{"id":90544,"date":"2016-12-26T10:39:54","date_gmt":"2016-12-26T12:39:54","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=90544"},"modified":"2016-12-26T10:39:54","modified_gmt":"2016-12-26T12:39:54","slug":"seculo-xix-afonso-arinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/seculo-xix-afonso-arinos","title":{"rendered":"S\u00e9culo XIX &#8211; Afonso Arinos"},"content":{"rendered":"<h2>Afonso Arinos<\/h2>\n<p>Nos primeiros anos do s\u00e9culo passado d\u00e1-se um fato de capital import\u00e2ncia para o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira. O Brasil, de administra\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, passa a ser sede do Governo; de Col\u00f4nia se transforma em Metr\u00f3pole, entrando de chofre, sem luta, no estado de independ\u00eancia pol\u00edtica. Qualquer cr\u00edtica pessoal que se pretender fazer ao pr\u00edncipe e rei d. Jo\u00e3o perde o interesse, diante da realidade poderosa do movimento progressista que a sua fun\u00e7\u00e3o governativa conduziu, se n\u00e3o mesmo promoveu. A estada da corte no Rio de Janeiro foi a origem de uma transforma\u00e7\u00e3o profunda da civiliza\u00e7\u00e3o do Brasil:<\/p>\n<p>Entre os primeiros atos do pr\u00edncipe, ainda em escala na Bahia, h\u00e1 um de transcendente significa\u00e7\u00e3o, que foi a extin\u00e7\u00e3o do monop\u00f3lio portugu\u00eas sobre o nosso com\u00e9rcio e a abertura dos portos ao tr\u00e1fico internacional. Os desejos da Inglaterra neste sentido, expressos anteriormente visando favorecer a sua exporta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o surtiam efeito. O fechamento dos portos portugueses, com a invas\u00e3o napole\u00f4nica, equivalia a suprimir os entrepostos de onde nos vinham as mercadorias europ\u00e9ias, principalmente brit\u00e2nicas. Era fatal, pois, que o Brasil as viesse receber diretamente. A solu\u00e7\u00e3o foi apressada por Silva Lisboa, esp\u00edrito avan\u00e7ado da \u00e9poca, ledor de Adam Smith e partid\u00e1rio avisado da doutrina do liberalismo econ\u00f4mico. Atitude que, ali\u00e1s, lhe mereceu o p\u00fablico reconhecimento do ingl\u00eas John Mawe. O grande passo legislativo para o progresso material estava dado e vinha se juntar \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias for\u00e7adas da mudan\u00e7a, para o nosso meio, dos mais altos instrumentos administrativos do Reino. Os resultados eram inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Comecemos por onde eles primeiro se fizeram vis\u00edveis: a cidade do Rio de Janeiro. De sede do Vice-Reinado, que j\u00e1 era, passaria a ser em breve a do Brasil-Reino, antes de se transformar em capital do Imp\u00e9rio. A popula\u00e7\u00e3o carioca que, como vimos, no termo do s\u00e9culo XVIII pouco excedia de 40.000 habitantes, menor que a da Bahia, acusava, no recenseamento de 1821 (ano em que d. Jo\u00e3o VI deixa o Brasil), a cifra de mais de 110.000 almas. Quase que triplicou, por conseguinte. Estava definitivamente destronada a antiga capital do norte e n\u00e3o \u00e9 preciso mais nada para marcar, num tra\u00e7o, o que foi para o Rio a presen\u00e7a da corte.<\/p>\n<p>Exemplo vivo do r\u00e1pido crescimento da cidade nos fornece uma p\u00e1gina de Eschwege. Diz o cientista alem\u00e3o que, quando fez a sua primeira viagem a Minas, em 1810, havia entre o Rio e Santa Cruz algumas localidades pequenas, espalhadas \u00e0 beira da estrada. Destas localidades, enumera Mata Porcos e S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. Mas em 1818 (quando publica a narrativa), observa em nota que a estrada tinha mudado muito, desde o tempo da sua primeira excurs\u00e3o. &#8220;Mata Porcos e S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o &#8211; diz Eschwege &#8211; cresceram tanto que formam quase um s\u00f3 correr de casas com a cidade e podem ser considerados como sub\u00farbios do Rio&#8221;. O desenvolvimento da banda sul, nos arrabaldes de Catete, Botafogo e Laranjeiras, \u00e9 consignado por Spix e Martius. As casas da cidade eram quase sempre de pedra, cobertas de telha. As antigas persianas coloniais estavam sendo abolidas e trocadas pelas novas janelas com vidros, embora lentamente. S\u00f3 nisto vai um cap\u00edtulo de hist\u00f3ria social.<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe Maximiliano de Neuwied, chegado ao Rio em 1815, escreve tamb\u00e9m que a cidade mudara muito nos anos anteriores. Quase 20 mil portugueses tinham vindo com o rei e a abertura dos portos facilitava a entrada de s\u00faditos de todas as bandeiras. Ingleses, espanh\u00f3is e italianos eram muito numerosos. Os franceses estavam chegando em quantidade e, em menor n\u00famero, havia tamb\u00e9m holandeses, suecos, dinamarqueses, russos. De tudo isto, afirma o pr\u00edncipe, &#8220;resulta que os costumes do Brasil est\u00e3o sendo alterados pelos da Europa. Melhoramentos de todo g\u00eanero foram introduzidos na capital. Ela perdeu muito da sua antiga originalidade: hoje est\u00e1 mais parecida com as cidades europ\u00e9ias&#8221;. A \u00fanica diferen\u00e7a, nota ainda o nosso ariano, era serem os negros e mulatos em maior n\u00famero que os brancos<\/p>\n<p>Spix e Martius, que aqui aportaram em 1817, fazem a mesma observa\u00e7\u00e3o. A cidade do Rio n\u00e3o parecia capital de um nov\u00edssimo pa\u00eds de apenas tr\u00eas s\u00e9culos. A influ\u00eancia da velha civiliza\u00e7\u00e3o da Europa tinha feito dela uma cidade europ\u00e9ia. &#8220;As l\u00ednguas, os costumes, a constru\u00e7\u00e3o e o ac\u00famulo dos produtos industriais de todas as partes do mundo d\u00e3o ao Rio de Janeiro uma apar\u00eancia europ\u00e9ia&#8221;, anotam os escritores. A \u00fanica coisa estranh\u00e1vel era a negrada e mulatada, vis\u00e3o surpreendente e desagrad\u00e1vel. &#8220;A natureza prim\u00e1ria e baixa dessa gentalha seminua fere o sentimento do europeu&#8221;, ajuntam os perturbados e ilustres viajantes.<\/p>\n<p>P\u00e1gina admir\u00e1vel de compreens\u00e3o e solidariedade humana, a prop\u00f3sito dos escravos pretos, \u00e9 a escrita pelo reverendo Walsh, chegado ao Brasil em 1828, como capel\u00e3o da embaixada de Strangford. Walsh tamb\u00e9m acentua o enorme crescimento do Rio de Janeiro, desde a vinda da corte. Mostra como a velha cidade, cujos limites iam somente da rua Direita ao campo de Santana, se expandia agora at\u00e9 Botafogo, de um lado, e S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o do outro, por v\u00e1rias milhas, o que dava ao conjunto uma \u00e1rea equivalente \u00e0s que tinham as maiores capitais da Europa. Eram incr\u00edveis as transforma\u00e7\u00f5es recentes, presenciadas por muitos que ainda viviam. P\u00e2ntanos aterrados, areais convertidos em bairros residenciais, trilhas silvestres transformadas em ruas bonitas, como a de Matacavalos.<\/p>\n<p>N\u00e3o somente cresceu a cidade como tamb\u00e9m foi provida de edif\u00edcios p\u00fablicos e particulares, dotados de estilo arquitet\u00f4nico mais apurado, gra\u00e7as \u00e0 presen\u00e7a do arquiteto Grandjean de Montigny, elemento integrante da miss\u00e3o art\u00edstica francesa aqui chegada em 1816. Foram planejadas por Montigny, que j\u00e1 tinha certa notoriedade europ\u00e9ia quando aportou no Rio, v\u00e1rias constru\u00e7\u00f5es, das quais infelizmente muito poucas subsistem. Entre elas, o edif\u00edcio da Escola de Belas Artes, inaugurado em 1826, depois Tesouro e recentemente demolido, mas de cuja fachada o S.P.H.A.N. preservou uma bela parte; a primeira e a segunda Pra\u00e7a do Com\u00e9rcio, aquela ainda existente, e a segunda j\u00e1 demolida, que se situava mais ou menos onde hoje se encontra o Banco do Brasil.<\/p>\n<p>Muito maior teria sido a influ\u00eancia do Montigny se n\u00e3o encontrasse o obst\u00e1culo de arraigados preconceitos no povo e na administra\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, \u00e9 indubit\u00e1vel que a miss\u00e3o francesa, contratada para agir num plano cultural muito elevado e num meio que mal sa\u00eda da in\u00e9rcia e do atraso coloniais, era tentativa tempor\u00e3, incapaz de produzir o que dela se chegou a esperar.<\/p>\n<p>N\u00e3o se suponha, tamb\u00e9m, que os melhoramentos introduzidos pela presen\u00e7a da corte tenham modificado profundamente o aspecto geral da cidade, no sentido urban\u00edstico ou mesmo higi\u00eanico. Pode-se dizer que o Rio cresceu muito mais do que melhorou. Alguns edif\u00edcios monumentais, isolados, se constru\u00edram; mas j\u00e1 os havia desde antes, como os conventos e igrejas. E algumas casas particulares modernas e higi\u00eanicas n\u00e3o influ\u00edam no sistema geral de habita\u00e7\u00e3o do povo, que continuava, e cada vez em maior quantidade, a viver acumulado nas alcovas das casinhas t\u00e9rreas, em ruas estreitas e escuras. O cal\u00e7amento era mau, a ilumina\u00e7\u00e3o p\u00e9ssima e o estado sanit\u00e1rio n\u00e3o podia ser bom. Ali\u00e1s o Rio \u00e9, como cidade higi\u00eanica e moderna, uma realiza\u00e7\u00e3o republicana.<\/p>\n<p>Os mesmos Spix e Martius, que comparam a constru\u00e7\u00e3o do Rio com a das cidades do Velho Mundo, s\u00e3o os primeiros a observar que a arquitetura era aqui muito descuidada e que se aproximava da dos velhos quarteir\u00f5es de Lisboa. Observa\u00e7\u00e3o que concorda com outra de Walsh. Aqui e ali se derrubavam abas de morros, fazendo-as saltar com explos\u00f5es de p\u00f3lvora, para alinhar e arranjar ruas. Mas pensamos que a verdadeira defini\u00e7\u00e3o para o Rio do Brasil-Reino \u00e9 a que acima demora: uma cidade que cresceu muito e progrediu pouco.<\/p>\n<p>O arejamento da mentalidade colonial \u00e9 que se tornou inevit\u00e1vel. Aberto o interior \u00e0 visita de comerciantes e cientistas estrangeiros, coisa que antes n\u00e3o se dava, a curiosidade europ\u00e9ia pelo Brasil p\u00f4de se satisfazer na leitura de observa\u00e7\u00f5es outras que n\u00e3o as de apressados viajantes que n\u00e3o transpunham a f\u00edmibria do litoral.<\/p>\n<p>Ingleses como Mawe, Luccock ou Koster; franceses como Saint-Hilaire ou Tollenare; germ\u00e2nicos como Eschwege, o pr\u00edncipe Maximiliano, Spix, Martius e Pohl viajaram pelo Brasil antes da independ\u00eancia e publicaram livros (alguns sa\u00eddos um pouco mais tarde) que despertaram curiosidade pelo reino americano. Tamb\u00e9m muito contribuiu para o conhecimento do Brasil o corpo diplom\u00e1tico estrangeiro, que aqui se fixou com a corte. Para termos id\u00e9ia do interesse europeu, basta lembrar a frase de Maximiliano de Neuwied, cujo livro \u00e9 de 1821, que diz ser desnecess\u00e1rio fazer uma descri\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, t\u00e3o freq\u00fcentes tinham sido elas nos \u00faltimos tempos. Naturalmente, a evolu\u00e7\u00e3o do modo colonial de pensar e de sentir resultou da vinda da corte, mas num pa\u00eds da vastid\u00e3o do Brasil as suas conseq\u00fc\u00eancias n\u00e3o podiam ser r\u00e1pidas. Num ligeiro passar de olhos, veremos que o Brasil da Independ\u00eancia, do ponto de vista da civiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o diferiu muito do Brasil do fim do s\u00e9culo XVIII, com exce\u00e7\u00e3o, est\u00e1 claro, da cidade do Rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Afonso Arinos Nos primeiros anos do s\u00e9culo passado d\u00e1-se um fato de capital import\u00e2ncia para o desenvolvimento da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira. 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