{"id":90536,"date":"2016-12-26T10:19:30","date_gmt":"2016-12-26T12:19:30","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=90536"},"modified":"2016-12-26T10:20:57","modified_gmt":"2016-12-26T12:20:57","slug":"discurso-de-posse-afonso-arinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/discurso-de-posse-afonso-arinos","title":{"rendered":"Discurso de Posse &#8211; Afonso Arinos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#1\">OS ANTECESSORES<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a href=\"#2\">JOS\u00c9 LINS DO R\u00caGO,<br \/>\nO HOMEM E O ESCRITOR<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: medium;\"><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#3\"><span style=\"font-size: small;\">AUTONOMIA E SUBORDINA\u00c7\u00c3O<br \/>\nDA CR\u00cdTICA<\/span><\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: medium;\"><a class=\"links\" href=\"#4\"><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\nPRESEN\u00c7A DO SOCIAL<\/span><\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\">\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a class=\"links\" href=\"#5\">O REGIONAL<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"font-size: small;\"><a class=\"links\" href=\"#6\"> FONTES DE INSPIRA\u00c7\u00c3O<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Chego ao vosso honroso conv\u00edvio, senhores acad\u00eamicos, a uma<br \/>\naltura da exist\u00eancia em que, do cimo consagrador desta tribuna, o olhar<br \/>\natinge um trecho de caminho percorrido que j\u00e1 \u00e9 bem maior do<br \/>\nque a parte incerta que resta a percorrer.<\/p>\n<p>Se me n\u00e3o apressei em solicitar o pr\u00eamio do vosso acolhimento<br \/>\nfoi porque, apesar dos est\u00edmulos generosos de tantos de v\u00f3s,<br \/>\nque conto, para ventura minha, entre os mais caros amigos que possuo, hesitava<br \/>\nem competir com outros escritores que considerava mais dignos da investidura.<\/p>\n<p>Duas raz\u00f5es me impeliam a essa certeza: a seguran\u00e7a da obscuridade<br \/>\nda minha consci\u00eancia de que as conting\u00eancias da vida me haviam<br \/>\narrastado, nos \u00faltimos anos, a um campo de atividades muito mais pr\u00f3ximo<br \/>\nda esplanada dos com\u00edcios do que dos jardins de Academo.<\/p>\n<p>Cogitava que o momento de pedir a vossa hospitalidade seria aquele em que<br \/>\nos frutos da minha pobre colheita pudessem compensar a fragr\u00e2ncia com<br \/>\na abund\u00e2ncia, demonstrando-vos, e, sobretudo a mim mesmo, a autenticidade<br \/>\nde uma voca\u00e7\u00e3o humilde, que resiste tenazmente aos impulsos<br \/>\ndispersivos das lutas e cuidados que enchem o meu viver.<\/p>\n<p>De velhos sangues provinciais herdei, com efeito, o duplo destino da pol\u00edtica<br \/>\ne das letras. N\u00e3o o escolhi, sen\u00e3o que o encontrei aberto diante<br \/>\nde mim. Irm\u00e3o, filho, neto e descendente ainda mais long\u00ednquo<br \/>\nde homens que passaram das tribunas e, \u00e0s vezes, das pris\u00f5es<br \/>\npol\u00edticas para as reuni\u00f5es liter\u00e1rias, bebi, desde onde<br \/>\nalcan\u00e7a a minha mem\u00f3ria, o leite da literatura e da pol\u00edtica.<br \/>\nN\u00e3o consigo rememorar conversas caseiras que n\u00e3o versassem livros<br \/>\ne autores, elei\u00e7\u00f5es e revoltas. Espantei-me profundamente, nos<br \/>\nmeus dez anos, quando em S\u00e3o Paulo, hospedado na ch\u00e1cara do<br \/>\nConselheiro Ant\u00f4nio Prado, ouvi ali homens sisudos e instru\u00eddos<br \/>\nfalando de coisas fr\u00edvolas: dinheiro, companhias, f\u00e1bricas,<br \/>\nplanta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As casas-grandes de Belo Horizonte e de Copacabana, onde nasci e me criei,<br \/>\nreproduziam, em pequeno, o agitado ambiente das C\u00e2maras legislativas<br \/>\ne das associa\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. Nas salas do av\u00f4<br \/>\nou do pai discutia-se pol\u00edtica, sob o olhar experiente dos velhos retratos<br \/>\nde fam\u00edlia. Nos quartos dos irm\u00e3os era literatura que se debatia,<br \/>\nentre ef\u00edgies de Verlaine, Voltaire, Beethoven e E\u00e7a de Queir\u00f3s.<br \/>\nMenino de cal\u00e7as curtas, fui levado por meu pai, mais de uma vez, \u00e0<br \/>\nCadeia Velha, de cujo ambiente ainda relembro os corredores, os tapetes, os<br \/>\nreposteiros, os homens graves de fraque, cochichando refestelados nas poltronas,<br \/>\nentre a fuma\u00e7a dos charutos. Mas menino, tamb\u00e9m, e bem pequeno,<br \/>\nlevou-me meu pai, em Paris, a ver o seu amigo Raimundo Correia, que se acabava<br \/>\nnum leito de hotel ou de hospital. Fez-me sentar \u00e0 beira da cama do<br \/>\npoeta, e eu olhava transido o homem que meu pai me dizia grande, mas que eu<br \/>\ns\u00f3 via barbado, esqu\u00e1lido, queixando-se ao amigo de suores e<br \/>\ncoceiras por todo o corpo.<\/p>\n<p>N\u00e3o forcei, assim, o meu destino, nem o conquistei: cumpri-o; mediocremente,<br \/>\n\u00e9 certo, mas com naturalidade. \u00c9, portanto, sem surpresa, embora<br \/>\ncom profundo reconhecimento, que, de agora em diante, passarei a repartir<br \/>\na vida entre a minha casa e as outras casas que s\u00e3o hoje tamb\u00e9m<br \/>\num pouco minhas, aquela a que me levou o povo de Minas Gerais, a outra, onde<br \/>\nentro em contacto com colegas e alunos, e esta, onde neste momento falo, senhores<br \/>\nacad\u00eamicos, trazido pela m\u00e3o encorajadora da vossa generosidade.<\/p>\n<p>Desejo, assim, ao transpor o p\u00f3rtico, saudar-vos como o mais obscuro<br \/>\ndos confrades e o mais atento dos companheiros. Nosso conv\u00edvio ser\u00e1,<br \/>\nespero em Deus, longo, e tudo farei para imitar-vos, a fim de que, por falta<br \/>\nminha, ele n\u00e3o seja menos fecundo. Tanto aos que sufragaram o meu nome<br \/>\ncomo aos que preferiram o do meu ilustre competidor endere\u00e7o a minha<br \/>\ngratid\u00e3o; aos primeiros especialmente, \u00e9 claro, pela honra insigne<br \/>\nque me conferiram, aos segundos pela homenagem que prestaram a uma grande<br \/>\nfigura das letras nacionais.<\/p>\n<p>Agradecido me confesso, tamb\u00e9m, aos amigos que, dentro e fora da Academia,<br \/>\nme ajudaram a ser, nas letras, o pouco que sou. Os vivos n\u00e3o mencionarei<br \/>\npor discri\u00e7\u00e3o. Ou melhor, reunirei todos os nomes em um \u00fanico,<br \/>\no de Ribeiro Couto, que, pela longa conviv\u00eancia liter\u00e1ria e pela<br \/>\nbondade com que me induziu a candidatar-me, \u00e9 grandemente respons\u00e1vel<br \/>\npela minha presen\u00e7a entre v\u00f3s. Falarei agora dos mortos: de<br \/>\nmeu pai, que foi para mim, cedo privado dos carinhos matemos, ao mesmo tempo<br \/>\npai e m\u00e3e; do primeiro Afonso Arinos, dos meus irm\u00e3os e Virg\u00edlio,<br \/>\naos quais evoco nesta hora, n\u00e3o cedendo ao apelo das afei\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00edntimas, mas no imperativo reconhecimento de influ\u00eancias determinantes<br \/>\nda minha vida. Ardu\u00edno Bolivar, Jo\u00e3o Ribeiro, M\u00e1rio de<br \/>\nAlencar, Azevedo Amaral, Gra\u00e7a Aranha, Paulo Prado, Ronald de Carvalho,<br \/>\nTrist\u00e3o da Cunha, Raul de Leoni, M\u00e1rio de Andrade, Rodolfo Garcia,<br \/>\nLu\u00eds Camilo, Jo\u00e3o Alphonsus, Francesco Bianco, Georges Bernanos,<br \/>\nAfonso Taunay, eis alguns mortos a quem fiquei devendo, tamb\u00e9m, pelo<br \/>\nconv\u00edvio, muito da minha forma\u00e7\u00e3o intelectual.<\/p>\n<p>Permiti que termine esta parte levantando o v\u00e9u do recato dom\u00e9stico.<br \/>\nAos meus caros irm\u00e3os e irm\u00e3s, aos meus filhos queridos, agrade\u00e7o<br \/>\ntudo o que por mim fazem e tudo o que s\u00e3o para mim. E \u00e9 a Deus<br \/>\nque humildemente agrade\u00e7o ter-me permitido encontrar a companheira<br \/>\nda minha vida.<\/p>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>OS ANTECESSORES<\/h4>\n<p>Senhores acad\u00eamicos, sucedendo a Jos\u00e9 Lins do Rego, cabe-me<br \/>\nseguir uma linhagem inaugurada por Franklin D\u00f3ria sob os ausp\u00edcios<br \/>\nde Junqueira Freire.<\/p>\n<p>No poeta baiano a biografia \u00e9 bem mais importante do que a obra, se<br \/>\nbem que esta deva ser considerada no primeiro plano da nossa escola rom\u00e2ntica.<br \/>\nTive sob os olhos os manuscritos de Junqueira Freire, legados ao arquivo desta<br \/>\ncasa pelo Bar\u00e3o de Loreto. Pude, assim, ler na letra nervosa do autor,<br \/>\nainda c\u00e1lidos pelo contacto da m\u00e3o doentia que os tra\u00e7ou,<br \/>\nos versos do estranho monge, ang\u00e9lico e sacr\u00edlego. Grande parte<br \/>\nda obra de Junqueira Freire se acha in\u00e9dita, como consigna, ali\u00e1s,<br \/>\nHomero Pires, em livro escrito h\u00e1 trinta anos e que \u00e9, ainda,<br \/>\no melhor trabalho existente sobre o poeta.<\/p>\n<p>&#8220;Musa torva e extravagante&#8221;, chamou Raimundo Correia \u00e0 de<br \/>\nJunqueira Freire. Nem sempre&#8230; \u00c0s vezes, das sombras do claustro,<br \/>\nsurge-nos a sua poesia nobre e bela, vestida na t\u00fanica da simplicidade<br \/>\nsolene com que os estatu\u00e1rios antigos cobriam as formas quase voluptuosas<br \/>\nda morte.<\/p>\n<p>Penso que a Academia deve organizar uma edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica<br \/>\ncompleta dos escritos public\u00e1veis de Junqueira Freire, incluindo os<br \/>\nestudos filos\u00f3ficos e os ensaios teatrais inacabados, e exclu\u00edda,<br \/>\nou constituindo tiragem fora do com\u00e9rcio, a er\u00f3tica. Assim,<br \/>\nal\u00e9m de um ju\u00edzo seguro sobre o valor liter\u00e1rio de uma<br \/>\npoesia t\u00e3o louvada pelos contempor\u00e2neos qu\u00e3o ignorada<br \/>\npelos p\u00f3steros, ter\u00edamos a imagem exata daquela alma atormentada,<br \/>\ndaquele monge sensual, m\u00edstico e doentio, voltairiano e devoto, cujas<br \/>\nascens\u00f5es espirituais e deca\u00eddas morais eram o resultado do<br \/>\ndesajustamento de uma cultura liter\u00e1ria moderna e livre, em choque<br \/>\ncom a religiosidade atrasada e os preconceitos sociais de um meio ainda preso<br \/>\nao obscurantismo da Col\u00f4nia.<\/p>\n<p>De Franklin D\u00f3ria, Bar\u00e3o de Loreto, a imagem mais pr\u00f3xima<br \/>\nque me acode \u00e9 a da esposa, a Baronesa, que encontrei umas duas vezes<br \/>\nem casa de um velho amigo enfermo. Viva e dada, era a Baronesa o tipo da dama<br \/>\nantiga brasileira, ao mesmo tempo familiar e senhoril.<\/p>\n<p>O Bar\u00e3o de Loreto, fundador dia Academia, escolheu o seu amigo Junqueira<br \/>\nFreire, pouco mais velho do que ele, para patrono da cadeira que hoje passo<br \/>\na ocupar. E um dos primeiros escritos sobre o autor das Inspira\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Claustro foi o que Franklin D\u00f3ria lhe dedicou alguns anos depois<br \/>\nda morte do poeta. \u00c9 um estudo mais biogr\u00e1fico, embora contenha<br \/>\naprecia\u00e7\u00f5es cr\u00edticas ao jeito da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Quanto aos versos de Franklin D\u00f3ria, reunidos no espesso volume dos<br \/>\nEnlevos, publicado em 1959, sendo o autor estudante no Recife, est\u00e3o<br \/>\nlonge da forte delicadeza de Casimiro, da riqueza e perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Gon\u00e7alves Dias ou do estro soberano de Castro Alves. Hoje lemos<br \/>\nmais como document\u00e1rios da \u00e9poca os poemas sobre o 2 de Julho,<br \/>\nou em louvor de Junqueira Freire e de Jo\u00e3o Caetano, recitado este no<br \/>\nTeatro Santa Isabel, do Recife, em cena aberta, na presen\u00e7a do ator<br \/>\nhomenageado. Talvez as melhores pe\u00e7as do volume sejam as evoca\u00e7\u00f5es<br \/>\nbuc\u00f3licas da ilha dos Frades, no rec\u00f4ncavo baiano, onde o poeta<br \/>\nnasceu e passou a inf\u00e2ncia. S\u00e3o p\u00e1ginas meio arc\u00e1dicas<br \/>\ne meio rom\u00e2nticas, n\u00e3o destitu\u00eddas de gra\u00e7a e frescura,<br \/>\nprincipalmente a poesia dedicada a relembrar a capelinha familiar, erigida<br \/>\nsob a invoca\u00e7\u00e3o de N.S. do Loreto, nome que o poeta adotou para<br \/>\nseu t\u00edtulo nobili\u00e1rquico.<\/p>\n<p>Um ano antes de Franklin D\u00f3ria publicar, no Recife, os Enlevos, nascia,<br \/>\nna capital pernambucana, Artur OrIando, que veio suced\u00ea-lo na Academia.<br \/>\nArtur Orlando aqui chegou beirando o meio s\u00e9culo de vida, quando sua<br \/>\nobra de pensador e homem p\u00fablico j\u00e1 se impusera aos meios cultos<br \/>\ndo pa\u00eds.<\/p>\n<p>Pertenceu ele \u00e0 gera\u00e7\u00e3o de S\u00edlvio Romero e, de<br \/>\ncerta maneira, \u00e0 escola nordestina que o ilustre sergipano chefiava,<br \/>\ncomo uma esp\u00e9cie de herdeiro do seu patr\u00edcio Tobias Barreto.<br \/>\nEscrevendo sobre a obra do malogrado Tito L\u00edvio de Castro, que era<br \/>\nalguns anos mais mo\u00e7o do que Artur OrIando, S\u00edlvio Romero alude<br \/>\n\u00e0 prefer\u00eancia dessa gera\u00e7\u00e3o para os estudos sociais<br \/>\ns\u00e9rios. Realmente, em S\u00edlvio, como em Artur OrIando ou Tito<br \/>\nL\u00edvio, que escreveram em fins do Imp\u00e9rio e come\u00e7os da<br \/>\nRep\u00fablica, \u00e9 marcante a preocupa\u00e7\u00e3o pelas ci\u00eancias<br \/>\nsociais, com abandono da fic\u00e7\u00e3o, da poesia e do teatro. Na literatura,<br \/>\napenas a cr\u00edtica os atraiu realmente, e isto \u00e9 bastante sintom\u00e1tico<br \/>\ncomo disposi\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>No livro Proped\u00eautica Pol\u00edtico-Jur\u00eddica (1904), que n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia do Direito, como<br \/>\no t\u00edtulo parece insinuar, Artur OrIando re\u00fane ensaios eruditos<br \/>\ne, naquela \u00e9poca, modernos, sobre Filosofia do Direito, Sociologia<br \/>\ne Hist\u00f3ria. Seu fim declarado era a reforma do ensino jur\u00eddico,<br \/>\nhoje talvez ainda mais necess\u00e1ria do que ent\u00e3o. Outros estudos<br \/>\ndo mesmo g\u00eanero, versando mat\u00e9ria filos\u00f3fica, etnol\u00f3gica,<br \/>\njur\u00eddica e de ci\u00eancia natural, mais do que literatura \u2013<br \/>\nembora haja cap\u00edtulos de cr\u00edtica liter\u00e1ria \u2013, foram<br \/>\ncolecionados nos Ensaios de Cr\u00edtica (1904) e nos Novos Ensaios (1905).<br \/>\nO Direito e a pol\u00edtica internacionais s\u00e3o as teses do Pan-americanismo,<br \/>\npublicado em 1906. Como se v\u00ea, a linha da Escola do Recife, marcada<br \/>\npor Tobias e continuada por S\u00edlvio Romero, chegava, com os naturais<br \/>\ndesvios devidos \u00e0s prefer\u00eancias de gosto, \u00e9poca e forma\u00e7\u00e3o,<br \/>\nat\u00e9 Artur OrIando, que pode ser considerado o seu ep\u00edgono.<\/p>\n<p>Em 1916, sucede ao pernambucano o fluminense Ataulfo de Paiva.<\/p>\n<p>Aqueles que, como n\u00f3s, viveram quase toda a vida no Rio, guardam simp\u00e1tica<br \/>\nvis\u00e3o do homem que foi das figuras queridas da sociedade carioca durante<br \/>\nmais de meio s\u00e9culo. Ataulfo era, sem d\u00favida uma personagem<br \/>\nliter\u00e1ria e n\u00e3o um autor. Austreg\u00e9silo de Athayde, nesse<br \/>\naspecto, definiu-o em frase mais sutil do que bondosa. Desde menino me habituei<br \/>\na v\u00ea-lo e a ouvir falar a seu respeito. Como diz Bandeira da casa do<br \/>\nav\u00f4, nunca pensei que Ataulfo acabasse. Contou-me certa vez que, em<br \/>\nmo\u00e7o, vinha a cavalo para a cidade e amarrava o animal, se n\u00e3o<br \/>\nestou enganado, pelas cercanias do desaparecido Teatro L\u00edrico. Depois,<br \/>\nera no chamado &#8220;bonde de ceroulas&#8221; que se transportava para as noites<br \/>\nda \u00d3pera. Eu j\u00e1 o conheci mais tarde, nos ser\u00f5es de dona<br \/>\nLaurinda, no ambiente ao mesmo tempo diplom\u00e1tico-internacional e brasileiro-patriarcal<br \/>\nde Santa Teresa, ao qual meu pai me arrastou algumas vezes, adolescente constrangido.<br \/>\nEra de ver-se como se emoldurava bem Ataulfo naquele cen\u00e1rio de fim<br \/>\nde \u00e9poca, cen\u00e1rio que conservava tanto da rever\u00eancia e<br \/>\ndas boas maneiras dos sal\u00f5es imperiais.<\/p>\n<p>A moeda de troca intelectual era ainda o franc\u00eas \u2013 e n\u00e3o<br \/>\no ingl\u00eas cinematogr\u00e1fico e comercial de hoje. Os potins floriam<br \/>\nnas conversas como as catl\u00e9ias nos vasos, conversas delicadas, de encoberta<br \/>\nmal\u00edcia, de infatig\u00e1vel polidez, t\u00e3o distante do canhestro<br \/>\n&#8220;disse-me disse&#8221; que hoje se exibe, sem m\u00e1scara, nas letras<br \/>\nralas do notici\u00e1rio mundano.<\/p>\n<p>N\u00e3o se interprete estas palavras como as de um saudosista, que n\u00e3o<br \/>\nsou. Amo o meu tempo, que \u00e9 o da ascens\u00e3o das novas classes<br \/>\ne, conseq\u00fcentemente, da cria\u00e7\u00e3o de novas \u00e9lites.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o me impede de acentuar a finura ou a gra\u00e7a de certos<br \/>\nh\u00e1bitos estimados e praticados pelas \u00e9lites desaparecidas. Ao<br \/>\nfaz\u00ea-lo estou, apenas, recordando aspectos do tempo carioca que coincidiu<br \/>\ncom o fast\u00edgio social de Ataulfo de Paiva, tempo que ainda entrevi<br \/>\nnos seus derradeiros bruxuleios, semelhantes \u00e0 chama inquieta da lareira<br \/>\nque esplende s\u00fabito no momento de se extinguir.<\/p>\n<p>Na mem\u00f3ria de Ataulfo, devemos homenagear algumas das melhores virtudes<br \/>\nda defunta sociedade da primeira Rep\u00fablica: as virtudes de honradez<br \/>\npessoal e funcional, de intensa e diligente solidariedade humana, do apego<br \/>\n\u00e0s boas tradi\u00e7\u00f5es brasileiras, e, finalmente, do tacto<br \/>\ne da cortesia que davam encanto \u00e0 vida.<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a>JOS\u00c9 LINS DO R\u00caGO, O HOMEM E O ESCRITOR<\/h4>\n<p>Por um desses contrastes comuns no funcionamento das associa\u00e7\u00f5es<br \/>\ncomo a nossa, um, expoente social como Ataulfo de Paiva foi sucedido, por<br \/>\nalgu\u00e9m que era, de certa forma, a sua contradi\u00e7\u00e3o viva;<br \/>\npor um poderoso escritor, para quem a sociedade nunca foi outra coisa sen\u00e3o<br \/>\na massa d\u00f3cil em que as suas m\u00e3os robustas iriam modelar vastos<br \/>\ne sofridos relevos humanos.<\/p>\n<p>Na nossa gera\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m foi mais totalmente escritor<br \/>\ndo que Jos\u00e9 Lins do Rego. Quem o visse, sedento de vida, interessado<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 paix\u00e3o pelas manifesta\u00e7\u00f5es fugazes<br \/>\ne \u00e0s vezes mi\u00fadas do quotidiano, poder-se-ia iludir sobre a<br \/>\n\u00edntima natureza do seu esp\u00edrito e consider\u00e1-lo um simples<br \/>\ntranseunte da exist\u00eancia, amoroso das formas, degustador de emo\u00e7\u00f5es<br \/>\ne sensa\u00e7\u00f5es. A verdade era, por\u00e9m, muito outra. O impulso<br \/>\nprofundo que o tornava participante de tantas manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nde vida. traduzia, apenas, a necessidade de uma acumula\u00e7\u00e3o cont\u00ednua<br \/>\nde experi\u00eancias. E essas experi\u00eancias vitais serviam para enriquecer-lhe<br \/>\no conhecimento da realidade que, transubstanciada pelo mist\u00e9rio da<br \/>\ncria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, se fixava nas situa\u00e7\u00f5es,<br \/>\npaisagens e tipos dos seus romances.<\/p>\n<p>Havia qualquer coisa de rabelaisiano na maneira pela qual a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria em Jos\u00e9 Lins do Rego se abeberava diretamente nas<br \/>\nfontes mais genu\u00ednas da vida. E o fazia da \u00fanica maneira poss\u00edvel,<br \/>\ndentro do quadro indicado, que era o da experi\u00eancia pessoal. Este processo<br \/>\nde cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria era nele t\u00e3o profundo e natural<br \/>\nque se desenvolvia sem vir \u00e0 tona da consci\u00eancia. Era convicto<br \/>\nque Jos\u00e9 Lins do Rego afirmava ser um homem mais da vida do que dos<br \/>\nlivros, quando a verdade \u00e9 que ele s\u00f3 vivia intensamente para<br \/>\ntransformar, para fixar a vida nos livros. Esta era a sua for\u00e7a, e<br \/>\neste o destino que Deus lhe reservou. Seus sentimentos, paix\u00f5es, gostos,<br \/>\nambi\u00e7\u00f5es e s\u00fabitos terrores eram os de um homem, mas,<br \/>\ntamb\u00e9m, nunca deixavam de ser os de um escritor, e como escritor os<br \/>\nvivia e sofria.<\/p>\n<p>Esta verdade, que \u00e9 geral, mais clara se torna quando a particularizamos<br \/>\nno terreno das ambi\u00e7\u00f5es. Posi\u00e7\u00e3o, prest\u00edgio,<br \/>\ndinheiro n\u00e3o interessavam a Jos\u00e9 Lins do Rego sen\u00e3o na<br \/>\nmedida em que servissem ao seu destino de escritor. Em mat\u00e9ria de poder,<br \/>\nde honrarias e de bens ele n\u00e3o era um desprendido, mas um distra\u00eddo.<br \/>\nSem recusar as vantagens sociais por que tantos se matam, n\u00e3o era ele<br \/>\ncapaz de se aperceber dos aspectos mais agrad\u00e1veis da vida que n\u00e3o<br \/>\nfossem suscet\u00edveis de conduzir \u00e0 cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<br \/>\nN\u00e3o se confunda, ali\u00e1s, este tra\u00e7o psicol\u00f3gico<br \/>\ncom a simples rusticidade sertaneja, de que Jos\u00e9 Lins nunca se desprendeu.<br \/>\nO que havia nele era a entrega de todo o ser a uma voca\u00e7\u00e3o dominadora,<br \/>\na voca\u00e7\u00e3o do escritor. De resto, o que estou aqui dizendo ro\u00e7a<br \/>\npela banalidade, pois se aplica a todos os tipos de voca\u00e7\u00e3o<br \/>\nabsorvente, espiritual, intelectual ou profissional. Mas h\u00e1 banalidades<br \/>\nque devem ser ditas e repetidas no estudo das personalidades humanas, pois<br \/>\nelas s\u00e3o indispens\u00e1veis \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos caracteres.<\/p>\n<p>Colocada a quest\u00e3o nestes termos, poderemos integrar harmoniosamente<br \/>\no homem e o escritor Jos\u00e9 Lins do Rego penetrando a contradi\u00e7\u00e3o<br \/>\nque havia entre o otimismo sadio e desbordante da vida de um e o pessimismo<br \/>\nsombrio e tantas vezes tr\u00e1gico da obra do outro.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a contradi\u00e7\u00e3o estava nele mesmo, no homem, e<br \/>\nse revelava a quem o observasse atentamente. O seu otimismo, sem ser fingido,<br \/>\nera falso. Mantinha-se gra\u00e7as ao esfor\u00e7o da tens\u00e3o nervosa,<br \/>\nnecess\u00e1rio \u00e0 capta\u00e7\u00e3o das impress\u00f5es ambientes,<br \/>\nmaterial de que se nutria a imagina\u00e7\u00e3o do romancista. Mas, de<br \/>\nrepente, o falso otimismo esboroava-se em crises de melancolia e depress\u00e3o.<\/p>\n<p>A sua sa\u00fade tremenda de glut\u00e3o agitado sombreava-se, de vez<br \/>\nem quando, com temores inopinados: \u2013 o medo de doen\u00e7a, o medo<br \/>\nda morte. E o seu prematuro e absurdo fim demonstrou com que acerto a fina<br \/>\nsensibilidade lhe denunciava as frinchas daquela aparente fortaleza.<\/p>\n<p>R\u00fastico nos h\u00e1bitos e no conv\u00edvio, chocava-se externamente<br \/>\ncom os requintes da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira e europ\u00e9ia,<br \/>\nem cujo meio viveu durante tantos anos. Mas o choque era s\u00f3 externo,<br \/>\nporque, internamente, ele era n\u00e3o propriamente sutil, mas extremamente<br \/>\nsens\u00edvel; sens\u00edvel pelo gosto e pela intelig\u00eancia, capaz,<br \/>\nportanto, de receber e assimilar, no esp\u00edrito, as riquezas da Hist\u00f3ria,<br \/>\nda Literatura e das Artes pl\u00e1sticas, que t\u00e3o distantes poderiam<br \/>\nparecer da sua rude forma\u00e7\u00e3o infantil e adolescente. Este enriquecimento<br \/>\nconstante da experi\u00eancia cultural, captada por uma sensibilidade sempre<br \/>\nalerta e emotiva, vinha se transformar na cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria,<br \/>\nque exprimia, contudo, outros ambientes e paix\u00f5es; outra realidade.<br \/>\nO homem adulto, instru\u00eddo e viajado, utilizava os materiais da cultura<br \/>\npara aplic\u00e1-los na reconstru\u00e7\u00e3o de um mundo perdido e,<br \/>\nno entanto, real: o seu mundo terno e b\u00e1rbaro de menino de engenho.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio identifica, com sagacidade, este fen\u00f4meno, em p\u00e1gina<br \/>\nde um dos livros que publicou com impress\u00f5es de viagens. Escreve, dizendo<br \/>\nadeus \u00e0 Fran\u00e7a: &#8220;Vi terras do sul, o mar Mediterr\u00e2neo,<br \/>\no mar da Hist\u00f3ria, o mar dos gregos, dos eg\u00edpcios, dos fen\u00edcios,<br \/>\ndos romanos. Mas o nordestino tinha que voltar \u00e0 sua realidade&#8230; Desde<br \/>\nlogo tudo o que vi e senti se refugia no fundo da sensibilidade, para que<br \/>\na narrativa corra, como em leito de rio que a estiagem secara, mas que as<br \/>\n\u00e1guas novas enchem, outra vez, de correntezas&#8230; Adeus, doce Fran\u00e7a.<br \/>\nAgora os espinhos me arranham o corpo e as tristezas me cortam a alma&#8221;.<\/p>\n<p>Eis por que as contradi\u00e7\u00f5es do homem se fundiam na riqueza<br \/>\ncomplexa do escritor. Assim como os requintes da cultura eram subst\u00e2ncia<br \/>\nque ele transformava no mundo quase primitivo que fez ressurgir da mem\u00f3ria,<br \/>\ne que durar\u00e1 tanto quanto durar a literatura brasileira, assim tamb\u00e9m<br \/>\nera na \u00e2nsia de viver que ele colhia a inspira\u00e7\u00e3o para<br \/>\nexprimir, para marcar, na sua obra, a inanidade e a falta de sentido da vida<br \/>\na marcha incessante e fatal de toda esp\u00e9cie de vida para a nega\u00e7\u00e3o,<br \/>\na gratuidade e o nada.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desta impress\u00e3o geral de negativismo e amargura, a sua<br \/>\nobra possui, \u00e9 claro, em aspectos mais particulares, outra significa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque precisa ser reavaliada pela cr\u00edtica.<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a>AUTONOMIA E SUBORDINA\u00c7\u00c3O DA CR\u00cdTICA<\/h4>\n<p>Muito se escreveu sobre os romances de Jos\u00e9 Lins do Rego. \u00c9<br \/>\nprov\u00e1vel, mesmo, que nenhum outro escritor contempor\u00e2neo tenha<br \/>\nsido mais estudado e discutido. Isso n\u00e3o impede que, periodicamente,<br \/>\nse proceda a uma revis\u00e3o dos julgamentos sobre o conjunto dos seus<br \/>\nescritos, j\u00e1 agora, infelizmente, fixado para sempre pela morte.<\/p>\n<p>Quando relemos os estudos cr\u00edticos \u2013 mesmo os mais felizes e<br \/>\nbrilhantes \u2013 publicados sobre os livros de Jos\u00e9 Lins do Rego,<br \/>\n\u00e0 medida que estes apareciam, observamos que quase todos eles se desatualizaram.<br \/>\nEste fato, ali\u00e1s, ocorre habitualmente com a cr\u00edtica jornal\u00edstica,<br \/>\nque \u00e9, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, obra de circunst\u00e2ncia.<br \/>\nA critica s\u00f3 permanece viva e fresca quando \u00e9, ela pr\u00f3pria,<br \/>\numa cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria aut\u00f4noma, independente da<br \/>\nobra que se prop\u00f4s analisar. Nestes casos a obra criticada serve de<br \/>\nmotivo \u00e0 critica, mas n\u00e3o a domina nem a esgota. Serve de motivo<br \/>\ncomo a paisagem \u00e0 descri\u00e7\u00e3o, como a paix\u00e3o ou<br \/>\na emo\u00e7\u00e3o \u00e0 an\u00e1lise psicol\u00f3gica, como a<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica \u00e0 cena teatral, como o tema<br \/>\nao romance. A autonomia do g\u00eanero liter\u00e1rio consiste, precisamente,<br \/>\nna capacidade de insuflar vida pr\u00f3pria \u00e0 composi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nfazendo com que ela exista literariamente por si, tornando-se independente<br \/>\ndo seu motivo determinante. Sem esta autonomia a cr\u00edtica n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 g\u00eanero liter\u00e1rio, n\u00e3o vive, e a sua condena\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 morte fica patenteada pelo envelhecimento progressivo que a p\u00f5e<br \/>\nem contraste com a perene juventude da obra sobre que versou. Quando viva,<br \/>\na cr&amp;iaciacute;tica chega a conhecer, \u00e0s vezes, um destino maior do que<br \/>\no da obra criticada, e, ent\u00e3o vemos como ela permanece atual, colorida<br \/>\ne poderosa, enquanto a outra se esfuma num relativo esquecimento. O exemplo<br \/>\ncl\u00e1ssico desta situa\u00e7\u00e3o pode ser encontrado nas p\u00e1ginas<br \/>\nde cr\u00edtica que Boswell dedicou, na trama cerrada do seu livro, \u00e0<br \/>\nobra do dr. Johnson.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica existente sobre a obra de Jos\u00e9 Lins do Rego, quase<br \/>\nsempre feita na forma de revista jornal\u00edstica e de aprecia\u00e7\u00e3o<br \/>\nimpressionista, hoje nos parece, como j\u00e1 disse, na sua maior parte,<br \/>\ninatual, exatamente porque n\u00e3o adquiriu quase nunca a autonomia liter\u00e1ria<br \/>\nindispens\u00e1vel, ficando, via de regra, presa ao valor e ao significado<br \/>\nimediatos que os livros apresentavam, ou pareciam apresentar, no momento em<br \/>\nque vinham a p\u00fablico.<\/p>\n<p>Se acompanharmos as datas das primeiras edi\u00e7\u00f5es dos romances<br \/>\nde Jos\u00e9 Lins do Rego, penetramos melhor o sentido dos principais artigos<br \/>\nque sobre eles escreviam os nossos mais reputados cr\u00edticos. E, hoje,<br \/>\nnos parece que o tratamento cr\u00edtico dos romances estava, talvez, mais<br \/>\nsubordinado aos valores gerais extraliter\u00e1rios vigentes na data dos<br \/>\nlivros do que, propriamente, ao conte\u00fado liter\u00e1rio destes. Por<br \/>\nisto a cr\u00edtica quase toda se desatualizou, enquanto o que havia de<br \/>\nsubstancial na obra liter\u00e1ria permaneceu vivo e raramente coincide<br \/>\ncom o que era posto em relevo pelos cr\u00edticos.<\/p>\n<h4><a name=\"4\"><\/a>PRESEN\u00c7A DO SOCIAL<\/h4>\n<p>Uma das id\u00e9ias dominantes na fase em que iam sendo publicados os romances<br \/>\nde Jos\u00e9 Lins do Rego, chamados do ciclo da cana-de-a\u00e7\u00facar,<br \/>\nera a de que eles se destinavam a descrever e a interpretar a desagrega\u00e7\u00e3o<br \/>\ne decad\u00eancia de uma certa estrutura social. O pr\u00f3prio romancista,<br \/>\nem dado momento, pareceu convencer-se desse papel, ou, antes, dessa miss\u00e3o<br \/>\nque a cr\u00edtica dominante lhe atribu\u00eda: a miss\u00e3o de escrever,<br \/>\nsen\u00e3o um roman-fleuve de tese, pelo menos uma s\u00e9rie de livros<br \/>\nque apresentasse uma realidade sociol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Na nota introdut\u00f3ria ao romance Usina, datada de 1936, observa ele:<\/p>\n<p>&#8220;A hist\u00f3ria desses livros \u00e9 bem simples \u2013 comecei<br \/>\nquerendo apenas escrever umas mem\u00f3rias que fossem as de todos os meninos<br \/>\ncriados nas casas-grandes dos engenhos nordestinos. Seria apenas um peda\u00e7o<br \/>\nde vida o que eu queria contar. Sucede, por\u00e9m, que um romancista \u00e9<br \/>\nmultas vezes o instrumento apenas de for\u00e7as que se acham escondidas<br \/>\nno seu interior&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 este trecho mostra como Jos\u00e9 Lins do Rego, na \u00e9poca<br \/>\nda publica\u00e7\u00e3o de Usina, parecia consciente da fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nque incumbia \u00e0 sua obra desempenhar. Os livros deviam deixar de ser<br \/>\n&#8220;peda\u00e7os de vida&#8221; para obedecer a outras for\u00e7as, as<br \/>\nquais n\u00e3o estavam, por\u00e9m, como supunha o romancista, &#8220;escondidas<br \/>\nno seu interior\u201d, mas, ao contr\u00e1rio, pressionavam-no vindas do<br \/>\nexterior, vindas da interpreta\u00e7\u00e3o temporal que a cr\u00edtica,<br \/>\ndesde havia algum tempo, discernia no conjunto da sua obra. Isto se torna<br \/>\nainda mais claro com as seguintes linhas, extra\u00eddas \u00e0 mesma<br \/>\nnota introdut\u00f3ria: &#8220;Depois do Moleque Ricardo veio Usina, a hist\u00f3ria<br \/>\ndo Santa Rosa arrancado \u00e0s suas bases, espatifado, com m\u00e1quinas<br \/>\nde f\u00e1brica, com ferramentas enormes, como moendas gigantes devorando<br \/>\na cana madura que as suas terras fizeram acamar pelas v\u00e1rzeas&#8221;.<br \/>\nAntes de Moleque Ricardo e de Usina, j\u00e1 em Bang\u00fc\u00ea, que \u00e9<br \/>\nde 1934, a preocupa\u00e7\u00e3o social aflora em certos pontos. A prop\u00f3sito<br \/>\nda situa\u00e7\u00e3o dos cabras de bagaceira escreve, por exemplo, o<br \/>\nnarrador: &#8220;Concordava, vendo em tudo uma espolia\u00e7\u00e3o, como<br \/>\nse n\u00e3o fosse a minha gente que viesse h\u00e1 anos vivendo daquele<br \/>\nregime monstruoso, como se eu n\u00e3o tivesse sido criado com o suor daqueles<br \/>\npobres diabos, e os nove engenhos do meu av\u00f4, a sua riqueza, n\u00e3o<br \/>\nproviessem daqueles bra\u00e7os e da fome de todos eles&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode dizer at\u00e9 que ponto esta e outras tiradas correspondiam<br \/>\naos acenos da cr\u00edtica do tempo. Mas Jos\u00e9 Lins, memorialista<br \/>\nl\u00edrico e evocador poderoso, n\u00e3o seria nunca um romancista de<br \/>\ntese. Para felicidade nossa, ele n\u00e3o quis, ou n\u00e3o p\u00f4de,<br \/>\ndesviar do curso natural a torrente impetuosa de sua inspira\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 ineg\u00e1vel que os romances de Jos\u00e9 Lins do Rego, de Menino<br \/>\nde Engenho a Usina, constituem um grande painel da transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial e econ\u00f4mica imposta pelo progresso t\u00e9cnico da ind\u00fastria<br \/>\na\u00e7ucareira. Mas esses livros exprimem, tamb\u00e9m, qualquer coisa<br \/>\nde diferente. Exprimem uma realidade emotiva e po\u00e9tica muito mais ampla,<br \/>\nnas quais as paix\u00f5es eternas que sacodem o ser humano se apresentam<br \/>\npoderosas e deixam em indiscut\u00edvel segundo plano o complexo social<br \/>\nque serve de pretexto \u00e0 sua eclos\u00e3o. Por outro lado, certos<br \/>\ntipos de personalidade, como o de Vitorino Carneiro da Cunha, s\u00f3 muito<br \/>\nrelativamente se prendem ao meio social em que vivem, porque s\u00e3o figuras<br \/>\nprincipalmente humanas.<\/p>\n<p>Admito que um soci\u00f3logo ou um pol\u00edtico possam considerar como<br \/>\ndocumento social o conjunto de romances do ciclo da cana. Mas este \u00e9<br \/>\num aspecto parcial da obra, que n\u00e3o deve monopolizar a vis\u00e3o<br \/>\ntotalizadora do cr\u00edtico liter\u00e1rio. Diz-se que L\u00eanin considerava<br \/>\no romance de Balzac Les Paysans como uma esp\u00e9cie de panfleto da revolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ncamponesa, e talvez o seja. No entanto, para o escritor Balzac, socialmente<br \/>\num reacion\u00e1rio confesso, o seu livro era o estudo da cobi\u00e7a<br \/>\ne do \u00f3dio que corro\u00edam o cora\u00e7\u00e3o e envenenavam<br \/>\na intelig\u00eancia de um grupo de seres humanos. O Cousin Pons, ali\u00e1s,<br \/>\nrepresenta o mesmo estudo, transportado para um bairro pobre da cidade de<br \/>\nParis.<\/p>\n<p>Portanto, a cr\u00edtica que visse no livro apenas o significado que lhe<br \/>\nemprestou L\u00eanin estaria atrasada, hoje, quando as condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde economia agr\u00e1ria s\u00e3o t\u00e3o diferentes, na Fran\u00e7a,<br \/>\ndo que eram ao tempo da Restaura\u00e7\u00e3o ou da Monarquia de Julho.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Lins poderia tamb\u00e9m dizer que a piedade estava no cerne<br \/>\ndos seus romances, e n\u00e3o a revolu\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o<br \/>\nera, nunca foi um revolucion\u00e1rio, embora fosse freq\u00fcentemente<br \/>\num revoltado.<\/p>\n<p>Em Doidinho o narrador desvenda cruamente o fundo conservador do seu esp\u00edrito,<br \/>\nconservadorismo org\u00e2nico de neto de senhor de engenho, de menino de<br \/>\ncasa-grande. Refiro-me \u00e0 passagem em que o professor Maciel, logo depois<br \/>\nde surrar impiedosamente um aluno, atraca-se em luta com outro, o forte Elias,<br \/>\nque n\u00e3o aceitava a pedagogia da palmat\u00f3ria. Observa o memorialista,<br \/>\nno caso Jos\u00e9 Lins do Rego: &#8220;E eu, que era um dos mais seviciados<br \/>\npelo mestre \u2013 para que dizer o contr\u00e1rio? \u2013 odiava Elias.<br \/>\nN\u00e3o disse a ningu\u00e9m. Mas, no \u00edntimo, julgava-o um selvagem,<br \/>\nincapaz de submiss\u00e3o, de satisfazer-se nos limites marcados pela autoridade&#8230;<br \/>\nPode ser que me julguem mal, mas a verdade merece este depoimento&#8221;.<\/p>\n<p>Esta confiss\u00e3o \u00e9 corroborada por toda a composi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Moleque Ricardo, o livro em que mais agudamente se revela o panorama revolucion\u00e1rio<br \/>\nda luta de classes no Nordeste. O her\u00f3i, Ricardo, tipo admir\u00e1vel<br \/>\nde mesti\u00e7o brasileiro, nunca se interessou propriamente pela revolu\u00e7\u00e3o,<br \/>\nembora se sacrificasse por causa dela, mas por amizade aos companheiros. Sua<br \/>\npaix\u00e3o era o amor das mulheres, seu grupo social n\u00e3o era o sindicato<br \/>\nobreiro, foco de agita\u00e7\u00e3o, por\u00e9m o clube carnavalesco<br \/>\nque trazia o nome simb\u00f3lico de &#8220;Paz e Amor&#8221;. E o pr\u00f3prio<br \/>\nl\u00edder da revolta n\u00e3o era um revolucion\u00e1rio, sen\u00e3o<br \/>\num ambicioso demagogo. Retrato, ali\u00e1s, voluntariamente contrafeito<br \/>\ne infiel, porque o modelo do personagem, de todos conhecido, \u00e9 dos<br \/>\nmais puros e desprendidos esp\u00edritos de s\u00e1bio que o Brasil j\u00e1<br \/>\nproduziu.<\/p>\n<h4><a name=\"5\"><\/a>O REGIONAL<\/h4>\n<p>Passando do social para o regional, poderemos acentuar, em outro campo, a<br \/>\namplid\u00e3o da mensagem liter\u00e1ria que nos legou Jos\u00e9 Lins<br \/>\ndo Rego.<\/p>\n<p>O regional funciona na obra do romancista da mesma maneira que o social,<br \/>\nisto \u00e9, como pretexto para a fixa\u00e7\u00e3o do humano e do universal.<br \/>\nDe resto, a obra verdadeiramente liter\u00e1ria n\u00e3o pode ser, nunca,<br \/>\nregionalista, precisamente porque ela \u00e9, antes de tudo, humana. Regionais<br \/>\ns\u00e3o os materiais de que se nutrem certas grandes obras, desde Homero<br \/>\ne Cervantes at\u00e9 Proust. O ex\u00edguo territ\u00f3rio de Micenas<br \/>\n\u00e9 t\u00e3o regi\u00e3o como o das andan\u00e7as do esqu\u00e1lido<br \/>\nCavaleiro, ou o quarteir\u00e3o dos Guermantes. Regi\u00e3o \u00e9 o<br \/>\nterrit\u00f3rio material ou social onde o escritor vai buscar, em certo<br \/>\ntipo de obras, o infinito horizonte humano. O texto que \u00e9 intrinsecamente<br \/>\nregional deixa de ser literatura para se tornar folklore. Jos\u00e9 Lins<br \/>\ndo Rego n\u00e3o \u00e9 mais regionalista, no sentido liter\u00e1rio,<br \/>\ndo que foram, s\u00e3o e ser\u00e3o, antes e depois dele, outros aut\u00eanticos<br \/>\nficcionistas brasileiros, inclu\u00eddos pela cr\u00edtica na classifica\u00e7\u00e3o<br \/>\nformal de escritores regionalistas. Porque a obra dele \u00e9, antes de<br \/>\ntudo, liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Parece-me certo que a consci\u00eancia do sentido regional que, durante<br \/>\nalgum tempo, marcou a concep\u00e7\u00e3o que Jos\u00e9 Lins do Rego<br \/>\nteve da sua pr\u00f3pria obra resultou da sua amizade para com o mais ilustre<br \/>\nint\u00e9rprete e historiador da cultura e da civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\npatriarcais no Brasil, Gilberto Freyre.<\/p>\n<p>Na verdade, a obra de Gilberto e a de Jos\u00e9 Lins se aparentam mais<br \/>\ndo que se aproximam. Pelos pr\u00f3prios objetivos do seu trabalho de cr\u00edtico,<br \/>\nhistoriador e soci\u00f3logo, Gilberto Freyre valoriza literariamente manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nculturais que ficariam deslocadas nos livros de um romancista. Foi, por isso,<br \/>\nben\u00e9fico ao romancista n\u00e3o haver abandonado o seu pr\u00f3prio<br \/>\ncaminho pelos do ensaio ou outro tipo de literatura que n\u00e3o \u00e9<br \/>\nde fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De resto, o significado regional dos romances de Jos\u00e9 Lins do Rego<br \/>\naparece, igualmente, como elemento ilustrativo e secund\u00e1rio nas obras<br \/>\ndos maiores escritores nordestinos de sua gera\u00e7\u00e3o, as quais,<br \/>\n\u00e9 claro, n\u00e3o me compete analisar nem mesmo referir pormenorizadamente<br \/>\nneste discurso.<\/p>\n<p>A prova de que o regionalismo nordestino era apenas um palco sobre o qual<br \/>\no escritor armava o drama da sua literatura, temo-la em \u00c1gua M\u00e3e,<br \/>\ncuja a\u00e7\u00e3o se desenrola em Cabo Frio. Os tipos e situa\u00e7\u00f5es<br \/>\ndos romances nordestinos se transp\u00f5em em grande n\u00famero para<br \/>\neste livro meio frustrado, mas intenso e dram\u00e1tico, que retrata ambiente<br \/>\nsocial e geogr\u00e1fico t\u00e3o diferente do nordestino. H\u00e1 uma<br \/>\nrepeti\u00e7\u00e3o quase mon\u00f3tona de planos. A preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\nda negra Felipa, de \u00c1gua M\u00e3e, com o neto, Joca, \u00e9 a mesma<br \/>\nda negra Aninha com o neto N\u00f4, de Riacho Doce. As hist\u00f3rias contadas<br \/>\npelas velhas amas aos meninos se repetem no Norte e no Sul. De passagem, quero<br \/>\nobservar que estas hist\u00f3rias contadas na Para\u00edba e em Cabo Frio<br \/>\ns\u00e3o aquelas que, em menino, me repetia a querida e saudosa C\u00e2ndida,<br \/>\ncomo j\u00e1 deixei relatado no meu livro Um Estadista da Rep\u00fablica.<br \/>\nContinuando a compara\u00e7\u00e3o, veremos que a decad\u00eancia das<br \/>\nlavouras de caf\u00e9 da prov\u00edncia fluminense corresponde a id\u00eantico<br \/>\nfen\u00f4meno ocorrido com os engenhos de cana no massap\u00e9 do Nordeste.<br \/>\nEm latitudes geogr\u00e1ficas e ambientes sociais t\u00e3o diferentes,<br \/>\n\u00e0 beira dos canaviais que se estendiam como \u00e1guas imensas ou<br \/>\n\u00e0 margem da lagoa de Araruama verde como um infinito canavial, o que<br \/>\nd\u00e1 for\u00e7a e qualidade \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o art\u00edstica<br \/>\n\u00e9 o dom de penetrar as paix\u00f5es e o gosto amargo diante da tristeza<br \/>\nirrepar\u00e1vel da vida. O tio Juca, na usina paraibana, vai se arruinar<br \/>\nda mesma forma que o milion\u00e1rio Mafra nas especula\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo Rio de Janeiro. A frustra\u00e7\u00e3o do intelectual Paulo \u00e9<br \/>\nparente da indecis\u00e3o do estudante Carlos de MeIo. Tanto na regi\u00e3o<br \/>\nnordestina quanto na fluminense vemos a destrui\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias,<br \/>\no desaparecimento das fortunas, o horror da morte ou da loucura, a f\u00faria<br \/>\ndas paix\u00f5es carnais, o tr\u00e2nsito das crendices e supersti\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo nosso confuso psiquismo brasileiro. Porque os fatos s\u00e3o apar\u00eancias<br \/>\npara o escritor, simples exemplos do real. A realidade \u00e9 outra e paira<br \/>\nsobre essas apar\u00eancias, acima das regi\u00f5es e das criaturas. A<br \/>\nrealidade, para Jos\u00e9 Lins do Rego, era o sentido absurdo, a fatalidade,<br \/>\no vazio, o escoamento perene, o nada permanente da vida. Esvoa\u00e7a nos<br \/>\nseus livros, sobre tudo e sobre todos, uma amea\u00e7a constante de destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de morte. Secund\u00e1rios s\u00e3o os aspectos regionais ou mesmo nacionais<br \/>\ndo grande afresco. O que fica, o que subsiste, \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o<br \/>\nliter\u00e1ria, \u00e9 a presen\u00e7a de Jos\u00e9 Lins do Rego e<br \/>\na sua vis\u00e3o dolorosa da vida.<\/p>\n<h4><a name=\"6\"><\/a>FONTES DE INSPIRA\u00c7\u00c3O<\/h4>\n<p>Jos\u00e9 Lins do Rego pertence ao g\u00eanero dos romancistas que fundem<br \/>\na cria\u00e7\u00e3o com a mem\u00f3ria. Colocando-se no centro da pr\u00f3pria<br \/>\nobra, o escritor n\u00e3o apenas preside ao seu desenvolvimento, mas participa<br \/>\nde todo ele. O romancista brasileiro procura, como Proust, o tempo perdido,<br \/>\npara eterniz\u00e1-lo na obra de arte, mas, como em Proust, esse tempo perdido<br \/>\n\u00e9 vivido em toda a intensidade liter\u00e1ria. Quero dizer com isso<br \/>\nque, no tempo liter\u00e1rio, a mat\u00e9ria do passado se mistura com<br \/>\nos sentimentos e a maneira de ver do presente, formando uma trama uniforme<br \/>\ne insepar\u00e1vel. A mem\u00f3ria evoca o fato, mas o esp\u00edrito<br \/>\ncriador o transforma, o conforma com esta nova realidade, muito mais forte<br \/>\ne significativa do que a hist\u00f3rica: a realidade criada pela fic\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA passagem do tempo perdido para o tempo vivido ou liter\u00e1rio, no qual<br \/>\no escritor insufla o fogo do seu g\u00eanio, faz com que o fato particular,<br \/>\ncolhido na mem\u00f3ria, se transfigure na situa\u00e7\u00e3o exemplar<br \/>\nou na rea\u00e7\u00e3o emocional, que nos varrem a alma como rajadas.<\/p>\n<p>Assim, os romances de Jos\u00e9 Lins do Rego t\u00eam a fei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mem\u00f3rias, enquanto as suas mem\u00f3rias poderiam ser consideradas<br \/>\ncomo um romance.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Lins do Rego, na sua prodigiosa voca\u00e7\u00e3o de narrador,<br \/>\nse apercebia bem que a fus\u00e3o do tempo hist\u00f3rico com o liter\u00e1rio<br \/>\ndava em resultado uma realidade incorrupt\u00edvel, mais duradoura do que<br \/>\na da vida. O fato de ser seu poder criador dos mais espont\u00e2neos de toda<br \/>\na literatura brasileira n\u00e3o impedia que ele obedecesse, desde o in\u00edcio,<br \/>\naos imperativos de uma t\u00e9cnica consciente. No segundo livro que publicou,<br \/>\nDoidinho, o romancista faz, de passagem, uma afirma\u00e7\u00e3o que mostra<br \/>\ncomo ele procedia deliberadamente ao pequeno milagre que era a transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nda \u00e1gua do tempo perdido no vinho do tempo liter\u00e1rio. Doidinho,<br \/>\no colegial desajustado, ouviu certo dia uma explica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica<br \/>\nda universalidade de Deus que o impressionou profundamente. E o romancista<br \/>\nobserva a respeito, numa frase que desvenda todas as fontes da sua inspira\u00e7\u00e3o:<br \/>\n&#8220;Pela primeira vez, naquelas prepara\u00e7\u00f5es para o conhecimento<br \/>\nde Deus, uma coisa me ficava clara, numa evid\u00eancia de dia sem nuvens.<br \/>\nValia, por esta forma, o poder intenso da imagem&#8221;.<\/p>\n<p>Este poder intenso da imagem, esta fic\u00e7\u00e3o criada pela mem\u00f3ria,<br \/>\neste mundo vivo e diferente sa\u00eddo das entranhas de um mundo morto e<br \/>\nconhecido s\u00e3o todo o tesouro que nos legou Jos\u00e9 Lins do Rego.<br \/>\nO processo de reconstru\u00e7\u00e3o criadora atinge ao esplendor no livro<br \/>\nque, sendo o menos fielmente mem\u00f3ria, \u00e9, no entanto, o mais<br \/>\nvivamente realidade, o maior livro do romancista, um dos mais importantes<br \/>\nda nossa literatura, Fogo Morto.<\/p>\n<p>Com a publica\u00e7\u00e3o de Usina, parecia \u2013 e alguns cr\u00edticos<br \/>\no declararam \u2013 que Jos\u00e9 Lins do Rego atingira aos limites das<br \/>\nsuas possibilidades no g\u00eanero. Terminara, harmoniosamente, o ciclo da<br \/>\ncana. Do engenho do menino Carlos de MeIo, o fluxo caudaloso da narrativa<br \/>\nchegara ao ponto terminal da evolu\u00e7\u00e3o: \u00e0 usina faminta<br \/>\nque devorava os restos do engenho, que triturava gentes e almas antes de se<br \/>\ndevorar a si mesma, numa autofagia final e implac\u00e1vel. Supunha-se que<br \/>\npersistir na mesma linha seria, para o romancista, repetir-se, isto \u00e9,<br \/>\ndiminuir-se. Mas foi o inverso que sucedeu, e isto pelas raz\u00f5es que<br \/>\nacima procurei identificar ao sugerir a f\u00f3rmula da evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo tempo hist\u00f3rico para o liter\u00e1rio. De Menino de Engenho at\u00e9<br \/>\nUsina como que o elemento mem\u00f3ria prendia um pouco o elemento cria\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne, por isso, a composi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria mostra-se, \u00e0s<br \/>\nvezes, um pouco constrangida e indecisa. N\u00e3o se percebia a indecis\u00e3o<br \/>\nnem o constrangimento at\u00e9 que, em Fogo Morto, o escritor, sem abandonar<br \/>\na contribui\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, passou a subordin\u00e1-la,<br \/>\ninteiramente, \u00e0 liberdade criadora. Fez como o pintor que, usando os<br \/>\ndados da realidade vis\u00edvel, os utiliza submetendo-os a uma disciplina<br \/>\nest\u00e9tica e racional que est\u00e1 nele e n\u00e3o nas formas objetivas<br \/>\nnem na l\u00f3gica visual. Eis por que Fogo Morto, sendo menos fiel \u00e0<br \/>\nrealidade hist\u00f3rica, \u00e9, ao mesmo tempo, o mais real dos romances<br \/>\nda zona da cana, a obra-prima, chave de c\u00fapula de todo o conjunto arquitet\u00f4nico.<br \/>\nNesse livro memor\u00e1vel (do qual alguns trechos ainda hoje n\u00e3o<br \/>\nposso ler sem me virem l\u00e1grimas aos olhos), temos uma verdadeira fonte<br \/>\nde ensinamentos para desvendar a inspira\u00e7\u00e3o do escritor. Jos\u00e9<br \/>\nLins do Rego, a partir do segundo romance, publicado em 1933, sem praticar<br \/>\npropriamente, como j\u00e1 deixei acentuado, a literatura de tese, o que<br \/>\nseria chocante com o seu temperamento, adotou, contudo, o que se poderia chamar<br \/>\numa atitude de escola em face da tese social. Isto, sem d\u00favida nenhuma,<br \/>\nlimitou a sua liberdade no desenvolvimento dos romances que ele mesmo chamou<br \/>\ndo ciclo da cana, levando-o, at\u00e9 certo ponto, a exprimir, na sua narrativa,<br \/>\nalgo que se encontrava fora do que veio a se revelar, com Fogo Morto, ser<br \/>\na mais fiel representa\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria da realidade, porque<br \/>\na mais art\u00edstica. No ciclo da cana os aspectos sociais do grande drama<br \/>\nhumano s\u00e3o fixados conscientemente, ou deliberadamente, o que d\u00e1<br \/>\nao conjunto, como disse h\u00e1 pouco, se n\u00e3o o feitio de romance<br \/>\nde tese, pelo menos o de romance de escola. J\u00e1 em Fogo Morto Jos\u00e9<br \/>\nLins do Rego se liberta completamente da escola social. Confiante, pelos \u00eaxitos<br \/>\nsucessivos, na pr\u00f3pria for\u00e7a criadora, produziu um livro que,<br \/>\nvindo depois de tantos outros do mesmo g\u00eanero, \u00e9 precisamente<br \/>\no mais original. E \u00e9 o mais original porque \u00e9 o mais livre.<br \/>\nSucedeu ao escritor brasileiro algo do que ocorrera com o seu confrade portugu\u00eas,<br \/>\nE\u00e7a de Queir\u00f3s, que foi, como Jos\u00e9 Lins, o mais expressivo<br \/>\nromancista de sua gera\u00e7\u00e3o. E\u00e7a de Queir\u00f3s filiou-se<br \/>\n\u2013 mais disciplinadamente do que Jos\u00e9 Lins \u2013 a uma escola<br \/>\nliter\u00e1ria, o realismo. No fim da vida, por\u00e9m, com A Ilustre<br \/>\nCasa de Ramires, libertou-se dela, e construiu, embora inacabado, o seu mais<br \/>\nt\u00edpico e original romance, o mais saborosamente portugu\u00eas.<\/p>\n<p>\u00c9 que o E\u00e7a da Ilustre Casa e o Jos\u00e9 Lins de Fogo Morto<br \/>\nforam, ent\u00e3o, autenticamente eles mesmos, escreveram o que lhes vinha<br \/>\nbrotando limpidamente do mais \u00edntimo do ser, despreocupados das interpreta\u00e7\u00f5es<br \/>\nalheias.<\/p>\n<h4>T\u00c9CNICA DE COMPOSI\u00c7\u00c3O<\/h4>\n<p>Para terminarmos com esta aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da obra<br \/>\nde Jos\u00e9 Lins do Rego, devemos salientar os aspectos mais marcantes<br \/>\nda sua t\u00e9cnica de composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o estilo. Muito se falou \u2013 e esta observa\u00e7\u00e3o<br \/>\nfoi diminuindo com o tempo \u2013 da imperfei\u00e7\u00e3o gramatical<br \/>\ndo estilo de Jos\u00e9 Lins do Rego. Lembro-me at\u00e9 de um articulista<br \/>\nportugu\u00eas que aludia \u00e0 sua &#8220;tocante incorre\u00e7\u00e3o&#8221;.<br \/>\nCreio que, hoje, tais restri\u00e7\u00f5es encontrariam pouco eco. O problema<br \/>\ndo estilo do romancista me parece, no Brasil, pa\u00eds onde tudo se acha<br \/>\nem forma\u00e7\u00e3o, inclusive o idioma nacional, ser sobretudo o da<br \/>\nadequa\u00e7\u00e3o do mesmo estilo \u00e0 subst\u00e2ncia da obra.<\/p>\n<p>O estilo de Machado de Assis era o instrumento ajustado ao tipo de obra liter\u00e1ria<br \/>\nque ele praticou: instrumento preciso, despojado e rigorosamente fiel aos<br \/>\nc\u00e2nones. J\u00e1 Nabuco, em Minha Forma\u00e7\u00e3o, mas principalmente<br \/>\nem Um Estadista do Imp\u00e9rio, carecia de outro tipo de linguagem, freq\u00fcentemente<br \/>\nincorreto e trabalhado pela influ\u00eancia francesa, por\u00e9m colorido,<br \/>\npl\u00e1stico, \u00e0s vezes solene.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Lins do Rego tinha o estilo apropriado para exprimir o mundo<br \/>\ndo seu romance: limitado, mas n\u00e3o pobre; terno, florido, ocasionalmente<br \/>\nturvo, mais sugestivo do que l\u00f3gico. As grosserias que \u00e0s vezes<br \/>\nirrompem s\u00f3 chocam quando desnecess\u00e1rias, isto \u00e9, quando<br \/>\nn\u00e3o reproduzem a fala do povo, e hoje at\u00e9 chocam menos, porque<br \/>\nnos habituamos todos \u00e0 personalidade opulenta e natural do escritor.<br \/>\nNa linguagem do povo h\u00e1 diferen\u00e7as sutis. N\u00e3o \u00e9<br \/>\na mesma coisa, por exemplo, dizer-se &#8220;ele \u00e9 alto&#8221; e &#8220;ele<br \/>\ntem altura&#8221;. Poder\u00edamos empregar a mesma sutileza tratando de<br \/>\nJos\u00e9 Lins do Rego: ele n\u00e3o \u00e9 estilista, ele tem estilo.<\/p>\n<p>Um dos defeitos salientados na sua maneira de escrever \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAlguns ve\u00eam nesta t\u00e9cnica pobreza e monotonia. Eu n\u00e3o.<br \/>\nA mim me parece que a repeti\u00e7\u00e3o, em Jos\u00e9 Lins do Rego,<br \/>\n\u00e9 natural e coerente com o g\u00eanero da sua narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez nem se trate, propriamente, de repeti\u00e7\u00e3o, mas de qualquer<br \/>\noutra coisa como sucess\u00e3o ou ressurrei\u00e7\u00e3o. As flores<br \/>\nn\u00e3o se repetem, nem as manh\u00e3s. O estilo natural \u00e9 como<br \/>\na natureza: ressurge, renasce, continua.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, esta continuidade n\u00e3o \u00e9 somente do estilo, mas<br \/>\nda arquitetura mesma da obra.<\/p>\n<p>A narrativa toda ela se encadeia na maior parte dos romances de Jos\u00e9<br \/>\nLins do Rego. O enredo do ciclo da cana \u00e9 cont\u00ednuo. Pedra Bonita<br \/>\nse desdobra em Cangaceiros e, dentro desta t\u00e9cnica, \u00e9 natural<br \/>\nque os personagens figurantes em um livro reapare\u00e7am naqueles que servem<br \/>\nde continua\u00e7\u00e3o. Alguns dos personagens do ciclo da cana, depois<br \/>\nde atravessar toda a s\u00e9rie de romances, encontram a materializa\u00e7\u00e3o<br \/>\nfinal em Verdes Anos, o livro de mem\u00f3rias da meninice. Ali\u00e1s,<br \/>\nesta materializa\u00e7\u00e3o nos decepciona um pouco no caso de Vitorino<br \/>\nCarneiro da Cunha, muito maior personagem do que figura real. A pr\u00f3pria<br \/>\nexpress\u00e3o &#8220;verdes anos&#8221;, que serve de t\u00edtulo ao livro<br \/>\nde mem\u00f3rias, j\u00e1 aparece, de relance, em uma passagem de Doidinho,<br \/>\npara designar a idade infantil.<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas o enredo \u00e9 seguido, n\u00e3o apenas os personagens<br \/>\nacompanham o seguimento do enredo. H\u00e1 motivos que tamb\u00e9m voltam,<br \/>\ncomo na m\u00fasica. Por exemplo, o motivo da loucura. Jos\u00e9 Lins<br \/>\ndo Rego tinha uma esp\u00e9cie de obsess\u00e3o da loucura; assaltava-o,<br \/>\n\u00e0s vezes, o medo inteiramente infundado da insanidade. Lembro-me bem<br \/>\nde uma vez em que ele me disse isto quando sub\u00edamos a p\u00e9 a Avenida<br \/>\nRio Branco, sa\u00eddos da Livraria Jos\u00e9 Olympio. Cabe\u00e7a forte,<br \/>\nju\u00edzo perfeito, vinha-lhe de chofre aquele horror da loucura. Esse<br \/>\nmedo aparece, ali\u00e1s, em Carlos de MeIo freq\u00fcentemente. O pai do<br \/>\n&#8220;menino de engenho&#8221; cometeu crime por loucura. A louca d. Ol\u00edvia,<br \/>\nirm\u00e3 da mulher de Lula de Holanda, \u00e9 uma figura tr\u00e1gica,<br \/>\nque acompanha todo o ciclo da cana. O romance Doidinho, j\u00e1 pelo t\u00edtulo,<br \/>\nmostra a preocupa\u00e7\u00e3o obsessiva. Neste livro o pai do menino<br \/>\nHeitor era doido, foi para Recife, contava o filho, amarrado na corda. Em<br \/>\nPedra Bonita o chamado santo era um louco, como Ant\u00f4nio Conselheiro,<br \/>\ne o drama se desenrola em torno de uma esp\u00e9cie de loucura coletiva.<\/p>\n<p>Em Riacho Doce a velha Aninha era uma feiticeira meio doida, e o seu neto,<br \/>\nN\u00f4, her\u00f3i do livro, atravessa um acesso de loucura. Em Fogo Morto,<br \/>\na cena da captura e transporte da doida filha de Jos\u00e9 Amaro \u00e9<br \/>\ndas mais terr\u00edveis e provoca profunda impress\u00e3o em M\u00e1rio<br \/>\nde Andrade. Finalmente, em Cangaceiros temos o tem\u00edvel fantasma de<br \/>\nSi\u00e1 Josefina, a m\u00e3e suicida e louca dos cru\u00e9is bandidos.<\/p>\n<p>Outro motivo que poder\u00edamos acompanhar em toda a trama dos romances<br \/>\n\u00e9 o medo da morte. Jos\u00e9 Lins do Rego n\u00e3o tinha a curiosidade<br \/>\nfilos\u00f3fica de Montaigne em face do nosso fim inevit\u00e1vel. Reagia<br \/>\ncontra a id\u00e9ia com uma for\u00e7a espont\u00e2nea e invenc\u00edvel.<br \/>\nPor isto mesmo a sombra da morte surgia ami\u00fade nas suas p\u00e1ginas.<br \/>\nEnterros, agonias, exposi\u00e7\u00f5es de defuntos merecem-lhe descri\u00e7\u00f5es<br \/>\nadmir\u00e1veis. Uma das mais fortes de toda a sua obra \u00e9 a do enterro<br \/>\ndo av\u00f4, Jos\u00e9 Paulino. Faz-me lembrar outra p\u00e1gina, que<br \/>\nguardei na mem\u00f3ria e cujo autor n\u00e3o sei mais quem seja, descritiva<br \/>\nda prociss\u00e3o sepulcral de Carlos V, com o transporte do corpo, \u00e0<br \/>\nnoite, pelas estradas. O trecho de Jos\u00e9 Lins \u00e9 um quadro assim<br \/>\nespanhol. Lembra Goya.<\/p>\n<p>No Menino de Engenho, escreve: &#8220;Tinha um medo doentio da morte. Aquilo<br \/>\nda gente apodrecer debaixo da terra e ser comido pelos tapurus me parecia<br \/>\nincompreens\u00edvel&#8230; Esta horr\u00edvel preocupa\u00e7\u00e3o da<br \/>\nmorte tomava conta da minha imagina\u00e7\u00e3o&#8221;. J\u00e1 no col\u00e9gio,<br \/>\no Doidinho remo\u00eda os seus pavores: &#8220;O medo da morte envolvia-me<br \/>\nnas suas sombras pesadas. Sempre tivera medo da morte. Este nada, esta destrui\u00e7\u00e3o<br \/>\nirremedi\u00e1vel de tudo, o corpo podre, os olhos comidos pela terra \u2013<br \/>\ne tudo isto para um dia certo, para uma hora marcada \u2013 me faziam triste<br \/>\nno mais alegre dos meus momentos&#8221;.<\/p>\n<p>E a morte prossegue o tr\u00e2nsito pelos livros de Jos\u00e9 Lins do<br \/>\nRego, como um dos personagens principais. Em Bang\u00fc\u00ea, \u00e9 o<br \/>\nfim do velho Jos\u00e9 Paulino, como disse, uma das p\u00e1ginas mais<br \/>\npungentes do escritor. Em Moleque Ricardo \u00e9 o triste fim dos pobres,<br \/>\ndo amigo Flor\u00eancio, acabando num catre da rua do Cisco; de Odete, escarrando<br \/>\nos pulm\u00f5es junto aos passarinhos do pai. Em Usina, a morte horr\u00edvel<br \/>\ndo negro feiticeiro Feliciano determina uma rea\u00e7\u00e3o dos trabalhadores<br \/>\ndo eito, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de pequena jacquerie. Pureza \u00e9<br \/>\na narrativa de certa fase da vida de um rapaz com medo de morrer; Pedra Bonita,<br \/>\na trag\u00e9dia da cren\u00e7a primitiva levando ao genoc\u00eddio.<br \/>\nEm Riacho Doce, a presen\u00e7a da morte e de um Deus obscuro e vingativo<br \/>\nalimenta as paix\u00f5es humanas do poder e do amor. Em \u00c1gua M\u00e3e,<br \/>\na morte \u00e9 a amea\u00e7a cont\u00ednua e o desfecho final. Eur\u00eddice<br \/>\n\u00e9 a hist\u00f3ria de um criminoso de morte. Cangaceiros est\u00e1<br \/>\nsujo de sangue dos mortos.<\/p>\n<p>Poucos s\u00e3o os momentos de consolo e remiss\u00e3o que o romancista<br \/>\nnos oferece. Um destes refrig\u00e9rios da alma, na \u00e1spera e absorvente<br \/>\ncaminhada da sua leitura, s\u00e3o, sem d\u00favida, alguns caracteres<br \/>\nfemininos.<\/p>\n<p>D. Dondon, de Usina, d. Mocinha, de \u00c1gua M\u00e3e, d. Adriana, de<br \/>\nFogo Morto, que doces, que genu\u00ednas, que grandes mulheres brasileiras.<br \/>\nSente-se nelas a for\u00e7a delicada, o instinto de retid\u00e3o, a presen\u00e7a<br \/>\noportuna, a resist\u00eancia inquebrant\u00e1vel das figuras femininas<br \/>\nque cercaram a nossa inf\u00e2ncia ou mocidade e que, na idade adulta, nos<br \/>\nfazem tantas vezes encarar a vida com menos desilus\u00e3o e maior coragem.<br \/>\nDa preta velha contadora de hist\u00f3rias \u00e0 av\u00f3, \u00e0<br \/>\nm\u00e3e de sobressaltados enlevos, \u00e0 esposa que cicatriza com o<br \/>\nb\u00e1lsamo da compreens\u00e3o as feridas da sorte, algumas mulheres<br \/>\nbrasileiras de Jos\u00e9 Lins do Rego redimem a humanidade tr\u00e1gica<br \/>\ndos seus romances e s\u00e3o o \u00fanico raio de luz que entra no ambiente<br \/>\nsombrio da sua alma.<\/p>\n<p>E, por mais estranho que pare\u00e7a, a impress\u00e3o de conjunto recolhida<br \/>\npelo leitor da obra de Jos\u00e9 Lins do Rego n\u00e3o \u00e9, afinal,<br \/>\nde amargura e nojo da vida. N\u00e3o sei bem explicar por que, mas se desprende<br \/>\ndo seu grande legado liter\u00e1rio uma ternura humana, uma robusta e ing\u00eanua<br \/>\npureza, uma for\u00e7a vital t\u00e3o caudalosa que arrasta, em reden\u00e7\u00e3o<br \/>\ntriunfante, os males retratados sem \u00f3dio, abrindo no horizonte uma<br \/>\nclareira de f\u00e9. Talvez a raz\u00e3o seja esta, que acabo de enunciar<br \/>\nsem querer: a aus\u00eancia de \u00f3dio no espelho do mal.<\/p>\n<p>A obra de Jos\u00e9 Lins do Rego, t\u00e3o brasileira no conte\u00fado,<br \/>\n\u00e9, tamb\u00e9m, brasileira nos fins. Embora puramente liter\u00e1ria,<br \/>\nela nos convida n\u00e3o a descrer do Brasil, mas a nos desvelarmos para<br \/>\nminorar os sofrimentos do nosso povo.<\/p>\n<p>A gl\u00f3ria do escritor est\u00e1, hoje, perene. Os seus livros v\u00e3o<br \/>\ndurar tanto quanto possa durar a nossa l\u00edngua mesti\u00e7a e saborosa.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 o romancista mais glorioso da nossa gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nque desejo evocar nesta sauda\u00e7\u00e3o final. \u00c9 o homem puro,<br \/>\nsolid\u00e1rio e bom, o amigo forte, o menino de engenho encanecido, mas<br \/>\nn\u00e3o envelhecido; o menino de engenho tocado pelas sombras e luzes da<br \/>\nvida, que ter\u00e1 entrado, no seu jeito simples, sem cerim\u00f4nia,<br \/>\ncomo a preta Irene do poema de Manuel Bandeira, pelas portas do c\u00e9u.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: OS ANTECESSORES JOS\u00c9 LINS DO R\u00caGO, O HOMEM E O ESCRITOR AUTONOMIA E SUBORDINA\u00c7\u00c3O DA CR\u00cdTICA PRESEN\u00c7A DO SOCIAL O REGIONAL FONTES DE INSPIRA\u00c7\u00c3O &nbsp; Chego ao vosso honroso conv\u00edvio, senhores acad\u00eamicos, a uma altura da exist\u00eancia em que, do cimo consagrador desta tribuna, o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-90536","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Discurso de Posse - Afonso Arinos, Obra Discurso de Posse - Afonso Arinos<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Discurso de Posse - Afonso Arinos, Obra, Os Antecessores, Literatura, Discurso de Posse - Afonso Arinos\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Discurso de Posse - Afonso Arinos, Obra Discurso de Posse - Afonso Arinos\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Discurso de Posse - Afonso Arinos, Obra, Os Antecessores, Literatura, Discurso de Posse - Afonso Arinos\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/discurso-de-posse-afonso-arinos\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2016-12-26T12:19:30+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2016-12-26T12:20:57+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"43 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/discurso-de-posse-afonso-arinos#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/discurso-de-posse-afonso-arinos\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Discurso de Posse &#8211; 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