{"id":90309,"date":"2016-12-23T10:12:54","date_gmt":"2016-12-23T12:12:54","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=90309"},"modified":"2016-12-23T10:12:54","modified_gmt":"2016-12-23T12:12:54","slug":"tentacao-adolfo-caminha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tentacao-adolfo-caminha","title":{"rendered":"Tenta\u00e7\u00e3o &#8211; Adolfo Caminha"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table width=\"750\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\"><a class=\"links\" href=\"#1\"><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Cap\u00edtulo\u00a0I<\/strong><\/span><\/a><strong><span style=\"font-size: medium;\"><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n<\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\"><span style=\"font-size: medium;\"><strong><span style=\"font-size: medium;\"><a class=\"links\" href=\"#3\">Cap\u00edtulo\u00a0III<\/a><\/span><\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"font-size: medium;\"><a class=\"links\" href=\"#4\">Cap\u00edtulo\u00a0IV<\/a><\/span><\/strong> <\/span><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: medium;\"> <a class=\"links\" href=\"#5\"><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Cap\u00edtulo\u00a0V<\/strong><\/span><\/a><strong><span style=\"font-size: medium;\"><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/span><\/strong><br \/>\n<\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Raul Pomp\u00e9ia, o mais original e correto escritor brasileiro de seu\u00a0tempo.<\/p>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>Cap\u00edtulo I<\/h4>\n<p>&#8211; Ora, sempre vamos ao Rio de Janeiro, ao grande e espetaculoso Rio de Janeiro!<br \/>\n&#8211; exclamou Evaristo, pousando o chap\u00e9u, com ar de triunfo. &#8211; \u00c9<br \/>\ncomo l\u00e1 diz o outro: &#8211; quem espera&#8230; Eu nunca me enganei com o Lu\u00eds&#8230;<br \/>\nnunca!<\/p>\n<p>Sa\u00edam-lhe em jorro as palavras, num tom quente de vit\u00f3ria,<br \/>\nde aclama\u00e7\u00e3o, de regozijo.<\/p>\n<p>Adelaide n\u00e3o o compreendeu logo, e, sem o compreender, exultava diante<br \/>\nda intempestiva alegria do marido, com os olhos nele, ansiosa.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9, homem de Deus, que foi&#8230; Que mist\u00e9rio!<\/p>\n<p>&#8211; Nada, filha, nada; estamos aqui, estamos no Rio de Janeiro &#8211; ouviste? &#8211;<br \/>\nno grandioso Rio de Janeiro!<\/p>\n<p>Ela sorriu com um muxoxo:<\/p>\n<p>&#8211; Brincadeira!<\/p>\n<p>&#8211; Brincadeira? Telegrama do Lu\u00eds Furtado. Um emprego no Banco Industrial&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 do telegrama? &#8211; perguntou Adelaide, arredando o cabelo dos<br \/>\nolhos e com o mesmo sorriso de incredulidade.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1 est\u00e1, no bolsinho; recebi quando menos esperava.<\/p>\n<p>E, desdobrando o papel:<\/p>\n<p>&#8211; &#8216;Emprego Banco Industrial garantido. Venha. &#8211; Lu\u00eds.&#8221;<\/p>\n<p>Foram entrando ambos para a sala de jantar &#8211; Evaristo um pouco apressado.<\/p>\n<p>&#8211; Tu n\u00e3o imaginas &#8211; ia ele dizendo, sem se voltar para a mulher -,<br \/>\ntu n\u00e3o imaginas como estou alegre! No Rio de Janeiro a coisa \u00e9<br \/>\noutra! Um homem adquire rela\u00e7\u00f5es, ganha fama e, quando pensa,<br \/>\ntem sua economiazinha&#8230; Quem vai ao Rio, ipso facto, vai \u00e0 Europa.<br \/>\nOra, digam l\u00e1 para que me tem servido a carta de bacharel? Para nada,<br \/>\npara cois\u00edssima alguma! Bacharel em prov\u00edncia \u00e9 objeto<br \/>\nde luxo e eu estou farto de mis\u00e9rias!<\/p>\n<p>Adelaide, meio triste, perguntou-lhe se queria jantar.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o? Imediatamente. Hoje \u00e9?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ter\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Domingo h\u00e1 vapor e eu tenho muito que fazer. Hoje mesmo, acabando<br \/>\ndaqui, vou telegrafar ao Lu\u00eds. Manda botar a sopa.<\/p>\n<p>&#8211; Jesus, que sofreguid\u00e3o, Evaristo! Ao menos tira o palet\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; Qual palet\u00f3! Daqui para o Tel\u00e9grafo e amanh\u00e3, se Deus<br \/>\nquiser, os jornais d\u00e3o noticia da minha ida ao Rio. Um emprego no Banco<br \/>\nIndustrial do Rio de Janeiro \u00e9 papa-fina. J\u00e1 ouviste falar no<br \/>\nBanco Industrial?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 um excelente emprego &#8211; um empreg\u00e3o!<\/p>\n<p>Adelaide pediu o jantar \u00e0 porta da cozinha e veio sentar-se \u00e0<br \/>\nmesa.<\/p>\n<p>Eram pobres, de uma pobreza honesta e limpa. Moravam nos arredores da cidade,<br \/>\nnum lugar chamado Coqueiros, onde a vida era quieta e ningu\u00e9m os ia<br \/>\nincomodar nas horas de descanso. Assim que desciam as primeiras sombras da<br \/>\nnoite, ca\u00eda todo o bairro numa extraordin\u00e1ria mudez, num sil\u00eancio<br \/>\nde aldeia feliz, cortado, apenas, em noites de lua, pelo choro melanc\u00f3lico<br \/>\ndalgum viol\u00e3o bo\u00eamio que passava dizendo hist\u00f3rias de<br \/>\namor&#8230; A pr\u00f3pria esta\u00e7\u00e3o do trem era um pouquinho longe<br \/>\nda casa em que moravam.<\/p>\n<p>Evaristo, por\u00e9m, tinha suas ambi\u00e7\u00f5es e n\u00e3o podia<br \/>\ncontentar-se com aquela vida de jesu\u00edta. O Rio de Janeiro atra\u00eda-o<br \/>\npara as grandes lutas, para cometimentos estrondosos, que o celebrizassem<br \/>\ndalguma forma. Rapazes, seus conhecidos (o Lu\u00eds Furtado era um deles)<br \/>\nviviam muito bem na Corte &#8211; formados, gozando de nomeada na advocacia, no<br \/>\nmagist\u00e9rio; outros, que nem sabiam o b\u00ea-a-b\u00e1 do direito,<br \/>\nelogiados na literatura, na imprensa, em tudo! Lu\u00eds Furtado, por exemplo,<br \/>\nLu\u00eds Furtado, ele o conhecia desde crian\u00e7a, desde os bancos<br \/>\ncolegiais, quando ambos cursavam o Liceu; eram amigos, amiguinhos como dois<br \/>\nirm\u00e3os. Pois bem, Lu\u00eds Furtado n\u00e3o tinha nenhum preparat\u00f3rio,<br \/>\nfora p\u00e9ssimo estudante de latim, na aula do Padre Lustosa, de franc\u00eas,<br \/>\ne mesmo da l\u00edngua de Cam\u00f5es; no entanto, estava muit\u00edssimo<br \/>\nbem colocado no Rio &#8211; podia-se dizer que era dono de jornal, influ\u00eancia<br \/>\nliter\u00e1ria e quase capitalista! E ele, Evaristo? Formado, bacharel em<br \/>\ndireito, autor de muitos escritos, no entanto era aquilo: duzentos mil-r\u00e9is<br \/>\n&#8211; uma vergonha &#8211; casa em Coqueiros, e, quanto a futuro, temos conversado!<\/p>\n<p>&#8211; E ou n\u00e3o \u00e9 verdade o que eu digo? &#8211; perguntava ele \u00e0<br \/>\nmulher.<\/p>\n<p>Esta confirmava: &#8220;- N\u00e3o dizia que n\u00e3o; mas o tal Rio de<br \/>\nJaneiro, o tal Rio de Janeiro&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Inven\u00e7\u00f5es, minha mulher, inven\u00e7\u00f5es da gente<br \/>\nque n\u00e3o tem o que fazer. O Rio de Janeiro n\u00e3o \u00e9, nem<br \/>\nnunca foi bicho-de-sete-cabe\u00e7as. Eu leio jornais e sei bem o que aquilo<br \/>\n\u00e9. Voc\u00ea ver\u00e1 com os pr\u00f3prios olhos. Falam muito<br \/>\nnas francesas do Largo do Rocio, nos teatros, na jogatina. Ora, isso em toda<br \/>\nparte h\u00e1; o v\u00edcio est\u00e1 no sangue do indiv\u00edduo;<br \/>\nquando o homem tem de ser coisa ruim, o \u00e9 no Rio de Janeiro, na Patag\u00f4nia,<br \/>\nem Paris&#8230; no inferno! Compreende agora que n\u00e3o me vou atirar ao luxo,<br \/>\nao pagode, \u00e0 bandalheira. O que eu quero simplesmente, exclusivamente,<br \/>\n\u00e9 fazer pela vida, ganhar algum dinheiro, prosperar, com os diabos!<\/p>\n<p>Adelaide, rapariga d\u00f3cil, de cora\u00e7\u00e3o meigo como o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas pombas, ouvia tudo, e, em extremo confiante no marido, achava que o que<br \/>\nele dizia era a pura verdade. Mas n\u00e3o deixava de o aconselhar que pensasse<br \/>\nbem, antes de tomar uma resolu\u00e7\u00e3o. Nada de vexame, para depois<br \/>\nn\u00e3o haver arrependimento.<\/p>\n<p>&#8211; Que arrependimento! Arrependido estou eu de j\u00e1 n\u00e3o ter metido<br \/>\nombros a uma viagem. A prov\u00edncia n\u00e3o bota ningu\u00e9m pra<br \/>\ndiante. Vamos \u00e0 Corte, vamos melhorar. Por que n\u00e3o hei de ser<br \/>\nfeliz, eu, que trabalho como trabalho, por qu\u00ea? Fa\u00e7a de conta<br \/>\nque comprei um bilhete. A vida \u00e9 simplesmente uma loteria: quest\u00e3o<br \/>\nde felicidade.<\/p>\n<p>Evaristo tomou um gole d&#8217;\u00e1gua, para rebater a sobremesa e ergueu-se,<br \/>\npalitando os dentes.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, sempre queres ir \u00e0 cidade? &#8211; perguntou Adelaide sem<br \/>\nse mover.<\/p>\n<p>&#8211; Imediatamente. Vou telegrafar ao Lu\u00eds e espalhar a grande not\u00edcia!<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o te demores, Evaristo; olha que fico s\u00f3 neste subterr\u00e2neo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nada, n\u00e3o me demoro nada: \u00e9 um pulo.<\/p>\n<p>E o futuro empregado do Banco Industrial do Rio de Janeiro, depois de acender<br \/>\num cigarro, largou-se, numa precipita\u00e7\u00e3o de m\u00e9dico que<br \/>\nvai a chamado urgent\u00edssimo.<\/p>\n<p>&#8211; &#8216;T\u00e9 logo, &#8216;t\u00e9 logo!<\/p>\n<p>Que pressa de homem! &#8211; sorriu Adelaide, ouvindo bater a porta da rua. &#8211; Que<br \/>\ndesespero!<\/p>\n<p>&#8211; Nh\u00f5 Varisto nem quis jantar! &#8211; acrescentou a cozinheira se aproximando.<\/p>\n<p>&#8211; Tira a mesa, Balbina. Sabes que vamos para o Rio de Janeiro?<\/p>\n<p>&#8211; Rio Janeiro, nh\u00e1 Delaida! Onde \u00e9 isso?<\/p>\n<p>Uma terra muito boa, muito bonita, onde mora o Imperador&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; Rio Janeiro&#8230;<\/p>\n<p>E a preta velha ficou a olhar o teto, a olhar, com a m\u00e3o no queixo,<br \/>\nmuito admirada.<\/p>\n<p>&#8211; Rio Janeiro&#8230; E a velha Balbina agora tem de procurar casa?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei; o Evaristo \u00e9 que h\u00e1 de dizer&#8230;<\/p>\n<p>As duas mulheres, a velha e a mo\u00e7a, trocaram um olhar vago, um olhar<br \/>\nquase sem express\u00e3o, mas onde havia uma sombra de tristeza. Balbina<br \/>\ncompreendeu, \u00e0quela simples not\u00edcia, que ia ficar abandonada<br \/>\nno seu rancho de negra velha, sem ganhar dinheiro, sem emprego, sem ocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8211; ela, que estimava tanto &#8220;nh\u00f4 Varisto&#8221; e &#8220;nh\u00e1<br \/>\nDelaida&#8221;, e que estava t\u00e3o bem naquela casa! Adelaide, por sua<br \/>\nvez, compreendia a tristeza de Balbina &#8211; pobre criatura quase octogen\u00e1ria,<br \/>\nque eles ainda conservavam por amizade, por gratid\u00e3o. Balbina fora<br \/>\nescrava do pai de Evaristo, falecido h\u00e1 anos. Adelaide compreendia<br \/>\ne ficava-se tamb\u00e9m a pensar no destino da velha, com uma ponta de saudade,<br \/>\nquase com remorso de a deixar. Porque Evaristo absolutamente n\u00e3o podia<br \/>\nlevar Balbina &#8211; uma mulher idosa, coitada, muito boazinha, mas muito velha,<br \/>\nsem for\u00e7as mesmo para resistir.<\/p>\n<p>Entretanto, a meiga senhora n\u00e3o quis precipitar as coisas. Mais vale<br \/>\numa esperan\u00e7a tarde que um desengano cedo. Deu a not\u00edcia por<br \/>\nlealdade e calou-se.<\/p>\n<p>\u00c0 noite voltou o marido, cerca de nove horas, com um embrulho debaixo<br \/>\ndo bra\u00e7o, o colarinho imprest\u00e1vel de suor, \u00e0s carreiras.<\/p>\n<p>&#8211; C\u00e1 estou! &#8211; disse entrando. &#8211; Agora \u00e9 arrumar os ba\u00fas<br \/>\ne tocar! Amanh\u00e3 os jornais d\u00e3o a minha ida, isto \u00e9, amanh\u00e3<br \/>\nestoura a bomba!<\/p>\n<p>Evaristo chamava &#8220;estourar a bomba&#8221; ao efeito que a not\u00edcia<br \/>\nhavia de produzir entre os seus inimigos, que n\u00e3o eram poucos.<\/p>\n<p>&#8211; Que embrulho trazes a\u00ed? &#8211; perguntou Adelaide, curiosa.<\/p>\n<p>&#8211; Um palet\u00f3 de alpaca para a viagem.<\/p>\n<p>Adelaide cruzou as m\u00e3os, meneando a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, homem vexado! Nem que fosses embarcar amanh\u00e3&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 tempo a perder, n\u00e3o h\u00e1 tempo a perder.<br \/>\nFa\u00e7a-se logo o que se tem de fazer!<\/p>\n<p>&#8211; Quando h\u00e1 vapor?<\/p>\n<p>&#8211; Domingo: o Maranh\u00e3o. Hoje \u00e9 ter\u00e7a, n\u00e3o \u00e9?<br \/>\nQuarta, quinta, sexta e s\u00e1bado, apenas quatro dias para os preparos<br \/>\nde viagem. Nada!<\/p>\n<p>&#8211; E a Balbina? &#8211; inquiriu Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; A Balbina fica&#8230; n\u00e3o h\u00e1 rem\u00e9dio. Que vai ela fazer<br \/>\nao Rio? Nada de criados, por enquanto; as despesas s\u00e3o muitas e eu<br \/>\nn\u00e3o posso arcar&#8230;<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o de Adelaide comoveu-se ante aquele decreto formal<br \/>\nde Evaristo. &#8211; Pobre da negra: t\u00e3o boazinha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que queres? \u00c9 a vida. Ela que procure outra casa. Est\u00e1 livre,<br \/>\nest\u00e1 senhora de si.<\/p>\n<p>E foram-se recolher, \u00e0 hora acostumada, sempre falando na viagem,<br \/>\nno embarque, nas despedidas &#8211; Evaristo arquitetando planos, construindo castelos,<br \/>\nlembrando uma coisa, outra&#8230;<\/p>\n<p>Da\u00ed a quatro dias, com efeito, embarcava o futuro representante do<br \/>\nBanco Industrial. Foi um acontecimento, em Coqueiros, a ida de &#8220;dona<br \/>\nAdelaide&#8221; para a Corte, um verdadeiro acontecimento, por que todos a<br \/>\nestimavam, todos queriam bem a ela, mesmo os estranhos, que s\u00f3 a conheciam<br \/>\nde vista.<\/p>\n<p>Balbina chorou a noite inteira, sem deixar o cachimbo, que lhe pendia dos<br \/>\nbei\u00e7os tr\u00eamulos, fungando e resmoneando. &#8220;- S\u00f3 os<br \/>\nabandonaria, quando eles, nh\u00f4 Varisto e nh\u00e1 Delaida, dobrassem<br \/>\na esquina&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Deixe estar, Balbina, deixe estar que hei de lhe mandar umas coisas do<br \/>\nRio &#8211; consolava Adelaide. &#8211; Tamb\u00e9m voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\n\u00e9 mulher para sair dos seus c\u00f4modos.<\/p>\n<p>&#8211; E, nh\u00e1 Delaida, \u00e9 assim memo.<\/p>\n<p>E a velha enxugava os olhos com a aba do casaco.<\/p>\n<p>&#8211; E, nh\u00e1 Delaida, \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Um carro de aluguel esperava os viajantes, enquanto Evaristo, pingando suor,<br \/>\nconclu\u00eda umas arruma\u00e7\u00f5es no fundo da maleta, e Adelaide,<br \/>\nassoando as l\u00e1grimas, em toilette de gorgor\u00e3o, abanava-se na<br \/>\nsala de jantar.<\/p>\n<p>&#8211; Pronto? &#8211; perguntou de repente o bacharel.<\/p>\n<p>&#8211; Eu estou pronta&#8230; respondeu a esposa, devagar, numa voz comovida.<\/p>\n<p>E, da\u00ed a pouco, a velha Balbina se atirava aos p\u00e9s de Adelaide,<br \/>\nchorando, solu\u00e7ando, agarrando-a espetaculosamente pelas pernas, numa<br \/>\ndolorosa cena de l\u00e1grimas e exclama\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Deus a leve, nh\u00e1 Delaida&#8230; v\u00e1 com Deus!&#8230; N\u00e3o lhe<br \/>\nhei de querer mal, n\u00e3o, minha filha&#8230;<\/p>\n<p>Adelaide &#8211; aquele cora\u00e7\u00e3o terno de ave mansa &#8211; chorava tamb\u00e9m,<br \/>\num choro mudo que pungia.<\/p>\n<p>&#8211; Basta, basta! &#8211; interrompeu Evaristo, limpando a face magra. &#8211; Acabem com<br \/>\nisso&#8230;<\/p>\n<p>No fundo, ele tamb\u00e9m estava comovido, e homem nervoso, n\u00e3o<br \/>\npodia ver outra pessoa chorar.<\/p>\n<p>O boleeiro perguntou para dentro se era s\u00f3 a caixa de chap\u00e9u,<br \/>\na maleta e a gaiola&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 &#8211; respondeu Evaristo.<\/p>\n<p>Adelaide embarcou aos olhos curiosos da vizinhan\u00e7a, que tinha o ar<br \/>\ncompungido, depois embarcou Evaristo, ouviu-se um &#8211; adeusinho! &#8211; e o carro<br \/>\nestremeceu.<\/p>\n<p>Balbina, em p\u00e9 no meio da rua, levava ainda uma vez a aba do casaco<br \/>\naos olhos.<\/p>\n<p>&#8230;Foi assim que o bacharel Evaristo de Holanda se desenterrou de Coqueiros<br \/>\n&#8211; &#8220;humilde e saudoso lugarejo de prov\u00edncia&#8221; &#8211; como depois<br \/>\nmandava dizer, em carta aos amigos.<\/p>\n<p>Figurava a Corte do Imp\u00e9rio uma terra legend\u00e1ria de aventuras<br \/>\ne de muito dinheiro, onde, com algum trabalho, qualquer homenzinho podia fazer<br \/>\nfortuna em poucos anos, ou, quando mais n\u00e3o fosse, galgar posi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nemin\u00eancias cobi\u00e7adas, conquistar nome &#8211; celebrizar-se. Devorava<br \/>\nos jornais do Rio, na biblioteca; lia tudo quanto na grande capital se publicava<br \/>\nem prosa e verso; n\u00e3o era estranho ao movimento liter\u00e1rio, aos<br \/>\nsaltos-mortais da pol\u00edtica, \u00e0s artes; interessava-se, como republicano,<br \/>\npela sa\u00fade do monarca e pelos esc\u00e2ndalos mais ou menos ruidosos<br \/>\nda Rua do Ouvidor; enfim, o Rio de Janeiro era, a seus olhos est\u00e1ticos<br \/>\nde provinciano, a quintess\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o &#8211; Paris<br \/>\nem ponto pequeno.<\/p>\n<p>Formado em direito, casara aos vinte e oito anos com uma rapariga \u00f3rf\u00e3,<br \/>\nchamada Adelaide &#8211; essa de cora\u00e7\u00e3o meigo como o das pombas &#8211;<br \/>\nque o amava desde o primeiro ano do curso e que o vira certo domingo numa<br \/>\nfesta de igreja. Adelaide era pobre, mas isso o n\u00e3o demovia de suas<br \/>\nboas inten\u00e7\u00f5es: queria exatamente uma mo\u00e7a pobre, que<br \/>\no idolatrasse. Ele tamb\u00e9m nada possu\u00eda, mesmo nada: estudara<br \/>\n\u00e0 custa de um parente do Rio Grande, que lhe estabelecera parca mesada<br \/>\nat\u00e9 que recebesse o t\u00edtulo de bacharel. Antes, por\u00e9m,<br \/>\ndo \u00faltimo ano acad\u00eamico, p\u00f4de arranjar (a gente sempre<br \/>\nse arranja&#8230;) um emprego, n\u00e3o muito rendoso, que conservou, a despeito<br \/>\nda in\u00fatil carta doutoral, renunciando, com extraordin\u00e1ria isen\u00e7\u00e3o,<br \/>\n\u00e0 esmola que lhe vinha todos os meses do Rio Grande. &#8211; &#8220;Era tempo<br \/>\nde se libertar!&#8221;<\/p>\n<p>N\u00e3o consultou a ningu\u00e9m sobre o casamento; um belo dia soube-se<br \/>\nque o Holanda, filho do finado juiz de direito, estava casado com uma mo\u00e7a<br \/>\npobre, mas &#8220;bonitinha&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>E estava. Casou sem ru\u00eddo, sem luxo, indo logo morar em Coqueiros<br \/>\ne acabando por achar aquilo muito fora da civiliza\u00e7\u00e3o, incompat\u00edvel<br \/>\ncom a sua natureza irrequieta de homem que n\u00e3o veio ao mundo para morrer<br \/>\nobscuro &#8220;num lugarejo humilde de prov\u00edncia&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Lu\u00eds Furtado \u00e9 que lhe metera na cabe\u00e7a o Rio de Janeiro.<br \/>\n&#8211; &#8220;Por que n\u00e3o te mudas para o Rio? &#8211; escrevia ele. &#8211; Uma coisa<br \/>\n\u00e9 a gente viver na prov\u00edncia e outra coisa \u00e9 respirar<br \/>\nnuma atmosfera civilizada. Sei de mim que estou muito bem, muit\u00edssimo<br \/>\nbem. Dou-me com o Jo\u00e3o Alfredo e com os principais personagens da pol\u00edtica<br \/>\nfluminense. Minha mulher est\u00e1 gorda e n\u00e3o quer saber de outra<br \/>\nvida; diz que o Rio de Janeiro \u00e9 um para\u00edso (express\u00e3o<br \/>\ndela) e que tudo o mais, que n\u00e3o for o Rio de Janeiro, no Brasil, \u00e9<br \/>\ncaboclada, \u00e9 selvageria. O Raul, meu filho mais velho, botei-o no col\u00e9gio,<br \/>\nno Internato Meneses Vieira, por insuport\u00e1vel. A Julinha \u00e9 que<br \/>\nest\u00e1 um encanto, uma del\u00edcia! J\u00e1 fala, j\u00e1 diz<br \/>\nmam\u00e3e, papai, bala, tot\u00f3&#8230; N\u00e3o imaginas. \u00c9 uma<br \/>\ngra\u00e7a ouv\u00ed-la chamar &#8211; diabo, diabo, diabo! Enfim, meu Evaristo,<br \/>\na nossa casa, em Botafogo, se n\u00e3o \u00e9 um pal\u00e1cio, tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 uma choupana&#8230; Vamos entrar na esta\u00e7\u00e3o<br \/>\nl\u00edrica.&#8221;<\/p>\n<p>E conclu\u00eda instando para que o amigo fizesse um sacrif\u00edcio,<br \/>\nabandonasse aquela vida de prov\u00edncia, trocando a monotonia de Coqueiros<br \/>\npela Rua do Ouvidor, pela civiliza\u00e7\u00e3o, por um chalezinho em<br \/>\nBotafogo.<\/p>\n<p>Evaristo ficava triste, mordia a ponta do bigode, passava a m\u00e3o na<br \/>\ncabe\u00e7a, refletindo, parafusando, oscilando entre o presente e o futuro,<br \/>\nentre a quieta\u00e7\u00e3o provinciana e o tumulto de uma cidade grande<br \/>\ncheia de movimento e de sensa\u00e7\u00f5es. &#8216;T\u00e9 que um dia, n\u00e3o<br \/>\nobstante os ing\u00eanuos receios de Adelaide, optou pelo Rio de Janeiro<br \/>\ne escreveu a Lu\u00eds Furtado, autorizando-o a arranjar-lhe um emprego<br \/>\ndecente, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>Meses depois Lu\u00eds Furtado comunicava-lhe a sua nomea\u00e7\u00e3o<br \/>\npara o Banco Industrial.<\/p>\n<p>O Maranh\u00e3o chegou ao Rio num domingo luminoso e calmo. Adelaide enjoara<br \/>\nhorrivelmente, sem sair do camarote, sem gozar dos aspectos da viagem, numa<br \/>\nindol\u00eancia est\u00fapida, com a cabe\u00e7a a doer, os olhos mortos<br \/>\nde fadiga, debaixo dos len\u00e7\u00f3is, muit\u00edssimo p\u00e1lida.<br \/>\nOh, aquele maldito cheiro de azeite e de alcatr\u00e3o, que vinha da proa,<br \/>\ndava-lhe tonteiras, embrulhava-lhe o est\u00f4mago, causava-lhe arrepios<br \/>\nde n\u00e1usea! Sempre meiga, por\u00e9m, n\u00e3o se queixava, n\u00e3o<br \/>\nse revoltava contra o marido, que, em parte, era o culpado. Bem que estavam<br \/>\ntranq\u00fcilos na prov\u00edncia!<\/p>\n<p>Evaristo foi de uma solicitude incompar\u00e1vel, de um carinho extremoso.<br \/>\nEla nunca o vira t\u00e3o am\u00e1vel, se \u00e9 que se podia ser mais<br \/>\nam\u00e1vel do que ele sempre fora. Todos a bordo notavam que &#8220;aquele<br \/>\nmo\u00e7o de palet\u00f3 de alpaca amarela&#8221; trazia os criados numa<br \/>\nroda-viva, ocupava-os a todo instante, e era s\u00f3 abrindo e fechando<br \/>\no camarote, subindo e descendo escadas, numa az\u00e1fama. E entravam bandejas<br \/>\ne sa\u00edam bandejas com iguarias especiais, com limonadas e frutas, e<br \/>\nEvaristo ainda achava que era pouco!<\/p>\n<p>Os passageiros desconfiavam de tanta dedica\u00e7\u00e3o e piscavam-se<br \/>\nos olhos e sublinhavam risinhos de instintiva mal\u00edcia. N\u00e3o era<br \/>\nposs\u00edvel que fossem casados! Qual casados! Donde sa\u00edra aquele<br \/>\nexemplo de marido?<\/p>\n<p>E falava-se baixinho no camarote n0 16 e no mo\u00e7o de palet\u00f3<br \/>\namarelo. Um caixeiro-viajante, que s\u00f3 andava de bin\u00f3culo a tiracolo<br \/>\ne sombrero de corti\u00e7a, afirmou que no camarote no 16 ia uma senhora<br \/>\nt\u00edsica; uma ocasi\u00e3o vira-a, de relance, no fundo do beliche,<br \/>\nmuito magrinha, coitada, quase a morrer&#8230; Outro passageiro dizia que era<br \/>\na m\u00e3e do &#8220;palet\u00f3 amarelo&#8221;, uma velha doente de reumatismo.<\/p>\n<p>Quando o Maranh\u00e3o largou ferro, Adelaide estava pronta para desembarcar.<br \/>\nA primeira pessoa que Evaristo viu da tolda na lancha do Arsenal de Guerra,<br \/>\nfoi o seu inestim\u00e1vel amigo Lu\u00eds Furtado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 ele, \u00f3 Adelaide? &#8211; perguntou, indicando um sujeito<br \/>\nalto, de cartola e sobrecasaca, muito aprumado na lancha.<\/p>\n<p>Adelaide conhecia-lhe o retrato.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 ele, sim, creio que \u00e9 ele&#8230;<\/p>\n<p>Nesse instante Lu\u00eds Furtado acenava para bordo com o len\u00e7o;<br \/>\nreconhecera o amigo; e de ambos os lados trocaram-se sinais de boas-vindas.<\/p>\n<p>Horas depois rodava um carro para Botafogo, conduzindo Evaristo de Holanda,<br \/>\na mulher e Lu\u00eds Furtado.<\/p>\n<p>A resid\u00eancia deste era uma excelente casa de dois andares, vistosa,<br \/>\nolhando para o Corcovado, nas imedia\u00e7\u00f5es do cemit\u00e9rio<br \/>\nde S. Jo\u00e3o Batista. Morava no primeiro andar; o segundo era ocupado<br \/>\npor uma fam\u00edlia estrangeira de vida misteriosa.<\/p>\n<p>Furtado quis mostrar que inda ora amigo do seu amigo, hospedando-o em casa,<br \/>\nacudindo-lhe \u00e0s primeiras necessidades. Ele, que se gabava tanto de<br \/>\naltas empresas no Rio de Janeiro, que dizia-se muit\u00edssimo bem colocado&#8221;,<br \/>\nna pra\u00e7a e na sociedade fluminense, que falava no L\u00edrico, em<br \/>\npersonagens eminentes da pol\u00edtica contempor\u00e2nea, despiu a vaidade<br \/>\nque ostentara de longe para com Evaristo, e agora fazia-se pequeno, sem import\u00e2ncia,<br \/>\n&#8220;humilde secret\u00e1rio do Banco Industrial&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Mod\u00e9stia&#8230; mod\u00e9stia &#8211; opunha Evaristo, batendo-lhe amigavelmente<br \/>\nna coxa.<\/p>\n<p>Adelaide sorria.<\/p>\n<p>Enquanto o carro rodava para Botafogo, iam os tr\u00eas conversando, abrindo-se,<br \/>\ndizendo novidades, perguntando pelos amigos. Os tr\u00eas, n\u00e3o, porque<br \/>\nAdelaide n\u00e3o falava, n\u00e3o dizia nada &#8211; com um ar ing\u00eanuo<br \/>\ne t\u00edmido.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Furtado provocou-a:<\/p>\n<p>&#8211; Vossa Excel\u00eancia que acha, minha senhora: Evaristo fez bem ou mal<br \/>\nvindo ao Rio?<\/p>\n<p>Ela sorriu ainda, mas respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Nem bem, nem mal&#8230; &#8211; voltando-se para o marido e catando um fio de algod\u00e3o<br \/>\nque brincava na roupa dele.<\/p>\n<p>&#8211; Esta minha mulher \u00e9 uma santa! &#8211; gracejou Evaristo.<\/p>\n<p>&#8211; Acredito, pois n\u00e3o! acredito &#8211; confirmou o secret\u00e1rio. &#8211;<br \/>\nNa minha opini\u00e3o, todas as mulheres s\u00e3o umas santas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh, isso n\u00e3o! &#8211; exclamou o outro. &#8211; Mais devagar&#8230; Mulheres conhe\u00e7o<br \/>\neu de g\u00eanio infernal, capazes de vender&#8230; Judas!<\/p>\n<p>&#8211; Qual! &#8211; duvidou Lu\u00eds com uma ponta de ironia.<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que ele achava qualquer coisa de puro no rosto sereno e meigo<br \/>\nde Adelaide, uns longes de pintura religiosa, uma translucidez m\u00edstica<br \/>\ne evocadora, qualquer coisa, enfim, que n\u00e3o sabia determinar. Olhava-a<br \/>\nde banda, enquanto dava aten\u00e7\u00e3o a Evaristo, como se quisesse<br \/>\ngravar bem, na mem\u00f3ria, aquele estranho tipo de brasileira.<\/p>\n<p>O carro parou. Tinham chegado.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 aqui &#8211; disse Lu\u00eds.<\/p>\n<p>E, r\u00e1pido, adiantou-se para oferecer a m\u00e3o a Adelaide.<\/p>\n<p>A rua estava, como de costume, silenciosa, muito banhada de luz, na calma<br \/>\ndo meio-dia.<\/p>\n<p>&#8211; Papai! Papai!<\/p>\n<p>Era o filho mais velho de Lu\u00eds, o Raul, que anunciava, berrando, as<br \/>\nsuas f\u00e9rias do domingo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 preciso gritar, meu filho, oh! &#8211; advertiu o secret\u00e1rio.<br \/>\nE para Evaristo: &#8211; C\u00e1 est\u00e1 o meu Raul. Hoje, como \u00e9 domingo,<br \/>\nveio passar o dia em casa com a m\u00e3e<\/p>\n<p>&#8211; Um homem! &#8211; exclamou Evaristo. &#8211; Que idade tem?<\/p>\n<p>&#8211; Nove anos&#8230; N\u00e3o \u00e9, meu filho?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, sim, papai; ainda vou fazer nove.<\/p>\n<p>&#8211; Um homem!<\/p>\n<p>Foram subindo a escada do sobrado.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui moro eu desde 882.<\/p>\n<p>&#8211; Boa casa, muito boa, tem quintal?<\/p>\n<p>&#8211; Um quintal\u00e3o! H\u00e1s de ver.<\/p>\n<p>Em cima, no primeiro andar, houve um rumor de passos precipitados, corridinhos<br \/>\nna ponta dos p\u00e9s, e de vozes falando baixo.<\/p>\n<p>&#8211; D. Sinh\u00e1 est\u00e1 a\u00ed, papai, comunicou o Raul.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, bem&#8230;<\/p>\n<p>Entraram para a sala de visitas.<\/p>\n<p>&#8211; Nada de cerim\u00f4nias &#8211; pediu Lu\u00eds Furtado. &#8211; Voc\u00eas agora<br \/>\n\u00e9 como se estivessem na pr\u00f3pria casa. Vai chamar tua m\u00e3e,<br \/>\nRaul.<\/p>\n<p>O pequeno saiu correndo.<\/p>\n<p>Adelaide, contrafeita, risonha por delicadeza, mas, em verdade, bem fora<br \/>\ndos seus h\u00e1bitos, ia notando intimamente, sem express\u00e3o de surpresa<br \/>\nno olhar, a perspectiva do in\u00edcio carioca. Enquanto esperava a mulher<br \/>\nde Furtado, abstra\u00eda-se na contempla\u00e7\u00e3o dos objetos que<br \/>\na cercavam agora, cada um dos quais era uma novidade para ela. Imobilizava-se,<br \/>\nretra\u00edda, quase esmagada pelo aspecto luxuoso e confort\u00e1vel<br \/>\nda mob\u00edlia, dos quadros, das tape\u00e7arias que ornavam a sala do<br \/>\nsecret\u00e1rio. E aquilo dava-lhe uma vol\u00fapia de bem-estar, uns<br \/>\narrepios de gozo calmo e de independ\u00eancia honesta que estava um pouco<br \/>\nna massa do seu sangue.<\/p>\n<p>&#8230; Foi interrompida nas suas reflex\u00f5es por D. Branca, esposa de Furtado,<br \/>\nque vinha entrando acompanhada de outra senhora mais mo\u00e7a e do Raul.<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230; &#8211; fez aquela, numa voz que n\u00e3o era bem de surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda te lembras da Branca, \u00f3 Evaristo?<\/p>\n<p>&#8211; Como n\u00e3o? &#8211; disse o bacharel, erguendo-se para cumprimentar as duas<br \/>\nsenhoras. &#8211; Lembro-me bem. Est\u00e1 um pouquinho mudada, est\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>D. Branca dirigiu-se a Adelaide, e beijaram-se.<\/p>\n<p>&#8211; Sua senhora inda \u00e9 muito mo\u00e7a! &#8211; observou a esposa de Furtado<br \/>\npara Evaristo. E apresentando a companheira: &#8211; Esta \u00e9 uma amiga nossa<br \/>\n&#8211; D. Sinh\u00e1, filha do desembargador Lousada&#8230;<\/p>\n<p>Raul, de m\u00e3os pra tr\u00e1s no meio da sala, n\u00e3o perdia palavra,<br \/>\nremoendo ocultas inten\u00e7\u00f5es brejeiras.<\/p>\n<p>Todos se sentaram, menos ele, e a conversa prolongou-se atrav\u00e9s dos<br \/>\ncostumes, da moda e da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>As duas senhoras estavam em toilette de ver\u00e3o, cada uma com o seu<br \/>\nleque fantasia. &#8211; D. Branca um pouco gorda, mas ainda frescalhona, parecendo<br \/>\nmais mo\u00e7a do que realmente era; a filha do desembargador muito derretida,<br \/>\nencobrindo, sob densa camada de p\u00f3 de arroz, a pele salpicada de sinaizinhos<br \/>\nindel\u00e9veis, uma rosa Petr\u00f3polis no seio; costumava passar os<br \/>\ndomingos em casa do &#8220;Sr. Furtado&#8221;, um dos bons amigos do velho Lousada.<\/p>\n<p>Evaristo achou-a pedante e feia; Adelaide tamb\u00e9m, na sua mudez obstinada.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do Raul, que mereceu a aten\u00e7\u00e3o dos circunstantes,<br \/>\nveio a Julinha nos bra\u00e7os da ama. O pai adorava-a, e tomou-a logo,<br \/>\nnum alvoro\u00e7o, numa grande festa de beijos que ela &#8211; o diabrete! &#8211; repugnava,<br \/>\nesperneando.<\/p>\n<p>&#8211; Como achas minha filha? &#8211; perguntou o secret\u00e1rio erguendo a menina<br \/>\nalto, nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Evaristo, lisonjeiro, fazendo gra\u00e7a para a crian\u00e7a, achou-a<br \/>\nmuito parecida com D. Branca, muit\u00edssimo parecida! Os olhos, ent\u00e3o,<br \/>\neram os de D. Branca!<\/p>\n<p>Adelaide, ao contr\u00e1rio, achou que ela &#8220;tinha ares do Sr. Furtado&#8221;.<br \/>\nO secret\u00e1rio exultou, porque, na verdade, Julinha era uma crian\u00e7a<br \/>\nlinda, muito rosada, muito loura, de olhos vivos e angelicais.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 aquele homem, minha filha?<\/p>\n<p>A pequena encarou Evaristo, sem responder.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9? &#8211; tornou Furtado. &#8211; Olhe bem para ele&#8230; quem \u00e9?<\/p>\n<p>Julinha amuou, desconfiada, e abriu a chorar.<\/p>\n<p>&#8211; Ta, ta, ta&#8230; n\u00e3o foi nada, n\u00e3o foi nada! \u00c9 o Evaristo,<br \/>\nminha filha &#8211; o Evaristo!<\/p>\n<p>&#8211; Menina! &#8211; ralhou D. Branca.<\/p>\n<p>Mas a pequerrucha debatia-se com os p\u00e9s e com as m\u00e3os, numa<br \/>\nc\u00f3lera rubra, num desespero: &#8211; Diabo! diabo! diabo!<\/p>\n<p>Todos riram, todos gostaram da assombrosa precocidade!<\/p>\n<p>&#8211; Saiu \u00e0 m\u00e3e &#8211; explicou Furtado, agora com um ar bonach\u00e3o<br \/>\nde pai que tudo perdoa aos filhos.<\/p>\n<p>D. Branca n\u00e3o protestou, e a menina foi conduzida para dentro. Falou-se<br \/>\ndepois nas acomoda\u00e7\u00f5es da casa. Evaristo e a mulher iam ocupar<br \/>\num quarto nos fundos, defronte da sala de jantar, vizinho \u00e0 \u00e1rea:<br \/>\num bom quarto espa\u00e7oso, forrado e com bico de g\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8211; Tanto inc\u00f4modo! &#8211; murmurou Evaristo.<\/p>\n<p>&#8211; Qual inc\u00f4modo!<\/p>\n<p>D. Branca entrou em familiaridades com Adelaide, franqueou-lhe a toilette,<br \/>\nmostrou-lhe o \u00e1lbum de retratos, o vestido de seda com que fora ao<br \/>\n\u00faltimo baile no Cassino, uma j\u00f3ia que a princesa lhe dera no<br \/>\ndia de seus anos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A princesa?&#8230;<\/p>\n<p>Sim, eram muito amigas, o pr\u00f3prio imperador podia-se dizer que era<br \/>\namigo do Furtado; at\u00e9 lhe prometera uma comiss\u00e3o \u00e0 Europa.<br \/>\nSim, a princesa, por que n\u00e3o? A princesa dava-se com muitas fam\u00edlias<br \/>\nno Rio de Janeiro, n\u00e3o tinha orgulho, apertava a m\u00e3o a todos&#8230;<br \/>\nBoa senhora! A mulher do desembargador Lousada era dama do Pa\u00e7o, tinha<br \/>\nintimidade com a imperatriz; por interm\u00e9dio dela \u00e9 que D. Branca<br \/>\nse relacionara com a princesa.<\/p>\n<p>D. Sinh\u00e1 confirmou: &#8211; &#8220;A mam\u00e3e era dama do Pa\u00e7o&#8230;&#8221;<br \/>\nEntraram ganhadores com a bagagem, que foi recolhida ao novo aposento de Evaristo.<br \/>\nRaul tomou conta da gaiola dos p\u00e1ssaros, onde refulgiam asas de corrupi\u00e3o<br \/>\ne de xex\u00e9u. Evaristo disse logo que o corrupi\u00e3o era do Furtado:<br \/>\npodia garantir a esp\u00e9cie; o xex\u00e9u, ele trazia para o diretor<br \/>\ndo Banco.<\/p>\n<p>E nesse andar escoou o domingo, com grande tristeza para o Raul, que no dia<br \/>\nseguinte voltava ao col\u00e9gio, pensando no corrupi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os h\u00f3spedes recolheram fatigados da viagem, morrinhentos de calor<br \/>\ne de cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>Adelaide, principalmente, queixava-se de uma dor na cabe\u00e7a e de &#8220;confus\u00e3o<br \/>\nnas id\u00e9ias&#8221;.<\/p>\n<p>Evaristo, para a consolar, disse que tamb\u00e9m estava com a cabe\u00e7a<br \/>\na arder. Trataram de se agasalhar na cama fresca e cheirosa a sab\u00e3o.<br \/>\nDa janela do quarto via-se luz no segundo andar, e n\u00e3o poucas vezes<br \/>\necoava embaixo, no fundo escuro da \u00e1rea, o som de uma cusparada.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, Adelaide, que achas do povinho?<\/p>\n<p>&#8211; Que povinho?<\/p>\n<p>&#8211; Da Branca e do Furtado&#8230; Assim&#8230; N\u00e3o se pode adiantar ju\u00edzo.<\/p>\n<p>&#8211; E a tal D. Sinh\u00e1? Oh, mulher feia!<\/p>\n<p>&#8211; Credo! &#8211; murmurou Adelaide. &#8211; Feia e pedante.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade: feia e pedante.<\/p>\n<p>&#8211; Fala baixo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Viste, ao jantar, quando ela abria a boca?<\/p>\n<p>&#8211; A m\u00e3e \u00e9 dama do Pa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Que est\u00e1s dizendo!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. D\u00e3o-se com a fam\u00edlia imperial.<\/p>\n<p>Adelaide respondia com os olhos fechados, morta de sono, \u00e0s perguntas<br \/>\ndo marido. Ele \u00e9 que n\u00e3o tinha sono, encantado com a sua nova<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o, ruminando programas de vida, conjeturando sobre o futuro,<br \/>\nsobre o dia de amanh\u00e3.<\/p>\n<p>E corria os olhos nos m\u00f3veis do quarto, no lavat\u00f3rio de ferro,<br \/>\nno saco de roupa, no cabide, nos menores objetos, como quem duvida de uma<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o nova.<\/p>\n<p>&#8211; Era, ent\u00e3o, verdade que estava no &#8220;grande&#8221; Rio de Janeiro!<\/p>\n<p>O que \u00e9 a gente se decidir! o que \u00e9 ter-se coragem!<\/p>\n<p>Meio acordado, meio dormindo, viu a casinha de Coqueiros, na prov\u00edncia,<br \/>\nentre \u00e1rvores, a Balbina, ca\u00edda aos p\u00e9s de Adelaide,<br \/>\n\u00e0 hora do embarque&#8230;, o Maranh\u00e3o, onde ia um rapazinho, estudante,<br \/>\nque tocava flauta, e o Furtado acenando para bordo&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II<\/h4>\n<p>D. BRANCA era mulher que, ao simpatizar com uma pessoa, n\u00e3o admitia<br \/>\nrestri\u00e7\u00f5es, e Adelaide, fosse pelos seus bonitos olhos, fosse<br \/>\npelos modos &#8211; que ningu\u00e9m os tinha mais acentuadamente provincianos<br \/>\n&#8211; caiu-lhe nas gra\u00e7as, merecendo um lugarzinho no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ndela.<\/p>\n<p>A esposa de Evaristo ficou sendo, em pouco, uma das melhores amigas da esposa<br \/>\nde Furtado, com extraordin\u00e1ria satisfa\u00e7\u00e3o para este,<br \/>\nque n\u00e3o ocultava a simpatia que lhe inspirava Adelaide.<\/p>\n<p>Naquela casa de Botafogo viviam todos como se constitu\u00edssem uma s\u00f3<br \/>\nfam\u00edlia, como se Evaristo fosse irm\u00e3o de Furtado e D. Branca<br \/>\nirm\u00e3 de Adelaide, intimamente unidos, querendo um o que o outro desejava,<br \/>\nn\u00e3o se contrariando em coisa alguma. De manh\u00e3 iam os dois homens<br \/>\npara o Banco, \u00e0 mesma hora, depois do almo\u00e7o, e ficavam as duas<br \/>\nna bela e encantadora harmonia de irm\u00e3s que se prezam, lendo, costurando,<br \/>\ntrocando confid\u00eancias na sala de jantar, enquanto n\u00e3o chegavam<br \/>\nos maridos &#8211; o Raul no col\u00e9gio e a pequena com a ama.<\/p>\n<p>Evaristo, por seu lado, ia conhecendo o Rio de Janeiro, inclusive a famosa<br \/>\nRua do Ouvidor, que ele pitorescamente alcunhava de &#8220;beco da perdi\u00e7\u00e3o&#8221;.<br \/>\nN\u00e3o gostava da Rua do Ouvidor; aquele zunzum de abelhas que desciam<br \/>\ne subiam num movimento cont\u00ednuo, aquela vozeria est\u00e9ril dos<br \/>\ncaf\u00e9s e das portas de loja, punham-no de mau humor, enchiam-lhe os<br \/>\nouvidos, irritavam-no, desequilibravam-lhe o sistema nervoso, ao mesmo tempo<br \/>\nque faziam-lhe confus\u00e3o no c\u00e9rebro habituado \u00e0 vida calma<br \/>\ne refletida de homem honesto. &#8211; &#8220;Evidentemente nascera provinciano e<br \/>\nhavia de morrer provinciano&#8221; &#8211; dizia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 um engano &#8211; opunha Furtado &#8211; \u00e9 mesmo uma grande tolice!<br \/>\nO homem, para ser homem \u00e0s direitas, carece de lutar, de sofrer as<br \/>\npequeninas mis\u00e9rias sociais&#8230; A natureza humana quer movimento, quer<br \/>\nemo\u00e7\u00f5es&#8230; quer vida, enfim. Todos n\u00f3s somos uns aventureiros<br \/>\nque andamos \u00e0 cata de fil\u00f5es de ouro&#8230;<\/p>\n<p>Evaristo argumentava, por\u00e9m, que n\u00e3o dizia o contr\u00e1rio,<br \/>\nque tudo aquilo era uma grande verdade, mas que ningu\u00e9m podia ir de<br \/>\nencontro \u00e0 natureza. Era o primeiro a reconhecer os benef\u00edcios<br \/>\ne as incalcul\u00e1veis belezas da civiliza\u00e7\u00e3o; mas tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o havia negar que a t\u00edtulo de civiliza\u00e7\u00e3o, emitia-se<br \/>\nmuita moeda falsa, muito princ\u00edpio errado &#8211; muita bandalheira!<\/p>\n<p>E ficavam-se a olhar um para o outro.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio do Banco Industrial conhecia o Rio de Janeiro de um extremo<br \/>\nao outro e gozava mesmo de muito boas rela\u00e7\u00f5es na sociedade<br \/>\nfluminense, n\u00e3o tanto quanto mandara dizer em carta a Evaristo, mas<br \/>\ngozava. Al\u00e9m do desembargador Lousada, seu vizinho tinha outros amigos<br \/>\nde alta posi\u00e7\u00e3o na Corte, e era verdade que a princesa surpreendera<br \/>\nD. Branca com uma j\u00f3ia no seu trig\u00e9simo anivers\u00e1rio.<br \/>\nA herdeira do trono ficara estimando a esposa do secret\u00e1rio desde uma<br \/>\nc\u00e9lebre noite no Cassino Fluminense. Essas rela\u00e7\u00f5es,<br \/>\npor\u00e9m, n\u00e3o excediam \u00e0s praxes aristocr\u00e1ticas,<br \/>\nguardando-se, de lado a lado, o m\u00e1ximo respeito, como convinha \u00e0<br \/>\nfidalguia imperial da ilustre senhora.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m era verdade que Lu\u00eds Furtado uma vez &#8211; primeira e \u00faltima<br \/>\n&#8211; conferenciara com o imperador no Pa\u00e7o e este lhe prometera rendosa<br \/>\ncomiss\u00e3o \u00e0 Europa; mas decorriam semanas e n\u00e3o se realizava<br \/>\na imperial promessa.<\/p>\n<p>Entre pol\u00edticos, banqueiros e titulares, havia sempre um que era amigo<br \/>\nde Lu\u00eds: o deputado Ismael Pessegueiro, de Alagoas, mo\u00e7o muito<br \/>\nbem preparado, conservador at\u00e9 \u00e0 raiz do cabelo, baixote na<br \/>\nestatura e no falar; o visconde de Santa Quit\u00e9ria, diretor do Banco<br \/>\nLuso-Brasileiro, cuja fortuna se avaliava em muitos contos de r\u00e9is<br \/>\nfora \u00e0 casa de resid\u00eancia &#8211; vistoso palacete que s\u00f3 se<br \/>\nabria nas grandes festas; o comendador Pinto, outra fortuna consider\u00e1vel,<br \/>\nportugu\u00eas, que se fizera a custo de muito trabalho e que encanecera<br \/>\nno Brasil&#8230;, e outros personagens de elevada hierarquia.<\/p>\n<p>Quanto a jornalistas e poetas, conhecia-os quase todos; um por um, desde<br \/>\no redator-chefe do Com\u00e9rcio do Rio (&#8220;O Times brasileiro&#8221;,<br \/>\nna opini\u00e3o de Furtado), at\u00e9 o Valdevino Manh\u00e3es, diretor<br \/>\nda Revista Liter\u00e1ria e autor de muitos livros, de muit\u00edssimas<br \/>\nobras, entre as quais o poema her\u00f3i-c\u00f4mico Juca Pir\u00e3o,<br \/>\npar\u00f3dia ao &#8220;I-Juca-Pirama&#8221;, de Gon\u00e7alves Dias.<\/p>\n<p>Evaristo j\u00e1 os conhecia tamb\u00e9m &#8211; de longe uns, outros mais<br \/>\nfamiliarmente. O Valdevino Manh\u00e3es, ou o &#8220;Dr. Condicional&#8221;,<br \/>\nestava no n\u00famero destes; fora-lhe apresentado uma noite, no jardim<br \/>\ndo Teatro Sant&#8217;Ana. Baixo, pequenino, metidinho a critico, um bigodinho quase<br \/>\nimpercept\u00edvel, sempre de lunetas &#8211; era conhecido por Dr. Condicional,<br \/>\nporque nunca dizia as coisas em tom afirmativo: tinha sempre um mas&#8230;, um<br \/>\ntalvez&#8230;, um se&#8230;, quando criticava obras alheias. Ningu\u00e9m para ele<br \/>\nera escritor feito, nem mesmo os consagrados: todos haviam de ser grandes<br \/>\npoetas, grandes romancistas, grandes homens&#8230;, se continuassem a estudar.<br \/>\nOutra mania de Valdevino Manh\u00e3es era falar na sua viagem \u00e0 Europa.<br \/>\n&#8211; Oh, em Lisboa merecera os maiores elogios, as mais belas refer\u00eancias<br \/>\nde quanto jornalista sabe ter\u00e7ar a pena (ter\u00e7ar a pena era uma<br \/>\nde suas frases prediletas). O poeta Jo\u00e3o de Deus&#8230;<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m o interrompia, ningu\u00e9m dizia palavra enquanto ele<br \/>\ncomentava Jo\u00e3o de Deus e o Chiado.<\/p>\n<p>O novo escritur\u00e1rio do Banco Industrial n\u00e3o confiava muito<br \/>\nno Valdevino. &#8211; &#8220;Se todos os literatos do Rio de Janeiro fossem como<br \/>\no autor do Juca Pir\u00e3o, a literatura brasileira tinha de pedir licen\u00e7a<br \/>\n\u00e0 C\u00e2mara para andar de quatro p\u00e9s&#8221; &#8211; dizia ele a<br \/>\nFurtado.<\/p>\n<p>E Furtado, surpreendido:<\/p>\n<p>&#8211; Pois olha: \u00e9 o critico da moda hoje, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Prefiro o visconde de Santa Quit\u00e9ria ou mesmo o comendador Pinto,<br \/>\nque ao menos t\u00eam ju\u00edzo para ganhar dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>Foram andando.<\/p>\n<p>Uma tarde conversavam os dois sobre a vida na Corte, sentados \u00e0 janela,<br \/>\nquando o h\u00f3spede do secret\u00e1rio lembrou-lhe que era tempo de<br \/>\nprocurar casa e de instalar-se definitivamente com Adelaide: &#8211; uma casinha<br \/>\nbarata, um c\u00f4modo, qualquer aposento, inda que fosse nos &#8220;subterr\u00e2neos<br \/>\nda Cidade Nova&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Qual instalar-te! Daqui n\u00e3o sair\u00e1s enquanto formos amigos<br \/>\n&#8211; respondeu Furtado. &#8211; Minha mulher gostou muito de D. Adelaide &#8211; vivem muito<br \/>\nbem, d\u00e3o-se perfeitamente&#8230; Podemos chegar a um acordo nas despesas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, isso n\u00e3o! Voc\u00eas t\u00eam sido muito incomodados&#8230;<br \/>\nisso n\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Hist\u00f3ria, homem! Incomodados t\u00eam sido voc\u00eas naquele<br \/>\nquartinho&#8230; Mas a Branca falou-me que os do segundo andar est\u00e3o procurando<br \/>\ncasa&#8230; Uma bela aquisi\u00e7\u00e3o para voc\u00eas o segundo andar.<\/p>\n<p>Evaristo levou o dedo \u00e0 boca, refletindo, e apertando os l\u00e1bios:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9&#8230; assim bem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o? Esperem um pouco mais&#8230; n\u00e3o h\u00e1 vexame&#8230;<\/p>\n<p>D. Branca aproximou-se, com o bra\u00e7o na cintura de Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Branca &#8211; disse Furtado -, n\u00e3o \u00e9 exato que os estrangeiros<br \/>\nde cima v\u00e3o se mudar?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 sim. Andam em procura de casa. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; O Evaristo, que lembrou-se agora de bater a linda plumagem, inda que fosse,<br \/>\ndiz ele &#8211; para os subterr\u00e2neos da Cidade Nova!<\/p>\n<p>&#8211; Qual, Sr. Evaristo, qual! Adelaide est\u00e1 muito bem. A Cidade Nova<br \/>\n\u00e9 um lugar infecto, um horror! Esperem pelo segundo andar.<\/p>\n<p>&#8211; E o aluguel? &#8211; perguntou, interessado, o rapaz.<\/p>\n<p>&#8211; Oitenta mil-r\u00e9is, filho! oitenta mil-r\u00e9is&#8230; n\u00e3o \u00e9<br \/>\ndinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 dinheiro, para os capitalistas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oitenta mil-r\u00e9is, nunca foi dinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, por mim, n\u00e3o me mudava&#8230; &#8211; ousou discretamente Adelaide.<\/p>\n<p>Evaristo arregalou os olhos:<\/p>\n<p>&#8211; Oh! ent\u00e3o j\u00e1 vais gostando do Rio!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o desgosto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Evaristo quer conversar &#8211; disse, rindo, a esposa de Furtado. &#8211; Vamos<br \/>\na tocar um pouquinho de piano&#8230;<\/p>\n<p>A tarde estava calma. Crian\u00e7as brincavam na rua, enchendo-a de alvoro\u00e7o,<br \/>\nem toilettes de ver\u00e3o. O desembargador Lousada passeava no jardim,<br \/>\ncom o seu indefect\u00edvel gorro de seda bordado a retr\u00f3s, enquanto<br \/>\na mulher e a filha, sentadas \u00e0 porta, abanavam-se de leque. Dezembro<br \/>\nmorria numa explos\u00e3o de sol. A fam\u00edlia imperial estava toda<br \/>\nem Petr\u00f3polis, gozando as del\u00edcias de um clima pregoadamente<br \/>\naristocr\u00e1tico, os que n\u00e3o podiam sustentar o luxo de Petr\u00f3polis,<br \/>\na vida fidalga de Petr\u00f3polis, os hot\u00e9is de Petr\u00f3polis,<br \/>\ncorriam para o ar livre da rua, em trajos brancos, ou para a janela das casas,<br \/>\nnum alvoro\u00e7o de formigueiro incendiado.<\/p>\n<p>\u00c0 parte o clima, na esta\u00e7\u00e3o outonal, a vida em Botafogo<br \/>\ntinha qualquer coisa da vida em Petr\u00f3polis, era como um prolongamento<br \/>\ndo high-life, cuja sede firmara-se na antiga col\u00f4nia alem\u00e3. Falar<br \/>\nna Cidade Nova a um morador de Botafogo, era o mesmo que cair no rid\u00edculo<br \/>\ne no desprezo de uma sociedade que n\u00e3o admitia plebeismos sentimentais,<br \/>\nnem alus\u00f5es de mau gosto&#8230; Cidade Nova, isto \u00e9 Saco do Alferes,<br \/>\nGamboa, preto-mina, len\u00e7o no pesco\u00e7o, viol\u00e3o, maxixe&#8230;<br \/>\ne outras belezas de igual jaez. Tudo isso era contra as boas normas de um<br \/>\npovo civilizado e muito principalmente contra os brios de um homem que vive<br \/>\nna mesma atmosfera de Sua Majestade o Imperador! Botafogo odiava a Cidade<br \/>\nNova como quem repugna um meio asqueroso.<\/p>\n<p>Os aristocratas que n\u00e3o tinham podido acompanhar o monarca a Petr\u00f3polis<br \/>\nbufavam de calor, e, \u00e0 porta dos jardins ou \u00e0 janela, iam refrescar<br \/>\no sangue, os pulm\u00f5es, como o desembargador Lousada. Ao anoitecer, recolhiam<br \/>\n\u00e0 frescura do linho, pensando na volta das andorinhas imperiais.<\/p>\n<p>D. Branca executou ao piano uma valsa de Strauss, para Adelaide ouvir. Tocava<br \/>\nbem, na opini\u00e3o de v\u00e1rios professores ilustres; j\u00e1 se<br \/>\nexibira em concertos de primeira ordem.<\/p>\n<p>Quando as tardes eram demasiado quentes, iam os dois casais arejar \u00e0<br \/>\npraia, onde passeavam fam\u00edlias numa liberdade encantadora, trajando<br \/>\ngarridamente suas roupas de ver\u00e3o, sem luxo, sem cerim\u00f4nia, parando<br \/>\n\u00e0 sombra das \u00e1rvores, em grupos, vendo deslizar em pequeninas<br \/>\nembarca\u00e7\u00f5es de recreio na \u00e1gua cintilante. Que bom! Adelaide<br \/>\nexaminava tudo com essa curiosidade infantil dos rec\u00e9m-chegados, comparava<br \/>\nas toilettes, as fisionomias, lendo hist\u00f3rias mundanas no sorriso dos<br \/>\nrapazes e na franqueza das raparigas, que se entrecruzavam piscando os olhos<br \/>\n\u00e0 vista dos homens s\u00e9rios. Como tudo aquilo tinha um encanto<br \/>\nparticular! Como tudo era novo para ela! Sentia nalma um remo\u00e7ar impetuoso,<br \/>\numa vontade de possuir j\u00f3ias com que se enfeitar, com que real\u00e7ar<br \/>\na sua beleza, e toilettes de luxo, \u00e0 \u00faltima moda, e ess\u00eancias<br \/>\ncaras, embriagantes, e tudo o mais que seus olhos viam, desde que ela pusera<br \/>\nos p\u00e9s no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>D. Branca enchera-lhe os ouvidos de tanta coisa, meu Deus! de tanta hist\u00f3ria!<br \/>\n&#8211; Que no Rio de Janeiro as mulheres timbravam em se apresentar cada qual mais<br \/>\nbem vestida; que Botafogo era o bairro da aristocracia e do bom gosto; que<br \/>\no luxo nada tinha com a honestidade de uma senhora, desde que ela se portasse<br \/>\nbem&#8230;, ao menos aparentemente; que, enquanto se era mo\u00e7a, devia-se<br \/>\ngozar, levar a vida rindo, passeando, nos bailes, nos concertos, nos teatros;<br \/>\nque os homens eram muito ego\u00edstas; enfim, Senhora D. Branca despertara<br \/>\nnela um sentimento novo, que lhe abafava toda a nostalgia da prov\u00edncia<br \/>\ne deixava-a oscilando, remoendo, entre a vida simples e calma de burguesinha<br \/>\nhonesta e a vida tumultuosa de mulher elegante e adorada nos c\u00edrculos<br \/>\naristocr\u00e1ticos de uma cidade como o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Enquanto Evaristo aborrecia-se &#8211; ele, que falava tanto da prov\u00edncia:<br \/>\n&#8220;porque a prov\u00edncia era o statu quo, a imobilidade, o abandono&#8221;<br \/>\n&#8211; ela deliciava-se agora, em plena Corte, em pleno Botafogo, cheia de vida<br \/>\ne de ambi\u00e7\u00f5es, a exemplo de D. Branca e de outras senhoras,<br \/>\nque, sem desprezar os maridos, gozavam quanto podiam, vestindo-se bem, trajando<br \/>\ncom eleg\u00e2ncia, ostentando beleza e mocidade aonde quer que se apresentassem.<br \/>\nNos primeiros dias estranhara o Rio, achara tudo falso, tudo superficial,<br \/>\ntudo para enganar os olhos. Agora, n\u00e3o: tudo impunha-se ao seu esp\u00edrito<br \/>\ncomo um dever, como uma necessidade l\u00f3gica e humana.<\/p>\n<p>E sempre que ia \u00e0 praia, sempre que ia a um teatro, a um passeio,<br \/>\nvoltava triste, desalentada, com uma dor no cora\u00e7\u00e3o&#8230; N\u00e3o<br \/>\npoder &#8220;como as outras&#8221; ostentar o frescor dos seus vinte anos, aparecendo<br \/>\nnas rodas elegantes, de bra\u00e7o com o Evaristo &#8211; ele todo nobreza, todo<br \/>\nmodernismo, aristocraticamente enluvado; ela chique, numa pompa de rainha,<br \/>\num sorriso \u00e0 flor dos l\u00e1bios &#8211; os dois em carruagem aberta ou<br \/>\nnum camarote do L\u00edrico! Oh, n\u00e3o poder gozar, como as outras<br \/>\nmulheres que ela via, deslumbrada e abatida, da sua pobreza honesta, da sua<br \/>\ntriste posi\u00e7\u00e3o de mulherzinha d\u00f3cil, de esposa exemplar!<\/p>\n<p>Aquilo ia calando em seu esp\u00edrito, onde um princ\u00edpio de orgulho<br \/>\nfeminino brotava ocultamente.<\/p>\n<p>Evaristo ganhava pouco ainda, o essencial para se ir mantendo com alguma<br \/>\nindepend\u00eancia, sem dever a ningu\u00e9m. Era inimigo de contrair d\u00edvidas;<br \/>\num alfinete, que comprasse, havia de ser pago logo, na ocasi\u00e3o mesma<br \/>\ndo neg\u00f3cio; por forma que o dinheiro do Banco, o ordenado, ia-se num<br \/>\nabrir e fechar de olhos, para a m\u00e3o do homem da venda e para o bolso<br \/>\ndo alfaiate. Ele pr\u00f3prio conservava a roupa que trouxera da prov\u00edncia;<br \/>\nn\u00e3o tinha luxo, nem j\u00f3ias de valor. Afinal n\u00e3o passava<br \/>\n&#8211; como dizia &#8211; de um pobret\u00e3o m\u00edsero, empregado subalterno.<br \/>\nD. Branca podia luxar, aparecer &#8211; n\u00e3o era admira\u00e7\u00e3o;<br \/>\no Lu\u00eds ganhava tanto como oitocentos mil-r\u00e9is, fora a renda<br \/>\ndas ap\u00f3lices que possu\u00eda no Tesouro e de umas a\u00e7\u00f5ezinhas<br \/>\ndo Banco Industrial. Onde, pois, a admira\u00e7\u00e3o? Nenhuma. Feria-lhe<br \/>\ntamb\u00e9m o amor-pr\u00f3prio de marido extremoso ver Adelaide, a sua<br \/>\nAdelaide, com os mesmos vestidos, com o mesmo chap\u00e9u, sem um brilhante,<br \/>\numa j\u00f3ia de ouro, envergonhada no meio das outras. &#8211; Mas&#8230; que se<br \/>\nhavia de fazer? Por isso \u00e9 que desejava ter uma casinha na Cidade Nova,<br \/>\n&#8220;um albergue&#8221;, de cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is, longe desse rumor<br \/>\nde etiquetas e ostenta\u00e7\u00f5es. Um dia pra diante, quando pudesse<br \/>\n&#8211; muito bem! alugava um chal\u00e9 em Botafogo e Adelaide n\u00e3o tinha<br \/>\nde que baixar a cabe\u00e7a \u00e0s exig\u00eancias do high-life. Por<br \/>\nenquanto a palavra de ordem era &#8211; economia, muita economia!<\/p>\n<p>De resto, o procedimento de Adelaide para com o esposo n\u00e3o mudara.<br \/>\nEvaristo continuava sendo o mesmo Evaristo, bom e leal, por vezes de uma ternura<br \/>\nl\u00e2nguida, quase pueril, achando muita raz\u00e3o em tudo quanto ela<br \/>\ndizia, tratando-se como noivos.<\/p>\n<p>D. Branca estranhava que eles ainda n\u00e3o tivessem filho, ao menos um<br \/>\nmorgado para dar que fazer \u00e0 mam\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p>E aconselhava banhos de mar no Flamengo: &#8211; por que n\u00e3o experimentavam<br \/>\nos banhos de mar no Flamengo? Um filhinho era indispens\u00e1vel a um casal&#8230;<\/p>\n<p>Evaristo ria e jurava, rindo, que no m\u00eas seguinte iam come\u00e7ar<br \/>\nos banhos ali mesmo na praia de Botafogo.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito de filhos, a mulher do secret\u00e1rio anunciou o batizado<br \/>\nda Jul\u00ednha no primeiro domingo de janeiro. Ia fazer uma festa sem cerim\u00f4nia,<br \/>\nentre pessoas de intimidade.<\/p>\n<p>Evaristo recebeu a not\u00edcia com um &#8211; oh!&#8230; de surpresa. &#8211; Muito bem!<br \/>\nmuito bem! Era preciso batizar a menina&#8230; Ele, se tivesse filhos, batizava-os<br \/>\nao nascer.<\/p>\n<p>E com ironia:<\/p>\n<p>&#8211; Temos, ent\u00e3o, a princesa?<\/p>\n<p>&#8211; Como, Sr. Evaristo?<\/p>\n<p>&#8211; Digo: a princesa h\u00e1 de comparecer \u00e0 festa.<\/p>\n<p>&#8211; Qual o qu\u00ea! Pensa o senhor que a princesa anda se exibindo assim?<\/p>\n<p>&#8211; Pensei.<\/p>\n<p>&#8211; Vai ser a madrinha de minha filha, por procura\u00e7\u00e3o; isso bem&#8230;<\/p>\n<p>E Evaristo, sempre ir\u00f4nico:<\/p>\n<p>&#8211; O imperador \u00e9 o padrinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, n\u00e3o senhor&#8230; O padrinho \u00e9 o Lousada,<br \/>\no velho Lousada. O imperador j\u00e1 \u00e9 padrinho do Raul.<\/p>\n<p>&#8211; Onde estamos n\u00f3s metidos, Adelaide! exclamou o bacharel, arregalando<br \/>\nos olhos. Tudo aqui \u00e9 principesco, minha senhora!<\/p>\n<p>D. Branca compreendeu o debique, mas atalhou risonha:<\/p>\n<p>&#8211; Tudo aqui n\u00e3o \u00e9 principesco, n\u00e3o senhor! N\u00e3o<br \/>\nqueira fazer pouco&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu, fazer pouco? Oh, n\u00e3o se lembre de tal coisa! Principesco \u00e9<br \/>\numa maneira de dizer.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! o senhor \u00e9 republicano?<\/p>\n<p>&#8211; Republicano n\u00e3o: democrata.<\/p>\n<p>&#8211; Pois est\u00e1 muito bem arranjado com a sua democracia!<\/p>\n<p>Furtado, que estava lendo o Com\u00e9rcio do Rio, saltou:<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9 democrata &#8211; o Evaristo?<\/p>\n<p>&#8211; Eu, sim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Democrata enquanto n\u00e3o conheceres bem o Rio de Janeiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Ora, por qu\u00ea! Porque o Rio de Janeiro em globo \u00e9 monarquista<br \/>\ne quem diz monarquista diz aristocrata.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o. Se o Rio de Janeiro em globo (quero dizer<br \/>\no munic\u00edpio neutro&#8230;) \u00e9 monarquista, eu posso muito bem sair<br \/>\num republicano \u00e0s direitas.<\/p>\n<p>Furtado abriu numa gargalhada estridente.<\/p>\n<p>&#8211; Aonde vens pregar essas teorias, meu caro? Na Corte do Imp\u00e9rio,<br \/>\ne o que \u00e9 mais, em Botafogo! Ilus\u00f5es da academia, rapaz, ilus\u00f5es<br \/>\nde estudante de ret\u00f3rica!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, que o partido republicano est\u00e1 ganhando terreno<br \/>\naqui mesmo, na Corte, \u00e0s barbas d&#8217;El-Rei! Fala-se na ida do velho \u00e0<br \/>\nEuropa; o velho est\u00e1 doido, j\u00e1 n\u00e3o pode governar, e o<br \/>\nresultado \u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que est\u00e1s a dizer tolices&#8230; A monarquia est\u00e1 guardada<br \/>\npor sentinelas da for\u00e7a do bar\u00e3o de Cotegipe, do visconde de<br \/>\nOuro Preto, do Jo\u00e3o Alfredo e de outros&#8230; Cada um desses homens \u00e9<br \/>\num obst\u00e1culo contra qualquer tentativa de assalto \u00e0s institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Chegou a vez do bacharel rir, mas rir com gosto, dando pulinhos na cadeira.<\/p>\n<p>&#8211; O Cotegipe! (e ria). O Ouro Preto! (tornava a rir). O Jo\u00e3o Alfredo!<br \/>\nNo momento psicol\u00f3gico voam todos, como aves de arriba\u00e7\u00e3o,<br \/>\npara Petr\u00f3polis! Desaparecem como por encanto, somem-se na noite do<br \/>\nmedo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que pensas. A opini\u00e3o \u00e9 deles, o povo n\u00e3o<br \/>\npermitir\u00e1 que eles sejam desacatados.<\/p>\n<p>&#8211; O povo! &#8211; exclamou Evaristo com voz de trov\u00e3o. &#8211; A que chamas tu<br \/>\npovo?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Brasil &#8211; a treze milh\u00f5es de almas que adoram o imperador!<\/p>\n<p>&#8211; O povo brasileiro n\u00e3o se envolve nisso, meu Furtado; se f\u00f4ssemos<br \/>\nesperar pelo povo, est\u00e1vamos bem arranjados.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o, \u00e9 que a for\u00e7a armada.<\/p>\n<p>Basta de pol\u00edtica, basta de pol\u00edtica, Sr. Evaristo. \u00d3<br \/>\nLu\u00eds, por favor, continua a ler teu jornal &#8211; interveio D. Branca. &#8211;<br \/>\n\u00c9 favor!<\/p>\n<p>Adelaide correu a tapar a boca do marido com a m\u00e3o espalmada: &#8211; &#8220;N\u00e3o<br \/>\nsenhor, nada de pol\u00edtica!&#8221;<\/p>\n<p>E continuou-se a falar no batizado da pequena, sem alus\u00f5es \u00e0<br \/>\nprincesa, nem ao monarca. A esposa do secret\u00e1rio disse que tinha mandado<br \/>\nfazer um vestido para estrear nesse dia &#8211; uma toilette simples, de um tecido<br \/>\nnovo, muito usado em Paris, que A Notre Dame recebera&#8230;<\/p>\n<p>Adelaide mordiscou a pelezinha do bei\u00e7o com tristeza. &#8211; Um vestido<br \/>\nnovo, chegado de Paris!&#8230; E ela como se havia de apresentar no dia da festa?<br \/>\nOh, com o seu vestido de provinciana, de mangas compridas e babados! Que vergonha,<br \/>\nSanto Deus! O melhor vestido que possu\u00eda era o de gorgor\u00e3o,<br \/>\ncom que embarcara&#8230;, mas estava fora da moda e da etiqueta. Antes nunca tivesse<br \/>\nvindo ao Rio de Janeiro&#8230;<\/p>\n<p>Quase n\u00e3o dormiu, essa noite, pensando no batizado. \u00c0 hora<br \/>\nde recolher, Evaristo achou-a triste, com um arzinho de choro, descobrindo<br \/>\nmesmo uma l\u00e1grima vagarosa na face dela. Mas n\u00e3o disse nada.<br \/>\nAdelaide continuou a se despir \u00e0 meia-luz do g\u00e1s, e rolou na<br \/>\ncama silenciosamente, de rosto para a parede.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Adelaide!&#8230; &#8211; chamou Evaristo, j\u00e1 desconfiado.<\/p>\n<p>A mulher n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>Adelaide! tornou ele, aproximando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9?&#8230; choramingou a rapariga, encolhendo-se.<\/p>\n<p>&#8211; Olha&#8230;<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o se moveu.<\/p>\n<p>&#8211; Olha!<\/p>\n<p>Mesma posi\u00e7\u00e3o, mesmo sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Olha c\u00e1 uma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s chorando?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Mas pelo tom da voz, conheceu bem que alguma coisa havia no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Como n\u00e3o, se te ouvi solu\u00e7ar?<\/p>\n<p>&#8211; Eu?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Exatamente. Queres ocultar-me algum desgosto?<\/p>\n<p>E devagarinho, como para n\u00e3o acordar uma crian\u00e7a, o bacharel<br \/>\nfoi-se inclinando no leito.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos: \u00e9 a primeira vez que choras em minha companhia, depois que<br \/>\nestamos casados.<\/p>\n<p>&#8211; Nada&#8230; lembrei-me da Balbina.<\/p>\n<p>Da Balbina? Homessa!<\/p>\n<p>Falavam muito em segredo, cochichando, ela de costas para ele. A casa estava<br \/>\ntoda no escuro. Furtado e a mulher n\u00e3o davam sinal de vida.<\/p>\n<p>&#8211; Que tens tu com a Balbina? &#8211; tornou Evaristo. &#8211; N\u00e3o \u00e9 m\u00e1<br \/>\na lembran\u00e7a! Como se a Balbina fosse tua m\u00e3e!<\/p>\n<p>&#8211; Mas lembrei-me.<\/p>\n<p>&#8211; Se me n\u00e3o dissesses, eu n\u00e3o acreditaria, palavra de honra!<\/p>\n<p>E admirado:<\/p>\n<p>&#8211; Chorar com saudades da Balbina! \u00c9 curioso, \u00e9 singular!<\/p>\n<p>Os inquilinos do segundo andar apagaram a luz e um rel\u00f3gio bateu meia-noite.<\/p>\n<p>Involuntariamente, por causa de Adelaide, Evaristo adormeceu pensando na<br \/>\nBalbina, a negra velha de Coqueiros, sem atinar com a significa\u00e7\u00e3o<br \/>\nda l\u00e1grima que vira na face da esposa.<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que a amiga de D. Branca recolhera com o pensamento no batizado<br \/>\nda Julinha. Quis desabafar, dizer tudo a Evaristo, suplicar-lhe que trouxesse<br \/>\num vestido novo para a festa de D. Branca, rogar-lhe, pelo amor de Deus, que<br \/>\nfizesse um pequeno sacrif\u00edcio&#8230; Mas n\u00e3o teve \u00e2nimo: podia<br \/>\nparecer uma exig\u00eancia, uma falta de aten\u00e7\u00e3o, e ela nunca<br \/>\nabrira a boca para pedir a Evaristo um grampo, quanto mais um corte de fazenda!<br \/>\nN\u00e3o era por vaidade, nem por orgulho, nem por capricho &#8211; \u00e9 que<br \/>\ntinha obriga\u00e7\u00e3o de se apresentar \u00e0 aristocracia em trajos<br \/>\nde mulher educada e n\u00e3o com um pobre vestido fora da moda, sem eleg\u00e2ncia,<br \/>\nmal cosido, mal ajustado ao corpo &#8211; horr\u00edvel!<\/p>\n<p>No outro dia Evaristo, inda na cama, interpelou-a sobre o acidente da v\u00e9spera,<br \/>\ngracejando, rindo, na melhor boa-f\u00e9, longe de adivinhar o que se passava<br \/>\nno esp\u00edrito de Adelaide. &#8211; Chorar pela Balbina &#8211; ela! Que extraordin\u00e1rio<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o, que alma c\u00e2ndida!<\/p>\n<p>&#8211; Chora-se at\u00e9 pelos animais, por um gatinho, por um cachorro, por<br \/>\num p\u00e1ssaro que a gente criou!&#8230;<\/p>\n<p>E Adelaide, ocultando ingenuamente o desgosto que a pungia, lembrou ao marido<br \/>\no fato de ter ele chorado a morte de uma patativa, antes de vir para o Rio<br \/>\nde Janeiro.<\/p>\n<p>O bacharel n\u00e3o disse que n\u00e3o, mas afirmou que o caso era diverso<br \/>\ne que entre a patativa e a Balbina preferia a patativa.<\/p>\n<p>E a l\u00e1grima da jovem senhora caiu no esquecimento como todas as coisas<br \/>\ndeste mundo.<\/p>\n<p>Ela, por\u00e9m, via se aproximar o domingo do batizado, cheio de tristeza,<br \/>\nmaldizendo a nova situa\u00e7\u00e3o em que a colocara o destino. Positivamente<br \/>\nEvaristo n\u00e3o enxergava al\u00e9m das grosseiras necessidades da vida<br \/>\ndom\u00e9stica e n\u00e3o via que uma dona-de-casa no Rio de Janeiro tinha<br \/>\na obriga\u00e7\u00e3o de ser, ao mesmo tempo, uma dama elegante, uma senhora<br \/>\ndistinta, com todos os requisitos para figurar num sarau pomposo ou em qualquer<br \/>\nparte aonde houvesse aristocracia e luxo&#8230; Como \u00e9 que ela, vivendo<br \/>\nna casa de um homem fino, de uni capitalista, vivendo entre pessoas de &#8220;tratamento&#8221;<br \/>\nem Botafogo, ia-se apresentar aos olhos de D. Branca, aos olhos de D. Sinh\u00e1<br \/>\ne da mulher do desembargador, aos olhos de uma gente fidalga, na sua humilde<br \/>\ntoilette de provinciana pobre? Todo o mundo havia de reparar e dizer mal.<br \/>\nN0 entanto, com qualquer dinheirinho comprava-se um vestido s\u00e9rio,<br \/>\nnovo,que ao menos aparentasse&#8230; A pr\u00f3pria D. Branca lhe dera a perceber<br \/>\nque se obtinha, no Rio, muita coisa de alto valor por &#8220;pre\u00e7os<br \/>\nbarat\u00edssimos&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Oh, aquela festa, domingo, tirava-lhe o sono! Que belo, se ca\u00edsse<br \/>\numa grande chuva, um aguaceiro medonho, de alagar a cidade inteira, de deixar<br \/>\ntudo quanto fosse rua na lama! Quem dera! Ficava transferido o batizado ou<br \/>\nningu\u00e9m ia \u00e0 casa de D. Branca, e ela, ent\u00e3o, ela, Adelaide,<br \/>\nn\u00e3o tinha de se envergonhar, de baixar a cabe\u00e7a a estranhos.<\/p>\n<p>Mas &#8211; nem de prop\u00f3sito! &#8211; fazia um tempo claro, azul, luminoso, ador\u00e1vel,<br \/>\ncomo os belos dias de primavera, sem o menor sintoma de varia\u00e7\u00e3o<br \/>\nbarom\u00e9trica, sem nuvens na limpidez cristalina das montanhas.<\/p>\n<p>E a jovem esposa de Evaristo perdia-se em cogita\u00e7\u00f5es de toda<br \/>\na ordem, moralmente abatida no seu orgulho, na sua vaidade latente de mulher<br \/>\nnova que se v\u00ea roubada nos seus direitos \u00e0 partilha dos gozos.<br \/>\nLembrava-se, por uma natural associa\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias, de<br \/>\nque D. Branca lhe dissera certa vez: &#8220;O homem \u00e9 ego\u00edsta<br \/>\ne finge n\u00e3o compreender as necessidades da mulher, quando se trata<br \/>\nde um vestido novo ou de uma despesa extraordin\u00e1ria. A mulher \u00e9<br \/>\nobrigada a pedir, a reclamar, a dizer o que precisa, o que lhe falta.&#8221;<br \/>\nEla pedir a Evaristo? Pedir o qu\u00ea? Uma toilette para o batizado da pequena?<br \/>\nE a roupa que trouxera do Norte, um enxoval quase completo, inda que fora<br \/>\nda moda? Que havia de dizer? Que raz\u00f5es apresentar a ele, que sempre<br \/>\na conhecera pobre e refrat\u00e1ria \u00e0 etiqueta e ao luxo? N\u00e3o,<br \/>\nn\u00e3o tinha coragem, nem queria, com uma exig\u00eancia descabida, molestar<br \/>\no grande cora\u00e7\u00e3o de Evaristo.<\/p>\n<p>Esperou, resignada, abafando impulsos d&#8217;alma.<\/p>\n<p>Em casa de Lu\u00eds Furtado, naqueles dias mais pr\u00f3ximos \u00e0<br \/>\nfesta, era este o assunto obrigado de todas as conversas. D. Branca, principalmente,<br \/>\ncuja loquacidade contrastava com a modera\u00e7\u00e3o dos inquilinos<br \/>\ndo segundo andar &#8211; n\u00e3o fazia outra coisa sen\u00e3o remexer nas gavetas,<br \/>\npolir os m\u00f3veis, expor os cristais, num a\u00e7odamento, numa impaci\u00eancia<br \/>\nque lhe dava ares de inseto doido. Queria tudo nos seus lugares, para quando<br \/>\nchegasse o domingo. Mandou afinar o piano, lavar a casa de um extremo ao outro,<br \/>\ninclusive o quarto dos h\u00f3spedes e o escrit\u00f3rio de Furtado, no<br \/>\nr\u00e9s-do-ch\u00e3o, substituir as cortinas da sala de visitas; enfim,<br \/>\ntoda a casa ficou pronta com quatro dias de anteced\u00eancia para receber<br \/>\no desembargador Lousada e alguns convidados &#8220;sem cerim\u00f4nia&#8221;.<br \/>\nEra pouca gente: o visconde de Santa Quit\u00e9ria, o Dr. Condicional, dois<br \/>\namigos quase \u00edntimos do secret\u00e1rio, o Loiola, tesoureiro do<br \/>\nBanco, a vi\u00fava Tourinho, muito boa senhora, tamb\u00e9m rica e prendada,<br \/>\no Xavier, do Jornal de Not\u00edcias e um ou outro rapaz, de intimidade.<\/p>\n<p>Evaristo caiu das nuvens.<\/p>\n<p>&#8211; Minha mulher &#8211; disse ele \u00e0 esposa &#8211; temos grosso forrobod\u00f3l<br \/>\nEsta gente chama festa sem cerim\u00f4nia a uma reuni\u00e3o de altos personagens<br \/>\nque se divertem aristocraticamente. Com que vestido te v\u00e1s apresentar?<\/p>\n<p>&#8211; Eu?&#8230; O melhorzinho \u00e9 o de casimira cinzenta, n\u00e3o falando<br \/>\nno de gorgor\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; De casimira?.<\/p>\n<p>Evaristo levou a m\u00e3o ao queixo e fitou os olhos na mulher em atitude<br \/>\ncontemplativa.<\/p>\n<p>&#8211; Que dizes?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei&#8230; &#8211; respondeu Adelaide com indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>O bacharel agarrou-se aos bigodes, repuxando-os com a l\u00edngua, mordendo-os,<br \/>\ncomo se empacasse na resolu\u00e7\u00e3o dalgum problema de direito.<\/p>\n<p>&#8211; Aonde nos vimos meter! &#8211; dizia, passeando no quarto. &#8211; Aonde nos vimos<br \/>\nmeter!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o teu grandioso e espetaculoso Rio de Janeiro!<\/p>\n<p>Evaristo sorriu da ironia, e continuando a passear:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 um rem\u00e9dio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual?<\/p>\n<p>&#8211; Fazer um neg\u00f3cio com o Banco&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Neg\u00f3cio?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, levantar um pequeno empr\u00e9stimo.<\/p>\n<p>Noutras quaisquer circunst\u00e2ncias, Adelaide o aconselharia que n\u00e3o,<br \/>\ncomo j\u00e1 o fizera uma vez na prov\u00edncia; mas D. Branca acenava-lhe<br \/>\nde longe, no seu esp\u00edrito, &#8220;que n\u00e3o desse uma nota, que<br \/>\nn\u00e3o fosse tola.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Que dizes? &#8211; repetiu o bacharel.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois eu sei: vou falar ao Furtado. Achei a inc\u00f3gnita da equa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nIsto de dever, todos devem mais ou menos; a quest\u00e3o \u00e9 pagar.<\/p>\n<p>Com duzentos mil-r\u00e9is, sim, com duzentos mil-r\u00e9is, arranjava-se<br \/>\ntudo: uma toilette para Adelaide, uma cal\u00e7a de casimira, e&#8230; e charutos&#8230;.<br \/>\nO vestido, comprava-se feito, numa modista.<\/p>\n<p>Entraram em acordo, ele e a mulher, sobre as despesas, fizeram c\u00e1lculos<br \/>\n\u00e0 ponta de l\u00e1pis, rabiscaram papel at\u00e9 quase meia-noite.<br \/>\nAdelaide j\u00e1 agora tamb\u00e9m pedia a Deus que n\u00e3o chovesse.<br \/>\nEra uma \u00f3tima ocasi\u00e3o para se apresentar \u00e0s amigas de<br \/>\nD. Branca, ficar conhecendo a vi\u00fava Tourinho, a esposa do desembargador<br \/>\ne outras senhoras do grand monde fluminense.<\/p>\n<p>Evaristo falou, com efeito, ao secret\u00e1rio, no pr\u00f3prio Banco,<br \/>\nacerca do empr\u00e9stimo, alegando raz\u00f5es de ordem dom\u00e9stica.<br \/>\n&#8211; Era mais um grande favor ao &#8220;amigo Furtado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Queres um conselho de amigo? pergunta Lu\u00eds.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o contraias empr\u00e9stimo ao Banco. O Banco foi criado para<br \/>\naltas transa\u00e7\u00f5es financeiras, e&#8230; e o diretor \u00e9 um homem&#8230;<br \/>\num homem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; um homem de t\u00eampera antiga, velho e rabugento. Espera a\u00ed<br \/>\num bocado&#8230;<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio levantou-se, abriu um cofre de ferro, que estava no gabinete<br \/>\nde trabalho, e contou duzentos mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>&#8211; Toma l\u00e1, sou eu quem tos empresta sem juros e sem prazo. Restituir\u00e1s<br \/>\nno fim do m\u00eas&#8230; daqui a um ano, daqui a um s\u00e9culo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o! interrompeu o marido de Adelaide. &#8211; Vim pedir ao Banco<br \/>\ne n\u00e3o quero que te sacrifiques por minha causa. Isso n\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Toma l\u00e1, homem, n\u00e3o sejas menino. Eu que tos empresto, \u00e9<br \/>\nque tenho absoluta confian\u00e7a em ti &#8211; que diabo!<\/p>\n<p>&#8211; Qual confian\u00e7a! Isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ser amigo, \u00e9<br \/>\nser pai!<\/p>\n<p>&#8211; Pois quero ser teu pai &#8211; d\u00e1-me essa honra.<\/p>\n<p>Riram e o bacharel guardou as notas na algibeira da cal\u00e7a, com um<br \/>\nmovimento discreto e reconhecido. &#8211; Ora, muito obrigado, Sr. Lu\u00eds,<br \/>\nmuito obrigado!<\/p>\n<p>&#8211; Cavalheiros somos, na carreira andamos&#8230; &#8211; disse enfaticamente, com um<br \/>\nsorriso, o fidalgo de Botafogo.<\/p>\n<p>\u00c0s quatro horas iam os dois no mesmo bonde a caminho de casa.<\/p>\n<p>O bacharel entrou radiante, com um estranho fulgor na pupila. Adelaide acompanhou-o<br \/>\nao quarto.<\/p>\n<p>&#8211; Sabes o que \u00e9 isto? &#8211; foi dizendo com a m\u00e3o espalmada no<br \/>\nbolso.<\/p>\n<p>E, antes que Adelaide respondesse, tirou o dinheiro, erguendo a m\u00e3o<br \/>\nem triunfo.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto? &#8211; perguntou a rapariga com aquele risinho ing\u00eanuo que lhe<br \/>\nera muito natural.<\/p>\n<p>&#8211; Vinte!<\/p>\n<p>&#8211; Vinte? apenas vinte?<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; notas de dez!<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230;<\/p>\n<p>Evaristo, ent\u00e3o, narrou, palavra por palavra, o di\u00e1logo entre<br \/>\nele e Furtado, no Banco, e n\u00e3o ocultou o seu entusiasmo pela &#8220;generosidade&#8221;<br \/>\ndo amigo, que ainda uma vez se revelara &#8220;digno e correto!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Belo homem, o Lu\u00eds!<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m acho&#8230; &#8211; murmurou Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que me colocou, deu-me hospedagem, trata-nos \u00e0 vela de libra,<br \/>\ne agora&#8230; duzentos mil-r\u00e9is, para pagar amanh\u00e3, no fim do ano,<br \/>\ndaqui a um s\u00e9culo!<\/p>\n<p>Adelaide aprovou com a cabe\u00e7a o entusiasmo do marido.<\/p>\n<p>E na mesma tarde, ao anoitecer, foram ambos dar um giro \u00e0 Rua do Ouvidor.<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III<\/h4>\n<p>Lu\u00eds Furtado era homem de meia-idade, alto, robustez f\u00edsica<br \/>\ninvej\u00e1vel, pele r\u00f3sea e conservada, bigode negro, tratado a<br \/>\nbrilhantina, olhos negros e comunicativos, um pouco l\u00e2nguidos, talvez<br \/>\npor afeta\u00e7\u00e3o, talvez por temperamento.<\/p>\n<p>Belo, verdadeiramente belo, ningu\u00e9m o diria sem risco de profanar<br \/>\no ideal antigo da beleza m\u00e1scula; no entanto, podia dizer-se dele que<br \/>\nera, na acep\u00e7\u00e3o modern\u00edssima, um bonito homem. A conviv\u00eancia<br \/>\nna Corte dera-lhe tintas de nobreza ao rosto largo de provinciano setentrional.<br \/>\nO Rio de Janeiro, com o seu maravilhoso poder de cidade cosmopolita, afinara-lhe<br \/>\na c\u00fatis e a educa\u00e7\u00e3o. Davam-lhe doutor, mas, em verdade,<br \/>\nnunca pusera os p\u00e9s numa academia; os preparat\u00f3rios mesmo, ele<br \/>\nos n\u00e3o completara; e como no Rio de Janeiro, na Corte, toda a gente<br \/>\n\u00e9 doutor, ningu\u00e9m punha d\u00favida no fict\u00edcio diploma<br \/>\nde Lu\u00eds Furtado.<\/p>\n<p>Mas a qualidade caracter\u00edstica do secret\u00e1rio do Banco Industrial<br \/>\nera o amor \u00e0s mulheres, uma tend\u00eancia not\u00e1vel para as<br \/>\nconquistas de boudoirs, para o livre c\u00e2mbio de afei\u00e7\u00f5es<br \/>\ndelicadas, para o culto imoderado de V\u00eanus. Esse fraco, longe de o desprestigiar<br \/>\nno conceito das rodas aristocr\u00e1ticas, tornava-o ainda mais querido<br \/>\nde um e outro sexo, que viam no esposo de D. Branca, um homem de bom gosto,<br \/>\nentendido em ess\u00eancias finas e em cotillons. Quem \u00e9 que, em Botafogo,<br \/>\nn\u00e3o o admirava, quem? Chegava-se at\u00e9 a dizer, num exagero, que<br \/>\nera a alma do bairro!<\/p>\n<p>O casamento n\u00e3o lhe tirava a liberdade de homem que se governa; cumpria<br \/>\nseus deveres conjugais; nada faltava \u00e0 mulher, nem aos filhos, todos<br \/>\nem casa o estimavam; queria, portanto, sua liberdade; &#8220;a melhor coisa<br \/>\nque Deus deu ao homem&#8221;. Tinha id\u00e9ias definitivas, absolutas, sobre<br \/>\no casamento e opunha-as a qualquer moralista indiscreto que lhe fosse criticar<br \/>\nos atos.<\/p>\n<p>D. Branca nunca se agastava com ele, nunca lhe fizera a menor obje\u00e7\u00e3o<br \/>\nno tocante \u00e0s suas aventuras donjuanescas. Quando algu\u00e9m, homem<br \/>\nou mulher, os queria intrigar e levava ao conhecimento dela fatos particulares<br \/>\nda vida do esposo, a ilustre senhora tinha sempre um risinho de incredulidade:<br \/>\n&#8220;- O Furtado era um bom marido e um bom pai de fam\u00edlia. Os invejosos<br \/>\n\u00e9 que o queriam desmoralizar&#8221;.<\/p>\n<p>No entanto, conhecia o g\u00eanio do Furtado e uma ocasi\u00e3o surpreendera-lhe<br \/>\nno bolso do palet\u00f3 uma cartinha de mulher, muito cheirosa e dentro<br \/>\nda qual havia um amor-perfeito j\u00e1 desbotado como essas flores raras<br \/>\nque se eternizam entre as paginas dos \u00e1lbuns. D. Branca sorriu e devorou<br \/>\ncom os olhos a misteriosa ep\u00edstola, em verdade bem misteriosa, porque<br \/>\nnada tinha de indiscreto sen\u00e3o o car\u00e1ter visivelmente feminino<br \/>\nda letra. Nunca se vira maior laconismo, nem t\u00e3o cautelosos dizeres<br \/>\nnuma correspond\u00eancia de mulher. Assinavam as iniciais B. F. &#8211; &#8220;Branca<br \/>\nFurtado!&#8221;, pensou com estranheza e admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E tornou a colocar o papel no bolso do marido, respeitosamente. Era um segredo<br \/>\ne ela n\u00e3o tinha o direito de violar segredo a quem quer que fosse.<\/p>\n<p>Outra ocasi\u00e3o deparou com o retrato da cuja. &#8211; &#8220;Sim senhor: uma<br \/>\nmulher espl\u00eandida! O Lu\u00eds tinha gosto para mulheres&#8230;&#8221;<br \/>\nNo dorso da fotografia, em cart\u00e3o imperial, a seguinte dedicat\u00f3ria:<\/p>\n<p>Ao Lu\u00eds &#8211; B. F.<\/p>\n<p>PETR\u00d3POLIS, 18..<\/p>\n<p>&#8211; Petr\u00f3polis! &#8211; exclamou D. Branca. &#8211; \u00c9 gente fina&#8230; (e com<br \/>\numa ponta de despeito) esses homens&#8230; esses homens!&#8230;<\/p>\n<p>O retrato voltou ao lugar onde estava, sem um arranh\u00e3o.<\/p>\n<p>Imposs\u00edvel haver mais liberdade e mais confian\u00e7a entre marido<br \/>\ne mulher.<\/p>\n<p>O procedimento de Lu\u00eds para com D. Branca era igualmente recatado<br \/>\ne tudo fazia crer que a v\u00edbora do ci\u00fame n\u00e3o lhe mordera<br \/>\nainda o cora\u00e7\u00e3o de esposo. Compreendiam-se um ao outro, e, quando<br \/>\nem um casal, a mulher compreende o marido e o marido compreende a mulher,<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 mais bela institui\u00e7\u00e3o que o casamento.<br \/>\nNingu\u00e9m peca por aceitar a vida como a vida sempre foi &#8211; tal a filosofia<br \/>\nde D. Branca, e com pequenas restri\u00e7\u00f5es, a do secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Dizer que se n\u00e3o amavam? Erro grav\u00edssimo. Adoravam-se quase,<br \/>\ne, em certos momentos, era como se fossem noivos em plena lua-de-mel. Segredos<br \/>\nda alma humana&#8230;<\/p>\n<p>Uns olhos cobi\u00e7osos e apaixonados como os de Lu\u00eds n\u00e3o<br \/>\npodiam, decerto, ver indiferentemente um rosto lindo de mulher. Foi o que<br \/>\nse deu com rela\u00e7\u00e3o a Adelaide, a meiga esposa de Evaristo de<br \/>\nHolanda. O secret\u00e1rio viu-a no dia da chegada e admirou-a intimamente,<br \/>\ncom olhadelas furtivas e trai\u00e7oeiras, enquanto o carro rodava para<br \/>\nBotafogo. Ria, e o seu riso tinha um tique muito delicado, muito nobre, muito<br \/>\nfino, de cavalheiro gentil, que se aprimora numa cortesia de sal\u00e3o.<br \/>\nE, era a todo o instante &#8211; &#8220;vossa excel\u00eancia&#8221;, a todo o instante<br \/>\numa frase elogiosa e comedida e mais uma perguntazinha discreta que Adelaide<br \/>\nrespondia com o natural embara\u00e7o de quem chega a um lugar estranho<br \/>\ne pela primeira vez ouve linguagem desconhecida.<\/p>\n<p>O que logo provocou a aten\u00e7\u00e3o da jovem esposa de Evaristo foi<br \/>\num grande anel de brilhante que Furtado trazia no dedo &#8211; uma pedra enorme,<br \/>\nde primeira \u00e1gua, cujas facetas se multiplicavam \u00e0 vista incisivamente,<br \/>\ncomo um prisma, quando ele erguia a m\u00e3o morena para cofiar o bigode.<\/p>\n<p>No outro dia, ao almo\u00e7o, Adelaide estava com um vestido branco de<br \/>\ncassa e Furtado achou-a mais comunicativa e mais bela. A toilette de gorgor\u00e3o<br \/>\ndava-lhe uns ares de respeito, que n\u00e3o iam bem com a frescura primaveril<br \/>\ndo seu rosto; e aquela mudan\u00e7a de vestu\u00e1rio, aquela nonchalance<br \/>\nobrigou-o tamb\u00e9m a mudar o tratamento de &#8220;vossa excel\u00eancia&#8221;<br \/>\nque tantas vezes repisara na v\u00e9spera. Evaristo mesmo j\u00e1 lhe<br \/>\nhavia observado que estavam &#8220;em fam\u00edlia&#8221;, que deixasse o<br \/>\n&#8220;vossa excel\u00eancia&#8221; para pessoas de cerim\u00f4nias, do contr\u00e1rio<br \/>\nn\u00e3o se entendiam, nem podiam estimar-se como bons e velhos amigos.<\/p>\n<p>E entraram todos na mais ampla intimidade, no mais belo conv\u00edvio dom\u00e9stico<br \/>\ne na mais franca harmonia. &#8211; Era pena que o andar superior n\u00e3o estivesse<br \/>\ndesocupado, oh, era pena! &#8211; lamentava o marido de D. Branca. &#8211; Uns estrangeiros<br \/>\nque ningu\u00e9m sabia donde tinham vindo!&#8230;<\/p>\n<p>Mas, no \u00edntimo, desejava que os estrangeiros n\u00e3o se mudassem<br \/>\nnunca; ele assim estava mais perto do seu novo ideal&#8230; Em casa ou no Banco,<br \/>\numa s\u00f3 preocupa\u00e7\u00e3o enchia-lhe o esp\u00edrito: &#8211; Adelaide.<br \/>\nComo e por qu\u00ea? Mist\u00e9rio! E a vida o que \u00e9 sen\u00e3o<br \/>\num grande e tenebroso mist\u00e9rio?<\/p>\n<p>Lu\u00eds co\u00e7ava a cabe\u00e7a, atordoado, impaciente, fechando<br \/>\nos olhos como para ver melhor no fundo da sua alma, e quer os fechasse, quer<br \/>\nos abrisse, tinha diante deles a imagem de uma criatura excepcional &#8211; anjo<br \/>\ne mulher &#8211; e essa criatura tinha os olhos de Adelaide, a boca de Adelaide,<br \/>\no sorriso de Adelaide! Como resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, ele,<br \/>\nque julgava a mulher uma for\u00e7a divina, um poder acima de todos os poderes<br \/>\nhumanos e acima de todos os preconceitos sociais? .<\/p>\n<p>E nesse filosofar \u00e0-toa, nesse monologar do c\u00e9rebro, perpassava<br \/>\ntamb\u00e9m o riso bom de Evaristo, a alma simples do amigo, cheio de confian\u00e7a<br \/>\ne de um otimismo \u00e0s vezes ing\u00eanuo. Furtado espancava uma imagem<br \/>\npara deliciar-se com a outra, com a dos olhos meigos e sorriso angelical&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0 noite, fora de horas, acordava, abria os olhos num \u00eaxtase<br \/>\nson\u00e2mbulo &#8211; enquanto a mulher se imobilizava &#8211; e punha-se a fazer c\u00e1lculos,<br \/>\na maquinar planos de general em v\u00e9spera de batalha. &#8211; Como havia de<br \/>\nser isso? Como havia de ser aquilo?&#8230;<\/p>\n<p>E, no outro dia, eram os mesmos olhares, as mesmas finezas, que Adelaide<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o estranhava, por virem donde vinham. N\u00e3o padecia<br \/>\nd\u00favida que o Sr. Furtado era um cavalheiro de educa\u00e7\u00e3o<br \/>\ne ela achava muito bonito um homem de educa\u00e7\u00e3o&#8230; Os modos do<br \/>\nSr. Furtado, quem \u00e9 que os n\u00e3o apreciava?<\/p>\n<p>Ao almo\u00e7o e ao jantar, longamente discutiam assuntos caseiros e D.<br \/>\nBranca via-o quase sempre de bom humor \u00e0 hora das refei\u00e7\u00f5es,<br \/>\ndizendo pilh\u00e9rias, mostrando-se entendido em mat\u00e9ria culin\u00e1ria<br \/>\ne em coisas de boudoirs, improvisando anedotas, gracejando, servindo \u00e0<br \/>\nmulher e ao Evaristo, para poder servir a Adelaide, fito \u00fanico dos<br \/>\nseus olhos e da sua imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 noite escancaravam-se as janelas da frente e jogava-se \u00e0<br \/>\nluz do g\u00e1s amortecido por causa do calor. Nos jogos de parceria, Furtado<br \/>\nsentava-se defronte de Adelaide, tocando-se os joelhos, a pontinha dos p\u00e9s,<br \/>\nem torno da pequenina mesa de char\u00e3o colocada ao centro da sala, e<br \/>\ndivertiam-se horas e horas, num t\u00eate-\u00e0-t\u00eate voluptuoso<br \/>\ne calmo, perturbado, \u00e0s vezes, por uma gargalhada geral que irrompia<br \/>\nun\u00edssona das quatro bocas.<\/p>\n<p>Evaristo chamava aquilo, aquelas reuni\u00f5es familiares &#8220;uma p\u00e2ndega&#8221;,<br \/>\nsempre melhor que as da Rua do Ouvidor: mais honesta e menos tumultuosa.<\/p>\n<p>&#8211; Inda havemos de fazer um piquenique no Jardim Bot\u00e2nico! &#8211; disse uma<br \/>\nnoite o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, \u00e9 verdade! &#8211; aplaudiu, com entusiasmo, D. Branca.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos um dia, um domingo, ao Jardim Bot\u00e2nico!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 Tijuca n\u00e3o seria melhor? &#8211; lembrou Evaristo, que ardia<br \/>\npor fazer um passeio \u00e0 &#8220;tal Tijuca&#8221;.<\/p>\n<p>Mas Furtado apontou inconvenientes de ida e volta: &#8211; era muito longe a cascatinha,<br \/>\nl\u00e1 onde o diabo perdeu as esporas, enquanto que o Jardim Bot\u00e2nico<br \/>\nficava perto e era mais elegante. Depois, com o tempo, ir-se-ia \u00e0 Tijuca&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Em primeiro lugar &#8211; concluiu Evaristo &#8211; \u00e9 preciso que esses estrangeiros<br \/>\ndo segundo andar ponham-se ao fresco, v\u00e3o para o diabo que os carregue!<\/p>\n<p>E ficou assentado que num belo domingo iriam os dois casais ao Jardim Bot\u00e2nico,<br \/>\nem piquenique.<\/p>\n<p>Antes disso, por\u00e9m, havia o batizado da Julinha. Estava tudo pronto<br \/>\ncomo para uma grande recep\u00e7\u00e3o de anivers\u00e1rio: vidros,<br \/>\nm\u00f3veis, tapetes, cristais, o servi\u00e7o da copa, o buffet, uma<br \/>\nquantidade enorme de garrafas, mesa lauta sobre \u00e0 qual via-se toda<br \/>\na baixela da casa e vasos com flores naturais e altas pir\u00e2mides de doce,<br \/>\npondo manchas na brancura da toalha, e em cada prato um buquezinho de violeta<br \/>\narranjado especialmente pelas m\u00e3os de D. Branca; e em toda a casa,<br \/>\ndesde a sala de visitas at\u00e9 os fundos da cozinha, um ar alegre de interior<br \/>\nholand\u00eas, um ar festivo e risonho, cheirando a flores como a atmosfera<br \/>\nmatinal dos jardins. Viam-se em todo aquele esmero, em toda aquela simplicidade<br \/>\ngrega &#8211; na composi\u00e7\u00e3o de um vaso, no arranjo dos buqu\u00eas<br \/>\n&#8211; o zelo aristocr\u00e1tico de D. Branca e o gosto n\u00e3o menos aristocr\u00e1tico<br \/>\nde Lu\u00eds Furtado harmonizando-se nas menores coisas, traindo-se a cada<br \/>\nhora. O papel da sala de visitas parecia mais novo; os quadros destacavam-se,<br \/>\nmuito n\u00edtidos, numa bela disposi\u00e7\u00e3o ornamental de galeria<br \/>\npobre; o piano sofrera uma m\u00e3o de \u00f3leo e guardava ainda o cheiro<br \/>\nda f\u00e1brica, de costas para a janela, reluzindo como um espelho; as<br \/>\ncortinas pendiam frouxamente das arma\u00e7\u00f5es de ouro&#8230; Enfim,<br \/>\nna alcova esponsal\u00edcia de D Branca estava o ber\u00e7o de Julinha&gt;<br \/>\ntodo em festa, ao lado da grande cama de casal. Para a\u00ed \u00e9 que<br \/>\ndeviam convergir os olhares do desembargador e da mulher, especialmente destes,<br \/>\nporque D. Branca entendia que ser dama do pa\u00e7o era merecer as aten\u00e7\u00f5es<br \/>\ndevidas \u00e0 pr\u00f3pria imperatriz; al\u00e9m disso, o velho Lousada<br \/>\ntinha, mais do que ningu\u00e9m, direito a essas aten\u00e7\u00f5es<br \/>\ncomo padrinho da pequena. D. Branca esfor\u00e7ara-se por dar ao ber\u00e7o<br \/>\num aspecto luxuoso e sereno, para que se n\u00e3o dissesse que ela, no meio<br \/>\ndas suas ostenta\u00e7\u00f5es, pouco amor tinha aos filhos. E conseguira-o,<br \/>\nsem desprezar um ou outro conselho quer de Adelaide, quer de Furtado, quer<br \/>\nmesmo de Evaristo, que tamb\u00e9m fora chamado a dar sua opini\u00e3ozinha.<\/p>\n<p>&#8211; Eu nunca tive filhos, minha senhora&#8230; &#8211; protestou ele.<\/p>\n<p>Mas a esposa do secret\u00e1rio alegou que era justamente por ele nunca<br \/>\nter tido filhos que lhe pedia a opini\u00e3o.<\/p>\n<p>E, agarrado por um bra\u00e7o e pelo outro, o marido de Adelaide lembrou,<br \/>\nespirituosamente, que se devia colocar na c\u00fapula a seguinte inscri\u00e7\u00e3o:<br \/>\nEste filho \u00e9 o \u00faltimo da prole&#8230; &#8211; o que fez rir muito a D.<br \/>\nSinh\u00e1 do desembargador, a ela s\u00f3, porque os outros n\u00e3o<br \/>\nacharam gra\u00e7a na id\u00e9ia.<\/p>\n<p>O leito de Julinha era todo de uma madeira escura e s\u00f3lida, como \u00e9bano-da-\u00edndia,<br \/>\ne custara um dinheir\u00e3o ao Furtado. Imitava o casco de urna pequena<br \/>\ng\u00f4ndola com a proa recurva e estreita. Sobre ele ca\u00eda fartamente<br \/>\numa nuvem de rendas, abrindo-se para um e outro lado e quase tocando o ch\u00e3o.<br \/>\nA c\u00fapula era um verdadeiro trabalho de arte, muito simples, mas curioso,<br \/>\nrepresentando uma coroa ducal com embutidos de marfim. No alto do cortinado,<br \/>\num grande la\u00e7o de seda azul com franjas de ouro&#8230;<\/p>\n<p>Ao todo seis carros, inclusive a berlinda, em que ia a pequena nos bra\u00e7os<br \/>\nda ama e a mulher o desembargador. As outras eram ocupadas sucessivamente<br \/>\npelo funcion\u00e1rio do governo e D. Branca, pelo Furtado e o Raul, pela<br \/>\nvi\u00fava Tourinho, pelo tesoureiro do Banco Industrial e a esposa, e o<br \/>\n\u00faltimo carro por dois amigos do secret\u00e1rio, rapazes do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>D. Sinh\u00e1 n\u00e3o quis ir \u00e0 igreja, deixando-se ficar em<br \/>\ncompanhia de Evaristo e de Adelaide nas suas toilettes de pouca cerim\u00f4nia,<br \/>\nesperando a volta do batizado &#8211; &#8220;que era uma grande ma\u00e7ada vestir-se<br \/>\ntoda de luxo somente para ouvir o latim de monsenhor Teixeira; logo n\u00e3o<br \/>\nestavam vendo?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ca\u00edam as primeiras sombras da noite quando um rodar de carros anunciou<br \/>\no regresso da Julinha com todo o seu acompanhamento. Encheram-se as janelas<br \/>\nde curiosos que queriam ver a crian\u00e7a, e um ligeiro alvoro\u00e7o<br \/>\npercorreu, como um fr\u00eamito de novidade, aquele trecho do aristocr\u00e1tico<br \/>\nbairro. &#8211; \u00c9 o batizado! \u00e9 o batizado! &#8211; exclamaram vozes alvissareiras;<br \/>\ne os carros, um a um, foram parando na mesma ordem da sa\u00edda, com a<br \/>\nmesma distin\u00e7\u00e3o, e um a um foram-se apeando os convidados, primeiro<br \/>\nos cavalheiros, depois as senhoras, risonhos todos, numa onda invis\u00edvel<br \/>\nde ess\u00eancias. \u00c0 porta da casa, tapetada de folhas, houve um murm\u00fario,<br \/>\ndestacando a voz de Furtado:<\/p>\n<p>&#8211; Entrem, meus senhores, queiram ter a bondade&#8230;<\/p>\n<p>Seguiu-se o jantar &#8211; &#8220;um banquete de pr\u00edncipe!&#8221; na opini\u00e3o<br \/>\nde Evaristo. Adelaide foi apresentada \u00e0 vi\u00fava Tourinho e ao<br \/>\nLoiola do Banco, houve brindes ao dessert, todos acabaram tratando-se familiarmente,<br \/>\nesquecendo o vestido de seda e a casaca, e a pr\u00f3pria Julinha que, depois<br \/>\nde um berreiro infernal, adormeceu com a serenidade de um anjo.<\/p>\n<p>Era noite quando Lu\u00eds Furtado ergueu-se para levantar o \u00faltimo<br \/>\nbrinde, o brinde de honra \u00e0 &#8220;Seren\u00edssima senhora D. Isabel,<br \/>\nprincesa imperial e herdeira presuntiva do trono do Brasil!&#8221; O champanha<br \/>\nespumava nas ta\u00e7as de cristal e os hip! hip! hurras! estrondearam em<br \/>\ntoda a casa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 Seren\u00edssima!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 herdeira da coroa!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 imperial madrinha da J\u00falia!<\/p>\n<p>E, todos de p\u00e9, esvaziaram as ta\u00e7as.<\/p>\n<p>Furtado observou, ent\u00e3o, limpando o bigode, que na sala estava mais<br \/>\nfresco.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, desembargador&#8230; \u00d3 Evaristo, d\u00e1 o bra\u00e7o \u00e0<br \/>\nD. Rosa.<\/p>\n<p>D. Rosa era a mulher do Loiola. O bacharel, estranho a etiquetas, muito fil\u00f3sofo,<br \/>\ncomo dizia o secret\u00e1rio, deu dois passos \u00e0 frente e recebeu<br \/>\namavelmente a mulher do tesoureiro.<\/p>\n<p>&#8211; Muito obrigada, Sr. Evaristo, muito obrigada! &#8211; repetiu a gorda matrona.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, minha senhora&#8230;<\/p>\n<p>E, em prociss\u00e3o, desfilaram os convivas pelo corredor. No alto da<br \/>\nescada do segundo andar ocultou-se, r\u00e1pida, uma sombra de mulher. Instintivamente<br \/>\no desembargador ergueu os olhos, baixando-os logo.<\/p>\n<p>Furtado ia na frente, guiando os amigos, de bra\u00e7o com a ilustre dama<br \/>\nde Sua Majestade a Imperatriz.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 que a sala de visitas tinha um aspecto nobre e luxuoso, ao<br \/>\nreflexo das serpentinas e do grande candelabro de cristal pendente do teto.<br \/>\nQuadros e bibel\u00f4s, o piano e a mob\u00edlia, o espelho de primeira<br \/>\nordem, rodeado de arabescos, a estante de m\u00fasica, as tape\u00e7arias,<br \/>\nas cortinas, o papel do forro, tudo resplendia e dava uns tons de alta nobreza<br \/>\nao conjunto.<\/p>\n<p>Adelaide, sempre t\u00edmida, vinha de bra\u00e7o com um dos rapazes<br \/>\ndo com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Sentaram-se todos, rindo, palrando, o tesoureiro com a face congestionada,<br \/>\na mulher idem, ambos muito gordos; a mulher do desembargador com o seu ar<br \/>\nindefect\u00edvel de nobreza pouco comunicativa, querendo parecer mais mo\u00e7a<br \/>\ndo que na realidade era, assestava de vez em quando o lorgnon de tartaruga,<br \/>\nque pendia-lhe de um corrent\u00e3o de ouro, e punha-se a observar uma estampa<br \/>\ndo imperador, que havia na sala, entre dois consolos, enquanto o velho Lousada<br \/>\nfalava com a vi\u00fava Tourinho acerca dos \u00faltimos inc\u00f4modos<br \/>\ndo monarca; o secret\u00e1rio instalara-se entre Adelaide e D. Branca e<br \/>\nrespondia prontamente \u00e0s perguntas que lhe faziam, ora um dos rapazes,<br \/>\nora D. Sinh\u00e1, ora o tesoureiro do Banco, ora o pr\u00f3prio desembargador,<br \/>\ninterrompendo a conversa com a Tourinho, e volvia-se freq\u00fcentemente para<br \/>\na esposa de Evaristo. O bacharel divertia-se a gabar os trajos de Raul, dando-lhe<br \/>\npalmadinhas no ombro.<\/p>\n<p>E pouco a pouco ia-se tornando maior a familiaridade.<\/p>\n<p>&#8211; E o Santa Quit\u00e9ria? &#8211; lembrou Furtado com ar de desgosto. Ele, que<br \/>\n\u00e9 um dos meus bons amigos, faltar ao batizado de minha filha!<\/p>\n<p>&#8211; E o Dr. Condicional? &#8211; saltou Evaristo. &#8211; Ainda ontem disse-me que vinha.<\/p>\n<p>&#8211; Faltaram todos: o Santa Quit\u00e9ria, o Pinto, comendador, o Condicional,<br \/>\no Xavier&#8230; todos, enfim!<\/p>\n<p>&#8211; Todos n\u00e3o! &#8211; protestou o velho Lousada, sorrindo &#8211; eu aqui estou<br \/>\ncom minha mulher&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O desembargador \u00e9 gente nossa, \u00e9 de casa &#8211; emendou Furtado.<\/p>\n<p>&#8211; E eu tamb\u00e9m sou de casa? &#8211; perguntou maliciosamente a vi\u00fava.<\/p>\n<p>&#8211; V. Exa., com a sua bondade, \u00e9 de todo o mundo!<\/p>\n<p>&#8211; Alto l\u00e1, meu amiguinho! &#8211; sorriu a boa senhora. &#8211; De todo mundo<br \/>\n\u00e9 que n\u00e3o.<\/p>\n<p>E quis saber o que \u00e9 que o Sr. Furtado entendia por todo o mundo.<\/p>\n<p>Furtado explicou-se razoavelmente.<\/p>\n<p>Nisso p\u00e1ra um carro \u00e0 porta. Todos os olhares volveram-se para<br \/>\na entrada da sala. D. Branca e o secret\u00e1rio ergueram-se. Mas, antes<br \/>\nque se aproximassem da escada, j\u00e1 o Raul anunciava indiscretamente<br \/>\nque &#8220;era o Dr. Condicional!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Oh, o Manh\u00e3es! &#8211; acudiu Furtado.<\/p>\n<p>&#8211; Eu mesmo, caro amigo, eu mesmo. Venho dar-lhe os parab\u00e9ns pelo glorioso<br \/>\ndia!<\/p>\n<p>Movimento nas cadeiras; leve sussurro.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, esse \u00e9 que \u00e9 o autor do Juca Pir\u00e3o? &#8211; fez um dos<br \/>\nrapazes do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>&#8211; Sei que n\u00e3o vim de bonne heure&#8230; &#8211; tornou o literato dirigindo-se<br \/>\npara o grupo, consertando a sobrecasaca. &#8211; Em todo o caso, antes tarde que<br \/>\nnunca!&#8230;<\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00f5es, cumprimentos, e o Dr. Condicional, dando jeito<br \/>\nao pincen\u00ea, sentou-se. Trazia um grande buqu\u00ea de violetas na lapela.<\/p>\n<p>Novo carro parou quase imediatamente. Furtado, que se ia acomodando, ergueu-se<br \/>\noutra vez. Outra vez o Raul adiantou-se para anunciar, agora com toda a discri\u00e7\u00e3o<br \/>\ne respeito, &#8220;o Sr. visconde de Santa Quit\u00e9ria!&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Oh!<\/p>\n<p>A exclama\u00e7\u00e3o foi geral.<\/p>\n<p>&#8211; O visconde de Santa Quit\u00e9ria!<\/p>\n<p>&#8211; Logo vi que n\u00e3o faltava! &#8211; disse Furtado.<\/p>\n<p>E D. Branca teve um movimentozinho de surpresa muito especial, exclamando<br \/>\ntamb\u00e9m: &#8211; Oh!<\/p>\n<p>Era, com efeito, o visconde de Santa Quit\u00e9ria, o grande capitalista,<br \/>\ndiretor do Banco Luso-Brasileiro.<\/p>\n<p>Bem que todos tinham ouvido parar um carro!<\/p>\n<p>Pelo menos naquele instante, ningu\u00e9m se lembrou do ilustre poeta que<br \/>\nacabava de entrar. A chegada do visconde enchia a todos de surpresa e de alta<br \/>\nconsidera\u00e7\u00e3o. Entre a poesia e o capital &#8211; preferia-se o capital,<br \/>\ntanto mais quanto o diretor do Banco Luso n\u00e3o representava simplesmente<br \/>\num capitalzinho de alguns mil-r\u00e9is. N\u00e3o. O Santa Quit\u00e9ria<br \/>\ntinha fortuna para mais de seis mil contos!.<\/p>\n<p>O ilustre personagem estacou \u00e0 porta, fez um cumprimento geral com<br \/>\na cabe\u00e7a e entrou, muito correto, admir\u00e1vel de mocidade e de<br \/>\nfrescura. D. Branca recebeu-o no meio da sala com o mais belo dos seus sorrisos.<\/p>\n<p>Era um perfeito cavalheiro, o visconde. Residia ora em Petr\u00f3polis,<br \/>\nquando j\u00e1 n\u00e3o suportava o calor na Corte, ora no seu rico palacete<br \/>\ndas Laranjeiras, pelo inverno chuvoso e nublado. Para as transa\u00e7\u00f5es<br \/>\nda Bolsa tinha escrit\u00f3rio na Rua da Alf\u00e2ndega, onde ocupava uma<br \/>\nsaleta de frente e uma alcova com toilette de m\u00e1rmore e outros objetos<br \/>\nindispens\u00e1veis ao asseio de um homem. Idade m\u00e9dia (pouco mais<br \/>\nde quarenta anos), muit\u00edssimo conservado, sem um fio branco na cabe\u00e7a,<br \/>\nolhos vivos, todo ele irrepreens\u00edvel, tinha fama de beleza entre as<br \/>\nmulheres, que o admiravam, n\u00e3o tanto pela fortuna, mas especialmente<br \/>\npela corre\u00e7\u00e3o do trajo e pelo estranho conjunto das linhas fision\u00f4micas.<br \/>\nMuita gente achava-lhe pontos de semelhan\u00e7a com Lu\u00eds Furtado<br \/>\nque se orgulhava disso, que era uma honra para ele, uma grande honra! Por<br \/>\nduas vezes o tinham saudado na Rua do Ouvidor julgando cumprimentar o Santa<br \/>\nQuit\u00e9ria: Sr. visconde!&#8230; &#8211; e ele correspondera delicadamente. Era<br \/>\num engano que o honrava.<\/p>\n<p>O visconde descera de Petr\u00f3polis na manh\u00e3 daquele dia para<br \/>\nn\u00e3o faltar ao convite do secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Dou-lhe os meus parab\u00e9ns &#8211; disse ele a Furtado. E voltando-se para<br \/>\nD. Branca, antes de sentar-se: &#8211; Pe\u00e7o licen\u00e7a a V. Exa., para<br \/>\num presentezinho \u00e0 pequena, uma simples lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>D. Branca, humilhada, recebeu a d\u00e1diva do banqueiro, que este entregou<br \/>\ndentro de uma caixinha de veludo gren\u00e1. Era uma j\u00f3ia de ouro<br \/>\ne brilhante, uma linda medalha para pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Sr. visconde!&#8230;<\/p>\n<p>D. Sinh\u00e1 quis logo ver o que era:<\/p>\n<p>&#8211; Veja, mam\u00e3e, veja que bonita!<\/p>\n<p>A dama de honra de Sua Majestade a Imperatriz tomou, cautelosamente, o brinde,<br \/>\nassestou o lorgnon e achou, com efeito, lindo, muito lindo!<\/p>\n<p>A j\u00f3ia correu de m\u00e3o em m\u00e3o, arrebatando um &#8211; oh! &#8211;<br \/>\nde cada boca. O Dr. Condicional lembrava-se de ter visto coisa semelhante<br \/>\nna vitrina do Farani.<\/p>\n<p>D. Branca n\u00e3o se esqueceu de apresentar Adelaide ao visconde.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Sua amiga Adelaide, esposa do Sr. Evaristo de Holanda, comprovinciano<br \/>\ne amigo de Furtado&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E a conversa continuou animada, picante, com um acentuado car\u00e1ter<br \/>\nde brasileirismo, entrecruzando-se as vozes, as opini\u00f5es, os ditos<br \/>\nespirituosos.<\/p>\n<p>O Dr. Condicional, que se sentara ao lado do desembargador, fez a apologia<br \/>\ndo Instituto Hist\u00f3rico, do que o velho magistrado era membro, discorrendo<br \/>\nsobre os \u00faltimos trabalhos do bar\u00e3o da Corte Real, apresentados<br \/>\nao Instituto, e sobre os progressos da geografia e das letras no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Lousada, inclinava a cabe\u00e7a para ouvir melhor, e saboreava os elogios<br \/>\nde Valdevino Manh\u00e3es como quem escuta uma m\u00fasica voluptuosa,<br \/>\numa vaga harmonia encantadora, os olhos entrecerrados, meio adormecidos, a<br \/>\nboca im\u00f3vel, serenamente im\u00f3vel&#8230;<\/p>\n<p>De repente estalava uma risada e ele abria os olhos, com um sustozinho, pigarreando.<\/p>\n<p>&#8211; E V. Exa. j\u00e1 apresentou algum trabalho, Sr. Desembargador? &#8211; inquiriu,<br \/>\npor delicadeza, o poeta.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o, meu amigo, ainda n\u00e3o, mas tenho pronta uma refuta\u00e7\u00e3o<br \/>\naos Irm\u00e3os Pinz\u00f3n do conselheiro Lisboa.<\/p>\n<p>&#8211; Uma refuta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Exatamente, umas notas sobre os primeiros descobridores da Am\u00e9rica,<br \/>\nuns documentos important\u00edssimos, que valem toda a fortuna dos Rothschilds&#8230;<\/p>\n<p>O visconde de Santa Quit\u00e9ria, ao ouvir falar nos Rothschilds, deitou<br \/>\no rabo do olho.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; Calcule o senhor que os fen\u00edcios, muito antes de Pinzon, numa<br \/>\n\u00e9poca remot\u00edssima, andaram no Amazonas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; No Amazonas, desembargador? &#8211; repetiu Manh\u00e3es com espanto.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o, no Amazonas&#8230; admira-se? Quanto mais se eu lhe disser<br \/>\nque os Cananeus andaram na Para\u00edba do Norte! Pois \u00e9 a pura verdade.<br \/>\nEncontrei na biblioteca de Sua Majestade um fac-s\u00edmile de inscri\u00e7\u00f5es<br \/>\nfen\u00edcias descobertas numa pedra da Para\u00edba.<\/p>\n<p>E pouco a pouco ia-se tornando maior a familiaridade.<\/p>\n<p>&#8211; E o Santa Quit\u00e9ria? &#8211; lembrou Furtado com ar de desgosto. Ele, que<br \/>\n\u00e9 um dos meus bons amigos, faltar ao batizado de minha filha!<\/p>\n<p>&#8211; E o Dr. Condicional? &#8211; saltou Evaristo. &#8211; Ainda ontem disse-me que vinha.<\/p>\n<p>&#8211; Faltaram todos: o Santa Quit\u00e9ria, o Pinto, comendador, o Condicional,<br \/>\no Xavier&#8230; todos, enfim!<\/p>\n<p>&#8211; Todos n\u00e3o! &#8211; protestou o velho Lousada, sorrindo &#8211; eu aqui estou<br \/>\ncom minha mulher&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O desembargador \u00e9 gente nossa, \u00e9 de casa &#8211; emendou Furtado.<\/p>\n<p>&#8211; E eu tamb\u00e9m sou de casa? &#8211; perguntou maliciosamente a vi\u00fava.<\/p>\n<p>&#8211; V. Exa., com a sua bondade, \u00e9 de todo o mundo!<\/p>\n<p>&#8211; Alto l\u00e1, meu amiguinho! &#8211; sorriu a boa senhora. &#8211; De todo mundo<br \/>\n\u00e9 que n\u00e3o.<\/p>\n<p>E quis saber o que \u00e9 que o Sr. Furtado entendia por todo o mundo.<\/p>\n<p>Furtado explicou-se razoavelmente.<\/p>\n<p>Nisso p\u00e1ra um carro \u00e0 porta. Todos os olhares volveram-se para<br \/>\na entrada da sala. D. Branca e o secret\u00e1rio ergueram-se. Mas, antes<br \/>\nque se aproximassem da escada, j\u00e1 o Raul anunciava indiscretamente<br \/>\nque &#8220;era o Dr. Condicional!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Oh, o Manh\u00e3es! &#8211; acudiu Furtado.<\/p>\n<p>&#8211; Eu mesmo, caro amigo, eu mesmo. Venho dar-lhe os parab\u00e9ns pelo glorioso<br \/>\ndia!<\/p>\n<p>Movimento nas cadeiras; leve sussurro.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, esse \u00e9 que \u00e9 o autor do Juca Pir\u00e3o? &#8211; fez um dos<br \/>\nrapazes do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>&#8211; Sei que n\u00e3o vim de bonne heure&#8230; &#8211; tornou o literato dirigindo-se<br \/>\npara o grupo, consertando a sobrecasaca. &#8211; Em todo o caso, antes tarde que<br \/>\nnunca!&#8230;<\/p>\n<p>Apresenta\u00e7\u00f5es, cumprimentos, e o Dr. Condicional, dando jeito<br \/>\nao pincen\u00ea, sentou-se. Trazia um grande buqu\u00ea de violetas na lapela.<\/p>\n<p>Novo carro parou quase imediatamente. Furtado, que se ia acomodando, ergueu-se<br \/>\noutra vez. Outra vez o Raul adiantou-se para anunciar, agora com toda a discri\u00e7\u00e3o<br \/>\ne respeito, &#8220;o Sr. visconde de Santa Quit\u00e9ria!&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Oh!<\/p>\n<p>A exclama\u00e7\u00e3o foi geral.<\/p>\n<p>&#8211; O visconde de Santa Quit\u00e9ria!<\/p>\n<p>&#8211; Logo vi que n\u00e3o faltava! &#8211; disse Furtado.<\/p>\n<p>E D. Branca teve um movimentozinho de surpresa muito especial, exclamando<br \/>\ntamb\u00e9m: &#8211; Oh!<\/p>\n<p>Era, com efeito, o visconde de Santa Quit\u00e9ria, o grande capitalista,<br \/>\ndiretor do Banco Luso-Brasileiro.<\/p>\n<p>Bem que todos tinham ouvido parar um carro!<\/p>\n<p>Pelo menos naquele instante, ningu\u00e9m se lembrou do ilustre poeta que<br \/>\nacabava de entrar. A chegada do visconde enchia a todos de surpresa e de alta<br \/>\nconsidera\u00e7\u00e3o. Entre a poesia e o capital &#8211; preferia-se o capital,<br \/>\ntanto mais quanto o diretor do Banco Luso n\u00e3o representava simplesmente<br \/>\num capitalzinho de alguns mil-r\u00e9is. N\u00e3o. O Santa Quit\u00e9ria<br \/>\ntinha fortuna para mais de seis mil contos!.<\/p>\n<p>O ilustre personagem estacou \u00e0 porta, fez um cumprimento geral com<br \/>\na cabe\u00e7a e entrou, muito correto, admir\u00e1vel de mocidade e de<br \/>\nfrescura. D. Branca recebeu-o no meio da sala com o mais belo dos seus sorrisos.<\/p>\n<p>Era um perfeito cavalheiro, o visconde. Residia ora em Petr\u00f3polis,<br \/>\nquando j\u00e1 n\u00e3o suportava o calor na Corte, ora no seu rico palacete<br \/>\ndas Laranjeiras, pelo inverno chuvoso e nublado. Para as transa\u00e7\u00f5es<br \/>\nda Bolsa tinha escrit\u00f3rio na Rua da Alf\u00e2ndega, onde ocupava uma<br \/>\nsaleta de frente e uma alcova com toilette de m\u00e1rmore e outros objetos<br \/>\nindispens\u00e1veis ao asseio de um homem. Idade m\u00e9dia (pouco mais<br \/>\nde quarenta anos), muit\u00edssimo conservado, sem um fio branco na cabe\u00e7a,<br \/>\nolhos vivos, todo ele irrepreens\u00edvel, tinha fama de beleza entre as<br \/>\nmulheres, que o admiravam, n\u00e3o tanto pela fortuna, mas especialmente<br \/>\npela corre\u00e7\u00e3o do trajo e pelo estranho conjunto das linhas fision\u00f4micas.<br \/>\nMuita gente achava-lhe pontos de semelhan\u00e7a com Lu\u00eds Furtado<br \/>\nque se orgulhava disso, que era uma honra para ele, uma grande honra! Por<br \/>\nduas vezes o tinham saudado na Rua do Ouvidor julgando cumprimentar o Santa<br \/>\nQuit\u00e9ria: Sr. visconde!&#8230; &#8211; e ele correspondera delicadamente. Era<br \/>\num engano que o honrava.<\/p>\n<p>O visconde descera de Petr\u00f3polis na manh\u00e3 daquele dia para<br \/>\nn\u00e3o faltar ao convite do secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Dou-lhe os meus parab\u00e9ns &#8211; disse ele a Furtado. E voltando-se para<br \/>\nD. Branca, antes de sentar-se: &#8211; Pe\u00e7o licen\u00e7a a V. Exa., para<br \/>\num presentezinho \u00e0 pequena, uma simples lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>D. Branca, humilhada, recebeu a d\u00e1diva do banqueiro, que este entregou<br \/>\ndentro de uma caixinha de veludo gren\u00e1. Era uma j\u00f3ia de ouro<br \/>\ne brilhante, uma linda medalha para pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Sr. visconde!&#8230;<\/p>\n<p>D. Sinh\u00e1 quis logo ver o que era:<\/p>\n<p>&#8211; Veja, mam\u00e3e, veja que bonita!<\/p>\n<p>A dama de honra de Sua Majestade a Imperatriz tomou, cautelosamente, o brinde,<br \/>\nassestou o lorgnon e achou, com efeito, lindo, muito lindo!<\/p>\n<p>A j\u00f3ia correu de m\u00e3o em m\u00e3o, arrebatando um &#8211; oh! &#8211;<br \/>\nde cada boca. O Dr. Condicional lembrava-se de ter visto coisa semelhante<br \/>\nna vitrina do Farani.<\/p>\n<p>D. Branca n\u00e3o se esqueceu de apresentar Adelaide ao visconde.<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Sua amiga Adelaide, esposa do Sr. Evaristo de Holanda, comprovinciano<br \/>\ne amigo de Furtado&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>E a conversa continuou animada, picante, com um acentuado car\u00e1ter<br \/>\nde brasileirismo, entrecruzando-se as vozes, as opini\u00f5es, os ditos<br \/>\nespirituosos.<\/p>\n<p>O Dr. Condicional, que se sentara ao lado do desembargador, fez a apologia<br \/>\ndo Instituto Hist\u00f3rico, do que o velho magistrado era membro, discorrendo<br \/>\nsobre os \u00faltimos trabalhos do bar\u00e3o da Corte Real, apresentados<br \/>\nao Instituto, e sobre os progressos da geografia e das letras no nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Lousada, inclinava a cabe\u00e7a para ouvir melhor, e saboreava os elogios<br \/>\nde Valdevino Manh\u00e3es como quem escuta uma m\u00fasica voluptuosa,<br \/>\numa vaga harmonia encantadora, os olhos entrecerrados, meio adormecidos, a<br \/>\nboca im\u00f3vel, serenamente im\u00f3vel&#8230;<\/p>\n<p>De repente estalava uma risada e ele abria os olhos, com um sustozinho, pigarreando.<\/p>\n<p>&#8211; E V. Exa. j\u00e1 apresentou algum trabalho, Sr. Desembargador? &#8211; inquiriu,<br \/>\npor delicadeza, o poeta.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o, meu amigo, ainda n\u00e3o, mas tenho pronta uma refuta\u00e7\u00e3o<br \/>\naos Irm\u00e3os Pinz\u00f3n do conselheiro Lisboa.<\/p>\n<p>&#8211; Uma refuta\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Exatamente, umas notas sobre os primeiros descobridores da Am\u00e9rica,<br \/>\nuns documentos important\u00edssimos, que valem toda a fortuna dos Rothschilds&#8230;<\/p>\n<p>O visconde de Santa Quit\u00e9ria, ao ouvir falar nos Rothschilds, deitou<br \/>\no rabo do olho.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; Calcule o senhor que os fen\u00edcios, muito antes de Pinzon, numa<br \/>\n\u00e9poca remot\u00edssima, andaram no Amazonas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; No Amazonas, desembargador? &#8211; repetiu Manh\u00e3es com espanto.<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o, no Amazonas&#8230; admira-se? Quanto mais se eu lhe disser<br \/>\nque os Cananeus andaram na Para\u00edba do Norte! Pois \u00e9 a pura verdade.<br \/>\nEncontrei na biblioteca de Sua Majestade um fac-s\u00edmile de inscri\u00e7\u00f5es<br \/>\nfen\u00edcias descobertas numa pedra da Para\u00edba.<\/p>\n<h4><a name=\"4\"><\/a>Cap\u00edtulo IV<\/h4>\n<p>&#8211; Com efeito! &#8211; exclamou, surpreendido. &#8211; Nem que se estivesse esperando<br \/>\na volta de D. Sebasti\u00e3o&#8230; Ah!&#8230; Eu j\u00e1 estava resolvido a alugar<br \/>\no palacete do Friburgo!<\/p>\n<p>&#8211; Agora, sim, senhor &#8211; disse Lu\u00eds, batendo no ombro do amigo e rindo<br \/>\npara Adelaide &#8211; agora v\u00e3o dormir folgadamente na sua cama de casal,<br \/>\nv\u00e3o se regalar!<\/p>\n<p>&#8211; Queres dizer, ent\u00e3o, que pass\u00e1vamos as noites de olho aberto,<br \/>\nno nosso belo quartinho? Est\u00e1s muito enganado. Nunca dormi tanto, e<br \/>\na Adelaide melhor um pouco.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o segue-se, por\u00e9m, que deixem de almo\u00e7ar e de jantar<br \/>\nconosco&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Em primeiro lugar, um exame nos aposentos; depois, trataremos do almo\u00e7o<br \/>\ne do jantar.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 andamos por l\u00e1 &#8211; disse D. Branca espevitadamente. &#8211; Sabem<br \/>\no que encontramos?<\/p>\n<p>&#8211; Algum menino pag\u00e3o&#8230; &#8211; adiantou-se Furtado.<\/p>\n<p>&#8211; Algum fac-s\u00edmile de inscri\u00e7\u00f5es hebraicas para presente<br \/>\nao desembargador?<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e9rio; vejam se podem adivinhar &#8211; insistiu a esposa do secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os dois homens puseram-se a pensar em qual teria sido o misterioso encontro<br \/>\ndas duas senhoras&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei &#8211; disse, por fim, o marido de Branca.<\/p>\n<p>&#8211; Nem eu&#8230; &#8211; imitou Evaristo.<\/p>\n<p>&#8211; Um irrigador de Ermarck, por sinal bem novinho.<\/p>\n<p>&#8211; Que diabo quer isso dizer? &#8211; perguntou o bacharel com assombro.<\/p>\n<p>Adelaide n\u00e3o se p\u00f4de conter e abriu numa risada sonora e gostosa,<br \/>\nocultando o rosto nas m\u00e3os. D. Branca, ante a ing\u00eanua pergunta<br \/>\nde Evaristo, ria tamb\u00e9m para outro lado, enquanto o secret\u00e1rio<br \/>\njustificava a ignor\u00e2ncia do amigo dizendo que o aparelho de Ermarck<br \/>\nainda n\u00e3o era bastante conhecido no Brasil e que, por isso, o Holanda<br \/>\ntinha toda a raz\u00e3o&#8230; E acrescentou com ironia:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o muito maliciosas as mulheres!<\/p>\n<p>Mas Evaristo n\u00e3o descruzava os bra\u00e7os, estatelado, vendo as<br \/>\nduas senhoras rir.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, \u00e9 que j\u00e1 sabes o emprego do irrigador, Adelaide!<\/p>\n<p>&#8211; Eu?<\/p>\n<p>Novo acesso de riso sufocou a esposa do bacharel, como se lhe estivessem<br \/>\na fazer c\u00f3cegas.<\/p>\n<p>&#8211; Sabem que mais? &#8211; disse afinal Evaristo. &#8211; Os ingleses, que deixaram o<br \/>\nirrigador \u00e9 por que o irrigador n\u00e3o presta! Vamos ao que interessa.<\/p>\n<p>J\u00e1 Lu\u00eds Furtado galgava o primeiro degrau da escada que ia<br \/>\nter no segundo andar. Evaristo, Adelaide e D. Branca o acompanharam, todos<br \/>\nrisonhos, a falar dos ingleses.<\/p>\n<p>Eram trinta degraus estreitos, que subiam em curva, gemendo sob os p\u00e9s,<br \/>\niluminados por uma grande clarab\u00f3ia de vidro.<\/p>\n<p>O andar superior compunha-se de uma sala de frente, alcova, corredor e dois<br \/>\nquartos menores que a alcova, comunicando-se. Havia tamb\u00e9m um terra\u00e7o<br \/>\ncom grades de ferro, onde se erguia uma esp\u00e9cie de quiosque para o<br \/>\nwater-closet.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio come\u00e7ou a inspe\u00e7\u00e3o pela frente.<br \/>\nAs janelas estavam abertas, deixando ver a praia de Botafogo; a enseada, n\u00e3o<br \/>\nmuito longe, o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar e os morros de Niter\u00f3i<br \/>\ndando um aspecto grandioso e selvagem \u00e0 ba\u00eda. \u00c0 direita,<br \/>\nerguido a prumo, o perfil negro do Corcovado atra\u00eda os olhos, em linha<br \/>\nreta para o alto, como um dedo enorme de gigante apontando o azul sereno.<br \/>\nA vista alcan\u00e7ava, depois, outras montanhas, e entre elas, o cemit\u00e9rio<br \/>\nde S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, salpicado de t\u00famulos brancos, numa<br \/>\nsimetria pitoresca e l\u00fagubre. \u00c0quela hora, distinguia-se grupos<br \/>\nde pessoas, grupos negros em marcha, sumindo-se e aparecendo entre os mausol\u00e9us.<\/p>\n<p>\u00c0 esquerda, telhados e hortas.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio n\u00e3o gostava de olhar o cemit\u00e9rio: recordava-se<br \/>\ntristemente da \u00faltima vez em que l\u00e1 fora enterrar a ilustre<br \/>\nsenhora, bela mulher, cujo nome o Rio de Janeiro todo conhecia&#8230; N\u00e3o<br \/>\ngostava, n\u00e3o gostava de olhar o cemit\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>D. Branca estava aflita por chegar aos fundos; queria surpreender o marido<br \/>\nde Adelaide com o irrigador de Ermarck.<\/p>\n<p>&#8211; Que achas? &#8211; perguntou Furtado ao amigo, relanceando os olhos no aposento.<\/p>\n<p>&#8211; Bom&#8230; bom &#8211; murmurou o bacharel. &#8211; Vamos c\u00e1!<\/p>\n<p>E dirigiu-se aos fundos da casa, inspecionando o teto e o papel do forro.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas aqui est\u00e3o muito bem &#8211; tornou o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Muito melhor que na Cidade Nova &#8211; acrescentou D. Branca.<\/p>\n<p>&#8211; Ao menos est\u00e3o em Botafogo.<\/p>\n<p>O corredor ia sair na \u00e1rea, forrado em todo o comprimento, claro,<br \/>\nfresco e iluminado pelos reflexos da clarab\u00f3ia.<\/p>\n<p>Percorreram tudo at\u00e9 o quiosqueziriho do terra\u00e7o, que o bacharel<br \/>\ncomparou poeticamente a uma &#8220;casa da pombos&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Agora venha ver, Sr. Evaristo, venha ver o que os ingleses deixaram &#8211; insistiu<br \/>\nde novo D. Branca.<\/p>\n<p>&#8211; Tolice de minha mulher, Evaristo!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, tenha a bondade, Sr. Evaristo, tenha a bondade.<br \/>\nQuero que o senhor veja&#8230;<\/p>\n<p>A um canto do terra\u00e7o, entre o quiosque e o gradil, estava uma esp\u00e9cie<br \/>\nde cilindro cor de cobre novo, com uma das extremidades em forma de funil<br \/>\ndonde sa\u00eda molemante, quebrando-se em curvas, um tubo estreito de borracha.<\/p>\n<p>&#8211; Isso o que \u00e9? &#8211; perguntou, inclinando-se, o bacharel.<\/p>\n<p>As duas senhoras abriram outra vez na risadaria, cabeceando, agarrando-se<br \/>\ncomo duas colegiais.<\/p>\n<p>&#8211; Branca! &#8211; advertiu Furtado. &#8211; Olha que o Evaristo n\u00e3o \u00e9 menino<br \/>\nde escola&#8230;<\/p>\n<p>E segurando o amigo pelo bra\u00e7o o foi levando para dentro do corredor.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 uma das grandes inven\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo,<br \/>\nmeu amigo; veio com a descoberta do micr\u00f3bio parasit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Falavam baixo, com hipocrisia de homens que se querem dar ao respeito. Mas<br \/>\nD. Branca ouviu ainda um oh! de exclama\u00e7\u00e3o que o marido de Adelaide<br \/>\nn\u00e3o p\u00f4de abafar.<\/p>\n<p>Estava escurecendo. J\u00e1 o sol mandava o seu \u00faltimo adeus \u00e0<br \/>\nter\u00e7a-feira com uns restos de claridade crepuscular.<\/p>\n<p>Tanto o bacharel como a esposa acharam que se devia tratar logo da mudan\u00e7a,<br \/>\nou antes da instala\u00e7\u00e3o, porque Evaristo inda n\u00e3o comprara<br \/>\nsequer a cama de casal. &#8211; Mudar o qu\u00ea? S\u00f3 se fosse uma rede que<br \/>\nele trouxera do norte, uma rede espl\u00eandida, de labirinto, e os indiscretos<br \/>\nba\u00fas de couro..<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te fa\u00e7as miser\u00e1vel! &#8211; ralhou Furtado. &#8211; Um homem<br \/>\nn\u00e3o tem o direito de menosprezar-se. Um ba\u00fa pode conter as minas<br \/>\nde Salom\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; O Evaristo vive a gracejar, Sr. Lu\u00eds &#8211; disse Adelaide. &#8211; A mania<br \/>\ndele \u00e9 chamar-se pobre, lamentar-se, berrar contra quem tem dinheiro!&#8230;<br \/>\nIsso at\u00e9 desanima.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, ent\u00e3o, que querem voc\u00eas que eu diga? Que ando com os<br \/>\nbolsos recheados? que tenho ap\u00f3lices no Tesouro? que deixei na prov\u00edncia<br \/>\numa fazenda de gado? que trago os ba\u00fas repletos de ouro e prata? Ora<br \/>\nmuito obrigado, minha mulher!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o estou dizendo isso&#8230;<\/p>\n<p>Aquele &#8211; que querem voc\u00eas que eu diga? &#8211; referia-se exclusivamente<br \/>\nao marido de D. Branca e a Adelaide. Esta notou o carinhoso plural e como<br \/>\nque sentiu no fundo d&#8217;alma um prazerzinho em se achar na companhia de homem<br \/>\nt\u00e3o educado e nobre. Aquele voc\u00eas, dirigido a ela e ao Sr. Lu\u00eds,<br \/>\ntrouxe-lhe um pequeno abalo ao cora\u00e7\u00e3o, qualquer coisa de intimamente<br \/>\nagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; D. Adelaide n\u00e3o est\u00e1 dizendo isso &#8211; repetiu Furtado. &#8211; O<br \/>\nque ela est\u00e1 dizendo \u00e9 que tens a mania da pobreza, a mania<br \/>\ndas lamenta\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>D. Branca, por seu turno, observou que o marido tratava Adelaide com muita<br \/>\ndistin\u00e7\u00e3o, muita gentileza; mas atribuiu \u00e0 natural bonomia<br \/>\ndo secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Evaristo \u00e9 que n\u00e3o observou cois\u00edssima alguma; dissera<br \/>\nvoc\u00eas, porque achava familiar o tratamento e porque tratava o Lu\u00eds<br \/>\npor voc\u00ea e Adelaide por voc\u00ea, isoladamente. N\u00e3o havia raz\u00e3o<br \/>\npara, referindo-se aos dois, proceder doutro modo.<\/p>\n<p>A mulher, por\u00e9m, descobre manchas no sol em pleno meio-dia e \u00e9<br \/>\ncapaz de enxergar, com os olhos fechados, uma agulha num palheiro.<\/p>\n<p>No outro dia, quando Evaristo voltou do Banco, encontrou o segundo andar<br \/>\nmobiliado; cadeiras, mesas, uma estante para livros, bela cama de casal, guarda-roupa,<br \/>\ncabides&#8230; o inferno!<\/p>\n<p>Adelaide recebeu-o no primeiro andai, como de costume, risonha e feliz, mas<br \/>\nestranhando que lhe n\u00e3o perguntasse coisa alguma, rompeu o sil\u00eancio:<\/p>\n<p>&#8211; Que despes\u00e3o fizeste!<\/p>\n<p>&#8211; Despes\u00e3o?..<\/p>\n<p>&#8211; Sim; quanto custariam as cadeiras, a cama, o sof\u00e1.<\/p>\n<p>Evaristo, em p\u00e9, no alto da escada, julgou que a mulher houvesse enlouquecido<br \/>\ne olhava-a, sem compreender as palavras.<\/p>\n<p>&#8211; Que cama? que sof\u00e1? que cadeiras?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que mandaste da rua&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu?!<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 de muito bom gosto a cama, Sr. Evaristo &#8211; saltou D. Branca.<br \/>\n&#8211; Felicito-o!<\/p>\n<p>Cada vez o bacharel compreendia menos o que lhe estava entrando pelos ouvidos.<\/p>\n<p>&#8211; De bom gosto?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o foi o senhor quem escolheu a mob\u00edlia?<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o escolhi nada, pelo amor de Deus! &#8211; nem sei do que se trata&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quer nos debicar, Adelaide, quer fazer surpresa&#8230; &#8211; disse a mulher do<br \/>\nsecret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Debicar!&#8230; surpresa!&#8230; Temos aqui almas doutro mundo?<\/p>\n<p>Adelaide n\u00e3o quis acreditar numa brincadeira do marido, tal era a<br \/>\nsizudez que ele imprimia \u00e0s palavras naquela ocasi\u00e3o. Evaristo<br \/>\nbrincava, mas conhecia-se logo o seu tom de pilh\u00e9ria.<\/p>\n<p>&#8211; Deixem-me primeiro tomar f\u00f4lego, que eu estou me acabando! &#8211; exclamou,<br \/>\ndirigindo-se \u00e0 sala de jantar.<\/p>\n<p>As duas senhoras o acompanharam, entreolhando-se.<\/p>\n<p>O bacharel encostou a bengala, respirou com al\u00edvio e sentou-se.<\/p>\n<p>&#8211; O Furtado inda n\u00e3o veio?<\/p>\n<p>&#8211; &#8216;T\u00e9 agora, n\u00e3o &#8211; respondeu D. Branca.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, que hist\u00f3ria \u00e9 essa de cadeiras e camas e sof\u00e1s?<br \/>\nExpliquem-se!<\/p>\n<p>Adelaide explicou o caso da mob\u00edlia: \u00e0s duas horas, mais ou<br \/>\nmenos, tinha vindo um galego trazendo, numa carrocinha, meia d\u00fazia<br \/>\nde cadeiras, um sof\u00e1, uma cama de casal, uma estante e outros objetos<br \/>\n&#8220;para a casa do Sr. Evaristo de Holanda, em Botafogo&#8221;. N\u00e3o<br \/>\npodia haver engano.<\/p>\n<p>&#8211; Onde est\u00e3o esses objetos?<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 em cima, tudo arrumado. A cama \u00e9 que \u00e9 um pouco<br \/>\nlarga&#8230;<\/p>\n<p>Pois ele n\u00e3o mandara cois\u00edssima alguma nem tampouco autorizara<br \/>\ncompra de m\u00f3veis ao Furtado. \u00c0s duas horas tinha estado com<br \/>\no secret\u00e1rio no Banco e ele em tal coisa n\u00e3o falara. Salvo se<br \/>\no amigo inda uma vez queria ser generoso e bom apresentando seu nome a algum<br \/>\narmaz\u00e9m de m\u00f3veis&#8230; Podia muito bem ser isso&#8230; Mas, ent\u00e3o,<br \/>\ndir-lhe-ia francamente, prevenindo-o com anteced\u00eancia, tomando mesmo<br \/>\numa nota dos objetos indispens\u00e1veis a um casal. O Furtado, por\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o o prevenira, n\u00e3o o avisara sequer! Donde tinham vindo esses<br \/>\nm\u00f3veis? de que armaz\u00e9m? de que rua?<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea compreende que a minha obriga\u00e7\u00e3o era receb\u00ea-los<br \/>\n&#8211; fez Adelaide numa voz humilde.<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente, ningu\u00e9m diz o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; O Lu\u00eds explicar\u00e1 tudo, Sr. Evaristo. Havemos de saber quem<br \/>\nfoi da id\u00e9ia.<\/p>\n<p>&#8211; Corramos um olhar nos tais m\u00f3veis &#8211; disse o bacharel, erguendo-se.<\/p>\n<p>O pavimento superior da casa j\u00e1 n\u00e3o tinha o mesmo aspecto desolado<br \/>\ne vazio da v\u00e9spera, com as suas paredes escorridas, com o seu ar glacial<br \/>\nde eremit\u00e9rio. N\u00e3o. A sala da frente impunha-se agora aos olhos,<br \/>\nconvidando \u00e0 familiaridade, ao repouso honesto, \u00e0 leitura de<br \/>\num bom livro. Meia d\u00fazia de cadeiras austr\u00edacas, torneadas,<br \/>\no sof\u00e1, cadeiras de balan\u00e7o, dois consolos, outra mesinha decorativa<br \/>\npara o centro&#8230; Na alcova o leito, e o toucador com espelho de cristal e<br \/>\npedra-m\u00e1rmore. Num dos quartos, o guarda-roupa e os ba\u00fas (os<br \/>\nc\u00e9lebres ba\u00fas de couro) e no outro a estante. Assim \u00e9<br \/>\nque Adelaide dispusera os m\u00f3veis, em acordo com D. Branca; unicamente<br \/>\npara surpreender Evaristo. Depois comprar-se-ia cortinas e bibel\u00f4s.<br \/>\nO soalho inda estava \u00famido da lavagem.<\/p>\n<p>O bacharel cruzou os bra\u00e7os diante daquela transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\nquase milagrosa.<\/p>\n<p>&#8211; Isto n\u00e3o pode deixar de ser obra do Lu\u00eds! &#8211; disse, risonho.<br \/>\nSim, estava quase convencido de que o Lu\u00eds queria pregar-lhe uma pe\u00e7a.<br \/>\nQuem, no Rio de Janeiro, se lembraria dele sen\u00e3o o secret\u00e1rio?<br \/>\nNingu\u00e9m, absolutamente ningu\u00e9m. Ele \u00e9 que o tratava com<br \/>\num carinho de irm\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea que acha?<\/p>\n<p>&#8211; Penso a mesma coisa. S\u00f3 o Sr. Furtado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; No entanto, o Furtado n\u00e3o arredou p\u00e9 do Banco!<\/p>\n<p>&#8211; As almas \u00e9 que n\u00e3o foram&#8230; &#8211; murmurou, sorrindo, Adelaide.<\/p>\n<p>E enquanto o outro n\u00e3o chegava, discutiu-se a proced\u00eancia dos<br \/>\nm\u00f3veis.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio foi recebido com exclama\u00e7\u00f5es e altos brados<br \/>\nde agradecimento e jovialidade.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 de muito bom gosto a cama! &#8211; repisou D. Branca. &#8211; Assim \u00e9<br \/>\nque eu queria que voc\u00ea comprasse uma&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E o guarda-roupa! &#8211; exclamou Evaristo.<\/p>\n<p>&#8211; E a toilette! &#8211; fez Adelaide.<\/p>\n<p>Mas o homem era como se estivesse numa casa de orates; fitava um, fitava<br \/>\noutro, com ar interrogativo e surpreso.<\/p>\n<p>&#8211; As senhoras est\u00e3o enganadas&#8230; Mob\u00edlia?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quem havia de ser? &#8211; interpelou o bacharel, crendo e n\u00e3o crendo<br \/>\nna estupefa\u00e7\u00e3o do amigo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o mo perguntes a mim, que tamb\u00e9m n\u00e3o posso atribuir<br \/>\no caso ao meu bodegueiro ou \u00e0s almas do outro mundo.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, falemos s\u00e9rio, n\u00e3o foste tu, mas foi o teu grande cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\n&#8211; resumiu Evaristo, desapontado.<\/p>\n<p>&#8211; Juro-te!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o acredito.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor pra ti&#8230;<\/p>\n<p>Ao final das contas, a dignidade do bacharel teve um \u00edmpeto de orgulho<br \/>\ncontra &#8220;esse misterioso fornecedor gratuito de m\u00f3veis&#8221;, e<br \/>\ndeclarou positivamente que ia mandar tudo para o dep\u00f3sito, as cadeiras,<br \/>\na cama, o sof\u00e1&#8230; tudo! N\u00e3o aceitava favores de pessoas estranhas<br \/>\ne, de mais a mais, ocultas num criminoso sil\u00eancio. Tudo para o dep\u00f3sito!<\/p>\n<p>Uma gargalhada do secret\u00e1rio acolheu as \u00faltimas palavras de<br \/>\nEvaristo, comunicando-se a D. Branca e a Adelaide, que ia abrindo a boca para<br \/>\nlamentar &#8220;a sua linda cama de ramagens e o seu querido toucador de m\u00e1rmore&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, vais mandar tudo para o dep\u00f3sito!&#8230;<\/p>\n<p>E Furtado novamente ria, batendo com as m\u00e3os na mesa, inclinando a<br \/>\ncabe\u00e7a, sapateando.<\/p>\n<p>&#8211; Impag\u00e1vel o nosso Evaristo! Simplesmente impag\u00e1vel esse homem<br \/>\ncom a sua filosofia de algibeira e com os seus \u00edmpetos!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te rias, que estou falando s\u00e9rio!<\/p>\n<p>&#8211; Por isso mesmo&#8230;<\/p>\n<p>E Furtado confessou generosamente, aprumando-se na cadeira, que os m\u00f3veis<br \/>\ntinham sido comprados por ele. N\u00e3o fizera mais do que um dever de amigo..<br \/>\n. Restava saber se o Evaristo opunha-se \u00e0 qualidade sofr\u00edvel<br \/>\ndo guarda-roupa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual opor-me! &#8211; disse o bacharel todo humilhado com a fineza do secret\u00e1rio.<br \/>\n&#8211; Escolheste a dedo!<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o para ser entregue ao dep\u00f3sito.<\/p>\n<p>&#8211; Para o dep\u00f3sito vou eu mandar os ba\u00fas de couro e umas velharias<br \/>\ndo meu tempo de prov\u00edncia.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se tornou a falar nos m\u00f3veis e a estima do bacharel pelo<br \/>\nsecret\u00e1rio aumentou. Evaristo n\u00e3o perdia ocasi\u00e3o de gabar<br \/>\no Furtado, exaltando-lhe o cora\u00e7\u00e3o generoso, a grandeza d&#8217;alma<br \/>\ne outras virtudes que ele pouco a pouco ia descobrindo no seu velho colega<br \/>\nde Liceu&#8230; Um homem como se n\u00e3o encontravam muitos na terra do ego\u00edsmo<br \/>\ne da hipocrisia, nesse Rio de Janeiro fundamentalmente pervertido, onde as<br \/>\ntrai\u00e7\u00f5es contavam-se pelas amizades e ningu\u00e9m dava cr\u00e9dito<br \/>\nsen\u00e3o ao ouro e \u00e0 maledic\u00eancia&#8230; Um homem que o recebera<br \/>\nno seio da pr\u00f3pria fam\u00edlia e que, depois de o hospedar em casa,<br \/>\ninda lhe emprestava dinheiro e fazia surpresas como a da mob\u00edlia! Era<br \/>\no que se podia chamar um filantropo, um amigo excepcional!<\/p>\n<p>&#8211; Que achas?<\/p>\n<p>Adelaide confirmou os elogios, mostrando-se reconhecida \u00e0s boas inten\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo secret\u00e1rio, qualificando-o de generoso, de nobre, de fidalgo, emprestando-lhe<br \/>\ntodos os caracteres de homem de bem que n\u00e3o alardeia as a\u00e7\u00f5es<br \/>\nmerit\u00f3rias que pratica. O Sr. Furtado era um exemplo de delicadeza<br \/>\ne cavalheirismo. &#8211; Evaristo n\u00e3o via como ele a tratava? Interessava-se<br \/>\npor ela como por uma irm\u00e3; nas refei\u00e7\u00f5es, nos passeios,<br \/>\n\u00e0 noite, quando jogavam. E a mulher tamb\u00e9m, a D. Branca. Ambos<br \/>\nmuito am\u00e1veis!<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o simpatias&#8230; s\u00e3o simpatias&#8230; &#8211; explicava o bacharel,<br \/>\nacendendo o cigarro, com uma ponta de vaidade. &#8211; Tudo neste mundo \u00e9<br \/>\na gente se insinuar&#8230; O orgulho mata a aspira\u00e7\u00e3o, enfraquece<br \/>\no est\u00edmulo.<\/p>\n<p>De manh\u00e3, vinham os dois, ele e a esposa, almo\u00e7ar em companhia<br \/>\ndos Furtado, como pensionistas dum botei, e Adelaide passava quase todo o<br \/>\ndia embaixo, na sala de jantar, com D. Branca, at\u00e9 \u00e0 hora da<br \/>\nsegunda refei\u00e7\u00e3o, lendo romances, relendo jornais, discutindo<br \/>\nmodas, costurando. Uma vida sem preocupa\u00e7\u00f5es, nem intrigas.<br \/>\nD. Sinh\u00e1, do desembargador, \u00e9 que \u00e0s vezes ia interromp\u00ea-las<br \/>\ncom hist\u00f3rias de namoro e bilhetinhos e novidades de Botafogo, sempre<br \/>\nmuito misteriosa e muito coberta de p\u00f3 de arroz. Furtado n\u00e3o<br \/>\ngostava dela, n\u00e3o lhe achava encanto e profetizava-lhe horrores!<\/p>\n<p>Que mais podia querer Adelaide? Que outras ambi\u00e7\u00f5es podia desejar<br \/>\nEvaristo? Perguntasse-lho, e eles n\u00e3o saberiam responder. Tinham casa,<br \/>\nc\u00f4modos independentes. boa mesa, boas amizades, tudo por pouco dinheiro,<br \/>\ngra\u00e7as \u00e0 generosidade do secret\u00e1rio, cuja dedica\u00e7\u00e3o<br \/>\nparecia aumentar.<\/p>\n<p>&#8211; E o piquenique no Jardim Bot\u00e2nico? &#8211; lembrou Furtado uma bela manh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, o piquenique? &#8211; repetiu D. Branca.<\/p>\n<p>&#8211; Por mim, \u00e9 quando quiserem &#8211; disse o bacharel. &#8211; Ningu\u00e9m<br \/>\nmais do que eu aprecia o campo, as \u00e1rvores, o ar fresco, e o perene<br \/>\ncorrer de um fio d&#8217;\u00e1gua.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea por que n\u00e3o determina? &#8211; perguntou Branca ao marido.<\/p>\n<p>&#8211; Tantas manh\u00e3s boas para a gente se divertir!<\/p>\n<p>Furtado marcou o primeiro domingo de sol. Convidava-se unicamente o visconde<br \/>\nde Santa Quit\u00e9ria. Nada do desembargador, nem de pessoas estranhas.<br \/>\nHavia de ser um piquenique familiar, uma coisa toda \u00edntima sobre a<br \/>\nrelva macia, bem longe da entrada do jardim. debaixo de uma \u00e1rvore.<\/p>\n<p>&#8211; Ao champanha? &#8211; perguntou D. Branca com os olhos faiscantes, numa alegria<br \/>\ns\u00fabita.<\/p>\n<p>&#8211; Ao champanha, sim, ao champanha. Um piquenique delicado e de bom gosto,<br \/>\ncomo se usa em Petr\u00f3polis e na Europa&#8230; Toilettes claras, roupas leves,<br \/>\nmenu \u00e0 francesa, encomendado ao Pascoal!&#8230; e que ningu\u00e9m se<br \/>\nlembre de morrer enquanto houver sol e \u00e1rvores na natureza!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o convidas a Tourinho?<\/p>\n<p>Mas Furtado declarou inda uma vez que s\u00f3 convidava o visconde, isso<br \/>\nmesmo porque devia muitos favores ao Santa Quit\u00e9ria.<\/p>\n<p>&#8211; Nem ao Dr. Condicional? &#8211; gracejou Evaristo.<\/p>\n<p>Furtado esbo\u00e7ou um risinho, compreendendo a ironia, e n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>Eram de uso, ent\u00e3o, os piqueniques no Jardim Bot\u00e2nico. Em se<br \/>\naproximando o calor, o grande parque enchia-se, aos domingos, de uma popula\u00e7\u00e3o<br \/>\nruidosa e prom\u00edscua, de milhares de pessoas de ambos os sexos, largamente<br \/>\nespalhadas, indo e vindo, nos seus trajos fofos, ao som de uma banda de m\u00fasica<br \/>\noculta pitorescamente sob as \u00e1rvores; e os tons claros das toilettes,<br \/>\no colorido g\u00e1rrulo dos vestu\u00e1rios matizavam a frescura sombria<br \/>\ndos caramanch\u00f5es, de mistura com o vermelho sang\u00fc\u00edneo dos<br \/>\nflamboyants. Risadas estalavam num cascatear argentino que se ia perder nos<br \/>\nlonges da mata, ecoando em ondas sonoras de uma cristalinidade musical. No<br \/>\ncentro da comprida al\u00e9ia de palmeiras que vai desde a entrada at\u00e9<br \/>\no fundo da quinta, um repuxo esguichava perenemente, caindo em leque numa<br \/>\ngrande bacia de pedra, rodeada de mirtos silvestres. Crian\u00e7as apostavam<br \/>\ncorridas e juntavam ao som da m\u00fasica a alegria de suas vozes. Em toda<br \/>\na parte a mesma liberdade comunicativa, a mesma expans\u00e3o domingueira.<br \/>\nDesde as cinco horas da manh\u00e3 at\u00e9 as sete da noite, o Jardim<br \/>\nBot\u00e2nico era como uma grande sala de hotel. Almo\u00e7ava-se, lanchava-se,<br \/>\njantava-se ao ar livre, sob os castanheiros, na relva fresca e cheirosa, \u00e0<br \/>\nbeira dos lagos.<\/p>\n<p>Ao primeiro domingo de abril realizou-se o sonhado piquenique. A manh\u00e3<br \/>\nestava radiosa, de uma inef\u00e1vel limpidez, o contorno das montanhas<br \/>\nmuito vivo, sem borr\u00f5es de nuvens, recortando em ziguezague o azul<br \/>\ninfinito e puro do c\u00e9u &#8211; manh\u00e3 deliciosa como uma recorda\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo passado ou como uma tela impressionista em que vibrasse a alma das coisas<br \/>\nnuma estranha sinfonia buc\u00f3lica de poema virgiliano&#8230; manh\u00e3<br \/>\ncomo essas de que falava a esposa do secret\u00e1rio &#8211; boa para a gente<br \/>\nse divertir, para a gente esquecer um pouco as mis\u00e9rias da vida, longe<br \/>\nda Rua do Ouvidor e das mexeriqueiras do bairro&#8230; Valia a pena, decerto,<br \/>\naproveitar uma manh\u00e3 como aquela, indo entre as \u00e1rvores, no<br \/>\nseio bom da natureza, bebendo a \u00e1gua das fontes, a ouvir o misterioso<br \/>\nsegredar dos p\u00e1ssaros e o trilar dos insetos invis\u00edveis &#8211; na<br \/>\nTijuca, no Jardim Bot\u00e2nico, em Petr\u00f3polis, em Friburgo, em Santa<br \/>\nTeresa&#8230;, onde quer que houvesse frescura e um pouco d&#8217;\u00e1gua l\u00edmpida.<\/p>\n<p>Todos acordaram cedo, a come\u00e7ar por D. Branca e a acabar por Evaristo,<br \/>\nque, \u00e0 \u00faltima hora, n\u00e3o se sentia em condi\u00e7\u00f5es<br \/>\nmuito favor\u00e1veis a uma jornada no campo; mas, enfim, sempre se resolveu,<br \/>\ndepois de tomar uma dose de conhaque com a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>A mulher de Furtado, sobretudo, n\u00e3o ocultava o bom humor que lhe ia<br \/>\nna natureza. Era doida por piqueniques, ningu\u00e9m lhe falasse em piqueniques!<br \/>\nErgueu-se \u00e0s quatro horas, mesmo porque n\u00e3o dormira bem com<br \/>\no calor, e foi \u00e0 janela da frente ver como amanhecera o dia, &#8220;se<br \/>\no Corcovado tinha nuvens&#8221;&#8230; Qual nuvens! O perfil da montanha estava<br \/>\nlimpo na meia sombra do alvorecer. Qual nuvens! Da\u00ed a pouco o solzinho<br \/>\nestava fora e ela em caminho para o Jardim Bot\u00e2nico, mais o Furtado<br \/>\ne a Adelaide e o Evaristo e o visconde, o simp\u00e1tico visconde, o homem<br \/>\nque ela tanto admirava e que em toda a parte era o mesmo &#8211; elegante, correto,<br \/>\ngeneroso como um nababo, fidalgo at\u00e9 no abotoar a luva a uma dama&#8230;<br \/>\nOh, o visconde de Santa Quit\u00e9ria! Como ela se ia divertir, naquele<br \/>\npasseio ao ar livre, como ela ia gozar! A \u00faltima cartinha dele&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que horas s\u00e3o?<\/p>\n<p>Era a voz do secret\u00e1rio, inda na cama, na frescura matinal dos len\u00e7\u00f3is.<br \/>\nD. Branca teve um pequeno susto, um ligeiro sobressalto.<\/p>\n<p>&#8220;Que horas eram? Quatro e meia&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ele, ent\u00e3o, bocejou, espregui\u00e7ou-se molemente, co\u00e7ando-se<br \/>\ne tornou a perguntar:<\/p>\n<p>&#8211; Quatro e meia?<\/p>\n<p>&#8211; Deu agora&#8230; N\u00e3o fa\u00e7as barulho para n\u00e3o acordar a<br \/>\nJulinha.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos tratando de nos vestir.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos. N\u00e3o tarda clarear.<\/p>\n<p>E come\u00e7aram as ablu\u00e7\u00f5es, os preparativos.<\/p>\n<p>No segundo andar o som abafado de um despertador el\u00e9trico fez sinal<br \/>\nretinindo embaixo, nos aposentos do secret\u00e1rio. Ele e a mulher trocaram<br \/>\nalgumas palavras. Tinham combinado com o visconde para as seis horas e o visconde<br \/>\nprometera p\u00e3o faltar. &#8211; \u00c0s seis em ponto estaria na casa do<br \/>\namigo Furtado.<\/p>\n<p>Foi pontual o Santa Quit\u00e9ria &#8211; quest\u00e3o de mais um minuto, menos<br \/>\num minuto. Vinha chique e alegre, sorrindo ao aproximar-se da casa do secret\u00e1rio,<br \/>\nno seu veston de brim, chap\u00e9u de palha, bin\u00f3culo a tiracolo<br \/>\ne uma pequena valise cor de chocolate.<\/p>\n<p>As duas senhoras correram \u00e0 janela e o marido de D. Branca foi receb\u00ea-lo<br \/>\n\u00e0 porta da rua.<\/p>\n<p>O visconde apeou nobremente, murmurou qualquer coisa ao boleeiro, e, risonho,<br \/>\napertando a m\u00e3o a Furtado:<\/p>\n<p>&#8211; Creio que estou na hora&#8230;<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio respondeu com uma exclama\u00e7\u00e3o venturosa,<br \/>\nestirando o bra\u00e7o para o Corcovado:<\/p>\n<p>&#8211; Veja que dia lindo!<\/p>\n<p>&#8211; Efetivamente! Est\u00e1 convidativo, est\u00e1 pr\u00f3prio!<\/p>\n<p>E respeitoso, solene, o am\u00e1vel banqueiro perguntou pela &#8220;excelent\u00edssima<br \/>\nsenhora&#8221; e pelas crian\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; Todos bons, muito obrigado. O senhor visconde \u00e9 que tem mocidade<br \/>\npara um s\u00e9culo!<\/p>\n<p>&#8211; Oh, meu amigo&#8230; As apar\u00eancias iludem&#8230; j\u00e1 me vou sentindo<br \/>\ncansadinho, gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, o senhor visconde!<\/p>\n<p>Branca e Adelaide gentilmente o acolheram no alto da escada.<\/p>\n<p>Evaristo completava a toilette no segundo andar<\/p>\n<p>&#8211; Que dia lindo, senhor visconde! &#8211; fez a esposa do secret\u00e1rio. recuando<br \/>\npara deixar passar o Santa Quit\u00e9ria.<\/p>\n<p>&#8211; Lindo, minha senhora, lind\u00edssimo!<\/p>\n<p>Tinham todos um ar alegre e trataram-se com uma familiaridade burguesa, na<br \/>\nmais bela disposi\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo.<\/p>\n<p>Adelaide, curiosa, quis ver se o visconde trazia o anel\u00e3o de brilhante,<br \/>\ne os seus olhos procuravam a m\u00e3o do banqueiro. Trazia, sim. Era uma<br \/>\ndas coisas que ela admirava naquele homem &#8211; o anel, uma j\u00f3ia primorosa,<br \/>\ninestim\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor seu marido vai bem, minha senhora?<\/p>\n<p>&#8211; Bem, obrigada &#8211; respondeu Adelaide, menos cerimoniosa.<\/p>\n<p>Porque o visconde de Santa Quit\u00e9ria em roupa de passeio n\u00e3o<br \/>\ntinha ares de fidalgo, como quando se apresentava de casaca ou mesmo no seu<br \/>\nfraque justo e elegante. A roupa branca &#8211; larga e mole no corpo dava-lhe uma<br \/>\nfei\u00e7\u00e3o distinta, mas democrata, uma fei\u00e7\u00e3o popular<br \/>\nde rapazola que sacrifica o luxo pela comodidade, a moda pelo bem-estar. Vendo-o<br \/>\nassim, a esposa de Evaristo animara-se a lhe responder em tom quase \u00edntimo<br \/>\nde conhecidos velhos.<\/p>\n<p>O criado trouxe uma bandeja com chocolate e p\u00e3o-de-l\u00f3. Todos<br \/>\nse serviram, inclusive o bacharel, que j\u00e1 estava presente.<\/p>\n<p>Afinal, depois de meia hora de palestra matutina, e aos primeiros clar\u00f5es<br \/>\ndo sol triunfante, a comitiva, em dois carros, tomou a dire\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Jardim.<\/p>\n<p>O visconde fora se reunir \u00e0 fam\u00edlia do secret\u00e1rio n\u00e3o<br \/>\ntanto por delicadeza, quanto por &#8220;chiquismo&#8221;, para ir na companhia<br \/>\ndas senhoras, gozando a am\u00e1vel presen\u00e7a de D. Branca e da jovem<br \/>\nAdelaide. N\u00e3o queria perder ocasi\u00e3o de se mostrar na altura<br \/>\ndos seus sentimentos e da intimidade com que o tratavam as dignas senhoras.<br \/>\nO t\u00edtulo de nobreza, que ele carregava solenemente h\u00e1 dois anos,<br \/>\ngra\u00e7as \u00e0 benevol\u00eancia do Sr. D. Pedro II, n\u00e3o o<br \/>\nimpedia dessas e outras manifesta\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas. Os<br \/>\nreis tamb\u00e9m apertam a m\u00e3o ao povo e tamb\u00e9m l\u00e1<br \/>\num dia esquecem as p\u00farpuras e a coroa, trocando-as pelo redingote burgu\u00eas&#8230;<br \/>\nO pr\u00f3prio imperador j\u00e1 uma vez desembarcara na Europa, no cais<br \/>\nSodr\u00e9, de sobrecasaca e guarda-p\u00f3, como qualquer mortal.<\/p>\n<p>Estimava muito o amigo Furtado e a Sra. D. Branca para n\u00e3o ter orgulhos<br \/>\nde nobreza, nem de fidalguia. O seu palet\u00f3 branco e a sua cal\u00e7a<br \/>\nbranca naquele momento significavam intimidade e tamb\u00e9m um pouco de<br \/>\neleg\u00e2ncia. A toilette em harmonia com a esta\u00e7\u00e3o e com<br \/>\no g\u00eanero de passeio.<\/p>\n<p>Num dos carros ia ele, D. Branca e o secret\u00e1rio, no outro Adelaide,<br \/>\nEvaristo e o Raul. A Julinha fora passar o domingo \u00e0 casa do desembargador;<br \/>\nD. Sinh\u00e1 prometeu desvelar-se por ela.<\/p>\n<p>Na frase entusi\u00e1stica do visconde &#8220;o dia estava lind\u00edssimo!&#8221;<br \/>\no c\u00e9u, muito azul, parecia o fundo largo de uma tela desdobrando-se<br \/>\ninfinitamente por sobre o universo. A Corte espregui\u00e7ava-se aos primeiros<br \/>\nru\u00eddos da manh\u00e3 luminosa. Na plataforma dos bondes flutuavam<br \/>\nbandeirinhas verde-amarelas com a coroa nacional. Os quiosques de Botafogo<br \/>\ntinham o aspecto risonho de pavilh\u00f5es infantis, embandeirados tamb\u00e9m,<br \/>\ncom os seus galhardetes em arco, sob as \u00e1rvores, olhando para o mar.<br \/>\nUm cheiro vivo de jasmins inundava a atmosfera, como que aveludando-a cariciosamente.<br \/>\nPrincipiava a agita\u00e7\u00e3o nos caf\u00e9s e nas hospedarias. O<br \/>\nRaul julgou mesmo ouvir sons de m\u00fasica ao longe e apurou o ouvido:<br \/>\n&#8211; &#8220;Se n\u00e3o estava enganado&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ia para mais de seis horas.<\/p>\n<p>O visconde foi o primeiro a apear. Todos apearam, numa grande alegria, diante<br \/>\ndo port\u00e3o do &#8220;nosso Bois de Boulogne&#8221; como dizia o Santa<br \/>\nQuit\u00e9ria.<\/p>\n<p>Furtado indagou logo se o homem da rotisserie j\u00e1 teria vindo, e lan\u00e7ou<br \/>\num olhar curioso pelas proximidades do port\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Ainda n\u00e3o veio&#8230; Pois olhem que eu tratei para as sete horas!<\/p>\n<p>O visconde tranq\u00fcilizou-o puxando o rel\u00f3gio, e dizendo que ainda<br \/>\nfaltavam quinze minutos para as sete.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed vem ele! &#8211; descobriu o Raul com um gesto alvissareiro, apontando<br \/>\npara um homem que trazia na cabe\u00e7a uma grande caixa de folha em que<br \/>\nse liam as inscri\u00e7\u00f5es: Confeitaria Pascoal &#8211; Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>&#8211; Ora muito bom dia! &#8211; Saudou o empregado aproximando-se.<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia &#8211; corresponderam todos a uma voz.<\/p>\n<p>Um clar\u00e3o iluminou os olhos vivos do filho do secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 h\u00e1 bocado que estou \u00e0 espera de vossas senhorias<br \/>\n&#8211; tornou o homem da caixa.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 entrando e acompanhe-nos &#8211; ordenou Furtado.<\/p>\n<p>O visconde ofereceu o bra\u00e7o gentilmente \u00e0 D. Branca e, com<br \/>\nas demais pessoas &#8211; ele \u00e0 frente &#8211; seguiu em linha reta para o interior<br \/>\ndo jardim.<\/p>\n<p>L\u00e1 estava, entre as palmeiras, o repuxo cantando, em fios d&#8217;\u00e1gua,<br \/>\na mon\u00f3tona balada das fontes; ouvia-se, de longe, o ruidozinho da \u00e1gua<br \/>\na esguichar, caindo em arcos para um e outro lado e confundindo-se quase com<br \/>\no nost\u00e1lgico farfalho das \u00e1rvores. O sol, brando e macio, erguia-se<br \/>\nlento, sobredoirando as emin\u00eancias, pouco a pouco iluminando a espessura<br \/>\ndo arvoredo e a larga extens\u00e3o verde que enchia bruscamente os olhos<br \/>\nencantados de Adelaide como um sonho de gl\u00f3ria e bem-aventuran\u00e7a.<br \/>\nRespirava-se a frescura das plantas e o aroma fino das trombetas e das rosas,<br \/>\na ess\u00eancia matinal das grandes \u00e1rvores e dos pequenos vegetais<br \/>\nque acordavam \u00e0 vida num banho morno de luz. Pompeavam estranhas flora\u00e7\u00f5es<br \/>\nno recesso da mata e um hino misterioso parecia levantar-se da natureza ao<br \/>\nastro fecundante que ressurgia com o seu esplendor incompar\u00e1vel de<br \/>\nrei absoluto.<\/p>\n<p>Vinham chegando outras fam\u00edlias, outros casais, outros grupos, que<br \/>\nlogo se perdiam no emaranhado das al\u00e9ias laterais, e em todas as fisionomias<br \/>\nbrilhava uma satisfa\u00e7\u00e3o \u00edntima, um como prazer novo e<br \/>\nespecial, um reflexo de imortalidade astral.<\/p>\n<p>O visconde parou no chafariz. Todos pararam no chafariz.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 realmente belo! &#8211; exclamou o bacharel com os olhos erguidos em<br \/>\n\u00eaxtase para a copa das palmeiras.<\/p>\n<p>&#8211; A Tijuca \u00e9 mais solene&#8230; &#8211; observou circunspecto o visconde.<\/p>\n<p>&#8211; O barulho da cascata \u00e9 como se a gente estivesse num ermo religioso&#8230;<br \/>\nno meio de um deserto&#8230; muito longe&#8230; . muit\u00edssimo longe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh, ent\u00e3o deve ser triste demais&#8230; &#8211; argumentou o marido de Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Como triste? \u00c9 encantador! \u00e9 po\u00e9tico!<\/p>\n<p>&#8211; Falta aqui o Dr. Condicional para dizer que lembra o Evangelho na selva&#8230;<br \/>\n&#8211; insinuou o amigo de Furtado.<\/p>\n<p>O visconde achou gra\u00e7a, e, desdenhoso, carregando a esposa do secret\u00e1rio:<\/p>\n<p>&#8211; Um petit-maitre, o tal Manh\u00e3es!<\/p>\n<p>Todos riram, inclusive o Raul que perguntou \u00e0 mam\u00e3e o que era<br \/>\npetit-maitre.<\/p>\n<p>Escolhido o local para o piquenique, sob um caramanch\u00e3o agreste de<br \/>\nparasitas imitando a entrada de um t\u00fanel e onde havia uma grosseira<br \/>\nmesa de pedra, nos fundos do jardim, o bacharel prop\u00f4s uma volta, uma<br \/>\ngrande volta &#8220;para abrir o apetite&#8221;.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m discordou da id\u00e9ia. O Ant\u00f4nio ficava botando<br \/>\nsentido \u00e0 comida. (Ant\u00f4nio era o criado do secret\u00e1rio.)<\/p>\n<p>-Um vermutezinho n\u00e3o \u00e9 mau antes do almo\u00e7o, oh, visconde&#8230;<br \/>\n&#8211; lembrou Furtado.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 l\u00e1 um vermute.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 t\u00e3o cedo! &#8211; exclamou Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o!&#8230; &#8211; fez D. Branca.<\/p>\n<p>&#8211; Cedo para preparar o est\u00f4mago &#8211; replicou o banqueiro.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230;<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Furtado tirou da cesta c\u00e1lices, uma garrafa intacta<br \/>\nque o Ant\u00f4nio abriu com estampido, e bebericaram.<\/p>\n<p>&#8211; Agora, toca!<\/p>\n<p>E marcharam, ora a dois e dois, ora a tr\u00eas e tr\u00eas, por entre<br \/>\nos tufos verdejantes, papagueando e rindo, num come\u00e7o de liberdade<br \/>\nfamiliar. Aves ariscas voavam pressentindo-os; pipilavam ninhos na frondosa<br \/>\nespessura das ramagens; estridulavam cigarras em desafio, numa orquestra\u00e7\u00e3o<br \/>\naguda e un\u00edssona.<\/p>\n<p>Evaristo, no meio de toda aquela paisagem tropical, de uma riqueza encantadora,<br \/>\nlembrou-se da prov\u00edncia, e, num tom solene e misterioso, recitou descobrindo<br \/>\na cabe\u00e7a e estacando:<\/p>\n<p>&#8211; Solid\u00e3o, eu te sa\u00fado! Sil\u00eancio do bosque, salve!<\/p>\n<p>Lera isso h\u00e1 muito num cl\u00e1ssico portugu\u00eas e nunca um<br \/>\npensamento alheio fora t\u00e3o bem empregado!<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, D. Adelaide, como se deita a perder um homem &#8211; gracejou o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Adelaide sorriu.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas \u00e9 porque n\u00e3o sabem glorificar a natureza, voc\u00eas<br \/>\n\u00e9 porque n\u00e3o l\u00eaem os cl\u00e1ssicos! &#8211; replicou o bacharel.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o te lembras do resto.<\/p>\n<p>&#8211; Como n\u00e3o me lembro, se \u00e9 uma das p\u00e1ginas que eu nunca<br \/>\nhei de esquecer?<\/p>\n<p>E o bacharel, sem receio de escandalizar o aprumo do Santa Quit\u00e9ria,<br \/>\nberrou para o alto, como se falasse \u00e0s nuvens:<\/p>\n<p>&#8211; Solid\u00e3o, eu te sa\u00fado! Sil\u00eancio do bosque, salve! A<br \/>\nti venho, oh natureza; abre-me o teu seio. Venho depor nele o peso aborrecido<br \/>\nda exist\u00eancia; venho despir as fadigas da vida!. .. Os homens n\u00e3o<br \/>\nme deixam; amparai-me v\u00f3s, solid\u00f5es amenas, abrigai-me, oh solid\u00f5es<br \/>\ndeleitosas.<\/p>\n<p>&#8211; Onde queres tu chegar com essa desfruteira, oh Evaristo? &#8211; interrompeu<br \/>\no outro.<\/p>\n<p>&#8211; Quero chegar ao fim da p\u00e1gina&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olha que isso \u00e9 um desrespeito ao visconde! &#8211; segredou Adelaide.<\/p>\n<p>O banqueiro, por\u00e9m, havia-se destacado um pouco e marchava com D.<br \/>\nBranca, sem se incomodar, no seu passo lento de gar\u00e7a real. Atr\u00e1s<br \/>\nvinham as outras pessoas. O secret\u00e1rio tinha absoluta confian\u00e7a<br \/>\nno visconde; at\u00e9 aborrecia-o dalgum modo a sisudez, a gravidade patriarcal<br \/>\ndo celibat\u00e1rio. A Branca ia muito bem na companhia dele, do Santa Quit\u00e9ria.<\/p>\n<p>Este, enquanto o bacharel discursava e vendo-se longe de ouvidos perigosos,<br \/>\nabriu v\u00e1lvulas ao cora\u00e7\u00e3o, baixinho e disfar\u00e7adamente.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que n\u00e3o a posso esquecer; acordo e deito-me pensando no nosso<br \/>\ngrande amor&#8230; Imagine se estiv\u00e9ssemos s\u00f3s aqui.<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230;<\/p>\n<p>Mas deixe estar que ainda havemos de ser muito felizes&#8230; muito felizes.<\/p>\n<p>&#8211; Eu bem sei que me ama, bem sei, mas vi-o outro dia interessar-se tanto<br \/>\npela minha amiga Adelaide&#8230;<\/p>\n<p>O capitalista sorriu benevolamente, como quem perdoa.<\/p>\n<p>&#8211; Sua amiga Adelaide \u00e9 uma crian\u00e7a&#8230; uma menina de ontem&#8230;<br \/>\ne eu seria incapaz&#8230; Oh!&#8230; fa\u00e7a-me justi\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o estou afirmando&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Creia que n\u00e3o me preocupo com outra pessoa.<\/p>\n<p>&#8211; E que tal a id\u00e9ia do piquenique? Supus que n\u00e3o viesse&#8230;<\/p>\n<p>O banqueiro guardava a atitude respeitosa e fidalga de quando se exibia nos<br \/>\nsal\u00f5es. Ia responder, mas ouviu passos na areia. Voltou-se: eram as<br \/>\noutras pessoas, o Raul, Evaristo, Adelaide e o secret\u00e1rio, que se aproximavam<br \/>\nsilenciosamente.<\/p>\n<p>Foi longo o passeio atrav\u00e9s das \u00e1rvores, em romaria buc\u00f3lica<br \/>\ne matinal pelas avenidas do jardim. O visconde colhia flores dedicadamente<br \/>\npara as senhoras. D. Branca, mesmo na presen\u00e7a do marido, colocou uma<br \/>\nna sua botoeira, sempre risonha, sempre af\u00e1vel, multiplicando-se em<br \/>\ngentilezas ao Santa Quit\u00e9ria. Adelaide, entre Evaristo e Furtado n\u00e3o<br \/>\nperdia o ar ing\u00eanuo e melanc\u00f3lico que tanto preocupava ao Manh\u00e3es<br \/>\nna noite do batizado e que encantava o secret\u00e1rio. Este volvia constantemente<br \/>\nos olhos para ela e de vez em quando arriscava um segredinho inofensivo, uma<br \/>\npilheriazinha, elogiando-a, gabando-lhe os olhos, a boca, fazendo alus\u00f5es<br \/>\namorosas \u00e0s flores, glorificando o amor livre dos p\u00e1ssaros,<br \/>\nlembrando cenas de romances, epis\u00f3dios do campo&#8230; Furtado aproveitava<br \/>\nos momentos em que o bacharel ia, com o Raul, fazer provis\u00e3o de flores<br \/>\npara enfeitar a mesa do lanche&#8221;.<\/p>\n<p>Os dois j\u00e1 n\u00e3o sabiam onde colocar flores; levavam grandes<br \/>\nbuqu\u00eas feitos \u00e0 pressa. O secret\u00e1rio achava muita gra\u00e7a<br \/>\nnaquela amizade do Raul ao Evaristo.<\/p>\n<p>&#8211; Se meu marido \u00e9 uma crian\u00e7a! &#8211; ralhava Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Uma crian\u00e7a de vinte e oito anos!&#8230; &#8211; dizia o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Crian\u00e7a, porque n\u00e3o tem ju\u00edzo, porque n\u00e3o se<br \/>\nimporta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-o l\u00e1, deixe-o l\u00e1&#8230; \u00c9 g\u00eanio.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o fica bonito, n\u00e3o \u00e9 s\u00e9rio.<\/p>\n<p>De novo entravam todos na grande al\u00e9m de palmeiras e de novo chegaram<br \/>\nao caramanch\u00e3o escolhido para o piquenique.<\/p>\n<p>Ia para as onze horas. O sol inundava a floresta e nenhuma nuvem toldava<br \/>\na maciez l\u00edmpida do c\u00e9u. Todos respiraram ao entrar no improvisado<br \/>\nrestaurante coberto de folhas, rodeado de \u00e1rvores e onde se gozava<br \/>\numa frescura deleitosa e aromada de selva.<\/p>\n<p>&#8211; Uf! &#8211; respirou Evaristo sentando-se. &#8211; J\u00e1 \u00e9 andar. Olhem<br \/>\nque demos a volta ao jardim!<\/p>\n<p>&#8211; Outra dose de vermute &#8211; prop\u00f4s o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Apoiado, apoiado! &#8211; murmurou o visconde fazendo-se alegre.<\/p>\n<p>As duas senhoras conversavam endireitando as toilettes, revistando-se uma<br \/>\n\u00e0 outra com risadinhas.<\/p>\n<p>O Ant\u00f4nio pusera &#8220;a mesa&#8221;; uma toalha muito branca alvejava<br \/>\nno pequeno recinto que a luz mal penetrava. Sobre a toalha brilhavam os talheres<br \/>\nde metal branco e os copos de cristal muito finos, e as flores que o Raul<br \/>\ncolhera. Ao aspecto risonho da mesa as fisionomias tomaram uma express\u00e3o<br \/>\nviva de conforto. &#8211; &#8220;Era tempo de se ir comendo qualquer coisinha&#8230;&#8221;<br \/>\n&#8211; balbuciou Evaristo ao secret\u00e1rio. Este dispunha tudo na melhor ordem,<br \/>\nfalando ao Ant\u00f4nio, sorrindo ao banqueiro, uma atividade pasmosa de<br \/>\ngar\u00e7on d&#8217;h\u00f3tel.<\/p>\n<p>De dentro da caixa da confeitaria surgiu primeiro um prato com &#8220;vol-au-vents<br \/>\ne logo seguiu-se o estampido de uma garrafa que se abre.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, vamos &#8211; comandou Furtado. &#8211; Senhor visconde. D. Adelaide&#8230; Branca&#8230;<br \/>\nEvaristo&#8230; V\u00e3o se sentando&#8230;<\/p>\n<p>Riram-se todos \u00e0 falta de cadeiras. Mas havia no caramanch\u00e3o,<br \/>\nlonge da mesa, um banco de pedra, onde se sentaram as duas senhoras. Os homens<br \/>\ncomiam em p\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui h\u00e1 ainda um lugar, senhor visconde &#8211; ousou amavelmente a esposa<br \/>\nde Furtado conchegando-se \u00e0 amiga.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, minha senhora, obrigad\u00edssimo; eu fa\u00e7o<br \/>\ncompanhia aos do meu sexo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso, visconde, isso! &#8211; aprovou o bacharel. &#8211; Um homem \u00e9 um homem!<\/p>\n<p>Vieram outros pratos, outras iguarias delicadamente feitas no Pascoal, sob<br \/>\nencomenda do secret\u00e1rio: uma espl\u00eandida torta de camar\u00f5es<br \/>\n&#8211; regada a Sauterne &#8211; ostras e uma bela garoupa fria e apetitosa, n\u00e3o<br \/>\nfalando no hors-d&#8217;oeuvre no fiambre, nas azeitonas muito fresquinhas e muito<br \/>\nnegras que o visconde colhera com a ponta dos dedos, e as frutas ao dessert<br \/>\n&#8211; p\u00eassegos, uvas e abacaxi frapp\u00e9.<\/p>\n<p>O almo\u00e7o correu alegre, muit\u00edssimo alegre, cheio de risos,<br \/>\nfermentado pelo Bourgogne e pelo champanha &#8211; um almo\u00e7o leve, delicad\u00edssimo<br \/>\ne substancial, &#8220;aristocraticamente fino&#8221;, como ideara o esposo de<br \/>\nD. Branca. Evaristo, ao abrir-se o champanha, pediu que n\u00e3o se fizessem<br \/>\nbrindes.<\/p>\n<p>&#8211; O brinde \u00e9 a maior tolice do s\u00e9culo dezenove &#8211; explicou ele,<br \/>\ntragando uma roda de abacaxi. &#8211; O brinde parece at\u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo Valdevino Manh\u00e3es ou de Mr. de La Palisse; eu sou contra o brinde<br \/>\ncomo sou contra a mon&#8230;<\/p>\n<p>Ia dizendo monarquia, mas arrependeu-se logo, sem olhar para o visconde:<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; Como sou contra o voto feminino!<\/p>\n<p>&#8211; Eu s\u00f3 compreendo o brinde quando \u00e9 de honra, \u00e0 Sua<br \/>\nMajestade o Imperador, \u00e0 princesa&#8230; ou mesmo a um homem ilustre que<br \/>\nse n\u00e3o confunda com o resto da gente.<\/p>\n<p>&#8211; Qual, senhor visconde! exclamou o bacharel depondo o talher.<\/p>\n<p>&#8211; O brinde, seja ele a quem for, \u00e9 uma das muitas ridicularias da<br \/>\nciviliza\u00e7\u00e3o&#8230; N\u00e3o sei como qualificar o indiv\u00edduo<br \/>\nque interrompe a boa digest\u00e3o de uma mesa, de uma sociedade, para,<br \/>\nde ta\u00e7a em punho, levantar um brinde \u00e0s virtudes de outro, n\u00e3o<br \/>\nsei.<\/p>\n<p>Evaristo esquecia-se do batizado da Julinha em que o diretor do Banco Luso-Brasileiro<br \/>\nfizera diversos brindes entre os quais um a seu amigo Furtado, que por sua<br \/>\nvez brindara \u00e0 seren\u00edssima herdeira do trono.<\/p>\n<p>Adelaide fez-lhe sinal piscando o olho, mas o bacharel n\u00e3o percebeu<br \/>\ne concluiu dizendo catedraticamente que o brinde &#8220;era uma prova de ignor\u00e2ncia<br \/>\ne de tacanhez intelectual&#8221;,<\/p>\n<p>Todos estranharam aquela franqueza perante o visconde de Santa Quit\u00e9ria,<br \/>\nna presen\u00e7a do respeit\u00e1vel amigo de Suas Majestades que ningu\u00e9m<br \/>\nousava contrariar nas menores coisas.<\/p>\n<p>Furtado disfar\u00e7ou o mau efeito das palavras de Evaristo, dizendo alegremente<br \/>\nque, para provar ignor\u00e2ncia e tacanhez intelectual, ia brindar \u00e0<br \/>\nInspetoria do Jardim Bot\u00e2nico e mais \u00e0 Flora brasileira.<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem, muito bem, meu amigo &#8211; fez o visconde erguendo o copo. &#8211; O esposo<br \/>\nda Sra. D. Adelaide estava bem para niilista, ao que vejo. Atira-lhe com um<br \/>\nbrinde &amp;agagrave; Flora.<\/p>\n<p>As palavras do visconde mereceram aplauso das duas senhoras. Adelaide e Branca<br \/>\nsaudaram-no entusiasticamente.<\/p>\n<p>&#8211; Bravo, senhor visconde, bravo &#8211; exclamaram as duas a um tempo.<\/p>\n<p>E Evaristo, esmagado pela maioria, bebeu tamb\u00e9m \u00e0 sa\u00fade<br \/>\ndo Jardim Bot\u00e2nico, &#8220;uma vez que o amigo Furtado e o ilustre senhor<br \/>\nvisconde faziam quest\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Beberam, e o champanha, caindo no est\u00f4mago farto dos homens e das senhoras,<br \/>\ntrouxe-lhes ainda mais alegria e expans\u00e3o.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Adelaide tinha agora um brilho comprometedor nos olhos,<br \/>\numa viveza fora do natural, e falava tamb\u00e9m, muito risonha, inclinando<br \/>\na cabe\u00e7a no ombro de Branca. A mulher do secret\u00e1rio lamentou<br \/>\na aus\u00eancia da vi\u00fava Tourinho; faltava uma senhora para completar<br \/>\ntr\u00eas casais, e a vi\u00fava sabia se divertir como gente, era uma<br \/>\nbela companhia.<\/p>\n<p>&#8211; E o desembargador? por que n\u00e3o convidaram o desembargador Lousada?<br \/>\n&#8211; disse o marido de Adelaide, devorando um cacho de uvas.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, Evaristo, voc\u00ea ainda come? &#8211; acudiu a jovem esposa do bacharel,<br \/>\ncujas faces, ordinariamente p\u00e1lidas, tinham agora um ruborzinho quente.<\/p>\n<p>Furtado perguntou, ent\u00e3o, se ainda queriam tomar alguma coisa, e como<br \/>\ntodos recusassem, prop\u00f4s novo passeio atrav\u00e9s das \u00e1rvores.<br \/>\nNingu\u00e9m discordou da id\u00e9ia. Evaristo, por\u00e9m, falou ao<br \/>\nouvido do secret\u00e1rio, que lhe respondeu baixinho, acrescentando alto,<br \/>\npara as senhoras e o visconde:<\/p>\n<p>&#8211; Podemos ir, podemos ir; o Evaristo ir\u00e1 depois&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Como, ir\u00e1 depois? &#8211; perguntou Adelaide com um arzinho de riso.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e3o andando, que eu j\u00e1 os encontro &#8211; disse o bacharel misteriosamente.<br \/>\n&#8211; \u00c9 quest\u00e3o de minutos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Espera por ele, oh Raul &#8211; ordenou Furtado.<\/p>\n<p>E, oferecendo o bra\u00e7o a Adelaide, \u00e0 imita\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo visconde, que j\u00e1 se apoderara de D. Branca, saiu do caramanch\u00e3o.<\/p>\n<p>O n\u00famero de passeantes aumentava com o correr da tarde. O jardim ia-se<br \/>\nenchendo de fam\u00edlias e rapazes que percorriam as avenidas de chap\u00e9u-de-sol<br \/>\naberto \u00e0 luz das duas horas. Os sons da m\u00fasica chegavam aos<br \/>\nouvidos distintamente na aragem acariciadora que soprava. Como que esmoreciam<br \/>\nos tons vivos da paisagem, num desmaio lento; o sol esfriava um pouco e o<br \/>\nazul tinha agora uma cor poeirada de cinza, como um espelho que de repente<br \/>\nse ofuscasse a um bafejo \u00famido. Todas as coisas iam mudando de aspecto<br \/>\n\u00e0 propor\u00e7\u00e3o que se aproximava o fim da tarde. Os tons<br \/>\nvivos iam-se traduzindo em tons melanc\u00f3licos; a natureza, cansada de<br \/>\nluz, queimada pelos ardores do sol, numa indol\u00eancia outonal, volvia-se<br \/>\npara o crep\u00fasculo, adivinhava a noite. O repuxo central do Jardim entoava<br \/>\na sua ladainha num ritmo blandicioso de cascata long\u00ednqua.<\/p>\n<p>Furtado queria se abrir com Adelaide agora que estavam s\u00f3s, dizer-lhe<br \/>\ntudo quanto sentia por ela desde que a vira pela primeira vez, contar-lhe<br \/>\nas suas ins\u00f4nias, o muito que a estimava, a extraordin\u00e1ria simpatia<br \/>\nque ela lhe inspirava; mas uma timidez amorda\u00e7ava-o, uma timidez de<br \/>\ncolegial, e, no fundo, um vago sentimento de compaix\u00e3o pelo amigo,<br \/>\npelo Evaristo, seu velho contempor\u00e2neo do Liceu, cujas qualidades, ontem<br \/>\ncomo hoje, eram dignas do respeito que se deve a um chefe de fam\u00edlia<br \/>\nhonesto e exemplar. Al\u00e9m disso, temia qualquer movimento de indigna\u00e7\u00e3o<br \/>\npor parte de Adelaide; ela talvez o repelisse, dando esc\u00e2ndalo num lugar<br \/>\np\u00fablico, desabafando ali mesmo em face do visconde e de sua mulher,<br \/>\ninutilizando-o. Mas logo esses temores desapareciam e voltava-lhe o \u00e2nimo,<br \/>\na coragem de homem useiro e vezeiro nas pugnas do amor f\u00e1cil.<\/p>\n<p>E j\u00e1 n\u00e3o pensava no Evaristo nem nas conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\nde uma deslealdade infame, trancando o cora\u00e7\u00e3o ao sentimentalismo<br \/>\ne aos influxos nobres, abstraindo de tudo que n\u00e3o fosse o desejo criminoso<br \/>\ne l\u00fabrico de aumentar o n\u00famero das suas conquistas. Porque,<br \/>\nem verdade, a presen\u00e7a daquela mulher tirava-lhe o sossego \u00edntimo,<br \/>\narrebatava-o como a presen\u00e7a de outras igualmente respeit\u00e1veis<br \/>\ne a quem ele seduzira com os seus brilhantes e com as suas l\u00e1bias,<br \/>\ntriunfando como um general invenc\u00edvel. Apontava-as a dedo; via-as passar<br \/>\nna Rua do Ouvidor e saudava-as feliz e glorioso. Adelaide sorria-lhe e tanto<br \/>\nbastava para que dentro dele se ateasse a chama rubra do desejo, lambendo-o<br \/>\nvorazmente, como uma l\u00edngua de fogo, queimando-lhe o cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nescaldando-lhe o c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Ele ent\u00e3o apertava-a contra si, mordendo o bei\u00e7o, ameigando<br \/>\no olhar, com \u00edmpetos de explodir numa declara\u00e7\u00e3o formal,<br \/>\nabsoluta e suprema, como se estivesse de joelhos num confession\u00e1rio,<br \/>\ne pedir-lhe, pelo amor de Deus, por vida de seus olhos, por tudo! que soubesse<br \/>\ncorresponder \u00e0quela estima, \u00e0quele amor, \u00e0quela loucura.<\/p>\n<p>Adelaide ia rindo, muito satisfeita, n\u00e3o completamente fora do c\u00edrculo<br \/>\nde id\u00e9ias que preocupavam a Furtado; de algum modo ela n\u00e3o estava<br \/>\nmuito longe de preferir o secret\u00e1rio a Evaristo; iniciada nos segredinhos<br \/>\nde alcova por D. Branca, que lhe abrira os olhos \u00e0 vida fluminense,<br \/>\ntumultuosa e desregrada, na rua como nos sal\u00f5es, vendo o exemplo de<br \/>\noutras mulheres e da pr\u00f3pria Branca, Adelaide insensivelmente ia-se<br \/>\ndeixando absorver pelo meio que a cercava, embora a educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque recebera na prov\u00edncia, os h\u00e1bitos ing\u00eanuos, a natural<br \/>\ntimidez, que ainda conservava, n\u00e3o cedessem logo a um primeiro impulso<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o. Ela notava as delicadezas de Furtado, via-o quase<br \/>\nsempre de olhos cravados no seu rosto como se quisesse adivinhar o que lhe<br \/>\nia n&#8217;alma, guardava o caso da mob\u00edlia e dos duzentos-mil-r\u00e9is<br \/>\ne muitas outras provas de generosidade e fineza do secret\u00e1rio; mas<br \/>\natribu\u00eda tudo a um sentimento de amizade para com Evaristo, a um impulso<br \/>\nnatural de velho companheiro de escola.<\/p>\n<p>Iam por uma al\u00e9ia sombria de bambus, cuja copa unia-se formando um<br \/>\nt\u00fanel verde extenso, que se prolongava em ziguezague. \u00c0s vezes<br \/>\no banqueiro desaparecia numa curva com a mulher de Furtado, e o secret\u00e1rio<br \/>\nconchegava o bra\u00e7o de Adelaide, numa press\u00e3o meiga e voluptuosa,<br \/>\ncomo se a quisesse envolver de carinhos, o olhar medindo toda a singeleza<br \/>\ndo seu perfil, resvalando-lhe na c\u00fatis do rosto e caindo apaixonadamente<br \/>\nno pesco\u00e7o que as rendas do pliss\u00ea guarneciam de branco.<\/p>\n<p>As palavras dele, ungidas de ternura, ritmadas pela emo\u00e7\u00e3o,<br \/>\nAdelaide ouvia-as inquieta, e, instintivamente, apressava o passo, medrosa,<br \/>\nde estar ali sozinha &#8220;com um homem!&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 escura esta avenida! &#8211; exclamou, de repente, erguendo os<br \/>\nolhos para a copa dos bambus.<\/p>\n<p>Furtado estremeceu.<\/p>\n<p>&#8211; Escura, mas muito agrad\u00e1vel, n\u00e3o acha? &#8211; murmurou quase ao<br \/>\nouvido dela.<\/p>\n<p>&#8211; Pelo contr\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o diga pelo contr\u00e1rio&#8230; Leia os poetas. .. A solid\u00e3o<br \/>\nconvida ao amor&#8230;<\/p>\n<p>Adelaide estranhou aquelas palavras e calou-se.<\/p>\n<p>O trajo branco do visconde assomou longe e tornou a desaparecer entre as<br \/>\n\u00e1rvores.<\/p>\n<p>A esposa do bacharel queixou-se de uma dorzinha de cabe\u00e7a; o champanha<br \/>\nlhe fizera mal.<\/p>\n<p>Ele tranq\u00fcilizou-a, dizendo que o champanha n\u00e3o fazia mal a ningu\u00e9m;<br \/>\nque era uma bebida inofensiva como \u00e1gua&#8230; O vinho do Porto, sim, o<br \/>\nvinho do Porto estragava o est\u00f4mago. Mas n\u00e3o tinham tomado vinho<br \/>\ndo Porto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 do sol.<\/p>\n<p>&#8211; E do muito sol que apanhamos. Eu mesmo sinto um fogo na cabe\u00e7a,<br \/>\numa quentura no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>De repente o secret\u00e1rio estacou; descobrira um pequeno inseto cor<br \/>\nde ouro no ombro de Adelaide. Colheu-o na ponta dos dedos e mostrou-lho.<\/p>\n<p>&#8211; Veja que bonito!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade: lindo!<\/p>\n<p>&#8211; Naturalmente confundiu-a com alguma rosa..<\/p>\n<p>&#8211; Que gra\u00e7a, senhor Furtado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o? Admira-se de que eu a compare a uma rosa?<\/p>\n<p>&#8211; Muito lindo! &#8211; repetiu Adelaide observando o insetozinho na palma da m\u00e3o.<\/p>\n<p>Estavam agora frente a frente ocupados com a descoberta do cole\u00f3ptero,<br \/>\nele sem tirar os olhos dela, todo embebido na contempla\u00e7\u00e3o do<br \/>\nseu rosto ideal.<\/p>\n<p>&#8211; O Evaristo gosta muito de insetos, vou guardar para ele.<\/p>\n<p>E depositou cautelosamente o besouro na bolsa de couro da R\u00fassia que<br \/>\nsempre trazia, dizendo:<\/p>\n<p>&#8211; Que demora de meu marido!<\/p>\n<p>&#8211; Anda \u00e0s voltas, com o Raul.<\/p>\n<p>E no momento em que ela fechava a bolsa para continuar o passeio, Furtado<br \/>\nabaixou a cabe\u00e7a, num movimento nobre, e beijou-lhe audaciosamente<br \/>\na m\u00e3o, oferecendo-lhe, ato cont\u00ednuo, o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor!&#8230;<\/p>\n<p>Ia exclamando: &#8211; Senhor Furtado!&#8230; &#8211; num tom de admira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de queixa; mas, o ins\u00f3lito procedimento do secret\u00e1rio gelou-a.<\/p>\n<p>Um beijo!&#8230; Faltava-lhe toda a coragem, toda a presen\u00e7a de esp\u00edrito,<br \/>\npara reagir no mesmo instante, lembrando ao marido de D. Branca o respeito<br \/>\nque todo o homem deve a uma senhora casada. Penderam-lhe os bra\u00e7os,<br \/>\ncurvou a cabe\u00e7a, e em vez de uma explos\u00e3o de palavras que demonstrassem<br \/>\na Furtado a sua indigna\u00e7\u00e3o e o seu assombro, ela deixou que<br \/>\nas l\u00e1grimas corressem como p\u00e9rolas de ros\u00e1rio desfiado.<br \/>\nNunca homem algum se atrevera a tanto, nunca o seu pudor de mulher fora t\u00e3o<br \/>\ncruelmente magoado como naquela ocasi\u00e3o e por um homem que devia ser<br \/>\no primeiro a respeit\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8211; Adelaide&#8230; &#8211; murmurou Furtado numa voz suplicante. &#8211; Zangou-se?<\/p>\n<p>A jovem senhora n\u00e3o respondeu. Ia calada, muda, abafando o seu \u00f3dio,<br \/>\nenxugando as l\u00e1grimas. Compreendia agora os zelos do secret\u00e1rio<br \/>\npara com ela, a sua fingida dedica\u00e7\u00e3o ao Evaristo; compreendia<br \/>\ntudo&#8230;<\/p>\n<p>Mas, ao mesmo tempo, compreendia a necessidade de ocultar aquele epis\u00f3dio<br \/>\nrevoltante &#8220;para n\u00e3o dar esc\u00e2ndalo&#8221;, para evitar a<br \/>\nc\u00f3lera de Evaristo e uma grande desordem, talvez, entre o secret\u00e1rio<br \/>\ne a mulher. Oh, infelizmente era preciso mostrar cara alegre, ainda que o<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o estivesse sangrando&#8230; Nunca lhe passara pela id\u00e9ia<br \/>\nque o Sr. Furtado, um homem que se dizia t\u00e3o fino, t\u00e3o bem-educado,<br \/>\nabusasse da sua posi\u00e7\u00e3o e de um momento como aquele para&#8230;<br \/>\npara beij\u00e1-la, como se estivesse tratando com uma criadinha de fam\u00edlia,<br \/>\nsem pejo nem nada! Era muita coragem e muita desfa\u00e7atez!<\/p>\n<p>&#8211; D. Adelaide&#8230; &#8211; repetiu Furtado aproximando-se dela. &#8211; Queira desculpar-me<br \/>\nse a ofendi&#8230;<\/p>\n<p>A esposa de Evaristo continuou no mesmo sil\u00eancio obstinado, como uma<br \/>\npessoa que de repente perdesse a fala, indo maquinalmente pela avenida, sem<br \/>\nver as coisas, olhando para o ch\u00e3o fofo que seus p\u00e9s iam pisando<br \/>\ninsensivelmente. De alegre que estava quando saiu do caramanch\u00e3o, tornou-se<br \/>\nmelanc\u00f3lica e indiferente \u00e0s belezas do jardim e \u00e0s fulgura\u00e7\u00f5es<br \/>\nda luz. Do\u00eda-lhe a cabe\u00e7a com uma intensidade atroz.<\/p>\n<p>Furtado emudeceu tamb\u00e9m, penalizado, um pouco arrependido j\u00e1,<br \/>\nreceoso de que Adelaide n\u00e3o fosse cometer alguma imprud\u00eancia<br \/>\ndesabafando-se. Mordia o cast\u00e3o da bengala com um ar s\u00e9rio de<br \/>\nquem cogita numa grave quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Aventurou nova pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; Quer que me ajoelhe e pe\u00e7a perd\u00e3o? Creia que foi uma loucura<br \/>\nde que me confesso arrependido&#8230;<\/p>\n<p>Adelaide suspirou levemente, como al\u00edvio, ainda sem responder. Neste<br \/>\ninstante a m\u00fasica do outro lado do parque tocava uma habanera saudosa<br \/>\ncujo eco ia morrer longe nas montanhas, penetrado de evoca\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO cora\u00e7\u00e3o terno da esposa de Evaristo encheu-se de bondade e<br \/>\nacordou subitamente da melancolia em que o deixara Furtado. Ela, por\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o tinha coragem de abrir a boca e dizer uma simples palavra, como<br \/>\nse estivesse na presen\u00e7a de um estranho, de um desconhecido. Queria<br \/>\nesquecer a ofensa que recebera do amigo do Evaristo, acabar com aquilo e continuar<br \/>\na viver como dantes; o homem \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 senhor de<br \/>\nsi&#8230; Lembrava-se dos favores que o bacharel devia ao secret\u00e1rio, da<br \/>\nextremosa amizade de D. Branca e um sentimento de gratid\u00e3o penetrava-a<br \/>\ndesanuviando-lhe a alma, restituindo-lhe o bom humor e a vis\u00e3o otimista<br \/>\nda paisagem e das coisas&#8230; N\u00e3o valia a pena zangar-se, amofinar-se<br \/>\npor uma tolice, de uma loucura&#8230; Ningu\u00e9m vira o secret\u00e1rio<br \/>\nbeijar-lhe a m\u00e3o, ningu\u00e9m&#8230;; a al\u00e9ia estava deserta<br \/>\ncomo o interior de uma gruta long\u00ednqua. Para que ent\u00e3o, provocar<br \/>\nesc\u00e2ndalo? Tamb\u00e9m n\u00e3o se deve ser muito escrupulosa&#8230;<br \/>\ndeve-se desculpar, fechar os olhos a estas coisas.<\/p>\n<p>Furtado ouviu um rumor na areia. O Raul aproximava-se correndo; atr\u00e1s<br \/>\ndele vinha o bacharel em passo ordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Eh, l\u00e1! &#8211; gritou Evaristo. &#8211; Esperem ao menos pela gente!<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio voltou-se com Adelaide e riram ambos da filosofia ing\u00eanua<br \/>\ndaquele marido excepcional.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 te faz\u00edamos desertor!<\/p>\n<p>&#8211; A mim?&#8230; Ufa, que j\u00e1 me n\u00e3o tenho nas pernas!&#8230; Desertor?<\/p>\n<p>&#8211; Onde andaste h\u00e1 quase uma hora?<\/p>\n<p>&#8211; Vendo as cascatas e os reservat\u00f3rios&#8230; Pergunta ao Raul!<\/p>\n<p>&#8211; Oh, que bonito, hem, senhor Evaristo? Que bonito, papai! A cachoeira vem<br \/>\nde l\u00e1 de cima da montanha rolando, rolando como uma chuva&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Espl\u00eandido! &#8211; tornou o bacharel. &#8211; J\u00e1 n\u00e3o nos lembr\u00e1vamos<br \/>\nde voc\u00eas&#8230; Que \u00e9 do visconde?<\/p>\n<p>&#8211; Vai l\u00e1 adiante com a Branca.<\/p>\n<p>&#8211; Papai, oh papai! &#8211; interrompeu o menino.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9, meu filho?<\/p>\n<p>&#8211; Um homem estava tirando o retrato da cachoeira, com uma m\u00e1quina&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei.<\/p>\n<p>E para Evaristo:<\/p>\n<p>&#8211; D. Adelaide \u00e9 que est\u00e1 com uma dorzinha de cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Melhorei um bocado, j\u00e1 n\u00e3o d\u00f3i tanto &#8211; disse Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; E agora para onde nos atiramos? &#8211; perguntou o bacharel.<\/p>\n<p>&#8211; Ao encontro do visconde e da Branca.<\/p>\n<p>Foram andando os tr\u00eas, mais o Raul. Sa\u00edram na grande al\u00e9ia<br \/>\ndas palmeiras, onde se achava o Santa Quit\u00e9ria de bra\u00e7o com<br \/>\nD. Branca cm torno do repuxo, vendo cair a \u00e1gua em fios dentro do reservat\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1, como est\u00e3o embebidos! &#8211; exclamou o Furtado.<\/p>\n<p>O bacharel, por tr\u00e1s do secret\u00e1rio, piscou maliciosamente o<br \/>\nolho \u00e0 esposa.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, como est\u00e3o embebidos! &#8211; repetiu Evaristo.<\/p>\n<p>E aproximaram-se justamente na ocasi\u00e3o em que o Santa Quit\u00e9ria<br \/>\nfalava em voz muito baixa no seu escrit\u00f3rio na Rua da Alf\u00e2ndega,<br \/>\nonde havia uma alcova, toilette, jarro com flores, et coetera&#8230;<\/p>\n<p>O instinto de D. Branca advertiu-a da aproxima\u00e7\u00e3o de Furtado;<br \/>\nela fez sinal com os olhos ao banqueiro e entraram todos a confabular alegremente.<\/p>\n<p>Estava reunida a troupe sem faltar uma s\u00f3 pessoa. O visconde consultou<br \/>\no rel\u00f3gio: eram tr\u00eas e meia.<\/p>\n<p>&#8211; Cedo &#8211; murmurou.<\/p>\n<p>&#8211; Querem tomar alguma coisa? &#8211; ofereceu o secret\u00e1rio. &#8211; Um vermute,<br \/>\num conhaque, um copo de \u00e1gua gelada.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m queria; em todo caso foram repousar \u00e0 sombra do caramanch\u00e3o,<br \/>\nenquanto o sol ainda estava quente.<\/p>\n<p>Adelaide aparentava a mesma fisionomia naturalmente ing\u00eanua do costume.<br \/>\nEvaristo sempre despreocupado, n\u00e3o adivinhou, atrav\u00e9s do seu<br \/>\nrosto, a mais leve contrariedade. J\u00e1 se habituara \u00e0queles longes<br \/>\nde melancolia, que eram a verdadeira express\u00e3o do olhar da esposa.<br \/>\nD. Branca notou por\u00e9m um tom cerimonioso na voz do Furtado, quando<br \/>\neste se dirigia a Adelaide. Desconfian\u00e7a, talvez, mas notara&#8230; e ela<br \/>\nque conhecia bem o g\u00eanio do esposo, imaginou logo o fio de uma secreta<br \/>\nhist\u00f3ria de amor&#8230;<\/p>\n<p>As cinco horas, nova refei\u00e7\u00e3o desafiava o apetite do bacharel<br \/>\ne do Raul, somente deles, porque as outras pessoas torceram o nariz \u00e0<br \/>\ngalinhola e \u00e0 maionese de salm\u00e3o; contentaram-se parcamente<br \/>\ncom uma fatia de queijo holand\u00eas, um pouco de marmelada e vinho de Bourgogne.<br \/>\nO visconde acrescentou \u00e1gua de Selters, limpando o bigode com cerimoniosa<br \/>\nfidalguia.<\/p>\n<p>Evaristo e Raul \u00e9 que n\u00e3o dispensaram a comezaina e entraram,<br \/>\nde rijo, na asa de galinha e na maionese.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas n\u00e3o sabem o que est\u00e3o perdendo! &#8211; excitava o<br \/>\nbacharel, sem cerim\u00f4nia, trincando as azeitonas. &#8211; Um bocadinho de maionese,<br \/>\nAdelaide!<\/p>\n<p>O Raul achava gra\u00e7a nas palavras e no apetite de Evaristo e ria mastigando,<br \/>\ncom um risinho dobrado e sonoro que fazia os outros rir.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, D. Branca? Mostre ao menos que \u00e9 filha do sul!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, senhor Evaristo, muito obrigada &#8211; sorriu corando a elegante<br \/>\nfluminense.<\/p>\n<p>&#8211; E o senhor visconde? e o amigo Furtado? Olha que gente!&#8230;<\/p>\n<p>Abriam-se garrafas de vinho. O Ant\u00f4nio sempre alerta movimentava o<br \/>\nquadro, exibindo as suas qualidades de copeiro que ama o of\u00edcio.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o v\u00e1s indigestar&#8230; &#8211; advertiu o secret\u00e1rio ao filho.<\/p>\n<p>No mesmo instante Adelaide recomendava ao marido que &#8220;tivesse cuidado<br \/>\ncom a maionese&#8221;.<\/p>\n<p>A luz do sol desmaiava num crep\u00fasculo cheio de misteriosas paIpita\u00e7\u00f5es.<br \/>\nDescia das montanhas um ar \u00famido; o som das cascatas vinha impregnado<br \/>\ndo aroma da floresta, como se dele fizesse parte, e evocava, aquela hora,<br \/>\nlonges de natureza tropical, saudosas ave-marias da inf\u00e2ncia&#8230; O parque<br \/>\ncom as suas \u00e1rvores colossais, com os seus renques de palmeiras, com<br \/>\nos seus t\u00faneis de verdura e com as suas plan\u00edcies de grama,<br \/>\nonde brotavam pequeninos eucaliptos e obscuros vegetais de fam\u00edlias<br \/>\nobscuras da \u00cdndia e do norte da Am\u00e9rica &#8211; o grande parque ia-se<br \/>\nrevestindo de melancolia e cada \u00e1rvore com a sua etiqueta explicativa<br \/>\ntinha um ar f\u00fanebre de cemit\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Agora podemos ir &#8211; disse Evaristo -, mesmo porque vem caindo a noite&#8230;<\/p>\n<p>Dirigiram-se todos para o port\u00e3o do Jardim.<\/p>\n<h4><a name=\"5\"><\/a>V<\/h4>\n<p>Adelaide recolheu-se triste naquela noite; por maiores esfor\u00e7os que<br \/>\nfizesse, n\u00e3o podia esquecer a afronta do secret\u00e1rio aos seus<br \/>\nbrios de mulher casada, e o que mais a impressionava era o desplante, o cinismo<br \/>\naudacioso com que ele a beijara&#8230; &#8211; Que coragem de homem, Senhor! Quase \u00e0<br \/>\nvista de todos, em pleno Jardim Bot\u00e2nico, num lugar p\u00fablico!<br \/>\nEis a\u00ed quando a gente perde a cabe\u00e7a e comete uma loucura, eis<br \/>\na\u00ed!<\/p>\n<p>Depois falam, depois n\u00e3o d\u00e3o raz\u00e3o, e uma mulher v\u00ea-se<br \/>\nobrigada sofrer os maiores insultos, porque tem medo de que lhe aconte\u00e7a<br \/>\npior&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 h\u00e1 dias notara certas liberdades de Furtado, certa maneira<br \/>\nde lhe falar, de lhe dizer as coisas baixando a voz, ameigando o sotaque,<br \/>\nolhando-a insistentemente; j\u00e1 h\u00e1 dias notara&#8230; mas, palavra<br \/>\nde honra como n\u00e3o supunha o marido de D. Branca um homem sem escr\u00fapulos,<br \/>\num sedutor, um amigo desleal&#8230; Pobre Evaristo! nem sequer imaginava&#8230;<\/p>\n<p>E ca\u00eda-lhe n&#8217;alma um desgosto, uma tristeza, um cansa\u00e7o da<br \/>\nvida, um peso enorme. Oh, quanto mais para dentro da civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmais horrores, mais espinhos, como no interior de uma floresta de cardos,<br \/>\npovoada de insetos venenosos. Homens e mulheres traem-se com a mesma facilidade<br \/>\ncom que se juram amar eternamente uns aos outros. Bem lhe diziam na prov\u00edncia<br \/>\nque o Rio de Janeiro era um centro de perdi\u00e7\u00e3o, uma Babil\u00f4nia<br \/>\nde v\u00edcios, bem lhe diziam!&#8230; Melhor prova ela n\u00e3o podia ter:<br \/>\no Sr. Lu\u00eds Furtado, aristocrata de Botafogo, pai de fam\u00edlia,<br \/>\nmostrava-se dedicado aos outros para poder abusar.. E assim era tudo.<\/p>\n<p>O c\u00e9rebro de Adelaide enchia-se de considera\u00e7\u00f5es, enquanto<br \/>\nEvaristo mergulhava num sono calmo e reparador. O bacharel n\u00e3o esperou<br \/>\npela hora habitual de se deitar, fatigado do passeio, com uma invenc\u00edvel<br \/>\nmorrinha no corpo, os olhos ardendo, a vista turva, esvaziou uma moringa d&#8217;\u00e1gua<br \/>\nfresca e estendeu-se na cama, na bela cama de casal. &#8220;N\u00e3o era<br \/>\nde bronze para resistir \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias de um piquenique!&#8221;<br \/>\nE dormia, o Evaristo, como o mais feliz de todos os bachar\u00e9is.<\/p>\n<p>Adelaide \u00e9 que n\u00e3o podia dormir, apesar de cansada tamb\u00e9m.<br \/>\nEra maior a preocupa\u00e7\u00e3o moral que o sono. Ouviu bater oito horas,<br \/>\nnove, dez, onze, meia-noite, e o c\u00e9rebro a trabalhar, a funcionar como<br \/>\numa m\u00e1quina de alta press\u00e3o. Chocavam-se nela as mais desencontradas<br \/>\nid\u00e9ias: ora Furtado parecia-lhe um homem sem car\u00e1ter, indigno<br \/>\nda amizade de Evaristo ou de quem quer que tivesse um bocado de vergonha,<br \/>\nora afigurava-se-lhe cavalheiro distinto, com todas as virtudes e defeitos<br \/>\n(n\u00e3o h\u00e1 homem sem defeitos &#8230;) da sociedade em que vive. Ao<br \/>\nmesmo tempo que o condenava por lhe ter beijado a m\u00e3o, ferindo-a no<br \/>\nseu amor-pr\u00f3prio, intimamente o perdoava, lembrando-se de que talvez<br \/>\nele a amasse deveras e o amor \u00e9 cego, o amor n\u00e3o quer saber<br \/>\nde raz\u00f5es&#8230; Quem sabe? ele talvez a amasse, talvez lhe consagrasse<br \/>\nalguma estima particular e fora de suspeitas criminosas. Beijou-a porque&#8230;<br \/>\nporque n\u00e3o teve for\u00e7as para se dominar&#8230;<\/p>\n<p>A consci\u00eancia, por\u00e9m, dizia-lhe baixinho que uma mulher casada,<br \/>\numa mulher que se ligou a um homem para toda a exist\u00eancia, \u00e9<br \/>\nobjeto que outro homem n\u00e3o deve tocar nem de leve, ainda mesmo a pretexto<br \/>\nde amizade fraternal ou de sagrada admira\u00e7\u00e3o; e a esposa que<br \/>\nse deixa beijar por um homem, que n\u00e3o \u00e9 o seu leg\u00edtimo<br \/>\nmarido, tem na sociedade o feio nome de ad\u00faltera. Vinha-lhe, ent\u00e3o,<br \/>\num arrepio nervoso, uma sensa\u00e7\u00e3o de remorso por n\u00e3o ter<br \/>\nenergicamente repelido o secret\u00e1rio, mesmo com esc\u00e2ndalo, embora<br \/>\nca\u00edsse sobre ela todo o \u00f3dio de Furtado e de D. Branca; acima<br \/>\ndeles estava a sua dignidade e a honra de Evaristo. No meio dessas id\u00e9ias,<br \/>\ne como uma apari\u00e7\u00e3o bendita, surgiu-lhe a figura de Balbina,<br \/>\na preta velha de Coqueiros, e uma l\u00e1grima triste, uma l\u00e1grima<br \/>\nde saudade embebeu-se no travesseiro da meiga esposa do bacharel.<\/p>\n<p>Evaristo roncava.<\/p>\n<p>No outro dia falou-se muito no piquenique; todos tinham gostado imenso. A<br \/>\ncorre\u00e7\u00e3o do visconde, o ar fidalgo que ele n\u00e3o perdia<br \/>\nmesmo entre amigos, a toilette com que se apresentava, as suas delicadezas<br \/>\nmereceram especiais refer\u00eancias de D. Branca.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio n\u00e3o esteve muito loquaz ao almo\u00e7o; dava<br \/>\nuns apartes t\u00edmidos e avan\u00e7ava um ou outro ju\u00edzo ir\u00f4nico<br \/>\nsobre o passeio da v\u00e9spera, lamentando as dores de cabe\u00e7a de<br \/>\nAdelaide e a eterna circunspec\u00e7\u00e3o do visconde. &#8211; &#8220;Afinal,<br \/>\na verdade \u00e9 que ningu\u00e9m se divertira. Resultado: um passeio<br \/>\nde burgueses, um piquenique f\u00fanebre!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; F\u00fanebre por qu\u00ea? &#8211; saltou Evaristo. &#8211; Voc\u00eas \u00e9<br \/>\nque n\u00e3o sabem se divertir; eu pelo menos fiz honra \u00e0 confeitaria<br \/>\nPascoal e gozei o que h\u00e1 muito n\u00e3o gozava: o aspecto da nossa<br \/>\nnatureza, a sombra de uma \u00e1rvore e a frescura de um veio d&#8217;\u00e1gua.<br \/>\nNesta imperial cidade, onde a vida do rei \u00e9 o que de mais precioso<br \/>\nexiste, vale a pena um homem sair dos seus c\u00f4modos para respirar o ar<br \/>\nlivre do Jardim Bot\u00e2nico ou de outro jardim qualquer. N\u00f3s \u00e9<br \/>\nque n\u00e3o sabemos gozar o que possu\u00edmos. O imperador absorve o<br \/>\nc\u00e9rebro e o cora\u00e7\u00e3o deste povo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixe o velho, Sr. Evaristo, Sr. Evaristo &#8230; &#8211; fez D. Branca. &#8211; O imperador<br \/>\n\u00e9 um bom homem.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m diz o contr\u00e1rio; mas o Brasil ainda \u00e9 melhor<br \/>\nque ele&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed vem pol\u00edtica! &#8211; murmurou Adelaide, que at\u00e9 a\u00ed<br \/>\nn\u00e3o dera palavra.<\/p>\n<p>Furtado olhou-a e sorriu; ela abaixou os olhos gravemente.<\/p>\n<p>O resto do dia passou calmo. Adelaide subiu, depois do almo\u00e7o, como<br \/>\n\u00e0s vezes costumava, e foi ler os jornais. Estava resolvida a mudar-se<br \/>\ndaquela casa antes que estalasse algum esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Mas a insistente id\u00e9ia de Furtado n\u00e3o a abandonava e todo o<br \/>\nsanto dia pensou nele, como num objeto querido, e nas hist\u00f3rias de<br \/>\namor que lhe contara D. Branca. Como exigir de Evaristo uma mudan\u00e7a<br \/>\nbrusca, ela que nenhuma raz\u00e3o podia alegar contra o sobrado ou contra<br \/>\na fam\u00edlia do secret\u00e1rio? Dizer-lhe simplesmente que n\u00e3o<br \/>\nestava bem ali era uma imprud\u00eancia, tanto mais quanto as suas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom a esposa de Furtado eram estreit\u00edssimas e ela sempre fizera grandes<br \/>\nelogios \u00e0 casa e ao pr\u00f3prio marido de D. Branca. Antes esquecer,<br \/>\nantes esquecer tudo e apresentar-se alegre, fazendo pela vida como os outros,<br \/>\nn\u00e3o estorvando os projetos de Evaristo, aceitando os homens como eles<br \/>\ns\u00e3o &#8211; desleais e corruptos&#8230; Que podia ela s\u00f3 contra uma sociedade<br \/>\ninteira, contra milhares de pessoas? Nada, absolutamente nada. Homem e mulher<br \/>\nvivem conforme a sociedade os obriga a viver, fingindo n\u00e3o perceberem<br \/>\naquilo que lhes est\u00e1 entrando pelos olhos; a mulher principalmente,<br \/>\na mulher \u00e9 um ente nulo, uma criatura sem vontade, uma pobre m\u00e1quina<br \/>\ndos caprichos do homem. Triste daquela que, instigada pelo amor-pr\u00f3prio,<br \/>\narrebatada por um movimento de dignidade feminina, rebelar-se contra o jugo<br \/>\ndo meio em que vive! N\u00e3o lhe faltar\u00e3o apodos, nem grosseiras<br \/>\nalus\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Na sua simplicidade provinciana a jovem esposa do bacharel come\u00e7ava<br \/>\na compreender o papel inferior da mulher na civiliza\u00e7\u00e3o, e tra\u00e7ava<br \/>\nmentalmente um programa de vida, uma linha de conduta humilde e utilit\u00e1ria<br \/>\nsobre as bases que lhe fornecera a experi\u00eancia de alguns meses. O Rio<br \/>\nde Janeiro aparecia-lhe agora sob um aspecto novo e convencional. Furtado<br \/>\nrepresentava, a seus olhos, o homem moderno, capaz de todas as pervers\u00f5es,<br \/>\nde todas as hipocrisias, colocando acima da dignidade pr\u00f3pria, o sensualismo,<br \/>\nos gozos inconfess\u00e1veis, a lux\u00faria sob todas as formas e as<br \/>\nexibi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de toilettes \u00e0 \u00faltima<br \/>\nmoda. Notara, no piquenique, a insist\u00eancia com que o visconde de Santa<br \/>\nQuit\u00e9ria se dirigia a D. Branca, levando-a pelo bra\u00e7o a passear<br \/>\nno Jardim, fora das vistas do secret\u00e1rio, enquanto este, por seu turno,<br \/>\nia maquinando o melhor meio de p\u00f4r em pr\u00e1tica uma trai\u00e7\u00e3o<br \/>\nao amigo&#8230; e essas e outras coisas enchiam-lhe o cora\u00e7\u00e3o de<br \/>\ndescren\u00e7a e de pesar. O verdadeiro &#8211; a prud\u00eancia lho dizia &#8211;<br \/>\nera fechar os olhos a tudo e esperar que Evaristo se convencesse da asquerosa<br \/>\nrealidade&#8230; Ela nunca o havia de trair, isso nunca! Preferia morrer, preferia<br \/>\nsuicidar-se&#8230; Queria-o muito, orgulhava-se em o ter como esposo de sua alma.<br \/>\nOu a mulher ama o homem com quem vive e, se o ama, n\u00e3o o pode trair,<br \/>\nou n\u00e3o o ama e, neste caso, \u00e9 a pior de todas as mulheres de<br \/>\nvida f\u00e1cil, porque diz hipocritamente que o ama para, \u00e0 sombra<br \/>\nde um respons\u00e1vel. cometer inf\u00e2mias. N\u00e3o, ela havia de<br \/>\nrespeitar seu maridinho enquanto Deus lhe desse ju\u00edzo.<\/p>\n<p>Arrumou a casa, espanou os m\u00f3veis, passou uma vista nos jornais e<br \/>\nsentou-se entregue \u00e0s suas reflex\u00f5es, o esp\u00edrito alvoro\u00e7ado<br \/>\npelo enxame das id\u00e9ias, num grande sil\u00eancio de tug\u00fario<br \/>\nque nenhum estalido quebrava.<\/p>\n<p>D. Branca, p\u00e9 ante p\u00e9, foi encontr\u00e1-la na cadeira de<br \/>\nbalan\u00e7o, a olhar o teto, numa abstra\u00e7\u00e3o infinita, rodeada<br \/>\nde jornais.<\/p>\n<p>&#8211; Boa vida! &#8211; exclamou, com um sorriso afetuoso, a mulher de Furtado.<\/p>\n<p>Adelaide teve um pequeno sobressalto: &#8220;- Oh!&#8230; Estava pensando&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Estava pensando! Isso \u00e9 grave&#8230; Cai ou n\u00e3o cai o minist\u00e9rio!<br \/>\nO imperador vai ou n\u00e3o vai \u00e0 Europa?<\/p>\n<p>A outra endireitou-se na cadeira, passou a m\u00e3o nos olhos, como quem<br \/>\nacorda, e suspirou de leve.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que a vida \u00e9 curta, menina, olhe que a vida \u00e9 curta<br \/>\n&#8211; repetiu a amiga em tom conselheiro.<\/p>\n<p>&#8211; E os desgostos s\u00e3o muitos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual desgostos, criatura! Uma mulher nova e bonita n\u00e3o pode queixar-se.<\/p>\n<p>E sem transi\u00e7\u00e3o, D. Branca aludiu ao piquenique. Adelaide gabou<br \/>\na festa, para n\u00e3o contrariar a esposa do secret\u00e1rio, recordou<br \/>\no champanha, os ditos espirituosos do senhor Furtado e, propositalmente, n\u00e3o<br \/>\nfalou no visconde.<\/p>\n<p>D. Branca, ent\u00e3o, sem estranhar o sil\u00eancio de Adelaide, fez<br \/>\no elogio de Santa Quit\u00e9ria, enaltecendo-lhe os modos, &#8220;a impec\u00e1vel<br \/>\ndistin\u00e7\u00e3o com que ele tratava uma senhora, a extrema delicadeza<br \/>\nque punha nas palavras e nos menores gestos&#8221;, concluindo que o visconde<br \/>\nera, na sua opini\u00e3o, &#8220;o que se podia desejar de tout \u00e0<br \/>\nfai chic&#8221;.<\/p>\n<p>&#8211; Ele parece simpatizar muito com a senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Comigo? Oh n\u00e3o, nem diga tal coisa!<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o \u00e9 bom, pode algu\u00e9m ouvir e eu n\u00e3o<br \/>\nquero &#8211; Deus me livre &#8211; uma quest\u00e3o com o Furtado &#8230;<\/p>\n<p>O certo, por\u00e9m, \u00e9 que D. Branca exultou intimamente com as<br \/>\npalavras de Adelaide. &#8211; &#8220;Era, ent&amp;aatilde;o, verdade que o visconde parecia<br \/>\nSimpatizar com ela&#8230; Que lembran\u00e7a?&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ia animada a palestra, quando a campainha soou embaixo e vozes repercutiram<br \/>\nna escada.<\/p>\n<p>Eram os dois amigos que voltavam juntos do Banco.<\/p>\n<p>\u00c0 noite ainda se falou no piquenique, tema inesgot\u00e1vel das<br \/>\nconversa\u00e7\u00f5es daquele dia. Ningu\u00e9m se lembrava de outra<br \/>\ncoisa; o piquenique no Jardim Bot\u00e2nico era a grande novidade, o grande<br \/>\nacontecimento.<\/p>\n<p>Adelaide estava mais expansiva; trocou algumas palavras, diretamente com<br \/>\no secret\u00e1rio, emitiu opini\u00f5es, teve risos gostosos; enfim, j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o era a mesma que D. Branca surpreendera com os olhos no teto, a<br \/>\npensar e que se conservara silenciosa ao almo\u00e7o, enquanto as outras<br \/>\npessoas comentavam o piquenique.<\/p>\n<p>As noites eram mais frescas ent\u00e3o; respiravam-se as primeiras brisas<br \/>\ndo equin\u00f3cio das flores, o sol ia perdendo a intensidade abrasadora<br \/>\ne caniculante que afugentara para Petr\u00f3polis e Friburgo os sat\u00e9lites<br \/>\nimperiais do monarca. A vida fluminense, por assim dizer interrompida com<br \/>\na aus\u00eancia da aristocracia palaciana, voltava a funcionar, \u00e9<br \/>\nverdade que sem o est\u00edmulo habitual, porque a sabedoria de Hip\u00f3crates<br \/>\nordenava ao imperador uma retirada para o outro continente, e os olhos do<br \/>\npovo e da nobreza cedo come\u00e7avam a chorar a ida inevit\u00e1vel do<br \/>\naugusto e perp\u00e9tuo defensor do Brasil. Voltavam tristes as andorinhas<br \/>\nde Petr\u00f3polis, e essa tristeza comunicava-se ao meigo rebanho que atravessara<br \/>\ndezembro e janeiro ao sol, enquanto a asa negra da febre amarela estendia-se<br \/>\npavorosa, sobre a her\u00f3ica cidade.<\/p>\n<p>Os jornais, numa faina l\u00fagubre, pediam contas ao governo sobre o verdadeiro<br \/>\ndiagn\u00f3stico da imperial mol\u00e9stia e j\u00e1 se dizia por toda<br \/>\na parte que &#8220;o rei ia, mas n\u00e3o voltava&#8230; &#8211; Diabetes &#8230; glicos\u00faria&#8230;<br \/>\nsurmenage&#8230; eram palavras que enchiam a Rua do Ouvidor subindo e descendo<br \/>\ncom os transeuntes. &#8211; Quem ficava no trono! Quem se responsabilizava pelos<br \/>\ndestinos da grande p\u00e1tria americana? Toda a gente sabia que era a princesa,<br \/>\nmas toda a gente perguntava: &#8211; Quando era o dia do embarque? &#8211; e cada boca<br \/>\nera uma interroga\u00e7\u00e3o e cada olhar uma profecia. Republicanos,<br \/>\nabolicionistas, em concili\u00e1bulos secretos, viam na doen\u00e7a do<br \/>\nimperador o triunfo das novas id\u00e9ias, a conquista da liberdade, a grande<br \/>\nhora da fraterniza\u00e7\u00e3o brasileira&#8230;&#8221; E reduzido \u00e0s<br \/>\nm\u00edseras propor\u00e7\u00f5es de inv\u00e1lido, o segundo Alc\u00e2ntara,<br \/>\nbisneto da Sra. D. Maria I, universalmente conhecido pelos seus versos ao<br \/>\nbom povo ituano e pelo seu amor \u00e0s letras, que na Europa dava-lhe foros<br \/>\nde primeiro poeta do Brasil &#8211; O celebrado amigo de V. Hugo e das canjas do<br \/>\nTeatro L\u00edrico ia sulcar o Atl\u00e2ntico para bem do povo e felicidade<br \/>\nda na\u00e7\u00e3o, desse povo que tanto o amava e dessa na\u00e7\u00e3o<br \/>\nque ele governava h\u00e1 meio s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Povo e na\u00e7\u00e3o volviam os olhos para a Tijuca \u00e0 espera<br \/>\nde que sa\u00edsse o augusto enfermo, com o seu pr\u00e9stito de \u00e1ulicos<br \/>\ne turifer\u00e1rios, humilde agora mais do que nunca, dentro de um cup\u00ea<br \/>\nimperial, abatido e tristonho na grande dor que o pungia&#8230; Quantas pessoas<br \/>\nainda n\u00e3o o tinham visto e queriam v\u00ea-lo agora no embarque! As<br \/>\nruas haviam de se encher, as ruas e as pra\u00e7as quando os clarins dessem<br \/>\nsinal da aproxima\u00e7\u00e3o d&#8217;Ele. Oh, havia de ser um espet\u00e1culo<br \/>\ncomovedor, uma tristeza enorme, um pranto geral nos pal\u00e1cios e nas<br \/>\nchoupanas, onde quer que brilhasse a fama do seu querid\u00edssimo nome.<br \/>\nOs republicanos mesmo n\u00e3o se conservariam insens\u00edveis.<\/p>\n<p>&#8211; Porque &#8211; dizia, numa roda, o secret\u00e1rio &#8211; voc\u00eas podem negar<br \/>\ntudo, menos que o imperador seja querido pelos brasileiros.<\/p>\n<p>A roda compunha-se dele Furtado, de Evaristo, de Valdevino Manh\u00e3es,<br \/>\ndo deputado Ismael Pessegueiro, de Alagoas, e do Freitas Camargo, outro poeta,<br \/>\ncompanheiro do Manh\u00e3es na Revista Liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>O tema era a viagem do imperador da\u00ed a alguns dias. Estava-se em fins<br \/>\nde maio. Aboletados ao redor de uma mesinha no Castel\u00f5es, cada um expunha<br \/>\no seu ju\u00edzo acerca do monarca e da imperial viagem \u00e0 Europa.<br \/>\nO secret\u00e1rio do Banco apelava para a consci\u00eancia de todos: &#8211;<br \/>\nera ou n\u00e3o estimado no Brasil o imperador?<\/p>\n<p>Valdevino Manh\u00e1es, cavalgando o pincen\u00ea afetadamente, e cruzando<br \/>\nas pernas com um ar doutoral, lembrou as suas tradi\u00e7\u00f5es republicanas<br \/>\ne disse que, apesar de nunca ter merecido favor nenhum do Imp\u00e9rio,<br \/>\nn\u00e3o ousava negar a estima do povo ao rei; mas isso n\u00e3o queria<br \/>\nsignificar ades\u00e3o eterna do povo \u00e0s institui\u00e7\u00f5es<br \/>\nmon\u00e1rquicas: era um sentimento pessoal, uma generosidade afetiva, um<br \/>\nrespeito mesmo \u00e0s barbas brancas do velho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Engana-se, amigo &#8211; interrompeu o representante de Alagoas calmo, sem se<br \/>\nmover na cadeira, fitando os olhos no Dr. Condicional. &#8211; Pedro II enraizou<br \/>\na monarquia no Brasil, e, ainda que tiv\u00e9ssemos o desgosto de lamentar<br \/>\na sua morte hoje ou amanh\u00e3, o Brasil havia de ser sempre Imp\u00e9rio<br \/>\ndo Brasil, nunca uma rep\u00fablica. Desejar o sistema republicano para<br \/>\no nosso pa\u00eds \u00e9 querer a ru\u00edna de uma das maiores na\u00e7\u00f5es<br \/>\ndo mundo. Veja o senhor a Inglaterra.<\/p>\n<p>&#8211; Exatamente &#8211; apoiou Furtado.<\/p>\n<p>&#8211; A Inglaterra \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o decadente! &#8211; berrou o Manh\u00e3es.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o h\u00e1 termo de compara\u00e7\u00e3o entre a Inglaterra<br \/>\ne o Brasil. O Brasil um pa\u00eds novo, ainda nas faixas infantis&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por isso mesmo, por isso mesmo! &#8211; argumentou o deputado. &#8211; Os pa\u00edses<br \/>\nnovos precisam de um freio, como o indiv\u00edduo na inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Qual freio, Sr. Doutor! De freio precisam os burros, e n\u00f3s somos um<br \/>\npovo inteligente, um povo que n\u00e3o precisa de freios nem de monarcas.<br \/>\nA rep\u00fablica h\u00e1 de se fazer, creia!<\/p>\n<p>O alagoano, que pela primeira vez tratava com o Manh\u00e3es, estranhou-lhe<br \/>\no modo agressivo com que discutia e n\u00e3o retrucou. Valdevino continuou<br \/>\na falar no meio do sil\u00eancio dos companheiros, n\u00e3o perdendo ocasi\u00e3o<br \/>\nde aludir \u00e0 sua viagem \u00e0 Europa e ao bom acolhimento que tivera<br \/>\nem Lisboa.<\/p>\n<p>Camargo apoiava tudo quanto ele dizia por esp\u00edrito de coleguismo e<br \/>\nem aten\u00e7\u00e3o ao diretor da Revista. Mas Valdevino lembrou-se de<br \/>\nque se comprometera a jantar no Globo com uns rapazes, e, estabanadamente,<br \/>\ndespediu-se de todos. Foi ent\u00e3o, s\u00f3 ent\u00e3o, que o Camargo<br \/>\nabriu a boca, para dizer que o Valdevino era um idiota, uma besta!<\/p>\n<p>Ismael Pessegueiro olhou Furtado e baixou a cabe\u00e7a. Evaristo, mais<br \/>\npositivo e menos convencional, estendeu a m\u00e3o ao poeta:<\/p>\n<p>&#8211; Toque, amigo! O senhor agora disse tudo o que muita gente pensa e n\u00e3o<br \/>\ntem coragem de dizer.<\/p>\n<p>&#8211; Um homem que vive a escrever asneiras e a rabiscar sujidades! Um repetidor<br \/>\nde frases ocas! Porque veio da Europa, entende que \u00e9 j\u00e1 um mestre,<br \/>\num alto personagem nas letras&#8230; Uma cavalgadura \u00e9 o que ele \u00e9!<\/p>\n<p>&#8211; Pobre Valdevino!&#8230; &#8211; lamentou Furtado ironicamente.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre Dr. Condicional! &#8211; fez Evaristo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que lhes digo &#8211; continuou o poeta. &#8211; Quando Ramalho Ortig\u00e3o<br \/>\naqui esteve, no Rio, a primeira pessoa que correu a beijar-lhe os p\u00e9s<br \/>\nfoi ele, o Valdevino.<\/p>\n<p>&#8211; Os p\u00e9s ou as m\u00e3os? &#8211; inquiriu malicioso, Evaristo.<\/p>\n<p>&#8211; Os p\u00e9s&#8230; que ele quando adula \u00e9 para beijar os p\u00e9s.<br \/>\nEm literatura, como em pol\u00edtica, \u00e9 um rafeiro dos medalh\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230; &#8211; balbuciou com um risinho especial o representante de Alagoas.<\/p>\n<p>&#8211; Pode acreditar, doutor! O Valdevino Manh\u00e3es \u00e9 conhecido na<br \/>\nRua do Ouvidor; toda a gente sabe de quanto \u00e9 capaz aquele idiota&#8230;<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio interveio com uma pilh\u00e9ria.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas esquecem-se de que est\u00e3o a falar do autor do Juca Pir\u00e3o&#8230;<br \/>\n&#8211; Belo t\u00edtulo de uma obra: Juca Pir\u00e3o &#8211; continuou Camargo. &#8211;<br \/>\nVejam voc\u00eas at\u00e9 onde pode chegar a estupidez humana!<\/p>\n<p>&#8211; E \u00e9 verdade que existe essa obra? &#8211; perguntou o deputado.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, doutor, infelizmente \u00e9! Fa\u00e7a o senhor id\u00e9ia:<br \/>\num livro com o t\u00edtulo de Juca Pir\u00e3o!<\/p>\n<p>O Dr. Ismael carregou uma risada cheia de sarcasmo.<\/p>\n<p>&#8211; Deixem o pobre homem&#8230; suplicou o Furtado. &#8211; O Valdevino \u00e9 uma<br \/>\nboa criatura&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ouvi dizer que tem a mania do renome liter\u00e1rio, \u00e9 verdade?<br \/>\n&#8211; perguntou o Evaristo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mania que o h\u00e1 de levar ao hosp\u00edcio &#8211; resmoneou o Camargo.<\/p>\n<p>&#8211; Esses literatos, esses literatos&#8230; &#8211; disse com mist\u00e9rio o Holanda.<\/p>\n<p>&#8211; Vivem se digladiando! &#8211; acabou Furtado. &#8211; Queres mais cerveja, oh Camargo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o, merci&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Doutor, outro copo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E tu, Evaristo?<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb\u00e9m recuso.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o podemos levantar acampamento.<\/p>\n<p>Ergueram-se os quatro fumando, com grandes ares de capitalistas.<\/p>\n<p>A Rua do Ouvidor estava num de seus dias de festiva alacridade, inteiramente<br \/>\ncheia, como um rio a transbordar, tumultuoso, murmurejante e iluminado por<br \/>\num sol acariciador de primavera. Iam e vinham os habitu\u00e9s de ambos<br \/>\nos sexos, numa prociss\u00e3o de toilettes vivas, num burburinho de festa<br \/>\np\u00fablica entrechocando-se, acotovelando-se. Fam\u00edlias conversavam<br \/>\n\u00e0 porta das lojas, mo\u00e7as e velhas madamas, senhoras de todas<br \/>\nas idades e de todos os tamanhos, rindo, como se estivessem no interior de<br \/>\nsuas casas, beijando-se alto, enquanto os pais e os maridos discutiam pol\u00edtica<br \/>\n\u00e0 porta dos caf\u00e9s, \u00e0 espera que elas acabassem de &#8220;fazer<br \/>\nas compras&#8221;. Ecoavam gargalhadas entre os homens. Uma banda de m\u00fasica<br \/>\na tocar polcas e valsas faria toda aquela gente esquecer-se de que estava<br \/>\nna Rua do Ouvidor e cair num grande bailado ao ar livre. As maiores notabilidades<br \/>\nda pol\u00edtica, da literatura e das artes, os mais conhecidos escritores<br \/>\ne homens de Estado viam-se ali, em grupos, \u00e0 porta do Caf\u00e9 de<br \/>\nLondres, do Castel\u00f5es ou do Pascoal, frechando, com o olhar, o madamismo<br \/>\nsuspeito e as demoiselles ricas, assistindo ao desfilar tumultuoso das cocotes,<br \/>\ne das condessas, biografando-as uns aos outros com risinhos de inveterada<br \/>\nmal\u00edcia, observando-lhes o andar, os meneios, a toilette, a opul\u00eancia<br \/>\ndas carnes, como se as quisessem devorar num \u00edmpeto de canibalismo<br \/>\nsexual, acompanhando-as a perder de vista, gulosos, famintos e banais. Mo\u00e7os<br \/>\nde flor ao peito, no rigor da moda, alguns chegados de Paris, iam e vinham,<br \/>\nnuma ostenta\u00e7\u00e3o pedantesca de polainas, de casimiras claras,<br \/>\nde coletes brancos e de frases tolas, cumprimentando \u00e0 direita e \u00e0<br \/>\nesquerda, erectos como figuras de vitrina. Os armaz\u00e9ns de modas enchiam-se;<br \/>\nenchiam-se os caf\u00e9s e as confeitarias, e o zunzum aumentava de entontecer,<br \/>\ndentro das lojas e na rua.<\/p>\n<p>&#8211; Sabes quem \u00e9 aquela, oh Evaristo? &#8211; disse, parando, o secret\u00e1rio.<br \/>\nIndicava uma senhora de presen\u00e7a estranha, muito bem vestida, que ia<br \/>\npelo bra\u00e7o de um cavalheiro, na outra cal\u00e7ada. Um movimento<br \/>\nde ansiosidade propagou-se no trecho da rua.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; A baronesa de Lima-Verde, uma das mulheres mais formosas do Rio de Janeiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230; Vai com o marido&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 o que ainda n\u00e3o est\u00e1 suficientemente provado.<\/p>\n<p>&#8211; Que queres dizer?<\/p>\n<p>&#8211; Afirmam uns que o marido, o bar\u00e3o, passeia na Europa e que ela,<br \/>\na baronesa&#8230; n\u00e3o gosta de andar s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Aquele senhor \u00e9 ent\u00e3o o cunhado, o irm\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual cunhado, nem qual irm\u00e3o! Aquele senhor \u00e9 s\u00f3cio<br \/>\nde uma firma de capitalistas&#8230;<\/p>\n<p>O bacharel compreendeu a alus\u00e3o e exclamou, voltando-se para o objeto<br \/>\ndo di\u00e1logo:<\/p>\n<p>&#8211; Que est\u00e1s dizendo?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o achas formosa?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 realmente uma beleza&#8230; Mas ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fecha os olhos, Evaristo, fecha os olhos&#8230; e n\u00e3o queiras saber<br \/>\nde mais nada.<\/p>\n<p>Furtado, por\u00e9m, resumiu em poucas palavras a cr\u00f4nica da baronesa,<br \/>\ncitando nomes com um perfeito conhecimento de cousas. Entre os adoradores<br \/>\nda ilustre senhora estava o visconde de Santa Quit\u00e9ria.<\/p>\n<p>&#8211; O Santa Quit\u00e9ria!<\/p>\n<p>&#8211; Ele mesmo, e n\u00e3o te admires, porque outros de maior sisudez fazem<br \/>\na corte \u00e0 baronesa.<\/p>\n<p>O Camargo e o deputado Ismael tinham-se despedido. Os dois amigos subiram<br \/>\na Rua do Ouvidor, no meio de torvelinho geral, afastando-se a cada instante<br \/>\npara deixar passar as senhoras, rompendo a multid\u00e3o, esgueirando-se<br \/>\ncom as paredes, esbarrando com os transeuntes, aos encontr\u00f5es, \u00e0s<br \/>\napalpadelas quase.<\/p>\n<p>No Largo de S\u00e3o Francisco um golpe de ar bafejou-os de improviso,<br \/>\ncomo se sa\u00edssem de um t\u00fanel.<\/p>\n<p>&#8211; Caramba! &#8211; exclamou o secret\u00e1rio. &#8211; A Rua do Ouvidor \u00e0s quintas<br \/>\n\u00e9 um formigueiro! Nunca vi tanta gente!<\/p>\n<p>&#8211; Olha daqui&#8230; olha daqui! &#8211; insistiu o bacharel, voltando-se no meio do<br \/>\nlargo, para a famosa art\u00e9ria que regurgitava.<\/p>\n<p>Era um espet\u00e1culo curioso. A rua muito estreita, com os seus sobrados<br \/>\nde dois a tr\u00eas andares, com os seus arcos de ilumina\u00e7\u00e3o,<br \/>\ncom as suas bandeiras, tinha o aspecto movimentado de uma pequena c\u00f3pia<br \/>\nde bulevar em dia de festa. Embaixo a massa negra e compacta, ondulando como<br \/>\numa prociss\u00e3o vista de longe, e um sibilar de vozes indistintas como<br \/>\no vago rumor de uma colmeia alvoro\u00e7ada.<\/p>\n<p>&#8211; Queres que te diga o efeito que isso me produz, oh Furtado?<\/p>\n<p>&#8211; ?<\/p>\n<p>&#8211; Lembra-me o caos, o misterioso, o incompreens\u00edvel, a vertigem dos<br \/>\nabismos&#8230; o grande nada dos her\u00f3is que dormem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Do vasto pampa no fun\u00e9reo ch\u00e3o! &#8211; concluiu o secret\u00e1rio<br \/>\narguendo o bra\u00e7o numa pose orat\u00f3ria.<\/p>\n<p>E fitando o bacharel:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s apocal\u00edptico, homem! Olha, n\u00e3o v\u00e1s fazer<br \/>\ncomo no Jardim Bot\u00e2nico, onde assassinaste barbaramente, creio que o<br \/>\nGarrett ou o Alexandre Herculano&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 o que me parece a tal Rua do Ouvidor, e a compara\u00e7\u00e3o,<br \/>\nse n\u00e3o \u00e9 original, tem o m\u00e9rito de exprimir exatamente<br \/>\no que eu quero dizer.<\/p>\n<p>E Evaristo dava \u00e0s palavras um tom de ironia bo\u00eamia sublinhando-as<br \/>\ncom um risinho c\u00e1ustico e p\u00e9rfido.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca h\u00e1s de ser coisa alguma, porque vives a criticar a humanidade,<br \/>\ne a humanidade o que quer \u00e9 que a gente n\u00e3o veja os seus rid\u00edculos<br \/>\ne as suas fraquezas.<\/p>\n<p>&#8211; Pior! Achas que eu me devo subordinar aos caprichos da humanidade!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que rem\u00e9dio tens tu!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O rem\u00e9dio dos incur\u00e1veis: a paci\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, o lugar n\u00e3o se presta a discuss\u00f5es. Enfiemos outra vez<br \/>\npela Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>&#8211; Outra vez?<\/p>\n<p>&#8211; Para tomar o bonde de Botafogo&#8230;<\/p>\n<p>Mas uma surpresa estava reservada ao secret\u00e1rio. Justamente na ocasi\u00e3o<br \/>\nem que o bacharel passava diante da Notre Dame de Paris, deram de ombros com<br \/>\nD. Branca e Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Oh!<\/p>\n<p>&#8211; Oh!<\/p>\n<p>A mesma exclamativa saiu da boca de Furtado e da esposa. Evaristo soltou<br \/>\num ol\u00e1! fino, esgani\u00e7ado e t\u00e3o alto que algumas pessoas<br \/>\nvoltaram-se com um movimento de viva curiosidade.<\/p>\n<p>&#8211; As senhoras por aqui! &#8211; estranhou o bacharel.<\/p>\n<p>&#8211; Por aqui! &#8230; &#8211; repetiu Furtado.<\/p>\n<p>&#8211; Que grande admira\u00e7\u00e3o! E os senhores tamb\u00e9m n\u00e3o<br \/>\nandam passeando? &#8211; op\u00f4s D. Branca com um olhar interrogativo por tr\u00e1s<br \/>\ndo v\u00e9u que lhe cobria o rosto.<\/p>\n<p>Adelaide esperou, sorrindo, a defesa da amiga.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s somos homens&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Morreu o Neves!<\/p>\n<p>&#8211; \u00cdamos ao Banco &#8211; disse Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Com escala pelo Largo de S\u00e3o Francisco&#8230; &#8211; atalhou o bacharel.<\/p>\n<p>Nada de esc\u00e2ndalo, nada de esc\u00e2ndalo! &#8211; preveniu Furtado. &#8211; J\u00e1<br \/>\nagora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 agora vamos fazer um lanche ao Pascoal &#8211; interrompeu a esposa<br \/>\ndo secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>E os dois casais, bras dessus, bras dessous, foram andando rua abaixo tranq\u00fcilamente.<\/p>\n<p>Eram duas horas da tarde. A onda de povo crescia; o movimento era cada vez<br \/>\nmaior nos caf\u00e9s; ouviam-se orquestra\u00e7\u00f5es de harpa e o<br \/>\npreg\u00e3o mon\u00f3tono de leiloeiros destacando no meio da vozeria<br \/>\ndos transeuntes.<\/p>\n<p>Logo depois do almo\u00e7o D. Branca sem dizer nada ao marido, convidara<br \/>\nAdelaide para &#8220;uma volta na Rua do Ouvidor&#8221;. A t\u00edmida esposa<br \/>\nde Evaristo, guardando os seus escr\u00fapulos e as suas conveni\u00eancias<br \/>\nde mulher bem casada, objetou-lhe o desgosto que isso podia causar ao bacharel.<\/p>\n<p>&#8211; Vais comigo, filha, vais com a tua amiga.<\/p>\n<p>&#8211; E o Sr. Furtado?<\/p>\n<p>&#8211; O Furtado n\u00e3o ralha, porque sabe que \u00e9 perder tempo. \u00c9<br \/>\nuso no Rio de Janeiro as mulheres sa\u00edrem sem os maridos. Uma coisa<br \/>\nt\u00e3o velha! Outro dia fomos, eu e D. Sinh\u00e1 do desembargador&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Outro dia?<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas ainda n\u00e3o estavam aqui; foi num s\u00e1bado&#8230; Pensas<br \/>\nque o Furtado se incomodou? Qual!<\/p>\n<p>&#8211; D. Branca! &#8211; fez a outra com um ar medroso.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 nenhuma admira\u00e7\u00e3o, mulher. Metemo-nos<br \/>\nno bonde, como quem vai fazer compras \u00e0 cidade, sem mist\u00e9rios,<br \/>\naos olhos de todo o mundo.<\/p>\n<p>Adelaide n\u00e3o se resolvia. &#8221; &#8211; Sair sem Evaristo e logo para a<br \/>\nRua do Ouvidor!&#8230; Hum!&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Qual um, qual dois, rapariga; vista-se e vamos, que \u00e9 meio-dia.<\/p>\n<p>&#8211; D. Branca, D. Branca!<\/p>\n<p>&#8211; Pior! &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &#8230;Mas a senhora se responsabiliza, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Responsabilizo-me pelo que voc\u00ea quiser.<\/p>\n<p>&#8211; Bem&#8230; depois, depois! &#8230;<\/p>\n<p>E Adelaide atra\u00edda pelas cavila\u00e7\u00f5es da esposa do secret\u00e1rio<br \/>\n(sempre f\u00e9rtil em expedientes), levada mesmo por um irresist\u00edvel<br \/>\namor de se mostrar, de se apresentar, de exibir os seus formosos olhos numa<br \/>\nrua t\u00e3o p\u00fablica, de ver as suas iniciais num jornal que descrevia<br \/>\nas toilettes da Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>Adelaide correu, l\u00e9pida, ao guarda-vestidos.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, o de rendas, hem! &#8211; lembrou a amiga.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, o de rendas, \u00e9 claro&#8230;<\/p>\n<p>E da\u00ed a pouco um aroma fino, de sabonete, de p\u00f3-de-arroz e<br \/>\nde ess\u00eancia de Houbigant espalhava-se em toda a casa &#8211; no primeiro e<br \/>\nno segundo andar -; fechavam-se gavetas com a\u00e7odamento, farfalhavam<br \/>\nsedas e tiniam j\u00f3ias. D. Branca por um lado e Adelaide por outro, esmeravam-se<br \/>\nnas toilettes como se fossem a um baile ou a alguma festa de rigor.<\/p>\n<p>&#8211; Pronta?<\/p>\n<p>&#8211; Pronta&#8230; &#8211; respondeu a esposa do bacharel, dando um jeito no vestido,<br \/>\nao mesmo tempo que se revirava para o grande espelho do toucador.<\/p>\n<p>E sa\u00edram de chap\u00e9u-de-sol aberto, uma jovialidade infantil,<br \/>\npelas ruas de Botafogo, a tomar o bonde. Os passageiros olhavam-nas com esse<br \/>\nolhar curioso e indiscreto que \u00e0s vezes confunde uma mulher honesta<br \/>\ncom uma horizontal. Adelaide ia um pouquinho no ar, um bocadinho gauche, \u00e0s<br \/>\nvoltas com a luva da m\u00e3o esquerda que n\u00e3o queria abotoar, sempre<br \/>\nt\u00edmida, em contraste com os modos vivos da esposa do secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Um senhor de \u00f3culos e barba grisalha cumprimentou-as.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o conhe\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nem eu&#8230;<\/p>\n<p>D. Branca n\u00e3o se lembrava, ou fazia que se n\u00e3o lembrava: era<br \/>\num dos titulares de Botafogo, o comendador Beltr\u00e3o, dono de uma grande<br \/>\nf\u00e1brica de cigarros. N\u00e3o gostava de cumprimentar os homens de<br \/>\nfisionomia idosa. &#8211; &#8220;Ora, o Beltr\u00e3o&#8230; um velho!&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; E se encontrarmos o Sr. Furtado? &#8211; balbuciou Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor&#8230; voltamos em boa companhia.<\/p>\n<p>Mas o pensamento da jovem senhora estava no outro, no bacharel, no Evaristo.<br \/>\n&#8211; Que diria ele, depois? Que ela j\u00e1 o n\u00e3o consultava em seus<br \/>\nneg\u00f3cios, que n\u00e3o era a mesma Adelaide, que n\u00e3o fazia<br \/>\ncaso dele, talvez&#8230; E como explicar a sua ida \u00e0 Rua do Ouvidor, como<br \/>\nconvenc\u00ea-lo de que D. Branca a arrastava responsabilizando-se perante<br \/>\nele, como? Os homens n\u00e3o acreditam facilmente nas mulheres, enquanto<br \/>\nn\u00e3o as v\u00eaem chorar, enquanto n\u00e3o as v\u00eaem de rojo<br \/>\na seus p\u00e9s&#8230; H\u00e1 dois anos que eram casados e nunca Evaristo<br \/>\nduvidava das suas palavras; mas agora, no Rio de Janeiro&#8230; quem sabe? talvez<br \/>\nn\u00e3o as aceitasse logo, como na prov\u00edncia. Outras id\u00e9ias.<br \/>\nO mundo \u00e9 todo cheio de contradi\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vamos voltar? &#8211; prop\u00f4s ela \u00e0 amiga.<\/p>\n<p>E ia pretextar uma dor de cabe\u00e7a, uma dor no f\u00edgado, um inc\u00f4modo<br \/>\nqualquer, mas D. Branca atalhou:<\/p>\n<p>&#8211; Voltar? Que id\u00e9ia! Eu, nem que me pagassem; meu rico vestidinho<br \/>\nh\u00e1 de dar que falar hoje \u00e0 Rua do Ouvidor. Voltar por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Por causa do Evaristo&#8230; &#8211; sorriu timidamente Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, minha filha, tenha ju\u00edzo! Ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9<br \/>\nalguma crian\u00e7a? O Sr. Evaristo \u00e9 um rapaz inteligente, um homem<br \/>\nde bem, um cavalheiro&#8230; Os tolos \u00e9 que prendem as mulheres, como se<br \/>\nelas fossem escravas. J\u00e1 lhe disse que me responsabilizo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei, mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o admito raz\u00f5es. A senhora vai comigo; quem a leva sou<br \/>\neu. E, em todo o trajeto de Botafogo \u00e0 Rua do Ouvidor, uma e outra<br \/>\nmereceram grandes elogios, grandes exclama\u00e7\u00f5es e vivos olhares<br \/>\nde capitalistas e doutores que, mesmo na faina dos seus neg\u00f3cios, nunca<br \/>\nse descuidam do sexo am\u00e1vel.<\/p>\n<p>No ponto dos bondes houve um senhor que lhes dirigiu a seguinte frase cheia<br \/>\nde ocultas inten\u00e7\u00f5es, numa voz mel\u00edflua e carinhosa:<\/p>\n<p>&#8211; Como s\u00e3o lindas!<\/p>\n<p>E outro, mais adiante:<\/p>\n<p>&#8211; Oh, que beleza!<\/p>\n<p>E ainda outro, j\u00e1 em plena Rua do Ouvidor:<\/p>\n<p>&#8211; Deliciosas!<\/p>\n<p>Tudo gente s\u00e9ria, mo\u00e7os bem vestidos, de colarinho alto e chap\u00e9u<br \/>\nde forma e an\u00e9is de brilhante.<\/p>\n<p>Adelaide n\u00e3o sabia como pisar, nem que jeito desse \u00e0s m\u00e3os,<br \/>\nnem onde pusesse os olhos, vendo surgir, de repente, o bacharel e agarrar<br \/>\npela gola do fraque um homem daqueles, e culp\u00e1-la, e dar esc\u00e2ndalo!<br \/>\nArrependia-se mil vezes de ter acedido \u00e0s inst\u00e2ncias de D. Branca.<\/p>\n<p>A esposa do secret\u00e1rio, num coquetismo de mulher f\u00e1cil, abanando-se<br \/>\ncom o rico leque de plumas, uma ostenta\u00e7\u00e3o imperiosa de sedas<br \/>\ne gazas resplandecia ao lado da amiga. Todos os olhares cravavam-se nela,<br \/>\nno seu belo porte de mundana, nas suas formas rijas que o espartilho evidenciava,<br \/>\ntorturando-a.<\/p>\n<p>&#8211; Bela rapariga! &#8211; foi uma das exclama\u00e7\u00f5es que lhe chegaram<br \/>\nao ouvido. E ela como que redobrou de altivez, aprumando-se, garbosamente.<\/p>\n<p>O instinto ou o que quer que seja levou-a a tomar o caminho da Pra\u00e7a,<br \/>\npela Rua Direita. A mulher tem uma esp\u00e9cie de faro t\u00e3o pronunciado<br \/>\ne admir\u00e1vel como em certos animaizinhos de estima. D. Branca ia pelo<br \/>\nfaro, quando quem lhe havia de surgir? o visconde, o respeitabil\u00edssimo<br \/>\nSanta Quit\u00e9ria&#8230; Vinha de uma assembl\u00e9ia-geral de acionistas<br \/>\nno Banco.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, excelent\u00edssimas, folgo de v\u00ea-las! &#8211; exclamou o banqueiro<br \/>\nestendendo a m\u00e3o, todo inclinado, primeiro \u00e0 Branca e depois<br \/>\n\u00e0 Adelaide. &#8211; Andam passeando?<\/p>\n<p>&#8211; Andamos passeando&#8230; &#8211; murmurou a esposa do secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>E emendou logo:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos fazer umas compras<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; Est\u00e1 muito bem, est\u00e1 muito bem.<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. Visconde j\u00e1 veio de Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, excelent\u00edssima; Petr\u00f3polis est\u00e1 deserto&#8230; Desde<br \/>\nque a fam\u00edlia imperial mudou-se para a Tijuca que Petr\u00f3polis<br \/>\nest\u00e1 deserto. O imperador embarca definitivamente na pr\u00f3xima<br \/>\nsemana.<\/p>\n<p>&#8211; Para a Europa?<\/p>\n<p>&#8211; Exatamente.<\/p>\n<p>E, com um ar compungido, o visconde acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; Pobre velho! Vossa excel\u00eancia n\u00e3o o conhece&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por que, Sr. Visconde?<\/p>\n<p>&#8211; Porque&#8230; porque reputo grav\u00edssimo o seu estado&#8230;<\/p>\n<p>Adelaide prestava aten\u00e7\u00e3o \u00e0 conversa, olhando o banqueiro,<br \/>\nmedindo-o de alto a baixo, examinando-o.<\/p>\n<p>&#8211; Que est\u00e1 dizendo?<\/p>\n<p>&#8211; Grav\u00edssimo&#8230; E comigo pensam os doutores da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Pobre velho! &#8211; repetiu D. Branca sensibilizada. &#8211; Eu imagino a imperatriz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; A imperatriz n\u00e3o o abandona; segue tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Coitada! E os pr\u00edncipes?<\/p>\n<p>&#8211; Os pr\u00edncipes ficam em companhia da princesa. Pelo menos \u00e9<br \/>\no que se diz&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Um homem t\u00e3o forte, um h\u00e9rcules! &#8211; exclamou a esposa do secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; As apar\u00eancias iludem, minha senhora, e a morte \u00e9 trai\u00e7oeira.<br \/>\nAndam, ent\u00e3o, fazendo compras?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fazendo umas comprinhas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, n\u00e3o as quero importunar.<\/p>\n<p>E o Santa Quit\u00e9ria descobriu-se, apertando, com uma del\u00edcia<br \/>\nenorme, a m\u00e3o enluvada e fina de D. Branca.<\/p>\n<p>&#8211; Recomende-me ao nosso Furtado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Agradecida.<\/p>\n<p>Oh, como ela desejaria prolongar aquele t\u00eate-\u00e0-t\u00eate, aquele<br \/>\ndoce encontro!&#8230; Mas o movimento era grande na Rua Direita, e n\u00e3o<br \/>\nmenos grande a l\u00edngua do povo.<\/p>\n<p>O banqueiro afastou-se, num gracioso ademane, e elas, depois de ligeira hesita\u00e7\u00e3o,<br \/>\nvoltaram pela Rua do Ouvidor.<\/p>\n<p>Novos ditos, novas exclama\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De um grupo, \u00e0 porta de uma confeitaria, sa\u00edam estas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; As mesmas! as mesmas!<\/p>\n<p>E uma chusma de olhares cobi\u00e7osos assaltou-as.<\/p>\n<p>Entraram numa grande loja de fazendas, trocaram algumas palavras com o caixeiro,<br \/>\nmo\u00e7o am\u00e1vel que trazia sempre a ponta do len\u00e7o fora do<br \/>\nbolso do palet\u00f3, e &#8211; obrigada, hem, muito obrigada!&#8230; &#8211; sa\u00edram.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que o bacharel bispou-as, quando ele e o secret\u00e1rio<br \/>\nvoltavam do Largo de S\u00e3o Francisco, e os dois casais resolveram-se<br \/>\na tomar qualquer coisa no Pascoal.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a de Adelaide \u00e0quela hora na Rua do Ouvidor significava,<br \/>\npara Evaristo, uma desconsidera\u00e7\u00e3o, aos seus h\u00e1bitos<br \/>\ne \u00e0s suas normas &#8211; um desvio da esposa, uma quebra de respeitos &#8230;<br \/>\nSempre a conhecera t\u00edmida, obediente \u00e0s suas prescri\u00e7\u00f5es<br \/>\ne inimiga de se apresentar onde ele n\u00e3o estivesse, e agora via-a na<br \/>\nrua mais p\u00fablica do Rio de Janeiro, em grande toilette, como uma senhora<br \/>\nhabituada ao luxo e \u00e0 publicidade, que n\u00e3o receia o eco das<br \/>\nm\u00e1s-l\u00ednguas, nem a aud\u00e1cia dos ociosos! \u00c9 certo<br \/>\nque ia pelo bra\u00e7o de D. Branca, mas a esposa de Furtado&#8230; a esposa<br \/>\nde Furtado&#8230; a Sra. D. Branca&#8230; E enquanto caminhava para o Pascoal, Evaristo,<br \/>\nsilencioso ao lado da mulher, como que se empenhava na resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde problema dif\u00edcil. Adelaide merecia-lhe toda a confian\u00e7a,<br \/>\nmas, positivamente, j\u00e1 n\u00e3o era a mesma Adelaide. Vir \u00e0<br \/>\ncidade sem lhe dizer, sem o prevenir?&#8230; N\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nera a mesma&#8230;<\/p>\n<p>E enquanto durou o lanche, enquanto estiveram na confeitaria debicando empadas<br \/>\ne sandu\u00edches &#8211; o bacharel manteve-se casmurro a torcer o bigode, a<br \/>\nolhar os que entravam e os que sa\u00edam, mais fil\u00f3sofo que nunca,<br \/>\na alma vibrando numa indigna\u00e7\u00e3o muda e tenebrosa.<\/p>\n<p>Adelaide compreendeu que o havia desgostado e cruzou o talher.<\/p>\n<p>D. Branca e Furtado entreolharam-se com admira\u00e7\u00e3o. Era a primeira<br \/>\nvez que os viam amuados.<\/p>\n<h4><a name=\"6\"><\/a>VI<\/h4>\n<p>Ia enfim realizar-se a misteriosa e pranteada viagem do imperador. Na eterna<br \/>\nalegria do sol, que amanhecera esplendidamente luminoso, flutuavam preces<br \/>\nao bom Deus pelo pronto regresso do monarca. Suspiros de saudade, louvores<br \/>\n\u00e0 boca pequena, exclama\u00e7\u00f5es de inconsol\u00e1vel tristeza<br \/>\nerguiam-se nas ruas da cidade, formando uma atmosfera de vagas melancolias,<br \/>\num como ambiente glacial de apreens\u00f5es sinistras que a luz triunfal<br \/>\ndo sol n\u00e3o espancava. Ia ficar deserta a Quinta de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o<br \/>\ne o Brasil sem o imperador, o Brasil sem o Sr. D. Pedro II era como Um pa\u00eds<br \/>\nabandonado \u00e0 aventura dos selvagens&#8230; Oh, o homem extraordin\u00e1rio<br \/>\nque antes de ser homem era rei! que tristeza para o povo, que desola\u00e7\u00e3o<br \/>\npara a Corte! Ningu\u00e9m queria acreditar naquela viagem l\u00fagubre<br \/>\ncomo a pr\u00f3pria morte&#8230;<\/p>\n<p>No entanto, chegava a hora do embarque. Apresentavam-se as carruagens; n\u00e3o<br \/>\nhavia tempo a perder.<\/p>\n<p>\u00c0s seis horas da manh\u00e3 o desembargador Lousada e a mulher,<br \/>\nem berlinda especial, abalaram para a Tijuca. A ilustre dama de Sua Majestade,<br \/>\na imperatriz, ia chorosa, com o len\u00e7o nos olhos, quase muda na sua<br \/>\ntoilette de seda marrom. O visconde de Santa Quit\u00e9ria, amigo particular<br \/>\ndo imperador, n\u00e3o quis deixar de cumprir o religioso dever que lhe<br \/>\nimpunham a amizade e a gratid\u00e3o: l\u00e1 foi tamb\u00e9m corretamente<br \/>\nencasacado, de luvas pretas. E outros e outros personagens de etiqueta levaram<br \/>\na sua homenagem aos augustos viajantes.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Furtado entendeu que melhor seria assistir ao embarque no Arsenal<br \/>\nde Marinha com D. Branca e os Holanda. Mas Evaristo foi dizendo logo que &#8220;s\u00f3<br \/>\ncostumava ir ao embarque dos seus amigos e que n\u00e3o transigia com as<br \/>\nsuas convic\u00e7\u00f5es&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se trata aqui de convic\u00e7\u00f5es, nem de id\u00e9ias<br \/>\npol\u00edticas &#8211; fez o secret\u00e1rio. &#8211; \u00c9 um dever de todo o<br \/>\nbrasileiro levar as suas despedidas ao imperador, ao homem que nos governa<br \/>\nh\u00e1 quase cinq\u00fcenta anos e cujas virtudes o mundo inteiro admira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nesse caso vai tu, eu n\u00e3o. O meu dever, como republicano, \u00e9<br \/>\nn\u00e3o ir, \u00e9 ficar em casa ou \u00e0 minha banca de trabalho.<br \/>\nNunca recebi favor do Sr. D. Pedro II, nem ele me deve cois\u00edssima alguma.<\/p>\n<p>&#8211; Queres, ent\u00e3o, privar D. Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, n\u00e3o senhor, Adelaide ir\u00e1 se quiser, eu<br \/>\nn\u00e3o pro\u00edbo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sempre a mesma veleidade republicana; sempre a mesma tolice! &#8211; exclamou<br \/>\nFurtado. &#8211; H\u00e1s de lucrar muito com essas id\u00e9ias!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de lucro, \u00e9 quest\u00e3o de<br \/>\nconsci\u00eancia. Tenho o direito de pensar e de agir como entender.<\/p>\n<p>&#8211; Bem; fica-te l\u00e1 com a tua consci\u00eancia, meu Camilo Desmoulins,<br \/>\ne depois n\u00e3o te arrependas&#8230; Ent\u00e3o, D. Adelaide vai conosco?<\/p>\n<p>&#8211; Pode ir&#8230;<\/p>\n<p>A jovem esposa do bacharel tinha, com efeito, muita vontade de ver o imperador,<br \/>\ncujas barbas brancas ela nunca vira sen\u00e3o em retratos; mas o marido<br \/>\nera homem esquisito, inimigo figadal da monarquia, cheio de escr\u00fapulos,<br \/>\ntimbrando em continuar na Corte a mesma vida aperreada da prov\u00edncia<br \/>\n&#8211; um incorrig\u00edvel &#8211; e ela respeitava as id\u00e9ias dele como se<br \/>\nfossem as suas pr\u00f3prias id\u00e9ias. Resignou-se com um suspiro.<br \/>\nO mundo n\u00e3o se acabava; quando o imperador voltasse da Europa, iria<br \/>\nv\u00ea-lo&#8230;<\/p>\n<p>Furtado, por\u00e9m, renovou o seu pedido a Evaristo, obtendo dele uma<br \/>\nresposta que trouxe aos l\u00e1bios da esposa o mais ador\u00e1vel dos<br \/>\nsorrisos. &#8211; Que sim &#8211; que Adelaide n\u00e3o devia perder o embarque espetaculoso<br \/>\ndo Sr. D. Pedro II&#8230; ao menos por curiosidade, por desfastio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem, muit\u00edssimo bem! &#8211; aplaudiu o secret\u00e1rio, risonho,<br \/>\nbatendo as m\u00e3os. Gosto de ver um republicano de id\u00e9ias largas<br \/>\ncomo o Evaristo. D. Adelaide agora n\u00e3o tem mais do que ir preparando<br \/>\na toilette..<\/p>\n<p>E no dia anunciado pelos jornais, todos, menos o bacharel que os acompanhou<br \/>\nsomente at\u00e9 \u00e0 cidade, dirigiram-se ao Arsenal de Marinha, ponto<br \/>\nde embarque do imperador.<\/p>\n<p>A galeota imperial, encostada ao cais, fumegava, toda pintada de verde e<br \/>\nouro, fria como uma baleia, crivada de olhares que a contemplavam num \u00eaxtase<br \/>\nselvagem. Dentro dos muros do Arsenal passeavam oficiais de Marinha e do Ex\u00e9rcito,<br \/>\nem grande gala, arrastando as espadas com ar marcial. Viam-se tamb\u00e9m<br \/>\naltos funcion\u00e1rios \u00e0 paisana, de casaca e luva, e senhoras em<br \/>\ntrajo de baile, exibindo o colo num decote pomposo de rainhas, vestido de<br \/>\ncauda, brilhantes no cabelo.<\/p>\n<p>Era intensa a luz do sol, mas o povo aflu\u00eda, na rua, dominado pela<br \/>\nirresist\u00edvel curiosidade de assistir \u00e0 passagem da fam\u00edlia<br \/>\nimperial.<\/p>\n<p>Uns queriam ver o pr\u00f3prio monarca, outros, que o conheciam, n\u00e3o<br \/>\nocultavam o desejo de &#8220;reparar bem&#8221; na herdeira do trono, outros<br \/>\nnada mais queriam sen\u00e3o lan\u00e7ar os olhos \u00e0 imperatriz.<br \/>\nO trecho entre o morro de S\u00e3o Bento e a Secretaria da Marinha estava<br \/>\nrepleto de curiosos &#8211; oper\u00e1rios do Arsenal, ganhadores, catraieiros,<br \/>\nno meio dos quais sobressa\u00edam altos chap\u00e9us de forma de um ou<br \/>\noutro personagem desconhecido que tamb\u00e9m se abalava a ver o embarque.<\/p>\n<p>De vez em quando parava um carro e o povo abria alas, num movimento de ex\u00e9rcito<br \/>\nem revista. Chegavam Ministros e diplomatas cujos nomes corriam de boca em<br \/>\nboca.<\/p>\n<p>Eram j\u00e1 onze horas da manh\u00e3 e nada do imperador, nem sinal<br \/>\ndo augusto viajante.<\/p>\n<p>A essa hora precisamente uma carruagem estacou no port\u00e3o do Arsenal<br \/>\ne logo apeou o secret\u00e1rio do Banco Industrial; em seguida apearam duas<br \/>\nsenhoras: D. Branca e Adelaide.<\/p>\n<p>Furtado ouviu uma voz no meio do povo: &#8211; Mulher\u00e3o! e, teso, erecto,<br \/>\nnuma pose de verdadeiro diplomata, disse qualquer coisa ao porteiro e entrou.<br \/>\nAs duas senhoras iam na frente com o ar compungido, silenciosas, lado a lado.<\/p>\n<p>Quase no mesmo instante o povo agitou-se e mais de duas mil cabe\u00e7as<br \/>\nvolveram-se para o extremo oposto da rua. Vozes exclamaram: &#8211; \u00c9 ele!<br \/>\n\u00e9 ele!<\/p>\n<p>Houve, ent\u00e3o, uma balb\u00fardia, um atropelo, uma \u00e2nsia fenomenal.<br \/>\nCometas estrugiram ao longe e ouviu-se um estr\u00e9pito de cavalhada em<br \/>\ncorreria.<\/p>\n<p>Com efeito, era o imperador que chegava. A multid\u00e3o abriu caminho,<br \/>\ntal as \u00e1guas do mar vermelho para deixar passar os hebreus, e uma exclama\u00e7\u00e3o<br \/>\nun\u00edssona, estrepitosa e l\u00edmpida, vibrou no espa\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8211; Viva Sua Majestade o Imperador do Brasil!<\/p>\n<p>&#8211; Vi&#8230; \u00f4\u00f4\u00f4\u00f4!<\/p>\n<p>Dentro no Arsenal, uma m\u00fasica militar rompeu o hino com entusiasmo<br \/>\nbelicoso enquanto os vivas continuavam, fora. &#8211; Vi&#8230; \u00f4\u00f4\u00f4!<br \/>\nVi&#8230; \u00f4\u00f4\u00f4!&#8230; sucessivamente.<\/p>\n<p>O carro imperial estacou, seguido de outros carros, e o velho monarca, cumprimentando<br \/>\n\u00e0 direita e \u00e0 esquerda, surgiu tr\u00eamulo, incrivelmente<br \/>\np\u00e1lido, os olhos fundos, a barba longa como a de um profeta da antig\u00fcidade.<\/p>\n<p>Compunha-se a comitiva de S. M. Imperiais, conde e condessa d&#8217;Eu, pr\u00edncipes<br \/>\nD. Ant\u00f4nio, D. Lu\u00eds e do Gr\u00e3o-Par\u00e1, visconde da<br \/>\nMata, visconde de Santa Quit\u00e9ria, um general, um almirante, o desembargador<br \/>\nLousada e a esposa, e outras pessoas de distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O povo cercou o monarca e quis beijar-lhe a m\u00e3o antes dele entrar<br \/>\nno Arsenal; mas o velho, todo tr\u00eamulo, com os olhos \u00famidos, partido<br \/>\nde saudade, balbuciou fitando os que o rodeavam:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, aqui n\u00e3o: o sol est\u00e1 muito quente!<\/p>\n<p>&#8211; Viva Sua Majestade a Imperatriz! &#8211; berrou uma voz.<\/p>\n<p>E todas as cabe\u00e7as se descobriram e todas as bocas exclamaram &#8211; &#8211;<br \/>\nVi&#8230;. \u00f4\u00f4\u00f4! num entusiasmo ardente e apaixonado.<\/p>\n<p>Vozes de comando estrondeavam no recinto da pra\u00e7a; uma guarda de honra<br \/>\ndo batalh\u00e3o naval fazia as contin\u00eancias ao monarca. E ele, muito<br \/>\nam\u00e1vel, muito cheio de cortesias ao lado da Sra. D. Teresa, a m\u00e3e<br \/>\ndos brasileiros, ia-se multiplicando em cumprimentos para aqui, para ali,<br \/>\ncurvado ao peso dos anos e da trai\u00e7oeira enfermidade que o minava.<\/p>\n<p>Uma onda acompanhou-o vitoriando-o, aclamando-o de chap\u00e9u no ar, aos<br \/>\ngritos de Viva Sua Majestade o Imperador! Viva Sua Majestade a Imperatriz!<br \/>\nViva Sua Alteza a Sra. D. Isabel! Viva o Sr. Conde d&#8217;Eu!<\/p>\n<p>E a m\u00fasica repetia o hino nacional uma vez, duas vezes, tr\u00eas<br \/>\nvezes, confundindo-se com o alvoro\u00e7o da multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim um sil\u00eancio medroso caiu aos pouquinhos, amortecendo o entusiasmo<br \/>\ne transformando-o num vago pigarrear abafado e t\u00edmido.<\/p>\n<p>A galeota resfolegava e dentro dela j\u00e1 se moviam homens pressurosos,<br \/>\nna sofreguid\u00e3o de evitar o arrocho e de se garantirem um lugar c\u00f4modo.<br \/>\nO imperador do Brasil, com os olhos vagamente nublados, num grande c\u00edrculo<br \/>\nde homens e senhoras que o queriam ver e beijar, tinha a fisionomia resignada<br \/>\ndos m\u00e1rtires que a lei desterra para long\u00ednquos pa\u00edses,<br \/>\ndonde n\u00e3o voltam nunca.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o era chegado o momento das despedidas, hora tr\u00e1gica<br \/>\ndos beijos e das l\u00e1grimas. Havia uma ansiedade em todos os olhares;<br \/>\numa tristeza calada e circunspecta ia dominando os esp\u00edritos, empolgando-os<br \/>\nde leve, penetrando os cora\u00e7\u00f5es vitoriosamente.<\/p>\n<p>A herdeira do trono enxugava os olhos, muito rubros de como\u00e7\u00e3o<br \/>\ne de calor, em contraste com a branca fisionomia do pai. O monarca repousava<br \/>\nnuma cadeira que lhe fora oferecida por um velho almirante de rosto escanhoado.<br \/>\nMas de repente ergueu-se, compungido, e abriu os bra\u00e7os \u00e0 filha.<br \/>\nSua Alteza percebeu que o velho ia-se despedir e murmurou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meu pai, eu vou a bordo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vais a bordo?&#8230; Oh!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, vamos todos a bordo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Conselheiro &#8211; disse ent\u00e3o o velho para um homem idoso, fardado de<br \/>\nministro, que conversava com o pr\u00edncipe Gast\u00e3o de Orleans &#8211;<br \/>\num abra\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vossa Majestade permitir\u00e1 que o acompanhe ao Gironde&#8230; &#8211; fez o<br \/>\nconselheiro dobrando-se.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o quero que se incomodem por minha causa&#8230; O tempo \u00e9 dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 inc\u00f4modo, senhor, \u00e9 um prazer e uma obriga\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, vamos, para n\u00e3o demorar o vapor&#8230;<\/p>\n<p>A essas palavras do monarca, a onda dos cortes\u00e3os agitou-se, trovejou<br \/>\na voz do oficial que comandava a guarda de honra, tilintaram espadas e uma<br \/>\nfila de homens e senhoras marchou, com solenidade, para a galeota. O cais<br \/>\nestava todo negro de gente que tinha ido ver &#8220;o embarque&#8221;.<\/p>\n<p>A prociss\u00e3o fez alto \u00e0 borda d&#8217;\u00e1gua, trocaram-se muitos<br \/>\ncumprimentos, D. Isabel levou ainda uma vez o len\u00e7o aos olhos, o conde<br \/>\nabaixou a cabe\u00e7a, de lado, para ouvir um general que o importunava<br \/>\ncom perguntas; uma menina de seis anos, vestida de branco ofereceu ao imperador<br \/>\num buqu\u00ea de flores artificiais, com dizeres em ouro numa larga fita<br \/>\nverde, e, ao som do hino, os imperiais turistas embarcaram.<\/p>\n<p>Lanchas apitavam, cruzando-se na ba\u00eda, defronte do Arsenal. Uma tristeza<br \/>\nenorme avassalou todos os cora\u00e7\u00f5es naquele momento, e quando<br \/>\na galeota fez-se ao largo e o \u00faltimo adeus flutuou na asa de um len\u00e7o<br \/>\n&#8211; palpitante, como um cora\u00e7\u00e3o espeda\u00e7ado &#8211; milhares de<br \/>\nsilhuetas brancas emergiram da onda negra dos que ficavam&#8230; E uma aclama\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeral, clamorosa e dorida, vibrou na luz intensa, pelos cais, pelas embarca\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmar adentro, como uma celeuma de vencidos&#8230;<\/p>\n<p>Adelaide chorou sem saber de qu\u00ea; encheram-se-lhe d&#8217;\u00e1gua os<br \/>\nolhos; quis falar e faltou-lhe a voz: era como se nunca mais pudesse contemplar<br \/>\naquela insinuante fisionomia do velho, meiga e boa, que ningu\u00e9m ousava<br \/>\ndesrespeitar.<\/p>\n<p>Estavam \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore, ela, D. Branca e Furtado; dali<br \/>\n\u00e9 que tinham visto tudo &#8211; os menores movimentos do imperador e da fam\u00edlia<br \/>\nimperial at\u00e9 a hora do embarque.<\/p>\n<p>Os olhos da esposa de Evaristo iam e vinham, de um lado para outro, e pouco<br \/>\na pouco foram-se umedecendo, pouco a pouco foram tomando uma express\u00e3o<br \/>\ncomovida e inquieta que o secret\u00e1rio logo percebeu.<\/p>\n<p>D. Branca esticava o pesco\u00e7o, erguia-se na pontinha dos p\u00e9s,<br \/>\na m\u00e3o enluvada no ombro do marido, equilibrando-se. Nada lhe escapou<br \/>\n\u00e0 indiscreta curiosidade: viu o desembargador Lousada e a mulher, os<br \/>\npr\u00edncipes, a princesa, o monarca e a imperatriz e, por fim, o visconde,<br \/>\no Santa Quit\u00e9ria enfronhado na sua casaca solene, de bra\u00e7o com<br \/>\numa ilustre dama que ela n\u00e3o p\u00f4de reconhecer. O banqueiro levava<br \/>\nao peito um crach\u00e1 faiscante, uma grande comenda que a todos causava<br \/>\nadmira\u00e7\u00e3o. &#8211; Mas de bra\u00e7o com uma mulher! Qh, a esposa<br \/>\nde Furtado arriou os calcanhares, estremeceu de ci\u00fame, como se lhe<br \/>\nhouvessem roubado a mais querida j\u00f3ia, trincou o l\u00e1bio num assomo<br \/>\nde desespero, e abanou-se com f\u00faria.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas n\u00e3o est\u00e3o sentindo calor! &#8211; disse para Adelaide<br \/>\ne o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Muit\u00edssimo! &#8211; exclamou Furtado.<\/p>\n<p>&#8211; Muito &#8211; respondeu Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Oh, eu estou sufocada! Se houvesse \u00e1gua por aqui&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Arranja-se &#8211; tranq\u00fcilizou o marido. &#8211; Queres?<\/p>\n<p>&#8211; Quero, sim, tem paci\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>E quando ele afastou-se muito cavalheiro, para trazer \u00e1gua:<\/p>\n<p>&#8211; Viste o Santa Quit\u00e9ria? &#8211; perguntou D. Branca \u00e0 amiga.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Que pena! Pois ia de bra\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Com quem?<\/p>\n<p>&#8211; Com uma velha, com uma mulher horrivelmente feia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>O Santa Quit\u00e9ria, um visconde, um homem t\u00e3o elegante!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 para voc\u00ea ver o que s\u00e3o os homens.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, que h\u00e1 homem de muito bom gosto! Eu n\u00e3o creio<br \/>\nque o visconde esteja cego&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Exig\u00eancias de ocasi\u00e3o, coitado! ele at\u00e9 acha quase<br \/>\ntodas as mulheres feias&#8230; Pelo menos j\u00e1 o ouvi dizer.<\/p>\n<p>&#8211; E, mas l\u00e1 ia com unia coruja!<\/p>\n<p>Adelaide achou gra\u00e7a no ep\u00edteto e, sem desviar os olhos da<br \/>\nonda de gente que se aglomerava no cais, respondeu com um sorriso em que se<br \/>\nlia toda a tristeza de uma alma ing\u00eanua. N\u00e3o podia esquecer o<br \/>\nimperador com a sua longa barba muito branca, uma n\u00e9voa no olhar, inclinado<br \/>\npara frente, caminhando devagar, como quem j\u00e1 est\u00e1 marchando<br \/>\npara a sepultura&#8230; Tinha os olhos \u00famidos ainda e ficava-lhe dentro<br \/>\nd&#8217;alma uma piedade imensa, uma ternura por aquele velho t\u00e3o diferente<br \/>\ndo que ela imaginava&#8230;<\/p>\n<p>Um servente aproximou-se com uma bandeja e \u00e1gua para as duas senhoras.<\/p>\n<p>Furtado vinha com um riso de profunda ironia nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>&#8211; Este mundo! este mundo!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9? &#8211; perguntou D. Branca olhando o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; Adivinha, se \u00e9s capaz!<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>E Furtado cruzou os bra\u00e7os em atitude de misteriosa surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; Fizeste mal em o deixar ir.<\/p>\n<p>&#8211; Disse que era tarde, que voc\u00ea vinha cansado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E que novidades trouxe ele?<\/p>\n<p>&#8211; Que a fam\u00edlia imperial chegou a Cannes. Os m\u00e9dicos receitaram<br \/>\nduchas, estricnina e aplica\u00e7\u00e3o do gelo ao imperador.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 sei: o tratamento hidroter\u00e1pico&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso.<\/p>\n<p>&#8211; Todos v\u00e3o bem?<\/p>\n<p>&#8211; Todos; o Velho mesmo tem esperan\u00e7a de se restabelecer.<\/p>\n<p>&#8211; Coitado! Sempre muito am\u00e1vel, o visconde!<\/p>\n<p>&#8211; Amabil\u00edssimo! Perguntou pelo Raul, pela Julinha, pelos Holanda&#8230;<br \/>\nat\u00e9 pelo Condicional!&#8230;<\/p>\n<p>Furtado j\u00e1 encontrara a mulher no val dos len\u00e7\u00f3is, e,<br \/>\nenquanto se despia) ela lhe ia dizendo tudo.<\/p>\n<p>A noite estava fresca: eram os primeiros dias do inverno que aproximava eri\u00e7ando<br \/>\na cabeleira das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>Evaristo e a mulher tinham visto, da janela, entrar e sair o visconde. O<br \/>\nbacharel n\u00e3o se conteve: &#8211; armou o punho indignado:<\/p>\n<p>&#8211; Corja!<\/p>\n<p>E recolheu cheio de \u00f3dio, tempestuoso, numa das suas explos\u00f5es<br \/>\nmal contidas de jacobino incendi\u00e1rio. &#8211; &#8220;Neste pa\u00eds devia<br \/>\nhaver uma forca, um cadafalso em cada esquina!&#8221;<\/p>\n<p>Quanto a Adelaide, continuava a abrir-lhe os olhos:<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Vamo-nos daqui, Evaristo&#8230; Mudemo-nos de uma vez&#8230; Abandonemos<br \/>\neste Rio de Janeiro, que \u00e9 um inferno&#8230; uma tenta\u00e7\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>Furtado n\u00e3o a esquecera, apesar da disc\u00f3rdia que reinava entre<br \/>\nas duas fam\u00edlias. Era o primeiro a querer que ela se mudasse, que o<br \/>\nbacharel fosse morar em outra casa, longe de Botafogo, mas n\u00e3o do Rio<br \/>\nde Janeiro&#8230;<\/p>\n<p>Adelaide cativava-o ainda irresistivelmente. Nas horas em que os dois casais<br \/>\nse reuniam para almo\u00e7ar ou jantar, ele sentia afluir-lhe do cora\u00e7\u00e3o<br \/>\ntodo o sangue das veias numa pletora sensual, num gozo abstrato e mudo, que<br \/>\no desnorteava; e ela, como se lhe percebesse as secretas maquina\u00e7\u00f5es<br \/>\ne a intensidade do calor afetivo, nem o olhava sequer&#8230;<\/p>\n<p>As refei\u00e7\u00f5es eram r\u00e1pidas agora &#8211; r\u00e1pidas e frias<br \/>\ncomo o cumprimento de um dever penoso. Trocavam-se glacialmente os &#8211; bons<br \/>\ndias! &#8211; e quase n\u00e3o se falava mais, quase n\u00e3o se dizia outra<br \/>\ncoisa.<\/p>\n<p>O bacharel era homem de resolu\u00e7\u00f5es moment\u00e2neas e inesperadas;<br \/>\nopunha-se a qualquer id\u00e9ia da esposa, mas acabava sempre concordando<br \/>\ncom ela, e o seu fiat era um decreto irrevog\u00e1vel.<\/p>\n<p>Adelaide dera-lhe a maior prova que uma mulher pode dar ao marido de n\u00e3o<br \/>\nestar em via de aumentar a esp\u00e9cie humana, e ele resignara-se. Vendo-a,<br \/>\npor\u00e9m, definhar, emagrecer, e estranhando-lhe certos h\u00e1bitos,<br \/>\ncomo o de acordar alta noite, sobressaltada, o de n\u00e3o comer com o mesmo<br \/>\napetite de quando tudo andava em ordem naquela casa, e, principalmente, o<br \/>\nde amofinar \u00e0 mais leve contrariedade, chorando \u00e0s vezes, como<br \/>\numa crian\u00e7a, quando ele lhe fazia qualquer censura &#8211; vendo-a nesse<br \/>\nestado de desequil\u00edbrio nervoso, pensou em chamar m\u00e9dico.<\/p>\n<p>&#8211; Por amor de Deus, Evaristo, n\u00e3o fa\u00e7a tal coisa! &#8211; rogou Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea? N\u00e3o andas doente? N\u00e3o te queixas tanto?<\/p>\n<p>&#8211; Pelo amor de Deus! O que eu quero \u00e9 ir-me embora do Rio de Janeiro,<br \/>\nainda que seja para um deserto! Arranquem-me daqui, tirem-me deste inferno<br \/>\n&#8211; \u00e9 o que eu quero&#8230;<\/p>\n<p>Evaristo, meio intrigado com aquela relut\u00e2ncia da esposa, com aquela<br \/>\nid\u00e9ia fixa de deixar o Rio de Janeiro &#8211; ela, que a princ\u00edpio<br \/>\ntanto encanto achava nele &#8211; refletiu, tornou a refletir, sacrificando, nesse<br \/>\nduro trabalho mental, as guias do bigode, que lhe n\u00e3o era muito farto,<br \/>\ne optou pelo regresso a Coqueiros. Adelaide queria, n\u00e3o \u00e9 assim?<br \/>\nFiat voluntas&#8230; Em primeiro lugar estava ela, sua mulher, depois o Rio de<br \/>\nJaneiro.<\/p>\n<p>Franqueza, franqueza&#8230; ele tamb\u00e9m se dera muito mal no Rio. Hipocrisia,<br \/>\nhipocrisia e mais hipocrisia era o que a gente encontrava. O pr\u00f3prio<br \/>\nLu\u00eds Furtado e a pr\u00f3pria Sra. D. Branca o que eram, sen\u00e3o<br \/>\nuns hip\u00f3critas? O visconde, o desembargador, o Condicional, o Pessegueiro&#8230;<br \/>\ntudo uma corja de hip\u00f3critas! Adelaide tinha muita raz\u00e3o, muit\u00edssima<br \/>\nraz\u00e3o.<\/p>\n<p>E sempre agitado, esfarelando o bigode, tomou o primeiro jornal que lhe caiu<br \/>\nnas vistas.<\/p>\n<p>&#8211; Que dia \u00e9 hoje?<\/p>\n<p>&#8211; Primeiro de maio.<\/p>\n<p>&#8211; Ah&#8230; Bem; no dia dez temos vapor para o norte&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s resolvido, ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mais que resolvido. N\u00e3o podemos continuar nesta terra&#8230; tu, porque<br \/>\nandas com a sa\u00fade arruinada, eu, porque tenho arruinado o esp\u00edrito&#8230;<br \/>\nDe um lado o corpo, doutro lado a alma. O Rio \u00e9 muito bom, sim senhores,<br \/>\nmas para quem tem flex\u00edvel a espinha dorsal e o car\u00e1ter. Preparemos<br \/>\na trouxa!<\/p>\n<p>Adelaide ficou olhando o marido, com um risinho seco e incr\u00e9dulo \u00e0<br \/>\nflor dos l\u00e1bios, a m\u00e3o no queixo, a cabe\u00e7a inclinada<br \/>\nnuma pose de modelo vivo.<\/p>\n<p>&#8211; Por que me olhas com esses olhos t\u00e3o admirados? &#8211; perguntou o bacharel<br \/>\nagarrado ao Com\u00e9rcio do Rio.<\/p>\n<p>&#8211; Por nada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 disse: preparemos a trouxa. Amanh\u00e3 vou me despedir do<br \/>\nBanco e telegrafar ao Rocha.<\/p>\n<p>Adelaide continuava a olhar Evaristo, sem o compreender, sem compreender<br \/>\ntoda aquela precipita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me venhas com hist\u00f3rias&#8230; &#8211; tornou ele.<\/p>\n<p>&#8211; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que mas o qu\u00ea! Para longe deste inferno! para longe desta porqueira!<br \/>\nVive-se melhor, mais barato e mais honradamente na obscuridade da prov\u00edncia,<br \/>\ncriando galinhas ou plantando jerimuns. Estou farto de aturar a pedantocracia<br \/>\nde Botafogo e do Sr. Lu\u00eds Furtado. Um bacharel em direito vive em qualquer<br \/>\nparte do mundo: vou advogar, vou esperar a Rep\u00fablica no sert\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; O que eu quero dizer \u00e9 que n\u00e3o te precipites, Evaristo. Fa\u00e7amos<br \/>\nas coisas com jeito, sem desgostar a ningu\u00e9m. Olha que devemos favores<br \/>\nao Sr. Furtado, \u00e0 D. Branca&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, minhas encomendas! &#8211; disse o bacharel erguendo-se e atirando o jornal<br \/>\npara o lado. &#8211; Quem te afirmou o contr\u00e1rio? \u00c9 verdade que devo<br \/>\nmuitos favores \u00e0quele bigorrilha, inclusive os duzentos mil r\u00e9is<br \/>\nque me emprestou j\u00e1 l\u00e1 vai um ano; mas porque mos n\u00e3o<br \/>\ncobrou? Neg\u00f3cio \u00e9 neg\u00f3cio. Agora, da\u00ed n\u00e3o<br \/>\nsegue-se que lhe devo beijar as m\u00e3os como um cachorrinho de grisette.<\/p>\n<p>&#8211; Evaristo!<\/p>\n<p>&#8211; Digo e torno a dizer: n\u00e3o sou um cachorrinho de grisette para andar<br \/>\nbeijando as m\u00e3os a fidalgos!<\/p>\n<p>&#8211; Fala baixo!<\/p>\n<p>&#8211; Estou falando mais baixo do que costumo&#8230;<\/p>\n<p>E encerrou-se a discuss\u00e3o entre Evaristo de Holanda e a mulher naquela<br \/>\ntarde melanc\u00f3lica demais, ao crep\u00fasculo.<\/p>\n<p>Adelaide n\u00e3o dormiu, pensando na brusca resolu\u00e7\u00e3o do<br \/>\nmarido e em mil e tantas coisas f\u00fateis que aos olhos de uma mulher<br \/>\ninexperiente como ela, e como ela supersticiosa, adquirem estranhas propor\u00e7\u00f5es.<br \/>\nMas no meio de todas essas coisas erguia-se o vulto de um homem, que n\u00e3o<br \/>\nera o Holanda, que absolutamente n\u00e3o se parecia com aquele que ali<br \/>\nestava a seu lado, na cama, e de novo um extraordin\u00e1rio medo apoderava-se<br \/>\ndela, um pavor inexplic\u00e1vel, uma covardia criminosa, que a obrigava<br \/>\na abrir e fechar os olhos intermitentemente&#8230; Era o vulto do secret\u00e1rio&#8230;<br \/>\n&#8220;a tenta\u00e7\u00e3o&#8221;, chamando-a para o mist\u00e9rio do<br \/>\ngozo e para a desonra, num apelo fidalgo de cavalheiro do Amor, num requinte<br \/>\ndonjuanesco de vol\u00fapia mundana&#8230; Sim, era ele, era. Lu\u00eds Furtado<br \/>\nacenando-lhe com a felicidade ef\u00eamera de um instante, ajoelhando-se-lhe<br \/>\naos p\u00e9s e suplicando um beijo, uma palavra de amor, um movimento de<br \/>\nsimpatia&#8230; E ela, inconscientemente, fechava os olhos para o ver melhor,<br \/>\ne naquele sonhar acordada, ia-se-lhe a alma, num v\u00f4o r\u00e1pido e<br \/>\ntrai\u00e7oeiro para o marido de D. Branca&#8230; Depois voltava ao corpo donde<br \/>\nsa\u00edra, e logo a jovem esposa do bacharel abria os olhos, tr\u00eamula<br \/>\nde medo, arrependida como se houvesse praticado uma a\u00e7\u00e3o m\u00e1.<\/p>\n<p>Naquela noite, mais do que em todas as outras, Adelaide pensou no secret\u00e1rio.<br \/>\n&#8211; Am\u00e1-lo-ia?&#8230; N\u00e3o, porque adorava o marido. Talvez acabasse<br \/>\namando-o&#8230; Mas o futuro \u00e9 t\u00e3o incerto, s\u00e3o t\u00e3o<br \/>\nincertas as previs\u00f5es humanas!&#8230; Certo \u00e9 que a imagem dele<br \/>\nn\u00e3o a deixava, por mais que a repelisse.<\/p>\n<p>Amanheceu o dia soberbo de luz. Evaristo tornou a falar na viagem para o<br \/>\nnorte. Adelaide disse-lhe que sim, que ia tratando de arrumar as coisas, e<br \/>\nfez um gesto de enfado.<\/p>\n<p>O bacharel vestiu-se, cantarolando de bom humor, e desceu para a refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia.<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia.<\/p>\n<p>Repetiram-se os habituais cumprimentos da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Mais do que nunca o almo\u00e7o correu frio. D. Branca estava de olhos<br \/>\nduros e passava os pratos com um gesto de vis\u00edvel apatia. Furtado aludiu,<br \/>\nem frases lac\u00f4nicas, ao \u00faltimo telegrama de Cannes:<\/p>\n<p>&#8211; Sua Majestade continuava no uso das duchas, &#8211; publicado nos jornais matutinos.<br \/>\nLeu alto, para que todos ouvissem, inclusive o bacharel, que fingiu n\u00e3o<br \/>\ndar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Adelaide petiscava de leve as migalhas de arroz e os bocadinhos de fritada,<br \/>\nbaixando os olhos com cerimoniosa discri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Evaristo, por sua vez, guardou o mais profundo recolhimento, n\u00e3o aludindo<br \/>\nsequer \u00e0 projetada viagem. Ia falar ao amigo no Banco e l\u00e1 mesmo<br \/>\najustar suas contas.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos? &#8211; disse o secret\u00e1rio tomando o chap\u00e9u e palitando<br \/>\nos dentes.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos &#8211; respondeu friamente Evaristo.<\/p>\n<p>E sa\u00edram como de costume, agora menos comunicativos.<\/p>\n<p>Adelaide acompanhou o marido \u00e0 escada e, logo que este desapareceu<br \/>\nembaixo, porta fora, recolheu ao segundo andar, numa crise de nervos. N\u00e3o<br \/>\nhavia decorrido uma hora depois do almo\u00e7o, quando D. Branca ouviu gritos<br \/>\nfinos de mulher no alto do sobrado.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 Adelaide, minha gente! &#8211; disse arregalando os olhos para o Ant\u00f4nio<br \/>\nque correra.<\/p>\n<p>Os gritos aumentavam, numa progress\u00e3o assustadora.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 ela! \u00e9 ela! &#8211; repetiu a esposa de Furtado investindo para<br \/>\no corredor.<\/p>\n<p>A ama, com a Julinha nos bra\u00e7os, abalou tamb\u00e9m dos fundos da<br \/>\ncasa, e ela e D. Branca e o Ant\u00f4nio acudiram precipitadamente, aos encontr\u00f5es.<\/p>\n<p>O f\u00e2mulo do secret\u00e1rio n\u00e3o esperou pela patroa: galgou<br \/>\nos degraus dois a dois, tr\u00eas a tr\u00eas, numa elasticidade felina<br \/>\nde m\u00fasculos, e, sem guardar conveni\u00eancias, enveredou pelos aposentos<br \/>\ndo bacharel. D. Branca foi encontr\u00e1-lo sobrepujando Adelaide que se<br \/>\ndebatia no leito numa agita\u00e7\u00e3o de todo o corpo, os olhos desvairados,<br \/>\na face muito p\u00e1lida, em convuls\u00f5es hist\u00e9ricas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o que foi? o que foi?! &#8211; perguntava, assombrada, a esposa do secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabia explicar, ningu\u00e9m sabia dizer o que aquilo era.<\/p>\n<p>&#8211; O doutor, minha senhora, o doutor! &#8211; aconselhava o Ant\u00f4nio, agarrado<br \/>\naos pulsos da doente.<\/p>\n<p>A primeira id\u00e9ia de D. Branca foi pedir socorro da janela, alarmar<br \/>\na vizinhan\u00e7a, salvar a sua responsabilidade, mesmo porque n\u00e3o<br \/>\ntinha \u00e0quela hora quem fosse chamar o m\u00e9dico ou prevenir a Evaristo.<br \/>\nO Ant\u00f4nio era indispens\u00e1vel, a ama n\u00e3o sa\u00eda \u00e0<br \/>\nrua, e ela, D. Branca, estava em trajos muito caseiros para se apresentar<br \/>\na qualquer estranho. Que falta que fazia o Raul!<\/p>\n<p>A ama, sem largar a Julinha, desceu em procura do vidro de \u00e9ter.<\/p>\n<p>&#8211; Depressa, rapariga, depressa! &#8211; bradava a mulher do secret\u00e1rio,<br \/>\nat\u00f4nita no meio da casa.<\/p>\n<p>Felizmente Adelaide arriou os bra\u00e7os, como extenuada, e os gritos<br \/>\nforam-lhe morrendo pouco a pouco, dolorosos e cansados, na garganta.<\/p>\n<p>&#8211; Oh meu Deus, que afli\u00e7\u00e3o me faz isso! &#8211; imprecava D. Branca.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 nada, minha senhora, n\u00e3o \u00e9 nada&#8230; &#8211;<br \/>\ndizia o Ant\u00f4nio numa voz conciliadora. &#8211; E bom desabotoar-lhe a roupa&#8230;<br \/>\nFoi um ataque&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Espera, Ant\u00f4nio, espera, que eu j\u00e1 desabot\u00f4o.. . N\u00e3o<br \/>\nsaias daqui.. traze um copo com \u00e1gua.<\/p>\n<p>O copeiro obedeceu, enquanto ela ia afrouxando a roupa de Adelaide.<\/p>\n<p>Veio o \u00e9ter, veio a \u00e1gua, fizeram-se fric\u00e7\u00f5es,<br \/>\nchamaram muitas vezes pelo nome da doente, a ver se ela acordava, cobriram-na<br \/>\ncom um len\u00e7ol desde os p\u00e9s at\u00e9 o pesco\u00e7o, colocaram-lhe<br \/>\na cabe\u00e7a nos travesseiros; mas a esposa do bacharel n\u00e3o dava<br \/>\nsinal de vida.<\/p>\n<p>&#8211; O cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 batendo? &#8211; perguntou inquieta, a ama.<\/p>\n<p>D. Branca encostou o ouvido no peito de Adelaide.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1, sim&#8230; est\u00e1 batendo devagarinho.<\/p>\n<p>&#8211; E agora? &#8211; quis saber o Ant\u00f4nio, pronto a retirar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Agora &#8211; ordenou D. Branca &#8211; toma um t\u00edlburi e vai, vai, correndo,<br \/>\navisar ao marido dela, no Banco Industrial. &#8211; Sabes onde \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Sei, sim senhora.<\/p>\n<p>&#8211; Pois vai.<\/p>\n<p>O criado atirou-se pelas escadas, mais veloz que um andarilho.<\/p>\n<p>D. Branca ficou \u00e0 beira do leito, muito nervosa, cheia de desapontamento,<br \/>\nvelando a enferma.<\/p>\n<p>Adelaide parecia dormir, numa imobilidade de cad\u00e1ver, os olhos fechados,<br \/>\na boca entreaberta, mal respirando.<\/p>\n<p>A esposa do secret\u00e1rio esfregava-lhe a testa e os pulsos, dando-lhe<br \/>\na cheirar \u00e9ter, enxugando-lhe o suor que porejava do rosto. De instante<br \/>\na instante mandava um olhar ao espelho do toucador. &#8211; Estava t\u00e3o p\u00e1lida!<\/p>\n<p>Afina, Adelaide abriu os olhos com um largo suspiro que f\u00ea-la estremecer<br \/>\ntoda.<\/p>\n<p>&#8211; Quer beber um pouquinho d&#8217;\u00e1gua? &#8211; inquiriu Branca.<\/p>\n<p>A esposa de Evaristo n\u00e3o respondeu; olhou-a, com os olhos muito l\u00e2nguidos,<br \/>\nmuito mortos, encarando, em seguida, a ama, que estava em p\u00e9 a seu<br \/>\nlado. Mas a mulher do secret\u00e1rio derramou algumas gotas de \u00e9ter<br \/>\nnum copo e deu-lhe a beber o calmante.<\/p>\n<p>&#8211; Que horas s\u00e3o? &#8211; perguntou Adelaide numa voz d\u00e9bil que lhe<br \/>\nsa\u00eda do fundo do peito com outro suspiro de al\u00edvio.<\/p>\n<p>&#8211; Vai para as duas&#8230; Descanse, que o Sr. Evaristo n\u00e3o pode tardar&#8230;<\/p>\n<p>Com efeito, o bacharel n\u00e3o tardou. Para isso \u00e9 que havia t\u00edlburis<br \/>\nna pra\u00e7a e boleeiros de encomenda. Subiu a escada num v\u00f4o.<\/p>\n<p>Adelaide estava melhor, muito melhor, e j\u00e1 se sentava na cama; recebeu-o<br \/>\ncom l\u00e1grimas, atirando-se a ele.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que foi?&#8230; que foi? &#8211; perguntava, aflito, o marido.<\/p>\n<p>A esposa do secret\u00e1rio explicou tudo; uma crise de nervos, um desequil\u00edbrio&#8230;<br \/>\nm\u00e1 digest\u00e3o, talvez.<\/p>\n<p>&#8211; Uma crise? Mas n\u00e3o chamaram m\u00e9dico?<\/p>\n<p>Adelaide continuava a solu\u00e7ar com a cabe\u00e7a no ombro de Evaristo.<\/p>\n<p>&#8211; Como chamar m\u00e9dico, Sr. Evaristo, se n\u00e3o havia por quem?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E o Ant\u00f4nio?<\/p>\n<p>&#8211; O Ant\u00f4nio foi avis\u00e1-lo ao Banco&#8230; ora, o Ant\u00f4nio!<\/p>\n<p>&#8211; Deixavam-te morrer, minha mulher, deixavam-te expirar \u00e0 m\u00edngua!<br \/>\n&#8211; disse o bacharel transbordando ironia. &#8211; Onde h\u00e1 dinheiro falta piedade&#8230;<br \/>\nMil vezes a Cidade Nova!<\/p>\n<p>&#8211; Que quer o senhor dizer com isso? &#8211; perguntou D. Branca, ofendida.<\/p>\n<p>&#8211; Que quero dizer com isto? Nada, excelent\u00edssima, absolutamente nada.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor ofende-nos, a mim e ao Lulu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu, ofend\u00ea4a? &#8211; tornou Evaristo com um sorriso de esc\u00e1rnio.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor: ofende-nos, tanto mais quanto nunca o maltratamos&#8230; sua senhora<br \/>\nsempre foi muito bem tratada em nossa casa.<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o, eu n\u00e3o vim discutir.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vem discutir, mas vem ofender a quem nunca o ofendeu&#8230; Isto<br \/>\nmesmo hei de dizer ao Lulu&#8230;<\/p>\n<p>E a orgulhosa D. Branca Furtado, num assomo de c\u00f3lera, que nada tinha<br \/>\nde nobreza, embarafustou, resmungando, escadas abaixo.<\/p>\n<p>&#8211; Pro diabo que a carregue! &#8211; explodiu Evaristo.<\/p>\n<p>Adelaide n\u00e3o teve tempo de lhe tapar a boca. A frase saiu inteira,<br \/>\ncompleta, dos l\u00e1bios do jacobino.<\/p>\n<p>&#8211; Ao dinheiro oponho eu a dignidade, morra, embora, na mis\u00e9ria! &#8211;<br \/>\ncontinuou, afagando os cabelos da esposa.<\/p>\n<p>E seguiu-se uma cena muda de carinhos entre os dois.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio bacharel tinha l\u00e1grimas nos olhos.<\/p>\n<h4><a name=\"7\"><\/a>VII<\/h4>\n<p>Naquele mesmo dia Evaristo de Holanda mudou-se para um hotel no Campo da<br \/>\nAclama\u00e7\u00e3o. &#8211; &#8220;Bastava de fidalgos&#8230;&#8221; N\u00e3o quis<br \/>\nlevar os trastes, porque &#8211; dizia ele &#8211; n\u00e3o lhe pertenciam; recolheu<br \/>\napenas os ba\u00fas que trouxera do norte, um ou outro objeto que comprara<br \/>\ndepois, inclusive um grande quadro de Tiradentes e os livros, meia d\u00fazia<br \/>\nde volumes encadernados.<\/p>\n<p>Quando \u00e0s seis horas o carro parou \u00e0 porta de Furtado, a vizinhan\u00e7a<br \/>\ntoda chegou \u00e0 janela. O desembargador Lousada, com o indefect\u00edvel<br \/>\ngorro, a mulher e a filha tamb\u00e9m apareceram, D. Sinh\u00e1, branca<br \/>\nde p\u00f3-de-arroz, falava t\u00e3o alto que se ouvia dos extremos da<br \/>\nrua. &#8211; S\u00f3 nessas ocasi\u00f5es aquele trecho do bairro animava-se<br \/>\num pouco; o mais simples epis\u00f3dio, um incidente qualquer fora do comum<br \/>\ndava \u00e0s casas aspecto novo de quarteir\u00e3o em festa, excitando<br \/>\na curiosidade dos moradores, transmitindo-lhes aos nervos uma sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nespecial de alegria, de bom humor e de \u00edntima alian\u00e7a entre<br \/>\no corpo e o esp\u00edrito. Era necess\u00e1rio que um sopro de esc\u00e2ndalo<br \/>\nvarresse a atmosfera estagnada dos bras\u00f5es e do preconceito fidalgo<br \/>\npara que o long\u00ednquo recanto de Botafogo sentisse um calor de vida,<br \/>\num fr\u00eamito de exist\u00eancia animal nas art\u00e9rias.<\/p>\n<p>Bastava o rodar de uma carruagem: todo o mundo esquecia obriga\u00e7\u00f5es<br \/>\npara satisfazer uma necessidade imperiosa do esp\u00edrito e do olhar. As<br \/>\nvarandas enchiam-se, mil cabe\u00e7as surgiam como peixes \u00e0 tona<br \/>\nd&#8217;\u00e1gua. Era a avidez do esc\u00e2ndalo, a eterna bisbilhotice de oper\u00e1rios<br \/>\ne ociosos, de homens e mulheres, acordando para a faina do dizia-se, para<br \/>\na mistifica\u00e7\u00e3o do boato.<\/p>\n<p>Um carro \u00e0 porta dos Furtado! Ainda se fosse o do visconde&#8230; mas<br \/>\nn\u00e3o &#8211; n\u00e3o era o cup\u00ea do Santa Quit\u00e9ria&#8230; Talvez<br \/>\nalguma visita de cerim\u00f4nia&#8230; Entretanto &#8211; coisa not\u00e1vel! &#8211; as<br \/>\njanelas do primeiro andar estavam fechadas e n\u00e3o havia ningu\u00e9m<br \/>\nna varanda do secret\u00e1rio!<\/p>\n<p>A filha do desembargador cravava os olhos na alta frontaria do sobrado:<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Ningu\u00e9m&#8221;!<\/p>\n<p>E aquele &#8220;misterioso&#8221; ve\u00edculo de segunda ordem, atrelado<br \/>\ncom animais de \u00ednfima esp\u00e9cie, causava arrepios de curiosidade<br \/>\n&#8211; era como um ponto de interroga\u00e7\u00e3o erguido a fidalgos e burgueses<br \/>\nno meio de uma rua sombria.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Furtado passeava de um lado para o outro, na sala de jantar.<br \/>\nIncomodava-o a brusca retirada do amigo, n\u00e3o obstante as insinua\u00e7\u00f5es<br \/>\nodiosas da mulher. D. Branca enchera-lhe os ouvidos: que fora desacatada pelo<br \/>\nbacharel, que o marido &#8220;da Sra. D. Adelaide&#8221; era um grosseir\u00e3o;<br \/>\nque antes nunca os tivesse admitido em sua casa; que o culpado era ele, Furtado,<br \/>\nhomem de muitas facilidades e de pouca experi\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio ouvia tudo com uma resigna\u00e7\u00e3o de carneiro<br \/>\nimolado, sem proferir palavra, sem a mais leve queixa. N\u00e3o foi pedir<br \/>\nexplica\u00e7\u00f5es ao amigo: esperou os acontecimentos com a mesma<br \/>\ncalma de homem que sabe ajuizar dos homens e cr\u00ea numa fatalidade que<br \/>\na tudo resiste e tudo domina na ordem moral e nas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>O Evaristo era um pancada, ele o sabia melhor que ningu\u00e9m: para que<br \/>\nprovoc\u00e1-lo? Esperava, at\u00e9 que o bacharel se resolvesse a um<br \/>\nacordo, a uma concilia\u00e7\u00e3o honrosa para ambos. Nenhum dos dois<br \/>\ntinha a lucrar com um rompimento escandaloso e menos digno de cavalheiros<br \/>\nque se prezam. Imaginava Adelaide sucumbida, os olhos em pranto, o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nintumescido de desgosto &#8211; pobre senhora! &#8211; \u00e0s voltas com um homem de<br \/>\ng\u00eanio pirr\u00f4nico e macamb\u00fazio, sem o necess\u00e1rio equil\u00edbrio<br \/>\npara a vida dom\u00e9stica &#8211; exagerando tudo, revoltando-se contra todos.<\/p>\n<p>Como ela havia de estar sofrendo, aquela pomba sem fel!<\/p>\n<p>E o secret\u00e1rio do Banco Industrial forrava-se de uma tranq\u00fcilidade<br \/>\nassombrosa para n\u00e3o dar a perceber a D. Branca o pesar, o grande pesar<br \/>\nque lhe causavam a hist\u00f3ria do ataque e a narrativa do epis\u00f3dio<br \/>\ncom o bacharel na presen\u00e7a de Adelaide.<\/p>\n<p>Ela, coitada, ela tamb\u00e9m sentia muito, a jovem esposa de Evaristo;<br \/>\nhabituara-se \u00e0quele viver, \u00e0quela exist\u00eancia em comum<br \/>\ncom os Furtado e do\u00eda-lhe, agora, como um punhal que lhe enfiassem<br \/>\nnas carnes tenras, o abandono de todas as comodidades, a separa\u00e7\u00e3o<br \/>\nbrusca das duas fam\u00edlias t\u00e3o intimamente unidas no princ\u00edpio,<br \/>\nquando ela chegara ao Rio de Janeiro&#8230; E por qu\u00ea? Por nada, por cois\u00edssima<br \/>\nalguma, por um simples capricho, por uma fatalidade!<\/p>\n<p>Evaristo desceu ao lado da mulher, guiando-a na escada, todo cauteloso, carregando-a<br \/>\nquase.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te despedes?&#8230; &#8211; lembrou ela.<\/p>\n<p>&#8211; Eu?!<\/p>\n<p>E com uma ironia na voz:<\/p>\n<p>&#8211; Queres me debicar&#8230;<\/p>\n<p>Adelaide n\u00e3o insistiu: foi-se deixando levar at\u00e9 embaixo, \u00e0<br \/>\nporta da rua, como uma convalescente.<\/p>\n<p>O boleeiro abriu, com um movimento estabanado, a portinhola do carro e ela<br \/>\nentrou. Foi como se entrasse numa pris\u00e3o para nunca mais sair; tudo<br \/>\nescureceu ao redor dela, como se lhe tapassem a vista com um pano negro; faltava-lhe<br \/>\no ar, faltava-lhe a lucidez do esp\u00edrito, fugia-lhe a clarivid\u00eancia<br \/>\ndas coisas, fugia-lhe tudo! Apenas um objeto perdurava na sua imagina\u00e7\u00e3o;<br \/>\n&#8211; triste esfinge na aridez de um deserto &#8211; a figura do secret\u00e1rio,<br \/>\nmais do que nunca tentadora, numa aur\u00e9ola deslumbrante que o divinizava,<br \/>\nolhando-a, todo voltado para ela, todo dela&#8230;<\/p>\n<p>E um golf\u00e3o de l\u00e1grimas, uma torrente de p\u00e9rolas brotou<br \/>\ncaudalosa de seus olhos meigos, ensopando o lencinho de rendas que lhe dera<br \/>\nEvaristo no seu \u00faltimo anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o os Holanda, s\u00e3o os Holanda! &#8211; repetiu, espevitada, a<br \/>\nfilha do desembargador.<\/p>\n<p>E a vizinhan\u00e7a toda repetiu baixinho:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o os Holanda&#8230;<\/p>\n<p>Furtado, quando soube que o amigo abalara, n\u00e3o sentiu menos que Adelaide<br \/>\na rudez do golpe, e, instintivamente, revoltou-se contra a mulher, contra<br \/>\na asa-negra de D. Branca, origem do desespero que lhe ia no fundo d&#8217;alma.<br \/>\nGuardou, por\u00e9m, esse desespero no mais \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntrancou-o a sete chaves l\u00e1 onde ningu\u00e9m o pudesse desvendar,<br \/>\nforte como um her\u00f3i vencido, e apelou para a Fatalidade&#8230;<\/p>\n<p>Mas o destino \u00e9 caprichoso e n\u00e3o quis que o secret\u00e1rio<br \/>\ntomasse a p\u00f4r os olhos insaci\u00e1veis na miragem que o fizera sonhar<br \/>\nnoites inteiras, dias inteiros, na \u00e2nsia de um gozo novo.<\/p>\n<p>Embalde esperou, embalde correu lugares aonde nunca o conduzira a sede de<br \/>\naventuras: ningu\u00e9m lhe dava not\u00edcias do bacharel. Para onde<br \/>\nteria ele ido? Como explicar o eclipse total daquela mulher numa cidade como<br \/>\no Rio de Janeiro, em que toda a gente se encontrava por mais que se quisesse<br \/>\nocultar? De que ia viver Evaristo, agora, sem um amigo que lhe desse a m\u00e3o?<br \/>\nDe que ia viver a pobre Adelaide numa \u00e9poca tenebrosa de empr\u00e9stimos<br \/>\nfor\u00e7ados e de gerais clamores, quando o pr\u00f3prio Banco Industrial<br \/>\nn\u00e3o oferecia seguran\u00e7a?<\/p>\n<p>E enquanto por um lado apiedava-se do amigo, quase arrependido de o ter deixado<br \/>\nir embora sem rumo certo no mare magnum da vida, por outro lado reconstru\u00eda<br \/>\nmentalmente o epis\u00f3dio do Jardim Bot\u00e2nico, em que fora protagonista<br \/>\na esposa do bacharel, e sentia extraordin\u00e1ria vol\u00fapia cada vez<br \/>\nque se lembrava daquele beijo de fogo, mais precioso que todas as riquezas<br \/>\ndo mundo e cujo calor como que lhe ficara impregnado na boca para todo o sempre&#8230;<br \/>\nEla o repelira brandamente, cheia de dignidade, cheia de pudor, fiel ao homem<br \/>\nque escolhera para esposo; mas nisso \u00e9 que estava o sabor esquisito<br \/>\ne fidalgo que lhe ainda permanecia, por um efeito da imagina\u00e7\u00e3o,<br \/>\nnos l\u00e1bios tr\u00eamulos&#8230;<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo\u00a0I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo\u00a0III Cap\u00edtulo\u00a0IV Cap\u00edtulo\u00a0V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII &nbsp; A Raul Pomp\u00e9ia, o mais original e correto escritor brasileiro de seu\u00a0tempo. Cap\u00edtulo I &#8211; Ora, sempre vamos ao Rio de Janeiro, ao grande e espetaculoso Rio de Janeiro! &#8211; exclamou Evaristo, pousando o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":90311,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-90309","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Tenta\u00e7\u00e3o - Adolfo Caminha, Obra Tenta\u00e7\u00e3o - Adolfo Caminha<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Tenta\u00e7\u00e3o - Adolfo Caminha, Obra, Furtado, D. sinh\u00e1, Evaristo, Rio de Janeiro, Enredo, Literatura, Tenta\u00e7\u00e3o - Adolfo Caminha\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Tenta\u00e7\u00e3o - Adolfo Caminha, Obra Tenta\u00e7\u00e3o - Adolfo Caminha\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Tenta\u00e7\u00e3o - Adolfo Caminha, Obra, Furtado, D. sinh\u00e1, Evaristo, Rio de Janeiro, Enredo, Literatura, Tenta\u00e7\u00e3o - Adolfo Caminha\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/tentacao-adolfo-caminha\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2016-12-23T12:12:54+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/tentacao.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"200\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"200\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"188 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tentacao-adolfo-caminha#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/tentacao-adolfo-caminha\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Tenta\u00e7\u00e3o &#8211; 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