{"id":90533,"date":"2016-12-26T10:11:24","date_gmt":"2016-12-26T12:11:24","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=90533"},"modified":"2016-12-26T10:11:24","modified_gmt":"2016-12-26T12:11:24","slug":"assombramento-afonso-arinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/assombramento-afonso-arinos","title":{"rendered":"Assombramento &#8211; Afonso Arinos"},"content":{"rendered":"<p><center><\/p>\n<table width=\"750\" height=\"100\" cellpadding=\"7\" cellspacing=\"0\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td height=\"1\" colspan=\"5\"><font color=\"#666666\" size=\"2\" face=\"Arial, Helvetica, sans-serif\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado:<\/strong><\/font><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\"><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#1\" class=\"links\">Cap&iacute;tulo<br \/>\n            I <\/a><\/font><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\"> <\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\"><strong><font size=\"3\"><br \/>\n            <a href=\"#2\" class=\"links\"><font size=\"2\">Cap&iacute;tulo II<\/font><\/a><\/font><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"> <img decoding=\"async\" src=\"..\/adolfo-caminha\/pontilhado.png\" height=\"100\"> <\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\"><strong><font size=\"2\"> <a href=\"#3\" class=\"links\">Cap&iacute;tulo<br \/>\n            III <\/a><br \/>\n            <a href=\"#4\" class=\"links\">Cap&iacute;tulo IV<\/a> <\/font><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p>  <\/center><\/p>\n<h4><a name=\"1\">Cap&iacute;tulo I<\/a><\/h4>\n<p>&Agrave; beira do caminho das tropas, num tabuleiro grande, onde cresciam<br \/>\n    a canela-d&#8217;ema e o pau-santo, havia uma tapera. A velha casa assombrada, com<br \/>\n    grande escadaria de pedra levando ao alpendre, n&atilde;o parecia desamparada.<br \/>\n    O viandante a avistava de longe, com a capela ao lado e a cruz de pedra lavrada,<br \/>\n    enegrecida, de bra&ccedil;os abertos, em prece contrita para o c&eacute;u.<br \/>\n    Naquele escampado onde n&atilde;o ria ao sol o verde escuro das matas, a cor<br \/>\n    emba&ccedil;ada da casa suavizava ainda mais o verde esmaiado dos campos.<\/p>\n<p>E quem n&atilde;o fosse vaqueano naqueles s&iacute;tios iria, sem d&uacute;vida,<br \/>\n    estacar diante da grande porteira escancarada, inquirindo qual o motivo por<br \/>\n    que a gente da fazenda era t&atilde;o esquiva que nem ao menos aparecia &agrave;<br \/>\n    janela quando a cabe&ccedil;ada da madrinha da tropa, carrilhonando &agrave;<br \/>\n    frente dos lotes, guiava os cargueiros pelo caminho a fora.<\/p>\n<p>Entestando com a estrada, o largo rancho de telha, com grandes esteios de<br \/>\n    aroeira e mour&otilde;es cheios de argolas de ferro, abria-se ainda distante<br \/>\n    da casa, convidando o viandante a abrigar-se nele. No ch&atilde;o havia ainda<br \/>\n    uma trempe de pedra com vest&iacute;gios de fogo e, daqui e dacol&aacute;,<br \/>\n    no terreno acamado e liso, esponjadouros de animais vagabundos.<\/p>\n<p>Muitas vezes os cargueiros das tropas, ao darem com o rancho, trotavam para<br \/>\n    l&aacute;, esperan&ccedil;ados de pouso, bufando, atropelando-se, batendo<br \/>\n    uns contra os outros as cobertas de couro cru; entravam pelo rancho adentro,<br \/>\n    apinhavam-se, giravam impacientes &agrave; espera da descarga at&eacute; que<br \/>\n    os tocadores a p&eacute;, com as longas toalhas de crivo enfiadas no pesco&ccedil;o,<br \/>\n    falavam &agrave; mulada, obrigando-a a ganhar o caminho.<\/p>\n<p>Por que seria que os tropeiros, ainda em risco de for&ccedil;arem as marchas<br \/>\n    e aguarem a tropa, n&atilde;o pousavam a&iacute;? Eles bem sabiam que, &agrave;<br \/>\n    noite, teriam de despertar, quando as almas perdidas, em penit&ecirc;ncia,<br \/>\n    cantassem com voz fanhosa a encomenda&ccedil;&atilde;o. Mas o cuiabano Manuel<br \/>\n    Alves, arrieiro atrevido, n&atilde;o estava por essas abus&otilde;es e quis<br \/>\n    tirar a cisma da casa mal-assombrada.<\/p>\n<p>Montado em sua mula queimada frontaberta, levando adestro seu macho crioulo<br \/>\n    por nome &quot;Fidalgo&quot; &#8211; dizia ele que tinha corrido todo este mundo,<br \/>\n    sem topar coisa alguma, em dias de sua vida, que lhe fizesse o cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    bater apressado de medo. Havia de dormir sozinho na tapera e ver at&eacute;<br \/>\n    onde chegavam os receios do povo.<\/p>\n<p>Dito e feito.<\/p>\n<p>Passando por a&iacute; de uma vez, com sua tropa, mandou descarregar no rancho<br \/>\n    com ar decidido. E enquanto a camaradagem, meio obtusa com aquela resolu&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    inesperada, saltava das selas ao guizalhar das rosetas no ferro batido das<br \/>\n    esporas; e os tocadores, acudindo de c&aacute; e de l&aacute;, iam amarrando<br \/>\n    nas estacas os burros, divididos em lotes de dez, Manuel Alves, o primeiro<br \/>\n    em desmontar, quedava-se de p&eacute;, recostado a um mour&atilde;o de bra&uacute;na,<br \/>\n    chap&eacute;u na coroa da cabe&ccedil;a, cenho carregado, faca nua aparelhada<br \/>\n    de prata, cortando vagarosamente fumo para o cigarro.<\/p>\n<p>Os tropeiros, em vaiv&eacute;m, empilhavam as cargas, resfolegando ao peso.<br \/>\n    Contra o costume, n&atilde;o proferiram uma jura, uma exclama&ccedil;&atilde;o;<br \/>\n    s&oacute;, &agrave;s vezes, uma palmada forte na anca de algum macho teimoso.<br \/>\n    No mais, o servi&ccedil;o ia-se fazendo e o Manuel Alves continuava quieto.<\/p>\n<p>As sobrecargas e os arrochos, os bu&ccedil;ais e a penca de ferraduras, espalhados<br \/>\n    aos montes; o surr&atilde;o da ferramenta aberto e para fora o martelo, o<br \/>\n    puxavante e a bigorna; os embornais dependurados; as bruacas abertas e o trem<br \/>\n    de cozinha em cima de um couro; a fila de cangalhas de suadouro para o ar,<br \/>\n    &agrave; beira do rancho, &#8211; denunciaram ao arneiro que a descarga fora feita<br \/>\n    com a ordem do costume, mostrando tamb&eacute;m que &agrave; rapaziada n&atilde;o<br \/>\n    repugnava acompanh&aacute;-lo na aventura.<\/p>\n<p>Ent&atilde;o, o arrieiro percorreu a tropa, correndo o lombo dos animais<br \/>\n    para examinar as pisaduras; mandou atalhar &agrave; sovela algumas cangalhas,<br \/>\n    assistiu &agrave; raspagem da mulada e mandou, por fim, encostar a tropa acol&aacute;,<br \/>\n    fora da beira do capa-o onde costumam crescer as ervas venenosas.<\/p>\n<p>Dos camaradas, o Ven&acirc;ncio lhe fora malungo de sempre. Conheciam-se<br \/>\n    a fundo os dois tropeiros, desde o tempo em que puseram o p&eacute; na estrada<br \/>\n    pela primeira vez, na era da fuma&ccedil;a, em trinta e tr&ecirc;s. Davam<br \/>\n    de l&iacute;ngua &agrave;s vezes, nos ser&otilde;es de pouso, um peda&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de tempo, enquanto os outros tropeiros, sentados nos fardos ou estendidos<br \/>\n    sobre os couros, faziam chorar a tirana com a toada do&iacute;da de uma cantilena<br \/>\n    saudosa.<\/p>\n<p>Ven&acirc;ncio queria puxar a conversa para as coisas da tapera, pois viu<br \/>\n    logo que o Manuel Alves, ficando ai, tramava alguma das dele.<\/p>\n<p>&#8211; O macho lionanco est&aacute; meio sentido da viagem, s&oacute; Manuel.<\/p>\n<p>&#8211; Nem por isso. Aquele &eacute; couro n&#8217;&aacute;gua. N&atilde;o &eacute;<br \/>\n    com duas dist&acirc;ncias desta que ele afrouxa.<\/p>\n<p>&#8211; Pois olhe, n&atilde;o dou muito para ele urrar na subida do morro.<\/p>\n<p>&#8211; Este? N&atilde;o fale!<\/p>\n<p>&#8211; Inda malhando nesses carrascos cheios de pedra, ent&atilde;o &eacute; que<br \/>\n    ele se entrega de todo.<\/p>\n<p>&#8211; Ora!<\/p>\n<p>&#8211; Vossemec&ecirc; bem sabe: por aqui n&atilde;o h&aacute; boa pastaria; acresce<br \/>\n    mais que a tropa deve andar amilhada. Nem pasto, nem milho na redondeza desta<br \/>\n    tapera. Tudo que sairmos daqui, topamos logo um catingal verde. Este pouso<br \/>\n    n&atilde;o presta; a tropa amanhece desbarrigada que &eacute; um Deus nos<br \/>\n    acuda.<\/p>\n<p>&#8211; Deixe de poetagens, Ven&acirc;ncio ! Eu sei c&aacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Vossemec&ecirc; pode saber, eu n&atilde;o duvido; mas na hora da coisa<br \/>\n    feia, quando a tropa pegar a arriar a carga pela estrada, &eacute; um vira-tem-m&atilde;o<br \/>\n    e &#8211; Ven&acirc;ncio p&#8217;r&#8217;aqui, Ven&acirc;ncio p&#8217;r&#8217;acol&aacute;.<\/p>\n<p>Manuel deu um muxoxo. Em seguida levantou-se de um surr&atilde;o onde estivera<br \/>\n    assentado durante a conversa e chegou &agrave; beira do rancho, olhando para<br \/>\n    fora. Cantarolou umas trovas e, voltando-se de repente para o Ven&acirc;ncio,<br \/>\n    disse:<\/p>\n<p>&#8211; Vou dormir na tapera. Sempre quero ver se a boca do povo fala verdade uma<br \/>\n    vez.<\/p>\n<p>&#8211; Hum, hum! Est&aacute; a&iacute;! Eia, eia, eia!<\/p>\n<p>~ N&atilde;o temos eia nem peia. Puxe para fora minha rede.<\/p>\n<p>&#8211; J&aacute; vou, patr&atilde;o. N&atilde;o precisa falar duas vezes.<\/p>\n<p>E da&iacute; a pouco, veio com a rede cuiabana bem tecida, bem rematada por<br \/>\n    longas franjas pendentes. <\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; que vossemec&ecirc; determina agora?<\/p>\n<p>&#8211; V&aacute; l&aacute; &agrave; tapera enquanto &eacute; dia e arme a rede<br \/>\n    na sala da frente. Enquanto isso, aqui tamb&eacute;m se vai cuidando do jantar..<\/p>\n<p>O caldeir&atilde;o preso &agrave; rabicha grugrulhava ao fogo; a carne-seca<br \/>\n    no espeto e a camaradagem, rondando &agrave; beira do fogo lan&ccedil;ava<br \/>\n    &agrave; vasilha olhares &aacute;vidos e cheios de ang&uacute;stias, na ansiosa<br \/>\n    expectativa do jantar. Um, de passagem ati&ccedil;ava o fogo, outro carregava<br \/>\n    o ancorote cheio de &aacute;gua fresca; qual corria a lavar os pratos de estanho,<br \/>\n    qual indagava pressuroso se era preciso mais lenha.<\/p>\n<p>Houve um momento em que o cozinheiro, atucanado com tamanha oficiosidade,<br \/>\n    arremangou aos parceiros dizendo-lhes:<\/p>\n<p>&#8211; Arre! Tem tempo, gente! Parece que voc&ecirc;s nuca viram feij&atilde;o.<br \/>\n    Cuidem de seu que fazer, se n&atilde;o querem sair daqui a poder de ti&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de fogo!<\/p>\n<p>Os camaradas se afastaram, n&atilde;o querendo turrar com cozinheiro em momento<br \/>\n    assim melindroso.<\/p>\n<p>Pouco depois chegava o Ven&acirc;ncio, ainda a tempo de servir o jantar ao<br \/>\n    Manuel Alves.<\/p>\n<p>Os tropeiros formavam roda, agachados, com os pratos acima dos joelhos e<br \/>\n    comiam valentemente.<\/p>\n<p>&#8211; Ent&atilde;o? perguntou Manuel Alves ao seu malungo.<\/p>\n<p>&#8211; Nada, nada, nada! Aquilo por l&aacute;, nem sinal de gente!<\/p>\n<p>&#8211; Uai! &Eacute; est&uacute;rdio!<\/p>\n<p>&#8211; E vossemec&ecirc; pousa l&aacute; mesmo?<\/p>\n<p>&#8211; Querendo Deus, sozinho, com a franqueira e a garrucha, que nunca me atrai&ccedil;oaram.<\/p>\n<p>&#8211; Sua alma, sua palma, meu patr&atilde;o. Mas&#8230; &eacute; o diabo!<\/p>\n<p>&#8211; Ora! Pelo buraco da fechadura n&atilde;o entra gente, estando bem fechadas<br \/>\n    as portas. O resto, se for gente viva, antes dela me jantar eu hei de fazer<br \/>\n    por almo&ccedil;&aacute;-la. Ven&acirc;ncio, defunto n&atilde;o levanta da<br \/>\n    cova. Voc&ecirc; h&aacute; de saber amanh&atilde;.<\/p>\n<p>&#8211; Sua alma, sua palma, eu j&aacute; disse, meu patr&atilde;o; mas, olhe,<br \/>\n    eu j&aacute; estou velho, tenho visto muita coisa e, com ajuda de Deus, tenho<br \/>\n    escapado de algumas. Agora, o que eu nunca quis foi saber de neg&oacute;cio<br \/>\n    com assombra&ccedil;&atilde;o. Isso de coisa do outro mundo p&#8217;r&#8217;aqui mais<br \/>\n    p&#8217;r&#8217;ali &#8211; terminou o Ven&acirc;ncio, sublinhando a &uacute;ltima frase com<br \/>\n    um gesto de quem se benze.<\/p>\n<p>Manuel Alves riu-se e, sentando-se numa albarda estendida, catou uns gravetos<br \/>\n    do ch&atilde;o e come&ccedil;ou a riscar a terra, fazendo cruzinhas, tra&ccedil;ando<br \/>\n    arabescos&#8230;. A camaradagem, reconfortada com o jantar abundante, tagarelava<br \/>\n    e ria, bulindo de vez em quando no guampo de cacha&ccedil;a. Um deles ensaiava<br \/>\n    um rasgado na viola e outro &#8211; namorado, talvez, encostado ao esteio do rancho,<br \/>\n    olhava para longe, encarando a barra do c&eacute;u, de um vermelho enfuma&ccedil;ado<br \/>\n    e, falando baixinho, co&#8217;a voz tremente, &agrave; sua amada distante&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/h4>\n<p> Enoitara-se o escampado e, com ele, o rancho e a tapera. O rolo de cera,<br \/>\n    h&aacute; pouco aceso e pregado ao p&eacute; direito do rancho, fazia uma<br \/>\n    luz fumarenta. Embaixo da tripe&ccedil;a, o fogo estalava ainda. De longe<br \/>\n    vinham a&iacute; morrer as vozes do sapo-cachorro que latia l&aacute; num<br \/>\n    brejo afastado, sobre o qual os vaga-lumes teciam uma trama de luz vacilante.<br \/>\n    De c&aacute; se ouvia o resfolegar da mulada pastando, espalhada pelo campo.<br \/>\n    E o cincerro da madrinha, badalando compassadamente aos movimentos do animal,<br \/>\n    sonorizava aquela grave extens&atilde;o erma.<\/p>\n<p>As estrelas, em divina faceirice, furtavam o brilho &agrave;s miradas dos<br \/>\n    tropeiros que, tomados de langor, banzavam, estirados nas caronas, apoiadas<br \/>\n    as cabe&ccedil;as nos serigotes, com o rosto voltado para o c&eacute;u.<\/p>\n<p>Um dos tocadores, rapag&atilde;o do Cear&aacute;, pegou a tirar uma cantiga.<br \/>\n    E pouco a pouco, todos aqueles homens errantes, filhos dos pontos mais afastados<br \/>\n    desta grande p&aacute;tria, sufocados pelas mesmas saudades, unificados no<br \/>\n    mesmo sentimento de amor &agrave; independ&ecirc;ncia, irmanados nas alegrias<br \/>\n    e nas dores da vida em comum, responderam em coro, cantando o estribilho.<br \/>\n    A princ&iacute;pio timidamente, as vozes meio veladas deixaram entreouvir<br \/>\n    os suspiros; mas, animando-se, animando-se, a solid&atilde;o foi se enchendo<br \/>\n    de melodia, foi se povoando de sons dessa m&uacute;sica espont&acirc;nea e<br \/>\n    simples, t&atilde;o b&aacute;rbara e t&atilde;o livre de regras, onde a alma<br \/>\n    sertaneja solu&ccedil;a ou geme, campeia vitoriosa ou ruge trai&ccedil;oeira<br \/>\n    irm&atilde; g&ecirc;mea das vozes das feras, dos roncos da cachoeira, do murmulho<br \/>\n    suave do arroio, do gorjeio delicado das aves e do t&eacute;trico fragor das<br \/>\n    tormentas. O id&iacute;lio ou a luta, o romance ou a trag&eacute;dia viveram<br \/>\n    no relevo extraordin&aacute;rio desses versos mutilados, dessa linguagem brutesca<br \/>\n    da tropeirada.<\/p>\n<p>E, enquanto um deles, rufando um sapateado, gracejava com os companheiros,<br \/>\n    lembrando os perigos da noite nesse ermo consist&oacute;rio das almas penadas<br \/>\n    &#8211; outro, o Joaquim Pampa, l&aacute; das bandas do sul, interrompendo a narra&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de suas proezas na campanha, quando corria &agrave; cola da bagualada, girando<br \/>\n    as bolas no punho erguido, fez calar os &uacute;ltimos parceiros que ainda<br \/>\n    acompanhavam nas cantilenas o cearense peitudo, gritando-lhes:<\/p>\n<p>&#8211; Ch&eacute;, povo! T&aacute; chegando a hora!<\/p>\n<p>O &uacute;ltimo estribilho:<\/p>\n<p>Deixa estar o jacar&eacute;:<br \/>\n    A lagoa h&aacute; de secar<\/p>\n<p>expirou magoado na boca daqueles poucos, amantes resignados, que esperavam<br \/>\n    um tempo mais feliz, onde os cora&ccedil;&otilde;es duros das morenas ingratas<br \/>\n    amolecessem para seus namorados fi&eacute;is:<\/p>\n<p>Deixa estar o jacar&eacute;: <br \/>\n    A lagoa h&aacute; de secar<\/p>\n<p>O tropeiro apaixonado, rapazinho esguio, de olhos pretos e fundos, que contemplava<br \/>\n    absorto a barra do c&eacute;u ao cair da tarde, estava entre estes. E quando<br \/>\n    emudeceu a voz dos companheiros ao lado, ele concluiu a quadra com estas palavras,<br \/>\n    ditas em tom de f&eacute; profunda, como se evocasse m&aacute;goas longo tempo<br \/>\n    padecidas:<\/p>\n<p>Rio Preto h&aacute; de dar vau<br \/>\n    T&eacute; pra cachorro passar!<\/p>\n<p>&#8211; T&aacute; chegando a hora!<\/p>\n<p>&#8211; Hora de que, Joaquim?<\/p>\n<p>&#8211; De aparecerem as almas perdidas. Ih! Vamos acender fogueiras em roda do<br \/>\n    rancho.<\/p>\n<p>Nisto apareceu o Ven&acirc;ncio, cortando-lhes a conversa.<\/p>\n<p>&#8211; Gente ! O patr&atilde;o j&aacute; est&aacute; na tapera. Deus permita que<br \/>\n    nada lhe aconte&ccedil;a. Mas voc&ecirc;s sabem: ningu&eacute;m gosta deste<br \/>\n    pouso mal-assombrado.<\/p>\n<p>&#8211; Escute, tio Ven&acirc;ncio. A rapaziada deve tamb&eacute;m vigiar a tapera.<br \/>\n    Pois n&oacute;s havemos de deixar o patr&atilde;o sozinho?<\/p>\n<p>&#8211; Que se h&aacute; de fazer? Ele disse que queria ver com os seus olhos e<br \/>\n    havia de ir s&oacute;, porque assombra&ccedil;&atilde;o n&atilde;o aparece<br \/>\n    sen&atilde;o a uma pessoa s&oacute; que mostre coragem.<\/p>\n<p>&#8211; O povo diz que mais de um tropeiro animoso quis ver a coisa de perto; mas<br \/>\n    no dia seguinte, os companheiros tinham que trazer defunto para o rancho porque,<br \/>\n    dos que dormem l&aacute;, n&atilde;o escapa nenhum.<\/p>\n<p>&#8211; Qual, homem! Isso tamb&eacute;m n&atilde;o! Quem conta um conto acrescenta<br \/>\n    um ponto. Eu c&aacute; n&atilde;o vou me fiando muito na boca do povo, por<br \/>\n    isso &eacute; que eu n&atilde;o gosto de p&ocirc;r o sentido nessas coisas.<\/p>\n<p>A conversa tornou-se geral e cada um contou um caso de coisa do outro mundo.<br \/>\n    O sil&ecirc;ncio e a solid&atilde;o da noite, real&ccedil;ando as cenas fant&aacute;sticas<br \/>\n    das narra&ccedil;&otilde;es de h&aacute; pouco, filtraram nas almas dos parceiros<br \/>\n    menos corajosos um como terror pela imin&ecirc;ncia das apari&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>E foram-se amontoando a um canto do rancho, rentes uns aos outros, de armas<br \/>\n    aperradas alguns e olhos esbugalhados para o indeciso da treva; outros, destemidos<br \/>\n    e gabolas, diziam alto.<\/p>\n<p>&#8211; C&aacute; por mim, o defunto que me tentar morre duas vezes, isto t&atilde;o<br \/>\n    certo como sem d&uacute;vida &#8211; e espregui&ccedil;avam-se nos couros estendidos,<br \/>\n    bocejando de sono.<\/p>\n<p>S&uacute;bito, ouviu-se um gemido agudo, fort&iacute;ssimo, atroando os ares<br \/>\n    como o &uacute;ltimo grito de um animal ferido de morte.<\/p>\n<p>Os tropeiros pularam dos lugares, precipitando-se confusamente para a beira<br \/>\n    do rancho.<\/p>\n<p>Mas o Ven&acirc;ncio acudiu logo, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; At&eacute; a&iacute; vou eu, gente ! Dessas almas eu n&atilde;o tenho medo.<br \/>\n    J&aacute; sou vaqueano velho e posso contar. S&atilde;o as antas-sapateiras<br \/>\n    no cio. Disso a gente ouve poucas vezes, mas ouve. Voc&ecirc;s t&ecirc;m raz&atilde;o:<br \/>\n    faz medo.<\/p>\n<p>E os paquidermes, ao darem com o fogo, dispararam, galopando pelo cap&atilde;o<br \/>\n    adentro.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/h4>\n<p> Manuel Alves, ao cair da noite, sentindo-se refeito pelo jantar, endireitou<br \/>\n    para a tapera, caminhando vagarosamente.<\/p>\n<p>Antes de sair, descarregou os dois canos da garrucha num cupim e carregou-a<br \/>\n    de novo, metendo em cada cano uma bala de cobre e muitos bagos de chumbo grosso.<br \/>\n    Sua franqueira aparelhada de prata, levou-a tamb&eacute;m enfiada no corre&atilde;o<br \/>\n    da cintura. N&atilde;o lhe esqueceu o rolo de cera nem um ma&ccedil;o de palhas.<br \/>\n    O arneiro partira calado. N&atilde;o queria provocar a curiosidade dos tropeiros.<br \/>\n    L&aacute; chegando, penetrou no p&aacute;tio pela grande porteira escancarada.<\/p>\n<p>Era noite.<\/p>\n<p>Tateando com o p&eacute;, reuniu um molho de gravetos secos e, servindo-se<br \/>\n    das palhas e da binga, fez fogo. Ajuntou mais lenha arrancando paus de cercas<br \/>\n    velhas, apanhando peda&ccedil;os de t&aacute;bua de pe&ccedil;as em ru&iacute;na,<br \/>\n    e com isso, formou uma grande fogueira. Assim alumiado o p&aacute;tio, o arneiro<br \/>\n    acendeu o rolo e come&ccedil;ou a percorrer as estrebarias meio apodrecidas,<br \/>\n    os pai&oacute;is, as senzalas em linha, uma velha oficina de ferreiro com<br \/>\n    o fole esburacado e a bigorna ainda em p&eacute;.<\/p>\n<p>&#8211; Quero ver se tem alguma coisa escondida por aqui. Talvez alguma cama de<br \/>\n    bicho do mato.<\/p>\n<p>E andava pesquisando, escarafunchando por aquelas depend&ecirc;ncias de casa<br \/>\n    nobre, ora desbei&ccedil;adas, s&iacute;tio preferido das lagartixas, dos<br \/>\n    ferozes lacraus e dos caranguejos cerdosos. Nada, nada: tudo abandonado!<\/p>\n<p>&#8211; Senhor! Por que seria? &#8211; inquiriu de si para si o cuiabano e parou &agrave;<br \/>\n    porta de uma senzala, olhando para o meio do p&aacute;tio onde uma caveira<br \/>\n    alvadia de boi-esp&aacute;ceo, fincada na ponta de uma estaca, parecia amea&ccedil;&aacute;-lo<br \/>\n    com a grande arma&ccedil;&atilde;o aberta.<\/p>\n<p>Encaminhou para a escadaria que levava ao alpendre e que se abria em duas<br \/>\n    escadas, de um lado e de outro, como dois lados de um tri&acirc;ngulo, fechando<br \/>\n    no alpendre, seu v&eacute;rtice. No meio da parede e erguida sobre a sapata,<br \/>\n    uma cruz de madeira negra avultava; aos p&eacute;s desta, cavava-se um tanque<br \/>\n    de pedra, bebedouro do gado da porta, noutro tempo.<\/p>\n<p>Manuel subiu cauteloso e viu a porta aberta com a grande fechadura sem chave,<br \/>\n    uma tranca de ferro ca&iacute;da e um espeque de madeira atirado a dois passos<br \/>\n    no assoalho.<\/p>\n<p>Entrou. Viu na sala da frente sua rede armada e no canto da parede, embutido<br \/>\n    na alvenaria, um grande orat&oacute;rio com portas de almofada entreabertas.<br \/>\n    Subiu a um banco de recosto alto, unido &agrave; parede e chegou o rosto perto<br \/>\n    do orat&oacute;rio, procurando examin&aacute;-lo por dentro, quando um morcego<br \/>\n    enorme, alvoro&ccedil;ado, tomou surto, ciciando, e foi pregar-se ao teto,<br \/>\n    donde os olhinhos redondos piscaram amea&ccedil;adores.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; l&aacute; isso, bicho amaldi&ccedil;oado? Com Deus adiante<br \/>\n    e com paz na guia, encomendando Deus e a virgem Maria&#8230;<\/p>\n<p>O arrieiro voltou-se, depois de ter murmurado as palavras de esconjuro e,<br \/>\n    cerrando a porta de fora, especou-a com firmeza. Depois, penetrou na casa<br \/>\n    pelo corredor comprido, pelo qual o vento corria veloz, sendo-lhe preciso<br \/>\n    amparar com a m&atilde;o espalmada a luz vacilante do rolo. Foi dar na sala<br \/>\n    de jantar, onde uma mesa escura e de rodap&eacute;s torneados, cercada de<br \/>\n    bancos esculpidos, estendia-se, vazia e negra.<\/p>\n<p>O teto de estuque, oblongo e escantilhado, rachara, descobrindo os caibros<br \/>\n    e rasgando uma nesga de c&eacute;u por uma frincha de telhado. Por a&iacute;<br \/>\n    corria uma goteira no tempo da chuva e, embaixo, o assoalho podre amea&ccedil;ava<br \/>\n    tragar quem se aproximasse despercebido. Manuel recuou e dirigiu-se para os<br \/>\n    c&ocirc;modos do fundo. Enfiando por um corredor que parecia conduzir &agrave;<br \/>\n    cozinha, viu, ao lado, o teto abatido de um quarto, cujo assoalho tinha no<br \/>\n    meio um mont&iacute;culo de escombros. Olhou para o c&eacute;u e viu, abafando<br \/>\n    a luz apenas adivinhada das estrelas, um bando de nuvens escuras, roldando.<br \/>\n    Um outro quarto havia junto desse e o olhar do arneiro deteve-se, acompanhando<br \/>\n    a luz do rolo no bra&ccedil;o esquerdo erguido, sondando as prateleiras fixas<br \/>\n    na parede, onde uma coisa branca luzia. Era um caco velho de prato antigo.<br \/>\n    Manuel Alves sorriu para uma figurinha de mulher, muito colorida, cuja cabe&ccedil;a<br \/>\n    aparecia ainda pintada ao vivo na porcelana alva.<\/p>\n<p>Um zunido de vento impetuoso, constringido na fresta de uma janela que olhava<br \/>\n    para fora, fez o arneiro voltar o rosto de repente e prosseguir o exame do<br \/>\n    casara-o abandonado. Pareceu-lhe ouvir nesse instante a zoada plangente de<br \/>\n    um sino ao longe. Levantou a cabe&ccedil;a, estendeu o pesco&ccedil;o e inclinou<br \/>\n    o ouvido, alerta; o som continuava, zoando, zoando, parecendo ora morrer de<br \/>\n    todo, ora vibrar ainda, mas sempre ao longe.<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; o vento, talvez, no sino da capela.<\/p>\n<p>E penetrou num sal&atilde;o enorme, escuro. A luz do rolo, tremendo, deixou<br \/>\n    no ch&atilde;o uma r&eacute;stia avermelhada. Manuel foi adiante e esbarrou<br \/>\n    num tamborete de couro, tombado a&iacute;. O arneiro foi seguindo, acompanhando<br \/>\n    uma das paredes. Chegou ao canto e entestou com a outra parede.<\/p>\n<p>&#8211; Acaba aqui &#8211; murmurou.<\/p>\n<p>Tr&ecirc;s grandes janelas no fundo estavam fechadas.<\/p>\n<p>&#8211; Que haver&aacute; aqui atr&aacute;s? Talvez o terreiro de dentro. Deixe<br \/>\n    ver&#8230;<\/p>\n<p>Tentou abrir uma janela, que resistiu. O vento, fora, disparava, &agrave;s<br \/>\n    vezes, reboando como uma vara de queixada em redemoinho no mato.<\/p>\n<p>Manuel fez vibrar as bandeiras da janela a choques repetidos. Resistindo<br \/>\n    elas, o arneiro recuou e, de bra&ccedil;o direito estendido, deu-lhes um empurr&atilde;o<br \/>\n    violento. A janela, num grito estardalha&ccedil;ante, escancarou-se. Uma rajada<br \/>\n    rompeu por ela adentro, latindo qual matilha enfurecida; pela casa toda houve<br \/>\n    um tatalar de portas, um ru&iacute;do de reboco que cai das paredes altas<br \/>\n    e se esfarinha no ch&atilde;o.<\/p>\n<p>A chama do rolo apagou-se &agrave; lufada e o cuiabano ficou s&oacute;, babatando<br \/>\n    na treva.<\/p>\n<p>Lembrando-se da binga sacou-a do bolso da cal&ccedil;a; colocou a pedra com<br \/>\n    jeito e bateu-lhe o fuzil; as centelhas saltavam para a frente impelidas pelo<br \/>\n    vento e apagavam-se logo. Ent&atilde;o, o cuiabano deu uns passos para tr&aacute;s,<br \/>\n    apalpando at&eacute; tocar a parede do fundo. Encostou-se nela e foi andando<br \/>\n    para os lados, ro&ccedil;ando-lhe as costas procurando o entrev&atilde;o das<br \/>\n    janelas. A&iacute;, acocorou-se e tentou de novo tirar fogo: uma faiscazinha<br \/>\n    chamuscou o isqueiro e Manuel Alves soprou-a delicadamente, alentando-a com<br \/>\n    a principio, ela animou-se, quis alastrar-se, mas de repente sumiu-se. O arrieiro<br \/>\n    apalpou o isqueiro, virou-o nas m&atilde;os e achou-o &uacute;mido; tinha-o<br \/>\n    deixado no ch&atilde;o, exposto ao sereno, na hora em que fazia a fogueira<br \/>\n    no p&aacute;tio e percorria as depend&ecirc;ncias deste. <\/p>\n<p>Meteu a binga no bolso e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Espera, diaba, que tu h&aacute;s de secar com o calor do corpo.<\/p>\n<p>Nesse entremente a zoada do sino fez-se ouvir de novo, dolorosa e long&iacute;nqua.<br \/>\n    Ent&atilde;o o cuiabano p&ocirc;s-se de gatinhas, atravessou a faca entre<br \/>\n    os dentes e marchou como um felino, sutilmente, vagarosamente, de olhos arregalados,<br \/>\n    querendo varar a treva. S&uacute;bito, um ru&iacute;do estranho f&ecirc;-lo<br \/>\n    estacar, arrepiado e encolhido como um jaguar que prepara o bote.<\/p>\n<p>No teto soaram uns passos apressados de tamancos pracatando e uma voz rouquenha<br \/>\n    pareceu proferir uma impreca&ccedil;&atilde;o. O arneiro assentou-se nos calcanhares,<br \/>\n    apertou o ferro nos dentes e puxou da cinta a garrucha; bateu com o punho<br \/>\n    cerrado nos feixos da arma, chamando a p&oacute;lvora aos ouvidos e esperou.<br \/>\n    O ru&iacute;do cessara; s&oacute; a zoada do sino continuava, intermitentemente.<\/p>\n<p>Nada aparecendo, Manuel tocou para diante, sempre de gatinhas. Mas, desta<br \/>\n    vez, a garrucha, aperrada na m&atilde;o direita, batia no ch&atilde;o a intervalos<br \/>\n    r&iacute;tmicos, como a &uacute;ngula de um quadr&uacute;pede manco. Ao passar<br \/>\n    junto ao quarto de teto esboroado, o cuiabano lobrigou o c&eacute;u e orientou-se.<br \/>\n    Seguiu, ent&atilde;o, pelo corredor a fora, apalpando, cosendo-se com a parede.<br \/>\n    Novamente parou ouvindo um farfalhar distante, um sibilo como o da refega<br \/>\n    no buritizal.<\/p>\n<p>Pouco depois, um estr&eacute;pito medonho abalou o casara-o escuro e a ventania<br \/>\n    &#8211; alcat&eacute;ia de lbos rafados &#8211; investiu uivando e passou &agrave; disparada,<br \/>\n    estrondando uma janela. Saindo por a&iacute;, voltaram de novo os austros<br \/>\n    furentes, perseguindo-se, precipitando-se, zunindo, gargalhando sarcasticamente,<br \/>\n    pelos sal&otilde;es vazios.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o arrieiro sentiu no espa&ccedil;o um arfar de asas, um so&iacute;do<br \/>\n    &aacute;spero de a&ccedil;o que ringe e, na cabe&ccedil;a, nas costas, umas<br \/>\n    pancadinhas assustadas&#8230; Pelo espa&ccedil;o todo ressoou um psiu, psiu, psiu&#8230;<br \/>\n    e um bando enorme de morcegos sinistros torvelinhou no meio da ventania.<\/p>\n<p>Manuel foi impelido para a frente &agrave; corrima&ccedil;a daqueles mensageiros<br \/>\n    do negrume e do assombramento. De m&uacute;sculos crispados num come&ccedil;o<br \/>\n    de rea&ccedil;&atilde;o selvagem contra a alucina&ccedil;&atilde;o que o invadia,<br \/>\n    o arneiro alapardava-se, eri&ccedil;ando-se-lhe os cabelos. Depois, seguia<br \/>\n    de manso, com o pesco&ccedil;o estendido e os olhos acesos, assim como um<br \/>\n    sabujo que negaceia.<\/p>\n<p>E foi rompendo a escurid&atilde;o &agrave; ca&ccedil;a desse ente maldito<br \/>\n    que fazia o velho casar&atilde;o falar ou gemer, amea&ccedil;&aacute;-lo ou<br \/>\n    repeti-lo, num conluio demon&iacute;aco com o vento, os morcegos e a treva.<\/p>\n<p>Come&ccedil;ou a sentir que tinha ca&iacute;do num la&ccedil;o armado talvez<br \/>\n    pelo maligno. De vez cm quando, parecia-lhe que uma coisa lhe arrepelava os<br \/>\n    cabelos e uns anim&aacute;lculos desconhecidos perlustravam seu corpo em carreira<br \/>\n    vertiginosa. No mesmo tempo, um rir abafado, uns cochichos de esc&aacute;rnio<br \/>\n    pareciam acompanh&aacute;-lo de um lado e de outro.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! voc&ecirc;s n&atilde;o me h&atilde;o de levar assim-assim, n&atilde;o<br \/>\n    &#8211; exclamava o arrieiro para o invis&iacute;vel. &#8211; Pode que eu seja on&ccedil;a<br \/>\n    presa na arataca. Mas eu mostro! Eu mostro!<\/p>\n<p>E batia com for&ccedil;a a coronha da garrucha no solo ecoante.<\/p>\n<p>S&uacute;bito, uma luz indecisa, coada por alguma janela pr&oacute;xima,<br \/>\n    f&ecirc;-lo vislumbrar um vulto branco, esguio, semelhante a uma grande serpente,<br \/>\n    coleando, sacudindo-se. O vento trazia vozes estranhas das socavas da terra,<br \/>\n    misturando-se com os lamentos do sino, mais acentuados agora.<\/p>\n<p>Manuel estacou, com as fontes latejando, a goela constrita e a respira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    curta. A boca semi-aberta deixou cair a faca: o f&ocirc;lego, a modo de um<br \/>\n    sedenho, penetrou-lhe na garganta seca, sarjando-a e o arneiro roncou como<br \/>\n    um barra-o acuado pela cachorrada. Correu a m&atilde;o pelo assoalho e agarrou<br \/>\n    a faca; meteu-a de novo entre os dentes, que rangeram no ferro; engatilhou<br \/>\n    a garrucha e apontou para o monstro; uma pancada seca do c&atilde;o no a&ccedil;o<br \/>\n    do ouvido mostrou-lhe que sua arma fiel o traia. A escorva ca&iacute;ra pelo<br \/>\n    ch&atilde;o e a garrucha negou fogo. O arneiro arrojou contra o monstro a<br \/>\n    arma traidora e gaguejou em meia risada de louco:<\/p>\n<p>&#8211; Mandingueiros do inferno! Botaram mandinga na minha arma de fian&ccedil;a!<br \/>\n    Tiveram medo dos dentes da minha garrucha! Mas voc&ecirc;s h&atilde;o de conhecer<br \/>\n    homem, sombra&ccedil;&otilde;es do dem&ocirc;nio!<\/p>\n<p>De um salto, arremeteu contra o inimigo; a faca, vibrada com &iacute;mpeto<br \/>\n    feroz, ringiu numa coisa e foi enterrar a ponta na t&aacute;bua do assoalho,<br \/>\n    onde o sertanejo, apanhado pelo meio do corpo num la&ccedil;o forte, tombou<br \/>\n    pesadamente.<\/p>\n<p>A queda assanhou-lhe a f&uacute;ria e o arneiro, erguendo-se de um pulo,<br \/>\n    rasgou numa facada um farrapo branco que ondulava no ar. Deu-lhe um bote e<br \/>\n    estrincou nos dedos um como tecido grosso. Durante alguns momentos ficou no<br \/>\n    lugar, hirto, suando, rugindo.<\/p>\n<p>Pouco a pouco foi correndo a m&atilde;o cautelosamente, tateando aquele corpo<br \/>\n    estranho que seus dedos arrochavam! era um pano, de sua rede, talvez, que<br \/>\n    o Ven&acirc;ncio armara na sala da frente.<\/p>\n<p>Neste instante, pareceu-lhe ouvir chascos de mofa nas vozes do vento e nos<br \/>\n    assovios dos morcegos; ao mesmo tempo, percebia que o chamavam l&aacute; dentro<br \/>\n    Manuel, Manuel, Manuel &#8211; em frases tartamudeadas. O arneiro avan&ccedil;ou<br \/>\n    como um possesso, dando pulos, esfaqueando sombras que fugiam.<\/p>\n<p>Foi dar na sala de jantar onde, pelo rasg&atilde;o do telhado, pareciam descer<br \/>\n    umas formas longas, esvoa&ccedil;ando, e uns vultos alvos, em que por vezes<br \/>\n    pastavam chamas r&aacute;pidas, dan&ccedil;avam-lhe diante dos olhos incendidos.<\/p>\n<p>O arneiro n&atilde;o pensava mais. A respira&ccedil;&atilde;o se lhe tornara<br \/>\n    estertorosa; horr&iacute;veis contra&ccedil;&otilde;es musculares repuxavam-lhe<br \/>\n    o rosto e ele, investindo as sombras, uivava:<\/p>\n<p>&#8211; Trai&ccedil;oeiras ! Eu queria carne para rasgar com este ferro ! Eu queria<br \/>\n    osso para esmigalhar num murro.<\/p>\n<p>As sombras fugiam, esfloravam as paredes em ascens&atilde;o r&aacute;pida,<br \/>\n    iluminando-lhe subitamente o rosto, brincando-lhe um momento nos cabelos arrepiados<br \/>\n    ou dan&ccedil;ando-lhe na frente. Era como uma chusma de meninos endemoniados<br \/>\n    a zombarem dele, puxando-o daqui, beliscando-o d&#8217;acol&aacute;, a&ccedil;ulando-o<br \/>\n    como a um c&atilde;o de rua.<\/p>\n<p>O arneiro dava saltos de &uacute;gre, arremetendo contra o inimigo nessa<br \/>\n    luta fant&aacute;stica: rangia os dentes e parava depois, ganindo como a on&ccedil;a<br \/>\n    esfaimada a que se escapa a presa. Houve um momento em que uma cor&eacute;ia<br \/>\n    demon&iacute;aca se concertava ao redor dele, entre uivos, guinchos, risadas<br \/>\n    ou gemidos. Manuel ia recuando e aqueles c&iacute;rculos infernais o iam estringindo;<br \/>\n    as sombras giravam correndo, precipitando-se, entrando numa porta, saindo<br \/>\n    noutra, esvoa&ccedil;ando, rojando no ch&atilde;o ou saracoteando desenfreadamente.<\/p>\n<p>Um longo solu&ccedil;o despeda&ccedil;ou-lhe a garganta num ai sentido e<br \/>\n    profundo e o arneiro deixou cair pesadamente a m&atilde;o esquerda espalmada<br \/>\n    num portal, justamente quando um morcego, que fugia amedrontado, lhe deu uma<br \/>\n    forte pancada no rosto. Ent&atilde;o, Manuel pulou novamente para diante,<br \/>\n    apertando nos dedos o cabo da franqueira fiel; pelo rasg&atilde;o do telhado<br \/>\n    novas sombras desciam e algumas, quedas, pareciam dispostas a esperar o embate.<\/p>\n<p>O arneiro rugiu:<\/p>\n<p>&#8211; Eu mato! Eu mato! Mato! &#8211; e acometeu com de alucinado aqueles entes malditos.<br \/>\n    De um foi cair no meio das formas impalp&aacute;veis e vacilantes. fragor<br \/>\n    medonho se fez ouvir; o assoalho podre cedeu barrote, ro&iacute;do de cupins,<br \/>\n    baqueou sobre uma coisa e desmoronava embaixo da casa. O corpo de Manuel,<br \/>\n    tragado pelo buraco que se abriu, precipitou-se e tombou l&aacute; embaixo.<br \/>\n    Ao mesmo tempo, um som vibrante de metal, um tilintar como de moedas derramando-se<br \/>\n    pela fenda uma frasqueira que se racha, acompanhou o baque do corpo do arneiro.\n  <\/p>\n<p>Manuel l&aacute; no fundo, ferido, ensang&uuml;entado, arrastou-se ainda,<br \/>\n    cravando as unhas na terra como um ururau golpeado de morte. Em todo o corpo<br \/>\n    estendido com o ventre na terra, perpassava-lhe ainda uma crispa&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    de luta; sua boca proferiu ainda: &#8211; &quot;Eu mato ! Mato! Ma&#8230;&quot; &#8211; e<br \/>\n    um sil&ecirc;ncio tr&aacute;gico pesou sobre a tapera.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/h4>\n<p> O dia estava nasce-n&atilde;o-nasce e j&aacute; os tropeiros tinham pegado<br \/>\n    na lida. Na meia luz crepitava a labareda embaixo do caldeir&atilde;o cuja<br \/>\n    tampa, impelida pelos vapores que subiam, rufava nos bei&ccedil;os de ferro<br \/>\n    batido. Um cheiro de mato e de terra orvalhada espalhava-se com a vira&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    da madrugada.<\/p>\n<p>Ven&acirc;ncio, dentro do rancho, juntava, ao lado de cada cangalha, o couro,<br \/>\n    o arrocho e a sobrecarga. Joaquim Pampa fazendo cruzes na boca aos bocejos<br \/>\n    freq&uuml;entes, por impedir que o dem&ocirc;nio lhe penetrasse no corpo,<br \/>\n    emparelhava os fardos, guiando-se pela cor dos topes cosidos aqueles. Os tocadores,<br \/>\n    pelo campo a fora, ecavam um para o outro, avisando o encontro de algum macho<br \/>\n    fuj&atilde;o. Outros, em rodeio, detinham-se no lugar em que se achava a madrinha,<br \/>\n    vigiando a tropa.<\/p>\n<p>Pouco depois ouviu-se o tropel dos animais demandando o rancho. O cincerro<br \/>\n    tilintava alegremente, espantando os passarinhos que se levantavam das touceiras<br \/>\n    de arbustos, voando apressados. Os urus, nos cap&otilde;es, solfejavam &agrave;<br \/>\n    aurora que principiava a tingir o c&eacute;u e manchar de p&uacute;rpura e<br \/>\n    ouro o capinzal verde.<\/p>\n<p>&#8211; Eh, gente! o orvalho &#8216;st&aacute; cortando, &ecirc;ta! Que temp&atilde;o<br \/>\n    tive briquitando co&#8217;aquele macho &quot;pelintra&quot;. Diabo o leve! Aquilo<br \/>\n    &eacute; pr&oacute;prio um gato: n&atilde;o faz bulha no mato e n&atilde;o<br \/>\n    procura as trilhas, por n&atilde;o deixar rastro.<\/p>\n<p>&#8211; E a &quot;Andorinha&quot;? Isso &eacute; que &eacute; mula desabotinada!<br \/>\n    Sopra de longe que nem um bicho do mato e desanda na carreira. Ela me ojerizou<br \/>\n    tanto que eu soltei nela um matac&atilde;o de pedra, de que ela havia de gostar<br \/>\n    pouco.<\/p>\n<p>A rapaziada chegava &agrave; beira do rancho, tangendo a tropa.<\/p>\n<p>&#8211; Que &eacute; da giribita? Um trago &eacute; bom para cortar algum ar que<br \/>\n    a gente apanhe. Traze o guampo, Aleixo.<\/p>\n<p>&#8211; Uma hora &eacute; frio, outra &eacute; calor, e voc&ecirc;s v&atilde;o<br \/>\n    virando, cambada do diabo ! &#8211; gritou o Ven&acirc;ncio.<\/p>\n<p>&#8211; Largue da vida dos outros e v&aacute; cuidar da sua, tio Ven&acirc;ncio!<br \/>\n    Por for&ccedil;a que havemos de querer esquentar o corpo: enquanto n&oacute;s,<br \/>\n    nem bem o dia sonhava de nascer, j&aacute; est&aacute;vamos atolados no capinzal<br \/>\n    molhado, vossemec&ecirc; tava a&iacute; na beira do fogo, feito um cachorro<br \/>\n    velho.<\/p>\n<p>&#8211; T&aacute; bom, t&aacute; bom, n&atilde;o quero muita conversa comigo n&atilde;o.<br \/>\n    V&atilde;o tratando de chegar os burros &agrave;s estacas e de suspender as<br \/>\n    cangalhas. O tempo &eacute; pouco e o patr&atilde;o chega de uma hora para<br \/>\n    a outra. Fica muito bonito se ele vem encontrar essa sinagoga aqui! E por<br \/>\n    falar nisso, &eacute; bom a gente ir l&aacute;. Deus &eacute; grande! Mas<br \/>\n    eu n&atilde;o pude fechar os olhos esta noite ! Quando ia querendo pegar no<br \/>\n    sono, me vinha &agrave; mente alguma que pudesse suceder a s&oacute; Manuel.<br \/>\n    Deus &eacute; grande!<\/p>\n<p>Logo-logo o Ven&acirc;ncio chamou pelo Joaquim Pampa, pelo Aleixo e mais<br \/>\n    o Jos&eacute; Paulista.<\/p>\n<p>Deixamos esses meninos cuidando do servi&ccedil;o e n&oacute;s vamos l&aacute;.<\/p>\n<p>Nesse instante, um molecote chegou com o caf&eacute;. A rapaziada cercou-o.<br \/>\n    O Ven&acirc;ncio e seus companheiros, depois de terem emborcado os cuit&eacute;s,<br \/>\n    partiram para a tapera.<\/p>\n<p>Logo &agrave; sa&iacute;da, o velho tropeiro refletiu um pouco alto:<\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; bom ficar um aqui tomando conta do servi&ccedil;o. Fica voc&ecirc;,<br \/>\n    Aleixo.<\/p>\n<p>Seguiram os tr&ecirc;s, calados, pelo campo a fora, na luz<\/p>\n<p>Suave de antemanh&atilde;. Concentrados em conjeturas sobre a sorte do arneiro,<br \/>\n    cada qual queria mostrar-se mais sereno, andando l&eacute;pido e de rosto<br \/>\n    tranq&uuml;ilo; cada qual, escondia do outro a ang&uacute;stia do cora&ccedil;&atilde;o<br \/>\n    e a fealdade do progn&oacute;stico.<\/p>\n<p>Jos&eacute; Paulista entoou uma cantiga que acaba neste<\/p>\n<p>estribilho:<\/p>\n<p>A barra do dia ai vem!<br \/>\n    A barra do sol tamb&eacute;m,<br \/>\n    Ai!<\/p>\n<p>E l&aacute; foram, cantando todos tr&ecirc;s, por espantar as m&aacute;goas.<br \/>\n    Ao entrarem no grande p&aacute;tio da frente, deram com os restos da fogueira<br \/>\n    que Manuel Alves tinha feito Da v&eacute;spera. Sem mais deten&ccedil;a, foram-se<br \/>\n    barafustando pela escadaria do alpendre, em cujo topo a porta de fora lhes<br \/>\n    cortou o passo. Experimentaram-na primeiro. A porta, fortemente especada por<br \/>\n    dentro, rinchou e n&atilde;o cedeu.<\/p>\n<p>Forcejaram os tr&ecirc;s e ela resistiu ainda. Ent&atilde;o, Jos&eacute;<br \/>\n    Paulista correu pela escada abaixo e trouxe ao ombro um camb&atilde;o, no<br \/>\n    qual os tr&ecirc;s pegaram e, servindo-se dele como de um ar&iacute;ete, marraram<br \/>\n    com a porta. As ombreiras e a verga vibraram aos choques violentos cujo fragor<br \/>\n    se foi evolumando pelo casar&atilde;o adentro em roncos profundos. <\/p>\n<p>Em alguns instantes o espeque, escapulindo do lugar, foi arrojado no meio<br \/>\n    do s&ocirc;lho. A cali&ccedil;a que caia encheu de pequenos torr&otilde;es<br \/>\n    esbranqui&ccedil;ados os chap&eacute;us dos tropeiros &#8211; e a porta escancarou-se.<\/p>\n<p>Na sala da frente deram com a rede toda estra&ccedil;alhada.<\/p>\n<p>&#8211; Mau, mau, mau! &#8211; exclamou Ven&acirc;ncio n&atilde;o podendo mais conter-se.<br \/>\n    Os outros tropeiros, de olhos esbugalhados, n&atilde;o ousavam proferir uma<br \/>\n    palavra. Apenas apalparam com cautela aqueles farrapos de pano, malsinados,<br \/>\n    com certeza, ao contato das almas do outro mundo.<\/p>\n<p>Correram a casa toda juntos, arquejando, murmurando ora&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    contra malef&iacute;cios.<\/p>\n<p>&#8211; Gente, onde estar&aacute; s&ocirc; Manuel? Voc&ecirc;s n&atilde;o me dir&atilde;o<br \/>\n    pelo amor de Deus? &#8211; exclamou o Ven&acirc;ncio.<\/p>\n<p>Joaquim Pampa e Jos&eacute; Paulista calavam-se perdidos em conjeturas sinistras.<\/p>\n<p>Na sala de jantar, mudos um frente do outro, pareciam ter um concili&aacute;bulo<br \/>\n    em que somente se lhes comunicassem os esp&iacute;ritos. Mas, de repente,<br \/>\n    creram ouvir, pelo buraco do assoalho, um gemido estertoroso. Curvaram-se<br \/>\n    todos; Ven&acirc;ncio debru&ccedil;ou-se, sondando o por&atilde;o da casa.<\/p>\n<p>A luz, mais di&aacute;fana, j&aacute; alumiava o terreiro de dentro e entrava<br \/>\n    pelo por&atilde;o: o tropeiro viu um vulto estendido.<\/p>\n<p>&#8211; Nossa Senhora ! Corre, gente, que s&ocirc; Manuel est&aacute; l&aacute;<br \/>\n    embaixo, estirado!<\/p>\n<p>Precipitaram-se todos para a frente da casa, Ven&acirc;ncio adiante. Desceram<br \/>\n    as escadas e procuraram o port&atilde;o que dava para o terreiro de dentro.<br \/>\n    Entraram por ele a fora e, embaixo das janelas da sala de jantar, um espet&aacute;culo<br \/>\n    estranho deparou-se-lhes:<\/p>\n<p>O arneiro, ensang&uuml;entado, jazia no ch&atilde;o estirado; junto de seu<br \/>\n    corpo, de envolta com torr&otilde;es desprendidos da ab&oacute;bada de um<br \/>\n    forno desabado, um chuveiro de moedas de ouro luzia.<\/p>\n<p>&#8211; Meu patr&atilde;o! S&ocirc; Manuelzinho! Que foi isso? Olhe seus camaradas<br \/>\n    aqui. Meu Deus! Que mandinga foi esta? E a ourama que alumia diante dos nossos<br \/>\n    olhos?!<\/p>\n<p>Os tropeiros acercaram-se do corpo do Manuel, por onde passavam tremores<br \/>\n    convulsos. Seus dedos encarangados estrincavam ainda o cabo da faca, cuja<br \/>\n    l&acirc;mina se enterrara no ch&atilde;o; perto da nuca e presa pela gola<br \/>\n    da camisa, uma moeda de ouro se lhe grudara na pele.<\/p>\n<p>&#8211; S&ocirc; Manuelzinho! Ai meu Deus! P&#8217;ra que ca&ccedil;ar hist&oacute;rias<br \/>\n    do outro mundo! Isso &eacute; mesmo obra do capeta, porque anda dinheiro no<br \/>\n    meio. Olha esse ouro, Joaquim! Deus me livre!<\/p>\n<p>&#8211; Qual, tio Ven&acirc;ncio &#8211; disse por fim Jos&eacute; Paulista.- Eu j&aacute;<br \/>\n    sei a coisa. J&aacute; ouvi contar casos desses. Aqui havia dinheiro enterrado<br \/>\n    e, com certeza, nesse forno que com a boca virada para o terreiro. A&iacute;<br \/>\n    &eacute; que est&aacute; a Ou esse dinheiro foi mal ganho, ou porque o certo<br \/>\n    &eacute; que almas dos antigos donos desta fazenda n&atilde;o podiam sossegar<br \/>\n    enquanto n&atilde;o topassem um homem animoso para lhe darem o dinheiro, com<br \/>\n    a condi&ccedil;&atilde;o de cumprir, por inten&ccedil;&atilde;o delas, alguma<br \/>\n    promessa, pagar alguma d&iacute;vida, mandar dizer missas; foi isso, foi isso!<br \/>\n    E o patr&atilde;o &eacute; homem mesmo! Na hora de ver a assombra&ccedil;&atilde;o,<br \/>\n    a gente precisa de atravessar a faca ou um ferro na boca, p&#8217;r&#8217;amor de n&atilde;o<br \/>\n    perder a fala. N&atilde;o tem nada, Deus &eacute; grande!<\/p>\n<p>E os tropeiros, certos de estarem diante de um fato sobrenatural, falavam<br \/>\n    baixo e em tom solene. Mais de uma vez persignaram-se e, fazendo cruzes no<br \/>\n    ar, mandavam &ecirc; que quer que fosse &#8211; &quot;para as ondas do mar&quot;<br \/>\n    ou &quot;para as profundas, onde n&atilde;o canta galo nem galinha&quot;.<\/p>\n<p>Enquanto conversavam iam procurando levantar do ch&atilde;o o corpo do arneiro,<br \/>\n    que continuava a tremer. &Aacute;s vezes batiam-se-lhe os queixos e um gemido<br \/>\n    entrecortado lhe arrebentava da garganta.<\/p>\n<p>&#8211; Ah ! Patr&atilde;o, patr&atilde;o ~ Vossemec&ecirc;, homem t&atilde;o duro,<br \/>\n    hoje tombado assim! Valha-nos Deus! S&atilde;o Bom-Jesus do Cuiab&aacute;!<br \/>\n    Olha s&ocirc; Manuel, t&atilde;o devoto seu! &#8211; gemia o Ven&acirc;ncio.<\/p>\n<p>O velho tropeiro, auxiliado por Joaquim Pampa procurava, com muito jeito,<br \/>\n    levantar do ch&atilde;o o corpo do arneiro sem mago&aacute;-lo. Conseguiram<br \/>\n    levant&aacute;-lo nos bra&ccedil;os tran&ccedil;ados em cadeirinha e, antes<br \/>\n    de seguirem o rumo do rancho, Ven&acirc;ncio disse ao Jos&eacute; Paulista:<\/p>\n<p>&#8211; Eu n&atilde;o pego nessas moedas do capeta. Se voc&ecirc; n&atilde;o tem<br \/>\n    medo, ajunta isso e traz.<\/p>\n<p>Paulista encarou algum tempo o forno esboroado, onde os antigos haviam enterrado<br \/>\n    seu tesouro. Era o velho forno para quitanda. A ponta do barrote que o desmoronara<br \/>\n    estava fincada no meio dos escombros. O tropeiro olhou para cima e viu, no<br \/>\n    alto, bem acima do forno o buraco do assoalho por onde ca&iacute;ra o Manuel.\n  <\/p>\n<p>&#8211; &Eacute; alto deveras! Que tombo! &#8211; disse de si para si. &#8211; Que h&aacute;<br \/>\n    de ser do patr&atilde;o? Quem viu sombra&ccedil;&atilde;o fica muito tempo<br \/>\n    sem poder encarar a luz do dia. Qual! Esse dinheiro h&aacute; de ser de pouca<br \/>\n    serventia. Para mim, eu n&atilde;o quero: Deus me livre; ent&atilde;o &eacute;<br \/>\n    que eu tava pegado com essas almas do outro mundo! Nem &eacute; bom pensar!<\/p>\n<p>O forno estava levantado junto de um pilar de pedra sobre o qual uma viga<br \/>\n    de aroeira se erguia suportando a madre. De c&aacute; se via a fila dos barrotes<br \/>\n    estendendo-se para a direita at&eacute; ao fundo escuro.<\/p>\n<p>Jos&eacute; Paulista come&ccedil;ou a catar as moedas e encher os bolsos<br \/>\n    da cal&ccedil;a; depois de cheios estes, tirou do pesco&ccedil;o seu grande<br \/>\n    len&ccedil;o de cor e, estendendo-o no ch&atilde;o o foi enchendo tamb&eacute;m;<br \/>\n    dobrou as pontas em cruz e amarrou-as fortemente. Escarafunchando os escombros<br \/>\n    do forno achou mais moedas e com estas encheu o chap&eacute;u. Depois partiu,<br \/>\n    seguindo os companheiros que j&aacute; iam longe, conduzindo vagarosamente<br \/>\n    o arneiro.<\/p>\n<p>As n&eacute;voas volateantes fugiam impelidas pelas auras da manh&atilde;;<br \/>\n    s&oacute;s, alguns capuchos pairavam, muito baixos, nas depress&otilde;es<br \/>\n    do campo, ou adejavam nas c&uacute;pulas das &aacute;rvores. As sombras dos<br \/>\n    dois homens que carregavam o ferido tra&ccedil;aram no ch&atilde;o uma figura<br \/>\n    estranha de monstro. Jos&eacute; Paulista, estugando o passo, acompanhava<br \/>\n    com os olhos o grupo que o precedia de longe.<\/p>\n<p>Houve um instante em que um p&eacute;-de-vento arrancou ao Ven&acirc;ncio<br \/>\n    o chap&eacute;u da cabe&ccedil;a. O velho tropeiro voltou-se vivamente; o<br \/>\n    grupo oscilou um pouco, concertando os bra&ccedil;os do ferido; depois, pareceu<br \/>\n    a Jos&eacute; Paulista que o Ven&acirc;ncio lhe fazia um aceno: &quot;apanhasse-lhe<br \/>\n    o chap&eacute;u&quot;.<\/p>\n<p>A&iacute; chegando, Jos&eacute; Paulista arreou no ch&atilde;o o ouro, p&ocirc;s<br \/>\n    na cabe&ccedil;a o chap&eacute;u de Ven&acirc;ncio e, levantando de novo a<br \/>\n    carga, seguiu caminho a fora.<\/p>\n<p>&Agrave; beira do rancho, a tropa bufava escarvando a terra, abicando as<br \/>\n    orelhas, relinchando &agrave; espera do milho que n&atilde;o vinha. Alguns<br \/>\n    machos malcriados entravam pelo rancho adentro, de focinho estendido, cheirando<br \/>\n    os embornais.<\/p>\n<p>&Agrave;s vezes ouvia-se um grito: &#8211; Toma, diabo! &#8211; e um animal espirrava<br \/>\n    para o campo &agrave; tacada de um tropeiro.<\/p>\n<p>Quando l&aacute; do rancho se avistou o grupo onde vinha o arneiro, correram<br \/>\n    todos. O cozinheiro, que vinha do &ocirc;lho-d&#8217;&aacute;gua com o odre &agrave;s<br \/>\n    costas, atirou com ele ao ch&atilde;o e disparou tamb&eacute;m. Os animais<br \/>\n    j&aacute; amarrados, espantando-se escoravam nos cabestros. Bem depressa a<br \/>\n    tropeirada cercou o grupo. Reuniram-se em m&oacute;, proferiram exclama&ccedil;&otilde;es,<br \/>\n    benziam-se, mas logo algu&eacute;m lhes imp&ocirc;s sil&ecirc;ncio, porque<br \/>\n    voltaram todos, recolhidos, com os rostos consternados.<\/p>\n<p>O Aleixo veio correndo na frente para armar a rede de tucum que ainda restava.<\/p>\n<p>Foram chegando e Jos&eacute; Paulista chegou por &uacute;ltimo. tropeiros<br \/>\n    olharam com estranheza a carga que este conduzia; ningu&eacute;m teve, por&eacute;m,<br \/>\n    coragem de fazer uma pergunta: contentaram-se com interroga&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    mudas. Era o sobrenatural, ou era obra dos dem&ocirc;nios. Para que saber<br \/>\n    mais? N&atilde;o estava naquele estado o pobre do patr&atilde;o?<\/p>\n<p>O ferido foi colocado na rede havia pouco armada. dos tropeiros chegou com<br \/>\n    uma bacia de salmoura; outro, correndo do campo com um molho de arnica, pisava<br \/>\n    a planta para extrair-lhe o suco. Ven&acirc;ncio, com pano embebido, banhava<br \/>\n    as feridas do arneiro cujo corpo vibrava, ent&atilde;o, fortemente.<\/p>\n<p>Os animais olhavam curiosamente para dentro do rancho, afilando as orelhas.\n  <\/p>\n<p>Ent&atilde;o Ven&acirc;ncio, com a fisionomia decomposta, numa apoiadura<br \/>\n    de l&aacute;grimas, exclamou aos parceiros:<\/p>\n<p>&#8211; Minha gente! Aqui, neste deserto, s&oacute; Deus Nosso Senhor! &Eacute;<br \/>\n    hora, meu povo! &#8211; E ajoelhando-se de costas para o sol que nascia, come&ccedil;ou<br \/>\n    a entoar um &#8211; &quot;Senhor Deus, ouvi a minha ora&ccedil;&atilde;o e chegue<br \/>\n    a v&oacute;s o meu clamor!&quot; &#8211; E trechos de salmos que aprendera em menino,<br \/>\n    quando lhe ensinaram a ajudar a missa, afloram-lhe &agrave; boca. <\/p>\n<p>Os outros tropeiros foram-se ajoelhando todos atr&aacute;s do velho parceiro<br \/>\n    que parecia transfigurado. As vozes foram subindo, plangentes, desconcertadas,<br \/>\n    sem que ningu&eacute;m compreendesse o que dizia. Entretanto, parecia haver<br \/>\n    uma ascens&atilde;o de almas, um apelo fremente &quot;in excelsis&quot;, na<br \/>\n    fus&atilde;o dos sentimentos desses filhos do deserto. Ou era, vez, a pr&oacute;pria<br \/>\n    voz do deserto mal ferido com as feridas seu irm&atilde;o e companheiro, o<br \/>\n    fogoso cuiabano.<\/p>\n<p>De feito, n&atilde;o pareciam mais homens que cantavam: era um s&oacute;<br \/>\n    grito de ang&uacute;stia, um apelo de socorro, que do seio largo do deserto<br \/>\n    &agrave;s alturas infinitas: &#8211; &quot;Meu cora&ccedil;&atilde;o est&aacute;<br \/>\n    ferido e seco como a erva&#8230; Fiz-me como a coruja, que se esconde nas solid&otilde;es!&#8230;<br \/>\n    Atendei propicio &agrave; ora&ccedil;&atilde;o do desamparado e n&atilde;o<br \/>\n    desprezeis a sua s&uacute;plica&#8230;&quot;<\/p>\n<p>E assim, em frases soltas, ditas por palavras n&atilde;o compreendidas, os<br \/>\n    homens errantes exal&ccedil;aram sua prece com as vozes robustas de corredores<br \/>\n    dos escampados. Inclinados para a frente, com o rosto baixado para terra,<br \/>\n    as m&atilde;os batendo nos peitos fortes, n&atilde;o pareciam dirigir uma<br \/>\n    ora&ccedil;&atilde;o humilde de pobrezinhos ao manso e compassivo Jesus, sen&atilde;o<br \/>\n    erguer um hino de glorifica&ccedil;&atilde;o ao &quot;Agios Ischiros&quot;,<br \/>\n    ao formid&aacute;vel &quot;Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth&quot;.<\/p>\n<p>Os raios do sol nascente entravam quase horizontalmente no rancho, aclarando<br \/>\n    as costas dos tropeiros, esflorando-lhes as cabe&ccedil;as com fulgura&ccedil;&otilde;es<br \/>\n    tr&ecirc;mulas. Parecia o pr&oacute;prio Deus formoso, o Deus forte das tribos<br \/>\n    e do deserto, aparecendo num fundo de apoteose e lan&ccedil;ando uma mirada,<br \/>\n    do alto de um p&oacute;rtico de ouro, l&aacute; muito longe, &agrave;queles<br \/>\n    que, prostrados em terra, chamavam por Ele.<\/p>\n<p>Os ventos matinais come&ccedil;aram a soprar mais fortemente, remexendo o<br \/>\n    arvoredo do capa-o, carregando feixes de folhas que se espalhavam do alto.<br \/>\n    Uma ema, abrindo as asas, galopava pelo campo&#8230; E os tropeiros, no meio de<br \/>\n    uma inunda&ccedil;&atilde;o de luz, entre o canto das aves despertadas e o<br \/>\n    resfolegar dos animais soltos que iam fugindo da beira do rancho, derramavam<br \/>\n    sua prece pela amplid&atilde;o imensa.<\/p>\n<p>S&uacute;bito, Manuel, soerguendo-se num esfor&ccedil;o desesperado, abriu<br \/>\n    os olhos vagos e incendidos de del&iacute;rio. A m&atilde;o direita contraiu-se,<br \/>\n    os dedos crisparam-se como se apertassem o cabo de uma arma pronta a ser brandida<br \/>\n    na luta&#8230; e seus l&aacute;bios murmuraram ainda, em amea&ccedil;a suprema:<\/p>\n<p>&#8211; Eu mato!&#8230; Mato!&#8230; Ma&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap&iacute;tulo desejado: Cap&iacute;tulo I Cap&iacute;tulo II Cap&iacute;tulo III Cap&iacute;tulo IV Cap&iacute;tulo I &Agrave; beira do caminho das tropas, num tabuleiro grande, onde cresciam a canela-d&#8217;ema e o pau-santo, havia uma tapera. A velha casa assombrada, com grande escadaria de pedra levando ao alpendre, n&atilde;o parecia desamparada. 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