{"id":76227,"date":"2016-08-10T14:46:03","date_gmt":"2016-08-10T14:46:03","guid":{"rendered":"http:\/\/cmsportal.dalfers.com.br\/?p=76227"},"modified":"2022-06-22T11:27:45","modified_gmt":"2022-06-22T13:27:45","slug":"historia-das-lendas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/artes-e-cultura\/folclore\/historia-das-lendas","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria das Lendas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mitos, Lendas e Folclore &#8211; O que s\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Os\u00a0<strong>mitos<\/strong>\u00a0s\u00e3o geralmente entendidos como hist\u00f3rias sobre deuses ou figuras divinas.<\/p>\n<p><strong>Eles respondem a grandes perguntas como: como o mundo foi criado? De onde v\u00eam os humanos? Como aprendemos a fazer fogo ou a forjar metal? Qual \u00e9 a origem dos deuses?<\/strong><\/p>\n<p>O termo \u201c<strong>mito<\/strong>\u201d pode ser usado mais livremente para cobrir ciclos inteiros de contos, como as hist\u00f3rias dos deuses irlandeses ou os Quatro Ramos do Mabinogi, lidando com personagens semidivinos galeses.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias que explicam de onde v\u00eam certos povos s\u00e3o conhecidas como \u201cmitos de origem\u201d; o mito de origem mais importante e duradouro para a Gr\u00e3-Bretanha \u00e9 a lenda de Brutus, um refugiado de Tr\u00f3ia que navegou para essas costas e matou todos os gigantes que eram ent\u00e3o os \u00fanicos habitantes, dando seu nome \u00e0s Ilhas Brit\u00e2nicas.<\/p>\n<p>As lendas lidam com her\u00f3is, imaginados como humanos ou sobre-humanos, como S\u00e3o Jorge, Robin Hood ou Hereward the Wake. \u00c0s vezes, h\u00e1 uma base semi-hist\u00f3rica para essas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Hereward era uma pessoa real, descendente dos senhores vikings por um lado e da nobreza inglesa por outro, que liderou um movimento de resist\u00eancia aos normandos ap\u00f3s a conquista.<\/p>\n<p>As\u00a0<strong>lendas<\/strong>\u00a0geralmente t\u00eam uma conex\u00e3o estreita com um lugar em particular, como a Floresta de Sherwood, lar de Robin Hood, ou Tintagel, onde se diz que o Rei Arthur foi concebido, Stonehenge ou o Castelo de Dover, onde o cr\u00e2nio do famoso cavaleiro de Arthur, Sir Gawain , foi preservado por muito tempo.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>folclore<\/strong>\u00a0abrange uma gama de cren\u00e7as, desde a exist\u00eancia de fadas que dan\u00e7am em certos lugares quando a lua est\u00e1 cheia, at\u00e9 os h\u00e1bitos do Monstro do Lago Ness, at\u00e9 a cren\u00e7a de que as bruxas podem se transformar em lebres e roubar leite de vacas. Muitas de nossas hist\u00f3rias mais conhecidas, de drag\u00f5es, c\u00e3es pretos, kelpies ou hobs, s\u00e3o folcl\u00f3ricas; eles cont\u00eam motivos que s\u00e3o comumente encontrados em outras hist\u00f3rias contadas em toda a Europa, ou eles exploram cren\u00e7as que s\u00e3o amplamente difundidas nas Ilhas Brit\u00e2nicas.<\/p>\n<p><strong>Mitos e lendas<\/strong>\u00a0t\u00eam a not\u00e1vel propriedade de muitas vezes estarem enraizados em lugares espec\u00edficos, e ainda assim seus contornos gerais tendem a ser surpreendentemente universais.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rias semelhantes ocorrem em todo o mundo, variando apenas em detalhes particulares. Assim, vers\u00f5es de Cinderela ou dos Tr\u00eas Homens que foram em Busca da Morte podem ser encontradas em lugares t\u00e3o distantes quanto China, \u00cdndia, Gr\u00e3-Bretanha e Am\u00e9rica do Norte.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes fica claro que essas hist\u00f3rias se espalharam por meio da migra\u00e7\u00e3o e foram transmitidas de boca em boca atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es \u2013 assim, alguns contos e baladas inglesas chegaram \u00e0 Am\u00e9rica do Norte e ainda est\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><strong>Evolu\u00e7\u00e3o das Lendas<\/strong><\/p>\n<p><strong>I. Defini\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>A palavra<strong>\u00a0lenda<\/strong>\u00a0prov\u00e9m do baixo latim legenda, que significa o que deve ser lido. No princ\u00edpio, as lendas constitu\u00edam uma compila\u00e7\u00e3o da vida dos santos, dos m\u00e1rtires (Voragine); eram lidas nos refeit\u00f3rios dos conventos. Com o tempo ingressaram na vida profana; essas narra\u00e7\u00f5es populares, baseadas em fatos hist\u00f3ricos precisos, n\u00e3o tardaram a evoluir e embelezar-se. Atualmente, a lenda, transformada pela tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 o produto inconsciente da imagina\u00e7\u00e3o popular Desta forma o her\u00f3i sujeito a dados hist\u00f3ricos, reflete os anseios de um grupo ou de um povo; sua conduta dep\u00f5e a favor de uma a\u00e7\u00e3o ou de uma id\u00e9ia cujo objetivo \u00e9 arrastar outros indiv\u00edduos para o mesmo caminho.<\/p>\n<p>A f\u00e1bula \u00e9 uma narra\u00e7\u00e3o em verso, cujos personagens s\u00e3o animais dotados de qualidades humanas. As mais c\u00e9lebres f\u00e1bulas s\u00e3o as de Esopo, La Fontaine e Florian.<\/p>\n<p>Os contos de animais s\u00e3o f\u00e1bulas redigidas em prosa.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>conto<\/strong>\u00a0\u00e9 uma narra\u00e7\u00e3o maravilhosa baseada numa trama romanesca; os lugares n\u00e3o s\u00e3o determinados e os personagens n\u00e3o t\u00eam nenhuma precis\u00e3o hist\u00f3rica; a narra\u00e7\u00e3o distrai.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>lenda<\/strong>\u00a0\u00e9 um\u00a0<strong>conto<\/strong>\u00a0no qual a a\u00e7\u00e3o maravilhosa se localiza com exatid\u00e3o; os personagens s\u00e3o precisos e definidos.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es se fundamentam em fatos hist\u00f3ricos conhecidos e tudo parece se desenrolar de maneira positiva. Freq\u00fcentemente a hist\u00f3ria \u00e9 deformada pela imagina\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>mito<\/strong>\u00a0\u00e9 uma forma de lenda; mas os personagens humanos tomam-se divinos; a a\u00e7\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o sobrenatural e irracional. O tempo nada mais \u00e9 do que uma fic\u00e7\u00e3o. Na realidade, essas categorias se embara\u00e7am e os mitos s\u00e3o de uma infinita variedade; relacionam\u2013se \u00e0s religi\u00f5es, s\u00e3o cosmog\u00f4nicos, divinos ou her\u00f3icos. As lendas, com personagens mais modestos, fazem evoluir m\u00e1gicos, fadas, bruxas, que, de uma maneira quase divina, influem nos destinos humanos.<\/p>\n<p><b>2. Origem<\/b><\/p>\n<p>A lenda, mais verdadeira do que a hist\u00f3ria, devido \u00e0 quantidade de ensinamentos humanos, contraria freq\u00fcentemente a verdade psicol\u00f3gica; uma ab\u00f3bora transforma-se em carruagem; um rato, em cocheiro. Entretanto, essas fic\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o nem pueris nem grotescas; elas nos interessam, nos repousam e nos deslumbram.<\/p>\n<p><strong>Esse mundo fluido que p\u00f5e em xeque o nosso mundo real, foi definido pelo bondoso Jean de la Fontaine:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>e at\u00e9 mesmo eu.<br \/>\nSe me contassem a Pele de burro<br \/>\nsentiria um extremo prazer<\/p><\/blockquote>\n<p>Este divertimento do povo \u00e9 sua aspira\u00e7\u00e3o secreta, sua busca espiritual de um mundo maravilhoso onde impere o valor do homem, onde as leis, t\u00e3o detestadas, sejam abolidas. E o encantamento, a volta ao Para\u00edso Terrestre.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>lenda<\/strong>\u00a0existe desde a forma\u00e7\u00e3o do cl\u00e3, da sociedade e os temas se desenvolvem com preocupa\u00e7\u00f5es semelhantes em todas as culturas.<\/p>\n<p>Essa literatura coletiva pode ser proveniente de um \u00fanico mito propalado de pa\u00eds em pa\u00eds A \u00cdndia foi primeira a nos fornecer o \u00edndice escrito desse folclore mundial, o que n\u00e3o implica que a \u00cdndia seja o seu ber\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Divulgados oralmente, esses contos -foram talvez escritos e conservados em outros pa\u00edses, mas sua mensagem n\u00e3o chegou at\u00e9 n\u00f3s:\u00a0<\/strong>por muito tempo ignorou-se as riquezas contidas nas pir\u00e2mides cujos segredos ainda n\u00e3o foram completamente desvendados, o que n\u00e3o permitiria aos nossos filhos dizerem que as pir\u00e2mides n\u00e3o cont\u00eam nenhum segredo.<\/p>\n<p>Esses contos, transformados, decantados, modificados, foram portanto transcritos nos Vedas, aproximadamente 4.500 anos a. C. base de nossa mais antiga civiliza\u00e7\u00e3o teriam os Arias e o original da compila\u00e7\u00e3o \u00e9 o Pantchatantra (os cinco livros). Considerando os animais que falam e as leis da metempsicose, parece ser a f\u00e1bula um produto espont\u00e2neo da \u00cdndia. \u00c9 curioso, contudo, que uma passagem do romance de Merlin esteja reproduzida num conto Indiano (Gulcasapati) e numa compila\u00e7\u00e3o de Somadeva.<\/p>\n<p>Sinais do budismo aparecem em v\u00e1rios outros lugares e principalmente na grande caridade demonstrada pelos her\u00f3is para com os animais.<\/p>\n<p>Nestes \u00faltimos anos, a escola folclorista compilou contos semelhantes aos da \u00cdndia, em todos os pa\u00edses. Portanto, os mitos se divulgaram atrav\u00e9s do tempo e do espa\u00e7o.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o grega toma emprestado \u00e0 religi\u00e3o fen\u00edcia, o mito de Ad\u00f4nis e Cibele. Reinhold Kohler e Theodor Benfey ficaram estupefatos ao encontrar os mesmos temas iniciais em todos os pa\u00edses.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que durante sua peregrina\u00e7\u00e3o, os contos se transformaram; h\u00e1 a influ\u00eancia do meio, a altera\u00e7\u00e3o de certos fatos, lacunas que foram preenchidas e novos motivos surgiram, mas a base da cria\u00e7\u00e3o continua a mesma; as particularidades locais, muitas vezes morais, fornecem preciosos ensinamentos sobre o povo e sua maneira de pensar.<\/p>\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o dos contos talvez nos surpreenda em fun\u00e7\u00e3o da \u00e9poca mas, na realidade, os pa\u00edses se comunicavam entre si muito antes das viagens de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo, Magellan ou Marco Polo.<\/p>\n<p>Teria havido navegadores, verdadeiros aventureiros, que transportavam ensinamento de uma a outra civiliza\u00e7\u00e3o e o ritmo da vida era assim o mesmo em cada pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica possu\u00eda suas fundi\u00e7\u00f5es no mesmo per\u00edodo que a \u00c1sia ou a Europa.<\/p>\n<p>Concluindo, n\u00e3o se pode afirmar que houve uma \u00fanica inven\u00e7\u00e3o, mas apenas a \u00cdndia possui os documentos antigos onde nossos mitos est\u00e3o registrados.<\/p>\n<p><b>3. Os temas<\/b><\/p>\n<p>Transcri\u00e7\u00e3o do pensamento do povo, os temas simbolizam suas aspira\u00e7\u00f5es. Transposi\u00e7\u00e3o de sentimentos e desejos humanos a lenda abole o real.<\/p>\n<p>O homem infeliz torna-se poderoso. A pastora bela e incompreendida, desposa um pr\u00edncipe encantado; o sapatinho perdido, emblema de sua beleza, \u00e9 cultuado na \u00cdndia. As mulheres, prisioneiras dos h\u00e1bitos, vivem sob a depend\u00eancia do homem: as princesas ter\u00e3o liberdade e o rei ser\u00e1 passivo. O subconsciente criou uma supercompensa\u00e7\u00e3o para os nossos sentimentos de inferioridade<\/p>\n<p>Os mist\u00e9rios naturais preocupam a imagina\u00e7\u00e3o: tudo \u00e9 maravilhoso, incompreens\u00edvel, surpreendente e fascinante. Desde o desabrochar da flor at\u00e9 as ondas sorrateiras que dirigimos sem conhecer a eletricidade essas manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o de uma amplitude desconcertante. O sol e, conseq\u00fcentemente, a lua, favorecem com seu culto, a cria\u00e7\u00e3o de malef\u00edcios, de palavras m\u00e1gicas e de palavras-chave.<\/p>\n<p>Entretanto, esses conhecimentos s\u00f3 podem ser adquiridos com uma certa inicia\u00e7\u00e3o; para comandar os esp\u00edritos \u00e9 preciso instru\u00e7\u00e3o e o adepto, depois das provas e dos tr\u00eas est\u00e1gios (purifica\u00e7\u00e3o, conhecimento e poder), conhecer\u00e1, finalmente, todas as virtudes da c\u00e2mara secreta. O conto ser\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o mas o mito n\u00e3o poderia se enunciar claramente; elementos conscientes, s\u00f3 instruiriam os iniciados enquanto que o povo veria nisso apenas um divertimento. Naturalmente a bruxaria liga-se a essa magia feiticeira. \u00c9 a estranha personalidade do diabo.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>lenda<\/strong>\u00a0religiosa deveria se utilizar do antagonismo entre a dualidade da alma humana.<\/p>\n<p>De acordo com Freud, a sexualidade desempenha um papel primordial no comportamento da sociedade; \u00e9 representada sob o s\u00edmbolo do algarismo 3 a Trindade m\u00edstica e o l\u00edrio her\u00e1ldico representaria o \u00f3rg\u00e3o macho.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise interpretar\u00e1 os contos da mesma forma que os sonhos.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>lenda<\/strong>\u00a0hist\u00f3rica fundamenta-se em fatos reais, mas o narrador altera a verdade a fim de provar. A lenda do Cid, criada quarenta anos depois da morte do her\u00f3i, \u00e9 de composi\u00e7\u00e3o diferente da de Rolando, escrita duzentos e setenta anos depois de Roncesvales. As suas falhas s\u00e3o flagrantes, bem como nas duas c\u00e9lebres lendas \u00e9picas, a Il\u00edada e a Odiss\u00e9ia.<\/p>\n<p>Outras lendas est\u00e3o em forma\u00e7\u00e3o. Eis a de Cartouche, Mandrin, Jack, o Estripador, Mayerling, o mito de Hitler vivendo num rancho americano \u00e9 an\u00e1logo ao de Napole\u00e3o. A irm\u00e3zinha de Lisieux deu origem, segundo o padre de Ars ou S\u00e3o Vicente de Paula, a uma imensa literatura que n\u00e3o pode desaparecer imediatamente.<\/p>\n<p>Todavia, nesses ciclos tem\u00e1ticos, raramente um tema se representa no estado isolado; ele se imbrica com v\u00e1rios outros, tamb\u00e9m mais ou menos modificados. Sendo esses assuntos primordiais inumer\u00e1veis, estudaremos apenas alguns mitos principais.<\/p>\n<p><b>4. A pesquisa folcl\u00f3rica<\/b><\/p>\n<p>A palavra folklore foi criada por W. J. Thomas, em 1846. Folk significa povo e lore; saber ou conhecimento. Antigamente os franceses empregavam a express\u00e3o: Tradi\u00e7\u00f5es Populares.<\/p>\n<p>Perrault, quando publicou, na editora Barbin (Paris), em 1697, suas Histoires ou Contes du temps pass\u00e9, abriu caminho aos irm\u00e3os Grimm que compilavam os contos ouvidos da boca dos camponeses de Hesse, em 1810. Walter Scott fez o mesmo na Inglaterra, em 1820, aproximadamente.<\/p>\n<p>Quando se descobriu, em diferentes pa\u00edses, o mesmo repert\u00f3rio de contos, com pequenas varia\u00e7\u00f5es de costumes, a atividade dos folcloristas tornou-se intensa.<\/p>\n<p>Essa atividade permitiu a interpreta\u00e7\u00e3o das lendas e principalmente sua classifica\u00e7\u00e3o; foram unidos entre si e compiladas. Miss Roalfe Cox publicou an\u00e1lises not\u00e1veis sobre Cendrillon (Gata Borralheira) e Peau dAne (Pele de burro) (Folklore Society, Londres, 1893).<\/p>\n<p>Com o estudo dessas narra\u00e7\u00f5es maravilhosas, a an\u00e1lise das cren\u00e7as e dos costumes permitiu evocar per\u00edodos pouco ricos em coment\u00e1rios. Contudo, o folclore n\u00e3o se interessa unicamente pelo passado; dedica-se tamb\u00e9m ao presente, tanto em economia pol\u00edtica como em institui\u00e7\u00f5es, of\u00edcios ou atividades populares.<\/p>\n<p><strong>Saintyves assim o definiu:\u00a0<\/strong>\u00c9 a ci\u00eancia da vida popular no seio de sociedades civilizadas.<\/p>\n<p>Embora a explica\u00e7\u00e3o dos contos seja mais ou menos fantasista, este m\u00e9todo de observa\u00e7\u00e3o permitiu ligar os fatos uns aos outros de forma que parecessem, de in\u00edcio, disparatados.<\/p>\n<p>O folclore permitiu preencher essas lacunas e acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o da psicologia coletiva mesmo fora das grandes civiliza\u00e7\u00f5es que nunca foram homog\u00eaneas.<\/p>\n<p>Essa cultura tradicional, devida \u00e0 massa popular \u00e0 margem do ensino oficial, tem uma base permanente que, apesar de incompleta, assegurou definitivamente a estabilidade das sociedades sucessivas.<\/p>\n<p>Essa camada inferior, verdadeira corrente cultural, transmite-se de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o e \u00e9 gra\u00e7as a ela que os contos foram conservados.<\/p>\n<p><strong>DIVULGA\u00c7\u00c3O DOS CONTOS<\/strong><\/p>\n<p><b>1 Teoria das Migra\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>Gaston Paris estudou, depois de Benfey, a migra\u00e7\u00e3o do contos orientais na literatura da Idade M\u00e9dia.\u00a0 Cosquin, o ingl\u00eas Clouston, o alem\u00e3o Landeau, estabeleceram paralelos entre as novelas de Boc\u00e1cio e as fontes orientais.<\/p>\n<p>Buscaram, para cada conto, a estrada percorrida: foi a teoria dos motivos errantes ou a teoria das migra\u00e7\u00f5es. Max M\u00fcller aponta sempre a \u00cdndia como fonte comum e o russo Stassov (1868) diz a mesma coisa e foi por isso criticado pela sua falta de patriotismo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso analisar com aten\u00e7\u00e3o as semelhan\u00e7as, as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, a fim de reconhecer o tema pois se o conto toma de empr\u00e9stimo o seu motivo ele adquire, de formo mais ou menos r\u00e1pida, um car\u00e1ter nacional.<\/p>\n<p>Os russos Vesselovski e Vsevolod Miller determinaram as trajet\u00f3rias dos motivos emprestados e reconheceram uma influ\u00eancia turco-mong\u00f3lica.<\/p>\n<p>Joseph Bedier (Fabliaux), conforme a escola antropol\u00f3gica, manifestou d\u00favidas sobre o m\u00e9todo de Benfey; julgou-se que as aproxima\u00e7\u00f5es fossem v\u00e3s e a busca limitou-se ao que ligava essa obra \u00e0 poesia nacional.<\/p>\n<p>O russo Oldenburg, zombando das dificuldades, provou serem os fabliaux oriundos da antiga \u00cdndia.<\/p>\n<p>O tcheco Polivka e o alem\u00e3o Bolte forneceram tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o dos poss\u00edveis paralelos existentes entre cem contos de Grimm (Remarques sur les contes enfantins et familiaux de Grimm \u2013 Observa\u00e7\u00f5es sobre os contos infantis e familiares de Grimm).<\/p>\n<p>Com efeito, \u00e9 curioso notar que as aventuras de Ulisses se assemelham \u00e0s de Sindbad, o marujo e que o pr\u00f3logo de Mil e uma noites relata a hist\u00f3ria de uma jovem chinesa, conto budista, traduzido para o chin\u00eas no s\u00e9culo III (tradu\u00e7\u00e3o Chavannes, conto n.o 109). Miss R. Coxe, numa monografia, conta quatrocentos variantes de Pele de burro e Gata Borralheira. Al\u00e9m das dos autores j\u00e1 citados, notemos as variantes erguidas por Ren\u00e9 Basset, D\u00e4hnhardt, Adolphe Pictet, Buslaiev e Afanassiev.<\/p>\n<p><b>2.A influ\u00eancia da \u00cdndia<\/b><\/p>\n<p>Quando o conto primitivo, ou assim suposto, se libertou de todos os elementos transit\u00f3rios e permanentes, sua variante foi discernida na literatura hindu, que penetrou na China antes do budismo.<\/p>\n<p>A maioria dos contos s\u00e3o encontrados no Extremo Oriente, dois s\u00e9culos antes da nossa era. A influ\u00eancia budista, as invas\u00f5es mong\u00f3licas contribu\u00edram para a divulga\u00e7\u00e3o dos contos hindus que formam a base das cole\u00e7\u00f5es folcl\u00f3ricas.<\/p>\n<p><b>3. Migra\u00e7\u00e3o dos Contos e dos povos<\/b><\/p>\n<p>A migra\u00e7\u00e3o dos contos nos \u00e9 desconhecida e podemos quanto muito construir teorias mais ou menos plaus\u00edveis conforme nossa imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da influ\u00eancia budista e das invas\u00f5es mong\u00f3licas, em conseq\u00fc\u00eancia das conquistas \u00e1rabes, toda a costa barbaresca e a P\u00e9rsia sofreram a influ\u00eancia asi\u00e1tica.<\/p>\n<p>Eis porque Mil e uma noites t\u00eam influ\u00eancia p\u00e9rsica cuja cultura provinha da \u00cdndia. E preciso pesquisar a marcha do conto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 marcha do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>A migra\u00e7\u00e3o dos povos foi estudada por Elliot Smith, Maximo Soto Hall; os antigos eg\u00edpcios seriam descendentes dos Maias que haviam emigrado para a \u00c1frica.<\/p>\n<p>A Atl\u00e2ntida, esse antigo continente, teria formado uma liga\u00e7\u00e3o natural entre a Europa e a Am\u00e9rica. Entretanto, conforme a not\u00e1vel teoria de Wegener sobre a separa\u00e7\u00e3o dos continentes, a Am\u00e9rica seria um bloco que se desprendeu da Europa e da \u00c1frica. Realmente essa cis\u00e3o parece que se produziu antes da apari\u00e7\u00e3o do homem. Contudo, se nos referimos ao s\u00e1bio americano Libbey, que estudou as propriedades radioativas do carbono contido nos vest\u00edgios org\u00e2nicos (o C 14), nossas civiliza\u00e7\u00f5es datariam de trinta mil anos (\u00e9poca pleistocena).<\/p>\n<p>Ora, h\u00e1 trinta mil anos, a \u00c1sia e a Am\u00e9rica se juntavam: O Alasca e a Sib\u00e9ria ainda n\u00e3o haviam sido separados pelo estreito de Behring. Canals Frau (Pr\u00e9histoire de lAm\u00e9rique, 1953), \u00e9 de opini\u00e3o que grupos de emigrantes asi\u00e1ticos aventuraram-se nas plan\u00edcies norte-americanas, numa \u00e9poca imediatamente anterior ao \u00faltimo m\u00e1ximo da glacia\u00e7\u00e3o Wisconsiniana. Conforme os ge\u00f3logos e Antevs, essa \u00faltima glacia\u00e7\u00e3o, denominada Mankato, ter-se-ia produzido aproximadamente em 25.000 a. C.<\/p>\n<p>Canals Frau sup\u00f5e que nova onda emigrat\u00f3ria asi\u00e1tica tenha-se produzido na \u00e9poca mesol\u00edtica; essa civiliza\u00e7\u00e3o esquim\u00f3 teria, h\u00e1 tr\u00eas ou quatro mil anos, dominado a Sib\u00e9ria e se teria fixado no litoral \u00e1rtico da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Esses homens teriam atravessado a Am\u00e9rica de norte a sul a fim de atingirem a Terra do Fogo.<\/p>\n<p>\u00c9 indiscut\u00edvel que nossos antepassados viajavam e s\u00f3 a falta de documentos deu origem ao julgamento de que esses povos se ignoravam uns aos outros.<\/p>\n<p>Serviam-se das correntes naturais e a expedi\u00e7\u00e3o Kon Tiki provou ser poss\u00edvel a travessia do oceano, de jangada, desde a Am\u00e9rica at\u00e9 os Mares do Sul. As mon\u00e7\u00f5es favoreciam as viagens entre o Oriente e o Ocidente.<\/p>\n<p>Os malaios invadiram as ilhas polin\u00e9sias com a ajuda de grandes vapores providos de balanceiros.<\/p>\n<p>Os monumentos deixados pelos habitantes da antiga Am\u00e9rica testemunham uma civiliza\u00e7\u00e3o adiantada injustamente podada em todo o vigor da sua seiva, quando da invas\u00e3o espanhola, no s\u00e9culo XVI. Eis porque, nas margens do Mississipi, os rochedos est\u00e3o eivados de caracteres que parecem ser fen\u00edcios; rochedos tr\u00eamulos que evocam monumentos dru\u00eddicos; no hemisf\u00e9rio austral, imensas ru\u00ednas de outeiros assemelham-se \u00e0s sepulturas do norte da \u00c1sia.<\/p>\n<p>A admir\u00e1vel pir\u00e2mide de Paplanta, a fortaleza europ\u00e9ia de Xochialco, o emprego do cimento no templo situado nas imedia\u00e7\u00f5es de Santa F\u00e9, fazem supor que a Am\u00e9rica era conhecida pelas civiliza\u00e7\u00f5es hindus e europ\u00e9ias antes da viagem de Crist\u00f3v\u00e3o Colombo; a tradi\u00e7\u00e3o deve ter-se apagado um pouco e a mensagem das antigas civiliza\u00e7\u00f5es nem sempre foi transmitida.<\/p>\n<p>Eis porque, nas imedia\u00e7\u00f5es de Montevid\u00e9u, uma pedra tumular registra, em caracteres gregos, que um capit\u00e3o heleno aportou nessa terra americana no tempo de Alexandre.<\/p>\n<p>Um contempor\u00e2neo de Arist\u00f3teles tamb\u00e9m pisou o solo brasileiro. Nas cr\u00f4nicas, Madoc, filho do pr\u00edncipe de Gales, abriu velas em 1170, dirigindo-se para o oeste e descobriu terras f\u00e9rteis; por\u00e9m, j\u00e1 em 942, os normandos haviam aportado na Groenl\u00e2ndia passando pela Isl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Isto justificaria terem tribos do Missouri tamb\u00e9m falado a l\u00edngua c\u00e9ltica. Humboldt admite que os t\u00e1rtaros e os mong\u00f3is tenham passado do norte da \u00c1sia \u00e0s regi\u00f5es setentrionais da Am\u00e9rica antes do s\u00e9culo VI; os chineses comerciaram com os americanos bem como o cartagin\u00eas Himilcon. Salom\u00e3o e Hiram enviaram os fen\u00edcios para as regi\u00f5es americanas conhecidas, sem d\u00favida, pelo nome de Ofir e T\u00e1rsis.<\/p>\n<p>\u00c9 um erro julgar que os povos antigos eram selvagens e b\u00e1rbaros; nossa falta de conhecimentos a esse respeito n\u00e3o prova essa asser\u00e7\u00e3o. Crist\u00f3v\u00e3o Colombo deve ter ficado surpreendido quando encontrou entre esses selvagens a nossa cruz latina que figurava ainda nas esculturas colossais da cidade de Palenque, no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Depois da sensacional descoberta do Vixenu, por Ren\u00e9 joffroy (1952), compreende-se que o prest\u00edgio das artes gregas e italianas estendia-se \u00e0 G\u00e1lia c\u00e9ltica. O oppidum do monte Lassois (perto de Ch\u00e2tillon-sur-Seine) seria uma base dessa rota do estanho; e os m\u00f3veis funer\u00e1rios, as j\u00f3ias \u00edtalo-gregas do s\u00e9culo VI antes da nossa era, a bacia de bronze de fabrica\u00e7\u00e3o etrusca, encontradas nessa parte setentrional da Borgonha, ent\u00e3o somente c\u00e9ltica, colocam um enigma que provoca d\u00favidas sobre as influ\u00eancias da Etr\u00faria ou das regi\u00f5es greco-c\u00edticas de passagem pela Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>Os eg\u00edpcios conheciam os movimentos planet\u00e1rios e as dimens\u00f5es do nosso globo terrestre quando Galileu quase foi queimado vivo por ter adotado o sistema de Cop\u00e9rnico.<\/p>\n<p>Nossas descobertas modernas j\u00e1 haviam sido precedidas pela Escritura, nossas verdades f\u00edsicas foram por muito tempo desconhecidas e ignoradas, enquanto que os Livros Sagrados ficam no limite da verdade e na harmonia de nossas mais recentes observa\u00e7\u00f5es, cuja exatid\u00e3o s\u00e3o apenas confirmadas por nossas pesquisas cient\u00edficas; em compensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia na Antig\u00fcidade a mesma concep\u00e7\u00e3o do tempo e do seu emprego de hoje; conhecimentos provinham de uma reflex\u00e3o amadurecida no recolhimento e no sil\u00eancio, alheio a qualquer agita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos mercadores, as guerras muito contribu\u00edram para a divulga\u00e7\u00e3o dos contos. Essa divulga\u00e7\u00e3o deve-se \u00e0s conquistas de Alexandre da Maced\u00f4nia e ao per\u00edodo hel\u00eanico (do fim do IV ao II s\u00e9culos antes da nossa era); depois as conquistas \u00e1rabes (1.o mil\u00eanio da era crist\u00e3) e finalmente \u00e0 \u00e9poca das cruzadas (do X ao XII s\u00e9culos).<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o oral foi muito importante. Foi dessa forma que Pit\u00e1goras tomou conhecimento das religi\u00f5es da \u00cdndia, quando j\u00e1 convivia com os magos da Cald\u00e9ia. Esse s\u00e1bio grego, contempor\u00e2neo de Buda que talvez tenha encontrado e de Conf\u00facio, participava das id\u00e9ias do hindu e do chin\u00eas e esses tr\u00eas homens pregavam o mesmo evangelho. As descobertas e os pensamentos existem, pois, no tempo e se transmite de forma desconhecida.<\/p>\n<p>Walter Scott observa que a impress\u00e3o era inexistente, os vedas e os edas noruegueses, a B\u00edblia s\u00f3 foram escritos depois de haverem sido transmitidos oralmente.<\/p>\n<p>Deve-se \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o popular a cria\u00e7\u00e3o da Odiss\u00e9ia e dos Niebelungen.<\/p>\n<p><strong>INTERPRETA\u00c7\u00c3O DAS LENDAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>I. Sentido profano<\/strong><\/p>\n<p>As lendas s\u00e3o sujeitas a interpreta\u00e7\u00f5es bastante diferentes que se contradizem ou se completam. Loeffler-Delachaux (Symbolisme des contes de f\u00e9es (Simbolismo dos contos de fadas, 1949) interpreta-as no sentido profano, sacro ou inici\u00e1tico.<\/p>\n<p><b>1. Teorias astrais ou naturalista<\/b><\/p>\n<p>Os povos divinizaram as grandes manifesta\u00e7\u00f5es da natureza. Se Max M\u00fcller e Br\u00e9al M\u00e9langes de mythologie et de l\u00ednguistique (Miscel\u00e2nia de mitologia e ling\u00fc\u00edstica), cogitam nos fen\u00f4menos solares e no combate \u00e0 escurid\u00e3o, Kuhn e Schwartz s\u00e3o de opini\u00e3o de que n\u00e3o foram os fen\u00f4menos regulares que chocaram a imagina\u00e7\u00e3o mas sim os espet\u00e1culos raros e inesperados (rel\u00e2mpago, trov\u00e3o); \u00e9, pois, a escola meteorol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Para Ploix (La nature des dieux \u2013 A natureza dos deuses) a luz \u00e9 que \u00e9 adorada e conduz ao estudo dos fen\u00f4menos crepusculares. Mannhardt encontra nas lendas explica\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios da vegeta\u00e7\u00e3o, enquanto que Regnaud e Renel Evolution d un mythe (Evolu\u00e7\u00e3o de um mito) pensam no mito do fogo. Saintyves descobriu nesse mito antigas cerim\u00f4nias estacion\u00e1rias praticadas por ocasi\u00e3o do ano novo e da primavera.<\/p>\n<p>Deulin em Contes de ma mere l Oye (Contos de minha m\u00e3e gansa) refere-se a Husson para quem as sete esposas de Barba Azul tornam-se as sete auroras da semana.<\/p>\n<p>Deulin mostra que com um pouco de imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel provar que Virg\u00ednia \u00e9 uma aurora que procura esconder-se de Paulo, que nesse caso seria o sol. Dupuis (Origine de tous les cultes \u2013 Origem de todos os cultos) mostra que Napole\u00e3o s\u00f3 pode existir sob a forma de um deus solar. Entretanto, prosseguindo-se o trabalho de Afanassiev Contes populaires russes (Contos populares russos), em 8 volumes, Miller (1833-1889) compara as variantes entre si.<\/p>\n<p>\u00c9 todavia verdade que o fetichismo foi criado para isolar essas for\u00e7as invis\u00edveis e que sua influ\u00eancia sobre as lendas \u00e9 certa.<\/p>\n<p>Os mitos meteorol\u00f3gicos, os mitos do fogo, da origem e da morte humana podem pois basear-se nessas cria\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, mas outras teorias vieram modificar esses temas iniciais.<\/p>\n<p><b>2. Teoria mitol\u00f3gica<\/b><\/p>\n<p>Os irm\u00e3os Grimm elevaram a cria\u00e7\u00e3o dos contos \u00e0 inf\u00e2ncia pr\u00e9-hist\u00f3rica da p\u00e1tria. Chega-se assim \u00e0 escola precedente Gubernatis Mythologie Zoologique (Mitologia Zool\u00f3gica), acha que esses mitos pertencem a um naturalismo infantil; d\u00e1, enfim, grande import\u00e2ncia \u00e0s formas animais e chega, com seus tr\u00eas livros, \u00e0 tese da reencarna\u00e7\u00e3o: Schelling Essai sur les mythes (Ensaio sobre os mitos) (1793), v\u00ea nesses mitos a consci\u00eancia individual de um povo aliada a uma significa\u00e7\u00e3o religiosa.<\/p>\n<p><b>3. Teoria ling\u00fc\u00edstica. Escola Filol\u00f3gica<\/b><\/p>\n<p>Os trabalhos de Baudry, Darmesteter, Van den Heyn e Angelo de Gubernatis, s\u00e3o trabalhos de ling\u00fcistas.<\/p>\n<p>Com Max M\u00fcller esses homens estudam as lendas desde a deforma\u00e7\u00e3o de algumas palavras que puderam provocar um obscurecimento do sentido primitivo original. Max M\u00fcller, por aproxima\u00e7\u00f5es for\u00e7adas, procura demonstrar no sentido da tese solarista. Desta forma se Dyaus na \u00e9poca v\u00e9dica significava c\u00e9u, transforma-se em Zeus. Dontenville explica assim a lenda de Garg\u00e2ntua.<\/p>\n<p>O russo Marr estudando Trist\u00e3o e Isolda cria sua sess\u00e3o de Sem\u00e2ntica,<\/p>\n<p>\u00c9 muito poss\u00edvel que os povos tenham empregado termos que, no curso de suas migra\u00e7\u00f5es, perderam o sentido ou foram desnaturados; a lenda grega fez empr\u00e9stimos da \u00cdndia e \u00e9 muito prov\u00e1vel que essa confus\u00e3o tenha sido volunt\u00e1ria. Os fil\u00f3logos, comparando as ra\u00edzes das l\u00ednguas entre si com as do s\u00e2nscrito, propuseram s\u00e1bias etimologias que foram substitu\u00eddas por outras mais s\u00e1bias ainda; e assim tudo encaminhou-se para o ceticismo geral.<\/p>\n<p><b>4. Teoria antropol\u00f3gica (ou gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea dos assuntos)<\/b><\/p>\n<p>Para Taylor, Mannhardt, Andrew Lang, Gaidoz os contos e as lendas refletem modos de pensar primitivos. Os povos civilizados herdaram esses contos e lendas do passado; s\u00e3o sobreviv\u00eancias religiosas e culturais extremamente elementares fundadas no animismo, espiritualiza\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos da natureza ambiente.<\/p>\n<p>Mas, as leis do desenvolvimento da humanidade nos levaram a n\u00e3o mais considerar as civiliza\u00e7\u00f5es anteriores como \u00e9pocas de barb\u00e1rie. O totem, objeto-tabu, a palavra misteriosa, representam valores m\u00e1gicos que a escola antropol\u00f3gica n\u00e3o soube definir. Frazer, no seu Le rameau d or (O ramo de ouro) (12 volumes, 1911-1915) afirma que a magia precede o animismo, isto \u00e9, a espiritualiza\u00e7\u00e3o da natureza; a magia \u00e9, portanto, o embri\u00e3o da ci\u00eancia e da religi\u00e3o. Essa Teoria prosetivista \u00e9 combatida pelos etn\u00f3grafos sovi\u00e9ticos.<\/p>\n<p><b>5. Escola Aleg\u00f3rica<\/b><\/p>\n<p>Creuzer v\u00ea no mito, uma alegoria moral, o s\u00edmbolo de uma antiga filosofia, nascida no Oriente e divulgada na Gr\u00e9cia em linguagem figurada.<\/p>\n<p>A\u00ed aparece novamente a opini\u00e3o dos fil\u00f3sofos neoplat\u00f4nicos da escola de Alexandria (Plat\u00e3o e Porf\u00edrio), Frazer: The origin of totemism (A origem do totemismo) mostra a conex\u00e3o do mito com o totemismo primitivo.<\/p>\n<p><b>6. Teoria orientalista ou teoria dos empr\u00e9stimos<\/b><\/p>\n<p>O orientalista alem\u00e3o Benfey, quando publicou em 1859 a cole\u00e7\u00e3o de contos hindus o Pantchatantra, descobriu uma extraordin\u00e1ria semelhan\u00e7a entre os contos s\u00e2nscritos e os europeus.<\/p>\n<p>Essas narra\u00e7\u00f5es, que circulavam oralmente, foram compiladas na \u00cdndia; o budismo tibetano mostrou-se particularmente ativo. Contudo, n\u00e3o seria poss\u00edvel afirmar com seguran\u00e7a que esses contos tenham sido criados na \u00cdndia. Biz\u00e2ncio e a literatura mong\u00f3lica desempenharam papel importante na exporta\u00e7\u00e3o dessas lendas que, da S\u00edria e da P\u00e9rsia, se infiltraram no mundo \u00e1rabe; as cruzadas relataram esses contos maravilhosos e a Espanha, com as invas\u00f5es sucessivas, usufruiu todo o seu encanto.<\/p>\n<p><strong>Pictet:<\/strong>\u00a0Origines indo-europ\u00e9ennes (Origens indo-europ\u00e9ias) (1858) apoia Benfey e mostra a import\u00e2ncia da cultura dos \u00e1rias primitivos. Esses trabalhos foram continuados por Cosquin, Gaston Paris, Charles B\u00e9dier, G\u00e9d\u00e9on, Huet, Bouslaiev e Afanassiev.<\/p>\n<p><b>7. Teoria geogr\u00e1fico-hist\u00f3rica ou Escola Finesa<\/b><\/p>\n<p>Anderson e H. Gaidoz contribu\u00edram com um exame sistem\u00e1tico e escrupuloso das variantes, com diagramas cronol\u00f3gicos e mapas geogr\u00e1ficos dos itiner\u00e1rios percorridos pelos assuntos. O cat\u00e1logo dos contos de Aarne (1867-1925) \u00e9 arbitr\u00e1rio na sua divis\u00e3o, mas facilitou a tarefa de Andreiev (1929), que adaptou esse livro ao folclore russo. N\u00e3o se desvendando a forma primitiva, Sidow tentou comparar os contos entre si.<\/p>\n<p><b>8. Escola po\u00e9tica-hist\u00f3rica. Teoria comparativista<\/b><\/p>\n<p>Criada por Vass\u00e9lovski (Index bibliographique, 1921), esta teoria trata da influ\u00eancia oral e escrita da poesia e depois do papel da religi\u00e3o crist\u00e3. E a procura do g\u00eanero po\u00e9tico (epop\u00e9ia, poesia, l\u00edrica, drama), das variedades, das formas. Vsevolod Miller, abandonando a Escola dos Empr\u00e9stimos procura analisar os costumes nas can\u00e7\u00f5es de gesta: \u00c9tudes de la litt\u00e9rature populaire russe (Estudos sobre a literatura popular russa); a an\u00e1lise cr\u00edtica foi a obra de Orestes Miller. Essas aproxima\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias, essas compara\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias, foram postas em evid\u00eancia por Skafttymov: Po\u00e9tique et Gen\u00e8se dos Bylines (Po\u00e9tica e G\u00eanese das Bilinas, 1924). A escola russa moderna preocupa-se com o meio (folclore dos camponeses e dos oper\u00e1rios), que traduz a vida do povo com Sokolov: Le folklore russe (O folclore russo, 1945) e Pryjov.<\/p>\n<p><b>9.Teoria psicol\u00f3gica. Escola de Freud<\/b><\/p>\n<p><strong>Wundt:<\/strong>\u00a0Psychologie des peuples (Psicologia dos povos) analisa os mitos com as condi\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas do povo (estados de sonho, alucina\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida). Laistner, von der Leyen n\u00e3o conseguem dar grande import\u00e2ncia \u00e0 sua teoria.<\/p>\n<p>Freud, com seus alunos Abraham, Rank, Riklin, v\u00ea nos mitos a express\u00e3o de desejos persistentes da mesma natureza dos que se manifestam nos sonhos. Quanto mais a censura social se desenvolve, mais a civiliza\u00e7\u00e3o se complica. Freud mostra ainda que as aspira\u00e7\u00f5es fundamentais da humanidade, que encontram satisfa\u00e7\u00e3o nas diferentes cren\u00e7as religiosas e os v\u00e1rios estados emocionais t\u00eam como fonte conflitos intraps\u00edquicos que, do ponto de vista ontog\u00eanico remontam \u00e0 nossa primeira inf\u00e2ncia e, do ponto de vista filog\u00eanico, aos nossos primeiros ancestrais humanos.<\/p>\n<p>A escola austr\u00edaca, por\u00e9m, abusou demasiadamente dos fen\u00f4menos de ordem sexual e Regnaud: Le Rig-Veda et les origines de la mythologie (O Rig-Veda e as origens da mitologia) \u00e9 de opini\u00e3o que o c\u00e9rebro humano n\u00e3o evoluiu h\u00e1 milhares de anos: Renel, Evolution du mythe (Evolu\u00e7\u00e3o do mito).<\/p>\n<p>Loeffler-Delachaux: Symbolisme des l\u00e9gendes (Simbolismo das lendas, 1950) pensa num fasc\u00ednio curativo, num poder terap\u00eautico para as doen\u00e7as da alma.<\/p>\n<p>Os contos servem para manter o equil\u00edbrio psicol\u00f3gico e \u00e9 assim que os Fara\u00f3s enganados por suas esposas, as ascens\u00f5es milagrosas nas situa\u00e7\u00f5es inesperadas, as jovens gr\u00e1vidas milagrosamente fecundadas pelo deus Nauli ou J\u00fapiter e todas essas fic\u00e7\u00f5es nasceram de circunst\u00e2ncias precisas.<\/p>\n<p>Essas narra\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias s\u00e3o pois a compensa\u00e7\u00e3o dos nossos sentimentos de inferioridade e o subconsciente acrescenta-lhes uma supercompensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>10. Origem hist\u00f3rica. Escola Evem\u00e9rica<\/b><\/p>\n<p>Schelling publica em 1793 um ensaio sobre as lendas hist\u00f3ricas. O cerne do mito cont\u00e9m a verdade sob uma forma hist\u00f3rica. Spencer cr\u00ea que o culto dos antepassados origina-se nas religi\u00f5es. A escola Evem\u00e9rica, s\u00e9culo IV a. C. j\u00e1 pretendia serem os mitos provenientes de acontecimentos hist\u00f3ricos e que seus personagens reais haviam sido elevados \u00e0 dignidade de deuses. Essa teoria foi retomada por Hoffmann.<\/p>\n<p>Realmente, nossos her\u00f3is \u00e9picos s\u00e3o a combina\u00e7\u00e3o de diversos personagens hist\u00f3ricos e se nossas can\u00e7\u00f5es de gestas comportam inexatid\u00f5es, esses protagonistas convergem para a individualidade do her\u00f3i.<\/p>\n<p><strong>II. Sentido sacro e inici\u00e1tico<\/strong><\/p>\n<p><b>1. Esoterismo e Magia<\/b><\/p>\n<p>O esoterismo \u00e9 subjacente em muitos de nossos atos. A religi\u00e3o cat\u00f3lica n\u00e3o pode se livrar dos ritos de religi\u00f5es antigas e os c\u00edrios e o incenso provam a sobreviv\u00eancia das oferendas, bem como a tonsura do padre indica o s\u00edtio da espiritualidade.<\/p>\n<p>O coroamento \u00e9 uma cerim\u00f4nia esot\u00e9rica: os braceletes tornam o rei prisioneiro de seu povo, o cetro \u00e9 a vara m\u00e1gica, e a coroa o emblema da flor ritual de mil p\u00e9talas. Th. Briant deu: Le go\u00e9land, n.o 108 (A gaivota) preciosas informa\u00e7\u00f5es sobre o coroamento da rainha Elisabete da Inglaterra que, vestida com sua roupagem de linho, est\u00e1 ritualmente nua para a un\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n<p>Os povos da \u00c1frica, com seus conhecimentos sobre magia, se aproximam de uma verdade transcendente que nos escapa. Os ritos esot\u00e9ricos eram, por\u00e9m, muito mais empregados em tempos passados e Victor Emile Michelet: Le secret de la chevalerie (O segredo da cavalaria) escreveu:<\/p>\n<p>Os construtores de catedrais inscreveram no secular sil\u00eancio da pedra o eco da palavra perdida que os predestinados ouvir\u00e3o.<\/p>\n<p>Se os mitos sagrados fossem divulgados seriam profanados e com isso perderiam suas virtudes m\u00edsticas, diz L\u00e9vy-Bruhl: La mythologie primitive (Mitologia primitiva, 1935).<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que o sentido profundo e a virtude eficaz s\u00e3o revelados somente aos iniciados, os n\u00e3o iniciados s\u00f3 encontram nesses mitos um divertimento. Os contos da Nova Guin\u00e9 exp\u00f5em essa efic\u00e1cia m\u00e1gica.<\/p>\n<p>Ora, todos os povos fizeram uso da magia. No evangelho assistimos aos fen\u00f4menos da levita\u00e7\u00e3o, \u00e0 multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es e dos peixes; se o alcance das palavras de encantamento nos escapa, n\u00e3o deixamos de sentir que esses ritos se destinam a manter a coes\u00e3o de uma civiliza\u00e7\u00e3o (Van Gennep). Saintyves: Les contes de Perrault (Os contos de Perrault, 1923), definiu as prova\u00e7\u00f5es e as tenta\u00e7\u00f5es com suas encena\u00e7\u00f5es prestigiosas que s\u00e3o ritos de inicia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este elemento sobrenatural requer uma explica\u00e7\u00e3o a qual tentaremos evidenciar no estudo de algumas lendas. Pois esses costumes de inicia\u00e7\u00e3o, provindo de um conhecimento profundo e de um ritual desenvolvido est\u00e3o t\u00e3o alterados que perderam o seu sentido original. O s\u00edmbolo do casamento, em que a b\u00ean\u00e7\u00e3o coloca os eleitos sob a prote\u00e7\u00e3o de um poder superior; o elo sem princ\u00edpio nem fim, cadeia indissol\u00favel que une dois esposos romanos; o elo deve ser de ouro puro pois que a mulher \u00e9 acorrentada pelo m\u00e9rito e pelas qualidades s\u00f3lidas de seu noivo; mas esse elo liga a vontade do operador ao g\u00eanio benfazejo personificado pelo fluido invis\u00edvel.<\/p>\n<p>O simbolismo do casamento \u00e9 muito vasto, mas o ritual da morte frequentemente tido como uma esp\u00e9cie de sortil\u00e9gio mereceria tamb\u00e9m ser estudado.<\/p>\n<p>A magia popular deveria ocupar-se do modo de conquistar o poder com Fausto e D. Juan. Surgiram ent\u00e3o os feiticeiros, as invoca\u00e7\u00f5es, os filtros, os rem\u00e9dios e os venenos; essa magia natural penetrou nos contos.<\/p>\n<p>O sistema cabalista\u00a0 de origem esot\u00e9rica e de esp\u00edrito iniciado serviu para a constru\u00e7\u00e3o das catedrais. A constitui\u00e7\u00e3o da sociedade que teve seu apogeu no reinado de S\u00e3o Lu\u00eds a m\u00fasica dos gregos de Eleusis, o cantoch\u00e3o prov\u00eam da Cabala que serviu para estabelecer os monogramas \u00e1rabes, as est\u00e1tuas da \u00cdndia, as regras para a se\u00e7\u00e3o do ouro. Este ensinamento profundo, frequentemente insuspeitado, constitui um precioso patrim\u00f4nio da intelig\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios jogos t\u00eam origem esot\u00e9rica (jogos de cartas, buena-dicha, de xadrez, de damas, gam\u00e3o, domin\u00f3, jogo do ganso, roleta, marelinha, esconde-esconde, etc.). As can\u00e7\u00f5es populares, muitas vezes, s\u00e3o inici\u00e1ticas (Les compagnons de la Marjolaine, la tour prends-garde, Cadet Roussel).<\/p>\n<p>O valor dos algarismos \u00e9 nesse caso muito importante. O texto pode ser dividido em livros, cap\u00edtulos, vers\u00edculos, al\u00edneas, cujo n\u00famero \u00e9 ditado, (poema em doze cantos, trag\u00e9dia em cinco cantos).<\/p>\n<p>\u00c0s vezes \u00e9 o n\u00famero de personagens, o n\u00famero de anos de sua exist\u00eancia, o n\u00famero de seus combates. O escritor multiplica os algarismos para n\u00e3o se dar a conhecer e os acontecimentos descritos ultrapassam, dessa forma, a realidade. As profecias entram nessa categoria. O n\u00famero 3, emblema sexual em Freud, \u00e9 a base do princ\u00edpio divino que reaparece em todos os cultos, culto de Mitra, triade teol\u00f3gica c\u00e9ltica, tern\u00e1rio de Pit\u00e1goras. S\u00e3o tr\u00eas as penit\u00eancias e existem tr\u00eas etapas essenciais no aperfei\u00e7oamento individual; as fadas, como no teatro, d\u00e3o tr\u00eas golpes com a varinha; dez, n\u00famero de Ad\u00e3o e Eva, falo e ovo, s\u00e3o a base da filosofia pitag\u00f3rica.<\/p>\n<p>Os ritos podem derivar para a supersti\u00e7\u00e3o, o fetichismo, mas a interpreta\u00e7\u00e3o desse simbolismo \u00e9 sempre delicada.<\/p>\n<p><b>2. Religi\u00e3o e origem sacra<\/b><\/p>\n<p>As teses religiosas s\u00e3o numerosas. O Pe. Banier, com sua Escola b\u00edblica, via nos mitos pag\u00e3os, a revela\u00e7\u00e3o divina; B\u00e9rard, na sua tese religiosa, explica as cerim\u00f4nias rituais.<\/p>\n<p>Lenormant e Gladstone interpretam as personalidades dos deuses a partir de personagens b\u00edblicas.<\/p>\n<p>O Apocalipse de S\u00e3o Jo\u00e3o \u00e9 uma obra esot\u00e9rica cujas palavras-chave servem a religi\u00f5es e ordens assaz diferentes.<\/p>\n<p>As religi\u00f5es empregam palavras de encantamento que devem produzir o m\u00e1ximo de efeito al\u00e9m de processos na apar\u00eancia muito simples; eis a\u00ed uma forma de magia (Anne Osmont).<\/p>\n<p>Diz o conde de Larmandie a esse respeito: Esses ritos que nada mais s\u00e3o do que a realiza\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos, t\u00eam poder natural sobre o mundo astral, que cont\u00e9m em potencial e germe todo o desabrochar do mundo f\u00edsico. A palavra s\u00edmbolo significa, principalmente, resumo, quintaess\u00eancia; atingimos, pois, completando-o, a causa segunda na \u00f3rbita de nossa vontade: desencadeamos o dinamismo produtor do fen\u00f4meno. F. Ch. Barlet (A inicia\u00e7\u00e3o, janeiro de 1897), diz que a religi\u00e3o nas suas manifesta\u00e7\u00f5es exteriores torna-se apenas uma alta magia cerimonial.<\/p>\n<p>Se L\u00e9vy-Bruhl afirma que o homem primitivo n\u00e3o tem o sentimento do divino, parece que para Piobb: Formulaire de haute-magie (Formul\u00e1rio de alta magia) ele est\u00e1 presente em toda parte mas suas leis s\u00e3o dif\u00edceis de discernir; s\u00e3o muitos os v\u00e9us que encobrem esses segredos que s\u00f3 se exprimem por meio de s\u00edmbolos. Contudo, toda essa ci\u00eancia que prov\u00e9m dos col\u00e9gios inici\u00e1ticos, n\u00e3o est\u00e1 perdida. O cristianismo n\u00e3o soube se eximir de leis anteriores; as id\u00e9ias jur\u00eddicas em curso formaram o direito can\u00f4nico; as vestes sacerdotais prov\u00eam de Biz\u00e2ncio.<\/p>\n<p><b>3. A arte sagrada da \u00cdndia<\/b><\/p>\n<p>Estas lendas, encontradas na \u00cdndia, pertencem \u00e0 mitologia hindu que compreende os Vedas (hinos), os Bramanas (coment\u00e1rios), as Sutras e Upanichads (manuais de devo\u00e7\u00e3o) e finalmente as compila\u00e7\u00f5es de lendas Puranas.<\/p>\n<p>Mallarm\u00e9: Les dieux antiques (Os deuses antigos) fala desse ber\u00e7o misterioso, os Arias, situado no centro da grande \u00c1sia, no vale do Oxo e do qual temos poucas refer\u00eancias.<\/p>\n<p>Suas tribos n\u00f4mades emigraram para os pa\u00edses eslavos e depois para a P\u00e9rsia, a \u00cdndia, a Gr\u00e9cia e a It\u00e1lia. A mitologia persa, no seu falar Zenda, devia influir sobre a mitologia norse para criar a epop\u00e9ia escandinava.<\/p>\n<p>Varuna, autor do mundo, exprime o instinto monote\u00edsta dos cantos v\u00e9dicos. N\u00e3o \u00e9 absurdo afirmar que os tr\u00eas deuses da \u00cdndia (Varuna, Agni e Indra) representam diferentes aspectos do Ente Infinito. Eis porque Deus, falando com Mois\u00e9s, diz n\u00f3s e n\u00e3o eu. Outros tr\u00eas deuses sucedem aos tr\u00eas deuses antigos: o deus da cria\u00e7\u00e3o Brama, o deus da conserva\u00e7\u00e3o Vichnu e o deus da destrui\u00e7\u00e3o Civa, portador do terceiro olho: R. Foug\u00e8re, Contes et l\u00e9gendes de lInde (Contos e lendas da \u00cdndia). Quanto a Buda, seria apenas um dos mais recentes avatares do Vichnu e o pr\u00f3prio Jesus Cristo seria o reflexo desse Deus. Um livro curioso e inspirado, La vie de ma\u00eetres (A vida dos mestres), de Baird T. Spalding (Ed. Leymarie, 1946), retoma esse tema.<\/p>\n<p>\u00c9 digno observar que a cren\u00e7a na transmigra\u00e7\u00e3o \u00e9 reencontrada na literatura c\u00e9ltica; \u00e9 que a religi\u00e3o dru\u00eddica, de uma amplid\u00e3o esquecida, estendia-se at\u00e9 a Gr\u00e9cia e com toda certeza se achava em comunica\u00e7\u00e3o com a \u00c1sia. Desta forma, depois da morte, a alma se reencarna tomando nova forma, ora superior, ora inferior, relativamente \u00e0 vida anterior.<\/p>\n<p>Essa sucess\u00e3o de exist\u00eancias pode ser humana ou animal e ter lugar neste ou em outros mundos. A sociedade bram\u00e2nica \u00e9 estabelecida em castas, cujos grupos s\u00e3o heredit\u00e1rios e hierarquizados; em seu pin\u00e1culo reinam os br\u00e2manes, os padres.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo VI antes da era crist\u00e3, por\u00e9m, o bramanismo se transforma sob a impuls\u00e3o de Gotama, o Buda. Depois de reencarna\u00e7\u00f5es sucessivas, o indiv\u00edduo chega ao aniquilamento total, o Nirvana. Por suas concep\u00e7\u00f5es mais amplas e mais sociais, todo homem tem acesso \u00e0 via religiosa.<\/p>\n<p>Lotus de Paini observa que o Tao seria uma for\u00e7a oculta ao redor da qual todos os valores morais evoluiriam.<\/p>\n<p>Esse dinamismo c\u00f3smico seria produzido por elementos eletrizantes Iang e Iin que se aparentam ao pr\u00f3ton e ao el\u00e9ctron. Essa sabedoria espiritual se obtinha por meio da medita\u00e7\u00e3o realizada sobre regras precisas; a forma\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os da clarivid\u00eancia s\u00f3 podia se produzir ap\u00f3s as duas fases impostas: a purifica\u00e7\u00e3o do corpo astral e a ilumina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Langlois (Monuments litt\u00e9raires de l Inde, 1827) analisou essa literatura s\u00e2nscrita cujos Vedas (4500 a. C.) s\u00e3o os livros do conhecimento e os Vidia, os da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>As quatro obras Upanichad tratam da natureza de Deus, os Upavedas s\u00e3o relativos \u00e0 vida corrente. Valmiki escreveu o Ramaiana, as aventuras do deus Rama e Viasa (1000 a. C.) e \u00e9 o autor de Maabarata que descreve as desgra\u00e7as de uma fam\u00edlia real. O Bagavad-Gita \u00e9 um epis\u00f3dio desse trabalho: o deus revela ao seu favorito Ardjuna a origem e a natureza do universo.<\/p>\n<p>Essa literatura \u00e9 escrita em s\u00e2nscrito, l\u00edngua dos padres e da alta sociedade mas entremeada de dialeto Pracrit, linguagem de classes inferiores.<\/p>\n<p>Sob o efeito das invas\u00f5es o s\u00e2nscrito foi esquecido e s\u00f3 em alguns santu\u00e1rios \u00e9 encontrado. Observemos os recentes estudos de Jones, Wilkins, Colebrooke, Wilson, e Langlois.<\/p>\n<p>Quanto ao grande livro hindu, o Pantchatantra, foi traduzido do s\u00e2nscrito para o phlvi por ordem do rei Choro\u00e9s, no s\u00e9culo VI.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia desse livro \u00e9 consider\u00e1vel uma vez que foi traduzido em antigo persa e em s\u00edrio (Calila e Din\u00e1); traduzido em \u00e1rabe (s\u00e9culo VIII) em hebraico (s\u00e9culo XII), passou pela Espanha e sua tradu\u00e7\u00e3o latina data do s\u00e9culo XIII, quando chegou \u00e0 Fran\u00e7a e \u00e0 Alemanha. Paralelamente a esse eixo, sua tradu\u00e7\u00e3o \u00e1rabe penetra na Gr\u00e9cia (St\u00e9phanit et Ikhnilate) e na l\u00edngua eslava (XII e XIII) para alcan\u00e7ar, enfim, a R\u00fassia.<\/p>\n<p><b>4. Influ\u00eancia da Igreja cat\u00f3lica<\/b><\/p>\n<p>Todas as religi\u00f5es empregam os mesmos s\u00edmbolos, mas os col\u00e9gios sacerdotais velaram a verdade aos profanos a fim de reserv\u00e1-la aos seus iniciados; velaram-na de tal forma que a sufocaram e n\u00e3o souberam mais separar as fic\u00e7\u00f5es. Contudo as religi\u00f5es refletem a consci\u00eancia humana, as rela\u00e7\u00f5es sociais entre os indiv\u00edduos, toda a experi\u00eancia de nossa vida.<\/p>\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o dos contos \u00e9 devida, em grande parte, a uma propaganda religiosa. O budismo n\u00e3o foi o seu \u00fanico agente de difus\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m o druidismo, o catolicismo e todas as religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Os mission\u00e1rios e os exploradores propagavam lendas b\u00edblicas. A religi\u00e3o que nada mais \u00e9 que esoterismo, pois que pode existir apenas em estado de mist\u00e9rios, age pelo seu maravilhoso e provoca uma esp\u00e9cie de entorpecimento da alma. Schelling escreve: Introduction \u00e0 la philosophie de la mythologie (Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia da mitologia): O conte\u00fado da religi\u00e3o \u00e9 puramente espiritual e jorra, desta forma, das profundezas mais intimas da vida humana.<\/p>\n<p>A B\u00edblia \u00e9 uma grande lenda hist\u00f3rica que abrange v\u00e1rios s\u00e9culos e n\u00e3o alguns anos. Obra de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es concentradas na \u00fanica vida humana, ela nos ensina o deslocamento dos n\u00f4mades, a migra\u00e7\u00e3o do povo de Abra\u00e3o que se estendeu durante numerosos anos. A influ\u00eancia b\u00edblica, por seu maravilhoso, se revela em todas as artes e tamb\u00e9m nas prociss\u00f5es, nas festas e na pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p><b>5. Cria\u00e7\u00e3o do mito do diabo<\/b><\/p>\n<p>O antagonismo entre Deus e Satan\u00e1s se encontra em todo o decorrer dos temas orientais, persas e crist\u00e3os. E Ariman, a grande serpente da noite, advers\u00e1ria de Ormuzd.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio do mal vem da mais remota antig\u00fcidade. Mas, na religi\u00e3o cat\u00f3lica, Deus criou ele mesmo seus anjos ca\u00eddos, enquanto que Ariman \u00e9 um poder primordial, ant\u00edtese da Bondade.<\/p>\n<p>A fim de combater a sensualidade, a curiosidade, os prazeres da carne e do esp\u00edrito, a Igreja cat\u00f3lica, serviu-se do personagem de Satan\u00e1s e lhe criou uma personalidade mais intensa; dos mist\u00e9rios da Idade M\u00e9dia ficou-lhe a truanice que lhe deram os primeiros dramas. Assim nasceu a bruxa, serva do mau esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Os m\u00e9todos de feiti\u00e7aria mostram essa alucina\u00e7\u00e3o coletiva, compar\u00e1vel ao Grande temor; mas esses m\u00e9todos terminaram de maneira tr\u00e1gica.<\/p>\n<p>A Inquisi\u00e7\u00e3o incumbia-se de conduzir a um ponto cruciante essa extraordin\u00e1ria cria\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 que Loeffler-Delachaux v\u00ea nos contos de fadas um protesto contra essas regras inflex\u00edveis, a fada que reabilita a sacerdotisa ou a feiticeira druida injustamente condenada.<\/p>\n<p><strong>SEGUNDA PARTE \u2013 ESTUDO DAS LENDAS<\/strong><\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO I \u2013 FAUSTO<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\"><b>ou o homem que vende sua alma aos poderes do mal<\/b><\/p>\n<p>Esse personagem imortal de Goethe \u00e0s vezes de Marlowe soube, depois de velho, reconquistar a juventude, acumular bens, governar seu esp\u00edrito com uma compreens\u00e3o, quase divina.<\/p>\n<p>O homem contrai desta forma uma alian\u00e7a sobrenatural a fim de se al\u00e7ar a um n\u00edvel superior e, abandonando seu arcabou\u00e7o original, projeta-se num outro ente espiritual.<\/p>\n<p>Este conhecimento \u00e9 tribut\u00e1rio da dualidade da alma humana; e Mefist\u00f3feles endossa nossa d\u00edvida e nossos defeitos. Satan\u00e1s se incumbe de nossos crimes e de nossas baixezas; \u00e9 a v\u00e1lvula que permite ao homem, se libertar. Mas, depois de haver vendido seu bem mais precioso, o homem tenta zombar do Esp\u00edrito do mal e almeja finalmente o esp\u00edrito supremo da Bondade.<\/p>\n<p><b>1. A presen\u00e7a do diabo<\/b><\/p>\n<p>Desde a cria\u00e7\u00e3o do Mundo o diabo tenta nos corromper; ele \u00e9 a origem da maldi\u00e7\u00e3o celeste; evoca o assass\u00ednio de Abel, provoca o dil\u00favio e a destrui\u00e7\u00e3o de Sodoma.<\/p>\n<p>Se quer tentar Jesus incita tempestades e violenta as virgens.<\/p>\n<p>As concep\u00e7\u00f5es demonol\u00f3gicas encontram-se entre os povos mais diversos: \u00e1rabes, babil\u00f4nios, ass\u00edrios, bem como no pensamento hebraico, na religi\u00e3o persa, na doutrina crist\u00e3, na filosofia grega.<\/p>\n<p>Tiveram lugar dominante na vida e nos escritos.<\/p>\n<p>Mas o cristianismo, com o fito de despertar a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico cansado de disserta\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas de mist\u00e9rios, criou o personagem liter\u00e1rio do diabo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 mais uma divindade inating\u00edvel mas apenas um ser ridicularizado, v\u00e1lvula indispens\u00e1vel para o rigor do catolicismo e da justi\u00e7a divina. \u00c9 assim que aparece em Le jeu des Vierges sages et des Vierges folles (O jogo das virgens ajuizadas e das virgens loucas) em La premiere joie de Marie (A primeira alegria de Maria) etc. Cohen busca esse rasto maravilhoso no seu Th\u00e9\u00e2tre fran\u00e7ais au Moyen Age (O teatro franc\u00eas na Idade M\u00e9dia).<\/p>\n<p><b>2. As duas formas de lenda<\/b><\/p>\n<p>Fausto reflete a gera\u00e7\u00e3o em que evolui; a conclus\u00e3o difere conforme o gosto do autor ou o interesse da religi\u00e3o. Esse homem que vendeu sua alma morre amaldi\u00e7oado, abandonado pelo c\u00e9u: \u00e9 o drama de Marlowe e dos protestantes. Em compensa\u00e7\u00e3o, esse homem orgulhoso que se perverteu para satisfazer sua curiosidade natural e que logo em seguida se revoltou contra Satan\u00e1s receber\u00e1 o perd\u00e3o. Surge ent\u00e3o o drama crist\u00e3o de Goethe.<\/p>\n<p><b>3. Origem da lenda<\/b><\/p>\n<p>A primeira forma da lenda parece ser oriunda da \u00c1sia, com La l\u00e9gende de Th\u00e9ophile (A lenda de Te\u00f3filo), de que Eutiquiano, sacrist\u00e3o da igreja de Adana, teria sido testemunha ocular.<\/p>\n<p>Te\u00f3filo, vidama administrador muito estimado, \u00e9 injustamente destitu\u00eddo de seu cargo. A fim de reencontrar seu posto, pediu aux\u00edlio a um m\u00e1gico. Satan\u00e1s concluiu o pacto. Apesar do \u00eaxito, Te\u00f3filo, arrependido, reza durante quarenta dias e quarenta noites implorando \u00e0 Virgem Maria a restitui\u00e7\u00e3o do ato sat\u00e2nico.<\/p>\n<p>Te\u00f3filo confessa publicamente o seu ato e morre. Essa lenda foi muito apreciada na Idade M\u00e9dia: Saint-Bernard, Voragine, Rutebeuf utilizaram-na. No t\u00edmpano do portal norte da Igreja de Notre-Dame de Paris acha-se representado esse milagre; na mesma ocasi\u00e3o, Viollet-le-Duc p\u00f5e em cena o artista Biscornet assinando um pacto com o dem\u00f4nio a fim de completar sua obra (Serralheria das portas de Notre-Dame de Paris).<\/p>\n<p><b>4. Outras formas da lenda<\/b><\/p>\n<p>Em 1220, Ces\u00e1rio d Heisterbach escreveu Histoire de Militarius (Hist\u00f3ria de Militarius) que, depois de uma vida de deboche, vende-se ao diabo e, finalmente, obt\u00e9m o perd\u00e3o da Virgem.<\/p>\n<p>Com a L\u00e9gende du chevalier qui donna sa femme au diable (Lenda do cavaleiro que deu a mulher ao diabo) de origem picarda (s\u00e9culo XIV), a virgem, tomando o lugar da mulher caluniada, p\u00f5e em fuga Satan\u00e1s.<\/p>\n<p>Mais pr\u00f3ximo de La l\u00e9gende de Th\u00e9ophile est\u00e1 o texto brabant\u00eas La l\u00e9gende du chevalier vou\u00e9 au d\u00e9mon et sauv\u00e9 par sainte Gertrude (1612) (Lenda do cavaleiro ao dem\u00f4nio e salvo por Santa Gertrude) (G. de R\u00e9breviett) e La farse de Munyer (A farsa de Munyer).<\/p>\n<p>Dessa forma, nessa esp\u00e9cie de imaginaria popular assaz rica em textos semelhantes a Virgem intercede em favor de homens orgulhosos, perdul\u00e1rios e jogadores.<\/p>\n<p><b>5. A lenda de Cipriano<\/b><\/p>\n<p>Santa Justina, virgem de Antioquia, \u00e9 atormentada por Cipriano que se d\u00e1 \u00e0 magia; mas Cipriano constata que o crucificado \u00e9 maior do que todos os diabos converte-se e torna-se bispo.<\/p>\n<p>Voragine acentua dessa forma o poder esot\u00e9rico do sinal da cruz. Calder\u00f3n recolhe a lenda para seu Magicien predigieux (1637) (O m\u00e1gico prodigioso).<\/p>\n<p>O pacto foi tamb\u00e9m suprimido em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o ou Santa Teodora.<\/p>\n<p>Em Saint Basile, \u00e9v\u00eaque (S\u00e3o Basilio, bispo), Voragine confunde o amor com o desejo de se elevar; Ur\u00e1dio, um jovem escravo, que se vende ao dem\u00f4nio para poder esposar a filha do seu patr\u00e3o, S\u00e3o Basilio conseguir\u00e1 recuperar a c\u00e9lula demon\u00edaca. Achille Jubinal, depois de Jehan de Saint-Quentin, narra em seus Contes, dits et fabliaux, v\u00e1rias lendas semelhantes (Le dit du chevalier et de l escuier \u2013 Os ditos do cavaleiro e do escudeiro), Le dit du pauvre chevalier (O dito do pobre cavaleiro), Le dit des II chevaliers (O dito dos II cavaleiros). Mira de Amescua: L esclave du d\u00e9mon (Escravo do dem\u00f4nio) associa D. Juan e Fausto.<\/p>\n<p>O eremita D. Gil sucumbe \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o; d\u00e1 sua alma a Satan\u00e1s para poder abra\u00e7ar uma freira que n\u00e3o passa de um esqueleto. O pavor restitui seu pensamento a Deus e S\u00e3o Miguel triunfar\u00e1 sobre Satan\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>Moreto:<\/strong>\u00a0Tomber pour se relever (Cair para se reerguer), Calder\u00f3n: Joseph des Femmes (Jos\u00e9 das Mulheres), Molina: Le damn\u00e9 pour manque de confiance (O maldito por falta de confian\u00e7a), pensam ainda na doutrina luterana. Thomas Mann, no Doutor Fausto narra v\u00e1rios contos semelhantes (cap\u00edtulo XIII).<\/p>\n<p><b>6. O ensinamento da lenda<\/b><\/p>\n<p>Assim sendo, para atingir um fim ardentemente desejado um infeliz vende sua alma ao diabo, seja por interm\u00e9dio de um judeu, seja por evoca\u00e7\u00e3o direta gra\u00e7as a f\u00f3rmulas m\u00e1gicas. O pacto \u00e9 escrito com sangue, marca indel\u00e9vel que o torna indissol\u00favel por um per\u00edodo de sete anos. A v\u00edtima arrependida \u00e9 arrancada a Satan\u00e1s por meio de uma interven\u00e7\u00e3o celeste. Esta luta \u00e9 de quarenta dias prazo da reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Substitui-se a Virgem pela santa da regi\u00e3o para que a autenticidade seja incontest\u00e1vel. Te\u00f3filo busca a dignidade e as honrarias; os cavaleiros se ocupam de riquezas; Ur\u00e1dio pensa no amor; e Fausto, na juventude e no g\u00eanio.<\/p>\n<p>A Igreja reformada serve-se da lenda de Fausto para combater o ensinamento do catolicismo.<\/p>\n<p>O inferno triunfa nas literaturas alem\u00e3, inglesa, escandinava e holandesa.<\/p>\n<p><b>7. O pacto sat\u00e2nico e a crendice popular<\/b><\/p>\n<p>Fortemente instrumentada, a cren\u00e7a popular \u00e9 de que toda intelig\u00eancia superior \u00e9 alimentada por um trato desonesto. Procura-se solapar o poder da Igreja cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>O poder temporal do Papa Silvestre II \u00e9 oriundo da colabora\u00e7\u00e3o do diabo que fez com que um pastor de Auvergne fosse elevado \u00e0s mais altas dignidades: \u00e9 o homem dos tr\u00eas R por ter assumido postos em Reims, Ravenne e Roma. Abelardo, precursor do racionalismo moderno, tem a exig\u00eancia de Fausto; esse her\u00f3i da cr\u00edtica e da independ\u00eancia \u00e9 derrotado por S\u00e3o Bernardo, conservador da ordem. Apol\u00f4nio de Tiano, Si\u00e3o, o M\u00e1gico e os papas desde Jo\u00e3o XIII at\u00e9 Paulo II per\u00edodo ativo da Reforma s\u00e3o assim caluniados por esp\u00edritos invejosos do seu poder. Alfred Neumann, ao escrever O diabo, sob o nome de Necker, servidor de Lu\u00eds XI, mostra claramente a opini\u00e3o do povo que pretende ver no \u00eaxito de um homem surpreendente um poder oculto.<\/p>\n<p><b>8. O personagem hist\u00f3rico<\/b><\/p>\n<p>Fausto, nascido nos \u00faltimos anos do s\u00e9culo XV, talvez em Kundling, perto de Bretten, teria morrido em 1543 ou, conforme o m\u00e9dico B\u00e9gardi, em 1539. E. Faligan na sua Histoire de la l\u00e9gende de Faust (Hist\u00f3ria da lenda de Fausto) cita escritos hist\u00f3ricos que provam a sua exist\u00eancia; Fausto, em 1507, era professor, em 1509, bacharel em teologia e recebido na Faculdade de Heidelberg. Esse indiv\u00edduo pregui\u00e7oso, ladr\u00e3o e dado \u00e0 embriaguez, disc\u00edpulo de Lutero, tem uma vida movimentada. Toma como cunhado o pr\u00f3prio Diabo e chama o seu c\u00e3o de Prestigiar. Prematuramente envelhecido pelos excessos, sua morte impressiona a imagina\u00e7\u00e3o popular. Sua vida estranha e sua morte cruel talvez crapulosa deram origem a uma lenda.<\/p>\n<p><b>9. Nascimento da lenda<\/b><\/p>\n<p>Em 4 de setembro de 1587, Johan Spies publica em Francforte L histoire du docteur Faust (Hist\u00f3ria do doutor Fausto) (autor an\u00f4nimo). Depois da evolu\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica dessa alma transviada, as suas aventuras extraordin\u00e1rias s\u00e3o relegadas, desordenadamente, para o fim do livro.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o de Widmann em 1599, acentua o car\u00e1ter teol\u00f3gico: \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o protestante. L histoire de Wagner (A hist\u00f3ria de Wagner) \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o da de Fausto. Fredericus Scotus Tolet publica em 1593 uma vida de Fausto na qual ele viaja como sendo Crist\u00f3v\u00e3o Colombo. Marlowe escreve uma farsa tr\u00e1gica, violenta e sem igual, a Tragique histoire du docteur Faust (A tr\u00e1gica hist\u00f3ria do doutor Fausto) (Londres, 1604). \u00c9 uma obra profundamente humana na qual o autor conclui que o inferno est\u00e1 em n\u00f3s mesmos. Com o teatro de fantoches os puppenspiele Fausto perde seu conte\u00fado ideol\u00f3gico para tornar-se o impostor; o elemento tr\u00e1gico passa a residir apenas no destino do her\u00f3i, ficando a parte c\u00f4mica com Hanswurst ou Kasperle, Polichinelo alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas numerosas representa\u00e7\u00f5es inspiram Dreher e Sch\u00fctz e depois, Geisselbrecht.<\/p>\n<p><b>10. O drama de Goethe<\/b><\/p>\n<p>Em 1773 Goethe inspira-se no teatro de fantoches. Devolve a essa lenda protestante sua nobreza primitiva: Fausto tornar-se-\u00e1 um Abelardo alem\u00e3o. S\u00edmbolo da vida humana, esse drama \u00e9 o do saber, o da paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas Fausto aspira a uma verdade superior: ser\u00e1 salvo apesar de seus erros. Mefist\u00f3feles \u00e9 a ant\u00edtese das boas qualidades do s\u00e1bio.<\/p>\n<p>Esse desdobramento de personalidade \u00e9 mais not\u00e1vel em L \u00e9trange cas du docteur Jeckyll (O estranho caso do doutor Jeckyll) com Stevenson que identificou o v\u00edcio e a virtude.<\/p>\n<p>Essa cumplicidade demon\u00edaca reteve a aten\u00e7\u00e3o de Goethe, e o mal for\u00e7a consciente seria o reativo do bem. Satan\u00e1s torna-se ent\u00e3o o servidor de Deus. O diabo \u00e9 um companheiro que, provocando o homem, f\u00e1-lo tamb\u00e9m agir. Ali\u00e1s, o pr\u00f3logo de Fausto assemelha-se \u00e0 conversa\u00e7\u00e3o entre Deus e Satan\u00e1s (Job, I, 6; II, 3) que \u00e9 encontrada no ensaio de Abra\u00e3o (Job, 17, 1812).<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 esse o licor da imortalidade que foi apresentado pelo m\u00e9dico dos Deuses ao Vichnu por ocasi\u00e3o de um dos seus avatares?<\/p>\n<p>Al\u00e9m do valor esot\u00e9rico desse drama, eis que aparece a hero\u00edna Margarida, uma das mais belas almas humanas. Mas nessa luta de amor pueril, sem escr\u00fapulos e sem remorsos, a lei da fatalidade esmaga a inoc\u00eancia.<\/p>\n<p>Se Fausto n\u00e3o houvesse so\u00e7obrado na desvairada noite de Walpurgis, teria representado o amor imortal.<\/p>\n<p>Goethe, entre setenta e seis e oitenta e dois anos escreveu o segundo Fausto, soma de saber e conhecimento. Nesse poema metaf\u00edsico, de simbolismo muitas vezes obscuro, Fausto a ci\u00eancia casa-se com Helena, mulher perfeita, de beleza antiga e pl\u00e1stica, s\u00edmbolo da inicia\u00e7\u00e3o. Euforion \u00e9 a alma no \u00faltimo grau da encarna\u00e7\u00e3o, libertada de suas correntes materiais.<\/p>\n<p>Dois grandes filmes foram inspirados nesses temas equivalentes, um de Marcel Carn\u00e9, Les visiteurs du soir (Os visitantes da noite) e o outro de Ren\u00e9 Clair, La Beaut\u00e9 du diable (A beleza do diabo).<\/p>\n<p><b>11. Sucess\u00e3o liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Fausto enamorado, faz lembrar D. Juan, e Grabbe desenvolve essa compara\u00e7\u00e3o analisada por Micheline Sauvage: Le cas de Don Juan (O caso de D. Juan) (Le Seuil, 1953). Mas Fausto, rom\u00e2ntico. como Chamisso e Lenau, suicida-se. Intelectual puro para Lessing, \u00e9 um orgulhoso revoltado para Lenz, Muller, Klinger. O Fausto de Heine desapareceu; sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 muito confusa conforme Soden, Klingemann e Stolte.<\/p>\n<p>Her\u00f3i de todas as d\u00favidas e de todos os conflitos humanos, o Fausto de Turguenief \u00e9 alvo do amor culp\u00e1vel. Mac Orlan o faz viver entre rufi\u00f5es e raparigas e uma prostituta endossa essa terr\u00edvel d\u00edvida (Margarida da noite). Em compensa\u00e7\u00e3o, Mon Faust (Meu Fausto) de Paul Val\u00e9ry, \u00e9 uma criatura que esgotou tudo o que a vida pode dar. Mefist\u00f3feles \u00e9 desviado pelas transforma\u00e7\u00f5es do mundo moderno.<\/p>\n<p>Essa fresca sensualidade aparece na com\u00e9dia sat\u00edrica, Lust; depois de La demoiselle de Cristal (A jovem de Cristal), vem Le Solitaire (O solit\u00e1rio) que \u00e9 o drama da nega\u00e7\u00e3o de nossa civiliza\u00e7\u00e3o; sonho intelectual de M. Teste ou de Leonardo da Vinci, cada homem integrou-se de uma parcela diab\u00f3lica. As duas pe\u00e7as est\u00e3o inacabadas; se Lust deixa supor o triunfo do amor, observamos o pensamento tr\u00e1gico j\u00e1 assinalado por Rhumbs (Rumbas), Vari\u00e9t\u00e9s (Variedades), Analectas (Analetos).<\/p>\n<p>Thomas Mann escreveu a trag\u00e9dia de um m\u00fasico obcecado: O doutor Fausto. Livro de uma extraordin\u00e1ria densidade e anota\u00e7\u00f5es perturbadoras, o Diabo aparece durante a Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Lembramo-nos de Paganini cuja virtude era classificada entre a dos personagens diab\u00f3licos e que n\u00e3o pode ser enterrado religiosamente (as tribula\u00e7\u00f5es de seu cad\u00e1ver duraram cinquenta e sete anos).<\/p>\n<p>Ferchault observa, por\u00e9m, os m\u00fasicos inspirados por esse tema. S\u00e3o eles, Schumann, Berlioz, Gounod, Liszt, Wagner e outros. Stravinsky orquestrou L histoire du soldat (A hist\u00f3ria do soldado) de Ramuz na qual um desertor vende a sua alma\u00a0 num verdadeiro milagre de realiza\u00e7\u00e3o instrumental sonora. Bellaigue se filia aos pintores: \u00c9tude artistique et litt\u00e9raire sur Faust (1883) (Estudo art\u00edstico e liter\u00e1rio sobre Fausto).<\/p>\n<p>Depois de Ary Scheffer haver pintado Margaridas, as melodias de Berlioz transpareceram em Delacroix.<\/p>\n<p>N\u00e3o poder\u00edamos deixar passar em sil\u00eancio La merveilleuse histoire de Pierre Schlemihl (A maravilhosa hist\u00f3ria de Pierre Schlemihl) na qual Chamisso aponta um pacto particular; um homem vende a sua sombra pela bolsa de Fortunato. A tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 feita em dois est\u00e1gios; o diabo, humilde como nos tempos medievais, compra apenas a sombra na esperan\u00e7a de recuperar a alma quando a desgra\u00e7a se consumar. As sombras aparecem tamb\u00e9m na obra de Mac Orlan (P\u00e8re Barban\u00e7on) na qual a sombra de Encolpe instiga uma luta sorrateira; se bem que o pacto n\u00e3o apare\u00e7a, a atmosfera diab\u00f3lica \u00e9 a mesma.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO II \u2013 D. JUAN<\/strong><\/p>\n<p>Possuir pelo esp\u00edrito ou possuir pelo corpo s\u00e3o os dois desejos insaci\u00e1veis e eternos do homem. Fausto luta com os problemas do conhecimento. D. Juan procura enla\u00e7ar a beleza e se inebria no furor sensual. Mas esse Benfeitor inesgot\u00e1vel de todas as mulheres, como \u00e9 denominado por A. Saur\u00e8s, persegue um ideal inacess\u00edvel; luta com Deus e submete-se finalmente \u00e0 sua lei comungando no Amor supremo.<\/p>\n<p>D. Juan representa nossa tenta\u00e7\u00e3o, nosso desejo repudiado; her\u00f3i da for\u00e7a de sedu\u00e7\u00e3o, essa criatura audaciosa, nobre e cavalheiresca, c\u00ednica \u00e9 odiada mas secretamente admirada. \u00c9 que sob os andrajos D. Juan permanece um grande Senhor; n\u00e3o \u00e9 um espadachim e sua paix\u00e3o, que poderia ter sido vil, o aureola.<\/p>\n<p>Seu instinto de revolta faz com que entre em conflito com institui\u00e7\u00f5es existentes. D. Juan nasceu num clima quente e sensual, no estrondear das frutas maduras e odorantes, mas sob o controle da inquisi\u00e7\u00e3o aos dogmas rigorosos que proscreviam a liberdade do amor:<\/p>\n<blockquote><p>L oeuvre de la chair ne d\u00e9sireras<br \/>\nQu en mariage seulement.(2)<\/p><\/blockquote>\n<p>Apesar de Bernard Shaw ser de opini\u00e3o que D. Juan continua um crente fervoroso num inferno \u00faltimo e de que se arrisca \u00e0 excomunh\u00e3o, \u00e9 que o inferno lhe parece t\u00e3o distante que o arrependimento pode ser diferido at\u00e9 o momento em que se tiver saciado de prazeres (Man and superman) o povo n\u00e3o pode admitir a excomunh\u00e3o desse homem excepcional. D. Juan reconcilia-se com Deus; e depois da lenda de D. Juan Ten\u00f3rio que morre excomungado aparece D. Juan Ma\u00f1ara.<\/p>\n<p><b>1. Os dois D. Juan<\/b><\/p>\n<p>Depois de haver sido o s\u00edmbolo da for\u00e7a maligna anti-social; o individualista D. Juan Ten\u00f3rio transforma-se na figura idealista de D. Juan Ma\u00f1ara, v\u00edtima das realidades f\u00edsicas de nossa sociedade.<\/p>\n<p>Escravo do nosso mundo, ver\u00e1 seus erros perdoados por saber arrepender-se; \u00e9 o s\u00edmbolo do sofrimento e da luta.<\/p>\n<p>Prosper M\u00e9rim\u00e9e mostrou em Les \u00e2mes du Purgatoire (As almas do Purgat\u00f3rio) que as duas lendas eram contadas da mesma forma; entretanto, Ten\u00f3rio foi levado pela est\u00e1tua de pedra enquanto que o Ma\u00f1ara salvou-se. A Igreja manda um ep\u00edlogo moralista e quanto mais perverso \u00e9 o personagem, mais a convers\u00e3o ser\u00e1 retumbante. Bemard Shaw denomina-a moral mon\u00e1stica. Albert Camus admite que esse ref\u00fagio em Deus \u00e9 o confinamento de uma vida totalmente penetrada de absurdidade; o prazer termina aqui em ascese,<\/p>\n<p>No decorrer de sua longa exist\u00eancia D. Juan se purificou.<\/p>\n<p>Rom\u00e2ntico, persegue a imagem de uma beleza feminina, \u00e9 um amante m\u00edstico que vai do desencantamento ao desespero. \u00c9 um Werther que, pelas suas preocupa\u00e7\u00f5es intelectuais, liga-se a Fausto.<\/p>\n<p><b>2.D. Juan e Fausto<\/b><\/p>\n<p>D. Juan e Fausto s\u00e3o dois revoltados que se insurgem contra os princ\u00edpios da sociedade e da Igreja. Esses orgulhosos ser\u00e3o excomungados porque ultrapassam os limites impostos por Deus.<\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o desses dois peregrinos, de um absoluto inacess\u00edvel, foi materializada por Nicolas Vogt no seu poema Les ruines des-bords du Rhin (As ru\u00ednas das margens do Reno).<\/p>\n<p>O paralelo foi admiravelmente tratado por Micheline Sauvage em Le cas Don Juan (Le Seuil, 1953), onde Fausto \u00e9 a intelig\u00eancia de Don Juan, Don Juan o erotismo de Fausto; Albert Camus: Le mythe de Sisyphe (O mito de Sisifo) \u00e9 de opini\u00e3o que Fausto n\u00e3o sabia alegrar a sua alma enquanto que a vida cumulava D. Juan, que sabia organizar sua saciedade.<\/p>\n<p><b>3. Os personagens hist\u00f3ricos<\/b><\/p>\n<p>Essa cria\u00e7\u00e3o imortal come\u00e7a com D. Juan Ten\u00f3rio. Tirso de Molina, que foi o primeiro a divulgar o tipo em, aproximadamente, 1627, deve ter conhecido obras liter\u00e1rias anteriores.<\/p>\n<p>Uma cr\u00f4nica de Sevilha fixa Ten\u00f3rio matando o Comendador cuja filha havia raptado e a armadilha dos frades franciscanos; este teria sido mandado por uma est\u00e1tua subitamente animada.<\/p>\n<p>Fez-se de Ten\u00f3rio o filho do almirante Alonso Jofre Ten\u00f3rio, contempor\u00e2neo de Pedro, o Cruel.<\/p>\n<p>Conhecemos melhor D. Miguel Ma\u00f1ara. Nascido em Sevilha no dia 3 de mar\u00e7o de 1627, casou-se no dia 31 de agosto de 1648, ap\u00f3s uma juventude dissipada; ao falecer sua esposa, em 1662, ingressou na confraria la Hermandad de la Caridad; no cargo de irm\u00e3o maior, faleceu em 1679 em odor de santidade; quiseram beatific\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Barres: Du sang, de la volupt\u00e9 et de la mort (Do sangue, da vol\u00fapia e da morte), Th\u00e9ophile Goutier (Voyage en Espagne, XIV), t Serstevens (Le nouvel itin\u00e9raire espagnol, Segep, 1951), nos descrevem a \u00faltima morada desse personagem lend\u00e1rio. A partir do quadro de Vald\u00eas Leal, Montherlant (revista N. R. F. de janeiro de 1953) v\u00ea na vida de D. Juan uma cont\u00ednua blasf\u00eamia; o que contrariaria os prop\u00f3sitos do Padre jesu\u00edta Jean de Cardenas, amigo de D. Juan Ma\u00f1ara. Lorenzi de Bradi estabeleceu a origem corsa desse erradio do amor, cujo tio habitava ainda em Calvi, em 1643; foi dessa forma que pelos Cinarca, Napole\u00e3o foi parente dos D. Miguel.<\/p>\n<p><b>4. Origem liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Se Georges Gendarme de B\u00e9votte escreveu um livro not\u00e1vel, La L\u00e9gende de Don Juan (Hachette, 1906 e 1910), Lorenzi de Bradi (Don Juan \u2013 1930), pensa no sedutor com Zeus, esse deus devasso, incestuoso, ad\u00faltero, Plut\u00e3o o raptor de almas e de corpos ou Prometeu.<\/p>\n<p>A silhueta do personagem n\u00e3o \u00e9 nova: aparece no Amadis de Gaula (1492), nas com\u00e9dias de Calder\u00f3n e principalmente nas de Lope de Vega, aproximadamente em 1598.<\/p>\n<p>Tirso de Molina (1627), por\u00e9m, extrai desse contempor\u00e2neo do Cid e de D. Quixote o m\u00e1ximo de for\u00e7a. Seu her\u00f3i vindicativo tem respostas breves; sua atitude \u00e9 digna e de uma calma intr\u00e9pida diante da est\u00e1tua animada; essa grandeza o reabilita. O aspecto singelo desse drama d\u00e1-lhe um sabor extraordin\u00e1rio. No Le truand b\u00e9atifi\u00e9 (O tru\u00e3o beatificado), de Cervantes, Cristobal de Lugo morre em odor de santidade; com Mira de Amescua: L esclave du d\u00e9mon (O escravo do dem\u00f4nio), D. Gil vende sua alma ao diabo a fim de possuir uma freira: enla\u00e7a apenas um esqueleto e seu pavor o reconduz a Deus.<\/p>\n<p><b>5. Os outros temas do assunto<\/b><\/p>\n<p>Esse drama religioso, no qual a doutrina de Lutero e da predestina\u00e7\u00e3o suscita a d\u00favida, comporta tamb\u00e9m o tema do convite de um morto \u00e0 mesa de um vivo.<\/p>\n<p>O assunto se encontra em pe\u00e7as escritas nos col\u00e9gios de jesu\u00edtas alem\u00e3es nos s\u00e9culos XVII e XVIII: um libertino, o conde Le\u00f4ncio, esbarrando com uma cabe\u00e7a de morto, convida-a para jantar; o misterioso h\u00f3spede aceita o convite e leva o anfitri\u00e3o para o inferno. B\u00e9votte observa que a lenda teria nascido na It\u00e1lia, o que \u00e9 confirmado por Simone Brouwer. As est\u00e1tuas animadas s\u00e3o freq\u00fcentemente usadas: Arist\u00f3teles nota o assass\u00ednio de Mitis pela est\u00e1tua da vit\u00f3ria (Po\u00e9tica, XI, 6), Cris\u00f3stomo e Paus\u00e2nias (Voyage en Gr\u00e8ce, 6, XI \u2013 Viagem \u00e0 Gr\u00e9cia) observam que um invejoso \u00e9 esmagado pela est\u00e1tua erguida ao atleta Te\u00f3genes de Tasos; o escultor Pigmali\u00e3o enamora-se de sua est\u00e1tua que ser\u00e1 animada por V\u00eanus.<\/p>\n<p>Eckhardt (Corpus historiarum, Leipzig, 1723) menciona o texto de um cronista do s\u00e9culo X referido por Gauthier de Coinsi em sua Chronique rim\u00e9e des miracles de la Vierge (Cr\u00f4nica animada dos milagres da Virgem): Du Clerc qui mis l anel au doi Nostre Dame. Notemos ainda Cicognini com La statue de l honneur (A est\u00e1tua do homem). Shakespeare e o Conte d hiver (Conto de inverno) e a V\u00eanus d Ille de Prosper M\u00e9rim\u00e9e.<\/p>\n<p><b>6. De Tirso de Molina a Moli\u00e8re<\/b><\/p>\n<p>Depois da obra humana de Tirso de Molina, a pe\u00e7a espanhola \u00e9 traduzida conforme o gosto italiano, por Cicognini, Giliberto; cenas burlescas e at\u00e9 vulgares foram acrescentadas por Biancolelli.<\/p>\n<p>Dorimon interpreta Le festin de Pierre, em Li\u00e3o (1658), Villiers no pal\u00e1cio de Borgonha, em 1659. Ao t\u00edtulo Le convi\u00e9 de Pierre, preferiu-se algumas vezes Le festin de Pierre, sendo Pedro o prenome do Comendador que deu origem ao contra-senso atual. Moli\u00e8re imagina, no Palais Royal, em 15 de fevereiro de 1665, essa not\u00e1vel pe\u00e7a que s\u00f3 ser\u00e1 impressa em 1682.<\/p>\n<p>Seu ate\u00edsmo revolta os bons costumes e a pe\u00e7a \u00e9 condenada. Com dois novos personagens, Sganarelle\u00a0 mordomo jovial e de bom senso e dona Elvira v\u00edtima inocente D. Juan \u00e9 um c\u00e9tico de id\u00e9ias engenhosas.<\/p>\n<p>Calculista, perversa, hip\u00f3crita e facciosa, essa pe\u00e7a \u00e9 na realidade uma pintura dos costumes da \u00e9poca.<\/p>\n<p><b>7. Superabund\u00e2ncia liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Cada autor retomaria esse tema, a fim de nele se introduzir, em folhetos impressos. Depois de Rosimond (1669), La Fontaine trata do personagem ao escrever Joconde ou l infid\u00e9lit\u00e9 des femmes (Joconda ou a infidelidade das mulheres). D. Juan passa para o teatro de fantoches, nas feiras de Saint-Laurent e Saint-Germain e o Almanach forain de 1777, organiza uma lista.<\/p>\n<p>Cokain introduz D. Juan na Inglaterra e Shadwell transforma-o em um monstro: La libertine. (1676) (A libertina). Byron escreve um longo poema inacabado no qual o her\u00f3i se deixa conduzir pelo destino.<\/p>\n<p>Em Clarisse Harlowe, de Richardson (1751), Lovelace \u00e9 uma criatura complicada que tem o g\u00eanio do mal. Choderlos de Laclos aproveita essa mesma seguran\u00e7a diab\u00f3lica no prazer da corrup\u00e7\u00e3o: Les liaisons dangereuses (Liga\u00e7\u00f5es perigosas \u2013 1782), mas nessa luz cruel onde todos os recursos da ast\u00facia s\u00e3o orquestrados, Valmont aparece mais perverso do que D. Juan.<\/p>\n<p>O abade italiano Lorenzo da Ponte introduz epis\u00f3dios da sua vida em Don Giovanni; Mozart aproveita esse texto, enquanto que Balzac cria L elixir de longue vie (O elixir da longa vida).<\/p>\n<p>Do personagem humano de Puchkin (1830), Musset faz apenas um ente quim\u00e9rico (Les marrons du feu, 1829, Namouna, 1832; Une matin\u00e9e de Don Juan). Em 1833, L\u00e9lia, de George Sand, ataca D. Juan que \u00e9 por ela reabilitado em 1839. M\u00e9rim\u00e9e (Les \u00e2mes du Purgatoire, 1834 \u2013 As almas do Purgat\u00f3rio), Blaze (Le souper chez de commander \u2013 1834), inspiram-se em Ma\u00f1ara, enquanto que La chute d un ange (A queda de um anjo), de Alexandre Dumas, \u00e9 um drama desconcertante. D. Juan continua demon\u00edaco em Albertus, (1831), Com\u00e9die de la mort, (1838) de Th. Gautier.<\/p>\n<p>Se a maioria dos dramas \u00e9 pueril, Baudelaire comp\u00f5e um poema surpreendente, Don Juan aux enfers (D. Juan nos infernos), que evoca talvez Delacroix (1846, Les fleurs du mal \u2013 As flores do mal).<\/p>\n<p>Depois dessa s\u00edntese vigorosa, D. Juan \u00e9 novamente desiludido com Lenau (1851), Tolst\u00f3i (1860). Flaubert lembrou-se dele numa pe\u00e7a inacabada (Une nuit de Don Juan), enquanto que Barbey d Aurevilly, f\u00ea-lo contar seu mais belo amor nos Diaboliques (Diab\u00f3licos); Henri Bataille tamb\u00e9m evocou esse personagem na velhice (L homme \u00e0 la rose \u2013 O homem da rosa).<\/p>\n<p>Richepin obriga o sedutor entediado a amar apenas mulheres bonitas: Mille et quatre, inconnue (Mil e quatro, desconhecida). H. de R\u00e9gnier, Ed. Rostand trazem poucas inova\u00e7\u00f5es. Bemard Shaw produz uma obra de f\u00e9 sobre esse motivo: Man and superman (1901-1903) (Homem e super-homem); Miguel Ma\u00f1ara de O. V. de Milosz \u00e9 humano e comovente; foi escrito depois de Les sept solitudes (As sete solitudes) Scenes pour Don Juan et lamoureuse initiation (Cenas para D. Juan e a amorosa inicia\u00e7\u00e3o). L homme de cendres (1949) (0 homem feito de cinza) de Andr\u00e9 Obey \u00e9 tamb\u00e9m Le fruit de Don Juan (1934) (O fruto de D. Juan) e do Trompeur de S\u00e9ville (1937) (O impostor de Sevilha); mas ap\u00f3s esse homem da nega\u00e7\u00e3o, eis o assass\u00ednio do amor por Delteil (Grasset, 1930); \u00e9 um fraco vencido pela mulher. Depois deste estilo imperioso e colorido, Claude-Andr\u00e9 Puget prop\u00f5e-se dois fins em Echec \u00e0 Don Juan (1941 e 1953), (Malogro de D. Juan), obra brilhante e cavalheiresca. Para t Serstevens, La l\u00e9gende de Don Juan (1924 e 1946) (A lenda de D. Juan), ele \u00e9 o judeu errante do amor. Esta vibra\u00e7\u00e3o da carne encerra-se com \u00eaxtase, enquanto que para Fernand Fleuret: Les derniers plaisirs, (1924) (Os \u00faltimos prazeres), Ma\u00f1ara morre como um libertino.<\/p>\n<p><b>8. Os representantes de D. Juan<\/b><\/p>\n<p>Al\u00e9m dos personagens hist\u00f3ricos de Ten\u00f3rio e Ma\u00f1ara, muitos outros sedutores tornaram-se representantes desse her\u00f3i.<\/p>\n<p>Ocorre-nos imediatamente a lembran\u00e7a de Alexandre com o seu har\u00e9m de trezentas e sessenta e cinco mulheres, renovado todos os anos ou a de J\u00falio C\u00e9sar, o sedutor inescrupuloso.<\/p>\n<p>Mencionemos ainda Henrique II de Montmorency, Nero, Francisco I, Lu\u00eds XIV, Henrique IV (Le Vert Galant). Temos ainda Lauzun, o duque de Richelieu e a vida galante da Reg\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois de L\u00e1zaro v\u00eam as vidas tumultuosas de Santo In\u00e1cio de Loiola, de Calder\u00f3n ou do terr\u00edvel espadachim Lope de Vega. Sade, por sua obscenidade doentia, sua pervers\u00e3o sexual dificilmente se assemelha a esse voluptuoso que n\u00e3o pagava as mulheres como o fazia Casanova; D. Juan n\u00e3o teria admitido as ast\u00facias de Charpillon que se assemelham \u00e0s da Conchita imaginadas por Louys: La femme et le pantin (A mulher e o t\u00edtere).<\/p>\n<p>Nicolas R\u00e9tif La Bretonne tamb\u00e9m se assemelha mais a Casanova do que a D. Juan.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO III \u2013 AS CAN\u00c7\u00d5ES DE GESTA<\/strong><\/p>\n<p>As can\u00e7\u00f5es de gesta nasceram na excita\u00e7\u00e3o religiosa e guerreira; os frades e os prestidigitadores desenvolveram seu suporte hist\u00f3rico, a fic\u00e7\u00e3o embrion\u00e1ria num objetivo preciso. N\u00e3o s\u00e3o obras coletivas; gentes de of\u00edcio fixaram uma obra maduramente pensada. B\u00e9dier demonstrou a influ\u00eancia exercida pela vida dos santos, e a marcha dessas epop\u00e9ias nas vidas dos santu\u00e1rios; pois que essas obras morais deviam reter e explorar o peregrino.<\/p>\n<p><b>1. Hist\u00f3rico das teorias sobre a origem<\/b><\/p>\n<blockquote><p><strong>1.<\/strong>\u00a0Em 1830, para Fauriel, Wolf, Herder e Edgar Quinet, a lenda vem de um canto popular contempor\u00e2neo ao evento hist\u00f3rico. A poesia nasceu espontaneamente; esses contos s\u00e3o Il\u00edadas em pot\u00eancia<strong><br \/>\n2.<\/strong>\u00a0Os irm\u00e3os Grimm germanizaram as can\u00e7\u00f5es de gesta. Essa poesia popular exprime a alma da coletividade; n\u00e3o \u00e9 escrita por um poeta, mas pelo povo. Os escribas apenas a coletaram. J. J. Amp\u00e8re \u00e9 da mesma opini\u00e3o;<strong><br \/>\n3<\/strong>. Em 1835, Leroux de Lincy denomina de Cantilenas os velhos cantos populares. Essa teoria das origens faz parte do ensino com as Histoires de la litt\u00e9rature fran\u00e7aise de Demogeot (1851) e de G\u00e9rusez (1852);<strong><br \/>\n4.\u00a0<\/strong>Gaston Paris admite essa origem mas controla os cantos que seriam de origem merov\u00edngia e n\u00e3o tudesca;<strong><br \/>\n5<\/strong>. Em 1884, Pio Rajna mostra que a can\u00e7\u00e3o de gesta \u00e9 o t\u00e9rmino da epop\u00e9ia merov\u00edngia herdeira da epop\u00e9ia franca; foi adaptada somente para a aristocracia germ\u00e2nica. (Carlos Magno fala alem\u00e3o). Rajna arruina a teoria das cantilenas e mostra que a epop\u00e9ia era composta de longos poemas estruturais. Mayer conserva a tradi\u00e7\u00e3o oral, Gaston Paris, a no\u00e7\u00e3o do canto l\u00edrico-\u00e9pico;<strong><br \/>\n6<\/strong>. B\u00e9dier observa a import\u00e2ncia dos santu\u00e1rios situados nas estradas das grandes peregrina\u00e7\u00f5es que conduzem para S\u00e3o Tiago de Compostela. Assim sendo, a igreja \u00e9 o ber\u00e7o das can\u00e7\u00f5es de gesta. que nada mais s\u00e3o do que a hist\u00f3ria po\u00e9tica de uma estrada. B\u00e9dier tra\u00e7ou a estrada dos santu\u00e1rios. A chanson de Fierabras foi composta pela abadia de Saint-Denis para que melhor se venerasse o Cravo da Cruz e a Coroa de Espinhos do Cristo.<\/p><\/blockquote>\n<p><b>2. Situa\u00e7\u00e3o dos ciclos<\/b><\/p>\n<p><strong>Indicamos sumariamente a composi\u00e7\u00e3o de tr\u00eas ciclos principais:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><b>A) Gesta do rei Carlos Magno<\/b>\u00a0\u00c9 o ciclo mais nobre; narra guerras santas efetuadas pelo Imperador. A t\u00edtulo de indica\u00e7\u00e3o citaremos como a mais antiga can\u00e7\u00e3o de gesta a Chanson de Roland.<\/p>\n<p>Observemos a descri\u00e7\u00e3o das guerras santas: Da It\u00e1lia (Can\u00e7\u00f5es d Aspremont, d Otinel, as Can\u00e7\u00f5es Enfances d Ogler, de Balan, de Jean de Lanson, de Bete et Milon); da Palestina (Can\u00e7\u00e3o de Miran, P\u00e8lerinage \u00e0 Jerusal\u00e9m, o Chevalier au Cygne, Chanson d Antioche); da Bretanha a fim de libertar as sete igrejas (Chanson d Aiquin); contra os Sax\u00f4nios (Chanson de Saisnes); da Espanha (Chanson de l Entr\u00e9e en Espagne, de La prise de Pampelune, de Pierabras, e d Agolant, de Roland, de Galien, d Anseis).<b><br \/>\nB) A gesta de Garin de Monglane\u00a0\u00a0<\/b>S\u00e3o as pesquisas de Luis, filho de Carlos Magno, apoiado pelo cavaleiro Guilherme. N\u00e3o tratando deste ciclo, daremos alguns dados.<b><br \/>\n1. O coroamento de Lu\u00eds<\/b><br \/>\nPoema do s\u00e9culo XII que marca a chegada de Luis em Aix-la-Chapelle. Guilherme Fierebrace o verdadeiro her\u00f3i combate at\u00e9 Corsolt, o gigante. Cogitou-se historicamente no conde de Toulouse, Guilherme, que foi defensor das marchas meridionais contra os sarracenos. Ao retirar-se para o mosteiro em 806, tornou-se S\u00e3o Guilherme do Deserto; nossos dados limitam-se a esta descri\u00e7\u00e3o. Guilherme morreu antes do coroamento de Lu\u00eds.<b><br \/>\n2. O carreto de Nimes<\/b><br \/>\nPor ocasi\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o de m\u00e9ritos e feudos, Guilherme foi esquecido pelo rei. Reivindica ent\u00e3o o direito de conquistar a Espanha e o reinado de Nimes. Penetra em Nimes disfar\u00e7ado num vendedor de barris de sal onde est\u00e3o escondidos, na realidade, seus soldados. (O que nos faz lembrar o cavalo de pau da Il\u00edada ou As mil e uma noites).<\/p><\/blockquote>\n<p>Guillaume au court nez (Guilherme de nariz curto) \u00e9 um her\u00f3i popular; a narra\u00e7\u00e3o \u00e9 truculenta, pitoresca e c\u00f4mica.<\/p>\n<p>Notemos o epis\u00f3dio da morte do cavaleiro Renouart no qual o autor pensa no ciclo arturiano ao falar da fada Morgana e do rei Artur. Guilherme est\u00e1 ainda presente na Prise d Orange (Tomada de Orange), Aliscans.<\/p>\n<p><b>Os ascendentes de Guilherme est\u00e3o presentes com:<\/b><\/p>\n<p><b>1. Aymeri de Narbonne<\/b><\/p>\n<blockquote><p>Cinco mil versos decassil\u00e1bicos atribu\u00eddos a Bertrand de Bar-sur-Aube (Princ\u00edpio do s\u00e9culo XIII), divididos em cinco manuscritos an\u00f4nimos. Aymeri, depois de haver conquistado Narbonne partiu para a It\u00e1lia a fim de desposar Hermengarda, irm\u00e3 do rei dos Lombardos. Deve reconquistar dos sarracenos aquilo que lhe pertencia.<\/p>\n<p>Com o D\u00e9partement des enfants d Aymeri vemos a luta de seus sete filhos contra os sarracenos. Aymeri morre combatendo os Centauros (os Sagit\u00e1rios); seus quatro mil versos t\u00eam o titulo La mort d Aymeri de Narbonne.<\/p><\/blockquote>\n<p>Victor Hugo lembrou-se dessa lenda em Aymerillot (A lenda dos s\u00e9culos).<\/p>\n<p><b>2. Girardo de Viena<\/b><\/p>\n<blockquote><p>Durante sete anos Girardo \u00e9 sitiado em Viena por Carlos Magno. Oliver combate ao lado de Girardo. Ora, Rolando apaixona-se por Aude, irm\u00e3 de Oliver. A fim de terminar a guerra, Rolando e Oliver empenham-se num combate implac\u00e1vel; um anjo aparta os combatentes e Rolando esposa Aude.<\/p><\/blockquote>\n<p>Baseado nesse tema, Victor Hugo escreve Le mariage de Roland (O casamento de Rolando), La L\u00e9gende des si\u00e8cles (A lenda dos s\u00e9culos).<\/p>\n<p>Mas os descendentes de Guilherme deram origem a: Les enfances de Vivien (As inf\u00e2ncias de Vivien), Foucon de Candis, La batalhe Loquifer (A batalha Loquifer), R\u00e9nier enquanto que seus irm\u00e3os est\u00e3o presentes no Bovon de Commarcis, Le si\u00e9ge de Barbastre (O sitio de Barbastre), Guibert d Andrenas ou La prise de Cordoue (A tomada de C\u00f3rdoba). C) A gesta de Doon de Mog\u00fancia. \u00c9 a narra\u00e7\u00e3o da revolta dos cavaleiros rebeldes de Carlos Magno. Estudaremos melhor na Chevalerie d Ogier os Quatre fils Aymon (Os quatro filhos Aymon), lenda justamente c\u00e9lebre e que \u00e9 prosseguida por Maugis d Aigremont e La mort de Maugis (A morte de Maugis).<\/p>\n<p>O orgulho, a loucura, o exagero formam o fundo dessas can\u00e7\u00f5es onde rancores imperdo\u00e1veis nasceram (Chanson dAubri le Bourguignon, de Basin, de Girard de Roussillon, de Gormond). Mas, \u00e0s vezes, os bar\u00f5es j\u00e1 n\u00e3o lutam contra Carlos Magno e sim entre si (Raoul de Cambrai, Les Lorrains).<\/p>\n<p>Observemos que a hist\u00f3ria de Gormond e Isambard foi composta pelo, abade Hariulf, em 1088, conforme a cr\u00f4nica de Saint-Riquier.<\/p>\n<p>\u00c9 pois ainda um santu\u00e1rio que guardou a tradi\u00e7\u00e3o doa invasores escandinavos que amea\u00e7aram a Fran\u00e7a em 879. E exato que um dos Wikings se chamava Gormond, que seus bandos devastaram Ponthieu em 2 de fevereiro de 881, e que no dia 3 de agosto de 881, Luis III os desalojou. As cr\u00f4nicas anglo-sax\u00f4nicas mencionam um Gormond estabelecido em Circester em 879 e um cl\u00e9rigo cometeu o contra-senso de confundir os dois Gormond.<\/p>\n<p><b>D) Finalmente os empres\u00e1rios dos espet\u00e1culos<\/b>\u00a0desejaram satisfazer os p\u00fablicos mais vulgares. As can\u00e7\u00f5es de gesta se transformaram em melodramas. Surgiu o tema da inoc\u00eancia perseguida (Elie de Saint-Gilles, Doon de La Roche\u2026), o das damas oprimidas (Berthe aux grands plods, Les enfances Doon, Orson de Beauvais). S\u00e3o pe\u00e7as moralistas onde se assiste ao castigo do crime.<\/p>\n<p><b>1. Tema da can\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Carlos Magno deve negociar com o rei mu\u00e7ulmano de Sarago\u00e7a que pede paz. Ganelon, o traidor, permite que Marsile cerque a retaguarda comandada por Rolando. Quando este se decide a pedir socorro a seu tio, todos os bravos, inclusive Olivier e o arcebispo Turpin, morrem. Carlos Magno aniquila os sarracenos e em Aix-la-Chapelle. Ganelon \u00e9 esquartejado.<\/p>\n<p><b>2. Tema hist\u00f3rico<\/b><\/p>\n<p>Einhard escreve em aproximadamente 800 (Vita Karoli, IX) que o emir da Sarago\u00e7a solicitou o aux\u00edlio de Carlos contra os pr\u00edncipes mu\u00e7ulmanos (777 em Paderborn) No dia 19 de abril de 778 Carlos Magno atravessa os Pireneus, toma Pampelune e malogra-se em Sarago\u00e7a. No dia 15 de agosto de 778 sua retaguarda \u00e9 surpreendida pelos bascos no desfiladeiro de Roscenvales.<\/p>\n<p>Carlos n\u00e3o pode castigar os montanheses.<\/p>\n<p>Desta forma, para os bascos, a imagina\u00e7\u00e3o popular teria substitu\u00eddo os sarracenos, inimigos arraigados dos crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Conforme a vers\u00e3o \u00e1rabe de Ibn-al-Athir (s\u00e9culo XIII), os sarracenos aliciados junto aos francos, teriam auxiliado os bascos.<\/p>\n<p>Gaston Paris adere a esta opini\u00e3o e diz que Einhard registrou um fato inexato para poupar o amor-pr\u00f3prio dos francos.<\/p>\n<p><b>3. Arquivos hist\u00f3ricos<\/b><\/p>\n<p>Estes acontecimentos s\u00e3o ainda anotados nos Anais de Angilbert, em 778, na cr\u00f4nica do astr\u00f4nomo Limousin Vita Kludovici.<\/p>\n<p>Eis a cr\u00f4nica do frade de Silos (aproximadamente 1110), ato da funda\u00e7\u00e3o da abadia de Saint-Pede-G\u00e8neres em Bearn (1096); hist\u00f3ria eclesi\u00e1stica de Fleury (1109); ep\u00edstola III de Raoul le Tourtier (antes de 1114); Les exploits de Tancr\u00e8de (As proezas de Tancredo), de Raoul de Caen (1112-1118). Uma cruz adorna a gola de Cize antes de 1106 e \u00e9 mencionada numa Carta Episcopal de Baiona, em 980; os arquivos de Pampelune (1127), falam de uma capela erguida por Carlos Magno nesse local de carnificina.<\/p>\n<p><b>4. Os personagens hist\u00f3ricos<\/b><\/p>\n<p>Rolando era verossimilmente um conde de la Marche da Bretanha. Carlos, que na realidade tem apenas trinta e sete anos, torna-se o imperador da Barba florida. A lenda deforma os fatos e, para melhor expor a bravura de Rolando, quatrocentos mil sarracenos combatem vinte mil francos.<\/p>\n<p>Costuma-se relacionar tamb\u00e9m esses acontecimentos hist\u00f3ricos a Guilherme, duque de Septim\u00e2nio, de Toulouse e de Aquit\u00e2nia, que, em 793 foi derrotado pelos sarracenos, em Villedaigne. Em 806, Guilherme retirou-se para o mosteiro de Gellone onde morreu em odor de santidade (28 de maio de 812). O mosteiro fez sua apologia e assim foi inspirada a lenda.<\/p>\n<p><b>5. Os manuscritos<\/b><\/p>\n<p>A vers\u00e3o assonante do manuscrito de Oxford (quatro mil versos em decass\u00edlabos do in\u00edcio do s\u00e9culo XII) \u00e9 a mais conhecida. B\u00e9dier localiza-a entre 1080 e 1134. Para Greg\u00f3rio, essa vers\u00e3o prender-se-ia ao epis\u00f3dio de Baligant. A de decass\u00edlabos assonantes conservada na biblioteca de S\u00e3o Marcos, em Veneza, est\u00e1 muito pr\u00f3xima do texto de Oxford (manuscrito IV, fundo franc\u00eas).<\/p>\n<p>Nas vers\u00f5es rimadas, notamos o manuscrito de Ch\u00e2teauroux; outro grupo compreende textos semelhantes (manuscrito VII, S\u00e3o Marcos, em Veneza; Biblioteca Nacional de Li\u00e3o, Cambridge.<\/p>\n<p>O Rolando alem\u00e3o foi escrito por Konrad (Ruolandes liet) conforme o texto de Oxford; o mesmo se d\u00e1 com a vers\u00e3o norueguesa redigida em, aproximadamente, 1240, por ordem do rei da Noruega Haakon V (Cap\u00edtulo VIII da Karlamagnussaga). Deve-se ainda registrar uma vers\u00e3o galesa (s\u00e9culo XIV), dos poemas ingleses, neerlandeses, latinos (Carmen de prodicione Guenonis), ou os dois poemas de Apt em l\u00edngua proven\u00e7al (estudados por Mario Roques).<\/p>\n<p><b>6. O autor<\/b><\/p>\n<p>O \u00faltimo verso do poema de Oxford: Ci falt la geste que Turoldus d\u00e9clinet fez com que se procurasse o sentido de d\u00e9clinet que tanto pode significar procurar, refundir ou recitar. Faral (Les jongleurs en France, 1910) mostrou essa aristocracia das cl\u00e9rigos menestr\u00e9is. Turold seria ent\u00e3o um pelotiqueiro considerado autor, provavelmente de origem normanda. Na tape\u00e7aria de Bayeux aparece um Turold que se julgou ser um padre, beneditino de F\u00e9camp, filho do antigo preceptor de Guilherme, o Conquistador (G\u00e9nin). Tavernier pensa no bispo de Bayeux, nascido entre 1055 e 1060.<\/p>\n<p>Para Boissonnade (1923), esse cl\u00e9rigo pelotiqueiro, de car\u00e1ter independente e f\u00e9 profunda, oriundo de Avranchin, teria sido o companheiro de Roger de Seis ou Sai; seus nomes s\u00e3o encontrados numa Carta do cap\u00edtulo Notre-Dame de Tudela.<\/p>\n<p><b>7. Origem<\/b><\/p>\n<p>Sendo a teoria das cantilenas destru\u00edda por Rajna, a cr\u00edtica de B\u00e9dier parece tornar-se definitiva. A import\u00e2ncia dos santu\u00e1rios situados entre Blaye e Roscenvales la Via Tolosana \u00e9 confirmada na lenda que envolve a vida secular de Guilherme. Os louvores religiosos, conservados nos anais de 1124 com os atos de doa\u00e7\u00e3o, certamente excitaram ainda mais a imagina\u00e7\u00e3o do poeta de profiss\u00e3o do que a magra informa\u00e7\u00e3o contida nos anais carol\u00edngios.<\/p>\n<p>\u00c9 por essa raz\u00e3o que Mireaux, baseando-se no Guide des P\u00e8lerins (1140) investiga se o olifante exposto em Saint-Seurin de Bord\u00e9us existia antes da can\u00e7\u00e3o ou se foi originado por ela. Boissonnade liga o evento da nossa can\u00e7\u00e3o \u00e0s empreitadas das cruzadas francesas na Espanha nos s\u00e9culos XI e XII.<\/p>\n<p><b>8. Valor da lenda<\/b><\/p>\n<p>As can\u00e7\u00f5es evocam personagens hist\u00f3ricos. Para Pauphilet (Romania, LIX, 1933), o principal personagem continua a ser Carlos Magno. Mas para Mireaux, a obra de Turold visaria a gl\u00f3ria e os des\u00edgnios de Henrique Plantageneta tornando sua a concep\u00e7\u00e3o cisterciense da cruzada.<\/p>\n<p>Todavia, as mem\u00f3rias evocadas pelo autor s\u00e3o as que mais nos interessam. M\u00e1rio Roques (Romania, n.o 263, julho de 1940), mostrou a preocupa\u00e7\u00e3o do poeta perante as verdades materiais e psicol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>\u00c9 enfim uma obra de cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica na qual os temas tornaram-se imortais.<\/p>\n<p>Essa lenda simboliza tamb\u00e9m as guerras efetuadas por Carlos Martel e principalmente as de Carlos Magno a fim de realizar a unifica\u00e7\u00e3o do catolicismo; para agradec\u00ea-lo por este fato, o Papa Le\u00e3o III coroou Carlos Magno imperador, no dia de Natal no ano 800.<\/p>\n<p><b>9. Sucess\u00e3o liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Se A. Fabre (campe\u00e3o 1941) mostrou que La chanson de Roland era a origem e a base da Chanson de Sainte-Foy, Le dit de la bande d Igor \u00e9 o tema russo em homenagem aos pr\u00edncipes que se bateram pelos crist\u00e3os contra os ex\u00e9rcitos pag\u00e3os.<\/p>\n<p>O assunto inspira o romance de Gabien, as Conquestes de Charlemagne de David Aubert. Mas depois de Spagna, o Morgante de Pulci (1485) dirige Rolando para o burlesco.<\/p>\n<p>O ideal mundano aparece mais desenvolvido no Roland amoureux. Mas Boiardo falece (1494) deixando sua obra inacabada. Ariosto v\u00ea apenas em Rolando um amante enganado, mas seu Roland furieux (1516-1532) influencia Mairet; Quinault (1685) comp\u00f5e com a m\u00fasica de Lully. Vigny, ao escrever Le cor (1825) pensa na narra\u00e7\u00e3o de Turpin; Monin (1832) atrai a aten\u00e7\u00e3o dos letrados com seu Roman de Roncevaux, enquanto Francisque Michel estudava o manuscrito de Oxford.<\/p>\n<p><strong>II. Os quatro filhos de Ayimon (Gesta de Doon de Mog\u00fancia)<\/strong><\/p>\n<p><b>1. O tema<\/b><\/p>\n<p>Carlos Magno armou cavaleiro aos quatro filhos de Aymon de Dordone: Aalard, Renaud, Guichard e Richard. Mas Renaud, devido a uma s\u00e9rie de derrotas, matou Bertolai, sobrinho de Carlos Magno.<\/p>\n<p>Um antigo rancor gerou entre o imperador e as fileiras de Renaud; Carlos Magno, para se. vingar da afronta, perseguiu durante anos os quatro irm\u00e3os que provocavam a admira\u00e7\u00e3o de seus inimigos.<\/p>\n<p>Ei-los ao lado do rei Yon lutando contra os sarracenos, desde Ardenas at\u00e9 Bord\u00e9us. Com o aux\u00edlio de um primo, Maugis, o m\u00e1gico, capturaram Carlos Magno para libert\u00e1-lo imediatamente.<\/p>\n<p>Libertar\u00e3o seu maravilhoso cavalo Bayard e Renaud parte para combater na terra santa; essa vida de orgulho e viol\u00eancia termina com a penit\u00eancia e a gra\u00e7a.<\/p>\n<p><b>2. Textos an\u00e1logos<\/b><\/p>\n<p>Os problemas de honra e de consci\u00eancia que se imp\u00f5em a esses revoltados se encontram em La chevalerie Ogier no qual o filho de Ogier, o Dinamarqu\u00eas, foi morto pelo filho de Carlos Magno; Ogier quer se vingar; se arrepender\u00e1 e tornar-se-\u00e1 frade. Em Raoul de Cambraf, Raoul, deserdado pelo pai, devasta Vermandois. Seu implac\u00e1vel advers\u00e1rio Ybert de Ribemont, reconhecendo seus erros, funda, no local onde est\u00e3o os sete castelos\u00a0 monumentos do orgulho\u00a0 sete mosteiros testemunhos de penit\u00eancia.<\/p>\n<p><b>3. Manuscritos<\/b><\/p>\n<p>O manuscrito do s\u00e9culo XIII, arquivado na Biblioteca Nacional de Paris (n.o 24.387, vers\u00e3o de La Vaili\u00e8re), deu origem a duas edi\u00e7\u00f5es (Michelant, T\u00fcbingen, 1862; F, Castets, Montpellier, 1909).<\/p>\n<p>Treze outros manuscritos completaram esse texto chamado La Vaili\u00e8re (manuscritos de Montpellier, de Veneza, estudados por Pio Rajna, de Cambridge, ns. 766 B. N.). Um poema neerland\u00eas (segunda metade do s\u00e9culo XIII), retoma a trama do manuscrito La Valli\u00e8re.<\/p>\n<p><b>4. Estudos<\/b><\/p>\n<p>Paulin Paris localiza a a\u00e7\u00e3o primitiva nas Ardenas. B\u00e9dier acentua que a lenda n\u00e3o \u00e9 mencionada no Catalogue de 1150, mas que \u00e9 bastante conhecida no princ\u00edpio do s\u00e9culo XIII. Longnon estabelece em 1879 um paralelo hist\u00f3rico entre Yon de Gasconha e o rei de Aquit\u00e2nia Eudon que guerreou, n\u00e3o contra Carlos Magno mas contra Carlos Martel. (Revue des questions historiques). Rajna (1884). L\u00e9on Jordan (1908), Castets (1909) considerando a mesma tese, mas Castets, sem demonstr\u00e1-lo, identifica os quatro filhos Aymon aos quatro filhos de Clot\u00e1rio: Clodoveu, Meroveu, Gondovaldo e Childeberto.<\/p>\n<p>Gaston Paris atribui esse poema de dezoito mil versos a Huon de. Villeneuve, enquanto que B\u00e9dier estabelece um paralelo com a vida de Santo Agilolfo, que conteria todo o elemento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p align=\"left\"><strong>III. O Cid<\/strong><\/p>\n<p>O personagem do Cid pertence \u00e0 Espanha. Mas Corneille, prosseguindo com a pe\u00e7a de Guillen de Castro, imortaliza o her\u00f3i. Essa lenda cavaleiresca descreve a vida rude e trabalhosa de um h\u00e1bil guerreiro; \u00e9 uma poesia de autenticidade na qual o sobrenatural, o misticismo e o fanatismo desaparecem.<\/p>\n<p><b>1. O personagem hist\u00f3rico<\/b><\/p>\n<p>A Gesta Roderici Campidocti registra o nascimento do Cid em, aproximadamente, 1050; a Cr\u00f3nica del Cid, em 1026. Deve ter nascido em Bivar (a 8 quil\u00f4metros de Burgos), de Diego. Laynez, descendente de Layn Calvo, juiz do condado de Castilha.<\/p>\n<p>Conforme outras tradi\u00e7\u00f5es, Rodrigo \u00e9 um bastardo e tem tr\u00eas irm\u00e3os mais velhos. Guillen de Castro faz dele um filho natural, Corneille, um filho \u00fanico.<\/p>\n<p>Guerreia sob o reinado de Sancho II e depois sob o de Afonso VI que o exilou em 1081. Rodriguez Diaz bate-se ent\u00e3o para outros reis. Requestam-se os servi\u00e7os do Campeador (O batalhador).<\/p>\n<p>Ajudando o rei mu\u00e7ulmano de Sarago\u00e7a, os soldados lhe deram o nome de Cid, Mio Cid oriundo do \u00e1rabe Sidi, senhor. Cumulado de riquezas e honras apoderou-se de Valen\u00e7a (1094) e l\u00e1 viveu at\u00e9 1099 como grande senhor. Depois de sua morte, sua mulher, Ximena, neta de Afonso V. teve que abandonar Valen\u00e7a (1102).<\/p>\n<p>A imagina\u00e7\u00e3o do povo acrescentou logo uma infinidade de pormenores extraordin\u00e1rios. Esse vassalo injustamente exilado permanece um motivo ora respeit\u00e1vel, ora revoltado; chefe de um bando ambicioso, pouco escrupuloso (conforme Dozy), torna-se um cavalheiro cort\u00eas e galante. S\u00e3o-lhe atribu\u00eddas inten\u00e7\u00f5es que s\u00e3o de outros tempos e de outros personagens. Mas esse homem rude, independente, leal, representa bem a Espanha crist\u00e3; provocou a admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>2. Os documentos<\/b><\/p>\n<p>O Museu Real de Armas de Madri conserva uma das espadas do Cid (Tizona); a catedral de Sala manca ret\u00e9m o ato de 1098 pelo qual o Cid dava todos os seus bens \u00e0 catedral de Valen\u00e7a; bem como os de Ximena (1101). Burgos tem em seu poder o contrato de casamento entre Cid e Ximena e os. dois cofres que o Cid teria entregue aos judeus. Os restos mortais do her\u00f3i e de sua mulher descansam em San Pedro de Cardena.<\/p>\n<p>Em 1272, Afonso X mandou erguer, em sua homenagem, um ata\u00fade de pedra.<\/p>\n<p><b>4. Sucess\u00e3o liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>O amor Ximena-Cid n\u00e3o \u00e9 tratado. Essa inven\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria nasceu nos romanceros, os quais dizem que Ximena amou Rodrigo depois da morte de seu pai. Francisco Santos no Cid ressuscitado faz com que o Cid ressuscite bastante descontente com as f\u00e1bulas que lhe s\u00e3o atribu\u00eddas.<\/p>\n<p><strong>a)\u00a0<\/strong>Guillen de Castro. No s\u00e9culo XVII, este autor forneceu o conflito dram\u00e1tico da morte do conde. Las mocedades del Cid (Juventude do Cid), composto em 1618, foi editado em 1621; \u00e9 um drama f\u00e9rtil em espet\u00e1culos nos quais o amor luta com o dever durante tr\u00eas anos.<\/p>\n<p>A segunda parte de Las mocedades narra as proezas do Cid e a a\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 iniciada v\u00e1rios anos depois do casamento do Cid com Ximena.<\/p>\n<p>Esta pe\u00e7a edificante exalta o esp\u00edrito da caridade; \u00e9 uma arma contra a Reforma;<\/p>\n<p><strong>b)\u00a0<\/strong>Corneille. Corneille retoma esse texto (dezembro de 1636) inspirando-se tamb\u00e9m em dois antigos romances espanh\u00f3is. A lei imperiosa da unidade de tempo aboliu esse per\u00edodo de tr\u00eas anos; Corneille, reagindo contra a apresenta\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios, suprime as cenas religiosas mas exalta o ideal de cavalaria. \u00c9 criticado pelo casamento dessa mo\u00e7a com o assassino de seu pai, mas na Espanha, o rei dispunha, como queria, da m\u00e3o de uma \u00f3rf\u00e3.<\/p>\n<p>E a querelle du Cid, erguida por Richelieu, tem motivos pol\u00edticos (apologias do duelo e de um her\u00f3i espanhol justamente quando os \u00e9ditos de 1634 pro\u00edbem esses combates e que a Fran\u00e7a est\u00e1 em guerra com Madri). E nada mais do que uma rivalidade liter\u00e1ria, o orgulho de Corneille feriu a suscetibilidade de seus rivais;<\/p>\n<p><strong>c)<\/strong>\u00a0Diamante La Harpe e Voltaire pretenderam sem raz\u00e3o que o Cid de Diamante era anterior ao de Castro. Le vengeur de son p\u00e8re data de 1659 e \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o de Corneille;<\/p>\n<p><strong>d)<\/strong>\u00a0Les trag\u00e9dies Desfontaines (Le mariage du Cid, 1635), Chevreu (La vraie suite du Cid), Timoth\u00e9e Chillac (La mort du Cid ou L ombre du comte de G\u00f3rmaz, 1639), Pierre Lebrun (Le Cid d Andalousie, 1825), de Casimir Delavigne (La fille du Cid, 1840) n\u00e3o trouxeram nenhum elemento novo.<\/p>\n<p>Abel Hugo traduziu o Romancero (1822) e Victor Hugo lembra-se de Rodrigo em La bataille perdue (Les Orientales), Bivar, Le Cid exil\u00e9, Le Romancero du Cid (La l\u00e9gende des si\u00e8cles);<\/p>\n<p>Em 1882, Zorilla comp\u00f5e uma abundante par\u00e1frase do romancero (La l\u00e9gende du Cid). Massenet escreve sua m\u00fasica segundo o livreto de Gallet, d Ennery e Blau.<\/p>\n<p>Leconte de Lisle inspira-se em Rodrigo nos seus Po\u00e8mes barbares (1862), bem como Jos\u00e9-Maria de Her\u00e9dia (Revue des Deux Mondes, 1885).<\/p>\n<p>Alexandre Arnoux publicou uma excelente L\u00e9gende du Cid Campeador (Piazza, 1923) e Georges Fourest traduziu o lamento de Ximena em La n\u00e9gresse blonde (Vanier-1909):<\/p>\n<blockquote><p>Dieu!<br \/>\nQuil est joli gar\u00e7on l assassin de papa!<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO IV \u2013 O CICLO ARTURIANO<\/strong><\/p>\n<p>O ciclo arturiano, apresenta-se como um conjunto vasto e f\u00e9rtil que prossegue os Romances corteses. E tamb\u00e9m denominado Mat\u00e9ria da Bretanha. A figura central continua a ser a de Artur, rei lend\u00e1rio de origem c\u00e9ltica; pretendeu-se ver nesse rei o mantenedor da luta contra os sax\u00f4nios e que, para salvaguardar sua ilha, deixou-se matar em 542; esse rei liberal teria nascido em Tintagel, na Cornualha.<\/p>\n<p>Artur ou Artus\u00a0 triunfa com suas armas maravilhosas, mas tamb\u00e9m pela amizade do m\u00e1gico Merlin que \u00e9 considerado algumas vezes como sendo um personagem real.<\/p>\n<p>A rainha Gueni\u00e8vre, filha do rei L\u00e9odagan, figura ideal da dama da corte, toma emprestado alguns tra\u00e7os a Isolda, outro personagem do ciclo.<\/p>\n<p>Gueni\u00e8vre reina sobre os seus cavaleiros que se re\u00fanem em volta da T\u00e1vola Redonda; o casal real comanda empresas nobres e temer\u00e1rias; o geis que \u00e9 ao mesmo tempo um pedido piedoso e uma injun\u00e7\u00e3o de defesa, cria um obst\u00e1culo que \u00e9 a base de perigosas aventuras. A fim de levar a bom termo a conquista de objetos-talism\u00e3 e de ta\u00e7as com virtudes m\u00e1gicas que embelezar\u00e3o os tesouros do rei, as fadas ajudam os cavaleiros.<\/p>\n<p>Esses combates sobre naturais, esses pr\u00f3prios objetos, v\u00eam de uma tradi\u00e7\u00e3o pag\u00e3 muito divulgada.<\/p>\n<p>Quando o poderoso Artur vai penetrar em Roma, a revolta de seu sobrinho Mordret que talvez seja tamb\u00e9m filho do adult\u00e9rio e do incesto entre Artur e a esposa do rei Loth\u00a0 obriga-o a reconquistar seu reinado.<\/p>\n<p>Nessa campanha sangrenta, seus leais servidores morrem. Os sax\u00f4nios aproveitam-se do sucedido para invadir o pa\u00eds e, no \u00faltimo epis\u00f3dio da carnificina, Artur e Mordret se ferem de morte.<\/p>\n<p>\u00c9 a ru\u00edna da cavalaria bret\u00e3, mas a sua esperan\u00e7a sobrevive. Artur teria sido levado vivo para o reino das fadas e um dia voltaria para restituir ao seu povo a independ\u00eancia e o poderio.<\/p>\n<p>O ciclo arturiano cont\u00e9m a extraordin\u00e1ria Demanda do Santo Graal que se inicia com um romance de cavalaria e termina como uma narrativa m\u00edstica.<\/p>\n<p>Essas demandas permitiram a cada narrador de compor uma narrativa de acordo com seu temperamento; os epis\u00f3dios de combate se alternam com cenas sentimentais; atos de bravura sucedem \u00e0s imagens voluptuosas e ordens breves de estrat\u00e9gia guerreira, \u00e0s palestras galantes.<\/p>\n<p>Os progressos sucessivos afastam pouco a pouco o tema da deixa primitiva e depois os romances em prosa efetuam a fus\u00e3o entre as lendas arturianas e as narrativas do Graal.<\/p>\n<p>Essa mitologia c\u00e9ltica ter-se-ia formado por ocasi\u00e3o da invas\u00e3o sax\u00f4nia (450-510) e ter-se-ia enriquecido posteriormente com a inspira\u00e7\u00e3o vinda do continente. A hist\u00f3ria Britonum, atribu\u00edda a N\u00eanio, foi retomada no s\u00e9culo XII na Hist\u00f3ria Regum Brittaniac de Geoffroi de Monmouth (1137). Wace menciona a T\u00e1vola Redonda no seu Roman de Brut. A origem \u00e9 talvez gaulesa a partir de Kuchwch e 0lwen ou irlandesa como diz Jean Marx baseado no texto dos Mafinogion.<\/p>\n<p>Chr\u00e9tien de Troyes nos legou esse conjunto extraordin\u00e1rio e sobrenatural. H\u00e1bil narrador, aproveitou a tend\u00eancia do povo pelo fabuloso e criou romances de aventuras e de epis\u00f3dios palpitantes. Ao descrever Lancelote \u00e0 procura da, rainha (Le chevalier \u00e0 la charrette), imaginou um her\u00f3i que tendo merecido o amor de sua amante arrisca-se a adormecer numa vida ociosa. Mas Yvain (ou Le chevalier au lion), voltar\u00e1 ao manejo das armas. Erec, o cavaleiro do falc\u00e3o, depois das censuras de sua dama Enide, encontra novamente sua for\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o podendo citar todos os trabalhos relativos a esse ciclo (remetemos o leitor \u00e0 Histoire litt\u00e9raire de la France, t. XXX e XXXI, de Gaston Paris e aos Romans de la Table Ronde, de Paulin Paris), observaremos que o assunto continua a ser o de um jovem cavaleiro desconhecido que, da corte de Artur, levar\u00e1 a bom termo uma aventura tida como impratic\u00e1vel; gra\u00e7as \u00e0s suas qualidades, desposa a jovem que se acha envolvida e que lhe d\u00e1, como dote, um reinado.<\/p>\n<p>Todas essas lendas comportam elementos m\u00edticos, pag\u00e3os, dru\u00eddicos nos quais se envertar\u00e1 uma concep\u00e7\u00e3o m\u00edstica crist\u00e3. Hist\u00f3rias humanas mescladas de hist\u00f3ria sagrada, conjunto que forma a trag\u00e9dia da fraqueza humana cobi\u00e7ando os poderes do esp\u00edrito (o Graal). Este tema se assemelha ao de Fausto; Lancelote ficou sendo o valete de nossas cartas e o uso da torta de reis veio at\u00e9 n\u00f3s. Estudaremos sucessivamente: A demanda do Santo Graal, Merlin, Trist\u00e3o e Isolda.<\/p>\n<p><strong>I. A demanda do Santo Graal<\/strong><\/p>\n<p><b>1. Generalidades<\/b><\/p>\n<p>Para a Idade M\u00e9dia, o Graal \u00e9 a ta\u00e7a de que se serviu Jesus durante a Ceia. Nela, Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia colheu o sangue do Senhor ferido pelo centuri\u00e3o romano Longin. Os genoveses expuseram em 1101, depois da tomada de Cesam\u00e9ia, um prato de vidro, venerado pelo nome de Sacro-Catino. Prato ou vaso, objeto radiante em ouro ou em cristal, o graal tanto pode ser essa esmeralda celeste ou o livro sagrado tal como o evangelho perdido de S\u00e3o Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Esses objetos m\u00e1gicos evocam os dos contos de Mil e uma noites mas no embaralhamento desses temas, a descri\u00e7\u00e3o da cena do cortejo continua primordial. Estudaremos antes de tudo a evolu\u00e7\u00e3o do ciclo.<\/p>\n<p><b>2. Os temas<\/b><\/p>\n<p><strong>a) Chr\u00e9tien de Troyes, Parsifal <\/strong>Chr\u00e9tien de Troyes, natural de Champanha, teve que compor Perceval ou le conte du Graal a pedido de Filipe da Als\u00e1cia, conde da Flandres, noivo da protetora do poeta: Marie de Champanha.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos onde Chr\u00e9tien tirou os seus dados; o texto teria sido escrito entre 1180-1183; Wilmotte diz que foi antes do 14 de maio de 1181. Eis o assunto:<\/p>\n<p>Parsifal \u00e9 criado por sua m\u00e3e num dom\u00ednio solit\u00e1rio Depois de uma aprendizagem bastante rudimentar, recebe a ordem de cavaleiro e liberta Branca Flor ent\u00e3o sitiada. \u00c9 recebido no castelo mist\u00e9rioso, pelo rei-pecador paralisado por uma lan\u00e7ada na coxa. Espectador ing\u00eanuo assiste ao desenrolar de uma estranha cerim\u00f4nia: o anfitri\u00e3o entrega-lhe uma espada.<\/p>\n<p>Um mordomo leva-lhe uma lan\u00e7a toda branca cuja ponta est\u00e1 embebida de sangue; mais longe, uma jovem carrega o graal (c\u00e1lice) de ouro muito puro, guarnecido de pedras preciosas e que difunde uma claridade sobrenatural; depois outra jovem carrega um prato de prata. Parsifal estupefacto cala-se; no dia seguinte, afasta-se do castelo deserto.<\/p>\n<p>Uma jovem ter-lhe-ia revelado que devia perguntar sobre a significa\u00e7\u00e3o da cena; com suas palavras libertadoras teria curado o rei enfermo e o encantamento da regi\u00e3o adormecida e est\u00e9ril teria cessado;<\/p>\n<p>Parsifal recusa ent\u00e3o dormir duas noites seguidas debaixo do mesmo teto. Durante cinco anos realiza as mais perigosas aventuras; esses epis\u00f3dios fabulosos dependem do fant\u00e1stico e s\u00e3o de uma inicia\u00e7\u00e3o ritual cujo verdadeiro sentido nos escapa. Um eremita\u00a0 seu tio\u00a0 aconselha-lhe ent\u00e3o a caridade, a humanidade e lhe transmite uma ora\u00e7\u00e3o secreta que lhe permitir\u00e1, talvez, encontrar o graal.<\/p>\n<p>Assim termina o romance de Chr\u00e9tien, de dez mil e sessenta e um versos octossil\u00e1bicos. Entre os prosseguidores a parte pseudo-Wauchier se estende at\u00e9 o verso 21.916 (edi\u00e7\u00e3o Potvin) e se ocupa de Gauvain. Wauchier de Denain\u00a0 ou um autor an\u00f4nimo\u00a0 trata das propriedades da espada entregue a Parsifal (verso 34.934) e faz da lan\u00e7a uma rel\u00edquia divina. Manessier, em 1225, a pedido de Jeanne de Flandre, termina essa obra: Parsifal torna-se o guardi\u00e3o do Graal (versos 34.934 a 45.379). Muitos outros poetas participam com a sua contribui\u00e7\u00e3o pessoal, tais como Gerbert de Montreuil que comp\u00f4s dezessete mil versos insuficientes para que Parsifal pudesse recolher a sucess\u00e3o do rei-pecador. Ferdinand Lot analisou essas obras (Romania, I. VII, 1931).<\/p>\n<p>Obra enigm\u00e1tica com Chr\u00e9tien, o tema\u00a0 assume uma significa\u00e7\u00e3o m\u00edstica e religiosa. O graal que n\u00e3o era o Graal\u00a0 n\u00e3o era nem uma rel\u00edquia santa, nem um tacho de abund\u00e2ncia; nenhum capel\u00e3o assiste ao desfile da lan\u00e7a que sangra. O tema goza rapidamente de um \u00eaxito prodigioso e inspira outros poetas.<\/p>\n<p><strong>b)<\/strong>\u00a0<strong>Wolfram d Eschenbach et Guiot <\/strong>\u00a0Wolfram d Eschenbach comp\u00f5e Parzival entre 1200 e 1210. Diz ele: Mestre Chr\u00e9tien de Troyes contou essa hist\u00f3ria, alterando-a e Kyot que nos transmitiu o conto verdadeiro irrita-se e com raz\u00e3o. O Proven\u00e7al\u2026 Discutiu-se muito sobre a exist\u00eancia desse poeta Guiot ou Kyot. Para Schreiber e San Marte trata-se de Guiot de Provins, o acre sat\u00edrico da B\u00edblia. Wilmotte pensa no autor de um Miracle de la Vierge (Milagre da Virgem) entre 1150-1180. Ser\u00e1 que Guiot precede Chr\u00e9tien A quest\u00e3o permanece sem solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com Wolfran o cerimonial do desfile se complica, lembrando-nos a coreografia de um ballet. O Graal \u00e9 ent\u00e3o uma pedra santificante dada por Deus a Ad\u00e3o (era a esmeralda frontal de L\u00facifer). Seth, terceiro filho de Ad\u00e3o, obteve licen\u00e7a para entrar no Para\u00edso a fim de retomar a pedra. L\u00e1 ficou quarenta anos n\u00famero da expia\u00e7\u00e3o e esse c\u00e1lice ser\u00e1 entregue por P\u00f4ncio Pilatos a Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia que nele recolheu o Sangue Divino; depois de quarenta anos de pris\u00e3o e depois de Vespasiano haver destru\u00eddo Jerusal\u00e9m, Jos\u00e9, acompanhado por sua irm\u00e3 Enig\u00e9ia e de seu cunhado Bron, se estabeleceu na Gr\u00e3-Bretanha, no pa\u00eds de Hofelise onde constr\u00f3i o castelo Aventureux; a cidade de Corbenic se estendeu em volta.<\/p>\n<p>Pela linhagem de seu sobrinho Josaf\u00e1, ser\u00e1 concebido Galaad.<\/p>\n<p>A ordem misteriosa dos Templeisen \u00e9 encarregada de guardar essa pedra; Parsifal suceder\u00e1 a seu tio Anfortas. Le nouveau Titurel poema de seis mil duzentas e sete estrofes atribu\u00eddo a Albreht de Scharpfenberc (por volta de 1280), adapta para o alem\u00e3o a hist\u00f3ria de Merlin conforme Robert de Boron. A base m\u00edstica do conto se desenvolve; Montsalvage, lugar santo, seria Monts\u00e9gur na Fran\u00e7a ou Montserrat na Espanha.<\/p>\n<p><strong>c)<\/strong>\u00a0<strong>Robert de Boron\u00a0\u00a0<\/strong>\u00a0O Saint-Graal ou Joseph dArimathie \u00e9 uma narrativa curta, de tr\u00eas mil quinhentos e catorze versos e baseada em narrativas ap\u00f3crifas.\u00a0 A lenda de Jos\u00e9 alcan\u00e7ou grande celebridade em Lorraine. Depois do verso 2.357 o autor d\u00e1 livre curso \u00e0 sua fantasia. Esse romance que recebeu a influ\u00eancia das abadias de F\u00e9camp e de Glastonbury e por meio delas, de Gautier Map, foi composto entre 1212-1214 (F. Lot, Romania, 1931; Hoepffner, Lumi\u00e8re du Graal, 1951). Eugene Hucher (1875), Suchier (1892) procuraram a origem de Robert de Boron; de anglo-normando passou-se a consider\u00e1-lo atualmente franco-condado.<\/p>\n<p>O grande m\u00e9rito de Boron \u00e9 haver transformado a lenda fazendo do Graal um s\u00edmbolo da divina gra\u00e7a a qual aspira a alma humana. A tend\u00eancia \u00e9 asc\u00e9tica e corresponde ao ideal mon\u00e1stico cisterciense.<\/p>\n<p>Parsifal em prosa tamb\u00e9m \u00e9 atribu\u00eddo a esse poeta e \u00e9 conhecido por Didot-Parsifal.<\/p>\n<p><strong>d) Gautier Map. A demanda do Santo Graal.\u00a0<\/strong>La queste del Saint-Graal, atribu\u00edda d Gautier Map, teria sido composta entre 1225-1230. Os estudos de Pauphilet (\u00c9tude sur la queste, Champion, 1921) de Etienne Gilson (Romania, L. I. 1925; Vrin, 1932) iam provar a influ\u00eancia cisterciense, a doutrina m\u00edstica de S\u00e3o Bernardo e estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o com Robert de Boron. Parsifal \u00e9 substitu\u00eddo pelo cavaleiro casto Galaad, messias arturiano. O Graal torna-se o s\u00edmbolo de Deus. Neste evangelho aventuroso (Pauphilet), a explora\u00e7\u00e3o terrestre termina com a descoberta de uma revela\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria. Obra espiritual, \u00e9 a hist\u00f3ria de uma alma \u00e0 procura de Deus. Esse conhecimento, com suas divulga\u00e7\u00f5es habilmente graduadas, conduz \u00e0 humildade, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o e \u00e0 compreens\u00e3o. A suprema beatitude, o \u00eaxtase levam Galaad para o c\u00e9u. A Demanda que se ergue veementemente contra o assass\u00ednio, as festas cavaleirescas e os torneios, transformou o cortejo tradicional num of\u00edcio religioso; o Santo Graal se desloca pela for\u00e7a invis\u00edvel de Deus e a missa celebrada em Corbenye \u00e9 dita por Josephes, o primeiro bispo.<\/p>\n<p>Gauvin \u00e9 a imagem do mau cavaleiro. \u00c9 assim que o Lancelot en prose (Lancelote em prosa) impor\u00e1 duras provas a este cavaleiro falho de f\u00e9; o mesmo se d\u00e1 com Bohort.<\/p>\n<p>Lancelote, considerado como o melhor dos cavaleiros, n\u00e3o pode tampouco triunfar. Suas aventuras galantes, seu amor sacr\u00edlego pela rainha tornam-no indigno dessa conquista bem sucedida pelo seu filho Galaad, descendente de Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia por sua m\u00e3e. Esse puro entre os puros termina essa busca do infinito.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 a busca da perfei\u00e7\u00e3o terrestre onde os desejos humanos s\u00e3o satisfeitos:<\/p>\n<p><strong>e) Perlesvaus.\u00a0<\/strong>Perlesvaux, atribu\u00eddo a Manessier (1225-1230) conta a aventura de Parsifal conforme o poema de Chr\u00e9tien. Sob a influ\u00eancia dos monges de Cluny esta obra\u00a0 de menos valor do que a Queste\u00a0 interpreta pela primeira vez a m\u00edstica do sangue divino: o sangue da lan\u00e7a escorre dentro do Santo Graal. Enfim o sil\u00eancio do ne\u00f3fito \u00e9 explicado aqui pelo seu \u00eaxtase no momento da passagem dos objetos sagrados.<\/p>\n<p><b>3. Sucess\u00e3o liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>O ciclo bret\u00e3o \u00e9 novamente trazido \u00e0 moda no s\u00e9culo XVIII pelo conde de Tressan. O entusiasmo rom\u00e2ntico dele se apodera; Wagner o difunde com suas preocupa\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas. Paulin Paris decifra os textos; Gast on Paris os confronta. Oscar Summer estabelece uma not\u00e1vel compila\u00e7\u00e3o: La vulgate Lancelot (Washington, 1909); Douglas Bruce estabelece a bibliografia (The evolution of Arthurian Romance, Baltimore, 1923), completada pelos cuidados da Sociedade internacional arturiana que reside em Paris. As grandes universidades americanas publicam interessantes trabalhos.<\/p>\n<p>Georges Burectud (Lumi\u00e8re du Graal, 1951) estabelece um paralelo entre D. Quixote e o tema do cavaleiro santo, mas sua compara\u00e7\u00e3o entre o Graal e a Divina Garrafa do Pantagruel de Rabelais me parece mais engenhosa. O segredo supremo do Vin de Verit\u00e9 (Vinho da verdade) assemelha-se ao sangue universal; a Santa Fonte que corre conforme a curva de uma espiral logar\u00edtmica (movimento da vida que se enrosca), fornece o vinho desejado e mergulha o conviva num del\u00edrio b\u00e1quico pr\u00f3ximo ao arrebatamento.<\/p>\n<p>Georges Bureaud descobre ainda esse tema em Milosz nos seus poemas dogm\u00e1ticos e metaf\u00edsicos do Sangue universal (Ars Magna, Arcanes); e na obra de P\u00e9ladan, L\u00e9on Bloy, P\u00e9guy o no Ch\u00e2teau d Argol de Julien Gracq.<\/p>\n<p><b>4. Origem<\/b><\/p>\n<p>A origem da lenda tem muitas controv\u00e9rsias. A Mat\u00e9ria da Bretanha \u00e9 para uns insular (Gaston Paris, Histoire Litt\u00e9raire de la France, t. XXX).<\/p>\n<p>Os celtistas alem\u00e3es refutam a transmiss\u00e3o dos temas arturianos por via anglo-normanda e Zimmer se pronuncia a favor de uma origem arm\u00f3rica e n\u00e3o galesa. Esse sistema \u00e9 prosseguido por Foerster e Brugger, contestado por. F. Lot (Romania, XXIV, XXVIII) e por Loth (Kritischer Jahrest bericht, I, 271). Vendryes encontra nesses temas uma sobreviv\u00eancia da literatura c\u00e9ltica (Cahiers do Sud); Max Gilbert e principalmente Jean Marx (La l\u00e9gende arthurienne), mostram que a contribui\u00e7\u00e3o da Bretanha arm\u00f3rica foi muito pobre mas que a literatura galesa introduziu temas admir\u00e1veis. Jean Marx escreveu: Essa lenda arturiana de origem pag\u00e3 e profana ia, de in\u00edcio, sob influ\u00eancias certamente inglesas (Glastonbury), e em seguida francesas (Clairvaux) tomar uma tonalidade cada vez mais crist\u00e3.<\/p>\n<p>Blochet (Les sources orientales de la Divine Com\u00e9die (1901) (As fontes orientais da Divina Com\u00e9dia), mostrava a civiliza\u00e7\u00e3o preponderante da Irlanda que conhecia Biz\u00e2ncio por interm\u00e9dio das rep\u00fablicas italianas.<\/p>\n<p>Todavia, outros pontos permanecem litigiosos: as rela\u00e7\u00f5es entre as obras, a data em que foram feitas, o autor. Apesar do minucioso estudo dos dezesseis manuscritos conservados sobre o Graal, essas quest\u00f5es parecem insol\u00faveis.<\/p>\n<p><b>5. Interpreta\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>Apesar de Jean Blondel haver escrito: Li conte de Br\u00e9taigne sont si vain et plaisant, parece que esses mitos exprimem verdades veladas assimil\u00e1veis pelo iniciado. Sentimos, na obra liter\u00e1ria, surdirem outras interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>a) Interpreta\u00e7\u00f5es astrol\u00f3gicas e naturistas.\u00a0<\/strong>Wolfram preocupava-se com a astrologia. Ora, o nome de Artur seria oriundo de Arthos, isto \u00e9, ours (Ursa) no simbolismo astrol\u00f3gico da constela\u00e7\u00e3o polar. Esse pal\u00e1cio astrol\u00f3gico torna-se o centro do mundo e Gu\u00e9non (Le roi du monde, 1927), imagina os doze signos zod\u00edacos que gravitam em torno do sol como os doze cavaleiros que rodeiam Artur. Saint-Yves evoca a zona zod\u00edaca; nela Lotus P\u00e9ralt\u00e9 encontra os princ\u00edpios dru\u00eddicos de Crom-Lek. Loomis, diante das esculturas da catedral de Modena, evoca tamb\u00e9m a teoria solar.<\/p>\n<p>Miss Jessy L. Weston (Cambridge, 1920) insiste sobre o aspecto ritualista e liga ao vegetal uma interpreta\u00e7\u00e3o pelos \u00f3rg\u00e3os genitais. Observou que os ferimentos atingem as partes viris do rei.<\/p>\n<p><strong>b) interpreta\u00e7\u00f5es tiradas de fontes orientais.\u00a0<\/strong>Georges Dottin aponta na literatura irlandesa, motivos tirados da literatura grega e na sucess\u00e3o das provas aproxima-se das narrativas hindus. Hannah Closs (Lumi\u00e8re du Graal) pensa na lenda de Bagavata Purana. Baseando-se no edif\u00edcio circular e irradiante que \u00e9 o Templo do Graal, pensamos na arquitetura dos templ\u00e1rios id\u00eantica \u00e0 das igrejas arm\u00eanias e \u00e0 dos templos iranianos.<\/p>\n<p>Otto Rahn localiza o castelo Aventureux em Monts\u00e9gur outros em Glastonbury\u00a0 e Hannah Closs, pela descoberta de cer\u00e2micas que a\u00ed se fez, pensa no manique\u00edsmo. Gu\u00e9non, (Le roi du monde) estabelece rela\u00e7\u00e3o entre o Sangue Divino beberagem da imortalidade e o Soma dos hindus ou o Haoma dos persas; depois compara a esmeralda ca\u00edda da fronte de L\u00facifer que tornou-se a ta\u00e7a\u00a0 a Urna, p\u00e9rola frontal e terceiro olho de Civa.<\/p>\n<p>Chr\u00e9tien menciona o gavi\u00e3o, representa\u00e7\u00e3o oculta da consci\u00eancia; ora, o gavi\u00e3o simboliza o grande Horo eg\u00edpcio.<\/p>\n<p>Finalmente, como na f\u00e1bula antiga, os animais exprimem as paix\u00f5es dos homens, e a cada animal liga-se um simbolismo.<\/p>\n<p><strong>c) Interpreta\u00e7\u00e3o religiosa.\u00a0<\/strong>Essa obra m\u00edstica tornou-se finalmente a glorifica\u00e7\u00e3o do sacramento eucar\u00edstico. Os evangelhos ap\u00f3crifos vindos de Biz\u00e2ncio\u00a0 e principalmente o Apocalipse, apontam esse tema (observemos os algarismos rituais 3, 7, 12 e a cor branca). O homem se liberta da fatalidade antiga e prostra-se diante do mist\u00e9rio da reden\u00e7\u00e3o. Chr\u00e9tien considera os acontecimentos hist\u00f3ricos (transporte da galheta com o Santo-Sangue a Bruges por Thierry d Alsace; descoberta da Santa-Lan\u00e7a em Antioquia.); a carne se submete \u00e0 alma e a alma, ao esp\u00edrito. O her\u00f3i da Queste\u00a0 primeiro livro filos\u00f3fico seria a representa\u00e7\u00e3o m\u00edstica do Cristo. Mas Jean Marx (La l\u00e9gende arthurierine) mostra que a igreja n\u00e3o adotou a aventura do Graal que continua sendo obra de um sacrist\u00e3o inspirado pela doutrina espiritual de S\u00e3o Bernardo. Se a Igreja se houvesse apoderado dessa lenda, os textos teriam sido conservados nos mosteiros; mas guardados nas bibliotecas dos nobres, perderam-se em parte. A Igreja, lembrando-se dessa origem pag\u00e3, n\u00e3o lhe deu muito lugar na representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Otto Rahn (Croisade contre le Graal (Cruzada contra o Graal), Stock conclui que foi contra o Graal que se mobilizou a cruz por ocasi\u00e3o da cruzada albigense.<\/p>\n<p>Lotus P\u00e9ralt\u00e9 (L\u00e9sot\u00e9risme de Parsifal (O esoterismo de Parsifal, Perrin, 1914), diz que o princ\u00edpio dru\u00eddico \u00e9 vis\u00edvel na Queste. Todavia, ignora-se quase tudo sobre as grandes comunidades visitadas por S\u00e3o Patr\u00edcio no s\u00e9culo IV, ficando o pa\u00eds de Gales ao abrigo das influ\u00eancias estrangeiras.<\/p>\n<p>O prolongamento do druidismo foi encontrado no s\u00e9culo XII na igreja culdeana e seu ensinamento \u00e9 b\u00e1sico na institui\u00e7\u00e3o da igreja de Roma.<\/p>\n<p><strong>d) Interpreta\u00e7\u00e3o esot\u00e9rica<\/strong><\/p>\n<p><strong>1) Generalidades.\u00a0<\/strong>Valores esot\u00e9ricos e inici\u00e1ticos podem se sobrepor ao sentido exterior. Ren\u00e9 Guenon (Esot\u00e9risme du Graal (Esoterismo do Graal) observa que esse simbolismo \u00e9 disfar\u00e7ado e que as d\u00favidas, as contradi\u00e7\u00f5es aparentes t\u00eam talvez por objetivo desviar a aten\u00e7\u00e3o dos profanos. Teriam sido os autores iniciados N\u00e3o saber\u00edamos responder; mas a organiza\u00e7\u00e3o inici\u00e1tica presente dru\u00eddica e depois crist\u00e3 n\u00e3o quis que a lenda se tornasse um ritual de inicia\u00e7\u00e3o ou de vulgariza\u00e7\u00e3o. A perda do Graal parece ser o obscurecimento do centro espiritual secund\u00e1rio e a inicia\u00e7\u00e3o deve fazer com que seja encontrado.<\/p>\n<p>Victor-Emile Michelet: Les secrets de la chevalerie (Os segredos da cavalaria, Bosse, 1928), busca o simbolismo na forma da T\u00e1vola redonda com os druidas, quadrada com Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia, o arcano subsiste para a da Ceia que Leonardo da Vinci representou sob a forma de um ret\u00e2ngulo oblongo. Percebe-se um significado nesses s\u00edmbolos e pensa-se em Gauvain que leva o pent\u00e1culo do Tarot.<\/p>\n<p>A cor preta na indument\u00e1ria de certos cavaleiros isenta-os de uma influ\u00eancia mals\u00e3; \u00e9 o pent\u00e1culo m\u00e1gico.<\/p>\n<p>A Igreja esot\u00e9rica revela dessa forma um dos aspectos da sua face interior, o esoterismo. Esses caracteres encontram-se em Dante e no Romance da rosa.<\/p>\n<p><strong>2) 0 centro supremo.\u00a0<\/strong>Para Gu\u00e9non (Le roi du monde (O rei do mundo, 1927), Graal quer dizer ao mesmo tempo vaso (grasale) e livro (gradale ou graduale); Monsalvat o monte da Salva\u00e7\u00e3o ilha sagrada ou montanha polar, terra da imortalidade que se identifica com o Para\u00edso Terrestre. A lan\u00e7a torna-se o eixo do mundo e o sangue que dela prov\u00e9m \u00e9 o orvalho que se emana da \u00c1rvore da Vida.<\/p>\n<p>Artur \u00e9 raptado em Avallon, ilha hiperb\u00f3rea, sede da realeza e da dinastia dos padres Jean; esse Para\u00edso Terrestre \u00e9 ainda, simbolicamente, designado pela \u00cdndia.<\/p>\n<p>Julius Evola diz que o pa\u00eds do Graal n\u00e3o \u00e9 a Inglaterra mas sim o centro n\u00f3rdico primordial, Thul\u00e9. Evola pensa tamb\u00e9m na ordem dos Templ\u00e1rios, cujos \u00faltimos representantes, os Rosa-Cruz, conservam o mito da citadela solar.<\/p>\n<p>Gu\u00e9non imagina a representa\u00e7\u00e3o do centro do mundo no princ\u00edpio central de Omphalos e que \u00e9 tamb\u00e9m o centro de uma roda. Sua representa\u00e7\u00e3o material continua a ser a pedra sagrada\u00a0 o menir\u00a0 para os celtas\u00a0 morada da Divindade. A Irlanda fornece grande n\u00famero de dados relativos a Omphalos. Gu\u00e9non, observa, enfim, a equival\u00eancia simb\u00f3lica existente entre o crescente, o navio e a ta\u00e7a; eis porque o Graal \u00e9 designado pelo nome de Santo Vaso.<\/p>\n<p><strong>3) 0 poder oculto do sangue.\u00a0<\/strong>Chr\u00e9tien teria pretendido traduzir exotericamente uma lenda esot\u00e9rica na qual o sangue continua a ser um poder oculto excelente pela sua figura\u00e7\u00e3o misteriosa. Base de todo o princ\u00edpio vital \u00e9 o arcano da profecia, da evoca\u00e7\u00e3o, dos batismos em certos mist\u00e9rios. Marca a descend\u00eancia heredit\u00e1ria e pelo seu princ\u00edpio racial a desigualdade no casamento, o adult\u00e9rio, s\u00e3o punidos com a morte. Essa pureza de sangue \u00e9 a virtude do indiv\u00edduo, do cl\u00e3, da na\u00e7\u00e3o, da ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Para Chr\u00e9tien, o sangue sublinha a alvura do cisne moribundo, esse cisne, s\u00edmbolo da pureza, que est\u00e1 no limiar da primeira inicia\u00e7\u00e3o. O sangue est\u00e1 ainda presente no ferimento do rei pecador: leva em si todos os desejos violentos da carne. O problema do sangue, licor solar, for\u00e7a impulsiva, vontade c\u00f3smica foi mencionado por Th\u00e9ophile Briant (Le Go\u00e9land, dez. 1953).<\/p>\n<p>Mas talvez seja tamb\u00e9m a sede da alma. A presen\u00e7a do arcano nas cerim\u00f4nias religiosas \u00e9 a base dessa demanda do Graal que continua v\u00e1lida para todos n\u00f3s. 4) 0 rito da inicia\u00e7\u00e3o Elie Lebasquais (\u00c9tudes traditionnelles, 1939), \u00e9 de opini\u00e3o que A demanda do Santo Graal, Fausto, Rolando, s\u00e3o rituais de inicia\u00e7\u00e3o da mesma categoria que O Pequeno Polegar. O her\u00f3i, para chegar ao estado superior, busca um personagem, um tesouro ou um objeto m\u00e1gico. No simbolismo de Hiram, tr\u00eas mestres procuram os restos do Grande Arquiteto. Esses ritos proviriam de tradi\u00e7\u00f5es antigas, de formas tradicionais desaparecidas, conservadas pela mem\u00f3ria coletiva mais ou menos subconsciente do povo (Guenon). Essa inicia\u00e7\u00e3o visaria aqui a conquista de estados sobre-humanos.<\/p>\n<p><strong>5) A alquimia e a cavalaria.\u00a0<\/strong>Na linguagem secreta a pedra filosofal representa a salva\u00e7\u00e3o; o ouro nada mais \u00e9 do que o hier\u00f3glifo da espiritualidade e das for\u00e7as ps\u00edquicas de Deus. A demanda \u00e9 ent\u00e3o uma busca semelhante \u00e0 dos alquimistas que eram fil\u00f3sofos herm\u00e9ticos; citemos Alberto, o Grande, Roger Bacon, S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, Nicolas Flamel.<\/p>\n<p>O arcano \u00e9 a base da ordem da cavalaria\u00a0 que deu origem ao companheirismo oper\u00e1rio\u00a0 e \u00e0 arte her\u00e1ldica. O bras\u00e3o \u00e9 a chave da hist\u00f3ria da Fran\u00e7a, diz G\u00e9rard de Nerval. Nessa cavalaria hist\u00f3rica, os Templ\u00e1rios foram os guardi\u00e3es do Baphomet; os cavaleiros errantes eram atacados pelos drag\u00f5es, s\u00edmbolos do guarda da entrada, ou pelo le\u00e3o animal solar, alegoria da paix\u00e3o interior.<\/p>\n<p>O alquimismo \u00e9 a conseq\u00fc\u00eancia final dessa cavalaria m\u00e1gica e essa viagem de aventuras de uma epop\u00e9ia religiosa e cient\u00edfica \u00e9 a mesma que a da Demanda do Santo Graal.<\/p>\n<p><strong>II. \u2013 Merlin<\/strong><\/p>\n<p>Personagem lend\u00e1rio, Merlin em c\u00e9ltico Myrddhin, em armoricano Marzin\u00a0 foi poeta, profeta e m\u00e1gico. Companheiro do rei Artur, estabeleceu a T\u00e1vola redonda e seu nome fica ligado \u00e0 demanda do Santo Graal.<\/p>\n<p><b>1. Textos liter\u00e1rios<\/b><\/p>\n<p><strong>a) A cr\u00f4nica latina.\u00a0<\/strong>Na Cr\u00f4nica latina, atribu\u00edda a M\u00f4nio (fim do s\u00e9culo X), v\u00ea-se o rei bret\u00e3o Wortingem abandonado pelos seus devido \u00e0 sua crueldade. Desejoso de uma fortaleza que n\u00e3o pudesse ser tomada, os m\u00e1gicos aconselham-no a regar o solo com o sangue de uma crian\u00e7a nascida sem pai. Merlin\u00a0 nomeado Ambr\u00f3sio\u00a0 confunde o rei com suas respostas prof\u00e9ticas e salva assim a sua vida.<strong><br \/>\nb) Geoffroy de Monmouth.\u00a0<\/strong>Em aproximadamente 1135 Geoffroy de Monmouth d\u00e1 um car\u00e1ter cavaleiresco, cort\u00eas e hist\u00f3rico \u00e0 lenda de M\u00eanio. A pedido de Alexandre, bispo de Lincoln, redige as Profecias (Atribu\u00eddas a Merlin) e depois a Vita Merlini.<strong><br \/>\nc) Robert de Boron.\u00a0<\/strong>Esse autor inclui o nome de Merlin \u00e0 lenda do Graal. Sua trilogia comporta um poema sobre Merlin que institui a Ordem da T\u00e1vola redonda (Brut de Wace mencionava a T\u00e1vola redonda em 1155). Merlin \u00e9 o her\u00f3i de uma epop\u00e9ia espiritual.<strong><br \/>\nd) Os continuadores.\u00a0<\/strong>O simbolismo desaparece e a profecia torna-se um meio liter\u00e1rio. Merlin aparece em numerosos romances (Claris et Loris). O Ariosto, Cervantes (Don Quixote, II, 21), Rabelais, Shakespeare (O rei Lear, III, 11), observam esse personagem que inspirou Gluck (A ilha de Merlin, Viena, 1758). Para K. L. Immermann (Merlin, 1832) \u00e9 um Fausto crist\u00e3o; Heine por ele se interessa (1835) bem como Tennyson (Vivien, 1859, 0 Santo Graal, 1870), e Edgar Quinet (Merlin lenchanteur, 1860). Apollinaire escreveu Lenchanteur pourrissant (1909), Cocteau, Les chevaliers de la Table ronde e Aragon Broc\u00ealiande (Cahiers du Rh\u00f4ne, 1942). Contudo, a lenda de Merlin parece estar a caminho da extin\u00e7\u00e3o.<strong><br \/>\ne) As cr\u00edticas.\u00a0<\/strong>Depois dos estudos de B\u00e2le (1559), Buchanan (1590), David Powel (1603), \u00e9 preciso esperar a de Walter Scott (1638) para tocar realmente o assunto (The Ministrelsy). Francisque Michel e Thomas Wright (1837), tentaram uma s\u00edntese cr\u00edtica. Depois de Saint-Aignan (1921), de Eschevann\u00e9s (1935), Paul Zumthor apresentou, em 1943, uma tese \u00e0 Universidade de Genebra com uma bibliografia muito completa.<\/p>\n<p><b>2. S\u00edmbolo da lenda<\/b><\/p>\n<p><strong>a) Origem de Merlin.\u00a0<\/strong>O nascimento desse Proteu da Idade M\u00e9dia \u00e9 muito obscuro. De acordo com Robert Boron, o diabo seduziu uma virgem; Merlin, com sua palavra eloq\u00fcente faz com que sua m\u00e3e, tornada respons\u00e1vel por esse estranho nascimento, seja absolvida. Eis a lenda de Ambr\u00f3sio cujo tema \u00e9 o de Robert de diable.<\/p>\n<p>Para La Villemarqu\u00e9 a m\u00e3e de Merlin teria sido uma princesa que, penetrando num bosque atra\u00edda pelo canto de um p\u00e1ssaro, adormeceu e a crian\u00e7a que nascer\u00e1 de modo t\u00e3o sobrenatural e po\u00e9tico, falar\u00e1 imediatamente. Sup\u00f5e-se tamb\u00e9m que seja um personagem real, um burdo gal\u00eas ou da Cornualha do s\u00e9culo VI; ou um deus gaul\u00eas, parente de Merc\u00fario, Merddyn cujo nome vem da raiz Mercs encontrada em Merc\u00fario.<\/p>\n<p><strong>b) A a\u00e7\u00e3o de Merlin.\u00a0<\/strong>Mestre do Heptac\u00f3rdio formulou as regras que regiam os cavaleiros da T\u00e1vola redonda; dirige as batalhas e sua harpa encanta os poderes hostis; comanda os dem\u00f4nios, encanta as fadas.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio mais dram\u00e1tico continua a ser o do seu amor por Viviana. Todo-poderoso, deseja que essa mulher o procure livremente; mas o temor de Viviana torna-se odioso. Merlin transformou-se no profeta vencido pelo amor e o encantamento feminino.<\/p>\n<p><strong>c) Evolu\u00e7\u00e3o do personagem.\u00a0<\/strong>Profeta, Merlin n\u00e3o \u00e9 o mestre de uma alquimia misteriosa; torna-se a seguir o fascinador. O papel de Merlin ao lado dos cavaleiros arturianos permanece, entretanto, epis\u00f3dico. Seu simbolismo corresponde \u00e0s nossas exig\u00eancias pessoais e finalmente nada mais \u00e9 do que uma significa\u00e7\u00e3o po\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>III. Trist\u00e3o e Isolda<\/strong><\/p>\n<p>Esse par imortal influenciou in\u00fameros epis\u00f3dios do ciclo arturiano. \u00c9 a epop\u00e9ia do amor que se prolonga al\u00e9m da morte.<\/p>\n<p><b>1. O tema<\/b><\/p>\n<p>Trist\u00e3o de Loonois \u00e9 criado por seu tio Marc, rei da Cornualha. Ferido pela espada envenenada do Morhout da Irlanda, a quem mata, Trist\u00e3o se faz tratar pela irm\u00e3 do monstro, a rainha da Irlanda, cuja filha \u00e9 Isolda. Mais tarde, em nome de seu tio, Trist\u00e3o pede a m\u00e3o de Isolda e dessa forma reconcilia os dois pa\u00edses inimigos. Por\u00e9m, durante a travessia, os dois jovens bebem um filtro de amor. Unidos pela paix\u00e3o, tra\u00eddos pelos que os circundavam, banidos por Marc, os dois amantes vivem na floresta de Morois; o rei perdoa-os; Trist\u00e3o deixa Cornualha e esposa uma segunda Isolda. Ferido, pede \u00e0 sua loura amiga para trat\u00e1-lo: um v\u00e9u branco anunciar\u00e1 sua chegada, um v\u00e9u preto sua recusa. A segunda Isolda, por ci\u00fames anuncia um v\u00e9u preto. Trist\u00e3o morre. Isolda chega e sucumbe ao lado do seu amante. O rei Marc, conhecendo a causa de sua paix\u00e3o, perdoa e honra a sua mem\u00f3ria. A loucura de Trist\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio desse tema e a s\u00edntese do romance. Trist\u00e3o, disfar\u00e7ado em louco, quer rever Isolda.<\/p>\n<p>As alus\u00f5es feitas aos seus amores s\u00e3o ousadas e formam um resumo assaz rico da lenda; a evoca\u00e7\u00e3o de suas aventuras \u00e9 a parte essencial do poema.<\/p>\n<p><b>2. As fontes<\/b><\/p>\n<p>Os romances de Chr\u00e9tien de Troyes e de La Ch\u00e8vre n\u00e3o chegaram at\u00e9 n\u00f3s. O texto de B\u00e9roul (1165-1170) conserva quatro mil, quatrocentos e oitenta e cinco versos (publicados por Muret, 1904 manuscrito de Beme); o manuscrito do anglo-normando Thomas tem s\u00f3 tr\u00eas mil, cento e quarenta e quatro versos (dos dezenove mil) (publicados por. J. B\u00e9dier, 1903 e 1905; manuscrito de Oxford).<\/p>\n<p>A loucura de Trist\u00e3o (manuscrito de Oxford) acompanha de muito perto o poema de Thomas (tradu\u00e7\u00e3o de Joseph B\u00e9dier, 1907). Os poemas de Eilhart dOberg e de Godofredo de Estrasburgo, os mil e quinhentos versos de um an\u00f4nimo permitem a reconstitui\u00e7\u00e3o desse conjunto.<\/p>\n<p>Para Andr\u00e9 Mary (Tristan, N. R. F., 1941), a obra seria proveniente de jovens sacrist\u00e3os letrados de l\u00edngua francesa, que conheciam as lendas da Gr\u00e9cia (Teseu, o rei Midas) e que tinham lido Ov\u00eddio e Virg\u00edlio Pode-se discernir o elemento m\u00edtico no maravilhoso do filtro e na natureza do her\u00f3i vencedor de monstros. Esse tema se encontra na Irlanda e Joseph Loth est\u00e1 inclinado por uma vers\u00e3o galesa.<\/p>\n<p><b>3. A obra liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Godofredo de Estrasburqo prosseguiu o tema de Thomas e influenciou Friberg. Hans Sachs, dele tirou sua trag\u00e9dia (1553). 0 onde de Tressan recolhe a lenda no s\u00e9culo XVIII e os rom\u00e2nticos o enalteceram. Schlegel (1800), R\u00fcckert (1839); Walter Scott (1811), Immermann (1839) compuseram poemas. Hermann Kurtz (1844) e depois Simrock (1855) estabelecem em alem\u00e3o moderno o texto de Godofredo Hertz completa essa tradu\u00e7\u00e3o com a an\u00e1lise do texto de Thomas. Francisque Michel re\u00fane os textos ingleses e normandos.<\/p>\n<p>O drama musical de Wagner escrito entre 1857. e 1859 \u00e9 interpretado em Munique em 1869 e em Paris em 1899. 0 assunto ainda \u00e9 encontrado com Joseph Weilen (Breslau, 1860), L Schneegans (Leipzig, 1865), Carl Robert (Berlim, 1871) ou no Le lai du ch\u00e8vrefeuille de Marie de France.<\/p>\n<p>O filme de Cocteau (L\u00e9ternel retour) pela beleza est\u00e1tica de suas imagens lembra os Visiteurs du soir de Carn\u00e9 no qual o amor de duas criaturas triunfar\u00e1 das ciladas e da ira do diabo.<\/p>\n<p><b>4. Sobre alguns amantes eternos<\/b><\/p>\n<p>Vem-nos \u00e0 mem\u00f3ria Romeu e Julieta, Dafne e Clo\u00e9, Paulo e Virginia, Manon e o cavaleiro dos Grieux, Fedro e Hip\u00f3lito. Por\u00e9m as desgra\u00e7as de um par bem real, Helo\u00edsa e Abelardo s\u00e3o ainda mais tristes.<\/p>\n<p><b>5. Simbolismo da lenda<\/b><\/p>\n<p>Isolda permanece virgem no adult\u00e9rio; engana o bom rei sem remorso aparente e essa mulher, apesar de tudo, continua simp\u00e1tica. Vemos com indulg\u00eancia esses amantes que, mais do que os outros, s\u00e3o submetidos \u00e0 fatalidade. As p\u00e1ginas que relatam seus amores reprov\u00e1veis tornam-se assim pat\u00e9ticas. A simplicidade primitiva do conto eleva, acima de todas as leis, essa epop\u00e9ia do amor.<\/p>\n<p>A velha magia c\u00e9ltica est\u00e1 presente nesse filtro que implica a fatalidade do amor e cria esse liame misteriosamente indissol\u00favel. O amor, essa polaridade magn\u00e9tica\u00a0 polaridade devida a Deus, pois Eva, o superior feminino, vem de Ad\u00e3o andr\u00f3gino e \u00e9 sua sensibilidade volitiva o que significa a separa\u00e7\u00e3o do ente em dois p\u00f3los, o negativo e positivo\u00a0 explica-se pelos efeitos da bebida. Por\u00e9m Jean Marx (La l\u00e9gende arthurienne) v\u00ea em tudo isso a representa\u00e7\u00e3o do geis imposto pela mulher ao seu apaixonado. Eis a raz\u00e3o por que essa lenda est\u00e1 sujeita ao fatalismo e \u00e0 melancolia.<\/p>\n<p>Em conclus\u00e3o, o ciclo arturiano com sua maravilhosa Demanda do Santo Graal \u00e9 a confirma\u00e7\u00e3o de um longo itiner\u00e1rio po\u00e9tico e espiritual. O esoterismo do Graal \u00e9 ineg\u00e1vel, e se revela nessa transmutac\u00e3o de uma f\u00e1bula predestinada num s\u00edmbolo crist\u00e3o. Exegese teol\u00f3gica e m\u00edstica, esse tributo medieval \u00e9 rico em ensinamentos e nunca morrer\u00e1, pois sempre surgir\u00e3o dele novas interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO V \u2013 O MARAVILHOSO DA LENDA<\/strong><\/p>\n<p><b>I Garg\u00e2ntua<\/b><\/p>\n<p>Garg\u00e2ntua evoca Rabelais. Contudo Eloi Johanneau (Variorum, t. I, p\u00e1g. 37), Ph. Chasles (Tableau de la litt\u00e9rature fran\u00e7aise, 1829), J. Grimm (Mythologie allemande, 1837), pensam numa tradi\u00e7\u00e3o antiga. Rabelais criou um her\u00f3i nacional cujo nome expressivo tornou-se uma imagem popular.<\/p>\n<p><b>1. Origem<\/b><\/p>\n<p>H. Gaidoz (Revue arch\u00e9ologique, set. de 1868), baseando-se na radical da palavra gar v\u00ea nessa radical uma divindade; o deus da luz Garuda ter-se-ia tornado o H\u00e9rcules gaul\u00eas.<\/p>\n<p>Esse principio dru\u00eddico estaria ainda presente no seu culto das pedras.<\/p>\n<p>Por\u00e9m os gigantes s\u00e3o conhecidos; e o nome de Garg\u00e2ntua figura na L\u00e9gende de maistre Pierre Paileu de Charles Bourdign\u00e9 (1526). Tiel Ulespi\u00e8gle legou a palavra espi\u00e8gle mas esse farsante ins\u00edpido e sem esp\u00edrito, comparado com Panurge, n\u00e3o tem nem a sua sutileza nem a dicacidado. Rabelais teria se inspirado na Histoire maccaronique de Merlin Cocaie (Hist\u00f3ria macarr\u00f4nica de Merlin Cocaie). Com efeito, o epis\u00f3dio dos carneiros \u00e9 tamb\u00e9m encontrado no primeiro.<\/p>\n<p><b>2. Os gigantes<\/b><\/p>\n<p>Como os elfos, os an\u00e3os ou os ciclopes, os gigantes s\u00e3o a personifica\u00e7\u00e3o dos grandes fen\u00f4menos (furac\u00f5es. esta\u00e7\u00f5es, geadas\u2026); quase deuses: Thrym rouba o martelo do deus Thor; Mimir, o gigante das \u00e1guas, aconselha Odin. S\u00e3o entes poderosos: Egir \u00e9 o senhor dos mares e sua esposa Ran captura os navegadores.<\/p>\n<p>Para a Igreja cat\u00f3lica, o gigante substitui o diabo. Em 1100 os elementos pag\u00e3os e crist\u00e3os se misturam; o povo aceita o cristianismo sem contudo rejeitar as cren\u00e7as tradicionais.<\/p>\n<p>E desta forma que Geoffroi de Monmouth faz evoluir Gurgunt em sua epop\u00e9ia bret\u00e3 retomada por Wace (Roman de Brut, 1155).<\/p>\n<p><b>3. A obra de Rabelais<\/b><\/p>\n<p>Depois do \u00eaxito das Grandes et inestimables chroniques de l \u00e9norme g\u00e9ant Gargantua (Grandes e inestim\u00e1veis cr\u00f4nicas do enorme gigante Garg\u00e2ntua) (1532) devidas talvez a Billon d Issoudun Rabelais edita Les horribles et \u00e9pouvantables fa\u00edts et prouesses du tr\u00e8s renomm\u00e9 Pantagruel (Os horr\u00edveis e espantosos feitos e proezas do mui renomado Pantagruel) na editora Claude Nourry, conhecido por Le Prince (3 nov., 1532); o livro \u00e9 assinado Alcofribas Nosier; o Almanach pantagrueline pronostication aparece em 1533 (Li\u00e3o, Fran\u00e7ois Juste).<\/p>\n<p>A Faculdade de Teologia condena o Pantagruel em 23 de outubro de 1533. Por\u00e9m, Rabelais, como m\u00e9dico, acompanha o bispo de Paris, Jean de Bellay, que parte para Roma onde vai pleitear os interesses de Henrique VIII excomungado por haver esposado Ana Bolena (1534). Com essa prote\u00e7\u00e3o Rabelais publica, em 1534, seu Garg\u00e2ntua (edi\u00e7\u00e3o definitiva, 1542, Li\u00e3o, Fran\u00e7ois Juste). Le tiers livre (1546), de gosto mais rebuscado, exp\u00f5e a quest\u00e3o do casamento, Le quart livre (Li\u00e3o, 1549) narra as buscas da Dive Bouteille. e da passagem do Noroeste.<\/p>\n<p><b>4. Valor dessa obra<\/b><\/p>\n<p>Os romances de Rabelais tiveram imensa popularidade. S\u00e3o os livros de um erudito que, de maneira divertida, num estilo falado, cont\u00eam alus\u00f5es pol\u00edticas e religiosas.<\/p>\n<p>Garg\u00e2ntua \u00e9 um preito em favor do Renascimento e da Reforma. Apesar de Rabelais ser prudente, de pregar sem falar demais, percebe-se nele o pensamento de Erasmo, c\u00e9lebre pelo seu Institution du prince chr\u00e9tien.<\/p>\n<p>Rabelais tamb\u00e9m foi um iniciado.<\/p>\n<p>Saulnier (Mercure de France, 1-4-1954) mostrou que essa filosofia do beber era o s\u00edmbolo de uma busca da sabedoria. O festim perante Chaneph \u00e9 erguido com alus\u00f5es \u00e0 Ceia e faz pensar na Comunh\u00e3o Eucar\u00edstica.<\/p>\n<p>Les grandes et inestimables chroniques (1532) teriam inspirado Rabelais. Ora, nelas encontramos novamente o m\u00e1gico Merlin, que d\u00e1 origem aos pais de Garg\u00e2ntua, futuro servidor do rei Artur.<\/p>\n<p>\u00c9 talvez a\u00ed que se deve buscar a analogia que notamos entre a busca da Dive Bouteille e alguns epis\u00f3dios do Santo Graal.<\/p>\n<p>Na verdade a obra de Rabelais, de inten\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica, continua profundamente esot\u00e9rica com seu simbolismo aparente.<\/p>\n<p><b>5. A sucess\u00e3o liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Rabelais foi muito imitado. Os livros transportados pelos bufarinheiros referem-se, em geral, \u00e0s Grandes e inestimables chroniques de 1532: \u00e9 o caso de Deckherr em Montb\u00e9liard, de Plac\u00e9 em Tours, de Pellerin em Epinal ou de Oudot em Troyes.<\/p>\n<p>Mas Garg\u00e2ntua denominado tamb\u00e9m o Judeu Errante\u00a0 passeou por todas as regi\u00f5es. Modelou o solo, formando lagos, c\u00f3rregos e deixando montes de lodo que s\u00e3o verdadeiras montanhas.<\/p>\n<p>Uma cr\u00f4nica do s\u00e9culo XVI diz que ele a engendr\u00e9 le fleuve du rosne en pis<\/p>\n<p>Les Traditions populaires, 1883) (As tradi\u00e7\u00f5es populares), e por Carnoy (Contes fran\u00e7ais, 1885).<\/p>\n<p><strong>II. O Judeu Errante<\/strong><\/p>\n<p>O judeu Isaac Lequedem da tribo de Levi, denominado tamb\u00e9m Ahasvero\u00a0 Sapateiro\u00a0 recusou qualquer socorro a Jesus supliciado. Por essa falta de caridade, caminhar\u00e1 at\u00e9 o ju\u00edzo final conforme a maldi\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p><b>1. Cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Em 1228, um arcebispo da Grande Arm\u00eania, ao visitar o mosteiro de Saint-Alban, narrou a lenda de Jos\u00e9\u00a0 ou Cartafilo porteiro do pret\u00f3rio, que bateu em Jesus e foi condenado a esperar a volta do Senhor. Caindo, de cem em cem anos, em letargia, recupera sua apar\u00eancia corporal do tempo da paix\u00e3o (trinta anos). O arcebispo diz ter almo\u00e7ado com Jos\u00e9. Mathieu Paris, recolhe a lenda e registra-a, em 1252, na sua Hist\u00f3ria Major; Philippe Mousket, bispo de Tournai, menciona o mesmo epis\u00f3dio na sua Chronique rim\u00e9e (em aproximadamente 1243).<\/p>\n<p>Entretanto, essa lenda n\u00e3o aparece no folclore arm\u00eanio.<\/p>\n<p>Gaston Paris (L\u00e9gendes du Moyen Age, 1912), observa que Cartafilo devia ser romano e n\u00e3o judeu pois que foi empregado por Pilatos.<\/p>\n<p>A. d&#8217;Ancona mostrou (Romania, t. X e XII) que o personagem obsedava a imagina\u00e7\u00e3o da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p><b>2. Evolu\u00e7\u00e3o da lenda<\/b><\/p>\n<p>Uma carta em alem\u00e3o, datada de 29 de junho de 1564 afirma que Paul d Eitzen, doutor em teologia e bispo de Scheleszving, encontrou o Judeu errante em Hamburgo em 1542. 0 redator alem\u00e3o, protestante, teve que se servir desse nome para autentificar uma narra\u00e7\u00e3o lend\u00e1ria. A narra\u00e7\u00e3o de Chrysostornus Duduloeus Westphalus (Leyde, 1602), teve numerosas reedi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 1575 esse erradio \u00e9 encontrado na Espanha; apresenta-se aos Magistrados de Estrasburgo; Pierre Louvet o v\u00ea em Beauvais (1614). 0 advogado Bouthrays, na Histoire de son temps (t. II, XI, 1604), observa que toda a Europa se\u00a0 ocupa com esse personagem que inspira as artes. Depois da .publica\u00e7\u00e3o em Bord\u00e9us dos Discours du v\u00e9ritable Juif Errant (Discursos do verdadeiro Judeu Errante) (1609), as cartas de Pr\u00e9tendu Espion Turc (Pretenso espi\u00e3o turco) torna-se Michob-Ader (Paris, 1680).<\/p>\n<p><b>3. Origem liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Gaston Paris pensa em Caim, o erradio fugitivo, em Samiri que foi condenado por Mois\u00e9s a caminhar sem descanso por ter adorado um bezerro de ouro. Malc, que esbofeteou o Cristo com sua luva de ferro e gira em torno de uma coluna at\u00e9 o ju\u00edzo final. Mas a lenda mais not\u00e1vel parece ser a de Jean Boutedieu, conhecida pelas cruzadas estabelecidas na S\u00edria.<\/p>\n<p>\u00c9 encontrada nos mist\u00e9rios proven\u00e7ais, na can\u00e7\u00e3o de gesta de Fierabras (Ferrabras) na qual o leproso Marcos bate Jesus e na Espanha sob o nome de Juan Espera-en-Dios. Philippe de Novare anotou-o no seu Livre en forme de plait (1250).<\/p>\n<p><b>4. Evolu\u00e7\u00e3o do personagem<\/b><\/p>\n<p>Disc\u00edpulo bem-amado ou culpado? S\u00e3o Jo\u00e3o, bem como Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia s\u00e3o imortais e entretanto o crist\u00e3o espera apenas a gra\u00e7a do c\u00e9u. A vida tranq\u00fcila de Cartafilo sucede a vida errante de Ahasvero.<\/p>\n<p>Mas o erradio p\u00e1ra nas vilas, professa, toma assento \u00e0 mesa de Paul d Eitzen. Esses dois homens s\u00e3o t\u00e3o diferentes que Droschen (Iena, 1668), Frantzel e uma brochura de 1645 s\u00e3o de opini\u00e3o de que existem dois testemunhos da paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em aproximadamente 1800, o judeu errante n\u00e3o pode mais parar; possui apenas 5 soldos no bolso que se renovam \u00e0 medida que os vai gastando. \u00c9 um timorato. Goethe pensa em tratar dessa lenda, mas Fausto, que tamb\u00e9m pode renascer, \u00e9 muito mais humano.<\/p>\n<p><b>5. A sucess\u00e3o liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Depois das obras an\u00f4nimas, as edi\u00e7\u00f5es tais como La chanson de B\u00e9ranger, a \u00f3pera de Scribe e Saint-Georges com a m\u00fasica de Halevy. G\u00e9rard de Ner vai traduziu Schubart numa medita\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica.<\/p>\n<p>Gustave Dor\u00e9 firma esse personagem que permite a Eugene Sue compor o primeiro romance-folhetim. M\u00e9lies, em 1904, consagra-lhe uma curta metragem cinematogr\u00e1fica e hist\u00f3rica; lendas relativas \u00e0 Paix\u00e3o encontram-se intercaladas nessa obra. Da\u00ed as obras de Edgard Quinet (Ahasverus, 1834), de Ed. Fleg (Albin Michel, 1953), de Alexandre Arnoux (Carnet de route du Juif Errant, Grosset, 1931). Depois deste livro vibrante t Serstevens criou seu encontro com D. Juan (La L\u00e9gende de Don Juan, Gonet, 1946); num di\u00e1logo cintilante D. Juan torna-se o Judeu errante do amor. J. C. Cordeau (Ahasverus, Jouve, 1951) observa os simuladores que v\u00e3o do desertor (L\u00e9opold Delporte, 26 de maio de 1623), aos impostores, tais como o conde de Saint-Germain ou Cagliostro. Outros homens, seguindo a convoca\u00e7\u00e3o geral do ano 1000, j\u00e1 haviam endossado essa personalidade.<\/p>\n<p><strong>III. Roberto, o diabo<\/strong><\/p>\n<p>Este belo e doloroso conto da Idade M\u00e9dia francesa canta a esperan\u00e7a de cada homem: qualquer, que seja o grau de nossos pecados, podemos encontrar o caminho da salva\u00e7\u00e3o. Roberto, esse ser abjeto e amaldi\u00e7oado, torna-se um santo. Obra de moraliza\u00e7\u00e3o e de encanto, sua a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, alerta, acentua os caracteres da cavalaria.<\/p>\n<p><b>1. O assunto<\/b><\/p>\n<p>Roberto nasce sob uma influ\u00eancia infernal. Sua adolesc\u00eancia \u00e9 marcada pelos seus atos de crueldade; por\u00e9m, ao saber do segredo do seu nascimento, quer expiar-se. Em Roma, num recanto do pal\u00e1cio do imperador, imita um louco e come com os c\u00e3es. Por\u00e9m, quando os sarracenos devastam a regi\u00e3o, Roberto, com autoriza\u00e7\u00e3o celeste, combate e expulsa o invasor.<\/p>\n<p>Depois, no anonimato, retoma o seu lugar de tru\u00e3o. Tr\u00eas anos mais tarde seu feito glorioso se repete e a identidade do cavaleiro branco se desvenda; a princesa encontra novamente a palavra para glorificar Roberto que, fugindo \u00e0s honras, se retira do mundo.<\/p>\n<p><b>2. Os manuscritos<\/b><\/p>\n<p>Um antigo poema de duzentas e quarenta estrofes monorrimas de quatro versos datando do s\u00e9culo XIII foi retomado por G. S. Tr\u00e9butien (Silvestre, Paris, 1837). Outro manuscrito do s\u00e9culo XIV (ou come\u00e7o do s\u00e9culo XV) recebeu os cuidados atenciosos de E. Loseth (1903).<\/p>\n<p><b>3. As fontes<\/b><\/p>\n<p><strong>a) Liter\u00e1rias.\u00a0<\/strong>Um texto em latim\u00a0 de Etienne de Bourbon, dominicano do s\u00e9culo XIII, publicado por Lecoy de la Marche (1877) retoma o mesmo tema, bem como uma reda\u00e7\u00e3o em alem\u00e3o do s\u00e9culo XV. Um regato atravessa o quarto da princesa: imaginamos o quarto de Isolda.<\/p>\n<p>Este assunto se repete nos Mist\u00e9rios de Nostradamus (ll.o milagre) e no Roman de Robert, le Dyable, manuscrito de La Valli\u00e8re, n.o 80 (edi\u00e7\u00e3o Fr\u00e8re, Ru\u00e3o, 1836). Mas Un miracle de Nostre-Dame dun enfant qui fu donn\u00e9 au dyable, quand il fu engendr\u00e9 (33o. milagre de Gautier de Coincy) \u00e9 publicado pelo padre Poquet (1857; Fr\u00e8re, Ru\u00e3o, 1836) e Petit de Julleville (t. 149; t. II, 310) cont\u00eam textos an\u00e1logos; Paulin Paris ocupa-se do Miracle d&#8217;un enfant que sa mere donna ao diable \u00e0 leure que son p\u00e8re lengendra et qui fut port\u00e9 en enfer. M\u00e1gicos presidiram tamb\u00e9m a esse nascimento: este tema de inicia\u00e7\u00e3o \u00e9 estudado nos temas do conto de Barba Azul.<\/p>\n<p><strong>b) Hist\u00f3rico.<\/strong>\u00a0Nas Chroniques de Normandie pretendeu-se atribuir a paternidade de Roberto, o Diabo, a Aubert, duque e governador, da Norm\u00e2ndia no tempo de P\u00e9pin le Bref; depois foi Robert Courteheuse, filho de Guilherme; o Conquistador, que teve morte gloriosa em 1134, durante a primeira cruzada. Outros viram nesse personagem o pai de Guilherme, o Conquistador, Roberto, o Magn\u00edfico (1035).<\/p>\n<p>Na verdade Roberto, o Diabo, parece ser uma cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 o tipo do pr\u00edncipe salteador da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p><b>4. Sucess\u00e3o liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Se Liebrecht (zur, Volkskunde) v\u00ea nessa lenda a adapta\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica de um velho conto popular pertencente ao grupo do Teigneux, Borinski pensa em Robert Guiscard.<\/p>\n<p>Realmente, muitas vezes o dem\u00f4nio se interessa pelas crian\u00e7as para delas fazer suas criaturas. Guillaume dOrange, as lendas alem\u00e3s de Orendel e de Wolf Dietrich, as sagas de Thidrek t\u00eam pontos de semelhan\u00e7a estudados por Cosquin nas literaturas do Cambodge, de Zanzibar, da Sib\u00e9ria, etc.<\/p>\n<p>A crian\u00e7a se liberta desse jugo mal\u00e9fico mas conserva os benef\u00edcios da inicia\u00e7\u00e3o nos segredos importantes.<\/p>\n<p>Edelestand do Meril (Etudes darch\u00e9ologie), Littr\u00e9 e Gaston Paris (Romania, IX, 523; XV, 260) estudaram essa lenda que Edouard Fournier, depois de uma tradu\u00e7\u00e3o (Denty, 1879), fez representar no Gaiet\u00e9, no dia 2 de mar\u00e7o de 1879. Fora a \u00f3pera de Meyerbeer (Paris, 1831), as obras de Scribe e de Delavigne s\u00e3o interpreta\u00e7\u00f5es livres.<\/p>\n<p><b>5. Seu ensinamento<\/b><\/p>\n<p>Este conto, cujo texto \u00e9 de uma pureza exemplar, adotou as id\u00e9ias do cristianismo medieval. Faz lembrar Saint Alexis que, no dia de seu casamento, para se mortificar, foge \u00e0s alegrias de sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Esta id\u00e9ia de penit\u00eancia, de eleva\u00e7\u00e3o, depois de uma decad\u00eancia nativa, tem bem um car\u00e1ter popular e moralizador. Roberto, o Diabo, continua a ser uma das lendas francesas mais recentes.<\/p>\n<p><strong>IV. Pierre de Provence<\/strong><\/p>\n<p>Obra moralizadora \u00e9 a narrativa de um amor fiel; sua singeleza transmite-lhe uma gra\u00e7a e uma suavidade bem caracter\u00edsticas dos Romans courtois (Romances corteses) nos quais tudo \u00e9 encantamento e prod\u00edgio.<\/p>\n<p><b>1. O tema<\/b><\/p>\n<p>Pierre de Provence rapta Maguelone, filha do rei de N\u00e1poles. Mas durante a viagem, Pierre, ao perseguir um p\u00e1ssaro que se apoderou de uma j\u00f3ia, extravia-se. Muito tempo separados, os dois amantes se encontram finalmente e formam o par mais unido.<\/p>\n<p><b>2. As fontes<\/b><\/p>\n<p><strong>a) Liter\u00e1rias.\u00a0<\/strong>Romance an\u00f4nimo conhece-se o manuscrito de Coburgo e a edi\u00e7\u00e3o g\u00f3tica de Li\u00e3o, atribu\u00edda a Barth\u00e9l\u00e9my Buyer em, aproximadamente, 1477. Parece que esse texto foi escrito nas regi\u00f5es do sul da Fran\u00e7a em, aproximadamente, 1442. As edi\u00e7\u00f5es Le Roy, em Li\u00e3o (1485) inspiraram-se no mesmo tema muito popular na Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Conforme Gariel (Id\u00e9e de Montpellier, 1665), o assunto teria sido estudado por Petrarca segundo um texto de Bernard de Tr\u00e9viez. Esta hip\u00f3tese \u00e9 posta em d\u00favida por Ancona (1889), rebatida por Gaston Paris (Romania, t. XVIII, l889,p\u00e1g. 511). Parece mais certo ser Tr\u00e9viez o escultor que ornou o lintel da porta da catedral de Maguelone.<\/p>\n<p><strong>b) Hist\u00f3rico.\u00a0<\/strong>V\u00eam-nos ao pensamento a ilha de Maguelone, perto de Montpellier e nos condes de Toulouse; sup\u00f4s-se ser o bom rei Ren\u00e9 o conde de Proven\u00e7a (1435-1480). Mas com mais certeza pensou-se em Pierre de Melgueil que ofereceu o seu condado ao papa Greg\u00f3rio VII, no dia 27 de abril de 1085.<\/p>\n<p>Sua esposa era Almodis. Esse generoso conde, glorificado pela Igreja de Roma, tornou-se uma figura popular (estudo de A. Germain, 1854).<\/p>\n<p><b>3. A sucess\u00e3o liter\u00e1ria<\/b><\/p>\n<p>Duas vezes Cervantes citou Pierre de Provence em D. Quixote. As poesias de Tieck, com a m\u00fasica de Brahms, foram editadas em Berlim, em 1911. Mistral trata de Maguelone (Tr\u00e9sor du F\u00e9librige, II, 244) (Tesouro do Felibrige) Esse tema popular inspira numerosos artistas e um sarc\u00f3fago de m\u00e1rmore existe na catedral de Maguelone.<\/p>\n<p>Os elementos desse romance se encontram nas Mil e uma noites (hist\u00f3ria do pr\u00edncipe Camaralzanam e da princesa Badur), no poema italiano Ottinello e Giulia, no romance franc\u00eas LEscoufle.<\/p>\n<p>O furto de j\u00f3ias por um p\u00e1ssaro \u00e9 um caso comum na literatura.<\/p>\n<p>O romance persa Histoire des amours de Cofro\u00e8s (Hist\u00f3ria dos amores de Cofro\u00e8s) lembra ainda a narrativa francesa.<\/p>\n<p><b>4. Paris e Vienne<\/b><\/p>\n<p>Esse romance terminado em 1443 (conforme Biedermann, em 1427), compara-se a Pierre de Provence.<\/p>\n<p>\u00c9 a hist\u00f3ria de um invenc\u00edvel cavaleiro que cativa o amor de Vienne, filha do Delfim do Vienense. Paris, como Pierre, \u00e9 aprisionado no Oriente, na S\u00edria e na Alexandria. Finalmente desposa Vienne.<\/p>\n<p>Esse texto \u00e9 conservado na biblioteca de Carpentras (n.o 172). Podemos ainda pensar no amor de Flora que corre para o pal\u00e1cio do Sult\u00e3o na Babil\u00f4nia a fim de l\u00e1 arrancar Brancaflor.<\/p>\n<p>Aucassin et Nicolette retoma o tema e Aucassin, depois de aventuras c\u00f4micas, consegue desposar a filha de Garin de Beaucaire que se opunha aos seus amores.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO VI \u2013 FORMA\u00c7\u00c3O DE LENDAS RECENTES<\/strong><\/p>\n<p><strong>CARTOUCHE ET MANDRIN<\/strong><\/p>\n<p>Dois c\u00e9lebres bandidos de proezas diferentes que souberam cativar a imagina\u00e7\u00e3o popular: Cartouche tornou-se assim o bom ladr\u00e3o enquanto que Mandrin \u00e9 um salteador tem\u00edvel que socorre os humildes.<\/p>\n<p>Desde a morte desses dois personagens, os livros se apoderaram de suas personalidades.<\/p>\n<p><strong>I. Cartouche<\/strong><\/p>\n<p><strong>a) Sua vida.\u00a0<\/strong>Louis Dominique Cartouche, nascido em outubro de 1693 no bairro de La Courtille, em Paris, teve uma educa\u00e7\u00e3o bastante rudimentar. Aos onze anos foi raptado por um bando de bo\u00eamios e aos dezoito j\u00e1 roubava pelos belos olhos de uma pequena roupeira. Recrutador, organizou mais tarde o seu bando de acordo com os principios militares; seus tenentes chamavam-se Duch\u00e2telet, bem como Duplessis d Entraigues, Louis Marcant, estudante de direito, P\u00e9lissier, cirurgi\u00e3o. Como a Fran\u00e7a estava coberta por uma rede de agentes (teve trezentos e sessenta e seis c\u00famplices) P\u00e9lissier pode atacar o correio de Li\u00e3o. A aud\u00e1cia desses homens \u00e9 inacredit\u00e1vel: um pregoeiro proclama a busca de Cartouche, esse se d\u00e1 a conhecer e apavora a multid\u00e3o que nada faz para det\u00ea-lo. Suas evas\u00f5es s\u00e3o espetaculares (Fort-l Ev\u00eaque).<\/p>\n<p>Apesar de enriquecido pela rua Quincampoix onde Fran\u00e7ois Le Roux despojava os visitantes do banco Law, Cartouche tornou-se receoso ele pr\u00f3prio foi delator junto a M. d Argenson. Duch\u00e2telet vende o seu chefe no dia 14 de outubro de 1721; encarcerado no Chatelet e depois na Conciergerie, sua pena de morte foi-lhe comunicada no dia 26 de novembro de 1721. No dia 27, na pra\u00e7a de Greve, j\u00e1 sem esperan\u00e7as de ser salvo pelos seus, denunciou seus c\u00famplices, enquanto que no interrogat\u00f3rio, apesar do supl\u00edcio dos sapatos de ferro, nada confessou.<\/p>\n<p><strong>b) Sua popularidade.\u00a0<\/strong>Esse bandido sanguin\u00e1rio, supliciado na roda aos vinte e oito anos, foi exposto em casa do ajudante do carrasco: cada curioso pagava um soldo. A Confraria dos Barbeiros-Cirurgi\u00f5es trouxe o corpo para seu hotel e durante tr\u00eas dias os parisienses puderam desfilar para v\u00ea-lo. O molde de sua m\u00e1scara \u00e9 conservado na biblioteca de Saint-Germain; outra figura no Museu do Homem.<\/p>\n<p>Sua biografia aparece em 1721, L Histoire de la vie et du proc\u00e8s du fameux Louis-Dominique Cartouche (Hist\u00f3ria da vida e do processo do famoso Louis-Dominique Cartouche), mas Legrand e Quinault j\u00e1 havia atualizado sua pe\u00e7a quando vieram ver Cartouche na pris\u00e3o; os italianos seguiram o teatro franc\u00eas e representaram-no como Arlequim. Uma multid\u00e3o se formou para assistir essas pe\u00e7as. A aristocracia velo para ver o bandido prisioneiro, o pr\u00f3prio regente saiu das suas comodidades; os gravadores venderam seu retrato, os poetas, entre eles Racot de Grandvai (1725), glorificaram sua coragem, sua intelig\u00eancia, seu g\u00eanio de comando:<\/p>\n<blockquote><p>Ainsi finit Cartouche, et la Fleur des Guerriers<br \/>\nLaisse sur l&#8217;Echafaud sa vie et ses lauriers.(4)<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>II Mandrin<\/strong><\/p>\n<p><strong>a) Sua vida.\u00a0<\/strong>Nascido em Saint-Etienne-de-Saint-Geoirs em Dauphin\u00e9, no dia 11 de fevereiro de 1725, Louis Mandrin \u00e9 um contrabandista popular com poses de gentil-homem. Em Chamb\u00e9ry \u00e9 recebido pela nobreza. Mandrin organiza um bando disciplinado e promove verdadeiras campanhas contra os Fermiers g\u00e9n\u00e9raux. Sua sexta campanha foi sangrenta.<\/p>\n<p>Mandrin n\u00e3o ataca os particulares mas obriga os administradores oficiais e intermedi\u00e1rios a comprarem os seus produtos contrabandeados; fornece recibos regulares. Mandrin \u00e9 o gerente de um estabelecimento comercial; escrupuloso quanto aos pesos, as quantidades, insurge-se todavia contra os impostos descontados por quarenta mil empregados detestados. Malesherbes, primeiro presidente da Corte de Apela\u00e7\u00e3o, havia tamb\u00e9m condenado esse abuso.<\/p>\n<p>Mandrin retoma as fa\u00e7anhas de Puymoreau que em 1548, com um bando organizado de seis mil homens lutou contra o imposto da gabela e tomou Saintes, Cognac, Bord\u00e9us, libertando os contrabandistas arrestados.<\/p>\n<p>Audacioso, afugenta as tropas de Lu\u00eds XV que se lhe op\u00f5em, ataca cidades inteiras: Autun, Bourg-en-Bresse (5 de outubro de 1754), Beaune (dezembro de 1754). Liberta os prisioneiros, menos os assassinos e os ladr\u00f5es; assina liberta\u00e7\u00f5es e endere\u00e7a cartas corteses, por\u00e9m firmes, \u00e0s mais altas autoridades.<\/p>\n<p>Depois de uma batalha decisiva contra os hussardos da legi\u00e3o de Fitscher, refugia-se na Sav\u00f3ia. Seis regimentos de infantaria e dois de cavalaria foram mobilizados. Mas na noite de 10 para 11 de maio de 1755, raptado por soldados de La Morli\u00eare, do castelo de Rochefort, em territ\u00f3rio Sardo, os Fermiers g\u00e9n\u00e9raux instauram imediatamente um processo.<\/p>\n<p>A Corte de Turim manifesta-se contra essa viola\u00e7\u00e3o de direitos e de seu territ\u00f3rio, mas, no dia 26 de maio de 1755 era executado em Valen\u00e7a. Em seguida, a Fran\u00e7a humilhou-se perante a Casa de Sardenha e libertou dois companheiros de Mandrin injustamente aprisionados. Mandrin n\u00e3o denunciou nenhum de seus companheiros, fez supor que n\u00e3o era respons\u00e1vel por nenhuma morte; aos trinta e um anos sua morte foi edificante.<\/p>\n<p><strong>b) Sua popularidade.\u00a0<\/strong>Suas aventuras galantes, suas fugas, suas fa\u00e7anhas audaciosas, seu papel de benfeitor para com a popula\u00e7\u00e3o \u00e0 qual vendia produtos de excelente qualidade a pre\u00e7os muito acess\u00edveis, fizeram com que o nomeassem capit\u00e3o geral dos contrabandistas da Fran\u00e7a. Seus irm\u00e3os Ant\u00f4nio, Francisco e Cl\u00e1udio, bem como sua irm\u00e3 Mariana, ficaram incumbidos de continuar a organiza\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre 1755 e 1760, vinte e cinco contrabandistas foram supliciados \u00e0 roda ou esquartejados e cinco foram enforcados. O povo chorou a morte de Mandrin.<\/p>\n<p>O abade Regley criou para os Fermiers g\u00e9n\u00e9raux uma Histoire de Louis Mandrin (1755) com detalhes das suas crueldades, dos seus assaltos e do seu supl\u00edcio; o que nada mais \u00e9 do que uma rede de cal\u00fanias encontradas em algumas madrinades. Os Fermiers g\u00e9n\u00e9raux pretendiam assim desviar a opini\u00e3o geral: Mandrin nada mais era do que um salteador.<\/p>\n<p>Foi confundido com Cartouche. De fato, a Revolu\u00e7\u00e3o francesa ia realizar a obra sonhada por esse contrabandista.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO VII \u2013 ALGUNS CONTOS DE PERRAULT<\/strong><\/p>\n<p><b>I Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Perrault, depois do \u00eaxito de Pele de Burro, pensou em transcrever Les contes de la m\u00e8re l Oye; suas fontes nos s\u00e3o desconhecidas mas os motivos existem numa literatura coletiva, talvez criada pelo produto inconsciente da imagina\u00e7\u00e3o proveniente de fontes multo antigas.<\/p>\n<p>Se o texto age por encantamento, descobre tamb\u00e9m um sentido que ultrapassa a simples moralidade devida a Perrault, que ali\u00e1s se desinteressou pelas fontes iniciais. Bacon escreve: Confesso simplesmente que desde sua origem as f\u00e1bulas antigas foram aleg\u00f3ricas e encerravam li\u00e7\u00f5es importantes.<\/p>\n<p><b>1. Valor do conto<\/b><\/p>\n<p>Ora, encontramos de novo o mesmo repert\u00f3rio de contos com seus temas iniciais semelhantes em cada pa\u00eds e em cada latitude; essa migra\u00e7\u00e3o prova um ritual unicamente acess\u00edvel aos iniciados.<\/p>\n<p>Mas essas palavras de encantamento, forma de uma magia vinda at\u00e9 nos Evangelhos, n\u00e3o s\u00e3o apenas simb\u00f3licas. Al\u00e9m das cerim\u00f4nias inici\u00e1ticas, o conto interpreta a vida e as tradi\u00e7\u00f5es regionais.<\/p>\n<p>Por suas virtudes m\u00edsticas, o encanto dessas fic\u00e7\u00f5es n\u00e3o pode ser nem pueril nem grotesco.<\/p>\n<p>E \u00e9 preciso abandonar nossa atitude racional de homens que querem ser instru\u00eddos e inteligentes para desfrutar o sabor desses contos que nos lembram a alvorada de nossa inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p><b>2. Tese solarista<\/b><\/p>\n<p>Despertou grande interesse a tese solarista de B. Busson. Barba-Azul \u00e9 uma alegoria do sol que mata cada dia a Aurora, sua nova esposa. A Aurora \u00e9 curiosa; ela penetra por toda parte.<\/p>\n<p>Mas no aposento proibido estar\u00e1 encerrado o trov\u00e3o; a Aurora \u00e9 libertada por dois cavaleiros, os A\u00e7vins do Rig-Veda, os dois crep\u00fasculos. O Pequeno Polegar relacionar-se-ia com os sete raios do alvorecer.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Lefevre, Fr\u00e9d\u00e9ric Dillaye compartilham essa opini\u00e3o. Na mitologia antiga podemos encontrar o sol com o seu emblema de chaves.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, Barba-Azul pode ser Saturno em luta com o novo ano, sua nova esposa; contudo as pesquisas para justificar a significa\u00e7\u00e3o do n\u00famero 7 conduzem a outras interpreta\u00e7\u00f5es cujo car\u00e1ter esot\u00e9rico n\u00e3o poderia nos escapar.<\/p>\n<p><b>3. Valor do algarismo 7<\/b><\/p>\n<p>Se as sete esposas de Barba-Azul, ou os sete irm\u00e3os do Pequeno Polegar, as sete fadas da Bela Adormecida no Bosque, as sete filhas do pap\u00e3o, as sete mulheres do gigante podem se assemelhar aos sete dias da semana, o valor desse n\u00famero \u00e9 extraordin\u00e1rio. Encontramos as sete solenidades do Juda\u00edsmo, os sete ramos do Casti\u00e7al de ouro, os sete filhos de Macabeu, enquanto que T\u00f3bis \u00e9 o s\u00e9timo esposo de Sara. O Esp\u00edrito Santo tem sete dons, a Virgem, sete dores, o evangelho sete dem\u00f4nios e sete anjos planet\u00e1rios. Temos ainda os sete sacramentos, os sete di\u00e1conos, os sete selos do Apocalipse, os sete pecados mortais, as sete virtudes, as sete cores do raio luminoso, as sete notas musicais, as sete maravilhas do mundo.<\/p>\n<p>Para Anne Osmont cada um dos sete planetas do Pater se aplica a um dos planetas que comp\u00f5em a antiga astrologia enquanto que para os hindus a terra se dividia em sete planetas.<\/p>\n<p>Sete seria o s\u00edmbolo da vida eterna, da a\u00e7\u00e3o e da evolu\u00e7\u00e3o; a pr\u00f3pria inicia\u00e7\u00e3o tem sete graus. Esse algarismo, que se liga a tr\u00eas e onze, \u00e9 ainda encontrado numerosas vezes.<\/p>\n<p><b>4. Simbolismo<\/b><\/p>\n<p>O conto que se re\u00fane \u00e0 lenda pela transforma\u00e7\u00e3o do seu tema reflete, no que concerne sua interpreta\u00e7\u00e3o, a moda intelectual do dia. Os her\u00f3is podem personificar fen\u00f4menos naturais, mitos meteorol\u00f3gicos, usos cotidianos de todos os povos. O internacionalismo desses contos nos conduz a pensar numa transmiss\u00e3o oral.<\/p>\n<p>Os presentes das fadas podem constituir ritos de anivers\u00e1rios e Pele de Burro torna-se uma rainha de carnaval. Se voltarmos \u00e0s nossas origens poderemos encontrar novamente o frescor da nossa alma de crian\u00e7a, e assim, num mundo deformado, evoluem esses her\u00f3is dotados pela natureza; mesmo sendo os personagens min\u00fasculos, podem realizar grandes feitos pela sua coragem e pelos benef\u00edcios da inicia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os animais s\u00e3o bons e os pr\u00f3prios objetos tornam-se atributos do poder; o bon\u00e9 torna invis\u00edvel, o bast\u00e3o invenc\u00edvel e a sand\u00e1lia \u00e9 o signo da velocidade.<\/p>\n<p>Este simbolismo dos objetos \u00e9 discern\u00edvel na \u00e1gua de Juv\u00eancia, nas beberagens de imortalidade e o her\u00f3i, para alcan\u00e7ar um estado superior, p\u00f5e-se \u00e0 busca de um objeto que pode ser um objeto m\u00e1gico, um tesouro, uma noiva. Na hist\u00f3ria de Gata Borralheira o her\u00f3i busca a luz e os tr\u00eas vestidos c\u00f3smicos (c\u00e9u, lua e sol) participam da vida universal.<\/p>\n<p>O conto representa um mundo sobrenatural no estado de pureza; n\u00e3o mais se ocupa do sentido literal e chega at\u00e9 o absurdo para se preocupar apenas com um simbolismo bastante aparente.<\/p>\n<p>O ouro torna-se o emblema da energia solar e os cabelos, s\u00edmbolos da vida, s\u00e3o de ouro. A Bela Helena, assim como Pele de Burro assemelham-se a Aquiles- e M\u00e9n\u00e9gal.<\/p>\n<p>Os contos, ap\u00f3logos religiosos, ensinam, a modera\u00e7\u00e3o de nossos desejos na aceita\u00e7\u00e3o da nossa condi\u00e7\u00e3o. (Les souhaits ridicules, Griselidis) (Os desejos rid\u00edculos), mas s\u00e3o tamb\u00e9m uma evas\u00e3o.<\/p>\n<p>Em vista da credulidade popular receber mal o desaparecimento do her\u00f3i e criar uma lenda que o faz reviver desde o dia da sua morte, alguns desses personagens imagin\u00e1rios podem reviver; da mesma forma como nunca se admitiu a morte de Joana d Arc, de Napole\u00e3o ou de Hitler, n\u00e3o se pode admitir a morte de her\u00f3is dotados de qualidades excepcionais.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que os contos divertem e instruem ao mesmo tempo.<\/p>\n<p><b>5. Os predecessores de Perrault<\/b><\/p>\n<p>Esses contos de tradi\u00e7\u00f5es antigas, mem\u00f3rias coletivas, como diz Guenon, foram compilados por v\u00e1rios autores.<\/p>\n<p>Antes da publica\u00e7\u00e3o dos contos de Perrault (1697), outras compila\u00e7\u00f5es j\u00e1 existiam. Citaremos apenas as mais importantes, sendo as variantes particulares anotadas no seguinte estudo esquem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Antes de tudo \u00e9 a engenhosa reuni\u00e3o de contos que parecem engendrar uns e outros: o livro de Mil e uma noites.<\/p>\n<p>Antes dos Contes du Perroquet (Contos do Papagaio), os Contes du Vampire (Contos do Vampiro), o comp\u00eandio mais antigo \u00e9 o Pantchatantra que se havia multiplicado na forma ocidental do Roman des sept sages (Romance dos sete s\u00e1bios) e na forma \u00e1rabe no Le livre de Kabile et Dimna.<\/p>\n<p>Entre os que tomaram a dianteira de Perrault notemos o Decameron de Boc\u00e1ccio, Les nuits de Straparole e o Pentameron de Basile. Perrault e em seguida Mme d Aulnoy, adaptaram essas fic\u00e7\u00f5es ao gosto do p\u00fablico franc\u00eas. Walter Scott fez o mesmo na Inglaterra, os irm\u00e3os Grimm na Alemanha, Afanasieff na R\u00fassia e Asbl\u00f6rnsen na Noruega.<\/p>\n<p><strong>II. Barba-Azul<\/strong><\/p>\n<p><b>1. Teses hist\u00f3ricas<\/b><\/p>\n<p><strong>a)<\/strong>\u00a0Alain Bouchard (Les grandes chroniques, 1531) e Alberto Magno (La vie de saint Gildas, 1680), registram que o rei bret\u00e3o Comorre, tendo um or\u00e1culo lhe predito que seria assassinado pelo pr\u00f3prio filho, teria matado suas sete esposas. Influ\u00eancia da lenda grega, sem d\u00favida mas sua \u00faltima esposa, Santa Triphime, \u00e9 ressuscitada por Santo Gildas. O tema aparece nos afrescos da capela de Saint-Nicolas (Bieuzy, Morbihan);<\/p>\n<p><strong>b)<\/strong>\u00a0Collin de Plancy, Ch. Giraud, Michelet cr\u00eaem que Gilles de Rais, marechal de Fran\u00e7a, fiel companheiro de Joana d Arc, inspirou a lenda. Entretanto, desposou uma \u00fanica mulher, Catherine de Thouars, que a ele sobreviveu. Este homem letrado que atemorizava seus herdeiros com suas despesas fastosas, foi condenado e executado em Nantes (26 de outubro de 1440) com a idade de trinta e seis anos por haver degolado trezentas crian\u00e7as em sess\u00f5es de magia. Esse processo parece suspeito e S. Reinach e F. Fleuret tentaram reabilit\u00e1-lo. Tal como a imagina\u00e7\u00e3o popular censurava aos primeiros crist\u00e3os sacrif\u00edcios humanos, parece que Gilles de Rais tenha sido v\u00edtima de sua fortuna e de seus ataques pol\u00edticos.<\/p>\n<p><strong>c)<\/strong>\u00a0Pensou-se em Henrique VIII da Inglaterra que esposou seis mulheres e fez com que duas morressem no cadafalso. Maspero e Gaston Paris fazem dele um vampiro que bebe sangue humano. Doente, neur\u00f3tico, Barba-Azul \u00e9 comparado aos grandes criminosos como Landru ou John Christie;<\/p>\n<p><strong>d)<\/strong>\u00a0A cor extraordin\u00e1ria de sua barba assemelha-o a Indra, a B\u00e9s, o Eg\u00edpcio, ou a J\u00fapiter. Tem uma barba azul quase preta, ou azul-celeste (Oh!) e S\u00e9billot menciona uma barba vermelha. No simbolismo das cores \u00e9 preciso ver o s\u00edmbolo do iniciador, o condutor de almas que faz transpor as portas da morte espiritual.<\/p>\n<p><b>2. Tema da curiosidade. Inicia\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>O tema da curiosidade \u00e9 comum a todos os pa\u00edses e visa principalmente a mulher. Na. B\u00edblia achamos Loth, Eva e Sodoma. As Mil e uma noites fazem da curiosidade uma ampla interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse segredo conjugal est\u00e1 presente em Parsifal onde a duquesa de Brabante perde seu esposo por lhe haver perguntado quem era ele. Essa curiosidade visa um ritual que nos escapa; talvez o da prepara\u00e7\u00e3o para o casamento.<\/p>\n<p>A jovem \u00e9 sujeita a uma prova dif\u00edcil: a tenta\u00e7\u00e3o do local secreto. Em seguida vem a \u00faltima prova, o simulacro da morte; ritual de morte e de ressurrei\u00e7\u00e3o na qual o ne\u00f3fito, despojando o velho, desperta num mundo novo, o do conhecimento. \u00c9 o caso da religiosa colocada no seu ata\u00fade. Para essa cerim\u00f4nia de inicia\u00e7\u00e3o a mulher pode vestir seus mais belos adornos, ou se impor a nudez ritual do batismo dos primeiros crist\u00e3os (forma nivernesa da lenda). A magnific\u00eancia da morada de Barba-Azul lembra os castelos encantados e esse grande senhor, cort\u00eas e feio, n\u00e3o d\u00e1 a raz\u00e3o dos seus crimes.<\/p>\n<p><b>3. O quarto secreto<\/b><\/p>\n<p>Esse local secreto parece ser o lugar do saber por excel\u00eancia. \u00c9 a loja. Um conto de Carnoy Lhomme de fer (O homem de ferro), mostra que a crian\u00e7a desobediente n\u00e3o pode conhecer o derradeiro segredo.<\/p>\n<p>A forma original do Conte du magicien et son apprenti (Conto do mago e seu aprendiz) parece ser a Histoire du radja Madama Kdma na qual um pr\u00edncipe instru\u00eddo por um feiticeiro tenta e consegue escapar-lhe; Cosquin (\u00c9tudes folkloriques) e W. Crooke (North Indian Notes and queries, 1894) narram contos semelhantes.<\/p>\n<p>Por\u00e9m o quarto secreto aparece mais claramente na introdu\u00e7\u00e3o do livro mongol Siddhi-K\u00fbr, no qual o ca\u00e7ula descobre a chave da magia espiando pela fresta de uma porta. A curiosidade \u00e9 pois recompensada.<\/p>\n<p>Os contos de Velay (Cosquin), da ilha de Zanzibar, de Bosnia permitem, ao iniciado triunfar depois de haver transgredido um regulamento de interdi\u00e7\u00e3o. Este \u00faltimo conto, recolhido por Desparmet, assemelha-se ao de Aladin (As mil e uma noites): um jovem sem fortuna quer desposar a filha do rei.<\/p>\n<p>Contudo, quase sempre, essa curiosidade \u00e9 nociva.<\/p>\n<p>O homem \u00e9 expulso do para\u00edso pelo seu gesto da desobedi\u00eancia (conto hindu de Somadeva Rhatta; hist\u00f3ria do Terceiro calend\u00e1rio de mil e uma noites). Sem se instruir nos tr\u00eas est\u00e1gios impostos (purifica\u00e7\u00e3o, saber, poder), o ne\u00f3fito quis penetrar no santu\u00e1rio secreto: da mesma forma \u00e9 enxotado dessa confraria (Roman des sept vizirs (Romance dos sete vizirs), enquanto que o pr\u00edncipe do Fid\u00e8le serviteur (Fiel servidor) (Carnoy) enamora-se de um retrato conservado num quarto interdito.<\/p>\n<p>Lenfant de la Vierge Marie (O filho da Virgem Maria) (Grimm), Le b\u00e9nitier dor (Cosquin), Maria Morewna (Ralston e depois Marnier) e numerosas variantes mencionadas por Saintyves, referem-se ao tema da interdi\u00e7\u00e3o do Quarto Secreto. Doze quartos corresponderiam aos doze ap\u00f3stolos, o d\u00e9cimo-terceiro quarto sendo o do Santo dos Santos.<\/p>\n<p>Carrouges estende esse simbolismo aos romances policiais para interpretar o mist\u00e9rio dos quartos fechados.<\/p>\n<p><b>4. O objeto denunciador<\/b><\/p>\n<p>Um objeto m\u00e1gico denuncia o culpado que tentou penetrar no local, secreto. \u00c9 o caso do conto de Perrault, do Oisel emplum\u00e9 (P\u00e1ssaro emplumado) de Grimm, de La veuve et ses filles (A vi\u00fava e suas filhas) de Loys Brueyre. O objeto pode ser uma chave, um ovo, um pequeno cofre, um retrato e at\u00e9 uma regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois o pr\u00f3prio objeto m\u00e1gico tornou-se a representa\u00e7\u00e3o do quarto iniciativo. Essa casa dos homens, esse centro de reuni\u00e3o de iniciados transforma-se num cofre que encerra o saber.<\/p>\n<p>Andrew Lang v\u00ea nisso tudo a sobreviv\u00eancia do culto primitivo e acrescenta o anel jogado ao mar e encontrado depois no corpo de um peixe. Mas a chave, s\u00edmbolo axial, pode ser considerada pelo seu poder de ligar e desligar; seu conhecimento tem ent\u00e3o o mesmo poder que a palavra de Ali Bab\u00e1 ou a do Pequeno Polegar. \u00c0s vezes o objeto desaparece: um sinal aponta o culpado; s\u00e3o os cabelos de ouro do Homme de fer (Carnoy) ou o dedo dourado de uma crian\u00e7a desobediente (Steele Swahili, Tales, 1870; Contes Cambodgiens, 1868; Conte Chao Gnoh); o ouro \u00e9 ent\u00e3o o emblema das energias solares.<\/p>\n<p><b>5. Aux\u00edlios<\/b><\/p>\n<p>Essa luta entre o iniciado e o iniciador implica aux\u00edlios exteriores. Esses aux\u00edlios prov\u00e9m dos pais, de um religioso, de um s\u00e1bio, de um jovem (W. Crooke observa o caso de um her\u00f3i aconselhado pela filha de seu inimigo). Os mortos que aconselham s\u00e3o numerosos (Cosquin, Steele, Loiseau de v\u00e9rit\u00e9 (P\u00e1ssaro de verdade), Les trente-deux r\u00e9cits do Tr\u00f4ne (As trinta e duas narrativas do trono) ou Vicramaditia, La l\u00e9gende de la mort (A lenda da morte) (de Le Braz); D. Juan tamb\u00e9m recebeu os conselhos do comendador. Os animais, aliados do homem, sob a influ\u00eancia da \u00cdndia, previnem contra o perigo. Com Perrault essa parte \u00e9 abreviada e os irm\u00e3os chegam inopinadamente.<\/p>\n<p><strong>III. A Bela Adormecida no bosque<\/strong><\/p>\n<p><b>1. Tradi\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica<\/b><\/p>\n<p>Depois de Hyacinthe Husson que assimila a hero\u00edna \u00e0 luz celeste invadida pela noite ou pelo inverno sendo a noite, neste caso, representada pela floresta Charles Ploix (Le surnaturel dans les contes) (O sobrenatural nos contos) nele descobre o despertar matinal. Mas, a primavera livre das correntes do inverno tem numerosos adeptos: Husson (La ch\u00e2ine traditionelle) (A cadela tradicional), Max Muller (Essais de mythologie comparde) (Ensaios de mitologia comparada), Bachelin (Sept contes roumains) (Sete contos Rumenos). A vers\u00e3o siciliana (Suli, Perna et Anna, G. Pitre, 1875), ou a vers\u00e3o hindu compilada por Fr\u00e8re no Deccan Days, 1868 (La laiti\u00e9re et la griff e du Rakshasa (A leiteira e a garra do Rakshasa) se aparentam a essa origem primaveril que reencontramos em Pentam\u00e9rone (V, 5) ou ao conto alem\u00e3o Rosa de espinho.<\/p>\n<p>Para G\u00e9d\u00e9on Huet (Les contes populaires) \u00e9 o sono m\u00e1gico, de aspecto ext\u00e1tico que reencontramos no Sept Dormants.<\/p>\n<p><b>2. A presen\u00e7a da fada m\u00e1<\/b><\/p>\n<p>As Parcas, perto dos ber\u00e7os, prediziam o futuro das crian\u00e7as. Andr\u00e9 Lefevre compara a fada m\u00e1 \u00e0 Fatumantique enquanto que S\u00e9billot, Husson e Dillaye pensam numa bruxa (L\u00e9gendes locales de la Haute-Bretagne, t. II) (Lendas locais da Alta Bretanha). A lenda eg\u00edpcia apresenta no nascimento de Montemonia em Louqsor, de Ahmasi em Deir e de Cle\u00f3patra em Erment, sete fadas madrinhas. Isto faz lembrar os sete Lipikis hindus que anotavam durante a vida dos homens seus procedimentos nos sete planos de suas consci\u00eancias (sensa\u00e7\u00e3o, emotividade, intelig\u00eancia, intui\u00e7\u00e3o, espiritualidade, vontade e presci\u00eancia do divino).<\/p>\n<p>Desta forma era determinado o destino do indiv\u00edduo na ocasi\u00e3o de sua reencarna\u00e7\u00e3o. Suas boas a\u00e7\u00f5es anteriores tornavam-se dons inatos. As fadas que assistiram ao nascimento de Ogier, o Dinamarqu\u00eas, s\u00e3o apresentadas nas Croniques du Roy. Perceforest (s\u00e9culo XIII), por ocasi\u00e3o do parto da rainha Zelandina ou na Heurcuse peine (Mme. Murat, 1698). No La biche au bois (A cor\u00e7a do bosque) e Le serpentin vert (A serpentina verde) encontramos duas fadas que foram esquecidas. As vezes, as fadas, ao inv\u00e9s de adormecer, petrificam-se (La reine des abeilles (A rainha das abelhas) de Grimm, (Larbe qui chante) (A \u00e1rvore cantante), Loiseau qui dort, (O p\u00e1ssaro que dorme), Le fid\u00e8le Jean (O fiel Jo\u00e3o) de Carnoy. Em A bela e a Fera as duas m\u00e1s irm\u00e3s tornam-se est\u00e1tuas.<\/p>\n<p><b>3. Simbolismo do fuso<\/b><\/p>\n<p>Na maioria desses contos, a virgem adormece depois de uma picada, quase sempre, de um fuso. Loeffler-Delachaux, notando que nas tribos primitivas e atualmente na \u00c1frica equatorial, a educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as \u00e9 confiada a pessoas idosas, geralmente estranhas \u00e0 fam\u00edlia acha que a fiandeira inicia a adolescente perturbada com a sua metamorfose.<\/p>\n<p>A teoria freudiana interpreta o fuso como um emblema f\u00e1lico.<\/p>\n<p>Loeffler-Delachaux (Symbolisme des contes de f\u00e9es, 1949), observa as prostitutas sagradas doa templos de Afrodite que se apresentavam com a cabe\u00e7a cingida por um fio; esse penteado foi adotado por Ariadne cujo nome significaria fuso, e depois baseando-se na palavra fen\u00edcia Khr, demonstra que a palavra cruz (de onde prov\u00e9m cruzamento) relaciona-se \u00e0 atividade sexual; e em ingl\u00eas arcaico Rod significa ao mesmo tempo, cruz ou p\u00eanis. Depois de sua curiosa demonstra\u00e7\u00e3o, o autor conclui que o fio representa a perpetua\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>\u00c9 exato que em Ladroite princesse (A h\u00e1bil princesa), as rocas de fiar das duas princesas Nonchalante e Babillarde se quebraram quando elas foram seduzidas e que o rei soube que s\u00f3 a roca de Finette permanecera intacta. Laideronnette, instru\u00edda pela sua boa fada, acalma sua repugn\u00e2ncia pelo Serpentin vert. Brynbild mergulha num sono let\u00e1rgico com a picada de um , espinho. (Beauvois, Histoire l\u00e9gendaire des francs, V) (Hist\u00f3ria lend\u00e1ria dos francos).<\/p>\n<p>Loeffler-Delachaux d\u00e1 tamb\u00e9m uma significa\u00e7\u00e3o c\u00f3smica ao fuso que simbolizaria o come\u00e7o do dia ou a origem de um mundo no momento em que os \u00e1tomos que o constituem s\u00e3o polarizados pelo magnetismo c\u00f3smico.<\/p>\n<p><b>4. As interdi\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>Para Saintyves essas interdi\u00e7\u00f5es eram no princ\u00edpio do ano, pois fiar \u00e9 ligar e o bobinamento podia frear o movimento do renovamento. \u00c9 um ritual m\u00e1gico que muito se aproxima da supersti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>5. As Belas adormecidas<\/b><\/p>\n<p>Al\u00e9m da Valkyrie Brynhild adormecida por Odin, lembramos tamb\u00e9m o sono de Ad\u00f4nis e Osiris, a inatividade da virgem Pers\u00e9fone.<\/p>\n<p>O conto dinamarqu\u00eas da compila\u00e7\u00e3o de Svend-Grundvjg (H. Husson) menciona o sono de uma jovem mulher que durou sete anos; Loys Brueyre (Contes populaires de la Grande-Bretagne), cita La princesse grecque et le jeune jardinier (A princesa grega e o jovem jardineiro); Vieillesse dOisin (Velhice de Orsin); LEnchantement du comte G\u00e9rald (O encantamento do conde Geraldo), Musique du ciel (M\u00fasica do c\u00e9u); Les escaliers du g\u00e9ant Mac Mahon (As escadas do gigante Mac Mahon).<\/p>\n<p>Uma jovem camponesa adormece assim na floresta e desposa o terceiro cavaleiro (Bujeaud, Chanson populaire de lOuest, 1866). 0 filho do pescador desperta a princesa Tournesol (Luzel, quinto relat\u00f3rio dos Arquivos das miss\u00f5es cient\u00edficas). A hist\u00f3ria de Suria Bai (Fr\u00e8re, Old Beccan Days) \u00e9 mais completa. Filha de uma leiteira, raptada pelas \u00e1guias, \u00e9 arranhada pelo filho de uma bruxa e adormece.<\/p>\n<p>O raj\u00e1 desperta-a e a esposa; a primeira esposa do raj\u00e1 afoga-a e Sourya se transforma ent\u00e3o em v\u00e1rias plantas para enfim encontrar sua m\u00e3e e o amor do raj\u00e1.<\/p>\n<p>Branca de Neve (Grimm) assemelha-se com Suria Bai; as \u00e1guias s\u00e3o substitu\u00eddas pelos sete an\u00f5es, a unha venenosa por um pente venenoso.<\/p>\n<p>Branca de Neve n\u00e3o se transforma em flores mas deitada no seu esquife de vidro recebe os lamentos dos animais. Bidasari, poema malaio (Backer, Plon, 1875), retoma esse tema. Grimm com Rosa dos bosques se aproxima de Perrault, bem como o conto siciliano Bull, Perna et Anna Pitr\u00e9, 1875.<\/p>\n<p>Le coffret volant (O cofrinho voador) de Andersen \u00e9 de influ\u00eancia asi\u00e1tica.<\/p>\n<p>No Roman de Perceforest, Zelandina acordada, se desespera por ser m\u00e3e; ela se casar\u00e1 finalmente com Troylus seu amante, mas \u00e0 brutalidade desse conto segue-se a suavidade do jovem que se ajoelha diante da princesa ou d\u00e1-lhe um casto beijo.<\/p>\n<p>Com o Pentameron (o sol, a lua, e T\u00e1lia), o pr\u00edncipe \u00e9 casado; a jovem que se torna m\u00e3e sofre a c\u00f3lera da esposa que quer mandar matar os filhos de sua rival. No conto franc\u00eas tudo se ameniza e idealiza.<\/p>\n<p>O sono let\u00e1rgico aparece no Tapete m\u00e1gico, Le bonnet invisible (O barrete invis\u00edvel) (Glinski, Hachette, 1864), no qual um pa\u00eds inteiro \u00e9 adormecido por castigo celeste como em Mil e uma noites (Hist\u00f3ria do cavalo encantado).<\/p>\n<p>Jo\u00e3o, o Urso, liberta Pomme dOr (Conto de Proven\u00e7a) e o cavalo encantado nos Contes fran\u00e7ais de Carnoy, 1885).<\/p>\n<p>O poeta cretense Epim\u00e9ride, menciona, seiscentos anos antes de Jesus Cristo, o sono de um jovem que penetrou numa caverna, onde dorme durante cinquenta e sete anos.<\/p>\n<p>A caverna dos sete adormecidos \u00e9 c\u00e9lebre no Oriente; murada por ordem do imperador D\u00e9cio em 251, os irm\u00e3os m\u00e1rtires l\u00e1 dormiram cento e cinquenta e sete anos.<\/p>\n<p>Finalmente o imperador Frederico Barba-Roxa dorme ainda debaixo da montanha de Kyffhoeuser na regi\u00e3o de Tur\u00edngia.<\/p>\n<p>As princesas dormem como as lembran\u00e7as no fundo de nosso inconsciente e o pr\u00edncipe encantado que as desperta \u00e9 nosso consciente chamando as imagens ancestrais necess\u00e1rias \u00e0 sua a\u00e7\u00e3o (Loeffler-Delachaux).<\/p>\n<p>Algumas dessas princesas s\u00e3o apenas encerradas numa torre, um po\u00e7o postas \u00e0 margem da a\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso do conto t\u00e1rtaro Ac-Beiaz, filha de Abdala Yusuf (edi\u00e7\u00e3o Lehoucq, 1783).<\/p>\n<p>Esses fatos sugerem as cerim\u00f4nias inici\u00e1ticas\u00a0 sala de reflexos, esquife\u00a0 onde o ne\u00f3fito se recolhe fora de todo o contacto humano.<\/p>\n<p>Essa forma de lenda se assemelha talvez aos misteriosos po\u00e7os das igrejas onde os penitentes deviam ser mergulhados antes da absolvi\u00e7\u00e3o (Gosselin); diz-se ainda a Verdade vem do po\u00e7o.<\/p>\n<p>Este gesto \u00e9 t\u00e3o simb\u00f3lico quanto a \u00e1gua, \u00e9 purificadora.<\/p>\n<p>Quanto aos despertares, corresponderiam \u00e0 lei c\u00edclica de periodicidade.<\/p>\n<p><b>6. A floresta<\/b><\/p>\n<p>Nos hinos v\u00e9dicos o oficiante deve ser isolado e garantido. As portas desse local, rodeadas por uma pali\u00e7ada, s\u00f3 se abrem nas horas de festividade (Abri-vos, portas eternas, cantava o ritual).<\/p>\n<p>A prote\u00e7\u00e3o e o isolamento do taumaturgo s\u00e3o feitos ainda por um tra\u00e7ado intranspon\u00edvel para os poderes ocultos nocivos. Nesse caso a floresta forma esse isolamento ritual.<\/p>\n<p>Sigurd substitui essa floresta por um c\u00edrculo de chamas. Saintyves nela descobre a \u00e1rvore de Suria Bai, a \u00e1rvore sagrada aos p\u00e9s da qual Buda foi iniciado.<\/p>\n<p>Realmente \u00e9 na \u00cdndia que se encontra esse s\u00edmbolo de uma vegeta\u00e7\u00e3o que \u00e9 preciso afastar a fim de poder penetrar a nova civiliza\u00e7\u00e3o. Loeffler-Delachaux observa (Symbolisme des Contes de f\u00e9es) que o sono coletivo da corte marcaria o tempo de repouso entre duas encarna\u00e7\u00f5es e que essa inextric\u00e1vel vegeta\u00e7\u00e3o substitui o gigante enterrado, no corpo do qual \u00e9 preciso se introduzir para penetrar no segredo (lenda finense, o-Kalevala).<\/p>\n<p>Mas encontramos mais certamente nessa narrativa um aspecto do quarto interdito. Para esse autor, a penetra\u00e7\u00e3o no corpo da pessoa adormecida representa, num sentido profano, a c\u00f3pula, num sentido sagrado, a imagem da invas\u00e3o do consciente no inconsciente, num sentido inici\u00e1tico, a descoberta de arcanos de uma civiliza\u00e7\u00e3o desaparecida.<\/p>\n<p><strong>IV. Gata Borralheira e Pele de Burro<\/strong><\/p>\n<p><b>1. Motivos<\/b><\/p>\n<p>a) Esses dois contos t\u00eam grande analogia. Loys Brueyre (Contes populaires de la Grande-Bretagne) observa duas tradi\u00e7\u00f5es nas quais se confundem. O anel e o chinelo desempenham o mesmo papel e Miss Mariam Roalfe Cox estuda as suas trinta vers\u00f5es (Cinderella, Londres, 1893).<\/p>\n<p><strong>b)<\/strong>\u00a0<strong>Pele de Burro.\u00a0<\/strong>O rei promete \u00e0 rainha moribunda s\u00f3 desposar uma mulher mais bela do que ela (Perrault) ou aquela em cujo dedo servisse o anel da rainha (Sic\u00edlia, 159, 186; R\u00fassia, 171, 172; Noruega, 181; Portugal, 184); ou que pudesse vestir os mesmos vestidos (Gr\u00e9cia, 176; escoc\u00eas, 151) ou os sapatos (italianos, 134, 150). Ora, s\u00f3 a filha do rei preenche as condi\u00e7\u00f5es. Para fugir a essa uni\u00e3o criminosa, a princesa formula tr\u00eas desejos que o rei consegue satisfazer.<\/p>\n<p>Disfar\u00e7ada, foge e serve miseravelmente em casa de um pr\u00edncipe que descobre quem \u00e9 a pretensa serva e esposa-a.<\/p>\n<p><strong>c)<\/strong>\u00a0<strong>Gata Borralheira &#8211;\u00a0<\/strong>Tratada por suas irm\u00e3s como uma empregada, Gata Borralheira, por uma ajuda exterior fada, animais consegue ir tr\u00eas vezes ao baile onde encontra o pr\u00edncipe; mas terminando o encantamento numa hora definida, a hero\u00edna, na fuga, perde seu sapatinho que permite ao pr\u00edncipe encontr\u00e1-la e espos\u00e1-la.<\/p>\n<p><b>2. Variantes<\/b><\/p>\n<p><strong>a) Pele de Burro.\u00a0<\/strong>O incesto forma o ponto de partida desse conto. Por esse motivo Deulin pensa em Prajapati, senhor da cria\u00e7\u00e3o, que violentou sua filha Uchar. Em 1550, com Straparole (primeira noite, conto IV), o pr\u00edncipe Thibaut quer desposar sua filha Doralice. Na Histoire de Sainte Dipne (Hist\u00f3ria de Santa Dipne) (Ribardeneira, Fleur des vies de saints, 1616) (Flor das vidas de santos), o rei pag\u00e3o da Irlanda tenta desposar sua filha Dipne e finalmente mata a fugitiva; \u00e9 Pele de Burro sem seu maravilhoso. Se Luzel (5o. relat\u00f3rio das Miss\u00f5es Cient\u00edficas), Schleicher (Lita\u00fcische M\u00e0rchen), relatam lendas semelhantes, Deulin cita outras variantes tais como a Belle H\u00e9l\u00e8ne de Constantinople (Bela Helena de Constantinopla), onde o suposto parto de animais lembra o Chevalier au cygne (Cavaleiro do cisne).<\/p>\n<p>Num conto hindu (Le tr\u00f4ne enchant\u00e9) (O trono encantado), a princesa casa com um burro que se metamorfoseia em pr\u00edncipe. Pernette, conforme Bonaventure de Perriers (Nouvelles R\u00e9cr\u00e9ations et Joyeux Devies) veste uma pele de burro para enojar um amigo. Se P\u00e9triosa (O Pentameron) se transforma em ursa, Noel du Fail (1547) e Grimm aproveitam a id\u00e9ia (La reine dos abeilles) (A rainha das abelhas), La gardeuse d oies (A guardadora de gansos), La vrai fianc\u00e9e (A verdadeira noiva). Enfim a extraordin\u00e1ria cozinheira enegrecida com sebo de Peau de toutes les b\u00eates (Pele de todas as feras) (Grimm), que casa com o pr\u00edncipe depois de apari\u00e7\u00f5es que se assemelham \u00e0s de Roberto, o Diabo.<\/p>\n<p><strong>b) Gata Borralheira.\u00a0<\/strong>A sand\u00e1lia da cortes\u00e3 Rodopis foi levada por uma \u00e1guia e caiu subitamente diante do fara\u00f3 admirado; Rodopis descansa agora sob a terceira pir\u00e2mide (Estrab\u00e3o, liv. XVII). Ellen (Histoires diverses, XIII) reproduz essa anedota para gl\u00f3ria do rei Psametico. Cosquin regista dois contos anamitas nos quais gralhas levam os sapatos dourados da Gata Borralheira ao pal\u00e1cio real. Mas geralmente a hero\u00edna perde os sapatos fugindo. Lembramo-nos de Pen\u00e9lope, de Berta dos p\u00e9s grandes (Henry Pourrat, Marie Cendron, t. I). Ei-la num conto malgaxe (Ferrand, 1893, n.o 35), mas depois de Finette Cendron, Landes relata contos anamitas (Saigon, 1886) e Lecl\u00eare, vers\u00f5es tjame e cambodgeana. Se Miss Cox anotou essas variantes, Cosquin firmou algumas vers\u00f5es cabilas, silesianas, islandesas (Contos Populares, t. II). Realmente esse ensaio do sapatinho constituiria o rito da elei\u00e7\u00e3o, a posse de um novo lar. Temos um exemplo em Rute (IV, 7-10) no qual Booz recebe dessa maneira Rute, a Moabita.<\/p>\n<p><b>3. Interpreta\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p><strong>a)<\/strong>\u00a0Para Gubernatis, a aurora, perseguida por seu pai, veste o casaco da noite; para H. Husson, Ch. Ploix, a aurora se oculta sob a bruma a fim de se entregar ao sol levante. Conforme vers\u00f5es n\u00f3rdicas, Loys Brueyre v\u00ea nessas vers\u00f5es, o casamento ritual do ano com o novo sol. Saintyves pensa na evoca\u00e7\u00e3o do carnaval, liturgia primaveril na qual as duas hero\u00ednas vestem os trajes e os atributos de uso.<\/p>\n<p><strong>b) O traje.\u00a0<\/strong>Esse revestimento de peles de animais consta do G\u00eanese (III, 21). E Deus fez para o Homem e para a Mulher roupas de peles e com elas os vestiu; ora, conforme o esoterismo, toda mat\u00e9ria universal \u00e9 viva. Esse disfarce que muda a personalidade assemelha-se ao fen\u00f4meno da reencarna\u00e7\u00e3o que encontramos na \u00cdndia. Se Gata Borralheira usa vestidos que se assemelham \u00e0s esta\u00e7\u00f5es ou ao tempo (R\u00fassia 153; Gr\u00e9cia 176), Miss Fr\u00e8re refere-se a um conto hindu no qual uma jovem disfar\u00e7a-se em mendiga (retomado no conto toscano 285). No folclore italiano as virgens encerram-se em est\u00e1tuas de velhas e algumas vezes em sua pele (Cosquin). O sapatinho de veiros denota a pureza e a beleza. Encontramos essa transforma\u00e7\u00e3o em Riquet \u00e0 la Houppe.<\/p>\n<p><strong>c) O nome de Gata Borralheira.\u00a0<\/strong>Mine d Aulnoy e Perrault referem-se \u00e0s cinzas da lareira e o Pentameron \u00e0 Gata das Cinzas. Saintyves, ao estudar essas variantes, \u00e9 de opini\u00e3o que as cinzas desempenham papel degradante; \u00e9 a humilha\u00e7\u00e3o, a penit\u00eancia. Ulisses, humilhado por Aret\u00e9 e Alc\u00ednoo, senta-se nas cinzas; os hebraicos cobrem a cabe\u00e7a com cinzas em sinal de luto. Para Loeffler-Delachaux, Gata Borralheira \u00e9 uma vestal presa ao culto do Sol, da Luz e do Fogo; ora, o fogo \u00e9 o s\u00edmbolo da Vida e do Amor.<\/p>\n<p><strong>d) A madrasta.\u00a0<\/strong>Freq\u00fcentemente a madrasta \u00e9 representada por uma feiticeira (Cox Bulg\u00e1ria 127; Irlanda 9 e 10; anamita 68 e 69); \u00e0s vezes por uma m\u00e1gica (Cox Eslov\u00e1quia 33; Gr\u00e9cia 17; Noruega 67, 110, 70); Luzel (Contes de Basse-Bretagne,- III (Contos da Baixa-Bretanha); Le chat noir (O gato negro) e Saintyves confundem-na com o ano velho.<\/p>\n<p><strong>e) As ajudas\u00a0\u00a0<\/strong>As ajudas que v\u00eam socorrer s\u00e3o fadas, animais muitas vezes p\u00e1ssaros e at\u00e9 a defunta m\u00e3e (Cox, Contos dinamarqueses 38, 43, 64; noruegu\u00eas, 87; Grimm 2); algumas vezes cultuam-se os ossos dos animais protetores (contos tjames 69). Desparmet (Contes populaires) menciona ajudas semelhantes.<\/p>\n<p><strong>f) As carruagens.\u00a0<\/strong>Passeiam os deuses no Olimpo e conduzem as fadas aos batizados. Os coches s\u00e3o os ve\u00edculos das for\u00e7as c\u00f3smicas e da alma durante o decorrer. da reencarna\u00e7\u00e3o (Arjuma no Bagavad-Gita). Os animais t\u00eam significa\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica; Loeffler-Delachaux diz que o carro do sol \u00e9 puxado por cavalos brancos e que as fadas podem ter carruagens de paz ou de c\u00f3lera (La biche au bois de Perrault). Na Finl\u00e2ndia, a carruagem \u00e9 substitu\u00edda pelo tren\u00f3; o garanh\u00e3o representa a energia sexual libertada; esses raptos de mulheres figuram na Calevala, Le joyeux Lemmika\u00efgen. Os corc\u00e9is n\u00e3o podem ser emprestados (Gracieuse et Percinet de Perrault, La gardeuse doies de Grimm.; o Pentameron.<\/p>\n<p><strong>g) Objeto denunciador.\u00a0<\/strong>Gata Borralheira e Pele de Burro s\u00e3o reconhecidos gra\u00e7as a um objeto perdido (sapatinho), ou dado como penhor (anel, colar, alfinete, rel\u00f3gio, chave). O anel sem come\u00e7o nem fim, liame m\u00e1gico da vida, talism\u00e3, como a pulseira ou o colar, simboliza ritualmente o encadeamento de duas vidas. \u00c9 encontrado numa iguaria e permite o descobrimento da hero\u00edna disfar\u00e7ada.<\/p>\n<p><strong>V. O p\u00e1ssaro da verdade<\/strong><\/p>\n<p>Vimos anteriormente que a ajuda sobrenatural vem muitas vezes de um p\u00e1ssaro. Totem individual ou g\u00eanio protetor, esses animais alados s\u00e3o agentes de uni\u00e3o, confidentes; em Florine., Serpentin vert, puxam a carruagem da bela que vai ao encontro de seu pr\u00edncipe encantado. Simbolizam os sonhos ternos, os beijos, as car\u00edcias; s\u00e3o prestativos, permitem encontrar a coroa de ouro do rei (Grimm, Les deux compagnons en tourn\u00e9e) (Os dois companheiros em tourn\u00e9e); procura distrair os prisioneiros (Andersen, Les cygnes sauvages) (Os cisnes selvagens). Prince et princesse (Pr\u00edncipe ou princesa), ou previnem dos perigos (Carnoy, Le fid\u00e8le Jean; tema do aprendiz feiticeiro). Loiseau bleu (O p\u00e1ssaro azul) (Mme. dAulnoy) e ele pr\u00f3prio \u00e9 o pr\u00edncipe encantado amado por Florine.<\/p>\n<p>O p\u00e1ssaro muitas vezes branco\u00a0 desempenha papel primordial no tema de o p\u00e1ssaro da verdade. Para curar uma rainha; para defender uma pessoa, \u00e9 preciso encontrar tr\u00eas objetos encantados: a \u00e1rvore que canta, o p\u00e1ssaro que fala e a \u00e1gua de ouro (Carnoy, Contes fran\u00e7ais). Madrastas impelem crian\u00e7as nessa aventura perigosa e num mundo des\u00e9rtico o do Graal mo\u00e7os foram transformados em pedra por n\u00e3o serem capazes de respeitar o pacto; o malef\u00edcio desaparecer\u00e1 assim que o her\u00f3i conseguir apoderar-se dos objetos maravilhosos.<\/p>\n<p>Para atingir a \u00c1rvore da vida \u00e9 preciso atravessar uma regi\u00e3o des\u00e9rtica; ora, essa \u00e1rvore est\u00e1 no centro do Para\u00edso terrestre, no centro de Jerusal\u00e9m celeste; tem doze frutos e talvez devamos ver a concord\u00e2ncia que h\u00e1 com os doze Aditias. Esse tema aproxima-se muito do. da demanda do Graal e ali\u00e1s, conforme Or\u00edgenes, o pr\u00f3prio Cristo \u00e9 a \u00e1rvore da vida.<\/p>\n<p>O Cristo que \u00e9 a virtude de Deus, a Sabedoria de Deus \u00e9 tamb\u00e9m a \u00e1rvore da vida pela qual devemos ser tentados,<\/p>\n<p>Muitas vezes esse tema liga-se ao do Chevalier au cygne, romance da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>A m\u00e3e do rei anuncia falsamente que sua nora deu \u00e0 luz c\u00e3es e gatos com o intuito de mandar matar as crian\u00e7as e repudiar a esposa detestada. Mas um vassalo condo\u00eddo n\u00e3o pode cometer esse crime horr\u00edvel; entrega as criancinhas a um eremita e apenas tira-lhes o colar de ouro. As crian\u00e7as que perderam assim o poder de um pent\u00e1culo m\u00e1gico, se transformam em cisnes. Depois de muitas tribula\u00e7\u00f5es, encontram novamente sua forma primitiva com a posse do seu colar.<\/p>\n<p>Cosquin menciona essas variantes nos seus Contes lorrains (Contos lorenos). Mais conhecido do que o conto siam\u00eas (Asiatic Researches, 1836), \u00e9 o de duas irm\u00e3s que t\u00eam ci\u00fames da irm\u00e3 ca\u00e7ula nas Mil e uma noites, que se assemelha ao conto caucasiano traduzido por Schiefner (M\u00e9moires de lAcad\u00e9mie des Sciences, t. XIX). Este \u00faltimo tema \u00e9 o que mais liga ao tema inicial de P\u00e1ssaro da verdade.<\/p>\n<p>Pois finalmente toda a verdade \u00e9 revelada por esse p\u00e1ssaro falador. Muitas vezes esse papel \u00e9 desempenhado por um anci\u00e3o (Grimm 96; Gubernatis; Carnoy).<\/p>\n<p>Mme d&#8217;Aulnoy retoma esse tema em La princesse Belle-Etoile (A princesa Bela-Estrela) e Henry Pourrat (Tr\u00e9sor des Contes, t. I (Tesouro dos Contos) aproveitou um conto semelhante.<\/p>\n<p>Observemos que muitas vezes \u00e9 uma jovem que leva a bom termo essa busca perigosa. Pela sua vontade, maior do que a sua for\u00e7a, ela far\u00e1 com que cesse o malef\u00edcio que reina na regi\u00e3o e restitui dessa forma a vida a esses cavaleiros malogrados que foram transformados em pedra. O paralelo com o Graal \u00e9 evidente. As vezes, por\u00e9m, a jovem muito fr\u00e1gil, serve-se de um ardil: \u00e9 o artif\u00edcio de tampar os ouvidos com cera a fim de n\u00e3o ouvir o horroroso tumulto; o tema n\u00e3o \u00e9 novo.<\/p>\n<p>A hero\u00edna se apodera de tr\u00eas objetos maravilhosos e ao voltar esposa o anci\u00e3o compadecido, o que estava encarregado de aconselhar; \u00e9 o eremita iniciador de Jo\u00e3o, o Urso.<\/p>\n<p>Com esse casamento o personagem \u00e9 libertado e o anci\u00e3o se transforma num pr\u00edncipe encantado.<\/p>\n<p><strong>VI. O chapeuzinho vermelho<\/strong><\/p>\n<p><b>1. O motivo<\/b><\/p>\n<p>Collin de Plancy descreve a hist\u00f3ria de uma camponesa de Finist\u00e8re que deu ouvidos aos prop\u00f3sitos de um desconhecido; volta com o rosto enegrecido e macilento; encontrou o diabo, o esp\u00edrito da ast\u00facia.<\/p>\n<p>No conto de Grimm (26) e na maioria das outras vers\u00f5es a menina devorada pode ser retirada do ventre do lobo. Em Perrault o fim tr\u00e1gico \u00e9 um castigo desproporcional ao erro.<\/p>\n<p><b>2. Interpreta\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>Se Perrault v\u00ea nesse conto uma moral que proibe \u00e0s mo\u00e7as conversarem com desconhecidos pelo caminho tema da proibi\u00e7\u00e3o violada Husson pensa no mito v\u00e9dico de Vartica, no qual o Acvins s\u00e3o os crep\u00fasculos e a adolesc\u00eancia, uma aurora interceptada pelo sol devorador sob a forma de um lobo. Essa escurid\u00e3o pode ainda ser o inverno (Lef\u00e8vre, Dillaye). Para Ploix o lobo \u00e9 o inverno.<\/p>\n<p>Saintyves nele v\u00ea uma rainha de maio: a cor vermelha sugere a alegria, atemoriza as feiticeiras enquanto que o bolo e o vinho o vinho de maio seriam oferendas rituais.<\/p>\n<p>Essa alegria m\u00e1gica envolvendo o sol novo teria sido resumida na vers\u00e3o francesa onde o clima \u00e9 mais sereno. As vers\u00f5es n\u00f3rdicas s\u00e3o mais completas. Depois da perman\u00eancia no corpo do lobo\u00a0 esp\u00e9cie de aprisionamento que encontramos no conto O lobo e os sete cabritinhos, de Grimm\u00a0 O chapeuzinho vermelho sai da barriga do lobo gra\u00e7as ao aux\u00edlio de um ca\u00e7ador. Pretendeu-se ver nessa lenda a interpreta\u00e7\u00e3o do ciclo estacional.<\/p>\n<p><strong>VII O Pequeno Polegar<\/strong><\/p>\n<p>Esse conto de origem inici\u00e1tica interpreta a luta de uma crian\u00e7a franzina contra o pap\u00e3o.<\/p>\n<p><b>1. Interpreta\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>Para Husson, o Pequeno Polegar \u00e9 a luz da manh\u00e3;\u00a0 na floresta\u00a0 durante a noite\u00a0 ele joga seixos\u00a0 as estrelas; o sol\u00a0 o pap\u00e3o\u00a0 devora suas crian\u00e7as, os primeiros raios do alvorecer Saintyves pensa nas prova\u00e7\u00f5es de inicia\u00e7\u00e3o; o Pequeno Polegar, franzino antes da inicia\u00e7\u00e3o, torna-se poderoso.<\/p>\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o para a virilidade efetua-se nesse recinto sagrado representado pela floresta. As fontes v\u00e9dicas s\u00e3o, desta forma, aparentes para Cosquin e P. R\u00e9gnaud (1897).<\/p>\n<p><b>2. Os temas<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 um an\u00e3o ou uma criatura franzina; sua intelig\u00eancia ativa permite-lhe triunfar do gigante de esp\u00edrito lento. \u00c9 tamb\u00e9m, Tom Ponce, cavaleiro do rei Artur (Brueyre); em Grimm, (37, 45) na Dinamarca, na \u00c1ustria, \u00e9 pequeno como um dedinho. Prudente, o Pequeno Polegar demarca o caminho com o aux\u00edlio de pequenos seixos ou com um rasto de cinza (contos de Mekidech, Cabilia).<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o de objetos, consegue fugir com seus irm\u00e3os. O pap\u00e3o ou o diabo -. enganado mata a sua progenitora. Saintyves observa numerosas variantes deste tema que \u00e9 encontrado nos contos berberes (H. Basset), ou nos de Lorraine (Histoire de Courtillon).<\/p>\n<p>Finalmente, por meio de uma falsa in\u00e9pcia, de uma fingida ignor\u00e2ncia, o her\u00f3i consegue livrar-se do pr\u00f3prio pap\u00e3o: por exemplo, pergunta ao feiticeiro como poderia penetrar num forno; o pap\u00e3o nele penetra e fica trancado. \u00c9 o tema da caldeira que aparece nas variantes de Barba-Azul. Saintyves evoca desta forma a inicia\u00e7\u00e3o dos guerreiros, nas tribos do Sul da \u00c1frica, por ocasi\u00e3o da cerim\u00f4nia da circuncis\u00e3o.<\/p>\n<p><b>3. O pap\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Pretendeu-se ver no pap\u00e3o o s\u00edmbolo das devasta\u00e7\u00f5es h\u00fangaras; mas para Gaston Paris, ele herdeiro dos racsas da \u00cdndia. O pap\u00e3o ou diabo Saintyves nele v\u00ea uma sobreviv\u00eancia dos ritos de antropologia e refere os contos zulus, malgaxes (Renel). Para Loeffler-Delachaux ele \u00e9 Saturno que devora seus filhos \u00e0 medida que Cibele (a Terra) os p\u00f5e no mundo.<\/p>\n<p><b>4. Os objetos m\u00e1gicos<\/b><\/p>\n<p>Os pantufos m\u00e1gicos permitem a Chao Gnoh (Cambodge) viajar no ar. As botas de sete l\u00e9guas s\u00e3o novamente mencionadas em S\u00e9billot (M\u00e9lusine., III), Cosquin; os sapatos m\u00e1gicos nos contos de Cachemira (Brihat-Katha), Madagascar (Capa), P\u00e9rsia (Tutiname); s\u00e3o da mesma natureza que o chap\u00e9u da invisibilidade ou a espada do poder.<\/p>\n<p>Hermes era o deus das sand\u00e1lias aladas e ocultava os bois de Apolo como freq\u00fcentemente o faz o Pequeno Polegar (Gast\u00e3o Paris).<\/p>\n<p>A troca de trajes, t\u00fanicas, an\u00e9is, penteados, induz o pap\u00e3o ao erro (Saintyves, Deulin). No Ino de Eur\u00edpedes, Temisto mata seus filhos tendo Ino, sua rival, trocado as t\u00fanicas. L. Brueyre menciona uma variante escocesa, bem como Carnoy (Courtillon) e S\u00e9billot (La Perle e le Petit-Peucerot) (A P\u00e9rola e o Pequeno Peucerot).<\/p>\n<p><strong>VIII Jo\u00e3o, o Urso<\/strong><\/p>\n<p>Existe, assim, grande n\u00famero de contos nos quais um grupo de crian\u00e7as perde-se, intencionalmente, na floresta. O tema do Pequeno Polegar se aparenta ao do Cavaleiro do cisne, no qual os filhos do rei, perdidos intencionalmente por ordem de sua av\u00f3 ciumenta, encontram um aux\u00edlio protetor antes de retornarem ao meio a que t\u00eam direito. Perseu, \u00c9dipo, Ciro, P\u00e1ris, R\u00f4mulo s\u00e3o, da mesma forma, expostos \u00e0 morte, mas salvos, cumprem, sozinhos, a predi\u00e7\u00e2o anunciada.<\/p>\n<p>Essas crian\u00e7as solit\u00e1rias s\u00e3o muitas vezes salvas por animais selvagens ou pastores, como Mowgli, o menino-lobo, imortalizado por Kipling. Houve, contudo, casos muito mais pungentes e precisamos nos lembrar particularmente daquelas pobres criaturas humanas, Amala e Camala, que viveram com animais e morreram em, aproximadamente, 1930.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s foi recolhido por uma princesa eg\u00edpcia e Jo\u00e3o, por uma loba ou por uma ursa. O leite colhido desse animal compassivo deu-lhe uma for\u00e7a excepcional.<\/p>\n<p>Esse adolescente leva uma vida vegetativa at\u00e9 o dia em que encontra o primeiro homem, o iniciador; \u00e9 a adolesc\u00eancia de Parsifal no Graal ou o de um dos numerosos her\u00f3is do P\u00e1ssaro da Verdade. Jo\u00e3o, o Urso pode tornar-se um cavaleiro cort\u00eas e instru\u00eddo, cuja for\u00e7a sobre-humana faz com que seja classificado acima dos seus companheiros,; ascende assim aos mais altos graus; contudo, continua um jovem de esp\u00edrito estreito.<\/p>\n<p>Esse pesado gorducho vive nos contos de Cosquin (Contes lorrains), Grimm (Le jeune g\u00e9ant) (O jovem gigante), Asbjoernsen e essa estupidez aparece ainda no conto caucasiano Oreille d ours (Orelha de urso). Geralmente, esse jovem que cresce em for\u00e7a e beleza executa trabalhos extraordin\u00e1rios; pode ter tido um nascimento compar\u00e1vel ao de Roberto, o Diabo; mas Jo\u00e3o, o Urso consegue triunfar continuando bom para os seus semelhantes; por fim desposa uma princesa (Carnoy, Contes fran\u00e7ais, 1885).<\/p>\n<p><strong>IX. Riquet \u00e0 la Houppe<\/strong><\/p>\n<p>Ritual nupcial, Riquet mostra o poder m\u00e1gico do amor sobre o ente amado.<\/p>\n<p><b>1. As variantes<\/b><\/p>\n<p>Saintyves analisa esses contos nos quais o amor transforma a c\u00f4njuge. A muta\u00e7\u00e3o animal pode ser completa e constante (Le crapaud ) (O sapo) ou epis\u00f3dica (Le loup gris, L homme Crapaud) (O lobo cinzento, O homem-sapo). O marido pode deixar sua mulher que n\u00e3o soube guardar um segredo (Le roi de Pietraverde).<\/p>\n<p>O homem, transformado em bicho, torna ao seu estado assim que uma mulher se decidir a beij\u00e1-lo ou a despos\u00e1-lo. (A Bela e a Fera, O Pentameron). As vezes a esposa \u00e9 o personagem encantado (Perceval, La chaise de crapauds) (Parsifal, A cadeira dos sapos).<\/p>\n<p><b>2. Interpreta\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>A bela a aurora desposou o Sol que obscureceu; mas ao tornar-se cintilante ela deve segui-lo do Oriente ao Ocidente at\u00e9 a porta do pal\u00e1cio da noite.<\/p>\n<p>Essa proibi\u00e7\u00e3o de interrogar o ente amado significa para Saintyves o respeito de tabus nupciais. La veuve et ses filles torna-se ma das variantes de Barba-Azul: a hist\u00f3ria do casamento infeliz.<\/p>\n<p>Essas metamorfoses se referem \u00e0s pr\u00e1ticas de sociedades secretas pag\u00e3s ou religiosas: os membros, durante sua inicia\u00e7\u00e3o, revestiam peles de animais ou m\u00e1scaras de animais.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que essas narrativas m\u00e1gicas de metamorfoses deram origem aos Pururavas, a Psiqu\u00ea, a Riquet \u00e0 la Houppa ou aos contos de Mme Leprince de Beaumont (Kusa le prince spirituel) (Cusa, o pr\u00edncipe espiritual).<\/p>\n<p><strong>X. O gato de botas<\/strong><\/p>\n<p><b>1. Variantes<\/b><\/p>\n<p>Se encontramos um conto semelhante em Pentameron (Gagluso), o conto de Zanzibar Sultant Darai assemelha-se muito ao nosso Gato de Botas. Mas quando a gazela benfeitora adoece, Darai esquece o que lhe deve; somente o povo lhe dedicar\u00e1 funerais p\u00fablicos.<\/p>\n<p><b>2. Interpreta\u00e7\u00f5es<\/b><\/p>\n<p>A raposa da vers\u00e3o mongol \u00e9, sem d\u00favida, esse animal sagrado da \u00c1sia mediterr\u00e2nica, o gato \u00e9 um animal feiticeiro (Europa); os gatos pretos acompanham as feiticeiras (Bodin).<\/p>\n<p>O gato cal\u00e7ado como os oficiantes persegue ritualmente a raposa e sem d\u00favida liga-se \u00e0 liturgia eg\u00edpcia: \u00e9 o servidor do Sol.<\/p>\n<p>Esse papel de prote\u00e7\u00e3o relaciona-se ao ritual da instaura\u00e7\u00e3o dos antigos padres-reis das sociedades primitivas.<\/p>\n<p>Saintyves observa que o casamento prepara a ascens\u00e3o ao trono e o futuro esposo troca de nome bem como o futuro rei.<\/p>\n<p>Purificado pelas \u00e1guas do rio, o her\u00f3i veste novos trajes, \u00e9 o cerimonial do coroamento; os s\u00faditos encontrados prestam obedi\u00eancia ao novo rei que toma posse do seu pal\u00e1cio: ritual de instaura\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n<p>Na maior parte dos contos o homem \u00e9 ingrato; mas o animal pode demitir o rei que tem obriga\u00e7\u00f5es para com o seu povo.<\/p>\n<p>A \u00e1gua \u00e9 o emblema da ressurrei\u00e7\u00e3o e da vida eterna. Com as \u00e1guas maternais adquire-se um corpo novo que \u00e9 o ritual do batismo. A \u00e1gua, essa fonte de Juv\u00eancia, permitir\u00e1 que Hera volte \u00e0 virgindade depois de cada imers\u00e3o na fonte de Canatos em Nauphie; eis ai uma reencarna\u00e7\u00e3o da qual aproveita o nosso marqu\u00eas de Carabas.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.torch.ox.ac.uk\/www.ebooksbrasil.org<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria das Lendas, Obra Completa Online, Download, Cap\u00edtulo I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX, X, XII, XII<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[344],"tags":[],"class_list":["post-76227","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-folclore"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Hist\u00f3ria das Lendas, 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