{"id":76571,"date":"2016-08-11T12:10:40","date_gmt":"2016-08-11T12:10:40","guid":{"rendered":"http:\/\/cmsportal.dalfers.com.br\/?p=76571"},"modified":"2022-07-21T11:41:43","modified_gmt":"2022-07-21T13:41:43","slug":"negrinho-do-pastoreio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/artes-e-cultura\/folclore\/negrinho-do-pastoreio","title":{"rendered":"Negrinho do Pastoreio"},"content":{"rendered":"<p><strong>Negrinho do Pastoreio, um conto de esperan\u00e7a durante a escravid\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>Negrinho do pastoreio<\/strong>, que significa algo como &#8220;menino negro pastor&#8221; ou &#8220;menino negro pastor&#8221; \u00e9 um mito crist\u00e3o afro-brasileiro muito popular no sul do Brasil, contado por pessoas que queriam o fim da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Negrinho era um menino de propriedade de um fazendeiro muito mesquinho e sem cora\u00e7\u00e3o, o menino n\u00e3o tinha nome, por isso se chamava &#8220;negrinho&#8221;, era \u00f3rf\u00e3o e dizia ser afilhado da Virgem Maria, pois ela \u00e9 madrinha de quem n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Um dia, o fazendeiro foi convidado para uma corrida de cavalos por seus vizinhos, ele tinha um lindo cavalo baio e mandou o menino mont\u00e1-lo, mas Negrinho perdeu porque o cavalo se recusou a obedecer.<\/p>\n<p>O fazendeiro ficou furioso chicoteou o menino e, como puni\u00e7\u00e3o, o mandou vigiar seus 30 cavalos em um campo. O menino estava t\u00e3o exausto e faminto que se sentia adormecido, e os cavalos fugiram.<\/p>\n<p>Ele foi chicoteado novamente pelo fazendeiro e disse para procurar os cavalos e traz\u00ea-los de volta, o menino estava mancando, gemendo e chorando, ent\u00e3o ele pensou na Virgem Maria e foi at\u00e9 o altar da casa, pegou uma vela enquanto olhava para sua est\u00e1tua e caminhou para o campo, quando a cera da vela pingou no ch\u00e3o, brilhou uma luz branca, e logo havia tantas gotas que tudo se iluminou, ent\u00e3o ele encontrou os cavalos e os levou para seu lugar, rindo consigo mesmo enquanto sinta-se adormecido novamente.<\/p>\n<p><strong>O filho do fazendeiro:<\/strong>\u00a0um menino malvado como seu pai, libertou os cavalos e os afugentou, culpando o menino.<\/p>\n<p>Negrinho foi a\u00e7oitado pela terceira vez, suas costas estavam esfoladas e sua carne aberta, ent\u00e3o ele chamou a Virgem Maria, soltou um suspiro triste e morreu.<\/p>\n<p>O fazendeiro n\u00e3o quis se dar ao trabalho de cavar uma cova, ent\u00e3o jogou o corpo em um grande formigueiro e s\u00f3 saiu quando as formigas cobriam seu corpo.<\/p>\n<p>Durante tr\u00eas noites o fazendeiro teve o mesmo sonho, ele n\u00e3o conseguia encontrar os cavalos, ent\u00e3o decidiu voltar ao local onde jogou o corpo. Ao chegar l\u00e1, ficou surpreso ao ver Negrinho parado ao lado do formigueiro, sua pele perfeita e sem nenhum machucado ou corte, o menino sacudia algumas formigas que ainda andavam em seu corpo, e com ele estavam o cavalo baio e todos os outros 30. Guardando o menino o fazendeiro viu a Virgem Maria, et\u00e9rea e pac\u00edfica, e o homem caiu de joelhos diante do escravo e pediu desculpas, o menino, por\u00e9m, fugiu em seu cavalo baio, feliz e livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-163686 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Negrin6.jpg\" alt=\"\" width=\"178\" height=\"243\" \/><strong>Negrinho do Pastoreio &#8211; Virgem Maria<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, no sul do Brasil, diz-se que se voc\u00ea perdeu alguma coisa, deve acender uma vela perto de um formigueiro e pedir com f\u00e9 a ajuda de Negrinho, que ele a encontrar\u00e1 para voc\u00ea e levar\u00e1 a vela \u00e0 Virgem Maria.<\/p>\n<p>Esse mito tamb\u00e9m foi contado pelos escravos, como forma de mant\u00ea-los esperan\u00e7osos.<\/p>\n<p><strong>Negrinho do Pastoreio &#8211; Escravo<\/strong><\/p>\n<p>Este menino era um escravo \u00f3rf\u00e3o que pertencia a um rico, cruel e arrogante propriet\u00e1rio de terras.<\/p>\n<p>Sofreu muitas torturas e ferimentos, sendo maltratado por todos, inclusive pelos filhos do dono da terra. Certa vez, depois de perder o rastro de um dos cavalos de seu mestre, o menino foi espancado sem piedade.<\/p>\n<p>Seu corpo quase sem vida foi ent\u00e3o deixado no topo de um formigueiro gigante, para que pudesse ser devorado pelas formigas. No dia seguinte, o dono da terra, com a alma atormentada por seus atos, voltou ao formigueiro, mas n\u00e3o encontrou o corpo do pobre menino. Em vez disso, ele conheceu Nossa Senhora junto com o menino, que era seu afilhado, saud\u00e1vel e feliz, montando um cavalo selvagem e pastoreando uma manada de cavalos invis\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>O Negrinho do Pastoreio \u00e9 um mito ga\u00facho de base cat\u00f3lica e europeia, contado com um objetivo moral:<\/strong>\u00a0a divina compensa\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o dos sofrimentos terrenos.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o popular deu-lhe poderes sobrenaturais, transformando-o numa esp\u00e9cie de santo popular. Ele tem muitos seguidores devotos. Afilhado da Virgem, ele pode encontrar objetos perdidos se voc\u00ea lhe prometer acender um toco de vela para sua madrinha.<\/p>\n<p>Em algumas vers\u00f5es, ele tamb\u00e9m pode pedir uma pitada de tabaco em troca de seus favores.<\/p>\n<p><strong>O Negrinho do Pastoreio<\/strong><\/p>\n<p>Naquele tempo os campos ainda eram abertos, n\u00e3o havia entre eles nem divisas nem cercas; somente nas volteadas se apanhava a gadaria chucra, e os veados e os avestruzes corriam sem empecilhos.<\/p>\n<p>Era uma vez um estancieiro, que tinha uma ponta de surr\u00f5es cheios de on\u00e7as e meias doblas e mais muita prataria; por\u00e9m era muito cau\u00edla e muito mau, muito. N\u00e3o dava pousada a ningu\u00e9m, n\u00e3o emprestava um cavalo a um andante, no inverno o fogo de sua casa n\u00e3o fazia brasas; as geadas e o minuano podiam entangir gente, que a sua porta n\u00e3o se abria; no ver\u00e3o a sombra dos seus umbus s\u00f3 abrigava os cachorros; e ningu\u00e9m de fora bebia \u00e1gua das suas cacimbas. Mas tamb\u00e9m quando tinha servi\u00e7o na est\u00e2ncia, ningu\u00e9m vinha de vontade dar-lhe um ajut\u00f3rio; e a campeirada folheira n\u00e3o gostava de conchavar-se com ele, porque o homem s\u00f3 dava para comer um churrasco de tourito magro, farinha grossa e erva ca\u00fana e nem um naco de fumo\u2026 e tudo, debaixo de tanta somiticaria e choradeira, que parecia que era o seu pr\u00f3prio couro que ele estava lonqueando\u2026<\/p>\n<p><strong>S\u00f3 para tr\u00eas viventes ele olhava nos olhos:<\/strong>\u00a0era para o filho, menino cargoso como uma mosca, para um baio cabos negros, que era o seu parelheiro de confian\u00e7a, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como carv\u00e3o e a quem todos chamavam somente o \u201cNegrinho\u201d. A este n\u00e3o deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa que \u00e9 a madrinha de quem n\u00e3o a tem.<\/p>\n<p>Todas as madrugadas o negrinho galopeava o parelheiro baio; depois conduzia os avios do chimarr\u00e3o e \u00e0 tarde sofria os maus-tratos do menino, que o judiava e se ria.<\/p>\n<p>Um dia, depois de muitas nega\u00e7as, o estancieiro atou carreira com um seu vizinho. Este queria que a parada fosse para os pobres; o outro que n\u00e3o, que n\u00e3o!, que a parada devia ser do dono cavalo que ganhasse.<\/p>\n<p><strong>E trataram<\/strong>: o tiro era trinta quadras, a parada, mil on\u00e7as de ouro. No dia aprazado, na cancha da carreira havia gente como em festa de santo grande. Entre os dois parelheiros a gauchada n\u00e3o sabia decidir, t\u00e3o perfeito era e bem lan\u00e7ado cada um dos animais. Do baio era a fama que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto, que s\u00f3 se ouvia o barulho mas n\u00e3o lhe viam as patas bateram no ch\u00e3o\u2026 E do mouro era voz que quanto mais cancha, mais ag\u00fcente, e que desde a largada ele ia ser como um la\u00e7o que se arrebenta.<\/p>\n<p>As parcerias abriram as guaiacas, e a\u00ed no mais j\u00e1 se apostavam aperos contra rebanhos e redom\u00f5es contra len\u00e7os.<\/p>\n<p>\u2013 Pelo baio! Luz e doble!\u2026<\/p>\n<p>\u2013 Pelo mouro! Doble e luz!\u2026<\/p>\n<p>Os corredores fizeram as suas partidas \u00e0 vontade e depois as obrigadas; e quando foi na \u00faltima, fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E amagando o corpo, de rebenque no ar, largaram, os parelheiros meneando cascos, que parecia uma tormenta\u2026<\/p>\n<p><strong>\u2013<\/strong>\u00a0Empate! Empate!, gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a parelha veloz, compassada como numa colhera.<\/p>\n<p>\u2013 Valha-me a Virgem Madrinha, Nossa Senhora!, gemia o Negrinho. Se o sete l\u00e9guas perde, o meu senhor me mata! Hip-hip-hip!\u2026<\/p>\n<p>E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.<\/p>\n<p>\u2013 Se o corta-vento ganhar \u00e9 s\u00f3 para os pobres!\u2026 retrucava o outro corredor. Hip-hip!<\/p>\n<p>E cerrava as esporas no mouro. Mas os fletes corriam, compassados como numa colhera.<\/p>\n<p>Quando foi na \u00faltima quadra, o mouro vinha arrematado e o baio vinha aos tir\u00f5es\u2026 mas sempre juntos, sempre emparelhados. E a duas bra\u00e7as da raia, quase em cima do la\u00e7o, o baio assentou de sopet\u00e3o, p\u00f4s-se um p\u00e9 e fez uma cara-volta, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passar, ganhando de luz aberta! E o Negrinho, de um p\u00ealo, agarrou-se como um gineta\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2013 Foi mau jogo!, gritava o estancieiro.<\/p>\n<p>\u2013 Mau jogo!, secundavam os outros da sua parceria.<\/p>\n<p>A gauchada estava dividida no julgamento da carreira; mais de uma torena co\u00e7ou o punho da adaga, mais de um desapresilhou a pistola, mais de um virou as esporas para o peito do p\u00e9\u2026 Mas o juiz, que era um velho do tempo da guerra de Sep\u00e9-Tiaray\u00fa, era um juiz macanudo, que j\u00e1 tinha visto muito mundo. Abanando a cabe\u00e7a branca sentenciou, para todos ouvirem.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" title=\"\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/negrinho-do-pastoreio-5.jpg\" alt=\"Lenda Negrinho do Pastoreio\" width=\"350\" height=\"187\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p><strong>\u2013\u00a0<\/strong>Foi na lei! A carreira \u00e9 de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu, que pague. Eu perdi cem gateadas; quem as ganhou venha busc\u00e1-las. Foi na lei! N\u00e3o havia o que alegar.<\/p>\n<p>Despeitado e furioso o estancieiro pagou a parada, \u00e0 vista de todos atirando as mil on\u00e7as de ouro sobre o poncho do seu contr\u00e1rio, estendido no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>E foi um alegr\u00e3o por aqueles pagos, porque logo o ganhador mandou distribuir tambeiros eleiteiras, covados de baeta e baguais e deu o resto, de mota, ao pobrerio.<\/p>\n<p>Depois as carreiras seguiram com os changueiritos que havia.<\/p>\n<p>O estancieiro retirou-se para a sua casa e veio pensando, pensando, calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o cora\u00e7\u00e3o vinha corcoveando como touro de banhado la\u00e7ado a emia espalda\u2026<\/p>\n<p>O trompa\u00e7o das mil on\u00e7as tinha-lhe arrebentado a alma.<\/p>\n<p>E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.<\/p>\n<p><strong>Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim<\/strong>: \u2013\u00a0<strong>Trinta quadras tinha a cancha da carreira que tu perdeste<\/strong>: trinta dias ficar\u00e1 aqui pastoreando a minha tropilha de trinta tordilhos negros\u2026<\/p>\n<p>\u201cO baio fica de piquete na soga e tu ficar\u00e1s de estaca!\u201d<\/p>\n<p>O Negrinho come\u00e7ou a chorar, enquanto os cavalos iam pasteando.<\/p>\n<p>Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O negrinho, varado de fome e j\u00e1 sem for\u00e7as nas m\u00e3os, enleiou a soga num pulso e deitou-se a um cupim.<\/p>\n<p>Vieram ent\u00e3o as corujas e fizeram roda, voando, paradas no ar e todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escurid\u00e3o. E uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas.<\/p>\n<p>O Negrinho tremia, de medo\u2026 por\u00e9m de repente pensou na sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu. E dormiu. Era j\u00e1 tarde da noite, iam passando as estrelas; o Cruzeiro apareceu, subiu e passou, passaram as Tr\u00eas Marias; a Estrela d\u2019alva subiu\u2026 Ent\u00e3o vieram os guaraxains ladr\u00f5es e farejaram o Negrinho e cortaram a guasca da soga. O baio sentiu-se solto, rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramu\u00e7ando no escuro e desguaritando-se nas canhadas.<\/p>\n<p>O tropel acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de esc\u00e1rnio.<\/p>\n<p><strong>Os galos estavam cantando, mas nem o c\u00e9u nem as barras do dia se enxergava<\/strong>: era a cerra\u00e7\u00e3o que tapava tudo.<\/p>\n<p>E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.<\/p>\n<p>O menino maleva foi l\u00e1 e veio dizer ao pai que os cavalos n\u00e3o estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.<\/p>\n<p>E quando era j\u00e1 noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou na sua madrinha Nossa Senhora e foi ao orat\u00f3rio da casa, tomou o cotoco de vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo. Por coxilhas, canhadas, nas becas dos lag\u00f5es, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando cera no ch\u00e3o; e de cada pingo nascia uma nova luz, e j\u00e1 eram tantas que clareavam tudo. O gado ficou deitado, os touros n\u00e3o escarvaram a terra e as manadas chucras n\u00e3o dispararam\u2026<\/p>\n<p>Quando os galos estavam cantando, como na v\u00e9spera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha, at\u00e9 a coxilha que o seu senhor lhe marcara.<\/p>\n<p>E assim o Negrinho achou o pastoreio. E se riu\u2026<\/p>\n<p>Gemendo, gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu.<\/p>\n<p>E n\u00e3o apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxains ladr\u00f5es; por\u00e9m pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo fora, retou\u00e7ando e desguaritando-se nas canhadas. O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos n\u00e3o estavam l\u00e1\u2026<\/p>\n<p>E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou\u2026<\/p>\n<p>O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho\u2026 dar-lhe at\u00e9 ele n\u00e3o mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo\u2026 O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma m\u00fasica, e pareceu que morreu\u2026<\/p>\n<p>E como j\u00e1 era noite e para n\u00e3o gastar a enxada em fazer uma cova, o estancieiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos\u2026 E assanhou bem as formigas; e quando elas raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e come\u00e7aram a trinc\u00e1-lo, \u00e9 que ele ent\u00e3o se foi embora sem olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era, ele mesmo, mil vezes e que tinha mil filhos negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil on\u00e7as de ouro\u2026 e que tudo isto cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno\u2026<\/p>\n<p>Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos p\u00e1ssaros e a casca das frutas.<\/p>\n<p>Passou a noite de Deus e veio a manh\u00e3 e o Sol encoberto. E tr\u00eas dias houve cerra\u00e7\u00e3o forte, e tr\u00eas noites o estancieiro teve o mesmo sonho. A peonada bateu campo, por\u00e9m ningu\u00e9m achou a tropilha e nem o rastro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo. Qual n\u00e3o foi o seu grande espanto, quando, chegado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de p\u00e9, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!\u2026<\/p>\n<p>O Negrinho, de p\u00e9, e ali ao lado, o cavalo baio, e ali junto a tropilha dos trinta tordilhos\u2026 e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que n\u00e3o a tem, viu a Virgem, Nossa Senhora, t\u00e3o serena, pousada na terra, mas mostrando o c\u00e9u\u2026 Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.<\/p>\n<p>E o Negrinho, sarado e risinho, pulando de em p\u00ealo e sem r\u00e9deas no baio, chupou o bei\u00e7o e tocou a tropilha a galope.<\/p>\n<p>E assim o Negrinho pela \u00faltima vez achou o pastoreio. E n\u00e3o chorou, nem riu.<\/p>\n<p>Correu no vizind\u00e1rio a nova do fad\u00e1rio e da triste morte do Negrinho devorado na panela do formigueiro. Por\u00e9m logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento, come\u00e7aram a vir not\u00edcias de um caso que parecia milagre novo\u2026<\/p>\n<p>E era, que os pastoreios e os andantes, os que dormiam sob palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pelas estradas, mascates e carreteiros, todos davam not\u00edcia \u2013 da mesma hora \u2013 de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de em p\u00ealo, em um cavalo baio!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, muitos acenderam velas e rezaram o Padre-Nosso pela alma do judiado. Da\u00ed por diante, quando qualquer crist\u00e3o perdia uma coisa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas s\u00f3 entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar de sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e salvou e dera-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ningu\u00e9m ver.<\/p>\n<p><strong>Todos os anos, durante tr\u00eas dias, o Negrinho desaparece<\/strong>: est\u00e1 metido em algum formigueiro grande, fazendo visitas \u00e0s formigas, suas amigas; a sua tropilha esparrama-se; e um aqui, outro por l\u00e1, os seus cavalos retou\u00e7am nas manadas das est\u00e2ncias. Mas ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha perto do sei ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer a sua recolhida; \u00e9 quando nas est\u00e2ncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e n\u00e3o v\u00ea ningu\u00e9m, nem na ponta, nem na culatra.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce \u00e0s canhadas.<\/p>\n<p>O Negrinho anda sempre \u00e0 procura dos objetos perdidos, pondo-os de jeito a serem achados pelos donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luz ele leva para o altar da Virgem, Nossa Senhora, madrinha dos que a n\u00e3o tem.<\/p>\n<p><strong>Quem perder suas prendas no campo, guarde uma esperan\u00e7a; junto de algum moir\u00e3o ou sob as ramas das \u00e1rvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e v\u00e1 lhe dizendo<\/strong>:<\/p>\n<p>\u2013 Foi por a\u00ed que eu perdi\u2026 Foi por a\u00ed que eu perdi!\u2026<\/p>\n<p>Se ele n\u00e3o achar\u2026 ningu\u00e9m mais.<\/p>\n<p><strong>Negrinho do Pastoreio &#8211; Lenda<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-163688 aligncenter\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Negrin7-300x259.jpg\" alt=\"\" width=\"255\" height=\"220\" srcset=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Negrin7-300x259.jpg 300w, https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/Negrin7.jpg 350w\" sizes=\"(max-width: 255px) 100vw, 255px\" \/><strong>Negrinho do Pastoreio<\/strong><\/p>\n<p>Chegando o grande dia, todos os habitantes da cidade, vestindo suas roupas domingueiras, se alojaram na cancha da carreira. Palpites discutidos, apostas feitas, inicia-se a corrida.<\/p>\n<p>Os dois cavalos saem emparelhados. Negrinho come\u00e7a a suar frio. pois sabe o que lhe espera se n\u00e3o ganhar. Mas, aos poucos toma a dianteira e quase n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que seria vencedor. Mas, eis que o inesperado acontece, algo assusta o cavalo, que para, empina e quase derruba Negrinho. Foi tempo suficiente para que seu advers\u00e1rio o ultrapasse e ganhe a corrida.<\/p>\n<p><strong>E agora?<\/strong><\/p>\n<p>O outro cavalo venceu. Negrinho tremia feito \u201cvara verde\u201d ao ver a express\u00e3o de \u00f3dio nos olhos de seu patr\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mas o fazendeiro, sem sa\u00edda, deve cobrir as apostas e p\u00f5e a m\u00e3o no lugar que lhe mais caro:<\/strong>\u00a0o bolso.<\/p>\n<p>Ao retornarem \u00e0 fazenda, o Negrinho tem pressa para chegar a estrebaria.<\/p>\n<p>\u2013 Aonde pensa que vai? pergunta-lhe o patr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Guardar o cavalo sinh\u00f4! Balbuciou bem baixinho.<\/p>\n<p>\u2013 Nada feito! Voc\u00ea dever\u00e1 passar trinta dias e trinta noites com ele no pasto e cuidar\u00e1 tamb\u00e9m de mais 30 cavalos. Ser\u00e1 seu castigo pelo meu preju\u00edzo. Mas, ainda tem mais, passe aqui que vou lhe aplicar o devido corretivo.<\/p>\n<p><strong>O homem apanhou seu chicote e foi em dire\u00e7\u00e3o ao menino:<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Trinta quadras tinha a cancha da corrida, trinta chibatadas vais levar no lombo e depois trata de pastorear a minha tropilha.<\/p>\n<p>L\u00e1 vai o pequeno escravo, do\u00eddo at\u00e9 a alma levando o baio e os outros cavalos \u00e0 caminho do pastoreio. Passou dia, passou noite, choveu, ventou e o sol torrou-lhe as feridas do corpo e do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem tinha mais l\u00e1grima para chorar e ent\u00e3o resolveu rezar para a Nossa Senhora, pois como n\u00e3o lhe foi dado nome, dizia-se afilhado da Virgem. E, foi a \u201csanta solu\u00e7\u00e3o\u201d, pois Negrinho aquietou-se e ent\u00e3o cansado de carregar sua cruz t\u00e3o pesada, adormeceu.<\/p>\n<p>As estrelas subiram aos c\u00e9us e a lua j\u00e1 tinha andado metade de seu caminho, quando algumas corujas curiosas resolveram chegar mais perto, pairando no ar para observar o menino.<\/p>\n<p>O farfalhar de suas asas assustou o baio, que soltou-se e fugiu, sendo acompanhado pelos outros cavalos. Negrinho acordou assustado, mas n\u00e3o podia fazer mais nada, pois ainda era noite e a cerra\u00e7\u00e3o como um len\u00e7ol branco cobria tudo. E, assim, o negrinho-escravo sentou-se e chorou\u2026<\/p>\n<p>O filho do fazendeiro, que andava pelas bandas, presenciou tudo e apressou-se em contar a novidade ao seu pai. O homem mandou dois escravos busc\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O menino at\u00e9 tentou explicar o acontecido para o seu senhor, mas de nada adiantou. Foi amarrado no tronco e novamente \u00e9 a\u00e7oitado pelo patr\u00e3o, que depois ordenou que ele fosse buscar os cavalos. Ai dele que n\u00e3o os encontrasse!<\/p>\n<p>Assim, Negrinho teve que retornar ao local do pastoreio e para ficar mais f\u00e1cil sua procura, acendeu um toco de vela. A cada pingo dela, deitado sobre o ch\u00e3o, uma luz brilhante nascia em seu lugar, at\u00e9 que todo lugar ficou t\u00e3o claro quanto o dia e lhe foi permitido, desta forma, achar a tropilha. Amarrou o baio e gemendo de dor, jogou-se ao solo desfalecido.<\/p>\n<p>Danado como ele s\u00f3 e, n\u00e3o satisfeito com j\u00e1 fizera ao escravo, o filho do fazendeiro, aproveitou a oportunidade de praticar mais uma maldade dispersa os cavalos. Feito isso, correu novamente at\u00e9 seu pai e contou-lhe que Negrinho havia encontrado os cavalos e os deixara fugir de prop\u00f3sito. A hist\u00f3ria se repete e dois escravos v\u00e3o busc\u00e1-lo, s\u00f3 que desta vez seu patr\u00e3o est\u00e1 decidido em dar cabo dele. Amarrou-o pelos pulsos e surrou-o como nunca. O chicote subia e descia, dilacerando a carne e picoteando-a como guisado.<\/p>\n<p>Negrinho n\u00e3o ag\u00fcentou tanta dor e desmaiou. Achando que o havia matado, seu senhor n\u00e3o sabia que destino dar ao corpo. Enterr\u00e1-lo lhe daria muito trabalho e avistando um enorme formigueiro jogou-o l\u00e1.<\/p>\n<p>As formigas acabariam com ele em pouco tempo, pensou.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o cruel fazendeiro, curioso para ver de que jeito estaria o corpo do menino, dirigiu-se at\u00e9 o formigueiro. Qual sua surpresa, quando o viu em p\u00e9, sorrindo e rodeado pelos cavalos e o baio perdido.<\/p>\n<p>O Negrinho montou-o e partiu a galope, acompanhado pelos trinta cavalos.<\/p>\n<p>O milagre tomou o rumo dos ventos e alcan\u00e7ou o povoado que alegrou-se com a not\u00edcia. Desde aquele dia, muitos foram os relatos de quem viu o Negrinho passeando pelos pampas, montado em seu baio e sumindo em seguida por entre nuvens douradas.<\/p>\n<p><strong>Ele anda sempre a procura das coisas perdidas e quem necessitar de seu ajut\u00f3rio, \u00e9 s\u00f3 acender uma vela entre as ramas de uma \u00e1rvore e dizer:<\/strong><\/p>\n<p>Foi aqui que eu perdi<\/p>\n<p>Mas Negrinho vai me ajudar<\/p>\n<p>Se ele n\u00e3o achar<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m mais conseguir\u00e1!<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a mais linda e popular lenda fraternal ga\u00facha. Ela representa um grito de rep\u00fadio aos maus-tratos com o ser humano. Reflete a consci\u00eancia de um povo (ga\u00fachos) que deliberadamente condenou a agress\u00e3o e a brutalidade da escravid\u00e3o. \u00c9 uma lenda sem dono, sem cara, sem ra\u00e7a \u00e9 a lenda de todos n\u00f3s, que lutamos dia-a-dia nesta terra de exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Negrinho do Pastoreio<\/strong>\u00a0\u00e9 a formata\u00e7\u00e3o de um arqu\u00e9tipo do inconsciente coletivo e podemos v\u00ea-lo como uma manifesta\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia coletiva repleta de ideologias que s\u00e3o transmitidas pela cultura e linguagem que n\u00f3s utilizamos quando estamos sujeitos a algo.<\/p>\n<p>A escravid\u00e3o ainda persiste, embora inc\u00f3gnita e camuflada, mostra sua terr\u00edvel face nas sub-habita\u00e7\u00f5es circunvizinhas \u00e0s metr\u00f3poles. Esta quest\u00e3o social, tem a cada dia afastado a classe m\u00e9dia de uma consci\u00eancia do real problema e que por medo ou omiss\u00e3o, mant\u00eam-se afastada e enclausurada em suas fortalezas gradeadas.<\/p>\n<p>A lenda do Negrinho do Pastoreio possui vers\u00f5es no Uruguai e na Argentina, lugares onde praticamente a escravid\u00e3o inexistiu, portanto, aqui configura-se uma verdadeira \u201cexporta\u00e7\u00e3o\u201d da lenda ga\u00facha.<\/p>\n<p>A sua vers\u00e3o mais antiga \u00e9 a de propriedade de Apolin\u00e1rio Porto Alegre, \u201cO Crioulo do Pastoreio\u201d de 1875, quando ainda existia a escravid\u00e3o no pa\u00eds. Jo\u00e3o Sim\u00f5es Lopes Neto, publicou em 1913 as \u201cLendas do Sul\u201d, onde concretizou algumas altera\u00e7\u00f5es, introduzindo o baio, as corujas e a Nossa Senhora.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" title=\"O Negrinho do Pastoreio\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/negrin9.jpg\" alt=\"O Negrinho do Pastoreio\" width=\"242\" height=\"170\" \/><\/p>\n<p>No Rio Grande do Sul, o Negrinho \u00e9 s\u00edmbolo da Caixa Econ\u00f4mica Estadual. \u00c9 encontrada outra homenagem \u00e0 ele na sede do Governo do Estado, no Sal\u00e3o Nobre que leva o seu nome.<\/p>\n<p>L\u00e1 encontramos afrescos do famoso pintor Aldo Locatelli que reconta sua hist\u00f3ria na vers\u00e3o de Lopes Neto.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0globalvoices.org\/aminoapps.com\/www.terrabrasileira.net\/www.brasilfolclore.hpg.ig.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Negrinho do Pastoreio, Hist\u00f3ria, Folclore, Lendas, Mitos, Cultura, Origem, Madrugadas, Pastoreiro, Negrinho, Personagem, O Negrinho do Pastoreio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[344],"tags":[],"class_list":["post-76571","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-folclore"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Negrinho do Pastoreio, Folclore Negrinho do Pastoreio<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Negrinho do Pastoreio, Hist\u00f3ria, Folclore, Lendas, Mitos, Cultura, 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