{"id":89606,"date":"2016-12-20T08:12:22","date_gmt":"2016-12-20T10:12:22","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=89606"},"modified":"2021-09-02T12:08:43","modified_gmt":"2021-09-02T14:08:43","slug":"declinio-do-anarquismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/historia\/historia-geral\/declinio-do-anarquismo","title":{"rendered":"Decl\u00ednio do Anarquismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>O ANARQUISMO HOJE UMA REFLEX\u00c3O SOBRE O MOVIMENTO LIBERT\u00c1RIO<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\"><strong>UMA REALIDADE SOMBRIA E CONTRADIT\u00d3RIA<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>O criado arrebatou ao amo seu chicote e se fustigou com ele para assim poder ser amo. Kafka<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\">Vivemos uma \u00e9poca de profundas mudan\u00e7as, da tecnologia \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais, da economia \u00e0 pol\u00edtica. Transforma\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tem no entanto, qualquer sentido de supera\u00e7\u00e3o do Sistema \u2014 de suas injusti\u00e7as e irracionalidades \u2014, antes pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o condicionadas pelos seus interesses estrat\u00e9gicos de preservar a Ordem Reinante.<\/p>\n<p align=\"left\">A derrocada do socialismo de estado no Leste, \u00e9 uma dessas mudan\u00e7as decisivas que marcar\u00e3o a nossa \u00e9poca. Um processo de auto-reforma iniciado pela oligarquia burocr\u00e1tica, saiu do controle e acabou pulverizando um sistema estatista e autorit\u00e1rio que alguns teimavam em chamar de socialista. Este acontecimento, inegavelmente positivo para os povos que se libertaram daquele sistema terrorista de domina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o deixou de ser contudo, ao mesmo tempo, uma vit\u00f3ria de setores dessa mesma burocracia que conseguiram preservar seu poder. Mais uma vez, como tem ocorrido nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as classes dominantes se substituem no poder em resultado duma exaust\u00e3o pol\u00edtica ou dum processo de luta interna. Como no caso das ditaduras ib\u00e9ricas e dos governos militares latino-americanos, n\u00e3o foi a luta dos explorados e dominados que determinou as mudan\u00e7as e o fim desses regimes . Quando o povo se apresentou no cen\u00e1rio, foi para sufragar os novos sistemas de domina\u00e7\u00e3o, ou para ser usado como carne para canh\u00e3o em lutas fratricidas, como assistimos na Rom\u00eania, Iugosl\u00e1via e Ge\u00f3rgia.<\/p>\n<p align=\"left\">Tamb\u00e9m a ideologia liberal saiu vitoriosa, pois a derrota simb\u00f3lica das id\u00e9ias de uma alternativa social, que estiveram presentes nos prim\u00f3rdios da Revolu\u00e7\u00e3o Sovi\u00e9tica, ser\u00e1 por muito tempo o tema central da propaganda capitalista. E, raz\u00e3o da descren\u00e7a e desesperan\u00e7a de muitos dos que lutam contra este sistema.<\/p>\n<p align=\"left\">O socialismo autorit\u00e1rio saiu do cen\u00e1rio social derrotado, dando dessa forma a sua derradeira contribui\u00e7\u00e3o ao status quo.<\/p>\n<p align=\"left\">Ao mesmo tempo que impulsionou a uniformiza\u00e7\u00e3o e homogeneiza\u00e7\u00e3o do sistema capitalista \u00e0 escala universal e em primeiro lugar do modo de produ\u00e7\u00e3o e das formas de controle social.<\/p>\n<p align=\"left\">Uma nova conjuntura assente na mundializa\u00e7\u00e3o da divis\u00e3o do trabalho e na segmenta\u00e7\u00e3o do mundo \u2014 e de cada regi\u00e3o \u2014 em guetos de riqueza cercados de mis\u00e9ria.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Um panorama internacional, marcado por uma converg\u00eancia quase total entre os principais centros de poder em torno do Washington Consensus, e administrado pelos Sete Mais que usar\u00e3o seus organismos internacionais:<\/strong>\u00a0ONU, CEE, NATO, FMI, BIRD, como instrumentos de gest\u00e3o, de pol\u00edcia e companhia de seguros da Ordem Internacional.<\/p>\n<p align=\"left\">A instrumentaliza\u00e7\u00e3o da ONU durante a Guerra do Golfo, nos conflitos regionais e no caso do Haiti; a manuten\u00e7\u00e3o da NATO ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o do Pacto de Vars\u00f3via; a recusa dos EUA de desmantelamento do arsenal nuclear; bem como as pretens\u00f5es hegemonistas da Alemanha dentro da CEE, s\u00e3o entre muitas outras manifesta\u00e7\u00f5es, demonstrativas desta nova rearticula\u00e7\u00e3o do Capitalismo Internacional sob comando de Washington.<\/p>\n<p align=\"left\">Neste contexto de\u00a0<i>restaura\u00e7\u00e3o<\/i>, principalmente nas sociedades de consumo, massificadas e manipuladas por uma rede de propaganda e informa\u00e7\u00e3o dirigida, as possibilidades de uma alternativa social, se afunilam.<\/p>\n<p align=\"left\">J\u00e1 que os valores libert\u00e1rios da autonomia, da solidariedade, do livre pensamento e do autogoverno, s\u00e3o dificilmente intelig\u00edveis ou aceites pela maioria dos cidad\u00e3os amestrados e desamparados e perdidos num contexto social de individualiza\u00e7\u00e3o e atomiza\u00e7\u00e3o extrema.<\/p>\n<p align=\"left\">Tornando-se assim incapazes de qualquer reflex\u00e3o cr\u00edtica, afundados que est\u00e3o no minimalismo \u00e9tico e no cinismo pragm\u00e1tico.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>O que exprime a maior vit\u00f3ria do sistema:<\/strong>\u00a0a homogeiniza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e cultural das sociedades onde predominam os\u00a0<i>n\u00e3o-valores<\/i>do individualismo, da concorr\u00eancia e da esquizofrenia dionis\u00edaca para usar as palavras de Carlos D\u00edaz.<\/p>\n<p align=\"left\">S\u00f3 os exclu\u00eddos dessa sociedade (e que n\u00e3o aspiram a se integrar no reino da sujei\u00e7\u00e3o conformista) ou os que nela n\u00e3o se reconhecem \u2014uma pequena e desarticulada minoria\u2014 podem se identificar potencialmente com esses valores libert\u00e1rios. Em termos objetivos essa \u00e9 a nossa margem de atua\u00e7\u00e3o nas sociedades do chamado Primeiro Mundo.<\/p>\n<p align=\"left\">Mesmo que saibamos que esse conformismo majorit\u00e1rio \u00e9 c\u00edclico e pode ser abalado, quer por altera\u00e7\u00f5es socio-econ\u00f4micas, quer pelo aprofundamento gradual da crise civilizacional que vivemos.<\/p>\n<p align=\"left\">Outra \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o vivida nos pa\u00edses do hemisf\u00e9rio sul \u2014 com algumas semelhan\u00e7as com o Leste Europeu \u2014 onde a super-explora\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades b\u00e1sicas e a flagrante desigualdade social que se traduz num verdadeiro apartheid social, abrem espa\u00e7os \u00e0 continuidade de amplos movimentos sociais anti-capitalistas.<\/p>\n<p align=\"left\">Olhando ao nosso redor, n\u00e3o seria excesso de pessimismo afirmar que nunca como hoje, as for\u00e7as do Estado e do Capitalismo foram t\u00e3o fortes e as tend\u00eancias libert\u00e1rias da alternativa social, t\u00e3o fracas.<\/p>\n<p align=\"left\">No entanto, e apesar disso, persistem contradi\u00e7\u00f5es e tens\u00f5es fundamentais no sistema dominante, que se v\u00e3o acumulando e adquirindo uma visibilidade at\u00e9 hoje nunca vista.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Come\u00e7ando pela mis\u00e9ria absoluta da maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial, que contrasta com a riqueza ostensiva e delapidat\u00f3ria de alguns; a pr\u00f3pria marginaliza\u00e7\u00e3o de setores sociais nos pa\u00edses ricos<\/strong>: onde jovens, desempregados e velhos apontam os limites de assimila\u00e7\u00e3o do sistema; o desenvolvimento da tend\u00eancia de crescimento dos empregos informais e prec\u00e1rios; a desqualifica\u00e7\u00e3o profissional e o aviltamento do trabalho resultante da introdu\u00e7\u00e3o da automa\u00e7\u00e3o e das novas tecnologias; e por fim o aumento das taxas do desemprego estrutural se mostram como problemas cong\u00eanitos da economia do lucro.<\/p>\n<p align=\"left\">Por outro lado, a natureza predat\u00f3ria da sociedade capitalista e sua ilus\u00e3o dum crescimento infinito, s\u00f3 pode levar ao esgotamento de recursos, \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o causada no meio natural, reverso destrutivo desta forma de \u201cprogresso\u201d que junto com a utiliza\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria e irracional das tecnologias, imp\u00f5e aos gestores da desordem industrial a integra\u00e7\u00e3o duma pol\u00edtica de restri\u00e7\u00f5es ambientalistas.<\/p>\n<p align=\"left\">\u00c9 nesse sentido que deve ser entendido a panac\u00e9ia do \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d presente do discurso atual dos donos do Poder e em particular do Banco Mundial. Discurso ideol\u00f3gico que, contudo n\u00e3o aponta uma solu\u00e7\u00e3o harmoniosa para o problema da pobreza, do desenvolvimento humano e da utiliza\u00e7\u00e3o da tecnologias, quest\u00f5es centrais da nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p align=\"left\">O capitalismo pode sentir a necessidade de contabilizar os preju\u00edzos ou as amea\u00e7as futuras, mas n\u00e3o pode assimilar os questionamentos radicais levantados por libert\u00e1rios e ecologistas.<\/p>\n<p align=\"left\">Os problemas levantados s\u00f3 podem ser resolvidos no contexto duma sociedade descentralizada e autogerida capaz de criar e controlar formas tecnol\u00f3gicas adequadas a um desenvolvimento integrado, auto-sustentado e solid\u00e1rio. Nem o crescimento zero, nem o desenvolvimento sustent\u00e1vel s\u00e3o poss\u00edveis num mundo marcado pela l\u00f3gica do consumo e do desperd\u00edcio das sociedades ricas e pela necessidades b\u00e1sicas n\u00e3o satisfeitas das sociedades\u00a0<i>pobres.<\/i><\/p>\n<p align=\"left\">De Bopal e Chernobyl ao contrabando de plut\u00f4nio a sociedade industrial manifesta-se intrinsecamente desordenada e amea\u00e7adora para o futuro dos povos.<\/p>\n<p align=\"left\">Ao n\u00edvel pol\u00edtico h\u00e1 uma tend\u00eancia generalizada para a restri\u00e7\u00e3o das liberdades e garantias conquistadas em outras \u00e9pocas. O que se reflete diretamente no ordenamento jur\u00eddico, com a reintrodu\u00e7\u00e3o de conceitos e pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias e inquisit\u00f3rias no direito penal e processual.<\/p>\n<p align=\"left\">A democracia representativa se esvazia face \u00e0 inexist\u00eancia de escolhas reais e \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es em simples competi\u00e7\u00f5es de marketing, onde o resultado \u00e9 sempre in\u00f3cuo para as elites e burocracias dominantes.<\/p>\n<p align=\"left\">Uma crise de legitimidade que \u00e9 ampliada pela crescente burocratiza\u00e7\u00e3o do Estado e pelo fato das decis\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas mais importantes serem tomadas, tanto no n\u00edvel privado, como no n\u00edvel internacional, fora do chamado controle do Estado de Direito. O mesmo ocorrendo com a maioria das decis\u00f5es eufemisticamente chamadas de t\u00e9cnicas e com aquelas que s\u00e3o tomadas no complexo de seguran\u00e7a, onde predomina o princ\u00edpio do segredo.<\/p>\n<p align=\"left\">A corrup\u00e7\u00e3o, por sua vez, afirma-se como tend\u00eancia end\u00eamica do estado moderno, do Jap\u00e3o ao Brasil, da Venezuela a Espanha, Fran\u00e7a e Portugal, comprometendo as v\u00e1rias correntes pol\u00edticas com pr\u00e1ticas fraudulentas e ilegais, sem que com isso seja afetada essencialmente a credibilidade que os cidad\u00e3os-espectadores t\u00eam em seus partidos.<\/p>\n<p align=\"left\">At\u00e9 porque h\u00e1 muito as oligarquias pol\u00edticas da representa\u00e7\u00e3o abdicaram de mascarar com a aritm\u00e9tica do voto seu mandato eleitoral, como j\u00e1 demonstrou h\u00e1 muito tempo o anarquista ib\u00e9rico Ricardo Mella a \u201clei do n\u00famero\u201d \u00e9 um falso instituto democr\u00e1tico, tanto mais que at\u00e9 as maiorias eleitorais est\u00e3o encolhendo a olhos vistos, sendo o Poder efetivamente exercido por minorias, credenciadas minoritariamente nas chamadas elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Mesmo face a esta realidade cada vez mais vis\u00edvel no mundo contempor\u00e2neo, a descren\u00e7a na\u00a0<\/strong><strong><i>pol\u00edtica\u00a0<\/i><\/strong><strong>que se traduz no crescente abstencionismo em quase todos os pa\u00edses, no contexto atual s\u00f3 serve para refor\u00e7ar o cinismo individualista do egocentrismo dominante:\u00a0<\/strong>\u201ccada um por si, e deus contra todos.\u201d<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Afirma-se assim a tend\u00eancia para um estatismo autorit\u00e1rio, afastado do modelo de Estado de Direito cl\u00e1ssico e mais ainda do Welfare State, um Estado j\u00e1 n\u00e3o mais preocupado com a participa\u00e7\u00e3o e os direitos dos cidad\u00e3os. Mas t\u00e3o s\u00f3 em garantir as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, reprodu\u00e7\u00e3o e movimento do Capital:<\/strong>\u00a0um novo tipo de Estado Pol\u00edcia, que vem perdendo a sua dimens\u00e3o nacional para se tornar a\u00a0<i>reparti\u00e7\u00e3o local<\/i>\u00a0duma nova forma de Estado supranacional em gesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\">O fen\u00f4meno incontrolado da viol\u00eancia e da guerra demonstram de forma inequ\u00edvoca que nenhum Estado ou governo mundial poder\u00e1 controlar sociedades cindidas pela mis\u00e9ria e injusti\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"left\">Ao contr\u00e1rio do que alguns te\u00f3ricos liberais nos querem fazer crer, a<i>libaniza\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0duma sociedade n\u00e3o \u00e9 produto da aus\u00eancia do Estado, mas da quebra do seu monop\u00f3lio atrav\u00e9s da estatiza\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos grupos sociais. As sociedades em que se romperam os la\u00e7os tradicionais da solidariedade social, declarando-se a guerra de todos contra todos, s\u00f3 podem ter seu corol\u00e1rio l\u00f3gico no reacender de guerras fratricidas como na Iugosl\u00e1via, nos genoc\u00eddios de \u00c1frica e na viol\u00eancia desesperada das grandes cidades. As metr\u00f3poles \u2014 mesmo dos pa\u00edses ricos \u2014 com seus bols\u00f5es crescentes de miser\u00e1veis e marginalizados tendem a constituir-se como um cen\u00e1rio de viol\u00eancia onde nenhum ex\u00e9rcito particular, ou condom\u00ednio das elites desses que proliferam em Madri , Rio de Janeiro, ou Los Angeles poder\u00e3o no futuro possibilitar a exist\u00eancia segura e despreocupada que as classes dominantes se habituaram a usufruir no passado.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Neste panorama sombrio, o caminho que estamos a percorrer pode abrir, mesmo assim, novas possibilidades:<\/strong>\u00a0o esvaziamento do sentido social do Estado e sua crise de legitimidade, facilitando a reaproxima\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais do pensamento e da pr\u00e1tica anti-estatista.<\/p>\n<p align=\"left\">Tamb\u00e9m a derrocada do mito do socialismo de Estado, deixa em aberto o campo da alternativa real aos sistemas de domina\u00e7\u00e3o, onde se poder\u00e1 afirmar o socialismo libert\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"left\">Com a derrota da estrat\u00e9gia leninista de tomada do poder, de utiliza\u00e7\u00e3o do Estado para a cria\u00e7\u00e3o dum \u201csocialismo\u201d por etapas, e da derrocada do mito da excel\u00eancia da economia centralmente planejada, que s\u00f3 gerou instabilidade, desigualdade e burocracia, a pertin\u00eancia dos valores anarquistas, dum socialismo org\u00e2nico, federalista e descentralizado, torna-se ainda maior para os que n\u00e3o abdicam de pensar e lutar por uma alternativa ao que a\u00ed est\u00e1.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>O capitalismo que persiste como barb\u00e1rie perdura ante uma contradi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica do nosso tempo que pode ser resumida nas palavras de Marcuse:<\/strong>\u00a0\u201cA revolu\u00e7\u00e3o mais necess\u00e1ria, parece ser a mais improv\u00e1vel.\u201d Improv\u00e1vel porque s\u00f3 movimentos sociais aut\u00f4nomos e libert\u00e1rios poderiam romper a teia de um sistema repugnante que envolve todas as classes e grupos sociais. A partir daqui, duma realidade adversa mas contradit\u00f3ria, o anarquismo\u00a0<b>pode<\/b>\u00a0lutar por retomar o seu papel nos movimentos sociais \u2014 nos velhos e nos novos movimentos \u2014, o que vai depender, pelo menos em grande parte, da\u00a0<b>vontade<\/b>,\u00a0<b>lucidez<\/b>, e\u00a0<b>a\u00e7\u00e3o<\/b>, dos libert\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"left\">Por mais que os ide\u00f3logos do Poder e a corte de ac\u00f3litos arrependidos, proclamem o fim da Hist\u00f3ria, ela teima em afirmar que s\u00f3 morrer\u00e1 com o pr\u00f3prio homem.<\/p>\n<p align=\"left\">Mesmo que n\u00e3o possamos descartar a hip\u00f3tese j\u00e1 um dia levantada por Mannheim de o mundo \u201cestar entrando numa fase de apar\u00eancia est\u00e1tica, uniforme e inflex\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p align=\"left\">Mesmo assim o futuro ser\u00e1 sempre uma possibilidade em aberto onde os seres humanos, com todas as condicionantes culturais e materiais, poder\u00e3o realizar suas utopias. Para n\u00f3s anarquistas, o socialismo libert\u00e1rio, a comunidade org\u00e2nica da Humanidade, continua sendo um imperativo para a\u00a0<i>humaniza\u00e7\u00e3o<\/i>\u00a0das sociedades.<\/p>\n<p><strong>O DECL\u00cdNIO DO ANARQUISMO, ALGUMAS DE SUAS CAUSAS!!!<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Mas uma grande id\u00e9ia n\u00e3o pode germinar num s\u00f3 dia, por mais r\u00e1pida que seja a elabora\u00e7\u00e3o e a<br \/>\ndifus\u00e3o de id\u00e9ias durante os per\u00edodos revolucion\u00e1rios. Piotr Kropotkin<\/strong><\/p>\n<p><b>O decl\u00ednio hist\u00f3rico do anarquismo<\/b>\u00a0tem sido ao longo de d\u00e9cadas apresentado por seus opositores \u2013 em particular os marxistas \u2013 como uma decorr\u00eancia do processo hist\u00f3rico de transi\u00e7\u00e3o de sociedades pr\u00e9-capitalistas para o capitalismo, e de substitui\u00e7\u00e3o dos artes\u00e3os pelo proletariado industrial.<\/p>\n<p>Essa tese que tem como expoentes historiadores do tipo de Eric Hobsbawn dificilmente resiste a uma an\u00e1lise mais detalhada. Apresentando-se sob o r\u00f3tulo da cientificidade da hist\u00f3ria e sua \u201cneutralidade\u201d, mas logo denunciada pelos impulsos exeg\u00e9ticos da dogm\u00e1tica leninista de Hobsbawn sempre que se refere ao anarquismo, chegando \u00e0s raias da m\u00e1-f\u00e9 e de distor\u00e7\u00e3o da realidade hist\u00f3rica em v\u00e1rios de suas obras.<\/p>\n<p><strong>Outros historiadores mais conhecedores do anarquismo como Rudolf de Jong ou Carlos da Fonseca j\u00e1 demonstraram como o movimento anarquista do s\u00e9culo XX estava amplamente implantado entre os tralhadores industriais e nos principais centros oper\u00e1rios da \u00e9poca:<\/strong>\u00a0\u201cQue Paris, Toulouse, Barcelona, Mil\u00e3o, Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, Buenos Aires, Montevideo ou T\u00f3quio a\u00ed ocupem lugares de grande import\u00e2ncia constitui a nega\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes rurais do movimento.\u201d<\/p>\n<p>Mas se para os pensadores liberais ou para os marxistas o decl\u00ednio do anarquismo \u00e9 uma natural inevitabilidade hist\u00f3rica, para muitos anarquistas \u00e9 um incompreens\u00edvel acidente, nos dois casos tem ficado sistematicamente ocultas as raz\u00f5es que explicam tal decl\u00ednio.<\/p>\n<p>Para compreendermos a situa\u00e7\u00e3o atual do anarquismo, os principais problemas com que se confronta e as possibilidades que se abrem, teremos de rever sua fase de decl\u00ednio, que se estendeu pelas d\u00e9cadas de 20 e 30 e culminou com a derrota da Revolu\u00e7\u00e3o Libert\u00e1ria de 1939 na Espanha.<\/p>\n<p>A conjuga\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos fatores adversos, que os anarquistas foram incapazes de entender ou de contornar na conjuntura pol\u00edtica e social da \u00e9poca, \u00e9 o que explica esse esvaziamento progressivo do movimento.<\/p>\n<p><strong>a)\u00a0<\/strong>Se existe uma causa que deva ser apontada em primeiro lugar essa \u00e9 a resultante das transforma\u00e7\u00f5es sofridas pelo capitalismo e pelo Estado, nessas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>A intensifica\u00e7\u00e3o das lutas oper\u00e1rias a partir de finais do s\u00e9culo XIX, o espectro da Revolu\u00e7\u00e3o Social e as mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e organizacionais levaram o Capital a iniciar uma pol\u00edtica redistributiva nos pa\u00edses industrializados, o que permitiu uma expans\u00e3o do processo produtivo e acima de tudo a ades\u00e3o dos trabalhadores ao sistema.<\/p>\n<p>O acesso ao consumo tornou-se assim o ant\u00eddoto contra a revolta e foi um fator primordial para a ades\u00e3o dos trabalhadores \u00e0 l\u00f3gica normativa do capitalismo.<\/p>\n<p>O surgimento do Estado intervencionista, que se insere neste processo de mudan\u00e7as estruturais \u2013 seja na sua vers\u00e3o corporativista-fascista, seja na de Estado de Direito Social -, levou ao reconhecimento dos direitos econ\u00f4micos e sociais dos trabalhadores e a uma demarca\u00e7\u00e3o de limites ao capitalismo de livre concorr\u00eancia e livre explora\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p><strong>A educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade p\u00fablica tornaram-se objetivos de Estado e os direitos trabalhista:<\/strong>\u00a0descanso, f\u00e9rias, assist\u00eancia social e reforma, passaram a fazer parte das pol\u00edticas de governo.<\/p>\n<p>O movimento oper\u00e1rio conseguiu impor algumas das suas reivindica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, mas a troco de uma sujei\u00e7\u00e3o ao Estado que se traduziu na institucionaliza\u00e7\u00e3o dos conflitos laborais, atrav\u00e9s de regras de arbitragem ditadas por esse mesmo Estado.<\/p>\n<p><strong>Os governos criaram um novo departamento da concilia\u00e7\u00e3o social:\u00a0<\/strong>o Minist\u00e9rio do Trabalho, que juntamente com tribunais e outros \u00f3rg\u00e3os especializados passaram a interferir nas lutas oper\u00e1rias, na tentativa de desarticular a t\u00e1tica radical do confronto de classes aplicada pelo sindicalismo revolucion\u00e1rio e pelo anarco-sindicalismo.<\/p>\n<p>O ordenamento jur\u00eddico passou a reconhecer como direitos as organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, as reuni\u00f5es, as manifesta\u00e7\u00f5es e greves, mas deu-lhes um enquadramento legal que lhes retirava todo o potencial conflitivo.<\/p>\n<p><strong>Em contrapartida a a\u00e7\u00e3o direta, a sabotagem, o boicote e a greve de solidariedade passaram a ser criminalizadas e reprimidas de forma ainda mais violenta, estabelecendo-se claramente o limite admiss\u00edvel para o sindicalismo<\/strong>: a representa\u00e7\u00e3o corporativa dos problemas oper\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m o capital passou a aceitar o sindicalismo dentro desses limites, usando um duplo crit\u00e9rio negocial:<\/strong>\u00a0ao fazer concess\u00f5es \u00e0s exig\u00eancias de sindicatos confi\u00e1veis e reprimir as que tivessem uma din\u00e2mica radical. Os epis\u00f3dios do \u201cpistoleirismo\u201d capitalista nessa \u00e9poca, da Espanha aos EUA, s\u00e3o por demais conhecidos.<\/p>\n<p>O sindicalismo que nascera como emana\u00e7\u00e3o da vontade de emancipa\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio, e sua forma auto-organizativa por excel\u00eancia, tornou-se a partir de ent\u00e3o um reflexo das interven\u00e7\u00f5es \u2013 diretas e indiretas \u2013 do Estado e seu ordenamento jur\u00eddico.<\/p>\n<p>O direito trabalhista, a institucionaliza\u00e7\u00e3o das negocia\u00e7\u00f5es sindicais, sujeitas a ardilosas an\u00e1lises jur\u00eddicas e econ\u00f4micas, favoreceram a burocratiza\u00e7\u00e3o dos sindicatos e em muitos casos exigiram-na.<\/p>\n<p><strong>S\u00f3 atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de estruturas administrativas e de assessoria de especialistas do acordo:<\/strong>\u00a0advogados, economistas, soci\u00f3logos e um sem n\u00famero de funcion\u00e1rios exteriores ao movimento oper\u00e1rio, poderiam os sindicatos enquadrar-se neste contexto negocial e nele obter vantagens. A tenta\u00e7\u00e3o corporativista que nunca chegou a desaparecer do sindicalismo, mesmo nas fases em que se potenciavam mais as formas revolucion\u00e1rias do confronto de classes , tendo inclusive originado em quase todos os pa\u00edses hist\u00f3ricas pol\u00eamicas entre anarquistas e sindicalistas, tornavam-se agora preponderantes.<\/p>\n<p>A combatividade dos sindicatos e dos militantes oper\u00e1rios, passava a n\u00e3o ter correspond\u00eancia direta com a efic\u00e1cia na conquista de melhorias contratuais.<\/p>\n<p>Os mais eficazes passaram a ser os mais h\u00e1beis nas negocia\u00e7\u00f5es, o que normalmente se traduzia na ced\u00eancia sistem\u00e1tica perante as imposi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas do Capital.<\/p>\n<p>Estavam assim criadas as condi\u00e7\u00f5es para a derrota do sindicalismo anarquista, que se sustentava na consci\u00eancia revolucion\u00e1ria, na a\u00e7\u00e3o direta e na auto-organiza\u00e7\u00e3o. Tornava-se \u201cimposs\u00edvel\u201d um sindicalismo onde n\u00e3o cabiam funcion\u00e1rios e dirigentes profissionais e para quem \u2013 evocando a consigna do sindicalismo revolucion\u00e1rio dos EUA da IWW \u2013 \u201ctrabalhadores e capitalistas n\u00e3o t\u00eam nada em comum\u201d.<\/p>\n<p>Neste panorama de concilia\u00e7\u00e3o, em que o Estado ganhava uma autonomia relativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s classes dominantes, assumindo um rosto pacificador, independente, social, deixava de haver condi\u00e7\u00f5es para a inteligibilidade do discurso anti-estatista dos anarquistas. A maioria dos trabalhadores come\u00e7aram a ver o Estado como uma entidade beneficente que garantia a educa\u00e7\u00e3o, a sa\u00fade, a habita\u00e7\u00e3o e a velhice dos cidad\u00e3os e n\u00e3o mais como aparelho central de gest\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>b) Uma segunda causa pode ser apontada:\u00a0<\/strong>o aparecimento de ditaduras terroristas em v\u00e1rias regi\u00f5es do mundo. Desde logo o nazi-fascismo e suas variantes ib\u00e9ricas, bem como os governos de ocupa\u00e7\u00e3o resultantes da expans\u00e3o alem\u00e3. As ditaduras na Am\u00e9rica Latina de Vargas e Per\u00f3n e na R\u00fassia dos burocratas comunistas.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o desencadeada tornava imposs\u00edvel a sobreviv\u00eancia do anarquismo como movimento amplo e aberto, principalmente das organiza\u00e7\u00f5es anarco-sindicalistas.<\/p>\n<p>O anarco-sindicalismo que foi a estrat\u00e9gia que abriu caminho \u00e0 influ\u00eancia generalizada das id\u00e9ias anarquistas na maioria dos pa\u00edses, n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de sobreviver em tal situa\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 um movimento estruturado clandestinamente baseado em grupos de afinidade poderia resistir. Mas, mesmo nesse caso, a sobreviv\u00eancia dependeria a longo prazo de apoio externo, seja na forma de aux\u00edlio material, seja na de territ\u00f3rio de ex\u00edlio e articula\u00e7\u00e3o. E os anarquistas jamais dispuseram de forma continuada dessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A pris\u00e3o, morte e ex\u00edlio de um n\u00famero incalcul\u00e1vel de militantes, juntamente com a impossibilidade de manter a propaganda e interven\u00e7\u00e3o no movimento social, iria levar, em muitos pa\u00edses, ao quase esvaziamento do movimento e a uma ruptura entre gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando se tornou poss\u00edvel a rearticula\u00e7\u00e3o, os anarquistas estavam cindidos em duas gera\u00e7\u00f5es distanciadas por d\u00e9cadas, que s\u00f3 com dificuldade se comunicavam e relacionavam.<\/p>\n<p><strong>c)\u00a0<\/strong>Finalmente a terceira causa teve a ver com a vit\u00f3ria na Revolu\u00e7\u00e3o Russa do leninismo e a subsequente cria\u00e7\u00e3o dos partidos comunistas. Ao se tornar a estrat\u00e9gia da vit\u00f3ria sobre a burguesia \u2013 ou ao ser interpretado como tal \u2013 reintroduziu o marxismo com carisma revolucion\u00e1rio no movimento oper\u00e1rio internacional. A ilus\u00e3o de que era esse o melhor, ou o mais eficiente, caminho para chegar ao socialismo, somado \u00e0 falta de informa\u00e7\u00e3o sobre os rumos da revolu\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica, levou muitos anarquistas e outros trabalhadores ao leninismo. Uma ades\u00e3o mais pragm\u00e1tica que te\u00f3rica, que os fazia ver na sociedade russa uma concretiza\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias libert\u00e1rias.<\/p>\n<p>E os empurrava \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es que misturavam na sua forma e no seu discurso os princ\u00edpios anarquistas com um maximalismo ou leninismo incipiente.<\/p>\n<p>Em muitos pa\u00edses os partidos comunistas nasceram de rupturas no seio da corrente social-democrata, mas em quase todos houve uma participa\u00e7\u00e3o significativa de trabalhadores oriundos do anarco-sindicalismo.<\/p>\n<p>No caso de Portugal e do Brasil, os Partidos Comunistas foram uma cria\u00e7\u00e3o de anarquistas.<\/p>\n<p>Esta atra\u00e7\u00e3o pelo leninismo viria a ser ainda maior entre os intelectuais anti-capitalistas que se deixaram conquistar pela id\u00e9ia de criar o socialismo a partir do Estado, uma manifesta\u00e7\u00e3o de despotismo esclarecido, baseado na concep\u00e7\u00e3o de que o marxismo seria a \u201cci\u00eancia\u201d da transforma\u00e7\u00e3o social; e que aos intelectuais estaria reservado um papel especial na vanguarda dirigente. Nascia assim o \u201csocialismo dos intelectuais\u201d, t\u00e3o bem dissecado por Makhaiski.<\/p>\n<p>Mas foi no movimento oper\u00e1rio que as divis\u00f5es introduzidas pelas divergentes concep\u00e7\u00f5es de socialismo, teriam maiores conseq\u00fc\u00eancias, j\u00e1 que diminu\u00edram a pr\u00f3pria capacidade de resist\u00eancia \u00e0s ditaduras que se come\u00e7avam a instalar.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o se agravou ap\u00f3s a ado\u00e7\u00e3o pelos comunistas de uma estrat\u00e9gia internacional definida pelo COMITERN e ISV de infiltra\u00e7\u00e3o e cis\u00e3o dos sindicatos de orienta\u00e7\u00e3o anarco-sindicalista.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o insidiosa dos comunistas foi determinante para desarticular o anarco-sindicalismo e possibilitou-lhes a cria\u00e7\u00e3o dos sindicatos atrelados, correias de transmiss\u00e3o do partido, j\u00e1 que para o leninismo era essa a fun\u00e7\u00e3o instrumental das organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias.<\/p>\n<p>Com o agudizar da repress\u00e3o e, na medida em que os comunistas conseguiram sobreviver na clandestinidade, tornaram-se para muitos trabalhadores a \u00fanica for\u00e7a capaz de articular as lutas oper\u00e1rias contra as ditaduras e o capitalismo.<\/p>\n<p>Soma-se a isso a maleabilidade t\u00e1tica que os levava a n\u00e3o desprezar a luta pelas pequenas reivindica\u00e7\u00f5es e a integrar conceitos conservadores e nacionalistas em seu discurso, o que se adequava a um movimento social em que se expandia o reformismo. Come\u00e7ava assim a dar-se a hegemonia comunista nos meios oper\u00e1rios, processo que estava conclu\u00eddo nos finais da d\u00e9cada de 40.<\/p>\n<p>A derrota da Revolu\u00e7\u00e3o em Espanha, foi o culminar desta tend\u00eancia e sua mais evidente demonstra\u00e7\u00e3o. Aquele que foi o mais avan\u00e7ado esbo\u00e7o de transforma\u00e7\u00e3o social libert\u00e1ria, foi empalmado entre fascistas e estalinistas, ante a indiferen\u00e7a conivente dos Estados democr\u00e1ticos, na mais sinistra combina\u00e7\u00e3o de for\u00e7as contra-revolucion\u00e1rias de nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p>Essa seria a \u00faltima grande mobiliza\u00e7\u00e3o popular das id\u00e9ias anarquistas e a mais tr\u00e1gica das derrotas. O socialismo libert\u00e1rio, que desde o s\u00e9culo XIX tinha tido um dos seus basti\u00f5es na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, era esmagado ap\u00f3s uma guerra civil que levaria \u00e0 morte e ao ex\u00edlio milh\u00f5es de militantes. Epis\u00f3dio da hist\u00f3ria social contempor\u00e2nea que re\u00fane contraditoriamente os erros, os limites e as possibilidades criadoras do anarquismo.<\/p>\n<p>Nunca o anarquismo teve um papel t\u00e3o decisivo nas mudan\u00e7as profundas de uma sociedade quanto na Revolu\u00e7\u00e3o Espanhola, mas tamb\u00e9m nunca ficou t\u00e3o pr\u00f3ximo de se descaraterizar como alternativa \u00e0s institui\u00e7\u00f5es estatizantes e burocr\u00e1ticas. A participa\u00e7\u00e3o de alguns de seus mais conhecidos militantes no governo, mesmo n\u00e3o colhendo a ades\u00e3o de parte do movimento, nem chegando a gerar um anarquismo pol\u00edtico de fei\u00e7\u00e3o maximalista, foi um colaboracionismo que deixou seq\u00fcelas profundas no movimento libert\u00e1rio.<\/p>\n<p>Dessa experi\u00eancia tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiram os anarquistas extrair uma teoria e uma pr\u00e1tica adequada para lidar com o fen\u00f4meno do Estado e do Poder, nem desenvolverem a partir das realiza\u00e7\u00f5es construtivas da Revolu\u00e7\u00e3o \u2013 para empregar as palavras de Gaston Leval \u2013 uma alternativa de autogest\u00e3o generalizada para as modernas sociedades complexas.<\/p>\n<p><strong>Hoje, poderemos a partir destas mesmas causas que se combinaram para debilitar o movimento anarquista, entender as perspectivas abertas pela derrocada de dois mitos<\/strong>: o do Estado Socialista e o do Estado do Bem Estar Social. Agora, mais de cinq\u00fcenta anos ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Espanhola de 1936, talvez os anarquistas possam refletir sobre todo esse per\u00edodo de esperan\u00e7as e derrotas dos movimentos libert\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mesmo que hoje tenham desaparecido as causas fundamentais do decl\u00ednio do anarquismo, isso ocorre numa fase em que o pensamento e a pr\u00e1tica libert\u00e1ria atingiram seu ponto m\u00ednimo e quando a homogeneiza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do sistema capitalista atingiu seu \u00e1pice.<\/p>\n<p>Certamente por essa raz\u00e3o o desgaste do Estado e da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica s\u00f3 tenha gerado um generalizado desinteresse c\u00ednico com os destinos da sociedade e n\u00e3o mais uma busca de uma alternativa ao existente.<\/p>\n<p><strong>Essa descren\u00e7a generalizada, contraditoriamente, pode representar o come\u00e7o de uma nova esperan\u00e7a:<\/strong>\u00a0se n\u00e3o mais acreditamos no Estado e na democracia representativa, ent\u00e3o podemos nos auto-organizar e come\u00e7ar a imaginar formas de autogoverno para as sociedades. E a\u00ed nos reencontramos com o velho desafio do anarquismo!<\/p>\n<p><strong>UMA \u00c9POCA DE DESENCONTROS!!!<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"center\"><strong>Os bois passam debaixo da canga<br \/>\nos cegos v\u00e3o aonde a gente queira lev\u00e1-los<br \/>\nMas o homem que nasce livre tem o seu pr\u00f3prio caminho\u2026 Herbert Read<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A partir dos anos 40 o anarquismo tornou-se uma p\u00e1lida imagem do que fora no passado, n\u00e3o possuindo sequer j\u00e1 o vigor, a combatividade e a obstina\u00e7\u00e3o dos primeiros grupos que se formaram na d\u00e9cada de 60, no s\u00e9culo XIX. A fragilidade do movimento \u2013 que se prolonga at\u00e9 agora \u2013 manifesta-se na sua quase aus\u00eancia dos movimentos sociais, na sua incapacidade associativa e na reduzida influ\u00eancia no pensamento cr\u00edtico atual. Derrotado em Espanha, enfraquecido pelas mortes e pris\u00f5es, dividido pelas m\u00e1goas do ex\u00edlio, o anarquismo perdeu a sua \u00faltima grande refer\u00eancia. Por todo o lado, na Europa e na Am\u00e9rica, os movimentos sociais reapareciam enfeudados a populismos estatizantes ou atrelados \u00e0 estrat\u00e9gia comunista das \u201ccorreias de transmiss\u00e3o\u201d, sendo meros instrumentos da pol\u00edtica partid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Gradualmente o anarquismo perdia a sua principal vitalidade das d\u00e9cadas anteriores que lhe era dada pelos camponeses das diferentes comunidades do estado espanhol, pelos oper\u00e1rios de Barcelona, Rio de Janeiro, Buenos Aires, pelos n\u00facleos libert\u00e1rios da \u00c1sia e pelos internacionalistas que corriam a Am\u00e9rica e a Europa agitando as id\u00e9ias de uma sociedade sem Estado.<\/p>\n<p>Os grupos que persistiam em pa\u00edses como Fran\u00e7a e It\u00e1lia era o que sobrava desse velho movimento prolet\u00e1rio e revolucion\u00e1rio que tinha agitado a Europa nos \u00faltimos cem anos, mas a sua incapacidade de penetra\u00e7\u00e3o nos movimentos sociais e entre a juventude era uma constata\u00e7\u00e3o evidente.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o, que de forma imprevis\u00edvel, no final dos anos 60, irromperam novamente as id\u00e9ias libert\u00e1rias, a partir de uma gera\u00e7\u00e3o quase sem contato com o movimento anarquista hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica da sociedade industrial, a ecologia, o pacifismo e o comunitarismo nascidos no movimento contracultural da Am\u00e9rica do Norte, desenvolveram-se em paralelo ao anti-capitalismo radical dos jovens estudantes e prolet\u00e1rios da Europa de 68. Os valores libert\u00e1rios que os anarquistas tinham assumido no movimento social, ao longo de d\u00e9cadas, emergiam novamente de forma criativa e espont\u00e2nea. Esta nova gera\u00e7\u00e3o, ao se aproximar do velho movimento iria se confrontar com o problema da dist\u00e2ncia que os separava dos militantes provindos das lutas dos anos 30, na sua quase totalidade oper\u00e1rios autodidatas.<\/p>\n<p><strong>Seria complexa e dif\u00edcil essa integra\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0a vis\u00e3o do mundo, o discurso, a estrat\u00e9gia, a origem social \u2013 e at\u00e9 os comportamentos \u2013 eram distintos, dificultando que a experi\u00eancia e a hist\u00f3ria que esses velhos militantes representavam se somasse ao voluntarismo e criatividade das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Passaram a coexistir dois movimentos paralelos, com suas publica\u00e7\u00f5es e grupos claramente identific\u00e1veis, que umas vezes se completavam, mas em outras conflitavam.<\/p>\n<p>Com o tempo acabaram por estabelecer alguns contatos, liga\u00e7\u00f5es e colabora\u00e7\u00f5es entre si, sem no entanto vencer definitivamente essa barreira que os separava.<\/p>\n<p>N\u00e3o era o resultado do envelhecimento ou dogmatismo dos velhos militantes como alguns afirmavam, mas t\u00e3o s\u00f3 a barreira inexor\u00e1vel do tempo que afastava esses experimentados ativistas da realidade da pr\u00e1tica social; e que aos jovens impedia de apreender o conhecimento e a experi\u00eancia que o movimento hist\u00f3rico havia acumulado.<\/p>\n<p><strong>Os grupos surgidos a partir do come\u00e7o dos anos 70, iriam ainda ser marcados por uma fraqueza cong\u00eanita, j\u00e1 que eram constitu\u00eddos por estratos sociais que se definem por sua transitoriedade e descontinuidade<\/strong>: jovens e estudantes.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguindo superar o maior problema com que se debatia o anarquismo nas \u00faltimas d\u00e9cadas, o da sua implanta\u00e7\u00e3o nos movimentos sociais.<\/p>\n<p>O anarquismo, ao contr\u00e1rio do marxismo, n\u00e3o acredita na exist\u00eancia de um sujeito hist\u00f3rico \u00fanico e predestinado, uma classe ou grupo social capaz de realizar, em fun\u00e7\u00e3o de um destino hist\u00f3rico, a mudan\u00e7a social.<\/p>\n<p>As for\u00e7as sociais que os libert\u00e1rios consideravam mobiliz\u00e1veis para um projeto de mudan\u00e7a, eram mais vastas e plurais. Desde Bakunin e Kropotkin, sempre estiveram no centro do pensamento anarquista, ao lado do proletariado, os camponeses, todos os explorados e exclu\u00eddos, os marginais e jovens, mas enquanto pessoas concretas, sujeitos capazes de assumirem sua liberdade e se autodeterminarem historicamente.<\/p>\n<p>No entanto, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a concretiza\u00e7\u00e3o de um projeto de transforma\u00e7\u00e3o social, que esses sujeitos sejam parte de grupos e classes sociais com uma afinidade de interesses e com uma estabilidade e continuidade estrutural, que possibilitem formas de associa\u00e7\u00e3o e de luta a prazos mais longos.<\/p>\n<p>O movimento anarquista s\u00f3 ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de retomar uma presen\u00e7a significativa nos movimentos sociais, se participar das suas lutas, principalmente as que nascem das condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de produ\u00e7\u00e3o e da resist\u00eancia \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o. J\u00e1 que as f\u00e1bricas, os escrit\u00f3rios e os outros locais de trabalho dos assalariados, ser\u00e3o sempre \u2013 enquanto n\u00e3o existir a robotiza\u00e7\u00e3o total da produ\u00e7\u00e3o e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os \u2013 o centro das rela\u00e7\u00f5es fundamentais de domina\u00e7\u00e3o e, consequentemente, o n\u00facleo potencial da resist\u00eancia ao capitalismo, onde pode germinar uma alternativa social. O anarquismo n\u00e3o conseguiu at\u00e9 hoje retomar sua rela\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com os movimento sociais e, particularmente, com a luta oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>O renascimento do anarco-sindicalismo em Espanha, nos anos 70, foi um caso \u00fanico que resultou de uma longa hist\u00f3ria do anarco-sindicalismo e da tradi\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria nesse pa\u00eds. Mas mesmo a\u00ed, n\u00e3o se traduziu numa recria\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia anarco-sindicalista adaptando-a \u00e0s profundas transforma\u00e7\u00f5es da economia e da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria, que haviam sido decisivas para debilitar o movimento.<\/p>\n<p><strong>Os problemas com que se tem debatido a CNT ap\u00f3s sua reconstru\u00e7\u00e3o em 1977 resultam em parte \u2013 j\u00e1 que temos de reconhecer que existiram tentativas de infiltra\u00e7\u00e3o e cerco por parte do Estado -, de duas causas:<\/strong>\u00a0a primeira foi a incapacidade da CNT romper com o fantasma da hist\u00f3ria e se abrir ao novo movimento libert\u00e1rio que renascia nos anos 70, em Espanha; por outro lado do fato da estrat\u00e9gia anarco-sindicalista, como se definiu historicamente, n\u00e3o se mostrar operante numa sociedade em que o Capital e o Estado tinham passado por muta\u00e7\u00f5es profundas.<\/p>\n<p>Esta constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa aceitar como certa e inevit\u00e1vel a teoria que o sindicalismo morreu ou \u00e9, hoje, inevitavelmente integrador, e menos ainda, que n\u00e3o existe espa\u00e7o para uma estrat\u00e9gia aut\u00f4noma de confronto anti-capitalista nas atuais rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Embora tenhamos de reconhecer que essa margem se reduziu na maioria dos pa\u00edses de capitalismo maduro, onde a consci\u00eancia da sujei\u00e7\u00e3o desapareceu perante a perspectiva de acesso ao consumo.<\/p>\n<p><strong>E onde uma nova e radical divis\u00e3o se cria no mundo do trabalho:<\/strong>\u00a0a que nasce da oposi\u00e7\u00e3o entre os garantidos e os exclu\u00eddos das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo assim a exist\u00eancia de organiza\u00e7\u00f5es anarco-sindicalistas em Espanha, em Fran\u00e7a e na Su\u00e9cia, e de diversos n\u00facleos sindicalistas revolucion\u00e1rios em outros pa\u00edses, n\u00e3o deixam de ser um desafio que se mede pela dist\u00e2ncia que vai desse sindicalismo aut\u00f4nomo ao sindicalismo atrelado, corporativista, e burocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Mesmo assim temos de reconhecer com lucidez os limites atuais da pr\u00e1tica sindical que tende a se desvirtuar na pr\u00e1tica negocial \u2013 esse \u00e9 o drama da CGT em Espanha \u2013 , ou a se encurralar na intransig\u00eancia do confronto, impedindo os ganhos imediatos, que s\u00e3o uma componente necess\u00e1ria dessa forma de organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da vis\u00e3o simplista de alguns anarquistas, o sindicalismo burocr\u00e1tico e corporativo predominante atualmente, n\u00e3o \u00e9 um produto da trai\u00e7\u00e3o de dirigentes reformistas, mas a express\u00e3o do movimento oper\u00e1rio que aderiu aos valores e \u00e0 l\u00f3gica do capitalismo. A burocracia sindical, tal como a burocracia pol\u00edtica, s\u00f3 reflete a imagem dos movimentos sociais contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Esta reavalia\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es anarquismo X sindicalismo, e a defini\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia atual para a a\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho n\u00e3o deixam de ser importantes, mesmo que, levando em considera\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o atual na maioria dos pa\u00edses, as perspectivas para os anarquistas s\u00e3o, quando muito, a de contribuir para a cria\u00e7\u00e3o de n\u00facleos de autonomia e auto-organiza\u00e7\u00e3o nos locais de trabalho, aplicando as id\u00e9ias e t\u00e1ticas do anarco-sindicalismo adequadas a cada situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje o sindicalismo para ser revolucion\u00e1rio, teria de se tornar mais abrangente, mesmo ao n\u00edvel reivindicativo, rompendo as amarras do reacionarismo corporativo. Al\u00e9m das tradicionais lutas salariais, de redu\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rio, de melhoria das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e contra o desemprego, teria de passar a intervir no redimensionamento do papel do trabalho e da fun\u00e7\u00e3o do trabalhador. E, indo mais al\u00e9m, atuar nas quest\u00f5es que envolvem o mundo do trabalho, como os transportes, habita\u00e7\u00e3o, urbanismo, consumo e qualidade de vida, j\u00e1 que s\u00e3o aspetos fundamentais, se partirmos de uma vis\u00e3o integrada das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o e de suas conseq\u00fc\u00eancias na exist\u00eancia quotidiana dos assalariados.<\/p>\n<p>O sindicalismo revolucion\u00e1rio teria de retomar a tradi\u00e7\u00e3o perdida de ser o espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es de afinidade e solidariedade e de cria\u00e7\u00e3o de uma contracultura de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Rompendo a barreira contempor\u00e2nea estabelecida entre os trabalhadores garantidos e exclu\u00eddos, entre os que possuem trabalho prec\u00e1rio e trabalho seguro, criando formas de organiza\u00e7\u00e3o e luta solid\u00e1ria junto com os desempregados e aposentados.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as estruturais por que est\u00e1 passando a sociedade capitalista tem como uma de suas conseq\u00fc\u00eancias mais importantes o decl\u00ednio da coes\u00e3o e consci\u00eancia dos trabalhadores, bem como a perda da identidade constru\u00edda ao longo do s\u00e9culo XIX e primeiras d\u00e9cadas do nosso s\u00e9culo. O Estado do Bem-Estar, a sociedade de consumo e as tecnologias de massifica\u00e7\u00e3o, em particular o r\u00e1dio e a televis\u00e3o, podem ser apontadas como algumas das raz\u00f5es fundamentais para esta realidade que se manifesta de forma clara no primeiro mundo e j\u00e1 adquire os mesmos contornos nos pa\u00edses do sul industrializados e urbanizados.<\/p>\n<p>Onde o espa\u00e7o comunit\u00e1rio e da socializa\u00e7\u00e3o d\u00e1 lugar \u00e0 realidade medi\u00e1tica da televis\u00e3o omnipresente.<\/p>\n<p>Se num primeiro momento o sindicalismo e o anarquismo conseguiram se apropriar da tecnologia da imprensa e a partir dela construir uma cultura oper\u00e1ria e libert\u00e1ria, o mesmo processo n\u00e3o ocorreu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 r\u00e1dio, televis\u00e3o, v\u00eddeo e agora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 inform\u00e1tica, que foram usados quase exclusivamente pelo sistema para unificar ideol\u00f3gica e culturalmente toda a sociedade, destruindo as diferen\u00e7as e neutralizando a resist\u00eancia cultural que se havia gerado a partir da cr\u00edtica anti-capitalista. Essa estrat\u00e9gia teve um outro desdobramento, que foi o da fragmenta\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o coletivo quotidiano das classes dominadas, induzidas por essas mesmas tecnologias a se fecharem sob o espa\u00e7o individual e privado do lar.<\/p>\n<p>A reconstru\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o perdido da sociabilidade, da comunica\u00e7\u00e3o e da cultura dos \u201cde baixo\u201d, \u00e9 possivelmente o maior desafio que um projeto libert\u00e1rio ter\u00e1 de enfrentar.<\/p>\n<p>O anarco-sindicalismo, principal respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o dessa cultura oper\u00e1ria em muitos pa\u00edses, foi um exemplo de criatividade dos oper\u00e1rios libert\u00e1rios e de sua adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s necessidades de luta da \u00e9poca em que surgiu. Foi tamb\u00e9m a aplica\u00e7\u00e3o concreta de estruturas auto-control\u00e1veis e auto-dirigidas \u00e0 sociedade industrial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua recria\u00e7\u00e3o atual, ter\u00e1 de afastar qualquer pretens\u00e3o hegemonista ou de imita\u00e7\u00e3o saudosista e considerar que \u00e9 uma das estrat\u00e9gias poss\u00edveis de luta anti-capitalista.<\/p>\n<p>Talvez a que maiores potencialidades ainda tem entre os setores sociais sujeitos as condi\u00e7\u00f5es de trabalho violentas ou em regi\u00f5es do mundo onde o quotidiano de mis\u00e9ria e explora\u00e7\u00e3o mant\u00e9m desperto o instinto combativo dos assalariados.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se pode perder de vista que toda a an\u00e1lise social, centrada exclusivamente sobre as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 conta de muitos problemas j\u00e1 levantados no passado e, menos ainda, dos que adquiriram maior import\u00e2ncia nos \u00faltimos anos, atrav\u00e9s dos novos movimentos sociais, nascidos como resposta auto-organizativa a situa\u00e7\u00f5es e conflitos diferenciados.<\/p>\n<p>O anarquismo que j\u00e1 no passado se manifestava e agia nas mais diferentes \u00e1reas, do anti-militarismo e pacifismo, ao naturismo, do esperanto \u00e0s experi\u00eancias educacionais, deveria estar especialmente atento \u00e0s potencialidades libert\u00e1rias destes novos movimentos.<\/p>\n<p>Mas, sem deixar de lhes apontar a principal limita\u00e7\u00e3o que \u00e9 a de assumirem uma vis\u00e3o fragmentada dos problemas estruturais da sociedade, perdendo a no\u00e7\u00e3o do todo social.<\/p>\n<p>Da organiza\u00e7\u00e3o dos consumidores, ao ambientalismo, da ecologia ao feminismo, do anti-militarismo \u00e0s pris\u00f5es, muitos s\u00e3o os objetivos e as formas de associa\u00e7\u00e3o que potenciam a auto-organiza\u00e7\u00e3o de diferentes setores da sociedade em defesa dos seus interesses e, certamente, em todos os casos pode haver uma proposta e uma presen\u00e7a libert\u00e1ria que potencie a articula\u00e7\u00e3o e globaliza\u00e7\u00e3o de cada uma dessas lutas.<\/p>\n<p>A ecologia social e o anti-militarismo, pelas suas tradicionais afinidades com os valores libert\u00e1rios, s\u00e3o \u00e1reas onde a milit\u00e2ncia anarquista mais se tem exprimido, mas tamb\u00e9m a\u00ed as potencialidades s\u00e3o limitadas, se for perdido o sentido da estrat\u00e9gia global de ruptura.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel construir uma alternativa social a partir do espa\u00e7o fragmentado da particularidade e da diferen\u00e7a, mas somente a partir da coopera\u00e7\u00e3o em torno de um projeto de mudan\u00e7a que una diferentes grupos e tend\u00eancias sociais. Caso contr\u00e1rio acabar\u00e3o engolidos \u2013 como temos assistido nos \u00faltimos tempos \u2013 pelo movimento permanente de integra\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do qual o sistema tende a recuperar em seu benef\u00edcio toda a cr\u00edtica parcelar.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m as lutas relativas \u00e0s liberdades se tem tornado mais comuns nos chamados pa\u00edses democr\u00e1ticos, sendo decisivas para impedir a expans\u00e3o do Estado autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os anarquistas n\u00e3o se podem omitir com o in\u00f3cuo pretexto de que em muitas delas est\u00e3o em causa apenas regras jur\u00eddicas, j\u00e1 que s\u00e3o estes espa\u00e7os de liberdade que o movimento social imp\u00f4s ao Estado, como seus direitos que est\u00e3o amea\u00e7ados.<\/p>\n<p>As garantias penais e processuais, os direitos dos presos, o direito de asilo e de emigra\u00e7\u00e3o, s\u00e3o entre muitos outros, os que os Estados v\u00eam paulativamente eliminando ou reduzindo.<\/p>\n<p>A nossa cr\u00edtica ao Estado se concretiza no estabelecimento de metas imediatas para a luta social nesta \u00e1rea. Contrariamente a uma recusa abstrata ou a uma concep\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria, devemos apoiar uma pr\u00e1tica radical anti-estatista, que em cada caso e situa\u00e7\u00e3o se oponha \u00e0 expans\u00e3o e hegemonia das rela\u00e7\u00f5es de Poder, e favore\u00e7a a autonomia e a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de liberdade a partir da pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<p>Todas estas possibilidades, em aberto, para nossa interven\u00e7\u00e3o, est\u00e3o condicionadas pela capacidade de nos articularmos e associarmos, j\u00e1 que s\u00f3 movimentos sociais organizados t\u00eam condi\u00e7\u00f5es para transformar qualquer situa\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>Nossa fragilidade organizativa:<\/strong>\u00a0incapacidade de associa\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o em cada regi\u00e3o e mais ainda internacionalmente, s\u00e3o por demais evidentes para n\u00e3o serem vistas como um dos problemas chaves do que genericamente chamamos de movimento libert\u00e1rio. N\u00e3o se solucionando isto, ser\u00e1 imposs\u00edvel qualquer ativismo prof\u00edcuo, qualquer resultado duradouro para a nossa milit\u00e2ncia ou a transmiss\u00e3o de uma cultura libert\u00e1ria entre gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O processo de globaliza\u00e7\u00e3o da sociedade industrial, est\u00e1 entrando num momento decisivo, onde o internacionalismo e a solidariedade dos povos \u00e9 o \u00fanico ant\u00eddoto contra a xenofobia e a ghuetiza\u00e7\u00e3o de um mundo repartido entre o desperd\u00edcio da abund\u00e2ncia, no Norte, e a mais absurda das mis\u00e9rias no Sul.<\/p>\n<p><strong>Usando as palavras de Noam Chomsky:\u00a0<\/strong>\u201co principal hoje \u00e9 que se a resist\u00eancia popular quiser ter alguma signific\u00e2ncia, ter\u00e1 que ser internacional\u2026, isto come\u00e7a a ser compreendido e \u00e9 preciso que haja algum tipo de rea\u00e7\u00e3o em escala internacional, um tipo de solidariedade transnacional entre pobres e trabalhadores\u201d.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o podemos afirmar que, de forma imediata, teremos de encarar a quest\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o, articula\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o de nossas pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O que passa tamb\u00e9m pela clarifica\u00e7\u00e3o do papel da organiza\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria, que \u00e9, antes do mais, o de cria\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o coletivo, livre e fraterno, onde se forjem novas rela\u00e7\u00f5es sociais e se viva de acordo com os valores da cultura libert\u00e1ria, como aconteceu no passado quando \u201cos trabalhadores e os pobres n\u00e3o estavam nem de longe t\u00e3o isolados e nem submetidos ao monop\u00f3lio ideol\u00f3gico da m\u00eddia dos neg\u00f3cios.\u201d<\/p>\n<p>Foi por isso que a esperan\u00e7a e a utopia se reproduziam nesses espa\u00e7os libertados onde viviam os exclu\u00eddos. \u00c9 esta uma das fun\u00e7\u00f5es que temos de recuperar para as associa\u00e7\u00f5es libert\u00e1rias, ao mesmo tempo que se assumam como um n\u00facleo de difus\u00e3o das id\u00e9ias anarquistas e de articula\u00e7\u00e3o da luta de resist\u00eancia anti-capitalista.<\/p>\n<p>As formas concretas de associa\u00e7\u00e3o podem ser diversas, das organiza\u00e7\u00f5es anarco-sindicalistas, \u00e0s federa\u00e7\u00f5es de grupos de afinidade, das redes de informa\u00e7\u00e3o, \u00e0s associa\u00e7\u00f5es de ateneus e centros de cultura.<\/p>\n<p>O fundamental \u00e9 federalizar e coletivizar pr\u00e1ticas e experi\u00eancias isoladas, ampliando assim as possibilidades de interven\u00e7\u00e3o social. A ruptura com o isolamento e o individualismo do cidad\u00e3o-consumidor-espectador \u2013 papel que o Sistema nos quer impor \u2013 \u00e9 o passo mais decisivo no caminho da reconstru\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o coletivo da alternativa social.<\/p>\n<p>S\u00f3 atrav\u00e9s de um associativismo libert\u00e1rio que respeite a autonomia, singularidade e diferen\u00e7a entre cada indiv\u00edduo ou grupo, mas que seja capaz de potencializar, acima de tudo, o que temos em comum, fundamento de qualquer rela\u00e7\u00e3o de afinidade, solidariedade e apoio m\u00fatuo, poderemos criar uma din\u00e2mica nova no movimento e concretizarmos de imediato as formas organizacionais que propomos para a sociedade.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o modelo reconhecido por qualquer anarquista, mas que tantas vezes negamos ao adotar posturas dogm\u00e1ticas e arrogantes, confrontos personalizados, criticismos inconseq\u00fcentes, resultantes do descomprometimento com a \u00e9tica anarquista.<\/p>\n<p>Essa \u00e9tica que nos leva a exigir uma adequa\u00e7\u00e3o dos meios aos fins um ponto importante da nossa cr\u00edtica ao socialismo autorit\u00e1rio deve assumir um papel central na milit\u00e2ncia libert\u00e1ria, condicionando imperativamente nossa pr\u00e1tica social. Uma realidade em que est\u00e3o presentes tens\u00f5es permanentes, resultantes das press\u00f5es do meio social, da introje\u00e7\u00e3o dos valores dominantes e das limita\u00e7\u00f5es pessoais, mas que ser\u00e1 sempre o crit\u00e9rio determinante para a avalia\u00e7\u00e3o da coer\u00eancia de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>A \u00e9tica anarquista e os valores libert\u00e1rios tornam-se, assim, pontos da ruptura radical com as ideologias autorit\u00e1rias, constituindo a mais profunda clivagem com o socialismo autorit\u00e1rio. A rebeldia, a transforma\u00e7\u00e3o social s\u00f3 podem ser um produto da vontade livre de sujeitos autodeterminados e solid\u00e1rios vivendo dentro de uma dada realidade hist\u00f3rica e social. Jamais produto das condi\u00e7\u00f5es materiais de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas sempre potenciar\u00e3o a maximiza\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o e da sujei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nenhum materialismo vulgar poder\u00e1 explicar Miguel Angiolillo. Um oper\u00e1rio italiano refugiado em Londres, que depois de conhecer os depoimentos de anarquistas espanh\u00f3is v\u00edtimas de pris\u00e3o e tortura, decide em 1896, calma e pacientemente procurar o primeiro ministro de um pa\u00eds estranho e o assassinar, morrendo no garrote ap\u00f3s realizar o que para si era imperativo pessoal de solidariedade.<\/p>\n<p><strong>DILEMAS DO ANARQUISMO CONTEMPOR\u00c2NEO<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Uma sociedade que se auto-organiza sem autoridade, est\u00e1 sempre ao nosso alcance<br \/>\ncomo uma semente debaixo da neve, enterrada pelo peso do Estado e sua burocracia\u2026 Colin Ward<\/strong><\/p>\n<p align=\"left\">Ao contr\u00e1rio do que muitos gostariam o anarquismo n\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie ex\u00f3tica em extin\u00e7\u00e3o, em todos os pa\u00edses eles est\u00e3o presentes na manifesta\u00e7\u00e3o ruidosa na pra\u00e7a p\u00fablica ou na recusa silenciosa.<\/p>\n<p align=\"left\">Mas certamente poderemos afirmar que enquanto<i>movimento<\/i>\u00a0com o m\u00ednimo de organicidade, o anarquismo desapareceu nos \u00faltimos cinq\u00fcenta anos. Existem coletivos, publica\u00e7\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es em muitos pa\u00edses, mas n\u00e3o mais um movimento federalizado e internacionalista que se relacione de forma ativa e se afirme como alternativa social. A incapacidade organizativa, a reduzida atua\u00e7\u00e3o do anarquismo nos movimentos sociais e a cristaliza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica s\u00e3o essas as quest\u00f5es centrais que os libert\u00e1rios t\u00eam de enfrentar nos tempos presentes.<\/p>\n<p align=\"left\">Existe uma rela\u00e7\u00e3o direta entre estes dois aspectos j\u00e1 que, quer o pensamento individual, quer a elabora\u00e7\u00e3o dum conhecimento coletivo, est\u00e3o ligados indissociavelmente \u00e0 participa\u00e7\u00e3o da pr\u00e1xis dum grupo social.<\/p>\n<p align=\"left\">Como alguns libert\u00e1rios gostam de afirmar \u201cos anarquistas s\u00e3o te\u00f3ricos da sua pr\u00e1tica e pr\u00e1ticos da sua teoria\u201d. \u00c9 em fun\u00e7\u00e3o do agir sobre a realidade que qualquer teoria social se vai elaborando, desdobrando e auto-corrigindo. Cada sucesso ou fracasso, imp\u00f5e uma reavalia\u00e7\u00e3o do nosso pensar.<\/p>\n<p align=\"left\">Esta rela\u00e7\u00e3o primordial entre teoria e pr\u00e1tica, sempre existiu no movimento anarquista hist\u00f3rico, essa foi uma das raz\u00f5es porque n\u00e3o se constituiu uma intelligentzia especializada em pensar a mudan\u00e7a social, entre os libert\u00e1rios. No marxismo essa ruptura gerou na maioria dos casos um pensamento essencialmente ideol\u00f3gico e contemplativo, tipicamente acad\u00eamico e nesse sentido in\u00fatil para o movimento anti-capitalista.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Desde sua pris\u00e3o na Saxonia escreveu Bakunin uma carta em que dizia:\u00a0<\/strong>\u201cEncontro-me agora no ponto zero, quero dizer que estou condenado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de ser exclusivamente pensante, ou seja, n\u00e3o vivente.\u201d<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Se existe corrente socialista que assumiu a 11\u00aa Tese de Marx contra Feuerbach:<\/strong>\u00a0\u201cOs fil\u00f3sofos se limitaram a interpretar o mundo diferentemente, cabe transform\u00e1-lo\u201d foram os libert\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"left\">No anarquismo os intelectuais do movimento sempre se assumiram mais como militantes do que como pensadores, sua radicalidade, e a op\u00e7\u00e3o pela coer\u00eancia impossibilitaram que o anarquista produzisse essa subesp\u00e9cie de te\u00f3ricos contempladores. Mesmo os que como intelectuais brilhantes como Kropotkin, Reclus ou Santillan acabaram n\u00e3o dispondo do tempo e meios que lhes possibilitassem procurar suas cadeiras em alguma Biblioteca do ex\u00edlio.<\/p>\n<p align=\"left\">Mas certamente \u00e9 dif\u00edcil encontrar movimento social que tenha conseguido produzir tantos autodidatas cr\u00edticos e pensadores quanto o anarquismo, usando a deliciosa express\u00e3o do historiador do anarquismo Edgar Rodrigues \u2014 tamb\u00e9m ele um autodidata \u2014 que movimento conseguiu produzir um \u201cengraxate e intelectual\u201d como Ossep Stefanovetch ucr\u00e2niano anarquista que viveu no Brasil?.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>A pr\u00f3pria natureza heterodoxa do anarquismo impedia essa recupera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, at\u00e9 porque desde Proudhon se recusava a constru\u00e7\u00e3o dum sistema fechado e auto-suficiente:<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"left\">\u201cAcolhamos, encoragemos todos os protestos, desonremos as exclus\u00f5es, todos os misticismos: n\u00e3o olhemos jamais uma quest\u00e3o como esgotada, e quando tivermos usado at\u00e9 ao nosso \u00faltimo argumento, recomecemos, se for preciso, com eloq\u00fc\u00eancia e ironia\u201d\u00a0<sup>.<\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"left\">O que tamb\u00e9m o diferenciava daquela corrente que se proclamava do socialismo cient\u00edfico e que era uma manifesta\u00e7\u00e3o duma imensa arrog\u00e2ncia e dogmatismo intelectual.<\/p>\n<p align=\"left\">S\u00f3 que na medida em que o anarquismo se foi afastando da realidade social, perdendo suas ra\u00edzes nos movimentos sociais, tamb\u00e9m ele se encaminhou para a cristaliza\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, que se traduziu num pensamento fechado e doutrin\u00e1rio em uns casos, numa reflex\u00e3o acad\u00eamica sem qualquer conte\u00fado de cr\u00edtica social, em outros ou num niilismo chique para consumo de classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p align=\"left\">O anti-dogmatismo essencial do anarquismo, n\u00e3o justifica, que nos possamos agarrar a algumas id\u00e9ias gerais e excluir o sentido da d\u00favida sistem\u00e1tica e uma necess\u00e1ria recria\u00e7\u00e3o permanente, o que nos imp\u00f5e um agu\u00e7ado sentido autocr\u00edtico. Ao contr\u00e1rio, a complexidade social atual, os novos problemas a encarar e a amplia\u00e7\u00e3o permanente do conhecimento, deve-nos levar a novas elabora\u00e7\u00f5es de valores e objetivos libert\u00e1rios. N\u00e3o como forma de\u00a0<b>adapta\u00e7\u00e3o<\/b>\u00a0\u00e0 realidade \u2014 do tipo libertarista p\u00f3s-moderno \u2014, mas sim como meio de responder \u00e0 cr\u00edtica necess\u00e1ria dessa realidade.<\/p>\n<p align=\"left\">Conjugar o sentido ut\u00f3pico do anarquismo com a reflex\u00e3o te\u00f3rica e uma pr\u00e1tica social, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o desse pensamento revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p align=\"left\">Caso contr\u00e1rio ficar\u00e1 reduzido a uma \u00e9tica de comportamento ou a uma seita messi\u00e2nica sem qualquer condi\u00e7\u00e3o de intera\u00e7\u00e3o com os acontecimentos reais.<\/p>\n<p align=\"left\">Quanto \u00e0s novas teoriza\u00e7\u00f5es que tem ocorrido nos \u00faltimos anos, um pouco por todo o lado, na linha libertarista norte-americana de um Robert Nozick, h\u00e1 muito se afastou dos valores radicais do anarquismo para se aproximar dum liberalismo, que n\u00e3o tem correspond\u00eancia com a realidade c\u00ednica do sistema dominante. Mais que um pensamento reformista \u2014j\u00e1 que nem radicais s\u00e3o em suas exig\u00eancias de reforma\u2014, \u00e9 um pensamento acomodado, incapaz de questionar profundamente a realidade e apostar na vontade e desejo ut\u00f3pico que sempre estiveram presentes nos movimentos sociais dos oprimidos.<\/p>\n<p align=\"left\">Ao contr\u00e1rio do que apregoam os libertaristas, o pensamento anarquista cl\u00e1ssico sobre o Estado e o Poder, mant\u00e9m toda a sua pertin\u00eancia e o conceito libert\u00e1rio duma comunidade autogovernada, descentralizada e federalizada \u00e9 mais atual que nunca. A intui\u00e7\u00e3o e lucidez na cr\u00edtica do socialismo autorit\u00e1rio e do Estado, demonstrou-se duma objetividade insofism\u00e1vel.<\/p>\n<p align=\"left\">O que n\u00e3o nos impede de reconhecer que as id\u00e9ias expostas por Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Malatesta e Landauer, entre outros, n\u00e3o tiveram os desenvolvimentos posteriores que se faziam necess\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"left\">Muitas quest\u00f5es abertas pela experi\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Sovi\u00e9tica e da Revolu\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria em Espanha, bem como muitas outras surgidas com as muta\u00e7\u00f5es ocorridas na sociedade industrial (das novas tecnologias, \u00e0 ecologia) est\u00e3o em aberto. Uma teoria do Poder; uma concep\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria de organiza\u00e7\u00e3o; a an\u00e1lise das formas de autogest\u00e3o; os problemas de escala e da complexidade tecnol\u00f3gica na sociedade contempor\u00e2nea; um entendimento dos mecanismos psicol\u00f3gicos da agressividade e da domina\u00e7\u00e3o; as rela\u00e7\u00f5es de micropoder na fam\u00edlia e nos grupos, um estudo das potencialidades libertadoras da rob\u00f3tica e da telem\u00e1tica, s\u00e3o entre outros temas que precisam de ser aprofundados desde uma perspectiva libert\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"left\">Enquanto o anarquismo esteve no centro dos movimentos sociais e se afirmava como pensamento rebelde, manteve sua capacidade de atra\u00e7\u00e3o sobre uma intelectualidade desvinculada e cr\u00edtica.<\/p>\n<p align=\"left\">At\u00e9 ao come\u00e7o do s\u00e9culo conhecidos pensadores se interessavam pelas id\u00e9ias e as principais figuras do movimento como Kropotkin e Reclus, encontravam-se envolvidas nos grandes debates intelectuais da \u00e9poca.<\/p>\n<p align=\"left\">Nos anos 20 ainda muitos pensadores da import\u00e2ncia de Buber, Luk\u00e1cs e Benjamin estavam pr\u00f3ximos de posi\u00e7\u00f5es libert\u00e1rias, o mesmo ocorrendo com muitos escritores e artistas.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Ap\u00f3s os anos 30 a atra\u00e7\u00e3o exercida pelo socialismo poss\u00edvel abriu o caminho \u00e0 hegemonia do marxismo-leninismo nos meios intelectuais, passando o anarquismo a persistir como refer\u00eancia s\u00f3 em alguns meios dissidentes:\u00a0<\/strong>dos te\u00f3ricos do comselhismo, pacifistas, ou escritores como Per\u00e9t, Breton, Orwell, Huxley e Camus.<\/p>\n<p align=\"left\">Um movimento inverso, embora minorit\u00e1rio, haveria de ocorrer, quando a consci\u00eancia dos crimes cometidos pelas burocracias vermelhas, aproximou do anarquismo importantes intelectuais oriundos do marxismo, entre os quais Herbert Read, Daniel Guerin, Murray Bookchin, Chomsky e Paul Goodman. Com eles o pensamento libert\u00e1rio ganhou importantes contribui\u00e7\u00f5es em novas \u00e1reas, da arte, educa\u00e7\u00e3o, urbanismo e ecologia social.<\/p>\n<p align=\"left\">Mas foi s\u00f3 a partir dos anos 60, que assistimos a uma ruptura ampla dos intelectuais como o socialismo autorit\u00e1rio, quer pelo conhecimento da realidade do estalinismo, quer pela influ\u00eancia da explos\u00e3o libert\u00e1ria ocorrida no final dessa d\u00e9cada.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>S\u00f3 que essa ruptura haveria de tomar duas dire\u00e7\u00f5es:\u00a0<\/strong>de um lado uma maioria intelectual que adotou a postura acomodada de coniv\u00eancia t\u00e1cita ou ades\u00e3o expl\u00edcita ao capitalismo, sob o eufemismo de ades\u00e3o aos valores democr\u00e1ticos; de outro uma minoria que persistiu com uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e aut\u00f4noma, vindo v\u00e1rios a se aproximar dos valores libert\u00e1rios e da tradi\u00e7\u00e3o anarquista, mesmo que em alguns casos tenham permanecido com posi\u00e7\u00f5es oscilantes e contradit\u00f3rias, j\u00e1 que por pruridos marxistas ou por preconceitos acad\u00eamicos, acabavam n\u00e3o reconhecendo explicitamente essa vincula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\">Dos situacionistas, a Guattari, Bosquet e Castoriadis, a contribui\u00e7\u00e3o a um pensamento libert\u00e1rio contempor\u00e2neo ainda \u00e9 feita com preconceitos e mal entendidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 corrente social que mais pensou e lutou por esses valores.<\/p>\n<p align=\"left\">N\u00e3o est\u00e1 em causa a elimina\u00e7\u00e3o dum sentido cr\u00edtico sobre o pr\u00f3prio anarquismo, ou a identifica\u00e7\u00e3o aprior\u00edstica do libert\u00e1rio com aquele que se diz ser anarquista, mas certamente \u00e9 contradit\u00f3rio se posicionar como libert\u00e1rio e ostensivamente ignorar um pensamento e uma pr\u00e1tica social que se traduziram na hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, essencialmente, no movimento anarquista.<\/p>\n<p align=\"left\">Pelo contr\u00e1rio, entre os anarquistas sempre houve uma procura permanente das fontes do pensamento libert\u00e1rio, dos her\u00e9ticos do passado aos do presente, de Illich a Marcuse e Reich, uma posi\u00e7\u00e3o aberta \u00e0 heterodoxia. Mesmo que em alguns casos tamb\u00e9m tenham ocorrido resist\u00eancias a essas cr\u00edticas libert\u00e1rias que n\u00e3o eram de matriz anarquista, como se por esse fato, fossem menos fundamentais para n\u00f3s.<\/p>\n<p align=\"left\">Essa forma de preconceito, tamb\u00e9m leva ao dogmatismo e traduz-se na maioria dos casos, numa recusa de toda a produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que seja exterior ao movimento.<\/p>\n<p align=\"left\">Uma obstinada cegueira que impossibilita uma leitura proveitosa, por exemplo, do pensamento de raiz marxista, principalmente aquele elaborado por intelectuais anti-autorit\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Esta intransig\u00eancia n\u00e3o leva em conta o que Kropotkin um dia caracterizou como a luta permanente de duas tend\u00eancias na hist\u00f3ria e na sociedade:<\/strong>\u00a0uma corrente autorit\u00e1ria e uma corrente libert\u00e1ria.<\/p>\n<p align=\"left\">E que esta \u00faltima n\u00e3o pode ser reduzida a uma\u00a0<b>express\u00e3o pura<\/b>, pelo contr\u00e1rio \u00e9 produto duma pr\u00e1tica e dum processo reflexivo cont\u00ednuo e tantas vezes contradit\u00f3rio em que cada grupo e indiv\u00edduo, de forma cooperativa, v\u00e3o acrescentando algo de novo, numa supera\u00e7\u00e3o permanente de d\u00favidas e dificuldades.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Usando as palavras de Colin Ward:<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"left\">\u201ca escolha entre as solu\u00e7\u00f5es libert\u00e1ria e autorit\u00e1ria n\u00e3o consiste em uma luta catastr\u00f3fica definitiva, mas em uma s\u00e9rie de compromissos atuais, muitos deles inconclusos, que ocorrem e ocorrer\u00e3o, ao largo de toda a hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"left\">No entanto, \u00e9 sintom\u00e1tico a dificuldade do anarquismo absorver o novo pensamento libert\u00e1rio. Tirando algumas excep\u00e7\u00f5es como It\u00e1lia, onde tem estado presente nos coletivos anarquistas assumindo a\u00ed uma contemporaniedade radical, em Espanha depois do per\u00edodo din\u00e2mico do fim dos anos 70, quando publica\u00e7\u00f5es como a Bicicleta trouxeram esse novo rosto do pensamento libert\u00e1rio, logo se voltou a um discurso carregado de fantasmas e saudades.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>Esta cristaliza\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do anarquismo, como teoria definida e acabada, leva a uma concep\u00e7\u00e3o sect\u00e1ria e religiosa, V\u00edctor Garcia velho militante anarquista colocou o dedo na ferida numa cr\u00edtica \u00e1cida ao ortodoxismo quando escreveu:<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p align=\"left\">\u201cEl anarquismo debe vigorizar-se y actualizar-se, condici\u00f3n imprescindible si deseamos tener auditorio. El anarquismo organizado, en particular, ha sufrido una exagerada tirania por parte de vestales, ex\u00e9getas y Torquemadas que no han permitido nunca el re-examen y la renovaci\u00f3n de unas t\u00e1ticas por miedo a que se resintieran los principios y las finalidades. Esta imposici\u00f3n\u00a0<b>oficialista ortodoxa<\/b>\u00a0no ha permitido el airear nuestros recintos que se han llenado de telera\u00f1as mientras el mundo intelectual y la ci\u00eancia continuaba una marcha vertiginosa que nos costar\u00e1 esfuerzos supremos si queremos darle alcance. Todo el que no se renueva, muere\u2026\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p align=\"left\">O anarquismo nasceu da dissid\u00eancia e da heterodoxia, em Godwin, Bakunin ou Malatesta n\u00e3o encontramos esse sectarismo e ortodoxia, essa tenta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o esteve de todo ausente em outras \u00e9pocas, acabou sufocada pela diversidade e radicalidade heterodoxa. Anarquistas, sindicalistas, individualistas, pacifistas e insurreicional\u00edstas, foram a express\u00e3o dessa pluralidade libert\u00e1ria que fizeram do anarquismo uma manifesta\u00e7\u00e3o viva do pensamento anti-dogm\u00e1tico. Estas s\u00e3o algumas das caracter\u00edsticas que temos de preservar, a toler\u00e2ncia \u00e9 uma componente b\u00e1sica do movimento anti-autorit\u00e1rio, sem ela n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar qualquer forma de associativismo ou qualquer forma de renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>POSSIBILIDADES ATUAIS DUMA TEORIA E PR\u00c1TICA LIBERT\u00c1RIA<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Os homens temem este desconhecido no qual entrariam se renunciassem \u00e0 atual ordem de vida conhecida.<br \/>\nSem d\u00favida, \u00e9 bom temer o desconhecido, quando nossa situa\u00e7\u00e3o conhecida \u00e9 boa e segura;<br \/>\nmas este n\u00e3o \u00e9 o caso e sabemos, sem margem de d\u00favida, que estamos \u00e0 beira do abismo. Liev Tolstoi<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo neste momento de maior arrog\u00e2ncia do sistema capitalista que se travestiu em sociedade democr\u00e1tica e s\u00f3 por esse nome quer ser conhecido \u2014 principalmente do seu Estado\u2014, quando a ideologia do Poder e da Sujei\u00e7\u00e3o se escuta em todo o lado, n\u00e3o se descortinam argumentos a favor dum sistema essencialmente \u2014 e historicamente \u2014 infame.<\/p>\n<p>Sua irracionalidade econ\u00f4mica e social \u00e9 por demais evidente. A pequena ilha de abund\u00e2ncia, cercada de pobreza, pode at\u00e9 ser o para\u00edso, ou um pobre suced\u00e2neo, para os que a\u00ed vivem. S\u00f3 que n\u00e3o passa disso, uma ilha que \u00e9 abastecida e financiada pelos que vivem fora dela. Uma multid\u00e3o de esfomeados, desesperados ou dos conformados na mis\u00e9ria que povoam as grandes regi\u00f5es do planeta.<\/p>\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel falar de progresso, desenvolvimento e \u00eaxito do g\u00eanero humano neste contexto em que uma parte da Humanidade se dessolidariza da restante?<\/p>\n<p>Como admitir como pol\u00edtica ou eticamente admiss\u00edvel um sistema social que perpetua tal realidade?<\/p>\n<p>Que Futuro aponta essa realidade?<\/p>\n<p>Certamente n\u00e3o \u00e9 a amplia\u00e7\u00e3o da sociedade de consumo, \u00e0 escala universal, mesmo que se amplie a novas ilhas, no oceano do apartheid social.<\/p>\n<p>Os recursos escassos e a crise ecol\u00f3gica provocada pela economia do lucro e do desperd\u00edcio, s\u00f3 permitem visualizar uma planifica\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria \u00e0 escala mundial, com o controle rigoroso dos recursos, da destrui\u00e7\u00e3o ambiental e da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em resumo, um sistema ainda mais autorit\u00e1rio e injusto.<\/p>\n<p>O contraponto a esse futuro ser\u00e1 sempre uma possibilidade, criada a partir da vontade, desejo e consci\u00eancia dos\u00a0<b>de baixo<\/b>, dos exclu\u00eddos deste sistema, mas tamb\u00e9m de todos os estratos sociais para quem a\u00a0<b>Humanidade \u00e9 maior que o Estado<\/b>, evocando as palavras de Martin Buber. Dos que tem consci\u00eancia que as op\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais vastas e que o futuro e o mundo s\u00e3o criados pelos seres humanos e, como tal, sempre estar\u00e3o abertos \u00e0 nossa a\u00e7\u00e3o criadora.<\/p>\n<p>Do ponto de vista do anarquismo, do movimento dos que recusam todas as formas de domina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos deixar de considerar uma prova da perenidade do inconformismo e da rebeldia, a persist\u00eancia do movimento e das id\u00e9ias nesta \u00e9poca de restaura\u00e7\u00e3o e conformismo. O aparecimento de novos grupos no Leste europeu e em pa\u00edses do Terceiro Mundo, bem como a aproxima\u00e7\u00e3o de intelectuais dos princ\u00edpios libert\u00e1rios, sinalizam a pertin\u00eancia da reflex\u00e3o anarquista sobre o poder, a domina\u00e7\u00e3o e o estado. Abrindo possibilidades para o ressurgir dum socialismo libert\u00e1rio, org\u00e2nico e federalista. A pr\u00f3pria generaliza\u00e7\u00e3o nas redes sociais de conceitos como autonomia, apoio m\u00fatuo, descentraliza\u00e7\u00e3o, democracia direta, federalismo que afloram dentro das chamadas Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais principalmente nos pa\u00edses do Sul permitem ter a esperan\u00e7a que as sociedades se aproximem em suas buscas dum modelo libert\u00e1rio, mesmo que essa forma de organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o assuma os contornos idealizados pelos militantes do passado.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica da pol\u00edtica como oculta\u00e7\u00e3o e falsa consci\u00eancia, e do Estado como burocracia da inutilidade, que se manifesta tamb\u00e9m nos movimentos sociais reabre o caminho libert\u00e1rio dos projetos sociais autogestion\u00e1rios.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia libert\u00e1ria manifestou-se sob v\u00e1rias formas no passado, da antig\u00fcidade aos movimentos religiosos e messi\u00e2nicos, no presente se manifesta nas experi\u00eancias autogestion\u00e1rias da Am\u00e9rica Latina, nos movimentos ecol\u00f3gico, feminista e pacifista, n\u00e3o sendo propriedade de nenhum grupo. Mas ningu\u00e9m foi t\u00e3o longe como os anarquistas na tentativa de modelar um projeto social libert\u00e1rio, fazendo convergir a igualdade e a liberdade, o indiv\u00edduo e a comunidade, a autonomia e a coopera\u00e7\u00e3o. Por isso podemos dizer que o anarquismo \u00e9 uma s\u00edntese dos ideais que revolucionaram a \u00e9poca moderna, uma utopia subversiva que questiona a realidade sobre valores fundamentais ainda n\u00e3o realizados.<\/p>\n<p>Mas estar\u00e1 o anarquismo condenado \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de utopia?<\/p>\n<p>Certamente que o pensamento libert\u00e1rio tamb\u00e9m \u00e9 feito de desejo e utopia, mas como disse Bakunin \u201cfoi na busca do imposs\u00edvel que o homem realizou e reconheceu o poss\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>No entanto o anarquismo \u00e9 tamb\u00e9m uma pr\u00e1xis e um projeto social objetivo, que se assumindo como uma vis\u00e3o otimista da Humanidade, prop\u00f5e a mudan\u00e7a positiva, onde as comunidades valorizem a vertente do apoio m\u00fatuo, da liberdade e igualdade e recusem as formas medi\u00e1ticas, centralizadoras e autorit\u00e1rias de organiza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p><strong>Colocando ante n\u00f3s algumas interroga\u00e7\u00f5es:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Porqu\u00ea reconhecer no capitalismo o \u00faltimo e definitivo modo de produ\u00e7\u00e3o e no Estado com sua \u201cdemocracia\u201d representativa a derradeira forma das comunidades se organizarem?<br \/>\nPorqu\u00ea n\u00e3o retomar e aprofundar a tradi\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria, descentralizadora e federalista que persistiu em v\u00e1rias \u00e9pocas e civiliza\u00e7\u00f5es?<\/p><\/blockquote>\n<p>A realidade contradit\u00f3ria que estamos vivendo abre novas possibilidades ao renascimento dum pensamento e duma pr\u00e1tica libert\u00e1ria que contribua para responder a essas perguntas.<\/p>\n<p><strong>Certamente que esta mesma realidade pode forjar novas sujei\u00e7\u00f5es e autoritarismos:<\/strong>\u00a0poderes supranacionais, integrismos religiosos, nacionalismos dementes, viol\u00eancia autof\u00e1gica, manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, etc.<\/p>\n<p>Como Carlos D\u00edaz poder\u00edamos dizer \u201d as\u00ed que estamos lejos de entonar risuenamente, com el famoso libertario italiano, eso de que \u2018an\u00e1rquico es el mundo, an\u00e1rquico el pensamiento y caminamos hacia la anarqu\u00eda\u2019 No. Hay m\u00e1s apoltronamiento y m\u00e1s inercia que esp\u00edritu de busqueda y que insatisfacci\u00f3n\u201d<\/p>\n<p>Perdida a inoc\u00eancia e o otimismo do s\u00e9culo XIX, quando os movimentos sociais e os anarquistas em particular esperavam o\u00a0<i>amanh\u00e3 radioso,\u00a0<\/i>sabemos hoje que o futuro est\u00e1 em aberto, nenhum movimento irresist\u00edvel da hist\u00f3ria ser\u00e1 capaz de nos preparar algo melhor daquilo que n\u00f3s mesmos sejamos capazes de construir a partir de hoje.<\/p>\n<p>Se os anarquistas forem capazes de passarem o testemunho de sua hist\u00f3ria, e afirmarem na pr\u00e1tica social seus valores, talvez os movimentos sociais possam reencontrar, nessa radicalidade libert\u00e1ria, um dos referenciais que procuram de forma desnorteada. A imprevisibilidade hist\u00f3rica ou o ceticismo n\u00e3o s\u00e3o obst\u00e1culos definitivos ao voluntarismo anarquista.<\/p>\n<p><strong>Quando Fanelli o libert\u00e1rio italiano companheiro de Bakunin chegou a Espanha em 1868, sem sequer falar o espanhol, acaso poderia prever que estava contribuindo para a cria\u00e7\u00e3o da mais importante base do movimento anarquista:<\/strong>\u00a0o movimento libert\u00e1rio da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica?<\/p>\n<p>N\u00e3o existe um\u00a0<i>que fazer<\/i>\u00a0para os anarquistas. Existe muitas possibilidades de fazer, traduzindo as diferentes situa\u00e7\u00f5es e perspectivas em que cada grupo ou indiv\u00edduo libert\u00e1rio se encontram, mas que passa antes de tudo por preservar a lucidez cr\u00edtica, pensar permanentemente a realidade, agir sobre essa mesma realidade, assumir a solid\u00e3o da resist\u00eancia em tempos dif\u00edceis lutando para criar os la\u00e7os do espa\u00e7o comunit\u00e1rio alternativo.<\/p>\n<p>A pr\u00e1xis libert\u00e1ria contempor\u00e2nea dever\u00e1 se traduzir cada vez mais na cr\u00edtica do Poder, da Pol\u00edtica, do Estado e do Capital. Mas tamb\u00e9m na interven\u00e7\u00e3o construtiva a partir da realidade local, na defesa do municipalismo e da democracia direta que sustentem um amplo federalismo regional e internacional dos Povos. Na cria\u00e7\u00e3o duma cultura cr\u00edtica que libere espa\u00e7os de liberdade, de autonomia e criatividade, mas tamb\u00e9m de projetos autogestion\u00e1rios de alternativas econ\u00f4micas e convivenciais.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caminho para quebrar a quietude que a sociedade do espet\u00e1culo nos imp\u00f5e, recusar a condi\u00e7\u00e3o de espectador impotente e agir, a recusa silenciosa, o discurso, o fanzine, a sabotagem an\u00f4nima, a revista, a desobedi\u00eancia civil, o livro, a a\u00e7\u00e3o radical do sindicalista libert\u00e1rio, as cooperativas autogestion\u00e1rias, a manifesta\u00e7\u00e3o anti-militarista dos anarco-punks, as experi\u00eancias educacionais ou as listas de discuss\u00e3o libert\u00e1rias dentro das redes de computadores s\u00e3o testemunhos de que tudo pode ainda ser feito.<\/p>\n<p>E porque n\u00e3o faz\u00ea-lo?<\/p>\n<p><strong>Temos raz\u00e3o para crer que os nossos valores:<\/strong>\u00a0coopera\u00e7\u00e3o, apoio m\u00fatuo, solidariedade, liberdade e igualdade correspondem \u00e0 possibilidade de humaniza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria das sociedades.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o o anarquismo mant\u00e9m toda a sua atualidade, acima de modas e conjunturas, at\u00e9 porque a \u00e9tica e a rebeldia libert\u00e1ria possuem a dimens\u00e3o eterna de Prometeu e est\u00e1 umbicalmente ligado com o desejo de realiza\u00e7\u00e3o integral de nossa humanidade.<\/p>\n<p>Embora sua concretiza\u00e7\u00e3o subversiva s\u00f3 possa ocorrer dentro do contexto real da hist\u00f3ria e das sociedades. Sendo esse o maior desafio que se coloca ao projeto social libert\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.anarquia.oi.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ANARQUISMO HOJE UMA REFLEX\u00c3O SOBRE O MOVIMENTO LIBERT\u00c1RIO UMA REALIDADE SOMBRIA E CONTRADIT\u00d3RIA O criado arrebatou ao amo seu chicote e se fustigou com ele para assim poder ser amo. Kafka Vivemos uma \u00e9poca de profundas mudan\u00e7as, da tecnologia \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais, da economia \u00e0 pol\u00edtica. 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