{"id":50592,"date":"2016-06-16T17:54:45","date_gmt":"2016-06-16T17:54:45","guid":{"rendered":"http:\/\/cms.portalsaofrancisco.com.br\/?p=50592"},"modified":"2016-06-16T18:25:34","modified_gmt":"2016-06-16T18:25:34","slug":"curdistao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/turismo\/curdistao","title":{"rendered":"Curdist\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h4>Quem s\u00e3o os curdos?<\/h4>\n<p>Um povo majoritariamente mu\u00e7ulmanos sunitas com sua pr\u00f3pria l\u00edngua e cultura,      a maioria curdos vivem em \u00e1reas geralmente cont\u00edguos de Turquia, Iraque, Ir\u00e3,      Arm\u00eania e S\u00edria &#8211; uma regi\u00e3o montanhosa do sudoeste da \u00c1sia, geralmente conhecida      como Curdist\u00e3o (&#8220;Terra dos curdos&#8221;).<\/p>\n<p>Antes da Primeira Guerra Mundial, a vida curda tradicional era n\u00f4made, girando      em torno de pastoreio de ovinos e caprinos em todo o plan\u00edcies da Mesopot\u00e2mia      e terras altas da Turquia e Ir\u00e3. A dissolu\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Otomano ap\u00f3s a guerra      criou uma s\u00e9rie de novos Estados-na\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o um Curdist\u00e3o independente.      Curdos, n\u00e3o mais livre para vaguear, foram for\u00e7ados a abandonar as suas migra\u00e7\u00f5es      sazonais e formas tradicionais.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, os curdos come\u00e7aram a considerar o conceito de nacionalismo,      uma no\u00e7\u00e3o introduzida pelos brit\u00e2nicos em meio \u00e0 divis\u00e3o do Curdist\u00e3o tradicional      entre os pa\u00edses vizinhos. O Tratado de Sevres 1920, que criou os Estados modernos      do Iraque, S\u00edria e Kuwait, foi ter inclu\u00eddo a possibilidade de um Estado curdo      na regi\u00e3o. No entanto, ele nunca foi implementado. Ap\u00f3s a queda da monarquia      turca por Kemal Ataturk, na Turquia, o Ir\u00e3 eo Iraque concordaram cada um a      n\u00e3o reconhecer um Estado curdo independente. <\/p>\n<p>Os curdos receberam tratamento especialmente duro nas m\u00e3os do governo turco,      que tentaram priv\u00e1-los de identidade curda, designando-as &#8220;Montanha turcos&#8221;,      proibindo a sua l\u00edngua e proibindo-os de usar trajes tradicionais curdos nas      cidades. O governo tamb\u00e9m incentivou a migra\u00e7\u00e3o de curdos para as cidades      para diluir a popula\u00e7\u00e3o nas terras altas. A Turquia continua a sua pol\u00edtica      de n\u00e3o reconhecimento dos curdos como um grupo minorit\u00e1rio. <\/p>\n<p>No Iraque, os curdos t\u00eam enfrentado a repress\u00e3o similar. Ap\u00f3s os curdos apoiados      Ir\u00e3 no 1980-1988 guerra Ir\u00e3-Iraque, Saddam Hussein retaliou, arrasando aldeias      e atacar camponeses com armas qu\u00edmicas. Os curdos se rebelaram novamente ap\u00f3s      a Guerra do Golfo P\u00e9rsico apenas para ser esmagado novamente por tropas iraquianas.      Cerca de 2 milh\u00f5es fugiram para o Ir\u00e3; 5 milh\u00f5es vivem atualmente no Iraque.      Os Estados Unidos tem tentado criar um ref\u00fagio seguro para os curdos no Iraque      atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o de uma &#8220;no-fly&#8221; zona ao norte do paralelo 36.    <\/p>\n<p>Apesar de um objetivo comum de um Estado independente, os curdos 20 milh\u00f5es      ou ent\u00e3o em v\u00e1rios pa\u00edses s\u00e3o mal unificados. De 1994-98, duas fac\u00e7\u00f5es curdas      iraquianas &#8211; o Partido Democr\u00e1tico do Curdist\u00e3o, liderado por Massoud Barzani,      ea Uni\u00e3o Patri\u00f3tica do Curdist\u00e3o, liderada por Jalal Talabani &#8211; travaram uma      sangrenta guerra pelo poder no norte do Iraque. Em setembro de 1998, os dois      lados concordaram em um acordo de partilha de poder. <\/p>\n<p>Enquanto isso, o Trabalhadores do Curdist\u00e3o, o PKK, atualmente travam uma      guerrilha no sudeste da Turquia, rejeitou os curdos iraquianos &#8216;decis\u00e3o de      procurar auto-governo local dentro de um Iraque federal. O PKK acredita que      qualquer Estado curdo independente deve ser uma p\u00e1tria para todos os curdos.    <\/p>\n<p>Ao longo dos anos, as tens\u00f5es entre o PKK queimado, liderado por Abdullah      Ocalan, ea fac\u00e7\u00e3o KDP Barzani, que controla a fronteira Turquia-Iraque. <\/p>\n<p>Barzani criticou o PKK para o estabelecimento de bases militares dentro do      Iraque-Kurd territ\u00f3rio para lan\u00e7ar ataques na Turquia. <\/p>\n<p>Captura recente Ocalan por agentes turcos provocou protestos acalorados e      por vezes violenta de milhares de curdos que vivem na Europa Ocidental.<\/p>\n<p>Seu impacto sobre o povo curdo e sua busca pela independ\u00eancia ainda est\u00e1      para ser visto.<\/p>\n<p><strong>Antecedentes: Os curdos <\/strong><\/p>\n<p>Os curdos foram subjugados pelos povos vizinhos para a maioria de sua hist\u00f3ria.      Nos tempos modernos, os curdos tentaram criar Estados independentes em Ir\u00e3,      Iraque e Turquia, mas seus esfor\u00e7os t\u00eam sido esmagado o tempo todo. <\/p>\n<h4><b>O povo curdo<\/b> <\/h4>\n<blockquote>\n<p>15 a 20 milh\u00f5es curdos vivem em uma \u00e1rea montanhosa abarcando as fronteiras        da Arm\u00eania, Ir\u00e3, Iraque, S\u00edria e Turquia. Cerca de 8 milh\u00f5es vivem no sudeste        da Turquia. <\/p>\n<p>Os curdos s\u00e3o um povo n\u00e3o-\u00e1rabes que falam uma l\u00edngua relacionada com persa.        Mais aderir \u00e0 f\u00e9 mu\u00e7ulmana sunita. <\/p>\n<\/blockquote>\n<h4><b>Turquia<\/b> <\/h4>\n<blockquote>\n<p><strong>1920:<\/strong> Ap\u00f3s a I Guerra Mundial, quando o Imp\u00e9rio Otomano        se dividiram, os curdos s\u00e3o prometidos independ\u00eancia pelo Tratado de S\u00e8vres.      <\/p>\n<p><strong>1923: <\/strong>l\u00edder turco Mustafa Kemal Ataturk rejeita o tratado,        e as for\u00e7as turcas colocar para baixo revoltas curdas nos anos de 1920 e        1930. A luta curda est\u00e1 adormecida h\u00e1 d\u00e9cadas. <\/p>\n<p><strong>1978: <\/strong>Abdullah Ocalan, um dos sete filhos de uma fam\u00edlia        de agricultores pobres, estabelece a Trabalhadores curdo Partido, ou PKK,        que defende a independ\u00eancia. <\/p>\n<p><strong>1979:<\/strong> Ocalan foge da Turquia para a S\u00edria. <\/p>\n<p><strong>1984: <\/strong>PKK Ocalan come\u00e7a a luta armada, recrutando milhares        de jovens curdos, que s\u00e3o movidos pela repress\u00e3o turca de sua cultura e        l\u00edngua e pela pobreza. For\u00e7as turcas combater os guerrilheiros do PKK, que        tamb\u00e9m estabelecer bases na fronteira com o Iraque, por ano. Conflito custa        cerca de 30.000 vidas. <\/p>\n<p><strong>1998: <\/strong>Ocalan, que j\u00e1 dirigiu seus guerrilheiros da S\u00edria,        \u00e9 expulso por Damasco sob a press\u00e3o de Ancara. Ele come\u00e7a sua odiss\u00e9ia multi-na\u00e7\u00e3o        at\u00e9 que ele \u00e9 capturado em Nair\u00f3bi em 15 de janeiro de 1999 e levado para        a Turquia, onde ele pode enfrentar a pena de morte. <\/p>\n<\/blockquote>\n<h4><b>Ir\u00e3<\/b> <\/h4>\n<blockquote>\n<p><strong>1946: <\/strong>curdos sucesso em estabelecer a Rep\u00fablica de Mahabad,        com o apoio sovi\u00e9tico. Mas um ano depois, o monarca iraniano esmaga o estado        embrion\u00e1rio. <\/p>\n<p><strong>1979:<\/strong> Tumulto da revolu\u00e7\u00e3o do Ir\u00e3 permite que os curdos        a estabelecer zona de fronteira n\u00e3o oficial livre do controle do governo        iraniano; curdos n\u00e3o segur\u00e1-la por muito tempo. <\/p>\n<\/blockquote>\n<h4><b>Iraque<\/b> <\/h4>\n<blockquote>\n<p><strong>Curdos no norte do Iraque &#8211;<\/strong> sob mandato brit\u00e2nico &#8211; revolta        em 1919, 1923 e 1932, mas s\u00e3o esmagados. <\/p>\n<p>Sob Mustafa Barzani, que travar uma luta intermitente contra Bagd\u00e1. <\/p>\n<p><strong>1970:<\/strong> Bagd\u00e1 subven\u00e7\u00f5es direitos curdos linguagem e autonomia,        mas lidar quebra, em parte, sobre as receitas do petr\u00f3leo. <\/p>\n<p><strong>1974:<\/strong> Novos confrontos em erup\u00e7\u00e3o; iraquianos for\u00e7a 130.000        curdos no Ir\u00e3. Mas o Ir\u00e3 retira apoio para os curdos no ano seguinte. <\/p>\n<p><strong>1988: <\/strong>lan\u00e7amento iraquianos ataque g\u00e1s venenoso, matando        5.000 curdos na cidade de Halabja. <\/p>\n<p><strong>1991:<\/strong> Ap\u00f3s Guerra do Golfo P\u00e9rsico, zona norte curda do        Iraque vem sob protec\u00e7\u00e3o internacional. <\/p>\n<p><strong>1999:<\/strong> Duas fac\u00e7\u00f5es curdas do Iraque, uma liderada pelo        filho de Mustafa Barzani Massoud, o outro por Jalal Talabani, mediar um        acordo de paz; objetivo \u00e9 para \u00e1rea curda para se tornar parte de um Iraque        democr\u00e1tico.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Fonte:  www.washingtonpost.com<\/p>\n<h6>Curdist\u00e3o<\/h6>\n<p class=\"google\">\n<p><strong>Curdist\u00e3o<\/strong>. Nunca existiu e, provavelmente, nunca existir\u00e1.      N\u00e3o viu a sua identidade pol\u00edtica reconhecida e, at\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo, mesmo      a identidade cultural lhe era negada. Mas l\u00e1 que h\u00e1 curdos, h\u00e1, e foram eles      que inventaram a palavra Curdist\u00e3o. Viagem ao leste da Turquia, ou melhor,      ao Curdist\u00e3o, o pa\u00eds que nunca chegou a nascer.<\/p>\n<h4>O Pa\u00eds do Nunca<\/h4>\n<p><strong>A hist\u00f3ria dos curdos j\u00e1 tem barbas, mas continua a repetir-se:<\/strong>      um povo tribal que passa o tempo em guerras internas, n\u00e3o se organiza como      na\u00e7\u00e3o e perde todas as oportunidades de fazer frente aos inimigos comuns,      ou de criar uma forte e duradoura identidade pol\u00edtica. O resultado \u00e9 acabarem      distribu\u00eddos por \u00e1reas entretanto retalhadas em pa\u00edses pelos mais fortes,      divididos, espalhados em di\u00e1spora para sempre.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui24.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"261\" height=\"174\" \/><br \/>\n<strong>Jovens curdas<\/strong><\/p>\n<p>As maiores comunidades vivem hoje no Norte do Iraque, Noroeste do Ir\u00e3o e      no Leste da Turquia. Neste \u00faltimo pa\u00eds, o n\u00famero parece ultrapassar os onze      milh\u00f5es, transformando a Anat\u00f3lia Oriental na \u0093p\u00e1tria curda\u0094 por      excel\u00eancia. S\u00f3 que nenhum destes pa\u00edses tem a m\u00ednima inten\u00e7\u00e3o de ceder um      mil\u00edmetro, quanto mais um quil\u00f3metro, e os curdos continuam a viver como estrangeiros      exilados em terras que sempre foram suas.<\/p>\n<p>No Iraque, s\u00e3o conhecidas as atrocidades do regime contra os curdos ap\u00f3s      a invas\u00e3o do Kuwait; no Ir\u00e3o, as curdas fazem quest\u00e3o de manter os seus trajes      tradicionais ultra-garridos, contra a triste monotonia do tchador imposto      \u00e0s mulheres &#8211; nas aldeias junto \u00e0 fronteira turca, provavelmente as mais miser\u00e1veis      e abandonadas do pa\u00eds, parecem princesas em redor das ru\u00ednas dos seus castelos.      Do lado turco, as coisas n\u00e3o melhoram. A mis\u00e9ria \u00e9 quase igual, e a fort\u00edssima      presen\u00e7a militar, conjugada com as queixas permanentes dos curdos, d\u00e3o uma      triste ideia da sua situa\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica.<\/p>\n<h4>ERZURUM, PARA L\u00c1 DA TURQUIA CONHECIDA<\/h4>\n<p>Erzurum \u00e9 a porta de entrada na que \u00e9 considerada a \u00e1rea mais tradicional      e conservadora do pa\u00eds. A presen\u00e7a do Isl\u00e3o salta aos olhos, nas roupas excessivas      das mulheres que \u00e9 dif\u00edcil surpreender sem len\u00e7o, e nos ocasionais tchadores      pretos \u00e0 moda do Ir\u00e3o. <\/p>\n<p><strong>Aqui despojamo-nos da Turquia que conhecemos e entramos numa \u00e1rea      de culturas multifacetadas:<\/strong> para Noroeste, s\u00e3o evidentes as influ\u00eancias      da Ge\u00f3rgia e da Arm\u00e9nia; mais para Sul estende-se uma zona que j\u00e1 foi f\u00e9rtil      e rica &#8211; a bacia dos rios Tigre e Eufrates -, funcionando ao longo da hist\u00f3ria      como cruzamento e campo de batalha de civiliza\u00e7\u00f5es, mas transformada hoje      numa das mais pobres da Turquia. <\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui25.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"260\" height=\"170\" \/><br \/>\n<strong>Pal\u00e1io de Isak Pax\u00e1, Dogubeyazit, Curdist\u00e3o, Turquia<\/strong><\/p>\n<p>A paisagem, amarela e ondulante, imagina-se facilmente pintada de branco,      como no filme de Yilmaz Guney, \u0093Yol\u0094. As casas s\u00e3o baixas e t\u00eam      p\u00e1tios de terra, onde grasnam enormes gansos e ladram c\u00e3es felpudos. De vez      em quando passa uma manada de vacas conduzida por um vaqueiro e aves de rapina      mant\u00eam-se de atalaia, penduradas nos fios el\u00e9ctricos. A eletricidade parece      j\u00e1 ter chegado a todo o lado, mas as patelas de bosta seca ainda se empilham      nos muros e ao lado das casas, para servirem de combust\u00edvel no Inverno.<\/p>\n<p>O nosso percurso levou-nos a Kars, Dogubeyazit, no sop\u00e9 do monte Ararat,      contornando depois o lago Van at\u00e9 Tatvan e Adilcevaz. Seguimos para Sul at\u00e9      Diyarbakir e Harran, j\u00e1 \u00e0s portas da S\u00edria. A paisagem n\u00e3o muda muito, limita-se      a desenrolar um tapete de plan\u00edcies polvilhada de aldeias pobres de pedra      vulc\u00e2nica ou de tijolos e terra amassada, contornando montanhas precocemente      nevadas, no meio das quais surge o belo lago de Van.<\/p>\n<p>Quer queiramos quer n\u00e3o, vai-se formando a imagem de um pa\u00eds diferente, cheio      de gente tisnada pelo ar das montanhas, elas de roupas multicolores, saias      compridas e aspecto cigano at\u00e9 nos len\u00e7os, eles de bigode farto e cabeleira      escura. Uma boleia bem-humorada, entre o pal\u00e1cio de Isac Pasha e Dogubeyazit,      mencionou o nome proibido pela primeira vez. <\/p>\n<p><strong>Baixando o volume da m\u00fasica estridente, olhou pelo retrovisor e anunciou:<\/strong>      \u0093M\u00fasica curda. Aqui \u00e9 o Curdist\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a Turquia.\u0094<\/p>\n<h4>CURDIST\u00c3O, PA\u00cdS SECRETO<\/h4>\n<p>S\u00f3 os curdos parecem conhecer este pa\u00eds secreto, que n\u00e3o vem assinalado nos      mapas. Alguns gostam de dizer que a sua p\u00e1tria era a Mesopot\u00e2mia, a \u0093terra      entre os rios\u0094, como lhe chamaram os gregos. Abra\u00e7ada pelos rios Tigre      e Eufrates, esta zona f\u00e9rtil prolonga-se pelo Iraque e abrigou um bom punhado      de civiliza\u00e7\u00f5es e povos, entre as quais os curdos. Aqui foi inventada a roda      e a escrita cuneiforme, que precedeu os alfabetos atuais. <\/p>\n<p>J\u00e1 7.500 anos antes de Cristo a Mesopot\u00e2mia era habitada pelos sum\u00e9rios,      que constru\u00edram as primeiras cidades-estado do mundo, como Uruk e, mais tarde,      Babil\u00f4nia. Ass\u00edrios, em 700 A.C., e persas sass\u00e2nidas, em 539 A.C., tornaram-se      os novos senhores da regi\u00e3o. <\/p>\n<p><strong>Seguiram-se invas\u00f5es e misturas de colonos vindas de Oriente e Ocidente:      <\/strong>os gregos e maced\u00f4nios de Alexandre o Grande, tribos bedu\u00ednas e \u00e1rabes,      tribos hebraicas e aramaicas, caucasianos, otomanos&#8230;<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui261.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"263\" height=\"174\" \/><br \/>\n<strong>Igreja arm\u00e9nia na ilha de Akdamar, lago Van, Curdist\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Sabe-se que no s\u00e9culo XI, as tribos da montanha (arm\u00e9nios e curdos) est\u00e3o      bem instaladas a Norte da Mesopot\u00e2mia, na zona do lago Van. Mas a origem da      sua chegada n\u00e3o \u00e9 certa. Pensa-se que os curdos s\u00e3o descendentes de v\u00e1rios      grupos \u00e9tnicos, provavelmente origin\u00e1rios dos montes Zagros (Ir\u00e3o) ou dos      montes Hakkari (Turquia). Sabe-se que foram sempre n\u00f4madas e pastores de ovinos      e cavalos &#8211; os turcos chamaram-lhes por muito tempo \u0093turcos das montanhas\u0094,      n\u00e3o os distinguindo como uma etnia diferente. Nunca tiveram um estado independente,      sempre divididos em tribos, cada uma com o seu chefe. <\/p>\n<p>Falam uma l\u00edngua indo-europeia relacionada com o persa, em v\u00e1rios dialetos      compreens\u00edveis entre si. Marco P\u00f3lo descreve-os, no s\u00e9culo XIII, como \u0093tribos      sem princ\u00edpios, cuja ocupa\u00e7\u00e3o consiste em assaltar e roubar os mercadores\u0094;      tr\u00eas s\u00e9culos mais tarde, Ant\u00f3nio Tenreiro, um cavaleiro portugu\u00eas da Ordem      de Cristo viajando por terra entre a \u00cdndia e Portugal, menciona os \u0093curdis,      os quais s\u00e3o umas gentes brancas. Vivem por cria\u00e7\u00f5es de gados, s\u00e3o pouco dom\u00e9sticas      e n\u00e3o costumam habitar sen\u00e3o em terras despovoadas de montanhas e serras,      porque n\u00e3o querem ser senhoreados por ningu\u00e9m\u0094.<\/p>\n<p>Dando azo \u00e0 sua tradi\u00e7\u00e3o marcial, algumas tribos curdas lutaram pelos sult\u00f5es      otomanos na P\u00e9rsia, na R\u00fassia e, mais tarde, contra arm\u00e9nios e gregos. Mas      o mais pr\u00f3ximo que conseguiram estar da forma\u00e7\u00e3o de um estado independente      foi o famigerado Tratado de S\u00e8vres, no qual os Aliados, mais para humilha\u00e7\u00e3o      do governo otomano do que com real inten\u00e7\u00e3o de salvaguardar direitos pol\u00edticos      ou humanos, obrigavam os turcos \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um estado arm\u00e9nio e outro curdo.    <\/p>\n<p>Apesar de apontados como excelentes soldados, a recompensa que os curdos      tiveram, ap\u00f3s a vit\u00f3ria turca de 1922 e a subida ao poder de Kemal Ataturk,      foi a recusa em obterem quaisquer direitos ou privil\u00e9gios especiais.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui27.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"262\" height=\"172\" \/><br \/>\n<strong>Castelo de Hosap<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7aram ent\u00e3o as rebeli\u00f5es, que foram subindo de tom at\u00e9 \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do      PKK, (Partia Karakaris Kurdistan), o Partido dos Trabalhadores Curdos de orienta\u00e7\u00e3o      marxista-leninista, que exigia nada menos que a independ\u00eancia. <\/p>\n<p><strong>Depois do golpe militar de 1980, o PKK iniciou uma s\u00e9rie de liga\u00e7\u00f5es      perigosas que iria levar ao endurecimento da oposi\u00e7\u00e3o turca:<\/strong> campos      de treino de atividades terroristas no L\u00edbano e na S\u00edria, liga\u00e7\u00f5es \u00e0 OLP de      Arafat. <\/p>\n<p>O ex\u00e9rcito turco instalou a lei marcial nas \u00e1reas curdas e fez incurs\u00f5es      em territ\u00f3rio s\u00edrio. <\/p>\n<p><strong>Come\u00e7ou uma guerra suja em que cada uma das partes rivalizava com      a outra em requintes de malvadez:<\/strong> ataques a civis, bombardeamento      e evacua\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de aldeias, cria\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias armadas favor\u00e1veis a Ankara,      ataques a escolas e professores, acusados de promoverem a cultura turca, coa\u00e7\u00e3o      de jovens para se juntarem a um lado ou a outro, gente obrigada a tomar partido      para acabar assassinada pela fac\u00e7\u00e3o oposta. A vida em certas zonas tornou-se      insustent\u00e1vel e o n\u00famero de refugiados dentro e fora do pa\u00eds disparou; s\u00f3      na zona de Diyarbakir, considerada a capital do Curdist\u00e3o turco, os mortos      da guerra entre o ex\u00e9rcito e o PKK de Ocalan ficou em trinta a quarenta mil      mortos e muitos dos seus habitantes s\u00e3o refugiados de aldeias destru\u00eddas ou      esvaziadas pelo ex\u00e9rcito.<\/p>\n<h4>INCOMPREENS\u00d5ES<\/h4>\n<p>Os turcos n\u00e3o os compreendem. <\/p>\n<p><strong>Dois jovens de Istambul que ousavam acampar nas margens do lago Van      confessaram-nos com um ar espantado:<\/strong> \u0093S\u00e3o iguais a n\u00f3s. E s\u00e3o      t\u00e3o simp\u00e1ticos!\u0094 Intoxicados por uma imprensa escrava da pol\u00edtica governamental,      os turcos imaginam os curdos como gentinha inculta, retr\u00f3grada, dada a viol\u00eancias      e que os odeia profundamente. E s\u00f3 a \u00faltima parte \u00e9 que \u00e9 verdade.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui28.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"261\" height=\"171\" \/><br \/>\n<strong>Fam\u00edlia de Diyarbakir, Curdist\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Amigos de Trabzon tinham-nos falado das fam\u00edlias enormes, a religi\u00e3o levada      muito a s\u00e9rio, \u0093n\u00e3o seria pior usares um len\u00e7o na cabe\u00e7a\u0094. O fantasma      do fundamentalismo e do terrorismo, o peso da pobreza que os arrasta para      o fundo, afastando-os da t\u00e3o ansiada meta da Comunidade Europeia. <\/p>\n<p>Em Dogubeyazit e Diyarbakir alimentam-se os \u00f3dios com hist\u00f3rias de assassinatos      cometidos pela pol\u00edcia e pelo ex\u00e9rcito. Face \u00e0 repress\u00e3o, os curdos definem-se      pelo antagonismo com a Turquia. O que \u00e9 um curdo? \u00c9 um n\u00e3o-turco, de l\u00edngua      curda e nacionalidade turca, que odeia turcos.<\/p>\n<p>A pris\u00e3o de Ocalan em 1999, a que se seguiu o seu apelo ao fim da luta armada,      inicia uma nova era. O PKK anunciou a sua dissolu\u00e7\u00e3o e transformou-se no Kadek,      o Congresso para a Liberdade e Democracia no Curdist\u00e3o, que pede a autonomia      cultural em vez da independ\u00eancia. <\/p>\n<p>O povo curdo vai ter de se redefinir para viver com o inimigo. O verdadeiro      curdo vai ter de deixar de ser o que odeia os turcos, mas aquele que sabe,      de fato, quem \u00e9. Em breve n\u00e3o vai bastar ouvir m\u00fasica curda \u00e0s escondidas      &#8211; agora at\u00e9 j\u00e1 nem \u00e9 preciso -, ou dizer \u0093Kurdistan\u0094 baixinho, enquanto      fazem sinal de sil\u00eancio com o dedo, passando-o depois rapidamente pelo pesco\u00e7o,      numa explica\u00e7\u00e3o \u00f3bvia. Estes pequenos sinais de uni\u00e3o curda, prontamente desfeita      \u00e0 primeira trica, vai desmoronar-se com a propor\u00e7\u00e3o e a velocidade com que      a Turquia desistir da pesada repress\u00e3o que tem usado nas \u00faltimas d\u00e9cadas.      A m\u00fasica e a l\u00edngua j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o proibidas; o Parlamento aprovou este ano uma      lei que permite o seu uso e aprendizagem na televis\u00e3o e &#8211; viva o luxo &#8211; nas      escolas. O que v\u00e3o os curdos fazer com tanta liberdade?<\/p>\n<h4>CURDOS CONTRA CURDOS<\/h4>\n<p>Os velhos trejeitos tribais ainda n\u00e3o desapareceram. Quando n\u00e3o est\u00e3o a bater      nos turcos, os curdos batem uns nos outros.<\/p>\n<p>Dogubeyazit, \u00e0 sombra do monte Ararat e das dezenas de tanques e armamento      pesado do ex\u00e9rcito, \u00e9 um perfeito exemplo do tribalismo existente.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas grandes fam\u00edlias na cidade, cujos la\u00e7os de parentesco, sejam primos      por parte do av\u00f4 ou casados com o cunhado do tio, implicam protec\u00e7\u00e3o m\u00fatua      nas adversidades. Nem que seja preciso matar. Contaram-nos diversos epis\u00f3dios      em que se demonstrava que a for\u00e7a de uma fam\u00edlia consiste nesta uni\u00e3o, e no      n\u00famero de homens que pode disponibilizar em caso de \u0093guerra\u0094.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui291.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"260\" height=\"171\" \/><br \/>\n<strong>Loja em Kars, Turquia <\/strong><\/p>\n<p>Um exemplo prosaico foi o de um rapaz que angariava turistas para um hotel      no terminal de autocarros, quando foi abordado por um taxista de outra fam\u00edlia      que o mandou ir-se embora, j\u00e1 que aquele lugar lhe pertencia e estava a tentar      levar turistas para outro hotel. \u00c0 troca de amea\u00e7as seguiu-se a retirada estrat\u00e9gica      do rapaz para chamar alguns do seu cl\u00e3, que vieram dar uma valente sova no      taxista e continuar o seu \u0093servi\u00e7o tur\u00edstico\u0094. A coisa s\u00f3 n\u00e3o continuou      com repres\u00e1lias porque um tio mais velho e respeit\u00e1vel convenceu os jovens      a encontrarem-se, pedir desculpas e beijarem-se na sua presen\u00e7a, com a promessa      de deixar o assunto ficar por ali. Mas nem sempre as coisas acabam t\u00e3o bem.      H\u00e1 quem recuse os beijos e jure que s\u00f3 p\u00e1ra quando matar.<\/p>\n<p>Soubemos de um desses casos da \u00faltima vez que visit\u00e1mos a cidade. Um homem      matou outro e desapareceu. A fam\u00edlia do falecido fez saber que n\u00e3o aceitava      os mil d\u00f3lares que \u00e9 costume pagar por \u0093d\u00edvidas de sangue\u0094, e jurou      vingan\u00e7a. Quando deix\u00e1mos Dogubeyazit, um sobrinho da v\u00edtima, militar, tinha      vindo do quartel para procurar o assassino a monte, e um cunhado preparava-se      para mandar os filhos adolescentes \u0093de f\u00e9rias\u0094 para Istambul, evitando      que se juntassem aos que preparam o pr\u00f3ximo crime&#8230;<\/p>\n<p>O nosso amigo Mehmet lamenta esta mentalidade. \u0093Curdos contra curdos.      Nunca nos conseguimos unir.\u0094 &#8211; diz com tristeza. \u0093Conhe\u00e7o muitos      que fogem destes problemas e v\u00e3o para a Holanda e a Alemanha a gritar aos      quatro ventos que s\u00e3o refugiados pol\u00edticos, em vez de ficarem aqui para mudar      isto. Perguntem-lhes onde est\u00e3o as mulheres da fam\u00edlia, que ficam vi\u00favas e      sem nada, e n\u00e3o podem fugir a estas situa\u00e7\u00f5es!\u0094 Se forem curdas tradicionais      est\u00e3o em casa a cuidar da dezena de filhos que lhes coube na sorte. Algu\u00e9m      nos disse que cinco, oito filhos, s\u00e3o n\u00fameros perfeitamente normais. Mas tinha      um tio com vinte e um. S\u00f3 que tinha tr\u00eas mulheres. \u0093Nas aldeias, ainda      h\u00e1 alguns assim&#8230;\u0094<\/p>\n<h4>AS BELEZAS DO CURDIST\u00c3O TURCO<\/h4>\n<p>Entalado entre as montanhas de Erzurum, Erzincan e Diyarbakir, o Curdist\u00e3o      turco \u00e9 um belo pa\u00eds. A paisagem \u00e9 demasiado dura e agreste para n\u00e3o marcar      quem l\u00e1 mora. Imaginemos uma esp\u00e9cie de Tr\u00e1s-os-Montes cheia de pastores-guerreiros      de bigode farfalhudo. E muita, muita neve. C\u00e1 em baixo cultiva-se cereais      e usa-se o pasto, embora o nomadismo j\u00e1 seja raro. Terra seca, poucas \u00e1rvores      (amendoeiras, pistaceiras, choupos&#8230;), algum algod\u00e3o, muitos rios, horizontes      imensos. E tanques, guaritas, soldados, controlos militares por todo o lado.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui301.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"261\" height=\"167\" \/><br \/>\n<strong>Mesquita em Ani, Curdist\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Entre Dogubeyazit e a cidade de Van, nas margens do lago, pass\u00e1mos cinco      controlos militares e um da pol\u00edcia. Revista dos passageiros, exibi\u00e7\u00e3o de      documentos de identidade, \u00e0s vezes esvaziamento completo do autocarro, busca      nas bagagens e passagem pelo detector de metais. O que vale \u00e9 que os turcos      s\u00e3o sempre agrad\u00e1veis com os estrangeiros, mesmo quando est\u00e3o de uniforme.<\/p>\n<p><strong>A cada paragem desfilam imagens cada vez mais asi\u00e1ticas:<\/strong>      homens de bon\u00e9 agacham-se ao sol, puxando fuma\u00e7as de cigarro e sorvendo ch\u00e1      \u00e0 maneira tradicional, com um cubo de a\u00e7\u00facar entalado nos dentes da frente;      mi\u00fados de cabe\u00e7a rapada tentam engraxar o cal\u00e7ado dos passantes por uma ninharia.      As aldeias de terra batida t\u00eam sempre as mesmas casinhas baixas intercaladas      por medas de feno, os montes de bosta seca cobertos, \u00e0 espera do Inverno,      rebanhos e manadas de vacas, galinhas e patos \u00e0 solta.<\/p>\n<p>As cidades elegantes da Anat\u00f3lia Ocidental ficaram muito para tr\u00e1s, e Istambul      ou Ancara dificilmente parecem pertencer ao mesmo pa\u00eds. Mas as coisas est\u00e3o      a come\u00e7ar a mudar. <\/p>\n<p><strong>Depois de uma melhoria substancial na rede de estradas e transportes      da zona, a economia de subsist\u00eancia vai ser alterada pelo Projeto para a Anat\u00f3lia      Oriental (Guneydogu Anadolu Projesi), conhecido por GAP:<\/strong> nada menos      que vinte e duas barragens e dezanove centrais el\u00e9ctricas para aproveitar      a \u00e1gua dos rios Tigre e Eufrates, que v\u00e3o permitir cultivar dois milh\u00f5es de      hectares de terras \u00e1ridas, ao mesmo tempo que incentivam a industrializa\u00e7\u00e3o      atrav\u00e9s do baixo pre\u00e7o da energia na \u00e1rea do projeto. Mais empregos, mais      terra dispon\u00edvel, mais turismo.<\/p>\n<p>O lado negro da quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a vida das pessoas a mudar. O projeto      \u00e9 de tal maneira megal\u00f3mano que, al\u00e9m de enterrar dezenas de aldeias, destr\u00f3i      totalmente alguns ecossistemas locais, arrasando flora e fauna \u00e0 passagem.      Mas nada conseguiu modificar os planos do governo central e a primeira grande      barragem, a Ataturk, j\u00e1 tem dez anos e uma grande mancha verde \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a hist\u00f3ria tem pago o seu quinh\u00e3o \u00e0s grandes barragens; alguns s\u00edtios      foram submersos, outros salvos in extremis por equipas de arque\u00f3logos. Por      aqui, \u00e9 certo que as povoa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o particularmente inspiradoras, mas guardam      valiosas marcas da passagem de civiliza\u00e7\u00f5es antigas. Em Van, por exemplo,      embora o belo lago de \u00e1guas azuis j\u00e1 esteja afastado um quil\u00f3metro do local      onde os urartianos tinham o seu porto no s\u00e9culo IX A.C., as muralhas da velha      fortaleza, a \u0093Rocha de Van\u0094, continuam imponentes no topo do rochedo.    <\/p>\n<p><strong>Em baixo ficam as ru\u00ednas da cidade original, destru\u00edda nos anos 50      por um terramoto: <\/strong>algumas mesquitas escurecidas e um terreno arenoso      e acidentado, onde os locais passeiam e fazem piqueniques.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui311.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"262\" height=\"175\" \/><br \/>\n<strong>Ru\u00ednas e mesquita em Dogubeyazit, Turquia<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 vai o tempo em que era arriscado para os turistas vir at\u00e9 aqui. Agora      recupera-se o tempo perdido com uma afabilidade extrema, que compensa a ocasional      falta de l\u00edngua de comunica\u00e7\u00e3o. Quando n\u00e3o h\u00e1 trocos entramos sem pagar na      fortaleza, ou pagamos o jantar no restaurante \u0093da pr\u00f3xima vez\u0094.      O pior s\u00e3o os ch\u00e1s gratuitos que temos de engolir; se o caf\u00e9 turco \u00e9 amargo,      o ch\u00e1 ainda consegue ser mais. Mas os vendedores de tapetes esquecem-se de      nos vender tapetes, e passamos horas a falar do pa\u00eds, da Europa, da dificuldade      em arranjar artesanato curdo. E do Curdist\u00e3o, onde fazem quest\u00e3o de nos anunciar      que estamos. <\/p>\n<p>Seguem-se hist\u00f3rias de cad\u00e1veres encontrados em lixeiras, incurs\u00f5es nocturnas      do ex\u00e9rcito, feridos impedidos de ir ao hospital, que acabam por morrer diante      da fam\u00edlia. Feridas que nunca mais saram. <\/p>\n<h4>O B\u00cdBLICO MONTE ARARAT, TURQUIA<\/h4>\n<p>A Norte e a Sul de Van, a paisagem tem refer\u00eancias b\u00edblicas. Agri Dag, o      monte Ararat, ergue-se de uma paisagem suja de areias e cinzas vulc\u00e2nicas,      num cone perfeito. Desapareceram os glaciares referidos por Marco P\u00f3lo, que      impediam a subida ao cume, e tamb\u00e9m o perigo de fogo cruzado entre o ex\u00e9rcito      e o PKK.<\/p>\n<p>Nos hot\u00e9is h\u00e1 agora quem ofere\u00e7a passeios a cavalo pelo monte e viagens ao      lugar onde encalhou a Arca de No\u00e9, marcada por sali\u00eancias pedregosas com a      forma de um grande barco. Ant\u00f3nio Tenreiro n\u00e3o a conseguiu avistar por causa      da neve, mas foi-lhe dito que os crist\u00e3os locais subiam ao monte e \u0093traziam      paus da dita arca e sinais dela\u0094. <\/p>\n<p><strong>As pr\u00f3prias aldeias no sop\u00e9 parecem viver ainda tempos b\u00edblicos,      rodeadas por vacas e ovelhas junto a lameiros quase secos, casinhas b\u00e1sicas      com mobili\u00e1rio n\u00f4mada:<\/strong> tapetes e alguns almofad\u00f5es tecidos pelas      mulheres. O luxo \u00e9 o frigor\u00edfico de onde sai uma \u00e1gua fresqu\u00edssima vinda de      n\u00e3o sei que fonte, e as prateleiras metidas na parede, onde guardam os copos      do ch\u00e1 e alguns pratos. A dona da casa faz as honras, interrompendo a cozedura      matinal do p\u00e3o para servir o ch\u00e1, acompanhada do filho mais velho.<\/p>\n<p>Noutra aldeia somos convidados a participar numa festa de casamento, onde      dois m\u00fasicos animam os dan\u00e7arinos com m\u00fasica curda tocada com sintetizadores      e guitarras el\u00e9ctricas. A tradi\u00e7\u00e3o quer que toda a aldeia coma e beba na boda,      e os passantes consideram-se convidados. As dan\u00e7as tamb\u00e9m s\u00e3o tradicionais,      com filas de raparigas de m\u00e3os dadas &#8211; \u00e0s vezes admite-se um ou outro rapaz      &#8211; a mexerem ombros e pernas num can-can modesto e muito contagiante. A m\u00fasica      ondula e rodopia como a paisagem ressequida, com um ritmo que faz agitar os      lencinhos coloridos nas m\u00e3os dos dan\u00e7arinos. At\u00e9 parece f\u00e1cil&#8230;<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui32.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"260\" height=\"174\" \/><br \/>\n<strong>Vista do monte Ararat, perto de Dogubeyazit, Turquia<\/strong><\/p>\n<h4>HARRAN E DIYARBAKIR, DUAS DAS CIDADES MAIS ANTIGAS DO MUNDO<\/h4>\n<p>A sul, junto \u00e0 S\u00edria, a aldeia de maioria \u00e1rabe de Harran \u00e9 apontada como      o lugar onde viveu Abra\u00e3o, na sua viagem entre Ur e Can\u00e3a. Paup\u00e9rrima, mal      consegue tirar dividendos da sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica com a venda de postais,      len\u00e7os curdos feitos na China e enfeites de cani\u00e7os e fios coloridos. Para      al\u00e9m das suas t\u00edpicas casas c\u00f4nicas constru\u00eddas de lama seca, \u00fanicas da regi\u00e3o      e agora quase exclusivamente utilizadas como armaz\u00e9ns ou abrigos para o gado,      Harran \u00e9 um dos locais do mundo h\u00e1 mais tempo habitado de forma permanente;      pelo menos, seis mil anos. Ass\u00edrios, romanos, bizantinos, e mong\u00f3is passaram      por aqui e deixaram templos de adora\u00e7\u00e3o aos astros, mesquitas, uma universidade      e mesmo uma fortaleza dos Cruzados. Tudo em ru\u00ednas, mas agora em pleno estudo      e recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m Diyarbakir, para Norte, \u00e9 apontada como uma das mais antigas cidades      do mundo e, tal como em Harran, na mesma \u00e1rea \u00e9 poss\u00edvel encontrar vest\u00edgios      de civiliza\u00e7\u00f5es e s\u00e9culos completamente diferentes. Na \u0093capital curda\u0094,      escondidos pelo tr\u00e1fego e engolidos pela cidade moderna, os mais evidentes      acabam por ser as setenta e duas torres que pontuam os seis quil\u00f3metros de      negras muralhas bizantinas, erguidas sobre as romanas, que provavelmente tinham      substitu\u00eddo as persas, as ass\u00edrias e as urartianas. Percorrendo o labirinto      de ruelas e o bazar, encontramos mesquitas e uma ou outra kilisesi (igreja).      Nada de mais, uma vez que as tribos arm\u00e9nias, assinaladas na \u00e1rea desde o      s\u00e9culo VI A.C., formaram a primeira na\u00e7\u00e3o crist\u00e3 do mundo.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XVI, Ant\u00f3nio Tenreiro chama a esta zona povoada de arm\u00e9nios e curdos      a \u0093Arm\u00e9nia baixa\u0094. A paz parecia reinar, e s\u00e3o muitas as \u00e1reas de      arm\u00e9nios crist\u00e3os descritos como \u0093sujeitos a um senhor Curdi que muito      favorece e deixa viver em sua liberdade publicamente e assim ter suas igrejas      e usarem seu costume e lei\u0094. Em Hosap, est\u00e1 aberto aos visitantes um      bel\u00edssimo exemplo de uma fortaleza curda do s\u00e9culo XVII, imponente e inserida      numa paisagem des\u00e9rtica e montanhosa, de onde ainda sobressaem as muralhas      que rodeavam a antiga cidade, como o dorso ondulante de um drag\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui33.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"258\" height=\"175\" \/><br \/>\n<strong>Loja nas ruelas de Diyarbakir, Curdist\u00e3o, Turquia<\/strong><\/p>\n<p>Estas \u0093gentes que s\u00e3o mouros que chama Curdis e se av\u00eam muito bem com      os crist\u00e3os arm\u00e9nios\u0094, muitas vezes n\u00e3o \u0093d\u00e3o obedi\u00eancia ao Gr\u00e3o-Turco      sen\u00e3o voluntariamente\u0094. Os desejos de independ\u00eancia dos arm\u00e9nios vieram      introduzir um elemento desestabilizador neste relacionamento cordial, e a      hist\u00f3ria acabou com os arm\u00e9nios a passarem para o lado dos russos durante      a I\u00aa Grande Guerra, e a alternarem massacres com os turcos e os curdos, desta      vez unidos e de acordo. Como os turcos venceram, hoje \u00e9 quase imposs\u00edvel encontrar      um arm\u00e9nio no Curdist\u00e3o, chacinados e deportados na sua totalidade. Sobraram      as suas igrejas, e algumas delas, por si s\u00f3, justificam bem uma desloca\u00e7\u00e3o      ao Leste da Turquia. As de Ani e Akdamar s\u00e3o das mais bonitas e bem preservadas.<\/p>\n<p>Em Ani, mesmo em cima da fronteira com a Arm\u00e9nia, \u00e9 proibido fotografar porque,      disseram-nos, os soldados arm\u00e9nios disparam mal v\u00eaem o brilho das m\u00e1quinas;      mas parece que basta arranjar um intermedi\u00e1rio para pagar aos soldados turcos,      do lado de c\u00e1 da fronteira, e os arm\u00e9nios deixam logo de disparar&#8230;<\/p>\n<h4>NAS MARGENS DO LAGO VAN<\/h4>\n<p>O caso de Akdamar \u00e9 mais simples. Contorna-se a margem sul do lago Van, que      ora \u00e9 espelho ora mar, ondulado pelo vento e preso pela terra. Tem cerca de      quatro mil quil\u00f3metros quadrados, \u00e9 extremamente alcalino e est\u00e1 rodeado por      montanhas, cobertas de neve durante quase metade do ano. A lava do vulc\u00e3o      Nemrut, agora uma bel\u00edssima cratera com lagos de \u00e1gua quente e fria, foi respons\u00e1vel      pela barragem natural que o cercou e aprofundou.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui34.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"258\" height=\"171\" \/><br \/>\n<strong>Vista do lago Van, Turquia<\/strong><\/p>\n<p>Infelizmente, a polui\u00e7\u00e3o est\u00e1 a mat\u00e1-lo devagar e, apesar da tentadora \u00e1gua      azul, os banhos s\u00e3o desaconselh\u00e1veis. <\/p>\n<p><strong>Tenreiro fala de \u0093um lago de \u00e1gua amargosa\u0094 e \u0093duas      ilhas pequenas, habitadas de frades religiosos arm\u00e9nios, onde t\u00eam certos mosteiros,      e t\u00eam bons pomares de fruto\u0094:<\/strong> \u00c7arpanak e Akdamar. A \u00faltima avista-se      da margem, a poucos quil\u00f3metros do belo cemit\u00e9rio otomano de Gevas. Constru\u00edda      no s\u00e9culo X, no que era ent\u00e3o um pequeno reino arm\u00e9nio, a igreja de fachadas      esculpidas com personagens da B\u00edblia est\u00e1 sozinha entre amendoeiras, velhas      pedras tumulares e tartarugas sem pressa, que se passeiam por ali. Magnificamente      trabalhada, tem ares de catedral mas \u00e9 pequena como uma capela. Dos frescos      interiores j\u00e1 pouco sobra, mas o lugar \u00e9 id\u00edlico, e alcan\u00e7a-se numa viagem      de barco que dura vinte minutos (o tempo de dois ch\u00e1s), sulcando devagar as      \u00e1guas azuis do Van.<\/p>\n<p><strong>Mais adiante fica a povoa\u00e7\u00e3o mais importante das suas margens, a      seguir a Van:<\/strong> Tatvan. Nas proximidades fica o vulc\u00e3o Nemrut e o fabuloso      cemit\u00e9rio de Ahlat, o maior do mundo isl\u00e2mico, com uma colec\u00e7\u00e3o de t\u00famulos      em forma de tendas n\u00f4madas, e antiqu\u00edssimas pedras tumulares, algumas do s\u00e9culo      XII. <\/p>\n<p>Nas aldeias, parece que as pessoas estiveram a vida inteira \u00e0 nossa espera.      Enrolam-nos cigarros com tabaco de Bitlis, oferecem-nos ayran (iogurte salgado      com \u00e1gua) caseiro, passamos revista \u00e0s fotos das fam\u00edlias &#8211; algumas de crian\u00e7as      em pose, com a kalashnikov do pai -, ajudamos nos trabalhos dom\u00e9sticos, tentam      ensinar-nos as dan\u00e7as tradicionais. Mostram-nos e oferecem o que t\u00eam de seu,      sussurrando \u00e0 socapa a palavra Curdist\u00e3o, na esperan\u00e7a de que o pa\u00eds nas\u00e7a      porque se fala dele.<\/p>\n<h4>O PAL\u00c1CIO DE ISAC PAX\u00c1, EM DOGUBEYAZIT<\/h4>\n<p>O pal\u00e1cio de Isac Pax\u00e1, em Dogubeyazit, parece sintetizar este pa\u00eds que nunca      existiu. \u00c9 ao mesmo tempo otomano, persa e arm\u00e9nio; em suma, curdo, j\u00e1 que      os povos n\u00f4madas sempre souberam reunir influ\u00eancias com mestria. Foi mandado      construir no s\u00e9culo XVIII por um chefe curdo, arm\u00e9nio ou georgiano, n\u00e3o se      sabe bem, e conclu\u00eddo pelo seu filho, que contratou um arquiteto arm\u00e9nio.      As suas portas, folheadas a ouro, foram levadas pelos russos para o museu      Hermitage. <\/p>\n<p>Mesmo ao lado, compartilhando a solid\u00e3o dos rochedos, est\u00e1 uma fortaleza      urartiana, mais tarde otomana. Aos seus p\u00e9s estende-se uma paisagem des\u00e9rtica,      de onde se destacam as ru\u00ednas da antiga Beyazit, despovoada \u00e0 for\u00e7a pelo ex\u00e9rcito      turco.<\/p>\n<p>O gracioso pal\u00e1cio, empoleirado numa fal\u00e9sia, parece ao mesmo tempo independente      e orgulhoso. Solit\u00e1rio, foi atacado, ocupado, quase destru\u00eddo, mas resistiu      sempre. Nunca chegou a desaparecer e mant\u00e9m-se, irreal, como um castelo das      Mil e Uma Noites ou o cen\u00e1rio de um filme oriental.<\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui35.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"257\" height=\"169\" \/><br \/>\n<strong>A mesquita Kocatepe, em Ancara, uma das maiores do mundo<\/strong><\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Turqui36.jpg\" alt=\"Curdist\u00e3o\" title=\"Curdist\u00e3o\" width=\"263\" height=\"167\" \/><br \/>\n<strong>Pedras tumulares em Ahlat, o maior cemit\u00e9rio mu\u00e7ulmano do mundo<\/strong><\/p>\n<p class=\"imagem\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" 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