l&aacute;stima e carinhos, <\/p>\n<p>Tanto d&oacute;, nenhum rigor! <\/p>\n<p>&Eacute;s rosa e n&atilde;o tens espinhos! <\/p>\n<p>Ai !, que n&atilde;o te entendo, flor.<\/p>\n<h2><a name=\"13\">XIII &#8211; Rosa p&aacute;lida<\/a><\/h2>\n<p>Rosa p&aacute;lida, em meu seio <\/p>\n<p>Vem, querida, sem receio <\/p>\n<p>Esconder a aflita cor. <\/p>\n<p>Ai!, a minha pobre rosa! <\/p>\n<p>Cuida que &eacute; menos formosa <\/p>\n<p>Porque desbotou de amor. <\/p>\n<p>Pois sim&#8230; quando livre, ao vento,<\/p>\n<p>Solta de alma e pensamento, <\/p>\n<p>Forte de tua isen&ccedil;&atilde;o, <\/p>\n<p>Tinhas na folha incendida <\/p>\n<p>O sangue, o calor e a vida <\/p>\n<p>Que ora tens no cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o eras, n&atilde;o, mais bela, <\/p>\n<p>Coitada, coitada dela, <\/p>\n<p>A minha rosa gentil! <\/p>\n<p>Coravam-na ent&atilde;o desejos, <\/p>\n<p>Desmaiam-na agora os beijos&#8230; <\/p>\n<p>Vales mais mil vezes, mil. <\/p>\n<p>Inveja das outras flores! <\/p>\n<p>Inveja de qu&ecirc;, amores? <\/p>\n<p>Tu, que vieste dos C&eacute;us, <\/p>\n<p>Comparar tua beleza <\/p>\n<p>&Agrave;s filhas da natureza! <\/p>\n<p>Rosa, n&atilde;o tentes a Deus. <\/p>\n<p>E vergonha!&#8230; de qu&ecirc;, vida? <\/p>\n<p>Vergonha de ser querida, <\/p>\n<p>Vergonha de ser feliz! <\/p>\n<p>Porqu&ecirc;?&#8230; porqu&ecirc; em teu semblante <\/p>\n<p>A p&aacute;lida cor da amante <\/p>\n<p>A minha ventura diz? <\/p>\n<p>Pois, quando eras t&atilde;o vermelha<\/p>\n<p>N&atilde;o vinha z&acirc;ng&atilde;o e abelha<\/p>\n<p>Em torno de ti zumbir? <\/p>\n<p>N&atilde;o ouvias entre as flores <\/p>\n<p>Hist&oacute;rias dos mil amores <\/p>\n<p>Que n&atilde;o tinhas, repetir? <\/p>\n<p>Que h&atilde;o-de eles dizer agora? <\/p>\n<p>Que pendente e de quem chora <\/p>\n<p>&Eacute; o teu l&acirc;nguido olhar? <\/p>\n<p>Que a tez fina e delicada <\/p>\n<p>Foi, de ser muito beijada, <\/p>\n<p>Que te veio a desbotar? <\/p>\n<p>Deixa-os: p&aacute;lida ou corada, <\/p>\n<p>Ou isenta ou namorada, <\/p>\n<p>Que brilhe no prado flor, <\/p>\n<p>Que fulja no c&eacute;u estrela, <\/p>\n<p>Ainda &eacute; ditosa e bela <\/p>\n<p>Se lhe d&atilde;o s&oacute; um amor. <\/p>\n<p>Ai!, deixa-os, e no meu seio <\/p>\n<p>Vem, querida, sem receio <\/p>\n<p>Vem a frente reclinar. <\/p>\n<p>Que p&aacute;lida est&aacute;s, que linda! <\/p>\n<p>Oh!, quanto mais te amo ainda <\/p>\n<p>D&ecirc;s que te fiz desbotar.<\/p>\n<h2><a name=\"14\">XIV &#8211; Flor de ventura<\/a><\/h2>\n<p>A flor de ventura <\/p>\n<p>Que amor me entregou, <\/p>\n<p>T&atilde;o bela e t&atilde;o pura <\/p>\n<p>Jamais a criou: <\/p>\n<p>N&atilde;o brota na selva <\/p>\n<p>De inculto vigor, <\/p>\n<p>N&atilde;o cresce entre a relva <\/p>\n<p>De virgem frescor; <\/p>\n<p>Jardins de cultura <\/p>\n<p>N&atilde;o pode habitar <\/p>\n<p>A flor de ventura <\/p>\n<p>Que amor me quis dar. <\/p>\n<p>Semente &eacute; divina <\/p>\n<p>Que veio dos C&eacute;us; <\/p>\n<p>S&oacute; n&#8217;alma germina <\/p>\n<p>Ao sopro de Deus.<\/p>\n<p>T&atilde;o alva e mimosa <\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; outra flor; <\/p>\n<p>Uns longes de rosa <\/p>\n<p>Lhe avivam a cor; <\/p>\n<p>E o aroma&#8230; Ai!, del&iacute;rio <\/p>\n<p>Suave e sem fim! <\/p>\n<p>&Eacute; a rosa, &eacute; o l&iacute;rio, <\/p>\n<p>&Eacute; o nardo, o jasmim; <\/p>\n<p>&Eacute; um filtro que apura, <\/p>\n<p>Que exalta o viver, <\/p>\n<p>E em doce tortura <\/p>\n<p>Faz de &acirc;nsias morrer. <\/p>\n<p>Ai!, morrer&#8230; que sorte <\/p>\n<p>Bendita de amor! <\/p>\n<p>Que me leve a morte <\/p>\n<p>Beijando-te, flor.<\/p>\n<h2><a name=\"15\">XV &#8211; Bela d&#8217;amor<\/a><\/h2>\n<p> Pois essa luz cintilante <\/p>\n<p>Que brilha no teu semblante <\/p>\n<p>Donde lhe vem o &#8216;splendor? <\/p>\n<p>N&atilde;o sentes no peito a chama <\/p>\n<p>Que aos meus suspiros se inflama <\/p>\n<p>E toda reluz de amor? <\/p>\n<p>Pois a celeste fragr&acirc;ncia <\/p>\n<p>Que te sentes exalar, <\/p>\n<p>Pois, dize, a ing&eacute;nua eleg&acirc;ncia <\/p>\n<p>Com que te v&ecirc;s ondular <\/p>\n<p>Como se baloi&ccedil;a a flor <\/p>\n<p>Na Primavera em verdor, <\/p>\n<p>Dize, dize: a natureza <\/p>\n<p>Pode dar tal gentileza? <\/p>\n<p>Quem ta deu sen&atilde;o amor? <\/p>\n<p>V&ecirc;-te a esse espelho, querida, <\/p>\n<p>Ai!, v&ecirc;-te por tua vida, <\/p>\n<p>E diz se h&aacute; no c&eacute;u estrela, <\/p>\n<p>Diz-me se h&aacute; no prado flor <\/p>\n<p>Que Deus fizesse t&atilde;o bela <\/p>\n<p>Como te faz meu amor.<\/p>\n<h2><a name=\"16\">XVI &#8211; Os cinco sentidos<\/a><\/h2>\n<p> S&atilde;o belas &#8211; bem o sei, essas estrelas, <\/p>\n<p>Mil cores &#8211; divinais t&ecirc;m essas flores; <\/p>\n<p>Mas eu n&atilde;o tenho, amor, olhos para elas: <\/p>\n<p>Em toda a natureza <\/p>\n<p>N&atilde;o vejo outra beleza <\/p>\n<p>Sen&atilde;o a ti &#8211; a ti! <\/p>\n<p>Divina &#8211; ai!, sim, ser&aacute; a voz que afina <br \/>\n    Saudosa &#8211; na ramagem densa, umbrosa, <\/p>\n<p>Ser&aacute;; mas eu do rouxinol que trina <\/p>\n<p>N&atilde;o oi&ccedil;o a melodia, <\/p>\n<p>Nem sinto outra harmonia <\/p>\n<p>Sen&atilde;o a ti &#8211; a ti! <\/p>\n<p>Respira &#8211; n&#8217;aura que entre as flores gira, <\/p>\n<p>Celeste &#8211; incenso de perfume agreste. <\/p>\n<p>Sei&#8230; n&atilde;o sinto: minha alma n&atilde;o aspira, <\/p>\n<p>N&atilde;o percebe, n&atilde;o toma <\/p>\n<p>Sen&atilde;o o doce aroma <\/p>\n<p>Que vem de ti &#8211; de ti! <\/p>\n<p>Formosos &#8211; s&atilde;o os pomos saborosos, <\/p>\n<p>&Eacute; um mimo &#8211; de n&eacute;ctar o racimo: <\/p>\n<p>E eu tenho fome e sede &#8230;sequiosos, <\/p>\n<p>Famintos meus desejos <\/p>\n<p>Est&atilde;o&#8230; mas &eacute; de beijos, <\/p>\n<p>&Eacute; s&oacute; de ti &#8211; de ti! <\/p>\n<p> Macia &#8211; deve a relva luzidia <br \/>\n    Do leito &#8211; ser por certo em que me deito. <\/p>\n<p>Mas quem, ao p&eacute; de ti, quem poderia <\/p>\n<p>Sentir outras car&iacute;cias, <\/p>\n<p>Tocar noutras del&iacute;cias <\/p>\n<p>Sen&atilde;o em ti &#8211; em ti! <\/p>\n<p>A ti! , ai, a ti s&oacute; os meus sentidos <br \/>\n    Todos num confundidos, <\/p>\n<p>Sentem, ouvem, respiram; <\/p>\n<p>Em ti, por ti deliram. <\/p>\n<p>Em ti a minha sorte, <\/p>\n<p>A minha vida em ti; <\/p>\n<p>E quando venha a morte, <\/p>\n<p>Ser&aacute; morrer por ti. <\/p>\n<h2><a name=\"17\">XVII &#8211; Rosa e l&iacute;rio<\/a><\/h2>\n<p>A rosa<br \/>\n    &Eacute; formosa;<\/p>\n<p>Bem sei.<\/p>\n<p>Porque lhe chamam &#8211; flor<\/p>\n<p>D&#8217;amor,<\/p>\n<p>N&atilde;o sei.<\/p>\n<p>A flor,<\/p>\n<p>Bem de amor<\/p>\n<p>&Eacute; o l&iacute;rio;<\/p>\n<p>Tem mel no aroma &#8211; dor<\/p>\n<p>Na cor<\/p>\n<p>O l&iacute;rio.<\/p>\n<p>Se o cheiro<\/p>\n<p>&Eacute; fagueiro<\/p>\n<p>Na rosa,<\/p>\n<p>Se &eacute; de beleza &#8211; mor<\/p>\n<p>Primor<\/p>\n<p>A rosa,<\/p>\n<p>No l&iacute;rio<\/p>\n<p>O mart&iacute;rio<\/p>\n<p>Que &eacute; meu<\/p>\n<p>Pintado vejo: cor<\/p>\n<p>E ardor<\/p>\n<p>&Eacute; o meu.<\/p>\n<p>A rosa<\/p>\n<p>&Eacute; formosa,<\/p>\n<p>Bem sei &#8230;<\/p>\n<p>E ser&aacute; de outros flor<\/p>\n<p>D&#8217;amor&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o sei.<\/p>\n<h2><a name=\"18\">XVIII &#8211; Coquette dos prados<\/a><\/h2>\n<p> Coquette dos prados, <br \/>\n    A rosa &eacute; uma flor <br \/>\n    Que inspira e n&atilde;o sente <\/p>\n<p>O encanto d&#8217;amor. <\/p>\n<p>De p&uacute;rpura a vestem <\/p>\n<p>Os raios do Sol; <\/p>\n<p>Suspiram por ela <\/p>\n<p>Ais do rouxinol: <\/p>\n<p>E as galas que traja <\/p>\n<p>N&atilde;o as agradece, <\/p>\n<p>E o amor que acende <\/p>\n<p>N&atilde;o o reconhece. <\/p>\n<p>Coquette dos prados <\/p>\n<p>Rosa, linda flor, <\/p>\n<p>Porqu&ecirc;, se o n&atilde;o sentes, <\/p>\n<p>Inspiras amor? <\/p>\n<h2><a name=\"19\">XIX &#8211; Cascais<\/a><\/h2>\n<p> Acabava ali a Terra <\/p>\n<p>Nos derradeiros rochedos, <\/p>\n<p>A deserta &aacute;rida serra <\/p>\n<p>Por entre os negros penedos <\/p>\n<p>S&oacute; deixa viver mesquinho <\/p>\n<p>Triste pinheiro maninho. <\/p>\n<p>E os ventos despregados <\/p>\n<p>Sopravam rijos na rama, <\/p>\n<p>E os c&eacute;us turvos, anuviados, <\/p>\n<p>O mar que incessante brama&#8230; <\/p>\n<p>Tudo ali era braveza <\/p>\n<p>De selvagem natureza. <\/p>\n<p>A&iacute;, na quebra do monte, <\/p>\n<p>Entre uns juncos mal medrados, <\/p>\n<p>Seco o rio, seca a fonte, <\/p>\n<p>Ervas e matos queimados, <\/p>\n<p>A&iacute; nessa bruta serra, <\/p>\n<p>A&iacute; foi um C&eacute;u na Terra. <\/p>\n<p>Ali s&oacute;s no mundo, s&oacute;s, <\/p>\n<p>Santo Deus!, como vivemos! <\/p>\n<p>Como &eacute;ramos tudo n&oacute;s <\/p>\n<p>E de nada mais soubemos! <\/p>\n<p>Como nos folgava a vida <\/p>\n<p>De tudo o mais esquecida! <\/p>\n<p>Que longos beijos sem fim, <\/p>\n<p>Que falar dos olhos mudo! <\/p>\n<p>Como ela vivia em mim, <\/p>\n<p>Como eu tinha nela tudo, <\/p>\n<p>Minha alma em sua raz&atilde;o, <\/p>\n<p>Meu sangue em seu cora&ccedil;&atilde;o! <\/p>\n<p>Os anjos aqueles dias <\/p>\n<p>Contaram na eternidade: <\/p>\n<p>Que essas horas fugidias, <\/p>\n<p>S&eacute;culos na intensidade, <\/p>\n<p>Por mil&eacute;nios marca Deus <\/p>\n<p>Quando as d&aacute; aos que s&atilde;o seus. <\/p>\n<p>Ai!, sim, foi a trapos largos, <\/p>\n<p>Longos, fundos que a bebi <\/p>\n<p>Do prazer a ta&ccedil;a &#8211; amargos <\/p>\n<p>Depois&#8230; depois os senti <\/p>\n<p>Os travos que ela deixou&#8230; <\/p>\n<p>Mas como eu ningu&eacute;m gozou.<\/p>\n<p>Ningu&eacute;m: que &eacute; preciso amar <\/p>\n<p>Como eu amei &#8211; ser amado <\/p>\n<p>Como eu fui; dar, e tomar <\/p>\n<p>Do outro ser a quem se h&aacute; dado, <\/p>\n<p>Toda a raz&atilde;o, toda a vida <\/p>\n<p>Que em n&oacute;s se anula perdida. <\/p>\n<p>Ai, ai!, que pesados anos <\/p>\n<p>Tardios depois vieram! <\/p>\n<p>Oh!, que fatais desenganos, <\/p>\n<p>Ramo a ramo, a desfizeram <\/p>\n<p>A minha cho&ccedil;a na serra, <\/p>\n<p>L&aacute; onde se acaba a Terra! <\/p>\n<p>Se o visse&#8230; n&atilde;o quero v&ecirc;-lo <\/p>\n<p>Aquele s&iacute;tio encantado. <\/p>\n<p>Certo estou n&atilde;o conhec&ecirc;-lo, <\/p>\n<p>T&atilde;o outro estar&aacute; mudado, <\/p>\n<p>Mudado como eu, como ela, <\/p>\n<p>Que a vejo sem conhec&ecirc;-la! <\/p>\n<p>Inda ali acaba a Terra, <\/p>\n<p>Mas j&aacute; o c&eacute;u n&atilde;o come&ccedil;a; <\/p>\n<p>Que aquela vis&atilde;o da serra <\/p>\n<p>Sumiu-se na treva espessa, <\/p>\n<p>E deixou nua a bruteza <\/p>\n<p>Dessa agreste natureza.<\/p>\n<h2><a name=\"20\">XX &#8211; Estes s&iacute;tios!<\/a><\/h2>\n<p>Olha bem estes s&iacute;tios queridos, <\/p>\n<p>V&ecirc;-os bem neste olhar derradeiro&#8230; <\/p>\n<p>Ai!, o negro dos montes erguidos, <\/p>\n<p>Ai!, o verde do triste pinheiro! <\/p>\n<p>Que saudades que deles teremos &#8230; <\/p>\n<p>Que saudade!, ai, amor, que saudade! <\/p>\n<p>Pois n&atilde;o sentes, neste ar que bebemos, <\/p>\n<p>No acre cheiro da agreste ramagem, <\/p>\n<p>Estar-se alma a tragar liberdade <\/p>\n<p>E a crescer de inoc&ecirc;ncia e vigor! <\/p>\n<p>Oh!, aqui, aqui s&oacute; se engrinalda <\/p>\n<p>Da pureza da rosa selvagem, <\/p>\n<p>E contente aqui s&oacute; vive Amor. <\/p>\n<p>O ar queimado das salas lhe escalda <\/p>\n<p>De suas asas o n&iacute;veo candor, <\/p>\n<p>E na frente arrugada lhe cresta <\/p>\n<p>A inoc&ecirc;ncia infantil do pudor. <\/p>\n<p>E oh!, deixar tais del&iacute;cias como esta! <\/p>\n<p>E trocar este c&eacute;u de ventura <\/p>\n<p>Pelo inferno da escrava cidade! <\/p>\n<p>Vender alma e raz&atilde;o &agrave; impostura, <\/p>\n<p>Ir saudar a mentira em sua corte, <\/p>\n<p>Ajoelhar em seu trono &agrave; vaidade, <\/p>\n<p>Ter de rir nas ang&uacute;stias da morte, <\/p>\n<p>Chamar vida ao terror da verdade&#8230; <\/p>\n<p>Ai!, n&atilde;o, n&atilde;o&#8230; nossa vida acabou, <\/p>\n<p>Nossa vida aqui toda ficou. <\/p>\n<p>Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro, <\/p>\n<p>Dize &agrave; sombra dos montes erguidos, <\/p>\n<p>Dize-o ao verde do triste pinheiro, <\/p>\n<p>Dize-o a todos os s&iacute;tios queridos <\/p>\n<p>Desta ruda, feroz soledade, <\/p>\n<p>Para&iacute;so onde livres vivemos&#8230; <\/p>\n<p>Oh!, saudades que dele teremos, <\/p>\n<p>Que saudade!, ai, amor, que saudade! <\/p>\n<h2><a name=\"21\">XXI &#8211; N&atilde;o te amo<\/a><\/h2>\n<p> N&atilde;o te amo, quero-te: o amar vem d&#8217;alma.<\/p>\n<p> E eu n&#8217;alma &#8211; tenho a calma, <\/p>\n<p> A calma &#8211; do jazigo. <\/p>\n<p> Ai!, n&atilde;o te amo, n&atilde;o. <\/p>\n<p>N&atilde;o te amo, quero-te: o amor &eacute; vida. <\/p>\n<p> E a vida &#8211; nem sentida <\/p>\n<p> A trago eu j&aacute; comigo. <\/p>\n<p> Ai!, n&atilde;o te amo, n&atilde;o.<\/p>\n<p>Ai!, n&atilde;o te amo, n&atilde;o; e s&oacute; te quero <\/p>\n<p> De um querer bruto e fero <\/p>\n<p> Que o sangue me devora, <\/p>\n<p> N&atilde;o chega ao cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>N&atilde;o te amo. &Eacute;s bela, e eu n&atilde;o te amo, &oacute; bela.\n  <\/p>\n<p> Quem ama a aziaga estrela <\/p>\n<p> Que lhe luz na m&aacute; hora <\/p>\n<p> Da sua perdi&ccedil;&atilde;o? <\/p>\n<p>E quero-te, e n&atilde;o te amo, que &eacute; for&ccedil;ado, <\/p>\n<p> De mau feiti&ccedil;o azado <\/p>\n<p> Este indigno furor. <\/p>\n<p> Mas oh!, n&atilde;o te amo, n&atilde;o. <\/p>\n<p>E infame sou, porque te quero; e tanto <\/p>\n<p>Que de mim tenho espanto, <\/p>\n<p>De ti medo e terror &#8230; <\/p>\n<p>Mas amar&#8230; n&atilde;o te amo, n&atilde;o. <\/p>\n<h2><a name=\"22\">XXII &#8211; N&atilde;o &eacute;s tu<\/a><\/h2>\n<p>Era assim, tinha esse olhar, <\/p>\n<p>A mesma gra&ccedil;a, o mesmo ar, <\/p>\n<p>Corava da mesma cor, <\/p>\n<p>Aquela vis&atilde;o que eu vi <\/p>\n<p>Quando eu sonhava de amor, <\/p>\n<p>Quando em sonhos me perdi. <\/p>\n<p>Toda assim; o porte altivo, <\/p>\n<p>O semblante pensativo, <\/p>\n<p>E uma suave tristeza <\/p>\n<p>Que por toda ela descia <\/p>\n<p>Como um v&eacute;u que lhe envolvia, <\/p>\n<p>Que lhe ado&ccedil;ava a beleza. <\/p>\n<p>Era assim; o seu falar, <\/p>\n<p>Ing&eacute;nuo e quase vulgar, <\/p>\n<p>Tinha o poder da raz&atilde;o <\/p>\n<p>Que penetra, n&atilde;o seduz; <\/p>\n<p>N&atilde;o era fogo, era luz <\/p>\n<p>Que mandava ao cora&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Nos olhos tinha esse lume, <\/p>\n<p>No seio o mesmo perfume , <\/p>\n<p>Um cheiro a rosas celestes, <\/p>\n<p>Rosas brancas, puras, finas, <\/p>\n<p>Vi&ccedil;osas como boninas, <\/p>\n<p>Singelas sem ser agrestes. <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o &eacute;s tu&#8230; ai!, n&atilde;o &eacute;s:<\/p>\n<p>Toda a ilus&atilde;o se desfez.<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute;s aquela que eu vi,<\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute;s a mesma vis&atilde;o,<\/p>\n<p>Que essa tinha cora&ccedil;&atilde;o,<\/p>\n<p>Tinha, que eu bem lho senti.<\/p>\n<h2><a name=\"23\">XXIII &#8211; Beleza<\/a><\/h2>\n<p>Vem do amor a Beleza, <\/p>\n<p>Como a luz vem da chama. <\/p>\n<p>&Eacute; lei da natureza: <\/p>\n<p>Queres ser bela? &#8211; ama. <\/p>\n<p>Formas de encantar,<\/p>\n<p>Na tela o pincel <\/p>\n<p>As pode pintar; <\/p>\n<p>No bronze o buril <\/p>\n<p>As sabe gravar; <\/p>\n<p>E est&aacute;tua gentil <\/p>\n<p>Fazer o cinzel <\/p>\n<p>Da pedra mais dura&#8230;<\/p>\n<p>Mas Beleza &eacute; isso? &#8211; N&atilde;o; s&oacute; formosura.<\/p>\n<p>Sorrindo entre dores <\/p>\n<p>Ao filho que adora<\/p>\n<p>Inda antes de o ver<\/p>\n<p>&#8211; Qual sorri a aurora<\/p>\n<p>Chorando nas flores <\/p>\n<p>Que est&atilde;o por nascer &#8211; <\/p>\n<p>A m&atilde;e &eacute; a mais bela das obras de Deus. <\/p>\n<p>Se ela ama! &#8211; O mais puro do fogo dos c&eacute;us <\/p>\n<p>Lhe ateia essa chama de luz cristalina:<\/p>\n<p>&Eacute; a luz divina <\/p>\n<p>Que nunca mudou, <\/p>\n<p>&Eacute; luz&#8230; &eacute; a Beleza <\/p>\n<p>Em toda a pureza <\/p>\n<p>Que Deus a criou. <\/p>\n<h2><a name=\"24\">XXIV &#8211; Anjo &eacute;s<\/a><\/h2>\n<p>Anjo &eacute;s tu, que esse poder <\/p>\n<p>Jamais o teve mulher, <\/p>\n<p>Jamais o h&aacute;-de ter em mim. <\/p>\n<p>Anjo &eacute;s, que me domina <\/p>\n<p>Teu ser o meu ser sem fim; <\/p>\n<p>Minha raz&atilde;o insolente <\/p>\n<p>Ao teu capricho se inclina, <\/p>\n<p>E minha alma forte, ardente, <\/p>\n<p>Que nenhum jugo respeita, <\/p>\n<p>Covardemente sujeita <\/p>\n<p>Anda humilde a teu poder. <\/p>\n<p>Anjo &eacute;s tu, n&atilde;o &eacute;s mulher. <\/p>\n<p>Anjo &eacute;s. Mas que anjo &eacute;s tu? <\/p>\n<p>Em tua frente anuviada <\/p>\n<p>N&atilde;o vejo a c&#8217;roa nevada <\/p>\n<p>Das alvas rosas do c&eacute;u. <\/p>\n<p>Em teu seio ardente e nu <\/p>\n<p>N&atilde;o vejo ondear o v&eacute;u <\/p>\n<p>Com que o s&ocirc;frego pudor <\/p>\n<p>Vela os mist&eacute;rios d&#8217;amor. <\/p>\n<p>Teus olhos t&ecirc;m negra a cor, <\/p>\n<p>Cor de noite sem estrela; <\/p>\n<p>A chama &eacute; vivaz e &eacute; bela, <\/p>\n<p>Mas luz n&atilde;o tem. &#8211; Que anjo &eacute;s tu? <\/p>\n<p>Em nome de quem vieste? <\/p>\n<p>Paz ou guerra me trouxeste <\/p>\n<p>De Jeov&aacute; ou Belzebu? <\/p>\n<p>N&atilde;o respondes &#8211; e em teus bra&ccedil;os <\/p>\n<p>Com fren&eacute;ticos abra&ccedil;os <\/p>\n<p>Me tens apertado, estreito!&#8230; <\/p>\n<p>Isto que me cai no peito <\/p>\n<p>Que foi?&#8230; L&aacute;grima? &#8211; Escaldou-me<\/p>\n<p>Queima, abrasa, ulcera&#8230; Dou-me, <\/p>\n<p>Dou-me a ti, anjo maldito, <\/p>\n<p>Que este ardor que me devora <\/p>\n<p>&Eacute; j&aacute; fogo de precito, <\/p>\n<p>Fogo eterno, que em m&aacute; hora <\/p>\n<p>Trouxeste de l&aacute;&#8230; De donde? <\/p>\n<p>Em que mist&eacute;rios se esconde <\/p>\n<p>Teu fatal, estranho ser! <\/p>\n<p>Anjo &eacute;s tu ou &eacute;s mulher? <\/p>\n<h2><a name=\"25\">XXV &#8211; V&iacute;bora<\/a><\/h2>\n<p>Como a v&iacute;bora gerado, <\/p>\n<p>No cora&ccedil;&atilde;o se formou <\/p>\n<p>Este amor amaldi&ccedil;oado <\/p>\n<p>Que &agrave; nascen&ccedil;a o espeda&ccedil;ou.<\/p>\n<p>Para ele nascer morri; <\/p>\n<p>E em meu cad&aacute;ver nutrido, <\/p>\n<p>Foi a vida que eu perdi <\/p>\n<p>A vida que tem vivido.<\/p>\n<p>Livro Segundo<\/p>\n<h3>I<\/h3>\n<h3> Barca Bela<\/h3>\n<p>Pescador da barca bela, <\/p>\n<p>Onde v&aacute;s pescar com ela, <\/p>\n<p>Que &eacute; t&atilde;o bela, <\/p>\n<p>&Oacute; pescador? <\/p>\n<p>N&atilde;o v&ecirc;s que a &uacute;ltima estrela <\/p>\n<p>No c&eacute;u nublado se vela? <\/p>\n<p>Colhe a vela, <\/p>\n<p>&Oacute; pescador! <\/p>\n<p>Deita o lan&ccedil;o com cautela, <\/p>\n<p>Que a sereia canta bela &#8230; <\/p>\n<p>Mas cautela, <\/p>\n<p>&Oacute; pescador! <\/p>\n<p>N&atilde;o se enrede a rede nela, <\/p>\n<p>Que perdido &eacute; remo e vela <\/p>\n<p>S&oacute; de v&ecirc;-la, <\/p>\n<p>&Oacute; pescador. <\/p>\n<p>Pescador da barca bela, <\/p>\n<p>Inda &eacute; tempo, foge dela, <\/p>\n<p>Foge dela, <\/p>\n<p>&Oacute; pescador! <\/p>\n<h3>II<\/h3>\n<h3>A Coroa<\/h3>\n<p> Bem sei que &eacute; toda de flores <\/p>\n<p>Essa coroa d&#8217;amores <\/p>\n<p>Que na frente vais cingir. <\/p>\n<p>Mas &eacute; coroa &#8211; &eacute; reinado; <\/p>\n<p>E a posto mais arriscado <\/p>\n<p>N&atilde;o se pode hoje subir. <\/p>\n<p>Nesses reinos populosos <\/p>\n<p>Os vassalos revoltosos <\/p>\n<p>Tarde ou cedo d&atilde;o a lei. <\/p>\n<p>Quem h&aacute;-de conter, dom&aacute;-los, <\/p>\n<p>Se s&atilde;o tantos os vassalos <\/p>\n<p>E um s&oacute; o pobre do rei? <\/p>\n<p>N&atilde;o vejo, rainha bela, <\/p>\n<p>Para fugir essa estrela <\/p>\n<p>Que os reis persegue sem d&oacute;, <\/p>\n<p>Mais que um meio &#8211; falo s&eacute;rio: <\/p>\n<p>&Eacute; p&ocirc;r limites ao imp&eacute;rio<\/p>\n<p>E ter um vassalo s&oacute;. <\/p>\n<h3>III<\/h3>\n<h3>Sina<\/h3>\n<p> Por todas quantas estrelas <\/p>\n<p>Tem o c&eacute;u que possam mais, <\/p>\n<p>Pelas flores virginais <\/p>\n<p>De que se c&#8217;roam donzelas, <\/p>\n<p>Pelas l&aacute;grimas singelas <\/p>\n<p>Que o primeiro amor derrama, <\/p>\n<p>Por aquela et&eacute;rea chama <\/p>\n<p>Que a m&atilde;o de Deus acendeu <\/p>\n<p>E que na Terra alumia <\/p>\n<p>Quanto h&aacute; na terra do C&eacute;u! <\/p>\n<p>Por tudo quanto eu queria <\/p>\n<p>Quando eu sabia querer, <\/p>\n<p>E por tudo quanto eu cria <\/p>\n<p>Quando me era dado crer! <\/p>\n<p>Bem-fadada seja a vida <\/p>\n<p>Que por estas folhas brancas <\/p>\n<p>Sua hist&oacute;ria h&aacute;-de escrever! <\/p>\n<p>Que as dores lhe venham mancas <\/p>\n<p>E com asas o prazer! <\/p>\n<p>Esta sina que lhe dou, <\/p>\n<p>Bruxa n&atilde;o na adivinhou, <\/p>\n<p>Nem duende ma ensinou: <\/p>\n<p>Li-a eu por meu cond&atilde;o <\/p>\n<p>Em seus olhos inocentes, <\/p>\n<p>Transparentes &#8211; transparentes <\/p>\n<p>At&eacute; dentro ao cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<h3>IV<\/h3>\n<h3> Ai, Helena!<\/h3>\n<p>Ai, Helena!, de amante e de esposo <\/p>\n<p>J&aacute; o nome te faz suspirar, <\/p>\n<p>J&aacute; tua alma singela pressente <\/p>\n<p>Esse fogo de amor delicioso <\/p>\n<p>Que primeiro nos faz palpitar! &#8230; <\/p>\n<p>Oh!, n&atilde;o v&aacute;s, donzelinha inocente, <\/p>\n<p>N&atilde;o te v&aacute;s a esse engano entregar: <\/p>\n<p>E amor que te ilude e te mente, <\/p>\n<p>&Eacute; amor que te h&aacute;-de matar! <\/p>\n<p>Quando o Sol nestes montes desertos <\/p>\n<p>Deixa a luz derradeira apagar, <\/p>\n<p>Com as trevas da noite que espanta <\/p>\n<p>V&ecirc;m os anjos do Inferno encobertos <\/p>\n<p>A sua v&iacute;tima incauta afagar. <\/p>\n<p>Doce &eacute; a voz que adormece e quebranta, <\/p>\n<p>Mas a m&atilde;o do traidor &#8230;faz gelar. <\/p>\n<p>Treme, foge do amor que te encanta, <\/p>\n<p>&Eacute; amor que te h&aacute;-de matar. <\/p>\n<h3>V<\/h3>\n<h3> The rose &#8211; A Sigh<\/h3>\n<p>If this delicious, grateful flower, <\/p>\n<p>Which blows but for a little hour, <\/p>\n<p>Should to the sight so lovely be, <\/p>\n<p>As from it&#8217;s fragrance seems to me, <\/p>\n<p>A sigh must then it&#8217;s colour show, <\/p>\n<p>For that is the softest joy I know. <\/p>\n<p>And sure the rose is like a sigh, <\/p>\n<p>Borne just to soothe and then &#8211; to die. <\/p>\n<h3>V<\/h3>\n<h3>A Rosa &#8211; Um suspiro<\/h3>\n<p> Se esta flor t&atilde;o bela e pura, <\/p>\n<p>Que apenas uma hora dura, <\/p>\n<p>Tem pintado no matiz <\/p>\n<p>O que o seu perfume diz, <\/p>\n<p>Por certo na linda cor <\/p>\n<p>Mostra um suspiro d&#8217;amor: <\/p>\n<p>Dos que eu chego a conhecer <\/p>\n<p>&Eacute; este o maior prazer. <\/p>\n<p>E a rosa como um suspiro <\/p>\n<p>H&aacute;-de ser; bem se discorre: <\/p>\n<p>Tem na vida o mesmo giro, <\/p>\n<p>&Eacute; um gosto que nasce e &#8211; morre. <\/p>\n<h3>VI<\/h3>\n<h3> Retrato<\/h3>\n<p>  (Num &aacute;lbum) <\/p>\n<p>Ah!, despreza o meu retrato <\/p>\n<p>Que lhe eu queria aqui p&ocirc;r! <\/p>\n<p>Tem medo que lhe desfeie <\/p>\n<p>O seu livro de primor? <\/p>\n<p>Pois saiba que por despique <\/p>\n<p>Eu sei tamb&eacute;m ser pintor: <\/p>\n<p>Co&#8217;esta pena por pincel, <\/p>\n<p>E a tinta do meu tinteiro, <\/p>\n<p>Vou fazer o seu retrato <\/p>\n<p>Aqui j&aacute; de corpo inteiro. <\/p>\n<p>Vamos a isto. &#8211; Sentada <\/p>\n<p>Na cadeira moyen &acirc;ge, <\/p>\n<p>O cabelo en ch&acirc;telaines, <\/p>\n<p>As mangas soltas. &#8211; &Eacute; o traje. <\/p>\n<p>Em longas pregas negras <\/p>\n<p>Caia o veludo e arraste; <\/p>\n<p>De si com desd&eacute;m r&eacute;gio <\/p>\n<p>Com o pezinho o afaste &#8230; <\/p>\n<p>Nessa atitude! Est&aacute; bem: <\/p>\n<p>Agora mais um jeitinho; <\/p>\n<p>A airosa cabe&ccedil;a a um lado <\/p>\n<p>E o lindo p&eacute; no banquinho. <\/p>\n<p>Aqui est&atilde;o os contornos, s&atilde;o estes, <\/p>\n<p>Nem Daguerre lhos tira melhor. <\/p>\n<p>Este &eacute; o ar, esta a pose, eu lho juro, <\/p>\n<p>E o trajar que lhe fica melhor. <\/p>\n<p>Vamos agora ao dif&iacute;cil: <\/p>\n<p>Tirar fei&ccedil;&atilde;o por fei&ccedil;&atilde;o; <\/p>\n<p>Entend&ecirc;-las, que &eacute; o ponto, <\/p>\n<p>E dar-lhe a justa express&atilde;o. <\/p>\n<p>Os olhos s&atilde;o cor da noite, <\/p>\n<p>Da noite em seu come&ccedil;ar, <\/p>\n<p>Quando inda &eacute; jovem, incerta, <\/p>\n<p>E o dia vem de acabar; <\/p>\n<p>T&ecirc;m uma luz que vai longe, <\/p>\n<p>Que faz gosto de queimar: <\/p>\n<p>&Eacute; uma esp&eacute;cie de lume <\/p>\n<p>Que serve s&oacute; de abrasar. <\/p>\n<p>Na boca h&aacute; um sorriso am&aacute;vel. <\/p>\n<p>Am&aacute;vel &eacute;&#8230; mas queria <\/p>\n<p>Saber se &eacute; todo bondade <\/p>\n<p>Ou se meio &eacute; zombaria. <\/p>\n<p>Ningu&eacute;m mo diz? O retrato <\/p>\n<p>Incompleto ficar&aacute;, <\/p>\n<p>Que nestas duas fei&ccedil;&otilde;es <\/p>\n<p>Todo o ser, toda a alma est&aacute;. <\/p>\n<p>Pois fiel como um espelho <\/p>\n<p>&Eacute; tudo o que nele fiz, <\/p>\n<p>E o que lhe falta &#8211; que &eacute; muito, <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m o espelho o n&atilde;o diz. <\/p>\n<h3>VII<\/h3>\n<h3> Lucinda<\/h3>\n<p>Ergue a frente, l&iacute;rio, <\/p>\n<p>Ergue a branca frente! <\/p>\n<p>O astro do del&iacute;rio <\/p>\n<p>J&aacute; surgiu no oriente. <\/p>\n<p>  V&ecirc;s, o sol ardente <\/p>\n<p>L&aacute; caiu no mar; <\/p>\n<p>A frente pendente <\/p>\n<p>Ergue a respirar! <\/p>\n<p>Alvo &eacute; o luar, <\/p>\n<p>Teu alvor n&atilde;o cresta; <\/p>\n<p>A hora de gozar, <\/p>\n<p>De viver &eacute; esta. <\/p>\n<p>Longa foi a sesta, <\/p>\n<p>Longo o teu dormir; <\/p>\n<p>Ergue a branca testa, <\/p>\n<p>Tempo &eacute; de surgir! <\/p>\n<p>J&aacute; se abre a sorrir <\/p>\n<p>Tua boca linda&#8230; <\/p>\n<p>Despertar, sentir <\/p>\n<p>Ou sonhar &eacute; ainda? <\/p>\n<p>Sonho que n&atilde;o finda <\/p>\n<p>Ser&aacute; o teu sonhar, <\/p>\n<p>Se a dormir, Lucinda, <\/p>\n<p>Te sentes amar. <\/p>\n<h3>VIII<\/h3>\n<h3>As duas rosas<\/h3>\n<p> Sobre se era mais formosa <\/p>\n<p>A vermelha ou branca rosa, <\/p>\n<p>Ardeu s&eacute;culos a guerra <\/p>\n<p>Em Inglaterra. <\/p>\n<p>Paz entre as duas, jamais! <\/p>\n<p>Reinar ambas as rivais, <\/p>\n<p>Tamb&eacute;m n&atilde;o; e uma ceder <\/p>\n<p>Como h&aacute;-de ser? <\/p>\n<p>Faltei eu l&aacute; na Inglaterra <\/p>\n<p>Para acabar com a guerra. <\/p>\n<p>Ei-las aqui bem iguais, <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o rivais. <\/p>\n<p>Atei-as em la&ccedil;o estreito: <\/p>\n<p>Que artista fui, com que jeito! <\/p>\n<p>E oh!, que lindas s&atilde;o, que amores <\/p>\n<p>As minhas flores! <\/p>\n<p>Dir&atilde;o que &eacute; c&oacute;pia &#8211; bem sei: <\/p>\n<p>Que todo inteiro o roubei <\/p>\n<p>Meu pensamento brilhante <\/p>\n<p>Do teu semblante&#8230; <\/p>\n<p>Ser&aacute;. Mas se &eacute; t&atilde;o belo <\/p>\n<p>Que lhe d&ecirc;em esse modelo, <\/p>\n<p>Do meu quadro, na verdade, <\/p>\n<p>Tenho vaidade. <\/p>\n<h3>IX<\/h3>\n<h3>Voz e aroma<\/h3>\n<p> A brisa vaga no prado, <\/p>\n<p>Perfume nem voz n&atilde;o tem; <\/p>\n<p>Quem canta &eacute; o ramo agitado, <\/p>\n<p>O aroma &eacute; da flor que vem. <\/p>\n<p>A mim, tornem-me essas flores <\/p>\n<p>Que uma a uma eu vi murchar, <\/p>\n<p>Restituam-me os verdores <\/p>\n<p>Aos ramos que eu vi secar <\/p>\n<p>E em torrentes de harmonia <\/p>\n<p>Minha alma se exalar&aacute;, <\/p>\n<p>Esta alma que muda e fria <\/p>\n<p>Nem sabe se existe j&aacute;. <\/p>\n<h3>X<\/h3>\n<h3> Seus olhos<\/h3>\n<p>Seus olhos &#8211; que eu sei pintar <\/p>\n<p>O que os meus olhos cegou &#8211; <\/p>\n<p>N&atilde;o tinham luz de brilhar, <\/p>\n<p>Era chama de queimar; <\/p>\n<p>E o fogo que a ateou <\/p>\n<p>Vivaz, eterno, divino, <\/p>\n<p>Como facho do Destino. <\/p>\n<p>Divino, eterno! &#8211; e suave <\/p>\n<p>Ao mesmo tempo: mas grave <\/p>\n<p>E de t&atilde;o fatal poder, <\/p>\n<p>Que, um s&oacute; momento que a vi, <\/p>\n<p>Queimar toda a alma senti&#8230; <\/p>\n<p>Nem ficou mais de meu ser, <\/p>\n<p>Sen&atilde;o a cinza em que ardi. <\/p>\n<h3>XI<\/h3>\n<h3>A D&eacute;lia<\/h3>\n<p> Cuidas tu que a rosa chora, <\/p>\n<p>Que &eacute; tamanha a sua dor, <\/p>\n<p>Quando, j&aacute; passada a aurora, <\/p>\n<p>O Sol, ardente de amor, <\/p>\n<p>Com seus beijos a devora? <\/p>\n<p>&#8211; Feche virg&iacute;neo pudor <\/p>\n<p>O que inda &eacute; bot&atilde;o agora <\/p>\n<p>E amanh&atilde; h&aacute;-de ser flor; <\/p>\n<p>Mas ela &eacute; rosa nesta hora, <\/p>\n<p>Rosa no aroma e na cor. <\/p>\n<p>&#8211; Para amanh&atilde; o prazer <\/p>\n<p>Deixe o que amanh&atilde; viver. <\/p>\n<p>Hoje, D&eacute;lia, &eacute; nossa a vida; <\/p>\n<p>Amanh&atilde;&#8230; o que h&aacute;-de ser? <\/p>\n<p>A hora de amor perdida <\/p>\n<p>Quem sabe se h&aacute;-de volver? <\/p>\n<p>N&atilde;o desperdices, querida, <\/p>\n<p>A duvidar e a sofrer <\/p>\n<p>O que &eacute; mal gasto da vida <\/p>\n<p>Quando o n&atilde;o gasta o prazer. <\/p>\n<h3>XII<\/h3>\n<h3>A Jovem americana<\/h3>\n<p> Donde &eacute; que te eu vi, donzela, <\/p>\n<p>E o que eras tu nesta vida <\/p>\n<p>Quando n&atilde;o tinhas vestida <\/p>\n<p>A forma de virgem bela <\/p>\n<p>Que ora te vejo trajar? <\/p>\n<p>Estrela foste no c&eacute;u, <\/p>\n<p>Serias no prado flor? <\/p>\n<p>Ou, no di&aacute;fano splendor <\/p>\n<p>De que &Iacute;ris faz o seu v&eacute;u, <\/p>\n<p>Estavas, Silfa, a bordar? <\/p>\n<p>N&atilde;o houve poeta ainda <\/p>\n<p>Que te n&atilde;o visse e cantasse, <\/p>\n<p>Mulher que n&atilde;o te invejasse, <\/p>\n<p>Nem pintor que a face linda <\/p>\n<p>Te n&atilde;o fosse copiar. <\/p>\n<p>S&eacute;culos tens. &#8211; E ah!&#8230; j&aacute; sei <\/p>\n<p>Quem &eacute;s, quem foste e h&aacute;s-de <\/p>\n<p>Bem te eu estava a conhecer <\/p>\n<p>Quando primeiro te olhei <\/p>\n<p>Sem te poder estranhar. <\/p>\n<p>Com Deus e coa Liberdade <\/p>\n<p>De nossas terras fugiste <\/p>\n<p>Quando perdidos nos viste, <\/p>\n<p>E te foste &agrave; soledade. <\/p>\n<p>Do Novo Mundo acoitar. <\/p>\n<p>Pois que ora piedosa vens <\/p>\n<p>E nos sentes ressurgir, <\/p>\n<p>Oh!, n&atilde;o tornes a fugir, <\/p>\n<p>Que melhor p&aacute;tria n&atilde;o tens <\/p>\n<p>Nem que mais te saiba amar. <\/p>\n<p>Teu natal celebraremos <\/p>\n<p>Hoje e sempre: teus amigos <\/p>\n<p>Somos na lealdade antigos, <\/p>\n<p>E no ardor novos seremos, <\/p>\n<p>No desvelo em te adorar: <\/p>\n<p>Porque tu &eacute;s o Ideal <\/p>\n<p>Da s&oacute; beleza &#8211; do Bem; <\/p>\n<p>N&atilde;o &eacute;s estranha a ningu&eacute;m, <\/p>\n<p>E de ti s&oacute; foge o mal <\/p>\n<p>Que te n&atilde;o pode encarar. <\/p>\n<h3>XIII<\/h3>\n<h3>Adeus, m&atilde;e!<\/h3>\n<p> &#8211; &laquo;Adeus, m&atilde;e!, adeus, querida<\/p>\n<p> Que eu j&aacute; n&atilde;o posso coa vida<\/p>\n<p> E os anjos chamam por mim.<\/p>\n<p> Adeus, m&atilde;e, adeus! &#8230; Assim,<\/p>\n<p> Junta os teus l&aacute;bios aos meus<\/p>\n<p> E recebe o &uacute;ltimo adeus <\/p>\n<p> Neste suspiro&#8230; N&atilde;o chores<\/p>\n<p> N&atilde;o chores: aquelas dores <\/p>\n<p>J&aacute; sinto acalmar em mim. <\/p>\n<p>Adeus, m&atilde;e, adeus!&#8230; Assim, <\/p>\n<p>Junta os teus l&aacute;bios aos meus&#8230; <\/p>\n<p>Um beijo &#8211; um &uacute;ltimo&#8230; Adeus!&raquo; <\/p>\n<p>E o corpo desanimado <\/p>\n<p>No colo da m&atilde;e ca&iacute;a; <\/p>\n<p>E ela o corpo&#8230; s&oacute; pesado, <\/p>\n<p>S&oacute; mais pesado o sentia! <\/p>\n<p>N&atilde;o se lamenta, n&atilde;o chora, <\/p>\n<p>E quase a sorrir, dizia: <\/p>\n<p>&laquo;Que tem este filho agora, <\/p>\n<p>Que tanto pesa? N&atilde;o posso&#8230;&raquo; <\/p>\n<p>E uma a uma, osso por osso, <\/p>\n<p>Com a m&atilde;o tr&eacute;mula tenta <\/p>\n<p>As m&atilde;ozinhas descarnadas, <\/p>\n<p>As faces cavas, mirradas, <\/p>\n<p>A testa inda morna e lenta. <\/p>\n<p>&laquo;Que febre, que febre!&raquo;, diz; <\/p>\n<p>E em tudo pensa a infeliz, <\/p>\n<p>Tudo que h&aacute; mau lhe ocorreu, <\/p>\n<p>Tudo &#8211; menos que morreu. <\/p>\n<p>Como nos gelos do Norte <\/p>\n<p>O sono traidor da morte <\/p>\n<p>Engana o desfalecido <\/p>\n<p>Que imagina adormecer, <\/p>\n<p>Assim cansado, esva&iacute;do <\/p>\n<p>De t&atilde;o longo padecer, <\/p>\n<p>J&aacute; n&atilde;o h&aacute; no cora&ccedil;&atilde;o <\/p>\n<p>Da m&atilde;e for&ccedil;a de sentir; <\/p>\n<p>N&atilde;o tem j&aacute; lume a raz&atilde;o <\/p>\n<p>Sen&atilde;o s&oacute; para a iludir. <\/p>\n<p>Acorda, &oacute; m&atilde;e desgra&ccedil;ada, <\/p>\n<p>Que &eacute; tempo de despertar! <\/p>\n<p>Anda ver a e&ccedil;a armada, <\/p>\n<p>As luzes que ardem no altar. <\/p>\n<p>Ouves? &Eacute; a rouca toada <\/p>\n<p>Dos padres a salmear!&#8230; <\/p>\n<p>Vamos, que a hora &eacute; chegada, <\/p>\n<p>&Eacute; tempo de o amortalhar. <\/p>\n<p>E os anjos cantavam: <\/p>\n<p>&laquo;Aleluia!&raquo; <\/p>\n<p>E os santos clamavam: <\/p>\n<p>&laquo;Hosana!&raquo; <\/p>\n<p>Ao triste cantar da Terra <\/p>\n<p>Responde o cantar do C&eacute;u; <\/p>\n<p>Todos lhe bradam: &laquo; Morreu!&raquo; <\/p>\n<p>E a todos o ouvido cerra. <\/p>\n<p>E os sinos a tocar, <\/p>\n<p>E os padres a rezar, <\/p>\n<p>E ela ainda a acalentar <\/p>\n<p>Nos bra&ccedil;os o filho morto, <\/p>\n<p>Que j&aacute; n&atilde;o tem mais conforto, <\/p>\n<p>Mais sossego neste mundo <\/p>\n<p>Que o jazigo h&uacute;mido e fundo <\/p>\n<p>Onde h&aacute;-de ir a sepultar. <\/p>\n<p>Levai, &oacute; anjos de Deus, <\/p>\n<p>Levai essa dor aos C&eacute;us. <\/p>\n<p>Com a alma do inocente <\/p>\n<p>Aos p&eacute;s do Juiz Clemente <\/p>\n<p>A&iacute; fique a santa dor <\/p>\n<p>Rogando &agrave; Eterna Bondade <\/p>\n<p>Que estenda a imensa piedade <\/p>\n<p>A quantos pecam d&#8217;amor. <\/p>\n<h3>XIV<\/h3>\n<h3> Ave, Maria<\/h3>\n<p>Maria, doce M&atilde;e dos desvalidos,<\/p>\n<p>A ti clamo, a ti brado! <\/p>\n<p>A ti sobem, Senhora, os meus gemidos, <\/p>\n<p>A ti o hino sagrado <\/p>\n<p>Do cora&ccedil;&atilde;o de um pai voa, &oacute; Maria, <\/p>\n<p>Pela filha inocente.<\/p>\n<p>Com sua d&eacute;bil voz que balbucia, <\/p>\n<p>Piedosa m&atilde;e clemente, <\/p>\n<p>Ela j&aacute; sabe, erguendo as m&atilde;os tenrinhas, <\/p>\n<p>Pedir ao Pai dos C&eacute;us <\/p>\n<p>O p&atilde;o de cada dia. As preces minhas <\/p>\n<p>Como ir&atilde;o ao meu Deus, <\/p>\n<p>Ao meu Deus que &eacute; teu filho e tens nos bra&ccedil;os, <\/p>\n<p>Se tu, m&atilde;e de piedade, <\/p>\n<p>Me n&atilde;o tomas por teu? Oh!, rompe os la&ccedil;os <\/p>\n<p>Da velha humanidade; <\/p>\n<p>Despe de mim todo outro pensamento <\/p>\n<p>E v&atilde; ten&ccedil;&atilde;o da Terra; <\/p>\n<p>Outra gl&oacute;ria, outro amor, outro contento <\/p>\n<p>De minha alma desterra. <\/p>\n<p>M&atilde;e, oh!, M&atilde;e, salva o filho que te implora <\/p>\n<p>Pela filha querida. <\/p>\n<p>De mais tenho vivido, e s&oacute; agora <\/p>\n<p>Sei o pre&ccedil;o da vida, <\/p>\n<p>Desta vida, t&atilde;o mal gasta e prezada <\/p>\n<p>Porque minha s&oacute; era&#8230; <\/p>\n<p>Salva-a, que a um santo amor est&aacute; votada, <\/p>\n<p>Nele se regenera. <\/p>\n<h3>XV<\/h3>\n<h3>Os exilados <\/h3>\n<h3>(&Agrave; Sr.&ordf; Rossi-Caccia)<\/h3>\n<p>Eles tristes, das praias do desterro, <\/p>\n<p>Os olhos longos e arrasados de &aacute;gua <\/p>\n<p>Estendem para aqui&#8230; Cravado o ferro <\/p>\n<p>Da saudade t&ecirc;m n&#8217;alma; e &eacute; negra m&aacute;goa <\/p>\n<p>A que lhes rala os cora&ccedil;&otilde;es aflitos, <\/p>\n<p>&Eacute; a maior da vida &#8211; s&atilde;o proscritos, <\/p>\n<p>Dor como outra n&atilde;o h&aacute;, &eacute; a dor que os mata! <\/p>\n<p>Dizer eu: &laquo;Essa terra &eacute; minha&#8230; minha, <\/p>\n<p>Que nasci nela, que a servi, a ingrata! <\/p>\n<p>Que lhe dei&#8230; dei por ela quanto tinha, <\/p>\n<p>Sangue, vida, sa&uacute;de, os bens da sorte&#8230; <\/p>\n<p>E ela, por galard&atilde;o, me entrega &agrave; morte!&raquo; <\/p>\n<p>Morte lenta e cruel &#8211; a de Ugolino! <\/p>\n<p>Bem lhes quiseram dar&#8230; <\/p>\n<p>Mas n&atilde;o ser&aacute; assim: sopro divino <\/p>\n<p>De bondade e nobreza <\/p>\n<p>N&atilde;o o pode apagar <\/p>\n<p>Nos cora&ccedil;&otilde;es da gente portuguesa <\/p>\n<p>Esse rancor de fera <\/p>\n<p>Que em almas negras, negro e vil impera.<\/p>\n<p>Tu, g&eacute;nio da Harmonia, <\/p>\n<p>Tu solta a voz em que triunfa a gl&oacute;ria, <\/p>\n<p>Com que suspira amor! <\/p>\n<p>Bela de entusiasmo e de fervor, <\/p>\n<p>Ergue-te, &oacute; Rossi, tua voz nos guia: <\/p>\n<p>A tua voz divina <\/p>\n<p>Hoje um eco imortal deixa na hist&oacute;ria. <\/p>\n<p>Inda no mar de Egina <\/p>\n<p>Soa o hino de Alceu; <\/p>\n<p>E atravessaram s&eacute;culos <\/p>\n<p>Os cantos de Tirteu. <\/p>\n<p>Mais poderosa e v&aacute;lida <\/p>\n<p>A tua voz ser&aacute;; <\/p>\n<p>A tua voz et&eacute;rea, <\/p>\n<p>Tua voz n&atilde;o morrer&aacute;. <\/p>\n<p>N&oacute;s no templo da p&aacute;tria penduramos <\/p>\n<p>Esta c&#8217;roa singela <\/p>\n<p>Que de mirto e de rosas entran&ccedil;amos <\/p>\n<p>Para essa fronte bela: <\/p>\n<p>Aqui, de voto, ficar&aacute; pendente, <\/p>\n<p>E um culto de saudade <\/p>\n<p>Aqui, perenemente, <\/p>\n<p>Lhe daremos no altar da Liberdade. <\/p>\n<h3>XVI<\/h3>\n<h3>Preito<\/h3>\n<p> &Eacute; lei do tempo, Senhora, <\/p>\n<p>Que ningu&eacute;m domine agora <\/p>\n<p>E todos queiram reinar. <\/p>\n<p>Quanto vale nesta hora <\/p>\n<p>Um vassalo bem sujeito, <\/p>\n<p>Leal de homenage e preito <\/p>\n<p>E f&aacute;cil de governar? <\/p>\n<p>Pois o tal sou eu, Senhora: <\/p>\n<p>E aqui juro e firmo agora <\/p>\n<p>Que a um desp&oacute;tico reinar <\/p>\n<p>Me rendo todo nesta hora, <\/p>\n<p>Que a liberdade sujeito&#8230;<\/p>\n<p>N&atilde;o a reis! &#8211; outro &eacute; meu preito: <\/p>\n<p>Anjos me h&atilde;o-de governar. <\/p>\n<h3>XVII<\/h3>\n<h3>No lumiar<\/h3>\n<p> Era um dia de Abril; a Primavera <\/p>\n<p>Mostrava apenas seu virg&iacute;neo seio <\/p>\n<p>Entre a folhagem tenra; n&atilde;o vencera, <\/p>\n<p>De todo, o Sol o misterioso enleio <\/p>\n<p>Da n&eacute;voa rara e fina que estendera <\/p>\n<p>A manh&atilde; sobre as flores; o gorjeio <\/p>\n<p>Das aves inda t&iacute;mido e infantil&#8230; <\/p>\n<p>Era um dia de Abril. <\/p>\n<p>E n&oacute;s &iacute;amos lentos passeando <\/p>\n<p>De vergel em vergel, no descuidado <\/p>\n<p>Sossego d&#8217;alma que se est&aacute; lembrando <\/p>\n<p>Das lutas do passado, <\/p>\n<p>Das vagas incertezas do porvir. <\/p>\n<p>E eu n&atilde;o cansava de admirar, de ouvir, <\/p>\n<p>Porque era grande, um grande homem deveras <\/p>\n<p>Aquele duque &#8211; ali maior ainda, <\/p>\n<p>Ali no seu Lumiar, entre as sinceras <\/p>\n<p>Belezas desse parque, entre essas flores, <\/p>\n<p>A qual mais bela e de mais longe vinda <\/p>\n<p>Esmaltar de mil cores <\/p>\n<p>Bosque, jardim, e as relvas t&atilde;o mimosas, <\/p>\n<p>T&atilde;o suaves ao p&eacute; &#8211; muito h&aacute; cansado <\/p>\n<p>De pisar alcatifas ambiciosas, <\/p>\n<p>De trope&ccedil;ar no perigoso estrado <\/p>\n<p>Das vaidades da Terra. <\/p>\n<p>E o velho duque, o velho homem de Estado, <\/p>\n<p>Ao falar dessa guerra <\/p>\n<p>Distante &#8211; e das paix&otilde;es da humanidade, <\/p>\n<p>Sorria malicioso <\/p>\n<p>Daquele sorrir fino sem maldade, <\/p>\n<p>Que t&atilde;o seu era, que, entre desdenhoso <\/p>\n<p>E ben&eacute;volo, a quanto lhe sa&iacute;a <\/p>\n<p>Dos l&aacute;bios dava um cunho de nobreza, <\/p>\n<p>De raz&atilde;o superior. <\/p>\n<p>E ent&atilde;o como ele a amava e lhe queria <\/p>\n<p>A esta pobre terra portuguesa! <\/p>\n<p>Velha tinha a raz&atilde;o, velha a experi&ecirc;ncia, <\/p>\n<p>Jovem s&oacute; esse amor. <\/p>\n<p>T&atilde;o jovem, que inda cria, inda esperava, <\/p>\n<p>Inda tinha a f&eacute; viva da inoc&ecirc;ncia!&#8230; <\/p>\n<p>Eu, na for&ccedil;a da vida, <\/p>\n<p>Tristemente de mim me envergonhava. <\/p>\n<p>&#8211; Passe&aacute;vamos assim, e em reflectida <\/p>\n<p>Medita&ccedil;&atilde;o tranquila descuidados <\/p>\n<p>&Iacute;amos s&oacute;s, j&aacute; sem falar, descendo <\/p>\n<p>Por entre os velhos olmos t&atilde;o copados, <\/p>\n<p>Quando sentimos para n&oacute;s crescendo <\/p>\n<p>Rumor de vozes finas que zumbia <\/p>\n<p>Como enxame de abelhas entre as flores,<\/p>\n<p>E vimos, qual Diana entre os menores <\/p>\n<p>Astros do c&eacute;u, a forma que se erguia, <\/p>\n<p>Sobre todas gentil, dessa estrangeira <\/p>\n<p>Que se esperava ali. Perfeita, inteira <\/p>\n<p>No velho am&aacute;vel renasceu a vida <\/p>\n<p>E a gra&ccedil;a f&aacute;cil. Cuidei ver o antigo <\/p>\n<p>O nobre Portugal que ressurgia <\/p>\n<p>No venerando amigo; <\/p>\n<p>E na formosa dama que sorria, <\/p>\n<p>O g&eacute;nio da subida, <\/p>\n<p>Rara e fina eleg&acirc;ncia que a nobreza, <\/p>\n<p>O gosto, o amor do Belo, o instinto da Arte<\/p>\n<p>Re&uacute;ne e faz irm&atilde;os em toda a parte; <\/p>\n<p>Que afere a grandeza <\/p>\n<p>Pela medida s&oacute; dos pensamentos, <\/p>\n<p>Do &#8216;stilo de viver, dos sentimentos, <\/p>\n<p>Tudo o mais como f&uacute;til desprezando. <\/p>\n<p>Pensei que a saudar o velho ilustre <\/p>\n<p>Em seus &uacute;ltimos dias<\/p>\n<p>E a despedir-se, at&eacute; Deus sabe quando, <\/p>\n<p>De nossas praias tristes e sombrias, <\/p>\n<p>Vinha esse g&eacute;nio&#8230; Tristes e sombrias, <\/p>\n<p>Que o sol lhe foge, lhe esmorece o lustre, <\/p>\n<p>E onde tudo que &eacute; alto vai baixando &#8230; <\/p>\n<p>O triste, o que n&atilde;o tem j&aacute; sol que o aque&ccedil;a <\/p>\n<p>Sou eu talvez &#8211; que, &agrave; m&iacute;ngua de f&eacute;, sinto <\/p>\n<p>O c&eacute;rebro gelar-me na cabe&ccedil;a <\/p>\n<p>Porque no cora&ccedil;&atilde;o o fogo &eacute; extinto. <\/p>\n<p>Ele n&atilde;o era assim, <\/p>\n<p>Ou sabia fingir melhor do que eu! <\/p>\n<p>&#8211; Como o nobre corcel que envelheceu <\/p>\n<p>Nas guerras, ao sentir o &aacute;ureo telim <\/p>\n<p>E as armas sobre o dorso descarnado, <\/p>\n<p>Remo&ccedil;a o garbo, em juvenil meneio <\/p>\n<p>Franja de espuma o freio, <\/p>\n<p>E honra os bras&otilde;es da casa em que foi nado. <\/p>\n<p>Nunca me h&aacute;-de esquecer aquele dia! <\/p>\n<p>Nem os olhos, as falas, e a sincera <\/p>\n<p>Admira&ccedil;&atilde;o da bela dama inglesa <\/p>\n<p>Por tudo quanto via; <\/p>\n<p>O fruto, a flor, o aroma, o sol que os gera, <\/p>\n<p>E esta vivaz, veemente natureza, <\/p>\n<p>Toda de fogo e luz, <\/p>\n<p>Que ama incessante, que de amar n&atilde;o cansa, <\/p>\n<p>E cont&iacute;nua produz <\/p>\n<p>Nos frutos o prazer, na flor a esp&#8217;ran&ccedil;a.<\/p>\n<p>Ali as na&ccedil;&otilde;es todas se juntaram, <\/p>\n<p>Ali as v&aacute;rias l&iacute;nguas se falaram; <\/p>\n<p>A Europa convidada <\/p>\n<p>Veio ao festim &#8211; n&atilde;o ao festim, ao preito. <\/p>\n<p>Vassalagem rendida foi prestada <\/p>\n<p>Ao talento, &agrave; beleza, <\/p>\n<p>A quanto n&#8217;alma infunde amor, respeito, <\/p>\n<p>Porque &eacute; deveras grande &#8211; que a grandeza <\/p>\n<p>Os homens n&atilde;o a d&atilde;o; P&otilde;e-na por sua m&atilde;o <\/p>\n<p>Naqueles que s&atilde;o seus, <\/p>\n<p>Nos que escolheu &#8211; s&oacute; Deus. <\/p>\n<p>Oh!, minha pobre terra, que saudades <\/p>\n<p>Daquele dia! Como se me aperta <\/p>\n<p>O cora&ccedil;&atilde;o no peito coas vaidades, <\/p>\n<p>Coas mis&eacute;rias que a&iacute; vejo andar alerta, <\/p>\n<p>&Agrave; solta apregoando-se! Na intriga, <\/p>\n<p>Na trai&ccedil;&atilde;o, na cal&uacute;nia &eacute; forte a liga, <\/p>\n<p>&Eacute; fraca em tudo o mais&#8230; <\/p>\n<p>Tu, sossegado <\/p>\n<p>Descansa no sepulcro; e cerra, cerra <\/p>\n<p>Bem os olhos, amigo venerado, <\/p>\n<p>N&atilde;o vejas o que vai por nossa terra. <\/p>\n<p>Eu fecho os meus, para trazer mais viva <\/p>\n<p>Na mem&oacute;ria a tua imagem <\/p>\n<p>E a dessa bela Inglesa que se esquiva <\/p>\n<p>De n&oacute;s entre a folhagem <\/p>\n<p>Dos bosques de Part&eacute;nope. Cansado, <\/p>\n<p>Fito nesta miragem <\/p>\n<p>Os olhos d&#8217;alma, enquanto que, arrastado, <\/p>\n<p>Vai o tardio p&eacute; <\/p>\n<p>Por este que inda &eacute;, <\/p>\n<p>Que cedo n&atilde;o ser&aacute;, bem cedo &#8211; em mal! <\/p>\n<p>O velho Portugal.<\/p>\n<h3>XVIII<\/h3>\n<h3> A um amigo<\/h3>\n<p>Fiel ao costume antigo, <\/p>\n<p>Trago ao meu jovem amigo <\/p>\n<p>Versos pr&oacute;prios deste dia. <\/p>\n<p>E que de os ver t&atilde;o singelos, <\/p>\n<p>T&atilde;o simples como eu, n&atilde;o ria: <\/p>\n<p>Qualquer os far&aacute; mais belos, <\/p>\n<p>Ningu&eacute;m t&atilde;o d&#8217;alma os faria. <\/p>\n<p>Que sobre a flor de seus anos <\/p>\n<p>Soprem tarde os desenganos; <\/p>\n<p>Que em torno os bafeje amor, <\/p>\n<p>Amor da esposa querida, <\/p>\n<p>Prolongando a doce vida <\/p>\n<p>Fruto que suceda &agrave; flor. <\/p>\n<p>Recebe este voto, amigo, <\/p>\n<p>Que eu, fiel ao uso antigo, <\/p>\n<p>Quis trazer-te neste dia <\/p>\n<p>Em poucos versos singelos. <\/p>\n<p>Qualquer os far&aacute; mais belos, <\/p>\n<p>Ningu&eacute;m t&atilde;o d&#8217;alma os faria. <\/p>\n<h3>FIM<\/h3>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: I &#8211; Ignoto Deo II &#8211; Adeus! III &#8211; Quando eu sonhava IV &#8211; Aquela noite! V &#8211; O Anjo ca&iacute;do VI &#8211; O &Aacute;lbum VII &#8211; Saudades VIII &#8211; Este inferno de amar IX &#8211; Destino X &#8211; Gozo e dor XI &#8211; Perfume da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-91050","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Folhas Ca\u00eddas - Almeida Garrett, Obra Folhas Ca\u00eddas - Almeida Garrett<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Folhas Ca\u00eddas - Almeida Garrett, Obra, Ignoto Deo, Quando eu Sonhava, Destino, Literatura, Folhas Ca\u00eddas - Almeida Garrett\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Folhas Ca\u00eddas - Almeida Garrett, Obra Folhas Ca\u00eddas - Almeida Garrett\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Folhas Ca\u00eddas - Almeida Garrett, Obra, Ignoto Deo, Quando eu Sonhava, Destino, Literatura, Folhas Ca\u00eddas - Almeida Garrett\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/folhas-caidas-almeida-garrett\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2016-12-28T11:15:00+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"54 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/folhas-caidas-almeida-garrett#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/folhas-caidas-almeida-garrett\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Folhas Ca\u00eddas &#8211; 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