{"id":90321,"date":"2016-12-23T10:49:16","date_gmt":"2016-12-23T12:49:16","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=90321"},"modified":"2017-03-24T11:47:28","modified_gmt":"2017-03-24T13:47:28","slug":"no-pais-dos-ianques-adolfo-caminha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/no-pais-dos-ianques-adolfo-caminha","title":{"rendered":"No Pa\u00eds dos Ianques &#8211; Adolfo Caminha"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: medium;\"> <a class=\"links\" href=\"#1\">Cap\u00edtulo\u00a0I<br \/>\nCap\u00edtulo II<\/a><\/span><\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"font-size: medium;\"><a class=\"links\" href=\"#3\">Cap\u00edtulo\u00a0III<\/a><\/span><\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"font-size: medium;\"><a class=\"links\" href=\"#4\">Cap\u00edtulo\u00a0IV<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#5\">Cap\u00edtulo V<\/a> <\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: medium;\"><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a> <\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: medium;\"> <a class=\"links\" href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#15\">Cap\u00edtulo XV<\/a><br \/>\n<\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/h4>\n<p>TAINE, o glorioso Taine, o querido fil\u00f3sofo cuja obra admir\u00e1vel<br \/>\ntem sido uma esp\u00e9cie de b\u00fassola para os que se iniciam na complicada<br \/>\narte da palavra; Taine, o mestre, aconselhava sabiamente, com aquela profundeza<br \/>\nde vista e com aquele raro e superior crit\u00e9rio de artista e pensador:<\/p>\n<p>Que chacun dise ce qu&#8217;il a vu, ei seulement ce qu&#8217;il a vu; les observations,<br \/>\npourvu qu&#8217;elles solent personnelles et faites de bonne foI sont toujours utiles.<\/p>\n<p>Devo a estas palavras a lembran\u00e7a de escrever as m\u00faltiplas<br \/>\nimpress\u00f5es, os sucessivos transportes de admira\u00e7\u00e3o, de<br \/>\nj\u00fabilo e tristeza por que passou meu esp\u00edrito durante alguns<br \/>\nmeses de viagem nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio afigurou-se-me obra de alevantado alcance e de extrema<br \/>\ncoragem tra\u00e7ar, ainda que ligeiramente, o plano de um livro sobre a<br \/>\ngrande na\u00e7\u00e3o americana, t\u00e3o singular em seus costumes,<br \/>\nem sua vida agitada e tumultuosa, em seus variad\u00edssimos aspectos.<\/p>\n<p>E de fato, esse trabalho, essa dif\u00edcil tarefa demandaria, incontestavelmente,<br \/>\nmuito mais que uma soma de notas mais ou menos verdadeiras e algum estilo.<br \/>\nEra preciso, antes de tudo, um elevado crit\u00e9rio hist\u00f3rico e<br \/>\ncient\u00edfico, grande c\u00f3pia de conhecimentos e profundo esp\u00edrito<br \/>\nanal\u00edtico.<\/p>\n<p>N\u00e3o se escreve a hist\u00f3ria de um pa\u00eds &#8211; a vida inteira<br \/>\nde um povo -, sem demorar-se em largo e paciente estudo sobre as suas origens,<br \/>\nseus habitantes primitivos, sua evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social,<br \/>\nsuas lutas intestinas e sobre os elementos que mais diretamente influ\u00edram<br \/>\npara sua independ\u00eancia.<\/p>\n<p>A eles, os historiadores e analistas da ci\u00eancia, t\u00e3o arriscada<br \/>\nempresa.<\/p>\n<p>Os poucos meses que passei nos Estados Unidos apenas me proporcionaram ensejo<br \/>\nde admirar, atrav\u00e9s de um prisma todo pessoal, o progresso assombroso<br \/>\ndesse extraordin\u00e1rio pa\u00eds.<\/p>\n<p>Compreendem-se, pois, os meus intuitos: nada mais que reproduzir, com a poss\u00edvel<br \/>\nexatid\u00e3o, o que vi, somente o que vi nessa interessante viagem ao pa\u00eds<br \/>\ndos ianques.<\/p>\n<p>Procurei ser espont\u00e2neo e simples, natural e l\u00f3gico, evitando<br \/>\nexageros de observa\u00e7\u00e3o e o estilo rebuscado e palavroso dos<br \/>\nque, \u00e0 fina for\u00e7a, pretendem transformar a literatura numa simples<br \/>\narte mec\u00e2nica de construir frases ocas e coloridas.<\/p>\n<p>Escritas em !890, as p\u00e1ginas que se v\u00e3o ler podem n\u00e3o<br \/>\nter a import\u00e2ncia de um estudo completo, mas de algum modo t\u00eam<br \/>\nseu valor intr\u00ednseco.<\/p>\n<p>Rio, 10 de agosto de 1893.<\/p>\n<p>AD. CAMINHA<\/p>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>CAP\u00cdTULO I<\/h4>\n<p>&#8230;Tinha cessado a faina geral de suspender \u00e2ncora. Os marinheiros<br \/>\nestavam todos em seus postos, alerta \u00e0 primeira voz, silenciosos, enfileirados<br \/>\na bombordo e a boreste, alguns convenientemente distribu\u00eddos na popa,<br \/>\nna proa e nas cobertas do cruzador.<\/p>\n<p>Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro e tristeza, fria, sem estrelas,<br \/>\ncortada de clar\u00f5es long\u00ednquos. T\u00e3o escura que se n\u00e3o<br \/>\ndistinguia um palmo diante do nariz, t\u00e3o feia que os bicos de g\u00e1s<br \/>\nda cidade, soturna e quieta, bruxuleavam palidamente com a sua luz tr\u00eamula<br \/>\ne vacilante.<\/p>\n<p>E contudo est\u00e1vamos a 19 de fevereiro, em plena esta\u00e7\u00e3o<br \/>\ncalmosa, no rigor do ver\u00e3o.<\/p>\n<p>Chovera todo o dia. O c\u00e9u conservava-se coberto de nuvens bojudas<br \/>\ne cor de chumbo, velando uns restos de lua.<\/p>\n<p>Um grande sil\u00eancio de alto-mar alastrava-se por toda a ba\u00eda<br \/>\ndo Rio de Janeiro. Somente ao longe, para os lados da cidade, badalava o sino<br \/>\nduma igreja, compassado e l\u00fagubre.<\/p>\n<p>De vez em quando passava rente com a popa do Barroso o vulto sombrio e largo<br \/>\nde uma barca Ferry, com o seu farol de cor, deserta, indistinta, e que desaparecia<br \/>\nlogo na escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>Seria meia-noite quando o navio come\u00e7ou a mover-se lentamente, caminho<br \/>\nda barra, cheio da silenciosa melancolia dos que partiam, e uma hora depois<br \/>\na cidade, as praias, e as montanhas sumiam-se na dist\u00e2ncia, como se<br \/>\no mar as fosse engolindo com a voracidade de um monstro.<\/p>\n<p>Restava apenas um ponto luminoso, uma vis\u00e3o microsc\u00f3pica da<br \/>\nterra fluminense: era o farol da ilha Rasa tremeluzindo, como p\u00e1lpebra<br \/>\nsonolenta, atrav\u00e9s da noite.<\/p>\n<p>E todos a bordo, todos silenciosamente, ego\u00edstas na sua dor concentrada<br \/>\ne incomunic\u00e1vel, mandaram ainda um &#8211; adeus &#8211; profundamente saudoso<br \/>\n\u00e0 vida alegre e ruidosa do Rio.<\/p>\n<p>Dizem que o homem do mar \u00e9 insens\u00edvel aqueles que nunca viram<br \/>\nesta realidade: a l\u00e1grima da saudade brilhar na face de um marinheiro.<\/p>\n<p>L\u00e1 fomos mar afora&#8230;<\/p>\n<p>Pernambuco foi o primeiro porto da nossa escala.<\/p>\n<p>Viagem mon\u00f3tona, sem acidentes not\u00e1veis, essa do Rio ao Recife.<br \/>\nAs horas sucediam-se numa uniformidade tediosa e imperturb\u00e1vel. Sempre<br \/>\no mar, sempre o c\u00e9u, ora sombrios, ora azuis.<\/p>\n<p>Durante o dia 21 avistamos, e isso nos consolou, uma vela que bordejava,<br \/>\nmuito branca, triste gar\u00e7a erradia no horizonte luminoso.<\/p>\n<p>Para quem viaja no mar uma vela que se avista \u00e9 sempre motivo de inocente<br \/>\nalegria. O marinheiro com especialidade gosta de segui-la com o olhar nost\u00e1lgico<br \/>\nat\u00e9 perd\u00ea-la completamente. \u00c9 como ao avistar-se terra<br \/>\ndepois de longa travessia: sente-se a mesma impress\u00e3o boa e indefin\u00edvel.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 de 26 &#8211; leste-oeste com o farol de S. Agostinho, e \u00e0s<br \/>\nonze horas receb\u00edamos o pr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel entrar nesse dia, por falta de mar\u00e9: passamos a<br \/>\nnoite fora, no Lamar\u00e3o, aos solavancos, vendo, por um \u00f3culo,<br \/>\na cidade do Recife, iluminada e bela, ombro a ombro com a legend\u00e1ria<br \/>\nOlinda dos holandeses e dos banhos de mar.<\/p>\n<p>Na falta de outro assunto falou-se de hist\u00f3ria p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Pela manh\u00e3 de 27 o Barroso sulcava as \u00e1guas do Lamar\u00e3o,<br \/>\nlento e majestoso, crivado de olhares. O povo saudava-o do cais da Ling\u00fceta.<br \/>\nEspalhou-se logo que o pr\u00edncipe D. Augusto, neto do imperador, vinha<br \/>\na bordo, e toda a gente correu a receb\u00ea-lo com essa avidez instintiva<br \/>\ndas massas populares. O povo pernambucano, tradicionalmente inimigo dos imperadores,<br \/>\nlembrava-se do tempo em que o Sr. D. Pedro de Alc\u00e2ntara dava-se ao luxo<br \/>\nde visitar o Norte.<\/p>\n<p>Mais tarde, ao desembarcar a turma de guardas-marinha, de que fazia parte<br \/>\no pr\u00edncipe, subiu de ponto a curiosidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! o pr\u00edncipe! &#8211; Que \u00e9 dele? &#8211; \u00c9 um ruivo? &#8211; \u00c9<br \/>\naquele barbado?<\/p>\n<p>O pobre mo\u00e7o viu-se em apuros, e mudava de cores, e fazia-se escarlate,<br \/>\ne vociferava contra a plebe, ocultando-se entre os colegas, desapontado. Um<br \/>\npreto velho teve a lembran\u00e7a de ajoelhar-se aos p\u00e9s de S. A.<br \/>\ne suplicar-lhe uma esmola. Aconteceu, por\u00e9m, que errou o alvo e foi<br \/>\ndireto a um outro rapaz, louro e rubro, como o pr\u00edncipe, que se apressou<br \/>\nem desfazer o engano.<\/p>\n<p>O imperial senhor achava-se rid\u00edculo no meio de toda aquela multid\u00e3o<br \/>\nservil e an\u00f4nima que o acompanhava, &#8220;como se visse nele um animal<br \/>\nselvagem&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>\u00c9 assim o povo &#8211; ing\u00eanuo, pueril.<\/p>\n<p>Visitamos, em romaria, os principais edif\u00edcios p\u00fablicos: a<br \/>\nPenitenci\u00e1ria, a Assembl\u00e9ia Provincial, o Gin\u00e1sio, o<br \/>\nTeatro.<\/p>\n<p>A nova Penitenci\u00e1ria do Recife \u00e9 um belo edif\u00edcio no<br \/>\ng\u00eanero.<\/p>\n<p>Impressiona tristemente esse casar\u00e3o sombrio com escadarias de ferro,<br \/>\nonde mal penetra a claridade meridiana.<\/p>\n<p>H\u00e1 criminosos de toda a esp\u00e9cie, em cujos semblantes retratam-se<br \/>\ndelitos tenebrosos. Nada, por\u00e9m, nos comoveu tanto como a hist\u00f3ria<br \/>\ndo preso Gustavo Adolfo, que, h\u00e1 quase vinte anos, cumpria a terr\u00edvel<br \/>\nsenten\u00e7a a que fora condenado. Era um desses sentenciados simp\u00e1ticos<br \/>\nque inspiram compaix\u00e3o a quem os observa de perto.<\/p>\n<p>Um dos nossos companheiros desejou saber a hist\u00f3ria do seu crime e<br \/>\npediu ao infeliz que lha contasse ele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o queira, disse o condenado, n\u00e3o queira obrigar-me a fazer<br \/>\nminha pr\u00f3pria aut\u00f3psia moral&#8230; Narr\u00e1-la, essa hist\u00f3ria,<br \/>\nseria um supl\u00edcio muito maior do que estar eu aqui, neste c\u00e1rcere,<br \/>\nh\u00e1 vinte anos&#8230;<\/p>\n<p>Gustavo Adolfo parecia-nos um regenerado, tal o aspecto humilde de sua fisionomia<br \/>\ne o tom comovente de sua voz. O isolamento transformara-lhe a alma. A dor<br \/>\ntem isto de bom &#8211; purifica o esp\u00edrito, \u00e9 como um crisol. Esse<br \/>\ninfame, esse assassino, Gustavo Adolfo, era um m\u00e1rtir. Aquele semblante<br \/>\nabatido pelas ins\u00f4nias, aquele rosto descarnado, aqueles olhos cansados<br \/>\nde chorar, aqueles l\u00e1bios l\u00edvidos de defunto, cansados de repetir<br \/>\na palavra &#8211; perd\u00e3o, lembravam a figura resignada de um moribundo que<br \/>\nnada mais espera sen\u00e3o a eterna liberdade &#8211; a morte.<\/p>\n<p>Vimo-lo na casa dos condenados, entre as quatro paredes de um miser\u00e1vel<br \/>\ncub\u00edculo, vestido de preto, barba crescida, macilento, arrependido<br \/>\ne s\u00f3.<\/p>\n<p>Poucos iam incomod\u00e1-lo ali, naquela pavorosa solid\u00e3o, e no<br \/>\nentanto ele n\u00e3o odiava ningu\u00e9m e desejava falar a todos.<\/p>\n<p>Tinha dezenove anos quando a fatalidade o arremessou a Fernando de Noronha.<br \/>\nA justi\u00e7a humana o havia condenado a esta pena infamante &#8211; gal\u00e9s<br \/>\nperp\u00e9tuas.<\/p>\n<p>Perdoar a um arrependido nas condi\u00e7\u00f5es de Gustavo Adolfo, me<br \/>\nparece a mais nobre a\u00e7\u00e3o de um rei. Todavia ele continuava,<br \/>\nmendigo de liberdade, a pedir, a pedir&#8230;<\/p>\n<p>P\u00f4r diversas vezes a academia de direito, pelo \u00f3rg\u00e3o<br \/>\nde seus representantes, exorara a piedade imperial, mas o imperador nunca<br \/>\nestendeu o seu magn\u00e2nimo olhar at\u00e9 aos c\u00e1rceres sen\u00e3o<br \/>\nem certos dias de gala natal\u00edcia para indultar os escolhidos da pol\u00edtica<br \/>\ndominante.<\/p>\n<p>&#8211; Console-se, disse eu ao desventurado mo\u00e7o. E citei Lamartine: &#8211;<br \/>\nVivre c&#8217;est attendre&#8230;<\/p>\n<p>Retiramo-nos comentando aquela cat\u00e1strofe desastrada.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria tr\u00e1gica desse preso foi-nos contada por um empregado<br \/>\ndo estabelecimento. Eu podia resumi-la em duas palavras: &#8211; cherchez la femme,<br \/>\nse n\u00e3o fosse o prurido de registrar, ainda que brevemente, um caso<br \/>\ncurioso de processo-crime. Cada um tire as ila\u00e7\u00f5es que lhe aprouverem.<\/p>\n<p>Gustavo Adolfo nasceu no Par\u00e1 onde iniciou seus estudos como seminarista.<\/p>\n<p>Muito cedo seu esp\u00edrito mostrou-se refrat\u00e1rio \u00e0 educa\u00e7\u00e3o<br \/>\neclesi\u00e1stica, e desviou-se dos livros sagrados para outro g\u00eanero<br \/>\nde leituras e estudos mais consent\u00e2neos com as suas aspira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os pais do n\u00fabil seminarista desgostaram-se com o procedimento do<br \/>\nfilho revolucion\u00e1rio e ardente apologista de Martinho Lutero, que n\u00e3o<br \/>\nocultava-lhes suas tend\u00eancias anticat\u00f3licas. Ele, por\u00e9m,<br \/>\no ap\u00f3stata, o herege, sentia-se instintivamente arrebatado pelas id\u00e9ias<br \/>\ndo s\u00e9culo e tratou de trocar a sotaina de novi\u00e7o pelo fraque<br \/>\nda \u00faltima moda. Ningu\u00e9m p\u00f5e peias \u00e0 fatalidade.<br \/>\nN\u00e3o contente com ir de encontro \u00e0 vontade de seus pais e preceptores,<br \/>\no ex-seminarista tomou o primeiro vapor, e, s\u00fabito, viu-se na capital<br \/>\ndo Brasil, sem um amigo que o guiasse nesse labirinto de ruas suspeitas onde<br \/>\no v\u00edcio assentou pra\u00e7a. A Rua do Ouvidor e os teatros sempre<br \/>\neram mais agrad\u00e1veis que o claustro e as impertin\u00eancias do reitor<br \/>\n&#8211; muito mais&#8230;<\/p>\n<p>Pobre Gustavo Adolfo! Salvara-se de um abismo para precipitar-se imprudentemente,<br \/>\ncomo crian\u00e7a inexperta, noutro abismo talvez mais perigoso.<\/p>\n<p>Sem amigos, sem prote\u00e7\u00e3o, longe de sua terra e de seus pais<br \/>\n&#8211; que podia esperar o jovem desconhecido naquele turbilh\u00e3o de vis interesses?<\/p>\n<p>Imbert-Galloix, um italiano tamb\u00e9m adolescente e cheio de esperan\u00e7as,<br \/>\ninteligente e trabalhador, morreu de mis\u00e9ria numa rua de Paris, por<br \/>\nter trocado sua p\u00e1tria natal por um pa\u00eds que s\u00f3 conhecia<br \/>\nde nome. Fora em busca de gl\u00f3rias e encontrou a mis\u00e9ria, o frio,<br \/>\na fome, e a morte por fim.<\/p>\n<p>Esses sonhadores como Imbert-Galloix s\u00e3o sempre v\u00edtimas da<br \/>\npr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A sorte de Gustavo Adolfo foi mais cruel.<\/p>\n<p>Custa a crer que um insignificante par de brincos leve um homem \u00e0<br \/>\ncadeia e depois ao ex\u00edlio perp\u00e9tuo!<\/p>\n<p>Uma vez sem meios de subsist\u00eancia, lutando com a m\u00e1 vontade<br \/>\nde uns e a indiferen\u00e7a de outros, Gustavo Adolfo, que tinha certa dose<br \/>\nde esp\u00edrito, desse esp\u00edrito fino que caracteriza o homem de<br \/>\ntalento, fez-se bo\u00eamio, isto \u00e9, indiferente \u00e0 vida, n\u00f4made<br \/>\na quem tanto faz dormir sobre fl\u00e1cido colch\u00e3o, como ao relento<br \/>\ne sobre a laje das cal\u00e7adas. Ora, os bo\u00eamios s\u00e3o umas<br \/>\ncriaturas simp\u00e1ticas. Quando um bo\u00eamio tem esp\u00edrito acha<br \/>\nsempre quem lhe estenda a m\u00e3o. Gustavo Adolfo preferiu a m\u00e3o<br \/>\nleve, alva e cetinosa, de uma cortes\u00e3 pela qual apaixonou-se deveras.<\/p>\n<p>A mulher, sempre essa criatura profundamente sedutora e misteriosa!<\/p>\n<p>E, parece incr\u00edvel! quando na primeira noite, ap\u00f3s as inef\u00e1veis<br \/>\ncar\u00edcias do amor, a m\u00edsera Manon, adormecida ao lado do amante,<br \/>\nsonhava, talvez nalgum banquete suntuoso, \u00e0 sombra de \u00e1lamos<br \/>\nfrondosos, talvez nalguma de suas passadas orgias, \u00e0 luz de candelabros<br \/>\ndeslumbrantes, ele, o mal-aventurado mo\u00e7o, cujo olhar fitava na meia<br \/>\nsombra da alcova o rosto sereno desta amante, antepensava um crime e um crime<br \/>\nexcepcional, monstruoso, inqualific\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Estes brincos, estes brincos&#8230; pensava ele fitando as j\u00f3ias, duas<br \/>\ngrandes l\u00e1grimas de diamante pendentes das orelhas da rapariga. Seu<br \/>\nesp\u00edrito oscilava como um p\u00eandulo na d\u00favida terr\u00edvel,<br \/>\nagu\u00e7ado por um desejo louco.<\/p>\n<p>Ei-lo que se levanta de um \u00edmpeto, pisando devagar, sorrateiramente,<br \/>\nt\u00e3o de leve que dir-se-ia uma sombra; ei-lo que se encaminha para a<br \/>\nporta da rua, tateando, encostando-se \u00e0s paredes, p\u00e9 ante p\u00e9,<br \/>\nsem respirar, olhando sempre para tr\u00e1s, para o leito da amante (lembra-me<br \/>\na cena da &#8220;Cimbelina&#8221; de Shakespeare).<\/p>\n<p>Meia-noite&#8230; Ei-lo ainda que volta e se aproxima do leito onde h\u00e1<br \/>\npouco boiara em mar de vol\u00fapia. Traz na m\u00e3o um objeto reluzente,<br \/>\numa coisa disforme&#8230; uma machadinha.<\/p>\n<p>Que ir\u00e1 ele fazer?!.<\/p>\n<p>Aproxima-se mais, rastejando quase, mansamente, sutilmente.<\/p>\n<p>De repente soa uma pancada surda, e um grito estrangulado: &#8211; Soc&#8230; corro!<br \/>\nSoa outra pancada surda, outra, outra, muitas pancadas, e sobre os brancos<br \/>\nlen\u00e7\u00f3is daquele malfadado leito palpitam as carnes sangrentas,<br \/>\nmoribundas, de um corpo de mulher que ainda h\u00e1 pouco sentia e pensava&#8230;<\/p>\n<p>Obcecado pela id\u00e9ia do roubo, o assassino arranca brutalmente as j\u00f3ias<br \/>\ndo cad\u00e1ver, e, \u00e0 luz do combustor de cristal, reconhece que<br \/>\ns\u00e3o falsas!<\/p>\n<p>Foge rua fora, como um possesso, enfia num beco, sai por outra rua, e desaparece<br \/>\nna escurid\u00e3o da noite.<\/p>\n<p>No dia seguinte seu nome l\u00e1 estava estampado em letras garrafais no<br \/>\nlivro dos r\u00e9us: &#8220;Gustavo Adolfo&#8230; preso pelo duplo crime de assassinato<br \/>\ne roubo.&#8221;<\/p>\n<p>Mais tarde, anos depois, o jovem criminoso tentou fugir de Fernando de Noronha<br \/>\nonde fora recolhido. Prenderam-no em flagrante. E h\u00e1 poucos meses,<br \/>\nno ano passado, a princesa Isabel, ent\u00e3o regente do Brasil, abriu-lhe<br \/>\nas portas da pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Gustavo Adolfo publicou, no degredo, um livro de versos intitulado Risos<br \/>\ne l\u00e1grimas, uma cole\u00e7\u00e3o de poesias sentimentais e amorosas<br \/>\nque pouco valem pela forma e onde se acham cristalizadas as dores do infeliz<br \/>\npoeta, cuja imagina\u00e7\u00e3o cantava entre l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Penalizou-nos a sorte desse rapaz simp\u00e1tico e inteligente.<\/p>\n<p>Havia, al\u00e9m de Gustavo Adolfo, outro preso n\u00e3o menos interessante<br \/>\ne que nos excitou a curiosidade. Indigitado autor de n\u00e3o sei que roubo,<br \/>\nfora condenado igualmente a gal\u00e9s perp\u00e9tuas.<\/p>\n<p>Interrogado, disse-nos contar oitenta (!) anos de idade e possuir fam\u00edlia<br \/>\nnumerosa: &#8211; mulher e 30 filhos!<\/p>\n<p>&#8211; Qual foi o seu crime? perguntamos.<\/p>\n<p>O velhinho todo tr\u00eamulo, a cabe\u00e7a muito branca, uma n\u00e9voa<br \/>\n\u00famida no olhar, sem for\u00e7as quase para dar um passo, murmurou<br \/>\ntristemente:<\/p>\n<p>&#8211; Nenhum, meus caros senhores&#8230; Suponho que houve engano da justi\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E se lhe dessem liberdade agora?.<\/p>\n<p>&#8211; De que me servia? Mal me tenho em p\u00e9 e j\u00e1 n\u00e3o sei<br \/>\nde minha mulher e de meus filhos. Estou muito velho, preciso morrer descansado<br \/>\naqui mesmo na pris\u00e3o.<\/p>\n<p>O edif\u00edcio da Penitenci\u00e1ria tem, logo \u00e0 entrada, a seguinte<br \/>\ninscri\u00e7\u00e3o em m\u00e1rmore:<\/p>\n<p>No DIA 23 DE ABRIL DE 1885 SENDO PRESIDENTE DA PROV\u00cdNCIA O ILM9 SR<br \/>\nCONSELHEIRO DR. JOS\u00c9 BENTO DA C. FIGUEIREDO FORAM REMOVIDOS OS PRESOS<br \/>\nPARA ESTE EDIF\u00cdCIO ORGANIZADO SOB A DIRE\u00c7\u00c2O DO ENGENHEIRO<br \/>\nJOS\u00c9 MAMEDE ALVES PEREIRA.<\/p>\n<p>Contava, portanto, trinta e cinco anos.<\/p>\n<p>Foi a mais interessante de todas as nossas visitas em Pernambuco.<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a>CAP\u00cdTULO II<\/h4>\n<p>No dia 27 deixamos o Recife em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s Antilhas.<\/p>\n<p>Como at\u00e9 a\u00ed, a viagem continuou a vapor &#8211; uma verdadeira viagem<br \/>\nde recreio se n\u00e3o fosse a exig\u00fcidade dos c\u00f4modos a bordo<br \/>\ndo cruzador.<\/p>\n<p>O comandante levava ordem para chegar a Nova Orleans em tempo de assistirmos<br \/>\n\u00e0 abertura da exposi\u00e7\u00e3o internacional americana, onde<br \/>\no Almirante Barroso devia figurar como leg\u00edtimo e admir\u00e1vel<br \/>\nproduto da ind\u00fastria naval brasileira t\u00e3o pouco conhecida no<br \/>\nestrangeiro.<\/p>\n<p>Adot\u00e1vamos, sempre que o vento permitia, a navega\u00e7\u00e3o<br \/>\nmista, e deste modo, a vela e a vapor, arrastados pelas correntes mar\u00edtimas<br \/>\nque puxam para o norte, alcan\u00e7amos, a 2 de mar\u00e7o, a linha equatorial,<br \/>\nonde apanhamos alguns chuviscos debaixo duma atmosfera ardent\u00edssima.<\/p>\n<p>Reinava &#8220;calmaria podre&#8221;. Ferraram-se as velas \u00e0 m\u00edngua<br \/>\nda mais leve aragem, armaram-se os toldos para que pud\u00e9ssemos suportar<br \/>\no calor na tolda, e os banhos salgados de ducha foram recebidos com especial\u00edssimo<br \/>\nagrado. Suava-se a valer. Imagine-se embaixo, no por\u00e3o, as fornalhas<br \/>\nacesas, e em cima o sol ardente, o medonho sol do equador, caindo como um<br \/>\nc\u00e1ustico sobre o navio.<\/p>\n<p>\u00c0 tardinha incendiavam-se os horizontes de um colorido rubro, ensang\u00fcentado,<br \/>\nde m\u00e1gica, refletindo-se no espelho do mar tranq\u00fcilo como num<br \/>\ngrande lago de cristal.<\/p>\n<p>Demos gra\u00e7as a Deus quando nos vimos fora de t\u00e3o desagrad\u00e1veis<br \/>\nregi\u00f5es.<\/p>\n<p>No dia 11 avistamos terra de Barbados, uma das mais pr\u00f3speras col\u00f4nias<br \/>\ninglesas das Antilhas. Era o primeiro porto estrangeiro do itiner\u00e1rio.<\/p>\n<p>O Capit\u00e3o do Porto foi o primeiro personagem que pisou a bordo: um<br \/>\ningl\u00eas de aspecto duro como em geral o de todo ingl\u00eas, olhando<br \/>\natrav\u00e9s de uns grandes \u00f3culos azuis e ostentando fleumaticamente<br \/>\num par de su\u00ed\u00e7as ruivas. Trajava d\u00f3lm\u00e3 branco,<br \/>\nmuito justo ao corpo, cal\u00e7as de pano preto e chap\u00e9u de corti\u00e7a<br \/>\nbranco, de grandes abas, tombado para a nuca.<\/p>\n<p>Fez a visita sacramental e p\u00f4s-se ao fresco em menos de dois minutos,<br \/>\ndepois de um fort\u00edssimo shake-hand.<\/p>\n<p>A ilha de Barbados vista de bordo \u00e9 de uma nudez quase completa: nenhuma<br \/>\nvegeta\u00e7\u00e3o cobre as vastas plan\u00edcies que primeiro ferem<br \/>\na retina do observador. Ao aproximar-se-lhe, por\u00e9m, novas paisagens<br \/>\nde efeitos cambiantes v\u00e3o-se desenrolando \u00e0 maneira de cosmorama.<br \/>\nMoinhos rodam ao sopro do vento que ordinariamente \u00e9 fresco a\u00ed,<br \/>\ncasas de campo confort\u00e1veis, \u00e1rvores, chamin\u00e9s fumegantes,<br \/>\ntudo isso vai aparecendo \u00e0 medida que nos aproximamos, at\u00e9 que,<br \/>\ncom verdadeira surpresa, surge-nos toda a cidade de Bridgetown e ent\u00e3o<br \/>\nbasta um golpe de vista largo para abrang\u00ea-la.<\/p>\n<p>\u00c0 dist\u00e2ncia Bridgetown semelha uma pobre cidade desabitada,<br \/>\nsem ind\u00edcio de civiliza\u00e7\u00e3o. A surpresa que experimenta<br \/>\no viajante \u00e9 completa depois. Algu\u00e9m que a\u00ed esteve anos<br \/>\nantes admirou-se da enorme quantidade de embarca\u00e7\u00f5es inglesas<br \/>\nsurtas no porto. Entre estas contavam-se quatro encoura\u00e7ados, bonitos<br \/>\nvasos que honram a Inglaterra afirmando o grande poder mar\u00edtimo desse<br \/>\npa\u00eds, cuja esquadra ainda hoje n\u00e3o tem rival no mundo.<\/p>\n<p>Um dia e meio &#8211; eis todo o tempo de nossa demora em Barbados, tempo suficiente<br \/>\npara conhecermos a ilha \u00e0 vol d&#8217;oiseau.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o, na maior parte negra, \u00e9 composta de gente<br \/>\nde baixa classe e geralmente intrat\u00e1vel.<\/p>\n<p>Abundam o ciceroni, esp\u00e9cie curios\u00edssima de especuladores,<br \/>\nque perseguem os viajantes de uma maneira b\u00e1rbara. Querem, \u00e0<br \/>\nfina for\u00e7a, ensinar-lhes as ruas, os hot\u00e9is, e n\u00e3o os<br \/>\nlargam enquanto n\u00e3o satisfazem a sua ambi\u00e7\u00e3o, cobrando,<br \/>\nno fim de contas, certo n\u00famero de shillings.<\/p>\n<p>Falam um patois detest\u00e1vel; ningu\u00e9m os entende com facilidade.<br \/>\nImagine-se um pobre-diabo acompanhado duma multid\u00e3o que grita e fala<br \/>\nidioma desconhecido a repetir-lhe alto aos ouvidos: &#8211; Came hear! carne hear!<br \/>\ndiscutindo, altercando-se de cacete em punho. O m\u00edsero julga-se por<br \/>\num momento transportado, como por encanto, \u00e0s costas da \u00c1frica,<br \/>\nfecha ouvidos \u00e0 grita dos importunos ciceroni, brada mil vezes no,<br \/>\nno, no&#8230;, e n\u00e3o tem rem\u00e9dio sen\u00e3o deitar a correr como<br \/>\num possesso, perseguido sempre pela turbamulta de vadios, at\u00e9 que,<br \/>\ndepois de uma luta incr\u00edvel, esguedelhado, ofegante, p\u00e1lido,<br \/>\nembarafusta pela porta dum hotel escorrendo suor, esfalfado, morto de cansa\u00e7o!<\/p>\n<p>E ainda por cima vocifera a legi\u00e3o faminta dos negros!<\/p>\n<p>N\u00e3o exagero. Parece realmente um pa\u00eds semib\u00e1rbaro aquele,<br \/>\ne ai! de n\u00f3s se n\u00e3o fossem os policemen, ativos e en\u00e9rgicos<br \/>\nguardas da vigil\u00e2ncia p\u00fablica, que a um simples franzir de sobrolhos<br \/>\nfazem desaparecer a medonha horda de capad\u00f3cios, ou que melhor nome<br \/>\ntenham esses turbulentos dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>\u00c9 espantosa a ambi\u00e7\u00e3o do povo por dinheiro.<\/p>\n<p>Ao tilintar do money surgem de repente vinte, trinta cabe\u00e7as negras,<br \/>\ncada qual mais negra, disputando a posse do precioso metal.<\/p>\n<p>Basta dizer que ainda n\u00e3o t\u00ednhamos fundeado e j\u00e1 grande<br \/>\nn\u00famero de pequenas embarca\u00e7\u00f5es a vela e a remos &#8211; fly<br \/>\nhoats &#8211; aproximavam-se do navio, cortando-lhe a proa com risco de serem espeda\u00e7adas.<br \/>\nOuvia-se, ent\u00e3o, de todos os lados vozes que gritavam: &#8211; I am pilot!<br \/>\nI am pilot!<\/p>\n<p>Embalde procur\u00e1vamos persuadir \u00e0queles esfaimados de dinheiro<br \/>\nque n\u00e3o precis\u00e1vamos de pr\u00e1tico, pois a ba\u00eda de<br \/>\nBridgetown \u00e9 bastante espa\u00e7osa e oferece entrada franca.<\/p>\n<p>D\u00e1vamos com o len\u00e7o, mandando-os embora &#8211; que n\u00e3o! mas<br \/>\nos gritos repetiam-se: &#8211; I am pilot! I am pilot!<\/p>\n<p>Todos queriam, a troco de dinheiro, conduzir o navio estrangeiro ao ancoradouro<br \/>\ne para isso exigiam um pre\u00e7o fabuloso.<\/p>\n<p>Formid\u00e1veis importunos os tais negros de Barbados!<\/p>\n<p>A edifica\u00e7\u00e3o de Bridgetown, puramente inglesa, \u00e9 curiosa,<br \/>\npitoresca mesmo, se bem que uniforme.<\/p>\n<p>As casas, baixas quase todas, geometricamente dispostas, alpendradas na frente,<br \/>\nsimples e elegantes na sua arquitetura, s\u00e3o confort\u00e1veis e convidam<br \/>\nao far-niente.<\/p>\n<p>As ruas, por\u00e9m, estreitas e mal cal\u00e7adas, s\u00e3o, por assim<br \/>\ndizer, intransit\u00e1veis, em conseq\u00fc\u00eancia do poeiral que sobe,<br \/>\ncomo fuma\u00e7a, ao rosto dos transeuntes.<\/p>\n<p>No que respeita a estabelecimentos importantes, vimos a St. Leonard&#8217;s School<br \/>\ne uma igreja-cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>A est\u00e1tua de Nelson, o her\u00f3i de Trafalgar, ergue-se, em bronze<br \/>\nmaci\u00e7o, numa das melhores pra\u00e7as do lugar &#8211; Nelson&#8217;s Square,<br \/>\nse me n\u00e3o engano.<\/p>\n<p>Os poucos hot\u00e9is que existem na ilha s\u00e3o vastos e oferecem<br \/>\no necess\u00e1rio conforto ao viajante: boa mesa, bons petiscos, magn\u00edfico<br \/>\nvinho, deliciosos sorvetes &#8211; ice-cream &#8211; e, finalmente, boas camas e muito<br \/>\nasseio.<\/p>\n<p>O brasileiro que viaja, com raras exce\u00e7\u00f5es, tem necessidade<br \/>\nimprescind\u00edvel de duas coisas que ele julga essenciais ao seu bem-estar:<br \/>\ncaf\u00e9 e cigarros.<\/p>\n<p>Spleen e charutos &#8211; s\u00e3o coisas insepar\u00e1veis de um ingl\u00eas<br \/>\nda Inglaterra; caf\u00e9 e cigarros &#8211; eis o que um brasileiro n\u00e3o<br \/>\ndispensa.<\/p>\n<p>Infelizmente para n\u00f3s, o caf\u00e9, tal qual se prepara em Barbados,<br \/>\n\u00e9 um licor detest\u00e1vel composto de muito p\u00f3 e pouca \u00e1gua,<br \/>\nque os naturais misturam \u00e0 guisa de chocolate, mas de um sabor desagrad\u00e1vel,<br \/>\nrepugnante.<\/p>\n<p>Duas linhas de bondes percorrem a capital dum extremo a outro.<\/p>\n<p>A ilha \u00e9 circundada por uma via f\u00e9rrea.<\/p>\n<p>De resto, \u00e9 admir\u00e1vel sen\u00e3o assombroso o progresso dessa<br \/>\ncol\u00f4nia, relativamente pequena e t\u00e3o longe da metr\u00f3pole.<\/p>\n<p>E, note-se, de vez em quando atravessam aquelas regi\u00f5es terr\u00edveis<br \/>\nciclones produzindo estragos incalcul\u00e1veis em toda a extens\u00e3o<br \/>\nda ilha. In\u00fameras embarca\u00e7\u00f5es, algumas de grande porte,<br \/>\nt\u00eam sido arrojadas \u00e0 costa por esses formid\u00e1veis meteoros.<br \/>\nO \u00faltimo caiu em 1851 e figura nos anais da navega\u00e7\u00e3o<br \/>\ncomo um dos grandes desastres mar\u00edtimos do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a>CAP\u00cdTULO III<\/h4>\n<p>Na manh\u00e3 do dia 13 suspendemos \u00e2ncora em dire\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 ilha da Jamaica, fundeando no mesmo dia na ba\u00eda de Port-Royal.<\/p>\n<p>Denso nevoeiro envolvia, como uma gaze alv\u00edssima, as altas montanhas<br \/>\nque orlam majestosamente a antiga col\u00f4nia espanhola.<\/p>\n<p>Ao aproximarmo-nos da pequena e elegante cidade de Port-Royal, pedimos pr\u00e1tico<br \/>\no qual nos levou a Kingston.<\/p>\n<p>O brasileiro que, depois de longa aus\u00eancia do Brasil, chega \u00e0<br \/>\nJamaica sente logo um prazer especial, um fr\u00eamito de patriotismo, ao<br \/>\ncontemplas as soberbas montanhas da ilha, tanto elas lembram a natureza do<br \/>\nnosso pa\u00eds. A ba\u00eda, salpicada de interessantes ilhotas de verduras,<br \/>\nverdadeiras ilhas flutuantes, em cujas \u00e1guas im\u00f3veis bandos<br \/>\nde aves ribeirinhas ostentam sua plumagem garrida e multicolor, voando duma<br \/>\nmargem \u00e0 outra numa contradan\u00e7a animada, oferece aspectos lind\u00edssimos.<br \/>\nJamaica parece um peda\u00e7o do Brasil transplantado para as Antilhas,<br \/>\ntal a opul\u00eancia da sua natureza.<\/p>\n<p>\u00c9 a maior e a mais florescente das col\u00f4nias inglesas da Am\u00e9rica<br \/>\ndepois de Barbados. Mede aproximadamente quarenta l\u00e9guas de comprimento.<\/p>\n<p>Kingston n\u00e3o \u00e9 uma cidade como Bridgetown, onde a cada passo<br \/>\ndepara-se com uma prova de adiantamento material. \u00c9, por assim dizer,<br \/>\numa capital morta, quase sem com\u00e9rcio, mas, em compensa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmuito mais pitoresca que a capital de Barbados. Os habitantes s\u00e3o morigerados,<br \/>\ne uma paz religiosa parece reinar no seio de cada fam\u00edlia.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais pobreza, \u00e9 certo, mas incomparavelmente o povo \u00e9<br \/>\nmais educado, mais pronunciado o instinto de civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitas est\u00e1tuas. Vimos as de Lewis Quier Bower Bonk, nascido em 1815,<br \/>\nEdward Jordon, um dos principais fundadores da Jamaica Mutual Life Assurance<br \/>\nSociety, Sir Charles Theophilus Metcal, governador em 1845 &#8211; todas ao redor<br \/>\nde um parque. Isso prova quanto respeito infunde ao ingl\u00eas o nome de<br \/>\num compatriota c\u00e9lebre.<\/p>\n<p>Um brasileiro estabelecido em Kinsgton disse-nos ser o Almirante Barroso<br \/>\no primeiro navio brasileiro que a\u00ed aportava desde 1871.<\/p>\n<p>Nossa demora em Jamaica foi r\u00e1pida como em Barbados. Telegramas oficiais<br \/>\ndo Rio apressavam-nos cada vez mais. J\u00e1 se havia inaugurado a Exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Nova Orleans; era-nos for\u00e7oso assistir ao menos o encerramento.<br \/>\nEst\u00e1vamos convictos de que o cruzador brasileiro ia figurar com brilho<br \/>\nno importante certame americano. Tanto em Bridgetown como em Kingston n\u00e3o<br \/>\nlhe faltaram elogios de pessoas competentes.<\/p>\n<p>Todos ansi\u00e1vamos pela chegada ao pa\u00eds maravilhoso dos ianques,<br \/>\nao ber\u00e7o da eletricidade, todos quer\u00edamos conhecer de visu o<br \/>\ncelebrado pa\u00eds das descobertas engenhosas.<\/p>\n<p>Desde logo entramos, de combina\u00e7\u00e3o, em &#8220;s\u00e9rios&#8221;<br \/>\nestudos do idioma ingl\u00eas praticando uns com os outros, compulsando manuais<br \/>\nde conversa\u00e7\u00e3o, decorando significados, preparando-nos, enfim,<br \/>\nda melhor forma, para retribuir gentilezas, captar amizades, responder a todas<br \/>\nas perguntas que nos fossem feitas \u00e0 queima-roupa. Sim, porque tudo<br \/>\nquanto hav\u00edamos aprendido te\u00f3rica e praticamente na Escola,<br \/>\nn\u00e3o era bastante. Faltava-nos a facilidade, o traquejo da palavra estrangeira,<br \/>\nque hav\u00edamos de adquirir \u00e0 for\u00e7a de vontade e aplica\u00e7\u00e3o<br \/>\nass\u00eddua.<\/p>\n<p>Alguns oficiais, entre os quais o comandante, riam-se do nosso apuro, e,<br \/>\nde vez em quando, atiravam-nos de surpresa uma pergunta em ingl\u00eas. Quanto<br \/>\ndisparate, quanta tolice a principio! O certo \u00e9 que depois, com o tempo,<br \/>\nj\u00e1 nos entend\u00edamos sofrivelmente. Noblesse oblige.<\/p>\n<h4><a name=\"4\"><\/a>CAP\u00cdTULO IV<\/h4>\n<p>A hospitaleira sociedade de Jamaica havia nos conquistado a simpatia. Todos<br \/>\nsentimos deixar t\u00e3o cedo aquela encantadora ilha, cujos habitantes<br \/>\nnos tinham prodigalizado t\u00e3o generoso acolhimento. Len\u00e7os acenavam<br \/>\npara bordo ao deixarmos o ancoradouro \u00e0s 5 horas da tarde de 21, despedindo-nos<br \/>\ntalvez para sempre dessa boa gente.<\/p>\n<p>Durante os dias 22 e 23, mar e vento rebelaram-se contra o navio.<\/p>\n<p>Naveg\u00e1vamos \u00e0 bolina, sempre a vela e a vapor, amurados por<br \/>\nbombordo.<\/p>\n<p>Grandes rajadas frias sopravam do norte, cantando nos cabos da mastrea\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsacudindo-os com viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O term\u00f4metro baixara sensivelmente, a coluna barom\u00e9trica punha-nos<br \/>\ncalefrios&#8230;<\/p>\n<p>O mar quebrava-se de encontro \u00e0s bochechas do cruzador desafiando-lhe<br \/>\na resist\u00eancia colossal.<\/p>\n<p>Sab\u00edamos que a latitude em que naveg\u00e1vamos, nas Antilhas, era<br \/>\nmuito freq\u00fcentada pelos ciclones, esses terr\u00edveis inimigos dos<br \/>\nnavegantes, que arrastam em sua cauda milhares de vidas. Rece\u00e1vamos<br \/>\nesses fen\u00f4menos tanto mais porque os seus efeitos fazem-se sentir a<br \/>\ngrandes dist\u00e2ncias.<\/p>\n<p>Os sintomas vis\u00edveis, se n\u00e3o eram evidentes, aproximavam-se<br \/>\ndas descri\u00e7\u00f5es de navegantes experimentados. O c\u00e9u estendia-se<br \/>\nlimpo, como um largo p\u00e1lio azul esbranqui\u00e7ado; apenas no horizonte<br \/>\nflutuavam pequenos estratos em forma de rabo de galo e algumas estrias avermelhadas,<br \/>\nescarlates, despertavam-nos a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao meio-dia o sol tinha uma cor ba\u00e7a, com um disco azulado ao redor.<\/p>\n<p>E crescia o mar em vagalh\u00f5es medonhos e esfuziava o vento no cordame.<\/p>\n<p>O navio caturrava e arfava morosamente; ouvia-se o barulho do h\u00e9lice<br \/>\ntrabalhando fora d\u00e1gua.<\/p>\n<p>Pela madrugada de 24 lobrigamos por boreste o farol da ilha de Cuba, de luz<br \/>\nmuito branca, e no dia seguinte sulc\u00e1vamos o golfo do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Poucos dias restavam para alcan\u00e7armos Nova Orleans.<\/p>\n<p>E nada do suposto ciclone!<\/p>\n<p>Por via de d\u00favidas, como o tempo continuasse borrascoso, ferramos<br \/>\na maior parte do pano, conservando apenas as g\u00e1veas rizadas nos terceiros<br \/>\ne a mezena de capa.<\/p>\n<p>Capeamos tr\u00eas dias consecutivos, sem que aparecesse o medonho visitante.<\/p>\n<p>No quinto dia o vento amainou rondando para nordeste e o mar, por for\u00e7a<br \/>\ndas circunst\u00e2ncias, tamb\u00e9m acalmou-se. Ferramos o resto do pano,<br \/>\nnavegando s\u00f3 a vapor.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia da chegada preocupava todos os esp\u00edritos. Os Estados<br \/>\nUnidos eram o assunto de todas as conversa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Cedo tratou-se da limpeza do navio.<\/p>\n<p>Cada qual tratou de si, de sua roupa, de seus objetos que o mar sacudira<br \/>\nde um lado a outro dos camarotes. Os alojamentos apresentavam o curioso aspecto<br \/>\nde um campo de batalha; malas confundiam-se umas sobre outras formando empilhamentos,<br \/>\na roupa branca usada andava de mistura com os fatos novos de pano; livros,<br \/>\npap\u00e9is &#8211; tudo quanto era de uso quotidiano estava espalhado no conv\u00e9s,<br \/>\ncomo se andasse por ali alguma crian\u00e7a traquinas.<\/p>\n<p>Guerra ao mofo! Roupas ao sol! Ningu\u00e9m se fez esperar. Come\u00e7aram<br \/>\nas arruma\u00e7\u00f5es, uma faina a\u00e7odada, durante a qual soaram<br \/>\nboas gargalhadas filhas de inalter\u00e1vel bom humor.<\/p>\n<p>Os guardas-marinha alojavam-se \u00e0 popa num acanhad\u00edssimo compartimento<br \/>\nque mal os comportava. A\u00ed tinham suas camas, suas malas, seus livros.<\/p>\n<p>Quantos preju\u00edzos! Quantas decep\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>E todos acocorados, arrumando e desarrumando, numa confus\u00e3o burlesca,<br \/>\nmaldiziam o mar e apostrofavam o vento. Netuno e \u00c9olo nunca receberam<br \/>\ntantas manifesta\u00e7\u00f5es desairosas. Pois n\u00e3o! Ningu\u00e9m<br \/>\ntem suas coisas para v\u00ea-las de um dia para outro arruinadas, inutilizadas<br \/>\npelos caprichos incoerc\u00edveis do mar e do vento.<\/p>\n<p>Finalmente, como nada h\u00e1 melhor que um dia depois de outro, veio o<br \/>\ndia 29 de mar\u00e7o em que dos vaus do joanete de proa o gajeiro anunciou<br \/>\n&#8211; terra!<\/p>\n<p>Continuava, entretanto, incessantemente, a az\u00e1fama. A guarni\u00e7\u00e3o<br \/>\nda bateria ocupava-se da limpeza das pe\u00e7as, colocando-as em posi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nabrindo e fechando culatras, lixando-as, lubrificando-as enquanto o fiel ia<br \/>\ndistribuindo o cartuxame.<\/p>\n<p>Havia uma alegria geral a bordo e sentia-se um vago odor de tintas, como<br \/>\nao entrar-se numa casa nova, pintada de fresco.<\/p>\n<p>J\u00e1 era tempo de repousarmos das fadigas da viagem.<\/p>\n<h4><a name=\"5\"><\/a>CAP\u00cdTULO V<\/h4>\n<p>Ningu\u00e9m pode imaginar o que \u00e9 a chegada de um navio de guerra<br \/>\na porto estrangeiro depois de uma tempestade ou mesmo depois duma amea\u00e7a<br \/>\nde temporal. A faina torna-se geral e o ru\u00eddo inevit\u00e1vel. \u00c9<br \/>\nde ver-se a prontid\u00e3o, a rapidez com que se executam as ordens. Como<br \/>\nque h\u00e1 mais vontade para o trabalho, desenvolve-se logo um contagioso<br \/>\nbem-estar, ningu\u00e9m foge ao servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Tesar cabos de laborar, baldear o conv\u00e9s a ficar alvo e polido como<br \/>\numa sala de visitas, limpar, arcar os metais amarelos at\u00e9 ficarem reluzentes<br \/>\ncomo ouro de lei, ferrar o pano a capricho, cuidadosamente, de modo a confundi-lo<br \/>\ncom as vergas e os mastros, preparar os escaleres &#8211; tudo isso \u00e9 coisa<br \/>\ndum abrir e fechar de olhos.<\/p>\n<p>A guarni\u00e7\u00e3o do Almirante Barroso, disciplinada e obediente<br \/>\ncomo todas as que serviam sob as ordens do comandante Saldanha, primava pelo<br \/>\nasseio, pela ordem, pela destreza e pela atividade. N\u00e3o se lhe pode<br \/>\nfazer maior elogio. Cada marinheiro era como uma m\u00e1quina pronta sempre<br \/>\nao menor impulso.<\/p>\n<p>A chibata era nesse tempo, como ainda hoje, o terror das guarni\u00e7\u00f5es<br \/>\nda armada.<\/p>\n<p>Sempre manifestei-me contra esse b\u00e1rbaro castigo que avilta e corrompe<br \/>\nem vez de corrigir. Um castigo de chibata \u00e9 a coisa mais revoltante<br \/>\nque j\u00e1 tenho visto, mormente quando \u00e9 mandado aplicar por autoridade<br \/>\ndesumana, sem no\u00e7\u00f5es do leg\u00edtimo direito que a cada homem<br \/>\nassiste, quem quer que ele seja, soldado ou pari\u00e1.<\/p>\n<p>O meu primeiro passo ao deixar a Escola e envergar a farda de guarda-marinha<br \/>\nfoi publicar um protesto contra essa pena infamante, e fi-lo desassombradamente,<br \/>\nconvicto mesmo de que sobre mim ia cair a odiosidade de meus superiores em<br \/>\ngeral apologistas da chibata.<\/p>\n<p>A primeira vez que minha posi\u00e7\u00e3o oficial obrigou-me a assistir<br \/>\num desses castigos, tive \u00edmpetos de bradar com toda a for\u00e7a<br \/>\ndos pulm\u00f5es contra semelhante atentado \u00e0 natureza humana.<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 assistiu a uma dessas pavorosas cenas do eito, magistralmente<br \/>\ndescritas por J\u00falio Ribeiro na sua obra A Carne, pode fazer id\u00e9ia<br \/>\ndo que seja o castigo da chibata.<\/p>\n<p>Despir-se a meio corpo um pobre homem, um servidor da p\u00e1tria, p\u00e9s<br \/>\ne m\u00e3os algemados, muita vez depois de tr\u00eas dias de solit\u00e1ria<br \/>\na p\u00e3o e \u00e1gua, e descarregar-se-lhe sobre a espinha, sobre as<br \/>\nesp\u00e1duas, sobre o peito, sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o corpo<br \/>\ncinq\u00fcenta, cem, duzentas chibatadas, em presen\u00e7a de todos os seus<br \/>\ncompanheiros, me parece indigno duma gera\u00e7\u00e3o que se preza, de<br \/>\numa sociedade de homens civilizados, de cidad\u00e3os, de cavalheiros que<br \/>\nostentam triunfalmente gal\u00f5es dourados na farda &#8211; na farda, que significa<br \/>\na nobreza, a coragem, o patriotismo e a honra duma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Revoltei-me contra semelhante barbaridade inquisitorial, como quem tem consci\u00eancia<br \/>\nde que est\u00e1 praticando uma a\u00e7\u00e3o justa e honrosa. Do\u00eda-me<br \/>\npor um lado pertencer a uma classe nobre por tantos t\u00edtulos, \u00e9<br \/>\ncerto, mas em cujo seio era permitido a chibata e, o que \u00e9 mais, o<br \/>\nseu abuso.<\/p>\n<p>A esse tempo a Gazeta de Not\u00edcias do Rio de Janeiro publicava semanalmente<br \/>\num boletim liter\u00e1rio no louv\u00e1vel intuito de estimular os incipientes<br \/>\ndas letras. Oferecia-se-me oportunidade para um conto mar\u00edtimo, cujo<br \/>\nassunto fosse a chibata.<\/p>\n<p>Escusado \u00e9 dizer que o meu artigo provocou o despeito dos culpados<br \/>\nindiretamente feridos no seu amor-pr\u00f3prio. Embora! Fiquei satisfeito,<br \/>\ncomo se tivesse sacudido para longe um fardo pesad\u00edssimo; e, \u00e9<br \/>\npreciso dizer, n\u00e3o hesitei em declarar-me autor do conto que vinha<br \/>\nfirmado por meu nome, ent\u00e3o desconhecido na armada.<\/p>\n<p>Alguns de meus companheiros taxaram-me de imprudente e &#8220;indiscreto&#8221;<br \/>\nOutros levaram seus conselhos at\u00e9 \u00e0 minha inexperi\u00eancia<br \/>\nde adolescente indisciplinado.<\/p>\n<p>Todo o mundo julgou-se com direito a censurar meu procedimento: &#8220;que<br \/>\nroupa suja deixa-se ficar em casa; que a chibata era um castigo imprescind\u00edvel&#8221;,<br \/>\ne outros arrazoados sofrivelmente banais.<\/p>\n<p>Meu consolo \u00e9 que dentre aqueles que preconizavam os efeitos prodigiosos<br \/>\nda chibata noutros tempos, muitos concorreram em demasia para a sua extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dei parab\u00e9ns \u00e0 p\u00e1tria e \u00e0 humanidade.<\/p>\n<h4><a name=\"6\"><\/a>CAP\u00cdTULO VI<\/h4>\n<p>Como militar e disciplinador o comandante Saldanha da Gama distinguia-se<br \/>\npor sua inflexibilidade porventura exagerada, especialmente para com as guarni\u00e7\u00f5es<br \/>\nsob seu zeloso comando. Temperamento atrabili\u00e1rio, sang\u00fc\u00edneo,<br \/>\nnervoso, sujeito a transi\u00e7\u00f5es bruscas, inesperadas, impetuosas<br \/>\ne violentas, o ilustre marinheiro, esp\u00edrito eminentemente ilustrado,<br \/>\nn\u00e3o sabia, entretanto, guardar a necess\u00e1ria calma quando devia<br \/>\naplicar as penas do c\u00f3digo. Essas penas, como se sabe, acham-se perfeitamente<br \/>\nexpl\u00edcitas, precisamente formuladas de modo a n\u00e3o deixar d\u00favida<br \/>\nnos esp\u00edritos retos e amigos da lei. Entre os artigos que constituem<br \/>\no c\u00f3digo penal militar existe um que limita o n\u00famero de chibatadas,<br \/>\no qual n\u00e3o deve, em caso algum, exceder de vinte e cinco por dia.<\/p>\n<p>Pois bem, o comandante Saldanha pouqu\u00edssimas vezes castigava conforme<br \/>\na lei. Colocava acima dela seus caprichos inexplic\u00e1veis, sua natureza<br \/>\nrancorosa, sua vontade suprema. N\u00e3o trepidava, e isto \u00e9 sabido,<br \/>\nem mandar a\u00e7oitar com duzentas chibatadas uma pra\u00e7a qualquer,<br \/>\ntal fosse o delito cometido. A um simples olhar seu as guarni\u00e7\u00f5es<br \/>\ntremiam como cani\u00e7os. A qualidade caracter\u00edstica desse ilustre<br \/>\noficial era ser arbitr\u00e1rio e prepotente. Por isso a guarni\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Almirante Barroso corria a seus postos, em ocasi\u00e3o de manobra, com<br \/>\na velocidade duma seta.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos quase \u00e0 entrada do Mississipi, a grande art\u00e9ria<br \/>\nfluvial da Am\u00e9rica do Norte, que n\u00f3s imagin\u00e1vamos um<br \/>\ncolosso talvez superior em volume d&#8217;\u00e1gua ao Amazonas &#8211; o Mississipi,<br \/>\ndecantado pelo autor dos Natchez, e em cujas margens fica a cidade de Nova<br \/>\nOrleans, nosso ponto de chegada.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pensava mais no Rio de Janeiro para s\u00f3 se lembrar de<br \/>\nNova Orleans, a Cidade Crescente, como a denominam os americanos.<\/p>\n<p>Tr\u00eas horas da tarde, mais ou menos. Embarca\u00e7\u00f5es a vela<br \/>\ne vapores bordejavam fora da barra \u00e0 espera de pr\u00e1tico, sem<br \/>\no qual era imposs\u00edvel a entrada. Mar calmo, com uma cor esbranqui\u00e7ada,<br \/>\nlembrando na sua quieta\u00e7\u00e3o dormente um vasto lago estagnado.<br \/>\nEm frente, muito longe ainda, mal distingu\u00edamos com o bin\u00f3culo<br \/>\no farol, microsc\u00f3pica torre branca, invis\u00edvel quase.<\/p>\n<p>Envolvidos em grossas capas de l\u00e3, abotoados at\u00e9 o pesco\u00e7o<br \/>\nao abrigo do frio que se tornava insuport\u00e1vel para n\u00f3s da zona<br \/>\nt\u00f3rrida, de p\u00e9 no tombadilho, m\u00e1quina a um quarto de<br \/>\nfor\u00e7a, bandeira nacional desfraldada na carangueja do mastro de r\u00e9,<br \/>\nesper\u00e1vamos tamb\u00e9m o pilot que nos devia conduzir a Nova Orleans,<br \/>\n110 milhas da foz do Mississipi.<\/p>\n<p>O Mississipi! Dentro em pouco sulc\u00e1vamos a grande corrente.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou muito o pr\u00e1tico, por cujo interm\u00e9dio tivemos<br \/>\nnot\u00edcia da estrondosa manifesta\u00e7\u00e3o com que os habitantes<br \/>\nda cidade americana aguardavam a chegada do cruzador brasileiro.<\/p>\n<p>Bela surpresa essa! Cresceu o entusiasmo entre os nov\u00e9is oficiais.<\/p>\n<p>Entramos. Durante o nosso trajeto pelo Mississipi a ansiedade a bordo tocou<br \/>\no seu auge. Quer\u00edamos, todos a um tempo, avistar as embarca\u00e7\u00f5es<br \/>\nque, dizia-se, vinham nos receber.<\/p>\n<p>O autor destas simples notas de viagem, que admira os Estados Unidos como<br \/>\numa segunda p\u00e1tria, porque ali moram juntas todas as liberdades e florescem<br \/>\nprodigiosamente todas as nobres id\u00e9ias civilizadas, de bra\u00e7os<br \/>\ncruzados estendia o olhar cheio de admira\u00e7\u00e3o, cheio de deslumbramento<br \/>\npor cima das extensas plan\u00edcies das margens do grande rio.<\/p>\n<p>O p\u00f4r-do-sol entre a neblina que cobria os horizontes fazia lembrar<br \/>\nas p\u00e1ginas de Chateaubriand na sua Voyage en Am\u00e9rique, p\u00e1ginas<br \/>\nesculturais e cheias da comovida nostalgia dos que se v\u00e3o da p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Quanta verdade nas suntuosas descri\u00e7\u00f5es do poeta! Quanta poesia<br \/>\nnaquelas paragens desertas da foz do Mississipi &#8211; Saara de neve estendendo-se<br \/>\na perder de vista nos horizontes sem fim! Que de maravilhas ocultavam-se por<br \/>\ntr\u00e1s daquelas plan\u00edcies, l\u00e1 onde o olhar n\u00e3o atingia!<\/p>\n<p>Eram ave-marias. Lembrei-me do Brasil, dos sert\u00f5es de minha terra<br \/>\nnatal, da torrezinha branca do Senhor do Bonfim badalando o ter\u00e7o das<br \/>\nalmas, justamente aquela hora, quando as boiadas recolhiam mugindo, pesadas<br \/>\ne melanc\u00f3licas.<\/p>\n<p>Ave-marias!&#8230; Mesmo quando n\u00e3o se \u00e9 crente, \u00e0quela<br \/>\nhora da tarde o cora\u00e7\u00e3o fica cheio de n\u00e3o sei que terna<br \/>\ne piedosa un\u00e7\u00e3o m\u00edstica.<\/p>\n<p>Fundeamos no ponto em que o rio se divide em dois bra\u00e7os ou pequenos<br \/>\nconfluentes, e a\u00ed passamos a noite inteira, essa longa e trist\u00edssima<br \/>\nnoite de inverno.<\/p>\n<p>Frio de rachar. As \u00e1guas do rio, pardas e barrentas, estavam quase<br \/>\ngeladas.<\/p>\n<p>As margens do Mississipi, em v\u00e1rios pontos, s\u00e3o, no inverno,<br \/>\nverdadeiras plan\u00edcies, onde apenas medra a erva rasteira. \u00c0<br \/>\ndist\u00e2ncia, pobre alma perdida no descampado, ergue-se \u00e0s vezes<br \/>\numa \u00e1rvore muito esguia, como um fantasma de bra\u00e7os abertos<br \/>\npara o c\u00e9u. De quando em quando atravessa a solid\u00e3o uma ave<br \/>\ndesconhecida batendo as asas, como um agouro.<\/p>\n<p>Noutros lugares, por\u00e9m, v\u00eaem-se rebanhos pastando silenciosamente,<br \/>\nplanta\u00e7\u00f5es verdejantes, casas de campo, postos de correio, em<br \/>\ncujas portas destacam-se em caracteres mai\u00fasculos as palavras<\/p>\n<p>&#8211; Post office.<\/p>\n<p>O povo parece viver satisfeito no meio de suas planta\u00e7\u00f5es e<br \/>\nde seu gado, entregue \u00e0 cultura e \u00e0 cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda a noite. &#8211; &#8220;Caramba! exclamava<br \/>\no barbeiro de bordo, um estim\u00e1vel espanhol que traz\u00edamos do<br \/>\nRio de Janeiro. Caramba! Mosquitos por mosquitos me gusta m\u00e1s los deI<br \/>\nBrasil!&#8221; E tinha raz\u00e3o o nosso companheiro. Os mosquitos do Mississipi<br \/>\ns\u00e3o muito capazes de dar cabo dum pobre homem. E que medonha orquestra\u00e7\u00e3o<br \/>\nnos ouvidos da gente!<\/p>\n<p>Felizmente na manh\u00e3 do dia seguinte levantamos ferro.<\/p>\n<p>O navio estava completamente pronto a fazer sua entrada em Nova Orleans.<br \/>\nDurante quase toda a noite a guarni\u00e7\u00e3o ocupara-se em colher<br \/>\ncabos, esfregar a amurada e baldear o costado.<\/p>\n<p>Como passatempo l\u00edamos os jornais que o pr\u00e1tico trouxera, os<br \/>\nquais noticiavam a recep\u00e7\u00e3o popular e oficial que se nos preparava.<\/p>\n<p>Dois iates a vapor &#8211; o Cora e o Pansy &#8211; propriedade de Mr. Morris, largariam<br \/>\nde Nova Orleans a nosso encontro, embandeirados, com bandas de m\u00fasica,<br \/>\ncomiss\u00f5es de senhoras, representantes do com\u00e9rcio e de outras<br \/>\nclasses sociais.<\/p>\n<p>Ou fosse a natural afinidade que existe entre as duas na\u00e7\u00f5es<br \/>\namericanas, ou fosse o fato de ir a bordo do cruzador brasileiro um representante<br \/>\nda fam\u00edlia imperial do Brasil, o certo \u00e9 que durante nossa travessia<br \/>\nda foz do Mississipi \u00e0 cidade fomos constantemente saudados de ambas<br \/>\nas margens do rio a tiros de espingarda e a len\u00e7os que nos acenavam<br \/>\nde longe.<\/p>\n<p>E o Almirante seguia devagar, alvo de mil olhares curiosos.<\/p>\n<p>Ao meio-dia ouvimos as notas de uma m\u00fasica alegre que se aproximava,<br \/>\ne em breve surgiram numa curva do rio os dois magn\u00edficos iates &#8211; o<br \/>\nCora e o Pansy &#8211; apinhados de gente, enfeitados de galhardetes de cores variadas,<br \/>\nem cujos mastros tremulavam as duas bandeiras amigas.<\/p>\n<p>De ambos os lados, no cruzador e nos iates, hurras confundiam-se no ar.<\/p>\n<p>Em viva efus\u00e3o de inexprim\u00edvel j\u00fabilo patri\u00f3tico<br \/>\nestreitavam-se as duas grandes pot\u00eancias da Am\u00e9rica; a mesma<br \/>\nbrisa balou\u00e7ava simultaneamente os dois gloriosos pavilh\u00f5es.<\/p>\n<p>A gente do Barroso subiu \u00e0s vergas acelerada, e acenando com os len\u00e7os<br \/>\ne os bon\u00e9s, saudava com vivas estrepitosas e delirantes aclama\u00e7\u00f5es<br \/>\naos Estados Unidos, ao mesmo tempo que das duas embarca\u00e7\u00f5es<br \/>\npartiam ruidosas manifesta\u00e7\u00f5es ao Brasil.<\/p>\n<p>Fardada em segundo uniforme, espada e dragonas, a oficialidade do cruzador<br \/>\nbrasileiro, em p\u00e9 no tombadilho, vivamente comovida, descobria-se a<br \/>\ntodo instante risonha e feliz.<\/p>\n<p>Sent\u00edamos a falta de uma banda de m\u00fasica bem organizada, que<br \/>\nnaquele momento, verdadeiramente solene, entoasse o hino da rep\u00fablica<br \/>\na bordo.<\/p>\n<p>Passado o primeiro momento de del\u00edrio, aproximaram-se os dois iates<br \/>\nque nos acompanhavam e o cruzador diminuiu a marcha. Ficamos borda a borda.<br \/>\nNum instante toda aquela gente, que vinha nos vaporezinhos, passou para o<br \/>\nBarroso.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio respeitoso de parte a parte e come\u00e7aram os<br \/>\nabra\u00e7os.<\/p>\n<p>O c\u00f4nsul-geral brasileiro, Sr. Dr. Salvador de Mendon\u00e7a, t\u00e3o<br \/>\nconhecido entre n\u00f3s por seu talento e por sua ilustra\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncomo homem de letras e diplomata, juntamente com Mr. Eustis, c\u00f4nsul<br \/>\nem Nova Orleans, foram recebidos no portal\u00f3 pelo comandante e oficiais<br \/>\ncom todas as honras que lhes eram devidas. Seguiram-se os representantes da<br \/>\nimprensa, do com\u00e9rcio, etc.<\/p>\n<p>Conduzidos \u00e0 c\u00e2mara, desde logo estabeleceu-se entre brasileiros<br \/>\ne americanos uma camaradagem franca, uma corrente comunicativa de afabilidades,<br \/>\ncomo se j\u00e1 f\u00f4ssemos conhecidos velhos. As ta\u00e7as de champanha<br \/>\nchocavam-se, vivas sucediam-se, levantavam-se toasts \u00e0s duas na\u00e7\u00f5es,<br \/>\ntrocavam-se os mais espont\u00e2neos comprimentos.<\/p>\n<p>A viagem continuou ao som da m\u00fasica do Cora e do Pansy.<\/p>\n<p>\u00c0s 4 horas da tarde largamos ferro defronte da antiga capital da Luisiana.<\/p>\n<h4><a name=\"7\"><\/a>CAP\u00cdTULO VII<\/h4>\n<p>Nova Orleans \u00e9, talvez, a cidade mais importante do sul dos Estados<br \/>\nUnidos.<\/p>\n<p>Nosso primeiro cuidado, como era natural, foi desembarcar, &#8220;ir \u00e0<br \/>\nterra&#8221;, cear bem e dormir tranq\u00fcilamente um sono bom e reparador.<br \/>\nN\u00e3o nos faltariam espl\u00eandidos hot\u00e9is e magn\u00edficos<br \/>\nrooms, onde pud\u00e9ssemos, \u00e0 vontade, descansar dos trabalhos da<br \/>\nviagem.<\/p>\n<p>Nossa demora devia prolongar-se a\u00ed mais do que em qualquer outro ponto,<br \/>\npor causa da Exposi\u00e7\u00e3o e a inst\u00e2ncias dos habitantes da<br \/>\ncidade, que nos preparavam deliciosas surpresas.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos tempo bastante para ver Nova Orleans, para observar os costumes<br \/>\namericanos e fazer um ju\u00edzo mais ou menos aproximado daquele belo povo.<\/p>\n<p>O porto estava atulhado de barcas de com\u00e9rcio &#8211; vastas embarca\u00e7\u00f5es<br \/>\nde dois e tr\u00eas pavimentos, duas e tr\u00eas chamin\u00e9s negras<br \/>\na deitar fuma\u00e7a numa atividade constante, rodas na popa, muito mais<br \/>\namplas que as nossas barcas Ferry do Rio de Janeiro. Atopetadas de sacas de<br \/>\nalgod\u00e3o e outros g\u00eaneros do pa\u00eds, esperavam o momento<br \/>\npreciso e regulamentar de se fazerem ao largo.<\/p>\n<p>Enquanto esper\u00e1vamos, vivamente ansiosos, o escaler que nos devia<br \/>\nconduzir ao cais, assest\u00e1vamos o \u00f3culo para a cidade quase silenciosa<br \/>\n\u00e0quela hora, e cujas ruas n\u00e3o tardar\u00edamos a conhecer.<br \/>\nAcendiam-se os primeiros bicos de g\u00e1s. Ao longe, nalguma igreja remota,<br \/>\nbadalava um sino triste. J\u00e1 n\u00e3o se ouvia quase o brua\u00e1<br \/>\nquotidiano. Numerosas embarca\u00e7\u00f5es cruzavam-se no rio. Ouv\u00edamos<br \/>\nguinchos de locomotivas e o surdo ru\u00eddo de carros que ainda labutavam.<\/p>\n<p>Alguns oficiais deixaram-se ficar aguardando o dia imediato para mais comodamente<br \/>\nsatisfazerem sua curiosidade de viajantes em terra estrangeira.<\/p>\n<p>Era fim de inverno. Amea\u00e7ava chover. O frio continuava bastante forte<br \/>\nainda e os camarotes do Barroso ofereciam, nessas condi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nagasalho confort\u00e1vel aos mais friorentos.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, grupos de oficiais brasileiros, uns fardados, outros<br \/>\n\u00e0 paisana, percorriam Nova Orleans.<\/p>\n<p>O St. Charles Hotel, um dos melhores estabelecimentos da cidade, e o Royal<br \/>\nHotel &#8211; primeiro em luxo e ornamenta\u00e7\u00e3o &#8211; eram procurados avidamente.<\/p>\n<p>Os jornais davam not\u00edcias circunstanciadas de nossa chegada e anunciavam<br \/>\nfestas em homenagem ao Brasil.<\/p>\n<p>Uma vez instalados nos hot\u00e9is, cada um de n\u00f3s em seu vasto<br \/>\naposento, onde nada faltava, t\u00e3o diferente dos estreitos camarotes<br \/>\nde bordo, dividimo-nos em grupos.<\/p>\n<p>Quanto a mim, o meu primeiro cuidado foi munir-me de um guia da cidade, esp\u00e9cie<br \/>\nde pocket-book muito c\u00f4modo, registrando indica\u00e7\u00f5es \u00fateis<br \/>\nde estabelecimentos e lugares principais.<\/p>\n<p>Meu quarto ficava no segundo andar do St. Charles Hotel frente para a rua<br \/>\ndo mesmo nome &#8211; uma saleta mobiliada com a m\u00e1xima sobriedade, sem luxuosas<br \/>\ndecora\u00e7\u00f5es, contendo apenas os m\u00f3veis indispens\u00e1veis<br \/>\na um rapaz solteiro, e o fog\u00e3o a um canto.<\/p>\n<p>Depois de magn\u00edfico banho morno em bacia de m\u00e1rmore (perdoem-se-me<br \/>\nestas inocentes confid\u00eancias, ali\u00e1s de bom gosto) seguido de<br \/>\num valente almo\u00e7o de ostras cruas, as melhores que eu tenho provado,<br \/>\nregadas a Sauterne, mastigando (\u00e9 o termo, porque n\u00e3o sou l\u00e1<br \/>\nmuito admirador de charutos) mastigando um charuto, que n\u00e3o sei bem<br \/>\nse era de Havana, sa\u00ed a fazer meu primeiro passeio, minha promenade<br \/>\nmatinal, come\u00e7ando pela Canal Street, a rua mais importante de Nova<br \/>\nOrleans, que a divide em dois grandes bairros &#8211; o franc\u00eas e o espanhol.<\/p>\n<p>No cruzamento das ruas de St. Charles e Canal erguia-se a est\u00e1tua<br \/>\nde Clay. \u00c9 esse o ponto principal da cidade e o de maior movimento<br \/>\nnos dias \u00fateis.<\/p>\n<p>Parei defronte do monumento e consultei meu alcor\u00e3o, quero dizer meu<br \/>\nguia manual.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1tua de Clay &#8211; Inaugurada solenemente no dia 12 de abril<br \/>\nde 1860. Joel T. Harl, de Kentucky, o artista que deu forma e propor\u00e7\u00f5es<br \/>\n\u00e0 est\u00e1tua, assistiu ao ato. O orador oficial foi Wen H. Hent.&#8221;<\/p>\n<p>Maldito laconismo! Pouco adiantei com as explica\u00e7\u00f5es do livrinho.<br \/>\nA est\u00e1tua \u00e9 de bronze, sobre pedestal de m\u00e1rmore, e mede,<br \/>\naproximadamente, quinze p\u00e9s ingleses de altura.<\/p>\n<p>&#8211; Continuam as est\u00e1tuas! &#8211; exclamei recordando as que vira em Barbados<br \/>\ne Jamaica. Felizmente at\u00e9 agora n\u00e3o vira a de nenhum monarca.<br \/>\nVeio-me ent\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria aquela colossal massa de bronze<br \/>\nque se ergue no Largo do Rocio, no Rio de Janeiro, em forma de um monarca<br \/>\nescanchado num belo cavalo.<\/p>\n<p>Tive pena de n\u00e3o ser aquele bronze aproveitado para outra coisa mais<br \/>\ndigna e \u00fatil.<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo! Aquilo \u00e9 uma p\u00e1gina de hist\u00f3ria p\u00e1tria,<br \/>\nrefleti. &#8211; E continuei o meu tour.<\/p>\n<p>A Canal Street \u00e9 o centro comercial de Nova Orleans, \u00e9 a Rua<br \/>\ndo Ouvidor daquela cidade, sem os grandes inconvenientes do nosso querido<br \/>\nbeco.<\/p>\n<p>Larga, bastante espa\u00e7osa e comprida, oferece tr\u00e2nsitos especiais<br \/>\npara a popula\u00e7\u00e3o, para trens, bondes e carruagens.<\/p>\n<p>As ruas, na maior parte, s\u00e3o mal cal\u00e7adas, principalmente para<br \/>\no interior da cidade.<\/p>\n<p>\u00c9, sem d\u00favida, admir\u00e1vel semelhante inc\u00faria em<br \/>\nse tratando de americanos do norte, entretanto, \u00e9 uma verdade que n\u00e3o<br \/>\ndeve ser esquecida, para consolo de nossas municipalidades.<\/p>\n<p>Na Canal se acham os melhores e mais s\u00f3lidos edif\u00edcios, as<br \/>\nmais fortes casas comerciais, os mais importantes armaz\u00e9ns da cidade,<br \/>\ncaf\u00e9s, restaurantes, clubes, etc.<\/p>\n<p>Convenci-me desde logo que os principais produtos industriais de exporta\u00e7\u00e3o<br \/>\neram &#8211; a\u00e7\u00facar e algod\u00e3o, como bem presumira ao desembarcar,<br \/>\nno cais, onde era enorme a acumula\u00e7\u00e3o de fardos desses dois<br \/>\ng\u00eaneros.<\/p>\n<p>De vitrina em vitrina, observando sempre, escrupulosamente, curiosamente,<br \/>\n\u00e0 cata de novidades estrangeiras, posso afirmar que nada vi, surpreendente&#8230;<br \/>\nAh! sim, vi umas graciosas caixeiras acudirem pressurosas e desenvoltas, com<br \/>\no desembara\u00e7o pr\u00f3prio de sua ra\u00e7a, aos compradores, coisa<br \/>\nali\u00e1s muito simples, muit\u00edssimo natural, mas n\u00e3o no Brasil,<br \/>\nonde as senhoras est\u00e3o eternamente proibidas de competir com o outro<br \/>\nsexo na vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Parece-me que s\u00f3 neste pa\u00eds ainda n\u00e3o se observa nem<br \/>\nse permite esse costume t\u00e3o natural, t\u00e3o pr\u00f3prio, t\u00e3o<br \/>\neficaz mesmo, das senhoras pobres empregarem-se no com\u00e9rcio a retalho.<br \/>\nNa Inglaterra, em Fran\u00e7a, na Alemanha, na It\u00e1lia e nos Estados<br \/>\nUnidos \u00e9 h\u00e1bito velho, ao que me consta, as senhoras servirem<br \/>\nnos balc\u00f5es, e \u00e9 de notar que cumprem seus deveres com assombrosa<br \/>\nper\u00edcia. \u00c0s nove horas da manh\u00e3, que digo eu! \u00e0s<br \/>\nseis horas, depois de ligeira refei\u00e7\u00e3o, encaminham-se para o<br \/>\ntrabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas em grossas capas de<br \/>\nl\u00e1 no inverno, a bolsa de um lado, sem sequer fazerem-se acompanhar.<br \/>\nV\u00e3o direitinhas de casa para a loja ou escrit\u00f3rio, sem que ningu\u00e9m<br \/>\nlhes dirija uma pilh\u00e9ria, sem que ningu\u00e9m as desrespeite, e,<br \/>\n\u00e0 noite, recolhem-se da mesma forma, sempre alegres, transpirando sa\u00fade,<br \/>\na face rubra.<\/p>\n<p>Muitas vezes saem das lojas, mudam a toilette, fazem seu penteado, perfeitamente<br \/>\ndispostas, e dai a pouco est\u00e3o nos bailes, nos concertos, nos teatros.<\/p>\n<p>Rara a casa de modas, o armarinho, a livraria onde se n\u00e3o encontra<br \/>\numa senhora exercendo as fun\u00e7\u00f5es de simples caixeira, ou como<br \/>\nguarda-livros, silenciosa na sua carteira, escriturando cuidadosamente o Caixa.<\/p>\n<p>Em alguns estabelecimentos p\u00fablicos, no Correio, por exemplo, grande<br \/>\nparte do servi\u00e7o \u00e9 feito por senhoras. Esse edif\u00edcio,<br \/>\ndigamo-lo de passagem, na Rua Canal, \u00e9 de apar\u00eancia extraordinariamente<br \/>\nsimples e desgraciosa. O servi\u00e7o, por\u00e9m, como em toda esta\u00e7\u00e3o<br \/>\namericana, \u00e9 correto e sem demora.<\/p>\n<p>Indiv\u00edduos de muitas nacionalidades acotovelam-se na grande rua.<\/p>\n<p>Em Nova Orleans, como em quase toda a Luisiana, fala-se mais o franc\u00eas<br \/>\nque outro idioma qualquer, n\u00e3o sendo raro ouvirem-se negociantes, mesmo<br \/>\nsenhoras de elevada hierarquia falar, embora mediocremente, o espanhol.<\/p>\n<p>Havia chegado o momento fatal, inevit\u00e1vel, de nos exibirmos tamb\u00e9m<br \/>\nem l\u00edngua alheia.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, nos \u00edamos familiarizando com a popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ne com o idioma desse ador\u00e1vel canto da terra que o Mississipi banha.<\/p>\n<p>O dia seguinte ao de nossa chegada a Nova Orleans (31 de mar\u00e7o) estava<br \/>\ndesignado para o encerramento da Exposi\u00e7\u00e3o das Tr\u00eas Am\u00e9ricas.<br \/>\nAvisados desta solenidade, dev\u00edamos comparecer a ela em grande uniforme,<br \/>\nincorporados.<\/p>\n<p>Foi um dia essencialmente brasileiro esse. Nos convites para a festividade<br \/>\nlia-se esta impag\u00e1vel gentileza: Brazilian day.<\/p>\n<p>Todas as aten\u00e7\u00f5es convergiam para o Almirante Barroso (brazilian<br \/>\nman-of-war).<\/p>\n<p>O pal\u00e1cio da Exposi\u00e7\u00e3o estava situado a alguns quil\u00f4metros<br \/>\nfora da cidade, num de seus pontos mais pitorescos, o Upper City Park, \u00e0<br \/>\nmargem do Mississipi &#8211; largo edif\u00edcio vistosamente adornado e do alto<br \/>\ndo qual se avistava toda a cidade e imedia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 desse dia, por sinal chuvoso e coberto de nevoeiro, embarcamos<br \/>\nem trem especial, que nos fora destinado pelo presidente da Exposi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nMr. Ed. Richardson, um ianque muito am\u00e1vel, todo cortesia, sempre com<br \/>\num belo e espont\u00e2neo sorriso a cativar a gente, correto sempre, irrepreensivelmente<br \/>\ncorreto.<\/p>\n<p>Embarcamos na Canal Street, defronte do Pickwick Club, em companhia de muitos<br \/>\noficiais da Guarda Nacional, de Mr. Richard-son e de oficiais da corveta francesa<br \/>\nl&#8217;\u00c9toile, que se achava no porto de Nova Orleans, dos c\u00f4nsules<br \/>\ne outras sumidades do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O trem abalou como um raio, todo enfeitado de bandeirolas americanas, brasileiras<br \/>\ne doutras na\u00e7\u00f5es, ao som de m\u00fasicas e aclama\u00e7\u00f5es<br \/>\ndelirantes, rasgando, na sua marcha vertiginosa, o nevoeiro que ca\u00eda<br \/>\nsem cessar penetrando os vag\u00f5es escancarados ao ar frio da manh\u00e3,<br \/>\nsoltando guinchos medonhos&#8230;<\/p>\n<p>Durante o trajeto n\u00e3o me cansei de observar os s\u00edtios que o<br \/>\ntrem atravessava.<\/p>\n<p>De um lado e doutro da linha estendiam-se vastas planta\u00e7\u00f5es<br \/>\nde algodoeiros desfolhados pelo rigor do inverno, amontoados de neve, im\u00f3veis,<br \/>\nfantasmas brancos no sil\u00eancio infinito dos descampados; casas de campo<br \/>\ndeliciosas para se passar o ver\u00e3o, trancadas \u00e0 neve, muito brancas<br \/>\ne desoladas, riam, como saudando a nossa passagem, e desapareciam rapidamente<br \/>\nno horizonte esfumado.<\/p>\n<p>\u00c9 de ver a simplicidade reunida \u00e0 gra\u00e7a que apresentam<br \/>\nessas habita\u00e7\u00f5es: ver uma \u00e9 ver cem, tal a uniformidade<br \/>\nde sua arquitetura. Em geral s\u00e3o de madeira, pintadas de branco e cinzento,<br \/>\ncom seu terra\u00e7o para as c\u00e1lidas noites de ver\u00e3o, jardim<br \/>\ne horta arranjados com admir\u00e1vel cuidado e bom gosto.<\/p>\n<p>Absorvido completamente pelo aspecto variado da paisagem, sem prestar aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nao c\u00edrculo ruidoso dos colegas, eu (lembro-me bem) formava planos de<br \/>\nvida sossegada, nalgum eremit\u00e9rio entre a eterna frescura das plantas<br \/>\ne o amor eterno duma criatura querida.<\/p>\n<p>Invejava os simples, os sertanejos, os homens do campo &#8211; esses para quem<br \/>\na vida corre sempre calma, porque seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o conhece<br \/>\noutro amor sen\u00e3o o da esposa e o dos filhos, esses de quem Boileau<br \/>\ndizia:<\/p>\n<p>Heureux est le mortel qul du mond ignor\u00e9<\/p>\n<p>Vit content de soi m\u00eame en un coin retir\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>E eu me transportava outra vez ao Brasil, outra vez eu tinha a nostalgia<br \/>\nda p\u00e1tria, a saudade vaga e inexplic\u00e1vel de minha terra natal.<\/p>\n<p>Parecer\u00e1 uma fantasia de poeta adolescente isto que acabo de dizer,<br \/>\nmas \u00e9 a verdade, a express\u00e3o sincera do que eu sentia ao atravessar<br \/>\na regi\u00e3o que ia ter l\u00e1, ao pal\u00e1cio da Exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tristeza da neve comunicava-se ao meu esp\u00edrito imprimindo nele n\u00e3o<br \/>\nsei que despretensiosas ambi\u00e7\u00f5es de sil\u00eancio e recolhimento.<br \/>\nAlgu\u00e9m j\u00e1 procurou explicar a influ\u00eancia que exerce o<br \/>\nestado higrom\u00e9trico da atmosfera no estado psicol\u00f3gico do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Eu de mim s\u00f3 sei que o patriotismo, longe da p\u00e1tria, duplica.<\/p>\n<p>E fechemos esta esp\u00e9cie de par\u00eantesis.<\/p>\n<p>Uma comiss\u00e3o de cavalheiros, competentemente encasacados, veio receber-nos<br \/>\nao desembarque.<\/p>\n<p>Entramos. Nossa entrada foi verdadeiramente triunfal.<\/p>\n<p>Dentro e fora do edif\u00edcio era grande a agita\u00e7\u00e3o. Ondas<br \/>\nde povo entravam e sa\u00edam percorrendo o pitoresco Upper City Park.<\/p>\n<p>Felizmente &#8220;levantou o tempo&#8221;, como se costuma dizer.<\/p>\n<p>Ao assomar \u00e0 porta do grande sal\u00e3o de honra o primeiro oficial<br \/>\nbrasileiro, o comandante do Barroso, ao lado do c\u00f4nsul e do presidente<br \/>\nda Exposi\u00e7\u00e3o, a orquestra de professores, brilhantemente organizada,<br \/>\nrompeu l\u00e1 dentro o hino nacional americano (n\u00e3o conheciam o<br \/>\nnosso hino ali\u00e1s t\u00e3o vulgarizado), os espectadores que enchiam<br \/>\no vasto recinto ergueram-se, e uma salva estrepitosa de palmas acolheu o resto<br \/>\nda oficialidade.<\/p>\n<p>Houve um momento de verdadeiro del\u00edrio, em que todos batiam palmas<br \/>\nsem interrup\u00e7\u00e3o, levantando vivas ao Brasil.<\/p>\n<p>Serenado o entusiasmo, um entusiasmo indescrit\u00edvel, apopl\u00e9tico,<br \/>\ntomou a palavra Mr. Richardson, que proferiu o discurso de encerramento, saudando<br \/>\na armada brasileira.<\/p>\n<p>Seguiu-se na tribuna o orador oficial, que, num improviso eloq\u00fcent\u00edssimo,<br \/>\npatenteou a necessidade de uma uni\u00e3o entre todas as na\u00e7\u00f5es<br \/>\namericanas, desenvolvendo largamente as vantagens que da\u00ed proveriam<br \/>\na todas elas.<\/p>\n<p>Falou tamb\u00e9m o governador da Luisiana, e, finalmente, os Srs. Salvador<br \/>\nde Mendon\u00e7a e Saldanha da Gama, cujas palavras foram cobertas dos mais<br \/>\nsignificativos aplausos.<\/p>\n<p>Terminada a cerim\u00f4nia orat\u00f3ria, foi-nos franqueado o edif\u00edcio<br \/>\nda Exposi\u00e7\u00e3o, que percorremos examinando com interesse os diferentes<br \/>\npavilh\u00f5es industriais.<\/p>\n<p>O Brasil &#8211; \u00e9 triste diz\u00ea-lo &#8211; fizera-se representar de modo<br \/>\nbem insignificante.<\/p>\n<p>Brilhar\u00edamos pela aus\u00eancia, se o Governo n\u00e3o tivesse<br \/>\na lembran\u00e7a de mandar o Almirante Barroso.<\/p>\n<p>Amostras de madeiras, caf\u00e9 em gr\u00e3o, fumo, artigos de borracha,<br \/>\nconstitu\u00edam os principais produtos brasileiros expostos \u00e0 curiosidade<br \/>\ndos visitantes de quase todas as partes do mundo civilizado. O pavilh\u00e3o<br \/>\ndo Brasil deixava-se ficar em plano inferior aos das outras na\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncomo se f\u00f4ssemos um pobre pa\u00eds, cujos produtos n\u00e3o valessem<br \/>\na pena de ser expostos num certame internacional!<\/p>\n<p>Da\u00ed, talvez, o assombro dos americanos ao verem o Almirante Barroso,<br \/>\nesse espl\u00eandido vaso de guerra de envergadura possante, capaz de resistir<br \/>\naos mais fortes temporais e que eles, os estrangeiros, duvidavam fosse obra<br \/>\nnossa.<\/p>\n<p>&#8211; Como? Pois no Brasil tamb\u00e9m se fabricam navios de guerra? Est\u00e1<br \/>\nmuito adiantado o Brasil!<\/p>\n<p>E repetiam com um ar de d\u00favida e de ironia medindo de alto a baixo<br \/>\ne de popa a proa o majestoso cruzador, que balou\u00e7ava de leve sobre<br \/>\no Mississipi:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 muito adiantado o Brasil!<\/p>\n<p>Entretanto o M\u00e9xico, a Am\u00e9rica Central e as rep\u00fablicas<br \/>\nsul-americanas, sem os recursos invej\u00e1veis da grande na\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsobressa\u00edam admiravelmente. O pavilh\u00e3o do M\u00e9xico, sobretudo,<br \/>\ndesafiava a maior parte dos outros n\u00e3o s\u00f3 em abund\u00e2ncia<br \/>\nde artigos, mas, principalmente, em beleza e bom gosto, em eleg\u00e2ncia<br \/>\ne riqueza.<\/p>\n<p>Escusado, parece, falar do importante lugar que coube aos Estados Unidos.<br \/>\nQue profus\u00e3o de m\u00e1quinas e instrumentos industriais de inven\u00e7\u00e3o<br \/>\npuramente americana! Ali mesmo, \u00e0 vista do observador, fabricavam-se<br \/>\nos mais curiosos objetos de fantasia e de uso dom\u00e9stico; o linho, o<br \/>\nalgod\u00e3o, a seda &#8211; eram tecidos rapidamente aos olhos de todos.<\/p>\n<p>Imagine-se agora o ru\u00eddo, a algazarra, a movimenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nque devia reinar ali dentro daquele imenso edif\u00edcio, certamente muito<br \/>\nlongo de ser comparado aos pal\u00e1cios de exposi\u00e7\u00f5es universais,<br \/>\nmas ainda assim um dos maiores que se tem levantado nesse g\u00eanero.<\/p>\n<p>Para dar uma id\u00e9ia de suas dimens\u00f5es &#8211; n\u00e3o o chamaremos<br \/>\nvaticano da ind\u00fastria para n\u00e3o exagerar &#8211; basta dizer que o<br \/>\nsal\u00e3o de m\u00fasica &#8211; music-hall &#8211; acomodava 11.000 pessoas, inclusive<br \/>\numa vasta \u00e1rea para 600 figuras.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel descrever as amabilidades, as gentilezas que nos foram<br \/>\nprodigalizadas largamente pelas ador\u00e1veis americanas de Nova Orleans<br \/>\nnessa festa democr\u00e1tica de confraterniza\u00e7\u00e3o internacional;<br \/>\nrecordar as frases deliciosas, os galanteios irresist\u00edveis.<\/p>\n<p>O que posso afirmar \u00e9 que o brazilian day h\u00e1 de perdurar por<br \/>\nmuito tempo no cora\u00e7\u00e3o daqueles que tiveram a felicidade de<br \/>\nassistir essa bel\u00edssima festa.<\/p>\n<p>Dias depois voltei ao pal\u00e1cio da Exposi\u00e7\u00e3o, sozinho,<br \/>\ncomo simples curioso que n\u00e3o tivera tempo bastante para examinar tudo<br \/>\nno pequeno espa\u00e7o de doze horas.<\/p>\n<p>Nada mais restava sen\u00e3o o esqueleto nu do edif\u00edcio em via de<br \/>\ndemoli\u00e7\u00e3o. Todos os objetos tinham sido retirados com assombrosa<br \/>\nrapidez. Oper\u00e1rios em mangas de camisa martelavam grandes caix\u00f5es,<br \/>\nassobiando monotonamente, enquanto outros carregavam pesados volumes contendo<br \/>\nos \u00faltimos esp\u00e9cimens da ind\u00fastria americana.<\/p>\n<p>Voltei imediatamente com um ar compungido de quem acaba de acompanhar um<br \/>\nenterro, lamentando o tempo perdido e exclamando de mim para comigo:<\/p>\n<p>&#8211; Ah! americanos duma figa, sois um povo excepcional!<\/p>\n<p>Agora uma pergunta ing\u00eanua: Por que \u00e9 que o Brasil, com os numerosos<br \/>\nrecursos que tem \u00e0 m\u00e3o, timbra em ocupar lugar secund\u00e1rio<br \/>\nem quase todas as Exposi\u00e7\u00f5es a que concorre?<\/p>\n<p>Indiferen\u00e7a, talvez, simples indiferen\u00e7a de nossos governos.<\/p>\n<p>Na c\u00e9lebre Exposi\u00e7\u00e3o de Filad\u00e9lfia n\u00e3o<br \/>\nsab\u00edamos \u00e0 \u00faltima hora como e onde acomodar os produtos<br \/>\ndeste pa\u00eds, em conseq\u00fc\u00eancia de n\u00e3o ter o governo<br \/>\nmandado construir um pavilh\u00e3o especial.<\/p>\n<p>Contentamo-nos em enviar objetos bastante conhecidos, n\u00e3o fazemos<br \/>\nsele\u00e7\u00e3o na escolha deles, n\u00e3o nos importa o modo como<br \/>\ndevam ser acondicionados.<\/p>\n<p>Na Exposi\u00e7\u00e3o de Viena ainda o Brasil teve de ocupar lugar pouco<br \/>\nlisonjeiro, e se alguns de seus produtos principais tiveram a felicidade de<br \/>\nser premiados foi isso devido, n\u00e3o ao governo, mas t\u00e3o-somente<br \/>\na esfor\u00e7os de muitos negociantes do Rio de Janeiro e do Par\u00e1.<\/p>\n<p>Anuncia-se para o ano vindouro uma Universal Great Exhibition, nos Estados<br \/>\nUnidos, cujo sucesso ir\u00e1 rivalizar, talvez, com o da Exposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nUniversal realizada h\u00e1 meses em Paris e not\u00e1vel pela colossal<br \/>\ne t\u00e3o c\u00e9lebre Torre Eiffel. Nenhuma raz\u00e3o assiste para<br \/>\nque a grande na\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul, o Brasil, n\u00e3o<br \/>\nse fa\u00e7a representar com todo o brilho de sua incontest\u00e1vel riqueza.<\/p>\n<p>Agora que somos rep\u00fablica, torna-se duplamente preciso que patenteemos<br \/>\nao mundo inteiro a infinita variedade de nossas produ\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas,<br \/>\na opul\u00eancia invej\u00e1vel da flora brasileira e da ind\u00fastria<br \/>\nj\u00e1 bastante adiantada deste bel\u00edssimo pa\u00eds, cuja natureza<br \/>\nextasiou Humboldt, Agassiz e tantos outros s\u00e1bios da Europa.<\/p>\n<p>Se cada Estado souber cumprir seu dever n\u00e3o poupando esfor\u00e7os<br \/>\npara esse nobil\u00edssimo fim, certo desta vez n\u00e3o teremos que corar<br \/>\nperante as outras na\u00e7\u00f5es como nos tempos do anacr\u00f4nico<br \/>\nimp\u00e9rio do Sr. D. Pedro II.<\/p>\n<h4><a name=\"8\"><\/a>CAP\u00cdTULO VIII<\/h4>\n<p>A Grande Exposi\u00e7\u00e3o Industrial de Nova Orlens prolongou-se at\u00e9<br \/>\nao Almirante Barroso. O belo cruzador brasileiro come\u00e7ou desde logo<br \/>\na ser o alvo dos curiosos de todas as na\u00e7\u00f5es ali representadas.<\/p>\n<p>Compreende-se o vivo interesse do povo em assuntos desta ordem.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia na cidade quem n\u00e3o soubesse que estava no porto um<br \/>\nnavio de guerra do Brasil, e este fato por si s\u00f3 era bastante para<br \/>\nque toda a gente ardesse em desejo de v\u00ea-lo de perto, de o percorrer<br \/>\ndum extremo a outro.<\/p>\n<p>&#8211; Quantos canh\u00f5es traz? perguntava-se. A m\u00e1quina quantas milhas<br \/>\nvence por hora? Quantas rota\u00e7\u00f5es por minuto?<\/p>\n<p>E quando afirm\u00e1vamos que a m\u00e1quina do Barroso era de ferro<br \/>\nIpanema e doutros metais brasileiros, que todo o navio, da popa \u00e0 proa,<br \/>\nera constru\u00e7\u00e3o inteiramente nacional, subia de ponto a surpresa<br \/>\ndos nossos vizinhos.<\/p>\n<p>O qu\u00ea! No Brasil j\u00e1 se constroem navios de guerra? &#8211; It is impossible!&#8230;<br \/>\nE toda a popula\u00e7\u00e3o, tomada de um quase espanto, duvidando, talvez,<br \/>\nda nossa habilidade, aflu\u00eda ao cais.<\/p>\n<p>Todo o cruzador, desde a c\u00e2mara do comandante at\u00e9 ao alojamento<br \/>\ndos marinheiros, desde o tombadilho at\u00e9 ao por\u00e3o, foi exposto<br \/>\n\u00e0 curiosidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>O sexo gentil, com especialidade, repetia suas visitas.<\/p>\n<p>Desde as oito horas da manh\u00e3, ao i\u00e7ar-se a bandeira, come\u00e7avam<br \/>\na atracar lanchas a vapor e escaleres cheios de visitantes de ambos os sexos.<\/p>\n<p>Grandes lanchas iam e vinham do cais para o cruzador e do cruzador para o<br \/>\ncais, continuamente, incessantemente, apinhadas de passageiros, que pagavam<br \/>\n5 c\u00eantimos de ida e volta. Cada uma trazia \u00e0 proa, em letras<br \/>\nesparrarnadas e vivas, a senha: &#8211; Brazilian man~of-war.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde, depois duma faina acabrunhadora de receber fam\u00edlias<br \/>\ne percorrer duas, tr\u00eas e mais vezes o navio, dando explica\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndescrevendo aparelhos e maquinismos com uma paci\u00eancia de pedagogos,<br \/>\n\u00edamos \u00e0 terra, distrair nos caf\u00e9s, nos teatros, nos bailes,<br \/>\ntanto mais quanto multiplicavam-se os convites para todas as divers\u00f5es<br \/>\np\u00fablicas e familiares.<\/p>\n<p>As fam\u00edlias com que \u00edamos entretendo rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nde amizade exigiam que f\u00f4ssemos quotidianamente a suas casas, como se<br \/>\nnos sobrasse tempo para isso; e, for\u00e7a \u00e9 confessar, dispensavam-nos<br \/>\num tratamento quase paternal.<\/p>\n<p>A melhor de todas as recep\u00e7\u00f5es que tivemos, n\u00e3o obstante<br \/>\no car\u00e1ter oficial que a revestia, foi a do Governador da Lu\u00edsiana,<br \/>\nespl\u00eandido baile no Royal Hotel, no dia 8 de abril, ao qual compareceram<br \/>\ntodas as autoridades civis e militares da cidade em uniforme de gala.<\/p>\n<p>A casaca, o clak, a gravata de seda branca, o vestido decotado at\u00e9<br \/>\naonde permite a dec\u00eancia, confundiam-se nos sal\u00f5es do hotel ricamente<br \/>\nadornados, cheios de luz, escancarados de par em par como um pal\u00e1cio<br \/>\nem festa.<\/p>\n<p>A jovem oficialidade brasileira, ex\u00edmia em cotillons, expandiu-se<br \/>\na valer nessa magn\u00edfica soir\u00e9e de inverno, fria e clara, constelada<br \/>\nde bot\u00f5es de ouro e brilhante, longe da p\u00e1tria, longe de suas<br \/>\nfam\u00edlias, mas no seio dum povo que nos amava deveras.<\/p>\n<p>Sarau principesco esse de que ainda sinto o saibo esquisito ao tra\u00e7ar<br \/>\nas reminisc\u00eancias da minha primeira aus\u00eancia do Brasil.<\/p>\n<p>Mesa abundant\u00edssima e franca, desde a deliciosa sopa de ostras com<br \/>\nmolho ingl\u00eas ao mais fino champanha Clicot, com escala pela maionese<br \/>\nde lagosta, fresca e picante, pelo suculento poisson a l&#8217;italienne, rubro<br \/>\ne apetitoso&#8230; e tantos, meu Deus, e tant\u00edssimos outros pratos maravilhosos<br \/>\ninventados pela gula epicurista de todas as gera\u00e7\u00f5es desde L\u00faculo<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 nossa.<\/p>\n<p>Volvemos para bordo seria madrugadinha, tr\u00f4pegos, cansados e sonolentos,<br \/>\np\u00e1lpebras ca\u00eddas, suplicando a frescura dum travesseiro, dentro<br \/>\nde nossas inviol\u00e1veis capas da Bretanha.<\/p>\n<p>Uma noite brasileira com todos os excessos da nossa educa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne do nosso car\u00e1ter; saudosa noite, a primeira de minha vida em que<br \/>\nme enfronhei numa casaca irrepreensivelmente bem-feita&#8230;<\/p>\n<p>O Barroso, dilu\u00eddo na escurid\u00e3o da noite, aproado \u00e0<br \/>\ncorrenteza que descia rio abaixo cantando uma melodia de lenda, o Barroso<br \/>\n&#8211; peda\u00e7o da p\u00e1tria long\u00ednqua &#8211; acenava-nos com a sua<br \/>\nluzinha amarela palpitando \u00e0s rajadas do vento frio.<\/p>\n<p>&#8230; E os bailes repetiam-se e n\u00f3s viv\u00edamos cercados da alegria<br \/>\ncomunicativa desse povo americano eternamente jovial!<\/p>\n<p>Falemos ainda das mulheres de Nova Orleans.<\/p>\n<p>Belas quase todas, am\u00e1veis e insinuantes, cheias duma inexced\u00edvel<br \/>\ngra\u00e7a que arrebata e seduz voluptuosamente.<\/p>\n<p>As cr\u00e9oles, ah! as cr\u00e9oles&#8230; ningu\u00e9m as v\u00ea que<br \/>\nn\u00e3o as fique desejando.<\/p>\n<p>Caracteres principais: tez morena, com uns tons de rosa na face, olhos muito<br \/>\nnegros, criminosos at\u00e9 ao homic\u00eddio flagrante, pequenas, delicadas,<br \/>\nflex\u00edveis, a\u00e9reas quase, conjunto meigo e melanc\u00f3lico,<br \/>\nmuito sens\u00edveis&#8230; A vaga express\u00e3o de seu olhar aveludado derrama<br \/>\nn\u00e3o sei que misterioso fluido, cujos efeitos traduzem-se em voluptuosas<br \/>\nsensa\u00e7\u00f5es, secretos desejos de posse absoluta.<\/p>\n<p>Como diferem as chamadas cr\u00e9oles das verdadeiras americanas!<\/p>\n<p>Estas &#8211; muito rubras, cabelo cor de ouro, olhos azuis &#8211; s\u00e3o frias,<br \/>\nquase indiferentes ao amor, ego\u00edstas de sua beleza de est\u00e1tua,<br \/>\nvivendo para o trabalho e para a fam\u00edlia; aquelas &#8211; ador\u00e1veis<br \/>\ncom as suas linhas ideais, com a vaga e comunicativa melancolia de seu olhar<br \/>\nvoluptuoso &#8211; fazem lembrar um povo m\u00edstico e cheio de bondade dalgum<br \/>\npa\u00eds nebuloso e desconhecido&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 curiosa a origem da popula\u00e7\u00e3o cr\u00e9ole de Nova<br \/>\nOrleans. Ela descende na maior parte de aventureiros canadenses e courreurs<br \/>\ndes bois &#8211; gente ousada e valente, que emigrou do norte para o sul da Am\u00e9rica<br \/>\nsetentrional, por terra, atrav\u00e9s de in\u00f3spitos desertos povoados<br \/>\nde selvagens perigos\u00edssimos. Esses aventureiros chegaram \u00e0 Luisiana<br \/>\nsem fam\u00edlias, depois de uma viagem cheia de trabalhos e fadigas, descansando,<br \/>\npor fim, \u00e0s margens do Mississipi. A Luisiana era ent\u00e3o col\u00f4nia<br \/>\nfrancesa, e o rei, apiedando-se da sorte dos infelizes imigrantes, que viviam<br \/>\nsolteiros, longe de sua p\u00e1tria natal, sujeitos a uma castidade quase<br \/>\nabsoluta, quis aproveit\u00e1-los para a coloniza\u00e7\u00e3o. Nesse<br \/>\nintuito mandou vir de Paris um carregamento de mulheres, prisioneiras da Salpetri\u00e8re,<br \/>\nque chegaram a Nova Orleans em ferros, e onde foram postas em liberdade e<br \/>\nentregues \u00e0 concupisc\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o masculina.<\/p>\n<p>Isso, por\u00e9m, n\u00e3o trazia vantagens \u00e0 col\u00f4nia, que<br \/>\nprecisava de gente. Os canadenses satisfaziam seus apetites carnais sem que<br \/>\naumentasse o n\u00famero de habitantes &#8211; fato este que n\u00e3o passou<br \/>\ndespercebido ao diret\u00f3rio da Companhia da Luisiana, cujo principal<br \/>\ninteresse era a multiplica\u00e7\u00e3o das almas.<\/p>\n<p>Nestas condi\u00e7\u00f5es foram dadas outras provid\u00eancias, e,<br \/>\nem 1728, chegou a Nova Orleans um grupo de raparigas, conhecidas na Luisiana<br \/>\nhist\u00f3rica pelas filles de la cassette ou casket girls, mandadas pelo<br \/>\nrei para o convento das Ursulinas a fim de se casarem licitamente. A experi\u00eancia<br \/>\nfoi coroada de sucessos. Em breve tempo come\u00e7ou a crescer a col\u00f4nia<br \/>\ne os descendentes da cassette tinham orgulho em o serem.<\/p>\n<p>Tal foi a origem humilde dos primeiros filhos nativos da Luisiana.<\/p>\n<p>Seu sangue \u00e9 uma mistura de sangue canadense e sangue franc\u00eas.<\/p>\n<p>A mulher americaua do Norte \u00e9 geralmente bem-educada. Muitas vimos<br \/>\nem Nova Orleans, que conheciam e falavam dois, tr\u00eas idiomas, al\u00e9m<br \/>\ndo vern\u00e1culo.<\/p>\n<p>Preocupam-se pouco com bailes e modas, trajam com simplicidade e eleg\u00e2ncia,<br \/>\nsem afeta\u00e7\u00e3o, sem a natural coquetterie da mulher parisiense.<br \/>\nSeu divertimento predileto \u00e9 a m\u00fasica.<\/p>\n<p>O proverbial desembara\u00e7o das americanas manifesta-se a todo instante.<br \/>\nProntas sempre a repelir com dignidade um ataque \u00e0 sua honestidade,<br \/>\nelas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos sal\u00f5es,<br \/>\ncom a mesma simplicidade com que o fazem \u00e0s amigas. O respeito entre<br \/>\nos dois sexos, nas classes superiores, \u00e9 um dos principais caracteres<br \/>\ndo povo americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nlivre, vivendo uns e outros em comum desde crian\u00e7a, as americanas n\u00e3o<br \/>\nse confundem nunca diante dos homens.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos o belo sexo \u00e9 respeitado como em parte alguma.<\/p>\n<p>Os pais depositam confian\u00e7a ilimitada nas filhas. Deixam, sem escr\u00fapulo,<br \/>\nque elas saiam a passeio, de carro ou a p\u00e9, s\u00f3 ou em companhia<br \/>\nde um amigo da casa, na certeza de que elas saber\u00e3o zelar a sua castidade.<\/p>\n<p>Os raptos e os defloramentos s\u00e3o raros, n\u00e3o sei se devido ao<br \/>\ntemperamento da ra\u00e7a ou se \u00e0 inflexibilidade da Lei. O que sei<br \/>\n\u00e9 que, se um rapaz gosta de uma rapariga de fam\u00edlia reconhecidamente<br \/>\nhonesta, n\u00e3o tem mais do que namor\u00e1-la escandalosamente \u00e0s<br \/>\nbarbas de quem quer que seja, \u00e0 vista do mundo inteiro, beij\u00e1-la<br \/>\nsem cerim\u00f4nia, como se fossem irm\u00e3os, e, da\u00ed a pouco,<br \/>\nei-los casadinhos de fresco, bras dessus, bras dessous.<\/p>\n<p>E ai! daquele que violar os preceitos decretados pelo governo! Imediatamente<br \/>\nv\u00ea-se dentro deste tri\u00e2ngulo medonho: o casamento, o dote, ou<br \/>\na cadeia. A Lei \u00e9 inexor\u00e1vel e a pol\u00edcia exerce uma vigil\u00e2ncia<br \/>\nsem igual.<\/p>\n<p>Informados de tais particularidades do car\u00e1ter americano, n\u00f3s,<br \/>\nbrasileiros, pusemos um dique ao nosso temperamento de meridionais, evitando<br \/>\no mais poss\u00edvel os compromissos amorosos, as manifesta\u00e7\u00f5es<br \/>\nde simpatia por essas ador\u00e1veis ladies, que, a falar verdade, infligiam-nos<br \/>\nos maiores supl\u00edcios com o maravilhoso poder de suas qualidades f\u00edsicas.<\/p>\n<p>T\u00e2ntalos do cora\u00e7\u00e3o, \u00e9ramos obrigados a conter<br \/>\nos \u00edmpetos ferozes da carne que nos aguilhoava implacavelmente no delicioso<br \/>\nconv\u00edvio das louras misses e das ternas cr\u00e9oles.<\/p>\n<p>Est\u00e3o verdes, n\u00e3o prestam &#8211; era a nossa divisa e destarte escap\u00e1vamos<br \/>\nsempre aos ataques de t\u00e3o perigoso inimigo.<\/p>\n<h4><a name=\"9\"><\/a>CAP\u00cdTULO IX<\/h4>\n<p>O dia 14 de abril (deixem passar a precis\u00e3o cronol\u00f3gica) estava<br \/>\ndestinado pelo comandante do Barroso para uma excurs\u00e3o fluvial, cient\u00edfica,<br \/>\n\u00e0 foz do Mississipi, onde ir\u00edamos observar de visu os importantes<br \/>\ntrabalhos hidr\u00e1ulicos, que a\u00ed se procediam sob a inteligente<br \/>\ndire\u00e7\u00e3o do not\u00e1vel engenheiro americano Mr. Jas. B. Eads,<br \/>\num velho respeit\u00e1vel, encanecido no servi\u00e7o da engenharia, e<br \/>\ncujo nome est\u00e1 ligado a muitas obras not\u00e1veis de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c0s onze horas da noite a barca de passeio Keokuk largou de Nova Orleans,<br \/>\nrio abaixo, conduzindo a turma de guardas-marinha, alguns oficiais e o comandante,<br \/>\ncom destino \u00e0s Jetties.<\/p>\n<p>Uma excelente embarca\u00e7\u00e3o a Keokuk, esp\u00e9cie de pequena<br \/>\ncidade flutuante, muito larga e espa\u00e7osa, avantajando-se em dimens\u00f5es<br \/>\naos vapores da Companhia Brasileira. Tr\u00eas pavimentos: o superior, coberto<br \/>\npor um grande toldo, onde os passageiros podiam fumar \u00e0 vontade; o<br \/>\ndo meio formando um sal\u00e3o-refeit\u00f3rio, ao lado do qual ficavam<br \/>\nos camarotes e o por\u00e3o, para mercadorias; rodas \u00e0 popa, sistema<br \/>\nde locomo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o conhec\u00edamos; duas chamin\u00e9s,<br \/>\ne m\u00e1quina possante. Em semelhantes condi\u00e7\u00f5es \u00e9ramos<br \/>\ncapazes de fazer a volta do mundo em oitenta dias&#8230;<\/p>\n<p>Passamos a noite sobre o rio, navegando \u00e0 meia for\u00e7a, ao sabor<br \/>\nda correnteza.<\/p>\n<p>L\u00e1 \u00edamos outra vez para a regi\u00e3o dos mosquitos! Preparamo-nos<br \/>\npara dar quixotesca batalha, apesar da falta impreench\u00edvel do nosso<br \/>\nquerido companheiro, o barbeiro de Sevilha, quero dizer o barbeiro de bordo,<br \/>\no impag\u00e1vel espanhol que tanto nos divertira na ca\u00e7a aos mosquitos.<\/p>\n<p>Pela manh\u00e3, cedinho, est\u00e1vamos em Port-Eads, defronte do escrit\u00f3rio<br \/>\ncentral do respeit\u00e1vel engenheiro.<\/p>\n<p>Caf\u00e9, biscoitos&#8230;, e desembarcamos.<\/p>\n<p>O bom velho j\u00e1 nos esperava com o seu belo ar de urso dom\u00e9stico,<br \/>\nbarba muito branca, de barrete e \u00f3culos, entre os seus mapas coloridos<br \/>\ne os seus prospectos representando steamers e as jetties.<\/p>\n<p>&#8211; Folgo bastante em lhes poder mostrar o plano da empresa h\u00e1 tantos<br \/>\nanos iniciada sob minha dire\u00e7\u00e3o, disse ele com um am\u00e1vel<br \/>\nsorriso de bonomia patriarcal.<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a desenrolar diante de nossos olhos uma s\u00e9rie infind\u00e1vel<br \/>\nde cartas hidrogr\u00e1ficas, mapas, desenhos.<\/p>\n<p>Vale a pena se admirar essa obra monumental.<\/p>\n<p>Tratava-se de cavar o leito do rio, num dos bra\u00e7os de sua foz, por<br \/>\nmodo a efetuar-se a navega\u00e7\u00e3o livremente, na linha da correnteza,<br \/>\ne terem entrada embarca\u00e7\u00f5es de grande calado, desenvolvendo-se<br \/>\nassim o j\u00e1 not\u00e1vel com\u00e9rcio de Nova Orleans. Com esses<br \/>\ntrabalhos o porto ir\u00e1 melhorando consideravelmente, sendo para notar<br \/>\no grande movimento de navios que entram e saem durante o dia.<\/p>\n<p>O rio tem pelo menos 16.000 milhas naveg\u00e1veis que os americanos dia<br \/>\na dia tratam de aproveitar dando sa\u00edda a in\u00fameros produtos do<br \/>\nfertil\u00edssimo vale do Mississipi, o qual abrange cerca de 768.000.000<br \/>\njeiras das mais ricas terras do mundo, como eles l\u00e1 dizem. Sua embocadura<br \/>\n\u00e9, portanto, a passagem natural de todos aqueles produtos.<\/p>\n<p>Desde 1726 t\u00eam sido empregados esfor\u00e7os inauditos a fim de se<br \/>\naprofundar essa parte do famoso rio; mas, foi em 1875 que o governo dos Estados<br \/>\nUnidos contratou definitivamente esse servi\u00e7o com Mr. Eads, e \u00e9<br \/>\nbem prov\u00e1vel que em futuro n\u00e3o muito remoto esteja o porto franqueado<br \/>\na todos os navios do mundo, gra\u00e7as \u00e0 perseveran\u00e7a e aos<br \/>\nesfor\u00e7os de h\u00e1beis engenheiros.<\/p>\n<p>A visita foi curta, mas proveitosa.<\/p>\n<p>Tomamos novamente a barca, e \u00e0s cinco horas da tarde atrac\u00e1vamos<br \/>\nno forte Jackson, velha fortaleza abandonada, \u00e0 margem direita do rio.<br \/>\nL\u00e1 estava ainda, im\u00f3vel e muda, a descomunal artilheria que<br \/>\nFarragut, o velho almirante, comandara na guerra sanguinolenta dos separatistas,<br \/>\nque terminou com a tomada de Nova Orleans.<\/p>\n<p>Os velhos canh\u00f5es dormiam seu sono de bronze, l\u00e1 dentro, nos<br \/>\ncorredores escuros como os de uma Bastilha, e a n\u00f3s, estudantes de<br \/>\nhist\u00f3ria naval, inspiravam n\u00e3o sei que respeito sagrado. Perante<br \/>\neles fal\u00e1vamos baixo, como para n\u00e3o os acordar&#8230;<\/p>\n<p>A fortaleza \u00e9 grande, mas s\u00f3 tem a import\u00e2ncia arqueol\u00f3gica<br \/>\nque a hist\u00f3ria lhe empresta; n\u00e3o resistiria, talvez, \u00e0s<br \/>\nmodernas baterias. Opulenta vegeta\u00e7\u00e3o rasteira cresce-lhe em<br \/>\nderredor. O seu aspecto \u00e9 sombrio como o de um cemit\u00e9rio: as<br \/>\ngrossas paredes denegridas e o sil\u00eancio que a cerca d\u00e3o-lhe um<br \/>\ncunho misterioso de cripta subterr\u00e2nea e produzem no visitante uma inc\u00f4moda<br \/>\nsensa\u00e7\u00e3o de abandono e tristeza. Em cada canto parece surgir<br \/>\na sombra de um confederado clamando vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Retiramo-nos em marcha f\u00fanebre, calados e supersticiosos.<\/p>\n<p>Dormimos ainda essa noite sobre o rio para amanhecermos em Nova Orleans.<br \/>\nJ\u00e1 est\u00e1vamos com saudade do Barroso.<\/p>\n<p>Continuaram as manifesta\u00e7\u00f5es de amizade ao Brasil.<\/p>\n<p>O neto do imperador, jovem e irrequieto, embalde procurava fugir \u00e0s<br \/>\ninsist\u00eancias da aristocracia local e por diversas vezes desejou ter<br \/>\nnascido simples burguesinho, como qualquer de seus colegas.<\/p>\n<p>E digamos aqui, muito \u00e0 discri\u00e7\u00e3o, Sua Alteza podia<br \/>\nser um belo mo\u00e7o, um digno cavalheiro, um excelente amigo e camarada,<br \/>\nmas&#8230; Sua Alteza era um p\u00e9ssimo pr\u00edncipe. A sua grande aspira\u00e7\u00e3o<br \/>\nera a vida livre, sem peias, essa vida alegre e bo\u00eamia que se esgota<br \/>\ndepressa nos caf\u00e9s-concertos e nos restaurantes.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostava de contin\u00eancias e desprezava o ju\u00edzo imbecil<br \/>\ndos que lhe apodavam de estr\u00f3ina. O certo \u00e9 que esse ju\u00edzo<br \/>\nem nada o comprometia perante o high-life americano que o estimava suficientemente.<br \/>\nEle era o representante imediato da fam\u00edlia imperial, era o alvo predileto<br \/>\nde todas as manifesta\u00e7\u00f5es ao Brasil na grande festa internacional.<\/p>\n<p>Seria ocioso, sen\u00e3o mon\u00f3tono e fatigante, descrever, uma por<br \/>\numa, em todos os seus detalhes, com todas as suas cores mirabolantes, essas<br \/>\nmanifesta\u00e7\u00f5es, profundamente fraternais e democr\u00e1ticas,<br \/>\ncom que nos recebeu a distinta sociedade de Nova Orleans. Bailes, regatas,<br \/>\npasseios improvisados, concertos, brindes &#8211; e n\u00e3o raro a tolda do nosso<br \/>\nbelo cruzador converteu-se em espl\u00eandido sal\u00e3o de baile, acordando<br \/>\na sons de orquestra e gritos de alegria o sil\u00eancio agreste das margens<br \/>\ndo Mississipi.<\/p>\n<p>\u00c9 este o \u00fanico consolo daqueles que andam no mar em servi\u00e7o<br \/>\nda p\u00e1tria &#8211; o repousar em terra amiga. V\u00e3o-se as saudades para<br \/>\ndar lugar \u00e0 franca expans\u00e3o dos cora\u00e7\u00f5es: a alma<br \/>\ndo marinheiro transforma-se, como por encanto, num bosti\u00e1rio de alegrias<br \/>\nde uma ingenuidade incompar\u00e1vel, e ele ri com os outros, canta e sente-se<br \/>\nt\u00e3o bem como se estivesse em seu pr\u00f3prio pa\u00eds, no meio<br \/>\nde seus amigos e de seus parentes. Encantadora ilus\u00e3o, que s\u00f3<br \/>\ndura enquanto ele n\u00e3o abre as velas mar em fora nessa intermin\u00e1vel<br \/>\nderrota de argonautas que v\u00e3o atr\u00e1s do bezerro de ouro da felicidade&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o direi, n\u00e3o, o que nos divertimos, as m\u00faltiplas sensa\u00e7\u00f5es<br \/>\npor que passou o nosso esp\u00edrito nessa Luisiana que o Mississipi embala<br \/>\ncom o ritmo nost\u00e1lgico de suas \u00e1guas cor de barro. Seria desdobrar<br \/>\na natureza humana t\u00e3o complexa e misteriosa.<\/p>\n<p>Vamos adiante, consultemos o caderno de notas.<\/p>\n<p>25 de abril&#8230; &#8211; Est\u00e1vamos na P\u00e1scoa, a festa risonha e popular<br \/>\nda ressurrei\u00e7\u00e3o do Cristo. At\u00e9 ent\u00e3o nenhum desgosto,<br \/>\nnenhuma tristeza, nenhuma m\u00e1goa toldara o c\u00e9u pur\u00edssimo<br \/>\nde nossas alegrias. Vag\u00e1vamos em mar de rosa, ego\u00edstas de felicidade,<br \/>\nsereno o esp\u00edrito, aberto o cora\u00e7\u00e3o a todos os influxos<br \/>\nbons. Boa vida, por um lado, essa de quem viaja sem grandes preocupa\u00e7\u00f5es,<br \/>\nno bojo de um navio patr\u00edcio.<\/p>\n<p>Eis que, de repente, uma nota dissonante e sombria chamou-nos \u00e0 realidade<br \/>\npungente da vida humana: morrera um nosso companheiro de bordo, o Leoc\u00e1dio&#8230;,<br \/>\nque digo eu? um desses her\u00f3is an\u00f4nimos que usam gola ao pesco\u00e7o,<br \/>\num pobre marinheiro que a fatalidade arrebatou de sua terra natal para morrer<br \/>\nt\u00edsico em pais estranho.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m imagina a dolorosa impress\u00e3o que produz a morte de<br \/>\num companheiro de viagem longe da p\u00e1tria, num hospital desconhecido.<\/p>\n<p>Fez-se o enterro com todas as honras devidas ao obscuro soldado e velho marinheiro,<br \/>\nnascido, por assim dizer, sobre o mar e educado na escola das tempestades.<br \/>\nTinha sessenta anos. Era o &#8220;cozinheiro da proa&#8221; Sobre o seu corpo<br \/>\nfoi estendida a bandeira nacional brasileira como s\u00edmbolo da p\u00e1tria<br \/>\nreconhecida.<\/p>\n<p>Nesse dia, conforme j\u00e1 estava assentado, toda a guarni\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Barroso desembarcou a fim de assistir \u00e0 missa solene da P\u00e1scoa<br \/>\nna catedral de S. Lu\u00eds, o mais importante dos templos cat\u00f3licos<br \/>\nda cidade, situado na Rua Chartres.<\/p>\n<p>Bem que antiga, essa igreja parece resistir ainda por muito tempo. Foi o<br \/>\nprimeiro edif\u00edcio cat\u00f3lico erigido em Nova Orleans pelos capuchinhos,<br \/>\nem 1718, ao tempo da funda\u00e7\u00e3o da cidade. Tomou o nome de S.<br \/>\nLu\u00eds em homenagem ao rei da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Mais tarde, em setembro de 1723, desabou sobre a nascente cidade, cuja popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nelevava-se a 200 almas, formid\u00e1vel ciclone, que arrasou todos os edif\u00edcios,<br \/>\ncausando uma mortandade incalcul\u00e1vel. Narram os cronistas que foram<br \/>\narrojados \u00e0 costa tr\u00eas navios que se achavam fundeados no porto.<br \/>\nEm breve, por\u00e9m, a cidade foi reedificada, sendo em 1724 reconstru\u00edda<br \/>\na igreja, essa<\/p>\n<p>mesma onde ainda hoje ergue seus torre\u00f3es vetustos na Rua Chartres.<\/p>\n<p>Naquele ano o territ\u00f3rio de Nova Orleans foi dividido em tr\u00eas<br \/>\ngrandes distritos sob a administra\u00e7\u00e3o dos capuchinhos, dos carmelitas<br \/>\ne dos jesu\u00edtas. De ent\u00e3o em diante multiplicaram-se os edif\u00edcios<br \/>\nreligiosos, igrejas, pal\u00e1cios episcopais, conventos, etc.<\/p>\n<p>O convento das Ursulinas data igualmente da funda\u00e7\u00e3o da cidade<br \/>\ne \u00e9 um estabelecimento cat\u00f3lico \u00e0 maneira do de Ru\u00e3o<br \/>\nconhecido por esse mesmo nome.<\/p>\n<p>\u00c9 um dos \u00faltimos conventos que ainda existem nos Estados Unidos.<br \/>\nConsta de tr\u00eas andares e ergue-se \u00e0 margem do rio, para onde<br \/>\nabre suas janelinhas atrav\u00e9s das quais se v\u00ea passar a sombra<br \/>\nfant\u00e1stica das religiosas.<\/p>\n<h4><a name=\"10\"><\/a>CAP\u00cdTULO X<\/h4>\n<p>Um belo povo, o de Nova Orleans &#8211; jovial, comunicativo hospitaleiro e sincero.<br \/>\nA ele devemos os melhores dias dessa longa Viagem ao pa\u00eds sugestivo<br \/>\ne excepcional dos ianques, universalmente querido e respeitado por sua grandeza<br \/>\nindustrial e por suas belas tradi\u00e7\u00f5es de energia e patriotismo.<\/p>\n<p>E entanto aproximava-se o dia da partida: \u00edamos embora rumo de norte,<br \/>\nlevando conosco a imorredoura lembran\u00e7a do Meschaseb\u00e9, &#8220;le<br \/>\nroi des fleuves&#8221;, e das legend\u00e1rias terras que Chateaubriand poetizara<br \/>\nnas suas inimit\u00e1veis viagens. Restava-nos, por\u00e9m, o consolo<br \/>\nde que ainda ir\u00edamos \u00e0 sonhada Nova Iorque dos trens a\u00e9reos<br \/>\ne das empresas colossais.<\/p>\n<p>Cora\u00e7\u00f5es \u00e0 larga, rapazes! Um homem \u00e9 um homem!&#8230;<\/p>\n<p>A saudade, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 uma simples figura de ret\u00f3rica,<br \/>\npelo amor de Deus! \u00c9 um estado d&#8217;alma como a nostalgia, como o amor,<br \/>\ncomo a tristeza, como a dor.<\/p>\n<p>A saudade existe, \u00e9 um fen\u00f4meno perfeitamente real e determinado<br \/>\nna ordem dos fatos psicol\u00f3gicos. N\u00e3o nos venham dizer outra<br \/>\ncousa os senhores neologistas fin de si\u00e8cle. Por ter sido cantada em<br \/>\nprosa e verso, nem por isso a saudade deixa de ser o que \u00e9 na verdade<br \/>\n&#8211; uma como\u00e7\u00e3o nervosa interessando o mais delicado e sens\u00edvel<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o humano, uma dol\u00eancia vaga, flutuante n&#8217;alma,<br \/>\nintraduz\u00edvel como um sonho nebuloso, tocada de do\u00e7ura e ungida<br \/>\nde tristeza&#8230;<\/p>\n<p>Por que uma pessoa tem barba no rosto e j\u00e1 passou dos vinte anos,<br \/>\nsegue-se que n\u00e3o deve ter mais saudade, que deve ser um insens\u00edvel,<br \/>\numa massa inabal\u00e1vel?<\/p>\n<p>Absolutamente n\u00e3o. A l\u00e1grima, expliquem-na como quiserem os<br \/>\ndoutores da ci\u00eancia, h\u00e1 de existir enquanto palpitar em n\u00f3s<br \/>\nesse m\u00fasculo que se chama cora\u00e7\u00e3o, enquanto a humanidade<br \/>\nsofrer e houver um motivo sentimental para comover os seres dotados de intelig\u00eancia.<br \/>\n\u00c9 talvez uma quest\u00e3o de mais ou menos intensidade nervosa. Por<br \/>\nque tudo \u00e9 ego\u00edsmo neste s\u00e9culo essencialmente palavroso<br \/>\ne mercantil, deve-se concluir que, em futuro n\u00e3o muito longe, a ra\u00e7a<br \/>\nhumana se transforme numa como esfinge, sem afetividade poss\u00edvel, ou<br \/>\nque o sistema nervoso passe a exercer fun\u00e7\u00f5es negativas na fisiologia<br \/>\ndo porvir? N\u00e3o o acreditamos.<\/p>\n<p>A l\u00e1grima h\u00e1 de existir per ommia secula, e a saudade ter\u00e1<br \/>\nsempre a sua l\u00e1grima, como sentimento superior \u00e0s nossas for\u00e7as.<\/p>\n<p>Chorar sobre o t\u00famulo de um amigo \u00e9 t\u00e3o natural, t\u00e3o<br \/>\nhumano como chorar porque nos separamos de um ente querido. N\u00e3o desejo<br \/>\nagora, por uma veleidade de rabiscador sentimentalista, fazer a psicologia<br \/>\nda l\u00e1grima. O que eu quero \u00e9 confessar, embora disso me advenha<br \/>\no qualificativo de piegas, que n\u00e3o pod\u00edamos &#8211; eu e a maior parte<br \/>\ndos meus colegas &#8211; pensar em deixar Nova Orleans sem um demorado fr\u00eamito<br \/>\nde p\u00e1lpebras e uma n\u00e9voa \u00famida no olhar triste.<\/p>\n<p>E, dizendo isto, est\u00e1 dito o que nos merecia a hospitaleira popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndaquela cidade.<\/p>\n<p>Entretanto, ainda n\u00e3o estavam satisfeitos os luisianenses. Como \u00faltima<br \/>\nprova de verdadeira estima o Luisiana Jockey Club deu-nos um magn\u00edfico<br \/>\nbaile na v\u00e9spera da partida.<\/p>\n<p>Tenho ainda na mem\u00f3ria essa derradeira impress\u00e3o que me ficou<br \/>\nde Nova Orleans. Fazia um luar soberbo, um luar tropical, um luar de legenda,<br \/>\nt\u00e3o l\u00edmpido e t\u00e3o claro que se n\u00e3o viam as estrelas&#8230;<br \/>\nO Jockey Club, embaixo, fazia um efeito surpreendente com a sua ilumina\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mil cores rodeando a grande raia das corridas, com o seu aspecto fant\u00e1stico<br \/>\nde quermesse noturna, salpicado de pontos luminosos e galhardetes em miniatura,<br \/>\nim\u00f3veis na calmaria da noite.<\/p>\n<p>Em derredor a mudez solene da floresta acordada de instante a instante pelo<br \/>\neco da m\u00fasica cortando o ar calmo.<\/p>\n<p>Perto do Clube tinha-se armado um grande estrado para a dan\u00e7a ao ar<br \/>\nlivre, sem teto, sem toldo, sob o luar.<\/p>\n<p>Cruzavam-se os pares, num turbilh\u00e3o impetuoso, ao som das valsas americanas<br \/>\ne dos galopes \u00e0 brasileira.<\/p>\n<p>Nessa noite, e pela primeira vez, conversei longamente com uma cr\u00e9ole,<br \/>\nMile&#8230; j\u00e1 me n\u00e3o lembra o nome, um tipo ideal de Valqu\u00edria<br \/>\nde olhos negros com um extraordin\u00e1rio brilho nas pupilas &#8211; microsc\u00f3pica,<br \/>\ndelgada, flex\u00edvel, cintura extremamente fina, certo jeito ador\u00e1vel<br \/>\nde pender a cabe\u00e7a para os lados, num abandono irresist\u00edvel&#8230;<br \/>\nToda de preto.<\/p>\n<p>Dan\u00e7amos uma quadrilha e ela convidou-me a passear no Prado.<\/p>\n<p>L\u00e1 fomos, bra\u00e7o dado, eu muito circunspecto, teso dentro da<br \/>\nminha farda de guarda-marinha, levado quase que maquinalmente por essa formosa<br \/>\ndama de olhos negros e sedutores, arranjando a custo umas frases de efeito,<br \/>\nque eu n\u00e3o teria coragem de reproduzir; ela, desenvolta e pequenina,<br \/>\nmuito leve na sua toilette escura, conduzindo-me naquela espl\u00eandida<br \/>\npromenade au clair de la lune, para onde&#8230; n\u00e3o sei eu&#8230;<\/p>\n<p>Perguntou-me se as brasileiras eram bonitas e ricas, se no Brasil dan\u00e7ava-se<br \/>\nmuito, e que tal n\u00f3s t\u00ednhamos achado as americanas. Explicou-me<br \/>\nent\u00e3o a diferen\u00e7a entre cr\u00e9oles e americanas propriamente<br \/>\nditas.<\/p>\n<p>Respondi-lhe como pude, exaltando as nossas patr\u00edcias, &#8220;belas<br \/>\ne ricas, como n\u00e3o h\u00e1 iguais no mundo&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Paramos. T\u00ednhamos andado seguramente dois quil\u00f4metros e n\u00e3o<br \/>\nv\u00edamos agora sen\u00e3o a parte superior do Clube, por tr\u00e1s<br \/>\ndo arvoredo, toda iluminada ao longe, como uma cousa fant\u00e1stica.<\/p>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o que nos afast\u00e1vamos dos nossos companheiros<br \/>\na conversa tornava-se menos animada, e, por fim, j\u00e1 segu\u00edamos<br \/>\ncalados, como dois son\u00e2mbulos, no sil\u00eancio da noite enluarada&#8230;<\/p>\n<p>Depois \u00e9 que vimos a dist\u00e2ncia que nos separava do centro da<br \/>\nfesta.<\/p>\n<p>Na volta encontramos outros pares em doce confabula\u00e7\u00e3o, como<br \/>\nn\u00f3s, longe do ru\u00eddo.<\/p>\n<p>Despedi-me para tomar o trem, e ela, a dama dos olhos negros, disse-me um<br \/>\ngood bye t\u00e3o sentido e t\u00e3o sugestivo que eu n\u00e3o tive<br \/>\nleito sen\u00e3o perder o trem.<\/p>\n<p>Good-bye! Nada mais doce e expressivo que estas simples palavras em boca<br \/>\nde americana. Uma inglesa talvez que as n\u00e3o pronuncie com tanta suavidade,<br \/>\ncom t\u00e3o sonora flex\u00e3o, com tanto sentimento. Good-bye&#8230; H\u00e1<br \/>\nqualquer coisa de aveludado no timbre cantante com que elas, as misses da<br \/>\nNova Inglaterra, dizem a sua frase sacramental de despedida. O nosso adeus,<br \/>\nali\u00e1s t\u00e3o lac\u00f4nico e singelo, n\u00e3o exprime tanto,<br \/>\nn\u00e3o caracteriza t\u00e3o bem esse estado d&#8217;alma que se denomina &#8211;<br \/>\nsaudade.<\/p>\n<p>E, a prop\u00f3sito de &#8211; Good-bye, vem-me \u00e0 mem\u00f3ria um epis\u00f3dio<br \/>\nde uma simplicidade primitiva e comovente que a minha indiscri\u00e7\u00e3o<br \/>\nde observador tagarela n\u00e3o deixa calar.<\/p>\n<p>Esque\u00e7amos a rapariga de olhos negros e narremo-la em toda a sua verdade.<\/p>\n<p>Entre os nossos companheiros de viagem havia um, cuja vida estava cheia das<br \/>\nmais interessantes aventuras amorosas. Chamava-se Manuel&#8230;, o apelido de<br \/>\nfam\u00edlia n\u00e3o nos interessa. O jovem oficial de marinha, mo\u00e7o<br \/>\nde bela apar\u00eancia e excelente cora\u00e7\u00e3o, apaixonara-se por<br \/>\numa Eva Smith muito conhecida nos caf\u00e9s-concertos de Nova Orleans.<br \/>\nAt\u00e9 aqui nada mais natural. Ela vira-o uma vez diante de um bock, seus<br \/>\nolhos se encontraram, e, desde logo, Manuel ficou sendo a menina dos olhos<br \/>\nde Eva. Amaram-se por muitos dias, gozaram todas as del\u00edcias imagin\u00e1veis,<br \/>\nele proibiu-a de andar nos caf\u00e9s, ela proibiu-o de olhar para outras<br \/>\nraparigas, e assim corresponderam-se de comum acordo, sem que nunca houvesse<br \/>\nentre eles a menor desaven\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Leva-me para o Brasil, Manuel&#8230; (ela s\u00f3 o tratava por Manuel.)<\/p>\n<p>&#8211; Sim, filha, depois havemos de ver isso.<\/p>\n<p>&#8211; 1 love you very much&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! yes&#8230; I think so&#8230;<\/p>\n<p>Viviam felizes como um casal de noivos, longe da cidade, num quarto de hotel,<br \/>\nonde havia do melhor vinho e da melhor sopa.<\/p>\n<p>Um belo dia:<\/p>\n<p>Ele &#8211; Olha, sabes? O Barroso suspende ferro amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Ela (surpreendida) &#8211; What do you say?!<\/p>\n<p>Ele (trincando um rabanete) &#8211; \u00c9 o que estou lhe dizendo. Amanh\u00e3,<br \/>\npor estas horas, o Manuel vai sulcando o golfo do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Ela (cruzando o talher) &#8211; Imposs\u00edvel! Por que j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nme disseste?<\/p>\n<p>&#8211; Para te poupar o desgosto.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! n\u00e3o, meu querido Manuel, \u00e9 hist\u00f3ria, tu n\u00e3o<br \/>\nvais amanh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Assim \u00e9 preciso. S\u00e3o coisas da vida.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, meu amor (my love) tu n\u00e3o vais, porque eu<br \/>\nn\u00e3o quero, do contr\u00e1rio fa\u00e7o esc\u00e2ndalo, est\u00e1s<br \/>\nouvindo?<\/p>\n<p>&#8211; E, ao dizer estas palavras, a pobre Eva deixou cair uma l\u00e1grima&#8230;<\/p>\n<p>Sil\u00eancio. Manuel continuou a jantar sem interrup\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmuito calmo, com uma fleuma verdadeiramente brit\u00e2nica. Eva, coitada,<br \/>\nabriu a solu\u00e7ar baixinho, fungando a mais n\u00e3o poder, sem se<br \/>\naperceber de que estava fazendo de um guardanapo um len\u00e7o.<\/p>\n<p>\u00daltimo ato, e aqui \u00e9 que est\u00e1 o aprop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Cen\u00e1rio: O Mississipi pardo e murmurejante sob a luz moribunda do<br \/>\ncrep\u00fasculo.<\/p>\n<p>O Almirante Barroso, im\u00f3vel sobre o rio, com a sua mastrea\u00e7\u00e3o<br \/>\nmuito alta, fumega. Ouve-se barulho de cabrestante e de amarras caindo no<br \/>\nconv\u00e9s. Tremula a bandeira brasileira na carangueja da mezena&#8230; \u00daltimos<br \/>\npreparos.<\/p>\n<p>No cais agita-se uma multid\u00e3o compacta.<\/p>\n<p>De repente surge \u00e0 tona d&#8217;\u00e1gua o cepo da \u00e2ncora enlameada,<br \/>\npingando um lodo cinzento, e o navio come\u00e7a a andar vagarosamente.<\/p>\n<p>A guarni\u00e7\u00e3o sobe \u00e0s vergas, alastrando-se de um bordo<br \/>\ne doutro, e acena para terra ao som de vivas!<\/p>\n<p>Agitam-se len\u00e7os na praia, correspondendo \u00e0s sauda\u00e7\u00f5es<br \/>\nde bordo. Um fr\u00eamito percorre os que est\u00e3o no cruzador.<\/p>\n<p>\u00c9 o momento decisivo.<\/p>\n<p>Um grande rebocador, The Warrior, vistoso e arquejante, acompanha as manobras<br \/>\ndo Barroso, \u00e0 dist\u00e2ncia de uma amarra, solit\u00e1rio e sombrio,<br \/>\nenvolto numa nuvem de fuma\u00e7a, e em cuja tolda assoma a figura desgrenhada<br \/>\nde uma mulher.<\/p>\n<p>O cruzador segue \u00e0 viante, majestoso e lento, descrevendo uma bela<br \/>\ncurva no espelho da \u00e1gua, e toma a passar defronte da cidade, apressando<br \/>\na marcha.<\/p>\n<p>As religiosas das Ursulinas l\u00e1 em cima, nas janelinhas do convento,<br \/>\nacenam tamb\u00e9m com os seus len\u00e7os brancos.<\/p>\n<p>E, no sil\u00eancio da tarde que a n\u00e9voa melancoliza, repercutem<br \/>\nestas palavras tocadas de saudade:<\/p>\n<p>&#8211; Good-bye!<\/p>\n<p>&#8211; Good-bye! repete a mesma voz aveludada como um carinho.<\/p>\n<p>Olhamos uns para os outros comovidos.<\/p>\n<p>Quem seria que se lembrara de levar t\u00e3o perto sua despedida aos brasileiros?<\/p>\n<p>A voz era de mulher, n\u00e3o restava d\u00favida.<\/p>\n<p>Com efeito, reconhecemos na figura desgrenhada que v\u00edamos a bordo<br \/>\ndo rebocador, Eva Smith, a amante de Manuel&#8230;, a apaixonada rapariga muito<br \/>\nconhecida nos caf\u00e9s-cantantes de Nova Orleans, cujo entusiasmo pelo<br \/>\nnosso companheiro tinha chegado a seu auge.<\/p>\n<p>E quando o Barroso desapareceu na primeira curva do rio, ainda ouv\u00edamos,<br \/>\ntomados de uma tristeza infinita, a mesma voz cheia de desespero, agora abafada<br \/>\npela dist\u00e2ncia, solu\u00e7ada e plangente:<\/p>\n<p>&#8211; Good-bye, Manuel! Good-bye!&#8230;<\/p>\n<p>E dizer que a Dama das Cam\u00e9lias \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o<br \/>\nna vida sentimental das filhas de Eva!.<\/p>\n<p>O nosso Armando, que ali\u00e1s nunca pretendeu regenerar ningu\u00e9m,<br \/>\ndeixou-se cair numa saudade profunda, num longo adormecimento da alma, de<br \/>\nque s\u00f3 acordou no alto-mar, quando j\u00e1 n\u00e3o se avistava<br \/>\num ponto sequer da costa americana.<\/p>\n<h4><a name=\"11\"><\/a>CAP\u00cdTULO XI<\/h4>\n<p>Aben\u00e7oada ilha de Cuba, direi muito pouco de teus aspectos, de teus<br \/>\ncostumes, de tua gente, de tua civiliza\u00e7\u00e3o, mesmo porque a nossa<br \/>\ndemora em tua bizarra capital, foi curta como um sonho bom. Um epicurista<br \/>\ndiria que apenas tivemos tempo de mastigar um havana, desses que fabricas<br \/>\naos milheiros e que fazem a del\u00edcia dos consumidores do bom tabaco.<\/p>\n<p>Belas cubanas de olhos rasgados e sensuais, acreditamos piamente nas coloridas<br \/>\ndescri\u00e7\u00f5es em que viajantes de todas as nacionalidades gabam<br \/>\nas vossas preciosas qualidades f\u00edsicas, os vossos olhos ardentes, os<br \/>\nvossos cabelos negros, a vossa gra\u00e7a incompar\u00e1vel e sedutora&#8230;<br \/>\nNos oito curtos dias que passamos em vossa p\u00e1tria n\u00e3o tivemos<br \/>\na felicidade rara, a gostosa satisfa\u00e7\u00e3o de vos contemplar sen\u00e3o<br \/>\nde relance, por um acaso verdadeiramente providencial.<\/p>\n<p>Dizem outros que sois belas e irresist\u00edveis, que dan\u00e7ais divinamente<br \/>\no salero, que possu\u00eds todos os encantos poss\u00edveis, e isto \u00e9<br \/>\nquanto basta para que dispenseis o desmaiado elogio dos que n\u00e3o tiveram<br \/>\na fortuna de confabular convosco.<\/p>\n<p>E o leitor, por sua vez, contente-se em saber que Havana, com suas calles<br \/>\nirregulares, estreitas e pacatas, \u00e9 uma pequena capital sem capitais,<br \/>\nsobri\u00edssima de divers\u00f5es populares, quase mon\u00f3tona, mas<br \/>\nrelativamente adiantada.<\/p>\n<p>N\u00e3o se lhe pode negar certo progresso material e mesmo uma ponta de<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>Encontram-se nela importantes estabelecimentos comerciais, grandes tabacarias<br \/>\nque fornecem fumo e seus preparados a quase todos os mercados do globo; excelentes<br \/>\nbotequins, poucos hot\u00e9is.<\/p>\n<p>O c\u00e9lebre professor Agassiz, no roteiro de uma de suas excurs\u00f5es<br \/>\n\u00e0 Am\u00e9rica, disse que toda a arquitetura brasileira \u00e9<br \/>\npesada e sombria; eu acrescentarei que no mesmo g\u00eanero s\u00e3o as<br \/>\nedifica\u00e7\u00f5es de Havana, o que n\u00e3o \u00e9 para surpreender<br \/>\nnuma cidade antiga, onde se observa ainda o cunho tradicional da velha metr\u00f3pole<br \/>\nespanhola.<\/p>\n<p>Entre os monumentos arqueol\u00f3gicos notamos a secular catedral onde<br \/>\n(refere a cr\u00f4nica) est\u00e3o sepultados os ossos de Crist\u00f3v\u00e3o<br \/>\nColombo.<\/p>\n<p>Vimos uma est\u00e1tua &#8211; a de Isabel, a Cat\u00f3lica, num grande largo<br \/>\nque tem o nome da santa rainha.<\/p>\n<p>Particularidade interessante: a popula\u00e7\u00e3o d\u00e1 a vida<br \/>\npor gelados, em conseq\u00fc\u00eancia do calor excessivo e constante a que<br \/>\nvive sujeita.<\/p>\n<p>Visitamos tamb\u00e9m (ia-me esquecendo) os aquedutos que fornecem \u00e1gua<br \/>\n\u00e0 popula\u00e7\u00e3o da cidade. Todos eles v\u00e3o despejar<br \/>\nnum imenso reservat\u00f3rio de pedra inteiri\u00e7a (como os nossos diques<br \/>\nda ilha das Cobras), cavado no solo, formando uma esp\u00e9cie de tanque<br \/>\nde grande capacidade para comportar muitos e muitos metros c\u00fabicos<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua cristalina. O s\u00edtio, onde se acha essa importante obra<br \/>\nde engenharia, lembra, de relance, a Tijuca com as suas cascatas despejadas<br \/>\ndo alto de rochedos inacess\u00edveis, com a extrema frescura de suas montanhas<br \/>\nverde-escuras, debaixo de um c\u00e9u l\u00edmpido e azul. \u00c9 um<br \/>\ndos melhores passeios de Havana. A viagem at\u00e9 a\u00ed se faz em dilig\u00eancias<br \/>\npuxadas a mulas, arriscando-se o turista a chegar sem bofes ao fim da jornada<br \/>\nlonga ~ sem o atrativo das belas paisagens claras do Brasil.<\/p>\n<p>O sol \u00e9 ardent\u00edssimo em Cuba, e, entretanto, as dilig\u00eancias<br \/>\npartem da cidade pela manh\u00e3 e chegam \u00e0s onze horas ao reservat\u00f3rio,<br \/>\nonde n\u00e3o se encontram hot\u00e9is nem botequins. Sua-se por todos<br \/>\nos poros e, no fim de contas, volta-se fatigado, com a curiosidade satisfeita,<br \/>\nmas o corpo mo\u00eddo.<\/p>\n<p>O Passeio P\u00fablico&#8230; Oh! n\u00e3o falemos de coisas tristes. Quem<br \/>\nj\u00e1 viu o Passeio P\u00fablico da Bahia pode imaginar o de Havana:<br \/>\no mesm\u00edssimo cemit\u00e9rio deserto e sombrio, o mesm\u00edssimo<br \/>\nabandono criminoso; \u00e1rvores colossais, meia d\u00fazia de castanheiros<br \/>\ndecr\u00e9pitos, e um sil\u00eancio, um sil\u00eancio absoluto de arrepiar<br \/>\ncabelos. Aos domingos costuma ir chorar para ali uma banda militar. S\u00f3<br \/>\nent\u00e3o \u00e9 que a gente se lembra que existe um Passeio P\u00fablico<br \/>\nem Havana.<\/p>\n<p>La Havana, de resto, \u00e9 o que se pode chamar uma cidade pac\u00edfica,<br \/>\nsossegada e sem atrativos. A impress\u00e3o que ela deixa no esp\u00edrito<br \/>\nde quem a viu exteriormente \u00e9 de uma velha capital decadente, muito<br \/>\ncheia de sol e poeira.<\/p>\n<p>Mas, para que n\u00e3o fosse de todo ociosa e in\u00fatil a nossa visita<br \/>\na Cuba, aproveitamos o ensejo de ver uma de suas mais pitorescas e curiosas<br \/>\ncidades &#8211; Matanzas, onde chegamos depois de algumas horas de viagem costeira.<br \/>\nAi nos esperava o vice-c\u00f4nsul do Brasil, excelente cavalheiro, cujo<br \/>\nprimeiro cuidado foi p\u00f4r \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o vinte<br \/>\ne tantos carros de pra\u00e7a a fim de que n\u00e3o perd\u00eassemos<br \/>\noportunidade de contemplar o majestoso panorama do vale de Yumiri, um dos<br \/>\nmais belos do mundo, cerca de uma l\u00e9gua distante da cidade.<\/p>\n<p>&#8211; Os senhores v\u00e3o ver um bel\u00edssimo trecho da natureza americana,<br \/>\ncomo talvez n\u00e3o haja igual no Brasil, preveniu-nos o c\u00f4nsul.<br \/>\n\u00c9 uma maravilha!<\/p>\n<p>E l\u00e1 fomos, subindo e descendo morros, completamente alheios \u00e0<br \/>\ntopografia do pa\u00eds, cheia de altibaixos, l\u00e1 fomos caminho de<br \/>\nMonserrate, numa disparada \u00fanica por montes e vales, aos solavancos.<\/p>\n<p>Era quase noite quando parou o \u00faltimo carro, e corremos logo \u00e0<br \/>\ntal &#8220;maravilha&#8221; que o diplomata recomendara.<\/p>\n<p>Aqui t\u00eam os aquarelistas motivo sensacional para uma tela rembrantesca.<\/p>\n<p>Crep\u00fasculo&#8230; C\u00e9u pardo com uns tons de azinhavre muito vagos,<br \/>\naqui, ali, bordando nuvens&#8230; Embaixo a longa extens\u00e3o c\u00f4ncava<br \/>\ndo vale afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desaparecido,<br \/>\nverde-escuro, indistinto quase a essa hora do dia.<\/p>\n<p>Defronte, no segundo plano, a sombra opaca de uma cordilheira &#8211; larga faixa<br \/>\nde veludo cinzento &#8211; limita o cen\u00e1rio, confundindo-se com as tintas<br \/>\nindecisas da planura sideral. E, sobre tudo isso, uma tristeza religiosa,<br \/>\num vago sil\u00eancio de abismo.<\/p>\n<p>V\u00ea-se muito ao longe, de um lado da paisagem, rasgando o fundo nebuloso<br \/>\ndo quadro, uma n\u00f3doa escarlate, ao comprido, muito desenhada, muito<br \/>\nescandalosa mesmo em meio de toda essa harmonia de cores esmaecidas.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito que o sol tombou na sua eterna circunvolu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndiurna. A sombra que se alastra, a pl\u00eaiade fosforescente dos pirilampos,<br \/>\no sil\u00eancio absoluto que nos cerca &#8211; tudo inspira respeito: e a gente<br \/>\nesquece preconceitos e doutrinas para, instintivamente, levantar uma prece<br \/>\n\u00e0 misteriosa For\u00e7a que rege o Universo.<\/p>\n<p>Existe no alto da montanha a modesta capela de N. Sra. de Monserrate, sempre<br \/>\naberta aos crentes, muito branca na sua despretens\u00e3o de nicho de aldeia,<br \/>\ncom a sua torrezinha triangular onde v\u00e3o fazer ninho, no inverno, as<br \/>\nandorinhas do vale.<\/p>\n<p>Caiu de todo a noite, e, no sil\u00eancio da estrada que descia em broncas<br \/>\nsinuosidades, regressamos para o hotel, cujo sal\u00e3o principal tinha<br \/>\nagora o aspecto suntuoso (dados os devidos descontos&#8230;) dum refeit\u00f3rio<br \/>\nde convento em dia de festa pascoal: mesa lauta, vinte variedades de vinho<br \/>\nexcelentes e tudo mais que se faz mister num banquete finamente organizado<br \/>\n\u00e0 moderna.<\/p>\n<p>O resto \u00e9 f\u00e1cil de imaginar: brindes, hurras, charutos fin\u00edssimos&#8230;<br \/>\ne um sono reparador obrigado a pesadelos.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte acordamos para outro passeio n\u00e3o menos agrad\u00e1vel.<br \/>\nEra preciso aproveitar o tempo do melhor modo poss\u00edvel. Cometer\u00edamos<br \/>\nindesculp\u00e1vel falta se n\u00e3o f\u00f4ssemos ver as Cuevas de Bell-mar,<br \/>\nessas caprichosas grutas subterr\u00e2neas, verdadeiros pal\u00e1cios de<br \/>\ncristal pur\u00edssimo, que se abrem terra dentro em toda a opul\u00eancia<br \/>\nde suas maravilhosas estalagmites e estalactites. Era mais uma deliciosa surpresa<br \/>\nque nos estava reservada. Ir a Matanzas e n\u00e3o ver as Cuevas equivale<br \/>\na ir a Roma e n\u00e3o ver o Papa. Cumprimos o nosso dever de viajantes,<br \/>\nque n\u00e3o se contentam com a vaidade infantil de pisar solo estrangeiro.<\/p>\n<p>Cuevas de BelIa-mar&#8230; Entre os numerosos fen\u00f4menos que a geologia<br \/>\nregistra muitos h\u00e1 que ainda est\u00e3o por ser lucidamente explicados,<br \/>\npor sua pr\u00f3pria natureza complexa e profundamente cient\u00edfica.<\/p>\n<p>No terreno da geologia subterr\u00e2nea, com especialidade, in\u00fameros<br \/>\ns\u00e3o os problemas a destrin\u00e7ar, e um dos mais curiosos e interessantes<br \/>\n\u00e9, sem d\u00favida, a forma\u00e7\u00e3o das cavernas, as escava\u00e7\u00f5es<br \/>\nproduzidas por agentes externos, pela infiltra\u00e7\u00e3o natural da<br \/>\n\u00e1gua no solo calc\u00e1reo, formando essas caprichosas pir\u00e2mides<br \/>\nde cristal, que a c\u00ed\u00eancia denomina estalagmites e estalactites.<\/p>\n<p>As Cuevas de Bella-mar formam um dos mais belos panoramas que se podem imaginar.<\/p>\n<p>Figure-se um grande t\u00fanel aberto no subsolo e de cuja ab\u00f3bada<br \/>\npendem cristais multiformes, cada qual o mais surpreendente, alguns de tamanho<br \/>\nadmir\u00e1vel, enquanto do ch\u00e3o constantemente \u00famido sobem<br \/>\noutros de igual estrutura, pontiagudos quase sempre, formando, \u00e0s vezes,<br \/>\ncolunatas brilhantes, espl\u00eandidos capit\u00e9is, t\u00e3o caprichosamente<br \/>\ndispostos que dir-se-iam arquitetados por m\u00e3os humanas. A caverna prolonga-se<br \/>\na perder de vista, deslumbrante como um pal\u00e1cio encantado, \u00e0<br \/>\nluz dos archotes, porque \u00e9 imposs\u00edvel percorr\u00ea-la sem<br \/>\nluz, e a cada passo uma nova exclama\u00e7\u00e3o de surpresa irrompe<br \/>\nda boca do observador, espont\u00e2nea e entusi\u00e1stica.<\/p>\n<p>\u00c9, com efeito, encantador o aspecto das Cuevas.<\/p>\n<p>A atmosfera \u00e9 quase insuport\u00e1vel, apesar da umidade que se<br \/>\nreflete das paredes da gruta: um calor medonho de fornalha acesa.<\/p>\n<p>\u00c9, expressamente proibido tocar nos cristais. Um guarda, empunhando<br \/>\num archote, acompanha o visitante, recomendando-lhe, de espa\u00e7o a espa\u00e7o,<br \/>\ntodo cuidado, toda cautela para que n\u00e3o d\u00ea alguma cabe\u00e7ada&#8230;<\/p>\n<p>Desta vez t\u00ednhamos sabido preencher o tempo utilmente, compensando<br \/>\nas horas perdidas em Havana.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia o Barroso fez-se de marcha para o pa\u00eds dos ianques,<br \/>\npara Nova Iorque, a bela e maravilhosa cidade que o consenso universal alcunhou<br \/>\nde Londres americana.<\/p>\n<p>E&#8230; foi um dia a ilha de Cuba&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"12\"><\/a>CAP\u00cdTULO XII<\/h4>\n<p>&#8230; Manh\u00e3 de inverno, fria e nebulosa, sem uma r\u00e9stea de luz<br \/>\nconfort\u00e1vel. Estava interdita a nossa curiosidade, pois que amanhecemos<br \/>\ndefronte da ba\u00eda de Hampton Road, a essa hora coberta de cerra\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncheia de nevoeiro, impenetr\u00e1vel. N\u00e3o pod\u00edamos, que pena!<br \/>\nver Nova Iorque de fora, do mar, abrang\u00ea-la toda com um golpe de vista,<br \/>\nestereotip\u00e1-la na imagina\u00e7\u00e3o para todo o resto da nossa<br \/>\nvida. A grande cidade cosmopolita dos trens elevados e das pontes colossais<br \/>\ndormia o sono beatifico da madrugada, envolvida num largo capuz de neve atrav\u00e9s<br \/>\ndo qual apenas se podia ouvir a sineta de invis\u00edveis embarca\u00e7\u00f5es<br \/>\nque bordejavam demandando o porto. Adivinh\u00e1vamos que muitos vapores<br \/>\ntransatl\u00e2nticos aguardavam, como n\u00f3s, o momento azado para fazerem<br \/>\nsua entrada.<\/p>\n<p>Felizmente n\u00e3o durou muito esse estado quase aflitivo. Por tr\u00e1s<br \/>\ndo nevoeiro compacto e l\u00fagubre os primeiros clar\u00f5es da manh\u00e3<br \/>\nsurgiram como uma apari\u00e7\u00e3o bendita, rompendo a monotonia branca<br \/>\nda atmosfera, e pouco a pouco, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que a neve<br \/>\nia se rarefazendo, o Barroso tomava chegada muito lento, e Nova Iorque destoucava-se<br \/>\nnum fundo luminoso, batida pelas primeiras irradia\u00e7\u00f5es do sol,<br \/>\nruidosa e alvissareira, toda cheia de brilhos, como um quadro de malacacheta.<\/p>\n<p>Onze horas. C\u00e9u limpo e mar ch\u00e3o &#8211; como se diz nos di\u00e1rios<br \/>\nn\u00e1uticos. Nem mais um floco de neve, tudo luz agora, e j\u00e1 podemos<br \/>\nver cheios da mais \u00edntima satisfa\u00e7\u00e3o, com uma surpresa<br \/>\ning\u00eanua no olhar, o aspecto risonho da ba\u00eda cortada de embarca\u00e7\u00f5es<br \/>\na vela e a vapor, com os seus longes de verdura matizando perfis de montanhas<br \/>\nindistintas, muito descoberta, sem o sombrio majestoso das paisagens americanas<br \/>\ndo sul, bela na sua simplicidade natural, e, sobretudo, muito clara \u00e0quela<br \/>\nhora.<\/p>\n<p>\u00c0 direita destacava, \u00e0 boca do Hudson, a grande, a enorme,<br \/>\na colossal ponte que liga Brooklin a Nova Iorque lembrando-nos que realmente<br \/>\nt\u00ednhamos chegado outra vez \u00e0 terra feliz dos ianques, e doutro<br \/>\nlado erguia-se, iluminando o mundo, a Est\u00e1tua da Liberdade, belo s\u00edmbolo<br \/>\nde bronze, cujo pedestal ocupa toda a ilha de Bedloe.<\/p>\n<p>Era um dia de domingo, um desses dias de expans\u00e3o popular, em que,<br \/>\nno mar como em terra, h\u00e1 quase sempre uma alegria nova entre os que<br \/>\npassaram a semana a trabalhar, a lutar pela vida incansavelmente com a consci\u00eancia<br \/>\ntranq\u00fcila de quem vive honestamente \u00e0 custa do pr\u00f3prio<br \/>\nesfor\u00e7o. A baia de Nova Iorque tinha o festivo aspecto de um dia de<br \/>\nregatas. Esquadrilhas de iates, com suas velas quadrangulares, muito elegantes<br \/>\ne asseados, cruzavam na barra, aproveitando a fresca do mar. Passavam barcas<br \/>\nde recreio, embandeiradas, conduzindo bandas de m\u00fasica, que tocavam<br \/>\nalegremente o Yankee doodle. \u00c0 cerra\u00e7\u00e3o matinal sucedera<br \/>\num sol frio de inverno, que dava vontade a gente improvisar piqueniques \u00e0<br \/>\nbeira-mar, fora da cidade, longe dos botequins e das brasseries, nalgum verde<br \/>\nrecanto onde houvesse bastante quieta\u00e7\u00e3o e muita \u00e1gua,<br \/>\nnum lugarejo calmo de sub\u00farbio donde se pudesse ver ao longe, mas muito<br \/>\nao longe, a miniatura da cidade soturna e cansada&#8230;<\/p>\n<p>O Barroso tinha fundeado em frente \u00e0 Battery Square e com pouco recebia<br \/>\na visita oficial do c\u00f4nsul brasileiro e doutras autoridades do pa\u00eds,<br \/>\nsendo para notar que uma das primeiras pessoas que pisaram a bordo foi o rep\u00f3rter<br \/>\ndo New York Herald, a importante folha americana tradicionalmente conhecida<br \/>\nno mundo jornal\u00edstico. Um cavalheiro irreprochable, de cartola e sobrecasaca<br \/>\nde pano, bem-apessoado, bigode louro e olhos azuis, verdadeiro tipo de ianque,<br \/>\nam\u00e1vel e expansivo. \u00c9 escusado dizer, num par\u00eantesis,<br \/>\nque no dia seguinte a quilom\u00e9trica folha descrevia, com uma precis\u00e3o<br \/>\nfotogr\u00e1fica, o cruzador brasileiro, sem esquecer mesmo um carneiro<br \/>\nde estima que traz\u00edamos e que o espirituoso noticiarista inclu\u00eda<br \/>\nna lota\u00e7\u00e3o do navio, emprestando-lhe qualidades invej\u00e1veis.<br \/>\nCreio at\u00e9 que o pobre lan\u00edgero figurou na folha ianque entre<br \/>\nos her\u00f3is de Humait\u00e1!<\/p>\n<p>Satisfeitas as formalidades oficiais da chegada, trocadas as salvas do estilo,<br \/>\nnada mais nos restava sen\u00e3o ver de perto a bela cidade.<\/p>\n<p>Nova Iorque estava quieta, muit\u00edssimo quieta, com as suas pra\u00e7as<br \/>\ndesertas, com os seus parques silenciosos, fechado o com\u00e9rcio a ponto<br \/>\nde n\u00e3o se encontrar aberta uma s\u00f3 tabacaria, sequer um botequim.<br \/>\nIsso, por\u00e9m, n\u00e3o nos causou estranheza. Sab\u00edamos que<br \/>\no domingo nos Estados Unidos \u00e9 um dia completamente in\u00fatil,<br \/>\num dia triste para os centros populosos. Toda a gente deserta para os arrabaldes<br \/>\nem seus trajes domingueiros. As ruas, muito largas e compridas, permanecem<br \/>\nermas e cheias de sil\u00eancio, entregues \u00e0 vigil\u00e2ncia dos<br \/>\npolicimen. Todas as casas comerciais, todos os armaz\u00e9ns, todas as f\u00e1bricas,<br \/>\ntodos os estabelecimentos p\u00fablicos conservam-se fechados e taciturnos,<br \/>\ncomo numa cidade abandonada.<\/p>\n<p>Nova Iorque, a opulenta e alegre cidade cosmopolita, tinha esguichado para<br \/>\nNova Jersey, para Brooklin e para Conney Island. Toda aquela multid\u00e3o<br \/>\nlaboriosa e ourissedenta, que nos dias de trabalho se atropela na Broadway,<br \/>\nbebia e cantava nos arrabaldes, expandia-se largamente nos hot\u00e9is ambulantes<br \/>\ne nas cervejarias suburbanas, folgava e ria com desespero, sem pensar na segunda-feira,<br \/>\nsem se inquietar com o futuro.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 que n\u00e3o se deparava ningu\u00e9m nas ruas, por<br \/>\nisso n\u00e3o se ouvia o barulho infernal das carro\u00e7as e das carruagens.<\/p>\n<p>O domingo no pa\u00eds dos ianques \u00e9 para se divertir, para se descansar,<br \/>\npara se jogar o criket, para se passear a cavalo, para se apostar regatas,<br \/>\nde modo que o protestantismo americano nada tem de comum com o protestantismo<br \/>\nbrit\u00e2nico.<\/p>\n<p>Enquanto nos domingos (a dar cr\u00e9dito na cr\u00f4nica) o ingl\u00eas<br \/>\nreza a B\u00edblia no interior de seu home, em companhia de sua mulher e<br \/>\nde seus filhos, o americano, ou melhor, o ianque, exercita os m\u00fasculos<br \/>\ne bebe cerveja fora da cidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o admira semelhante discord\u00e2ncia, quando \u00e9 sabido que<br \/>\na religi\u00e3o protestante subdivide-se em milhares de seitas. A este respeito<br \/>\nleiam-se os belos cap\u00edtulos em que Mr. Laboulaye (Ed. Lef\u00eavre),<br \/>\nestuda, com uma gra\u00e7a especial e encantadora, cheia de humorismo e<br \/>\nde senso cr\u00edtico, as institui\u00e7\u00f5es religiosas na Am\u00e9rica<br \/>\ndo Norte. Paris en Am\u00e9rique \u00e9 um dos livros mais curiosos e<br \/>\noriginais que eu tenho lido sobre os Estados Unidos.<\/p>\n<p>Em tais condi\u00e7\u00f5es, estrangeiros no meio de uma cidade deserta,<br \/>\nimagine-se o nosso embara\u00e7o, a triste situa\u00e7\u00e3o em que<br \/>\nnos colocava a curiosidade.<\/p>\n<p>Os rar\u00edssimos transeuntes que porventura encontr\u00e1vamos, marinheiros<br \/>\nou vagabundos que desciam para o cais da Battery, olhavam-nos com um ar de<br \/>\nsurpresa, embasbacados, medindo-nos de alto a baixo, com se f\u00f4ssemos<br \/>\nuns verdadeiros botocudos de tanga e cocar.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o perdemos a precisa calma, e, sem mais tirte nem guarte,<br \/>\nsaltamos dentro do primeiro ve\u00edculo que passava, uma velha carruagem<br \/>\nde aluguel, cujo boleeiro custou deveras a compreender que desej\u00e1vamos<br \/>\nfazer um passeio ao redor da cidade.<\/p>\n<p>Oh! yes! Yes!&#8230;<\/p>\n<p>E disparou a trote largo por aquelas ruas fora.<\/p>\n<p>De modo que nesse dia vimos Nova Iorque \u00e0 vol d&#8217;oiseau e por um prisma<br \/>\nde tristeza e monotonia.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o a nossa demora naquela cidade ia ser mais longa<br \/>\nque em qualquer dos outros portos do itiner\u00e1rio.<\/p>\n<p>No dia imediato, uma segunda-feira, recome\u00e7amos, sem perda de tempo,<br \/>\na nossa tarefa de estrangeiros em pa\u00eds desconhecido.<\/p>\n<p>Eu, por mim, confesso que Nova Iorque produzia-me vertigens. O desejo imoderado<br \/>\nde tudo ver, de tudo observar, de tudo saber, trazia-me numa inquieta\u00e7\u00e3o<br \/>\ncont\u00ednua, tirava-me o sono, arrebatava-me a todas as comodidades, torturava-me<br \/>\no esp\u00edrito de an\u00e1lise. Uma coisa, por\u00e9m, devo dizer:<br \/>\nraro \u00e9 o oficial de marinha, mormente da marinha brasileira, que sabe<br \/>\naproveitar o tempo nessas viagens ao estrangeiro. Aproveitar o tempo, entendamo-nos,<br \/>\nas horas de folga. Prefer\u00edamos a conviv\u00eancia dos caf\u00e9s-cantantes<br \/>\naos passeios \u00fateis e ao mesmo tempo agrad\u00e1veis. Um estrangeiro<br \/>\nj\u00e1 teve a coragem de dizer que os oficiais de marinha brasileiros levavam<br \/>\no tempo, na Europa, a freq\u00fcentar os conventilhos e os caf\u00e9s-cantantes.<br \/>\nAt\u00e9 certo ponto isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Em geral eles pouco conhecem dos pa\u00edses que t\u00eam visitado, a<br \/>\nn\u00e3o ser em assuntos de sua profiss\u00e3o, e as suas narrativas entre<br \/>\namigos limitam-se quase sempre a recorda\u00e7\u00f5es de aventuras amorosas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m s\u00e3o t\u00e3o curtas e t\u00e3o raras essas viagens.<\/p>\n<p>Quando se tem a felicidade relativa de viajar sob o comando de um oficial<br \/>\nilustrado e curioso como o Sr. Saldanha da Gama, cujos conhecimentos n\u00e3o<br \/>\nse restringem \u00e0 navega\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00e0 artilharia,<br \/>\no aproveitamento \u00e9 certo. Ele n\u00e3o \u00e9 somente um superior<br \/>\nhier\u00e1rquico &#8211; faz-se mestre e sabe proporcionar aos seus subalternos<br \/>\na maior soma poss\u00edvel de excurs\u00f5es \u00fateis e proveitosas.<\/p>\n<p>Uma das nossas primeiras visitas foi \u00e0 Est\u00e1tua da Liberdade,<br \/>\ntia ilha de Bedloe.<\/p>\n<p>O importante monumento ainda n\u00e3o estava completamente pronto, mas<br \/>\nj\u00e1 se podia fazer uma id\u00e9ia do que seria ele depois de conclu\u00eddo.<br \/>\nO pedestal, de granito, ocupa quase toda a ilhota e mede, aproximadamente,<br \/>\n15 a 20 metros de altura, 154 p\u00e9s, desde o n\u00edvel do mar, formando<br \/>\numa esp\u00e9cie de casamata cuja utilidade n\u00e3o souberam nos dizer.<br \/>\nSobre o pedestal ergue-se a est\u00e1tua, em bronze, armada por meio de<br \/>\nvigamentos de ferro, pois que n\u00e3o \u00e9 inteiri\u00e7a.<\/p>\n<p>Conta-se que dentro dela realizara-se, em Paris, um magn\u00edfico banquete<br \/>\nde 12 talheres, presidido por V. Hugo.<\/p>\n<p>Como se sabe, a est\u00e1tua foi oferecida aos Estados Unidos pela Fran\u00e7a<br \/>\nem agradecimento dos servi\u00e7os prestados por esta na\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00e0 sua amiga na guerra franco-prussiana.<\/p>\n<p>O pedestal foi mandado construir \u00e0 custa de subscri\u00e7\u00f5es<br \/>\npopulares, que em pouco tempo atingiam a uma soma elevad\u00edssima.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 por a\u00ed quem n\u00e3o tenha ouvido falar na<br \/>\nfamosa ponte de Brooklin (Brooklyn Bridge), uma das maravilhas da engenharia<br \/>\nmoderna, que liga a ilha de Brooklin a Nova Iorque.<\/p>\n<p>Esta cidade, incontestavelmente o primeiro emp\u00f3rio comercial da Am\u00e9rica<br \/>\ne uma das mais populosas do mundo, fica situada numa grande ilha formada por<br \/>\ndois bra\u00e7os do rio Hudson. De um lado, \u00e0 direita de quem olha<br \/>\npara o mar, um dos deltas, o North River, separa-a de Nova Jersey, e \u00e0<br \/>\nesquerda o East River separa-a de Brooklin. A travessia para qualquer desses<br \/>\npontos faz-se rapidamente, em barcas que a todo instante largam de Nova Iorque,<br \/>\ne por pre\u00e7o assaz diminuto.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio, quando se projetou levantar a grande ponte, surgiram<br \/>\nmil dificuldades.<\/p>\n<p>Parecia imposs\u00edvel que se pudesse levar a efeito obra t\u00e3o arriscada<br \/>\ne dispendiosa. Como assentar as bases do colosso numa profundidade de mil<br \/>\ne seiscentos p\u00e9s, que \u00e9 esta a altura do rio na sua parte mais<br \/>\nestreita?<\/p>\n<p>Demais era preciso n\u00e3o prejudicar a navega\u00e7\u00e3o, construindo<br \/>\na ponte muito acima do n\u00edvel do mar de modo a dar passagem livre \u00e0s<br \/>\nembarca\u00e7\u00f5es de com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Com tudo isso os americanos meteram m\u00e3os \u00e0 obra e dentro de<br \/>\nalguns anos de trabalho ass\u00edduo os Estados Unidos contavam mais uma<br \/>\ngl\u00f3ria.<\/p>\n<p>O comprimento total dessa magn\u00edfica ponte \u00e9 de uma milha pouco<br \/>\nmais ou menos. As torres onde ela est\u00e1 suspensa erguem-se a 268 p\u00e9s<br \/>\nacima da preamar, de forma que as maiores embarca\u00e7\u00f5es de com\u00e9rcio<br \/>\nt\u00eam passagem f\u00e1cil por baixo.<\/p>\n<p>O Barroso, cuja guinda era uma das mais altas que se tem visto em navio de<br \/>\nguerra, apenas foi obrigado a &#8220;acachapar&#8221; os mastar\u00e9us de<br \/>\njoanetes.<\/p>\n<p>Atravessa-se a ponte em vag\u00f5es movidos a eletricidade, em carros de<br \/>\npra\u00e7a ou mesmo a p\u00e9. Paga-se um c\u00eantimo para atravess\u00e1-la<br \/>\na p\u00e9!<\/p>\n<p>O movimento \u00e9 espantoso. Cruzam-se diariamente as duas popula\u00e7\u00f5es<br \/>\nde Nova Iorque e de Brooklin, em carros, em vag\u00f5es e a p\u00e9, sem<br \/>\nrisco de se atropelar, por que a cada esp\u00e9cie de ve\u00edculos corresponde<br \/>\numa passagem independente e adequada. Os que transitam \u00e0 p\u00e9<br \/>\nt\u00eam tamb\u00e9m o seu caminho livre e, por conseq\u00fc\u00eancia,<br \/>\nn\u00e3o correm o perigo de ser pisados pelos carros.<\/p>\n<p>\u00c0 noite o aspecto da ponte \u00e9 fe\u00e9rico. Logo \u00e0s<br \/>\nseis horas da tarde come\u00e7a a ilumina\u00e7\u00e3o em toda ela,<br \/>\nde um lado e doutro, destacando-se em alguns pontos, focos de luz el\u00e9trica,<br \/>\nenormes bot\u00f5es de brilhante que encandeiam a vista.<\/p>\n<p>Vista do mar, ent\u00e3o, o efeito \u00e9 deslumbrante! Lembra as lend\u00e1rias<br \/>\npontes de Veneza cortando canais, projetando n&#8217;\u00e1gua seus reflexos luminosos.<\/p>\n<p>Um dos meus divertimentos prediletos era contemplar Nova Iorque do alto.<br \/>\nMuitas vezes punha-me l\u00e1 de cima da ponte de Brooklin, bra\u00e7os<br \/>\ncruzados, num \u00eaxtase de fetiche, a olhar para um e outro lado, acompanhando<br \/>\ncom a vista a vela das embarca\u00e7\u00f5es que singravam no rio, pequeninas,<br \/>\nmicrosc\u00f3picas.<\/p>\n<p>E punha-me, nessa embriaguez do grandioso, a pensar no progresso dos Estados<br \/>\nUnidos, desse pa\u00eds modelo, onde tudo move-se por meio de eletricidade<br \/>\ne vapor, onde tudo \u00e9 feito \u00e0s carreiras, num abrir e fechar<br \/>\nde olhos, sem a menor perda de tempo; vinham-me \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\nescandecida as descobertas de Franklin, de Fulton e de Edison, as maravilhosas<br \/>\nexperi\u00eancias sobre o tel\u00e9grafo, sobre o telefone e sobre o fon\u00f3grafo,<br \/>\ne eu repetia com os meus bot\u00f5es, mergulhando o olhar na dist\u00e2ncia,<br \/>\nabarcando a cidade inteira: &#8211; Grande pa\u00eds! Grande povo, gente feliz,<br \/>\nque sabe compreender a vida e amar a p\u00e1tria!<\/p>\n<p>Como era pequeno o meu pa\u00eds, com toda a grandeza de suas montanhas<br \/>\ne de seus rios, diante do colosso americano do norte!<\/p>\n<p>Ca\u00eda-me na alma uma tristeza de desterrado, uma profunda e incompreens\u00edvel<br \/>\nmelancolia, feita ao mesmo tempo de saudade e descren\u00e7a.<\/p>\n<p>Incans\u00e1veis os americanos! Nenhum povo os excede em temeridade e perseveran\u00e7a.<br \/>\nSequiosos de gl\u00f3rias para o seu pa\u00eds, \u00e1vidos de empreendimentos<br \/>\nque causem assombro ao mundo, eles t\u00eam uma grande qualidade &#8211; o amor<br \/>\n\u00e0 sua terra, o nativismo instintivo, o chauvinismo (deixem passar o<br \/>\ntermo) incondicional, absoluto, e \u00e9 for\u00e7a confessar que, sem<br \/>\nessa qualidade, sem esse ego\u00edsmo patri\u00f3tico, as na\u00e7\u00f5es<br \/>\nvivem, mas n\u00e3o progridem.<\/p>\n<p>Ainda ultimamente a c\u00e2mara do Estado de Nova Iorque aprovou, por unanimidade,<br \/>\no bill que prop\u00f4s a constru\u00e7\u00e3o de uma nova ponte de ferro<br \/>\nsobre o East River, passando sobre a ilha de Blackorel, que ligue Nova Iorque<br \/>\na Long Island, e que ter\u00e1 seis mil metros de comprimento e 46 de altura,<br \/>\ncom uma resist\u00eancia de 65 quil\u00f4metros de velocidade para os trens<br \/>\nque a devem atravessar.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de dizer, parodiando o outro: se eu n\u00e3o fosse brasileiro,<br \/>\ndesejaria ser americano do norte.<\/p>\n<h4><a name=\"13\"><\/a>CAP\u00cdTULO XIII<\/h4>\n<p>Nunca fui a Londres, apesar do grande e impaciente desejo que tenho de visitar<br \/>\na sombria capital brit\u00e2nica, mas estou bem certo de que Nova Iorque<br \/>\nem muitos respeitos pode ser denominada a Londres americana.<\/p>\n<p>Toda nova, toda alegre e pitoresca, sem os bairros imundos que o T\u00e2misa<br \/>\nlambe com as suas \u00e1guas p\u00fatridas, onde b\u00f3iam cad\u00e1veres<br \/>\nem decomposi\u00e7\u00e3o, iluminada por um sol que d\u00e1 vida e conforta,<br \/>\na nova Londres tem um cunho especial de cidade latina. Como em Londres, tudo<br \/>\nnela \u00e9 grandioso e opulento, desde a edifica\u00e7\u00e3o igual,<br \/>\ns\u00f3lida e elegante, at\u00e9 \u00e0s festividades p\u00fablicas<br \/>\ne \u00e0s institui\u00e7\u00f5es nacionais.<\/p>\n<p>As ruas, longas e direitas, cruzam-se geometricamente e distinguem-se pela<br \/>\nnumera\u00e7\u00e3o (Fourteen street, Fifteen street etc.).<\/p>\n<p>A Broadway \u00e9 o centro comercial, a rua de maior movimento quotidiano<br \/>\n&#8211; equivale \u00e0 City de Londres.<\/p>\n<p>A\u00ed \u00e9 que os carros se atropelam, que os transeuntes se abalroam<br \/>\nnuma confus\u00e3o burlesca e indescrit\u00edvel de que a nossa Rua do<br \/>\nOuvidor n\u00e3o d\u00e1 sequer a menor id\u00e9ia. Negociantes, capitalistas,<br \/>\nbanqueiros, corretores, oper\u00e1rios e vagabundos acotovelam-se, empurram-se,<br \/>\npisam-se os calos e v\u00e3o seguindo adiante, sem olhar pra tr\u00e1s,<br \/>\ncarregados de embrulhos, suando no ver\u00e3o, que costuma ser muito forte<br \/>\nem Nova Iorque. A gente v\u00ea-se abarbada para romper aquela multid\u00e3o<br \/>\ncerrada, compacta e ego\u00edsta.<\/p>\n<p>Um cosmopolitismo sem igual em parte alguma.<\/p>\n<p>Americanos, ingleses, espanh\u00f3is, franceses, italianos, alem\u00e3es,<br \/>\ngente de todas as nacionalidades, at\u00e9 turcos com os seus costumes esquisitos,<br \/>\nconfundem-se nas ruas de Nova Iorque, enchendo-as em ondas sucessivas e tumultuosas,<br \/>\ncomo em dias de carnaval no Rio. Parece mesmo, \u00e0 primeira vista, que<br \/>\no elemento estrangeiro absorve o nacional, t\u00e3o numeroso \u00e9 aquele.<br \/>\nCusta, por\u00e9m, a encontrar-se um portugu\u00eas ou um brasileiro. Em<br \/>\ncompensa\u00e7\u00e3o a ra\u00e7a latina \u00e9 abundantemente representada<br \/>\npor espanh\u00f3is da Europa e da Am\u00e9rica. Os mexicanos, apesar da<br \/>\nnatural e oculta ojeriza que t\u00eam aos americanos dos Estados Unidos,<br \/>\nencontram-se a cada passo e distinguem-se logo pelo seu tipo original: estatura<br \/>\nm\u00e9dia, rosto anguloso e abolachado, moreno, cabelo duro, olhos pequenos;<br \/>\nam\u00e1veis. N\u00e3o perdem ocasi\u00e3o de dizer mal dos americanos,<br \/>\nque, entretanto, dedicam-lhes uma afei\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n<p>Uma das coisas mais curiosas de Nova Iorque s\u00e3o os trens elevados<br \/>\n(elevated railroad), a complicada rede de linhas f\u00e9rreas que rodeia<br \/>\na cidade passando em muitos pontos por cima da casaria, atravessando ruas<br \/>\ninteiras sobre grandes colunas resistentes de ferro. Partem todas da Battrey<br \/>\nSquare, ponto mais meridional da ilha de Manhattan (onde fica a cidade) e<br \/>\nv\u00e3o terminar na sua extremidade setentrional, em Harlem River. Segundo<br \/>\no relat\u00f3rio apresentado pela New York Elevated, o n\u00famero de<br \/>\nviajantes transportados em 1878 por essa linha foi de 107.079.625. (Sempre<br \/>\na estat\u00edstica como base fundamental do progresso entre os americanos!)<br \/>\nA linha inteira, que tem seguramente trinta milhas, estava conclu\u00edda<br \/>\nat\u00e9 Harlem. Os moradores das margens dessas estradas de ferro a\u00e9reas<br \/>\nqueixavam-se continuamente da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Pudera! Ru\u00eddo, fumo e fagulhas a toda hora sobre a cabe\u00e7a,<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o coisas que agradem a ningu\u00e9m. A pobre gente fica<br \/>\nem risco de perder o ju\u00edzo, pois n\u00e3o!<\/p>\n<p>Felizmente, o que ali\u00e1s \u00e9 muito admir\u00e1vel, os desastres<br \/>\nreproduzem-se rar\u00edssimas vezes. \u00c9 que o servi\u00e7o faz-se<br \/>\ncom inexced\u00edvel perfei\u00e7\u00e3o e as posturas municipais verificam-se<br \/>\ninexoravelmente.<\/p>\n<p>As esta\u00e7\u00f5es s\u00e3o numeradas, como as ruas: Primeira Esta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nSegunda Esta\u00e7\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>Os passageiros desembarcam em plataformas de ferro gradeadas, que comunicam<br \/>\ncom as esta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O esp\u00edrito inventivo dos americanos revela-se a cada passo nas grandes<br \/>\ncidades dos Estados Unidos. Em todos os estabelecimentos, em todos os ramos<br \/>\nda atividade p\u00fablica se encontra uma aplica\u00e7\u00e3o nova de<br \/>\nmec\u00e2nica industrial, um artif\u00edcio de utilidade pr\u00e1tica,<br \/>\necon\u00f4mico e curioso, uma inven\u00e7\u00e3o engenhosa&#8230;<\/p>\n<p>Aproveitar o tempo e economizar os d\u00f3lares &#8211; tal \u00e9 o princ\u00edpio<br \/>\nfundamental da sabedoria ianque.<\/p>\n<p>Um domingo em Coney Island: nada mais pitoresco e hilariante, nada mais sugestivo.<\/p>\n<p>Coney Island aos domingos \u00e9 para os americanos o que o Bois \u00e9<br \/>\npara os franceses e Hyde Park \u00e9 para os ingleses &#8211; um interessant\u00edssimo<br \/>\nmicrocosmo de incr\u00edvel bizarraria, cheio do vago rumor de uma multid\u00e3o<br \/>\nque passeia, que canta, que ri e que bebe ao ar livre, num p\u00eale-m\u00eale<br \/>\nvertiginoso, com as suas toilettes claras, com o seu belo ar despretensioso,<br \/>\ncom os seus gestos largos de quem respira uma atmosfera leve e pura.<\/p>\n<p>Essa pequena ilha constitui a principal divers\u00e3o domingueira dos habitantes<br \/>\nde Nova Iorque.<\/p>\n<p>Fam\u00edlias inteiras, burgueses de todas as castas, cocotes, afluem para<br \/>\nali nesses dias. Pela manh\u00e3, cedo, largam da Falton Station grandes<br \/>\nbarcas embandeiradas conduzindo m\u00fasicas, cheias de passageiros. Muita<br \/>\ngente prefere ir por terra, em trens que partem de Brooklin.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 lugar para todos nos hot\u00e9is. Improvisam-se piqueniques<br \/>\ndefronte do mar, na beira da praia, formam-se pagodeiras, e muitas pessoas<br \/>\nh\u00e1 que n\u00e3o se lembram de comer &#8211; preferem a cerveja, o bock,<br \/>\na qualquer esp\u00e9cie de alimento s\u00f3lido.<\/p>\n<p>Vimos dois grandes hot\u00e9is &#8211; o Great Hotel e o Gigantic Elephant.<\/p>\n<p>Aquele \u00e9 um magn\u00edfico estabelecimento, todo constru\u00eddo<br \/>\nde madeira de lei sobre enorme plataforma que se move em trilhos pr\u00f3prios.<br \/>\nNovo g\u00eanero de hot\u00e9is at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido para<br \/>\nn\u00f3s. Num dado momento podem ser conduzidos, como qualquer tramway,<br \/>\ndum lugar para outro.<\/p>\n<p>O Gigantic Elephant (the monarch ol the architectural world, como l\u00e1<br \/>\ndizem&#8230;) mede 175 p\u00e9s ingleses de altura, \u00e9 dividido em 31<br \/>\ncompartimentos, ventilados por 63 janelas, e iluminado, \u00e0 noite, por<br \/>\n25 focos de luz el\u00e9trica. Figura um elefante colossal, de madeira,<br \/>\nem p\u00e9, no meio de um jardim. Em cima, no dorso do monstro, existe um<br \/>\nterra\u00e7o donde se descortina uma espl\u00eandida paisagem rasa e calma.<\/p>\n<p>Quer num, quer noutro, o promeneur encontra abundante variedade de petiscos<br \/>\ne bebidas.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as, com especialidade, fazem de Coney Island um c\u00e9u<br \/>\naberto. Elas, sim, n\u00e3o perdem os cavalinhos que andam \u00e0 roda<br \/>\nao som de um cl\u00e1ssico realejo seboso, os passeios a\u00e9reos, na<br \/>\nponte-russa, nas barquinhas, nos trens elevados&#8230;<\/p>\n<p>Por toda a parte m\u00fasica, realejos, pregoeiros de coisas maravilhosas,<br \/>\ngritos, gargalhadas.<\/p>\n<p>Tiram-se retratos instant\u00e2neos, apostam-se corridas, sobem-se elevadores<br \/>\nde duzentos metros acima do solo, pesca-se, alugam-se cavalos de passeio&#8230;<br \/>\nEnfim, Coney Island \u00e9 uma miniatura da vida tumultuosa das grandes<br \/>\ncidades.<\/p>\n<p>O pobre-diabo que n\u00e3o for esperto e econ\u00f4mico arrisca-se a voltar<br \/>\ncom as algibeiras cheias de vento&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0 noite enchem-se novamente os trens e as barcas. Em uns e outros<br \/>\na algazarra torna-se insuport\u00e1vel. Canta-se a Marselhesa em vozes detest\u00e1veis,<br \/>\ngrita-se, bate-se com a ponteira da bengala no ch\u00e3o, assovia-se, imitam-se<br \/>\nanimais de toda a esp\u00e9cie&#8230; Uma loucura!<\/p>\n<p>Entretanto, aben\u00e7oado pa\u00eds! em todas essas pagoderias n\u00e3o<br \/>\nse distingue sequer um bon\u00e9 policial. N\u00e3o h\u00e1 conflitos,<br \/>\nnem desastres.<\/p>\n<p>Tudo corre na maior harmonia, sem interven\u00e7\u00e3o da guarda c\u00edvica.<br \/>\nOs policemen podem cochilar \u00e0 vontade: a popula\u00e7\u00e3o americana<br \/>\n\u00e9 naturalmente pacata e respeitadora da ordem.<\/p>\n<p>Coney Island \u00e9 o complemento necess\u00e1rio e indispens\u00e1vel<br \/>\nde Nova Iorque.<\/p>\n<p>Pelo ver\u00e3o re\u00fanem-se ali cerca de 5.000 pessoas, segundo o<br \/>\nc\u00e1lculo aproximado do c\u00f4nsul brasileiro.<\/p>\n<p>Dias depois da nossa chegada, o Barroso entrou para o dique de Brooklin,<br \/>\na fim de sofrer alguns reparos no casco.<\/p>\n<p>Enquanto isto se dava, enquanto a guarni\u00e7\u00e3o ocupava-se da limpeza<br \/>\nexterna do cruzador, com o cuidado, com o desvelo e com o carinho mesmo de<br \/>\namigos dedicados, \u00edamos visitando outras cidades americanas, ligeiramente,<br \/>\nde relance.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos foi dado, por\u00e9m, diga-se em par\u00eantesis, ver o<br \/>\nmais grandioso espet\u00e1culo dos Estados Unidos &#8211; a c\u00e9lebre cascata<br \/>\ndo Ni\u00e1gara, que Chateaubriand pinta com as maravilhosas cores de sua<br \/>\npalheta de artista inimit\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o tivemos mesmo a felicidade de ver Washington, a bonita capital<br \/>\namericana, e tampouco o presidente Cleveland.<\/p>\n<p>Esse privil\u00e9gio coube quase que exclusivamente ao ex-pr\u00edncipe<br \/>\nD. Augusto, que ali\u00e1s n\u00e3o revelou grande admira\u00e7\u00e3o<br \/>\npela Ni\u00e1gara, nem pelo presidente Cleveland.<\/p>\n<p>Sua Alteza n\u00e3o era para que digamos muito amigo da natureza e menos<br \/>\nainda de personagens ilustres.<\/p>\n<p>Quanto a mim continuei a ver a famosa cascata por um \u00f3culo, nos livros<br \/>\ndo poeta, e o Sr. Cleveland, vi-o casualmente no Daily News, no ato do seu<br \/>\ncasamento realizado a esse tempo. Pareceu-me um belo tipo de ianque: cheio<br \/>\nde corpo, cabelo penteado pra tr\u00e1s, olhar firme, bigode grosso&#8230;<\/p>\n<p>Assim, contentamo-nos com visitar algumas cidades de import\u00e2ncia e<br \/>\nt\u00e3o depressa que era imposs\u00edvel apanhar com precis\u00e3o<br \/>\ntodos os caracteres por meio dos quais se pode apreciar a vida de uma popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vejamos:<\/p>\n<p>BALTIMORE &#8211; Cidade aristocr\u00e1tica, pequena, mas extremamente bela na<br \/>\nsimplicidade, no gosto s\u00f3brio de sua edifica\u00e7\u00e3o, muito<br \/>\nasseada, clara, semelhando toda ela, no seu conjunto gracioso, uma confort\u00e1vel<br \/>\nhabita\u00e7\u00e3o de outono, fresca e risonha, boa para se gozar o sossego<br \/>\nde uma vilegiatura sem preocupa\u00e7\u00f5es mercantis e utilit\u00e1rias.<\/p>\n<p>A gente de Baltimore parece viver uma vida tranq\u00fcila e descuidada no<br \/>\ncalmo interior de seu home, longe da mentira social, longe de todo o ru\u00eddo,<br \/>\nbeatificamente, numa paz invej\u00e1vel, respirando uma atmosfera livre<br \/>\ndo micr\u00f3bio daninho das civiliza\u00e7\u00f5es tumultuosas.<\/p>\n<p>Baltimore \u00e9 uma cidade por excel\u00eancia aristocr\u00e1tica e<br \/>\nhigi\u00eanica, onde os temperamentos requintadamente pac\u00edficos encontrariam<br \/>\no desejado repouso trespassado da incompar\u00e1vel do\u00e7ura de um<br \/>\nclima raro.<\/p>\n<p>Na melhor de suas pra\u00e7as e no mais elevado de seus pontos ergue-se<br \/>\na estatua em m\u00e1rmore do grande Washington, geralmente considerada &#8220;um<br \/>\ndos mais interessantes monumentos da Am\u00e9rica&#8221; e inaugurada em<br \/>\n1809. Mede 60 p\u00e9s quadrados na base e 15 de altura. Sobre o pedestal<br \/>\nfoi levantada uma elegante coluna d\u00f3rica de 20 p\u00e9s de di\u00e2metro<br \/>\nna base e 15 no cimo, onde branqueja a est\u00e1tua do primeiro presidente<br \/>\ndos Estados Unidos, representando-o no momento de renunciar a sua comiss\u00e3o<br \/>\nde general-em-chefe dos ex\u00e9rcitos de seu pais.<\/p>\n<p>Para subir at\u00e9 essa galeria fui obrigado a vencer duzentos degraus<br \/>\n(contados) de uma estreita escadaria de pedra, em espiral. De cima v\u00ea-se,<br \/>\na olho nu, todo o panorama, realmente belo, da cidade, que lembra uma dessas<br \/>\npaisagens holandesas, muito claras e sugestivas, tais como descreve Ramalho<br \/>\nOrtig\u00e3o, e onde destacam, num fundo de aquarela, linhas de arvoredo<br \/>\ne rev\u00e9rberos d&#8217;\u00e1gua parada.<\/p>\n<p>Ouvi dizer algures que as mulheres mais bonitas dos Estados Unidos s\u00e3o<br \/>\nas de Baltimore. Durante as poucas horas que a\u00ed nos demoramos vimos<br \/>\nalguns rostos femininos na verdade encantadores. \u00c9 poss\u00edvel<br \/>\nque v\u00edssemos com olhos protetores de h\u00f3spedes em terra estranha&#8230;<\/p>\n<p>Era nosso c\u00f4nsul naquela cidade Fontoura Xavier, o conhecido autor<br \/>\ndas Opalas, bom poeta e p\u00e9ssimo republicano, que se apressou em nos<br \/>\nproporcionar todas as comodidades poss\u00edveis, franqueando-nos os quartos<br \/>\ne os sal\u00f5es do melhor hotel do lugar. Fez mais: ofereceu gentilmente<br \/>\n\u00e0 oficialidade brasileira um delicad\u00edssimo almo\u00e7o ao<br \/>\nqual compareceram diversos estudantes nossos patr\u00edcios.<\/p>\n<p>Guardamos belas recorda\u00e7\u00f5es de Baltimore.<\/p>\n<p>FILADELFIA &#8211; Grande centro de ind\u00fastria e com\u00e9rcio. Altas chamin\u00e9s<br \/>\ncaracter\u00edsticas. C\u00e9u encoberto de fuma\u00e7a, pesado e l\u00fagubre<br \/>\na certas horas do dia. Aquedutos, casas colossais, ruas largas e atulhadas<br \/>\nde barricas e caixotes. Continuo movimento de carros e tramways. Imensa e<br \/>\ngrandiosa, a cidade vista de qualquer ponto elevado. A lembran\u00e7a que<br \/>\nfica \u00e9 a de um grande edif\u00edcio em constru\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncheio de rumor de m\u00e1quinas e de oper\u00e1rios em atividade permanente.<\/p>\n<p>&#8211; Jardim Zool\u00f3gico. &#8211; Universidade important\u00edssima, onde v\u00e3o<br \/>\nestudar mo\u00e7os de todas as nacionalidades. &#8211; City Hall, edif\u00edcio<br \/>\nmonumental, vasto e muito alto, onde funcionam as reparti\u00e7\u00f5es<br \/>\np\u00fablicas: dizem ser o maior dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 tempo a perder. Temos apenas tr\u00eas horas a nossa<br \/>\ndisposi\u00e7\u00e3o, pois que o trem deve partir para An\u00e1polis<br \/>\n\u00e0s cinco da tarde e j\u00e1 s\u00e3o duas&#8230;<\/p>\n<p>Leio na tabuleta de um bonde: Zoological Garden&#8230; Oh! sim, vamos ao Jardim<br \/>\nZool\u00f3gico, a mais completa cole\u00e7\u00e3o de animais, que j\u00e1<br \/>\nse conseguiu formar. O meu companheiro, que conhece o Jardim Zool\u00f3gico<br \/>\nde Londres e o de Filad\u00e9lfia, opta por este. Vejo, de passagem ruas<br \/>\nbel\u00edssimas, espl\u00eandidas filas de casas luxuosas, magn\u00edficos<br \/>\njardins particulares, templos em estilo g\u00f3tico; descampados.<\/p>\n<p>Mas, a viagem \u00e9 longa, o tempo escorre sem a gente perceber, e \u00e9<br \/>\npreciso contar com a volta, a fim de apanhar o trem.<\/p>\n<p>Trabalho perdido! Voltamos no mesmo bonde, sem ter visto o apetecido Jardim<br \/>\nZool\u00f3gico.<\/p>\n<p>Mal tivemos tempo de chegar, embarafustar por entre os passageiros que se<br \/>\nacumulavam na gare, e saltar para dentro do vag\u00e3o.<\/p>\n<p>E eu fiz o resto da viagem pensando no assombroso progresso daquela cidade<br \/>\nenorme, que ainda em 1791 n\u00e3o era mais que uma simples col\u00f4nia<br \/>\na respeito da qual Chateaubriand exprimia-se deste modo: &#8211; L&#8217;aspect de Philadelphie<br \/>\nest jroid et monotone&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o foi preciso mais de um s\u00e9culo para que os americanos fizessem<br \/>\ndela uma das principais cidades industriais do mundo.<\/p>\n<p>Em Filad\u00e9lfia tive ocasi\u00e3o de ver, pela primeira vez, bondes<br \/>\nel\u00e9tricos funcionando com a m\u00e1xima regularidade.<\/p>\n<p>O que ser\u00e1 a grande cidade americana daqui a cem anos?<\/p>\n<h4><a name=\"14\"><\/a>CAP\u00cdTULO XIV<\/h4>\n<p>Abramos cap\u00edtulo especial para An\u00e1polis, n\u00e3o que esta<br \/>\ncidade, a mais antiga dos Estados Unidos, mere\u00e7a-nos mais que qualquer<br \/>\ndas outras, absolutamente n\u00e3o, mas por uma defer\u00eancia bem entendida,<br \/>\npor um recolhido sentimento de gratid\u00e3o para com a jovem oficialidade<br \/>\nda marinha norte-americana, que ali recebeu as primeiras li\u00e7\u00f5es<br \/>\nde disciplina militar e dever c\u00edvico, e que soube nos acolher em seu<br \/>\nseio como verdadeiros irm\u00e3os de armas que \u00e9ramos.<\/p>\n<p>A nossa visita coincidia com a festa de formatura dos guardas-marinha, uma<br \/>\ndas belas solenidades anuais dos Estados Unidos \u00e0 qual concorrem centenas<br \/>\nde pessoas da mais elevada sociedade &#8211; a fina flor da aristocracia daquele<br \/>\npa\u00eds &#8211; movidas pelo nobre entusiasmo de apertar a m\u00e3o \u00e0<br \/>\nmocidade que se despede da escola para entregar-se \u00e0s duras lidas do<br \/>\nmar.<\/p>\n<p>Antes, por\u00e9m, de dizer o que foi essa festa, descrevamos, rapidamente,<br \/>\na cidade.<\/p>\n<p>An\u00e1polis \u00e9 como unia nota dissonante na civiliza\u00e7\u00e3o<br \/>\namericana. Imagine-se um quilombo africano, uma grande aldeia cortada de ruas<br \/>\ndesiguais, estreitas e desalinhadas, com um aspecto sombrio e detest\u00e1vel<br \/>\nde velho burgo colonial, onde se move uma popula\u00e7\u00e3o na maior<br \/>\nparte negra e atrasad\u00edssima &#8211; e ter-se-\u00e1 essa ant\u00edtese<br \/>\nda cidade moderna. Bridgetown, a capital de Barbados, avantaja-se-lhe mil<br \/>\nvezes com toda sua poeira, com toda a imprud\u00eancia e mis\u00e9ria de<br \/>\nsua baixa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00ea-se que os americanos t\u00eam-lhe certo respeito e conservam-na<br \/>\nesquecida e retr\u00f3grada por uma esp\u00e9cie de devo\u00e7\u00e3o<br \/>\narqueol\u00f3gica, sacrificando por esse modo o seu bom gosto caracter\u00edstico<br \/>\ne o seu tradicional amor ao progresso.<\/p>\n<p>Ins\u00edpida, mon\u00f3tona e triste como um cemit\u00e9rio de pag\u00e3os<br \/>\n&#8211; An\u00e1polis \u00e9 um protesto, um an\u00e1tema contra a evolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nnatural das coisas, uma n\u00f3doa antip\u00e1tica em pleno mapa da Confedera\u00e7\u00e3o<br \/>\namericana. Nada h\u00e1 ali que interesse e desperte a curiosidade sen\u00e3o<br \/>\na Escola Naval (Naval Academy) situada numa das extremidades da cidade, \u00e0<br \/>\nbeira-mar.<\/p>\n<p>De ano em ano enche-se de povo; seu \u00fanico hotel, um pardieiro, extravasa,<br \/>\ne ent\u00e3o sente-se um fr\u00eamito de vida nova percorrer aquelas ruas<br \/>\nhabitualmente sossegadas e tristes. Passeiam bandas de m\u00fasica, flutuam<br \/>\nbandeiras na frontaria das casas, por toda a parte ouve-se uma vozeria estranha<br \/>\nde gente que bebe e canta nos caf\u00e9s (arremedo de caf\u00e9s) e todas<br \/>\nas janelas abrem-se como para receber o desinfetante da alegria, importado<br \/>\ndas grandes cidades circunvizinhas.<\/p>\n<p>An\u00e1polis acorda, ent\u00e3o, de seu pesado sono tumbal para saudar<br \/>\nos estudantes que saem da academia para a vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>O grande ato, a que assistimos, da distribui\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos,<br \/>\nrealizou-se num dos vastos sal\u00f5es da Escola, presente numeros\u00edssimo<br \/>\naudit\u00f3rio: fam\u00edlia em grandes trajes de luxo, altos funcion\u00e1rios,<br \/>\nestudantes.<\/p>\n<p>Ao receberem seus diplomas os nov\u00e9is oficiais de marinha foram vivamente<br \/>\naplaudidos pelos seus companheiros, caindo sobre eles uma chuva imprevista<br \/>\nde flores, no meio de palmas e gritos de entusiasmo. E come\u00e7aram os<br \/>\nabra\u00e7os, as felicita\u00e7\u00f5es, os conselhos e as l\u00e1grimas<br \/>\nde como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Abrem-se de par em par as portas do estabelecimento e a multid\u00e3o de<br \/>\nespectadores precipita-se por todos os lados, feliz, alegre, desafogada como<br \/>\nse acabasse de assistir a uma festa de amor e justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o estava conclu\u00eddo o programa.<\/p>\n<p>Em seguida \u00e0 solenidade oficial &#8211; a festa \u00edntima, a festa de<br \/>\ndespedida que os naval cadets (aspirantes) ofereciam aos seus companheiros.<\/p>\n<p>Noite clara e constelada. O largo edif\u00edcio da Escola de Marinha regurgita<br \/>\nde convidados que se cruzam em todos os sentidos no sal\u00e3o de baile,<br \/>\nnos corredores, nos bouffets, nas ante-salas&#8230;<\/p>\n<p>Nota-se em todas as caras certo ar de intimidade, certo bem-estar flagrante,<br \/>\num quer que \u00e9 comunicativo e bom.<\/p>\n<p>Uma ou outra casaca solit\u00e1ria, destoando da linha geral das toilettes<br \/>\nlargas e frescas. Observo curiosamente o apuro de um oficial japon\u00eas<br \/>\nque franze as sobrancelhas num gesto de enfado. &#8211; Por que ser\u00e1?&#8230;<br \/>\nJulgo de mim para comigo que o pobre camarada n\u00e3o se sente \u00e0<br \/>\nvontade dentro de suas cal\u00e7as de pano com largos gal\u00f5es dourados.<br \/>\nA casaca o incomoda visivelmente. O chap\u00e9u armado, ele j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nsabe como o tenha &#8211; se na m\u00e3o, se debaixo do bra\u00e7o ou mesmo<br \/>\nse na cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Desabotoam-se risos gentis em bocas purpurinas. Derramam-se ess\u00eancias<br \/>\npreciosas no ambiente luminoso. Conversa-se alto. Belas misses de face escarlate<br \/>\nabanam-se com os leques de ricas plumas de edredom. Os leques e as j\u00f3ias<br \/>\ns\u00e3o as \u00fanicas riquezas que conduzem num contraste frisante com<br \/>\nos vestidos leves e claros.<\/p>\n<p>Em um dos lados do enorme quadril\u00e1tero, onde reluziam pan\u00f3plias<br \/>\narranjadas a capricho, estava levantado um pavilh\u00e3o de aspecto risonho,<br \/>\nem cujo frontisp\u00edcio destacavam em letras de luz<\/p>\n<p>1887 TO 1886<br \/>\nFARWE LI.<\/p>\n<p>Era o lugar do diretor da escola.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a dan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>E \u00e0 meia-noite a m\u00fasica fazia sinal para a \u00faltima valsa.<\/p>\n<p>Ficamos sabendo que todas as festas noturnas terminam invariavelmente \u00e0<br \/>\nmeia-noite, nos Estados Unidos. \u00c9 uma velha praxe que os americanos<br \/>\npoucas vezes transgridem.<\/p>\n<p>An\u00e1polis, black City &#8211; como te chamam teus pr\u00f3prios patr\u00edcios,<br \/>\ntu n\u00e3o poder\u00e1s saber nunca a saudade que levamos de ti nessa<br \/>\nespl\u00eandida noite clara e constelada!&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"15\"><\/a>CAP\u00cdTULO XV<\/h4>\n<p>O &#8216;Barroso&#8221; continuava no dique, em Brooklin.<\/p>\n<p>Logo ao regressarmos de nossa viagem a An\u00e1polis tivemos aviso para<br \/>\numa outra excurs\u00e3o n\u00e3o menos interessante e agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>West Point era agora o principal objeto de nossa curiosidade &#8211; West Point,<br \/>\na bela povoa\u00e7\u00e3o \u00e0 margem do Hudson, onde funciona a Escola<br \/>\nMilitar. Est\u00e1vamos convidados para assistir a outra festividade acad\u00eamica<br \/>\n&#8211; um combate simulado entre os alunos do estabelecimento &#8211; manejos de armas,<br \/>\nexerc\u00edcios de esgrima, assaltos.<\/p>\n<p>Compreende-se a grande utilidade que necessariamente nos adviria dessas visitas<br \/>\naos estabelecimentos militares no estrangeiro. Sem nos aperceber, \u00edamos<br \/>\nconhecendo, de visu, os diversos processos de ensino pr\u00e1tico, os m\u00e9todos<br \/>\nmais modernos de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, e, quando mais n\u00e3o<br \/>\nfosse, lucr\u00e1vamos com a vista de objetos novos e de novas paisagens.<\/p>\n<p>O viajar \u00e9 uma necessidade quase imprescind\u00edvel para o esp\u00edrito<br \/>\ne para o organismo. A alma como que se dilata em presen\u00e7a de estranhas<br \/>\ncombina\u00e7\u00f5es de cor e de luz. A monotonia da vida urbana cansa<br \/>\no esp\u00edrito, fatiga-o, consome-o lentamente; \u00e9 preciso o grande<br \/>\nar, o ar livre e temperado dos campos, a natureza em toda sua beleza original,<br \/>\npara que n\u00e3o se morra de t\u00e9dio e des\u00e2nimo. O tempo \u00e9<br \/>\nlimitad\u00edssimo e inapreci\u00e1vel para quem viaja com desejo de ver<br \/>\ne saber.<\/p>\n<p>Muitos h\u00e1 que preferem morar eternamente em Paris ou em Londres, no<br \/>\ncentro da cidade, asfixiado pela poeira dos boulevards, a gastar economicamente<br \/>\no seu rico dinheirinho vendo a natureza de perto, gozando as inef\u00e1veis<br \/>\ndel\u00edcias do campo e das praias, saboreando o clima das montanhas, deliciando<br \/>\na vista com o espet\u00e1culo das fontes murmurejantes, dos frescos arvoredos<br \/>\ntrespassados de luz&#8230;<\/p>\n<p>Eu preferirei sempre a paz absoluta e invej\u00e1vel dos sub\u00farbios.<\/p>\n<p>E \u00e9 por isso que, a cada nova excurs\u00e3o fora da cidade, eu sentia-me<br \/>\nbem comigo e bem com o resto da humanidade. Voltava sempre mais consolado<br \/>\ne mais leve, como se sa\u00edsse de um quarto muito escuro e abafado para<br \/>\na claridade larga e bela do dia.<\/p>\n<p>Foi assim que recebi a not\u00edcia do passeio a West Point.<\/p>\n<p>Como devia ser magn\u00edfico o Hudson l\u00e1 para as bandas de sua<br \/>\nnascente, a qualquer hora do dia, iluminado pelo sol, calmo e radiante, ou<br \/>\ncoberto de n\u00e9voa, pela manh\u00e3zinha, ou no sil\u00eancio da noite,<br \/>\nvago e sombrio como um p\u00e2ntano dormente!&#8230;<\/p>\n<p>Era o que \u00edamos ver.<\/p>\n<p>Seis horas da manh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>Ca\u00eda uma neve fri\u00edssima, transparente, e agressiva como alfinetadas.<\/p>\n<p>O Express, pequeno e elegante cruzador americano, esp\u00e9cie de transporte<br \/>\nde guerra, esperava-nos de &#8220;fogos acesos&#8221;, deitando fumo pela chamin\u00e9.<\/p>\n<p>Remos n&#8217;\u00e1gua e toca pra diante! Pontualidade no caso.<\/p>\n<p>Estamos a bordo.<\/p>\n<p>O Express oferece o belo aspecto de uma galeota imperial que vai suspender<br \/>\nferro&#8230;<\/p>\n<p>Fazia gosto ver a ordem e o asseio que apresentavam o conv\u00e9s e a c\u00e2mara.<\/p>\n<p>Tinha-se acabado de fazer a baldea\u00e7\u00e3o matinal. Marinheiros,<br \/>\nperfeitamente uniformizados, ocupavam-se em limpar as chapas de metal; outros<br \/>\ncolhiam cabos \u00e0 proa; outros l\u00e1 cima, nas vergas, atavam ou<br \/>\ndesatavam andarivelos, muito rubros, com os seus bon\u00e9s de pano azul-marinho<br \/>\nonde se lia o nome do navio, em letras cor de ouro: &#8211; Express.<\/p>\n<p>A c\u00e2mara &#8211; uma sala espa\u00e7osa e clara, elegantemente adornada<br \/>\n&#8211; ocupava um ter\u00e7o do pontal, a r\u00e9, na primeira coberta. Embaixo,<br \/>\nna segunda coberta, ficavam os camarotes e a pra\u00e7a de armas.<\/p>\n<p>Servido o fine cognac, que os americanos de bom tratamento n\u00e3o dispensam<br \/>\nnos dias invernosos, o captain subiu ao passadi\u00e7o e deu a voz de suspender.<br \/>\nA m\u00e1quina tocou adiante e o Express come\u00e7ou a singrar o Hudson.<\/p>\n<p>Variad\u00edssimo o aspecto da paisagem. Ora o rio se estreita em curvas<br \/>\ncaprichosas, ora vai-se alargando, sempre manso, banhando cidades e aldeias,<br \/>\nl\u00edmpido \u00e0s vezes, outras vezes toldado e sombrio.<\/p>\n<p>West Point fica a duzentas milhas de Brooklin.<\/p>\n<p>Passamos o dia inteiro e a noite em viagem para amanhecermos em nosso destino.<\/p>\n<p>Novas manifesta\u00e7\u00f5es de simpatia. Oficiais e alunos da Escola<br \/>\nMilitar esperavam-nos com aquele sorriso af\u00e1vel de gente hospitaleira,<br \/>\nque logo se traduz em franca e sincera camaradagem.<\/p>\n<p>A Escola estava acampada perto do estabelecimento, em exerc\u00edcios pr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>In\u00fameras barraquinhas de lona, alinhadas em simetria, alvejavam, como<br \/>\num acampamento de bedu\u00ednos, guardadas por sentinelas que rondavam de<br \/>\narma ao ombro, perfilando-se de vez em quando em contin\u00eancia a um oficial<br \/>\nque passava.<\/p>\n<p>Cada barraca abrigava cinco a seis alunos que se rendiam pontualmente na<br \/>\nsentinela.<\/p>\n<p>Enquanto um rondava, grave e silencioso, de mochila \u00e0s costas e espingarda<br \/>\nao ombro, os outros divertiam-se a trocar socos, a jogar o domin\u00f3,<br \/>\na apostar corridas, at\u00e9 que o tambor ou a cometa os chamasse \u00e0<br \/>\nforma. Ent\u00e3o, com uma rapidez extraordin\u00e1ria, lestos, vivos<br \/>\ne fortes, corriam todos a seus postos, e, em menos de um minuto, estava formada<br \/>\na companhia.<\/p>\n<p>Cada aluno era um verdadeiro soldado.<\/p>\n<p>Alegres, o sangue a pular-lhes no rosto, cheios de sa\u00fade, tesos, empinados,<br \/>\nquadris largos, esp\u00e1duas amplas, todos se pareciam em robustez f\u00edsica.<\/p>\n<p>Uns rapag\u00f5es sadios!<\/p>\n<p>Notei mesmo certa propens\u00e3o dos americanos para o militarismo. Parece<br \/>\nque a educa\u00e7\u00e3o militar, adapta\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios<br \/>\nrigorosos na disciplina do corpo, \u00e9 o \u00fanico meio de obterem-se<br \/>\nhomens robustos e cumpridores do dever. A Escola de West Point \u00e9, sem<br \/>\nexagero um exemplo raro de estabelecimentos desse g\u00eanero. E n\u00e3o<br \/>\nera sem uma ponta de tristeza que n\u00f3s, brasileiros &#8211; ra\u00e7a degenerada<br \/>\ne linf\u00e1tica &#8211; v\u00edamos criar-se assim uma ra\u00e7a forte e<br \/>\nalegre com todos os caracteres de virilidade e independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Tive ocasi\u00e3o de assistir a uma luta corporal entre dois alunos, competentemente<br \/>\narmados de luvas de camur\u00e7a, rosto a descoberto. Pegaram-se a socos,<br \/>\num defronte do outro, calmos e convictos, como se estivessem cometendo uma<br \/>\nnobre a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No fim de alguns minutos, o agressor estava com o rosto inchado, escorrendo<br \/>\nsangue, os olhos vermelhos, injetados, e a luta acabava com um abra\u00e7o<br \/>\nentre os dois contendores. O mais forte foi aclamado pelos companheiros, teve<br \/>\no pr\u00eamio de sua robustez.<\/p>\n<p>\u00c9 talvez um duro sistema de educa\u00e7\u00e3o esse, mas incontestavelmente<br \/>\no mais acertado e eficaz.<\/p>\n<p>Simples quest\u00e3o de ra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"16\"><\/a>CAP\u00cdTULO XVI<\/h4>\n<p>Estava terminada a nossa esta\u00e7\u00e3o de quase dois meses em Nova<br \/>\nIorque.<\/p>\n<p>No dia 30 de julho o Barroso deixou aquele porto em dire\u00e7\u00e3o<br \/>\na Newport, outra cidade dos Estados Unidos, ref\u00fagio da popula\u00e7\u00e3o<br \/>\naristocr\u00e1tica nos quentes dias de ver\u00e3o. Uma perfeita cidade<br \/>\nbalne\u00e1ria, muito fresca e saud\u00e1vel, \u00e0 beira-mar, olhando<br \/>\npara o largo oceano e recebendo-lhe as emana\u00e7\u00f5es salinas, com<br \/>\num Cassino e um Passeio P\u00fablico.<\/p>\n<p>Os banqueiros e a gente rica de Nova Iorque costumam fazer a\u00ed o seu<br \/>\nninho de ver\u00e3o, e, de vez em vez, para amenizar a vida mon\u00f3tona<br \/>\nque se leva nesse pequeno mundo de simplicidade e conforto, promovem regatas<br \/>\nna espl\u00eandida enseada que orla a cidade e que nesses dias de festa mar\u00edtima<br \/>\ntoma uma fei\u00e7\u00e3o ridente e caracter\u00edstica de aquarela<br \/>\ninglesa, com os seus cutters a vela, com os seus iates de recreio bordejando<br \/>\nao largo como um bando de gaivotas pousadas n&#8217;\u00e1gua.<\/p>\n<p>Apostam-se milh\u00f5es de libras. De Fran\u00e7a e de Inglaterra pr\u00edncipes<br \/>\ne lordes v\u00eam assistir e tomar parte no jogo.<\/p>\n<p>A regata \u00e9 um dos divertimentos prediletos dos americanos. Todas as<br \/>\ncidades mar\u00edtimas e fluviais dos Estados Unidos t\u00eam pelo menos<br \/>\num clube de regatas.<\/p>\n<p>Nota curiosa: em Newport n\u00e3o se bebe \u00e1lcool. \u00c9 proibida<br \/>\na importa\u00e7\u00e3o de bebidas que contenham esp\u00edrito, ou qualquer<br \/>\noutra subst\u00e2ncia nociva. N\u00e3o se encontra um s\u00f3 botequim<br \/>\nna cidade. Para tomarmos um refrigerante, uma simples limonada, fomos bater<br \/>\na uma farm\u00e1cia! Garantiram-nos que esse preceito contra o \u00e1lcool<br \/>\n\u00e9 escrupulosamente observado naquela cidade. Cust\u00e1vamos a acreditar,<br \/>\nmas, enfim, n\u00e3o havia jeito sen\u00e3o ser delicados.<\/p>\n<p>De resto, uma cidadezinha elegante e sossegada, Newport. O com\u00e9rcio<br \/>\na\u00ed \u00e9 quase nulo.<\/p>\n<p>No fim de oito dias o Barroso deixava de uma vez o pa\u00eds dos ianques,<br \/>\nfazendo-se de vela para os A\u00e7ores.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora n\u00e3o nos do\u00eda muito a saudade desse belo e prodigioso<br \/>\npa\u00eds. O regresso \u00e0 p\u00e1tria, depois de uma aus\u00eancia<br \/>\nde quase um ano, enchia-nos o cora\u00e7\u00e3o de alegria.<\/p>\n<p>N\u00e3o fora a perda de um companheiro em Nova Orleans e voltar\u00edamos<br \/>\ntodos, sem faltar ningu\u00e9m, sadios e fortes, cheios de impress\u00f5es<br \/>\nnovas e cheios de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Volt\u00e1vamos, sim, mas t\u00ednhamos deixado atr\u00e1s, em terra<br \/>\nestrangeira, num cemit\u00e9rio de Nova Orleans, um dos nossos camaradas.<\/p>\n<p>Traz\u00edamos uma convic\u00e7\u00e3o, e \u00e9 que nenhum povo<br \/>\nsabe compreender t\u00e3o bem o problema da vida humana como os americanos<br \/>\ndos Estados Unidos. A id\u00e9ia da morte n\u00e3o os preocupa: um ianque<br \/>\ntriste \u00e9 coisa rara e toma propor\u00e7\u00f5es de fen\u00f4meno.<\/p>\n<p>Eles, os americanos, s\u00e3o geralmente alegres, bem-dispostos, amigos<br \/>\ndo trabalho, compenetrados de seus deveres, e, acima de tudo, amam a sua p\u00e1tria<br \/>\nmais do que qualquer outro povo.<\/p>\n<p>A p\u00e1tria e a fam\u00edlia s\u00e3o os seus principais objetivos.<br \/>\nMenos ego\u00edstas que os ingleses, en\u00e9rgicos e resolutos, sobra-lhes<br \/>\ntempo e dinheiro para se divertirem.<\/p>\n<p>Esse povo verdadeiramente democr\u00e1tico n\u00e3o pede li\u00e7\u00f5es<br \/>\na pa\u00eds nenhum: engrandeceu \u00e0 custa de seus pr\u00f3prios esfor\u00e7os<br \/>\ne dia a dia prospera, assombrando o mundo com as suas empresas colossais.<\/p>\n<p>Se a Alemanha representa no s\u00e9culo XIX a p\u00e1tria das ci\u00eancias<br \/>\nmorais, aos Estados Unidos compete o primeiro lugar na ordem dos pa\u00edses<br \/>\nque t\u00eam concorrido grandemente para o aperfei\u00e7oamento e bem-estar<br \/>\nhumanos.<\/p>\n<p>Enquanto as na\u00e7\u00f5es da Europa digladiam-se numa luta cont\u00ednua,<br \/>\nperdendo na guerra o que dificilmente acumularam em poucos anos de paz, a<br \/>\ngrande na\u00e7\u00e3o americana deixa-se estar quieta e desarmada, sem<br \/>\nex\u00e9rcito e sem marinha, confiada no seu pr\u00f3prio valor, no patriotismo<br \/>\nde seus filhos, certa de que, num dado momento, cada cidad\u00e3o, cada<br \/>\namericano saber\u00e1 cumprir com hero\u00edsmo o seu dever e honrar as<br \/>\nsuas tradi\u00e7\u00f5es de povo independente e forte.<\/p>\n<p>Go ahead! never mind! help yourself! &#8211; eis a m\u00e1xima de todo ianque.<br \/>\nEles n\u00e3o a esquecem nunca e marcham desassombradamente na vida, como<br \/>\nquem tem absoluta confian\u00e7a no pr\u00f3prio valor.<\/p>\n<p>Cear\u00e1, 1890.<\/p>\n<p>Fonte:<br \/>\nTenta\u00e7\u00e3o &#8211; No Pa\u00eds dos Ianques &#8211; Adolfo Caminha &#8211; Livraria<br \/>\nJos\u00e9 Ol\u00edmpio Editora -1979<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo\u00a0I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo\u00a0III Cap\u00edtulo\u00a0IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV Cap\u00edtulo XV &nbsp; INTRODU\u00c7\u00c3O TAINE, o glorioso Taine, o querido fil\u00f3sofo cuja obra admir\u00e1vel tem sido uma esp\u00e9cie de b\u00fassola [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-90321","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>No Pa\u00eds dos Ianques - Adolfo Caminha, Obra<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"No Pa\u00eds dos Ianques - Adolfo Caminha, Obra, Livro, Cr\u00f4nicas, Literatura, Simbolismo, No Pa\u00eds dos Ianques - Adolfo Caminha\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"No Pa\u00eds dos Ianques - Adolfo Caminha, Obra\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"No Pa\u00eds dos Ianques - Adolfo Caminha, Obra, Livro, Cr\u00f4nicas, Literatura, Simbolismo, No Pa\u00eds dos Ianques - Adolfo Caminha\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/no-pais-dos-ianques-adolfo-caminha\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2016-12-23T12:49:16+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2017-03-24T13:47:28+00:00\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"124 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/no-pais-dos-ianques-adolfo-caminha#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/no-pais-dos-ianques-adolfo-caminha\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"No Pa\u00eds dos Ianques &#8211; 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