{"id":89611,"date":"2016-12-20T08:15:41","date_gmt":"2016-12-20T10:15:41","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=89611"},"modified":"2021-09-02T12:10:05","modified_gmt":"2021-09-02T14:10:05","slug":"principais-ideias-anarquistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/historia\/historia-geral\/principais-ideias-anarquistas","title":{"rendered":"Principais Ideias Anarquistas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Anarquismo\u00a0<\/strong>\u00e9 geralmente identificado como caos ou \u201cbagun\u00e7a\u201d, por ser uma doutrina pol\u00edtica que defende a aboli\u00e7\u00e3o de qualquer tipo de governo formal; mas, na verdade n\u00e3o \u00e9 bem isso.<\/p>\n<p>Etimologicamente esta palavra \u00e9 formada pelo sufixo de archon, que em grego significa governante, e an, que significa sem. Ou seja, anarquismo significa ao p\u00e9 da letra \u201csemgovernante\u201d.<\/p>\n<p>A principal id\u00e9ia que rege o\u00a0<strong>anarquismo<\/strong>\u00a0\u00e9 de que o governo \u00e9 totalmente desnecess\u00e1rio, violento e nocivo, tendo em vista que se toda a popula\u00e7\u00e3o pode, voluntariamente, se organizar e sobreviver em paz e harmonia.<\/p>\n<p>A proposta dos anarquistas \u00e9 contradit\u00f3ria ao sistema capitalista mas, n\u00e3o deve ser confundida com o individualismo pois, como j\u00e1 foi dito, est\u00e1 fundamentada na coopera\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o da realidade por parte da comunidade.<\/p>\n<p>De acordo com os principais pensadores anarquistas, o homem \u00e9 um ser que por natureza \u00e9 capaz de viver em paz com seus semelhantes mas \u00f3rg\u00e3os governamentais acabam inibindo esta tend\u00eancia humana de cooperar com o resto da sociedade.<\/p>\n<p>Com isso, podemos perceber que uma sociedade anarquista n\u00e3o \u00e9 algo totalmente descontrolado como todos pensam, muito pelo contr\u00e1rio, esta \u00e9 uma sociedade bem estruturada e organizada, s\u00f3 que esta organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 baseada neste instinto natural do homem. Ou seja, ela depende da autodisciplina e coopera\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, e n\u00e3o uma decis\u00e3o hier\u00e1rquica.<\/p>\n<p>A sociedade cria uma constru\u00e7\u00e3o artificial, na qual a ordem \u00e9 imposta de cima para baixo, como em uma pir\u00e2mide. J\u00e1 no anarquismo a sociedade n\u00e3o seria uma estrutura e sim um organismo vivo que cresce em fun\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p>Por isso, os anarquistas abominam a forma\u00e7\u00e3o de qualquer partido pol\u00edtico pois estes acabam com a espontaneidade de a\u00e7\u00e3o, burocratizando-se e exercendo alguma forma de poder sobre o resto da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eles tamb\u00e9m temem as estruturas te\u00f3ricas na medida em que estas podem se tornar autorit\u00e1rias ou \u201csentenciosas\u201d.<\/p>\n<p>Da\u00ed o anarquismo ser conhecido como algo vivo, e n\u00e3o uma simples doutrina, a aus\u00eancia de poder e controle na m\u00e3o de alguns torna o movimento anarquista algo fr\u00e1gil e flex\u00edvel.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica ao poder do Estado leva \u00e0 tentativa de inverter a pir\u00e2mide hier\u00e1rquica de poder, o que formaria um sociedade descentralizada que procura estabelecer um rela\u00e7\u00e3o de forma mais direta poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A responsabilidade come\u00e7a nos n\u00facleos vitais de civiliza\u00e7\u00e3o, onde tamb\u00e9m s\u00e3o tomadas as decis\u00f5es, local de trabalho, bairros, etc..<\/p>\n<p>Quando estas decis\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis de ser tomadas, formam-se federa\u00e7\u00f5es. O importante, por\u00e9m, \u00e9 manter a participa\u00e7\u00e3o e aprova\u00e7\u00e3o de todas as pessoas envolvidas.<\/p>\n<p>Os anarquistas criticam a forma de governar do parlamentarismo pois a representa\u00e7\u00e3o corre o risco de entregar o poder \u00e0 um homem inescrupuloso e h\u00e1bil, que use as paix\u00f5es do povo, para sua auto promo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando as decis\u00f5es abrangem \u00e1reas mais amplas s\u00e3o convocadas assembl\u00e9ias, com intuito de nomear delegados que est\u00e3o sujeitos \u00e0 revoga\u00e7\u00e3o de seus cargos.<\/p>\n<p><strong>Apesar de o anarquismo ser diferente na Europa e Brasil, ele tinha uma mensagem comum nos dois:<\/strong>\u00a0a liberdade e a igualdade s\u00f3 ser\u00e3o conquistadas com o fim do capitalismo e do Estado que o defende.<\/p>\n<p>O anarquismo considerava, assim como o socialismo, que a propriedade privada era o principal problema da sociedade, argumentando que os \u201crecursos naturais da terra\u201d pertencem \u00e0 todos, ou seja, sua apropria\u00e7\u00e3o para uso pessoal \u00e9 roubo.<\/p>\n<p>O sistema capitalista causou o empobrecimento e explora\u00e7\u00e3o de muitos para a riqueza e avareza de poucos.<\/p>\n<p>Os fortes obrigaram os fracos \u00e0 servir e em uma luta incessante pela riqueza as diversas na\u00e7\u00f5es entraram em guerra. Assim, claramente, podemos perceber que o capitalismo foi criado para atender \u00e0 necessidade de uma classe dominadora e exploradora e n\u00e3o ao resto da sociedade.<\/p>\n<p>A socializa\u00e7\u00e3o da propriedade, unicamente, n\u00e3o pode mudar nada, pois acabar com a propriedade privada sem acabar com o governo burocr\u00e1tico s\u00f3 faria com que se criasse uma classe privilegiada em sua pr\u00f3pria preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todas as formas de governo acabam usando de determinada doutrina para \u201croubar\u201d a liberdade do homem e satisfazer a \u201ccasta governante\u201d. Todas, usam da repress\u00e3o policial ou militar para impor a sua vontade diante do povo, e, as leis, de um modo geral, s\u00e3o decretadas pelos poderosos para legitimar sua tirania.<\/p>\n<p>Na sociedade capitalista quando os pobres protestam contra os ricos, a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito entram em a\u00e7\u00e3o; mais tarde estes pobres reprimidos t\u00eam de pagar as despesas destes dois \u00f3rg\u00e3os e ainda do judici\u00e1rio, que servem para dominar os trabalhadores.<\/p>\n<p>Os anarquistas insistem que os meios de propaganda e educa\u00e7\u00e3o recebem o apoio e o controle do Estado, para perpetuar os objetivos deste.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o, \u00e9 uma important\u00edssima ferramenta para os burgueses pois pac\u00edfica o trabalhador, levando- o a aceitar a mis\u00e9ria sem protestos, induzindo-o a desistir de sua liberdade e aceitar a domina\u00e7\u00e3o dos que \u201croubam\u201d o fruto de seu trabalho.<\/p>\n<p>As escolas s\u00e3o usadas para ensinar aos homens a obedi\u00eancia \u00e0s institui\u00e7\u00f5es j\u00e1 formadas; homens s\u00e3o treinados para adorar o seu pa\u00eds, dispondo- se sempre a dar sua vida pelos interesses de sus exploradores.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, somente eliminando o Estado e a propriedade privada \u00e9 que o homem ser\u00e1 totalmente livre, de suas car\u00eancias, domina\u00e7\u00e3o, para desenvolver seu potencial ao m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>Em uma sociedade anarquista as leis e a viol\u00eancia ser\u00e3o desnecess\u00e1rias pois os homens livres ser\u00e3o capazes de cooperar para o bem da humanidade.<\/p>\n<p>Nessa sociedade, a produ\u00e7\u00e3o seria feita de acordo com as necessidades da popula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o para o enriquecimento de alguns poucos; com o fim das propriedades privadas n\u00e3o haveriam mais assaltos, ningu\u00e9m iria cobi\u00e7ar o que \u00e9 dos outros (pois nada seria dos outros); acabaria a explora\u00e7\u00e3o das mulheres, cada um poderia amar \u00e0 quem quisesse, independentemente de sua classe social e grau de riqueza, sem ser necess\u00e1rio o casamento; n\u00e3o existiria mais a viol\u00eancia e nem as guerras, ningu\u00e9m mais lutaria por riquezas e n\u00e3o existiria mais o nacionalismo, racismo, car\u00eancia e competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 anarquistas que praticam atentados pol\u00edticos, n\u00e3o \u00e9 em fun\u00e7\u00e3o desta sua posi\u00e7\u00e3o, mas sim uma resposta aos abusos, persegui\u00e7\u00f5es e \u00e0 opress\u00e3o sofrida por eles. N\u00e3o s\u00e3o, portanto, atos anarquistas e sim de revolta inevit\u00e1vel por parte dos explorados contra a viol\u00eancia dos altos escal\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>LIBERDADE E ANARQUIA:\u00a0<\/strong>SUAS MAIS ANTIGAS MANIFESTA\u00c7\u00d5ES E AS CONCEP\u00c7\u00d5ES LIBERT\u00c1RIAS AT\u00c9 1798<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da id\u00e9ia anarquista \u00e9 insepar\u00e1vel da hist\u00f3ria do desenvolvimento, do progresso e das aspira\u00e7\u00f5es de melhoria dos povos, ambiente prop\u00edcio que deu origem a esta compreens\u00e3o de vida livre, pr\u00f3pria dos anarquistas, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel mediante uma ruptura completa dos la\u00e7os autorit\u00e1rios e, ao mesmo tempo, quando os sentimentos sociais (solidariedade, reciprocidade, generosidade, etc.) estejam bem desenvolvidos e tenham livre expans\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta compreens\u00e3o manifesta-se por in\u00fameras formas na vida pessoal e coletiva de indiv\u00edduos e grupos, a come\u00e7ar pela fam\u00edlia, visto que sem ela a conviv\u00eancia humana n\u00e3o seria poss\u00edvel. Ao mesmo tempo, a autoridade, isto \u00e9, a tradi\u00e7\u00e3o, o costume, a lei, a arbitrariedade, etc., imp\u00f4s, a partir da humaniza\u00e7\u00e3o dos animais que formam a esp\u00e9cie humana, sua garra de ferro sobre um sem-n\u00famero de inter-rela\u00e7\u00f5es, fato este que, sem d\u00favida, deriva de uma animalidade mais antiga ainda. O caminho para o progresso que, indubitavelmente, \u00e9 feito atrav\u00e9s dos tempos, \u00e9 uma luta de liberta\u00e7\u00e3o dessas cadeias e obst\u00e1culos autorit\u00e1rios.<\/p>\n<p>As perip\u00e9cias dessa luta s\u00e3o t\u00e3o variadas, a luta \u00e9 t\u00e3o cruel e \u00e1rida que relativamente poucos homens conseguiram atingir aquela compreens\u00e3o anarquista a que me referi acima. Aqueles, inclusive, que lutaram por liberdades parciais n\u00e3o a compreenderam sen\u00e3o rara e insuficientemente e, em troca, at\u00e9 procuraram conciliar as sua novas liberdades com a conserva\u00e7\u00e3o de antigas autoridades, quer se mantivessem \u00e0 margem desse autoritarismo, quer pensassem que este lhes seria \u00fatil e capaz de defender e conservar as liberdades j\u00e1 adquiridas.<\/p>\n<p>Nos tempos modernos tais homens defendem a liberdade constitucional ou democr\u00e1tica, mas sob a prote\u00e7\u00e3o ou cust\u00f3dia do governismo. Da mesma forma, no terreno social, essa ambig\u00fcidade produziu o estatismo social, um socialismo imposto autoritariamente e, por isso mesmo, desprovido, segundo pensam os anarquistas, de sua verdadeira vida que \u00e9 a solidariedade, a reciprocidade, a generosidade, que somente floresce num ambiente de liberdade.<\/p>\n<p>Antigamente, pois, o reino do autoritarismo foi generalizado, os esfor\u00e7os amb\u00edguos, mistos (liberdade pela autoridade), foram raros, por\u00e9m cont\u00ednuos.<\/p>\n<p>Uma compreens\u00e3o anarquista pelo menos parcial e mais ainda integral, deve ter sido muito rara, tanto porque exigia condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para nascer, como porque foi cruelmente perseguida e eliminada pela for\u00e7a ou desgastada, desamparada, nivelada pela rotina. No entanto, se da promiscuidade tribal chegou-se \u00e0 vida privada relativamente respeitada dos indiv\u00edduos, n\u00e3o foi s\u00f3 como resultado de causas econ\u00f4micas, mas constituiu um primeiro passo na passagem da tutela \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o. E de sentimentos paralelos ao anti-estatismo dos homens modernos, passaram os homens desses tempos antigos a estas concep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Desobedi\u00eancia, desconfian\u00e7a da tirania e rebeli\u00e3o, levaram muitos indiv\u00edduos en\u00e9rgicos a lutarem por uma independ\u00eancia que souberam defender ou por ela sucumbiram.<\/p>\n<p>Outros puderam subtrair-se \u00e0 autoridade devido \u00e0 sua intelig\u00eancia e capacidades especiais e se, em dado momento, os homens passaram da n\u00e3o-propriedade (acessibilidade geral) e da propriedade coletiva (da tribo ou dos residentes locais) \u00e0 propriedade privada, n\u00e3o foi somente devido \u00e0 ambi\u00e7\u00e3o da posse, mas tamb\u00e9m a necessidade, \u00e0 vontade de uma independ\u00eancia assegurada que os dever\u00e1 ter impulsionado.<\/p>\n<p>Os pensadores anarquistas integrais desses tempos antigos, se os houve, s\u00e3o desconhecidos. \u00c9, por\u00e9m, caracter\u00edstico o fato de que todas as mitologias conservaram a mem\u00f3ria de rebeli\u00f5es e, inclusive, de lutas nunca terminadas de uma ra\u00e7a de rebeldes contra os deuses mais poderosos. S\u00e3o os Tit\u00e3s que assaltam o Olimpo, Prometeu desafiando Zeus, as for\u00e7as sombrias que na mitologia n\u00f3rdica provocam o \u201cCrep\u00fasculo dos Deuses\u201d e \u00e9 o diabo que na mitologia crist\u00e3 nunca cede e luta a toda hora dentro de cada indiv\u00edduo contra o bom Deus, e \u00e9 esse L\u00facifer rebelde que Bakunin tanto respeitava e muitos outros.<\/p>\n<p>Se os sacerdotes que manipulavam esses relatos tendenciosos com interesse conservador n\u00e3o eliminaram esses atentados perigosos \u00e0 onipot\u00eancia dos seus deuses \u00e9 porque as tradi\u00e7\u00f5es que lhes serviam de base deviam estar t\u00e3o arraigadas na alma popular que n\u00e3o se atreveram a faz\u00ea-lo e apenas se contentaram em desfigurar os fatos insultando os rebelde ou imaginando, mais tarde, interpreta\u00e7\u00f5es fant\u00e1sticas para intimidar os crentes. Tal fez, sobretudo a mitologia crist\u00e3 com seu pecado original; a queda do homem; sua reden\u00e7\u00e3o e o ju\u00edzo final. Essa consagra\u00e7\u00e3o e apologia da escravid\u00e3o dos homens, das prerrogativas dos sacerdotes como mediadores e essa posterga\u00e7\u00e3o das reivindica\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a para o \u00faltimo limite imagin\u00e1vel, ou seja, o fim do mundo. Por conseguinte, se n\u00e3o tivesse havido sempre rebeldes atrevidos e c\u00e9pticos inteligentes, os sacerdotes n\u00e3o se teriam dado tanto trabalho.<\/p>\n<p>A luta pela vida e o apoio m\u00fatuo achavam-se talvez inseparavelmente entrela\u00e7ados nesses tempos antigos.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 o apoio m\u00fatuo sen\u00e3o a luta pela vida coletiva, protegendo-se assim uma coletividade contra um perigo que esmagaria os isolados?<\/strong><\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 a luta pela vida sen\u00e3o a de um indiv\u00edduo que re\u00fane um n\u00famero maior de for\u00e7as ou capacidades triunfando sobre aquele que re\u00fane uma quantidade menor?<\/strong><\/p>\n<p>O progresso \u00e9 feito de independ\u00eancias e individualiza\u00e7\u00f5es fundadas num meio de sociabilidade relativamente segura e elevada. Os grandes despotismos orientais n\u00e3o permitiram verdadeiros progressos intelectuais, por\u00e9m, se o ambiente do mundo grego, composto de autonomias mais locais, e que produziu o primeiro florescimento do pensamento livre que conhecemos foi \u00e0 filosofia grega, a qual p\u00f4de, no decorrer dos s\u00e9culos, tomar conhecimento do que pensavam na \u00cdndia e na China alguns pensadores. Por\u00e9m antes de tudo, produziu uma obra independente que os romanos, aos quais lhes interessava tanto se instruir nas fontes gregas da civiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o puderam compreender e continuar e, menos ainda o mundo inculto do mil\u00eanio da idade m\u00e9dia.<\/p>\n<p><strong>Aquilo que se chama filosofia, foi, no seu princ\u00edpio, um conjunto de reflex\u00f5es, o mais independente poss\u00edvel da tradi\u00e7\u00e3o religiosa, feita por indiv\u00edduos que dependiam do seu ambiente e advinda de observa\u00e7\u00f5es mais diretas, sendo algumas o resultado de sua experi\u00eancia, por exemplo<\/strong>: reflex\u00f5es sobre a origem e a ess\u00eancia do mundo e das coisas (cosmogonia), sobre a conduta individual e melhorias desej\u00e1veis (moral), sobre a conduta c\u00edvica e social (pol\u00edtica social) e sobre um conjunto mais perfeito no futuro e nos meios de o atingir (o ideal filos\u00f3fico que \u00e9 uma utopia, derivada das opini\u00f5es que esses pensadores formaram sobre o passado, o presente e o rumo da evolu\u00e7\u00e3o que, acreditam, ter observado ou que consideram \u00fatil e desej\u00e1vel). Originariamente, formaram-se as religi\u00f5es aproximadamente da mesma forma, s\u00f3 que em condi\u00e7\u00f5es mais primitivas, e a teocracia dos sacerdotes e o despotismo dos reis e dos chefes corresponde a esse est\u00e1gio. Essa popula\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios gregos, continentes e ilhas, que se mantinha contra os despotismos vizinhos, fundando uma vida c\u00edvica, autonomias, federa\u00e7\u00f5es e rivalizando em pequenos centros de cultura, produz tamb\u00e9m esses fil\u00f3sofos que se sobressa\u00edram no passado, procurando ser \u00fateis \u00e0s suas pequenas rep\u00fablicas p\u00e1trias, e concebiam sonhos de progresso e de felicidade geral (sem atrever-se ou sem querer tocar na escravid\u00e3o, claro est\u00e1, demonstrando o quanto \u00e9 dif\u00edcil elevar-se verdadeiramente acima do meio ambiente).<\/p>\n<p>Datam daqueles tempos o governismo de formas em apar\u00eancias mais modernas e a pol\u00edtica, que vieram substituir o despotismo asi\u00e1tico e a arbitrariedade pura, sem, contudo substitu\u00ed-los totalmente.<\/p>\n<p>Foi um progresso semelhante ao da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e ao do s\u00e9culo XIX, comparados com o absolutismo do s\u00e9culo XVIII que, tal qual este \u00faltimo progresso, deu um grande impulso ao socialismo integral e \u00e0 concep\u00e7\u00e3o anarquista. Assim, ao lado da massa dos fil\u00f3sofos e dos homens de Estado gregos, moderados e conservadores houve pensadores intr\u00e9pidos que chegaram, j\u00e1 ent\u00e3o, as id\u00e9ias socialistas estatais alguns e \u00e0s id\u00e9ias anarquistas outros \u2013 uma pequena minoria, sem d\u00favida, por\u00e9m homens que deixaram sua marca que n\u00e3o pode ser riscada da hist\u00f3ria, ainda que rivalidades de escolas, persegui\u00e7\u00f5es ou a inc\u00faria de eras ignorantes, tenham feito desaparecer todos os seus escritos. O que deles subsiste foi preservado, sobretudo como s\u00ednteses em textos de autores reconhecidos que se conservaram.<\/p>\n<p>Havia nessas pequenas rep\u00fablicas sempre amea\u00e7adas e, por sua vez, ambiciosas e agressivas, um culto extremo ao civismo e ao patriotismo, havendo tamb\u00e9m rixas entre partidos, demagogia e \u00e2nsia de poder.<\/p>\n<p>Sobre esta base se desenvolveu um comunismo muito cru, da\u00ed a avers\u00e3o de outros contra a democracia e a id\u00e9ia de um governo dos mais prudentes, dos s\u00e1bios e dos homens de idade, como sonhava Plat\u00e3o. Por\u00e9m, tamb\u00e9m, a avers\u00e3o ao Estado, do qual havia que afastar-se professada por Aristipo; as id\u00e9ias libert\u00e1rias de Antifon e, sobretudo, a grande obra de Zenon (342-270 a.C.), o fundador da escola est\u00f3ica que elimina toda coa\u00e7\u00e3o exterior e que proclama o impulso moral pr\u00f3prio do indiv\u00edduo como \u00fanico e suficiente regulador das a\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo e da comunidade.<\/p>\n<p>Foi este um primeiro grito claro da liberdade humana que se sentia adulta e se despojava dos seus la\u00e7os autorit\u00e1rios. N\u00e3o \u00e9 surpresa o fato de que todo esse trabalho fosse, antes de tudo, deturpado por gera\u00e7\u00f5es futuras e depois completamente posto \u00e0 margem para se perder.<\/p>\n<p>Entretanto, como as religi\u00f5es transportam as aspira\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a e igualdade a um c\u00e9u fict\u00edcio, tamb\u00e9m os fil\u00f3sofos e alguns jurisconsultos transmitiram-nos o ideal de um direito verdadeiramente justo e eq\u00fcitativo fundamentado nos postulados formulados por Zenon e pelos est\u00f3icos; foi o chamado direito natural que tal qual uma concep\u00e7\u00e3o ideal da religi\u00e3o, a religi\u00e3o natural, iluminou debilmente numerosos s\u00e9culos de crueldade e ignor\u00e2ncia, mas foi sob o seu resplendor que, enfim, se refizeram os esp\u00edritos e se come\u00e7ou a querer concretizar essas abstra\u00e7\u00f5es idealistas. Este \u00e9 o primeiro grande servi\u00e7o que a id\u00e9ia libert\u00e1ria prestou \u00e0 humanidade; o seu ideal, t\u00e3o completamente oposto ao ideal do reino supremo e definitivo da autoridade \u00e9 absorvido, ap\u00f3s, em mais de dois mil anos e fica implantado em cada homem honesto que sente perfeitamente que \u00e9 isto o que faria falta, por mais c\u00e9ptico, ignorante ou desviado que esteja por interesses particulares, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 possibilidade e, sobretudo \u00e0 pr\u00f3xima possibilidade de realiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, compreende-se, tamb\u00e9m, que a autoridade \u2013 o Estado, a Propriedade, a Igreja \u2013 maquinou contra a populariza\u00e7\u00e3o dessas id\u00e9ias e sabe-se que a Rep\u00fablica, o Imp\u00e9rio Romano e a Roma dos Papas, at\u00e9 o s\u00e9culo XV, impunham ao mundo ocidental um fascismo intelectual absoluto, misturado com o despotismo oriental que renascia entre bizantinos, turcos e o tzarismo russo (continuado virtualmente pelo bolchevismo) como complemento. Ent\u00e3o, at\u00e9 o s\u00e9culo XV e ainda mais tarde (Servet, Bruno, Vanini), o pensamento livre foi impedido com o perigo da pena de morte, e n\u00e3o p\u00f4de transmitir-se a n\u00e3o ser secretamente por meio de alguns s\u00e1bios e seus disc\u00edpulos, talvez no n\u00facleo mais \u00edntimo de algumas sociedades secretas.<\/p>\n<p>Da\u00ed que tal pensamento n\u00e3o se mostrasse \u00e0 luz do dia sen\u00e3o quando, entremeado com o fanatismo ou o misticismo das seitas religiosas, j\u00e1 nada tinha a temer sentindo-se impulsionado ao sacrif\u00edcio sabendo-se consagrado ou consagrando-se alegremente \u00e0 morte. Aqui, as fontes originais foram cuidadosamente destru\u00eddas e n\u00e3o conhecemos mais que as vozes dos denunciantes, dos injuriadores e, freq\u00fcentemente, dos carrascos.<\/p>\n<p><strong>Assim, Karpokrates, da escola gn\u00f3stica do Egito, preconizou uma vida em comunismo livre, no s\u00e9culo II da nossa Era e, tamb\u00e9m, esta id\u00e9ia emitida no Novo Testamento (Ep\u00edstola de Paulo aos G\u00e1latas):<\/strong>\u00a0\u201cse vos manda o esp\u00edrito, n\u00e3o estais sem lei\u201d, o que parece indicar uma vida fora do Estado, sem lei nem amo.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos seis s\u00e9culos da Idade M\u00e9dia foram \u00e9pocas de lutas das autonomias locais (cidade e pequenos territ\u00f3rios), dispostas a federar-se e de grandes territ\u00f3rios que foram unificados para formar os grandes Estados modernos, unidades pol\u00edticas e econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>Se as pequenas unidades eram centros de civiliza\u00e7\u00f5es e conseguiram prosperar pelo seu pr\u00f3prio trabalho produtivo, por federa\u00e7\u00f5es \u00fateis a seus interesses e pela superioridade que as suas riquezas lhes deu sobre os territ\u00f3rios agr\u00edcolas pobres e sobre as cidades menos afortunadas, o seu completo \u00eaxito n\u00e3o foi mais que a consagra\u00e7\u00e3o dessas vantagens \u00e0s expensas da inferioridade continua dos menos favorecidos.<\/p>\n<p><strong>Porventura, importa mais que algumas cidades livres, como Floren\u00e7a, Veneza, G\u00eanova, Augsburg, Nurenberg, Bremen, Gante, Bruges e outras, se enrique\u00e7am ou que todos os pa\u00edses em que se acham situadas tenham um melhor n\u00edvel em conforto, em educa\u00e7\u00e3o, etc.?<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria, at\u00e9 1919, pelo menos, decidiu pelas grandes unidades econ\u00f4micas, reduzindo-se ou desaparecendo as autonomias. A autoridade, o desejo de expandir-se, de dominar, estava verdadeiramente em ambos os lados, tanto nos microcosmos como nos macrocosmos.<\/p>\n<p><strong>A liberdade foi um termo explorado por uns e outros:<\/strong>\u00a0uns derrubaram o poder das cidades e de suas conjura\u00e7\u00f5es (ligas), os outros, o poder dos reis e de seus Estados. No entanto, nesta situa\u00e7\u00e3o, as cidades favoreciam por vezes o pensamento independente, a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, e permitiam aos dissidentes e her\u00e9ticos, proscritos em outras partes, encontrar nelas um asilo tempor\u00e1rio.<\/p>\n<p>Sobretudo ali onde os munic\u00edpios romanos, situados nos caminhos do com\u00e9rcio ou de outras cidades pr\u00f3speras, eram mais numerosos, existiam focos dessa independ\u00eancia intelectual; de Val\u00eancia e Barcelona at\u00e9 a Alta It\u00e1lia e Toscana, at\u00e9 a Als\u00e1cia, Su\u00ed\u00e7a, Alemanha Meridional e Bo\u00eamia, por Paris at\u00e9 \u00e0s nascentes do Reno, no Flandres e Pa\u00edses Baixos e at\u00e9 o Litoral germ\u00e2nico (cidades Hanse\u00e1ticas), amplas regi\u00f5es semeadas de focos de liberdades locais. E foram as guerras dos imperadores na It\u00e1lia; a cruzada contra os albigenses e a centraliza\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a pelos reis, sobretudo por Luiz XI; a supremacia castelhana na Espanha, as lutas dos Estados contra as Cidades na regi\u00e3o do Meio-Dia e no norte alem\u00e3o, pelos duques de Borgonha, etc., que vieram produzir a supremacia dos grandes Estados.<\/p>\n<p>Entre as seitas crist\u00e3s se nomeiam, sobretudo a esses Irm\u00e3os e Irm\u00e3s de Esp\u00edrito Livre, como praticantes de um comunismo ilimitado entre si. Partindo provavelmente da Fran\u00e7a, destru\u00eddos pelas persegui\u00e7\u00f5es, a sua tradi\u00e7\u00e3o sobreviveu sobre tudo na Holanda e na Flandres assim como os Klompdraggers do s\u00e9culo XIV e os partid\u00e1rios de Eligius Praystinck, os libertinos de Anvers no s\u00e9culo XVI (os loistas), parecem derivar daqueles irm\u00e3os. Na Bo\u00eamia, depois dos Hussitas, Peter Chelchicky preconizou uma conduta moral e social que lembra os ensinamentos de Tolstoi. Havia ali tamb\u00e9m seitas de pr\u00e1ticos, chamados libertinos diretos, os Adamitas, sobretudo. S\u00e3o conhecidos alguns escritos, principalmente de Chelchicky (cujos partid\u00e1rios moderados foram conhecidos mais tarde como Irm\u00e3os Moravos); por\u00e9m, enquanto \u00e0s seitas mais avan\u00e7adas, se reduziram aos piores libelos de seus devotos perseguidores e \u00e9 dif\u00edcil, sen\u00e3o imposs\u00edvel distinguir em que grau seu desafio aos Estados e \u00e0s Leis era um ato antiautorit\u00e1rio consciente visto que se diziam autorizados pela palavra de Deus, que \u00e9 assim seu amo supremo.<\/p>\n<p>Em suma, a Idade M\u00e9dia n\u00e3o p\u00f4de produzir um libertarismo racional e integral. Apenas os redescobrimentos do paganismo gregos e romanos, o humanismo da Renascen\u00e7a, deram a muitos homens, instru\u00eddos meios de compara\u00e7\u00e3o e de cr\u00edtica. Descobriram-se v\u00e1rias mitologias t\u00e3o perfeitas como a mitologia crist\u00e3, onde, entre a f\u00e9 em tudo isso e a f\u00e9 em nada disso, alguns se emanciparam de toda esp\u00e9cie de cren\u00e7a.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo de um pequeno escrito de origem desconhecida \u2013 De tribus Impostoribus \u2013 sobre os tr\u00eas impostores (Mois\u00e9s, Cristo e Maom\u00e9) marca bem essa tend\u00eancia e, enfim, um frade franc\u00eas, Francisco Rabelais, escreve as palavras libertadoras \u2013 Faz o que quiseres \u2013 e um jovem jurista, tamb\u00e9m franc\u00eas, Etienne de La Boetie (1530-1563) publica o famoso \u201cDiscurso sobre a Servid\u00e3o Volunt\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Estas investiga\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas nos ensinam sermos modestos nas nossas expectativas. N\u00e3o seria dif\u00edcil achar os mais belos elogios da liberdade, do hero\u00edsmo dos tiranicidas e outros rebeldes, das revoltas sociais de car\u00e1ter popular, etc; por\u00e9m, a compreens\u00e3o do mal imanente que existe na autoridade e a completa confian\u00e7a na liberdade s\u00e3o rar\u00edssimas, e as manifesta\u00e7\u00f5es aqui mencionadas s\u00e3o as primeiras tentativas intelectuais e morais dos homens para conseguirem caminhar pelos seus pr\u00f3prios p\u00e9s sem auxiliares tutelares e sem cadeias coercitivas. Parece pouco, mas \u00e9 alguma coisa e n\u00e3o foi esquecido. Frente aos tr\u00eas impostores ergue-se enfim a Ci\u00eancia, a Raz\u00e3o Livre, a Investiga\u00e7\u00e3o profunda, a experimenta\u00e7\u00e3o e uma verdadeira experi\u00eancia. A Abadia de Th\u00e9l\u00e9me, que se n\u00e3o foi a primeira das ilhas felizes imaginadas, n\u00e3o foi tamb\u00e9m \u00e0 \u00faltima, e junto \u00e0s utopias autorit\u00e1rias, estatistas, que refletem os novos grandes Estados centralizadores, houve aspira\u00e7\u00f5es de vida id\u00edlica, inofensiva, graciosa, cheia de respeito, afirma\u00e7\u00f5es da necessidade da liberdade e da conviv\u00eancia, nesses s\u00e9culos XVI, XVII e XVIII das guerras de conquista, de religi\u00e3o, de com\u00e9rcio, de diplomacia e das cru\u00e9is coloniza\u00e7\u00f5es de ultramar \u2013 em resumo, a subjuga\u00e7\u00e3o dos novos continentes.<\/p>\n<p>E a servid\u00e3o volunt\u00e1ria tomava, por vezes, impulso para p\u00f4r fim a si mesma como na luta dos Pa\u00edses Baixos e na Luta contra a realeza dos Stuart dos s\u00e9culos XVI e XVII, e a luta nas col\u00f4nias norte-americanas contra a Inglaterra, no s\u00e9culo XVIII, at\u00e9 a emancipa\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina em princ\u00edpios do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>A desobedi\u00eancia entrou assim na vida pol\u00edtica e social. De igual modo, o esp\u00edrito da associa\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, dos projetos e tentativas de coopera\u00e7\u00e3o industrial na Europa, j\u00e1 em pleno s\u00e9culo XVII, da vida pr\u00e1tica por meio de organiza\u00e7\u00f5es mais ou menos aut\u00f4nomas e autogovernadas na Am\u00e9rica do Norte, antes e depois da separa\u00e7\u00e3o da Inglaterra.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos \u00faltimos s\u00e9culos da Idade M\u00e9dia existiu o desafio da Su\u00ed\u00e7a Central ao Imp\u00e9rio alem\u00e3o e o seu triunfo; as grandes revoltas dos camponeses; as afirma\u00e7\u00f5es violentas de independ\u00eancia local em v\u00e1rias regi\u00f5es da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica; n\u00e3o esquecendo Paris, que se manteve firme contra a realeza em diversas ocasi\u00f5es, at\u00e9 o s\u00e9culo XVII e novamente em 1789.<\/p>\n<p>O fermento libert\u00e1rio, bem o sabemos, era ainda demasiado pequeno e os rebeldes de ontem prendem-se a uma nova autoridade no dia seguinte.<\/p>\n<p>No entanto, pode-se mandar matar os povos em nome de tal ou qual religi\u00e3o e, mais ainda, se lhes inculcou as religi\u00f5es intensificadas da Reforma e, por outro lado, submetem-os \u00e0 tutela e f\u00e9rula dos jesu\u00edtas. Al\u00e9m disso, a Europa foi submetida \u00e0 burocracia, \u00e0 pol\u00edcia, aos ex\u00e9rcitos permanentes, \u00e0 aristocracia e \u00e0s cortes dos pr\u00edncipes, sendo ainda sutilmente dirigida pelos poderosos do com\u00e9rcio e das finan\u00e7as. Poucos homens entreviam, \u00e0s vezes, solu\u00e7\u00f5es libert\u00e1rias, e aludiam a elas em algumas passagens das suas utopias, como por exemplo, Gabriel Faigny, em As Aventuras de Jacques Sadeur no descobrimento e Viagem da Terra Austral (1676); ou servindo-se da fic\u00e7\u00e3o dos selvagens que n\u00e3o conheciam a vida refinada dos Estados policiais como, por exemplo, Nicolau Gueudeville em Conversas entre um Selvagem e o Bar\u00e3o de Hontan (1704); ou ainda Diderot no seu famoso Suplemento \u00e0 Viagem de Bougainville.<\/p>\n<p>Houve um esfor\u00e7o de a\u00e7\u00e3o direta, pela recupera\u00e7\u00e3o da liberdade ap\u00f3s a queda da monarquia na Inglaterra, em 1649, feito por Gerard Winstanley (The Digger); os projetos de socialismo volunt\u00e1rio por associa\u00e7\u00e3o, de P. C. Plockboy (1658), um holand\u00eas, John Bellers (1695), o escoc\u00eas Robert Wallace (1761), na Fran\u00e7a de R\u00e9tif de la Brettone (da teimosia da Bret\u00e3).<\/p>\n<p>Pensadores inteligentes dissecavam o Estatismo como \u2013 n\u00e3o importa ter sido uma extravag\u00e2ncia \u2013 Edmund Burke em A Vindication of Natural Society (1756) e em Diderot foi familiar uma argumenta\u00e7\u00e3o verdadeiramente anarquista. Houveram isolados que impugnavam a lei e a autoridade como William Harris no territ\u00f3rio de Rhode Island (Estados Unidos), no s\u00e9culo XVII; Mathias Knutsen, no mesmo s\u00e9culo, no Holstein; o beneditino Dom Deschamps, no s\u00e9culo XVIII, com um manuscrito deixado por ele, na Fran\u00e7a (conhecido desde 1865); e tamb\u00e9m A. F. Doni, Montesquieu (Os Trogloditas), G. F. Rebmann (1794), Dulaurens (1766, em alguns trechos de Comp\u00e8re Matthieu), esbo\u00e7avam pequenos pa\u00edses e ref\u00fagios felizes sem propriedades nem leis.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas anteriores \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o francesa, Sylvain Mar\u00e9chal (1750-1803), um parisiense, prop\u00f4s um anarquismo muito claro, na velada forma da vida feliz de uma idade pastoral arc\u00e1dica; assim o \u00e9 em L\u2019Age d\u2019Or, Seleta de Contos Pastorais por Berger Sylvain (1782) e em Livre Echapp\u00e9 Au D\u00e9luge ou Pseaumes Nouvellemert D\u00e9couverts (1784).<\/p>\n<p>O mesmo fez uma propaganda ate\u00edsta das mais decididas e em seus Apologues Modernes \u00e0 L\u2019Usage D\u2019Un Dauphin (1788), esbo\u00e7a j\u00e1 as vis\u00f5es de todos os reis deportados a uma ilha deserta em que acabam por destru\u00edrem-se uns aos outros, e da greve geral pela qual os produtores, que constituem a tr\u00eas quartas partes da popula\u00e7\u00e3o, estabelecem a sociedade livre.<\/p>\n<p><strong>Durante a revolu\u00e7\u00e3o francesa, Marechal foi impressionado e seduzido pelo terrorismo revolucion\u00e1rio, n\u00e3o resistiu, no entanto, a p\u00f4r no Manifesto dos Iguais dos babouvistas, estas palavras famosas:<\/strong>\u00a0\u201cDesaparecei repulsivas diferen\u00e7as de governantes e governados\u201d, que foram radicalmente reprovadas durante seu processo pelos acusados socialistas autorit\u00e1rios e pelo pr\u00f3prio Buonarroti.<\/p>\n<p>Encontram-se id\u00e9ias anarquistas claramente expressas por Lessing, o Diderot alem\u00e3o do s\u00e9culo XVIII; pelos fil\u00f3sofos Fichte e Krause, Wilhelm Von Humboldt (1792, irm\u00e3o de Alexander) se inclinam, em alguns de seus escritos para o lado libert\u00e1rio. Da mesma forma, os jovens poetas ingleses S. T. Coleridge e seus amigos do tempo de seu Pantisocracy.<\/p>\n<p>Uma primeira aplica\u00e7\u00e3o desses sentimentos encontra-se na reforma da pedagogia entrevista no s\u00e9culo XVII por Amos Comenius, que por sua vez recebeu seu impulso de J. J. Rousseau, sob a influ\u00eancia de todas as id\u00e9ias humanit\u00e1rias e igualit\u00e1rias do s\u00e9culo XVIII e particularmente abra\u00e7adas na Su\u00ed\u00e7a (Pestalozzi) e na Alemanha, onde tamb\u00e9m Goethe deu a sua contribui\u00e7\u00e3o com entusiasmo.<\/p>\n<p>No n\u00facleo mais \u00edntimo dos Iluminados alem\u00e3es (Weishaupt), a sociedade sem autoridade foi reconhecida como objetivo final. Franz Baader (na Baviera) ficou muito impressionado pelo Enquiry on Political Justice, de Godwin, que apareceu em alem\u00e3o (somente a primeira parte em 1803, em W\u00fcrzburg, Baviera) e tamb\u00e9m Georg Forster, homem de ci\u00eancia e revolucion\u00e1rio alem\u00e3o que leu esse livro em Paris, em 1793, mas morreu poucos meses depois, em janeiro de 1794, sem ter podido dar a sua opini\u00e3o p\u00fablica sobre esse livro que tanto o fascinara (Carta de 23 de julho de 1793).<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o refer\u00eancias r\u00e1pidas dos principais materiais que analisei no livro Der Vorfr\u00fchling der Anarchie, 1925, p. 5 a 66.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que alguns meses de investiga\u00e7\u00f5es especiais no British Museun as completasse um pouco mais, e s\u00e3o, sobretudo livros espanh\u00f3is, italianos, holandeses e escandinavos.<\/p>\n<p>Nos livros franceses, ingleses e alem\u00e3es pesquisei muito. Em suma, o que falta pode ser numeroso e interessante, mas provavelmente n\u00e3o ser\u00e1 de crucial import\u00e2ncia ou a repercuss\u00e3o sobre os materiais j\u00e1 conhecidos nos teria advertido de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Esses materiais n\u00e3o s\u00e3o, pois muito numerosos mas s\u00e3o bastante not\u00e1veis. Rabelais \u00e9 bem conhecido. Atrav\u00e9s de Montaigne chegou-se a La Boetie. A Utopia de Gabriel Foigny tornou-se muito conhecida, traduzida e v\u00e1rias vezes reimpressa. A id\u00e9ia juvenil ou fugaz de Burke teve grande voga, e Sylvain Marechal foi muito comentado. Diderot e Lessing tornaram-se cl\u00e1ssicos. Assim, essas concep\u00e7\u00f5es profundamente antiautorit\u00e1rias, essa cr\u00edtica e rep\u00fadio \u00e0 id\u00e9ia governamental, os esfor\u00e7os s\u00e9rios para reduzir e at\u00e9 negar o lugar da autoridade na educa\u00e7\u00e3o, nas rela\u00e7\u00f5es entre sexos, na vida religiosa, nos assuntos p\u00fablicos, tudo isso n\u00e3o passou desapercebido para o mundo avan\u00e7ado do s\u00e9culo XVIII, e pode-se dizer que, como ideal supremo, somente os reacion\u00e1rios o combatiam, e apenas os moderados, ponderados, o tomavam como irrealiz\u00e1vel para sempre. Pelo direito natural, a religi\u00e3o natural ou a concep\u00e7\u00e3o materialista do tipo de Holbach (Sistema da Natureza, 1770) e de Lamettrie, pelo encaminhamento de uma menor a uma maior perfei\u00e7\u00e3o das sociedades secretas, todos os cosmopolitas humanit\u00e1rios do s\u00e9culo estavam intelectualmente no rumo de um m\u00ednimo de governo quando n\u00e3o at\u00e9 \u00e0 sua aus\u00eancia total para os homens livres. Os Herder e os Condorcet, Mary Wollstonecraft e, n\u00e3o muito depois, o jovem Shelley, todos compreenderam que o futuro caminha para uma humaniza\u00e7\u00e3o dos homens, o que reduziria a nada, inevitavelmente, o governismo.<\/p>\n<p>Tal era a situa\u00e7\u00e3o nas v\u00e9speras da revolu\u00e7\u00e3o francesa, quando ainda n\u00e3o se conheciam todas as for\u00e7as que um golpe decisivo dado contra o antigo regime, iam p\u00f4r em movimento tanto para o bem como para o mal.<\/p>\n<p>Estava-se rodeado de insolentes aproveitadores da autoridade e de todas suas v\u00edtimas seculares, mas os amantes do progresso aspiravam a um m\u00e1ximo de liberdade e tinham disso boa consci\u00eancia e boa esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A larga noite da era da autoridade aproximava-se do seu fim.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.geocities.com\/anarcopunk.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anarquismo\u00a0\u00e9 geralmente identificado como caos ou \u201cbagun\u00e7a\u201d, por ser uma doutrina pol\u00edtica que defende a aboli\u00e7\u00e3o de qualquer tipo de governo formal; mas, na verdade n\u00e3o \u00e9 bem isso. 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