{"id":89590,"date":"2016-12-20T07:57:22","date_gmt":"2016-12-20T09:57:22","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=89590"},"modified":"2021-08-31T18:06:26","modified_gmt":"2021-08-31T20:06:26","slug":"anarquismo-na-russia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/historia\/historia-geral\/anarquismo-na-russia","title":{"rendered":"Anarquismo na R\u00fassia"},"content":{"rendered":"<p><strong>Anarquismo na R\u00fassia &#8211; O que foi<\/strong><\/p>\n<p>Os estudiosos se interessam muito pelo\u00a0<strong>anarquismo<\/strong>\u00a0particularmente russo. Isto porque foi l\u00e1 que o anarquismo surgiu no final de s\u00e9culo XIX, se desenvolveu e organizou-se.<\/p>\n<p>Desde muito cedo movimentos anarquistas j\u00e1 era esbo\u00e7ados naquela regi\u00e3o, principalmente nas fronteiras onde estavam as ma\u00e7as de camponeses injusti\u00e7ados.<\/p>\n<p>Em 1875, por exemplo, tr\u00eas jovens entusiasmados com obras de escritores anarquistas iniciaram uma pequena conspira\u00e7\u00e3o contra o Czar, abusando de artif\u00edcios n\u00e3o aprovados pela doutrina anarquista.<\/p>\n<p>Assim, difundiram no distrito de Kieve a id\u00e9ia de que o Czar reconhecia o direito dos camponeses, mas, seu ex\u00e9rcito n\u00e3o poderia fazer nada contra os poderosos nobres. Assim, convenceram o povo a organizar uma mil\u00edcia revolucion\u00e1ria para desapropriar os nobres.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em um descuido a policia do Czar descobriu esta mil\u00edcia e prendeu centenas de camponeses inclusive os tr\u00eas jovens. V\u00e1rios destes presos foram deportados para a Sib\u00e9ria, enquanto os tr\u00eas fugiram da pris\u00e3o.<\/p>\n<p>No final deste mesmo s\u00e9culo, o anarquismo sofreu uma tend\u00eancia terrorista herdada de Nechaev.<\/p>\n<p>Alguns grupos n\u00e3o foram contra mas tamb\u00e9m n\u00e3o fizeram parte dos atentados terroristas que criaram o grupo Narodnaja Volja, respons\u00e1vel pelo assassinato do Czar Alexandre II.<\/p>\n<p>Isso desencadeou ex\u00edlios e pris\u00f5es e anos mais tarde formaram se os primeiros grupos declaradamente anarquistas na R\u00fassia.<\/p>\n<p>Em 1903, foram publicados v\u00e1rios jornais que, juntamente com greves, tumultos no campo demonstra\u00e7\u00f5es estudantis e descontentamento no ex\u00e9rcito, deu a estas manifesta\u00e7\u00f5es um sentido de liberdade.<\/p>\n<p>Mesmo assim, os pr\u00f3prios anarquistas n\u00e3o sabem se foram estas as causas da\u00a0<strong>revolu\u00e7\u00e3o de 1905<\/strong>. Outros fatores que com certeza influenciaram tal revolu\u00e7\u00e3o foi o descontentamento popular, estouro de greves, camponeses incendi\u00e1rios e saqueadores, oper\u00e1rios nas ruas e as derrotas sofridas ao Jap\u00e3o na guerra.<\/p>\n<p>Nesta revolu\u00e7\u00e3o, os anarquistas presentes eram realmente muito poucos. H\u00e1 quem diga que o n\u00famero n\u00e3o passou de duzentos.<\/p>\n<p>Em 1906, os antarquistas se fortaleceram, instalando bases nas principais cidades russas. Um ano depois veio a grande rea\u00e7\u00e3o governamental e o anarquismo perdeu a sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois da Primeira Guerra Mundial, per\u00edodo em que o anarquismo sumiu quase que por inteiro os anarquistas se confundiram com todas as for\u00e7as de esquerda que queriam transformar a Russia em uma rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Para isso foi preciso que todos os exilados voltasse para que o anarquismo russo retomasse o seu brilho.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, eles n\u00e3o queriam participar no governo bolchevique, mas alguns participaram ativamente.<\/p>\n<p>Rapidamente a grande maioria percebeu que este novo governo era uma ditadura contr\u00e1ria a todos os ideais de liberdade. Assim, o combate com o governo foi inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em abril de 1919, na cidade de Jarkov, houve uma reuni\u00e3o de anarquistas de todas as tend\u00eancias, fora os sindicalistas, numa conferencia mais tarde denominada Nabat ( que significa alerta ).<\/p>\n<p>Eles iniciaram com a campanha do \u0093anarquismo \u00fanico\u0094, sobre o comando do russo chamado Voline. Eles procuraram unir todos os ramos do anarquismo, criaram a\u00a0<strong>Confedera\u00e7\u00e3o de Organiza\u00e7\u00f5es Anarquistas<\/strong>; opuseram-se a ditadura governamental mas concordavam os movimentos contra-revolucion\u00e1rios capitalistas eram o maior perigo para a revolu\u00e7\u00e3o russa.<\/p>\n<p>Decidiram organizar e apoiar qualquer grupo de guerrilheiros que fosse contr\u00e1rio ao Ex\u00e9rcito Vermelho e estavam observando um grupo de guerrilheiros camponeses organizados sobre o comando de Nestor Machn\u00f3.<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o apoiaram nenhum soviete ou sindicato ligados \u00e0 partidos.<\/p>\n<p><strong>A EDUCA\u00c7\u00c3O LIBERT\u00c1RIA NO S\u00c9CULO XIX: \u00c9 POSS\u00cdVEL UNIR LIBERDADE, RACIONALISMO E NEOMALTHUSIANISMO?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-156961 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Anarqu1-1-300x298.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"298\" srcset=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Anarqu1-1-300x298.jpg 300w, https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Anarqu1-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/Anarqu1-1.jpg 360w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><strong>Anarquismo na R\u00fassia<\/strong><\/p>\n<p>O s\u00e9culo XIX \u00e9 caracterizado como o s\u00e9culo do triunfo do conhecimento cient\u00edfico e da racionalidade. Este conhecimento era considerado rigoroso e objetivo, buscava a regularidade e a const\u00e2ncia dos fen\u00f4menos, estabelecia as rela\u00e7\u00f5es causais entre fatos, assim por meio desse conhecimento o homem poderia conhecer profundamente a natureza, a sociedade e agir sobre elas. Al\u00e9m disso, a racionalidade cient\u00edfica poderia combater os dogmas e as supersti\u00e7\u00f5es da Igreja, por isso tinha condi\u00e7\u00f5es de superar as interpreta\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas.<\/p>\n<p><strong>Mas tamb\u00e9m no s\u00e9culo XIX, aparecem diferentes apropria\u00e7\u00f5es do conhecimento cient\u00edfico e sua racionalidade, porque neste s\u00e9culo se consolidam as Ci\u00eancias Humanas que provocam alguns questionamentos como:<\/strong>\u00a0podemos criar uma ci\u00eancia cujo objeto \u00e9 o homem?<\/p>\n<p><strong>Os m\u00e9todos usados nas Ci\u00eancias da Natureza podem ser usados nas Ci\u00eancias Humanas? O homem enquanto objeto de estudo n\u00e3o apresenta especificidades?<\/strong><\/p>\n<p>Estas s\u00e3o quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas importantes para todo o campo das Ci\u00eancias Humanas. A partir desses questionamentos, come\u00e7ou-se uma busca por caminhos epistemol\u00f3gicos que pudessem dar conta do estudo cient\u00edfico do homem e das rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Paralelamente a este questionamento surgiram os movimentos sociais, fundamentados principalmente no ide\u00e1rio igualdade, liberdade e fraternidade, da Revolu\u00e7\u00e3o Burguesa no final do s\u00e9culo XVIII, que buscavam compreender a inser\u00e7\u00e3o dos homens na hist\u00f3ria e na sociedade.<\/p>\n<p>Esses movimentos se apropriaram da racionalidade cient\u00edfica para explicar a hist\u00f3ria, a sociedade e as rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>Neste cen\u00e1rio surgiram as diferentes modalidades de socialismo:<\/strong>\u00a0o socialismo ut\u00f3pico, o socialismo libert\u00e1rio e o socialismo comunista.<\/p>\n<p>Todas essas modalidades de socialismo se apropriaram da racionalidade cient\u00edfica no sentido de compreender com maior profundidade as rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e sociais.<\/p>\n<p>Porque a raz\u00e3o tornou-se um instrumento imprescind\u00edvel na luta contra o dogmatismo e a ignor\u00e2ncia, assim acreditava-se que aquele que utilizasse a sua capacidade racional para analisar os diferentes aspectos da realidade tinha condi\u00e7\u00f5es de superar a opress\u00e3o que o cercava. Assim, no s\u00e9culo XIX,<\/p>\n<blockquote><p>a ignor\u00e2ncia \u00e9 denunciada como alimento da escravid\u00e3o e a raz\u00e3o \u00e9 o guia que conduzir\u00e1 os seres humanos a libertarem-se da opress\u00e3o e da explora\u00e7\u00e3o impostas pelo obscurantismo e ego\u00edsmo dos privilegiados ( Moriy\u00f3n, 1989, p.14).<\/p><\/blockquote>\n<p>A racionalidade utilizada pelas diferentes modalidades de socialismo tinha uma finalidade inversa da racionalidade utilizada pelos intelectuais que serviam ao status quo, estes pretendiam uma sociedade produtiva e eficiente, de modo que facilitasse a acumula\u00e7\u00e3o de capital sem atropelos, enquanto que os socialistas buscavam uma sociedade igualit\u00e1ria e pautada na liberdade.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o torna-se para as diversas modalidades de socialismo fator de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro ponto que destacamos \u00e9 o uso da racionalidade em teorias que buscavam compreender o processo de evolu\u00e7\u00e3o do homem, tanto a evolu\u00e7\u00e3o no campo biol\u00f3gico, como no campo da hist\u00f3ria e do estudo das popula\u00e7\u00f5es, este \u00faltimo aspecto foi estudado por Malthus.<\/p>\n<p>Este fez o progn\u00f3stico de um aumento da popula\u00e7\u00e3o em progress\u00e3o geom\u00e9trica e do desenvolvimento aritm\u00e9tico dos meios de subsist\u00eancia, de modo que num futuro pr\u00f3ximo n\u00e3o haveria condi\u00e7\u00f5es de sustentar a humanidade. Diante desta defasagem Malthus defendeu o controle populacional.<\/p>\n<p>Esta racionalidade malthusiana foi muito criticada por v\u00e1rios intelectuais e tamb\u00e9m por v\u00e1rios socialistas, mas Paul Robin, que defendia o ide\u00e1rio socialista, se apropriou de algumas de suas an\u00e1lises.<\/p>\n<p>Ele acreditava que se houvesse controle populacional consolidar-se-ia a harmonia e o equil\u00edbrio social e assim existiria meios de subsist\u00eancia abundantes, ambiente prop\u00edcio para a efetiva\u00e7\u00e3o de um projeto de sociedade igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Nosso trabalho buscou, a partir das categorias racionalidade e liberdade, compreender as concep\u00e7\u00f5es educacionais de Paul Robin, principalmente o Manifesto aos Partid\u00e1rios da Educa\u00e7\u00e3o Integral, escrito em 1893, Bakunin, Kropotkin e tamb\u00e9m os desdobramentos dessas influ\u00eancias no pensamento de Ferrer y Guardia.<\/p>\n<p>Verificamos que as categorias racionalidade e liberdade, oriundas do pensamento iluminista, assim como a busca de uma vida saud\u00e1vel e higi\u00eanica, balizaram essas teorias educacionais.<\/p>\n<p>Por isso, propomos discutir a forma de apropria\u00e7\u00e3o dessas categorias pelas concep\u00e7\u00f5es socialistas libert\u00e1rias, no intuito de compreender o processo de circula\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias e concep\u00e7\u00f5es, no contexto hist\u00f3rico-cultural do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p><strong>Paul Robin e o Manifesto aos Partid\u00e1rios da Educa\u00e7\u00e3o Integral<\/strong><\/p>\n<p>Robin nasceu em Toulon, na Fran\u00e7a, em 3 de abril de 1837. Iniciou a carreira de medicina e depois a substituiu pelo magist\u00e9rio. Em 1861, foi nomeado professor do Liceu Napoleon \u0096Vend\u00e9.<\/p>\n<p>Em 1873, James Guillaume, secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o do Dicion\u00e1rio de Pedagogia, solicitou a Robin v\u00e1rios artigos.<\/p>\n<p>Em 1878, publica seu primeiro folheto neo-malthusiano, cujo t\u00edtulo \u00e9 A quest\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Em 1879, foi inspetor de ensino de Blois e no final deste mesmo ano assumiu a dire\u00e7\u00e3o do Orfanato Pr\u00e9vos em Cempuis, onde ficou at\u00e9 1894.<\/p>\n<p>Durante a sua perman\u00eancia em Cempuis editou a revista A Educa\u00e7\u00e3o Integral.<\/p>\n<p>Neste orfanato p\u00f5e em pr\u00e1tica a educa\u00e7\u00e3o integral e a co-educa\u00e7\u00e3o dos sexos. Em 1893, escreveu o Manifesto aos partid\u00e1rios da educa\u00e7\u00e3o integral, este Manifesto surgiu a partir de uma experi\u00eancia de doze anos \u00e0 frente de Cempuis. Criou tamb\u00e9m \u0093uma associa\u00e7\u00e3o universal para a propaga\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o integral\u0094 (ROBIN, 1981, p.9).<\/p>\n<p><strong>Atribuem a Paul Robin quatro caracter\u00edsticas:<\/strong>\u00a0pedagogo, internacionalista, neo-malthusiano e libert\u00e1rio.<\/p>\n<p>Robin assumiu aspectos particulares do anarquismo e do liberalismo e uma vis\u00e3o regeneradora da realidade social.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o a sua vis\u00e3o social adotou a concep\u00e7\u00e3o de Rousseau sobre o estabelecimento de um contrato social entre o indiv\u00edduo e a sociedade. De acordo com Robin, \u0093a liberdade de cada um se encontra limitada pelas leis naturais da solidariedade humana. Adotando o pacto social, o homem abdica uma parte de sua liberdade natural para receber em troca a prote\u00e7\u00e3o de todos e os benef\u00edcios resultantes da a\u00e7\u00e3o coletiva\u0094 (ROBIN, 1981, p.6).<\/p>\n<p>Robin foi influenciado pelo positivismo de Comte, pelo evolucionismo de Darwin e pela teoria de Malthus, por isso preconizava a regenera\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>Inclusive em 1893, come\u00e7ou a discutir a cria\u00e7\u00e3o da Liga para a regenera\u00e7\u00e3o humana. Acreditava que a regenera\u00e7\u00e3o do homem deveria levar em conta a quest\u00e3o da superpopula\u00e7\u00e3o que pode acentuar as desigualdades, por isso acreditava ser necess\u00e1rio frear o crescimento da humanidade. Ao controlar o crescimento da popula\u00e7\u00e3o mundial, dever-se-ia criar meios para eliminar as diferen\u00e7as de ordem intelectual, a partir da pr\u00e1tica da educa\u00e7\u00e3o integral.<\/p>\n<p><strong>A regenera\u00e7\u00e3o humana est\u00e1 fundamentada em dois princ\u00edpios:<\/strong>\u00a0sele\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e educa\u00e7\u00e3o integral.<\/p>\n<p>Como mencionamos anteriormente, o projeto inicial para criar a Liga para a regenera\u00e7\u00e3o humana \u00e9 de 1893, mas somente em agosto de 1900, criou-se a Federa\u00e7\u00e3o universal de regenera\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Alguns meses antes, em abril de 1900, apareceu o primeiro n\u00famero de Regenera\u00e7\u00e3o, publica\u00e7\u00e3o que sobrevive at\u00e9 1908.<\/p>\n<p><strong>Surgiram outras publica\u00e7\u00f5es baseadas na vis\u00e3o malthusiana:<\/strong>\u00a0Gera\u00e7\u00e3o Consciente, Renova\u00e7\u00e3o e O Malthusiano.<\/p>\n<p><strong>No pensamento de Robin, encontram-se id\u00e9ias comuns entre ele e Comte:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>\u00931)<\/strong>\u00a0a divis\u00e3o do trabalho e a especializa\u00e7\u00e3o s\u00e3o as causas da desordem social;<strong><br \/>\n2)<\/strong>\u00a0a urgente necessidade de facilitar \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es um certo n\u00famero de id\u00e9ias comuns\u0094 (ROBIN, 1981, p.20). Para solucionar tais quest\u00f5es deve-se usar \u0093um meio cient\u00edfico e racional que assegure ao ser humano este m\u00ednimo de conhecimento, que facultando uma especializa\u00e7\u00e3o restrita garanta o equil\u00edbrio e a paz social\u0094 (ROBIN, 1981, p.20).<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas os prop\u00f3sitos educacionais de Comte e Robin eram bastante diferentes, Comte propunha a educa\u00e7\u00e3o positiva e Robin, a educa\u00e7\u00e3o integral.<\/p>\n<p>Robin apropriou-se das id\u00e9ias de Darwin, Malthus e Comte porque, segundo sua vis\u00e3o, a sele\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e a educa\u00e7\u00e3o integral s\u00e3o ingredientes \u0093para construir um ambiente social regenerado das contradi\u00e7\u00f5es do velho mundo\u0094 (ROBIN, 1981, p.21). Ele busca a regenera\u00e7\u00e3o social, uma sociedade baseada no bem estar social e na felicidade humana.<\/p>\n<p><strong>Propunha seguir tr\u00eas preceitos:<\/strong>\u00a0bom nascimento, boa educa\u00e7\u00e3o e boa organiza\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Robin acreditava que a ci\u00eancia levaria o homem \u00e0 melhora de suas condi\u00e7\u00f5es de vida e, por isso propunha a simbiose da ci\u00eancia com a raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ele tamb\u00e9m \u00e9 influenciado pelos seguintes pensadores:<\/strong>\u00a0Llull, Rousseau, Vives, Com\u00eanio, Rabelais e Basedow e desenvolve no\u00e7\u00f5es enciclopedistas da Ilustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua concep\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica centra-se no progresso da ci\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Sua proposta pedag\u00f3gica pode ser caracterizada como<\/strong>: cient\u00edfica, racional, universal e integral.<\/p>\n<p><strong>Prop\u00f5e tamb\u00e9m o desenvolvimento harm\u00f4nico das distintas faculdades humanas e deve-se seguir a seguinte ordem<\/strong>: educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, educa\u00e7\u00e3o intelectual e educa\u00e7\u00e3o moral.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica estaria centrada no desenvolvimento dos \u00f3rg\u00e3os dos sentidos, com exerc\u00edcios musculares e corporais, de modo que a pr\u00e1tica destes exerc\u00edcios levaria a um controle antropom\u00e9trico do desenvolvimento da crian\u00e7a (ROBIN, 1981, p.21). A educa\u00e7\u00e3o intelectual se efetivaria por meio do estudo das ci\u00eancias (sociologia, biologia, qu\u00edmica, f\u00edsica, astronomia e matem\u00e1tica). A educa\u00e7\u00e3o moral deveria estar centrada na busca de uma exist\u00eancia normal num meio normal, afastando as crian\u00e7as de conjecturas metaf\u00edsicas.<\/p>\n<p>Destacamos que \u00e9 no Manifesto aos partid\u00e1rios da educa\u00e7\u00e3o integral que Robin sintetizou as influ\u00eancias das diferentes teorias que embasaram seu pensamento pedag\u00f3gico, onde podemos detectar os caminhos que tra\u00e7ou para educar. Sua preocupa\u00e7\u00e3o era a educa\u00e7\u00e3o popular, pois considerava que nas escolas, da segunda metade do s\u00e9culo XIX, eram passados conhecimentos desnecess\u00e1rios \u00e0s classes populares, al\u00e9m disso essas escolas propunham a distin\u00e7\u00e3o de classes, o que levava a desigualdade para o processo educacional.<\/p>\n<p>Para romper com este processo de desigualdades dever-se-ia unir a ci\u00eancia e o trabalho, porque a separa\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e trabalho levaria a escravid\u00e3o moral e material.<\/p>\n<p>Robin dizia que precis\u00e1vamos tirar da burguesia o monop\u00f3lio da ci\u00eancia (ROBIN, 1981).<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, era preciso acabar com os governos que praticavam esta educa\u00e7\u00e3o excludente e, para tal, era necess\u00e1rio fazer uma revolu\u00e7\u00e3o social e organizar a educa\u00e7\u00e3o integral.<\/p>\n<p>Robin acreditava que somente pela instru\u00e7\u00e3o integral poder\u00edamos adquirir todos os conhecimentos cient\u00edficos e profissionais, te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos.<\/p>\n<p><strong>E para efetivar um projeto de educa\u00e7\u00e3o integral, dever\u00edamos responder as seguintes quest\u00f5es:<\/strong>\u00a0quais tipos de sistema de ensino dever\u00edamos empregar?<\/p>\n<p>Como deveria ser a organiza\u00e7\u00e3o interna da escola que propusesse a instru\u00e7\u00e3o integral? Deveria haver um estabelecimento especial em cada comuna ou v\u00e1rias comunas aproveitariam o mesmo estabelecimento?<\/p>\n<p>Os custos deveriam vir da associa\u00e7\u00e3o de trabalhadores da comuna ou dos pais dos alunos? Como deveria ser organizado o corpo docente? (ROBIN, 1981, p.33).<\/p>\n<p>Robin defendia a cria\u00e7\u00e3o de estabelecimentos de ensino em cada comunidade, assim sendo, a comunidade se encarregaria de criar a escola, com a participa\u00e7\u00e3o de todos os indiv\u00edduos dessa coletividade, que organizariam e administrariam esses estabelecimentos de ensino, assim como os sustentariam financeiramente. A responsabilidade primordial da educa\u00e7\u00e3o era da comunidade.<\/p>\n<p>Ele apregoava que a educa\u00e7\u00e3o integral deveria ser ministrada por estabelecimentos de ensino p\u00fablico e coletivo.<\/p>\n<p>De acordo com Robin, cada crian\u00e7a deveria ter a possibilidade de desenvolver suas faculdades e de adquirir todos os conhecimentos necess\u00e1rios \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Toda crian\u00e7a deveria ter acesso a estabelecimentos comuns, onde poderia desenvolver sua mente e m\u00fasculos, aprender a ci\u00eancia e um of\u00edcio.<\/p>\n<p>Reconhecia o papel imprescind\u00edvel da ci\u00eancia, por isso as transforma\u00e7\u00f5es cient\u00edficas n\u00e3o poderiam ser freadas. Dever\u00edamos combater educa\u00e7\u00e3o tradicional porque esta era autorit\u00e1ria, limitada e negativa, ao passo que a educa\u00e7\u00e3o atual era positiva, emancipadora e extensiva. Dev\u00edamos legar \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es a educa\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o e da ci\u00eancia (ROBIN, 1981, p.39-40).<\/p>\n<p><strong>Acreditava que a educa\u00e7\u00e3o libertadora e pacificadora deveria ser:<\/strong>\u00a0racional (educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica); universal; integral (ROBIN, 1981, p.44). A educa\u00e7\u00e3o integral era a base de qualquer especializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fazia considera\u00e7\u00f5es sobre os m\u00e9todos de ensino, por isso propunha ir do particular para o geral e do ponto de vista anal\u00edtico para o sint\u00e9tico. Dizia que no processo pedag\u00f3gico devia-se considerar o m\u00e9todo, a rela\u00e7\u00e3o sujeito e objeto, as diferentes mat\u00e9rias de ensino, a idade e a disposi\u00e7\u00e3o dos alunos. No curr\u00edculo de qualquer estabelecimento de ensino deveria estar a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, a educa\u00e7\u00e3o intelectual e a educa\u00e7\u00e3o moral. Preconizava a higiene, a sa\u00fade, a alimenta\u00e7\u00e3o, equil\u00edbrio entre a\u00e7\u00e3o e repouso; recomendava aulas ao ar livre, a pr\u00e1tica da gin\u00e1stica, passeios e banhos de mar.<\/p>\n<p>Outro aspecto que considerava importante era a educa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, pois a considerava t\u00e3o importante quanto a educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, principalmente a educa\u00e7\u00e3o musical. Preconizava tamb\u00e9m a aprendizagem manual, pois ela aperfei\u00e7oa os sentidos e desenvolve a destreza manual. Este tipo de aprendizagem prepara para o ensino profissional, mas um ensino profissional que deveria ter como base o esp\u00edrito de generalidade, de tend\u00eancia integral.<\/p>\n<p>Junto com a educa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica deveria vir uma educa\u00e7\u00e3o moral, que possibilitasse o desenvolvimento da justi\u00e7a e da reciprocidade social. Deve-se evitar tudo que levasse a id\u00e9ias falsas, impress\u00f5es espantosas que leve ao erro e a desordem (ROBIN, 1981). A educa\u00e7\u00e3o integral \u00e9 \u0093um conjunto completo, encadeado, sint\u00e9tico, paralelamente progressivo em toda ordem de conhecimentos e tudo isso a partir da mais tenra idade\u0094 (ROBIN, 1981, p.47).<\/p>\n<p>Robin preconizava que o processo educativo deveria estar fundamentado na racionalidade cient\u00edfica, na regenera\u00e7\u00e3o humana e na ordem social, porque a desordem social na qual o mundo estava imerso era fruto da desigualdade, que tem sua origem em fatores hist\u00f3ricos e naturais (ROBIN, 1981, p. 41).<\/p>\n<p>Na verdade, a sociedade capitalista praticava uma contra-educa\u00e7\u00e3o, anti-racional e imoral. Devemos por ordem nos c\u00e9rebros, se desejamos que estas coisas n\u00e3o aconte\u00e7am. (p.42) Assim, \u0093a sociedade tem o direito e o dever de dar a cada um de seus membros uma educa\u00e7\u00e3o completa\u0094 ((ROBIN, 1981, p.36).<\/p>\n<p>Essas id\u00e9ias de Robin causaram muita pol\u00eamica ao final do s\u00e9culo XIX, porque as escolas socialistas s\u00e3o indiferentes ao pensamento neo-malthusiano, assim Robin buscou apoio em grupos liberais, sociedade de livres pensadores, lojas ma\u00e7\u00f4nicas, n\u00facleo feministas e entidades cient\u00edficas. Suas id\u00e9ias foram muito questionadas pelos socialistas libert\u00e1rios e socialistas comunistas.<\/p>\n<p><strong>Os socialistas rejeitavam estes elementos malthusianos, as escolas socialistas superaram a id\u00e9ia de sele\u00e7\u00e3o natural e utilizaram conceitos como:<\/strong>\u00a0apoio m\u00fatuo de Kropotkin, a import\u00e2ncia do trabalho e das for\u00e7as produtivas de Engels.<\/p>\n<p>O trabalho pedag\u00f3gico de Robin foi tamb\u00e9m muito criticado pelos conservadores, pois vincularam a experi\u00eancia de Cempuis a pol\u00edtica laica da III Rep\u00fablica francesa, estes o condenavam pelas suas id\u00e9ias arrojadas como a defesa da escola laica e a co-educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A historiografia recente tem recuperado as contribui\u00e7\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o integral no s\u00e9culo XIX, no per\u00edodo da Primeira Internacional. Por meio de uma s\u00e9rie de registro foi descoberto que A Federa\u00e7\u00e3o, \u00f3rg\u00e3o da se\u00e7\u00e3o de Barcelona da A.L.T., publicou, entre os meses de agosto e setembro de 1869, uma s\u00e9rie de artigos intitulados Do Ensino Integral. Estes artigos sem assinatura foram reproduzidos, em 1871, em A Humanidade. H\u00e1 pistas que indicam que foi atrav\u00e9s de Antonio Marsal Anglora (pseud\u00f4nimo Sarro Magall\u00f3n) e Gaspar Senti\u00f1on que o interesse pelo ensino integral foi introduzido na Espanha. Ferrer y Guardia, pedagogo espanhol defensor da pedagogia racional libert\u00e1ria recebeu a influ\u00eancia de Paul Robin, ele adotava a educa\u00e7\u00e3o integral e defendia a escola laica.<\/p>\n<p><strong>Bakunin e a educa\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Nasceu em 1814, em Tver, na R\u00fassia, seguiu Stankevische, que era adepto do pensamento hegeliano. Bakunin era conhecido como um homem de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Envolveu-se em muitas conspira\u00e7\u00f5es e revoltas. Do final da d\u00e9cada de 1860 em diante, Bakunin tanto oralmente, como por meio de seus escritos passa a influenciar o anarquismo na R\u00fassia, mas n\u00e3o exerceu influ\u00eancia sobre os atos revolucion\u00e1rios (WOODCOCK, 2002).<\/p>\n<p>Bakunin defendeu o anarquismo coletivista, procurava adaptar os ideais anarquistas \u00e0 uma nova sociedade, uma sociedade industrializada.<\/p>\n<p>Ele acreditava que os meios de produ\u00e7\u00e3o deveriam ficar nas m\u00e3os de institui\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias que assegurariam a cada trabalhador o fruto de seu trabalho ou o equivalente do mesmo.<\/p>\n<p>Para Bakunin, cada um deveria receber de acordo com seus meios e suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Segundo Bakunin a emancipa\u00e7\u00e3o das massas oper\u00e1rias passava pela educa\u00e7\u00e3o complexa, por isso os trabalhadores deveriam receber uma educa\u00e7\u00e3o fundamentada pelo conhecimento cient\u00edfico, porque a racionalidade cient\u00edfica era imprescind\u00edvel para a interpreta\u00e7\u00e3o do mundo e a liberta\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, acreditava que aquele que sabe mais domina aquele que sabe menos.<\/p>\n<p>Os progressos da ci\u00eancia eram significativos no s\u00e9culo XIX, por\u00e9m seus resultados n\u00e3o eram socializados, apenas uma elite tinha acesso a esses conhecimentos e seus benef\u00edcios eram desfrutados por uma minoria.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia se tornou, de acordo com Bakunin, um poder para o Estado. Sendo assim, os progressos materiais e intelectuais do mundo contempor\u00e2neo contribu\u00edram para aumentar a desigualdade entre os homens e ampliar a domina\u00e7\u00e3o. Por isso, era necess\u00e1rio criar mecanismos que combatessem essa exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim como Robin, ele defende uma educa\u00e7\u00e3o integral, de modo que os trabalhadores estejam em contato com as conquistas cient\u00edficas, porque at\u00e9 ent\u00e3o o desenvolvimento da ci\u00eancia sempre se voltou para atender \u00e0s classes privilegiadas e ao poder de Estado. A educa\u00e7\u00e3o integral seria um dos caminhos para conquistar a igualdade entre os homens, pois todos teriam acesso ao conhecimento acumulado pela ci\u00eancia.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia deveria ser considerada um bem comum, por isso os avan\u00e7os cient\u00edficos precisavam estar inseridos nos curr\u00edculos escolares. Assim, a raz\u00e3o tornar-se-ia um instrumento fundamental para o processo educativo.<\/p>\n<p>A racionalidade deveria guiar os conhecimentos adquiridos na escola, de modo que todos tivessem acesso a conhecimentos significativos e importantes para o mundo contempor\u00e2neo, tal procedimento forneceria ao proletariado uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade.<\/p>\n<p>Bakunin lutava para acabar com a dualidade educacional, ou seja, a exist\u00eancia de um tipo de instru\u00e7\u00e3o para as classes privilegiadas e outra para o proletariado, por isso passa a lutar pela educa\u00e7\u00e3o integral para todos.<\/p>\n<p><strong>Tomando como ponto de partida a educa\u00e7\u00e3o integral defende a fus\u00e3o do trabalho manual com o intelectual e afirmava:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a ci\u00eancia do s\u00e1bio se tornar\u00e1 mais fecunda, mais \u00fatil e mais ampla quando o s\u00e1bio n\u00e3o mais ignorar o trabalho bra\u00e7al e o trabalho do oper\u00e1rio instru\u00eddo ser\u00e1 mais inteligente e, por conseguinte mais produtivo do que o do oper\u00e1rio ignorante (BAKUNIN, 2003, p.38).<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o se podia permitir que os filhos dos oper\u00e1rios tivessem uma educa\u00e7\u00e3o distinta daquela dos filhos dos burgueses. Assim, somente quando todos tivessem acesso ao mesmo tipo de conhecimento poderiam ser real\u00e7adas as diferen\u00e7as individuais, j\u00e1 que todos teriam as mesmas oportunidades na escola.<\/p>\n<p><strong>Outro aspecto defendido por Bakunin era a co-educa\u00e7\u00e3o de meninos e meninas, pois afirmava que todas as crian\u00e7as sem exce\u00e7\u00e3o deveria ter uma educa\u00e7\u00e3o absolutamente igual, porque<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>o ensino deve ser igual para todos em todos os graus, por conseguinte deve ser integral, quer dizer, deve preparar cada crian\u00e7a de ambos os sexos tanto para a vida do pensamento como para a do trabalho, a fim de que todos possam igualmente tornar-se homens completos (BAKUNIN, apud Moriy\u00f3n, 1989, p.43).<\/p><\/blockquote>\n<p>Em sua proposta educacional, Bakunin pretendia reconciliar trabalho manual e intelectual, ci\u00eancia e vida. Acreditava que todos os homens poderiam alcan\u00e7ar um mesmo grau de educa\u00e7\u00e3o, mas as profundas desigualdades sociais n\u00e3o permitiam a socializa\u00e7\u00e3o dos conhecimentos.<\/p>\n<p><strong>A educa\u00e7\u00e3o integral deveria ser composta de duas partes:<\/strong>\u00a0a parte geral e a parte espec\u00edfica. Na primeira os estudantes teriam acesso a ci\u00eancia como um todo, o que possibilitaria uma forma\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter geral e na segunda eles entrariam em contato com as especificidades dos diferentes conte\u00fados cient\u00edficos.<\/p>\n<p><strong>De acordo com Bakunin,<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>o ensino integral, ao lado do ensino cient\u00edfico ou te\u00f3rico, deve compreender necessariamente o ensino industrial ou pr\u00e1tico. Somente assim \u00e9 que se formar\u00e1 o homem completo<\/strong>: o trabalhador que compreende e que sabe (Bakunin, apud Moriy\u00f3n, 1989, p.44).<\/p><\/blockquote>\n<p>Para efetivar a educa\u00e7\u00e3o integral Bakunin propunha que na educa\u00e7\u00e3o infantil dever-se-ia partir da autoridade e desembocar na liberdade.<\/p>\n<p><strong>A cita\u00e7\u00e3o abaixo traduz bem seu ponto de vista:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>o princ\u00edpio de autoridade na educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as constitui o ponto de partida natural<\/strong>: \u00e9 leg\u00edtimo, necess\u00e1rio, quando \u00e9 aplicado \u00e0s crian\u00e7as na primeira inf\u00e2ncia, quando sua intelig\u00eancia n\u00e3o se desenvolveu abertamente\u0085 Mas como o desenvolvimento de todas as coisas, e por conseq\u00fc\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o, implica a nega\u00e7\u00e3o sucessiva do ponto de partida, este princ\u00edpio deve enfraquecer-se \u00e0 medida que avan\u00e7am a educa\u00e7\u00e3o e a instru\u00e7\u00e3o, para dar lugar \u00e1 liberdade ascendente\u0085<\/p>\n<p>Toda educa\u00e7\u00e3o racional nada mais \u00e9, no fundo, que a imola\u00e7\u00e3o progressiva da autoridade em proveito da liberdade, onde esta educa\u00e7\u00e3o tem como objetivo final formar homens livres, cheios de respeito e de amor pela liberdade alheia.Assim o primeiro dia da vida escolar (\u0085) deve ser o de maior autoridade e de uma aus\u00eancia quase total de liberdade; mas seu \u00faltimo dia deve ser o de maior liberdade e de aboli\u00e7\u00e3o absoluta de qualquer vest\u00edgio do princ\u00edpio animal ou divino de autoridade (BAKUNIN, 2003, p. 47).<\/p><\/blockquote>\n<p>Cabe ressaltar que a liberdade n\u00e3o \u00e9 dada a priori, ela \u00e9 constru\u00edda gradativamente no processo educacional, come\u00e7a-se com a autoridade de algu\u00e9m mais experiente e paulatinamente a autoridade desaparece para dar lugar \u00e0 liberdade. Lembramos que para Bakunin, a liberdade era o pleno desenvolvimento das faculdades existentes no homem e n\u00e3o a independ\u00eancia absoluta da vontade de cada um.<\/p>\n<p><strong>De acordo com Bakunin, a plenitude do homem no sentido moral deve-se a tr\u00eas aspectos:\u00a0<\/strong>o nascimento higi\u00eanico; um ensino racional e integral, fundamentado no respeito ao trabalho, \u00e0 raz\u00e3o, \u00e0 igualdade e \u00e0 liberdade e num meio onde todos usufru\u00edssem dos mesmos direitos. Por isso, defendia a luta por uma educa\u00e7\u00e3o verdadeiramente socialista.<\/p>\n<p><strong>Afirmava que num mundo onde reinava a desigualdade n\u00e3o poderia ser implantado esse novo tipo de educa\u00e7\u00e3o, porque<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>o problema mais importante \u00e9 o da emancipa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, que engendra necessariamente, e ao mesmo tempo, a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e imediatamente ap\u00f3s a emancipa\u00e7\u00e3o intelectual e moral (BAKUNIN, apud Moriy\u00f3n, 1989, p.49).<\/p><\/blockquote>\n<p>Assim as mudan\u00e7as no campo da educa\u00e7\u00e3o estavam atreladas \u00e0s mudan\u00e7as no campo econ\u00f4mico e social, as transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas criariam as possibilidades efetivas para a implanta\u00e7\u00e3o de um novo modelo educacional.<\/p>\n<p>No exposto acima, podemos constatar como Bakunin se apropriou das categorias liberdade e racionalidade, seu intuito era socializar o conhecimento cient\u00edfico de modo a instrumentalizar a classe oprimida para enfrentar o poder de Estado e acabar com a dicotomia entre trabalho manual e intelectual.<\/p>\n<p><strong>Kropotkin e a educa\u00e7\u00e3o Libert\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Kropotkin nasceu na R\u00fassia na d\u00e9cada de 1840 e pertencia a uma fam\u00edlia rica e poderosa, foi escolhido por Nicolau I para participar do Corpo de Pajens, onde foi um aluno brilhante, tornou-se sargento da Corpora\u00e7\u00e3o e durante um ano foi pajem pessoal do tzar Alexandre II, deixou a Corpora\u00e7\u00e3o em 1862. Parece que a sua sa\u00edda deveu-se a recusa de participar das tiranias do Corpo de Pajens (WOOODCOCK, 2002). A partir de ent\u00e3o, dedicou-se a ci\u00eancia e tornou-se um intelectual respeitado pelos ge\u00f3grafos. Foi um cientista que contribuiu muito para o conhecimento da estrutura e hist\u00f3ria da Terra.<\/p>\n<p>Ficou conhecido como um cientista e fil\u00f3sofo social.<\/p>\n<p>Entrou em contato com as id\u00e9ias anarquistas, quando conviveu com exilados pol\u00edticos em Zurique e Genebra, o poeta M. L. Mikhailov apresentou Kropotkin a obra de Proudhon. Ao longo de sua vida, Kropotkin acreditou que a revolu\u00e7\u00e3o era inevit\u00e1vel e necess\u00e1ria, mas a sua atua\u00e7\u00e3o foi mais acad\u00eamica. O que o aproximou do anarquismo foi o aspecto positivo e construtivo desse movimento, por isso passou a lutar por uma sociedade justa e igualit\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Ele acreditava que<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a revolu\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 t\u00e3o lenta nem t\u00e3o uniforme quanto se afirma. Evolu\u00e7\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o se alternam, e a revolu\u00e7\u00e3o \u0096 isto \u00e9, o per\u00edodo em que a evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 acelerada \u0096 \u00e9 parte t\u00e3o integrante da natureza quanto o tempo em que ela ocorre mais lentamente (KROPOTKIN, apud Woodcock, 2002, p.18).<\/p><\/blockquote>\n<p>Para Kropotkin, a genealogia do anarquismo estava no seio do povo, pois este preserva a vitalidade e a for\u00e7a criativa do anarquismo.<\/p>\n<p>Foi considerado um anarquista comunista e por isso acreditava que a distribui\u00e7\u00e3o do produto do trabalho deveria ser feita de forma livre, de acordo com a necessidade de cada um.<\/p>\n<p>No seu entender a revolu\u00e7\u00e3o social se concretizaria quando, a partir das comunas locais, os meios de produ\u00e7\u00e3o fossem desapropriados e coletivizados.<\/p>\n<p><strong>Ele apresentava uma peculiaridade:<\/strong>\u00a0n\u00e3o se preocupou em criar organiza\u00e7\u00f5es de luta, escolheu fazer da vida acad\u00eamica a sua milit\u00e2ncia, assim a ci\u00eancia produzida por ele era fruto de seu idealismo social e dos seus objetivos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na sua obra ficava expl\u00edcita a inten\u00e7\u00e3o de unir teoria a pr\u00e1tica. Seguindo esta inten\u00e7\u00e3o, Kropotkin defendeu a rela\u00e7\u00e3o estreita entre trabalho intelectual e trabalho manual, nos processos educativos. De acordo com ele, os cientistas desprezavam o trabalho manual, o que fez com que as academias ignorassem a import\u00e2ncia da articula\u00e7\u00e3o entre esses dois tipos de trabalho.<\/p>\n<p>A proposta educacional de Kropotkin enfatizava o papel central da raz\u00e3o no processo educativo, a racionalidade cient\u00edfica deveria ser trabalhada em todas as escolas, caso vislumbr\u00e1ssemos formar todos com a mesma qualidade, com a inten\u00e7\u00e3o de dar oportunidades iguais aos trabalhadores. Defendia tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o de escolas para ambos os sexos, que priorizassem a educa\u00e7\u00e3o integral, onde n\u00e3o se distinguiria o trabalho intelectual do manual.<\/p>\n<p><strong>Uma escola que possibilitasse<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>uma educa\u00e7\u00e3o tal, que ao deixar as salas de aula com a idade de dezoito ou vinte anos, os jovens de ambos os sexos estariam dotados de um cabedal de conhecimentos cient\u00edficos que lhes permitisse trabalhar com proveito para a ci\u00eancia, e que ao mesmo tempo tivessem um conhecimento geral das bases do ensino t\u00e9cnico e a habilidade necess\u00e1ria em qualquer ind\u00fastria especial, para poder ocupar o seu posto dignamente no grande mundo da produ\u00e7\u00e3o manual da riqueza (Kropotkin, 1972, p.50).<\/p><\/blockquote>\n<p>Em sua obra \u0093Campos, f\u00e1bricas e oficinas\u0094, Kropotkin explicou que esse tipo de escola n\u00e3o era uma quimera, pois a Escola T\u00e9cnica de Moscou realizou uma experi\u00eancia muito interessante e conseguiu, durante cerca de vinte anos, oferecer uma boa forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e profissional aos jovens. Nessa escola estimulava-se a pesquisa cient\u00edfica e a aplica\u00e7\u00e3o dos resultados.<\/p>\n<p>Condenava o car\u00e1ter superficial da aprendizagem e a mera repeti\u00e7\u00e3o dos conhecimentos, a escola deveria priorizar a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento, ou seja, o estudante deveria sempre estar em busca dos conhecimentos.<\/p>\n<p><strong>Por isso considerava que<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>ningu\u00e9m pode ser bom estudante de ci\u00eancias se n\u00e3o tiver conhecimentos de meios adequados de pesquisa cient\u00edfica, se n\u00e3o tiver aprendido a observar, a descrever com exatid\u00e3o, a descobrir as m\u00fatuas rela\u00e7\u00f5es entre fatos aparentemente independentes, a levantar hip\u00f3teses e prov\u00e1-las, a raciocinar sobre a causa e o efeito, e assim por diante (Kropotkin, 1972, p.56).<\/p><\/blockquote>\n<p>Defendia um ensino profissional din\u00e2mico e criativo, guiado por um bom m\u00e9todo, de modo que o estudante executasse com bastante seguran\u00e7a o of\u00edcio que escolheu.<\/p>\n<p><strong>Por isso,<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>ningu\u00e9m poder\u00e1 ser um bom artes\u00e3o, se n\u00e3o tiver familiarizado com um bom m\u00e9todo de arte mec\u00e2nica. \u00c9 necess\u00e1rio que cada um se acostume a conceber o objeto do seu pensamento numa forma concreta, desenh\u00e1-lo ou model\u00e1-lo, evitar o descuido das ferramentas, os maus h\u00e1bitos de trabalho, dar a tudo um bom toque de efeito final, sentir prazer na contempla\u00e7\u00e3o do belo e desprezar o feio. Seja arte mec\u00e2nica, ci\u00eancias ou belas artes, a principal aspira\u00e7\u00e3o do ensino n\u00e3o deve ser a de fazer do principiante um especialista, mas ensinar-lhe os elementos fundamentais e os bons h\u00e1bitos de trabalho (Kropotkin, 1972, p.56).<\/p><\/blockquote>\n<p>Kropotkin, nas suas reflex\u00f5es educativas, mostrou que o oper\u00e1rio com s\u00f3lida instru\u00e7\u00e3o poderia realizar melhor e mais r\u00e1pido o seu trabalho, al\u00e9m disso prop\u00f4s uma esp\u00e9cie de socializa\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico por interm\u00e9dio da escola, na verdade ele defendeu a forma\u00e7\u00e3o de um grande contingente de pessoas que constituiria uma importante comunidade cr\u00edtica, com o intuito de ampliar a capacidade de produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, porque<\/p>\n<blockquote><p>n\u00e3o (havia) nenhuma ci\u00eancia que n\u00e3o (sofresse) no seu desenvolvimento por falta de gente que (possu\u00edsse) uma concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica do universo, disposta a aplicar sua capacidade de pesquisa num determinado campo, por mais limitado que (fosse), e que (dispusesse) do tempo necess\u00e1rio para se ocupar da especula\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (Kropotkin, 1972, p.60).<\/p><\/blockquote>\n<p>Considerava que no processo educativo n\u00e3o se poderia desvincular a teoria da pr\u00e1tica, porque ambas se complementam. A cria\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sempre se efetivou sem fazer a distin\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica, no entanto em nossas escolas, o ensino apresentava-se de modo inerte, porque veiculava conte\u00fados sem significado, provocava o desest\u00edmulo da aprendizagem e impossibilitava a constru\u00e7\u00e3o da capacidade cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Para Kropotkin, essa situa\u00e7\u00e3o podia ser atribu\u00edda \u00e0 divis\u00e3o social do trabalho que criou uma dicotomia entre trabalho intelectual e manual.<\/p>\n<p>No trabalho educacional percebia-se que a racionalidade estava desvinculada da pr\u00e1tica e esta desvincula\u00e7\u00e3o criou uma hierarquia entre as formas de trabalho, de modo que o trabalho intelectual passou a ser mais valorizado que o trabalho manual.<\/p>\n<p>Segundo Kropotkin, a nossa sociedade somente teria a ganhar se acab\u00e1ssemos com essa divis\u00e3o social do trabalho, porque todos deveriam exercer simultaneamente os dois tipos de trabalho o intelectual e o manual, acabando com o sistema injusto de explora\u00e7\u00e3o do trabalho de alguns, pois<\/p>\n<blockquote><p>uma comunidade organizada sob o princ\u00edpio que todos sejam trabalhadores, seria bastante rica para convir em que todos os seus membros, homens e mulheres, a uma certa idade, dos quarenta em diante por exemplo, fossem liberados da obriga\u00e7\u00e3o moral de tomar parte direta na execu\u00e7\u00e3o do trabalho bra\u00e7al, podendo assim se dedicar completamente ao que mais lhe agradasse no terreno da ci\u00eancia, da arte ou qualquer outro(\u0085) Numa semelhante comunidade, n\u00e3o se conheceria a mis\u00e9ria em meio \u00e0 abund\u00e2ncia nem o dualismo da consci\u00eancia que envenena a nossa exist\u00eancia(\u0085) (KROPOTKIN, 1972, p.64).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ele propunha uma organiza\u00e7\u00e3o social baseada na rota\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho, apontando para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade igualit\u00e1ria e justa.<\/p>\n<p>A tarefa de constru\u00e7\u00e3o desse novo tipo de sociedade n\u00e3o poderia prescindir da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A racionalidade e a liberdade em Kropotkin deveria servir para que se instaurasse uma comunidade organizada<\/p>\n<blockquote><p>sob o princ\u00edpio de que todos sejam trabalhadores, seria bastante rica para convir em que todos os seus membros, homens e mulheres, a uma certa idade, dos quarenta em diante por exemplo, fossem liberados da obriga\u00e7\u00e3o moral de tomar parte direta na execu\u00e7\u00e3o do trabalho bra\u00e7al, podendo assim se dedicar completamente ao que mais lhe agradasse no terreno da ci\u00eancia, da arte ou qualquer outro (KROPOTKIN, apud Moriy\u00f3n, 1989, p.67).<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Ferrer y Guardia e a pedagogia racionalista libert\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Ferrer y Guardia nasceu em 1859, em Alella, perto de Barcelona, Espanha. Militou no movimento republicano e anticlerical e em 1886, participou de uma manifesta\u00e7\u00e3o contra a monarquia em 1886, por isso foi expatriado, em Paris juntou-se a alguns anarquistas. Em Paris, deu aulas particulares de espanhol para sustentar sua fam\u00edlia. Em Paris, criou a Liga Internacional pela Educa\u00e7\u00e3o Racional da Inf\u00e2ncia, presidida por Anatole France.<\/p>\n<p>Em 1901, fundou a Escola Moderna em Barcelona, na Espanha, seu prop\u00f3sito era criar uma escola onde pudesse existir a uma educa\u00e7\u00e3o laica, livre, igualit\u00e1ria, com a co-educa\u00e7\u00e3o de classes e sexos.<\/p>\n<p>Seu principal objetivo era possibilitar uma educa\u00e7\u00e3o que rompesse com os dogmas e as supersti\u00e7\u00f5es da Igreja. Tanto no s\u00e9culo XIX, como na primeira metade do s\u00e9culo XX, o clero, a Igreja e o Estado possu\u00edam um poder absoluto sobre a educa\u00e7\u00e3o espanhola. Por causa da sua luta em prol de uma educa\u00e7\u00e3o laica e libert\u00e1ria foi condenado a morte em Montjuich, no dia 13 de outubro de 1909.<\/p>\n<p>Ferrer y Guardia constatou que j\u00e1 existiam escolas laicas e anticlericais, na Espanha, por\u00e9m estas professavam uma pedagogia moderada e existiam tamb\u00e9m escolas dos centros oper\u00e1rios e dos ateneus que, de acordo com ele, eram estigmatizadas pol\u00edtica e socialmente, causando medo \u00e0s classes populares. Por esta raz\u00e3o, ele conservou o car\u00e1ter revolucion\u00e1rio de sua escola, mas criou estrat\u00e9gias para que n\u00e3o ficasse expl\u00edcita a ideologia que a embasava, de modo a n\u00e3o afastar pessoas das classes populares que quisessem matricular seus filhos.<\/p>\n<p>Os princ\u00edpios pedag\u00f3gicos que embasavam a Escola Moderna vinham da concep\u00e7\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o Integral, defendida por Robin, Bakunin e Kropotkin.<\/p>\n<p>Ferrer y Guardia tamb\u00e9m propalava a forma\u00e7\u00e3o integral do ser humano, a uni\u00e3o entre a teoria e a pr\u00e1tica, a n\u00e3o dicotomia entre trabalho manual e intelectual.<\/p>\n<p>Outro aspecto interessante foi a forma como se constituiu a dire\u00e7\u00e3o da Escola Moderna, uma Junta Consultiva a dirigia. Ele sempre se preocupava em n\u00e3o despertar a ira e a aten\u00e7\u00e3o de seus inimigos e, por isso, inaugurou a escola da forma mais discreta poss\u00edvel e deu-lhe o nome de Escola Moderna e n\u00e3o um nome que a identificasse com o movimento anarquista.<\/p>\n<p>Em 1901, no primeiro ano de funcionamento da escola foram matriculados 30 alunos (12 meninas e 18 meninos). De 1901 a 1903, o n\u00famero passou de 30 para 114 alunos. A escola possu\u00eda uma biblioteca, uma tipografia, com servi\u00e7o de edi\u00e7\u00e3o que publicava manuais e obras pedag\u00f3gicas, assim o material pedag\u00f3gico utilizados nas aulas eram editados na escola.<\/p>\n<p>Ferrer y Guardia tinha como inten\u00e7\u00e3o que a escola Moderna fosse um local de emancipa\u00e7\u00e3o e propaga\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias libert\u00e1rias. Para ele, o ensino deveria ser uma for\u00e7a a servi\u00e7o da mudan\u00e7a. Inclusive, as obras editadas na escola passaram a ser adotadas por outras escolas privadas da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Ferrer y Guardia acreditava ser a educa\u00e7\u00e3o era um dos principais caminhos para desenvolver a consci\u00eancia cr\u00edtica. A Escola Moderna tinha o objetivo de trabalhar a educa\u00e7\u00e3o por meio da racionalidade.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o racionalista libert\u00e1ria deveria priorizar o ensino baseado nas ci\u00eancias e na raz\u00e3o, desenvolvendo o aluno intelectual e profissionalmente.<\/p>\n<p>Ele se preocupava com o material a ser utilizado na escola; disponibilizava l\u00e2minas de fisiologia vegetal e animal, gabinetes de f\u00edsica e laborat\u00f3rio especial, m\u00e1quina de proje\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de subst\u00e2ncias diversas para an\u00e1lise.<\/p>\n<p>A escola possu\u00eda uma tipografia e um servi\u00e7o de edi\u00e7\u00e3o que publicava seus materiais did\u00e1ticos, al\u00e9m dos Boletins da Escola Moderna.<\/p>\n<p><strong>Ele tamb\u00e9m propunha o fim de tr\u00eas elementos de regulamentavam as pr\u00e1ticas educativas, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX:<\/strong>\u00a0disciplina, geradora de simula\u00e7\u00e3o, dissimula\u00e7\u00e3o e mentira; os programas, niveladores de originalidade, iniciativa e responsabilidade; e hierarquia, geradora de rivalidade, invejas e \u00f3dios.<\/p>\n<p><strong>A este respeito nos revela Luizetto:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u0093A disciplina dever\u00e1 ser suprimida, pois causa a dispers\u00e3o e a mentira entre os alunos. Os programas deveriam ter o mesmo destino, porque anulam a originalidade, a iniciativa e a responsabilidade das crian\u00e7as. Por fim, a escola dever\u00e1 deixar de ser fonte de comportamentos baseados na rivalidade, na inveja e no rancor, e, para tanto, dever\u00e3o ser abolidas as classifica\u00e7\u00f5es destinadas a distinguir os alunos entre si\u0094 (Luizetto, 1986, p. 52).<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Sendo assim, a pedagogia racional libert\u00e1ria deveria ser:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>Integral \u0096\u00a0<\/strong>para buscar o desenvolvimento harm\u00f4nico do ser, fornecendo um conjunto completo, encadeado, sint\u00e9tico, paralelamente progressivo em toda ordem de conhecimentos, intelectuais, f\u00edsicos, manuais e profissionais.<strong><br \/>\nRacional \u0096\u00a0<\/strong>embasada na raz\u00e3o, no desenvolvimento da dignidade e da independ\u00eancia pessoal; na aboli\u00e7\u00e3o da fic\u00e7\u00e3o Deus, causa eterna e absoluta de subjuga\u00e7\u00e3o.<strong><br \/>\nLibert\u00e1ria \u0096<\/strong>\u00a0liberta da autoridade em proveito da liberdade, sendo o objetivo final da educa\u00e7\u00e3o formar homens livres, cheios de respeito e amor pela liberdade do pr\u00f3ximo.<strong><br \/>\nMista \u0096\u00a0<\/strong>para favorecer a co-educa\u00e7\u00e3o dos sexos e social. A co-educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se referia apenas \u00e0 igualdade dos sexos, deveria existir tamb\u00e9m a igualdade social, ou seja, ricos e pobres precisavam estudar numa mesma classe.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Segundo Saf\u00f3n (2003), depois de tr\u00eas anos de atividades na Escola Moderna, os alunos chegaram a conclus\u00e3o que deveria desaparecer da sociedade:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>1-\u00a0<\/strong>a explora\u00e7\u00e3o de uns pelos outros<strong><br \/>\n2-<\/strong>\u00a0o militarismo, meio de destrui\u00e7\u00e3o utilizado por pa\u00edses contra os outros pa\u00edses, resultado da m\u00e1 organiza\u00e7\u00e3o da sociedade<strong><br \/>\n3-\u00a0<\/strong>o poder que permite a alguns governar e comandar e a outros serem obrigados a submeter-se na humilha\u00e7\u00e3o<strong><br \/>\n4-<\/strong>\u00a0o dinheiro que torna ricos uns e pobres os outros. (SAF\u00d3N, 2003, p.43)<\/p><\/blockquote>\n<p>Para Ferrer y Guardia a educa\u00e7\u00e3o era um meio importante de propaga\u00e7\u00e3o e infiltra\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias libert\u00e1rias na sociedade. A educa\u00e7\u00e3o poderia ser a mola propulsora para o fim do erro, da mentira e da injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>Considerava que as escolas eram o reflexo do interesse do Estado em formar um \u0093abismo intelectual\u0094 entre a classe dominante e as classes dominadas.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha unidade e os curr\u00edculos seguiam dois caminhos completamente opostos. A educa\u00e7\u00e3o da classe dominante voltava-se para o ensino das ci\u00eancias, enquanto a educa\u00e7\u00e3o para a classe trabalhadora direcionava-se para o ensino profissional. O Estado perpetua a dualidade da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com Ferrer y Guardia, a crian\u00e7a nasce sem id\u00e9ias preconcebidas e as apreende ao longo de sua vida, por isso se educarmos uma crian\u00e7a com no\u00e7\u00f5es positivas e verdadeiras, baseadas na experi\u00eancia e na demonstra\u00e7\u00e3o racional, ela ficaria preparada para qualquer tipo de estudo.<\/p>\n<p>No Programa da escola revelava que a meta era fazer com que meninos e meninas se tornassem pessoas instru\u00eddas, verdadeiras, justas e livres. Para tal o ensino deve estar baseado na racionalidade cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Estimulou as atitudes pr\u00f3prias de cada aluno, para que com seu valor individual, cada aluno fosse um membro \u00fatil da sociedade. Buscava preparar uma humanidade fraternal, sem distin\u00e7\u00e3o de sexos.<\/p>\n<p>A escola aceitava crian\u00e7as a partir de cinco anos. No Programa da Escola Moderna, havia a proposta para abrir aos domingos, no intuito de oferecer aulas de hist\u00f3ria geral, ci\u00eancias, artes e discutir as lutas pelo progresso. Essas aulas poderiam ser frequentadas pelas fam\u00edlias dos alunos.<\/p>\n<p>A escola estava instalada com boas condi\u00e7\u00f5es de higiene e os alunos teriam inspe\u00e7\u00e3o m\u00e9dica ao ingressar na escola para evitar propaga\u00e7\u00e3o de enfermidades contagiosas.<\/p>\n<p>Numa reportagem sobre a Escola Moderna, o peri\u00f3dico \u0093O Dil\u00favio\u0094 informa que a escola proporcionaria os conhecimentos de car\u00e1ter cient\u00edfico, a partir de m\u00e9todos pedag\u00f3gicos progressistas, por isso a li\u00e7\u00e3o de coisas substituiria a li\u00e7\u00e3o de palavras, al\u00e9m disso descrevia as instala\u00e7\u00f5es para as aulas pr\u00e1ticas de ci\u00eancias.<\/p>\n<p>Ferrer y Guardia considerava a ci\u00eancia um patrim\u00f4nio de todos, porque ela permitia dissipar erros e capacitava os homens para que conhecessem efetivamente os objetos.<\/p>\n<p>Nos prim\u00f3rdios da educa\u00e7\u00e3o as crian\u00e7as deveriam ser guiadas na dire\u00e7\u00e3o do conhecimento racional, pois na primeira inf\u00e2ncia a vida \u00e9 receptiva.<\/p>\n<p>O professor deveria semear as id\u00e9ias para que mais tarde elas frutificassem. A ci\u00eancia n\u00e3o impedia o conhecimento, mas o impulsionava e conferia realidade \u00e0s coisas.<\/p>\n<p>Ele considerava o homem um ser um complexo, de m\u00faltiplas facetas, ou seja, um ser que conjugava cora\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia e vontade. Outro aspecto fundamental de sua proposta educacional, como mencionamos anteriormente, era a co-educa\u00e7\u00e3o de meninos e meninas. Mas como a quest\u00e3o da co-educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era acatada na Espanha, Ferrer y Guardia n\u00e3o alardeou seus prop\u00f3sitos na proposta de sua escola, quando uma pessoa vinha matricular um menino, ele perguntava se tinha uma menina em casa, incentivando a matricul\u00e1-la. Foi, assim, que na sua escola foram matriculados uma quantidade significativa de meninos e meninas.<\/p>\n<p>Ferrer y Guardia considerou significativa a conviv\u00eancia de meninos e meninas, porque a natureza, a hist\u00f3ria e a filosofia ensinam que a mulher e o homem s\u00e3o seres humanos iguais, por isso as crian\u00e7as de ambos os sexos deveriam ter uma educa\u00e7\u00e3o id\u00eantica; uma educa\u00e7\u00e3o que desenvolvesse a intelig\u00eancia, purificasse o cora\u00e7\u00e3o e temperasse suas vontades. Homens e mulheres se complementam.<\/p>\n<p>A mulher \u00e9 a companheira do homem. Questiona a hipocrisia da igreja em rela\u00e7\u00e3o ao papel do homem e da mulher. Na cultura patriarcal a mulher n\u00e3o tinha autonomia, estava sob o dom\u00ednio do homem.<\/p>\n<p>Outro aspecto importante foi a coeduca\u00e7\u00e3o das classes sociais. Assim como pensa a coeduca\u00e7\u00e3o dos sexos, Guardia concebeu tamb\u00e9m a coeduca\u00e7\u00e3o das classes sociais.<\/p>\n<p>Acreditava que uma escola somente para meninos pobres n\u00e3o \u00e9 uma escola racional, porque nessa escola corria-se o risco de cultivar o \u00f3dio. Porque se n\u00e3o lhes ensinasse a submiss\u00e3o e a credulidade, dever\u00edamos lhes ensinar a rebeldia, o que acirraria o \u00f3dio. E uma escola para meninos ricos n\u00e3o seria racional, porque cultivaria o privil\u00e9gio. \u0093A coeduca\u00e7\u00e3o de pobres e ricos, que p\u00f5e em contato uns com os outros na inocente igualdade da inf\u00e2ncia, por meio da sistem\u00e1tica da igualdade da escola racional, essa \u00e9 a escola, boa, necess\u00e1ria e reparadora\u0094 (Guardia, 1912, p.36).<\/p>\n<p>Assim, podemos constatar como Ferrer y Guardia se apropriou das categorias de racionalidade e liberdade. A sua concep\u00e7\u00e3o educacional apresentou alguns pontos de converg\u00eancia com Robin, Bakunin e Kropotkin ao propor uma educa\u00e7\u00e3o racional, mas n\u00e3o incorporou outros elementos, como por exemplo o malthusianismo de Robin.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.geocities.com\/Universidade\u00a0Federal do Estado do Rio de Janeiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anarquismo na R\u00fassia &#8211; O que foi Os estudiosos se interessam muito pelo\u00a0anarquismo\u00a0particularmente russo. Isto porque foi l\u00e1 que o anarquismo surgiu no final de s\u00e9culo XIX, se desenvolveu e organizou-se. Desde muito cedo movimentos anarquistas j\u00e1 era esbo\u00e7ados naquela regi\u00e3o, principalmente nas fronteiras onde estavam as ma\u00e7as de camponeses injusti\u00e7ados. 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