{"id":90299,"date":"2016-12-23T08:49:13","date_gmt":"2016-12-23T10:49:13","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=90299"},"modified":"2016-12-23T09:20:23","modified_gmt":"2016-12-23T11:20:23","slug":"a-normalista-adolfo-caminha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-normalista-adolfo-caminha","title":{"rendered":"A Normalista &#8211; Adolfo Caminha"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<table style=\"height: 215px;\" width=\"811\" cellspacing=\"0\" cellpadding=\"7\">\n<tbody>\n<tr bgcolor=\"#FFFFA4\">\n<td colspan=\"5\" height=\"1\"><span style=\"color: #666666; font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: small;\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/span><\/td>\n<\/tr>\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td width=\"156\">\n<div align=\"center\"><a class=\"links\" href=\"#1\"><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Cap\u00edtulo\u00a0I<\/strong><\/span><\/a><strong><span style=\"font-size: medium;\"><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/span><\/strong><br \/>\n<strong><span style=\"font-size: medium;\"><a class=\"links\" href=\"#4\">Cap\u00edtulo\u00a0IV<\/a><\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\">\n<div align=\"center\"><a class=\"links\" href=\"#5\"><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Cap\u00edtulo\u00a0V<\/strong><\/span><\/a><strong><span style=\"font-size: medium;\"><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#9\"><span style=\"font-size: medium;\"><strong>Cap\u00edtulo\u00a0IX<\/strong><\/span><\/a> <\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\">\n<div style=\"text-align: center;\" align=\"center\"><strong><span style=\"font-size: medium;\"> <a class=\"links\" href=\"#10\">Cap\u00edtulo\u00a0X<\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#12\">Cap\u00edtulo XI<br \/>\nCap\u00edtulo XII <\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#13\">Cap\u00edtulo XIII <\/a><br \/>\n<a class=\"links\" href=\"#14\">Cap\u00edtulo XIV <\/a><br \/>\n<\/span><\/strong><\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4><a name=\"1\"><\/a>Cap\u00edtulo I<\/h4>\n<p>Jo\u00e3o Manoel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por Jo\u00e3o<br \/>\nda Mata, habitava, h\u00e1 anos, no Trilho, uma casinhola de porta e janela,<br \/>\ncor d\u2019a\u00e7afr\u00e3o, com a frente encardida pela fuligem das<br \/>\nlocomotivas que diariamente cruzavam defronte, e donde se avistava a Esta\u00e7\u00e3o<br \/>\nda linha f\u00e9rrea de Baturit\u00e9. Era amanuense, amigado, e gostava<br \/>\nde jogar o v\u00edspora em fam\u00edlia aos domingos. Nessa noite estavam<br \/>\nreunidas as pessoas do costume. Ao centro da sala, em torno d\u2019uma mesa<br \/>\ncoberta com um pano xadrez, \u00e0 luz parca de um candieiro de lou\u00e7a<br \/>\nesfumado, em forma d\u2019abat-jour, corriam os olhos sobre as velhas cole\u00e7\u00f5es<br \/>\ndesbotadas, enquanto uma voz fina de mulher flauteava arrastando as s\u00edlabas<br \/>\nnuma cad\u00eancia morosa: Vin&#8230;te e quatro! Sessen&#8230;ta nove!&#8230; Cinq\u00fcen&#8230;ta<br \/>\ne seis!&#8230;<\/p>\n<p>Havia um sil\u00eancio morno e concentrado em que se destacava o rolar abafado<br \/>\ndas pedras no saquinho de baeta verde.<\/p>\n<p>A sala era estreita, sem teto, ch\u00e3o de tijolo, com duas portas para<br \/>\no interior da casa, paredes escorridas pedindo uma caia\u00e7\u00e3o geral.<br \/>\n\u00c0 direita, defronte da janela, dormia um velho piano de aspecto pobre,<br \/>\nencimado por um espelho n\u00e3o menos gasto. O resto da mob\u00edlia<br \/>\ncompunha-se de algumas cadeiras, um sof\u00e1 entre as duas portas do fundo,<br \/>\na mesa do centro, e uma esp\u00e9cie de console, colocada \u00e0 esquerda,<br \/>\nonde pousavam dos jarros com flores artificiais.<\/p>\n<p>De onde em onde zunia o falsete do amanuense:<\/p>\n<p>Quadra!&#8230; Ou ca\u00e7oava: Os anos de Cristo! &#8230; Os \u00f3culos do<br \/>\nPadre Eterno!<\/p>\n<p>Risadinhas explodiam a espa\u00e7os, gostosas, indiscretas uma pilh\u00e9ria<br \/>\nricocheteava nos quatros \u00e2ngulos da mesa.<\/p>\n<p>\u00c9 boa! \u00c9 boa! fazia Jo\u00e3o da Mata erguendo a cabe\u00e7a,<br \/>\nmostrando a dentu\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois voltava o sil\u00eancio, e a voz fina de mulher continuava a cantar<br \/>\nos n\u00fameros solenemente.<\/p>\n<p>V\u00edspora! saltou de repente um rapazola d\u2019\u00f3culos, bigodinho<br \/>\nfino, flor na botoeira do fraque de casimira clara.<\/p>\n<p>Toda gente o conhecia era o Zuza, quintanista de direito, filho do coronel<br \/>\nSouza Nunes.<\/p>\n<p>Podem conferir, disse erguendo-se, risonho segunda linha.<\/p>\n<p>E estendeu o bra\u00e7o, passando o cart\u00e3o para o amanuense.<\/p>\n<p>N\u00e3o desmarquem, n\u00e3o desmarquem, recomendou este espalmando<br \/>\na m\u00e3o. Pode Ter sido engano. Errare humanun est&#8230;<\/p>\n<p>Houve um ligeiro sussurro de vozes e de caro\u00e7os rolando sobre a mesa<br \/>\ncom um surdo ru\u00eddo de contas desfiada. Todos desfizeram as marca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Numa das extremidades sentava-se Jo\u00e3o da Mata, de palet\u00f3 de<br \/>\nfazenda parda sobre a camisa de meia, costas para a rua.<\/p>\n<p>\u00c0 direita mexia-se uma senhora gorducha, de seus trinta anos, metida<br \/>\nnum casaco frouxo de rendas, cabelos penteado em coc\u00f3, estampa insinuante,<br \/>\nbons dentes; era a mulher do amanuense, que passava por sua leg\u00edtima<br \/>\nesposa n\u00e3o obstante as insinua\u00e7\u00f5es mal\u00e9volas da<br \/>\nalcovitice vil\u00e3 que entrevira esc\u00e2ndalos na vida privada de D.<br \/>\nTerezinha. Contudo, era tida em conta de excelente dona de casa, honesta,<br \/>\ndizendo-se relacionada com as principais fam\u00edlias de Fortaleza.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m ousava mesmo dirigir-lhe um gracejo de mau gosto, uma pilh\u00e9ria<br \/>\ncalculada. Inventava-se cal\u00fanias de populacho \u00be que se correspondia<br \/>\nocultamente com o presidente da prov\u00edncia. Ela, por\u00e9m, gabava,<br \/>\nbatendo no peito com orgulho, que tinha uma vida limpa, gra\u00e7as a Deus,;<br \/>\nque isso de patifarias n\u00e3o lhe entrava em casa, n\u00e3o, mas era<br \/>\no mesmo. Estava ali o Janj\u00e3o que n\u00e3o a deixava mentir.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 de D. Terezinha aprumava-se Maria do Carmo, afilhada de Jo\u00e3o,<br \/>\numa rapariga muito nova, com um belo arzinho de novi\u00e7a, moreno-clara,<br \/>\nolhos cor de azeitona, carnes rijas, e cuja aten\u00e7\u00e3o volvia-se<br \/>\ninsistentemente para o Zuza.<\/p>\n<p>As outras pessoas eram tamb\u00e9m da intimidade: o Loureiro, guarda-livros<br \/>\nda firma Carvalho &amp; Cia., o Dr. Mendes, juiz municipal, mais a senhora,<br \/>\na L\u00eddia Campelo, filha da vi\u00fava Campelo, e o estudante. \u00c0s<br \/>\nvezes ia mais gente e o v\u00edspora prolongava-se at\u00e9 meia noite.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata era um sujeito esgrouviado, esguio e alto, car\u00e3o<br \/>\nmagro de t\u00edsico, com uma cor hep\u00e1tica denunciando v\u00edcios<br \/>\nde sangue, pouco cabelo, \u00f3culos escuros atrav\u00e9s dos quais boliam<br \/>\ndois olhos mi\u00fados e vesgos. Usava p\u00eara e bigode ralo caindo sobre<br \/>\nos bei\u00e7os tesos como fios de arame; a testa ampla confundia-se com<br \/>\na meia calva reluzente. Falava depressa, com um sotaque abemolado, gesticulando<br \/>\nbruscamente e, quando ria, punha em evid\u00eancia a medonha dentu\u00e7a<br \/>\nposti\u00e7a. Noutros tempo, fora mestre-escola no sert\u00e3o da prov\u00edncia,<br \/>\ndonde mudara-se para a capital por conveni\u00eancias particulares. Era ent\u00e3o<br \/>\nsimplesmente o professor Gadelha, o terror dos estudantes de gram\u00e1tica.<br \/>\nO sert\u00e3o foi-lhe aborrecendo; estava cansado de ensinar a meninos,<br \/>\nera preciso pela vida noutro meio mais vasto onde as suas qualidades, boas<br \/>\nou m\u00e1s, fossem aquilatadas com justi\u00e7a. Estava se perdendo,<br \/>\nse inutilizando, fossilizando-se, por assim dizer, entre um vig\u00e1rio<br \/>\nseboso e pern\u00f3stico e um delegado de pol\u00edcia ignorante: \u201cN\u00e3o<br \/>\nera uma \u00e1guia, Um Ab\u00edlio Borges, um Macedo&#8230; mas reconhecia<br \/>\nque tamb\u00e9m n\u00e3o era burro. At\u00e9 podia fazer figura em Fortaleza\u201d.<\/p>\n<p>E abalou com tanta felicidade que n\u00e3o tardou ser nomeado comiss\u00e1rio<br \/>\nde socorros ao tempo da grande seca de 77, dois anos depois de sua chegada<br \/>\n\u00e0 capital. Desde logo tornou-se conhecido, suas fa\u00e7anhas corriam<br \/>\nimpressas nos pasquins domingueiros. D\u2019uma feita escapou milagrosamente<br \/>\nde ser preso por crime de defloramento numa menor, criada do Dr. Morais da<br \/>\nSilva; d\u2019outra feita apanhou de rebenque na cara por haver caluniado<br \/>\num capit\u00e3o d\u2019infantaria propalando uma inf\u00e2mia. Toda a<br \/>\ngente o conhecia muit\u00edssimo bem, por sinal tinha uma cicatriz oblonga<br \/>\ne funda na t\u00eampora esquerda, e n\u00e3o largava o mau veso de roer<br \/>\no canto das unhas.<\/p>\n<p>Depois da seca entregou-se de corpo e alma \u00e0 pol\u00edtica, \u00e0<br \/>\nintriguinha partid\u00e1ria, \u00e0 rabulice, \u00e0 cabala eleitoral,<br \/>\n\u00e0 chicana. Toda vez que se anunciava um pleito, punha em jogo as mil<br \/>\ne uma sutilezas que s\u00f3 o seu esp\u00edrito sagaz podia conceber.<br \/>\nNingu\u00e9m como ele sabia copiar uma chapa em letra firme e aprumada.<br \/>\nAquilo a pena cantava no papel que nem o l\u00e1pis d\u2019um taqu\u00edgrafo.<br \/>\nE que letra, que espl\u00eandido talhe! Ningu\u00e9m como ele sabia tirar<br \/>\nproveito d\u2019uma vit\u00f3ria alcan\u00e7ada pelo partido. Discutia,<br \/>\nfalava alto, berrava&#8230; impunha-se!<\/p>\n<p>Extraordin\u00e1rio homem! diziam os chefes pol\u00edticos; destes \u00e9<br \/>\nque n\u00f3s precisamos, destes \u00e9 que precisa o partido.<\/p>\n<p>Mas Jo\u00e3o sabia vender caro o seu peixe. Fazia pol\u00edtica por<br \/>\numa esp\u00e9cie de ambi\u00e7\u00e3o ego\u00edsta, visando sempre<br \/>\ntirar resultados positivos de suas artimanhas, embora com preju\u00edzo<br \/>\nde algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Dinheiro \u00e9 o que ele queria, n\u00e3o lhe fossem falar em pol\u00edtica<br \/>\nsem interesse pessoal.<\/p>\n<p>\u201c Hist\u00f3rias, homem, hist\u00f3rias! Isso de patriotismo \u00e9<br \/>\numa patranha, um r\u00f3tulo falso! O que se quer \u00e9 dinheiro, o santo<br \/>\ndinheirinho, a mamata. Qual p\u00e1tria, qual nada! Patacoadas!\u201d Ele,<br \/>\nJo\u00e3o, trabalhava, l\u00e1 isso era ineg\u00e1vel: dava o seu voto,<br \/>\ncabalava, servia de testa de ferro, mas&#8230; tivessem paci\u00eancia era m\u00e3o<br \/>\np\u2019ra l\u00e1, m\u00e3o p\u2019ra c\u00e1. Porque argumentava<br \/>\na pol\u00edtica \u00e9 uma especula\u00e7\u00e3o torpe como qualquer<br \/>\noutra, como a de comprara e vender couros de bode na praia, a mesm\u00edssima<br \/>\ncousa; pois n\u00e3o \u00e9? P\u2019ra tudo \u00e9 preciso jeito, muito<br \/>\njeitinho&#8230;<\/p>\n<p>Agora, por\u00e9m, andava meio retra\u00eddo, dava o seu voto, calado,<br \/>\ne passe muito bem! A pol\u00edtica s\u00f3 lhe trouxera enganos e inimigos.<br \/>\nN\u00e3o estava mais para servir de degrau a figur\u00e3o algum. Que se<br \/>\nfomentassem! \u00c9 boa! Trabalhara que nem besta de carga para no fim das<br \/>\ncontas ganhar o qu\u00ea? Um pingue lugar de amanuense? Um miser\u00e1vel<br \/>\nemprego que se anda oferecendo por a\u00ed a qualquer vagabundo? Decididamente<br \/>\nn\u00e3o o pilhavam mais para a canga&#8230; Estava experimentado, meus senhores,<br \/>\nexperimentad\u00edssimo.<\/p>\n<p>E agora, com efeito, ningu\u00e9m o via mais nas reda\u00e7\u00f5es,<br \/>\nentre os jornalistas da terra, a esbravejar contra os advers\u00e1rios,<br \/>\nnem nos caf\u00e9s, quanto mais em dia de elei\u00e7\u00e3o, sentado,<br \/>\ncomo dantes, na sua cadeira de mes\u00e1rio, carrancudo, circunspecto, a<br \/>\ncontar votos, a lavrar atas. Estava outro homem, completamente outro: amigo<br \/>\nde casa, vivendo p\u2019ra si, com poucas amizades, met\u00f3dico, econ\u00f4mico,<br \/>\n\u00e0s voltas com sua atrab\u00edlis cr\u00f4nica, sem ambi\u00e7\u00f5es,<br \/>\nsem d\u00edvidas.<\/p>\n<p>A sua grande paix\u00e3o, o seu fraco, era a Maria do Carmo, a menina dos<br \/>\nseus olhos, a afilhadinha; queria um bem extraordin\u00e1rio \u00e0 rapariga<br \/>\ne tratava-a com um carinho languido de amante apaixonado no supremo grau do<br \/>\namor incondicional. Criara-a desde pequena, era como se fosse pai, tinha direitos<br \/>\nsobre ela; podia mesmo beij\u00e1-la sem mal\u00edcia, j\u00e1 se deixa<br \/>\nver nas faces, na testa, nos bra\u00e7os e at\u00e9, porque n\u00e3o?<br \/>\nna boca.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, quando Maria voltava da Escola Normal, ele mandava-a sentar<br \/>\nna rede, a seu lado. A pequena guardava os livros, e l\u00e1 ia, sem fazer<br \/>\nbei\u00e7o, deitar-se com o padrinho, amarfanhando o rico vestidinho de<br \/>\ncretone passado a ferro pela manh\u00e3. Obedecia-lhe cegamente, nunca lhe<br \/>\ndissera uma palavra \u00e1spera; ao contr\u00e1rio eram carinhos, cafun\u00e9s<br \/>\nno alto da cabe\u00e7a. c\u00f3cegas, hist\u00f3rias d\u2019almas d\u2019outro<br \/>\nmundo e gracinhas p\u2019ra ele rir&#8230; Tinha sempre um sorriso fresco e luminoso<br \/>\npara \u201co seu padrinho\u201d. E Jo\u00e3o da Mata sentia um bem estar<br \/>\nincompar\u00e1vel, uma del\u00edcia, um gosto inef\u00e1vel ante aquele<br \/>\nesplendido tipo de cearense morena, olhos cor de azeitona onde boiava uma<br \/>\nn\u00e9voa de ingenuidade, cabelos compridos descendo at\u00e9 a altura<br \/>\ndos quadris, desmanchando-se em ondas de seda fin\u00edssima&#8230; Quantas<br \/>\nvezes, quantas? punha-se por traz dos grandes \u00f3culos escuros a olh\u00e1-la<br \/>\ncomo um pateta, sem que ela sequer percebesse a fixidez de seu olhar cheio<br \/>\nde desejo!<\/p>\n<p>Maria estava-se pondo mo\u00e7a, entrava nos seus quinze anos, e o padrinho<br \/>\na ador\u00e1-la cada vez mais!<\/p>\n<p>Jo\u00e3o come\u00e7ou a inquietar-se com as freq\u00fcentes visitas<br \/>\ndo Zuza. Por fim notara certas tend\u00eancias do estudante para a pequena,<br \/>\ncerto quebrar d\u2019olhos, uma como insist\u00eancia atrevida em dizer<br \/>\nas coisas por met\u00e1foras&#8230; Isso o incomodava, punha-lhe pruridos na<br \/>\ncalva, enraivecia-o. Quanto ao Loureiro n\u00e3o havia risco, o guarda-livros<br \/>\nestava para se casar com a Campelinho, era um rapaz s\u00e9rio. Mas o senhor<br \/>\nZuza?&#8230; Ali andava namoro, apostava. Tinha id\u00e9ia de ter lido na Prov\u00edncia<br \/>\nuns versos dedicados a M.C. e assinados por Z***. Naquela noite, sobretudo,<br \/>\npareceu-lhe ver o mariola passar uma carta, um papel \u00e0 Maria. Boas!<br \/>\nEra preciso por um termo ao descaramento, sob pena de ele, Jo\u00e3o, desmoralizar-se<br \/>\nno conceito da gente s\u00e9ria. L\u00e1 por ser filho do Sr. Coronel<br \/>\nSouza Nunes n\u00e3o fosse pensar que faria o que bem entendesse. Alto l\u00e1!<br \/>\nTudo menos patifaria dentro de sua casa.<\/p>\n<p>E enquanto ia enchendo os cart\u00f5es automaticamente, sem olhar para<br \/>\nos n\u00fameros, pensava em Maria do Carmo, mordendo com desespero as guias<br \/>\ndo bigoda\u00e7o.<\/p>\n<p>Quando o Zuza, todo gabola e amaneirado, vermelho do calor da luz, gritou<br \/>\nv\u00edspora numa voz triunfante e clara, Jo\u00e3o este quase atirando-lhe<br \/>\ncom o cart\u00e3o. Vieram-lhe desejos imoderados de estourar, de dar esc\u00e2ndalo,<br \/>\ntr\u00eamulo, nervoso, a semicalva reluzente de suor.<\/p>\n<p>Sim senhor, disse secamente devolvendo o cart\u00e3o. Vamos \u00e0 \u00faltima&#8230;<\/p>\n<p>E o jogo continuou. Fez-se novo sil\u00eancio. Agora era o Zuza, o futuro<br \/>\nbacharel, que cantava pausadamente, tirando as pedras com as pontas dos dedos<br \/>\ne colocando-as devagar, cauteloso.<\/p>\n<p>Davam nove horas na S\u00e9 quando todos se ergueram. A Campelinho suplicou<br \/>\nmais uma partida, o Loureiro tamb\u00e9m foi de opini\u00e3o que se jogasse<br \/>\nainda uma vez, todos enfim, desejavam continuar, mas Jo\u00e3o da Mata op\u00f4s-se<br \/>\ntenazmente: que era tarde, tinha muito que escrever.<\/p>\n<p>Uma s\u00f3, meu padrinho, rogou Maria do Carmo tomando-lhe as duas m\u00e3os<br \/>\ne fitando-o com os seus magn\u00edficos olhos cor de azeitona.<\/p>\n<p>O amanuense estremeceu. Agora era a pr\u00f3pria afilhada, a Sra. D. Maria<br \/>\ndo Carmo que lhe pedia com um sorriso extraordin\u00e1rio que jogassem!<br \/>\nE na sua imagina\u00e7\u00e3o acentuava-se a suspeita do namoro com o<br \/>\nestudante.<\/p>\n<p>Curvou-se e proferiu um palavr\u00e3o ao ouvido da rapariga. Estava desesperado,<br \/>\nn\u00e3o se continha.<\/p>\n<p>N\u00e3o senhora, por hoje basta de v\u00edspora!<\/p>\n<p>Todos admiraram a s\u00fabita mudan\u00e7a na sua fisionomia a princ\u00edpio<br \/>\nt\u00e3o alegre.<\/p>\n<p>A mulher do Dr. Mendes, muito afetada, acotovelou o marido e despediu-se<br \/>\n\u201cat\u00e9 a primeira vista\u201d.<\/p>\n<p>Zuza foi o \u00faltimo a retirar-se, fitando em Maria um olhar embebido<br \/>\nde ternura.<\/p>\n<p>A noite estava muito escura e calma. As estrelas tinham um brilho particular,<br \/>\naltas, min\u00fasculas como cabe\u00e7as d\u2019alfinete em papel de<br \/>\nseda escuro. Ouvia-se distintamente, como por um tubo ac\u00fastico, a toada<br \/>\ndos soldados rezando \u00e0 Virgem da Concei\u00e7\u00e3o no quartel<br \/>\nde linha e o marulhar da praia distante. A rua do Trilho, deserta, com sua<br \/>\nilumina\u00e7\u00e3o incompleta, naqueles confins a cidade, parecia um<br \/>\nt\u00fanel subterr\u00e2neo. Fazia medo transitar ali a deshoras.<\/p>\n<p>Assim que se foram os habitu\u00e9s do v\u00edspora, Jo\u00e3o da Mata<br \/>\ndesabafou. Uma patifaria! O Sr. Zuza pretendia sem d\u00favida abusar da<br \/>\nsua confian\u00e7a, plantar a desordem no seio da fam\u00edlia, mas estava<br \/>\nmuito enganado. Ali era casa de gente pobre e honesta. Estava muito enganadinho,<br \/>\nseu pelintra!<\/p>\n<p>Mas eu sei quem \u00e9 a culpada, acrescentou furioso; a culpada \u00e9<br \/>\na Sra. D. Maria do Carmo, por que se atreve a olhar para ele!<\/p>\n<p>Aquilo n\u00e3o podia continuar, o Sr. Zuza n\u00e3o lhe punha mais os<br \/>\np\u00e9s em casa sob o pretexto algum. N\u00e3o se portava s\u00e9rio?<br \/>\nPois ent\u00e3o fora p\u2019ra rua!<\/p>\n<p>Estavam fazendo de sua casa um alcouce! A Sra. D. L\u00eddia vinha namorar<br \/>\no outro \u00e0s suas barbas; j\u00e1 uma vez ca\u00edra-lhe porta dentro<br \/>\numa imund\u00edcie de carta an\u00f4nima denunciando certos abusos.<\/p>\n<p>E col\u00e9rico, soprando o bigode, sacudindo os bra\u00e7os, esmurrando<br \/>\na mesa, berrava, com os olhos na alcova onde sumira-se D. Terezinha.<\/p>\n<p>Maria desaparecera pelo corredor e chorava debru\u00e7ada sobre a mesa<br \/>\ndo jantar, onde ardia uma vela de carna\u00faba.<\/p>\n<p>Que sujeito! gania o amanuense. Pensa ele que n\u00e3o tem mais do que<br \/>\nenfronhar-se num fato de casimira clara, com uma flor no peito, com modos<br \/>\nde safardana, e z\u00e1s! plantar-se na pequena, mas est\u00e1 muito enganado!<br \/>\nAqui estou eu (e batia com for\u00e7a no peito ossudo) para impedir esc\u00e2ndalos<br \/>\nem minha casa!<\/p>\n<p>Debalde D. Terezinha aconselhava, aflita, que n\u00e3o desses esc\u00e2ndalo,<br \/>\nque fosse dormir. \u201cAs paredes t\u00eam ouvidos, dizia ela dentro da<br \/>\nalcova. O mo\u00e7o era filho de gente gra\u00fada, e ele, Janj\u00e3o,<br \/>\num simples empregado p\u00fablico. Tivesse modos. Se houvesse m\u00e1<br \/>\ninten\u00e7\u00e3o por parte do Zuza, ela, Tet\u00e9, seria a primeira<br \/>\na n\u00e3o consentir que ele pisasse o ch\u00e3o de sua casa. Mas, n\u00e3o<br \/>\nsenhor, a gente deve pensar antes de fazer as cousas. P\u2019ra que todo<br \/>\naquele espalhafato, porque semelhante barulho\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata, por\u00e9m, estava fora de si, tinha a cabe\u00e7a<br \/>\na arder como uma brasa. Seu temperamento excessivamente irrit\u00e1vel expandia-se<br \/>\ncom desespero ao mesmo tempo que seu cora\u00e7\u00e3o de homem gasto<br \/>\nsentia pela primeira vez um quer que era, uma agonia, uma sufoca\u00e7\u00e3o<br \/>\nante a possibilidade de um namoro entre o estudante e a afilhada. N\u00e3o<br \/>\nera precisamente receio de que o Zuza pudesse iludir a rapariga desonrando<br \/>\ne atirando-a p\u2019ra a\u00ed ao desprezo; era como revolta do instinto,<br \/>\numa esp\u00e9cie de ego\u00edsmo animal que o torturava, acendendo-lhe<br \/>\ntodas as c\u00f3leras, dominando-o, como se Maria fosse propriedade sua,<br \/>\nexclusivamente sua por direito inalien\u00e1vel. Via-a ca\u00edda pelo<br \/>\nacad\u00eamico, toda voltada para ele, amando-o talvez, preferindo-o a todos<br \/>\nos outros homens, entregando-se-lhe. E o que seria dele, Jo\u00e3o, depois?<br \/>\nNem mais uma beijoca na boquinha rubra e pequenina, nem mais um abra\u00e7o<br \/>\nao voltar da escola, cansadinha, o rosto afogueado pelo calor; nem mais uns<br \/>\ncafun\u00e9s, nem um sorriso daqueles que ela sempre tinha para o padrinho&#8230;<br \/>\nIsto \u00e9 que o desesperava!<\/p>\n<p>Desde a sa\u00edda de Maria do col\u00e9gio das Irm\u00e3s de Caridade<br \/>\ntinha se operado uma mudan\u00e7a admir\u00e1vel nos h\u00e1bitos de<br \/>\nJo\u00e3o da Mata. Ela j\u00e1 era para ele como uma filha; estava quase<br \/>\nmo\u00e7a, incomparavelmente mais bonita e fornida de carnes. J\u00e1<br \/>\nn\u00e3o era, que esperan\u00e7a! aquela Maria do Carmo da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntoda santidade, magrinha, com uma cor esbranqui\u00e7ada e m\u00f3rbida<br \/>\nde cera velha, o olhar macilento, a falar sempre no Padre Reitor e na Superiora<br \/>\ne na Irm\u00e3 Filomena e noutras pieguices. Uma tontinha a Maria naquele<br \/>\ntempo. Quando ia passar o domingo em casa, uma vez no m\u00eas, metia-se<br \/>\npara os fundos do quintal ou pelas camarinhas, muito calada, muito sonsa,<br \/>\na ler a Imita\u00e7\u00e3o; n\u00e3o chegava \u00e0 janela, n\u00e3o<br \/>\naparecia \u00e0s visitas, doida por voltar ao col\u00e9gio. Aquilo punha<br \/>\no padrinho de mau humor. Uma coisa assim fazia at\u00e9 vergonha a ele que<br \/>\ndetestava tudo que cheirasse a sacristia. Porque Jo\u00e3o da Mata dizia-se<br \/>\npensador livre; n\u00e3o acreditava em santos, e maldizia os padres. Jesus,<br \/>\nna sua opini\u00e3o, era uma esp\u00e9cie de mito, uma como legenda m\u00edstica<br \/>\nsem utilidade pr\u00e1tica. Isso de col\u00e9gios internos \u00e0 guisa<br \/>\nde conventos n\u00e3o se acomodava com o seu temperamento. Tamb\u00e9m<br \/>\nfora professor, ol\u00e9! e sabia muito bem o que isso era \u201cum coito<br \/>\nde patifarias\u201d. Queria a educa\u00e7\u00e3o como nos col\u00e9gios<br \/>\nda Europa, segundo vira em certo pedagogista, onde as meninas desenvolvem-se<br \/>\nf\u00edsica e moralmente como a rapaziada de cal\u00e7as, com uma rapidez<br \/>\nadmir\u00e1vel, tornando-se por fim excelentes m\u00e3es de fam\u00edlia,<br \/>\nperfeitas donas de casa, sem a interven\u00e7\u00e3o inquisitorial da<br \/>\nIrm\u00e3 de Caridade. N\u00e3o compreendia (tacanhez de esp\u00edrito<br \/>\nembora) como pudesse instruir-se na pr\u00e1tica da indispens\u00e1vel<br \/>\nda vida social uma criatura educada a toques de sineta, no sil\u00eancio<br \/>\ne na sensaboria de uma casa conventual entre paredes sombrias, com quadros<br \/>\naleg\u00f3ricos das almas do purgat\u00f3rio e das penas do inferno; com<br \/>\no mais lament\u00e1vel desprezo de todas as prescri\u00e7\u00f5es higi\u00eanicas,<br \/>\nse ar nem luz, rezando noite e dia \u201cora pr\u00f3 nobis, ora pr\u00f3<br \/>\nnobis\u201d. Era da opini\u00e3o do Jos\u00e9 Pereira da Prov\u00edncia:<br \/>\n\u201cIrm\u00e3s de Caridade foram feitas para os hospitais\u201d. O diabo<br \/>\n\u00e9 que no Cear\u00e1 n\u00e3o havia col\u00e9gios s\u00e9rios.<br \/>\nA instru\u00e7\u00e3o p\u00fablica estava reduzida a meia d\u00fazia<br \/>\nde conventilhos: uma calamidade pior que a seca. O menino ou menina sa\u00eda<br \/>\nda escola sabendo menos que dantes e mais instru\u00eddo em h\u00e1bitos<br \/>\nvergonhosos. As melhores fam\u00edlias sacudiam as filhas Imaculada Concei\u00e7\u00e3o<br \/>\ncomo \u00fanico recurso para n\u00e3o v\u00ea-las completamente ignorantes<br \/>\ne pervertidas. Afinal, para n\u00e3o contrariar o Mendon\u00e7a, que queria<br \/>\na filha para santa, metera Maria do Carmo no \u201cconvento\u201d.<\/p>\n<p>D. Terezinha participava das mesmas id\u00e9ias de Janj\u00e3o. Uma menina<br \/>\ninteligente como Maria devia educar-se no Rio de Janeiro ou num col\u00e9gio<br \/>\nparticular, mas um col\u00e9gio onde ela pudesse aprender o \u201ctraquejo<br \/>\nsocial\u201d. Pode ser que as Irm\u00e3s sejam umas mulheres virtuos\u00edssimas<br \/>\ne castas, ma filha sua n\u00e3o punha os p\u00e9s em col\u00e9gio de<br \/>\nfreiras&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata detestava a padraria. Dava-se apenas com um padre, o<br \/>\nc\u00f4nego Feitosa, porque, dizia ele, era um sacerdote sem hipocrisia,<br \/>\num padre como ele entendia que deviam ser todos os padres, asseado, inimigo<br \/>\nda batina, com afilhadas em casa&#8230; E porque n\u00e3o? Os padres s\u00e3o<br \/>\nfisicamente (e sublinhava a palavra), anatomicamente, fisiologicamente, homens<br \/>\ncomo os outros; t\u00eam cora\u00e7\u00e3o, \u00f3rg\u00e3os sexuais,<br \/>\nnervos como os outros homens. Portanto, assiste-lhes o mesm\u00edssimo direito<br \/>\nde procria\u00e7\u00e3o, direito natural e at\u00e9 consagrado pela<br \/>\nEscritura. O contr\u00e1rio \u00e9 contrafazer a natureza humana que,<br \/>\nafinal, n\u00e3o obedece a preceitos de castidade. D\u2019a\u00ed, conclu\u00eda<br \/>\nJo\u00e3o, d\u2019a\u00ed o desregramento das classes religiosas condenadas<br \/>\na eterno celibato. O pr\u00f3prio Cristo dissera numa par\u00e1bola cheia<br \/>\nde senso e experi\u00eancia : \u201cCrescei e multiplicai-vos\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPor amor de Deus\u201d n\u00e3o lhe falassem em padres. A educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmoderna, a educa\u00e7\u00e3o livre, sem interven\u00e7\u00e3o da<br \/>\nbatina eis o que ele queria e apregoava alto e bom som.<\/p>\n<p>Havia meses que Maria do Carmo cursava a Escola Normal. Sua vida agora traduzia-se<br \/>\nem ler romances que pedia emprestados a L\u00eddia, toda preocupada com<br \/>\nbailes, passeios, modas e tutti quanti&#8230; Ia \u00e0 Escola todos os dias<br \/>\nvestidinha com simplicidade, muito limpa, mangas curtas evidenciando o meio<br \/>\nbra\u00e7o moreno e roli\u00e7o, em cabelo, o guarda-sol de seda na m\u00e3o,<br \/>\npor ali afora toc, toc, toc at\u00e9 a pra\u00e7a do Patroc\u00ednio,<br \/>\ncomo uma grande senhora independente.<\/p>\n<p>Agora, sim, pensava o amanuense, Maria estava uma mocetona digna de figurar<br \/>\nem qualquer sal\u00e3o aristocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>A fama da normalista encheu depressa toda a capital. N\u00e3o se compreendia<br \/>\ncomo uma simples retirante sa\u00edda h\u00e1 pouco das Irm\u00e3s de<br \/>\nCaridade fosse t\u00e3o bem feita de corpo, t\u00e3o desenvolta e insinuante.<br \/>\nAs outras normalistas tinham-lhe inveja e faziam pirra\u00e7as. Nas reuni\u00f5es<br \/>\ndo Club Iracema era ela a preferida dos rapazes, todos a procuravam.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata inflava. Certo n\u00e3o a entregaria por pre\u00e7o<br \/>\nalgum a qualquer rapazola como o filho do coronel Souza Nunes.<\/p>\n<p>Entretanto o Zuza era um rapaz da moda. Montava a cavalo, fazia versos, assinava<br \/>\na Gazeta Jur\u00eddica, freq\u00fcentava o pal\u00e1cio do presidente&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o conhecera-o uma noite no baile do Dr. Castro. Havia meses que<br \/>\nse achava em Fortaleza estudando o quinto ano de direito e gozando a sua fama<br \/>\nde rapaz rico. \u00c0s seis horas da tarde j\u00e1 l\u00e1 estava no<br \/>\nTrilho, em casa do amanuense, queixando-se da monotonia da vida cearense e<br \/>\ngabando, com ares de fidalgo, a capital de Pernambuco. Ali, sim, a gente pode<br \/>\nviver, pode gozar. Muito progresso, muito divertimento: corridas de cavalos,<br \/>\numa sociedade papa-fina muit\u00edssimo bem educada, magn\u00edficos arrabaldes,<br \/>\ncerto bom gosto nas toilettes, nos costumes, certas comodidades que ainda<br \/>\nn\u00e3o havia no Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Ao que parece o Sr. Zuza n\u00e3o gosta do Cear\u00e1&#8230; disse-lhe um<br \/>\ndia D. Terezinha.<\/p>\n<p>Absolutamente n\u00e3o, minha senhora. Sou meio exigente em mat\u00e9ria<br \/>\nde civiliza\u00e7\u00e3o; isto me parece ainda uma terra de bugres&#8230;<\/p>\n<p>De bugres!?<\/p>\n<p>&#8230; Sim, uma terra em que s\u00f3 se fala nas secas e no pre\u00e7o da<br \/>\ncarne verde, V. Excia. compreende, n\u00e3o pode corresponder \u00e0s<br \/>\nexpectativas d\u2019um rapaz de certa ordem, por assim dizer educado na Veneza<br \/>\nAmericana&#8230;<\/p>\n<p>Deste modo o Sr. Zuza ofende os seus conterr\u00e2neos, os seus parentes.<\/p>\n<p>Absolutamente n\u00e3o.<\/p>\n<p>O que dizia \u00e9 que o Recife est\u00e1 em um plano superior a Fortaleza.<br \/>\nApenas estabelecia um paralelo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata achava-o pedante, desequilibrado, tolo. \u201cN\u00e3o,<br \/>\no Sr. Zuza n\u00e3o lhe punha mais os p\u00e9s em casa por forma alguma!\u201d<br \/>\nbradava naquela noite.<\/p>\n<p>Maria continuava a chorar l\u00e1 dentro, na sala de jantar, inconsol\u00e1vel,<br \/>\ntriste, com um grande desgosto nalma. De repente ouviu a voz do padrinho que<br \/>\na chamava. Ergueu-se com um movimento brusco e r\u00e1pido, o len\u00e7o<br \/>\nnos olhos, solu\u00e7ando devagar.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o quis saber onde estava \u201ca carta que o Zuza lhe havia entregue\u201d.<br \/>\nBotasse p\u2019r\u2019ali, j\u00e1!<\/p>\n<p>Tr\u00eamula, abafando a c\u00f3lera que lhe oprimia a respira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nMaria n\u00e3o podia falar.<\/p>\n<p>Vamos, vamos!<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho carta alguma, disse num acento doloroso.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata sentiu atar-se-lhe o fogo da concupisc\u00eancia. Teve<br \/>\n\u00edmpetos de tomar entre as m\u00e3os a cabe\u00e7a da afilhada e<br \/>\nbeij\u00e1-la, beij\u00e1-la sofregamente, com a f\u00faria de um selvagem,<br \/>\nno pesco\u00e7o, na boca, nos olhos&#8230; \u00edmpetos de beij\u00e1-la<br \/>\ntoda inteira, como um doido. Maria dominava-o, fazia-lhe perder a tramontana.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o aquele bandido n\u00e3o lhe entregou uma carta por debaixo<br \/>\nda mesa, no v\u00edspora? Entregou, sim senhora, d\u00ea-m\u2019a!<\/p>\n<p>N\u00e3o senhor, n\u00e3o me entregou coisa alguma, tornou a normalista,<br \/>\nsem levantar a cabe\u00e7a, fungando.<\/p>\n<p>Estavam em frente um do outro, ao p\u00e9 da mesa. As portas da sala j\u00e1<br \/>\ntinham-se fechado; ele com o palet\u00f3 aberto mostrando a camisa-de-meia<br \/>\ncor de carne, o olhar fixo em Maria; ela com o seu vestidinho claro de chita,<br \/>\ncabelos penteados numa tran\u00e7a, aca\u00e7apada, submissa ante a c\u00f3lera<br \/>\nrude do padrinho.<\/p>\n<p>Pois bem, concluiu este moderando a voz. Tome sentido: vocemec\u00ea n\u00e3o<br \/>\nme aparece mais \u00e0quele cabrocha, est\u00e1 ouvindo?<\/p>\n<p>E depois d\u2019uma pausa, com ternura:<\/p>\n<p>V\u00e1 dormir, ande&#8230;<\/p>\n<p>Soprou o g\u00e1s e foi deitar-se com a mulher, na alcova.<\/p>\n<p>Pois n\u00e3o achas, Tet\u00e9, dizia ele em camisa de dormir, aconchegado<br \/>\na D. Terezinha na larga cama de jacarand\u00e1; n\u00e3o achas que \u00e9<br \/>\num desaforo aquele patife vir \u00e0 nossa casa para namorar?<\/p>\n<p>N\u00e3o, que tolice. O Zuza at\u00e9 \u00e9 um rapaz s\u00e9rio&#8230;<br \/>\nVem, coitado, porque nos estima&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 boa! fez Jo\u00e3o. Ent\u00e3o vem porque nos estima, hein?<br \/>\nEsta c\u00e1 me fica, Sra. D. Tet\u00e9, esta c\u00e1 me fica!<\/p>\n<p>Homem, trate de suas hemorr\u00f3idas que \u00e9 melhor&#8230;<\/p>\n<p>Ora, sabe que mais? Voc\u00ea \u00e9 outra!<\/p>\n<p>E deram-se as costas fazendo ranger a cama.<\/p>\n<p>Com pouco ambos roncavam no discreto sil\u00eancio da alcova.<\/p>\n<p>Sobre a c\u00f4moda, ao p\u00e9 do orat\u00f3rio, ardia uma lamparina<br \/>\nde azeite.<\/p>\n<h4><a name=\"2\"><\/a>Cap\u00edtulo II<\/h4>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi numa tarde infinitamente calma de dezembro de 1877 que o capit\u00e3o<br \/>\nBernardino de Mendon\u00e7a chegou a Fortaleza pela estrada nova de Mecejana,<br \/>\ndepois de penos\u00edssima viagem.<\/p>\n<p>A seca dizimava popula\u00e7\u00f5es inteiras nos sert\u00e3o. Fam\u00edlias<br \/>\nsucumbiam de fome e de peste, castigado por um sol de brasa. Centenas de foragidos,<br \/>\narrastando os esqueletos seminus, cruzavam-se dia e noite no areial incandescente<br \/>\ndos caminhos abantesmas das desgra\u00e7a gemendo preces ao Deus dos crist\u00e3o,<br \/>\nnuma voz rouquenha, quase solu\u00e7ada. Era um horror de mis\u00e9rias<br \/>\ne afli\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Bernardino de Mendon\u00e7a foi dos \u00faltimos que abalaram do interior<br \/>\nda prov\u00edncia para o litoral na pista dos socorros p\u00fablicos.<br \/>\nTotalmente desiludido, quase arruinado, vendo todos os dias passarem pela<br \/>\nsua porta, em Campo Alegre, magotes de emigrantes andrajosos que batiam do<br \/>\nsert\u00e3o num \u00eaxodo pungente, acossados pela necessidade, resolvera<br \/>\ntamb\u00e9m ir-se com a fam\u00edlia para Fortaleza, embora mais tarde<br \/>\nfosse obrigado a procurar outros climas.<\/p>\n<p>Era homem sadio, vigoroso, excessivamente trabalhador e dedicado. Contava<br \/>\na esse tempo quarenta anos, nada mais nada menos, e dizia com soberba, gabando<br \/>\no peito rijo, n\u00e3o se trocar por muito rapazola pimp\u00e3o que a\u00ed<br \/>\nvive nas cidades grandes caindo de t\u00e9dio e pregui\u00e7a, cheio de<br \/>\nv\u00edcios secretos. Corria-lhe nas veias largas e azuis de matuto inteligente<br \/>\npuro e abundante sangue portugu\u00eas. Nunca sofrera a mais leve dor de<br \/>\ncabe\u00e7a. Conhecia a s\u00edfilis por ouvir falar. Casara muito mo\u00e7o,<br \/>\nimberbe ainda, aos dezesseis anos, com uma prima colateral, D. Eul\u00e1lia<br \/>\nde Mendon\u00e7a Furtado, de uma fam\u00edlia de Furtados da Telha. At\u00e9<br \/>\nent\u00e3o s\u00f3 tivera tr\u00eas filho, um dos quais, o mais velho,<br \/>\nchamado Louren\u00e7o, fora recrutado para o ex\u00e9rcito por peralta<br \/>\nincorrig\u00edvel. Outro, o Casimiro, mais rude e tamb\u00e9m mais obediente,<br \/>\nvivia com os pais, era mesmo o vaqueiro de Mendon\u00e7a, que descobrira<br \/>\nnele especial voca\u00e7\u00e3o para esse ingl\u00f3rio trabalho de<br \/>\nandar atr\u00e1s das boiadas ec\u00f4! ec\u00f4! metido em couros, chapinhando<br \/>\na\u00e7udes e lagoas, galopando \u00e0 brida solta nas v\u00e1rzeas,<br \/>\nao ar fresco das manh\u00e3s do norte, identificado por assim dizer, com<br \/>\no mugir nost\u00e1lgico e penoso do gado. Desde menino, o pai acostumara-o<br \/>\n\u00e0 vida alegre do campo, e agora a\u00ed vinha tamb\u00e9m, Deus<br \/>\no sabe, triste e apreensivo, caminho da capital cearense, no seu pedr\u00eas<br \/>\nchout\u00e3o, escanchado entre dois grandes alforjes de farinha e carne<br \/>\nsalgada.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo nascera Maria do Carmo, o \u00faltimo filho do Mendon\u00e7a,<br \/>\na ca\u00e7ula. Em 1877 completara seis anos, e para felicidade dos pais,<br \/>\nera uma crian\u00e7a verdadeiramente encantadora, com seu arzinho ing\u00eanuo<br \/>\ne meio de sertaneja. A cor, os olhos, os dentes, o cabelo tudo nela era um<br \/>\nencanto: olhos puxados para negros, dentes miudinhos e de um brancura de algod\u00e3o<br \/>\nem rama, cabelos negros e luzidios como a asa da gra\u00fana moreno-clara.<br \/>\nCrescia sem outra educa\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser a que lhe davam<br \/>\nos pais, de modo que, naquela idade, mal soletrava a Doutrina Crist\u00e3.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a abalara de Campo Alegre quando de todo lhe tinham fugido<br \/>\nas esperan\u00e7as d\u2019inverno seguro, depois de ter visto estrebuchar<br \/>\na \u00faltima r\u00eas no solo duro e est\u00e9ril.<\/p>\n<p>Todas as tardes, invariavelmente, da janela que dizia para o poente, ou em<br \/>\np\u00e9 na varanda, consultava o tempo, os horizontes cor de cinza, o c\u00e9u<br \/>\nd\u2019um azul di\u00e1fano de safira, procurando bispar na inclem\u00eancia<br \/>\nda atmosfera im\u00f3vel a sombra fresca de uma nuvem, um ind\u00edcio<br \/>\nqualquer de chuva.<\/p>\n<p>Surpreendia, \u00e0s vezes, crivando a transpar\u00eancia do ar, revoadas<br \/>\nd\u2019aves de arriba\u00e7\u00e3o. Recolhia-se animado. Mas os dias<br \/>\npassavam quentes e seco.<\/p>\n<p>Outras vezes, \u00e0 noitinha, clar\u00f5es r\u00e1pidos e l\u00edvidos<br \/>\nabriam-se no poente como reflexos de luz el\u00e9trica; ouvia-se rolar a<br \/>\ntrovoada muito ao longe. Mendon\u00e7a punha-se a escutar calado, sentia<br \/>\num como arrepio bom, e l\u00e1 tornava a iludir-se alimentando, toda uma<br \/>\nnoite, a doce esperan\u00e7a de ver pela manh\u00e3 o solo \u00famido<br \/>\ne a rama brotando verde e pujante da \u201cfornalha\u201d. Mas qual! As<br \/>\nmanh\u00e3s sucediam-se cada vez mais t\u00e9pidas, sem pingo d\u2019\u00e1gua,<br \/>\numa aragem leve, de cemit\u00e9rio, arrepiando a folhagem do arvoredo. Um<br \/>\nc\u00e9u muito alto, varrido, mon\u00f3tono, indecifr\u00e1vel como<br \/>\num dogma.<\/p>\n<p>E pouco a pouco aquele estado de coisas foi atuando forte no esp\u00edrito<br \/>\ndo sertanejo, como as vibra\u00e7\u00f5es d\u2019um clarim que d\u00e1<br \/>\nsinal de marcha; pouco a pouco foi se convencendo que aquilo era uma situa\u00e7\u00e3o<br \/>\nimposs\u00edvel em que ele n\u00e3o devia absolutamente permanecer.<\/p>\n<p>Os a\u00e7udes estorricavam mostrando os leitos gretados pelo sol, duros<br \/>\ncomo pedra, juritis encadeadas iam espapa\u00e7ar ofegantes no ch\u00e3o,<br \/>\ndefronte da casa; cascav\u00e9is chocalhavam no alpendre, ocultas, invis\u00edveis,<br \/>\ne todas as coisas tinham um aspecto desolado e l\u00fagubre que se comunicava<br \/>\n\u00e0s criaturas.<\/p>\n<p>Passava gente todo santo dia, a p\u00e9, de trouxa ao ombro, arrastando-se<br \/>\npesadamente.<\/p>\n<p>Uma vez, ele pr\u00f3prio, Mendon\u00e7a, vira de perto a agonia lenta<br \/>\nde uma mulher asfixiada pela elefant\u00edasis pernas inchadas, ventre inchado,<br \/>\nrosto inchado horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Decididamente era tempo de arrumar tamb\u00e9m \u201cos seus cacos\u201d<br \/>\ne adeus, Campo Alegre, adeus, carnaubais rumorejantes; adeus, igrejinha branca!<br \/>\nIr-se-ia fazer pela vida em qualquer parte, em Fortaleza, onde felizmente<br \/>\ncontava amigos pol\u00edticos, correligion\u00e1rios dedicados que certamente<br \/>\nlhe n\u00e3o recusariam uma acha de lenha, uma pouca d\u2019\u00e1gua<br \/>\nfresca, um punhado de farinha&#8230; Demais era homem, gra\u00e7as a Deus, forte<br \/>\ncomo um novilho, tinha sangue nas veias trabalharia!<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo lembrava-se da \u201csua velha\u201d, da Eul\u00e1lia,<br \/>\nque andava adoentada, com umas pontadas no cora\u00e7\u00e3o, muito fraca<br \/>\ne cuja natureza talvez n\u00e3o resistisse \u00e0s fadigas d\u2019uma<br \/>\nviagem longa; pensava em Maria do Carmo, sua filha querida, a menina dos seus<br \/>\nolhos, t\u00e3o nova ainda, e punha-se a meditar nos horrores da seca, nas<br \/>\nfebres de mau car\u00e1ter, na quase absoluta falta d\u2019\u00e1gua,<br \/>\ncom um desalento a aniquilar-lhe as for\u00e7as, a dobrar-lhe a altivez<br \/>\nde forte. Depois tornava ao mesmo fio de id\u00e9ias: n\u00e3o, aquele<br \/>\ninferno do sert\u00e3o, com um raio de tempo medonho, seria talvez pior,<br \/>\nseria a sua desgra\u00e7a. De si para si media, calculava meticulosamente<br \/>\ntoda a gravidade da situa\u00e7\u00e3o a que chegara. N\u00e3o havia<br \/>\noutro recurso, outro jeito sen\u00e3o marchar para a capital, para onde<br \/>\nquer que fosse, como tantos outros infelizes empolgados pela mis\u00e9ria.<br \/>\nIria, que rem\u00e9dio? bater \u00e0 porta de um amigo, de um correligion\u00e1rio,<br \/>\nde um crist\u00e3o. Lembrou-se ent\u00e3o do \u201ccompadre Jo\u00e3o<br \/>\nda Mata\u201d, padrinho de Maria.<\/p>\n<p>Muito bom: iria ao compadre.<\/p>\n<p>Arribaram de manh\u00e3, muito cedo, ao romper d\u2019alva. Os cavalos,<br \/>\nmagros e ruins, romperam num trote mi\u00fado . Ao passarem defronte da<br \/>\nigrejinha do povoado, um pobre nicho todo fechado, com suas janelinhas por<br \/>\npintar, solit\u00e1rio como uma coisa in\u00fatil, D. Eul\u00e1lia ciciou<br \/>\numa ora\u00e7\u00e3o, e os outros, Mendon\u00e7a e Casimiro, descobriram-se<br \/>\ncom respeito.<\/p>\n<p>Entraram por uma estrada de areia que se prolongava indefinidamente, torcendo<br \/>\ne retorcendo-se em ziguezagues, ocultando-se aqui para brilhar l\u00e1 adiante<br \/>\npor cima da floresta im\u00f3vel, como uma enorme serpente amarela dormindo<br \/>\nao sol&#8230;<\/p>\n<p>As pisadas dos animais abafavam-se na areia, e apequena caravana sumia-se<br \/>\nna dist\u00e2ncia&#8230;<\/p>\n<p>Ao cabo de doze longos dias em que paravam para repousar \u00e0 sombra<br \/>\nd\u2019alguma \u00e1rvore que ainda verdejava ou nalguma palho\u00e7a<br \/>\nabandonada, avistaram o campan\u00e1rio branco e alegre do Cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Jesus, direito e esguio, como o minarete de um templo mu\u00e7ulmano,<br \/>\ndestacando na meia sombra crepuscular, esbatido pela irradia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo sol que tombava glorioso ao fundo da tarde pardacenta.<\/p>\n<p>Morria no ar calmo o dobre melanc\u00f3lico de um sino&#8230;<\/p>\n<p>Flutuava um cheiro vago de cousas podres. Para as bandas do Paje\u00fa<br \/>\nardiam restos de fogueiras a extinguir-se.<\/p>\n<p>Uma tarde infinitamente clama, essa&#8230;<\/p>\n<p>Havia oito anos que isto fora, mas nos seus momentos de des\u00e2nimo, Maria<br \/>\ndo Carmo punha-se a relembrar toda essa trag\u00e9dia de sua inf\u00e2ncia.<br \/>\nOlhava para o passado com a alma cheia de saudade, recordando, tim-tim por<br \/>\ntim-tim, como se estivesse lendo num livro, ninharias, minud\u00eancias de<br \/>\nsua vida naqueles tempos em que ela, pobre e matutinha, via tudo cor de rosa<br \/>\natrav\u00e9s do prisma l\u00edmpido e imaculado de sua meninice. Transportava-se,<br \/>\nnum v\u00f4o da imagina\u00e7\u00e3o, a Campo Alegre, e via-se, como<br \/>\npor um \u00f3culo de ver ao longe, ao lado da mam\u00e3e, costurando quieta<br \/>\nou soletrando a Cartilha, ou na novena do Senhor do Bonfim, muito limpa, com<br \/>\no seu vestidinho de chita que lhe dera o Sr. vig\u00e1rio. Lembrava-se do<br \/>\npapai, quando voltava do ro\u00e7ado,. de camisa e ceroula, chap\u00e9u<br \/>\nde palha de carna\u00faba, tostado, trigueiro do sol, contando hist\u00f3rias<br \/>\nde on\u00e7as e maracaj\u00e1s&#8230;<\/p>\n<p>Recapitulava mentalmente, com uma precis\u00e3o cronol\u00f3gica, toda<br \/>\na sua vida e ficava horas e horas em cisma, a pensar como se tivesse perdido<br \/>\no ju\u00edzo&#8230; Nas Irm\u00e3s de Caridade \u00e9 que lhe sobrava tempo<br \/>\npara isso. Vinham-lhe \u00e0 mente os epis\u00f3dios da viagem: uma grande<br \/>\ncobra cascavel que o papai matara ao p\u00e9 d\u2019uma \u00e1rvore,<br \/>\n\u00e0 faca; as dificuldades que encontraram no caminho; um ceguinho que<br \/>\ncantava na estrada sem ter o que comer&#8230;<\/p>\n<p>Nunca mais lhe sa\u00edra da cabe\u00e7a um retirante que ela vira estendido<br \/>\nno meio do caminho, sobre o areal quente , ao meio dia em ponto, morto, e<br \/>\ncompletamente nu, com os olhos j\u00e1 comidos pelos urubus, os intestinos<br \/>\nfora, devorado pelas varejeiras&#8230; Que feio aquilo!<\/p>\n<p>N\u00e3o era m\u00e1, de resto, a sua vida agora, em casa dos padrinhos,<br \/>\nn\u00e3o era, mas se fosse poss\u00edvel tornar a ser crian\u00e7a,<br \/>\nrenascer e viver outra vez em Campo Alegre&#8230;<\/p>\n<p>No dia seguinte ao da chegada \u00e0 capital, D. Eul\u00e1lia morrera<br \/>\nd\u2019uma s\u00edncope card\u00edaca. Maria lembrava-se muito bem: a<br \/>\nmam\u00e3e fora para o cemit\u00e9rio na padiola da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia,<br \/>\ntoda de preto&#8230; Parecia v\u00ea-la ainda, com os olhos fundos, entreabertos,<br \/>\nm\u00e3os cruzadas sobre o peito, dentro do esquife&#8230;<\/p>\n<p>Tempos depois vira-a em sonho, numa nuvem de incenso, cercada d\u2019anjos<br \/>\ncom um manto azul recamado de estrelas, subindo para o c\u00e9u&#8230; Por sinal<br \/>\nacordou sobressaltada, chamando pela madrinha, encolhendo-se na rede, fria<br \/>\nde medo.<\/p>\n<p>Dias depois Mendon\u00e7a embarcara para o norte. Ainda acabrunhado pelo<br \/>\ndesgosto que lhe trouxera a morte quase repentina da mulher, manifestou a<br \/>\nJo\u00e3o da Mata desejos d\u2019ir tentar fortuna onde quer que fosse.<br \/>\nN\u00e3o podia continuar no Cear\u00e1, vi\u00favo e ocioso, de bra\u00e7as<br \/>\ncruzados, sem dinheiro, olhando para o tempo, decididamente n\u00e3o podia<br \/>\ncontinuar. Mas havia uma dificuldade a Maria. Se o compadre quisesse tomar<br \/>\na menina, encarregar-se de sua educa\u00e7\u00e3o, mediante uma mesada,<br \/>\num pequeno aux\u00edlio&#8230;<\/p>\n<p>O amanuense aceitou. Que fosse imediatamente para o norte. A vida no Cear\u00e1<br \/>\nn\u00e3o valia cois\u00edssima alguma. O Par\u00e1, sim, aquilo \u00e9<br \/>\nque \u00e9 terra de fartura e de dinheiro. Um homem trabalhador e honesto,<br \/>\ncomo o compadre, com uma pouca experi\u00eancia, podia enricar da noite para<br \/>\no dia. Os seringais, conhecia os seringais? eram uma mina da Calif\u00f3rnia.<br \/>\nTantos fossem quantos voltavam recheados, de m\u00e3o no bolso e cabe\u00e7a<br \/>\nerguida. E o Cear\u00e1? Fome e mis\u00e9ria somente. Num m\u00eas morriam<br \/>\ntr\u00eas mil pessoas, eram mortos a dar com o p\u00e9, morria gente at\u00e9<br \/>\ndefronte do pal\u00e1cio do governo, uma l\u00e1stima!<\/p>\n<p>E acrescentou que o Cear\u00e1 era boa terra para os pol\u00edticos e<br \/>\nrica\u00e7os, que o pobre em Fortaleza, ainda que pesasse quilogramas d\u2019honradez,<br \/>\nera sempre o pobre, maltratado, espezinhado, ridicularizado, perseguido, enquanto<br \/>\nque o indiv\u00edduo mais ou menos endinheirado podia contar amplamente,<br \/>\nlargamente (e abria os bra\u00e7os) com a simpatia geral;: tinha ingresso<br \/>\nem todos os sal\u00f5es, em toda a parte, at\u00e9 no \u201csantu\u00e1rio<br \/>\nda fam\u00edlia\u201d, fosse ele, embora, um patife, um grand\u00edssimo<br \/>\ncanalha. Usava chap\u00e9u alto e gravata branca? Tinha um t\u00edtulo<br \/>\nde bacharel? N\u00e3o fizesse cerim\u00f4nia, podia entrar onde quisesse.<br \/>\n\u00be \u201cUma terra de famintos, seu compadre! Fome, mis\u00e9ria<br \/>\ne patifaria era o que se via\u201d. Com a Maria do Carmo n\u00e3o tivesse<br \/>\ncuidado; ele, Jo\u00e3o da Mata, havia de trat\u00e1-la como filha, n\u00e3o<br \/>\nlhe faltaria nada; teria para ela todas as car\u00edcias, todos os afagos<br \/>\nde um pai. Mendon\u00e7a podia mesmo demorar o tempo que quisesse no Par\u00e1,<br \/>\nanos s\u00e9culos&#8230; a menina ficava em casa de gente s\u00e9ria, pobre,<br \/>\n\u00e9 verdade, mas honrada.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed a dias, um domingo<br \/>\nde muito sol e muito vento, realizou-se o embarque do capit\u00e3o Mendon\u00e7a<br \/>\ne Casimiro.<\/p>\n<p>Os conselhos de Jo\u00e3o calaram muito forte no \u00e2nimo forte e resoluto<br \/>\ndo sertanejo, cuja confian\u00e7a no compadre era ilimitada. Sabia-o conhecido<br \/>\nem quase todo o Cear\u00e1, estimado mesmo por pessoas de bem, admirava-lhe<br \/>\nmuito o \u201ccora\u00e7\u00e3o generoso\u201d e democrata, por tal<br \/>\nforma que Jo\u00e3o se lhe afigurou o \u00fanico homem capaz de concorrer<br \/>\npara a felicidade de sua filha reflex\u00f5es nascida da boa-f\u00e9 e<br \/>\nda inexperi\u00eancia da vida social, que enchiam de \u00edntima e doce<br \/>\nconsola\u00e7\u00e3o a alma ing\u00eanua e simples do sertanejo.<\/p>\n<p>Mendon\u00e7a conhecia Fortaleza superficialmente; suas viagens \u00e0<br \/>\ncapital tinham sido rar\u00edssimas; viera vezes contadas a neg\u00f3cios.<br \/>\nSabia os homens propensos aos mal, por mais duma vez ele pr\u00f3prio fora<br \/>\nv\u00edtima da ingratid\u00e3o e indiv\u00edduos que se diziam seus<br \/>\namigos e a quem fizera grandes benef\u00edcios; por\u00e9m, a vida ruidosa<br \/>\ne dissoluta das capitais, esse tumultuar quotidiano de virtudes fingidas e<br \/>\nv\u00edcios inconfess\u00e1veis, esse tropel de paix\u00f5es desencontradas,<br \/>\nisso que constitui, por assim dizer, a maior felicidade do g\u00eanero humano,<br \/>\nesse acervo de mentiras galantes e torpezas dissimuladas, esse corti\u00e7o<br \/>\nde vespas que se denomina sociedade, desconhecia-o ele e nem sequer imaginava.<br \/>\nL\u00e1, no seu tranq\u00fcilo recanto de Campo Alegre, onde s\u00f3 de<br \/>\nlonge em longe chegava o eco da vida elegante, ouvira falar em mulheres que<br \/>\ntraiam maridos, filhos que assassinavam os pais, incestos de irm\u00e3os,<br \/>\nhomens que negociavam com a pr\u00f3pria honra&#8230; e tudo isso parecia-lhe<br \/>\nsimples \u201cinven\u00e7\u00e3o das gazetas\u201d, romances de sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nque ele ruminava devagar e esquecia depressa.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma grande alma aquele Mendon\u00e7a!\u201d admiravam<br \/>\nos amigos.<\/p>\n<p>E era-o.<\/p>\n<p>Resolvera como que recome\u00e7ar a vida, esquecer o passado, recuperar<br \/>\no tempo perdido, trabalhando como um mouro, entregando-se ao labor com todas<br \/>\nsuas for\u00e7as, dia e noite, sem descanso, nas florestas do Par\u00e1.<\/p>\n<p>E l\u00e1 se fora barra fora, mais o Casimiro, na proa d\u2019um vapor<br \/>\nbrasileiro, honrado e obscuro, no meio de dezenas de emigrantes que, como<br \/>\nele, iam fazer pela vida at\u00e9&#8230; sabiam l\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Antes de embarcar teve cuidados maternais para a filha. Comprou pe\u00e7as<br \/>\nde chita, rendas, fitas, bugigangas, fantasias, tudo escolhido, tudo bom,<br \/>\ne uma maleta americana. Chamou-a \u00e0 parte, beijou-a na testa e disse-lhe<br \/>\ncom os olhos cheios d\u2019\u00e1gua e a voz tr\u00eamula \u201cque o<br \/>\npapai havia de voltar se Deus quisesse, que ela fosse boa e obediente aos<br \/>\npadrinhos, que estudasse, estudasse muito, porque era feio uma mulher ignorante,<br \/>\ne, finalmente, que n\u00e3o esquecesse rezar por alma da mam\u00e3e&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Maria lembrava-se de tudo.<\/p>\n<p>Depois ela ficara sozinha em companhia dos padrinhos.<\/p>\n<p>Nesse tempo moravam na rua de Baixo. Tinha-se mudado tudo: morrera-lhe a<br \/>\nm\u00e3e, morrera-lhe o pai d\u2019uma febre, no alto Purus. O Casimiro,<br \/>\nningu\u00e9m dava not\u00edcia d\u2019ele, nunca mais voltara&#8230;O Louren\u00e7o,<br \/>\nesse, ela n\u00e3o conhecia andava no sul feito soldado. Estava s\u00f3,<br \/>\npor assim dizer, numa casa alheia. E, contudo, podia dizer que n\u00e3o<br \/>\ntinha tristezas, uma ou outra vez \u00e9 que se punha a pensar no passado,<\/p>\n<p>Depois que sa\u00edra da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o a vida n\u00e3o<br \/>\nlhe era de todo m\u00e1. Ora estava no piano, ensaiando trechos de m\u00fasica<br \/>\nem voga, ora sa\u00eda a passear com a L\u00eddia Campelo, de quem era<br \/>\nmuito amiga, amiga de escola, ora lia romances&#8230; Ultimamente a L\u00eddia<br \/>\ndera-lhe a ler O Primo Bas\u00edlio, recomendando muito cuidado: \u201cque<br \/>\nera um livro obsceno\u201d, lesse escondido e havia de gostar muito. \u201cImagina<br \/>\num sujeito bilontra, uma esp\u00e9cie de Jos\u00e9 Pereira, sabes? o Jos\u00e9<br \/>\nPereira da Prov\u00edncia, sempre muito bem vestido, pastinhas, mon\u00f3culo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o contes, atalhou Maria, tomando o livro \u00be quero eu mesmo<br \/>\nler&#8230; Gostaste?<\/p>\n<p>Mas muito! Que linguagem, que observa\u00e7\u00e3o, que rigor de cr\u00edtica!&#8230;<br \/>\nTem um defeito \u00e9 escabroso demais.<\/p>\n<p>Onde foste tu descobrir esta maravilha, criatura?<\/p>\n<p>\u00c9 da mam\u00e3e. Vi-o na estante, peguei, li-o.<\/p>\n<p>Maria folheou ao acaso aquela obra prima, disposta a devor\u00e1-la. E,<br \/>\ncom efeito, leu-a de fio a pavio, p\u00e1gina por p\u00e1gina, linha por<br \/>\nlinha, palavra por palavra, devagar, demoradamente.<\/p>\n<p>Uma noite, o padrinho quase a surpreendeu no quarto, deitada, com o romance<br \/>\naberto, \u00e0 luz d\u2019uma vela. Porque ela s\u00f3 lia o Primo Bas\u00edlio<br \/>\n\u00e0 noite, no seu misterioso quartinho no meio da casa pegado \u00e0<br \/>\nsala de jantar.<\/p>\n<p>Que regalo todas aquelas cenas da vida burguesa! Toda aquela complicada hist\u00f3ria<br \/>\ndo Para\u00edso!&#8230; A primeira entrevista de Bas\u00edlio com Luiza causou-lhe<br \/>\numa sensa\u00e7\u00e3o estranha, uma extraordin\u00e1ria superexcita\u00e7\u00e3o<br \/>\nnervosa; sentiu um como formigueiro nas pernas, titla\u00e7\u00f5es em<br \/>\ncertas partes do corpo, prurido no bico dos seios p\u00faberes; o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nbatia-lhe apressado, uma nuvem atravessou-lhe os olhos&#8230; Terminou a leitura<br \/>\ncansada, como se tivesse acabado de um gozo infinito&#8230; E veio-lhe \u00e0<br \/>\nmente o Zuza; se pudesse ter uma entrevista com o Zuza e fazer de Luiza&#8230;<\/p>\n<p>At\u00e9 aquela data s\u00f3 lera romances de Jos\u00e9 de Alencar,<br \/>\npor uma esp\u00e9cie de bairrismo mal entendido, e a Consci\u00eancia de<br \/>\nHeitor Mallot publicado em folhetins na Prov\u00edncia. A leitura do Primo<br \/>\nBas\u00edlio despertou-lhe um interesse extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cAquilo \u00e9 que \u00e9 um romance. A gente parece que est\u00e1<br \/>\nvendo as cousas, que est\u00e1 sentindo&#8230;\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o compreendera bem certas passagens, pensou em consultar a L\u00eddia;<br \/>\nsim a Campelinho devia saber a hist\u00f3ria da champagne passada num beijo<br \/>\npara a boca de Luiza. Que porcaria! E assim tamb\u00e9m a tal \u201csensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nnova!\u201d que Bas\u00edlio ensinara \u00e0 amante&#8230; n\u00e3o podia<br \/>\nser cousa muito asseada&#8230;<\/p>\n<p>Terminada a leitura do \u00faltimo cap\u00edtulo, Maria sentiu que n\u00e3o<br \/>\nfossem dois volumes, tr\u00eas mesmo, muitos volumes&#8230; Gostara imensamente!<\/p>\n<p>No dia seguinte, antes de ir \u00e0 Escola Normal, Maria teve uma entrevista<br \/>\nsecreta com a amiga no quintal da vi\u00fava Campelo, que morava defronte<br \/>\ndo amanuense.<\/p>\n<p>A Campelinho tinha acabado de banhar-se e estava arranjando umas flores para<br \/>\na Nossa Senhora do Orat\u00f3rio. Da saleta de jantar via-se o quintalzinho,<br \/>\ncercado d\u2019estacas, estreito e comprido, com ateiras e um renque de manjeric\u00f5es<br \/>\nao fundo, perto da cacimba. Uma pitombeira colossal arrastava os galhos sobre<br \/>\no telhado. O ch\u00e3o \u00famido da chuva que ca\u00edra \u00e0 noite,<br \/>\nporejava uma frescura comunicativa e boa.<\/p>\n<p>L\u00eddia estava \u00e0 fresca, de cabelos soltos sobre a toalha felpuda<br \/>\naberta nos ombros, quando Maria apareceu.<\/p>\n<p>Boa vida, hein? saudou esta. E logo triunfante: Acabei o Primo Bas\u00edlio!<\/p>\n<p>Que tal?<\/p>\n<p>Magn\u00edfico, sublime! Olha, vem c\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>E dando o bra\u00e7o \u00e0 outra, dirigiu-se para o \u201cbanheiro\u201d,<br \/>\numa esp\u00e9cie de arapuca de palha seca de coqueiro, aca\u00e7apada,<br \/>\nmedonha, sem a m\u00ednima comodidade e para onde se entrava por uma portinhola<br \/>\nde t\u00e1bua mal segura.<\/p>\n<p>Uma vez ali, sentadas ambas num caixote que fora de sab\u00e3o, \u00fanica<br \/>\nmob\u00edlia do \u201cbanheiro!, Maria sacou fora o Primo Bas\u00edlio,<br \/>\ncuidadosamente embrulhado numa folha da Prov\u00edncia. Queria que a L\u00eddia<br \/>\nexplicasse uma passagem muito difusa, quase impenetr\u00e1vel \u00e0 sua<br \/>\nintelig\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 isto, menina, que eu n\u00e3o pude compreender bem. E, abrindo<br \/>\no livro leu: \u201c&#8230; e ele (Bas\u00edlio) quis-lhe ensinar ent\u00e3o<br \/>\na verdadeira maneira de beber champagne. Talvez ela n\u00e3o soubesse!&#8230;<br \/>\nComo \u00e9? perguntou Luiza tomando o copo. N\u00e3o \u00e9 com o copo!<br \/>\nHorror! Ningu\u00e9m que se preza bebe champagne por um copo. O copo \u00e9<br \/>\nbom para o Colares&#8230; Tomou um gole de champagne e num beijo passou-o para<br \/>\na boca dela. Luiz riu&#8230;\u201d, etc., etc.<\/p>\n<p>Como explicas tu isso?<\/p>\n<p>Tola! fez a Campelinho. Uma coisa t\u00e3o simples&#8230; Toma-se um gole de<br \/>\nchampagne ou de outro qualquer l\u00edquido, junta-se boca \u00e0 boca,<br \/>\nassim&#8230; E juntou a a\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras.<\/p>\n<p>&#8230; e pronto! bebe-se pela boca um do outro. T\u00e3o simples&#8230;<\/p>\n<p>E que prazer h\u00e1 nisso?<\/p>\n<p>Sei l\u00e1, menina! tornou a outra com um gesto de nojo, cuspindo. Pode<br \/>\nl\u00e1 haver gosto.<\/p>\n<p>Depois, as duas curvadas sobre o livro, unidas, coxa a coxa, bra\u00e7o<br \/>\na bra\u00e7o, passaram \u00e0 \u201csensa\u00e7\u00e3o nova\u201d.<\/p>\n<p>L\u00eddia apressou-se a dizer que as \u201cmulheres do mundo\u201d \u00e9<br \/>\nque sabem essas coisas&#8230; Quanto a ela n\u00e3o conhecia outra sensa\u00e7\u00e3o<br \/>\nal\u00e9m dos beijos na boca, \u00e0s escondidas, fora os abracinhos fortes<br \/>\ne demorados peito a peito, isto mesmo, com pessoas do cora\u00e7\u00e3o&#8230;<br \/>\nContou ent\u00e3o que o seu primeiro namorado, um estudante do Liceu, um<br \/>\nfedelho, tentara certa vez&#8230; Concluiu baixinho ao ouvido de Maria, com receio<br \/>\nde que algu\u00e9m as estivesse observando.<\/p>\n<p>E consentistes?<\/p>\n<p>Qual! Dei-lhe com um n\u00e3o \u00be na cara, e o tolo nunca mais me<br \/>\nfez festas.<\/p>\n<p>Leram ainda alguns trechos do romance, rindo, cochichando, acotovelando-se<br \/>\ne depressa a conversa\u00e7\u00e3o tomou rumo diverso recaindo sobre o<br \/>\nZuza e o Loureiro.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, perguntou Maria, curiosa, pretendes mesmo casar com o<br \/>\nguarda-livros?<\/p>\n<p>Porque n\u00e3o? fez a outra erguendo-se. Muito breve tenho homem! Decididamente<br \/>\neste n\u00e3o me escapa, tenho-o seguro&#8230; Vai todas as noites \u00e0<br \/>\nnossa casa, como v\u00eas, est\u00e1 caidinho. A mam\u00e3e j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o repara, deixa-se ficar com o d\u2019ela&#8230;<\/p>\n<p>Com o d\u2019ela? inquiriu Maria com surpresa, muito admirada<\/p>\n<p>Apanhada em flagrante indiscri\u00e7\u00e3o, L\u00eddia confessou,<br \/>\nmuito em segredo, que uma noite encontrara D. Amanda na alcova com o Batista<br \/>\nda Feira Nova, um negociante&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"3\"><\/a>Cap\u00edtulo III<\/h4>\n<p>Maria tomava sentido, recalcando a curiosidade que lhe espia\u00e7ava o<br \/>\nesp\u00edrito. Calou-se para n\u00e3o ser indiscreta, e, depois de uma<br \/>\npausa em que folheava maquinalmente o romance:<\/p>\n<p>Dize uma coisa, L\u00eddia: tu amas deveras o Loureiro?<\/p>\n<p>Que pergunta, criatura! Certamente que sim. Ele ent\u00e3o tem uma paixa<br \/>\ndoida por mim! Bebe-me com o olhar e me come de beijos. \u00c9 na boca,<br \/>\nno pesco\u00e7o, na orelha, nos olhos, na nuca&#8230; Nunca vi gostar tanto<br \/>\nde beijos! E \u00e9 preciso que se note, conhecemo-nos h\u00e1 tr\u00eas<br \/>\nmeses! E o teu Zuza?<\/p>\n<p>O namoro de Maria com o filho do coronel Souza Nunes estava em come\u00e7o.<br \/>\nA falar a verdade, ela gostava de Zuza e casaria se ele quisesse, mas at\u00e9<br \/>\naquela data ainda n\u00e3o se tinham comunicado. Conheciam-se nada mais.<\/p>\n<p>Nessas confabula\u00e7\u00f5es \u00edntimas com a amiga, Maria, que<br \/>\ncome\u00e7ava a compreender a vida tal como ela \u00e9 na sociedade, fingia-se<br \/>\ning\u00eanua, tolinha, expediente que usava sempre que desejava saber a opini\u00e3o<br \/>\nde L\u00eddia sobre isto ou sobre aquilo.<\/p>\n<p>A princ\u00edpio evitava conversar em amores, corando a qualquer palavra<br \/>\nmais livre ou a qualquer fato menos s\u00e9rios que lhe contavam as colegas<br \/>\nde estudo. Agora, por\u00e9m, ouvia tudo com interesse, procurando inteirar-se<br \/>\ndos acontecimentos, sem acanhamento, sem receio. Pouco a pouco foi perdendo<br \/>\nantigos retraimentos que trouxera da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o. A<br \/>\nconviv\u00eancia com as outras normalistas transformara-lhe os h\u00e1bitos<br \/>\ne as id\u00e9ias. A L\u00eddia principalmente era a sua confidente mais<br \/>\nchegada. Quase sempre estavam juntas em casa, na Escola, nos passeios, em<br \/>\ntoda parte onde se encontravam, de bra\u00e7os dados, aos cochichos. Havia<br \/>\nentre elas um com\u00e9rcio cont\u00ednuo de carinhos, de afagos e de<br \/>\nsegredos. Gabavam-se mutuamente, tinham quase os mesmos h\u00e1bitos, vestiam-se<br \/>\npelos mesmos moldes, como duas irm\u00e3s.<\/p>\n<p>L\u00eddia Campelo tinha ent\u00e3o vinte anos. era uma rapariga alta,<br \/>\nfausse-maigree e bem feita de corpo.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o por que ainda n\u00e3o se casara ningu\u00e9m ignorava,<br \/>\ntoda a gente sabia \u00e9 que a filha da vi\u00fava Campelo, por via do<br \/>\natavismo, puxava \u00e0 m\u00e3e. N\u00e3o havia na cidade rapazola<br \/>\nmais ou menos elegante, caixeiro de loja de modas que n\u00e3o se gabasse<br \/>\nde a ter beijado. Tinha fama de grande namoradeira, ex\u00edmia em neg\u00f3cios<br \/>\nde amor. O pr\u00f3prio Jo\u00e3o da Mata n\u00e3o gostava muito daquela<br \/>\namizade com Maria. Mais de uma vez dissera a D. Terezinha as suas desconfian\u00e7as,<br \/>\nos seus escr\u00fapulos, os seus receios com rela\u00e7\u00e3o a essa<br \/>\nintimidade da afilhada com a L\u00eddia: \u201cN\u00e3o consentisse a<br \/>\nrapariga ir \u00e0 casa da outra. Antes prevenir que curar\u201d.<\/p>\n<p>Havia mesmo quem ousasse afirmar que a Campelinho \u201cj\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nera mo\u00e7a\u201d<\/p>\n<p>Da vi\u00fava diziam-se horrores: \u201caquilo era casa aberta&#8230;\u201d<br \/>\nTantos fossem, quantos ela recebia com um risinho se vergonha, arrega\u00e7ando<br \/>\nos bei\u00e7os. A filha seguia o mesmo caminho.<\/p>\n<p>O certo, por\u00e9m, \u00e9 que o procedimento de D. Amanda n\u00e3o<br \/>\nescandalizava a sociedade. Vivia na sua modesta casinha do Trilho, muito concentrada,<br \/>\nsem amigas, num respeitoso isolamento, saindo \u00e0 rua poucas vezes na<br \/>\ncompanhia da filha, n\u00e3o freq\u00fcentando os bailes nem o Passeio P\u00fablico,<br \/>\ne muito menos as igrejas: vivia a seu modo, comodamente, do minguado montepio<br \/>\nde seu defunto marido.<\/p>\n<p>\u201cUma mulher honesta!\u201d protestava o Loureiro. Inf\u00e2mias era<br \/>\no que diziam da pobre senhora, inf\u00e2mias que caiam por terra, ante o<br \/>\nindefect\u00edvel procedimento de Da. Amanda!<\/p>\n<p>E acrescentava, convicto:<\/p>\n<p>Tal m\u00e3e, tal flha!<\/p>\n<p>O velho mostrador da sala de jantar deu meia noite, uma hora, e Maria do<br \/>\nCarmo ainda estava acordada, a pensar no Zuza, arquitetando frases para responder<br \/>\nao futuro bacharel em ci\u00eancias jur\u00eddicas. Porque o estudante,<br \/>\ncomo sugeriu o amanuense, achara meio de comunicar-se com a rapariga, atirando-lhe<br \/>\numa cartinha por baixo da mesa, quando jogavam o v\u00edspora.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que Zuza lhe escrevia numa letra caligr\u00e1fica, de<br \/>\nmulher, miudinha, igual e redonda. Ao apanhar o envelope, com um movimento<br \/>\ndisfar\u00e7ado, Maria sentiu o sangue afluir todo para o rosto, como se<br \/>\ntodo o mundo a tivesse surpreendido em flagrante \u00e0s barbas do padrinho.<br \/>\nEla mesmo, depois, admirou sua coragem, ela que nunca desrespeitara o amanuense,<br \/>\ntemendo-o como a seu pai. N\u00e3o p\u00f4de reprimir um susto, ficou fria,<br \/>\ncom os olhos baixos, sem prestar aten\u00e7\u00e3o ao jogo. Pareceu-lhe<br \/>\nver atrav\u00e9s dos \u00f3culos escuros do padrinho um lampejo de c\u00f3lera<br \/>\nconcentrada. Tremia com o papel na m\u00e3o, sem saber o que fizesse. Mas<br \/>\no v\u00edspora continuava animado e ela pode cautelosamente guardar o objeto<br \/>\nquerido, pretextando sede e levantado-se para beber \u00e1gua no interior<br \/>\nda casa. Guardou-o nem guardado, no fundo de uma caixinha de fitas, sem ler,<br \/>\ne voltou imediatamente ao seu lugar com um al\u00edvio, muito l\u00e9pida.<\/p>\n<p>Quando o amanuense entro a esbravejar contra o Zuza, esmurrando a mesa, batendo<br \/>\nportas, col\u00e9rico, medonho, Maria ficou l\u00edvida! T\u00e1, t\u00e1,<br \/>\nt\u00e1, t\u00e1, ia tudo \u00e1guas abaixo, o seu crime ia ser descoberto,<br \/>\nn\u00e3o havia fugir. Estava irremediavelmente perdida! Enfiou pelo corredor<br \/>\ncom as m\u00e3os na cabe\u00e7a, aflita. Decididamente o padrinho ia expuls\u00e1-la<br \/>\nde casa&#8230; seu primeiro \u00edmpeto foi voltar, atirar-se aos p\u00e9s<br \/>\nde Jo\u00e3o da Mata e pedir-lhe, suplicar-lhe por amor de Deus, por quem<br \/>\nera, que a perdoasse, que fora uma fraqueza, uma criancice&#8230; Isto, por\u00e9m,<br \/>\nseria complicar a situa\u00e7\u00e3o, confessar-se culpada, entregar-se<br \/>\n\u00e0 c\u00f3lera do amanuense. E ao sentar-se \u00e0 mesa de jantar<br \/>\nfoi acometida por uma convuls\u00e3o de choro mudo, com a cabe\u00e7a<br \/>\nentre as m\u00e3os, cotovelos fincados na mesa, olhos fixos na luz moribunda<br \/>\nda velinha de carna\u00faba.<\/p>\n<p>O padrinho berrou, jurou acabar com a \u201cbandalheira\u201d, disse horrores<br \/>\ndo Zuza, e, afinal, que felicidade para a rapariga! foi se deitar com a mulher.<br \/>\nMaria suspirou forte como se lhe tivessem tirado um grande peso do cora\u00e7\u00e3o;<br \/>\ne agora, s\u00f3 no seu quarto, lia e relia a carta do acad\u00eamico,<br \/>\nmuito \u00e0 fresca, sentindo um bem estar na sua rede de varandas, branca<br \/>\ne sarapintada de encarnado.<\/p>\n<p>Fazia calor.<\/p>\n<p>Maria costumava dormir com a vela acesa, numa palmat\u00f3ria de flandres.<br \/>\nNoutro quarto, defronte, ressonava a cozinheira, uma retirante velha, chamada<br \/>\nMariana, e, no corredor, o Sult\u00e3o abanava as orelhas sacudindo as pulgas.<br \/>\nDe quando em quando havia um barulho d\u2019asas na sala de jantar: era a<br \/>\nsabi\u00e1 debatendo-se na gaiola, assombrada.<\/p>\n<p>Agora, sim, Maria estava s\u00f3, completamente s\u00f3, podia ler \u00e0<br \/>\nvontade, uma, duas, tr\u00eas&#8230; quantas vezes quisesse, a carta do Zuza.<br \/>\nNada como a noite para os namorados! Era s\u00f3 quando ela gozava a sua<br \/>\nliberdade, \u00e0 noite, no seu quarto, em camisa, fazendo o que bem entendesse&#8230;<\/p>\n<p>\u201cMinha senhora\u201d, dizia o futuro bacharel muito respeitoso. \u201cTomo<br \/>\na liberdade de me dirigir a V. Excia. confiado na sua infinita bondade, nessa<br \/>\nbondade que se revela em seus espl\u00eandidos olhos de madona e na brandura<br \/>\nmeiga de sua voz cujo timbre faz-me lembrar toda a melodia d\u2019uma harpa<br \/>\ne\u00f3lia tangida por m\u00e3os de serafins&#8230; Tomo esta liberdade para<br \/>\ndizer-lhe simplesmente que a amo! e que este amor s\u00f3 podia ser inspirado<br \/>\npela incompar\u00e1vel luz do seu olhas e pela m\u00fasica sentimental<br \/>\nde sua voz&#8230; Amo-a deveras&#8230; S\u00f3 me resta esperar que V. Excia. aceite<br \/>\neste amor como tributo sincero de um cora\u00e7\u00e3o avassalado por<br \/>\nsua beleza encantadora, e ent\u00e3o serei o mais feliz dos homens.<\/p>\n<p>De V. Excia. adm. e escravo<\/p>\n<p>Jos\u00e9 de Souza Nunes<\/p>\n<p>Isto numa letrinha microsc\u00f3pica, indecifr\u00e1vel quase.<\/p>\n<p>Maria esteve meditando muito tempo sobre a resposta que devia dar ao estudante,<br \/>\ncom os olhos na parede onde esbatia a sombra da rede ao comprido. Para n\u00e3o<br \/>\nresponder ficava-lhe mal, era uma falta de considera\u00e7\u00e3o. Devia<br \/>\nresponder fosse o que fosse. E, nessa d\u00favida, lia e relia a carta numa<br \/>\ninquieta\u00e7\u00e3o que lhe tirava o sono. Realmente! come\u00e7ava<br \/>\ncedo a sua carreira amorosa e come\u00e7ava com um aspirante a bacharel!<br \/>\nSeria verdade aquilo ou o rapaz queria divertir-se \u00e0 sua custa? O Zuza<br \/>\nparecia-lhe um bom mo\u00e7o, muito bem educado, incapaz de seduzir uma<br \/>\nrapariga honesta, de costumes irrepreens\u00edveis, refrat\u00e1ria a<br \/>\npagodeiras. \u00c0s vezes, por\u00e9m, tinha cara de pedante com os seus<br \/>\n\u00f3culos d\u2019ouro, com a sua flor na botoeira, dizendo que d\u00ea,<br \/>\nd\u00ea-me voc\u00ea isto, fa\u00e7a voc\u00ea aquilo, ora sebo!<\/p>\n<p>Maria implicava com certos modos do rapaz.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que tinha fortuna, era filho d\u2019um homem de bem, d\u2019um<br \/>\ncoronel&#8230; Mas&#8230;.<\/p>\n<p>E l\u00e1 vinha o mas e a d\u00favida n\u00e3o se desfazia.<\/p>\n<p>Imaginava-se ao lado do Zuza, numa casinha muito bem mobiliada, com cortinas<br \/>\nde cretone na sala de jantar e um viveiro de p\u00e1ssaros, ele, de chambre<br \/>\ne gorro, sentado na escrivaninha a fazer versos, feliz, despreocupado; ela<br \/>\ncom um robe-de-chambre todo branco, fitinha na frente d\u2019alto a baixo,<br \/>\ncabelo solto, a ler o \u00faltimo romance \u00e0 moda, recostada na espregui\u00e7adeira,<br \/>\nsem filhos&#8230; Que vida!<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo lembrava-se de que o Zuza podia lhe sair um marido muito besta<br \/>\ne casmurro, cuidando somente da papelada de autos e requerimentos, um advogado<br \/>\ncom escrit\u00f3rio e tabuleta \u00e0 porta para fazer&#8230;<\/p>\n<p>nada! Ela, por outro lado, a cuidar dos filhos, muito besuntada, da sala<br \/>\npara a cozinha numa az\u00e1fama de burguesinha reles. Boas!<\/p>\n<p>E n\u00e3o assentava id\u00e9ias, a mente que nem um rodopio, fantasiando<br \/>\nsitua\u00e7\u00f5es disparatadas, coisas imposs\u00edveis.<\/p>\n<p>Leu outra vez a carta, analisando-a palavra por palavra, repetindo as frases<br \/>\na meia voz. Aquela linguagem alambicada e dengosa, quis-lhe parecer tosca<br \/>\ndemais para ter sa\u00eddo do punho d\u2019um estudante de direito. Que<br \/>\nidiota! pensava; comparar seus olhos com olhos de madona e sua voz com uma<br \/>\nharpa e\u00f3lia! E, num arrebatamento, levantou-se e guardou a carta na<br \/>\ncaixinha de fitas. \u201c Qual olhos de madona!\u201d\u201d Qual harpa<br \/>\ne\u00f3lia, qual nada seu besta!\u201d<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco tamb\u00e9m ressonava com a respira\u00e7\u00e3o<br \/>\nleve como uma car\u00edcia.<\/p>\n<p>O dia seguinte era domingo. Todos em casa do amanuense acordaram muito bem<br \/>\ndispostos. Havia missa cantada na S\u00e9. Espocavam foguetes e replicavam<br \/>\nsinos. Meninos apregoavam numa voz cantada a Matraca a 40 r\u00e9is! um<br \/>\njornaleco imundo que falava da vida alheia e que por duas vezes trouxera sujidades<br \/>\ncontra Jo\u00e3o da Mata. Maria do Carmo quis ver o que dizia a Matraca,<br \/>\napesar do padrinho ter proibido expressamente a entrada do pasquim em sua<br \/>\ncasa. Ali s\u00f3 lhe entrava a Prov\u00edncia, dissera ele; isso mesmo<br \/>\nporque o Jos\u00e9 Pereira n\u00e3o exigia pagamento de assinatura. O<br \/>\nmais era uma s\u00facia de pap\u00e9is nojentos que s\u00f3 serviam<br \/>\npara &#8230; Maria deu um pulo at\u00e9 a casa da vi\u00fava Campelo e a\u00ed<br \/>\npode comprar a Matraca. O padrinho estava no banho. O Namoro do Trilho de<br \/>\nFerro! gritavam os vendedores. Maria teve um palpite. Certo aquilo era com<br \/>\nela. Que felicidade o padrinho estar no banho! Pagou ao menino pedindo-lhe<br \/>\npelo amor de Deus que n\u00e3o gritasse mais o Namoro do Trilho de Ferro.<br \/>\nAbriu o jornal ansiosa. Que horror! Havia com efeito uma piada sobre ela e<br \/>\no Zuza. Mais que depressa correu a mostrar a L\u00eddia.<\/p>\n<p>Est\u00e1s vendo, menina? L\u00ea isto aqui. E apontou com o dedo.<\/p>\n<p>Eram uns versos de p\u00e9 de viola que contavam o recente namoro do Zuza:<\/p>\n<p>A normalista do Trilho<\/p>\n<p>ex-irm\u00e3 de caridade<\/p>\n<p>est\u00e1 ca\u00edda pelo filho<\/p>\n<p>d\u2019um titular da cidade<\/p>\n<p>O rapazola \u00e9 galante<\/p>\n<p>e usa flor na botoeira<\/p>\n<p>D. Juan feito estudante<\/p>\n<p>a namorar uma freira&#8230;<\/p>\n<p>Eis porque, caros leitores,<\/p>\n<p>eu digo como o Bahia:<\/p>\n<p>Falem baixo, minhas flores<\/p>\n<p>Sen\u00e3o&#8230; a chubata chia!&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p>L\u00eddia achou gra\u00e7a na versalhada. Ela tamb\u00e9m j\u00e1<br \/>\nsa\u00edra na Matraca.<\/p>\n<p>Um desaforo, n\u00e3o achas? perguntou a normalista indignada.<\/p>\n<p>Que se h\u00e1 de fazer, minha filha? Ningu\u00e9m est\u00e1 livre<br \/>\ndestas coisas no Cear\u00e1 moleque. N\u00e3o se pode conversar com um<br \/>\nrapaz, porque n\u00e3o faltam alcoviteiros. Olha, eu aposto em como isto<br \/>\nque aqui est\u00e1 saiu da cachola do Guedes.<\/p>\n<p>Que Guedes?<\/p>\n<p>\u00d3 mulher, o Guedes, um do Correio&#8230; Dizem at\u00e9 que est\u00e1<br \/>\nfeito redator principal da Matraca.<\/p>\n<p>E que mal fiz eu a este Guedes que nem sequer me conhece?<\/p>\n<p>Eu te digo. O Guedes andou a querer me namorar. Chegou a escrever-me uma<br \/>\ncarta muito errada e piegas, pedindo uma entrevista&#8230; Que fiz eu? Ri-me muito<br \/>\ndas asneiras do bicho, trocei-o a valer e mandei-o pastar bem&#8230; Ora o Guedes<br \/>\nsabe que n\u00f3s somos muito amigas e talvez queira vingar-se indiretamente.<br \/>\nA\u00ed est\u00e1 o que \u00e9 menina. Manda-o plantar couves e rasga<br \/>\nessa baboseira, que isto n\u00e3o vale nada.<\/p>\n<p>N\u00e3o val\u2019 nada, mas toda a gente l\u00ea e acredita, \u00e9<br \/>\no que \u00e9.<\/p>\n<p>Sabem l\u00e1 qual \u00e9 a \u201cnormalista do Trilho!\u201d<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito Maria contou a ocorr\u00eancia da v\u00e9spera, a carta<br \/>\ndo Zuza, a c\u00f3lera do padrinho, muito vexada.<\/p>\n<p>Estavam \u00e0 janela, em p\u00e9, frente a frente, D. Amanda andava<br \/>\npara os fundos da casa a mourejar. No fim da rua, do lado da Estrada de Ferro,<br \/>\numa locomotiva fazia manobras, chiando, a deitar vapor fora. Chegou at\u00e9<br \/>\na frente da casa da vi\u00fava, soltou um guincho r\u00e1pido e voltou<br \/>\nestralejando sobre os trilhos.<\/p>\n<p>&#8230; E os sinos a repicarem na S\u00e9 e gir\u00e2ndolas de foguetes estourando<br \/>\nno ar. Chegavam espa\u00e7ados sons de m\u00fasica que o vento trazia.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei si deva responder, disse Maria dando a carta \u00e0 amiga.<br \/>\nEle com certeza vem hoje para o v\u00edspora&#8230;<\/p>\n<p>De forma que tens um compromisso a satisfazer&#8230;<\/p>\n<p>Compromisso?<\/p>\n<p>Sim, porque quem cala consente. Aceitaste a carta, agora \u00e9 responder.<br \/>\nDiz-lhe que o amas tamb\u00e9m e que desde j\u00e1 o consideras teu noivo.<br \/>\nNisso de amor quanto mais depressa melhor. Eu pelo menos o entendo assim.<br \/>\nQueres que eu fa\u00e7o a minuta?<\/p>\n<p>Eu, escrever para um homem?<\/p>\n<p>Tola! Que crime h\u00e1 nisso? Eles n\u00e3o escrevem para n\u00f3s?<br \/>\nOlha, tolinha, n\u00e3o sejas crian\u00e7a. O homem foi feito para a mulher<br \/>\ne a mulher para o homem.<\/p>\n<p>Mas&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o tem mas nem meio mas. Decide-te a namorar o rapaz e deixa-te de<br \/>\nmeninices. Tu \u00e9 que tens a lucrar. O Zuza tem fortuna, est\u00e1<br \/>\na formar-se e com mais um ano pode ser teu marido e fazer-te muito feliz.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que esperas de teu padrinho, um sujeito est\u00fapido e<br \/>\nusur\u00e1rio como um urso? J\u00e1 n\u00e3o tens pai nem m\u00e3e,<br \/>\ne ele j\u00e1 fala em tirar-te da Escola. \u00c9 muito homem para botar-te<br \/>\na cozinhar. N\u00e3o sejas tola!&#8230;<\/p>\n<p>L\u00eddia interrompeu-se para cumprimentar um cavaleiro que passava. Era<br \/>\no Zuza montado numa alaz\u00e3o reluzente ao sol, de cauda aparada e arreios<br \/>\nde prata. O estudante trajava flanela e meias botas de polimento, chap\u00e9u<br \/>\ncastor desabado, uma grande rosa branca no peito, luva, rebenque, muito vistoso<br \/>\ncom seus \u00f3culos de ouro e seu bigodinho retorcido para cima.<\/p>\n<p>Fazia o costumado passeio matinal e lembrara-se de passar \u00e0 porta<br \/>\ndo amanuense. Cumprimentou rasgadamente a Campelinho. Maria ocultou-se envergonhada<br \/>\natr\u00e1s do postigo olhando por entre as gretas.<\/p>\n<p>Ador\u00e1vel! fez L\u00eddia. E tu ainda queres mais, hein, minha tola?<\/p>\n<p>Como sentia n\u00e3o ser ela a querida do Zuza! Ambos com vinte anos de<br \/>\nidade, encarando a vida por um mesmo prisma: passeios a cavalo, toilletes<br \/>\nde ver\u00e3o e d\u2019inverno, como nos figurinos, com ch\u00e1cara<br \/>\nno Benfica, um phaetom para virem \u00e0 cidade, vacas de leite&#8230; um man\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Tinha o seu Loureiro, mas o guarda-livros parecia-lhe muito casmurro, muito<br \/>\nindiferente a essas cousas de bom gosto, aos requintes da vida aristocr\u00e1tica<br \/>\nque ela ambicionava tanto. Queria-o mais por um capricho, porque n\u00e3o<br \/>\nencontrava outro homem em melhores condi\u00e7\u00f5es que desejasse casar<br \/>\ncom ela. Sabia de sua m\u00e1 fama e agarrava-se ao Loureiro como a uma<br \/>\nt\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o. Tudo menos ficar para tia. Verdade,<br \/>\nverdade, o Loureiro n\u00e3o era um sujeito ignorante pobre que lhe fizesse<br \/>\nvergonha; mas n\u00e3o tinha certo aprumo, certa eleg\u00e2ncia ao trajar;<br \/>\naferrava-se \u00e0 cal\u00e7a e ao colete branco, invariavelmente, e ningu\u00e9m<br \/>\no demovia daquele velho h\u00e1bito. Entretanto possu\u00eda seu cabedal<br \/>\nem casas e ap\u00f3lices da d\u00edvida p\u00fablica. Ao passo que o<br \/>\noutro, o Zuza, sabia empregar seu dinheiro divertindo-se, trajando bem, passeando<br \/>\ncomo um pr\u00edncipe. Uma simples quest\u00e3o de temperamento.<\/p>\n<p>Atira-te minha tola. Aproveita enquanto o Braz \u00e9 tesoureiro&#8230;<\/p>\n<p>Que queres tu que eu fa\u00e7a?<\/p>\n<p>Escreve logo essa carta e faze com eu: marca o dia do casamento. Assim \u00e9<br \/>\nque se faz. Quem pensa n\u00e3o casa, l\u00e1 diz o ditado, e \u00e9<br \/>\nmuito certo.<\/p>\n<p>A voz de D. Terezinha chamou Maria do outro lado da rua. Era hora do almo\u00e7o.<br \/>\nO amanuense estava apressado porque tinha de ir \u00e0 praia ao embarque<br \/>\ndo conselheiro Castro e Silva que seguia para o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata almo\u00e7ou \u00e0s carreiras, como quem vai tomar<br \/>\no trem, e abalou, enfiando-se no insepar\u00e1vel e j\u00e1 velho chap\u00e9u<br \/>\nchile.<\/p>\n<p>Seriam onze horas pouco mais ou menos. Um morma\u00e7\u00e3o de fornalha<br \/>\nabafava os transeuntes que desciam e subiam a rua de Baixo a p\u00e9, esbaforidos.<\/p>\n<p>No porto havia grande lufa-lufa de gente que embarcava e desembarcava simultaneamente,<br \/>\nbracejando, falando alto. A mar\u00e9 d\u2019enchente crispada pela ventania<br \/>\nde sudoeste, num cont\u00ednuo vaiv\u00e9m, alagava o areal seco e faiscante.<br \/>\nMuita gente ao embarque do Conselheiro. Curiosos de todas as classes, trabalhadores<br \/>\naduaneiros de jaqueta azul, guardas d\u2019Alf\u00e2ndega e oficiais de<br \/>\ndescarga com ar autorit\u00e1rio, de fardeta e bon\u00e9, marinheiros<br \/>\nda Capitania, confundiam-se numa promiscuidade interessante. Jangadeiros arrega\u00e7ados<br \/>\nat\u00e9 aos joelhos, chap\u00e9u de palha de carna\u00faba, mostrando<br \/>\no peito robusto e cabeludo, iam armando a vela \u00e0s jangadas. A cada<br \/>\nfluxo do mar havia gritos e assobios. Um alvoro\u00e7o! Jangadas iam e vinham<br \/>\nem dire\u00e7\u00e3o ao nacional que tombava como um \u00e9brio aproado<br \/>\nao vento. Apenas quatro navios mercantes fundeados e uma canhoneira argentina.<br \/>\nReluzia em caracteres garrafais, pintadinhos de fresco na popa d\u2019uma<br \/>\nbarca italiana \u201cCivita Vecchia\u201d.<\/p>\n<p>O vapor apitou pedindo mala. Era uma ma\u00e7ada ir \u00e0 bordo com<br \/>\na mar\u00e9 cheia e um vento como aquele. Demais o sol estava de rachar.<\/p>\n<p>Um carro parou \u00e0 porta da Escola de Aprendizes de Marinheiros: era<br \/>\no Conselheiro, metido numa sobrecasaca muito comprida, cheio de aten\u00e7\u00f5es.<br \/>\nJ\u00e1 o esperavam os amigos receosos de que o vapor suspendesse sem \u201co<br \/>\nhomem\u201d.<\/p>\n<p>A m\u00fasica da Pol\u00edcia, formada \u00e0 porta do quartel, gaguejou<br \/>\no Hino Nacional e o Conselheiro, cheio de si, cortejando \u00e0 direita<br \/>\ne \u00e0 esquerda, muito ancho, seguiu a tomar o escaler d\u2019Alf\u00e2ndega.<\/p>\n<p>P\u00edlulas! fez Jo\u00e3o da Mata limpando a testa. N\u00e3o vale<br \/>\na pena a gente se sacrificar com um calor d\u2019este!<\/p>\n<p>L\u00e1 adiante encontrou o Loureiro que vinha de despachar uma fatura<br \/>\nno Trapiche, muito apressado com sua cal\u00e7a branca lustrosa de gome<br \/>\nsem uma dobra.<\/p>\n<p>Por ali?<\/p>\n<p>\u00c9 verdade, tinha ido a neg\u00f3cio.<\/p>\n<p>Que h\u00e1 de novo? tornou o Loureiro.<\/p>\n<p>Nada. Vou aqui ao embarque do Conselheiro.<\/p>\n<p>H\u00e1s de ganhar muito com isto&#8230;<\/p>\n<p>Que queres, filho? A pol\u00edtica, a pol\u00edtica&#8230;<\/p>\n<p>Qual pol\u00edtica, homem! Com um sol\u00e3o deste n\u00e3o havia quem<br \/>\nme fizesse ir a embarque de filho d m\u00e3e nenhum.<\/p>\n<p>Uma lufada de poeira redemoinhou a dois passos dos interlocutores derrubando<br \/>\nbruscamente o chap\u00e9u da amanuense, pondo-lhe a calava \u00e0 mostra.<\/p>\n<p>Com os diabos! vociferou Jo\u00e3o da Mata abaixando-se mais que depressa<br \/>\npara apanhar seu chile que rodava sobre as abas numa disparada vertiginosa<br \/>\npor ali fora.<\/p>\n<p>Fiau! Fiau! Pega! pega! prorrompeu a garotada numa vaia estrepitosa de gritos<br \/>\ne assobios.<\/p>\n<p>Canalha! resmungava o homem, enquanto o Loureiro escafedia-se daquela situa\u00e7\u00e3o<br \/>\ngrotesca, sacudindo com a ponta dos dedos a poeira do palet\u00f3, muito<br \/>\ncalmo.<\/p>\n<p>O conselheiro tinha chegado ao Trapiche com o seu pr\u00e9stito oficioso<br \/>\nde amigos.<\/p>\n<p>O amanuense encavacou deveras \u201c Diabos levem conselheiros e tudo!\u201d<br \/>\ndizia ele mal humorado, piscando os olhos desesperadamente por tr\u00e1s<br \/>\ndos \u00f3culos escuros, cobrindo a calva com um len\u00e7o para n\u00e3o<br \/>\nconstipar. E dali mesmo voltou \u00e0 casa, maldizendo-se por haver deixado<br \/>\nos seus c\u00f4modos por uma estopada in\u00fatil d\u2019aquela.<\/p>\n<p>Dava meio-dia. \u00c0 porta do Quartel de Linha um soldado soprava a todo<br \/>\npulm\u00e3o num corneta muito bem areada.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata caminhava devagar, autom\u00e1tico, como quem vai com<br \/>\numa id\u00e9ia fixa. Que seca! Podia muito bem estar em casa \u00e0quela<br \/>\nhora, metido na sua camisola fresca, de papo para o ar na rede, ao conchego<br \/>\nmorno da afilhada, saboreando-lhe o cheiro bom das carnes; entretanto ali<br \/>\nvinha ofegante como um boi e suado como dois burros, todo emporcalhado da<br \/>\npoeira, furioso. N\u00e3o lhe contassem para outra. J\u00e1 tinha pensado<br \/>\nmesmo em abandonar para sempre a pol\u00edtica. P\u00edlulas! Mal lhe<br \/>\nchegava o tempo para pensar na Maria do Carmo, naquela deliciosa boquinha<br \/>\nfresca e rosada, boa para a gente levar a vida inteira a beijar&#8230;<\/p>\n<p>O Zuza tinha lhe acordado o instinto; receava agora que a menina se deixasse<br \/>\nlevar pelas gabolices do estudante e ent\u00e3o l\u00e1 se iam os seus<br \/>\nbelos projetos \u00e1guas abaixo.<\/p>\n<p>Nunca se preocupara tanto com Maria do Carmo. Desde que o Zuza come\u00e7ou<br \/>\na freq\u00fcentar a rua do Trilho n\u00e3o lhe saia mais da cabe\u00e7a<br \/>\na afilhada. A pr\u00f3pria D. Terezinha por vezes tinha estranhado seus<br \/>\nmodos para com a menina.<\/p>\n<p>Achava a Tet\u00e9 uma mulher gasta: queria uma rapariga nova e fresca,<br \/>\ncheirando a leite, sem pecados torpes, a quem ele pudesse ensinar certos segredos<br \/>\ndo amor, ocultamente, sem que ningu\u00e9m soubesse&#8230; Estava farto do \u201camor<br \/>\nconjugal\u201d. Nunca experimentara o contato aveludado do corpo de uma mulher<br \/>\neducada, virgem das impurezas do s\u00e9culo. E quem melhor do que Maria<br \/>\ndo Carmo, uma normalista exemplar e recatada, poderia satisfazer os caprichos<br \/>\nde seu temperamento impetuoso? Era sua afilhada, mas, adeus! n\u00e3o havia<br \/>\nente ele e a menina o menor grau de consang\u00fcinidade, portanto, n\u00e3o<br \/>\npodia haver crime nas suas inten\u00e7\u00f5es&#8230; Si Maria houvesse de<br \/>\ncair nas garras de algum bacharelete safado, fosse ele, Jo\u00e3o da Mata,<br \/>\no primeiro a abrir caminho.<\/p>\n<p>Demais, argumentava de si para si, podia arranjar tudo sem que ningu\u00e9m<br \/>\nsoubesse. O segredo ficaria entre ele e a afilhada, inviol\u00e1vel como<br \/>\na sepultura de um santo&#8230;<\/p>\n<p>E ia parafusando um meio simples e natural de conquistar o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Maria. Toda a quest\u00e3o era de oportunidade.<\/p>\n<p>\u00c0quela hora a normalista arrastava ao piano a valsa Minha esperan\u00e7a,<br \/>\ncuja cad\u00eancia punha uma monotonia irritante na quieta\u00e7\u00e3o<br \/>\nmorna da rua do Trilho.<\/p>\n<h4><a name=\"4\"><\/a>Cap\u00edtulo IV<\/h4>\n<p>O futuro bacharel em leis, ou simplesmente o Zuza, como era conhecido em<br \/>\nFortaleza o filho do coronel Souza Nunes, passava uma vida regalada, usufruindo<br \/>\nlargamente a fortuna do pai avaliada em cerca e cem contos de r\u00e9is.<br \/>\nO coronel franqueava a burra ao filho com uma generosidade verdadeiramente<br \/>\npaternal. Queria-o assim mesmo com todas as suas manias aristocr\u00e1ticas<br \/>\ne afidalgadas, com os seus gestos elegantes, arrostando grandeza e bom gosto,<br \/>\ntal qual o presidente da prov\u00edncia de quem se dizia amigo.<\/p>\n<p>\u201cCada qual com seu igual\u201d, doutrinava o coronel. O que n\u00e3o<br \/>\nadmitia \u00e9 que o filho se metesse com gente de laia ruim, que ele, coronel,<br \/>\nnunca descera de sua dignidade para tirar o chap\u00e9u ou apertar a m\u00e3o<br \/>\na indiv\u00edduos que n\u00e3o tivessem uma posi\u00e7\u00e3o social<br \/>\ndefinida. Aprendera isso em pequeno com o pai, o finado desembargador Souza<br \/>\nNunes, homem de costumes severos que sabia dar aos filhos uma educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nesmerada, quase principesca. O Zuza, dizia ele, n\u00e3o era mais do que<br \/>\numa verg\u00f4ntea digna desse belo tronco geneal\u00f3gico dos leg\u00edtimos<br \/>\nSouza Nunes, t\u00e3o nobres quanto respeitados no Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Era um orgulho para o coronel ver o filho passar a cavalo com o presidente,<br \/>\nalvo de olhar bisbilhoteiro do mulherio elegante em trajes de montaria, roupa<br \/>\nde flanela, botas, chap\u00e9u mole desabado.<\/p>\n<p>O Zuza dava-se muito com o presidente, que tamb\u00e9m pertencia a uma<br \/>\nalta linhagem de fidalgos de S\u00e3o Paulo e fora educado na Europa; um<br \/>\nrapag\u00e3o alegre, amador de cavalos de ra\u00e7a, ilustrado e amigo<br \/>\nde mulheres.<\/p>\n<p>As revela\u00e7\u00f5es da Matraca sobre o namoro do Trilho de Ferro<br \/>\nderam que falar \u00e0 cidade inteira. Nas rodas de cal\u00e7ada o fato<br \/>\npropalou-se imediatamente \u00e0 guisa d\u2019esc\u00e2ndalo. A princ\u00edpio<br \/>\nningu\u00e9m sabia ao certo qual era a tal \u201cnormalista ex-irm\u00e3<br \/>\nde caridade\u201d. Que havia de ser a L\u00eddia Campelo afirmavam uns.<br \/>\nMas a Campelinho nunca fora religiosa, quanto mais freira. Afinal sempre se<br \/>\nveio a verdade e espalhou-se logo que a afilhada de Jo\u00e3o da Mata estava<br \/>\ncom um namoro pulha mais o estudante. N\u00e3o era a L\u00eddia mas dava<br \/>\nno mesmo, dizia-se: ambas estudavam na mesma escola, eram dignas uma da outra.<\/p>\n<p>E toda gente dizia sua pilh\u00e9ria, atirava seu conceito \u00e0 boca<br \/>\npequena, com risadinhas sublinhadas pilh\u00e9rias e conceitos que chegavam<br \/>\nat\u00e9 aos ouvidos do coronel Souza Nunes, percucientes, incisivos como<br \/>\nferroadas de maribondos. \u201c N\u00e3o era poss\u00edvel, pensava ele.<br \/>\nO Zuza era incapaz de semelhante criancice; um rapaz de certa categoria n\u00e3o<br \/>\nse deixa iludir por uma simples normalista sem eira nem beira, uma rapariga<br \/>\nsem ju\u00edzo, filha de pais inc\u00f3gnitos, educada em casa d\u2019amanuense<br \/>\nreles. Quem, o Zuza? Pois n\u00e3o viam logo a monstruosidade do absurdo?<br \/>\nEra uma cal\u00fania levantada a seu filho. Que esta! N\u00e3o faltava<br \/>\nmais nada sen\u00e3o ver o nome do rapaz em letra redonda estampado na Matraca,<br \/>\num jornaleco imundo como uma cloaca!\u201d<\/p>\n<p>Morava na rua Formosa, numa casa assobradada e vistosa com frontaria d\u2019azulejos,<br \/>\nvarandas, e dois ananazes de lou\u00e7a no alto da cimalha, \u00e0 velha<br \/>\nmoda portuguesa.<\/p>\n<p>O coronel gostava de passar bem, de \u201cfazer figura\u201d, e, at\u00e9<br \/>\ncerto ponto, revelava uma natureza delicada que n\u00e3o era indiferente<br \/>\nao aspecto exterior das coisas; sabia mesmo aquilatar objetos de arte, escolher<br \/>\nbric-\u00e0-bracs.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m o excedia. Era o que se pode chamar \u201cum homem de bons<br \/>\ncostumes\u201d, um pouco orgulhosos e d\u2019uma susceptibilidade \u00e0<br \/>\ntoda a prova em mat\u00e9ria de dignidade pessoal: irrepreens\u00edvel<br \/>\ne caprichoso na intimidade dom\u00e9stica como na vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Fazia gosto a sala de visitas, forrada a papel-veludo, claro com ramagens<br \/>\ncinzenta, mobiliada com inexced\u00edvel gra\u00e7a, sem ostenta\u00e7\u00e3o,<br \/>\nsem luxo, mas onde se notava logo certa corre\u00e7\u00e3o no arranjo<br \/>\ndos m\u00f3veis, na coloca\u00e7\u00e3o dos quadros, na limpidez dos<br \/>\ncristais.<\/p>\n<p>Ao fundo, entre as duas portas altas e esguias que diziam para o interior<br \/>\nda casa, ficava o piano, um Pleyel novo, muito lustroso, sempre mudo, sobre<br \/>\no qual assentavam estatuetas de biscuit. \u00c0 direita, descansando sobre<br \/>\ngrandes pregos dourados, o retrato a \u00f3leo do coronel com sua barba<br \/>\nem ponta, olhava para o piano, muito s\u00e9rio, em simetria com o da a<br \/>\nesposa.<\/p>\n<p>O corredor da entrada separava a sala de visitas do gabinete do Zuza, que<br \/>\nficava \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o faltava mais nada!\u201d repetia mentalmente o coronel<br \/>\nestendido na espregui\u00e7adeira de lona, pernas tran\u00e7adas, defronte<br \/>\nda varanda, aparando as unhas.<\/p>\n<p>Em casa usava cal\u00e7as brancas , palet\u00f3 de seda amarelo e sapatos<br \/>\nde entrada baixa com flores no rosto de l\u00e3.<\/p>\n<p>Era hora do almo\u00e7o, o Zuza n\u00e3o devia tardar. Ia falar-lhe decididamente;<br \/>\naquela hist\u00f3ria do namoro n\u00e3o lhe cheirava bem. Talvez o filho<br \/>\ntivesse mesmo a estroinice pueril de desfrutar a rapariga.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco entrou o estudante Vinha muito jovial, cantarolando o<br \/>\nBoc\u00e1cio:<\/p>\n<p>Si acaso algum de n\u00f3s<\/p>\n<p>tiver por sina atr\u00f3z<\/p>\n<p>mulher que se n\u00e3o cale<\/p>\n<p>que a toda hora fale&#8230;<\/p>\n<p>E repetia muito alegre:<\/p>\n<p>Tr\u00e1, l\u00e1, l\u00e1, l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Vens, muito alegre, hein, meu filho? interrompeu o coronel da sala.<\/p>\n<p>Zuza tinha entrado para o gabinete e come\u00e7ava a despir-se<\/p>\n<p>Ah! meu pai estava a\u00ed?<\/p>\n<p>E logo&#8230;<\/p>\n<p>Trago uma novidade.<\/p>\n<p>Vejamos&#8230;<\/p>\n<p>Vou a Baturit\u00e9 com o presidente.<\/p>\n<p>Ainda bem, ainda bem, fez o coronel num tom desusado, sem erguer a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Como ainda bem? inquiriu o estudante aproximando-se.<\/p>\n<p>Apenas trocava o fraque por um palet\u00f3 de brim branco.<\/p>\n<p>Porque&#8230; porque&#8230; Eu precisava mesmo falar-te. Ora dize uma coisa: leste<br \/>\no \u00faltimo n\u00famero da Matraca?<\/p>\n<p>Zuza franziu o sobrolhos desconfiado, com um risinho seco. \u00be \u201cN\u00e3o<br \/>\ntinha lido a Matraca, n\u00e3o. Um jornaleco imoral que andava por a\u00ed?<br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o tinha lido. Por que?<\/p>\n<p>Que hist\u00f3ria \u00e9 uma de namoro no Trilho de Ferros? Fala-se em<br \/>\nti, no teu nome, numa normalista&#8230;<\/p>\n<p>Cresceu o assombro do rapaz.<\/p>\n<p>Eu!?&#8230; Meu pai est\u00e1 gracejando&#8230;<\/p>\n<p>Juro-te que n\u00e3o. Mas olha, quem diz \u00e9 a Matraca e algu\u00e9m<br \/>\nafirmou-o particularmente que a rua est\u00e1 cheia&#8230;<\/p>\n<p>E esta! fez o Zuza cruzando os bra\u00e7os admirado. Pois o meu pai n\u00e3o<br \/>\nv\u00ea logo que isto \u00e9 um gracejo de mau gosto, um canalhismo de<br \/>\nprov\u00edncia?<\/p>\n<p>O que \u00e9 certo \u00e9 que n\u00e3o te fica bem a brincadeira.<\/p>\n<p>Absolutamente n\u00e3o, e eu preciso saber quem \u00e9 o autor do pasquim&#8230;<\/p>\n<p>A criada anunciou que o almo\u00e7o estava na mesa.<\/p>\n<p>&#8230; Sim, continuou Zuza, vou informar-me, preciso saber&#8230;<\/p>\n<p>Eis a\u00ed porque fazes bem indo passar uns dias em Baturit\u00e9.<\/p>\n<p>E polindo as unhas, o coronel dirigiu-se para a sala de jantar, grave como<br \/>\num ap\u00f3stolo do bem, enquanto o filho ia desabafando suas c\u00f3leras<br \/>\ncontra a sociedade cearense.<\/p>\n<p>\u201cUma sociedade que l\u00ea a Matraca e gosta!\u201d<\/p>\n<p>No outro dia, com efeito, o futuro bacharel seguia no expresso para Baturit\u00e9<br \/>\nem companhia do Dr. Castro, presidente do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>Lia-se na Prov\u00edncia:<\/p>\n<p>\u201cSegue amanh\u00e3, pela manh\u00e3, com destino a Baturit\u00e9,<br \/>\na fim de visitar a importante f\u00e1brica Proen\u00e7a, O Exmo. Sr. Presidente<br \/>\nda Prov\u00edncia. Acompanham o ilustre amigo do Cear\u00e1 os nossos<br \/>\ndistintos amigos e correligion\u00e1rios Srs. Dr. Jos\u00e9 de Souza Nunes<br \/>\ne Jos\u00e9 Pereira nosso colega de reda\u00e7\u00e3o. S. Excia. pretende<br \/>\ndemorar-se alguns dias naquela cidade\u201d.<\/p>\n<p>Maria do Carmo leu com surpresa a not\u00edcia da Prov\u00edncia e n\u00e3o<br \/>\npode conter um gesto de despeito. Era desse modo que o Sr. Zuza estava doido<br \/>\npor ela! Ir-se embora sem ao menos lhe comunicar! Nem sequer deixava um bilhetinho,<br \/>\num cart\u00e3o com duas palavras, duas somente! Que custava escrever num<br \/>\npeda\u00e7o de papel \u00be Vou e volto ?<\/p>\n<p>Zangara-se deveras, atirando a folha para um lado, trombuda, furiosa.<\/p>\n<p>Estava tudo acabado, n\u00e3o falaria mais no Zuza, n\u00e3o lhe escrevia;<br \/>\nque fosse bugiar! Mo\u00e7as havia muitas no Cear\u00e1: que procurasse<br \/>\numa l\u00e1 a seu jeito e ela por sua vez trataria de arranjar noivo, mas<br \/>\nnoivo para casar, noivo s\u00e9rio, noivo de bem!<\/p>\n<p>Entretanto, Maria n\u00e3o tinha feito reparo na despedida do Zuza, um<br \/>\nsoneto endecass\u00edlabo, com s\u00edlabas de mais num versos e de menos<br \/>\nnoutros. Adeus \u00be era o t\u00edtulo e vinha na terceira p\u00e1gina<br \/>\nda Prov\u00edncia. Depois \u00e9 que viu, porque a L\u00eddia mostrou-lhe.<\/p>\n<p>J\u00e1 estavas fazendo mau ju\u00edzo do rapaz, hein? disse a Campelinho.<\/p>\n<p>Certamente, confirmou Maria. Nem ao menos teve a lembran\u00e7a de me avisar!<\/p>\n<p>Como querias tu que ele avisasse se ainda n\u00e3o lhe respondeste a carta?<\/p>\n<p>Maria esteve pensando com o jornal na m\u00e3o, lendo e relendo os versos,<br \/>\ne, meio arrufada, meio risonha:<\/p>\n<p>Embora! O dever dele era me participar. O homem \u00e9 que faz tudo&#8230;<\/p>\n<p>E na manh\u00e3 seguinte, muito cedo, pulou da rede e foi no bico dos p\u00e9s,<br \/>\nembrulhada no len\u00e7ol, ver passar o trem atrav\u00e9s da vidra\u00e7a.<\/p>\n<p>A locomotiva disparou numa rapidez crescente, soltando rolos de fumo e fagulhas<br \/>\nque pareciam uma irris\u00e3o aos olhos da normalista. A sineta, num badalar<br \/>\ncont\u00ednuo, acordava os moradores do Trilho, \u00e0quela hora, ainda<br \/>\nnos len\u00e7\u00f3is.<\/p>\n<p>Maria viu passar a enfiada de vag\u00f5es estralejando sobre os trilhos<br \/>\ne esteve muito tempo em p\u00e9 ouvindo sino long\u00ednquo da locomotiva,<br \/>\nque ia, como uma coisa doida, sert\u00e3o a dentro! Come\u00e7ou ent\u00e3o<br \/>\na sentir-se s\u00f3, teve vontade de abrir num choro hist\u00e9rico como<br \/>\nsi lhe houvessem feito uma grande injusti\u00e7a. Voltou para a tepidez<br \/>\ndo seu quarto e l\u00e1 deixou-se ficar at\u00e9 sair o sol, com um peso<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o, encolhida na rede, sem \u00e2nimo para levantar-se,<br \/>\ndesejando um quer que era vago e extraordin\u00e1rio que lhe punha arrepios<br \/>\nintermitentes na pele. Que bom se o Zuza estivesse ali com ela, na mesma rede,<br \/>\ncorpo a corpo, aquecendo-a com seu calor&#8230; Aquela hora onde estaria ele?<br \/>\nTalvez em Arronches&#8230;; n\u00e3o, j\u00e1 devia ter chegado a Mondubi&#8230;<br \/>\nImaginava-o metido num comprido guarda-p\u00f3 de brim pardo, tomando leite<br \/>\nfresco na esta\u00e7\u00e3o ao lado do presidente, tirando do bolso da<br \/>\ncal\u00e7a um ma\u00e7o de notas de banco, muito am\u00e1vel, rindo&#8230;<br \/>\nDepois o trem apitava. Havia um movimento r\u00e1pido de gente que embarcava<br \/>\n\u00e0s pressas, e&#8230; l\u00e1 ia outra vez por aqueles descampados fora,<br \/>\ncaminho da serra que se via ao longe, rente com as nuvens, como aquelas cadeias<br \/>\ncolossais de montanhas onde h\u00e1 gelos eternos e que na geografia tem<br \/>\no nome de Alpes&#8230;<\/p>\n<p>De repente, lembrou-se:<\/p>\n<p>\u201cE se o trem desencarilhasse?&#8230;\u201d Ia adormecendo quando lhe veio<br \/>\n\u00e0 mente esta id\u00e9ia. Sentou-se na rede, esfregando os olhos como<br \/>\nse tivesse acordado de um pesadelo. \u201c Se o trem desencarilhasse o presidente<br \/>\nmorreria tamb\u00e9m&#8230;\u201d<\/p>\n<p>&#8230; Teve um consolo. N\u00e3o, o trem havia de chegar em paz com todos<br \/>\nos passageiros. Espregui\u00e7ou-se toda com estalinhos de juntas e, maquinalmente,<br \/>\ndeixou escapar um ai! ai! muito l\u00e2nguido e prolongado.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora recome\u00e7ava a labuta cotidiana. A criada puxava \u00e1gua<br \/>\nda cacimba; o cargueiro d\u2019\u00e1gua pot\u00e1vel enchia os potes;<br \/>\ncegos cantavam na rua uma lenga-lenga ma\u00e7ante, pedindo esmola numa<br \/>\nvoz chorada ; vendedores ambulantes ofereciam cajus&#8230; Havia um ru\u00eddo<br \/>\nmatinal de cidade grande que desperta.<\/p>\n<p>Nesse dia Maria do Carmo n\u00e3o foi \u00e0 Escola Normal: que estava<br \/>\nincomodada com uma enxaqueca muito forte.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata tomou-lhe o pulso, mandou que mostrasse a l\u00edngua,<br \/>\nmuito sol\u00edcito, com cuidados de pais: \u201cN\u00e3o era nada, uma<br \/>\ndefluxeira.\u201d E largou-se para a Reparti\u00e7\u00e3o, palitando<br \/>\nos dentes.<\/p>\n<p>A L\u00eddia, essa tinha liberdade plena em casa da m\u00e3e, ia \u00e0<br \/>\nescola quando queria e, se lhe convinha, l\u00e1 n\u00e3o punha os p\u00e9s.<br \/>\nDeixou-se ficar tamb\u00e9m com a Maria. Tinham muito que conversar.<\/p>\n<p>Que saudades, hein? come\u00e7ou a Campelinho.<\/p>\n<p>Estavam s\u00f3s, na sala do amanuense. D. Terezinha tinha ido \u00e0<br \/>\ncasa da vi\u00fava mostrar um corte de fazenda que o Janj\u00e3o lhe comprara.<\/p>\n<p>Maria, derreada na cadeira de balan\u00e7o, fechou o volume que estivera<br \/>\nlendo, e com um bocejo: \u201c\u00c9 verdade, o diabo do rapaz n\u00e3o<br \/>\nlhe sa\u00eda da lembran\u00e7a. Nem um castigo&#8230; Mas estava muito desgostada<br \/>\nda vida, j\u00e1 andavam inventando hist\u00f3rias, cal\u00fanias\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o te importes, minha tola. Ora! ora! ora!&#8230; Isso a gente faz ouvidos<br \/>\nde mercador e vai para adiante. A vida \u00e9 esta, e tola \u00e9 quem<br \/>\nse ilude.<\/p>\n<p>N\u00e3o, L\u00eddia, as coisas n\u00e3o s\u00e3o como tu pensas;<br \/>\nNo Cear\u00e1 basta um rapaz ir duas vezes \u00e0 casa de uma mo\u00e7a<br \/>\npara que se diga logo que o namoro est\u00e1 feio, que \u00e9 um esc\u00e2ndalo,<br \/>\ne n\u00f3s \u00e9 que somos prejudicadas. \u201cAh! porque j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 mais mo\u00e7a, porque \u00e9 uma sem-vergonha\u201d.<br \/>\n\u00e9 o que dizem&#8230;<\/p>\n<p>Pois olha, esta aqui h\u00e1-de namorar at\u00e9 n\u00e3o poder mais.<br \/>\nQueres que te diga uma coisa? Isso de casamento \u00e9 uma cantilena&#8230;<\/p>\n<p>E, num assomo de despeito, a Campelinho lembrou mulheres casadas que tinham<br \/>\namantes e que viviam muito bem na sociedade; citou a mulher do Dr. Mendes,<br \/>\njuiz municipal. Estava ali uma que fora encontrada aos beijos com Jos\u00e9<br \/>\nPereira da Prov\u00edncia, em pleno Passeio P\u00fablico! Quem n\u00e3o<br \/>\nsabia? Ningu\u00e9m! Entretanto freq\u00fcentava as melhores fam\u00edlias<br \/>\nda capital era a Sra. D. Am\u00e9lia! Queria outro exemplo!<\/p>\n<p>E abaixando a voz:<\/p>\n<p>Aqui mesmo em casa o tens, minha tola. Ningu\u00e9m ignora neste mundo<br \/>\nque D. Terezinha \u00e9 amigada com teu padrinho. E tudo \u00e9 assim,<br \/>\nquerida Maria. A canalha fala de invejam invejosos \u00e9 o que n\u00e3o<br \/>\nfaltam nesta terra,<\/p>\n<p>Maria prestava aten\u00e7\u00e3o, silenciosa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, disse ela por fim, achas que devo continuar o namoro?<\/p>\n<p>Que d\u00favida, mulher! Eu \u00e9 porque j\u00e1 tenho o meu. Assim<br \/>\nmesmo&#8230;<\/p>\n<p>Maria sentiu uma pontinha de ci\u00fames ro\u00e7ar-lhe o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDisfar\u00e7ou com um risinho seco.<\/p>\n<p>Eu estive pensando, disse, caso o Zuza me pregue um taboca&#8230;<\/p>\n<p>Nada mais simples: prega-lhe outra casando com o primeiro bilontra que aparecer.<br \/>\nAmor com amor se paga&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, falemos s\u00e9rio&#8230;<\/p>\n<p>Que queres tu que se diga? Eu c\u00e1 n\u00e3o costumo enganar ningu\u00e9m.<br \/>\nSou muito franca p\u00e3o, p\u00e3o, queijo, queijo&#8230;<\/p>\n<p>D\u00e3o licen\u00e7a? disse uma voz fora, na rua.<\/p>\n<p>Era Da. Am\u00e9lia, mulher do Dr. Mendes.<\/p>\n<p>Maria foi abrir a r\u00f3tula.<\/p>\n<p>Oh! por ali?&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 verdade, meninas, venho morta de calor. Uf! que sol\u00e3o, que<br \/>\nsol\u00e3o!<\/p>\n<p>L\u00eddia, muito expedita e pronta, ajudou a desatar o v\u00e9u e tirar<br \/>\nas luvas.<\/p>\n<p>Como estava a Tet\u00e9? perguntou Da. Am\u00e9lia muito afogueada, tirando<br \/>\no chap\u00e9u defronte do espelho. Da. Amanda ia bem? E sentando-se:<\/p>\n<p>J\u00e1 sei que n\u00e3o foram hoje \u00e0 escola&#8230; Boa vida! N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 como ser mo\u00e7a. Pois, meninas, venho duma seca. Fui ali \u00e0<br \/>\ncasa da costureira experimentar o meu vestido de cetim&#8230;<\/p>\n<p>Isso \u00e9 que \u00e9 boa vida, disse a Campelinho: passeios, vestidos&#8230;<\/p>\n<p>Maria tinha ido chamar a madrinha, que era um pulo.<\/p>\n<p>Qual passeios! Quem tem filhos pode l\u00e1 passear?<\/p>\n<p>D. Terezinha n\u00e3o se fez esperar. Entrou sacudindo os quadris, bamboleando-se<br \/>\ntoda.<\/p>\n<p>Ora viva! disse atirando-se nos bra\u00e7os de Da. Am\u00e9lia. Como<br \/>\nvai, como tem passado? Que milagre!<\/p>\n<p>Agora todas falavam a um tempo, rindo, gabando-se.<\/p>\n<p>Sabem quem esteve ontem conosco? O Zuza. Diz que volta s\u00e1bado de Baturit\u00e9.<br \/>\nGabou muito a Maria: que \u00e9 uma cearense distinta, muito prendada, chique<br \/>\na valer, um horror! Ao que parece temos cas\u00f3rio&#8230;<\/p>\n<p>Qual cas\u00f3rio! fez Maria com um rubor nas faces. Inven\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o havia de ser contra minha vontade, disse D. Terezinha . Seria<br \/>\nat\u00e9 uma felicidade. Deus o permita&#8230;<\/p>\n<p>Falaram de modas.<\/p>\n<p>D. Terezinha alardeou o seu rico vestido de cetim, que a vi\u00fava Campelo<br \/>\nachara de muito bom gosto.<\/p>\n<p>D. Am\u00e9lia queixou-se do marido: um homem sem gosto, um mosca-morta,<br \/>\nmuito desleixado, com venetas de doido. Ela at\u00e9 j\u00e1 se aborrecia,<br \/>\nporque o Mendes tinha o mau costume de beber aguardente; \u00e0s vezes chegava<br \/>\ntrope\u00e7ando, com a l\u00edngua pegada, sem poder falar. Vestidos ela<br \/>\nvia-os de ano em ano. Um indiferente, o Mendes. Sofria de uma erisipela na<br \/>\nperna direita que o proibia de trabalhar meses inteiros&#8230;<\/p>\n<p>Pois olha, disse D. Terezinha, o meu faz-me as vontades, mesmo porque eu<br \/>\nn\u00e3o sou mulher de muitos me-deixes. Todos os meses \u00e9 p\u2019r\u2019ali<br \/>\num vestido. Diabo \u00e9 quem os poupa! Tamb\u00e9m, minha filha, dou-lhe<br \/>\ntoda a liberdade, fora e dentro de casa. Felizmente n\u00e3o tenho queixa<br \/>\ndele.<\/p>\n<p>L\u00eddia pediu a D. Am\u00e9lia que tocasse alguma coisa, a Juanita,<br \/>\nque era a valsa da moda.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito D. Am\u00e9lia perguntou se j\u00e1 tinham ido ao<br \/>\nteatro. Que fossem, que fossem. O grupo l\u00edrico da Naghel estava fazendo<br \/>\nsucesso. A Bellegrandi era um mulher\u00e3o capaz de arrebatar uma plat\u00e9ia<br \/>\ninteira! Que modos, que requebros! Domingo ia a Juanita pela \u00faltima<br \/>\nvez em benef\u00edcio da Aliverti. Que fossem. Era uma opereta interessant\u00edssima,<br \/>\npor sinal tinha sido representada cem vezes na Corte! A beneficiada ia fazer<br \/>\no papel de Juanita.<\/p>\n<p>Eu \u00e9 para que tenho jeito, atalhou a Campelinho, \u00e9 para o teatro.<br \/>\nDeve ser uma vida t\u00e3o cheia de sensa\u00e7\u00f5es a das atrizes&#8230;<br \/>\nVestem-se de todas as formas, recebem presentes ricos, j\u00f3ias, an\u00e9is<br \/>\nde brilhante&#8230; s\u00e3o aplaudidas e ainda por cima ganham dinheiro \u00e0<br \/>\nufa. Eu j\u00e1 disse \u00e0 mam\u00e3e, mas ela n\u00e3o quer por<br \/>\ncoisa alguma, diz que \u00e9 uma vida imoral&#8230; Tolice! H\u00e1 tanta<br \/>\ngente boa nos teatros&#8230; A \u00faltima vez que fui ao circo fiquei encantada<br \/>\npela Estrela do Mar.<\/p>\n<p>\u00c9 o que voc\u00ea pensa, menina, disse D. Am\u00e9lia. Essas pobres<br \/>\nmulheres fazem um ror de sacrif\u00edcios&#8230; Sabe Deus quanto lhes custa<br \/>\numa noite de espet\u00e1culo! Acabam quase sempre miser\u00e1veis, coitadas,<br \/>\nnalgum quarto d\u2019hotel, a esmolas. Enquanto s\u00e3o mo\u00e7as ainda,<br \/>\nainda encontram quem lhes estenda a m\u00e3o, por\u00e9m, depois, morrem<br \/>\np\u2019r\u2019a\u00ed em qualquer pocilga, sem um real para a mortalha.<br \/>\nTibis, menina, nem se lembre de tal coisa!<\/p>\n<p>Maria, a um canto do sof\u00e1, pensava no estudante, perdida num labirinto<br \/>\nde reflex\u00f5es, com uma languidez no olhar vago. O Zuza preocupava-a<br \/>\ncomo um sonho d\u2019ouro. Come\u00e7ava a sentir o que nunca sentira por<br \/>\nhomem algum, certo desejo de ter um marido a quem pudesse entregar-se corpo<br \/>\ne alma, certa sentimentalidade sem causa positiva, uma como abstra\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo resto da humanidade&#8230; \u201cE quando Da. Am\u00e9lia, sentando-se ao<br \/>\npiano, come\u00e7ou a tocar a Juanita, veio-lhe um vago e esquisito desejo<br \/>\nde ir-se pelo mundo fora nos bra\u00e7os do \u201cseu\u201d Zuza, rodopiando<br \/>\nnuma valsa entontecedora at\u00e9 cansar&#8230; Via-se nos bra\u00e7os dele,<br \/>\narquejando ao compasso da m\u00fasica, quase sem tocar o ch\u00e3o, voando<br \/>\nquase leve com um floco d\u2019algod\u00e3o, como uma pena, como uma coisa<br \/>\nideal a\u00e9rea&#8230; E lembrava-se do padrinho. Ah! o padrinho queria tanto<br \/>\nmal ao Zuza&#8230; D\u2019ora avante ia agradar muito a Jo\u00e3o, trat\u00e1-lo<br \/>\ncom mais carinho, dar-lhe muitos cafun\u00e9s, fazer-lhe todas as vontades,<br \/>\nadul\u00e1-lo, a fim de que ele n\u00e3o ralhasse por causa do estudante.<br \/>\nQue tola n\u00e3o ter escrito logo ao Zuza, \u00e0quele Zuza que era agora<br \/>\na quantidade constante dos seus c\u00e1lculos, a preocupa\u00e7\u00e3o<br \/>\n\u00fanica de seu esp\u00edrito, o seu alter ego.<\/p>\n<p>Sim, porque, de resto, ela n\u00e3o havia de ser nenhuma freira que ficasse<br \/>\np\u2019r\u2019a\u00ed solteirona, sempre casta como uma vestal.<\/p>\n<p>A L\u00eddia tinha raz\u00e3o a mulher fez-se para o homem e o homem<br \/>\npara a mulher. Era sempre melhor aceitar a cartada que se lhe oferecia do<br \/>\nque entregar-se a\u00ed a qualquer caixeiro do armarinho, a qualquer lojista<br \/>\nusur\u00e1rio e safado. Ao menos o Zuza tinha dinheiro e posi\u00e7\u00e3o,<br \/>\nera um rapaz conceituado. Comparava-se com L\u00eddia e sentia-se outra,<br \/>\nmuito outra, noiva de um mo\u00e7o elegante, estimada, querida por todos.<br \/>\nNingu\u00e9m se lembraria, depois, de sua origem humilde, todo mundo a respeitaria<br \/>\ncomo esposa do Sr. Dr. Jos\u00e9 de Souza Nunes! Come\u00e7ava mesmo a<br \/>\nsentir uma grande afei\u00e7\u00e3o pelo Zuza.<\/p>\n<p>As \u00faltimas notas do piano produziram-lhe uma como\u00e7\u00e3ozinha,<br \/>\numa ponta de saudade sincera, um arrepio na epiderme. E. levantando-se muito<br \/>\ndesconfiada, foi juntar-se \u00e0s outras que palravam por quantas juntas<br \/>\ntinham.<\/p>\n<p>A voz da Campelinho timbrava muito fina e met\u00e1lica, traduzindo todo<br \/>\num temperamento nervoso e irrequieto.<\/p>\n<p>Acharam deliciosa a valsa da Juanita. Maria tamb\u00e9m deu o seu parecer:<br \/>\nque era linda, que ia ensai\u00e1-la. Falavam alto, numa intimidade de amigas<br \/>\nvelhas, sem pensar nas horas que iam passando rapidamente.<\/p>\n<p>Fazia sombra na cal\u00e7ada. Pela janela aberta entrava uma poeira sutil<br \/>\nque punha uma camada muito t\u00eanue e pardacenta no verniz gasto dos m\u00f3veis.<br \/>\nVinha l\u00e1 de dentro, d\u2019envolta com o fumaceiro da cozinha, um<br \/>\ncheiro gorduroso e excitante de guisados.<\/p>\n<p>Deram tr\u00eas horas.<\/p>\n<p>Jesus! fez D. Am\u00e9lia, erguendo-se admirada. Tr\u00eas horas! Vou-me<br \/>\nchegando, meninas.<\/p>\n<p>Agora fique para o jantar, solicitou D. Terezinha. Nada de cerim\u00f4nias,<br \/>\no Janj\u00e3o n\u00e3o tarda, \u00e9 comida de pobre, mas sempre se<br \/>\npassa&#8230;<\/p>\n<p>Ora fique, Jesus!<\/p>\n<p>N\u00e3o, Tetezinha de minh\u2019alma, n\u00e3o posso, o Mendes me espera.<br \/>\naquilo \u00e9 um estouvado. Vim somente para pedir um favorzinho, mas \u00e9<br \/>\nsegredo&#8230;<\/p>\n<p>Oh! filha&#8230;<\/p>\n<p>Entraram as duas para a sala de jantar. A Mendes pediu \u00e1gua, e, dando<br \/>\nestalinhos com a l\u00edngua, acariciando a m\u00e3o de D. Terezinha,<br \/>\ndisse muito baixo, quase ao ouvido, engrossando a voz, que precisava de dez<br \/>\nmil r\u00e9is para pagar a costureira e vinha pedir-lhos at\u00e9 o fim<br \/>\ndo m\u00eas. A Tet\u00e9 n\u00e3o imaginava: tinha em casa o essencial<br \/>\npara a feira do dia seguinte! O Mendes pouco se importava que houvesse ou<br \/>\nn\u00e3o dinheiro&#8230; Tivesse paci\u00eancia , sim? Pagava sem falta, no<br \/>\nfim do m\u00eas.<\/p>\n<p>Disse que os meninos andavam descal\u00e7os, que as despesas eram muito<br \/>\ngrandes, alegou o pre\u00e7o da carne&#8230; Um horror! N\u00e3o se podia<br \/>\nnum tempo d\u2019aquele comer com pouco dinheiro. N\u00e3o sobrava nem<br \/>\npara um vestido.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m estava muito \u201cquebrada\u201d, disse D. Terezinha compungida.<br \/>\nO Janj\u00e3o tinha feito um ror de despesas naquele m\u00eas; dava gra\u00e7as<br \/>\na Deus quando lhe vinha um dinheirinho do Par\u00e1, de rendas&#8230; S\u00f3<br \/>\nao velho Teixeira, um que emprestava dinheiro a juros, deviam duzentos mil<br \/>\nr\u00e9is. Em todo caso sempre ia ver se arranjava p\u2019ra cinco mil<br \/>\nr\u00e9is. Era um instantinho&#8230;<\/p>\n<p>Foi depressa \u00e0 alcova, abriu com estrondo a gaveta da c\u00f4moda<br \/>\ne d\u2019a\u00ed a pouco voltou com uma nota de 5$000, muito velha e ru\u00e7a,<br \/>\nquase em frangalhos, que entregou \u00e0 outra. Era s\u00f3 o que tinha<br \/>\npara servi-la.<\/p>\n<p>Muito obrigada, minha santa, n\u00e3o sabe quanto lhe agrade\u00e7o&#8230;<br \/>\nNo fim do m\u00eas sem falta.<\/p>\n<p>E, guardando o dinheiro na velha bolsinha de couro da R\u00fassia:<\/p>\n<p>Agora deixe-me ir.<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o fica p\u2019ra jantar? insistiu D. Terezinha. O Janj\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 chegando, mande um recadinho ao Dr. Mendes.<\/p>\n<p>Qual filha, n\u00e3o posso. O Mendes \u00e9 muito enjoado: fica para<br \/>\noutra vez, sim?<\/p>\n<p>Beijaram-se depressa e a mulher do juiz municipal retirou-se com o seu passo<br \/>\nmiudinho, arrepanhando o vestido.<\/p>\n<p>Apare\u00e7am, hein? disse da rua. Amor com amor se paga&#8230;<\/p>\n<p>E desapareceu, como um foguete na esquina.<\/p>\n<p>\u00c0s quatro horas entrou o amanuense com a papelada debaixo do bra\u00e7o,<br \/>\nmuito suado, assobiando a Mascote.<\/p>\n<p>A Campelinho tinha se escapulido: que eram horas de jantar.<\/p>\n<p>Maria do Carmo sentara-se ao piano e ensaiava a Juanita.<\/p>\n<p>D. Terezinha, essa andava para dentro, \u00e0s voltas com a cozinheira,<br \/>\nprovando as panelas, ralhando.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o apenas sacudiu os papeis sobre o sof\u00e1 foi direto \u00e0<br \/>\nafilhada.<\/p>\n<p>A santa est\u00e1 tocando Juanita? Que mimo, Jesus! Como se pode ser bonita<br \/>\nassim?<\/p>\n<p>E sem dar tempo a Maria defender-se, p\u00f4s-lhe um grande beijo na face.<br \/>\nA normalista sentiu um braseiro no rosto ao contato da barba espinhenta do<br \/>\namanuense, e um bafo insuport\u00e1vel de \u00e1lcool tomou-lhe as narinas.<br \/>\nEra a primeira vez, depois que sa\u00edra da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque o padrinho lhe beijava m cheio na face. O amanuense tinha se aproximado<br \/>\ndevagarinho, de m\u00e3o p\u2019ra tr\u00e1s, e, de repente tomando-lhe<br \/>\na cabe\u00e7a entre as m\u00e3os fedorentas a cigarro, beijou-a perto<br \/>\nda orelha, continuando cinicamente a assobiar.<\/p>\n<p>Ela apenas pode dizer \u201dPadrinho!\u201d agarrando-se \u00e0 cadeira<br \/>\nde mola. Ficou muito s\u00e9ria a limpar o rosto com a manga do casaco.<br \/>\nAh! mas dentro, nas profundezas de sua alma, teve um \u00f3dio imenso \u00e0quele<br \/>\nhomem nojento que abusava de sua autoridade sobre ela para beij\u00e1-la!<br \/>\nFosse outro, ela teria correspondido com uma bofetada na cara&#8230; Mas, que<br \/>\nfazer? Era seu padrinho, quase seu pai, devia atur\u00e1-lo, tinha a obriga\u00e7\u00e3o<br \/>\nde submeter-se, porque estava em sua casa, comia de seus pir\u00f5es, e<br \/>\no papai lhe pedira muito que o respeitasse. A princ\u00edpio at\u00e9<br \/>\no estimava, n\u00e3o o achava mau completamente, agora, por\u00e9m, que<br \/>\numa esp\u00e9cie de instinto irresist\u00edvel a impelia para o Zuza,<br \/>\nagora que o estudante ocupava um lugar no seu cora\u00e7\u00e3o enchendo-o<br \/>\nquase, o padrinho ia-se-lhe tornando repugnante e desprez\u00edvel. N\u00e3o<br \/>\npodia chegar-se a ele, v\u00ea-lo de perto, encar\u00e1-lo frente a frente,<br \/>\nsem um profundo e oculto frenesi. Um homem que n\u00e3o cuidava dos dentes,<br \/>\nque n\u00e3o se banhava, um b\u00eabedo!<\/p>\n<p>Esteve folheando o livro de m\u00fasicas automaticamente, sem se mexer,<br \/>\nsem dar palavra, esperando que Jo\u00e3o se retirasse da sala. Ele, por\u00e9m,<br \/>\nbateu o postigo com for\u00e7a, cambaleando, dando encontr\u00f5es nos<br \/>\nm\u00f3veis, aproximou-se outra vez da afilhada, e, num movimento abrutalhado,<br \/>\nabra\u00e7ando-a por tr\u00e1s, curvando-se para a frente sobre ela, chimpou-lhe<br \/>\noutro beijo, agora na boca, um beijo \u00famido, selvagem, babando-a como<br \/>\num alucinado&#8230;<\/p>\n<p>Maria quis gritar sufocada, mas o amanuense, tapando-lhe a boca, amea\u00e7ou&#8230;<\/p>\n<p>Nada de gritos, hein! nada de gritos&#8230; Eu sou seu padrinho, posso lhe beijar<br \/>\nonde e quando quiser, est\u00e1 ouvindo? Nada de gritos!<\/p>\n<p>E Maria, com os l\u00e1bios muito vermelhos, como a polpa d\u2019uma fruta,<br \/>\ndebru\u00e7ada sobre o piano, desandou a chorar nervosamente.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata tinha bebido sofrivelmente na bodega do Z\u00e9 Gato<br \/>\nonde costumava aquecer os pulm\u00f5es ao voltar da Reparti\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNesse dia excedeu-se, tomando em demasia, porque l\u00e1 estava o Perneta,<br \/>\num dos correios, que usava muleta, que tamb\u00e9m gostava da pinga e escrevia<br \/>\nversos para o Judeu Errante.<\/p>\n<p>Num momento deram cabo d\u2019uma garrafa em cujo r\u00f3tulo lia-se este<br \/>\nreclame atraente como visgo: Cumbe leg\u00edtima.<\/p>\n<p>E que loquacidade! Falaram por tr\u00eas deputados brasileiros sobre poesia<br \/>\ne pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O Perneta, sujeito pretensioso e pern\u00f3stico, metido a literato, falando<br \/>\nsempre com certo ar dogm\u00e1tico, ventilou uma quest\u00e3o de literatura<br \/>\ncearense \u00be Que n\u00e3o t\u00ednhamos poeta, disse: o que havia<br \/>\nera uma tro\u00e7a de malandros e de pedantes muito bestas, que escrevinhavam<br \/>\npara a Prov\u00edncia coisas t\u00e3o ruins que at\u00e9 faziam vergonha<br \/>\naos manes do glorioso Jos\u00e9 de Alencar; uma s\u00facia de imitadores<br \/>\nque se limitavam a copiar dos jornais da Corte.<\/p>\n<p>Na sua opini\u00e3o o Cear\u00e1 s\u00f3 possu\u00eda um poeta verdadeiramente<br \/>\ninspirado \u00be era Barbosa de Freitas. Esse, sim, cantava o que sentia<br \/>\nem versos magistrais, dignos de Victor Hugo. Conhecera-o pessoalmente. Um<br \/>\nbo\u00eamio! Fazia gosto ouvi-lo, Que eloq\u00fc\u00eancia, que verve, que<br \/>\ntalento! Sabia de cor muitas poesias dele, mas nenhuma se comparava ao \u00caxtase,<br \/>\n\u201cesse poema de amor\u201d, que valia por todas as poesias de Juvenal<br \/>\nGaleno. O Jo\u00e3o queria que recitasse?<\/p>\n<p>Recita l\u00e1, fez o amanuense emborcando o c\u00e1lice.<\/p>\n<p>E o Perneta, com a voz cavernosa, os cotovelos sobre a mesinha de ferro pintada<br \/>\nde amarelo, recitou de um f\u00f4lego o \u00caxtase<\/p>\n<p>Quando \u00e0s horas silentes da noite,<\/p>\n<p>Doce flauta descanta no ar,<\/p>\n<p>Quando as vagas solu\u00e7am baixinho<\/p>\n<p>Sobre a praia que alveja o luar<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>Terminou cansado, com um acesso de tosse, cuspindo para o lado.<\/p>\n<p>Sim, senhor! fez Jo\u00e3o da Mata com um murro na mesa. Isto \u00e9<br \/>\nque \u00e9 ser poeta!<\/p>\n<p>Queriam alguma coisa? veio perguntar o caixeiro, um rapazinho magro, doente,<br \/>\ncom olheiras.<\/p>\n<p>N\u00e3o, menino, disse o amanuense, est\u00e1 acesa a lanterna por ora.<br \/>\nFoi entusiasmo.<\/p>\n<p>Estavam no fundo da bodega, numa saleta escura, sem sa\u00edda por tr\u00e1s,<br \/>\ncom as paredes encardidas, \u00famida, cheirando a cacha\u00e7a, onde<br \/>\nos fregueses tomavam bebidas. \u201cSomente os fregueses de certa ordem\u201d,<br \/>\nprevenia o Z\u00e9 Gato.<\/p>\n<p>Pois \u00e9 isto, continuou o Perneta. O pobre Barbosa de Freitas acabou<br \/>\ncomo o grande Luiz de Cam\u00f5es na enxerga d\u2019um hospital, e nisto,<br \/>\npenso eu, est\u00e1 a sua maior gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Apoiado!<\/p>\n<p>E o que se v\u00ea hoje? Pedantismo somente. Os poetas e hoje usam fraque,<br \/>\ngravata de seda e polainas, escrevem cr\u00f4nicas elegantes, fazem pol\u00edtica.<br \/>\nOs Alvares de Azevedo e os Barbosa de Freitas s\u00e3o g\u00eanios que<br \/>\naparecem de s\u00e9culo em s\u00e9culo, como certos cometas, no c\u00e9u<br \/>\nda literatura.<\/p>\n<p>Que tal achas o Zuza como poeta? perguntou o amanuense.<\/p>\n<p>N\u00e3o me fales em semelhante gente. Aquilo \u00e9 pior do que um cano<br \/>\nde esgoto, homem. Quem chama o Zuza poeta n\u00e3o sabe o que \u00e9 ser<br \/>\npoeta, nunca leu o nosso Barbosa de Freitas. O Zuza emporcalha papel nada<br \/>\nmais. Aquilo s\u00f3 presta mesmo para capacho do presidente.<\/p>\n<p>A conversa encaminhou-se para a pol\u00edtica e Jo\u00e3o da Mata tomou<br \/>\na palavra. \u00be Que a pol\u00edtica era a desgra\u00e7a do Cear\u00e1;<br \/>\nque estava cansado de trabalhar gratuitamente para a pol\u00edtica. O que<br \/>\nqueria agora era dinheiro para acabar de levantar uma casinha no Outeiro.<\/p>\n<p>E que tal o presidente? perguntou o Perneta. Acha que far\u00e1 alguma<br \/>\ncoisa em benef\u00edcio do Cear\u00e1?<\/p>\n<p>Homem, como sabes, eu sou governista, porque infelizmente sou funcion\u00e1rio<br \/>\np\u00fablico, mas entendo que o Sr. Dr. Carlos \u00e9 um grand\u00edssimo<br \/>\np\u00e2ndego.<\/p>\n<p>E noutro tom, limpando os \u00f3culos:<\/p>\n<p>N\u00f3s precisamos \u00e9 de homens s\u00e9rios, seu Perneta, n\u00f3s<br \/>\nqueremos gente s\u00e9ria!<\/p>\n<p>Contou ent\u00e3o que na seca tinha ganho muito dinheiro \u00e0 custa<br \/>\ndos cofres p\u00fablicos; que fora comiss\u00e1rio de socorros, e que<br \/>\nos presidentes do Cear\u00e1 eram uns urubus que vinham beber o sangue ao<br \/>\nemigrante cearense.<\/p>\n<p>Tinha assistido a muita ladroeira na seca de 77.<\/p>\n<p>Aqui p\u2019ra n\u00f3s, acrescentou cauteloso, abaixando a voz, o atual<br \/>\npresidente n\u00e3o \u00e9 justi\u00e7a lhe seja \u00be um homem sem<br \/>\nju\u00edzo, um idiota, um leigo, mas, a continuar como vai, for\u00e7ando<br \/>\na emigra\u00e7\u00e3o para o sul, dentro em pouco transforma esta terra<br \/>\nnuma esp\u00e9cie de feitoria de S. Paulo. \u00c9 embarcar muita gente<br \/>\npara o sul, seu compadre! J\u00e1 l\u00e1 foram quatorze mil e tantos!<br \/>\nIsso \u00e9 despovoar p Cear\u00e1, isto \u00e9 fazer pouco caso do<br \/>\nCear\u00e1, c\u2019os diabos!<\/p>\n<p>\u00c9 bem feito! disse o Perneta, \u00e9 muito bem feito para n\u00e3o<br \/>\nsermos bestas. Isto \u00e9 uma terra em que os estranhos fazem o que querem<br \/>\ne ningu\u00e9m protesta, ningu\u00e9m reage. N\u00f3s s\u00f3 sabemos<br \/>\nser maus para os nossos patr\u00edcios.<\/p>\n<p>Mas olha que o Cearense tem comido o couro ao homem&#8230;<\/p>\n<p>Qual comido o couro! O povo \u00e9 que devia dar uma li\u00e7\u00e3o<br \/>\nde mestre ao governo, a este governo sem patriotismo e sem crit\u00e9rio!<br \/>\nE com esta me vou, que isso de pol\u00edtica fede&#8230; Queres mais alguma<br \/>\ncoisa?<\/p>\n<p>Olha que demos cabo d\u2019uma garrafa! Nem mais uma gota. Que horas tens?<\/p>\n<p>O outro puxou um rel\u00f3gio de plaqu\u00ea desbotado, dentro d\u2019uma<br \/>\ncapa de camur\u00e7a, e, erguendo-se:<\/p>\n<p>Quatro menos cinco minutos. Safa! O tempo voa! O Z\u00e9, bota na conta<br \/>\nisto: uma garrafa de branca.<\/p>\n<p>J\u00e1 c\u00e1 est\u00e1, acudiu o Z\u00e9 Gato, muito sujo, com<br \/>\num dedo amarrado num pano preto, o l\u00e1pis detr\u00e1s da orelha ,<br \/>\narrastando os chinelos.<\/p>\n<p>&#8230; Na conta do Perneta, explicou Jo\u00e3o da Mata<\/p>\n<p>E sa\u00edram pisando em falso, por entre fardos de carne seca e caixas<br \/>\nde cebola.<\/p>\n<p>\u00d3 Jo\u00e3o, perguntou na rua o aleijado, a menina casa sempre com<br \/>\no tipo?<\/p>\n<p>Quem, a Maria?<\/p>\n<p>Sim.<\/p>\n<p>Casa, mas h\u00e1-de-ser com o diabo! Sujeitos daquela ordem n\u00e3o<br \/>\nme entram em casa&#8230;<\/p>\n<p>Mas olha que \u00e9 um casament\u00e3o!<\/p>\n<p>Nem que ele viesse coberto de ouro num palanque de diamante. Ela s\u00f3<br \/>\nh\u00e1-de casar com quem o padrinho quiser. E adeusinho, menino, adeusinho.<\/p>\n<p>Separaram-se.<\/p>\n<p>Passava um enterro caminho do cemit\u00e9rio. Quatro gatos-pingados, de<br \/>\npreto, conduziam o caix\u00e3o cujos gal\u00f5es cor de fogo luziam ao<br \/>\nsol. Pouca gente acompanhando: uns dez homens cabisbaixos, taciturnos, de<br \/>\nchap\u00e9u na m\u00e3o, marchavam a passo e passo. Na frente caminhava<br \/>\num padre, de estola e sobrepeliz, olhando para os lados, indiferente, mais<br \/>\num menino de cor de batina encarnada carregando a cruz.<\/p>\n<p>O sino da S\u00e9 dobrava a finados melancolicamente. Gente chegava \u00e0s<br \/>\njanelas para ver passar o pr\u00e9stito.<\/p>\n<p>De quem \u00e9? Quem morreu? perguntava-se com mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>A terra lhe seja leve, fez o Z\u00e9 Gato, abando a cabe\u00e7a com um<br \/>\nar triste.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata parou \u00e0 beira da cal\u00e7ada afagando a p\u00eara<br \/>\ncom os dedos magros e compridos, nervoso Quem morreria? pensava \u00be E,<br \/>\nassim que o pr\u00e9stito passou, foi andando devagar, cabe\u00e7a baixa,<br \/>\nequilibrando-se.<\/p>\n<p>No outro lado da rua, o Rom\u00e3o, o negro Rom\u00e3o que fazia a limpeza<br \/>\nda cidade, passava muito b\u00eabado fazendo curvas, de cal\u00e7as arrega\u00e7adas<br \/>\nat\u00e9 os joelhos, peito \u00e0 mostra, com um desprezo quase sublime<br \/>\npor tudo e por todos, gritando numa voz forte e aguardentada:<\/p>\n<p>Arre corno!&#8230; Um garoto atirou-lhe uma pedra.<\/p>\n<p>Mas o negro, pendido p\u2019ra frente, ziguezagueando, trope\u00e7ando,<br \/>\nencostando-se \u00e0s paredes, torto, baixo, o cabelo carapinha sujo de<br \/>\npoeira, pardacento, repetia insistentemente, alto e bom som, o estribilho<br \/>\nque todo o Cear\u00e1 estava acostumado a ouvir-lhe Arre corno! e que repercutia<br \/>\ncomo uma verdade na tristeza calma da rua.<\/p>\n<h4><a name=\"5\"><\/a>Cap\u00edtulo V<\/h4>\n<p>Um t\u00e9dio invenc\u00edvel, um des\u00e2nimo infinito, foi-se apoderando<br \/>\nde Maria do Carmo a ponto de lhe alterar os h\u00e1bitos e as fei\u00e7\u00f5es.<br \/>\nCome\u00e7ou a emagrecer, a definhar, enfadando-se por d\u00e1 c\u00e1<br \/>\naquela palha, maldizendo-se. Tudo a contrariava agora, tinha momentos de completo<br \/>\nabandono de si mesma, o mais leve transtorno nos seus planos fazia-lhe vontade<br \/>\nde chorar, de recolher-se ao seu quarto e desabafar consigo mesma, sem que<br \/>\nningu\u00e9m visse, num choro silencioso. Estava-se tornando insoci\u00e1vel<br \/>\ncomo uma freira, t\u00edmida e nervosa como uma hist\u00e9rica. Ia \u00e0<br \/>\nEscola para n\u00e3o contrarias os padrinhos, para evitar desconfian\u00e7as,<br \/>\nmas o seu desejo, o seu \u00fanico desejo ser viver s\u00f3, completamente<br \/>\ns\u00f3, numa esp\u00e9cie de deserto, longe de todo o ru\u00eddo, longe<br \/>\nd\u2019aquela gente e d\u2019aquela casa, num lugar onde ela pudesse ver<br \/>\no Zuza todos os dias e dizer-lhe tudo que quisesse, tudo o que lhe viesse<br \/>\n\u00e0 cabe\u00e7a. O ru\u00eddo que se levantou em torno de seu nome<br \/>\nincomodava-a horrivelmente, como zumbir d\u2019uma vespa enorme que a perseguisse<br \/>\nconstantemente. Que inferno! Todo o mundo metia-se com sua vida, como se fosse<br \/>\numa grande coisa ela casar com o Zuza! Era melhor que fossem plantar batatas<br \/>\ne n\u00e3o estivessem encafifando-a . Havia de casar com Zuza, porque queria,<br \/>\nn\u00e3o era da conta de ningu\u00e9m, seu cora\u00e7\u00e3o era livre<br \/>\ncomo as andorinhas. Oh!&#8230;<\/p>\n<p>Mas, menina, quem diz o contr\u00e1rio? perguntava a Campelinho. Eu sempre<br \/>\nte aconselhei que o melhor partido era aceitar o amor do estudante.<\/p>\n<p>N\u00e3o era a L\u00eddia, eram as outras, as invejosas, as brutas, que<br \/>\nnem sequer sabiam conjugar um verbo. estava cansada de ouvir pilh\u00e9rias<br \/>\ne risinhos tolos, mas \u00e0 primeira que lhe dissesse tanto assim (e indicava<br \/>\no tamanho da unha), \u00e0 primeira que abusasse da sua paci\u00eancia,<br \/>\nela, Maria, saberia responder na ponta da l\u00edngua . Umas namoradeiras<br \/>\nque punham-se a dar esc\u00e2ndalos com os estudantes do Liceu, umas sem-vergonhas!<br \/>\nHavia de mostrar!<\/p>\n<p>Ela \u00e9 que era uma tola, dizia a L\u00eddia; as normalistas falavam<br \/>\nde invejosas, mandasse plantar favas. Cada qual namora com quem quer, e, demais,<br \/>\nn\u00e3o era nenhuma admira\u00e7\u00e3o a Maria casar com o Zuza. Por<br \/>\nqu\u00ea? Porque ele era rico e ela era pobre?<\/p>\n<p>Muito obrigada! Napole\u00e3o! tinha-se casado com uma simples camponesa,<br \/>\ne mais era um imperador!<\/p>\n<p>E Maria do Carmo passava noites sem dormir, a pensar no futuro bacharel,<br \/>\nretratando-o na imagina\u00e7\u00e3o, amando-o de longe. Havia j\u00e1<br \/>\nseis dias que ele seguira com o presidente, num domingo.<\/p>\n<p>Que custo, que viagem sem fim! Aquela demora impacientava-a. J\u00e1 era<br \/>\ntempo de terem voltado&#8230;<\/p>\n<p>Todos os dias, \u00e0 noitinha, ia esperar a Prov\u00edncia na janela,<br \/>\na ver se encontrava alguma not\u00edcia dos excursionistas.<\/p>\n<p>Mas nada!<\/p>\n<p>No domingo seguinte, por\u00e9m, a folha oficial noticiou que \u201cos<br \/>\nilustres touristes\u201d deviam regressar \u00e0 capital no dia imediato.<\/p>\n<p>Oito dias! T\u00ea-la-ia esquecido? Oito dias na serra, tomando banhos de<br \/>\ncachoeira, passeando a cavalo, ca\u00e7ando, divertindo-se \u00be que<br \/>\nexcelente vida! Maria do Carmo sentiu uma alegria deliciosa ao saber que d\u2019a\u00ed<br \/>\na vinte quatro horas o Zuza estaria de volta, mais am\u00e1vel talvez, mais<br \/>\nnutrido, mais gordo e mais bonito, contando-lhe as minud\u00eancias da viagem.<br \/>\nAgora, sim, conversaria com ele, perguntar-lhe-ia se gostara da serra, se<br \/>\ntencionava partir logo para o Recife, se pretendia casar no Cear\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Nessa noite fez-se muito boa para o padrinho, chamou-o \u201cpadrinhozinho\u201d,<br \/>\nacariciou-lhe os bigodes, sem dar a entender o seu grande contentamento, a<br \/>\nsua grande felicidade. Durante o v\u00edspora esteve perto dele, acompanhando-lhe<br \/>\no jogo, lembrando quando ele esquecia marcar um n\u00famero, dando-lhe cafun\u00e9s<br \/>\nno alto da cabe\u00e7a, com uma solicitude ing\u00eanua.<\/p>\n<p>Quando os habitu\u00e9s do v\u00edspora retiraram-se, Jo\u00e3o da<br \/>\nMata chamou a afilhada \u00e0 alcova, e, muito em segredo, como se fossem<br \/>\nvelhos namorados, pediu-lhe um beijo na \u201cboquinha\u201d. Maria ofereceu-lhe<br \/>\nos l\u00e1bios com uma passividade de escrava, sem a menor resist\u00eancia,<br \/>\npondo-se nos bicos dos p\u00e9s, porque Jo\u00e3o era muito alto, e deixou<br \/>\nque ele sugasse-os em dois tempos, \u00e0s pressas, antes que viesse D.<br \/>\nTerezinha.<\/p>\n<p>Grande foi a admira\u00e7\u00e3o e a lux\u00faria do amanuense. Maria<br \/>\nentregara-se sem um grito, sem um esfor\u00e7o! E suspendendo-a pela cintura,<br \/>\nnum \u00edmpeto de carnalidade indom\u00e1vel, apertou-a contra si, com<br \/>\nfor\u00e7a, rilhando os dentes, nervoso, bambas as pernas, o cora\u00e7\u00e3o<br \/>\naos pulos; mas soltou-a logo. D. Terezinha ali vinha pelo corredor, arrastando<br \/>\nos velhos sapatos achinelados. Jo\u00e3o p\u00f4s-se a assobiar de m\u00e3os<br \/>\npara tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Estavam jogando o s\u00e9rio? perguntou a mulher.<\/p>\n<p>N\u00e3o. Porque?<\/p>\n<p>T\u00e3o calados!&#8230;<\/p>\n<p>Queria tu que estiv\u00e9ssemos a gritar como doidos? fez o amanuense ainda<br \/>\ntr\u00eamulo da como\u00e7\u00e3o, enquanto Maria, sem dizer palavra,<br \/>\ndisfar\u00e7ava na janela, olhando o c\u00e9u.<\/p>\n<p>D. Terezinha come\u00e7ara a desconfiar das inten\u00e7\u00f5es de<br \/>\nJo\u00e3o da Mata. Via-o agora muito babado pela Maria, convidando-a sempre<br \/>\npara junto de si, perseguindo-a mesmo e notava que a rapariga ultimamente<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o era a mesma para ele, evitava-o, fugia de sua presen\u00e7a,<br \/>\nesquivava-se como uma gatinha corrida pelo macho.<\/p>\n<p>Um dia, vendo-a triste a uma canto, perguntou-lhe o que tinha. Maria conservou-se<br \/>\ncalada e s\u00e9ria, sem erguer a cabe\u00e7a. D. Terezinha quis atribuir<br \/>\naquele estado \u00e0 aus\u00eancia do Zuza, mas notou que havia no olhar<br \/>\nda afilhada um como ressentimento novo, de momento. Nesse dia, justamente,<br \/>\nJo\u00e3o esbravejara muito contra a rapariga, amea\u00e7ando-a espancar<br \/>\nse ela ousasse \u201cpensar\u201d no estudante. Desde ent\u00e3o come\u00e7aram<br \/>\nas suspeitas de D. Terezinha que conhecia certas tend\u00eancias instintivas<br \/>\nde Jo\u00e3o. De certo alguma coisa se passava ente eles. Esses sobressaltos,<br \/>\nessas arrelias&#8230; Entretanto, deixava as coisas no mesmo p\u00e9, sem dizer<br \/>\nnada. Talvez fosse desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>E o mais curioso \u00e9 que o Jo\u00e3o agora tinha rusgas consecutivas<br \/>\ncom a mulher, sem motivo, por ninharia, ao voltar da Reparti\u00e7\u00e3o<br \/>\nou pela manh\u00e3 antes de ir.<\/p>\n<p>Um belo dia rompeu deveras. Jo\u00e3o sentiu logo o sangue subir-lhe \u00e0<br \/>\ncabe\u00e7a, e, numa excita\u00e7\u00e3o violent\u00edssima, num daqueles<br \/>\n\u00edmpetos de raiva que lhe eram t\u00e3o comuns devido \u00e0 sua<br \/>\nnatureza irasc\u00edvel, ao seu temperamento bilioso, desandou furioso contra<br \/>\nD. Terezinha, arremetendo com a m\u00e3o fechada, fulo de c\u00f3lera.<br \/>\nNaquela casa quem mandava era ele, ficasse sabendo! N\u00e3o aturava desaforos<br \/>\nde mulher alguma, quanto mais dela que n\u00e3o tinha nada com sua vida!<\/p>\n<p>E fique voc\u00ea sabendo, acrescentou com sua vozinha estridente, dando<br \/>\nmurros na mesa. Fique voc\u00ea sabendo que uma mulher amigada \u00e9 como<br \/>\nse fosse uma f\u00eamea qualquer, ouviu? Se duvidar, ponho-lhe no olho da<br \/>\nrua!<\/p>\n<p>Palavras n\u00e3o era ditas. D. Terezinha saltou como uma fera congestionada,<br \/>\nos olhos acesos d\u2019um fulgor fosforescente, desesperada, possessa, os<br \/>\nbra\u00e7os em arco e as m\u00e3os nas ilhargas:<\/p>\n<p>Voc\u00ea o que quer \u00e9 abusar da menina e plantar-lhe um filho no<br \/>\nbuxo, seu grandis&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o acabou a palavra, porque o amanuense, ferido no seu amor pr\u00f3prio,<br \/>\nna sua autoridade de chefe da casa, cego, tresvariado, encheu-lhe a boca com<br \/>\numa formid\u00e1vel bofetada que f\u00ea-la rodar.<\/p>\n<p>Maria ficou perplexa, cosida \u00e0 janela, muito tr\u00eamula, sem saber<br \/>\no que fizesse, muda, como petrificada. Nos seus magn\u00edficos olhos cor<br \/>\nde azeitona perpassou a sombra d\u2019uma desgra\u00e7a. O padrinho tinha<br \/>\nenlouquecido, pensou. E um pavor infantil tomou-a toda.<\/p>\n<p>Mal acordada dos efeitos da agress\u00e3o, titubeante, manquejando com<br \/>\na m\u00e3o no queixo, D. Terezinha foi estender-se l\u00e1 dentro na alcova,<br \/>\nsolu\u00e7ando t\u00e3o alto que se ouvia fora , na rua.<\/p>\n<p>Defronte, em casa da vi\u00fava Campelo, estava formada a panelinha do<br \/>\ncostume o Loureiro, a vi\u00fava e a afilhada.<\/p>\n<p>Eram quase nove horas da noite.<\/p>\n<p>A L\u00eddia com um pulo veio saber, muito curiosa, o que sucedera, tinha<br \/>\nouvido choro&#8230; Se precisassem de alguma cosa&#8230;<\/p>\n<p>Mas o amanuense tranq\u00fcilizou-a: que n\u00e3o era nada, coisas de mulher,<br \/>\ncoisas de mulher&#8230;<\/p>\n<p>A Campelinho compreendeu que se tratava de assuntos \u00edntimos e rodou<br \/>\nnos calcanhares. N\u00e3o era nada, era o doido do amanuense que andava<br \/>\naos pontap\u00e9s.<\/p>\n<p>Gente canalha! fez o guarda-livros inalter\u00e1vel. Que educa\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque fina educa\u00e7\u00e3o, recebia-se naquela casa!<\/p>\n<p>Logo no dia seguinte \u00e0 chegada do Zuza uma segunda feira luminosa<br \/>\nde Outubro, muito azul no alto, com irradia\u00e7\u00f5es no granito das<br \/>\ncal\u00e7adas e uma aragem insens\u00edvel quase a arrepiar a fronde espessa<br \/>\ndos arvoredos da pra\u00e7a do Patroc\u00ednio Maria do Carmo foi recebida<br \/>\nna Escola Normal com um chuveiro imprevisto de parab\u00e9ns \u00be que<br \/>\nas normalistas lhe davam \u00e0 guisa de presentes de ano. Parab\u00e9ns!<br \/>\nParab\u00e9ns! repetiam arrastando os p\u00e9s para tr\u00e1s, abrindo<br \/>\nalas, como se cortejassem uma princesa. \u00beTinham combinado saud\u00e1-la<br \/>\npela chegada do Zuza com esse esp\u00edrito irrequieto de colegial despeitado<br \/>\nque se apraz em chacotear outro, e talvez com uma ponta de inveja a mordic\u00e1-las<br \/>\npor dentro.<\/p>\n<p>A pra\u00e7a permanecia numa inquieta\u00e7\u00e3o aben\u00e7oada,<br \/>\ncom seus renques de mungubeiras muito sombrias, verde-escuras e eternamente<br \/>\nfrescas, a desafiar, frente a frente, a pujan\u00e7a outonal dos cajueiros<br \/>\nem flor que os liceistas castigavam a pedradas.<\/p>\n<p>Meninos apregoavam numa voz clara e vibrante:<\/p>\n<p>Loteria do Par\u00e1, 30 contos!<\/p>\n<p>O edif\u00edcio da Escola Normal, a um canto do quadril\u00e1tero, pintadinho<br \/>\nde fresco, cinzento, com as janelas abertas \u00e0 claridade forte do dia,<br \/>\ntinha o aspecto alegre d\u2019uma casa de noivos acabada de criar-se.<\/p>\n<p>Maria estava radiante! Que extraordin\u00e1ria alegria infiltrava-se-lhe<br \/>\nna alma, que excelente disposi\u00e7\u00e3o moral! Acordara mais cedo<br \/>\nque nos outros dias, como se tivesse de ir a alguma festa matinal, a algum<br \/>\npasseio no campo, espanejando-se toda numa del\u00edcia incomensur\u00e1vel,<br \/>\nfeliz como uma ave que solta o primeiro v\u00f4o. Mas ao entrar na Escola<br \/>\ndesapontou deveras. Seriam onze horas. O diretor ainda n\u00e3o havia chegado.<br \/>\nRaparigas de todos os tamanhos, trajando branco, azul e rosa conversavam animadas<br \/>\nde livro na m\u00e3o, formando grupos, no vest\u00edbulo que separava<br \/>\na sala de m\u00fasica do gabinete de ci\u00eancias naturais, no pavimento<br \/>\nsuperior.<\/p>\n<p>Maria entrou vivamente alegre, de bra\u00e7o com a L\u00eddia, dando<br \/>\n\u00be bom dia! \u00e0s colegas, uma bonita orqu\u00eddea no peito,<br \/>\ntoda de branco, apertada por uma cinta. Mas a sua delicada susceptibilidade<br \/>\nestremeceu ante a ins\u00f3lita manifesta\u00e7\u00e3o que se lhe fazia,<br \/>\ne uns tons de rosa desmaiados, um ligeiro rubor \u00be coloriram-lhe o moreno<br \/>\nclaro das faces. \u201cAceitava os parab\u00e9ns, como n\u00e3o? Muito<br \/>\nobrigada, muit\u00edssimo obrigada! Queriam debic\u00e1-la? Corujas! Fossem<br \/>\ndebicar a av\u00f3!\u201d<\/p>\n<p>Uma gargalhada irrompeu do grupo indiscreto, clamorosa e prolongada.<\/p>\n<p>Meninas! fez a L\u00eddia. Isso s\u00e3o modos!<\/p>\n<p>Olha a baronesa!<\/p>\n<p>Como ela est\u00e1 grande!<\/p>\n<p>Sua incel\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>Maria a custo p\u00f4de abafar a raiva que lhe sacudia os nervos. Sentou-se<br \/>\n\u00e0 varanda que dizia para uns terrenos devolutos do lado de Benfica,<br \/>\nmordiscando a pelo dos bei\u00e7os, trombuda, cara fechada, a olhar o arvoredo<br \/>\ncom um ar afetado de absoluta indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Continuava o ru\u00eddo. Havia um jogo cont\u00ednuo de ditinhos picantes<br \/>\nacompanhado de risadinhas sublinhadas. Uma queria um bot\u00e3o de flor<br \/>\nde laranjeira, da grinalda, outra desejava apenas um copito de alu\u00e1,<br \/>\ness\u2019outra contentava-se com um beijo na \u201cnoiva\u201d, aquela<br \/>\nqueria ser madrinho do \u201cprimeiro filho\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a atirar-lhe bolinhas de papel.<\/p>\n<p>Maria marcava o compasso com o p\u00e9, furiosa, sem ver nada diante dos<br \/>\nolhos.<\/p>\n<p>J\u00e1 basta! disse a L\u00eddia abrindo os bra\u00e7os para afastar<br \/>\nas outras. Tudo tem limite. Voc\u00eas est\u00e3o se excedendo&#8230;<\/p>\n<p>Umas ignorantes! saltou Maria acordando. Umas idiotas que querem levar a<br \/>\ngente a rid\u00edculo por uma coisa atoa. Ainda hei de mostrar!&#8230;<\/p>\n<p>O diretor, o diretor! veio avisar a Jacintinha, uma feiosa, d\u2019olho<br \/>\nvazado, com sinais de bexiga no rosto, e que estava acabando de decorar alto<br \/>\na li\u00e7\u00e3o de geografia.<\/p>\n<p>Foi como se tivesse dito para um bando de crian\u00e7as traquinas: \u00be<br \/>\nA\u00ed vem o tutu!<\/p>\n<p>Houve uma debandada: umas embarafustaram pela sala de m\u00fasica, outras<br \/>\npela de ci\u00eancias, outras, finalmente, deixaram-se ficar em p\u00e9,<br \/>\nlendo a meia voz muito s\u00e9rias. Fez-se um sil\u00eancio respeitoso,<br \/>\ne da\u00ed a pouco surgiu no alto da escada a figura antip\u00e1tica do<br \/>\ndiretor, um sujeito baixo, espada\u00fado, cara larga e cheia com uma pronunciada<br \/>\ncavidade na caixa do queixo, venta excessivamente grande e chata dilatando<br \/>\na um sestro especial, cabelo grisalho descendo pelas t\u00eamporas em costeletas<br \/>\ncompactas e brancas, olhos mi\u00fados e vivos, testa inteligente&#8230;<\/p>\n<p>Maria respirou com al\u00edvio.<\/p>\n<p>Mas assim que o diretor deu as costas, entrando para o seu gabinete, recome\u00e7ou<br \/>\no zumzum de vozes, a princ\u00edpio baixinho, depois num crescendo.<\/p>\n<p>O sol obrigou-a a fechar o livro. Ergueu-se e foi para a aula, carrancuda,<br \/>\nextremamente bela com o seu vestidinho de cassa, apertado na cinta delgada.<\/p>\n<p>Ao meio dia, pontualmente, chegou o professor de geografia, o Berredo, um<br \/>\nhomenzarr\u00e3o alto, grosso e trigueiro, barba espessa e rente, quase<br \/>\ncobrindo o rosto, olhos pequenos e concupiscentes. Cumprimentou o diretor,<br \/>\nmuito afetuoso, limpando o suor da testa. E consultando o rel\u00f3gio:<\/p>\n<p>Meio dia! S\u00e3o horas e dar o meu recado. Com licen\u00e7a.<\/p>\n<p>Contavam-se na sala d\u2019aula pouco mais de umas dez alunas, quase todas<br \/>\nde livro aberto sobre as carteiras, silenciosas agora, \u00e0 espera do<br \/>\nprofessor. Maria ocupava um dos bancos da primeira fila.<\/p>\n<p>Ao entrar o Berredo, houve um arrastar de p\u00e9s, todas simularam levantar-se,<br \/>\ne o ilustre preceptor sentou-se, na forma do louv\u00e1vel costume, passeando<br \/>\no olhar na sala, vagarosamente, com bonomia paternal tal um pastor d\u2019ovelhas<br \/>\na velar o casto rebanho.<\/p>\n<p>A sala era bastante larga para comportar outras tantas disc\u00edpulas,<br \/>\ncom janelas para a rua e para os terrenos devolutos, muito ventilada. Era<br \/>\nali que funcionavam as aulas de ci\u00eancia f\u00edsicas e naturais, em<br \/>\nhoras diferentes das de geografia. N\u00e3o se via um s\u00f3 mapa, uma<br \/>\ns\u00f3 carta geogr\u00e1fica na paredes, onde punham sombras escuras<br \/>\npeles de animais selvagens colocadas por cima de vidra\u00e7as que guardavam,<br \/>\nintactos aparelhos de qu\u00edmica e f\u00edsica, redomas de vidro bojudas<br \/>\ne reluzentes, velhas m\u00e1quinas pneum\u00e1ticas nunca servidas, pilhas<\/p>\n<p>el\u00e9tricas de Bunsen, incompletas, sem o am\u00e1lgamas de zinco,<br \/>\nos condutores pendentes num abandono glacial; cole\u00e7\u00f5es de minerais,<br \/>\nnumerados em caixinhas, no fundo da sala, em prateleiras volantes&#8230; Nenhum<br \/>\nind\u00edcio, por\u00e9m, de esfera terrestre.<\/p>\n<p>O professor pediu um comp\u00eandio que folheou de relance. Qual era a li\u00e7\u00e3o?<br \/>\nA Oceania? Pois bem&#8230;<\/p>\n<p>Diga-me, senhora Da. Maria do Carmo: A Oceania \u00e9 ilha ou continente?<\/p>\n<p>Maria fechou depressa o comp\u00eandio que estivera lendo, muito embara\u00e7ada,<br \/>\ne, fitando o mestre, batendo com os dedos na carteira, com um risinho:<\/p>\n<p>Somente uma parte da Oceania pode ser considerada um continente.<\/p>\n<p>Perfeitamente bem!<\/p>\n<p>E perguntou, radiante, como se chama essa parte da Oceania que pode ser considerada<br \/>\ncontinente; explicou demoradamente e categoricamente a natureza das ilhas<br \/>\naustralianas, elogiando as belas paisagens claras da Nova Zel\u00e2ndia,<br \/>\na sua vegeta\u00e7\u00e3o opulenta, as riquezas do seu solo, o seu clima,<br \/>\na sua fauna, com entusiasmo de touriste, animando-se pouco e pouco, dando<br \/>\npulinhos intermitentes na cadeira de bra\u00e7os que gemia ao peso de seu<br \/>\ncorpo.<\/p>\n<p>Maria, muito s\u00e9ria, sem mover-se, ouvia com aten\u00e7\u00e3o,<br \/>\no olhar fixo nos olhos do Berredo, bebendo-lhe as palavras, admirando-o, adorando-o<br \/>\nquase como se visse nele um doutor em ci\u00eancias, um s\u00e1bio consumado,<br \/>\num grande esp\u00edrito. Decididamente era um talento, o Berredo! Gostava<br \/>\nimenso de o ouvir falar, achava-o eloq\u00fcente, claro, expl\u00edcito,<br \/>\ncapaz de prender um audit\u00f3rio ilustrado. Era a sua aula predileta,<br \/>\na de geografia, o Berredo tornava-a mais interessante ainda. Os outros, o<br \/>\nprofessor de franc\u00eas e o de ci\u00eancias, nem por isso; davam sua<br \/>\nli\u00e7\u00e3o como papagaios, e adeus, at\u00e9 amanh\u00e3. O Berredo,<br \/>\nn\u00e3o senhores, tinha um excelente m\u00e9todo de ensino, sabia atrair<br \/>\na aten\u00e7\u00e3o das alunas com descri\u00e7\u00f5es pitorescas<br \/>\ne pilh\u00e9rias encaixadas a jeito no fio do discurso.<\/p>\n<p>\u201cMuitas ilhas da Oceania, dizia ele, co\u00e7ando a barba, s\u00e3o<br \/>\nhabitadas por selvagens antrop\u00f3fagos, como os da Am\u00e9rica antes<br \/>\nde sua descoberta&#8230;\u201d<\/p>\n<p>\u201cImaginem as senhoras, que horror! Homens devorando-se uns aos outros,<br \/>\ncomendo-se com a mesma satisfa\u00e7\u00e3o, com a mesma voracidade, com<br \/>\no mesmo canibalismo com que n\u00f3s outros, civilizados, trinchamos um<br \/>\nbeef-steak ao almo\u00e7o&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Houve um casquinada de risos \u00e0 surdina.<\/p>\n<p>Agora se o Zuza te come, disse baixinho, por tr\u00e1s de Maria do Carmo,<br \/>\numa mo\u00e7oila de pincenez. Toma cuidado, menina, o bicho tem cara de<br \/>\nantrop\u00f3fago&#8230;<\/p>\n<p>\u201cE note-se, continuou o Berredo, as pr\u00f3prias mulheres n\u00e3o<br \/>\nescapam \u00e0 f\u00faria das tribos inimigas: devoram-se tamb\u00e9m&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Virgem! fez Maria com espanto&#8230;<\/p>\n<p>\u201cAs senhoras com certeza preferem viver n o Cear\u00e1 a habitar<br \/>\na Papu\u00e1sia&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Credo! fizeram muitas a uma voz.<\/p>\n<p>E no Brasil h\u00e1 desses selvagens? perguntou estouvadamente uma loura<br \/>\nque se escondia na \u00faltima fila, estirando o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>O pedagogo sorriu, passando a m\u00e3o cabeluda na barba; e muito delicado,<br \/>\nnum tom ben\u00e9volo:<\/p>\n<p>\u201cAtualmente existem poucos&#8230; Restos de tribos extintas&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E continuou a falar com a loquacidade de um sacerdote a pregar a moral, explicando<br \/>\na vida e costumes dos selvagens da Nova Zel\u00e2ndia, citando J\u00falio<br \/>\nVerne, cujas obras recomendava \u00e0s normalistas com um \u201cprecioso<br \/>\ntesouro de conhecimentos \u00fateis e agrad\u00e1veis\u201d. Lessem J\u00falio<br \/>\nVerne nas horas d\u2019\u00f3cio; era sempre melhor do que perder tempo<br \/>\ncom leituras sem proveito, muitas vezes impr\u00f3prias de uma mo\u00e7a<br \/>\nde fam\u00edlia&#8230;<\/p>\n<p>V\u00e1 esperando&#8230;. murmurou a L\u00eddia.<\/p>\n<p>\u201cEu estou certo, dizia o Berredo, convicto, de que as senhoras n\u00e3o<br \/>\nl\u00eaem livro obscenos, mas refiro-me a esses romances sentimentais que<br \/>\nas mo\u00e7as geralmente gostam de ler, umas historiazinhas f\u00fateis<br \/>\nde amores galantes, que n\u00e3o significam absolutamente coisa alguma e<br \/>\ns\u00f3 servem de transtornar o esp\u00edrito \u00e0s incautas&#8230; Aposto<br \/>\nem como quase todas as senhoras conhecem a Dama das cam\u00e9lias, a Luc\u00edola&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Quase todas conheciam.<\/p>\n<p>\u201c&#8230;.Entretanto, rigorosamente, s\u00e3o p\u00e9ssimos exemplos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Tomou um gole d\u2019\u00e1gua, e continuando:<\/p>\n<p>\u201cNada! As mo\u00e7as deviam ler somente o grande J\u00falio Verne,<br \/>\no propagandista das ci\u00eancias. Comprem a Viagem ao Centro da Terra, Os<br \/>\nfilhos do Capit\u00e3o Grant e tantos outros romances \u00fateis, e encontrar\u00e3o<br \/>\nneles alta soma de ensinamentos valiosos, de conhecimentos pr\u00e1ticos&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O cont\u00ednuo veio anunciar que estava terminada a hora.<\/p>\n<p>Dias depois o Berredo lecionava, como de costume, a seu bel-prazer, derreado<br \/>\nna larga cadeira de espaldar, quando o cont\u00ednuo, fazendo uma mesura,<br \/>\nanunciou: \u201cS. Excia. o Sr. Presidente da Prov\u00edncia\u201d, e<br \/>\nimediatamente assomou \u00e0 porta da sala o ilustre personagem, mostrando<br \/>\na esplendida dentadura num sorriso fidalgo, com o peito da camisa deslumbrante<br \/>\nde alvura, colarinhos muito altos e tesos, gravatas de seda cor de creme,<br \/>\nonde reluzia uma ferradura de ouro polido, bigodes torcidos imperiosamente:<br \/>\num bel\u00edssimo tipo de sulista aristocrata. Estava um pouco queimado<br \/>\nda viagem a Baturit\u00e9.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">O Berredo desceu logo do estrado<br \/>\na cumpriment\u00e1-lo com o seu caracter\u00edstico aprumo d\u2019homem<br \/>\nque viajara a Europa. Todas as alunas ergueram-se.<\/p>\n<p>Como passa V. Excia, bem? Estava agora mesmo&#8230;<\/p>\n<p>O presidente pediu que n\u00e3o se incomodasse, que continuasse. Acompanhavam-no,<br \/>\ncomo sempre, o Jos\u00e9 Pereira e o Zuza.<\/p>\n<p>Maria, ao dar com os olhos do estudante, ficou branca, um calafrio gelou-lhe<br \/>\na espinha, baixou a cabe\u00e7a. fria, fria, como se tivesse diante de um<br \/>\njuiz inflex\u00edvel.<\/p>\n<p>S. Excia. tomou assento entre o professor e o diretor. Jos\u00e9 Pereira<br \/>\ne o Zuza sentaram-se nas extremidades da mesa.<\/p>\n<p>As alunas tinham-se formalizado, muito respeitosas, im\u00f3veis quase,<br \/>\nde livro aberto, com medo \u00e0 chamada. Houve um sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Pode continuar, disse o presidente para o Berredo. E este, inalter\u00e1vel:<\/p>\n<p>V. Excia. n\u00e3o deseja argumentar?<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o. Obrigado&#8230;<\/p>\n<p>Neste caso&#8230;<\/p>\n<p>E para s disc\u00edpulas:<\/p>\n<p>Diga-me a Sra. D. Sofia de Oliveira, quantos s\u00e3o os p\u00f3los da<br \/>\nTerra? Veja como responde, \u00e9 uma pequena recapitula\u00e7&amp;atiatilde;o.<br \/>\nN\u00e3o se acanhe. Quantos s\u00e3o os p\u00f3los da Terra?<\/p>\n<p>O Berredo lembrou-se de fazer uma ligeira recapitula\u00e7\u00e3o para<br \/>\ndar id\u00e9ia do adiantamento de suas alunas.<\/p>\n<p>Sofia de Oliveira era uma pequerrucha de olhos acesos, morena, verdadeiro<br \/>\ntipo de cearense: queixo fino, em angulo reto, fronte estreita, olhos negros<br \/>\ne inteligentes.<\/p>\n<p>Quantos s\u00e3o os p\u00f3los da Terra? fez ela olhando para o teto<br \/>\ncomo procurando a resposta, embatucada. Os p\u00f3los?&#8230; Os p\u00f3los<br \/>\ns\u00e3o quatro.<\/p>\n<p>Risos<\/p>\n<p>Quatro? Pelo amor de Deus! Tenha a bondade de nome\u00e1-los<\/p>\n<p>Norte, sul, leste, oeste.<\/p>\n<p>Nova hilaridade<\/p>\n<p>Est\u00e1 acanhada, desculpou o Berredo voltando-se para o presidente.<br \/>\nAt\u00e9 \u00e9 uma das minhas melhores alunas. N\u00e3o confunda, tornou<br \/>\npara a normalista. Olhe que s\u00e3o p\u00f3los e n\u00e3o pontos cardeais&#8230;<\/p>\n<p>Outro disparate:<\/p>\n<p>H\u00e1 uma infinidade de p\u00f3los&#8230;<\/p>\n<p>Ora! Adiante&#8230; D. Maria do Carmo.<\/p>\n<p>Maria estremeceu, embatucando tamb\u00e9m, sem dizer palavra, sufocada.<br \/>\nA presen\u00e7a do Zuza anestesiava-a, incomodava-lhe atrozmente. Sob a<br \/>\npress\u00e3o do olhar magn\u00e9tico do estudante, que a fixava, sua fisionomia<br \/>\ntransformou-se.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, D. Maria?&#8230; Tamb\u00e9m est\u00e1 acanhada?<\/p>\n<p>Passe adiante, pediu o Zuza, compadecido.<\/p>\n<p>Duas l\u00e1grimas rorejaram nas faces da normalista ciando com um sonzinho<br \/>\nseco sobre a carteira. Estava numa das suas crises nervosas. Outras duas l\u00e1grimas<br \/>\nacompanharam a primeira, vieram outras, outras, e Maria, cobrindo o rosto<br \/>\ncom seu lencinho de rendas, desatou a chorar escandalosamente.<\/p>\n<p>Sente-se incomodada? tornou o Berredo. D. Maria! Olhe&#8230; Tenha a bondade<br \/>\nde levantar a cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00e1 nervosa, disse o presidente com o seu belo ar de c\u00e9ptico<br \/>\nelegante.<\/p>\n<p>Pudores de donzela, murmurou o diretor. Isso acontece.<\/p>\n<p>O Berredo passou a m\u00e3o no bigode, desapontado, e encontrando o olhar<br \/>\nfaiscante de L\u00eddia: A senhora&#8230; Quantos s\u00e3o os p\u00f3los<br \/>\nda Terra?<\/p>\n<p>Dois: o p\u00f3lo norte e o p\u00f3lo sul.<\/p>\n<p>Perfeitamente! confirmou o professor batendo com o p\u00e9 no estrado e<br \/>\nesfregando as m\u00e3os satisfeito. Dois, minhas senhoras, disse mostrando<br \/>\nos dois dedos abertos em \u00e2ngulo; dois! O p\u00f3lo norte, que \u00e9<br \/>\no extremo norte da linha imagin\u00e1ria que passa pelo centro da Terra,<br \/>\ne o p\u00f3lo sul, isto \u00e9, a outra extremidade diametralmente oposta;<br \/>\neis aqui est\u00e1! Est\u00e1 ouvindo, D. Sofia? Est\u00e1 ouvindo D.<br \/>\nMaria do Carmo? S\u00e3o os dois p\u00f3los da Terra!<\/p>\n<p>Estou satisfeito, disse o presidente, erguendo-se.<\/p>\n<p>Arrastar de cadeiras e p\u00e9s, zunzum de vozes, e S. Excia., grave, correto<br \/>\ne calmo, retirou-se com o seu estado-maior.<\/p>\n<p>O Zuza ferrou em Maria do Carmo um olhar t\u00e3o demorado e comovido que<br \/>\nchegava a meter pena. Os seus \u00f3culos de ouro, muito l\u00edmpido<br \/>\ne transl\u00facidos, tinham um brilho de cristal puro. Trazia na botoeira<br \/>\ndo redingote claro (o Zuza gostava de roupas claras) uma flor microsc\u00f3pica.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m murmurou ao v\u00ea-lo passar:<\/p>\n<p>Sempre correto!<\/p>\n<p>Maria deixou-se ficar sucumbida, de cabe\u00e7a baixa, mordiscando a ponta<br \/>\ndo len\u00e7o, com uma l\u00e1grima retardada a tremeluzir-lhe na asa<br \/>\ndo nariz, desesperada, revoltada contra si mesma, que n\u00e3o soubera responder<br \/>\numa coisa t\u00e3o simples&#8230; que vergonha, que humilha\u00e7\u00e3o!<br \/>\npensava.<\/p>\n<p>N\u00e3o saber quantos p\u00f3los tem a Terra! E quem havia de responder?<br \/>\nA L\u00eddia, logo a L\u00eddia! O Zuza agora ficava fazendo um ju\u00edzo<br \/>\nmuito triste a seu respeito e n\u00e3o a procuraria mais&#8230; Ah! era muito<br \/>\ntola decididamente! E jurava consigo \u201cn\u00e3o ter mais vergonha de<br \/>\nhomem algum\u201d.<\/p>\n<p>Pediu licen\u00e7a ao professor e retirou-se antes de findar a aula para<br \/>\nevitar os gracejos das colegas, voltando \u00e0 casa sem L\u00eddia, sozinha,<br \/>\naca\u00e7apada, inconsol\u00e1vel.<\/p>\n<p>Uma vez no seu discreto quartinho, bateu a porta com for\u00e7a, despindo-se<br \/>\n\u00e0s carreiras, desabotoando os colchetes com espalhafato, aos empux\u00f5es,<br \/>\nimpaciente, at\u00e9 ficar em camisa, e atirou-se \u00e0 rede soltando<br \/>\num grande suspiro. Esteve muito tempo a pensar no acad\u00eamico, na \u201cfigura<br \/>\ntriste\u201d que fizera na aula, em mil outras coisas por associa\u00e7\u00e3o<br \/>\nde id\u00e9ias, com o olhar, sem ver, numa velha oleografia do \u201cCristo<br \/>\nabrindo os bra\u00e7os e mostrando o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 humanidade\u201d,<br \/>\nque estava na parede.<\/p>\n<p>Era uma desgra\u00e7ada, suspirava tomada de des\u00e2nimo. Todas tinham<br \/>\nseus namorados, viviam felizes, com o futuro mais ou menos garantido, amando,<br \/>\ngozando; todas tinham seu dia de felicidade, e ela?<\/p>\n<p>Era como uma gata borralheira, sem pai nem m\u00e3e, obrigada a suportar<br \/>\nos desaforos d\u2019um padrinho muito grosseiro que at\u00e9 a proibia<br \/>\nde casar. Nem amigas tinha. A L\u00eddia essa parecia-lhe uma desleal, fingida,<br \/>\nhip\u00f3crita; n\u00e3o viram como ela tinha dado o quinau na aula? Uma<br \/>\ningrata&#8230; Sim, est\u00e1 visto que havia de ter um fim muito triste&#8230;<\/p>\n<p>O verdadeiro era fugir com o primeiro sujeito que lhe aparecesse, fugir para<br \/>\nfora do Cear\u00e1, ir de uma vez&#8230; Estava cansada de viver naquela casa&#8230;<\/p>\n<p>E revoltava-se contra os padrinhos, contra a sociedade, contra Deus, contra<br \/>\ntudo, num desespero febril, ansiando-se por uma vida feliz, independente,<br \/>\nlivre de cuidados ao lado de um homem que a soubesse compreender, que lhe<br \/>\nfizesse todas as vontades.<\/p>\n<p>Por seu gosto n\u00e3o iria mais \u00e0 Escola Normal para cois\u00edssima<br \/>\nalguma. Estava muito bem educada, n\u00e3o precisava de aprender em col\u00e9gio,<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o era crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Acudiram-lhe reflex\u00f5es absurdas, id\u00e9ias extravagantes, pensamentos<br \/>\nde colegial estouvada, inquieta na rede, virando-se revirando-se, ora fitando<br \/>\ncom olhar piedoso a imagem de Cristo, ora mergulhando a vista numa telha de<br \/>\nvidro, esp\u00e9cie de clarab\u00f3ia, que havia no telhado, e atrav\u00e9s<br \/>\nda qual brilhava um peda\u00e7o do c\u00e9u sem nuvens.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a sentir uma ponta de enxaqueca e caiu numa madorna, deitada<br \/>\nde costas, os bra\u00e7os cruzados sobre a cabe\u00e7a, traindo a penugem<br \/>\nrala das axilas, respirando levemente, como uma crian\u00e7a. A camisa fina,<br \/>\nquase transparente, arrega\u00e7ada por descuido at\u00e9 a parte superior<br \/>\nda coxa esquerda, mostrava toda a perna roli\u00e7a, morena, cheia, sem<br \/>\ndepress\u00e3o, arqueando-se no joelho&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"6\"><\/a>VI<\/h4>\n<p>O primeiro cuidado de Zuza ao regressar da excurs\u00e3o presidencial a<br \/>\nBaturit\u00e9 foi ajustar contas com o redator da Matraca, amea\u00e7ando<br \/>\nurbi et orbi faz\u00ea-lo engolir o n\u00famero do pasquim que trazia versalhada<br \/>\ntorpe sobre o namoro do Trilho de Ferro.<\/p>\n<p>No Cear\u00e1 n\u00e3o havia outro homem que usasse flor na lapela, dizia;<br \/>\no estudante, filho de titular, que andava a cavalo mais o presidente da prov\u00edncia,<br \/>\nera ele, Zuza. Estava claro, clar\u00edssimo, que a diatribe, o insulto,<br \/>\na inf\u00e2mia, referia-se \u00e0 sua pessoa, e o \u00fanico meio, simples,<br \/>\nf\u00e1cil e positivo, de se ensinar um patife \u00e9 dar-lhe de rebenque<br \/>\nna cara. Conclus\u00e3o: o redator da Matraca n\u00e3o s\u00f3 ia engolir<br \/>\no papelucho, mas tamb\u00e9m apanhar de rebenque no focinho, custasse o<br \/>\nque custasse.<\/p>\n<p>Grand\u00edssimo canalha!<\/p>\n<p>&#8211; Mas no Cear\u00e1 n\u00e3o se faz reparo nessas coisas, meu Zuza. O<br \/>\ninsulto nesta terra \u00e9 um divertimento como qualquer outro, como o entrudo,<br \/>\npor exemplo. Cada cidad\u00e3o aqui \u00e9 uma verdadeira Matraca, N\u00e3o<br \/>\nte importes, n\u00e3o te d\u00eas cuidado&#8230;<\/p>\n<p>Isto dizia-lhe o Jos\u00e9 Pereira na reda\u00e7\u00e3o da Prov\u00edncia,<br \/>\nmas o Zuza recalcitrava:<\/p>\n<p>&#8211; Eu?! Hei de tomar um desfor\u00e7o, custe o que custar. Se \u00e9 costume<br \/>\ndesta terra os indiv\u00edduos se insultarem mutuamente, com a mesma facilidade<br \/>\ncom que tomam uma x\u00edcara de caf\u00e9, p\u00edlulas! \u00e9 preciso<br \/>\ndar ensino, \u00e9 preciso que algu\u00e9m se levante!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 bobagem, filho. Toda a gente toma a defesa do r\u00e9u e a\u00ed<br \/>\nfica a v\u00edtima do insulto com cara de besta. \u00c9 o que \u00e9.<br \/>\nL\u00e1 diz o rif\u00e3o: quem n\u00e3o quer ser lobo&#8230;<\/p>\n<p>Esse Jos\u00e9 Pereira, fisicamente, dir-se-ia irm\u00e3o g\u00eameo<br \/>\ndo Berredo da Escola Normal. Alto, cheio de corpo, trigueiro, a mesma barba<br \/>\nespessa negra cobrindo quase todo o rosto, os mesm\u00edssimos olhinhos<br \/>\nvivos e concupiscentes. Dele \u00e9 que se dizia que fora surpreendido em<br \/>\nflagrante adult\u00e9rio com a mulher do juiz municipal no Passeio P\u00fablico,<br \/>\num esc\u00e2ndalo que por muitos dias serviu de pastos a botic\u00e1rios<br \/>\ne bodegueiros.<\/p>\n<p>Come\u00e7ara vida p\u00fablica no Correio, como carteiro, e agora a\u00ed<br \/>\nestava feito redator da Prov\u00edncia, em cujo car\u00e1ter tornou-se<br \/>\ngeralmente admirado por seus folhetins alambicados, que o p\u00fablico digeria<br \/>\n\u00e0 guisa de pastilhas de Detan. Aos s\u00e1bados publicava no rodap\u00e9<br \/>\ndo jornal fantasias liter\u00e1rias, contos femininos em estilo 1830, hist\u00f3rias<br \/>\ndissolutas que eram lidas com avidez, mesmo com certa gula pelo mulherio elegante<br \/>\ne pela burguesia sentimental e piegas.<\/p>\n<p>Cedo Jos\u00e9 Pereira come\u00e7ou a inchar como a r\u00e3 de La Fontaine<br \/>\ne a julgar-se, com efeito, um grande escritor, \u201cum talento\u201d, capaz,<br \/>\nol\u00e1! muit\u00edssimo capaz de fazer as del\u00edcias de qualquer<br \/>\nsociedade inteligente e ilustrada. Da\u00ed certo ar autorit\u00e1rio,<br \/>\ncerta pros\u00e1pia que ele afetava em toda a parte, dizendo-se \u201ccontempor\u00e2neo<br \/>\nde Rocha Lima\u201d, \u201camigo de Capistrano de Abreu\u201d; certo aprumo<br \/>\npedante que n\u00e3o condizia com sua velha sobrecasaca de diagonal cujo<br \/>\nestado incomodava deveras a alta sociedade cearense.<\/p>\n<p>Que diabo! um sujeito inteligente, com ares de fidalgo avarento, redator<br \/>\nde um jornal, sempre trazendo a mesm\u00edssima sobrecasaca! E o chap\u00e9u?<br \/>\nSempre o mesmo tamb\u00e9m, um triste chap\u00e9u de feltro com manchas<br \/>\noleosas! Oh! a respeit\u00e1vel sociedade cearense exigia primeiro que tudo<br \/>\ndec\u00eancia no trajar, e aquilo assim, aquela sobrecasaca s\u00f3rdida<br \/>\nescandalizava-a como se escandaliza uma donzela diante d\u2019uma est\u00e1tua<br \/>\nnua. Pois o Sr. Jos\u00e9 Pereira n\u00e3o podia, sem grandes sacrif\u00edcios,<br \/>\ncomprar um fato novo? Ent\u00e3o, que diabo! n\u00e3o aparecesse entre<br \/>\nas pessoas de certa ordem, ficasse em casa, fosse mais modesto. Sim, porque<br \/>\ntodo homem de talento, na opini\u00e3o da sociedade cearense, deve acompanhar<br \/>\na moda em todas as suas nuances, em todos os seus requintes, deve ter sempre<br \/>\numa casaca \u00e0 ultima moda, conforme os figurinos, para os \u201cmomentos<br \/>\nsolenes\u201d; deve ser enfim um sujeito \u201ccorreto\u201d na acep\u00e7\u00e3o<br \/>\nmais lata da palavra.<\/p>\n<p>O Sr. Pereira sabia dar um la\u00e7o na gravata, l\u00e1 isto sabia,<br \/>\ne tamb\u00e9m n\u00e3o ignorava como se cal\u00e7a uma luva; mas (e<br \/>\nisto \u00e9 que preocupava a sociedade cearense) o Sr. Jos\u00e9 Pereira,<br \/>\nquer fosse a um baile de primeira ordem, quer fosse a uma festa inaugural,<br \/>\nquer fosse ao teatro, levava sempre, invariavelmente, a mesma sobrecasaca<br \/>\nsurrada e o mesmo chap\u00e9u ru\u00e7o! Um homem de talento, sem gosto,<br \/>\no que n\u00e3o se admite. A sociedade cearense, por\u00e9m, ignorava que<br \/>\no Sr. Jos\u00e9 Pereira era casado, tinha filhos e ganhava apenas o essencial<br \/>\npara o seu sustento e o da fam\u00edlia. cento e cinq\u00fcenta mil r\u00e9is<br \/>\npor m\u00eas, uma ninharia.<\/p>\n<p>Os seus amigos, \u00e0s vezes, gracejando, propunham-lhe abrir uma subscri\u00e7\u00e3o<br \/>\npara a compra de um palet\u00f3 novo e de um chap\u00e9u idem. Jos\u00e9<br \/>\nPereira, por\u00e9m, tinha esp\u00edrito e respondia-lhes ao p\u00e9<br \/>\nda letra, mudando logo o rumo da conversa.<\/p>\n<p>Nesse tempo o redator da Prov\u00edncia ainda era calouro em pol\u00edtica.<br \/>\nDava o seu voto e nada mais. A literatura \u00e9 que o absorvia. Um livro<br \/>\nnovo era para ele a melhor novidade: ca\u00edsse embora o minist\u00e9rio,<br \/>\nrebentasse uma revolu\u00e7\u00e3o, ele conservava-se a ler, virando p\u00e1ginas,<br \/>\ndevorando a obra como um alucinado, defronte do abajur de papel\u00e3o,<br \/>\nno seu modesto gabinete de escritor pobre. Conhecia Dumas pai de cor e salteado;<br \/>\nfora o seu primeiro \u201cmestre\u201d. Depois entregou-se a ler os Miser\u00e1veis,<br \/>\ndeclarando-se hug\u00f3latra incondicional em uma aprecia\u00e7\u00e3o<br \/>\nque fizera do grande poeta. O artigo conclu\u00eda deste modo:<\/p>\n<p>\u201cVitor Hugo \u00e9 o Cristo da legenda transfigurado em profeta moderno.<br \/>\nEle \u00e9 todo um s\u00e9culo. Tudo nele \u00e9 grande como a natureza.<br \/>\nOs Miser\u00e1veis s\u00e3o a apoteose de todas as mis\u00e9rias humanas.<br \/>\nVitor Hugo, o Mestre, \u00e9 o Sol da Humanidade. Amemo-lo como a um Deus!\u201d<\/p>\n<p>Isso produziu efeito entre os literatos contempor\u00e2neos, que n\u00e3o<br \/>\ndispensaram elogios ao \u201cvalente folhetinista\u201d da Prov\u00edncia.<\/p>\n<p>A fama de Jos\u00e9 Pereira encheu depressa toda a cidade. Dizia-se &#8211; \u201ca\u00ed<br \/>\nvai o Jos\u00e9 Pereira!\u201d como quem diz &#8211; \u201ca\u00ed vai um<br \/>\ng\u00eanio!\u201d E ele saudava a todos convictamente, tocando de leve a<br \/>\naba mole do chap\u00e9u preto de massa.<\/p>\n<p>Em fins de 1886 Jos\u00e9 Pereira conservava-se ainda na Prov\u00edncia,<br \/>\ncomo um dos principais redatores. A sua fama n\u00e3o decrescera, era a<br \/>\nmesma, com uma pequena e insignificante diferen\u00e7a &#8211; \u00e9 que ele<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o era simplesmente um \u201ctalento fecundo\u201d, mas<br \/>\ntamb\u00e9m um fecund\u00edssimo canalha, um requintado \u201csedutor<br \/>\nde mulheres casadas\u201d, o que afinal de contas n\u00e3o o prejudicava<br \/>\nassaz no conceito do mulherio. Havia as vi\u00favas, casadas e solteiras<br \/>\nque o defendiam tenazmente.<\/p>\n<p>N\u00e3o, diziam elas, o diabo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o feio quanto<br \/>\no pintam. Jos\u00e9 Pereira podia ser um rapaz alegre, divertid\u00edssimo,<br \/>\njovial e espirituoso, amigo das mulheres &#8211; v\u00e1, mas, em suma, um excelente<br \/>\nrapaz e um belo car\u00e1ter. Porque o fato d\u2019um homem apaixonar-se<br \/>\nfacilmente por muitas mulheres ao mesmo tempo ou em \u00e9pocas diferentes<br \/>\nn\u00e3o quer significar que esse homem seja um sedutor e um patife. Demais,<br \/>\nJos\u00e9 Pereira era artista, e o artistas, escultor ou poeta, pintor ou<br \/>\nm\u00fasico, n\u00e3o pode compreender a vida sem o amor&#8230;<\/p>\n<p>Mas \u00e9 um homem casado, profligavam as outras.<\/p>\n<p>Bem; mas o casamento&#8230;<\/p>\n<p>E demonstrava que o casamento, longe de ser um atentado contra o livre arb\u00edtrio<br \/>\ndas partes, \u00e9, ao contr\u00e1rio, uma institui\u00e7\u00e3o que<br \/>\nconcede, tanto ao homem como \u00e0 mulher, plena liberdade de amar ao pr\u00f3ximo<br \/>\ncomo a si mesmo.<\/p>\n<p>Entre as que adotavam a pr\u00e1tica destas teorias t\u00e3o abstrusas<br \/>\nquanto originais, distinguiam-se a mulher de Jo\u00e3o da Mata e a do Dr.<br \/>\nMendes.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, decididamente, queres quebrar a cara ao redator da Matraca!<br \/>\ndizia ele ao Zuza.<\/p>\n<p>&#8211; Mas que d\u00favida!<\/p>\n<p>Quem quer que fosse o verrinista havia de ficar sabendo de quantos paus se<br \/>\nfaz uma jangada.<\/p>\n<p>&#8211; Mas olhas que \u00e9 uma imprud\u00eancia pueril, homem. Quando o insulto<br \/>\nvem de baixo a gente deve responder com o desprezo. O desprezo \u00e9 a<br \/>\narma invenc\u00edvel dos esp\u00edritos superiores. Eu \u00e9 como tenho<br \/>\nresolvido as quest\u00f5es desta natureza.<\/p>\n<p>&#8211; Qual desprezo! N\u00e3o se mata com desprezo um r\u00e9ptil venenoso;<br \/>\npisa-se-o, reduz-se-o a papas. Isto \u00e9 o que fazem os esp\u00edritos<br \/>\nsuperiores. Sabes -quem \u00e9 o biltre?<\/p>\n<p>&#8211; Homem , francamente, confesso-te que n\u00e3o o conhe\u00e7o. Dizem<br \/>\nser um tal Guedes, vulgo Pombinha, um sujeito reles, um trocatintas, um miser\u00e1vel<br \/>\nque nem vale a pena de um esc\u00e2ndalo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vale a pena? Quebro-lhe a cara, ora se quebro&#8230; Onde fica tipografia<br \/>\ndo jornaleco?<\/p>\n<p>&#8211; Na rua de S\u00e3o Bernardo, creio eu, uma esp\u00e9cie de toca imunda,<br \/>\ncom ares de latrina<\/p>\n<p>&#8211; Guedes (Pombinha) &#8230; rua de S\u00e3o Bernardo. Muito bem!<\/p>\n<p>E o Zuza tomou nota no seu canhenho, guardando-o resolutamente.<\/p>\n<p>&#8211; Diabos me levem se eu n\u00e3o fa\u00e7o uma estralada hoje.<\/p>\n<p>Mudando de tom:<\/p>\n<p>&#8211; Quero que publiques hoje o meu soneto A volta; deve sair hoje infalivelmente.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 dedicado \u00e0 mesma?<\/p>\n<p>&#8211; Certamente. Sabes que eu sempre fui muito correto nos meus amores. A pequena<br \/>\nest\u00e1 pelo beicinho. H\u00e1 de cair como mosca, eu te garanto.<\/p>\n<p>&#8211; Um divertimento, hein?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, sou muito capaz de casar. Aquele arzinho ing\u00eanuo, aqueles<br \/>\nolhos de madona traduzindo uma alma cheia de sentimentos bons&#8230; &#8211; tudo nela,<br \/>\nenfim, agrada-me.<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 uma pobretona, filho. Aquilo \u00e9 para a gente namorar,<br \/>\nencher de beijos e &#8211; pernas p\u2019ra que te quero! \u00c9s muito calouro<br \/>\nainda nisso de amores. Aproveita a tua mocidade, deixa-te de pieguismo, menino.<br \/>\nA vida \u00e9 uma com\u00e9dia, como l\u00e1 diz o outro&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Zuza, acendendo um cigarro, disse que estava aborrecido de<br \/>\nmulheres que se entregavam facilmente. Em Pernambuco namorara a filha de um<br \/>\nbar\u00e3o e, se n\u00e3o fosse esperto, \u00e0quelas horas estaria<br \/>\ntalvez \u00e0s voltas com o minotauro de que fala Balzac. Era uma rapariga<br \/>\nespl\u00eandida, mas t\u00e3o depravada, t\u00e3o dissoluta que acabou<br \/>\nfugindo com um j\u00f3quei do Prado Pernambucano, um negro!<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s mulheres de vida alegre, detestava-as; tinha gasto muito<br \/>\ndinheiro, precisava casar, mas, casar com uma menina ing\u00eanua e pobre,<br \/>\nporque \u00e9 nas classes pobres que se encontra mais vergonha e menos bandalheira.<br \/>\nOra, Maria do Carmo parecia-lhe uma criatura simples, sem essa tend\u00eancia<br \/>\nfatal das mulheres modernas para o adult\u00e9rio, uma menina que at\u00e9<br \/>\nchorava na aula simplesmente por n\u00e3o ter respondido a uma pergunta<br \/>\ndo professor! Uma rapariga assim era um caso espor\u00e1dico, uma verdadeira<br \/>\nexce\u00e7\u00e3o no meio de uma sociedade ro\u00edda por quanto v\u00edcio<br \/>\nh\u00e1 no mundo. Ia concluir o curso, e, quando voltasse ao Cear\u00e1,<br \/>\npensaria seriamente no caso. A Maria do Carmo estava mesmo a calhar: pobrezinha,<br \/>\nmas inocente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que tu pensas, retorquiu o outro. Hoje n\u00e3o h\u00e1<br \/>\nque fiar em mo\u00e7as, pobres ou ricas. Todas elas sabem mais do que n\u00f3s<br \/>\noutros. L\u00eaem Zola, estudam anatomia humana e tomam cerveja nos caf\u00e9s.<br \/>\nEnt\u00e3o as tais normalistas, benza-as Deus, s\u00e3o verdadeiras doutoras<br \/>\nde borla e capelo em neg\u00f3cios de namoros. Sei de uma que foi encontrada<br \/>\npelo professor de hist\u00f3ria natural a debuxar um grand\u00edssimo<br \/>\nfalo com todos os seus petrechos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O que, homem?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que estou a dizer-te, por sinal acabou amigando-se com um bodegueiro<br \/>\nde Arronches e l\u00e1 vive muito bem com o sujeito. Creio at\u00e9 que<br \/>\nj\u00e1 tem filhos.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Senhor, ent\u00e3o ao que me vai parecendo, est\u00e1 muito adiantada<br \/>\na nossa pequena sociedade! Exclamou o Zuza muito admirado, cavalgando o pincenez.<br \/>\nPois olha eu supunha isto aqui uma santidade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que h\u00e1 muito tempo n\u00e3o vinhas ao Cear\u00e1. Por<br \/>\nc\u00e1 tamb\u00e9m se d\u00e3o esc\u00e2ndalos como em Pernambuco,<br \/>\ne esc\u00e2ndalos de pasmar a um sacerdote da moral, como o filho de meu<br \/>\npai.<\/p>\n<p>O escrit\u00f3rio da Prov\u00edncia estava quase deserto. Apenas o Jos\u00e9<br \/>\nPereira e o estudante conversavam amigavelmente, sentados um defronte do outro<br \/>\n\u00e0 mesa dos redatores, fumando, enquanto l\u00e1 dentro, nos fundos<br \/>\nonde ficavam as oficinas, os tip\u00f3grafos compunham atarefados a mat\u00e9ria<br \/>\ndo dia.<\/p>\n<p>Seriam duas horas da tarde. A calor abafava.<\/p>\n<p>Um rapazinho raqu\u00edtico, em mangas de camisa, com manchas de tinta<br \/>\nno rosto e um ar amolentado, veio trazer as provas do expediente do governo.<\/p>\n<p>&#8211; Falta mat\u00e9ria? Perguntou Jos\u00e9 Pereira, encarando-o. \u201cN\u00e3o<br \/>\nsabia, n\u00e3o senhor, ia ver\u201d. E saiu voltando imediatamente: que<br \/>\no jornal estava completo.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, disse o Zuza, levantando-se, vou \u00e0 casa do Sr. Guedes. Preciso<br \/>\nacabar com isso.<\/p>\n<p>&#8211; Mas olha, recomendou o redator, n\u00e3o v\u00e1s fazer asneiras, hein?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o. A coisa \u00e9 simples. Addio.<\/p>\n<p>E retirou-se fazendo piruetas com a bengala no ar.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um crian\u00e7ola esse Zuza, murmurou Jos\u00e9 Pereira molhando<br \/>\na pena.<\/p>\n<p>Imediatamente entrou o Castrinho, outro colaborador da Prov\u00edncia,<br \/>\ntamb\u00e9m poeta e amigo particular de Jos\u00e9 Pereira, autor das Flores<br \/>\nAgrestes publicadas h\u00e1 dias e que tinham sido muito bem recebidas pela<br \/>\ncr\u00edtica ind\u00edgena. Vinha trazer a resposta ao cr\u00edtico<br \/>\ndo Cearense que o chamara &#8211; plagiador de obras alheias.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o temos pol\u00eamica? Perguntou Jos\u00e9 Pereira sem levantar<br \/>\na cabe\u00e7a, revendo as provas.<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o? Hei de provar \u00e0 evid\u00eancia que n\u00e3o<br \/>\npreciso plagiar a ningu\u00e9m. Aqui est\u00e1 o primeiro artigo. \u00c9<br \/>\nde arromba!<\/p>\n<p>O Castrinho sacou do bolso do palet\u00f3 de alpaca um calhama\u00e7o<br \/>\nde tiras de papel gordurosas e sacudindo-as, como quem toma o peso a alguma<br \/>\ncousa:<\/p>\n<p>&#8211; Aqui est\u00e1: hei de rebater uma a uma, sem d\u00f3 nem piedade,<br \/>\ntodas as asser\u00e7\u00f5es do meu invejoso contendor.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 te falo, disse o outro, continuando o trabalho. Tem paci\u00eancia<br \/>\num pouquinho. O diabo das provas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, continua; n\u00e3o te quero interromper&#8230;<\/p>\n<p>Plagiador, ele, que tinha talento para dar e emprestar a toda a caterva de<br \/>\nversejadores cearenses? Havia de provar o contr\u00e1rio, porque tanto sabia<br \/>\nburilar um soneto como manejar a prosa.<\/p>\n<p>At\u00e9 estimara a provoca\u00e7\u00e3o do Cearense, porque desse<br \/>\nmodo o p\u00fablico ficaria sabendo quem eram os imitadores, os parasitas<br \/>\nda poesia nacional. Ali estavam o ju\u00edzo da imprensa fluminense, ali<br \/>\nestava o ju\u00edzo de toda a imprensa do Brasil, do Amazonas, do Prata,<br \/>\nsobre as Flores Agrestes. Um jornal do Sul &#8211; O Cometa &#8211; comparara-o at\u00e9<br \/>\na Olavo Bilac e a Raimundo Corr\u00eaa.<\/p>\n<p>&#8211; Inveja, murmurou Jos\u00e9 Pereira. O verdadeiro talento \u00e9 sempre<br \/>\nv\u00edtima do despeito das mediocridades.<\/p>\n<p>E terminando a revis\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Vejamos isto, disse o Castrinho entregando a papelada. Hei-de convencer<br \/>\nao zoilo do Cearense, por a+b que ele \u00e9 quem \u00e9 plagiador, o<br \/>\ninvejoso, o ignorante, a besta, e eu o poeta consciencioso e moderno que n\u00e3o<br \/>\nse limita a cantar Elviras e a copiar Lamartine.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pereira derreou-se na cadeira de espaldar, um velho traste que<br \/>\nfora da Perseveran\u00e7a e Porvir, \u201catestado eloq\u00fcente de uma<br \/>\nluta de her\u00f3is\u201d &#8211; como dizia o Zuza &#8211; e, depois de acender a<br \/>\nponta do cigarro, que estava \u00e0 beira da mesa, devorou com olhar protetor<br \/>\na s\u00e9rie de argumentos mais ou menos esmagadores com que o outro pretendia<br \/>\naniquilar o articulista da folha adversa. Tinha a ep\u00edgrafe &#8211; As Flores<br \/>\nAgrestes e a Inveja Furiosa, &#8211; e conclu\u00eda nestes termos: \u201cVoltarei<br \/>\n\u00e0 quest\u00e3o para esmagar com a l\u00f3gica irrefut\u00e1vel<br \/>\nda verdade o ousado e n\u00e9scio criticista que me acoimou de plagiador.<br \/>\nO p\u00fablico ver\u00e1 qual de n\u00f3s tem raz\u00e3o; eu, que<br \/>\ntive o aplauso da quase totalidade da imprensa brasileira, ou o zoilo do Cearense,<br \/>\nque pretendeu obscurecer o meu merecimento\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Magn\u00edfico! Exclamou Jos\u00e9 Pereira, levantando-se. D\u00e1<br \/>\nc\u00e1 um abra\u00e7o. Homem.<\/p>\n<p>E estreitando o Castrinho contra o peito:<\/p>\n<p>&#8211; Tens talento como um bruto, menino. Olha que quem escreveu vale o que escreveu,<br \/>\ncaramba! Continua, Castrinho, continua, que ainda h\u00e1s de vir a ser<br \/>\num grande poeta. Desta massa \u00e9 que se fazem os Byron e os V\u00edtor<br \/>\nHugo&#8230; E logo, paternalmente: &#8211; Queres jantar comigo?<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado. H\u00e1s de permitir que te agrade\u00e7a, hein? Adeuzinho.<br \/>\nN\u00e3o esque\u00e7as o artigo.<\/p>\n<p>&#8211; Absolutamente n\u00e3o. Amanh\u00e3, impreterivelmente, ve-lo-\u00e1s<br \/>\nna segunda p\u00e1gina, todo inteirinho. Adeus.<\/p>\n<p>Vendedores de jornais esperavam a Prov\u00edncia, \u00e0 porta da reda\u00e7\u00e3o,<br \/>\ninquietos, turbulentos, a questionar por d\u00e1 c\u00e1 aquela palha,<br \/>\ne j\u00e1 se ouvia o barulho do prelo l\u00e1 dentro imprimindo a folha<br \/>\ngovernista. Empregados p\u00fablicos voltavam das reparti\u00e7\u00f5es<br \/>\ntaciturnos, em sobrecasacas s\u00f3rdidas, mordendo cigarros Lopes S\u00e1,<br \/>\namarelos, linf\u00e1ticos, o est\u00f4mago a dar horas. Pouco movimento<br \/>\nna rua do Major Facundo; um ou outro transeunte macamb\u00fazio, de chap\u00e9u<br \/>\nde sol, caixeiros que atravessavam a rua ligeiros, em mangas de camisa, e<br \/>\nalguns pobres diabos arrastando-se a pedir esmola.<\/p>\n<p>A cidade permanecia na sua costumada quieta\u00e7\u00e3o provinciana,<br \/>\nmuito cheia de claridade, bocejando pregui\u00e7osamente de bra\u00e7os<br \/>\ncruzados, \u00e0 espera do Progresso. Suava-se por todos os poros e respirava-se<br \/>\na custo, debaixo d\u2019uma atmosfera equatorial, acabrunhadora. Estalava<br \/>\n\u00e0 dist\u00e2ncia, num ritmo cadenciado e mon\u00f3tono, o canto<br \/>\nestridente e met\u00e1lico d\u2019uma araponga, cujo eco repercutia em<br \/>\ntodo o \u00e2mbito da pequena capital cearense.<\/p>\n<p>Ao dobrar a rua da Assembl\u00e9ia o Zuza parou, \u00e0 espera que o<br \/>\nbonde passasse, e esteve considerando um instante. &#8211; De que lhe servia ir<br \/>\nonde estava o Guedes e quebrar-lhe as costelas a bengaladas? O rapaz podia<br \/>\nrepetir a agress\u00e3o e a\u00ed estava o conflito s\u00e9rio, em que<br \/>\nnecessariamente um dos dois havia de sair ferido. Afinal de contas era provocar<br \/>\num esc\u00e2ndalo in\u00fatil, vinha a pol\u00edcia e a vergonha era<br \/>\ndele, Zuza, unicamente dele, um rapaz de posi\u00e7\u00e3o, amigo do presidente&#8230;<br \/>\nN\u00e3o valia a pena abrir luta com um pasquineiro. O melhor era, como<br \/>\naconselhara o Jos\u00e9 Pereira, dar o desprezo ao c\u00e3o. Se ele, por\u00e9m,<br \/>\no abocanhasse outra vez, ent\u00e3o, decididamente, quebrava-lhe a cara.<\/p>\n<p>Apelava para a reincid\u00eancia do folicul\u00e1rio. Prov\u00edncia<br \/>\nest\u00fapida! Estava do\u00eddo por se ver livre de semelhante canalhismo.<br \/>\nE \u00e0quilo \u00e9 que se chamava terra da luz!<\/p>\n<p>Seguiu para casa preocupado com essas id\u00e9ias, com um nojo do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>O coronel divertia-se tranq\u00fcilamente com a passarada do viveiro, metido<br \/>\nno insepar\u00e1vel gorro de veludo bordado a ouro e retr\u00f3s. Era<br \/>\namigo de p\u00e1ssaros e tinha-os magn\u00edficos em gaiolas de arame<br \/>\npenduradas na sala de jantar, al\u00e9m do viveiro, tamb\u00e9m em arame,<br \/>\nem forma de quiosque chin\u00eas, com uma bola de vidro no alto, colocado<br \/>\nno quintal, defronte da casinha de banhos.<\/p>\n<p>Uma vidinha est\u00fapida aquela! Pensava o estudante estendendo-se na<br \/>\nrede. Morria-se de t\u00e9dio e calor. Vieram-lhe saudades do Recife. Oh!<br \/>\nO Recife, o Prado aos domingos, os passeios, os belos piqueniques a Caxang\u00e1&#8230;<br \/>\nLembrou-se da sua \u00faltima conquista amorosa &#8211; a Rosita, uma espanhola<br \/>\ncom quem estivera seguramente uns seis meses. Um peix\u00e3o! Morava na<br \/>\nMadalena. Vira-a uma vez no teatrinho da Nova Hamburgo, sozinha num camarote,<br \/>\nmuito bem vestida, com um rico leque de plumas, an\u00e9is de brilhante,<br \/>\nespl\u00eandida: era argentina.<\/p>\n<p>Que de cerveja e ceiatas e passeios de carros e pagodeiras nos hot\u00e9is!<br \/>\nRelembrava a primeira noite que passara com Rosita, por sinal tinha tomado<br \/>\nmuita champanhe, tinha feito um figur\u00e3o. A rapariga compreendeu que<br \/>\ntratava com gente fina e entregou-se. Uma noite deliciosa! Come\u00e7ou<br \/>\npor uma ceia em casa dela, na Madalena, um chalezinho de porta e janela com<br \/>\nvaranda, forrado a papel sangue de boi e jardinzinho na frente. A sala de<br \/>\nvisitas era um mimo com sua mob\u00edlia mignon de assento estufado, piano,<br \/>\nquadros do paganismo, bibelots&#8230; E a alcova? Um ninho, um perfeito ninho<br \/>\nde amores. Zuzinha &#8211; era como ela o tratava, toda ternura cobrindo-o de beijos,<br \/>\nsuspendendo-o nos bra\u00e7os como se levantasse uma crian\u00e7a, sentando-o<br \/>\nno colo &#8211; ela de pegnoir de fust\u00e3o com fitinhas azuis, uns olhos matadores<br \/>\n\u00famidos de sensualidade, e ele \u00e0 frescata, em mangas de camisa,<br \/>\nsem colarinho &#8211; um deboche!<\/p>\n<p>E uma saudade imensa invadia-o, saudade da Rosita, saudade da rep\u00fablica,<br \/>\n&#8211; uma tro\u00e7a alegre de rapazes endinheirados e limpos, &#8211; saudades dos<br \/>\nbanhos de mar em Olinda&#8230;<\/p>\n<p>Depois veio-lhe \u00e0 mente a normalista, a cearense do Trilho de Ferro.<br \/>\nMuito bonitinha, \u00e9 verdade, mas uma tola que n\u00e3o sabia tratar<br \/>\ncom rapazes educados. L\u00e1 por ser pobre, n\u00e3o; mas parecia-lhe<br \/>\nt\u00e3o atrasadinha, assim como apalermada, indiferente a tudo. Al\u00e9m<br \/>\ndisso um nome de matuta &#8211; Maria do Carmo. Ainda se fosse Maria Luiza, mas<br \/>\nMaria do Carmo!&#8230;<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o a fazer considera\u00e7\u00f5es sobre Maria.<br \/>\nAchava-a at\u00e9 parecida com a Franzina, uma rapariga de Pernambuco, tamb\u00e9m<br \/>\nmorena e d\u2019olhos cor de azeitona, baixinha e sem vergonha, \u201cpassada\u201d<br \/>\npor todos os estudantes da academia. Mas mesmo muito parecida, agora \u00e9<br \/>\nque se lembrava: era a Franzina. Um horror! No Cear\u00e1 n\u00e3o se<br \/>\nencontravam mulheres p\u00fablicas de certa ordem. Tudo era uma r\u00e9cua<br \/>\nde meretrizes imundas, carregadas de s\u00edfilis at\u00e9 os olhos. Os<br \/>\nrapazes viviam se queixando de mol\u00e9stias secretas.<\/p>\n<p>Levantou-se em ceroulas, para acender um cigarro, espregui\u00e7ando-se.<\/p>\n<p>O quarto era pequeno, mas arranjado com certo decoro e bom gosto. O Zuza<br \/>\nherdara essa qualidade caracter\u00edstica dos Souza Nunes &#8211; o amor \u00e0<br \/>\nordem. Tudo dele era arrumado e limpo. Adorava a bo\u00eamia, mas a bo\u00eamia<br \/>\nque n\u00e3o cospe no assoalho e que toma banho ao menos uma vez por dia.<br \/>\nNisto de assei, como em muitas outras coisas, era correto e o pai o louvava<br \/>\npor essa qualidade especial de se portar com a m\u00e1xima inteireza, no<br \/>\nasseio do corpo, como no das a\u00e7\u00f5es. Toda a mob\u00edlia do<br \/>\npequeno compartimento consistia numa estante envidra\u00e7ada, cadeiras,<br \/>\num sof\u00e1 e uma mesinha redonda, colocada no centro e coberta com um<br \/>\npano azul, de l\u00e3. Comunicava com outro quarto menor onde estava a cama<br \/>\nde ferro e uma rede. Ma cabine \u00e0 coucher, dizia o Zuza mostrando aos<br \/>\namigos esse interior confort\u00e1vel de bo\u00eamio rico. A claridade<br \/>\nentrava pela varanda e ia morrerem penumbra l\u00e1 dentro no segundo quarto.<br \/>\nNo papel claro das paredes destacavam-se litografias encaxilhadas de poetas<br \/>\nc\u00e9lebres e o retrato de Gambetta, na postura habitual em que o grande<br \/>\norador falava ao povo. Em pol\u00edtica era o seu \u00eddolo, dizia o<br \/>\nestudante, e, no auge do entusiasmo, colocava-o acima de Mirabeau. Em cima<br \/>\nda mesa n\u00fameros avulsos da Revista Jur\u00eddica confundindo-se com<br \/>\njornais ilustrados, e um porta-retratos com as fotografias do coronel e da<br \/>\nesposa, olhando para os lados, em sentidos opostos. Tal o \u201cgabinete\u201d<br \/>\ndo Zuza, o seu remanso de estudante cuidadoso.<\/p>\n<p>Tinha aberto ao acaso seu romance querido &#8211; A Casa de Pens\u00e3o. Um livro<br \/>\nimportante, gabava; um livro que revelava o grau de adiantamento da literatura<br \/>\nbrasileira, n\u00e3o deixando a desejar os melhores dos escritores naturalistas<br \/>\nportugueses. Este exagero do Zuza deve se levar a conta do \u00f3dio injusto<br \/>\nque ele votava a tudo quanto cheirasse a lusitanismo.<\/p>\n<p>O estudante, por\u00e9m, nunca passara a vista sequer num romance de E\u00e7a<br \/>\nou numa cr\u00edtica de Ramalho. &#8211; \u201cN\u00e3o queria, n\u00e3o<br \/>\npodia tragar coisas que lhe provocassem v\u00f4mitos\u201d. Preferia um<br \/>\nchurrasco \u00e0 baiana ao \u201ctal\u201d Sr. Camilo Castelo Branco,<br \/>\num sujeito inimigo do Brasil, que n\u00e3o pedia a ocasi\u00e3o de nos<br \/>\nridicularizar. De Portugal, Cam\u00f5es exclusivamente, isso mesmo porque<br \/>\no grande \u00e9pico era uma \u201cgl\u00f3ria universal\u201d. Certas<br \/>\npalavras tinham um encanto particular a seus ouvidos. Gostava de frases cheias<br \/>\ne retumbantes. Os Lus\u00edadas? eram uma \u201cepop\u00e9ia imortal\u201d,<br \/>\ndizia ele. Pronunciava a palavra epop\u00e9ia com a boca cheia, acentuando<br \/>\nmuito o \u00e9. Uma obra de arte reconhecidamente boa era, a seu ver, uma<br \/>\nepop\u00e9ia, fosse qual fosse o g\u00eanero d\u2019ela. O Cristo e a<br \/>\nad\u00faltera de Bernadelli? Uma epop\u00e9ia nacional!<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a ler A Casa e Pens\u00e3o em voz alta, em tom de recitativo,<br \/>\npausadamente, repetindo frases inteiras, aplaudindo o romancista com entusiasmo,<br \/>\nexclamando de vez em vez: &#8211; \u201cBonito, seu Zuza\u201d como se fosse ele<br \/>\npr\u00f3prio o autor do livro. Depois, sacudindo o romance sobre uma cadeira,<br \/>\nlevantou-se espregui\u00e7ando-se com estalinhos nas articula\u00e7\u00f5es,<br \/>\nescancarando a boca num bocejo largo. Que horas seriam? O despertador de n\u00edquel<br \/>\nmarcava quatro e meia. \u00d4 diabo! Tinha-se descuidado. Estava convidado<br \/>\npara jantar com o presidente \u00e0s cinco pontualmente. Come\u00e7ou<br \/>\na vestir-se assobiando trechos de m\u00fasica ser\u00f3dia. De repente:<br \/>\n&#8211; \u201cE a normalista que n\u00e3o lhe tinha respondido a carta!\u201d<br \/>\nMuito atrasadinhas as cearenses, pensava. Que mais queria ela? E defronte<br \/>\ndo espelho, pondo a gravata: &#8211; \u201cEra um rapaz chic,, dava muita honra<br \/>\n\u00e0 Sra. D. Maria do Carmo escrevendo-lhe uma carta amorosa, pois n\u00e3o?<br \/>\nEra o que faltava, a Sra. D. Maria do Carmo n\u00e3o lhe dar aten\u00e7\u00e3o!<br \/>\nMas havia de cair por for\u00e7a. Era uma quest\u00e3o de tempo\u201d.<\/p>\n<p>Cinco horas. O Zuca enfiou a sobrecasaca \u00e0s pressas, perfumou-se,<br \/>\nendireitou a gravata e &#8211; at\u00e9 logo &#8211; foi-se como um raio.<\/p>\n<h4><a name=\"7\"><\/a>VII<\/h4>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o que se aproximava o dia do casamento de<br \/>\nL\u00eddia com o guarda-livros, as visitas d\u2019este \u00e0 casa da<br \/>\nvi\u00fava Campelo iam-se tornando de mais a mais freq\u00fcentes. A Campelinho<br \/>\nn\u00e3o cabia em si de contentamento; pudera! Ia enfim ver-se livre do<br \/>\nperigo de ficar para tia. De resto o Loureiro era um \u00f3timo rapaz, excelente<br \/>\nempregado, natural de bom g\u00eanio, tolerante em extremo e senhor de seu<br \/>\nnariz. Era como se fosse de casa, como se j\u00e1 fizesse parte da fam\u00edlia,<br \/>\nsurdo como uma pedra aos boatos mais ou menos mentirosos que corriam sobre<br \/>\na vida privada de D. Amanda. Nunca se dera ao trabalho de averiguar se efetivamente<br \/>\no procedimento de sua futura sogra merecia censuras da gente honesta, mesmo<br \/>\nporque o seu emprego n\u00e3o lhe deixava tempo para isso.<\/p>\n<p>N\u00e3o, senhor, dizia ele, se por ventura algu\u00e9m procurar abrir-lhe<br \/>\nos olhos; a vi\u00fava era um modelo de m\u00e3e de fam\u00edlia, coitada,<br \/>\nvivendo modestamente do minguado montepio de seu finado marido, afora um negociozinho<br \/>\nde rendas que tinha no Par\u00e1, e que lhe deixava para mais de cinq\u00fcenta<br \/>\npor cento. O mais eram palanfr\u00f3rios, e ele, no car\u00e1ter de futuro<br \/>\ngenro da vi\u00fava, n\u00e3o podia consentir que ningu\u00e9m a difamasse<br \/>\nimpunemente.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata lhe dissera uma vez, ao ouvido, batendo-lhe amigavelmente<br \/>\nno ombro, que n\u00e3o se iludisse, que a Campelo recebia fora de horas<br \/>\no Batista da feira; que ele, Jo\u00e3o da Mata, vira muitas vezes, com os<br \/>\npr\u00f3prios olhos, o negociante entrar cosido \u00e0 parede, alta noite,<br \/>\ncomo um gato.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias! O amanuense fazia mal andar propalando suspeitas que podiam<br \/>\nprejudicar muito os cr\u00e9ditos da pobre senhora. Absolutamente n\u00e3o<br \/>\nacreditava em tais boatos. Conhecia bem o g\u00eanio e a vida de D. Amanda<br \/>\npara desprezar semelhantes falsidades. Em suma, era da escola de S. Tom\u00e9:<br \/>\nver para crer.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 tinha motivos para louvar o procedimento<br \/>\nda sua futura sogra. E conclu\u00eda: \u201c- Por amor de Deus n\u00e3o<br \/>\nfalassem mais em tais coisas&#8230; Tinha olhos p\u2019ra ver\u201d.<\/p>\n<p>Todas as noites, invariavelmente, l\u00e1 ia ele dar seu dedo de palestra<br \/>\ncom a noiva, e, depois do v\u00edspora em casa do amanuense, ficavam os<br \/>\ndois horas e horas na cal\u00e7ada, num aconchego muito \u00edntimo, ela<br \/>\napoiada sobre seus ombros, fazendo-se meiga e apaixonada, ele babando-se de<br \/>\nsatisfa\u00e7\u00e3o ao contato palpitante das carnes rijas e abundantes<br \/>\nda sua futura mulher. D. Amanda entrava propositadamente para os deixar \u00e0<br \/>\nvontade naquele arrebatamento de noivos sadios e vigorosos.<\/p>\n<p>Um noite o guarda-livros quis ir mais longe nas vivas demonstra\u00e7\u00f5es<br \/>\nde seu amor pela Campelinho. Com os l\u00e1bios pregados \u00e0 boca da<br \/>\nL\u00eddia, quase abra\u00e7ados, procurou com uma das m\u00e3os apalpar<br \/>\nalguma coisa que a rapariga ocultava religiosamente no templo inviol\u00e1vel<br \/>\nde sua castidade.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, isso n\u00e3o! Fez ela esquivando-se, toda cautelosa, com<br \/>\nar de surpresa.<\/p>\n<p>Deixasse d\u2019aquilo, que era muito feio entre noivos. N\u00e3o havia<br \/>\nnecessidade; tinham muito tempo depois. Tivesse paci\u00eancia, sim?<\/p>\n<p>E muito terna, derreando-se de novo sobre o ombro do guarda-livros, beijou-o<br \/>\nna face \u00e1spera de espinhas, sem repugn\u00e2ncia, e come\u00e7ou<br \/>\na cofiar-lhe carinhosamente os bigodes, devagarinho, arrega\u00e7ando-os,<br \/>\nassanhando-os para tornar a alis\u00e1-los, prolongando assim a del\u00edcia<br \/>\nde Loureiro que nesses momentos era como um escravo das m\u00e3ozinhas brancas<br \/>\ne delicadas de L\u00eddia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, que tem? Perguntou ele com a voz tr\u00eamula, um flu\u00eddo estranho<br \/>\nno olhar terno.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, meu bem, isso n\u00e3o, que \u00e9 feio, tornou a Campelinho.<br \/>\nTem paci\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o fazia mal, continuou o Loureiro. N\u00e3o eram noivos? N\u00e3o<br \/>\neram quase casados? Que diabo! Consentisse ao menos uma vez. Era um instantinho.<br \/>\nOra! Uma coisa t\u00e3o simples, t\u00e3o natural!&#8230; Ningu\u00e9m via,<br \/>\ndeixasse, que tolice!<\/p>\n<p>E enquanto falava, muito baixo, com hesita\u00e7\u00f5es tr\u00eamulas<br \/>\nna voz embargada pela sensualidade, estendia a m\u00e3o por baixo, o olhar<br \/>\nfito nos olhos vivos e penetrantes a rapariga.<\/p>\n<p>Nem um ru\u00eddo da rua do Trilho, nem uma voz, nem o v\u00f4o pesado<br \/>\nde um morcego: tudo sil\u00eancio, e uns restos de luar a extinguir-se esbatendo<br \/>\ndefronte nos telhados. Apenas, ao longe, vago e indistinto quase, o ru\u00eddo<br \/>\nmon\u00f3tono do mar no sil\u00eancio da noite calma.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! n\u00e3o&#8230; suplicou a Campelinho sentindo o contato da m\u00e3o<br \/>\ngrossa do guarda-livros. Deixa&#8230;<\/p>\n<p>Houve um fru-fru de vestidos machucados e o baque de uma cadeira.<\/p>\n<p>Momentos depois o Loureiro despedia-se triunfante, pisando devagar, caminho<br \/>\ndo HOTEL DRAGOT.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o come\u00e7ou a retirar-se muito tarde. Havia noites<br \/>\nem que s\u00f3 sa\u00eda depois de uma hora da madrugada. Ultimamente<br \/>\nalmo\u00e7ava e jantava na casa da vi\u00fava. Era mais econ\u00f4mico<br \/>\ndo que pagar hotel, dizia D. Amanda: bastava que ele contribu\u00edsse com<br \/>\ntrinta mil r\u00e9is mensais e tudo se arranjaria ali mesmo em fam\u00edlia;<br \/>\nde modo que o Loureiro pouco a pouco foi-se fazendo, por assim dizer, dono<br \/>\nda casa, chefe da fam\u00edlia. Por fim todas as despesas corriam por sua<br \/>\nconta e risco. Aluguel de casa, comedoria, roupa lavada e engomada, vestidos<br \/>\npara a L\u00eddia, tudo era ele que pagava de boa vontade, sem tugir, nem<br \/>\nmugir, porque queria e tinha prazer nisso. Muito econ\u00f4mico, amigo de<br \/>\nseu dinheirinho, mas em se tratando das Campelo, n\u00e3o tinha m\u00e3os<br \/>\na medir, era de uma prodigalidade sem limites. Coitadas! Lamenta consigo,<br \/>\neram umas pobres; cada um sabe de si e Deus de todos; tinha quase o dever<br \/>\nde ampar\u00e1-las, tanto mais quando estava para ser marido da pequena.<br \/>\nE abriu o seu grande cora\u00e7\u00e3o e a sua bolsa \u00e0quelas duas<br \/>\ncriaturas, que se lhe afiguravam duas santas atrav\u00e9s do prisma azul<br \/>\nde seu amor pela rapariga. Subscritor da sociedade de S\u00e3o Vicente de<br \/>\nPaulo, um pouco devoto, \u00e0s vezes tinha rasgos de verdadeiro filantropo.<br \/>\nD. Amanda e a filha eram aos seus olhos \u201cduas v\u00edtimas da maledic\u00eancia<br \/>\nde uma sociedade hip\u00f3crita e torpe at\u00e9 a raiz dos cabelos\u201d.<br \/>\nAgora jantava e almo\u00e7ava em casa da vi\u00fava, que j\u00e1 lhe<br \/>\nsabia os gostos, as manias. Ela mesma ia preparar a comida, os ovos quentes<br \/>\ne a ling\u00fci\u00e7a assada do almo\u00e7o, o feij\u00e3o e o lombo<br \/>\nassado para o jantar. D. Amanda estava radiante com o genro. Tratava-o a velas<br \/>\nde libra, fazia-lhe todas as vontades, escovava-lhe a roupa, e eram cuidados<br \/>\nde m\u00e3e carinhosa ou de crian\u00e7a que tem um p\u00e1ssaro na<br \/>\nm\u00e3o e receia lhe fuja.<\/p>\n<p>Aos domingos o guarda-livros ia logo cedo para o Trilho, \u00e0s vezes<br \/>\ncom a cara por lavar, metido em cal\u00e7as pardas, abotoado at\u00e9<br \/>\nao pesco\u00e7o. Era quando tinha algum descanso das lidas quotidianas do<br \/>\narmaz\u00e9m, da escritura\u00e7\u00e3o do Caixa. \u00c0s seis horas<br \/>\nda manh\u00e3 j\u00e1 ele estava de caminho para o Trilho, muito \u00e0<br \/>\nfresca, cigarro ao canto da boca, prelibando as del\u00edcias de um dia<br \/>\ninteiro em companhia da noiva, sem ter que dar satisfa\u00e7\u00e3o a<br \/>\nCarvalho &amp; Cia., com a consci\u00eancia tranq\u00fcila de quem cumpriu<br \/>\nreligiosamente o seu dever.<\/p>\n<p>Nem sequer tomava caf\u00e9 no hotel. Pulava da rede \u00e0s pressas,<br \/>\nsem perder tempo, enfiava as botinas, as cal\u00e7as, o palet\u00f3 surrado,<br \/>\ne abalava por ali fora, escadas abaixo. \u00c0s vezes, ainda encontrava<br \/>\na porta da vi\u00fava fechada. Batia devagar com a ponta dos dedos: \u201c-<br \/>\nSou eu, o Loureiro!\u201d Imediatamente D. Amanda vinha abrir, embrulhada<br \/>\nnos len\u00e7\u00f3is, cabelos soltos, em mangas de camisa. E a faina<br \/>\ncome\u00e7ava. Escancaravam-se as portas para dar entrada livre ao arzinho<br \/>\nfresco da manh\u00e3, que se derramava por toda a casa, como um fluido que<br \/>\nse evaporasse de repente de um dep\u00f3sito aberto. O Loureiro tirava o<br \/>\npalet\u00f3, abria a toalha no ombro, e, enquanto se punha a ferver a \u00e1gua<br \/>\npara o caf\u00e9, refestelava-se num confort\u00e1vel banho frio puxado<br \/>\nde v\u00e9spera na grande tina que havia no \u201cbanheiro\u201d. Era<br \/>\ntempo de cajus. O guarda-livros tinha a mania dos depurativos. Antes do banho<br \/>\nemborcava um copo de mocoror\u00f3 \u201cpara retemperar o sangue!, dizia<br \/>\nele. Depois o cafezinho quente, coado pelas m\u00e3os de D. Amanda, e, finalmente,<br \/>\no belo dia passado currente calamo; tranq\u00fcilamente, num longo id\u00edlio,<br \/>\nnaquele canto obscuro de Fortaleza, com a \u201csua santa\u201d. O hotel<br \/>\nservia-lhe apenas para dormir, porque o Loureiro era filho do Rio Grande do<br \/>\nNorte, onde perdera pai e m\u00e3e, n\u00e3o tinha no Cear\u00e1 sequer<br \/>\num parente em cuja casa pudesse passar as noites. Amigos capazes de merecerem<br \/>\ntoda a sua confian\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o os tinha. Pacato, concentrado<br \/>\ne pouco expansivo, dificilmente comunicava-se a quem n\u00e3o o procurasse<br \/>\nem primeiro lugar. Sua natureza ego\u00edsta aprazia-se com a vida sedent\u00e1ria.<br \/>\n&#8211; Um esquisit\u00e3o de for\u00e7a, uma esp\u00e9cie de urso! Diziam<br \/>\nos seus camaradas do com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>E os dias passavam, longos e modorrentos, cheios de sol, sem nuvens no azul,<br \/>\niguais sempre, eternamente mon\u00f3tonos.<\/p>\n<p>Novembro estava a chegar. Novembro, o m\u00eas dos cajus e das ventanias<br \/>\ndesabridas, com as manh\u00e3s friorentas e claras, em que, \u00e0s vezes,<br \/>\nnuvens sombrias acumulam-se no horizonte e v\u00e3o subindo at\u00e9 desmancharem-se<br \/>\ncompletamente num chuvisco ligeiro que apenas borrifa de leve a superf\u00edcie<br \/>\nseca do solo, pondo cintila\u00e7\u00f5es diamantinas nas folhas do arvoredo;<br \/>\nnovembro, o m\u00eas dos estudantes, o m\u00eas dos exames, que passa levando<br \/>\nconsigo as ilus\u00f5es cor-de-rosa dos que deixam os bancos preparat\u00f3rios<br \/>\ne dos que come\u00e7am a vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>O Zuca n\u00e3o tinha pressa em se formar. De resto era uma quest\u00e3o<br \/>\nde tempo o seu bacharelato. Resolvera passar mais alguns meses no Cear\u00e1,<br \/>\ncom a fam\u00edlia, e ent\u00e3o ir-se-ia completar o curso. J\u00e1<br \/>\nagora o Cear\u00e1 n\u00e3o lhe era inteiramente uma terra m\u00e1.<br \/>\nHabituava-se pouco a pouco a essa vida de prov\u00edncia pacata em que se<br \/>\ntrabalha um quase nada e fala-se muito da vida alheia. Maria do Carmo tinha<br \/>\nlhe escrito uma cartinha lac\u00f4nica e expressiva confessando o seu amor.<br \/>\nEntregou-a ela mesma, no Passeio P\u00fablico, numa quinta feira, \u00e0<br \/>\nnoite, uma bel\u00edssima noite de luar. A avenida Caio Prado tinha o aspecto<br \/>\nfant\u00e1stico d\u2019um terra\u00e7o oriental onde passeassem princesas<br \/>\ne odaliscas sob um c\u00e9u de prata polido, com suas filas de combustores<br \/>\nazuis, encarnados e verdes, com as suas esfinges&#8230; Senhoras de bra\u00e7o<br \/>\ndado, em toilettes garridas, iam e vinham no macadame, arrastando os p\u00e9s,<br \/>\nao compasso da m\u00fasica, conversando alto, entrechocando-se, numa promiscuidade<br \/>\ninteressante de cores, que tinham reflexos vivos ao luar; d\u2019um lado<br \/>\ne d\u2019outro da avenida estendiam-se duas alas de cadeiras ocupadas por<br \/>\ngente de ambos os sexos, na maior parte curiosos que assistiam tranq\u00fcilamente<br \/>\nao vaiv\u00e9m cont\u00ednuo dos passantes.<\/p>\n<p>O plenil\u00fanio muito alto dir-se-ia uma grande medalha de prata reluzente<br \/>\ncom o anverso para a terra, suspensa por um fio invis\u00edvel l\u00e1<br \/>\nem cima na c\u00fapula azul do c\u00e9u. Defronte da avenida o mar, na<br \/>\nsua aparente imobilidade, tinha reflexos opalinos que deslumbravam, crivado<br \/>\nde cintila\u00e7\u00f5es min\u00fasculas, largo, imenso, desdobrando-se<br \/>\npor ali a fora a perder de vista, e para o sul, muito ao longe, a luz branca<br \/>\ndo farol tinha lampejos intermitentes, de minuto a minuto. No porto, a mastrea\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos navios destacava nitidamente, inclinando-se num movimento incessante para<br \/>\num e outro lado, como oscila\u00e7\u00f5es de um p\u00eandulo invertido.<\/p>\n<p>&#8211; Uma noite admir\u00e1vel, hein? Maria! dizia L\u00eddia de bra\u00e7o<br \/>\ncom a amiga, levada pela onda dos dilettandi. A normalista, por\u00e9m,<br \/>\nn\u00e3o deu aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Campelinho, muito distra\u00edda,<br \/>\ncaminhando maquinalmente, a pensar no estudante. Decididamente entregava-lhe<br \/>\na carta, fosse como fosse. Eram oito horas e o Zuca ainda n\u00e3o havia<br \/>\nchegado. Estava aflita, inquieta, impaciente. E se ele n\u00e3o fosse ao<br \/>\nPasseio esta noite? Ela rasgaria a carta e nunca mais havia de o procurar.<br \/>\nO seu cora\u00e7\u00e3o batia com for\u00e7a. Ia e vinha, cansada de<br \/>\nesperar, com \u00edmpetos de voltar para casa.<\/p>\n<p>&#8211; Tem paci\u00eancia, menina, disse a outra. O rapaz n\u00e3o tarda. Est\u00e1<br \/>\nno clube, talvez.<\/p>\n<p>Qual clube! Era necess\u00e1rio acabar com aquilo. Come\u00e7ava a desconfiar<br \/>\ndo Zuca. Certo ele queria passar o tempo folgadamente, por isso fingira aquela<br \/>\ncom\u00e9dia de amor. N\u00e3o era poss\u00edvel, n\u00e3o acreditava<br \/>\nna sinceridade do Zuca. Se ele fosse outro procur\u00e1-la-ia sempre, em<br \/>\ntoda a parte, nos passeios, no teatro, nos bailes. E ela \u00e9 que estava<br \/>\nfazendo uma figura rid\u00edcula a procur\u00e1-lo, como se ele fosse<br \/>\no \u00fanico homem do Cear\u00e1 com quem ela pudesse ser feliz!<\/p>\n<p>E l\u00e1 veio o maldito nervoso, uma vontade de fechar os olhos a tudo<br \/>\ne viver para si, egoisticamente, como o bicho da seda no seu casulo. Incomodava-lhe<br \/>\no zunzum de vozes e as pisadas da multid\u00e3o, a pr\u00f3pria m\u00fasica<br \/>\ncome\u00e7ou a fazer-lhe mal \u00e0 cabe\u00e7a. Que horror! Nem sequer<br \/>\npodia passear!<\/p>\n<p>Nisto ouviu uma voz que lhe pareceu a do estudante.<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite, minhas senhoras!<\/p>\n<p>Era realmente ele, que vinha chegando ao lado do Jos\u00e9 Pereira, muito<br \/>\ncorreto, de chap\u00e9u alto, cal\u00e7a de casimira clara, crois\u00e9<br \/>\naberto, grandes colarinhos lustroso de ponta virada e a infal\u00edvel flor<br \/>\nna botoeira.<\/p>\n<p>Maria voltou-se aturdida e um suspiro largo e bom escapou-lhe do peito.<\/p>\n<p>At\u00e9 que enfim! Ele ali estava inteiro, completo, absoluto!<\/p>\n<p>Agora pensava em como entregar a carta sem que ningu\u00e9m visse, sem<br \/>\nesc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>A L\u00eddia sugeriu-lhe uma id\u00e9ia &#8211; iriam \u00e0 outra avenida,<br \/>\nmais sombria e menos freq\u00fcentada; ele naturalmente havia de ir tamb\u00e9m<br \/>\ne ent\u00e3o passava-lhe a carta num aperto de m\u00e3o franco e amig\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, vamos&#8230;<\/p>\n<p>E dirigiram-se para a avenida Carapini, ensombrada pelos castanheiros, que<br \/>\nformavam uma como ab\u00f3bada compacta de ramagens atrav\u00e9s das quais<br \/>\no luar coava-se aqui e ali, pelas clareiras.<\/p>\n<p>Puseram-se por ali a esperar, em p\u00e9 defronte dos gnomos de lou\u00e7a,<br \/>\n\u00e0 beira dos reservat\u00f3rios d\u2019\u00e1gua onde cruzavam<br \/>\ngansos e marrequinhas vadias que grasnavam alegremente inundadas de luar ou,<br \/>\ncaminhando devagar, iam contando os minutos, enquanto a m\u00fasica, no<br \/>\ncoreto, executava trechos alegres de operetas em voga. No botequim, rodeado<br \/>\nde toscas mesinhas de madeira, abriam-se garrafas de cerveja com estrondo<br \/>\ne havia um movimento desusado de gente. As normalistas afastaram-se para mais<br \/>\nlonge.<\/p>\n<p>&#8211; Eles n\u00e3o v\u00eam, disse Maria desanimada, enquanto a outra procurava<br \/>\ncom o olhar o estudante, que se confundia coma a multid\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Tem paci\u00eancia, tolinha. Por que n\u00e3o h\u00e3o de vir?<\/p>\n<p>Com efeito, d\u2019a\u00ed a pouco assomou no extremo oposto da avenida<br \/>\na figura corpulenta de Jos\u00e9 Pereira, alta, larga, colossal, ao lado<br \/>\ndo Zuca, que lhe ficava pelo ombro, apesar de alto tamb\u00e9m, com o seu<br \/>\ncorpo fino em contraste frisante com o todo asselvajado do amigo. Vinham passo<br \/>\na passo, discretamente. Pararam no botequim, numa roda de rapazes que discutiam<br \/>\ncalorosamente sobre pol\u00edtica.<\/p>\n<p>De bra\u00e7o dado, ombro a ombro, as duas raparigas tinham procurado o<br \/>\nlugar mais sombrio da avenida onde n\u00e3o podiam ser facilmente reconhecidas<br \/>\npelos passeantes da Caio Prado.<\/p>\n<p>&#8211; Esperemo-los aqui, disse L\u00eddia, sentando-se com um vago suspiro.<\/p>\n<p>E continuava a chegar gente e a encher o Passeio por todas as avenidas do<br \/>\nprimeiro plano, cruzando-se em todos os sentidos, acotovelando-se, confundindo-se.<br \/>\nNa Moror\u00f3, mais larga que as outras, havia uma promiscuidade franca<br \/>\nde raparigas de todas as classes: criadinhas morenas e rechonchudas, com os<br \/>\nseus vestidos brancos de ver a Deus, de avental, conduzindo crian\u00e7as;<br \/>\nfilhas de fam\u00edlias pobres em trajes domingueiros, muito alegres na<br \/>\nsua encantadora obscuridade; mulheres de vida livre sacudindo os quadris descarnados,<br \/>\ncom ademanes caracter\u00edsticos, perseguidas por uma tro\u00e7a de sujeitos<br \/>\npulhas que se punham a lhes dizer gracinhas insulsas. Toda uma gera\u00e7\u00e3o<br \/>\nnascente, \u00e1vida de emo\u00e7\u00f5es, cansada d\u2019uma vida<br \/>\nsedent\u00e1ria e mon\u00f3tona, ia espairecer no Passeio P\u00fablico<br \/>\naos domingos e quintas feiras, gratuitamente, sem ter que pagar dez tost\u00f5es<br \/>\npor uma entrada, como no teatro e no circo.<\/p>\n<p>Ali n\u00e3o havia distin\u00e7\u00e3o de classes, nem camarotes, nem<br \/>\ncadeiras de primeira ordem: todos tinham ingresso para saracotear nas avenidas<br \/>\nao ar puro das noites de luar.<\/p>\n<p>Apenas quem n\u00e3o tivesse dois vint\u00e9ns esta proibido de sentar-se,<br \/>\nporque, nesses dias, as cadeiras eram alugadas, havia assinaturas baratas.<br \/>\nLia-se mesmo na Prov\u00edncia o seguinte an\u00fancio: \u201cNo estabelecimento<br \/>\nConf\u00facio e no Club vendem-se cart\u00f5es de assinaturas de cadeiras<br \/>\nno Passeio P\u00fablico, com abatimento nos pre\u00e7os\u201d. Mas, ora,<br \/>\ntoda a gente possu\u00eda vint\u00e9ns para alugar uma cadeira, e, demais,<br \/>\nia-se ao Passeio para andar, para se mostrar aos outros como numa vitrine,<br \/>\nn\u00e3o valia a pena ir para ficar sentado, casmurro, a ver desfilar o<br \/>\nque? O mesmo carnaval de todos os domingos e quintas-feiras, as mesmas caras,<br \/>\nas mesmas toilettes. N\u00e3o valia a pena de certo.<\/p>\n<p>Quando a m\u00fasica parava, um realejo fanhoso, ao som do qual rodavam<br \/>\ncavalinhos de pau, em um dos \u00e2ngulos do jardim, gemia, num tom dolente<br \/>\ne irritante, o Trovador atordoando os ouvidos delicados do Zuca que achava<br \/>\naquilo simplesmente insuport\u00e1vel e medonho como um assassinato em plena<br \/>\nrua.<\/p>\n<p>&#8211; \u201cComo \u00e9 que se consentia semelhante importuna\u00e7\u00e3o<br \/>\nem uma capital que tinha foros de civilizada? Oh! em Pernambuco, o italiano<br \/>\nque se lembrasse de tocar realejo \u00e0 porta d\u2019uma rep\u00fablica<br \/>\nera imediatamente punido a batatas e as cascas de laranja. Estava muito atrasadinho<br \/>\no Cear\u00e1!\u201d<\/p>\n<p>Gostava pouco d\u2019ir ao Passeio, o que fazia rar\u00edssimas vezes<br \/>\na convite do Jos\u00e9 Pereira, que comparava aquilo a um para\u00edso.<\/p>\n<p>&#8211; O Passeio P\u00fablico? dizia ele; o Passeio P\u00fablico \u00e9<br \/>\num dos mais belos do Brasil e a coisa mais bem feita que o Cear\u00e1 possui.<br \/>\nQue vista, que magn\u00edfico panorama se aprecia da avenida Caio Prado,<br \/>\n\u00e0 tarde! Nem o Passeio P\u00fablico do Rio de Janeiro!<\/p>\n<p>E justificava o anti-bairrismo do estudante:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que tu tens passado a melhor parte da tua vida na Corte e em Pernambuco,<br \/>\nmenino, dizia ele. Se vivesse algum tempo nesta terra, havias de gostar extraordinariamente.<br \/>\nMas o que te posso afirmar \u00e9 que no Brasil n\u00e3o h\u00e1 uma<br \/>\ncidade t\u00e3o bem alinhada como esta, uma ilumina\u00e7\u00e3o mais<br \/>\nrica do que a nossa e um Passeio P\u00fablico assim como este.<\/p>\n<p>&#8211; \u201cN\u00e3o duvidava, n\u00e3o duvidava, mas o Cear\u00e1 ainda<br \/>\nestava muito atrasadinho, l\u00e1 isso estava\u201d.<\/p>\n<p>Afinal chegou o momento que Maria do Carmo aguardava com a impaci\u00eancia<br \/>\nfebril de um desesperado. O redator da Prov\u00edncia e o Zuca tinham deixado<br \/>\no grupo de pol\u00edticos e aproximavam-se a passos lentos. Ao passarem<br \/>\npelas normalistas a Campelinho levantou-se e, muito desembara\u00e7ada,<br \/>\ncom esse tic indiz\u00edvel das raparigas habituadas a conviv\u00eancia<br \/>\ndos homens e \u00e0 vida elegante, dirigiu-se aos dois amigos, saudando-os<br \/>\nrasgadamente com um belo sorriso aristocrata:<\/p>\n<p>&#8211; Como passou, Sr. Jos\u00e9 Pereira?&#8230; Sr. Zuca&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! minha senhora&#8230; fizeram os dois ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>E a L\u00eddia, depois de perguntar a Jos\u00e9 Pereira, com quem tinha<br \/>\nalguma familiaridade, se vira por ali D. Am\u00e9lia, e com uma ponta de<br \/>\ncinismo, dirigiu-se ao Zuca:<\/p>\n<p>&#8211; Que tal o Passeio, Sr. Zuca?<\/p>\n<p>&#8211; Espl\u00eandido, minha senhora! Est\u00e1 de encantar!<\/p>\n<p>&#8211; Isto \u00e9 um inimigo do Cear\u00e1, D. L\u00eddia, atalhou Jos\u00e9<br \/>\nPereira rindo, com a sua voz muito grossa, os dentes muito brancos e pequeninos.<br \/>\nIsto \u00e9 um v\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e2ndalo, n\u00e3o. Sou apenas um admirador, um amante do progresso.<br \/>\nA meu ver, repito, o Cear\u00e1 tem muito ainda, mas mesmo muito (e deu<br \/>\numas castanholas com o dedo) que andar para ser uma capital de primeira ordem.<\/p>\n<p>&#8211; Eu j\u00e1 sabia que o Sr. Zuca n\u00e3o gostava da terra de Iracema,<br \/>\ndisse a normalista.<\/p>\n<p>Maria tinha se deixado ficar \u00e0 dist\u00e2ncia, sentada num banco<br \/>\nde madeira encostado a uma \u00e1rvore, na meia sombra que havia de um lado<br \/>\nda avenida, quieta, im\u00f3vel, aca\u00e7apada, como uma cousa a toa&#8230;<br \/>\nSentia-se cada vez mais tola, mais matuta e insoci\u00e1vel.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a do acad\u00eamico punha-lhe calafrios na espinha, e vinha-lhe<br \/>\nlogo um desejo de isolar-se e n\u00e3o dizer palavra. N\u00e3o sabia o<br \/>\nque aquilo era; o certo \u00e9 que a presen\u00e7a do Zuca hipnotizava-a,<br \/>\nfazia-lhe perder a cabe\u00e7a, como se estivesse diante de um monstro,<br \/>\nde uma criatura misteriosa, cujo poder sobre ela fosse enorme.<\/p>\n<p>Zangava-se consigo mesma nesses momentos. J\u00e1 estava em idade de perder<br \/>\nde todo o acanhamento e que diabo! Atirar-se \u00e0 vida, \u00e0 sociedade,<br \/>\nsem medo, sem receios infundados, sem pieguismos. Bolas! De si para si, tornava<br \/>\na jurar nunca mais ter medo de homem algum, mas no outro dia era a mesma da<br \/>\nv\u00e9spera, fraca, impotente para dominar-se.<\/p>\n<p>&#8211; Pois estamos distraindo o esp&amp;iacuiacute;rito, tornou a L\u00eddia. A avenida<br \/>\nCaio Prado est\u00e1 muito cheia; vimos apreciar o movimento d\u2019aqui,<br \/>\nda avenida dos charutos.<\/p>\n<p>O Z\u00e9 Povinho denominava avenida dos charutos, a avenida Carapini por<br \/>\nser mais freq\u00fcentada por gente de cor, e L\u00eddia achava muita gra\u00e7a<br \/>\nnaquilo, n\u00e3o podia acertar com o verdadeiro nome da sombria aleia,<br \/>\nponto dileto de cozinheiras e raparigas baratas da rua da Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Fez o Zuca. Ent\u00e3o V. Excia. n\u00e3o veio s\u00f3?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o. Vim com a minha amiga insepar\u00e1vel.<\/p>\n<p>E voltou-se para Maria, que fingia olhar para o coreto da m\u00fasica.<\/p>\n<p>&#8211; Quem D. Maria do Carmo? Perguntou Jos\u00e9 Pereira, voltando-se tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, a Maria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! exclamou o redator dirigindo-se para a normalista. Est\u00e1 triste<br \/>\nhoje, D. Maria? Uma mo\u00e7a bonita n\u00e3o se deixa ficar assim na<br \/>\nsombra. Como vai, como tem passado, boazinha? Sempre acanhada!&#8230; Venha, faz<br \/>\nfavor? Quero-lhe apresentar a um mo\u00e7o muito chic e que lhe aprecia<br \/>\nmuito.<\/p>\n<p>Quem , o Sr. Zuca? Ela j\u00e1 conhecia. Estava descansando.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d4 Zuca!<\/p>\n<p>O acad\u00eamico e L\u00eddia aproximaram-se.<\/p>\n<p>E Jos\u00e9 Pereira num tom de cortesia:<\/p>\n<p>&#8211; Apresento-te aqui a Sra. D. Maria do Carmo, normalista, e uma das mo\u00e7as<br \/>\nmais distintas da nossa sociedade, uma flor!<\/p>\n<p>Riram todos \u00e0quele disparate premeditado, pondo uma nota alegre nesse<br \/>\nobscuro recanto do Passeios.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! J\u00e1 se conheciam? N\u00e3o sabia, por Deus! Ent\u00e3o j\u00e1<br \/>\nconheces a mo\u00e7a mais bonita do Trilho de Ferro, hein? Uma coisa que<br \/>\nn\u00e3o sabes: faz versos tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Maria cumprimentou o estudante com um modo muito discreto, conservando-se<br \/>\nsentada, aflita.<\/p>\n<p>A m\u00fasica deu come\u00e7o a um tango repinicado, saltitante e carnavalesco,<br \/>\nesp\u00e9cie de Chorado Baiano, com rufos de tambor, em que sobressa\u00eda<br \/>\no clarinete, cujas notas, muito prolongadas e queixosas, morriam languidamente.<\/p>\n<p>De quando em quando os instrumentos faziam uma pausa e rompia um coro de<br \/>\nvozes grossas &#8211; Quem comeu o boi?&#8230; que a molecagem, l\u00e1 fora, repetia<br \/>\nnuma desafina\u00e7\u00e3o irritante de vozes finas.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos tomar alguma coisa, insistiu Jos\u00e9 Pereira oferecendo o bra\u00e7o<br \/>\n\u00e0 L\u00eddia cortesmente. \u00d4 Zuca, voc\u00ea d\u00e1 o bra\u00e7o<br \/>\na D. Maria do Carmo.<\/p>\n<p>E, dois a dois, dirigiram-se para o botequim, Jos\u00e9 Pereira na frente<br \/>\ncom a Campelinho.<\/p>\n<p>A ocasi\u00e3o era oportuna.<\/p>\n<p>Maria a princ\u00edpio desanimou completamente, mas, num \u00edmpeto<br \/>\ndecisivo e franco, fazendo um esfor\u00e7o supremo sobre a si mesma, nervosa,<br \/>\nmais t\u00edmida que nunca, sacou a carta, passou-a ao estudante, com a<br \/>\nm\u00e3o tr\u00eamula, sem proferir palavra, e imediatamente veio-lhe um<br \/>\narrependimento profundo de se ter comprometido daquele modo, como se naquela<br \/>\ncarta fosse toda a sua honra, todo seu pudor de rapariga honesta. Estava perdida!<br \/>\nPensou, e j\u00e1 lhe parecia que toda a gente &#8211; o Passeio P\u00fablico<br \/>\nem peso &#8211; seguia-lhe as pegadas observando-lhe todos os movimentos.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! Fez o Zuca satisfeito. Pensei que n\u00e3o respondesse.<\/p>\n<p>E sentindo-se dono daquela prenda, com um fr\u00eamito de p\u00e1lpebras<br \/>\natrav\u00e9s dos \u00f3culos de ouro, aconchegou a si o bra\u00e7o roli\u00e7o<br \/>\nda normalista meio descoberto.<\/p>\n<p>Maria conservou-se calada, sentindo cada vez mais forte o poder misterioso<br \/>\ndo estudante sobre seu cora\u00e7\u00e3o extremamente sens\u00edvel<br \/>\ne bom. Deixou-se ir automaticamente, como uma son\u00e2mbula.<\/p>\n<p>Sentaram-se. Jos\u00e9 Pereira quis saber o que desejavam tomar. Havia<br \/>\nsorvete, cidra, cerveja, vinho do Porto, chocolate&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cerveja, acudiu a L\u00eddia.<\/p>\n<p>Todos assentaram, depois de alguns minutos de indecis\u00e3o, em tomar<br \/>\ncerveja, e o redator da Prov\u00edncia, sempre alegre e cort\u00eas, enfiando<br \/>\na cabe\u00e7a para dentro do botequim, pediu tr\u00eas garrafas de Carls<br \/>\nBerg, gelo e quatro copos.<\/p>\n<p>O servi\u00e7o do botequim era feito por um menino que entrava e sa\u00eda<br \/>\nsem descanso, uma az\u00e1fama dos diabos, suado, com os cabelos empastados<br \/>\nna testa, sem palet\u00f3, uma toalha nauseabunda e \u00famida no ombro,<br \/>\nacudindo, ele s\u00f3, a todos os chamados.<\/p>\n<p>Rapazes impacientes, de chap\u00e9u ca\u00eddo para a nuca, tresandando<br \/>\nixora, muito arrebitados, batiam com as bengalas sobre as mesinhas.<\/p>\n<p>&#8211; Uma garrafa de cerveja, menino!<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 pequeno, aqui. Olha dois caf\u00e9s.<\/p>\n<p>O pobre caixerinho n\u00e3o tinha tr\u00e9guas, com a cara enfaruscada,<br \/>\nresmungando.<\/p>\n<p>De vez em quando, esfregava a toalha nas mesas com for\u00e7a, salpicando<br \/>\nrestos de comida nos janotas.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 burro, est\u00e1s cego?<\/p>\n<p>O menino zangava-se e corria \u00e0 outra mesa.<\/p>\n<p>Vinha de dentro do quiosque um cheiro ativo de caf\u00e9 requentado. Sa\u00edam<br \/>\nbandejinhas com chocolates e p\u00e3o-de-l\u00f3.<\/p>\n<p>&#8211; Muito mal servido isto, objetou Zuca com ser ar afetado de fidalgo, limpando<br \/>\nos bigodes. Tenho notado mesmo que aqui, no Cear\u00e1, n\u00e3o se usa<br \/>\nguardanapo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 objeto de luxo, disse Jos\u00e9 Pereira, atirando tamb\u00e9m<br \/>\no seu dichote.<\/p>\n<p>E pouco a pouco a conversa\u00e7\u00e3o foi se animando, pouco a pouco<br \/>\nfoi-se estabelecendo uma intimidade entre todos, aos passo que os copos esvaziavam.<\/p>\n<p>Pediram mais uma garrafa de cerveja.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria Maria do Carmo tinha o rosto em fogo. Foi perdendo o acanhamento<br \/>\ne ria tamb\u00e9m com os outros quando o redator dizia pilh\u00e9ria.<\/p>\n<p>A L\u00eddia essa, lambia os bei\u00e7os a cada copo que virava de dois<br \/>\ntragos. Era a sua bebida predileta &#8211; cerveja. Bebera pela primeira vez ali<br \/>\nmesmo no Passeio, por sinal o Alferes Coutinho, do batalh\u00e3o, \u00e9<br \/>\nque tinha pago. Estava em meio do terceiro copo, &#8211; Aquilo \u00e9 que era<br \/>\numa bebida agrad\u00e1vel e higi\u00eanica\u201d, dizia ela. N\u00e3o<br \/>\ngostava de licores e bebidas adocicadas. A champanhe mesmo enjoava-lhe.<\/p>\n<p>&#8211; E que tal acha o peru? Perguntou maliciosamente o Jos\u00e9 Pereira.<\/p>\n<p>Isso era outra coisa: o peru era uma excelente bebida; bastava ter sido inventada<br \/>\npelo presidente da prov\u00edncia, um mo\u00e7o de educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nmuito fina, viajado. Diziam at\u00e9 que tinha ido \u00e0 R\u00fassia&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o falou-se do presidente, que Jos\u00e9 Pereira n\u00e3o perdia<br \/>\nocasi\u00e3o de elogiar exageradamente.<\/p>\n<p>Um homem superior, gabava ele, um gentleman, um fidalgo de ra\u00e7a, uma<br \/>\ndessas criaturas que a gente ficava querendo bem por toda a vida. Pois n\u00e3o!<br \/>\nExcelente amigo, dedicado at\u00e9, jogador de florete, sabendo montar a<br \/>\ncavalo \u201cdivinamente\u201d e atirando ao alvo com uma perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nultra! E que educa\u00e7\u00e3o, que fin\u00edssima educa\u00e7\u00e3o<br \/>\nsocial! O homem falava franc\u00eas como um parisiense, entendia ingl\u00eas<br \/>\ne tinha um modo excepcional de se portar em qualquer ocasi\u00e3o solene.<br \/>\nCom tudo isto, acrescentava pigarreando, era muito bom democrata, sim senhores.<br \/>\nPasseava sem ordenan\u00e7a, a p\u00e9; ia ao mercado pela manh\u00e3<br \/>\n\u201cver aquilo\u201d como qualquer plebeu , e jogava o bilhar na Maison<br \/>\nModerne&#8230; Que queriam mais? D\u2019um homem assim \u00e9 que o Cear\u00e1<br \/>\nprecisava. Ele estava ali na pessoa do Castro.<\/p>\n<p>Tratava o presidente familiarmente, como a um amigo de muita intimidade.<\/p>\n<p>Por sua vez o Zuca elevava o presidente aos cornos da lua. A sua opini\u00e3o<br \/>\nresumida era a seguinte: \u201cTodos os cearenses juntos, trepados uns sobre<br \/>\nos outros, n\u00e3o chegavam aos p\u00e9s do fidalgo paulista\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Eu o que mais admiro nele \u00e9 o pesco\u00e7o, a brancura escultural<br \/>\ndo pesco\u00e7o, disse Maria.<\/p>\n<p>O presidente foi analisado escrupulosamente da cabe\u00e7a aos p\u00e9s,<br \/>\ncomo uma est\u00e1tua grega, ao sabor da cerveja Carls Berg.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o havia quase ningu\u00e9m no Passeio, quieto agora,<br \/>\nsem o ru\u00eddo tumultuoso dos passantes, sem m\u00fasica, todo iluminado<br \/>\npela claridade branda e melanc\u00f3lica do luar. Apenas se ouvia o grasnar<br \/>\n\u00e1spero dos gansos nos reservat\u00f3rios, o gritar estridente das<br \/>\nmarrequinha e a toada dos soldados no quartel, rezando.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pereira tinha pedido mais uma garrafa de cerveja e instava para<br \/>\nque Maria do Carmo tomasse \u201cum bocadinho s\u00f3\u201d. A normalista,<br \/>\npor\u00e9m, cobria o copo com a m\u00e3o, recusando. Que n\u00e3o: estava<br \/>\nmuito cheia, sentia uma pontinha de dor de cabe\u00e7a. Botasse p\u2019ra<br \/>\nL\u00eddia&#8230;<\/p>\n<p>Ora, fizesse favor, aceitasse, por vida de seus magn\u00edficos olhinhos<br \/>\nde princesa encantada, suplicou o redator da Prov\u00edncia fixando os olhos<br \/>\nem Maria que esperava o assentimento do Zuza.:<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o toma, D. Maria? perguntou este num tom quase imperativo.<br \/>\nO Jos\u00e9 Pereira pede-lhe com t\u00e3o bons modos&#8230;<\/p>\n<p>Maria aceitou com um gesto de repugn\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 sua sa\u00fade, fez Jos\u00e9 Pereira, tocando o copo no da<br \/>\nnormalista.<\/p>\n<p>Houve um tilintar de cristais chocando-se ao de leve, e todos beberam ruidosamente.<\/p>\n<p>&#8211; Agora vamo-nos chegando que se faz tarde, prop\u00f4s L\u00eddia levantando-se<\/p>\n<p>Mal se sustinha em p\u00e9. Jos\u00e9 Pereira ofereceu-lhe o bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Uma languidez extrema tinha-se apoderado de Maria, cujas p\u00e1lpebras<br \/>\npesavam como chumbo. Foi preciso amparar-se ao estudante para n\u00e3o cair<br \/>\nredondamente.<\/p>\n<p>&#8211; Uma tonteira! Queixou-se ela fechando os olhos.<\/p>\n<p>N\u00e3o era nada, disse o outro, passando-lhe o bra\u00e7o pela cintura;<br \/>\ne enquanto o redator seguia pela avenida com a L\u00eddia, deixavam-se ficar<br \/>\nnaquela posi\u00e7\u00e3o, em p\u00e9 ambos e quase abra\u00e7ados.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, D. Maria&#8230;<\/p>\n<p>A rapariga tentou abrir os olhos, e nesse momento, naquele silencioso recanto<br \/>\ndo Passeio estalou um beijo. Depois seguiram tamb\u00e9m, e, juntos todos<br \/>\nquatro foram tomar caf\u00e9 no restaurante Trist\u00e3o.<\/p>\n<h4><a name=\"8\"><\/a>VIII<\/h4>\n<p>Maria do Carmo chegou \u00e0 casa ofegante, esfalfada, com a cabe\u00e7a<br \/>\na arder, muito corada e alegre, o olhar cheio de meiguice, transfigurada pelos<br \/>\nefeitos da cerveja, rindo por da c\u00e1 aquela palha. Atirou-se com todo<br \/>\no peso do corpo nos bra\u00e7os de Jo\u00e3o da Mata, fazendo-lhe festa,<br \/>\nmuito amorosa, como uma cadelinha de estima depois d\u2019uma aus\u00eancia.<br \/>\nNo seu olhar aveludado e submisso havia uma s\u00faplica irresist\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Cheguei um bocadinho tarde, n\u00e3o \u00e9 assim, padrinho? Perguntou<br \/>\ncosendo-se ao amanuense, a cabe\u00e7a derreada para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o olhou-a, olhou-a, hesitante, com um ar de extrema bonomia no<br \/>\nrosto ainda h\u00e1 pouco carrancudo.<\/p>\n<p>Tinha acabado de ralhar pela demora da afilhada e agora achava-se sem \u00e2nimo<br \/>\nde dizer uma s\u00f3 palavra \u00e1spera \u00e0 rapariga, cujo olhar<br \/>\nfascinava-o com um abismo. Ali estava ela a seus p\u00e9s, submissa e mais<br \/>\nbela do que nunca, acariciando-lhe a barba, toda sua, como uma escrava.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhora, chegou um bocadinho tarde. Isto n\u00e3o s\u00e3o horas<br \/>\nde uma mo\u00e7a estar passeando&#8230;<\/p>\n<p>Afetava um tom repreensivo e ao mesmo tempo paternal.<\/p>\n<p>Quase dez horas! N\u00e3o era bonito aquilo, tivesse mais juizinho. Enfim,<br \/>\npor aquela vez, o dito pelo n\u00e3o dito, mas, por amor de Deus, n\u00e3o<br \/>\nfizesse outra, sen\u00e3o, sen\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, padrinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem padrinho, n\u00e3o tem nada. Pode ir ao Passeio, mas,<br \/>\npor favor, n\u00e3o me volte a estas horas.<\/p>\n<p>E afagava os cabelos de Maria, passava-lhe a m\u00e3o nas faces, atoleimado,<br \/>\nimbecil, como um velho impotente, o olhar aceso atrav\u00e9s dos \u00f3culos<br \/>\nescuros, a calva reluzente como uma grande bola de bilhar.<\/p>\n<p>&#8211; Tu bebeste cerveja, aposto, tornou tomando entre as m\u00e3os a cabe\u00e7a<br \/>\nda rapariga, e cheirando-lhe a boca. Ora se tomou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tomei, sim, padrinho, tomei um copo assim. E indicou o tamanho do copo.<br \/>\nMas n\u00e3o estou tonta, n\u00e3o, padriozinho&#8230; Olhe, foi s\u00f3<br \/>\num copo.<\/p>\n<p>&#8211; E quem t\u2019o pagou?<\/p>\n<p>&#8211; Quem pagou? &#8230; Ora, quem pagou&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim , quero saber quem te pagou a cerveja. Tu n\u00e3o levaste dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quem pagou foi o Sr. Jos\u00e9 Pereira&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu logo vi! Aposto em como o tal Zuca tamb\u00e9m entrou na festa.<\/p>\n<p>Maria fez-se desentendida, e agarrando-se ao pesco\u00e7o do amanuense,<br \/>\ncom um pulo plantou-lhe um beijo na testa.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata desequilibrou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, ora, ora, esta menina!&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia o que fizesse. Ralhar? N\u00e3o. Maria estava encantadora<br \/>\ne pagava-lhe com beijos as recrimina\u00e7\u00f5es. Calar? Tamb\u00e9m<br \/>\nn\u00e3o. A rapariga era capaz de reincidir na falta. O verdadeiro era n\u00e3o<br \/>\nfalar mais no Zuca. E Jo\u00e3o da Mata rematou a conversa:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1, minha filha, v\u00e1 dormir, que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1<br \/>\nboa&#8230;<\/p>\n<p>Maria beijou, como de costume, a m\u00e3o descarnada do padrinho, e, d\u2019um<br \/>\nsalto, recolheu-se ao seu querido quarto do meio, caindo pesadamente na rede,<br \/>\nvestida como estava, sem ao menos lembrar-se de soltar os cabelos, tendo apenas<br \/>\ntirado os sapatinhos e desabotoado o corpete.<\/p>\n<p>Arre! Estava muito fatigada, precisava descansar.<\/p>\n<p>E adormeceu imediatamente com um sorriso ador\u00e1vel na pequenina boca<br \/>\nentreaberta.<\/p>\n<p>Teve sonhos imposs\u00edveis e horrorosos nessa noite. Cerca de onze horas<br \/>\nacordou sobressaltada com um pesadelo. Sonhou, coisa extravagante! Que ia<br \/>\nsozinha por um caminho deserto e intermin\u00e1vel onde havia urze e flores<br \/>\nem profus\u00e3o. Estava perdida, sem saber o rumo que devia tomar , caminhando<br \/>\nsem olhar p\u2019ra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>De repente &#8211; Arre corno! Ouviu a voz aguardentada do Rom\u00e3o, o mesmo<br \/>\nque fazia a limpeza da cidade, e logo surgiu-lhe em frente a figura nauseabunda<br \/>\ne miser\u00e1vel do negro. Era um Rom\u00e3o colossal, grosso e musculoso<br \/>\ncomo um H\u00e9rcules, nu da cintura p\u201dra cima, as esp\u00e1duas<br \/>\nlargas reluzentes de suor, cal\u00e7as arrega\u00e7adas at\u00e9 os<br \/>\njoelhos, preto como carv\u00e3o, as pernas curvas formando um grande O,<br \/>\nos bra\u00e7os levantados segurando na cabe\u00e7a chata um barril enorme<br \/>\ntransbordando imund\u00edcies! -Arre corno! Grania o negro no sil\u00eancio<br \/>\nda noite clara, cambaleando muito b\u00eabado, perseguido por uma c\u00e1fila<br \/>\nde c\u00e3es que ladravam desesperadamente. Fazia um luar espl\u00eandido&#8230;<\/p>\n<p>Assim que deu com os olhos nela, o negro atirou o ch\u00e3o o barril de<br \/>\nporcarias, que se despeda\u00e7ou empestando o ar. E o Rom\u00e3o, cambaleando<br \/>\nsempre, muito fedorento, atirou-se a ela, rilhando os dentes num frenesi est\u00fapido,<br \/>\nbeijando-a, besuntando-a.<\/p>\n<p>Que horror! Ela mais que depressa, cobrindo o rosto com as m\u00e3os, quis<br \/>\nfugir sentindo toda a hediondez daquele corpo imundo, mas o negro deitou-a<br \/>\nno ch\u00e3o com for\u00e7a e &#8230; E Maria do Carmo acordou quase sem sentidos,<br \/>\nsentando-se na rede, com um grande peso no cora\u00e7\u00e3o, aflita,<br \/>\nsufocada, sem poder falar, porque tinha a l\u00edngua presa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Virgem Maria! suspirou logo que p\u00f4de voltar a si. Que sonho feio!&#8230;<\/p>\n<p>Suava em bicas, muito p\u00e1lida, como se acabasse de sair de um forno.<br \/>\nS\u00f3 ent\u00e3o reparou muito admirada que ainda estava com a mesma<br \/>\nroupa com que fora ao Passeio P\u00fablico. Riscou um f\u00f3sforo com<br \/>\na m\u00e3o tr\u00eamula, acendeu a velinha de carna\u00faba e come\u00e7ou<br \/>\na despir-se depressa.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora na rua, passava uma serenata. Uma voz de homem cantava uma<br \/>\nmodinha conhecida, acompanhada de viol\u00e3o e flauta:<\/p>\n<p>N\u00e3o cho..res, querida Elvi&#8230;ra&#8230;<\/p>\n<p>Maria sentia-se doente, com um sabor desagrad\u00e1vel na boca e uma dor<br \/>\nforte nas t\u00eamporas. Vinha-lhe uma vontade de vomitar, de deitar fora<br \/>\na cerveja que bebera: sentia um mal estar geral em todo o corpo, como se estivesse<br \/>\npara cair gravemente doente.<\/p>\n<p>Que seria, Deus do c\u00e9u? Aproximou a vela do espelho, um velho traste<br \/>\ncom o a\u00e7o muito estragado, e achou-se abatida, os olhos fundos, uma<br \/>\ncrosta esbranqui\u00e7ada na l\u00edngua. Nunca mais havia de tomar a<br \/>\ntal cerveja, uma bebida selvagem, sem gosto, repugnante como um vomit\u00f3rio.<br \/>\nS\u00f3 tomara naquela noite por causa do Zuza, porque ouvira dizer que<br \/>\n\u201cera moda nas grandes cidades\u201d, na Corte e no Recife, as senhoras<br \/>\ntomarem cerveja. Mas credo! Noutra n\u00e3o ca\u00eda. Se soubesse teria<br \/>\npedido cidra.<\/p>\n<p>Quis chamar a Mariana para lhe fazer um chazinho de laranja, mas era muito<br \/>\ntarde, podiam desconfiar e, depois o padrinho agora dormia na sala de jantar&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o, era melhor n\u00e3o incomodar a ningu\u00e9m!<br \/>\naquilo havia de passar, se Deus permitisse.<\/p>\n<p>Tinha at\u00e9 esquecido de rezar&#8230;<\/p>\n<p>Ajoelhou-se, mesmo em camisa, diante da oleografia que representava o Cristo<br \/>\nabrindo o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 humanidade, balbuciou uma ora\u00e7\u00e3o,<br \/>\npersignou-se e, mais aliviada, mais fresca, adormeceu novamente, pensando<br \/>\nno estudante.<\/p>\n<p>O amanuense, no mesmo dia da briga com a mulher, resolvera de ent\u00e3o<br \/>\nem diante dormir numa rede na sala d jantar. Uma figa! N\u00e3o estava mais<br \/>\npara suportar o calor infernal da alcova, e, al\u00e9m disto, viviam ultimamente,<br \/>\nele e D. Terezinha, arengando consecutivamente como duas crian\u00e7as invejosas,<br \/>\npela coisa mais insignificante. Ele, muito jubiloso, achava que tudo em casa<br \/>\nia muito ruim, que D. Terezinha n\u00e3o se importava com as coisas, que<br \/>\nn\u00e3o se fazia mais economia &#8211; \u201cUm gasto enorme de dinheiro! um<br \/>\ndesperd\u00edcio sem nome, um esbanjar sem tr\u00e9gua, e afinal de contas,<br \/>\nn\u00e3o passavam da carne cozida e do lombo assado com arroz. Isso assim<br \/>\nia mal, muito mal. Depois ningu\u00e9m fosse chorar por dinheiro&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Quem, ela, chorar? Que esperan\u00e7a! Estava muito enganado, seu \u201cpap\u2019angu\u201d<br \/>\nde boceta. Tinha muito para onde ir, n\u00e3o faltavam casa de gente s\u00e9ria<br \/>\nno Cear\u00e1. Socasse os eu dinheiro onde quisesse&#8230;<\/p>\n<p>Toda a vizinhan\u00e7a, \u00e1vida de esc\u00e2ndalos, ouvia com risinhos<br \/>\nde p\u00e9rfida satisfa\u00e7\u00e3o aqueles torniquetes \u00e0s vezes<br \/>\nimorais at\u00e9, do amanuense com a mulher. Era um divertimento.<\/p>\n<p>&#8211; Deus o fez e o diabo os ajuntou, dizia a mulher d\u2019um barbeiro que<br \/>\nmorava ali perto, paredes meias.<\/p>\n<p>Quando Jo\u00e3o da Mata entrava na pinga ent\u00e3o a coisa tomava propor\u00e7\u00f5es<br \/>\nassustadoras. Amea\u00e7ava expulsar a mulher de casa a pontap\u00e9s,<br \/>\nberrava como um possesso, batia as portas, quebrava lou\u00e7a ao jantar,<br \/>\nrogava pragas e a pr\u00f3pria empregada n\u00e3o escapava \u00e0 sua<br \/>\nc\u00f3lera.<\/p>\n<p>Mariana era uma rapariga muito pacata e em pouco acostumou-se \u00e0s impertin\u00eancias<br \/>\nr\u00edspidas de \u201cseu Jo\u00e3ozinho\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Para que havia de dar o pobre homem, dizia ela \u00e0s vezes, penalizada,<br \/>\ncruzando os dedos sobre o ventre. Credo! A gente v\u00ea coisas! Hum, hum!&#8230;<\/p>\n<p>E muito risonha, muito tola, com o seu ar idiota de animal d\u00f3cil,<br \/>\nl\u00e1 se ia para a cozinha cuidar das panelas e da lou\u00e7a, porque<br \/>\nera ao mesmo tempo cozinheira e copeira.<\/p>\n<p>Quase todos os dias a mesma lengalenga, o mesmo duelo de palavras de porta<br \/>\nde feira, a mesma pancadaria de descomposturas. N\u00e3o era raro sair da<br \/>\nboca desdentada do amanuense uma obscenidade!<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Jesus! exclamava Maria fugindo<br \/>\npara o seu quarto com as m\u00e3os nos ouvidos.<\/p>\n<p>Ao ouvir a voz de Jo\u00e3o da Mata berrando como um danado, a vizinhan\u00e7a<br \/>\nchegava \u00e0s janelas \u00e1vida de esc\u00e2ndalo. Meninos em fralda<br \/>\nde camisa, chupando o dedo, paravam defronte da porta do amanuense, muito<br \/>\nespantados, olhando cheios de curiosidade pelas frinchas da r\u00f3tula.<\/p>\n<p>E a algazarra crescia l\u00e1 dentro, como se papagueassem muitas pessoas<br \/>\nao mesmo tempo.<\/p>\n<p>As duas criaturas faziam as del\u00edcias da rua do Trilho, que se regozijava<br \/>\ncom aqueles espet\u00e1culos gratuitos de um c\u00f4mico irresist\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; \u201cAquilo ainda acabava mas era num esc\u00e2ndalo badejo\u201d,<br \/>\nresmungava a mulher do barbeiro, uma magricela de cara de quem est\u00e1<br \/>\nsempre com dor de barriga. O Loureiro repetia indignado, dando-se ares de<br \/>\nhomem s\u00e9rio e reformador de costumes:<\/p>\n<p>&#8211; \u201cUma gente sem vergonha. Uma canalha! Tomara j\u00e1 se casar para<br \/>\nver-se longe de semelhante peste. At\u00e9 que era feio a L\u00eddia ter<br \/>\namizade com aquela gente\u201d.<\/p>\n<p>E aconselhava \u00e0 rapariga que fosse, pouco a pouco, deixando de ir<br \/>\n\u00e0 casa de Jo\u00e3o da Mata, porque n\u00e3o lhe ficava bem, a<br \/>\nela, \u201crapariga de fam\u00edlia\u201d, em v\u00e9spera de casar,<br \/>\nter rela\u00e7\u00f5es com uma corja d\u2019aquela.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o se jogava o v\u00edspora na casa do amanuense. As<br \/>\nvelhas cole\u00e7\u00f5es dormiam esquecidas no saquinho de baeta verde<br \/>\nem cima do piano.<\/p>\n<p>D. Terezinha transformava-se a olhos vistos. Pouco lhe importavam os m\u00f3veis<br \/>\ncobertos de poeira e de fuligem das locomotivas; protestara nunca mais abrir<br \/>\no bico para dar ordens naquela casa. Esta cansada de ag\u00fcentar desaforos<br \/>\n\u201cdo corno\u201d do Sr. Jo\u00e3o da Mata.<\/p>\n<p>E tudo por que? Por causa de uma peste que se lhe metera casa adentro e agora<br \/>\nandava mostrando os dentes e mais alguma cousa ao padrinho, com partes de<br \/>\nafilhada. N\u00e3o, ela \u00e9 que n\u00e3o servia de alcovitiira a<br \/>\nningu\u00e9m, meu bem. Estava muito enganadinho . Se quisesse fazer mal<br \/>\n\u00e0 sonsa da Maria fosse fazer onde bem entendesse, mas ela, Tet\u00e9,<br \/>\nn\u00e3o servia de travesseiro, n\u00e3o, mas n\u00e3o mesmo&#8230; Estimava<br \/>\nmuito que lhe deixassem dormir s\u00f3, na sua cama. N\u00e3o perdia nada.<\/p>\n<p>Por seu lado o amanuense encarava a mulher com um desprezo solene. Vinha-lhe<br \/>\nagora um arrependimento profundo por ter feito a asneira de amigar-se com<br \/>\nD. Terezinha. Tanta rapariguinha fresca e bonita vivia \u00e0 procura de<br \/>\num homem, tanta retirante \u201dmo\u00e7a\u201d e pobre, tanta gente boa<br \/>\nno mundo, fora amigar-se logo com quem? com quem, Sr. Jo\u00e3o da Mata?<br \/>\nCom uma sujeita feiosa que s\u00f3 tinha carne nos quadris, um monstro de<br \/>\ngordura, com pernas finas e ainda por cima est\u00e9ril! Que grand\u00edssima<br \/>\ncabe\u00e7ada! Entretanto, podia estar muito bem casado com uma mulher de<br \/>\ncerta ordem, rica mesmo, bem educada e bonitona.<\/p>\n<p>Depois que se mudara para sala de jantar apoderou-se dele um aborrecimento<br \/>\ninexplic\u00e1vel por D. Terezinha.. Passava horas e horas estendido na<br \/>\nrede, de papo para o ar, em ceroula e camisa de meia, acendendo cigarros,<br \/>\na pensar na vida, como um grande capitalista que sonha no dinheiro acumulado<br \/>\nusurariamente; e Maria do Carmo aparecia-lhe na imagina\u00e7\u00e3o como<br \/>\num tesouro precios\u00edssimo, que ele receava fosse cobi\u00e7ado um<br \/>\nbelo dia pelo rapazio galante da cidade&#8230; Estava ficando velho, era preciso<br \/>\naproveitar o resto da vida. \u00c9 verdade que em 77, na seca, tinha desfrutado<br \/>\nmuita \u201cbichinha\u201d famosa. Nesse tempo ele era comiss\u00e1rio<br \/>\nde socorros&#8230; Mas nenhuma daquelas retirantes chegava aos p\u00e9s da afilhada.<br \/>\nChegava o que! Nem havia termo de compara\u00e7\u00e3o. Maria, al\u00e9m<br \/>\nde ser uma rapariga asseada, e apetitosa como uma ata madura, tinha, sobre<br \/>\nas outras, a vantagem de ser inteligente e educada.<\/p>\n<p>Estas qualidades da normalista tinham um encanto extraordin\u00e1rio aos<br \/>\nolhos do amanuense. Nunca em sua vida cheia de aventuras amorosas encontrara<br \/>\numa rapariga nas condi\u00e7\u00f5es de Maria do Carmo, filha da fam\u00edlia,<br \/>\nbranca, singularmente encantadora e que estivesse ao alcance de seu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\nah! nunca.<\/p>\n<p>Maria punha-o doido com seus belos olhinhos cor de azeitona. A sua imagina\u00e7\u00e3o<br \/>\ncriava planos fant\u00e1sticos, inexequ\u00edveis, por meio dos quais<br \/>\nele pudesse iludir a afilhada, e, z\u00e1s, tirar-lhe o l\u00edrio branco<br \/>\nda virgindade. N\u00e3o queria precipitar-se com o risco de um esc\u00e2ndalo<br \/>\ncomprometedor, isso n\u00e3o. Preferia insinuar-se pouco a pouco, devagar,<br \/>\nno \u00e2nimo da pequena, sem a sobressaltar, fazendo-lhe todas as vontades,<br \/>\nde modo que, na ocasi\u00e3o oportuna, no momento preciso, ela se entregasse<br \/>\nprontamente, sem resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Com efeito Maria, agora, para n\u00e3o desagradar ao padrinho, obedecia-lhe<br \/>\ncegamente, com a resigna\u00e7\u00e3o indolente e fria duma escrava. Que<br \/>\nhavia de fazer, ela uma pobre filha adotiva, se o padrinho era quem lhe dava<br \/>\nde comer e de vestir? Consentia, pudera n\u00e3o! sem a menor resist\u00eancia,<br \/>\nque o amanuense afagasse-lhe o bico dos seios virgens e lhe passasse a m\u00e3o<br \/>\npelas coxas tenras e polpudas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 fazendo c\u00f3cegas, padrinho, murmurava rindo, com riso<br \/>\nsem express\u00e3o, que lhe vinha do fundo d\u2019alma de donzela.<\/p>\n<p>&#8211; Sossega, tolinha, ralhava Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>E ela n\u00e3o tinha rem\u00e9dio sen\u00e3o ficar quieta, im\u00f3vel,<br \/>\ncom o olhar \u00famido no teto, abandonada \u00e0s car\u00edcias sensuais<br \/>\nd\u2019aquele homem repugnante que a perseguia com um animal no cio, mas<br \/>\nque afinal de contas era seu padrinho&#8230;<\/p>\n<p>Muitas vezes, ah! quase sempre, vinham-lhe \u00edmpetos de reagir com toda<br \/>\na for\u00e7a do seu pudor revoltado, mas ao mesmo tempo lembrava-se que<br \/>\nera s\u00f3 no mundo, porque j\u00e1 n\u00e3o tinha pai nem m\u00e3e,<br \/>\ne podia ser muito desgra\u00e7ada depois&#8230; Sim, era preciso paci\u00eancia<br \/>\npara suportar tudo at\u00e9 que o Zuza se decidisse a ampar\u00e1-la sob<br \/>\na sua prote\u00e7\u00e3o de rapaz rico. Vivia agora, sabe Deus como, entre<br \/>\na indiferen\u00e7a cruel de D. Terezinha e a vontade soberana do amanuense,<br \/>\npor assim dizer sozinha naquela casa onde tudo tinha o aspecto sombrio e desolado<br \/>\nda pobreza desonesta. Ah! mas aquilo havia de acabar fosse como fosse&#8230;<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria L\u00eddia j\u00e1 n\u00e3o a procurava como dantes<br \/>\ntoda orgulhosa com o seu noivo. A felicidade da amiga aumentava-lhe ainda<br \/>\nmais o desespero. Decididamente era muito infeliz. A\u00ed vinham-lhe outra<br \/>\nvez as l\u00e1grimas e os solu\u00e7os concentrados. Recolhia-se com os<br \/>\nolhos cheios d\u2019\u00e1gua ao seu quarto com uma tristeza infinita no<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o e s\u00f3 achava conforto nas confid\u00eancias amorosas<br \/>\ndo Zuza, que ela guardava como uma rel\u00edquia no fundo de uma caixinha<br \/>\nperfumada de s\u00e2ndalo. Esquecia-se a l\u00ea-las devagar, repetindo<br \/>\nfrases inteiras, admirando a bela caligrafia em que elas eram escritas, beijando-as<br \/>\nsobre a assinatura do estudante, toda entregue ao seu amor.<\/p>\n<p>Havia uma semana que se correspondiam por cartas onde a vida de ambos era<br \/>\ndescrita como num di\u00e1rio, minuciosamente, em todos os seus detalhes.<br \/>\nPorque o futuro bacharel desconfiara do modo frios com que o amanuense o recebia,<br \/>\ne, sem dizer nada a ningu\u00e9m, resolvera nunca mais p\u00f4r os p\u00e9s<br \/>\nnaquela casa que ele \u201chonrara\u201d durante quase um m\u00eas com<br \/>\na sua presen\u00e7a. P\u00edlulas!<\/p>\n<p>Todos os dias encontrava o sujeito com uma cara de mata-mouros, a pequena<br \/>\ntinha ordem de n\u00e3o lhe aparecer, e mesmo era uma estopada ir ao Trilho<br \/>\na p\u00e9, sujeitando-se \u00e0 cr\u00edtica idiota dos mequetrefes<br \/>\nda vida alheia. Estava decidido &#8211; n\u00e3o iria mais ao Trilho de Ferro.<br \/>\nE cumpriu a sua palavra com a dignidade de um fidalgo.<\/p>\n<p>Encontravam-se diariamente na Escola, que o Zuza freq\u00fcentava agora com<br \/>\na pontualidade irrepreens\u00edvel d\u2019um ingl\u00eas. E, como n\u00e3o<br \/>\npodiam conversar \u00e0 vontade sem escandalizar os cr\u00e9ditos do estabelecimento<br \/>\nj\u00e1 um tanto abalados, trocavam cartinhas no intervalo das aulas.<\/p>\n<p>Era voz geral na cidade que o estudante estava disposto a casar com a normalista<br \/>\nmesmo contra a vontade de seus pais e a despeito da burguesia aristocrata<br \/>\nque lamentava por sua vez tamanho \u201cdesastre\u201d. Um rapaz fino, com<br \/>\num futuro invej\u00e1vel diante de si, estimado, amigo do presidente, casar-se<br \/>\ncom uma simples normalista sem eira nem beira! E em toda a parte, desde o<br \/>\nCaf\u00e9 Java at\u00e9 ao Pal\u00e1cio da Presid\u00eancia, comentava-se,<br \/>\ndiscutia-se ruidosamente o assombroso acontecimento. Uns asseguravam que o<br \/>\nZuza estava desfrutando a rapariga para depois &#8211; fuisser! p\u00f4r-se ao<br \/>\nfresco e nunca mais pisar o solo cearense. Outros, por\u00e9m, eram de parecer<br \/>\nque o acad\u00eamico tinha boas inten\u00e7\u00f5es e at\u00e9 fazia<br \/>\nbem levantar da mis\u00e9ria uma criatura como a Maria, que estava se perdendo<br \/>\nem companhia do amanuense. Havia outro grupo que acreditava no casamento do<br \/>\nZuza com a normalista porque, na sua opini\u00e3o, a menina j\u00e1 \u201cestava<br \/>\npronta\u201d, isto \u00e9, o estudante j\u00e1 lhe tinha \u201cplantado<br \/>\nno bucho um Zuzinha\u201d. E, assim, multiplicavam-se as opini\u00f5es,<br \/>\nenquanto o Zuza, fazendo ouvidos de mercador, n\u00e3o se dava ao trabalho<br \/>\nde desfazer boatos &#8211; \u201cQue se fomentassem todos. N\u00e3o tinha que<br \/>\ndar satisfa\u00e7\u00f5es a ningu\u00e9m por seus atos\u201d.<\/p>\n<p>Um belo domingo a Matraca lembrou-se outra vez de curtir o couro ao Zuza<br \/>\nem redondilhas escandalosas que enchiam quase toda uma p\u00e1gina. Os vendedores<br \/>\ndo pasquim atravessavam as ruas em disparada esbaforidos, apregoando alto<br \/>\ne bom som o Namoro do Trilho de Ferro.<\/p>\n<p>Em todas as esquinas surgiam meninos maltrapilhos sobra\u00e7ando o jornaleco,<br \/>\narquejantes sob a luz crua do sol que incendiava a cidade nesse luminoso meio-dia<br \/>\nde novembro.<\/p>\n<p>O casar\u00e3o do governo, aca\u00e7apado e informe, com o seu aspecto<br \/>\nbranco e tradicional de velho edif\u00edcio portugu\u00eas do tempo do<br \/>\nSr. D. Jo\u00e3o VI, com a sua fila de janelas, alinhas \u00e0 maneira<br \/>\nde hospital, espiando para a pra\u00e7a do General Tib\u00farcio, parecia<br \/>\ndormir um sono bom de sesta, batido pelo sol, na mudez solene de um monumento<br \/>\narqueol\u00f3gico. Tinha dado meio-dia na S\u00e9; ainda vibrava no espa\u00e7o<br \/>\niluminado e azul a \u00faltima nota das cornetas.<\/p>\n<p>\u00c0quela hora o estudante acabara de almo\u00e7ar com o presidente,<br \/>\ne, de pernas cruzadas, reclinado numa cadeira de balan\u00e7o, dedicava-se<br \/>\na fumar tranq\u00fcilo o seu havana mais o Jos\u00e9 Pereira, na larga sala<br \/>\nde recep\u00e7\u00e3o do pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>De repente:<\/p>\n<p>&#8211; A Matraca a 40 r\u00e9is! O namoro do Trilho de Ferro! O estudante e<br \/>\na normalista! Grande esc\u00e2ndalo!<\/p>\n<p>Um menino passava gritando a todo pulm\u00e3o, numa voz fina de adolescente,<br \/>\nas not\u00edcias da folha domingueira.<\/p>\n<p>Zuza &#8211; com o rosto afogueado pelo Bordeaux que tomara ao almo\u00e7o &#8211;<br \/>\nestremeceu na cadeira.<\/p>\n<p>&#8211; Hein?<\/p>\n<p>O vendedor de jornais repetia a lengalenga l\u00e1 fora, na pra\u00e7a.<br \/>\nEnt\u00e3o o estudante, fulo de raiva, sacudindo fora o resto do charuto,<br \/>\nlevantou-se e foi direto \u00e0 janela.<\/p>\n<p>&#8211; Psiu! Psiu! \u00d3 menino da Matraca!<\/p>\n<p>&#8211; Eu?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, voc\u00ea mesmo!<\/p>\n<p>Enquanto se esfrega um olho os dois encontraram-se em baixo na porta do pal\u00e1cio.<\/p>\n<p>&#8211; Que est\u00e1 voc\u00ea a gritar, seu patife? perguntou Zuza segurando<br \/>\no vendedor pelas orelhas.<\/p>\n<p>&#8211; Nada, seu dot\u00f4; \u00e9 o namoro do Trilho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea ainda repete, seu grand\u00edssimo corno!<\/p>\n<p>E, depois de encher o pequeno de petelecos, o futuro bacharel tomou-lhe todos<br \/>\nos exemplares da Matraca, rasgando-os imediatamente.<\/p>\n<p>O outro abriu-lhe a goela a chorar encostando-se \u00e0 parede, com a cabe\u00e7a<br \/>\nentre os bra\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8211; E puxe! continuou o Zuza implac\u00e1vel, com o seu olhar de m\u00edope.<br \/>\nV\u00e1, v\u00e1, v\u00e1 e diga ao dono desta imund\u00edcie que<br \/>\neu ainda lhe quebro a cara a bengaladas, hein? V\u00e1, v\u00e1, v\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>O pequeno n\u00e3o teve outro jeito sen\u00e3o ir-se arrastando pela<br \/>\nparede, muito triste, resmungando, protestando nunca mais vender a Matraca,<br \/>\nenquanto o Zuza explicava o caso ao Jos\u00e9 Pereira e ao presidente, que<br \/>\no receberam com uma explos\u00e3o de risos.<\/p>\n<p>O caso n\u00e3o era par rir, dizia ele formalizado limpando os \u00f3culos<br \/>\ncom a ponta do len\u00e7o de seda. O caso n\u00e3o era para rir, que diabo!<br \/>\nAinda havia de quebrar a cara do redator da Matraca. Aquilo excedia as raias<br \/>\ndo decoro e do respeito que se deve ter \u00e0 sociedade. Que essa! N\u00e3o<br \/>\nera nenhum filho da m\u00e3e que estivesse a servir de judas a Deus e ao<br \/>\nmundo. Era assim que se resolviam quest\u00f5es de dignidade pessoal &#8211; \u00e0<br \/>\nbengala!<\/p>\n<p>&#8211; Mas vem c\u00e1, \u00f3 Zuza, disse amigavelmente o fidalgo paulista;<br \/>\ntu perdes o tempo e o latim com semelhante gente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu j\u00e1 o aconselhei, interrompeu Jos\u00e9 Pereira. O desprezo<br \/>\n\u00e9 a arma dos fortes.<\/p>\n<p>&#8211; Qual desprezo, hein? O desprezo \u00e9 a arma dos covardes. Eu c\u00e1<br \/>\nresolvo as coisas positivamente a bengaladas.<\/p>\n<p>&#8211; Quantas j\u00e1 destes ao redator da Matraca? &#8211; perguntou Jos\u00e9<br \/>\nPereira para confundir o Zuza.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o dei nenhuma ainda, mas pretendo, antes de me ir embora, quebrar-lhe<br \/>\nos queixos, sabe voc\u00ea?<\/p>\n<p>O presidente para n\u00e3o provocar mais a b\u00edlis do Zuza perguntou,<br \/>\na prop\u00f3sito de jornais que se ocupavam da vida alheia, se tinham lido<br \/>\no Pedro II, e a conversa descambou para o terreno \u00e1rido da pol\u00edtica<br \/>\nlocal.<\/p>\n<p>&#8211; Que diz o papelucho? perguntou fidalgo de dentro dos seus grandes colarinhos<br \/>\nlustrosos.<\/p>\n<p>&#8211; A mesma coisa de todos os dias, respondeu Jos\u00e9 Pereira com um gesto<br \/>\nde desprezo. Que voc\u00ea \u00e9 um p\u00e9ssimo presidente, que voc\u00ea<br \/>\ngosta de tomar champagne, e, finalmente, que voc\u00ea \u201cvai encaminhando<br \/>\nas coisas p\u00fablicas para um abismo\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, suporte-se uma coisa destas!, saltou o Zuza. Eis a\u00ed: \u00e9<br \/>\nou n\u00e3o para se dar o cavaco?<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Zuza, eu vou respondendo a cada artigo com a demiss\u00e3o de dez<br \/>\nfuncion\u00e1rios amigos da oposi\u00e7\u00e3o. Queres ver uma coisa?&#8230;<br \/>\nQue dia \u00e9 hoje?<\/p>\n<p>&#8211; Domingo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, vou mandar lavrar a demiss\u00e3o de alguns empregados p\u00fablicos,<br \/>\nque se dizem mi\u00fados, com a data de hoje. Eis a\u00ed est\u00e1<br \/>\ncomo se resolvem quest\u00f5es desta ordem. Insultam-me, n\u00e3o \u00e9<br \/>\nassim? injuriam-me, acham que sou mau, que n\u00e3o tenho ju\u00edzo,<br \/>\nque sou indiferente \u00e0 sorte do Cear\u00e1&#8230; Pois bem, hoje mesmo<br \/>\nmuita gente vai pagar pelos diretores do tal partido. Nada mais simples, n\u00e3o<br \/>\nachas?<\/p>\n<p>Ante a resolu\u00e7\u00e3o pronta e decisiva do presidente o Zuza ficou<br \/>\nperplexo. Decididamente era um grande homem aquele!<\/p>\n<p>&#8211; Mas olha que vais reduzir \u00e0 mis\u00e9ria muitas fam\u00edlias&#8230;<\/p>\n<p>O presidente teve um sorriso de suprema indiferen\u00e7a \u00e0quelas<br \/>\npalavras do estudante e dirigiu-se \u00e0 secretaria com o passo firme de<br \/>\nquem caminha para uma a\u00e7\u00e3o nobre com o seu belo porte de diplomata.<\/p>\n<p>Zuza pretextou uma forte enxaqueca e abalou a pensar no vendedor da Matraca.<br \/>\nTinha feito mal em esbofetear o rapazinho, porque afinal de contas o pequeno<br \/>\nestava inocente, nada tinha que ver com os desaforos publicados. Era um simples<br \/>\nvendedor, coitado.<\/p>\n<p>Enfiou pela rua da Assembl\u00e9ia, macamb\u00fazio, com um ar indolente,<br \/>\nchap\u00e9u derreado para tr\u00e1s, riscando o ch\u00e3o coma bengala,<br \/>\nmuito distra\u00eddo.<\/p>\n<p>\u201c- Que diabo! A gente sempre faz asneiras&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E, pecador arrependido, entrou em casa esbaforido, soltando, logo \u00e0<br \/>\nentrada, um bocejo de velho pregui\u00e7oso.<\/p>\n<p>Entretanto a demora do Zuza na capital cearense come\u00e7ava a inquietar<br \/>\no coronel Souza Nunes. Era \u00e9poca de exames e o estudante nem sequer<br \/>\nfalava em tirar passagem para o Recife onde j\u00e1 se devia achar a fim<br \/>\nde concluir o curso.<\/p>\n<p>&#8211; Se lhe entrasse na cabe\u00e7a a id\u00e9ia de casamento com a tal<br \/>\nsenhora normalista, ent\u00e3o, adeus, pensava o coronel; ia tudo \u00e1guas<br \/>\nabaixo. Seria talvez preciso improvisar um passeio \u00e0 Europa, do contr\u00e1rio<br \/>\no rapaz era capaz de fazer uma estralada dos diabos.<\/p>\n<p>Ia falar ao Zuza como pai, ia repreend\u00ea-lo severamente, dizer-lhe com<br \/>\na franqueza rude de um superior para um subalterno que aquilo n\u00e3o podia<br \/>\ncontinuar, que era tempo de seguir para o Recife, que se preparasse.<\/p>\n<p>Mas o filho tinha umas maneiras capciosas de convenc\u00ea-lo, fazendo-se<br \/>\nen\u00e9rgico, revoltando-se contra a maledic\u00eancia p\u00fablica,<br \/>\nprovando-lhe com argumentos fortes que tudo que se dizia na rua era mentira,<br \/>\nque ele, Zuza, at\u00e9 desejava ir-se logo para Pernambuco, o que decididamente<br \/>\nfaria no primeiro vapor.<\/p>\n<p>&#8211; O certo \u00e9 que vapores passam, e tonam a passar e tu vais ficando,<br \/>\nobjetou-lhe um dia o coronel que abstinha-se de falar na normalista.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; Mas, ora, h\u00e1 tempo bastante para tudo. Os exames come\u00e7am<br \/>\ntarde este ano.<\/p>\n<p>&#8211; Qual tarde, meu filho! tu est\u00e1s perdendo um tempo precioso quando<br \/>\nj\u00e1 devias estar l\u00e1.<\/p>\n<p>Havia ente os dois, pai e filho, uma familiaridade moderna, como se fossem<br \/>\napenas irm\u00e3os.<\/p>\n<p>A esposa do coronel \u00e9 que n\u00e3o se envolvia em quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Adorava o filho, \u00e9 verdade, tratava-o com todo carinho, tinha orgulho<br \/>\nnele, mas, sempre muito boa, respeitava as resolu\u00e7\u00f5es do Zuza<br \/>\ne evitava contrari\u00e1-lo na mais pequena coisa. Demais, D. Sofia estimava<br \/>\nat\u00e9 que o filho se demorasse o mais poss\u00edvel em sua companhia.<\/p>\n<p>A formatura do Zuza era para ela uma quest\u00e3o secund\u00e1ria que<br \/>\nhavia de se resolver mais cedo ou mais tarde; de si para si achava que o estudante<br \/>\ntinha pouco amor aos estudos, mas n\u00e3o revelava este seu pensamento<br \/>\na ningu\u00e9m. Vivia constantemente incomodada, com fortes dores no \u00fatero<br \/>\nprovenientes de um parto infeliz em que fora preciso arrancar a crian\u00e7a<br \/>\na f\u00f3rceps.<\/p>\n<p>Era uma senhora de quarenta anos com todos os caracter\u00edsticos de uma<br \/>\nboa esposa; inimiga de passeios, importando-se pouco ou nada com a vida elegante,<br \/>\narrastando a sua enfermidade incur\u00e1vel pelo interior sossegado da casa.<br \/>\nO Zuza tinha-lhe uma afei\u00e7\u00e3o supersticiosa. D. Sofia era a \u00fanica<br \/>\nmulher sincera e boa no mundo a seus olhos de filho agradecido. Um pedido,<br \/>\num desejo de sua m\u00e3e era satisfeito imediatamente, sem considera\u00e7\u00f5es,<br \/>\ncustasse o que custasse.<\/p>\n<p>Ela, por sua vez, a pobre senhora, retribu\u00eda-lhe o afeto com a mesma<br \/>\ndedica\u00e7\u00e3o, com o mesmo desprendimento, n\u00e3o contrariando<br \/>\no mais leve pensamento do rapaz.<\/p>\n<p>\u201c- \u00c9 o que me obriga vir ao Cear\u00e1, dizia ele, \u00e9<br \/>\nminha velha, do contr\u00e1rio jamais eu tornaria a esta prov\u00edncia<br \/>\ninsuport\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p>Mas entravam e saiam vapores e ele deixava-se ficar com o seu t\u00e9dio,<br \/>\npreso irresistivelmente aos olhos cor de azeitona da normalista como a uma<br \/>\nforte cadeia de ferro. \u201c- Tinha tempo, tinha tempo&#8230;\u201d repetia,<br \/>\ndecidido a passar o Natal em, Fortaleza. Que diabo! deixassem-no ao menos<br \/>\nprovar o tradicional alu\u00e1. Os exames? ningu\u00e9m se incomodasse,<br \/>\nfaria-os em mar\u00e7o; era at\u00e9 melhor, porque assim podia estudar<br \/>\nmais e \u201cfazer figura\u201d.<\/p>\n<p>E os dia passavam e cada vez mais crescia no seu esp\u00edrito o desejo<br \/>\nveemente, a ambi\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica de possuir completamente<br \/>\naquela rapariga que se tinha apoderado de todo o seu cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQueria para esposa uma mulher nas condi\u00e7\u00f5es de Maria do Carmo,<br \/>\n\u00f3rf\u00e3, de origem obscura e pobre. Decididamente casava-se desta<br \/>\nvez embora isso custasse algum desgosto ao pai. Todo homem deve ter a liberdade<br \/>\nde escolher a mulher que melhor lhe quadrar.<\/p>\n<p>&#8211; Mas olha que a rapariga \u00e9 normalista&#8230; lembrava Jos\u00e9 Pereira<br \/>\nmaliciosamente.<\/p>\n<p>Que importava isso? Fazia muito bom ju\u00edzo da sociedade cearense para<br \/>\nn\u00e3o acreditar que todas as normalistas do Cear\u00e1 fossem indignas<br \/>\nde um rapaz de certa ordem. O que queria \u00e9 que a pequena soubesse corresponder<br \/>\n\u00e0 sua confian\u00e7a.<\/p>\n<h4><a name=\"9\"><\/a>Cap\u00edtulo IX<\/h4>\n<p>Foi num s\u00e1bado, \u00e0 noite, que se realizou cerimoniosamente,<br \/>\ncom toda a pompa de uma festa de prov\u00edncia, o casamento da L\u00eddia<br \/>\ncom o guarda-livros, na igreja de N.S, do Patroc\u00ednio.<\/p>\n<p>\u00c0s sete horas parou \u00e0 porta da vi\u00fava Campelo um carro<br \/>\ne saltou o Loureiro todo de preto, gravata branca, o cabelo lustroso, repartido<br \/>\nao meio em trunfas, empunhando o seu famoso clak. Estava glorioso dentro da<br \/>\nsua casaca de pano fino mandada fazer especialmente para o ato.<\/p>\n<p>Que festa na rua do Trilho!<\/p>\n<p>No quarteir\u00e3o compreendido entre a rua das Flores e a do Senador Alencar,<br \/>\nnotava-se um movimento desusado de gente que se debru\u00e7ava \u00e0s<br \/>\njanelas e parava na cal\u00e7ada e nas esquinas para esperar a sa\u00edda<br \/>\ndos noivos. Uma curiosidade flagrante estampava-se na fisionomia dos moradores<br \/>\nque assistiam basbaques \u00e0 chegada dos carros, comunicando a sua ruidosa<br \/>\nalegria \u00e0quele peda\u00e7o de rua habitualmente silenciosa e sossegada.<\/p>\n<p>Havia folhas tapetando o ch\u00e3o defronte da casa da vi\u00fava onde<br \/>\nreinava agora uma estranha aglomera\u00e7\u00e3o de pessoas de ambos os<br \/>\nsexos, compactas, abafadas, espremidas entre as quatro paredes da pequena<br \/>\nsala de visitas.<\/p>\n<p>A noiva estava acabando de colocar a grinalda quando entrou o Loureiro muito<br \/>\nteso com um riso am\u00e1vel e desconfiado que lhe arrebitava o bigode espesso.<br \/>\nDois sujeitos, tamb\u00e9m encasacados, de luvas, foram recebe-los \u00e0<br \/>\nporta. -\u201cChegou o homem\u201d, anunciou uma voz, e a estas palavras<br \/>\ncresceu o zunzum propagando-se por ali fora entre os curiosos que se acotovelavam<br \/>\n\u00e0 porta da rua.<\/p>\n<p>E logo toda gente a repetiu transmitindo-se a grande not\u00edcia -\u201cchegou<br \/>\no noivo!\u201d &#8211; e todos os olhares ca\u00edram de chofre sobre o guarda-livros<br \/>\ntransfigurado em her\u00f3i de com\u00e9dia.<\/p>\n<p>D. Amanda, muito azafamada, tomou-o pelo bra\u00e7o e conduziu-o \u00e0<br \/>\nsala de jantar para lhe oferecer um calizinho de vinho do Porto.<\/p>\n<p>Loureiro queixou-se do calor sacando fora as luvas, rubro, com a testa reluzente<br \/>\nde \u00f3leo, metido num colarinho em folha, todo ele recendendo opop\u00e1nax.<br \/>\nNunca ningu\u00e9m o vira t\u00e3o bem disposto, t\u00e3o l\u00e9pido,<br \/>\ncom um ar ao mesmo tempo condescendente e soberano de capitalista sem d\u00e9bito.<br \/>\n-\u201cA noiva estava pronta?\u201d &#8211; perguntou. E, sem esperar resposta,<br \/>\ncome\u00e7ou a contar um incidente que lhe sucedera no hotel no momento<br \/>\nem que se vestia. Nada, uma inf\u00e2mia que n\u00e3o lhe atingia sola<br \/>\ndo sapato. Uma carta an\u00f4nima contra a reputa\u00e7\u00e3o de L\u00eddia,<br \/>\ncoisas do Cear\u00e1, coisas dessa terra&#8230;<\/p>\n<p>Incomodara-se a princ\u00edpio, o sangue subira-lhe \u00e0 cabe\u00e7a<br \/>\nao ler semelhantes torpezas, mas acalmara-se logo, porque n\u00e3o valia<br \/>\na pena a gente incomodar-se por uma carta an\u00f4nima escrita em p\u00e9ssima<br \/>\nletra e, o que era mais, acrescentou convicto o Loureiro, \u201csem assinatura\u201d.<\/p>\n<p>A vi\u00fava n\u00e3o se inquietou, atarefada, suando, muito apertada<br \/>\nna sua toilette de seda escarlate, os grandes seios amea\u00e7ando romper<br \/>\no corpete e uma rosa no cabelo. &#8211; Cal\u00fanias, nada mais, observou servindo<br \/>\no vinho. O guarda-livros emborcou o c\u00e1lice \u00e0 sa\u00fade da<br \/>\nnoiva, gabando a boa qualidade do Porto.<\/p>\n<p>A pequena sala de jantar, caiadinha de novo, tinha agora outro aspecto mais<br \/>\nasseado e alegre, sem manchas de gordura nas paredes amarelecidas, como d\u2019antes,<br \/>\ncom vasos de flores no aparador, iluminada \u00e0 vela de espermacete. Sobre<br \/>\na mesa do centro coberta com um pano novo de riscadinho encarnado, pousavam<br \/>\nduas lanternas em forma de sino, jarros, pratos com bolos e garrafas intactas<br \/>\ndispostas em simetria. O ch\u00e3o de tijolo ainda estava meio \u00famido<br \/>\nda baldea\u00e7\u00e3o que se fizera na v\u00e9spera. De resto os mesmos<br \/>\nm\u00f3veis do costume: um lavat\u00f3rio de ferro com espelho defronte<br \/>\ndo corredor, a mesa de jantar, o aparador de nogueira e o guarda-lou\u00e7a,<br \/>\numa velha pe\u00e7a que fora do tempo do marido de D. Amanda.<\/p>\n<p>A verdadeira casa do Loureiro, o ninho em que ele ia passar a lua-de-mel<br \/>\ncom a L\u00eddia, era no Benfica, uma casinha tamb\u00e9m de porta e janela,<br \/>\nmas muito fresca e alegre, nova, ainda cheirando \u00e0 tinta. Resolvera<br \/>\nn\u00e3o fazer festa. Um \u201ccopito\u201d de vinho aos amigos, um taco<br \/>\nde bolo e o deixassem em paz com a sua \u201cquerida\u201d. Tinha feito<br \/>\nmuitas despesas com o casamento. Da igreja iria diretamente para a \u201cch\u00e1cara\u201d,<br \/>\nonde ficava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos amigos. Isso de p\u00e2ndega<br \/>\nem noite de n\u00fapcias n\u00e3o era pr\u00f3prio, achava uma formid\u00e1vel<br \/>\nma\u00e7ada. Demais n\u00e3o era nenhum milion\u00e1rio para n\u00e3o<br \/>\ncontar o dinheiro que gastava.<\/p>\n<p>Uma miniatura a casinha do Benfica, um sonho do poeta l\u00edrico, assobradada,<br \/>\ncom a sua fachada azul ainda fresca, recebendo em cheio at\u00e9 o meio-dia<br \/>\ntoda a luz do nascente. Logo \u00e0 entrada havia uma escadinha de tr\u00eas<br \/>\ndegraus, d\u2019onde se via, l\u00e1 dentro, nitidamente, como por um cristal<br \/>\nmuito l\u00edmpido, a sala de jantar e as bananeiras do quintalejo, de um<br \/>\nverde tenro&#8230; Sala e visitas, alcova, comunicando com um quarto, casa de<br \/>\njantar, varanda, dispensa, quarto para criado, cozinha e quintal, tudo asseado<br \/>\ne confort\u00e1vel, com uns tons aristocr\u00e1ticos matizando a compostura<br \/>\ngraciosa dos m\u00f3veis, papel claro nas paredes, e lustres na sala de<br \/>\nvisitas.<\/p>\n<p>Conclu\u00eddas as obras da casa, o trabalho de renova\u00e7\u00e3o,<br \/>\nLoureiro dera-se pressa em mobili\u00e1-la a seu jeito, conforme as suas<br \/>\nposses e os seus h\u00e1bitos de empregado zeloso e met\u00f3dico. N\u00e3o<br \/>\npedira conselhos a ningu\u00e9m; escolhera ele mesmo os m\u00f3veis e<br \/>\nobjetos decorativos, tudo novo e lustroso, como se tivesse sa\u00eddo da<br \/>\nf\u00e1brica naquele instante. Mandara vir dos Estados Unidos, por interm\u00e9dio<br \/>\nda casa Conf\u00facio, um piano americano e uma m\u00e1quina de costura.<br \/>\nE uma vez tudo pronto, tudo no seu lugar, passou uma revista geral na casa,<br \/>\ndesde a sala de visitas at\u00e9 ao fundo do quintal, admirando com a alma<br \/>\ncheia de satisfa\u00e7\u00e3o a esp\u00e9cie de para\u00edso que ele<br \/>\npr\u00f3prio criara para si.<\/p>\n<p>\u201c- Sim, senhor, tinha cumprido rigorosamente o seu dever. Estava tudo<br \/>\nque nem um brinco! Agora, sim, podia casar.\u201d<\/p>\n<p>L\u00eddia pasmou diante daquele novo mundo que se lhe oferecia \u00e0<br \/>\nvista. Nunca pensara que o guarda-livros soubesse preparar uma casa com tanta<br \/>\ngra\u00e7a. Pelo primeira vez na sua vida o Loureiro revelara-se um homem<br \/>\nmoderno e civilizado. Estava encantada! J\u00e1 agora n\u00e3o invejava<br \/>\na sorte de Maria do Carmo: o Loureiro podia competir com o Zuza em bom gosto!<br \/>\nQuem diria? Supunha o guarda-livros mais tolo, mais ignorante e sensabor\u00e3o.<br \/>\nAgora estava convencida de que o seu homem era capaz de fazer figura em qualquer<br \/>\nsociedade. Percorreu todos os aposentos, revistando os m\u00f3veis, admirando<br \/>\na qualidade fina dos objetos, com exclama\u00e7\u00f5es de \u00edntima<br \/>\nalegria. Sentou-se ao piano e ensaiou uma escala achando-o excelente.<\/p>\n<p>&#8211; Espl\u00eandido, hein, mam\u00e3e? Melhor que o das Cabraes!<\/p>\n<p>Mirou-se ao espelho, uma pe\u00e7a magn\u00edfica, de cristal, que o<br \/>\nguarda-livros comprara num leil\u00e3o particular por pre\u00e7o exorbitante.<br \/>\nSubia de ponto a satisfa\u00e7\u00e3o da rapariga. Esteve quase se atirando<br \/>\nao pesco\u00e7o do noivo e beijando-o agradecida; conteve-se por\u00e9m.<br \/>\nA vi\u00fava, essa acompanhava a filha, embasbacada, dando gra\u00e7as<br \/>\na Deus por ter encontrado semelhante genro. -\u201cOlha isto, menina, olha<br \/>\naquilo!\u201d dizia, muito gorda chamando a aten\u00e7\u00e3o da L\u00eddia.<\/p>\n<p>Da sala de visitas passaram \u00e0 alcova. O guarda-livros guiava-as, na<br \/>\nfrente, explicando os melhores detalhes, a proced\u00eancia dos objetos,<br \/>\no seu valor. &#8211; \u201cOh, a cama! saltou a L\u00eddia, sentando-se no belo<br \/>\nleito de ferro azul com esmaltes d\u2019ouro, armado \u00e0 inglesa em<br \/>\nforma de dossel.<\/p>\n<p>Achava muito elegante as camas que se estavam usando. Experimentou o enxerg\u00e3o<br \/>\nde arame calcando-o com o corpo. Magn\u00edfico! A vi\u00fava tamb\u00e9m<br \/>\nse sentou um instantinho, e continuaram a visita.<\/p>\n<p>Era quase noite quando se retiraram.<\/p>\n<p>Agora, uma semana depois, num s\u00e1bado, toda agente falava no casamento<br \/>\nda Campelinho como d\u2019um acontecimento extraordin\u00e1rio. A Campel\u00e7inho,<br \/>\nhein? Quem diria!&#8230; Uma felizarda! E todos comentavam o fato com ru\u00eddo,<br \/>\nrecapitulando a vida inteira da vi\u00fava e da filha, lembrando epis\u00f3dios,<br \/>\ncochichando mal\u00edcias, prognosticando o futuro da rapariga, admirando<br \/>\na boa f\u00e9 do Loureiro. Coitado, ele talvez ignorasse mesmo certos pormenores<br \/>\nda vida da L\u00eddia&#8230;<\/p>\n<p>Da\u00ed quem sabia? talvez fossem muito felizes. Conheciam-se mo\u00e7as<br \/>\nmal comportadas que, depois, casando-se tinham-se tornado verdadeiras m\u00e3es<br \/>\nde fam\u00edlias.<\/p>\n<p>O Guedes, da MATRACA, esse, logo \u00e0s seis horas come\u00e7ou a beber<br \/>\nno Z\u00e9 do Gatto mais o Perneta, vomitando todo o seu despeito contra<br \/>\na L\u00eddia que ele cobria de improp\u00e9rios aguardentados.<\/p>\n<p>Debalde o Perneta procurava acalm\u00e1-lo, o Guedes estava fora de si,<br \/>\ncom os olhos ensang\u00fcentados, esbravejando como uma fera.<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-te disso, \u00f3 Guedes, aconselhava o Perneta. Olha que te podem<br \/>\nouvir, homem!<\/p>\n<p>&#8211; Que ou\u00e7am, que ou\u00e7am, cambada de infames!<\/p>\n<p>E batendo no peito orgulhoso:<\/p>\n<p>&#8211; Esse aqui beijou muito aquela tipa, sabes? N\u00e3o preciso dela para<br \/>\ncois\u00edssima alguma, est\u00e1s ouvindo? Aquilo \u00e9 uma sem vergonha<br \/>\nmuito grande, aquela f\u00eamea!<\/p>\n<p>&#8211; Cala a boca, menino&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cala a boca, porque? Pensa voc\u00ea que tenho medo de caretas? Hei de<br \/>\ndizer o que eu muito bem quiser, fique voc\u00ea sabendo!<\/p>\n<p>&#8211; Quem te diz o contr\u00e1rio, homem de Deus? O que n\u00e3o \u00e9<br \/>\nbonito \u00e9 estares por a\u00ed a dizer asneiras.<\/p>\n<p>De vez em quando aproximava-se o Z\u00e9 Gato e suplicava que n\u00e3o<br \/>\nfalassem t\u00e3o alto, que na rua se estava ouvindo. Mas o Guedes n\u00e3o<br \/>\natendia a coisa alguma, com o pensamento na L\u00eddia, transbordando c\u00f3lera,<br \/>\npossesso.<\/p>\n<p>Escureceu e ele ainda l\u00e1 estava no fundo da bodega esvaziando c\u00e1lices<br \/>\nde aguardente, a falar desesperadamente.<\/p>\n<p>\u00c0s sete horas dois foguetes queimados defronte da casa da vi\u00fava<br \/>\nCampelo, no Trilho, deram sinal de que os noivos iam sair. Com efeito, d\u2019a\u00ed<br \/>\na pouco surgiu na cal\u00e7ada a Campelinho caracterizada em noiva, afogada<br \/>\nem seda branca, com uma aur\u00e9ola de imortalidade, cabisbaixa, pisando<br \/>\ndevagar, de bra\u00e7o com a firma Carvalho &amp; Cia.<\/p>\n<p>E \u00e0quela apari\u00e7\u00e3o levantou-se um rumor em todo o quarteir\u00e3o.<br \/>\n\u201cJ\u00e1 vem, j\u00e1 vem!\u201d era a voz geral.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s vinha o Loureiro com a vi\u00fava, em seguida Maria do<\/p>\n<p>Carmo e um rapaz empregado no com\u00e9rcio, D. Terezinha, o Castrinho,<br \/>\ne outras pessoas de mais ou menos intimidade, duas a duas.<\/p>\n<p>O cortejo desfilou a p\u00e9, ante a curiosidade indiscreta da vizinhan\u00e7a<br \/>\nque se debru\u00e7ava na janela para ver melhor a noiva. -\u201cComo aquilo<br \/>\nia orgulhoso!\u201d, disse Justina Proen\u00e7a, uma paraense equ\u00edvoca,<br \/>\nvizinha de Jo\u00e3o da Mata. -\u201cT\u00e3o besta \u00e9 um quanto<br \/>\no outro\u201d, murmurou a mulher do barbeiro, num muxoxo.<\/p>\n<p>Moleques com tabuleiros de doces na cabe\u00e7a acompanhavam o pr\u00e9stito.<\/p>\n<p>De repente houve um fecha-fecha na esquina onde iam dobrar os noivos.<\/p>\n<p>Que \u00e9? Que foi? Recome\u00e7ou o zunzum mais forte, como um zumbido<br \/>\nde abelhas num corti\u00e7o e os boatos circulavam vertiginosamente. Toda<br \/>\na gente queria saber o que era, o que tinha acontecido. A verdade \u00e9<br \/>\nque ao aproximar-se o \u201ccasamento\u201d da venda do Z\u00e9 Gato,<br \/>\nsaltou de dentro o Guedes, b\u00eabedo como uma cabra, espumando, sem chap\u00e9u<br \/>\ne p\u00f4s-se no meio da rua a vociferar obscenidades contra a Campelinho<br \/>\ne mais o guarda-livros.<\/p>\n<p>Um esc\u00e2ndalo. Soaram apitos; compareceram guardas de pol\u00edcia;<br \/>\no Z\u00e9 Gato saiu \u00e0 rua para acalmar o borracho; foi alterada a<br \/>\nordem do pr\u00e9stito; a L\u00eddia ficou branca debaixo do v\u00e9u<br \/>\ne ia tendo uma s\u00edncope; o Loureiro quis avan\u00e7ar contra o desordeiro,<br \/>\nmas foi detido por Jo\u00e3o da Mata&#8230;<\/p>\n<p>Afinal de contas, depois de alguns segundos, fez-se a ordem e o \u201ccasamento\u201d<br \/>\nseguiu em paz, direto \u00e0 igreja do Patroc\u00ednio.<\/p>\n<p>O Guedes forcejara por evadir-se dos bra\u00e7os do Z\u00e9 Gato e d\u2019outro<br \/>\nsujeito, que procuravam conduzi-lo \u00e0 venda.<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu que te pedes, \u00f3 Guedes, vamos. Deixa de tolices, rapaz; est\u00e1s<br \/>\ndando esc\u00e2ndalo, homem!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vou, porque n\u00e3o quero, est\u00e1 ouvindo? N\u00e3o<br \/>\nvou, porque n\u00e3o quero. Eu hoje fa\u00e7o o diabo!<\/p>\n<p>E agachava-se, e ca\u00eda p\u2019ra tr\u00e1s e tombava para os lados,<br \/>\nsem gravata, os olhos esbugalhados, os cabelos em desordem, como um doido.<br \/>\nFoi uma luta para acalm\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Por fim o Z\u00e9 Gato mandou vir uma x\u00edcara de caf\u00e9 sem<br \/>\na\u00e7\u00facar, deu-lhe a cheirar lim\u00e3o, e em pouco, o redator<br \/>\nda Matraca dormia beatificamente, debru\u00e7ado sobre a mesa de ferro onde<br \/>\nserviam-se as bebidas.<\/p>\n<p>&#8211; Coitado! lamentou o vendeiro. Um talento famoso! \u00c9 um segundo tomo<br \/>\nde Barbosa de Freitas&#8230;<\/p>\n<p>Cerca de uma hora depois voltaram os noivos com o seu bizarro cortejo de<br \/>\namigos e amigas, mas agora vinham os dois na frente abrindo caminho, conversando<br \/>\nbaixinho, com um belo ar de familiaridade. Nas fileiras do pr\u00e9stito<br \/>\nhavia um rumor de franca liberdade. Falava-se um pouco alto, ouviam-se risadinhas<br \/>\ngostosas, tinha-se perdido a cerim\u00f4nia grave de momentos antes. A volta<br \/>\nn\u00e3o se parecia com a ida. A alegria dos noivos comunicava-se instintivamente<br \/>\naos circunstantes como se na verdade estes compartilhassem da \u00edntima<br \/>\nfelicidade daqueles.<\/p>\n<p>Outra vez a casinhola da vi\u00fava encheu-se que num um ovo. No meio dos<br \/>\nconvidados havia estranhos que invadiam a sala sem cerim\u00f4nia, imiscuindo-se<br \/>\nno tumulto de gente como se fossem amigos velhos, de palet\u00f3 saco e<br \/>\ngravatas de cores espaventosas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m os conhecia, mas ningu\u00e9m ousava despedi-los, deixando-os<br \/>\nficar, por uma condescend\u00eancia razo\u00e1vel. Curiosos de ambos os<br \/>\nsexos debru\u00e7avam-se da parte de fora das janelas para dentro, espremidos<br \/>\nuns contra os outros.<\/p>\n<p>Os noivos tinham se sentado no sof\u00e1, defronte \u00e0 janela, aconchegados,<br \/>\nprelibando as del\u00edcias do matrim\u00f4nio na casinha do Benfica.<\/p>\n<p>Loureiro limpava devagar com o len\u00e7o recendendo opop\u00e1nax o<br \/>\nsuor que lhe corria em gotas da testa, encarando com supremo orgulho a curiosidade<br \/>\npulha dos circunstantes.<\/p>\n<p>Pousava os p\u00e9s sobre o tapete deixando ver as meias de seda cor de<br \/>\ncarne com pintas de ouro.<\/p>\n<p>L\u00eddia estava divina com sua suntuosa toilette de noiva comprimindo-lhe<br \/>\nos quadris rijos e carnudos, muito s\u00e9ria, o rosto afogueado.<\/p>\n<p>O guarda-livros contemplava-a de instante a instante com um profundo olhar<br \/>\napaixonado de dono que acaricia um objeto querido, sentindo-se mais que nunca<br \/>\nirresistivelmente atra\u00eddo pela formosura sensual da Campelinho.<\/p>\n<p>D. Amanda, sempre muito sol\u00edcita, veio convid\u00e1-los para a ceia:<br \/>\nque estava pronto o ch\u00e1, e logo toda gente enfiou pelo corredor atr\u00e1s<br \/>\ndos noivos, sequiosa de cerveja e vinho do Porto.<\/p>\n<p>Um rubor de ocasi\u00e3o solene tomou as faces do Castrinho, disposto j\u00e1<br \/>\na brindar os noivos num grande rasgo de eloq\u00fc\u00eancia demost\u00eanica.<\/p>\n<p>A saleta de jantar resplandecia \u00e0 luz dos dois casti\u00e7ais de<br \/>\nvidro com mangas em forma de sino, colocados nas extremidades da mesa. A um<br \/>\ncanto, sobre uma mesinha de pinho, uma bateria de garrafas de cerveja desafiava<br \/>\na gan&amp;aacirc;ncia dos convidados. Houve um assalto \u00e0 mesa. Todos acercaram-se<br \/>\ndela com a avidez de gastr\u00f4nomos, e, antes que os noivos tomassem assento<br \/>\n\u00e0 cabeceira, j\u00e1 havia algu\u00e9m sentado no extremo oposto.<br \/>\nO Castrinho n\u00e3o pode reprimir um &#8211; oh! de indigna\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque felizmente passou despercebido. -\u201cSentem-se, sentem-se\u201d, ordenava<br \/>\na vi\u00fava, inquieta como uma barata \u00e0 volta da mesa, indicando<br \/>\nas cadeiras. Todos se sentaram com ru\u00eddo, acotovelando-se. Ao lado<br \/>\ndos noivos os padrinhos, Carvalho &amp; Cia. e a esposa, tinham o ar modesto<br \/>\nde quem se v\u00ea cercado de honras imerecidas. O Castrinho que n\u00e3o<br \/>\nfaltava \u00e0 festa alguma dessa ordem, sentou-se ao centro com uma como\u00e7\u00e3o<br \/>\nvis\u00edvel no olhar agitado.<\/p>\n<p>Os curiosos da rua tinham invadido o corredor e assistiam em p\u00e9, ao<br \/>\nredor da mesa, \u00e0quela cena banal de doze pessoas que comiam bolo \u00e0<br \/>\nguisa de pir\u00e3o de farinha; ao todo eram quatorze, mas o Loureiro e<br \/>\na L\u00eddia, por um escr\u00fapulo mal entendido, apenas provaram o delicioso<br \/>\nmanjar e cruzaram o talher.<\/p>\n<p>O Castrinho n\u00e3o se fez demorar muito. Quando menos se esperava, ei-lo<br \/>\nde p\u00e9, empunhando o c\u00e1lice.<\/p>\n<p>&#8211; Sil\u00eancio, sil\u00eancio! advertiu uma voz.<\/p>\n<p>O poeta das Flores Agrestes pigarreou solenemente abrangendo com um olhar<br \/>\nvitorioso toda a saleta, e enfiando a m\u00e3o direita no bolso da cal\u00e7a.<br \/>\ncom um grande ar de tribuno acostumado a falar \u00e0s massas, come\u00e7ou:<\/p>\n<p>&#8211; Meus senhores&#8230; e minha senhoras&#8230;.<\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio grave e recolhido, em que se destacava apenas, muito<br \/>\nde leve, o ru\u00eddo dos talheres que continuaram a funcionar ativamente.<\/p>\n<p>&#8211; Eu faltaria ao mais sagrado dos deveres&#8230;.<\/p>\n<p>Uma voz: &#8211; N\u00e3o apoiado.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; Si neste momento solene, em que toda a natureza veste-se de gaias para<br \/>\nreceber em seu vast\u00edssimo seio os noivos presentes&#8230; eu, o mais humilde<br \/>\namigo desta casa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o apoiado&#8230;<\/p>\n<p>-&#8230; n\u00e3o erguesse a minha fraca voz&#8230; para saudar&#8230; para saudar<br \/>\no himeneu destas duas criaturas (apontando para os noivos) nascidas \u201cno<br \/>\nmesmo galho, da mesma gota de orvalho\u201d&#8230; como diria o nosso Casimiro<br \/>\nde Abreu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! murmurou o mesmo apartista dos n\u00e3o apoiado numa voz cava,<br \/>\ncom a boca cheia.<\/p>\n<p>O orador, visivelmente inquieto, sem tirar a m\u00e3o de dentro do bolso,<br \/>\nendireitou a gravata com pancadinhas suaves, e, mergulhando o olhar na fruteira,<br \/>\ncontinuou:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, meus senhores&#8230; e minhas senhoras, o casamento \u00e9 a base de<br \/>\ntoda a sociedade civilizada; o casamento, como dizia certo escritor, cujo<br \/>\nnome n\u00e3o vem ao caso citar&#8230; o casamento \u00e9 a mais nobre de<br \/>\ntodas as institui\u00e7\u00f5es, e o homem que se casa d\u00e1 um passo<br \/>\npara o infinito, isto \u00e9 para Deus!&#8230;<\/p>\n<p>Uma salva de palmas cobriu as palavras do Castrinho, que agradeceu comovido.<br \/>\nNo peito de sua camisa, muito alva e lustrosa, reluzia uma pedra duvidosa.<\/p>\n<p>Crescia a anima\u00e7\u00e3o da festa. Os talheres batiam nos pratos<br \/>\ncom mais for\u00e7a e as palavras do liceista comunicavam ao audit\u00f3rio<br \/>\ncerto entusiasmo sereno que se traduzia em apetite voraz e insaci\u00e1vel<br \/>\nsecura nas gargantas. Ouviam-se trabalharem as mand\u00edbulas.<\/p>\n<p>Houve uma pausa depois da qual o Castrinho, tomando o c\u00e1lice cheio,<br \/>\nconcluiu com \u00eanfase:<\/p>\n<p>&#8211; Portanto, eu brindo ao ditoso par, desejando-lhe um futuro de rosas banhado<br \/>\npelos efl\u00favios do amor conjugal&#8230;<\/p>\n<p>E, escorropichando o c\u00e1lice:<\/p>\n<p>&#8211; Aos noivos!<\/p>\n<p>&#8211; Hip, hip, hurra!<\/p>\n<p>Todos se levantaram.<\/p>\n<p>&#8211; Loureiro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; D. L\u00eddia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sr. Castro n\u00e3o quer se servir de um pedacinho de bolo de mandioca?<br \/>\nofereceu a vi\u00fava por tr\u00e1s do poeta.<\/p>\n<p>&#8211; Agradecido, minha senhora, agradecido&#8230; Estou satisfeito.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, mais um copo de vinho&#8230;<\/p>\n<p>Aceitava, pois n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fa\u00e7am cerim\u00f4nia, minha gente, observou D. Amanda.<br \/>\nJ\u00e1 acabou, Sr. Jo\u00e3o da Mata? Um pinguinho de doce de caju, Sr.<br \/>\nAlferes&#8230; E voc\u00ea, menina, coma sem cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>Maria do Carmo n\u00e3o podia disfar\u00e7ar a tristeza, a ponta de inveja<br \/>\nconcentrada que lhe tomava de assalto a alma inteira. Sentara-se \u00e0<br \/>\nmesa por civilidade, para corresponder aos reclamos da vi\u00fava, mas o<br \/>\nseu \u00fanico desejo era ir-se embora para casa; a festa da amiga fazia-lhe<br \/>\nmal aos nervos, e, demais, o Zuza proibira-lhe de ir a qualquer parte onde<br \/>\nele n\u00e3o estivesse. Fora ao casamento da L\u00eddia, porque o padrinho<br \/>\na obrigara, n\u00e3o por sua espontaneidade. E agora ali estava casmurra,<br \/>\nsilenciosa, com um arzinho recolhido de filha de Maria, vendo sem ver, ouvindo<br \/>\nsem ouvir, as pessoas e os ru\u00eddos, numa abstra\u00e7\u00e3o infinita,<br \/>\nno meio de toda aquela gente que festejava o casamento da amiga. Agora, mais<br \/>\ndo que nunca, por um excesso de sensibilidade nervosa, do\u00eda-lhe no<br \/>\ncora\u00e7\u00e3o de pomba desolada n\u00e3o poder, como a L\u00eddia<br \/>\ne como outras tantas raparigas felizes, amar livremente, sem ter que obedecer<br \/>\naos caprichos de um padrinho atrabili\u00e1rio e desp\u00f3tico como Jo\u00e3o<br \/>\nda Mata. Enquanto os outros divertiam-se sorvendo c\u00e1lices de vinho,<br \/>\nsaudando aos noivos, ela, toda entregue a seus pensamentos, permanecia muda<br \/>\ne bisonha como quando pela primeira vez. apresentara-se \u00e0 sociedade,<br \/>\nlogo ao chegar de Campo Alegre, menina ainda, matutinha. Ah! naquele tempo<br \/>\nela tinha o seu papai e a sua mam\u00e3e perto de si, n\u00e3o era como<br \/>\nagora, anos depois, uma simples, uma pobre, uma desprezada \u00f3rf\u00e3,<br \/>\nassistindo com uma grande tristeza ego\u00edsta derramada nalma \u00e0<br \/>\nfelicidade alheia triunfante&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Aten\u00e7\u00e3o, meus senhores! Aten\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: justify;\">Desta vez ia falar o alferes<br \/>\nCoutinho, quartel mestre do batalh\u00e3o, um moreno, de costeletas, cabelo<br \/>\npenteado em pastinhas, certo ar arrogante de pelintra acostumado a todas as<br \/>\nfestas, desde os sambas do Outeiro aos bailes do Clube Iracema, magricela,<br \/>\nolhos cavados. Nas horas d\u2019\u00f3cio dava-se ao luxo de fabricar sonetos<br \/>\nno g\u00eanero piegas dos \u00faltimos trovadores de sal\u00e3o.<\/p>\n<p>Arrastava ao piano as valsas em moda e dizia-se ex\u00edmio tocador de<br \/>\nflauta.<\/p>\n<p>Convidado \u00e0 toda parte, n\u00e3o perdia ocasi\u00e3o de exibir-se<br \/>\nna poesia ou na m\u00fasica. Tinha fama de primeiro recitador do Cear\u00e1,<br \/>\nningu\u00e9m como ele sabia marcar um quadrilha, todo enfezado, sempre de<br \/>\nlen\u00e7o na m\u00e3o, metido invariavelmente na sua farda de alferes<br \/>\ncom colete branco.<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio profundo. Todas as vistas ca\u00edra, de chofre<br \/>\nsobre o militar como se de sua boca fossem sair preciosas revela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Era o alferes Coutinho? Oh? magn\u00edfico! Psiu! psiu!&#8230; Sil\u00eancio!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Meus senhores. Respeitabil\u00edssimas senhoras&#8230; N\u00e3o dispondo<br \/>\nde dotes orat\u00f3rios, t\u00e3o \u00fateis nas ocasi\u00f5es solenes<br \/>\ncomo esta, eu, que tenho a honra de pertencer \u00e0 falange dos disc\u00edpulos<br \/>\nde Castro Alves, Casimiro de Abreu, Varela e tantos outros astros de primeira<br \/>\ngrandeza, que brilham no firmamento da poesia brasileira, eu vou ler uns versos<br \/>\nde minha lavra, que tomei a liberdade de dedicar aos donos desta festa inolvid\u00e1vel&#8230;<\/p>\n<p>Nem um aparte. O mesmo sil\u00eancio cauteloso e recolhido. A noiva abaixou<br \/>\na cabe\u00e7a afetando mod\u00e9stia e Loureiro fixou o olhar atrevidamente<br \/>\nno orador. Mas o Coutinho, calmo e desembara\u00e7ado, sacou do bolso da<br \/>\nfarda um papel, e lendo:<\/p>\n<p>&#8211; Noite de N\u00fapcias \u00e9 o t\u00edtulo dos pobres versos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o apoiado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; que tenho a honra de oferecer a Excia. Sra. D. L\u00eddia, uma das<br \/>\nestrelas mais fulgurantes que ornam o c\u00e9u da sociedade cearense&#8230;<\/p>\n<p>L\u00eddia estremeceu com um belo sorriso de agradecimento,<\/p>\n<p>-&#8230; e ao Sr. Dias Loureiro, inteligente e zeloso guarda-livros da nossa<br \/>\npra\u00e7a, ambos, portanto, dignos um do outro e da nossa eterna amizade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Apoiad\u00edssimo, confirmou Carvalho &amp; Cia, palitando os dentes.<\/p>\n<p>Sem mais pre\u00e2mbulos, o alferes entrou a declamar com uma convic\u00e7\u00e3o<br \/>\nadmir\u00e1vel os tais versos de sua lavra, uma enfiada de palavr\u00f5es<br \/>\nantigos e bolorentos, que ele procurava animar com sua voz de trov\u00e3o,<br \/>\nseca e cavernosa, brandindo o papel com a m\u00e3o esquerda e a direita<br \/>\ngesticulando como se estivesse a marcar compasso de m\u00fasica.<\/p>\n<p>Ao terminar o \u00faltimo verso &#8211;<\/p>\n<p>\u201cChovam b\u00ean\u00e7\u00e3os de amor sobre os que casam!\u201d<\/p>\n<p>Uma salva de palmas forte e prolongada ecoou na pequenina sala.<\/p>\n<p>&#8211; Bravo! muito bem! muito bem!<\/p>\n<p>E o poeta sentou-se agradecendo com repetidos movimentos de cabe\u00e7a<br \/>\nas manifesta\u00e7\u00f5es de que era alvo. Diversas pessoas levantaram-se<br \/>\ne foram cumpriment\u00e1-lo de perto. Um velho calvo que se sentava a seu<br \/>\nlado, lembrou-se de perguntar-lhe ao ouvido \u201cSe o Sr. Alferes era cearense\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, respondeu o Coutinho, voltando-se gravemente, sou guasca,<br \/>\nnasci na cidade de Porto Alegre.<\/p>\n<p>E contou quando viera para o cear\u00e1, disse a sua grande simpatia por<br \/>\nessa prov\u00edncia e que pretendia casar com uma cearense.<\/p>\n<p>O \u201cbrinde de honra\u201d foi feito em duas palavras por Carvalho &amp;<br \/>\nCia \u00e0 D. Amanda, \u201cencarna\u00e7\u00e3o de todas as virtudes<br \/>\ndom\u00e9sticas, senhora de incompar\u00e1vel brandura e sisudez\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Hip! hip! hip! hurrah!<\/p>\n<p>Foi um del\u00edrio esse final de banquete nupcial, em que tomavam parte<br \/>\no ex\u00e9rcito representado pelo Alferes Coutinho, a poesia na pessoa do<br \/>\nautor de Flores Agrestes e o com\u00e9rcio em grosso simbolizado no ventre<br \/>\nobeso de Carvalho &amp; Cia. Esgotaram-se as botelhas de vinho do Porto e<br \/>\nde cerveja com um a\u00e7oitamento de quem n\u00e3o bebia \u00e1gua<br \/>\nh\u00e1 tr\u00eas dias e depara uma piscina abundante do precioso l\u00edquido.<br \/>\nE, ao levantarem-se da mesa, os convidados olhavam com soberano desd\u00e9m<br \/>\na toalha manchada de n\u00f3doas de vinho sobre a qual havia um confus\u00e3o<br \/>\ngrotesca de copos e pratos em desordem, abandonados ali como restos de um<br \/>\nfestim sardanapalesco. Uma coisa tinha sido respeitada e conservava-se no<br \/>\nmesmo lugar em que fora colocada pela m\u00e3o zelosa de D. Amanda, era<br \/>\no paliteiro de prata representando um alcaide com chap\u00e9u de tr\u00eas<br \/>\nbicos e aspecto napole\u00f4nico, de bra\u00e7os cruzados , numa imobilidade<br \/>\nde objeto de luxo que se receia tocar por escr\u00fapulo.<\/p>\n<p>Os espectadores intrusos evacuaram o corredor com a mesma facilidade de ligeireza<br \/>\ncom que se tinham introduzido e depressa a sala de jantar ficou entregue \u00e0<br \/>\nvi\u00fava e ao criado. que se ocuparam de cobrir os restos dos bolos, recolhendo-os<br \/>\nao guarda-comidas. O tro\u00e7o dos comensais, homens e senhoras, enchiam<br \/>\na sala de visitas, cujas cadeiras estavam todas ocupadas, e palrava agora<br \/>\ndesembara\u00e7adamente numa atmosfera pesada de fuma\u00e7a e heliotr\u00f3pico,<br \/>\n&#8211; umas abanando-se com os grandes leques de cetim, outros com os len\u00e7os<br \/>\n, porque o calor crescia. Transpirava-se por todos os poros, o que fazia o<br \/>\nalferes Coutinho trazer constantemente o len\u00e7o no pesco\u00e7o, resguardando<br \/>\no colarinho, onde j\u00e1 havia sinal de suor. A janela estava tomada por<br \/>\nalgumas pessoas que formavam roda ao redor do Loureiro, em p\u00e9. Senhoras<br \/>\nentravam e sa\u00edam da alcova com ar desconfiado, compondo discretamente<br \/>\nos vestidos.<\/p>\n<p>Deram dez horas no rel\u00f3gio da S\u00e9, cujas badaladas faziam-se<br \/>\nouvir, graves e sonolentas, em todo o \u00e2mbito da cidade.<\/p>\n<p>Dez horas! Carvalho &amp; Cia. consultou o rel\u00f3gio. Havia uma pequena<br \/>\ndiferen\u00e7a de dez minutos. Safa! o tempo voava!.<\/p>\n<p>E, alto, levantando-se:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, Quininha?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 muito cedo, acudiu a L\u00eddia, que conversava com Maria do<br \/>\nCarmo no sof\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, minha gente, saltou D. Terezinha, saindo da alcova. Os<br \/>\nnoivos precisam descansar. Dez horas!<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1vamos t\u00e3o distra\u00eddos! disse o alferes Coutinho<br \/>\npuxando os punhos.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, vamos, repetiram muitas vozes.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 cedo, minha gente! implorava a L\u00eddia muito am\u00e1vel,<br \/>\ncom um sorriso de irresist\u00edvel faceirice.<\/p>\n<p>Imediatamente todos se levantaram impulsionados pela mesma id\u00e9ia,<br \/>\n\u00e0 procura dos chap\u00e9us, num reboli\u00e7o crescente, aos encontr\u00f5es,<br \/>\nenfiando pela alcova e pelo corredor.<\/p>\n<p>Estrondou um bocejo senil e demorado, que se propagou por ali a fora &#8211; era<br \/>\no velho calvo, de \u00f3culos, que se tinha encafuado a um canto da sala<br \/>\ncochilando, e que despertara agora num espregui\u00e7amento como se estivesse<br \/>\nem sua pr\u00f3pria casa.<\/p>\n<p>As senhoras agasalhavam-se nos fichus, defronte do espelho.<\/p>\n<p>D. Amanda, de um lado para outro, de dentro para fora da alcova, n\u00e3o<br \/>\ndescansava as pernas.<\/p>\n<p>Come\u00e7aram as despedidas.<\/p>\n<p>Que de beijos estalados \u00e0 queima roupa! Em p\u00e9 no meio da sala,<br \/>\nos noivos, competentemente formalizados, agradeciam reconhecidos a chuva de<br \/>\nfelicita\u00e7\u00f5es que caiam sobre eles \u00e0 guisa de flores desfolhadas<br \/>\nsobre suas cabe\u00e7as, ao mesmo tempo que L\u00eddia ia distribuindo<br \/>\na uns e outros bot\u00f5es de laranjeiras.<\/p>\n<p>Que fossem muito felizes; que tivessem uma eterna lua-de-mel; que fossem<br \/>\nmuito unidos sempre como dois irm\u00e3os; que n\u00e3o esquecessem as<br \/>\nvelhas amizades&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, minha filha, aconselhou D. Terezinha com a m\u00e3o no ombro da<br \/>\nL\u00eddia, depois de a ter beijado. Olhe, seja sempre boa para seu maridinho,<br \/>\nfa\u00e7a o que ele quiser, o que ele mandar. O homem \u00e9 que faz a<br \/>\nmulher e a mulher \u00e9 que faz o homem. Adeus, ouviu?<\/p>\n<p>Todos tiveram mais ou menos o que dizer aos noivos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o esque\u00e7a o que lhe pedi, ouviu L\u00eddia? recomendou<br \/>\nde fora uma voz de mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite!<\/p>\n<p>&#8211; Sejam felizes!<\/p>\n<p>&#8211; Durmam bem!&#8230;<\/p>\n<p>Em pouco todos tinham se retirado. Havia ainda alguns curiosos fora, na cal\u00e7ada.<br \/>\nLoureiro mandou aproximar o carro que o esperava. A rua estava silenciosa<br \/>\ne escura como se fosse alta noite. Defronte, em casa de Jo\u00e3o da Mata,<br \/>\nfecharam-se as portas apagando-se completamente a \u00faltima luz que clareava<br \/>\naquele trecho da rua do Trilho.<\/p>\n<p>D. Amanda chamou a filha \u00e0 alcova onde estiveram conversando alguns<br \/>\nminutos, e depois, abra\u00e7ando-a ternamente com os olhos \u00famidos:<\/p>\n<p>&#8211; Deus os conduza em paz&#8230;<\/p>\n<p>L\u00eddia beijou comovida a m\u00e3o da vi\u00fava e, dando o bra\u00e7o<br \/>\nao Loureiro, entrou no carro que rodou em dire\u00e7\u00e3o de Benfica,<br \/>\ncom a sua luzinha amarela tremeluzindo no escuro.<\/p>\n<p>Minutos depois D. Amanda recebia, como de costume, o Batista da Feira Nova&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"10\"><\/a>X<\/h4>\n<p>Quando chegaria sua vez? pensava Maria do Carmo nessa noite, sem poder conciliar<br \/>\no sono, com um desalento profundo no cora\u00e7\u00e3o apreensivo. Que<br \/>\ntal , hein? O Sr. Zuza n\u00e3o se resolvia a pedi-la em casamento, sempre<br \/>\ncom evasivas, pretextando tolices, como se estivesse tratando com uma biraia<br \/>\nqualquer! Porque isso? porque n\u00e3o se decidia logo a dizer a verdade<br \/>\nfosse ela qual fosse?<\/p>\n<p>Era sempre melhor do que estar perdendo tempo sem tomar uma resolu\u00e7\u00e3o<br \/>\nfranca e definitiva. Quem sabe? talvez o padrinho n\u00e3o fizesse quest\u00e3o<br \/>\nagora que a tratava t\u00e3o bem, que lhe fazia todas as vontades&#8230; Uma<br \/>\nfelizarda a L\u00eddia!&#8230; Casara com um guarda-livros, mas embora, casara&#8230;<\/p>\n<p>E imediatamente vinha-lhe uma confian\u00e7a ilimitada no estudante. J\u00e1<br \/>\nestava t\u00e3o acostumada com ele que nem era bom pensar em uma deslealdade.<br \/>\nPaci\u00eancia, paci\u00eancia &#8211; Roma n\u00e3o se fez em um dia&#8230; Consolava-se<br \/>\nao penar nas confid\u00eancias \u00edntimas do futuro bacharel, embebidas<br \/>\nde ing\u00eanua e tocante sinceridade, na franqueza ativa com que ele dizia<br \/>\ntodas as suas id\u00e9ias e todas as suas a\u00e7\u00f5es, como se j\u00e1<br \/>\nfossem noivos. Zuza contava-lhe tudo com a maior simplicidade, dava-lhe conta<br \/>\nde seus passeios, de seus planos, de suas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pode-se mesmo dizer que n\u00e3o havia segredo entre os dois. Era l\u00e1<br \/>\nposs\u00edvel que o Zuza, aquele Zuza t\u00e3o am\u00e1vel, t\u00e3o<br \/>\nsincero, t\u00e3o bom a esquecesse, ele que reprovava com frases repassadas<br \/>\nde indigna\u00e7\u00e3o o procedimento de certos indiv\u00edduos para<br \/>\nquem a mulher outra coisa n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma esp\u00e9cie<br \/>\nde fruto amargo que a gente prova e deita fora? Qual! O Zuza era incapaz de<br \/>\ndescer at\u00e9 onde come\u00e7ava o rebaixamento do car\u00e1ter de<br \/>\num homem&#8230;<\/p>\n<p>Animava-se ao fazer estas considera\u00e7\u00f5es t\u00e3o simples,<br \/>\nt\u00e3o espont\u00e2neas, sa\u00eddas do mais \u00edntimo de sua alma<br \/>\nenamorada. Tinha momentos em que tudo afigurava-se-lhe uma com\u00e9dia,<br \/>\ncujo protagonistas &#8211; o estudante &#8211; aprazia-se em v\u00ea-la rendida a seus<br \/>\np\u00e9s por um simples capricho de rapaz do mundo que se diverte \u00e0<br \/>\ncusta de muitas raparigas como ela, ainda n\u00e3o corrompidas pelos costumes<br \/>\nmodernos. Nascida no interior de uma prov\u00edncia essencialmente cat\u00f3lica,<br \/>\neducada em um col\u00e9gio religioso, o conv\u00edvio com as suas colegas<br \/>\nda Escola Normal n\u00e3o lhe apagara de todo essa bondade caracter\u00edstica<br \/>\ndos filhos do sert\u00e3o, que se revela em uma confian\u00e7a ing\u00eanua<br \/>\nnos outros. Por isso \u00e9 que ao mesmo tempo Maria n\u00e3o podia acreditar<br \/>\nque o Zuza faltasse \u00e0 sua palavra para com ela. Duvidava \u00e0s<br \/>\nvezes, mas n\u00e3o perdia de todo a confian\u00e7a, porque amava deveras,<br \/>\ne o amor transforma a pessoas ou objeto querido numa esp\u00e9cie de \u00eddolo,<br \/>\nque a gente adora como a um modelo de virtudes incompar\u00e1veis.<\/p>\n<p>Quando chegaria sua vez? E a figura de Jo\u00e3o da Mata surgia-lhe aos<br \/>\nolhos como uma vis\u00e3o pavorosa, que a fazia estremecer da cabe\u00e7a<br \/>\naos p\u00e9s. Sim, o padrinho n\u00e3o gostava que se falasse no Zuza,<br \/>\nimplicava com ele, odiava-o gratuitamente, sim, gratuitamente, porque o rapaz<br \/>\nnunca lhe fizera o menor mal, at\u00e9 pelo contr\u00e1rio, uma vez lhe<br \/>\nemprestara cinq\u00fcenta mil r\u00e9is, e ela o sabia pela boca de D. Terezinha.<br \/>\nQue infelicidade, a sua, que caiporismo! al\u00e9m do padrinho n\u00e3o<br \/>\ngostar do Zuza, aquela casa parecia agora um verdadeiro inferno: era o padrinho<br \/>\npara um lado e a madrinha para o outro, ambos de cara fechada, sem se trocarem<br \/>\npalavras, e ela, Maria, para um canto, coitada, sem amigas, sem parentes,<br \/>\nvivendo uma vida de criminosa&#8230;<\/p>\n<p>Que maldito inferno!&#8230; Antes nunca tivesse nascido.<\/p>\n<p>Onze horas&#8230; meia noite! e ela ainda velava, sem um bocadinho de sono, a<br \/>\nmatutar na vida, a pensar em frioleiras.<\/p>\n<p>Entrou a parafusar no casamento da L\u00eddia, rememorando toda a festa,<br \/>\ntintim por tintim, com a pachorra de quem procura armar um castelo de cartas.<br \/>\n&#8211; Assim mesmo tinha ido muita gente, sim senhora, parecia at\u00e9 uma festa<br \/>\nde gente rica. Inegavelmente a L\u00eddia estava encantadora debaixo do<br \/>\nv\u00e9u de noiva. Nunca vira a igreja de N.S. do Patroc\u00ednio t\u00e3o<br \/>\ncheia de povo! Ah! mas fora uma coisa horrorosa o esc\u00e2ndalo provocado<br \/>\npelo Guedes. Que horror! Se fosse ela, Maria do Carmo, teria ca\u00eddo<br \/>\nno meio da rua com um ataque&#8230;<\/p>\n<p>Palpitavam-lhe a imagina\u00e7\u00e3o, como num sonho, os menores acidentes<br \/>\ndaquela noite, em que todos tomaram o seu c\u00e1lice de vinho e s\u00f3<br \/>\nela, irressistivelmente mordida de inveja por ver a sua maior amiga num torno<br \/>\nde felicidade, ela somente se deixara ficar esquecida como qualquer lagalh\u00e9,<br \/>\nna impot\u00eancia da sua tristeza. Entretanto, se n\u00e3o fora o padrinho,<br \/>\nela tamb\u00e9m podia breve estar de caminho para a igreja, ao lado de seu<br \/>\nnoivo, metendo inveja \u00e0s outras. Ent\u00e3o \u00e9 que a festa<br \/>\nseria d\u2019estrondo! O coronel Souza Nunes abriria o seu sal\u00e3o iluminado<br \/>\ncomo um pal\u00e1cio real, e haveria dan\u00e7a e m\u00fasica e um banquete<br \/>\nlauto. E iria o presidente da prov\u00edncia e toda a gente grande do Cear\u00e1.<br \/>\nQue bom que seria!&#8230;<\/p>\n<p>Nisto adormeceu e logo tornou-lhe a aparecer em sonho o negro Rom\u00e3o<br \/>\ncom as cal\u00e7as arrega\u00e7adas e um barril na cabe\u00e7a a gritar<br \/>\n-Arre corno! cercado de garotos que lhe atiravam pedras e sacudiam-lhe punhados<br \/>\nde farinha-do-reino na carapinha, por detr\u00e1s no meio de gritos e assobios.<\/p>\n<p>Depois o preto deixou cair o barril, que se derramou, inundando a cal\u00e7ada<br \/>\nde imund\u00edcias, e ei-lo montado num cavalo magro, a fazer de palha\u00e7o<br \/>\nde Circo, uivando uma por\u00e7\u00e3o de asneiras, que a molecagem replicava<br \/>\nsempre com o mesmo estribilho, a uma voz: &#8211; \u00c9 sim, sinh\u00f4!<\/p>\n<p>Depois&#8230;. (n\u00e3o se lembrava o resto)<\/p>\n<p>Davam duas horas no rel\u00f3gio do vizinho, quando acordou muito assustada<br \/>\ne nervosa, a olhar para todos os lados, sem consci\u00eancia exata do ambiente<br \/>\nque a cercava. Teve um sobressalto ao ver sobre uma cadeira, perto da rede,<br \/>\no vestido com que fora ao casamento. &#8211; Credo, que susto!<\/p>\n<p>A luzinha da vela de carna\u00faba agonizava numa po\u00e7a de cera derretida.<\/p>\n<p>E essa! Era a segunda vez que sonhava com o Rom\u00e3o, sem qu\u00ea nem<br \/>\np\u2019ra qu\u00ea&#8230; Com certeza estava para lhe suceder alguma desgra\u00e7a.<br \/>\nQue esquisitice! hum, hum,&#8230;<\/p>\n<p>A porta do quarto, que se conservava entreaberta, rangeu nas dobradi\u00e7as,<br \/>\ncomo se algu\u00e9m a empurrasse de manso. Apoderou-se de Maria um pavor<br \/>\nterr\u00edvel; arrepiaram-se-lhe os cabelos, e uma extraordin\u00e1ria<br \/>\nsensa\u00e7\u00e3o de frio percorreu-lhe o sangue. Ficou assombrada, sem<br \/>\nse mexer, com o ouvido alerta e os olhos fechados, numa prostra\u00e7\u00e3o<br \/>\nde quem est\u00e1 sem sentido. Pareceu-lhe ouvir chamar pelo seu nome e<br \/>\nent\u00e3o subiu um ponto o terror que lhe tapava a boca como uma morda\u00e7a<br \/>\nde ferro. Abriu os olhos para verificar se com efeito estava acordada e tornou<br \/>\na fech\u00e1-los mais que depressa. Instintivamente fez um esfor\u00e7o<br \/>\nsupremo para gritar, para chamar algu\u00e9m, mas n\u00e3o podia abrir<br \/>\na boca, estarrecida.<\/p>\n<p>Maria? repetiu a mesma voz, que ela julgava ouvir, uma voz fina, mas abafada,<br \/>\ncomo se sa\u00edsse das entranhas da terra.<\/p>\n<p>E logo:<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu, Maria. \u00c9 o padrinho&#8230;<\/p>\n<p>De feito, Jo\u00e3o da Mata vinha-se chegando, p\u00e9 ante p\u00e9,<br \/>\nsubtilmente, segurando-se \u00e0 parede, equilibrando-se na ponta dos p\u00e9s,<br \/>\ncomo um ladr\u00e3o, sem o menor ru\u00eddo, com estalinhos de juntas.<\/p>\n<p>Maria encolheu-se toda debaixo do len\u00e7ol duvidando. Tremia como um<br \/>\ndoente de sez\u00f5es, embiocada que nem caracol.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o grites, Maria, olha sou eu, teu padrinho, tornou Jo\u00e3o<br \/>\nda Mata, agora quase ao ouvido da afilhada, agarrando-se ao punho da rede.<\/p>\n<p>A rapariga respirou forte, como se sa\u00edsse de dentro de um buraco,<br \/>\ne p\u00f4de abrir os olhos, meio aliviada, presa ainda de uma grande como\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAo medo sucedera-lhe uma apreens\u00e3o dolorosa, que o seu esp\u00edrito<br \/>\nrepelia como imposs\u00edvel. N\u00e3o teve tempo de associar id\u00e9ias,<br \/>\nporque o amanuense foi se sentando na rede, a seu lado. &#8211; O padrinho por ali,<br \/>\nno quarto d\u2019ela, \u00e0quelas horas?&#8230; Estaria sonhando?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Padrinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu mesmo, minha flor&#8230; Olha, queres saber uma coisa?&#8230; Deixe-me descansar<br \/>\num bocadinho e eu te direi, ouviste?&#8230; Espera&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, padrinho!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olha, n\u00e3o fales alto&#8230; Sou eu, est\u00e1s ouvindo? eu, teu padrinho<br \/>\nmesmo&#8230; Bico&#8230;<\/p>\n<p>Maria do Carmo n\u00e3o compreendeu logo a presen\u00e7a de Jo\u00e3o<br \/>\nda Mata ali<\/p>\n<p>no seu quarto, \u00e0quela hora.<\/p>\n<p>Fez-se uma confus\u00e3o inextric\u00e1vel, ca\u00f3tica, no seu esp\u00edrito<br \/>\nsubitamente assaltado por um turbilh\u00e3o de id\u00e9ias sem nexo, disparatadas;<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o pulsava-lhe forte, como se tivesse acabado de fazer<br \/>\num grande esfor\u00e7o; operava-se em seu duplo ser moral e f\u00edsico<br \/>\num desses abalos extraordin\u00e1rios, que deixam a gente numa prostra\u00e7\u00e3o<br \/>\ninvenc\u00edvel. Pela primeira vez na sua vida achava-se frente a frente<br \/>\ncom um homem, alta noite, no sil\u00eancio de um quarto escuro. Mal acordada<br \/>\ndo terr\u00edvel pesadelo que acabava de ter, vendo ainda, esbo\u00e7ada<br \/>\nna sua imagina\u00e7\u00e3o, a figura hedionda do negro com os bugalhos<br \/>\ninjetados, a boca abrindo-se num riso nervoso e alvar, o peito \u00e0 mostra,<br \/>\na venta chata, ela permanecia im\u00f3vel, olhando para o escuro como uma<br \/>\nidiota.<\/p>\n<p>A luz tinha se apagado completamente. Ouvia-se a respira\u00e7\u00e3o<br \/>\nasm\u00e1tica da criada no quarto pegado \u00e0 sala de jantar. Longe,<br \/>\nnalgum quintal, ladrava um c\u00e3o. Ao calor insuport\u00e1vel sucedia<br \/>\no friozinho bom da madrugada.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o estava em ceroula, nu da cintura para cima. Desde que chegara<br \/>\nda festa do Loureiro n\u00e3o fechara os olhos, a fumar no seu cachimbo<br \/>\ncurto, que preferia \u00e0s vezes aos cigarros, andava-lhe na cabe\u00e7a<br \/>\no plano h\u00e1 muito formado, de ir ao quarto da afilhada uma noite. Nada<br \/>\nmais f\u00e1cil: da sala de jantar, onde dormia agora, ao quarto eram dois<br \/>\npassos; o diabo era se a menina abrisse a goela a chamar por gente, isto \u00e9<br \/>\nque era o diabo!&#8230; Qual! ela n\u00e3o tinha coragem para tanto, mormente<br \/>\nsabendo logo que era ele, o padrinho. &#8211; M\u00e3os \u00e0 obra, Jo\u00e3o;<br \/>\nnada de pensar em asneiras. Isso a gente inventa uma hist\u00f3ria de embalar<br \/>\ncrian\u00e7as, diz que a vida \u00e9 esta, e &#8230; foi um dia uma donzela.<br \/>\nOh! pois ela n\u00e3o \u00e9 tua afilhada! demais, meu besta, j\u00e1<br \/>\nlhe pegaste umas tantas vezes no bico dos seios, sem que ela reagisse, a Maria,<br \/>\nnaturalmente porque sabes encampar a tua autoridade de padrinho. E depois,<br \/>\nque diabo! Quem arrisca&#8230; Um, dois&#8230;<\/p>\n<p>E, com um salto, o amanuense levantou-se, dirigindo-se ao quarto da rapariga,<br \/>\ncosendo-se \u00e0s paredes, macio, cauteloso, todo agachado, pisando devagar,<br \/>\nno bico dos p\u00e9s descal\u00e7os.<\/p>\n<p>A fresca da madrugada arrepiava-lhe o tronco magro e cabeludo.<\/p>\n<p>Ah! como se sentia bem agora, sentado na mesma rede em que ela dormia, sozinho<br \/>\ncom ela, adivinhando, no escuro, toda a incompar\u00e1vel perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nde suas formas rechonchudinhas de rapariga nova! O calor brando do corpo dela<br \/>\ncomunicava-se agora a seu corpo, infiltrando-lhe no sangue um flu\u00eddo<br \/>\nbom e vigoroso.<\/p>\n<p>Sentia-se forte como um touro, ali assim a seu lado, ele, um pobre homem<br \/>\nsem for\u00e7a, um magricela sem carnes.<\/p>\n<p>E Maria esperava, numa afli\u00e7\u00e3o, o desenlace daquela trapalhada<br \/>\nque ela n\u00e3o compreendia bem.<\/p>\n<p>Estiveram ambos calados alguns minutos at\u00e9 que o amanuense, escorregando<br \/>\npara o fundo da rede, pousou a m\u00e3o sobre o ombro da afilhada, segredando-lhe<br \/>\n&#8211; se ela estava com frio?<\/p>\n<p>&#8211; Frio? &#8230; n\u00e3o &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois olha, na sala de jantar, faz um frio dos dem\u00f4nios. Por isso<br \/>\neu vem para junto de ti&#8230;<\/p>\n<p>Maria n\u00e3o disse nada.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o amanuense come\u00e7ou com uma lengalenga, um desprop\u00f3sito<br \/>\nde palavras murmuradas como uma ora\u00e7\u00e3o, numa voz que mal se<br \/>\nouvia, inclinado sobre a afilhada, sufocando-a com seu h\u00e1lito nauseabundo,<br \/>\nro\u00e7ando-lhe no rosto a ponta da barba.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, Maria, dizia-lhe, tu n\u00e3o sabes quanto eu abomino o Zuza&#8230;<br \/>\nH\u00e1 muito tempo que estava para te dizer umas certas coisas, mas era<br \/>\npreciso segredo, muito segredo&#8230; Agora, que estamos s\u00f3s, deixe que<br \/>\nte fale com franqueza&#8230; Tu amas o rapaz, n\u00e3o \u00e9 assim? N\u00e3o<br \/>\nmintas&#8230; sei que gostas muito dele, e at\u00e9 j\u00e1 se fala, na rua,<br \/>\nem casamento. Ainda hoje algu\u00e9m afirmou-me que voc\u00eas se beijam<br \/>\nna Escola Normal. Eu sei de tudo, minha afilhada, eu sei de tudo. Mas, olha<br \/>\nbem o que te digo, tudo depende de ti, s\u00f3 de ti&#8230;<\/p>\n<p>Maria estremeceu no fundo da rede, debaixo do len\u00e7ol, e sentiu-se<br \/>\nirressistivelmente presa \u00e0s palavras de Jo\u00e3o da Mata. Se ele<br \/>\na quisesse deixar, nesse momento, ela n\u00e3o consentiria, t\u00e3o viva<br \/>\nera a sua curiosidade, agora que o padrinho lhe falara do Zuza; e o movimento<br \/>\nquase impercept\u00edvel da rapariga n\u00e3o passou despercebido a Jo\u00e3o<br \/>\nda Mata.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, minha cabocla, tudo depende de ti, porque eu tamb\u00e9m te quero<br \/>\nmuito bem e n\u00e3o consentiria nunca nesse casamento, se&#8230; Olha, deixa<br \/>\ndizer-te ao ouvido&#8230;<\/p>\n<p>E, colando a boca ao ouvido de Maria:<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; se n\u00e3o fosses boa para teu padrinho.<\/p>\n<p>Pouco a pouco o amanuense ia deitando ao lado da rapariga, acotovelando-a,<br \/>\nmachucando-a com o seu corpo ossudo, devagar, cautelosamente.<\/p>\n<p>\u201c-Estava bem armada a rede? Era preciso comprar outra mais larga, mais<br \/>\nrica&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Um grilo entrou a cantar monotonamente num canto do quarto &#8211; testemunha oculta<br \/>\ndaquela cena inacredit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Entretanto Maria n\u00e3o dava palavra, com as p\u00e1lpebras pesadas<br \/>\nde sono, respirando a custo, numa esp\u00e9cie de inconsci\u00eancia muda,<br \/>\ncomo hipnotizada. Este estado por\u00e9m durou pouco; espregui\u00e7ou-se,<br \/>\npuxando o len\u00e7ol para se cobrir melhor e come\u00e7ou a achar certo<br \/>\nencanto naquela intimidade secreta, ombro a ombro com o padrinho. Seu instinto<br \/>\nde mulher nova acordara agora obscurecendo-lhe todas as outras faculdades,<br \/>\nao cheiro almiscarado que transudava dos sovacos de Jo\u00e3o da Mata. Coisa<br \/>\nextraordin\u00e1ria! aquele fartum de suor e sarro de cachimbo produzia-lhe<br \/>\num efeito singular nos sentidos, como uma mistura de ess\u00eancias sutis<br \/>\ne deliciosas, desconcertando-lhe as id\u00e9ias. Uma coisa impelia-o para<br \/>\no padrinho, sem que ela compreendesse exatamente essa for\u00e7a oculta<br \/>\ne misteriosa.<\/p>\n<p>E quando ele, num tom paternal e amoroso, lhe falou no Zuza, Maria teve um<br \/>\nfr\u00eamito bom, como se tivesse ca\u00eddo por terra o paredeiro que<br \/>\nmediava entre ela e o estudante. Tudo dependia dela, somente dela&#8230; Ficou<br \/>\na pensar nestas palavras, sem atinar com o seu verdadeiro sentido, alheada,<br \/>\nos olhos fitos, quase sem pestanejar, na telha de vidro, por onde escoava<br \/>\nagora uma claridade t\u00eanue de alvorada;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o respirou, e, passando-lhe o bra\u00e7o por tr\u00e1s do pesco\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 quase dia, padrinho, podem nos ver assim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E que tem? j\u00e1 nos t\u00eam visto tantas vezes? Agora espera, s\u00f3<br \/>\nme vou se me deres uma boquinha&#8230;<\/p>\n<p>E, sem esperar resposta, o amanuense beijou-a na face, apertando-a contra<br \/>\nsi, numa impaci\u00eancia de quem n\u00e3o tempo a perder.<\/p>\n<p>Maria repeliu-o brandamente.<\/p>\n<p>&#8211; Juro-te, continuou ele, juro-te que casar\u00e1s com o Zuza, mas por<br \/>\namor de Deus, deixa&#8230; ou n\u00e3o contes comigo para cois\u00edssima<br \/>\nalguma. Por alma de tua m\u00e3e que est\u00e1 no c\u00e9u. Olha, sou<br \/>\neu quem te pede&#8230; Ningu\u00e9m saber\u00e1, o pr\u00f3prio Zuza n\u00e3o<br \/>\npoder\u00e1 saber nunca&#8230; \u00c9 como se n\u00e3o tivesse havido nada,<br \/>\ns\u00e3o segredos que n\u00e3o aparecem, sabes? Eu te pe\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Tinha-se feito a verdade aos olhos da normalista, como um clar\u00e3o que<br \/>\nde repente iluminasse todo o quarto. ao mesmo tempo que uma luta medonha travava-se<br \/>\ndentro de si, sem lhe dar tempo a pensar. Estava justamente em v\u00e9speras<br \/>\nde ter o incomodo. Toda ela vibrava como uma l\u00e2mina de a\u00e7o ao<br \/>\ncontato daquele homem que comunicava-lhe ao corpo um fluido misterioso, transformando-a<br \/>\nnuma criatura inconsciente atra\u00edda por um poder extraordin\u00e1rio<br \/>\ncomo o de uma cobra sobre um rato.<\/p>\n<p>As palavras do padrinho, embebidas de voluptuosidade e o nome do Zuza pronunciado<br \/>\nnaquele instante e, mais que tudo isso, a invoca\u00e7\u00e3o feita \u00e0<br \/>\nalma de sua m\u00e3e, confundiam-lhe os sentidos, acordando no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde donzela o que tinha de mais delicado. teve piedade de Jo\u00e3o, como<br \/>\nse ele fosse na verdade o mais desgra\u00e7ado dos homens. Sentiu-o a seu<br \/>\nlado, humilde como um ser desprez\u00edvel que reconhece a sua baixeza,<br \/>\ncom uma tremura na voz, rendido, suplicante, e n\u00e3o teve coragem de<br \/>\no enxotar, de dar-lhe com a m\u00e3o na cara e de desaparecer para sempre<br \/>\nd\u2019aquela casa imoral, onde ela vivia tristemente com as doces recorda\u00e7\u00f5es<br \/>\nde seu passado, como uma flor que vegeta num mont\u00e3o de ru\u00ednas.<br \/>\nAo contr\u00e1rio d\u2019isto, a vis\u00edvel submiss\u00e3o do padrinho,<br \/>\ndoera-lhe nalma como a ponta d\u2019uma lanceta. Sem o saber, Jo\u00e3o<br \/>\nda Mata encontrou a afilhada numa dessas extraordin\u00e1rias predisposi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde corpo e alma. em que, por mais forte que seja, a mulher n\u00e3o tem<br \/>\nfor\u00e7as para resistir \u00e0s sedu\u00e7\u00f5es de um homem astuto<br \/>\ne audacioso. Conhecia suficientemente o g\u00eanio de Maria &#8211; nada mais,<br \/>\ne isto lhe bastava para que a vit\u00f3ria fosse certa, infal\u00edvel.<\/p>\n<p>De resto, algumas palavras atoa murmuradas \u00e0 surdina, o contato morno<br \/>\nde um corpo viril&#8230; e Maria do Carmo aumentava o n\u00famero de suas dores.<\/p>\n<p>A madrugada veio encontr\u00e1-la de joelhos, m\u00e3os juntas, duas<br \/>\ngrandes l\u00e1grimas no olhar, como um anjo de sepultura, defronte da oleografia<br \/>\nde Cristo abrindo o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 humanidade. Nunca o doce<br \/>\ne meigo olhar de Jesus pareceu-lhe t\u00e3o meigo.<\/p>\n<p>Era domingo. Cantavam galos de campina nas ateiras do quintal. E enquanto,<br \/>\nl\u00e1 fora, a cidade acordava e a vida recome\u00e7ava seu eterno poema<br \/>\nde alegrias e dores, Maria procurava no cora\u00e7\u00e3o de Jesus um<br \/>\nconforto para seu doloroso arrependimento.<\/p>\n<h4><a name=\"11\"><\/a>Cap\u00edtulo XI<\/h4>\n<p>Maria do Carmo passou uma semana inteira, oito dias consecutivos, sem ir<br \/>\n\u00e0 Escola Normal, sem p\u00f4r os p\u00e9s na rua, sucumbida , mortificada,<br \/>\ncom receios de encarar os conhecidos, sem \u00e2nimo para se apresentar em<br \/>\np\u00fablico.<\/p>\n<p>Se at\u00e9 ent\u00e3o a vida fora-lhe um nunca acabar de desgostos e<br \/>\ncontrariedades, o que seria agora, depois de se ter comprometido levianamente<br \/>\npara todo o resto da sua exist\u00eancia, entregando-se, num momento de desvario<br \/>\ndos sentidos, aos desejos concupiscentes do padrinho?<\/p>\n<p>Estava doida, n\u00e3o havia que ver, estava doida naquele momento, n\u00e3o<br \/>\ntinha um bocadinho de ju\u00edzo! Devia ter visto logo que uma mulher de<br \/>\ncerta ordem n\u00e3o se entrega por for\u00e7a alguma d\u2019este mundo<br \/>\na outro homem, que n\u00e3o seja o seu marido, o dono de seu cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\no leg\u00edtimo esposo de seu corpo e de sua alma. Que desgra\u00e7ada<br \/>\nimprud\u00eancia a sua! Que vergonha, santo Deus, que vergonha! Era para<br \/>\nisso que se tinha cora\u00e7\u00e3o, para se deixar cair numa armadilha<br \/>\ndaquela&#8230; Se fosse uma mulher forte e resoluta, capaz de todos os esc\u00e2ndalos,<br \/>\ncontanto que soubesse guardar a sua honra&#8230; bem, n\u00e3o teria sucedido<br \/>\nnada. Mas, n\u00e3o : fora uma grand\u00edssima tola, uma menina d\u2019escola,<br \/>\ndeixando-se levar pelo cora\u00e7\u00e3o at\u00e9 o ponto de compadecer-se<br \/>\ndo padrinho! Que infelicidade!&#8230;<\/p>\n<p>E chorava que nem uma crian\u00e7a, com a cabe\u00e7a no travesseiro,<br \/>\nmetida no seu quarto, dizendo-se a mais infeliz de todas as mulheres, supersticiosa<br \/>\nao peso de sua culpa irremedi\u00e1vel, com grandes manchas l\u00edvidas<br \/>\nao redor dos olhos, inconsol\u00e1vel na sua dor..<\/p>\n<p>\u00c0s vezes supunha estar sonhando, como que procurava iludir-se a si<br \/>\npr\u00f3pria, enxugava os olhos na ponta do len\u00e7ol, via-se ao espelho<br \/>\ne experimentava um bem-estar passageiro, um conforto muito \u00edntimo;<br \/>\nmas punha-se logo a pensar, a fazer consigo mesma mil conjecturas, e desandava<br \/>\noutra vez num choro silencioso, que lhe sacudia o corpo todo em estremecimentos<br \/>\nnervosos. N\u00e3o sabia bem porque chorava; uma coisa, por\u00e9m, dizia-lhe<br \/>\nque nunca mais seria feliz em sua vida, desde o momento que, por sua condescend\u00eancia<br \/>\nimperdo\u00e1vel, entregara seu corpo \u00e0quele homem&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0 propor\u00e7\u00e3o que os dias passavam, sucedendo-se numa<br \/>\nmonotonia aborrecida, uniformes como os elos d\u2019uma grande cadeia de<br \/>\nferro, crescia o des\u00e2nimo em Maria do Carmo, cujas fei\u00e7\u00f5es<br \/>\ntransformavam-se a olhos vistos. Tomava-lhe o rosto uma palidez de reclusa<br \/>\nmacerada pelos jejuns, cavavam-se-lhe os olhos, onde se refletia visivelmente<br \/>\no estado de sua alma, e os cabelos iam perdendo aquele brilho resplandecente<br \/>\nque era o desespero do Zuza. Em uma semana sua fisionomia adquiria uma express\u00e3o<br \/>\ninilud\u00edvel de dor concentrada.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado recebeu um bilhete da L\u00eddia convidado-a para jantar<br \/>\ncom ela no dia seguinte. \u201cEspero-te sem falta. Todas as minhas amigas<br \/>\ntem vindo me visitar, menos tu. Creio que n\u00e3o te dei motivo para procederes<br \/>\ndeste modo. Por andar incomodada \u00e9 que ainda n\u00e3o fui te ver\u201d.<\/p>\n<p>Quedou-se numa imobilidade profundamente triste, com a face na n\u00e3o,<br \/>\na olhar para a letra da amiga, escrita em papel-amizade, e ficou assim muito<br \/>\ntempo, como num \u00eaxtase. Veio-lhe a mente o Zuza. J\u00e1 n\u00e3o<br \/>\nse lembrava d\u2019ele, toda entregue \u00e0 sua dor. H\u00e1 uma semana<br \/>\nque n\u00e3o o via, nem sequer tinha not\u00edcia dele, e agora o estudante<br \/>\naparecia-lhe vagamente na imagina\u00e7\u00e3o como a lembran\u00e7a<br \/>\nremota de uma coisa que se viu em sonho. As l\u00e1grimas come\u00e7aram<br \/>\na cair-lhe dos olhos duas a duas, silenciosamente, sobre o bilhete de L\u00eddia.<\/p>\n<p>Uma&#8230; duas&#8230;<\/p>\n<p>Duas horas da tarde. O amanuense ainda n\u00e3o tinha voltado da Reparti\u00e7\u00e3o.<br \/>\nD. Terezinha costurava na sala de jantar, cantarolando uma modinha cearense<br \/>\nem desafio com o sabi\u00e1, que desferia seu eterno e mon\u00f3tono dobrado,<br \/>\nesquecido ao sol. Havia no t\u00e9pido interior d\u2019aquela casa a calma<br \/>\npregui\u00e7osa d\u2019essa hora do dia, em que se ouve o voar do moscardo<br \/>\nimpertinente e cantos do galo ao longe, nos quintais. Mariana suspirava na<br \/>\ncozinha \u00e0s voltas com as panelas, cachimbando. Sult\u00e3o, esse<br \/>\ndormia tranq\u00fcilamente o seu sono do meio-dia aos p\u00e9s de D. Terezinha,<br \/>\norelhas murchas, deitado de banda.<\/p>\n<p>Todos os dias, invariavelmente, era a mesma quieta\u00e7\u00e3o, a mesma<br \/>\nsonol\u00eancia, o mesmo ramerr\u00e3o, at\u00e9 que viesse o amanuense<br \/>\ncom as suas hemorr\u00f3idas ou com sua cacha\u00e7a dar \u00e0 casa<br \/>\no ar de sua gra\u00e7a. Freq\u00fcentemente Jo\u00e3o chegava \u00e0s<br \/>\nquatro horas, demorando-se \u00e0s vezes at\u00e9 \u00e0s cinco, o que<br \/>\nn\u00e3o era muito raro.<\/p>\n<p>Nesse dia, por\u00e9m, antes que o velho p\u00eandulo da sala de jantar<br \/>\nmarcasse quatro horas, entrou de chap\u00e9u na cabe\u00e7a, como de costume,<br \/>\npara n\u00e3o constipar, e foi direto ao quarto da afilhada.<\/p>\n<p>\u201c- Como tinha passado o dia? Muito fastio ainda!\u201d &#8211; E puxando<br \/>\numa cadeira sentou-se ao lado de Maria, que ainda se conservava deitada.<\/p>\n<p>Ao p\u00e9 da rede, sobre a esteira gasta, eternizava-se uma tigela com<br \/>\no resto de caldo onde flutuavam moscas. Jo\u00e3o fez um gesto de aborrecimento,<br \/>\ne apanhando a tigela:<\/p>\n<p>&#8211; Mariana!<\/p>\n<p>Dem\u00f4nio de gente! Naquela casa ele \u00e9 que fazia tudo, e, se havia<br \/>\numa pessoa doente, era o mesmo que nada.<\/p>\n<p>&#8211; Mariana!<\/p>\n<p>&#8211; Inh\u00f4!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o est\u00e1 ouvindo chamar, seu diabo!<\/p>\n<p>D. Terezinha continuava a cantarolar, sem se dar por achada, por pirra\u00e7a.<\/p>\n<p>Mariana apareceu \u00e0 porta do quarto, sem casaco, os seios moles, dentro<br \/>\nda cabe\u00e7\u00e3o da camisa tisnada. p\u00e9s descal\u00e7os, cabelos<br \/>\nassanhados.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o mediu-a com olhar, d\u2019alto a baixo, e entregando-lhe a lou\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; Por que ainda n\u00e3o tirou isto?<\/p>\n<p>&#8211; Estava cuidando do jantar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cuidando no jantar, hein? Cuidando no jantar?&#8230; Burra!&#8230;<\/p>\n<p>A criada, por\u00e9m, deu-lhe as costas e saiu rindo com seu ar idiota.<\/p>\n<p>Uma pessoa somente interessava-se pela sa\u00fade de Maria do Carmo &#8211; era<br \/>\nele, Jo\u00e3o da Mata, cujos cuidados para com ela redobravam dia a dia.<\/p>\n<p>D. Terezinha, essa nem sequer chegava \u00e0 porta do quarto, resmungando<br \/>\nsempre, rogando pragas, dizendo indiretas, que Maria do Carmo ouvia com l\u00e1grimas<br \/>\nnos olhos.<\/p>\n<p>Nunca Jo\u00e3o fora t\u00e3o bom para a afilhada como agora: Trazia-lhe<br \/>\nmimos da rua, bons bocados, confeitos, rendas, com uma solicitude paternal,<br \/>\nanimando-a, prometendo-lhe muitas felicidades, contando-lhe tudo quanto ouvia<br \/>\ndizer na rua, dando-lhe not\u00edcias dos conhecidos.<\/p>\n<p>&#8211; Teve febre hoje? continuou ele tornando a sentar-se.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixe ver o pulso&#8230; N\u00e3o, nem um bocadinho&#8230; Bom, n\u00e3o se<br \/>\namofine, hein, n\u00e3o se amofine. Amanh\u00e3, se Deus quiser, pode<br \/>\nlevantar-se. E baixo:<\/p>\n<p>&#8211; Tolice&#8230; Morrendo sem qu\u00ea nem para qu\u00ea! Se continuas, \u00e9<br \/>\npior&#8230; podem at\u00e9 saber&#8230; Isto a gente faz cara alegre e vai para<br \/>\na adiante, com as outras, minha tola&#8230; Olha a tua amiga L\u00eddia&#8230; Casou<br \/>\ne casou bem&#8230; E assim a maior parte&#8230; Deixa de tolices.<\/p>\n<p>Logo no dia seguinte \u00e0 noite do seu defloramento Maria do Carmo queixou-se<br \/>\nde fortes dores de cabe\u00e7a e nos quadris, indisposi\u00e7\u00e3o<br \/>\ngeral, e uma aus\u00eancia quase absoluta de apetite. N\u00e3o podia ver<br \/>\ncomida de esp\u00e9cie alguma nem sentir ao menos cheiro de guisados. Tudo<br \/>\na enjoava provocando-lhe n\u00e1useas. Cada vez que se lembrava de Jo\u00e3o<br \/>\nvinham-lhe arrepios na pele e \u201cagasturas na boca do est\u00f4mago\u201d.<\/p>\n<p>Pungia-lhe uma esp\u00e9cie de remorso, que a fazia passar horas inteiras<br \/>\nnuma abatimento medonho, encafuada no quarto, sem coragem para continuar a<br \/>\nvida como dantes. Lamentava-se como uma desgra\u00e7ada: &#8211; Que vida! que<br \/>\nvida!<\/p>\n<p>N\u00e3o quis almo\u00e7ar e passou o dia com uma x\u00edcara de caf\u00e9,<br \/>\nque a Mariana lhe levara.<\/p>\n<p>D. Terezinha n\u00e3o se abalava: era como se Maria do Carmo n\u00e3o<br \/>\nexistisse. Que fosse para l\u00e1 com seus faniquitos, n\u00e3o tinha<br \/>\nobriga\u00e7\u00e3o de criar filhos de ningu\u00e9m. Antes de ir para<br \/>\na Reparti\u00e7\u00e3o Jo\u00e3o lhe recomendara: &#8211; Olhe: Maria amanheceu<br \/>\ndoente. Est\u00e1 com uma pontinha de febre, n\u00e3o a deixe morrer de<br \/>\nfome , hein&#8230;<\/p>\n<p>Foi como se n\u00e3o recomendasse, porque D. Terezinha nem sequer p\u00f4s<br \/>\nos p\u00e9s no quarto da rapariga. Limitou-se a dizer \u00e0 criada: &#8211;<br \/>\nOuviste! N\u00e3o deixes morrer de fome a mimosa.<\/p>\n<p>Ah! esse desprezo, essa indiferen\u00e7a da madrinha do\u00eda nalma<br \/>\nde Maria como um insulto. Lembrava-se \u00e0s vezes de a mandar chamar e<br \/>\npedir-lhe por amor de Deus que n\u00e3o a tratasse assim, que n\u00e3o<br \/>\na desprezasse&#8230; Mas ao mesmo tempo achava que isto era confessar a sua culpa,<br \/>\nporque na verdade nunca houvera ente elas causa para o mais leve rompimento,<br \/>\na n\u00e3o serem as impertin\u00eancias de Jo\u00e3o da Mata. Que culpa<br \/>\ntinha ela se o padrinho dissesse desaforos \u00e0 mulher?<\/p>\n<p>E assim ia passando agora, abandonada, sem uma pessoa que se interessasse<br \/>\nverdadeiramente por sua sorte, a n\u00e3o ser Jo\u00e3o da Mata.<\/p>\n<p>&#8211; Trataram-na bem? perguntava o amanuense ao voltar do trabalho.<\/p>\n<p>&#8211; Trataram&#8230; murmurava ela.<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que Maria passava uma vida miser\u00e1vel De manh\u00e3,<br \/>\nenquanto Jo\u00e3o ainda estava em casa, ele mesmo ia levar-lhe o caf\u00e9<br \/>\ncom torradinhas de p\u00e3o, mas, depois, ela ficava entregue \u00e0 pregui\u00e7a<br \/>\nda criada e \u00e0 indiferen\u00e7a da madrinha, em termos de morrer de<br \/>\nfraqueza. Davam-lhe um caldo ao meio-dia, \u00fanico alimento com que ela<br \/>\nesperava o jantar \u00e0s quatro horas, quando o padrinho viesse. Por fim<br \/>\nquase n\u00e3o podia suportar aquilo, e nove dias depois, um domingo, levantou-se<br \/>\nresolvida a ir jantar com L\u00eddia, ao menos por desfastio, que aquela<br \/>\ncasa era um horror! Mostrou a Jo\u00e3o a carta da amiga, acrescentando<br \/>\nque at\u00e9 era bom para ela passar o resto do dia fora, no Benfica, ouvir<br \/>\ntocar piano, distrair, enfim, porque andava muito triste.<\/p>\n<p>O amanuense aprovou prontamente: que sim! mas era preciso saber se j\u00e1<br \/>\nestava completamente boa, se n\u00e3o sentia mais nada.<\/p>\n<p>&#8211; Mais nada, passei muito bem a noite.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o tomou-lhe o pulso com carinho.<\/p>\n<p>&#8211; Pois bem, vista-se e vamos. Amanh\u00e3 pode at\u00e9 ir \u00e0 escola,<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 assim?<\/p>\n<p>E, noutro tom:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vale a pena a gente se amofinar por qualquer coisa, filha. A<br \/>\nvida \u00e9 isto mesmo &#8211; andar p\u2019ra diante sempre com a cara alegre.<br \/>\nVamos, v\u00e1 se vestir.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o tinha dado meio dia no p\u00eandulo. Maria foi ao quarto,<br \/>\nabriu ba\u00fas, mais consolada, escolheu o melhor de seus vestidos de cretone,<br \/>\num azul de riscados brancos, em pouco saiu do lado ao padrinho, tra\u00e7ando<br \/>\no fichu, sem dar palavra a D. Terezinha.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m na rua do Trilho, deserta \u00e0quela hora como uma rua<br \/>\nd\u2019aldeia.<\/p>\n<p>Seguiram para a Pra\u00e7a Ferreira a tomar o bonde de Pelotas. Pouca gente<br \/>\nna pra\u00e7a ensombrada por suas enormes mungubeiras. Dois sujeitos sentados<br \/>\num defronte do outro, jogavam silenciosamente o domin\u00f3 no Caf\u00e9<br \/>\nJava: \u00c0s portas da Maison Moderne fam\u00edlias esperavam os bonds<br \/>\nem p\u00e9, silenciosas, com ar de infinito aborrecimento. Dentro jogava-se<br \/>\nbilhar. Muitas pessoas rodeavam uma das mesas para ver jogar o presidente,<br \/>\nque, em colete, escanchado num \u00e2ngulo da mesa, calculava o efeito das<br \/>\nbolas. Maria teve um estremecimento ao v\u00ea-lo. Certo o Zuza tamb\u00e9m<br \/>\nandava por ali&#8230; Instintivamente procurou-o com o olhar. O Jos\u00e9 Pereira<br \/>\ntomava cerveja a um canto mais o Castrinho.<\/p>\n<p>Os bonds iam chegando uns atr\u00e1s dos outros , enfileirados.<\/p>\n<p>Antes de subir para o de Pelotas, Maria lan\u00e7ou um \u00faltimo olhar<br \/>\n\u00e0 sala de bilhares. O Jos\u00e9 Pereira sem o Zuza! Era realmente<br \/>\nassombroso!<\/p>\n<p>Mas d\u2019a\u00ed a pouco o bond rodava outra vez caminho do Benfica,<br \/>\ne invadiu-lhe o cora\u00e7\u00e3o uma melancolia sem causa, uma tristeza<br \/>\nvaga que lhe deu vontade de estar s\u00f3, de voltar \u00e0 casa.<\/p>\n<p>L\u00eddia veio receber a amiga de bra\u00e7os abertos, muito alegre,<br \/>\nde branco, com papelotes no cabelo e sand\u00e1lias de cetim. &#8211; Ora, at\u00e9<br \/>\nque enfim! J\u00e1 n\u00e3o a esperava mais, Sra. D. Maria. Noiva de fidalgo&#8230;<br \/>\npudera!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o diga isso, minha negra. n\u00e3o vim h\u00e1 mais tempo,<br \/>\nporque tenha andado adoentada. Tu n\u00e3o imaginas&#8230;<\/p>\n<p>Cobriam-se de beijos.<\/p>\n<p>L\u00eddia mandou-os entrar para a sala de visitas.<\/p>\n<p>&#8211; Como vai D. Terezinha, Sr. Jo\u00e3o? perguntou maliciosamente escancarando<br \/>\nas janelas.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, respondeu o amanuense num tom seco, pondo o chap\u00e9u sobre uma<br \/>\ncadeira. E logo&#8230; &#8211; Homem, isto est\u00e1 que nem um para\u00edso!<\/p>\n<p>&#8211; Qual para\u00edso! Est\u00e1 nos debicando?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhora, longe de mim tal pensamento. O que digo \u00e9 a<br \/>\nverdade. O Loureiro preparou isto \u00e0 fidalga.!<\/p>\n<p>E ia examinando, atrav\u00e9s dos detest\u00e1veis \u00f3culos escuros,<br \/>\nos quadros, o papel da sala, o piano, os bibelots, com uma curiosidade infantil,<br \/>\nestendendo o olhar de vez em quando at\u00e9 o interior da casa, disfar\u00e7adamente.<\/p>\n<p>Maria tinha-se sentado no sof\u00e1 e por sua vez confirmava a admira\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo amanuense: &#8211; Sim, senhora, tudo muito bem arranjadinho, muito chique&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vejam s\u00f3, vejam s\u00f3, a gra\u00e7a! repetia a outra, sentando-se<br \/>\nao lado da amiga.<\/p>\n<p>&#8211; E o Sr. Loureiro como ia? inquiriu Maria.<\/p>\n<p>&#8211; Bem menina, muito atarefa do com o emprego. \u00c9 uma vidinha cansada,<br \/>\nesta de guarda-livros. O Loureiro, coitado, n\u00e3o tem sossego de esp\u00edrito.<br \/>\nVive na loja, e, ainda por cima, trabalha em casa. Um horror! Tu \u00e9<br \/>\nque est\u00e1s magrinha: estou te achando t\u00e3o abatida, t\u00e3o<br \/>\np\u00e1lida&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Saudades tuas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Saudades, eu sei de quem&#8230;<\/p>\n<p>Riram.<\/p>\n<p>&#8211; Agora \u00e9 que reparo, continuou L\u00eddia muito am\u00e1vel,<br \/>\ntira o fichu e vamos ver a casa.<\/p>\n<p>E levantando-se:<\/p>\n<p>&#8211; Preciso conversar muito contigo. J\u00e1 n\u00e3o te lembravas de mim,<br \/>\nhein?&#8230; Sr. Jo\u00e3o tenha a bondade de esperar um pouquinho &#8211; o Loureiro<br \/>\nn\u00e3o tarde: est\u00e1 \u00e0s voltas com a papelada.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! minha senhora&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata deliciava-se a observar os quadros e as estatuetas de<br \/>\nterracota, de m\u00e3os para tr\u00e1s, como se estivesse numa exposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDepois chegou \u00e0 janela por onde entrava um arzinho puro impregnado<br \/>\nde ess\u00eancia de resed\u00e1s. Defronte enchia a vista o verde sombrio<br \/>\nd\u2019uma espl\u00eandida floresta de cajueiros onde oscilavam pequeninos<br \/>\npontos amarelos e vermelhos quebrando a monotonia da paisagem larga e igual,<br \/>\nbatida de sol. O palacete azul do Loureiro perdia-se num fundo de verdura.<br \/>\n\u00c0 direita, l\u00e1 longe, na esquina de um grande s\u00edtio, passava<br \/>\na linha de bonds. E que frescura! Dava vontade \u00e0 gente pecar muitas<br \/>\nvezes por dia, como Ad\u00e3o no Para\u00edso, ali assim, naquele pedacinho<br \/>\ndo Cear\u00e1, sem seca e sem pol\u00edtica, entretendo rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nsentimentais com a natureza agreste e sincera.<\/p>\n<p>&#8211; Bom para se copiar um balan\u00e7o, isto aqui, costumava dizer o ing\u00eanuo<br \/>\nguarda-livros.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o p\u00f4s-se a contemplar, com um enlevo nalma, toda essa poesia<br \/>\nselvagem iluminada por um sol implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>De s\u00fabito:<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1, seu Mata, como vai voc\u00ea? Que milagre foi este?<\/p>\n<p>Era o guarda-livros, em chinelos, cal\u00e7a branca e palet\u00f3 de<br \/>\nseda amarelo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o voltou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Oh!&#8230; Estava admirando a grandeza do Criador&#8230; Voc\u00ea assim mesmo<br \/>\ntem gosto, seu Loureiro, voc\u00ea \u00e9 um danado, homem! Sim, senhor,<br \/>\nisto aqui \u00e9 um man\u00e1! Faz vir \u00e1gua \u00e0 boca.<\/p>\n<p>&#8211; Escolhi este local por ser muito isolado da civiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDetesto o ru\u00eddo da cidade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tens tamb\u00e9m a tua veia po\u00e9tica, hein?<\/p>\n<p>&#8211; Qual veia po\u00e9tica! Isso de versos n\u00e3o \u00e9 comigo. Tenho<br \/>\nat\u00e9 horror \u00e0 poesia. O que eu quero \u00e9 sossego, o bem<br \/>\nestar, o conforto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fazes muito bem, filho, n\u00e3o h\u00e1 nada como se viver no seu<br \/>\ncantinho com a sua mulher e os seus filhos, comendo com o suor do seu rosto.<br \/>\nEu, se pudesse fazia o mesmo &#8211; deserdaria da capital, do centro da civiliza\u00e7\u00e3o,<br \/>\npara viver comodamente, bem longe de toda essa porcaria que se chama sociedade.<br \/>\nFazes muito bem. Quem n\u00e3o quer ser lobo n\u00e3o lhe veste a pele.<\/p>\n<p>&#8211; E voc\u00ea como vai?<\/p>\n<p>&#8211; Homem, assim mesmo: nem p\u2019ra diante nem p\u2019ra tr\u00e1s, remando<br \/>\ncontra a mar\u00e9&#8230; T\u00eam-me aparecido umas doresinhas do lado esquerdo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o usa voc\u00ea o vinho de caju?<\/p>\n<p>O guarda-livros fez a apologia do vinho de caju, citando casos de curas assombrosas<br \/>\nproduzidas pelo uso quotidiano desse depurativo. Ele mesmo, Loureiro, tinha-se<br \/>\ncurado radicalmente de um dartro na perna esquerda. Na sua opini\u00e3o<br \/>\no vinho de caju era muit\u00edssimo superior \u00e0 salsa, ao iodureto<br \/>\ne \u00e0 quanta panac\u00e9ia receita-se por a\u00ed sem resultado.<\/p>\n<p>O amanuense, por\u00e9m, afirmou que seu mal era no pulm\u00e3o, que<br \/>\nj\u00e1 tinha consultado o Dr. Melo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te fies em m\u00e9dicos do Cear\u00e1, que d\u00e3o cabo<br \/>\nde ti. Olha o Calado, conferente d\u2019Alf\u00e2ndega: diagnosticaram-lhe<br \/>\nles\u00e3o card\u00edaca e o pobre homem, coitado, estirou a canela no<br \/>\nRio de Janeiro com uma enfermidade nos rins. Uns ignorantes, seu Jo\u00e3o,<br \/>\nuns magarefes da humanidade \u00e9 o que eles s\u00e3o. Meta-se no vinho<br \/>\nde caju, que \u00e9 o grande rem\u00e9dio para as mol\u00e9stias do<br \/>\nsangue.<\/p>\n<p>Enquanto os dois, sentados no sof\u00e1, de pernas tran\u00e7adas, iam<br \/>\ndiscutindo banalidades, L\u00eddia e Maria do Carmo comunicavam-se como<br \/>\nboas amigas, numa intimidade franca e expansiva, abrindo-se mutuamente em<br \/>\nconfid\u00eancias de colegial felizes. Primeiro tinham percorrido toda a<br \/>\ncasa. L\u00eddia mostrara \u00e0 outra todos os seus confortos e todas<br \/>\nas suas j\u00f3ias desde a cama de casados, ampla e fresca, at\u00e9 o<br \/>\npresente de noivado, um magn\u00edfico jogo de pulseiras cravejadas de p\u00e9rolas<br \/>\nem forma de serpentes, o guarda-vestidos, os vidros de ess\u00eancias, os<br \/>\nchap\u00e9us, as toalhas de labirintos, feitas no Aracati e tudo o mais<br \/>\nque o Loureiro comprara com aquela bondade ing\u00eanua que o caracterizava.<\/p>\n<p>Maria via tudo aquilo embasbacada, com surpresas no olhar, falando por monoss\u00edlabos,<br \/>\nexaminando com inveja cada objeto que seus olhos deparavam, achando tudo muito<br \/>\nbom, muito fino, de muito bom gosto. E a outra: olha isto, v\u00ea l\u00e1,<br \/>\naqui est\u00e1 o meu rel\u00f3gio d\u2019algibeira, comprado no Jaques,<br \/>\ntu ainda n\u00e3o viste a minha cinta de tartaruga; \u00e9 verdade, e<br \/>\no meu tinteiro de prata, presente do Carvalho, e o meu leque de plumas&#8230;<\/p>\n<p>Foram sair na sala de jantar, e a\u00ed, uma defronte da outra, em cadeiras<br \/>\nde balan\u00e7o, L\u00eddia entrou indiscretamente a falar no Zuza.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda o amas muito? Ent\u00e3o fica para a volta?&#8230;<\/p>\n<p>Maria n\u00e3o compreendeu a pergunta.<\/p>\n<p>&#8211; Como fica para a volta?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, de certo, creio que voc\u00eas n\u00e3o se casaram&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te compreendo?<\/p>\n<p>&#8211; Olha a engra\u00e7ada!&#8230; Quer um peitinho?!<\/p>\n<p>&#8211; Por Deus como te n\u00e3o entendo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pergunto se o casamento \u00e9 quando o Zuza voltar, n\u00e3o te fa\u00e7as<br \/>\ntola&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quando o Zuza voltar?<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas voltar d\u2019onde?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s hoje muito misteriosa, minha espertalhona;<\/p>\n<p>Maria teve um pressentimento: &#8211; \u201cE o Zuza tinha ido embora?\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o embarcou anteontem?<\/p>\n<p>Olhavam-se as duas sem se compreenderem, como se estivessem jogando o disparate.<\/p>\n<p>&#8211; Para onde?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Para o Recife, ora adeus! para onde havia de ser?&#8230; A estas horas anda<br \/>\nele bem longe do Mocuripe.<\/p>\n<p>Maria do Carmo empalideceu, como se acabasse de saber uma not\u00edcia<br \/>\nfunesta.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s gracejando, murmurou com a voz tr\u00eamula.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sabias?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o sabia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois a Prov\u00edncia deu not\u00edcia.<\/p>\n<p>&#8211; Infame.<\/p>\n<p>E Maria n\u00e3o pode resistir \u00e0 como\u00e7\u00e3o que lhe sufocava,<br \/>\nos olhos umedeceram-se-lhe de l\u00e1grimas, e desatou a chorara com o rosto<br \/>\nmergulhado no lencinho de rendas.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isso, criatura? Tolice!<\/p>\n<p>L\u00eddia n\u00e3o contava com o pieguismo da amiga.<\/p>\n<p>Ora adeus, o rapaz havia de voltar, que asneira! Era preciso paci\u00eancia<br \/>\npara tudo, e ent\u00e3o? Ela mesma, L\u00eddia, n\u00e3o esperara pelo<br \/>\nLoureiro quase um ano? Tolice&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Deixa-te d\u2019isso, filha, vamos tocar piano. Est\u00e1s nervosa.<\/p>\n<p>Inclinada sobre a rapariga, que solu\u00e7ava como se lhe tivesse morrido<br \/>\nalgu\u00e9m, L\u00eddia procurava carinhosamente arrancar-lhe o len\u00e7o<br \/>\ndos olhos , alisando-lhe os cabelos, comovida.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o?&#8230; Levanta, vamos para a sala, que est\u00e1 mais fresco.<br \/>\nN\u00e3o s\u00ea crian\u00e7a, vamos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sou uma desgra\u00e7ada, disse Maria enxugando os olhos com for\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Que desgra\u00e7ada o que, est\u00e1s feito crian\u00e7a&#8230; Isso<br \/>\nacontece a todo mundo, criatura. Vamos, vamos p\u2019ra sala. J\u00e1 viste<br \/>\no meu \u00e1lbum.<\/p>\n<p>Maria levantou-se devagar, pregui\u00e7osamente, com as faces escarlates,<br \/>\nas pestanas \u00famidas, assoando-se; e arrependida.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, fiquemos aqui mesmo, depois se toca. N\u00e3o foi nada &#8211;<br \/>\num nervoso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem, mas n\u00e3o te ponhas a choramingar por a\u00ed, como uma tola.<br \/>\nTu sabes, a fam\u00edlia do Zuza n\u00e3o quer o casamento, quem sabe<br \/>\nse o rapaz foi obrigado a embarcar \u00e0 \u00faltima hora? Espera cartas,<br \/>\nse ele n\u00e3o te escrever, ent\u00e3o sim, podes ficar certa de que<br \/>\nn\u00e3o te ama.<\/p>\n<p>Tornaram a sentar-se.<\/p>\n<p>A criada, alta como um pau de sebo, veio saber da Sra. D. L\u00eddia \u201cse<br \/>\na sopa era de macarr\u00e3o ou de arroz\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; De macarr\u00e3o mesmo, Tom\u00e1zia, fa\u00e7a de macarr\u00e3o,<br \/>\nmas fa\u00e7a uma sopa gostosa, ouviu?<\/p>\n<p>E para a amiga:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o imaginas quanto aborre\u00e7o a cozinha. H\u00e1 dias em<br \/>\nque n\u00e3o ponho l\u00e1 os p\u00e9s. Felizmente o Loureiro arranjou<br \/>\numa boa criada, que at\u00e9 j\u00e1 foi cozinheira do Dr. Paula Souza,<br \/>\nda Estrada de Ferro. \u00c9 assim como viste, seca e r\u00edspida, mas<br \/>\numa excelente criada. Faz tudo a meu gosto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, ent\u00e3o o Zuza embarcou, hein? tornou Maria voltando \u00e0<br \/>\nconversa.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o falemos mais nisto. est\u00e1s hoje muito sentimental e eu<br \/>\nn\u00e3o quero que passes mal o resto do dia em minha casa, sabes? N\u00e3o<br \/>\nfalemos mais nisto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, diz-me&#8230; aquilo foi uma tolice&#8230; diz-me, n\u00e3o o viste mais?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. O Jos\u00e9 Pereira \u00e9 que est\u00e1 muito nosso<br \/>\namigo, sabes? Tem vindo aqui duas vezes nesta semana. E que amabilidades,<br \/>\nmenina, que delicadezas! Ofereceu-se para apresentar o Loureiro ao presidente<br \/>\nda Prov\u00edncia, mandou-nos outro dia um camarote para o teatro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E tu, como passas a nova vida?<\/p>\n<p>&#8211; Perfeitamente. Desejava antes morar na cidade, mas o Loureiro \u00e9<br \/>\nmuito impertinente, diz que prefere isto &#8211; paci\u00eancia. Agora quando vierem<br \/>\nos filhos, isso ent\u00e3o&#8230; Por enquanto estou muito satisfeita. Um bocado<br \/>\ntriste isto aqui no Benfica, mas ..vai se passando. \u00c9 verdade, precisas<br \/>\nvir passar uns dias comigo, est\u00e1s muito magra; o ar aqui p\u00e9<br \/>\nmelhor que na cidade. Tens ido \u00e0 Escola?<\/p>\n<p>&#8211; A Escola qual! Passei oito dias em casa como, uma freira, sem ir \u00e0<br \/>\nparte alguma. creio que n\u00e3o irei mais \u00e0quilo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, no teu caso, faria o mesmo. Agora, ent\u00e3o, que estou casada,<br \/>\nolha&#8230;<\/p>\n<p>Fez um gesto com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; bananas, n\u00e3o estou para suportar desaforos d\u2019aquela canalha.<br \/>\nPorque tudo aquilo \u00e9 uma canalha, menina. Fazes muito bem em n\u00e3o<br \/>\npondo os p\u00e9s naquela feira de reputa\u00e7\u00f5es. As raparigas<br \/>\nali aprendem a ser falsas e imorais. Conhe\u00e7o muito o tal Sr. Berredo,<br \/>\no tal Sr. Padre Lima e mais os outros todos. O pr\u00f3prio diretor&#8230; eu<br \/>\nc\u00e1 sei&#8230;<\/p>\n<p>Maria estava mais consolada ante a solicitude da amiga. Achava-a mais am\u00e1vel,<br \/>\nmais expansiva.<\/p>\n<p>Foram para a sala de visitas, de bra\u00e7os tran\u00e7ados nas cinturas,<br \/>\ne L\u00eddia cantou ao piano o Non m\u2019amava, a velha romanza sentimental,<br \/>\nque encheu de l\u00e1grimas os olhos de Maria.<\/p>\n<p>E os dias passavam uns ap\u00f3s outros, longos, intermin\u00e1veis,<br \/>\ncomo uma repeti\u00e7\u00e3o mon\u00f3tona que faz mal aos nervos.<\/p>\n<p>Vieram as festas, o Natal e o Ano Bom.<\/p>\n<p>Maria do Carmo, cada vez mais magra, sentido-se definhar dia a dia, descrente<br \/>\nde tudo, tinha agora uma certeza cruel que a torturava barbaramente, a certeza<br \/>\nque estava para ser m\u00e3e, de que muito breve o seu nome estaria completamente<br \/>\ndesmoralizado. Sentia bulir dentro de si uma coisa estranha, que lhe incomodava<br \/>\ncomo uma persegui\u00e7\u00e3o, e mais de uma vez, nos seus momentos de<br \/>\ngrande des\u00e2nimo, atravessara-lhe a mente a id\u00e9ia sinistra do<br \/>\nsuic\u00eddio. Sim, preferia matar-se a assistir \u00e0s ex\u00e9quias<br \/>\nde sua honra na pra\u00e7a p&amp;uauacute;blica, em todas as ruas da cidade, em<br \/>\ntodas as bocas. estava irremediavelmente perdida, n\u00e3o tinha pai nem<br \/>\nm\u00e3e, nem algu\u00e9m que lhe fosse sincero no mundo, pois bem, acabar-se-ia<br \/>\nde uma vez, sem ter que dar satisfa\u00e7\u00e3o a ningu\u00e9m por<br \/>\nisso. Era um pecado, mas n\u00e3o era uma vergonha, porque n\u00e3o teria<br \/>\nque corar nunca diante da sociedade, como uma criminosa, como uma culpada.<br \/>\nN\u00e3o, mil vezes, n\u00e3o! Outra, que n\u00e3o ela, preferisse arrastar<br \/>\numa exist\u00eancia vergonhosa, a morrer fosse como fosse.<\/p>\n<p>Uma ocasi\u00e3o estava prestes a ingerir uma dose de l\u00e1udano, mas<br \/>\nfaltou-lhe coragem. Come\u00e7ou a imaginar mil coisas. Via-se morta dentro<br \/>\nde um caix\u00e3o azul, de m\u00e3os cruzadas sobre o peito, numa sala<br \/>\nonde havia gente chorando e um crucifixo \u00e0 cabeceira entre velas de<br \/>\ncera que ardiam lugubremente. Que horror! recuou espantada fazendo em peda\u00e7os<br \/>\no vidro de veneno.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, vinham-lhe resigna\u00e7\u00f5es, um desejo m\u00edstico<br \/>\nde ser irm\u00e3 de caridade, depois que desse \u00e0 luz a crian\u00e7a,<br \/>\narredar-se para sempre do mundo e ir viver na Santa Casa de Miseric\u00f3rdia,<br \/>\ncurando os enfermos metida nas suas vestes azuis, debaixo de um grande chap\u00e9u<br \/>\nde asas, dedicar-se toda a Deus, como uma santa.<\/p>\n<p>Dera para devota; n\u00e3o faltava \u00e0 missa aos domingos, na S\u00e9,<br \/>\nvestida com muita simplicidade, e rezava sempre, com uma contri\u00e7\u00e3o<br \/>\nadmir\u00e1vel, ao deitar-se e ao acordar, defronte da oleografia do Cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Jesus.<\/p>\n<p>Foi em casa da L\u00eddia que ela teve a certeza de achar-se gr\u00e1vida.<br \/>\nAt\u00e9 ent\u00e3o ignorava certos segredos da maternidade, certos fen\u00f4menos<br \/>\nda fisiologia amorosa, que nunca lhe tinham dito, nem mesmo as companheiras<br \/>\nde Escola, \u201cali\u00e1s versadas em assuntos dessa natureza\u201d.<\/p>\n<p>Tinha ido passar uma semana com a amiga, nas festas, e um dia a L\u00eddia<br \/>\ndisse-lhe que \u201cestava pronta\u201d e que ela, Maria, havia de ser a<br \/>\nmadrinha do primeiro filho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, aproveitando a oportunidade, Maria do Carmo quis saber como<br \/>\nas mulheres tinham certeza de estar gr\u00e1vidas.<\/p>\n<p>L\u00eddia explicou tudo minuciosamente; a suspens\u00e3o das regras,<br \/>\nos antojos, as dores madre e, finalmente, os primeiros movimentos do feto<br \/>\nno \u00fatero. Depois leram junto a Fisiologia do Matrim\u00f4nio de Debay,<br \/>\nque o Loureiro tivera o cuidado de comprar, especialmente o cap\u00edtulo<br \/>\n&#8211; da calipedia ou arte de procriar filhos, o mais importante, na opini\u00e3o<br \/>\nda esposa do guarda-livros.<\/p>\n<p>&#8211; Todo meu desejo, dizia a L\u00eddia com o livro sobre a perna, todo meu<br \/>\ndesejo \u00e9 que o pequeno, menino ou menina, se pare\u00e7a com o presidente<br \/>\nda prov\u00edncia. Ainda no \u00faltimo baile em pal\u00e1cio n\u00e3o<br \/>\ntirei os olhos dele.<\/p>\n<p>E Maria nesse dia, ao jantar, teve um grande enj\u00f4o da comida, cruzando<br \/>\no talher logo no primeiro prato, inapetente. N\u00e3o havia d\u00favida,<br \/>\n\u201cestava pronta\u201d tamb\u00e9m como a L\u00eddia, e esta id\u00e9ia<br \/>\ntornou-se uma id\u00e9ia fixa, de todos os dias, de todas as horas, de todos<br \/>\nos minutos. Ela com um filho, Jesus! Decididamente estava perdida para sempre<br \/>\nno conceito honesto da gente s\u00e9ria. N\u00e3o passaria mais de uma<br \/>\nsimples rapariga que \u201cj\u00e1 teve filho\u201d! As revela\u00e7\u00f5es<br \/>\nde L\u00eddia tinham-lhe aberto os olhos; sentia agora perfeitamente bulir<br \/>\na crian\u00e7a, e at\u00e9, na sua alucina\u00e7\u00e3o, parecia-lhe<br \/>\nouvir os vagidos do beb\u00ea. Se fosse poss\u00edvel evitar o seu desenvolvimento,<br \/>\nmat\u00e1-lo mesmo no ventre&#8230; Mas n\u00e3o: seria uma barbaridade, uma<br \/>\nmalvadez; Afinal de contas era seu filho, de suas entranhas, embora fruto<br \/>\nde um crime&#8230;<\/p>\n<p>E Maria agoniava-se, fazendo essas considera\u00e7\u00f5es e mil outras<br \/>\nconjecturas absurdas, sem coragem de esperar o desenlace d\u2019aquele drama<br \/>\nsecreto que ela era a protagonista. Vivia assombrada e n\u00e3o raro ca\u00eda<br \/>\nnum desfalecimento que lhe tirava a a\u00e7\u00e3o do corpo e do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Por uma esp\u00e9cie de instinto, previa todas as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\ndo seu estado e pressentia o desprezo acerbo que havia de lhe cair sobre a<br \/>\ncabe\u00e7a, implacavelmente, como uma grande m\u00e3o de ferro, esse<br \/>\ndesprezo convencional e hip\u00f3crita de uma sociedade \u00e1vida de<br \/>\nesc\u00e2ndalos, cevando-se da desgra\u00e7a alheia, banqueteando-se em<br \/>\ntorno da v\u00edtima, como para tortur\u00e1-la ainda mais.<\/p>\n<p>E enquanto a L\u00eddia ganhava, com sorrisos de triunfo, as simpatias<br \/>\ndessa mesma sociedade que h\u00e1 poucos meses a maldizia, ela, Maria do<br \/>\nCarmo, sobre cuja reputa\u00e7\u00e3o pairava a sombra de uma n\u00f3doa,<br \/>\nvia-se pouco a pouco ludibriada, tratada como uma mulher a toa, num abandono<br \/>\ncompleto, sem amigas, sem honra, pobre, sem pai, nem m\u00e3e, m\u00edsera<br \/>\ncadela que a gente enxota a pontap\u00e9s de dentro da casa por safada e<br \/>\nindecente.<\/p>\n<h4><a name=\"12\"><\/a>XII<\/h4>\n<p>O Zuza abalara de feito numa sexta-feira, dias depois do casamento da L\u00eddia.<br \/>\nPor toda a parte se comentava, com risinhos sublinhados, o escandaloso namoro<br \/>\ncom a normalista, e o pai, o coronel Souza Nunes, escrupuloso em tudo que<br \/>\nlhe dizia respeito, exigiu do filho que embarcasse no primeiro vapor, sob<br \/>\npenas severas.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, meu pai&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tenha santa paci\u00eancia, vocemec\u00ea embarca ou diz porque n\u00e3o<br \/>\nembarca. Fala-se em toda a cidade nos seus namoros com a rapariga e eu n\u00e3o<br \/>\nquero, n\u00e3o consinto em semelhante esc\u00e2ndalo. Sei muito bem o<br \/>\nque isso \u00e9. N\u00e3o pode ser boa m\u00e3e de fam\u00edlia uma<br \/>\nrapariga educada em companhia de um safardana reconhecido, como o tal Sr.<br \/>\nJo\u00e3o da Mata. Prepare as malas e deixe-se de hist\u00f3rias, que<br \/>\n\u00e9 perder tempo.<\/p>\n<p>Nestas condi\u00e7\u00f5es o estudante n\u00e3o teve jeito sen\u00e3o<br \/>\nresignar-se ante a vontade imperiosa do pai e anunciar ao Jos\u00e9 Pereira<br \/>\no seu embarque d\u2019a\u00ed a dois dias.<\/p>\n<p>&#8211; De acordo, aprovou o redator da Prov\u00edncia. Deves tratar quanto antes<br \/>\nda tua formatura e ent\u00e3o podes voltar ao Cear\u00e1 e fazer um figur\u00e3o<br \/>\nna nossa magistratura, que j\u00e1 conta em seu seio bons talentos, rapazes<br \/>\nda tua estatura, inteligentes e resolutos.<\/p>\n<p>Sentia muito que o Zuza n\u00e3o se demorasse mais algum tempo, mas, enfim,<br \/>\ncomo esperava em breve tornar a v\u00ea-lo formadinho, com o seu t\u00edtulo<br \/>\nde bacharel, \u201cdando sorte\u201d na capital cearense, que diabo! era<br \/>\npreciso abafar a saudade e consolar-se.<\/p>\n<p>O Zuza, por\u00e9m, estava contrariado. Agora que as coisas corriam-lhe<br \/>\nt\u00e3o bem, que a rapariga entregava-se-lhe de corpo e alma, \u00e9<br \/>\nque o obrigavam a embarcar da noite para o dia, sem ao menos ter tempo de<br \/>\ndespedir-se d\u2019ela, de dar-lhe uma beijoca, um abracinho sequer, \u00e0s<br \/>\nescondidas. \u00c9 verdade que o seu amor n\u00e3o era l\u00e1 para<br \/>\nque se dissesse um amor extraordin\u00e1rio, uma dessas paix\u00f5es incendi\u00e1rias<br \/>\nque decidem do futuro de um crist\u00e3o, mas, tinha a sua simpatia por<br \/>\naqueles olhinhos ternos como os de uma santa, l\u00e1 isso tinha&#8230; T\u00e3o<br \/>\nboas as palestras ao meio-dia, na Escola Normal, enquanto as outras normalistas<br \/>\ndivertiam-se l\u00e1 para dentro \u00e0 espera dos professores! Uma gentinha<br \/>\nlevada da breca, essas normalistas ! Com que facilidade a Maria do Carmo,<br \/>\nali\u00e1s, uma das mais comportadas, entregava-lhe a face para beijar e<br \/>\nescrevia-lhe cartinhas perfumadas, cheias de juras e protestos de amor! Se<br \/>\nfosse outro, at\u00e9 j\u00e1 podia ter feito uma asneira&#8230; Arrependia-se<br \/>\nagora de n\u00e3o ter aproveitado os melhores momentos&#8230; Grand\u00edssimo<br \/>\ncalouro! podia ter desfrutado a valer.<\/p>\n<p>E concluiu, preparando-se para sair:<\/p>\n<p>&#8211; Ora sabem que mais? H\u00e1 males que v\u00eam para bem. A cidade est\u00e1<br \/>\ncheia do meu nome e do nome da rapariga, o verdadeiro \u00e9 ir-me embora<br \/>\nmesmo, sem dar satisfa\u00e7\u00e3o a ningu\u00e9m. Meu pai \u00e9<br \/>\num homem de ju\u00edzo. Eu podia muito bem engra\u00e7ar-me deveras com<br \/>\na menina para casar e depois&#8230; sabe Deus as conseq\u00fc\u00eancias. J\u00e1<br \/>\nse foi o tempo de um homem sacrificar posi\u00e7\u00e3o e futuro por uma<br \/>\nmulher pobre. Concluo o meu curso e sigo para a Europa, \u00e9 o verdadeiro,<br \/>\nora adeus!<\/p>\n<p>Enfiou a manga do redingote, atabalhoado, e saiu a despedir-se dos amigos.<\/p>\n<p>Toda a cidade soube logo da viagem intempestiva do estudante. A not\u00edcia<br \/>\npropalou-se com a rapidez do fogo em palha, por todos os botequins, por todos<br \/>\nos caf\u00e9s e restaurantes, avolumando-se, como se se tratasse de um grande<br \/>\nacontecimento.<\/p>\n<p>Quem o Zuza, o filho do coronel Souza Nunes? Ent\u00e3o n\u00e3o se casava<br \/>\ncom a normalista?<\/p>\n<p>&#8211; Por esta j\u00e1 esperava eu, diziam uns convictamente.<\/p>\n<p>&#8211; E eu, repetiam outros.<\/p>\n<p>&#8211; Pela cara se conhece quem tem lombrigas, seu Sussuarana, afirmava um sujeito<br \/>\nreles na botica do Travassos. Aquele tipo sempre me pareceu uma bisca. Agora<br \/>\na pobre rapariga \u00e9 quem fica por a\u00ed com a cara de besta, sem<br \/>\nachar quem lhe roa os ossos.<\/p>\n<p>&#8211; Pode dizer, seu compadre. Esses fidalgos o que querem \u00e9 isso mesmo<br \/>\n&#8211; desfrutar e p\u00f4r-se ao fresco. Todo nosso mal \u00e9 recebermos em<br \/>\nnossas casas qualquer sunga-nen\u00e9n que chegue a esta terra. N\u00f3s,<br \/>\nos pais de fam\u00edlia, \u00e9 que somos os culpados.<\/p>\n<p>&#8211; E o compadre Jo\u00e3o da Mata o que pretende fazer?<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei l\u00e1, homem de Deus, aquele \u00e9 outro&#8230;<\/p>\n<p>A viagem imprevista do Zuza assumia propor\u00e7\u00f5es de esc\u00e2ndalos.<br \/>\nNas fileiras pol\u00edticas especialmente entre os partidos contr\u00e1rios<br \/>\n\u00e0 administra\u00e7\u00e3o presidencial, alardeava-se o fato: que<br \/>\no rapaz era um produto da pol\u00edtica do governo, que todos os amigos<br \/>\ndo presidente mediam-se pela mesma bitola, que era tudo uma s\u00facia de<br \/>\nbandidos de casaca, usurpadores da honra cearense, o diabo!<\/p>\n<p>Os jornais da oposi\u00e7\u00e3o rosnaram contra a moralidade dos governistas,<br \/>\nresponsabilizando o presidente pelo \u201cdesmembramento de caracteres\u201d<br \/>\nque ia pela sociedade cearense, alcunhando-o de negro Rom\u00e3o. Tal dizia<br \/>\nque \u201cS. Excia. era homem de costumes dissolutos, acostumado a beber<br \/>\ncerveja nos caf\u00e9s cantantes de Paris, e a passear de bra\u00e7o com<br \/>\nas cocottes no Bois de Boulogne\u201d. Tal outro afirmava que \u201c S.<br \/>\nExcia. sabia manobrar perfeitamente um phateon, montava muito bem a cavalo,<br \/>\nmas n\u00e3o tinha capacidade para dirigir os destinos de um pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p>Insinuava aquele que \u201ca viagem inesperada de certo bacharel por formar-se<br \/>\nera um atentado contra os nosso brios e contra a moral p\u00fablica\u201d,<br \/>\naquele outro confirmava que \u201ca pol\u00edcia devia dar ca\u00e7a<br \/>\na um tal Sr. bacharel de nome a\u00e7ucarado contra quem pesavam as mais<br \/>\ns\u00e9rias acusa\u00e7\u00f5es no tocante ao seu procedimento para<br \/>\ncom a fam\u00edlia cearense\u201d.<\/p>\n<p>E toda gente sabia que se tratava do Zuza e da Maria do Carmo.<\/p>\n<p>O estudante, azucrinado por todos os lados, numa roda viva de indiretas,<br \/>\nindagava na Ag\u00eancia se o vapor j\u00e1 tinha chegado, esbaforido,<br \/>\n\u00e0s carreiras, doido por j\u00e1 se ver barra afora, debru\u00e7ado<br \/>\ntranq\u00fcilamente na amurada, a ver sumirem-se no horizonte, como vis\u00f5es<br \/>\nde uma noite mal dormida, as areias do Mucuripe.<\/p>\n<p>Uff! &#8230; Estava cansado de suportar tanta sujidade! Decididamente n\u00e3o<br \/>\nvoltaria ao Cear\u00e1 por pre\u00e7o algum. Diabo de prov\u00edncia<br \/>\nonde ningu\u00e9m est\u00e1 livre da cal\u00fania e da descompostura<br \/>\npela imprensa desde que n\u00e3o se submeta \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es<br \/>\nd\u2019uma pol\u00edtica de interesses pessoais.<\/p>\n<p>Revoltava-se de novo contra o Cear\u00e1, contra os costumes cearenses,<br \/>\ncontra a pol\u00edtica, \u201cessa pol\u00edtica sem ideal e sem patriotismo,<br \/>\nque s\u00f3 servia de nos rebaixar, obrigando o indiv\u00edduo a vender-se<br \/>\npor amor de sua mulher e seus filhos\u201d. Que diabo tinha ele com a pol\u00edtica<br \/>\npara que se viesse meter com sua vida? S\u00f3 porque era amigo do presidente<br \/>\ne filho de pol\u00edtico? Sebo! Ent\u00e3o n\u00e3o se podia ter amigos<br \/>\nno Cear\u00e1, decididamente. E porque tanto barulho em trono do seu nome,<br \/>\nporque n\u00e3o lhe diriam? Por causa de um simples namoro com uma pobre<br \/>\nnormalista sem eira nem beira? Era o c\u00famulo!<\/p>\n<p>Com que deliciosa alegria ele ergueu-se da rede no dia do embarque, de manh\u00e3<br \/>\nmuito cedo, as malas no meio do quarto prontas, a passagem comprada no bolso,<br \/>\nsem d\u00edvidas, sem compromissos, completamente pronto a deixar o Cear\u00e1.<br \/>\nQuando vieram lhe chamar para o banho, \u00e0s seis horas, j\u00e1 h\u00e1<br \/>\nmuito estava de p\u00e9, em chambre, muito bem disposto, fumando o seu cigarro,<br \/>\npassando uma vista d\u2019olhos na maleta do camarote onde refulgia, numa<br \/>\nfrescura capitosa, a roupa branca &#8211; ceroulas, camisas, meias e toalhas de<br \/>\nrosto &#8211; tudo arrumado cautelosamente, com um cuidado feminino, umas cheirando<br \/>\nainda a sab\u00e3o, passadinhas a ferro outras.<\/p>\n<p>Ah! ia deixando fora a Casa de Pens\u00e3o. Tomou do livro que se achava<br \/>\nsobre a mesa e colocou-o na maleta, ao lado, para ler na viagem.<\/p>\n<p>Agora sim, n\u00e3o faltava mais nada. S\u00f3 pedia a Deus que n\u00e3o<br \/>\nchovesse, porque um embarque debaixo d\u2019aguaceiro era um desastre horroroso.<\/p>\n<p>De feito amea\u00e7ava chover. Era em Janeiro. H\u00e1 dias caia sobre<br \/>\na cidade uma chuvinha sintom\u00e1tica de inverno, persistente e mi\u00fada,<br \/>\nacompanhada de trov\u00f5es long\u00ednquos, lavando a atmosfera, encharcando<br \/>\nas ruas, alentando a popula\u00e7\u00e3o, enverdecendo as \u00e1rvores.<br \/>\nOs longos meses de seca iam ser compensados por uma abund\u00e2ncia de chuvas<br \/>\nconsoladoras e refrigerantes. As manh\u00e3s iam se tornando frescas e j\u00e1<br \/>\nse viam passar, em tabuleiros, feixes de feij\u00e3o verde e hortali\u00e7as<br \/>\npara feira.<\/p>\n<p>Zuza tinha aberto a vidra\u00e7a para consultar o tempo. Os telhados, defronte,<br \/>\nestavam \u00famidos e o c\u00e9u de uma cor esmaecida de safira, arqueava-se,<br \/>\nsem uma nuvem na penumbra da ante-manh\u00e3. Passava um fiscal da C\u00e2mara<br \/>\ncom o seu bon\u00e9, jaqueta com bot\u00f5es dourados, chap\u00e9u de<br \/>\nchuva debaixo do bra\u00e7o, assoando-se com estrondo.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo fechado ainda, com efeito! pensou o Zuza. Entretanto j\u00e1 tinha<br \/>\ndado seis horas!<\/p>\n<p>Entrou e p\u00f4s-se a reler as cartas de Maria do Carmo, trincando a ponta<br \/>\ndo bigode.<\/p>\n<p>\u201cMeu querido Zuza&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Nesta normalista jurava como n\u00e3o tinha ido ao Club Iracema; que era<br \/>\numa cal\u00fania o que tinham dito ao estudante..<\/p>\n<p>\u201cTua querida Maria\u201d.<\/p>\n<p>Zuza meneou a cabe\u00e7a com um ar de riso e abriu outra.<\/p>\n<p>\u201cZuza do meu cora\u00e7\u00e3o&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Nest\u2019outra Maria lamentava que o rapaz n\u00e3o tivesse aparecido<br \/>\nna Escola Normal na v\u00e9spera.<\/p>\n<p>\u201cTu j\u00e1 n\u00e3o me amas, Zuza; n\u00e3o queiras matar-me<br \/>\nde saudades. Todos os dias pe\u00e7o a Deus por ti e tu nem sequer lembras<br \/>\nda tua futura esposa!\u201d<\/p>\n<p>E assim, uma a uma, o futuro bacharel releu toda a s\u00e9rie de cartas<br \/>\nda normalista, enfeixando-as depois, dobradinhas, com um cadar\u00e7o.<\/p>\n<p>Que horror, meu Deus, quanta banalidade! E ela a tomar a coisa a s\u00e9rio!<br \/>\nA gente sempre faz asneiras de crian\u00e7a nessa idade!&#8230;<\/p>\n<p>E guardando o ma\u00e7o de cartas no fundo da maleta: \u201c- Magn\u00edfico<br \/>\nrol de asneiras para fazer rir a rapaziada de Pernambuco.\u201d<\/p>\n<p>As horas passavam vertiginosas. A claridade larga do sol penetrava no quarto<br \/>\npela janela aberta, como um visita sem cerim\u00f4nia, anunciando um dia<br \/>\nseco e espl\u00eandido.<\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 fora, na rua, recome\u00e7ava a labuta quotidiana.<br \/>\nUm barbeiro, que morava defronte, amolava as navalhas assobiando um trecho<br \/>\nde fandango, com as pernas cruzadas, de frente para a rua. Passavam burricos<br \/>\ncom cargas d\u2019\u00e1gua, procurando as coxias. Meninos apregoavam o<br \/>\nCearense.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pereira ficara de vir almo\u00e7ar com o Zuza, mais cedo que<br \/>\nde costume, para seguirem juntos ao ponto de embarque.<\/p>\n<p>D. Sofia andava numa faina, da sala para a cozinha, com os olhos empanados<br \/>\nde l\u00e1grimas, esquecendo as suas dores de \u00fatero para pensar no<br \/>\nZuza, no seu filho que ia embora.<\/p>\n<p>O coronel, esse n\u00e3o se alterava, calmo, consultando o rel\u00f3gio<br \/>\nde vez em quando, bem humorado nesse dia, passeando o seu grande ar de homem<br \/>\nindependente.<\/p>\n<p>Cerca de 10 horas entrou o redator da Prov\u00edncia anunciando a chegada<br \/>\ndo vapor.<\/p>\n<p>&#8211; A que horas sai? perguntou o estudante.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 marcado para as duas. Em todo o caso \u00e9 prudente ir mais<br \/>\ncedo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida. Ao meio dia, o mais tardar, devo estar a bordo. Qual<br \/>\n\u00e9 o vapor?<\/p>\n<p>&#8211; O Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>&#8211; Diabo, uma carro\u00e7a!<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pereira entrara para o quarto do Zuza, e, sentado na larga rede<br \/>\nde varandas encarnadas, perna tra\u00e7ada com desembara\u00e7o, passeava<br \/>\no olhar morosamente naquele tabern\u00e1culo de rapaz solteiro, agora em<br \/>\ndesordem, como um ninho abandonado, enquanto o estudante acabava de fazer<br \/>\na toilette no aposento cont\u00edguo.<\/p>\n<p>Na frente das duas malas, uma grande e outra menor lia-se em letreiros impressos<br \/>\ne n\u00edtidos &#8211; Jos\u00e9 de Souza Nunes &#8211; Recife. Perto estava um caixote<br \/>\ncom livros e o mesmo d\u00edstico no alto.<\/p>\n<p>&#8211; Dez e meia! fez o redator levando o rel\u00f3gio ao ouvido.<\/p>\n<p>Imediatamente surgiu o Zuza l\u00e9pido, esfregando as m\u00e3os, como<br \/>\nse sa\u00edsse de um banho de perfumes.<\/p>\n<p>&#8211; Prontinho, disse ele.<\/p>\n<p>E misteriosamente:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, com qu\u00ea a canalha tem-se divertido \u00e0 minha custa,<br \/>\nhein?<\/p>\n<p>&#8211; Como assim?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! homem, inventaram por a\u00ed que eu deflorei a Maria do Carmo. N\u00e3o<br \/>\nleste o Pedro II e o Cearense?<\/p>\n<p>&#8211; E tens culpa no cart\u00f3rio?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, c\u2019os diabos, mas isso \u00e9 um horror! Ningu\u00e9m<br \/>\npode mais gracejar, ningu\u00e9m tem mais o direito de chegar-se a uma rapariga<br \/>\nhonesta sem inten\u00e7\u00f5es mal\u00e9volas. Cada vez me conven\u00e7o<br \/>\nmais de que isso \u00e9 uma terra selvagem, seu Jos\u00e9 Pereira! Isto<br \/>\n\u00e9 um pa\u00eds de b\u00e1rbaros. Voc\u00eas da imprensa devem<br \/>\ncivilizar este povo, devem ensinar a esta gente a pensar e a ter ju\u00edzo,<br \/>\ndo contr\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, fala a verdade, interrompeu o outro com um ar de riso malicioso; tu<br \/>\nnunca&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Palavra como n\u00e3o! \u00c9 verdade que dei alguns beijos, mas o<br \/>\nnosso namoro nunca foi al\u00e9m disso, mesmo porque, tu compreendes a minha<br \/>\nresponsabilidade&#8230; Depois, s\u00f3 fui a casa do padrinho umas tr\u00eas<br \/>\nvezes, no m\u00e1ximo. Cal\u00fania, simples cal\u00fania&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. Este povo \u00e9 muito indiscreto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Indiscreto n\u00e3o &#8211; alcoviteiro, mentiroso, ignorante e besta, \u00e9<br \/>\no que ele \u00e9.<\/p>\n<p>E depois de uma pausa:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, vamos almo\u00e7ar que deve ser hora.<\/p>\n<p>Uma vez instalado a bordo, o seu camarote do lado do mar, o futuro bacharel,<br \/>\nde bin\u00f3culo a tiracolo e bon\u00e9, respirou a todo pulm\u00e3o<br \/>\ne foi assistir da tolda a manobra do vapor que suspendia o ferro.<\/p>\n<p>Eram duas em ponto. O tempo estava magn\u00edfico. Ventava forte e o mar<br \/>\nem ressaca atirava sobre o quebramar uma toalha de espuma que se desmanchava<br \/>\nem poeira tenu\u00edssima irisada pelo sol. A cada golpe do mar havia uma<br \/>\nalgazarra na praia coalhada de gente. Escaleres navegavam para a terra puxados<br \/>\na remo, destacando a bandeira do escaler Capitania do Porto.<\/p>\n<p>Zuza assestou o bin\u00f3culo, e, sacando do len\u00e7o, correspondeu<br \/>\naos acenos que lhe faziam de um escaler que se afastava. sentia agora uma<br \/>\nponta de saudade a espia\u00e7ar-lhe o cora\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s<br \/>\nda confus\u00e3o que reinava no seu esp\u00edrito, como um ponto luminoso<br \/>\npor entre um nevoeiro denso, via mentalmente e nitidamente a cabe\u00e7a<br \/>\nbranca de D. Sofia, de sua boa m\u00e3e, e s\u00f3 ent\u00e3o sentiu<br \/>\nque uma coisa prendia-lhe ao Cear\u00e1, atra\u00eda-lhe a essa terra<br \/>\nque ele tanto detestava. N\u00e3o sabia mesmo porque, por \u00edndole,<br \/>\npor sistema, por pedantismo.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, queria mal ao Cear\u00e1, mas n\u00e3o podia esquecer nunca o<br \/>\nCear\u00e1, porque nele ficava a sua velha que ainda h\u00e1 pouco, abra\u00e7ando-o<br \/>\nentre l\u00e1grimas, metera-lhe no bolso uma nota de cem mil r\u00e9is<br \/>\ne cheirando a fundo de ba\u00fa.<\/p>\n<p>Boa e santa velhinha! pensava ele, e j\u00e1 n\u00e3o enxergava coisa<br \/>\nalguma, porque os vidros do bin\u00f3culo estavam \u00famidos e enevoados.<\/p>\n<p>Depois, quando o vapor singrava em dire\u00e7\u00e3o ao Mucuripe, come\u00e7ou<br \/>\na examinar a costa cearense, como se nunca a tivesse visto de fora, da tolda<br \/>\nde um navio. Viu passar diante de seus olhos arregalados todo o litoral de<br \/>\nFortaleza, desde o farol do Mucuripe at\u00e9 a Ponta dos Arpoadores&#8230;<\/p>\n<p>Primeiro o farol, l\u00e1 muito longe, embranquecido, cor de areia, ereto,<br \/>\nbatido pelos ventos; depois a extensa faixa de areia que se desdobra em ziguezague<br \/>\nat\u00e9 a cidade; a praia alvacenta e rendilhada de espumas. Em seguida<br \/>\no novo edif\u00edcio da alf\u00e2ndega, em forma de gaiola, aca\u00e7apado,<br \/>\nsem arquitetura, t\u00e3o feio que o mar parece recuar com medo \u00e0<br \/>\nsua catadura.<\/p>\n<p>Noutro plano, coqueiros maltratados pelo rigor do sol, erguendo-se da areia<br \/>\nmovedi\u00e7a que os amea\u00e7ava soterrar, uns j\u00e1 enterrados<br \/>\nat\u00e9 a fronde, outros inclinados, prestes a desabar; o torre\u00e3o<br \/>\ndos judeus Boris, imitando a torre de um castelo medieval, cinzento e esguio;<br \/>\no semin\u00e1rio por tr\u00e1s, no alto da Prainha, com as suas torres<br \/>\ntriangulares; as torres vetustas e enegrecidas da S\u00e9; o Passeio P\u00fablico,<br \/>\ncom seus tr\u00eas planos em escadarias; a S. C. de Miseric\u00f3rdia,<br \/>\nbranca, no alto; o Gas\u00f4metro; a Cadeia; e por ali fora o arraial Moura<br \/>\nBrasil, invadido pelo mar, reduzido a um mont\u00e3o de casebres trepados<br \/>\nuns sobre os outros&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, senhor, pensou o Zuza, bonito aspecto para se ver de longe, barra<br \/>\na fora&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Dentro em pouco o vapor come\u00e7ou a tombar desesperadamente. Fortaleza<br \/>\nj\u00e1 n\u00e3o era mais do que uma pintura microsc\u00f3pica diluindo-se<br \/>\nmuito ao longe na tinta alvacenta do horizonte&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; E s\u00f3 agora, tr\u00eas dias depois da partida do Zuza \u00e9<br \/>\nque Maria do Carmo sentia a dor do seu abandono, ao mesmo tempo que adquirir<br \/>\na certeza esmagadora de que estava para ser m\u00e3e; sim, para ser m\u00e3e<br \/>\nde um filho esp\u00fario, concebido num momento de desvario, mal acordada<br \/>\nde um pesadelo horr\u00edvel. Era de mais, era! Se dissesse que ela tinha<br \/>\ndeixado seu quarto para ir ter \u00e0 rede do padrinho, oferecendo-se-lhe<br \/>\ncomo uma f\u00eamea desavergonhada v\u00e1; era justo que ca\u00edsse<br \/>\nsobre si toda a c\u00f3lera dos homens; mas, ao contr\u00e1rio, ele, o<br \/>\ninfame do padrinho, \u00e9 que fora alta noite ao seu quarto, provocar-lhe,<br \/>\nimpor-lhe, para bem dizer, uma coisa d\u2019aquelas, e ela, coitada, t\u00e3o<br \/>\ninexperiente, t\u00e3o tola que nem ao menos tivera coragem para dar um<br \/>\nesc\u00e2ndalo, expulsando-o, como se expulsa um ladr\u00e3o, dando-lhe<br \/>\ncom a m\u00e3o no focinho, embora com sacrif\u00edcio de sua vida.<\/p>\n<p>Chegavam aos seus ouvidos, indistintamente, como um surdo rumor de cochichos,<br \/>\nos ecos da maledic\u00eancia. Na Escola Normal as outras raparigas atiravam-lhe<br \/>\nindiretas fortes, que ela n\u00e3o tinha \u00e2nimo de repelir como dantes.<\/p>\n<p>Viam-na triste, para um canto, muito desconfiada, com grandes olheiras. Todas<br \/>\nnotavam a altera\u00e7\u00f5es de sua fisionomia, e certo desleixo no<br \/>\ntrajar, que faziam dela uma outra Maria do Carmo, albardeira e insoci\u00e1vel,<br \/>\ninimiga da conviv\u00eancia das companheiras, ego\u00edsta, intrat\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo \u00e9 uma coisa&#8230; comentavam maliciosamente as normalistas.<br \/>\nA Maria viu alma d\u2019outro mundo, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8211; Que o qu\u00ea, menina, s\u00e3o desgostos de fam\u00edlia. Dizem<br \/>\nque o padrinho a maltrata.<\/p>\n<p>&#8211; Quem, o Jo\u00e3o da Mata? Um grand\u00edssimo miser\u00e1vel. D\u2019a\u00ed<br \/>\ntalvez seja isso mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se iludam, meninas, insinuou a zarolha, a Maria ficou assim<br \/>\ndepois que o Dr. Zuza foi-se embora. Ela d\u2019antes era at\u00e9 uma<br \/>\nrapariga muito alegre, voc\u00eas n\u00e3o se lembram?<\/p>\n<p>&#8211; Coisas deste mundo, mulher, coisas deste mundo. Ningu\u00e9m deve fazer<br \/>\nmau ju\u00edzo das pessoas.<\/p>\n<p>O diretor um dia maltratou-a. Ao chegar viu desenhada na pedra da aula, a<br \/>\ngiz, uma obscenidade. Ficou furioso, disse muitas grosserias \u00e0s raparigas<br \/>\ne quis saber quem era a autora de semelhante indec\u00eancia.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio profundo. Ningu\u00e9m se atrevia a responder.<\/p>\n<p>&#8211; Tenham a bondade de dizer quem fez isto! repetiu o diretor, e, de relance,<br \/>\nviu, na \u00faltima fila, um dedo que apontava para Maria do Carmo.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! foi a senhora, D. Maria do Carmo?<\/p>\n<p>Maria empalideceu.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, n\u00e3o senhor!<\/p>\n<p>&#8211; Tenha a bondade, fa\u00e7a o favor de vir apagar isto.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o fui eu, Sr. Diretor, tornou ela, erguendo-se.<\/p>\n<p>&#8211; Embora, venha sempre: a senhora paga pelas outras.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, n\u00e3o posso responder por uma falta que n\u00e3o<br \/>\ncometi.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vem?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor&#8230;<\/p>\n<p>Toda a aula estava voltada para Maria do Carmo, medindo-a de alto a baixo,<br \/>\ncomo se vissem nela uma transfigura\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o a senhora n\u00e3o vem? repetiu o homem, fazendo uma carranca<br \/>\nmedonha.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Retire-se da aula! fez ele apontando a porta. A senhora \u00e9 uma insubordinada,<br \/>\ndesobedeceu \u00e0 primeira autoridade deste estabelecimento. Vamos, retire-se!<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio grave, e Maria, tomando os livros, s\u00e9ria e<br \/>\nresignada, sem olhar para as colegas, retirou-se taciturna, ouvindo atr\u00e1s<br \/>\nde si o atrito da esponja na pedra.<\/p>\n<p>E tudo mais era assim, sucediam-se as contrariedades como um castigo. Crescia-lhe<br \/>\nna alma o desgosto, como uma nuvem que sobe no horizonte vagarosamente alastrando<br \/>\npouco a pouco toda a vasta c\u00fapula do c\u00e9u para se desfazer em<br \/>\nchuva caudalosa. Tinha pena de n\u00e3o ser como as \u201coutras mulheres\u201d,<br \/>\nindiferente a tudo, at\u00e9 nos momentos mais dif\u00edceis da vida.<br \/>\nVinham-lhe \u00e0s vezes alegrias intermitentes, uma resigna\u00e7\u00e3o<br \/>\ninfinita animava todo seu ser, e dispunha-se a enfrentar todas as conseq\u00fc\u00eancias<br \/>\ndo seu desatino com uma calma her\u00f3ica, sem dar mostra da mais leve<br \/>\ntristeza.<\/p>\n<p>Nesses momentos abria-se em infus\u00f5es de ing\u00eanua bondade para<br \/>\ncom D. Terezinha, procurando-a, puxando conversa, oferecendo-se-lhe para pentear<br \/>\no cabelo, gabando-lhe os vestidos, com uma humildade de escrava. Mas a madrinha,<br \/>\nseca e indom\u00e1vel, aborrecia-se com aquilo, enfadava-se, sempre de cara<br \/>\nfechada, respondendo por monoss\u00edlabos \u00e0s perguntas da afilhada.<br \/>\nQuando amanhecia mal humorada, com as suas desconfian\u00e7as, inquisilava-se<br \/>\ndemais. &#8211; \u201cDeixe-me, criatura, deixe-me, por amor de Deus, oh!\u201d<br \/>\nMaria n\u00e3o dizia palavra, recolhia-se ao sil\u00eancio do seu quarto<br \/>\na costurar ou a ler o Almanaque das Senhoras por desfastio, para se distrair.<\/p>\n<p>Entretanto Jo\u00e3o da Mata progredia no v\u00edcio de beber aguardente.<br \/>\nAndava agora muito chegado ao Perneta e ao Guedes, de quem se dizia amigo<br \/>\ndo cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A bodega do Z\u00e9 Gato continuava a ser o ponto de suas reuni\u00f5es,<br \/>\nonde se demoravam \u00e0s vezes at\u00e9 alta noite a jogar a bisca num<br \/>\nesquecimento absoluto de fam\u00edlia e de deveres, saturados de \u00e1lcool,,<br \/>\nl\u00edvidos \u00e0 luz de um miser\u00e1vel candeeiro de querosene.<br \/>\nO triste ordenado que lhe pingava no bolso em cada fim de m\u00eas escorria-lhe<br \/>\npor entre os dedos como azougue, transformando-se em fichas na banca de jogo<br \/>\ne desaparecendo como por encanto, sem que ele pr\u00f3prio soubesse disso.<\/p>\n<p>Quantas vezes sucedia entrar em casa sem um real no bolso para mandar \u00e0<br \/>\nfeira no dia seguinte!<\/p>\n<p>Era preciso ent\u00e3o tomar dinheiro a juros aos agiotas, correr toda<br \/>\na cidade atr\u00e1s de algu\u00e9m que lhe emprestasse alguns mil r\u00e9is<br \/>\nat\u00e9 ao fim do m\u00eas, contar as suas necessidades, as pequeninas<br \/>\nmis\u00e9rias dom\u00e9sticas, inventar situa\u00e7\u00f5es incr\u00edveis.<br \/>\nPorque os seus \u201camigos do cora\u00e7\u00e3o\u201d, o Perneta e<br \/>\no Guedes da Matraca, tamb\u00e9m eram pobret\u00f5es e perdul\u00e1rios,<br \/>\nsentiam muito as necessidades do Janj\u00e3o, mas n\u00e3o podiam lhe<br \/>\nser \u00fateis por forma alguma, sen\u00e3o dando-lhe a ganhar no jogo<br \/>\nquando a sorte o protegia.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9. Eu bem sei que voc\u00eas tamb\u00e9m t\u00eam fam\u00edlia<br \/>\ncomo eu e precisam tamb\u00e9m. \u00c9 o diabo, \u00e9 o diabo.<\/p>\n<p>D\u2019a\u00ed as dissens\u00f5es, os conflitos, em casa, com a mulher<br \/>\npor causa de dinheiro. Ele j\u00e1 n\u00e3o conseguia impor a D. Terezinha<br \/>\na sua autoridade de chefe da casa, como d\u2019antes; ao contr\u00e1rio,<br \/>\nagora suportava-lhe as impertin\u00eancias, as saraivadas de improp\u00e9rios,<br \/>\ncom uma passividade de animal submisso.<\/p>\n<p>&#8211; Tenha vergonha, homem de Deus, tenha vergonha, que voc\u00ea j\u00e1<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 crian\u00e7a, dizia-lhe nas bochechas, quase lhe abanando<br \/>\no queixo. Olhe para as barbas que tem na cara, porte-se como gente!<\/p>\n<p>Ele ouvia tudo aquilo sem dizer \u00e1gua vai, caladinho, como um prego,<br \/>\nmurcho, impotente.<\/p>\n<p>Como os tempos mudam! H\u00e1 poucos dias era ele o forte, o manda-chuva<br \/>\nnaquela casa; bastava um olhar seu, por cima dos \u00f3culos escuros, para<br \/>\nque todos, D. Terezinha, Maria do Carmo e a Mariana, estremecessem com medo,<br \/>\nporque sabiam de quanto ele era capaz nos momentos de c\u00f3lera; agora<br \/>\nn\u00e3o, tinham-se trocado os pap\u00e9is; bastava um olhar de D. Terezinha<br \/>\npara que ele desse-lhe as costas disfar\u00e7adamente para evitar barulho.<\/p>\n<p>&#8211; Basta, basta, basta! costumava dizer quando a mulher dirigia-se para ele<br \/>\ncom os olhos chamejantes, de m\u00e3os fechadas.<\/p>\n<p>E escafedia-se at\u00e9 ao fundo do quintal para n\u00e3o lhe ouvir os<br \/>\ndisparates.<\/p>\n<p>Estava magro, muito magro, e queixava-se de dores nos intestinos.<\/p>\n<p>Diabo de Reparti\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe deixava tempo para nada.<br \/>\nEra um trabalhar sem descanso, sentado a uma banca, das nove \u00e0s tr\u00eas,<br \/>\ncopiando of\u00edcios, riscando papel estupidamente. Se ao menos tivesse<br \/>\nquem lhe arranjasse com o ministro uma aposentadoria ainda que fosse com a<br \/>\nmetade do ordenado&#8230; Mas qual! tudo uns pol\u00edticos sem import\u00e2ncia,<br \/>\nuns legalh\u00e9s que iam para a C\u00e2mara proferir barbaridades, a repetir<br \/>\nque o pa\u00eds estava \u00e0 beira d\u2019um abismo e nada mais. At\u00e9<br \/>\nestimava que lhe demitissem do emprego, porque iria fazer pela vida noutra<br \/>\nparte, e escusava perder tempo a emporcalhar papel, para no fim do m\u00eas<br \/>\n&#8211; tome l\u00e1 seu ordenado, uns m\u00edseros vint\u00e9ns que mal chegavam<br \/>\npara o boi. Uma desgra\u00e7a.<\/p>\n<p>De resto a Maria n\u00e3o lhe dava muito cuidado. A princ\u00edpio ainda<br \/>\nlhe fizera uns carinhos, dera-lhe uns cortes de chita e um rico vestido de<br \/>\ncassa da \u00cdndia para agradar, porque tamb\u00e9m seria uma ingratid\u00e3o<br \/>\nv\u00ea-la para um canto a se acabar, magra e amarela que nem uma lesma.<br \/>\nAchava at\u00e9 que tinha feito muito. Outros havia piores que ele, ora!<\/p>\n<p>&#8211; Meu bem, tristezas n\u00e3o pagam d\u00edvidas. \u00c9 andar, \u00e9<br \/>\nandar sem olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Mas quando, um belo dia, Maria declarou-lhe positivamente que estava prenha,<br \/>\nque sentia \u201cuma coisa\u201d bolir-lhe na barriga, Jo\u00e3o estremunhou.<br \/>\n&#8211; Que se h\u00e1 de fazer, filha? Agora \u00e9 ter paci\u00eancia. Foi<br \/>\numa fatalidade, foi uma fatalidade. H\u00e1 de se arranjar a coisa do melhor<br \/>\nmodo poss\u00edvel. Vais a\u00ed para qualquer s\u00edtio, fora da cidade,<br \/>\ne ningu\u00e9m saber\u00e1 de coisa alguma. D\u00e1-se tanto d\u2019isto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E depois? murmurou Maria mordendo a ponta do len\u00e7o, cabisbaixa.<\/p>\n<p>&#8211; E depois? E depois&#8230; ora adeus! e depois d\u00e1-se a algu\u00e9m<br \/>\npara criar o trambolho e tu voltas \u00e0 tua santa vidinha.<\/p>\n<p>Maria solu\u00e7ava baixo, fungando numa crise nervosa.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 te p\u00f5es a chorar como uma crian\u00e7a! Tolice! Estou<br \/>\na dizer-te que o caso \u00e9 muito simples&#8230;<\/p>\n<p>Uma tarde em que o Mendes, o juiz municipal e a mulher, tinham ido passear<br \/>\nao Trilho, Jo\u00e3o da Mata entrou alvoro\u00e7ado, sem f\u00f4lego,<br \/>\ncom uma not\u00edcia a escapulir-lhe da boca.- Sabem quem est\u00e1 muito<br \/>\ndoente?<\/p>\n<p>Todos voltaram-se surpreendidos, com o olhar cheio de curiosidade. &#8211; N\u00e3o,<br \/>\nningu\u00e9m sabia. Algum conhecido?<\/p>\n<p>&#8211; O presidente, o Dr. Castro, teve um ataque h\u00e1 um pouquinho. A rua<br \/>\nest\u00e1 cheia. Diz que est\u00e1 bem mal.<\/p>\n<p>&#8211; De qu\u00ea, menino? interrogou o juiz muito admirado e j\u00e1 nervoso.<\/p>\n<p>Houve logo um interesse comovido nos circunstantes.<\/p>\n<p>E Jo\u00e3o, sentando-se, sem apertar a m\u00e3o aos Mendes, p\u00e1lido,<br \/>\nlimpando a testa, foi dizendo o que sabia: &#8211; Muita gente defronte do pal\u00e1cio.<br \/>\nTinham sido chamados todos os m\u00e9dicos, e todos, menos o Dr. Melo, eram<br \/>\nde parecer que se tratava de um caso de febre amarela. O presidente tinha<br \/>\nacabado de jantar e lia \u00e0 cabeceira da m\u00eas a correspond\u00eancia<br \/>\ndo sul chegada naquele momento, quando come\u00e7ou a sentir-se mal &#8211; embrulho<br \/>\nno est\u00f4mago, tonteiras, calafrios. Imediatamente, ergueu-se, l\u00edvido,<br \/>\ne, ao dar o primeiro passo, caiu fulminado!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ai! fez D. Terezinha cruzando as m\u00e3os sobre o rega\u00e7o. E depois?<\/p>\n<p>&#8211; Depois conduziram-no \u00e0 cama, sem sentidos, vomitando uma coisa preta&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o fez esgar de nojo. Todos cuspiram.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; e quando os m\u00e9dicos chegaram j\u00e1 o encontraram sem pinga<br \/>\nde sangue no rosto, vomitando ainda golfadas de b\u00edlis sobre a esposa<br \/>\nque o amparava, coitada, nem sei mesmo como&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Coitado! lamentaram num tom arrastado as duas senhoras.<\/p>\n<p>Maria do Carmo ouvia silenciosa e compungida a narra\u00e7\u00e3o do<br \/>\npadrinho, ao lado do piano, com os olhos \u00famidos e o ar assustado.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Jo\u00e3o, isto \u00e9 s\u00e9rio? perguntou o juiz municipal<br \/>\nerguendo-se com os bra\u00e7os cruzados, estupefato.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! senhor, pois eu havia de inventar uma coisa d\u2019esta? Admiro at\u00e9<br \/>\ncomo voc\u00eas ainda n\u00e3o sabiam, porque a rua est\u00e1 cheia.<br \/>\nEu soube ali, na bodega do Z\u00e9 Gato.<\/p>\n<p>Fez-se um sil\u00eancio repassado se suspiros.<\/p>\n<p>&#8211; Um homem t\u00e3o forte, vendendo sa\u00fade! fez o juiz.<\/p>\n<p>&#8211; Mas bebia muito, coitado, tornou Jo\u00e3o da Mata, respirando com for\u00e7a.<br \/>\nEra homem que n\u00e3o bebia \u00e1gua.<\/p>\n<p>&#8211; Por isso n\u00e3o, atalhou D. Terezinha. Que asneira! Tanta gente se<br \/>\nembriaga todos os dias e n\u00e3o lhe sucede nada.<\/p>\n<p>&#8211; D\u2019a\u00ed pode ser que escape, murmurou D. Am\u00e9lia; n\u00e3o<br \/>\nqueiram sepultar o homem em vida.<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser.<\/p>\n<p>&#8211; Pode ser, repetiu o juiz. A ci\u00eancia faz milagres.<\/p>\n<p>&#8211; Que d\u00favida!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Mendes tomando o chap\u00e9u, muito impressionado, as m\u00e3os<br \/>\ntr\u00eamulas:<\/p>\n<p>&#8211; Bem, vamo-nos Am\u00e9lia. esta vida, esta vida!<\/p>\n<p>Era cedo, insistiu D. Terezinha triste. Mas os Mendes pretextaram afazeres,<br \/>\nlembraram as crian\u00e7as que tinham ficado com a criada e despediram-se.<\/p>\n<p>Maria do Carmo passou a noite nervosa com ins\u00f4nias, sentida com a doen\u00e7a<br \/>\ndo Dr. Castro, muito apreensiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia se conformar com a id\u00e9ia da morte do presidente,<br \/>\no homem da moda, o \u201cquerido das mo\u00e7as\u201d, o grande amigo<br \/>\ndo Cear\u00e1, que tantos benef\u00edcios fizera a esta prov\u00edncia,<br \/>\nmandando construir a\u00e7udes no sert\u00e3o, reconstruindo o Passeio<br \/>\nP\u00fablico, ativando as obras do porto, facilitando a emigra\u00e7\u00e3o,<br \/>\nprodigalizando esmolas, e, finalmente, introduzindo em Fortaleza certos costumes<br \/>\nparisienses, como por exemplo, o sistema de passear a cavalo a chouto, de<br \/>\naparar a cauda aos animas de sela.<\/p>\n<p>Lembrava-se as qualidades pessoais do fidalgo paulista, o seu modo de falar<br \/>\nnum sotaque aportuguesado, muito moderado na conversa\u00e7\u00e3o \u00edntima,<br \/>\nas suas maneiras delicadas, os seus belos dentes branquejando sob um bigode<br \/>\nsedoso e bem tratado. Uma vez, no baile oferecido \u00e0 oficialidade do<br \/>\ncruzador \u201c1\u00ba de mar\u00e7o\u201d dan\u00e7ara com ele uma<br \/>\nquadrilha, por sinal bebera muita champagne nessa noite a ponto de ficar um<br \/>\npouco tonta da cabe\u00e7a. Coitado! uma alma boa. \u00c9 verdade que<br \/>\ntinha demitido o Pinheir\u00e3o mais os filhos, deixando-os na mis\u00e9ria,<br \/>\nmas no dia seguinte mandara-lhe um envelope com cinq\u00fcenta mil r\u00e9is.<br \/>\nTudo por causa da pol\u00edtica; a pol\u00edtica \u00e9 que o fazia<br \/>\nmau. Tinha rasgos de generosidade fidalga, l\u00e1 isso era ineg\u00e1vel,<br \/>\ntanto assim que um dia dera ao negro Rom\u00e3o, um negro sujo coma aquele,<br \/>\ncinco mil reisinhos. Era uma pena se morresse, coitado, havia de fazer uma<br \/>\nfalta t\u00e3o grande. &#8230; &#8211; Compadecia-se como se fosse seu parente. Balbuciou<br \/>\numa promessa \u00e0s almas do purgat\u00f3rio e s\u00f3 muito tarde,<br \/>\npela uma hora da manh\u00e3, conseguiu adormecer.<\/p>\n<p>Ao outro dia procurou saber logo como ia o presidente. As not\u00edcias<br \/>\neram cada vez mais desagrad\u00e1veis. As janelas do pal\u00e1cio continuavam<br \/>\nfechadas e os transeuntes olhavam contristados o casar\u00e3o ao redor do<br \/>\nqual pairava uma melancolia l\u00fagubre. Os boatos multiplicavam-se penetrando<br \/>\ntodas as casas como um vento de desgra\u00e7a. A Prov\u00edncia suspendeu<br \/>\na publica\u00e7\u00e3o por condol\u00eancia, e os jornais da oposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nfizeram uma pausa nos seus ataques \u00e0 administra\u00e7\u00e3o provincial.<\/p>\n<p>As filhinhas do presidente estavam em casa do Jos\u00e9 Pereira, na rua<br \/>\nMajor Facundo, duas crian\u00e7as louras e inteligentes, que falavam franc\u00eas,<br \/>\numa nascida em Paris, e outra no Rio de Janeiro. Um cabo de ordem, arrastando<br \/>\no chanfalho, passava a toda pressa em dire\u00e7\u00e3o ao tel\u00e9grafo.<br \/>\nO esp\u00edrito p\u00fablico come\u00e7ava a inquietar-se com a sorte<br \/>\ndo presidente, e os pr\u00f3prios advers\u00e1rios pol\u00edticos enchiam-se<br \/>\nde penas concentradas.<\/p>\n<p>Pela noite desabou um formid\u00e1vel aguaceiro e toda a popula\u00e7\u00e3o,<br \/>\npor assim dizer toda, aguardava ansiosa, dentro da casa, ao sussurro da chuva<br \/>\nque ca\u00eda fora, sacudida pelo vento, not\u00edcias sobre o estado<br \/>\ndo Dr. Castro. Maria, como toda a gente sentia um peso no cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nao lembrar-se daquele homem sadio e robusto, a seus olhos a s\u00edntese<br \/>\nda mais requintada eleg\u00e2ncia. que tanto amara o Cear\u00e1, e cujo<br \/>\nnome andava gravado a canivete at\u00e9 nos troncos dos cajueiros, nos sert\u00f5es<br \/>\npor onde tinha andado, t\u00e3o mo\u00e7o ainda e j\u00e1 \u00e0s<br \/>\nportas da morte, acabando-se como qualquer mortal! &#8211; A Provid\u00eancia \u00e0s<br \/>\nvezes era injusta com os homens: poupava um ente abomin\u00e1vel como o<br \/>\npadrinho e um pelintra desleal como o Zuza, para aniquilar, enquanto se esfrega<br \/>\num olho, um homem da for\u00e7a do Dr. Castro, \u201c\u00fatil ao pa\u00eds<br \/>\ne benfeitor da humanidade!\u201d<\/p>\n<p>Indignava-se com essa prefer\u00eancia injusta das cortes celestes , e,<br \/>\nde si para si, conclu\u00eda que n\u00e3o valia a pena uma pessoa ser<br \/>\nhonesta, trabalhar noite e dia, dedicar-se a uma coisa nobre, engrandecer-se<br \/>\naos olhos da humanidade para um belo dia &#8211; toma! v\u00e1 para a cova que<br \/>\n\u00e9 seu lugar! Uma coisa est\u00fapida a vida, afinal de contas.<\/p>\n<p>Entretanto outros viviam a\u00ed a cometer mil desatinos, a roubar, a assassinar,<br \/>\na iludir os incautos e tinham vida para um s\u00e9culo inteiro, livre de<br \/>\ncongest\u00f5es, de febre amarela e de quanta doen\u00e7a h\u00e1.<\/p>\n<p>Acordou cedo e foi p\u00f4r-se \u00e0 janela \u00e0 espera de algu\u00e9m<br \/>\nque lhe desse not\u00edcias do presidente. O c\u00e9u estava carregado<br \/>\nde nuvens compactas e neblinava. A casa da vi\u00fava Campelo, defronte,<br \/>\nestava fechada; a vi\u00fava tinha ido passar uns dias com a filha no Benfica.<br \/>\nPassou um empregado da Estrada de Ferro, condutor de trem, com as cal\u00e7as<br \/>\narrega\u00e7adas, comendo p\u00e3o. Maria chamou-o: &#8211; O Sr. sabe me dizer<br \/>\ncomo vai o presidente?<\/p>\n<p>&#8211; Faleceu \u00e1s duas horas da madrugada, respondeu o sujeito, mastigando,<br \/>\nindiferente.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, disse Maria, empalidecendo, e entrou imediatamente batendo o<br \/>\npostigo. &#8211; Coitado! foi dizendo pela casa, com grade m\u00e1goa na voz.<br \/>\nCoitado! Que pena!<\/p>\n<p>&#8211; Que foi? perguntou o amanuense, que subia o corredor em ceroulas.<\/p>\n<p>&#8211; O presidente morreu!&#8230;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o parou assombrado como se lhe tivesse ca\u00eddo um raio defronte.<\/p>\n<p>&#8211; Morreu, hein?!<\/p>\n<p>&#8211; Disse-me agora mesmo um empregado da Estrada de Ferro.<\/p>\n<p>&#8211; Realmente! E v\u00e1 gente se fiar na justi\u00e7a divina! Morre um<br \/>\nhomem d\u2019aqueles, da noite para o dia, como qualquer b\u00eabedo!<\/p>\n<p>E l\u00e1 foi resmungando contra Deus e contra os padres.<\/p>\n<p>Os sinos da S\u00e9 come\u00e7aram a dobrar a finados. Aumentava a chuva,<br \/>\nque j\u00e1 se ouvia chiar nas cal\u00e7adas como uma panela fervendo.<\/p>\n<p>Maria entrou para o seu quarto, aflita. Essa manh\u00e3 foi para ela de<br \/>\ntristeza e des\u00e2nimo. Acudiam-lhe \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o lembran\u00e7as<br \/>\nextravagantes, id\u00e9ias l\u00fagubres, como aves negras que pousassem<br \/>\nde chofre num arvoredo, alvora\u00e7adas, cantando sinistramente. Ca\u00eda<br \/>\nem abstra\u00e7\u00f5es prolongadas em que se punha a contar os dedos<br \/>\nmaquinalmente, como se fosse ensandecer. Apoderou-se dela um medo pueril,<br \/>\num inexplic\u00e1vel pavor das coisas sombrias, um supersticioso receio<br \/>\nd\u2019almas d\u2019outro mundo, um mal estar, um quer que era que lhe trancava<br \/>\na respira\u00e7\u00e3o, que lhe oprimia o peito.<\/p>\n<p>Procurava disfar\u00e7ar as apreens\u00f5es, arrumando os trastes do<br \/>\nquarto, mexendo nos ba\u00fas, numa inquieta\u00e7\u00e3o crescente,<br \/>\nnum vira-e-mexe cada vez mais a\u00e7odado, abrindo e fechando gavetas,<br \/>\natarantada, com o cora\u00e7\u00e3o aos pulos.<\/p>\n<p>&#8211; O enterro! o enterro! bradou \u00e0 porta a Mariana que ia \u00e0s<br \/>\ncompras.<\/p>\n<p>Todos correram \u00e0 janela. D. Terezinha, na precipita\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndeixou cair um copo, que se esfarinhou; e Jo\u00e3o da Mata esquecera os<br \/>\n\u00f3culos, enfiando as mangas da camisa.<\/p>\n<p>Maria arrancou como uma louca, dando um encontr\u00e3o na mesa do centro<br \/>\nda sala de visitas.<\/p>\n<p>Continuava a chover, agora devagar, com uma insist\u00eancia importuna,<br \/>\no sol a espiar por tr\u00e1s d\u2019uma nuvem, frio, indeciso, mandando,<br \/>\ncom um supremo desd\u00e9m pelas coisas c\u00e1 de baixo, uma r\u00e9stia<br \/>\nde luz t\u00edmida e complacente sobre a manh\u00e3 \u00famida.<\/p>\n<p>O enterro do presidente passava na esquina, caminho do cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>Maria do Carmo assistia com a respira\u00e7\u00e3o suspensa e um n\u00f3<br \/>\nna garganta o desfilar do pr\u00e9stito, o caix\u00e3o levado por seis<br \/>\nhomens de preto, coberto de gal\u00f5es dourados debaixo da chuva mi\u00fada,<br \/>\no acompanhamento &#8211; uma comparsaria dispersa de gente de todas as classes de<br \/>\nchap\u00e9u-de-chuva aberto, marchando resignadamente ao som da m\u00fasica<br \/>\ndo batalh\u00e3o que tocava \u00e0 funeral.<\/p>\n<p>Os padres j\u00e1 tinham passado, na frente, com os seus ac\u00f3litos,<br \/>\nmuito graves, olhando para o ch\u00e3o evitando as po\u00e7as d\u2019\u00e1gua.<br \/>\nUm carro seguia atr\u00e1s, todo fechado, devagar.<\/p>\n<p>E a chuva a cair e a m\u00fasica a tocar o funeral, deixando por onde passava<br \/>\numa tristeza vaga que lembrava um dia de finado entre as sepulturas&#8230;<\/p>\n<p>D. Terezinha enxugava os olhos com a aba do casaco e Jo\u00e3o da Mata<br \/>\npigarreava disfar\u00e7ando a como\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Maria ficou \u00e0 janela vendo passar o resto do acompanhamento, sujeitos<br \/>\nsem palet\u00f3, de chap\u00e9u de palha de carna\u00faba, outros sem<br \/>\nchap\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; Que triste, meu Deus!<\/p>\n<p>E entrou muito inquieta, com um frio na medula, as pupilas dilatadas, p\u00e1lida,<br \/>\ntoda tr\u00eamula. Mas no meio da sala perdeu o equil\u00edbrio &#8211; escureceu-lhe<br \/>\na vista, trope\u00e7ou numa cadeira e estendeu-se no ch\u00e3o pesadamente,<br \/>\ncomo morta.<\/p>\n<p>&#8211; Chega! A Maria teve uma coisa! gritou D. Terezinha, correndo para a filhada.<br \/>\nChega, Janj\u00e3o, chega depressa!<\/p>\n<p>&#8211; A \u00e1gua Florida, a \u00e1gua Florida, em cima da c\u00f4moda!<\/p>\n<p>O amanuense precipitou-se pelo corredor a grandes passadas, at\u00f4nito,<br \/>\naterrado, sem saber o que fizesse, seguido pelo Sult\u00e3o que lhe tomou<br \/>\na frente ganindo.<\/p>\n<p>&#8211; Jesus, o que foi?!<\/p>\n<p>&#8211; Sei l\u00e1, uma coisa que lhe deu de repente&#8230; Segura a\u00ed nos<br \/>\nbra\u00e7os&#8230;<\/p>\n<p>E ambos, Jo\u00e3o da Mata e a mulher, p\u00e1lidos, muito vexados, conduziram<br \/>\na rapariga para a alcova, arrastando os p\u00e9s com o peso.<\/p>\n<p>&#8211; Chega depressa \u00e1gua Florida, mandou Jo\u00e3o abando o rosto \u00e0<br \/>\ndoente<\/p>\n<p>D. Terezinha trouxe a garrafa e come\u00e7ou logo o afanoso trabalho de<br \/>\numedecer a t\u00eamporas de Maria, dando-lhe a cheirar o l\u00edquido,<br \/>\nfriccionando-lhe a testa com for\u00e7a, numa afli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Um copo com \u00e1gua, um copo com \u00e1gua, Janj\u00e3o.<\/p>\n<p>Maria deu um grande suspiro, entreabrindo os olhos, estendida no comprido<br \/>\nna larga cama de jacarand\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Cheira mais, cheira mais, recomendava D. Terezinha, agora mais aliviada.<\/p>\n<p>Maria murmurou que estava melhor.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 pode se sentar? perguntou o amanuense, chegando o copo. V\u00e1,<br \/>\nfa\u00e7a um esfor\u00e7ozinho&#8230; Upa!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o seria bom chamar o m\u00e9dico? lembrou D. Terezinha.<\/p>\n<p>Maria fez com a m\u00e3o que n\u00e3o, e com a voz fatigada, apoiada<br \/>\nao espelho da cama: &#8211; \u201cN\u00e3o era preciso, j\u00e1 estava boa&#8230;\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Sentes alguma coisa? quis saber o amanuense. Se sentes, dize.<\/p>\n<p>&#8211; Apenas uma dorzinha aqui&#8230; &#8211; E indicou o flanco esquerdo.<\/p>\n<p>&#8211; Bom, bom, bom, quietinha&#8230;<\/p>\n<p>E desde esse dia aumentaram as suspeitas de D. Terezinha, que observava agora<br \/>\nos menores movimentos da afilhada, insistentemente, examinando-lhe a roupa<br \/>\nusada, medindo-lhe o volume da barriga, perseguindo-a com os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Isto, isto ainda acaba mal! pensava ela.<\/p>\n<h4><a name=\"13\"><\/a>XIII<\/h4>\n<p>Em poucos meses o estado interessante de Maria do Carmo foi carecendo de<br \/>\ncuidados mais s\u00e9rios, e Jo\u00e3o da Mata assim o julgou, tratando<br \/>\nlogo de arranjar uma casa, um s\u00edtio nos sub\u00farbios, onde ela<br \/>\npudesse tranq\u00fcilamente e sem esc\u00e2ndalo, alijar a carga, desembuchar<br \/>\na crian\u00e7a. Mas onde e como poderia ele dispor as coisas do melhor modo,<br \/>\nsem despertar a curiosidade p\u00fablica? Esta era a grande quest\u00e3o<br \/>\nque afligia o amanuense, cada vez que seu olhar vesgo descia sobre o ventre<br \/>\nda afilhada, vendo-o crescer dia a dia, tomar uma forma esf\u00e9rica inilud\u00edvel,<br \/>\narredondar-se, arquear-se para fora numa convexidade caracter\u00edstica<br \/>\ne esmagadora. &#8211; \u201cE agora?\u201d interrogava-se ele, passando a m\u00e3o<br \/>\nna calva. O caso ia se tornando grave, urgia fazer qualquer arranjo logo e<br \/>\nlogo, antes que a Tet\u00e9 rebentasse por a\u00ed em quatro pedras a<br \/>\nacus\u00e1-lo violentamente, atirando-lhe em rosto a sua infidelidade, o<br \/>\nseu crime, a sua pouca vergonha. A rapariga engordava a olhos vistos: s\u00f3<br \/>\num cego n\u00e3o veria dentro d\u2019aquela redondeza uma criatura humana<br \/>\nem forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Toda ela &#8211; o ventre, os seios, os bra\u00e7os, o rosto &#8211; inchava, adquiria<br \/>\num cunho extraordin\u00e1rio de maturidade precoce. Notavam-se-lhe agora,<br \/>\nasperezas na pele, uma cor seca de folha sazonada e certo ar amolentado que<br \/>\nse traduzia numa sonol\u00eancia infinita e na prematura tend\u00eancia<br \/>\npara o abandono de si mesma.<\/p>\n<p>Com efeito, Maria, apenas com quatro meses de gr\u00e1vida, tinha perdido<br \/>\nmuito da antiga express\u00e3o insinuante e viva de sua fisionomia. Na idade<br \/>\nem que a mulher, como a flor, em plena exuber\u00e2ncia dos tecidos, desabotoa<br \/>\nnuma singular alacridade de cores, toda frescura e beleza, ela, que n\u00e3o<br \/>\ntranspusera ainda os dezoito anos, olhava a vida com uma indiferen\u00e7a,<br \/>\n\u00fanica, estiolando ali assim entre as paredes d\u2019aquela casa sem<br \/>\nar e sem luz, esperando resignadamente o seu fim. Queria ver at\u00e9 quando<br \/>\nduraria aquele estado de coisas, at\u00e9 onde a queriam levar!<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o chegava \u00e0 janela com vergonha de ser vista pela<br \/>\nvizinhan\u00e7a e pelos conhecidos &#8211; refugiara-se, como uma culpada, no<br \/>\n\u00e1dito misterioso do seu quarto, egoisticamente, sem ao menos lembrar-se<br \/>\nda L\u00eddia que n\u00e3o a esquecia e que lhe mandava de onde em onde<br \/>\npresentezinhos, recados e abra\u00e7os.<\/p>\n<p>E Jo\u00e3o inquietava-se, procurando meio de evadir-se da alhada em que<br \/>\nse metera com risco de um esc\u00e2ndalo medonho!<\/p>\n<p>Havia um m\u00eas que Maria do Carmo ca\u00edra com o ataque no meio da<br \/>\nsala. D. Terezinha ruminava sutilidades para descobrir uma sombra sequer,<br \/>\num vest\u00edgio que confirmasse de uma vez as suas suspeitas. Batera todos<br \/>\nos aposentos, todos os cantos da casa, indagara da lavadeira se n\u00e3o<br \/>\nvira alguma n\u00f3doa, alguma mancha na roupa da afilhada; acordava vezes<br \/>\nsem conta, alta noite, prestando ouvidos a qualquer ru\u00eddo, por mais<br \/>\nleve, e nada! absolutamente nada! Faziam-lhe esp\u00e9cie os modos reservados<br \/>\nde Maria, esse impenetr\u00e1vel desgosto que a punha triste, com um ar<br \/>\nesquisito de \u201cgalinha choca\u201d. Alguma coisa havia, por for\u00e7a,<br \/>\nera capaz de jurar.<\/p>\n<p>D. Terezinha nunca mais dormira com Jo\u00e3o da Mata e era s\u00f3 quem<br \/>\npassava bem naquela casa; at\u00e9 estava criando banha no pesco\u00e7o.<br \/>\nPudera! Uma vida relativamente calma, senhora absoluta de seu nariz, ganhando<br \/>\num dinheir\u00e3o com o neg\u00f3cio de rendas que mandava para o norte<br \/>\npelo despenseiro do vapor, tudo corria-lhe \u00e0s mil maravilhas. Queria<br \/>\nter um pesinho para rusga, isso queria. E se ainda \u201cfazia vida\u201d<br \/>\ncom o Janj\u00e3o, era por condescend\u00eancia, para n\u00e3o dar esc\u00e2ndalo;<br \/>\nachava feio uma mulher deitar-se com um homem e depois &#8211; passe bem &#8211; abalar<br \/>\npor esse mundo afora, como uma doida, atr\u00e1s de aventuras. N\u00e3o<br \/>\nera mulher para essas coisas; o que queria era o seu descanso &#8211; comer bem,<br \/>\ndormir bem, passar bem; n\u00e3o admitia que a fizessem de tola.<\/p>\n<p>Tinha uma amiga sincera &#8211; a Am\u00e9lia, senhora do Dr. Mendes. Essa, sim,<br \/>\nsabia-lhe apreciar as virtudes, dar-lhe import\u00e2ncia, trat\u00e1-la<br \/>\ncom considera\u00e7\u00e3o, mesmo porque ela, Terezinha, trabalhava para<br \/>\nganhar a vida honradamente.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 tola, Tet\u00e9, a gente n\u00e3o deve se matar,<br \/>\ndizia-lhe a mulher do Dr. Mendes.<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 isso \u00e9 verdade, mas voc\u00ea o que quer? \u00c9 fado,<br \/>\n\u00e9 mania&#8230;<\/p>\n<p>As conhecidas admiravam-lhe a boa disposi\u00e7\u00e3o para o trabalho.<br \/>\nSentava-se \u00e0 m\u00e1quina \u00e0s dez horas do dia, cabelos \u00famidos<br \/>\nsobre a toalha de banho estendida nos ombros e labutava tr\u00eas, quatro<br \/>\nhoras consecutivas a cantarolar modinhas, costurando para o fornecedor da<br \/>\npol\u00edcia.<\/p>\n<p>E sempre gorda, sadia e forte!<\/p>\n<p>&#8211; Mulher mouro! dizia Jo\u00e3o da Mata aos amigos.<\/p>\n<p>Uma tarde, ao voltar da rua, o amanuense entrou alegre, como se tivesse tirado<br \/>\na sorte grande na loteria, saboreando um charuto mau que lhe dera o Guedes.<br \/>\nVinha um pouco toldado.<\/p>\n<p>&#8211; Olha esse jantar! bradou para dentro, atirando fora aponta do charuto.<br \/>\nE come\u00e7ou a cantar desafinadamente os Sinos de Corneville, ent\u00e3o<br \/>\nmuito repisados<\/p>\n<p>Vai, marinhei&#8230;ro,<\/p>\n<p>v\u00f4a ligei&#8230;ro,<\/p>\n<p>velas \u00e0 brisa<\/p>\n<p>no espelho do mar<\/p>\n<p>E logo:<\/p>\n<p>Nunca percas a esperan&#8230;\u00e7a,<\/p>\n<p>Quando houver temporal,<\/p>\n<p>que h\u00e1 de ver a bonan&#8230;\u00e7a,<\/p>\n<p>e depois o &#8230; final<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0 cena a Naghel, \u00e0 cena a Naghel! bradava o amanuense batendo<br \/>\nas palmas com f\u00faria.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda mais esta! resmungou D. Terezinha na sala de jantar.<\/p>\n<p>&#8211; Olha essa lambugem! tornou Jo\u00e3o enfiando pelo corredor.<\/p>\n<p>Estava num de seus dias felizes. Foi at\u00e9 \u00e0 cozinha acompanhado<br \/>\npelo Sult\u00e3o que lhe pulava \u00e0s pernas, ganindo alegre. Mariana<br \/>\nmexia o pir\u00e3o escaldado de farinha num velho alguidar de barro, com<br \/>\na saia arrepanhada na cintura, o casaco desabotoado, exibindo como de costume,<br \/>\no seu detest\u00e1vel colo nu.<\/p>\n<p>&#8211; Como vai isto, \u00f3 estafermo! rosnou o amanuense, espalmando a m\u00e3o<br \/>\nem cheio nas ancas da rapariga.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f4 Janj\u00e3o&#8230; fez esta pudicamente.<\/p>\n<p>E Jo\u00e3o trauteou, fazendo festa ao c\u00e3o.<\/p>\n<p>Mariana diz que tem<\/p>\n<p>sete saias de veludo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tenha modos, homem de Deus! repreendeu D. Terezinha. Tenha ju\u00edzo,<br \/>\nd\u00ea-se a respeito!<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 boa! Ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o de pode ser alegre?! Ora<br \/>\nmuito obrigado!<\/p>\n<p>Durante o jantar declarou que a Maria, no dia seguinte, domingo, ia passar<br \/>\numa semana no Coc\u00f3, em casa da tia Joaquina, conhecida pela velha dos<br \/>\ncajus.<\/p>\n<p>&#8211; Faz ela muito bem, aprovou D. Terezinha, com enfado, cortando o cozido.<\/p>\n<p>E Jo\u00e3o, muito meigo, olhando por cima dos \u00f3culos:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea compreende, ela anda adoentada, teve outro dia aquele amea\u00e7o&#8230;<br \/>\nn\u00e3o tem apetite, e o m\u00e9dico, o Dr. Azevedo, disse-me a mim que<br \/>\naquela gordura n\u00e3o val\u2019nada, \u00e9 toda posti\u00e7a, \u00e9<br \/>\numa gordura falsa&#8230; Sim, a rapariga coitada, precisa tomar o seu leitinho,<br \/>\ndescansar um pouco&#8230;<\/p>\n<p>Maria, que se sentara defronte da madrinha, n\u00e3o pode ocultar seu embara\u00e7o.<br \/>\nFez-se escarlate, e muito submissa:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 se a madrinha consentir&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ainda mais esta! Podes ir at\u00e9 p\u2019ra China quanto mais p\u2019ro<br \/>\nCoc\u00f3!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E tu, n\u00e3o queres ir tamb\u00e9m? perguntou Jo\u00e3o com certa<br \/>\nfrieza.<\/p>\n<p>Mas D. Terezinha torceu o bei\u00e7o com desd\u00e9m:<\/p>\n<p>&#8211; \u201cS\u00f3 se estivesse doida, credo\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 voc\u00ea com sua afilhada.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! se eu pudesse passar uma temporadazinha fora&#8230; suspirou Jo\u00e3o.<br \/>\nMas qual, minha filha, n\u00e3o posso faltar um s\u00f3 dia \u00e0 Reparti\u00e7\u00e3o,<br \/>\nque o chefe n\u00e3o venha logo com os seus arrebatamentos que o governo<br \/>\nn\u00e3o sustenta vadios, que o empregado p\u00fablico deve ser infal\u00edvel<br \/>\ncomo o papa, e tanta asneira!&#8230; Coitado, j\u00e1 est\u00e1 velho e suspira,<br \/>\ncomo eu, por uma aposentadoria.<\/p>\n<p>Houve um ligeiro sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 isto, tornou o amanuense limpando o bigode com a toalha.<br \/>\nEst\u00e1 ouvindo, Maria? Prepare o seu bauzinho, a sua roupinha. Amanh\u00e3<br \/>\ndepois da missa da madrugada. \u00c9 p\u2019ra l\u00e1 do Outeiro, na<br \/>\nAldeola, um sitiozinho, um lugar muito bom, muito saud\u00e1vel. A casa<br \/>\n\u00e9 que \u00e9 pobre, mas, ora! pobres somos n\u00f3s tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Os talheres batiam nos pratos com for\u00e7a. Jo\u00e3o falava mastigando,<br \/>\ncom a boca cheia, cortando o invari\u00e1vel e sedi\u00e7o lombo assado,<br \/>\ncom uma voracidade espantosa.<\/p>\n<p>Galinhas debicavam debaixo da mesa, cacarejando. Sult\u00e3o muito rechonchudo,<br \/>\nsentado nas patas traseiras, orelhas em p\u00e9, alongava o olhar s\u00faplice<br \/>\npara cima, \u00e0 espera que lhe ca\u00edsse um osso ou uma pelanca. Ouvia-se<br \/>\no miar desesperado de um gato na cozinha. De onde em onde a voz da Mariana<br \/>\npunha em debandada os parasitas de crista: &#8211; \u201cCh\u00f4, galinha! Ch\u00f4!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Havia um rumor d\u2019asas pesadas, e um velho galo de cauda furtacor estendia<br \/>\no pesco\u00e7o num cocoroc\u00f4 estridente e prolongado que fazia Jo\u00e3o<br \/>\nfechar os ouvidos, berrando para Mariana que enxotasse \u201caquele dem\u00f4nio\u201d.<\/p>\n<p>A sala de jantar era uma esp\u00e9cie de alpendre assentado sobre grossos<br \/>\npilares de tijolo, abrindo toda para o quintal, onde, \u00e0quela hora,<br \/>\nvia-se a roupa lavada a enxugar, de uma brancura de h\u00f3stia, ao redor<br \/>\nda cacimba. Fazia \u00e2ngulo \u00e0 esquerda com a cozinha, e, \u00e0<br \/>\ndireita, um velho muro escalavrado separava o quintal d\u2019outros quintais,<br \/>\ncom uma medonha dentadura de cacos de garrafa.<\/p>\n<p>Desde as tr\u00eas horas come\u00e7ava a fazer sombra no alpendre e \u00e0s<br \/>\nquatro j\u00e1 se podia respirar ali a frescura das ateiras.<\/p>\n<p>Sobre a mesa nada mais que um toalha com manchas de gordura, pratos e copos<br \/>\nem desordem, uma moringa muito estragada, bananas e laranjas.<\/p>\n<p>D. Terezinha fazia bocados de pir\u00e3o com os dedos em pinha e atirava<br \/>\na Sult\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Boa alma aquela tia Joaquina, continuou o amanuense acendendo o cigarro.<br \/>\nO mestre Cosme, esse \u00e9 um homem pobre, coitado, mas honesto como poucos.<br \/>\nVive de vender lenha na feira&#8230; Bom velho!<\/p>\n<p>&#8211; Leva estes pratos, Mariana, disse D. Terezinha erguendo-se.<\/p>\n<p>Tinha jantado num momento.<\/p>\n<p>A tia Joaquina, conhecida no mercado pela velhinha dos cajus, e mais o mestre<br \/>\nCosme, eram um pobre casal que moravam na Aldeota, cerca de um quil\u00f4metro<br \/>\nda cidade, numa casinhola de taipa, dentro de um largo cercado de pau-a-pique<br \/>\nplantado de cajueiros, todo verde no inverno, com um grande po\u00e7o no<br \/>\ncentro, cavado toscamente, e ao fundo do qual sangrava um veio d\u2019\u00e1gua<br \/>\ncristalina.<\/p>\n<p>Era a\u00ed que viviam, h\u00e1 anos, desde a seca de -77, entre brenhas<br \/>\nde camapus e matapasto, \u00e0 sombra dos cajueiros, felizes, sem filhos.<br \/>\nCorria-lhe a vida como um abundante manancial d\u2019\u00e1guas l\u00edmpidas<br \/>\nem leito de areia.<\/p>\n<p>Pela manh\u00e3, muito cedo, mestre Cosme saltava da rede armada no alpendre,<br \/>\nenfiava a grossa camisa d\u2019algod\u00e3o e l\u00e1 ia, com um x\u00edcara<br \/>\nde caf\u00e9 no est\u00f4mago, atr\u00e1s da jumenta, da sua insepar\u00e1vel<br \/>\njumenta, que lhe dava o p\u00e3o de cada dia e que carinhosamente chamava-a<br \/>\nCoruja. O d\u00f3cil animal costumava pastar \u00e0 beira da cerca, t\u00e3o<br \/>\nfeliz quanto o dono, cuja presen\u00e7a punha-lhe uma express\u00e3o reconhecida<br \/>\nno olhar manso. Mestre Cosme metia-lhe o focinho no freio, armava-lhe a cangalha,<br \/>\ne abalava para o morro do Coc\u00f3 a explorar a mata, a fazer lenha para<br \/>\nvender no mercado a dez tost\u00f5es a carga. Um dinheir\u00e3o!<\/p>\n<p>Mestre Cosme n\u00e3o queria vida melhor. Ao por do sol voltava com seus<br \/>\nricos dobr\u00f5es na ponta do len\u00e7o, escanchado na Coruja, sem cuidados,<br \/>\ndebaixo do seu grande chap\u00e9u de palha de carna\u00faba.<\/p>\n<p>Tia Joaquina ficava trocando os bilros na almofada, Mas, em chegando o fim<br \/>\ndo ano, ia tamb\u00e9m \u00e0 cidade fazer o seu neg\u00f3cio, com uma<br \/>\ngrande cuia na cabe\u00e7a: &#8211; \u201cOlha o cajuzinho bom do Coc\u00f3!<br \/>\nOlha o cajuzinho bom!\u201d E voltava com a cuia vazia e com a isquinha de<br \/>\nf\u00edgado para a ceia ou com o cangulinho fresco d\u2019alto mar.<\/p>\n<p>Chamavam-na a velhinha dos cajus, porque os cajus que tia Joaquina vendia<br \/>\ntinham um sabor especial, eram doces como a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>Queriam-se os dois como um casal novo em lua de mel. \u201cmeu velho\u201d<br \/>\ne \u201cminha velha\u201d &#8211; \u00e9 como se tratavam.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata conhecia-os de longa data, desde a seca, por sinal naquele<br \/>\ntempo tinham uma filha mo\u00e7a &#8211; tamb\u00e9m Maria (Maria das Dores)<br \/>\nque morrera das febres em 77. Jo\u00e3o era comiss\u00e1rio de Socorros<br \/>\ne fazia-lhes muitos benef\u00edcios. Mestre Cosme morava, ent\u00e3o,<br \/>\nno Paje\u00fa, numa palho\u00e7a miser\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Tempo de calamidades! murmurava o velho ao lembrar-se da seca.<\/p>\n<p>O amanuense viu o mestre Cosme no mercado e teve a id\u00e9ia de lhe falar<br \/>\nda ida de Maria do Carmo para a Aldeota \u201c-Tinha um grande favor a pedir<br \/>\nao mestre Cosme\u201d, come\u00e7ou, pousando a m\u00e3o no ombro do<br \/>\nvelho<\/p>\n<p>&#8211; Pois diga l\u00e1&#8230; Seu Jo\u00e3ozinho sabe que a gente vive no mundo<br \/>\np\u2019ra servir uns aos outros&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 isto, mestre Cosme: A Maria, minha afilhada, tem andado doente,<br \/>\ncoitada, est\u00e1 fraquinha, precisa tomar um pouco de leite fora da cidade&#8230;<br \/>\nEu queria que ela fosse passar uns tempos no Coc\u00f3, a rapariga tem um<br \/>\nfastio que at\u00e9 mete pena&#8230;<\/p>\n<p>O bom velho ficou admirado: \u201c- S\u00f3 isso?&#8230; Ora, seu Jo\u00e3ozinho,<br \/>\nisso n\u00e3o \u00e9 favor! Eu at\u00e9 estimo. A menina pode ir quando<br \/>\nquiser. \u00c8 casa de pobre, vocemec\u00ea bem sabe, mas a gente sempre<br \/>\nveve&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois est\u00e1 bem, mestre Cosme, a pequena vai domingo cedo. Diga \u00e0<br \/>\ntia Joaquina. Deixe estar que n\u00e3o lhe esquecerei. Lembra-se da seca?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se me alembro? Ora, ora, ora, como se fosse hoje. Comi muita farinha do<br \/>\nseu Jo\u00e3ozinho, pois n\u00e3o hei de me alembrar? Aquilo \u00e9<br \/>\nque foi morrer gente!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem. Voc\u00ea ainda mora na mesma casa, n\u00e3o \u00e9 assim?<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor, p\u2019ra l\u00e1 do Asil; na Aldeota, \u00e0 direita<br \/>\nde quem sobe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem, adeus. Domingo, sem falta. Tome l\u00e1 p\u2019ra voc\u00ea<br \/>\ncomprar fumo.<\/p>\n<p>E Jo\u00e3o deu um n\u00edquel ao velho.<\/p>\n<p>Estava tudo arranjado.<\/p>\n<p>O amanuense come\u00e7ou a ver claro na espessa caligem de seu esp\u00edrito.<br \/>\nDecididamente era um homem de recurso.<\/p>\n<p>No domingo, com efeito, depois da missa da madrugada na S\u00e9, Maria<br \/>\ndo Carmo e o padrinho seguiram para a Aldeota, a p\u00e9.<\/p>\n<p>Ainda tremeluziam estrelas no alto. Para as bandas do Cora\u00e7\u00e3o<br \/>\nde Jesus, por ente os coqueiros que se avistavam da pra\u00e7a do Col\u00e9gio,<br \/>\nnuvens esfarripavam-se numa soberba apoteose de p\u00farpura e violeta.<\/p>\n<p>Tinham-se apagado as luzes da cidade e pouco a pouco, imperceptivelmente,<br \/>\ncomo numa m\u00e1gica, sucediam-se as nuances, cada vez mais claras, esbatendo<br \/>\no contorno das coisas h\u00e1 pouco difundidas numa meia tinta escura. Ia-se<br \/>\nfazendo gradativamente a majestosa mise-en-sc\u00eane do dia: clar\u00f5es<br \/>\nrasgavam-se d\u2019um e d\u2019outro lado do horizonte, incendiando a fachada<br \/>\ndos edif\u00edcios e o cabe\u00e7o dos montes long\u00ednquos, iluminando<br \/>\ntudo&#8230;<\/p>\n<p>Ao passarem pela Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, a normalista olhou por<br \/>\nentre as grades do col\u00e9gio. L\u00e1 estavam, como antes, sombrios<br \/>\ne silenciosos, os quatro p\u00e9s de tamarindo, numa imobilidade t\u00edmida<br \/>\ne respeitosa. Ouvia-se l\u00e1 dentro o coro abafado das educandas ora pro<br \/>\nnobis&#8230;ora pro nobis. Maria teve um estremecimento, um vago desejo de viver<br \/>\ncomo as irm\u00e3s de caridade; mas passou logo&#8230;<\/p>\n<p>Ia vestida de preto, com o pesco\u00e7o e a cabe\u00e7a envolvidos num<br \/>\nfichu cor de creme, segurando o manual da missa.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o ao lado fumava distraidamente, muito preocupado.<\/p>\n<p>Chegaram \u00e0 pra\u00e7a do Asilo. O grande edif\u00edcio, \u00e0<br \/>\nesquerda, abria as janelas sonolentas para o descampado. Havia luz dentro.<br \/>\n\u00c0 direita, no meio da pra\u00e7a, a \u201ccacimba do povo\u201d,<br \/>\ncor de tijolo, em forma de quiosque, desolada \u00e0quela hora, tinha um<br \/>\naspecto misterioso, quase l\u00fagubre. E adiante, l\u00e1 longe, por<br \/>\ntr\u00e1s da floresta baixa e espessa, branquejavam os morros do alto Coc\u00f3.<\/p>\n<p>J\u00e1 era dia. Mulheres em tamancos passavam para a cidade falando alto,<br \/>\nde cachimbo no queixo, cuia de hortali\u00e7as na cabe\u00e7a, ar desenvolto,<br \/>\nchale tran\u00e7ado.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata perguntou a uma delas \u201cse ainda estava longe o<br \/>\nmestre Cosme?\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Hum, hum, respondeu a mulher, meneando a cabe\u00e7a, sem tirar o cachimbo<br \/>\nda boca.<\/p>\n<p>E voltando-se:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 vendo aquele cercado l\u00e1 adiante, aquela casinha branca<br \/>\nna encruzilhada? pois \u00e9 ali.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado.<\/p>\n<p>Corria um ar fresco e matinal. Revoada de periquitos, num v\u00f4o de flecha,<br \/>\ncortavam a limpidez da atmosfera e desciam d\u2019um e d\u2019outro lado<br \/>\nda estrada sobre o matagal espesso e verde. As primeiras chuvas do ano tinham<br \/>\nfecundado a terra, cuja exuber\u00e2ncia ostentava-se agora prodigiosamente<br \/>\nna espl\u00eandida paisagem que os olhos de Maria do Carmo viam com admira\u00e7\u00e3o.<br \/>\nSentia-se um fartum de terra \u00famida que fazia gosto. As matas da Aldeola,<br \/>\nde um verde gaio pitoresco, estendiam-se por ali fora, a perder de vista,<br \/>\neri\u00e7adas pelo terral, sob a larga irradia\u00e7\u00e3o do sol nascente.<\/p>\n<p>Aquela estrada branca de areia, larga e intermin\u00e1vel, desenrolava-se<br \/>\naos olhos da normalista como uma via l\u00e1ctea de ilus\u00f5es, como<br \/>\num caminho de ouro que a conduzisse a uma outra vida, completamente outra<br \/>\ndaquela que at\u00e9 ali vivera, a uma vida sossegada, sem hipocrisias e<br \/>\nsem trai\u00e7\u00f5es, sem dores e sem l\u00e1grimas&#8230;<\/p>\n<p>Fazia-lhe bem, como um t\u00f4nico, o ar fresco da manh\u00e3 que lhe<br \/>\nbafejava o rosto. Sentia-se melhor respirando aquele ar, bebendo toda a selvagem<br \/>\nfrescura do campo, todo o delicioso, o inef\u00e1vel perfume que se levanta<br \/>\ndos crotons e das salsas bravas.<\/p>\n<p>&#8211; Que dizes a isto, hein? perguntou Jo\u00e3o bruscamente, apontando o<br \/>\ncampo. Vais engordar, minha filha, vais passar bem. Para longe a tristeza,<br \/>\npara longe as m\u00e1goas, e deixa correr o marfim.<\/p>\n<p>E descrevendo um c\u00edrculo com a m\u00e3o espalmada.<\/p>\n<p>&#8211; Como est\u00e1 isto bonito! N\u00e3o h\u00e1 not\u00edcia de inverno<br \/>\nigual. Mete inveja, a quem mora naquele inferno de cidade. Uma del\u00edcia,<br \/>\nMaria, isto \u00e9 que \u00e9 vida! O que vais engordar!<\/p>\n<p>Aproximaram-se da casinha de mestre Cosme. Vacas babujavam silenciosamente<br \/>\ne voltavam a cabe\u00e7a com uma vagarosa melancolia no olhar.<\/p>\n<p>Os velhos j\u00e1 estavam de p\u00e9 na porteira do cercado.<\/p>\n<p>&#8211; Ora muito bom dia! saudou o amanuense<\/p>\n<p>&#8211; Louvado seja N. S. Jesus Cristo, correspondeu a tia Joaquina, recuando.<br \/>\n&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 esta a sua afilhada.<\/p>\n<p>&#8211; Esta mesma, tia Joaquina. Mo\u00e7a feita e&#8230; bonitona, como est\u00e1<br \/>\nvendo.<\/p>\n<p>&#8211; Entrem, entrem, convidou mestre Cosme sol\u00edcito.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor! fez a velha admirada. Bonita mesmo, pode dizer! Coitadinha,<br \/>\nparece que vem t\u00e3o cansada&#8230;<\/p>\n<p>Maria teve um sorriso consolado. Estava, com efeito, cansada e p\u00e1lida.<\/p>\n<p>Houve logo um princ\u00edpio de intimidade entre ela e os velhos, que n\u00e3o<br \/>\ncessavam de contemplar o seu belo perfil de novi\u00e7a envolto numa penumbra<br \/>\nmelanc\u00f3lica.<\/p>\n<p>Provisoriamente instalada no seu buc\u00f3lico e nemoroso retiro da Aldeota,<br \/>\nlonge de tudo que lhe arreliava o ju\u00edzo, a um bom quil\u00f4metro<br \/>\ndas rabujices de D. Terezinha e do mau h\u00e1lito de Jo\u00e3o da Mata,<br \/>\noutra foi com efeito a vida de Maria do Carmo. O viver simples e sossegado<br \/>\nde Mestre Cosme e da tia Joaquina, o aspecto \u00famido da mata resplandecendo<br \/>\nnum fundo verde claro e onde variados matizes da flora agreste punham efeitos<br \/>\nsurpreendentes, o bom leite puro e fresco bebido pela madrugada \u00e0 porta<br \/>\ndo curral, e, \u00e0 tardinha, quase ao anoitecer, o viol\u00e3o de mestre<br \/>\nCosme gemendo saudades de um pa\u00eds remoto e aben\u00e7oado, a liberdade<br \/>\nque se bebia ali na larga conviv\u00eancia da Natureza, tudo isto robustecia-lhe<br \/>\no corpo e a alma, inoculando-lhe no sangue um conforto viril, ressuscitando-lhe<br \/>\no quase extinto amor \u00e0 vida, a alegria, a mocidade, e as apagadas reminisc\u00eancias<br \/>\ndo bom tempo em que ela, ainda inocente, em Campo Alegre, ia esperar o papai<br \/>\nque voltava da vasante.<\/p>\n<p>Que mudan\u00e7a na sua vida, que transforma\u00e7\u00f5es desde 77!<br \/>\nAntes nunca tivesse sa\u00eddo da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o para<br \/>\nse meter numa escola sem disciplina e sem moralidade, sem programa e sem mestres,<br \/>\ne onde uma rapariga, filha de fam\u00edlia, \u00e9 expulsa da aula porque<br \/>\noutra de maus costumes escreveu obscenidades na pedra!<\/p>\n<p>Mil vezes a Imaculada Concei\u00e7\u00e3o com os seus claustros, com<br \/>\nas suas capelas, com o seu sil\u00eancio respeitoso, com a sua disciplina<br \/>\naustera; ao menos n\u00e3o teria voltado \u00e0 casa dos padrinhos, \u00e0quela<br \/>\nmaldita casa de hip\u00f3critas, e n\u00e3o teria dado espet\u00e1culos<br \/>\ncom Sr. Zuza.<\/p>\n<p>Ah! o Zuza&#8230; Vinha-lhe um forte desejo de vingar-se do estudante, de caluni\u00e1-lo<br \/>\ne de culp\u00e1-lo pela sua desgra\u00e7a. \u00c0quela hora o que n\u00e3o<br \/>\nestariam dizendo d\u2019ela na cidade?&#8230;<\/p>\n<p>Pensava essas coisas no seu pobre quartinho de taipa abrindo para a Natureza,<br \/>\nenquanto tia Joaquina fazia rendas.<\/p>\n<p>Dentro de um m\u00eas era not\u00e1vel a influ\u00eancia do campo na<br \/>\nsua sa\u00fade. Criara novas cores, novo sangue, muito sol\u00edcita agora<br \/>\nnas preocupa\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>&#8211; A menina Maria est\u00e1 criando banha! admirava a tia Joaquina. Sim<br \/>\nsenhora!<\/p>\n<p>&#8211; O leite, tia Joaquina, o leitinho \u00e9 que tem me feito bem.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata aos domingos, invariavelmente, ia ver a afilhada, afetando<br \/>\ngrande interesse por seu estado. Dizia-lhe as novidades, os esc\u00e2ndalos,<br \/>\ndava-lhes lembran\u00e7as da L\u00eddia Campelo, e, ao retirar-se prevenia:<br \/>\n&#8211; \u201cSe houver necessidade mandem-me dizer\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 descansado, seu Jo\u00e3ozinho, v\u00e1 descansado, que h\u00e1<br \/>\nde chegar o dia&#8230;<\/p>\n<p>Mas o estado de Maria do Carmo n\u00e3o inspirava cuidados. O \u00fatero<br \/>\nrevigorava, funcionando com a regularidade precisa d\u2019uma excelente m\u00e1quina<br \/>\nmoderna; por sinal Maria, desde que se mudara para a Aldeota, nunca mais sentira<br \/>\npontadas.<\/p>\n<p>O amanuense exultava, alegre e feliz. A princ\u00edpio receara um aborto,<br \/>\nmas agora tinha a certeza de que triunfavam as qualidades procriadoras da<br \/>\nrapariga.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, pensava ele, roendo o canto das unhas. Um bom \u00fatero \u00e9<br \/>\ntudo na mulher: eq\u00fcivale a um bom c\u00e9rebro!<\/p>\n<p>E esquecia-se a filosofar na vida intra-uterina, admirando-se muito do que<br \/>\numa simples gota de esperma pudesse gerar um homem!<\/p>\n<h4><a name=\"14\"><\/a>XIV<\/h4>\n<p>A aus\u00eancia de Maria do Carmo n\u00e3o passou despercebida \u00e0s<br \/>\nrodas de cal\u00e7ada e aos freq\u00fcentadores do Caf\u00e9 Java, cujo<br \/>\ntema quotidiano &#8211; a pol\u00edtica &#8211; n\u00e3o lhe satisfazia o prurido<br \/>\nde entrar pela vida alheia a esmiu\u00e7ar esc\u00e2ndalos como quem procura<br \/>\nagulha em palheiro.<\/p>\n<p>Nas portas de botica, nos caf\u00e9s, nas reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas,<br \/>\nmo mercado, em toda aparte comentava-se o desaparecimento da normalista, em<br \/>\ntom misterioso e com risadinhas sublinhadas a princ\u00edpio, depois abertamente,<br \/>\nsem rebu\u00e7os, com uma ponta de perf\u00eddia, traindo a sisudez convencional<br \/>\nda burguesia aristocrata.<\/p>\n<p>Que tinha ido tomar ares a Maracana\u00fa, afirmavam uns acentuando a ironia:<br \/>\noutros &#8211; que andava adoentada de uma pneumonia \u201cproveniente de desarranjos<br \/>\nna madre\u201d; outros &#8211; que estava proibida de sair \u00e0 rua e de chegar<br \/>\n\u00e0 janela por desconfian\u00e7as do amanuense. Alguns, por\u00e9m,<br \/>\ncomo o Jos\u00e9 Pereira, comunicavam secretamente, pedindo toda a cautela,<br \/>\nque a rapariga tinha sido raptada por um paraense e que se achava depositada<br \/>\nno Coc\u00f3, em casa de uma tal Joaquina Xemxem, por sinal o Manoel Pombinha,<br \/>\ntip\u00f3grafo, \u201cos vira passar uma note embu\u00e7ados numa capa<br \/>\npreta\u201d caminho do Outeiro.<\/p>\n<p>Na Escola Normal rebentavam suspeitas \u00e0 flor das discuss\u00f5es<br \/>\nque preenchiam o intervalo das aulas.<\/p>\n<p>Quem, a Maria do Carmo? Aquela mesma n\u00e3o era mais mo\u00e7a, n\u00e3o,<br \/>\nmeu bem. Ela sempre fora muito metida \u00e1 aristocrata, por isso mesmo<br \/>\nca\u00edra na m\u00e3os de um Zuza. Era bem feito! Uma grand\u00edssima<br \/>\norgulhosa com carinha de santa. A\u00ed estava a santidade&#8230;<\/p>\n<p>Vinham \u00e0 baila casos an\u00e1logos de filhas-fam\u00edlias que<br \/>\ntinham ido para fora da cidade tomar ares e, no fim de contas, iam mas era<br \/>\n\u201cdesembuchar\u201d onde ningu\u00e9m pudesse ver&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, j\u00e1 apareceu a rapariga? perguntava-se com interesse.<\/p>\n<p>O Guedes ardia em desejos de saber a verdade nua e crua. Diabo de tantas<br \/>\nhist\u00f3rias e ningu\u00e9m descobria a inc\u00f3gnita do problema.<\/p>\n<p>Aproveitou uma ocasi\u00e3o em que Jo\u00e3o da Mata jogava a bisca no<br \/>\nZ\u00e9 Gato. O amanuense estava j\u00e1 um pouco atordoado pela cacha\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 agora! pensou da Matraca, e formalizou-se, carregando o chap\u00e9u<br \/>\npara a nuca.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o \u00e9 verdade o que se diz por a\u00ed, \u00f3 Jo\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Sobre os amores secretos do falecido presidente?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, homem, n\u00e3o \u00e9 essa a ordem do dia. Isso passou.<br \/>\nA quest\u00e3o \u00e9 outra.<\/p>\n<p>&#8211; Desembucha!<\/p>\n<p>&#8211; Pergunto se \u00e9 verdade o que corre sobre&#8230;<\/p>\n<p>-&#8230; Sobre a Maria do Carmo? Uma cal\u00fania, seu Guedes, uma cal\u00fania.<br \/>\nVoc\u00ea bem conhece este povo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu j\u00e1 tinha dito isso mesmo a alguns amigos: que a D. Mariquinha<br \/>\nera incapaz de semelhante procedimento.<\/p>\n<p>&#8211; Idem, idem, atalhou o Perneta embaralhando as cartas. Essa \u00e9 a minha<br \/>\nopini\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; E que fosse verdade, continuou Jo\u00e3o da Mata partindo o baralho,<br \/>\ne que fosse verdade, n\u00e3o era da conta de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Que d\u00favida! confirmou o Guedes.<\/p>\n<p>&#8211; Mando copas, rosnou o amanuense.<\/p>\n<p>E o jogo continuou sem que o Guedes soubesse a verdade.<\/p>\n<p>Mas, ao retirarem-se, cerca de meia noite, interpelou novamente o amanuense<br \/>\nna esquina, \u00e0 luz de um lampi\u00e3o. Jo\u00e3o da Mata cambaleava,<br \/>\nequilibrando-se, a praguejar contra o cal\u00e7amento das ruas e contra<br \/>\na C\u00e2mara Municipal. A rua do trilho perdia-se na escurid\u00e3o, silenciosa<br \/>\ncomo um subterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>O Guedes tinha tomado pouco nesse noite e fumava o seu cigarro com um grande<br \/>\nar de superioridade, pisando forte, o gesto largo e o palet\u00f3 aberto<br \/>\nnum abandono frouxo de bo\u00eamio.<\/p>\n<p>&#8211; Cuidado ! n\u00e3o v\u00e1s cair, avisava com as m\u00e3os nos ombros<br \/>\ndo outro.<\/p>\n<p>&#8211; Que cair nada, homem! Pensas tu que estou b\u00eabedo, hein? est\u00e1s<br \/>\nmuito enganado! O diabo dos \u00f3culos escuros \u00e9 que n\u00e3o<br \/>\nme deixam ver bem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Por aqui, por aqui, guiava o Guedes, cauteloso. Espera, vais fumar um cigarrinho<br \/>\nfino&#8230;<\/p>\n<p>Pararam. Um pol\u00edcia passou do outro lado da rua, sonolento e l\u00fagubre.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o redator da Matraca abra\u00e7ando o amigo pelo pesco\u00e7o,<br \/>\ndepois de lhe ter dado o lume:<\/p>\n<p>&#8211; Tu n\u00e3o me quiseste ser franco ainda agora na presen\u00e7a do<br \/>\nPerneta, mas n\u00f3s somos amigos&#8230; tu sabes&#8230; Aonde diabo meteste tu<br \/>\na rapariga?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o cuspinhou para o lado.<\/p>\n<p>&#8211; Hein?<\/p>\n<p>&#8211; A Maria do Carmo, onde anda ela?<\/p>\n<p>&#8211; Ah! seu marreco, voc\u00ea quer saber onde est\u00e1 a rapariga, hein?<br \/>\nPois n\u00e3o lhe digo, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fala s\u00e9rio, homem. Dizem que est\u00e1 no Coc\u00f3, que teve<br \/>\num filho?&#8230; Juro-te como esta boca n\u00e3o se abrir\u00e1&#8230; Sentemo-nos<br \/>\naqui um pouquinho, que ainda n\u00e3o deu meia-noite.<\/p>\n<p>Sentaram-se \u00e0 beira da cal\u00e7ada, debaixo do g\u00e1s e o amanuense,<br \/>\nencostando-se \u00e0 coluna do lampi\u00e3o, o chap\u00e9u, o insepar\u00e1vel<br \/>\nchile enterrado na cabe\u00e7a, foi dizendo \u00e0 meia voz:<\/p>\n<p>&#8211; A coisa n\u00e3o \u00e9 como se diz, seu Guedes; a verdade \u00e9<br \/>\nesta, que eu lhe confio porque sei que voc\u00ea \u00e9 meu amigo: a menina<br \/>\nest\u00e1 no Coc\u00f3, mas ainda n\u00e3o teve a crian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, quero dizer, voc\u00ea bem sabe o que quero dizer&#8230;<\/p>\n<p>O Guedes era todo ouvidos.<\/p>\n<p>Luziam-lhe os bugalhos no fundo das \u00f3rbitas, parados, im\u00f3veis,<br \/>\ncaindo sobre o amanuense com a fixidez de clarab\u00f3ias de vidro. Sentia<br \/>\num prazer especial, uma como\u00e7\u00e3ozinha esquisita, um extraordin\u00e1rio<br \/>\nbem estar ao ouvir a hist\u00f3ria, a verdadeira hist\u00f3ria do esc\u00e2ndalo,<br \/>\nnarrada pelo Jo\u00e3o da Mata, pela pr\u00f3pria boca do padrinho da<br \/>\nrapariga, gente de casa, testemunha ocular.<\/p>\n<p>Encolhia-se todo de gozo, ante aquelas maravilhosas palavras do amanuense.<\/p>\n<p>&#8211; E o pai?<\/p>\n<p>&#8211; Que pai? O pai morreu no Par\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, homem, o pai da crian\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim&#8230; o pai da crian\u00e7a, o Zuza? Pois n\u00e3o foi-se embora para<br \/>\nRecife? Aquilo \u00e9 um infame, um biltre&#8230; Eu c\u00e1 previa tudo quando<br \/>\nproibi formalmente que a pequena lhe mostrasse o nariz, logo a princ\u00edpio,<br \/>\nmas, que querem? encontravam-se na Escola Normal, no Passeio P\u00fablico,<br \/>\ne, afinal foi o que resultou&#8230;<\/p>\n<p>Soaram doze badaladas graves e dormentes na S\u00e9. Jo\u00e3o contou<br \/>\numa a uma.<\/p>\n<p>&#8211; Meia noite, seu compadre, vou-me embora, adeus! Perdi hoje tanto como dez<br \/>\npintos.<\/p>\n<p>E separaram-se friamente, como dois desconhecidos.<\/p>\n<p>Perto de casa o amanuense esbarrou com um vulto que se movia no escuro, &#8211;<br \/>\nera um burro, o pobre animal babujava a rama da coxia, solit\u00e1rio e<br \/>\nmudo.<\/p>\n<p>Uma vez senhor do segredo, o Guedes n\u00e3o se conteve, disse-o, ao ouvido<br \/>\nPerneta, e com pouco ningu\u00e9m ignorava na cidade, \u201cque a normalista<br \/>\ndo Trilho fora desembuchar, ao Coc\u00f3, um filho do Zuza\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Do Zuza? exclamou o Jos\u00e9 Pereira ao saber da novidade na reda\u00e7\u00e3o<br \/>\nda Prov\u00edncia, pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, do Zuza, confirmou o Castrinho pousando a pena atr\u00e1s da orelha.<br \/>\n\u00c9 o que diz o p\u00fablico. Vox populi&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E esta!<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pereira arrepanhou as abas da sobrecasaca, e, passeando o olhar<br \/>\nsobre a banca de trabalho onde destacavam dois grandes dicion\u00e1rios<br \/>\nde Aulete, sentou-se vagarosamente, voltando para o poeta.<\/p>\n<p>&#8211; Admira-se voc\u00ea, tornou este. Oh! homem, pois um fato que toda gente<br \/>\nprevia!..<\/p>\n<p>O outro recomendou que falasse mais baixo por causa dos tip\u00f3grafos&#8230;<\/p>\n<p>E o Castrinho, \u00e0 meia voz, estrangulado por uns colarinhos extraordinariamente<br \/>\naltos:<\/p>\n<p>&#8211; Qual! O fato est\u00e1 no dom\u00ednio p\u00fablico, n\u00e3o h\u00e1<br \/>\npor a\u00ed quem n\u00e3o o saiba. Dizem que o velho Souza Nunes s\u00f3<br \/>\nfalta perder a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Em todo caso sempre era prudente guardar certo sigilo, negar mesmo , se poss\u00edvel<br \/>\nfosse, uma vez que se tratava da reputa\u00e7\u00e3o do Zuza&#8230;<\/p>\n<p>Meninos de bolsa a tiracolo questionavam com o agente da folha, do outro<br \/>\nlado do tabique que dividia a sala da reda\u00e7\u00e3o e onde se viam<br \/>\no empilhamento de jornais sobre uma velha mesa gasta.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco entrou o Elesb\u00e3o, outro redator, um sujeito l\u00fagubre,<br \/>\nmuito p\u00e1lido, faces encovadas, olhar triste, tossindo devagar. Foi<br \/>\nperguntando, numa voz sumida e lenta, do que se tratava.<\/p>\n<p>O Castrinho disse, empertigando-se na cadeira, que se tratava \u201cdos<br \/>\nbrios da sociedade cearense\u201d. O outro arregalou os olhos com ar de espanto.<br \/>\n&#8211; Como assim? E explicou: Tinha estado fora, na Guai\u00faba, a leites,<br \/>\nn\u00e3o sabia as novidades.<\/p>\n<p>&#8211; Um fato muito natural, disse Jos\u00e9 Pereira, nada mais que a reprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\nde fatos velhos&#8230; N\u00e3o valia a pena tocar na ferida&#8230;<\/p>\n<p>Mas o Esleb\u00e3o estranhou que \u201cos colegas\u201d tivessem segredos<br \/>\npara ele&#8230; E, depois de saber o \u201cmist\u00e9rio\u201d:<\/p>\n<p>&#8211; Magn\u00edfico assunto para folhetim realista, hein?<\/p>\n<p>Escrevia folhetins realistas para o rodap\u00e9 da Prov\u00edncia e trabalhava<br \/>\nnum livro de f\u00f4lego, os Mist\u00e9rios de Arronches, com que, dizia,<br \/>\npretendia fundar uma escola \u201cmais consent\u00e2nea com o estado atual<br \/>\nda ci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>A sua opini\u00e3o sobre o novo esc\u00e2ndalo que preocupava agora a<br \/>\npopula\u00e7\u00e3o cearense era que \u201cn\u00f3s ainda n\u00e3o<br \/>\nt\u00ednhamos compreendido o importante papel da mulher na civiliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; A educa\u00e7\u00e3o feminina, acrescentou com cansa\u00e7os na voz,<br \/>\na educa\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 um mito ainda n\u00e3o compreendido<br \/>\npelos corifeus da moderna pedagogia. Quer\u00edamos introduzir no Cear\u00e1<br \/>\nos dissolventes costumes parisienses, \u00e0 fortiori, mas n\u00e3o eram<br \/>\nessas as tend\u00eancias do nosso povo essencialmente cat\u00f3lico e essencialmente<br \/>\ncr\u00e9dulo. N\u00e3o admitia a teocracia tal como a aceitavam os padres<br \/>\n&#8211; \u201cessa corja de especuladores\u201d &#8211; mas era preciso respeita as<br \/>\ncren\u00e7as populares, o verdadeiro sentimento religioso, sem hipocrisia,<br \/>\nsem preconceitos.<\/p>\n<p>De quando em quando a tosse o interrompia, uma tossezinha seca e pigarreada;<br \/>\nlevava a m\u00e3o ao peito e expectorava. &#8211; \u201cDiabo de catarro n\u00e3o<br \/>\no deixava em paz!\u201d<\/p>\n<p>E, continuando:<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 a Escola Normal, n\u00e3o me dir\u00e3o? Uma escola sem<br \/>\nmestres, um estabelecimento anacr\u00f4nico, onde as mo\u00e7as v\u00e3o<br \/>\ntagarelar, v\u00e3o passar o tempo a ler romances e a maldizer o pr\u00f3ximo,<br \/>\ncomo voc\u00eas sabem melhor que eu&#8230;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pereira contestou, lembrando o Berredo, \u201cuma ilustra\u00e7\u00e3o<br \/>\ninvej\u00e1vel\u201d , o padre Lima, \u201cum excelente educador em cujas<br \/>\naulas as raparigas aprendiam ao mesmo tempo a ci\u00eancia e a religi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o t\u00eam m\u00e9todo, n\u00e3o fazem caso d\u2019aquilo,<br \/>\nv\u00e3o ali por honra da firma, por amor aos cobres, rebateu o Esleb\u00e3o,<br \/>\nforcejando por falar alto. Aquilo \u00e9 uma sinecura, n\u00e3o temos<br \/>\neducadores, \u00e9 o que \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea deste modo ofende o atual diretor da Escola Normal, tido e havido<br \/>\ncomo um pedagogista de primo cartello! advertiu o Castrinho, que se conservava<br \/>\ncalado.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o ofendo a ningu\u00e9m, ao contr\u00e1rio, folgo em reconhecer<br \/>\nnele um homem estudioso e bem intencionado, mas isto n\u00e3o basta , meu<br \/>\ncaro&#8230;<\/p>\n<p>Novo acesso de tosse desta vez mais prolongado.<\/p>\n<p>-&#8230; \u00c9 preciso orienta\u00e7\u00e3o e muito bom senso, isto \u00e9<br \/>\njustamente o que falta aos nossos corpos docentes&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tudo isso \u00e9 in\u00fatil, Elesb\u00e3o, tudo isso \u00e9 completamente<br \/>\nin\u00fatil quando uma mulher tende fatalmente para um homem. Foi o que<br \/>\nse deu com a Maria do Carmo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, gabou o Castrinho roendo as unhas desesperadamente. Dizem<br \/>\nque \u00e9 inteligente e bem educada.<\/p>\n<p>&#8211; E al\u00e9m d\u2019isto, acrescentou Jos\u00e9 Pereira, uma rapariga<br \/>\nat\u00e9 morigerada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o creio, duvidou o Esleb\u00e3o batendo com o p\u00e9, curvado,<br \/>\nj\u00e1 com uma po\u00e7a de cuspo ao lado da cadeira, no ch\u00e3o.<br \/>\nO amor tem suas exig\u00eancias, incontestavelmente, mas, quando a mulher<br \/>\n\u00e9 bem educada e tem no\u00e7\u00f5es exatas da vida, dificilmente<br \/>\nse entregar\u00e1 a qualquer mariola que se lhe chegue.<\/p>\n<p>E sentenciosamente:<\/p>\n<p>&#8211; Todo fen\u00f4meno \u00e9 conseq\u00fc\u00eancia de uma causa. N\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 efeito sem causa. No caso vertente a causa \u00e9 a falta de educa\u00e7\u00e3o,<br \/>\na falta de absoluta de quem sabe dirigir a mocidade feminina. A nossa educa\u00e7\u00e3o<br \/>\ndom\u00e9stica \u00e9 detest\u00e1vel, os nossos costumes s\u00e3o<br \/>\nde um povo analfabeto.<\/p>\n<p>Um tip\u00f3grafo aproximou-se e pediu licen\u00e7a ao Sr. Jos\u00e9<br \/>\nPereira para perguntar uma palavra.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9?<\/p>\n<p>O rapaz mostrou o original: &#8211; \u201cEst\u00e1 aqui\u201d, disse apontando<br \/>\ncom o dedo sujo de tinta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Cr\u00e1pula, disse o Jos\u00e9 Pereira.<\/p>\n<p>O tip\u00f3grafo foi repetindo &#8211; cr\u00e1pula, cr\u00e1pula&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isso? inquiriu Esleb\u00e3o curioso.<\/p>\n<p>Era um artigo contra o Pedro II, uma formid\u00e1vel descompostura a um<br \/>\ndos redatores da folha oposicionista.<\/p>\n<p>Entraram a falar no novo presidente da prov\u00edncia.<\/p>\n<p>A not\u00edcia do esc\u00e2ndalo chegou at\u00e9 o Benfica, \u00e0<br \/>\ncasa do Loureiro. A L\u00eddia ficou estupefata.<\/p>\n<p>&#8211; A Maria, hein?! T\u00e3o calada, t\u00e3o sonsa&#8230;<\/p>\n<p>E repetia:<\/p>\n<p>&#8211; Este mundo, este mundo!&#8230;<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo apoderava-se dela um pesar sincero pela amiga. T\u00e3o<br \/>\nmo\u00e7a ainda, coitada, t\u00e3o boazinha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o coisas, s\u00e3o coisas, rosnava o Loureiro. Eu nunca me enganei<br \/>\ncom aquela gente. Uma s\u00facia de doidos, a come\u00e7ar pelo tal Sr.<br \/>\nJo\u00e3o da Mata, um tipo que anda caindo nas ruas, b\u00eabedo como uma<br \/>\ncabra.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isso, Loureiro! ralhava a Campelinho, empinada, carregando<br \/>\nos seus oito meses de prenhez.<\/p>\n<p>Pensou em escrever \u00e0 Maria lamentando o deplor\u00e1vel acontecimento,<br \/>\nmas n\u00e3o sabia ao certo onde ela parava. Ouvia falar no Outeiro, na<br \/>\nAldeota, no Coc\u00f3&#8230; Se fosse poss\u00edvel, at\u00e9 iria, ela<br \/>\nmesma, dar um abra\u00e7o na sua amiga de escola, consol\u00e1-la. Imaginava-a<br \/>\nmuito triste, cortada de desgostos, num abandono pungente, em casa d\u2019alguma<br \/>\nmulher \u00e0 toa, sem ter quem lhe aparasse as l\u00e1grimas&#8230;<\/p>\n<p>Pobre Maria! \u00c9 assim &#8211; uns t\u00e3o felizes e t\u00e3o maus, outros<br \/>\nao contr\u00e1rio, bons e infelizes&#8230;<\/p>\n<p>E L\u00eddia soltava uns suspiros vagos, traspassados de pena ao lembrar-se<br \/>\nde sua velha companheira agora atirada ao desprezo como um ente nulo e prejudicial<br \/>\n\u00e0 sociedade!<\/p>\n<p>&#8211; Este mundo, este mundo!&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, corria-lhe a vida deliciosamente, n\u00e3o lhe faltava coisa<br \/>\nalguma, o Loureiro a estimava cada vez mais, comia e vestia do melhor, tinha<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es com as principais fam\u00edlias da capital, ia ao<br \/>\nteatro e freq\u00fcentava o Club Iracema; gozava!<\/p>\n<p>Se pudesse repartir a sua felicidade com Maria, coitadinha&#8230;<\/p>\n<p>Ultimamente andava muito preocupada com o enxoval do seu primeiro filho.<br \/>\nAt\u00e9 j\u00e1 havia escolhido um nome para ele, para o pequeno &#8211; chamar-se-ia<br \/>\nJulieta ou Romeu. O Loureiro tinha lhe dito que Romeu era nome de gato, mas<br \/>\nela teimava em batizar o filho com este nome se fosse \u201cmenino\u201d.<br \/>\nOs padrinhos tamb\u00e9m j\u00e1 estavam designados &#8211; o comendador Carreira<br \/>\ne a esposa.<\/p>\n<p>Por sua vez a mulher do juiz municipal correu logo \u00e0 casa de Jo\u00e3o<br \/>\nda Mata numa \u00e2nsia de saber como as coisas tinham se passado. Era da<br \/>\nescola de S. Tom\u00e9 &#8211; ver para crer. Vestiu-se \u00e0s pressas, atabalhoadamente,<br \/>\ne voou para o Trilho de Ferro, como uma seta, atirando-se nos bra\u00e7os<br \/>\nde D. Terezinha, esfalfada, sem f\u00f4lego, o rosto quente do morma\u00e7o.<\/p>\n<p>A mulher do amanuense saudou-a com o seu invari\u00e1vel &#8211; salvou-se uma<br \/>\nalma! &#8211; proferido entre beijos.<\/p>\n<p>Sem esperar oportunidade, D. Am\u00e9lia foi direto ao m\u00f3vel da<br \/>\nsua inesperada visita. &#8211; \u201cEnt\u00e3o era mesmo certo o que se dizia<br \/>\nna rua?\u201d<\/p>\n<p>&#8211; De que?<\/p>\n<p>&#8211; Da Maria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Se era? T\u00e3o certo como dois e dois s\u00e3o quatro. Jurava sobre<br \/>\nos Santos Evangelhos.<\/p>\n<p>O dem\u00f4nio metera-se-lhe em casa com a rapariga, e por tal modo que,<br \/>\nde certo tempo \u00e0quela parte, nem fazia gosto a gente viver.<\/p>\n<p>A Am\u00e9lia n\u00e3o fazia id\u00e9ia &#8211; uma vergonha! criatura, uma<br \/>\nvergonha! Ela, Terezinha, estava cansada de sofrer desapontamentos, nem sequer<br \/>\nsa\u00eda \u00e0 rua para n\u00e3o ser olhada com maus olhos. Haviam<br \/>\nde pensar que ela era outra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E onde est\u00e1 Maria?<\/p>\n<p>&#8211; Sei l\u00e1, menina, sei l\u00e1&#8230; No Coc\u00f3, na Aldeota, no<br \/>\ninferno. Tomara que aquela peste n\u00e3o me entre mais em casa!<\/p>\n<p>&#8211; E tu n\u00e3o viste logo se ela estava gr\u00e1vida?<\/p>\n<p>&#8211; Vi l\u00e1 o que! Andava aqui toda espremida, com um arzinho de mosca<br \/>\nmorta, metida no quarto que nem uma feira. Uma sonsa, Am\u00e9lia, uma sonsa<br \/>\n\u00e9 o que ela \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; O tal do Sr. Zuza, hein?!<\/p>\n<p>&#8211; Qual Zuza, mulher, elas \u00e9 que s\u00e3o as culpadas, porque n\u00e3o<br \/>\nse d\u00e3o ao respeito, n\u00e3o t\u00eam vergonha.<\/p>\n<p>&#8211; E o que diz a isso o Sr. Jo\u00e3ozinho? Furioso, hein?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 o que tu pensas, indiferente como se n\u00e3o fosse com gente<br \/>\ndele&#8230;<\/p>\n<p>E o di\u00e1logo continuou animado, sem que D. Terezinha revelasse \u00e0<br \/>\namiga as suspeitas acerca de Jo\u00e3o da Mata e Maria do Carmo.<\/p>\n<p>D. Am\u00e9lia falou sobre o Jos\u00e9 Pereira, queixando-se de que ele<br \/>\nh\u00e1 muitos dias n\u00e3o aparecia em nossa casa, \u201ctodo embebida<br \/>\ncom a outra , com a L\u00eddia\u201d. O redator da Prov\u00edncia n\u00e3o<br \/>\ntirava os p\u00e9s do Benfica, e, \u00e0s vezes, voltava depois da nove,<br \/>\nno \u00faltimo bonde.<\/p>\n<p>A Tet\u00e9 n\u00e3o achava feio isso, um homem ir diariamente, \u00e0s<br \/>\nmesmas horas, \u00e0 casa duma senhora casada! Era fe\u00edssimo! J\u00e1<br \/>\nandavam dizendo at\u00e9 coisas. E ent\u00e3o o Jos\u00e9 Pereira que<br \/>\nn\u00e3o era tolo e tinha fama&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Queira Deus que a tal Sra. D. L\u00eddia n\u00e3o v\u00e1 se arrepender&#8230;<br \/>\n\u00c9 verdade, a m\u00e3e, a vi\u00fava Campelo, como vai?<\/p>\n<p>&#8211; Naquilo mesmo, respondeu D. Terezinha com um sorriso de mal\u00edcia,<br \/>\npiscando um olho.<\/p>\n<p>Riram baixinho e a conversa recaiu sobre D. Amanda \u00e0quela hora entregue<br \/>\nao seu delicioso farniente de mulher solteira que disp\u00f5e do tempo a<br \/>\nseu bel-prazer e da algibeira de um capitalista generoso.<\/p>\n<p>Toda a cidade vivias agora do esc\u00e2ndalo, dando-lhe vulto, criando novelas<br \/>\nde romance, esmiu\u00e7ando pequeninos acidentes dom\u00e9sticos, com<br \/>\num olho na pol\u00edtica e outro na normalista, \u00e0 espera de chuvas<br \/>\ne de novos acontecimentos sensacionais.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata n\u00e3o se inquietava muito, de resto, e continuava<br \/>\na sua vida inalter\u00e1vel de empregado subalterno, sem prestar ouvidos<br \/>\n\u00e0 maledic\u00eancia, encantonado no seu absoluto desprezo \u00e0<br \/>\nsociedade e \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica, cada vez mais submisso<\/p>\n<p>\u00e0 mulher que o cobria de inj\u00farias e lab\u00e9us.<\/p>\n<p>&#8211; Sedutor de filhas alheias! dizia-lhe ela na cara, amea\u00e7adoramente.<br \/>\nPeste! Coisa ruim! Sem vergonha!<\/p>\n<p>E ele punha-se a cantarolar, com os ouvidos arrolhados, o olhar no teto,<br \/>\nestendido na rede, mudo, impotente como um eunuco.<\/p>\n<p>Uma noite, pela madrugada, despertou com o desejo veemente de ir ter com<br \/>\nD. Terezinha na alcova. H\u00e1 meses n\u00e3o se chegava \u00e0 mulher<br \/>\nalguma, cheio de aborrecimento pelo outro sexo, frio mole, inacess\u00edvel<br \/>\nquase \u00e0s car\u00edcias da f\u00eamea. Agora, por\u00e9m, renascia-lhe<br \/>\na virilidade, sentia uma forte vontade, indom\u00e1vel e impetuosa, de amar<br \/>\nfisicamente, de crucificar-se nos bra\u00e7os de uma mulher que n\u00e3o<br \/>\nfosse de todo o mundo e confundir-se o seu sangue com o dela num demorado<br \/>\ne indescrit\u00edvel espasmo. Tremiam-lhe as carnes como ao contato de um<br \/>\ncondutor el\u00e9trico, uma formid\u00e1vel ere\u00e7\u00e3o a distender-lhe<br \/>\nos nervos escabujando na rede em espregui\u00e7amentos l\u00fabricos,<br \/>\nvergando, como um vencido, ao poder irresist\u00edvel da animalidade humana.<br \/>\nO sangue pulava-lhe nas art\u00e9rias numa hiperquinesia que lhe atordoava<br \/>\nos sentidos, que lhe tirava a respira\u00e7\u00e3o, impelindo-o para a<br \/>\nmulher&#8230;<\/p>\n<p>Pensou na Mariana, que dormia ali perto, mas a Mariana era uma criada que<br \/>\nn\u00e3o se lavava, um estafermo sem sexo, incapaz de satisfazer os apetites<br \/>\nde um homem. N\u00e3o havia jeito sen\u00e3o tentar a Tet\u00e9. E l\u00e1<br \/>\nse foi sutilmente, p\u00e9 ante p\u00e9, corredor a fora, direito \u00e0<br \/>\nalcova da infeliz senhora.<\/p>\n<p>A alcova tinha uma porta para o corredor. Jo\u00e3o olhou pelo buraco da<br \/>\nfechadura, mas n\u00e3o pode ver sen\u00e3o o espelho do velho toucador,<br \/>\ndefronte, inclinado para a frente, refletindo um vaso noturno e roupas espalhadas<br \/>\nno ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Bateu de leve, e, receoso da criada, deu volta pela sala da frente, tateando<br \/>\nno escuro, sem ru\u00eddo. A outra porta da alcova conservava-se entreaberta:<br \/>\nempurrou de leve enfiando a cabe\u00e7a para dentro.<\/p>\n<p>&#8211; Tet\u00e9! chamou numa voz quase impercept\u00edvel.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio profundo. Os cortinados da cama estavam cerrados. Jo\u00e3o<br \/>\nfoi entrando devagar, equilibrando-se nos bicos dos p\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8211; Tet\u00e9! repetiu \u00e0 meia voz.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m respondeu. Adiantou-se e escancarou as cortinas, mas &#8211; oh!&#8230;<br \/>\n&#8211; o leito matrimonial, largo e fresco, branquejava desolado, sem sombra de<br \/>\nmulher.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o ficou boquiaberto, muito admirado. -\u201cQue significava aquilo?\u201d<br \/>\nOs len\u00e7\u00f3is revoltos acusavam o desespero de uma pessoa que n\u00e3o<br \/>\nteve tempo a perder. Ante a clarivid\u00eancia assombrosa da realidade, o<br \/>\namanuense rodou sobre os calcanhares, e, resignado como um boi, sem proferir<br \/>\npalavras, murcho, sentiu desaparecer-lhe subitamente o forte desejo que ainda<br \/>\nh\u00e1 pouco o espica\u00e7ava como uma urtiga. Retirou-se macamb\u00fazio<br \/>\na pensar nos caprichos da sorte.<\/p>\n<p>Quando mestre Cosme, uma manh\u00e3, foi avisar a Jo\u00e3o da Mata que<br \/>\n\u201ca menina estava com as dores\u201d, o amanuense dormia ainda sob os<br \/>\nlen\u00e7\u00f3is e nem sequer sonhava com a afilhada.<\/p>\n<p>Ergueu-se da rede, com um pulo, enfiou as cal\u00e7as, lavou-se num instante,<br \/>\ne abalou mais o velho para a Aldeota, sem dizer palavra \u00e0 D. Terezinha.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 tinham arranjado parteira? inquiriu acelerando o passo.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1, nhor sim, a comadre Joana Pataca, uma do Outeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Boa?<\/p>\n<p>Mestre Cosme n\u00e3o afirmava porque n\u00e3o conhecia bem, mas era<br \/>\nlimpa e n\u00e3o tinha m\u00e1 cara. Diz que era a melhor parteira do<br \/>\nOuteiro. Agora, se seu Jo\u00e3ozinho n\u00e3o quisesse&#8230; A mulher j\u00e1<br \/>\nestava cuidando da menina&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quando apareceram as dores? &#8211; Se Maria gemia muito&#8230;<\/p>\n<p>O velho informou tudo minuciosamente, sem ocultar um s\u00f3 detalhe, juntando<br \/>\n\u00e0s palavras os seus gestos rudes de homem do campo.<\/p>\n<p>A rapariga h\u00e1 dois dias queixava-se d\u2019uma dores nas \u201cancas<br \/>\ne no p\u00e9 da barriga\u201d, acompanhadas de fraquezas nas pernas e grande<br \/>\nfalta de ar&#8230; Se gemia? Muito, coitada, metia at\u00e9 pena. Pudera! novinha<br \/>\nainda&#8230; A parteira disse logo que a crian\u00e7a estava no nascedouro.<br \/>\nAquela noite as dores tinham piorado, ningu\u00e9m dormira, velando a pobre<br \/>\nmo\u00e7a. Eram ch\u00e1s e fric\u00e7\u00f5es, e &#8211; corre d\u2019aqui<br \/>\ne chega depressa &#8211; todos com cuidado, rezando \u00e0 N.S. do Bom Parto.<\/p>\n<p>Logo da porteira do s\u00edtio Jo\u00e3o escutou os gemidos de Maria<br \/>\ndo Carmo, tr\u00eamulos, sentidos, longos &#8230; e aquilo apertou-lhe o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No pequeno quarto de taipa, com uma janelinha para o descampado, achava-se<br \/>\nTia Joaquina, \u00e0 cabeceira da normalista, alisando-lhe os cabelos, com<br \/>\ncarinho, e uma outra mulher gorda, pan\u00e7uda, sem casaco, muito trigueira,<br \/>\ncom marcas de bexiga no rosto, meio idosa.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e3o licen\u00e7a? murmurou Jo\u00e3o da Mata descobrindo-se<br \/>\ncom respeito.<\/p>\n<p>A mulher gorda tomou o casaco, \u00e0s pressas, e Maria volveu os olhos<br \/>\n\u00famidos e profundamente melanc\u00f3licos para o padrinho, gemendo.<\/p>\n<p>Mestre Cosme trouxe um tamborete.<\/p>\n<p>Sentia-se um cheiro ativo de alfazema queimada: encostada \u00e0 parede<br \/>\nfumegava o braseiro.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, como vai? perguntou Jo\u00e3o tomando a m\u00e3o da afilhada.<br \/>\nMuitas dores, hein?<\/p>\n<p>&#8211; Assim&#8230; respondeu a rapariga mordendo o bei\u00e7o com um gesto doloroso,<br \/>\nrevirando-se na rede, e continuou a gemer alto.<\/p>\n<p>&#8211; A senhora \u00e9 que \u00e9 a parteira? tornou Jo\u00e3o para a mulher<br \/>\ngorda que se conservava im\u00f3vel com o queixo na m\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Sua criada Joana Pataca.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 verificou se a crian\u00e7a est\u00e1 perfeita, se n\u00e3o<br \/>\nh\u00e1 novidade?<\/p>\n<p>&#8211; Ora, ora, ora&#8230; h\u00e1 que tempo! D\u2019aqui a pouquinho o menino<br \/>\nest\u00e1 fora, se Deus quiser.<\/p>\n<p>O amanuense encarou por cima dos \u00f3culos, com ar de desconfian\u00e7a<br \/>\no todo obeso da mulher. E, sentando-se:<\/p>\n<p>&#8211; A senhora tem licen\u00e7a para assistir?<\/p>\n<p>N\u00e3o era preciso licen\u00e7a, n\u00e3o senhor. No Cear\u00e1<br \/>\nqualquer mulher podia ser parteira contanto que merecesse confian\u00e7a.<br \/>\nEla, Joana Pataca, era muito conhecida no Outeiro, por sinal tinha partejado<br \/>\numa vez a mulher do comandante do batalh\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vocemec\u00ea duvida?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o&#8230; \u00e9 que eu queria saber&#8230; Ent\u00e3o<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 preciso licen\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; Inhor n\u00e3o. \u00c9 qualquer uma.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, est\u00e1 bom&#8230; Mas n\u00e3o se descuide&#8230; Olhe<br \/>\nn\u00e3o v\u00e1 esquecer&#8230;<\/p>\n<p>A parteira pousou no ch\u00e3o o cachimbo que estivera fumando, e foi aquecer<br \/>\nuns panos.<\/p>\n<p>Deu meio dia e a rapariga n\u00e3o teve a crian\u00e7a. As dores tinham<br \/>\nmelhorado um pouco. Tia Joaquina batia os bei\u00e7os rezando \u201c-Tenha<br \/>\npaci\u00eancia, minha filha, tenha f\u00e9 no Senhor do Bonfim\u201d,<br \/>\ndizia ela muito sol\u00edcita.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata passou todo esse dia na Aldeota, aguardado o sucesso,<br \/>\nbebendo aguardente e acendendo cigarros, esquecido da reparti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mestre Cosme armara-lhe uma rede no alpendre e fora-se a desbastar a mata,<br \/>\nescanchado na Coruja.<\/p>\n<p>Fazia um belo dia de sol, calmo e luminoso. O arvoredo im\u00f3vel dormitava<br \/>\nna espl\u00eandida pulveriza\u00e7\u00e3o da luz que o narcotizava para<br \/>\nbeber-lhe a seiva. O passaredo aninhava-se na verde espessura dos cajueiros<br \/>\nem flor, contubernal e g\u00e1rrulo; rolas bravas debicavam nas clareiras<br \/>\nos min\u00fasculos diamantes que o sol punha na areia. E no sil\u00eancio<br \/>\ne na beatitude d\u2019aquela esp\u00e9cie de cemit\u00e9rio Jo\u00e3o<br \/>\np\u00f4de dormir um sono bom de duas horas, embalado pelos gemidos da afilhada<br \/>\ncomo por um vago e mon\u00f3tono estribilho repassado de melancolia.<\/p>\n<p>\u00c0s sete horas da noite, ao acender-se a primeira vela, Maria teve<br \/>\num sobressalto e ergueu-se bruscamente com uma fort\u00edssima dor no baixo<br \/>\nventre, muito branca, o olhar desvairado e os cabelos em desordem.<\/p>\n<p>&#8211; Que \u00e9 isso, comadre! repreendeu-a a parteira agarrando-a.<\/p>\n<p>&#8211; Minha filha! fez a tia Joaquina.<\/p>\n<p>E em p\u00e9, entre as duas mulheres, com a cabe\u00e7a arqueada para<br \/>\ntr\u00e1s, contorcendo-se numa afli\u00e7\u00e3o suprema, a rapariga<br \/>\nsoltava gemidos estrangulados, cortada de dores, agarrando-se como uma louca<br \/>\nao pesco\u00e7o das velhas, no bico dos p\u00e9s, em camisa.<\/p>\n<p>Houve uma confus\u00e3o extrema.<\/p>\n<p>&#8211; Sente-se, comadre, sente-se, por amor de Deus! suplicava a parteira, agarrando<br \/>\ncom jeito.<\/p>\n<p>&#8211; Sente-se, minha filha, repetia a outra.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Mata acudiu gelado.<\/p>\n<p>&#8211; Calma! calam! bradou estacando \u00e0 porta do quarto.<\/p>\n<p>Mas era tarde. Ouviu-se uma pancada surda no ch\u00e3o, como a queda de<br \/>\num bal\u00e3o de barro \u00famido, e, imediatamente, rios de sangue jorraram<br \/>\naos p\u00e9s da parteira, e no linho branco da camisa de Maria do Carmo<br \/>\ndesenhou-se larga faixa rubra, d\u2019alto a baixo, como uma bandeira de<br \/>\nguerra desdobrada.<\/p>\n<p>&#8211; Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! rosnou Joana Pataca estremecendo.<\/p>\n<p>Passou-se a noite \u00e0s voltas. O amanuense resolveu n\u00e3o chamar<br \/>\nm\u00e9dico &#8211; que era uma asneira, o perigo tinha passado. A parturiente<br \/>\nadormecera profundamente, depois de lhe terem ministrado um hidromel de aguardente.<\/p>\n<p>Sobre uma grande caixa de pinho, a um canto do quarto, envolvido, em panos,<br \/>\no rec\u00e9m nascido &#8211; uma crian\u00e7a nutrida e robusta &#8211; dormia o sono<br \/>\neterno, roxo, d\u2019olhos fechado, as gordas m\u00e3ozinhas cruzadas sobre<br \/>\no peito, com um fio de sangue a escorrer-lhe do nariz.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o n\u00e3o pregara os olhos, pensativo, com a calva entre as<br \/>\nm\u00e3os, ao lado da afilhada. &#8211; Era o diabo, era o diabo! At\u00e9 lhe<br \/>\ndo\u00eda a cabe\u00e7a! Grand\u00edssima besta, a parteira, que nem<br \/>\nao menos soubera apanhar a crian\u00e7a! Est\u00fapida! deixar morrer<br \/>\nassim uma crian\u00e7a t\u00e3o bem feita e nutrida! Isso s\u00f3 acontecia<br \/>\na ele, Jo\u00e3o da Mata.<\/p>\n<p>De meia em meia hora acendia um cigarro automaticamente e punha-se p\u2019r\u2019ali<br \/>\na ruminar silenciosamente, \u00e0 luz d\u2019uma triste vela de carna\u00faba,<br \/>\nque pingava a sua cera denegrida no gargalo d\u2019uma velha botija de genebra,<br \/>\nesbatendo ao fundo do quarto o perfil do rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n<p>Diabo! pensava o amanuense quebrando a cinza do cigarro. Um caiporismo! Tantos<br \/>\ncuidados, tanta afli\u00e7\u00e3o, e, afinal de contas, l\u00e1 ia tudo<br \/>\npor \u00e1gua abaixo. Por um lado era uma felicidade o pequeno ter morrido,<br \/>\nporque isso de filho natural sempre dava que falar \u00e0s m\u00e1s l\u00ednguas<br \/>\ne at\u00e9 podia-se descobrir a verdade.<\/p>\n<p>Consolava-se com esta id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Perto, numa palho\u00e7a vizinha, havia um samba que durava desde o anoitecer.<br \/>\nNo sil\u00eancio da noite ecoava um alarido medonho, vozes aguardentadas,<br \/>\nsapateados que estremeciam o ch\u00e3o, cantos, desafios ao som d\u2019uma<br \/>\nviola cansada.<\/p>\n<p>Maria ressonava docemente, com o rosto voltado para a parede, o tronco repousando<br \/>\nsobre chuma\u00e7os de pano onde brilhavam manchas de sangue. Cerca de onze<br \/>\nhoras moveu-se devagar, abrindo os olhos e soerguendo-se , como quem acorda<br \/>\nde um pesadelo; mas faltaram-lhe as for\u00e7as e repousou novamente.<\/p>\n<p>&#8211; Queria alguma coisa? perguntou Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Onde est\u00e1 meu filho?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te lembres d\u2019isto agora, v\u00ea se descansas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas onde puseram ele? est\u00e1 vivo?<\/p>\n<p>&#8211; Qual vivo, filha! Pois queria tu que escapasse?<\/p>\n<p>E em tom lamentoso:<\/p>\n<p>&#8211; Coitado, ao menos est\u00e1 no c\u00e9u, livre das mis\u00e9rias<br \/>\nd\u2019este mundo&#8230;<\/p>\n<p>Maria n\u00e3o se conteve: repuxou o len\u00e7ol, e, com os olhos cheios<br \/>\nd\u2019\u00e1gua, murmurou numa voz entrecortada de solu\u00e7os:<\/p>\n<p>&#8211; Pobrezinho! &#8230; Porque n\u00e3o me disseram logo?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 te p\u00f5es a chorar!<\/p>\n<p>Maria do Carmo solu\u00e7ava com desespero, sentindo crescer dentro de<br \/>\nsi, no \u00edntimo de seu cora\u00e7\u00e3o, avassalando-a, abalando<br \/>\ntodo o seu ser, toda sua delicada alma de mulher, como um sopro violento e<br \/>\ndevastador, esse inestim\u00e1vel desgosto que as m\u00e3es sentem ao<br \/>\nverem o filho morto. Ela que desejava tanto cri\u00e1-lo, amament\u00e1-lo<br \/>\ncom o seu leite, que era o seu pr\u00f3prio sangue, a sua pr\u00f3pria<br \/>\nvida, am\u00e1-lo, ador\u00e1-lo, com toda a for\u00e7a do seu cora\u00e7\u00e3o!&#8230;<br \/>\nEra um filho natural, mas era seu filho, nascido em suas entranhas, carne<br \/>\nde sua carne, sangue do seu sangue, havia de am\u00e1-lo muito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Quero v\u00ea-lo, deixe-me v\u00ea-lo, pediu aflita.<\/p>\n<p>&#8211; Que tolice! fez Jo\u00e3o agasalhando-a melhor. N\u00e3o pense nisto<br \/>\nagora, criatura, os m\u00e9dicos recomendam toda a calma. A crian\u00e7a<br \/>\nest\u00e1 morta, que se h\u00e1 de fazer?<\/p>\n<p>Continuavam os solu\u00e7os, um choro estugado, interrompido por um tossezinha<br \/>\nconvulsa.<\/p>\n<p>&#8211; Mau! mau! tornou Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>E, imediatamente, foi buscar o cad\u00e1ver do filho, depondo-o carinhosamente<br \/>\nsobre os joelhos.<\/p>\n<p>Tia Joaquina apareceu, envolvida numa larga coberta de chita feita de retalhos.<br \/>\n\u201c- O que era?&#8230;\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Nada, tia Joaquina. Ela que desejou ver o filho, explicou Jo\u00e3o.<br \/>\nUma imprud\u00eancia. At\u00e9 pode lhe fazer mal&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vejam a vela, por favor, pediu Maria. Quero ver meu filho&#8230;<\/p>\n<p>E ao mirar o rosto l\u00edvido da crian\u00e7a, os bracinhos rechonchudos,<br \/>\no filete de sangue escorrendo do nariz como um veio de rubim, a rapariga sentiu<br \/>\num calafrio e um grande v\u00e1cuo no peito, como se lhe tivessem arrancado<br \/>\num peda\u00e7o do corpo. E entrou a solu\u00e7ar outra vez de um modo<br \/>\nt\u00e3o penoso e comovente que Jo\u00e3o da Mata n\u00e3o pode recalcar<br \/>\nduas l\u00e1grimas, as primeiras de sua vida, que rolaram vagarosas nas<br \/>\nsuas faces magras, como duas linhas cristalinas na aspereza tosca d\u2019uma<br \/>\nrocha.<\/p>\n<p>No dia seguinte, antes do sol nascer, mestre Cosme foi ao fundo do s\u00edtio<br \/>\ncavar uma sepultura para o pequenino cad\u00e1ver. Jo\u00e3o acompanhou-o<br \/>\ntaciturno. Pararam ao p\u00e9 de um grande cajueiro, que ficava defronte<br \/>\nda casa, e, com pouco, o amanuense viu sumir-se debaixo da terra o corpo do<br \/>\nseu primeiro filho.<\/p>\n<p>Mestre Cosme socou bem a areia, nivelou o terreno com os p\u00e9s e suspirou<br \/>\ncom for\u00e7a, como depois d\u2019um trabalho penoso.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o assistiu em p\u00e9, sem dar palavra, m\u00e3os p\u2019ra<br \/>\ntr\u00e1s, olhos cravados na terra.<\/p>\n<p>&#8211; Pronto! fez o velho pousando a enxada no ombro.<\/p>\n<p>&#8211; Bem, murmurou Jo\u00e3o. E seguiram por entre as ateiras, calados e graves.<\/p>\n<p>Seriam seis horas da manh\u00e3. No alto de um coqueiro que farfalhava<br \/>\n\u00e0 beira do cercado, cantava uma gralha, e as notas l\u00edmpidas<br \/>\ndo seu canto vibravam demoradamente na transpar\u00eancia do ar, sobre a<br \/>\nverde monotonia do campo, como um toque de alvorada!<\/p>\n<p>Tinha-se calado o samba havia pouco.<\/p>\n<p>Meses depois, quando Maria do Carmo apresentou-se na Escola Normal para concluir<br \/>\no curso interrompido, estava n\u00e9dia e desenvolta, muito corada, com<br \/>\numa estranha chama de felicidade no olhar. A sua presen\u00e7a foi uma ressurrei\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u201c-A Maria do Carmo, hein? Nem parecia a mesma!\u201d &#8211; Houve um alarido<br \/>\nentre as normalistas: abra\u00e7os, beijos, cochichos&#8230; At\u00e9 o edif\u00edcio<br \/>\ntinha-se pintado de novo como para receb\u00ea-la.<\/p>\n<p>O programa era outro, mais extenso, mais amplo, dividido metodicamente em<br \/>\neduca\u00e7\u00e3o f\u00edsica, educa\u00e7\u00e3o intelectual,<br \/>\neduca\u00e7\u00e3o nacional ou c\u00edvica, educa\u00e7\u00e3o religiosa&#8230;<br \/>\npelo moldes de H. Spencer e Pestalozzi; o hor\u00e1rio das aulas tinha sido<br \/>\nalterado, havia uma escola anexa de aplica\u00e7\u00e3o, estava tudo mudado!<\/p>\n<p>A esse tempo um grande acontecimento preocupava toda a cidade. Lia-se na<br \/>\nse\u00e7\u00e3o telegr\u00e1fica da Prov\u00edncia as primeiras not\u00edcias<br \/>\nsobre a proclama\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica brasileira. Dizia-se<br \/>\nque o bar\u00e3o de Lad\u00e1rio tinha sido morto \u00e0 pistola por<br \/>\num oficial de linha, na Pra\u00e7a da Aclama\u00e7\u00e3o, e que o imperador<br \/>\nn\u00e3o dera uma palavra ao saber dos acontecimentos em Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p>O Cear\u00e1 estremecia a esses boatos. Grupos de militares cruzavam as<br \/>\nruas, ouviam-se toques de corneta no batalh\u00e3o e na Escola Militar.<br \/>\nTratava-se de depor o presidente da prov\u00edncia a um coronel do ex\u00e9rcito.<br \/>\nOs canh\u00f5es La Hitte, da fortaleza de N.S. d\u2019Assun\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndormiam enfileirados na pra\u00e7a dos M\u00e1rtires, defronte do Passeio<br \/>\nP\u00fablico, guardados por alunos de patrona e gola azul.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se lembrava dos esc\u00e2ndalos dom\u00e9sticos nem de<br \/>\npequeninos fatos particulares.<\/p>\n<p>Um homem revoltava-se, indignado com o novo estado de coisas &#8211; era Jo\u00e3o<br \/>\nda Mata.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 boa! bradava ele na Bodega do Z\u00e9 Gato, esmurrando a mesa.<br \/>\nIsto \u00e9 um pa\u00eds sem dignidade, uma na\u00e7\u00e3o de selvagens!<br \/>\nExpulsar do trono um Monarca da for\u00e7a de D. Pedro II, mand\u00e1-lo<br \/>\npara o estrangeiro doente e quase louco, \u00e9 o c\u00famulo da ignor\u00e2ncia<br \/>\ne da selvageria!<\/p>\n<p>E Maria do Carmo. agora noiva do alferes Coutinho, da pol\u00edcia, via<br \/>\ndiante de si um futuro largo, imensamente luminoso, como um grande mar tranq\u00fcilo<br \/>\ne dormente.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo\u00a0I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo\u00a0IV Cap\u00edtulo\u00a0V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo\u00a0IX Cap\u00edtulo\u00a0X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo XIII Cap\u00edtulo XIV &nbsp; Cap\u00edtulo I Jo\u00e3o Manoel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por Jo\u00e3o da Mata, habitava, h\u00e1 anos, no Trilho, uma casinhola [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":90304,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-90299","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A Normalista - Adolfo Caminha, Obra A Normalista - Adolfo Caminha<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A Normalista - Adolfo Caminha, Obra, Naturalista, Maria do Carmo, Jo\u00e3o da Mata, Dona Terezinha, Escola Normal, A Normalista - Adolfo Caminha\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A Normalista - Adolfo Caminha, Obra A Normalista - Adolfo Caminha\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A Normalista - Adolfo Caminha, Obra, Naturalista, Maria do Carmo, Jo\u00e3o da Mata, Dona Terezinha, Escola Normal, A Normalista - Adolfo Caminha\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/a-normalista-adolfo-caminha\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2016-12-23T10:49:13+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2016-12-23T11:20:23+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/a-normalista.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"200\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"200\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"326 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-normalista-adolfo-caminha#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/a-normalista-adolfo-caminha\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"A Normalista &#8211; 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