{"id":91012,"date":"2016-12-28T08:18:06","date_gmt":"2016-12-28T10:18:06","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=91012"},"modified":"2016-12-28T08:18:57","modified_gmt":"2016-12-28T10:18:57","slug":"o-ceu-e-o-inferno-allan-kardec","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-ceu-e-o-inferno-allan-kardec","title":{"rendered":"O C\u00e9u e o Inferno &#8211; Allan Kardec"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">O porvir e o nada<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><strong> <a class=\"links\" href=\"#2\"> Temor da morte<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#3\"><strong>O C\u00e9u<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#4\"><strong>O Inferno<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#5\"><strong>O Purgat\u00f3rio<\/strong><\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: medium;\"> <span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#6\">Doutrina das<br \/>\npenas eternas<\/a><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#7\"><strong><span style=\"font-size: small;\">As penas futuras segundo o<br \/>\nEspiritismo<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"#8\">Princ\u00edpios da Doutrina<br \/>\nEsp\u00edrita sobre as penas futuras<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#9\"><span style=\"font-size: small;\">C\u00f3digo penal da vida<br \/>\nfutura<\/span><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"#10\"><span style=\"font-size: small;\">Os anjos<\/span><\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td valign=\"top\" width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#11\">Os Dem\u00f4nios<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#12\"><strong><span style=\"font-size: small;\">Os dem\u00f4nios segundo<br \/>\na Igreja<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#13\"><strong><span style=\"font-size: small;\">Interven\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos dem\u00f4nios nas modernas manifesta\u00e7\u00f5es<\/span><\/strong><\/a><\/p>\n<p><a href=\"#14\"><span style=\"font-size: small;\"><strong>Da proibi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde evocar os mortos<\/strong><\/span><\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2><a id=\"1\" name=\"1\"><\/a>O porvir e o nada<\/h2>\n<p>1. &#8211; Vivemos, pensamos e operamos &#8211; eis o que \u00e9 positivo. E que morremos,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 menos certo.<\/p>\n<p>Mas, deixando a Terra, para onde vamos? Que seremos ap\u00f3s a morte?<br \/>\nEstaremos melhor ou pior? Existiremos ou n\u00e3o? Ser ou n\u00e3o ser,<br \/>\ntal a alternativa. Para sempre ou para nunca mais; ou tudo ou nada: Viveremos<br \/>\neternamente, ou tudo se aniquilara de vez? \u00c9 uma tese, essa, que se<br \/>\nimp\u00f5e.<\/p>\n<p>Todo homem experimenta a necessidade de viver, de gozar, de amar e ser feliz.<br \/>\nDizei ao moribundo que ele viver\u00e1 ainda; que a sua hora \u00e9 retardada;<br \/>\ndizei-lhe sobretudo que ser\u00e1 mais feliz do que porventura o tenha sido,<br \/>\ne o seu cora\u00e7\u00e3o rejubilar\u00e1.<\/p>\n<p>Mas, de que serviriam essas aspira\u00e7\u00f5es de felicidade, se um<br \/>\nleve sopro pudesse dissip\u00e1-las?<\/p>\n<p>Haver\u00e1 algo de mais desesperador do que esse pensamento da destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\nabsoluta? Afei\u00e7\u00f5es caras, intelig\u00eancia, progresso, saber<br \/>\nlaboriosamente adquiridos, tudo despeda\u00e7ado, tudo perdido! De nada<br \/>\nnos serviria, portanto, qualquer esfor\u00e7o no sofreamento das paix\u00f5es,<br \/>\nde fadiga para nos ilustrarmos, de devotamento \u00e0 causa do progresso,<br \/>\ndesde que de tudo isso nada aproveit\u00e1ssemos, predominando o pensamento<br \/>\nde que amanh\u00e3 mesmo, talvez, de nada nos serviria tudo isso. Se assim<br \/>\nfora, a sorte do homem seria cem vezes pior que a do bruto, porque este vive<br \/>\ninteiramente do presente na satisfa\u00e7\u00e3o dos seus apetites materiais,<br \/>\nsem aspira\u00e7\u00e3o para o futuro. Diz-nos uma secreta intui\u00e7\u00e3o,<br \/>\npor\u00e9m, que isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>2. &#8211; Pela cren\u00e7a em o nada, o homem concentra todos os seus pensamentos,<br \/>\nfor\u00e7osamente, na vida presente.<\/p>\n<p>Logicamente n\u00e3o se explicaria a preocupa\u00e7\u00e3o de um futuro<br \/>\nque se n\u00e3o espera.<\/p>\n<p>Esta preocupa\u00e7\u00e3o exclusiva do presente conduz o homem a pensar<br \/>\nem si, de prefer\u00eancia a tudo: \u00e9, pois, o mais poderoso estimulo<br \/>\nao ego\u00edsmo, e o incr\u00e9dulo \u00e9 conseq\u00fcente quando chega<br \/>\n\u00e0 seguinte conclus\u00e3o: Gozemos enquanto aqui estamos; gozemos<br \/>\no mais poss\u00edvel, pois que conosco tudo se acaba; gozemos depressa,<br \/>\nporque n\u00e3o sabemos quanto tempo existiremos<\/p>\n<p>Ainda conseq\u00fcente \u00e9 esta outra conclus\u00e3o, ali\u00e1s<br \/>\nmais grave para a sociedade: Gozemos apesar de tudo, gozemos de qualquer modo,<br \/>\ncada qual por si: a felicidade neste mundo \u00e9 do mais astuto.<\/p>\n<p>E se o respeito humano cont\u00e9m a alguns seres, que freio haver\u00e1<br \/>\npara os que nada temem?<\/p>\n<p>Acreditam estes \u00faltimos que as leis humanas n\u00e3o atingem sen\u00e3o<br \/>\nos ineptos e assim empregam todo o seu engenho no melhor meio de a elas se<br \/>\nesquivarem.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 doutrina insensata e anti-social, \u00e9, seguramente, o niilismo<br \/>\nque rompe os verdadeiros la\u00e7os de solidariedade e fraternidade, em<br \/>\nque se fundam as rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>3. &#8211; Suponhamos que, por uma circunst\u00e2ncia qualquer, todo um povo adquire<br \/>\na certeza de que em oito dias, num m\u00eas, ou num ano ser\u00e1 aniquilado;<br \/>\nque nem um s\u00f3 indiv\u00edduo lhe sobreviver\u00e1, como de sua<br \/>\nexist\u00eancia n\u00e3o sobreviver\u00e1 nem um s\u00f3 tra\u00e7o:<br \/>\nQue far\u00e1 esse povo condenado, aguardando o exterm\u00ednio?<\/p>\n<p>Trabalhar\u00e1 pela causa do seu progresso, da sua instru\u00e7\u00e3o?<br \/>\nEntregar-se-\u00e1 ao trabalho para viver? Respeitar\u00e1 os direitos,<br \/>\nos bens, a vida do seu semelhante? Submeter-se-\u00e1 a qualquer lei ou<br \/>\nautoridade por mais legitima que seja, mesmo a paterna?<\/p>\n<p>Haver\u00e1 para ele, nessa emerg\u00eancia, qualquer dever?<\/p>\n<p>Certo que n\u00e3o. Pois bem! O que se n\u00e3o d\u00e1 coletivamente,<br \/>\na doutrina do niilismo realiza todos os dias isoladamente, individualmente.<\/p>\n<p>E se as conseq\u00fc\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o desastrosas tanto<br \/>\nquanto poderiam ser, \u00e9, em primeiro lugar, porque na maioria dos incr\u00e9dulos<br \/>\nh\u00e1 mais jact\u00e2ncia que verdadeira incredulidade, mais d\u00favida<br \/>\nque convic\u00e7\u00e3o &#8211; possuindo eles mais medo do nada do que pretendem<br \/>\naparentar &#8211; o qualificativo de esp\u00edritos fortes lisonjeia-lhes a vaidade<br \/>\ne o amor-pr\u00f3prio; em segundo lugar, porque os incr\u00e9dulos absolutos<br \/>\nse contam por \u00ednfima minoria, e sentem a seu pesar os ascendentes da<br \/>\nopini\u00e3o contr\u00e1ria, mantidos por uma for\u00e7a material.<\/p>\n<p>Torne-se, n\u00e3o obstante, absoluta a incredulidade da maioria, e a sociedade<br \/>\nentrar\u00e1 em dissolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eis ao que tende a propaga\u00e7\u00e3o da doutrina niilista. (1)<\/p>\n<p>Fossem, por\u00e9m, quais fossem as suas conseq\u00fc\u00eancias, uma<br \/>\nvez que se impusesse como verdadeira, seria preciso aceit\u00e1-la, e nem<br \/>\nsistemas contr\u00e1rios, nem a id\u00e9ia dos males resultantes poderiam<br \/>\nobstar-lhe a exist\u00eancia. For\u00e7oso \u00e9 dizer que, a despeito<br \/>\ndos melhores esfor\u00e7os da religi\u00e3o, o cepticismo, a d\u00favida,<br \/>\na indiferen\u00e7a ganham terreno dia a dia.<\/p>\n<p>Mas, se a religi\u00e3o se mostra impotente para sustar a incredulidade,<br \/>\n\u00e9 que lhe falta alguma coisa na luta. Se por outro lado a religi\u00e3o<br \/>\nse condenasse \u00e0 imobilidade, estaria, em dado tempo, dissolvida.<\/p>\n<p>O que lhe falta neste s\u00e9culo de positivismo, em que se procura compreender<br \/>\nantes de crer, \u00e9, sem d\u00favida, a san\u00e7\u00e3o de suas<br \/>\ndoutrinas por fatos positivos, assim como a concord\u00e2ncia das mesmas<br \/>\ncom os dados positivos da Ci\u00eancia. Dizendo ela ser branco o que os fatos<br \/>\ndizem ser negro, \u00e9 preciso optar entre a evid\u00eancia e a f\u00e9<br \/>\ncega.<\/p>\n<p>(1) Um mo\u00e7o de dezoito anos, afetado de uma enfermidade do cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfoi declarado incur\u00e1vel. A Ci\u00eancia havia dito: Pode morrer dentro<br \/>\nde oito dias ou de dois anos, mas n\u00e3o ir\u00e1 al\u00e9m. Sabendo-o,<br \/>\no mo\u00e7o para logo abandonou os estudos e entregou-se a excessos de todo<br \/>\no g\u00eanero.<\/p>\n<p>Quando se lhe ponderava o perigo de uma vida desregrada, respondia: Que me<br \/>\nimporta, se n\u00e3o tenho mais de dois anos de vida? De que me serviria<br \/>\nfatigar o esp\u00edrito? Gozo o pouco que me resta e quero divertir-me at\u00e9<br \/>\nao fim. Eis a conseq\u00fc\u00eancia l\u00f3gica do niilismo.<\/p>\n<p>Se este mo\u00e7o fora esp\u00edrita, teria dito: A morte s\u00f3 destruir\u00e1<br \/>\no corpo, que deixarei como fato usado, mas o meu Esp\u00edrito viver\u00e1.<br \/>\nSerei na vida futura aquilo que eu pr\u00f3prio houver feito de mim nesta<br \/>\nvida; do que nela puder adquirir em qualidades morais e intelectuais nada<br \/>\nperderei, porque ser\u00e1 outro tanto de ganho para o meu adiantamento;<br \/>\ntoda a imperfei\u00e7\u00e3o de que me livrar ser\u00e1 um passo a mais<br \/>\npara a felicidade. A minha felicidade ou infelicidade depende da utilidade<br \/>\nou inutilidade da presente exist\u00eancia. \u00c9 portanto de meu interesse<br \/>\naproveitar o pouco tempo que me resta, e evitar tudo que possa diminuir-me<br \/>\nas for\u00e7as. Qual destas doutrinas \u00e9 prefer\u00edvel?<\/p>\n<p>4. &#8211; \u00c9 nestas circunst\u00e2ncias que o Espiritismo vem opor um dique<br \/>\n\u00e0 difus\u00e3o da incredulidade, n\u00e3o somente pelo racioc\u00ednio,<br \/>\nn\u00e3o somente pela perspectiva dos perigos que ela acarreta, mas pelos<br \/>\nfatos materiais, tornando vis\u00edveis e tang\u00edveis a alma e a vida<br \/>\nfutura.<\/p>\n<p>Todos somos livres na escolha das nossas cren\u00e7as; podemos crer em<br \/>\nalguma coisa ou em nada crer, mas aqueles que procuram fazer prevalecer no<br \/>\nesp\u00edrito das massas, da juventude principalmente, a nega\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo futuro, apoiando-se na autoridade do seu saber e no ascendente da sua posi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsemeiam na sociedade germens de perturba\u00e7\u00e3o e dissolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nincorrendo em grande responsabilidade.<\/p>\n<p>5. &#8211; H\u00e1 uma doutrina que se defende da pecha de materialista porque<br \/>\nadmite a exist\u00eancia de um princ\u00edpio inteligente fora da mat\u00e9ria:<br \/>\n\u00e9 a da absor\u00e7\u00e3o no Todo Universal.<\/p>\n<p>Segundo esta doutrina, cada indiv\u00edduo assimila ao nascer uma parcela<br \/>\ndesse princ\u00edpio, que constitui sua alma, e d\u00e1-lhe vida, intelig\u00eancia<br \/>\ne sentimento.<\/p>\n<p>Pela morte, esta alma volta ao foco comum e perde-se no infinito, qual gota<br \/>\nd\u00e1gua no oceano.<\/p>\n<p>Incontestavelmente esta doutrina \u00e9 um passo adiantado sobre o puro<br \/>\nmaterialismo, visto como admite alguma coisa, quando este nada admite. As<br \/>\nconseq\u00fc\u00eancias, por\u00e9m, s\u00e3o exatamente as mesmas.<\/p>\n<p>Ser o homem imerso em o nada ou no reservat\u00f3rio comum, \u00e9 para<br \/>\nele a mesma coisa; aniquilado ou perdendo a sua individualidade, \u00e9<br \/>\ncomo se n\u00e3o existisse; as rela\u00e7\u00f5es sociais nem por isso<br \/>\ndeixam de romper-se, e para sempre.<\/p>\n<p>O que lhe \u00e9 essencial \u00e9 a conserva\u00e7\u00e3o do seu<br \/>\neu; sem este, que lhe importa ou n\u00e3o subsistir?<\/p>\n<p>O futuro afigura-se-lhe sempre nulo, e a vida presente \u00e9 a \u00fanica<br \/>\ncoisa que o interessa e preocupa.<\/p>\n<p>Sob o ponto de vista das conseq\u00fc\u00eancias morais, esta doutrina \u00e9,<br \/>\npois, t\u00e3o insensata, t\u00e3o desesperadora, t\u00e3o subversiva<br \/>\ncomo o materialismo propriamente dito.<\/p>\n<p>6. &#8211; Pode-se, al\u00e9m disso, fazer esta obje\u00e7\u00e3o: todas<br \/>\nas gotas d&#8217;\u00e1gua tomadas ao oceano se assemelham e possuem id\u00eanticas<br \/>\npropriedades como partes de um mesmo todo; por que, pois, as almas tomadas<br \/>\nao grande oceano da intelig\u00eancia universal t\u00e3o pouco se assemelham?<br \/>\nPor que o g\u00eanio e a estupidez, as mais sublimes virtudes e os v\u00edcios<br \/>\nmais ign\u00f3beis? Por que a bondade, a do\u00e7ura, a mansuetude ao<br \/>\nlado da maldade, da crueldade, da barbaria? Como podem ser t\u00e3o diferentes<br \/>\nentre si as partes de um mesmo todo homog\u00eaneo? Dir-se-\u00e1 que \u00e9<br \/>\na educa\u00e7\u00e3o que a modifica? Neste caso donde v\u00eam as qualidades<br \/>\ninatas, as intelig\u00eancias precoces, os bons e maus instintos independentes<br \/>\nde toda a educa\u00e7\u00e3o e tantas vezes em desarmonia com o meio no<br \/>\nqual se desenvolvem?<\/p>\n<p>N\u00e3o resta d\u00favida de que a educa\u00e7\u00e3o modifica as<br \/>\nqualidades intelectuais e morais da alma; mas aqui ocorre uma outra dificuldade:<br \/>\nQuem d\u00e1 a esta a educa\u00e7\u00e3o para faz\u00ea-la progredir?<br \/>\nOutras almas que por sua origem comum n\u00e3o devem ser mais adiantadas.<br \/>\nAl\u00e9m disso, reentrando a alma no Todo Universal donde saiu, e havendo<br \/>\nprogredido durante a vida, leva-lhe um elemento mais perfeito. Dai se infere<br \/>\nque esse Todo se encontraria, pela continua\u00e7\u00e3o, profundamente<br \/>\nmodificado e melhorado. Assim, como se explica sa\u00edrem incessantemente<br \/>\ndesse Todo almas ignorantes e perversas?<\/p>\n<p>7. &#8211; Nesta doutrina, a fonte universal de intelig\u00eancia que abastece<br \/>\nas almas humanas \u00e9 independente da Divindade; n\u00e3o \u00e9 precisamente<br \/>\no pante\u00edsmo.<\/p>\n<p>O pante\u00edsmo propriamente dito considera o principio universal de vida<br \/>\ne de intelig\u00eancia como constituindo a Divindade. Deus \u00e9 concomitantemente<br \/>\nEsp\u00edrito e mat\u00e9ria; todos os seres, todos os corpos da Natureza<br \/>\ncomp\u00f5em a Divindade, da qual s\u00e3o as mol\u00e9culas e os elementos<br \/>\nconstitutivos; Deus \u00e9 o conjunto de todas as intelig\u00eancias reunidas;<br \/>\ncada indiv\u00edduo, sendo uma parte do todo, \u00e9 Deus ele pr\u00f3prio;<br \/>\nnenhum ser superior e independente rege o conjunto; o Universo \u00e9 uma<br \/>\nimensa rep\u00fablica sem chefe, ou antes, onde cada qual \u00e9 chefe<br \/>\ncom poder absoluto.<\/p>\n<p>8. &#8211; A este sistema podem opor-se inumer\u00e1veis obje\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndas quais s\u00e3o estas as principais: n\u00e3o se podendo conceber divindade<br \/>\nsem infinita perfei\u00e7\u00e3o, pergunta-se como um todo perfeito pode<br \/>\nser formado de partes t\u00e3o imperfeitas, tendo necessidade de progredir?<br \/>\nDevendo cada parte ser submetida \u00e0 lei do progresso, for\u00e7a \u00e9<br \/>\nconvir que o pr\u00f3prio Deus deve progredir; e se Ele progride constantemente,<br \/>\ndeveria ter sido, na origem dos tempos, muito imperfeito.<\/p>\n<p>E como p\u00f4de um ser imperfeito, formado de id\u00e9ias t\u00e3o<br \/>\ndivergentes, conceber leis t\u00e3o harm\u00f4nicas, t\u00e3o admir\u00e1veis<br \/>\nde unidade, de sabedoria e previd\u00eancia quais as que regem o Universo?<br \/>\nSe todas as almas s\u00e3o por\u00e7\u00f5es da Divindade, todos concorreram<br \/>\npara as leis da Natureza; como sucede, pois, que elas murmurem sem cessar<br \/>\ncontra essas leis que s\u00e3o obra sua? Uma teoria n\u00e3o pode ser<br \/>\naceita como verdadeira sen\u00e3o com a cl\u00e1usula de satisfazer a<br \/>\nraz\u00e3o e dar conta de todos os fatos que abrange; se um s\u00f3 fato<br \/>\nlhe trouxer um desmentido, \u00e9 que n\u00e3o cont\u00e9m a verdade<br \/>\nabsoluta.<\/p>\n<p>9. &#8211; Sob o ponto de vista moral, as conseq\u00fc\u00eancias s\u00e3o igualmente<br \/>\nil\u00f3gicas. Em primeiro lugar \u00e9 para as almas, tal como no sistema<br \/>\nprecedente, a absor\u00e7\u00e3o num todo e a perda da individualidade.<br \/>\nDado que se admita, consoante a opini\u00e3o de alguns pante\u00edstas,<br \/>\nque as almas conservem essa individualidade, Deus deixaria de ter vontade<br \/>\n\u00fanica para ser um composto de mir\u00edades de vontades divergentes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, sendo cada alma parte integrante da Divindade, deixa de<br \/>\nser dominada por um poder superior; n\u00e3o incorre em responsabilidade<br \/>\npor seus atos bons ou maus; soberana, n\u00e3o tendo interesse algum na<br \/>\npr\u00e1tica do bem, ela pode praticar o mal impunemente.<\/p>\n<p>10. &#8211; Demais, estes sistemas n\u00e3o satisfazem nem a raz\u00e3o nem<br \/>\na aspira\u00e7\u00e3o humanas; deles decorrem dificuldades insuper\u00e1veis,<br \/>\npois s\u00e3o impotentes para resolver todas as quest\u00f5es de fato<br \/>\nque suscitam. O homem tem, pois, tr\u00eas alternativas: o nada, a absor\u00e7\u00e3o<br \/>\nou a individualidade da alma antes e depois da morte<\/p>\n<p>\u00c9 para esta \u00faltima cren\u00e7a que a l\u00f3gica nos impele<br \/>\nirresistivelmente, cren\u00e7a que tem formado a base de todas as religi\u00f5es<br \/>\ndesde que o mundo existe.<\/p>\n<p>E se a l\u00f3gica nos conduz \u00e0 individualidade da alma, tamb\u00e9m<br \/>\nnos aponta esta outra conseq\u00fc\u00eancia: a sorte de cada alma deve depender<br \/>\ndas suas qualidades pessoais, pois seria irracional admitir que a alma atrasada<br \/>\ndo selvagem, como a do homem perverso, estivesse no n\u00edvel da do s\u00e1bio,<br \/>\ndo homem de bem. Segundo os princ\u00edpios de justi\u00e7a, as almas<br \/>\ndevem ter a responsabilidade dos seus atos, mas para haver essa responsabilidade,<br \/>\npreciso \u00e9 que elas sejam livres na escolha do bem e do mal; sem o livre-arb\u00edtrio<br \/>\nh\u00e1 fatalidade, e com a fatalidade n\u00e3o coexistiria a responsabilidade.<\/p>\n<p>11. &#8211; Todas as religi\u00f5es admitiram igualmente o principio da felicidade<br \/>\nou infelicidade da alma ap\u00f3s a morte, ou, por outra, as penas e gozos<br \/>\nfuturos, que se resumem na doutrina do c\u00e9u e do inferno encontrada<br \/>\nem toda parte.<\/p>\n<p>No que elas diferem essencialmente, \u00e9 quanto \u00e0 natureza dessas<br \/>\npenas e gozos, principalmente sobre as condi\u00e7\u00f5es determinantes<br \/>\nde umas e de outras.<\/p>\n<p>Da\u00ed os pontos de f\u00e9 contradit\u00f3rios dando origem a cultos<br \/>\ndiferentes, e os deveres impostos por estes, consecutivamente, para honrar<br \/>\na Deus e alcan\u00e7ar por esse meio o c\u00e9u, evitando o inferno.<\/p>\n<p>12. &#8211; Todas as religi\u00f5es houveram de ser em sua origem relativas ao<br \/>\ngrau de adiantamento moral e intelectual dos homens: estes, assaz materializados<br \/>\npara compreenderem o m\u00e9rito das coisas puramente espirituais, fizeram<br \/>\nconsistir a maior parte dos deveres religiosos no cumprimento de f\u00f3rmulas<br \/>\nexteriores.<\/p>\n<p>Por muito tempo essas f\u00f3rmulas lhes satisfizeram a raz\u00e3o; por\u00e9m,<br \/>\nmais tarde, porque se fizesse a luz em seu esp\u00edrito, sentindo o v\u00e1cuo<br \/>\ndessas f\u00f3rmulas, uma vez que a religi\u00e3o n\u00e3o o preenchia,<br \/>\nabandonaram-na e tornaram-se fil\u00f3sofos.<\/p>\n<p>13. &#8211; Se a religi\u00e3o, apropriada em come\u00e7o aos conhecimentos<br \/>\nlimitados do homem, tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do<br \/>\nesp\u00edrito humano, n\u00e3o haveria incr\u00e9dulos, porque est\u00e1<br \/>\nna pr\u00f3pria natureza do homem a necessidade de crer, e ele crer\u00e1<br \/>\ndesde que se lhe d\u00ea o p\u00e1bulo espiritual de harmonia com as suas<br \/>\nnecessidades intelectuais.<\/p>\n<p>O homem quer saber donde velo e para onde vai. Mostrando-se-lhe um fim que<br \/>\nn\u00e3o corresponde \u00e0s suas aspira\u00e7\u00f5es nem \u00e0<br \/>\nid\u00e9ia que ele faz de Deus, tampouco aos dados positivos que lhe fornece<br \/>\na Ci\u00eancia; impondo-se-lhe, ademais, para atingir o seu desiderato, condi\u00e7\u00f5es<br \/>\ncuja utilidade sua raz\u00e3o contesta, ele tudo rejeita; o materialismo<br \/>\ne o pante\u00edsmo parecem-lhe mais racionais, porque com eles ao menos<br \/>\nse raciocina e se discute, falsamente embora. E h\u00e1 raz\u00e3o, porque<br \/>\nantes raciocinar em falso do que n\u00e3o raciocinar absolutamente.<\/p>\n<p>Apresente-se-lhe, por\u00e9m, um futuro condicionalmente l\u00f3gico,<br \/>\ndigno em tudo da grandeza, da justi\u00e7a e da infinita bondade de Deus,<br \/>\ne ele repudiar\u00e1 o materialismo e o pante\u00edsmo, cujo v\u00e1cuo<br \/>\nsente em seu foro intimo, e que aceitar\u00e1 \u00e0 falta de melhor cren\u00e7a.<\/p>\n<p>O Espiritismo d\u00e1 coisa melhor; eis por que \u00e9 acolhido pressurosamente<br \/>\npor todos os atormentados da d\u00favida, os que n\u00e3o encontram nem<br \/>\nnas cren\u00e7as nem nas filosofias vulgares o que procuram. O Espiritismo<br \/>\ntem por si a l\u00f3gica do racioc\u00ednio e a san\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nfatos, e \u00e9 por isso que inutilmente o t\u00eam combatido.<\/p>\n<p>14. &#8211; Instintivamente tem o homem a cren\u00e7a no futuro, mas n\u00e3o<br \/>\npossuindo at\u00e9 agora nenhuma base certa para defini-lo, a sua imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nfantasiou os sistemas que originaram a diversidade de cren\u00e7as. A Doutrina<br \/>\nEsp\u00edrita sobre o futuro &#8211; n\u00e3o sendo uma obra de imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais ou menos arquitetada engenhosamente, por\u00e9m o resultado da observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde fatos materiais que se desdobram hoje \u00e0 nossa vista -congra\u00e7ar\u00e1,<br \/>\ncomo j\u00e1 est\u00e1 acontecendo, as opini\u00f5es divergentes ou<br \/>\nflutuantes e trar\u00e1 gradualmente, pela for\u00e7a das coisas, a unidade<br \/>\nde cren\u00e7as sobre esse ponto, n\u00e3o j\u00e1 baseada em simples<br \/>\nhip\u00f3tese, mas na certeza. A unifica\u00e7\u00e3o feita relativamente<br \/>\n\u00e0 sorte futura das almas ser\u00e1 o primeiro ponto de contacto dos<br \/>\ndiversos cultos, um passo imenso para a toler\u00e2ncia religiosa em primeiro<br \/>\nlugar e, mais tarde, para a completa fus\u00e3o.<\/p>\n<h2><a id=\"2\" name=\"2\"><\/a>Temor da morte<\/h2>\n<h5>Causas do temor da morte<\/h5>\n<p>1 &#8211; O homem, seja qual for a escala de sua posi\u00e7\u00e3o social,<br \/>\ndesde selvagem tem o sentimento inato do futuro; diz-lhe a intui\u00e7\u00e3o<br \/>\nque a morte n\u00e3o \u00e9 a \u00faltima fase da exist\u00eancia e<br \/>\nque aqueles cuja perda lamentamos n\u00e3o est\u00e3o irremissivelmente<br \/>\nperdidos. A cren\u00e7a da imortalidade \u00e9 intuitiva e muito mais<br \/>\ngeneralizada do que a do nada.<\/p>\n<p>Entretanto, a maior parte dos que nele cr\u00eaem apresentam-se-nos possu\u00eddos<br \/>\nde grande amor \u00e0s coisas terrenas e temerosos da morte! Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>2. &#8211; Este temor \u00e9 um efeito da sabedoria da Provid\u00eancia e uma<br \/>\nconseq\u00fc\u00eancia do instinto de conserva\u00e7\u00e3o comum a todos<br \/>\nos viventes. Ele \u00e9 necess\u00e1rio enquanto n\u00e3o se est\u00e1<br \/>\nsuficientemente esclarecido sobre as condi\u00e7\u00f5es da vida futura,<br \/>\ncomo contrapeso \u00e0 tend\u00eancia que, sem esse freio, nos levaria<br \/>\na deixar prematuramente a vida e a negligenciar o trabalho terreno que deve<br \/>\nservir ao nosso pr\u00f3prio adiantamento.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que, nos povos primitivos, o futuro \u00e9 uma vaga intui\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmais tarde tornada simples esperan\u00e7a e, finalmente, uma certeza apenas<br \/>\natenuada por secreto apego \u00e0 vida corporal.<\/p>\n<p>3 . &#8211; A propor\u00e7\u00e3o que o homem compreende melhor a vida futura,<br \/>\no temor da morte diminui; uma vez esclarecida a sua miss\u00e3o terrena,<br \/>\naguarda-lhe o fim calma, resignada e serenamente. A certeza da vida futura<br \/>\nd\u00e1-lhe outro curso \u00e0s id\u00e9ias, outro fito ao trabalho;<br \/>\nantes dela nada que se n\u00e3o prenda ao presente; depois dela tudo pelo<br \/>\nfuturo sem desprezo do presente, porque sabe que aquele depende da boa ou<br \/>\nda m\u00e1 dire\u00e7\u00e3o deste.<\/p>\n<p>A certeza de reencontrar seus amigos depois da morte, de reatar as rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nque tivera na Terra, de n\u00e3o perder um s\u00f3 fruto do seu trabalho,<br \/>\nde engrandecer-se incessantemente em intelig\u00eancia, perfei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nd\u00e1-lhe paci\u00eancia para esperar e coragem para suportar as fadigas<br \/>\ntransit\u00f3rias da vida terrestre. A solidariedade entre vivos e mortos<br \/>\nfaz-lhe compreender a que deve existir na Terra, onde a fraternidade e a caridade<br \/>\nt\u00eam desde ent\u00e3o um fim e uma raz\u00e3o de ser, no presente<br \/>\ncomo no futuro.<\/p>\n<p>4. &#8211; Para libertar-se do temor da morte \u00e9 mister poder encar\u00e1-la<br \/>\nsob o seu verdadeiro ponto de vista, isto \u00e9, ter penetrado pelo pensamento<br \/>\nno mundo espiritual, fazendo dele uma id\u00e9ia t\u00e3o exata quanto<br \/>\nposs\u00edvel, o que denota da parte do Esp\u00edrito encarnado um tal<br \/>\nou qual desenvolvimento e aptid\u00e3o para desprender-se da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>No Esp\u00edrito atrasado a vida material prevalece sobre a espiritual.<br \/>\nApegando-se \u00e0s apar\u00eancias, o homem n\u00e3o distingue a vida<br \/>\nal\u00e9m do corpo, esteja embora na alma a vida real; aniquilado aquele,<br \/>\ntudo se lhe afigura perdido, desesperador.<\/p>\n<p>Se, ao contr\u00e1rio, concentrarmos o pensamento, n\u00e3o no corpo,<br \/>\nmas na alma, fonte da vida, ser real a tudo sobrevivente, lastimaremos menos<br \/>\na perda do corpo, antes fonte de mis\u00e9rias e dores. Para isso, por\u00e9m,<br \/>\nnecessita o Esp\u00edrito de uma for\u00e7a s\u00f3 adquir\u00edvel<br \/>\nna madureza.<\/p>\n<p>O temor da morte decorre, portanto, da no\u00e7\u00e3o insuficiente da<br \/>\nvida futura, embora denote tamb\u00e9m a necessidade de viver e o receio<br \/>\nda destrui\u00e7\u00e3o total; igualmente o estimula secreto anseio pela<br \/>\nsobreviv\u00eancia da alma, velado ainda pela incerteza.<\/p>\n<p>Esse temor decresce, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a certeza aumenta,<br \/>\ne desaparece quando esta \u00e9 completa.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed o lado providencial da quest\u00e3o. Ao homem n\u00e3o<br \/>\nsuficientemente esclarecido, cuja raz\u00e3o mal pudesse suportar a perspectiva<br \/>\nmuito positiva e sedutora de um futuro melhor, prudente seria n\u00e3o o<br \/>\ndeslumbrar com tal id\u00e9ia, desde que por ela pudesse negligenciar o<br \/>\npresente, necess\u00e1rio ao seu adiantamento material e intelectual.<\/p>\n<p>5. &#8211; Este estado de coisas \u00e9 entretido e prolongado por causas puramente<br \/>\nhumanas, que o progresso far\u00e1 desaparecer. A primeira \u00e9 a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom que se insinua a vida futura, fei\u00e7\u00e3o que poderia contentar<br \/>\nas intelig\u00eancias pouco desenvolvidas, mas que n\u00e3o conseguiria<br \/>\nsatisfazer a raz\u00e3o esclarecida dos pensadores refletidos. Assim, dizem<br \/>\nestes: &#8220;Desde que nos apresentam como verdades absolutas princ\u00edpios<br \/>\ncontestados pela l\u00f3gica e pelos dados positivos da Ci\u00eancia, \u00e9<br \/>\nque eles n\u00e3o s\u00e3o verdades.&#8221; Da\u00ed, a incredulidade<br \/>\nde uns e a cren\u00e7a d\u00fabia de um grande n\u00famero.<\/p>\n<p>A vida futura \u00e9-lhes uma id\u00e9ia vaga, antes uma probabilidade<br \/>\ndo que certeza absoluta; acreditam, desejariam que assim fosse, mas apesar<br \/>\ndisso exclamam: &#8220;Se todavia assim n\u00e3o for! O presente \u00e9<br \/>\npositivo, ocupemo-nos dele primeiro, que o futuro por sua vez vir\u00e1&#8221;<\/p>\n<p>E depois, acrescentam, definitivamente que \u00e9 a alma? Um ponto, um<br \/>\n\u00e1tomo, uma fa\u00edsca, uma chama? Como se sente, v\u00ea ou percebe?<br \/>\nE que a alma n\u00e3o lhes parece uma realidade efetiva, mas uma abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os entes que lhes s\u00e3o caros, reduzidos ao estado de \u00e1tomos<br \/>\nno seu modo de pensar, est\u00e3o perdidos, e n\u00e3o t\u00eam mais<br \/>\na seus olhos as qualidades pelas quais se lhes fizeram amados; n\u00e3o<br \/>\npodem compreender o amor de uma fa\u00edsca nem o que a ela possamos ter.<br \/>\nQuanto a si mesmos, ficam mediocremente satisfeitos com a perspectiva de se<br \/>\ntransformarem em m\u00f4nadas. Justifica-se assim a prefer\u00eancia ao<br \/>\npositivismo da vida terrestre, que algo possui de mais substancial.<\/p>\n<p>\u00c9 consider\u00e1vel o n\u00famero dos dominados por este pensamento.<\/p>\n<p>6. &#8211; Outra causa de apego \u00e0s coisas terrenas, mesmo nos que mais firmemente<br \/>\ncr\u00eaem na vida futura, \u00e9 a impress\u00e3o do ensino que relativamente<br \/>\na ela se lhes h\u00e1 dado desde a inf\u00e2ncia. Convenhamos que o quadro<br \/>\npela religi\u00e3o esbo\u00e7ado, sobre o assunto, \u00e9 nada sedutor<br \/>\ne ainda menos consolat\u00f3rio.<\/p>\n<p>De um lado, contor\u00e7\u00f5es de condenados a expiarem em torturas<br \/>\ne chamas eternas os erros de uma vida ef\u00eamera e passageira. Os s\u00e9culos<br \/>\nsucedem-se aos s\u00e9culos e n\u00e3o h\u00e1 para tais desgra\u00e7ados<br \/>\nsequer o lenitivo de uma esperan\u00e7a e, o que mais atroz \u00e9, n\u00e3o<br \/>\nlhes aproveita o arrependimento. De outro lado, as almas combalidas e aflitas<br \/>\ndo purgat\u00f3rio aguardam a intercess\u00e3o dos vivos que orar\u00e3o<br \/>\nou far\u00e3o orar por elas, sem nada fazerem de esfor\u00e7o pr\u00f3prio<br \/>\npara progredirem.<\/p>\n<p>Estas duas categorias comp\u00f5em a maioria imensa da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nde al\u00e9m-t\u00famulo. Acima delas, paira a limitada classe dos eleitos,<br \/>\ngozando, por toda a eternidade, da beatitude contemplativa. Esta inutilidade<br \/>\neterna, prefer\u00edvel sem d\u00favida ao nada, n\u00e3o deixa de ser<br \/>\nde uma fastidiosa monotonia. \u00c9 por isso que se v\u00ea, nas figuras<br \/>\nque retratam os bem-aventurados, figuras ang\u00e9licas onde mais transparece<br \/>\no t\u00e9dio que a verdadeira felicidade.<\/p>\n<p>Este estado n\u00e3o satisfaz nem as aspira\u00e7\u00f5es nem a instintiva<br \/>\nid\u00e9ia de progresso, \u00fanica que se afigura compat\u00edvel com<br \/>\na felicidade absoluta. Custa crer que, s\u00f3 por haver recebido o batismo,<br \/>\no selvagem ignorante &#8211; de senso moral obtuso -, esteja ao mesmo n\u00edvel<br \/>\ndo homem que atingiu, ap\u00f3s longos anos de trabalho, o mais alto grau<br \/>\nde ci\u00eancia e moralidade pr\u00e1ticas. Menos conceb\u00edvel ainda<br \/>\n\u00e9 que a crian\u00e7a falecida em tenra idade, antes de ter consci\u00eancia<br \/>\nde seus atos, goze dos mesmos privil\u00e9gios somente por for\u00e7a<br \/>\nde uma cerim\u00f4nia na qual a sua vontade n\u00e3o teve parte alguma.<br \/>\nEstes racioc\u00ednios n\u00e3o deixam de preocupar os mais fervorosos<br \/>\ncrentes, por pouco que meditem.<\/p>\n<p>7. &#8211; N\u00e3o dependendo a felicidade futura do trabalho progressivo na<br \/>\nTerra, a facilidade com que se acredita adquirir essa felicidade, por meio<br \/>\nde algumas pr\u00e1ticas exteriores, e a possibilidade at\u00e9 de a comprar<br \/>\na dinheiro, sem regenera\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter e costumes, d\u00e3o<br \/>\naos gozos do mundo o melhor valor.<\/p>\n<p>Mais de um crente considera, em seu foro \u00edntimo, que assegurado o<br \/>\nseu futuro pelo preenchimento de certas f\u00f3rmulas ou por d\u00e1divas<br \/>\np\u00f3stumas, que de nada o privam, seria sup\u00e9rfluo impor-se sacrif\u00edcios<br \/>\nou quaisquer inc\u00f4modos por outrem, uma vez que se consegue a salva\u00e7\u00e3o<br \/>\ntrabalhando cada qual por si.<\/p>\n<p>Seguramente, nem todos pensam assim, havendo mesmo muitas e honrosas exce\u00e7\u00f5es;<br \/>\nmas n\u00e3o se poderia contestar que assim pensa o maior n\u00famero,<br \/>\nsobretudo das massas pouco esclarecidas, e que a id\u00e9ia que fazem das<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es de felicidade no outro mundo n\u00e3o entretenha<br \/>\no apego aos bens deste, acoro\u00e7oando o ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>8. &#8211; Acrescentemos ainda a circunst\u00e2ncia de tudo nas usan\u00e7as<br \/>\nconcorrer para lamentar a perda da vida terrestre e temer a passagem da Terra<br \/>\nao c\u00e9u. A morte \u00e9 rodeada de cerim\u00f4nias l\u00fagubres,<br \/>\nmais pr\u00f3prias a infundirem terror do que a provocarem a esperan\u00e7a.<br \/>\nSe descrevem a morte, \u00e9 sempre com aspecto repelente e nunca como sono<br \/>\nde transi\u00e7\u00e3o; todos os seus emblemas lembram a destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo corpo, mostrando-o hediondo e descarnado; nenhum simboliza a alma desembara\u00e7ando-se<br \/>\nradiosa dos grilh\u00f5es terrestres. A partida para esse mundo mais feliz<br \/>\ns\u00f3 se faz acompanhar do lamento dos sobreviventes, como se imensa desgra\u00e7a<br \/>\natingira os que partem; dizem-lhes eternos adeuses como se jamais devessem<br \/>\nrev\u00ea-los. Lastima-se por eles a perda dos gozos mundanos, como se n\u00e3o<br \/>\nfossem encontrar maiores gozos no al\u00e9m-t\u00famulo. Que desgra\u00e7a,<br \/>\ndizem, morrer t\u00e3o jovem, rico e feliz, tendo a perspectiva de um futuro<br \/>\nbrilhante! A id\u00e9ia de um futuro melhor apenas toca de leve o pensamento,<br \/>\nporque n\u00e3o tem nele ra\u00edzes. Tudo concorre, assim, para inspirar<br \/>\no terror da morte, em vez de infundir esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida que muito tempo ser\u00e1 preciso para o homem se desfazer<br \/>\ndesses preconceitos, o que n\u00e3o quer dizer que isto n\u00e3o suceda,<br \/>\n\u00e0 medida que a sua f\u00e9 se for firmando, a ponto de conceber uma<br \/>\nid\u00e9ia mais sensata da vida espiritual.<\/p>\n<p>9. &#8211; Demais, a cren\u00e7a vulgar coloca as almas em regi\u00f5es apenas<br \/>\nacess\u00edveis ao pensamento, onde se tornam de alguma sorte estranhas<br \/>\naos vivos; a pr\u00f3pria Igreja p\u00f5e entre umas e outras uma barreira<br \/>\ninsuper\u00e1vel, declarando rotas todas as rela\u00e7\u00f5es e imposs\u00edvel<br \/>\nqualquer comunica\u00e7\u00e3o. Se as almas est\u00e3o no inferno, perdida<br \/>\n\u00e9 toda a esperan\u00e7a de as rever, a menos que l\u00e1 se v\u00e1<br \/>\nter tamb\u00e9m; se est\u00e3o entre os eleitos, vivem completamente absortas<br \/>\nem contemplativa beatitude. Tudo isso interp\u00f5e entre mortos e vivos<br \/>\numa dist\u00e2ncia tal que faz supor eterna a separa\u00e7\u00e3o, e<br \/>\n\u00e9 por isso que muitos preferem ter junto de si, embora sofrendo, os<br \/>\nentes caros, antes que v\u00ea-los partir, ainda mesmo que para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>E a alma que estiver no c\u00e9u ser\u00e1 realmente feliz vendo, por<br \/>\nexemplo, arder eternamente seu filho, seu pai, sua m\u00e3e ou seus amigos?<\/p>\n<p>Por que os esp\u00edritas n\u00e3o temem a morte<br \/>\n10. &#8211; A Doutrina Esp\u00edrita transforma completamente a perspectiva do<br \/>\nfuturo. A vida futura deixa de ser uma hip\u00f3tese para ser realidade.<br \/>\nO estado das almas depois da morte n\u00e3o \u00e9 mais um sistema, por\u00e9m<br \/>\no resultado da observa\u00e7\u00e3o. Ergueu-se o v\u00e9u; o mundo espiritual<br \/>\naparece-nos na plenitude de sua realidade pr\u00e1tica; n\u00e3o foram<br \/>\nos homens que o descobriram pelo esfor\u00e7o de uma concep\u00e7\u00e3o<br \/>\nengenhosa, s\u00e3o os pr\u00f3prios habitantes desse mundo que nos v\u00eam<br \/>\ndescrever a sua situa\u00e7\u00e3o; a\u00ed os vemos em todos os graus<br \/>\nda escala espiritual, em todas as rases da felicidade e da desgra\u00e7a,<br \/>\nassistindo, enfim, a todas as perip\u00e9cias da vida de al\u00e9m-t\u00famulo.<br \/>\nEis a\u00ed por que os esp\u00edritas encaram a morte calmamente e se<br \/>\nrevestem de serenidade nos seus \u00faltimos momentos sobre a Terra. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a esperan\u00e7a, mas a certeza que os conforta;<br \/>\nsabem que a vida futura \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da vida terrena<br \/>\nem melhores condi\u00e7\u00f5es e aguardam-na com a mesma confian\u00e7a<br \/>\ncom que aguardariam o despontar do Sol ap\u00f3s uma noite de tempestade.<br \/>\nOs motivos dessa confian\u00e7a decorrem, outrossim, dos fatos testemunhados<br \/>\ne da concord\u00e2ncia desses fatos com a l\u00f3gica, com a justi\u00e7a<br \/>\ne bondade de Deus, correspondendo \u00e0s \u00edntimas aspira\u00e7\u00f5es<br \/>\nda Humanidade.<\/p>\n<p>Para os esp\u00edritas, a alma n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o;<br \/>\nela tem um corpo et\u00e9reo que a define ao pensamento, o que muito \u00e9<br \/>\npara fixar as id\u00e9ias sobre a sua individualidade, aptid\u00f5es e<br \/>\npercep\u00e7\u00f5es. A lembran\u00e7a dos que nos s\u00e3o caros<br \/>\nrepousa sobre alguma coisa de real. N\u00e3o se nos apresentam mais como<br \/>\nchamas fugitivas que nada falam ao pensamento, por\u00e9m sob uma forma<br \/>\nconcreta que antes no-los mostra como seres viventes. Al\u00e9m disso, em<br \/>\nvez de perdidos nas profundezas do Espa\u00e7o, est\u00e3o ao redor de<br \/>\nn\u00f3s; o mundo corporal e o mundo espiritual identificam-se em perp\u00e9tuas<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es, assistindo-se mutuamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o mais permiss\u00edvel sendo a d\u00favida sobre o futuro,<br \/>\ndesaparece o temor da morte; encara-se a sua aproxima\u00e7\u00e3o a sangue-frio,<br \/>\ncomo quem aguarda a liberta\u00e7\u00e3o pela porta da vida e n\u00e3o<br \/>\ndo nada.<\/p>\n<h2><a id=\"3\" name=\"3\"><\/a>O C\u00e9u<\/h2>\n<p>1. &#8211; Em geral, a palavra c\u00e9u designa o espa\u00e7o indefinido que<br \/>\ncircunda a Terra, e mais particularmente a parte que est\u00e1 acima do<br \/>\nnosso horizonte. Vem do latim coelum, formada do grego coiios, c\u00f4ncavo,<br \/>\nporque o c\u00e9u parece uma imensa concavidade.<\/p>\n<p>Os antigos acreditavam na exist\u00eancia de muitos c\u00e9us superpostos,<br \/>\nde mat\u00e9ria s\u00f3lida e transparente, formando esferas conc\u00eantricas<br \/>\ne tendo a Terra por centro.<\/p>\n<p>Girando essas esferas em torno da Terra, arrastavam consigo os astros que<br \/>\nse achavam em seu circuito.<\/p>\n<p>Essa id\u00e9ia, provinda da defici\u00eancia de conhecimentos astron\u00f4micos,<br \/>\nfoi a de todas as teogonias, que fizeram dos c\u00e9us, assim escalados,<br \/>\nos diversos degraus da bem-aventuran\u00e7a: o \u00faltimo deles era abrigo<br \/>\nda suprema felicidade.<\/p>\n<p>Segundo a opini\u00e3o mais comum, havia sete c\u00e9us e da\u00ed<br \/>\na express\u00e3o &#8211; estar no s\u00e9timo c\u00e9u &#8211; para exprimir perfeita<br \/>\nfelicidade. Os mu\u00e7ulmanos admitem nove c\u00e9us, em cada um dos<br \/>\nquais se aumenta a felicidade dos crentes.<\/p>\n<p>O astr\u00f4nomo Ptolomeu (1) contava onze e denominava ao \u00faltimo<br \/>\nEmp\u00edreo (2) por causa da luz brilhante que nele reina.<\/p>\n<p>\u00c9 este ainda hoje o nome po\u00e9tico dado ao lugar da gl\u00f3ria<br \/>\neterna. A teologia crist\u00e3 reconhece tr\u00eas c\u00e9us: o primeiro<br \/>\n\u00e9 o da regi\u00e3o do ar e das nuvens; o segundo, o espa\u00e7o<br \/>\nem que giram os astros, e o terceiro, para al\u00e9m deste, \u00e9 a morada<br \/>\ndo Alt\u00edssimo, a habita\u00e7\u00e3o dos que o contemplam face a<br \/>\nface. \u00c9 conforme a esta cren\u00e7a que se diz que S. Paulo foi al\u00e7ado<br \/>\nao terceiro c\u00e9u.<\/p>\n<p>(1) Ptolomeu viveu em Alexandria, Egito, no segundo s\u00e9culo da era<br \/>\ncrist\u00e3. (2) Do grego, pur ou pyr, fogo.<\/p>\n<p>2. &#8211; As diferentes doutrinas relativamente ao para\u00edso repousam todas<br \/>\nno duplo erro de considerar a Terra centro do Universo, e limitada a regi\u00e3o<br \/>\ndos astros.<\/p>\n<p>\u00c9 al\u00e9m desse limite imagin\u00e1rio que todas t\u00eam colocado<br \/>\na resid\u00eancia afortunada e a morada do Todo-Poderoso.<\/p>\n<p>Singular anomalia que coloca o Autor de todas as coisas, Aquele que as governa<br \/>\na todas, nos confins da cria\u00e7\u00e3o, em vez de no centro, donde<br \/>\no seu pensamento poderia, irradiante, abranger tudo!<\/p>\n<p>3. &#8211; A Ci\u00eancia, com a l\u00f3gica inexor\u00e1vel da observa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne dos fatos, levou o seu archote \u00e0s profundezas do Espa\u00e7o e<br \/>\nmostrou a nulidade de todas essas teorias.<\/p>\n<p>A Terra n\u00e3o \u00e9 mais o eixo do Universo, por\u00e9m um dos<br \/>\nmenores astros que rolam na imensidade; o pr\u00f3prio Sol mais n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 do que o centro de um turbilh\u00e3o planet\u00e1rio; as estrelas<br \/>\ns\u00e3o outros tantos e inumer\u00e1veis s\u00f3is, em torno dos quais<br \/>\ncirculam mundos sem conta, separados por dist\u00e2ncias apenas acess\u00edveis<br \/>\nao pensamento, embora se nos afigure tocarem-se. Neste conjunto grandioso,<br \/>\nregido por leis eternas -reveladoras da sabedoria e onipot\u00eancia do Criador<br \/>\n-, a Terra n\u00e3o \u00e9 mais que um ponto impercept\u00edvel e um<br \/>\ndos planetas menos favorecidos quanto \u00e0 habitabilidade. E, assim sendo,<br \/>\n\u00e9 l\u00edcito perguntar por que Deus faria da Terra a \u00fanica<br \/>\nsede da vida e nela degredaria as suas criaturas prediletas? Mas, ao contr\u00e1rio,<br \/>\ntudo anuncia a vida por toda parte e a Humanidade \u00e9 infinita como o<br \/>\nUniverso.<\/p>\n<p>Revelando-nos a Ci\u00eancia mundos semelhantes ao nosso, Deus n\u00e3o<br \/>\npodia t\u00ea-los criado sem intuito, antes deve t\u00ea-los povoado de<br \/>\nseres capazes de os governar.<\/p>\n<p>4. &#8211; As id\u00e9ias do homem est\u00e3o na raz\u00e3o do que ele sabe;<br \/>\ncomo todas as descobertas importantes, a da constitui\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nmundos deveria imprimir-lhes outro curso; sob a influ\u00eancia desses conhecimentos<br \/>\nnovos, as cren\u00e7as se modificaram; o C\u00e9u foi deslocado e a regi\u00e3o<br \/>\nestelar, sendo ilimitada, n\u00e3o mais lhe pode servir. Onde est\u00e1<br \/>\nele, pois? E ante esta quest\u00e3o emudecem todas as religi\u00f5es.<\/p>\n<p>O Espiritismo vem resolv\u00ea-las demonstrando o verdadeiro destino do<br \/>\nhomem. Tomando-se por base a natureza deste \u00faltimo e os atributos divinos,<br \/>\nchega-se a uma conclus\u00e3o; isto quer dizer que partindo do conhecido<br \/>\natinge-se o desconhecido por uma dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, sem<br \/>\nfalar das observa\u00e7\u00f5es diretas que o Espiritismo faculta.<\/p>\n<p>5. &#8211; O homem comp\u00f5e-se de corpo e Esp\u00edrito: o Esp\u00edrito<br \/>\n\u00e9 o ser principal, racional, inteligente; o corpo \u00e9 o inv\u00f3lucro<br \/>\nmaterial que reveste o Esp\u00edrito temporariamente, para preenchimento<br \/>\nda sua miss\u00e3o na Terra e execu\u00e7\u00e3o do trabalho necess\u00e1rio<br \/>\nao seu adiantamento. O corpo, usado, destr\u00f3i-se e o Esp\u00edrito<br \/>\nsobrevive \u00e0 sua destrui\u00e7\u00e3o. Privado do Esp\u00edrito,<br \/>\no corpo \u00e9 apenas mat\u00e9ria inerte, qual instrumento privado da<br \/>\nmola real de fun\u00e7\u00e3o; sem o corpo, o Esp\u00edrito \u00e9<br \/>\ntudo: a vida, a intelig\u00eancia. Em deixando o corpo, torna ao mundo espiritual,<br \/>\nonde paira, para depois reencarnar.<\/p>\n<p>Existem, portanto, dois mundos: o corporal, composto de Esp\u00edritos<br \/>\nencarnados; e o espiritual, formado dos Esp\u00edritos desencarnados. Os<br \/>\nseres do mundo corporal, devido mesmo \u00e0 materialidade do seu envolt\u00f3rio,<br \/>\nest\u00e3o ligados \u00e0 Terra ou a qualquer globo; o mundo espiritual<br \/>\nostenta-se por toda parte, em redor de n\u00f3s como no Espa\u00e7o, sem<br \/>\nlimite algum designado. Em raz\u00e3o mesmo da natureza flu\u00eddica<br \/>\ndo seu envolt\u00f3rio, os seres que o comp\u00f5em, em lugar de se locomoverem<br \/>\npenosamente sobre o solo, transp\u00f5em as dist\u00e2ncias com a rapidez<br \/>\ndo pensamento. A morte do corpo n\u00e3o \u00e9 mais que a ruptura dos<br \/>\nla\u00e7os que os retinham cativos.<\/p>\n<p>6. &#8211; Os Esp\u00edritos s\u00e3o criados simples e ignorantes, mas dotados<br \/>\nde aptid\u00f5es para tudo conhecerem e para progredirem, em virtude do<br \/>\nseu livre-arb\u00edtrio. Pelo progresso adquirem novos conhecimentos, novas<br \/>\nfaculdades, novas percep\u00e7\u00f5es e, conseguintemente, novos gozos<br \/>\ndesconhecidos dos Esp\u00edritos inferiores; eles v\u00eaem, ouvem, sentem<br \/>\ne compreendem o que os Esp\u00edritos atrasados n\u00e3o podem ver, sentir,<br \/>\nouvir ou compreender.<\/p>\n<p>A felicidade est\u00e1 na raz\u00e3o direta do progresso realizado, de<br \/>\nsorte que, de dois Esp\u00edritos, um pode n\u00e3o ser t\u00e3o feliz<br \/>\nquanto outro, unicamente por n\u00e3o possuir o mesmo adiantamento intelectual<br \/>\ne moral, sem que por isso precisem estar, cada qual, em lugar distinto. Ainda<br \/>\nque juntos, pode um estar em trevas, enquanto que tudo resplandece para o<br \/>\noutro, tal como um cego e um vidente que se d\u00e3o as m\u00e3os: este<br \/>\npercebe a luz da qual aquele n\u00e3o recebe a m\u00ednima impress\u00e3o.<\/p>\n<p>Sendo a felicidade dos Esp\u00edritos inerente \u00e0s suas qualidades,<br \/>\nhaurem-na eles em toda parte em que se encontram, sela \u00e0 superf\u00edcie<br \/>\nda Terra, no meio dos encarnados, ou no Espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Uma compara\u00e7\u00e3o vulgar far\u00e1 compreender melhor esta situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe se encontrarem em um concerto dois homens, um, bom m\u00fasico, de ouvido<br \/>\neducado, e outro, desconhecedor da m\u00fasica, de sentido auditivo pouco<br \/>\ndelicado, o primeiro experimentar\u00e1 sensa\u00e7\u00e3o de felicidade,<br \/>\nenquanto o segundo permanecer\u00e1 insens\u00edvel, porque um compreende<br \/>\ne percebe o que nenhuma impress\u00e3o produz no outro. Assim sucede quanto<br \/>\na todos os gozos dos Esp\u00edritos, que est\u00e3o na raz\u00e3o da<br \/>\nsua sensibilidade.<\/p>\n<p>O mundo espiritual tem esplendores por toda parte, harmonias e sensa\u00e7\u00f5es<br \/>\nque os Esp\u00edritos inferiores, submetidos \u00e0 influ\u00eancia da<br \/>\nmat\u00e9ria, n\u00e3o entrev\u00eaem se quer, e que somente s\u00e3o<br \/>\nacess\u00edveis aos Esp\u00edritos purificados.<\/p>\n<p>7. &#8211; O progresso nos Esp\u00edritos \u00e9 o fruto do pr\u00f3prio<br \/>\ntrabalho; mas, como s\u00e3o livres, trabalham no seu adiantamento com maior<br \/>\nou menor atividade, com mais ou menos neglig\u00eancia, segundo sua vontade,<br \/>\nacelerando ou retardando o progresso e, por conseguinte, a pr\u00f3pria<br \/>\nfelicidade.<\/p>\n<p>Enquanto uns avan\u00e7am rapidamente, entorpecem-se outros, quais poltr\u00f5es,<br \/>\nnas fileiras inferiores. S\u00e3o eles, pois, os pr\u00f3prios autores<br \/>\nda sua situa\u00e7\u00e3o, feliz ou desgra\u00e7ada, conforme esta frase<br \/>\ndo Cristo: &#8211; A cada um segundo as suas obras.<\/p>\n<p>Todo Esp\u00edrito que se atrasa n\u00e3o pode queixar-se sen\u00e3o<br \/>\nde si mesmo, assim como o que se adianta tem o m\u00e9rito exclusivo do<br \/>\nseu esfor\u00e7o, dando por isso maior apre\u00e7o \u00e0 felicidade<br \/>\nconquistada.<\/p>\n<p>A suprema felicidade s\u00f3 \u00e9 compartilhada pelos Esp\u00edritos<br \/>\nperfeitos, ou, por outra, pelos puros Esp\u00edritos, que n\u00e3o a conseguem<br \/>\nsen\u00e3o depois de haverem progredido em intelig\u00eancia e moralidade.<\/p>\n<p>O progresso intelectual e o progresso moral raramente marcham juntos, mas<br \/>\no que o Esp\u00edrito n\u00e3o consegue em dado tempo, alcan\u00e7a<br \/>\nem outro, de modo que os dois progressos acabam por atingir o mesmo n\u00edvel.<\/p>\n<p>Eis por que se v\u00eaem muitas vezes homens inteligentes e instru\u00eddos<br \/>\npouco adiantados moralmente, e vice-versa.<\/p>\n<p>8. &#8211; A encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria ao duplo progresso<br \/>\nmoral e intelectual do Esp\u00edrito: ao progresso intelectual pela atividade<br \/>\nobrigat\u00f3ria do trabalho; ao progresso moral pela necessidade rec\u00edproca<br \/>\ndos homens entre si. A vida social \u00e9 a pedra de toque das boas ou m\u00e1s<br \/>\nqualidades.<\/p>\n<p>A bondade, a maldade, a do\u00e7ura, a viol\u00eancia, a benevol\u00eancia,<br \/>\na caridade, o ego\u00edsmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade,<br \/>\na franqueza, a lealdade, a m\u00e1-f\u00e9, a hipocrisia, em uma palavra,<br \/>\ntudo o que constitui o homem de bem ou o perverso tem por m\u00f3vel, por<br \/>\nalvo e por est\u00edmulo as rela\u00e7\u00f5es do homem com os seus<br \/>\nsemelhantes.<\/p>\n<p>Para o homem que vivesse insulado n\u00e3o haveria v\u00edcios nem virtudes;<br \/>\npreservando-se do mal pelo insulamento, o bem de si mesmo se anularia.<\/p>\n<p>9. &#8211; Uma s\u00f3 exist\u00eancia corporal \u00e9 manifestamente insuficiente<br \/>\npara o Esp\u00edrito adquirir todo o bem que lhe falta e eliminar o mal<br \/>\nque lhe sobra.<\/p>\n<p>Como poderia o selvagem, por exemplo, em uma s\u00f3 encarna\u00e7\u00e3o<br \/>\nnivelar-se moral e intelectualmente ao mais adiantado europeu? \u00c9 materialmente<br \/>\nimposs\u00edvel. Deve ele, pois, ficar eternamente na ignor\u00e2ncia e<br \/>\nbarbaria, privado dos gozos que s\u00f3 o desenvolvimento das faculdades<br \/>\npode proporcionar-lhe?<\/p>\n<p>O simples bom-senso repele tal suposi\u00e7\u00e3o, que seria n\u00e3o<br \/>\nsomente a nega\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e bondade divinas, mas das<br \/>\npr\u00f3prias leis evolutivas e progressivas da Natureza. Mas Deus, que<br \/>\n\u00e9 soberanamente justo e bom, concede ao Esp\u00edrito tantas encarna\u00e7\u00f5es<br \/>\nquantas as necess\u00e1rias para atingir seu objetivo a perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para cada nova exist\u00eancia de permeio \u00e0 mat\u00e9ria, entra<br \/>\no Esp\u00edrito com o cabedal adquirido nas anteriores, em aptid\u00f5es,<br \/>\nconhecimentos intuitivos, intelig\u00eancia e moralidade. Cada exist\u00eancia<br \/>\n\u00e9 assim um passo avante no caminho do progresso. (1)<\/p>\n<p>A encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 inerente \u00e0 inferioridade dos Esp\u00edritos,<br \/>\ndeixando de ser necess\u00e1ria desde que estes, transpondo-lhe os limites,<br \/>\nficam aptos para progredir no estado espiritual, ou nas exist\u00eancias<br \/>\ncorporais de mundos superiores, que nada t\u00eam da materialidade terrestre.<br \/>\nDa parte destes a encarna\u00e7\u00e3o \u00e9 volunt\u00e1ria, tendo<br \/>\npor fim exercer sobre os encarnados uma a\u00e7\u00e3o mais direta e tendente<br \/>\nao cumprimento da miss\u00e3o que lhes compete junto dos mesmos. Desse modo<br \/>\naceitam abnegadamente as vicissitudes e sofrimentos da encarna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(1) Vede 1\u00aa. Parte, cap. I, n\u00b0 3, nota 1.<\/p>\n<p>10. &#8211; No intervalo das exist\u00eancias corporais o Esp\u00edrito torna<br \/>\na entrar no mundo espiritual, onde \u00e9 feliz ou desgra\u00e7ado segundo<br \/>\no bem ou o mal que fez.<\/p>\n<p>Uma vez que o estado espiritual \u00e9 o estado definitivo do Esp\u00edrito<br \/>\ne o corpo espiritual n\u00e3o morre, deve ser esse tamb\u00e9m o seu estado<br \/>\nnormal. O estado corporal \u00e9 transit\u00f3rio e passageiro. \u00c9<br \/>\nno estado espiritual sobretudo que o Esp\u00edrito colhe os frutos do progresso<br \/>\nrealizado pelo trabalho da encarna\u00e7\u00e3o; \u00e9 tamb\u00e9m<br \/>\nnesse estado que se prepara para novas lutas e toma as resolu\u00e7\u00f5es<br \/>\nque h\u00e1 de p\u00f4r em pr\u00e1tica na sua volta \u00e0 Humanidade.<\/p>\n<p>O Esp\u00edrito progride igualmente na erraticidade, adquirindo conhecimentos<br \/>\nespeciais que n\u00e3o poderia obter na Terra, e modificando as suas id\u00e9ias.<br \/>\nO estado corporal e o espiritual constituem a fonte de dois g\u00eaneros<br \/>\nde progresso, pelos quais o Esp\u00edrito tem de passar alternadamente,<br \/>\nnas exist\u00eancias peculiares a cada um dos dois mundos.<\/p>\n<p>11. &#8211; A reencarna\u00e7\u00e3o pode dar-se na Terra ou em outros mundos.<br \/>\nH\u00e1 entre os mundos alguns mais adiantados onde a exist\u00eancia se<br \/>\nexerce em condi\u00e7\u00f5es menos penosas que na Terra, f\u00edsica<br \/>\ne moralmente, mas onde tamb\u00e9m s\u00f3 s\u00e3o admitidos Esp\u00edritos<br \/>\nchegados a um grau de perfei\u00e7\u00e3o relativo ao estado desses mundos.<\/p>\n<p>A vida nos mundos superiores j\u00e1 \u00e9 uma recompensa, visto nos<br \/>\nacharmos isentos, a\u00ed, dos males e vicissitudes terrenos. Onde os corpos,<br \/>\nmenos materiais, quase flu\u00eddicos, n\u00e3o mais s\u00e3o sujeitos<br \/>\n\u00e0s mol\u00e9stias, \u00e0s enfermidades, e tampouco t\u00eam as<br \/>\nmesmas necessidades. Exclu\u00eddos os Esp\u00edritos maus, gozam os homens<br \/>\nde plena paz, sem outra preocupa\u00e7\u00e3o al\u00e9m da do adiantamento<br \/>\npelo trabalho intelectual.<\/p>\n<p>Reina l\u00e1 a verdadeira fraternidade, porque n\u00e3o h\u00e1 ego\u00edsmo;<br \/>\na verdadeira igualdade, porque n\u00e3o h\u00e1 orgulho, e a verdadeira<br \/>\nliberdade por n\u00e3o haver desordens a reprimir, nem ambiciosos que procurem<br \/>\noprimir o fraco.<\/p>\n<p>Comparados \u00e0 Terra, esses mundos s\u00e3o verdadeiros para\u00edsos,<br \/>\nquais pousos ao longo do caminho do progresso conducente ao estado definitivo.<br \/>\nSendo a Terra um mundo inferior destinado \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos Esp\u00edritos imperfeitos, est\u00e1 nisso a raz\u00e3o do mal<br \/>\nque a\u00ed predomina, at\u00e9 que praza a Deus fazer dela morada de<br \/>\nEsp\u00edritos mais adiantados. Assim \u00e9 que o Esp\u00edrito, progredindo<br \/>\ngradualmente \u00e0 medida que se desenvolve, chega ao apogeu da felicidade;<br \/>\npor\u00e9m, antes de ter atingido a culmin\u00e2ncia da perfei\u00e7\u00e3o,<br \/>\ngoza de uma felicidade relativa ao seu progresso. A crian\u00e7a tamb\u00e9m<br \/>\nfrui os prazeres da inf\u00e2ncia, mais tarde os da mocidade, e finalmente<br \/>\nos mais s\u00f3lidos, da madureza.<\/p>\n<p>12. &#8211; A felicidade dos Esp\u00edritos bem-aventurados n\u00e3o consiste<br \/>\nna ociosidade contemplativa, que seria, como temos dito multas vezes, uma<br \/>\neterna e fastidiosa inutilidade.<\/p>\n<p>A vida espiritual em todos os seus graus \u00e9, ao contr\u00e1rio, uma<br \/>\nconstante atividade, mas atividade isenta de fadigas.<\/p>\n<p>A suprema felicidade consiste no gozo de todos os esplendores da Cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque nenhuma linguagem humana jamais poderia descrever, que a imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais fecunda n\u00e3o poderia conceber. Consiste tamb\u00e9m na penetra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde todas as coisas, na aus\u00eancia de sofrimentos f\u00edsicos e morais,<br \/>\nnuma satisfa\u00e7\u00e3o intima, numa serenidade dalma imperturb\u00e1vel,<br \/>\nno amor que envolve todos os seres, por causa da aus\u00eancia de atrito<br \/>\npelo contacto dos maus, e, acima de tudo, na contempla\u00e7\u00e3o de<br \/>\nDeus e na compreens\u00e3o dos seus mist\u00e9rios revelados aos mais<br \/>\ndignos. A felicidade tamb\u00e9m existe nas tarefas cujo encargo nos faz<br \/>\nfelizes. Os puros Esp\u00edritos s\u00e3o os Messias ou mensageiros de<br \/>\nDeus pela transmiss\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o das suas vontades. Preenchem<br \/>\nas grandes miss\u00f5es, presidem \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos mundos<br \/>\ne \u00e0 harmonia geral do Universo, tarefa gloriosa a que se n\u00e3o<br \/>\nchega sen\u00e3o pela perfei\u00e7\u00e3o. Os da ordem mais elevada<br \/>\ns\u00e3o os \u00fanicos a possu\u00edrem os segredos de Deus, inspirando-se<br \/>\nno seu pensamento, de que s\u00e3o diretos representantes.<\/p>\n<p>13. &#8211; As atribui\u00e7\u00f5es dos Esp\u00edritos s\u00e3o proporcionadas<br \/>\nao seu progresso, \u00e0s luzes que possuem, \u00e0s suas capacidades,<br \/>\nexperi\u00eancia e grau de confian\u00e7a inspirada ao Senhor soberano.<\/p>\n<p>Nem favores, nem privil\u00e9gios que n\u00e3o sejam o pr\u00eamio ao<br \/>\nm\u00e9rito; tudo \u00e9 medido e pesado na balan\u00e7a da estrita<br \/>\njusti\u00e7a.<\/p>\n<p>As miss\u00f5es mais importantes s\u00e3o confiadas somente \u00e0queles<br \/>\nque Deus julga capazes de as cumprir e incapazes de desfalecimento ou comprometimento.<br \/>\nE enquanto que os mais dignos comp\u00f5em o supremo conselho, sob as vistas<br \/>\nde Deus, a chefes superiores \u00e9 cometida a dire\u00e7\u00e3o de<br \/>\nturbilh\u00f5es planet\u00e1rios, \u00ea a outros conferida a de mundos<br \/>\nespeciais. V\u00eam, depois, pela ordem de adiantamento e subordina\u00e7\u00e3o<br \/>\nhier\u00e1rquica, as atribui\u00e7\u00f5es mais restritas dos prepostos<br \/>\nao progresso dos povos, \u00e0 prote\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias<br \/>\ne indiv\u00edduos, ao impulso de cada ramo de progresso, \u00e0s diversas<br \/>\nopera\u00e7\u00f5es da Natureza at\u00e9 aos mais \u00ednfimos pormenores<br \/>\nda Cria\u00e7\u00e3o. Neste vasto e harm\u00f4nico conjunto h\u00e1<br \/>\nocupa\u00e7\u00f5es para todas as capacidades, aptid\u00f5es e esfor\u00e7os;<br \/>\nocupa\u00e7\u00f5es aceitas com j\u00fabilo, solicitadas com ardor,<br \/>\npor serem um meio de adianta-mento para os Esp\u00edritos que ao progresso<br \/>\naspiram.<\/p>\n<p>14. &#8211; Ao lado das grandes miss\u00f5es confiadas aos Esp\u00edritos superiores,<br \/>\nh\u00e1 outras de import\u00e2ncia relativa em todos os graus, concedidas<br \/>\na Esp\u00edritos de todas as categorias, podendo afirmar-se que cada encarnado<br \/>\ntem a sua, isto \u00e9, deveres a preencher a bem dos seus semelhantes,<br \/>\ndesde o chefe de fam\u00edlia, a quem incumbe o progresso dos filhos, at\u00e9<br \/>\no homem de g\u00eanio que lan\u00e7a \u00e0s sociedades novos germens<br \/>\nde progresso. \u00c9 nessas miss\u00f5es secund\u00e1rias que se verificam<br \/>\ndesfalecimentos, prevarica\u00e7\u00f5es e ren\u00fancias que prejudicam<br \/>\no indiv\u00edduo sem afetar o todo.<\/p>\n<p>15. &#8211; Todas as intelig\u00eancias concorrem, pois, para a obra geral, qualquer<br \/>\nque seja o grau atingido, e cada uma na medida das suas for\u00e7as, seja<br \/>\nno estado de encarna\u00e7\u00e3o ou no espiritual. Por toda parte a atividade,<br \/>\ndesde a base ao \u00e1pice da escala, instruindo-se, coadjuvando-se em m\u00fatuo<br \/>\napoio, dando-se as m\u00e3os para alcan\u00e7arem o z\u00eanite.<\/p>\n<p>Assim se estabelece a solidariedade entre o mundo espiritual e o corporal,<br \/>\nou, em outros termos, entre os homens e os Esp\u00edritos, entre os Esp\u00edritos<br \/>\nlibertos e os cativos. Assim se perpetuam e consolidam, pela purifica\u00e7\u00e3o<br \/>\ne continuidade de rela\u00e7\u00f5es, as verdadeiras simpatias e nobres<br \/>\nafei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por toda parte, a vida e o movimento: nenhum canto do infinito despovoado,<br \/>\nnenhuma regi\u00e3o que n\u00e3o seja incessantemente percorrida por legi\u00f5es<br \/>\ninumer\u00e1veis de Esp\u00edritos radiantes, invis\u00edveis aos sentidos<br \/>\ngrosseiros dos encarnados, mas cuja vista deslumbra de alegria e admira\u00e7\u00e3o<br \/>\nas almas libertas da mat\u00e9ria. Por toda parte, enfim, h\u00e1 uma<br \/>\nfelicidade relativa a todos os progressos, a todos os deveres cumpridos, trazendo<br \/>\ncada um consigo os elementos de sua felicidade, decorrente da categoria em<br \/>\nque se coloca pelo seu adiantamento.<\/p>\n<p>Das qualidades do indiv\u00edduo depende-lhe a felicidade, e n\u00e3o<br \/>\ndo estado material do meio em que se encontra, podendo a felicidade, portanto,<br \/>\nexistir em qualquer parte onde haja Esp\u00edritos capazes de a gozar. Nenhum<br \/>\nlugar lhe \u00e9 circunscrito e assinalado no Universo.<\/p>\n<p>Onde quer que se encontrem, os Esp\u00edritos podem contemplar a majestade<br \/>\ndivina, porque Deus est\u00e1 em toda parte.<\/p>\n<p>16. &#8211; Entretanto, a felicidade n\u00e3o \u00e9 pessoal: Se a possu\u00edssemos<br \/>\nsomente em n\u00f3s mesmos, sem poder reparti-la com outrem, ela seria tristemente<br \/>\nego\u00edsta. Tamb\u00e9m a encontramos na comunh\u00e3o de id\u00e9ias<br \/>\nque une os seres simp\u00e1ticos. Os Esp\u00edritos felizes, atraindo-se<br \/>\npela similitude de gestos e sentimentos, formam vastos agrupamentos ou fam\u00edlias<br \/>\nhomog\u00eaneas, no selo das quais cada individualidade irradia as qualidades<br \/>\npr\u00f3prias e satura-se dos efl\u00favios serenos e ben\u00e9ficos<br \/>\nemanados do conjunto.<\/p>\n<p>Os membros deste, ora se dispersam para se darem \u00e0 sua miss\u00e3o,<br \/>\nora se re\u00fanem em dado ponto do Espa\u00e7o a fim de se prestarem<br \/>\ncontas do trabalho realizado, ora se congregam em torno dum Esp\u00edrito<br \/>\nmais elevado para receberem instru\u00e7\u00f5es e conselhos.<\/p>\n<p>17. &#8211; Posto que os Esp\u00edritos estejam por toda parte, os mundos s\u00e3o<br \/>\nde prefer\u00eancia os seus centros de atra\u00e7\u00e3o, em virtude<br \/>\nda analogia existente entre eles e os que os habitam. Em torno dos mundos<br \/>\nadiantados abundam Esp\u00edritos superiores, como em torno dos atrasados<br \/>\npululam Esp\u00edritos inferiores. Cada globo tem, de alguma sorte, sua<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de Esp\u00edritos encarnados e desencarnados,<br \/>\nalimentada em sua maioria pela encarna\u00e7\u00e3o e desencarna\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos mesmos. Esta popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mais est\u00e1vel nos<br \/>\nmundos inferiores, pelo apego deles \u00e0 mat\u00e9ria, e mais flutuante<br \/>\nnos superiores.<\/p>\n<p>Destes \u00faltimos, por\u00e9m, verdadeiros focos de luz e felicidade,<br \/>\nEsp\u00edritos se destacam para mundos inferiores a fim de neles semearem<br \/>\nos germens do progresso, levar-lhes consola\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a,<br \/>\nlevantar os \u00e2nimos abatidos pelas prova\u00e7\u00f5es da vida. Por<br \/>\nvezes tamb\u00e9m se encarnam para cumprir com mais efic\u00e1cia a sua<br \/>\nmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>18. &#8211; Nessa imensidade ilimitada, onde est\u00e1 o C\u00e9u? Em toda<br \/>\nparte. Nenhum contorno lhe tra\u00e7a limites. Os mundos adiantados s\u00e3o<br \/>\nas \u00faltimas esta\u00e7\u00f5es do seu caminho, que as virtudes franqueiam<br \/>\ne os v\u00edcios interditam. Ante este quadro grandioso que povoa o Universo,<br \/>\nque d\u00e1 a todas as coisas da Cria\u00e7\u00e3o um fim e uma raz\u00e3o<br \/>\nde ser, quanto \u00e9 pequena e mesquinha a doutrina que circunscreve a<br \/>\nHumanidade a um ponto impercept\u00edvel do Espa\u00e7o, que no-la mostra<br \/>\ncome\u00e7ando em dado instante para acabar igualmente com o mundo que a<br \/>\ncont\u00e9m, n\u00e3o abrangendo mais que um minuto na Eternidade!<\/p>\n<p>Como \u00e9 triste, fria, glacial essa doutrina quando nos mostra o resto<br \/>\ndo Universo, durante e depois da Humanidade terrestre, sem vida, nem movimento,<br \/>\nqual vast\u00edssimo deserto imerso em profundo sil\u00eancio! Como \u00e9<br \/>\ndesesperadora a perspectiva dos eleitos votados \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o<br \/>\nperp\u00e9tua, enquanto a maioria das criaturas padece tormentos sem-fim!<br \/>\nComo lacera os cora\u00e7\u00f5es sens\u00edveis a id\u00e9ia dessa<br \/>\nbarreira entre mortos e vivos! As almas ditosas, dizem, s\u00f3 pensam na<br \/>\nsua felicidade, como as desgra\u00e7adas, nas suas dores. Admira que o ego\u00edsmo<br \/>\nreine sobre a Terra quando no-lo mostram no C\u00e9u?<\/p>\n<p>Oh! qu\u00e3o mesquinha se nos afigura essa id\u00e9ia da grandeza, do<br \/>\npoder e da bondade de Deus! Quanto \u00e9 sublime a id\u00e9ia que dEle<br \/>\nfazemos pelo Espiritismo! Quanto a sua doutrina engrandece as id\u00e9ias<br \/>\ne amplia o pensamento! Mas, quem diz que ela \u00e9 verdadeira? A Raz\u00e3o<br \/>\nprimeiro, a Revela\u00e7\u00e3o depois, e, finalmente, a sua concord\u00e2ncia<br \/>\ncom os progressos da Ci\u00eancia. Entre duas doutrinas, das quais uma amesquinha<br \/>\ne a outra exalta os atributos de Deus; das quais uma s\u00f3 est\u00e1<br \/>\nem desacordo e a outra em harmonia com o progresso; das quais uma se deixa<br \/>\nficar na retaguarda enquanto a outra caminha, o bom-senso diz de que lado<br \/>\nest\u00e1 a verdade. Que, confrontando-as, consulte cada qual a consci\u00eancia,<br \/>\ne uma voz \u00edntima lhe falar\u00e1 por ela. Pois bem, essas aspira\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00edntimas s\u00e3o a voz de Deus, que n\u00e3o pode enganar os homens.<br \/>\nMas, dir-se-\u00e1, por que Deus n\u00e3o lhes revelou de princ\u00edpio<br \/>\ntoda a verdade? Pela mesma raz\u00e3o por que sen\u00e3o ensina \u00e0<br \/>\ninf\u00e2ncia o que se ensina aos de idade madura.<\/p>\n<p>A revela\u00e7\u00e3o limitada foi suficiente a certo per\u00edodo<br \/>\nda Humanidade, e Deus a proporciona gradativamente ao progresso e \u00e0s<br \/>\nfor\u00e7as do Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Os que recebem hoje uma revela\u00e7\u00e3o mais completa s\u00e3o<br \/>\nos mesmos Esp\u00edritos que tiveram dela uma part\u00edcula em outros<br \/>\ntempos e que de ent\u00e3o por diante se engrandeceram em intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Antes de a Ci\u00eancia ter revelado aos homens as for\u00e7as vivas da<br \/>\nNatureza, a constitui\u00e7\u00e3o dos astros, o verdadeiro papel da Terra<br \/>\ne sua forma\u00e7\u00e3o, poderiam eles compreender a imensidade do Espa\u00e7o<br \/>\ne a pluralidade dos mundos? Antes de a Geologia comprovar a forma\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Terra, poderiam os homens tirar-lhe o inferno das entranhas e compreender<br \/>\no sentido aleg\u00f3rico dos seis dias da Cria\u00e7\u00e3o? Antes de<br \/>\na Astronomia descobrir as leis que regem o Universo, poderiam compreender<br \/>\nque n\u00e3o h\u00e1 alto nem baixo no Espa\u00e7o, que o c\u00e9u<br \/>\nn\u00e3o est\u00e1 acima das nuvens nem limitado pelas estrelas? Poderiam<br \/>\nidentificar-se com a vida espiritual antes dos progressos da ci\u00eancia<br \/>\npsicol\u00f3gica? conceber depois da morte uma vida feliz ou desgra\u00e7ada,<br \/>\na n\u00e3o ser em lugar circunscrito e sob uma forma material? N\u00e3o;<br \/>\ncompreendendo mais pelos sentidos que pelo pensamento, o Universo era muito<br \/>\nvasto para a sua concep\u00e7\u00e3o; era preciso restringi-lo ao seu<br \/>\nponto de vista para alarg\u00e1-lo mais tarde. Uma revela\u00e7\u00e3o<br \/>\nparcial tinha sua utilidade, e, embora s\u00e1bia at\u00e9 ent\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o satisfaria hoje. O absurdo prov\u00e9m dos que pretendem poder<br \/>\ngovernar os homens de pensamento, sem se darem conta do progresso das id\u00e9ias,<br \/>\nquais se fossem crian\u00e7as. (Vede O Evangelho segundo o Espiritismo,<br \/>\ncap. III.)<\/p>\n<h2><a id=\"4\" name=\"4\"><\/a>O Inferno<\/h2>\n<h5>Intui\u00e7\u00e3o das penas futuras<\/h5>\n<p>1. &#8211; Desde todas as \u00e9pocas o homem acreditou, por intui\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque a vida futura seria feliz ou infeliz, conforme o bem ou o mal praticado<br \/>\nneste mundo. A id\u00e9ia que ele faz, por\u00e9m, dessa vida est\u00e1<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o com o seu desenvolvimento, senso moral e no\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais ou menos justas do bem e do mal.<\/p>\n<p>As penas e recompensas s\u00e3o o reflexo dos instintos predominantes.<br \/>\nOs povos guerreiros fazem consistir a suprema felicidade nas honras conferidas<br \/>\n\u00e0 bravura; os ca\u00e7adores, na abund\u00e2ncia da ca\u00e7a;<br \/>\nos sensuais, nas del\u00edcias da voluptuosidade. Dominado pela mat\u00e9ria,<br \/>\no homem n\u00e3o pode compreender sen\u00e3o imperfeitamente a espiritualidade,<br \/>\nimaginando para as penas e gozos futuros um quadro mais material que espiritual;<br \/>\nafigura-se-lhe que deve comer e beber no outro mundo, por\u00e9m melhor<br \/>\nque na Terra. (1)<\/p>\n<p>Mais tarde j\u00e1 se encontra nas cren\u00e7as sobre a vida futura um<br \/>\nmisto de espiritualismo e materialismo: a beatitude contemplativa concorrendo<br \/>\ncom o inferno das torturas f\u00edsicas.<\/p>\n<p>(1) Um pequeno saboiano, a quem o seu cura fazia a descri\u00e7\u00e3o<br \/>\nda vida futura, perguntou-lhe se todo o mundo l\u00e1 comia p\u00e3o branco,<br \/>\ncomo em Paris<\/p>\n<p>2. &#8211; N\u00e3o podendo compreender sen\u00e3o o que v\u00ea, o homem<br \/>\nprimitivo naturalmente moldou o seu futuro pelo presente; para compreender<br \/>\noutros tipos, al\u00e9m dos que tinha \u00e0 vista, ser-lhe-ia preciso<br \/>\num desenvolvimento intelectual que s\u00f3 o tempo deveria completar. Tamb\u00e9m<br \/>\no quadro por ele ideado sobre as penas futuras n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o<br \/>\no reflexo dos males da Humanidade, em mais vasta propor\u00e7\u00e3o,<br \/>\nreunindo-lhe todas as torturas, supl\u00edcios e afli\u00e7\u00f5es<br \/>\nque achou na Terra. Nos climas abrasadores imaginou um inferno de fogo, e<br \/>\nnas regi\u00f5es boreais um inferno de gelo. N\u00e3o estando ainda desenvolvido<br \/>\no sentido que mais tarde o levaria a compreender o mundo espiritual, n\u00e3o<br \/>\npodia conceber sen\u00e3o penas materiais; e assim, com pequenas diferen\u00e7as<br \/>\nde forma, os infernos de todas as religi\u00f5es se assemelham.<\/p>\n<p>O inferno crist\u00e3o imitado do inferno pag\u00e3o<br \/>\n3. &#8211; O inferno pag\u00e3o, descrito e dramatizado pelos poetas, foi o modelo<br \/>\nmais grandioso do g\u00eanero, e perpetuou-se no seio dos crist\u00e3os,<br \/>\nonde, por sua vez, houve poetas e cantores. Comparando-os, encontram-se neles<br \/>\n&#8211; salvo os nomes e variantes de detalhe &#8211; numerosas analogias; ambos t\u00eam<br \/>\no fogo material por base de tormentos, como s\u00edmbolo dos sofrimentos<br \/>\nmais atrozes. Mas, coisa singular! os crist\u00e3os exageraram em muitos<br \/>\npontos o inferno dos pag\u00e3os. Se estes tinham o tonel das Danaides,<br \/>\na roda de \u00cdxion, o rochedo de S\u00edsifo, eram estes supl\u00edcios<br \/>\nindividuais; os crist\u00e3os, ao contr\u00e1rio, t\u00eam para todos,<br \/>\nsem distin\u00e7\u00e3o, as caldeiras ferventes cujos tampos os anjos<br \/>\nlevantam para ver as contor\u00e7\u00f5es dos supliciados (1); e Deus,<br \/>\nsem piedade, ouve-lhes os gemidos por toda a eternidade. Jamais os pag\u00e3os<br \/>\ndescreveram os habitantes dos Campos El\u00edseos deleitando a vista nos<br \/>\nsupl\u00edcios do T\u00e1rtaro. (2)<\/p>\n<p>(1) Serm\u00e3o pregado em Montpellier em 1860.<\/p>\n<p>(2) &#8220;Os bem-aventurados, sem deixarem o lugar que ocupam, poder\u00e3o<br \/>\nafastar-se de certo modo em raz\u00e3o do seu dom de intelig\u00eancia<br \/>\ne da vista distinta, a fim de considerarem as torturas dos condenados, e,<br \/>\nvendo-os, n\u00e3o somente ser\u00e3o insens\u00edveis \u00e0 dor,<br \/>\nmas at\u00e9 ficar\u00e3o repletos de alegria e render\u00e3o gra\u00e7as<br \/>\na Deus por sua pr\u00f3pria felicidade, assistindo \u00e0 inef\u00e1vel<br \/>\ncalamidade dos \u00edmpios.&#8221; (S. Tom\u00e1s de Aquino.)<\/p>\n<p>4. &#8211; Os crist\u00e3os t\u00eam, como os pag\u00e3os, o seu rei dos infernos<br \/>\n&#8211; Sat\u00e3 &#8211; com a diferen\u00e7a, por\u00e9m, de que Plut\u00e3o<br \/>\nse limitava a governar o sombrio imp\u00e9rio, que lhe coubera em partilha,<br \/>\nsem ser mau; retinha em seus dom\u00ednios os que haviam praticado o mal,<br \/>\nporque essa era a sua miss\u00e3o, mas n\u00e3o induzia os homens ao pecado<br \/>\npara desfrutar, tripudiar dos seus sofrimentos. Sat\u00e3, no entanto, recruta<br \/>\nv\u00edtimas por toda parte e regozija-se ao atorment\u00e1-las com uma<br \/>\nlegi\u00e3o de dem\u00f4nios armados de forcados a revolv\u00ea-las no<br \/>\nfogo.<\/p>\n<p>J\u00e1 se tem discutido seriamente sobre a natureza desse fogo que queima<br \/>\nmas n\u00e3o consome as v\u00edtimas. Tem-se mesmo perguntado se seria<br \/>\num fogo de betume. (2)<\/p>\n<p>O inferno crist\u00e3o nada cede, pois, ao inferno pag\u00e3o.<\/p>\n<p>(2) Serm\u00e3o pregado em Paris em 1861.<\/p>\n<p>5. &#8211; As mesmas considera\u00e7\u00f5es que, entre os antigos, tinham<br \/>\nfeito localizar o reino da felicidade, fizeram circunscrever igualmente o<br \/>\nlugar dos supl\u00edcios. Tendo-se colocado o primeiro nas regi\u00f5es<br \/>\nsuperiores, era natural reservar ao segundo os lugares inferiores, isto \u00e9,<br \/>\no centro da Terra, para onde se acreditava servirem de entradas certas cavidades<br \/>\nsombrias, de aspecto terr\u00edvel. Os crist\u00e3os tamb\u00e9m colocaram<br \/>\nali, por muito tempo, a habita\u00e7\u00e3o dos condenados.<\/p>\n<p>A este respeito, frisemos ainda outra analogia: &#8211; O inferno dos pag\u00e3os<br \/>\ncontinha de um lado os Campos El\u00edseos e do outro o T\u00e1rtaro;<br \/>\no Olimpo, moradia dos deuses e dos homens divinizados, ficava nas regi\u00f5es<br \/>\nsuperiores. Segundo a letra do Evangelho, Jesus desceu aos infernos, isto<br \/>\n\u00e9, aos lugares baixos para deles tirar as almas dos justos que lhe<br \/>\naguardavam a vinda.<\/p>\n<p>Os infernos n\u00e3o eram, portanto, um lugar unicamente de supl\u00edcio:<br \/>\nestavam, tal como para os pag\u00e3os, nos lugares baixos.<\/p>\n<p>A morada dos anjos, assim como o Olimpo, era nos lugares elevados. Colocaram-na<br \/>\npara al\u00e9m do c\u00e9u estelar, que se reputava limitado.<\/p>\n<p>6. &#8211; Esta mistura de id\u00e9ias crist\u00e3s e pag\u00e3s nada tem<br \/>\nde surpreendente. Jesus n\u00e3o podia de um s\u00f3 golpe destruir inveteradas<br \/>\ncren\u00e7as, faltando aos homens conhecimentos necess\u00e1rios para<br \/>\nconceber a infinidade do Espa\u00e7o e o n\u00famero infinito dos mundos;<br \/>\na Terra para eles era o centro do Universo; n\u00e3o lhe conheciam a forma<br \/>\nnem a estrutura internas; tudo se limitava ao seu ponto de vista: as no\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo futuro n\u00e3o podiam ir al\u00e9m dos seus conhecimentos. Jesus encontrava-se,<br \/>\npois, na impossibilidade de os iniciar no verdadeiro estado das coisas; mas<br \/>\nn\u00e3o querendo, por outro lado, com sua autoridade, sancionar preju\u00edzos<br \/>\naceitos, absteve-se de os retificar, deixando ao tempo essa miss\u00e3o.<br \/>\nEle limitou-se a falar vagamente da vida bem-aventurada, dos castigos reservados<br \/>\naos culpados, sem referir-se jamais nos seus ensinos a castigos e supl\u00edcios<br \/>\ncorporais, que constitu\u00edram para os crist\u00e3os um artigo de f\u00e9.<br \/>\nEis a\u00ed como as id\u00e9ias do inferno pag\u00e3o se perpetuaram<br \/>\nat\u00e9 aos nossos dias. E foi preciso a difus\u00e3o das modernas luzes,<br \/>\no desenvolvimento geral da intelig\u00eancia humana para se lhe fazer justi\u00e7a.<br \/>\nComo, por\u00e9m, nada de positivo houvesse substitu\u00eddo as id\u00e9ias<br \/>\nrecebidas, ao longo per\u00edodo de uma cren\u00e7a cega sucedeu, transitoriamente,<br \/>\no per\u00edodo de incredulidade a que vem p\u00f4r termo a Nova Revela\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEra preciso demolir para reconstruir, visto como \u00e9 mais f\u00e1cil<br \/>\ninsinuar id\u00e9ias justas aos que em nada cr\u00eaem, sentindo que algo<br \/>\nlhes falta, do que faz\u00ea-lo aos que possuem uma id\u00e9ia robusta,<br \/>\nainda que absurda.<\/p>\n<p>7. &#8211; Localizados o c\u00e9u e o inferno, as seitas crist\u00e3s foram<br \/>\nlevadas a n\u00e3o admitir para as almas sen\u00e3o duas situa\u00e7\u00f5es<br \/>\nextremas: a felicidade perfeita e o sofrimento absoluto. O purgat\u00f3rio<br \/>\n\u00e9 apenas uma posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria e passageira,<br \/>\nao sair da qual as almas passam, sem transi\u00e7\u00e3o, \u00e0 mans\u00e3o<br \/>\ndos justos.<\/p>\n<p>Outra n\u00e3o pode ser a hip\u00f3tese, dada a cren\u00e7a na sorte<br \/>\ndefinitiva da alma ap\u00f3s a morte. Se n\u00e3o h\u00e1 mais de duas<br \/>\nhabita\u00e7\u00f5es, a dos eleitos e a dos condenados, n\u00e3o se<br \/>\npodem admitir muitos graus em cada uma sem admitir a possibilidade de os franquear<br \/>\ne, conseguintemente, o progresso. Ora, se h\u00e1 progresso, n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 sorte definitiva, e se h\u00e1 sorte definitiva, n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nprogresso. Jesus resolveu a quest\u00e3o quando disse: &#8211; &#8220;H\u00e1<br \/>\nmuitas moradas na casa de meu Pai.&#8221; (1)<\/p>\n<p>(1) O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. III.<\/p>\n<p>Os limbos<br \/>\n8. &#8211; \u00c9 verdade que a Igreja admite uma posi\u00e7\u00e3o especial<br \/>\nem casos particulares.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as falecidas em tenra idade, sem fazer mal algum, n\u00e3o<br \/>\npodem ser condenadas ao fogo eterno. Mas, tamb\u00e9m, n\u00e3o tendo<br \/>\nfeito bem, n\u00e3o lhes assiste direito \u00e0 felicidade suprema. Ficam<br \/>\nnos limbos, diz-nos a Igreja, nessa situa\u00e7\u00e3o jamais definida,<br \/>\nna qual, se n\u00e3o sofrem, tamb\u00e9m n\u00e3o gozam da bem-aventuran\u00e7a.<br \/>\nEsta, sendo tal sorte irrevogavelmente fixada, fica-lhes defesa para sempre.<br \/>\nTal priva\u00e7\u00e3o importa, assim, um supl\u00edcio eterno e tanto<br \/>\nmais imerecido, quanto \u00e9 certo n\u00e3o ter dependido dessas almas<br \/>\nque as coisas assim sucedessem. O mesmo se d\u00e1 quanto ao selvagem que,<br \/>\nn\u00e3o tendo recebido a gra\u00e7a do batismo e as luzes da religi\u00e3o,<br \/>\npeca por ignor\u00e2ncia, entregue aos instintos naturais. Certo, este n\u00e3o<br \/>\ntem a responsabilidade e o m\u00e9rito cab\u00edveis ao que procede com<br \/>\nconhecimento de causa. A simples l\u00f3gica repele uma tal doutrina em<br \/>\nnome da justi\u00e7a de Deus, que se cont\u00e9m integralmente nestas<br \/>\npalavras do Cristo: &#8220;A cada um,segundo as suas obras.&#8221; Obras, sim,<br \/>\nboas ou m\u00e1s, por\u00e9m praticadas volunt\u00e1ria e livremente,<br \/>\n\u00fanicas que comportam responsabilidade. Neste caso n\u00e3o podem<br \/>\nestar a crian\u00e7a, o selvagem e tampouco aquele que n\u00e3o foi esclarecido.<\/p>\n<p>Quadro do inferno pag\u00e3o<br \/>\n9. &#8211; O conhecimento do inferno pag\u00e3o nos \u00e9 fornecido quase exclusivamente<br \/>\npela narrativa dos poetas. Homero e Verg\u00edlio dele deram a mais completa<br \/>\ndescri\u00e7\u00e3o, devendo, contudo, levar-se em conta as necessidades<br \/>\npo\u00e9ticas impostas \u00e0 forma. A descri\u00e7\u00e3o de F\u00e9nelon,<br \/>\nno Tel\u00eamaco, posto que haurida na mesma fonte quanto \u00e0s cren\u00e7as<br \/>\nfundamentais, tem a simplicidade mais concisa da prosa.<\/p>\n<p>Descrevendo o aspecto l\u00fagubre dos lugares, preocupa-se, principalmente,<br \/>\nem real\u00e7ar o g\u00eanero de sofrimento dos culpados, estendendo-se<br \/>\nsobre a sorte dos maus reis com vista \u00e0 instru\u00e7\u00e3o do<br \/>\nseu r\u00e9gio disc\u00edpulo. Por muito popular que seja esta obra, nem<br \/>\ntodos t\u00eam presente \u00e0 mem\u00f3ria a sua descri\u00e7\u00e3o,<br \/>\nou n\u00e3o meditaram sobre ela de modo a estabelecer compara\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne assim acreditamos de utilidade reproduzir os t\u00f3picos que mais diretamente<br \/>\ninteressam ao nosso assunto, Isto \u00e9, os que se referem especialmente<br \/>\n\u00e0s penas individuais.<\/p>\n<p>10. &#8211; &#8220;Ao entrar, Tel\u00eamaco ouve gemidos de uma sombra inconsol\u00e1vel.<br \/>\nQual \u00e9, perguntava-lhe, a vossa desgra\u00e7a? Quem fostes na Terra?<br \/>\nNabofarzan, responde a sombra, rei da soberba Babil\u00f4nia. Ao ouvir meu<br \/>\nnome tremiam todos os povos do Oriente; fazia-me adorar pelos babil\u00f4nios<br \/>\nnum templo todo de m\u00e1rmore, representado por uma est\u00e1tua de<br \/>\nouro, a cujos p\u00e9s se queimavam noite e dia os preciosos perfumes da<br \/>\nEti\u00f3pia; jamais algu\u00e9m ousou contradizer-me sem de pronto ser<br \/>\npunido; inventavam-se dia a dia prazeres novos para tornar-me a vida mais<br \/>\ne mais deliciosa.<\/p>\n<p>&#8220;Mo\u00e7o e robusto, quantos, oh! quantos prazeres me restavam ainda<br \/>\npor usufruir no trono! Mas certa mulher, que eu amava e que me n\u00e3o<br \/>\ncorrespondia, fez-me sentir claramente que eu n\u00e3o era um deus: &#8211; envenenou-me,<br \/>\ne&#8230; nada mais sou. As minhas cinzas foram ontem encerradas com pompa em urna<br \/>\nde ouro: choraram, arrancaram cabelos, pretenderam fingidamente atirar-se<br \/>\n\u00e0s chamas da minha fogueira, a fim de morrerem comigo, v\u00e3o ainda<br \/>\ngemer junto do t\u00famulo das minhas cinzas, mas ningu\u00e9m me deplora;<br \/>\na minha mem\u00f3ria horroriza a pr\u00f3pria fam\u00edlia, enquanto<br \/>\naqui em baixo sofro j\u00e1 horr\u00edveis supl\u00edcios.<\/p>\n<p>Tel\u00eamaco, compungido ante esse espet\u00e1culo, diz-lhe: \u00c9reis<br \/>\nv\u00f3s verdadeiramente feliz durante o vosso reinado? Sent\u00edeis<br \/>\nporventura essa paz suave sem a qual o cora\u00e7\u00e3o se conserva opresso<br \/>\ne abatido em meio das del\u00edcias? &#8211; N\u00e3o, respondeu o babil\u00f4nio;<br \/>\n&#8211; n\u00e3o sei mesmo o que quereis dizer. Os s\u00e1bios exaltam essa<br \/>\npaz como bem \u00fanico; quanto \u00e0 raiva, nunca a senti, meu cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nagitava-se continuamente por novos desejos de temor e de esperan\u00e7a.<br \/>\nProcurava aturdir-me com o abalo das pr\u00f3prias paix\u00f5es, tendo<br \/>\no cuidado de entreter essa embriaguez para torn\u00e1-la permanente, continua;<br \/>\no menor intervalo de raz\u00e3o, de calma, ser-me-ia muito amargo. Eis a<br \/>\npaz que frui; qualquer outra parece-me antes uma f\u00e1bula, um sonho.<br \/>\nS\u00e3o esses os bens que choro.<\/p>\n<p>&#8220;Assim falando, o babil\u00f4nio chorava qual homem pusil\u00e2nime,<br \/>\nenervado pelas prosperidades, desabituado de suportar resignadamente uma desgra\u00e7a.<br \/>\nHavia junto dele alguns escravos mortos em homenagem honrosa aos seus funerais.<br \/>\nMerc\u00fario os entregara a Caronte com o seu rei, outorgando-lhes poder<br \/>\nabsoluto sobre esse rei, a quem tinham servido na Terra. Essas sombras de<br \/>\nescravos n\u00e3o temiam a sombra de Nabofarzan, que retinham encadeada,<br \/>\ninfligindo-lhe as mais cru\u00e9is afrontas. Dizia-lhe uma: &#8220;N\u00e3o<br \/>\n\u00e9ramos n\u00f3s homens iguais a ti? Insensato que eras, julgavas-te<br \/>\num deus, a ponto de esqueceres a tua origem comum a todos os homens.&#8221;<br \/>\n&#8220;Outra, para insult\u00e1-lo, dizia: &#8211; Tinhas raz\u00e3o em n\u00e3o<br \/>\nquerer que por homem te houvessem, porque na verdade eras um monstro desumano.<br \/>\nAinda outra: &#8211; Ent\u00e3o?! onde est\u00e3o agora os teus aduladores?<br \/>\nnada mais tens a dar, desgra\u00e7ado! nem mesmo o mal podes fazer mais:<br \/>\neis-te reduzido a escravo dos teus escravos. A justi\u00e7a dos deuses tarda,<br \/>\nmas n\u00e3o falha.<\/p>\n<p>A estas frases duras Nabofarzan se rojava por terra, arrancando os cabelos<br \/>\nem acesso de raiva e desespero. Mas Caronte instigava os escravos: Arrastem-no<br \/>\npela corrente, levantem-no contra a vontade. N\u00e3o possa ele consolar-se<br \/>\nescondendo a sua vergonha: preciso \u00e9 que todas as sombras do Estige<br \/>\na testemunhem como justificativa aos deuses, que por tanto tempo toleraram<br \/>\no reinado terreno deste \u00edmpio.<\/p>\n<p>E ele avista logo, bem perto de si, o negro T\u00e1rtaro evolando escuro<br \/>\ne espesso fumo, cujo cheiro mef\u00edtico daria a morte se se espalhasse<br \/>\npela morada dos vivos. Esse fumo envolvia um rio de fogo, um turbilh\u00e3o<br \/>\nde chamas, cujo ru\u00eddo, semelhante \u00e0s torrentes mais caudalosas<br \/>\nquando se despenham de altos rochedos em profundos abismos, concorria para<br \/>\nque nada se ouvisse nesses lugares tenebrosos. Tel\u00eamaco, secretamente<br \/>\nanimado por Minerva, entra sem medo nesse b\u00e1ratro. Viu primeiramente<br \/>\num grande n\u00famero de homens que tinham vivido nas mais humildes condi\u00e7\u00f5es,<br \/>\npunidos por haverem procurado riquezas por meio de fraudes, trai\u00e7\u00f5es<br \/>\ne crueldade. A\u00ed notou muitos \u00edmpios hip\u00f3critas que, simulando<br \/>\namar a religi\u00e3o, dela se tinham servido como de um belo pretexto para<br \/>\nsatisfazerem ambi\u00e7\u00f5es e zombarem dos cr\u00e9dulos: os que<br \/>\nhaviam abusado at\u00e9 da pr\u00f3pria Virtude, o maior dom dos deuses,<br \/>\neram punidos como os mais celerados de todos os homens. Os filhos que haviam<br \/>\ndegolado seus pais; as esposas que mancharam as m\u00e3os no sangue dos<br \/>\nmaridos; os traidores que venderam a p\u00e1tria, violando todos os juramentos,<br \/>\nsofriam, apesar de tudo, penas menores que aqueles hip\u00f3critas.<\/p>\n<p>&#8220;Os tr\u00eas juizes infernais assim o queriam, por esta raz\u00e3o:<br \/>\nos hip\u00f3critas n\u00e3o se contentam com ser maus como os demais \u00edmpios,<br \/>\npor\u00e9m querem passar por bons e concorrem por sua falsa virtude para<br \/>\na descren\u00e7a e corrup\u00e7\u00e3o da verdade. Os deuses, por eles<br \/>\nzombados e desprezados perante os homens, empregam com prazer todo o seu poderio<br \/>\npara se vingarem de tais insultos.<\/p>\n<p>&#8220;Perto destes, outros homens aparecem, que vulgarmente se julgam isentos<br \/>\nde culpa, mas que os deuses perseguem desapiedadamente: s\u00e3o os ingratos,<br \/>\nos mentirosos, os aduladores que louvaram o v\u00edcio, os cr\u00edticos<br \/>\nperversos que procuraram enodoar a mais pura virtude; enfim aqueles que, julgando<br \/>\ntemerariamente das coisas, sem as conhecer a fundo, prejudicaram por isso<br \/>\na reputa\u00e7\u00e3o dos inocentes.<\/p>\n<p>&#8220;Tel\u00eamaco, vendo os tr\u00eas juizes sentados a condenarem um<br \/>\nhomem, ousou perguntar-lhes quais os seus crimes. O condenado, tomando a palavra,<br \/>\nde pronto ex-clamava: Nunca fiz mal algum; todo o meu prazer era praticar<br \/>\no bem: fui sempre generoso, justo, liberal e compassivo; que se pode, pois,<br \/>\nexprobrar-me?<\/p>\n<p>&#8220;Minos ent\u00e3o lhe disse: Nenhuma acusa\u00e7\u00e3o se te<br \/>\nfaz quanto aos homens, por\u00e9m a estes menos n\u00e3o devias que aos<br \/>\ndeuses? Que justi\u00e7a, pois, \u00e9 essa de que te vanglorias? Para<br \/>\ncom os homens, que nada s\u00e3o, n\u00e3o faltaste jamais a qualquer<br \/>\ndever; foste virtuoso, \u00e9 certo, mas s\u00f3 atribu\u00edste essa<br \/>\nvirtude a ti pr\u00f3prio, esquecendo os deuses que ta deram, tudo porque<br \/>\nquerias gozar do fruto da tua virtude encerrado em ti mesmo: foste a tua divindade.<br \/>\nMas os deuses, que tudo fizeram, e o fizeram para si, n\u00e3o podem renunciar<br \/>\naos seus direitos; e, pois que quiseste pertencer-te e n\u00e3o a eles,<br \/>\nentregar-te-\u00e3o a ti mesmo, esquecidos de ti como deles te esqueceste.<br \/>\nProcura agora, se podes, o consolo em teu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEis-te agora para sempre separado dos homens, aos quais querias agradar; eis-te<br \/>\ns\u00f3 contigo, tu que eras o teu \u00eddolo: fica sabendo que n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 verdadeira virtude sem respeito e amor aos deuses, a quem tudo \u00e9<br \/>\ndevido. A tua falsa virtude, que por muitos anos deslumbrou os ing\u00eanuos,<br \/>\nvai ser confundida. N\u00e3o julgando os homens o v\u00edcio e a virtude<br \/>\nsen\u00e3o pelo que lhes agrada ou os incomoda, s\u00e3o cegos quanto<br \/>\nao bem e quanto ao mal. Aqui, uma luz divina derroga seus julgamentos artificiais,<br \/>\ncondenando muita vez o que eles admiram, e outras vezes justificando o que<br \/>\ncondenam.<\/p>\n<p>&#8220;A estas palavras, o fil\u00f3sofo, como que ferido por um raio, mal<br \/>\npodia suster-se. O deleite que tivera outrora em rever a sua modera\u00e7\u00e3o,<br \/>\na coragem, as inclina\u00e7\u00f5es generosas, transformavam-se em desespero.<br \/>\nA vis\u00e3o do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o inimigo dos deuses<br \/>\npromove-lhe supl\u00edcios; v\u00ea, e n\u00e3o pode deixar de se ver;<br \/>\nv\u00ea a vaidade dos preconceitos humanos, aos quais buscava lisonjear em<br \/>\ntodas as suas a\u00e7\u00f5es. Opera-se uma revolu\u00e7\u00e3o radical<br \/>\nem todo o seu \u00edntimo, como se lhe revolvessem todas as entranhas; reconhece-se<br \/>\noutro; n\u00e3o encontra apoio no cora\u00e7\u00e3o; a consci\u00eancia,<br \/>\ncujo testemunho t\u00e3o agrad\u00e1vel lhe fora, revolta-se contra ele,<br \/>\nincriminando-lhe amargamente o desvario, a ilus\u00e3o de todas as suas<br \/>\nvirtudes, que n\u00e3o tiveram por princ\u00edpio e por fim o culto da<br \/>\nDivindade, e ei-lo perturbado, consternado, preso da vergonha, do remorso,<br \/>\ndo desespero. As F\u00farias n\u00e3o o atormentam, bastando-lhes o terem-na<br \/>\nentregado a si pr\u00f3prio, para que expie pelo cora\u00e7\u00e3o a<br \/>\nvingan\u00e7a dos deuses desprezados.<\/p>\n<p>&#8220;Procurando a treva n\u00e3o pode encontr\u00e1-la, porquanto inoportuna<br \/>\nluz o segue por toda parte; de todos os lados os raios penetrantes da verdade<br \/>\nvingam a verdade que ele desdenhou seguir. Tudo que amava se lhe torna odioso<br \/>\ncomo fonte dos seus males infind\u00e1veis. Murmura consigo: \u00d5 insensato!<br \/>\nn\u00e3o conheci, pois, nem os deuses, nem os homens, nem a mim mesmo, porque<br \/>\njamais amei o verdadeiro e \u00fanico bem; todos os meus passos foram tresloucados;<br \/>\na minha sabedoria n\u00e3o passava de loucura; a minha virtude mais n\u00e3o<br \/>\nera que o orgulho impiedoso e cego: &#8211; eu era enfim o meu \u00eddolo!<\/p>\n<p>&#8220;Finalmente reconheceu Tel\u00eamaco os reis condenados por abuso de<br \/>\npoder. De um lado, vingadora F\u00faria apresentava-lhes um espelho a refletir<br \/>\na monstruosidade dos seus v\u00edcios: a\u00ed viam, sem poder desviar<br \/>\nos olhos, a vaidade grosseira e \u00e1vida de rid\u00edculos louvores;<br \/>\na crueldade para com aqueles a quem deveriam ter feito felizes; o temor da<br \/>\nverdade, a insensibilidade para com as virtudes, a predile\u00e7\u00e3o<br \/>\npelos cobardes e aduladores, a falta de aplica\u00e7\u00e3o, a in\u00e9rcia,<br \/>\na indol\u00eancia; a desconfian\u00e7a ilimitada; o fausto e a magnific\u00eancia<br \/>\nexcessivos calcados sobre a ru\u00edna dos povos; a ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde gl\u00f3rias v\u00e1s \u00e0 custa do sangue dos concidad\u00e3os;<br \/>\na fereza, enfim, que procura a cada dia novas del\u00edcias nas l\u00e1grimas<br \/>\ne no desespero de tantos infelizes. Esses reis reviam-se constantemente nesse<br \/>\nespelho, achando-se mais monstruosos e horrendos que a pr\u00f3pria Quimera<br \/>\nvencida por Belerofonte, que a Hidra de Lerna abatida por H\u00e9rcules<br \/>\ne que C\u00e9rbero vomitando por suas tr\u00eas goelas um sangue negro<br \/>\ne venenoso, capaz de empestar todas as ra\u00e7as de mortais que vivem sobre<br \/>\na Terra.<\/p>\n<p>&#8220;De outro lado, outra F\u00faria lhes repetia injuriosamente todos<br \/>\nos louvores que os lisonjeiros lhes dispensavam em vida e mostrava-lhes ainda<br \/>\noutro espelho em que se viam tais como a lisonja os pintara. Da ant\u00edtese<br \/>\ndos dois quadros brotava o supl\u00edcio do amor-pr\u00f3prio. Era para<br \/>\nnotar que os piores dentre esses reis, foram os que tiveram maiores e mais<br \/>\nfulgentes louvores durante a vida, por isso que os maus s\u00e3o mais temidos<br \/>\nque os bons e exigem impudicamente as vis adula\u00e7\u00f5es dos poetas<br \/>\ne oradores do seu tempo.<\/p>\n<p>&#8220;Na profundeza dessas trevas, onde s\u00f3 insultos e esc\u00e1rnios<br \/>\npadecem, ouvem-se- lhes os gemidos agoniados. Nada os cerca que os n\u00e3o<br \/>\nrepila, contradiga e confunda em contraste ao que supunham na vida, zombando<br \/>\ndos homens, convictos de que tudo era feito para servi-los. No T\u00e1rtaro,<br \/>\nentregues a todos os caprichos de certos escravos, estes lhes fazem provar<br \/>\npor sua vez a mais cruel servid\u00e3o; humilhados dolorosamente, n\u00e3o<br \/>\nlhes resta esperan\u00e7a alguma de modificar ou abrandar o cativeiro. Qual<br \/>\nbigorna sob as marteladas dos Ciclopes, quando Vulcano os acoro\u00e7oa<br \/>\nnas fornalhas incandescentes do Monte Etna, assim permanecem, merc\u00ea<br \/>\ndas pancadas desses escravos transformados em verdugos.<\/p>\n<p>&#8220;A\u00ed viu Tel\u00eamaco p\u00e1lidos semblantes, hediondos e<br \/>\nconsternados. Negra tristeza essa que consome estes criminosos, horrorizados<br \/>\nde si pr\u00f3prios, sem poderem dela despojar-se como da pr\u00f3pria<br \/>\nnatureza; n\u00e3o t\u00eam outro castigo \u00e0s suas faltas que n\u00e3o<br \/>\nas mesmas faltas; v\u00eaem-se incessantemente na plenitude da sua enormidade,<br \/>\napresentando-se-lhes sob a forma de espectros horr\u00edveis que os perseguem.<br \/>\nProcurando eximir-se a essa persegui\u00e7\u00e3o, buscam morte mais potente<br \/>\ndo que a que os separou do corpo. Desesperados, invocam uma morte capaz de<br \/>\nextinguir-lhes a consci\u00eancia: pedem aos abismos que os absorvam, a fim<br \/>\nde se furtarem aos raios vingadores da verdade que os atormenta, mas continuam<br \/>\nvotados \u00e0 vingan\u00e7a que sobre eles destila gota a gota e que<br \/>\njamais estancar\u00e1. A verdade que temem ver constitui-se em supl\u00edcio;<br \/>\nv\u00eaem-na, contudo, e s\u00f3 t\u00eam olhos para v\u00ea-la erguer-se<br \/>\ncontra eles, ferindo-os, despeda\u00e7ando-os, arrancando-os de si mesmos,<br \/>\ncomo o raio, sem nada destruir-lhes exteriormente, a penetrar-lhes o \u00e2mago<br \/>\ndas entranhas.<\/p>\n<p>&#8220;Entre os seres que lhe eri\u00e7avam os cabelos, viu Tel\u00eamaco<br \/>\nv\u00e1rios e antigos reis da L\u00eddia punidos por haverem preferido<br \/>\nao trabalho as del\u00edcias de uma vida inativa, quando aquele deve ser<br \/>\no consolo dos povos e, como tal, insepar\u00e1vel da realeza.<\/p>\n<p>&#8220;Estes reis lastimavam-se reciprocamente a cegueira. Dizia um a outro,<br \/>\nque fora seu filho: N\u00e3o vos tinha eu recomendado tantas vezes durante<br \/>\na vida e ainda antes da morte que repar\u00e1sseis os males ocorridos por<br \/>\nneglig\u00eancia minha? &#8211; Ah! desgra\u00e7ado pai! &#8211; dizia o filho -, fostes<br \/>\nv\u00f3s que me perdestes! foi o vosso exemplo que me inspirou o fausto,<br \/>\no orgulho, a voluptuosidade e a crueldade para com os homens! Vendo-vos governar<br \/>\ncom tanta inc\u00faria, cercado de aduladores infames, habituei-me a prezar<br \/>\na lisonja e os prazeres.<\/p>\n<p>&#8220;Acreditei que os homens eram para os reis o que os cavalos e outros<br \/>\nanimais de carga s\u00e3o para aqueles, isto \u00e9, animais que s\u00f3<br \/>\nse consideram enquanto proporcionam servi\u00e7os e comodidades.<\/p>\n<p>&#8220;Acreditei-o, e fostes v\u00f3s que mo fizestes crer&#8230; sofrendo agora<br \/>\ntantos males por vos haver imitado. A estas recrimina\u00e7\u00f5es aliavam<br \/>\nas mais acerbas blasf\u00eamias, como que possu\u00eddos de raiva bastante<br \/>\npara se despeda\u00e7arem mutuamente. Quais not\u00edvagos mochos, em<br \/>\ntorno desses reis corvejavam as suspeitas cru\u00e9is, os v\u00e3os receios<br \/>\ne desconfian\u00e7as. que vingam os povos da fereza de seus reis, a gan\u00e2ncia<br \/>\ninsaci\u00e1vel das riquezas, a falsa gl\u00f3ria sempre tir\u00e2nica<br \/>\ne a moleza displicente que duplica os sofrimentos sem a compensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde s\u00f3lidos prazeres. Viam-se muitos desses reis severamente punidos,<br \/>\nn\u00e3o por males que tivessem feito, mas por terem negligenciado o bem<br \/>\nque poderiam e deveriam fazer. Todos os crimes dos povos, provenientes da<br \/>\ndes\u00eddia na observ\u00e2ncia das leis, eram imputados aos reis, que<br \/>\nn\u00e3o devem reinar sen\u00e3o para que as leis exer\u00e7am seu minist\u00e9rio.<br \/>\nImputavam-se-lhes tamb\u00e9m todas as desordens decorrentes do fausto,<br \/>\ndo luxo e dos demais excessos que impelem os homens \u00e0 viol\u00eancia,<br \/>\ninstigando-os \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de bens com o desprezo das<br \/>\nleis. Sobretudo recaia o rigor sobre os reis que, ao inv\u00e9s de serem<br \/>\nbons e vigilantes pastores dos povos, s\u00f3 cuidavam de devastar o rebanho,<br \/>\nquais lobos devoradores.<\/p>\n<p>&#8220;O que mais entristeceu Tel\u00eamaco, por\u00e9m, foi ver nesse<br \/>\nabismo de trevas e males um grande n\u00famero de reis que, tendo passado<br \/>\nna Terra pelos melhores, condenaram-se \u00e0s penas do T\u00e1rtaro por<br \/>\nse terem deixado guiar por homens ardilosos e maus. Tal puni\u00e7\u00e3o<br \/>\ncorrespondia aos males que tinham deixado praticar em nome da sua autoridade.<br \/>\nDemais, a maior parte desses reis n\u00e3o foram nem bons nem maus, tal<br \/>\na sua fraqueza; n\u00e3o os atemorizava a ignor\u00e2ncia da verdade, e<br \/>\nassim como nunca experimentaram o prazer da virtude, jamais poderiam faz\u00ea-lo<br \/>\nconsistir na pr\u00e1tica do bem.&#8221;<\/p>\n<p>Esbo\u00e7o do inferno crist\u00e3o<br \/>\n11. &#8211; A opini\u00e3o dos te\u00f3logos sobre o inferno resume-se nas seguintes<br \/>\ncita\u00e7\u00f5es (1). Esta descri\u00e7\u00e3o, sendo tomada dos<br \/>\nautores sagrados e da vida dos santos, pode tanto melhor ser considerada como<br \/>\nexpress\u00e3o da f\u00e9 ortodoxa na mat\u00e9ria, quanto \u00e9<br \/>\nela reproduzida a cada instante, com pequenas variantes, nos serm\u00f5es<br \/>\ndo p\u00falpito evang\u00e9lico e nas instru\u00e7\u00f5es pastorais.<\/p>\n<p>(1) Estas cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o tiradas da obra intitulada O<br \/>\nInferno, de Augusto Callet.<\/p>\n<p>12. &#8220;Os dem\u00f4nios s\u00e3o puros Esp\u00edritos, e os condenados,<br \/>\npresentemente no inferno, podem ser considerados puros Esp\u00edritos, uma<br \/>\nvez que s\u00f3 a alma a\u00ed desce, e os restos entregues \u00e0 terra<br \/>\nse transformam em ervas, em plantas, em minerais e l\u00edquidos, sofrendo<br \/>\ninconscientemente as metamorfoses constantes da mat\u00e9ria. Os condenados,<br \/>\npor\u00e9m, como os santos, devem ressuscitar no dia do ju\u00edzo final,<br \/>\nretomando, para n\u00e3o mais deix\u00e1-los, os mesmos corpos carnais<br \/>\nque os revestiam na vida. Os eleitos ressuscitar\u00e3o, contudo, em corpos<br \/>\npurificados e resplendentes, e os condenados em corpos maculados e desfigurados<br \/>\npelo pecado. Isso os distinguir\u00e1, n\u00e3o havendo mais no inferno<br \/>\npuros Esp\u00edritos, por\u00e9m homens como n\u00f3s. Conseguintemente,<br \/>\no inferno \u00e9 um lugar f\u00edsico, geogr\u00e1fico, material, uma<br \/>\nvez que tem de ser povoado por criaturas terrestres, dotadas de p\u00e9s,<br \/>\nm\u00e3os, boca, l\u00edngua, dentes, ouvidos, olhos semelhantes aos nossos,<br \/>\nsangue nas veias e nervos sens\u00edveis.<\/p>\n<p>Onde estar\u00e1 esse inferno? Alguns doutores o t\u00eam colocado nas<br \/>\nentranhas mesmas do nosso globo; outros n\u00e3o sabemos em que planeta,<br \/>\nsem que o problema se haja resolvido por qualquer conc\u00edlio. Estamos,<br \/>\npois, quanto a este ponto, reduzidos a conjeturas; a \u00fanica coisa afirmada<br \/>\n\u00e9 que esse inferno, onde quer que exista, \u00e9 um mundo composto<br \/>\nde elementos materiais, conquanto sem Sol, sem estrelas, sem Lua, mais triste<br \/>\ne in\u00f3spito, desprovido de todo g\u00e9rmen e das apar\u00eancias<br \/>\nben\u00e9ficas que porventura se encontram ainda nas regi\u00f5es mais<br \/>\n\u00e1ridas deste mundo em que pecamos.<\/p>\n<p>Os te\u00f3logos mais circunspectos n\u00e3o se atrevem, \u00e0 semelhan\u00e7a<br \/>\ndos eg\u00edpcios, dos hindus e dos gregos, a descrever os horrores dessa<br \/>\nmorada, limitando-se a no-la mostrar como premissas no pouco que dela fala<br \/>\na Escritura, o lago de fogo e enxofre do Apocalipse e os vermes de Isa\u00edas,<br \/>\nesses vermes que formigam eternamente sobre os cad\u00e1veres do Tofel,<br \/>\ne os dem\u00f4nios atormentando os homens aos quais eles perderam, e os homens<br \/>\na chorarem, rangendo os dentes, segundo a express\u00e3o dos evangelistas.<\/p>\n<p>&#8220;Santo Agostinho n\u00e3o concorda que esses sofrimentos f\u00edsicos<br \/>\nsejam apenas reflexos de sofrimentos morais e v\u00ea, num verdadeiro lago<br \/>\nde enxofre, vermes e verdadeiras serpentes saciando-se nos corpos, casando<br \/>\nsuas picadas \u00e0s do fogo. Ele pretende mais, segundo um vers\u00edculo<br \/>\nde S. Marcos, que esse fogo estranho, posto que material como o nosso e atuando<br \/>\nsobre corpos materiais, os conservar\u00e1 como o sal conserva o corpo das<br \/>\nv\u00edtimas. Os condenados, vitimas sempre sacrificadas e sempre vivas,<br \/>\nsentir\u00e3o a tortura desse fogo que queima sem destruir, penetrando-lhes<br \/>\na pele; ser\u00e3o dele embebidos e saturados em todos os seus membros,<br \/>\nna medula dos ossos, na pupila dos olhos, nas mais rec\u00f4nditas e sens\u00edveis<br \/>\nfibras do seu ser. A cratera de um vulc\u00e3o, se a\u00ed pudessem submergir,<br \/>\nser-lhes-ia lugar de refrig\u00e9rio e repouso.<\/p>\n<p>Assim falam com toda a seguran\u00e7a os te\u00f3logos mais t\u00edmidos,<br \/>\ndiscretos e comedidos; n\u00e3o negam que haja no inferno outros supl\u00edcios<br \/>\ncorporais, mas dizem que para afirm\u00e1-lo lhes falta suficiente conhecimento,<br \/>\npelo menos t\u00e3o positivo como o que lhes foi dado sobre o supl\u00edcio<br \/>\nhorr\u00edvel do fogo e dos vermes. H\u00e1, contudo, te\u00f3logos<br \/>\nmais ousados ou mais esclarecidos que d\u00e3o do inferno descri\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais minuciosas, variadas e completas. E conquanto se n\u00e3o saiba em<br \/>\nque lugar do Espa\u00e7o est\u00e1 situado esse inferno, h\u00e1 santos<br \/>\nque o viram. Eles n\u00e3o foram l\u00e1 ter com a lira na m\u00e3o,<br \/>\ncomo Orfeu; de espada em punho, como Ulisses, mas transportados em esp\u00edrito.<\/p>\n<p>&#8220;Desse n\u00famero \u00e9 Santa Teresa. Dir-se-ia, pela narrativa<br \/>\nda santa, que h\u00e1 uma cidade no inferno: &#8211; ela a\u00ed viu, pelo menos,<br \/>\numa esp\u00e9cie de viela comprida e estreita como essas que abundam em<br \/>\nvelhas cidades, e percorreu-a horrorizada, caminhando sobre lodoso e f\u00e9tido<br \/>\nterreno, no qual pululavam monstruosos reptis. Foi, por\u00e9m, detida em<br \/>\nsua marcha por uma muralha que interceptava a viela, em cuja muralha havia<br \/>\num nicho onde se abrigou, ali\u00e1s sem poder explicar a ocorr\u00eancia.<br \/>\nEra, diz ela, o lugar que lhe destinavam se abusasse, em vida, das gra\u00e7as<br \/>\nconcedidas por Deus em sua cela de \u00c1vila.<\/p>\n<p>&#8220;Apesar da facilidade maravilhosa que tivera em penetrar esse nicho,<br \/>\nn\u00e3o podia sentar-se, ou deitar-se, nem manter-se de p\u00e9. Tampouco<br \/>\npodia sair. Essas paredes horr\u00edveis, abaixando-se sobre ela, envolviam-na,<br \/>\napertavam-na como se fossem animadas de movimento pr\u00f3prio. Parecia-lhe<br \/>\nque a afogavam, estrangulando-a, ao mesmo tempo que a esfolavam e retalhavam<br \/>\nem peda\u00e7os. Ao sentir queimar-se, experimentou, igualmente, toda a<br \/>\nsorte de ang\u00fastias.<\/p>\n<p>&#8220;Sem esperan\u00e7a de socorro, tudo era trevas em torno de si, posto<br \/>\nque atrav\u00e9s dessas trevas percebesse, n\u00e3o sem pavor, a hedionda<br \/>\nviela em que se achava, com a sua imunda vizinhan\u00e7a. Este espet\u00e1culo<br \/>\nera-lhe t\u00e3o intoler\u00e1vel quanto os apertos mesmos da pris\u00e3o.<br \/>\n(1)<\/p>\n<p>(1) Nesta vis\u00e3o se reconhecem todos os caracteres dos pesadelos, sendo<br \/>\nprov\u00e1vel que fosse deste g\u00eanero de fen\u00f4menos o acontecido<br \/>\na Santa Teresa.<\/p>\n<p>&#8220;Esse n\u00e3o era, sem d\u00favida, mais que um pequeno recanto<br \/>\ndo inferno. Outros viajantes espirituais foram mais favorecidos, pois viram<br \/>\ngrandes cidades no inferno, quais enormes braseiros: Babil\u00f4nia e N\u00ednive,<br \/>\na pr\u00f3pria Roma, com seus pal\u00e1cios e templos abrasados, acorrentados<br \/>\ntodos os habitantes.<\/p>\n<p>&#8220;Traficantes em seus balc\u00f5es, sacerdotes reunidos a cortes\u00e3os<br \/>\nem salas de festim, chumbados \u00e0s cadeiras ululantes, levando aos l\u00e1bios<br \/>\nrubras ta\u00e7as chamejantes. Criados genuflexos em ferventes cloacas,<br \/>\nbra\u00e7os distendidos, e pr\u00edncipes de cujas m\u00e3os escorria<br \/>\nem lava devoradora o ouro derretido. Outros viram no inferno plan\u00edcies<br \/>\nsem-fim, cultivadas por camponeses famintos, que, nada colhendo desses campos<br \/>\nfumegantes, dessas sementes est\u00e9reis, se entredevoravam, dispersando-se<br \/>\nem seguida, t\u00e3o numerosos como dantes, magros, vorazes e em bando,<br \/>\nindo procurar ao longe, em v\u00e3o, terras mais felizes. Outras col\u00f4nias<br \/>\nerrantes de condenados os substitu\u00edam imediatamente. Ainda outros relatam<br \/>\nque viram no inferno montanhas in\u00e7adas de precip\u00edcios, florestas<br \/>\ngemebundas, po\u00e7os secos, fontes alimentadas de l\u00e1grimas, ribeiros<br \/>\nde sangue, turbilh\u00f5es de neve em desertos de gelo, barcas tripuladas<br \/>\npor desesperados, singrando mares sem praia. Viram, em uma palavra, tudo o<br \/>\nque viam os pag\u00e3os: um l\u00fagubre rev\u00e9rbero da Terra com<br \/>\nos respectivos sofrimentos naturais eternizados, e at\u00e9 calabou\u00e7os,<br \/>\npat\u00edbulos e instrumentos de tortura forjados por nossas pr\u00f3prias<br \/>\nm\u00e3os.<\/p>\n<p>H\u00e1, com efeito, dem\u00f4nios que, para melhor atormentarem os homens<br \/>\nem seus corpos, tomam corpos. Uns t\u00eam asas de morcegos, cornos, coura\u00e7as<br \/>\nde escama, patas armadas de garras, dentes agudos, apresentando-se-nos armados<br \/>\nde espadas, tenazes, pin\u00e7as, serras, grelhas, foles, tudo ardente,<br \/>\nn\u00e3o exercendo outro of\u00edcio por toda a eternidade, em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 carne humana, que n\u00e3o o de carniceiros e cozinheiros; outros,<br \/>\ntransformados em le\u00f5es ou v\u00edboras enormes, arrastam suas presas<br \/>\npara cavernas solit\u00e1rias; estes se transformam em corvos para arrancar<br \/>\nos olhos a certos culpados, e aqueles em drag\u00f5es volantes, prontos<br \/>\na se lan\u00e7arem sobre o dorso das v\u00edtimas, arrebatando-as assustadi\u00e7as,<br \/>\nensang\u00fcentadas, aos gritos, atrav\u00e9s de espa\u00e7os tenebrosos,<br \/>\npara arremess\u00e1-las alfim em tanques de enxofre. Aqui, nuvens de gafanhotos,<br \/>\nde escorpi\u00f5es gigantescos, cuja vista produz n\u00e1useas e calafrios,<br \/>\ne o contacto, convuls\u00f5es; al\u00e9m, monstros polic\u00e9falos,<br \/>\nescancarando goelas vorazes, a sacudirem sobre as disformes cabe\u00e7as<br \/>\nas suas crinas de \u00e1spides, a triturarem condenados com sangrentas mand\u00edbulas<br \/>\npara vomit\u00e1-los mastigados, por\u00e9m vivos, porque s\u00e3o imortais.<\/p>\n<p>&#8220;Estes dem\u00f4nios de formas sens\u00edveis, que lembram t\u00e3o<br \/>\nvisivelmente os deuses do Amenti e do T\u00e1rtaro, bem como os \u00eddolos<br \/>\nadorados pelos fen\u00edcios, moabitas e outros gentios vizinhos da Jud\u00e9ia,<br \/>\nesses dem\u00f4nios n\u00e3o obram ao acaso, tendo cada um a sua fun\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO mal que praticam no inferno est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao mal<br \/>\nque inspiraram e fizeram cometer na Terra (1). Os condenados s\u00e3o punidos<br \/>\nem todos os seus \u00f3rg\u00e3os e sentidos, porque tamb\u00e9m a Deus<br \/>\nofenderam por todos os \u00f3rg\u00e3os e sentidos. Os delinq\u00fcentes<br \/>\nde gula s\u00e3o castigados pelos dem\u00f4nios da glutonaria, os pregui\u00e7osos<br \/>\npelos da pregui\u00e7a, os luxuriosos pelos da devassid\u00e3o, e assim<br \/>\npor diante, numa variedade t\u00e3o grande como a dos pecados. Ter\u00e3o<br \/>\nfrio, queimando-se, e calor, enregelados, \u00e1vidos igualmente de movimento<br \/>\ne de repouso; sedentos e famintos; mil vezes mais fatigados que escravo ao<br \/>\nfim do dia, mais doentes que os moribundos, mais alquebrados e chaguentos<br \/>\nque os m\u00e1rtires, e isso para sempre.<\/p>\n<p>1) Singular puni\u00e7\u00e3o, na verdade, esta de poder continuar em<br \/>\nmaior escala a pratica de mal menor feito na Terra. Mais racional seria o<br \/>\nsofrerem os pr\u00f3prios malfeitores as conseq\u00fc\u00eancias desse<br \/>\nmal, em lugar de se darem ao prazer de proporcion\u00e1-lo a outrem. .<\/p>\n<p>&#8220;Dem\u00f4nio algum se furta, nem se furtar\u00e1 jamais ao desempenho<br \/>\nsinistro da sua tarefa, perfeitamente disciplinados e fi\u00e9is, quanto<br \/>\n\u00e0 execu\u00e7\u00e3o das vingativas ordens que receberam. Ali\u00e1s,<br \/>\nsem isso que seria o inferno? Repousariam os pacientes se os algozes altercassem<br \/>\nou se enfadassem. Mas, nada de repouso nem disputas para quaisquer deles,<br \/>\npois apesar de maus e inumer\u00e1veis que s\u00e3o, estendendo-se de<br \/>\num a outro extremo do abismo, nunca se viu sobre a Terra s\u00faditos mais<br \/>\nd\u00f3ceis a seus pr\u00edncipes, ex\u00e9rcitos mais obedientes aos<br \/>\nchefes ou comunidades mon\u00e1sticas mais humildes e submissas aos seus<br \/>\nsuperiores. (1)<\/p>\n<p>(1) Esses mesmos dem\u00f4nios rebeldes a Deus quanto ao bem, s\u00e3o<br \/>\nde uma docilidade exemplar quanto \u00e0 pratica do mal. Nenhum se esquiva<br \/>\nou afrouxa durante a eternidade. Que singular metamorfose em quem fora criado<br \/>\npuro e perfeito como os anjos! N\u00e3o \u00e9 de pasmar v\u00ea-los<br \/>\ndar exemplos de harmonia, de conc\u00f3rdia inalter\u00e1vel quando os<br \/>\nhomens sequer n\u00e3o sabem viver em paz na Terra, antes se laceram mutuamente?<br \/>\nVendo-se o requinte dos castigos reservados aos condenados e comparando sua<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o \u00e0 dos dem\u00f4nios, \u00e9 caso de perguntar<br \/>\nquais os mais dignos de l\u00e1stima &#8211; se as v\u00edtimas ou os algozes.<\/p>\n<p>&#8220;Quase nada se conhece da ral\u00e9 demon\u00edaca, desses vis Esp\u00edritos<br \/>\nque comp\u00f5em as legi\u00f5es de vampiros, sapos, escorpi\u00f5es,<br \/>\ncorvos, hidras, salamandras e outros animais sem-nome; conhecem-se, porem,<br \/>\nos nomes de muitos dos pr\u00edncipes que comandam tais legi\u00f5es,<br \/>\nentre os quais Belfegor, o dem\u00f4nio da lux\u00faria; Abadon ou Apolion,<br \/>\ndo homic\u00eddio; Belzebu, dos desejos impuros, ou senhor das moscas que<br \/>\nengendram a corrup\u00e7\u00e3o; Mamon, da avareza; Moloc, Belial, Baalgad,<br \/>\nAstarot e muitos outros, sem falar do seu chefe supremo, o sombrio arcanjo<br \/>\nque no c\u00e9u se chamava L\u00facifer e no inferno se chama Satan\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8220;Eis a\u00ed resumida a id\u00e9ia que nos d\u00e3o do inferno,<br \/>\nsob o ponto de vista da sua natureza f\u00edsica e tamb\u00e9m das penas<br \/>\nf\u00edsicas que a\u00ed sofrem. Compulsai os escritos dos padres e dos<br \/>\nantigos doutores; interrogai as pias legendas; observai as esculturas e pain\u00e9is<br \/>\ndas nossas igrejas; atentai no que dizem dos p\u00falpitos e sabereis ainda<br \/>\nmais.&#8221;<\/p>\n<p>13. O Autor acompanha esse quadro das seguintes reflex\u00f5es, cujo alcance<br \/>\nprocuraremos cada qual compreender:<\/p>\n<p>&#8220;A ressurrei\u00e7\u00e3o dos corpos \u00e9 um milagre, mas Deus<br \/>\nfaz ainda um segundo milagre, dando a esses corpos mortais &#8211; j\u00e1 uma<br \/>\nvez usados pelas passageiras provas da vida, j\u00e1 uma vez aniquilados<br \/>\n&#8211; a virtude de subsistirem sem se dissolverem numa fornalha, onde se volatilizariam<br \/>\nos pr\u00f3prios metais. Que se diga que a alma \u00e9 o seu pr\u00f3prio<br \/>\nalgoz, que Deus n\u00e3o a persegue e apenas a abandona no estado infeliz<br \/>\npor ela escolhido (conquanto esse abandono eterno de um ser desgra\u00e7ado<br \/>\ne sofredor pare\u00e7a incompat\u00edvel com a bondade divina), v\u00e1;<br \/>\nmas o que se diz da alma e das penas espirituais, n\u00e3o se pode de modo<br \/>\nalgum dizer dos corpos e das respectivas penas, para perpetua\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas quais j\u00e1 n\u00e3o basta que Deus se conserve impass\u00edvel,<br \/>\nmas, ao contr\u00e1rio, que intervenha e atue, sem o que sucumbiriam os<br \/>\ncorpos.<\/p>\n<p>&#8220;Os te\u00f3logos sup\u00f5em, portanto, que Deus opera, efetivamente,<br \/>\nap\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o dos corpos, esse segundo milagre<br \/>\nde que falamos. Que em primeiro lugar tira dos sepulcros, que os devoravam,<br \/>\nos nossos corpos de barro; retira-os tais como a\u00ed baixaram com suas<br \/>\nenfermidades originais e degrada\u00e7\u00f5es sucessivas da idade; restitui-nos<br \/>\na esse estado, decr\u00e9pitos, friorentos, gotosos, cheios de necessidades,<br \/>\nsens\u00edveis a uma picada de abelha, assinalados dos estragos da vida<br \/>\ne da morte, e est\u00e1 feito o primeiro milagre; depois, a esses corpos<br \/>\nraqu\u00edticos, prontos a voltarem ao p\u00f3 donde sa\u00edram, outorga<br \/>\npropriedades que nunca tiveram &#8211; a imortalidade, esse dom que, em sua c\u00f3lera<br \/>\n(dizei antes em sua miseric\u00f3rdia), retirara a Ad\u00e3o ao sair do<br \/>\n\u00c9den &#8211; e eis completo o segundo milagre. Ad\u00e3o, quando imortal,<br \/>\nera invulner\u00e1vel, e deixando de ser invulner\u00e1vel tornou-se mortal;<br \/>\na morte seguia de perto a dor. A ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos<br \/>\nrestabelece, pois, nem nas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas do homem<br \/>\ninocente, nem nas do culpado, sendo antes uma ressurrei\u00e7\u00e3o das<br \/>\nnossas mis\u00e9rias somente, mas com um acr\u00e9scimo de mis\u00e9rias<br \/>\nnovas, infinitamente mais horr\u00edveis.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9, de alguma sorte, uma verdadeira cria\u00e7\u00e3o, e<br \/>\na mais maliciosa que a imagina\u00e7\u00e3o tenha, porventura, ousado<br \/>\nconceber. Deus muda de parecer, e, para ajuntar aos tormentos espirituais<br \/>\ndos pecadores tormentos carnais que possam durar eternamente, transforma de<br \/>\ns\u00fabito, por efeito do seu poder, as leis e propriedades por Ele mesmo<br \/>\nestabelecidas de princ\u00edpio aos compostos materiais, ressuscita carnes<br \/>\nenfermas e corrompidas e, reunindo por um n\u00f3 indestrut\u00edvel esses<br \/>\nelementos que tendem por si mesmos a separar-se, mant\u00e9m e perpetua,<br \/>\ncontra a ordem natural, essa podrid\u00e3o viva, lan\u00e7ando-a ao fogo,<br \/>\nn\u00e3o para purific\u00e1-la, mas para conserv\u00e1-la tal qual \u00e9,<br \/>\nsens\u00edvel, sofredora, ardente, horr\u00edvel e como a quer &#8211; imortal.<br \/>\nPor este milagre se arvora Deus num dos algozes infernais, pois se os condenados<br \/>\ns\u00f3 a si podem atribuir seus males espirituais, em compensa\u00e7\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 a Deus poder\u00e3o imputar os outros.<\/p>\n<p>&#8220;Era pouco aparentemente o abandono, depois da morte, \u00e0 tristeza,<br \/>\nao arrependimento, \u00e0s ang\u00fastias de uma alma que sente perdido<br \/>\no bem supremo. Segundo os te\u00f3logos, Deus ir\u00e1 busc\u00e1-las<br \/>\nnessa noite, ao fundo desse abismo, chamando-as momentaneamente \u00e0 vida,<br \/>\nn\u00e3o para as consolar, mas para as revestir de um corpo horrendo, chamejante,<br \/>\nimperec\u00edvel, mais empestado que a t\u00fanica de Dejanira, abandonando-as<br \/>\nent\u00e3o para sempre.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda assim Ele n\u00e3o as abandonar\u00e1 para sempre, em absoluto,<br \/>\nvisto como C\u00e9u e Terra n\u00e3o subsistem sen\u00e3o por ato permanente<br \/>\nda sua vontade sempre ativa. Deus ter\u00e1, portanto, sem cessar, esses<br \/>\ncondenados \u00e0 m\u00e3o, para impedir que o fogo se extinga em seus<br \/>\ncorpos, consumindo-os, e querendo que contribuam perenemente por seus perenes<br \/>\nsupl\u00edcios para edifica\u00e7\u00e3o dos escolhidos.&#8221;<\/p>\n<p>14. &#8211; Dissemos, e com raz\u00e3o, que o inferno dos crist\u00e3os excedera<br \/>\no dos pag\u00e3os. Efetivamente, no T\u00e1rtaro v\u00eaem-se culpados<br \/>\ntorturados pelo remorso, ante suas v\u00edtimas e seus crimes, acabrunhados<br \/>\npor aqueles que espezinharam na vida terrestre; vemo-los fugirem \u00e0<br \/>\nluz que os penetra, procurando em v\u00e3o esconderem-se aos olhares que<br \/>\nos perseguem; a\u00ed o orgulho \u00e9 abatido e humilhado, trazendo todos<br \/>\no estigma do seu passado, punidos pelas pr\u00f3prias faltas, a ponto tal<br \/>\nque, para alguns, basta entreg\u00e1-los a si mesmos sem ser preciso aumentar-lhes<br \/>\nos castigos. Contudo, s\u00e3o sombras, isto \u00e9, almas com corpos<br \/>\nflu\u00eddicos, imagens da sua vida terrestre; l\u00e1 n\u00e3o se v\u00ea<br \/>\nos homens retomarem o corpo carnal para sofrer materialmente, com fogo a penetrar-lhes<br \/>\na pele, saturando-os at\u00e9 \u00e0 medula dos ossos. Tampouco se v\u00ea<br \/>\no requinte das torturas que constituem o fundo do inferno crist\u00e3o.<br \/>\nJuizes inflex\u00edveis, por\u00e9m justos, proferem a senten\u00e7a<br \/>\nproporcional ao delito, ao passo que no imp\u00e9rio de Sat\u00e3 s\u00e3o<br \/>\ntodos confundidos nas mesmas torturas, com a materialidade por base, e banida<br \/>\ntoda e qualquer equidade.<\/p>\n<p>Incontestavelmente, h\u00e1 hoje, no selo da Igreja mesma, muitos homens<br \/>\nsensatos que n\u00e3o admitem essas coisas \u00e0 risca, vendo nelas antes<br \/>\nsimples alegorias cujo sentido conv\u00e9m interpretar. Estas opini\u00f5es,<br \/>\nno entanto, s\u00e3o individuais e n\u00e3o fazem lei, continuando a cren\u00e7a<br \/>\nno inferno material, com suas conseq\u00fc\u00eancias, a constituir um artigo<br \/>\nde f\u00e9.<\/p>\n<p>15. &#8211; Poder\u00edamos perguntar como h\u00e1 homens que t\u00eam conseguido<br \/>\nver essas coisas em \u00eaxtase, se elas de fato n\u00e3o existem. N\u00e3o<br \/>\ncabe aqui explicar a origem das imagens fant\u00e1sticas, tantas vezes reproduzidas<br \/>\ncom visos de realidade. Diremos apenas ser preciso considerar, em principio,<br \/>\nque o \u00eaxtase \u00e9 a mais incerta de todas as revela\u00e7\u00f5es<br \/>\n(1), porquanto o estado de sobreexcita\u00e7\u00e3o nem sempre importa<br \/>\num desprendimento dalma t\u00e3o completo que se imponha \u00e0 cren\u00e7a<br \/>\nabsoluta, denotando muitas vezes o reflexo de preocupa\u00e7\u00f5es da<br \/>\nv\u00e9spera. As id\u00e9ias com que o Esp\u00edrito se nutre e das<br \/>\nquais o c\u00e9rebro, ou antes o inv\u00f3lucro perispiritual correspondente<br \/>\na este, conserva a forma ou a estampa, se reproduzem amplificadas como em<br \/>\numa miragem, sob formas vaporosas que se cruzam, se confundem e comp\u00f5em<br \/>\num todo extravagante. Os ext\u00e1ticos de todos os cultos sempre viram<br \/>\ncoisas em rela\u00e7\u00e3o com a f\u00e9 de que se presumem penetrados,<br \/>\nn\u00e3o sendo, pois, extraordin\u00e1rio que Santa Teresa e outros, tal<br \/>\nqual ela saturados de id\u00e9ias infernais pelas descri\u00e7\u00f5es,<br \/>\nverbais ou escritas, hajam tido vis\u00f5es, que n\u00e3o s\u00e3o,<br \/>\npropriamente falando, mais que reprodu\u00e7\u00f5es por efeito de um<br \/>\npesadelo. Um pag\u00e3o fan\u00e1tico teria antes visto o T\u00e1rtaro<br \/>\ne as F\u00farias, ou J\u00fapiter, no Olimpo, empunhando o raio.<\/p>\n<p>(1) O Livro dos Esp\u00edritos, n\u00bas 443 e 444<\/p>\n<h3><a id=\"5\" name=\"5\"><\/a>O Purgat\u00f3rio<\/h3>\n<p>1. &#8211; O Evangelho n\u00e3o faz men\u00e7\u00e3o alguma do purgat\u00f3rio,<br \/>\nque s\u00f3 foi admitido pela Igreja no ano de 593. \u00c9 incontestavelmente<br \/>\num dogma mais racional e mais conforme com a justi\u00e7a de Deus que o<br \/>\ninferno, porque estabelece penas menos rigorosas e resgat\u00e1veis para<br \/>\nas faltas de gravidade mediana.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio do purgat\u00f3rio \u00e9, pois, fundado na eq\u00fcidade,<br \/>\nporque, comparado \u00e0 justi\u00e7a humana, \u00e9 a deten\u00e7\u00e3o<br \/>\ntempor\u00e1ria a par da condena\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua. Que julgar<br \/>\nde um pa\u00eds que s\u00f3 tivesse a pena de morte para os crimes e os<br \/>\nsimples delitos?<\/p>\n<p>Sem o purgat\u00f3rio, s\u00f3 h\u00e1 para as almas duas alternativas<br \/>\nextremas: a suprema felicidade ou o eterno supl\u00edcio. E nessa hip\u00f3tese,<br \/>\nque seria das almas somente culpadas de ligeiras faltas? Ou compartilhariam<br \/>\nda felicidade dos eleitos, ainda quando imperfeitas, ou sofreriam o castigo<br \/>\ndos maiores criminosos, ainda quando n\u00e3o houvessem feito muito mal,<br \/>\no que n\u00e3o seria nem justo, nem racional.<\/p>\n<p>2. &#8211; Mas, necessariamente, a no\u00e7\u00e3o do purgat\u00f3rio deveria<br \/>\nser incompleta, porque apenas conhecendo a penalidade do fogo fizeram dele<br \/>\num inferno menos tenebroso, visto que as almas a\u00ed tamb\u00e9m ardem,<br \/>\nembora em fogo mais brando. Sendo o dogma das penas eternas incompat\u00edvel<br \/>\ncom o progresso, as almas do purgat\u00f3rio n\u00e3o se livram dele por<br \/>\nefeito do seu adiantamento, mas em virtude das preces que se dizem ou que<br \/>\nse mandam dizer em sua inten\u00e7\u00e3o. E se foi bom o primeiro pensamento,<br \/>\noutro tanto n\u00e3o acontece quanto \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\ndele decorrentes, pelos abusos que originaram. As preces pagas transformaram<br \/>\no purgat\u00f3rio em mina mais rendosa que o inferno. (1)<\/p>\n<p>(1) O purgat\u00f3rio originou o com\u00e9rcio escandaloso das indulg\u00eancias,<br \/>\npor interm\u00e9dio das quais se vende a entrada no c\u00e9u. Este abuso<br \/>\nfoi a causa primaria da Reforma, levando Lutero a rejeitar o purgat\u00f3rio.<\/p>\n<p>3. Jamais foram determinados e definidos claramente o lugar do purgat\u00f3rio<br \/>\ne a natureza das penas a\u00ed sofridas. A Nova Revela\u00e7\u00e3o<br \/>\nestava reservado o preenchimento dessa lacuna, explicando-nos a causa das<br \/>\nterrenas mis\u00e9rias da vida, das quais s\u00f3 a pluralidade das exist\u00eancias<br \/>\npoderia mostrar-nos a justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Essas mis\u00e9rias decorrem necessariamente das imperfei\u00e7\u00f5es<br \/>\nda alma, pois se esta fosse perfeita n\u00e3o cometeria faltas nem teria<br \/>\nde sofrer-lhe as conseq\u00fc\u00eancias. O homem que na Terra fosse em absoluto<br \/>\ns\u00f3brio e moderado, por exemplo, n\u00e3o padeceria enfermidades oriundas<br \/>\nde excessos.<\/p>\n<p>O mais das vezes ele \u00e9 desgra\u00e7ado por sua pr\u00f3pria culpa,<br \/>\npor\u00e9m, se \u00e9 imperfeito, \u00e9 porque j\u00e1 o era antes<br \/>\nde vir \u00e0 Terra, expiando n\u00e3o somente faltas atuais, mas faltas<br \/>\nanteriores n\u00e3o resgatadas. Repara em uma vida de prova\u00e7\u00f5es<br \/>\no que a outrem fez sofrer em anterior exist\u00eancia. As vicissitudes que<br \/>\nexperimenta s\u00e3o, por sua vez, uma corre\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria<br \/>\ne uma advert\u00eancia quanto \u00e0s imperfei\u00e7\u00f5es que lhe<br \/>\ncumpre eliminar de si, a fim de evitar males e progredir para o bem. S\u00e3o<br \/>\npara a alma li\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia, rudes \u00e0s vezes,<br \/>\nmas tanto mais proveitosas para o futuro, quanto profundas as impress\u00f5es<br \/>\nque deixam. Essas vicissitudes ocasionam incessantes lutas que lhe desenvolvem<br \/>\nas for\u00e7as e as faculdades intelectivas e morais. Por essas lutas a<br \/>\nalma se retempera no bem, triunfando sempre que tiver denodo para mant\u00ea-las<br \/>\nat\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>O pr\u00eamio da vit\u00f3ria est\u00e1 na vida espiritual, onde a alma<br \/>\nentra radiante e triunfadora como soldado que se destaca da refrega para receber<br \/>\na palma gloriosa.<\/p>\n<p>4. &#8211; Em cada exist\u00eancia, uma ocasi\u00e3o se depara \u00e0 alma<br \/>\npara dar um passo avante; de sua vontade depende a maior ou menor extens\u00e3o<br \/>\ndesse passo: franquear muitos degraus ou ficar no mesmo ponto. Neste \u00faltimo<br \/>\ncaso, e porque cedo ou tarde se imp\u00f5e sempre o pagamento de suas d\u00edvidas,<br \/>\nter\u00e1 de recome\u00e7ar nova exist\u00eancia em condi\u00e7\u00f5otilde;es<br \/>\nainda mais penosas, porque a uma n\u00f3doa n\u00e3o apagada ajunta outra<br \/>\nn\u00f3doa.<\/p>\n<p>\u00c9, pois, nas sucessivas encarna\u00e7\u00f5es que a alma se despoja<br \/>\ndas suas imperfei\u00e7\u00f5es, que se purga, em uma palavra, at\u00e9<br \/>\nque esteja bastante pura para deixar os mundos de expia\u00e7\u00e3o como<br \/>\na Terra, onde os homens expiam o passado e o presente, em proveito do futuro.<br \/>\nContrariamente, por\u00e9m, \u00e0 id\u00e9ia que deles se faz, depende<br \/>\nde cada um prolongar ou abreviar a sua perman\u00eancia, segundo o grau de<br \/>\nadiantamento e pureza atingido pelo pr\u00f3prio esfor\u00e7o sobre si<br \/>\nmesmo. O livramento se d\u00e1, n\u00e3o por conclus\u00e3o de tempo<br \/>\nnem por alheios m\u00e9ritos, mas pelo pr\u00f3prio m\u00e9rito de cada<br \/>\num, consoante estas palavras do Cristo: &#8211; A cada um, segundo as suas obras,<br \/>\npalavras que resumem integralmente a justi\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>5. &#8211; Aquele, pois, que sofre nesta vida pode dizer-se que \u00e9 porque<br \/>\nn\u00e3o se purificou suficientemente em sua exist\u00eancia anterior,<br \/>\ndevendo, se o n\u00e3o fizer nesta, sofrer ainda na seguinte. Isto \u00e9<br \/>\nao mesmo tempo eq\u00fcitativo e l\u00f3gico. Sendo o sofrimento inerente<br \/>\n\u00e0 imperfei\u00e7\u00e3o, tanto mais tempo se sofre quanto mais<br \/>\nimperfeito se for, da mesma forma por que tanto mais tempo persistir\u00e1<br \/>\numa enfermidade quanto maior a demora em trat\u00e1-la. Assim \u00e9 que,<br \/>\nenquanto o homem for orgulhoso, sofrer\u00e1 as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\ndo orgulho; enquanto ego\u00edsta, as do ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>6. &#8211; Devido \u00e0s suas imperfei\u00e7\u00f5es, o Esp\u00edrito<br \/>\nculpado sofre primeiro na vida espiritual, sendo-lhe depois facultada a vida<br \/>\ncorporal como meio de repara\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que ele se<br \/>\nacha nessa nova exist\u00eancia, quer com as pessoas a quem ofendeu, quer<br \/>\nem meios an\u00e1logos \u00e0queles em que praticou o mal, quer ainda<br \/>\nem situa\u00e7\u00f5es opostas \u00e0 sua vida precedente, como, por<br \/>\nexemplo, na mis\u00e9ria, se foi mau rico, ou humilhado, se orgulhoso.<\/p>\n<p>A expia\u00e7\u00e3o no mundo dos Esp\u00edritos e na Terra n\u00e3o<br \/>\nconstitui duplo castigo para eles, por\u00e9m um complemento, um desdobramento<br \/>\ndo trabalho efetivo a facilitar o progresso. Do Esp\u00edrito depende aproveit\u00e1-lo.<br \/>\nE n\u00e3o lhe ser\u00e1 prefer\u00edvel voltar \u00e0 Terra, com<br \/>\nprobabilidades de alcan\u00e7ar o c\u00e9u, a ser condenado sem remiss\u00e3o,<br \/>\ndeixando-a definitivamente? A concess\u00e3o dessa liberdade \u00e9 uma<br \/>\nprova da sabedoria, da bondade e da justi\u00e7a de Deus, que quer que o<br \/>\nhomem tudo deva aos seus esfor\u00e7os e seja o obreiro do seu futuro; que,<br \/>\ninfeliz por mais ou menos tempo, n\u00e3o se queixe sen\u00e3o de si mesmo,<br \/>\npois que a rota do progresso lhe est\u00e1 sempre franca.<\/p>\n<p>7. &#8211; Considerando-se qu\u00e3o grande \u00e9 o sofrimento de certos Esp\u00edritos<br \/>\nculpados no mundo invis\u00edvel, quanto \u00e9 terr\u00edvel a situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde outros, tanto mais penosa pela impot\u00eancia de preverem o termo desses<br \/>\nsofrimentos, poder-se-ia dizer que se acham no inferno, se tal voc\u00e1bulo<br \/>\nn\u00e3o implicasse a id\u00e9ia de um castigo eterno e material.<\/p>\n<p>Merc\u00ea, por\u00e9m, da revela\u00e7\u00e3o dos Esp\u00edritos<br \/>\ne dos exemplos que nos oferecem, sabemos que o prazo da expia\u00e7\u00e3o<br \/>\nesta subordinado ao melhoramento do culpado.<\/p>\n<p>8. &#8211; O Espiritismo n\u00e3o nega, pois, antes confirma, a penalidade futura.<br \/>\nO que ele destr\u00f3i \u00e9 o inferno localizado com suas fornalhas<br \/>\ne penas irremiss\u00edveis. N\u00e3o nega, outrossim, o purgat\u00f3rio,<br \/>\npois prova que nele nos achamos, e definindo-o precisamente, e explicando<br \/>\na causa das mis\u00e9rias terrestres, conduz \u00e0 cren\u00e7a aqueles<br \/>\nmesmos que o negam. Repele as preces pelos mortos? Ao contr\u00e1rio, visto<br \/>\nque os Esp\u00edritos sofredores as solicitam; eleva-as a um dever de caridade<br \/>\ne demonstra a sua efic\u00e1cia para os conduzir ao bem e, por esse meio,<br \/>\nabreviar-lhes os tormentos (1). Falando \u00e0 intelig\u00eancia, tem levado<br \/>\na f\u00e9 a muito incr\u00e9dulo, incutindo a prece no \u00e2nimo dos<br \/>\nque a escarneciam. O que o Espiritismo afirma \u00e9 que o valor da prece<br \/>\nest\u00e1 no pensamento e n\u00e3o nas palavras, que as melhores preces<br \/>\ns\u00e3o as do cora\u00e7\u00e3o e n\u00e3o dos l\u00e1bios, e,<br \/>\nfinalmente, as que cada qual murmura de si mesmo e n\u00e3o as que se mandam<br \/>\ndizer por dinheiro. Quem, pois, ousaria censur\u00e1-lo?<\/p>\n<p>(1) Vede O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXVII &#8211; &#8220;A\u00e7\u00e3o<br \/>\nda prece&#8221;<\/p>\n<p>9. &#8211; Seja qual for a dura\u00e7\u00e3o do castigo, na vida espiritual<br \/>\nou na Terra, onde quer que se verifique, tem sempre um termo, pr\u00f3ximo<br \/>\nou remoto. Na realidade n\u00e3o h\u00e1 para o Esp\u00edrito mais que<br \/>\nduas alternativas, a saber: &#8211; puni\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria e proporcional<br \/>\n\u00e0 culpa, e recompensa graduada segundo o m\u00e9rito. Repele o Espiritismo<br \/>\na terceira alternativa, da eterna condena\u00e7\u00e3o. O inferno reduz-se<br \/>\na figura simb\u00f3lica dos maiores sofrimentos cujo termo \u00e9 desconhecido.<br \/>\nO purgat\u00f3rio, sim, \u00e9 a realidade.<\/p>\n<p>A palavra purgat\u00f3rio sugere a id\u00e9ia de um lugar circunscrito:<br \/>\neis por que mais naturalmente se aplica \u00e0 Terra do que ao Espa\u00e7o<br \/>\ninfinito onde erram os Esp\u00edritos sofredores, e tanto mais quanto a<br \/>\nnatureza da expia\u00e7\u00e3o terrena tem os caracteres da verdadeira<br \/>\nexpia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Melhorados os homens, n\u00e3o fornecer\u00e3o ao mundo invis\u00edvel<br \/>\nsen\u00e3o bons Esp\u00edritos; e estes, encarnando-se, por sua vez s\u00f3<br \/>\nfornecer\u00e3o \u00e0 Humanidade corporal elementos aperfei\u00e7oados.<br \/>\nA Terra deixar\u00e1, ent\u00e3o, de ser um mundo expiat\u00f3rio e<br \/>\nos homens n\u00e3o sofrer\u00e3o mais as mis\u00e9rias decorrentes das<br \/>\nsuas imperfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, por esta transforma\u00e7\u00e3o, que neste momento se<br \/>\nopera, a Terra se elevar\u00e1 na hierarquia dos mundos. (2)<\/p>\n<p>(2) Idem, cap. III &#8211; &#8220;Progress\u00e3o dos mundos&#8221;.<\/p>\n<p>10. &#8211; Mas, por que n\u00e3o teria o Cristo falado do purgat\u00f3rio?<br \/>\n\u00c9 que, n\u00e3o existindo a id\u00e9ia, n\u00e3o havia palavra<br \/>\nque a representasse.<\/p>\n<p>O Cristo serviu-se da palavra inferno, a \u00fanica usada, como termo gen\u00e9rico,<br \/>\npara designar as penas futuras, sem distin\u00e7\u00e3o. Colocasse ele,<br \/>\nao lado da palavra inferno, uma equivalente a purgat\u00f3rio e n\u00e3o<br \/>\npoderia precisar-lhe o verdadeiro sentido sem ferir uma quest\u00e3o reservada<br \/>\nao futuro; teria, enfim, de consagrar a exist\u00eancia de dois lugares especiais<br \/>\nde castigo. O inferno em sua concep\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica, revelando<br \/>\na id\u00e9ia de puni\u00e7\u00e3o, encerrava, implicitamente, a do purgat\u00f3rio,<br \/>\nque n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um modo de penalidade.<\/p>\n<p>Reservado ao futuro o esclarecimento sobre a natureza das penas, competia-lhe<br \/>\nigualmente reduzir o inferno ao seu justo valor. Uma vez que a Igreja, ap\u00f3s<br \/>\nseis s\u00e9culos, houve por bem suprir o sil\u00eancio de Jesus quanto<br \/>\nao purgat\u00f3rio, decretando-lhe a exist\u00eancia, \u00e9 porque ela<br \/>\njulgou que ele n\u00e3o havia dito tudo. E por que n\u00e3o havia de dar-se<br \/>\nsobre outros pontos o que com este se deu?<\/p>\n<h3><a id=\"6\" name=\"6\"><\/a>Doutrina das penas eternas<\/h3>\n<h5>Origem da doutrina das penas eternas<\/h5>\n<p>1. &#8211; A cren\u00e7a na eternidade das penas perde terreno dia a dia, de<br \/>\nmodo que, sem ser profeta, pode prever-se-lhe o fim pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Tais e de tal ordem poderosos e perempt\u00f3rios t\u00eam sido os argumentos<br \/>\na ela opostos, que nos parece quase sup\u00e9rfluo ocuparmo-nos de tal doutrina<br \/>\nde ora em diante, deixando que por si mesma se extinga.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se pode contestar que, apesar de caduca, ainda constitui a<br \/>\ntecla dos advers\u00e1rios das id\u00e9ias novas, o ponto que defendem<br \/>\ncom mais obstina\u00e7\u00e3o, convictos ali\u00e1s da vulnerabilidade<br \/>\nque ela apresenta, e n\u00e3o menos convictos das conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\ndessa queda.<\/p>\n<p>Por este lado, a quest\u00e3o merece s\u00e9rio exame.<\/p>\n<p>2. &#8211; A doutrina das penas eternas teve sua raz\u00e3o de ser, como a do<br \/>\ninferno material, enquanto o temor podia constituir um freio para os homens<br \/>\npouco adiantados intelectual e moralmente.<\/p>\n<p>Na impossibilidade de apreenderem as nuan\u00e7as tantas vezes delicadas<br \/>\ndo bem e do mal, bem como o valor relativo das atenuantes e agravantes, os<br \/>\nhomens n\u00e3o se impressionariam, ent\u00e3o, a n\u00e3o ser pouco<br \/>\nou mesmo nada com a id\u00e9ia das penas morais.<\/p>\n<p>Tampouco compreenderiam a temporalidade dessas penas e a justi\u00e7a decorrente<br \/>\ndas suas grada\u00e7\u00f5es e propor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>3. &#8211; Quanto mais pr\u00f3ximo do estado primitivo, mais material \u00e9<br \/>\no homem.<\/p>\n<p>O senso moral \u00e9 o que de mais tardio nele se desenvolve, raz\u00e3o<br \/>\npela qual tamb\u00e9m n\u00e3o pode fazer de Deus, dos seus atributos<br \/>\ne da vida futura, sen\u00e3o uma id\u00e9ia muito imperfeita e vaga.<\/p>\n<p>Assimilando-o \u00e0 sua pr\u00f3pria natureza, Deus n\u00e3o passa<br \/>\npara ele de um soberano absoluto, tanto mais terr\u00edvel quanto invis\u00edvel,<br \/>\ncomo um rei desp\u00f3tico que, fechado no seu pal\u00e1cio, jamais se<br \/>\nmostrasse aos s\u00faditos. Sem compreenderem o seu poder moral, s\u00f3<br \/>\no aceitam pela for\u00e7a material. N\u00e3o o v\u00eaem sen\u00e3o<br \/>\narmado com o raio, ou no meio de coriscos e tempestades, semeando de passagem<br \/>\na destrui\u00e7\u00e3o, a ru\u00edna, semelhantemente aos guerreiros<br \/>\ninvenc\u00edveis.<\/p>\n<p>Um Deus de mansuetude e cordura n\u00e3o seria um Deus, por\u00e9m um<br \/>\nser fraco e sem meios de se fazer obedecer. A vingan\u00e7a implac\u00e1vel,<br \/>\nos castigos terr\u00edveis, eternos, nada tinham de incompat\u00edvel<br \/>\ncom a id\u00e9ia que se fazia de Deus, n\u00e3o lhes repugnavam \u00e0<br \/>\nraz\u00e3o. Implac\u00e1vel tamb\u00e9m ele, homem, nos seus ressentimentos,<br \/>\ncruel para os inimigos e inexor\u00e1vel para os vencidos, Deus, que lhe<br \/>\nera superior, deveria ser ainda mais terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Para tais homens eram precisas cren\u00e7as religiosas assimiladas \u00e0<br \/>\nsua natureza r\u00fastica. Uma religi\u00e3o toda espiritual, toda amor<br \/>\ne caridade n\u00e3o podia aliar-se \u00e0 brutalidade dos costumes e das<br \/>\npaix\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o censuremos, pois, a Mois\u00e9s sua legisla\u00e7\u00e3o<br \/>\ndraconiana, apenas bastante para conter o povo ind\u00f3cil, nem o haver<br \/>\nfeito de Deus um Deus vingativo. A \u00e9poca assim o exigia, essa \u00e9poca<br \/>\nem que a doutrina de Jesus n\u00e3o encontraria eco e at\u00e9 se anularia.<\/p>\n<p>4. &#8211; \u00c0 medida que o Esp\u00edrito se desenvolvia, o v\u00e9u material<br \/>\nia-se-lhe dissipando pouco a pouco, e os homens habilitavam-se a compreender<br \/>\nas coisas espirituais. Mas isso n\u00e3o aconteceu sen\u00e3o lenta e<br \/>\ngradualmente. Por ocasi\u00e3o de sua vinda, j\u00e1 Jesus p\u00f4de<br \/>\nproclamar um Deus clemente, falando do seu reino, n\u00e3o deste mundo,<br \/>\ne acrescentando: &#8211; Amai-vos uns aos outros e fazei bem aos que vos odeiam,<br \/>\nao passo que os antigos diziam: olho por olho, dente por dente.<\/p>\n<p>Ora, quais eram os homens que viviam no tempo de Jesus?<\/p>\n<p>Seriam almas novamente criadas e encarnadas? Mas se assim fosse, Deus teria<br \/>\ncriado para o tempo de Jesus almas mais adiantadas que para o tempo de Mois\u00e9s?<br \/>\nE da\u00ed o que teria decorrido para estas \u00faltimas? Consumir-se-iam<br \/>\npor toda a eternidade no embrutecimento? O mais comezinho bom-senso repele<br \/>\nessa suposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o; essas almas eram as mesmas que viviam<br \/>\nsob o imp\u00e9rio das leis mosaicas e que tinham adquirido, em v\u00e1rias<br \/>\nexist\u00eancias, o desenvolvimento suficiente \u00e0 compreens\u00e3o<br \/>\nde uma doutrina mais elevada, assim como hoje mais adiantadas se encontram<br \/>\npara receber um ensino ainda mais completo.<\/p>\n<p>5. &#8211; O Cristo n\u00e3o p\u00f4de, no entanto, revelar aos seus contempor\u00e2neos<br \/>\ntodos os mist\u00e9rios do futuro. Ele pr\u00f3prio o disse: Muitas outras<br \/>\ncoisas vos diria se estiv\u00e9sseis em estado de as compreender, e eis<br \/>\npor que vos falo em par\u00e1bolas. Sobretudo no que diz respeito \u00e0<br \/>\nmoral, isto \u00e9, aos deveres do homem, foi o Cristo muito expl\u00edcito<br \/>\nporque, tocando na corda sens\u00edvel da vida material, sabia fazer-se<br \/>\ncompreender; quanto a outros pontos, limitou-se a semear sob a forma aleg\u00f3rica<br \/>\nos germens que deveriam ser desenvolvidos mais tarde.<\/p>\n<p>A doutrina das penas e recompensas futuras pertence a esta \u00faltima<br \/>\nordem de id\u00e9ias. Sobretudo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s penas,<br \/>\nele n\u00e3o poderia romper bruscamente com as id\u00e9ias preconcebidas.<br \/>\nVindo tra\u00e7ar aos homens novos deveres, substituir o \u00f3dio e a<br \/>\nvingan\u00e7a pelo amor do pr\u00f3ximo e pela caridade, o ego\u00edsmo<br \/>\npela abnega\u00e7\u00e3o, era j\u00e1 muito; al\u00e9m disso, n\u00e3o<br \/>\npodia racionalmente enfraquecer o temor do castigo reservado aos prevaricadores,<br \/>\nsem enfraquecer ao mesmo tempo a id\u00e9ia do dever.<\/p>\n<p>Se ele prometia o reino dos c\u00e9us aos bons, esse reino estaria interdito<br \/>\naos maus, e para onde iriam eles? Demais, seria necess\u00e1ria a invers\u00e3o<br \/>\nda Natureza para que intelig\u00eancias ainda muito rudimentares pudessem<br \/>\nser impressionadas de fei\u00e7\u00e3o a identificarem-se com a vida espiritual,<br \/>\nlevando-se em conta a circunst\u00e2ncia de Jesus se dirigir ao povo, \u00e0<br \/>\nparte menos esclarecida da sociedade, que n\u00e3o podia prescindir de imagens<br \/>\nde alguma sorte palp\u00e1veis, e n\u00e3o de id\u00e9ias sutis.<\/p>\n<p>Eis a raz\u00e3o por que Jesus n\u00e3o entrou em min\u00facias sup\u00e9rfluas<br \/>\na este respeito; nessa \u00e9poca n\u00e3o era preciso mais do que opor<br \/>\numa puni\u00e7\u00e3o \u00e0 recompensa.<\/p>\n<p>6. &#8211; Se Jesus amea\u00e7ou os culpados com o fogo eterno, tamb\u00e9m<br \/>\nos amea\u00e7ou de serem lan\u00e7ados na Geena. Ora, que vem a ser a<br \/>\nGeena? Nada mais nada menos que um lugar nos arredores de Jerusal\u00e9m,<br \/>\num monturo onde se despejavam as imund\u00edcies da cidade.<\/p>\n<p>Dever-se-ia interpretar isso tamb\u00e9m ao p\u00e9 da letra? Entretanto<br \/>\nera uma dessas figuras en\u00e9rgicas de que ele se servia para impressionar<br \/>\nas massas. O mesmo se d\u00e1 com o fogo eterno. E se tal n\u00e3o fora<br \/>\no seu pensar, ele estaria em contradi\u00e7\u00e3o, exaltando a dem\u00eancia<br \/>\ne miseric\u00f3rdia de Deus, pois dem\u00eancia e inexorabilidade s\u00e3o<br \/>\nsentimentos antag\u00f4nicos que se anulam. Desconhecer-se-ia, pois, o sentido<br \/>\ndas palavras de Jesus, atribuindo-lhes a san\u00e7\u00e3o do dogma das<br \/>\npenas eternas, quando todo o seu ensino proclamou a mansid\u00e3o do Criador,<br \/>\na sua benignidade<\/p>\n<p>No Pai Nosso Jesus nos ensina a dizer: &#8211; Perdoai-nos, Senhor, as nossas faltas,<br \/>\nassim como n\u00f3s perdoamos aos nossos devedores. Pois se o culpado n\u00e3o<br \/>\ndevesse esperar algum perd\u00e3o, in\u00fatil seria pedi-lo.<\/p>\n<p>Esse perd\u00e3o \u00e9, por\u00e9m, incondicional? \u00c9 uma remiss\u00e3o<br \/>\npura e simples da pena em que se incorre? N\u00e3o; a medida desse perd\u00e3o<br \/>\nsubordina-se ao modo pelo qual se haja perdoado, o que equivale dizer que<br \/>\nn\u00e3o seremos perdoados desde que n\u00e3o perdoemos. Deus, fazendo<br \/>\ndo esquecimento das ofensas uma condi\u00e7\u00e3o absoluta, n\u00e3o<br \/>\npodia exigir do homem fraco o que Ele, onipotente, n\u00e3o fizesse.<\/p>\n<p>O Pai Nosso \u00e9 um protesto cotidiano contra a eterna vingan\u00e7a<br \/>\nde Deus.<\/p>\n<p>7. &#8211; Para homens que s\u00f3 possu\u00edam da espiritualidade da alma<br \/>\numa id\u00e9ia confusa, o fogo material nada tinha de improcedente, mesmo<br \/>\nporque j\u00e1 participava da cren\u00e7a pag\u00e3, quase universalmente<br \/>\npropagada. Igualmente a eternidade das penas nada tinha que pudesse repugnar<br \/>\na homens desde muitos s\u00e9culos submetidos \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo terr\u00edvel Jeov\u00e1. No pensamento de Jesus o fogo eterno n\u00e3o<br \/>\npodia passar, portanto, de simples figura, pouco lhe importando fosse essa<br \/>\nfigura interpretada \u00e0 letra, desde que ela servisse de freio \u00e0s<br \/>\npaix\u00f5es humanas. Sabia ele ao demais que o tempo e o progresso se incumbiriam<br \/>\nde explicar o sentido aleg\u00f3rico, mesmo porque, segundo a sua predi\u00e7\u00e3o,<br \/>\no Esp\u00edrito de Verdade viria esclarecer aos homens todas as coisas.<br \/>\nO car\u00e1ter essencial das penas irrevog\u00e1veis \u00e9 a inefic\u00e1cia<br \/>\ndo arrependimento, e Jesus nunca disse que o arrependimento n\u00e3o mereceria<br \/>\na gra\u00e7a do Pai.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, sempre que se lhe deparou ensejo, ele falou de um Deus<br \/>\nclemente, misericordioso, sol\u00edcito em receber o filho pr\u00f3digo<br \/>\nque voltasse ao lar paterno; inflex\u00edvel, sim, para o pecador obstinado,<br \/>\npor\u00e9m, pronto sempre a trocar o castigo pelo perd\u00e3o do culpado<br \/>\nsinceramente arrependido. Este n\u00e3o \u00e9, por certo, o tra\u00e7o<br \/>\nde um Deus sem piedade. Tamb\u00e9m conv\u00e9m assinalar que Jesus nunca<br \/>\npronunciou contra quem quer que fosse, mesmo contra os maiores culpados, a<br \/>\ncondena\u00e7\u00e3o irremiss\u00edvel.<\/p>\n<p>8. &#8211; Todas as religi\u00f5es primitivas, revestindo o car\u00e1ter dos<br \/>\npovos, tiveram deuses guerreiros que combatiam \u00e0 frente dos ex\u00e9rcitos.<\/p>\n<p>O Jeov\u00e1 dos hebreus facultava-lhes mil modos de exterminar os inimigos;<br \/>\nrecompensava-os com a vit\u00f3ria ou punia-os com a derrota. Tal id\u00e9ia<br \/>\na respeito de Deus levava a honr\u00e1-lo ou apazigu\u00e1-lo com sangue<br \/>\nde animais ou de homens, e da\u00ed os sacrif\u00edcios sangrentos que<br \/>\nrepresentavam papel t\u00e3o saliente em todas as religi\u00f5es da antig\u00fcidade.<br \/>\nOs judeus tinham abolido os sacrif\u00edcios humanos; os crist\u00e3os,<br \/>\napesar dos ensinamentos do Cristo, por muito tempo julgaram honrar o Criador<br \/>\nvotando, aos milhares, \u00e0s chamas e \u00e0s torturas, os que denominavam<br \/>\nhereges, o que constitu\u00eda sob outra forma verdadeiros sacrif\u00edcios<br \/>\nhumanos, pois que os promoviam para maior gl\u00f3ria de Deus, e com acompanhamento<br \/>\nde cerim\u00f4nias religiosas. Hoje, ainda invocam o Deus dos ex\u00e9rcitos<br \/>\nantes do combate, glorificam-no ap\u00f3s a vit\u00f3ria, e quantas vezes<br \/>\npor causas injustas e anticrist\u00e3s.<\/p>\n<p>9. &#8211; Qu\u00e3o tardo \u00e9 o homem em desfazer-se dos seus h\u00e1bitos,<br \/>\npreju\u00edzos e primitivas id\u00e9ias! Quarenta s\u00e9culos nos separam<br \/>\nde Mois\u00e9s, e a nossa gera\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ainda v\u00ea<br \/>\ntra\u00e7os de antigos usos b\u00e1rbaros, sen\u00e3o consagrados, ao<br \/>\nmenos aprovados pela religi\u00e3o atual! Foi preciso a poderosa opini\u00e3o<br \/>\ndos n\u00e3o-ortodoxos para acabar com as fogueiras e fazer compreender<br \/>\na verdadeira grandeza de Deus. Mas, \u00e0 falta de fogueiras, prevalecem<br \/>\nainda as persegui\u00e7\u00f5es materiais e morais, t\u00e3o radicada<br \/>\nest\u00e1 no homem a id\u00e9ia da crueldade divina. Nutrido por sentimentos<br \/>\ninculcados desde a inf\u00e2ncia, poder\u00e1 o homem estranhar que o Deus<br \/>\nque lhe apresentam, lisonjeado por atos b\u00e1rbaros, condene a eternas<br \/>\ntorturas e veja sem piedade o sofrimento dos culpados? Sim, s\u00e3o fil\u00f3sofos,<br \/>\n\u00edmpios como querem alguns, que se h\u00e3o escandalizado vendo o<br \/>\nnome de Deus profanado por atos indignos dele. S\u00e3o eles que o mostram<br \/>\naos homens na plenitude da sua grandeza, despojando-o de paix\u00f5es e<br \/>\nbaixezas atribu\u00eddas por uma cren\u00e7a menos esclarecida.<\/p>\n<p>Neste ponto a religi\u00e3o tem ganho em dignidade o que tem perdido em<br \/>\nprest\u00edgio exterior, porque se homens h\u00e1 devotados \u00e0 forma,<br \/>\nmaior \u00e9 o n\u00famero dos sinceramente religiosos pelo sentimento,<br \/>\npelo cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, ao lado destes, quantos n\u00e3o t\u00eam sido levados, sem mais<br \/>\nreflex\u00e3o, a negarem toda a Provid\u00eancia! O modo por que a religi\u00e3o<br \/>\ntem estacionado, em antagonismo com os progressos da raz\u00e3o humana,<br \/>\nsem saber concili\u00e1-los com as cren\u00e7as, degenerou em de\u00edsmo<br \/>\npara uns, em cepticismo absoluto para outros, sem esquecermos o pante\u00edsmo,<br \/>\nisto \u00e9, o homem fazendo-se deus ele pr\u00f3prio, \u00e0 falta<br \/>\nde um mais perfeito.<\/p>\n<p>Argumentos a favor das penas eternas<br \/>\n10. &#8211; Voltemos ao dogma das penas eternas. Eis o principal argumento invocado<br \/>\nem seu favor: &#8220;\u00c9 doutrina sancionada entre os homens que a gravidade<br \/>\nda ofensa \u00e9 proporcionada \u00e0 qualidade do ofendido. O crime de<br \/>\nlesa-majestade, por exemplo, o atentado \u00e0 pessoa de um soberano, sendo<br \/>\nconsiderado mais grave do que o fora em rela\u00e7\u00e3o a qualquer s\u00fadito,<br \/>\n\u00e9, por isso mesmo, mais severamente punido. E sendo Deus muito mais<br \/>\nque um soberano, pois \u00e9 infinito, deve ser infinita a ofensa a Ele,<br \/>\ncomo infinito o respectivo castigo, isto \u00e9, eterno.&#8221;<\/p>\n<p>Refuta\u00e7\u00e3o: Toda refuta\u00e7\u00e3o \u00e9 um racioc\u00ednio<br \/>\nque deve ter seu ponto de partida, uma base sobre a qual se ap\u00f3ie,<br \/>\npremissas, enfim. Tomemos essas premissas aos pr\u00f3prios atributos de<br \/>\nDeus; &#8211; \u00fanico, eterno, imut\u00e1vel, imaterial, onipotente, soberanamente<br \/>\njusto e bom, infinito em todas as perfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel conceber Deus de outra maneira, visto como, sem<br \/>\na infinita perfei\u00e7\u00e3o, poder-se-ia conceber outro ser que lhe<br \/>\nfosse superior. Para que seja \u00fanico acima de todos os seres, faz-se<br \/>\nmister que ningu\u00e9m possa exced\u00ea-lo ou sequer igual\u00e1-lo<br \/>\nem qualquer coisa, Logo, \u00e9 necess\u00e1rio que seja de todo infinito.<\/p>\n<p>\u00c9 porque s\u00e3o infinitos, os atributos divinos n\u00e3o sofrem<br \/>\naumento nem diminui\u00e7\u00e3o, sem o que n\u00e3o seriam infinitos<br \/>\ne Deus perfeito tampouco. Se se tirasse a menor parcela de um s\u00f3 dos<br \/>\nseus atributos, n\u00e3o haveria mais Deus, por isso que poderia coexistir<br \/>\num ser mais perfeito. O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da<br \/>\nexist\u00eancia de outra qualidade contr\u00e1ria que pudesse diminu\u00ed-la<br \/>\nou anul\u00e1-la. Um ser infinitamente bom n\u00e3o pode ter a menor parcela<br \/>\nde maldade, nem o ser infinitamente mau pode ter a menor parcela de bondade.<br \/>\nAssim tamb\u00e9m um objeto n\u00e3o seria de um negro absoluto com a<br \/>\nmais leve nuan\u00e7a de branco, e vice-versa. Estabelecido este ponto de<br \/>\npartida, oporemos aos argumentos supra os seguintes:<\/p>\n<p>11. &#8211; S\u00f3 um ser infinito pode fazer algo de infinito. O homem, finito<br \/>\nnas virtudes, nos conhecimentos, no poderio, nas aptid\u00f5es e na exist\u00eancia<br \/>\nterrestre, n\u00e3o pode produzir sen\u00e3o coisas limitadas.<\/p>\n<p>Se o homem pudesse ser infinito no mal que faz, s\u00ea-lo-ia igualmente<br \/>\nno bem, igualando-se, ent\u00e3o, a Deus. Mas se o homem fosse infinito<br \/>\nno bem n\u00e3o praticaria o mal, pois o bem absoluto \u00e9 a exclus\u00e3o<br \/>\nde todo o mal.<\/p>\n<p>Admitindo-se que uma ofensa tempor\u00e1ria \u00e0 Divindade pudesse<br \/>\nser infinita, Deus, vingando-se por um castigo infinito, seria logo infinitamente<br \/>\nvingativo; e sendo Deus infinitamente vingativo n\u00e3o pode ser infinitamente<br \/>\nbom e misericordioso, visto como um destes atributos exclui o outro. Se n\u00e3o<br \/>\nfor infinitamente bom n\u00e3o \u00e9 perfeito; e n\u00e3o sendo perfeito<br \/>\ndeixa de ser Deus.<\/p>\n<p>Se Deus \u00e9 inexor\u00e1vel para o culpado que se arrepende, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 misericordioso; e se n\u00e3o \u00e9 misericordioso, deixa de<br \/>\nser infinitamente bom. E por que daria Deus aos homens uma lei de perd\u00e3o,<br \/>\nse Ele pr\u00f3prio n\u00e3o perdoasse? Resultaria dai que o homem que<br \/>\nperdoa aos seus inimigos e lhes retribui o mal com o bem, seria melhor que<br \/>\nDeus, surdo ao arrependimento dos que o ofendem, negando-lhes por todo o sempre<br \/>\no mais ligeiro carinho.<\/p>\n<p>Achando-se em toda parte e tudo vendo, Deus deve ver tamb\u00e9m as torturas<br \/>\ndos condenados; e se Ele se conserva insens\u00edvel aos gemidos por toda<br \/>\na eternidade, ser\u00e1 eternamente impiedoso; ora, sem piedade, n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 bondade infinita.<\/p>\n<p>12. &#8211; A isto se responde que o pecador arrependido, antes da morte, tem a<br \/>\nmiseric\u00f3rdia de Deus, e que mesmo o maior culpado pode receber essa<br \/>\ngra\u00e7a. Quanto a isto n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, e compreende-se<br \/>\nque Deus s\u00f3 perdoe ao arrependido, mantendo-se inflex\u00edvel para<br \/>\ncom os obstinados; mas se Ele \u00e9 todo misericordioso para a alma arrependida<br \/>\nantes da morte, por que deixar\u00e1 de o ser para quem se arrepende depois<br \/>\ndela? Por que a efic\u00e1cia do arrependimento s\u00f3 durante a vida,<br \/>\num breve instante, e n\u00e3o na eternidade que n\u00e3o tem fim? Circunscritas<br \/>\na um dado tempo, a bondade e miseric\u00f3rdia divinas teriam limites, e<br \/>\nDeus n\u00e3o seria infinitamente bom.<\/p>\n<p>13. &#8211; Deus \u00e9 soberanamente justo. A soberana justi\u00e7a n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 inexor\u00e1vel absolutamente, nem leva a complac\u00eancia ao<br \/>\nponto de deixar impunes todas as faltas; ao contr\u00e1rio, pondera rigorosamente<br \/>\no bem e o mal, recompensando um e punindo outro eq\u00fcitativa e proporcionalmente,<br \/>\nsem se enganar jamais na aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se por uma falta passageira, resultante sempre da natureza imperfeita do<br \/>\nhomem e muitas vezes do meio em que vive, a alma pode ser castigada eternamente<br \/>\nsem esperan\u00e7a de clem\u00eancia ou de perd\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1<br \/>\npropor\u00e7\u00e3o entre a falta e o castigo -n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a.<br \/>\nReconciliando-se com Deus, arrependendo-se, e pedindo para reparar o mal praticado,<br \/>\no culpado deve subsistir para o bem, para os bons sentimentos. Mas, se o castigo<br \/>\n\u00e9 irrevog\u00e1vel, esta subsist\u00eancia para o bem n\u00e3o<br \/>\nfrutifica, e um bem n\u00e3o considerado significa injusti\u00e7a. Entre<br \/>\nos homens, o condenado que se corrige tem por comutada e \u00e0s vezes mesmo<br \/>\nperdoada a sua pena; e, assim, haveria mais equidade na justi\u00e7a humana<br \/>\nque na divina.<\/p>\n<p>Se a pena \u00e9 irrevog\u00e1vel, in\u00fatil ser\u00e1 o arrependimento,<br \/>\ne o culpado, nada tendo a esperar de sua corre\u00e7\u00e3o, persiste<br \/>\nno mal, de modo que Deus n\u00e3o s\u00f3 o condena a sofrer perpetuamente,<br \/>\nmas ainda a permanecer no mal por toda a eternidade. Nisso n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nnem bondade nem Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>14. Sendo em tudo infinito, Deus deve abranger o passado e o futuro; deve<br \/>\nsaber, ao criar uma alma, se ela vir\u00e1 a falir, assaz gravemente, para<br \/>\nser eternamente condenada. Se o n\u00e3o souber, a sua sabedoria deixar\u00e1<br \/>\nde ser infinita, e Ele deixar\u00e1 de ser Deus. Sabendo-o, cria voluntariamente<br \/>\numa alma desde logo votada ao eterno supl\u00edcio, e, nesse caso, deixa<br \/>\nde ser bom.<\/p>\n<p>Uma vez que Deus pode conferir a gra\u00e7a ao pecador arrependido, tirando-o<br \/>\ndo inferno, deixam de existir penas eternas, e o ju\u00edzo dos homens est\u00e1<br \/>\nrevogado.<\/p>\n<p>15. Conseguintemente, a doutrina das penas eternas absolutas conduz \u00e0<br \/>\nnega\u00e7\u00e3o, ou, pelo menos, ao enfraquecimento de alguns atributos<br \/>\nde Deus, sendo incompat\u00edvel com a perfei\u00e7\u00e3o absoluta,<br \/>\ndonde resulta este dilema: Ou Deus \u00e9 perfeito, e n\u00e3o h\u00e1<br \/>\npenas eternas, ou h\u00e1 penas eternas, e Deus n\u00e3o \u00e9 perfeito.<\/p>\n<p>16. &#8211; Tamb\u00e9m se invoca a favor do dogma da eternidade das penas o<br \/>\nseguinte argumento:<\/p>\n<p>&#8220;A recompensa conferida aos bons, sendo eterna, deve ter por corol\u00e1rio<br \/>\na eterna puni\u00e7\u00e3o. Justo \u00e9 proporcionar a puni\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 recompensa.&#8221;<\/p>\n<p>Refuta\u00e7\u00e3o: Deus criou as almas para faz\u00ea-las felizes<br \/>\nou desgra\u00e7adas?<\/p>\n<p>Evidentemente a felicidade da criatura deve ser o fito do Criador, ou Ele<br \/>\nn\u00e3o seria bom. Ela atinge a felicidade pelo pr\u00f3prio m\u00e9rito,<br \/>\nque, adquirido, n\u00e3o mais o perde. O contr\u00e1rio seria a sua degenera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA felicidade eterna \u00e9, pois, a conseq\u00fc\u00eancia da sua imortalidade.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, de chegar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, tem lutas<br \/>\na sustentar, combates a travar com as m\u00e1s paix\u00f5es. N\u00e3o<br \/>\ntendo sido criada perfeita, mas suscet\u00edvel de o ser, a fim de que tenha<br \/>\no m\u00e9rito de suas obras, a alma pode cair em faltas, que s\u00e3o<br \/>\nconseq\u00fcentes \u00e0 sua natural fraqueza. E se por esta fraqueza fora<br \/>\neternamente punida, era caso de perguntar por que n\u00e3o a criou Deus<br \/>\nmais forte?<\/p>\n<p>A puni\u00e7\u00e3o \u00e9 antes uma advert\u00eancia do mal j\u00e1<br \/>\npraticado, devendo ter por fim reconduzi-la ao bom caminho. Se a pena fosse<br \/>\nirremiss\u00edvel, o desejo de melhorar seria sup\u00e9rfluo; nem o fim<br \/>\nda cria\u00e7\u00e3o seria alcan\u00e7ado, porquanto haveria seres &#8216;predestinados<br \/>\n\u00e0 felicidade ou \u00e0 desgra\u00e7a. Se uma alma se arrepende,<br \/>\npode regenerar-se, e podendo regenerar-se pode aspirar \u00e0 felicidade.<\/p>\n<p>E Deus seria justo se lhe recusasse os respectivos meios?<\/p>\n<p>Sendo o bem o fim supremo da Cria\u00e7\u00e3o, a felicidade, que \u00e9<br \/>\no seu pr\u00eamio, deve ser eterna; e o castigo, como meio de alcan\u00e7\u00e1-la,<br \/>\ntempor\u00e1rio. A no\u00e7\u00e3o mais comezinha da justi\u00e7a<br \/>\nhumana prescreve que se n\u00e3o pode castigar perpetuamente quem se mostra<br \/>\ndesejoso de praticar o bem.<\/p>\n<p>17. &#8211; Um \u00faltimo argumento a favor das penas eternas \u00e9 este:<\/p>\n<p>&#8220;O temor das penas eternas \u00e9 um freio; anulado este, o homem,<br \/>\npor nada temer, entregar-se-ia a todos os excessos.&#8221;<\/p>\n<p>Refuta\u00e7\u00e3o: Esse racioc\u00ednio procederia se a temporalidade<br \/>\ndas penas importasse, de fato, na supress\u00e3o de toda san\u00e7\u00e3o<br \/>\npenal.<\/p>\n<p>A felicidade ou infelicidade futura \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia rigorosa<br \/>\nda justi\u00e7a de Deus, pois a identidade de condi\u00e7\u00f5es para<br \/>\no bom e para o mau seria a nega\u00e7\u00e3o dessa justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas, em n\u00e3o ser eterno, nem por isso o castigo deixa de ser temeroso,<br \/>\ne tanto maior ser\u00e1 o temor quanto maior a convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta, por sua vez, tanto mais profunda ser\u00e1, quanto mais racional<br \/>\na proced\u00eancia do castigo. Uma penalidade, em que se n\u00e3o cr\u00ea,<br \/>\nn\u00e3o pode ser um freio, e a eternidade das penas est\u00e1 nesse caso.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a nessa penalidade, j\u00e1 o afirmamos, teve a sua utilidade,<br \/>\na sua raz\u00e3o de ser em dada \u00e9poca; hoje, n\u00e3o somente deixa<br \/>\nde impressionar os \u00e2nimos, mas at\u00e9 produz descrentes.<\/p>\n<p>Antes de a preconizar como necessidade, fora mister demonstrar a sua realidade.<br \/>\nSeria preciso, al\u00e9m disso, observar a sua efic\u00e1cia junto \u00e0queles<br \/>\nque a preconizam e se esfor\u00e7am por demonstr\u00e1-la.<\/p>\n<p>E, desgra\u00e7adamente, entre esses, muitos provam pelos atos que nada<br \/>\ntemem das penas eternas.<\/p>\n<p>Assim, impotente para reprimir os pr\u00f3prios profitentes, que imp\u00e9rio<br \/>\npoder\u00e1 exercer sobre os descrentes e refrat\u00e1rios?<\/p>\n<p>Impossibilidade material das penas eternas<br \/>\n18. &#8211; At\u00e9 aqui, s\u00f3 temos combatido o dogma das penas eternas<br \/>\ncom o racioc\u00ednio. Demonstremo-lo agora em contradi\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom os fatos positivos que observamos, provando-lhe a impossibilidade.<\/p>\n<p>Por este dogma a sorte das almas, irrevogavelmente fixada depois da morte,<br \/>\n\u00e9, como tal, um trav\u00e3o definitivo aplicado ao progresso.<\/p>\n<p>Ora, a alma progride ou n\u00e3o? Eis a quest\u00e3o: &#8211; Se progride,<br \/>\na eternidade das penas \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>E poder-se-\u00e1 duvidar desse progresso, vendo a variedade enorme de<br \/>\naptid\u00f5es morais e intelectuais existentes sobre a Terra, desde o selvagem<br \/>\nao homem civilizado, aferindo a diferen\u00e7a apresentada por um povo de<br \/>\num a outro s\u00e9culo? Se se admite n\u00e3o ser das mesmas almas, \u00e9<br \/>\nfor\u00e7a admitir que Deus criou almas em todos os graus de adiantamento,<br \/>\nsegundo os tempos e lugares, favorecendo umas e destinando outras a perp\u00e9tua<br \/>\ninferioridade o que seria incompat\u00edvel com a justi\u00e7a, que, ali\u00e1s,<br \/>\ndeve ser igual para todas as criaturas.<\/p>\n<p>19. &#8211; \u00c9 incontest\u00e1vel que a alma atrasada moral e intelectualmente,<br \/>\ncomo a dos povos b\u00e1rbaros, n\u00e3o pode ter os mesmos elementos<br \/>\nde felicidade, as mesmas aptid\u00f5es para gozar dos esplendores do infinito,<br \/>\ncomo a alma cujas faculdades est\u00e3o largamente desenvolvidas. Se, portanto,<br \/>\nestas almas n\u00e3o progredirem, n\u00e3o podem em condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais favor\u00e1veis gozar na eternidade sen\u00e3o de uma felicidade,<br \/>\npor assim dizer, negativa.<\/p>\n<p>Para estar de acordo com a rigorosa justi\u00e7a, chegaremos, pois, \u00e0<br \/>\nconclus\u00e3o de que as almas mais adiantadas s\u00e3o as atrasadas de<br \/>\noutro tempo, com progressos posteriormente realizados. Mas, aqui atingimos<br \/>\na quest\u00e3o magna da pluralidade das exist\u00eancias como meio \u00fanico<br \/>\ne racional de resolver a dificuldade. Fa\u00e7amos abstra\u00e7\u00e3o,<br \/>\npor\u00e9m, dessa quest\u00e3o e consideremos a alma sob o ponto de vista<br \/>\nde uma \u00fanica exist\u00eancia.<\/p>\n<p>20. &#8211; Figuremos um rapaz de 20 anos, desses que comumente se encontram, ignorante,<br \/>\nviciado por \u00edndole, c\u00e9ptico, negando sua alma e a Deus, entregue<br \/>\n\u00e0 desordem e cometendo toda sorte de malvadeza. Esse rapaz encontra-se,<br \/>\ndepois, num meio favor\u00e1vel, melhor; trabalha, instrui-se, corrige-se<br \/>\ngradualmente e acaba por tornar-se crente e piedoso. Eis a\u00ed um exemplo<br \/>\npalp\u00e1vel do progresso da alma durante a vida, exemplo que se reproduz<br \/>\ntodos os dias. Esse homem morre em avan\u00e7ada idade, como um santo, e<br \/>\nnaturalmente certa se lhe torna a salva\u00e7\u00e3o. Mas qual seria a<br \/>\nsua sorte se um acidente lhe pusesse termo \u00e0 exist\u00eancia, trinta<br \/>\nou quarenta anos mais cedo? Ele estava nas condi\u00e7\u00f5es exigidas<br \/>\npara ser condenado, e, se o fosse, todo o progresso se lhe tornaria imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>E assim, segundo a doutrina das penas eternas, teremos um homem salvo somente<br \/>\npela circunst\u00e2ncia de viver mais tempo, circunst\u00e2ncia, ali\u00e1s,<br \/>\nfragil\u00edssima, uma vez que um acidente qualquer poderia t\u00ea-la<br \/>\nanulado fortuitamente. Desde que sua alma p\u00f4de progredir em um tempo<br \/>\ndado, por que raz\u00e3o n\u00e3o mais poderia progredir depois da morte,<br \/>\nse uma causa alheia \u00e0 sua vontade a tivesse impedido de faz\u00ea-lo<br \/>\ndurante a vida? Por que lhe recusaria Deus os meios de regenerar-se na outra<br \/>\nvida, concedendo-lhos nesta? Neste caso, o arrependimento veio, posto que<br \/>\ntardio; mas se desde o momento da morte se impusesse irrevog\u00e1vel condena\u00e7\u00e3o,<br \/>\nesse arrependimento seria infrut\u00edfero por todo o sempre, como destru\u00eddas<br \/>\nseriam as aptid\u00f5es dessa alma para o progresso, para o bem.<\/p>\n<p>21. &#8211; O dogma da eternidade absoluta das penas \u00e9, portanto, incompat\u00edvel<br \/>\ncom o progresso das almas, ao qual op\u00f5e uma barreira insuper\u00e1vel.<br \/>\nEsses dois princ\u00edpios destroem-se, e a condi\u00e7\u00e3o indeclin\u00e1vel<br \/>\nda exist\u00eancia de um \u00e9 o aniquilamento do outro. Qual dos dois<br \/>\nexiste de fato? A lei do progresso \u00e9 evidente: n\u00e3o \u00e9<br \/>\numa teoria, \u00e9 um fato corroborado pela experi\u00eancia: \u00e9<br \/>\numa lei da Natureza, divina, imprescrit\u00edvel. E, pois, que esta lei<br \/>\nexiste inconcili\u00e1vel com a outra, \u00e9 porque a outra n\u00e3o<br \/>\nexiste. Se o dogma das penas eternas existisse verdadeiramente, Santo Agostinho,<br \/>\nS. Paulo e tantos outros jamais teriam visto o c\u00e9u, caso morressem<br \/>\nantes de realizar o progresso que lhes trouxe a convers\u00e3o.<\/p>\n<p>A esta \u00faltima asser\u00e7\u00e3o respondem que a convers\u00e3o<br \/>\ndessas santas personagens n\u00e3o \u00e9 um resultado do progresso da<br \/>\nalma, por\u00e9m, da gra\u00e7a que lhes foi concedida e de que foram<br \/>\ntocadas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, isto \u00e9 simples jogo de palavras. Se esses santos praticaram<br \/>\no mal e depois o bem, \u00e9 que melhoraram; logo, progrediram. E por que<br \/>\nlhes teria Deus concedido como especial favor a gra\u00e7a de se corrigirem?<br \/>\nSim, por que a eles e n\u00e3o a outros? Sempre, sempre a doutrina dos privil\u00e9gios,<br \/>\nincompat\u00edvel com a justi\u00e7a de Deus e com seu igual amor por<br \/>\ntodas as criaturas.<\/p>\n<p>Segundo a Doutrina Esp\u00edrita, de acordo mesmo com as palavras do Evangelho,<br \/>\ncom a l\u00f3gica e com a mais rigorosa justi\u00e7a, o homem \u00e9<br \/>\no filho de suas obras, durante esta vida e depois da morte, nada devendo ao<br \/>\nfavoritismo: Deus o recompensa pelos esfor\u00e7os e pune pela neglig\u00eancia,<br \/>\nisto por tanto tempo quanto nela persistir.<\/p>\n<p>A doutrina das penas eternas fez sua \u00e9poca<br \/>\n22. &#8211; A cren\u00e7a na eternidade das penas prevaleceu salutarmente enquanto<br \/>\nos homens n\u00e3o tiveram ao seu alcance a compreens\u00e3o do poder<br \/>\nmoral. \u00c9 o que sucede com as crian\u00e7as durante certo tempo contidas<br \/>\npela amea\u00e7a de seres quim\u00e9ricos com os quais s\u00e3o intimidadas:<br \/>\n-chegadas ao per\u00edodo do racioc\u00ednio, repelem por si mesmas essas<br \/>\nquimeras da inf\u00e2ncia, tornando-se absurdo o querer govern\u00e1-las<br \/>\npor tais meios. Se os que as dirigem pretendessem incutir-lhes ainda a veracidade<br \/>\nde tais f\u00e1bulas, certo decairiam da sua confian\u00e7a. \u00c9<br \/>\nisso que se d\u00e1 hoje com a Humanidade, saindo da inf\u00e2ncia e abandonando,<br \/>\npor assim dizer, os cueiros. O homem n\u00e3o \u00e9 mais passivo instrumento<br \/>\nvergado \u00e0 for\u00e7a material, nem o ente cr\u00e9dulo de outrora<br \/>\nque tudo aceitava de olhos fechados.<\/p>\n<p>23. &#8211; A cren\u00e7a \u00e9 um ato de entendimento que, por isso mesmo,<br \/>\nn\u00e3o pode ser imposta. Se, durante certo per\u00edodo da Humanidade,<br \/>\no dogma da eternidade das penas se manteve inofensivo e ben\u00e9fico mesmo,<br \/>\nchegou o momento de tornar-se perigoso. Imposto como verdade absoluta, quando<br \/>\na raz\u00e3o o repele, ou o homem quer acreditar e procura uma cren\u00e7a<br \/>\nmais racional, afastando-se dos que o professam, ou, ent\u00e3o, descr\u00ea<br \/>\nabsolutamente de tudo. Quem quer que estude o assunto, calmamente, ver\u00e1<br \/>\nque, em nossos dias, o dogma da eternidade das penas tem feito mais ateus<br \/>\ne materialistas do que todos os fil\u00f3sofos.<\/p>\n<p>As id\u00e9ias seguem um curso incessantemente progressivo, e absurdo \u00e9<br \/>\nquerer governar os homens desviando-os desse curso; pretender cont\u00ea-los,<br \/>\nretroceder ou simplesmente parar enquanto ele avan\u00e7a, \u00e9 condenar-se,<br \/>\n\u00e9 perder-se. Seguir ou deixar de seguir essa evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 uma quest\u00e3o de vida ou de morte para as religi\u00f5es como<br \/>\npara os governos.<\/p>\n<p>Este fatalismo \u00e9 um bem ou um mal? Para os que vivem do passado, vendo-o<br \/>\naniquilar-se, ser\u00e1 um mal; mas para os que vivem pelo futuro \u00e9<br \/>\numa lei do progresso, de Deus em suma.<\/p>\n<p>E contra uma lei de Deus \u00e9 in\u00fatil toda revolta, imposs\u00edvel<br \/>\na luta. Para que, pois, sustentar a todo o transe uma cren\u00e7a que se<br \/>\ndissolve em desuso fazendo mais danos que benef\u00edcios \u00e0 religi\u00e3o?<br \/>\nAh! contrista diz\u00ea-lo, mas uma quest\u00e3o material domina aqui a<br \/>\nquest\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p>Esta cren\u00e7a tem sido grandemente explorada pela id\u00e9ia de que<br \/>\ncom dinheiro se abrem as portas do c\u00e9u, livrando das do inferno. As<br \/>\nquantias por estes meios arrecadadas, outrora e ainda hoje, s\u00e3o incalcul\u00e1veis,<br \/>\ne verdadeiramente fabuloso o imposto pr\u00e9vio pago ao temor da eternidade.<br \/>\nE sendo facultativo tal imposto, a renda \u00e9 sempre proporcional \u00e0<br \/>\ncren\u00e7a; extinta esta, improdutivo ser\u00e1 aquele.<\/p>\n<p>De bom grado cede a crian\u00e7a o bolo a quem lhe promete afugentar o<br \/>\nlobisomem, mas se a crian\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o acreditar em lobisomens,<br \/>\nguardar\u00e1 o bolo.<\/p>\n<p>24. &#8211; A Nova Revela\u00e7\u00e3o, dando no\u00e7\u00f5es mais sensatas<br \/>\nda vida futura e provando que podemos, cada um de n\u00f3s, promover a felicidade<br \/>\npelas pr\u00f3prias obras, deve encontrar tremenda oposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntanto mais viva por estancar uma das mais rendosas fontes de receita. E assim<br \/>\ntem sido, sempre que uma nova descoberta ou invento abala costumes inveterados<br \/>\ne preestabelecidos.<\/p>\n<p>Quem vive de velhos e custosos processos jamais deixa de preconizar-lhes<br \/>\na superioridade e excel\u00eancia e de desacreditar os novos, mais econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Acreditar-se-\u00e1, por exemplo, que a imprensa, apesar dos benef\u00edcios<br \/>\nprestados \u00e0 sociedade, tenha sido aclamada pela classe dos copistas?<\/p>\n<p>N\u00e3o, certamente eles deveriam proflig\u00e1-la. O mesmo se tem dado<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o a maquinismos, caminho de ferro e centenares de outras<br \/>\ndescobertas e aplica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Aos olhos dos incr\u00e9dulos o dogma da eternidade das penas afigura-se<br \/>\nfutilidade da qual se riem; para o fil\u00f3sofo esse dogma tem uma gravidade<br \/>\nsocial pelos abusos que acoro\u00e7oa, ao passo que o homem verdadeiramente<br \/>\nreligioso tem a dignidade da religi\u00e3o interessada na destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos abusos que tal dogma origina, e da sua causa, enfim.<\/p>\n<p>Ezequiel contra a eternidade das penas e o pecado original<br \/>\n25. &#8211; A quem pretenda encontrar na B\u00edblia a justifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda eternidade das penas, pode-se opor os textos contr\u00e1rios que a tal<br \/>\nrespeito n\u00e3o comportam ambig\u00fcidades. As seguintes palavras de<br \/>\nEzequiel s\u00e3o a mais expl\u00edcita nega\u00e7\u00e3o, n\u00e3o<br \/>\nsomente das penas irremiss\u00edveis, mas da responsabilidade que o pecado<br \/>\ndo pai do g\u00eanero humano acarretasse \u00e0 sua ra\u00e7a:<\/p>\n<p>1. O Senhor novamente me falou e disse: &#8211; 2. Donde vem o uso desta par\u00e1bola<br \/>\nentre v\u00f3s e consagrada proverbialmente em Israel: Os pais, dizeis,<br \/>\ncomeram uvas verdes, e os dentes dos filhos ficaram estragados? &#8211; 3. Por mim<br \/>\njuro, disse o Senhor Deus, que essa par\u00e1bola n\u00e3o passar\u00e1<br \/>\nmais entre v\u00f3s, como prov\u00e9rbio em Israel: &#8211; 4. Pois todas as<br \/>\nalmas me pertencem; a do filho est\u00e1 comigo como a do pai; a alma que<br \/>\ntiver pecado morrer\u00e1 ela pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>5. Se um homem for justo, se proceder segundo a eq\u00fcidade e a justi\u00e7a;<br \/>\n&#8211; 7. Se n\u00e3o magoar nem oprimir ningu\u00e9m; se entregar ao seu devedor<br \/>\no penhor que este lhe houver dado; se n\u00e3o tomar nada do bem de outrem<br \/>\npor viol\u00eancia; se d\u00e1 o seu p\u00e3o a quem tem fome; se veste<br \/>\nos que est\u00e3o nus; &#8211; 8. Se n\u00e3o se presta \u00e0 usura e n\u00e3o<br \/>\npercebe mais do que tem dado; se desvia sua m\u00e3o da iniq\u00fcidade<br \/>\ne promove um ju\u00edzo conciliat\u00f3rio entre dois que contendem; &#8211;<br \/>\n9. Se caminha segundo a pauta dos meus preceitos e observa as minhas ordens<br \/>\npara obrar conforme a verdade, esse homem \u00e9 justo e viver\u00e1 mui<br \/>\ncertamente, disse o Senhor Deus.<\/p>\n<p>10. Se esse homem tem um filho que d\u00ea em ladr\u00e3o, e derrame sangue,<br \/>\nou que cometa algumas destas faltas; &#8211; 13. Esse filho morrer\u00e1 mui certamente,<br \/>\npois tem praticado todas essas a\u00e7\u00f5es detest\u00e1veis, e seu<br \/>\nsangue permanecer\u00e1 sobre a terra.<\/p>\n<p>14. Se esse homem tem um filho que, vendo todos os crimes por seu pai cometidos,<br \/>\nse aterrorize e evite imita\u00e7\u00e3o; &#8211; 17. Este n\u00e3o morrer\u00e1<br \/>\npor causa da iniq\u00fcidade de seu pai, mas viver\u00e1 mui certamente.<br \/>\n&#8211; 18. Seu pai, que tinha oprimido os outros por cal\u00fanias e que tinha<br \/>\npraticado a\u00e7\u00f5es criminosas no meio do seu povo, morreu por causa<br \/>\nda sua pr\u00f3pria iniq\u00fcidade.<\/p>\n<p>19. Se dizes: Por que o filho n\u00e3o tem suportado a iniq\u00fcidade<br \/>\nde seu pai? \u00c9 porque o filho tem obrado segundo a eq\u00fcidade e a<br \/>\njusti\u00e7a; tem guardado todos os meus preceitos; e porque os tem praticado<br \/>\nviver\u00e1 mui certamente.<\/p>\n<p>20. A alma que tem pecado morrer\u00e1 ela mesma: o filho n\u00e3o sofrer\u00e1<br \/>\npela iniq\u00fcidade do pai e o pai n\u00e3o sofrer\u00e1 pelo iniq\u00fcidade<br \/>\ndo filho; a justi\u00e7a do justo verter\u00e1 sobre ele mesmo, a impiedade<br \/>\ndo \u00edmpio verter\u00e1 sobre ele.<\/p>\n<p>21. Se o \u00edmpio fez penitencia de todos os pecados que tem cometido,<br \/>\nse observou todos os meus preceitos, se obra segundo a eq\u00fcidade e a justi\u00e7a,<br \/>\nele viver\u00e1 certamente e n\u00e3o morrer\u00e1. &#8211; 22. Eu n\u00e3o<br \/>\nme lembrei mais de todas as iniq\u00fcidades que ele tenha cometido; viver\u00e1<br \/>\nnas obras de justi\u00e7a que houver praticado.<\/p>\n<p>23. \u00c9 que eu quero a morte do \u00edmpio? disse o Senhor Deus, e<br \/>\nn\u00e3o quero antes que se converta e desgarre do mau caminho que trilha?<br \/>\n(Ezequiel, cap. XVIII.)<\/p>\n<p>Dizei-lhes estas palavras: Eu juro por mim mesmo que n\u00e3o quero a morte<br \/>\ndo \u00edmpio, mas que o \u00edmpio se converta, que abandone o mau caminho<br \/>\ne que viva. (Ezequiel, cap. XXXIII, v. 11.)<\/p>\n<h2><a id=\"7\" name=\"7\"><\/a>As penas futuras segundo o Espiritismo<\/h2>\n<h5>A carne \u00e9 fraca<\/h5>\n<p>H\u00e1 tend\u00eancias viciosas que s\u00e3o evidentemente pr\u00f3prias<br \/>\ndo Esp\u00edrito, porque se apegam mais ao moral do que ao f\u00edsico;<br \/>\noutras, parecem antes dependentes do organismo, e, por esse motivo, menos<br \/>\nrespons\u00e1veis s\u00e3o julgados os que as possuem: consideram-se como<br \/>\ntais as disposi\u00e7\u00f5es \u00e0 c\u00f3lera, \u00e0 pregui\u00e7a,<br \/>\n\u00e0 sensualidade, etc.<\/p>\n<p>Hoje, est\u00e1 plenamente reconhecido pelos fil\u00f3sofos espiritualistas<br \/>\nque os \u00f3rg\u00e3os cerebrais correspondentes a diversas aptid\u00f5es<br \/>\ndevem o seu desenvolvimento \u00e0 atividade do Esp\u00edrito. Assim,<br \/>\nesse desenvolvimento \u00e9 um efeito e n\u00e3o uma causa. Um homem n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 m\u00fasico porque tenha a bossa da m\u00fasica, mas possui essa<br \/>\ntend\u00eancia porque o seu Esp\u00edrito \u00e9 musical. Se a atividade<br \/>\ndo Esp\u00edrito reage sobre o c\u00e9rebro, deve tamb\u00e9m reagir<br \/>\nsobre as outras partes do organismo.<\/p>\n<p>O Esp\u00edrito \u00e9, deste modo, o artista do pr\u00f3prio corpo,<br \/>\npor ele talhado, por assim dizer, \u00e0 fei\u00e7\u00e3o das suas necessidades<br \/>\ne \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o das suas tend\u00eancias.<\/p>\n<p>Desta forma a perfei\u00e7\u00e3o corporal das ra\u00e7as adiantadas<br \/>\ndeixa de ser produto de cria\u00e7\u00f5es distintas para ser o resultado<br \/>\ndo trabalho espiritual, que aperfei\u00e7oa o inv\u00f3lucro material<br \/>\n\u00e0 medida que as faculdades aumentam.<\/p>\n<p>Por uma conseq\u00fc\u00eancia natural deste principio, as disposi\u00e7\u00f5es<br \/>\nmorais do Esp\u00edrito devem modificar as qualidades do sangue, dar-lhe<br \/>\nmaior ou menor atividade, provocar uma secre\u00e7\u00e3o mais ou menos<br \/>\nabundante de b\u00edlis ou de quaisquer outros fluidos. \u00c9 assim,<br \/>\npor exemplo, que ao glut\u00e3o enche-se-lhe a boca de saliva diante dum<br \/>\nprato apetitoso.<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que a iguaria n\u00e3o pode excitar o \u00f3rg\u00e3o<br \/>\ndo paladar, uma vez que com ele n\u00e3o tem contacto; \u00e9, pois, o<br \/>\nEsp\u00edrito, cuja sensibilidade \u00e9 despertada, que atua sobre aquele<br \/>\n\u00f3rg\u00e3o pelo pensamento, enquanto que outra pessoa permanecer\u00e1<br \/>\nindiferente \u00e0 vista do mesmo acepipe. \u00c9 ainda por este motivo<br \/>\nque a pessoa sens\u00edvel facilmente verte l\u00e1grimas. N\u00e3o<br \/>\n\u00e9, por\u00e9m, a abund\u00e2ncia destas que d\u00e1 sensibilidade<br \/>\nao Esp\u00edrito, mas precisamente a sensibilidade deste que provoca a secre\u00e7\u00e3o<br \/>\nabundante das l\u00e1grimas. Sob o imp\u00e9rio da sensibilidade, o organismo<br \/>\ncondiciona-se (1) \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o normal do Esp\u00edrito,<br \/>\ndo mesmo modo por que se condiciona \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito<br \/>\nglut\u00e3o.<\/p>\n<p>(1) O autor escreveu s&#8217;est appropri\u00e9 (p. 93, 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nParis, 1869), \u00e0 falta, na \u00e9poca, de verbo mais espec\u00edfico<br \/>\n\u00e0 perfeita tradu\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia. Nota da Editora<br \/>\n(FEB), em 1973.<\/p>\n<p>Seguindo esta ordem de id\u00e9ias, compreende-se que um Esp\u00edrito<br \/>\nirasc\u00edvel deve encaminhar-se para estimular um temperamento bilioso,<br \/>\ndo que resulta n\u00e3o ser um homem col\u00e9rico por bilioso, mas bilioso<br \/>\npor col\u00e9rico. O mesmo se d\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o a todas<br \/>\nas outras disposi\u00e7\u00f5es instintivas: um Esp\u00edrito indolente<br \/>\ne fraco deixar\u00e1 o organismo em estado de atonia relativo ao seu car\u00e1ter,<br \/>\nao passo que, ativo e en\u00e9rgico, dar\u00e1 ao sangue como aos nervos<br \/>\nqualidades perfeitamente opostas. A a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito<br \/>\nsobre o f\u00edsico \u00e9 t\u00e3o evidente que n\u00e3o raro vemos<br \/>\ngraves desordens org\u00e2nicas sobrevirem a violentas como\u00e7\u00f5es<br \/>\nmorais.<\/p>\n<p>A express\u00e3o vulgar: &#8211; A emo\u00e7\u00e3o transtornou-lhe o sangue<br \/>\n&#8211; n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o destitu\u00edda de sentido quanto se poderia<br \/>\nsupor. Ora, que poderia transtornar o sangue sen\u00e3o as disposi\u00e7\u00f5es<br \/>\nmorais do Esp\u00edrito?<\/p>\n<p>Pode admitir-se por conseguinte, ao menos em parte, que o temperamento \u00e9<br \/>\ndeterminado pela natureza do Esp\u00edrito, que \u00e9 causa e n\u00e3o<br \/>\nefeito.<\/p>\n<p>E n\u00f3s dizemos em parte, porque h\u00e1 casos em que o f\u00edsico<br \/>\ninflui evidentemente sobre o moral, tais como quando um estado m\u00f3rbido<br \/>\nou anormal \u00e9 determinado por causa externa, acidental, independente<br \/>\ndo Esp\u00edrito, como sejam a temperatura, o clima, os defeitos f\u00edsicos<br \/>\ncong\u00eanitos, uma doen\u00e7a passageira, etc.<\/p>\n<p>O moral do Esp\u00edrito pode, nesses casos, ser afetado em suas manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\npelo estado patol\u00f3gico, sem que a sua natureza intr\u00ednseca seja<br \/>\nmodificada. Escusar-se de seus erros por fraqueza da carne n\u00e3o passa<br \/>\nde sofisma para escapar a responsabilidades.<\/p>\n<p>A carne s\u00f3 \u00e9 fraca porque o Esp\u00edrito \u00e9 fraco,<br \/>\no que inverte a quest\u00e3o deixando \u00e0quele a responsabilidade de<br \/>\ntodos os seus atos. A carne, destitu\u00edda de pensamento e vontade, n\u00e3o<br \/>\npode prevalecer jamais sobre o Esp\u00edrito, que \u00e9 o ser pensante<br \/>\ne de vontade pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>O Esp\u00edrito \u00e9 quem d\u00e1 \u00e0 carne as qualidades correspondentes<br \/>\nao seu instinto, tal como o artista que imprime \u00e0 obra material o cunho<br \/>\ndo seu g\u00eanio. Libertado dos instintos da bestialidade, elabora um corpo<br \/>\nque n\u00e3o \u00e9 mais um tirano de sua aspira\u00e7\u00e3o, para<br \/>\nespiritualidade do seu ser, e \u00e9 quando o homem passa a comer para viver<br \/>\ne n\u00e3o mais vive para comer.<\/p>\n<p>A responsabilidade moral dos atos da vida fica, portanto, intacta; mas a<br \/>\nraz\u00e3o nos diz que as conseq\u00fc\u00eancias dessa responsabilidade<br \/>\ndevem ser proporcionais ao desenvolvimento intelectual do Esp\u00edrito.<br \/>\nAssim, quanto mais esclarecido for este, menos desculp\u00e1vel se torna,<br \/>\numa vez que com a intelig\u00eancia e o senso moral nascem as no\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo bem e do mal, do justo e do injusto.<\/p>\n<p>Esta lei explica o insucesso da Medicina em certos casos. Desde que o temperamento<br \/>\n\u00e9 um efeito e n\u00e3o uma causa, todo o esfor\u00e7o para modific\u00e1-lo<br \/>\nse nulifica ante disposi\u00e7\u00f5es morais do Esp\u00edrito, opondo-lhe<br \/>\numa resist\u00eancia inconsciente que neutraliza a a\u00e7\u00e3o terap\u00eautica.<br \/>\nPor conseguinte, sobre a causa primordial \u00e9 que se deve atuar.<\/p>\n<p>Dai, se puderdes, coragem ao poltr\u00e3o, e vereis para logo cessados<br \/>\nos efeitos fisiol\u00f3gicos do medo. Isto prova ainda uma vez a necessidade,<br \/>\npara a arte de curar, de levar em conta a influ\u00eancia espiritual sobre<br \/>\nos organismos. (Revue Spirite, mar\u00e7o de 1869, p\u00e1g. 65.)<\/p>\n<h2><a id=\"8\" name=\"8\"><\/a>Princ\u00edpios da Doutrina Esp\u00edrita sobre as<br \/>\npenas futuras<\/h2>\n<p>A Doutrina Esp\u00edrita, no que respeita \u00e0s penas futuras, n\u00e3o<br \/>\nse baseia numa teoria preconcebida; n\u00e3o \u00e9 um sistema substituindo<br \/>\noutro sistema: em tudo ela se ap\u00f3ia nas observa\u00e7\u00f5es,<br \/>\ne s\u00e3o estas que lhe d\u00e3o plena autoridade. Ningu\u00e9m jamais<br \/>\nimaginou que as almas, depois da morte, se encontrariam em tais ou quais condi\u00e7\u00f5es;<br \/>\ns\u00e3o elas, essas mesmas almas, partidas da Terra, que nos v\u00eam<br \/>\nhoje iniciar nos mist\u00e9rios da vida futura, descrever-nos sua situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nfeliz ou desgra\u00e7ada, as impress\u00f5es, a transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\npela morte do corpo, completando, em uma palavra, os ensinamentos do Cristo<br \/>\nsobre este ponto.<\/p>\n<p>Preciso \u00e9 afirmar que se n\u00e3o trata neste caso das revela\u00e7\u00f5es<br \/>\nde um s\u00f3 Esp\u00edrito, o qual poderia ver as coisas do seu ponto<br \/>\nde vista, sob um s\u00f3 aspecto, ainda dominado por terrenos preju\u00edzos.<br \/>\nTampouco se trata de uma revela\u00e7\u00e3o feita exclusivamente a um<br \/>\nindiv\u00edduo que pudesse deixar-se levar pelas apar\u00eancias, ou de<br \/>\numa vis\u00e3o ext\u00e1tica suscet\u00edvel de ilus\u00f5es, e n\u00e3o<br \/>\npassando muitas vezes de reflexo de uma imagina\u00e7\u00e3o exaltada.<br \/>\n(1) T<\/p>\n<p>rata-se, sim, de in\u00fameros exemplos fornecidos por Esp\u00edritos<br \/>\nde todas as categorias, desde os mais elevados aos mais inferiores da escala,<br \/>\npor interm\u00e9dio de outros tantos auxiliares (m\u00e9diuns) disseminados<br \/>\npelo mundo, de sorte que a revela\u00e7\u00e3o deixa de ser privil\u00e9gio<br \/>\nde algu\u00e9m, pois todos podem prov\u00e1-la, observando-a, sem obrigar-se<br \/>\n\u00e0 cren\u00e7a pela cren\u00e7a de outrem.<\/p>\n<p>(1) Vede cap. VI, n\u00ba 7, e O Livro dos Esp\u00edritos n\u00bas 443<br \/>\ne 444.<\/p>\n<h2><a id=\"9\" name=\"9\"><\/a>C\u00f3digo penal da vida futura<\/h2>\n<p>O Espiritismo n\u00e3o vem, pois, com sua autoridade privada, formular<br \/>\num c\u00f3digo de fantasia; a sua lei, no que respeita ao futuro da alma,<br \/>\ndeduzida das observa\u00e7\u00f5es do fato, pode resumir-se nos seguintes<br \/>\npontos:<\/p>\n<p>1\u00ba &#8211; A alma ou Esp\u00edrito sofre na vida espiritual as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\nde todas as imperfei\u00e7\u00f5es que n\u00e3o conseguiu corrigir na<br \/>\nvida corporal. O seu estado, feliz ou desgra\u00e7ado, \u00e9 inerente<br \/>\nao seu grau de pureza ou impureza.<\/p>\n<p>2\u00ba A completa felicidade prende-se \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nisto \u00e9, \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o completa do Esp\u00edrito.<br \/>\nToda imperfei\u00e7\u00e3o \u00e9, por sua vez, causa de sofrimento<br \/>\ne de priva\u00e7\u00e3o de gozo, do mesmo modo que toda perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nadquirida \u00e9 fonte de gozo e atenuante de sofrimentos.<\/p>\n<p>3\u00ba &#8211; N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica imperfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nda alma que n\u00e3o importe funestas e inevit\u00e1veis conseq\u00fc\u00eancias,<br \/>\ncomo n\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 qualidade boa que n\u00e3o seja<br \/>\nfonte de um gozo.<\/p>\n<p>A soma das penas \u00e9, assim, proporcionada \u00e0 soma das imperfei\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncomo a dos gozos \u00e0 das qualidades.<\/p>\n<p>A alma que tem dez imperfei\u00e7\u00f5es, por exemplo, sofre mais do<br \/>\nque a que tem tr\u00eas ou quatro; e quando dessas dez imperfei\u00e7\u00f5es<br \/>\nn\u00e3o lhe restar mais que metade ou um quarto, menos sofrer\u00e1.<\/p>\n<p>De todo extintas, ent\u00e3o a alma ser\u00e1 perfeitamente feliz. Tamb\u00e9m<br \/>\nna Terra, quem tem muitas mol\u00e9stias, sofre mais do que quem tenha apenas<br \/>\numa ou nenhuma. Pela mesma raz\u00e3o, a alma que possui dez perfei\u00e7\u00f5es,<br \/>\ntem mais gozos do que outra menos rica de boas qualidades.<\/p>\n<p>4\u00ba &#8211; Em virtude da lei do progresso que d\u00e1 a toda alma a possibilidade<br \/>\nde adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem de mau, conforme<br \/>\no esfor\u00e7o e vontade pr\u00f3prios, temos que o futuro \u00e9 aberto<br \/>\na todas as criaturas. Deus n\u00e3o repudia nenhum de seus filhos, antes<br \/>\nrecebe-os em seu seio \u00e0 medida que atingem a perfei\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndeixando a cada qual o m\u00e9rito das suas obras.<\/p>\n<p>5\u00ba &#8211; Dependendo o sofrimento da imperfei\u00e7\u00e3o, como o gozo<br \/>\nda perfei\u00e7\u00e3o, a alma traz consigo o pr\u00f3prio castigo ou<br \/>\npr\u00eamio, onde quer que se encontre, sem necessidade de lugar circunscrito.<\/p>\n<p>O inferno est\u00e1 por toda parte em que haja almas sofredoras, e o c\u00e9u<br \/>\nigualmente onde houver almas felizes.<\/p>\n<p>6\u00ba &#8211; O bem e o mal que fazemos decorrem das qualidades que possu\u00edmos.<br \/>\nN\u00e3o fazer o bem quando podemos e, portanto, o resultado de uma imperfei\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe toda imperfei\u00e7\u00e3o \u00e9 fonte de sofrimento, o Esp\u00edrito<br \/>\ndeve sofrer n\u00e3o somente pelo mal que fez como pelo bem que deixou de<br \/>\nfazer na vida terrestre.<\/p>\n<p>7\u00ba &#8211; O Esp\u00edrito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo<br \/>\na sua aten\u00e7\u00e3o constantemente dirigida para as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\ndesse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se.<\/p>\n<p>8\u00ba &#8211; Sendo infinita a justi\u00e7a de Deus, o bem e o mal s\u00e3o<br \/>\nrigorosamente considerados, n\u00e3o havendo uma s\u00f3 a\u00e7\u00e3o,<br \/>\num s\u00f3 pensamento mau que n\u00e3o tenha conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\nfatais, como n\u00e3o na uma \u00fanica a\u00e7\u00e3o merit\u00f3ria.<br \/>\num s\u00f3 bom movimento da alma que se perca, mesmo para os mais perversos,<br \/>\npor isso que constituem tais a\u00e7\u00f5es um come\u00e7o de progresso.<\/p>\n<p>9\u00ba &#8211; Toda falta cometida, todo mal realizado \u00e9 uma d\u00edvida<br \/>\ncontra\u00edda que dever\u00e1 ser paga; se o n\u00e3o for em urna exist\u00eancia,<br \/>\ns\u00ea-lo-\u00e1 na seguinte ou seguintes, porque todas as exist\u00eancias<br \/>\ns\u00e3o solid\u00e1rias entre si. Aquele que se quita numa exist\u00eancia<br \/>\nn\u00e3o ter\u00e1 necessidade de pagar segunda vez.<\/p>\n<p>10\u00ba &#8211; O Esp\u00edrito sofre, quer no mundo corporal, quer no espiritual,<br \/>\na conseq\u00fc\u00eancia das suas imperfei\u00e7\u00f5es. As mis\u00e9rias,<br \/>\nas vicissitudes padecidas na vida corp\u00f3rea, s\u00e3o oriundas das<br \/>\nnossas imperfei\u00e7\u00f5es, s\u00e3o expia\u00e7\u00f5es de faltas<br \/>\ncometidas na presente ou em precedentes exist\u00eancias.<\/p>\n<p>Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corp\u00f3rea, pode<br \/>\njulgar-se a natureza das faltas cometidas em anterior exist\u00eancia, e<br \/>\ndas imperfei\u00e7\u00f5es que as originaram.<\/p>\n<p>11\u00ba &#8211; A expia\u00e7\u00e3o varia segundo a natureza e gravidade<br \/>\nda falta, podendo, portanto, a mesma falta determinar expia\u00e7\u00f5es<br \/>\ndiversas, conforme as circunst\u00e2ncias, atenuantes ou agravantes, em que<br \/>\nfor cometida.<\/p>\n<p>12\u00ba &#8211; N\u00e3o h\u00e1 regra absoluta nem uniforme quanto \u00e0<br \/>\nnatureza e dura\u00e7\u00e3o do castigo: &#8211; a \u00fanica lei geral \u00e9<br \/>\nque toda falta ter\u00e1 puni\u00e7\u00e3o, e ter\u00e1 recompensa<br \/>\ntodo ato merit\u00f3rio, segundo o seu valor.<\/p>\n<p>13\u00ba &#8211; A dura\u00e7\u00e3o do castigo depende da melhoria do Esp\u00edrito<br \/>\nculpado.<\/p>\n<p>Nenhuma condena\u00e7\u00e3o por tempo determinado lhe \u00e9 prescrita.<br \/>\nO que Deus exige por termo de sofrimentos \u00e9 um melhoramento s\u00e9rio,<br \/>\nefetivo, sincero, de volta ao bem.<\/p>\n<p>Deste modo o Esp\u00edrito \u00e9 sempre o \u00e1rbitro da pr\u00f3pria<br \/>\nsorte, podendo prolongar os sofrimentos pela pertin\u00e1cia no mal, ou<br \/>\nsuaviz\u00e1-los e anul\u00e1-los pela pr\u00e1tica do bem.<\/p>\n<p>Uma condena\u00e7\u00e3o por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente<br \/>\nde continuar o mart\u00edrio do Esp\u00edrito renegado, ou de libert\u00e1-lo<br \/>\ndo sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que \u00e9 justo,<br \/>\ns\u00f3 pune o mal enquanto existe, e deixa de o punir quando n\u00e3o<br \/>\nexiste mais (1); por outra, o mal moral, sendo por si mesmo causa de sofrimento,<br \/>\nfar\u00e1 este durar enquanto subsistir aquele, ou diminuir\u00e1 de intensidade<br \/>\n\u00e0 medida que ele decres\u00e7a.<\/p>\n<p>(1) Vede cap. VI, n\u00ba 25, cita\u00e7\u00e3o de Ezequiel.<\/p>\n<p>14\u00ba &#8211; Dependendo da melhoria do Esp\u00edrito a dura\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo castigo, o culpado que jamais melhorasse sofreria sempre, e, para ele,<br \/>\na pena seria eterna.<\/p>\n<p>15\u00ba &#8211; Uma condi\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 inferioridade dos<br \/>\nEsp\u00edritos \u00e9 n\u00e3o lobrigarem o termo da prova\u00e7\u00e3o,<br \/>\nacreditando-a eterna, como eterno lhes parece deva ser um tal castigo. (2)<\/p>\n<p>(2) Perp\u00e9tuo \u00e9 sin\u00f4nimo de eterno. Diz-se o limite das<br \/>\nneves perp\u00e9tuas; o eterno gelo dos p\u00f3los; tamb\u00e9m se diz<br \/>\no secret\u00e1rio perp\u00e9tuo da Academia, o que n\u00e3o significa<br \/>\nque o seja ad perpetuam, mas unicamente por tempo ilimitado. Eterno e perp\u00e9tuo<br \/>\nse empregam, pois, no sentido de indeterminado. Nesta acep\u00e7\u00e3o<br \/>\npode dizer-se que as penas s\u00e3o eternas, para exprimir que n\u00e3o<br \/>\nt\u00eam dura\u00e7\u00e3o limitada; eternas, portanto, para o Esp\u00edrito<br \/>\nque lhes n\u00e3o v\u00ea o termo.<\/p>\n<p>16\u00ba &#8211; O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regenera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o basta por si s\u00f3; s\u00e3o precisas a expia\u00e7\u00e3o<br \/>\ne a repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Arrependimento, expia\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o constituem,<br \/>\nportanto, as tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para apagar<br \/>\nos tra\u00e7os de uma falta e suas conseq\u00fc\u00eancias. O arrependimento<br \/>\nsuaviza os travos da expia\u00e7\u00e3o, abrindo pela esperan\u00e7a<br \/>\no caminho da reabilita\u00e7\u00e3o; s\u00f3 a repara\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncontudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contr\u00e1rio,<br \/>\no perd\u00e3o seria uma gra\u00e7a, n\u00e3o uma anula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>17\u00ba &#8211; O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo;<br \/>\nse for tarde, por\u00e9m, o culpado sofre por mais tempo.<\/p>\n<p>At\u00e9 que os \u00faltimos vest\u00edgios da falta desapare\u00e7am,<br \/>\na expia\u00e7\u00e3o consiste nos sofrimentos f\u00edsicos e morais<br \/>\nque lhe s\u00e3o conseq\u00fcentes, seja na vida atual, seja na vida espiritual<br \/>\nap\u00f3s a morte, ou ainda em nova exist\u00eancia corporal.<\/p>\n<p>A repara\u00e7\u00e3o consiste em fazer o bem \u00e0queles a quem se<br \/>\nhavia feito o mal. Quem n\u00e3o repara os seus erros numa exist\u00eancia,<br \/>\npor fraqueza ou m\u00e1-vontade, achar-se-\u00e1 numa exist\u00eancia<br \/>\nulterior em contacto com as mesmas pessoas que de si tiverem queixas, e em<br \/>\ncondi\u00e7\u00f5es voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes<br \/>\nreconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. Nem todas<br \/>\nas faltas acarretam preju\u00edzo direto e efetivo; em tais casos a repara\u00e7\u00e3o<br \/>\nse opera, fazendo-se o que se deveria fazer e foi descurado; cumprindo os<br \/>\ndeveres desprezados, as miss\u00f5es n\u00e3o preenchidas; praticando<br \/>\no bem em compensa\u00e7\u00e3o ao mal praticado, isto \u00e9, tornando-se<br \/>\nhumilde se se tem sido orgulhoso, am\u00e1vel se se foi austero, caridoso<br \/>\nse se tem sido ego\u00edsta, benigno se se tem sido perverso, laborioso<br \/>\nse se tem sido ocioso, \u00fatil se se tem sido in\u00fatil, frugal se<br \/>\nse tem sido intemperante, trocando em suma por bons os maus exemplos perpetrados.<br \/>\nE desse modo progride o Esp\u00edrito, aproveitando-se do pr\u00f3prio<br \/>\npassado. (1)<\/p>\n<p>(1) A necessidade da repara\u00e7\u00e3o \u00e9 um princ\u00edpio<br \/>\nde rigorosa justi\u00e7a. que se pode considerar verdadeira lei de reabilita\u00e7\u00e3o<br \/>\nmorai dos Esp\u00edritos. Entretanto, essa doutrina religi\u00e3o alguma<br \/>\nainda a proclamou. Algumas pessoas repelem-na porque acham mais c\u00f4modo<br \/>\no poder quitarem-se das m\u00e1s a\u00e7\u00f5es por um simples arrependimento,<br \/>\nque n\u00e3o custa mais que palavras, por meio de algumas f\u00f3rmulas;<br \/>\ncontudo, crendo-se, assim, quites, ver\u00e3o mais tarde se isso lhes bastava.<br \/>\nN\u00f3s poder\u00edamos perguntar se esse principio n\u00e3o \u00e9<br \/>\nconsagrado pela lei humana, e se a justi\u00e7a divina pode ser inferior<br \/>\n\u00e0 dos homens? E mais, se essas leis se dariam por desafrontadas desde<br \/>\nque o indiv\u00edduo que as transgredisse, por abuso de confian\u00e7a,<br \/>\nse limitasse a dizer que as respeita infinitamente.<\/p>\n<p>Por que h\u00e3o de vacilar tais pessoas perante uma obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nque todo homem honesto se imp\u00f5e como dever, segundo o grau de suas<br \/>\nfor\u00e7as?<\/p>\n<p>Quando esta perspectiva de repara\u00e7\u00e3o for inculcada na cren\u00e7a<br \/>\ndas massas, ser\u00e1 um outro freio aos seus desmandos, e bem mais poderoso<br \/>\nque o inferno e respectivas penas eternas, visto como interessa a vida em<br \/>\nsua plena atualidade, podendo o homem compreender a proced\u00eancia das<br \/>\ncircunst\u00e2ncias que a tornam penosa, ou a sua verdadeira situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>18\u00ba &#8211; Os Esp\u00edritos imperfeitos s\u00e3o exclu\u00eddos dos<br \/>\nmundos felizes, cuja harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a<br \/>\nexpiarem as suas faltas pelas tribula\u00e7\u00f5es da vida, e purificando-se<br \/>\ndas suas imperfei\u00e7\u00f5es at\u00e9 que mere\u00e7am a encarna\u00e7\u00e3o<br \/>\nem mundos mais elevados, mais adiantados moral e fisicamente. Se se pode conceber<br \/>\num lugar circunscrito de castigo, tal lugar \u00e9, sem d\u00favida, nesses<br \/>\nmundos de expia\u00e7\u00e3o, em torno dos quais pululam Esp\u00edritos<br \/>\nimperfeitos, desencarnados \u00e0 espera de novas exist\u00eancias que<br \/>\nlhes permitam reparar o mal, auxiliando-os no progresso.<\/p>\n<p>19\u00ba &#8211; Como o Esp\u00edrito tem sempre o livre-arb\u00edtrio, o progresso<br \/>\npor vezes se lhe torna lento, e tenaz a sua obstina\u00e7\u00e3o no mal.<br \/>\nNesse estado pode persistir anos e s\u00e9culos, vindo por fim um momento<br \/>\nem que a sua contum\u00e1cia se modifica pelo sofrimento, e, a despeito<br \/>\nda sua jact\u00e2ncia, reconhece o poder superior que o domina.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, desde que se manifestam os primeiros vislumbres de arrependimento,<br \/>\nDeus lhe faz entrever a esperan\u00e7a. Nem h\u00e1 Esp\u00edrito incapaz<br \/>\nde nunca progredir, votado a eterna inferioridade, o que seria a nega\u00e7\u00e3o<br \/>\nda lei de progresso, que providencialmente rege todas as criaturas.<\/p>\n<p>20\u00ba &#8211; Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Esp\u00edritos,<br \/>\nDeus jamais os abandona. Todos t\u00eam seu anjo de guarda (guia) que por<br \/>\neles vela, na persuas\u00e3o de suscitar-lhes bons pensamentos, desejos<br \/>\nde progredir e, bem assim, de espreitar-lhes os movimentos da alma, com o<br \/>\nque se esfor\u00e7am por reparar em uma nova exist\u00eancia o mal que<br \/>\npraticaram. Contudo, essa interfer\u00eancia do guia faz-se quase sempre<br \/>\nocultamente e de modo a n\u00e3o haver press\u00e3o, pois que o Esp\u00edrito<br \/>\ndeve progredir por impulso da pr\u00f3pria vontade, nunca por qualquer sujei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O bem e o mal s\u00e3o praticados em virtude do livre-arb\u00edtrio,<br \/>\ne, conseguintemente, sem que o Esp\u00edrito seja fatalmente impelido para<br \/>\num ou outro sentido.<\/p>\n<p>Persistindo no mal, sofrer\u00e1 as conseq\u00fc\u00eancias por tanto<br \/>\ntempo quanto durar a persist\u00eancia, do mesmo modo que, dando um passo<br \/>\npara o bem, sente imediatamente ben\u00e9ficos efeitos.<\/p>\n<p>OBSERVA\u00c7\u00c3O &#8211; Erro seria supor que, por efeito da lei de progresso,<br \/>\na certeza de atingir cedo ou tarde a perfei\u00e7\u00e3o e a felicidade<br \/>\npode estimular a perseveran\u00e7a no mal, sob a condi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo ulterior arrependimento: primeiro porque o Esp\u00edrito inferior n\u00e3o<br \/>\nse apercebe do termo da sua situa\u00e7\u00e3o; e segundo porque, sendo<br \/>\nele o autor da pr\u00f3pria infelicidade, acaba por compreender que de si<br \/>\ndepende o faz\u00ea-la cessar; que por tanto tempo quanto perseverar no mal<br \/>\nser\u00e1 infeliz; finalmente, que o sofrimento ser\u00e1 int\u00e9rmino<br \/>\nse ele pr\u00f3prio n\u00e3o lhe der fim. Seria, pois, um c\u00e1lculo<br \/>\nnegativo, cujas conseq\u00fc\u00eancias o Esp\u00edrito seria o primeiro<br \/>\na reconhecer. Com o dogma das penas irremiss\u00edveis \u00e9 que se verifica,<br \/>\nprecisamente, tal hip\u00f3tese, visto como \u00e9 para sempre interdita<br \/>\nqualquer id\u00e9ia de esperan\u00e7a, n\u00e3o tendo pois o homem interesse<br \/>\nem converter-se ao bem, para ele sem proveito.<\/p>\n<p>Diante dessa lei, cai tamb\u00e9m a obje\u00e7\u00e3o extra\u00edda<br \/>\nda presci\u00eancia divina, pois Deus, criando uma alma, sabe efetivamente<br \/>\nse, em virtude do seu livre-arb\u00edtrio, ela tomar\u00e1 a boa ou a<br \/>\nm\u00e1 estrada; sabe que ela ser\u00e1 punida se fizer o mal; mas sabe<br \/>\ntamb\u00e9m que tal castigo tempor\u00e1rio \u00e9 um meio de faz\u00ea-la<br \/>\ncompreender o erro, cedo ou tarde entrando no bom caminho. Pela doutrina das<br \/>\npenas eternas conclui-se que Deus sabe que essa alma falir\u00e1 e, portanto,<br \/>\nque est\u00e1 previamente condenada a torturas infinitas.<\/p>\n<p>21\u00ba &#8211; A responsabilidade das faltas \u00e9 toda pessoal, ningu\u00e9m<br \/>\nsofre por erros alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo<br \/>\nexemplo, quer n\u00e3o os impedindo quando poderia faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Assim, o suicida \u00e9 sempre punido; mas aquele que por maldade impele<br \/>\noutro a comet\u00ea-lo, esse sofre ainda maior pena.<\/p>\n<p>22\u00ba &#8211; Conquanto infinita a diversidade de puni\u00e7\u00f5es, algumas<br \/>\nh\u00e1 inerentes \u00e0 inferioridade dos Esp\u00edritos, e cujas conseq\u00fc\u00eancias,<br \/>\nsalvo pormenores, s\u00e3o pouco mais ou menos id\u00eanticas.<\/p>\n<p>A puni\u00e7\u00e3o mais imediata, sobretudo entre os que se acham ligados<br \/>\n\u00e0 vida material em detrimento do progresso espiritual, faz-se sentir<br \/>\npela lentid\u00e3o do desprendimento da alma; nas ang\u00fastias que acompanham<br \/>\na morte e o despertar na outra vida, na conseq\u00fcente perturba\u00e7\u00e3o<br \/>\nque pode dilatar-se por meses e anos.<\/p>\n<p>Naqueles que, ao contr\u00e1rio, t\u00eam pura a consci\u00eancia e na<br \/>\nvida material j\u00e1 se acham identificados com a vida espiritual, o trespasse<br \/>\n\u00e9 r\u00e1pido, sem abalos, quase nula a turba\u00e7\u00e3o de<br \/>\num pac\u00edfico despertar.<\/p>\n<p>23\u00ba &#8211; Um fen\u00f4meno mui freq\u00fcente entre os Esp\u00edritos<br \/>\nde certa inferioridade moral \u00e9 o acreditarem-se ainda vivos, podendo<br \/>\nesta ilus\u00e3o prolongar-se por muitos anos, durante os quais eles experimentar\u00e3o<br \/>\ntodas as necessidades, todos os tormentos e perplexidades da vida.<\/p>\n<p>24\u00ba &#8211; Para o criminoso, a presen\u00e7a incessante das vitimas e das<br \/>\ncircunst\u00e2ncias do crime \u00e9 um supl\u00edcio cruel.<\/p>\n<p>25\u00ba &#8211; Esp\u00edritos h\u00e1 mergulhados em densa treva; outros<br \/>\nse encontram em absoluto insulamento no Espa\u00e7o, atormentados pela ignor\u00e2ncia<br \/>\nda pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o, como da sorte que os aguarda. Os<br \/>\nmais culpados padecem torturas muito mais pungentes por n\u00e3o lhes entreverem<br \/>\num termo.<\/p>\n<p>Alguns s\u00e3o privados de ver os seres queridos, e todos, geralmente,<br \/>\npassam com intensidade relativa pelos males, pelas dores e priva\u00e7\u00f5es<br \/>\nque a outrem ocasionaram. Esta situa\u00e7\u00e3o perdura at\u00e9 que<br \/>\no desejo de repara\u00e7\u00e3o pelo arrependimento lhes traga a calma<br \/>\npara entrever a possibilidade de, por eles mesmos, p\u00f4r um termo \u00e0<br \/>\nsua situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>26\u00ba &#8211; Para o orgulhoso relegado \u00e0s classes inferiores. \u00e9<br \/>\nsupl\u00edcio ver acima dele colocados, cheios de gl\u00f3ria e bem-estar,<br \/>\nos que na Terra desprezara. O hip\u00f3crita v\u00ea desvendados, penetrados<br \/>\ne lidos por todo o mundo os seus mais secretos pensamentos, sem que os possa<br \/>\nocultar ou dissimular; o s\u00e1tiro, na impot\u00eancia de os saciar,<br \/>\ntem na exalta\u00e7\u00e3o dos bestiais desejos o mais atroz tormento;<br \/>\nv\u00ea o avaro o esbanjamento inevit\u00e1vel do seu tesouro, enquanto<br \/>\nque o ego\u00edsta, desamparado de todos, sofre as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\nda sua atitude terrena; nem a sede nem a fome lhe ser\u00e3o mitigadas,<br \/>\nnem amigas m\u00e3os se lhe estender\u00e3o \u00e0s suas m\u00e3os<br \/>\ns\u00faplices; e pois que em vida s\u00f3 de si cuidara, ningu\u00e9m<br \/>\ndele se compadecer\u00e1 na morte.<\/p>\n<p>27\u00ba &#8211; O \u00fanico meio de evitar ou atenuar as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\nfuturas de uma falta, est\u00e1 no repar\u00e1-la, desfazendo-a no presente.<br \/>\nQuanto mais nos demorarmos na repara\u00e7\u00e3o de uma falta, tanto<br \/>\nmais penosas e rigorosas ser\u00e3o, no futuro, as suas conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>28\u00ba &#8211; A situa\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, no mundo espiritual,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o a por si mesmo preparada na vida corp\u00f3rea.<\/p>\n<p>Mais tarde, outra encarna\u00e7\u00e3o se lhe faculta para novas provas<br \/>\nde expia\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o, com maior ou menor proveito,<br \/>\ndependentes do seu livre-arb\u00edtrio; e se ele n\u00e3o se corrige,<br \/>\nter\u00e1 sempre uma miss\u00e3o a recome\u00e7ar, sempre e sempre mais<br \/>\nacerba, de sorte que pode dizer-se que aquele que muito sofre na Terra, muito<br \/>\ntinha a expiar; e os que gozam uma felicidade aparente, em que pesem aos seus<br \/>\nv\u00edcios e inutilidades, paga-la-\u00e3o mui caro em ulterior exist\u00eancia.<br \/>\nNesse sentido foi que Jesus disse: &#8211; &#8220;Bem-aventurados os aflitos, porque<br \/>\nser\u00e3o consolados,&#8221; (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V.)<\/p>\n<p>29\u00ba &#8211; Certo, a miseric\u00f3rdia de Deus \u00e9 infinita, mas n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 cega. O culpado que ela atinge n\u00e3o fica exonerado, e, enquanto<br \/>\nn\u00e3o houver satisfeito \u00e0 justi\u00e7a, sofre a conseq\u00fc\u00eancia<br \/>\ndos seus erros. Por infinita miseric\u00f3rdia, devemos ter que Deus n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 inexor\u00e1vel, deixando sempre vi\u00e1vel o caminho da reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>30\u00ba &#8211; Subordinadas ao arrependimento e repara\u00e7\u00e3o dependentes<br \/>\nda vontade humana, as penas, por tempor\u00e1rias, constituem concomitantemente<br \/>\ncastigos e rem\u00e9dios auxiliares \u00e0 cura do mal. Os Esp\u00edritos,<br \/>\nem prova, n\u00e3o s\u00e3o, pois, quais gal\u00e9s por certo tempo<br \/>\ncondenados, mas como doentes de hospital sofrendo de mol\u00e9stias resultantes<br \/>\nda pr\u00f3pria inc\u00faria, a compadecerem-se com meios curativos mais<br \/>\nou menos dolorosos que a mol\u00e9stia reclama, esperando alta tanto mais<br \/>\npronta quanto mais estritamente observadas as prescri\u00e7\u00f5es do<br \/>\nsol\u00edcito m\u00e9dico assistente. Se os doentes, pelo pr\u00f3prio<br \/>\ndescuido de si mesmos, prolongam a enfermidade, o m\u00e9dico nada tem que<br \/>\nver com isso.<\/p>\n<p>31\u00ba &#8211; As penas que o Esp\u00edrito experimenta na vida espiritual<br \/>\najuntam-se as da vida corp\u00f3rea, que s\u00e3o conseq\u00fcentes \u00e0s<br \/>\nimperfei\u00e7\u00f5es do homem, \u00e0s suas paix\u00f5es, ao mau<br \/>\nuso das suas faculdades e \u00e0 expia\u00e7\u00e3o de presentes e passadas<br \/>\nfaltas. z na vida corp\u00f3rea que o Esp\u00edrito repara o mal de anteriores<br \/>\nexist\u00eancias, pondo em pr\u00e1tica resolu\u00e7\u00f5es tomadas<br \/>\nna vida espiritual. Assim se explicam as mis\u00e9rias e vicissitudes mundanas<br \/>\nque, \u00e0 primeira vista, parecem n\u00e3o ter raz\u00e3o de ser.<br \/>\nJustas s\u00e3o elas, no entanto, como esp\u00f3lio do passado &#8211; heran\u00e7a<br \/>\nque serve \u00e0 nossa romagem para a perfectibilidade. (1)<\/p>\n<p>(1) Vede 1\u00aa&#8217; Parte, cap. V, &#8220;O purgat\u00f3rio&#8221;, n\u00ba<br \/>\n3 e seguintes; e, ap\u00f3s, 2\u00aa Parte, cap. VIII, &#8220;Expia\u00e7\u00f5es<br \/>\nterrestres&#8221;. Vede, tamb\u00e9m, O Evangelho segundo o Espiritismo,<br \/>\ncap. V, &#8220;Bem-aventurados os aflitos&#8221;.<\/p>\n<p>32\u00ba &#8211; Deus, diz-se, n\u00e3o daria prova maior de amor \u00e0s suas<br \/>\ncriaturas, criando-as infal\u00edveis e, por conseguinte, isentas dos v\u00edcios<br \/>\ninerentes \u00e0 imperfei\u00e7\u00e3o? Para tanto fora preciso que<br \/>\nEle criasse seres perfeitos, nada mais tendo a adquirir, quer em conhecimentos,<br \/>\nquer em moralidade. Certo, por\u00e9m, Deus poderia faz\u00ea-lo, e se<br \/>\no n\u00e3o fez \u00e9 que em sua sabedoria quis que o progresso constitu\u00edsse<br \/>\nlei geral. Os homens s\u00e3o imperfeitos, e, como tais, sujeitos a vicissitudes<br \/>\nmais ou menos penosas. E pois que o fato existe, devemos aceit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Inferir dele que Deus n\u00e3o \u00e9 bom nem justo, fora insensata revolta<br \/>\ncontra a lei.<\/p>\n<p>injusti\u00e7a haveria, sim, na cria\u00e7\u00e3o de seres privilegiados,<br \/>\nmais ou menos favorecidos, fruindo gozos que outros porventura n\u00e3o<br \/>\natingem sen\u00e3o pelo trabalho, ou que jamais pudessem atingir. Ao contr\u00e1rio,<br \/>\na justi\u00e7a divina patenteia-se na igualdade absoluta que preside \u00e0<br \/>\ncria\u00e7\u00e3o dos Esp\u00edritos; todos t\u00eam o mesmo ponto<br \/>\nde partida e nenhum se distingue em sua forma\u00e7\u00e3o por melhor<br \/>\naquinhoado; nenhum cuja marcha progressiva se facilite por exce\u00e7\u00e3o:<br \/>\nos que chegam ao fim, t\u00eam passado, como quaisquer outros, pelas fases<br \/>\nde inferioridade e respectivas provas.<\/p>\n<p>Isto posto, nada mais justo que a liberdade de a\u00e7\u00e3o a cada<br \/>\nqual concedida. O caminho da felicidade a todos se abre amplo, como a todos<br \/>\nas mesmas condi\u00e7\u00f5es para atingi-la. A lei, gravada em todas<br \/>\nas consci\u00eancias, a todos \u00e9 ensinada. Deus fez da felicidade o<br \/>\npr\u00eamio do trabalho e n\u00e3o do favoritismo, para que cada qual tivesse<br \/>\nseu m\u00e9rito.<\/p>\n<p>Todos somos livres no trabalho do pr\u00f3prio progresso, e o que muito<br \/>\ne depressa trabalha, mais cedo recebe a recompensa. O romeiro que se desgarra,<br \/>\nou em caminho perde tempo, retarda a marcha e n\u00e3o pode queixar-se sen\u00e3o<br \/>\nde si mesmo.<\/p>\n<p>O bem como o mal s\u00e3o volunt\u00e1rios e facultativos: livre, o homem<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 fatalmente impelido para um nem para outro.<\/p>\n<p>33\u00ba &#8211; Em que pese \u00e0 diversidade de g\u00eaneros e graus de sofrimentos<br \/>\ndos Esp\u00edritos imperfeitos, o c\u00f3digo penal da vida futura pode<br \/>\nresumir-se nestes tr\u00eas princ\u00edpios:<\/p>\n<p>1\u00ba &#8211; O sofrimento \u00e9 inerente \u00e0 imperfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>2\u00ba &#8211; Toda imperfei\u00e7\u00e3o, assim como toda falta dela promanada,<br \/>\ntraz consigo o pr\u00f3prio castigo nas conseq\u00fc\u00eancias naturais<br \/>\ne inevit\u00e1veis: assim, a mol\u00e9stia pune os excessos e da ociosidade<br \/>\nnasce o t\u00e9dio, sem que haja mister de uma condena\u00e7\u00e3o<br \/>\nespecial para cada falta ou indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>3\u00ba &#8211; Podendo todo homem libertar-se das imperfei\u00e7\u00f5es por<br \/>\nefeito da vontade, pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar<br \/>\na futura felicidade.<\/p>\n<p>A cada um segundo as suas obras, no C\u00e9u como na Terra: &#8211; tal \u00e9<br \/>\na lei da Justi\u00e7a Divina.<\/p>\n<h2><a id=\"10\" name=\"10\"><\/a>Os anjos<\/h2>\n<h5>Os anjos segundo a Igreja<\/h5>\n<p>1. &#8211; Todas as religi\u00f5es t\u00eam tido anjos sob v\u00e1rios nomes,<br \/>\nisto \u00e9, seres superiores \u00e0 Humanidade, intermedi\u00e1rios<br \/>\nentre Deus e os homens.<\/p>\n<p>Negando toda a exist\u00eancia espiritual fora da vida org\u00e2nica, o<br \/>\nmaterialismo naturalmente classificou os anjos entre as fic\u00e7\u00f5es<br \/>\ne alegorias. A cren\u00e7a nos anjos \u00e9 parte essencial dos dogmas<br \/>\nda Igreja, que assim os define (1):<\/p>\n<p>(1) Extra\u00edmos este resumo da pastoral do Monsenhor Gousset, cardeal-arcebispo<br \/>\nde Reims, para a quaresma de 1864. Por ele podemos, pois, considerar os anjos,<br \/>\nassim como os dem\u00f4nios, cujo resumo tiramos da mesma origem e citamos<br \/>\nno cap\u00edtulo seguinte, como \u00faltima express\u00e3o do dogma<br \/>\nda Igreja neste sentido.<\/p>\n<p>2. &#8211; &#8220;Acreditamos firmemente, diz um conc\u00edlio geral e ecum\u00eanico<br \/>\n(2), que s\u00f3 h\u00e1 um Deus verdadeiro, eterno e infinito, que no<br \/>\ncome\u00e7o dos tempos tirou conjuntamente do nada as duas criaturas &#8211; espiritual<br \/>\ne corp\u00f3rea, ang\u00e9lica e mundana &#8211; tendo formado depois, como<br \/>\nelo entre as duas, a natureza humana, composta de corpo e Esp\u00edrito.&#8221;<\/p>\n<p>(2) Conc\u00edlio de Latr\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Tal \u00e9, segundo a f\u00e9, o plano divino na obra da cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\nplano majestoso e completo como convinha \u00e0 eterna sabedoria. Assim<br \/>\nconcebido, ele oferece aos nossos pensamentos o ser em todos os seus graus<br \/>\ne condi\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Na esfera mais elevada aparecem a exist\u00eancia e a vida puramente<br \/>\nespirituais; na \u00faltima ordem, uma e outra puramente materiais e, intermediariamente,<br \/>\numa uni\u00e3o maravilhosa das duas subst\u00e2ncias, uma vida ao mesmo<br \/>\ntempo comum ao Esp\u00edrito inteligente e ao corpo organizado.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Nossa alma \u00e9 de natureza simples e indivis\u00edvel, por\u00e9m<br \/>\nlimitada em suas faculdades. A id\u00e9ia que temos da perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nfaz-nos compreender que pode haver outros seres simples quanto ela, e superiores<br \/>\npor suas qualidades e privil\u00e9gios.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A alma \u00e9 grande e nobre, por\u00e9m, est\u00e1 associada<br \/>\n\u00e0 mat\u00e9ria, servida por \u00f3rg\u00e3os fr\u00e1geis e<br \/>\nlimitada no poder e na a\u00e7\u00e3o. Por que n\u00e3o haver outras<br \/>\nainda mais pobres, libertas dessa escravid\u00e3o, dessas peias e dotadas<br \/>\nde uma for\u00e7a e atividade maiores e incompar\u00e1veis? Antes que<br \/>\nDeus houvesse colocado o homem na Terra, para conhec\u00ea-lo, servi-lo,<br \/>\ne am\u00e1-lo, n\u00e3o teria j\u00e1 chamado outras criaturas, a fim<br \/>\nde compor-lhe a corteceleste e ador\u00e1-lo no auge da gl\u00f3ria? Deus,<br \/>\nenfim, recebe das m\u00e3os do homem os tributos de honra e homenagem deste<br \/>\nuniverso: \u00e9, portanto, de admirar que receba das m\u00e3os dos anjos<br \/>\no incenso e as ora\u00e7\u00f5es do homem? Se, pois, os anjos n\u00e3o<br \/>\nexistissem, a grande obra do Criador n\u00e3o patentearia o acabamento e<br \/>\na perfei\u00e7\u00e3o que lhe s\u00e3o peculiares; este mundo, que atesta<br \/>\na sua onipot\u00eancia, n\u00e3o fora mais a obra-prima da sabedoria; nesse<br \/>\ncaso a nossa raz\u00e3o, posto que fraca, poderia conceber um Deus mais<br \/>\nconsumado. Em cada p\u00e1gina dos sagrados livros, do Velho como do Novo<br \/>\nTestamentos, se fez men\u00e7\u00e3o dessas intelig\u00eancias sublimes,<br \/>\nj\u00e1 em piedosas invoca\u00e7\u00f5es, j\u00e1 em refer\u00eancias<br \/>\nhist\u00f3ricas. A sua interven\u00e7\u00e3o aparece manifestamente<br \/>\nna vida dos patriarcas e dos profetas. Serve-se Deus de tal minist\u00e9rio,<br \/>\nora para transmitir a sua vontade, ora para anunciar futuros acontecimentos,<br \/>\ne os anjos s\u00e3o tamb\u00e9m quase sempre \u00f3rg\u00e3os de sua<br \/>\njusti\u00e7a e miseric\u00f3rdia. A sua presen\u00e7a ressalta das circunst\u00e2ncias<br \/>\nque acompanham o nascimento, a vida e a paix\u00e3o do Salvador; a sua lembran\u00e7a<br \/>\n\u00e9 insepar\u00e1vel da dos grandes homens, como dos fatos mais grandiosos<br \/>\nda antig\u00fcidade religiosa. A cren\u00e7a nos anjos existe no seio mesmo<br \/>\ndo polite\u00edsmo e nas f\u00e1bulas da mitologia, porque essa cren\u00e7a<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o universal e antiga quanto o mundo. O culto que os pag\u00e3os<br \/>\nprestavam aos bons e maus g\u00eanios n\u00e3o era mais que falsa aplica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda verdade, um resto degenerado do primitivo dogma. As palavras do santo conc\u00edlio<br \/>\nde Latr\u00e3o cont\u00eam fundamental distin\u00e7\u00e3o entre os<br \/>\nanjos e os homens: &#8211; ensinam-nos que os primeiros s\u00e3o puros Esp\u00edritos,<br \/>\nenquanto que os segundos se comp\u00f5em de um corpo e de uma alma, isto<br \/>\n\u00e9, que a natureza ang\u00e9lica subsiste por si mesma n\u00e3o<br \/>\ns\u00f3 sem mistura como dissociada da mat\u00e9ria, por mais vaporosa<br \/>\ne sutil que se suponha, ao passo que a nossa alma, igualmente espiritual,<br \/>\nassocia-se ao corpo de modo a formar com ele uma s\u00f3 pessoa, sendo tal<br \/>\ne essencialmente o seu destino.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Enquanto perdura t\u00e3o \u00edntima liga\u00e7\u00e3o de<br \/>\nalma e corpo, as duas subst\u00e2ncias t\u00eam vida comum e se exercem<br \/>\nrec\u00edproca influ\u00eancia; da\u00ed o n\u00e3o poder a alma libertar-se<br \/>\ncompletamente das imperfei\u00e7\u00f5es de tal condi\u00e7\u00e3o:<br \/>\nas id\u00e9ias chegam-lhe pelos sentidos na compara\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nobjetos externos e sempre debaixo de imagens mais ou menos aparentes. Eis<br \/>\npor que a alma n\u00e3o pode contemplar-se a si mesma, nem conceber Deus<br \/>\ne os anjos sem atribuir-lhes forma vis\u00edvel e palp\u00e1vel. O mesmo<br \/>\nse d\u00e1 quanto aos anjos, que para se manifestarem aos santos e profetas<br \/>\nh\u00e3o de revestir formas tang\u00edveis e palp\u00e1veis. Essas formas<br \/>\nno entanto n\u00e3o passavam de corpos a\u00e9reos que faziam mover-se<br \/>\ne identificar-se com eles, ou de atributos simb\u00f3licos de acordo com<br \/>\na miss\u00e3o a seu cargo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Seu ser e movimentos n\u00e3o s\u00e3o localizados nem circunscritos<br \/>\na limitado e fixo ponto do Espa\u00e7o. Desligados integralmente do corpo,<br \/>\nn\u00e3o ocupam qualquer espa\u00e7o no v\u00e1cuo; mas assim como a<br \/>\nnossa alma existe integral no corpo e em cada uma de suas partes, assim tamb\u00e9m<br \/>\nos anjos est\u00e3o, e quase que simultaneamente, em todos os pontos e partes<br \/>\ndo mundo. Mais r\u00e1pidos que o pensa-mento, podem agir em toda parte<br \/>\nnum dado momento, operando por si mesmos sem outros obst\u00e1culos, sen\u00e3o<br \/>\nos da vontade do Criador e os da liberdade humana. Enquanto somos condenados<br \/>\na ver lenta e limitadamente as coisas externas; enquanto as verdades sobrenaturais<br \/>\nse nos afiguram enigmas num espelho, na frase de S. Paulo, eles, os anjos,<br \/>\nv\u00eaem sem esfor\u00e7o o que lhes importa saber, e est\u00e3o sempre<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o imediata com o objeto de seus pensamentos. Os seus<br \/>\nconhecimentos s\u00e3o resultantes n\u00e3o da indu\u00e7\u00e3o e<br \/>\ndo racioc\u00ednio, mas dessa intui\u00e7\u00e3o clara e profunda que<br \/>\nabrange de uma s\u00f3 vez o g\u00eanero e as esp\u00e9cies deles derivadas,<br \/>\nos princ\u00edpios e as conseq\u00fc\u00eancias que deles decorrem. A dist\u00e2ncia<br \/>\ndas \u00e9pocas, a diferen\u00e7a de lugares, como a multiplicidade de<br \/>\nobjetos, confus\u00e3o alguma podem produzir em seus esp\u00edritos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Infinita, a ess\u00eancia divina \u00e9 incompreens\u00edvel;<br \/>\ntem mist\u00e9rios e profundezas que se n\u00e3o podem penetrar; mas em<br \/>\nlhes serem defesos os des\u00edgnios particulares da Provid\u00eancia,<br \/>\nela lhos desvenda quando em certas circunst\u00e2ncias s\u00e3o encarregados<br \/>\nde os anunciarem aos homens. As comunica\u00e7\u00f5es de Deus com os<br \/>\nanjos e destes entre si, n\u00e3o se fazem como entre n\u00f3s por meio<br \/>\nde sons articulados e de sinais sens\u00edveis. As puras intelig\u00eancias<br \/>\nn\u00e3o t\u00eam necessidade nem de olhos para ver, nem de ouvidos para<br \/>\nouvir; tampouco possuem \u00f3rg\u00e3o vocal para manifestar seus pensamentos.<br \/>\nEste instrumento usual de nossas rela\u00e7\u00f5es \u00e9-lhes desnecess\u00e1rio,<br \/>\npois comunicam seus sentimentos de modo s\u00f3 a eles peculiar, isto \u00e9,<br \/>\ntodo espiritual. Basta-lhes querer para se compreenderem. Unicamente Deus<br \/>\nconhece o n\u00famero dos anjos. Este n\u00famero n\u00e3o \u00e9,<br \/>\nsem d\u00favida, infinito, nem pudera s\u00ea-lo; por\u00e9m, segundo<br \/>\nos autores sagrados e os santos doutores, \u00e9 assaz consider\u00e1vel,<br \/>\nverdadeiramente prodigioso. Se se pode proporcionar o n\u00famero de habitantes<br \/>\nde uma cidade \u00e0 sua grandeza e extens\u00e3o, e sendo a Terra apenas<br \/>\num \u00e1tomo comparada ao firmamento e \u00e0s imensas regi\u00f5es<br \/>\ndo Espa\u00e7o, for\u00e7a \u00e9 concluir que o n\u00famero dos habitantes<br \/>\ndo ar e do c\u00e9u \u00e9 muito superior ao dos homens.E se a majestade<br \/>\ndos reis se ostenta pelo brilhantismo e n\u00famero dos vassalos, dos oficiais<br \/>\ne dos s\u00faditos, que haver\u00e1 de mais pr\u00f3prio a dar-nos id\u00e9ia<br \/>\nda majestade do Rei dos reis do que essa multid\u00e3o inumer\u00e1vel<br \/>\nde anjos que povoam c\u00e9us e Terra, mar e abismos, a dignidade dos que<br \/>\npermanecem continuamente prostrados ou de p\u00e9 ante seu trono?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Os padres da Igreja e os te\u00f3logos ensinam geralmente que os<br \/>\nanjos se dividem em tr\u00eas grandes hierarquias ou principados, e cada<br \/>\nhierarquia em tr\u00eas companhias ou coros.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Os da primeira e mais alta hierarquia designam-se conformemente \u00e0s<br \/>\nfun\u00e7\u00f5es que exercem no c\u00e9u: &#8211; Os Serafins s\u00e3o<br \/>\nassim designados por serem como que abrasadosperante Deus pelos ardores da<br \/>\ncaridade; outros, os Querubins, por isso que refletem luminosamente a divina<br \/>\nsabedoria; e finalmente Tronos os que proclamam a grandeza do Criador, cujo<br \/>\nbrilho fazem resplandecer.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Os anjos da segunda hierarquia recebem nomes consent\u00e2neos com<br \/>\nas opera\u00e7\u00f5es que se lhes atribui no governo geral do Universo,<br \/>\ne s\u00e3o: &#8211; as Domina\u00e7\u00f5es, que determinam aos anjos de classes<br \/>\ninferiores suas miss\u00f5es e deveres; as Virtudes, que promovem os prod\u00edgios<br \/>\nreclamados pelos grandes interesses da Igreja e do g\u00eanero humano; e<br \/>\nas Pot\u00eancias, que protegem por sua for\u00e7a e vigil\u00e2ncia as<br \/>\nleis que regem o mundo f\u00edsico e moral.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Os da terceira hierarquia t\u00eam por miss\u00e3o a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas sociedades e das pessoas, e s\u00e3o: os Principados, encarregados de<br \/>\nreinos, prov\u00edncias e dioceses; os Arcanjos, que transmitem as mensagens<br \/>\nde alta import\u00e2ncia, e os Anjos de guarda, que acompanham as criaturas<br \/>\na fim de velarem pela sua seguran\u00e7a e santifica\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Refuta\u00e7\u00e3o<br \/>\n3. &#8211; O princ\u00edpio geral resultante dessa doutrina \u00e9 que os anjos<br \/>\ns\u00e3o seres puramente espirituais, anteriores e superiores \u00e0 Humanidade,<br \/>\ncriaturas privilegiadas e votadas \u00e3 felicidade suprema e eterna desde<br \/>\na sua forma\u00e7\u00e3o, dotadas, por sua pr\u00f3pria natureza, de<br \/>\ntodas as virtudes e conhecimentos, nada tendo feito, ali\u00e1s, para adquiri-los.<br \/>\nEst\u00e3o, por assim dizer, no primeiro plano da Cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncontrastando com o \u00faltimo onde a vida &amp;eeacute; puramente material;<br \/>\ne, entre os dois, medianamente existe a Humanidade, isto \u00e9, as almas,<br \/>\nseres inferiores aos anjos e ligados a corpos materiais.<\/p>\n<p>De tal sistema decorrem v\u00e1rias dificuldades capitais: &#8211; Em primeiro<br \/>\nlugar, que vida \u00e9 essa puramente material? Ser\u00e1 a da mat\u00e9ria<br \/>\nbruta? Mas a mat\u00e9ria bruta \u00e9 inanimada e n\u00e3o tem vida<br \/>\npor si mesma. Acaso referir-se-\u00e1 aos animais e \u00e0s plantas?<\/p>\n<p>Neste suposto seria uma quarta ordem na Cria\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o<br \/>\nse pode negar que no animal inteligente algo h\u00e1 de mais que numa planta,<br \/>\ne nesta, que numa simples pedra.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 alma humana, que estabelece a transi\u00e7\u00e3o, essa<br \/>\nfica diretamente unida a um corpo, mat\u00e9ria bruta, ali\u00e1s; porque<br \/>\nsem alma o corpo tem tanta vida como qualquer bloco de terra.<\/p>\n<p>Evidentemente, esta divis\u00e3o \u00e9 obscura e n\u00e3o se compadece<br \/>\ncom a observa\u00e7\u00e3o; assemelha-se \u00e0 teoria dos quatro elementos,<br \/>\nanulada pelos progressos da Ci\u00eancia. Admitamos, entretanto, estes tr\u00eas<br \/>\ntermos: &#8211; a criatura espiritual, a humana e a corp\u00f3rea, pois que tal<br \/>\n\u00e9, dizem, o plano divino, majestoso e completo como conv\u00e9m \u00e0<br \/>\nEterna Sabedoria. Notemos antes de tudo que n\u00e3o h\u00e1 liga\u00e7\u00e3o<br \/>\nalguma necess\u00e1ria entre esses tr\u00eas termos, e que s\u00e3o tr\u00eas<br \/>\ncria\u00e7\u00f5es distintas e formadas sucessivamente, ao passo que em<br \/>\na Natureza tudo se encadeia, mostrando-nos uma lei de unidade admir\u00e1vel,<br \/>\ncujos elementos, n\u00e3o passando de transforma\u00e7\u00f5es entre<br \/>\nsi, t\u00eam, contudo, seus la\u00e7os de uni\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas essa teoria, incompleta embora, \u00e9, at\u00e9 certo ponto, verdadeira,<br \/>\nquanto \u00e0 exist\u00eancia dos tr\u00eas termos; faltam-lhe os pontos<br \/>\nde contacto desses termos, como \u00e9 f\u00e1cil demonstrar.<\/p>\n<p>4. &#8211; Diz a Igreja que esses tr\u00eas pontos culminantes da Cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o necess\u00e1rios \u00e0 harmonia do conjunto. Desde que lhe<br \/>\nfalte um s\u00f3 que seja, a obra incompleta n\u00e3o mais se compadece<br \/>\ncom a Sabedoria Eterna. Entretanto, um dos dogmas fundamentais diz que a Terra,<br \/>\nos animais, as plantas, o Sol e as estrelas e at\u00e9 a luz foram criados<br \/>\ndo nada, h\u00e1 seis mil anos. Antes dessa \u00e9poca n\u00e3o havia,<br \/>\nportanto, criatura humana nem corp\u00f3rea &#8211; o que importa dizer que no<br \/>\ndecurso da eternidade a obra divina jazia imperfeita. \u00c9 artigo de f\u00e9<br \/>\ncapital a cria\u00e7\u00e3o do Universo, h\u00e1 seis mil anos, tanto<br \/>\nque h\u00e1 pouco ainda era a Ci\u00eancia anatematizada por destruir a<br \/>\ncronologia b\u00edblica, provando maior ancianidade da Terra e de seus habitantes.<\/p>\n<p>Apesar disso, o conc\u00edlio de Latr\u00e3o, conc\u00edlio ecum\u00eanico<br \/>\nque faz lei em mat\u00e9ria ortodoxa, diz: &#8220;Acreditamos firmemente<br \/>\nnum Deus \u00fanico e verdadeiro, eterno e infinito, que no come\u00e7o<br \/>\ndos tempos tirou conjuntamente do nada as duas criaturas &#8211; espiritual e corp\u00f3rea.&#8221;<br \/>\nPor come\u00e7o dos tempos s\u00f3 podemos inferir a eternidade transcorrida,<br \/>\nvisto ser o tempo infinito como o Espa\u00e7o, sem come\u00e7o nem fim.<br \/>\nEsta express\u00e3o, come\u00e7o dos tempos, \u00e9 antes uma figura<br \/>\nque implica a id\u00e9ia de uma anterioridade ilimitada. O conc\u00edlio<br \/>\nde Latr\u00e3o acredita, pois, firmemente, que as criaturas espirituais<br \/>\ncomo as corp\u00f3reas foram simultaneamente formadas e tiradas em conjunto<br \/>\ndo nada, numa \u00e9poca indeterminada, no passado. A que fica reduzido,<br \/>\nassim, o texto b\u00edblico que data a Cria\u00e7\u00e3o de seis mil<br \/>\ndos nossos anos? E, ainda que se admita seja tal o come\u00e7o do Universo<br \/>\nvis\u00edvel, esse n\u00e3o \u00e9 seguramente o come\u00e7o dos tempos.<br \/>\nEm qual crer: &#8211; no conc\u00edlio ou na B\u00edblia?<\/p>\n<p>5. &#8211; O conc\u00edlio formula, al\u00e9m disso, uma estranha proposi\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8220;Nossa alma, diz, igualmente espiritual, \u00e9 associada ao corpo<br \/>\nde maneira a n\u00e3o formar com ele mais que uma pessoa, e tal \u00e9,<br \/>\nessencialmente, o seu destino.&#8221; Ora, se o destino essencial da alma \u00e9<br \/>\nestar unida ao corpo, esta uni\u00e3o constitui o estado normal, o des\u00edgnio,<br \/>\no fim, por isso que \u00e9 o seu destino. Entretanto, a alma \u00e9 imortal<br \/>\ne o corpo n\u00e3o; a uni\u00e3o daquela com este s\u00f3 se realiza<br \/>\numa vez, segundo a Igreja, e ainda que durasse um s\u00e9culo, nada seria<br \/>\nem rela\u00e7\u00e3o \u00e0 eternidade. E sendo apenas de algumas horas<br \/>\npara muitos, que utilidade teria para a alma uni\u00e3o t\u00e3o ef\u00eamera?<br \/>\nMas, que se prolongue essa uni\u00e3o tanto quanto se pode prolongar uma<br \/>\nexist\u00eancia terrena e, ainda assim, poder-se-\u00e1 afirmar que o seu<br \/>\ndestino \u00e9 estar essencialmente integrada? N\u00e3o, essa uni\u00e3o<br \/>\nmais n\u00e3o \u00e9 na realidade do que um incidente, um est\u00e1dio<br \/>\nda alma, nunca o seu estado essencial.<\/p>\n<p>Se o destino essencial da alma \u00e9 estar ligada ao corpo humano; se<br \/>\npor sua natureza e segundo o fim providencial da Cria\u00e7\u00e3o, essa<br \/>\nuni\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndas suas faculdades, for\u00e7oso \u00e9 concluir que, sem corpo, a alma<br \/>\nhumana \u00e9 um ser incompleto. Ora, para que a alma preencha os seus des\u00edgnios,<br \/>\ndeixando um corpo preciso se faz que tome um outro &#8211; o que nos conduz \u00e0<br \/>\npluralidade for\u00e7ada das exist\u00eancias, ou, por outra, \u00e0<br \/>\nreencarna\u00e7\u00e3o, \u00e0 perpetuidade.<\/p>\n<p>\u00c9 verdadeiramente estranh\u00e1vel que um conc\u00edlio, havido<br \/>\npor uma das luzes da Igreja, tenha a tal ponto identificado os seres espiritual<br \/>\ne material, de modo a n\u00e3o subsistirem por si mesmos, pois que a condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nessencial da sua cria\u00e7\u00e3o \u00e9 estarem unidos.<\/p>\n<p>6. &#8211; O quadro hier\u00e1rquico dos anjos nos mostra que v\u00e1rias ordens<br \/>\nt\u00eam, nas suas atribui\u00e7\u00f5es, o governo do mundo f\u00edsico<br \/>\ne da Humanidade, para cujo fim foram criados. Mas, segundo a G\u00eanese,<br \/>\no mundo f\u00edsico e a Humanidade n\u00e3o existem sen\u00e3o h\u00e1<br \/>\nseis mil anos; e o que faziam, pois, tais anjos, anteriormente a essa era,<br \/>\ndurante a eternidade, quando n\u00e3o existia o objetivo das suas ocupa\u00e7\u00f5es?<br \/>\nE teriam eles sido criados de toda a eternidade? Assim deve ser, uma vez que<br \/>\nservem \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o do Todo-Poderoso. Mas, criando-os<br \/>\nnuma \u00e9poca qualquer determinada, Deus ficaria at\u00e9 ent\u00e3o,<br \/>\nisto \u00e9, durante uma eternidade, sem adoradores.<\/p>\n<p>7 &#8211; Diz ainda o conc\u00edlio: &#8220;Enquanto dura esta uni\u00e3o t\u00e3o<br \/>\nintima da alma com o corpo.&#8221; H\u00e1, por conseguinte, um momento em<br \/>\nque a uni\u00e3o se desfaz? Esta proposi\u00e7\u00e3o contradita a que<br \/>\nsustenta a essencialidade dessa uni\u00e3o. E diz mais o conc\u00edlio:<br \/>\n&#8220;As id\u00e9ias lhes chegam pelos sentidos, na compara\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos objetos exteriores.&#8221; Eis a\u00ed uma doutrina filos\u00f3fica<br \/>\nem parte verdadeira, que n\u00e3o em sentido absoluto.<\/p>\n<p>Receber as id\u00e9ias pelos sentidos \u00e9, segundo o eminente te\u00f3logo,<br \/>\numa condi\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 natureza humana; mas ele esquece<br \/>\nas id\u00e9ias inatas, as faculdades por vezes t\u00e3o transcendentes,<br \/>\na intui\u00e7\u00e3o das coisas que a crian\u00e7a traz do ber\u00e7o,<br \/>\nn\u00e3o devidas a quaisquer ensinos. Por meio de quais sentidos, jovens<br \/>\npastores, naturais calculistas, admira\u00e7\u00e3o dos s\u00e1bios,<br \/>\nadquirem id\u00e9ias necess\u00e1rias \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nquase instant\u00e2nea dos mais complicados problemas? Outro tanto pode dizer-se<br \/>\nde m\u00fasicos, pintores e fil\u00f3logos precoces.<\/p>\n<p>&#8220;Os conhecimentos dos anjos n\u00e3o resultam da indu\u00e7\u00e3o<br \/>\ne do racioc\u00ednio&#8221;; t\u00eam-nos porque s\u00e3o anjos, sem necessidade<br \/>\nde aprend\u00ea-los, pois tais foram por Deus criados: quanto \u00e0 alma,<br \/>\nessa deve aprender. Mas se a alma s\u00f3 recebe as id\u00e9ias por meio<br \/>\ndos \u00f3rg\u00e3os corporais, que id\u00e9ias pode ter a alma de uma<br \/>\ncrian\u00e7a morta ao fim de alguns dias, se admitirmos com a Igreja que<br \/>\nessa alma n\u00e3o renasce?<\/p>\n<p>8. Aqui reponta uma quest\u00e3o vital, qual a de saber-se se a alma pode<br \/>\nadquirir conhecimentos ap\u00f3s a morte do corpo. Se uma vez liberta do<br \/>\ncorpo n\u00e3o pode adquirir novos conhecimentos, a alma da crian\u00e7a,<br \/>\ndo selvagem, do imbecil, do idiota ou do ignorante permanecera tal qual era<br \/>\nno momento da morte, condenada \u00e0 nulidade por todo o sempre. Mas se,<br \/>\nao contr\u00e1rio, ela adquire novos conhecimentos depois da vida atual,<br \/>\nent\u00e3o, \u00e9 que pode progredir.<\/p>\n<p>Sem progresso ulterior para a alma, chega-se a conclus\u00f5es absurdas,<br \/>\ntanto quanto admitindo-o se conclui pela nega\u00e7\u00e3o de todos os<br \/>\ndogmas fundados sobre o estacionamento, a sorte irrevog\u00e1vel, as penas<br \/>\neternas, etc. Progredindo a alma, qual o limite do progresso? N\u00e3o h\u00e1<br \/>\nraz\u00e3o para n\u00e3o atingir por ele ao grau dos anjos, ou puros Esp\u00edritos.<br \/>\nOra, com tal possibilidade n\u00e3o se justificaria a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nde seres especiais e privilegiados, isentos de qualquer labor, gozando incondicionalmente<br \/>\nde eterna felicidade, ao passo que outros seres menos favorecidos s\u00f3<br \/>\nobt\u00eam essa felicidade a troco de longos, de cru\u00e9is sofrimentos<br \/>\ne rudes provas. Sem d\u00favida que Deus poderia ter assim determinado,<br \/>\nmas, admitindo-lhe o infinito de perfei\u00e7\u00e3o sem a qual n\u00e3o<br \/>\nfora Deus, for\u00e7a \u00e9 admitir que coisa alguma criaria inutilmente,<br \/>\ndesmentindo a sua justi\u00e7a e bondade soberanas.<\/p>\n<p>9. &#8211; &#8220;E se a majestade dos reis ostenta o seu brilhantismo pelo n\u00famero<br \/>\ndos vassalos, oficiais e s\u00faditos, que haver\u00e1 de mais pr\u00f3prio<br \/>\na dar-nos id\u00e9ia da majestade do Rei dos reis do que essa inumer\u00e1vel<br \/>\nmultid\u00e3o de anjos que povoam c\u00e9u e terra, mar e abismos, a dignidade<br \/>\ndos que permanecem continuamente prostrados ou de p\u00e9 ante seu trono?&#8221;<\/p>\n<p>E n\u00e3o ser\u00e1 rebaixar a Divindade confront\u00e1-la com o fausto<br \/>\ndos soberanos da Terra? Essa id\u00e9ia, inculcada no esp\u00edrito das<br \/>\nmassas ignorantes, falseia a opini\u00e3o de sua verdadeira grandeza. Sempre<br \/>\nDeus reduzido \u00e0s mesquinhas propor\u00e7\u00f5es da Humanidade!<br \/>\nAtribuir-lhe, como necessidade, milh\u00f5es de adoradores, perenemente<br \/>\ngenuflexos, \u00e9 emprestar-lhe vaidade e fraqueza pr\u00f3prias dos<br \/>\norgulhosos d\u00e9spotas do Oriente! E que \u00e9 que engrandece os soberanos<br \/>\nverdadeiramente grandes? \u00c9 o n\u00famero e brilho dos cortes\u00e3os?<br \/>\nn\u00e3o; \u00e9 a bondade, \u00e9 a justi\u00e7a, \u00e9 o t\u00edtulo<br \/>\nmerecido de pais do seu povo. perguntareis se haver\u00e1 algo de mais pr\u00f3prio<br \/>\na dar-nos a id\u00e9ia da grandeza e majestade de Deus do que a multid\u00e3o<br \/>\nde anjos que lhe comp\u00f5em a corte&#8230; Mas, certamente que h\u00e1,<br \/>\ne essa coisa melhor \u00e9 apresentar-se Deus \u00e0s suas criaturas soberanamente<br \/>\nbom, justo e misericordioso, que n\u00e3o col\u00e9rico, invejoso, vingativo,<br \/>\nexterminador e parcial, criando para sua pr\u00f3pria gl\u00f3ria esses<br \/>\nseres privilegiados, cumulados de todos os dons e nascidos para a felicidade<br \/>\neterna, enquanto a outros imp\u00f5e condi\u00e7\u00f5es penosas na<br \/>\naquisi\u00e7\u00e3o de bens, punindo erros moment\u00e2neos com eternos<br \/>\nsupl\u00edcios&#8230;<\/p>\n<p>10. &#8211; A respeito da uni\u00e3o da alma com o corpo, o Espiritismo professa<br \/>\numa doutrina infinitamente mais espiritualista, para n\u00e3o dizer menos<br \/>\nmaterialista, tendo ao demais a seu favor a conformidade com a observa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne o destino da alma. Ele ensina-nos que a alma \u00e9 independente do corpo,<br \/>\nn\u00e3o passando este de tempor\u00e1rio inv\u00f3lucro: a espiritualidade<br \/>\n\u00e9-lhe a ess\u00eancia, e a sua vida normal \u00e9 a vida espiritual.<br \/>\nO corpo \u00e9 apenas instrumento da alma para exerc\u00edcio das suas<br \/>\nfaculdades nas rela\u00e7\u00f5es com o mundo material; separada desse<br \/>\ncorpo, goza dessas faculdades mais livre e altamente.<\/p>\n<p>11. &#8211; A uni\u00e3o da alma com o corpo, em ser necess\u00e1ria aos seus<br \/>\nprimeiros progressos, s\u00f3 se opera no per\u00edodo que poderemos classificar<br \/>\ncomo da sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia; atingido, por\u00e9m, que<br \/>\nseja, um certo grau de perfei\u00e7\u00e3o e desmaterializa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nessa uni\u00e3o \u00e9 prescind\u00edvel, o progresso faz-se na sua<br \/>\nvida de Esp\u00edrito. Demais, por numerosas que sejam as exist\u00eancias<br \/>\ncorp\u00f3reas, elas s\u00e3o limitadas \u00e0 exist\u00eancia do corpo,<br \/>\ne a sua soma total n\u00e3o compreende, em todos os casos, sen\u00e3o<br \/>\numa parte impercept\u00edvel da vida espiritual, que \u00e9 ilimitada.<\/p>\n<p>Os anjos segundo o Espiritismo<br \/>\n12. &#8211; Que haja seres dotados de todas as qualidades atribu\u00eddas aos<br \/>\nanjos, n\u00e3o restam d\u00favidas. A revela\u00e7\u00e3o esp\u00edrita<br \/>\nneste ponto confirma a cren\u00e7a de todos os povos, fazendo-nos conhecer<br \/>\nao mesmo tempo a origem e natureza de tais seres.<\/p>\n<p>As almas ou Esp\u00edritos s\u00e3o criados simples e ignorantes, isto<br \/>\n\u00e9, sem conhecimentos nem consci\u00eancia do bem e do mal, por\u00e9m,<br \/>\naptos para adquirir o que lhes falta. O trabalho \u00e9 o meio de aquisi\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne o fim &#8211; que \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 para todos o mesmo.<br \/>\nConseguem-no mais ou menos prontamente em virtude do livre-arb\u00edtrio<br \/>\ne na raz\u00e3o direta dos seus esfor\u00e7os; todos t\u00eam os mesmos<br \/>\ndegraus a franquear, o mesmo trabalho a concluir. Deus n\u00e3o aquinhoa<br \/>\nmelhor a uns do que a outros, porquanto \u00e9 justo, e, visto serem todos<br \/>\nseus filhos, n\u00e3o tem predile\u00e7\u00f5es. Ele lhes diz: Eis a<br \/>\nlei que deve constituir a vossa norma de conduta; ela s\u00f3 pode levar-vos<br \/>\nao fim; tudo que lhe for conforme \u00e9 o bem; tudo que lhe for contr\u00e1rio<br \/>\n\u00e9 o mal. Tendes inteira liberdade de observar ou infringir esta lei,<br \/>\ne assim sereis os \u00e1rbitros da vossa pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p>Conseguintemente, Deus n\u00e3o criou o mal; todas as suas leis s\u00e3o<br \/>\npara o bem, e foi o homem que criou esse mal, divorciando-se dessas leis;<br \/>\nse ele as observasse escrupulosamente, jamais se desviaria do bom caminho.<\/p>\n<p>13. &#8211; Entretanto, a alma, qual crian\u00e7a, \u00e9 inexperiente nas<br \/>\nprimeiras fases da exist\u00eancia, e da\u00ed o ser fal\u00edvel. N\u00e3o<br \/>\nlhe d\u00e1 Deus essa experi\u00eancia, mas d\u00e1-lhe meios de adquiri-la.<br \/>\nAssim, um passo em falso na senda do mal \u00e9 um atraso para a alma, que,<br \/>\nsofrendo-lhe as conseq\u00fc\u00eancias, aprende \u00e0 sua custa o que<br \/>\nimporta evitar. Deste modo, pouco a pouco, se desenvolve, aperfei\u00e7oa<br \/>\ne adianta na hierarquia espiritual at\u00e9 ao estado de puro Esp\u00edrito<br \/>\nou anjo. Os anjos s\u00e3o, pois, as almas dos homens chegados ao grau de<br \/>\nperfei\u00e7\u00e3o que a criatura comporta, fruindo em sua plenitude<br \/>\na prometida felicidade. Antes, por\u00e9m, de atingir o grau supremo, gozam<br \/>\nde felicidade relativa ao seu adiantamento, felicidade que consiste, n\u00e3o<br \/>\nna ociosidade, mas nas fun\u00e7\u00f5es que a Deus apraz confiar-lhes,<br \/>\ne por cujo desempenho se sentem ditosas, tendo ainda nele um meio de progresso.<br \/>\n(Vede 1\u00aa Parte, cap. III, &#8220;O c\u00e9u&#8221;.)<\/p>\n<p>14. A Humanidade n\u00e3o se limita \u00e0 Terra; habita in\u00fameros<br \/>\nmundos que no Espa\u00e7o circulam; j\u00e1 habitou os desaparecidos,<br \/>\ne habitar\u00e1 os que se formarem. Tendo-a criado de toda a eternidade,<br \/>\nDeus jamais cessa de cri\u00e1-la. Muito antes que a Terra existisse e por<br \/>\nmais remota que a suponhamos, outros mundos havia, nos quais Esp\u00edritos<br \/>\nencarnados percorreram as mesmas fases que ora percorrem os de mais recente<br \/>\nforma\u00e7\u00e3o, atingindo seu fim antes mesmo que houv\u00e9ramos<br \/>\nsa\u00eddo das m\u00e3os do Criador.<\/p>\n<p>De toda a eternidade tem havido, pois, puros Esp\u00edritos ou anjos; mas,<br \/>\ncomo a sua exist\u00eancia humana se passou num infinito passado, eis que<br \/>\nos supomos como se tivessem sido sempre anjos de todos os tempos.<\/p>\n<p>15. Realiza-se assim a grande lei de unidade da Cria\u00e7\u00e3o; Deus<br \/>\nnunca esteve inativo e sempre teve puros Esp\u00edritos, experimentados<br \/>\ne esclarecidos, para transmiss\u00e3o de suas ordens e dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Universo, desde o governo dos mundos at\u00e9 os mais \u00ednfimos<br \/>\ndetalhes. Tampouco teve Deus necessidade de criar seres privilegiados, isentos<br \/>\nde obriga\u00e7\u00f5es; todos, antigos e novos, adquiriram suas posi\u00e7\u00f5es<br \/>\nna luta e por m\u00e9rito pr\u00f3prio; todos, enfim, s\u00e3o filhos<br \/>\nde suas obras.<\/p>\n<p>E, desse modo, completa-se com igualdade a soberana justi\u00e7a do Criador.<\/p>\n<h3><a id=\"11\" name=\"11\"><\/a>Os Dem\u00f4nios<\/h3>\n<h5>Origem da cren\u00e7a nos dem\u00f4nios<\/h5>\n<p>1. &#8211; Em todos os tempos os dem\u00f4nios representaram papel saliente nas<br \/>\ndiversas teogonias, e, posto que consideravelmente deca\u00eddos no conceito<br \/>\ngeral, a import\u00e2ncia que se lhes atribui, ainda hoje, d\u00e1 \u00e0<br \/>\nquest\u00e3o uma tal ou qual gravidade, por tocar o fundo mesmo das cren\u00e7as<br \/>\nreligiosas. Eis por que \u00fatil se torna examin\u00e1-la, com os desenvolvimentos<br \/>\nque comporta.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a num poder superior \u00e9 instintiva no homem. Encontramo-la,<br \/>\nsob diferentes formas, em todas as idades do mundo. Mas, se hoje, dado o grau<br \/>\nde cultura atingido, ainda se discute sobre a natureza e atributos desse poder,<br \/>\ncalcule-se que no\u00e7\u00f5es teria o homem a respeito, na inf\u00e2ncia<br \/>\nda Humanidade.<\/p>\n<p>2. &#8211; Como prova da sua inoc\u00eancia, o quadro dos homens primitivos extasiados<br \/>\nante a Natureza e admirando nela a bondade do Criador \u00e9, sem d\u00favida,<br \/>\nmuito po\u00e9tico, mas pouco real. De fato, quanto mais se aproxima do<br \/>\nprimitivo estado, mais o homem se escraviza ao instinto, como se verifica<br \/>\nainda hoje nos povos b\u00e1rbaros e selvagens contempor\u00e2neos; o que<br \/>\nmais o preocupa, ou, antes, o que exclusivamente o preocupa \u00e9 a satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas necessidades materiais, mesmo porque n\u00e3o tem outras.<\/p>\n<p>O \u00fanico sentido que pode torn\u00e1-lo acess\u00edvel aos gozos<br \/>\npuramente morais n\u00e3o se desenvolve sen\u00e3o gradual e morosamente;<br \/>\na alma tem tamb\u00e9m a sua inf\u00e2ncia, a sua adolesc\u00eancia e<br \/>\nvirilidade como o corpo humano; mas para compreender o abstrato, quantas evolu\u00e7\u00f5es<br \/>\nn\u00e3o tem ela de experimentar na Humanidade! Por quantas exist\u00eancias<br \/>\nn\u00e3o deve ela passar!<\/p>\n<p>Sem nos remontarmos aos tempos primitivos, olhemos em torno a gente do campo<br \/>\ne perscrutemos os sentimentos de admira\u00e7\u00e3o que nela despertam<br \/>\no esplendor do Sol nascente, do firmamento a estrelada ab\u00f3bada, o trino<br \/>\ndos p\u00e1ssaros, o murm\u00fario das ondas claras, o vergel florido<br \/>\ndos prados. Para essa gente o Sol nasce por h\u00e1bito, e uma vez que desprende<br \/>\no necess\u00e1rio calor para sazonar as searas, n\u00e3o tanto que as<br \/>\ncreste, est\u00e1 realizado tudo o que ela almejava; olha o c\u00e9u para<br \/>\nsaber se bom ou mau tempo sobrevir\u00e1; que cantem ou n\u00e3o as aves,<br \/>\ntanto se lhe d\u00e1, desde que n\u00e3o desbastem da seara os gr\u00e3os;<br \/>\nprefere \u00e0s melodias do rouxinol, o cacarejar da galinhada e o grunhido<br \/>\ndos porcos; o que deseja dos regatos cristalinos, ou lodosos, \u00e9 que<br \/>\nn\u00e3o sequem nem inundem; dos prados, que produzam boa erva, com ou sem<br \/>\nflores.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed tudo o que essa gente almeja, ou, o que \u00e9 mais, tudo<br \/>\no que da Natureza apreende, conquanto muito distanciada j\u00e1 dos primitivos<br \/>\nhomens.<\/p>\n<p>3. &#8211; Se nos remontarmos a estes \u00faltimos, ent\u00e3o, surpreend\u00ea-los-emos<br \/>\nmais exclusivamente preocupados com a satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades<br \/>\nmateriais, resumindo o bem e o mal neste mundo somente no que concerne \u00e0<br \/>\nsatisfa\u00e7\u00e3o ou preju\u00edzo dessas necessidades.<\/p>\n<p>Acreditando num poder extra-humano e porque o preju\u00edzo material \u00e9<br \/>\nsempre o que mais de perto lhes importa, atribuem-no a esse poder, do qual<br \/>\nfazem, ali\u00e1s, uma id\u00e9ia muito vaga. E por nada conceberem fora<br \/>\ndo mundo vis\u00edvel e tang\u00edvel, tal poder se lhes afigura identificado<br \/>\nnos seres e coisas que os prejudicam.<\/p>\n<p>Os animais nocivos n\u00e3o passam para eles de representantes naturais<br \/>\ne diretosdesse poder. Pela mesma raz\u00e3o, v\u00eaem nas coisas \u00fateis<br \/>\na personifica\u00e7\u00e3o do bem: dai, o culto votado a certas plantas<br \/>\ne mesmo a objetos inanimados.<\/p>\n<p>Mas o homem \u00e9 comumente mais sens\u00edvel ao mal que ao bem; este<br \/>\nlhe parece temor suplanta o reconhecimento.<\/p>\n<p>Durante muito tempo o homem n\u00e3o compreendeu sen\u00e3o o bem e o<br \/>\nmal f\u00edsicos; os sentimentos morais s\u00f3 mais tarde marcaram o<br \/>\nprogresso da intelig\u00eancia humana, fazendo-lhe entrever na espiritualidade<br \/>\num poder extra-humano fora do mundo vis\u00edvel e das coisas materiais.<br \/>\nEsta obra foi, seguramente, realizada por intelig\u00eancias de escol, mas<br \/>\nque n\u00e3o puderam exceder certos limites.<\/p>\n<p>4. &#8211; Provada e patente a luta entre o bem e o mal, triunfante este muitas<br \/>\nvezes sobre aquele, e n\u00e3o se podendo racionalmente admitir que o mal<br \/>\nderivasse de um ben\u00e9fico poder, concluiu-se pela exist\u00eancia de<br \/>\ndois poderes rivais no governo do mundo. Da\u00ed nasceu a doutrina dos<br \/>\ndois princ\u00edpios, ali\u00e1s l\u00f3gica numa \u00e9poca em que<br \/>\no homem se encontrava incapaz de, raciocinando, penetrar a ess\u00eancia<br \/>\ndo Ser Supremo.<\/p>\n<p>Como compreenderia, ent\u00e3o, que o mal n\u00e3o passa de estado transit\u00f3rio<br \/>\ndo qual pode emanar o bem, conduzindo-o \u00e0 felicidade pelo sofrimento<br \/>\ne auxiliando-lhe o progresso? Os limites do seu horizonte moral, nada lhe<br \/>\npermitindo ver para al\u00e9m do seu presente, no passado como no futuro,<br \/>\ntamb\u00e9m n\u00e3o lhe permitia compreender que j\u00e1 houvesse progredido,<br \/>\nque progrediria ainda individualmente, e muito menos que as vicissitudes da<br \/>\nvida resultavam das imperfei\u00e7\u00f5es do ser espiritual nele residente,<br \/>\no qual preexiste e sobrevive ao corpo, na depend\u00eancia de uma s\u00e9rie<br \/>\nde exist\u00eancias purificadoras at\u00e9 atingir a perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para compreender como do mal pode resultar o bem \u00e9 preciso considerar<br \/>\nn\u00e3o uma, por\u00e9m, muitas exist\u00eancias; \u00e9 necess\u00e1rio<br \/>\napreender o conjunto do qual &#8211; e s\u00f3 do qual &#8211; resultam n\u00edtidas<br \/>\nas causas e respectivos efeitos.<\/p>\n<p>5. &#8211; O duplo princ\u00edpio do bem e do mal foi, durante muitos s\u00e9culos,<br \/>\ne sob v\u00e1rios nomes, a base de todas as cren\u00e7as religiosas. Vemo-lo<br \/>\nassim sintetizado em Oromase e Arimane entre os persas, em Jeov\u00e1 e<br \/>\nSat\u00e3 entre os hebreus. Todavia, como todo soberano deve ter ministros,<br \/>\nas religi\u00f5es geralmente admitiram pot\u00eancias secund\u00e1rias,<br \/>\nou bons e maus g\u00eanios. Os pag\u00e3os fizeram deles individualidades<br \/>\ncom a denomina\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de deuses e deram-lhes atribui\u00e7\u00f5es<br \/>\nespeciais para o bem e para o mal, para os v\u00edcios e para as virtudes.<br \/>\nOs crist\u00e3os e os mu\u00e7ulmanos herdaram dos hebreus os anjos e<br \/>\nos dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>6. &#8211; A doutrina dos dem\u00f4nios tem, por conseguinte, origem na antiga<br \/>\ncren\u00e7a dos dois princ\u00edpios. Compete-nos examin\u00e1-la aqui<br \/>\nt\u00e3o-somente no ponto de vista crist\u00e3o para ver se est\u00e1<br \/>\nde acordo com as no\u00e7\u00f5es mais exatas que possu\u00edmos hoje,<br \/>\ndos atributos da Divindade.<\/p>\n<p>Esses atributos s\u00e3o o ponto de partida, a base de todas as doutrinas<br \/>\nreligiosas; os dogmas, o culto, as cerim\u00f4nias, os usos e a moral, tudo<br \/>\n\u00e9 relativo \u00e0 id\u00e9ia mais ou menos justa, mais ou menos<br \/>\nelevada que se forma de Deus, desde o fetichismo at\u00e9 o Cristianismo.<br \/>\nSe a ess\u00eancia de Deus continua a ser um mist\u00e9rio para as nossas<br \/>\nintelig\u00eancias, compreendemo-la no entanto melhor que nunca, merc\u00ea<br \/>\ndos ensinamentos do Cristo. O Cristianismo racionalmente ensina-nos que: Deus<br \/>\n\u00e9 \u00fanico, eterno, imut\u00e1vel, imaterial, onipotente, soberanamente<br \/>\njusto e bom, infinito em todas as perfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Foi por isso que algures dissemos &#8211; (1\u00aa Parte cap. VI, &#8220;Doutrina<br \/>\ndas penas eternas&#8221;) &#8220;Se se tirasse a menor parcela de um s\u00f3<br \/>\ndos seus atributos, n\u00e3o haveria mais Deus, por isso que poderia coexistir<br \/>\num ser mais perfeito.&#8221; Estes atributos, na sua plenitude absoluta, s\u00e3o,<br \/>\npois, o crit\u00e9rio de todas as religi\u00f5es, estal\u00e3o da verdade<br \/>\nde cada um dos princ\u00edpios que ensinam. E para que qualquer desses princ\u00edpios<br \/>\nseja verdadeiro, preciso \u00e9 que n\u00e3o encerre um atentado \u00e0s<br \/>\ndivinas perfei\u00e7\u00f5es. Vejamos se assim \u00e9, de fato, na doutrina<br \/>\nvulgar dos dem\u00f4nios.<\/p>\n<h2><a id=\"12\" name=\"12\"><\/a>Os dem\u00f4nios segundo a Igreja<\/h2>\n<p>7 . Satan\u00e1s, o chefe ou o rei dos dem\u00f4nios, n\u00e3o \u00e9,<br \/>\nsegundo a Igreja, uma personifica\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica do mal,<br \/>\nmas uma entidade real, praticando exclusivamente o mal, enquanto que Deus<br \/>\npratica exclusivamente o bem.<\/p>\n<p>Tomemo-lo, pois, tal qual no-lo representam. Satan\u00e1s existe de toda<br \/>\na eternidade, como Deus, ou ser-lhe-\u00e1 posterior? Existindo de toda<br \/>\na eternidade \u00e9 incriado, e, por conseq\u00fc\u00eancia, igual a Deus.<br \/>\nEste Deus, por sua vez, deixar\u00e1 de ser \u00fanico, pois haver\u00e1<br \/>\num deus do mal. Mas se lhe for posterior? Neste caso passa a ser uma criatura<br \/>\nde Deus. Como tal, s\u00f3 praticando o mal por incapaz de fazer o bem e<br \/>\ntampouco de arrepender-se, Deus teria criado um ser votado exclusiva e eternamente<br \/>\nao mal. N\u00e3o sendo o mal obra de Deus, seria contudo de uma das suas<br \/>\ncriaturas, e nem por isso deixava Deus de ser o autor, deixando igualmente<br \/>\nde ser profundamente bom. O mesmo se d\u00e1, exatamente, em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\naos seres maus chamados dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>8. &#8211; Tal foi, por muito tempo, a cren\u00e7a neste sentido. Hoje dizem<br \/>\n(1): &#8220;Deus, que \u00e9 a bondade e santidade por excel\u00eancia,<br \/>\nn\u00e3o os havia criado perversos e maus. A m\u00e3o paternal que se<br \/>\napraz imprimir em todas as suas obras o cunho de infinitas perfei\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncumulara-os de magn\u00edficos predicados. As qualidades eminent\u00edssimas<br \/>\nde sua natureza, juntara as liberalidades da sua gra\u00e7a; em tudo os<br \/>\nfizera iguais aos Esp\u00edritos sublimes de gl\u00f3ria e felicidade;<br \/>\nsubdivididos por todas as suas ordens e adstritos a todas as classes, eles<br \/>\ntinham o mesmo fim e id\u00eanticos destinos. Foi seu chefe o mais belo dos<br \/>\narcanjos. Eles poderiam at\u00e9 ter alcan\u00e7ado a confirma\u00e7\u00e3o<br \/>\nde justos para todo o sempre, e serem admitidos ao gozo da bem-aventuran\u00e7a<br \/>\ndos c\u00e9us. Este \u00faltimo favor, que dever\u00e1 ser o complemento<br \/>\nde todos os outros, constitu\u00eda o pr\u00eamio da sua docilidade, mas<br \/>\ndele desmereceram por insensata e audaciosa revolta.&#8221;<\/p>\n<p>(1) As cita\u00e7\u00f5es seguintes s\u00e3o extra\u00eddas da pastoral<br \/>\nde Monsenhor Gousset, cardeal-arcebispo de Reims, para a quaresma de 1865.<br \/>\nAtentos ao m\u00e9rito pessoal e \u00e0 posi\u00e7\u00e3o do autor,<br \/>\npodemos consider\u00e1-las a \u00faltima express\u00e3o da Igreja sobre<br \/>\na doutrina dos dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>&#8220;Qual foi o escolho da sua perseveran\u00e7a? Que verdade desconheceram?<br \/>\nQue ato de adora\u00e7\u00e3o, de f\u00e9, recusaram a Deus? A Igreja<br \/>\ne os anais das santas escrituras n\u00e3o no-lo dizem positivamente, mas<br \/>\ncerto parece que n\u00e3o aquiesceram \u00e0 media\u00e7\u00e3o do<br \/>\nFilho de Deus, nem \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o da natureza humana em<br \/>\nJesus-Cristo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O Verbo Divino, criador de todas as coisas, \u00e9 tamb\u00e9m<br \/>\no mediador e salvador \u00fanico, na Terra como no C\u00e9u. O fim sobrenatural<br \/>\nn\u00e3o foi dado aos anjos e aos homens sen\u00e3o na previs\u00e3o<br \/>\nde sua encarna\u00e7\u00e3o e m\u00e9ritos, pois n\u00e3o h\u00e1<br \/>\npropor\u00e7\u00e3o alguma entre a obra dos Esp\u00edritos eminentes<br \/>\ne a recompensa, que \u00e9 o pr\u00f3prio Deus. Nenhuma criatura poderia<br \/>\nalcan\u00e7ar tal fim, sem esta maravilhosa e sublime interven\u00e7\u00e3o<br \/>\nda caridade. Ora, para preencher a dist\u00e2ncia infinita que separa a sua<br \/>\ness\u00eancia das suas obras, preciso fora reunisse \u00e0 sua pessoa os<br \/>\ndois extremos, associando \u00e0 divindade as naturezas ou do anjo, ou do<br \/>\nhomem: e preferiu ent\u00e3o a natureza humana. Esse plano, concebido de<br \/>\ntoda eternidade, foi manifestado aos anjos muito antes da sua execu\u00e7\u00e3o:<br \/>\no Homem-Deus foi-lhes mostrado como Aquele que deveria confirm\u00e1-los<br \/>\nna gra\u00e7a e gui\u00e1-los \u00e0 gl\u00f3ria, sob a condi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde o adorarem durante a miss\u00e3o terrestre, e para todo o sempre no c\u00e9u.<br \/>\nRevela\u00e7\u00e3o inesperada, arrebatadora vis\u00e3o para cora\u00e7\u00f5es<br \/>\ngenerosos e gratos, mas &#8211; mist\u00e9rio profundo &#8211; humilhante para esp\u00edritos<br \/>\nsoberbos! Esse fim sobrenatural, essa gl\u00f3ria imensa que lhes propunham<br \/>\nn\u00e3o seria unicamente a recompensa de seus m\u00e9ritos pessoais.<br \/>\nNunca poderiam atribuir a si pr\u00f3prios os t\u00edtulos dessa gl\u00f3ria!<br \/>\nUni mediador entre Deus e eles! Que inj\u00faria \u00e0 sua dignidade!<br \/>\nE a prefer\u00eancia espont\u00e2nea pela natureza humana? Que injusti\u00e7a!<br \/>\nque afronta aos seus direitos!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E chegar\u00e3o eles a ver esta Humanidade, que lhes \u00e9 t\u00e3o<br \/>\ninferior, deificada pela uni\u00e3o com o Verbo, sentada \u00e0 m\u00e3atilde;o<br \/>\ndireita de Deus em trono resplandecente? Consentir\u00e3o enfim que ela<br \/>\nofere\u00e7a a Deus, eternamente, a homenagem da sua adora\u00e7\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;L\u00facifer e a ter\u00e7a parte dos anjos sucumbiram a tais pensamentos<br \/>\nde inveja e de orgulho. S. Miguel e com ele muitos exclamaram: &#8220;Quem<br \/>\n\u00e9 semelhante a Deus? Ele \u00e9 o dono de seus dons, o soberano Senhor<br \/>\nde todas as coisas. Gl\u00f3ria a Deus e ao Cordeiro, que tem de ser imolado<br \/>\n\u00e0 salva\u00e7\u00e3o do mundo.&#8221; O chefe dos rebeldes, por\u00e9m,<br \/>\nesquecido de que a Deus devia a sua nobreza e prerrogativas, raiando pela<br \/>\ntemeridade, disse: &#8220;Sou eu quem ao c\u00e9u subir\u00e1; fixarei<br \/>\nresid\u00eancia acima dos astros; sentar-me-ei sobre o monte da alian\u00e7a,<br \/>\nnos flancos do Aquil\u00e3o, dominarei as nuvens mais elevadas e serei semelhante<br \/>\nao Alt\u00edssimo.&#8221; Os que de tais sentimentos partilharam, acolheram<br \/>\nessas palavras com murm\u00farios de aprova\u00e7\u00e3o, e partid\u00e1rios<br \/>\nhouve em todas as hierarquias. A sua multid\u00e3o, contudo, n\u00e3o<br \/>\nos preserva do castigo.&#8221;<\/p>\n<p>9. &#8211; Est\u00e1 doutrina suscita v\u00e1rias obje\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>1\u00aa &#8211; Se Sat\u00e3 e os dem\u00f4nios eram anjos, eles eram perfeitos;<br \/>\ncomo, sendo perfeitos, puderam falir a ponto de desconhecer a autoridade desse<br \/>\nDeus, em cuja presen\u00e7a se encontravam? Ainda se tivessem logrado uma<br \/>\ntal emin\u00eancia gradualmente, depois de haver percorrido a escala da perfei\u00e7\u00e3o,<br \/>\npoder\u00edamos conceber um triste retrocesso; n\u00e3o, por\u00e9m,<br \/>\ndo modo por que no-los apresentam, isto \u00e9, perfeitos de origem.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 esta: &#8211; Deus quis criar seres perfeitos, porquanto<br \/>\nos favorecera com todos os dons, mas enganou-se: logo, segundo a Igreja, Deus<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 infal\u00edvel! (1)<\/p>\n<p>(1) Esta doutrina monstruosa \u00e9 corroborada por Mois\u00e9s, quando<br \/>\ndiz (G\u00eanese, cap. VI, vv. 6 e 7): &#8220;Ele se arrependeu de haver criado<br \/>\no homem na Terra e, penetrado da mais intima dor, disse: Exterminarei a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nda face da Terra; exterminarei tudo, desde o homem aos animais, desde os que<br \/>\nrastejam sobre a terra at\u00e9 os p\u00e1ssaros do c\u00e9u, porque<br \/>\nme arrependo de os ter criado.&#8221; Ora, um Deus que se arrepende do que<br \/>\nfez n\u00e3o \u00e9 perfeito nem infal\u00edvel; portanto, n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 Deus. E s\u00e3o estas as palavras que a Igreja proclama! Tampouco<br \/>\nse percebe o que poderia haver de comum entre os animais e a perversidade<br \/>\ndos homens, para que merecessem tal exterm\u00ednio.<\/p>\n<p>2\u00aa &#8211; Pois que nem a Igreja e nem os sagrados anais explicam a causa<br \/>\nda rebeli\u00e3o dos anjos para com Deus e apenas d\u00e3o como problem\u00e1tica<br \/>\n(quase certa) a relut\u00e2ncia no reconhecimento da futura miss\u00e3o<br \/>\ndo Cristo, que valor &#8211; perguntamos -que valor pode ter o quadro t\u00e3o<br \/>\npreciso e detalhado da cena ent\u00e3o ocorrente? A que fonte recorreram,<br \/>\npara inferir se de fato foram pronunciadas palavras t\u00e3o claras e at\u00e9<br \/>\nsimples col\u00f3quios? De duas uma: ou a cena \u00e9 verdadeira ou n\u00e3o<br \/>\n\u00e9. No primeiro caso, n\u00e3o havendo d\u00favida alguma, por que<br \/>\na Igreja n\u00e3o resolve a quest\u00e3o? Mas se a Igreja e a Hist\u00f3ria<br \/>\nse calam se a coisa apenas parece certa, claro, n\u00e3o passa de hip\u00f3tese,<br \/>\ne acena descritiva \u00e9 mero fruto da imagina\u00e7\u00e3o. (2)<\/p>\n<p>(2) Encontra-se em Isa\u00edas, cap. XIV, Vv. 11 e seguintes: &#8220;Teu<br \/>\norgulho foi precipitado nos infernos; teu corpo morto baqueou par terra; tua<br \/>\ncama verter\u00e1 podrid\u00e3o, e vermes tua vestimenta. Como ca\u00edste<br \/>\ndo C\u00e9u, L\u00facifer, tu que parecias t\u00e3o brilhante ao romper<br \/>\ndo dia? Como foste arrojado sobre a Terra, tu que ferias as na\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom teus golpes; que dizias de cora\u00e7\u00e3o: Subirei aos c\u00e9us,<br \/>\nestabelecerei meu trono acima dos astros de Deus, sentar-me-ei acima das nuvens<br \/>\nmais altas e serei igual ao Alt\u00edssimo! E todavia foste precipitado<br \/>\ndessa gl\u00f3ria no inferno, at\u00e9 o mais fundo dos abismos. Os que<br \/>\nte virem, aproximando-se, encarar-te-\u00e3o, dizendo: &#8220;Ser\u00e1<br \/>\neste o homem que turbou a Terra, que aterrou seus remos, que fez do mundo<br \/>\num deserto, que destruiu cidades e reteve acorrentados os que se lhe entregaram<br \/>\nprisioneiros?&#8221; Estas palavras do profeta n\u00e3o se relerem \u00e0<br \/>\nrevolta dos anjos,&#8217; s\u00e3o, sim, uma alus\u00e3o ao orgulho e \u00e0<br \/>\nqueda do rei de Babil\u00f4nia, que retinha os judeus em cativeiro, como<br \/>\natestam os \u00faltimos vers\u00edculos. O rei de Babil\u00f4nia \u00e9<br \/>\nalegoricamente designado por L\u00facifer, mas n\u00e3o se faz a\u00ed<br \/>\nqualquer men\u00e7\u00e3o da cena supra descrita. Essas palavras s\u00e3o<br \/>\ndo rei que as tinha no cora\u00e7\u00e3o e se colocava por orgulho acima<br \/>\nde Deus, cujo povo escravizara. A profecia da liberta\u00e7\u00e3o do<br \/>\npovo judeu, da rainha de Babil\u00f4nia e do destro\u00e7o dos ass\u00edrios<br \/>\n\u00e9, ao demais, o assunto exclusivo desse cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>3\u00aa- As palavras atribu\u00eddas a L\u00facifer revelam uma ignor\u00e2ncia<br \/>\nadmir\u00e1vel num arcanjo que, por sua natureza e grau atingido, n\u00e3o<br \/>\ndeve participar, quanto \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do Universo, dos<br \/>\nerros e dos preju\u00edzos que os homens t\u00eam professado, at\u00e9<br \/>\nserem pela Ci\u00eancia esclarecidos. Como poderia, ent\u00e3o, dizer que<br \/>\nfixaria resid\u00eancia acima dos astros, dominando as mais elevadas nuvens?!<\/p>\n<p>\u00c9 sempre a velha cren\u00e7a da Terra como centro do Universo, do<br \/>\nc\u00e9u como que formado de nuvens estendendo-se \u00e0s estrelas, e<br \/>\nda limitada regi\u00e3o destas, que a Astronomia nos mostra disseminadas<br \/>\nao infinito no infinito espa\u00e7o! Sabendo-se, como hoje se sabe, que<br \/>\nas nuvens n\u00e3o se elevam a mais de duas l\u00e9guas da superf\u00edcie<br \/>\nterr\u00e1quea, e falando-se em domin\u00e1-las por mais alto, referindo-se<br \/>\na montanhas, preciso fora que a observa\u00e7\u00e3o partisse da Terra,<br \/>\nsendo ela, de fato, a morada dos anjos. Dado, por\u00e9m, ser esta em regi\u00e3o<br \/>\nsuperior, in\u00fatil fora al\u00e7ar-se acima das nuvens. Emprestar aos<br \/>\nanjos uma linguagem tisnada de ignor\u00e2ncia, \u00e9 confessar que os<br \/>\nhomens contempor\u00e2neos s\u00e3o mais s\u00e1bios que os anjos. A<br \/>\nIgreja tem caminhado sempre erradamente, n\u00e3o levando em conta os progressos<br \/>\nda Ci\u00eancia.<\/p>\n<p>10. &#8211; A resposta \u00e0 primeira obje\u00e7\u00e3o acha-se na seguinte<br \/>\npassagem:<\/p>\n<p>&#8220;A escritura e a tradi\u00e7\u00e3o denominam c\u00e9u o lugar<br \/>\nno qual se haviam colocado os anjos, no momento da sua cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas esse n\u00e3o era o c\u00e9u dos c\u00e9us, o c\u00e9u da vis\u00e3o<br \/>\nbeatifica, onde Deus se mostra de face aos seus eleitos, que o contemplam<br \/>\nclaramente e sem esfor\u00e7o, porque a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 mais<br \/>\npossibilidade nem perigo de pecado; a tenta\u00e7\u00e3o e a d\u00favida<br \/>\ns\u00e3o a\u00ed desconhecidas; a justi\u00e7a, a paz e a alegria reinam<br \/>\nimut\u00e1veis, a santidade e a gl\u00f3ria imperec\u00edveis. Era,<br \/>\nportanto, outra regi\u00e3o celeste, uma esfera luminosa e afortunada, essa<br \/>\nem que permaneciam t\u00e3o nobres criaturas favorecidas pelas divinas comunica\u00e7\u00f5es,<br \/>\nque deveriam receber com f\u00e9 e humildade at\u00e9 serem admitidas<br \/>\nno conhecimento da sua realidade ess\u00eancia do pr\u00f3prio Deus.&#8221;<\/p>\n<p>Do que precede se infere que os anjos deca\u00eddos pertenciam a uma categoria<br \/>\nmenos elevada e perfeita, n\u00e3o tendo atingido ainda o lugar supremo<br \/>\nem que o erro \u00e9 imposs\u00edvel. Pois seja: mas, ent\u00e3o, h\u00e1<br \/>\nmanifesta contradi\u00e7\u00e3o nesta afirmativa: &#8211; Deus em tudo os tinha<br \/>\ncriado semelhantes aos esp\u00edritos sublimes que, subdivididos em todas<br \/>\nas ordens e adstritos a todas as classes, tinham o mesmo fim e id\u00eanticos<br \/>\ndestinos, e que seu chefe era o mais belo dos arcanjos. Ora, em tudo semelhantes<br \/>\naos outros, n\u00e3o lhes seriam inferiores em natureza; id\u00eanticos<br \/>\nem categorias, n\u00e3o podiam permanecer em um lugar especial. Intacta<br \/>\nsubsiste, portanto, a obje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>11. &#8211; E ainda h\u00e1 uma outra que \u00e9, certamente, a mais s\u00e9ria<br \/>\ne a mais grave.<\/p>\n<p>Dizem: &#8211; &#8220;Este plano (a interven\u00e7\u00e3o do Cristo), concebido<br \/>\ndesde toda a eternidade, foi manifestado aos anjos muito antes da sua execu\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nDeus sabia, portanto, e de toda a eternidade, que os anjos, tanto quanto os<br \/>\nhomens, teriam necessidade dessa interven\u00e7\u00e3o. Ainda mais: &#8211;<br \/>\no Deus onisciente sabia que alguns dentre esses anjos viriam a falir, arcando<br \/>\ncom a eterna condena\u00e7\u00e3o e arrastando a igual sorte uma parte<br \/>\nda Humanidade. E assim, de caso pensado, previamente condenava o g\u00eanero<br \/>\nhumano, a sua pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o. Deste racioc\u00ednio<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 fugir, porquanto de outro modo ter\u00edamos que admitir<br \/>\na inconsci\u00eancia divina, apregoando a n\u00e3o presci\u00eancia de<br \/>\nDeus. Para n\u00f3s \u00e9 imposs\u00edvel identificar uma tal cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ncom a soberana bondade. Em ambos os casos vemos a nega\u00e7\u00e3o de<br \/>\natributos, sem a plenitude absoluta dos quais Deus n\u00e3o seria Deus.<\/p>\n<p>12. &#8211; Admitindo a falibilidade dos anjos como a dos homens, a puni\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e9 conseq\u00fc\u00eancia, ali\u00e1s justa e natural, da falta;<br \/>\nmas se admitirmos concomitantemente a possibilidade do resgate, a regenera\u00e7\u00e3o,<br \/>\na gra\u00e7a, ap\u00f3s o arrependimento e a expia\u00e7\u00e3o, tudo<br \/>\nse esclarece e se conforma com a bondade de Deus. Ele sabia que errariam,<br \/>\nque seriam punidos, mas sabia igualmente que tal castigo tempor\u00e1rio<br \/>\nseria um meio de lhes fazer compreender o erro, revertendo alfim em benef\u00edcio<br \/>\ndeles. Eis como se explicam as palavras do profeta Ezequiel: &#8211; &#8220;Deus<br \/>\nn\u00e3o quer a morte, por\u00e9m a salva\u00e7\u00e3o do pecador.&#8221;<br \/>\n(1)<\/p>\n<p>(1) Vede 1\u00aa&#8217; Parte, cap. VI, n\u00ba 25, cita\u00e7\u00e3o de Ezequiel.<\/p>\n<p>A inutilidade do arrependimento e a impossibilidade de regenera\u00e7\u00e3o,<br \/>\nisso sim,importaria a nega\u00e7\u00e3o da divina bondade. Admitida tal<br \/>\nhip\u00f3tese, poder-se-ia mesmo dizer, rigorosa e exatamente, que estes<br \/>\nanjos desde a sua cria\u00e7\u00e3o, visto Deus n\u00e3o poder ignor\u00e1-lo,<br \/>\nforam votados \u00e0 perpetuidade do mal, e predestinados a dem\u00f4nios<br \/>\npara arrastarem os homens ao mal.<\/p>\n<p>13. &#8211; Vejamos agora qual a sorte desses tais anjos e o que fazem:<\/p>\n<p>&#8220;Mal apenas se manifestou a revolta na linguagem dos Esp\u00edritos,<br \/>\nisto \u00e9, no arrojo dos seus pensamentos, foram eles banidos da celestial<br \/>\nmans\u00e3o e precipitados no abismo. Por estas palavras entendemos que<br \/>\nforam arremessados a um lugar de supl\u00edcios no qual sofrem a pena de<br \/>\nfogo, conforme o texto do Evangelho, que \u00e9 a palavra mesma do Salvador.<br \/>\nIde, malditos, ao fogo eterno preparado pelo dem\u00f4nio e seus anjos. S.<br \/>\nPedro expressamente diz: que Deus os prendeu \u00e0s cadeias e torturas<br \/>\ninfernais, sem que l\u00e1 estejam, contudo, perpetuamente, visto como s\u00f3<br \/>\nno fim do mundo ser\u00e3o para sempre enclausurados com os r\u00e9probos.<br \/>\nPresentemente, Deus ainda permite que ocupem lugar nesta cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e0 qual pertencem, na ordem de coisas id\u00eanticas \u00e0 sua exist\u00eancia,<br \/>\nnas rela\u00e7\u00f5es enfim que deviam ter com os homens, e das quais<br \/>\nfazem o mais pernicioso abuso. Enquanto uns ficam na tenebrosa morada, servindo<br \/>\nde instrumento da justi\u00e7a divina contra as almas infelizes que seduziram,<br \/>\noutros, em n\u00famero infinito, formam legi\u00f5es e residem nas camadas<br \/>\ninferiores da atmosfera, percorrendo todo o globo. Envolvem-se em tudo que<br \/>\naqui se passa, tomando mesmo parte muito ativa nos acontecimentos terrenos.&#8221;<\/p>\n<p>Quanto ao que diz respeito \u00e0s palavras do Cristo sobre o supl\u00edcio<br \/>\ndo fogo eterno, j\u00e1 nos explanamos no cap. IV, &#8220;O Inferno&#8221;.<\/p>\n<p>14. &#8211; Por esta doutrina, apenas uma parte dos dem\u00f4nios est\u00e1<br \/>\nno inferno; a outra vaga em liberdade, envolvendo-se em tudo que aqui se passa,<br \/>\ndando-se ao prazer de praticar o mal e isso at\u00e9 o fim do mundo, cuja<br \/>\n\u00e9poca indeterminada n\u00e3o chegar\u00e1 t\u00e3o cedo, provavelmente.<br \/>\nMas, por que uma tal distin\u00e7\u00e3o? Ser\u00e3o estes menos culpados?<br \/>\nCerto que n\u00e3o, a menos que se n\u00e3o revezem, como se pode inferir<br \/>\ndestas palavras: &#8220;Enquanto uns ficam na tenebrosa morada, servindo de<br \/>\ninstrumento da justi\u00e7a divina contra as almas infelizes que seduziram.&#8221;<\/p>\n<p>Suas ocupa\u00e7\u00f5es consistem, pois, em martirizar as almas que<br \/>\nseduziram. Assim, n\u00e3o se encarregam de punir faltas livre e voluntariamente<br \/>\ncometidas, por\u00e9m as que eles pr\u00f3prios provocaram. S\u00e3o<br \/>\nao mesmo tempo a causa do erro e o instrumento do castigo; e, coisa singular,<br \/>\nque a justi\u00e7a humana por imperfeita n\u00e3o admitiria &#8211; a vitima<br \/>\nque sucumbe por fraqueza, em conting\u00eancias alheias e porventura superiores<br \/>\n\u00e0 sua vontade, \u00e9 tanto ou mais severamente punida do que o agente<br \/>\nprovocador que emprega ast\u00facia e artif\u00edcio, visto como essa<br \/>\nvitima, deixando a Terra, vai para o inferno sofrer sem tr\u00e9guas, nem<br \/>\nfavor, eternamente, enquanto que o causador da sua primeira falta, o agente<br \/>\nprovocador, goza de uma tal ou qual dila\u00e7\u00e3o e liberdade at\u00e9<br \/>\no fim do mundo.<\/p>\n<p>Como pode a justi\u00e7a de Deus ser menos perfeita que a dos homens?<\/p>\n<p>15. &#8211; Mas, ainda n\u00e3o \u00e9 tudo: &#8220;Deus permite que ocupem<br \/>\nlugar nesta cria\u00e7\u00e3o, nas rela\u00e7\u00f5es que com o homem<br \/>\ndeviam ter e das quais abusam perniciosamente.&#8221; Deus podia ignorar, no<br \/>\nentanto, o abuso que fariam de uma liberdade por ele mesmo concedida? Ent\u00e3o,<br \/>\npor que a concedeu? Mas nesse caso \u00e9 com conhecimento de causa que<br \/>\nDeus abandona suas criaturas \u00e0 merc\u00ea delas mesmas, sabendo, pela<br \/>\nsua onisci\u00eancia, que v\u00e3o sucumbir, tendo a sorte dos dem\u00f4nios.<br \/>\nN\u00e3o ser\u00e3o elas de si mesmas bastante fracas para falirem, sem<br \/>\na provoca\u00e7\u00e3o de um inimigo tanto mais perigoso quanto invis\u00edvel?<br \/>\nAinda se o castigo fora tempor\u00e1rio e o culpado pudesse remir-se pela<br \/>\nrepara\u00e7\u00e3o!&#8230; Mas n\u00e3o: a condena\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>\nirrevog\u00e1vel, eterna! Arrependimento, regenera\u00e7\u00e3o, lamentos,<br \/>\ntudo sup\u00e9rfluo!<\/p>\n<p>Os dem\u00f4nios n\u00e3o passam portanto de agentes provocadores e de<br \/>\nantem\u00e3o destinados a recrutar almas para o inferno, isto com a permiss\u00e3o<br \/>\nde Deus, que antevia, ao criar estas almas, a sorte que as aguardava. Que<br \/>\nse diria na Terra de um juiz que recorresse a tal expediente para abarrotar<br \/>\npris\u00f5es? Estranha id\u00e9ia que nos d\u00e3o da Divindade, de<br \/>\num Deus cujos atributos essenciais s\u00e3o: &#8211; justi\u00e7a e bondade<br \/>\nsoberanas!<\/p>\n<p>E dizer-se que \u00e9 em nome de Jesus, dAquele que s\u00f3 pregou amor,<br \/>\nperd\u00e3o e caridade, que tais doutrinas s\u00e3o ensinadas! Houve um<br \/>\ntempo em que tais anomalias passavam despercebidas, porque n\u00e3o eram<br \/>\ncompreendidas nem sentidas; o homem, curvado ao jugo do despotismo, submetia-se<br \/>\n\u00e0 f\u00e9 cega, abdicava da raz\u00e3o. Hoje, por\u00e9m, que<br \/>\na hora da emancipa\u00e7\u00e3o soou, esse homem compreende a justi\u00e7a,<br \/>\ne, desejando-a tanto na vida quanto na morte, exclama: &#8211; N\u00e3o \u00e9,<br \/>\nn\u00e3o pode ser tal, ou Deus n\u00e3o fora Deus.<\/p>\n<p>16. &#8211; &#8220;O castigo segue por toda a parte os seres deca\u00eddos: o<br \/>\ninferno est\u00e1 neles e com eles: nem paz nem repouso, transformadas em<br \/>\namargores as do\u00e7uras da esperan\u00e7a, que se lhes torna odiosa.<br \/>\nA m\u00e3o de Deus desferiu-lhes o castigo no ato mesmo de pecarem, e sua<br \/>\nvontade galvanizou-se no mal.<\/p>\n<p>&#8220;Tornados perversos, obstinam-se em o ser e s\u00ea-lo-\u00e3o para<br \/>\nsempre.<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o, depois do pecado, o que \u00e9 o homem depois da morte.<br \/>\nA reabilita\u00e7\u00e3o dos que ca\u00edram torna-se tamb\u00e9m<br \/>\nimposs\u00edvel; a sua perda \u00e9, desde ent\u00e3o, irrepar\u00e1vel,<br \/>\nmantendo-se eles no seu orgulho perante Deus, no seu \u00f3dio contra o<br \/>\nCristo, na sua inveja contra a Humanidade.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tendo podido apropriar-se da gl\u00f3ria celeste pelo<br \/>\ndesmesurado da sua ambi\u00e7\u00e3o, esfor\u00e7am-se por implantar<br \/>\nseu imp\u00e9rio na Terra, banindo dela o reino de Deus. O Verbo encarnado<br \/>\ncumpriu, apesar disso, os seus des\u00edgnios para salva\u00e7\u00e3o<br \/>\ne gl\u00f3ria da Humanidade. Tamb\u00e9m por isso procuram por todos os<br \/>\nmeios promover a perda das almas pelo Cristo resgatadas: o artif\u00edcio<br \/>\ne a importuna\u00e7\u00e3o, a mentira e a sedu\u00e7\u00e3o, tudo<br \/>\np\u00f5em em jogo para arrast\u00e1-las ao mal e consumar-lhes a perda.<\/p>\n<p>&#8220;E como s\u00e3o infatig\u00e1veis e poderosos, a vida do homem<br \/>\ncom inimigos tais n\u00e3o pode deixar de ser uma luta sem tr\u00e9guas,<br \/>\ndo ber\u00e7o ao t\u00famulo.<\/p>\n<p>&#8220;Efetivamente esses inimigos s\u00e3o os mesmos que, depois de terem<br \/>\nintroduzido o mal no mundo, chegaram a cobri-lo com as espessas trevas do<br \/>\nerro e do v\u00edcio; os mesmos que, por longos s\u00e9culos, se fizeram<br \/>\nadorar como deuses e que reinaram em absoluto sobre os povos da antig\u00fcidade;<br \/>\nos mesmos, enfim, que ainda hoje exercem tir\u00e2nica influ\u00eancia nas<br \/>\nregi\u00f5es id\u00f3latras, fomentando a desordem e o esc\u00e2ndalo<br \/>\nat\u00e9 no seio das sociedades crist\u00e3s. Para compreender todos os<br \/>\nrecursos de que disp\u00f5em ao servi\u00e7o da malvadez, basta notar<br \/>\nque nada perderam das prodigiosas faculdades que s\u00e3o o apan\u00e1gio<br \/>\nda natureza ang\u00e9lica. Certo, o futuro e sobretudo a ordem natural t\u00eam<br \/>\nmist\u00e9rios que Deus se reservou e que eles n\u00e3o podem penetrar;<br \/>\nmas a sua intelig\u00eancia \u00e9 bem superior \u00e0 nossa, porque<br \/>\npercebem de um jacto os efeitos nas causas e vice-versa. Esta percep\u00e7\u00e3o<br \/>\npermite-lhes predizer acontecimentos futuros que escapam \u00e0s nossas<br \/>\nconjeturas. A dist\u00e2ncia e variedade dos lugares desaparecem ante a sua<br \/>\nagilidade. Mais prontos que o raio, mais r\u00e1pidos que o pensamento,<br \/>\nacham-se quase instantaneamente sobre diversos pontos do globo e podem descrever,<br \/>\na dist\u00e2ncia, os acontecimentos na mesma hora em que ocorrem.<\/p>\n<p>&#8220;As leis pelas quais Deus rege o Universo n\u00e3o lhes s\u00e3o<br \/>\nacess\u00edveis, raz\u00e3o por que n\u00e3o podem derrog\u00e1-las,<br \/>\ne, por conseguinte, predizer ou operar verdadeiros milagres; possuem no entanto<br \/>\na arte de imitar e falsificar, dentro de certos limites, as divinas obras;<br \/>\nsabem quais os fen\u00f4menos resultantes da combina\u00e7\u00e3o dos<br \/>\nelementos, predizem com maior ou menor \u00eaxito os que sobrev\u00eam naturalmente,<br \/>\nassim como os que por si mesmos podem produzir. Da\u00ed os numerosos or\u00e1culos,<br \/>\nos extraordin\u00e1rios vatic\u00ednios que sagrados e profanos livros<br \/>\nrecolheram, baseando e acoro\u00e7oando tantas e tantas supersti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;A sua subst\u00e2ncia simples e imaterial subtrai-os \u00e0s nossas<br \/>\nvistas; permanecem ao nosso lado sem que os vejamos, interessam-nos a alma<br \/>\nsem que nos firam o ouvido. Acreditando obedecer aos nossos pensamentos, estamos<br \/>\nno entanto, e muitas vezes, debaixo da sua funesta influ\u00eancia. As nossas<br \/>\ndisposi\u00e7\u00f5es, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o deles conhecidas<br \/>\npelas impress\u00f5es que delas transparecem em n\u00f3s, e atacam-nos<br \/>\nordinariamente pelo lado mais fraco. Para nos seduzirem com mais seguran\u00e7a,<br \/>\ncostumam servir-se de sugest\u00f5es e engodos conformes com as nossas inclina\u00e7\u00f5es.<br \/>\nModificam a a\u00e7\u00e3o segundo as circunst\u00e2ncias e os tra\u00e7os<br \/>\ncaracter\u00edsticos de cada temperamento. Contudo, suas armas favoritas<br \/>\ns\u00e3o a hipocrisia e a mentira.&#8221;<\/p>\n<p>17. &#8211; Afirmam que o castigo os segue por toda parte; que n\u00e3o sabem<br \/>\no que seja paz nem repouso. Esta asser\u00e7\u00e3o de modo algum destr\u00f3i<br \/>\na observa\u00e7\u00e3o que fizemos quanto ao privil\u00e9gio dos que<br \/>\nest\u00e3o fora do inferno, e que reputamos tanto menos justificado por<br \/>\nisso que podem fazer, e fazem, maior mal. \u00c9 de crer que esses dem\u00f4nios<br \/>\nextra-infernais n\u00e3o sejam t\u00e3o felizes como os bons anjos, mas<br \/>\nn\u00e3o se dever\u00e1 ter em conta a sua relativa liberdade? Eles n\u00e3o<br \/>\npossuir\u00e3o a felicidade moral que a virtude defere, mas s\u00e3o incontestavelmente<br \/>\nmais felizes que os seus comparsas do inferno flam\u00edfero. Depois, para<br \/>\no mau, sempre h\u00e1 um certo gozo na pr\u00e1tica do mal, de mais a<br \/>\nmais livremente. Perguntai ao criminoso o que prefere: se ficar na pris\u00e3o,<br \/>\nou percorrer livremente os campos, agindo \u00e0 vontade? Pois o caso \u00e9<br \/>\nexatamente o mesmo.<\/p>\n<p>Afirmam, outrossim, que o remorso os persegue sem tr\u00e9guas nem miseric\u00f3rdia,<br \/>\nesquecidos de que o remorso \u00e9 o precursor imediato do arrependimento,<br \/>\nquando n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio arrependimento. &#8220;Tornados<br \/>\nperversos, obstinam-se em o ser, e s\u00ea-lo-\u00e3o para sempre.&#8221;<br \/>\nMas desde que se obstinam em ser perversos, \u00e9 que n\u00e3o t\u00eam<br \/>\nremorsos; do contr\u00e1rio, ao menor sentimento de pesar, renunciariam<br \/>\nao mal e pediriam perd\u00e3o. Logo, o remorso n\u00e3o \u00e9 para<br \/>\neles um castigo.<\/p>\n<p>18. &#8211; &#8220;S\u00e3o, depois do pecado, o que \u00e9 o homem depois da<br \/>\nmorte. A reabilita\u00e7\u00e3o dos que ca\u00edram torna-se, portanto,<br \/>\nimposs\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p>Donde prov\u00e9m essa impossibilidade? N\u00e3o se compreende que ela<br \/>\nseja a conseq\u00fc\u00eancia de sua similitude com o homem depois da morte,<br \/>\nproposi\u00e7\u00e3o que, ao demais, \u00e9 muito amb\u00edgua.<\/p>\n<p>Acaso provir\u00e1 da pr\u00f3pria vontade dos dem\u00f4nios? Porventura<br \/>\nda vontade divina? No primeiro caso a pertin\u00e1cia denota uma extrema<br \/>\nperversidade, um endurecimento absoluto no mal, e nem mesmo se compreende<br \/>\nque seres t\u00e3o profundamente perversos pudessem jamais ter sido anjos<br \/>\nde virtude, conservando por tempo indefinido, na conviv\u00eancia destes,<br \/>\ntodos os tra\u00e7os da sua p\u00e9ssima \u00edndole e natureza.<\/p>\n<p>No segundo caso, ainda menos se compreende que Deus inflija como castigo<br \/>\na impossibilidade da repara\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s uma primeira falta.<br \/>\nO Evangelho nada diz que com isso se pare\u00e7a.<\/p>\n<p>19. &#8211; &#8220;A sua perda \u00e9 desde ent\u00e3o irrepar\u00e1vel, mantendo-se<br \/>\neles no seu orgulho perante Deus.&#8221; E de que lhes serviria n\u00e3o<br \/>\nmanterem tal orgulho, uma vez que \u00e9 in\u00fatil todo o arrependimento?<br \/>\nO bem s\u00f3 poderia interess\u00e1-los se eles tivessem uma esperan\u00e7a<br \/>\nde reabilita\u00e7\u00e3o, fosse qual fosse o seu pre\u00e7o. Assim<br \/>\nn\u00e3o acontece, no entanto, e pois se perseveram no mal \u00e9 porque<br \/>\nlhes trancaram a porta da esperan\u00e7a. Mas por que lhes trancaria Deus<br \/>\nessa porta? Para se vingar da ofensa decorrente da sua insubmiss\u00e3o.<br \/>\nE, assim, para saciar o seu ressentimento contra alguns culpados, Deus prefere<br \/>\nn\u00e3o somente v\u00ea-los sofrer, mas agravar o mal com mal maior; impelir<br \/>\n\u00e0 perdi\u00e7\u00e3o eterna toda a Humanidade, quando por um simples<br \/>\nato de dem\u00eancia podia evitar t\u00e3o grande desastre, ali\u00e1s<br \/>\nprevisto de toda a eternidade!<\/p>\n<p>Trata-se, no caso vertente, de um ato de dem\u00eancia, de uma gra\u00e7a<br \/>\npura e simples que pudesse transformar-se em estimulo do mal? N\u00e3o,<br \/>\ntrata-se de um perd\u00e3o condicional, subordinado a uma regenera\u00e7\u00e3o<br \/>\nsincera e completa. Mas, ao inv\u00e9s de uma palavra de esperan\u00e7a<br \/>\ne miseric\u00f3rdia, \u00e9 como se Deus dissera: &#8220;Pere\u00e7a<br \/>\ntoda a ra\u00e7a humana antes que minha vingan\u00e7a.&#8221; E com semelhante<br \/>\ndoutrina ainda muita gente se admira de que haja incr\u00e9dulos e ateus!<br \/>\nE \u00e9 assim que Jesus nos representa seu Pai? Ele que nos deu a lei expressa<br \/>\ndo esquecimento e do perd\u00e3o das ofensas, que nos manda pagar o mal<br \/>\ncom o bem, que prescreve o amor dos nossos inimigos como a primeira das virtudes<br \/>\nque nos conduzem ao c\u00e9u, quereria desse modo que os homens fossem melhores,<br \/>\nmais justos, mais indulgentes que o pr\u00f3prio Deus?<\/p>\n<p>Os dem\u00f4nios segundo o Espiritismo<br \/>\n20. Segundo o Espiritismo, nem anjos nem dem\u00f4nios s\u00e3o entidades<br \/>\ndistintas, por isso que a cria\u00e7\u00e3o de seres inteligentes \u00e9<br \/>\numa s\u00f3. Unidos a corpos materiais, esses seres constituem a Humanidade<br \/>\nque povoa a Terra e as outras esferas habitadas; uma vez libertos do corpo<br \/>\nmaterial, constituem o mundo espiritual ou dos Esp\u00edritos, que povoam<br \/>\nos Espa\u00e7os. Deus criou-os perfect\u00edveis e deu-lhes por escopo<br \/>\na perfei\u00e7\u00e3o, com a felicidade que dela decorre. N\u00e3o lhes<br \/>\ndeu, contudo, a perfei\u00e7\u00e3o, pois quis que a obtivessem por seu<br \/>\npr\u00f3prio esfor\u00e7o, a fim de que tamb\u00e9m e realmente lhes<br \/>\npertencesse o m\u00e9rito. Desde o momento da sua cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nque os seres progridem, quer encarnados, quer no estado espiritual. Atingido<br \/>\no apogeu, tornam-se puros esp\u00edritos ou anjos segundo a express\u00e3o<br \/>\nvulgar, de sorte que, a partir do embri\u00e3o do ser inteligente at\u00e9<br \/>\nao anjo, h\u00e1 uma cadeia na qual cada um dos elos assinala um grau de<br \/>\nprogresso.<\/p>\n<p>Do expresso resulta que h\u00e1 Esp\u00edritos em todos os graus de adiantamento,<br \/>\nmoral e intelectual, conforme a posi\u00e7\u00e3o em que se acham, na<br \/>\nimensa escala do progresso.<\/p>\n<p>Em todos os graus existe, portanto, ignor\u00e2ncia e saber, bondade e maldade.<br \/>\nNas classes inferiores destacam-se Esp\u00edritos ainda profundamente propensos<br \/>\nao mal e comprazendo-se com o mal. A estes pode-se denominar dem\u00f4nios,<br \/>\npois s\u00e3o capazes de todos os malef\u00edcios aos ditos atribu\u00eddos.<br \/>\nO Espiritismo n\u00e3o lhes d\u00e1 tal nome por se prender ele \u00e0<br \/>\nid\u00e9ia de uma cria\u00e7\u00e3o distinta do g\u00eanero humano,<br \/>\ncomo seres de natureza essencialmente perversa, votados ao mal eternamente<br \/>\ne incapazes de qualquer progresso para o bem.<\/p>\n<p>21. &#8211; Segundo a doutrina da Igreja os dem\u00f4nios foram criados bons e<br \/>\ntornaram-se maus por sua desobedi\u00eancia: s\u00e3o anjos colocados primitivamente<br \/>\npor Deus no \u00e1pice da escala, tendo dela deca\u00eddo. Segundo o Espiritismo<br \/>\nos dem\u00f4nios s\u00e3o Esp\u00edritos imperfeitos, suscet\u00edveis<br \/>\nde regenera\u00e7\u00e3o e que, colocados na base da escala, h\u00e3o<br \/>\nde nela graduar-se. Os que por apatia, neglig\u00eancia, obstina\u00e7\u00e3o<br \/>\nou m\u00e1-vontade persistem em ficar, por mais tempo, nas classes inferiores,<br \/>\nsofrem as conseq\u00fc\u00eancias dessa atitude, e o h\u00e1bito do mal<br \/>\ndificulta-lhes a regenera\u00e7\u00e3o. Chega-lhes, por\u00e9m, um dia<br \/>\na fadiga dessa vida penosa e das suas respectivas conseq\u00fc\u00eancias;<br \/>\neles comparam a sua situa\u00e7\u00e3o \u00e0 dos bons Esp\u00edritos<br \/>\ne compreendem que o seu interesse est\u00e1 no bem, procurando ent\u00e3o<br \/>\nmelhorarem-se, mas por ato de espont\u00e2nea vontade, sem que haja nisso<br \/>\no m\u00ednimo constrangimento. &#8220;Submetidos \u00e0 lei geral do progresso,<br \/>\nem virtude da sua aptid\u00e3o para o mesmo, n\u00e3o progridem, ainda<br \/>\nassim, contra a vontade.&#8221; Deus fornece-lhes constantemente os meios,<br \/>\npor\u00e9m, com a faculdade de aceit\u00e1-los ou recus\u00e1-los. Se<br \/>\no progresso fosse obrigat\u00f3rio n\u00e3o haveria m\u00e9rito, e Deus<br \/>\nquer que todos tenhamos o m\u00e9rito de nossas obras. Ningu\u00e9m \u00e9<br \/>\ncolocado em primeiro lugar por privil\u00e9gio; mas o primeiro lugar a todos<br \/>\n\u00e9 franqueado \u00e0 custa do esfor\u00e7o pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Os anjos mais elevados conquistaram a sua gradua\u00e7\u00e3o, passando,<br \/>\ncomo os demais, pela rota comum.<\/p>\n<p>22. &#8211; Chegados a certo grau de pureza, os Esp\u00edritos t\u00eam miss\u00f5es<br \/>\nadequadas ao seu progresso; preenchem assim todas as fun\u00e7\u00f5es<br \/>\natribu\u00eddas aos anjos de diferentes categorias.<\/p>\n<p>E como Deus criou de toda a eternidade, segue-se que de toda a eternidade<br \/>\nhouve n\u00famero suficiente para satisfazer \u00e0s necessidades do governo<br \/>\nuniversal. Deste modo uma s\u00f3 esp\u00e9cie de seres inteligentes,<br \/>\nsubmetida \u00e0 lei de progresso, satisfaz todos os fins da Cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, a unidade da Cria\u00e7\u00e3o, aliada \u00e0 id\u00e9ia<br \/>\nde uma origem comum, tendo o mesmo ponto de partida e trajet\u00f3ria, elevando-se<br \/>\npelo pr\u00f3prio m\u00e9rito, corresponde melhor \u00e0 justi\u00e7a<br \/>\nde Deus do que a cria\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies diferentes, mais<br \/>\nou menos favorecidas de dotes naturais, que seriam outros tantos privil\u00e9gios.<\/p>\n<p>23. &#8211; A doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos dem\u00f4nios e<br \/>\ndas almas, n\u00e3o admitindo a lei do progresso, mas vendo todavia seres<br \/>\nde diversos graus, concluiu que seriam produto de outras tantas cria\u00e7\u00f5es<br \/>\nespeciais. E assim foi que chegou a fazer de Deus um pai parcial, tudo concedendo<br \/>\na alguns de seus filhos, e a outros impondo o mais rude trabalho. N\u00e3o<br \/>\nadmira que por muito tempo os homens achassem justifica\u00e7\u00e3o para<br \/>\ntais prefer\u00eancias, quando eles pr\u00f3prios delas usavam em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\naos filhos, estabelecendo direitos de primogenitura e outros privil\u00e9gios<br \/>\nde nascimento. Podiam tais homens acreditar que andavam mais errados que Deus?<\/p>\n<p>Hoje, por\u00e9m, alargou-se o circulo das id\u00e9ias: o homem v\u00ea<br \/>\nmais claro e tem no\u00e7\u00f5es mais precisas de justi\u00e7a; desejando-a<br \/>\npara si e nem sempre encontrando-a na Terra, ele quer pelo menos encontr\u00e1-la<br \/>\nmais perfeita no C\u00e9u.<\/p>\n<p>E aqui est\u00e1 por que lhe repugna \u00e0 raz\u00e3o toda e qualquer<br \/>\ndoutrina, na qual n\u00e3o resplenda a Justi\u00e7a Divina na plenitude<br \/>\nintegral da sua pureza.<\/p>\n<h2><a id=\"13\" name=\"13\"><\/a>Interven\u00e7\u00e3o dos dem\u00f4nios nas modernas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p>1. &#8211; Os modernos fen\u00f4menos do Espiritismo t\u00eam atra\u00eddo<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o sobre fatos an\u00e1logos de todos os tempos, e<br \/>\nnunca a Hist\u00f3ria foi t\u00e3o compulsada neste sentido como ultimamente.<br \/>\nPela semelhan\u00e7a dos efeitos, inferiu-se a unidade da causa. Como sempre<br \/>\nacontece relativamente a fatos extraordin\u00e1rios que o senso comum desconhece,<br \/>\no vulgo viu nos fen\u00f4menos esp\u00edritas uma causa sobrenatural, e<br \/>\na supersti\u00e7\u00e3o completou o erro ajuntando-lhes absurdas crendices.<br \/>\nProv\u00e9m dai uma multid\u00e3o de lendas que, pela maior parte, s\u00e3o<br \/>\num am\u00e1lgama de poucas verdades e muitas mentiras.<\/p>\n<p>2. &#8211; As doutrinas sobre o dem\u00f4nio, prevalecendo por tanto tempo, haviam<br \/>\nde tal maneira exagerado o seu poder, que fizeram, por assim dizer, esquecer<br \/>\nDeus; por toda parte surgia o dedo de Satan\u00e1s, bastando para tanto<br \/>\nque o fato observado ultrapassasse os limites do poder humano. At\u00e9<br \/>\nas coisas melhores, as descobertas mais \u00fateis, sobretudo as que podiam<br \/>\nabalar a ignor\u00e2ncia e alargar o circulo das id\u00e9ias -foram tidas<br \/>\nmuita vez por obras diab\u00f3licas. Os fen\u00f4menos esp\u00edritas<br \/>\nde nossos dias, mais generalizados e mais bem observados \u00e0 luz da raz\u00e3o<br \/>\ne com o auxilio da Ci\u00eancia, confirmaram, \u00e9 certo, a interven\u00e7\u00e3o<br \/>\nde intelig\u00eancias ocultas, por\u00e9m agindo dentro de leis naturais<br \/>\ne revelando por sua a\u00e7\u00e3o uma nova for\u00e7a e leis at\u00e9<br \/>\nent\u00e3o desconhecidas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o reduz-se, portanto, a saber de que ordem s\u00e3o essas<br \/>\nintelig\u00eancias.<\/p>\n<p>Enquanto se n\u00e3o possu\u00eda do mundo espiritual no\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais que incertas e sistem\u00e1ticas, a verdade podia ser desviada; mas<br \/>\nhoje que observa\u00e7\u00f5es rigorosas e estudos experimentais esclareceram<br \/>\na natureza, origem e destino dos Esp\u00edritos, bem como o seu modo de<br \/>\na\u00e7\u00e3o e papel no Universo &#8211; hoje, dizemos, a quest\u00e3o se<br \/>\nresolve por fatos. Sabemos, agora, que essas intelig\u00eancias ocultas s\u00e3o<br \/>\nas almas dos que viveram na Terra. Sabemos tamb\u00e9m que as diversas categorias<br \/>\nde bons e maus Esp\u00edritos n\u00e3o s\u00e3o seres de esp\u00e9cies<br \/>\ndiferentes, por\u00e9m que apenas representam graus diversos de adiantamento.<br \/>\nSegundo a posi\u00e7\u00e3o que ocupam em virtude do desenvolvimento intelectual<br \/>\ne moral, os seres que se manifestam apresentam os mais fundos contrastes,<br \/>\nsem que por isso possamos supor n\u00e3o tenham sa\u00eddo todos da grande<br \/>\nfam\u00edlia humana, do mesmo modo que o selvagem, o b\u00e1rbaro e o<br \/>\nhomem civilizado.<\/p>\n<p>3. &#8211; Sobre este ponto, como sobre muitos outros, a Igreja mant\u00e9m as<br \/>\nvelhas cren\u00e7as a respeito dos dem\u00f4nios. Diz ela: &#8220;H\u00e1<br \/>\nprinc\u00edpios que n\u00e3o variam h\u00e1 dezoito s\u00e9culos,<br \/>\nporque s\u00e3o imut\u00e1veis.&#8221; O seu erro \u00e9 precisamente<br \/>\nesse de n\u00e3o levar em conta o progresso das id\u00e9ias; \u00e9<br \/>\nsupor Deus insuficientemente s\u00e1bio para n\u00e3o proporcionar a revela\u00e7\u00e3o<br \/>\nao desenvolvimento das intelig\u00eancias; \u00e9, em suma, falar aos contempor\u00e2neos<br \/>\na mesma linguagem do passado. Ora, progredindo a Humanidade enquanto a Igreja<br \/>\nse abroquela em velhos erros sistematicamente, tanto em mat\u00e9ria espiritual<br \/>\ncomo na cient\u00edfica, cedo vir\u00e1 a incredulidade, avassalando a<br \/>\npr\u00f3pria Igreja.<\/p>\n<p>4. &#8211; Eis como esta explica a interven\u00e7\u00e3o exclusiva dos dem\u00f4nios<br \/>\nnas manifesta\u00e7\u00f5es esp\u00edritas: (1)<\/p>\n<p>(1) As cita\u00e7\u00f5es deste cap\u00edtulo s\u00e3o extra\u00eddas<br \/>\nda mesma pastoral indicada no precedente, e da qual s\u00e3o corol\u00e1rios.<br \/>\n\u00c9 a mesma fonte e, por conseguinte, a mesma autoridade.<\/p>\n<p>&#8220;Nas suas interven\u00e7\u00f5es exteriores os dem\u00f4nios procuram<br \/>\ndissimular a sua presen\u00e7a, a fim de afastar suspeitas. Sempre astutos<br \/>\ne p\u00e9rfidos, seduzem o homem com ciladas antes de algem\u00e1-lo na<br \/>\nopress\u00e3o e no servilismo.<\/p>\n<p>&#8220;Aqui lhe agu\u00e7am a curiosidade com fen\u00f4menos e partidas<br \/>\npueris; al\u00e9m, despertam-lhe a admira\u00e7\u00e3o e subjugam-no<br \/>\npelo encanto do maravilhoso.<\/p>\n<p>&#8220;Se o sobrenatural aparece e os desmascara, ent\u00e3o, acalmam-se,<br \/>\nextinguem quaisquer apreens\u00f5es, solicitam confian\u00e7a e provocam<br \/>\nfamiliaridade.<\/p>\n<p>&#8220;Ora se apresentam como divindades e bons g\u00eanios, ora assimilam<br \/>\nnomes e mesmo tra\u00e7os de memorados mortos. Com o aux\u00edlio de tais<br \/>\nfraudes dignas da antiga serpente, falam e s\u00e3o ouvidos; dogmatizam<br \/>\ne s\u00e3o acreditados; misturam com suas mentiras algumas verdades e inculcam<br \/>\no erro debaixo de todas as formas. Eis o que significam as pretensas revela\u00e7\u00f5es<br \/>\nde al\u00e9m-t\u00famulo. E \u00e9 para tal resultado que a madeira<br \/>\ne a pedra, as florestas e as fontes, o santu\u00e1rio dos \u00eddolos<br \/>\ne os p\u00e9s das mesas e as m\u00e3os das crian\u00e7as se tornam or\u00e1culos:<br \/>\n\u00e9 por isso que a pitonisa profetiza em del\u00edrio; que o ignorante<br \/>\nse torna cientista num sono misterioso. Enganar e perverter, tal \u00e9,<br \/>\nem toda parte e de todos os tempos, o supremo objetivo dessas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Os resultados surpreendentes dessas pr\u00e1ticas ou atos ordinariamente<br \/>\nfant\u00e1sticos e rid\u00edculos, n\u00e3o podendo provir da sua virtude<br \/>\nintr\u00ednseca, nem da ordem estabelecida por Deus, s\u00f3 podem ser<br \/>\natribu\u00eddos ao concurso das pot\u00eancias ocultas. Tais s\u00e3o,<br \/>\nnotadamente, os fen\u00f4menos extraordin\u00e1rios obtidos em nossos dias<br \/>\npelos processos aparentemente inofensivos do magnetismo, como os das mesas<br \/>\nfalantes. Por meio das opera\u00e7\u00f5es da moderna magia, vemos reproduzirem-se<br \/>\nno presente as evoca\u00e7\u00f5es, as consultas, as curas e sortil\u00e9gios<br \/>\nque ilustraram os templos dos \u00eddolos e os antros das sibilas. Como<br \/>\noutrora, interroga-se a madeira e esta responde; manda-se e ela obedece; isto<br \/>\nem todas as l\u00ednguas e sobre todos os assuntos; acha-se a gente em presen\u00e7a<br \/>\nde seres invis\u00edveis a usurparem nomes de mortos, e cujas pretensas<br \/>\nrevela\u00e7\u00f5es t\u00eam o cunho da contradi\u00e7\u00e3o e<br \/>\nda mentira; formas inconsistentes e leves aparecem r\u00e1pidas e repentinas,<br \/>\npatenteando-se dotadas de for\u00e7a sobre-humana.<\/p>\n<p>&#8220;Quais s\u00e3o os agentes secretos desses fen\u00f4menos, os verdadeiros<br \/>\natores dessas cenas inexplic\u00e1veis? Os anjos, esses n\u00e3o aceitariam<br \/>\ntais pap\u00e9is indignos, como tamb\u00e9m n\u00e3o se prestariam a<br \/>\ntodos os caprichos da curiosidade.<\/p>\n<p>&#8220;As almas dos mortos, que Deus pro\u00edbe evocar, essas demoram no<br \/>\nlugar que lhes designa a sua justi\u00e7a, e n\u00e3o podem, sem sua permiss\u00e3o,<br \/>\ncolocar-se \u00e0s ordens dos vivos. Assim, os seres misteriosos que acodem<br \/>\nao primeiro apelo do herege, do \u00edmpio ou do crente &#8211; o que importa<br \/>\ndizer da inoc\u00eancia ou do crime &#8211; n\u00e3o s\u00e3o nem enviados<br \/>\nde Deus, nem ap\u00f3stolos da verdade e da salva\u00e7\u00e3o, por\u00e9m<br \/>\nfatores do erro e agentes do inferno. Apesar do cuidado com que se ocultam<br \/>\nsob os mais vener\u00e1veis nomes, eles traem-se pela nulidade das suas<br \/>\ndoutrinas, pela baixeza dos atos e incoer\u00eancia das palavras.<\/p>\n<p>&#8220;Procuram apagar do s\u00edmbolo religioso os dogmas do pecado original,<br \/>\nda ressurrei\u00e7\u00e3o do corpo, da eternidade das penas, como de toda<br \/>\na revela\u00e7\u00e3o divina, para subtrair \u00e0s leis a sua verdadeira<br \/>\nsan\u00e7\u00e3o e abrir ao v\u00edcio todas as barreiras. Se as suas<br \/>\nsugest\u00f5es pudessem prevalecer, acabariam por formar uma religi\u00e3o<br \/>\nc\u00f4moda para uso do socialismo e de todos a quem importuna a no\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo dever e da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;A incredulidade do nosso s\u00e9culo facilitou-lhes o caminho. Assim<br \/>\npossam as sociedades crist\u00e3s, por uma sincera dedica\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 f\u00e9 cat\u00f3lica, escapar ao perigo desta nova e terr\u00edvel<br \/>\ninvas\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>5. &#8211; Toda esta teoria deriva do princ\u00edpio de que os anjos e os dem\u00f4nios<br \/>\ns\u00e3o seres distintos das almas humanas, sendo estas antes o produto<br \/>\nde uma cria\u00e7\u00e3o especial, ali\u00e1s inferiores aos dem\u00f4nios<br \/>\nem intelig\u00eancia, em conhecimento e em toda esp\u00e9cie de faculdade.<br \/>\nE \u00e9 assim que opina pela exclusiva interven\u00e7\u00e3o dos maus<br \/>\nanjos, nas antigas como nas modernas manifesta\u00e7\u00f5es dos Esp\u00edritos.<\/p>\n<p>A possibilidade da comunica\u00e7\u00e3o dos mortos \u00e9 uma quest\u00e3o<br \/>\nde fato, \u00e9 o resultado de observa\u00e7\u00f5es e experi\u00eancias<br \/>\nque n\u00e3o v\u00eam ao caso discutir aqui. Admitamos, por\u00e9m, como<br \/>\nhip\u00f3tese, a doutrina acima citada, e vejamos se ela se n\u00e3o destr\u00f3i<br \/>\npor si mesma com os seus pr\u00f3prios argumentos.<\/p>\n<p>6. &#8211; Das tr\u00eas categorias de anjos segundo a Igreja, a primeira ocupa-se<br \/>\nexclusivamente do c\u00e9u; a segunda do governo do Universo, e a terceira,<br \/>\nda Terra. \u00c9 nesta \u00faltima que se encontram os anjos de guarda<br \/>\nencarregados da prote\u00e7\u00e3o de cada indiv\u00edduo. Somente uma<br \/>\nparte dos anjos, desta \u00faltima categoria, \u00e9 que compartilhou<br \/>\nda revolta e foi transformada em dem\u00f4nios. Ora, desde que Deus lhes<br \/>\npermitira com tanta liberdade, j\u00e1 por sugest\u00f5es ocultas, j\u00e1<br \/>\npor ostensivas manifesta\u00e7\u00f5es, induzir os homens em erro, e porque<br \/>\nesse Deus \u00e9 soberanamente justo e bom, devia ao menos, para atenuar<br \/>\nos males de t\u00e3o odiosa concess\u00e3o, permitir tamb\u00e9m a manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos bons anjos. Ao menos, assim, os homens teriam a liberdade e o recurso<br \/>\nda escolha. Dar, por\u00e9m, aos anjos maus o monop\u00f3lio da tenta\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom poderes amplos de simular o bem para melhor seduzir; e vedando ao mesmo<br \/>\ntempo toda e qualquer interven\u00e7\u00e3o dos bons, \u00e9 atribuir<br \/>\na Deus o intuito inconceb\u00edvel de agravar a fraqueza, a inexperi\u00eancia<br \/>\ne a boa-f\u00e9 dos homens.<\/p>\n<p>\u00c9 mais ainda: \u00e9 supor da parte de Deus um abuso de confian\u00e7a,<br \/>\npela f\u00e9 que nos merece. A raz\u00e3o recusa admitir tanta parcialidade<br \/>\nem proveito do mal. Vejamos os fatos.<\/p>\n<p>7. &#8211; Aos dem\u00f4nios concedem-se faculdades transcendentes: nada perderam<br \/>\nda natureza ang\u00e9lica; possuem o saber, a perspic\u00e1cia, a previd\u00eancia<br \/>\ne a penetra\u00e7\u00e3o dos anjos, tendo ainda, a mais, ast\u00facia,<br \/>\nardil e artif\u00edcio, tudo em grau mais elevado. O objetivo que os move<br \/>\n\u00e9 desviar os homens do bem, afast\u00e1-los de Deus e arrast\u00e1-los<br \/>\nao inferno, do qual s\u00e3o provedores e recrutadores. Assim, compreende-se<br \/>\nque se dirijam de prefer\u00eancia aos que est\u00e3o no bom caminho e<br \/>\nnele persistem; compreende-se o emprego das sedu\u00e7\u00f5es e simulacros<br \/>\ndo bem para atra\u00ed-los e perd\u00ea-los; mas o que se n\u00e3o compreende<br \/>\n\u00e9 que se dirijam aos que j\u00e1 lhes pertencem de corpo e alma,<br \/>\nprocurando reconduzi-los a Deus e ao bem.<\/p>\n<p>Quem mais estar\u00e1 nas garras do dem\u00f4nio do que aquele que de<br \/>\nDeus blasfema, atido ao v\u00edcio e \u00e0 desordem das paix\u00f5es?<br \/>\nEsse n\u00e3o estar\u00e1 no caminho do inferno? Mas ent\u00e3o como<br \/>\ncompreender que a uma tal presa esse dem\u00f4nio exorte a rogar a Deus,<br \/>\na submeter-se \u00e0 sua vontade, a renunciar ao mal?<\/p>\n<p>Como se compreende que exalte aos seus olhos a vida deliciosa dos bons Esp\u00edritos<br \/>\ne lhe pinte a horrorosa posi\u00e7\u00e3o dos maus? Jamais se viu negociante<br \/>\nreal\u00e7ar aos seus fregueses a mercadoria do vizinho em detrimento da<br \/>\nsua, aconselhando-os a ir \u00e0 casa dele. Nunca se viu um arrebanhador<br \/>\nde soldados depreciar a vida militar, decantando o repouso da vida dom\u00e9stica!<br \/>\nPoder\u00e1 ele dizer aos recrutas que ter\u00e3o vida de trabalhos e<br \/>\npriva\u00e7\u00f5es com dez probabilidades contra uma de morrerem ou,<br \/>\npelo menos, de ficarem sem bra\u00e7os nem pernas? \u00c9 este, no entanto,<br \/>\no papel est\u00fapido do dem\u00f4nio, pois \u00e9 not\u00f3rio &#8211; e<br \/>\n\u00e9 um fato &#8211; que as instru\u00e7\u00f5es emanadas do mundo invis\u00edvel<br \/>\nt\u00eam regenerado incr\u00e9dulos e ateus, insuflando-lhes n&#8217;alma fervor<br \/>\ne cren\u00e7as nunca havidos.<\/p>\n<p>Ainda por influ\u00eancia dessas manifesta\u00e7\u00f5es t\u00eam-se<br \/>\nvisto &#8211; e v\u00eaem-se diariamente &#8211; regenerarem-se viciosos contumazes,<br \/>\nprocurando melhorarem-se a si mesmos. Ora, atribuir ao dem\u00f4nio t\u00e3o<br \/>\nben\u00e9fica propaganda e salutar resultado, \u00e9 conferir-lhe diploma<br \/>\nde tolo.<\/p>\n<p>E como n\u00e3o se trata de simples suposi\u00e7\u00e3o, mas de fato<br \/>\nexperimental contra o qual n\u00e3o h\u00e1 argumento, havemos de concluir,<br \/>\nou que o dem\u00f4nio \u00e9 um desazado de primeira ordem, ou que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o astuto e mau como se pretende, e, conseguintemente, t\u00e3o<br \/>\ntem\u00edvel quanto dizem; ou, ent\u00e3o, que todas as manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nn\u00e3o partem dele.<\/p>\n<p>8. &#8211; &#8220;Eles inculcam o erro sob todas as formas, e \u00e9 para obter<br \/>\nesse resultado que a madeira, a pedra, as florestas, as fontes, os santu\u00e1rios<br \/>\ndos \u00eddolos, os p\u00e9s das mesas e as m\u00e3os dos meninos se<br \/>\ntornam or\u00e1culos.&#8221;<\/p>\n<p>Mas, se assim \u00e9, qual o sentido e valor destas palavras do Evangelho:<br \/>\n&#8211; &#8220;Eu repartirei meu Esp\u00edrito por toda a carne: &#8211; vossos filhos<br \/>\ne filhas profetizar\u00e3o; os jovens ter\u00e3o vis\u00f5es e os velhos<br \/>\nter\u00e3o sonhos. Nesses dias repartirei meu Esp\u00edrito por todos<br \/>\nos meus servidores e servidoras, e eles profetizar\u00e3o.&#8221; (Atos dos<br \/>\nAp\u00f3stolos, cap. II, vv. 17 e 18.)<\/p>\n<p>N\u00e3o estar\u00e1 nessas palavras a predi\u00e7\u00e3o t\u00e1cita<br \/>\nda mediunidade dos nossos dias a todos concedida, mesmo \u00e0s crian\u00e7as?<br \/>\nE essa faculdade foi anatematizada pelos ap\u00f3stolos? N\u00e3o; eles<br \/>\na apregoam como gra\u00e7a divina e n\u00e3o como obra do dem\u00f4nio.<\/p>\n<p>Ter\u00e3o os te\u00f3logos de hoje mais autoridade que os ap\u00f3stolos?<br \/>\nPor que n\u00e3o ver antes o dedo de Deus na realiza\u00e7\u00e3o daquelas<br \/>\npalavras?<\/p>\n<p>9. &#8211; &#8220;Por meio das opera\u00e7\u00f5es da moderna magia vemos reproduzirem-se<br \/>\nno presente as evoca\u00e7\u00f5es, as consultas, as curas e os sortil\u00e9gios<br \/>\nque ilustraram os templos dos \u00eddolos e os antros das sibilas.&#8221;<\/p>\n<p>N\u00f3s perguntamos: que h\u00e1 de comum entre as opera\u00e7\u00f5es<br \/>\nda magia e as evoca\u00e7\u00f5es esp\u00edritas?<\/p>\n<p>Houve tempo em que tais opera\u00e7\u00f5es faziam f\u00e9 e acreditava-se<br \/>\nna sua efic\u00e1cia, mas hoje s\u00e3o simplesmente rid\u00edculas.<br \/>\nNingu\u00e9m as toma a s\u00e9rio, e o Espiritismo condena-as. Na \u00e9poca<br \/>\nem que florescera a magia, era imperfeita a no\u00e7\u00e3o sobre a natureza<br \/>\ndos Esp\u00edritos, geralmente havidos por seres dotados de poder sobre-humano.<\/p>\n<p>A troco da pr\u00f3pria alma, ningu\u00e9m os evocava que n\u00e3o<br \/>\nfosse para obter favores da sorte e da fortuna, achar tesouros, revelar o<br \/>\nfuturo ou obter filtros. A magia com seus sinais, f\u00f3rmulas e pr\u00e1ticas<br \/>\ncabal\u00edsticas era increpada de fornecer segredos para operar prod\u00edgios,<br \/>\nconstranger Esp\u00edritos a ficarem \u00e0s ordens dos homens e satisfazerem-lhes<br \/>\nos desejos. Hoje sabemos que os Esp\u00edritos s\u00e3o as almas dos mortos<br \/>\ne n\u00e3o os evocamos sen\u00e3o para receber conselhos dos bons, moralizar<br \/>\nos maus e continuar rela\u00e7\u00f5es com seres que nos s\u00e3o caros.<br \/>\nEis o que diz o Espiritismo a tal respeito:<\/p>\n<p>10. N\u00e3o podereis obrigar nunca a presen\u00e7a de um Esp\u00edrito<br \/>\nvosso igual ou superior em moralidade, por vos faltar autoridade sobre ele;<br \/>\nmas, do vosso inferior, e sendo para seu beneficio, consegui-lo-eis, visto<br \/>\ncomo outros Esp\u00edritos vos secundam. ( O Livro dos M\u00e9diuns, 2\u00aa<br \/>\nParte, cap. XXV.)<\/p>\n<p>&#8211; A mais essencial de todas as disposi\u00e7\u00f5es para evocar \u00e9<br \/>\no recolhimento, quando desejarmos tratar com Esp\u00edritos s\u00e9rios.<br \/>\nCom a f\u00e9 e o desejo do bem, mais aptos nos tornamos para evocar Esp\u00edritos<br \/>\nsuperiores. Elevando nossa alma por alguns instantes de concentra\u00e7\u00e3o<br \/>\nno momento de evoc\u00e1-los, identificamo-nos com os bons Esp\u00edritos,<br \/>\npredispondo a sua vinda. (O Livro dos M\u00e9diuns, 2\u00aa Parte, cap.<br \/>\nXXV.)<\/p>\n<p>&#8211; Nenhum objeto, medalha ou talism\u00e3 tem a propriedade de atrair ou<br \/>\nrepelir Esp\u00edritos, pois a mat\u00e9ria a\u00e7\u00e3o alguma<br \/>\nexerce sobre eles. Nunca um bom Esp\u00edrito aconselha tais absurdos. A<br \/>\nvirtude dos talism\u00e3s s\u00f3 pode existir na imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nde pessoas simpl\u00f3rias. (O Livro dos M\u00e9diuns, 2\u00aa Parte,<br \/>\ncap. XXV.)<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 f\u00f3rmulas sacramentais para evocar Esp\u00edritos.<br \/>\nQuem quer que pretendesse estabelecer uma f\u00f3rmula, poderia ser tachado<br \/>\nde usar de charlatanismo, visto que para os Esp\u00edritos puros a f\u00f3rmula<br \/>\nnada vale. A evoca\u00e7\u00e3o deve, por\u00e9m, ser feita sempre em<br \/>\nnome de Deus. (O Livro dos M\u00e9diuns, 2\u00aa Parte, cap. XVII.)<\/p>\n<p>&#8211; Os Esp\u00edritos que prefixam entrevistas em lugares l\u00fagubres,<br \/>\ne a horas indevidas, s\u00e3o os que se divertem a custa de quem os ouve.<br \/>\n\u00c9 sempre in\u00fatil e muitas vezes perigoso ceder a tais sugest\u00f5es;<br \/>\nin\u00fatil, porque nada se ganha al\u00e9m de uma mistifica\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne perigoso, n\u00e3o pelo mal que possam fazer os Esp\u00edritos, mas<br \/>\npela influ\u00eancia que tais fatos podem exercer sobre c\u00e9rebros fracos.<br \/>\n(O Livro dos M\u00e9diuns, 2\u00aa Parte, cap. XXV.)<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 dias nem horas mais especialmente prop\u00edcios<br \/>\n\u00e0s evoca\u00e7\u00f5es: isso, como tudo que \u00e9 material,<br \/>\n\u00e9 completamente indiferente aos Esp\u00edritos, al\u00e9m de ser<br \/>\nsupers ticiosa a cren\u00e7a em tais influ\u00eancias. Os momentos mais<br \/>\nfavor\u00e1veis s\u00e3o aqueles em que o evocador pode abstrair-se melhor<br \/>\ndas suas preocupa\u00e7\u00f5es habituais, calmo de corpo e de esp\u00edrito.<br \/>\n( O Livro dos M\u00e9diuns, 2\u00aa Parte, cap. XXV.)<\/p>\n<p>&#8211; A cr\u00edtica mal\u00e9vola apraz-se em representar as comunica\u00e7\u00f5es<br \/>\nesp\u00edritas revestidas das pr\u00e1ticas rid\u00edculas e supersticiosas<br \/>\nda magia e da nigromancia. Entretanto, se os que falam do Espiritismo, sem<br \/>\nconhec\u00ea-lo, procurassem estud\u00e1-lo, poupariam trabalhos de imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ne alega\u00e7\u00f5es que s\u00f3 servem para demonstrar a sua ignor\u00e2ncia<br \/>\ne m\u00e1-vontade.<\/p>\n<p>Para conhecimento das pessoas estranhas \u00e0 ci\u00eancia, diremos que<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 horas mais prop\u00edcias, umas que outras, como n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 dias nem lugares, para comunicar com os Esp\u00edritos. Diremos<br \/>\nmais: que n\u00e3o h\u00e1 f\u00f3rmulas nem palavras sacramentais ou<br \/>\ncabal\u00edsticas para evoc\u00e1-los; que n\u00e3o h\u00e1 necessidade<br \/>\nalguma de preparo ou inicia\u00e7\u00e3o; que \u00e9 nulo o emprego<br \/>\nde quaisquer sinais ou objetos materiais para atra\u00ed-los ou repeli-los,<br \/>\nbastando para tanto o pensamento; e, finalmente, que os m\u00e9diuns recebem<br \/>\ndeles as comunica\u00e7\u00f5es sem sair do estado normal, t\u00e3o<br \/>\nsimples e naturalmente como se tais comunica\u00e7\u00f5es fossem ditadas<br \/>\npor uma pessoa vivente. S\u00f3 o charlatanismo poderia emprestar \u00e0s<br \/>\ncomunica\u00e7\u00f5es formas exc\u00eantricas, enxertando-lhes rid\u00edculos<br \/>\nacess\u00f3rios. ( O que \u00e9 o Espiritismo, cap. II, n\u00ba 49.)<\/p>\n<p>&#8211; O futuro \u00e9 vedado ao homem por princ\u00edpio, e s\u00f3 em<br \/>\ncasos rar\u00edssimos e excepcionais \u00e9 que Deus faculta a sua revela\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSe o homem conhecesse o futuro, por certo que negligenciaria o presente e<br \/>\nn\u00e3o agiria com a mesma liberdade. Absorvidos pela id\u00e9ia da fatalidade<br \/>\nde um acontecimento, ou procuramos conjur\u00e1-lo ou n\u00e3o nos preocupamos<br \/>\ndele. Deus n\u00e3o permitiu que assim fosse, a fim de que cada qual concorresse<br \/>\npara a realiza\u00e7\u00e3o dos acontecimentos mesmos, que porventura<br \/>\ndesejaria evitar. Ele permite, no entanto, a revela\u00e7\u00e3o do futuro,<br \/>\nquando o conhecimento pr\u00e9vio de uma coisa n\u00e3o estorva, mas facilita<br \/>\na sua realiza\u00e7\u00e3o, induzindo a procedimento diverso do que se<br \/>\nteria sem tal circunst\u00e2ncia. ( O Livro dos Esp\u00edritos, Parte 3\u00aa,<br \/>\ncap. X.)<\/p>\n<p>&#8211; Os Esp\u00edritos n\u00e3o podem guiar descobertas nem investiga\u00e7\u00f5es<br \/>\ncient\u00edficas. A Ci\u00eancia \u00e9 obra do g\u00eanio e s\u00f3<br \/>\ndeve ser adquirida pelo trabalho, pois \u00e9 por este que o homem progride.<br \/>\nQue m\u00e9rito ter\u00edamos n\u00f3s se, para tudo saber, apenas bastasse<br \/>\ninterrogar os Esp\u00edritos? Por esse pre\u00e7o, todo imbecil poderia<br \/>\ntornar-se s\u00e1bio. O mesmo se d\u00e1 relativamente aos inventos e<br \/>\ndescobertas da ind\u00fastria. Chegado que seja o tempo de uma descoberta,<br \/>\nos Esp\u00edritos encarregados da sua marcha procuram o homem capaz de lev\u00e1-la<br \/>\na bom termo e inspiram-lhe as id\u00e9ias necess\u00e1rias, isto de molde<br \/>\na n\u00e3o lhe tirar o respectivo m\u00e9rito, que est\u00e1 na elabora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne execu\u00e7\u00e3o dessas id\u00e9ias. Assim tem sido com todos os<br \/>\ngrandes trabalhos da intelig\u00eancia humana. Os Esp\u00edritos deixam<br \/>\ncada indiv\u00edduo na sua esfera: do homem apenas apto para lavrar a terra<br \/>\nn\u00e3o fazem deposit\u00e1rios dos segredos de Deus, mas sabem arrancar<br \/>\nda obscuridade aquele que se mostra capaz de secundar-lhes os des\u00edgnios.<br \/>\nN\u00e3o vos deixeis, por conseguinte, dominar pela ambi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne pela curiosidade, em terreno alheio ao do Espiritismo, que tais fitos n\u00e3o<br \/>\ntem, pois com eles s\u00f3 conseguireis as mais rid\u00edculas mistifica\u00e7\u00f5es.<br \/>\n( O Livro dos M\u00e9diuns, 2\u00aa Parte, cap. XXVI.)<\/p>\n<p>&#8211; Os Esp\u00edritos n\u00e3o podem concorrer para a descoberta de tesouros<br \/>\nocultos. Os superiores n\u00e3o se ocupam de tais coisas e s\u00f3 os<br \/>\nzombeteiros podem entreter-se com elas, j\u00e1 indicando tesouros que o<br \/>\nmais das vezes n\u00e3o existem, j\u00e1 apontando s\u00edtios diametralmente<br \/>\nopostos \u00e0queles em que realmente existem. Esta circunst\u00e2ncia<br \/>\ntem, contudo, uma utilidade, qual a de mostrar que a verdadeira fortuna reside<br \/>\nno trabalho. Quando a Provid\u00eancia tem destinado a algu\u00e9m quaisquer<br \/>\nriquezas ocultas, esse algu\u00e9m as encontrar\u00e1 naturalmente; do<br \/>\ncontr\u00e1rio n\u00e3o, nunca. (O Livro dos M\u00e9diuns, 2\u00aa Parte,<br \/>\ncap. XXVI.)<\/p>\n<p>&#8211; Esclarecendo-nos sobre as propriedades dos fluidos &#8211; agentes e meios de<br \/>\na\u00e7\u00e3o do mundo invis\u00edvel constituindo uma das for\u00e7as<br \/>\ne pot\u00eancias da Natureza &#8211; o Espiritismo nos d\u00e1 a chave de in\u00fameros<br \/>\nfatos e coisas inexplicadas e inexplic\u00e1veis de outro modo, fatos e<br \/>\ncoisas que passaram por prod\u00edgios, em outras eras. Do mesmo modo que<br \/>\no magnetismo, ele nos revela uma lei, sen\u00e3o desconhecida, pelo menos<br \/>\nincompreendida, ou ent\u00e3o, para melhor dizer, efeitos de todos os tempos<br \/>\nconhecidos, pois que de todos os tempos se produziram, mas cuja lei se ignorava<br \/>\ne de cuja ignor\u00e2ncia brotava a supersti\u00e7\u00e3o. Conhecida<br \/>\nessa lei, desaparece o maravilhoso e os fen\u00f4menos entram para a ordem<br \/>\ndas coisas naturais. Eis por que os Esp\u00edritos n\u00e3o produzem milagres,<br \/>\nfazendo girar as mesas ou escrever os mortos, como milagre n\u00e3o faz<br \/>\no m\u00e9dico em restituir \u00e0 vida o moribundo, e o f\u00edsico<br \/>\nprovocando a queda do raio. Quem pretendesse fazer milagres pelo Espiritismo<br \/>\nn\u00e3o passaria de ignorante, ou ent\u00e3o de mero prestidigitador.<br \/>\n( O Livro dos M\u00e9diuns, 1\u00aa Parte, cap. II.)<\/p>\n<p>Pessoas h\u00e1 que fazem das evoca\u00e7\u00f5es uma id\u00e9ia<br \/>\nmuito falsa: h\u00e1 mesmo quem acredite que os mortos evocados se apresentam<br \/>\ncom todo o aparelho l\u00fagubre do t\u00famulo. Tais suposi\u00e7\u00f5es<br \/>\npodem ser atribu\u00eddas ao que vemos nos teatros ou lemos nos romances<br \/>\ne contos fant\u00e1sticos, onde os mortos aparecem amortalhados com o chocalhar<br \/>\ndos ossos.<\/p>\n<p>O Espiritismo, que nunca fez milagres, tamb\u00e9m n\u00e3o faz esse,<br \/>\npois que jamais fez reviver um corpo morto. O Esp\u00edrito, flu\u00eddico,<br \/>\ninteligente, esse n\u00e3o baixa \u00e0 campa com o grosseiro inv\u00f3lucro,<br \/>\nque l\u00e1 fica definitivamente. Separa-se dele no momento da morte, e<br \/>\nnada mais t\u00eam de comum entre si. ( O que \u00e9 o Espiritismo, cap.<br \/>\nII, n.\u00ba 48.)<\/p>\n<p>11 &#8211; Ampliamos estas cita\u00e7\u00f5es para mostrar que os princ\u00edpios<br \/>\ndo Espiritismo n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o alguma com os da<br \/>\nmagia. Assim, nem Esp\u00edritos \u00e0s ordens dos homens; nem meios<br \/>\nde os constranger; nem sinais ou f\u00f3rmulas cabal\u00edsticas; nem<br \/>\ndescobertas de tesouros; nem processos para enriquecer, e tampouco milagres<br \/>\nou prod\u00edgios, adivinha\u00e7\u00f5es e apari\u00e7\u00f5es<br \/>\nfant\u00e1sticas: nada, enfim, do que constitui o fim e os elementos essenciais<br \/>\nda magia. O Espiritismo n\u00e3o s\u00f3 reprova tais coisas como demonstra<br \/>\na impossibilidade e inefic\u00e1cia delas. N\u00e3o h\u00e1, afirmamo-lo<br \/>\nainda uma vez, analogia alguma entre os processos e fins da magia e os do<br \/>\nEspiritismo; s\u00f3 a ignor\u00e2ncia e a m\u00e1-f\u00e9 poder\u00e3o<br \/>\nconfundi-los. Dessa forma, tal erro n\u00e3o pode prevalecer, uma vez que<br \/>\nos princ\u00edpios esp\u00edritas n\u00e3o se furtam ao exame, e a\u00ed<br \/>\nest\u00e3o formulados inequ\u00edvoca e claramente para todos.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s curas, reconhecidas como reais na pastoral precitada, o<br \/>\nexemplo est\u00e1 mal selecionado como meio de evitar rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom os Esp\u00edritos. Efetivamente, essas curas s\u00e3o outros tantos<br \/>\nbenef\u00edcios que levam \u00e0 gratid\u00e3o e que todos podem experimentar.<br \/>\nPouca gente estar\u00e1 disposta a renunciar a elas, mormente depois de<br \/>\nhaver esgotado outros recursos antes de recorrer ao diabo. Depois, se o diabo<br \/>\ncura, for\u00e7a \u00e9 confessar que faz uma boa e merit\u00f3ria a\u00e7\u00e3o.<br \/>\n(1)<\/p>\n<p>(1) Querendo persuadir as pessoas curadas pelo Espiritismo que o foram pelo<br \/>\ndiabo, grande numero delas se h\u00e1 separado da Igreja, sem que jamais<br \/>\npensassem faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>12. &#8211; &#8220;Quais s\u00e3o os agentes secretos de tais fen\u00f4menos,<br \/>\nos verdadeiros autores dessas cenas inexplic\u00e1veis? Os anjos, esses<br \/>\nn\u00e3o aceitariam pap\u00e9is indignos, como tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\nse prestariam aos caprichos todos da curiosidade.&#8221;<\/p>\n<p>O autor quer falar das manifesta\u00e7\u00f5es f\u00edsicas dos Esp\u00edritos,<br \/>\nno n\u00famero das quais algumas h\u00e1 evidentemente pouco dignas de<br \/>\nEsp\u00edritos superiores. N\u00f3s lhe pediremos, contudo, que substitua<br \/>\no voc\u00e1bulo anjo pelo de esp\u00edritos puros ou esp\u00edritos<br \/>\nsuperiores, pois que assim teremos exatamente o que diz o Espiritismo. Indignas,<br \/>\npor\u00e9m, dos bons Esp\u00edritos, n\u00e3o se pode considerar uma<br \/>\nmultid\u00e3o de comunica\u00e7\u00f5es dadas pela escrita, pela palavra,<br \/>\npela audi\u00e7\u00e3o, etc., pois que tais comunica\u00e7\u00f5es<br \/>\nseriam e s\u00e3o dignas dos homens mais eminentes da Terra. O mesmo poderemos<br \/>\ndizer quanto \u00e0s curas, apari\u00e7\u00f5es e um sem-n\u00famero<br \/>\nde fatos que os livros santos citam em profus\u00e3o como obra de anjos<br \/>\nou de santos. Se, pois, os anjos e os santos produziram outrora fen\u00f4menos<br \/>\nsemelhantes, por que n\u00e3o os produzir\u00e3o hoje? Por que serem id\u00eanticos<br \/>\nfatos julgados bruxaria nas m\u00e3os de uns, enquanto nas m\u00e3os de<br \/>\noutros se reputam santos milagres?<\/p>\n<p>Sustentar semelhante tese \u00e9 abdicar toda a l\u00f3gica.<\/p>\n<p>O autor da Pastoral labora em erro quando afirma que tais fen\u00f4menos<br \/>\ns\u00e3o inexplic\u00e1veis. O que se d\u00e1 \u00e9 justamente o<br \/>\ncontr\u00e1rio, isto \u00e9, hoje esses fen\u00f4menos s\u00e3o perfeitamente<br \/>\nexplicados, tanto que se n\u00e3o consideram mais como maravilhosos e sobrenaturais.<br \/>\nDado, por\u00e9m, de barato que assim n\u00e3o fora, t\u00e3o l\u00f3gico<br \/>\nseria atribu\u00ed-los ao diabo, quanto era l\u00f3gico noutros tempos<br \/>\ndar a este as honras de todos os fen\u00f4menos naturais, cuja causa ent\u00e3o<br \/>\nse desconhecia.<\/p>\n<p>Por pap\u00e9is indignos devemos entender os que visam o mal e o rid\u00edculo,<br \/>\na menos que queiramos qualificar de tal a obra salutar dos bons Esp\u00edritos,<br \/>\nque promovem o bem, encaminhando os homens para Deus, pela virtude.<\/p>\n<p>Ora, o Espiritismo diz expressamente que os pap\u00e9is indignos n\u00e3o<br \/>\ncabem aos Esp\u00edritos superiores, como se infere dos seguintes preceitos:<\/p>\n<p>13. &#8211; A categoria do Esp\u00edrito se reconhece por sua linguagem: os verdadeiramente<br \/>\nbons e superiores t\u00eam-na sempre digna, nobre, l\u00f3gica, imune de<br \/>\nqualquer contradi\u00e7\u00e3o; ressumbra sabedoria, mod\u00e9stia,<br \/>\nbenevol\u00eancia e a mais pura moral.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso \u00e9 concisa, clara, sem redund\u00e2ncias in\u00fateis.<br \/>\nOs Esp\u00edritos inferiores, ignorantes ou orgulhosos, \u00e9 que suprem<br \/>\na vacuidade das id\u00e9ias com abund\u00e2ncia de frases. Todo pensamento<br \/>\nimplicitamente falso, toda m\u00e1xima contr\u00e1ria \u00e0 s\u00e3<br \/>\nmoral, todo conselho rid\u00edculo, toda express\u00e3o grosseira, trivial<br \/>\nou simplesmente fr\u00edvola, qualquer sinal de malevol\u00eancia, de presun\u00e7\u00e3o<br \/>\nou de arrog\u00e2ncia, s\u00e3o ind\u00edcios incontest\u00e1veis da<br \/>\ninferioridade de um Esp\u00edrito.<\/p>\n<p>&#8211; Os Esp\u00edritos superiores s\u00f3 se ocupam de comunica\u00e7\u00f5es<br \/>\ninteligentes, visando instruir-nos.<\/p>\n<p>As manifesta\u00e7\u00f5es f\u00edsicas ou puramente materiais competem<br \/>\nmais comumente aos Esp\u00edritos inferiores, vulgarmente designados por<br \/>\nEsp\u00edritos batedores, pela mesma raz\u00e3o por que entre n\u00f3s<br \/>\nos torneios de for\u00e7a e agilidade s\u00e3o pr\u00f3prios de saltimbancos<br \/>\ne n\u00e3o de s\u00e1bios. Absurdo seria supor que um Esp\u00edrito,<br \/>\npor pouco elevado que sela, goste do alarde e do reclamo. ( O que \u00e9<br \/>\no Espiritismo, cap. II, ns. 37, 38, 39, 40 e 60. Vede tamb\u00e9m O Livro<br \/>\ndos Esp\u00edritos, Parte 2\u00aa, cap. I &#8211; Diferentes ordens de Esp\u00edritos;<br \/>\nEscala esp\u00edrita, e O Livro dos M\u00e9diuns, 2\u00aa Parte, cap.<br \/>\nXXIV &#8211; Identidade dos Esp\u00edritos; Distin\u00e7\u00e3o dos bons e<br \/>\nmaus Esp\u00edritos.)<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o homem de boa-f\u00e9 que pode lobrigar nestes preceitos<br \/>\natribui\u00e7\u00f5es incompat\u00edveis com Esp\u00edritos elevados?<br \/>\nN\u00e3o, o Espiritismo n\u00e3o confunde os Esp\u00edritos, antes,<br \/>\npelo contr\u00e1rio, distingue-os. A Igreja, sim, atribui aos dem\u00f4nios<br \/>\numa intelig\u00eancia igual \u00e0 dos anjos, ao passo que o Espiritismo<br \/>\nafirma e confirma, baseado na observa\u00e7\u00e3o dos fatos, que os Esp\u00edritos<br \/>\ninferiores s\u00e3o mais ou menos ignorantes, tendo muito limitados o seu<br \/>\nhorizonte moral e perspic\u00e1cia, de fei\u00e7\u00e3o a terem das<br \/>\ncoisas uma id\u00e9ia muita vez falsa e incompleta, incapazes de resolver<br \/>\ncertas quest\u00f5es e, conseguintemente, de fazer tudo quanto se atribui<br \/>\naos dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>14. &#8211; &#8220;As almas dos mortos, que Deus pro\u00edbe evocar, essas demoram<br \/>\nno lugar que lhes designa a sua justi\u00e7a, e n\u00e3o podem, sem sua<br \/>\npermiss\u00e3o, colocar-se \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos vivos.&#8221;<\/p>\n<p>O Espiritismo vai al\u00e9m, \u00e9 mais rigoroso: n\u00e3o admite<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00e3o de quaisquer Esp\u00edritos, bons ou maus, sem<br \/>\na permiss\u00e3o de Deus, ao passo que a Igreja de tal n\u00e3o cogita<br \/>\nrelativamente aos dem\u00f4nios, os quais, segundo a sua teoria, se dispensam<br \/>\nde tal permiss\u00e3o.<\/p>\n<p>O Espiritismo diz mais que, mediante tal permiss\u00e3o e correspondendo<br \/>\nao apelo dos vivos, os Esp\u00edritos n\u00e3o se p\u00f5em \u00e0<br \/>\ndisposi\u00e7\u00e3o destes.<\/p>\n<p>O Esp\u00edrito evocado vem voluntariamente, ou \u00e9 constrangido a<br \/>\nmanifestar-se?<\/p>\n<p>Obedecendo \u00e0 vontade de Deus, isto \u00e9, \u00e0 lei que rege<br \/>\no Universo, ele julga da utilidade ou inutilidade da sua manifesta\u00e7\u00e3o,<br \/>\no que constitui uma prerrogativa do seu livre-arb\u00edtrio.<\/p>\n<p>O Esp\u00edrito superior n\u00e3o deixa de vir sempre que \u00e9 evocado<br \/>\npara um fim \u00fatil, s\u00f3 se recusando a responder quando em reuni\u00e3o<br \/>\nde pessoas pouco s\u00e9rias que levem a coisa em ar de gracejo. ( O Livro<br \/>\ndos M\u00e9diuns, 2\u00aa Parte, cap. XXV.)<\/p>\n<p>&#8211; Pode o Esp\u00edrito evocado recusar-se a vir pela evoca\u00e7\u00e3o<br \/>\nque lhe fazem? Perfeitamente, visto como tem o seu livre-arb\u00edtrio.<br \/>\nPodeis acaso acreditar que todos os seres do Universo estejam \u00e0 vossa<br \/>\ndisposi\u00e7\u00e3o? E v\u00f3s mesmos vos julgais obrigados a responder<br \/>\na todos quantos pronunciam o vosso nome? Mas quando digo que o Esp\u00edrito<br \/>\npode recusar-se, subordino essa negativa ao pedido do evocador, por isso que<br \/>\num Esp\u00edrito inferior pode ser constrangido por um superior a manifestar-se.<br \/>\n( O Livro dos M\u00e9diuns, 2\u00aa Parte, cap. XXV.)<\/p>\n<p>Tanto os esp\u00edritas est\u00e3o convencidos de que nada podem sobre<br \/>\nos Esp\u00edritos diretamente, sem a permiss\u00e3o de Deus, que dizem,<br \/>\nquando evocam: &#8220;Rogamos a Deus todo-poderoso permitir que um bom Esp\u00edrito<br \/>\nse comunique conosco, bem como aos nossos anjos de guarda assistir-nos e afastarem<br \/>\nos maus Esp\u00edritos.&#8221; E em se tratando de evoca\u00e7\u00e3o<br \/>\nde um Esp\u00edrito determinado: &#8211; &#8220;Rogamos a Deus todo-poderoso permitir<br \/>\nque tal Esp\u00edrito se comunique conosco&#8221;, etc. ( O Livro dos M\u00e9diuns,<br \/>\n2\u00aa Parte, cap. XVII, n\u00b0 203.)<\/p>\n<p>15. &#8211; As acusa\u00e7\u00f5es formuladas pela Igreja, contra as evoca\u00e7\u00f5es,<br \/>\nn\u00e3o atingem, portanto, o Espiritismo, por\u00e9m as pr\u00e1ticas<br \/>\nda magia, com a qual este nada tem de comum. O Espiritismo condena tanto quanto<br \/>\na Igreja as referidas pr\u00e1ticas, ao mesmo tempo que n\u00e3o confere<br \/>\naos Esp\u00edritos superiores um papel indigno deles, nem algo pergunta<br \/>\nou pretende obter sem a permiss\u00e3o de Deus.<\/p>\n<p>Certo, pode haver quem abuse das evoca\u00e7\u00f5es, quem delas fa\u00e7a<br \/>\num jogo, quem lhes desnature o car\u00e1ter providencial em proveito de<br \/>\ninteresses pessoais, ou ainda quem por ignor\u00e2ncia, leviandade, orgulho<br \/>\nou ambi\u00e7\u00e3o se afaste dos verdadeiros princ\u00edpios da Doutrina;<br \/>\no verdadeiro Espiritismo, o Espiritismo s\u00e9rio os condena por\u00e9m,<br \/>\ntanto quanto a verdadeira religi\u00e3o condena os crentes hip\u00f3critas<br \/>\ne os fan\u00e1ticos. Portanto, n\u00e3o \u00e9 l\u00f3gico nem razo\u00e1vel<br \/>\nimputar ao Espiritismo abusos que ele \u00e9 o primeiro a condenar, e os<br \/>\nerros daqueles que o n\u00e3o compreendem. Antes de formular qualquer acusa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nconv\u00e9m saber se \u00e9 justa. Assim, diremos: A censura da Igreja<br \/>\nrecai nos charlat\u00e3es, nos especuladores, nos praticantes de magia e<br \/>\nsortil\u00e9gio, e com raz\u00e3o. Quando a cr\u00edtica religiosa ou<br \/>\nc\u00e9ptica, dissecando abusos, profliga o charlatanismo, n\u00e3o faz<br \/>\nmais que real\u00e7ar a pureza da s\u00e3 doutrina, auxiliando-a no expurgo<br \/>\nde maus elementos e facilitando-nos a tarefa. O erro da critica est\u00e1<br \/>\nno confundir o bom e o mau, o que muitas vezes sucede pela m\u00e1-f\u00e9<br \/>\nde alguns e pela ignor\u00e2ncia do maior n\u00famero. Mas a distin\u00e7\u00e3o<br \/>\nque uma tal cr\u00edtica n\u00e3o faz, outros a fazem. Finalmente, a censura<br \/>\naplicada ao mal e \u00e0 qual todo esp\u00edrita sincero e reto se associa,<br \/>\nessa nem prejudica nem afeta a Doutrina.<\/p>\n<p>16. &#8211; &#8220;Assim, os seres misteriosos que acodem ao primeiro apelo do herege,<br \/>\ndo \u00edmpio ou do crente &#8211; o que importa dizer: &#8211; da inoc\u00eancia ou<br \/>\ndo crime &#8211; n\u00e3o s\u00e3o nem enviados de Deus, nem ap\u00f3stolos<br \/>\nda verdade e da salva\u00e7\u00e3o, mas fatores do erro e agentes do inferno.&#8221;<\/p>\n<p>Estas palavras persuadem que Deus n\u00e3o permite a manifesta\u00e7\u00e3o<br \/>\nde bons Esp\u00edritos que possam esclarecer e salvar da eterna perdi\u00e7\u00e3o<br \/>\no herege, o \u00edmpio e o criminoso! Somente os prepostos do inferno se<br \/>\nlhes envia, para mais mergulh\u00e1-los no loda\u00e7al. Pesa diz\u00ea-lo,<br \/>\nmas, segundo a Igreja, Deus n\u00e3o envia \u00e0 Inoc\u00eancia sen\u00e3o<br \/>\nseres perversos para seduzi-la!<\/p>\n<p>Essa Igreja n\u00e3o admite entre os anjos, entre as criaturas privilegiadas<br \/>\nde Deus, um ser bastante compassivo que venha em socorro das almas transviadas!<br \/>\nPara que servem, pois, as brilhantes qualidades que exornam tais seres? Acaso<br \/>\ne t\u00e3o-somente para seu gozo pessoal? E ser\u00e3o eles realmente<br \/>\nbons, quando, extasiados pelas del\u00edcias da contempla\u00e7\u00e3o,<br \/>\nv\u00eaem tantas almas no caminho do inferno sem que procurem desvi\u00e1-las?<br \/>\nMas isso \u00e9 precisamente a imagem do ego\u00edsmo desses potentados<br \/>\nque, impiedosos na farta opul\u00eancia, deixam morrer \u00e0 fome o mendigo<br \/>\nque lhes bate \u00e0 porta!<\/p>\n<p>\u00c9 mais ainda: \u00c9 o pr\u00f3prio ego\u00edsmo arvorado em<br \/>\nvirtude e colocado aos p\u00e9s do Criador!<\/p>\n<p>Mas v\u00f3s vos admirais que bons Esp\u00edritos venham ao herege e<br \/>\nao \u00edmpio, certamente porque vos esquecestes desta par\u00e1bola do<br \/>\nCristo: &#8211; &#8220;N\u00e3o \u00e9 o homem s\u00e3o que precisa de m\u00e9dico.&#8221;<br \/>\nEnt\u00e3o n\u00e3o tendes um ponto de vista mais elevado que o dos fariseus<br \/>\ndaquele tempo? E v\u00f3s mesmos, v\u00f3s vos recusareis mostrar o bom<br \/>\ncaminho ao descrente que vos chamasse? Pois bem: os bons Esp\u00edritos<br \/>\nfazem o que far\u00edeis; dirigem-se ao \u00edmpio para dar-lhe bons conselhos.<br \/>\nOh! em lugar de anatematizardes as comunica\u00e7\u00f5es de al\u00e9m-t\u00famulo,<br \/>\nmelhor fora bendiss\u00e9sseis os decretos do Senhor, admirando-lhe a onipot\u00eancia<br \/>\ne bondade infinitas.<\/p>\n<p>17. &#8211; Dizem que h\u00e1 anjos de guarda; mas quando n\u00e3o podem insinuar-se<br \/>\npela voz misteriosa da consci\u00eancia ou da inspira\u00e7\u00e3o, por<br \/>\nque n\u00e3o empregarem meios de a\u00e7\u00e3o mais diretos e materiais<br \/>\nde modo a chocar os sentidos, uma vez que tais meios existem? E pois que tudo<br \/>\nprov\u00e9m de Deus e nada ocorre sem a sua permiss\u00e3o, podemos admitir<br \/>\nque Ele faculte tais meios aos maus Esp\u00edritos e os recuse aos bons?<\/p>\n<p>Nesse caso \u00e9 preciso confessar que Deus facilita mais poderes ao dem\u00f4nio,<br \/>\npara perder aos homens, do que aos anjos de guarda para salv\u00e1-los!<br \/>\nPois bem! o que os anjos de guarda, segundo a Igreja, n\u00e3o podem fazer,<br \/>\nfazem por si os dem\u00f4nios: servindo-se de tais comunica\u00e7\u00f5es,<br \/>\nditas infernais, reconduzem a Deus os que o renegavam e ao bem os escravizados<br \/>\nao mal. Esses dem\u00f4nios fazem mais: d\u00e3o-nos o espet\u00e1culo<br \/>\nde milh\u00f5es de homens acreditando em Deus por intercess\u00e3o da<br \/>\nsua pot\u00eancia diab\u00f3lica, ao passo que a Igreja era impotente para<br \/>\nconvert\u00ea-los. Homens que jamais oraram, fazem-no hoje com fervor, gra\u00e7as<br \/>\n\u00e0s instru\u00e7\u00f5es desses dem\u00f4nios! Quantos orgulhosos,<br \/>\nego\u00edstas e devassos se tornaram humildes, caridosos e re-catados?!<br \/>\nE tudo por obra do diabo! Ah! mas se assim for, claro \u00e9 que a toda<br \/>\nessa gente o dem\u00f4nio tem prestado melhor servi\u00e7o e guarda que<br \/>\nos pr\u00f3prios anjos. \u00c9 necess\u00e1rio, por\u00e9m, formar<br \/>\numa triste opini\u00e3o do senso humano dos nossos tempos. para crer que<br \/>\nos homens aceitem cegamente tais id\u00e9ias. Uma religi\u00e3o, por\u00e9m,<br \/>\nque faz pedra angular de tal doutrina, uma religi\u00e3o que se destr\u00f3i<br \/>\npela base, em se lhe tirando os seus dem\u00f4nios, o seu inferno, as suas<br \/>\npenas eternas e o seu deus impiedoso; uma religi\u00e3o tal, dizemos, \u00e9<br \/>\numa religi\u00e3o que se suicida.<\/p>\n<p>18. &#8211; Dizem que Deus enviou o Cristo, seu filho, para salvar os homens, provando-lhes<br \/>\ncom isso o seu amor. Como se explica, entretanto, que os deixasse depois em<br \/>\nabandono?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que Jesus \u00e9 o mensageiro divino<br \/>\nenviado aos homens para ensinar-lhes a verdade, e, por ela, o caminho da salva\u00e7\u00e3o;<br \/>\nmas contai &#8211; e somente ap\u00f3s a sua vinda &#8211; quantos n\u00e3o puderam<br \/>\nouvir-lhe a palavra da verdade, quantos morreram e morrer\u00e3o sem conhec\u00ea-la,<br \/>\nquantos, finalmente, dos que a conhecem, a p\u00f5em em pr\u00e1tica.<br \/>\nEnt\u00e3o, por que n\u00e3o lhes enviar Deus, sempre sol\u00edcito<br \/>\nna salva\u00e7\u00e3o de suas criaturas, outros mensageiros, que, baixando<br \/>\na todas as terras, entre grandes e pequenos, ignorantes e s\u00e1bios, cr\u00e9dulos<br \/>\ne c\u00e9pticos, venham ensinar a verdade aos que a desconhecem, torn\u00e1-la<br \/>\ncompreens\u00edvel aos que n\u00e3o a compreendem, e suprir, enfim, pelo<br \/>\nseu ensino direto e m\u00faltiplo, a insufici\u00eancia na propaga\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Evangelho, abreviando o evento do reinado divino? Mas eis que chegam esses<br \/>\nmensageiros em hostes inumer\u00e1veis, abrindo os olhos aos cegos, convertendo<br \/>\nos \u00edmpios, curando os enfermos, consolando os aflitos, a exemplo de<br \/>\nJesus! Que fazeis v\u00f3s, e como os recebeis v\u00f3s? Ah! v\u00f3s<br \/>\nos repudiais, repelis o bem que fazem e clamais: s\u00e3o dem\u00f4nios!<\/p>\n<p>Outra n\u00e3o era a linguagem dos fariseus relativamente ao Cristo, que,<br \/>\ndiziam, fazia o bem por artes do diabo! E o Nazareno respondeu-lhes: &#8220;Reconhecei<br \/>\na \u00e1rvore por seu fruto: a m\u00e1 \u00e1rvore n\u00e3o pode dar<br \/>\nbons frutos.&#8221;<\/p>\n<p>Para os fariseus eram maus os frutos de Jesus, porque ele vinha destruir<br \/>\no abuso e proclamar a liberdade que lhes arruinaria a autoridade. Se ao inv\u00e9s<br \/>\ndisso Jesus tivesse vindo lisonjear-lhes o orgulho, sancionar os seus erros<br \/>\ne sustentar-lhes o poder, ent\u00e3o, sim, ele seria o esperado Messias<br \/>\ndos judeus. Mas o Cristo era s\u00f3, pobre e fraco: decretaram-lhe a morte<br \/>\njulgando extinguir-lhe a palavra, e a palavra sobreviveu-lhe porque era divina.<br \/>\nImporta contudo dizer que essa palavra s\u00f3 lentamente se Propagou, e,<br \/>\nap\u00f3s dezoito s\u00e9culos, apenas \u00e9 conhecida de uma d\u00e9cima<br \/>\nparte do g\u00eanero humano. Al\u00e9m disso, em que pese a tais raz\u00f5es,<br \/>\nnumerosos cismas rebentaram j\u00e1 do seio da cristandade. Pois bem: agora,<br \/>\nDeus, em sua miseric\u00f3rdia, envia os Esp\u00edritos a confirm\u00e1-la,<br \/>\na complet\u00e1-la, a difundi-la por todos e em toda a Terra &#8211; a santa palavra<br \/>\nde Jesus. E o grande caso \u00e9 que os Esp\u00edritos n\u00e3o est\u00e3o<br \/>\nencarnados num s\u00f3 homem cuja voz fora limitada: eles s\u00e3o inumer\u00e1veis,<br \/>\nandam por toda parte e n\u00e3o podem ser tolhidos. Tamb\u00e9m por isso,<br \/>\no seu ensino se amplia com a rapidez do raio; e porque falam ao cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ne \u00e0 raz\u00e3o, s\u00e3o pelos humildes mais compreendidos.<\/p>\n<p>19. &#8211; N\u00e3o \u00e9 indigno de celestes mensageiros &#8211; dizeis &#8211; o transmitirem<br \/>\nsuas instru\u00e7\u00f5es por meio t\u00e3o vulgar qual o das mesas?<br \/>\nN\u00e3o ser\u00e1 ultraj\u00e1-los o supor que se divertem com frivolidades<br \/>\ndeixando a sua mans\u00e3o de luz para se porem \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo primeiro curioso?<\/p>\n<p>Jesus tamb\u00e9m deixou a mans\u00e3o do Pai para nascer num est\u00e1bulo.<br \/>\nE quem vos disse que o Espiritismo atribui frioleiras aos Esp\u00edritos<br \/>\nsuperiores? N\u00e3o; o Espiritismo afirma positivamente o contr\u00e1rio,<br \/>\nisto \u00e9, que as coisas vulgares s\u00e3o pr\u00f3prias de Esp\u00edritos<br \/>\nvulgares. N\u00e3o obstante, dessas vulgaridades resulta um benef\u00edcio,<br \/>\nqual o de abalar muitas imagina\u00e7\u00f5es, provando a exist\u00eancia<br \/>\ndo mundo espiritual e demonstrando \u00e0 saciedade que esse mundo n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 tal, por\u00e9m muito diferente do que se julgava. Essas manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\niniciais eram porventura simples como tudo que come\u00e7a, mas nem por<br \/>\ngerminar de min\u00fascula semente a \u00e1rvore deixa um dia de estender<br \/>\nvirente e copada a sua ramagem.<\/p>\n<p>Quem acreditaria que da mis\u00e9rrima manjedoura de Bel\u00e9m pudesse<br \/>\nsair a palavra que havia de transformar o mundo?<\/p>\n<p>Sim! O Cristo \u00e9 bem o Messias divino. A sua palavra \u00e9 bem a<br \/>\npalavra da verdade, fundada na qual a religi\u00e3o se torna inabal\u00e1vel,<br \/>\nmas sob condi\u00e7\u00e3o de praticar os sublimes ensinamentos que ela<br \/>\ncont\u00e9m, e n\u00e3o de fazer do Deus justo e bom, que nela reconhecemos,<br \/>\num Deus faccioso, vingativo e cruel.<\/p>\n<h2><a id=\"14\" name=\"14\"><\/a>Da proibi\u00e7\u00e3o de evocar os mortos<\/h2>\n<p>1. &#8211; A Igreja de modo algum nega a realidade das manifesta\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAo contr\u00e1rio, como vimos nas cita\u00e7\u00f5es precedentes, admite-as<br \/>\ntotalmente, atribuindo-as \u00e0 exclusiva interven\u00e7\u00e3o dos<br \/>\ndem\u00f4nios. \u00c9 debalde invocar os Evangelhos como fazem alguns para<br \/>\njustificar a sua interdi\u00e7\u00e3o, visto que os Evangelhos nada dizem<br \/>\na esse respeito. O supremo argumento que prevalece \u00e9 a proibi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Mois\u00e9s. A seguir damos os termos nos quais se refere ao assunto<br \/>\na mesma pastoral que citamos nos cap\u00edtulos precedentes:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o \u00e9 permitido entreter rela\u00e7\u00f5es com eles<br \/>\n(os Esp\u00edritos), seja imediatamente, seja por interm\u00e9dio dos<br \/>\nque os evocam e interrogam. A lei mosaica punia os gentios. N\u00e3o procureis<br \/>\nos m\u00e1gicos, diz o Lev\u00edtico, nem procureis saber coisa alguma<br \/>\ndos adivinhos, de maneira a vos contaminardes por meio deles. (Cap. XIX, v.<br \/>\n31.) Morra de morte o homem ou a mulher em quem houver Esp\u00edrito pit\u00f4nico;<br \/>\nsejam apedrejados e sobre eles recaia seu sangue. (Cap. XX, v. 27.) O Deuteron\u00f4mio<br \/>\ndiz: Nunca exista entre v\u00f3s quem consulte adivinhos, quem observe sonhos<br \/>\ne agouros, quem use de malef\u00edcios, sortil\u00e9gios, encantamentos,<br \/>\nou consultem os que t\u00eam o Esp\u00edrito pit\u00f4nico e se d\u00e3o<br \/>\na pr\u00e1ticas de adivinha\u00e7\u00e3o interrogando os mortos. O Senhor<br \/>\nabomina todas essas coisas e destruir\u00e1, \u00e0 vossa entrada, as<br \/>\nna\u00e7\u00f5es que cometem tais crimes.&#8221; (Cap. XVIII, vv. 10, 11<br \/>\ne 12.)<\/p>\n<p>2. &#8211; \u00c9 \u00fatil, para melhor compreens\u00e3o do verdadeiro sentido<br \/>\ndas palavras de Mois\u00e9s, reproduzir por completo o texto um tanto abreviado<br \/>\nna cita\u00e7\u00e3o antecedente. Ei-lo:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o vos desvieis do vosso Deus para procurar m\u00e1gicos;<br \/>\nn\u00e3o consulteis os adivinhos, e receai que vos contamineis dirigindo-vos<br \/>\na eles. Eu sou o Senhor vosso Deus.&#8221; (Lev\u00edtico, cap. XIX, v. 31.)<br \/>\nO homem ou a mulher que tiver Esp\u00edrito pit\u00f4nico, ou de adivinho,<br \/>\nmorra de morte. Ser\u00e3o apedrejados, e o seu sangue recair\u00e1 sobre<br \/>\neles.&#8221; (Idem, cap. XX, v. 27.) Quando houverdes entrado na terra que<br \/>\no Senhor vosso Deus vos h\u00e1 de dar, guardai-vos; tomai cuidado em n\u00e3o<br \/>\nimitar as abomina\u00e7\u00f5es de tais povos; &#8211; e entre v\u00f3s ningu\u00e9m<br \/>\nhaja que pretenda purificar filho ou filha passando-os pelo fogo; que use<br \/>\nde malef\u00edcios, sortil\u00e9gios e encantamentos: que consulte os<br \/>\nque t\u00eam o Esp\u00edrito de P\u00edton e se prop\u00f5em adivinhar,<br \/>\ninterrogando os mortos para saber a verdade. O Senhor abomina todas essas<br \/>\ncoisas e exterminar\u00e1 todos esses povos, \u00e0 vossa entrada, por<br \/>\ncausa dos crimes que t\u00eam cometido. ( Deuteron\u00f4mio, cap. XVIII,<br \/>\nvv. 9, 10, 11 e 12.)<\/p>\n<p>3. &#8211; Se a lei de Mois\u00e9s deve ser t\u00e3o rigorosamente observada<br \/>\nneste ponto, for\u00e7a \u00e9 que o seja igualmente em todos os outros.<br \/>\nPor que seria ela boa no tocante \u00e0s evoca\u00e7\u00f5es e m\u00e1<br \/>\nem outras de suas partes? \u00c9 preciso ser conseq\u00fcente. Desde que<br \/>\nse reconhece que a lei mosaica n\u00e3o est\u00e1 mais de acordo com a<br \/>\nnossa \u00e9poca e costumes em dados casos, a mesma raz\u00e3o procede<br \/>\npara a proibi\u00e7\u00e3o de que tratamos.<\/p>\n<p>Demais, \u00e9 preciso expender os motivos que justificavam essa proibi\u00e7\u00e3o<br \/>\ne que hoje se anularam completamente. O legislador hebreu queria que &#8216;o seu<br \/>\npovo abandonasse todos os costumes adquiridos no Egito, onde as evoca\u00e7\u00f5es<br \/>\nestavam em uso e facilitavam abusos, como se infere destas palavras de Isa\u00edas:<br \/>\n&#8220;O Esp\u00edrito do Egito se aniquilar\u00e1 de si mesmo e eu precipitarei<br \/>\nseu conselho; eles consultar\u00e3o seus \u00eddolos, seus adivinhos,<br \/>\nseus p\u00edtons e seus m\u00e1gicos.&#8221; (Cap. XIX, v. 3.)<\/p>\n<p>Os israelitas n\u00e3o deviam contratar alian\u00e7as com as na\u00e7\u00f5es<br \/>\nestrangeiras, e sabido era que naquelas na\u00e7\u00f5es que iam combater<br \/>\nencontrariam as mesmas pr\u00e1ticas. Mois\u00e9s devia pois, por pol\u00edtica,<br \/>\ninspirar aos hebreus avers\u00e3o a todos os costumes que pudessem ter semelhan\u00e7as<br \/>\ne pontos de contacto com o inimigo. Para justificar essa avers\u00e3o, preciso<br \/>\nera que apresentasse tais pr\u00e1ticas como reprovadas pelo pr\u00f3prio<br \/>\nDeus, e dai estas palavras: &#8211; &#8220;O Senhor abomina todas essas coisas e<br \/>\ndestruir\u00e1, \u00e0 vossa chegada, as na\u00e7\u00f5es que cometem<br \/>\ntais crimes.&#8221;<\/p>\n<p>4. &#8211; A proibi\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s era assaz justa, porque a<br \/>\nevoca\u00e7\u00e3o dos mortos n\u00e3o se originava nos sentimentos<br \/>\nde respeito, afei\u00e7\u00e3o ou piedade para com eles, sendo antes um<br \/>\nrecurso para adivinha\u00e7\u00f5es, tal como nos aug\u00farios e press\u00e1gios<br \/>\nexplorados pelo charlatanismo e pela supersti\u00e7\u00e3o. Essas pr\u00e1ticas,<br \/>\nao que parece, tamb\u00e9m eram objeto de neg\u00f3cio, e Mois\u00e9s,<br \/>\npor mais que fizesse, n\u00e3o conseguiu desentranh\u00e1-las dos costumes<br \/>\npopulares.<\/p>\n<p>As seguintes palavras do profeta justificam o asserto: &#8211; &#8220;Quando vos<br \/>\ndisserem: Consultai os m\u00e1gicos e adivinhos que balbuciam encantamentos,<br \/>\nrespondei: &#8211; N\u00e3o consulta cada povo ao seu Deus? E aos mortos se fala<br \/>\ndo que compete aos vivos?&#8221; (Isa\u00edas, cap. VIII, v. 19.) &#8220;Sou<br \/>\neu quem aponta a falsidade dos prod\u00edgios m\u00e1gicos; quem enlouquece<br \/>\nos que se prop\u00f5em adivinhar, quem transtorna o esp\u00edrito dos<br \/>\ns\u00e1bios e confunde a sua ci\u00eancia v\u00e3.&#8221; (Cap. XLIV,<br \/>\nv. 25.)<\/p>\n<p>&#8220;Que esses adivinhos, que estudam o c\u00e9u, contemplam os astros<br \/>\ne contam os meses para fazer predi\u00e7\u00f5es, dizendo revelar-vos<br \/>\no futuro, venham agora salvar-vos. -Eles tornaram-se como a palha, e o fogo<br \/>\nos devorou; n\u00e3o poder\u00e3o livrar suas almas do fogo ardente; n\u00e3o<br \/>\nrestar\u00e3o das chamas que despedirem, nem carv\u00f5es que possam aquecer,<br \/>\nnem fogo ao qual se possam sentar. &#8211; Eis ao que ficar\u00e3o reduzidas todas<br \/>\nessas coisas das quais vos tendes ocupado com tanto afinco: os traficantes<br \/>\nque convosco traficam desde a inf\u00e2ncia foram-se, cada qual para seu<br \/>\nlado, sem que um s\u00f3 deles se encontre que vos tire os vossos males.&#8221;<br \/>\n(Cap. XLVII, vv. 13, 14 e 15.)<\/p>\n<p>Neste cap\u00edtulo Isa\u00edas dirige-se aos babil\u00f4nios sob a<br \/>\nfigura aleg\u00f3rica &#8220;da virgem filha de Babil\u00f4nia, filha de<br \/>\ncaldeus&#8221;. (v. 1.) Diz ele que os adivinhos n\u00e3o impedir\u00e3o<br \/>\na ru\u00edna da monarquia. No seguinte cap\u00edtulo dirige-se diretamente<br \/>\naos israelitas.<\/p>\n<p>&#8220;Vinde aqui v\u00f3s outros, filhos de uma agoureira, ra\u00e7a<br \/>\ndum homem ad\u00faltero e de uma mulher prostitu\u00edda. &#8211; De quem vos<br \/>\nrides v\u00f3s? Contra quem abristes a boca e mostrastes ferinas l\u00ednguas?<br \/>\nN\u00e3o sois v\u00f3s filhos perversos de bastarda ra\u00e7a &#8211; v\u00f3s<br \/>\nque procurais conforto em vossos deuses debaixo de todas as frontes, sacrificando-lhes<br \/>\nos tenros filhinhos nas torrentes, sob os rochedos sobranceiros? Depositastes<br \/>\na vossa confian\u00e7a nas pedras da torrente, espalhastes e bebestes licores<br \/>\nem sua honra, oferecestes sacrif\u00edcios. Depois disso como n\u00e3o<br \/>\nse acender a minha indigna\u00e7\u00e3o?&#8221; (Cap. LVII, vv. 3, 4, 5<br \/>\ne 6.)<\/p>\n<p>Estas palavras s\u00e3o inequ\u00edvocas e provam claramente que nesse<br \/>\ntempo as evoca\u00e7\u00f5es tinham por fim a adivinha\u00e7\u00e3o,<br \/>\nao mesmo tempo que constitu\u00edam com\u00e9rcio, associadas \u00e0s<br \/>\npr\u00e1ticas da magia e do sortil\u00e9gio, acompanhadas at\u00e9 de<br \/>\nsacrif\u00edcios humanos. Mois\u00e9s tinha raz\u00e3o, portanto, proibindo<br \/>\ntais coisas e afirmando que Deus as abominava.<\/p>\n<p>Essas pr\u00e1ticas supersticiosas perpetuaram-se at\u00e9 \u00e0 Idade<br \/>\nM\u00e9dia, mas hoje a raz\u00e3o predomina, ao mesmo tempo que o Espiritismo<br \/>\nveio mostrar o fim exclusivamente moral, consolador e religioso das rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nde al\u00e9m-t\u00famulo.<\/p>\n<p>Uma vez, por\u00e9m, que os esp\u00edritas n\u00e3o sacrificam criancinhas<br \/>\nnem fazem liba\u00e7\u00f5es para honrar deuses; uma vez que n\u00e3o<br \/>\ninterrogam astros, mortos e augures para adivinhar a verdade sabiamente velada<br \/>\naos homens; uma vez que repudiam traficar com a faculdade de comunicar com<br \/>\nos Esp\u00edritos; uma vez que os n\u00e3o move a curiosidade nem a cupidez,<br \/>\nmas um sentimento de piedade, um desejo de instruir-se e melhorar-se, aliviando<br \/>\nas almas sofredoras; uma vez que assim \u00e9, porque o \u00e9 &#8211; a proibi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Mois\u00e9s n\u00e3o lhes pode ser extensiva.<\/p>\n<p>Se os que clamam injustamente contra os esp\u00edritas se aprofundassem<br \/>\nmais no sentido das palavras b\u00edblicas, reconheceriam que nada existe<br \/>\nde an\u00e1logo, nos princ\u00edpios do Espiritismo, com o que se passava<br \/>\nentre os hebreus. A verdade \u00e9 que o Espiritismo condena tudo que motivou<br \/>\na interdi\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s; mas os seus advers\u00e1rios,<br \/>\nno af\u00e3 de encontrar argumentos com que rebatam as novas id\u00e9ias,<br \/>\nnem se apercebem que tais argumentos s\u00e3o negativos, por serem completamente<br \/>\nfalsos.<\/p>\n<p>A lei civil contempor\u00e2nea pune todos os abusos que Mois\u00e9s tinha<br \/>\nem vista reprimir.<\/p>\n<p>Contudo, se ele pronunciou a pena \u00faltima contra os delinq\u00fcentes,<br \/>\n\u00e9 porque lhe faleciam meios brandos para governar um povo t\u00e3o<br \/>\nindisciplinado. Esta pena, ao demais, era muito prodigalizada na legisla\u00e7\u00e3o<br \/>\nmosaica, pois n\u00e3o havia muito onde escolher nos meios de repress\u00e3o.<br \/>\nSem pris\u00f5es nem casas de corre\u00e7\u00e3o no deserto, Mois\u00e9s<br \/>\nn\u00e3o podia graduar a penalidade como se faz em nossos dias, al\u00e9m<br \/>\nde que o seu povo n\u00e3o era de natureza a atemorizar-se com penas puramente<br \/>\ndisciplinares. Carecem portanto de raz\u00e3o os que se ap\u00f3iam na<br \/>\nseveridade do castigo para provar o grau de culpabilidade da evoca\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos mortos. Conviria, por considera\u00e7\u00e3o \u00e0 lei de Mois\u00e9s,<br \/>\nmanter a pena capital em todos os casos nos quais ele a prescrevia? Por que,<br \/>\nent\u00e3o, reviver com tanta insist\u00eancia este artigo, silenciando<br \/>\nao mesmo tempo o principio do cap\u00edtulo que pro\u00edbe aos sacerdotes<br \/>\na posse de bens terrenos e partilhar de qualquer heran\u00e7a, porque o<br \/>\nSenhor \u00e9 a sua pr\u00f3pria heran\u00e7a? (Deuteron\u00f4mio,<br \/>\ncap. XXVIII, vv. 1 e 2.)<\/p>\n<p>5. &#8211; H\u00e1 duas partes distintas na lei de Mois\u00e9s: a lei de Deus<br \/>\npropriamente dita, promulgada sobre o Sinal, e a lei civil ou disciplinar,<br \/>\napropriada aos costumes e car\u00e1ter do povo. Uma dessas leis \u00e9<br \/>\ninvari\u00e1vel, ao passo que a outra se modifica com o tempo, e a ningu\u00e9m<br \/>\nocorre que possamos ser governados pelos mesmos meios por que o eram os judeus<br \/>\nno deserto e tampouco que os capitulares de Carlos Magno se moldem \u00e0<br \/>\nFran\u00e7a do s\u00e9culo XIX. Quem pensaria hoje, por exemplo, em reviver<br \/>\neste artigo da lei mosaica: &#8220;Se um boi escornar um homem ou mulher, que<br \/>\ndisso morram, seja o boi apedrejado e ningu\u00e9m coma de sua carne; mas<br \/>\no dono do boi ser\u00e1 julgado inocente&#8221;? ( \u00caxodo, cap. XXI,<br \/>\nvv. 28 e seguintes.)<\/p>\n<p>Este artigo, que nos parece t\u00e3o absurdo, n\u00e3o tinha, no entanto,<br \/>\noutro objetivo que o de punir o boi e inocentar o dono, equivalendo simplesmente<br \/>\n\u00e0 confisca\u00e7\u00e3o do animal, causa do acidente, para obrigar<br \/>\no propriet\u00e1rio a maior vigil\u00e2ncia. A perda do boi era a puni\u00e7\u00e3o<br \/>\nque devia ser bem sens\u00edvel para um povo de pastores, a ponto de dispensar<br \/>\noutra qualquer; entretanto, essa perda a ningu\u00e9m aproveitava, por ser<br \/>\nproibido comer a carne. Outros artigos prescrevem o caso em que o propriet\u00e1rio<br \/>\n\u00e9 respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Tudo tinha sua raz\u00e3o de ser na legisla\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s,<br \/>\numa vez que tudo ela prev\u00ea em seus m\u00ednimos detalhes, mas a forma,<br \/>\nbem como o fundo, adaptavam-se \u00e0s circunst\u00e2ncias ocasionais Se<br \/>\nMois\u00e9s voltasse em nossos dias para legislar sobre uma na\u00e7\u00e3o<br \/>\ncivilizada, decerto n\u00e3o lhe daria um c\u00f3digo igual ao dos hebreus.<\/p>\n<p>6. &#8211; A esta obje\u00e7\u00e3o op\u00f5em a afirmativa de que todas<br \/>\nas leis de Mois\u00e9s foram ditadas em nome de Deus, assim como as do Sinal.<br \/>\nMas julgando-as todas de fonte divina, por que ao dec\u00e1logo limitam<br \/>\nos mandamentos? Qual a raz\u00e3o de ser da diferen\u00e7a? Pois n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 certo que se todas essas leis emanam de Deus devem todas ser igualmente<br \/>\nobrigat\u00f3rias? E por que n\u00e3o conservaram a circuncis\u00e3o,<br \/>\n\u00e0 qual Jesus se submeteu e n\u00e3o aboliu? Ah! esquecem que, para<br \/>\ndar autoridade \u00e0s suas leis, todos os legisladores antigos lhes atribu\u00edam<br \/>\numa origem divina. Pois bem: Mois\u00e9s, mais que nenhum outro, tinha necessidade<br \/>\ndesse recurso, atento o car\u00e1ter do seu povo; e se, a despeito disso,<br \/>\nele teve dificuldade em se fazer obedecer, que n\u00e3o sucederia se as<br \/>\nleis fossem promulgadas em seu pr\u00f3prio nome!<\/p>\n<p>N\u00e3o veio Jesus modificar a lei mosaica, fazendo da sua lei o c\u00f3digo<br \/>\ndos crist\u00e3os?<\/p>\n<p>N\u00e3o disse ele: &#8211; &#8220;V\u00f3s sabeis o que foi dito aos antigos,<br \/>\ntal e tal coisa, e eu vos digo tal outra coisa?&#8221; Entretanto Jesus n\u00e3o<br \/>\nproscreveu, antes sancionou a lei do Sinai, da qual toda a sua doutrina moral<br \/>\n\u00e9 um desdobramento. Ora, Jesus nunca aludiu em parte alguma \u00e0<br \/>\nproibi\u00e7\u00e3o de evocar os mortos, quando este era um assunto bastante<br \/>\ngrave para ser omitido nas suas pr\u00e9dicas, mormente tendo ele tratado<br \/>\nde outros assuntos secund\u00e1rios.<\/p>\n<p>7. &#8211; Finalmente conv\u00e9m saber se a Igreja coloca a lei mosaica acima<br \/>\nda evang\u00e9lica, ou por outra, se \u00e9 mais judia que crist\u00e3.<br \/>\nConv\u00e9m tamb\u00e9m notar que, de todas as religi\u00f5es, precisamente<br \/>\na judia \u00e9 que faz menos oposi\u00e7\u00e3o ao Espiritismo, porquanto<br \/>\nn\u00e3o invoca a lei de Mois\u00e9s contr\u00e1ria \u00e0s rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom os mortos, como fazem as seitas crist\u00e3s.<\/p>\n<p>8. &#8211; Mas temos ainda outra contradi\u00e7\u00e3o: &#8211; Se Mois\u00e9s<br \/>\nproibiu evocar os mortos, \u00e9 que estes podiam vir, pois do contr\u00e1rio<br \/>\nin\u00fatil fora a proibi\u00e7\u00e3o. Ora, se os mortos podiam vir<br \/>\nnaqueles tempos, tamb\u00e9m o podem hoje; e se s\u00e3o Esp\u00edritos<br \/>\nde mortos os que v\u00eam, n\u00e3o s\u00e3o exclusivamente dem\u00f4nios.<br \/>\nDemais, Mois\u00e9s de modo algum fala nesses \u00faltimos.<\/p>\n<p>\u00c9 duplo, portanto, o motivo pelo qual n\u00e3o se pode aceitar logicamente<br \/>\na autoridade de Mois\u00e9s na esp\u00e9cie, a saber: &#8211; primeiro, porque<br \/>\na sua lei n\u00e3o rege o Cristianismo; e, segundo, porque \u00e9 impr\u00f3pria<br \/>\naos costumes da nossa \u00e9poca. Mas, suponhamos que essa lei tem a plenitude<br \/>\nda autoridade por alguns outorgada, e ainda assim ela n\u00e3o poder\u00e1,<br \/>\ncomo vimos, aplicar-se ao Espiritismo. \u00c9 verdade que a proibi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Mois\u00e9s abrange a interroga\u00e7\u00e3o dos mortos, por\u00e9m<br \/>\nde modo secund\u00e1rio, como acess\u00f3ria \u00e0s pr\u00e1ticas<br \/>\nda feiti\u00e7aria..<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio voc\u00e1bulo interroga\u00e7\u00e3o, junto aos de<br \/>\nadivinho e agoureiro, prova que entre os hebreus as evoca\u00e7\u00f5es<br \/>\neram um meio de adivinhar; entretanto, os esp\u00edritas s\u00f3 evocam<br \/>\nmortos para receber s\u00e1bios conselhos e obter alivio em favor dos que<br \/>\nsofrem, nunca para conseguir revela\u00e7\u00f5es il\u00edcitas. Certo,<br \/>\nse os hebreus usassem das comunica\u00e7\u00f5es como fazem os esp\u00edritas,<br \/>\nlonge de as proibir, Mois\u00e9s acoro\u00e7o\u00e1-las-ia, porque o<br \/>\nseu povo s\u00f3 teria que lucrar.<\/p>\n<p>9. &#8211; \u00c9 certo que alguns cr\u00edticos jucundos ou mal-intencionados<br \/>\nt\u00eam descrito as reuni\u00f5es esp\u00edritas como assembl\u00e9ias<br \/>\nde negromantes ou feiticeiros, e os m\u00e9diuns como astr\u00f3logos<br \/>\ne ciganos, isto porque talvez quaisquer charlat\u00e3es tenham afei\u00e7oado<br \/>\ntais nomes \u00e0s suas pr\u00e1ticas, que o Espiritismo n\u00e3o pode,<br \/>\nali\u00e1s, aprovar.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m muita gente que faz<br \/>\njusti\u00e7a e testemunha o car\u00e1ter essencialmente moral e grave<br \/>\ndas reuni\u00f5es s\u00e9rias. Al\u00e9m disso, a Doutrina, em livros<br \/>\nao alcance de todo o mundo, protesta bem alto contra os abusos, para que a<br \/>\ncal\u00fania recaia sobre quem merece.<\/p>\n<p>10. &#8211; A evoca\u00e7\u00e3o, dizem, \u00e9 uma falta de considera\u00e7\u00e3o<br \/>\npara com os mortos, cujas cinzas devem ser respeitadas. Mas quem \u00e9<br \/>\nque diz tal? S\u00e3o os antagonistas de dois campos opostos, isto \u00e9,<br \/>\nos incr\u00e9dulos que nas almas n\u00e3o cr\u00eaem, e os cr\u00e9dulos<br \/>\nque pretendem que s\u00f3 os dem\u00f4nios, e n\u00e3o as almas, podem<br \/>\nvir.<\/p>\n<p>Quando a evoca\u00e7\u00e3o \u00e9 feita com recolhimento e religiosamente;<br \/>\nquando os Esp\u00edritos s\u00e3o chamados, n\u00e3o por curiosidade,<br \/>\nmas por um sentimento de afei\u00e7\u00e3o e simpatia, com desejo sincero<br \/>\nde instru\u00e7\u00e3o e progresso, n\u00e3o vemos nada de irreverente<br \/>\nem apelar-se para as pessoas mortas, como se fizera com os vivos. H\u00e1,<br \/>\ncontudo, uma outra resposta perempt\u00f3ria a essa obje\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne \u00e9 que os Esp\u00edritos se apresentam espontaneamente, sem constrangimento,<br \/>\nmuitas vezes mesmo sem que sejam chamados. Eles tamb\u00e9m d\u00e3o testemunho<br \/>\nda satisfa\u00e7\u00e3o que experimentam por comunicar-se com os homens,<br \/>\ne queixam-se \u00e0s vezes do esquecimento em que os deixam. Se os Esp\u00edritos<br \/>\nse perturbassem ou se agastassem com os nossos chamados, certo o diriam e<br \/>\nn\u00e3o retornariam; por\u00e9m, nessas evoca\u00e7\u00f5es, livres<br \/>\ncomo s\u00e3o, se se manifestam, \u00e9 porque lhes conv\u00e9m.<\/p>\n<p>11. &#8211; Ainda uma outra raz\u00e3o \u00e9 alegada: &#8211; As almas permanecem<br \/>\nna morada que a justi\u00e7a divina lhes designa &#8211; o que equivale dizer<br \/>\nno c\u00e9u ou no inferno. Assim, as que est\u00e3o no inferno, de l\u00e1<br \/>\nn\u00e3o podem sair, posto que para tanto a mais ampla liberdade seja outorgada<br \/>\naos dem\u00f4nios. As do c\u00e9u, inteiramente entregues \u00e0 sua<br \/>\nbeatitude, est\u00e3o muito superiores aos mortais para deles se ocuparem,<br \/>\ne s\u00e3o bastantemente felizes para n\u00e3o voltarem a esta terra de<br \/>\nmis\u00e9rias, no interesse de parentes e amigos que aqui deixassem. Ent\u00e3o<br \/>\nessas almas podem ser comparadas aos nababos que dos pobres desviam a vista<br \/>\ncom receio de perturbar a digest\u00e3o? Mas se assim fora essas almas se<br \/>\nmostrariam pouco dignas da suprema bem-aventuran\u00e7a, transformando-se<br \/>\nem padr\u00e3o de ego\u00edsmo!<\/p>\n<p>Restam ainda as almas do purgat\u00f3rio, por\u00e9m, estas, sofredoras<br \/>\ncomo devem ser, antes que doutra coisa, devem cuidar da sua salva\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDeste modo, n\u00e3o podendo nem umas nem outras almas corresponder ao nosso<br \/>\napelo, somente o dem\u00f4nio se apresenta em seu lugar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 o caso de dizer: se as almas n\u00e3o podem vir,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 de que recear pela perturba\u00e7\u00e3o do seu repouso.<\/p>\n<p>12. &#8211; Mas aqui reponta uma outra dificuldade. Se as almas bem-aventuradas<br \/>\nn\u00e3o podem deixar a mans\u00e3o gloriosa para socorrer os mortais,<br \/>\npor que invoca a Igreja a assist\u00eancia dos santos que devem fruir ainda<br \/>\nmaior soma de beatitude? Por que aconselha invoc\u00e1-los em casos de mol\u00e9stia,<br \/>\nde afli\u00e7\u00e3o, de flagelos? Por que raz\u00e3o e segundo essa<br \/>\nmesma Igreja os santos e a pr\u00f3pria Virgem aparecem aos homens e fazem<br \/>\nmilagres? Estes deixam o c\u00e9u para baixar \u00e0 Terra; entretanto<br \/>\nos que est\u00e3o menos elevados n\u00e3o o podem fazer!<\/p>\n<p>13. &#8211; Que os c\u00e9pticos neguem a manifesta\u00e7\u00e3o das almas,<br \/>\nv\u00e1, visto que nelas n\u00e3o acreditam; mas o que se torna estranh\u00e1vel<br \/>\n\u00e9 ver encarni\u00e7ar-se contra os meios de provar a sua exist\u00eancia,<br \/>\nesfor\u00e7ando-se por demonstrar a impossibilidade desses meios, aqueles<br \/>\nmesmos cujas cren\u00e7as repousam na exist\u00eancia e no futuro das almas!<br \/>\nParece que seria mais natural acolherem como benef\u00edcio da Provid\u00eancia<br \/>\nos meios de confundir os c\u00e9pticos com provas irrecus\u00e1veis, pois<br \/>\nque s\u00e3o os negadores da pr\u00f3pria religi\u00e3o. Os que t\u00eam<br \/>\ninteresse na exist\u00eancia da alma deploram constantemente a avalancha<br \/>\nda incredulidade que invade, dizimando-o, o rebanho de fi\u00e9is: entretanto,<br \/>\nquando se lhes apresenta o meio mais poderoso de combat\u00ea-la, recusam-no<br \/>\ncom tanta ou mais obstina\u00e7\u00e3o que os pr\u00f3prios incr\u00e9dulos.<br \/>\nDepois, quando as provas avultam de modo a n\u00e3o deixar d\u00favidas,<br \/>\neis que procuram como recurso de supremo argumento a interdi\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo assunto, buscando, para justific\u00e1-la, um artigo da lei mosaica do<br \/>\nqual ningu\u00e9m cogitara, emprestando-lhe, \u00e0 for\u00e7a, um sentido<br \/>\ne aplica\u00e7\u00e3o inexistentes. E t\u00e3o felizes se julgam com<br \/>\na descoberta, que n\u00e3o percebem que esse artigo \u00e9 ainda uma justificativa<br \/>\nda Doutrina Esp\u00edrita.<\/p>\n<p>14. &#8211; Todas as raz\u00f5es alegadas para condenar as rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom os Esp\u00edritos n\u00e3o resistem a um exame s\u00e9rio. Pelo<br \/>\nardor com que se combate nesse sentido \u00e9 f\u00e1cil deduzir o grande<br \/>\ninteresse ligado ao assunto. Da\u00ed a insist\u00eancia. Em vendo esta<br \/>\ncruzada de todos os cultos contra as manifesta\u00e7\u00f5es, dir-se-ia<br \/>\nque delas se atemorizam.<\/p>\n<p>O verdadeiro motivo poderia bem ser o receio de que os Esp\u00edritos muito<br \/>\nesclarecidos viessem instruir os homens sobre pontos que se pretende obscurecer,<br \/>\ndando-lhes conhecimento, ao mesmo tempo, da certeza de um outro mundo, a par<br \/>\ndas verdadeiras condi\u00e7\u00f5es para nele serem felizes ou desgra\u00e7ados.<br \/>\nA raz\u00e3o deve ser a mesma por que se diz \u00e0 crian\u00e7a: &#8211;<br \/>\n&#8220;N\u00e3o v\u00e1 l\u00e1, que h\u00e1 lobisomens.&#8221; Ao homem<br \/>\ndizem: -&#8221; N\u00e3o chameis os Esp\u00edritos: &#8211; S\u00e3o o diabo.&#8221;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o importa, por\u00e9m: &#8211; impedem os homens de os evocar, mas<br \/>\nn\u00e3o poder\u00e3o impedi-los de vir aos homens para levantar a l\u00e2mpada<br \/>\nde sob o alqueire.<\/p>\n<p>O culto que estiver com a verdade absoluta nada ter\u00e1 que temer da<br \/>\nluz, pois a luz faz brilhar a verdade e o dem\u00f4nio nada pode contra esta.<\/p>\n<p>15. &#8211; Repelir as comunica\u00e7\u00f5es de al\u00e9m-t\u00famulo<br \/>\n\u00e9 repudiar o meio mais poderoso de instruir-se, j\u00e1 pela inicia\u00e7\u00e3o<br \/>\nnos conhecimentos da vida futura, j\u00e1 pelos exemplos que tais comunica\u00e7\u00f5es<br \/>\nnos fornecem. A experi\u00eancia nos ensina, al\u00e9m disso, o bem que<br \/>\npodemos fazer, desviando do mal os Esp\u00edritos imperfeitos, ajudando<br \/>\nos que sofrem a desprenderem-se da mat\u00e9ria e a se aperfei\u00e7oarem.<br \/>\nInterdizer as comunica\u00e7\u00f5es \u00e9, portanto, privar as almas<br \/>\nsofredoras da assist\u00eancia que lhes podemos e devemos dispensar.<\/p>\n<p>As seguintes palavras de um Esp\u00edrito resumem admiravelmente as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\nda evoca\u00e7\u00e3o, quando praticada com fim caritativo:<\/p>\n<p>&#8220;Todo Esp\u00edrito sofredor e desolado vos contar\u00e1 a causa<br \/>\nda sua queda, os desvarios que o perderam. Esperan\u00e7as, combates e terrores;<br \/>\nremorsos, desesperos e dores, tudo vos dir\u00e1, mostrando Deus justamente<br \/>\nirritado a punir o culpado com toda a severidade. Ao ouvi-lo, dois sentimentos<br \/>\nvos acometer\u00e3o: o da compaix\u00e3o e o do temor! compaix\u00e3o<br \/>\npor ele, temor por v\u00f3s mesmos. E se o seguirdes nos seus queixumes,<br \/>\nvereis ent\u00e3o que Deus jamais o perde de vista, esperando o pecador<br \/>\narrependido e estendendo-lhe os bra\u00e7os logo que procure regenerar-se.<br \/>\nDo culpado vereis, enfim, os progressos ben\u00e9ficos para os quais tereis<br \/>\na felicidade e a gl\u00f3ria de contribuir, com a solicitude e o carinho<br \/>\ndo cirurgi\u00e3o acompanhando a cicatriza\u00e7\u00e3o da ferida que<br \/>\npensa diariamente.&#8221; (Bord\u00e9us, 1861.)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: O porvir e o nada Temor da morte O C\u00e9u O Inferno O Purgat\u00f3rio &nbsp; Doutrina das penas eternas As penas futuras segundo o Espiritismo Princ\u00edpios da Doutrina Esp\u00edrita sobre as penas futuras C\u00f3digo penal da vida futura Os anjos Os Dem\u00f4nios Os dem\u00f4nios segundo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-91012","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O C\u00e9u e o Inferno - Allan Kardec, Obra O C\u00e9u e o Inferno - Allan Kardec<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O C\u00e9u e o Inferno - Allan Kardec, Obra, Purgat\u00f3rio, Doutrina, Dem\u00f4nios, Temor, Anjos, Espiritismo, O C\u00e9u e o Inferno - Allan Kardec\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O C\u00e9u e o Inferno - Allan Kardec, Obra O C\u00e9u e o Inferno - Allan Kardec\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O C\u00e9u e o Inferno - Allan Kardec, Obra, Purgat\u00f3rio, Doutrina, Dem\u00f4nios, Temor, Anjos, Espiritismo, O C\u00e9u e o Inferno - Allan Kardec\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-ceu-e-o-inferno-allan-kardec\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2016-12-28T10:18:06+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2016-12-28T10:18:57+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"254 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-ceu-e-o-inferno-allan-kardec#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-ceu-e-o-inferno-allan-kardec\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"O C\u00e9u e o Inferno &#8211; 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