{"id":90291,"date":"2016-12-23T08:07:39","date_gmt":"2016-12-23T10:07:39","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=90291"},"modified":"2016-12-23T08:17:05","modified_gmt":"2016-12-23T10:17:05","slug":"bom-crioulo-adolfo-caminha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/bom-crioulo-adolfo-caminha","title":{"rendered":"Bom Crioulo &#8211; Adolfo Caminha"},"content":{"rendered":"<table width=\"90%\">\n<tbody>\n<tr>\n<td colspan=\"5\"><strong>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado:<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"156\"><a href=\"#1\"><strong>Cap\u00edtulo I<\/strong><\/a><strong><br \/>\n<a href=\"#2\">Cap\u00edtulo II<\/a><br \/>\n<a href=\"#3\">Cap\u00edtulo III<\/a><br \/>\n<a href=\"#4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/strong><\/td>\n<td width=\"14\"><\/td>\n<td width=\"151\"><a href=\"#5\"><strong>Cap\u00edtulo V<\/strong><\/a><strong><br \/>\n<a href=\"#6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><br \/>\n<a href=\"#7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><br \/>\n<a href=\"#8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/strong><\/td>\n<td width=\"10\"><\/td>\n<td width=\"157\"><a href=\"#9\"><strong>Cap\u00edtulo IX<\/strong><\/a><strong><br \/>\n<a href=\"#10\">Cap\u00edtulo X<\/a><br \/>\n<a href=\"#11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><br \/>\n<a href=\"#12\">Cap\u00edtulo XII<\/a><\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h4><a name=\"1\">Cap\u00edtulo I<\/a><\/h4>\n<p>A velha e gloriosa corveta &#8211; que pena! &#8211; j\u00e1 nem sequer lembrava o mesmo navio d\u2019outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo, como um galera de lenda, branca e leve no mar alto, grimpando serena o corcovo das ondas!&#8230;<\/p>\n<p>Estava outra, muito outra com o seu casco negro, com as suas velas encardidas de mofo, sem aquele espl\u00eandido aspecto guerreiro que entusiasmava a gente nos bons tempos de \u201cpatescaria\u201d. Vista ao longe, na infinita extens\u00e3o azul, dir-se-ia, agora, a sombra fant\u00e1stica de um barco aventureiro. Toda ela mudada, a velha carca\u00e7a flutuante, desde a brancura l\u00edmpida e triunfal das velas at\u00e9 a primitiva pintura do bojo.<\/p>\n<p>No entanto ela a\u00ed vinha &#8211; esquife agourento &#8211; singrando \u00e1guas da p\u00e1tria, quase l\u00fagubre na sua marcha vagarosa; ela a\u00ed vinha, n\u00e3o j\u00e1 como uma enorme gar\u00e7a branca flechando a l\u00edquida plan\u00edcie, mas lenta, pesada, como se fora um grande morcego apocal\u00edptico de asas abertas sobre o mar&#8230;<\/p>\n<p>Havia pouco entrara na regi\u00e3o das calmarias: o pano come\u00e7ava a bater frouxo, mole, inchando a cada solavanco, para recair depois, com uma pancada surda e igual, no mesmo abandono sonolento; a viagem tornava-se mon\u00f3tona; a larga superf\u00edcie do oceano estendia-se muito polida e im\u00f3vel sob a irradia\u00e7\u00e3o meridional do sol, e a corveta deslizava apenas, t\u00e3o de leve, t\u00e3o de leve que mal se lhe percebia o movimento.<\/p>\n<p>Nem sinal de vela na linha azul do horizonte, ind\u00edcio algum de criatura humana fora daquele estreito conv\u00e9s: \u00e1gua, somente \u00e1gua em derredor, como se o mundo houvesse desaparecido num dil\u00favio medonho&#8230;, e no alto, l\u00e1 em cima, o sil\u00eancio infinito das esferas obumbradas pela chuva de ouro do dia.<\/p>\n<p>Triste e nost\u00e1lgica paisagem, onde as cores desmaiavam \u00e0 for\u00e7a de luz e a voz humana perdia-se numa desola\u00e7\u00e3o imensa!<\/p>\n<p>Marinheiros conversavam \u00e0 proa, sentados uns no castelo, outros em p\u00e9, colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranq\u00fcilamente, esquecidos da faina. As chapas dos mastros, a culatra das pe\u00e7as, varais de escotilha, tudo quanto \u00e9 a\u00e7o e metal amarelo reluz fortemente, encandeando a vista.<\/p>\n<p>De vez em quando h\u00e1 um grande rebuli\u00e7o: a mastrea\u00e7\u00e3o geme, como se fora desprender-se toda, o pano bate com for\u00e7a de encontro \u00e0s vergas, chocam-se cabos com um ruidozinho seco, e ouve-se o cachoeirar da \u00e1gua no bojo da velha nau.<\/p>\n<p>Ag\u00fcenta! diz uma voz.<\/p>\n<p>E volta o sossego e continua a pasmaceira, o t\u00e9dio, a calmaria sem fim&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 os primeiros sintomas de indol\u00eancia refletiam-se no semblante da gente, convertendo-se em bocejos e espregui\u00e7amentos de sesta, e ainda ficavam t\u00e3o longe as montanhas da costa e os carinhos da fam\u00edlia!&#8230;<\/p>\n<p>Escasseavam os g\u00eaneros, e o regimen de carne-seca e das conservas em lata aproximava-se amea\u00e7adoramente, causando apreens\u00f5es \u00e0 marinhagem.<\/p>\n<p>Tinham dado onze horas na sineta de proa.<\/p>\n<p>O tenente que estava de quarto no passadi\u00e7o conferiu o rel\u00f3gio d\u2019algibeira, um belo cron\u00f4metro de ouro comprado em Toulon, torceu o bigode, passou uma vista d\u2019olhos no aparelho, e, dirigindo-se para a espada que descansava junto ao mastro, numa voz clara um pouco, met\u00e1lica:<\/p>\n<p>&#8211; Corneta!<\/p>\n<p>Era um oficial distinto, mo\u00e7o, moreno, os olhos vivos e inteligentes, grande calculista, jogador da sueca e autor de um Tratado elementar de navega\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m a bordo o excedia na procura dos logaritmos. Calculava d\u2019olhos fechados, e senos e cosenos acudiam-lhe \u00e0 ponta do l\u00e1pis de um modo admir\u00e1vel. Era, invariavelmente, o primeiro que achava a hora meridiana. Tornara-se conhecido logo ao sair da escola pelo sei entranhado amor \u00e0s matem\u00e1ticas e \u00e0 vida naval. Como guarda-marinha deixava-se ficar a bordo nos dias de folga, somente \u201cpara n\u00e3o perder o h\u00e1bito\u201d. Inimigo de terra, preferia o farniente de seu camarote, ali ao p\u00e9 dos livros e das fotografias mar\u00edtimas, ao movimento esterilizador e absorvente dos caf\u00e9s e dos teatros.<\/p>\n<p>&#8211; Corneta! repetiu, carregando o semblante numa sombria express\u00e3o de constrangimento.<\/p>\n<p>Outras bocas foram transmitindo a ordem at\u00e9 que surgiu, correndo, a figura ex\u00f3tica de um marinheiro negro, d\u2019olhos muito brancos, l\u00e1bios enormemente grossos, abrindo-se num vago sorriso idiota, e em cuja fisionomia acentuavam-se linhas caracter\u00edsticas de estupidez e subservi\u00eancia<\/p>\n<p>&#8211; Pronto! disse levando a m\u00e3o ao bon\u00e9 com um jeito marcial.<\/p>\n<p>&#8211; Toca mostra, ordenou o tenente.<\/p>\n<p>\u00c0s primeiras notas da corneta, l\u00edmpidas e sem eco no sil\u00eancio do mar alto, houve logo um estranho bul\u00edcio em todos os recantos da corveta. &#8211; Agora os marinheiros que descansavam \u00e0 proa, olhavam-se por cima dos ombros com ar desconfiado. Na tolda e pelas cobertas o movimento foi-se acelerando \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que o toque finalizava, sobressaindo no atropelo a voz dos guardi\u00f5es: &#8211; Sobe, sobe, &#8211; tudo para cima! &#8211; de envolta com um barulho de ferros que vinha dos por\u00f5es.<\/p>\n<p>O \u201cmestre d\u2019armas\u201d, cabrocha pedante, muito cheio de si e de seus gal\u00f5es reluzentes, ia enfileirando a marinhagem por alturas, num exagero met\u00f3dico de instrutor de col\u00e9gio, arredando uns para colocar outros, advertindo estes porque n\u00e3o tinham a camisa abotoada e aqueles porque n\u00e3o tinham \u201cfita\u201d no bon\u00e9, amea\u00e7ando estoutro de lev\u00e1-lo \u00e0 presen\u00e7a de \u201cseu\u201d tenente porque recusava-se a perfilar&#8230;<\/p>\n<p>Oficiais come\u00e7avam a aparecer em segundo uniforme &#8211; bon\u00e9 e dragonas -, arrastando as espadas, mirando-se d\u2019alto a baixo, apertados no talim de pano azul, por cima da farda.<\/p>\n<p>Com pouco estava tudo pronto, marinheiros e oficiais &#8211; aqueles alinhados a dois de fundo, num e noutro bordo, estes a r\u00e9, perto do mastro grande, em atitude respeitosa de quem vai assistir a um ato solene.<\/p>\n<p>Tinha-se feito sil\u00eancio. Uma ou outra voz segredava baixinho, timidamente. E agora, no sil\u00eancio da mostra, \u00e9 que se ouvia bem o cachoeira de \u00e1gua no bojo da corveta caturrando&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ag\u00fcenta!<\/p>\n<p>Por fim apareceu o comandante abotoando a luva branca de camur\u00e7a, teso na sua farda nova, o ar autorit\u00e1rio, solta a espada num abandono elegante, as dragonas tremulando sobre os ombros em cachos de ouro, todo ele comunicando respeito.<\/p>\n<p>Era homem robusto de fei\u00e7\u00f5es e presen\u00e7a nobre, olhar en\u00e9rgico, muito moreno, desse moreno carregado, cor de bronze, que o sol imprime nos homens do mar, bigode largo e compacto, levemente grisalho, com uma ponta de arrog\u00e2ncia convencional.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio absoluto nas fileiras da marinhagem. Cada olhar tinha um brilho especial de indiscreta curiosidade. Um fr\u00eamito de instintiva covardia, como uma corrente el\u00e9trica, vinha \u00e0 face de toda aquela gente abespinhada ali assim perante um s\u00f3 homem, cuja palavra trazia sempre o cunho \u00e1spero da disciplina. Era um respeito profundo chegando \u00e0s raias da subservi\u00eancia animal que se agacha para receber o castigo, justo ou injusto, seja ele qual for.<\/p>\n<p>&#8211; Os presos&#8230;, fez o comandante, sem se alterar, dando um pux\u00e3o na manga da farda.<\/p>\n<p>Todos os olhos voltaram-se para o fiel d\u2019artilharia, vivamente curiosos, enquanto este, obedecendo \u00e0 ordem, precipitou-se pela escada que ia ter \u00e0 coberta, mudo e taciturno.<\/p>\n<p>O tenente continuava no passadi\u00e7o, a passear como se tudo corresse \u00e0s mil maravilhas naquele pequeno mundo flutuante de que ele era, agora, uma esp\u00e9cie de rei provis\u00f3rio. Ouvia-se-lhe o passo vagaroso e igual como o de uma sentinela noturna.<\/p>\n<p>A luz intensa do sol ca\u00eda do alto, pondo brilhos de malacacheta no cristal imenso do mar clamo. Um calor forte e asfixiante penetrava a carne, acelerando a circula\u00e7\u00e3o, congestionando, irritando o sistema nervoso atrozmente, implacavelmente.<\/p>\n<p>Toda a atmosfera parecia vibrar num inc\u00eandio universal.<\/p>\n<p>E o pano, largo e frouxo, a bater, a bater como uma cousa desesperada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Calmaria est\u00fapida! pensava o tenente consultando os horizontes. &#8211; Ele, o grande patesca, a olhar o tempo, sem fazer nada, por causa de um diabo de calma intermin\u00e1vel. Rar\u00edssimas vezes lhe acontecia aquilo: era mesmo para danar uma pessoa&#8230;<\/p>\n<p>Chegam os presos: um rapazinho magro, muito amarelo, rosto liso, completamente imberbe; outro regulando a mesma idade, mas um pouco moreno, tamb\u00e9m grumete; e um primeira-classe, negro alto, espada\u00fado, cara lisa.<\/p>\n<p>Vinham em ferros, um a um, arrastando os p\u00e9s num passo curto e demorado, e encaminharam-se para o meio do conv\u00e9s, fazendo alto a um aceno do comandante. Este imediatamente segredou a outro oficial, que estava a seu lado com um livro na m\u00e3o, e, dirigindo-se ao primeiro sentenciado, o da frente, o rapazinho amarelo, cor da terra:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe por que vai ser castigado?<\/p>\n<p>O grumete, sem levantar a cabe\u00e7a, murmurou afirmativamente: que sim, senhor&#8230;<\/p>\n<p>Chamava-se Herculano e no seu rosto imberbe de adolescente havia uns longes de melancolia serena, assim como uma precoce morbidez sintom\u00e1tica&#8230; um secreto arrependimento.<\/p>\n<p>Na gola quadrangular de flanela azul destacava a divisa branca de sua classe.<\/p>\n<p>As unhas metiam n\u00e1usea, muito quilotadas de alcatr\u00e3o, desleixadas mesmo. Triste figura essa, cujo aspecto deixava uma impress\u00e3o desagrad\u00e1vel e persistente.<\/p>\n<p>O comandante, depois de um breve discurso em que as palavras \u201cdisciplina e ordem\u201d repetiam-se, fez um sinalzinho com a cabe\u00e7a e logo o oficial imediato, um louro, de bigode, come\u00e7ou a leitura do C\u00f3digo na parte relativa a castigos corporais.<\/p>\n<p>A marinhagem, analfabeta e rude, ouvia silenciosa, com um vago respeito no olhar, aquele repisado cap\u00edtulo do livro disciplinar, em p\u00e9, \u00e0 luz dura e mordente do meio dia, enquanto o oficial do quarto, gozando a sombra reparadora de um largo toldo estendido sobre sua cabe\u00e7a, ia e vinha, de um bordo a outro bordo, sem se preocupar com o resto da humanidade.<\/p>\n<p>Junto aos presos equilibrava-se um homem de grande estatura, largo e refor\u00e7ado, tipo de caboclo nascido no Amazonas, trajando fardeta e bon\u00e9 e segurando com ambas as m\u00e3os, sobre o joelho em descanso, o instrumento de castigo: era o guardi\u00e3o Agostinho, o c\u00e9lebre guardi\u00e3o Agostinho, especialista consumado no of\u00edcio de aplicar a chibata, o mais robusto e valente de todos os guardi\u00f5es, e cujo zelo em cousas de \u201cpatescaria\u201d tornara-se proverbial, Nos momentos de manobra dif\u00edcil, era ele quem auxiliava o mestre na faina, invariavelmente munido de um apito de prata, n\u00e3o se afastando nunca de suas obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Caboclo macho! diziam os companheiros.<\/p>\n<p>Se acontecia desprender-se um moit\u00e3o, um cabo qualquer, l\u00e1 cima nos mastros, em lugar arriscado, ele, mais que depressa, galgava os enfrechates, com aquele corpo muito pesado, transpunha o cesto da g\u00e1vea, sem olhar para tr\u00e1s, e ei-lo agarradinho aos vaus, atando e desatando, ligeiro, alvo de todos os olhares, oscilando com o navio, em termos de precipitar-se no mar. Homem de poucas palavras, muito metido consigo, tolerante e en\u00e9rgico ao mesmo tempo em mat\u00e9ria de servi\u00e7o, n\u00e3o compreendia a disciplina sem chibata, \u201c\u00fanico meio de se fazer marinheiro\u201d.<\/p>\n<p>E tinha sempre esta frase na ponta da l\u00edngua: &#8211; Navio de guerra sem chibata \u00e9 pior que escuna mercante&#8230;<\/p>\n<p>Por isso os companheiros n\u00e3o o estimavam muito; pelo contr\u00e1rio, evitavam a sua presen\u00e7a, procurando intrig\u00e1-lo com o mestre e com os outros inferiores. &#8211; O guardi\u00e3o Agostinho, sim, que era homem valente, capaz de comandar um quarto&#8230;<\/p>\n<p>E riam \u00e0s escondidas, praguejando contra \u201co burro do Agostinho, que nem ao menos tinha jeito para capit\u00e3o de proa&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Ele ali se achava tamb\u00e9m, no sue posto, \u00e0 espera de um sinal para descarregar a chibata, implacavelmente, sobre a v\u00edtima. Sentia um prazer especial naquilo, que diabo! cada qual tem a sua mania&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vinte e cinco&#8230;, ordenou o comandante.<\/p>\n<p>&#8211; Tira a camisa? quis logo saber Agostinho radiante, cheio de satisfa\u00e7\u00e3o, vergando o junco para experimentar-lhe a flexibilidade.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o: com a camisa&#8230;<\/p>\n<p>E solto agora dos machos, triste e resignado, Herculano sentiu sobre o dorso a for\u00e7a brutal do primeiro golpe, enquanto uma voz cantava, sonolenta e a arrastada:<\/p>\n<p>&#8211; Uma!&#8230; e sucessivamente: duas!&#8230; tr\u00eas!&#8230; vinte e cinco!<\/p>\n<p>Herculano j\u00e1 n\u00e3o suportava. Torcia-se todo no bico dos p\u00e9s, erguendo os bra\u00e7os e encolhendo as pernas, cortado de dores agud\u00edssimas que se espalhavam por todo o corpo, at\u00e9 pelo rosto, como se lhe rasgassem as carnes. A cada golpe escapava-lhe um gemido surdo e tr\u00eamulo que ningu\u00e9m ouvia sen\u00e3o ele pr\u00f3prio no desespero de sua dor.<\/p>\n<p>Toda gente assistia aquilo sem pesar, com a fria indiferen\u00e7a de m\u00famias.<\/p>\n<p>&#8211; Corja! regougou o comandante brandindo a luva. N\u00e3o se compenetram de seus deveres, n\u00e3o respeitam a autoridade! Hei de ensin\u00e1-los: ou aprendem ou racho-os!<\/p>\n<p>O caso era simples: Herculano tinha uns modos esquisitos de viver sempre retra\u00eddo, pelos cantos, evitando a companhia dos outros, fazendo seu servi\u00e7o calado, n\u00e3o se envolvendo em sambas \u00e0 noite, na proa. T\u00edmido e esquivo, cada vez mais p\u00e1lido, o olhar morto com uma pronunciada aur\u00e9ola de bistre, a voz cansada, caindo de fraqueza, &#8211; tinham-lhe dado o apelido rid\u00edculo de Pinga&#8230;<\/p>\n<p>O grumete n\u00e3o podia se conformar com esse tratamento, por mais inofensivo que ele fosse, e vingava-se dos companheiros atirando-lhes palavr\u00f5es de regateira aprendidos ali mesmo a bordo.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Pinga!&#8230;<\/p>\n<p>Bastava isto para que ele desenrolasse o vocabul\u00e1rio do insulto numa c\u00f3lera amea\u00e7adora que \u00e0s vezes chegava ao del\u00edrio.<\/p>\n<p>Os outros, por\u00e9m, ca\u00edam na gargalhada:<\/p>\n<p>&#8211; Olha o Pinga! Segura ele!<\/p>\n<p>&#8211; Pinga \u00e9 &#8230;<\/p>\n<p>E l\u00e1 ia uma obscenidade, um cal\u00e3o grosseiro.<\/p>\n<p>Palavra puxa palavra, quase sempre o gracejo acabava em quest\u00f5es de outra ordem e da\u00ed pris\u00f5es, castigos&#8230;<\/p>\n<p>Ora, aconteceu que, na v\u00e9spera desse dia, Herculano foi surpreendido, por outro marinheiro, a praticar uma a\u00e7\u00e3o feia e deprimente do car\u00e1ter humano. Tinham-no encontrado sozinho, junto \u00e0 amurada, em p\u00e9, a mexer com o bra\u00e7o numa posi\u00e7\u00e3o torpe, cometendo, contra si pr\u00f3prio, o mais vergonhoso dos atentados.<\/p>\n<p>O outro, um mulatinho esperto. que tinha o h\u00e1bito de andar espiando, \u00e0 noite, o que faziam os companheiros, precipitou-se a chamar o Sant&#8217;Ana, e, riscando um f\u00f3sforo, aproximaram-se ambos \u201cpara examinar\u201d&#8230;. No conv\u00e9s brilhava a n\u00f3doa de um escarro ainda fresco: Herculano acabava de cometer um verdadeiro crime n\u00e3o previsto nos c\u00f3digos, um crime de lesa natureza, derramando inutilmente no conv\u00e9s seco e est\u00e9ril, a seiva geradora do homem.<\/p>\n<p>Grande foi o seu desapontamento ao ver-se apanhado em flagrante naquela grotesca situa\u00e7\u00e3o. Investiu para o Sant&#8217;Ana, fulo de raiva, extremamente p\u00e1lido, e com pouco estavam os dois agarrados numa luta corpo a corpo, aos trambolh\u00f5es, acordando os que dormiam por ali o bom sono da madrugadinha&#8230; Terminou o alvoro\u00e7o com a pris\u00e3o de ambos.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! seu Pinga, seu Pinga!&#8230; repetia o guardi\u00e3o do quarto. N\u00e3o pense que, por ser branco, h\u00e1 de fazer das suas&#8230;<\/p>\n<p>Tal fora o delito de Herculano e do seu camarada Sant\u2019Ana que tamb\u00e9m ia ser castigado.<\/p>\n<p>O Sant&#8217;Ana, por\u00e9m, n\u00e3o era l\u00e1 rapaz de que sofresse calado: tinha sempre o que dizer na ocasi\u00e3o do castigo, desculpando-se como podia perante a autoridade a fim de escapar manhosamente \u00e0 a\u00e7\u00e3o criminal, o que nunca lhe sucedera, porque toda gente o conhecia bastante.<\/p>\n<p>Era um pobre diabo de terceira classe, moreno cor de jenipapo, cabelo rente, \u00e0 escovinha, olhos negros, nariz aca\u00e7apado, cara magra, e cujo nome l\u00e1 estava no livro de castigos um ror de vezes. Gago de nascen\u00e7a, fazia rir aos companheiros quando abria a boca para dizer qualquer cousa, principalmente se estava num de seus momentos de sobreexcita\u00e7\u00e3o col\u00e9rica, porque, ent\u00e3o, ningu\u00e9m o compreendia.<\/p>\n<p>Tinha a facilidade ing\u00eanita das l\u00e1grimas: a mais leve como\u00e7\u00e3o fazia-o chorar, transformando-lhe os olhos em duas fontes de \u00famida ternura.<\/p>\n<p>P\u00f4s-se logo a gaguejar uma hist\u00f3ria de \u201cimplica\u00e7\u00f5es\u201d: que estava bem sossegadinho no seu canto e o Herculano fora provoc\u00e1-lo, \u201cimplicar com ele\u201d&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, guardi\u00e3o, vamos, que \u00e9 tarde. N\u00e3o estou para ouvir hist\u00f3rias. V\u00e1!&#8230;<\/p>\n<p>Agostinho vergou o junco e, resolutamente, sem inquirir cousa alguma, com um risinho de instintiva malvadez no canto da boca, desfechou o primeiro golpe:<\/p>\n<p>&#8211; Uma! contou a mesma voz de h\u00e1 pouco.<\/p>\n<p>O rapaz empinou-se na ponta dos p\u00e9s, arregalando muito os olhos, esfregando as m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! gemeu com um grito de dor. &#8211; Pe&#8230; pe&#8230; pelo amor de&#8230; de&#8230; de Deus, seu&#8230; seu&#8230; comandante!<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, vamos!&#8230;<\/p>\n<p>Seguiram-se as outras chibatadas implac\u00e1veis, brutais como c\u00e1usticos de fogo, caindo uma a uma, dolorosamente, no corpo franzino do marinheiro.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o teve jeito sen\u00e3o suport\u00e1-las todas, uma a uma, porque de nada lhe serviam os gritos, as s\u00faplicas e as l\u00e1grimas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Hei de corrigi-los, bradava o comandante, aceso em s\u00fabita c\u00f3lera, mal humorado sob a luz ardent\u00edssima do meio dia tropical. &#8211; Hei de corrigi-los: corja!<\/p>\n<p>Nenhum fr\u00eamito de como\u00e7\u00e3o na marinhagem, testemunha habitual daquelas cenas que j\u00e1 n\u00e3o logravam produzir efeitos sentimentais, como se fora a reprodu\u00e7\u00e3o banal de um quadro muito visto.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava a cair uma aragenzinha leve, t\u00e3o leve que apenas atenuava a for\u00e7a c\u00e1ustica do sol, inflando as velas quase imperceptivelmente.<\/p>\n<p>O tenente, um pouco animado agora com a vira\u00e7\u00e3o que precede os ventos largos, tomava notas num pequeno caderno, ansioso por chamar a gente aos \u201cbra\u00e7os\u201d.<\/p>\n<p>Meio dia quase e ainda n\u00e3o estava acabado o castigo.<\/p>\n<p>Seguia-se o terceiro preso, um latag\u00e3o de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formid\u00e1vel sistema de m\u00fasculos, a morbidez patol\u00f3gica de toda uma gera\u00e7\u00e3o cadente e enervada, e cuja presen\u00e7a ali naquela ocasi\u00e3o, despertava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro, gajeiro da proa &#8211; o BOM CRIOULO na g\u00edria de bordo.<\/p>\n<p>&#8211; Aproxime-se, disse o comandante imperiosamente, carregando na voz e no semblante.<\/p>\n<p>Houve um sussurro long\u00ednquo, um leve, um t\u00edmido murm\u00fario nas fileiras da marinhagem, assim como o vago estremecimento que assalta os espectadores de um teatro nas muta\u00e7\u00f5es de cen\u00e1rio. Agora a cousa era outra, na verdade. O Herculano e o Sant&#8217;Ana, de resto, n\u00e3o passavam de uns pulhas, de uns miser\u00e1veis marinheiros que dificilmente ag\u00fcentavam no lombo vinte e cinco chibatadas: uns crian\u00e7olas!&#8230; Queria-se ver o Amaro, o c\u00e9lebre, o terr\u00edvel Bom-Crioulo.<\/p>\n<p>Fez-se nova leitura do C\u00f3digo em voz lenta e cadenciada de of\u00edcio religioso, e o comandante, formalizando-se dentro de sua farda muito justa e luzida:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe por que vai ser castigado?<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor.<\/p>\n<p>Estas palavras, Bom-Crioulo proferiu-as num tom resoluto, sem o mais ligeiro constrangimento, firmando o olhar, atrevidamente, nos gal\u00f5es de ouro daquele oficial. Em p\u00e9, junto ao mastro, unidos os calcanhares, os bra\u00e7os caindo ao longo do corpo, militarmente perfilado, havia, contudo, na linha dos ombros, no jeito da cabe\u00e7a, onde quer que fosse, um recolhido e trai\u00e7oeiro cunho de flexibilidade e destreza felinas.<\/p>\n<p>Com efeito, Bom-Crioulo n\u00e3o era somente um homem robusto, uma dessas organiza\u00e7\u00f5es privilegiadas que trazem no corpo a sobranceira resist\u00eancia do bronze e que esmagam com o peso dos m\u00fasculos.<\/p>\n<p>A for\u00e7a nervosa era nele uma qualidade intr\u00ednseca sobrepujando todas as outras qualidades fisiol\u00f3gicas, emprestando-lhe movimentos extraordin\u00e1rios, invenc\u00edveis mesmo, de um acrobatismo imprevisto e raro.<\/p>\n<p>Esse dom precioso e natural desenvolvera-se-lhe \u00e0 for\u00e7a de um exerc\u00edcio continuado que o tornara conhecido em terra, nos conflitos com soldados e catraieiros, e a bordo, quando entrava embriagado.<\/p>\n<p>Porque Bom-Crioulo de longe em longe sorvia o seu gole de aguardente, chegando mesmo a se chafurdar em bebedeiras que o obrigavam a toda a sorte de loucuras.<\/p>\n<p>Armava-se de navalha, ia para os cais, todo transfigurado, os olhos dardejando fogo, o bon\u00e9 de um lado, a camisa aberta num desleixo de louco, e ent\u00e3o era um risco, uma temeridade algu\u00e9m aproximar-se dele. O negro parecia uma fera desencarcerada: fazia todo mundo fugir, marinheiros e homens da praia, porque ningu\u00e9m estava para sofrer uma agress\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Quando havia conflito no cais Pharoux, j\u00e1 toda gente sabia que era o Bom-Crioulo \u00e0s voltas com a pol\u00edcia . Reunia povo, toda a popula\u00e7\u00e3o do litoral corria enchendo a pra\u00e7a, como se tivesse acontecido uma desgra\u00e7a enorme, formavam-se partidos a favor da pol\u00edcia e da marinha&#8230; uma cousa indescrit\u00edvel!<\/p>\n<p>O motivo, por\u00e9m, de sua pris\u00e3o agora, no alto mar, a borda da corveta, era outro, muito outro: Bom-Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda classe, porque este ousara, \u201csem o seu consentimento\u201d, maltratar o grumete Aleixo, um belo marinheirito de olhos azuis , muito querido por todos e de quem diziam-se \u201ccousas\u201d.<\/p>\n<p>Metido em ferros no por\u00e3o, Bom-Crioulo n\u00e3o deu palavra. Admiravelmente manso, quando se achava em seu estado normal, longe de qualquer influ\u00eancia alco\u00f3lica, submeteu-se \u00e0 vontade superior, esperando resignado o castigo. &#8211; Reconhecia que fizera mal, que devia ser punido, que era t\u00e3o bom quanto os outros, mas, que diabo! estava satisfeito: mostrara ainda uma vez que era homem&#8230; Depois estimava o grumete e tinha certeza de o conquistar inteiramente, como se conquista uma mulher formosa, uma terra virgem, um pa\u00eds de ouro&#8230; Estava satisfeit\u00edssimo.<\/p>\n<p>A chibata n\u00e3o lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir como um H\u00e9rcules ao pulso do guardi\u00e3o Agostinho. J\u00e1 nem se lembrava do n\u00famero das vezes que apanhara de chibata&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Uma! cantou a mesma voz. &#8211; Duas!&#8230; tr\u00eas!&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo tinha despido a camisa de algod\u00e3o, e, nu da cintura para cima, numa riqu\u00edssima exibi\u00e7\u00e3o de m\u00fasculos, os seios muito salientes, as esp\u00e1duas negras reluzentes, um sulco profundo e liso d\u2019alto a baixo no dorso, nem sequer gemia, como se estivesse a receber o mais leve dos castigos.<\/p>\n<p>Entretanto, j\u00e1 iam cinq\u00fcenta chibatadas! Ningu\u00e9m lhe ouvira um gemido, nem percebera uma contor\u00e7\u00e3o, um gesto qualquer de dor. Viam-se unicamente naquele cost\u00e3o negro as marcas do junco, umas sobre as outras, entrecruzando-se como uma grande teia de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos os sentidos.<\/p>\n<p>De repente, por\u00e9m, Bom-Crioulo teve um estremecimento e soergueu um bra\u00e7o: a chibata vibrara em cheio sobre os rins, empolgando o baixo-ventre. Fora um golpe medonho, arremessado com uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Por sua vez Agostinho estremeceu, mas estremeceu de gozo ao ver, afinal, triunfar a rijeza de seu pulso.<\/p>\n<p>Marinheiros e oficiais, num sil\u00eancio concentrado, alongavam o olhar, cheios de interesse, a cada golpe.<\/p>\n<p>&#8211; Cento e cinq\u00fcenta!<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra deslizar no espinha\u00e7o negro do marinheiro e logo este ponto vermelho se transformar numa fita de sangue.<\/p>\n<p>Nesse momento o oficial, ponteirando o \u00f3culo de alcance, procurava reconhecer uma sombra quase invis\u00edvel que parecia flutuar muito longe, nos confins do horizonte: era, talvez, a fuma\u00e7a de algum transatl\u00e2ntico&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Basta! imp\u00f4s o comandante.<\/p>\n<p>Estava terminado o castigo. Ia recome\u00e7ar a faina.<\/p>\n<h4><a name=\"2\">Cap\u00edtulo II<\/a><\/h4>\n<p>Inda estava longe, bem longe a vit\u00f3ria do abolicionismo, quando Bom-Crioulo, ent\u00e3o simplesmente Amaro, veio, ningu\u00e9m sabe donde, metido em roupas d\u2019algod\u00e3ozinho, trouxa ao ombro, grande chap\u00e9u de palha na cabe\u00e7a e alpercatas de couro cru. Menor (teria dezoito anos), ignorando as dificuldades por que passa todo homem de cor em um meio escravocrata e profundamente superficial como era a Corte &#8211; ing\u00eanuo e resoluto, abalou sem ao menos pensar nas conseq\u00fc\u00eancias da fuga.<\/p>\n<p>Nesse tempo o \u201cnegro fugido\u201d aterrava as popula\u00e7\u00f5es de um modo fant\u00e1stico. Dava-se ca\u00e7a ao escravo como aos animais, de espora e garrucha, mato a dentro, saltando precip\u00edcios, atravessando rios a nado, galgando montanhas&#8230; Logo que o fato era denunciado &#8211; aqui-del-rei! &#8211; enchiam-se as florestas de tropel, saiam estafetas pelo sert\u00e3o num clamor estranho, medindo pegadas, a\u00e7ulando c\u00e3es, rompendo cafezais. At\u00e9 fechavam-se as portas com medo&#8230; Jornais traziam na terceira p\u00e1gina a figura de um \u201cmoleque\u201d em fuga, trouxa ao ombro, e, por baixo, o an\u00fancio, quase sempre em tipo cheio, minucioso, expl\u00edcito, com todos os detalhes, indicando estatura, idade, les\u00f5es, v\u00edcios, e outros caracter\u00edsticos do fugitivo. Al\u00e9m disso o \u201cpropriet\u00e1rio\u201d gratificava generosamente a quem prendesse o escravo.<\/p>\n<p>Conseguindo, por\u00e9m, escapar \u00e0 vigil\u00e2ncia dos interessados, e depois de curtir uma noite, a mais escura de sua vida, numa esp\u00e9cie de jaula com grades de ferro, Amaro, que s\u00f3 temia regressar \u00e0 \u201cfazenda\u201d, voltar ao seio da escravid\u00e3o, estremeceu diante de um rio muito largo e muito calmo, onde havia barcos vogando em todos os sentidos, \u00e0 vela, outros deitando fuma\u00e7a, e l\u00e1 em cima, beirando a \u00e1gua, um morro alto, em ponta, varando as nuvens, como ele nunca tinha visto.<\/p>\n<p>Depois mandaram-no tirar a roupa do corpo (at\u00e9 ficou envergonhado&#8230;), examinaram-lhe as costas, o peito, as virilhas, e deram-lhe uma camisa azul de marinheiro.<\/p>\n<p>No mesmo dia foi para a fortaleza, e , assim que a embarca\u00e7\u00e3o largou do cais a um impulso forte, o novo homem do mar sentiu pela primeira vez toda a alma vibrar de uma maneira extraordin\u00e1ria, como se lhe houvessem injetado no sangue de africano a frescura deliciosa de um fluido misterioso. A liberdade entrava-lhe pelos olhos , pelos ouvidos, pelas narinas, por todos os poros, enfim, como a pr\u00f3pria alma da luz, do som, do odor e de todas as cousas et\u00e9reas&#8230; Tudo que o cercava: a planura da \u00e1gua cantando na proa do escaler, o imaculado azul do c\u00e9u, o perfil long\u00ednquo das montanhas, navios balou\u00e7ando entre ilhas, e a casaria im\u00f3vel da cidade que ficava para tr\u00e1s &#8211; os companheiros mesmo que iam remando igual, como se fossem um s\u00f3 bra\u00e7o -, e sobretudo, meu Deus!, sobretudo o ambiente largo e iluminado da ba\u00eda: enfim, todo o conjunto da paisagem comunicava-lhe uma sensa\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte de liberdade e vida, que at\u00e9 lhe vinha vontade de chorar, mas de chorar francamente, abertamente, na presen\u00e7a dos outros, como se estivesse enlouquecendo&#8230; Aquele magn\u00edfico cen\u00e1rio gravara-se-lhe na retina para toda a exist\u00eancia; nunca mais o havia de esquecer, \u00f3, nunca mais! Ele, o escravo, o \u201cnegro fugido\u201d sentia-se verdadeiramente homem, igual aos outros homens, feliz de o ser, grande como a natureza, em toda a pujan\u00e7a viril da sua mocidade, e tinha pena, muita pena dos que ficavam na \u201cfazenda\u201d trabalhando, sem ganhar dinheiro, desde a madrugada t\u00e9 &#8230; sabe Deus!<\/p>\n<p>No princ\u00edpio, antes de ir para bordo, foi-lhe dif\u00edcil esquecer o passado, a \u201cm\u00e3e Sabina\u201d, os costumes que aprendera nos cafezais&#8230; Muita vez chegava a sentir um vago desejo de abra\u00e7ar os seus antigos companheiros do eito, mas logo essa lembran\u00e7a esva\u00eda-se como a fuma\u00e7a long\u00ednqua e t\u00eanue das queimadas, e ele voltava \u00e0 realidade, abrindo os olhos, num gozo infinito para o mar crivado de embarca\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>A disciplina militar, como todos os seus excessos, n\u00e3o se comparava ao penoso trabalho da fazenda, ao regimen terr\u00edvel do tronco e do chicote. Havia muita diferen\u00e7a&#8230; Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanh\u00e3 suculenta feijoada, e, \u00e0s sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e \u201csangue de Cristo\u201d&#8230; Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, s\u00f3 a liberdade valia por tudo! Ali n\u00e3o se olhava a cor ou a ra\u00e7a do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias &#8211; o mesmo servi\u00e7o, a mesma folga. &#8211; \u201cE quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando n\u00e3o se tem inimigos, ent\u00e3o \u00e9 um viver aben\u00e7oado esse: ningu\u00e9m pensa no dia d\u2019amanh\u00e3!\u201d<\/p>\n<p>Amaro soube ganhar logo a afei\u00e7\u00e3o dos oficiais. N\u00e3o podiam eles, a princ\u00edpio, conter o riso diante daquela figura de recruta alheio \u00e0s praxes militares, rude como um selvagem, provocando a cada passo gargalhadas irresist\u00edveis com seus modos ing\u00eanuos de tabar\u00e9u; mas, no fim de alguns meses, todos eram de parecer que \u201co negro dava para gente\u201d. Amaro j\u00e1 sabia manejar uma espingarda segundo as regras do of\u00edcio, e n\u00e3o era l\u00e1 nenhum botocudo em artilharia; criara fama de \u201cpatesca\u201d.<\/p>\n<p>Nunca, durante esse primeiro ano de aprendizagem, merecera a pena de um castigo disciplinar: seu car\u00e1ter era t\u00e3o meigo que os pr\u00f3prios oficiais come\u00e7aram a trat\u00e1-lo por Bom-Crioulo. Seu maior desejo, por\u00e9m, sua grande preocupa\u00e7\u00e3o, era embarcar fosse em que navio fosse, acostumar-se a viver no mar, conhecer, enquanto estava mo\u00e7o, os costumes de bordo, saber praticamente \u201camichelar uma verga, rizar uma vela, fazer um quarto na agulha&#8230;\u201d Podia muito bem ser promovido logo&#8230; Invejava os que andavam no alto-mar, longe de terra, bordejando \u00e0 solta por esses mundos de Deus. Como devia de ser bom para a alma e para o corpo o ar livre que se respira l\u00e1 fora, sobre as \u00e1guas!&#8230;<\/p>\n<p>Divertia-se a construir pequenas embarca\u00e7\u00f5es de madeira imitando navios de guerra com fl\u00e2mula no tope do mastro e portinholas, cruzadores em miniatura, iatezinhos, tudo \u00e0 ponta de canivete e com a paci\u00eancia tenaz de um arquiteto.<\/p>\n<p>Mas, nada de o fazerem embarcar definitivamente! Ia para bordo, \u00e0s vezes, em exerc\u00edcio, remando no escaler, mas voltava logo com a turma dos outros aprendizes, triste por n\u00e3o ter ficado, sonhando hist\u00f3rias de viagens, cousas que havia de ver, quando pela primeira vez sa\u00edsse pela barra fora&#8230;<\/p>\n<p>Chegou afinal esse dia. Bom-Crioulo estava nomeado para embarcar num velho transporte que seguia para o sul.<\/p>\n<p>&#8211; Ora, at\u00e9! fez ele, erguendo os bra\u00e7os com um gesto de maravilhosa surpresa. At\u00e9 que enfim, gra\u00e7as a deus, lembraram-se do Bom-Crioulo!<\/p>\n<p>E saiu por ali muito feliz, muito alegre, todo alvoro\u00e7ado, anunciando seu destino. &#8211; Queriam alguma cousa do sul? Nem uma lembran\u00e7azinha do Rio Grande? Nada, nada ?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Traze uma paraguaia, \u00f3 Bom-Crioulo, gracejava um.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, eu me contento com uma d\u00fazia d\u2019ovos, de Santa Catarina&#8230;<\/p>\n<p>Outros encomendavam-lhe cousas imposs\u00edveis: um peda\u00e7o de \u201cgringo\u201d assado; uma ter\u00e7a de sangue espanhol: a orelha de um \u201cbarriga-verde\u201d&#8230;<\/p>\n<p>E riam todos no rancho, e todos o que estimavam \u00e9 que Amaro fosse muito feliz na sua primeira viagem, que voltasse gordo e forte \u201cpra matar galego no cais dos Mineiros\u201d.<\/p>\n<p>Alguns gabavam o comandante do transporte, o velho Novais, bom homem, que n\u00e3o gostava de castigar e que era at\u00e9 amigo dos marinheiros.<\/p>\n<p>&#8211; E o imediato?<\/p>\n<p>Ora, o imediato era um tal Pontes, um de su\u00ed\u00e7as, que naufragara na corveta Isabel, muito feio, coitado, mas boa pessoa; tamb\u00e9m n\u00e3o fazia mal a ningu\u00e9m, pelo contr\u00e1rio &#8211; marinheiro que lhe ca\u00edsse nas gra\u00e7as era tratado a vinho do Porto&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo exultava!<\/p>\n<p>O embarque devia se efetuar \u00e0 tardinha, pouco antes de \u201carriar a bandeira\u201d.<\/p>\n<p>Todo ele estava pronto, e via-se-lhe no olhar, na fala, nos modos, o grande contentamento de que estava cheio seu cora\u00e7\u00e3o. Era uma felicidade estranha, um bem estar nunca visto, assim como o come\u00e7o de uma loucura inofensiva e serena, que o fazia mais homem vinte vezes, que o tornava mais forte e retemperado para as lutas da vida. Suave embriaguez dos sentidos, essa que vem de uma grande alegria ou de uma tristeza imensa&#8230; Bom-Crioulo s\u00f3 experimentara prazer igual quando o tinham obrigado a conhecer o que \u00e9 liberdade, recrutando-o para a marinha. Essa liberdade ampliava-se agora a seus olhos, crescia desmesuradamente em sua imagina\u00e7\u00e3o, provocando-lhe fr\u00eamitos de alucinado, abrindo-lhe n\u2019alma horizontes cor-de-rosa, largos e ignorados.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixava um s\u00f3 inimigo, um rival sequer na fortaleza; ia bem com todos, ego\u00edsta na sua felicidade, mas levando a saudades irresist\u00edvel dos que se v\u00e3o embora&#8230;<\/p>\n<p>Quando o escaler que o conduzia se afastou da ponte, onde os companheiros acenavam com os bon\u00e9s, num entusiasmo comovente, ele sentiu a quentura de uma l\u00e1grima fugitiva descer-lhe rosto abaixo, e, disfar\u00e7ando, p\u00f4s-se tamb\u00e9m a acenar, em p\u00e9 na embarca\u00e7\u00e3o, vendo sumirem-se pouco a pouco, na bruma do crep\u00fasculo, os contornos da ilha e as sauda\u00e7\u00f5es da maruja.<\/p>\n<p>Parecia-lhe ouvir ainda, na proa do transporte, como as \u00faltimas reminisc\u00eancias de um sonho, a voz dos companheiros abra\u00e7ando-o: &#8211; Adeus, \u00f3 Bom-Crioulo: s\u00ea feliz!<\/p>\n<p>N\u00e3o dormiu toda essa noite. Estendido no conv\u00e9s sobre o dorso, como se estivesse num bom leito macio e amplo, viu desaparecerem as estrelas, uma a uma, na penumbra da antemanh\u00e3, e o dia ressurgir glorioso, dourando os \u00d3rg\u00e3os, ourejando os edif\u00edcios, cantando o hino triunfal da ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E pouco depois o espl\u00eandido cen\u00e1rio da ba\u00eda transformara-se num vast\u00edssimo oceano deserto e resplandecente, desdobrando-se num c\u00edrculo imenso d\u2019\u00e1gua, onde n\u00e3o verdejava sequer um canto de o\u00e1sis&#8230; A grandeza do mar enchia-o de uma coragem espartana. Ali se achava, ao redor dele, a sublime express\u00e3o da liberdade infinita e da soberania absoluta, coisas que o seu instinto alcan\u00e7ava muito vagamente atrav\u00e9s de um nevoeiro de ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Dias e dias correram. A bordo todos o estimavam como na fortaleza, e a primeira vez que o viram, nu, uma bela manh\u00e3, depois da baldea\u00e7\u00e3o, refestelando-se num banho salgado &#8211; foi um clamor! N\u00e3o havia osso naquele corpo de gigante: o peito largo e rijo, os bra\u00e7os, o ventre, os quadris, as pernas, formavam um conjunto respeit\u00e1vel de m\u00fasculos, dando uma id\u00e9ia de for\u00e7a f\u00edsica sobre-humana, dominando a maruja, que sorria boquiaberta diante do negro. Desde ent\u00e3o Bom-Crioulo passou a ser considerado um \u201chomem perigoso\u201d exercendo uma influ\u00eancia decisiva no esp\u00edrito daquela gente, impondo-se incondicionalmente, absolutamente, como o bra\u00e7o mais forte, o peito mais robusto de bordo. Os grandes pesos era ele quem levantava, para tudo a\u00ed vinha Bom-Crioulo com seu pulso de ferro, com a sua for\u00e7a de oitenta quilos, mostrar como se alava um bra\u00e7o grande, como se abafava uma vela em temporal, como se trabalhava com gosto.<\/p>\n<p>Entretanto, o seu nome ia ganhando fama em todos os navios. &#8211; Um peda\u00e7o de bruto, aquele Bom-Crioulo! diziam os marinheiros. &#8211; Um animal inteiro \u00e9 o que ele era!<\/p>\n<p>Tinha um forte desejo ainda: suspirava por embarcar em certo navio, cujo comandante, um fidalgo, dizia-se amigo de todo marinheiro robusto; excelente educador da mocidade, perfeito cavalheiro no trato ameno e severo.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo conhecia-o de vista somente e ficara simpatizando imensamente com ele. Demais, o comandante Albuquerque recompensava os servi\u00e7os de sua gente, n\u00e3o se negava a promover os seus afei\u00e7oados. Isso de se dizer que preferia uma sexo a outro nas rela\u00e7\u00f5es amorosas podia ser uma cal\u00fania como tantas que inventam por a\u00ed&#8230; Ele, Bom-Crioulo, n\u00e3o tinha nada que ver com isso. Era uma quest\u00e3o \u00e0 parte, que diabo! ningu\u00e9m est\u00e1 livre de um v\u00edcio.<\/p>\n<p>Mas, anunciou-se a viagem da corveta, e l\u00e1 Bom-Crioulo deixou o cruzador para seguir seu novo destino.<\/p>\n<p>Contava ent\u00e3o cerca de trinta anos e trazia a gola de marinheiro de segunda-classe. Por sua vontade n\u00e3o sairia mais barra fora: em dez anos viajara quase o mundo inteiro, arriscando a vida cinq\u00fcenta vezes, sacrificando-se inutilmente. &#8211; Afinal a gente aborrece&#8230; Um pobre marinheiro trabalha como besta, de sol a sol, passa noites acordado, atura desaforo de todo mundo, sem proveito, sem o menor proveito! O verdadeiro \u00e9 levar a vida \u201cna flauta\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Nessa viagem Bom-Crioulo n\u00e3o foi mais feliz que nas outras. Nomeado gajeiro de proa, esp\u00e9cie de fiscal do mastro do traquete, a princ\u00edpio dera conta irrepreensivelmente de suas obriga\u00e7\u00f5es e podia-se ver o asseio e a boa ordem que reinavam ali, desde a borla do tope t\u00e9 embaixo \u00e0 chapa das malaguetas. Fazia gosto a presteza com que se efetuavam as manobras. A faina corria sempre na melhor ordem, livre de acidentes, como se todo o mastro fosse uma grande m\u00e1quina movida a vapor, desafiando a gente dos outros mastros.<\/p>\n<p>Agora, por\u00e9m, de torna-viagem as cousas tinham mudado. O traquete era um dos \u00faltimos a estar pronto, havia sempre um obst\u00e1culo, uma dificuldade: era um cabo que \u201cpegava\u201d, um \u201candarivelo\u201d que se partia ou cousa que faltava&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Anda com isso! bradava o oficial do quarto j\u00e1 impaciente.<\/p>\n<p>E s\u00f3 depois de muito tempo \u00e9 que o Bom-Crioulo anunciava l\u00e1 de cima do mastar\u00e9u, com a voz estragada:<\/p>\n<p>&#8211; Pronto!<\/p>\n<p>Diziam uns que a cacha\u00e7a estava deitando a perder \u201co negro\u201d, outros, por\u00e9m, insinuavam que Bom-Crioulo tornara-se assim, esquecido e indiferente, d\u00eas que \u201cse metera\u201d com o Aleixo, o tal grumete, o belo marinheirito de olhos azuis, que embarcara no sul. &#8211; O ladr\u00e3o do negro estava mesmo ficando sem vergonha! E n\u00e3o lhe fossem fazer recrimina\u00e7\u00f5es, dar conselhos&#8230; Era muito homem para esmagar um!<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio comandante j\u00e1 sabia daquela amizade escandalosa com o pequeno. Fingia-se indiferente, como se nada soubesse, mas conhecia-se-lhe no olhar certa preven\u00e7\u00e3o de quem deseja surpreender em flagrante&#8230;<\/p>\n<p>Os oficiais comentavam baixinho o fato e muitas vezes riam maliciosamente na pra\u00e7a d\u2019armas entre copos e limonadas.<\/p>\n<p>Tudo isso, por\u00e9m, n\u00e3o passava de suspeitas, e Bom-Crioulo, com o seu todo abrutalhado, uma grande pinta de sangue no olho esquerdo, o rosto largo de um prognatismo evidente, n\u00e3o se incomodava com o ju\u00edzo dos outros. &#8211; N\u00e3o lho dissessem na cara, porque ent\u00e3o o neg\u00f3cio era feio&#8230; A chibata fizera-se para o marinheiro: apanhava at\u00e9 morrer, como um animal teimoso, mas havia de mostrar o que \u00e9 ser homem!<\/p>\n<p>Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as grandes afei\u00e7\u00f5es, inesperadamente, sem precedentes de esp\u00e9cie alguma, no momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento indefin\u00edvel que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexo contr\u00e1rios, determinando o desejo fisiol\u00f3gico da posse m\u00fatua, essa atra\u00e7\u00e3o animal que faz o homem escravo da mulher e que em todas a esp\u00e9cies impulsiona o macho para a f\u00eamea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira vez com o grumetezinho. Nunca experimentara semelhante cousa, nunca homem algum ou mulher produzira-lhe t\u00e3o esquisita impress\u00e3o, desde que se conhecia! Entretanto, o certo \u00e9 que o pequeno, uma crian\u00e7a de quinze anos, abalara toda a sua alma, dominando-a, escravizando-a logo, naquele mesmo instante, como a for\u00e7a magn\u00e9tica de um im\u00e3.<\/p>\n<p>Chamou-o a si, com a voz cheia de brandura, e quis saber como ele se chamava.<\/p>\n<p>&#8211; Eu me chamo Aleixo, disse o grumete baixando o olhar, muito calouro.<\/p>\n<p>&#8211; Coitadinho, chama-se Aleixo, tornou Bom-Crioulo.<\/p>\n<p>E imediatamente, sem tirara vista de cima do pequeno, com a mesma voz branda e carinhosa:<\/p>\n<p>&#8211; Pois olhe: eu me chamo Bom-Crioulo, n\u00e3o se esque\u00e7a. Quando algu\u00e9m o provocar, lhe fizer qualquer cousa, estou aqui eu, para o defender, ouviu?<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor, fez o marinheirito levantando o olhar com uma express\u00e3o de agradecimento.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenha vergonha, n\u00e3o: Bom-Crioulo, gajeiro da proa. \u00c9 s\u00f3 me chamar.<\/p>\n<p>&#8211; Sim senhor&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olhe mais, tornou o negro segurando a m\u00e3o da pequeno: &#8211; Muito sossegadinho no seu lugar para n\u00e3o sofrer castigo, sim?<\/p>\n<p>Aleixo s\u00f3 fazia responder timidamente: &#8211; Sim senhor &#8211; com um arzinho ing\u00eanuo de menino obediente, os olhos muito claros, de um azul gar\u00e7o pontilhado, e os l\u00e1bios grossos extremamente vermelhos.<\/p>\n<p>Era filho de uma pobre fam\u00edlia de pescadores que o tinham feito assentar pra\u00e7a em Santa Catarina, e estava se pondo rapazinho. Seu trabalho a bordo consistia em colher cabos e arear os metais, quando n\u00e3o se ocupava na ronda pela noite.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo metia-lhe medo a princ\u00edpio, e quase o fizera chorar uma vez porque o encontrara fumando em intimidade com o sota de proa na coberta. O negro deitara-lhe uns olhos!&#8230; Felizmente n\u00e3o aconteceu nada. Mas da\u00ed em diante Aleixo foi-se acostumando, sem o sentir, \u00e0queles carinhos, \u00e0quela generosa solicitude, que n\u00e3o enxergava sacrif\u00edcios, nem poupava dinheiro, e, por fim, j\u00e1 havia nele uma acentuada tend\u00eancia para Bom-Crioulo, um vis\u00edvel come\u00e7o de afei\u00e7\u00e3o reconhecida e sincera.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que o negro, zelosa da sua nova amizade, quis mostrar ao grumete o seu grande poder sobre os outros e t\u00e9 onde o levava esse zelo, esse ego\u00edsmo apaixonado, esmurrando implacavelmente o segunda-classe que maltratara Aleixo.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de que Bom-Crioulo sofrera por sua causa calou de tal maneira no esp\u00edrito do grumete que ele agora estimava-o como a um protetor desinteressado, amigo dos fracos&#8230;<\/p>\n<p>Quando regressou dessa longa viagem ao sul, estava inda mais forte, mais vi\u00e7oso e mais homem. Era uma massa bruta de m\u00fasculos ao servi\u00e7o de um magn\u00edfico aparelho humano. No tocante \u00e0 disciplina mudara tamb\u00e9m um pouco: j\u00e1 ningu\u00e9m lhe via certos escr\u00fapulos de obedi\u00eancia e seriedade, perdera mesmo aquele ar, aquela compostura de respeito que o fazia estimado pelos oficiais em Villegaignon, e o distinguia da marinhagem insubmissa e desbriada. A maioria dominara-o positivamente; aquele car\u00e1ter d\u00f3cil e tolerante, deixara-o ele no alto mar ou nas terras por onde andara. Agora tratava com desd\u00e9m os superiores, abusando se esses lhe faziam concess\u00f5es, maldizendo-os na aus\u00eancia, achando-os maus e injustos. Uma cousa, por\u00e9m, ele soubera conservar: a for\u00e7a f\u00edsica, impondo-se cada vez mais aos outros marinheiros, que n\u00e3o ousavam agredi-lo nem brincando. Sua fama de homem valente alargara-se de modo tal que mesmo na prov\u00edncia falava-se com prud\u00eancia no \u201cBom-Crioulo\u201d. &#8211; Quem \u00e9 que n\u00e3o o conhecia, meu Deus? Por sinal tinha sido escravo e at\u00e9 nem era feio o diabo do negro&#8230;<\/p>\n<p>Do transporte em que fizera sua primeira viagem passou a servir num cruzador chegadinho da Europa. A\u00ed a vida n\u00e3o lhe ocorreu muito calma. O comandante, um Varela, capit\u00e3o-de-mar-e-guerra, severo e inflex\u00edvel como nenhum outro oficial do seu tempo, homem que n\u00e3o ria nunca, chamou-o a conta um belo dia, e quase o deixou sem fala, simplesmente porque Bom-Crioulo dera com um remo na cabe\u00e7a de outro marinheiro por uma questi\u00fancula de of\u00edcio. Tal foi o seu primeiro castigo depois de quatro anos de servi\u00e7o. Profundamente magoado, concentrou-se para reaparecer mandri\u00e3o e insubmisso, cheio de ressentimento, n\u00e3o se importando, como dantes, com os seus deveres, trabalhando \u201cpor honra da firma\u201d sem vexame nem sacrif\u00edcio. &#8211; \u201cTolo era quem se matava. Havia de receber seu soldo quer trabalhasse, quer n\u00e3o trabalhasse. &#8211; &#8230; que os pariu!\u201d<\/p>\n<p>E ia se fazendo esquerdo, cuidando mais de seus interesses que de outra cousa, passando um m\u00eas no hospital e outro m\u00eas a bordo, ou em terra, com licen\u00e7a.<\/p>\n<h4><a name=\"3\">Cap\u00edtulo III<\/a><\/h4>\n<p>\u00c0 calmaria equatorial da v\u00e9spera sucedera, felizmente, uma vira\u00e7\u00e3o fresca e reparadora, crispando a larga superf\u00edcie d\u2019\u00e1gua, enchendo as velas e dando a todas as fisionomias um aspecto novo de bom humor e jovialidade.<\/p>\n<p>O c\u00e9u tinha uma cor azul esverdeada, limpo de nuvens, alto e imenso na eterna gl\u00f3ria da luz&#8230; Avezinhas de colo branco acompanhavam a corveta, pousando n\u2019\u00e1gua, tr\u00eafegas e alvissareiras, misturando sua alegria ruidosa com o surdo marulhar das vagas, num r\u00e1pido espanejamento d\u2019asas.<\/p>\n<p>Agora, sim, todos regozijavam com a esperan\u00e7a de chegar breve, em paz e salvamento, \u00e0 Guanabara, l\u00e1 onde havia sossego e abastan\u00e7a, l\u00e1 onde a vida corria suave e cheia de tranq\u00fcilidade, porque se estava perto da fam\u00edlia, defronte da cidade, sem os cuidados de quem anda no alto-mar&#8230; E depois j\u00e1 era tempo! Vinte dias a bordejar estupidamente, sem ver um peda\u00e7o de terra, uma ilha sequer, passando mal como c\u00e3o! J\u00e1 era tempo&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 uma pessoa desejava que a viagem se prolongasse indefinidamente, que a corveta n\u00e3o chegasse nunca mais, que o mar se alargasse de repente submergindo ilhas e continentes numa cheia tremenda, e a velha nau, s\u00f3 ela, como uma cousa fant\u00e1stica, sobrevivesse ao cataclismo, ela somente, grandiosa e indestrut\u00edvel, ficasse flutuando, flutuando por toda a eternidade. Era Bom-Crioulo, o negro Amaro, cujo esp\u00edrito debatia-se, como um p\u00e1ssaro agonizante, em torno dessa \u00fanica id\u00e9ia &#8211; o grumete Aleixo, que o n\u00e3o deixava mais pensar noutra coisa, que o torturava dolorosamente&#8230; &#8211; Maldita hora em que o pequeno pusera os p\u00e9s a bordo! At\u00e9 ent\u00e3o sua vida ia correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem preocupa\u00e7\u00f5es inc\u00f4modas, ora triste. ora alegre \u00e9 verdade, porque n\u00e3o h\u00e1 nada firme no mundo, mas enfim, ia-se vivendo&#8230; E agora? Agora&#8230; hum, hum!&#8230; agora n\u00e3o havia rem\u00e9dio: era deixar o pau correr&#8230;<\/p>\n<p>E vinha-lhe \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o o pequeno com seus olhinhos azuis, com o seu cabelo alourado, com suas formas rechonchudas, com o seu todo provocador.<\/p>\n<p>Nas horas de folga, no servi\u00e7o, chovesse ou ca\u00edsse fogo em brasa do c\u00e9u, ningu\u00e9m lhe tirava da imagina\u00e7\u00e3o o petiz: era uma persegui\u00e7\u00e3o de todos os instantes, uma id\u00e9ia fixa e tenaz, uma relaxamento da vontade irresistivelmente dominada pelo desejo de unir-se ao marujo, como se ele fora de outro sexo, de possui-lo, de t\u00ea-lo junto a si, de am\u00e1-lo, de goz\u00e1-lo!&#8230;<\/p>\n<p>Ao pensar nisso Bom-Crioulo transfigurava-se de um modo incr\u00edvel, sentindo ferroar-lhe a carne, como a ponta de um aguilh\u00e3o, como espinhos de urtiga brava, esse desejo veemente &#8211; uma sede tant\u00e1lica de gozo proibido, que parecia queimar-lhe por dentro as v\u00edsceras e os nervos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o se lembrava de ter amado nunca ou de haver sequer arriscado uma dessas aventuras t\u00e3o comuns na mocidade, em que entram mulheres f\u00e1ceis, n\u00e3o: pelo contr\u00e1rio, sempre fora indiferente a certas cousas, preferindo antes a sua p\u00e2ndega entre rapazes a bordo mesmo, longe das intriguinhas e fingimentos de mulher. Sua mem\u00f3ria registrava dois fatos apenas contra a pureza quase virginal de seus costumes, isso mesmo por uma eventualidade milagrosa: aos vinte anos, e sem o pensar, fora obrigado a dormir com uma rapariga em Angra dos Reis, perto das cachoeiras, por sinal dera p\u00e9ssima c\u00f3pia de si como homem; e mais tarde, completamente embriagado, batera em casa de uma francesa no largo do Rocio, donde sa\u00edra envergonhad\u00edssimo, jurando nunca mais se importar com \u201cessas cousas\u201d&#8230;<\/p>\n<p>E agora, como \u00e9 que n\u00e3o tinha for\u00e7as para resistir aos impulsos do sangue? Como \u00e9 que se compreendia o amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas do mesmo sexo, entre dois homens?<\/p>\n<p>Tudo isto fazia-lhe confus\u00e3o no esp\u00edrito, baralhando id\u00e9ias, repugnando os sentidos, revivendo escr\u00fapulos. &#8211; \u00c9 certo que ele n\u00e3o seria o primeiro a dar exemplo, caso o pequeno se resolvesse a consentir&#8230; Mas &#8211; instinto ou falta de h\u00e1bito &#8211; alguma cousa dentro de si revoltava-se contra semelhante imoralidade que os outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali mesmo sobre o conv\u00e9s&#8230; N\u00e3o vivera t\u00e3o bem sem isso? Ent\u00e3o, que diabo! n\u00e3o valia a pena sacrificar o grumete, uma crian\u00e7a&#8230; Quando sentisse \u201ca necessidade\u201d, a\u00ed estavam mulheres de todas as na\u00e7\u00f5es, francesas, inglesas, espanholas&#8230; a escolher!<\/p>\n<p>Ca\u00eda em si, arrependido e frio, escrupulizando as cousas, tra\u00e7ando normas de proceder, enchendo-se de uma ternura por vezes l\u00e2nguida e piedosa &#8211; o olhar erradio no azul incons\u00fatil.<\/p>\n<p>O castigo por causa do Aleixo trouxera-lhe outro preju\u00edzo: no mesmo dia deixou ele o cargo de gajeiro de proa, o que afinal era um descanso, um al\u00edvio de trabalho. Tudo quanto lhe fizessem estava muito bem feito, contanto que o deixassem no seu canto, no seu ramerr\u00e3o: nunca pedira favores a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, dizia ele ao grumete com uma ironia na voz conselheira: n\u00e3o te metas com oficiais. S\u00e3o muito bons, muito amigos da gente, enquanto precisam de n\u00f3s, s\u00f3 enquanto precisam, mas depois &#8211; adeus, hein! &#8211; d\u00e3o-nos com o p\u00e9 no focinho.<\/p>\n<p>Aleixo estava satisfeit\u00edssimo com a vida que ia levando naquele c\u00e9u aberto da corveta, querido, estimado por todos, invejado por meia d\u00fazia. Nada lhe faltava, absolutamente nada. Era mesmo uma esp\u00e9cie de principezinho entre os camaradas, o \u201cmenino bonito\u201d dos oficiais, que o chamavam de \u201cboy\u201d. Habituando-se depressa \u00e0quela exist\u00eancia erradia, foi perdendo o acanhamento, a primitiva timidez, e quem o visse agora, lesto e vivo, acudindo \u00e0 manobra, muito asseado sempre na sua roupa branca, o bon\u00e9 de um lado, a camisa um poucochinho decotada na frente, deixando ver a cova do pesco\u00e7o, ficava lhe querendo bem, estimava-o deveras. Essa metamorfose r\u00e1pida e sem transi\u00e7\u00e3o percept\u00edvel, foi obra de Bom-Crioulo, cujos conselhos triunfaram sem esfor\u00e7o no \u00e2nimo do grumete, abrindo-lhe na alma ing\u00eanua de crian\u00e7ola o desejo de conquistar simpatias, de atrair sobre a sua pessoa a aten\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>Gabando-se de conhecer \u201co mundo\u201d, Bom-Crioulo cuidou primeiro em lisonjear a vaidade de Aleixo, dando-lhe um espelhinho barato que comprara no Rio de Janeiro &#8211; \u201cpara que ele visse quanto era bonito\u201d. O pequeno mirou-se e&#8230;<\/p>\n<p>sorriu, baixando o olhar. &#8211; Que bonito o qu\u00ea!&#8230; Uma cara de carneiro mocho! &#8211; Mas n\u00e3o abandonou o trastezinho, guardando-o com zelo no fundo da trincheira, como quem guarda um objeto querido, uma preciosidade rara, e todas as manh\u00e3s ia ver-se, deitando a l\u00edngua fora, examinando-se cuidadosamente, depois de ter lavado o rosto.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo compreendeu o efeito da experi\u00eancia e tratou de completar a \u201ceduca\u00e7\u00e3o\u201d do marinheiro. Ensinou-lhe como se dava la\u00e7o na gravata&#8230; (gravata n\u00e3o, dizia ele, isso n\u00e3o se chama gravata, chama-se len\u00e7o&#8230;); aconselhou-o que nunca usasse o bon\u00e9 no meio da cabe\u00e7a: &#8211; Um marinheiro deve usar o bon\u00e9 de lado, com certa gra\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>E a camisa? &#8211; Oh, a camisa devia ser um bocadinho aberta para mostrar a debaixo, a de meia. O h\u00e1bito faz o monge.<\/p>\n<p>O grumete aceitava tudo com um ar filial, sem procurar a raz\u00e3o de todo esse esmero. Via marinheiros imundos, mal vestidos, cheirando a suor, mas eram poucos. Havia os que at\u00e9 usavam ess\u00eancias no len\u00e7o e \u00f3leo no cabelo.<\/p>\n<p>No fim de alguns dias Aleixo estava outro e Bom-Crioulo contemplava-o com esse orgulho de mestre que assiste ao desenvolvimento do disc\u00edpulo.<\/p>\n<p>Um belo domingo, em que todos deviam se apresentar com uniforme branco, segundo a tabela, o grumete foi o \u00faltimo a subir para a mostra. Vinha irrepreens\u00edvel na sua toilette de sol, a gola azul dura de goma, cal\u00e7as boca-de-sino, bon\u00e9 de um lado, coturnos lustrosos.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo, que j\u00e1 estava em cima, na tolda, assim que o viu naquela pompa, ficou deslumbrado e por um triz esteve fazendo uma asneira. Seu desejo era abra\u00e7ar o pequeno, ali na presen\u00e7a da guarni\u00e7\u00e3o, devor\u00e1-lo de beijos, esmag\u00e1-lo de car\u00edcias debaixo do seu corpo. &#8211; Sim senhor! Parecia uma menina com aquele traje. Esta mesmo apto! Ent\u00e3o o espelhinho sempre servira, hein?<\/p>\n<p>E com um gesto r\u00e1pido, nervoso, disfar\u00e7ando a concupisc\u00eancia:<\/p>\n<p>&#8211; Bonitinho!<\/p>\n<p>O pequeno, longe de se amuar com o gracejo, mirou-se d\u2019alto a baixo, risonho, deu um muxoxo e seguiu para a forma sem dizer palavra.<\/p>\n<p>Depois de terminada a leitura do regulamento, feita a revista, Bom-Crioulo chamou-o \u00e0 proa, e entraram numa longa palestra, deliciosa para o negro a julgar pela express\u00e3o cada vez mais fulgurante de sua fisionomia.<\/p>\n<p>O mar estava relativamente calmo, apenas eri\u00e7ado por uma vira\u00e7\u00e3o branda que ameigava o morma\u00e7o. Nuvens aglomeravam-se para o sul, crescendo em bulc\u00f5es pardacentos, como impelidas pela mesma for\u00e7a, longe ainda, rente com o horizonte. Em cima, no alto do grande hemisf\u00e9rio que a luz do meio dia incendiava, o azul sempre o azul claro, o azul imaculado, o azul transparente e doce, infinito e misterioso&#8230; Parecia que se estava muito perto de terra, porque no mesmo horizonte da corveta ia passando uma velinha triangular de jangada, microsc\u00f3pica e fugitiva. Pela alheta de boreste vinha-se chegando tamb\u00e9m o vulto sombrio de um grande vapor de dois canos.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo e Aleixo conversavam \u00e0 sombra da bujarrona, lado a lado, indiferentes \u00e0 alegria dos outros marinheiros, cuja aten\u00e7\u00e3o volvia-se agora para o transatl\u00e2ntico. Todos, menos os dois, queriam saber de que nacionalidade era o \u201cbruto\u201d. Uns afirmavam que era ingl\u00eas, por causa do tamanho; outros viam na cor dupla das chamin\u00e9s o distintivo das Messageries Maritimes: devia ser o Equateur ou o Gironde &#8211; um dos dois. Faziam-se apostas, enquanto o monstro se aproximava silenciosamente e a jangadinha sumia-se pouco a pouco&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, olhe, voc\u00ea n\u00e3o queira neg\u00f3cio com outra pessoa, dizia Bom-Crioulo. O Rio de Janeiro \u00e9 uma terra dos diabos&#8230; Se eu o encontrar com algu\u00e9m, j\u00e1 sabe&#8230;<\/p>\n<p>O rapazinho mordia distraidamente a ponta do len\u00e7o de chita azul-escuro com pintinhas brancas, ouvindo as promessas do outro, sonhando uma vida cor-de-rosa l\u00e1 nesse Rio de Janeiro t\u00e3o falado, onde havia uma grande montanha chamada P\u00e3o d\u2019A\u00e7\u00facar, e onde o imperador tinha o seu pal\u00e1cio, um casar\u00e3o bonito com paredes de ouro&#8230;<\/p>\n<p>Tudo avultava desmesuradamente em sua imagina\u00e7\u00e3o de marinheiro de primeira viagem. Bom-Crioulo tinha prometido lev\u00e1-lo aos teatros, ao Corcovado (outra montanha donde se avistava a cidade inteira e o mar&#8230;), \u00e0 Tijuca, ao Passeio P\u00fablico, a toda parte. Haviam de morar juntos, num quarto da rua da Miseric\u00f3rdia, num comodozinho de quinze mil-r\u00e9is onde coubessem duas camas de ferro, ou mesmo uma s\u00f3, larga, espa\u00e7osa&#8230; Ele, Bom-Crioulo, pagava tudo com o seu soldo. Podia-se viver uma vida tranq\u00fcila. Se continuassem no mesmo navio, n\u00e3o haveria cousa melhor; se, por\u00e9m, a sorte os separasse dava-se jeito. Nada \u00e9 imposs\u00edvel debaixo do c\u00e9u.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o tem que dizer isto a ningu\u00e9m, concluiu o negro. Caladinho: deixe estar que eu toco os paus&#8230;<\/p>\n<p>Nesse momento o transatl\u00e2ntico defrontava com a corveta, i\u00e7ando a r\u00e9 a bandeira inglesa, uma grande len\u00e7o de tabaco, encarnado, e saudando com tr\u00eas guinchos medonhos o navio de guerra, cuja bandeira tamb\u00e9m flutuava na popa, verde e ouro.<\/p>\n<p>Um mundo de gente movia-se na proa do ingl\u00eas, decerto imigrantes italianos que chegavam ao Brasil. Distinguia-se bem o comandante, em uniforme branco, chap\u00e9u de corti\u00e7a, no passadi\u00e7o, empunhando o \u00f3culo. Len\u00e7os acenavam para a corveta que ia ficando atr\u00e1s, toda em panos, lenta e soberba.<\/p>\n<p>E o paquete desapareceu como uma sombra, e ela continuou na sua derrota, sozinha no meio do mar, desolada e l\u00fagubre. Os marinheiros tinham se espalhado pela tolda e pelas cobertas, entregues \u00e0 labuta, esperando o rancho das quatro horas.<\/p>\n<p>A montanha de nuvens que h\u00e1 pouco erguia-se fantasticamente l\u00e1 longe, ao sul, alastrava o c\u00e9u, aproximando-se cada vez mais, cor de chumbo, tempestuosa, desdobrando-se em contornos de fei\u00e7\u00f5es bizarras, como uma barreira enorme que de repente se levantasse entre a corveta e o horizonte. Meio encoberto j\u00e1, o sol coava sua luz triste atrav\u00e9s das nuvens, irisando-as de uma faixa multicor e brilhante, esp\u00e9cie de aur\u00e9ola, que descia para o mar.<\/p>\n<p>O aguaceiro estava iminente.<\/p>\n<p>&#8211; Obra dos joanetes e sobres! gritou o oficial de quarto.<\/p>\n<p>A essa voz o movimento foi geral. Imediatamente soaram apitos e a tolda encheu-se de marinheiros e oficiais, que surgiam das escotilhas num alvoro\u00e7o, correndo, empurrando-se. A figura do guardi\u00e3o Agostinho destacava \u00e0 proa, calma e solene, medindo a mastrea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Arria, carrega!<\/p>\n<p>Trilaram de novo os apitos num desespero de manobra a\u00e7odada: avalanches de marinheiros precipitaram-se de um bordo e doutro, alando os cabos, atropelando-se em correrias de horda selvagem, batendo os p\u00e9s, ao barulho dos moit\u00f5es que chiavam como carro de bois na ro\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Ag\u00fcenta o leme! avisava o oficial todo embu\u00e7ado na sua capa imperme\u00e1vel.<\/p>\n<p>O tempo escurecera completamente, e a ventania refrescando, esfuziava na mastrea\u00e7\u00e3o de modo sinistro, com a for\u00e7a extraordin\u00e1ria de tit\u00e3s invis\u00edveis. Mar e c\u00e9u confundiam-se na escurid\u00e3o, formando um s\u00f3 conjunto negro em torno da corveta, abarcando-a em todos os sentidos, como se tudo ali dentro fosse desaparecer debaixo das \u00e1guas e das nuvens&#8230; Passavam grandes ondas altaneiras, rugindo sob a quilha, dan\u00e7ando uma dan\u00e7a medonha e vertiginosa na proa, cada vez que o navio mergulhava o bojo com risco de abrir pelo meio&#8230; Chuva copios\u00edssima alagava o conv\u00e9s obrigando os marinheiros a se arrega\u00e7ar, encharcando as pilhas de cabo, numa baldea\u00e7\u00e3o geral e inesperada.<\/p>\n<p>A corveta ficara somente em g\u00e1veas e mezena, e corria, agora, sobre o mar, como se fosse um simples iatezinho de recreio, leve, enfunada, cavalgando as ondas &#8211; a bordas quase rente com a \u00e1gua&#8230;<\/p>\n<p>Que orgulho para o oficial de quarto! Como ele sentia-se bem naquele momento, debaixo de seu sueste, molhado t\u00e9 \u00e0 ponta dos p\u00e9s, todo olhos para que o navio n\u00e3o sa\u00edsse fora do rumo, cheio de responsabilidade, calmo no seu posto, enquanto os outros descansavam na pra\u00e7a d\u2019armas! De vez em quando olhava para a popa e via, com grande j\u00fabilo d\u2019alma, a larga esteira de espuma que a corveta ia deixando atr\u00e1s. Sentia-se forte, sentia-se homem! &#8211; Decididamente a marinha \u00e9, por excel\u00eancia, uma escola de coragem! pensava.<\/p>\n<p>Durou hora e meia o aguaceiro, uma chuva cerrada e insistente de rev\u00e9s, que parecia n\u00e3o acabar mais. O c\u00e9u abriu-se de repente, claro e azul; a luz tornou a iluminar os horizontes; e pouco a pouco foram desaparecendo os \u00faltimos vest\u00edgios da \u201cbrincadeira\u201d, como dizia, depois, o tenente Souza, o da calmaria, que entrava de quarto.<\/p>\n<p>O vento, por\u00e9m, continuava rijo, a\u00e7oitando os cabos, fustigando a superf\u00edcie d\u2019\u00e1gua, gemendo tristemente salmodias de violoncelo fant\u00e1stico, em lufadas que faziam estremecer todo o navio.<\/p>\n<p>Dez milhas, acusava a barquinha, dez milhas por hora.<\/p>\n<p>&#8211; Cuidado com o leme!<\/p>\n<p>Marinheiros vassoiravam o conv\u00e9s, enquanto outros iam passando o lambaz onde j\u00e1 n\u00e3o havia \u00e1gua. De cima, da tolda, ouvia-se a voz dos oficiais conversando na bateria, sentados por ali numa desordem grotesca, fumando, rindo&#8230; O comiss\u00e1rio, um de su\u00ed\u00e7as longas, magro, estudava clarinete, embaixo, na pra\u00e7a d\u2019armas, com admir\u00e1vel paci\u00eancia, equilibrando-se. A chuva reanimara-os a todos, oficiais e marinheiros, desentorpecendo-lhes o corpo.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo, cansado da faina, descera \u00e0 coberta, e conversava tamb\u00e9m com Aleixo, de quem s\u00f3 se separava na hora do servi\u00e7o.<\/p>\n<p>A umidade, o frio que entra pelas escotilhas, aquele ambiente glacial comunicava-lhe um desejo louco de amor f\u00edsico, um enervamento irresist\u00edvel. Unido ao grumete num quase abra\u00e7o, a m\u00e3o no ombro de Aleixo que, \u00e0quele contacto, experimentava uma vaga sensa\u00e7\u00e3o de car\u00edcia, o negro esquecia todos os seus companheiros, tudo que o cercava para s\u00f3 pensar no grumete, no \u201cseu bonitinho\u201d e no futuro dessa amizade inexplic\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Tiveste muito medo?<\/p>\n<p>&#8211; De qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Do tempo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, nem por isso.<\/p>\n<p>E Aleixo aproveitou o ensejo para narrar rum caso de vento sul em Santa Catarina: &#8211; Tinham sa\u00eddo, ele e o pai, numa canoa de pesca, assim pelo meio-dia. De repente o mar come\u00e7a a encrespar, o vento desaba&#8230; e agora? Estavam sozinhos perto da ilha dos Ratones dentro de uma canoa que era ver uma casquinha de noz. O velho, coitado, n\u00e3o teve d\u00favida, n\u00e3o! puxou pelo remo: &#8211; vuco, te vuco&#8230;, vuco, te vuco&#8230;- Segura-te, meu filho! E o vento cada vez mais forte, zunindo no ouvido que nem o diabo. Mas veio uma rajada de supet\u00e3o, um golpe de vento medonho, e quando ele, Aleixo, quis agarrar-se ao pai, era tarde: a canoa emborcou!<\/p>\n<p>&#8211; Emborcou?<\/p>\n<p>&#8211; Emborcou de verdade, pois ent\u00e3o? Sei bem que fui ao fundo e voltei \u00e0 tona. A\u00ed perdi o sentido&#8230; quando acordei estava na praia, s\u00e3o e salvo, gra\u00e7as a Deus!<\/p>\n<p>&#8211; Assim mesmo foste feliz, disse o negro com interesse. Podias morrer afogado&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo tamb\u00e9m quis contar sua hist\u00f3ria, e a conversa prolongou-se t\u00e9 ao anoitecer, quando todos subiram par a distribui\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Em vez de abrandar, o sueste soprava com mais for\u00e7a, duro e tenaz, amea\u00e7ando levar tudo quanto era cabo e pano. A corveta, o \u201cvelho esquife\u201d, como a chamavam, ia numa vertigem por aqueles mares, arfando suavemente, oscilando \u00e0s vezes, quando o vagalh\u00e3o era maior, com os seus dois far\u00f3is de cor &#8211; o encarnado a boreste, o verde a bombordo &#8211; e a lanterninha do traquete, p\u00e1lida e microsc\u00f3pica no alto do estai da giba.<\/p>\n<p>Sempre em g\u00e1veas e mezena, vento em popa, grande e sombria na noite clara, espectral e silenciosa, ela voava desesperadamente caminho da p\u00e1tria.<\/p>\n<p>A lua surgindo lenta e lenta, cor de fogo a princ\u00edpio, depois fria e opalescente, misto de n\u00e9voa e luz, alma da solid\u00e3o, melancolizava o largo cen\u00e1rio das ondas, derramando sobre o mar essa luz meiga, essa luz ideal que penetra o cora\u00e7\u00e3o do marinheiro, comunicando-lhe a saudade infinita dos que navegam.<\/p>\n<p>E nada de serenar o vento!<\/p>\n<p>Naquele caminhar, cedo se estaria em terra. Cousa talvez de um dia mais&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o chegava a hora triste do sil\u00eancio oficial, a hora do sono, que se prolongava t\u00e9 o romper d\u2019alvorada, marinheiros divertiam-se \u00e0 proa, cantando ao som de uma viola chorosa, numa toada sertaneja, rindo, sapateando, a ver quem melhor improvisava modinhas de p\u00e9 quebrado, \u201ccantigas do mato\u201d&#8230; &#8211; N\u00e3o se perdia um luar como aquele! Tinham trabalhado muito: era preciso folgar tamb\u00e9m. Deitados no conv\u00e9s, de ventre para o ar, outros em sentido contr\u00e1rio, queixos na m\u00e3o &#8211; um sentado pacatamente, aquele outro de pernas cruzadas fumando &#8211; todos em plena liberdade, formavam roda em cima do castelo, enquanto era cedo.<\/p>\n<p>O oficial do quarto passeando, passeando, escutava-os enternecido, cheio de contempla\u00e7\u00e3o por aquela pobre gente sem lar nem fam\u00edlia, que morria cantando, longe de todo carinho, \u00e0s vezes longe da p\u00e1tria, onde quer que o destino os conduzisse. Aquelas cantigas assim rudes, assim improvisadas, quase sem metro e sem rima, tinham, contudo, o sabor penetrante dos frutos naturais e o misterioso encanto de confiss\u00f5es ing\u00eanuas&#8230; Fazia bem ouvi-las, como que o cora\u00e7\u00e3o dilatava-se numa hipertrofia de saudade terna e consoladora.<\/p>\n<p>Deix\u00e1-los cantar, os pobres marinheiros, deix\u00e1-los esquecer a vida incerta que levam &#8211; deix\u00e1-los cantar!&#8230;<\/p>\n<p>Geme a viola, solu\u00e7a uma alma em cada bord\u00e3o; ressoam cantares em desafio no sil\u00eancio infinito da noite clara&#8230;<\/p>\n<p>O tempo voa, ningu\u00e9m se apercebe das horas, ningu\u00e9m se lembra de dormir, de fechar os olhos \u00e0 paisagem transl\u00facida e fria do luar tropical varrida pelo vento sul. Misterioso instrumento essa viola, que fazia esquecer as agruras da vida, embriagando a alma, tonificando o esp\u00edrito!<\/p>\n<p>Bom-Crioulo n\u00e3o tomou parte no folguedo. &#8211; Estava cansado de ouvir cantigas: fora-se o tempo em que tamb\u00e9m gostava de fazer seu p\u00e9-de-alferes, dan\u00e7ando o bai\u00e3o, fazendo rir a rapaziada.<\/p>\n<p>E quando a sineta de proa badalou nove horas, viram-no passar esgueirando-se felinamente, sobra\u00e7ando a maca. Ia depressa, furtando-se \u00e0 vista dos outros, mudo, impenetr\u00e1vel, sombrio&#8230; Embarafustou pela escotilha, escadas abaixo, e sumiu-se na coberta.<\/p>\n<p>Que iria ele fazer? Algum crime? Alguma trai\u00e7\u00e3o? &#8211; Nada: Bom-Crioulo tratava de se agasalhar como qualquer mortal, o mais comodamente poss\u00edvel. &#8211; L\u00e1 em cima fazia um arzinho de gelo, caramba! A coberta sempre era um pouco mais quente. O seguro morreu de velho&#8230;<\/p>\n<p>Abriu a maca, estendeu-se sobre o conv\u00e9s cautelosamente, com m\u00e3os de mulher, examinou o len\u00e7ol, e, sacando fora a camisa de flanela azul, deitou-se com um largo suspiro de conforto. &#8211; Ah! estava como queria. Boa noite!&#8230;<\/p>\n<p>Nem uma voz rompia o sil\u00eancio regulamentar, sen\u00e3o a do oficial, de hora em hora:<\/p>\n<p>&#8211; Barca!<\/p>\n<p>Ventava forte ainda.<\/p>\n<p>O conv\u00e9s, tanto na coberta como na tolda, apresentava o aspecto de um acampamento n\u00f4made. A marinhagem entorpecida pelo trabalho, ca\u00edra numa sonol\u00eancia profunda, espalhada por ali ao relento, numa desordem geral de ciganos que n\u00e3o escolhem o terreno para repousar. Pouco lhe importavam o ch\u00e3o \u00famido, as correntes de ar, as constipa\u00e7\u00f5es, o berib\u00e9ri. Embaixo era maior o atravancamento. Macas de lona suspensas em varais de ferro, umas sobre as outras, encardidas como panos de cozinha, oscilavam \u00e0 luz moribunda e macilenta das lanternas. Imagine-se o por\u00e3o de um navio mercante carregado de mis\u00e9ria. No intervalo das pe\u00e7as, na meia escurid\u00e3o dos rec\u00f4ncavos moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor nauseabundo de c\u00e1rcere, um cheiro acre de suor humano dilu\u00eddo em urina e alcatr\u00e3o. Negros, de boca aberta, roncavam profundamente, contorcendo-se na inconsci\u00eancia do sono. Viam-se torsos nus abra\u00e7ando o conv\u00e9s, aspectos indecorosos que a luz evidenciava cruelmente. De vez em quando uma voz entrava a sonambular cousas inintelig\u00edveis. Houve um marinheiro que se levantou, no meio dos outros, nu em p\u00ealo, os olhos arregalados, medonho, gritando que o queriam matar. No fim de contas o pobre-diabo era v\u00edtima de um pesadelo, nada mais. Tudo voltou ao sil\u00eancio.<\/p>\n<p>E l\u00e1 cima, no passadi\u00e7o, o oficial de quarto, vigilante e imperturb\u00e1vel, de hora em hora:<\/p>\n<p>&#8211; Barca!<\/p>\n<p>Havia um rebuli\u00e7o ligeiro; o guardi\u00e3o apitava acordando a gente de servi\u00e7o: &#8211; Levanta, levanta! olha a barca!&#8230; &#8211; e as horas iam correndo assim, monotonamente.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo estava de folga. Seu esp\u00edrito n\u00e3o sossegara toda a tarde, ruminando estratagemas com que desse batalha definitiva ao grumete, realizando, por fim, o seu forte desejo de macho torturado pela carnalidade grega.<\/p>\n<p>Por vezes tinha querido sondar o \u00e2nimo do grumete, procurando convenc\u00ea-lo, estimulando-lhe o organismo, mas o pequeno fazia-se de esquerdo, repelindo brandamente, com jeitos de namorada, certos carinhos do negro. &#8211; Deixe disso, Bom-Crioulo, porte-se s\u00e9rio!<\/p>\n<p>Nesse dia Priapo jurou chegar ao cabo da luta. Ou vencer ou morrer! &#8211; Ou o pequeno se resolvia ou estavam desfeitas as rela\u00e7\u00f5es. Era preciso resolver \u201caquilo\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo qu\u00ea? perguntou o rapazinho, muito admirado.<\/p>\n<p>&#8211; Nada; o que eu quero \u00e9 que n\u00e3o te zangues comigo.<\/p>\n<p>E precipitadamente:<\/p>\n<p>&#8211; Onde vais dormir esta noite?<\/p>\n<p>&#8211; L\u00e1 bem \u00e0 proa, na coberta, por causa do frio.<\/p>\n<p>&#8211; Bem: havemos de conversar.<\/p>\n<p>\u00c0s nove horas, quando Bom-Crioulo viu Aleixo descer, agarrou a maca e precipitou-se no encal\u00e7o do pequeno. Foi justamente quando o viram passar com a trouxa debaixo do bra\u00e7o, esgueirando-se felinamente&#8230;<\/p>\n<p>Uma vez lado a lado com o grumete, sentindo-lhe o calor do corpo roli\u00e7o, a branda tepidez daquela carne desejada e virgem de contactos impuros, um apetite selvagem cortou a palavra ao negro. A claridade n\u00e3o chegava sequer \u00e0 meia dist\u00e2ncia do esconderijo onde eles tinham se refugiado. N\u00e3o se viam um ao outro: sentiam-se, adivinhavam-se por baixo dos cobertores.<\/p>\n<p>Depois de um sil\u00eancio cauteloso e r\u00e1pido, Bom-Crioulo, aconchegando-se ao grumete, disse-lhe qualquer cousa no ouvido. Aleixo conservou-se im\u00f3vel, sem respirar. Encolhido, as p\u00e1lpebras cerrando-se, instintivamente de sono, ouvindo, com o ouvido pegado ao conv\u00e9s, o marulhar das ondas na proa, n\u00e3o teve \u00e2nimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma promessas de Bom-Crioulo: o quartinho da Rua da Miseric\u00f3rdia no Rio de Janeiro, os teatros, os passeios&#8230;.; lembrou-se do castigo que o negro sofrera por sua causa; mas n\u00e3o disse nada. Uma sensa\u00e7\u00e3o de ventura infinita espalhava-se em todo o corpo. Come\u00e7ava a sentir no pr\u00f3prio sangue impulsos nunca experimentados, uma como vontade ing\u00eanita de ceder aos caprichos do negro, de abandonar-se-lhe para o que ele quisesse &#8211; uma vaga distens\u00e3o dos nervos, um prurido de passividade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ande logo! murmurou apressadamente, voltando-se.<\/p>\n<p>E consumou-se o delito contra a natureza.<\/p>\n<h4><a name=\"4\">Cap\u00edtulo IV<\/a><\/h4>\n<p>Amanhecera um belo dia de sol, quente, luminoso, de uma transpar\u00eancia fina de cristal lavado.<\/p>\n<p>Logo pela madrugadinha, antes de apagar-se a \u00faltima estrela, a corveta \u201cacendera fogos\u201d, e demandava o porto, em \u00e1rvore seca, impulsionada pela sua velha m\u00e1quina de sistema antigo &#8211; um estafermo quase imprest\u00e1vel, porejando vapor, abrindo-se toda em desconjuntamentos de maquinismo secular.<\/p>\n<p>Enfim se chegava!<\/p>\n<p>Agora cada um tratava de si, de sua roupa, do que trouxera da longa viagem ao sul, dessa viagem maldita que parecia n\u00e3o acabar nunca.<\/p>\n<p>L\u00e1 estava bem defronte, por bombordo, o P\u00e3o d\u2019A\u00e7\u00facar, talhado a pique, sombrio, \u00edngreme, batido pelas ondas, guardando a entrada; e mais longe para o sul &#8211; termo final de uma esp\u00e9cie de cordilheira primitiva e bronca &#8211; o cocuruto da G\u00e1vea, cinzento, dominando o mar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E aquela ilha com ponto branco? perguntou Aleixo curiosamente,<\/p>\n<p>Estava ao lado do Bom-Crioulo, contemplando embevecido a costa fluminense.<\/p>\n<p>&#8211; Aquela ilha \u00e9 a Rasa, explicou o negro. N\u00e3o v\u00eas o farol, aquilo branco?&#8230;<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a descrever o peda\u00e7o do litoral que se ia desdobrando \u00e0 luz, alcantilado e fulgurante, como essa terras lend\u00e1rias de tamoios e caramurus&#8230; Aquela faixa de areia, muito estreita, do outro lado (e estendia o bra\u00e7o por cima do ombro do pequeno), beirando a \u00e1gua, chamava-se Marambaia. L\u00e1 adiante, uma montanha quase apagada, era o Cabo Frio&#8230;<\/p>\n<p>E foi indicando, um a um, com exclama\u00e7\u00f5es de patriotismo, os acidentes da entrada, os edif\u00edcios: as fortalezas de S. Jo\u00e3o no alto, e de Santa Cruz \u00e0 beira mar, olhando-se, com sua artilharia muda; a Praia Vermelha, entre morros; o hosp\u00edcio; Botafogo&#8230;<\/p>\n<p>Tudo aquilo, dizia ele abarcando com um gesto largo, morros e casas, tudo aquilo \u00e9 a cidade de Niter\u00f3i, ouviste falar?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o &#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 ali.<\/p>\n<p>Aleixo, de resto, n\u00e3o experimentava grande surpresa. Entre montanhas havia ele nascido e perto do mar. O entusiasmo de Bom-Crioulo nem sequer o abalava: fazia outra id\u00e9ia do Rio de Janeiro!<\/p>\n<p>&#8211; Mas isto ainda n\u00e3o \u00e9 a cidade, meu tolo, explicava o negro. Tu n\u00e3o viste nada por enquanto&#8230;<\/p>\n<p>A corveta aproximava-se de Villegaignon&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo mal teve tempo de dizer ao grumete: -\u201cFoi ali que eu comecei&#8230;\u201d E desapareceu entre a chusma da marinhagem.<\/p>\n<p>Era quase meio-dia. Escaleres de guerra vinham em dire\u00e7\u00e3o da fortaleza, cortando a \u00e1gua numa carreira macia de out-riggers. Ouvia-se a pancada igual dos remos acompanhando a voga.<\/p>\n<p>Ao redor da barca de banhos pairavam botes de com\u00e9rcio. Lanchas apitavam cruzando a ba\u00eda. Navios de guerra im\u00f3veis, aproados \u00e0 barra, faziam sinais, i\u00e7ando e arriando bandeiras. Entre esses havia uma grande coura\u00e7ado ao lume d\u2019\u00e1gua, raso, chato e bojudo, com uma fl\u00e2mula azul no mastro grande.<\/p>\n<p>A corveta diminuiu a marcha, seguindo vagarosa e dominando com seu porte de nau antiga e legend\u00e1ria, o conjunto de embarca\u00e7\u00f5es que por ali estacionavam.<\/p>\n<p>Pouco adiante de Villegaignon fez uma parada impercept\u00edvel, tocando atr\u00e1s: ouviu-se um grande baque n\u2019\u00e1gua e logo um rumos de amarras que se desenrolam, que se precipitam&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, gra\u00e7as! exclamaram algumas vozes ao mesmo tempo, como se houvessem combinado fazer coro de alegria.<\/p>\n<p>Entretanto, Bom-Crioulo come\u00e7ava a sentir uns longes de tristeza n\u2019alma, cousa que rar\u00edssimas vezes lhe acontecia. Lembrava-se do mar alto, da primeira vez que vira o Aleixo, da vida nova em que ia entrar, preocupando-o sobre a amizade do grumete, o futuro dessa afei\u00e7\u00e3o nascida em viagem e amea\u00e7ada agora pelas conveni\u00eancias do servi\u00e7o militar. Em menos de vinte e quatro horas Aleixo podia ser transferido para outro navio &#8211; ele mesmo, Bom-Crioulo, quem sabe? talvez n\u00e3o continuasse na corveta&#8230;<\/p>\n<p>Instintivamente seu olhar procurava o pequeno, acendia-se num desejo s\u00f4frego de v\u00ea-lo sempre, sempre, ali perto, vivendo a mesma vida de obedi\u00eancia e de trabalho, crescendo a seu lado como um irm\u00e3o querido e insepar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por outro lado estava tranq\u00fcilo porque a maior prova de amizade Aleixo tinha lhe dado a um simples aceno, a um simples olhar. Onde quer que estivessem haviam de se lembrar daquela noite fria dormida sob o mesmo len\u00e7ol na proa da corveta, abra\u00e7ados, como um casal de noivos em plena lux\u00faria da primeira coabita\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordin\u00e1ria de erotismo, um del\u00edrio invenc\u00edvel de gozo pederasta&#8230; Agora compreendia que s\u00f3 no homem, no pr\u00f3prio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres.<\/p>\n<p>Nunca se apercebera de semelhante anomalia, nunca em sua vida tivera a lembran\u00e7a de perscrutar suas tend\u00eancias em mat\u00e9ria de sexualidade. As mulheres o desarmavam para os combates do amor, \u00e9 certo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o concebia, por forma alguma, esse com\u00e9rcio grosseiro entre indiv\u00edduos do mesmo sexo; entretanto, quem diria!, o fato passava-se agora consigo pr\u00f3prio, sem premedita\u00e7\u00e3o, inesperadamente. E o mais interessante \u00e9 que \u201caquilo\u201d amea\u00e7ava ir longe, para mal de seus pecados&#8230; N\u00e3o havia jeito, sen\u00e3o ter paci\u00eancia, uma vez que a \u201cnatureza\u201d impunha-lhe esse castigo.<\/p>\n<p>Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro: fizera muito em conservar-se virgem t\u00e9 aos trinta anos, passando vergonhas que ningu\u00e9m acreditava, sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os m\u00e9dicos pro\u00edbem. De qualquer modo estava justificado perante sua consci\u00eancia, tanto mais quanto havia exemplos ali mesmo a bordo, para n\u00e3o falar em certo oficial de quem se diziam cousas medonhas no tocante \u00e0 vida particular. Se os brancos faziam, quanto mais os negros! \u00c9 que nem todos t\u00eam for\u00e7a para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana&#8230;<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a faina de arriar escaleres, uma lufa-lufa barulhenta e ensurdecedora, um incessante rumor de cabos e moit\u00f5es, de vozes e apitos, confundindo-se em algaravia de mercado p\u00fablico, ressoando clamorosamente no sil\u00eancio da ba\u00eda.<\/p>\n<p>Em torno da corveta agitava-se uma multid\u00e3o de escaleres e lanchas conduzindo oficiais de marinha e senhoras, que acenavam para bordo &#8211; aqueles em uniforme de \u201cvisita\u201d, espada e luva branca, afetando autoridade, aprumando-se no paineiro com essa desenvoltura natural dos homens do mar; aquelas em toilletes de ver\u00e3o, muito rubras do sol.<\/p>\n<p>Houve um momento de geral precipita\u00e7\u00e3o, em que todos procuravam subir a escadinha do portal\u00f3, investindo a um tempo, quando a visita sanit\u00e1ria p\u00f4s-se ao largo. &#8211; Atraca da\u00ed! gritava uma voz. &#8211; Larga a canoa! bradava a outra. &#8211; Ciando \u00e0 r\u00e9! &#8211; Abre de proa! &#8211; Rema avante!<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se compreendia no tumulto.<\/p>\n<p>Da\u00ed a apouco, por\u00e9m, foi-se restabelecendo a ordem, todo aquele alvoro\u00e7o desapareceu e ouvia-se apenas a voz dos marinheiros conversando. Foi ent\u00e3o que atracou um escaler coma bandeira inglesa, e um oficial ruivo, de su\u00ed\u00e7as, muito parecido com o rei Guilherme, da Alemanha. Era o comandante do Ironside, cruzador brit\u00e2nico.<\/p>\n<p>Austero, hermeticamente abotoado, subiu e desceu logo, sem se voltar, pisando forte nos degraus da escadinha.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo que se debru\u00e7ara na amurada, assim que o viu saltar no escaler: &#8211; Ingl\u00eas bruto! murmurou entre dentes, e ficou-se com sua indigna\u00e7\u00e3o, olhando a \u00e1gua calma&#8230; Ele ali estava, enfim, na ba\u00eda do Rio de Janeiro, depois de uma aus\u00eancia de seis longos meses! Precisava ir \u00e0 terra naquele mesmo dia para arranjar o neg\u00f3cio do quarto da Rua da Miseric\u00f3rdia, antes que o pequeno se arrependesse; tinha umas compras a fazer&#8230;<\/p>\n<p>Mas, havia ordem para n\u00e3o desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda a guarni\u00e7\u00e3o passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e sono, ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras rudimentares. &#8211; Diabo de vida sem descanso! O tempo era pouco para um desgra\u00e7ado cumprir todas as ordens. E n\u00e3o as cumprisse! Golilha com ele, quando n\u00e3o era logo metido em ferros&#8230; Ah! vida, vida!&#8230; Escravo na fazendo, escravo a bordo, escravo em toda a parte&#8230; E chamava-se a isso de servir \u00e0 p\u00e1tria!<\/p>\n<p>Anoiteceu. Noite estrelada, cheia de sil\u00eancio, profundamente calma e reparadora. A guarni\u00e7\u00e3o da corveta dormia sem abalos um sono tranq\u00fcilo e delicioso de oito horas, ao ar livre, sobre o conv\u00e9s desbastado.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo nem sequer pensou em Aleixo: estava incapaz de trocar palavra, sucumbido pela canseira, o corpo mole reclamando conforto, o esp\u00edrito parado; todo ele sem \u00e2nimo para cousa alguma. Trabalhara brutalmente; n\u00e3o havia resistir \u00e0 fadiga. Momentos h\u00e1 em que os pr\u00f3prios animais caem extenuados&#8230; Deitou-se a um canto, longe de todos, e adormeceu imediatamente num sono catal\u00e9ptico. Ao primeiro toque d\u2019alvorada espregui\u00e7ou-se, abrindo os olhos com surpresa, e sentiu-se alagado. &#8211; Oh! &#8230; &#8211; Passou a m\u00e3o no lugar \u00famido, tateando, e verificou, cheio de indigna\u00e7\u00e3o, cheio de t\u00e9dio, com um gesto de n\u00e1usea, a irrepar\u00e1vel perda que sofrera inconscientemente durante o sono &#8211; um verdadeiro esgotamento de l\u00edquido seminal, de for\u00e7as procriadoras, de vida, enfim, que \u201caquilo\u201d era sangue transformado em mat\u00e9ria! Se ao menos tivesse gozado&#8230; Mas n\u00e3o sentira nada, absolutamente nada, mesmo em sonho! Dormira toda a noite como um porco, e o resultado ali se achava no len\u00e7ol &#8211; quase um rio de goma prol\u00edfica!<\/p>\n<p>E triste, desesperado, maldizendo a natureza na linguagem torpe das gal\u00e9s, ergue-se e foi juntando a roupa de cama bruscamente, atabalhoadamente, como se algu\u00e9m houvesse concorrido para a sua \u201cdesgra\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Entrou pelo dia com ares de quem n\u00e3o quer se incomodar, o semblante carregado numa sombria express\u00e3o de aborrecimento, falando pouco e em tom grosseiro, amea\u00e7ando: &#8211; que o deixassem, que o deixassem; n\u00e3o queria brincadeira; ainda rachava a cabe\u00e7a dum!<\/p>\n<p>Os outros pediam-lhe desculpa, humilhavam-se, adulavam-no, porque sabiam que \u201co negro era meio doido\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 tarde, por\u00e9m, esse estado nervoso amainou, gra\u00e7as ao Aleixo que lhe fora perguntar, com certo interesse e com uma meiguice na voz de adolescente, se ele, Bom-Crioulo, estava disposto a ir \u00e0 terra.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o? J\u00e1 estava concedida a licen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! pensei que tinha se esquecido.<\/p>\n<p>&#8211; Qual esquecido! Pois eu n\u00e3o te disse que hoje mesmo hav\u00edamos de arranjar nosso ninho?<\/p>\n<p>E muito carinhoso:<\/p>\n<p>&#8211; Espero em Deus estrear hoje&#8230;<\/p>\n<p>Faltava, entretanto, a licen\u00e7a do grumete. Aleixo n\u00e3o se animava a pedir que o deixassem ir \u00e0 terra, com receio de uma negativa. Bom-Crioulo encorajou-o &#8211; N\u00e3o fosse tolo! Isso a gente dizia que voltava logo, que era um instante, ou ent\u00e3o forjava qualquer hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Dize ao imediato que tens um padrinho rico em terra, uma cousa assim&#8230;<\/p>\n<p>Aleixo criou \u00e2nimo, e da\u00ed a pouco voltava muito satisfeito, risonho, dando pinchos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o havia nada como a gente ser um menino bonito! At\u00e9 os oficiais gostavam&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo \u00e9 que n\u00e3o gostou da pilh\u00e9ria. Ferrou o olhar no pequeno &#8211; hum! hum! &#8211; como para o fulminar. Mas o grumete corrigiu prontamente: &#8211; Brincadeira, menino, brincadeira&#8230; pois n\u00e3o se podia brincar?<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o s\u00e3o brinquedos, repreendeu o negro. Eu quando gosto de uma pessoa gosto mesmo e acabou-se! J\u00e1 lhe disse que ande muito direitinho&#8230;<\/p>\n<p>Vestiram-se e abalaram no escaler das cinco horas, depois da ceia.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos primeiro tomar um golezinho de jeribita, disse Bom-Crioulo ao saltar no cais Pharoux. Aqui mesmo no quiosque &#8230; \u00c9 preciso esquentar os rins.<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o quero.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1s de tomar nem que seja um copo de maduro.<\/p>\n<p>&#8211; Maduro?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, maduro: \u00e9 uma bebida muito boa.<\/p>\n<p>Foram andando&#8230;<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio das barcas marcava seis horas menos um quarto, e a cidade, mergulhada no crep\u00fasculo, adormecia lentamente, ca\u00eda pouco a pouco numa estagna\u00e7\u00e3o de pra\u00e7a abandonada, num triste sil\u00eancio de aldeia long\u00ednqua&#8230;<\/p>\n<p>Acendiam-se as luzes e rareavam os transeuntes no Largo do Pa\u00e7o. Um ou outro retardat\u00e1rio, em p\u00e9 na sombra, e sujeitos que saltavam dos bondes em frente \u00e0 esta\u00e7\u00e3o das barcas, conduzindo embrulhos. O velho pardieiro dos Bragan\u00e7as, o sombrio casar\u00e3o, em que, durante quase um s\u00e9culo, a monarquia fez reclamo de suas pratas, imobilizava-se lugubremente, ermo e fechado aquela hora.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo tomou \u00e0 esquerda, por baixo da arcada do Pa\u00e7o, enfiando pela rua da Miseric\u00f3rdia, bra\u00e7o a bra\u00e7o com o grumete, fumando um charuto que comprara no quiosque.<\/p>\n<p>L\u00e1 adiante, nas proximidades do Arsenal de Guerra, pararam defronte um sobradinho com persianas, de aspecto antigo, duas varandolas de madeira carcomida no primeiro andar, e l\u00e1 em cima, no telhado, uma esp\u00e9cie de trapeira sumindo-se , enterrando-se, dependurada quase. Embaixo, na loja, morava uma fam\u00edlia de pretos d\u2019Angola; ouvia-se naquele momento, no escuro interior desse coito africano, a vozeria dos negros.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 aqui, disse Bom-Crioulo, reconhecendo a casa, e desaparecendo no corredor sem luz, que ia ter ao sobradinho. Aleixo acompanhava-o taciturno, silenciosos, cosendo-se \u00e0 parede, como quem pela primeira vez entra num lugar estranho.<\/p>\n<p>&#8211; Anda tolo! fez o outro, segurando-lhe o bra\u00e7o. De que tens medo?&#8230;<\/p>\n<p>Subiram cautelosos, por ali acima, uma escada triste e deserta, cujos degraus, muito \u00edngremes, amea\u00e7avam fugir sob os p\u00e9s.<\/p>\n<p>O negro puxou o cord\u00e3o que pendia da cancela e l\u00e1 dentro, na sala de jantar, uma campainha fez sinal, timbrando surdamente.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo tornou a puxar com for\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9? Oh!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu, D. Carolina: tenha bondade.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vai&#8230;<\/p>\n<p>E com pouco o marinheiro atirava-se nos bra\u00e7os de uma senhora gorda, redonda e meio idosa, estreitando-a contra o peito, suspendendo-a mesmo, apesar de toda a sua gordura, com essa alegria natural de pessoas que se tornam a ver, depois de um aus\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Conta-m\u2019l\u00e1, Bom-Crioulo, anda, entra&#8230; Quem \u00e9 este pequeno?<\/p>\n<p>&#8211; Este pequeno?&#8230; Por causa dele mesmo \u00e9 que estou aqui. Depois conversaremos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E tu, como vais, meu crioulo? Dize, conta&#8230; Ora, se eu soubesse que era tu&#8230; D\u00e1 c\u00e1 outro abra\u00e7o, anda!<\/p>\n<p>Abra\u00e7aram-se de novo, com grande alvoro\u00e7o, rindo, gargalhando, ela de avental, muito rechonchuda, o cabelo em duas tran\u00e7as, partido ao meio, Bom-Crioulo fazendo-se am\u00e1vel, cobrindo-a de exclama\u00e7\u00f5es, achando-a mais gorda, mais bonita, mais mo\u00e7a!&#8230;<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina era uma portuguesa que alugava quartos na Rua da Miseric\u00f3rdia somente a pessoas de \u201ccerta ordem\u201d, gente que n\u00e3o se fizesse de muito honrada e de muito boa, isso mesmo rapazes de confian\u00e7a, bons inquilinos, patr\u00edcios, amigos velhos&#8230; N\u00e3o fazia quest\u00e3o de cor e tampouco se importava com classe ou profiss\u00e3o do sujeito. Marinheiro, soldado, embarcadi\u00e7o, caixeiro de venda, tudo era a mesm\u00edssima cousa! o tratamento que lhe fosse poss\u00edvel dar a um inquilino, dava-o do mesmo modo aos outros.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Vivia de sua casa, de seus c\u00f4modos, do aluguelzinho por m\u00eas ou por hora. Tinha o seu homem, l\u00e1 isso pra que negar? Mas, independente dele e de outros arranjos que pudesse fazer, precisava ir ganhando a vida com um emprego certo, um emprego mais ou menos rendoso para garantia do futuro. Isso de homens n\u00e3o h\u00e1 que fiar: hoje com Deus, amanh\u00e3 com o diabo.<\/p>\n<p>Quando mo\u00e7a, tinha seus vinte anos, abrira casa na rua da Lampadosa. Bom tempo! O dinheiro entrava-lhe pela porta em jorros como a luz do dia, sem ela se incomodar. Uma fortuna de j\u00f3ias, de ouro e brilhante! J\u00e1 era gorducha, ent\u00e3o: chamavam-na Carola Bunda, um apelido de mau gosto, inven\u00e7\u00e3o da rua&#8230;<\/p>\n<p>Depois esteve muito doente, sa\u00edram-lhe feridas pelo corpo, julgou n\u00e3o escapar. E, como tudo passa, ela nunca mais pode reerguer-se, chegando, por desgra\u00e7a, ao ponto de empenhar j\u00f3ias e tudo, porque ningu\u00e9m a procurava, ningu\u00e9m a queria &#8211; pobre cadela sem dono&#8230; Passou mis\u00e9rias! at\u00e9 quis entrar para um teatro como qualquer cousa, como criada mesmo. Foi nessa \u00e9poca, num dia de carnaval (lembrava-se bem!), que come\u00e7ou a melhorar de sorte. Um clubezinho pagou-lhe alguns mil-r\u00e9is para ela fazer de V\u00eanus, no alto de um carro triunfal. Foi um esc\u00e2ndalo, um \u201csucesso\u201d: atiraram-lhe flores, deram-lhe vivas, muita palma, presentes, &#8211; o diabo! Durante quase um ano s\u00f3 se falou na Carola, nas pernas da Carola, na portuguesa da rua do N\u00fancio.<\/p>\n<p>A pobre mulher narrava isso com l\u00e1grimas e suspiros de profunda e melanc\u00f3lica saudade, e repetia: Bom Tempo! Bom tempo!<\/p>\n<p>Esteve duas vezes amigada, tornou a cair doente, foi \u00e0 Portugal, regressou ao Brasil, cheia de corpo e de novas ambi\u00e7\u00f5es, amigou-se outra vez, e, afinal de contas, depois de muito gozar e de muito sofrer, l\u00e1 estava na Rua da Miseric\u00f3rdia, fazendo pela vida, meu rico!, explorando a humanidade brejeira, enquanto o seu \u201cmacac\u00e3o\u201d trabalhava por outro lado em neg\u00f3cios de carne verde e fornecimento para os quart\u00e9is.<\/p>\n<p>De resto, essa alian\u00e7a com o a\u00e7ougueiro, uma senhor Br\u00e1s, homem de grandes barbas e muitos haveres, essa alian\u00e7a pouco ou nada lhe rendia, a ela, porque o sujeito era casado e s\u00f3 de m\u00eas em m\u00eas dava o ar de sua gra\u00e7a, deixando-lhe a ninharia de cento e cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is para o aluguel do sobradinho, fora a carne que mandava diariamente.<\/p>\n<p>&#8211; Tenho quarenta anos de experi\u00eancia, dizia, quarenta anos e alguns fios de prata na cabe\u00e7a. Conhe\u00e7o este mundo velho, meu amor; tudo isso pra mim \u00e9 mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Estimava Bom-Crioulo desde o dia em que ele, desinteressadamente, por um acaso providencial, livrou-a de morrer na ponta uma faca; hist\u00f3ria de ladr\u00f5es&#8230; Era caso at\u00e9 para beijar os p\u00e9s do marinheiro, porque nunca vira tanta coragem e tanto desinteresse!<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina buscava sempre ocasi\u00e3o de recordar o fato, narrando-o com todas as cores, dando-lhe mesmo umas tintas de paleta rembrantesca, desfazendo-se em elogios \u00e0 gente da marinha, gabando os homens do mar, \u201cuns benfeitores da humanidade\u201d.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Uma noite &#8211; s\u00f3 ao pensar tinha calafrios! &#8211; vinha de assistir ao Drama no alto-mar, que se representava na Phenix, quando, ao meter a chave na porte, foi surpreendida por dois indiv\u00edduos, cuja fisionomia n\u00e3o pode reconhecer e que lhe pediram os an\u00e9is e dinheiro que porventura trouxesse.<\/p>\n<p>Ela, com efeito, al\u00e9m de um anel de brilhante, lembran\u00e7a dos bons tempos! e duas esmeraldas, levava cinq\u00fcenta mil-r\u00e9is. Ora, j\u00e1 se passava de meia noite e a Rua da Miseric\u00f3rdia estava deserta que nem um cemit\u00e9rio. Nenhum guarda por ali! Quis abrir a boca e pedir socorro, mas os gatunos foram dizendo logo que, se ela ousasse gritar, morria. E brandiram os punhais, duas l\u00e2minas de bom a\u00e7o, tamanho de fac\u00f5es! Ah! mas Deus \u00e9 grande! Nesse momento ia passando o vulto de um marinheiro e ela disparou correndo, sobre ele: &#8211; Socorro! Socorro! &#8211; Travou-se uma luta. O marujo saltava fugindo aos punhais e investindo logo, como uma fera, de navalha em punho. Felizmente (Deus sabe o que faz!) aos gritos de socorro, encheram-se as janelas de gente em camisa de dormir, soaram apitos no escuro e a pol\u00edcia chegou a tempo de prender os ladr\u00f5es, completamente desarmados pelo bem-vindo marinheiro. &#8211; Qualquer pessoa nos casos dela faria o que ela fez: abriu cerveja para o seu protetor, que disse chamar-se Amaro, vulgo Bom-Crioulo, marinheiro de um navio da esquadra. E, como no sobradinho moravam pra\u00e7as de bordo, Bom-Crioulo deu-se a conhecer, havendo logo uma intimidade entre ela, Carolina, e o negro. Palavra d\u2019honra como nunca vira tanta coragem num homem.<\/p>\n<p>Estimava-o por isso: porque era um marinheiro valente &#8211; homem para quatro!<\/p>\n<p>Bom-Crioulo come\u00e7ou a freq\u00fcentar o sobradinho onde iam outros marinheiros, e da\u00ed a grande amizade da portuguesa por ele, n\u00e3o que houvesse outra inten\u00e7\u00e3o: ela sabia que o negro n\u00e3o era homem para mulheres&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, conta-m\u2019l\u00e1 essa viagem!<\/p>\n<p>Tinham-se sentado, os tr\u00eas, numa sala de jantar, \u00e0 luz do g\u00e1s. D. Carolina estufada, muit\u00edssimo gorda, cabeceando, sem f\u00f4lego, estava ansiosa por saber not\u00edcias. O negro, de bon\u00e9 no alto da cabe\u00e7a, recostado familiarmente, acabava o charuto, cuja cinza abria-se de vez em quando num clar\u00e3o rubro e quente. Aleixo, im\u00f3vel numa cadeira, olhava as paredes, examinando o papel do forro, os quadros &#8211; oleografias de carrega\u00e7\u00e3o figurando assunto de alcova, duas em cada parede, colocadas simetricamente -, o guarda-lou\u00e7a quase vazio, e uma cole\u00e7\u00e3o de estampilhas de caixa de f\u00f3sforo armada em leque. Tudo velho e incolor, poento e maltratado. Respirava-se uma atmosfera de sebo e c\u00e2nfora, renovada por uma triste janelinha que abria para a esp\u00e9cie de \u00e1rea pertencente \u00e0 loja.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo resumiu em poucas palavras a viagem da corveta: &#8211; Seis meses de estupidez! O Aleixo \u00e9 que trouxera um pouquinho de alegria na volta&#8230;<\/p>\n<p>E desfiou a hist\u00f3ria do grumete.<\/p>\n<p>&#8211; Agora D. Carolina vais no arranjar um quartinho, mesmo que seja no s\u00f3t\u00e3o, rematou; mas um quartinho sem luxo, para quando viermos \u00e0 terra.<\/p>\n<p>&#8211; Uma cama ou duas? perguntou sorrindo a quarentona.<\/p>\n<p>&#8211; Como quiser&#8230; Marinheiro \u00e9 gente que dorme aos quatro, aos cinco&#8230; aos cinq\u00fcenta! Se houvesse uma caminha larga&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Arranja-se, meu Deus, arranja-se, tornou a portuguesa. O comodozinho de cima est\u00e1 desocupado, e, quer que lhe diga? eu acho que ficavam melhor&#8230;<\/p>\n<p>Sempre risonha e tr\u00eafega, sufocada pelo calor, a mulher piscou o olho a Bom-Crioulo.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, j\u00e1 sei que vens outro&#8230; Bendita viagem! ou o mar ou as tais cant\u00e1ridas!&#8230;<\/p>\n<p>Riram, compreendendo-se, enquanto Aleixo, debru\u00e7ado \u00e0 janela, cuspia para baixo, para o quintalejo dos africanos.<\/p>\n<h4><a name=\"5\">Cap\u00edtulo V<\/a><\/h4>\n<p>Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida no sobradinho, come\u00e7ou a experimentar uma del\u00edcia muito \u00edntima, assim como um recolhido gozo espiritual &#8211; certo amor \u00e0 vida obscura daquela casa onde ultimamente quase ningu\u00e9m ia, e que era o seu querido valhacouto de marujo em folga, o doce remanso de sua alma voluptuosa. N\u00e3o sonhava melhor vida, conchego mais ideal: o mundo para ele resumia-se agora naquilo: um quartinho pegado \u00e0s telhas, o Aleixo e &#8230; nada mais! Enquanto Deus lhe conservasse o ju\u00edzo e a sa\u00fade, n\u00e3o desejava outra cousa.<\/p>\n<p>O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, esp\u00e9cie de s\u00f3t\u00e3o, ru\u00eddo pelo cupim e tresandando a \u00e1cido f\u00eanico. Nele morrera de febre amarela um portuguesinho rec\u00e9m chegado. Mas Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau car\u00e1ter, n\u00e3o se importou com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente. Todo dinheiro que apanhava era para a compra de m\u00f3veis e objetos de fantasia rococ\u00f3, \u201cfiguras\u201d, enfeites, cousas sem valor, muita vez trazida de bordo&#8230; Pouco a pouco o pequeno \u201cc\u00f4modo\u201d foi adquirindo uma fei\u00e7\u00e3o nova de bazar hebreu, enchendo-se de bugigangas, amontoando-se de caixas vazias, b\u00fazios grosseiros e outros acess\u00f3rios ornamentais. O leito era uma \u201ccama de vento\u201d j\u00e1 muito usada, sobre a qual Bom-Crioulo tinha o zelo de estender, pela manh\u00e3, quando se levantava, um grosso cobertor encarnado \u201cpara ocultar as n\u00f3doas\u201d.<\/p>\n<p>Durante meses viveu ele uma vida calma, escrupulosamente pautada, rigorosamente met\u00f3dica, cumprindo seus deveres a bordo, vindo \u00e0 terra duas vezes por semana em companhia de Aleixo, sem dar motivo a castigos ou recrimina\u00e7\u00f5es. At\u00e9 os oficiais estranhavam-lhe o procedimento, admiravam-lhe os modos. &#8211; \u201cIsso \u00e9 cousa passageira, insinuava o tenente Souza. Breve temo-lo aqui, b\u00eabedo e medonho. Sempre o conheci refrat\u00e1rio a toda norma de viver. Hoje manso como um cordeiro, amanh\u00e3 tempestuoso como uma fera. Cousas de car\u00e1ter africano&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O grumete, por sua vez, trazia a alma na perp\u00e9tua alegria dos que n\u00e3o t\u00eam cuidados. Em terra ou a bordo, n\u00e3o tinha de que se queixar: andava sempre limpo, ningu\u00e9m o via deitado no conv\u00e9s, ou emporcalhando-se de alcatr\u00e3o \u00e0 proa. Felizmente o imediato escolhera-o para o servi\u00e7o de cabo-marinheiro, em aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sua conduta, reconhecendo nele um rapazinho de bons costumes, amigo do asseio, obediente e trabalhador. De modo que raro via-se Aleixo entre a marinhagem. Seu lugar predileto era o passadi\u00e7o ou a r\u00e9 cosendo bandeiras, tesourando fl\u00e2mulas, aprendendo certos misteres do of\u00edcio. \u00c0s vezes tinha palestras com o oficial do quarto, narrando hist\u00f3rias de Santa Catarina, casos da prov\u00edncia, do tempo em que ele era um simples filho de pescador, um pobre menino da beira-mar. Os outros marinheiros olhavam-no com inveja, tocando-se os cotovelos maliciosamente. Havia um guarda-marinha, mo\u00e7o bem educado e muito democrata, que, uma vez por outra, dava-lhe dinheiro, n\u00edqueis para cigarros. Ele ia logo mostrar a Bom-Crioulo as moedinhas de tost\u00e3o que \u201cseu guarda-marinha lhe dera\u201d. Todos a bordo lhe faziam festa; o pr\u00f3prio guardi\u00e3o Agostinho, seco e r\u00edspido, tratava-o bem, com branduras na voz. Uma vida regalada!<\/p>\n<p>Em terra, no quarto da Miseric\u00f3rdia, nem se falava! &#8211; ouro sobre azul. Ficavam em ceroulas, ele e o negro, espojavam-se \u00e0 vontade na velha cama de lona, muito fresca pelo calor, a garrafa de aguardente ali perto, sozinhos, numa independ\u00eancia absoluta, rindo e conversando \u00e0 larga, sem que ningu\u00e9m os fosse perturbar &#8211; volta na chave por via das d\u00favidas&#8230;<\/p>\n<p>Um cousa desgostava o grumete: os caprichos libertinos do outro. Porque Bom-Crioulo n\u00e3o se contentava em possu\u00ed-lo a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma \u201cmulher-a-toa\u201d propondo quanta extravag\u00e2ncia lhe vinha \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o. Logo na primeira noite exigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em p\u00ealo: queria ver o corpo&#8230;<\/p>\n<p>Aleixo amuou: aquilo n\u00e3o era cousa que se pedisse a um homem! Tudo menos aquilo. Mas o negro insistiu: Ningu\u00e9m o levava a capricho:- Ou bem que somos ou bem que n\u00e3o somos&#8230; &#8211; Que asneira! fez o grumete. Por-se agora nu em p\u00ealo defronte do Bom-Crioulo ! Est\u00e1 visto que tinha vergonha.<\/p>\n<p>&#8211; Vergonha de qu\u00ea? tornou o outro. N\u00e3o \u00e9s homem como eu? Donde veio essa vergonha?<\/p>\n<p>&#8211; Decerto!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, deixa-te de luxo, menino, vamos: tira a roupa&#8230;<\/p>\n<p>Havia luz no quarto, uma luz morti\u00e7a. no topo de uma vela de sebo.<\/p>\n<p>&#8211; Nem se v\u00ea nada&#8230; fez Aleixo choramingando, sem l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre h\u00e1 se de se ver alguma cousa&#8230;<\/p>\n<p>E o pequeno, submisso e covarde, foi desabotoando a camisa de flanela, depois as cal\u00e7as, em p\u00e9, colocando a roupa sobre a cama, pe\u00e7a por pe\u00e7a.<\/p>\n<p>Estava satisfeita a vontade de Bom-Crioulo. Aleixo surgia-lhe agora em pleno e exuberante nudez, muito alvo, as formas roli\u00e7as de calip\u00edgio ressaltando na meia sombra voluptuosa do aposento, na penumbra acariciadora daquele ignorado e impudico santu\u00e1rio de paix\u00f5es inconfess\u00e1veis&#8230; Belo modelo de efebo que a Gr\u00e9cia de V\u00eanus talvez imortalizasse em estrofes de ouro l\u00edmpido e estatuas duma escultura sensual e pujante. Sodoma ressurgia agora numa triste e desolada bai\u00faca da Rua da Miseric\u00f3rdia, onde \u00e0quela hora tudo permanecia numa doce quieta\u00e7\u00e3o de ermo long\u00ednquo.<\/p>\n<p>&#8211; Veja logo&#8230; murmurou o pequeno, firmando-se nos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo ficou ext\u00e1tico! A brancura l\u00e1ctea e maci\u00e7a daquela carne tenra punha-lhe fr\u00eamitos no corpo, abalando-o nervosamente de um modo estranho, excitando-o como uma bebida forte, atraindo-o, alvoro\u00e7ando-lhe o cora\u00e7\u00e3o. Nunca vira formas de homem t\u00e3o bem torneadas, bra\u00e7os assim, quadris rijos e carnudos como aqueles&#8230; Faltavam-lhe os seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!&#8230; Que beleza de pesco\u00e7o, que del\u00edcia de ombros, que desespero!&#8230;<\/p>\n<p>Dentro do negro rugiam desejos de touro ao pressentir a f\u00eamea&#8230; Todo ele vibrava, demorando-se na idolatria pag\u00e3 daquela nudez sensual como um fetiche diante de um s\u00edmbolo de ouro ou como um artista diante duma obra prima. Ignorante e grosseiro, sentia-se, contudo, abalado at\u00e9 os nervos mais rec\u00f4nditos, at\u00e9 \u00e0s profundezas do seu duplo ser moral e f\u00edsico, dominado por um quase respeito cego pelo grumete que atingia propor\u00e7\u00f5es de ente sobrenatural a seus olhos de marinheiro rude.<\/p>\n<p>&#8211; Basta! &#8230; suplicou Aleixo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o! Um bocadinho mais&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo tomou a vela, meio tr\u00eamulo, e, aproximando-se, continuou o exame atencioso do grumete, palpando-lhe as carnes, gabando-lhe o cheiro da pele, no auge da vol\u00fapia, no extremo da concupisc\u00eancia, os olhos deitando chispas de gozo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Acabou-se! tornou Aleixo depressa, impaciente j\u00e1, soprando a luz.<\/p>\n<p>Seguiu-se, ent\u00e3o, no escuro, um ligeiro duelo de palavras gemidas \u00e0 surdina. e, quando Bom-Crioulo riscou o f\u00f3sforo, ainda uma vez triunfante, mal podia ter-se em p\u00e9.<\/p>\n<p>Tais eram os \u201cdesgostos\u201d de Aleixo. Fora disso a vida corria-lhe admiravelmente, como um leve barco \u00e0 fei\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina, essa tratava-o pelo carinhoso apelido de bonitinho: -\u201co meu bonitinho\u201d \u00e9 como ela dizia, ameigando o sotaque peninsular.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Achava uma gra\u00e7a infinita naquele pedacinho de homem vestido de marinheiro, alvo e louro, sempre muito bem penteado, o cabelo sedoso, os borzeguins lustrosos, todo ele cheirando a ess\u00eancia, como uma rapariga que se vai que se vai fazendo mulher&#8230;<\/p>\n<p>O pequeno, muito acess\u00edvel a tudo quanto fosse carinho, mostrava-se reconhecido, n\u00e3o subia para o quarto sem primeiro dar os bons-dias \u00e0 portuguesa, abrindo-se com ela com franquezas ing\u00eanuas, deixando-se agradar.<\/p>\n<p>Ele, D. Carolina a Bom-Crioulo eram como uma pequena fam\u00edlia, n\u00e3o tinham segredos ente si, estimavam-se mutuamente.<\/p>\n<p>Para que vida melhor? Longe de seus pais, numa terra estranha, encontrava naquela casa um asilo de amor, um para\u00edso de felicidade&#8230;<\/p>\n<p>A corveta, dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, entrou para o dique.<\/p>\n<p>Esgotada a grande bacia de granito, larga e profunda, como um abismo natural, aberta \u00e0 picareta nos seio da rocha dura e implac\u00e1vel, come\u00e7aram as obras.<\/p>\n<p>Um martelar cont\u00ednuo reboava ciclopicamente no interior daquela sepultura de pedra, como numa forja subterr\u00e2nea: oper\u00e1rios em mangas de camisa recome\u00e7avam todos os dias a mesma faina brutal de calafetar o bojo da velha \u201cbarca\u00e7a\u201d, enquanto os marinheiros iam, por outro lado, raspando o mexilh\u00e3o que o calor apodrecia no fundo seco do dique. Sufocava, l\u00e1 embaixo, o cheiro forte dos mariscos em decomposi\u00e7\u00e3o: subindo como bafos de monturo, resistindo \u00e0 potassa e ao \u00e1cido f\u00eanico.<\/p>\n<p>Era justamente em dezembro, m\u00eas de epidemias e de insuport\u00e1vel calor.<\/p>\n<p>Dir-se-ia que aqueles homens, oper\u00e1rios e marinheiros, n\u00e3o tinham aparelho respirat\u00f3rio, n\u00e3o tinham pulm\u00f5es, ou estavam saturados de miasmas.<\/p>\n<p>Trabalhavam cantando e martelavam assobiando, com uma indiferen\u00e7a her\u00f3ica, sem pensar no grande perigo que os amea\u00e7ava.<\/p>\n<p>Pela noite, desde o escurecer, o odor pestilento aumentava e ent\u00e3o n\u00e3o havia rem\u00e9dio: a marinhagem toda precipitava-se para fora, como um formigueiro alvoro\u00e7ado tapando o nariz: &#8211; Foge! foge! olha a febre amarela!<\/p>\n<p>Navio no dique, marinheiro \u00e0 solta. O servi\u00e7o diminu\u00eda, tinha-se mais liberdade, podia-se folgar \u00e0 vontade, porque o campo era largo, o conv\u00e9s estendia-se pela ilha at\u00e9 certa dist\u00e2ncia. Dali para terra era um pulo, n\u00e3o faltavam botes de ganho; breus em quantidade atracavam pr\u00f3ximo ao dique: vivia-se como em qualquer parte.<\/p>\n<p>De vez em quando: \u201cSeu tenente d\u00e1 licen\u00e7a que eu visite um amigo no hospital? &#8211; V\u00e1, mas n\u00e3o demore&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O hospital ficava no topo da ilha, numa emin\u00eancia que dava acesso por uma estrada em ziguezague. Todas as tardes passavam marinheiros naquela dire\u00e7\u00e3o, subindo lentamente aos quatro, em prociss\u00f5es: iam visitar os companheiros, ou eram baixas que vinham da esquadra.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo agora multiplicava os passeios \u00e0 terra. Ass\u00edduo no trabalho, nunca se negando a fazer o que lhe ordenavam, cumprindo suas obriga\u00e7\u00f5es com a mesma paci\u00eancia de outrora, quando o futuro lhe sorria esperan\u00e7as de vida melhor, reabilitava-se a olhos vistos de umas tantas falcatruas que cometera em viagem. O imediato fazia-lhe concess\u00f5es prevenindo-o que \u201ctomasse cuidado, n\u00e3o fosse beber demasiadamente\u201d.<\/p>\n<p>Todo marinheiro trabalhador e disciplinado tinha nele um amigo, um verdadeiro pai: a quest\u00e3o era andar direitinho, \u201cportar-se como gente\u201d.<\/p>\n<p>E Bom-Crioulo compreendendo isso, fazia o poss\u00edvel para o n\u00e3o descontentar, trabalhando sempre que havia servi\u00e7o, de cara alegre, sem constrangimento, na certeza de ir \u00e0 terra.<\/p>\n<p>Um dia sim outro n\u00e3o ei-lo no seu quarto da Rua da Miseric\u00f3rdia, todo entregue ao descanso, livre, completamente livre de inc\u00f4modos e obriga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o esquecia de beber seu golito de \u201cconhaque brasileiro\u201d, mas sabia se conter evitando excessos. De resto, era t\u00e3o calma sua vida, corria-lhe a exist\u00eancia t\u00e3o doce, t\u00e3o suave, que ele at\u00e9 estranhava.<\/p>\n<p>Ultimamente come\u00e7ou a achar-se magro, sentindo mesmo uns longe de fraqueza no peito. Quando trabalhava muito ou fazia qualquer esfor\u00e7o, vinha-lhe uma sonol\u00eancia profunda, uma vontade de estirar o corpo na cama fresca e macia, um relaxamento dos nervos&#8230; Os pr\u00f3prios companheiros notavam certa mudan\u00e7a em sua fisionomia: &#8211; Est\u00e1s magro, \u00f3 Bom-Crioulo, que diabo \u00e9 isso?<\/p>\n<p>&#8211; Eu, magro?&#8230; e passava a m\u00e3o no rosto examinando-se. Estarei doente?<\/p>\n<p>&#8211; Alguma crioula, hein?<\/p>\n<p>&#8211; Qual crioula!<\/p>\n<p>Um dia consultou ao grumete:<\/p>\n<p>&#8211; Achas que estou emagrecendo?<\/p>\n<p>Aleixo tamb\u00e9m foi de parecer que sim, mas \u201cera pouca cousa\u201d.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo n\u00e3o se importou: foi continuando a viver tranq\u00fcilamente, ora a bordo, ora em terra, numa grande paz de esp\u00edrito, vendo crescer a seu lado o Aleixo, assistindo-lhe o desenvolvimento prematuro de certos \u00f3rg\u00e3os, o desabrochar da segunda idade, como quem estuda a evolu\u00e7\u00e3o de uma flor curiosa.<\/p>\n<p>Sua amizade ao grumete j\u00e1 n\u00e3o era l\u00fabrica e ardente: mudara-se num sentimento calmo, numa afei\u00e7\u00e3o comum, sem estos febris nem zelo de amante apaixonado.<\/p>\n<p>Quase um ano de conviv\u00eancia fora bastante para que ele se identificasse absolutamente com o grumete, para que o ficasse conhecendo, e a convic\u00e7\u00e3o de que Aleixo n\u00e3o o tra\u00eda, entregando-se \u00e0 f\u00faria selvagem de qualquer marmanjo, a certeza de que era respeitado, a certeza que era respeitado pelo outro, comunicava-lhe essa tranq\u00fcilidade confiante de marido feliz, de capitalista zeloso que traz o dinheiro guardado inviolavelmente.<\/p>\n<p>Decorreu quase um ano sem que o fio tenaz dessa amizade misteriosa, cultivada no alto da Rua da Miseric\u00f3rdia, sofresse o mais leve abalo. Os dois marinheiros viviam um para o outro: completavam-se.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas acabam tendo filhos, gracejava D. Carolina.<\/p>\n<p>Nunca vira dois homens gostarem-se tanto! Bom-Crioulo n\u00e3o era tolo nem nada&#8230; Tolo era quem se fiasse nele&#8230;<\/p>\n<p>E o negro sorria orgulhoso, com seus dentes de marfim, meio agu\u00e7ados, como presas de tubar\u00e3o.<\/p>\n<p>A corveta sa\u00edra do dique, indo amarrar numa b\u00f3ia por tr\u00e1s do morro de S. Bento com fronte ao Arsenal.<\/p>\n<p>Em todo caso sempre era mais perto de terra que no po\u00e7o, no ancoradouro dos navios de guerra, onde a gente n\u00e3o tinha liberdade.<\/p>\n<p>Mas Bom-Crioulo um dia foi surpreendido com a not\u00edcia de que estava nomeado para servir noutro navio &#8211; um de a\u00e7o, muito conhecido pelo seu maquinismo complicado e pela sua formid\u00e1vel artilharia; belo conjunto de for\u00e7as navais, que fazia desse coura\u00e7ado uma dos mais poderosos do mundo.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo desapontou: -&#8230; que os pariu! Nem se tinha tempo de conhecer bem os navios: hoje num, amanh\u00e3 noutro&#8230; At\u00e9 parecia brincadeira!\u201d<\/p>\n<p>E furiosos, amarrando o saco de lona, trombudo:<\/p>\n<p>&#8211; Por isso \u00e9 que um marinheiro fica relaxado: por isso&#8230;<\/p>\n<p>Enquanto os outros passavam e tornavam a passar de popa \u00e0 proa, tranq\u00fcilos, no seu descanso, ele, somente porque era uma boa pra\u00e7a, l\u00e1 ia para o coura\u00e7ado &#8211; aquele diabo de ferro, aquele monstro, sem o Aleixo, sem o seu Aleixo&#8230; Vivera tantos meses ali a bordo da corveta mais o pequeno e agora, de repente, sem qu\u00ea nem para qu\u00ea: &#8211; Passe&#8230; Era mesmo uma perversidade!<\/p>\n<p>Mas, Deus \u00e9 grande! pensava Bom-Crioulo . Deus sabe o que faz: a gente n\u00e3o tinha rem\u00e9dio sen\u00e3o obedecer calada, porque marinheiro e negro cativo, afinal de contas, vem a ser a mesma cousa.<\/p>\n<p>Aleixo consolava-se, resignado: paci\u00eancia, homem, o mundo n\u00e3o se acabava. Sempre haviam de se ver, que diabo! Para isso \u00e9 que tinham alugado quarto. Um dia sim outro n\u00e3o podiam se encontrar do mesmo modo em terra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Agora v\u00ea l\u00e1 se vais fazer alguma&#8230; preveniu o negro.<\/p>\n<p>Renasciam-lhe os zelos; aquela separa\u00e7\u00e3o brusca e inesperada irritava-o, acordando no fundo de sua alma um ego\u00edsmo exacerbado, uma desconfian\u00e7a vaga no futuro. &#8211; \u00c9 verdade que o grumete j\u00e1 n\u00e3o era uma crian\u00e7a para se deixar iludir, mas, meu amigo, podia o rapaz se entusiasmar por algum oficialzinho bonito, e, adeus, Bom-Crioulo!&#8230;<\/p>\n<p>Com o esp\u00edrito cheio de apreens\u00f5es, o olhar triste e a face carrancuda, estreitou ao peito seu querido Aleixo, e, sem proferir palavra, mudo na sua tristeza, como um preso que deixa uma pris\u00e3o para entrar noutra, viu desaparecerem os mastros da corveta e a sombra do grumete que lhe acenava ao longe, na penumbra crepuscular, vaga e nebulosa, como a pr\u00f3pria saudade.<\/p>\n<p>O coura\u00e7ado l\u00e1 estava encoberto pela ilha, muito grande e solene, com o seu belo aspecto de casamata flutuante, aproado \u00e0 mar\u00e9, respeit\u00e1vel e glorioso.<\/p>\n<p>&#8211; Rema for\u00e7a, que \u00e9 tarde.<\/p>\n<p>E a pequena embarca\u00e7\u00e3o, impelida vigorosamente, ia deixando atr\u00e1s, sem o saber, a alma de Bom-Crioulo, terna e dolente&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"6\">Cap\u00edtulo VI<\/a><\/h4>\n<p>No dia seguinte Aleixo encontrou fechada a porta do quarto.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Bom-Crioulo n\u00e3o tinha ido \u00e0 terra, como prometera. &#8211; Exig\u00eancias do servi\u00e7o, pensou. No coura\u00e7ado a disciplina era outra; o imediato, homem feroz, s\u00f3 falava de chibata e golilha. Estava muito satisfeito na sua corveta assim mesmo velha e triste&#8230;<\/p>\n<p>Abriu a janela para entrar luz e come\u00e7ou a se despir, trauteando qualquer coisa, o olhar perdido l\u00e1 fora no ar im\u00f3vel, no azul coruscante&#8230; O calor abrasava. Nenhuma aragem sequer. O sol das duas horas ca\u00eda obliquamente, pondo reflexos de ouro sobre os telhados, vitorioso e torrencial, pulverizando cris\u00f3litos de brilho raro ao longe nas vidra\u00e7arias&#8230; Uma opul\u00eancia de luz nunca vista!<\/p>\n<p>Aleixo despiu-se, pela primeira vez acendeu um cigarro, deitando-se \u00e0 larga na velha cama de lona. &#8211; Passa ! Que forno!&#8230;<\/p>\n<p>Queria descansar um bocado, esperar Bom-Crioulo t\u00e9 \u00e0s cinco horas, dormir uma soneca. Sa\u00edra de bordo muito cedo porque ajustara com o negro, e agora n\u00e3o tinha rem\u00e9dio sen\u00e3o esperar naquela pasmaceira, naquele calor. Enfim, como fizera quarto a noite passada, ia ver se conseguia dormir&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o chegou ao fim do cigarro, um detest\u00e1vel mata-ratos que Bom-Crioulo esquecera sobre a mesinha, e que abriu-se de todo em sua m\u00e3o desajeitada. &#8211; N\u00e3o sabia que diabo de gosto o dos fumantes. Qual! decididamente n\u00e3o se acostumava com o fumo. Vinha-lhe logo a dor de cabe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>P\u00f4s-se a olhar o teto, as paredes, um retrato do imperador, j\u00e1 muito apagado, que viera na primeira p\u00e1gina de um jornal ilustrado, preso em caixilhos de bambu, um cromo de desfolhar, examinando com aten\u00e7\u00e3o o pequeno aposento, os m\u00f3veis &#8211; a mesa e duas cadeiras -, como se estivesse num museu de cousas raras.<\/p>\n<p>Adormeceu justamente quando soaram duas horas no rel\u00f3gio de D. Carolina, embaixo, no primeiro andar.<\/p>\n<p>Acordou indisposto, sobressaltado, num banho de suor, a l\u00edngua seca &#8211; torcendo-se em espregui\u00e7amentos de quem dormiu toda uma noite.<\/p>\n<p>O sol abrandara um pouco e j\u00e1 havia nuvens no alto, quebrando a monotonia do azul. &#8211; Nada; com certeza Bom-Crioulo n\u00e3o vinha mais, pensou o grumete. Diabo de insipidez!<\/p>\n<p>De resto, o negro n\u00e3o lhe fazia muita falta: estimava-o, \u00e9 verdade, mas aquilo n\u00e3o era sangria desatada que n\u00e3o acabasse nunca&#8230;<\/p>\n<p>Essa id\u00e9ia penetrou-o com uma lembran\u00e7a feliz, como um fluido esquisito que lhe inoculassem no sangue. &#8211; Podia encontrar algum homem de posi\u00e7\u00e3o, de dinheiro: j\u00e1 agora estava acostumado \u201c\u00e0quilo\u201d&#8230; O pr\u00f3prio Bom-Crioulo disseram que n\u00e3o se reparavam essas cousas no Rio de Janeiro. Sim, que podia ele esperar de Bom-Crioulo? Nada, e, no entanto, estava sacrificando a sa\u00fade, o corpo, a mocidade&#8230; Ora, n\u00e3o valia a pena!<\/p>\n<p>Saltou da cama e foi se vestindo devagar, assobiando baixinho, dominado por aquela id\u00e9ia. &#8211; Estava aborrecido, muito aborrecido; precisava mudar de vida&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e1 licen\u00e7a?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! madama&#8230;<\/p>\n<p>Era a portuguesa: ainda n\u00e3o tinha visto o \u201cseu bonitinho\u201d, dera-lhe uma saudade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bom-Crioulo n\u00e3o veio hoje?<\/p>\n<p>N\u00e3o , n\u00e3o tinha vindo. E Aleixo contou a paisagem do negro para o coura\u00e7ado, o desgosto de Bom-Crioulo, a vida de trabalho que o outro ia levar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Coitado! lamentou D. Carolina. Mas h\u00e1 de vir \u00e0 terra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, por que n\u00e3o? Sempre h\u00e1 de vir. N\u00e3o ser\u00e1 tanto como na corveta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Coitado!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tem a\u00ed uma cadeira, ofereceu Aleixo. Por que n\u00e3o se senta?<\/p>\n<p>&#8211; Que calor, hein? tornou a mulher sentando-se. Temos chuva.<\/p>\n<p>E logo, muito curiosa:<\/p>\n<p>&#8211; Vai sair?<\/p>\n<p>&#8211; Vou dar uma volta, passei o dia t\u00e3o aborrecido&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que falta, o negro, hein? acentuou a portuguesa sublinhando um risinho, abanando-se com o avental.<\/p>\n<p>Tinha-se sentado, muito vermelha, o casaco arrega\u00e7ado, os p\u00e9s nus dentro de uns tamancos de pano com que batia a roupa no quintal.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, disse Aleixo, com um desd\u00e9m na voz. Aquilo j\u00e1 est\u00e1 me aborrecendo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Oh! J\u00e1?&#8230; Muito cedo, homem.<\/p>\n<p>E fraternalmente:<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 uma boa criatura, coitado. Eu, \u00e0s vezes, tenho-lhe pena.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 porque madama n\u00e3o sabe quem est\u00e1 ali&#8230; Muito bom, mas quando se zanga, Jesus! chega a meter medo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Assim?<\/p>\n<p>&#8211; Ora!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pois, meu filho, se eu lhe disser que nunca vi Bom-Crioulo zangado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Uma fera!<\/p>\n<p>Aleixo estava defronte do espelho acabando a toilette. O cabelo cheio d\u2019\u00f3leo, escorrido e liso, tinha um brilho fugaz de seda preta. Abria-o de um lado, puxando em pasta sobre a calote esquerda, at\u00e9 quase a sobrancelha. Era uma de suas grandes preocupa\u00e7\u00f5es &#8211; o cabelo bem penteado, \u00famido sempre. Que trabalho para lhe dar jeito! Desmanchava-o um sem n\u00famero de vezes, tornava a acert\u00e1-lo, e, afinal, depois de repetidas tentativas, punha o bon\u00e9 devagar, jeitosamente.<\/p>\n<p>&#8211; Pronto! fez ele dando a \u00faltima dem\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Gosto de ver um marinheiro assim, elogiou a mulher, erguendo-se para endireitar a gola do grumete, que estava dobrada. Ningu\u00e9m me venha falar em homem porco.<\/p>\n<p>E colocando-se diante de Aleixo, os bra\u00e7os em arco e as m\u00e3os nos quadris:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 mesmo d\u2019encantar, o diabinho! Vai daqui namorar alguma biraia no Largo do Rocio, aposto!<\/p>\n<p>O efebo soltou uma risada muito sem gosto, olhando-se ainda uma vez no espelho.<\/p>\n<p>&#8211; Qual o qu\u00ea, madama! Vou daqui ao Passeio P\u00fablico; \u00e0s nove horas, o mais tardar, c\u00e1 estou de volta.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o me convida?<\/p>\n<p>&#8211; Quer ir, vamos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, obrigada; bom proveito e volte direitinho, \u00e9 o que eu quero&#8230;<\/p>\n<p>Foram saindo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, olhe, tornou D. Carolina com resolu\u00e7\u00e3o, no alto da escada. Preciso lhe falar: volte cedo.<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o diz agora?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o: quando voltar; prefiro conversar \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>&#8211; Pois sim&#8230; \u00e9 um instante. At\u00e9 logo!<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e9 loguinho.<\/p>\n<p>E alto, de cima da escada, enquanto o grumete desaparecia no corredor:<\/p>\n<p>&#8211; Cuidado hein?!<\/p>\n<p>Estaca escurecendo: seriam seis e pouco. Na rua j\u00e1 havia luz. Continuava o calor, um ar abafadi\u00e7o, de subterr\u00e2neo, sem oxig\u00eanio, pesado e asfixiante.<\/p>\n<p>A portuguesa desceu a escadinha do s\u00f3t\u00e3o, que estalava com o seu peso, e foi acender o g\u00e1s da sala de jantar, muito alegre, cantando uma modinha sentimental l\u00e1 da terra, numa voz l\u00e2nguida e tremida.<\/p>\n<p>H\u00e1 dias metera-se-lhe na cabe\u00e7a uma extravag\u00e2ncia: conquistar o Aleixo, o bonitinho, toma-lo para si, t\u00ea-lo como amantezinho do seu cora\u00e7\u00e3o avelhentado e gasto, amigar-se com ele secretamente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: roupa, cal\u00e7ados, almo\u00e7o e jantar nos dias de folga &#8211; dando-lhe tudo enfim.<\/p>\n<p>Era uma esquisitice como qualquer outra: estava cansada de aturar marmanjos. Queria agora experimentar um meninote, um crian\u00e7ola sem barba, que lhe fizesse todas as vontades. Nenhum melhor que Aleixo, cuja beleza impressionara-a desde a primeira vez que se tinham visto. Aleixo estava mesmo a calhar: bonito, forte, virgem talvez&#8230;<\/p>\n<p>Arranjava-se perfeitamente, sem que Bom-Crioulo soubesse. Mas como falar ao grumete, como propor-lhe o neg\u00f3cio? Ele talvez ficasse ofendido, e podia haver um esc\u00e2ndalo&#8230;<\/p>\n<p>O verdadeiro era pouco a pouco ir lhe dando a compreender que o estimava muito, oferecendo-se-lhe pouco a pouco, excitando-o.<\/p>\n<p>Outras mais velhas gabavam-se, por que \u00e9 que ela, com os seus trinta e oito anos, n\u00e3o tinha o direito de gozar? Hist\u00f3rias! mulher sempre \u00e9 mulher e homem sempre \u00e9 homem.<\/p>\n<p>Viu-se ao espelho e notou que realmente ainda \u201cprestava servi\u00e7o\u201d: &#8211; Qual velha! Nem um p\u00e9-de-galinha sequer, nem uma ruga &#8211; pois isso era ser velha? Certo que n\u00e3o. L\u00e1 quanto \u00e0 idade ningu\u00e9m queria saber. A quest\u00e3o era de cara e corpo&#8230; Ora, adeus!&#8230;<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a fazer-se muito meiga para o rapazinho, guardando-lhe doces, guloseimas, passando a ferro, ela pr\u00f3pria, seus len\u00e7os, gabando-se na presen\u00e7a de estranhos, fingindo-se distra\u00edda quando queria mostrar-lhe a exuber\u00e2ncia de suas carnes &#8211; perna, bra\u00e7o ou seios&#8230; Uma ocasi\u00e3o Aleixo vira-a em camisa curta, deitada, com as pernas de fora; porque os aposentos da portuguesa davam para o corredor e, nesse dia, ela esquecera de fechar a porta. O grumete voltou o rosto depressa, todo cheio de respeito, como se aquilo fosse uma profana\u00e7\u00e3o: mas, depois, ao lembrar-se do caso, tinha sempre uns arrepios voluptuosos, n\u00e3o podia evitar certa quebreira, certo desfalecimento acompanhado de ere\u00e7\u00e3o nervosa&#8230;<\/p>\n<p>Nunca mais lhe sa\u00edra da lembran\u00e7a aquela cena de alcova: uma mulher deitada com as pernas \u00e0 mostra, muito gordas e penugentas &#8211; num desalinho irresist\u00edvel, bra\u00e7os nus, cabelo solto. &#8211; Devia de ser espl\u00eandido a gente dormir nos bra\u00e7os de uma mulher. A portuguesa n\u00e3o era mazinha.<\/p>\n<p>Aleixo, por\u00e9m, estava longe de supor que D. Carolina, aquela D. Carolina, que o tratava como filho, bondosa e meiga, pretendesse faz\u00ea-lo seu amante.<\/p>\n<p>Semelhante id\u00e9ia nunca lhe passara pela imagina\u00e7\u00e3o. Via entrar homens no quarto dela, sabia os amores do a\u00e7ougueiro, mas isso era l\u00e1 com os outros de barba; o que lhe parecia imposs\u00edvel, e ele nem sequer pensava, \u00e9 que D. Carolina tivesse inten\u00e7\u00f5es com um rapazinho de sua idade, uma crian\u00e7a quase&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pronto! fez ele ao voltar do Passeio P\u00fablico.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! depressa! exclamou a portuguesa, erguendo-se. Venha c\u00e1, no meu quarto est\u00e1 mais fresco&#8230;<\/p>\n<p>O quarto de D. Carolina ficava justamente por baixo do s\u00f3t\u00e3o, na frente da casa, um largo aposento de mulher solteira, onde havia uma bela cama de casal com travesseiros de renda.<\/p>\n<p>Quando o grumete chegou, ela estava na sala de jantar lendo os an\u00fancios do Jornal do Com\u00e9rcio, \u00e0 luz do g\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8211; Divertiu-se muito?<\/p>\n<p>&#8211; Qual! Fui e voltei logo.<\/p>\n<p>&#8211; Por minha causa?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, o Passeio \u00e9 que estava ins\u00edpido&#8230; Pouca gente.<\/p>\n<p>Aleixo parou \u00e0 porta do quarto como quem receia entrar.<\/p>\n<p>&#8211; Entra, filhinho, entra, que isto aqui \u00e9 nosso, isto aqui \u00e9 da tua portuguesinha, n\u00e3o v\u00eas?<\/p>\n<p>E, alegre como nunca, foi abrindo as janelas que diziam para a Rua da Miseric\u00f3rdia, num alvoro\u00e7o.<\/p>\n<p>Enquanto o pequeno andava fora, ela fizera nova toilette, penteara-se, mudara a roupa, trocara os tamancos por umas sapatinhas cor de sangue e colocara os an\u00e9is, os c\u00e9lebres an\u00e9is que lhe tinham querido roubar: transformara-se completamente.<\/p>\n<p>&#8211; Senta, deixa de tolice, filho!<\/p>\n<p>Aleixo sentou-se muito acanhado, com um ar de colegial que pela primeira vez penetra num lugar suspeito. Morava naquela casa h\u00e1 um ano e s\u00f3 agora entrava ali, no quarto da portuguesa.<\/p>\n<p>&#8211; Bonita sala!<\/p>\n<p>Bonita o qu\u00ea, \u00f3 pequeno; est\u00e1s a debicar, hein? disse a mulher acendendo o g\u00e1s, no bico dos p\u00e9s, rindo. Bonito \u00e9s tu &#8211; tu \u00e9 que \u00e9s bonitinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; D. Carolina gosta de ca\u00e7oar com a gente!&#8230;<\/p>\n<p>E a portuguesa, sentando-se tamb\u00e9m, alisando-lhe o cabelo com as m\u00e3os, rubra de calor:<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9 isto, minha flor: o que eu tinha a dizer \u00e9 que estou apaixonada por ti!<\/p>\n<p>&#8211; Ora!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Estou falando s\u00e9rio; n\u00e3o vais dizer a Bom-Crioulo que eu lhe quero tomar o amigo&#8230; Olha que o negro \u00e9 capaz de estrangular-me&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 est\u00e1 D. Carolina com brincadeiras&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 brincadeira, n\u00e3o, filho, tornou a outra, afetando seriedade. Quero que durmas hoje, ao menos hoje, com a tua velha&#8230;<\/p>\n<p>E foi se derreando sobre os ombros de Aleixo, com uma fingida ternura de mulher nova.<\/p>\n<p>O pequeno desviava o olhar dos olhos dela, cheio de pudor, um sorriso fixo na boca sombreada por um bu\u00e7o em perspectiva, muito encolhido na sua cadeira, sem dizer palavra.<\/p>\n<p>O contato de sua perna com a da portuguesa produzia-lhe um calorzinho especial, um brando enleio d\u2019alma, uma vaga e deliciosa canseira no fundo do ser, um esquisito bem-estar.<\/p>\n<p>Por sua vontade ficaria naquela posi\u00e7\u00e3o eternamente, sentindo cada vez mais forte a influ\u00eancia magn\u00e9tica daquele corpo de mulher sobre os seus nervos de adolescente ainda virgem&#8230;<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina chegava-se pouco a pouco, estreitando-o, colando-se-lhe num grande \u00edmpeto de f\u00faria l\u00fabrica, de mulher gasta que acorda para uma sensa\u00e7\u00e3o nova&#8230;<\/li>\n<\/ol>\n<p>&#8211; Tu n\u00e3o podes comigo, disse tran\u00e7ando a perna sobre o joelho do Aleixo.<\/p>\n<p>E envolvendo-o todo com o seu corpo largo de portuguesa rude:<\/p>\n<p>&#8211; Dize l\u00e1: ficas ou n\u00e3o ficas?<\/p>\n<p>O efebo teve um arranco de novilho excitado, e, segurando-se \u00e0 cadeira com as m\u00e3os ambas, todo tr\u00eamulo agora, sem sangue no rosto:<\/p>\n<p>&#8211; Fico!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa f\u00faria brutal, e segurando-o pelas n\u00e1degas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi dep\u00f4-lo na cama:<\/p>\n<p>&#8211; Pr\u2019a\u00ed, meu jasmim de estufa, pr\u2019a\u00ed! Vais conhecer uma portuguesa velha de sangue quente. Deixa a inoc\u00eancia pro lado, vamos!&#8230;<\/p>\n<p>Bateu a porta e come\u00e7ou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, enquanto ele deixava-se estar im\u00f3vel, muito admirado para essa mulher-homem que o queria deflorar ali assim, torpemente como um animal.<\/p>\n<p>&#8211; Anda, meu tolinho, despe-te tamb\u00e9m: aprende com tua velha&#8230; Anda, que eu estou que nem uma brasa!&#8230;<\/p>\n<p>Aleixo n\u00e3o tinha tempo de coordenar id\u00e9ias. D. Carolina o absorvia, transfigurando-se a seus olhos.<\/p>\n<p>Ela, de ordin\u00e1rio t\u00e3o meiga, t\u00e3o comedida, t\u00e3o escrupulosa mesmo, aparecia-lhe como um animal formid\u00e1vel, cheio de sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, que se atira ao macho antes que ele prepare o bote&#8230;<\/p>\n<p>Era incr\u00edvel aquilo!<\/p>\n<p>A mulher s\u00f3 faltava urrar.<\/p>\n<p>E a sua admira\u00e7\u00e3o cresceu ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de basilisco.<\/p>\n<p>Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, at\u00e9 onde chega a animalidade humana, e, passando o primeiro momento de surpresa, sentiu que tamb\u00e9m era feito de carne e osso, como o negro e D. Carolina: &#8211; Valia a pena decerto uma noite como aquela!<\/p>\n<p>Acordou cedinho, pela madrugada. Queria ir para bordo no escaler das compras.<\/p>\n<p>A portuguesa ergue-se, fez caf\u00e9 ali mesmo no quarto, sem despertar ningu\u00e9m, jubilosa como uma noiva, exultando!<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Deus estava muito conservadinha, n\u00e3o era t\u00e3o velha como se pensava. Ainda tinha for\u00e7as para inutilizar muito homem robusto, ol\u00e1 se tinha!<\/p>\n<p>&#8211; E agora j\u00e1 sabes, meu pequerrucho: quando o negro n\u00e3o vier \u00e0 terra &#8211; um abracinho \u00e0 Carola. D\u2019hoje em diante quero que me chames Carola, ouviste? \u00c9 mais bonito, entre pessoas que se estimam&#8230; Carola e Bonitinho \u00e9 como nos devemos tratar.<\/p>\n<p>Vinha amanhecendo quando o grumete, ainda b\u00eabedo de sono, os olhos apertados, o passo leve, saiu direto ao Cais dos Mineiros. Estava muito p\u00e1lido, com grandes olheiras, repetia maquinalmente: &#8211; Se Bom-Crioulo soubesse!&#8230; ao mesmo tempo que seu esp\u00edrito voltava-se todo para o sobradinho da Rua da Miseric\u00f3rdia, onde aquela hora D. Carolina encharcava-se num magn\u00edfico banho frio de chuveiro.<\/p>\n<p>&#8211; Se fosse poss\u00edvel n\u00e3o me encontrar mais, nunca mais, com aquele negro, ah! que felicidade! pensava o grumete aproximando-se de um grupo de marinheiros, perto do cais.<\/p>\n<p>E a figura da portuguesa, muito gorda e risonha, os dentes muito alvos, os quadris largos, a face rubra, dan\u00e7ava em sua imagina\u00e7\u00e3o, como um sonho diab\u00f3lico.<\/p>\n<h4><a name=\"7\">Cap\u00edtulo VII<\/a><\/h4>\n<p>Bom-Crioulo n\u00e3o estava satisfeito no coura\u00e7ado, naquela formid\u00e1vel pris\u00e3o de a\u00e7o, que lhe consumia o tempo, e cuja disciplina &#8211; um horror de trabalho &#8211; privava-o de ir \u00e0 terra hoje sim, amanh\u00e3 n\u00e3o, como nos outros navios, Ah! mil vezes a corveta. mil vezes! Ao menos tinha-se liberdade. Separado agora de Aleixo, vivendo no meio de toda gente desconhecida e sem amor, lembrava-se, com tristeza, da bela vida que passara em companhia do grumete: um ano quase de sossego e felicidade!&#8230; Era bem certo o ditado: n\u00e3o h\u00e1 bem que sempre dure&#8230;<\/p>\n<p>Enchia-se \u00f3dio contra os superiores: &#8211; Uma c\u00e1fila! Todos a mesma cousa; faziam do pobre marinheiro um burro&#8230; Ningu\u00e9m os entendia. &#8211; Revoltava-se principalmente contra o Quartel-General que o mandara passar da corveta para o coura\u00e7ado. N\u00e3o lhe custava nada ir ao ministro, contar uma hist\u00f3ria muito grande e pedir, inda que fosse de joelhos, outro embarque. Se duvidasse muito, baixava ao hospital, desertava, ia-se embora pelo mundo com o pequeno. Estavam enganadinhos! Bom-Crioulo tinha sangue nas guelras e era homem para viver s\u00f3 num deserto&#8230;: \u201c-&#8230; que os pariu!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Logo no primeiro dia teve o desgosto de ficar \u00e0 bordo: seu nome fora recomendado ao imediato em bilhete especial: -\u201cMuita cautela com o Amaro (Bom-Crioulo). \u00c9 uma pra\u00e7a irrepreens\u00edvel quando n\u00e3o bebe, mas em chupando seu copito, guarda debaixo! faz um salseiro dos diabos\u201d. Houve logo preven\u00e7\u00e3o entre os oficiais.<\/p>\n<p>&#8211; Era bom n\u00e3o o deixar ir \u00e0 terra muitas vezes. Um homem daquele at\u00e9 metia medo!<\/p>\n<p>E ficou assentado que ele s\u00f3 teria licen\u00e7a um vez por m\u00eas. Passou o primeiro dia, o segundo, o terceiro. O quarto era um s\u00e1bado.<\/p>\n<p>&#8211; Seu imediato, eu precisava ir \u00e0 terra, implorou o negro perfilado, a m\u00e3o em pala no bon\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Ainda n\u00e3o, resmungou o oficial, sem prestar-lhe aten\u00e7\u00e3o. Quando chegar sua vez eu direi.<\/p>\n<p>&#8211; Mas seu imediato&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 lhe disse, n\u00e3o me amole!<\/p>\n<p>Bom-Crioulo retirou-se calado, o olhar no conv\u00e9s, mordiscando o bei\u00e7o. Ia cheio de uma c\u00f3lera muda. jurando vingan\u00e7a talvez&#8230; &#8211; Ah! era assim? calculava ele depois, na proa. Havia de mostrar&#8230;<\/p>\n<p>E no dia seguinte pela manh\u00e3 ofereceu-se ao guardi\u00e3o para remar no escaler que ia \u00e0s compras. Embarcou, sem dar \u00e0 perceber c\u00e1lculo algum, e l\u00e1 foi remando na voga, o bon\u00e9 carregado pra frente, muito s\u00e9rio, teso na sua bancada.<\/p>\n<p>O domingo amanhecia espl\u00eandido e pregui\u00e7oso numa soberba ostenta\u00e7\u00e3o de azul, fresco e transparente. As montanhas da ba\u00eda, o P\u00e3o d\u2019\u00c1\u00e7ucar, os \u00d3rg\u00e3os, e, l\u00e1 longe, o Corcovado, sem um floco de nuvem no topo, desenhava-se na eteral limpidez do ar calmo, davam \u00e0 vista uma doce impress\u00e3o de aquarela.<\/p>\n<p>Bela manh\u00e3 para um br\u00f3dio sobre a \u00e1gua. O vulto de um paquete alem\u00e3o ia saindo barra fora, impass\u00edvel e misterioso&#8230; O mastro do Castelo fazia sinais. Os navios de guerra pareciam dormitar ainda silencioso e im\u00f3veis.<\/p>\n<p>Era quase dia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Leva! manobrou o patr\u00e3o do escaler. Tinham chegado ao cais. Os marinheiros, todos a um tempo, suspenderam os remos, arriando-os logo, com um movimento igual, dentro da embarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da\u00ed ao mercado era perto. Come\u00e7aram a atracar os escaleres doutros navios. Pouco a pouco ia clareando&#8230; A pra\u00e7a, entretanto, permanecia quase deserta ainda; um ou outro galego, homem de ganho, vagava em torno dos quiosques.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo desembarcou, a pretexto de \u201cfazer uma necessidade\u201d, prometendo voltar logo.<\/p>\n<p>&#8211; Era um pulo&#8230;<\/p>\n<p>Enfiou pelo jardim que decorava o largo, e, uma vez fora da vista dos companheiros, estugou o passo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Rua da Miseric\u00f3rdia, resmungando insultos que ningu\u00e9m ouvia. A porta do sobradinho estava fechada. Bateu. D. Carolina ressonava. Tornou a bater, impaciente, dando fortes punhadas na porta.<\/p>\n<p>O caixeiro da padaria defronte, veio espiar quem \u00e9 que batia com todo aquele desespero.<\/p>\n<p>&#8211; Quem havia de ser? Um negro!&#8230;<\/p>\n<p>Afinal vieram abrir: um senhor de longas barbas, obeso, em suspens\u00f3rios, com cara de r\u00e9u, e que se afastou para deixar passar o marinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia!<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia! correspondeu o barba\u00e7as.<\/p>\n<p>&#8211; Quem \u00e9? perguntou l\u00e1 de cima a voz abafada da portuguesa.<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu, D. Carolina; desculpe a ma\u00e7ada.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! \u00e9 o Bom-Crioulo? Que ma\u00e7ada o qu\u00ea! Por aqui t\u00e3o cedo? Ningu\u00e9m o v\u00ea mais!&#8230; A chave est\u00e1 no prego!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado&#8230;<\/p>\n<p>E com pouco Bom-Crioulo escancarava a janelinha do quarto, recebendo em cheio, no rosto, a frescura matinal: &#8211; Agora queria ver se o arrancavam dali. Uma ova! Estava em sua casa, muito bem escondido. N\u00e3o era nenhum burro de carga!&#8230;<\/p>\n<p>Veio-lhe \u00e0 mente o grumete: &#8211; Aleixo ainda se lembraria dele? Sim, porque neste mundo a gente vive enganada&#8230; Quanto mais se estima uma pessoa, mais essa pessoa trata com desprezo. E afinal, ele, Bom-Crioulo , n\u00e3o ca\u00edra do c\u00e9u&#8230;<\/p>\n<p>Abriu as gavetinhas da mesa, revistou m\u00f3veis, remexeu pap\u00e9is, como quem procura um objeto, examinou a cama, farejando, tateando&#8230; O vidro de \u00f3leo n\u00e3o estava na cantoneira e tinha sofrido uma limpa; a garrafa d\u2019\u00e1gua Florida, que ele deixara pelo gargalo, quando muito podia ter seis dedos&#8230;; a latinha de graxa imobilizava-se no ch\u00e3o, de borco, ao p\u00e9 do lavat\u00f3rio de ferro; o assoalho era uma imund\u00edcie de pontas de cigarro e cuspo.<\/p>\n<p>&#8211; Eu fa\u00e7o id\u00e9ia! &#8230; murmurou Bom-Crioulo interpretando aquela desordem habitual. Eu fa\u00e7o id\u00e9ia!&#8230;<\/p>\n<p>Nesse instante o carrilh\u00e3o de S. Jos\u00e9 come\u00e7ou a bimbalhar os \u201cSinos de Corneville\u201d, enchendo o espa\u00e7o de uma alacridade sonora e festiva que multiplicava-se em notas de uma limpidez offenbachiana, como se fosse um maravilhoso instrumento de cristal suspenso nos ares&#8230; Instintivamente o marinheiro cantarolou o velho trecho da opereta:<\/p>\n<p>Dlingo, dlingo, dlingo,<\/p>\n<p>Dlingo, dlingo, dl\u00e3o!<\/p>\n<p>No fundo estava alegre, sentia-se humorado, com \u00edmpetos de crian\u00e7a brejeira, como um p\u00e1ssaro solto&#8230; Estranhava-se at\u00e9! H\u00e1 muito n\u00e3o amanhecia t\u00e3o bem disposto&#8230;<\/p>\n<p>O retrato do imperador sorria-lhe meigo, com a sua barba de patriarca indulgente. Era o seu homem. Diziam mal dele, os tais \u201crepublicanos\u201d, porque o velho tinha sentimento e gostava do povo&#8230;<\/p>\n<p>Acendeu um cigarro e deitou-se.<\/p>\n<p>&#8211; Ah! isso era outra cousa! n\u00e3o lhe fossem falar em navios de guerra: preferia sua cama, seu bem estar, seu descanso.<\/p>\n<p>Pela janela entrava agora uma r\u00e9stia de sol, e o carrilh\u00e3o continuava o seu intermin\u00e1vel estribilho musical&#8230;<\/p>\n<p>Dlingo, dlingo, dlingo,<\/p>\n<p>Dlingo, dlingo, dl\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8211; Bom-Crioulo, \u00f3 Bom-Crioulo!<\/p>\n<p>&#8211; Anh!&#8230; Que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Acorda rapaz, olha que n\u00e3o tarda meio-dia.<\/p>\n<p>&#8211; Meio-dia?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, pois n\u00e3o v\u00eas o sol como vai alto?<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina, vendo que o marinheiro estava custando a descer, foi acord\u00e1-lo. Amaro dormia profundamente, com a boca aberta, estendido na cama, o bon\u00e9 sobre os olhos, um fio de baba escorrendo pelo queixo, im\u00f3vel&#8230; Pendiam-lhe os bra\u00e7os numa frouxid\u00e3o cadav\u00e9rica. A mulher, ao entrar no quarto recuou p\u00e1lida. &#8211; Jesus! estaria morto? O negro, por\u00e9m, ressonava alto. &#8211; Que susto. Aproximou-se timidamente para o n\u00e3o sobressaltar e, quando ele abriu os olhos, viu-a, diante de si, muito gorda e risonha, toda em roupa nova, um avental branco.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&#8211; Acorde, seu pregui\u00e7oso! fez ela dando uma palmada na coxa do negro. Vamos, levante-se, que isto n\u00e3o s\u00e3o horas de dormir.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo ergueu-se vagarosamente, limpando a saliva com a manga, perguntou pelas horas, o corpo mole, os olhos vermelhos, um sabor esquisito na boca.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o que foi isso hoje? perguntou a portuguesa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu que fugi, disse o marinheiro naturalmente, abrindo os bra\u00e7os num bocejo. Vim no escaler das compras e aqui estou sem licen\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Que loucura, filho! S\u00e3o capazes de mandar-te prender&#8230;<\/p>\n<p>-&#8230; que os pariu! N\u00e3o sou escravo de ningu\u00e9m. Fujo quantas vezes quiser; ningu\u00e9m me pro\u00edbe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Modera-te, rapaz. \u00c9 preciso ir com jeito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual jeito qual nada, minha senhora! Depois que estou naquele navio ainda n\u00e3o tive descanso. Isso tamb\u00e9m \u00e9 demais!<\/p>\n<p>&#8211; Ora, meu filho, paci\u00eancia. Deus h\u00e1 de ajudar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a tal hist\u00f3ria: fia-te na Virgem e n\u00e3o corras&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas l\u00e1 se entendem, rematou a portuguesa, fitando o retrato do imperador, como se nunca o tivesse visto.<\/p>\n<p>&#8211; Uma cousa, tornou Bom-Crioulo: o Aleixo tem vindo \u00e0 terra?<\/p>\n<p>&#8211; Veio quinta feira, se n\u00e3o me engano&#8230;<\/p>\n<p>E o outro contando os dedos:<\/p>\n<p>&#8211; Quinta, sexta, s\u00e1bado, domingo: ontem era dia dele vir&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Agora voc\u00eas vivem sempre desencontrados. N\u00e3o combinam&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vamos a saber, disse a mulher. Queres comer alguma cousa, ou j\u00e1 almo\u00e7aste?<\/p>\n<p>&#8211; Nada, vou petiscar ali no frege.<\/p>\n<p>&#8211; Manda-se comprar&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, obrigado, preciso mesmo dar uma volta, esticar as pernas, fazer exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>&#8211; Cuidado! Olha algum oficial&#8230;<\/p>\n<p>E dirigindo-se para a escadinha:<\/p>\n<p>&#8211; Bom, vim apenas te acordar. At\u00e9 logo.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e9 logo, madama. Ent\u00e3o o pequeno s\u00f3 veio uma vez, hein?<\/p>\n<p>&#8211; Uma vezinha, coitado&#8230;<\/p>\n<p>E o negro ficou pensando no grumete, sentado \u00e0 mesa, de crista ca\u00edda, esgravatando maquinalmente a unha com um f\u00f3sforo &#8211; \u201cAquilo\u201d n\u00e3o ia bem&#8230; Precisava tomar uma resolu\u00e7\u00e3o: abandonar o Aleixo, acabar de uma vez, meter-se a bordo, ou ent\u00e3o amigar-se a\u00ed com uma rapariga de sua cor e viver tranq\u00fcilo. Estava emagrecendo \u00e0 toa, n\u00e3o comia, n\u00e3o tinha descanso, em termos de adoecer, de apanhar uma mol\u00e9stia, por causa do \u201csenhor Aleixo\u201d. Se ao menos pudesse v\u00ea-lo todos os dias, como na corveta&#8230;; mas assim, longe um do outro? N\u00e3o valia a pena, era cair no desfrute&#8230;<\/p>\n<p>E, tomando o bon\u00e9, com uma express\u00e3o de aborrecimento:<\/p>\n<p>&#8211; Ora, adeus! havia de se resolver hoje ou amanh\u00e3;<\/p>\n<p>Bateu a porta, deu volta \u00e0 chave, e saiu por ali fora, palpando os bolsos. com desespero.<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina estava para dentro e l\u00e1 ficou estendendo uma roupinha no coradouro.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Faiscavam as pedras da rua sob a luz perpendicular do meio-dia. Na taverna da esquina, ali perto, havia uma aglomera\u00e7\u00e3o de gente e cada transeunte que passava era mais uma curioso, um basbaque. Os moradores debru\u00e7avam-se \u00e0s janelas, esticando o pesco\u00e7o com uma interroga\u00e7\u00e3o no olhar. Um oficial de bombeiros passou correndo para o lugar do \u201cacontecimento\u201d. Gente punha-se em p\u00e9 nos bondes. O padeiro, em mangas de camisa, chegou \u00e0 porta, com um l\u00e1pis atr\u00e1s da orelha, arrastando os chinelos.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo sup\u00f4s logo que fosse algum \u201crolo\u201d e precipitou-se, abrindo caminho. Era um sujeito acometido de gota, que se espojava no ch\u00e3o, babando, o rosto ensang\u00fcentado, a barba suja de areia, em contor\u00e7\u00f5es horrorosas.<\/p>\n<p>Ca\u00edra de repente, ao sair da venda.<\/p>\n<p>&#8211; Tinha bebido muita cacha\u00e7a, dizia penalizado o taverneiro. Se soubesse, n\u00e3o teria vendido&#8230;<\/p>\n<p>Dois guardas tentaram erguer o homem pelo torso, mas fraquejaram. &#8211; Passa fora, o animal pesava que nem chumbo!<\/p>\n<p>&#8211; Espera, espera! saltou Bom-Crioulo. Voc\u00eas tamb\u00e9m n\u00e3o prestam pra nada&#8230;<\/p>\n<p>O povo recuou, admirado, e viu o negro suspender o homem com as duas m\u00e3os e lev\u00e1-lo ao ombro \u00e0 Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, sem grande esfor\u00e7o, como se pegasse uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Fez-lhe pena ver aquele pobre homem ca\u00eddo ali assim, no meio da rua, cercado de gente, estrebuchando como um animal sem dono. Aquilo apertou-lhe o cora\u00e7\u00e3o, f\u00ea-lo estremecer, comoveu-o&#8230; Talvez fosse algum pai de fam\u00edlia, coitado, algum infeliz&#8230; Um horror, a tal gota! j\u00e1 noutra ocasi\u00e3o salvara uma mulher b\u00eabeda que ia sendo pisada por um bonde.<\/p>\n<p>E o portugu\u00eas da venda, o padeiro, os guardas, um doutor que passava casualmente, o dono do a\u00e7ougue, todos gabavam o pulso do negro.<\/p>\n<p>\u201c- Sim senhor, tinha for\u00e7a para desancar um burro! &#8211; Essa gente do mar \u00e9 uma gente perigosa! &#8211; Dois guardas n\u00e3o puderam com o homem, no entanto s\u00f3 o negro fez tudo! &#8211; A marinha sempre \u00e9 a marinha&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Um soldado, que estava presente, ergueu o seu protesto:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o senhor, n\u00e3o era tanto assim. C\u00e1 e l\u00e1 m\u00e1s fadas h\u00e1&#8230; No ex\u00e9rcito tamb\u00e9m se encontravam homens de pulso, assim como na armada havia gente fraca, rapazinhos de papel\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m disse mais uma palavra, e pouco a pouco o ajuntamento reduziu-se a duas ou tr\u00eas pessoas que ficaram por ali conversando.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo voltou imediatamente no seu passo largo, sacudindo os bra\u00e7os, o bon\u00e9 derreado como de costume, a face radiante. &#8211; Na verdade o homem pesava seu bocadinho, mas era uma vergonha dois guardas n\u00e3o poderem com ele. Olhe que eram dois guardas!<\/p>\n<p>E, dirigindo-se ao vendeiro:<\/p>\n<p>&#8211; Uma ter\u00e7a, faz favor&#8230;<\/p>\n<p>O portugu\u00eas, muito am\u00e1vel, sem despregar os olhos do marinheiro, encheu a medida. &#8211; Sim, era uma vergonha para o Brasil, murmurou sorrindo. Em Portugal&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo tossiu, escarrou, e escorropichando o copo: &#8211; Puah!&#8230; fez com repugn\u00e2ncia. &#8211; Arre, diabo, que isto \u00e9 mesmo que beber fogo!<\/p>\n<p>Desatou a ponta do len\u00e7o, onde costumava trazer o cobre &#8211; um triste len\u00e7o enxovalhado, com desenhos na margem.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o os \u00faltimos vint\u00e9ns; resto do soldinho, do miser\u00e1vel soldinho&#8230; Felizmente eu n\u00e3o me aperto enquanto existir uma portuguesa chamada Carolina&#8230;<\/p>\n<p>O bodegueiro piscou o olho: &#8211; Ahn, ahn!&#8230; Como era fino, hein?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que quer, meu amigo, faz-se pela vida&#8230;<\/p>\n<p>Tinha a cabe\u00e7a muito fraca, muito leve: um gole de aguardente. uma dose insignificante de l\u00edquido espirituoso, um martelo de vinho punha-lhe os olhos em brasa, desequilibrava-o, subindo logo ao c\u00e9rebro. E, quando bebia demais, em p\u00e2ndega, l\u00e1 uma vez ou outra &#8211; santo Deus! ningu\u00e9m podia com ele: redobrava de for\u00e7a, n\u00e3o conhecia os amigos, insultava a humanidade, amea\u00e7ando, brandindo o punho fechado, carregando o bon\u00e9, gingando o corpo &#8211; medonho, terr\u00edvel!<\/p>\n<p>Nesse dia como que Bom-Crioulo resolvera se embriagar propositalmente. Pouco depois de engolir a cacha\u00e7a, meio tonto, empinando-se para n\u00e3o demonstrar fraqueza, mas com a vista caliginosa e um azedume na l\u00edngua, retirou-se da venda sem rumo certo, para os lados do cais do Pharoux. Ia triste, zarolho, vendo casas em duplicata e rodando em torno de sua cabe\u00e7a, encostando-se \u00e0 parede, monologando cousas impercept\u00edveis, transfigurado j\u00e1.<\/p>\n<p>Confundiam-se-lhe as id\u00e9ias numa turva agita\u00e7\u00e3o de quem vai perder o ju\u00edzo; os objetos come\u00e7avam a parecer-lhe sombrios, tinha vontade de cometer loucuras, de se sentar no meio da rua e abrir a boca e dizer horrores como um alienado.<\/p>\n<p>&#8211; Eu daqui vou direitinho, mas \u00e9 para bordo, murmurava. Hei de mostrar \u00e0 canalha! Vou porque quero, porque sou livre!<\/p>\n<p>E batia com for\u00e7a no peito.<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; que os pariu! Salvei o homem da gota, fiz um ato de caridade, agora podem falar! Papagaio de noite n\u00e3o tem olho, como dizia meu comandante&#8230; j\u00e1 n\u00e3o me lembra o nome&#8230;<\/p>\n<p>Eram duas horas da tarde. As lojas tinham-se fechado: os armaz\u00e9ns de madeira, todas as casas de neg\u00f3cio, com exce\u00e7\u00e3o de rar\u00edssimos caf\u00e9s, estavam trancadas \u00e0quela hora dominical.<\/p>\n<p>Poucos transeuntes iam passando vagarosamente, ao sol, numa marcha lenta de gado que recolhe \u00e0 tardinha, calados, pensando na vida&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo desceu rua abaixo, cambaleando, ziguezagueando, sem prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 ningu\u00e9m. Mas, ao desembocar no Largo do Pa\u00e7o, um cachorro vadio come\u00e7ou a ladrar, atirando-se a ele, perseguindo-o, cercando-o. Outros c\u00e3es vieram se juntar ao primeiro e fez-se logo em torno do negro um alarido infernal, que aumentava pouco a pouco, ensurdecedor e azucrinante. Garotos a\u00e7ulavam a canzoada com assobios e gritos. Houve um alarma entre os galegos do cais. &#8211; Ora quem havia de ser? Quem havia de ser?&#8230; O negralh\u00e3o, o marinheiro!<\/p>\n<p>No entanto, Bom-Crioulo caminhava sempre, aos tombos, equilibrando-se, investindo contra os c\u00e3es, amea\u00e7ando-os \u00e0 pedra, ganindo insultos: -&#8230; que os pariu!\u201d<\/p>\n<p>Viram-no se dirigir para o cais.<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 do escaler! gritou ele avistando uma pequena embarca\u00e7\u00e3o de guerra im\u00f3vel sob os remos, ao largo.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m respondeu.<\/p>\n<p>Havia calma no mar. A \u00e1gua reluzia como a\u00e7o polido. Abafava!<\/p>\n<p>Defronte, l\u00e1 muito longe, em Niter\u00f3i, via-se a torre branca de uma igreja, pequenina, esguia como um obelisco.<\/p>\n<p>Botes de ganho flutuavam silenciosamente, com o toldo aberto, amarrados uns aos outros, na ling\u00fceta de mar, entre as esta\u00e7\u00f5es das barcas, quietos, modorrentos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 do escaler! bradou o negro.<\/p>\n<p>A embarca\u00e7\u00e3o n\u00e3o se movia: era como se n\u00e3o houvesse ningu\u00e9m a bordo. Os marinheiros fingiam-se distra\u00eddos.<\/p>\n<p>&#8211; Cambada de burros! Atraca essa porcaria!<\/p>\n<p>E abriu a boca numa tremenda explos\u00e3o de improp\u00e9rios, fechando o punho amea\u00e7adoramente, desenrolando todo o vocabul\u00e1rio imundo e obsceno das tarimbas contra os companheiros, berrando em alta voz \u201cque era livre, que havia de fazer, que havia de acontecer!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Infames! N\u00e3o preciso de voc\u00eas pra nada! Pra nada!<\/p>\n<p>Mas, ao voltar, deu de ombros com um portugu\u00eas, que estava a seu lado rindo tranq\u00fcilamente, segurando um remo.<\/p>\n<p>&#8211; E voc\u00ea tamb\u00e9m, seu galego; voc\u00ea est\u00e1 se rindo, porque ainda n\u00e3o apanhou nessa lata! fez Bom-Crioulo dando um empurr\u00e3o no homem.<\/p>\n<p>O portugu\u00eas carregou o rosto, medindo o negro d\u2019alto a baixo, sem dizer palavra.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o tem que olhar n\u00e3o, n\u00e3o! Se d\u00favida fa\u00e7o-o beber \u00e1gua salgada.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1-s\u2019embora, homem de Deus! murmurou o outro com benevol\u00eancia. V\u00e1-s\u2019embora&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Mal vai a cousa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea, seu galego, o qu\u00ea?<\/p>\n<p>E \u201cabotoou\u201d o portugu\u00eas, oferecendo-lhe o peito e sacando fora o bon\u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor n\u00e3o me provoque&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Arrebento-lhe a cara, seu galego, aqui mesmo!<\/p>\n<p>O homem perdeu a calma Nos seus olhos fulgurou um clar\u00e3o de raiva, o sangue tomou-lhe o rosto, o remo caiu-lhe da m\u00e3o, e, investindo para o Bom-Crioulo, quis derrub\u00e1-lo corpo a corpo, naquele mesmo instante. Era sujeito baixote, rijo, de bigode fulvo, muito vermelho, com pintas de sarda.<\/p>\n<p>Abriu-se a luta imediatamente. O cais, todo o espa\u00e7o entre as duas esta\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas, coalhou-se de gente rumorosa, alvora\u00e7ada, que vinha de todos os \u00e2ngulos da pra\u00e7a numa precipita\u00e7\u00e3o de avan\u00e7ada. &#8211; \u201cRolo! Rolo!\u201d<\/p>\n<p>E, no desespero da briga, os dois homens iam ganhando terreno para o largo, afastando-se daquele ponto insustent\u00e1vel, onde n\u00e3o se podiam mover livremente, sem risco de cair n\u2019\u00e1gua, abra\u00e7ados, corpo a corpo, enroscados um no outro, qual mais forte &#8211; iguais na envergadura muscular.<\/p>\n<p>O escaler de guerra tinha se aproximado.<\/p>\n<p>Havia grande rebuli\u00e7o nos botes: o alarma era geral no cais e imedia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8211; Desaparta! Desaparta! gritavam os catraieiros.<\/p>\n<p>Assobios, canzoada, berros: &#8211; N\u00e3o pode! n\u00e3o pode! confundiam-se num alvoro\u00e7o descomunal, reboando na pra\u00e7a.<\/p>\n<p>De repente, com um safan\u00e3o medonho, Bom-Crioulo separa-se do portugu\u00eas e r\u00e1pido, ligeiro, esgueirando-se, puxa do c\u00f3s um objeto: logo toda gente viu, com espanto, reluzir na m\u00e3o do marinheiro o a\u00e7o de uma anavalha.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 agora! disse uma voz no meios do povo.<\/p>\n<p>A multid\u00e3o espalhou-se, recuando, abandonando o campo da luta. O clamor aumentava: &#8211; Pega! Pega! n\u00e3o pode!<\/p>\n<p>O portugu\u00eas, com a roupa em frangalhos e o cabelo em desordem, abalou na carreira; mas o negro, vendo se aproximarem pol\u00edcias, brandindo a arma furioso, amea\u00e7ou:<\/p>\n<p>&#8211; Quem for homem, venha!<\/p>\n<p>A figura do \u201cgalego\u201d tinha desaparecido: sua c\u00f3lera voltava-se agora contra o povo e contra a pol\u00edcia. Ningu\u00e9m ousava se aproximar daquele homem-fera, cujo olhar fazia medo&#8230;<\/p>\n<p>Quatro horas no rel\u00f3gio da esta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco saltou no cais um oficial da marinha. Bom-Crioulo esperou-o a p\u00e9 firme: &#8211; N\u00e3o venha, que leva!<\/p>\n<p>Era um primeiro tenente; acompanhavam-no marinheiros.<\/p>\n<p>&#8211; Segurem aquele homem, ordenou, parando \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o venha! N\u00e3o venha! exclamou o negro, gingando com a navalha no ar.<\/p>\n<p>Os homens dividiram-se, tr\u00eas para cada lado, e marcharam impavidamente, de prancha desembainhada.<\/p>\n<p>Foi um momento de ansiedade e assombro.<\/p>\n<p>A figura colossal do negro, multiplicando-se em movimentos de requintada clownerie, torcia-se, evitando as baionetas, como se o impelisse oculta mola de arame. &#8211; N\u00e3o venha! N\u00e3o venha!&#8230;<\/p>\n<p>Mas, quando, num formid\u00e1vel arranco, salta \u00e0 direita, um pulso mais forte \u201cgruda-o\u201d pela esquerda e Bom-Crioulo, o invenc\u00edvel Bom-Crioulo, sente-se agarrado, preso como um animal feroz!<\/p>\n<p>O povo todo afluiu vitorioso ao lugar do conflito, sem o receio de agress\u00f5es, comentando o fato, e o marinheiro foi acompanhado \u00e0 beira d\u2019\u00e1gua por uma onda de curiosos.<\/p>\n<p>Que luta para o embarcar! O negro escabujava, mordia, no auge de um desespero hidrof\u00f3bico, insultando, rogando pragas.<\/p>\n<p>Afinal, l\u00e1 o conduziram \u00e0 viva for\u00e7a, e a embarca\u00e7\u00e3o deslizou, toda branca, na ba\u00eda calma&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"8\">Cap\u00edtulo VIII<\/a><\/h4>\n<p>O comandante do coura\u00e7ado, bela estampa de militar fidalgo, irrepreens\u00edvel e caprichoso, era o mesmo, aquele mesmo de quem, na frase tosca de Bom-Crioulo, \u201cfalavam-se cousas&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Um lenda obscura e vaga levantara-se em torno do seu nome, transformando-o numa esp\u00e9cie de Gilles de Rais menos pavoroso que o da cr\u00f4nica, cheio de indiferen\u00e7a pelo sexo feminino, e cujo ideal gen\u00e9sico ele ia rebuscar na pr\u00f3pria adolesc\u00eancia masculina, entre os de sua classe.<\/p>\n<p>Cal\u00fania, talvez, insinua\u00e7\u00f5es de mau gosto.<\/p>\n<p>Os marinheiros narravam entre si, por noites de luar e calmaria, quando n\u00e3o tinham que fazer, lendas e hist\u00f3rias muitas vezes forjadas ali mesmo no fio da conversa&#8230;<\/p>\n<p>O comandante, diziam, n\u00e3o gostava de saias, era homem de g\u00eanio esquisito, sem entusiasmo pela mulher, preferindo viver a seu modo, l\u00e1 com a sua gente, com os seus marinheiros&#8230;<\/p>\n<p>E havia sempre uma dissimula\u00e7\u00e3o respeitosa, um pigarrear malicioso, quando se falava no comandante.<\/p>\n<p>Fosse como fosse, ningu\u00e9m o desrespeitava, todos o queriam assim mesmo cheio de mist\u00e9rio, com o seu belo porte de fidalgo, manso \u00e0s vezes, disciplinador intransigente, modelo dos oficiais.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo, por\u00e9m, nunca o estimara verdadeiramente: olhava-o com certa desconfian\u00e7a, n\u00e3o podia se acostumar \u00e0quela voz untuosa, \u00e0quele derretido aspecto protetoral que ele sabia fingir nos momentos de bom humor. Evitava-o como se evita um inimigo irreconcili\u00e1vel. Por qu\u00ea? Ele pr\u00f3prio, Bom-Crioulo, ignorava. Repugn\u00e2ncia instintiva, natural antipatia &#8211; for\u00e7as opostas que se repelem&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Esse homem nasceu para me fazer mal, pensava o negro supersticiosamente.<\/p>\n<p>Metido em ferros no mesmo dia do \u201crolo\u201d, a imagem do comandante brilhou na caligem de sua embriaguez e o perseguiu toda a noite sem tr\u00e9gua, sem o deixar um instante, ora terr\u00edvel, amea\u00e7adora, implac\u00e1vel, outras vezes, doce, meiga e complacente&#8230;<\/p>\n<p>Dormiu essa noite numa sepultura de ferro, esp\u00e9cie de jaula estreita e sem luz onde s\u00f3 cabia um homem. Trancado ali dentro, im\u00f3vel, porque os p\u00e9s e as m\u00e3os estavam presos, adormeceu quando os outros acordavam, ao primeiro toque d\u2019alvorada, quase dia. Durante o sono viu a figura do portugu\u00eas inchando para ele com uma faca, desafiando-o: \u201cVem, negro, vem, que eu te mostro!\u201d Era um homem refor\u00e7ado, em cuja roupa havia manchas de sangue &#8211; barba longa, olhar atrevido.<\/p>\n<p>Iam se pegar, mas Aleixo n\u00e3o consentiu dizendo que a pol\u00edcia vinha os prender, que n\u00e3o valia a pena brigar por uma cousa \u00e0 toa&#8230; Ent\u00e3o Bom-Crioulo, como gostava do pequeno, fugiu, deixando o portugu\u00eas no meio de uma pra\u00e7a muito grande, cheia de arvoredos.<\/p>\n<p>A realidade, por\u00e9m, veio despert\u00e1-lo. Eram onze horas. Tinha-se aberto a porta da solit\u00e1ria e, mesmo em jejum, ele ia ser castigado. Faltava o comandante para se dar princ\u00edpio \u00e0 solenidade. Uma onda de luz banhou a pris\u00e3o iluminando o rosto do marinheiro.<\/p>\n<p>&#8211; Levante-se! ordenou o sargento da guarda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo n\u00e3o podia se mover: foi preciso que o segurassem. Apertava-lhe a boca uma morda\u00e7a de ferro. Havia no seu olhar uma indigna\u00e7\u00e3o muda e triste.<\/p>\n<p>Ergueu-se tr\u00f4pego, bambo, os olhos como duas tochas, uma equimose roxa na face, porque adormecera com a cabe\u00e7a no joelho em posi\u00e7\u00e3o de m\u00famia ind\u00edgena. Fez-lhe bem o ar livre da manh\u00e3; a luz que se esperdi\u00e7ava no espa\u00e7o reanimou-o; todo ele sentiu-se vibrar; oferecia-se ao castigo, sem medo, imp\u00e1vido e sereno, odiando intimamente, l\u00e1 no fundo de sua natureza humana, aquela gente que o cercava exultando, talvez, com a sua desgra\u00e7a. N\u00e3o tinha ningu\u00e9m por ele &#8211; era um abandonado, um infeliz&#8230; O pr\u00f3prio Aleixo onde estaria?<\/p>\n<p>Essa lembran\u00e7a o comoveu. Sim, o Aleixo era a causa de tudo&#8230; Enquanto vivera na companhia do grumete, nunca se embriagara positivamente: bebia, de longe em longe, um golezinho de cacha\u00e7a para aquecer, e ficava satisfeito. Agora n\u00e3o, s\u00f3 se contentava com uma ter\u00e7a e gostava de repetir. &#8211; Ah! seu Aleixo, seu Aleixo!&#8230;<\/p>\n<p>Como da outra vez, na corveta, houve \u201cmostra geral\u201d, a guarni\u00e7\u00e3o inteira formou \u00e0 r\u00e9, na tolda.<\/p>\n<p>O castigo foi tremendo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o se iluda a guarni\u00e7\u00e3o deste navio! perorou o comandante. Desobedi\u00eancia, embriaguez e pederastia s\u00e3o crimes de primeira ordem. N\u00e3o se iludam!&#8230;<\/p>\n<p>E, como da outra vez, Bom-Crioulo emudeceu profundamente sob os golpes da chibata. Apanhou calado, retorcendo-se a cada golpe na dor imensa que o cortava d\u2019alto a baixo, como se todo ele fosse uma grande chaga aberta, viva e cruenta&#8230; Morria-lhe na garganta um grunhido estertoroso e impercept\u00edvel, cheio de ang\u00fastia, comprimido e seco; dilatavam-se-lhe os m\u00fasculos da face em contra\u00e7\u00f5es galv\u00e2nicas; o sangue convulsionado, rugia dentro, nas art\u00e9rias, no cora\u00e7\u00e3o, no \u00edntimo de sua natureza f\u00edsica, palpitante, caudaloso, numa pletora descomunal!<\/p>\n<p>Ele sofria tudo com aquele orgulho selvagem de animal ferido, que se n\u00e3o pode vingar porque est\u00e1 preso, e que morre sem um gemido, com um olhar aceso de c\u00f3lera impotente!<\/p>\n<p>Errava na luz intensa do meio dia uma tristeza vaga e universal. L\u00e1 de fora, da barra, vinha, encrespando a agia, um arzinho fresco impregnado de maresia. A cidade, em anfiteatro, cintilava entre montanhas na l\u00e2nguida apatia daquela hora calmosa. O vulto do coura\u00e7ado, largo e im\u00f3vel no meio da ba\u00eda, com seu enorme ar\u00edete, com sua cobertura de lona, resplandecia destacado, longe dos outros navios, longe de terra, fant\u00e1stico, arquitetural!<\/p>\n<p>\u00c0 \u00faltima chibatada, Bom-Crioulo rodou e caiu em cheio sobre o conv\u00e9s, porejando sangue. Ah! mas n\u00e3o havia no seu dorso uma nesga de pele que n\u00e3o fosse atingida pelo vime. Caiu fatalmente, quando j\u00e1 n\u00e3o lhe restava a menor energia no organismo, quando se tornara desumano o castigo e a dor sobrepujara a vontade.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o apareceu o m\u00e9dico, tr\u00eamulo e nervoso, dizendo que \u201cn\u00e3o era nada, que n\u00e3o era nada; que trouxessem o vidrinho de \u00e9ter e \u00e1gua, um pouco d\u2019\u00e1gua&#8230;\u201d<\/p>\n<p>O comandante aproximou-se tamb\u00e9m, mas retirou-se logo com o seu desdenhoso aspecto de fofa nobreza: &#8211; \u201cN\u00e3o se iludam, n\u00e3o se iludam!\u201d<\/p>\n<p>E da\u00ed a pouco largava um escaler sem fl\u00e2mula, conduzindo o marinheiro para o hospital.<\/p>\n<p>Fica-te malvado, fica-te! exclamou Bom-Crioulo, voltando-se para o coura\u00e7ado, em caminho: &#8211; Fica-te!<\/p>\n<p>Aleixo nesse dia estava de folga, e muito cedo, cousa de um hora, veio \u00e0 terra impelido por uma grande saudade que o fazia agora escravo da portuguesa. Receava encontrar Bom-Crioulo, ter de o suportar com seus caprichos, com o seu bodum africano, com os seus \u00edmpetos de touro, e esta lembran\u00e7a entristecia-o como um arrependimento. Ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugn\u00e2ncia, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar. Tinha pena dele, compadecia-se, porque, afinal, devia-lhe favores, mas n\u00e3o o estimava: nunca o estimara!<\/p>\n<p>Subiu devagar, p\u00e9 ante p\u00e9, a escada do sobradinho, meticulosos, agarrando-se \u00e0 parede, ouvido alerta, comprimindo a respira\u00e7\u00e3o. &#8211; Felizmente a porta de cima estava aberta&#8230;<\/p>\n<p>De vez em quando pisava em falso e os coturnos de bezerro gemiam surdamente. &#8211; Era o diabo se o Bom-Crioulo estivesse&#8230;<\/p>\n<p>Foi andando sempre cauteloso, t\u00e9 \u00e0 sala de jantar. Ningu\u00e9m! Enfiou pela cozinha; e, da janela que abria para o quintal, viu l\u00e1 baixo, vergada sobre um mont\u00e3o de roupa \u00famida, a portuguesa em tamancos, arrega\u00e7ada e sem casaco, \u00e0s voltas, cantarolando. O instinto f\u00ea-la voltar-se e olhar para cima; seu primeiro movimento foi um grito de surpresa e alegria: &#8211; Oh! o pequenino, o meu pequenino! j\u00e1 l\u00e1 vou. Espera, sim?<\/p>\n<p>Aleixo pediu sil\u00eancio, com o dedo na boca, e, indicando o s\u00f3t\u00e3o, perguntou, debru\u00e7ando-se \u00e0 janela, sem Bom-Crioulo estava&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual Bom-Crioulo! rompeu D. Carolina alto e sem mist\u00e9rio, estabanadamente. Qual Bom-Crioulo! Tua negra est\u00e1 s\u00f3, meu pequenino! J\u00e1 l\u00e1 vou.<\/p>\n<p>Mas o grumete n\u00e3o se conteve: desceu ao quintal para examinar aquela fartura de mulher em trajos de lavadeira, que seus olhos viam extasiados.<\/p>\n<p>Com efeito, a portuguesa estava irresist\u00edvel para um adolescente nas condi\u00e7\u00f5es de Aleixo, bisonho em aventuras dessa ordem, e cuja virilidade apenas come\u00e7ava a destoucar-se.<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina vestia camisa e saia curta que lhe dava pelo joelho; a cabe\u00e7a estava coberta com um grande len\u00e7o de chita amarrado por baixo do pesco\u00e7o.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&#8211; N\u00e3o venhas, meu pequeno, disse ela, percebendo as inten\u00e7\u00f5es de Aleixo. Olha, deixa-me acabar isto, sim?<\/p>\n<p>O grumete formalizou-se: &#8211; \u201cOh! podia acabar podia acabar&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E logo, aproximando-se:<\/p>\n<p>&#8211; Vim apenas v\u00ea-la de perto&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s ca\u00e7oando, hein! est\u00e1s ca\u00e7oando com a tua velha&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ca\u00e7oando, n\u00e3o. Estou falando s\u00e9rio.<\/p>\n<p>A portuguesa desatou numa risada l\u00edmpida e gostosa, de uma sonoridade vibrante, sacudindo os quadris, cabeceando histericamente:<\/p>\n<p>&#8211; Ora o meu pimpolho! Ora o rico pimpolhozinho!<\/p>\n<p>E ria, ria num desespero.<\/p>\n<p>Aleixo encavacou:<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 bom, vou-me embora.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! n\u00e3o, n\u00e3o&#8230; Brincadeira! Se vais, fico zangada. V\u00ea l\u00e1, hein! v\u00ea l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>E com fingida ternura, ameigando a voz:<\/p>\n<p>&#8211; Fica, meu bonitinho, fica, junto \u00e0 tua negra&#8230;<\/p>\n<p>Ele sorriu vagamente e entraram a conversar como bons amigos.<\/p>\n<p>Estiveram ali, debaixo do telheiro de zinco, um ror de tempo &#8211; o grumete sentado \u00e0 beira do tanque, perna tran\u00e7ada, a portuguesa muito a\u00e7odada na faina de concluir a lavagem.<\/p>\n<p>Fora daquele pequeno espa\u00e7o refrescado pela \u00e1gua, brilhava o sol com uma intensidade r\u00fatila e abrasadora. O capim seco do coradouro ardia, muito raso, muito desolado e outoni\u00e7o. Na vizinhan\u00e7a, um papagaio de estima berrava estridentemente. Havia grande calma. A \u00e1gua da bica n\u00e3o cessava de cantar no tanque, escorrendo, escorrendo&#8230;<\/p>\n<p>Aleixo dependurou a jaqueta de flanela azul e deixou-se ficar em camisa de meia, ouvindo cantar a \u00e1gua, enquanto D. Carolina ia enxaguando a roupa.<\/p>\n<p>Falaram em Bom-Crioulo e riram \u00e0 custa do negro, baixinho, \u00e0 socapa.<\/p>\n<p>&#8211; Boa criatura! sentenciou a portuguesa com um qu\u00ea de ironia.<\/p>\n<p>&#8211; Para o fogo! acrescentou Aleixo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabiam do \u201crolo\u201d. A portuguesa disse apenas que o outro sa\u00edra na v\u00e9spera, depois do meio dia, e n\u00e3o regressara. &#8211; Naturalmente fora preso&#8230;<\/p>\n<p>Um rel\u00f3gio deu horas.<\/p>\n<p>&#8211; Quantas? perguntou a mulher.<\/p>\n<p>&#8211; Quatro, disse o grumete.<\/p>\n<p>&#8211; Jesus! Vou acabar, vou acabar! Fica pr\u2019amanh\u00e3 o resto.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9! Basta de trabalho, isso n\u00e3o vai a matar, disse Aleixo erguendo-se.<\/p>\n<p>E seus olhos pousavam trai\u00e7oeiramente sobre o colo nu, sobre a esp\u00e1dua nua de D. Carolina, cheios de desejo, \u00e1vidos de gozo.<\/p>\n<p>Ela, como se sentisse no pr\u00f3prio corpo as ferroadas daquele olhar, como se lhe experimentas e o calor vivo, a for\u00e7a magn\u00e9tica, o poder f\u00edsico, material e irresist\u00edvel, chegou-se ao grumete e disse-lhe ao ouvido estas palavras, que produzira, nele o efeito indiz\u00edvel e vago de um estremecimento nervoso: &#8211; Vamos tomar banho?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Podem ver&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fecha-se a porta da rua. N\u00e3o tenho inquilinos agora&#8230;<\/p>\n<p>Aleixo n\u00e3o disse que sim nem que n\u00e3o. Espregui\u00e7ou-se todo, contorcendo-se num espasmo incompleto, sentindo um friozinho bem, extraordinariamente bom, uma como\u00e7\u00e3ozinha maravilhosa percorrer-lhe as fibras, descendo pelo espinha\u00e7o e espalhando-se por todo o organismo.<\/p>\n<p>A portuguesa foi depressa l\u00e1 cima, ao sobrado, e voltou, sem demora, com a face radiante.<\/p>\n<p>Quis ela mesma despir o rapaz, tirar-lhe a camisa de meia, tirar-lhe as cal\u00e7as, p\u00f4-lo nu a seus olhos. Bom-Crioulo j\u00e1 lhe havia dito que Aleixo \u201ctinha formas de mulher\u201d.<\/p>\n<p>Depois come\u00e7ou a se despir tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>O tanque estava cheio a transbordar. Via-se-lhe o fundo claro atrav\u00e9s da \u00e1gua l\u00edmpida e fresca.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m os via naquela nudez primitiva, frente a frente &#8211; o corpo largo e mole da portuguesa em contraste com as formas ideais e rijas do efebo -, escandalosamente nus, pecadoramente b\u00edblicos no sil\u00eancio do quintalejo ao abrigo do sol que vibrava em torno do pequeno alpendre a sua luz de ouro fulvo!<\/p>\n<p>O que eles fizeram, antes e depois do banho, ningu\u00e9m saber\u00e1 nunca. Os muros do quintal abafaram toda essa misteriosa cena de erotismo consumada ali por tr\u00e1s da Rua da Miseric\u00f3rdia num bel\u00edssimo dia de novembro.<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina realizara, enfim, o seu desejo, a sua ambi\u00e7\u00e3o de mulher gasta: possuir um amante novo, mocinho, imberbe, com uma ponta de ingenuidade a ruborizar-lhe a face, um amante quase ideal, que fosse para ela o que um animal de estima \u00e9 para o seu dono &#8211; leal, sincero, dedicado at\u00e9 ao sacrif\u00edcio.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Aleixo remo\u00e7ava-a como um elixir estranho, milagrosamente afrodis\u00edaco. Sentia-se outra depois que se metera com o pequerrucho: retesavam-se-lhe os nervos, abria-se-lhe o apetite, entrava-lhe n\u2019alma uma extraordin\u00e1ria alegria de noiva em plena lua-de-mel, toda ela vibrava numa festiva exuber\u00e2ncia de vida, numa eclos\u00e3o torrencial de felicidade &#8211; o corpo leve, o esp\u00edrito calmo&#8230; Aleixo pertencia-lhe, enfim; era seu, completamente seu; ela o tinha agora preso como um belo p\u00e1ssaro que se deixasse engaiolar; tinha-lhe ensinado segredinho de amor, e ele gostara imenso, e jurara nunca mais abandon\u00e1-la, nunca mais!<\/p>\n<p>O grumete, por sua vez, experimentava o que experimentaria qualquer adolescente &#8211; uma tend\u00eancia fatal para a portuguesa, um forte desejo de possu\u00ed-la sempre, sempre, a toda hora, uma vontade irresist\u00edvel de morde-la, de cheira-la, de palpa-la num frenesi de gozo, num grande \u00edmpeto selvagem de novilho insaci\u00e1vel.<\/p>\n<p>A tarde passou rapidamente. Depois do jantar (sopa, cozido e bananas de S. Tom\u00e9, fora o vinho fornecido pelo a\u00e7ougueiro) dirigiram-se \u00e0 sala da frente. Aleixo quis ver o \u00e1lbum de retratos; a portuguesa trouxe-lho. E sentado no velho sof\u00e1, num quase abra\u00e7o &#8211; ele muito curioso, desejando saber de quem eram as fotografias, ela meio derreada, o cabelo \u00famido e solto, explicando minuciosamente cada figura, paisagens da Europa, trechos de Portugal e das ilhas -, esperaram a noite.<\/p>\n<p>Escureceu. D. Carolina foi acender o bico de g\u00e1s, queixando-se do calor, \u201cque a sua vontade era n\u00e3o sair d\u2019\u00e1gua, viver dentro d\u2019\u00e1gua, morrer n\u2019\u00e1gua, flutuando&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Aleixo riu, achou gra\u00e7a, lembrando-se, talvez, da semelhan\u00e7a que havia entre a portuguesa e uma grande corveta bojuda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, dize uma cousa, \u00f3 pequerrucho, tu me queres bem mesmo ou isso \u00e9 uma esquisitice, uma p\u00e2ndega?<\/p>\n<p>E risonha, sentando-se:<\/p>\n<p>&#8211; Mas olha, dize a verdade! V\u00ea l\u00e1 me vens com hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p>Ele ent\u00e3o disse que estimava-a do fundo do cora\u00e7\u00e3o e tornou a jurar que havia de morrer junto dela, na mesma cama &#8211; juntinho, lado a lado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E se morreres a bordo, no mar?<\/p>\n<p>&#8211; Paci\u00eancia, murmurou o grumete num tom de tristeza.<\/p>\n<p>Mas, arrependida, ela o cobriu de beijos:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, ele n\u00e3o morreria no mar. Brincadeira, brincadeira&#8230;<\/p>\n<p>Havia no rosto imberbe e liso do grumete uns tons fugitivos de ternura virginal, o quer que era breve e delicado, a branca melancolia de certas flores, o recolhimento ing\u00eanuo e discreto de uma educanda; e era isso justamente, esse qu\u00ea indefin\u00edvel, essa poesia inocente derramada no semblante de Aleixo, que provocava a portuguesa, ferindo a corda sens\u00edvel do seu cora\u00e7\u00e3o abandonado e gasto. Era uma pena, decerto, ver aquele rosto de mulher, aquelas formas de mulher, aquela estatuazinha de m\u00e1rmore, entregue \u00e0s m\u00e3os grosseiras de um marinheiro, de um negro&#8230; Muita vez o pequeno fora seduzido, arrastado. Ela at\u00e9 fazia um benef\u00edcio, uma obra de caridade&#8230; Aquilo com o outro, afinal, era uma grossa patifaria, uma bandalheira, um pecado, um crime! Se Aleixo havia de se desgra\u00e7ar nas unhas do negro, era melhor que ela, uma mulher, o salvasse. Lucravam ambos, ele e ela&#8230;<\/p>\n<p>Mas Aleixo n\u00e3o podia esquecer Bom-Crioulo. A figura do negro acompanhava-o a toda parte, a bordo e em terra, quer ele quisesse quer n\u00e3o, com uma insist\u00eancia de remorso. Desejava odi\u00e1-lo sinceramente, positivamente, esquec\u00ea-lo para sempre, varr\u00ea-lo da imagina\u00e7\u00e3o como a um pensamento mau, como a uma obsess\u00e3o ins\u00f3lita e enervante; mas, debalde! O aspecto repreensivo do marinheiro estava gravado em seu esp\u00edrito indelevelmente; a cada instante lembrava-se da musculatura rija de Bom-Crioulo, de seu g\u00eanio rancoroso e vingativo, de sua natureza extraordin\u00e1ria &#8211; h\u00edbrido conjunto de malvadez e toler\u00e2ncia -, de seus arrebatamentos, de sua tend\u00eancia para o crime, e tudo isso, todas essas recorda\u00e7\u00f5es o acovardavam, punham-lhe no sangue um calafrio de terror, um vago estremecimento de medo, qualquer cousa latente e aflitiva&#8230; Suas expans\u00f5es com a portuguesa eram incompletas, vibravam-lhe os l\u00e1bios em sorrisos de fals\u00e1rio, cada vez que ela o exaltava para deprimir o outro&#8230;<\/p>\n<p>Todavia a noite foi como um del\u00edrio de gozo e sensualidade. D. Carolina cevou o seu hermafroditismo agudo com beijos e abra\u00e7os e suc\u00e7\u00f5es violentas&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"9\">Cap\u00edtulo IX<\/a><\/h4>\n<p>Vida triste era a de Bom-Crioulo, agora, no hospital, longe da Rua da Miseric\u00f3rdia e do seu \u00fanico afeto, obrigado a um regimen conventual, alimentando-se parcamente, ouvindo a toda hora gemidos que lhe entravam na alma como uma salmodia agourenta, como a dorida express\u00e3o de seu pr\u00f3prio abandono, metido entre as paredes de uma l\u00fagubre enfermaria &#8211; ele que amava a liberdade com um entusiasmo selvagem, e cujo ideal era viver sempre na companhia de Aleixo, do ingrato Aleixo&#8230;<\/p>\n<p>A figura do rapazinho, rechonchuda e n\u00e9dia, esvoa\u00e7ava-lhe na imagina\u00e7\u00e3o provocadoramente, seduzindo-o, arrastando-o para um mundo de gozos, para uma atmosfera de lubricidade, para o sil\u00eancio misterioso de uma exist\u00eancia devotada ao amor clandestino, ao regalo soberano da carne , a todos os del\u00edrios de uma paix\u00e3o que chegava \u00e0 loucura.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia aumentava-lhe o desespero, aquela vida triste de hospital enchia-o de aborrecimentos, era um castigo sem nome para quem, como ele, reclamava liberdade e amor &#8211; liberdade absoluta de proceder conforme o seu temperamento, amor f\u00edsico por uma criatura do mesmo sexo que o seu, extraordinariamente querida como Aleixo&#8230; Nunca mais tivera not\u00edcias dele, nunca mais o vira, nunca mais haviam trocado um simples olhar&#8230;<\/p>\n<p>Entretanto, qu\u00ea de recorda\u00e7\u00f5es povoavam-lhe o c\u00e9rebro, \u00e0 noite, quando, s\u00f3 ele Bom-Crioulo, d\u2019olhos abertos no escuro, fitando o teto da enfermaria, velava, ele s\u00f3, ali dentro! Qu\u00ea de recorda\u00e7\u00f5es, meu Deus! Via, como se estivesse vendo na realidade, as formas do grumete, o seu olhar azul e a face branca, o quartinho morno da Rua da Miseric\u00f3rdia, trepado, l\u00e1 cima, no s\u00f3t\u00e3o, \u00e0 beira do telhado, a cama de lona, o retrato do imperador, pregado \u00e0 parede, muito s\u00e9rio, com um ar de suprema bonomia, e tudo que o cercava no voluptuoso ambiente, onde vivera tantos dias de felicidade&#8230; Ficava horas e horas pensando, horas e horas mergulhado numa abstra\u00e7\u00e3o vagarosa, num \u00eaxtase calmo, recordando, cap\u00edtulo por cap\u00edtulo, a hist\u00f3ria de seu amor. Da\u00ed um profundo e inexplic\u00e1vel desgosto, uma idiossincrasia especial feita de ci\u00fame e de ternura dolente. Imaginava cousas de homem que perdeu o ju\u00edzo: &#8211; Aleixo ainda o estimaria? N\u00e3o, com certeza. Se ainda o estimasse, t\u00ea-lo-ia procurado, onde quer que ele, Bom-Crioulo, estivesse; mas Aleixo nunca mais se importara, desde o dia da separa\u00e7\u00e3o. Quem sabe? novos amores&#8230;<\/p>\n<p>O negro enchia-se de \u00f3dio ao mesmo tempo que sentia aumentar dentro do cora\u00e7\u00e3o o desejo de possuir eternamente o rapazinho.<\/p>\n<p>Desejava-o, sim, mas virgem de qualquer outro contato que n\u00e3o fosse o dele, queria-o como dantes, para si unicamente, para viver a seu lado, obediente a seus caprichos, fiel a um regimen de exist\u00eancia comum, serena e cheia de dedica\u00e7\u00f5es m\u00fatuas.<\/p>\n<p>Era-lhe imposs\u00edvel abandonar o grumete; e agora principalmente, agora \u00e9 que esse amor, essa obsess\u00e3o doentia redobrava com uma for\u00e7a prodigiosa impelindo-o para o outro, acordando zelos que pareciam estagnados, comovendo fibras que j\u00e1 tinham perdido antigas energias. o Bom-Crioulo da corveta, sensual e uranista, cheio de desejos inconfess\u00e1veis, perseguindo o aprendiz de marinheiro com quem fareja uma rapariga que estr\u00e9ia na libertinagem, o Bom-Crioulo erot\u00f4mano da Rua da Miseric\u00f3rdia, caindo em \u00eaxtase perante um efebo nu, como um selvagem de Zanzibar diante de um \u00eddolo sagrado pelo fetichismo africano &#8211; ressurgia milagrosamente.<\/p>\n<p>Ele ali se achava no hospital, abandonado e s\u00f3, gemendo tristezas inconsol\u00e1veis, arrastando os farrapos de sua alma, ganindo &#8211; pobre c\u00e3o sem dono &#8211; blasf\u00eamias contra a sorte que o desligara de Aleixo, contra Deus, contra tudo!<\/p>\n<p>As janelas da enfermaria davam para o mar, ficavam defronte dos \u00d3rg\u00e3os, abriam para o fundo melanc\u00f3lico da ba\u00eda. Na sala umas dez camas de ferro, colocadas em ordem, simetricamente imobilizavam-se com os seus cobertores de l\u00e3 vermelha dobrados a meio e pondo uma nota viva de sangue na brancura dos len\u00e7\u00f3is. A\u00ed, como em todos os alojamentos do hospital, predominava um cheiro erradio de desinfetantes, o vago odor caracter\u00edstico das casas de sa\u00fade e dos necrot\u00e9rios, insuport\u00e1vel, \u00e0s vezes, como uma exala\u00e7\u00e3o de sepultura aberta. Os doentes, em seu uniforme branco de algod\u00e3o, erguiam-se e tinham licen\u00e7a para recrear fora, nas depend\u00eancias do estabelecimento, licen\u00e7a especial do m\u00e9dico a quem estavam entregues. Cada enfermaria tinha o seu especialista. Bom-Crioulo fora recolhido \u00e0 se\u00e7\u00e3o dos escrofulosos, \u00e0 grande sala que dizia para o mar e donde se gozava um bel\u00edssimo aspecto de natureza americana. Indiferente a tudo que n\u00e3o fosse o grumete, cuja lembran\u00e7a infligia-lhe as maiores torturas, ningu\u00e9m o vira sorrir depois que baixara ao hospital.<\/p>\n<p>Carrancudo, o olhar atrevido e amea\u00e7ador &#8211; fugindo \u00e0 companhia dos outros, n\u00e3o podia esquecer, n\u00e3o podia apagar do esp\u00edrito aquela id\u00e9ia-pesadelo: o grumete nos bra\u00e7os doutro homem&#8230; Ah! bastava isso para tirar-lhe o sossego, para fazer dele um ente miser\u00e1vel, contorcendo-se nas ang\u00fastias de um ci\u00fame b\u00e1rbaro. Aleixo fazia-o padecer noites inteiras, dias sucessivos, como ave que se debate em estreita gaiola de ferro. &#8211; Amava muito decerto, queria um bem louco ao pequeno, preferia-o a todas as mulheres bonitas do mundo!<\/p>\n<p>Enquanto iam-lhe cicatrizando as feridas roxas do corpo tatuado pela chibata, abria-se-lhe na alma rude de marinheiro uma grande v\u00e1cuo; terr\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de desespero acometia-o cada vez que pensava no outro, nesse grumete sem alma que o iniciara no amor e que o fazia sofrer as amarguras de uma vida de condenada&#8230; Bom-Crioulo sentia-se transformar inteiramente; alguma cousa profunda e grave, que ele pr\u00f3prio n\u00e3o sabia explicar, assim como um pren\u00fancio fatal de desgra\u00e7a, punha-o triste, arrebatava-o \u00e0s alegrias da camaradagem, dando-lhe um aspecto estranho de malvadez rebu\u00e7ada.<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo n\u00e3o era hospital, aquilo era um inferno! monologava crispando o bei\u00e7o em assomos de raiva feroz. Estava-se-lhe esgotando a paci\u00eancia.<\/p>\n<p>J\u00e1 uma vez pedira alta; se o queriam levar a capricho, ent\u00e3o adeus!&#8230; Morria, mas n\u00e3o dava parte de fraco&#8230; Era homem, que diabo! e um homem deve mostrar para que veio ao mundo&#8230;<\/p>\n<p>Embirrava com toda gente, afinal: &#8211; Enfermeiros brutos! Cozinheiros de frege! O pr\u00f3prio m\u00e9dico, assim que lhe dava as costas, era logo insultado.<\/p>\n<p>Seu consolo nesse abandono de gal\u00e9, nessa esp\u00e9cie de viuvez d\u2019alma, era o retrato de Aleixo, uma fotografia de baixo pre\u00e7o tirada na rua do Hosp\u00edcio, quando ele e o pequeno moravam juntos na corveta. Representava o grumete em uniforme azul, perfilado, teso, com um sorriso pulha descerrando-lhe os l\u00e1bios, a m\u00e3o direita pousada frouxamente nos espaldar de uma larga cadeira de bra\u00e7os, todo meigo, todo petit-jesus&#8230; Bom-Crioulo guardava essa miniatura religiosamente, com cautelas de namorado, e \u00e0 noite, quando se ia deitar, despedia-se dela com um beijo \u00famido e voluptuoso. Habituara-se \u00e0quilo do mesmo modo que se habituara a fazer o sinal-da-cruz antes de fechar os olhos. Uma supersti\u00e7\u00e3o pueril de amante cheio de ternuras&#8230; Agora, por\u00e9m, esse amuleto inestim\u00e1vel acompanhava-o a toda a parte. Durante o dia mesmo, ele sacava-o fora do bolso e punha-se numa contempla\u00e7\u00e3o m\u00edstica, num vago enleio ideal, a olhar o retrato de Aleixo, como se daquele cart\u00e3o inanimado e frio lhe pudesse vir um raio de amor, um luar de esperan\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p>Achava-o muito parecido com o original, oh! mesmo muito&#8230; Os olhos, a boca, o sorriso, o nariz&#8230; tudo! Como \u00e9 que se podia, num momento, copiar assim as fei\u00e7\u00f5es de uma criatura! Era ele, exatamente o Aleixo!<\/p>\n<p>E ficava admirado, ficava idiota, perdia a cabe\u00e7a, quando seus olhos ca\u00edam sobre o pequeno \u201cregistro\u201d&#8230; Ria-se, \u00e0s vezes, para ele, sem que ningu\u00e9m visse, retirado para um cano obscuro, longe dos outros.<\/p>\n<p>E cada dia que passava era como se fosse um ano, um s\u00e9culo, uma eternidade!<\/p>\n<p>Lembrou-se de pedir a algu\u00e9m que lhe escrevesse um recado ao grumete, duas palavras, uma linha&#8230;<\/p>\n<p>Talvez ele nem soubesse onde estava o Bom-Crioulo&#8230; Falou a um rapazinho empregado no hospital: era favor, sim? um favorzinho&#8230; E ali mesmo, na enfermaria, perto da janela que olhava para os \u00d3rg\u00e3os, quase ao escurecer, tra\u00e7aram estas palavras:<\/p>\n<p>\u201cMeu querido Aleixo<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que \u00e9 feito de ti, n\u00e3o sei o que \u00e9 feito do meu bom e carinhoso amigo da Rua da Miseric\u00f3rdia; Parece que tudo acabou entre n\u00f3s. Eu aqui estou no hospital, j\u00e1 vai quase um m\u00eas, e espero que me venhas consolar algumas horas com a tua presen\u00e7a. Estou sempre a me lembrar do nosso quartinho&#8230; N\u00e3o faltes. Vem amanh\u00e3, que \u00e9 domingo.<\/p>\n<p>Teu<\/p>\n<p>Bom-Crioulo\u201d<\/p>\n<p>Somente isto. &#8211; Queria ver agora como se portava o \u201csenhor Aleixo\u201d, se ainda o estimava, se era o mesmo da corveta, o mesmo da Rua da Miseric\u00f3rdia, meigo e d\u00f3cil, carinhosos e reconhecido.<\/p>\n<p>No dia seguinte, pela manh\u00e3 cedo, o primeiro escaler que largou da ilha para a terra conduzia o bilhetinho cautelosamente fechado, escrito numa garatuja desigual, tortuosa, indecifr\u00e1vel, que o empregado tra\u00e7ara ao crep\u00fasculo, defronte do mar e \u00e0 pressa.<\/p>\n<p>O negro ficou ansioso pela resposta, numa inquieta\u00e7\u00e3o de namorado que espera o desejado momento de abra\u00e7ar a sua ela, contando as horas minuto por minuto, fren\u00e9tico \u00e0s vezes; quando, por uma ilus\u00e3o do ouvido, julgava perceber a voz do outro, animado agora e depois completamente desanimado, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que as horas iam passando, fazendo c\u00e1lculos ideais, balbuciando mon\u00f3logos impercept\u00edveis, indo e vindo pelos corredores, pelas depend\u00eancias do hospital como um idiota, como uma pessoa inconsciente. &#8211; E se ele n\u00e3o viesse? Ah! decididamente \u00e9 porque j\u00e1 n\u00e3o o estimava: \u00e9 porque o desprezava. Mas, ao menos, havia de responder fosse o que fosse.<\/p>\n<p>N\u00e3o podia acreditar que ele, sempre t\u00e3o am\u00e1vel, t\u00e3o bom e sol\u00edcito, rasgasse o bilhete sem dar uma respostazinha, um sim ou um n\u00e3o. Qual&#8230;<\/p>\n<p>Tinha penteado o cabelo, mudado de roupa, e de instante a instante fazia uma chegada ao espelhinho, ao seu miser\u00e1vel caco de espelho, um traste que possu\u00eda no fundo da maca.<\/p>\n<p>Passou a hora do almo\u00e7o, chegou a hora do jantar, entraram e sa\u00edram marinheiros, a sineta badalou novas baixas, tocou meio-dia, e nada! nem sinal de Aleixo, nem sombra dele! &#8211; Era mesmo para uma pessoa danar! Se n\u00e3o quisesse ir, dissesse!<\/p>\n<p>Come\u00e7ava a perder a esperan\u00e7a. &#8211; Amigos! fie-se a gente em amigos!&#8230;<\/p>\n<p>Crescia-lhe a inquieta\u00e7\u00e3o moral, crescia-lhe o desespero como uma onda que vai pouco a pouco intumescendo, empolando-se, at\u00e9 se desfazer em espuma, quebrar-se de encontro \u00e0 rocha&#8230; &#8211; N\u00e3o almo\u00e7ara, n\u00e3o jantara, e o resultado era aquele: o senhor Aleixo divertia-se!<\/p>\n<p>E quando as corvetas da esquadra fizeram sinal de \u201carriar a bandeira\u201d, quando o port\u00e3o do hospital fechou-se \u00e0s visitas, uma tempestade de \u00f3dio levantou-se no interior daquele homem capaz de todas as dedica\u00e7\u00f5es e de todos os horrores.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo rugiu interiormente; alguma cousa despeda\u00e7ou-se dentro dele, tamanho foi o abalo do seu corpo. Entrara-lhe no esp\u00edrito a convic\u00e7\u00e3o, a certeza absoluta de que o pequeno estava com \u201coutro\u201d, abandonara-o. Recolheu-se \u00e0 enfermaria taciturno, cheio de c\u00f3lera, num del\u00edrio de raiva surda, numa febre de vingan\u00e7a que at\u00e9 lhe incendiava o rosto por fora, queimando a pele&#8230;<\/p>\n<p>Veio a noite e ele n\u00e3o pode dormir, nem fechar os olhos.<\/p>\n<p>Espojava-se na cama, de um lado para o outro, abafado, sem ar que lhe enchesse os pulm\u00f5es, numa terr\u00edvel crise de nervos, como se estivesse a lutar com fantasmas, ora repuxando os len\u00e7\u00f3is, ora descobrindo-se todo na agonia de uma formid\u00e1vel dispn\u00e9ia. &#8211; Abandonado, ele! abandonado por aquele que o devia estimar como a um pai! Abandonado por Aleixo, por seu querido Aleixo!&#8230;<\/p>\n<p>Parecia-lhe incr\u00edvel! desespero igual nunca ele experimentara. S\u00f3 lhe vinham \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o cousas tristes, id\u00e9ias l\u00fagubres. E, para maior infelicidade, para maior desgra\u00e7a, ouviu toda a noite algu\u00e9m gemer na enfermaria vizinha &#8211; uma voz de homem, grossa, abafada, inimit\u00e1vel, chamando pelo nome de Jesus e que a ele, Bom-Crioulo, parecia a sua pr\u00f3pria voz de amante infeliz apelando para a suprema bondade de Deus&#8230; O desgra\u00e7ado, quem quer que fosse, gemia, gemia sem tr\u00e9gua, cortado de dores horr\u00edveis.<\/p>\n<p>Pairava na atmosfera calma do hospital um cheiro muito vivo de alfazema queimada, assim como um vago odor de c\u00e2mara mortu\u00e1ria. Bom-Crioulo que nunca em sua vida, tivera medo, e que sempre desafiara a morte corajosamente, n\u00e3o pode evitar, essa noite, um calefriozinho de pavor. Houve um momento em que se revoltou contra o pobre doente que gemia. &#8211; Diabo! N\u00e3o se podia dormir com aquele agouro!&#8230; Se tinha de morrer, morresse logo&#8230;<\/p>\n<p>Mas, arrependeu-se: &#8211; Coitado! era algum desgra\u00e7ado como ele, algum pobre marinheiro sem amigo na terra&#8230;<\/p>\n<p>Os gemidos foram pouco a pouco cessando, pouco a pouco diminuindo &#8211; triste monodia que se cala no sil\u00eancio da noite. Pela madrugada sentia-se ainda o cheiro de alfazema, enjoativo e penetrante, mas o doente cessara de gemer. Quem sabe se teria morrido? Foi embalado por essa id\u00e9ia desoladora que o Bom-Crioulo caiu no sono&#8230;<\/p>\n<p>Davam tr\u00eas horas.<\/p>\n<p>Nesse dia, como nos outros, a mesma preocupa\u00e7\u00e3o, a mesma id\u00e9ia fixa, obstinada e mortificante, encheu a alma do pederasta. Ele pr\u00f3prio se admirava de como \u00e9 que \u201caquilo\u201d renascera &#8211; ele que se julgava forte para n\u00e3o se impressionar com tolices, ele que supunha tudo f\u00e1cil, tudo passageiro na vida! &#8211; Porque afinal (refletia) quando se ama uma rapariga bonita, uma mulher nova, branca ou mesmo de cor &#8211; v\u00e1! Um homem perde a cabe\u00e7a, e com raz\u00e3o; mas, andar uma pessoa triste, sem comer, sem dormir, sem fazer pela vida, por causa de outro homem, por causa de um \u201cindividuozinho\u201d que se abre para todo mundo &#8211; \u00e9 uma grande loucura&#8230;<\/p>\n<p>Mas embalde procurava iludir-se: a imagem de Aleixo agarrara-se-lhe ao esp\u00edrito e cada vez o torturava mais; borboleta importuna, esvoa\u00e7ava em torno dele, provocando-lhe o apetite sensual, estimulando-o como um afrodis\u00edaco milagroso, fazendo-lhe renascerem todas as for\u00e7as vivas do organismo genital, que ele julgara enfraquecidas pelo excesso, pela intemperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Sentia-se forte ainda para grandes cometimentos, para maiores provas de virilidade, e nenhuma criatura humana, fosse a mais bela de todas as mulheres, alcan\u00e7aria proporcionar-lhe tanto gozo, tanta felicidade, num s\u00f3 momento, como Aleixo, o delicioso e incompar\u00e1vel grumete, que era, agora, o seu \u00fanico desejo, a sua \u00fanica ambi\u00e7\u00e3o no mundo. Havia de o possuir, havia de o gozar, como dantes, por que n\u00e3o?: Morto ou vivo, deste ou daquele modo, Aleixo havia de lhe pertencer!<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a imaginar um meio de fugir, de abandonar o hospital em procura do grumete. &#8211; Ora, adeus! o que tem de ser sempre \u00e9! J\u00e1 n\u00e3o podia suportar cheiro de hospital. Para castigo bastava&#8230;<\/p>\n<p>Mas, como fugir? como iludir a vigil\u00e2ncia das sentinelas? Uma vez embaixo, no cais, era f\u00e1cil tomar um bote de ganho, ou mesmo ir \u00e0 nado&#8230;<\/p>\n<p>E os dias passavam, uns ap\u00f3s outros, com a mesma uniformidade, cheios de monotonia, cheios do sol quente de estio, e Bom-Crioulo n\u00e3o achava ocasi\u00e3o oportuna de realizar seu plano de fuga.<\/p>\n<p>Ia-se-lhe tornando cada vez mais insuport\u00e1vel a exist\u00eancia naquela esp\u00e9cie de convento de inv\u00e1lidos. Estava magro, visivelmente magro: &#8211; \u201cestava acabado!\u201d E que sonhos terr\u00edveis, que pesadelos! Uma noite sonhou que Aleixo tinha morrido com uma facada no cora\u00e7\u00e3o; que ele, Bom-Crioulo, via o pequeno ensang\u00fcentado numa cama de vento, nuzinho, os bei\u00e7os muito roxos&#8230; e que a portuguesa, D. Carolina, chorava perdidamente, enxugando os olhos com um grande len\u00e7o de tabaco&#8230; &#8211; J\u00e1 viram que extravag\u00e2ncia?&#8230;<\/p>\n<p>E outros e outros sonhos&#8230; Se continuasse ali, naquele pres\u00eddio, acabava maluco, era capaz de morrer doido. &#8211; Oh! sim, queria fugir, n\u00e3o tolerava mais aquilo. \u201c-&#8230; que os pariu\u201d&#8230;\u201d<\/p>\n<p>E todos os dias a mesma cousa, o mesmo penar, a mesma s\u00e9rie de id\u00e9ias vagas, incompletas, as mesmas oscila\u00e7\u00f5es, as mesmas d\u00favidas. Uma noite ia sendo preso, quando tentava escalar o muro do hospital&#8230;<\/p>\n<h4><a name=\"10\">Cap\u00edtulo X<\/a><\/h4>\n<p>Mais tranq\u00fcilo agora, sem receio de que Bom-Crioulo o procurasse para uma vingan\u00e7a, identificado com a portuguesa, esquecido mesmo de certas cousas que o faziam t\u00edmido e medroso, Aleixo ia passando uma vida regalada, ora em terra, ora a bordo da corveta, sem outros cuidados que n\u00e3o os da sua rude profiss\u00e3o. Estava gordo, forte, sadio, muito mais homem, apesar da pouca idade que tinha, os m\u00fasculos desenvolvidos como os de uma acrobata, o olhar azul penetrante, o rosto largo e queimado. Em pouco tempo adquirira uma express\u00e3o admir\u00e1vel de robustez f\u00edsica, tornando-se ainda mais belo e querido. A portuguesa, essa vivia dele; amava-o, adorava-o!<\/p>\n<p>Ah! era muito capaz, ela, de fazer uma loucura por causa do seu bonitinho! &#8211; Quando Aleixo vinha de bordo, nada lhe faltava naquele pobre sobradinho da Rua da Miseric\u00f3rdia. Tudo ela guardava para o seu formoso marinheirito: eram frutas, doces, comidas especiais, quitutes \u00e0 portuguesa, isso, aquilo, aquilo outro&#8230; Ela mesma batia, engomava a roupa dele com um melindroso carinho de m\u00e3e amorosa, dobrando as camisas, perfumando-as de alecrim para ele mudar quando viesse do trabalho. Como tudo mudara naquela casa depois que o negro sa\u00edra! O s\u00f3t\u00e3o, o misterioso sot\u00e3ozinho estava abandonado, Aleixo n\u00e3o queria saber dele, odiava-o, porque ali \u00e9 que se tinha feito escravo de Bom-Crioulo, ali \u00e9 que \u201ctinha perdido a vergonha\u201d. O pobre quarto era como um lugar de maldi\u00e7\u00f5es: vivia trancado \u00e0 chave, l\u00fagubre e poeirento. D. Carolina rar\u00edssimas vezes abria-o, isso mesmo quando tinha de recolher algum traste velho, algum m\u00f3vel sem pr\u00e9stimo. O retrato do imperador, a cama de lona, os cacar\u00e9us de Bom-Crioulo e do grumete, aquilo tudo que dantes fazia o encanto do dois amigos tinha desaparecido. Nada restava agora daquele viver comum.<\/p>\n<p>&#8211; E se o negro vem por a\u00ed um belo dia? imaginou Aleixo, receoso.<\/p>\n<p>&#8211; Qual vem, qual nada! fez a portuguesa com um gesto de profunda convic\u00e7\u00e3o. Bom-Crioulo j\u00e1 nem se lembra de ti; anda na bilontragem;<\/p>\n<p>o que ele queria era te desfrutar.<\/p>\n<p>E logo:<\/p>\n<p>&#8211; Se vier, \u00e9 a mesma cousa. Ningu\u00e9m morre de careta. Diz-se-lhe que os engenheiros proibiram morar no s\u00f3t\u00e3o; que o teto amea\u00e7a desabar&#8230;. Inventa-se&#8230;<\/p>\n<p>E os objetos de Aleixo, somente os dele, foram colocados na alcova da portuguesa, embaixo, no primeiro andar. De ent\u00e3o em diante passaram a dormir juntos, como um casal, na mesma cama larga. E ningu\u00e9m pisou mais no sot\u00e3ozinho, agora transformado em dep\u00f3sito de m\u00f3veis in\u00fateis, coberto de p\u00f3, abrigo de insetos, ninho de ratos.<\/p>\n<p>H\u00e1 quase um m\u00eas que isso durava, e, longe de se aborrecer, Aleixo sentia, pelo contr\u00e1rio, uma inabal\u00e1vel e profunda afei\u00e7\u00e3o por D. Carolina, exigindo at\u00e9 que ela n\u00e3o recebesse mais o barba\u00e7as do a\u00e7ougue. Queria-a para si, unicamente para si, ou estava tudo acabado!<\/p>\n<p>Ela procurou convenc\u00ea-lo que o sujeito, o Man\u2019el, era um tip\u00e3o \u201cnecess\u00e1rio\u201d, porque lhe dava mesada, pagava o aluguel do sobrado: uma pechincha! Quanto a ser homem, ora! o \u201cbonitinho\u201d ficasse descansado: n\u00e3o havia perigo&#8230;. Man\u2019el era um pobre coitado, uma criatura sem for\u00e7as, um porcalh\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Mas Aleixo indignou-se: &#8211; N\u00e3o senhora, n\u00e3o admitia outro homem!&#8230; Ela bem podia trabalhar honestamente e ganhar dinheiro para o aluguel. N\u00e3o senhora, ou ele, Aleixo, ou o barba\u00e7as.<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina riu e protestou n\u00e3o receber mais o Man\u2019el. Haviam de viver \u201chonradamente\u201d!<\/li>\n<\/ol>\n<p>Aleixo ficou muito satisfeito, muito orgulhoso, muito convencido.<\/p>\n<p>Mas a verdade \u00e9 que, se o a\u00e7ougueiro n\u00e3o continuasse a fornecer carne e a pagar o aluguel do sobradinho, tanto ele como a portuguesa teriam renunciado \u00e0quele amor.<\/p>\n<p>&#8211; Nem o Man\u2019el sabe do bonitinho, nem o bonitinho sabe do Man\u2019el, pensava D. Carolina.<\/p>\n<p>E tudo ia marchando sem atropelos &#8211; dourada embarca\u00e7\u00e3o em mar de rosas&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; Vai sen\u00e3o quando chega o bilhete do negro: &#8211; Meu querido Aleixo&#8230;<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina passou os olhos com sofreguid\u00e3o, correndo logo \u00e0 assinatura, e, ao deparar com o nome do Bom-Crioulo meneou a cabe\u00e7a desdenhosamente. Depois releu aquelas palavras tocadas de amor e de saudade, e ficou um ror de tempo no meio da sala, em p\u00e9, como se houvesse enlouquecido.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Seriam onze horas; &#8211; uma manh\u00e3 quente de dezembro, cheia de luz e de poeira.<\/p>\n<p>Tinha acabado de almo\u00e7ar, como de costume, o seu bife e o seu caf\u00e9 com leite, quando bateram:<\/p>\n<p>Era o bilhete do negro, do \u201cmaldito\u201d!<\/p>\n<p>Aleixo tinha ido para bordo naquela manh\u00e3 e s\u00f3 devia regressar no outro dia. &#8211; Felizmente, meu Deus, felizmente o \u201cbonitinho\u201d n\u00e3o estava em casa, porque, ent\u00e3o, podia se impressionar&#8230;<\/p>\n<p>Passou um \u00faltimo olhar no papel, como se quisesse decorar o recado, e f\u00ea-lo em miu\u00e7alhas atirando os bocadinhos no caix\u00e3o do cisco. &#8211; Ora, adeus! aquilo n\u00e3o servia para nada!<\/p>\n<p>Mas ficou pensativa, cheia de um vago e misterioso pressentimento que lhe fazia bater o cora\u00e7\u00e3o. Assaltaram-lhe id\u00e9ias horrorosas de crimes, de homic\u00eddios de sangue; relembrava casos que tinham alvoro\u00e7ado o Rio de Janeiro, casos de ci\u00fames, de trai\u00e7\u00f5es&#8230; Na Rua do Senhor dos Passos um sargento esfaqueara uma pobre \u201cmulher da vida\u201d; encontrara-a com outro&#8230; A pol\u00edcia correu ao lugar do sinistro, mas o assassino. como era noite, evadira-se, deixando o cad\u00e1ver da rapariga crivado de golpes, rubro de sangue. Lembrava-se tamb\u00e9m de outro caso medonho; fora na Rua dos Arcos: o assassino cortara a mulher em bocados como se esquarteja uma r\u00eas. O povo correra em massa para ver o espet\u00e1culo; dizia-se at\u00e9 que a v\u00edtima era uma espanhola de alto bordo chamada Lola.<\/p>\n<p>Tudo isso vinha-lhe \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o desordenadamente, esfriando o seu amor, enchendo-a de receios, de um medo pueril, que era como um aviso de desgra\u00e7a pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Passou o dia sem fazer nada, inquieta, ora na alcova, deitada, a pensar, calculando o futuro, rememorando uma cousa ou outra, suspirando pelos bons tempos da sua mocidade, ora nos fundos da casa, indo e vindo como tonta: &#8211; \u201cque n\u00e3o se podia com o calor de dezembro, uf!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Ficou muito admirada quando ouviu bater duas horas: &#8211; Ainda! Jesus, que dia longo! E nem roupa havia para lavar, nem um servicinho, nem uma distra\u00e7\u00e3o&#8230; Era contra seus h\u00e1bitos aquilo: n\u00e3o podia estar em p\u00e9 sem fazer cousa alguma, Que ferro!<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe sa\u00eda da cabe\u00e7a o bilhetinho do negro que ela espeda\u00e7ara. &#8211; E n\u00e3o \u00e9 que o tal Bom-Crioulo ainda se lembrava do Aleixo! Grandess\u00edssimo pederasta! Nunca supusera que uma paix\u00e3o amorosa de homem a homem, fosse t\u00e3o duradoura, t\u00e3o persistente! E logo um negro, Senhor Bom-Jesus, logo um crioulo imoral e repugnante daquele!<\/p>\n<p>Entrou pela noite com a mesma inquieta\u00e7\u00e3o, com o mesmo receio vago e indefinido, quase arrependida de se ter metido com o Aleixo. Bem que estava sossegada no seu cantinho da Rua da Miseric\u00f3rdia, vivendo como Deus queria, sem se incomodar. Afinal de contas, o grumete era uma crian\u00e7a e ela uma senhora de idade&#8230;<\/p>\n<p>E logo, refletindo: &#8211; Ah! mas ningu\u00e9m est\u00e1 livre: homem e mulher s\u00e3o como fogo e p\u00f3lvora &#8230; Assim mesmo quarentona, ela era mulher, tinha sangue nas veias e um cora\u00e7\u00e3o para sentir&#8230;<\/p>\n<p>Bateu as portas, mais cautelosa que nunca, revistou o quintal, e foi deitar muito cedo, pensando em Bom-Crioulo, no Aleixo e nas loucuras da humanidade. Quase toda a noite ouviu rodarem os bondes. Fazia um grande calor abafado de estufa, e ela n\u00e3o podia conciliar o sono, adormecer tranq\u00fcilamente; fechava os olhos em v\u00e3o, para tornar a abrir, no mesmo instante, sufocada, agitada por um nervoso rid\u00edculo de mulherzinha hist\u00e9rica, ela, um mulher\u00e3o daquele, gorda, forte e sadia!<\/p>\n<p>Nenhuma posi\u00e7\u00e3o lhe agradava na cama: um mal estar, uma asma, que lhe tirava o f\u00f4lego e o sono. Era a primeira vez que tal cousa lhe sucedia. Debalde escancarou as portas da alcova &#8211; a que dizia para a sala de jantar e a do corredor. Qual! A mesma falta de ar, o mesmo inferno. E sempre a lembran\u00e7a do negro e do outro atormentado-a como um pesadelo cruel. Via Bom-Crioulo entrar pela casa b\u00eabedo, os olhos em chama, segurando uma navalha de marinheiro, brandindo a arma, cheio de \u00f3dio feroz, terr\u00edvel, hediondo, e, de repente, cair sobre o grumete, espumando ci\u00fame, cortando-lhe de navalhadas; e parecia-lhe estar vendo o outro rolar no ch\u00e3o sem fala, num rio de sangue, morto!&#8230; E depois a pol\u00edcia, gritos de socorro, vergonhas, curiosos que vinham ver&#8230;<\/p>\n<p>Bateu duas horas da madrugada. J\u00e1 se n\u00e3o ouviam os bondes. Um sil\u00eancio absoluto na rua, e, dentro, no sobrado, a mesma quieta\u00e7\u00e3o dormente e abafada &#8211; uma calma infinita de subterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Mais um quarto de hora e portuguesa caiu no sono profundamente &#8211; um sono de pedra, inabal\u00e1vel como o sono eterno&#8230;<\/p>\n<p>Como de costume, Aleixo \u201cfolgou\u201d no dia seguinte, e, como de costume, veio direto \u00e0 casa, muito leve, muito desobrigado, no seu uniforme azul, capa branca no bon\u00e9, oloroso e risonho. D. Carolina estava para dentro, \u00e0s voltas com a cozinha. Eram tr\u00eas horas da tarde. O grumete estranhou que a porta da rua estivesse fechada \u00e0quela hora, e bateu com for\u00e7a. &#8211; Oh! isso era novidade!&#8230;<\/p>\n<p>A mulher correu logo a ver da janela: &#8211; Seria o bonitinho?<\/p>\n<p>Houve um pequeno rebuli\u00e7o na vizinhan\u00e7a. Embaixo, na loja, apareceu uma cabe\u00e7a negra, toda curiosa, fingindo que chegava ao postigo naturalmente, por acaso&#8230; O caixeiro da padaria estirou o pesco\u00e7o, de dentro do balc\u00e3o.<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina, mal reconheceu o marinheiro, veio abrir logo com uma exclama\u00e7\u00e3o de surpresa: &#8211; Oh! n\u00e3o o esperava t\u00e3o cedo!<\/li>\n<\/ol>\n<p>&#8211; T\u00e3o cedo? Pois ainda achava cedo? \u00c9 boa: quase noite!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! filho s\u00e3o duas horas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Duas n\u00e3o senhora: j\u00e1 vai para as quatro.<\/p>\n<p>E foram subindo a escada, ela com o bra\u00e7o no ombro do rapazinho, ele muito s\u00e9rio, muito desconfiado, os olhos baixos, uma express\u00e3o melanc\u00f3lica no rosto p\u00fabere. &#8211; Que lembran\u00e7a fechar a porta da rua \u00e0quela hora!..<\/p>\n<p>E a portuguesa beijando-o na face:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te zangues, meu jasmim, n\u00e3o te zangues. Porta fechada livra de tenta\u00e7\u00f5es&#8230; Deu-me uma cousa, um medo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Qual tenta\u00e7\u00f5es, qual medo! Voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 crian\u00e7a para andar se escondendo&#8230; Isso at\u00e9 faz a gente desconfiar.<\/p>\n<p>Mas D. Carolina n\u00e3o queria dizer a verdade, os seus escr\u00fapulos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Bom-Crioulo, o caso do bilhete. Para que sobressaltar Aleixo? Ele bem sabia que o outro n\u00e3o o abandonava facilmente: negro \u00e9 ra\u00e7a do diabo, ra\u00e7a maldita, que n\u00e3o sabe perdoar, que n\u00e3o sabe esquecer&#8230; Aleixo bem conhecia o g\u00eanio de Bom-Crioulo. De resto, o caso do bilhete era uma tolice em que ningu\u00e9m devia pensar: &#8211; Cousas de negro&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olha, \u00f3 pequenino, juro-te que n\u00e3o fecharei mais a porta da rua. Sossega, ouviste? sossega&#8230;<\/p>\n<p>Estavam na alcova. O grumete corria o olhar nos m\u00f3veis, na cama, pelo quarto e pela sala, como quem procurava descobrir vest\u00edgios de infidelidade. A mulher ajudava-o a se despir, tomando-lhe a roupa \u00famida de suor, toda cheia de cautelas para que ele n\u00e3o se constipasse. &#8211; Olha, muda a camisa; olha, toma um o pouquinho de aguardente; olha, cuidado com o vento; olha os chinelos&#8230;<\/p>\n<p>Nunca vira tanto carinho, zelo tanto. A portuguesa multiplicava-se em dedica\u00e7\u00f5es, em ternuras quase infantis, desejando at\u00e9 que ele a maltratasse, que ele a espezinhasse. O olhar azul de Aleixo tinha sobre ela um poder maravilhoso, uma fascina\u00e7\u00e3o irresist\u00edvel: penetrava o fundo de sua alma, dominando-a, transformando-a num pobre animal sem vontade, queimando-a como uma brasa ardente, impelindo-a para todos os sacrif\u00edcios&#8230; Perto dele, fugiam-lhe todos os receios, todas as d\u00edvidas: era capaz de atirar-se a um homem, de morrer na ponta de uma faca, de assassinar, de fazer loucuras!<\/p>\n<p>Nesse dia principalmente, ao contr\u00e1rio da v\u00e9spera, em que ela, no meio de seus temores, desejava ver-se longe do rapazinho, nesse dia principalmente achava-se de uma bondade maternal: a amizade convertera-se-lhe numa esp\u00e9cie de fanatismo, numa adora\u00e7\u00e3o religiosa. Beijava-o a cada instante, meiga, cariciosa e feliz, como se todas as virtudes estivessem reunidas ali, no olhar de Aleixo, nesse olhar ideal, de uma do\u00e7ura infinita.<\/p>\n<p>&#8211; Tu \u00e9s o meu santo, \u00f3 pequenino, dizia ela; tu \u00e9s a minha \u00fanica felicidade neste velho mundo t\u00e3o cheio de mis\u00e9rias&#8230;<\/p>\n<p>E abra\u00e7ava-o, rilhando os dentes, nervosa, excitada, oferecendo-se ao rapazinho numa f\u00faria sensual e m\u00f3rbida.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, que diabo \u00e9 isso, filha, est\u00e1s louca? ralhava o grumete cuja fisionomia, desde que chegara, n\u00e3o se abrira num sorriso am\u00e1vel: &#8211; que desespero \u00e9 esse?<\/p>\n<p>&#8211; Oh! mas eu te quero tanto bem, meu queridinho, eu te amo tanto!<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o disse palavra. O jantar correu frio. D. Carolina retraiu-se por sua vez, humilhada com as maneiras de Aleixo, porque ele, seco e indiferente, n\u00e3o lhe fazia o menor agrado. Ambos permaneceram calados, como duas pessoas estranhas na mesa de um hotel. Mas, para o fim, ela n\u00e3o pode suportar aquele sil\u00eancio inc\u00f4modo.<\/p>\n<p>&#8211; Que te fiz eu, \u00f3 filho, dize, que te fiz eu? N\u00e3o me encontraste s\u00f3, em casa, trabalhando, mourejando? Que te fiz eu?<\/p>\n<p>Aleixo continuava mudo, os bei\u00e7os agitados por um tremor convulso, o olhar na parede.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, dize, que te fiz eu? insistiu a portuguesa tocando-lhe no bra\u00e7o. H\u00e1s de ter alguma raz\u00e3o para te zangares&#8230;<\/p>\n<p>Ele, por\u00e9m, n\u00e3o se movia, n\u00e3o dava resposta, impenetr\u00e1vel na sua mudez obstinada e cruel, que estava quase arrancado l\u00e1grimas \u00e0 mulher. Ent\u00e3o D. Carolina sentiu um desespero n\u2019alma, e, erguendo-se triste, foi-se para a alcova, maldizendo-se, lamentando a \u201csua desgra\u00e7a\u201d: &#8211; Que era uma infeliz, que todos a desprezavam, que estava cansada de sofrer, que a vida era um inferno, que preferia morrer!<\/p>\n<p>&#8211; Para que fechou, ent\u00e3o, a porta da rua? tornou ele. H\u00e1 algum mist\u00e9rio nesta casa? A senhora n\u00e3o me esperava hoje?<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 filho, pois eu j\u00e1 n\u00e3o te disse que fechei apor causa de um medo que me assaltou de repente?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que medo, senhora, que medo! Para tudo h\u00e1 desculpa. A senhora n\u00e3o est\u00e1 procedendo bem&#8230;<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina tinha se deitado na cama, fungava, limpando os olhos com o avental, muito queixosa.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&#8211; Donde \u00e9 que veio esse medo hoje? Todos os dias a senhora n\u00e3o abre a porta, n\u00e3o a deixa escancarada?<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 voc\u00ea fazendo barulho \u00e0 toa, por uma ninharia&#8230; Ou o homem tem confian\u00e7a na mulher ou n\u00e3o tem. Voc\u00ea nunca me encontrou com outro, para fazer mau ju\u00edzo da gente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bom, mas, ent\u00e3o, seja franca, explique-se. Por que \u00e9 que fechou a porta da rua?<\/p>\n<p>Havia j\u00e1 um princ\u00edpio de reconcilia\u00e7\u00e3o. Aleixo aproximara-se da cama sensibilizado pela voz magoada da portuguesa que lhe botava uns olhos muito ternos, muito cheios de humildade e resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Queres que eu te diga porque \u00e9 que fechei a porta da rua? Pois senta-te pr\u2019a\u00ed que eu te vou dizer. Calei-me por tua causa mesmo, para n\u00e3o te dar cuidado.<\/p>\n<p>O grumete imaginou logo uma s\u00e9rie de cousas desagrad\u00e1veis: tentativas de roubo, amea\u00e7as e pris\u00e3o, viol\u00eancias, um horror! Estava longe, por\u00e9m, de pensar em Bom-Crioulo; a seus olhos o negro morrera, desaparecera; ningu\u00e9m lhe dava not\u00edcias dele; decididamente nunca mais voltaria; talvez andasse nalguma viagem, mar afora, nalgum cruzeiro. ..<\/p>\n<p>E a portuguesa narrou o caso do bilhete, que ela rasgara., \u201cporque n\u00e3o valia a pena a gente se amofinar&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Aleixo ouviu tudo curioso, a face na m\u00e3o, derreado na cama larga.<\/p>\n<p>&#8211; E onde est\u00e1 ele? perguntou vivamente.<\/p>\n<p>&#8211; No hospital de marinha, na ilha, com alguma doen\u00e7a&#8230; Quem o n\u00e3o conhecer que o compre.<\/p>\n<p>Aleixo n\u00e3o quis dizer nada; mas a hist\u00f3ria do bilhete comovera-o, enchera-o de uma vaga melancolia: &#8211; Bom-Crioulo ainda se lembrava!&#8230;<\/p>\n<p>Pensou em visitar o negro, talvez fosse mais prudente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que acha?<\/p>\n<ol>\n<li>Carolina reprovou: &#8211; Jesus, que asneira! Isso era o mesmo que uma pessoa se atirar do Corcovado. N\u00e3o, nunca!<\/li>\n<\/ol>\n<p>&#8211; Deixa-o l\u00e1, filho: pouco a pouco ele ir\u00e1 se esquecendo; faze pela vida e deixa-o l\u00e1. Vamos indo muito bem sem ele. Nada!<\/p>\n<p>&#8211; E se ele entrar por aqui adentro um belo dia?<\/p>\n<p>&#8211; Qual!&#8230; Por isso \u00e9 que eu trago a porta da rua fechada&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bom, murmurou o grumete, erguendo-se. A vida \u00e9 esta!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E ningu\u00e9m deve ir contra as leis da Provid\u00eancia, resumiu D. Carolina dogmaticamente.<\/p>\n<p>Serenara a pequena disc\u00f3rdia. Estava tudo explicado. Aleixo reconhecera sua injusti\u00e7a para com a portuguesa, e ela o perdoara, sempre boa, sempre generosa. Do alto do sobradinho viam ambos, agora, aconchegados, felizes, rindo, os que passavam embaixo, na rua. Que importava Bom-Crioulo? Que importava a febre amarela? Em todo o Rio de Janeiro, em todo o mundo s\u00f3 havia duas criaturas felizes: ele, o grumete, e ela, a portuguesa &#8211; felizes como Ad\u00e3o e Eva antes do pecado, felizes como todos os casais que se amam&#8230;<\/p>\n<p>Sa\u00edram juntos, a dar uma volta, nessa noite. Aleixo prop\u00f4s irem ao Passeio P\u00fablico tomar um sorvete, um refresco, uma bebida qualquer. N\u00e3o se podia estar em casa com o calor! D. Carolina lembrou a Guarda-Velha: &#8211; N\u00e3o seria melhor irem \u00e0 Guarda-Velha, \u00e0 f\u00e1brica de cerveja? Havia m\u00fasica tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Mas o grumete ponderou que na Guarda-Velha estava-se muito \u00e0 vista, iam marinheiros de bordo, havia muita gente. O Passeio P\u00fablico era maior e menos freq\u00fcentado: tinha-se mais liberdade. E depois era s\u00f3 tomar o bondinho da Lapa.<\/p>\n<p>&#8211; Oh! vai com a roupa de marinheiro! suplicou D. Carolina, vendo-o enfiar um jaquet\u00e3o \u00e0 paisana. \u00c9 mais fresca e d\u00e1 respeito&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O respeito n\u00e3o est\u00e1 na roupa, doutrinou Aleixo, abotoando-se; \u00e9 respeitado quem procede bem. Deixa-me ao menos variar!<\/p>\n<p>Ela gostava tanto de o ver em seu uniforme, \u201ctodo bonitinho\u201d, como uma pintura, chamando a aten\u00e7\u00e3o dos burgueses, admirado, invejado, gabado. Assentava-lhe muito mais a roupa de marinheiro; sem compara\u00e7\u00e3o! O que era um soldado \u00e0 paisana? Um homem como qualquer outro, um pobre-diabo que ningu\u00e9m respeitava. Oh! a farda&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu n\u00e3o quero, filha, n\u00e3o gosto. S\u00e3o cousas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bom, n\u00e3o precisa brigar. Vai como quiseres.<\/p>\n<p>Estava escurecendo. No interior do sobradinho j\u00e1 se n\u00e3o distinguiam os objetos. Fora, na rua, acendiam-se os primeiros bicos de g\u00e1s e havia grande calma, uma sonol\u00eancia profunda no quarteir\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Creio que vamos ter chuva, disse Aleixo dando um salto \u00e0 janela.<\/p>\n<p>Com efeito, nuvens escuras alastravam-se pelo c\u00e9u, baixas, pesadas, rolando como fumarada negra de inc\u00eandio. O tempo refrescava. Corria mesmo uma aragenzinha branda e acariciadora. Uma voz humana imitava guinchos de locomotiva para os lados da Miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Passava o bonde da Lapa. D. Carolina e Aleixo embarcaram, ela muito alegre, muito expansiva, na sua toilette improvisada, que lhe dava um ar bonach\u00e3o e honesto, ele um pouco triste, chap\u00e9u de palhinha derreado para a nuca, mostrando o cabelo penteado em pastas, uma gravata cor de sangue &#8211; aprumado e circunspecto.<\/p>\n<p>O bonde tocou.<\/p>\n<h4><a name=\"11\">Cap\u00edtulo XI<\/a><\/h4>\n<p>Um desespero surdo, um desespero incr\u00edvel, aumentado por acidentes patol\u00f3gicos, fomentado por uma esp\u00e9cie de lepra contagiosa que brotara, r\u00e1pido, em seu corpo, onde sangravam ainda, obstinadamente, l\u00edvidas marcas de castigo &#8211; um desespero fant\u00e1stico enchia o cora\u00e7\u00e3o amargurado de Bom-Crioulo. N\u00e3o lhe restava mais esperan\u00e7a que Aleixo fosse v\u00ea-lo ao hospital: estava desiludido. O grumete abandonara-o, esquecera-o, e nem ao menos dera-lhe uma satisfa\u00e7\u00e3o! &#8211; Atr\u00e1s dos apedrejados vem as pedras&#8230; Uma pessoa, no fim das contas, era obrigada a tornar-se ruim, a fazer todas as loucuras&#8230; Isso de a gente pensar na vida, sacrificar-se, proceder bem, n\u00e3o vale nada, \u00e9 uma grande tolice, uma grande asneira.<\/p>\n<p>Tinha momentos de calma, procurando afastar do esp\u00edrito qualquer id\u00e9ia de vingan\u00e7a, de desforra, como quem se julga superior \u00e0s pequeninas mis\u00e9rias da vida. Durante o dia jogava a dama com o tal empregado que lhe fizera o bilhete, resignado, sem c\u00f3lera, prazenteiro mesmo, n\u00e3o perdendo, entretanto, aquela vaga express\u00e3o de melancolia que boiava em seus olhos traindo mist\u00e9rios d\u2019alma&#8230;<\/p>\n<p>Era \u00e0 noite, por\u00e9m, que o caso de Aleixo voltava-lhe \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o, enchendo-a de fantasmas, povoando-a de sonhos, com a insist\u00eancia de um remorso -\u00e0 noite, nas horas de repouso, quando tudo era sil\u00eancio no hospital.<\/p>\n<p>Positivamente n\u00e3o se conformava com a id\u00e9ia de que o Aleixo o abandonara por outro&#8230; E quem seria esse outro? Algum marinheiro tamb\u00e9m, decerto, algum \u201cprimeira-classe\u201d&#8230; Era muita ingratid\u00e3o, muita baixeza! Abandon\u00e1-lo, por qu\u00ea? Porque era negro, porque fora escravo? T\u00e3o bom era ele quanto o imperador!&#8230;<\/p>\n<p>Consumia-se em reflex\u00f5es pueris, verberando o procedimento de Aleixo, uivando pragas que ningu\u00e9m escutava, dardejando c\u00f3leras, tempestuoso e medonho na sua mudez alucinada. Eram noites e noites de um sonambulismo fant\u00e1stico e enervante, de uma obsess\u00e3o rude e esmagadora. E quando, pela madrugada, vinha-lhe o sono, era imposs\u00edvel dormir, porque vinham-lhe tamb\u00e9m o que ele chamava \u201cas coceiras\u201d, um horroroso prurido na pele, no corpo todo, como se o sangue fosse esguichar pelos poros numa hemorragia formid\u00e1vel ou como se estivesse crivado de alfinetes da cabe\u00e7a aos p\u00e9s; &#8211; n\u00e3o podia fechar os olhos, nem tranq\u00fcilizar o esp\u00edrito. Seu desejo era sair como um do\u00eddo por ali fora, meter-se num banho e ficar n\u2019\u00e1gua um ror de tempo agachado, nu em p\u00ealo. Parecia uma maldi\u00e7\u00e3o! Rebentavam-lhe feridas: havia uma grande aberta no joelho esquerdo. N\u00e3o atinava com aquilo. Talvez alguma praga injusta&#8230; Era horroroso! Levar um homem a noite inteira sem dormir, pensando numa cousa, noutra, e, ainda por cima, o diabo de umas coceiras que punham a gente doida!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o \u00e9 que tinha raiva de Aleixo, ent\u00e3o \u00e9 que se revoltava contra o grumete, o \u201ccausador de todos os seus males\u201d. Naquele estado aflitivo de desespero de corpo e d\u2019alma ia-se-lhe a raz\u00e3o &#8211; Bom-Crioulo s\u00f3 tinha uma id\u00e9ia: vingar-se do efebo, persegui-lo at\u00e9 a morte, aniquil\u00e1-lo para sempre!<\/p>\n<p>Era um misto de \u00f3dio, de amor e de ci\u00fame, o que ele experimentava nesses momentos. Longe de apagar-se o desejo de tornar a possuir o grumete, esse desejo aumentava em seu cora\u00e7\u00e3o ferido pelo desprezo do rapazinho. Aleixo era uma terra perdida que ele devia reconquistar fosse como fosse; ningu\u00e9m tinha o direito de lhe roubar aquela amizade, aquele tesouro de gozos, aquela torre de marfim constru\u00edda pelas suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Aleixo era seu, pertencia-lhe de direito, como uma cousa inviol\u00e1vel. Da\u00ed tamb\u00e9m o \u00f3dio ao grumete, um \u00f3dio surdo, mastigado, brutal como as c\u00f3leras de Otelo&#8230;<\/p>\n<p>Aleixo com outro homem! Esta id\u00e9ia fazia-o enlouquecer de ci\u00fame, torturava-o como um sofrimento agudo, como uma chaga viva e dolorosa.<\/p>\n<p>Que felicidade, que al\u00edvio, que suprema ventura, quando pela manh\u00e3, j\u00e1 dia claro, o sol, t\u00e9pido e lou\u00e7\u00e3o, entrava cheio de mist\u00e9rio pela enfermaria dentro, e recome\u00e7ava em todo o hospital a bela vida!&#8230;<\/p>\n<p>Foi justamente numa dessas noites e obsess\u00e3o e desespero que Bom-Crioulo galgou a muralha do estabelecimento e abalou vertiginoso para a Rua da Miseric\u00f3rdia, cego, \u00e0s tontas, como quem vai precipitar-se num abismo.<\/p>\n<p>Era um s\u00e1bado feriado. Entre os marinheiros que tinham ido ao hospital visitar os amigos, Bom-Crioulo reconhecera o Pinga da corveta, seu companheiro de viagem outrora &#8211; o Pinga, o Herculano, que fora surpreendido a praticar uma a\u00e7\u00e3o feia e deprimente do car\u00e1ter humano, junto \u00e0 amurada, na proa, certa noite&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 Herculano, vem c\u00e1!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Bom-Crioulo!<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, que \u00e9 feito de ti? perguntou o negro, interessado, conduzindo o outro pelo bra\u00e7o. Onde \u00e9 que est\u00e1s agora?<\/p>\n<p>Herculano estava mudado, j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo Pinga retra\u00eddo e esquivo, com olheiras, falando pausadamente. Estava outro, admiravelmente outro, O Herculano &#8211; gordo, rosado, o olhar vivo e brilhante, sem melancolia, nem sombra alguma de tristeza. Perdera a antiga palidez que lhe dava um arzinho pulha de cousa \u00e0-toa, falava desempenado, alto, e ria, como uma crian\u00e7a, por ninharias. &#8211; \u201cOnde estava agora? Na corveta, sempre na corveta.\u201d<\/p>\n<p>&#8211; Ainda? fez Bom-Crioulo admirado, ocultando a satisfa\u00e7\u00e3o que lhe fazia a resposta. Ainda est\u00e1s na corveta, homem de Deus?<\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o? Aquilo \u00e9 que \u00e9 navio. Depois que saiu do dique, nem parece a mesma. Faz gosto v\u00ea-la. Toda pintadinha, toda nova, que \u00e9 ver uma tet\u00e9ia.<\/p>\n<p>&#8211; Mas, como \u00e9 que se muda assim, rapaz? Tu, que eras t\u00e3o pobre de sangue, est\u00e1s me parecendo bonito, homem!<\/p>\n<p>&#8211; Qual o qu\u00ea! sorriu Herculano. J\u00e1 estive mais gordo&#8230;<\/p>\n<p>Ia reparando em Bom-Crioulo. Como estava acabado o negro! Viam-se-lhe os ossos da cara; tinha uma grande cicatriz, uma esp\u00e9cie de ruga funda no pesco\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1s doente? perguntou.<\/p>\n<p>&#8211; Ando com umas coceiras, umas feridas no corpo&#8230; Diz que \u00e9 sarna.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!&#8230; Porque est\u00e1s magro, meu velho, est\u00e1s na espinha. Que diabo!<\/p>\n<p>E depois de uma pausa.<\/p>\n<p>&#8211; Eu vim ver o Anacleto, que est\u00e1 com uma carrega\u00e7\u00e3o&#8230; N\u00e3o sabias que tinha baixado tamb\u00e9m, que andavas por aqui. Fazia-te longe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade, h\u00e1 quase um m\u00eas nesta desgra\u00e7a, me acabando!<\/p>\n<p>Chegaram \u00e0 enfermaria. Os doentes olhavam-nos, palrando, em grupos, nos corredores, nas depend\u00eancias do hospital. Alguns convalescentes jogavam a peteca num largo donde se avistava o mar.<\/p>\n<p>Ia para as seis da tarde. Os navios de guerra, im\u00f3veis e embandeirados, tinham um aspecto festivo. Ouviam-se toques de corneta ao longe e sons de m\u00fasica em terra, na cidade. Barcas de Niter\u00f3i cruzavam-se no meio da ba\u00eda calma. Por toda a parte, no mar e em terra, um fr\u00eamito de alegria universal e domingueira, uma estranha alacridade perdendo-se ao longe, nas primeiras n\u00e9voas do crep\u00fasculo. J\u00e1 se n\u00e3o via o disco de ouro do sol; a claridade ia pouco a pouco tornando-se difusa, esmaecida, langue, como uma manh\u00e3 de brumas. O perfil das embarca\u00e7\u00f5es, o contorno das montanhas, torres e chamin\u00e9s &#8211; tudo mergulhava na noite que descia palpitante de mist\u00e9rios&#8230;<\/p>\n<p>Ao Herculano pouco se lhe dava que anoitecesse, porque estava de folga; da\u00ed, do hospital, iria para terra num bote de ganho. Mas era preciso n\u00e3o demorar muito, sob pena de fechar-se o port\u00e3o do estabelecimento, e ele amanhecer naquele \u201ccemit\u00e9rio de vivos\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo tranq\u00fcilizou-o: &#8211; Ainda era cedo,. Que pressa, que vexame!<\/p>\n<p>E muito jeitoso, muito am\u00e1vel:<\/p>\n<p>&#8211; Senta um pouco. Nada de cerim\u00f4nias: isto aqui \u00e9 meu, \u00e9 teu, \u00e9 do Governo. Podemos conversar \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Herculano correu o olhar pela enfermaria, pelo ch\u00e3o, pelo teto, pelas camas alinhadas. De resto, n\u00e3o era m\u00e1 vida&#8230; Boas camas, bom passadio, liberdade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 porque ainda n\u00e3o passaste uma noite aqui dentro, meu velho. Um inferno \u00e9 o que isto \u00e9. S\u00f3 mesmo para quem n\u00e3o pode ag\u00fcentar-se. Boa cama temos n\u00f3s a bordo.<\/p>\n<p>&#8211; Pode-se fumar? perguntou o outro.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 proibido, mas fuma l\u00e1 teu cigarro.<\/p>\n<p>Tinham se sentado na cama do negro, muito encardida. &#8211; \u201cEra s\u00f3 um instantinho\u201d, avisou o grumete.<\/p>\n<p>E Bom-Crioulo puxou conversa:<\/p>\n<p>&#8211; D\u00e1-me not\u00edcias daquela gente, \u00f3 Herculano. Como vai o Aleixo, como vai o guardi\u00e3o Agostinho, como v\u00e3o todos?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bem. O guardi\u00e3o Agostinho sempre malvado, aquele cabra &#8211; malvado e \u201cimplicante\u201d. Eu, felizmente, n\u00e3o lhe tenho ca\u00eddo nas unhas; felizmente! O Aleixo, aqui pra n\u00f3s, anda muito metido com os oficiais. Vive na pra\u00e7a d\u2019armas, \u00e9 quem d\u00e1 corda no rel\u00f3gio, \u00e9 quem arruma os camarotes, quem faz tudo. Est\u00e1 um pelintra, filho, um grande pelintra: \u00e9 o nenenzinho de bordo. Sai quando quer, entra quando quer&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo pigarreou.<\/p>\n<p>&#8211; Eu, por mim, n\u00e3o troco palavra com ele, continuou Herculano. Estamos de mal, por uma asneira, por uma tolice&#8230; Outro dia quase nos pegamos. Dizem at\u00e9 que est\u00e1 amigado, em terra, com uma rapariga.<\/p>\n<p>&#8211; Amigado!?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, amigado, um pitorra daquele. \u00c9 o que dizem, eu n\u00e3o sei.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo tomava sentido, cheio de interesse, dominando-se, abafando uma golfada de palavr\u00f5es, uma onda de c\u00f3lera, que estava quase a irromper-lhe da boca. Desesperava. Na t\u00e9pida penumbra da enfermaria o seu olhar tomava uma express\u00e3o dolorida e \u00famida, como o olhar de um n\u00e1ufrago perdido no c\u00edrculo imenso das \u00e1guas. Era uma tempestade surda e impenetr\u00e1vel, um desabar de todas as cren\u00e7as, de todas as ilus\u00f5es, de todas as for\u00e7as que mant\u00e9m o equil\u00edbrio de uma natureza humana em revolta&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O Sant\u2019Ana, esse desertou, foi-se embora, foi-se embora, ningu\u00e9m sabe para onde. Tamb\u00e9m, coitado! apanhava que nem boi ladr\u00e3o. Era um pobre diabo&#8230;<\/p>\n<p>Trocaram ainda algumas palavras. Herculano contou epis\u00f3dios \u00edntimos de bordo, muito loquaz, muito verboso; e como j\u00e1 fosse noite:<\/p>\n<p>&#8211; Adeus, Bom-Crioulo, que eu me vou chegando. Estimo que fiques bom, hein! que fiques completamente bom. Eu l\u00e1 estou, na corveta, para o que quiseres. Boa noite!<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite, murmurou o negro com uma voz triste e profunda, quase l\u00fagubre.<\/p>\n<p>Acendiam-se as estrelas no c\u00e9u muito alto e de uma limpidez outonal&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo n\u00e3o pensou em dormir, cheio, como estava, de \u00f3dio e desespero. Ecoavam-lhe ainda no ouvido, como um dobre f\u00fanebre, aquelas palavras de uma veracidade brutal, e de uma rudez pungente : -\u201cDizem at\u00e9 que est\u00e1 amigado!\u201d<\/p>\n<p>Amigado, o Aleixo! Amigado, ele que era todo seu, que lhe pertencia como o seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o: ele, que nunca lhe falara em mulheres, que dantes era t\u00e3o ing\u00eanuo, t\u00e3o dedicado, t\u00e3o bom!&#8230; Amigar-se, viver com uma mulher, sentir o contacto de outro corpo que n\u00e3o o seu, deixar-se beijar, morder, nas \u00e2nsias do gozo, por outra pessoa que n\u00e3o ele, Bom-Crioulo!&#8230;<\/p>\n<p>Agora \u00e9 que tinha um desejo enorme, uma sofreguid\u00e3o louca de v\u00ea-lo, rendido a seus p\u00e9s, como um animalzinho; agora \u00e9 que lhe renasciam \u00edmpetos vorazes de novilho solto, incongru\u00eancias de macho em cio, nostalgias de libertino fogoso&#8230; As palavras de Herculano (aquela hist\u00f3ria do grumete com uma rapariga) tinham-lhe despertado o sangue, fora como uma esp\u00e9cie de urtiga brava arranhando-lhe a pele, excitando-o, enfurecendo-o de desejo. Agora sim, fazia quest\u00e3o! E n\u00e3o era somente quest\u00e3o de possuir o grumete, de goz\u00e1-lo como outrora, l\u00e1 cima, no quartinho da Rua da Miseric\u00f3rdia: &#8211; era quest\u00e3o de goz\u00e1-lo, maltratando-o, vendo-o sofrer, ouvindo-o gemer&#8230; N\u00e3o, n\u00e3o era somente o gozo comum, a sensa\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria, o que ele queria depois das palavras de Herculano: era o prazer brutal, doloroso, fora de todas as leis, de todas as normas&#8230; E havia de t\u00ea-lo, custasse o que custasse!<\/p>\n<p>Decididamente ia realizar o seu plano de fuga essa noite, ia desertar pelo mundo \u00e0 procura de Aleixo.<\/p>\n<p>Inquieto, sobreexcitado, nervoso, p\u00f4s-se a meditar. O grumete aparecia-lhe com uma fei\u00e7\u00e3o nova, transfigurado pelos excessos do amor, degenerado, sem aquele arzinho bisonho que todos lhe admiravam, o rosto \u00e1spero, crivado de espinhas, magro, sem cor, sem sangue nos l\u00e1bios&#8230; Pudera! Um homem n\u00e3o resiste, quanto mais uma crian\u00e7a! Aleixo devia estar muito acabado; via-o nos bra\u00e7os da amante, da tal rapariga &#8211; ele novo, ela mocinha, na flor dos vinte anos -, via-o rolar em espasmos luxuriosos, grudado \u00e0 mulher, sobre uma cama fresca e alva &#8211; rolar e cair extenuado, crucificado, morto de fraqueza&#8230; Depois a rapariga debru\u00e7ava-se sobre ele, juntava boca \u00e0 boca num grande beijo de reconhecimento. E no dia seguinte, na noite seguinte, a mesma cousa.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo desnorteava. Inconscientemente era arrastado para um mundo de id\u00e9ias vagas que n\u00e3o o permitiam tomar uma solu\u00e7\u00e3o pronta, definitiva. S\u00f3 uma id\u00e9ia conservava-se firme e clara em seu esp\u00edrito: fugir, fugir quanto antes, n\u00e3o esperar mais nem um segundo, romper os diques de seu isolamento e amanhecer na rua, no meio da cidade, longe do hospital, \u201cdesse hospital de merda\u201d!<\/p>\n<p>Seus c\u00e1lculos n\u00e3o podiam falhar. Deixava uma janela aberta, pretextando calor, arrumava a trouxa&#8230;- qual trouxa! nem era preciso trouxa! &#8211; e, alta noite, descia por um cabo. As janelas que davam para os \u00d3rg\u00e3os ficavam sobre um terreno anfractuoso, esp\u00e9cie de ladeira bronca, meio \u00edngreme, despenhando para umas oficinas e estaleiros que havia embaixo, na ilha. N\u00e3o eram, por\u00e9m, t\u00e3o altas que se n\u00e3o pudesse, embora dificilmente, com agilidade, tentar uma escalada. E Bom-Crioulo n\u00e3o seria o primeiro; antes dele, outros haviam desertado por ali. Contava-se de um que rolara a montanha, sendo encontrado quase morto ao p\u00e9 de uma \u00e1rvore, o corpo todo cheio de pisaduras, vertendo sangue pelo nariz; veio a morrer da queda, que lhe produzira uma doen\u00e7a grave na espinha.<\/p>\n<p>O negro n\u00e3o teve d\u00favida; ergueu-se (era uma hora da madrugada), foi \u00e0 casinha, para n\u00e3o dar a perceber, amarrou na cintura uma navalha de marinheiro que o acompanhava sempre, vestiu, por baixo da roupa branca de doente, a camisa de gola, e voltou cauteloso, perscrutando o sil\u00eancio e a escurid\u00e3o. Depois, foi tudo r\u00e1pido: deu volta ao cabo na janela, um cabo grosso tran\u00e7ado, e -&#8230; que os pariu! &#8211; saltou fora. Uma escurid\u00e3o medonha na ba\u00eda e um sil\u00eancio de arrepiar cabelo. Era a hora do sono forte, do sono pesado. As sentinelas bradavam, de instante a instante, o seu prolongado &#8211; alerta! que o eco repetia no mar e em terra. Nenhuma outra voz, nenhum outro sinal de vida. A cidade iluminada, estrelada de luzes microsc\u00f3picas, era como vasta necr\u00f3pole na l\u00fagubre inquieta\u00e7\u00e3o da noite.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo sentia um friozinho brando, um leve bafejo matinal arrepiar-lhe a nuca. Dirigiu-se tateando, tateando, rente com o pared\u00e3o do hospital, sem olhar pra tr\u00e1s, sem ver nada. Tinha examinado bem o terreno antes de se aventurar; por esse modo, caminhando naquele rumo, ia direito a uma descida pouco escabrosa. Embaixo ficava o dique. era preciso muita cautela, muito jeito para n\u00e3o precipitar-se. Foi indo, foi indo, ora agachado, ora em p\u00e9, segurando aqui, segurando acol\u00e1, \u00e0s apalpadelas, e p\u00f4de enfim -que os pariu! &#8211; chegar ao cais, \u00e0 beira d\u2019\u00e1gua, sem o mais leve arranh\u00e3o. Dava meia hora na Candel\u00e1ria &#8211; uma pancada sonora e cheia, que reboou longe, soturnamente, acordando os ecos. &#8211; \u201cFaltava atravessar o canal, pensou Bom-Crioulo, medindo com o olhar a extens\u00e3o l\u00edquida que separava o arsenal da ilha. Paci\u00eancia, um pouquinho de paci\u00eancia. Devagar&#8230;\u201d Encolheu-se todo por tr\u00e1s de um guindaste, reflexionando. &#8211; Ia dali rente para o sobrado: queria ver como estava aquilo; queria fazer uma surpresa ao senhor Aleixo. E a portuguesa? J\u00e1 n\u00e3o se lembrava dela!&#8230; \u00c9 verdade, a portuguesa?&#8230;<\/p>\n<p>Um rel\u00e2mpago, uma d\u00favida passou r\u00e1pida em seu esp\u00edrito, deslumbrando-o: &#8211; Qual! N\u00e3o era poss\u00edvel!&#8230; Que tolice!&#8230;<\/p>\n<p>O friozinho aumentava. O rel\u00f3gio da Candel\u00e1ria, sonoro e profundo, badalou duas horas. Bom-Crioulo ergueu a vista para o c\u00e9u: &#8211; as estrelas palpitavam; a via-l\u00e1ctea resplandecia, branca e tortuosa, na infinita serenidade da noite. Defronte, no arsenal, erguia-se o perfil de uma grande chamin\u00e9 sombria. A \u00e1gua marulhava no cais monotonamente, em seu eterno fluxo e refluxo. &#8211; Alerta! bradavam as sentinelas a cada instante, na ilha, no arsenal, na Alf\u00e2ndega, nos trapiches. Em toda parte o mesmo sil\u00eancio, a mesma quieta\u00e7\u00e3o, a mesma clama profunda.<\/p>\n<p>A noite parecia n\u00e3o acabar, n\u00e3o ter fim: era como uma eternidade. Arrastado pela mar\u00e9, um objeto ia flutuando \u00e1guas abaixo, vagarosamente. &#8211; Algum trapo velho, pensou o negro, talvez mesmo, quem sabe? algum \u201ccorpo\u201d&#8230;<\/p>\n<p>E nada de clarear, nada de amanhecer; j\u00e1 se ia impacientando! Que diabo fazia ele que n\u00e3o tomava uma resolu\u00e7\u00e3o? Era para isso que tinha fugido, pra estar ali de boca aberta, caindo de sono? Mas n\u00e3o havia rem\u00e9dio, sen\u00e3o esperar, n\u00e3o havia outro jeito. Ir a nado? Qual! E as sentinelas?&#8230; Paci\u00eancia, paci\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p>Duas horas no rel\u00f3gio da Candel\u00e1ria. Apenas uma voz bradou, long\u00ednqua e desolada, sem eco: &#8211; Alerta!<\/p>\n<p>Bom-Crioulo recostou a cabe\u00e7a no guindaste, b\u00eabedo de sono, um peso nas p\u00e1lpebras, uma indisposi\u00e7\u00e3o no corpo; e, n\u00e3o obstante as \u201ccoceiras\u201d, que a\u00ed vinham-lhe subindo nas pernas, como um formigueiro, adormeceu ao rumorzinho da \u00e1gua no cais.<\/p>\n<p>Quando ergueu a vista, momentos depois, era quase dia. Come\u00e7ava o tumulto de escaleres e catraieiros para os lados da Alf\u00e2ndega. Ouvia-se o barulho de remos e o arquejar de uma lancha deitando vapor fora. Os \u00d3rg\u00e3os, indistintos ainda na meia sombra do alvorecer, iam pouco a pouco evidenciando sua bela configura\u00e7\u00e3o de harm\u00f4nium colossal. Uma ou outra luzinha p\u00e1lida no anfiteatro da cidade. Tinha-se apagado a ilumina\u00e7\u00e3o. No mosteiro de S. Bento um sino fanhoso vibrava matinas desde as tr\u00eas horas, insistentemente, num alvoro\u00e7o de igrejinha d\u2019aldeia que acordas proclamando os triunfos da cristandade. A bordo, nos navios de guerra, cornetas preludiavam o hino do amanhecer. Do outro lado da ba\u00eda, em Niter\u00f3i, uma n\u00e9voa fina, transparente, como a evapora\u00e7\u00e3o de um grande lago, fraldejava as montanhas, ocultando a paisagem de um extremo a outro. E l\u00e1 fora da Barra, para al\u00e9m do P\u00e3o d\u2019\u00c1\u00e7ucar, um listr\u00e3o cor de rosa, pouco apouco ia-se tornando mais vivo, mais fulgurante no c\u00e9u l\u00edvido&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo circunvagou o olhar, muito admirado, muito surpreendido, como se estivesse num lugar estranho, e a primeira palavra que lhe veio \u00e0 boca foi uma obscenidade: &#8211; \u201c&#8230; que os pariu! Ia-se desgra\u00e7ando!&#8230; M\u00e3os \u00e0 obra! Felizmente ainda n\u00e3o era dia claro&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Nenhum bote, nenhuma embarca\u00e7\u00e3o, ali perto, no canal, O movimento era todo na vizinhan\u00e7a da Alf\u00e2ndega, no cais dos Mineiros. Passavam escaleres de guerra: Bom-Crioulo escondia-se para n\u00e3o ser visto. &#8211; Diabo! diabo! Tudo por causa de um grumetezinho!&#8230;<\/p>\n<p>De repente, ouviu barulho n\u2019\u00e1gua &#8211; aproximou-se: era um bote de ganho.<\/p>\n<p>&#8211; \u201cAt\u00e9 que enfim! Ora at\u00e9 que enfim!\u201d<\/p>\n<p>A pequena embarca\u00e7\u00e3o vinha-se chegando para a ilha sem toldo, remada por um galego de su\u00ed\u00e7as, meio velho. Trazia \u00e0 popa, no recosto do paineiro, o d\u00edstico &#8211; Luis de Cam\u00f5es, por cima de uma figura \u00e0 \u00f3leo, que tanto podia ser a do grande \u00e9pico como a de qualquer outra pessoa barbada, em cuja fronte se houvesse desenhado uma coroa de louros. Nessa infame garatuja, o poeta tinha o olho esquerdo vazado, o que, afinal de contas, n\u00e3o interessava ao negro.<\/p>\n<p>&#8211; Quer me levar ao cais? perguntou Bom-Crioulo ao portugu\u00eas,<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 j\u00e1! disse o homem atracando. O Luis de Cam\u00f5es n\u00e3o dorme.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos.<\/p>\n<p>&#8211; Pode embarcar.<\/p>\n<p>&#8211; Upa!<\/p>\n<p>E, com um salto, Bom-Crioulo embarcou. Estava, enfim, livre de perigo; &#8211; \u201c&#8230; que os pariu!\u201d<\/p>\n<p>Da\u00ed a instante perdia-se no labirinto da cidade, marchando no seu passo largo, muito desenvolto, quebrando ruas, dobrando esquinas, \u201cbordejando\u201d&#8230;<\/p>\n<p>Estava um dia lindo, lindo! Um dia de galas no azul e nas montanha, um dia e liberdade!<\/p>\n<h4><a name=\"12\">Cap\u00edtulo XII<\/a><\/h4>\n<p>Quase nenhum movimento ainda na Rua da Miseric\u00f3rdia; sujeitos mal vestidos, oper\u00e1rios e ganhadores, desciam com ar miser\u00e1vel e bisonho de ovelhas mansas que seguem fatalmente, num passo ronceiro, numa lentid\u00e3o arrastada, numa quase indol\u00eancia de eunucos. A vaca do leite, com as grandes tetas pesadas, um chocalho ao pesco\u00e7o, ia no seu giro quotidiano, muito d\u00f3cil, o ventre bojudo, uma baba a escorrer-lhe do focinho em fios d\u2019espuma. A carrocinha do lixo, pintada de azul, andava na sua faina matinal, parando aqui, parando acol\u00e1.<\/p>\n<p>Nenhum esto de vista quebrava a monotonia do quarteir\u00e3o; somente o ru\u00eddo dos bondes e uma ou outra voz falando alto. Pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emana\u00e7\u00e3o agressiva de mict\u00f3rio p\u00fablico, envenenando a atmosfera, intoxicando a respira\u00e7\u00e3o. Os primeiros reflexos do sol batiam nas vidra\u00e7as obliquamente acordando os moradores, colorindo a frente das casas em pinceladas de ouro, dando brilhos de cristal puro ao granito dos portais, doendo na vista com fulgura\u00e7\u00f5es quentes de rev\u00e9rbero; e j\u00e1 se come\u00e7ava a sentir um calorzinho brando, uma tepidez morrinhenta, um princ\u00edpio de morma\u00e7o.<\/p>\n<p>Abriam-se botequins pregui\u00e7osos, lojas de neg\u00f3cio, estabelecimentos de madeira, carvoarias, quitandas.<\/p>\n<p>O movimento, por\u00e9m, aumentava com a luz; multiplicavam-se os transeuntes numa confus\u00e3o bizarra de cores e toilettes: daqui, dali, surgiam caras estranhas, fisionomias amarrotadas pelo sono, como abelhas de um corti\u00e7o.<\/p>\n<p>A vida recome\u00e7ava.<\/p>\n<p>Bom-Crioulo foi encurtando o passo, diminuindo a marcha, calculando a dist\u00e2ncia, lento e lento, rumo do sobradinho. J\u00e1 o avistava: era o mesmo de outrora, o mesm\u00edssimo, com as duas janelas da frente, com o seu aspecto antigo, do tempo del-rei, e l\u00e1, no alto, l\u00e1 cima, no telhado, a trapeira sumindo-se, enterrando-se, dependurada quase&#8230;<\/p>\n<p>Veio-lhe um n\u00e3o sei qu\u00ea, uma saudade, como cousa que lhe entrasse n\u2019alma, a dor de uma ingratid\u00e3o: ali \u00e9 que ele se juntara ao outro com uma confian\u00e7a de noivos; ali \u00e9 que ele tinha passado o melhor da sua vida; ali \u00e9 que ele tinha aprendido a amar, a \u201cquerer bem\u201d&#8230;<\/p>\n<p>E murmurava entre dentes, banhado no efl\u00favio da suas reminisc\u00eancias, levado pelo fio inquebrant\u00e1vel das doces recorda\u00e7\u00f5es: &#8211; \u201cAquele sobradinho, aquele sobradinho!&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Lembrava-se claramente, nitidamente, de quando ele e o pequeno voltaram do cruzeiro e l\u00e1 foram juntinhos para o quarto de cima, onde morrera, dias antes, o portugu\u00eas, de febre amarela. Oh! tinha tudo na cabe\u00e7a; lembrava-se bem: a primeira noite, os modos ing\u00eanuos de Aleixo, a cena da vela&#8230; &#8211; tudo estava gravado em sua imagina\u00e7\u00e3o, tudo!<\/p>\n<p>Enchiam-se-lhe os olhos d\u2019\u00e1gua, turvava-se-lhe a vista, nem era bom pensar&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo sentia-se mais do que nunca abandonado, mais do que nunca lhe do\u00eda fundo o desprezo do grumete, esse desprezo calculado, proposital, volunt\u00e1rio, com que Aleixo o esmagava, o ludibriava impunemente. \u201c-Ah! era assim, hein? Pois havia de lhas pagar hoje ou amanh\u00e3. A gente \u00e9 como um copo d\u2019\u00e1gua: vai-se enchendo, vai-se enchendo, at\u00e9 n\u00e3o poder mais!\u201d<\/p>\n<p>Faiscavam-lhe as retinas como duas brasas, como dois fogachos, por tr\u00e1s da n\u00e9voa \u00famida das l\u00e1grimas; todo ele vibrava, todo ele tremia como um epil\u00e9ptico: vinham-lhe c\u00f3leras, \u00edmpetos, afli\u00e7\u00f5es&#8230; Quase n\u00e3o se podia conter diante daquela casa, que era como o t\u00famulo mesmo das suas ilus\u00f5es. Transfigurava-se, enlouquecia de \u00f3dio, espumava de c\u00f3lera, de raiva, de ci\u00fame! O aspecto das cousas, o mundo exterior, a gente que passava para o trabalho, tudo quanto seus olhos viam naquela hora de amargura, o pr\u00f3prio sol, a pr\u00f3pria luz torrencial do dia causava-lhe um t\u00e9dio imenso; arrancando-lhe blasf\u00eamias da boca entreaberta num sorriso agoniado e convulso. N\u00e3o tinha coragem de fitar, de demorar os olhos no sobradinho: baixava-os logo gelado: &#8211; \u201cEra ali mesmo, tal e qual!\u201d<\/p>\n<p>Come\u00e7ou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de insetos, uma cousa desagrad\u00e1vel, inc\u00f4moda e amofinadora; tremiam-lhe as pernas; ia-se-lhe faltando a respira\u00e7\u00e3o. Era um mal-estar, um nervoso, uma afli\u00e7\u00e3o, um del\u00edrio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue&#8230; Passou a m\u00e3o nos olhos, tr\u00eamulo, encostando-se \u00e0 coluna de um g\u00e1s; quase n\u00e3o podia ter-se em p\u00e9: estava sem for\u00e7as, o hospital enfraquecera-o, debilitara-o horrorosamente, o \u201cmaldito hospital\u201d. -\u201cNunca mais havia de l\u00e1, por os p\u00e9s, nunca mais!\u201d<\/p>\n<p>A porta do sobrado estava fechada; em cima a meia vidra\u00e7a de uma janela conservava-se aberta; nem parecia morar gente ali: uma imobilidade sepulcral, desoladora!<\/p>\n<p>Bom-Crioulo rodou nos calcanhares, at\u00f4nito, sem consci\u00eancia do meio em que estava, o olhar perdido ao longe, na rua, e foi andando, andando, muito devagar por ali acima.<\/p>\n<p>De repente: &#8211; \u201cAh! a padaria!\u201d J\u00e1 se n\u00e3o lembrava; era a mesma tamb\u00e9m, a mesm\u00edssima, com seu grande letreiro na fachada &#8211; Padaria Lusitana, com suas tr\u00eas portas, debaixo de uma sobrado, quase defronte da portuguesa. Vinha l\u00e1 dos fundos um cheiro bom de massa, um apetitoso cheiro de p\u00e3o quente.<\/p>\n<p>Enfiou pelo estabelecimento, e, sem reflexionar, dirigiu-se ao empregado, um muito vivo, rapazola, que, pelos modos, parecia de al\u00e9m-mar.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor sabe me dizer se ainda mora ali defronte, no sobradinho, uma portuguesa?<\/p>\n<p>&#8211; D. Carolina?<\/p>\n<p>&#8211; Essa mesma: uma gorda, bonitona&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mora, pois n\u00e3o! disse o outro com um qu\u00ea de mal\u00edcia nos olhos.<\/p>\n<p>&#8211; E um rapazinho, marinheiro, de olhos azuis&#8230;?<\/p>\n<p>&#8211; Tamb\u00e9m, Acordam tarde. Ultimamente a porta vive fechada. Costumam sair juntos \u00e0 noite&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Saem juntos?<\/p>\n<p>&#8211; Pois n\u00e3o! A mim me parece que o menino \u00e9 bem espertinho&#8230;<\/p>\n<p>Bom-Crioulo estremeceu. Ia saber tudo agora, pela boca do caixeiro: a ocasi\u00e3o era a melhor porque o dono do estabelecimento andava fora.<\/p>\n<p>&#8211; O senhor n\u00e3o estar\u00e1 enganado? tornou ele muito curioso, precipitadamente, numa voz quase humilde, o olhar grudado no rapaz.<\/p>\n<p>E entrou a explicar, a dizer como era a portuguesa, como era o marinheiro: &#8211; Uma gorda, bonitona, muito vistosa, d\u2019olhos grandes, que alugava quartos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Essa mesma, homem!<\/p>\n<p>&#8211; O outro n\u00e3o tinha barba, era meio crian\u00e7a ainda, olhos azuis, muito alvo, bonitinho&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Exatamente, informou o caixeiro. Foram ao teatro, ontem, \u00e0 Tomada da Bastilha. Conhe\u00e7o muito D. Carolina. Dizem at\u00e9 que est\u00e1 amigada com o pequeno&#8230;<\/p>\n<p>Quase as mesmas palavras do Herculano! A mesma hist\u00f3ria de mulher! Bom-Crioulo ficou im\u00f3vel, calado, perdido nas suas id\u00e9ias. &#8211; Aleixo amigado com a portuguesa, com a D. Carolina! Era inacredit\u00e1vel, era um desaforo sem nome, um desrespeito, uma falta de vergonha, um esc\u00e2ndalo!<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 admirado? perguntou o rapaz fitando o negro, cujo olhar tinha agora uma dolorosa, uma extraordin\u00e1ria, uma indiz\u00edvel express\u00e3o de melancolia e surpresa. N\u00e3o se admire, n\u00e3o, que \u00e9 que o todos dizem&#8230;<\/p>\n<p>E logo, interrompendo-se, com o bra\u00e7o estendido:<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, nem de prop\u00f3sito: a\u00ed vem ele, o pequeno&#8230;<\/p>\n<p>Aleixo ia saindo porta fora, tranq\u00fcilamente, apertado na sua roupa azul e branca de marinheiro, a camisa decotada, a cal\u00e7a justa.<\/p>\n<p>O negro teve um daqueles \u00edmpetos medonhos, que o acometiam \u00e0s vezes; garganteou um &#8211; oh! rouco, abafado, comprimido, e, ligeiro, furioso, perdido de c\u00f3lera, sem dar tempo a nada, precipitou-se, numa vertigem de seta, para a rua. N\u00e3o via nada, tresvariado, como se de repente lhe houvesse fugido a luz dos olhos e a raz\u00e3o do c\u00e9rebro. Precipitou-se, e, esbarrando com o grumete, fintou-o pelo bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Tremia numa crise formid\u00e1vel de desespero, os olhos congestionados, um suor frio a porejar-lhe da testa negra e reluzente.<\/p>\n<p>O pequeno estacou surpreendido:<\/p>\n<p>&#8211; Sou eu mesmo, rugiu Bom-Crioulo, sou eu mesmo! Pensavas que era s\u00f3 meter-te com a portuguesa, hein? Olha para esta cara, olha como estou magro, como estou acabado&#8230; Olha, olha!<\/p>\n<p>E apertava bruscamente o outro, sacudindo-lhe como se o quisesse atirar no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; V\u00ea l\u00e1 se me conheces, anda! Olha bem para esta cara!<\/p>\n<p>O efebo debatia-se, p\u00e1lido, aterrado:<\/p>\n<p>&#8211; Me largue! N\u00e3o me provoque, sen\u00e3o eu grito!<\/p>\n<p>&#8211; Anda pr\u2019a\u00ed, grita, se \u00e9s capaz! Grita, safado, sem-vergonha&#8230; mal-agradecido!<\/p>\n<p>Sua voz tomava uma inflex\u00e3o voluptuosa e terr\u00edvel ao mesmo tempo; a palavra sa\u00eda-lhe gaguejada, estuporada e tr\u00eamula.<\/p>\n<p>&#8211; Grita, anda!<\/p>\n<p>O outro mudava de cores, recuava tr\u00f4pego, a l\u00edngua presa, quase a chorar, numa afli\u00e7\u00e3o de culpado, o olhar azul submisso refletindo a imagem do negro:<\/p>\n<p>&#8211; Me largue, repetiu. Eu lhe pe\u00e7o: me largue!<\/p>\n<p>Transeuntes olhavam-nos de banda e voltavam-se para os ver naquela posi\u00e7\u00e3o, rosto a rosto, juntinhos, agarrados misteriosamente. Porque Bom-Crioulo n\u00e3o falava alto, que todos ouvissem, n\u00e3o dava esc\u00e2ndalo, n\u00e3o fazia alarme: sua voz era um rugido cavernoso e hist\u00e9rico, um regougo abafado. long\u00ednquo e profundo.<\/p>\n<p>&#8211; Grita, anda, grita pela vaca da Carolina!<\/p>\n<p>&#8211; Me solte! continuou o efebo tr\u00eamulo, acovardado. Me largue!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o te largo, n\u00e3o, coisinha ruim, n\u00e3o te largo, n\u00e3o! Bom-Crioulo, este que aqui est\u00e1, n\u00e3o \u00e9 o que tu pensas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas eu n\u00e3o fiz nada! Me solte, que \u00e9 tarde!<\/p>\n<p>Os olhos do negro tinham uma express\u00e3o feroz e amargurada, muito rubros, cruzando-se, \u00e0s vezes, num estrabismo nervoso de alucinado.<\/p>\n<p>Um sujeito parou defronte, a olh\u00e1-los; vieram depois outras pessoas, outros curiosos; um marinheiro da Capitania, um italiano carregado de flandres, um guarda municipal, crian\u00e7as, mulheres&#8230;<\/p>\n<p>Houve logo um fecha-fecha, um tumulto, um alvoro\u00e7o. Trilaram apitos; vozes gritavam &#8211; rolo! rolo! e a multid\u00e3o crescia no meio da rua, procurando lugar, empurrando, abrindo caminho, precipitando-se, formando um grande c\u00edrculo de gentes ao redor dos dois marinheiros, invis\u00edveis agora.<\/p>\n<p>Os bondes paravam. Senhoras vinham \u00e0 janela, compondo os cabelos, numa \u00e2nsia de novidade. Latiam c\u00e3es. Um movimento cheio de rumores, uma balb\u00fardia! Circulavam boatos aterradores, not\u00edcias vagas, incompletas. Inventavam-se hist\u00f3rias de assassinato, de cabe\u00e7a quebrada, de sangue. Cada olhar, cada fisionomia era uma interroga\u00e7\u00e3o. Chegavam soldados, marinheiros, policiais. Fechavam-se portas com estrondo.<\/p>\n<p>Alguma cousa extraordin\u00e1ria tinha havido porque, de repente, o povo recuou, abrindo passagem, num atropelo.<\/p>\n<p>&#8211; Abre! abre! diziam soldados erguendo o rifle.<\/p>\n<p>De cima, das casa, m\u00e3os apontavam pra baixo.<\/p>\n<p>E D. Carolina tamb\u00e9m chegara \u00e0 janela com a vozeria, com o barulho, viu, entre duas filas de curiosos, o grumete ensang\u00fcentado&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Jesus! Meu Deus!<\/p>\n<p>Uma nuvem escureceu-lhe a vista, correu um frio pelo corpo, e toda ela tremia horrorizada, branca, im\u00f3vel.<\/p>\n<p>Muitas vistas dirigiam-se para o sobradinho.<\/p>\n<p>Aleixo passava nos bra\u00e7os de dois marinheiros, levado como um fardo, o corpo mole, a cabe\u00e7a pendida para tr\u00e1s, roxo, os olhos im\u00f3veis, a boca entreaberta. O azul-escuro da camisa e a cal\u00e7a branca tinha grandes n\u00f3doas vermelhas. O pesco\u00e7o estava envolvido num chuma\u00e7o de panos. Os bra\u00e7os caiam-lhe, sem vida, inertes, bambos, numa frouxid\u00e3o de membros mutilados.<\/p>\n<p>A rua enchia-se de gente pelas janelas, pelas portas, pelas cal\u00e7adas. Era uma curiosidade tumultuosa e flagrante a saltar dos olhos, um desejo irresist\u00edvel de ver, uma irresist\u00edvel atra\u00e7\u00e3o, uma \u00e2nsia!<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se importava com o \u201co outro\u201d, com o negro, que l\u00e1 ia, rua abaixo, triste e desolado, entre as baionetas, \u00e0 luz quente da manh\u00e3: todos, por\u00e9m, queriam \u201cver o cad\u00e1ver\u201d, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga&#8230;<\/p>\n<p>Mas, um carro rodou, todo l\u00fagubre, todo fechado, e a onda dos curiosos foi se espalhando, se espalhando, t\u00e9 cair tudo na monotonia habitual, no eterno vaiv\u00e9m.<\/p>\n<p>Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clique nos links abaixo para navegar no cap\u00edtulo desejado: Cap\u00edtulo I Cap\u00edtulo II Cap\u00edtulo III Cap\u00edtulo IV Cap\u00edtulo V Cap\u00edtulo VI Cap\u00edtulo VII Cap\u00edtulo VIII Cap\u00edtulo IX Cap\u00edtulo X Cap\u00edtulo XI Cap\u00edtulo XII Cap\u00edtulo I A velha e gloriosa corveta &#8211; que pena! &#8211; j\u00e1 nem sequer lembrava o mesmo navio d\u2019outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":90293,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[370],"tags":[],"class_list":["post-90291","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-obras-literarias"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Bom Crioulo - Adolfo Caminha, Obra Bom Crioulo - Adolfo Caminha<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Bom Crioulo - Adolfo Caminha, Obra, Cap\u00edtulos, Romance, 1895, Amaro, D Carolina, Aleixo, Realismo, Naturalismo, Bom Crioulo - Adolfo Caminha\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"noindex, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Bom Crioulo - Adolfo Caminha, Obra Bom Crioulo - Adolfo Caminha\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Bom Crioulo - Adolfo Caminha, Obra, Cap\u00edtulos, Romance, 1895, Amaro, D Carolina, Aleixo, Realismo, Naturalismo, Bom Crioulo - Adolfo Caminha\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/obras-literarias\/bom-crioulo-adolfo-caminha\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Portal S\u00e3o Francisco\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/Portal-S%c3%a3o-Francisco-230719150302226\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2016-12-23T10:07:39+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2016-12-23T10:17:05+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/bom-crioulo.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"200\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"200\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Augusto Abreu\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"193 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/bom-crioulo-adolfo-caminha#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/linguagens-e-codigos\\\/literatura\\\/obras-literarias\\\/bom-crioulo-adolfo-caminha\"},\"author\":{\"name\":\"Augusto Abreu\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/lab.fabricadelandings.com.br\\\/portalsaofrancisconovo\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/7bbc8022c9c2c63e2e4afadfde4db578\"},\"headline\":\"Bom Crioulo &#8211; 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