{"id":90522,"date":"2016-12-26T09:20:51","date_gmt":"2016-12-26T11:20:51","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=90522"},"modified":"2016-12-26T09:20:51","modified_gmt":"2016-12-26T11:20:51","slug":"o-largo-da-palma-adonias-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-largo-da-palma-adonias-filho","title":{"rendered":"O Largo da Palma &#8211; Adonias Filho"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a class=\"links\" href=\"#1\">1\u00ba\u00a0Epis\u00f3dio: A mo\u00e7a dos p\u00e3ezinhos<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#2\"> 2\u00ba Epis\u00f3dio: O largo de Branco<\/a><\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: medium;\"><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#3\"><span style=\"font-size: small;\">3\u00ba Epis\u00f3dio:<br \/>\nUm Av\u00f4 muito Velho <\/span><\/a><span style=\"font-size: small;\"><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#4\">4\u00ba Epis\u00f3dio: Um Corpo sem Nome<\/a><\/span><\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: small;\"> <a class=\"links\" href=\"#5\">5\u00ba\u00a0Epis\u00f3dio:Os enforcados<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#6\"> 6\u00ba Epis\u00f3dio: A Pedra<\/a><\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>PRIMEIRO EPIS\u00d3DIO: A MO\u00c7A DOS P\u00c3EZINHOS<br \/>\nDE QUEIJO<\/h4>\n<p>O narrador descreve o Largo da Palma, a igreja, os antigos casar\u00f5es<br \/>\npara localizar, na esquina, onde a ladeira come\u00e7a a \u201ccasa dos<br \/>\np\u00e3ezinhos de queijo\u201d. A casa fica num alto sobrado, em que moram<br \/>\nmuitas fam\u00edlias, por isso cobertas est\u00e3o nas janelas, a gritaria<br \/>\ndos r\u00e1dios se une ao preg\u00e3o dos vendedores de frutas.<\/p>\n<p>Quem faz o p\u00e3o \u00e9 Joana, vi\u00fava, e quem os vende \u00e9<br \/>\nsua filha C\u00e9lia. A descri\u00e7\u00e3o marcante da mo\u00e7a<br \/>\n\u00e9 o riso alegre e a voz \u201ct\u00e3o macia quanto os p\u00e3ezinhos<br \/>\nde queijo\u201d. \u201cDoce e macia, ao lado do riso alegre, a voz da mo\u00e7a<br \/>\n\u00e9 m\u00fasica melhor de ouvir-se, nas manh\u00e3s de domingo que<br \/>\no pr\u00f3prio \u00f3rg\u00e3o da igreja\u201d<\/p>\n<p>Gustavo escuta essa voz pela primeira vez, quando a pedido da av\u00f3<br \/>\nvai comprar os \u201cfamosos\u201d p\u00e3ezinhos do Largo da Palma. E<br \/>\nessa voz vai ficar em sua mente durante todo o resto do dia e da noite. N\u00e3o<br \/>\nlembra direito o rosto da mo\u00e7a, mas a voz, essa ecoa em seus pensamentos.<br \/>\nNo dia seguinte vai comprar p\u00e3ezinhos, por conta pr\u00f3pria. Fica<br \/>\nno fim da fila olhando para a mo\u00e7a, ouve uma cliente cham\u00e1-la<br \/>\nde C\u00e9lia. Quando chega sua vez, ela lhe pergunta, quantos p\u00e3es?<br \/>\nO rosto de Gustavo fica congestionado, e ela, com sua sensibilidade, conclui<br \/>\nque ele \u00e9 mudo.<\/p>\n<p>Gustavo tira um bloco e um l\u00e1pis do bolso e escreve \u201cQuero<br \/>\nmeia d\u00fazia da p\u00e3ezinhos de queijo\u201d. C\u00e9lia fica<br \/>\nem d\u00favida, ser\u00e1 ele surdo tamb\u00e9m? Ent\u00e3o fala baixinho,<br \/>\ne a voz dela, assim de perto \u00e9 mesmo bela. Gustavo esclarece: \u201cN\u00e3o<br \/>\nsou surdo e, porque, ouvi, sei que se chama C\u00e9lia\u201d.<\/p>\n<p>Gustavo tem uma cole\u00e7\u00e3o de caixas de m\u00fasica, presente<br \/>\nda m\u00e3e, que um dia foi para o hospital \u201cdoente da cabe\u00e7a\u201d,<br \/>\ndesaparecendo no quinto anivers\u00e1rio do menino. A m\u00fasica o acalma.<\/p>\n<p>Ele t\u00e3o bonito, ela \u201cfascinada pelo rapaz que n\u00e3o fala<br \/>\ne que de rosto faz lembrar um dos anjos da igreja\u201d. C\u00e9lia, com<br \/>\na voz t\u00e3o doce, macia, embeleza a casa de p\u00e3ezinhos. Marcam<br \/>\num encontro na frente da igreja. Ambos se sentem felizes, com olhos brilhantes.<\/p>\n<p>O rapaz, em lugar de voltar logo para casa, vai passear no Jardim de Nazar\u00e9.<br \/>\nQuando chega, mais tarde do que costuma, a irm\u00e3, que estuda engenharia<br \/>\nna faculdade, fica apreensiva, e ele escreve, no bloco que tem uma namorada.<\/p>\n<p>Gustavo era mudo, mas a fam\u00edlia tinha esgotado todas as possibilidades<br \/>\nde tratamento: nada era poupado para tratar o rapaz. O pai, dono de uma f\u00e1brica<br \/>\nde pregos, tem receios quanto ao futuro do filho.<\/p>\n<p>Mas nada impede que C\u00e9lia e Gustavo se encontrem. Ele lhe pede para<br \/>\nirem ao Jardim de Nazar\u00e9, e por uma semana sentam no mesmo banco, sentindo<br \/>\nque mais se gostam. Um dia ela lhe pede que n\u00e3o escreva mais. Ela lhe<br \/>\ndiz \u201cQuero que voc\u00ea fale\u201d. As l\u00e1grimas escorrem do<br \/>\nrosto dele e ela, amorosamente, as enxuga. Daquele momento em diante, ele<br \/>\nn\u00e3o escreve mais, dizia por sinais, o que desejava.<\/p>\n<p>Naquele dia, ele est\u00e1 ofegante, e quer lhe pedir algo. Ela entende<br \/>\nque ele lhe pede que, no dia seguinte, lhe traga p\u00e3ezinhos de queijo.<br \/>\n\u201cTrarei, amanh\u00e3, os seus p\u00e3ezinhos \u2013 ela diz \u2013<br \/>\nEu mesma os farei com o melhor queijo da Bahia\u201d.<\/p>\n<p>Cedinho, ela acende o fogo e come\u00e7a o trabalho:<\/p>\n<p>A massa, o queijo, o sal, o fogo. E veio fazendo os p\u00e3ezinhos de queijo,<br \/>\num a um, tendo-os nas m\u00e3os como se fosse com\u00ea-los. Doce o cheiro<br \/>\nno ar, mistura de trigo e a\u00e7\u00facar, muito doce mesmo. Sentiu o<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o alegre enquanto durou o trabalho e foi essa alegria<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o que a fez inventar uma can\u00e7\u00e3o que cantou,<br \/>\nbaixinho, para si mesma. \u201c\u00c9 preciso querer e querer muito para<br \/>\nalcan\u00e7ar\u201d. Repetiu muitas vezes a pensar em Gustavo que, de t\u00e3o<br \/>\nbom, tamb\u00e9m merecia ter alegria no cora\u00e7\u00e3o. (p.25)<\/p>\n<p>De noite, os namorados se encontram. Sentam-se no banco de sempre. Ela lhe<br \/>\nd\u00e1 um p\u00e3ozinho e diz: &#8211; \u201cQuando o fiz, Gustavo, pensei<br \/>\ncolocar nele o meu pr\u00f3prio sangue\u201d Ele come lentamente, saboreando,<br \/>\ne C\u00e9lia sussurra: \u201cAgora voc\u00ea pode falar\u201d Um beijo,<br \/>\nGustavo ouve e sente que o amor e o beijo de C\u00e9lia podem fazer um milagre.<br \/>\n\u201cTudo nele \u00e9 ang\u00fastia e dor, os l\u00e1bios tremem,<br \/>\nsuor no rosto, vontade de gritar\u201d. E como mum parto, a voz est\u00e1<br \/>\nnascendo.<\/p>\n<p>E ele, a rir e a chorar ao mesmo tempo, exclama em tom ainda fraco, mas<br \/>\nexclama: &#8211; Amor!<\/p>\n<h5>COMENT\u00c1RIO<\/h5>\n<p>O p\u00e3o traz a id\u00e9ia do divino, do maravilhoso. O milagre do<br \/>\np\u00e3o, a multiplica\u00e7\u00e3o, o fazer o p\u00e3o tem o efeito<br \/>\nde sentido de recuperar, de salva\u00e7\u00e3o. O fermento simbolicamente<br \/>\nrepresenta transforma\u00e7\u00e3o, com a no\u00e7\u00e3o de pureza<br \/>\ne de sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>O menino que ficou mudo pela perda da m\u00e3e, embora rico, acarinhado<br \/>\npela fam\u00edlia, recupera a voz atrav\u00e9s do amor, isto \u00e9<br \/>\nevidente pela primeira palavra que consegue pronunciar.<\/p>\n<p>A mo\u00e7a atrav\u00e9s de seu amor, de seu trabalho, devolve a fala<br \/>\ndo namorado, traz o mist\u00e9rio que os sentimentos podem operar.<\/p>\n<p>O Jardim de Nazar\u00e9 embora seja um espa\u00e7o f\u00edsico, nesse<br \/>\nepis\u00f3dio, ganha a conota\u00e7\u00e3o de Jardim do \u00c9den,<br \/>\no lugar do milagre, a voz que nasce, pode ser relacionada com o Menino que<br \/>\nnasceu em Bel\u00e9m, mas que viveu humildemente em Nazar\u00e9.<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a> 2\u00ba EPIS\u00d3DIO: O LARGO DE BRANCO<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eliane, \u201ccabelos brancos\u201d, sozinha, morando num quarto muito<br \/>\npobre e pequeno na rua B\u00e2ngala, vai a um encontro. Ela foi abandonada<br \/>\npor seu companheiro, Geraldo, depois de 30 anos, ficando sem recursos. Na<br \/>\nverdade \u201cele jogara o dinheiro na cama e, como se estivesse a pagar<br \/>\na vida quase inteira em comum, sa\u00edra a bater a porta com estupidez\u201d.<\/p>\n<p>Ela vai encontrar-se com Odilon, seu primeiro marido de quem ela tinha se<br \/>\nseparado h\u00e1 trinta anos. Ele estava voltando a Salvador e queria um<br \/>\nencontro, \u201cnaquele dia mesmo, ao meio dia, no Largo da Palma. Em frente,<br \/>\nbem em frente da igreja\u201d<\/p>\n<p>Na carta ele lhe dizia que soubera de sua situa\u00e7\u00e3o e queria<br \/>\nv\u00ea-la. Quando chega \u201co Largo da Palma, em junho, sempre espera<br \/>\no sol para vencer o frio que sobre da noite\u201d. Ela chegou cedo. As pedras,<br \/>\nno ch\u00e3o, deviam ter s\u00e9culos.<\/p>\n<p>O narrador faz uma volta ao passado de Eliane para narrar a inf\u00e2ncia<br \/>\ndela, o nascimento da irm\u00e3zinha, Joanita, a alegria da m\u00e3e,<br \/>\nsempre a sorrir, o pai calado, cada vez mais calado. Depois, o tempo em que<br \/>\no pai chega b\u00eabado, at\u00e9 o dia em que cai, deitado de bru\u00e7os,<br \/>\ncomo um morto.<\/p>\n<p>A ambul\u00e2ncia chega, vem o m\u00e9dico e um estudante, que Eliane<br \/>\nouve o m\u00e9dico chamar de Odilon. O pai \u00e9 levado, e Odilon vai<br \/>\ntodo dia dar not\u00edcias, at\u00e9 o dia em que o pai volta, doente<br \/>\npara casa, sem poder mais trabalhar. Em tr\u00eas meses Odilon ser\u00e1<br \/>\nm\u00e9dico, e tudo nele respira bondade, calma e boa vontade. Ela conclui<br \/>\nque Odilon n\u00e3o \u00e9 um homem comum. A casa fica triste, a m\u00e3e<br \/>\nperde o riso, a fam\u00edlia est\u00e1 na mis\u00e9ria. A morte do pai<br \/>\nfoi um al\u00edvio. Todos viam que Odilon estava apaixonado por Eliane.<br \/>\nEles ficam noivos, casam. Ela entende, ent\u00e3o que o marido era \u201cum<br \/>\nhomem inteiramente desligado do mundo\u201d S\u00f3 o que interessava a<br \/>\nele eram os doentes, o hospital, o ambulat\u00f3rio, chegando ao ponto de<br \/>\ncomprar rem\u00e9dios para os doentes, mesmo sabendo que a m\u00e3e e<br \/>\na irm\u00e3 precisavam muito de dinheiro.<\/p>\n<p>Ele era feio, desajeitado e desligado do mundo, mas a tratava com o maior<br \/>\ncarinho. A dor maior aconteceu quando ela ficou sabendo que n\u00e3o poderia<br \/>\nter filhos. O choque que sofreu foi t\u00e3o grande que Odilon se afastou<br \/>\ndo hospital por tr\u00eas dias. Mas mesmo todo o amor que o marido dedicava<br \/>\nn\u00e3o era suficiente, pois ela se sentia cada vez mais separada dele.<br \/>\nAlgumas vezes, irritada, zangada, dirigia-se a ele ofendendo-o, dizendo palavr\u00f5es.<br \/>\nEle era incapaz de zangar-se. No \u00faltimo dia o agrediu aos gritos, saiu<br \/>\nbatendo a porta. Foi para um hotelzinho, \u00e0 beira da praia, e foi l\u00e1<br \/>\nque viu Geraldo, o homem mais bonito que tinha conhecido. Quando ele se aproximou,<br \/>\nolhou-a, n\u00e3o teve coragem de se afastar.<\/p>\n<p>Agora, depois de trinta anos, Odilon voltava, sabendo do abandono, queria<br \/>\nv\u00ea-la. Ela sentiu fome e lembrou que, talvez \u201cA Casa dos P\u00e3ezinhos<br \/>\nde Queijo\u201d estivesse aberta.<\/p>\n<p>Mas ela se aproxima da igreja, e v\u00ea Odilon.<\/p>\n<p>Est\u00e1 de p\u00e9, o palet\u00f3 chegando aos joelhos, a cal\u00e7a<br \/>\nfrouxa sobre as pernas, o la\u00e7o da gravata quase no peito, velho e sujo<br \/>\no chap\u00e9u de feltro. E, talvez, por causa do buqu\u00ea de rosas vermelhas<br \/>\nque tem na m\u00e3o, parece um palha\u00e7o de circo. \u00c9 ele, Odilon,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Os cabelos grisalhos, bastante envelhecido,<br \/>\nmas o mesmo homem de sempre. (&#8230;) E como se nada houvesse acontecido naqueles<br \/>\ntrinta anos, desde que se separaram, ele apenas diz: &#8211; Vamos, Eliane, vamos<br \/>\npara casa.(&#8230;) E Eliane, n\u00e3o tem d\u00favida de que o seu velho<br \/>\nlargo, como num dia de festa est\u00e1 vestido de branco. (p.47)<\/p>\n<h5>COMENT\u00c1RIO<\/h5>\n<p>Novamente o espa\u00e7o do Largo da Palma \u00e9 testemunha de uma hist\u00f3ria<br \/>\nhumana. O largo fica de branco, festivo para dar alegria e al\u00edvio a<br \/>\numa velha mulher desiludida e triste. Uma hist\u00f3ria de amor transparece<br \/>\nnas entrelinhas, feita de fidelidade, persist\u00eancia, resistindo ao tempo<br \/>\ne ao abandono.<\/p>\n<p>O \u201cbranco\u201d \u00e9 uma cor simb\u00f3lica, representando<br \/>\numa mudan\u00e7a de condi\u00e7\u00e3o. Recebe todas as cores, por isso<br \/>\ntem um valor limite de cor de passagem, da qual se esperam muta\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo ser. \u00c9 a cor da revela\u00e7\u00e3o e da gra\u00e7a; desperta<br \/>\no entendimento, a consci\u00eancia desabrochada.<\/p>\n<p>O texto \u00e9 constru\u00eddo lentamente, despertando o interesse em<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o ao desfecho, e l\u00e1 est\u00e1 o Largo da Palma,<br \/>\nantigo, firme, fiel a seu destino, iluminado pelo sol, com o c\u00e9u muito<br \/>\nazul, veste-se de branco, trazendo para Eliane a certeza de que haver\u00e1<br \/>\numa transforma\u00e7\u00e3o em sua vida, sua consci\u00eancia desperta<br \/>\npara valores que, quando jovem, n\u00e3o soube avaliar devidamente.<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a> TERCEIRO EPIS\u00d3DIO: UM AV\u00d4 MUITO VELHO<\/h4>\n<p>A narrativa inicia-se anunciando que algo aconteceu ao av\u00f4 Loio, muito<br \/>\nvelho. Morava no Gravat\u00e1 a poucos passos do Largo da Palma aonde chegava<br \/>\nsem pressa, sentindo o cheiro do incenso que vinha da igreja se misturando<br \/>\ncom o aroma dos p\u00e3ezinhos de queijo.<\/p>\n<p>A neta Pintinha \u00e9 a alegria do av\u00f4.<\/p>\n<p>A pretinha viva e esperta, a mostrar os dentinhos no riso alegre, a falar<br \/>\npelos cotovelos na l\u00edngua embrulhada, era a grande alegria do pai,<br \/>\nChico Tim\u00f3teo, da m\u00e3e Maria Eponina, e dele pr\u00f3prio,<br \/>\no velho negro Loio<\/p>\n<p>Desde os primeiros passos ela anda com ele; ele a leva \u00e0 escola,<br \/>\ndepois ela vai com as amigas e, finalmente, chega o dia em que Pintinha recebe<br \/>\no diploma de professora.<\/p>\n<p>O velho Loio era tocador de sanfona. Num retrocesso temporal ficamos sabendo<br \/>\ndo passado do velho negro Loio. Seu pai era pescador, perdeu uma perna no<br \/>\nmar, dizia que na guerra com os tubar\u00f5es. Vendera o saveiro, e, comprando<br \/>\numa porta vende charutos, d\u00e1 sorte e compra uma loja no Mercado Modelo.<br \/>\nLoio apaixonou-se por Aparecida, aos dezoito anos, e aquela mulher era tudo<br \/>\npara ele: m\u00e3e, amiga e amante, uma sanfoneira como ele,<\/p>\n<p>Negra como ele, mais velha que ele doze anos, de tantas coisas entendia<br \/>\nque a sabedoria em pessoa. Sanfoneira, jogadora de baralho e dados, cantora<br \/>\nnas ruas do cais, puta aos s\u00e1bados, cartomante e rezadeira, mulher<br \/>\nsem pouso certo que apenas tinha de seu o maior cora\u00e7\u00e3o da Bahia.<\/p>\n<p>Numa ocasi\u00e3o, Aparecida p\u00f5e as cartas e lhe diz que viu que<br \/>\nh\u00e1 uma morte nas m\u00e3os dele. Um dia a pol\u00edcia chegou e<br \/>\nele foi reconhecer Aparecida no ch\u00e3o, morta, numa po\u00e7a do pr\u00f3prio<br \/>\nsangue. A partir da\u00ed Loio vai trabalhar no mercado com o pai at\u00e9<br \/>\no dia em que morreu com dores no peito, tendo deixado \u201ccomo heran\u00e7a<br \/>\na birosca, um bocado de dinheiro e um terreno no Rio Vermelho\u201d. Comprou<br \/>\noutra porta no mercado e tornou-se comerciante remediado.<\/p>\n<p>Continuou a tocar a sanfona, mas nunca aceitou convites para tocar nas festas.<br \/>\nS\u00f3 comparecia a circos e foi l\u00e1 que conheceu Verinha. Vendeu<br \/>\no terreno, comprou uma casa no Gravat\u00e1, e dizia que o Largo da Palma<br \/>\nera tanto de Verinha quanto da Santa.<\/p>\n<p>Quando os neg\u00f3cios prosperaram precisou contratar um ajudante. Depois<br \/>\nde duas tentativas Maria Ecl\u00e9a, vendedora de rendas do Cear\u00e1<br \/>\nofereceu o filho, Chico Tim\u00f3teo. A confian\u00e7a cresce entre eles,<br \/>\nquando a m\u00e3e de Chico falece, Loio o convida para almo\u00e7ar na<br \/>\ncasa dele. Assim come\u00e7a o namoro, vem o noivado e o casamento de Chico<br \/>\nTim\u00f3teo com Maria Eponina. Loio oferece sua casa para o casal e vai<br \/>\nmorar nos quarto dos fundos.<\/p>\n<p>Andando pelo Largo da Lapa, o velho negro Loio vai relembrando o passado.<\/p>\n<p>Vem a recorda\u00e7\u00e3o do dia em que Pintinha \u00e9 professora<br \/>\nnomeada, e vai ensinar na Amaralina. Encanta-se com a dedica\u00e7\u00e3o<br \/>\nda neta com os alunos, filhos de pescadores.<\/p>\n<p>Mas naquela noite, Pintinha n\u00e3o voltou das aulas. O desespero e a<br \/>\nloucura tomam conta de Maria Eponina e de Chico Tim\u00f3teo. A pol\u00edcia<br \/>\nveio dizer que Pintinha foi agredida, bateram, violentaram e atiraram nela<br \/>\ne agora est\u00e1 entre a vida e a morte.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses de dor, de sofrimento. Duas opera\u00e7\u00f5es depois<br \/>\nvoltou para casa. T\u00e3o doente, com tantas dores, n\u00e3o reconhecia<br \/>\nningu\u00e9m. O velho negro Loio buscava paz no Largo da Palma.<\/p>\n<p>Um dia vai falar com o m\u00e9dico, Dr. Eul\u00e1lio S\u00e1, e soube<br \/>\nque as opera\u00e7\u00f5es s\u00f3 prolongaram um pouco a vida, mas<br \/>\nque as dores seriam insuport\u00e1veis. Quando foi ver a neta, doeu muito<br \/>\nseu cora\u00e7\u00e3o de velho e saiu de cabe\u00e7a baixa para o Largo<br \/>\nda Palma.<\/p>\n<p>Procurou o farmac\u00eautico, pediu um veneno para matar um cachorro que<br \/>\nestava velho e doente. Ao chegar em casa, dissolve o veneno na \u00e1gua<br \/>\ne d\u00e1 para Pintinha. Lavou o copo muito bem, depois e ficou na sala.<br \/>\nAgora ele tem uma morte nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>A filha veio do quarto, \u201cindiferente, sem l\u00e1grimas e quase<br \/>\nsem voz: Traga uma vela, pai, Pintinha acaba de morrer.\u201d<\/p>\n<h5>COMENT\u00c1RIO<\/h5>\n<p>Nesse epis\u00f3dio, a eutan\u00e1sia \u00e9 o tema em torno do qual<br \/>\nse desenvolve a narrativa. Embora ela s\u00f3 apare\u00e7a no final, durante<br \/>\ntodo o conto h\u00e1 signos de morte e de trag\u00e9dia. A delicadeza<br \/>\ncom que o narrador descreve a forte liga\u00e7\u00e3o entre o av\u00f4<br \/>\ne a neta, a dedica\u00e7\u00e3o extrema que h\u00e1 entre eles \u00e9<br \/>\ntecida ao longo da narrativa.<\/p>\n<p>Com uma s\u00edntese brilhante tomamos conhecimento da vida desse velho<br \/>\nav\u00f4, que s\u00f3 procurou a paz, o amor e que por amor no fim da vida<br \/>\nrealiza o ato anunciado nas primeiras linhas \u201cO velho, quando aquilo<br \/>\naconteceu, trancou-se em si mesmo\u201d.<\/p>\n<p>Apenas o Largo da Palma \u00e9 capaz de trazer a paz, talvez que todos<br \/>\no esque\u00e7am, mas \u201cTodos sabem em Salvador da Bahia que, apesar<br \/>\nda idade, antigo de muitos s\u00e9culos, o Largo da Palma tem boa mem\u00f3ria.<br \/>\nComo esquecer o velho negro Loio, nas manh\u00e3s de sol ou de chuva, a<br \/>\nlevar a neta para as aulas?\u201d<\/p>\n<h4><a name=\"4\"><\/a> QUARTO EPIS\u00d3DIO: UM CORPO SEM NOME<\/h4>\n<p>\u00c9 o \u00fanico epis\u00f3dio narrado na primeira pessoa. \u201cA<br \/>\ntarde se acaba, \u00e9 verdade, mas a noite ainda n\u00e3o chegou. E por<br \/>\nque me encontro aqui, quem sou, isto n\u00e3o importa. O que importa \u00e9<br \/>\nque estou na esquina do B\u00e2ngala, de p\u00e9 e a fumar, buscando trazer<br \/>\na paz do largo para mim mesmo\u201d.<\/p>\n<p>O enredo \u00e9 simples: o narrador v\u00ea uma mulher que chega cambaleando<br \/>\ne morre nos degraus da escadaria da igreja no Largo da Palma. Como testemunha,<br \/>\ntendo a mulher morrido em seus bra\u00e7os vai at\u00e9 \u00e0 delegacia,<br \/>\ncurioso para saber de quem se trata. A morta tem o rosto magro, \u201cas<br \/>\n\u00f3rbitas fundas, os cabelos grisalhos, a boca murcha com tr\u00eas<br \/>\ncacos de dentes. Os bra\u00e7os t\u00e3o secos quanto os seios e as pernas.<br \/>\nO vestido imundo, frouxo na cintura e descosido nas mangas\u201d, sintomas<br \/>\nde fome e cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>Essa imagem faz com que ele rememore um fato com uma mulher assim quando<br \/>\nfez dezoito anos.<\/p>\n<p>Nos pertences da mulher est\u00e3o um pente, um len\u00e7o de linho.<br \/>\nUm ma\u00e7o de cigarros e uma nota de dez cruzeiros, uma caixa de f\u00f3sforo<br \/>\ncom um p\u00f3 branco, que logo se verifica ser coca\u00edna, uma saboneteira<br \/>\ncom mais de dez dentes da criatura humana.<\/p>\n<p>O laudo m\u00e9dico \u00e9 conclusivo; a morte foi por t\u00f3xico.<\/p>\n<p>Dois meses depois, o narrador volta ao Largo da Palma. A vis\u00e3o humanizada<br \/>\ndo largo cuja mem\u00f3ria n\u00e3o abarca todos os acontecimentos, talvez<br \/>\ntenha esquecido a mulher sem nome.<\/p>\n<p>O narrador se aproxima de \u201cA Casa dos P\u00e3ezinhos de Queijo\u201d,<br \/>\no ar tem o perfume de trigo, misturado com o incenso que vem da igreja.<\/p>\n<p>Ao falar com o inspetor fica sabendo que n\u00e3o identificaram a mulher,<br \/>\no corpo com t\u00f3xico em todos os poros, o mist\u00e9rio dos dentes<br \/>\nguardados nunca foi desvendado, s\u00f3 h\u00e1 conhecimento de que eles<br \/>\npertenciam a ela mesma. Agora, \u00e0 noite, o narrador v\u00ea os gatos,<br \/>\nque na madrugada se tornam os donos do largo porque os homens e os pombos<br \/>\nest\u00e3o dormindo.<\/p>\n<p>E sobre a mulher: \u201cA morte n\u00e3o a matou, porque morreu fora<br \/>\ndo corpo. E, por isso, n\u00e3o morreu no Largo da Palma\u201d.<\/p>\n<h5>COMENT\u00c1RIO<\/h5>\n<p>H\u00e1 um narrador que n\u00e3o se identifica, trata-se de um \u201ceu\u201d<br \/>\nque se diz, se fala, fala dos fatos em torno da morte, mas n\u00e3o se nomeia.<br \/>\nA rememora\u00e7\u00e3o que faz da \u00e9poca que tem dezoito anos,<br \/>\nfaz lembrar Marcel Proust em \u201cLa recherche du temps perdue\u201d (A<br \/>\nprocura do tempo perdido), quando uma realidade do presente evoca uma imagem<br \/>\ndo passado, caracterizando o impressionismo tanto na linguagem quanto nos<br \/>\nsignos.<\/p>\n<p>O Largo de Palma, que no epis\u00f3dio anterior, apesar da idade, antigo<br \/>\nde muitos s\u00e9culos, tem boa mem\u00f3ria, nesta narrativa, velho como<br \/>\n\u00e9, j\u00e1 a esqueceu porque n\u00e3o tem mem\u00f3ria para todos<br \/>\nos acontecimentos.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a dos gatos, simbolicamente, relacionado com o mist\u00e9rio<br \/>\nda vida e da morte, segundo a tradi\u00e7\u00e3o oriental, est\u00e1<br \/>\nencarregado de transportar as almas para o outro mundo.<\/p>\n<h4><a name=\"5\"><\/a> QUINTO EPIS\u00d3DIO: OS ENFORCADOS<\/h4>\n<p>Esta narrativa est\u00e1 localizada temporalmente. Atrav\u00e9s de um<br \/>\ncego, a hist\u00f3ria da revolu\u00e7\u00e3o dos alfaiates \u00e9<br \/>\ncontada numa perspectiva de pessoas que assistiram ao enforcamento dos revolucion\u00e1rios<br \/>\nacusados.<\/p>\n<p>O ceguinho do Largo da Palma, como era chamado, sentiu que o largo estava<br \/>\nvazio, que a igreja tinha poucos fi\u00e9is e todos sa\u00edram apressados.<br \/>\nFicou sabendo que era o dia dos enforcados.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o recebe nenhuma esmola, vai para a Piedade, mas antes p\u00e1ra<br \/>\nna birosca do Valentim. \u00c9 o Valentim que vai narrar o enforcamento<br \/>\npara o ceguinho, ele que tinha uma voz de serm\u00e3o, hoje fala baixo,<br \/>\ntem medo fruto das pris\u00f5es e das torturas. A cidade traz a marca da<br \/>\ntrag\u00e9dia:<\/p>\n<p>\u2014 A cidade parece triste.<\/p>\n<p>\u2014 A Bahia nunca foi alegre \u2014 Valentim, abaixando a voz disse<br \/>\npor sua vez. \u2014 Uma cidade com escravos \u00e9 sempre triste. \u00c9<br \/>\nmuito triste mesmo.<\/p>\n<p>Quando os quatro condenados est\u00e3o chegando, a multid\u00e3o se<br \/>\nagita. O cego tudo tomava conhecimento pela voz de Valentim, voz emocionada,<br \/>\nafinal era ele quem via. Quando a morte do \u00faltimo condenado aconteceu<br \/>\nValentim sumiu, deixando o ceguinho s\u00f3, t\u00e3o s\u00f3, apenas<br \/>\ncom o porrete na m\u00e3o. Andou at\u00e9 reconhecer o Largo da Palma.<br \/>\nTudo o que queria era seu canto do p\u00e1tio da igreja.<\/p>\n<p>E ao aproximar-se, ao sentir o cheiro de incenso, pensou que naquele momento<br \/>\nj\u00e1 cortavam as cabe\u00e7as e as m\u00e3os dos enforcados. Colocadas<br \/>\nem exposi\u00e7\u00e3o, no Cruzeiro de S\u00e3o Francisco ou na Rua<br \/>\nDireita do Pal\u00e1cio, at\u00e9 que ficassem os ossos. O Largo da Palma,<br \/>\nporque sem povo e movimento, seria poupado. Ajoelhou-se, ent\u00e3o, pondo<br \/>\nas m\u00e3os na porta da Igreja.<\/p>\n<p>E, \u00fanica vez em toda a vida, agradeceu \u00e0 Santa Palma ter ficado<br \/>\ncego.<\/p>\n<h5>COMENT\u00c1RIO<\/h5>\n<p>O cego da narrativa pode ser a representa\u00e7\u00e3o do poeta itinerante,<br \/>\numa vis\u00e3o de ren\u00fancia \u00e0s coisas externas fugidias. Para<br \/>\nexplicar o que o cego n\u00e3o v\u00ea \u00e9 preciso falar: a narrativa<br \/>\nse faz necess\u00e1ria. \u00c9 a justificativa para uma hist\u00f3ria<br \/>\nser contada, no caso,\u201ccosturando a revolu\u00e7\u00e3o\u201d, tecendo<br \/>\nos fatos.<\/p>\n<p>O cego sem poder ver os fatos exteriores, tem a capacidade de ver a verdade<br \/>\ninterior.<\/p>\n<p>A Revolta dos Alfaiates ou Inconfid\u00eancia baiana ocorreu em 1798, cujos<br \/>\nparticipantes pertenciam \u00e0s camadas pobres. Dois soldados; Lucas Dantas<br \/>\ne Lu\u00eds Gonzaga das Virgens; dois alfaiates Jo\u00e3o de Deus do Nascimento<br \/>\ne Manuel Faustino dos Santos, que tinha dezoito anos lutavam pela Rep\u00fablica.<br \/>\nEram todos mulatos. Os intelectuais e os ricos da Loja Ma\u00e7\u00f4nica<br \/>\nCavaleiros da Luz foram perdoados. O castigo aos pobres deveu-se ao medo de<br \/>\nque houvesse uma rebeli\u00e3o dos negros como havia acontecido nas Antilhas.<\/p>\n<p>O dia dos enforcados, na Piedade, 08\/11\/1799.<\/p>\n<p>Na narrativa, o nome do governador D. Fernando Jos\u00e9 de Portugal e<br \/>\nCastro, os atos que praticava para impor respeito: a chibata, os grilh\u00f5es,<br \/>\na forca o esquartejamento, fazem parte do mundo de viol\u00eancia que n\u00e3o<br \/>\ndeve ser visto. Por isso o cego agradece \u00e0 Santa.<\/p>\n<p>Como dois dos revolucion\u00e1rios eram alfaiates, mulatos, v\u00edtimas<br \/>\nde discrimina\u00e7\u00e3o, pode-se relacionar este epis\u00f3dio com<br \/>\no filme Concorr\u00eancia Desleal de Scola, quando h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o<br \/>\nde solidariedade entre um alfaiate e seu concorrente, quando sofre a discrimina\u00e7\u00e3o<br \/>\npor ser judeu.<\/p>\n<h4><a name=\"6\"><\/a>SEXTO EPIS\u00d3DIO<\/h4>\n<h5>A PEDRA<\/h5>\n<p>Esta narrativa faz refer\u00eancia ao per\u00edodo da peste bub\u00f4nica<br \/>\nna Bahia. Nesse per\u00edodo era proibido terreno baldio. As casas e os<br \/>\nsobradinhos foram se erguendo ao redor da igreja, t\u00e3o antiga. \u201cO<br \/>\nsino da igreja, aqui na Palma, anuncia finados dia e noite. Maior que a peste,<br \/>\nde verdade, s\u00f3 o medo\u201d.<\/p>\n<p>Se o terreno estava barato, a constru\u00e7\u00e3o era cara porque naqueles<br \/>\ndias o rei acabou com a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Um negociante portugu\u00eas construiu uma casa no terreno baldio pr\u00f3ximo<br \/>\n\u00e0 igreja: uma casa comum, pequena, baixa. Quem a comprou foi C\u00edcero<br \/>\nAmaro, um garimpeiro de Jacobina. A narrativa descreve o temperamento folgado<br \/>\nde C\u00edcero, a vida dura de sua mulher Zefa, at\u00e9 o dia em que<br \/>\nele achou um brilhante do tamanho do caro\u00e7o de uma azeitona. Vendeu<br \/>\ne veio com a Zefa para a capital. Aqui comprou a casa do portugu\u00eas,<br \/>\ncomprou uma quitanda para a Zefa e foi para a ladeira de Montanha, todo caprichado<br \/>\nem busca de uma aventura. L\u00e1 encontra Flor que tira dele tudo que pode<br \/>\ne lhe d\u00e1 o fora. Quando est\u00e1 empobrecido, volta para Zefa que<br \/>\nn\u00e3o o quer mais. Acha que \u00e9 uma grande ingratid\u00e3o, mas<br \/>\npensa em arrumar algum dinheiro para voltar a Jacobina e retornar \u00e0<br \/>\nsua vida de garimpeiro.<\/p>\n<h5>COMENT\u00c1RIO<\/h5>\n<p>Esta narrativa traz um per\u00edodo triste para a hist\u00f3ria da Bahia,<br \/>\nquando a peste bub\u00f4nica toma o espa\u00e7o, dizima a popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAo lado da peste est\u00e1 um bel\u00edssimo brilhante. O Largo da Palma,<br \/>\na velha igreja participam do sofrimento. O sino que toca dolorosamente anunciando<br \/>\nas mortes, as perdas, o medo.<\/p>\n<p>Depois de passada a peste \u00e9 que C\u00edcero Amaro chega \u00e0<br \/>\ncidade. Para poder habitar o Largo da Palma, ele precisou encontrar um brilhante.<br \/>\nEssa pedra traz uma simbologia especial: o brilhante precisa passar por uma<br \/>\ntransmuta\u00e7\u00e3o, precisa ser lapidado, trabalhado. Em rela\u00e7\u00e3o<br \/>\nao homem, a pedra simboliza a aprendizagem. Foi isso que C\u00edcero veio<br \/>\naprender: como a vida oferece benef\u00edcios, mas exige que se mudem comportamentos.<br \/>\nAo voltar ao ponto de partida, a li\u00e7\u00e3o que sobra para a personagem<br \/>\n\u00e9 recome\u00e7ar, mais velho, mais experiente, esperando ter a sorte<br \/>\nlhe sorrindo novamente.<\/p>\n<h5>2.1 O ESPA\u00c7O<\/h5>\n<p>O Largo da Palma aparece numa atmosfera de poesia e quase magia que se derrama<br \/>\nsobre as personagens, e as impress\u00f5es envolvem o leitor. N\u00e3o<br \/>\nse trata de um espa\u00e7o indiferente aos homens, \u00e9 lugar sofrido<br \/>\nou de encantamentos, tem uma for\u00e7a estranha que assiste \u00e0 aurora<br \/>\ndos gestos e das transforma\u00e7\u00f5es na vida dos personagens.<\/p>\n<p>A velha igreja \u201chumilde e enrugadinha, com tr\u00eas s\u00e9culos<br \/>\nde idade\u201d e o convento s\u00e3o testemunhas dos acontecimentos. A<br \/>\nrefer\u00eancia que faz \u00e0 \u201cvelha igreja\u201d e ao convento<br \/>\nd\u00e1 uma id\u00e9ia temporal, uma vez que as refer\u00eancias temporais<br \/>\ns\u00e3o predominantemente hist\u00f3ricas. A Igreja e o convento foram<br \/>\nconstru\u00eddos sobre o &#8220;Monte das Palmas&#8221;, uma das primeiras<br \/>\n\u00e1reas de expans\u00e3o da cidade, devendo-se a sua edifica\u00e7\u00e3o,<br \/>\nem 1630, a ex-voto feito por Bernardino da Cruz Arraes, que estivera enfermo.<br \/>\nO convento, desenvolvido em torno de um p\u00e1tio retangular, ladeado pela<br \/>\nigreja, \u00e9 iniciado em 1670, posterior \u00e0 igreja que, nesta \u00e9poca,<br \/>\n\u00e9 ampliada. Pertence \u00e0 Ordem dos Agostinhos Descal\u00e7os,<br \/>\n\u00e9 transferida \u00e0 Irmandade do Senhor da Cruz, em 1822, com o<br \/>\nretorno daqueles a Portugal. Acredita-se que a igreja atual, da 2\u00aa metade<br \/>\ndo s\u00e9culo XVIII, obedece basicamente o partido primitivo, com algumas<br \/>\naltera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O aroma dos p\u00e3ezinhos de queijo que perfumam o largo em quatro dos<br \/>\nseis contos. Os p\u00e3ezinhos de queijo tamb\u00e9m d\u00e3o unidade<br \/>\ntemporal, sabendo-se que, as narrativas em que s\u00e3o referidos, acontecem<br \/>\nnum mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>O mundo se move a partir do Largo da Palma, com seus casar\u00f5es, suas<br \/>\nruas, pois os espa\u00e7os p\u00fablicos mais que os particulares marcam<br \/>\nos eventos que comp\u00f5em esta novela. Do largo se vai \u00e0 Barroquinha,<br \/>\nao Jardim de Nazar\u00e9, que no primeiro epis\u00f3dio \u00e9 espa\u00e7o<br \/>\nde amor e magia, Jardim do \u00c9den no qual o amor opera uma transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nid\u00edlica,. Do largo se vai tamb\u00e9m \u00e0 Pra\u00e7a da Piedade,<br \/>\nna quinta narrativa \u00e9 o espa\u00e7o do tr\u00e1gico, da morte injusta<br \/>\ne dolorosa, daqueles que lutaram pelos ideais da liberdade, da revolta que<br \/>\nnasce do movimento popular e que dramaticamente Adonias Filho nos conta.<\/p>\n<p>\u00c9 um espa\u00e7o humanizado, capaz de pacificar cora\u00e7\u00f5es<br \/>\ne almas, capaz de ser o lugar em que se refazem bodas, em que se busca reminisc\u00eancias<br \/>\ndo passado.<\/p>\n<p>\u201cO Largo da Palma, a noite morna, o velho negro Loio andava passo<br \/>\na passo. (&#8230;) O pr\u00f3prio Largo da Palma, e assim ele se lembrava da<br \/>\nmulher, parecia comover-se. D\u00favida jamais tivera de que, se a tranq\u00fcilidade<br \/>\no envolvia, era porque Verinha nele habitava. Ela quem respirava na brisa<br \/>\nt\u00e3o leve e n\u00e3o seria imposs\u00edvel que \u2013morta h\u00e1<br \/>\ntantos anos \u2013 tudo acalmasse para que as \u00e1rvores e os pombos<br \/>\ndormissem em paz.\u201d (p.61)<\/p>\n<p>\u201cO Largo da Palma, para o cego, sempre sofrera e amara. Conhecia-o<br \/>\npalmo a palmo, \u00e1rvore a \u00e1rvore, casa a casa. Identificava pelas<br \/>\nvozes todos os seus moradores.\u201d (p.89)<\/p>\n<h5>2.2. A LINGUAGEM<\/h5>\n<p>A linguagem em que est\u00e1 constru\u00eddo o texto revela um escritor<br \/>\nem conson\u00e2ncia com seu tempo: presen\u00e7a das correntes simbolistas,<br \/>\nimpressionistas, expressionistas e surrealistas e tamb\u00e9m influ\u00eancia<br \/>\ndo cinema. Uma linguagem cinematogr\u00e1fica que retrata com adequa\u00e7\u00e3o<br \/>\no espa\u00e7o e as personagens permitindo ao leitor criar as imagens mentais,<br \/>\ntornando-se, este leitor, tamb\u00e9m, um criador no momento em que se torna<br \/>\nautor de sua leitura.<\/p>\n<p>A linguagem oferece sugest\u00e3o de imagens, em vez de um retrato exato,<br \/>\nespecialmente na caracteriza\u00e7\u00e3o das personagens. Gra\u00e7as<br \/>\nao uso de imagens e met\u00e1foras constr\u00f3i um mundo simb\u00f3lico<br \/>\ne m\u00edtico. Assim \u00e9 o Largo da Palma, lugar m\u00edtico, metaf\u00f3rico<br \/>\nda constru\u00e7\u00e3o narrativa. A inspira\u00e7\u00e3o regional,<br \/>\na paisagem de Salvador, serve de fonte inspiradora da cria\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas personagens e da trama, mostrando muito mais o \u201cpor dentro\u201d<br \/>\nque o exterior das personagens na sua rela\u00e7\u00e3o com o espa\u00e7o.<\/p>\n<p>O estilo de Adonias Filho mostra o predom\u00ednio da musicalidade e atrav\u00e9s<br \/>\nda sinestesia traz densidade, tratamento sint\u00e9tico, marcado por um<br \/>\nsopro de poesia. Ainda,<\/p>\n<p>quando o escritor une as tradi\u00e7\u00f5es populares \u00e0s judaico-crist\u00e3s,<br \/>\npercebe-se que seu texto aprende a tecer o contato &#8220;vivo e carnal&#8221;<br \/>\nrecortado de nosso complexo cultural popular. O que poderia ser captado como<br \/>\num rebaixamento ret\u00f3rico na perspectiva can\u00f4nica da hist\u00f3ria<br \/>\nliter\u00e1ria tradicional, resulta como uma amplia\u00e7\u00e3o, ainda<br \/>\nque tardia, de refer\u00eancias que amadurecer\u00e3o sua obra no sentido<br \/>\nde uma representa\u00e7\u00e3o calcada em uma perspectiva de totalidade.<\/p>\n<p>Quando Adonias Filho traz seus seres ficcionais do passado para o presente<br \/>\nurbano, evidencia-se um elemento da cultura popular brasileira: os elementos<br \/>\nda cultura popular s\u00e3o perme\u00e1veis ao contexto s\u00f3cio-cultural,<br \/>\nn\u00e3o se imobilizando no passado de sua g\u00eanese.\u201d<\/p>\n<p>(ARA\u00daJO, Vera L. R. in Cultura, Contextos e Contemporaneidade, p.21)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: 1\u00ba\u00a0Epis\u00f3dio: A mo\u00e7a dos p\u00e3ezinhos 2\u00ba Epis\u00f3dio: O largo de Branco 3\u00ba Epis\u00f3dio: Um Av\u00f4 muito Velho 4\u00ba Epis\u00f3dio: Um Corpo sem Nome 5\u00ba\u00a0Epis\u00f3dio:Os enforcados 6\u00ba Epis\u00f3dio: A Pedra &nbsp; PRIMEIRO EPIS\u00d3DIO: A MO\u00c7A DOS P\u00c3EZINHOS DE QUEIJO O narrador descreve o Largo da Palma, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-90522","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O Largo da Palma - Adonias Filho, Obra O Largo da Palma - Adonias Filho<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"O Largo da Palma - Adonias Filho, Obra, Novelas, Livro, A mo\u00e7a dos p\u00e3ezinhos de queijo, Literatura, O Largo da Palma - Adonias Filho\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O Largo da Palma - Adonias Filho, Obra O Largo da Palma - Adonias Filho\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"O Largo da Palma - Adonias Filho, Obra, Novelas, Livro, A mo\u00e7a dos p\u00e3ezinhos de queijo, Literatura, O Largo da Palma - Adonias Filho\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/o-largo-da-palma-adonias-filho\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2016-12-26T11:20:51+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"25 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-largo-da-palma-adonias-filho#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/o-largo-da-palma-adonias-filho\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"O Largo da Palma &#8211; 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