{"id":62715,"date":"2016-07-13T18:49:24","date_gmt":"2016-07-13T18:49:24","guid":{"rendered":"http:\/\/cms.portalsaofrancisco.com.br\/?p=62715"},"modified":"2016-07-14T12:35:23","modified_gmt":"2016-07-14T12:35:23","slug":"capoeira-regional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/esportes\/capoeira-regional","title":{"rendered":"Capoeira Regional"},"content":{"rendered":"<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/capoeira-regional.gif\" \/><\/p>\n<h4>O Jogo<\/h4>\n<p><strong>O jogo Regional, se caracteriza por ser jogado sob os toques da Capoeira      Regional:<\/strong> S\u00e3o Bento Grande Regional, Idalina, Banguela, Amazonas,      I\u00fana, segundo os princ\u00edpios desenvolvidos pelo seu criador, Manoel dos Reis      Machado, Mestre Bimba (1900-1947); quando Bimba come\u00e7ou a sentir que a &#8220;Capoeira      Angola&#8221;, que ele praticava e ensinou por um bom tempo, tinha se modificado,      degenerou-se e passou a servir de &#8220;prato do dia&#8221; para &#8220;pseudo-capoeiristas&#8221;,      que a utilizavam unicamente para exibi\u00e7\u00f5es em pra\u00e7as e, por possuir um n\u00famero      reduzido de golpes, deixava muito a desejar, em termos de luta. <\/p>\n<p>Aproveitou-se ent\u00e3o do &#8220;Batuque&#8221; e da &#8220;Angola&#8221; e criou      o que ele chamou de &#8220;Capoeira Regional&#8221;, uma luta baiana.<\/p>\n<p>Possuidor de grande intelig\u00eancia, ex\u00edmio praticante da &#8220;Capoeira Angola&#8221;      e muito \u00edntimo dos golpes do &#8220;Batuque&#8221;(O Batuque, \u00e9 uma luta braba,      violenta, onde o objetivo era jogar o advers\u00e1rio no ch\u00e3o usando apenas as      pernas) , intimidade esta adquirida com seu pai, um mestre nesse esporte,      foi f\u00e1cil para Bimba, com seu g\u00eanio criativo, &#8220;descobrir a Regional&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta ser r\u00e1pido qualquer toque para que se transforme em Regional o      jogo. Tem regra. Tem jogo espec\u00edfico para os toques espec\u00edficos, tem fundamentos      pr\u00f3prios. Jogo Regional pode ser de fora, como tamb\u00e9m pode ser de dentro.    <\/p>\n<p>Pode ser alto ou baixo. Pode ser jogado na manha do toque da Banguela, que      o Mestre criou para acalmar os \u00e2nimos. Mas tem que ser marcado, sincronizado      no toque do berimbau \u00fanico que segura a roda e d\u00e1 o ritmo do jogo. N\u00e3o tem      que disparar apressado que n\u00e3o possa mais cantar. Pode ser manhoso tamb\u00e9m.      Regional tem for\u00e7a, garra, ritmo e muita ci\u00eancia tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>As caracter\u00edsticas principais da Capoeira Regional s\u00e3o: <\/strong><\/p>\n<p><strong>Exame de Admiss\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Consistia de tr\u00eas exerc\u00edcios b\u00e1sicos, cocorinha, queda de rins e deslocamento      ( ponte ), com a finalidade de verificar a flexibilidade, for\u00e7a e equil\u00edbrio      do iniciante. <\/p>\n<p>Em seguida a aula de coordena\u00e7\u00e3o onde o aluno aprendia a gingar auxiliado      pelo Mestre Bimba. Para ensinar a ginga, Mestre Bimba convidava o aluno para      o centro da sala e frente a frente pegava-o pelas m\u00e3os e ensinava primeiramente      os movimentos das pernas e a coloca\u00e7\u00e3o exata dos p\u00e9s, e em seguida realizava      o movimento completo em coordena\u00e7\u00e3o com os bra\u00e7os. Este momento era important\u00edssimo      para o iniciante pois lhe transmitia coragem e seguran\u00e7a. Acordeon Ex-aluno      do Mestre poeticamente diz &#8221; &#8230; ELE ERA FORTE NA ALMA TINHA UMA FACA      NO OLHAR QUE CORTAVA A GENTE DE CIMA A BAIXO QUANDO ESTAVA A ENSINAR&#8230;&#8221;.<\/p>\n<h4>Seq\u00fc\u00eancia de Ensino de Mestre Bimba<\/h4>\n<p>O Mestre criou o primeiro m\u00e9todo de ensino da capoeira, que consta de uma      seq\u00fc\u00eancia l\u00f3gica de movimentos de ataque, defesa e contra-ataque, podendo      ser ministrada para os iniciantes na forma simplificada, o que permite que      os alunos aprendam jogando com uma forte motiva\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a. <\/p>\n<p>Jair Moura, Ex-aluno explica &#8221; esta seq\u00fc\u00eancia \u00e9 uma s\u00e9rie de exerc\u00edcios      f\u00edsicos completos e organizados em um n\u00famero de li\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e eficientes,      a fim de que o principiante em Capoeira, dentro de um menor espa\u00e7o de tempo      poss\u00edvel, se conven\u00e7a do valor da luta, como um sistema de ataque e defesa      &#8220;. <\/p>\n<p>A seq\u00fc\u00eancia original completa de ensino \u00e9 formada com 17 golpes, onde cada      aluno executa 154 movimentos e a dupla 308, o que desenvolve sobremaneira      o condicionamento f\u00edsico e a habilidade motora espec\u00edfica dos praticantes.<\/p>\n<p><strong>Os golpes integrantes da Seq\u00fc\u00eancia s\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<table border=\"0\" cellpadding=\"0\" cellspacing=\"1\" width=\"50%\" bgcolor=\"#000000\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td align=\"center\">\n<p align=\"center\" class=\"Estilo1\"><strong>A\u00fa<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<td align=\"center\">\n<p align=\"center\" class=\"Estilo1\"><strong>Armada<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<td align=\"center\">\n<p align=\"center\" class=\"Estilo1\"><strong>Arrast\u00e3o<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<td align=\"center\">\n<p align=\"center\" class=\"Estilo1\"><strong>B\u00ean\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Cocorinha<\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Cabe\u00e7ada<\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Godeme<\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Galopante <\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Giro <\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Joelhada<\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Martelo<\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Meia Lua de Compasso <\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Queixada<\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Negativa<\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Palma <\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Meia Lua de Frente <\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Rol\u00ea<\/td>\n<td align=\"center\" colspan=\"3\" bgcolor=\"#FFFFFF\">\u00a0<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<p><strong>1\u00aa Sequ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Jogador 1 &#8211;<\/strong> Meia-lua de frente, meia lua de frente, b\u00ean\u00e7\u00e3o        e a\u00fa de rol\u00ea.<strong><br \/>\n       Jogador 2 &#8211; <\/strong>Cocorinha, cocorinha, negativa e cabe\u00e7ada. <\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>2\u00aa Sequ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Jogador 1 &#8211;<\/strong> 2 Martelos, cocorinha, ben\u00e7\u00e3o e a\u00fa de rol\u00ea.<strong><br \/>\n       Jogador 2 &#8211;<\/strong> 2 Rasteiras, armada, negativa e cabe\u00e7ada. <\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>3\u00aa Sequ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Jogador 1 &#8211; <\/strong>Queixada, queixada, cocorinha, b\u00ean\u00e7\u00e3o e a\u00fa        de rol\u00ea.<strong><br \/>\n       Jogador 2 &#8211;<\/strong> Cocorinha, cocorinha, armada, negativa e cabe\u00e7ada.      <\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>4\u00aa Sequ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Jogador 1 &#8211;<\/strong> Godeme, godeme, arrast\u00e3o e a\u00fa de rol\u00ea.<strong><br \/>\n       Jogador 2 &#8211; <\/strong>2 parada de godeme, galopante, negativa e cabe\u00e7ada.      <\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>5\u00aa Sequ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Jogador 1 &#8211;<\/strong> Arp\u00e3o de cabe\u00e7a, joelhada e a\u00fa de rol\u00ea.<strong><br \/>\n       Jogador 2 &#8211;<\/strong> Cabe\u00e7ada, negativa e cabe\u00e7ada. <\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>6\u00aa Sequ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Jogador 1 &#8211;<\/strong> Meia-lua de compasso, cocorinha, joelhada        lateral, a\u00fa de rol\u00ea.<strong><br \/>\n       Jogador 2 &#8211;<\/strong> Cocorinha, meia-lua de compasso, negativa e cabe\u00e7ada.      <\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>7\u00aa Sequ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Jogador 1 &#8211;<\/strong> Armada, cocorinha, ben\u00e7\u00e3o, a\u00fa de rol\u00ea.<strong><br \/>\n       Jogador 2 &#8211;<\/strong> Cocorinha, armada, negativa e cabe\u00e7ada. <\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>8\u00aa Sequ\u00eancia<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>Jogador 1 &#8211;<\/strong> B\u00ean\u00e7\u00e3o e a\u00fa de rol\u00ea.<strong><br \/>\n       Jogador 2 &#8211; <\/strong>Negativa e cabe\u00e7ada. <\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Cintura Desprezada \u00e9 uma seq\u00fc\u00eancia de golpes ligados e bal\u00f5es, tamb\u00e9m conhecidos      como Movimentos de Proje\u00e7\u00e3o da Capoeira, onde o capoeirista projeta o companheiro,      que dever\u00e1 cair em p\u00e9 ou agachado jamais sentado. Tem o objetivo de desenvolver      a auto-confian\u00e7a, o senso de coopera\u00e7\u00e3o, responsabilidade, agilidade e destreza.<\/p>\n<p><strong>Os golpes que fazem parte desta seq\u00fc\u00eancia s\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<table width=\"50%\" border=\"0\" cellpadding=\"0\" cellspacing=\"1\" bgcolor=\"#000000\">\n<tr bgcolor=\"#FFFFCC\">\n<td align=\"center\" colspan=\"2\">\n<p align=\"center\" class=\"Estilo1\"><strong>CINTURA DESPREZADA<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">A\u00fa<\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Bal\u00e3o de Lado<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Tesoura de costas<\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Bal\u00e3o Cinturado<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Apanhada<\/td>\n<td align=\"center\" bgcolor=\"#FFFFFF\">Gravata Alta<\/td>\n<\/tr>\n<\/table>\n<h4>Batizado<\/h4>\n<p>Momento em que o iniciante jogava pela primeira vez na roda com o acompanhamento      de instrumentos. No batizado, o mestre escolhia o formando que jogaria com      o calouro e ent\u00e3o tocava &#8220;S\u00e3o Bento Grande&#8221;, toque que caracterizava      a capoeira regional. <\/p>\n<p>Para isso o calouro era colocado no centro da roda, onde o mestre escolhia      um apelido a ele. Depois de definido o &#8220;nome de guerra&#8221; o mestre      mandava o calouro pedir a &#8220;Ben\u00e7\u00e3o&#8221; do padrinho, que ao estender      a m\u00e3o recebia uma Ben\u00e7\u00e3o que o jogaria no ch\u00e3o.<\/p>\n<h4>Formatura<\/h4>\n<p>A cerim\u00f4nia iniciava com uma roda de formados antigos para que as madrinhas      e os convidados pudessem ver o que era a Capoeira Regional. Mestre Bimba ficava      ao lado do som, que era formado por 1 Berimbau e 2 pandeiros, comandando a      roda e cantando as m\u00fasicas caracter\u00edsticas da Regional. <\/p>\n<p>Terminada a roda, o mestre chamava o orador que geralmente era um formado      mais antigo para falar um breve hist\u00f3rico da Capoeira Regional e do mestre.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o hist\u00f3rico, o mestre entregava as medalhas aos paraninfos e os len\u00e7os      azuis (Gradua\u00e7\u00e3o dos Formados) as madrinhas. Os paraninfos colocavam a medalha      ao lado esquerdo do peito do Formado e as madrinhas colocavam os len\u00e7os nos      pesco\u00e7os dos seus respectivos afilhados. <\/p>\n<p>A partir dai os formados demonstravam alguns movimentos a pedido do mestre      para mostrar a sua compet\u00eancia, incluindo os movimentos de &#8220;cintura desprezada&#8221;,      &#8220;jogo de floreio&#8221; e o &#8220;escrete&#8221; que era o jogo combinado      com o uso dos Bal\u00f5es.<\/p>\n<p>Para terminar, chegava a hora do &#8220;Tira-medalha&#8221; onde o rec\u00e9m formado      jogava com um formado antigo que tentava tirar a sua medalha com qualquer      golpe aplicado com o p\u00e9. S\u00f3 ent\u00e3o depois de passar por isso tudo \u00e9 que o aluno      poderia se considerar aluno formado de mestre Bimba, tendo direito at\u00e9 de      jogar na roda quando o mestre estivesse tocando Iuna que era o toque criado      por ele para esse fim. A partir dai s\u00f3 restava o curso de especializa\u00e7\u00e3o que      veremos a seguir.<\/p>\n<h4>Especializa\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p>Tinha dura\u00e7\u00e3o de 3 meses, sendo 2 na academia e 1 nas matas da Chapada do      Rio Vermelho. Tratava-se de um treinamento de guerrilha, onde aconteciam as      emboscadas, armadilhas e etc. , que consistia em submeter o formado a situa\u00e7\u00f5es      das mais dif\u00edceis, desde defender-se de 3 ou mais Capoeiristas, at\u00e9 defender-se      de armas.<\/p>\n<p>Terminado o curso, o mestre fazia a mesma festa para os novos especializados,      e estes recebiam o len\u00e7o vermelho que representava a nova gradua\u00e7\u00e3o. O aluno      que se formava ou se especializava, tinha a obriga\u00e7\u00e3o de pendurar um quadro      com a foto mestre, do padrinho, do orador, e a pr\u00f3pria foto.<\/p>\n<p>Fonte:  capoeira_regional.vilabol.uol.com.br<\/p>\n<h6>Capoeira Regional<\/h6>\n<p class=\"google\">\n<h4>Gradua\u00e7\u00e3o da Capoeira Regional<\/h4>\n<p>A <strong>Capoeira Regional <\/strong>segue o sistema de gradua\u00e7\u00e3o do aluno      como em outros esportes, a exemplo do Karat\u00ea, Jud\u00f4, que usamos as faixas coloridas      como o laranja, marrom, roxo e preto. <\/p>\n<p>A capoeira tamb\u00e9m recebeu esta influ\u00eancia, que originou os cord\u00f5es. <\/p>\n<p>S\u00f3 que a<strong> capoeira Regional<\/strong> dar seguimento a prefer\u00eancia      e pela combina\u00e7\u00e3o das cores da bandeira brasileira, criada pela Confedera\u00e7\u00e3o      Brasileira de Capoeira (CBC), que vai do 1\u00b0 ano ao 5\u00b0 est\u00e1gio e de aluno formado      a mestre. <\/p>\n<p><strong>Seguindo a ordem das cores: <\/strong>Verde, Amarelo, Azul, Verde-Amarelo,      Banco-Azul e por \u00faltimo Branco.<\/p>\n<p>Hoje temos observado que existe uma grande preocupa\u00e7\u00e3o por parte do aluno      em trocar logo de cord\u00e3o, esquecendo a parte mais importante do esporte, o      conhecimento, os valores dos golpes de defesa e ataque, ter consci\u00eancia da      import\u00e2ncia de praticar o esporte, entender a filosofia, ter a convic\u00e7\u00e3o e      a voca\u00e7\u00e3o do que realmente deseja, para exerce-lo com equil\u00edbrio e disciplina.    <\/p>\n<p>N\u00e3o adianta receber cord\u00e3o e n\u00e3o saber onra-los, em outras palavras, n\u00e3o      ser digno e nem ser capacitado, n\u00e3o ter compet\u00eancia. N\u00e3o s\u00f3 em n\u00edvel do esporte      capoeira, mas como em qualquer outra modalidade do esporte.<\/p>\n<p><strong>Adriano Vitorazzi<\/strong><\/p>\n<p>Fonte:  www.mpalmares.jex.com.br<\/p>\n<h6>Capoeira Regional<\/h6>\n<p>A <strong>Capoeira Regional <\/strong>\u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o da cultura baiana,      que foi criada em 1928 por Manoel dos Reis Machado ( Mestre Bimba ). Bimba      utilizou os seus conhecimentos da Capoeira Angola e do Batuque (esp\u00e9cie de      luta-livre comum na Bahia do s\u00e9culo XIX) para criar este novo estilo. <\/p>\n<p>Para fugir de qualquer pista que lembrasse a origem marginalizada da capoeira,      mudou alguns movimentos, eliminou a mal\u00edcia da postura do capoeirista, colocando-o      em p\u00e9, criou um c\u00f3digo de \u00e9tica r\u00edgido, que exigia at\u00e9 higiene, estabeleceu      um uniforme branco e se meteu at\u00e9 na vida dos alunos.<\/p>\n<p><strong>As caracter\u00edsticas principais da Capoeira Regional s\u00e3o: <\/strong><\/p>\n<p><strong>1. Exame de Admiss\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>Consistia de tr\u00eas exerc\u00edcios b\u00e1sicos, cocorinha, queda de rins e deslocamento      (ponte), com a finalidade de verificar a flexibilidade, for\u00e7a e equil\u00edbrio      do iniciante. Em seguida a aula de coordena\u00e7\u00e3o onde o aluno aprendia a gingar      auxiliado pelo Mestre Bimba. <\/p>\n<p>Para ensinar a ginga, Mestre Bimba convidava o aluno para o centro da sala      e frente a frente pegava-o pelas m\u00e3os e ensinava primeiramente os movimentos      das pernas e a coloca\u00e7\u00e3o exata dos p\u00e9s, e em seguida realizava o movimento      completo em coordena\u00e7\u00e3o com os bra\u00e7os. Este momento era important\u00edssimo para      o iniciante pois lhe transmitia coragem e seguran\u00e7a. <\/p>\n<p><strong>2. Seq\u00fc\u00eancia de Ensino de Mestre Bimba<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Mestre criou o primeiro m\u00e9todo de ensino da capoeira, que consta      de uma seq\u00fc\u00eancia l\u00f3gica de movimentos de ataque, defesa e contra-ataque, podendo      ser ministrada para os iniciantes na forma simplificada, o que permite que      os alunos aprendam jogando com uma forte motiva\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a. Jair Moura,      Ex-aluno explica:<\/strong> &#8220;Esta seq\u00fc\u00eancia \u00e9 uma s\u00e9rie de exerc\u00edcios      f\u00edsicos completos e organizados em um n\u00famero de li\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e eficientes,      a fim de que o principiante em Capoeira, dentro de um menor espa\u00e7o de tempo      poss\u00edvel, se conven\u00e7a do valor da luta, como um sistema de ataque e defesa&#8221;.    <\/p>\n<p>A seq\u00fc\u00eancia original completa de ensino \u00e9 formada com 17 golpes, onde cada      aluno executa 154 movimentos e a dupla 308, o que desenvolve sobremaneira      o condicionamento f\u00edsico e a habilidade motora espec\u00edfica dos praticantes.    <\/p>\n<p><strong>Os golpes integrantes da seq\u00fc\u00eancia s\u00e3o: <\/strong><\/p>\n<p>A\u00fa Armada Arrast\u00e3o B\u00ean\u00e7\u00e3o Cocorinha Cabe\u00e7ada Godeme Galopante Giro Joelhada      Martelo Meia Lua de Compasso Queixada Negativa Palma Meia Lua de Frente Role    <\/p>\n<p><strong>3. Cintura Desprezada<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma seq\u00fc\u00eancia de golpes ligados e bal\u00f5es, tamb\u00e9m conhecidos como Movimentos      de Proje\u00e7\u00e3o da Capoeira, onde o capoeirista projeta o companheiro, que dever\u00e1      cair em p\u00e9 ou agachado jamais sentado. Tem o objetivo de desenvolver a autoconfian\u00e7a,      o senso de coopera\u00e7\u00e3o, responsabilidade, agilidade e destreza. <\/p>\n<p><strong>Os golpe que fazem parte desta seq\u00fc\u00eancia s\u00e3o: <\/strong>A\u00fa Bal\u00e3o de      lado Tesoura de costas Bal\u00e3o cinturado Apanhada Gravata alta <\/p>\n<p><strong>4 &#8211; Batizado<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 um momento de grande significado para o aluno, pois encontra-se      apto para jogar pela primeira vez na roda. Itapoan, Ex-aluno retrata o Batizado      da seguinte maneira: <\/strong>&#8220;O Batizado consistia em colocar em cada      calouro um nome de guerra. <\/p>\n<p>O tipo f\u00edsico, o bairro onde morava, a profiss\u00e3o, o modo de se vestir, atitudes,      um dom art\u00edstico qualquer, serviam de subs\u00eddios para o apelido&#8221;. Fred      Abreu referindo-se ao batizado, cita que na intimidade da Academia de Mestre      Bimba ele assim se dizia &#8220;Voc\u00ea hoje vai entrar no a\u00e7o&#8221;. Desta maneira      o Mestre avisava ao calouro que chegou a hora do seu batizado, era um momento      de grande emo\u00e7\u00e3o, pois tratava-se de jogar capoeira pela primeira vez na roda      amimada pelo berimbau. <\/p>\n<p>Para este jogo era escolhido um formado ou um aluno mais velho da Academia      que estivesse na aula, que como padrinho incentivava ao afilhado a jogar,      e ap\u00f3s o jogo o Mestre no centro da roda levantava a m\u00e3o do aluno e ent\u00e3o      era dado um apelido com o qual passaria a ser conhecido na capoeira. <\/p>\n<p><strong>5 &#8211; Esquenta Banho <\/strong><\/p>\n<p>Segundo Itapoan o &#8220;esquenta banho&#8221; originou-se da necessidade dos      alunos de se manterem aquecidos. Logo ap\u00f3s o termino da aula todos os praticantes      corriam para o banheiro afim de tomarem uma chuveirada, no entanto o banheiro      da academia era pequeno com um s\u00f3 chuveiro com \u00e1gua fina, o que proporcionava      um congestionamento e a inevit\u00e1vel fila. <\/p>\n<p>Para n\u00e3o esfriar o corpo, os alunos mais velhos, normalmente os formados      tomavam a iniciativa e come\u00e7ava o &#8220;Esquenta Banho&#8221;. Este era um      momento f\u00e9rtil da aula, pois se tratava do espa\u00e7o do aluno, tamb\u00e9m chamado      de &#8220;Bumba Meu Boi&#8221; ou &#8220;Arranca Rabo&#8221; devido aos freq\u00fcentes      desafios para o acerto de contas, como exemplo, descontar um golpe tomado      durante a roda. Muitos formados aproveitavam para testar suas capacidades      desafiando dois, tr\u00eas, ou mais advers\u00e1rios. <\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m era muito comum o utilizar esse momento para o treinamento      de golpes dif\u00edceis e sofisticados como:<\/strong> vingativa, rasteira, banda      de costa e etc. <\/p>\n<p><strong>Formatura: <\/strong>A formatura era um dia todo espacial para o Mestre      e seu alunos, um ritual com direito a paraninfo, orador, e madrinha, len\u00e7o      de seda azul e medalha. A festa era realizada no S\u00edtio Caruano no Nordeste      de Amaralina na presen\u00e7a dos convidados e de toda a academia. <\/p>\n<p>Os formando vestidos todo de branco, usando basqueteira, atendiam o chamado      do Mestre Bimba que solicitava a demonstra\u00e7\u00e3o de golpes, seq\u00fc\u00eancia, cintura      desprezada, jogo de esquente (jogo combinado), em seguida a prova de fogo,      o jogo com os formados, tamb\u00e9m chamado de &#8220;Tira Medalha&#8221;, um verdadeiro      desafio, onde os alunos formados antigos tentavam tirar a medalha dos formados      com o p\u00e9, e assim manchar a dignidade e roupa impecavelmente branca. Itapoan      descreve com muita propriedade, &#8220;O objetivo do formado antigo era tirar      com um golpe aplicado com o p\u00e9, a Medalha do peito do formando, caso isso      acontecesse, o aluno deixava de formar, o que era um vexame!&#8221;. <\/p>\n<p>Por isso o aluno jogava com todos os seus recursos, enfrentando um capoeirista      malicioso e t\u00e9cnico at\u00e9 o momento que o Mestre apitasse para encerrar o jogo.      A\u00ed, o formando conferia se a medalha continuava presa ao peito, que alivio      estava formado! Dando continuidade ao ritual de formatura acontecia as apresenta\u00e7\u00f5es      de maculel\u00ea, Samba de Roda, Samba Duro e Candombl\u00e9. <\/p>\n<p><strong>7. Iuna<\/strong><\/p>\n<p>A Iuna \u00e9 uma marca registrada da Capoeira Regional de Mestre Bimba, \u00e9 um      toque de berimbau criado pelo Mestre, que era tocado no final das aulas ou      em eventos especiais, uma toque onde s\u00f3 os alunos formados tinham acesso a      roda, com a obrigatoriedade de realizar um &#8220;jogo de floreio&#8221;, bonito,      criativo, curtido, malicioso e que deveria ter movimentos de proje\u00e7\u00e3o. Este      jogo suscitava muita admira\u00e7\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p><strong>8. Curso de Especializa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Este era um curso secreto onde s\u00f3 poderia participar os alunos formados por      Mestre Bimba. <\/p>\n<p><strong>Tinha como objetivo o aprimoramento da capoeira, com uma \u00eanfase para      os ensinamentos de defesa e contra-ataque de golpes advindos de um advers\u00e1rio      portando armas como:<\/strong> navalha, faca, canivete, porrete, fac\u00e3o e at\u00e9      armas de fogo. Sua dura\u00e7\u00e3o era de tr\u00eas meses divididos em dois m\u00f3dulos, o      primeiro com a dura\u00e7\u00e3o de sessenta dias e era desenvolvido dentro da academia      atrav\u00e9s de uma estrat\u00e9gia de ensino muito peculiar do Mestre. <\/p>\n<p>O segundo com dura\u00e7\u00e3o de 30 dias e era realizada na Chapada do Rio Vermelho,      tinha como conte\u00fado as &#8220;emboscadas&#8221;, a qual Itapoan assim se refere      &#8220;Uma verdadeira guerra, verdadeiro treinamento de guerrilha. Bimba colocava      quatro a cinco alunos para pegar um de emboscada. <\/p>\n<p>O aluno que tivesse sozinho, tinha que lutar at\u00e9 quando pudesse e depois      correr, saber correr, correr para o lugar certo&#8221;. Ao final do curso o      Mestre Bimba fazia uma festa aos moldes da formatura e entregava aos concluintes      um &#8220;Len\u00e7o Vermelho&#8221; que correspondia a uma titula\u00e7\u00e3o de Gradua\u00e7\u00e3o      dos Formandos Especializados. <\/p>\n<p><strong>9. M\u00fasicasPodemos dividir em duas partes <\/strong><\/p>\n<p>A primeira referente aos toques de Berimbau, S\u00e3o Bento Grande, Santa Maria,      Banguela, Amazonas, Cavalaria, Idalina e I\u00fana. A rigor cada toque tem um significado      e representa um estilo de jogo. S\u00e3o Bento Grande \u00e9 um toque que tem ritmo      agressivo, indica um jogo alto com golpes aprimorados e bem objetivos, um      &#8220;jogo duro&#8221;. <\/p>\n<p>A Banguela \u00e9 um toque que chama para um jogo compassado, curtido, malicioso      e floreado. Cavalaria \u00e9 o toque de aviso, chama a aten\u00e7\u00e3o dos capoeiristas      que chegou estranhos na roda, outrora avisava da aproxima\u00e7\u00e3o de policiais.      I\u00fana \u00e9 um toque especial para os alunos formados por Mestre Bimba, incita      um jogo amistoso, curtido, malicioso e com a obrigatoriedade do esquente.      Santa Maria, Amazonas e Idalina s\u00e3o toques de apresenta\u00e7\u00e3o. A segunda efer\u00eancia      \u00e9 sobre as musicas &#8211; quadras e corrido. <\/p>\n<p>As quadras s\u00e3o pequenas ladainhas com versos composto de 4 a 6 linhas. O      corrido s\u00e3o cantigas com frases curtas que \u00e9 repetido pelo coro. Plasticamente      a Capoeira Regional \u00e9 identificada p\u00ealos golpes bem definidos, pernas esticadas,      movimentos amplos, jogo alto e objetivo.<\/p>\n<p>Fonte:  360graus.terra.com.br<\/p>\n<h6>Capoeira Regional<\/h6>\n<h4>&#8220;CAPOEIRA &#8211; ANGOLA, REGIONAL ou CONTEMPOR\u00c2NEA&#8221; <\/h4>\n<p>&#8220;Melhor para chegar a nada \u00e9 descobrir a verdade!&#8221; <\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>Nesta entrada de mil\u00eanio, o universo da Capoeira se expandiu apresentando      faces muito diferentes das que apresentou nos \u00faltimos s\u00e9culos.<\/p>\n<p><strong>Num primeiro contato se encontram dois \u00edcones e dois estilos:<\/strong>      Mestre Pastinha e a Capoeira Angola e Mestre Bimba com a Capoeira Regional.      Mas, atualmente, no ambiente da Capoeira, rico em diversidades, h\u00e1 uma confus\u00e3o      sem\u00e2ntica na origem, no desenvolvimento e na complexidade de formas de capoeiragem      existentes. Este texto procura colocar um pouco de &#8216;lenha na fogueira&#8217; nas      defini\u00e7\u00f5es. E se prop\u00f5e a uma nova forma de ver as capoeiras. <\/p>\n<p>Se h\u00e1 menos de 100 anos a Capoeira estava no c\u00f3digo penal brasileiro,inclusive      com pres\u00eddio em Fernando de Noronha, para onde eram enviados os capoeiristas      presos, hoje em dia possui a fama de \u00fanico esporte genuinamente brasileiro,      presente em muitos pa\u00edses, buscando se tornar esporte ol\u00edmpico. <\/p>\n<p>Chegamos \u00e0 virada do s\u00e9culo com um &#8220;Curso Superior Profissional Espec\u00edfico      em Capoeira&#8221; na Universidade Gama Filho, no Rio, e temos um n\u00famero de      capoeiristas em atividade como nunca houve na hist\u00f3ria. Por outro lado, uma      minoria destes capoeiristas fazem Angola ou Regional enquanto quase a totalidade      n\u00e3o faz nenhum destes estilos. Outros acham que fazem os dois&#8230; <\/p>\n<p>Na sociedade capitalista globalizada temos que tomar muito cuidado com os      conceitos. <\/p>\n<p><strong>S\u00e3o v\u00e1rias as formas de express\u00e3o do poder e autoritarismo que geram      sempre o mesmo resultado:<\/strong> explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem e desigualdade      social, enfim, a destrui\u00e7\u00e3o da vida. A hist\u00f3ria humana \u00e9 escrita pelos vencedores      e sempre interpretada buscando mostrar mudan\u00e7as atrav\u00e9s das evolu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas      e tecnol\u00f3gicas, que s\u00e3o utilizadas para escrever as &#8220;p\u00e1ginas da desumanidade&#8221;,      onde h\u00e1 pouca evolu\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica. <\/p>\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias as formas dessa &#8216;ilus\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o&#8217;, seja pela estrutura hierarquizada      desvendada por Etienne de La Bo\u00e9tie, no s\u00e9culo XVI no &#8220;Discurso da Servid\u00e3o      Volunt\u00e1ria&#8221;, passando por Wilhelm Reich mostrando como isso \u00e9 feito na      educa\u00e7\u00e3o e, principalmente, nas fam\u00edlias, e em &#8220;A Sociedade do Espet\u00e1culo&#8221;      de Guy Debord, onde, alienados, aceitamos o espet\u00e1culo do cotidiano.<\/p>\n<p> Mostrada tamb\u00e9m atualmente nas den\u00fancias do maior intelectual vivo, Noam      Chomsky, que aponta um &#8216;consenso fabricado&#8217; mantido pela m\u00eddia e pela sociedade      de consumo. \u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A Soma, terapia criada por Roberto Freire, por sua vez, vem h\u00e1 quase quarenta      anos desafiando os conceitos. Depois de uma pesquisa coletiva e individual      dentro da Soma, por mais de dez anos estudando a Capoeira como instrumento      cient\u00edfico de liberta\u00e7\u00e3o, observei vis\u00f5es pr\u00e1ticas diferentes. <\/p>\n<p>Para melhor entendimento da minha linha de pesquisa, este texto aborda um      dos v\u00e1rios pontos que pretendo aprofundar em livro, que estou escrevendo e      pretendo publicar ainda este ano. Assim, me reservo agora somente introduzir      e questionar os estilos de Capoeira. <\/p>\n<p>V\u00e1rios pontos geram confus\u00f5es na Capoeira, como o conceito de mestre e a      ideologia por tr\u00e1s de conclus\u00f5es hist\u00f3ricas. Mestre pode ser um t\u00edtulo, um      certificado em papel ou um reconhecimento por um outro Mestre. Pode ser tamb\u00e9m      o ato pedag\u00f3gico de ensinar; qualquer um, \u00e0 medida que ensine algo novo a      outra pessoa, \u00e9 mestre. E ainda h\u00e1 o reconhecimento pela comunidade, por m\u00e9ritos      e experi\u00eancia vivida (geralmente pessoas mais velhas se tornam mestres assim).<\/p>\n<p>Mestre aparece na roda, no ritmo, no canto, no jogo e na lideran\u00e7a atrav\u00e9s      dos di\u00e1logos da Angola. Mestre exp\u00f5e seu comportamento na Roda de Capoeira,      alguns tamb\u00e9m s\u00e3o mestres na roda da vida. <\/p>\n<p>Em pesquisa de 1997, escolhi o termo ARTE (os termos &#8216;folclore&#8217; e &#8216;esporte&#8217;      s\u00e3o mais r\u00edgidos, pois sofrem menos mudan\u00e7as no decorrer do tempo) para conceituar      a Capoeira. Coletei os termos Angola, Regional, &#8216;Contempor\u00e2nea&#8217;, Atual e de      Rua, mas n\u00e3o aprofundei suas diferen\u00e7as. <\/p>\n<p><strong>Os tr\u00eas estilos que atualmente vejo vivos e distintos entre si, s\u00e3o:<\/strong>    <\/p>\n<blockquote>\n<p>Capoeira Angola,<br \/>\n       Capoeira Regional,\u00a0<br \/>\n       Capoeira &#8216;Contempor\u00e2nea&#8217;\u00a0(para evitar confus\u00f5es escolhi &#8216;Contempor\u00e2nea&#8217;        para substituir o termo &#8216;angola-e-regional&#8217;, quando o capoeira se diz praticante        dos dois estilos anteriores). <\/p>\n<\/blockquote>\n<p><strong>Mas fica o alerta: <\/strong>Com a arte da Capoeira Angola em movimento,      este texto, em poucos anos (ou d\u00e9cadas), ficar\u00e1 ultrapassado. <\/p>\n<p><strong>Sendo Arte, a Capoeira se modifica e preserva em sua pr\u00f3pria estrutura      o conceito mais arcaico e Bantu de movimento:<\/strong> &#8220;Para os Bantu,      especialmente os Congo, viver \u00e9 um processo emocional, de movimento. Viver      \u00e9 movimentar, e movimento \u00e9 aprender&#8221;. <\/p>\n<p>O movimento b\u00e1sico no jogo da Capoeira, a ginga (&#8220;um andar sem sair      do lugar&#8230;&#8221;), \u00e9 uma homenagem \u00e0 guerreira e rainha africana N&#8217;Zinga      N&#8217;Bandi (1582-1663\/1680, ou D. Ana de Sousa, nome de batismo na religi\u00e3o cat\u00f3lica),      que lutou por mais de quarenta anos contra a coloniza\u00e7\u00e3o e a escravid\u00e3o no      Congo e em Angola. A Capoeira adotou o local de sua luta para nomear-se e      homenageou seu movimento corporal b\u00e1sico inspirado na mulher que movimentou      sua sociedade, politicamente, de baixo para cima. <\/p>\n<p>O termo Angola vem de N&#8217;Gola N&#8217;Bandi que foi um rei que resistiu por v\u00e1rias      vezes a expedi\u00e7\u00f5es dos colonizadores portugueses, contra-atacando os vitoriosamente.      Quando em 1558, os povos n\u00f4mades invadiram e destru\u00edram o sul do reino de      Congo, os reinos de N&#8217;Dongo e Matamba; um dos chefes, N&#8217;Gola N&#8217;Zinga doou      a seu filho N&#8217;Gola N&#8217;Bandi o reino de N&#8217;Dongo, passando este a designar o      nome do reino conquistado (N&#8217;Gola: Angola). <\/p>\n<p>Somos em grande parte descendentes dos angolanos, e a vinda de escravos que      eram reis e conhecedores profundos da cultura negra, se por um lado enriqueceu      a cultura brasileira, favoreceu a atual mis\u00e9ria do povo africano. Somos assim      respons\u00e1veis pela destrui\u00e7\u00e3o da \u00c1frica, foi o in\u00edcio da globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica,      iniciada neste per\u00edodo do tr\u00e1fico colonial com apoio da igreja cat\u00f3lica, e      que continua sua destrui\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje. <\/p>\n<p>Os locais de manifesta\u00e7\u00e3o da Capoeira s\u00e3o sempre variados. V\u00e3o de recintos      fechados \u00e0s ruas, assim a categoriza\u00e7\u00e3o proposta por mim se basear\u00e1 n\u00e3o no      local e sim em como \u00e9 realizada a RODA de Capoeira, seu ritual, ritmo, rela\u00e7\u00e3o      de movimentos de ataque e defesa, cantos e energia. <\/p>\n<p>N\u00e3o querendo fechar conceitos, e sim question\u00e1-los e abri-los ao di\u00e1logo,      trago apenas alguns aspectos hist\u00f3ricos e outros atuais, nos quais se poder\u00e3o      perceber estilos que se respeitam, mas que ocupam espa\u00e7os distintos. Assim      torna-se necess\u00e1rio desvendar aspectos m\u00ednimos de distin\u00e7\u00e3o entre capoeiras,      j\u00e1 separadas numa realidade m\u00faltipla. <\/p>\n<p><strong>A hist\u00f3ria da Capoeira Angola \u00e9 a hist\u00f3ria da marginalidade brasileira,      com conflitos \u00e9tnicos, econ\u00f4micos e sexuais que se preservam ainda hoje em      uma sociedade das mais paradoxais<\/strong>: riqueza de bens de produ\u00e7\u00e3o e      consumo, riqueza ambiental e a riqueza da miscigena\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e cultural em      contraste com uma pobreza social, absurdamente aceita.<\/p>\n<h4>Origens da Capoeira Angola\u00a0<\/h4>\n<p>Tudo come\u00e7a na m\u00e3e \u00c1frica, continente origin\u00e1rio dos primeiros homens que      se espalharam pelo mundo, gerando todos os povos. O tr\u00e1fico de escravos atrav\u00e9s      do Atl\u00e2ntico foi um dos grandes empreendimentos comerciais e culturais que      marcaram a forma\u00e7\u00e3o do mundo moderno e a cria\u00e7\u00e3o de um sistema econ\u00f4mico mundial      (in\u00edcio da globaliza\u00e7\u00e3o). A participa\u00e7\u00e3o brasileira nesta tr\u00e1gica aventura      \u00e9 estimada em 40% dos 15 milh\u00f5es ou mais de homens e mulheres arrancados de      suas terras. Pesquisas variam quanto \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o da ancestralidade africana      da Capoeira.<\/p>\n<p><strong>Sem querer definir uma verdade, mas tentando levantar possibilidades,      trago tr\u00eas vers\u00f5es da origem da Capoeira:\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p>Nas pesquisas do Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP), Mestre Moraes        acredita &#8220;ser a Capoeira de origem africana, mais precisamente da Ilha        de Lubango, na aldeia dos MUCOPES, localizada no sul de Angola. (&#8230;) Na        \u00e9poca do acasalamento das zebras, os machos, a fim de ganharem a aten\u00e7\u00e3o        das f\u00eameas, travavam violento combate. Da\u00ed os jovens guerreiros mucopes        passarem a imitar alguns passos desse ritual, que denominaram de N&#8217;GOLO.        Os habitantes dessa aldeia realizavam uma vez por ano uma grande festa com        o nome de EFUNDULA, ocasi\u00e3o em que as meninas que j\u00e1 tinham atingido a puberdade        e, estando assim prontas para o casamento, teriam como marido aquele guerreiro        que tivesse a melhor performance na pr\u00e1tica do N&#8217;GOLO&#8221;. Para a maior        parte dos angoleiros, como os Mestres Jo\u00e3o Pequeno e Jo\u00e3o Grande, deste        ritual deriva a Capoeira;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0        <br \/>\n       Nas pesquisas de Mestre Camisa do &#8220;ABADA-Capoeira&#8221;, &#8220;a Capoeira        \u00e9 fruto dessa fus\u00e3o de culturas, lutas e rituais africanos, no Brasil&#8221;.        Como o N&#8217;GOLO, a &#8220;BA\u00c7ULA&#8221;, ritual da Ilha do Cabo &#8220;(&#8230;)        onde um derruba o outro atrav\u00e9s de agarramento, bal\u00f5es, pegar as pernas        para derrubar, pesco\u00e7o, cintura, o objetivo \u00e9 derrubar o advers\u00e1rio (&#8230;)        Eu acredito que os golpes de derrubar, de desequilibrar na Capoeira, tenham        vindo da Ba\u00e7ula. Tem tamb\u00e9m a &#8216;kabangula&#8217;, que \u00e9 uma luta de m\u00e3o, que \u00e9        um tipo de boxe com as m\u00e3os abertas. (&#8230;) Tem tamb\u00e9m o &#8216;Umundiu&#8217;, que \u00e9        um ritual, um jogo, que usa as m\u00e3os e os p\u00e9s, e tem tamb\u00e9m as dan\u00e7as acrob\u00e1ticas&#8221;;        &#8211;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para Mestre Cobrinha Verde        (herdeiro de um dos maiores capoeiristas de todos os tempos, Besouro Mangang\u00e1),        &#8220;a Capoeira nasceu no Rec\u00f4ncavo, em Santo Amaro, criada pelos africanos        que viveram acorrentados para trabalharem nos engenhos. Na \u00c1frica, eles        usavam uma dan\u00e7a denominada de batuque. (&#8230;) Dessa dan\u00e7a \u00e9 que foi constru\u00edda        a capoeira.&#8221;;\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0        <br \/>\n<strong>Termino esta etapa das origens, com Mestre Pastinha (Vicente Ferreira        Pastinha &#8211; 5\/04\/1889-13\/11\/1981):<\/strong> &#8220;&#8230;entre os mais antigos        mestres de Capoeira figura o nome de um portugu\u00eas, Jos\u00e9 Alves, disc\u00edpulo        dos africanos e que teria chefiado um grupo de capoeiristas na guerra dos        Palmares. A hist\u00f3ria da Capoeira se inicia com a vinda dos primeiros escravos        africanos para o Brasil&#8221; . <\/p>\n<\/blockquote>\n<h4>Onde a confus\u00e3o aumenta&#8230;\u00a0<\/h4>\n<p>Existe uma n\u00e9voa sobre a Hist\u00f3ria da Capoeira, principalmente pela sua tradi\u00e7\u00e3o      oral e marginal. Os aspectos hist\u00f3ricos, quando sem contextualiza\u00e7\u00e3o e aprofundamento,      servem mais \u00e0 confus\u00e3o que ao esclarecimento. Uma informa\u00e7\u00e3o &#8216;cl\u00e1ssica&#8217; sobre      a desinforma\u00e7\u00e3o da capoeiragem \u00e9 a queima dos registros da escravid\u00e3o no Brasil,      por Ruy Barbosa, quando Ministro da Fazenda, em 15\/12\/1890. Esta informa\u00e7\u00e3o,      publicada em livro e revistas, \u00e9 acrescentada do que se diz que ele fez isso      para &#8220;apagar da mem\u00f3ria brasileira essa lament\u00e1vel institui\u00e7\u00e3o&#8221;.    <\/p>\n<p><strong>Agora, quando contextualizamos essa informa\u00e7\u00e3o e a criticamos, ela      passa a ter outras interpreta\u00e7\u00f5es:<\/strong> seria queimando os registros que      se apagaria da mem\u00f3ria a &#8216;lament\u00e1vel&#8217; escravid\u00e3o? Penso que somente aprenderemos      com o passado, e n\u00e3o o repetiremos, se pudermos ter mais informa\u00e7\u00f5es. Esquecer      os erros do passado \u00e9 a melhor forma de repeti-los. <\/p>\n<p>Al\u00e9m do mais, a simples queima dos arquivos n\u00e3o faria esquecer a escravid\u00e3o.      Na realidade, foi uma estrat\u00e9gia do governo para evitar que ex-propriet\u00e1rios      de escravos buscassem uma compensa\u00e7\u00e3o dos preju\u00edzos que tiveram com a aboli\u00e7\u00e3o      da escravatura, dois anos antes. <\/p>\n<p>Em 1998, com a publica\u00e7\u00e3o da primeira revista de distribui\u00e7\u00e3o nacional dedicada      somente \u00e0 Capoeira, houve um crescimento de informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis ao grande      p\u00fablico. Logo em seguida, um &#8216;boom&#8217; editorial com v\u00e1rias revistas ao mesmo      tempo, mas a maioria n\u00e3o durou muito. Nessas revistas, com erros de revis\u00e3o      e de impress\u00e3o, repetiam-se muito as informa\u00e7\u00f5es, que se destinavam mais a      divulgar grupos e egos. Por outro lado, houve a possibilidade de se encontrar      muitas pesquisas s\u00e9rias e aprofundadas.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia da Capoeira na sociedade brasileira est\u00e1 sendo descoberta aos      poucos, mas nunca teremos uma vis\u00e3o real do que se passou na marginalidade.      A partir da d\u00e9cada de 80 s\u00e3o in\u00fameras as pe\u00e7as de um quebra-cabe\u00e7a que surgem      em estudos acad\u00eamicos e de grupos independentes, que investigaram seriamente      o passado da Capoeira. <\/p>\n<p>Como j\u00e1 coloquei, o tema deste artigo \u00e9 outro, mas para quem queira pesquisar,      \u00e9 curioso como os capoeiristas famosos da nossa hist\u00f3ria, como Pl\u00e1cido de      Abreu, Duque Estrada, Bar\u00e3o do Rio Branco, entre tantos, s\u00e3o omitidos no ensino      brasileiro. <\/p>\n<p>E ainda h\u00e1 a import\u00e2ncia dos capoeiristas brasileiros na Guerra do Paraguai,      inclusive sendo o capoeira Chico Diabo (Cabo Francisco Lacerda) quem matou      o presidente paraguaio Francisco Solano L\u00f3pez em 1870, causando o fim da guerra.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma separa\u00e7\u00e3o entre o que foi a Capoeira desde as suas origens at\u00e9 o momento      em que houve a coopta\u00e7\u00e3o pelo sistema dominante. Ela nasceu como uma arte      de liberta\u00e7\u00e3o, ajudando o negro, e depois os marginais a manterem um elo com      seu passado. <\/p>\n<p>Uma arte negra que no Brasil foi se fortalecendo com contribui\u00e7\u00f5es variadas,      inclusive dos ind\u00edgenas, que apoiavam os negros em suas fugas no mato. <strong>Pois      \u00e9 sabido que os quilombos foram sociedades livres variadas:<\/strong> 70% da      popula\u00e7\u00e3o dos oito principais quilombos eram negros, sendo 25% de \u00edndios e      5% de brancos, todos refugiados. Houve tamb\u00e9m contribui\u00e7\u00f5es dos portugueses      Fadistas (cantores de Fado). \u00c1geis na luta corporal e no manejo da navalha,      os Fadistas viviam nas ruas de Lisboa e do Porto no s\u00e9c. XIX .<\/p>\n<p>O momento pol\u00edtico de 1888-1889, ano da Aboli\u00e7\u00e3o seguido pelo da Proclama\u00e7\u00e3o      da Rep\u00fablica, mostra como o Estado Brasileiro conseguiu mudar para se manter      igual na ess\u00eancia. A &#8216;revolu\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica&#8217;, chamada por Deodoro em      sua Proclama\u00e7\u00e3o de &#8216;revolu\u00e7\u00e3o nacional&#8217;, n\u00e3o alterava a rela\u00e7\u00e3o dominador      versus dominado (em cima x embaixo). &#8220;Eles administraram de tal maneira      as mudan\u00e7as no modo de produ\u00e7\u00e3o que os ex-escravos &#8211; assim como os contandini      e os bracianti, imigrados italianos que engrossaram ent\u00e3o a classe subalterna      &#8211; n\u00e3o tiveram, por for\u00e7a da lei, naquele transe, garantias de acesso \u00e0 posse      ou \u00e0 propriedade da terra, ao trabalho e, muito menos, ao sal\u00e1rio&#8221;. <\/p>\n<p>Sabemos que os primeiros decretos proibindo a Capoeira datam de 1814, seis      anos ap\u00f3s a chegada da Fam\u00edlia Imperial ao Brasil. Nesse per\u00edodo, a popula\u00e7\u00e3o      brasileira era de 3,6 milh\u00f5es de habitantes, sendo 1,9 milh\u00f5es (mais da metade)      de escravos.<\/p>\n<p> A partir de 1890, na Rep\u00fablica, a Capoeira entra no C\u00f3digo Penal. Assim,      depois de s\u00e9culos de marginalidade, ela foi proibida oficialmente por mais      de 120 anos. Temos menos de 70 anos de experi\u00eancia de capoeiragem liberada.<\/p>\n<p>Com origem prov\u00e1vel no s\u00e9culo XVI e desenvolvimento m\u00faltiplo nos s\u00e9culos      XVII, XVIII e XIX, a Capoeira sobreviveu a muitas mudan\u00e7as. N\u00e3o se constituindo      de uma unidade de forma e ritos, foi capaz de dialogar &#8220;com novos contextos,      adaptando-se no detalhe para conservar o essencial daquilo que a constituiu&#8221;      .<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, ela desenvolveu um potencial de luta que gerou as insurrei\u00e7\u00f5es      dos escravos &#8211; particularmente nas prov\u00edncias que constitu\u00edam a zona do Para\u00edba      ou grande zona do caf\u00e9, for\u00e7ando a Lei \u00c1urea. Aparecendo tamb\u00e9m como &#8220;defensora      da p\u00e1tria&#8221; na Guerra da Cisplatina (1825-1828) e na Guerra do Paraguai      (1865-1870). <\/p>\n<p>Utilizada militarmente n\u00e3o s\u00f3 nas guerras, como nas elei\u00e7\u00f5es, por exemplo,      em 1909, os cabos eleitorais capoeiristas elegeram o deputado negro e monarquista      Dr. Monteiro Lopes, no Distrito Federal (RJ). No mesmo ano, estudantes cariocas      promovem a luta entre o capoeira Cir\u00edaco Francisco da Silva e o lutador de      Jiu-jitsu Sada Miako. <\/p>\n<p>Com a vit\u00f3ria, Cir\u00edaco tornou-se alvo de todas as aten\u00e7\u00f5es, inclusive sendo      destaque em revistas nacionais. Enquanto isso, na marginalidade, de 1902 a      1909, na &#8216;Escola de Aprendizes da Marinha&#8217;, Mestre Pastinha ensinava aos seus      colegas a arte aprendida com o africano Mestre Benedito.<\/p>\n<h4>Capoeira Regional\u00a0<\/h4>\n<p>O processo de muta\u00e7\u00e3o da Capoeira \u00e9 muito antigo. Em 1874, Raul Pederneira      descreve na G\u00edria Carioca a primeira nomenclatura de movimentos e defende      uma &#8220;desesportiviza\u00e7\u00e3o&#8221; da Capoeira. No Rio de Janeiro, em 1907,      um oficial militar escreve o &#8220;O Guia do Capoeira ou Gin\u00e1stica Brasileira&#8221;.      Em 1928, o capoeirista Annibal Burlamaqui, conhecido como Zuma, publica &#8220;Gin\u00e1stica      Nacional &#8211; Capoeiragem &#8211; Metodizada e Regrada&#8221;. <\/p>\n<p>Alguns dizem que influenciou Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado, 1899\/1900-1974),      que cria a Luta Regional Baiana, fundando sua academia em 1932 Mestre Nenel      discorda dizendo que M. Bimba j\u00e1 tinha sua metodologia sendo desenvolvida      desde 1918. Mestre Dec\u00e2nio aponta a import\u00e2ncia de Dr. Jos\u00e9 &#8220;Sisnando&#8221;      Lima para a funda\u00e7\u00e3o da Regional. <\/p>\n<p>Numa \u00e9poca em que a Capoeira era crime, Mestre Bimba a modifica, introduzindo      novos golpes e uma sistematiza\u00e7\u00e3o do ensino. Consegue, depois de anos de muito      esfor\u00e7o, a primeira autoriza\u00e7\u00e3o do Estado para a pr\u00e1tica da Capoeira, em 9\/7\/1937,      de um militar do Ex\u00e9rcito, o interventor federal do Estado Novo (primeira      ditadura brasileira no s\u00e9culo passado) na Bahia, Juracy Magalh\u00e3es. <\/p>\n<p><strong>\u00a0Novas mudan\u00e7as nessa atribulada hist\u00f3ria de quase 400 anos:<\/strong>      por estrat\u00e9gia militar de Get\u00falio Vargas, acontece a coopta\u00e7\u00e3o da Capoeira,      numa tentativa de controle e de transform\u00e1-la em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica e Esporte,      dentro de seu projeto populista. Em 1934, Get\u00falio Vargas, interessado no voto      feminino, dos analfabetos, dos soldados, etc, extingue o decreto-lei que proibia      a Capoeira e a pr\u00e1tica de cultos afro-brasileiros. <\/p>\n<p>Mas, por outro lado, obriga que tanto os cultos quanto \u00e0 Capoeira sejam realizados      fora da rua, em recintos fechados, com um alvar\u00e1 de instala\u00e7\u00e3o. Novamente,      o que parece com &#8216;liberdade&#8217; \u00e9, na verdade, &#8216;controle&#8217;. Tanto que no final      da d\u00e9cada de 40 ainda havia a cavalaria da pol\u00edcia impedindo a Capoeira na      rua (e o toque de cavalaria no berimbau, avisando os capoeiras&#8230;).<\/p>\n<p> <strong>Interessante que nasce a Capoeira Regional a partir da Angola, por      estrat\u00e9gia, com outro nom<\/strong>e: Luta Regional. Nesse contexto, a Capoeira      tradicional come\u00e7a a ser chamada de Angola para uma melhor diferencia\u00e7\u00e3o.      <strong>Em 1953, o Presidente Get\u00falio Vargas assiste a uma demonstra\u00e7\u00e3o de      Mestre Bimba e comenta sobre a Capoeira: <\/strong>&#8220;a \u00fanica colabora\u00e7\u00e3o      autenticamente brasileira \u00e0 educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, devendo ser considerada a nossa      luta nacional&#8221;.<\/p>\n<p>Com o crescimento da Regional, que era freq\u00fcentada por estudantes e trabalhadores      com carteira assinada, a Angola continuou \u00e0 margem da institucionaliza\u00e7\u00e3o      at\u00e9 23 de fevereiro de 1941, quando grandes mestres da \u00e9poca entregaram a      Mestre Pastinha a responsabilidade de preservar a arte da Angola. Assim nasce      o Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), registrado somente em 1\/10\/1952.      Em 1955, instala-se no Largo do Pelourinho, Salvador, Bahia.<\/p>\n<p>Apesar da aparente rixa entre os estilos, havia um respeito m\u00fatuo. Tanto      os alunos de Mestre Bimba podiam freq\u00fcentar as rodas de Mestre Pastinha, como      o contr\u00e1rio. Todos eram bem recebidos, at\u00e9 porque os golpes criados por Mestre      Bimba n\u00e3o eram utilizados com alunos de outras escolas que n\u00e3o utilizassem      o seu m\u00e9todo. <\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o uma aceita\u00e7\u00e3o da jun\u00e7\u00e3o das capoeiras. <strong>Relata Mestre      Canjiquinha, que foi contra-mestre de bateria de Mestre Pastinha<\/strong>:      &#8220;N\u00e3o existe capoeira regional nem angola. Existe capoeira. (&#8230;) Eu sou      capoeirista. N\u00e3o sou nem angoleiro nem regional. (&#8230;) Agora, capoeira \u00e9 de      acordo com o toque. <strong>Se voc\u00ea est\u00e1 numa festa:<\/strong> se tocar bolero      voc\u00ea dan\u00e7a bolero; se tocar samba voc\u00ea dan\u00e7a samba; &#8211; a capoeira \u00e9 conforme:      tocando maneiro voc\u00ea dan\u00e7a amarrado, tocando apressado voc\u00ea apressa.&#8221;.    <\/p>\n<h4>Onde a confus\u00e3o se espalha&#8230;\u00a0\u00a0<\/h4>\n<p>O Rio de Janeiro tamb\u00e9m possui uma rica hist\u00f3ria marginal da Capoeira e uma      rica influ\u00eancia das maltas de capoeiras ligadas \u00e0 criminalidade e \u00e0 pol\u00edtica,      que formavam quase um ex\u00e9rcito paralelo. <strong>Mais tarde, por\u00e9m, houve      o enfraquecimento da Capoeira carioca e uma &#8220;inven\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o&#8221;      da Capoeira baiana. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Mestre Bimba leva seus alunos para S\u00e3o Paulo em 1949 para competir      em luta livre:<\/strong> das cinco lutas, ganham tr\u00eas por nocaute. Mestre <strong>Bimba      tamb\u00e9m viaja apresentando a Regional:<\/strong> em 1955, em Fortaleza-CE (Teatro      Jos\u00e9 de Alencar); em 1956, no Rio de Janeiro (Maracan\u00e3zinho) e, em S\u00e3o Paulo      (inaugura\u00e7\u00e3o da TV Record); e, em 1968, em Te\u00f3filo Otoni-MG. Mestre Pastinha      e o CECA viajam fazendo demonstra\u00e7\u00f5es em S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande      do Sul, Paran\u00e1, Minas Gerais e Recife.\u00a0<\/p>\n<p>Apesar da exist\u00eancia de capoeiristas tradicionais no Rio, em 1964 come\u00e7a      um fen\u00f4meno novo. Alunos com pouca experi\u00eancia na Angola e na Regional se      juntam e formam o grupo carioca que viria a se chamar Senzala e a influenciar      muito a Capoeira no sul\/sudeste do pa\u00eds, tanto pela descaracteriza\u00e7\u00e3o (afastamento      de rituais tradicionais), como pela incorpora\u00e7\u00e3o de novas t\u00e9cnicas de ensino.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, atrav\u00e9s de pioneiros como Mestre Z\u00e9 de Freitas (disc\u00edpulo do      maior cantador de Capoeira Angola de todos os tempos, Mestre Waldemar da Paix\u00e3o      &#8211; BA) e Mestre Valdemar Angoleiro, abriu-se espa\u00e7o para a vinda, na d\u00e9cada      de 60, de capoeiras que migram da Bahia buscando melhores condi\u00e7\u00f5es de vida.      Vieram mestres angoleiros e regionaleiros. <\/p>\n<p>Devido \u00e0 falta de tradi\u00e7\u00e3o da Capoeira na capital paulista, para melhor sobreviv\u00eancia      econ\u00f4mica desses mestres, h\u00e1 a necessidade de apoio m\u00fatuo. Mestre Suassuna,      por exemplo, ajudou muitos capoeiristas a se estruturarem. Este processo de      adapta\u00e7\u00e3o e sobreviv\u00eancia \u00e9 melhor exemplificado com a funda\u00e7\u00e3o, em 1967,      da Academia Cord\u00e3o de Ouro, formada pelos mestres Bras\u00edlia e Suassuna, o primeiro      da linhagem Angola de Mestre Canjiquinha e o segundo da linhagem Regional      de Mestre Bimba. <\/p>\n<p><strong>O que era imposs\u00edvel para Mestre Pastinha e Mestre Bimba acontece:      <\/strong>a fus\u00e3o de estilos se torna uma realidade.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 50, a Capoeira chega a Belo Horizonte. Em 1963, Mestre Pastinha      se apresenta na Universidade Cat\u00f3lica, mas somente na d\u00e9cada de 70 \u00e9 que crescem      as academias e a Capoeira se fortalece nas pra\u00e7as, sendo criada uma roda na      Pra\u00e7a Liberdade, onde o p\u00fablico se reunia para ver a &#8216;vadiagem&#8217;. <\/p>\n<p>Por causa desta roda, surgiu a famosa Feira Hippie, que se desenvolveu e      virou um marco na cidade (hoje est\u00e1 na Av. Afonso Pena), no entanto poucos      falam dessa origem ligada \u00e0 Capoeira. Em Curitiba, em 1973, a Capoeira se      implanta atrav\u00e9s de Mestre Sergipe, depois que Mestre Eur\u00edpedes passou por      l\u00e1 no in\u00edcio da d\u00e9cada de 70. <\/p>\n<p>Mestre Sergipe foi contra-mestre do angoleiro Mestre Cai\u00e7ara, mas, como Mestre      Bras\u00edlia, tamb\u00e9m mudou de estilo. Em 1975, com a chegada de Mestre Burgu\u00eas,      a Capoeira se espalha na cidade.\u00a0<\/p>\n<p>Ainda seguindo a hist\u00f3ria do poder cooptando a Capoeira, em 1968 e 1969 (segunda      ditadura militar do s\u00e9culo passado), a Comiss\u00e3o de Desportos da Aeron\u00e1utica      patrocina dois simp\u00f3sios nacionais sobre Capoeira com o intuito principal      de estabelecer uma \u00fanica nomenclatura para os golpes e defesas. <\/p>\n<p>Entre os v\u00e1rios mestres participantes estava Mestre Bimba, que se retira      antes do t\u00e9rmino do segundo simp\u00f3sio por n\u00e3o aceitar que a Capoeira Regional      se fundisse com outras regras e &#8216;modismos&#8217; (no primeiro simp\u00f3sio ele enviou      Mestre Dec\u00e2nio para represent\u00e1-lo).<\/p>\n<p>Interessante tamb\u00e9m que foram v\u00e1rios os capoeiristas que desejaram ter o      m\u00e9rito de Mestre Bimba, criando estilos com nomes e caracter\u00edsticas pr\u00f3prias      como a Capoeira Estilizada, a Muzenza, a Saramango, a Primitiva, a Barravento,      etc. Mas nada disso vingou al\u00e9m de seus grupos e descend\u00eancias.\u00a0\u00a0A      n\u00e3o ser a cria\u00e7\u00e3o coletiva da Capoeira &#8216;Angola-e-Regional&#8217;, que a meu ver,      repito, n\u00e3o \u00e9 nem Angola nem Regional. <\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 70 \u00e9 fundamental no encolhimento da Angola tradicional, resgatada      por Mestre Pastinha.\u00a0\u00a0Em 1971, ele \u00e9 enganado e perde sua academia      no Largo do Pelourinho n\u00ba 19 e, em 1979, sofre derrame cerebral. Em 1981,      morre cego, na mis\u00e9ria e quase esquecido. Com a morte de Mestre Bimba em 1974,      tamb\u00e9m esquecido, enganado e na mis\u00e9ria, em Goi\u00e2nia-GO, a Regional tamb\u00e9m      perde sua for\u00e7a e o seu mentor. <\/p>\n<p>Em 1\u00ba de Abril de 1966, Mestre Pastinha se apresentou junto com outros mestres      e alunos na \u00c1frica, no I Festival Internacional de Arte Negra em Dakar, Senegal.      Na d\u00e9cada de 70 ocorre a expans\u00e3o da Capoeira para a Europa e E.U.A., mas      s\u00f3 em 1989 o angoleiro Contramestre Rosalvo migra para a Europa, fundando      em 1997 a primeira academia europ\u00e9ia de Capoeira Angola em Berlim, Alemanha.    <\/p>\n<p>Em 1972, a Capoeira \u00e9 homologada pelo Minist\u00e9rio de Educa\u00e7\u00e3o e Cultura (MEC)      como esporte e, em 1974, nasce a Federa\u00e7\u00e3o Paulista de Capoeira. Em 1992,      forma-se a Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Capoeira e, finalmente, em 1993, a Associa\u00e7\u00e3o      Brasileira de Capoeira Angola (ABCA). Assim, ap\u00f3s mil\u00eanios de ancestralidade      l\u00fadica e poucos s\u00e9culos de agressividade para a luta, a Capoeira, que desenvolveu      varia\u00e7\u00f5es nas d\u00e9cadas de 20 a 50, com o nascimento da Regional e a sobreviv\u00eancia      da Angola, finalmente se descriminaliza.\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0Consequentemente, se elitiza. Nas d\u00e9cadas de 60 a 90, a fus\u00e3o e a muta\u00e7\u00e3o      das capoeiras fazem surgir a &#8216;Contempor\u00e2nea&#8217;, e, ap\u00f3s breve enfraquecimento,      renascem a Angola e a Regional. Entramos no s\u00e9culo XXI com um lado da Capoeira      ligado \u00e0 marginalidade cultural e econ\u00f4mica, sendo a Roda de Capoeira um aprendizado      de desobedi\u00eancia civil para a vida (detalhes no livro). <\/p>\n<p>Por outro lado, num outro estilo, est\u00e1 cooptada, servindo ao sistema est\u00e1tico      da estrutura s\u00f3cio-econ\u00f4mica que mant\u00e9m as classes, as explora\u00e7\u00f5es e a escravid\u00e3o      (que chamamos hoje de globaliza\u00e7\u00e3o ou neo-liberalismo), divertindo ou competindo      nas lutas de vale-tudo, ou ainda nas universidades e espa\u00e7os militares, servindo      ao hierarquismo e ao comodismo. <\/p>\n<p>Lembro aqui as palavras de Mestre Lua &#8216;Rasta&#8217; da Bahia, &#8220;&#8230; o capoeirista      precisa se respeitar&#8230;os mais jovens procurarem se interar do que \u00e9 capoeira,      do que \u00e9 liberdade, do que \u00e9 militarismo; e a capoeira \u00e9 anti-militar, a capoeira      n\u00e3o tem nada a ver com militarismo&#8230;&#8221;. <\/p>\n<p>Uma pr\u00e1tica&#8230;<\/p>\n<p>Quando comecei a pr\u00e1tica da capoeira em 1990, em Curitiba, as academias diziam      fazer Angola e Regional.\u00a0\u00a0Passei pela Muzenza do Mestre Burgu\u00eas      e, depois, pelo Centro Paranaense de Capoeira do Mestre Sergipe. Somente no      final de 1991, vendo uma apresenta\u00e7\u00e3o do GCAP no Rio de Janeiro, experimentei      uma &#8216;rasteira&#8217;. Como \u00e9 que depois de dois anos aprendendo Angola, descobri      a Angola ? <\/p>\n<p>Quando desejei aprender somente Angola no Paran\u00e1, os capoeiristas riam e      diziam ser a Capoeira Angola coisa de mulher, num sentido pejorativo e obviamente      machista. No Rio, Mestre Mano comenta que antigamente (antes de 1980) os regionais      diziam pisar na cabe\u00e7a dos angoleiros nas rodas. <\/p>\n<p><strong>Na Capoeira &#8220;Contempor\u00e2nea&#8221; h\u00e1 um estere\u00f3tipo da Angola      dos angoleiros<\/strong>: muito lenta e no ch\u00e3o, sem a presen\u00e7a do ritual.      Mestre Moraes e o GCAP resgataram a Angola com seu conte\u00fado de luta e com      uma capacidade t\u00e9cnica de enfrentamento. O angoleiro podendo jogar Angola      e enfrentar a &#8220;Contempor\u00e2nea&#8221; com igualdade, de baixo para cima,      na fuga e no contra-ataque, com negativas frente \u00e0s positivas. <\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 60, a inexperi\u00eancia em Capoeira (in\u00edcio do Senzala), a necessidade      de sobreviv\u00eancia, o apoio entre capoeiristas de estilos diferentes (Cord\u00e3o      de Ouro e Senzala), o afastamento dos centros tradicionais (BA e RJ) e o desejo      de cria\u00e7\u00e3o de estilos novos fazem a Capoeira sofrer novas transforma\u00e7\u00f5es.      Em 1971, procurando resgatar alguns aspectos mais tradicionais, Mestre Almir      das Areias, dissidente do Cord\u00e3o de Ouro, cria a Capit\u00e3es da Areia, que junto      com a Cativeiro, questionam a Federa\u00e7\u00e3o e sua proposta. <\/p>\n<p>Grupos importantes e v\u00e1rios outros mestres n\u00e3o cito, pois aqui procuro priorizar      apenas os mais pr\u00f3ximos da pesquisa Soma-I\u00ea versus Capoeira Angola. Em 1976,      Roberto Freire, intelectual que havia entrevistado Mestre Pastinha em 1966      para a revista REALIDADE, come\u00e7a a fazer Capoeira com Mestre Almir (que hoje      chama se Anand) e a estud\u00e1-la cientificamente em paralelo ao desenvolvimento      da Somaterapia.<\/p>\n<p>Aqui entra um par\u00eantese para a import\u00e2ncia do GCAP, o Grupo de Capoeira Angola      Pelourinho, formado na \u00e9poca por Mestre Moraes. Fundado em 1980 no Rio e transferido      em 1982 para a Bahia, teve uma import\u00e2ncia indiscut\u00edvel para a retomada da      Capoeira Angola. Deixou mestres no Rio de Janeiro e formou Mestre Cobrinha      Mansa na Bahia. <\/p>\n<p><strong>Valorizando os mestres antigos, produzindo pesquisas, trouxe a energia      tradicional da Roda de Capoeira a uma nova posi\u00e7\u00e3o<\/strong>: ritual, luta      e movimento. No in\u00edcio da d\u00e9cada 80, com a Regional completando 50 anos e      a Angola, 400, o contexto se modificou totalmente. A Regional era predominante,      mas se afastara dos preceitos do seu criador, e os angoleiros, que n\u00e3o concordaram      com a inevit\u00e1vel fus\u00e3o das capoeiras, estavam esquecidos e se afastando da      sua pr\u00e1tica. Mestre Jo\u00e3o Pequeno, principal disc\u00edpulo de Mestre Pastinha,      come\u00e7ou a usar cord\u00e9is e batizados, influenciado pelas mudan\u00e7as da Capoeira.    <\/p>\n<p>A Capoeira come\u00e7ou a se preservar e se restringir atrav\u00e9s de shows e espet\u00e1culos,      que associavam uma Capoeira acrob\u00e1tica com Maculel\u00ea (arte recuperada por Mestre      Pop\u00f3, de Santo Amaro), Puxada de Rede, Roda de Samba e rituais de show criados      por Mestre Canjiquinha. Foi a forma de sobreviv\u00eancia da Capoeira. <\/p>\n<p>Mestre Jo\u00e3o Grande, que migrou para Nova York (EUA) e hoje est\u00e1 recebendo      v\u00e1rios pr\u00eamios pela preserva\u00e7\u00e3o da arte negra, tinha abandonado a Capoeira,      trabalhando como frentista em Salvador. <\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 insist\u00eancia de Mestre Cobrinha e do GCAP, voltou \u00e0 Capoeira em 1984.      Em 1986, o Mestre Nenel (filho de sangue de Mestre Bimba) resolve recuperar      a Regional original de seu pai, formando a Filhos de Bimba Escola de Capoeira,      denunciando como a &#8216;Contempor\u00e2nea&#8217; se afastou da Regional pura. <\/p>\n<p>Em 1992, mudei para Belo Horizonte e entrei no Grupo I\u00fana de Capoeira Angola,      com os professores Primo, Jo\u00e3o e Wagner, que, hoje, dez anos depois, s\u00e3o considerados      Mestres. Devido a motivos pessoais, mensalmente viajava pelo sul e sudeste,      al\u00e9m de viagens de pesquisa para o nordeste do Brasil, podendo perceber na      pr\u00e1tica (em rodas e treinos) as v\u00e1rias Capoeiras existentes na d\u00e9cada de 90.    <\/p>\n<p>Fiz contato com v\u00e1rios capoeiristas, como, por exemplo, Nino Fa\u00edsca de Olinda-PE,      que foi o capoeirista que formou o primeiro grupo somente de Angola em Curitiba,      e hoje se encontra na Alemanha como professor da Associa\u00e7\u00e3o Angola Dobrada      de Capoeira Angola, coordenada por Mestre Rog\u00e9rio (que formou o I\u00fana). <\/p>\n<p><strong>Um texto de Alejandro Frigerio publicado em 1989, &#8220;Capoeira:<\/strong>      de arte negra a esporte branco&#8221;, foi uma refer\u00eancia para quem se iniciasse      nas diferen\u00e7as das capoeiras. Vendo hoje as refer\u00eancias de Frigerio, percebo      que sua an\u00e1lise n\u00e3o foi entre Angola e Regional, mas sim entre Angola e &#8220;Contempor\u00e2nea&#8221;.    <\/p>\n<p>Frigerio n\u00e3o encontrou a Regional pura, e, ainda hoje, essa dicotomia acontece.      Quem faz Capoeira, na maior parte dos grupos est\u00e1 aprendendo a Capoeira &#8220;Contempor\u00e2nea&#8221;.      Aprende a &#8216;angola-e-regional&#8217;. A roda come\u00e7a com um ritmo lento, a &#8216;angola&#8217;      e logo depois, entra num ritmo mais r\u00e1pido, a &#8216;regional&#8217;. Frig\u00e9rio comenta      essa diferen\u00e7a da &#8216;regional&#8217; e da &#8216;atual&#8217; em entrevistas relatadas. <\/p>\n<p>Para um pesquisador que, no decorrer de 1983 a 1987, pesquisou somente oito      meses, sua categoriza\u00e7\u00e3o teve pontos interessantes. Concordo com muito de      sua abordagem, mas discordo da &#8220;musica lenta&#8221; ser uma caracter\u00edstica      intr\u00ednseca da Angola. <\/p>\n<p>Por\u00e9m entendo que ele fez um grande trabalho, mesmo que o seu universo de      pesquisa tenha sido somente dois grupos de Capoeira Angola. A Angola, para      mim, comporta uma possibilidade variada de ritmos, do lento ao r\u00e1pido, o que      nem sempre vai definir a movimenta\u00e7\u00e3o dos jogadores. A m\u00fasica na Capoeira      n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um fundo que define o ritmo, ela faz parte do pr\u00f3prio di\u00e1logo do      jogo, e o jogador pode &#8216;quebrar as regras&#8217; por desconhecimento ou ousadia.    <\/p>\n<p>Junto com o processo de crescimento e &#8220;moderniza\u00e7\u00e3o&#8221; da Capoeira,      quando ela come\u00e7ou a migrar para todo o Brasil e para outros pa\u00edses, a &#8220;Contempor\u00e2nea&#8221;      se ampliou de forma geom\u00e9trica, ao mesmo tempo a Angola minguava junto com      a Regional original. Na d\u00e9cada de 60, ambas se enfraquecem para quase morrerem      na d\u00e9cada de 70. <\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 80 se d\u00e1 o renascimento da Angola atrav\u00e9s do GCAP e o renascimento      da Regional com os Filhos de Bimba e, na de 90, a defini\u00e7\u00e3o dos estilos. Conflitos      entre grupos e mestres fazem os conceitos de mestria (t\u00edtulos) e os conceitos      dos estilos serem relativizados. Cada grupo se define do seu jeito e a confus\u00e3o      sem\u00e2ntica faz parte das capoeiras nessa virada de mil\u00eanio.\u00a0\u00a0 <\/p>\n<p>\u00a0&#8220;Mestre Pastinha morreu com 92 anos e dizia estar aprendendo a      Angola. Como \u00e9 poss\u00edvel algu\u00e9m saber os dois estilos?&#8221; Esta quest\u00e3o representa      a filosofia que procura definir limites para os estilos. A hist\u00f3ria nos mostrou      como foi poss\u00edvel essa fus\u00e3o, mas o movimento da Capoeira se opera internamente      de forma a recuperar conceitos numa pr\u00e1tica viva que \u00e9 o ritual das rodas.    <\/p>\n<p>A Regional segue os passos da Angola e ambas conseguem reviver e recuperar      sua unidade, deixando para a &#8220;Contempor\u00e2nea&#8221; escrever sua hist\u00f3ria.      A Angola se volta para sua ess\u00eancia como movimento de baixo, provocando uma      mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o que permanentemente questiona as outras capoeiras. Tamb\u00e9m      questionando permanentemente a si pr\u00f3pria para estar em movimento. &#8230;considera\u00e7\u00f5es      finais e iniciais. <\/p>\n<p>Em 1993 a pesquisa da Soma deu seus primeiros frutos.<\/p>\n<p><strong>Os somaterapeutas ligados a Roberto Freire se aprofundam na Capoeira      Angola montando um espa\u00e7o destinado a Angola de Mestre Pastinha e criando      um dos primeiros espa\u00e7os dedicados somente a esta arte (inclusive, tendo conflitos      com um capoeirista na sua inaugura\u00e7\u00e3o) em S\u00e3o Paulo:<\/strong> o Tes\u00e3o &#8211; a      casa da Soma, em Perdizes. Enquanto isso, Mestre Almir das Areias cria seu      projeto Soma-Capoeira, procurando juntar Angola, Regional e outros estilos      num s\u00f3, o que nada tem a ver com a Somaterapia, ou a proposta da Soma, que      \u00e9 exclusivamente viver a Angola.<\/p>\n<p> Outro ponto de confus\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o libert\u00e1ria, que \u00e9 mal vista por muitos      devido \u00e0 tentativa pol\u00edtica da &#8216;esquerda&#8217; e da &#8216;direita&#8217; em confundi-la com      bagun\u00e7a ou desordem. Atrav\u00e9s da den\u00fancia do autoritarismo, o Anarquismo, como      a Angola, produz a permanente cr\u00edtica \u00e0s rela\u00e7\u00f5es que produzem o movimento      social. <\/p>\n<p>Hoje, o pr\u00f3prio Movimento Anarquista est\u00e1 contaminado de autoritarismo, e      a Soma-I\u00ea procura lutar contra isso vivendo a Autogest\u00e3o (ou melhor, em permanente      busca por ela). A luta pela Autogest\u00e3o \u00e9 a luta cotidiana contra a viv\u00eancia      do autoritarismo. Nos estudos de grupos de Capoeira nos aproximamos da cultura      Bant\u00fa na descentraliza\u00e7\u00e3o do poder e no respeito \u00e0 dignidade humana (n\u00e3o confundir      com cidadania &#8211; sempre conceitos em conflito&#8230;). <\/p>\n<p>O que est\u00e1 dif\u00edcil na sociedade \u00e9 a viv\u00eancia da Autogest\u00e3o e, principalmente,      as associa\u00e7\u00f5es em macro escala, poss\u00edveis na teoria de &#8220;Do Princ\u00edpio      Federativo&#8221;, de Pierre-Joseph Proudhon, mas raramente vividos na pr\u00e1tica.      Viv\u00eancia que acontece cotidianamente nos di\u00e1logos da roda de Capoeira Angola.    <\/p>\n<p>Os aspectos t\u00e9cnicos retomados podem variar, mas como exemplifica\u00e7\u00e3o da terminologia      vamos analisar a bateria das rodas. Mestre Pastinha mostrou que na bateria      o berimbau \u00e9 indispens\u00e1vel. Com a retomada da Angola pelo GCAP, Mestre Moraes      a definiu com tr\u00eas berimbaus, dois pandeiros, atabaque, agog\u00f4 e reco-reco.    <\/p>\n<p>E outros grupos como de M. Jo\u00e3o Pequeno e m. Curi\u00f3 j\u00e1 usava bateria similar      na \u00e9poca. Muitos grupos criaram essa bateria como &#8216;lei&#8217; sem perceber que n\u00e3o      \u00e9 s\u00f3 isso que definir\u00e1 o estilo. A Regional de Mestre Bimba, que hoje atua      com um berimbau e dois pandeiros de couro, segundo Mestre Boca Rica, antes      tamb\u00e9m contava com um reco-reco. <\/p>\n<p>A entrada dos instrumentos \u00e9 plural. O berimbau-de-barriga entrou na Capoeira      entre os s\u00e9culos XIX e XX. Na vida social, o berimbau era usado por vendedores      ambulantes para chamar a aten\u00e7\u00e3o. Antes, no lugar do arame, era usado o cip\u00f3-de-imb\u00e9      e havia tamb\u00e9m o berimbau-de-boca. O nome &#8216;berimbau&#8217; \u00e9 de origem portuguesa      e espanhola e foi transferido para o arco-musical africano, que \u00e9 um dos instrumentos      musicais mais antigos da humanidade.<\/p>\n<p> A entrada do atabaque se deu provavelmente no s\u00e9culo XX, na institucionaliza\u00e7\u00e3o      da Capoeira. Apesar de constar na cl\u00e1ssica ilustra\u00e7\u00e3o de Johann Moritz Rugendas      (de 1830, considerado o mais antigo desenho do jogo de capoeira), o atabaque      n\u00e3o manteve uma continuidade hist\u00f3rica.<\/p>\n<p> Inclusive, h\u00e1 vers\u00f5es de que quem o introduziu recentemente foi Mestre Canjiquinha.      Se no Rio de Janeiro, na capital do Imp\u00e9rio, entrou a navalha, &#8220;a Bahia      muito contribuiu, na parte musical, introduzindo o pandeiro, o caxixi e o      reco-reco, em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0s palmas; e o berimbau de barriga com corda de      a\u00e7o, com voz mais sonora e muito mais recursos que o de boca&#8221; . <\/p>\n<p>S\u00f3 para apresentar esta exemplifica\u00e7\u00e3o da bateria, vi na d\u00e9cada de 90 grupos      mudando e variando. Alguns, que usavam um berimbau, passaram a usar tr\u00eas berimbaus.      No aspecto aparente e superficial, passaram da Regional para a Angola, mas      no aspecto t\u00e9cnico da m\u00fasica, o tipo de toque, a afina\u00e7\u00e3o de cada berimbau      e a sua fun\u00e7\u00e3o na roda, eles simplificaram e enfraqueceram a proposta da Angola,      aumentando a descaracteriza\u00e7\u00e3o e a confus\u00e3o. <\/p>\n<p>Assim procuro separar os aspectos OBJETIVOS, como cores de uniforme, bateria,      m\u00fasicas, etc, dos aspectos SUBJETIVOS, as inten\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es criadas que      se buscam na brincadeira de Angola. Sem uma entrega visceral (como abandonar      a tentativa de ter v\u00e1rios estilos hoje) n\u00e3o se conhecer\u00e1 todo esse mist\u00e9rio      afro-brasileiro. <\/p>\n<p>Podemos ultrapassar a &#8216;objetividade-sem-par\u00eanteses&#8217; das an\u00e1lises objetivas      e trabalhar a &#8216;objetividade-entre-par\u00eanteses&#8217; na Capoeira. <\/p>\n<p><strong>A Soma-I\u00ea quer movimentar os conceitos, colocando todos como &#8216;observadores&#8217;:<\/strong>      a\u00e7\u00e3o direta produzindo trocas dentro da roda e fora dela. Cada um \u00e9 quem vai      optar entre ilus\u00e3o e percep\u00e7\u00e3o. A arte da Angola vai contra a aliena\u00e7\u00e3o dominante.      Hoje, mesmo grupos de Angola que n\u00e3o mantiverem um contato com outros mestres      angoleiros podem no decorrer do tempo mudar de estilo. Pois a Angola, viva      e em movimento, \u00e9 formada pelo conjunto dos praticantes e seus interc\u00e2mbios.    <\/p>\n<p>Como fiz dois anos de &#8216;Contempor\u00e2nea&#8217; e dez anos de Angola pura n\u00e3o tenho      compet\u00eancia nenhuma para falar da Regional. Possuo somente algum conhecimento      te\u00f3rico. Na Angola s\u00f3 terei alguma compet\u00eancia para nela come\u00e7ar a me expressar      com mais de quarenta anos de Capoeira. N\u00e3o tenho pressa, pois ainda faltam      trinta anos para isso. <\/p>\n<p>Sempre que se tenta explicar as diferen\u00e7as de estilos da Capoeira, o aspecto      sem\u00e2ntico confunde muito. Pois s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel entender a Capoeira atrav\u00e9s da      experi\u00eancia pessoal e pr\u00f3pria. Este texto \u00e9 parte de uma pesquisa na qual      pretendo mostrar os efeitos poderosos que a Angola possui para a vida humana      enquanto terapia, libera\u00e7\u00e3o da criatividade, libera\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, etc&#8230;    <\/p>\n<p>Uma grande riqueza desse universo \u00e9 sua diversidade. Neste aspecto, a Capoeira      imita a natureza em sua biodiversidade. Estamos a cada dia descobrindo novidades,      &#8220;movimento \u00e9 vida&#8221;. <\/p>\n<p>O que pretendo com este texto \u00e9 clarear um pouco a nomea\u00e7\u00e3o dos estilos,      mas com certeza dentro de cada estilo cada grupo possui suas diferen\u00e7as. O      que vejo na Angola \u00e9 como cada um consegue descobrir o seu jeito de se expressar,      uma verdadeira unidade na diversidade. Muito mais importante que os nomes      \u00e9 o que se pratica, e, nesse aspecto, a Capoeira tem uma unidade. Pois posso      dentro do meu estilo me adaptar e jogar em rodas de outros estilos. <\/p>\n<p><strong>E \u00e9 a partir desta pr\u00e1tica que pergunto com este texto: <\/strong>Qual      \u00e9 a sua? Cada um est\u00e1 escrevendo a sua hist\u00f3ria corporalmente e procurando      manter as capoeiras. <\/p>\n<p><strong>O que tenho visto s\u00e3o tr\u00eas ambientes e a melhor s\u00edntese disso seria      a dura\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia de estilos:<\/strong> <\/p>\n<blockquote>\n<p><strong>CONTEMPOR\u00c2NEA<\/strong> \u00e9 a capoeira mais difundida. Aqui nesta        categoria coloco todas as nomea\u00e7\u00f5es que tenham menos de 50 anos de exist\u00eancia.        Aqui entra a MAIORIA DE GRUPOS E ACADEMIAS, com a Capoeira sendo chamada        de &#8216;Angola-e-Regional&#8217;, e as contempor\u00e2neas &#8216;regional-moderna&#8217;, &#8216;Soma-Capoeira&#8217;,        Capoeira free-style (para luta Vale-tudo), Hidro-Capoeira, Capoeira misturada        com outras lutas (boxe, muay-thai, etc) e ainda as que n\u00e3o querem abandonar        seus t\u00edtulos anteriores. Na d\u00e9cada de 90, tentaram e hoje ainda tentam se        aproximar da Angola (o que est\u00e1 gerando confus\u00f5es, pois todos t\u00eam o direito        de aprender o que quiser, mas nesta categoriza\u00e7\u00e3o, estes angoleiros &#8220;contempor\u00e2neos&#8221;        se diferem dos que jogam EXCLUSIVAMENTE a Angola); <br \/>\n<strong>REGIONAL<\/strong> pura de Mestre Bimba, que est\u00e1 sendo divulgada        e recuperada, principalmente, por Mestre Nenel. Passou por mudan\u00e7as, tem        em torno de 80 anos de exist\u00eancia; <br \/>\n<strong>ANGOLA<\/strong> pura, que possui Mestre Pastinha como \u00edcone maior,        mas que comporta dentro do mesmo estilo varia\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e t\u00e9cnicas derivadas        de 400 anos de exist\u00eancia e experimenta\u00e7\u00e3o. Nessa categoria, n\u00e3o se aceitam        competi\u00e7\u00f5es ou campeonatos, pois o melhor da roda n\u00e3o pode ser medido, n\u00e3o        existe. Cada um contribui com seu melhor para a roda e isso potencializa        a energia coletiva, que retorna para o indiv\u00edduo. <\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A Soma-I\u00ea se encontra dentro desta proposta com os grupos de terapia ligados      aos Coletivos I\u00ea&#8217;s de SP, BH e Curitiba. Apesar de n\u00e3o ter um mestre nos apadrinhando,      buscamos a responsabilidade de n\u00e3o misturar ou deturpar sua ess\u00eancia, permanentemente      fazendo oficinas com mestres angoleiros. Uma fonte de refer\u00eancia al\u00e9m do GCAP      e suas deriva\u00e7\u00f5es \u00e9 a ABCA (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Capoeira Angola), que      possibilitou a volta de mestres que pararam por mais de 20 anos ou que modificaram      seu estilo e agora voltaram \u00e0 Angola. E in\u00fameros angoleiros que se espalham      pelo Mundo a fora, os j\u00e1 citados e outros como M. Curi\u00f3,\u00a0\u00a0Mestre      Lua de Bob\u00f3, M. Ren\u00e9, M. Roberval e M. La\u00e9rcio, e sem falar dos antigos capoeiristas      como M. Ant\u00f4nio Diabo de Jequi\u00e9. <\/p>\n<p>Esta categoriza\u00e7\u00e3o pode ser usada por grupos e rodas, mas \u00e9 sobre o capoeira,      o capoeirista, que procuro definir. Pois se Mestre Bimba foi angoleiro e criou      a Regional, qualquer um pode mudar de estilo no decorrer do fluxo de sua vida.      Nem \u00e9 sempre o t\u00edtulo conseguido por um mestre angoleiro que definir\u00e1 seu      estilo. <\/p>\n<p>Mestre Jo\u00e3o Pequeno, maior raiz viva da Angola, formou mestres em Minas Gerais      que nesta categoriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o angoleiros. H\u00e1 tamb\u00e9m outros mestres antigos      que s\u00e3o angoleiros e foram criando alunos e mestres n\u00e3o-angoleiros (Mestres      Bras\u00edlia e Sergipe, e outros in\u00fameros exemplos). A Capoeira \u00e9 PR\u00c1TICA e n\u00e3o      TE\u00d3RICA. Se mestres tiveram forma\u00e7\u00e3o angoleira ou regionaleira pura e n\u00e3o      a seguem, procuro enquadrar seu estilo em fun\u00e7\u00e3o da sua pr\u00e1tica cotidiana,      de seu grupo e alunos. <\/p>\n<p>Esta categoriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 entre melhor e pior, simplesmente busco explicitar      uma forma de ver a Capoeira que desenvolvi nos \u00faltimos anos, na pr\u00e1tica, na      conviv\u00eancia e na pesquisa. Apesar dos estilos terem treinos e rodas que definem      o cotidiano de seus praticantes, qualquer um pode participar de um outro estilo,      desde que respeite os rituais locais, o que mant\u00e9m a possibilidade de chamarmos      tudo isso de CAPOEIRA. Acontecem muitos eventos onde se convidam mestres antigos,      ora pra valoriza-los, ora para tentar usar seus nomes, s\u00e3o t\u00eanues esses limites,      e secund\u00e1rios, desde que se respeitem estes mestres. <\/p>\n<p>A individualidade defendida por Mestre Pastinha (&#8220;cada um \u00e9 cada um,      ningu\u00e9m luta como eu&#8221;) \u00e9 fundamental dentro do estilo Angola. No entanto,      a infiltra\u00e7\u00e3o da militariza\u00e7\u00e3o e da padroniza\u00e7\u00e3o pode ainda descaracterizar      a Angola no contexto atual de globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Mesmo grupos que foram      fundamentais no resgate da Angola, ao insistirem em uma \u00fanica padroniza\u00e7\u00e3o,      podem enfraquec\u00ea-la. O &#8216;Cobra Mansa&#8217; de Mestre Pastinha, Mestre Jo\u00e3o Pequeno      \u00e9 fundamental hoje, pois al\u00e9m de ser o mais importante capoeirista vivo e      em atividade, soube experimentar e trazer de volta elementos ritual\u00edsticos      da sua Angola. <\/p>\n<p>Poucos podem trazer em seu curr\u00edculo mais de 71 anos de capoeiragem em quase      85 anos de vida. Desejo cr\u00edticas e sugest\u00f5es para ir &#8216;movimentando&#8217; minhas      percep\u00e7\u00f5es aqui apresentadas e poder retribuir em novos textos (as corre\u00e7\u00f5es      colocarei no livro), procurando buscar mais &#8216;sinceridades&#8217; que &#8216;verdades&#8217;.      Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, com a exist\u00eancia de t\u00e9cnicas de v\u00eddeo, fotos e arquivos,      h\u00e1 capoeiristas tentando inventar (mentir) seu passado. Uma pergunta pode      ser um desafio ou um di\u00e1logo, na roda e na vida. <\/p>\n<p><strong>Dentro das capoeiras, eu pergunto:<\/strong> Qual \u00e9 a sua? <\/p>\n<p>Posso definir o outro de fora e cada um pode se definir. Assim poderemos      confrontar conceitos. Querer definir o outro pode parecer autorit\u00e1rio, uma      forma de me defender (fechar), mas tamb\u00e9m pode fazer parte do meu direito      libert\u00e1rio. O autoritarismo tamb\u00e9m \u00e9 m\u00f3vel e est\u00e1 nas rela\u00e7\u00f5es e n\u00e3o s\u00f3 em      conceitos. Pois os conceitos mostram a pr\u00e1tica e esta \u00e9 modificada cotidianamente,      pelas rela\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo com seu meio. Eu sou angoleiro, sim sinh\u00f4&#8230; e      pergunto ao Kamuger\u00ea, qual \u00e9 a sua? <\/p>\n<p>&#8220;Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfei\u00e7\u00f5es&#8221;\u00a0<\/p>\n<p><strong>Manoel de Barros <\/strong><\/p>\n<p>Rui Takeguma Somaterapeuta criador da Soma-I\u00ea, anarquista, fot\u00f3grafo e professor      do I\u00ea &#8211; Grupo Anarquista de Capoeira Angola de SP, participante da FACA (Federa\u00e7\u00e3o      Anarquista de Capoeira Angola)\u00a0<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, Fevereiro de 2002 <\/p>\n<p>Fonte:  www.ime.usp.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Capoeira Regional, Jogo, Hist\u00f3ria, Brasil, Caracter\u00edsticas, Jogador, Gradua\u00e7\u00e3o, Cultura, Estilos, Origens, Regras, Golpe, Mestre, Capoeira 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