{"id":34798,"date":"2016-05-23T17:51:45","date_gmt":"2016-05-23T17:51:45","guid":{"rendered":"http:\/\/cms.portalsaofrancisco.com.br\/?p=34798"},"modified":"2022-08-08T14:36:28","modified_gmt":"2022-08-08T16:36:28","slug":"historia-da-prevencao-das-doencas-transmissiveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/saude-e-bem-estar\/saude\/historia-da-prevencao-das-doencas-transmissiveis","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria da Preven\u00e7\u00e3o das Doen\u00e7as Transmiss\u00edveis"},"content":{"rendered":"<p><strong>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>As doen\u00e7as constituem uma terr\u00edvel amea\u00e7a para todo ser humano. Algumas s\u00e3o brandas, mas outras podem chegar mesmo a matar milh\u00f5es de pessoas \u2013 como j\u00e1 ocorreu \u2013 espalhando-se por grandes regi\u00f5es do mundo.<\/p>\n<p><strong>Durante muitos s\u00e9culos, n\u00e3o se sabia o que produzia as pestes e as grandes epidemias: um castigo divino? uma conjun\u00e7\u00e3o astrol\u00f3gica? uma mudan\u00e7a de clima?<\/strong><\/p>\n<p>Foi preciso um longo caminho para que se pudesse compreender a causa das enfermidades transmiss\u00edveis e como se prevenir contra elas.<\/p>\n<p>Hoje em dia, todos sabemos que certas doen\u00e7as podem passar de uma pessoa para outra. Desde uma gripe banal, at\u00e9 diversas doen\u00e7as muito graves, como c\u00f3lera e aids, podem ser transmitidas de uma pessoa doente para outra sadia. Isso ocorre quando a doen\u00e7a \u00e9 causada por microorganismos, como as bact\u00e9rias ou v\u00edrus. Esses seres invis\u00edveis, que s\u00e3o respons\u00e1veis por muitas doen\u00e7as, multiplicam-se nos indiv\u00edduos doentes e podem passar deles para outras pessoas atrav\u00e9s de muitos caminhos: pela respira\u00e7\u00e3o, por excre\u00e7\u00f5es, pela picada de um inseto, etc.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros tipos de doen\u00e7as que n\u00e3o s\u00e3o causadas por microorganismos; mas n\u00e3o iremos tratar delas, neste livro.<\/p>\n<p>Quando se conhece o tipo de microorganismo causador de uma doen\u00e7a e o seu modo de transmiss\u00e3o, pode-se evitar que ele passe \u00e0s pessoas sadias \u2013 atrav\u00e9s de v\u00e1rias medidas sanit\u00e1rias e de higiene.<\/p>\n<p>Em certos casos, pode-se tamb\u00e9m produzir vacinas, que protegem as pessoas, mesmo se ficarem em contato com doentes. Por fim, em muitos outros casos, podem ser desenvolvidos rem\u00e9dios (como os antibi\u00f3ticos) que combatem esses microorganismos quando eles j\u00e1 se estabeleceram em um organismo, de tal forma a destrui-los.<\/p>\n<p>O conhecimento de que muitas doen\u00e7as s\u00e3o produzidas por microorganismos \u00e9, hoje, uma coisa banal. No entanto, esse \u00e9 um conhecimento m\u00e9dico relativamente recente \u2013 com pouco mais de um s\u00e9culo de idade.<\/p>\n<p>Foi apenas durante a segunda metade do s\u00e9culo XIX que se estabeleceu a teoria microbiana das doen\u00e7as. Durante centenas de anos, os m\u00e9dicos ignoraram a causa das enfermidades transmiss\u00edveis, que eram explicadas de modos que atualmente nos parecem absurdos. Os modos de preven\u00e7\u00e3o e cura dessas doen\u00e7as eram tamb\u00e9m, obviamente, muito diferentes dos de hoje.<\/p>\n<p><strong>Como se chegou a esse conhecimento atual? Por que fases passou a Medicina, em sua tentativa de compreender as epidemias e o cont\u00e1gio? Como surgiram as vacinas?<\/strong><\/p>\n<p>Esses s\u00e3o alguns dos pontos que ser\u00e3o tratados nas p\u00e1ginas seguintes.<\/p>\n<p>Este livro n\u00e3o ir\u00e1 abranger todos os aspectos da hist\u00f3ria da Medicina. Isso exigiria uma obra muitas vezes maior do que esta. Mesmo o assunto aqui tratado \u2013 as doen\u00e7as transmiss\u00edveis e sua preven\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 excessivamente amplo para ser estudado em detalhe em um trabalho como este. Ser\u00e1 necess\u00e1rio deixar de lado v\u00e1rios aspectos, focalizando apenas alguns epis\u00f3dios mais importantes.<\/p>\n<p>Iremos percorrer uma longa hist\u00f3ria, de mais de dois mil anos, para descobrir como diversos povos, em diferentes \u00e9pocas, concebiam o processo de cont\u00e1gio. Ao longo dessa hist\u00f3ria, veremos uma grande mistura de supersti\u00e7\u00f5es, de experimentos, de teorias diversas, e a luta cont\u00ednua da humanidade contra doen\u00e7as terr\u00edveis.<\/p>\n<p>Por meio do estudo dessa hist\u00f3ria, ser\u00e1 poss\u00edvel compreender como se desenvolve a evolu\u00e7\u00e3o do pensamento humano, atrav\u00e9s de uma s\u00e9rie de palpites, tentativas, erros e acertos. Veremos como algumas \u201ccertezas\u201d causaram a morte e o sofrimento de milh\u00f5es de pessoas. Por fim, estudando o surgimento da moderna teoria microbiana, veremos como foi gradualmente introduzido um maior rigor na pesquisa m\u00e9dica, resultado em importantes avan\u00e7os. Pelo conhecimento desse caminho hist\u00f3rico, ser\u00e1 poss\u00edvel perceber a enorme import\u00e2ncia das medidas sanit\u00e1rias e de higiene, capazes de evitar horr\u00edveis doen\u00e7as \u2013 medidas simples mas que, infelizmente, continuam a ser ignoradas ou deixadas de lado, at\u00e9 hoje, no Brasil e em outros lugares.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO 1 \u2013 AS GRANDES PESTES<\/strong><\/p>\n<p><strong>A MORTE RONDA<\/strong><\/p>\n<p>O que \u00e9 uma grande epidemia? Que efeitos podem produzir as enfermidades transmiss\u00edveis, quando atingem muitas pessoas? Quem nunca viveu pessoalmente a experi\u00eancia dessas doen\u00e7as, nem pode avaliar o que elas significam. Por isso, \u00e9 conveniente come\u00e7ar com a descri\u00e7\u00e3o de um caso hist\u00f3rico importante.<\/p>\n<p>Daniel Defoe foi um importante escritor que viveu nos s\u00e9culos XVII e XVIII. \u00c9 o autor de um livro de aventuras bem conhecido: Robinson Crusoe. Ele escreveu em 1722 um outro livro menos famoso, o \u201cDi\u00e1rio do ano da peste\u201d, em que descreve uma grave epidemia ocorrida em Londres, em 1665.<\/p>\n<p>De tempos em tempos \u2013 como depois veremos \u2013 a Europa era varrida por grandes pestes, que matavam milh\u00f5es de pessoas. Em 1663, uma dessas epidemias, originada na It\u00e1lia ou vinda do oriente, atingiu a Holanda.<\/p>\n<p>N\u00e3o existiam televisores, nem r\u00e1dios, nem mesmo jornais para transmitir not\u00edcias. No entanto, atrav\u00e9s de cartas e pelos coment\u00e1rios de pessoa para pessoa, ficavase sabendo rapidamente o que acontecia.<\/p>\n<p>Nos outros pa\u00edses pr\u00f3ximos, temia-se que a doen\u00e7a tamb\u00e9m surgisse.<\/p>\n<p>Em 1664, o aparecimento de um cometa nos c\u00e9us levou a muitas predi\u00e7\u00f5es pessimistas. Segundo Defoe, os astr\u00f3logos de Londres anunciaram que a peste logo iria atingir a cidade. O pavor tomou muitas pessoas.<\/p>\n<p>Os mais impression\u00e1veis come\u00e7aram a ter sonhos em que viam um grande n\u00famero de mortos. Pessoas alucinadas corriam pelas ruas, gritando e profetizando desgra\u00e7as. Londres se encheu de magos, adivinhos, astr\u00f3logos, curandeiros e diversos tipos de charlat\u00e3es, que davam conselhos, previam os acontecimentos futuros, indicavam ant\u00eddotos infal\u00edveis contra qualquer tipo de doen\u00e7a, vendiam talism\u00e3s m\u00e1gicos para proteger da peste e, de muitas formas, lucravam com o temor do povo.<\/p>\n<p>Nada aconteceu, no entanto, at\u00e9 o final de 1664. No fim de novembro ou in\u00edcio de dezembro, dois estrangeiros morreram, nos arredores de Londres, com os sintomas da peste bub\u00f4nica.<\/p>\n<p>Como eram dois casos isolados, isso n\u00e3o produziu muita preocupa\u00e7\u00e3o. Mas poucas semanas depois, uma outra pessoa morreu, na mesma casa onde esses dois primeiros haviam falecido, tamb\u00e9m com sinais da peste.<\/p>\n<p>Evitava-se falar sobre o assunto.<\/p>\n<p>Nas duas regi\u00f5es pr\u00f3ximas, Saint Giles e Saint Andrews, a mortalidade normal era de 12 a 19 pessoas por semana. Logo, os n\u00fameros se elevaram um pouco, ultrapassando 20 por semana, no in\u00edcio de 1665.<\/p>\n<p>O n\u00famero total de enterros em Londres, que era de 240 a 300 por semana, subiu a mais de 400, em janeiro. Mas as mortes n\u00e3o eram ainda atribu\u00eddas \u00e0 peste.<\/p>\n<p>Um ou outro caso tinha sinais semelhantes ao dessa enfermidade; mas a maioria das mortes era atribu\u00edda a causas comuns.<\/p>\n<p>Durante algumas semanas, h\u00e1 um frio rigoroso (\u00e9 \u00e9poca de inverno, no hemisf\u00e9rio norte) e as mortes diminuem. Mas no fim de abril e in\u00edcio de maio surgem mais casos indubit\u00e1veis de peste, em Saint Giles e outros locais. No final de maio, as autoridades reconhecem que j\u00e1 morreram algumas dezenas de pessoas dessa doen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>O que era essa enfermidade?<\/strong><\/p>\n<p>Era algo que j\u00e1 se conhecia muito bem, na Europa, embora n\u00e3o tivesse atingido Londres antes. Produzia grandes incha\u00e7\u00f5es, onde se formava pus, em certas partes do corpo \u2013 principalmente nas axilas e virilhas \u2013 que eram chamadas de \u201cbub\u00f5es\u201d, vindo da\u00ed o nome da doen\u00e7a (peste bub\u00f4nica). Quem adoecia, em geral, morria, depois de poucos dias, com grandes dores.<\/p>\n<p>Mas como se adquiria a enfermidade? Era evidente que alguma coisa passava dos doentes para as pessoas sadias, pois a doen\u00e7a ia se espalhando aos poucos de uma regi\u00e3o para outra pr\u00f3xima, atacando principalmente quem morava com os doentes, pr\u00f3ximo deles ou tinha contato com eles.<\/p>\n<p><strong>Defoe assim explicava a transmiss\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>\u201cParece-me fora de d\u00favida que esta calamidade se espalha pelo cont\u00e1gio; quer dizer, por certos vapores ou fuma\u00e7as, que os m\u00e9dicos chamam de efl\u00favios; pela respira\u00e7\u00e3o ou transpira\u00e7\u00e3o; pelas exala\u00e7\u00f5es das feridas dos doentes; ou por outras vias, talvez fora do alcance dos pr\u00f3prios m\u00e9dicos. Esses efl\u00favios afetam os homens s\u00e3os que se aproximam a uma certa dist\u00e2ncia dos doentes, e penetram imediatamente em suas partes vitais, colocando seu sangue subitamente em fermenta\u00e7\u00e3o e agitando os seus esp\u00edritos (\u2026).\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>UMA CIDADE EM FUGA<\/strong><\/p>\n<p>Como se v\u00ea, havia muitas hip\u00f3teses sobre o modo de transmiss\u00e3o da enfermidade, mas n\u00e3o se sabia nada com certeza. Os bub\u00f5es dos doentes exalavam um cheiro f\u00e9tido, e muitos pensavam que era atrav\u00e9s desses odores que a doen\u00e7a passava de uma pessoa para outra.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de junho, a doen\u00e7a aumenta assustadoramente em Londres. Apenas em Saint Giles, morrem 100 pessoas em uma \u00fanica semana. Nos bairros pr\u00f3ximos, a mortalidade tamb\u00e9m \u00e9 elevada, mas muitas pessoas escondem a causa real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As pessoas ricas come\u00e7am a fugir da cidade, para n\u00e3o serem atingidas pela doen\u00e7a. V\u00e3o para outras cidades ou para o campo, levando objetos de valor, roupas, m\u00f3veis, acompanhados de seus criados. As ruas da cidade se enchem de carro\u00e7as e cavalos que transportam pessoas e seus bens para longe da peste. Muitas pessoas que n\u00e3o dispunham de cavalos fugiam a p\u00e9, levando tendas para acampar fora da cidade. Da popula\u00e7\u00e3o total, que era de 400.000 habitantes, cerca de 100.000 deixam Londres.<\/p>\n<p>No fim de junho, morrem 700 pessoas por semana, da peste. Na primeira semana de julho, o n\u00famero chega a mais de 1.200. Na semana seguinte, 1.700 mortos.<\/p>\n<p>O p\u00e2nico se espalha, diante da cat\u00e1strofe que se acelera. Ouvem-se gritos, choros e lamenta\u00e7\u00f5es vindos de muitas casas. Com medo do cont\u00e1gio, as pessoas que permanecem em Londres evitam sair \u00e0 rua. Quando precisam sair de suas resid\u00eancias, caminham pelo meio das ruas, longe das casas, por medo de encontrar algum doente ou para evitar receber os odores e emana\u00e7\u00f5es das moradias infectadas.<\/p>\n<p>N\u00e3o era poss\u00edvel saber quem estava livre da enfermidade. Algumas vezes, pessoas que aparentemente estavam normais ca\u00edam na rua e morriam. L\u00e1 ficavam, caidas no ch\u00e3o, at\u00e9 que seus corpos fossem recolhidos, \u00e0 noite.<\/p>\n<p>As autoridades come\u00e7am a tomar algumas medidas. O rei ordena que os professores de medicina se re\u00fanam e divulguem ao p\u00fablico quais os melhores rem\u00e9dios contra a doen\u00e7a, distribuindo-os gratuitamente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Recomendavam-se perfumes e subst\u00e2ncias arom\u00e1ticas para impedir que a peste penetrasse nas casas. Mas nenhum rem\u00e9dio era realmente capaz de impedir ou de curar a enfermidade e os m\u00e9dicos morriam tanto quanto seus pacientes.<\/p>\n<p>Os magistrados tomam medidas graves: toda casa em que surgir algum caso de peste, deve ser trancada, com todos os seus moradores, e dois guardas devem se revezar \u00e0 porta, para que ningu\u00e9m entre ou saia \u2013 exceto os cad\u00e1veres dos mortos \u2013 para que a doen\u00e7a n\u00e3o se espalhe. Apenas depois de 28 dias da morte de um morador os demais s\u00e3o liberados, se n\u00e3o mostrarem sinais da doen\u00e7a. Durante todo o tempo, essas casas ficam marcadas na porta, com uma grande cruz vermelha e a inscri\u00e7\u00e3o: \u201cSenhor, tende piedade de n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Qual a causa da peste? Ningu\u00e9m sabia. Teria sido o cometa? Teria sido a c\u00f3lera de Deus, que estava castigando os pecadores? Muitos achavam que eram as duas coisas: Deus havia resolvido castigar as pessoas e havia enviado, como mensageiro, o cometa fat\u00eddico. Em meio \u00e0 peste, o pavor fazia com que muitas pessoas confessassem publicamente seus pecados, no meio da rua, a altos brados, com a esperan\u00e7a de serem perdoados por Deus e escaparem da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim se tornaram conhecidos muitos crimes, roubos, adult\u00e9rios\u2026 Mas muitas vezes o pecador confesso e aqueles que ouviram sua confiss\u00e3o morreram, pois a enfermidade n\u00e3o tinha crit\u00e9rios morais para fazer as suas escolhas.<\/p>\n<p>O n\u00famero de mortos tornou necess\u00e1rio simplificar os enterros. As autoridades proibiram que fossem feitas cerim\u00f4nias p\u00fablicas, cortejos e acompanhamentos. Os enterros deviam ser r\u00e1pidos, imediatos, para que n\u00e3o se espalhasse a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Todas as reuni\u00f5es e divers\u00f5es p\u00fablicas \u2013 at\u00e9 mesmo os combates de ursos, que eram populares na \u00e9poca \u2013 s\u00e3o proibidas, para evitar o contato entre as pessoas. As autoridades mandam varrer as ruas e retirar todo tipo de detrito. S\u00e3o tomados cuidados especiais de vigil\u00e2ncia dos alimentos, para que n\u00e3o se vendam carnes e outros produtos podres. Enfim, v\u00e1rias medidas de bom senso, embora n\u00e3o se soubesse exatamente o que causava a doen\u00e7a ou como ela se espalhava.<\/p>\n<p>Evitava-se encostar em objetos que tivessem sido tocados pelos doentes. Como qualquer pessoa podia estar com a peste, os comerciantes j\u00e1 n\u00e3o pegavam no dinheiro: os compradores deviam pagar suas compras com moedas no valor exato da venda, e colocar seu dinheiro dentro de vasilhas com vinagre, para purific\u00e1-lo. S\u00f3 depois de algum tempo os comerciantes recolhiam esse dinheiro.<\/p>\n<p>Imaginando que os animais tamb\u00e9m poderiam carregar a doen\u00e7a de um lado para o outro, s\u00e3o proibidos os porcos, c\u00e3es, gatos, coelhos, pombos e outros animais dom\u00e9sticos em Londres. Calcula-se que foram mortos 40.000 c\u00e3es e cerca de 200.000 gatos na cidade, nessa \u00e9poca. Tamb\u00e9m se tentou exterminar os ratos, com veneno, matando-se uma grande quantidade deles.<\/p>\n<p>Atualmente, sabemos que a peste bub\u00f4nica \u00e9 transmitida pelas pulgas dos ratos da cidade. Ela n\u00e3o passa diretamente de uma pessoa para outra pela respira\u00e7\u00e3o, nem pelo contato f\u00edsico. Assim, os cuidados que eram tomados n\u00e3o ajudavam a impedir que a peste se espalhasse.<\/p>\n<p>O n\u00famero de mortos aumentava cada vez mais. Em agosto, passam de mil mortos por dia. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel mais fazer caix\u00f5es, nem mesmo covas individuais para os mortos. \u00c0 noite e durante toda a madrugada, passam pelas ruas de Londres, constantemente, as carro\u00e7as de coleta de cad\u00e1veres, com seus condutores gritando: \u201cTragam os seus mortos! Tragam os seus mortos!\u201d Os corpos s\u00e3o empilhados nas carro\u00e7as, vestidos ou despidos, carregados at\u00e9 o cemit\u00e9rio, onde s\u00e3o despejados em grandes valas.<\/p>\n<p>O clima de horror era indescrit\u00edvel. Acostumando-se \u00e0 morte, as pessoas j\u00e1 n\u00e3o lamentavam e choravam mais seus parentes. Os doentes eram abandonados. A morte parecia inevit\u00e1vel para todos.<\/p>\n<p>No final de agosto e in\u00edcio de setembro, as estat\u00edsticas oficiais indicaram 7.000 a 8.000 mortos por semana. Os n\u00fameros verdadeiros podem ter sido duas ou tr\u00eas vezes maiores, pois os dados oficiais talvez fossem forjados \u2013 para n\u00e3o assustar demais a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir de outubro, as mortes diminuem. Em novembro, o n\u00famero cai a apenas 900 falecimentos por semana e embora a peste n\u00e3o tivesse desaparecidos, todos sentem que a enfermidade est\u00e1 sumindo. Os habitantes que haviam fugido come\u00e7am a retornar.<\/p>\n<p>Durante o ano de 1665, a peste matou cerca de 100.000 habitantes de Londres, de uma popula\u00e7\u00e3o total de 400.000. Fam\u00edlias inteiras pereceram. A doen\u00e7a desapareceu como havia aparecido: sem que ningu\u00e9m a entendesse, sem que ningu\u00e9m soubesse como se prevenir ou curar a peste. Uma enorme trag\u00e9dia, diante da qual todos estavam impotentes.<\/p>\n<p>Nenhum de n\u00f3s conheceu pessoalmente uma situa\u00e7\u00e3o semelhante a essa \u2013 e esperamos nunca presenci\u00e1-la. Muitos devem pensar que tudo isso \u00e9 coisa de um passado distante, que jamais se repetir\u00e1. Ser\u00e1 verdade?<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, apesar de todo o conhecimento que j\u00e1 se tinha, uma epidemia mundial de gripe matou milh\u00f5es de pessoas. Em pleno final do s\u00e9culo XX, doen\u00e7as que j\u00e1 pareciam coisa do passado \u2013 como c\u00f3lera e dengue \u2013 reaparecem e causam a morte de muitas pessoas no Brasil.<\/p>\n<p>A medicina evoluiu muito e sabemos como controlar um grande n\u00famero de doen\u00e7as. Mas o controle exige dinheiro e decis\u00f5es pol\u00edticas que nem sempre s\u00e3o tomadas. Por outro lado, existem enfermidades que ainda est\u00e3o fora do controle da medicina, como a aids. Para que n\u00e3o se repitam epis\u00f3dios como o da peste de Londres de 1665, \u00e9 necess\u00e1rio que todos saibam o significado das grandes epidemias e conhe\u00e7am os meios de evit\u00e1-las. \u00c9 para proporcionar essa base cient\u00edfica que este livro foi escrito.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO 2 \u2013 MEDICINA M\u00c1GICA E RELIGIOSA<\/strong><\/p>\n<p><strong>MAGIA E CONT\u00c1GIO<\/strong><\/p>\n<p>A id\u00e9ia moderna de cont\u00e1gio tem ra\u00edzes muito antigas, no pensamento primitivo. Ela surgiu do pensamento m\u00e1gico, pr\u00e9-cient\u00edfico, que sobrevive em muitos povos, como os \u00edndios.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode saber ao certo como eram as concep\u00e7\u00f5es sobre enfermidades e medicina no per\u00edodo pr\u00e9-hist\u00f3rico (antes da exist\u00eancia da escrita). Parecem sempre ter existido doen\u00e7as, pois os f\u00f3sseis de animais e homens pr\u00e9-hist\u00f3ricos mostram claros sinais de doen\u00e7as que conhecemos. Por isso, \u00e9 natural pensar-se que sempre houve uma preocupa\u00e7\u00e3o com elas, que deve ter gerado hip\u00f3teses sobre suas causas.<\/p>\n<p>Procura-se em geral \u201cadivinhar\u201d como eram essas concep\u00e7\u00f5es mais antigas estudando-se os chamados povos \u201cselvagens\u201d ou \u201cprimitivos\u201d atuais (ind\u00edgenas e abor\u00edgenes, que n\u00e3o possuem sistema de escrita).<\/p>\n<p>\u00c9 claro que as id\u00e9ias de um \u00edndio brasileiro atual (mesmo supondo que ele n\u00e3o foi aculturado) n\u00e3o devem ser iguais \u00e0s de seus ancestrais de 5.000 anos atr\u00e1s. No entanto, foram encontradas certas id\u00e9ias muito comuns na maior parte dos povos \u201cprimitivos\u201d, e pode-se supor que elas tenham existido desde os tempos pr\u00e9-hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Embora o conceito cient\u00edfico de cont\u00e1gio seja moderno, a sua id\u00e9ia geral \u00e9 antiga e primitiva. \u201cCont\u00e1gio\u201d significa a passagem de alguma coisa de uma pessoa (ou de um animal, objeto, etc.) para outra, pelo contato f\u00edsico . Antes de se tornar um conceito m\u00e9dico, essa id\u00e9ia surgiu como um conceito m\u00e1gico.<\/p>\n<p>Uma concep\u00e7\u00e3o extremamente difundida por toda a humanidade, desde tempos remotos, \u00e9 a de que se estabelece uma liga\u00e7\u00e3o ou v\u00ednculo com aquilo que tocamos. Em diversas pr\u00e1ticas de magia, para se enfeiti\u00e7ar uma pessoa e obter o seu amor, era necess\u00e1rio toc\u00e1-la com o dedo, ou obter algum objeto que tivesse sido tocado ou usado pela pessoa, pois assim se podia criar uma liga\u00e7\u00e3o com ela.<\/p>\n<p>Da mesma forma, na feiti\u00e7aria, para se influenciar uma pessoa, fabrica-se um boneco no qual se coloca alguma coisa dessa pessoa (cabelos, unhas, peda\u00e7o de tecido, etc.). Sup\u00f5e-se que, assim, o boneco se torna ligado \u00e0 pessoa e aquilo que se fizer com ele (por exemplo, espetando com alfinetes) ir\u00e1 repercutir tamb\u00e9m na pessoa (que ficar\u00e1 doente ou morrer\u00e1).<\/p>\n<p>O contato direto entre um bruxo e uma pessoa era considerado o mais perigoso: acreditava-se que encostando um dedo ou mesmo pisando na sombra de uma pessoa, o mago poderia passar-lhe doen\u00e7as, tirar sua vitalidade (roubar sua alma), etc.<\/p>\n<p>Todas essas id\u00e9ias fazem com que surja um temor de tocar ou se aproximar de qualquer coisa considerada negativa, por medo de se ligar a ela e receber algum tipo de \u201ccont\u00e1gio\u201d maligno. Assim, o cont\u00e1gio, fosse intencional (por um mago ou feiticeira), fosse ocasional (por contato com algum doente ou com um objeto maligno) era visto como uma importante causa de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Os mortos, por exemplo, eram vistos como algo perigoso. Isso era reconhecido tanto no caso de morte natural, como, principalmente, no caso de mortes por causas estranhas, desconhecidas. Evitava-se tocar neles, ou mesmo em seus objetos. Eram realizados v\u00e1rios rituais que procuravam quebrar a liga\u00e7\u00e3o entre os vivos e os mortos. Muitas vezes, a cabana e os objetos do morto eram queimados, para que n\u00e3o pudessem contagiar outras pessoas.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram apenas influ\u00eancias negativas que se supunha serem transmitidas por cont\u00e1gio. As influ\u00eancias positivas de um objeto sagrado ou de uma pedra preciosa tamb\u00e9m poderiam atuar pelo simples toque.<\/p>\n<p>Tocando ou carregando consigo um cristal, a pessoa se unia a esse cristal e adquiria seu poder. Tamb\u00e9m se acreditava que um sacerdote ou mesmo um rei poderia transmitir um poder positivo, pelo toque.<\/p>\n<p>Sempre que surgia alguma doen\u00e7a \u201cestranha\u201d, que n\u00e3o podia ser curada pelos meios dom\u00e9sticos comuns, supunha-se que a causa era sobrenatural. Supunha-se que ela pudesse ser enviada por dem\u00f4nios, por feiticeiros ou pelos deuses. Em qualquer caso, acreditava-se que essas doen\u00e7as estavam associadas tamb\u00e9m a algum tipo de infra\u00e7\u00e3o cometida pelo doente ou por algu\u00e9m de sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Essa infra\u00e7\u00e3o poderia ter sido algum tipo de pecado ou ofensa a um ser sobrenatural, ou algum comportamento err\u00f4neo para com outras pessoas \u2013 uma transgress\u00e3o social ou moral.<\/p>\n<p>Para determinar o tipo exato de doen\u00e7a, o curandeiro precisava tamb\u00e9m atuar como confessor, fazendo com que o doente procurasse se lembrar de todo tipo de falta cometida, que pudesse ter desencadeado a doen\u00e7a como castigo. Tamb\u00e9m se recorria a pr\u00e1ticas de adivinha\u00e7\u00e3o com ossos, conchas, etc., para determinar a causa da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Nem todas as doen\u00e7as eram vistas como causadas por cont\u00e1gio. Havia outras causas \u2013 algumas delas sobrenaturais, como a c\u00f3lera dos deuses e dem\u00f4nios; outras naturais. Doen\u00e7as como resfriados, reumatismo, etc., eram vistas como ocorr\u00eancias naturais, que n\u00e3o precisavam de explica\u00e7\u00e3o especial. Eram tratadas com rem\u00e9dios dom\u00e9sticos. No entanto, outras doen\u00e7as eram vistas como algo estranho e misterioso, sendo necess\u00e1rio, nesse caso, recorrer a um sacerdote ou a um feiticeiro.<\/p>\n<p>O que, exatamente, ocorre durante o cont\u00e1gio de uma doen\u00e7a, segundo essas concep\u00e7\u00f5es primitivas? H\u00e1 muitos modos de tentar explicar o que ocorre. Em alguns casos, supunha-se que o cont\u00e1gio introduziu alguma coisa maligna dentro da pessoa \u2013 um esp\u00edrito, um objeto enfeiti\u00e7ado (como pontas de flecha m\u00e1gicas), ou algo de outro tipo. Nesses casos, a cura exige que se retire do doente aquilo que penetrou nele.<\/p>\n<p>Os feiticeiros procuram retirar o agente maligno atrav\u00e9s da transpira\u00e7\u00e3o, pela massagem, ou sugando, com a boca ou ventosas, os objetos m\u00e1gicos do corpo.<\/p>\n<p>Os banhos purificadores tamb\u00e9m eram recomendados em muitos casos. Podem tamb\u00e9m ser utilizadas subst\u00e2ncias que produzam v\u00f4mito, purgantes, ou mesmo extrair as subst\u00e2ncias malignas atrav\u00e9s de sangria.<\/p>\n<p>Em casos especiais, \u00e9 necess\u00e1rio abrir o cr\u00e2nio do doente, para que possam sair pelo orif\u00edcio as causas que produzem fortes dores de cabe\u00e7a. Quando a doen\u00e7a \u00e9 produzida pela entrada de um esp\u00edrito maligno, ele deve ser afastado por preces m\u00e1gicas, pelo barulho (tocando tambores) ou mesmo batendo no corpo do doente. Em outros casos, sup\u00f5e-se que o cont\u00e1gio, ao inv\u00e9s de introduzir algo, retirou alguma coisa da pessoa \u2013 sua vitalidade ou sua alma. Nesse caso, o curandeiro deve procurar localizar a alma do doente, que pode ter sido roubada e guardada por um feiticeiro dentro de uma cumbuca, ou pode ter sido levada para o mundo dos esp\u00edritos, por algum dem\u00f4nio.<\/p>\n<p>De um modo geral, os curandeiros tinham sucesso e curavam seus doentes. Pode-se entender a efic\u00e1cia de seus tratamentos a partir de conhecimentos modernos, pois eles utilizavam muitos medicamentos de grande poder, al\u00e9m de pr\u00e1ticas importantes como a dieta. Por outro lado, \u00e9 ineg\u00e1vel o efeito real produzido pela sugest\u00e3o sobre os doentes, e todo o tratamento m\u00e1gico tendia a fortalecer a vontade e a certeza de se curar do doente. O pr\u00f3prio processo de confiss\u00e3o, que precedia o ritual de cura, pode ser considerado como ben\u00e9fico, por aliviar eventuais culpas do doente e coloc\u00e1-lo em harmonia psicol\u00f3gica com seu meio social.<\/p>\n<p>Muitas dessas concep\u00e7\u00f5es \u201cprimitivas\u201d sobrevivem at\u00e9 hoje, em meio \u00e0s sociedades mais cultas. Na tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3, sobreviveu at\u00e9 hoje a id\u00e9ia de que as doen\u00e7as podem ser castigos divinos pelos pecados cometidos pelo doente. Nas religi\u00f5es afro-brasileiras, a presen\u00e7a constante da feiti\u00e7aria e de pr\u00e1ticas m\u00e1gicas de cura \u00e9 conhecida por todos. Ao longo de toda a hist\u00f3ria da humanidade, como veremos, essas e outras concep\u00e7\u00f5es \u201cprimitivas\u201d sempre estiveram presentes.<\/p>\n<p>Os povos mais antigos cujas id\u00e9ias m\u00e9dicas s\u00e3o conhecidas, s\u00e3o os ass\u00edrios e babil\u00f4nios. Essas civiliza\u00e7\u00f5es se desenvolveram na Mesopot\u00e2mia \u2013 o local onde, atualmente, existe o Iraque.<\/p>\n<p>S\u00e3o conhecidos textos desses povos, escritos em tabletes de argila h\u00e1 mais de 4.000 anos. Atrav\u00e9s desses textos, pode-se ter uma id\u00e9ia sobre suas concep\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>Sob todos os aspectos, as antigas sociedades da Mesopot\u00e2mia eram dirigidas pela religi\u00e3o. O poder do rei vinha dos deuses e todas as leis sociais eram de origem divina. Da mesma forma, supunha-se que o deus era o verdadeiro mestre de tudo; ele atingia com a doen\u00e7a a quem quisesse atingir.<\/p>\n<p>Se o homem esquece o fim de sua cria\u00e7\u00e3o, rejeita as leis que os deuses lhe impuseram, ele est\u00e1 em estado de pecado. O deus se irrita e ocorrem calamidades. A mais comum \u00e9 a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Todos os deuses podem produzir e curar doen\u00e7as. No entanto, s\u00e3o mais comumente invocados para curas, os deuses: Sin, Shamash, Damu (ou Tammuz), e Marduk.<\/p>\n<p>A deusa da medicina, em especial, era Gula, tamb\u00e9m chamada Baba ou Ninkar-rak. Ela era denominada \u201cA senhora que d\u00e1 a vida aos moribundos, e os torna sadios pelo contato de sua m\u00e3o pura.\u201d<\/p>\n<p>\u201cDeusa m\u00e3e dos homens, Baba, que lan\u00e7as o encantamento da vida contra a agita\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, tu que cicatrizas as carnes dissociadas; \u00f3 m\u00e3e das criaturas vivas: afasta o mal da cabe\u00e7a, o mal dos dentes, o mal do cora\u00e7\u00e3o, o tenesmo, o mal do solhos, a fraqueza, a paralisia das articula\u00e7\u00f5es, toda doen\u00e7a maligna.\u201d<\/p>\n<p>Como a doen\u00e7a era produzida pelos deuses, o \u00fanico recurso contra qualquer enfermidade era apazigu\u00e1-los. Evidentemente, o m\u00e9dico pertencia \u00e0 classe dos sacerdotes, pois sem o conhecimento religioso nada era poss\u00edvel. O m\u00e9dico-sacerdote apenas tem poder por causa dos deuses que invoca:<\/p>\n<p>\u201cEu sou o homem de Ea, eu sou o homem de Damkina, eu sou o enviado de Mar-duk; para dar a sa\u00fade ao homem doente, o grande senhor Ea me enviou.<\/p>\n<p>Eu sou o sacerdote conjurador de Ea; eu sou o mago de Eridu, sou eu quem recita o encantamento para o doente.<\/p>\n<p>Adiciona tua palavra pura \u00e0 minha; adiciona tua voz pura \u00e0 minha; torna eficaz minha pura conjura\u00e7\u00e3o. Carrega de poder de curar a palavra de minha boca.<\/p>\n<p>Ao realizar as curas, o sacerdote associava a doen\u00e7a ao pecado ou \u00e0 magia:<\/p>\n<p>Que tu possas ser livrado de teu pecado, de teu encantamento, de tua falta, de teu ato errado, da maldi\u00e7\u00e3o que pesa sobre ti, de tua doen\u00e7a, de teu sortil\u00e9gio, de teu encantamento, de teu malef\u00edcio, das maquina\u00e7\u00f5es malignas dos homens.\u201d<\/p>\n<p>Para poder se curar, o doente deveria primeiramente tentar descobrir qual o pecado que ocasionou a doen\u00e7a, pois s\u00f3 ent\u00e3o poderia saber a qual deus dirigir suas preces e oferendas. \u00c0s vezes, a pr\u00f3pria pessoa sabia qual foi sua falha; outras vezes, n\u00e3o: \u201cO pecado que cometi, eu n\u00e3o o conhe\u00e7o; a falta que cometi, eu n\u00e3o a conhe\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>Pelo estudo dos sintomas da doen\u00e7a, era poss\u00edvel, muitas vezes, descobrir qual o deus que a havia produzido:<\/p>\n<p>Quando um homem \u00e9 atingido no pesco\u00e7o, \u00e9 a m\u00e3o de Adad; quando \u00e9 atingido no pesco\u00e7o e seu peito est\u00e1 dolorido, \u00e9 a m\u00e3o de Ishtar, a dos colares.<\/p>\n<p>Quando um homem sofre das t\u00eamporas e os m\u00fasculos do pesco\u00e7o est\u00e3o doloridos, \u00e9 a m\u00e3o de um dem\u00f4nio.<\/p>\n<p>O sacerdote faz com que o doente recite uma lista de pecados que pode ter cometido, como um tipo de confiss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A causa da doen\u00e7a pode ser uma ofensa ao deus, mas pode ser tamb\u00e9m algum tipo de ato que produziu uma impureza:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Enquanto caminhava ao longo das ruas, e dos caminhos,<br \/>\nele pisou sobre uma liba\u00e7\u00e3o que havia sido derrubada,<br \/>\nou colocou o p\u00e9 sobre a \u00e1gua suja,<br \/>\nou atirou os olhos sobre a \u00e1gua de lavar as m\u00e3os,<br \/>\nou tocou uma mulher que tinha as m\u00e3os sujas,<br \/>\nou olhou para uma jovem que n\u00e3o tinha lavado as m\u00e3os,<br \/>\nou sua m\u00e3o tocou uma mulher enfeiti\u00e7ada,<br \/>\nou tocou um homem que n\u00e3o tinha lavado as m\u00e3os,<br \/>\nou viu algu\u00e9m que n\u00e3o tinha as m\u00e3os lavadas,<br \/>\nou sua m\u00e3o tocou algu\u00e9m cujo corpo estava sujo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Aqui, nota-se que h\u00e1 um conceito de cont\u00e1gio m\u00e1gico, j\u00e1 que ao tocar ou mesmo olhar para algo impuro, a pessoa tamb\u00e9m se torna impura.<\/p>\n<p>Outras poss\u00edveis causas de doen\u00e7a s\u00e3o crimes ou infra\u00e7\u00f5es morais, sociais e pol\u00edticas, como roubar, incitar brigas, mentir, etc. Violar leis religiosas, deixar de fazer oferendas aos deuses e de invocar a deusa antes das refei\u00e7\u00f5es, bem como jurar em falso pelo nome do deus, eram causas certas de doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de enviar doen\u00e7as por sua vontade pr\u00f3pria, os deuses podiam ser convocados para atacar os inimigos, atrav\u00e9s de preces e maldi\u00e7\u00f5es como esta:<\/p>\n<p>Que Sin lhe d\u00ea a hidropisia; que cubra seu corpo de lepra, como uma roupa; que Gula coloque em seu corpo um veneno que n\u00e3o saia; que os deuses lhe destinem a sorte de n\u00e3o ver, obturem suas orelhas e tornem sua boca muda.<\/p>\n<p>Uma famosa maldi\u00e7\u00e3o desse tipo foi lan\u00e7ada por Hamurabi, o c\u00e9lebre legislador, sobre quem ousasse modificar seu C\u00f3digo:<\/p>\n<p>Que Ninkarrak caia sobre ele, at\u00e9 que ela tome sua vida, [lhe produza] uma do-en\u00e7a grave, uma peste maligna, uma ferida perigosa que n\u00e3o possa ser curada, da qual o m\u00e9dico ignore a natureza, que n\u00e3o se possa acalmar com um curativo.<\/p>\n<p>Em outros casos, n\u00e3o \u00e9 o deus ou deusa que atinge o homem: eles o abandonam, deixam de proteg\u00ea-lo, e ele \u00e9 atingido pelos maus esp\u00edritos, dem\u00f4nios, etc.<\/p>\n<p>\u201cAquele que n\u00e3o tem um deus, quando caminha pela rua, o mal da cabe\u00e7a o cobre como uma roupagem. Aquele que n\u00e3o tem deusa guardi\u00e3, o mal da cabe\u00e7a tortura seu corpo.\u201d<\/p>\n<p>Os feiticeiros podem, atrav\u00e9s de encantamentos, lan\u00e7ar o dem\u00f4nio de uma doen\u00e7a contra o corpo humano. Os dem\u00f4nios entram no corpo do homem e o torturam. H\u00e1 imagens desses dem\u00f4nios: caricaturas humanas e de animais, com grandes dentes. Entre os dem\u00f4nios mais conhecidos, h\u00e1 o Pazuzu, do qual o Museu do Louvre possui uma reprodu\u00e7\u00e3o em bronze; possui asas, que representam sua mobilidade (p\u00e1g 10). Estava associado ao vento do sudoeste. Nas costas, tem o texto: \u201cEu sou Pazuzu, filho de Hanpa, rei dos maus esp\u00edritos do ar, que sai das montanhas, violentamente, produzindo a dor\u201d.<\/p>\n<p>Outro dem\u00f4nio, feminino, era Lamashtu, que atacava crian\u00e7as e mulheres gr\u00e1vidas. Tem cabe\u00e7a de le\u00e3o, p\u00e9s de ave de rapina, corpo de mulher. Possui duas serpentes, aleita ao mesmo tempo um c\u00e3o e um pequeno porco que pendem de seus seios.<\/p>\n<p>A terapia era coerente com a causa atribu\u00edda \u00e0s doen\u00e7as. O tratamento exigia que o deus irritado fosse acalmado, obtendo-se seu perd\u00e3o pela prece, sacrif\u00edcio e oferendas. Dependendo do caso, era necess\u00e1rio expulsar o dem\u00f4nio que tomou o corpo do doente, atrav\u00e9s de um exorcismo.<\/p>\n<p>Algumas das oferendas destinadas aos deuses eram alimentos como p\u00e3o, bebidas, aves, carnes, leite, mel. O sacrif\u00edcio podia ser uma substitui\u00e7\u00e3o do doente por um animal, que \u00e9 entregue ao deus, em sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Um cordeiro macho, f\u00eamea, vivo, morto, que ele morra, que eu viva!<\/p>\n<p>Dar\u00e1s um porco como teu substituto. Dai sua carne por tua carne, seu sangue por teu sangue; que ele [o deus] possa aceit\u00e1-lo; o cora\u00e7\u00e3o que colocaste sobre teu cora\u00e7\u00e3o, dai-o pelo teu cora\u00e7\u00e3o; que ele possa aceit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Para expulsar os dem\u00f4nios, al\u00e9m de ora\u00e7\u00f5es, eram utilizados rem\u00e9dios especiais: subst\u00e2ncias que desagradem esses dem\u00f4nios, para que eles saiam do corpo do doente. Por isso, muitos rem\u00e9dios eram terr\u00edveis e repugnantes. Utilizavam cataplasmas de plantas podres; a fuma\u00e7a mau-cheirosa de penas ou l\u00e3s queimadas; medicamentos amargos; rem\u00e9dios feitos de excrementos humanos ou de animais.<\/p>\n<p>O melhor modo de evitar doen\u00e7as, evidentemente, \u00e9 permanecer reconciliado com o deus, al\u00e9m de utilizar amuletos ou talim\u00e3s, para afastar os dem\u00f4nios ou encantamentos m\u00e1gicos.<\/p>\n<p>Continham a figura do dem\u00f4nio e a ora\u00e7\u00e3o apropriada. Alguns eram carregados pela pessoa, presos a um colar. Outros, eram mantidos em casa. Havia tamb\u00e9m pedras e plantas que podiam afastar os maus esp\u00edritos.<\/p>\n<p>Mesmo quando a causa da doen\u00e7a \u00e9 natural e conhecida, o tratamento inclui ora\u00e7\u00f5es. Quando, por exemplo, uma pessoa \u00e9 picada por um escorpi\u00e3o, o sacerdote deve orar ao veneno e invocar a sua sa\u00edda do corpo:<\/p>\n<p>Veneno, veneno, veneno, veneno do escorpi\u00e3o (\u2026). Tu atinges com o teu dardo, tu atinges com a tua cauda.<\/p>\n<p>Tu arrancaste o homem do abra\u00e7o de sua jovem mulher; tu arrancaste a jovem mulher do abra\u00e7o do homem. Veneno (\u2026); como o leite dos seios, como o suor das axilas, como o pus de um abcesso no olho, como a urina de entre as coxas, escorra, veneno! Como o leite dos seios do peito de uma mulher, como o fluido da narina ou da orelha! Por que, veneno, atormentas o homem e a jovem mulher?<\/p>\n<p>Assim como o odor n\u00e3o permanece sobre os dentes, que o veneno n\u00e3o permane\u00e7a no corpo do homem e da jovem mulher. O encantamento Ul-iattunu, o encantamento de Ea, de Marduk, o encantamento de Marduk o pai das conjura\u00e7\u00f5es dos deuses, aquele [encantamento] que eles instituiram, eu o repeti. \u00c9 o encantamento do E-nu-ru. \u00c9 o encantamento contra o veneno.<\/p>\n<p>Depois das ora\u00e7\u00f5es, eram passadas na pessoa v\u00e1rios ung\u00fcentos contra o veneno. Mas a ora\u00e7\u00e3o era essencial, pois sem ela nenhum rem\u00e9dio poderia produzir efeito.<\/p>\n<p>Embora fosse tipicamente religiosa, a medicina da Mesopot\u00e2mia admitia causas naturais para v\u00e1rias doen\u00e7as, porexemplo, se um homem tem dores no cora\u00e7\u00e3o, se seu est\u00f4mago est\u00e1 em fogo, se seu peito est\u00e1 como se estivesse rasgado, esse homem sofre do calor do dia. Pilar juntos o hel\u00e9boro, tremo\u00e7o, cal\u00eandula, cris\u00e2ntemo, resina de andropogom, man\u00e1, lolium e r\u00edcino. Ele beber\u00e1 em jejum, na cerveja, e ficar\u00e1 curado.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m muitos textos mesopot\u00e2micos que descrevem sintomas e d\u00e3o nomes \u00e0s doen\u00e7as mais comuns. H\u00e1 cerca de 250 plantas das quais eram extra\u00eddos medicamentos, que em geral eram usados misturados com cerveja ou vinho de palmeira. Muitos desses medicamentos eram, certamente, eficazes.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de uma medicina quase totalmente religiosa pode parecer absurda, a uma mente cient\u00edfica moderna. Mas deve-se notar que essa medicina n\u00e3o era irracional. Afinal de contas, o tratamento e a preven\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as era totalmente coerente com a causa das mesmas. H\u00e1, portanto, um certo tipo de racionalidade na medicina religiosa.<\/p>\n<p>Irracional seria, pelo contr\u00e1rio, acreditar que as doen\u00e7as eram produzidas por deuses e dem\u00f4nios e utilizar simples rem\u00e9dios naturais contra elas; ou acreditar que as doen\u00e7as eram naturais e utilizar ora\u00e7\u00f5es contra as mesmas. Nesses casos, o tratamento seria incoerente com a causa da doen\u00e7a e poderia ser considerado irracional.<\/p>\n<p><strong>MEDICINA RELIGIOSA INDIANA<\/strong><\/p>\n<p>Em outras civiliza\u00e7\u00f5es antigas, das quais foram preservados muitos textos religiosos, tamb\u00e9m se notam concep\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s da Mesopot\u00e2mia. Na \u00cdndia, cerca de 1.000 anos antes da era crist\u00e3, foram compostos os livros que se chamam \u201cVedas\u201d. Em um deles \u2013 o Atharva-Veda \u2013 encontram-se muitas ora\u00e7\u00f5es contra feiticeiros, pois eles eram respons\u00e1veis por grande n\u00famero de males e doen\u00e7as. Este, por exemplo, era um hino dirigido ao deus do fogo, Agni, para identificar e punir os feiticeiros:<\/p>\n<p>Este sacrif\u00edcio trar\u00e1 os feiticeiros, como uma correnteza traz a espuma. Seja quem for, homem ou mulher, que tiver feito isso, que essa pessoa fale.<\/p>\n<p>Este homem veio e confessou tudo. Recebei-o depressa, \u00f3 Brihaspati, tomai-o sob vosso controle. \u00d3 Agni e Soma, perfurai-o.<\/p>\n<p>\u00d3 bebedor de Soma [Indra], matai os descendentes do feiticeiro e conduzi-o aqui. Fazei com que ele fale e que seus olhos \u2013 tanto o direito quanto o esquerdo \u2013 caiam de sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00d3 Agni, v\u00f3s que sempre sabeis o nascimento deles, dos devoradores que se escondem; \u00f3 s\u00e1bio, \u00f3 Agni, fortalecendo-vos pela ora\u00e7\u00e3o, matai-os, perfurando-os cem vezes.<\/p>\n<p>Assim como na Mesopot\u00e2mia, observamos na \u00cdndia a exist\u00eancia de ora\u00e7\u00f5es aos deuses para curarem doen\u00e7as, para protegerem dos dem\u00f4nios e dos feiticeiros, etc. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio mostrar, aqui, exemplos de todos esses tipos de ora\u00e7\u00f5es. No entanto, \u00e9 interessante indicar outros aspectos da antiga medicina indiana, relacionados com o tema deste livro, e que diferem da medicina mesopot\u00e2mica.<\/p>\n<p>Um dos aspectos interessantes \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o entre muitas doen\u00e7as e vermes vis\u00edveis e invis\u00edveis.<\/p>\n<p>As verminoses intestinais sempre foram bem conhecidas e muitos povos nem lhes davam import\u00e2ncia, por serem coisas comuns e aparentemente pouco perigosas. No entanto, partindo do conhecimento de que o corpo humano pode abrigar vermes, os indianos generalizaram essa id\u00e9ia e passaram a imaginar tamb\u00e9m \u201cvermes invis\u00edveis\u201d que poderiam habitar o corpo e produzir doen\u00e7as.<\/p>\n<p>A ora\u00e7\u00e3o v\u00e9dica seguinte, muito antiga, invoca o deus Indra contra todos os tipos de vermes:<\/p>\n<p>Com a grande m\u00f3 de Indra, que esmaga todos os tipos de vermes, eu amasso em peda\u00e7os os vermes, como os gr\u00e3os em uma m\u00f3.<\/p>\n<p>Eu esmaguei os vis\u00edveis e os invis\u00edveis, e tamb\u00e9m o kur\u00faru; espeda\u00e7amos os alandus e todos os chalunas com nosso encantamento.<\/p>\n<p>Eu atingi os alandus com uma arma poderosa. Queimados ou n\u00e3o, eles perderam seu vigor. Os que permanecem e os que n\u00e3o permanecem foram subjugados por meu encantamento.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o permane\u00e7a nenhum verme intacto.<\/p>\n<p>O verme que vive nas entranhas, que vive na cabe\u00e7a, nas costelas, o avaskava e o perfurador \u2013 eu os despeda\u00e7o com minha magia.<\/p>\n<p>Os vermes que est\u00e3o nas montanhas, nas florestas, nas ervas, no gado, nas \u00e1guas, que entraram em n\u00f3s \u2013 eu destruo toda essa gera\u00e7\u00e3o de vermes.<\/p>\n<p>Na Mesopot\u00e2mia, tamb\u00e9m se acreditava que certos vermes podiam causar, por exemplo, a dor de dentes. Mas n\u00e3o se dava a mesma import\u00e2ncia aos vermes que foi atribu\u00edda pelos indianos.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de que os vermes podem produzir muitas doen\u00e7as e se localizar em diferentes partes do corpo n\u00e3o \u00e9 muito diferente da id\u00e9ia de que as doen\u00e7as podem ser produzidas pela invas\u00e3o do corpo por dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>Em certas ora\u00e7\u00f5es, fala-se sobre \u201cinimigos invis\u00edveis\u201d, que produzem doen\u00e7as, e que podem ser dem\u00f4nios ou outro tipo de agente:<\/p>\n<p>O Sol se ergueu no c\u00e9u, matando os dem\u00f4nios. Ele, o celeste, do alto das montanhas, vendo tudo, destruiu aquilo que n\u00e3o vemos.<\/p>\n<p>O gado se recolheu ao est\u00e1bulo, os animais bravios foram repousar; as ondula\u00e7\u00f5es das correntezas passaram e desapareceram.<\/p>\n<p>Eu trouxe a famosa planta de Kanva, a que d\u00e1 a vida, que cura tudo. Que ela possa destruir os inimigos ocultos neste homem.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos textos indianos em que as id\u00e9ias de seres sobrenaturais e causas naturais das doen\u00e7as parecem se confundir. Existem ora\u00e7\u00f5es destinadas a expulsar o \u201cyakshma\u201d do corpo dos doentes; esse \u201cyakshma\u201d \u00e9 alguma coisa que produz a tuberculose e outras doen\u00e7as, e n\u00e3o se torna claro se \u00e9 um ente sobrenatural, como os dem\u00f4nios, ou natural, como os vermes:<\/p>\n<p>Eu arranco o yakshma de teus olhos, de tuas narinas, de teus ouvidos, queixo, de teu c\u00e9rebro e de tua l\u00edngua; eu arranco o yakshma que est\u00e1 em tua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Do pesco\u00e7o e dos ombros, da espinha e das v\u00e9rtebras, dos bra\u00e7os e das esp\u00e1duas \u2013 eu arranco o yakshma que est\u00e1 em teus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>De teu cora\u00e7\u00e3o e de teus pulm\u00f5es, da ves\u00edcula, dos dois lados, dos rins, do f\u00edgado e do ba\u00e7o, n\u00f3s expulsamos o yakshma.<\/p>\n<p>Das entranhas e dos intestinos, do reto, do ventre, das ancas e do umbigo, eu arranco o yakshma.<\/p>\n<p>De tuas coxas, dos joelhos, dos calcanhares, dos p\u00e9s, de tuas pernas eu expulso o yakshma.<\/p>\n<p>De teus ossos, do tutano, de teus tend\u00f5es e veias, das m\u00e3os, unhas e dedos, eu expulso o yakshma.<\/p>\n<p>Aquele que est\u00e1 em cada membro, cada cabelo, cada junta, o yakshma que est\u00e1 em tua pele, n\u00f3s, com o encantamento de Kashyapa, expulsamos para longe.<\/p>\n<p>O yakshma parece ser alguma coisa viva, que penetra no corpo e que pode ser tirado dele, por encantamentos. O uso de magia contra o yakshma n\u00e3o quer dizer que ele seja algo sobrenatural: tamb\u00e9m eram feitos encantamentos para afastar as serpentes ou as formigas indesej\u00e1veis de um lugar. Al\u00e9m disso, o yakshma podia tamb\u00e9m ser mantido \u00e0 dist\u00e2ncia por meios naturais: por rem\u00e9dios e pela fuma\u00e7a de plantas arom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Aquele que \u00e9 atingido pelo delicioso aroma do guggulu curador nunca \u00e9 atingido pela maldi\u00e7\u00e3o ou pelo yakshma. Os yakshmas fogem dele, como os ant\u00edlopes fogem de uma fera selvagem.<\/p>\n<p>Se tu vens do rio ou do oceano, \u00f3 guggulu, eu tomo o nome de ambos, para que este homem fique protegido.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de que a fuma\u00e7a de subst\u00e2ncias arom\u00e1ticas (como incenso) pode afastar as causas das doen\u00e7as aparece tamb\u00e9m em outros povos antigos. Como vamos ver, \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o que teve longa vida, sendo de enorme import\u00e2ncia na medicina europ\u00e9ia at\u00e9 o s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>V\u00ea-se, atrav\u00e9s desses exemplos, como a concep\u00e7\u00e3o da invas\u00e3o do corpo por entidades vivas, invis\u00edveis, capazes de produzir doen\u00e7as, \u00e9 antiga. De certa forma, \u00e9 na medicina religiosa que est\u00e3o as ra\u00edzes da moderna teoria microbiana das doen\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>OS INDIANOS E AS IMPUREZAS<\/strong><\/p>\n<p>Nas civiliza\u00e7\u00f5es em que a medicina tinha car\u00e1ter religioso, um conceito extremamente importante era o de \u201cimpureza\u201d. Aquele que cometia uma falta religiosa se tornava impuro e sujeito a doen\u00e7as. Essa \u201cimpureza\u201d podia estar associada \u00e0quilo que podemos considerar como um pecado \u2013 uma falta moral, uma ofensa \u00e0 divindade; mas tinha um significado mais amplo, como vamos ver.<\/p>\n<p>Para se livrar da impureza, a pessoa precisava realizar um ritual purificador, que muitas vezes incluia o banho. Dessa forma, o asseio corporal estava fortemente associado \u00e0 id\u00e9ia de pureza religiosa.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de purifica\u00e7\u00f5es rituais pela \u00e1gua aparece muito fortemente na tradi\u00e7\u00e3o indiana. Os portugueses \u2013 e, depois, os ingleses \u2013 que invadiram a \u00cdndia no fim do s\u00e9culo XV, ficavam espantados ao ver que os indianos se lavavam e tomavam banhos in\u00fameras vezes. Os europeus dessa \u00e9poca, pelo cont\u00e1rio, raramente se lavavam e, por isso, o banho lhes parecia algo supersticioso e at\u00e9 demon\u00edaco.<\/p>\n<p>O padre portugu\u00eas Gon\u00e7alo Trancoso, em 1616, fez um relat\u00f3rio detalhado sobre os costumes religiosos dos indianos. Baseando-se tanto em textos antigos como na tradi\u00e7\u00e3o que era conservada na \u00e9poca, o padre Trancoso informa que as purifica\u00e7\u00f5es dos indianos come\u00e7avam antes do nascer do Sol. Todos os indianos da casta sacerdotal (br\u00e2manes) deviam levantar-se, e ir para o rio mais pr\u00f3ximo, em sil\u00eancio absoluto (sem poder conversar), levando 4 panos. Um deles era utilizado como roupa, outro era enrolado na cabe\u00e7a, como um turbante, e outros dois deixados na margem do rio, para se trocar depois.<\/p>\n<p>Os br\u00e2manes deviam cobrir um local do ch\u00e3o com ervas e evacuar nesse lugar, com o rosto voltado para o norte. Depois, fora do rio, mas pr\u00f3ximo dele, deviam esfregar o traseiro com areia ou terra, com a m\u00e3o esquerda, depois lavar a m\u00e3o no rio. Isso devia ser repetido pelo menos 5 vezes. Depois, deviam se banhar no rio.<\/p>\n<p>Dentro do rio, deveria ser feito um ritual especial de purifica\u00e7\u00e3o da boca, com \u00e1gua. Os br\u00e2manes casados deviam repetir essa purifica\u00e7\u00e3o 32 vezes. Por fim, era necess\u00e1rio mascar e esfregar os dentes com um ramo de uma planta. Todas essas purifica\u00e7\u00f5es eram acompanhadas de ora\u00e7\u00f5es. Somente ap\u00f3s tudo isso os br\u00e2manes podiam realizar qualquer tarefa religiosa \u2013 como o ritual di\u00e1rio que deviam fazer quando o Sol nascia. O padre Trancoso explica o significado de todo esse ritual:<\/p>\n<p>Se quereis saber o fruto de se lavar, \u00e9 que d\u00e1 limpeza ao corpo e ao entendimento, bota fora os pecados que se cometerem de noite em sonhos e por pensamentos ruins.<\/p>\n<p>Diariamente, os br\u00e2manes casados deviam realizar essa purifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m ao meio-dia. Tamb\u00e9m se devia fazer essa purifica\u00e7\u00e3o em momentos especiais, como em rituais associados \u00e0 lua cheia e lua nova, ou quando houvesse um eclipse.<\/p>\n<p>No entanto, al\u00e9m de ocasi\u00f5es fixas de purifica\u00e7\u00e3o, era necess\u00e1rio dar especial aten\u00e7\u00e3o a certas situa\u00e7\u00f5es que podiam produzir impureza. A morte era, especialmente, uma fonte de grande impureza.<\/p>\n<p>Um antigo texto indiano, chamado \u201cVishnu-Smriti\u201d, descreve em detalhes os tipos de impureza e os rituais purificadores de cada caso.<\/p>\n<p>Segundo o Vishnu-Smriti, um br\u00e2mane se tornava impuro pela morte de um parente (at\u00e9 o s\u00e9timo grau) ou de seu mestre espiritual. Essa impureza durava dez dias. Se uma mulher da fam\u00edlia tivesse um aborto, esse fato tamb\u00e9m produzia uma impureza, por um n\u00famero de noites igual ao n\u00famero de meses desde a concep\u00e7\u00e3o do feto.<\/p>\n<p>Em todos esses casos, ap\u00f3s decorrido o tempo de impureza, era necess\u00e1rio fazer um ritual especial: mergulhar em um rio, pronunciar o hino sagrado de Aghamarshana tr\u00eas vezes e, depois de sair da \u00e1gua, repetir a ora\u00e7\u00e3o Gayatri mil e oito vezes.<\/p>\n<p>Carregar o corpo de um defunto, para a crema\u00e7\u00e3o, era especialmente perigoso e exigia muitos rituais adicionais.<\/p>\n<p>Mas a impureza de um cad\u00e1ver era considerada t\u00e3o grande que podia contagiar mesmo as pessoas pr\u00f3ximas. Por isso, a pessoa se tornava impura se seguia um funeral, ou se ficava ao alcance da fuma\u00e7a da pira cremat\u00f3ria. Devia, nesses casos, lavar suas roupas e tomar o banho ritual, para se tornar novamente pura.<\/p>\n<p>A impureza era considerada como algo contagioso: tocar uma pessoa que tocou um cad\u00e1ver ou tocar uma mulher menstruada acarretava impureza.<\/p>\n<p>A pessoa tamb\u00e9m adquiria impureza se aceitasse alimentos de algu\u00e9m impuro, ficando impuro durante tanto tempo quando este.<\/p>\n<p>Se um animal morresse em um po\u00e7o, ou se este se tornasse impuro em alto grau, recomendava-se tirar toda a \u00e1gua, secar com um pano e acender fogo dentro. Por fim, quando come\u00e7asse a surgir \u00e1gua no po\u00e7o novamente, devia-se atirar alimento sagrado (pancagavya) nele. Considerava-se que grandes reservat\u00f3rios de \u00e1gua (rios, a\u00e7udes) n\u00e3o se tornam impuros.<\/p>\n<p>Havia outras regras que podemos interpretar como cuidados com a sa\u00fade. Uma pessoa era considerada impura se vomitasse ou cuspisse sangue.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo de impureza, a pessoa n\u00e3o devia cozinhar \u2013 era preciso comer alimentos comprados ou oferecidos gratuitamente; devia dormir no ch\u00e3o; n\u00e3o comer carne; e dormir sozinho.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o per\u00edodo de impureza, era necess\u00e1rio realizar sempre um ritual purificador, pois a impureza n\u00e3o desaparecia por si mesma.<\/p>\n<p>A dura\u00e7\u00e3o do per\u00edodo de impureza era vari\u00e1vel. Uma mulher menstruada s\u00f3 ficava pura depois de quatro dias. Em outros casos, como espirrar, cuspir, dormir, urinar ou falar com um estrangeiro, bastava uma r\u00e1pida purifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Algumas das regras indianas nos parecem simples regras de asseio, mas tinham conota\u00e7\u00e3o religiosa. As v\u00e1rias excre\u00e7\u00f5es do corpo eram consideradas impuras: gordura, s\u00eamen, sangue, caspa, urina, fezes, excre\u00e7\u00e3o dos ouvidos, unhas cortadas, catarro, l\u00e1grimas, suor. As cavidades corporais acima do umbigo (boca, ouvidos, etc.) eram consideradas puras, e as de baixo, impuras.<\/p>\n<p>Dava-se mais import\u00e2ncia \u00e0 limpeza da parte de cima do corpo do que \u00e0 de baixo. Quando se sujava alguma parte do corpo, abaixo do umbigo, com alguma excre\u00e7\u00e3o do corpo, bastava limpar com terra e \u00e1gua.<\/p>\n<p>Quando se sujava acima do umbigo, era necess\u00e1rio, al\u00e9m disso, tomar banho. Se a boca ou os l\u00e1bios se sujavam, al\u00e9m da limpeza e do banho, devia-se ficar em jejum e beber uma bebida sagrada.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das excre\u00e7\u00f5es corporais, as bebidas alco\u00f3licas tamb\u00e9m acarretavam impureza, no mais alto grau. Se um recipiente de ferro ou de argila entrava em contato com essas subst\u00e2ncias, devia ser purificado expondo-o ao fogo.<\/p>\n<p>Pedras preciosas conspurcadas deviam ser enterradas durante 7 dias.<\/p>\n<p>Objetos de osso ou dente (marfim, etc.) deviam ser polidas. Mas os recipientes de madeira impregnados por impurezas deviam simplesmente ser jogados fora, pois n\u00e3o podiam ser purificados. No caso de roupas, se ap\u00f3s lavagem uma parte ainda tiver ficado manchada, ela deveria ser cortada. H\u00e1 tamb\u00e9m normas gerais, como esta:<\/p>\n<p>Enquanto o cheiro ou umidade causados por uma subst\u00e2ncia impura permanecem no objeto que foi sujado, deve-se aplicar constantemnte terra e \u00e1gua em todas as purifica\u00e7\u00f5es de objetos inanimados.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de regras que nos parecem de bom senso como as anteriores, h\u00e1 outras mais estranhas. Se, por contato com animais, gr\u00e3os que j\u00e1 foram cozidos se tornam impuros, deve-se retirar apenas o que foi sujado; depois, deve-se borrifar o restante com \u00e1gua na qual se colocou um peda\u00e7o de ouro e sobre a qual foi recitada a ora\u00e7\u00e3o Gayatri; por fim, deve-se segurar o alimento na frente de um bode e diante do fogo. Ent\u00e3o, ele ficar\u00e1 novamente puro.<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 outras regras que nos parecem simplesmente absurdas, sob o ponto de vista de asseio. De acordo com o Vishnu-Smriti, a boca de um bode ou cavalo \u00e9 sempre pura, e por isso um objeto n\u00e3o se torna impuro por ser abocanhado por esses animais. A regra n\u00e3o vale, no entanto, para a boca da vaca. S\u00e3o considerados sempre puros: elefante, cavalo, gato, raios de sol, fogo, ar, terra, poeira, gotas de saliva que caem da boca, moscas, excrementos de vaca.<\/p>\n<p>Embora algumas das regras indianas nos pare\u00e7am estranhas ou mesmo absurdas, a maior parte delas deve ter sido ben\u00e9fica \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, evitando contato com coisas que poderiam produzir doen\u00e7as. Assim, as regras religiosas sobre pureza foram, na pr\u00e1tica, excelentes normas de higiene.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o indiana teve pequena influ\u00eancia no ocidente, exceto de modo indireto \u2013 atrav\u00e9s dos \u00e1rabes, no final da Idade M\u00e9dia. H\u00e1, no entanto, outra tradi\u00e7\u00e3o antiga que influenciou mais diretamente o pensamento europeu: o pensamento hebraico.<\/p>\n<p><strong>AS IMPUREZAS E AS DOEN\u00c7AS NA B\u00cdBLIA<\/strong><\/p>\n<p>As no\u00e7\u00f5es de impureza e de seu cont\u00e1gio est\u00e3o presentes de modo muito claro na B\u00edblia. A conex\u00e3o entre doen\u00e7as e impureza \u00e9 tamb\u00e9m muito clara nessa tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora em muitas outras culturas religiosas tenham existido id\u00e9ias semelhantes \u00e0s do cont\u00e1gio, \u00e9 claro que na civiliza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia, a partir da Idade M\u00e9dia, a influ\u00eancia religiosa mais importante \u00e9 a crist\u00e3.<\/p>\n<p>No Antigo Testamento da B\u00edblia, encontramos v\u00e1rias passagens relevantes.<\/p>\n<p>O deus hebraico, como se sabe, era capaz de enviar doen\u00e7as e epidemias de todos os tipos sobre os que o desobedeciam. No livro do \u00caxodo, na B\u00edblia, descreve-se que Mois\u00e9s pediu ao fara\u00f3 do Egito, em nome do deus hebraico, que libertasse o seu povo. Como o fara\u00f3 n\u00e3o o fez, conta a B\u00edblia que a divindade hebraica teria enviado sucessivas pragas sobre o Egito, incluindo doen\u00e7as:<\/p>\n<p><strong>O Senhor disse a Mois\u00e9s:<\/strong><\/p>\n<p>\u2013 Vai encontrar o Fara\u00f3, e dize-lhe: Eis o que diz o Senhor, o Deus dos hebreus. Deixai ir meu povo, para que ele me sacrifique. Se vos recusardes ainda, e se v\u00f3s os retiverdes, estenderei minha m\u00e3o sobre vossos campos, e os cavalos, asnos, camelos, bois e ovelhas ser\u00e3o atingidos por uma peste muito grave.<\/p>\n<p>Como o Fara\u00f3 n\u00e3o obedece, Deus manda que Mois\u00e9s encha as m\u00e3os com cinzas e as lance para o c\u00e9u: \u201cEsse p\u00f3 espalhar-se-\u00e1 por todo o Egito. Ent\u00e3o se formar\u00e3o nos homens e nos animais \u00falceras e tumores, em toda a terra do Egito\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, a B\u00edblia conta que o Fara\u00f3 acaba por ceder, quando uma peste mata todos os filhos mais velhos de todos os eg\u00edpcios \u2013 incluindo o filho do pr\u00f3prio Fara\u00f3.<\/p>\n<p>Em v\u00e1rios pontos da B\u00edblia, fica claro que o deus hebraico n\u00e3o lan\u00e7a doen\u00e7as apenas sobre os inimigos dos hebreus, mas tamb\u00e9m sobre eles pr\u00f3prios, se n\u00e3o obedecerem \u00e0s suas ordens. O livro do Deuteron\u00f4mio, por exemplo, tem esta amea\u00e7a:<\/p>\n<p>Se n\u00e3o quiserdes escutar a voz do Senhor vosso Deus, e n\u00e3o vos guardardes e n\u00e3o praticardes todos os mandamentos e as cerim\u00f4nias que eu vos prescrevi hoje, todas estas maldi\u00e7\u00f5es cair\u00e3o sobre v\u00f3s e vos atingir\u00e3o.<\/p>\n<p>Os castigos indicados s\u00e3o terr\u00edveis: pobreza, insucesso em tudo, trai\u00e7\u00e3o, fome, e muitos tipos de doen\u00e7as \u2013 peste, febre, \u00falceras, sarna, loucura, cegueira, \u201ce um mal incur\u00e1vel da planta dos p\u00e9s at\u00e9 a ponta da cabe\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Essa maldi\u00e7\u00e3o n\u00e3o terminava com a morte: transmitia-se a todos os descendentes, pois o pr\u00f3prio s\u00eamen levava a maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A \u201clepra\u201d das roupas e das casas era apenas uma concep\u00e7\u00e3o desenvolvida por analogia com a lepra das pessoas. N\u00e3o se tratava de um conceito semelhante ao nosso, de que um objeto pode ser ve\u00edculo de cont\u00e1gio de uma doen\u00e7a. As roupas e casas podiam ficar \u201cleprosas\u201d sem nenhum contato de pessoas doentes.<\/p>\n<p>Quando uma pessoa se curava de \u201clepra\u201d, ela n\u00e3o ficava automaticamente pura. Era necess\u00e1ria uma s\u00e9rie de rituais religiosos para que ela se livrasse da sua impureza. O ritual era extremamente elaborado.<\/p>\n<p>A pessoa deveria levar ao sacerdote dois p\u00e1ssaros. Um deles era morto em sacrif\u00edcio, e com seu sangue (e outras subst\u00e2ncias) tingia-se o segundo p\u00e1ssaro. A pessoa era aspergida 7 vezes com esse sangue, e depois o p\u00e1ssaro era solto, para voar. O significado simb\u00f3lico parecia ser o seguinte: pelo sangue derramado sobre o p\u00e1ssaro e sobre a pessoa impura, eles se uniam; o p\u00e1ssaro passava a representar a pr\u00f3pria pessoa.<\/p>\n<p>Quando ele era deixado livre para voar, ele levava embora as impurezas da pessoa.<\/p>\n<p>No entanto, o ritual n\u00e3o terminava a\u00ed. A pessoa devia lavar suas roupas, raspar todos os pelos do corpo, lavar-se, e aguardar durante 7 dias.<\/p>\n<p>A raspagem permitia verificar se realmente n\u00e3o havia mais manchas ou sinais da doen\u00e7a. Ap\u00f3s os sete dias, a pessoa devia novamente raspar todos os pelos e se lavar. Era ent\u00e3o feito um sacrif\u00edcio de um carneiro, que era oferecido \u00e0 divindade pedindo-se que ele fosse aceito em pagamento pelo delito ou pecado cometido pela pessoa. Simbolicamente, isso significava que a lepra tinha sido um castigo por algum delito ou pecado, e que s\u00f3 agora, penitenciando-se e pagando por esse delito ou pecado, a pessoa ficava realmente pura.<\/p>\n<p>H\u00e1 um aspecto bastante interessante nesse ritual, e que aparece tamb\u00e9m em outros semelhantes: a transmiss\u00e3o da impureza de uma pessoa para um animal. O Lev\u00edtico prescreve um ritual anual, de purifica\u00e7\u00e3o de todo o povo.<\/p>\n<p>Nesse ritual, tomam-se dois bodes. Um deles \u00e9 morto. O sacerdote transfere todos os pecados do povo para o segundo bode, que \u00e9 o \u201cbode expiat\u00f3rio\u201d.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 levado para o deserto e \u00e9 solto. Dessa forma, as impurezas de todas as pessoas foram embora. A pessoa que conduz o bode para o deserto precisa se purificar, pois alguma impureza pode ter passado para ela, ao conduzir o animal carregado de pecados.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de um \u201cbode expiat\u00f3rio\u201d ou de outro animal que vai carregar os pecados e a culpa de todas as pessoas, aparece em v\u00e1rias outras civiliza\u00e7\u00f5es \u2013 at\u00e9 mesmo na Am\u00e9rica, antes da chegada dos europeus ao M\u00e9xico. De modo semelhante, o Novo Testamento crist\u00e3o indica que Jesus expulsou os dem\u00f4nios de pessoas e passou esses dem\u00f4nios para porcos.<\/p>\n<p>Esse exemplo ilustra um aspecto do conceito m\u00e1gico ou religioso de cont\u00e1gio: as impurezas podem ser adquiridas por contato, e podem tamb\u00e9m ser expelidas da pessoa, para um animal (ou, \u00e0s vezes, para outra pessoa).<\/p>\n<p>Na concep\u00e7\u00e3o hebraica de impureza, vemos alguns dos aspectos da moderna concep\u00e7\u00e3o m\u00e9dica de doen\u00e7as contagiosas. Mas \u00e9 claro que h\u00e1 tamb\u00e9m muitas diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>No pensamento b\u00edblico, as id\u00e9ias de pecado, impureza, sujeira, doen\u00e7a, castigo e morte est\u00e3o todas intimamente interligadas. O livro da B\u00edblia em que se pode perceber melhor essas id\u00e9ias \u00e9 o Lev\u00edtico.<\/p>\n<p>De modo semelhante a outras culturas antigas, o Lev\u00edtico ensina que uma pessoa pode se tornar impura (pecadora, suja) de muitos modos diferentes. Os tipos que mais nos interessam, por terem rela\u00e7\u00e3o com a doen\u00e7a, n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com falhas morais e com pecados no sentido do cristianismo.<\/p>\n<p>Existem v\u00e1rios tipos de animais, por exemplo, que s\u00e3o considerados impuros. Enquanto que a vaca ou a ovelha s\u00e3o animais puros e que podem ser comidos pelos hebreus, o Lev\u00edtico ensina que os quadr\u00fapedes ruminantes que n\u00e3o tenham a pata dividida em duas (como o camelo) s\u00e3o impuros e n\u00e3o podem servir de alimento. Da mesma forma, as lebres, os porcos e v\u00e1rios outros animais s\u00e3o proibidos para os hebreus. Dos animais aqu\u00e1ticos, apenas s\u00e3o puros os que possuem nadadeiras e t\u00eam o corpo recoberto por escamas. Polvos ou baleias, que n\u00e3o obedecem a essas condi\u00e7\u00f5es, seriam impuros.<\/p>\n<p>Os animais impuros n\u00e3o podem ser comidos e nem mesmo tocados, quando est\u00e3o mortos. Se uma pessoa tocar um animal impuro morto, ela ficar\u00e1 impura: ter\u00e1 cometido uma falta religiosa, contra o deus hebraico, e ter\u00e1 ficado suja. A pessoa fica contaminada pela impureza do animal que tocou, e se algu\u00e9m tocar essa pessoa, tamb\u00e9m ficar\u00e1 impuro.<\/p>\n<p>Para se libertar da impureza, nesse caso, era necess\u00e1rio lavar as roupas, lavar o pr\u00f3prio corpo, e esperar at\u00e9 o anoitecer. Apenas \u00e0 noite a pessoa ficaria novamente pura. Antes disso, a pessoa n\u00e3o poderia participar de atos religiosos, nem entrar em contato com outras pessoas, pois elas se contaminariam tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Tudo o que sai de um animal impuro tamb\u00e9m \u00e9 impuro. Se alguma coisa cai de um animal impuro morto sobre um objeto, esse objeto tamb\u00e9m fica impuro. No caso de objetos de argila, porosos, essa impureza n\u00e3o pode ser retirada: eles devem ser quebra-dos, destru\u00eddos. No caso de roupas ou objetos de madeira, eles devem ser lavados e, ap\u00f3s o anoitecer, se tornar\u00e3o puros novamente. Se, antes de serem purificados, a \u00e1gua escorrer desses objetos para um outro, este outro tamb\u00e9m ficar\u00e1 impuro. Ou seja: a pr\u00f3pria \u00e1gua, que \u00e9 o principal meio de purifica\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m pode transmitir a impureza.<\/p>\n<p>No entanto, a \u00e1gua em grande quantidade (em rios, reservat\u00f3rios, etc.) n\u00e3o fica impura.<\/p>\n<p>Mesmo os animais puros, podem se tornar impuros, se morrerem por si pr\u00f3prios. Nesse caso, aplica-se a eles a mesma restri\u00e7\u00e3o que aos animais impuros: n\u00e3o podem ser comidos nem tocados, pois transmitir\u00e3o sua impureza a quem os tocar. Esta regra parece uma prescri\u00e7\u00e3o de origem m\u00e9dica, pois evita que as pessoas tenham contato com alguma doen\u00e7a que poderia ter matado o animal.<\/p>\n<p>Mas a B\u00edblia n\u00e3o d\u00e1 esse tipo de justificativa, e sim um motivo puramente religioso. O Lev\u00edtico avisa:<\/p>\n<p>Tomai cuidado para n\u00e3o contaminar vossas almas, e n\u00e3o tocai nenhuma dessas coisas, para que n\u00e3o sejais impuros.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias outras causas poss\u00edveis de impureza, associadas a doen\u00e7as ou estados f\u00edsicos. Como em muitas outras civiliza\u00e7\u00f5es, a B\u00edblia ensinava que as mulheres menstrua-das deviam ser consideradas impuras, durante 7 dias. A pessoa que tocasse uma mulher menstruada ou objetos sobre a qual ela esteve (cama, roupa, cadeira), ficaria impura e deveria fazer o procedimento j\u00e1 indicado: lavar suas roupas, lavar-se e esperar at\u00e9 o anoitecer para ficar puro.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ap\u00f3s o parto, a mulher se torna impura. Se o filho for um menino, a impureza dura 7+33 dias (ou seja, um total de 40 dias). Se for uma me-nina, a impureza dura o dobro desse tempo.<\/p>\n<p>Durante esse per\u00edodo de impureza, as mu-lheres deveriam ficar relativamente isoladas. Foi provavelmente a partir desse n\u00famero \u201cm\u00e1gico\u201d, 40 dias, que se originou a \u201cquarentena\u201d \u2013 per\u00edodo de isolamento de pessoas que podem estar com uma doen\u00e7a contagiosa.<\/p>\n<p>O final do per\u00edodo de impureza, nesses casos, n\u00e3o significa que a mulher se torna automaticamente pura. \u00c9 necess\u00e1rio realizar um ritual, fazendo oferecimentos, no tempo, ao deus hebraico, para pagar pelas suas faltas e se tornar novamente pura.<\/p>\n<p class=\"imagem\">As normas sobre mulheres menstruadas aplicam-se tamb\u00e9m a homens com corrimento do \u00f3rg\u00e3o sexual (gonorr\u00e9ia). Eles se tornam impuros enquanto estiverem doentes, e os leitos e cadeiras que utilizarem tamb\u00e9m se tornam impuros.<\/p>\n<p>Praticamente qualquer tipo de mancha branca era chamada de lepra. Quando um hebreu apresentava esse tipo de sinal, devia ser levado ao sacerdote, que o examinava.<\/p>\n<p>Se os pelos da regi\u00e3o das manchas tinham mudado de cor e se a pele apresentava uma depress\u00e3o no lugar da mancha, o sacerdote declarava que se tratava de lepra impura, e a pessoa teria que ficar isolada dos demais.<\/p>\n<p>No entanto, em outros casos de \u201clepra\u201d o sacerdote podia declarar que a pessoa estava pura. Os impuros deveriam ser separados da sociedade, para n\u00e3o contagiar outras pessoas.<\/p>\n<p>Todo homem que seja manchado pela lepra e que tenha sido separado dos outros por decis\u00e3o do sacerdote, usar\u00e1 roupas sem costura, andar\u00e1 com a cabe\u00e7a nua, com o rosto coberto por suas vestes, e gritar\u00e1 que \u00e9 s\u00f3rdido e contaminado.<\/p>\n<p><strong>RITUAIS DE PURIFICA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os objetos podiam ficar \u201cleprosos\u201d: com manchas semelhantes \u00e0 da lepra. No caso de roupas, por exemplo, se aparecessem tais manchas, elas deveriam ser levadas ao sacerdote que as examinaria e guardaria durante 7 dias. Se as manchas crescessem, ele declararia que se trata de lepra, e elas deveriam ser queimadas. Se n\u00e3o crescessem, poderiam ser lavadas, depois observadas durante mais 7 dias. Se nada aparecesse, seriam lavadas de novo e declaradas puras.<\/p>\n<p>As casas em que aparecessem manchas nas paredes, com a regi\u00e3o manchada mostrando uma depress\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao resto da parede (semelhante \u00e0 pele dos doentes), tamb\u00e9m seriam consideradas leprosas.<\/p>\n<p>Em alguns casos, era poss\u00edvel retirar algumas partes da parede da casa e torn\u00e1-la pura; em outros, a resid\u00eancia precisaria ser abandonada e destru\u00edda totalmente.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO 3 \u2013 MEDICINA GREGA<\/strong><\/p>\n<p><strong>MEDICINA RELIGIOSA GREGA<\/strong><\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o grega antiga foi o ponto de partida de toda a cultura cient\u00edfica ocidental moderna. At\u00e9 hoje, \u00e9 um grego \u2013 Hip\u00f3crates \u2013 a quem chamamos de \u201cpai da Medicina\u201d.<\/p>\n<p>A Medicina grega marca uma importante etapa na evolu\u00e7\u00e3o do pensamento m\u00e9dico. Inicialmente, ela se assemelhava \u00e0 Medicina de outras na\u00e7\u00f5es: era uma mistura de concep\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas, religiosas e de receitas pr\u00e1ticas para a cura das doen\u00e7as. No entanto, aos poucos ela foi se separando da magia e da religi\u00e3o, tentando transformar-se em algo independente: um conhecimento das doen\u00e7as, de suas causas naturais e de sua cura. O desenvolvimento da Medicina grega n\u00e3o foi r\u00e1pido. O per\u00edodo em que se firma a concep\u00e7\u00e3o de uma Medicina naturalista \u00e9, aproximadamente, a \u00e9poca em que viveram Plat\u00e3o e S\u00f3crates (aproximadamente 400 anos antes da era crist\u00e3) \u2013 o tempo de Hip\u00f3crates. No entanto, antes de estudar a vis\u00e3o m\u00e9dica de Hip\u00f3crates, \u00e9 importante compreender a vis\u00e3o m\u00e9dica grega que existia antes de sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>A antiga religi\u00e3o grega aceitava a exist\u00eancia de muitos deuses diferentes. Na literatura grega mais antiga, desde as obras de Homero, v\u00e1rios deles est\u00e3o associados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e \u00e0 cura de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Um dos deuses associados \u00e0s doen\u00e7as era Apolo. Ele e sua irm\u00e3 Artemis s\u00e3o descritos na mitologia grega como podendo produzir doen\u00e7a e peste atrav\u00e9s de flechas lan\u00e7adas sobre os homens. A \u201cIl\u00edada\u201d de Homero descreve, no seu primeiro livro, um caso desse tipo, que ilustra as concep\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas gregas.<\/p>\n<p>Segundo a \u201cIl\u00edada\u201d, o rei Agamenon havia raptado e tomado como amante a jovem Chryseis, filha de um sacerdote de Apolo, chamado Chryses. Esse sacerdote implorou a Agamenon que libertasse sua filha. Em troca, o sacerdote oferecia um pagamento e solicitaria aos deuses que os ex\u00e9rcitos do rei fossem bem sucedidos na guerra. Apesar de falar em nome de Apolo, o pedido do sacerdote foi negado. O sacerdote se afasta, vai para a praia e faz uma ora\u00e7\u00e3o ao deus Apolo, solicitando que ele o vingue.<\/p>\n<p>Assim ele orou, e Apolo ouviu sua prece. Desceu furioso dos picos do monte Olimpo, com seu arco e sua aljava cheia, nos ombros. As flechas vibravam em suas costas, com a raiva que tremia dentro dele.<\/p>\n<p>Apolo se assentou longe dos navios, com uma face t\u00e3o negra quanto a noite, e seu arco de prata deu um terr\u00edvel assobio e espalhou a morte enquanto ele atirava suas flechas entre eles.<\/p>\n<p>Primeiramente o deus atingiu suas mulas e c\u00e3es, mas depois dirigiu suas setas mort\u00edferas contra as pr\u00f3prias pessoas. Durante todo o dia, queimavam as piras dos mortos.<\/p>\n<p>Durante nove dias ele atirou suas flechas entre as pessoas (\u2026)<\/p>\n<p>A \u201cIl\u00edada\u201d conta que a epidemia n\u00e3o cessava. Aquiles reuniu os homens e prop\u00f4s que consultassem um sacerdote ou algum int\u00e9rprete de sonhos para descobrir por que Apolo estava t\u00e3o furioso. Um adivinho, chamado Calchas, se apresenta e promete dizer a causa da peste, se Aquiles lhe prometer prote\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, o adivinho conta que Apolo est\u00e1 irritado porque o rei desrespeitou o sacerdote.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma disputa entre Aquiles e Agamenon, que por fim concorda em devolver a filha ao sacerdote. Ap\u00f3s a devolu\u00e7\u00e3o de Chryseis, s\u00e3o feitas ora\u00e7\u00f5es e sacrif\u00edcios de animais a Apolo e a peste termina.<\/p>\n<p>De modo semelhante, a pe\u00e7a teatral \u201c\u00c9dipo rei\u201d, de S\u00f3focles, se inicia quando uma peste est\u00e1 dizimando a popula\u00e7\u00e3o de Tebas. O rei \u00c9dipo manda um emiss\u00e1rio consultar as pitonisas, para que elas revelem o motivo pelo qual o deus Apolo est\u00e1 castigando o pa\u00eds. O or\u00e1culo revela que \u00e9 necess\u00e1rio varrer de Tebas uma coisa impura: o assassino do rei anterior, Laius. \u00c0 medida que a pe\u00e7a se desenrola, descobre-se que o pr\u00f3prio \u00c9dipo matou, sem o saber, o rei Laius (que era seu pai) e casou-se com sua m\u00e3e, sendo essa a causa da peste.<\/p>\n<p><strong>INTERVEN\u00c7\u00c3O DOS DEUSES<\/strong><\/p>\n<p>Nesta fase da cultura grega, as grandes calamidades eram, portanto, produzidas pelos deuses, como castigo por ofensas religiosas. Havia, \u00e9 claro, outros tipos de doen\u00e7as comuns que n\u00e3o eram atribu\u00eddas aos deuses.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe, no entanto, como era o tratamento dessas doen\u00e7as, no per\u00edodo mais antigo, na Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p>A mitologia grega indica que Apolo, o deus do Sol, al\u00e9m de produzir doen\u00e7as, poderia tamb\u00e9m cur\u00e1-las \u2013 e, por isso, ele se tornou a principal divindade controladora das doen\u00e7as. Posteriormente, surgiu o semi-deus Asclepios (ou Escul\u00e1pio), filho de Apolo, como divindade espec\u00edfica da Medicina.<\/p>\n<p>Segundo autores romanos do in\u00edcio da era crist\u00e3, a Medicina grega come\u00e7ou com Asclepios. Teria nascido na Tesalia, no s\u00e9culo XIII antes da era crist\u00e3. Teria acompanhado os argonautas, em sua expedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Juntamente com Apolo, teria descoberto as plantas medicinais. \u00c9 prov\u00e1vel que tenha existido de fato um m\u00e9dico chamado Asclepios, que foi depois transformado em semi-deus pela tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas e variadas lendas sobre seu nascimento e vida. Uma tradi\u00e7\u00e3o conta que foi abandonado por sua m\u00e3e no monte Mirtion. L\u00e1, foi alimentado por uma cabra do pastor Arestana e cuidado por seu c\u00e3o.<\/p>\n<p>Achado pelo pastor, foi reconhecido como divino pela aur\u00e9ola que o rodeava. Outra tradi\u00e7\u00e3o o faz nascer em Epidauro, filho de Arsipo e de Arsinoe.<\/p>\n<p>Segundo o escritor Ov\u00eddio, Asclepios foi o filho do deus Apolo com a mortal Coronis. Durante a gravidez, Coronis trai Apolo com um homem e \u00e9 morta pelo deus. No entanto, ele salva o filho, tirando-o de seu ventre.<\/p>\n<p>Logo depois de ser tirado de sua m\u00e3e, Asclepios \u00e9 levado por Apolo at\u00e9 Magn\u00e9sia, confiado ao centauro Qu\u00edron, que conhecia todas as plantas medicinais e que o instruiu na arte da cura. \u201cCurava a uns com as doces palavras da magia, a outros oferecia po\u00e7\u00f5es eficazes, ou lhes aplicava ervas em torno de seus membros, ou cortava o mal com o ferro, para devolver-lhes a sa\u00fade.\u201d<\/p>\n<p>Asclepios, segundo a lenda, adquiriu um conhecimento t\u00e3o grande que se tornou capaz de ressuscitar os mortos. Plut\u00e3o, o deus dos infernos, pediu a Zeus que o matasse, pois estava despovoando seus dom\u00ednios.<\/p>\n<p>Zeus atendeu a seu pedido e feriu com um raio o filho de Coronis. Depois, para consolar Apolo, seu pai, colocou-o no c\u00e9u, onde forma parte da constela\u00e7\u00e3o da Serpente.<\/p>\n<p>Asclepios \u00e9 representado geralmente com um bast\u00e3o de viajante, envolto por uma serpente \u2013 s\u00edmbolo da adivinha\u00e7\u00e3o entre os gregos e ac\u00f3lito de todas as divindades m\u00e9dicas. H\u00e1 diversos animais associados a ele: serpente, c\u00e3o, cabra e galo \u2013 este \u00faltimo, s\u00edmbolo de vigil\u00e2ncia no exerc\u00edcio da profiss\u00e3o m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Na mitologia, Asclepios tem uma fam\u00edlia que simboliza v\u00e1rios aspectos da Medicina. Sua esposa Epione aliviava a dor. Sua filha Hygeia era a divindade da sa\u00fade. Outra filha, chamada Panacea, representava os rem\u00e9dios que curam todas as doen\u00e7as. Seu filho Telesphoros representava a recupera\u00e7\u00e3o do enfermo.<\/p>\n<p>Hygeia, a filha preferida de Asclepios, \u00e9 \u00e0s vezes representada alimentando uma serpente. \u00c9 do nome Hygieia (sa\u00fade, em grego) que vem o nosso termo \u201chigiene\u201d. Para n\u00f3s, a palavra se refere a limpeza, asseio.<\/p>\n<p>No entanto, seu significado primitivo \u00e9 muito diferente: representava tudo aquilo que se pode fazer para manter ou restaurar a sa\u00fade.<\/p>\n<p>Quando outras deusas eram invocadas para dar a sa\u00fade, davam-lhes tamb\u00e9m o ep\u00edteto de Hygeia (por exemplo: Atenas Hygeia ou Demeter Hygeia). A deusa eg\u00edpcia Isis, associada \u00e0 Medicina, era tamb\u00e9m cultuada entre os gregos, com o nome de Isis Hygeia. Era tamb\u00e9m representada com uma serpente.<\/p>\n<p>Aproximadamente no s\u00e9culo VI antes da era crist\u00e3, foram criados templos especialmente dedicados a Asclepios. Esses templos eram edificados em lugares considerados saud\u00e1veis e de paisagem agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Estavam sempre rodeados por um bosque sagrado, no qual n\u00e3o se podia matar nem nascer.<\/p>\n<p>Geralmente, dentro desse bosque, existiam uma fonte natural, um templo dedicado a Artemis e a outras divindades associadas \u00e0 cura. Dentro do pr\u00f3prio templo, existiam geralmente serpentes vivas \u2013 s\u00edmbolo de Asclepios.<\/p>\n<p>As pessoas se dirigiam a esses templos em busca de curas milagrosas. Os enfermos tinham que cumprir certas pr\u00e1ticas antes de serem admitidos no templo.<\/p>\n<p>Deviam submeter-se a jejuns, banhos, ablu\u00e7\u00f5es, un\u00e7\u00f5es e purifica\u00e7\u00f5es. Depois, deviam efetuar sacrif\u00edcios \u2013 em geral, de um galo. Ent\u00e3o, os enfermos podiam passar a noite dormindo no templo \u2013 e isso era chamado de \u201cincuba\u00e7\u00e3o\u201d. Era um ato religioso pelo qual se provocava a apari\u00e7\u00e3o no sonho da pr\u00f3pria divindade, para se obter uma revela\u00e7\u00e3o ou a cura.<\/p>\n<p>Em alguns casos, o doente tinha vis\u00f5es que indicavam a natureza da doen\u00e7a e sua cura. Em outros casos, durante o sonho, o pr\u00f3prio deus o curava, instantaneamente.<\/p>\n<p>Isso ocorria pela aplica\u00e7\u00e3o das m\u00e3os no local doente, ou por opera\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, ou ministrando um rem\u00e9dio, ou pela ajuda de animais (uma grande serpente, um cachorro e um ganso) que acompanhavam Asclepios.<\/p>\n<p>Nem sempre o deus atendia ao doente, porque ele n\u00e3o o merecia ou n\u00e3o havia realizado a purifica\u00e7\u00e3o antes da incuba\u00e7\u00e3o. Podia tamb\u00e9m ocorrer que fossem necess\u00e1rias muitas repeti\u00e7\u00f5es da incuba\u00e7\u00e3o, antes que a pessoa recebesse a visita de Asclepios.<\/p>\n<p>Esse tipo de Medicina religiosa existia tamb\u00e9m no Egito: os doentes tinham o costume de se encerrar nos templos de Isis e de Serapis, e esperar que essas divindades lhes revelassem, durante o sono, os rem\u00e9dios que lhes eram necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias interpreta\u00e7\u00f5es poss\u00edveis sobre o que ocorria no templo de Asclepios. Em parte, pode ter ocorrido que as pessoas se curassem de problemas psicossom\u00e1ticos por simples sugest\u00e3o.<\/p>\n<p>Pode tamb\u00e9m ter ocorrido que os pr\u00f3prios sacerdotes e encarregados do templo se disfar\u00e7assem, \u00e0 noite, e dessem rem\u00e9dios e fizessem opera\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas, fazendo-se passar pelo deus.<\/p>\n<p>Pode ser que a parte mais importante do processo fosse posterior aos sonhos: os encarregados do templo talvez fizessem prescri\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas \u00fateis. De qualquer forma, pode-se dizer que os templos de Asclepios eram muito populares e procurados por muita gente.<\/p>\n<p>O culto a Asclepios e as curas realizadas em seus templos duraram muitos s\u00e9culos (at\u00e9 depois da era crist\u00e3) e se espalharam por v\u00e1rios pa\u00edses. Em Roma, no ano 295 antes de Cristo, foi erigido o primeiro templo a Asclepios por causa de uma epidemia. Conta-se que uma praga \u201chavia infectado o ar, o sangue se corrompia nas veias e os homens se arrastavam como espectros l\u00edvidos.<\/p>\n<p>A morte feria sem descanso, e ria-se de todos os esfor\u00e7os humanos e de todos os recursos da arte\u2026 \u201c. A peste j\u00e1 durava h\u00e1 muito tempo, e foram enviados emiss\u00e1rios a um templo grego de Apolo, em Delfos, em busca de conselhos. O or\u00e1culo diz que n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio Apolo quem deve ser consultado e sim seu filho (Asclepios).<\/p>\n<p>Os embaixadores v\u00e3o ao templo de Asclepios em Epidauro e pedem que se permita transportar a Roma a est\u00e1tua do deus. De noite, Asclepios aparece em sonhos e lhes diz que vai acompanh\u00e1-los sob a forma de uma cobra. Surge uma grande serpente, que sai do tempo, depois vai at\u00e9 o porto e entra no navio romano. Chegando ao porto de Roma, a serpente mergulhou na \u00e1gua e nadou at\u00e9 uma ilha, no meio do rio Tibre. L\u00e1 foi erguido um templo a Asclepios, e a epidemia desapareceu.<\/p>\n<p>A corrente m\u00e9dica religiosa, associada a Asclepios, foi muito popular e duradoura. Certamente existia na Gr\u00e9cia uma medicina pr\u00e1tica, lado a lado com essa Medicina religiosa. Como vimos, o pr\u00f3prio mito de Asclepios indica que ele utilizava ervas, po\u00e7\u00f5es e mesmo cirurgia.<\/p>\n<p>Mas era muito forte a cren\u00e7a de que as doen\u00e7as eram enviadas pelos deuses como puni\u00e7\u00e3o por algum erro e de que a cura dependia da benevol\u00eancia divina. Uma Medicina independente, naturalista, s\u00f3 poderia ter come\u00e7ado a se desenvolver quando a pr\u00f3pria religi\u00e3o come\u00e7ou a se enfraquecer. Vamos ver como isso aconteceu, na Gr\u00e9cia.<\/p>\n<p><strong>O SURGIMENTO DA MEDICINA NATURALISTA GREGA<\/strong><\/p>\n<p>O enfraquecimento das cren\u00e7as mitol\u00f3gicas gregas come\u00e7ou a ocorrer, na Gr\u00e9cia, aproximadamente no s\u00e9culo VI antes da era crist\u00e3. Nessa \u00e9poca, surgem os primeiros fil\u00f3sofos gregos importantes que conhecemos: Tales de Mileto, Anaximandro, Anax\u00edmenes, Her\u00e1clito, Pit\u00e1goras, e outros. Esses fil\u00f3sofos come\u00e7am a propor um novo tipo de conhecimento, que n\u00e3o prov\u00e9m da tradi\u00e7\u00e3o religiosa e sim do pr\u00f3prio racioc\u00ednio humano.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram conservados os escritos dos m\u00e9dicos anteriores a Hip\u00f3crates. No entanto, sabe-se alguma coisa sobre a medicina naturalista pr\u00e9-hipocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 o pensamento do m\u00e9dico Euryphon de Cnidos, que viveu em torno de 450 A. C. Ele atribuiu as doen\u00e7as a dist\u00farbios de alimenta\u00e7\u00e3o: \u201cQuando o ventre n\u00e3o se livra do alimento que foi tomado, s\u00e3o produzidos res\u00edduos que se elevam \u00e0 regi\u00e3o da cabe\u00e7a e ent\u00e3o produzem doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Quando, no entanto, o ventre \u00e9 esvaziado e limpo, a digest\u00e3o ocorre como deve (\u2026)\u201d.<\/p>\n<p>Essa id\u00e9ia de res\u00edduos impuros e a necessidade de evacuar e limpar os intestinos, \u00e9 uma prov\u00e1vel influ\u00eancia eg\u00edpcia. Note-se que \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o naturalista, bem diferente da id\u00e9ia de impurezas religiosas, utilizada pelos hebreus e indianos.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que os eg\u00edpcios tenham notado, atrav\u00e9s de sua pr\u00e1tica de embalsamamento, que ap\u00f3s a morte os cad\u00e1veres come\u00e7am a apodrecer a partir dos intestinos.<\/p>\n<p>Da\u00ed talvez tenha se originado a doutrina de que a principal causa da doen\u00e7a \u00e9 o apodrecimento dos alimentos no ventre. Esse apodrecimento produziria subst\u00e2ncias nocivas, que se espalhariam pelo corpo, atrav\u00e9s do sangue, produzindo doen\u00e7as. A doen\u00e7a poderia ser evitada, no entanto, pela limpeza dos intestinos ou por sangrias, retirando com o sangue as subst\u00e2ncias nocivas.<\/p>\n<p>Her\u00f3doto, no quinto s\u00e9culo antes da era crist\u00e3, informa que os eg\u00edpcios tinham o h\u00e1bito preventivo de purificar seus intestinos tr\u00eas vezes por m\u00eas, atrav\u00e9s de purgantes ou de clisteres. Durante tr\u00eas dias sucessivos, em cada m\u00eas, eles purgam seu corpo por meio de em\u00e9ticos e clisteres, o que \u00e9 feito por respeito \u00e0 sa\u00fade, j\u00e1 que eles acreditam que toda doen\u00e7a a que as pessoas est\u00e3o sujeitas \u00e9 causada pelas subst\u00e2ncias de que se alimentam.<\/p>\n<p>A lavagem intestinal atrav\u00e9s de clister parece ter passado do Egito para a Gr\u00e9cia. Atribuia-se a descoberta do clister (e de outros processos) \u00e0 observa\u00e7\u00e3o dos animais. Supunha-se que o p\u00e1ssaro \u00edbis (semelhante \u00e0 cegonha), com seu longo bico, fazia sua pr\u00f3pria lavagem intestinal. Observando-o, os eg\u00edpcios aprenderam a imitar essa pr\u00e1tica. Havia tamb\u00e9m uma conota\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica: o \u00edbis era um p\u00e1ssaro associado ao deus eg\u00edpcio da medicina, Toth.<\/p>\n<p>Os outros processos de purifica\u00e7\u00e3o do corpo tamb\u00e9m teriam sido aprendidos de animais. Contava-se que o hipop\u00f3tamo, quando se sente pesado, sai do Nilo, abre uma veia na pr\u00f3pria perna com um espinho, deixa correr o sangue e depois a fecha com lodo.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com a limpeza dos intestinos, que era uma obcess\u00e3o dos eg\u00edpcios, existiu tamb\u00e9m entre os gregos. A palavra grega \u201ckatharsis\u201d (de onde vem \u201ccatarse\u201d, purifica\u00e7\u00e3o) significava inicialmente a purifica\u00e7\u00e3o dos intestinos, atrav\u00e9s de purgantes ou clisteres.<\/p>\n<p>Uma outra id\u00e9ia central que se desenvolve nesse per\u00edodo e que aparece nos escritos de v\u00e1rios fil\u00f3sofos, como Pit\u00e1goras e Alcmeon, \u00e9 a de que a sa\u00fade \u00e9 o resultado do equil\u00edbrio e harmonia do corpo: excessos e desarmonia produzem doen\u00e7as. Os escritos dessa \u00e9poca n\u00e3o foram conservados, mas um autor grego posterior assim descreveu a teoria de Alcmeon:<\/p>\n<p>Alcmeon sustenta que o que estabelece a sa\u00fade \u00e9 o equil\u00edbrio dos poderes: \u00famido e seco, frio e quente, amargo e doce, e os demais. Pelo contr\u00e1rio, a supremacia de um deles \u00e9 a causa da doen\u00e7a, pois a supremacia de qualquer um \u00e9 destrutiva. A doen\u00e7a surge diretamente pelo excesso do calor ou frio, indiretamente pelo excesso ou defici\u00eancia de nutriente. E seu centro \u00e9 ou o sangue ou a medula ou o c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Ela [a doen\u00e7a] algumas vezes aparece nesses centros por causas externas: umidade de algum tipo, ou ambiente, ou exaust\u00e3o ou causas semelhantes. Sa\u00fade, por outro lado, \u00e9 a mistura proporcional das qualidades.<\/p>\n<p>Novamente, essa \u00e9 uma doutrina m\u00e9dica totalmente naturalista, ou seja, sem a interven\u00e7\u00e3o de conceitos sobrenaturais, m\u00e1gicos ou religiosos. Teorias semelhantes, que interpretavam a doen\u00e7a como ruptura do equil\u00edbrio de diversas subst\u00e2ncias ou poderes, surgiram tamb\u00e9m em outros locais, na Antig\u00fcidade: na China e na \u00cdndia, por exemplo.<\/p>\n<p>Na filosofia chinesa tradicional, supunha-se a exist\u00eancia de cinco elementos b\u00e1sicos (madeira, fogo, terra, metal e \u00e1gua), que estavam associados \u00e0s cinco cores, cinco esta\u00e7\u00f5es do ano, e cinco \u00f3rg\u00e3os do corpo humano.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a era considerada como uma desarmonia dos cinco \u00f3rg\u00e3os, produzida pela interfer\u00eancia do clima, planetas, etc. Tamb\u00e9m na \u00cdndia, em livros m\u00e9dicos escritos no in\u00edcio da era crist\u00e3, s\u00e3o encontradas id\u00e9ias semelhantes. Mas n\u00e3o se sabe se existe alguma liga\u00e7\u00e3o entre a teoria grega e as de outras civiliza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Na escola pitag\u00f3rica, dava-se grande import\u00e2ncia \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o para conservar a sa\u00fade ou curar doen\u00e7as. A dieta normal era vegetariana, certos alimentos (como lentilhas) eram proibidos e recomendava-se alguns outros, como couve e aniz, como importantes para conservar a sa\u00fade. A terapia pitag\u00f3rica parece ter se baseado principalmente em dieta, exerc\u00edcios f\u00edsicos, m\u00fasica e medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entre os pitag\u00f3ricos, tamb\u00e9m deve ter existido a id\u00e9ia de que a sa\u00fade resulta do equil\u00edbrio f\u00edsico interno. Esse conceito aparece em uma obra de Plat\u00e3o (o \u201cTimeu\u201d), em que ele descreve as concep\u00e7\u00f5es de um fil\u00f3sofo pitag\u00f3rico:<\/p>\n<p>Todos podem ver de onde surgem as doen\u00e7as. H\u00e1 quatro naturezas a partir da qual se forma o corpo: terra e fogo, \u00e1gua e ar. O excesso ou falta destes, contrariamente \u00e0 natureza, ou a mudan\u00e7a de qualquer um deles de seu lugar natural para outro ou a transforma\u00e7\u00e3o de algum deles em um tipo errado, ou qualquer outra irregularidade semelhante, produz desordens e doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Quando cada processo ocorre em sua ordem, resulta comumente a sa\u00fade; quando na ordem oposta, doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Id\u00e9ias como essas ser\u00e3o centrais no pensamento m\u00e9dico de Hip\u00f3crates, o mais famoso m\u00e9dico grego da Antig\u00fcidade. Sup\u00f5e-se que ele viveu em torno do ano 400 antes da era crist\u00e3.<\/p>\n<p>Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles falam sobre ele como sendo o mais importante m\u00e9dico da \u00e9poca. Tornou-se uma figura lend\u00e1ria, e posteriormente foram inventadas hist\u00f3rias sobre ele, como a de que seria um descendente de H\u00e9rcules e de Asclepios.<\/p>\n<p>Existe uma grande quantidade de livros que sobreviveram at\u00e9 hoje, que s\u00e3o atribu\u00eddos a Hip\u00f3crates. Esse conjunto de obras \u00e9 chamado \u201cCole\u00e7\u00e3o Hipocr\u00e1tica\u201d (ou, em latim: \u201cCorpus Hippocraticum\u201d). S\u00e3o muitos livros, de estilos diferentes, que n\u00e3o podem ter sido escritos por uma mesma pessoa, pois eles se contradizem e criticam uns aos outros. Eles foram reun\u00eddos quando foi criada a grande biblioteca de Alexandria, um s\u00e9culo depois da \u00e9poca de Hip\u00f3crates. Pode ser que nenhum deles tenha sido escrito pelo verdadeiro Hip\u00f3crates. Muitos historiadores j\u00e1 tentaram identificar as \u00e9pocas e autores dessas obras, mas nenhum desses resultados \u00e9 seguro. Por isso, vamos nos referir simplesmente \u00e0s \u201cobras de Hip\u00f3crates\u201d, sem no entanto querer dizer que essas obras foram escritas por uma \u00fanica pessoa chamada Hip\u00f3crates.<\/p>\n<p>A medicina hipocr\u00e1tica \u00e9 totalmente naturalista, ou seja, nunca leva em conta causas sobrenaturais. Esse ponto de vista se torna especialmente claro, por exemplo, em uma obra que discute a epilepsia, que era chamada de \u201cdoen\u00e7a sagrada\u201d:<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a chamada \u201csagrada\u201d: ela me parece n\u00e3o ser mais divina nem sagrada do que outras doen\u00e7as, mas tem uma causa natural da qual ela se origina, como as outras perturba\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os homens consideram sua natureza e causa como divinas por ignor\u00e2ncia e espanto, pois ela n\u00e3o \u00e9 como as outras doen\u00e7as. E essa no\u00e7\u00e3o de sua natureza divina \u00e9 mantida pela incapacidade de compreend\u00ea-la e pela simplicidade do modo pelo qual ela \u00e9 curada, pois os homens se libertam dela por purifica\u00e7\u00f5es e encantamentos.<\/p>\n<p>A obra de Hip\u00f3crates recusa toda explica\u00e7\u00e3o sobrenatural e associa a epilepsia a problemas heredit\u00e1rios do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Uma id\u00e9ia b\u00e1sica que aparece em muitas obras de Hip\u00f3crates \u00e9 a de que o organismo humano \u00e9 composto por um certo n\u00famero de l\u00edquidos ou \u201chumores\u201d.<\/p>\n<p>Quando esses humores est\u00e3o distribu\u00eddos corretamente pelo corpo, e em quantidades corretas, existe a sa\u00fade. Mas quando um deles est\u00e1 em excesso ou acumulado em um local ou n\u00e3o tem as propriedades corretas, ocorre a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A sa\u00fade \u00e9, assim, um estado de harmonia e a doen\u00e7a corresponde a uma desarmonia interna. Em grande parte, a sa\u00fade e a doen\u00e7a resultam da alimenta\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 dos alimentos que se originam todas as subst\u00e2ncias do corpo, incluindo os humores. Os alimentos precisam ser transformados nas subst\u00e2ncias corporais, e isso ocorre atrav\u00e9s de seu \u201ccozimento\u201d, digest\u00e3o ou \u201cmatura\u00e7\u00e3o\u201d no organismo. Se o alimento n\u00e3o \u00e9 bem \u201ccozido\u201d no corpo, resultam humores inadequados e a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O processo de cura exige que esses humores sejam \u201ccozidos\u201d e que os excessos sejam excretados pela urina, suor, excrementos ou catarro. O tratamento \u00e9 feito principalmente pela dieta, exerc\u00edcios f\u00edsicos, banhos quentes, assim como rem\u00e9dios destinados a retirar os humores em excesso (como laxativos ou vomit\u00f3rios).<\/p>\n<p>Em algumas das obras hipocr\u00e1ticas, os rem\u00e9dios s\u00e3o tamb\u00e9m vistos como devendo ser dotados de propriedades opostas \u00e0s dos humores que est\u00e3o causando a doen\u00e7a. Nesse caso, os rem\u00e9dios poderiam anular os efeitos desses humores no corpo. No entanto, em outras obras, critica-se esse m\u00e9todo de terapia.<\/p>\n<p>Nas obras hipocr\u00e1ticas, n\u00e3o se descreve de modo totalmente claro as id\u00e9ias que depois se tornaram cl\u00e1ssicas, como a doutrina dos humores. Foi depois, a partir de Galeno, que passaram a ser aceitos como fundamentais os quatro humores: sangue, fleugma (catarro), bilis negra e bilis amarela. Nas obras hipocr\u00e1ticas esses humores aparecem, mas h\u00e1 tamb\u00e9m men\u00e7\u00e3o a outros, como o salgado, o humor amargo, etc.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a se manifesta quando um dos humores n\u00e3o \u00e9 cozido adequadamente pelo corpo, permanencendo \u201ccru\u201d. Ent\u00e3o, ele se separa dos demais e produz um desequil\u00edbrio.<\/p>\n<p>A degenera\u00e7\u00e3o dos humores ocorre ou por dieta incorreta, ou por alguma mudan\u00e7a nas condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas. Na obra hipocr\u00e1tica \u201cSobre a natureza do homem\u201d aparece uma descri\u00e7\u00e3o bastante clara dessas id\u00e9ias:<\/p>\n<p>O corpo do homem tem dentro dele sangue, fleugma, b\u00edlis amarela e b\u00edlis negra. Eles constituem a natureza desse corpo e por eles surge a dor ou a sa\u00fade.<\/p>\n<p>Ocorre a sa\u00fade mais perfeita quando esses elementos est\u00e3o em propor\u00e7\u00f5es corretas um para com o outro em rela\u00e7\u00e3o a composi\u00e7\u00e3o, poder e quantidade, e quando eles est\u00e3o perfeitamente misturados.<\/p>\n<p>Sente-se dor quando um desses elementos est\u00e1 em falta ou excesso, ou se isola no corpo sem se compor com todos os outros.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a concep\u00e7\u00e3o de quatro humores fundamentais tenha surgido a partir da teoria dos quatro elementos de Emp\u00e9docles. Ele ensinava que tudo \u00e9 constitu\u00eddo a partir de quatro elementos b\u00e1sicos: terra, fogo, \u00e1gua e ar. Essa id\u00e9ia ser\u00e1 depois aproveitada por v\u00e1rios outros autores, assumindo grande import\u00e2ncia na medicina.<\/p>\n<p>No decorrer da doen\u00e7a, o organismo procura \u201ccozinhar\u201d o humor que est\u00e1 cru, atrav\u00e9s do calor natural, que pode se intensificar (manifestando-se pela febre). A febre n\u00e3o \u00e9, portanto, um sinal negativo, mas um sinal positivo de rea\u00e7\u00e3o do organismo. Durante a doen\u00e7a, existe uma luta entre o poder da doen\u00e7a e o poder do corpo. O processo de cozimento ou matura\u00e7\u00e3o do humor cru termina por uma \u201ccrise\u201d, que pode ser favor\u00e1vel ou negativa. Para acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, \u00e9 por isso de grande import\u00e2ncia examinar todo tipo de excremento ou secre\u00e7\u00e3o (v\u00f4mito, fezes, urina, catarro, suor, etc.).<\/p>\n<p>O doente pode se recuperar com a expuls\u00e3o ou transforma\u00e7\u00e3o do humor cru; pode morrer; ou pode haver uma recupera\u00e7\u00e3o parcial, quando o humor cru ou parcialmente cozido fica isolado sob a forma de um abcesso, de uma inflama\u00e7\u00e3o ou incha\u00e7o localizado.<\/p>\n<p>O seguinte exemplo da descri\u00e7\u00e3o de Hip\u00f3crates mostra o papel da expuls\u00e3o dos humores:<\/p>\n<p>(\u2026) houve quatro sintomas principais que indicavam a recupera\u00e7\u00e3o: uma hemorragia adequada pelas narinas; descarga copiosa de urina com muito sedimento de car\u00e1ter adequado; intestinos desarranjados com evacua\u00e7\u00f5es de bilis no momento certo; aparecimento de caracter\u00edsticas de disenteria. Em muitos casos a crise surgia n\u00e3o apenas com um desses sintomas mas, na maioria dos casos, com todos eles e os pacientes pareciam estar pior; mas todos os que tinham esses sintomas melhoravam.<\/p>\n<p>As t\u00e9cnicas terap\u00eauticas descritas nos textos hipocr\u00e1ticos se baseiam nesse tipo geral de concep\u00e7\u00e3o. Em certos est\u00e1gios da doen\u00e7a, deve-se ajudar o organismo atrav\u00e9s de laxativos, vomit\u00f3rios, expectorantes, diur\u00e9ticos, regime, sangrias. Em outras fases, deve-se deixar que o organismo atue sozinho.<\/p>\n<p>A teoria hipocr\u00e1tica de doen\u00e7a e cura n\u00e3o utiliza nenhuma suposi\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de cont\u00e1gio. A causa da doen\u00e7a \u00e9 sempre algo associado \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, ao clima, \u00e0s caracter\u00edsticas da regi\u00e3o, ao modo de vida, \u00e0 idade e sexo da pessoa. A hepatite, por exemplo, \u00e9 causada pela b\u00edlis negra e ocorre no outono. O tifo ocorre no ver\u00e3o, quando a b\u00edlis \u00e9 colocada em movimento.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s esta\u00e7\u00f5es, se o inverno for seco e soprar vento do norte, e a primavera for \u00famida e soprar vento do sul, haver\u00e1 necessariamente no ver\u00e3o febres agudas, doen\u00e7as dos olhos e disenteria, especialmente entre as mulheres e nos que tenham constitui\u00e7\u00e3o \u00famida.<\/p>\n<p>Os escritos hipocr\u00e1ticos nunca sup\u00f5em que alguma coisa capaz de produzir doen\u00e7as penetra dentro do doente, ou que a doen\u00e7a possa passar de uma pessoa para outra.<\/p>\n<p>Quanto muitas pessoas adquirem a mesma doen\u00e7a, a causa \u00e9 alguma mudan\u00e7a do ambiente, que afetou a todos do mesmo modo.<\/p>\n<p>Nota-se especialmente esse tipo de concep\u00e7\u00e3o em uma obra hipocr\u00e1tica denominada \u201cSobre as epidemias\u201d. Nessa obra, o autor se d\u00e1 ao trabalho de descrever cuidadosamente o clima, os sintomas da doen\u00e7a e a sua evolu\u00e7\u00e3o, mas em nenhum instante fala sobre cont\u00e1gio. Cada epidemia descrita nesta obra tem uma \u201cconstitui\u00e7\u00e3o\u201d particular, associada \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ambientais que a produziram.<\/p>\n<p>Em Thasus, aproximadamente no equin\u00f3cio de outono, quando as Pl\u00eaiades ainda apareciam [isto \u00e9, entre 21 de setembro e 8 de novembro], houve chuvas suaves cont\u00ednuas e abundantes, com ventos do sul.<\/p>\n<p>O inverno teve predomin\u00e2ncia [de ventos] do sul, com poucos ventos do norte. Houve seca. Em geral, o inverno se assemelhou \u00e0 primavera.<\/p>\n<p>A primavera foi fria e teve predomin\u00e2ncia do sul, poucas chuvas. O ver\u00e3o, em sua maior parte, enevoado, sem chuva; ventos da esta\u00e7\u00e3o foram raros e curtosl, soprando de modo irregular.<\/p>\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o anterior teve predomin\u00e2ncia do norte, enquanto que a tend\u00eancia geral [nesse ano] foi de ventos do sul e secas. Por isso, no in\u00edcio da primavera, houve alguns poucos casos de febre ardente, todos muito leves; em alguns houve hemorragia, mas nenhum foi fatal. Muitos tiveram incha\u00e7\u00f5es ao lado das orelhas, em muitos casos dos dois lados, em geral sem febre e n\u00e3o necessitando ficar acamados. (\u2026)<\/p>\n<p>Essas condi\u00e7\u00f5es ocorreram em crian\u00e7as, jovens e adultos; principalmente os que se exercitavam em gin\u00e1sios e que lutavam. Raramente atacou mulheres. (\u2026)<\/p>\n<p>Esta descri\u00e7\u00e3o de uma \u201cepidemia\u201d \u00e9 t\u00edpica da obra hipocr\u00e1tica. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma discuss\u00e3o detalhada sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o clima e os sintomas, embora \u00e0s vezes se possa adivinhar a conex\u00e3o que se poderia tentar estabelecer, utilizando a teoria dos humores. E, como j\u00e1 foi dito, em nenhum caso aparece qualquer refer\u00eancia \u00e0 transmiss\u00e3o de doen\u00e7as de uma pessoa para outra.<\/p>\n<p>Em que sentido, ent\u00e3o, se pode falar aqui sobre \u201cepidemias\u201d? \u00c9 preciso recordar o significado primitivo dessa palavra. \u201cEpidemia\u201d era uma palavra inicialmente utilizada para indicar a resid\u00eancia tempor\u00e1ria em uma cidade, de uma pessoa que n\u00e3o era daquele local. Pelo contr\u00e1rio, \u201cendemia\u201d se referia \u00e0 resid\u00eancia permanente de algu\u00e9m nativo daquele mesmo local. Essas palavras n\u00e3o diziam respeito a doen\u00e7as e n\u00e3o tinham nenhuma conota\u00e7\u00e3o de algo que passasse de uma pessoa para outra. Assim, utilizando o significado original da palavra, o texto hipocr\u00e1tico est\u00e1 descrevendo corretamente como \u201cepidemia\u201d uma doen\u00e7a que n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3pria de um local, mas que permanece durante algum tempo naquela cidade.<\/p>\n<p><strong>A PESTE DE ATENAS:\u00a0<\/strong>O CONT\u00c1GIO NA TRADI\u00c7\u00c3O GREGA<\/p>\n<p>Vimos que, na teoria hipocr\u00e1tica, as epidemias eram causadas por algum tipo de influ\u00eancia (em geral, clim\u00e1tica) que atingia ao mesmo tempo toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o ha-via men\u00e7\u00e3o ao cont\u00e1gio. Em contraste com a vis\u00e3o \u201ccient\u00edfica\u201d de Hip\u00f3crates, a popula-\u00e7\u00e3o em geral admitia a transmiss\u00e3o de doen\u00e7as de uma pessoa para outra.<\/p>\n<p>Pode-se ob-servar isso na famosa e impressionante descri\u00e7\u00e3o que o historiador Tuc\u00eddides fez da peste que assolou Atenas.<\/p>\n<p>A peste descrita por Tuc\u00eddides ocorreu no ano 430 antes da era crist\u00e3, logo ap\u00f3s a invas\u00e3o da cidade pelos espartanos, durante a guerra do Peloponeso.<\/p>\n<p>Havia not\u00edcia de que a doen\u00e7a j\u00e1 havia ocorrido antes em outros locais, mas em Atenas a epidemia foi muito mais grave, matando milhares de atenienses.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a se estabeleceu repentina-mente e atingiu rapidamente muitas pessoas.<\/p>\n<p>Tuc\u00eddides conta que os m\u00e9dicos ignoravam como tratar essa doen\u00e7a e que ne-nhuma tentativa de tratar os doentes tinha sucesso. As pessoas recorreram \u00e0s preces e consultas aos or\u00e1culos, mas isso de nada serviu. Inicialmente, os atenienses pensaram que os invasores haviam envenenado os po\u00e7os de \u00e1gua, pois a regi\u00e3o onde a doen\u00e7a surgiu n\u00e3o tinha fontes, e utilizava po\u00e7os.<\/p>\n<p>Mas logo a doen\u00e7a se espalhou pelas outras partes de Atenas, e ficou claro que n\u00e3o se tratava de envenenamento, mas de uma terr\u00ed-vel peste.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Tuc\u00eddides foi acometido pela peste, mas sobreviveu. Ele n\u00e3o se preo-cupa em especular sobre a causa da doen\u00e7a, mas descreve com grande cuidado os seus sintomas:<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m j\u00e1 estava doente antes, sua enfermidade se transformava na peste. Os outros, sem nenhum sinal de aviso, em plena sa\u00fade, eram tomados inicialmente por um forte calor na cabe\u00e7a, vermelhid\u00e3o e inflama\u00e7\u00e3o dos olhos. As partes in-ternas, como a garganta e a l\u00edngua, ficavam sanguinolentas e emitiam um h\u00e1lito f\u00e9tido e repugnante. Esses sintomas eram seguidos por espirros e rouquid\u00e3o, e logo depois a doen\u00e7a descia ao peito, manifestando-se por uma tosse violenta. Depois, fixava-se na boca do est\u00f4mago, revolvendo-o; e seguiam-se descargas de b\u00edlis de todos os tipos catalogados pelos m\u00e9dicos, acompanhados por sofrimento atroz.<\/p>\n<p>A maior parte dos doentes era tomada por \u00e2nsia de v\u00f4mito, que provocava fortes espasmos. Em alguns isso logo cessava, em outros demorava. O corpo, na superf\u00edcie, n\u00e3o dava a impress\u00e3o de um calor excessivo, nem ficava p\u00e1lido, mas um pouco avermelhado, l\u00edvido, e rompiam pequenas \u00falceras e p\u00fastulas. Os \u00f3rg\u00e3os internos, no entanto, queimavam tanto que os enfermos n\u00e3o suportavam o contato das roupas e tecidos, mesmo os mais finos; desnudavam-se completamente e queriam jogar-se na \u00e1gua fria. E muitos de fato o faziam, jogando-se nos po\u00e7os, oprimidos por uma sede insaci\u00e1vel; mas n\u00e3o fazia diferen\u00e7a se bebiam muito ou pouco.<\/p>\n<p>A impossibilidade de repousar e de dormir os atormentava continuamente. O corpo inicialmente n\u00e3o se desgastava, mas resistia ao trabalho da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Os que morriam ap\u00f3s sete ou oito dias ainda conservavam uma certa for\u00e7a. Mas os que passavam desse est\u00e1gio, quando a doen\u00e7a descia ao ventre, tinham grandes ulcera\u00e7\u00f5es acompanhadas por fortes diarr\u00e9ias e por causa desta muitos morriam de fraqueza.<\/p>\n<p>A terr\u00edvel doen\u00e7a, quando n\u00e3o matava, produzia graves danos e mutila\u00e7\u00f5es nas m\u00e3os, p\u00e9s e \u00f3rg\u00e3os genitais. Alguns sobreviventes ficavam cegos. Outros, perdiam toda a lembran\u00e7a de seu passado, n\u00e3o conhecendo mais seus familiares. Os cad\u00e1veres ficavam jogados pelo ch\u00e3o. Os p\u00e1ssaros e os animais que normalmente se alimentariam desses corpos, ficavam longe deles, ou, se os comiam, morriam logo depois.<\/p>\n<p>Temendo o cont\u00e1gio, os pr\u00f3prios parentes abandonavam as pessoas doentes. Segundo Tuc\u00eddides, as pessoas que ficavam doentes e sobreviviam n\u00e3o eram mais atacadas pela peste e podiam atender sem perigo aos doentes.<\/p>\n<p>Tantas pessoas morriam que j\u00e1 n\u00e3o se conseguia mais enterr\u00e1-las ou queimar adequadamente seus corpos. A morte atingia a todos e a proximidade do fim fazia com que as pessoas se tornassem imediatistas, durante a praga. Ningu\u00e9m mais se importava com as leis, com a honra ou a religi\u00e3o. Todos queriam apenas aproveitar da maneira mais agrad\u00e1vel poss\u00edvel os seus \u00faltimos momentos.<\/p>\n<p>H\u00e1 estimativas de que tenha morrido a metade ou mais da metade dos habitantes de Atenas.<\/p>\n<p>A peste desapareceu como havia surgido: sem que se soubesse sua causa ou como cur\u00e1-la. Parecia algo sobrenatural. Pouco depois da peste, os atenienses colocaram no altar uma est\u00e1tua de bronze de Atenea Hygieia, a quem foi atribu\u00edda a salva\u00e7\u00e3o da cidade.<\/p>\n<p>Na descri\u00e7\u00e3o de Tuc\u00eddides, percebe-se claramente que ele acreditava que a peste era transmiss\u00edvel.<\/p>\n<p>Note-se que a id\u00e9ia de que a doen\u00e7a passava de uma pessoa para outra n\u00e3o \u00e9 apenas uma hip\u00f3tese do pr\u00f3prio Tuc\u00eddides. Ele descreve que as pessoas abandonavam os doentes por medo de adquirirem a peste.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente, por essa descri\u00e7\u00e3o, que o conceito de cont\u00e1gio da peste era extremamente difundido entre as pessoas.<\/p>\n<p>Provavelmente, Hip\u00f3crates presenciou essa peste. H\u00e1 narrativas de que ele pr\u00f3prio teria acabado com ela, acendendo grandes fogueiras por toda a cidade de Atenas (ou seja, mudando o seu clima, de modo artificial). Por\u00e9m, se vivenciou essa assustadora experi\u00eancia, ela n\u00e3o lhe passou a id\u00e9ia de cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Por que motivo Hip\u00f3crates n\u00e3o aceitou a concep\u00e7\u00e3o popular de cont\u00e1gio nas epidemias? N\u00e3o podemos sab\u00ea-lo com certeza, pois ele nem chega a discutir essa id\u00e9ia.<\/p>\n<p>Mas pode-se tentar compreender sua posi\u00e7\u00e3o com base na atitude geral que \u00e9 mostrada nos textos hipocr\u00e1ticos. De um modo geral, nesses livros n\u00e3o se tenta adivinhar aquilo que n\u00e3o pode ser observado.<\/p>\n<p>Aquilo que se pode conhecer de uma doen\u00e7a \u00e9 o que \u00e9 mostrado pelos sintomas, e pouco mais al\u00e9m disso. Ao inv\u00e9s de especular sobre o que n\u00e3o se v\u00ea, os textos hipocr\u00e1ticos se concentram nos aspectos que podem ser mais \u00fateis para a pr\u00e1tica m\u00e9dica: descri\u00e7\u00e3o dos sintomas, desenvolvimento da doen\u00e7a, progn\u00f3stico, tratamento.<\/p>\n<p>Essa atitude emp\u00edrica pode ter sido um dos motivos para evitar qualquer discuss\u00e3o sobre uma coisa invis\u00edvel que pudesse estar passando de um doente para uma pessoa sadia, transmitindo a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Pode ser tamb\u00e9m que essa no\u00e7\u00e3o de cont\u00e1gio parecesse a Hip\u00f3crates uma mera supersti\u00e7\u00e3o, como as no\u00e7\u00f5es de magia e religi\u00e3o com as quais ela sempre esteve associada na Antig\u00fcidade.<\/p>\n<p>Como a medicina hipocr\u00e1tica \u00e9 decididamente naturalista e despreza qualquer explica\u00e7\u00e3o sobrenatural, talvez a id\u00e9ia de cont\u00e1gio tenha sido recusada e atirada ao lixo juntamente com as outras id\u00e9ias supersticiosas com as quais estava associada.<\/p>\n<p>Pode ter havido ainda um terceiro motivo. A concep\u00e7\u00e3o geral de sa\u00fade e doen\u00e7a de Hip\u00f3crates \u00e9 incompat\u00edvel com a id\u00e9ia de cont\u00e1gio. Se a sa\u00fade \u00e9 um equil\u00edbrio dos humores, como esse equil\u00edbrio poderia ser rompido pelo contato f\u00edsico com outra pessoa? Como um desequil\u00edbrio dos humores em um doente pode passar para outro? \u00c9 dif\u00edcil imaginar uma coisa desse tipo. Pode ter sido, portanto, por motivos te\u00f3ricos, que o cont\u00e1gio foi exclu\u00eddo do pensamento m\u00e9dico de Hip\u00f3crates.<\/p>\n<p><strong>A SITEMATIZA\u00c7\u00c3O DA MEDICINA RACIONALISTA GREGA<\/strong><\/p>\n<p>Um dos mais importantes fil\u00f3sofos de todos os tempos foi, sem d\u00favida, Arist\u00f3teles. Ele viveu em uma \u00e9poca pouco posterior a Hip\u00f3crates. Seu pai era m\u00e9dico, e ele deve ter adquirido certo conhecimento da medicina da \u00e9poca. Embora nunca tenha se dedicado mais especialmente a esse estudo, sua obra filos\u00f3fica teve grande influ\u00eancia indireta nas teorias m\u00e9dicas posteriores.<\/p>\n<p>Para Hip\u00f3crates, a medicina era uma arte ou t\u00e9cnica, um conhecimento emp\u00edrico \u2013 isto \u00e9, adquirido pela experi\u00eancia, pela observa\u00e7\u00e3o, por tentativa.<\/p>\n<p>Embora houvesse uma vaga teoria por tr\u00e1s dos ensinamentos de Hip\u00f3crates, suas obras nunca d\u00e3o grande \u00eanfase \u00e0 tentativa de explicar os sintomas das doen\u00e7as atrav\u00e9s de causas internas, por exemplo.<\/p>\n<p>Parece mais importante fazer previs\u00f5es corretas e obter sucesso no tratamento do que compreender o que est\u00e1 acontecendo dentro do doente.<\/p>\n<p>Esta atitude geral da medicina hipocr\u00e1tica era coerente com a vis\u00e3o de Plat\u00e3o a respeito do conhecimento. Segundo Plat\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se obter um conhecimento racional, exato, das coisas que pertencem ao mundo material. Qualquer concep\u00e7\u00e3o sobre o mundo que percebemos \u00e0 nossa volta, para Plat\u00e3o, \u00e9 apenas uma opini\u00e3o mais ou menos prov\u00e1vel e que nunca pode ser segura. Assim, quando se trata do mundo material, torna-se mais importante a pr\u00e1tica do que a teoria.<\/p>\n<p>No entanto, essa vis\u00e3o sobre o conhecimento do mundo se altera completamente com Arist\u00f3teles. Ele defende a possibilidade de um conhecimento cient\u00edfico, racional, seguro, exato, do mundo material, pelo estudo das causas dos fen\u00f4menos.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles diferencia claramente o conhecimento, propriamente dito, da t\u00e9cnica, considerando esta \u00faltima como inferior, por n\u00e3o ter uma base s\u00f3lida. A experi\u00eancia pr\u00e1tica, a observa\u00e7\u00e3o, as generaliza\u00e7\u00f5es, s\u00e3o para Arist\u00f3teles o ponto de partida do conhecimento cient\u00edfico, mas n\u00e3o o seu final. O final seria um conhecimento seguro, baseado na intui\u00e7\u00e3o das verdadeiras causas dos fen\u00f4menos observados.<\/p>\n<p>A enorme influ\u00eancia de Arist\u00f3teles fez com que, entre as pessoas com forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica, o mero conhecimento pr\u00e1tico ou emp\u00edrico passasse a ser desprezado.<\/p>\n<p>O verdadeiro conhecimento tinha que ser sistem\u00e1tico, exato, formando uma estrutura demonstrativa semelhante \u00e0 matem\u00e1tica. O ponto central desse conhecimento era a etiologia \u2013 o conhecimento da causa (\u201caitia\u201d, em grego, \u00e9 causa) . A pr\u00f3pria medicina deveria ser um sistema filos\u00f3fico racional, para ser um conhecimento e n\u00e3o uma mera arte.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que a medicina de Hip\u00f3crates n\u00e3o satisfazia a esse ideal. Por isso, um importante ramo da medicina p\u00f3s-hipocr\u00e1tica procurou fornecer uma base racional, sistem\u00e1tica, para o pensamento m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Essa base exigia uma teoria elaborada, capaz de explicar a causa dos sintomas das doen\u00e7as e dos efeitos dos procedimentos terap\u00eauticos.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria filosofia de Arist\u00f3teles forneceu uma base geral para a medicina racionalista. Ele desenvolveu e sistematizou a doutrina dos quatro elementos de Emp\u00e9docles, analisou a rela\u00e7\u00e3o entre os elementos e as quatro qualidades b\u00e1sicas (quente-frio, \u00famido-seco) e estabeleceu rela\u00e7\u00f5es entre essas qualidades e elementos com os humores e com alguns \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>Os quatro elementos materiais b\u00e1sicos (fogo, ar, \u00e1gua e terra) representam, no pensamento grego, aquilo que chamamos de estados da mat\u00e9ria: \u201c\u00e1gua\u201d n\u00e3o se refere apenas \u00e0 \u00e1gua propriamente dita, mas a qualquer l\u00edquido (vinho, vinagre, \u00f3leo, etc.), assim como \u201cterra\u201d representa qualquer s\u00f3lido. A \u00e1gua, ao se congelar, vira terra (gelo); ao ser aquecida, vira ar (vapor); e o fogo \u00e9 o estado de maior aquecimento do ar, que se torna luminoso. Essas quatro possibilidades esgotam tudo o que se conhecia e serviam para descrever todos os tipos de materiais da natureza.<\/p>\n<p>Segundo Arist\u00f3tles, existem quatro poderes b\u00e1sicos, que formam dois pares de opostos: quente-frio, \u00famido-seco. Uma coisa n\u00e3o pode ser quente e fria ao mesmo tempo, nem \u00famida e seca ao mesmo tempo; essas qualidades s\u00e3o opostas. Mas podem existir as combina\u00e7\u00f5es de quente com \u00famido e seco, e de frio com \u00famido e seco.<\/p>\n<p><strong>Isso forma quatro e somente quatro possibilidades:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Quente e seco<br \/>\nQuente e \u00famido<br \/>\nFrio e seco<br \/>\nFrio e \u00famido<\/p><\/blockquote>\n<p>e cada uma dessas quatro combina\u00e7\u00f5es corresponde a um dos elementos b\u00e1sicos da mat\u00e9ria. O fogo \u00e9 quente e seco; o ar \u00e9 quente e \u00famido (pois, como j\u00e1 foi dito, o ar \u00e9 equivalente ao vapor d\u2019\u00e1gua); a \u00e1gua \u00e9 fria e \u00famida; a terra \u00e9 fria e seca.<\/p>\n<p>Esta an\u00e1lise permite compreender, \u201cteoricamente\u201d, por que existem quatro e apenas quatro elementos: o motivo \u00e9 que existem quatro e apenas quatro combina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis das qualidades b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>Essas rela\u00e7\u00f5es podem ser representadas por meio de um diagrama, como o que vemos ao lado:<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles estabelece rela\u00e7\u00f5es entre os quatro elementos e os quatro humores do corpo humano. O sangue \u00e9 quente e \u00famido, podendo ser associado ao ar; a fleuma \u00e9 fria e \u00famida, podendo ser associada \u00e0 \u00e1gua; a b\u00edlis negra \u00e9 considerada fria e associada \u00e0 terra, enquanto a b\u00edlis amarela \u00e9 \u201cardente\u201d e associada ao fogo.<\/p>\n<p>Note-se que existe tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o bastante razo\u00e1vel entre as cores dos humores e os quatro elementos: a b\u00edlis amarela tem a cor do fogo; a b\u00edlis negra tem a cor do solo; a fleuma tem a cor da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Apenas no caso do sangue n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o com a cor do ar.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles n\u00e3o desenvolveu uma teoria m\u00e9dica; mas sua concep\u00e7\u00e3o geral de ci\u00eancia e seus princ\u00edpios b\u00e1sicos sobre a natureza dos componentes org\u00e2nicos serviram de base para os m\u00e9dicos que, ap\u00f3s ele, tentaram formular uma medicina racionalista.<\/p>\n<p>Entre 350 e 250 antes da era crist\u00e3, houve v\u00e1rios m\u00e9dicos importantes que seguiram esse caminho. Os mais conhecidos s\u00e3o Diocles, Praxagoras e Mnesitheos.<\/p>\n<p>Eles enfatizam a rela\u00e7\u00e3o entre os quatro humores, os quatro elementos e as quatro qualidades b\u00e1sicas. Procuram dar as causas das diversas doen\u00e7as, atribuindo-as \u00e0s perturba\u00e7\u00f5es desses humores; e recomendam tratamentos baseados na teoria, de um modo muito mais sistem\u00e1tico do que havia sido feito pelos escritos hipocr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>De acordo com essa tradi\u00e7\u00e3o, a melancolia, por exemplo, \u00e9 produzida quando a b\u00edlis negra se acumula em torno do cora\u00e7\u00e3o. Resfriados violentos s\u00e3o devidos ao ac\u00famulo de uma fleuma muito fria. A paralisia \u00e9 devida ao bloqueio das art\u00e9rias pela fleuma fria.<\/p>\n<p>Uma vez que se conhe\u00e7a cada doen\u00e7a, pode-se estabelecer racionalmente o processo de sua cura. Se um humor est\u00e1 em quantidade excessiva, ele deve ser reduzido pela expuls\u00e3o, com diur\u00e9ticos, vomit\u00f3rios, sangrias, clisteres, etc. Se o que est\u00e1 desequilibrado n\u00e3o \u00e9 a quantidade, mas a qualidade de um humor (por exemplo, se a fleuma est\u00e1 \u201cmuito fria\u201d), a terapia deve consistir em alterar essa qualidade, pelo seu oposto.<\/p>\n<p>Aquilo que est\u00e1 frio deve ser aquecido, o que est\u00e1 seco deve se tornar \u00famido, etc. O \u201caquecimento\u201d pode ser produzido, por exemplo, por banhos quentes ou banhos de vapor, por alimentos \u201cquentes\u201d (com muito tempero), pelo vinho (que d\u00e1 sensa\u00e7\u00e3o de calor), etc.<\/p>\n<p>Em toda essa teoria, n\u00e3o h\u00e1 lugar para um conceito como o de cont\u00e1gio. As influ\u00eancias externas podem produzir doen\u00e7as apenas atrav\u00e9s do frio, calor, umidade ou secura.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode imaginar que o toque de um doente possa alterar essas qualidades em uma pessoa s\u00e3 e, por isso, o cont\u00e1gio \u00e9 impens\u00e1vel, irracional e n\u00e3o poderia existir. Na corrente m\u00e9dica racionalista, portanto, as epidemias s\u00f3 podem ser devidas a uma influ\u00eancia externa (clim\u00e1tica) que atinge ao mesmo tempo um grande grupo de pessoas. Sendo mais sistem\u00e1tica do que o pensamento hipocr\u00e1tico, a medicina racionalista se torna ainda mais fortemente incompat\u00edvel com as \u201csupersti\u00e7\u00f5es\u201d sobre cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>A medicina racionalista n\u00e3o foi a \u00fanica corrente m\u00e9dica posterior a Hip\u00f3crates.<\/p>\n<p>Houve outras teorias opostas e existiu tamb\u00e9m uma importante corrente emp\u00edrica que negou totalmente a possibilidade de se formular qualquer teoria para explicar a pr\u00e1tica m\u00e9dica.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel neste livro, no entanto, explorar todas as correntes que existiram. Nenhuma delas deu uma contribui\u00e7\u00e3o importante para a compreens\u00e3o do cont\u00e1gio; e a corrente que predominou e teve mais forte influ\u00eancia nos s\u00e9culos posteriores foi a racionalista. Por isso, vamos nos concentrar em sua seq\u00fc\u00eancia.<\/p>\n<p>A medicina racionalista de base hipocr\u00e1tica teve seu \u00e1pice nas obras de Galeno. Cl\u00e1udio Galeno nasceu em P\u00e9rgamo, no ano 129 da era crist\u00e3. Morreu aos setenta anos, em 199 ou 200, provavelmente em Roma.<\/p>\n<p>De certa forma, pode-se dizer que ele era romano, pois viveu nesse imp\u00e9rio. No entanto, toda sua forma\u00e7\u00e3o se baseou na medicina grega, e ele preferiu escrever suas obras em grego \u2013 n\u00e3o em latim. Pode, por isso, ser considerado um continuador da tradi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica grega.<\/p>\n<p>Galeno foi fortemente influenciado por Arist\u00f3teles. Embora ele critique v\u00e1rias concep\u00e7\u00f5es aristot\u00e9licas, seu ponto de vista geral sobre a ci\u00eancia \u00e9 o mesmo exposto por Arist\u00f3teles. Defende que o verdadeiro m\u00e9dico deve ser tamb\u00e9m um fil\u00f3sofo; defende o conhecimento de f\u00edsica, astronomia, fisiologia, l\u00f3gica e outras ci\u00eancias, como base para a medicina.<\/p>\n<p>A obra de Galeno \u00e9 muito vasta. Escreveu enormes tratados sobre cada assunto. De um modo geral, fundamentou-se nas obras hipocr\u00e1ticas, desenvolvendo alguns de seus pontos.<\/p>\n<p>Uma doutrina que tem raizes nos escritos de Hip\u00f3crates mas s\u00f3 ganhou forma definitiva em Galeno, \u00e9 a teoria dos temperamentos.<\/p>\n<p>Cada pessoa j\u00e1 nasceria com certa combina\u00e7\u00e3o ou \u201ctempero\u201d dos quatro humores b\u00e1sicos. Poderiam existir pessoas em que os quatro estivessem perfeitamente equilibrados, mas normalmente haveria predomin\u00e2ncia de um ou de dois humores. Da\u00ed surgiriam certos tipos f\u00edsicos, havendo tamb\u00e9m repercuss\u00e3o na pr\u00f3pria personalidade da pessoa.<\/p>\n<p>Os quatro temperamentos mais importantes s\u00e3o aqueles em que predomina um \u00fanico humor.<\/p>\n<p><strong>Os nomes desses quatro temperamentos prov\u00eam dos nomes dos humores correspondentes:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Temperamento sang\u00fc\u00edneo: aquele em que h\u00e1 predom\u00ednio do sangue;<br \/>\nTemperamento bilioso ou col\u00e9rico: aquele em que h\u00e1 predom\u00ednio da b\u00edlis amarela (\u201ckhole\u201d, em grego);<br \/>\nTemperamento melanc\u00f3lico: aquele em que h\u00e1 predom\u00ednio da b\u00edlis negra (\u201cmelankhole\u201d, em grego);<br \/>\nTemperamento fleum\u00e1tico: aquele em que h\u00e1 predom\u00ednio do muco ou fleugma (\u201cphlegma\u201d, em grego).<\/p><\/blockquote>\n<p>Os diversos climas, as regi\u00f5es geogr\u00e1ficas, as atividades, os alimentos e rem\u00e9dios \u2013 tudo, enfim, poderia ser classificado a partir da concep\u00e7\u00e3o dos quatro elementos, das quatro qualidades e dos quatro humores.<\/p>\n<p>Conhecendo-se essas propriedades, seria sempre poss\u00edvel compreender as situa\u00e7\u00f5es de equil\u00edbrio ou desequil\u00edbrio, a sa\u00fade e a doen\u00e7a. Tudo se torna perfeitamente compreens\u00edvel, dentro de um sistema filos\u00f3fico racional.<\/p>\n<p>A partir dessa concep\u00e7\u00e3o, Galeno recomenda cuidados para a preserva\u00e7\u00e3o da sa\u00fade.<\/p>\n<p><strong>Os principais pontos a serem observados s\u00e3o seis:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Ar e ambiente<br \/>\nComida e bebida<br \/>\nSono e vig\u00edlia<br \/>\nMovimento e repouso<br \/>\nExcre\u00e7\u00f5es<br \/>\nPaix\u00f5es da alma<\/p><\/blockquote>\n<p>Mantendo modera\u00e7\u00e3o e equil\u00edbrio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s caracter\u00edsticas de cada uma dessas seis coisas, seria poss\u00edvel manter o equil\u00edbrio interno e a sa\u00fade.<\/p>\n<p>As concep\u00e7\u00f5es de Galeno eram t\u00e3o coerentes, t\u00e3o bem fundamentadas sob o ponto de vista filos\u00f3fico, que se tornava dif\u00edcil neg\u00e1-las. Tudo se encaixava com perfei\u00e7\u00e3o. Sua obra era t\u00e3o impressionante, que foi aceita com entusiasmo nos s\u00e9culos seguintes, durante mais de mil anos.<\/p>\n<p>Essa aparente perfei\u00e7\u00e3o da medicina de Galeno foi, justamente, o seu maior defeito. Quando tudo parece estar correto e compreendido, diminui ou cessa o desejo de investigar e descobrir coisas novas.<\/p>\n<p>Quando se disp\u00f5e de um sistema racional completo, a experi\u00eancia se torna desnecess\u00e1ria. A teoria nunca \u00e9 colocada em quest\u00e3o, por ser perfeita \u2013 mesmo se na pr\u00e1tica as pessoas morressem.<\/p>\n<p><strong>OS ROMANOS E OS VENENOS (\u201cV\u00cdRUS\u201d)<\/strong><\/p>\n<p>O imp\u00e9rio romano foi o herdeiro da cultura grega. Os romanos n\u00e3o desenvolveram um pensamento muito original, mas h\u00e1 v\u00e1rios aspectos da medicina romana que nos interessam, por sua rela\u00e7\u00e3o com a transmiss\u00e3o de doen\u00e7as e com as fases posteriores de nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Na antiga medicina de Roma, nota-se uma preocupa\u00e7\u00e3o com venenos, que n\u00e3o existe na medicina grega. Em parte, isso pode se dever ao grande contato dos romanos com a \u00c1frica e com serpentes.<\/p>\n<p>Outro poss\u00edvel motivo \u00e9 a difus\u00e3o da pr\u00e1tica de envenenar os inimigos. Os venenos mais poderosos possuem uma caracter\u00edstica estranha, sob o ponto de vista m\u00e9dico: uma pequena quantidade deles \u00e9 capaz de matar uma pessoa.<\/p>\n<p>Pl\u00ednio, chamado \u201co Velho\u201d, em sua grande obra \u201cHist\u00f3ria Natural\u201d (s\u00e9culo I D.C.), fez uma compila\u00e7\u00e3o de tudo o que se sabia em sua \u00e9poca sobre animais, vegetais e minerais, descrevendo-os e dando seus uso m\u00e9dicos. Pl\u00ednio diz que, entre os Romanos, o estudo de rem\u00e9dios s\u00f3 se desenvolveu ap\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o dos trabalhos do rei Mitridates, de Pontos. Esse rei, segundo v\u00e1rios autores posteriores, foi o primeiro a fazer um estudo sobre ant\u00eddotos.<\/p>\n<p>Mitridates, o maior rei de seu tempo, que foi depois vencido por Pompeius, conforme se conta e conforme as evid\u00eancias, foi um atento investigador dos problemas da vida, superando os que nasceram antes dele.<\/p>\n<p>Por seus esfor\u00e7os solit\u00e1rios, ele elaborou um plano de beber veneno diariamente, depois de tomar rem\u00e9dios, para se acostumar a eles e para que se tornassem in\u00f3cuos. Foi o primeiro a descobrir v\u00e1rios ant\u00eddotos, um dos quais \u00e9 conhecido por seu nome. Ele tamb\u00e9m descobriu a mistura dos ant\u00eddotos com o sangue dos patos de Pontos, pois eles se alimentam de subst\u00e2ncias venenosas.<\/p>\n<p>Segundo Pl\u00ednio, Pompeius, que venceu Mitr\u00eddates, coletou seus rem\u00e9dios e seus escritos, que foram traduzidos para o latim por Lenaeus. Esse teria sido o primeiro trabalho m\u00e9dico original, em latim.<\/p>\n<p>Um primeiro aspecto interessante no estudo dos venenos \u00e9 que uma pessoa pode se acostumar ou habituar aos mesmos, de tal forma que depois eles n\u00e3o fa\u00e7am mais efeito (fen\u00f4meno que ser\u00e1, muito depois, chamado de \u201cimuniza\u00e7\u00e3o\u201d). Sabia-se, na \u00e9poca, que algo semelhante podia ocorrer com algumas doen\u00e7as. Na peste de Atenas, que j\u00e1 foi descrita antes, as pessoas que adquiriam a doen\u00e7a e escapavam com vida (como o pr\u00f3prio Tuc\u00eddides), ficavam protegidas contra a peste: podiam ter contato com os doentes, sem correr risco nenhum.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante assinalar que muitos povos \u201cprimitivos\u201d j\u00e1 conheciam o processo de habitua\u00e7\u00e3o contra venenos. Em 1560, Jos\u00e9 de Anchieta descreve como os ind\u00edgenas brasileiros praticavam a habitua\u00e7\u00e3o ao veneno das cobras venenosas. Ao se referir \u00e0 jararaca brasileira, Anchieta afirma que os \u00edndios, quando \u201cmordidos sucessivamente, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o correm risco de vida, como mesmo sentem menor dor, o que tivemos mais de uma vez ocasi\u00e3o de observar\u201d.<\/p>\n<p>Da mesma forma, no s\u00e9culo XIX, o coronel portugu\u00eas M. de Serpa-Pinto conta o modo pelo qual foi vacinado pelos Vatuas, da costa oriental da \u00c1frica, contra as serpentes: eles extraiam o veneno e preparavam com ele e com subst\u00e2ncias vegetais uma pasta escura que era introduzida em incis\u00f5es feitas na pele.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o era muito dolorosa e era seguida por um incha\u00e7o que durava uma semana. Os Vatuas asseguram que o procedimento produzia imuniza\u00e7\u00e3o contra a picada de serpentes.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse aspecto, o estudo dos venenos levou \u00e0 busca de ant\u00eddotos \u2013 rem\u00e9dios espec\u00edficos contra cada tipo de veneno, capaz de anular os seus efeitos.<\/p>\n<p>Essa id\u00e9ia de ant\u00eddoto era completamente diferente da concep\u00e7\u00e3o hipocr\u00e1tica dos rem\u00e9dios, que se destinavam a reestabelecer o equil\u00edbrio dos humores corporais e n\u00e3o a combater alguma subst\u00e2ncia estranha que entrou no organismo.<\/p>\n<p>Um terceiro aspecto importante \u00e9 que, na busca de ant\u00eddotos eficazes, come\u00e7ou a elabora\u00e7\u00e3o de misturas extremamente complexas de muitas subst\u00e2ncias diferentes \u2013 enquanto que, inicialmente, buscava-se utilizar apenas uma ou duas subst\u00e2ncias, capazes de produzir v\u00f4mito, evacua\u00e7\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>Desenho de um manuscrito \u00e1rabe sobre rem\u00e9dios, mostrando a coleta de cobras para a prepara\u00e7\u00e3o de ant\u00eddotos.<\/p>\n<p><strong>CONCEP\u00c7\u00d5ES DOS ROMANOS SOBRE EPIDEMIAS E CONT\u00c1GIO<\/strong><\/p>\n<p>No imp\u00e9rio romano, ocorriam muitas epidemias que chamaram a aten\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos. Em geral, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o hipocr\u00e1tica, eles consideravam que a epidemia se devia a uma mudan\u00e7a clim\u00e1tica que produzia um desequil\u00edbrio dos humores. Um autor do primeiro s\u00e9culo antes da era crist\u00e3, Celsus, faz uma descri\u00e7\u00e3o dos cuidados que deveriam ser tomados durante as epidemias:<\/p>\n<p>H\u00e1 precau\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis, que se deve tomar, durante o reinado de uma epidemia, por aquele que ainda n\u00e3o foi atingido mas que n\u00e3o est\u00e1 a salvo de seus ataques. O mais seguro \u00e9 ent\u00e3o viajar ou navegar.<\/p>\n<p>Se isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, deve fazer-se transportar em liteira, levar-se docemente em pleno ar, antes da hora dos grandes calores; utilizar un\u00e7\u00f5es leves e, como se aconselhou mais acima, evitar a fatiga, as indigest\u00f5es, o frio, o calor e os excessos ven\u00e9reos. Deve-se tomar muito mais cuidado ainda se ocorrer algum mal estar, e nesse caso n\u00e3o se levantar pela manh\u00e3, nunca caminhar de p\u00e9s nus, sobretudo quando acaba de comer ou tomar um banho, renunciar a produzir v\u00f4mitos tanto em jejum quanto ap\u00f3s o jantar, n\u00e3o produzir evacua\u00e7\u00f5es alvinas, tentar mesmo interromp\u00ea-las se aparecerem, e remediar preferivelmente pela abstin\u00eancia a plenitude excessiva do corpo.<\/p>\n<p>Igualmente, deve-se suprirmir os banhos, n\u00e3o ficar suado, manter-se em guarda contra o sol do meio-dia, sobretudo se ele vier depois da \u00fanica refei\u00e7\u00e3o que se deve fazer no dia.<\/p>\n<p>Essa refei\u00e7\u00e3o ser\u00e1 por fim muito moderada, para n\u00e3o se expor \u00e0s indigest\u00f5es; e em dias alternados deve-se beber \u00e1gua e vinho. Tomando-se essas precau\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se mudar\u00e1 mais nada em sua maneira de viver.<\/p>\n<p>Todas as doen\u00e7as pestilenciais, e principalmente aquelas que s\u00e3o trazidas pelos ventos do meio dia, exigem que se conforme a esses preceitos.<\/p>\n<p>Celsus recomenda, na preven\u00e7\u00e3o contra as epidemias, os procedimentos gerais que j\u00e1 apareciam em Hip\u00f3crates e outros autores para manter a sa\u00fade: cuidar especialmente da alimenta\u00e7\u00e3o e da bebida, utilizar modera\u00e7\u00e3o nas atividades, etc. Quando a pessoa fosse atingida pela epidemia, os procedimentos de cura consistiam em reestabelecer o equil\u00edbrio dos humores:<\/p>\n<p>Nas febres, o car\u00e1ter pestilencial exige tamb\u00e9m uma aten\u00e7\u00e3o especial. A dieta, os purgativos ou lavagens [intestinais] n\u00e3o s\u00e3o nesse caso de utilidade nenhuma, e quando as for\u00e7as o permitem, o melhor \u00e9 tirar sangue, sobretudo se a febre \u00e9 acompanhada pela dor. Se esse meio n\u00e3o oferecer seguran\u00e7a, deve-se, logo que a febre estiver menos forte, desembara\u00e7ar o est\u00f4mago fazendo vomitar.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, entre os romanos, generaliza-se a id\u00e9ia de que as epidemias s\u00e3o produzidas por fen\u00f4menos celestes. A astrologia estabelecia uma conex\u00e3o entre os astros e os fen\u00f4menos terrestres.<\/p>\n<p>Eram especialmente os cometas que eram vistos como os anunciadores das maiores trag\u00e9dias. O astr\u00f3logo romano Marcus Manilius, do primeiro s\u00e9culo da era crist\u00e3, indica o significado dos cometas: destrui\u00e7\u00e3o de colheitas, praga, morte:<\/p>\n<p>Pode ser que por meio desses aspectos e inc\u00eandios do c\u00e9u, deus nos envie, por piedade, sinais de uma sorte miser\u00e1vel. Os fogos com que o c\u00e9u queima jamais foram sem significado. Os homens do campo, com suas esperan\u00e7as destru\u00eddas, choram sobre os campos arrasados. Entre os sulcos est\u00e9reis o homem que ara a terra, cansado, em v\u00e3o estimula o esfor\u00e7o de seus animais. Ou ent\u00e3o, quando uma doen\u00e7a grave e uma corrup\u00e7\u00e3o lenta dos corpos atingiu os homens, brota uma chama mortal do centro da vida e varre os povos; e pelas cidades se sucedem piras flamejantes para os mortos.<\/p>\n<p>Assim foi a praga que atingiu o povo de Erechteus e que levou a antiga Atenas a se transformar em um sepulcro, sem guerra (\u2026).<\/p>\n<p>Tais s\u00e3o os desastres que os cometas brilhantes em geral proclamam. A morte vem com essas tochas celestes, que amea\u00e7am a terra com o brilho de piras incessantes, pois o c\u00e9u e a natureza s\u00e3o atingidos e parecem condenados a compartilhar a tumba dos homens. Esses fogos tamb\u00e9m anunciam guerras e revoltas, e armas erguidas em atos de trai\u00e7\u00e3o. (\u2026)<\/p>\n<p>N\u00e3o se considerava que os cometas e os planetas produzissem diretamente as doen\u00e7as. Pensava-se que eles alteravam a atmosfera, e esta, por sua vez, produzia as epidemias.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o se trate de um autor romano, cabe citar o autor desse per\u00edodo que se tornou a principal autoridade antiga em astrologia: Claudius Ptolemaios (ou Ptolomeu), o famoso astr\u00f4nomo e ge\u00f3grafo eg\u00edpcio do s\u00e9culo II D. C. O nome de Ptolomeu \u00e9 bastante conhecido, por ter sido quem desenvolveu o sistema astron\u00f4mico geoc\u00eantrico (no qual a Terra \u00e9 o centro do universo) que s\u00f3 foi modificado no s\u00e9culo XVI, por Cop\u00e9rnico. Embora mais conhecido como astr\u00f4nomo, Ptolomeu escreveu tamb\u00e9m uma obra sobre astrologia, o \u201cTetrabiblos\u201d ou \u201cLivro qu\u00e1druplo\u201d, que foi provavelmente o mais influente texto astrol\u00f3gico de todos os tempos.<\/p>\n<p>No Tetrabiblos, Ptolomeu desenvolveu uma teoria sobre a influ\u00eancia dos planetas que toma como ponto de partida a classifica\u00e7\u00e3o das quatro qualidades b\u00e1sicas de Arist\u00f3teles (quente ou frio, \u00famido ou seco).<\/p>\n<p>Segundo Ptolomeu, cada um dos astros possui um poder espec\u00edfico capaz de influenciar os acontecimentos da Terra, como o clima. O Sol tem poder de aquecer e, em certo grau, de secar.<\/p>\n<p>A Lua umidece e \u00e9 moderadamente quente, produzindo por causa dessas duas qualidades o amolecimento e a putrefa\u00e7\u00e3o. Saturno seria um planeta principalmente frio, moderadamente seco.<\/p>\n<p>Marte teria a capacidade de secar e queimar. Esses dois planetas (Saturno e Marte) s\u00e3o considerados mal\u00e9ficos, por Ptolomeu. Seriam os principais respons\u00e1veis por doen\u00e7as e cat\u00e1strofes. Pelo contr\u00e1rio, J\u00fapiter e V\u00eanus, juntamente com a Lua, seriam os astros ben\u00e9ficos e protetores.<\/p>\n<p>J\u00fapiter \u00e9 descrito como sendo temperado ou equilibrado, tendo a capacidade principal de aquecer e tamb\u00e9m a de umidecer de forma moderada, produzindo ventos fertilizantes.<\/p>\n<p>V\u00eanus tamb\u00e9m seria um planeta equilibrado, capaz principalmente de umidecer e tamb\u00e9m de aquecer moderadamente.<\/p>\n<p>Merc\u00fario, por fim, \u00e9 descrito como um astro mut\u00e1vel, que \u00e0s vezes seca e \u00e0s vezes umidece, mudando rapidamente de propriedades, por estar cada vez de um dos lados do Sol.<\/p>\n<p>Merc\u00fario e o Sol s\u00e3o considerados como astros que \u00e0s vezes s\u00e3o ben\u00e9ficos, \u00e0s vezes mal\u00e9ficos, dependendo de suas associa\u00e7\u00f5es com outros astros.<\/p>\n<p>O Tetrabiblos cont\u00e9m uma descri\u00e7\u00e3o detalhada da conex\u00e3o entre os v\u00e1rios planetas e os \u00f3rg\u00e3os do corpo humano: J\u00fapiter, por exemplo, era o astro que dominava os pulm\u00f5es, as art\u00e9rias, o tato e o s\u00eamen.<\/p>\n<p>As doen\u00e7as ocorreriam principalmente por influ\u00eancia de Saturno e Marte, mas a posi\u00e7\u00e3o dos outros astros determinaria o \u00f3rg\u00e3o que seria afetado. Como exemplo dessas rela\u00e7\u00f5es, podemos dar essa descri\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Em geral ocorrem feridas quando a Lua est\u00e1 perto dos signos de solst\u00edcio ou equin\u00f3cio [\u00c1ries, C\u00e2ncer, Libra e Capric\u00f3rnio]; no de equin\u00f3cio de primavera [\u00c1ries], pela lepra branca; no do solst\u00edcio de ver\u00e3o [C\u00e2ncer], por l\u00edquens; no do equin\u00f3cio de outono, pela lepra; no solst\u00edcio de inverno, por verrugas e outros semelhantes.<\/p>\n<p>Em geral Saturno produz ventres frios, aumenta a fleuma, torna as pessoas reum\u00e1ticas, fracas, magras, ict\u00e9ricas, e predispostas \u00e0 disenteria, tosse, c\u00f3lica e elefant\u00edase; ele tamb\u00e9m torna as mulheres sujeitas a doen\u00e7as do \u00fatero. Marte faz as pessoas cuspirem sangue, torna-as melanc\u00f3licas, enfraquece seus pulm\u00f5es e causa o escorbuto e a sarna.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso ele as torna constantemente irritadas (\u2026), hemorr\u00f3idas, tumores e tamb\u00e9m \u00falceras ardentes ou feridas devoradoras. (\u2026)<\/p>\n<p>Merc\u00fario os acompanha principalmente para prolongar os efeitos mal\u00e9ficos, tendendo ao frio quando se une a Saturno e estimulando continuamente reumatismos e ac\u00famulo de fluidos, principalmente nopeito, garganta e est\u00f4mago. Quando se une a Marte, ele adiciona sua for\u00e7a para produzir secura ainda maior, como no caso de olhos com feridas ulcerosas, abcessos, erisipela, erup\u00e7\u00f5es de pele, b\u00edlis negra, insanidade, epilepsia e coisas semelhantes.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s das influ\u00eancias dos planetas e de suas posi\u00e7\u00f5es no c\u00e9u, seria determinado o clima de cada \u00e9poca do ano. Ptolomeu n\u00e3o faz uma associa\u00e7\u00e3o entre o clima e doen\u00e7as, mas ele nem precisava indicar isso: os pr\u00f3prios m\u00e9dicos se encarregavam de fazer a liga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar dessa tradi\u00e7\u00e3o astrol\u00f3gica e hipocr\u00e1tica, outros autores \u2013 principalmente alguns que n\u00e3o eram m\u00e9dicos \u2013 vislumbravam outras poss\u00edveis causas das epidemias. O arquiteto romano Vitruvius, discute a escolha do local par se edificar uma cidade, e indica as seguintes regras:<\/p>\n<p>Como se pode reconhecer se um lugar \u00e9 sadio, e o que o impede de s\u00ea-lo:<\/p>\n<p>Quando se quer construir uma cidade, a primeira coisa que se deve fazer \u00e9 escolher um lugar saud\u00e1vel. Ora, esse lugar deve ser elevado; al\u00e9m disso, n\u00e3o deve estar sujeito nem \u00e0s neblinas nem \u00e0s brumas; que tenha uma boa temperatura do ar; que n\u00e3o esteja exposto nem aos grandes calores nem aos grande frios. Al\u00e9m disso, n\u00e3o deve estar na vizinhan\u00e7a de p\u00e2ntanos; pois deve-se temer que fosse pestilencial e mal-s\u00e3o um lugar onde o vento da manh\u00e3 possa trazer os vapores que o sol, erguendo-se, tivesse atra\u00eddo do h\u00e1lito infecto e venenoso dos animais que s\u00e3o gerados nos p\u00e2ntanos. Da mesma forma, uma cidade constru\u00edda na margem do mar, e exposta ao meio-dia ou ao poente, n\u00e3o pode ser sadia (\u2026)<\/p>\n<p>Existe aqui a id\u00e9ia de que o ar pode trazer doen\u00e7as. \u00c9 claro que Hip\u00f3crates tamb\u00e9m afirmava isso, mas em outro sentido. Na concep\u00e7\u00e3o hipocr\u00e1tica, o ar pode produzir epidemias quando h\u00e1 um desequil\u00edbrio de calor, frio, umidade e secura, que atuam sobre os humores corporais. Em Vitruvius, a id\u00e9ia \u00e9 diferente. Ele se refere a vapores venenosos que poderiam ser produzidos nos p\u00e2ntanos, pelos animais l\u00e1 gerados, e que poderiam produzir a peste (ou seja, epidemias).<\/p>\n<p>Id\u00e9ias ainda mais pr\u00f3ximas das nossas s\u00e3o sugeridas por outros autores romanos do in\u00edcio da era crist\u00e3. Marcus Varro sugeriu que nos p\u00e2ntanos \u201ccrescem certos animais t\u00e3o pequenos, que n\u00e3o podem ser captados pelos olhos, que atrav\u00e9s do ar entram pelas narinas ou pela boca e produzem graves doen\u00e7as\u201d. E o escritor Lucius Columella, ao falar sobre as atividades do campo, sugere que os mosquitos podem transmitir doen\u00e7as:<\/p>\n<p>N\u00e3o devem existir p\u00e2ntanos perto das casas, ou de estradas p\u00fablicas, pois eles sempre emitem venenos [v\u00edrus] nocivos no calor, e geram animais armados com aguilh\u00f5es, que voam em torno de n\u00f3s em enxames densos.<\/p>\n<p>Eles [os p\u00e2ntanos] tamb\u00e9m produzem da lama e do lixo fermentado, a peste venenosa das serpentes e cobras d\u2019\u00e1gua, quando elas ficam privadas da umidade do inverno. E por isso s\u00e3o adquiridas doen\u00e7as ocultas, cujas causas nem os m\u00e9dicos conseguem compreender.<\/p>\n<p>Guiados por seu bom senso, os romanos deram grande import\u00e2ncia a cuidados sanit\u00e1rios e de higiene.<\/p>\n<p>Havia um sistema de esgotos na cidade de Roma que n\u00e3o foi ultrapassado por qualquer sistema semelhante no mundo todo, at\u00e9 o s\u00e9culo XIX .<\/p>\n<p>Os esgotos eram levados em condutos subterr\u00e2neos at\u00e9 um local, a cloaca maxima, onde eram lan\u00e7ados no rio Tibre. Al\u00e9m de privadas nas casas, havia sanit\u00e1rios p\u00fablicos, alguns deles muito luxuosos, todos equipados com \u00e1gua corrente.<\/p>\n<p>As casas mais ricas eram providas de banheiras; al\u00e9m disso, existiam muitos balne\u00e1rios p\u00fablicos, como os banhos de Caracalla, capazes de acomodar mil e seiscentas pessoas de cada vez, ou os de Diocleciano, com tr\u00eas mil quartos de banho. Isso mostra que o asseio era uma pr\u00e1tica generalizada, em Roma.<\/p>\n<p>Para proporcionar \u00e1gua destinada ao consumo e \u00e0 limpeza, a cidade de Roma era provida de 14 grandes aquedutos que traziam \u00e1gua de fontes distantes atrav\u00e9s de condutos subterr\u00e2neos ou suspensos.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da era crist\u00e3, eles proporcionavam \u00e0 cidade cerca de 200 milh\u00f5es de litros de \u00e1gua por dia. Os romanos implantavam tamb\u00e9m sistemas de \u00e1gua e esgoto nas principais regi\u00f5es que conquistavam.<\/p>\n<p>Existe um aqueduto em N\u00eemes, na Fran\u00e7a, que \u00e9 utilizado at\u00e9 hoje, dois mil anos depois de sua constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Conhecemos muitos detalhes sobre os aquedutos romanos gra\u00e7as \u00e0 descri\u00e7\u00e3o feita pelo engenheiro Sextus Julius Frontinus (s\u00e9culo I da era crist\u00e3). Ele conta que desde a funda\u00e7\u00e3o de Roma at\u00e9 o ano 441 do calend\u00e1rio romano (312 antes da era crist\u00e3), os romanos se contentavam em utilizar a \u00e1gua do rio Tibre, de po\u00e7os e fontes.<\/p>\n<p>Em 312 A. C. foi constru\u00eddo o primeiro aqueduto, chamado \u201cApia\u201d, totalmente subterr\u00e2neo, com extens\u00e3o de 11.190 passos (cerca de 10 km). Quarenta anos depois foi constru\u00eddo o segundo aqueduto subterr\u00e2neo, com 40 km de extens\u00e3o, chamado \u201cAnio velho\u201d. Aos poucos foram sendo contru\u00eddos outros condutos subterr\u00e2neos ou suspensos sobre arcadas, trazendo \u00e1gua de dist\u00e2ncias superiores a 50 km. O \u201cnovo Anio\u201d tinha 2.000 metros de condutos suspensos, chegando \u00e0 altura de 30 metros (igual \u00e0 de um pr\u00e9dio de dez andares). Foram obras fant\u00e1sticas de engenharia, para a \u00e9poca.<\/p>\n<p>A \u00e1gua era coletada de v\u00e1rios locais e classificada por fiscais, que destinavam as \u00e1guas do aqueduto \u201cM\u00e1rcia\u201d apenas para ser bebida; outras eram utilizadas tanto para alimenta\u00e7\u00e3o quanto limpeza.<\/p>\n<p>Seis dos aquedutos levavam a \u00e1gua at\u00e9 piscinas cobertas, onde se deixava que o limo se depositasse, antes de distribuir a \u00e1gua pela cidade, atrav\u00e9s de encanamentos. As \u00e1guas trazidas pelo \u201cvelho Anio\u201d tornaram-se muito impuras e, no in\u00edcio da era crist\u00e3, eram utilizadas apenas para rega de jardins e usos mais sujos da cidade.<\/p>\n<p>Todos os cuidados com a \u00e1gua, esgoto, asseio pessoal e limpeza da cidade certamente contribuiram muito para preservar os romanos de doen\u00e7as. \u00c9 dif\u00edcil saber, no entanto, at\u00e9 que ponto eles estavam conscientes dos benef\u00edcios dessas medidas para a sa\u00fade, e at\u00e9 que ponto eram guiados apenas por considera\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas (beleza, limpeza, cheiro agrad\u00e1vel, etc.).<\/p>\n<p>Talvez a maior contribui\u00e7\u00e3o romana para a compreens\u00e3o das epidemias e doen\u00e7as transmiss\u00edveis tenha sido dada pelo fil\u00f3sofo Lucretius. Esse fil\u00f3sofo, do primeiro s\u00e9culo da era crist\u00e3, escreveu uma obra em versos, denominada \u201cDe rerum natura\u201d, onde exp\u00f5e a teoria atom\u00edstica antiga. O atomismo era uma filosofia materialista, que n\u00e3o aceitava a exist\u00eancia de qualquer coisa al\u00e9m de \u00e1tomos e do espa\u00e7o vazio.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria alma e os deuses deveriam ser meras combina\u00e7\u00f5es de \u00e1tomos. N\u00e3o existe lugar, nessa filosofia, para a religi\u00e3o, a magia, a supersti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, o atomismo admite a exist\u00eancia de coisas invis\u00edveis. Os pr\u00f3prios \u00e1tomos s\u00e3o invis\u00edveis, por\u00e9m reais e materiais.<\/p>\n<p>Lucretius dedica uma grande parte do seu livro para mostrar que n\u00e3o \u00e9 absurdo aceitar-se a exist\u00eancia de coisas materiais invis\u00edveis. N\u00e3o vemos, por exemplo, nada em volta de um \u00edm\u00e3, mas deve existir alguma coisa em volta dele que produz o efeito de atra\u00e7\u00e3o do ferro. N\u00e3o vemos a \u00e1gua que se evapora de um tecido colocado ao sol, mas essa \u00e1gua certamente continua a existir, dividida em in\u00fameras part\u00edculas invis\u00edveis. E Lucretius fornece muitos outros exemplos semelhantes.<\/p>\n<p>Dentro da teoria atomista, torna-se poss\u00edvel introduzir causas naturais invis\u00edveis que podem produzir doen\u00e7as. No espa\u00e7o celeste, existiriam todos os tipos de \u00e1tomos, que se movem ao acaso.<\/p>\n<p>Eles colidem uns com os outros, podendo se prender uns aos outros. Atrav\u00e9s de combina\u00e7\u00f5es dos \u00e1tomos, podem ser gerados todos os tipos de coisas, ao acaso. Algumas delas podem ser \u201csementes\u201d que se desenvolvem e produzem coisas \u00fateis ao homem; outras, podem ser daninhas. Lucretius utiliza esse tipo de id\u00e9ia para explicar o surgimento das epidemias:<\/p>\n<p>E agora explicarei qual \u00e9 a raz\u00e3o das doen\u00e7as e de que causas pode surgir de repente a for\u00e7a da doen\u00e7a e trazer a destrui\u00e7\u00e3o mortal \u00e0 ra\u00e7a dos humanos e \u00e0s tropas dos animais brutos. Em primeiro lugar, eu mostrei que h\u00e1 sementes de muitas coisas \u00fateis \u00e0 nossa vida; e por outro lado muitas outras que voam trazendo doen\u00e7a e morte. Quando estas, por acaso, se juntam e perturbam o c\u00e9u, o ar se torna doentio.<\/p>\n<p>E toda a for\u00e7a da doen\u00e7a e dessa pestil\u00eancia v\u00eam, ou de fora atrav\u00e9s do c\u00e9u sob a forma de nuvens e neblina, ou ent\u00e3o se agregam e sobem da terra, quando ela se embebeu de l\u00edquido e apodreceu, atingida por chuvas e sol intempestivos.<\/p>\n<p>Embora, mais uma vez, o ar seja considerado o ve\u00edculo das doen\u00e7as, as epidemias n\u00e3o seriam causadas simplesmente por calor, frio, umidade e secura: haveria certas \u201csementes\u201d de doen\u00e7as no ar, provenientes do c\u00e9u ou da pr\u00f3pria terra.<\/p>\n<p>Lucretius concebe diferentes tipos de sementes de doen\u00e7as. Ele comenta sobre as diferen\u00e7as de climas e de pessoas nas diversas partes do globo, e afirma que existem doen\u00e7as espec\u00edficas de certos lugares:<\/p>\n<p>Existe a doen\u00e7a do elefante que \u00e9 produzida \u00e0s margens das correntes do Nilo no meio do Egito e em nenhum outro lugar. Em Atica, os p\u00e9s s\u00e3o atacados; e nas terras Aqueanas, os olhos.<\/p>\n<p>E assim diferentes lugares s\u00e3o daninhos a diferentes partes e membros. As varia\u00e7\u00f5es do ar ocasionam isso.<\/p>\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o \u00e9 bem diferente da de Hip\u00f3crates e seus seguidores. Logo em seguida, ele explica com mais detalhe o modo como surgem as epidemias:<\/p>\n<p>Portanto, quando uma parte do c\u00e9u inadequada para n\u00f3s se coloca em movimento, e um ar maligno come\u00e7a a avan\u00e7ar, rasteja vagarosamente sob a forma de vapores e nuvem e traz a desordem a tudo em sua linha de ataque e faz com que tudo mude. E quando por fim atinge nosso c\u00e9u, ele a corrompe tamb\u00e9m e a faz semelhante a si e inadequada para n\u00f3s. Esse novo poder pestilencial cai assim imediatamente sobre as \u00e1guas ou penetra profundamente nos gr\u00e3os ou em outros alimentos do homem; ou ent\u00e3o sua for\u00e7a se mant\u00e9m suspensa no pr\u00f3prio ar, e quando inalamos dela esse ar misturado, absorvemos em nosso corpo, ao mesmo tempo, essas coisas.<\/p>\n<p>De forma semelhante, a peste geralmente cai tamb\u00e9m sobre o gado e destempera os carneiros. E n\u00e3o faz diferen\u00e7a se viajamos para lugares desfavor\u00e1veis a n\u00f3s e mudamos a atmosfera que nos envolve, ou se a natureza fora de n\u00f3s escolhe nos trazer um c\u00e9u corrompido ou alguma coisa a que n\u00e3o estamos acostumados, e que \u00e9 capaz de nos atacar logo que chega.<\/p>\n<p>Apesar de considerar as epidemias como causadas por uma mudan\u00e7a do ar, Lucretius reconhece a exist\u00eancia da passagem da doen\u00e7a de uma pessoa para outra.<\/p>\n<p>Ele descreve a grande peste de Atenas e aponta que os corpos jaziam empilhados, sem serem sepultados, mas que as aves de rapina e os animais n\u00e3o se aproximavam deles, ou, se os comiam, logo caiam mortos.<\/p>\n<p>Havia portanto algo nos mortos que podia causar a morte. E os s\u00e3os podiam adquirir a doen\u00e7a dos doentes:<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o cessavam de pegar o cont\u00e1gio da doen\u00e7a devoradora um do outro, assim como os rebanhos lanudos e os bois. E isso, sobretudo, empilhava mortos sobre mortos.<\/p>\n<p>Quando algu\u00e9m fugia de seus pr\u00f3prios familiares doentes, essa neglig\u00eancia mortal logo os punia por seu amor excessivo \u00e0 vida e medo da morte por uma morte maligna e terr\u00edvel, abandonado por sua vez, esquecido de qualquer ajuda. Mas aqueles que ficavam estavam prontos a prestar asssit\u00eancia, iam-se pelo cont\u00e1gio e pela fadiga (\u2026).<\/p>\n<p>Aparecem, assim, em Lucretius, algumas id\u00e9ias sobre a transmiss\u00e3o da doen\u00e7a de uma pessoa a outra. Ele utiliza a palavra \u201ccont\u00e1gio\u201d para se referir a essa transmiss\u00e3o. O cont\u00e1gio \u00e9, em Lucr\u00e9cio, simplesmente alguma influ\u00eancia que passa pelo contato de uma coisa com outra . Coerente com a doutrina atomista, ele sup\u00f5e que \u00e9 algo material que produz a doen\u00e7a. N\u00e3o existe a proposta de que seja algo vivo, nem que essa causa da doen\u00e7a se reproduza dentro dos que s\u00e3o atingidos por ela. No entanto, como ele fala sobre as \u201csementes\u201d ou \u201cgermes\u201d das doen\u00e7as, pode ser que ele admitisse a id\u00e9ia de pequenos organismos vivos.<\/p>\n<p>Outros termos importantes passaram a ser utilizados nessa \u00e9poca, como \u201cinfec\u00e7\u00e3o\u201d e \u201ccontamina\u00e7\u00e3o\u201d. Essas palavras n\u00e3o possu\u00edam significado m\u00e9dico, inicialmente. \u201cInfectar\u201d significava primitivamente tingir, colorir, impregnar com alguma subst\u00e2ncia vis\u00edvel. O ar infectado seria, portanto, uma atmosfera colorida, tingida ou impregnada por algo vis\u00edvel (vapores, bruma, poeira); mas da\u00ed veio, por analogia, a concep\u00e7\u00e3o de que o ar carregado de subst\u00e2ncias ou germes nocivos estaria tamb\u00e9m infectado, mesmo se essas coisas fossem invis\u00edveis. Por fim, quando alguma causa patol\u00f3gica entra e impregna uma pessoa, tamb\u00e9m se passou a falar sobre a infec\u00e7\u00e3o dessa pessoa.<\/p>\n<p>A palavra \u201ccontaminar\u201d, por sua vez, vem do latim contaminare, que significa sujar, poluir, misturar uma impureza. Por analogia, a palavra passou tamb\u00e9m a significar sujar moralmente, corromper, desonrar.<\/p>\n<p>Essa palavra tem um significado amplo de transmitir uma impureza, tanto no sentido religioso, quanto \u00e9tico, quanto material. Uma pessoa contaminada pela impureza deve ser evitada, pois a impureza \u00e9 algo que se transmite de uma pessoa para outra. As id\u00e9ias de contamina\u00e7\u00e3o e de cont\u00e1gio s\u00e3o portanto bastante semelhantes e relacionadas.<\/p>\n<p>Lucretius e outros romanos \u2013 em geral, pessoas que n\u00e3o eram m\u00e9dicos \u2013 deram importantes contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 compreens\u00e3o das epidemias e do cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Escapando \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o hipocr\u00e1tica, eles foram capazes de sugerir novas id\u00e9ias, incompat\u00edveis com a teoria dos humores, que apontavam para meios de transmiss\u00e3o de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>As id\u00e9ias do atomista Lucretius s\u00e3o especialmente importantes, pois ele fala sobre influ\u00eancias invis\u00edveis, dando ao mesmo tempo a essas causas a interpreta\u00e7\u00e3o puramente materialista, sem qualquer conota\u00e7\u00e3o sobrenatural, como no conceito religioso ou m\u00e1gico de cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, as id\u00e9ias de Lucretius n\u00e3o tiveram grande repercuss\u00e3o. No entanto, mais de mil anos depois, a redescoberta de suas obras ir\u00e1 levar ao ressurgimento do conceito de cont\u00e1gio atrav\u00e9s de sementes materiais invis\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO 5: O PER\u00cdODO MEDIEVAL<\/strong><\/p>\n<p><strong>A BAIXA IDADE M\u00c9DIA<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a queda do imp\u00e9rio romano, a Europa n\u00e3o desenvolveu nenhuma outra grande na\u00e7\u00e3o, durante s\u00e9culos. O cristianismo se torna a \u00fanica for\u00e7a que tenta unificar todos os povos europeus.<\/p>\n<p>A fase inicial da Idade M\u00e9dia, na Europa, apresentou uma decad\u00eancia geral de todos os conhecimentos. Ap\u00f3s Galeno, n\u00e3o s\u00e3o conhecidos grandes autores m\u00e9dicos. No s\u00e9culo IV, Oribasius de Biz\u00e2ncio (325-403) escreve uma grande enciclop\u00e9dia m\u00e9dica, em grego, sem acrescentar muita coisa a Galeno e outros autores antigos.<\/p>\n<p>Apesar do desinteresse geral pelo estudo e pelo conhecimento erudito, alguns autores conservaram a tradi\u00e7\u00e3o greco-romana. Um dos mais importantes foi Isidoro de Sevilha, que viveu aproximadamente entre os anos 570 e 636. Isidoro procurou compilar todo tipo de conhecimento, escrevendo uma esp\u00e9cie de enciclop\u00e9dia. Entre muitos outros assuntos, ele tratou tamb\u00e9m da Medicina.<\/p>\n<p>Isidoro se baseia principalmente em Galeno. Ele exp\u00f5e e defende a doutrina dos quatro humores, sendo a sa\u00fade uma propor\u00e7\u00e3o harmoniosa entre as qualidades.<\/p>\n<p>Apesar dessa base te\u00f3rica, Isidoro aceita a exist\u00eancia de cont\u00e1gio \u2013 provavelmente, baseando-se no conhecimento popular. Por exemplo, ao descrever a hidrofobia, ele afirma:<\/p>\n<p>Hidrofobia quer dizer medo da \u00e1gua, pois os gregos chamavam a \u00e1gua de \u201chudor\u201d, medo de \u201cphobos\u201d (\u2026). Ela surge ou pela mordida de um c\u00e3o raivoso, ou por causa da espuma que cai do ar ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Se um homem ou animal a tocar, ele imediatamente se tornar\u00e1 demente ou tamb\u00e9m ficar\u00e1 raivoso.<\/p>\n<p>Ou seja: o contato direto (pela mordida) ou indireto (pela saliva espumante) pode transmitir a doen\u00e7a. Mas como poderia uma harmonia entre os humores ser quebrada por um contato com a saliva do c\u00e3o raivoso? \u00c9 dif\u00edcil conciliar o fato, de conhecimento popular, com a teoria.<\/p>\n<p><strong>Ao falar da peste, Isidoro tamb\u00e9m admite o cont\u00e1gio:<\/strong><\/p>\n<p>A praga [pestilentia] \u00e9 um cont\u00e1gio que, ao atingir uma pessoa, se espalha rapidamente para v\u00e1rias outras. Ela surge do ar corrompido [corrupto a\u00ebre], e penetrando nas v\u00edsceras se estabelece nelas.<\/p>\n<p>Embora esta doen\u00e7a geralmente surja por pot\u00eancias a\u00e9reas, no entanto ela nunca pode surgir sem a vontade do Todo Poderoso Deus.<\/p>\n<p>Nota-se aqui id\u00e9ias semelhantes \u00e0s de Lucretius, embora menos elaboradas.<\/p>\n<p>Houve, no per\u00edodo medieval, um grande aumento da lepra, na Europa. Sabia-se que essa enfermidade era contagiosa, e os leprosos eram banidos da sociedade.<\/p>\n<p>Somente podiam se aproximar de outras pessoas tocando matracas, para que todos pudessem reconhec\u00ea-los e prevenir-se do cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>A influ\u00eancia do cristianismo na Medicina, durante essa fase, foi negativa. Ressurgiu fortemente a id\u00e9ia de que a doen\u00e7a era o fruto do pecado.<\/p>\n<p>A possess\u00e3o pelos dem\u00f4nios e a feiti\u00e7aria tamb\u00e9m eram aceitas como causas de enfermidades. Assim sendo, o tratamento principal era pelo arrependimento, pela ora\u00e7\u00e3o, sacrif\u00edcios, etc.<\/p>\n<p>O uso de rem\u00e9dios se torna secund\u00e1rio, e deveria ser acompanhado pela ora\u00e7\u00e3o, como esta, recomendada pelo m\u00e9dico crist\u00e3o Aetius de Amida (s\u00e9culo VI): \u201cQue o Deus de Abra\u00e3o, o Deus de Isaac, o Deus de Jac\u00f3, d\u00ea a este medicamento o poder.\u201d<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo \u2013 e especialmente no s\u00e9culo VII \u2013 surge o culto popular aos santos curadores. Cosme e Dami\u00e3o, dois irm\u00e3os crist\u00e3os que haviam sido m\u00e1rtires na Sic\u00edlia, tornam-se importantes santos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Posteriormente, S\u00e3o Sebasti\u00e3o e S\u00e3o Roque s\u00e3o invocados contra a praga . As peregrina\u00e7\u00f5es ou o contato com objetos sagrados s\u00e3o considerados como excelentes para produzir curas de doen\u00e7as graves.<\/p>\n<p>Os textos m\u00e9dicos medievais europeus, at\u00e9 o s\u00e9culo IX, s\u00e3o em geral compila\u00e7\u00f5es simplificadas, tiradas em geral de fontes gregas. Alguns s\u00e3o simples listas de drogas e suas indica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Torna-se cada vez mais rara a leitura das obras originais de Hip\u00f3crates ou Galeno, nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p>A Medicina, como profiss\u00e3o, praticamente desaparece. O povo mant\u00e9m certo conhecimento popular de uso de ervas, aliado a pr\u00e1ticas de magia das curandeiras.<\/p>\n<p>Quando esses recursos n\u00e3o bastam, recorre-se aos mosteiros, onde os religiosos mantinham assist\u00eancia espiritual e m\u00e9dica aos doentes. \u00c9 uma \u00e9poca em que predomina, portanto, a Medicina mon\u00e1stica.<\/p>\n<p>V\u00e1rios mosteiros foram criados especificamente para dar apoio aos doentes. Um deles foi o de Monte Cassino, na It\u00e1lia, fundado em 529.<\/p>\n<p>Os monges tinham a obriga\u00e7\u00e3o de estudar as vers\u00f5es latinas simplificadas de Hip\u00f3crates e de Galeno, e estudar a obra sobre rem\u00e9dios de Dioscorides. Os monges copiavam os textos cl\u00e1ssicos, para preserv\u00e1-los e para vend\u00ea-los a outros mosteiros. Em outros locais da Espanha, Fran\u00e7a, Irlanda e Alemanha, surgiram outros mosteiros m\u00e9dicos semelhantes. Alguns formaram grandes bibliotecas, como o mosteiro de S. Gall, na Sui\u00e7a, que tinha seis mil livros m\u00e9dicos, no s\u00e9culo IX.<\/p>\n<p>De um modo geral, o interesse principal dos mosteiros continuava a ser a religi\u00e3o, mas em alguns casos o estudo da Medicina deve ter se tornado excessivamente importante. Assim, em 1130, o conc\u00edlio de Clermont proibiu a pr\u00e1tica da Medicina aos monges, pois ela os distraia das obriga\u00e7\u00f5es principais.<\/p>\n<p><strong>MEDICINA \u00c1RABE<\/strong><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que se desenvolvia na Europa a Medicina mon\u00e1stica, formava-se e espalhava-se pelo mundo a grande civiliza\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica.<\/p>\n<p>O islamismo se inicia no s\u00e9culo VII. Data de 622 a fuga de Muhammad (Maom\u00e9) para Meca. Esse movimento religioso se espalha com enorme velocidade e for\u00e7a, conquistando grande parte do mundo em menos de dois s\u00e9culos. O dom\u00ednio \u00e1rabe se estendeu por todo o norte da \u00c1frica e, para leste, pelo Oriente M\u00e9dio, Mesopot\u00e2mia, P\u00e9rsia e norte da \u00cdndia. A oeste, os \u00e1rabes penetraram na pen\u00ednsula ib\u00e9rica e tomaram a maior parte do territ\u00f3rio onde atualmente est\u00e3o Portugal e Espanha.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo IX, h\u00e1 dois grandes centros pol\u00edticos, religiosos e culturais do mundo \u00e1rabe: Bagd\u00e1 (da antiga P\u00e9rsia) ao leste, com uma popula\u00e7\u00e3o de 800.000 pessoas; e C\u00f3rdova (na atual Espanha), a oeste, com 500.000 habitantes. A unidade dessa vasta civiliza\u00e7\u00e3o era proporcionada pela religi\u00e3o isl\u00e2mica e pelo idioma \u00e1rabe.<\/p>\n<p>A cultura m\u00e9dica dos \u00e1rabes era, inicialmente, do mesmo tipo que estudamos em outras civiliza\u00e7\u00f5es: de tipo religioso e m\u00e1gico. Os escritos do in\u00edcio do islamismo mostram que se dava grande valor a amuletos, talism\u00e3s e f\u00f3rmulas m\u00e1gicas, na cura de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Gradualmente, no entanto, a civiliza\u00e7\u00e3o \u00e1rabe se transforma. Durante sua expans\u00e3o para leste e oeste, os \u00e1rabes entram em contato com a tradi\u00e7\u00e3o grega e helen\u00edstica, eg\u00edpcia, mesopot\u00e2mica e indiana.<\/p>\n<p>Surge um grande interesse pelo estudo dessas tradi\u00e7\u00f5es \u2013 especialmente pelo pensamento grego. As mais importantes obras antigas s\u00e3o traduzidas e comentadas pelos \u00e1rabes e passam a circular pelo mundo isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>O idioma \u00e1rabe se torna, na \u00e9poca, o idioma cient\u00edfico e filos\u00f3fico mundial.<\/p>\n<p>O estudo e a reflex\u00e3o sobre o pensamento antigo levaram a um r\u00e1pido florescimento da cultura \u00e1rabe. No campo da Medicina, logo surgem n\u00e3o s\u00f3 coment\u00e1rios sobre Hip\u00f3crates e Galeno, mas tamb\u00e9m trabalhos originais.<\/p>\n<p>Na P\u00e9rsia, destacam-se Rhazes e Avicena. Rhazes ou Al Rhazi (860-932) nasceu perto do lugar onde agora \u00e9 Teeran. Escreveu sobre var\u00edola e mal\u00e1ria.<\/p>\n<p>Introduziu na Medicina o \u00e1lcool e a tintura de merc\u00fario. Avicena ou Ibn Sina (980-1063) escreveu uma famosa obra: o \u201cQanun\u201d ou \u201cCanon\u201d, que serviu de base \u00e0 Medicina durante s\u00e9culos.<\/p>\n<p>No ocidente \u00e1rabe \u2013 em C\u00f3rdova \u2013 os mais importantes autores m\u00e9dicos s\u00e3o de um per\u00edodo posterior: Averroes ou Ibn Ruschd (1126-98) e seu estudante, o judeu Moses Maimonides (1135-1204).<\/p>\n<p>Ambos foram eminentes fil\u00f3sofos, fortemente influenciados pelo pensamento de Arist\u00f3teles.<\/p>\n<p>De um modo geral, os pensadores \u00e1rabes respeitavam e seguiam as autoridades cl\u00e1ssicas. Tinham um bom conhecimento de plantas e rem\u00e9dios, mas davam pouca import\u00e2ncia \u00e0 anatomia e cirurgia.<\/p>\n<p>Vamos dar uma amostra da Medicina \u00e1rabe, atrav\u00e9s de alguns trechos do \u201cCanon\u201d de Avicena. Ao discutir as febre pestilenciais, Avicena as associa \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o e apodrecimento do ar e da \u00e1gua. Nesse sentido, suas id\u00e9ias se assemelham \u00e0s dos autores romanos que mencionamos anteriormente.<\/p>\n<p>A \u00e1gua n\u00e3o apodrece, segundo Avicena, por sua pr\u00f3pria natureza simples, mas sim apenas quando est\u00e1 misturada a corpos terrestres malignos, que a permeiam e que admitem as qualidades ruins. Da mesma forma, o ar n\u00e3o apodrece segundo sua pr\u00f3pria disposi\u00e7\u00e3o simples, mas apenas quando se misturam a ele certos vapores malignos.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a causa dos ventos que trazem para os lugares bons, fuma\u00e7as malignas de lugares long\u00ednquos, nos quais existe \u00e1gua estagnada ou de p\u00e2ntanos, alterada pela podrid\u00e3o; ou na qual existem corpos de cad\u00e1veres corrompidos, das lutas; ou corpos n\u00e3o sepultados nem incinerados de mortos pela peste (\u2026)<\/p>\n<p>Certas causas desconhecidas tamb\u00e9m poderiam trazer das profundezas da terra para fora a podrid\u00e3o, que se espalharia pela \u00e1gua e pelo ar. De um modo geral, Avicena afirma que as pestes surgem pelo ar \u00famido e turvo, sendo mais raras no tempo seco \u2013 exceto o c\u00f3lera, que ele afirma se multiplicar exatamente quando o ar est\u00e1 seco.<\/p>\n<p>Dessa forma, segundo Avicena, o clima interfere no surgimento das doen\u00e7as pestilenciais, apenas de um modo indireto. A causa n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio estado seco ou \u00famido, frio ou seco.<\/p>\n<p>Isso apenas contribui para o surgimento e difus\u00e3o da podrid\u00e3o, que seria a verdadeira causa das enfermidades.<\/p>\n<p>Referindo-se \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o dos hebreus, Avicena indica que v\u00e1rios fen\u00f4menos naturais servem para se prever o surgimento da peste: a grande multiplica\u00e7\u00e3o de r\u00e3s, o surgimento de muitos r\u00e9pteis a partir da podrid\u00e3o, o surgimento de ratos e outros animais subterr\u00e2neos sobre a terra, a fuga de p\u00e1ssaros abandonando seus ovos no ninho, e gado caminhando como se estivesse embriagado.<\/p>\n<p>A causa primeira de todas essas doen\u00e7as, segundo Avicena, vem dos astros e de suas formas. Sempre surgem essas doen\u00e7as quando h\u00e1 certas configura\u00e7\u00f5es celestes e existem as disposi\u00e7\u00f5es terrestres adequadas.<\/p>\n<p>Os sinais celestes principais seriam o surgimento de halos em volta do Sol e da Lua; apari\u00e7\u00e3o de fogos no c\u00e9u; estrelas cadentes e cometas.<\/p>\n<p>E quando se fazem as virtudes necess\u00e1rias dos agentes celestes, e as virtudes passivas terrestres, pela forte umidifica\u00e7\u00e3o do ar, elevam-se para ele vapores e fuma\u00e7as, que nele se espalham, e o putrefazem com fraco calor.<\/p>\n<p>Avicena d\u00e1 v\u00e1rios detalhes sobre os sinais atmosf\u00e9ricos da peste, para cada uma das esta\u00e7\u00f5es. Como a doen\u00e7a \u00e9 trazida por subst\u00e2ncias putrefatas misturadas no ar, um sinal importante \u00e9 que a atmosfera fica turva, enevoada ou enfuma\u00e7ada \u2013 por exemplo, frio com p\u00f3 e sem chuvas. Se no ver\u00e3o faz frio de noite, e durante o dia um calor forte e sufocante, estando o ar conturbado, pode-se esperar o surgimento da peste, febres pestilenciais, var\u00edola e enfermidades semelhantes.<\/p>\n<p>O ar putrefato \u00e9 inalado e, segundo Avicena, atinge o cora\u00e7\u00e3o e da\u00ed se espalha por todo o corpo, podendo tamb\u00e9m se comunicar a outras pessoas:<\/p>\n<p>E quando o ar est\u00e1 deste modo, atinge o cora\u00e7\u00e3o, no qual corrompe a estrutura do esp\u00edrito que nele est\u00e1, e putrefaz toda a umidade que o circunda, (\u2026) e espalha pelo corpo sua causa de fluidez, fazendo a febre pestilencial. E ela se comunica a muitos homens, que possuam em si mesmos a propriedade preparat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Pois se existe o agente, mas o paciente n\u00e3o est\u00e1 preparado, n\u00e3o ocorrem a a\u00e7\u00e3o e o efeito.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante como Avicena tenta explicar a predisposi\u00e7\u00e3o ao cont\u00e1gio. Aqui, ele faz intervir a teoria dos humores: o corpo est\u00e1 preparado para a doen\u00e7a se estiver cheio de humores maus, ou se estiver debilitado (por exemplo, pelo excesso de atividades sexuais), ou mesmo se os seus poros estiverem dilatados por banhos quentes.<\/p>\n<p>Ao discutir a cura das febres pestilenciais, Avicena indica a necessidade de \u201csecar\u201d o corpo, ou seja, diminuir sua umidade.<\/p>\n<p>A justificativa parece ser a de que toda putrefa\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorre na presen\u00e7a de umidade e portanto, diminuindo a umidade, diminui-se a possibilidade de que as subst\u00e2ncias do corpo apodre\u00e7am. Inicialmente, ele indica que se deve produzir a evacua\u00e7\u00e3o do ventre. Se surgir nesse processo alguma mat\u00e9ria sangu\u00ednea, isso indicaria a necessidade de sangria. Se surgirem outros humores, seria necess\u00e1rio produzir novas evacua\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A preven\u00e7\u00e3o das pestes parte do mesmo princ\u00edpio. Deve-se extrair do corpo toda umidade sup\u00e9rflua. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio restringir as bebidas, os alimentos e os banhos.<\/p>\n<p>Recomenda fortemente o uso de vinagre nos alimentos, para impedir sua putrefa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, recomenda a administra\u00e7\u00e3o dos antigos ant\u00eddotos: teriaga e mitridata.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de cuidados m\u00e9dicos com o pr\u00f3prio doente, Avicena indica que \u00e9 necess\u00e1rio \u201crefrigerar\u201d sua casa, e corrigir o ar. A \u201crefrigera\u00e7\u00e3o\u201d da casa consiste em utilizar subst\u00e2ncias consideradas \u201cfrias\u201d.<\/p>\n<p>Ele indica o uso de \u00e1gua de rosas, s\u00e2ndalo, c\u00e2nfora, lim\u00e3o, \u00e1gua de rom\u00e3s, vinagre e outras subst\u00e2ncias arom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Segundo Avicena, a corre\u00e7\u00e3o do ar pestilencial \u00e9 \u00fatil tanto para os s\u00e3os quanto para os enfermos. Consiste em produzir bons odores, impedindo sua putrefa\u00e7\u00e3o com qualquer coisa dispon\u00edvel \u2013 alo\u00e9, \u00e2mbar, alm\u00edscar, l\u00e1udano, cipreste, louro, etc. Recomenda aspergir a casa com vinagre, e fazer fumiga\u00e7\u00f5es com s\u00e2ndalo, c\u00e2nfora, mirra e outras subst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>De um modo geral, as recomenda\u00e7\u00f5es de Avicena s\u00e3o coerentes com a id\u00e9ia de que as pestes s\u00e3o trazidas pela putrefa\u00e7\u00e3o. No entanto, como foi indicado acima, ele tamb\u00e9m indica o uso de ant\u00eddotos (como a teriaga) para proteger contra a peste. Isso parece indicar uma mistura de duas id\u00e9ias: a da putrefa\u00e7\u00e3o e a de venenos. Na verdade, para Avicena, as duas id\u00e9ias est\u00e3o intimamente relacionadas. Pode-se verificar isso estudando, por exemplo, sua descri\u00e7\u00e3o sobre a raiva.<\/p>\n<p>Segundo Avicena, os c\u00e3es, macacos e outros animais podem se tornar raivosos \u201cquando sua constitui\u00e7\u00e3o se transforma em um predom\u00ednio da b\u00edlis negra maligna, venenosa\u201d. Essa transforma\u00e7\u00e3o se d\u00e1 por causa do ar, de alimentos ou da \u00e1gua. O calor excessivo pode endurecer seus humores, produzindo a raiva no outono; ou ent\u00e3o, o frio excessivo pode congelar seu sangue, no inverno, produzindo tamb\u00e9m a raiva pela produ\u00e7\u00e3o de b\u00edlis negra. Por\u00e9m, a raiva tamb\u00e9m poderia surgir quando o animal comesse outros animais mortos em decomposi\u00e7\u00e3o, ou bebesse \u00e1gua podre, pois isso levaria seus humores a se transformarem em b\u00edlis negra putrefata.<\/p>\n<p>Portanto, a putrefa\u00e7\u00e3o produz tamb\u00e9m venenos, e por isso a indica\u00e7\u00e3o de ant\u00eddotos nas pestes \u00e9 coerente, de acordo com as concep\u00e7\u00f5es de Avicena.<\/p>\n<p>Percebe-se em Avicena um conhecimento e uso da teoria hipocr\u00e1tica e gal\u00eanica dos humores, acrescentando no entanto muito elementos novos.<\/p>\n<p><strong>O RENASCIMENTO CULTURAL DA IDADE M\u00c9DIA<\/strong><\/p>\n<p>A partir dos s\u00e9culos XI e XII, os europeus iniciam a tradu\u00e7\u00e3o de muitos textos antigos, conservados pelos \u00e1rabes, e de obras \u00e1rabes originais, para o latim. O \u201cCanon\u201d de Avicena, por exemplo, foi traduzido por Gerard de Cremona (1140-1187), em Toledo (Espanha). Atrav\u00e9s dos \u00e1rabes, os europeus redescobriram Hip\u00f3crates, Galeno, Arist\u00f3teles e muitos outros autores que j\u00e1 n\u00e3o eram mais lidos.<\/p>\n<p>Foi principalmente por causa dessa influ\u00eancia que ressurgiu o interesse pelo estudo, na Europa. No s\u00e9culo XII, s\u00e3o criadas as primeiras universidades: Paris, em 1110; Bolonha, em 1113; Oxford, em 1167; Montpellier, em 1181; P\u00e1dua, em 1222. Nas universidades, os estudos m\u00e9dicos seguiam principalmente as obras de Galeno e de Avicena.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos formados pelas universidades, nesse per\u00edodo, eram poucos. Em Paris, eram apenas 6 em 1296, e 32 em 1395, para uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 250.000 pessoas.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica m\u00e9dica continuava na m\u00e3o de leigos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, surgem escolas m\u00e9dicas desvinculadas tanto dos mosteiros quando das universidades, como a famosa escola de Salerno, criada no s\u00e9culo XII.<\/p>\n<p>A escola de Salerno produziu, no s\u00e9culo XIII, uma obra em versos sobre a manuten\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, que se tornou muito popular, difundindo-se por toda a Europa.<\/p>\n<p>Essa obra se chamava \u201cRegimen sanitatis Salernitanum\u201d . Esse livro constitui uma boa amostra da Medicina europ\u00e9ia da alta Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Os versos dessa obra d\u00e3o variados conselhos para a conserva\u00e7\u00e3o da sa\u00fade. Uma parte dos conselhos se refere \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o: n\u00e3o beber muito vinho, n\u00e3o comer muito \u00e0 noite, etc.<\/p>\n<p>A obra cont\u00e9m recomenda\u00e7\u00f5es detalhadas, como a de levantar cedo pela manh\u00e3, lavar as m\u00e3os e olhos com \u00e1gua fria, espregui\u00e7ar-se de modo suave, pentear os cabelos, esfregar os dentes, caminhar, etc. s<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, o \u201cRegimen\u201d apresenta uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es: s\u00f3 comer quando o est\u00f4mago estiver vazio da refei\u00e7\u00e3o anterior; evitar peras, ma\u00e7\u00e3s, p\u00eassegos, leite, queijo, carnes salgadas, carne de cervo, de \u00e9gua, de vaca e de bode, especialmente quando estiver doente.<\/p>\n<p><strong>Uma importante preocupa\u00e7\u00e3o do \u201cRegimen\u201d de Salerno \u00e9 com alimentos capazes de preservar de enfermidades:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Seis coisas que aqui ser\u00e3o descritas<br \/>\nPossuem um poder secreto contra todos os venenos:<br \/>\nPera, alho, raizes de rabanete, nozes, nabo e ruta,<br \/>\nPrincipalmente alho; pois aquele que o comer,<br \/>\nPode beber, e n\u00e3o se preocupar com quem fez sua bebida;<br \/>\nPode caminhar todas as horas por ares infectados.<br \/>\nComo o alho possui portanto poderes de salvar da morte,<br \/>\nSuporte-os, embora produzam um h\u00e1lito desagrad\u00e1vel:<br \/>\nE n\u00e3o zombe do alho, como alguns que pensam<br \/>\nQue ele apenas faz os homens piscarem, beberem e federem.<\/p><\/blockquote>\n<p>O que s\u00e3o os \u201cares infectados\u201d de que o \u201cRegimen\u201d fala? O pr\u00f3prio livro explica que s\u00e3o ares impregnados por maus odores, capazes de produzir doen\u00e7as: \u201c\u00c9 certo que a infec\u00e7\u00e3o vem principalmente pelo cheiro\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, ao contr\u00e1rio de Avicena, o \u201cRegimen\u201d n\u00e3o acredita que o uso de perfumes possa superar a infec\u00e7\u00e3o do ar. Ele recomenda simplesmente viver longe de qualquer lugar de onde possa provir o ar infectado:<\/p>\n<blockquote><p>No entanto, para os quartos de sua moradia, d\u00e1 esta orienta\u00e7\u00e3o:<br \/>\nEm casas onde voc\u00ea pensa fazer sua resid\u00eancia,<br \/>\nQue perto da mesma n\u00e3o haja cheiros ruins,<br \/>\nOu \u00e1gua podre, ou excrementos,<br \/>\nQue o ar seja claro e limpo, e livre de fendas<br \/>\nQue venham de passagens secretas e cavernas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora existam certas id\u00e9ias gerais por tr\u00e1s do \u201cRegimen\u201d, observa-se que nesta e em outras obras populares do per\u00edodo aparecem in\u00fameras receitas e indica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas que n\u00e3o se baseiam em nenhuma teoria.<\/p>\n<p>Vamos mostrar um exemplo tirado de outra obra: o \u201cTesouro dos pobres\u201d, escrito no s\u00e9culo XIII.<\/p>\n<p>Esse livro \u00e9 de autoria de um portugu\u00eas, conhecido como Petrus Hispanus, que em 1277 tornou-se papa (Jo\u00e3o XXI).<\/p>\n<p>O \u201cTesouro dos pobres\u201d \u00e9 um receitu\u00e1rio com indica\u00e7\u00f5es para muitas doen\u00e7as comuns. Uma delas \u00e9 o carb\u00fanculo ou antraz \u2013 uma doen\u00e7a atualmente considerada como transmiss\u00edvel e que se caracteriza pelo aparecimento de manchas que lembram carv\u00f5es.<\/p>\n<p>Contra o antraz. Primeiramente fa\u00e7a-se uma sangria no lugar em que est\u00e1 o antraz. Se a mat\u00e9ria vier da parte de cima do pesco\u00e7o, fa\u00e7a-se a sangria da veia hep\u00e1tica. Se for do lado do cora\u00e7\u00e3o, [fa\u00e7a-se da veia] card\u00edaca; feito isso, prepare para si o seguinte rem\u00e9dio: colocar por cima farelos cozidos com vinagre; da mesma forma, colocar alhos amassados com sal, siler e amon\u00edaco, colocando por cima dissolvido em vinagre.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vale beber ou colocar em volta teriaga.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vale colocar diamante ou safira perto de qualquer pessoa. Tamb\u00e9m colocar por cima a crista de galo ou galinha atrai o veneno. Antes de colocar tudo isso, verifique se h\u00e1 l\u00e1 veneno e atraia o mesmo com linha ou outra coisa. Repita-se, para n\u00e3o ficar l\u00e1, e aplique-se em volta ceruso, isto \u00e9, alvaiade, dilu\u00edda com \u00f3leo de rosas, suco de erva-moura e um pouco de farinha de cevada; e aplique-se em um ponto sadio. Tamb\u00e9m dizem que a consolta menor triturada entre duas pedras, por milagre divino, cura o antraz.<\/p>\n<p>Diz-se que aplicar por cima dos carb\u00fanculos gemas de ovo cruas, trituradas com igual quantidade de sal, faz bem.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o estilo geral dos receitu\u00e1rios medievais. Talvez algumas das indica\u00e7\u00f5es fizessem algum efeito ben\u00e9fico. A maior parte era provavelmente in\u00f3cua ou mesmo prejudicial.<\/p>\n<p><strong>AS GRANDES PESTES MEDIEVAIS<\/strong><\/p>\n<p>No final da Idade M\u00e9dia e no Renascimento a Europa foi varrida por grandes pestes, de diversos tipos. Existem motivos hist\u00f3ricos para o surgimento dessas epidemias, nessas \u00e9pocas. Durante a Idade M\u00e9dia, as cruzadas crist\u00e3s colocaram os europeus em contato com outros povos e com doen\u00e7as desconhecidas, para as quais o organismo europeu n\u00e3o tinha nenhuma resist\u00eancia. No Renascimento, as grandes navega\u00e7\u00f5es tiveram um efeito semelhante.<\/p>\n<p>Uma das mais terr\u00edveis epidemias medievais foi a peste negra. Iniciou-se em 1347 ou 1348 e estima-se que matou 1\/3 da popula\u00e7\u00e3o da Europa. Parece ter sido uma combina\u00e7\u00e3o de peste bub\u00f4nica e pneumonia.<\/p>\n<p>Como ocorreu em outras ocasi\u00f5es semelhantes, as antigas teorias m\u00e9dicas n\u00e3o conseguiram explicar essa peste. Galeno n\u00e3o falava sobre nada parecido. Todos percebiam que a peste passava de uma pessoa para outra, mas a B\u00edblia falava mais sobre cont\u00e1gio do que qualquer m\u00e9dico grego.<\/p>\n<p>Mesmo sem ter uma base te\u00f3rica, era necess\u00e1rio agir. Imaginou-se que o melhor modo de impedir que a doen\u00e7a atingisse uma regi\u00e3o seria proibir a entrada de pessoas j\u00e1 doentes.<\/p>\n<p>Mas as pessoas poderiam estar doentes sem sab\u00ea-lo e sem manifestar nenhum sintoma.<\/p>\n<p><strong>Como distinguir os s\u00e3os dos doentes?<\/strong><\/p>\n<p>A id\u00e9ia que surgiu foi isolar todas as pessoas que estivessem vindo de locais infectados e esperar durante v\u00e1rios dias, para verificar se surgiam nelas os sinais da peste. Se surgissem, n\u00e3o poderiam entrar. Se n\u00e3o surgissem, a pessoa poderia entrar na cidade.<\/p>\n<p>A cidade de Ragusa, perto de Veneza elaborou nessa \u00e9poca a primeira legisla\u00e7\u00e3o exigindo uma quarentena (de 40 dias) para viajantes que viessem de lugares infectados. N\u00e3o havia, \u00e9 claro, nenhuma base m\u00e9dica para esse n\u00famero, 40. Provavelmente, os legisladores se inspiraram no per\u00edodo hebraico de impureza das mulheres ap\u00f3s o parto.<\/p>\n<p>Um m\u00e9dico da \u00e9poca, Guy de Chaliac, assim descreve a peste negra em Avignon, em 1348:<\/p>\n<p>A mortalidade come\u00e7ou entre n\u00f3s no m\u00eas de janeiro e durou sete meses. Foi de dois tipos. O primeiro durou dois meses. Era caracterizado por uma febre cont\u00ednua e por cuspir sangue; as pessoas morriam dela em tr\u00eas dias. A segunda durou durante o resto do tempo. Tamb\u00e9m era caracterizada por uma febre cont\u00ednua e por ap\u00f3stemas [incha\u00e7\u00f5es], carb\u00fanculos e tumores nas partes externas, principalmente nas axilas e virilhas. E as pessoas morriam dela em cinco dias.<\/p>\n<p>Era t\u00e3o contagiosa (especialmente a que incluiu cuspir sangue) que um homem a pegava de um outro n\u00e3o apenas quando vivia junto, mas simplesmente por olhar para ele.<\/p>\n<p>Por isso as pessoas morriam sem servidores e eram enterradas sem padres. O pai n\u00e3o visitava o filho, nem o filho [visitava] o pai. A caridade estava morta e a esperan\u00e7a ca\u00edda.<\/p>\n<p>Havia, portanto, a percep\u00e7\u00e3o de que a peste era contagiosa, mas o medo era tanto que se acreditava poder adquirir a enfermidade at\u00e9 pelo olhar.<\/p>\n<p>Guy de Chauliac conta que essa epidemia se iniciou no oriente e se espalhou pelo mundo todo. Ele estima que 3\/4 da popula\u00e7\u00e3o morreu com a peste. Ele pr\u00f3prio foi v\u00edtima dela, ficando doente durante seis semanas, mas sobreviveu.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, segundo o mesmo autor, houve lugares em que se supeitou que a doen\u00e7a havia surgido porque \u201cos judeus envenenaram o mundo\u201d, e por isso mataram todos os judeus da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Outros acreditaram que os pobres mutilados eram os respons\u00e1veis, e os expulsaram. Ningu\u00e9m compreendia a doen\u00e7a e os m\u00e9dicos nada podiam fazer contra ela. No entanto, Guy de Chauliac tinha uma explica\u00e7\u00e3o para a peste: a influ\u00eancia dos astros, que modificou o ar e atuou sobre os humores do corpo humano.<\/p>\n<p>Seja o que for que o povo diga, a verdade \u00e9 que a causa dessa mortalidade era dupla: uma ativa e universal, outra passiva e particular.<\/p>\n<p>A causa ativa e universal foi a disposi\u00e7\u00e3o de uma certa conjun\u00e7\u00e3o importante de tr\u00eas corpos celestes \u2013 Saturno, J\u00fapiter e Marte \u2013 que ocorreu no dia 24 de mar\u00e7o de 1345, no d\u00e9cimo quarto grau de Aqu\u00e1rio . Pois (como j\u00e1 disse em meu livro sobre astrologia) as conjun\u00e7\u00f5es mais importantes s\u00e3o press\u00e1gios de eventos maravilhosos, poderosos e terr\u00edveis, como mudan\u00e7a de governantes, o surgimento de profetas e grandes mortalidades. Dependem do signo e do aspecto dos corpos em conjun\u00e7\u00e3o. N\u00e3o deve vos espantar, portanto, que tal importante conjun\u00e7\u00e3o tenha significado uma horr\u00edvel mortalidade, pois foi n\u00e3o apenas uma grande [conjun\u00e7\u00e3o], mas uma das maiores. O signo era humano e por isso ele anunciou sofrimento para a humanidade. E por ser um signo fixo, significava longa dura\u00e7\u00e3o. Pois [a mortalidade] come\u00e7ou no Oriente, um pouco depois da conjun\u00e7\u00e3o, e ainda estava no Oeste em 1350. Ela [a conjun\u00e7\u00e3o] modificou o ar e os outros elementos de tal forma que, como o \u00edm\u00e3 move o ferro, ela moveu os humores espessos, quentes, venenosos; e reunindo-os dentro do corpo, criou l\u00e1 ap\u00f3stemas. Da\u00ed decorreram as febres cont\u00ednuas e o cuspir sangue no in\u00edcio, quando essa mat\u00e9ria corrompida era forte e perturbava o estado natural. Ent\u00e3o, quando perdeu sua for\u00e7a, o estado natural n\u00e3o ficou t\u00e3o perturbado e expeliu aquilo que conseguiu, principalmente nas axilas e virilha, assim causando bub\u00f5es e outros ap\u00f3stemas. Assim, os ap\u00f3stemas externos foram efeitos dos internos.<\/p>\n<p>A causa particular, passiva, foi a disposi\u00e7\u00e3o de cada corpo, tal como debilidade, cacoquimia ou obstru\u00e7\u00e3o, da qual os trabalhadores e os pobre morreram.<\/p>\n<p>O autor afirma que para se prevenir contra a doen\u00e7a, \u201cnada era melhor do que fugir do lugar antes de ficar infectado\u201d. Tamb\u00e9m recomenda purgantes, sangrias para diminuir o sangue, purificar o ar com fogo e fortificar o cora\u00e7\u00e3o com a teriaga, frutos e coisas perfumadas; fortificar os humores com o \u201cbolus\u201d da Arm\u00eania e resistir \u00e0 putrefa\u00e7\u00e3o com coisas \u00e1cidas. Para curar os doentes, tentava-se utilizar sangrias e evacua\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de rem\u00e9dios. Fazia-se os ap\u00f3stemas externos \u201cmadurarem\u201d por meio de figos e cebolas cozidas, misturados com fermento e manteiga. Depois, eles eram abertos e tratados como uma \u00falcera. Aplicavam-se no tumores ventosas, depois eram escarificados e cauterizados.<\/p>\n<p>Guy de Chauliac elaborou uma teriaga especial para essa peste, seguindo os ensinamentos de Arnaldo de Villanova e dos m\u00e9dicos de Paris e Montpellier. O rem\u00e9dio era composto por mais de 40 subst\u00e2ncias diferentes, incluindo noz moscada, gengibre, zedo\u00e1ria, raiz de genciana, s\u00e1lvia, menta, lim\u00e3o, \u201cosso de cora\u00e7\u00e3o do cervo\u201d, raspas de marfim, safira, esmeralda, coral vermelho, alo\u00e9s, s\u00e2ndalo, conserva de rosas, conserva de nen\u00fafares e outros materiais variados.<\/p>\n<p>Apesar de teriagas milagrosas como essa, de nada adiantou a f\u00e9rtil imagina\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos, diante da peste. A destrui\u00e7\u00e3o foi imensa.<\/p>\n<p>Esta e outras pestes tiveram enorme efeito sobre o povo, que passou a viver temendo pela pr\u00f3xima epidemia mortal. O desconhecimento das causas das doen\u00e7as levava a todo tipo de especula\u00e7\u00e3o. Nesse per\u00edodo, a astrologia m\u00e9dica fez grande sucesso; a religi\u00e3o utilizou as pestes para lembrar aos pecadores que deviam temer a Deus; e ressurgiram com muita for\u00e7a as cren\u00e7as em poderes m\u00e1gicos ou diab\u00f3licos como causadores de enfermidades.<\/p>\n<p>Os inquisidores indicam que as bruxas s\u00e3o capazes de causar todo tipo de enfermidades, e que os pr\u00f3prios m\u00e9dicos jamais excluem a possibilidade de que alguma enfermidade seja produzida por feiti\u00e7aria:<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o h\u00e1 enfermidade do corpo, nem mesmo qualquer forma de lepra ou de epilepsia, que n\u00e3o possa ser causada pelas bruxas, com a permiss\u00e3o de Deus. Prova-o o fato de que n\u00e3o h\u00e1 uma enfermidade que seja, nesse aspecto, isentada pelos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Basta a considera\u00e7\u00e3o cuidadosa do que j\u00e1 dissemos a respeito dos poderes diab\u00f3licos e da perversidade das bruxas para que n\u00e3o encontremos qualquer dificuldade nesse enunciado.<br \/>\n(\u2026)<\/p>\n<p>[Santo Isidoro] acrescenta que, sem fazer uso de qualquer pe\u00e7onha, pela mera virul\u00eancia de seus encantos, conseguem tirar dos homens sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>O \u201cMalleus maleficarum\u201d est\u00e1 repleto de exemplos do poder das bruxas, como estes:<\/p>\n<p>Na diocese de Constance, entre Breisach e Freiburg, h\u00e1 uma leprosa (\u2026) que costumava contar a muitas pessoas o que lhe acontecera por ter travado discuss\u00e3o com uma outra mulher. Certa noite, ap\u00f3s a discuss\u00e3o, teve de ir \u00e0 frente da casa por algum motivo. No mesmo instante, veio da casa da tal mulher, oposta \u00e0 sua, um vento quente que aatingiu no rosto e a contaminou com lepra, mal de que padece desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, na mesma diocese, no territ\u00f3rio da Floresta Negra, uma bruxa estava sendo suspensa pelo carcereiro sobre a pilha de lenha da fogueira onde seria queimada, quando ent\u00e3o lhe disse:<\/p>\n<p>Eu te pagarei! \u2013 e em seguida soprou no rosto do homem. Instantaneamente, viu-se o miser\u00e1vel afligido por horr\u00edvel forma de lepra que lhe cobriu o corpo e n\u00e3o o deixou viver por muitos dias. Por brevidade, os muitos e tenebrosos crimes dessa bruxa e muitos outros casos semelhantes s\u00e3o aqui omitidos.<\/p>\n<p>Basta mencionar os muitos casos que ouvimos de pessoas acometidas de epilepsia ou de mal-caduco que o foram por meio de ritos m\u00e1gicos: por meio de ovos enterrados junto a certos cad\u00e1veres, normalmente com os cad\u00e1veres de bruxas, a par de outras cerim\u00f4nias das quais n\u00e3o podemos falar, em que tais ovos eram dados \u00e0s v\u00ed-timas junto com alimento ou bebida.<\/p>\n<p>V\u00ea-se que mesmo doen\u00e7as bem conhecidas, que se sabia serem contagiosas, como a lepra, eram atribu\u00eddas \u00e0 magia.<\/p>\n<p>Os poderes das bruxas, \u00e9 claro, n\u00e3o se limitavam a produzir doen\u00e7as. O livro descreve v\u00e1rios casos de pessoas transformadas em animais pelas feiticeiras, al\u00e9m de muitos outros poderes fant\u00e1sticos, como produzir tempestades.<\/p>\n<p>Como todas as enfermidades podem ser causadas pela magia, todas elas podem tamb\u00e9m ser combatidas por ora\u00e7\u00f5es e por exorcismos:<\/p>\n<p>J\u00e1 foi dito que as bruxas s\u00e3o capazes de afligir os homens com todo tipo de enfermidades f\u00edsicas. Pode-se, portanto, considerar como regra geral que os v\u00e1rios rem\u00e9dios verbais ou pr\u00e1ticos a serem aplicados contra essas enfermidades s\u00e3o igualmente aplic\u00e1veis a todas as demais, como contra a epilepsia, a lepra, entre outras.<\/p>\n<p>O \u201cMalleus maleficarum\u201d indica alguns dos modos de combater as doen\u00e7as produzidas pela magia:<\/p>\n<p>Nider, no primeiro cap\u00edtulo de seu Praeceptorium, diz que \u00e9 l\u00edcito benzer o gado, da mesma forma que o \u00e9 aos homens doentes (\u2026).<\/p>\n<p>Pois diz que quando uma pessoa ou uma virgem devota benze uma vaca com o sinal-da-cruz, rezando um pai-nosso e a sauda\u00e7\u00e3o angelical, toda a obra demon\u00edaca que sobre ela se abate \u00e9 afastada, se tiver sido causada por bruxaria.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as entre doen\u00e7as naturais e sobrenaturais ficam muito dilu\u00eddas.<\/p>\n<p><strong>As ervas e outros rem\u00e9dios podem servir para preservar ou curar de doen\u00e7as, mas como elas funcionam?<\/strong><\/p>\n<p>Os inquisidores sugerem que elas servem para fortalecer a pessoa e aumentar sua resist\u00eancia ao dem\u00f4nio. Dessa forma, se uma pessoa se cura atrav\u00e9s de rem\u00e9dios, isso n\u00e3o quer dizer que a enfermidade era natural \u2013 poderia ter sido tamb\u00e9m um efeito de feiti\u00e7aria. Por precau\u00e7\u00e3o, era conveniente acompanhar qualquer tratamento m\u00e9dico por ora\u00e7\u00f5es e por apelos aos santos e a Deus, para que eles fossem realmente eficazes.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, o n\u00famero de supostas bruxas capturadas e queimadas pelo Inquisi\u00e7\u00e3o atingiu dezenas de milhares. \u00c9 natural que, nesse tipo de clima cultural, a busca de uma compreens\u00e3o m\u00e9dica das doen\u00e7as e de sua transmiss\u00e3o ficasse em segundo plano.<\/p>\n<p>Alguns trechos do Malleus maleficarum mostram que os inquisidores aceitavam, nessa \u00e9poca, algumas concep\u00e7\u00f5es astrol\u00f3gicas. Desde o final da Idade M\u00e9dia, por influ\u00eancia \u00e1rabe, a astrologia havia adquirido grande influ\u00eancia na Europa. Um dos astr\u00f3logos \u00e1rabes mais influentes foi Albumasar, ou Abu Ma\u2019shar de Bagd\u00e1 (s\u00e9culo X). Traduzido para o latim, ele influenciou fortemente o desenvolvimento da astrologia europ\u00e9ia. Na Espanha e depois em Portugal, ap\u00f3s a inven\u00e7\u00e3o da imprensa de tipos m\u00f3veis, surgiram obras muito populares, os chamados \u201cReport\u00f3rios dos tempos\u201d, que divulgaram essas id\u00e9ias. Essas obras davam indica\u00e7\u00f5es sobre as \u00e9pocas e condi\u00e7\u00f5es adequadas para o plantio e colheita, rela\u00e7\u00f5es entre os astros e o clima, etc.<\/p>\n<p>Grande parte dessas obras era destinada \u00e0 astrologia m\u00e9dica, indicando as condi\u00e7\u00f5es celestes capazes de produzir doen\u00e7as, bem como as \u00e9pocas adequadas para utilizar sangrias ou purgantes.<\/p>\n<p>Em 1585, o portugu\u00eas Andr\u00e9 do Avelar publicou um \u201cReport\u00f3rio dos tempos\u201d que copiou do espanhol Jer\u00f4nimo Cort\u00eas, que por sua vez se baseou em Abulmasar.<\/p>\n<p>A obra \u00e9 repleta de indica\u00e7\u00f5es sobre os sinais que anunciam o surgimento das t\u00e3o temidas pestes:<\/p>\n<p>Em tempo de algum eclipse, se aparecer algum sinal de cor negro, verde ou ruivo, ou de muitas cores, denota peste.<\/p>\n<p>Peste \u00e9 certa quando venta sul, e n\u00e3o chove, e se vai e torna, e n\u00e3o chove, e a peda\u00e7os faz frio, e \u00e0s vezes calma, e come\u00e7a a chover, e se vai, ent\u00e3o \u00e9 sinal de peste, pintas e ruins enfermidades.<\/p>\n<p>Peste se espera quando no ver\u00e3o faz seco, e no estio frio e \u00famido, e no outono muita calma e fogos, e no inverno muita secura e calor.<\/p>\n<p>R\u00e3s e ratos, e todos os r\u00e9pteis, quando se multiplicam e andam por cima da terra, e h\u00e1 muitas moscas, \u00e9 sinal de peste.<\/p>\n<p>Quando as aves abandonam seus ninhos e fogem, denota peste.<\/p>\n<p>Aves noturnas se saem de dia muitas, como at\u00f4nitas, denota peste.<\/p>\n<p>Observando-se os acontecimentos atmosf\u00e9ricos ou astron\u00f4micos dos primeiros dias do ano, seria poss\u00edvel prever tudo o que aconteceria nos meses seguintes. Por exemplo:<\/p>\n<p>No 11o dia, se ventar pela manh\u00e3, haver\u00e1 muita abund\u00e2ncia de peixes, com guerras, e se de noite ventar, haver\u00e1 peste. O 12o dia se for sereno, denota multid\u00e3o de ovelhas, e se for ventoso significa peste. O 13o dia se for sereno, promete grandes tempestades, e se de noite correrem ventos, morrer\u00e3o muitas ovelhas e cabras. O 14o dia se tiver o sol um resplandor excessivo, extraordin\u00e1rio, e de noite ventar significa peste, e c\u00f3pia de enfermidades. O 15o dia se for sereno e com ventos de noite significa guerras.<\/p>\n<p>Os eclipses eram sempre sinal de cat\u00e1strofe. Seu significado dependia do signo em que ocorresse. Se houvesse um eclipse nos signos do fogo (\u00c1ries, Le\u00e3o, Sagit\u00e1rio), haveria guerras, lutas, \u201cdesterro de algum pr\u00edncipe, pris\u00f5es em gente vulgar por muitas disc\u00f3rdias, inc\u00eandios, roubos, destrui\u00e7\u00f5es, febres agudas, destrui\u00e7\u00e3o dos frutos\u201d e outras calamidades. Se o eclipse ocorresse nos signos do ar (G\u00eameos, Libra, Aqu\u00e1rio), haveria \u201cfome com muitas doen\u00e7as, corrup\u00e7\u00e3o do ar, e peste\u201d.<\/p>\n<p>Os cometas, igualmente, sempre anunciariam desgra\u00e7as.<\/p>\n<p>Essa tradi\u00e7\u00e3o astrol\u00f3gica, iniciada na Antig\u00fcidade, manteve-se muito forte at\u00e9 o s\u00e9culo XVII, declinando mas n\u00e3o desaparecendo nos s\u00e9culos seguintes.<\/p>\n<p>Houve ocasi\u00f5es em que as autoridades religiosas se manifestaram contra a astrologia. Isso ocorreu, em particular, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVI.<\/p>\n<p>Havia sido feita uma previs\u00e3o astrol\u00f3gica de um grande dil\u00favio que aconteceria em 4 de fevereiro de 1524, quando haveria uma conjun\u00e7\u00e3o de Saturno, J\u00fapiter e Marte no signo de Peixes, provocando chuvas torrenciais.<\/p>\n<p>Muitos livros foram escritos para combater a previs\u00e3o. Um deles \u00e9 o do Frei Antonio de Beja, portugu\u00eas. Um dos argumento que ele utiliza \u00e9 que, se os astros determinassem os acontecimentos na Terra, todos os locais seriam igualmente atingidos pelas mesmas calamidades \u2013 e isso n\u00e3o ocorre. Uma cidade pode ser atingida pela peste sem que ela apare\u00e7a nas cidades vizinhas.<\/p>\n<p>Observamos aqui cada dia ser uma cidade e vila destru\u00edda por peste, e outra muito chegada e vizinha dela, ficar totalmente sadia, sem nenhum dano. Como h\u00e1 pouco tempo, que por castigo celestial e merecimento de nossas maldades vimos na nobre cidade de Lisboa, onde morreram milhares cada dia. Em alguns lugares muito chegados a ela, esse mal n\u00e3o tocou.<\/p>\n<p>Apesar de cr\u00edticas religiosas \u00e0 astrologia, pode-se dizer que a religi\u00e3o cat\u00f3lica foi muito tolerante e jamais perseguiu os astr\u00f3logos como fez com as bruxas e feiticeiros. A Medicina, por sua vez, admitia a import\u00e2ncia da astrologia para explicar as epidemias, atrav\u00e9s de influ\u00eancias clim\u00e1ticas, pois isso estava de acordo com a tradi\u00e7\u00e3o gal\u00eanica e hipocr\u00e1tica. Certamente essa tradi\u00e7\u00e3o astrol\u00f3gica dificultou a compreens\u00e3o das causas bem terrestres de doen\u00e7as transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>BRUXARIA, ASTROLOGIA E DOEN\u00c7AS<\/strong><\/p>\n<p>Durante a Idade M\u00e9dia e no Renascimento, a cren\u00e7a nos poderes m\u00e1gicos ou demon\u00edacos como causa de enfermidades se torna muito forte. Foi especialmente durante a Inquisi\u00e7\u00e3o, com a ca\u00e7a \u00e0s bruxas, que se tornou claro como essas cren\u00e7as eram fortes e difundidas.<\/p>\n<p>Um dos mais importantes documentos sobre o assunto \u00e9 o \u201cMalleus maleficarum\u201d (o martelo das malditas, ou das feiticeiras). Esse livro, escrito em 1484, foi um manual escrito pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Sprenger \u2013 dois dominicanos, professores de teologia. Parece ter sido o trabalho mais utilizado pelos inquisidores de toda a Europa, que o empregavam como orienta\u00e7\u00e3o para interrogar e julgar as feiticeiras. Apesar de escrita em uma \u00e9poca em que a cultura europ\u00e9ia j\u00e1 estava bem mais desenvolvida, essa obra mostra antigas id\u00e9ias sobre o poder da magia.<\/p>\n<p>Os autores do \u201cMalleus maleficarum\u201d, Kramer e Sprenger, receberam para seu trabalho amplos poderes do papa Inoc\u00eancio VII. Ao incumbi-los de sua miss\u00e3o inquisitorial, o papa escreve em uma bula de 9 de dezembro de 1484:<\/p>\n<p>(\u2026) Chegou-nos recentemente aos ouvidos, n\u00e3o sem que nos aflig\u00edssimos na mais profunda amargura, que em certas regi\u00f5es da Alemanha do Norte (\u2026), muitas pessoas de ambos os sexos, a negligenciar a pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o e a desgarrarem-se da F\u00e9 Cat\u00f3lica, entregaram-se a dem\u00f4nios, a \u00cdncubos e a S\u00facubos , e pelos seus encantamentos, pelos seus malef\u00edcios e pelas suas conjura\u00e7\u00f5es, e por outros encantos e feiti\u00e7os amaldi\u00e7oados e por outras tamb\u00e9m amaldi\u00e7oadas monstruosidades e ofensas h\u00f3rridas, t\u00eam assassinado crian\u00e7as ainda no \u00fatero da m\u00e3e, al\u00e9m de novilhos, e t\u00eam arruinado os produtos da terra, as uvas das vinhas, os frutos das \u00e1rvores, e mais ainda: t\u00eam destru\u00eddo homens, mulheres, bestas de carga, rebanhos, animais de outras esp\u00e9cies, parreirais, pomares, prados, pastos, trigo e muitos outros cereais (\u2026)<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, o pr\u00f3prio Papa acreditava que as bruxas e feiticeiros, com aux\u00edlio do dem\u00f4nio, destruiam planta\u00e7\u00f5es e arrasavam animais e pessoas. Kramer e Sprenger discutem, com ampla erudi\u00e7\u00e3o, se de fato existe esse poder e se as doen\u00e7as e epidemias n\u00e3o teriam apenas outras causas naturais, como por exemplo a influ\u00eancia dos astros:<\/p>\n<p>H\u00e1 quem defenda que toda tansforma\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 no corpo humano \u2013 para a sa\u00fade ou para a doen\u00e7a, por exemplo \u2013 pode ser reduzida \u00e0 quest\u00e3o das causas naturais, conforme Arist\u00f3teles demonstrou no s\u00e9timo livro da sua F\u00edsica. E dessas causas a maior \u00e9 a influ\u00eancia dos astros em cujo movimentoos dem\u00f4nios n\u00e3o t\u00eam o poder de interferir: isso s\u00f3 Deus pode fazer.<\/p>\n<p>No entanto, contra essa opini\u00e3o, os inquisidores apresentam a autoridade religiosa:<\/p>\n<p>Santo Agostinho nos serve de testemunha ao dizer: \u201cExistem, com efeito, feiti\u00e7os, malef\u00edcios e encantamentos diab\u00f3licos, que n\u00e3o s\u00f3 fazem adoecer os homens como tamb\u00e9m os matam\u201d.<\/p>\n<p>Os inquisidores n\u00e3o colocam em d\u00favida a influ\u00eancia dos astros sobre as enfermidades. Eles aceitam, por exemplo, que os cometas s\u00e3o criados por Deus para prenunciar a morte dos reis:<\/p>\n<p>S\u00e3o Jo\u00e3o afirma que os cometas n\u00e3o s\u00e3o cria\u00e7\u00e3o natural, nem s\u00e3o astros encontrados no firmamento; por isso nem seu significado nem sua influ\u00eancia s\u00e3o naturais.<\/p>\n<p>Diz-nos ele que os cometas n\u00e3o s\u00e3o astros criados desde o princ\u00edpio, mas sim criados para uma ocasi\u00e3o particular, depois se dissolvendo por ordem divina. Essa a opini\u00e3o de S. Jo\u00e3o Damasceno. Deus, por\u00e9m, atrav\u00e9s desses sinais, prenuncia a morte de reis e n\u00e3o de outros homens n\u00e3o s\u00f3 porque os reis s\u00e3o pessoas p\u00fablicas, mas tamb\u00e9m porque da sua morte pode sobrevir a confus\u00e3o em seus reinos.<\/p>\n<p>E os Anjos s\u00e3o mais diligentes na sua aten\u00e7\u00e3o para com os reis para o bem geral. Pois os reis nascem e morrem sob o cuidados dos Anjos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que reconhecem a import\u00e2ncia dos astros, os inquisidores afirmam que as pragas e enfermidades podem ser causadas pelos dem\u00f4nios:<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m h\u00e1 de negar que certos flagelos e males que de fato e visivelmente se abatem sobre os homens, os animais e os frutos da terra \u2013 e que n\u00e3o raro decorrem da influ\u00eancia dos corpos celestes \u2013 podem ser muitas vezes causados pelos dem\u00f4nios, desde que Deus o permita.<\/p>\n<p>Pode nos parecer, hoje em dia, totalmente absurdo que se atribuissem as epidemias e doen\u00e7as \u00e0s bruxas; isso nos parece fruto da imagina\u00e7\u00e3o doentia da \u00e9poca.<\/p>\n<p>No entanto, os inquisidores reafirmam que esses poderes s\u00e3o reais:<\/p>\n<p>Quisera Deus que tudo isso fosse irreal e meramente fantasioso para que livr\u00e1ssemos nossa Santa Madre Igreja da lepra dessas abomina\u00e7\u00f5es. Infelizmente, o julgamento da S\u00e9 Apost\u00f3lica, \u00fanica Soberana e Mentora de toda a verdade, expresso na Bula de nosso Santo Padre, assegura-nos e nos torna cientes do florescimento entre n\u00f3s de tais crimes e malef\u00edcios, e n\u00e3o havemos de nos abster de prosseguir com a inquisi\u00e7\u00e3o para que n\u00e3o ponhamos em risco nossa pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO 6: DO PER\u00cdODO DAS GRANDES DESCOBERTAS AO S\u00c9CULO XVIII<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS GRANDES NAVEGA\u00c7\u00d5ES E AS NOVAS DOEN\u00c7AS<\/strong><\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XV e in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, as grandes navega\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00c1sia e Am\u00e9rica produziram, entre outros efeitos, grande interc\u00e2mbio de enfermidades.<\/p>\n<p><strong>Febre Amarela<\/strong><\/p>\n<p>A febre amarela era desconhecida na Europa, antes da \u00e9poca da descoberta da Am\u00e9rica. \u00c9 poss\u00edvel que a doen\u00e7a seja origin\u00e1ria da pr\u00f3pria Am\u00e9rica, embora alguns acreditem que os pr\u00f3prios europeus a levaram para l\u00e1, da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Em 1493, por ocasi\u00e3o da segunda viagem de Colombo \u00e0 Am\u00e9rica, houve uma epidemia no Haiti, possivelmente de febre amarela. Cerca de 80% dos espanh\u00f3is morreram.<\/p>\n<p>Foi o primeiro contato dos europeus com essa enfermidade. Posteriormente, a doen\u00e7a se tornou bastante conhecida entre todos os conquistadores. Era caracterizada pela colora\u00e7\u00e3o amarela da pele do doente (que d\u00e1 o nome \u00e0 doen\u00e7a), v\u00f4mitos negros, fortes dores lombares (como se tivesse levado uma pancada nas costas, na altura dos rins). Entre o terceiro e o quinto dia, a maior parte dos doentes morria.<\/p>\n<p>Em 1545, houve uma grande epidemia no M\u00e9xico, que talvez tenha sido de febre amarela. Estima-se que na cidade do M\u00e9xico morreram 800.000 pessoas, 150.000 em Tlaxcala e 100.000 em Cholula. Em 1598, os ingleses tiveram que abandonar Porto Rico por causa da febre amarela. E bem mais tarde, Napole\u00e3o teve que desistir do Haiti e da conquista da Am\u00e9rica, pois 23.000 dos 30.000 soldados que enviou para l\u00e1, morreram de febre amarela.<\/p>\n<p>A primeira descri\u00e7\u00e3o detalhada da enfermidade data de 1648. Um cronista da \u00e9poca, Lopez de Cogulludo, descreveu os sintomas da doen\u00e7a, que come\u00e7ava com uma grav\u00edssima e intensa dor de cabe\u00e7a e de todos os ossos do corpo, t\u00e3o violenta que parecia que se desconjuntavam e que uma prensa os comprimia. Pouco depois, sobrevinha um calor muito intenso, ocasionando del\u00edrios em muitos, mas n\u00e3o em todos. Em seguida, alguns apresentavam-se com v\u00f4mitos como de sangue podre, e deste, poucos ficavam vivos.<\/p>\n<p>Em geral, no terceiro dia a febre cedia e os doentes pareciam bem, mas n\u00e3o conseguiam comer nem beber. Depois de mais um ou dois dias, morriam.<\/p>\n<p>O nome \u201cfebre amarela\u201d foi dado \u00e0 doen\u00e7a apenas no s\u00e9culo XVIII, para descrever um de seus sintomas \u2013 a colora\u00e7\u00e3o amarela da pele dos doentes. Antes disso, ela recebeu v\u00e1rios outros nomes, como \u201cgolpe de barra\u201d, por causa das dores que se sentia no in\u00edcio e que eram semelhantes \u00e0s produzidas por uma forte pancada.<\/p>\n<p>Da Am\u00e9rica Central, a febre amarela se espalhou pelo mundo, levada pelos navegantes. Atingiu a Am\u00e9rica do Norte, Am\u00e9rica do Sul, Espanha, Fran\u00e7a, Inglaterra e It\u00e1lia.<\/p>\n<p><strong>C\u00f3lera<\/strong><\/p>\n<p>Outra enfermidade que se tornou conhecida na \u00e9poca das grandes navega\u00e7\u00f5es foi o c\u00f3lera. Desde o in\u00edcio das expedi\u00e7\u00f5es dos portugueses \u00e0 \u00cdndia, eles tomaram conhecimento do c\u00f3lera que parece sempre ter grassado na regi\u00e3o do rio Ganges. Em 1543, por exemplo, houve uma epidemia t\u00e3o forte, que o escritor Gaspar Correia conta que \u201ctodos o dia dobravam sinos, e enterravam mortos de doze a quinze cada dia; e em tanta maneira que mandou o Governador que n\u00e3o se tangessem sinos nas igrejas, para n\u00e3o fazer pasmo \u00e0 gente\u201d.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a era chamada de \u201cmoryxy\u201d entre os indianos, \u201chacaiza\u201d entre os \u00e1rabes, e recebeu o nome de \u201ccholerica passio\u201d entre os m\u00e9dicos, pois se supunha que estava envolvido o humor col\u00e9rico (b\u00edlis amarela).<\/p>\n<p>Os sintomas descritos pelo pr\u00f3prio Gaspar Correia e, na mesma \u00e9poca, pelo m\u00e9dico portugu\u00eas Garcia de Orta, eram os seguintes: in\u00edcio repentino, fortes dores no abdomen, v\u00f4mitos, diarr\u00e9ia, sede, c\u00e2imbras, suor frio, pulso fraco, olhos afundados, colora\u00e7\u00e3o azulada sob as unhas das m\u00e3os e dos p\u00e9s. Nada se fazia contra a doen\u00e7a, exceto vomit\u00f3rios e clisteres. A morte era muito r\u00e1pida: muitas vezes a pessoa morria poucas horas depois dos primeiros sintomas; outras vezes, durava dois ou tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, o c\u00f3lera n\u00e3o se espalhou pelo mundo. Apenas no s\u00e9culo XIX, como veremos mais tarde, a enfermidade produziu sucessivas epidemias na Europa e no restante do mundo, produzindo grande mortalidade.<\/p>\n<p><strong>S\u00edfilis<\/strong><\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XV, a doen\u00e7a que chamamos de s\u00edfilis tornou-se conhecida em toda a Europa. Ela chamou a aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica, pela primeira vez, durante o cerco que os franceses fizeram \u00e0 cidade de N\u00e1poles.<\/p>\n<p>Por isso, os franceses chamavam a enfermidade de \u201cdoen\u00e7a de N\u00e1poles\u201d, enquanto os italianos a chamavam de \u201cdoen\u00e7a francesa\u201d (morbo galico, em latim).<\/p>\n<p>Muitos autores sup\u00f5em que se trata de doen\u00e7a antiga na Europa, mas que ainda n\u00e3o tinha sido descrita. Outros acham que a enfermidade foi trazida da Am\u00e9rica, pela frota de Colombo.<\/p>\n<p>O escritor espanhol Gon\u00e7alo Her\u00f1andez de Oviedo escreveu, em 1535:<\/p>\n<p>Muitas vezes na It\u00e1lia eu ria, ouvindo os italianos nos falarem sobre o mal franc\u00eas e os franceses chamarem-no de mal de N\u00e1poles. Na verdade, uns e outros acertariam o nome se dissessem o mal dos \u00edndios.<\/p>\n<p>Segundo Oviedo, um dos companheiros de viagem de Colombo (Vicente Pinzon), lhe contou que no ano de 1493, quando a esquadra de Colombo regressou \u00e0 Espanha, a doen\u00e7a come\u00e7ou a se manifestar entre os espanh\u00f3is e que j\u00e1 se sabia que ela era transmitida nas rela\u00e7\u00f5es sexuais. Muitas pessoas morriam, pois \u201ccomo a doen\u00e7a era coisa nova, n\u00e3o a entendiam nem sabiam curar os m\u00e9dicos\u201d. No ano seguinte, os espanh\u00f3is enviaram tropas para auxiliar o rei Fernando de N\u00e1poles, contra Carlos VIII da Fran\u00e7a. Entre os espanh\u00f3is devem ter ido v\u00e1rios sifil\u00edticos, e a enfermidade se espalhou entre os franceses e italianos.<\/p>\n<p>Com as viagens dos portugueses \u00e0 \u00cdndia, a enfermidade se espalhou por l\u00e1, onde se tornou conhecida como \u201cparanque rere\u201d, que significa \u201ca doen\u00e7a do portugu\u00eas\u201d.<\/p>\n<p><strong>No Brasil, j\u00e1 existia uma doen\u00e7a semelhante \u00e0 s\u00edfilis. Jos\u00e9 de Anchieta diz que os \u00edndios muitas vezes tinham feridas nos \u00f3rg\u00e3os sexuais, e que essa doen\u00e7a era transmitida \u00e0s mulheres:\u00a0<\/strong>\u201cN\u00e3o s\u00f3 se tornam eles feios com o aspecto horr\u00edvel da mol\u00e9stia, como tamb\u00e9m mancham e infeccionam as mulheres com quem se p\u00f5em em contato\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Anchieta, essa enfermidade n\u00e3o surgia ao acaso, mas por causa de um costume dos \u00edndios. Eles utilizavam certas lagartas finas e peludas, de corpo negro e cabe\u00e7a vermelha, chamada \u201csoca\u00fana\u201d.<\/p>\n<p>O veneno dos pelos dessas lagartas fazia inchar a regi\u00e3o tocada. Anchieta diz que os \u00edndios aplicavam tais lagartas aos \u00f3rg\u00e3os genitais, de tal modo a estimular a ere\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O cronista Gabriel Soares tamb\u00e9m descreve esse costume dos \u00edndios. Anchieta atribui a doen\u00e7a a esse costume.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que o microorganismo causador da s\u00edfilis tenha passado de uma lagarta \u00e0 esp\u00e9cie humana, mas nunca foi feito um estudo cient\u00edfico sobre isso.<\/p>\n<p>A febre amarela, o c\u00f3lera e a s\u00edfilis, s\u00e3o doen\u00e7as atualmente consideradas transmiss\u00edveis. No entanto, nada se sabia sobre elas ou sobre outras enfermidades novas, da \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Escorbuto<\/strong><\/p>\n<p>Outra doen\u00e7a que afetou fortemente as navega\u00e7\u00f5es foi o escorbuto. Embora essa doen\u00e7a j\u00e1 existisse antes, foi durante as grandes viagens que se tornou conhecida, produzindo grande terror entre os marinheiros.<\/p>\n<p>Na viagem de Vasco da Gama \u00e0 \u00cdndia, em 1497, entre Mo\u00e7ambique e Sofala, come\u00e7ou a aparecer o escorbuto na tripula\u00e7\u00e3o. O cronista Lopes de Castanheda descreve que, depois de transpor o Cabo das Tormentas, Vasco da Gama acreditou j\u00e1 estar encontrando sinais da \u00cdndia que procurava. Por isso, colocou o nome de Bons Sinais no rio a que chegou, nas costas de Mo\u00e7ambique, e resolveu consertar a\u00ed os seus navios,\u2026<\/p>\n<p>(\u2026) o que foi feito em trinta e dois dias, e o consertaram muito bem: e neste passaram nossos assaz de trabalho com uma doen\u00e7a que lhes sobreveio (parece que do ar daquela regi\u00e3o) que a muitos lhes inchavam as m\u00e3os, e as pernas e os p\u00e9s. E com isto lhes cresciam tanto as gengivas sobre os dentes que n\u00e3o podiam comer e apodreciam-lhe, de maneira que n\u00e3o havia quem suportasse o fedor da boca, e com estes males padeciam dores mui grandes, e morreram alguns o que p\u00f4s a gente em grande desmaio.<\/p>\n<p><strong>Na volta da \u00cdndia, a enfermidade reapareceu entre os portugueses:<\/strong><\/p>\n<p>(\u2026) e mais por adoecerem os mais deles de lhe incharem as gengivas e lhes apoderecerem assim como no rio dos bons sinais e faziam-se-lhe medonhas chagas nas pernas e nos bra\u00e7os de que morreram trinta pessoas e os outros tanto montavam como mortos que n\u00e3o se podiam bolir, e com isto ia faltando a \u00e1gua e apertava-se a regra.<\/p>\n<p>Vasco da Gama tinha 148 homens ao partir de Lisboa e retornou com 55. A maior parte dos 93 mortos pereceu de escorbuto. Como se v\u00ea, Castanheda acreditava tratar-se de uma doen\u00e7a do pr\u00f3prio local (\u201cdo ar daquela regi\u00e3o\u201d). Jo\u00e3o de Barros descreve a enfermidade, \u00e0 qual n\u00e3o se dava ainda nenhum nome, e a explica de outra forma:<\/p>\n<p>Por espa\u00e7o de um m\u00eas que ali estiveram no corregimento dos navios adoeceu muita gende, de que morreu alguma. A maior parte foi de erisipela e de lhes crescer tanto a carne nas gengivas, que quase n\u00e3o cabia na boca dos homens, e assim como crescia apodrecia, e cortavam dela como em carne morta; coisa muito piedosa de ver. A qual doen\u00e7a vieram depois a conhecer que procedia das carnes, pescado salgado, e biscoito corrompido de tanto tempo.<\/p>\n<p><strong>Essa terr\u00edvel enfermidade foi tamb\u00e9m descrita por Cam\u00f5es, nos Lus\u00edadas:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>E foi que de doen\u00e7a crua e feia<br \/>\nA mais que eu nunca vi, desempararam<br \/>\nMuitos a vida, e em terra estranha e alheia<br \/>\nOs ossos para sempre sepultaram.<br \/>\nQuem haver\u00e1 que sem o ver o creia?<br \/>\nQue t\u00e3o disformemente ali lhe incharam<br \/>\nAs gengivas na boca, que crescia<br \/>\nA carne e juntamente apodrecia.<br \/>\nApodrecia com f\u00e9tido e bruto<br \/>\nCheiro, que o ar vizinho infeccionava.<br \/>\nN\u00e3o t\u00ednhamos ali m\u00e9dico astuto,<br \/>\nSurugi\u00e3o sutil menos se achava:<br \/>\nMas qualquer neste of\u00edcio pouco instruto<br \/>\nPela carne j\u00e1 podre assim cortava<br \/>\nComo se fora morta; e bem convinha,<br \/>\nPois que morto ficava quem a tinha.<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta terr\u00edvel doen\u00e7a, ao contr\u00e1rio do que se pensou na \u00e9poca, n\u00e3o \u00e9 causada nem por alimentos podres, nem pelo ar infectado. Trata-se de uma car\u00eancia nutricional, que atualmente descrevemos como falta de vitamina C. De certa forma, Jo\u00e3o de Barros estava certo ao associar a enfermidade aos alimentos, mas ningu\u00e9m na \u00e9poca podia adivinhar a necessidade de frutas e de verduras na alimenta\u00e7\u00e3o, para evitar o escorbuto.<\/p>\n<p><strong>A TEORIA DE CONT\u00c1GIO DE FRACASTORO<\/strong><\/p>\n<p>A reflex\u00e3o sobre diversas doen\u00e7as que produziam epidemias na Europa levou alguns m\u00e9dicos a repensarem sobre o cont\u00e1gio. Talvez o mais importante deles tenha sido Girolamo Fracastoro , de Verona (1484-1553).<\/p>\n<p>Como vimos no cap\u00edtulo anterior, no final do s\u00e9culo XVI a s\u00edfilis come\u00e7ou a se espalhar pela Europa. Transmitida sexualmente, ela se difundiu com enorme rapidez, por todas as classes sociais. Ap\u00f3s o cont\u00e1gio, a enfermidade podia demorar v\u00e1rios meses para se manifestar \u2013 o que fazia com que se espalhasse sem ningu\u00e9m notar. Produzia fraqueza, palidez, frio e dor nos membros, manchas da pele, feridas nos \u00f3rg\u00e3os genitais, p\u00fastulas pelo corpo, queda de cabelo, feridas profundas e incur\u00e1veis, \u00falceras nos olhos, deformidades e, por fim, a morte.<\/p>\n<p>Diz-se que a s\u00edfilis at\u00e9 mesmo influenciou a moda: o surgimento das perucas teria sido o resultado do grande n\u00famero de nobres carecas, por causa dessa doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o produzisse efeitos t\u00e3o r\u00e1pidos quanto as pestes, tornou-se um enorme problema social e apavorou a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1530, poucas d\u00e9cadas ap\u00f3s o surgimento da doen\u00e7a na Europa, Fracastoro publicou uma famosa obra, na qual introduziu o pr\u00f3prio nome da enfermidade: Syphilis, sive Morbus Gallicus (\u201cS\u00edfilis, ou doen\u00e7a francesa\u201d). Este curioso livro tem um estilo pouco comum em obras m\u00e9dicas: \u00e9 escrito em versos, com estilo liter\u00e1rio. Tudo indica que Fracastoro se inspirou na obra de Lucretius, \u201cDe rerum natura\u201d, tamb\u00e9m em versos, para compor seu trabalho. As pr\u00f3prias id\u00e9ias de Fracastoro, como veremos, possuem semelhan\u00e7a com as de Lucretius.<\/p>\n<p>Em uma linguagem rebuscada, Fracastoro conta uma s\u00e9rie de hist\u00f3rias, uma das quais introduz o nome da enfermidade. Ele conta que o pastor Syphilus, do Haiti, havia prestado homenagens divinas ao seu rei, Alcithous.<\/p>\n<p>Por isso, teria sido castigado pelo deus Sol, que enviou a nova doen\u00e7a aos homens. Da\u00ed vem o nome da enfermidade, s\u00edfilis. A hist\u00f3ria \u00e9 tola, mas o nome foi adotado por todos.<\/p>\n<p>No princ\u00edpio de sua obra, Fracastoro exp\u00f5e seu objetivo:<\/p>\n<p>Meus cantos v\u00e3o ensinar que germe e que reuni\u00e3o de acidentes diversos produziram uma doen\u00e7a estranha, ignorada durante muitos s\u00e9culos, que, depois de fazer em nossos dias estragos em toda a Europa, e em uma parte da \u00c1frica e da \u00c1sia, veio cair sobre a It\u00e1lia, e unir-se aos funestos ex\u00e9rcitos dos Franceses, dos quais esse mal recebe o seu nome. (\u2026) Enfim, procurarei as causas secretas desse flagelo nas influ\u00eancias do ar, e dos astros.<\/p>\n<p>Como vamos ver, Fracastoro introduz algumas concep\u00e7\u00f5es novas, mas mant\u00e9m a cren\u00e7a no poder dos astros na produ\u00e7\u00e3o da s\u00edfilis.<\/p>\n<p>Fracastoro exp\u00f5e a cren\u00e7a existente na \u00e9poca, de que a doen\u00e7a tivesse sido introduzida por Colombo e se espalhado pelo contato sexual. No entanto, ele nega essa explica\u00e7\u00e3o, pois diz que ela apareceu simultaneamente em muitos pa\u00edses da Europa e s\u00f3 depois na Espanha e Portugal. Afirma, tamb\u00e9m, que muitos \u201cforam atacados por esse cont\u00e1gio, sem haver se comunicado com ningu\u00e9m, e sem o ter obtido no seio do prazer.\u201d<\/p>\n<p>Essas circunst\u00e2ncias devem nos ensinar, creio, que essa doen\u00e7a tem uma origem mais ampla e mais importante do que se apresenta inicialmente, e que seu princ\u00edpio deve ser buscado em causas menos conhecidas e mais elevadas.<\/p>\n<p>Para explicar o surgimento desta enfermidade, Fracastoro ir\u00e1 utilizar uma teoria astrol\u00f3gica, bem ao gosto da \u00e9poca. Inicialmente, ele afirma que uma doen\u00e7a t\u00e3o geral s\u00f3 pode ter sido transmitida pelo ar:<\/p>\n<p>(\u2026) Se quereis conhecer pela ordem o princ\u00edpio e as causas; come\u00e7ai por dirigir vossos olhares sobre a parte imensa do universo, e sobre a multid\u00e3o de cidades que foram infectadas por esse cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Considerando depois que o germe de um flagelo t\u00e3o geral n\u00e3o pode ser guardado nas \u00e1guas dos mares, nem no seio da terra; v\u00f3s vos convencereis que os princ\u00edpios e a s\u00e9de do mal est\u00e3o no ar, esse elemento que abra\u00e7a nosso globo inteiro, e que \u00e9 o ve\u00edculo orgin\u00e1rio dessas pestes mortais que afligem a natureza humana. O ar \u00e9 o pai e a fonte das coisas. \u00c9 ele quem produz entre os homens as maiores doen\u00e7as, sendo de uma natureza pr\u00f3pria para se corromper de cem modos diferentes, por causa da maciez de suas partes; sendo igualmente pronto a receber todos os tipos de impress\u00f5es, e a comunic\u00e1-las depois de receb\u00ea-las.<\/p>\n<p>Mas como o ar se corrompeu e produziu essa enfermidade? Por uma influ\u00eancia celeste, j\u00e1 que os astros agitam e movem os elementos terrestres:<\/p>\n<p>O Sol e os planetas s\u00e3o os primeiros m\u00f3veis que regem e agitam o mar, a terra e o ar. \u00c0 medida que esses astros fazem suas revolu\u00e7\u00f5es, e mudam de lugar no c\u00e9u, os elementos submetidos a suas leis sofrem diversas mudan\u00e7as. V\u00eade como no inverno, quando o Sol, levado por seu carro r\u00e1pido para o Sul, se afasta de nosso globo, o frio logo exerce sua viol\u00eancia (\u2026)<\/p>\n<p>N\u00e3o existe d\u00favida, de modo semelhante, que a tocha da noite, a Lua, tem grande dom\u00ednio sobre os mares, e sobre toda a umidade espalhada no universo; que o planeta sinistro de Saturno, o de J\u00fapiter, mais favor\u00e1vel ao mundo, Marte e a bela V\u00eanus \u2013 que, em uma palavra, todos os astros presidem aos elementos, que eles atormentam sem cessar. Por isso eles s\u00e3o causa de grandes agita\u00e7\u00f5es, em toda parte, sobretudo se encontramos v\u00e1rios que atuem juntos, ou se ocorrer que eles se afastem de seu caminho ordin\u00e1rio para percorrer novas rotas. Esses acidentes aparecem sem d\u00favida depois de v\u00e1rias revolu\u00e7\u00f5es do c\u00e9u, e s\u00e3o obras do tempo; assim os deuses se servem dos astros para a realiza\u00e7\u00e3o dos destinos.<\/p>\n<p>Sempre que existem novas situa\u00e7\u00f5es nos c\u00e9us, podem surgir tamb\u00e9m novos efeitos na Terra: \u201c(\u2026) Deveis vos surpreender que o ar alterado produza em algumas \u00e9pocas novas doen\u00e7as, e que os mortais infelizes sofram no curso do s\u00e9culo as influ\u00eancias de um astro rigoroso?\u201d<\/p>\n<p>Como evid\u00eancia de que os astros podem trazer novas doen\u00e7as, Fracastoro lembra a peste negra de dois s\u00e9culos antes, e que havia sido causada pela uni\u00e3o de Marte e Saturno. Convida, por isso, seus leitores a elevarem os olhos para os c\u00e9us, para descobrir a origem do novo flagelo. E logo identifica a causa: uma conjun\u00e7\u00e3o de J\u00fapiter, Marte e Saturno na constela\u00e7\u00e3o de C\u00e2ncer.<\/p>\n<p>Embora J\u00fapiter seja um planeta ben\u00e9fico, ele n\u00e3o \u00e9 capaz de impedir a a\u00e7\u00e3o de Saturno e Marte reunidos.<\/p>\n<p>[J\u00fapiter] n\u00e3o pode se impedir de lamentar os infelizes mortais, prevendo as guerras, a destrui\u00e7\u00e3o das coisas e dos imp\u00e9rios, as devasta\u00e7\u00f5es e as mortes funestas que devem desolar a terra.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 atingido pela dor sobretudo \u00e0 vista dos efeitos contagiosos de uma nova enfermidade, cuja viol\u00eancia n\u00e3o pode ser interrompida por nenhum recurso da ind\u00fastria humana. Os outros deuses aplaudem; o Olimpo treme, e o ar fica carregado por um novo veneno. Suas influ\u00eancias malignas se espalham pouco a pouco e infectam logo o espa\u00e7o imenso dos c\u00e9us. Talvez os planetas, unindo seus fogos ao Sol, tenham puxado dos mares e da terra vapores que, insinuando-se nas part\u00edculas do ar, o tenham alterado e carregado desse veneno, rarefeito demais para ser sens\u00edvel aos olhos; talvez algum outro v\u00edcio do ar tenha corrompido nossa atmosfera.<\/p>\n<p>Segundo Fracastoro, o ar pode ser afetado de diversas maneiras pelas \u201csementes celestes\u201d que a\u00ed se espalham, e podem influenciar \u00e0s vezes s\u00f3 as plantas, \u00e0s vezes s\u00f3 alguma esp\u00e9cie de animal. No caso da s\u00edfilis, \u201cela s\u00f3 quer o homem. Ela se insinua em seus membros para consumi-lo. Sem d\u00favida esse veneno, circulando em todo o corpo, se prendeu \u00e0 parte espessa do sangue, aos humores que l\u00e1 residem, \u00e0s mat\u00e9rias gordurosas e f\u00e9tidas; que ele, em uma palavra, se nutriu de tudo o que a\u00ed havia de impuro; \u00e9 a raz\u00e3o que devemos dar para essa doen\u00e7a que encontrou seu alimento no sangue.\u201d<\/p>\n<p>Fracastoro n\u00e3o associa a s\u00edfilis ao contato sexual. Como a enfermidade viria pelo ar, ele sugere v\u00e1rios cuidados para se preservar dela, tais como: escolher um ar conveniente; fugir dos ventos quentes; fugir dos lugares lamacentos ou pantanosos; viver no cambo aberto, ou numa colina agrad\u00e1vel, onde o ar \u00e9 sempre renovado pelos ventos. Recomenda evitar o repouso e \u00f3cio. O trabalho e os exerc\u00edcios s\u00e3o saud\u00e1veis; suar faz bem. N\u00e3o se deve fatigar o esp\u00edrito. Deve-se respeitar um regime no qual s\u00e3o evitados os peixes e p\u00e1ssaros que se alimentam de peixes. N\u00e3o se deve utilizar freq\u00fcentemente nem o vinagre, nem o leite.<\/p>\n<p>Quanto ao vinho, s\u00f3 devem ser usados os provenientes de solo \u00famido. As plantas odor\u00edferas, que purificam o ar, tamb\u00e9m s\u00e3o \u00fateis. Quando, apesar de todos os cuidados, a enfermidade surgir, o tratamento consiste em purificar o corpo:<\/p>\n<p>Se a doen\u00e7a se mostra na primavera ou o outono, se aquele que foi atacado est\u00e1 na for\u00e7a da idade e se \u00e9 de um temperamento sang\u00fc\u00edneo, ser\u00e1 conveniente picar-lhe a veia bas\u00edlica ou a mediana, para desembara\u00e7\u00e1-lo do sangue sup\u00e9rfluo e corrompido. Mas seja em que esta\u00e7\u00e3o for, deve-se apressar em lan\u00e7ar para fora, por meio de purga\u00e7\u00f5es, os maus humores, conseq\u00fc\u00eancias do mal contagioso, ap\u00f3s ter o cuidado de se preparar para isso por po\u00e7\u00f5es resolutivas, atenuantes e diluentes.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o aparecimento da s\u00edfilis, os m\u00e9dicos experimentaram muitos rem\u00e9dios e descobriram que o merc\u00fario, embora seja uma subst\u00e2ncia venenosa, pode curar essa doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Fracastoro sugere v\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es para a efic\u00e1cia do merc\u00fario.<\/p>\n<p>Talvez as part\u00edculas agudas de que ele se comp\u00f5e, encontrando-se extremamente divididas depois de haver penetrado nas diferentes partes do corpo, tornam-se capazes, por esse meio, de dissolver e de destruir a semente da peste; talvez, enfim, porque os destinos e a natureza lhe deram qualquer outra qualidade, que nos \u00e9 desconhecida.<\/p>\n<p>Fracastoro recomenda misturar o merc\u00fario com v\u00e1rias subst\u00e2ncias, quase todas elas de cheiro desagrad\u00e1vel: ra\u00edzes de el\u00e9boro negro e de \u00edris em p\u00f3s, galbanum, assaf\u00e9tida, \u00f3leo de lentisque e \u00f3leo tirado do enxofre.<\/p>\n<p>A pessoa deve cobrir todo o corpo com esse ung\u00fcento e depois se deitar e cobrir bem, at\u00e9 transpirar abundantemente. Essa opera\u00e7\u00e3o deveria ser repetida dez vezes.<\/p>\n<p>A absor\u00e7\u00e3o do merc\u00fario pelo corpo produzia uma saliva\u00e7\u00e3o incessante, que obrigava o paciente a cuspir sem parar. Isso era interpretado como um bom sinal: parecia que era a pr\u00f3pria doen\u00e7a que saia do corpo, com a saliva. \u201cO humor espesso e maligno que vos atormentava se dissolver\u00e1 pouco a pouco. V\u00f3s o sentireis flutuar com a saliva, e tereis a satisfa\u00e7\u00e3o de v\u00ea-lo escoar-se como um riacho e cair a vossos p\u00e9s.\u201d<\/p>\n<p>Em meio a todas as descri\u00e7\u00f5es de Fracastoro, podemos perceber os seguintes elementos importantes: os astros podem influenciar e produzir combina\u00e7\u00f5es novas dos elementos terrestres; isso ocorre principalmente quando eles se re\u00fanem em uma constela\u00e7\u00e3o (conjun\u00e7\u00e3o); o ar se torna ent\u00e3o corrompido ou envenenado, ficando repleto de germes ou sementes da enfermidade, provenientes do c\u00e9u; esse ar produz a corrup\u00e7\u00e3o do sangue, que pode ser combatida por processos gerais de purifica\u00e7\u00e3o (sangria, evacua\u00e7\u00f5es) ou por rem\u00e9dios cuja a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 compreendida.<\/p>\n<p>Embora Fracastoro utilize repetidas vezes a palavra \u201ccont\u00e1gio\u201d em suas descri\u00e7\u00f5es, em nenhum instante ele esclarece em que sentido a doen\u00e7a \u00e9 contagiosa.<\/p>\n<p>Embora o livro sobre a s\u00edfilis seja a mais conhecida obra de Fracastoro, foi em outro trabalho que ele desenvolveu o seu conceito de cont\u00e1gio. Em 1546, ele publicou um estudo \u201cSobre doen\u00e7as contagiosas\u201d.<\/p>\n<p>Nesse trabalho, ele aceita a exist\u00eancia de enfermidades \u2013 entre as quais inclui a var\u00edola, lepra, tifo, pneumonia, peste bub\u00f4nica e outras \u2013 que podem passar de uma pessoa para v\u00e1rias outras.<\/p>\n<p>Como o n\u00famero de pessoas doentes pode ir aumentando, sem que a doen\u00e7a se enfraque\u00e7a, Fracastoro concluiu que essas doen\u00e7as epid\u00eamicas eram causadas por pequenos germes ou sementes que possuem o poder de se multiplicar no corpo do paciente. Um veneno, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o se multiplica sozinho e n\u00e3o pode produzir uma epidemia.<\/p>\n<p>Se, portanto, nos permitirmos definir a febre pestilencial, n\u00f3s diremos: \u00c9 uma febre de putrefa\u00e7\u00e3o profunda e impura; cont\u00e9m germes do mais agudo cont\u00e1gio; por isso \u00e9 uma doen\u00e7a mortal, e \u00e9 contagiosa para outra pessoa. Isso, portanto, e n\u00e3o a putrefa\u00e7\u00e3o, \u00e9 a raiz de seu conte\u00fado, \u00e9 a caracter\u00edstica essencial da febre pestilencial. (\u2026)<\/p>\n<p>Aquilo que \u00e9 sua causa essencial e dir\u00edamos formal, \u00e9 que se trata de uma febre que cont\u00e9m em si os germes do cont\u00e1gio causador da morte. Por estas raz\u00f5es, as febres que s\u00e3o causadas por venenos, embora mortais, n\u00e3o s\u00e3o pestilenciais, pois n\u00e3o s\u00e3o contagiosas. Pois lhes faltam as caracter\u00edsticas essenciais e formais da praga.<\/p>\n<p>Esses germes s\u00e3o denominados de \u201ccontagion\u201d. Trata-se de uma corrup\u00e7\u00e3o que se desenvolve dentro da subst\u00e2ncia, passa de uma coisa para outra, e \u00e9 causada originalmente pela infec\u00e7\u00e3o por part\u00edculas impercept\u00edveis.<\/p>\n<p>Os germes s\u00e3o descritos como pequenos demais para serem vistos.<\/p>\n<p>De acordo com Fracastoro, h\u00e1 tr\u00eas modos de cont\u00e1gio: pelo contato direto de uma pessoa com outra; por agentes intermedi\u00e1rios fomentadores (fomites), impregnados por material infeccioso, tais como roupas velhas, \u00e0s quais aderem os germes das enfermidades; e \u00e0 dist\u00e2ncia, pelo ar.<\/p>\n<p>Cada tipo de semente ou germe causaria uma doen\u00e7a diferente. No entanto, os germes poderiam se modificar, transformando-se nas sementes de outras doen\u00e7as, assim explicando diferentes epidemias.<\/p>\n<p>Partindo dessa concep\u00e7\u00e3o, Fracastoro indica como m\u00e9todo terap\u00eautico tentar destruir rapidamente os germes que invadem o corpo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que Fracastoro se aproximou muito de nosso conceito de enfermidades transmiss\u00edveis. No entanto, n\u00e3o se deve pensar que ele seja um cientista moderno. Como vimos, ele continua a aceitar todo tipo de concep\u00e7\u00f5es sobre a influ\u00eancia dos astros na atmosfera; e n\u00e3o se pode dizer que sua id\u00e9ia de cont\u00e1gio tivesse uma boa fundamenta\u00e7\u00e3o. Como Fracastoro apela para coisas invis\u00edveis (os germes ou sementes), a hip\u00f3tese n\u00e3o podia ser testada. No fundo, era uma hip\u00f3tese como muitas outras \u2013 com uma desvantagem: era nova e contr\u00e1ria \u00e0 teoria gal\u00eanica.<\/p>\n<p><strong>OS PORTUGUESES E AS PESTES NO S\u00c9CULO XVI<\/strong><\/p>\n<p>No s\u00e9culo XVI, continuavam a predominar as concep\u00e7\u00f5es de Hip\u00f3crates e Galeno, na medicina. As pestes continuam a se suceder, atingindo fortemente Portugal.<\/p>\n<p>Podemos verificar quais as id\u00e9ias mais comuns no per\u00edodo, estudando alguns escritos de m\u00e9dicos portugueses desse s\u00e9culo, sobre a peste.<\/p>\n<p>Manuel \u00c1lvares (1545-1612) foi um importante m\u00e9dico portugu\u00eas, que tornou-se professor da Universidade de Toulouse (de 1572 at\u00e9 sua morte). Em 1585, houve uma peste bub\u00f4nica em Toulouse, e \u00c1lvares escreveu um livro em que tentava explicar a enfermidade e indicar como se podia evit\u00e1-la e cur\u00e1-la. Ele come\u00e7a respeitosamente associando as pestes \u00e0 religi\u00e3o:<\/p>\n<p>As doen\u00e7as populares, que os m\u00e9dicos chamam de epid\u00eamicas, v\u00eam comumente pela expressa vontade de Deus, como um flagelo enviado pelos pecados dos homens, e disso temos v\u00e1rios exemplos na santa escritura (\u2026)<\/p>\n<p>Seria muito demorado discorrer aqui sobre o n\u00famero das pestil\u00eancias que foram memor\u00e1veis, desde a cria\u00e7\u00e3o do mundo at\u00e9 nossa \u00e9poca. Delas, a maior parte foi enviada pelos pecados dos homens, sem que nelas houvesse qualquer apar\u00eancia de causas secund\u00e1rias que as houvessem produzido, a n\u00e3o ser apenas a expressa vontade de Deus.<\/p>\n<p>Em seguida, \u00c1lvares discorre sobre v\u00e1rias hip\u00f3teses a respeito do surgimento das epidemias:<\/p>\n<p>Algumas vezes as mesmas doen\u00e7as prov\u00eam da infec\u00e7\u00e3o do ar gerada pelas imund\u00edcies, inunda\u00e7\u00f5es, chuvas, umidade, tremores de terra, vapores ou abund\u00e2ncia de corpos mortos.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 perniciosa n\u00e3o apenas aos homens mas tamb\u00e9m aos animais, como ocorreu em Roma nos tempos de Tarquinius Superbus, quando o ar se infectou pela m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p>Como vimos, a id\u00e9ia de que o ar transmite as epidemias era j\u00e1 bastante antiga. N\u00e3o poderia faltar tamb\u00e9m, \u00e9 claro, a men\u00e7\u00e3o a fatores astrol\u00f3gicos:<\/p>\n<p>Esses cont\u00e1gios s\u00e3o geralmente precedidos por algumas conjun\u00e7\u00f5es de astros ou eclipses com aspectos funestos, como foi a conjun\u00e7\u00e3o de Saturno e Marte, no signo de Aqu\u00e1rio, casa pr\u00f3pria do dito Saturno, (\u2026) que os m\u00e9dicos que n\u00e3o ignoram Astrologia notaram ter muitas vezes sido causa de doen\u00e7as populares, e tamb\u00e9m um antes da coqueluche do ano 1580. Pois, embora muitos autores antigos digam que os astros s\u00e3o por si todos bons e n\u00e3o enviam nada de mau aos corpos inferiores, no entanto nosso Senhor, servindo-se de causas secund\u00e1rias como instrumentos da justi\u00e7a, permite que por suas influ\u00eancias que por si s\u00e3o boas e salutares, os quatro elementos se alterem tanto, que o ar, do qual nos servimos mais, absorvendo-o continuamente pela respira\u00e7\u00e3o, adquira alguma intemperan\u00e7a ou m\u00e1 qualidade contr\u00e1ria \u00e0 nossa vida.<\/p>\n<p>\u00c1lvares admite tamb\u00e9m a exist\u00eancia do cont\u00e1gio \u2013 no entanto, utiliza uma concep\u00e7\u00e3o exagerada e fantasiosa do fen\u00f4meno:<\/p>\n<p>Essas mesmas doen\u00e7as tamb\u00e9m prov\u00eam muitas vezes sem qualquer corrup\u00e7\u00e3o do ar, pelo simples contato e toque das coisas infectadas. Isso \u00e9 muito comum e citarei um s\u00f3 exemplo disso. Na cidade de Sel\u00eaucia, na Babil\u00f4nia, no tempo do imperador Antonino, alguns soldados da companhia de Avidius Cassius, movidos pela avareza de roubar, abriram certo cofre de prata, do qual saiu um vapor ou ar infecto e a\u00ed guardado h\u00e1 muito tempo, que infectou todo o imp\u00e9rio, do oriente at\u00e9 o ocidente. Na mesma ocasi\u00e3o ocorreu a grande peste de Roma no tempo do imperador Commodus, em que todos os dias morriam mais de 1.000 pessoas, e isso por meio de certos homens abomin\u00e1veis, que jogavam pela cidade certas coisas impregnadas de veneno, por cujo toque uma infinidade de pessoas foi surpreendida pela peste.<\/p>\n<p>Conhecidas as causas das epidemias, pode-se tentar evit\u00e1-las. Como elas s\u00e3o enviadas por Deus, a primeira provid\u00eancia \u00e9 abolir a causa principal, que \u00e9 o pecado:<\/p>\n<p>Para remediar esse grande mau que come\u00e7a a invadir a nossa cidade (\u2026) evemos em primeiro lugar tentar por todos os meios, continuando nossas devo\u00e7\u00f5es e preces santamente institu\u00eddas, corrigir nossas vidas, apagar nossos pecados por uma verdadeira penit\u00eancia, e com um cora\u00e7\u00e3o suplicante pedir a sua divina magestade [que tenha piedade da cidade] (\u2026)<\/p>\n<p>Como \u00c1lvares admite que a enfermidade possa passar de uma pessoa para outra, recomenda que se cuide das portas da cidade: \u201cevitar que nenhuma pessoa entre de qualquer lugar infectado, para n\u00e3o aumentar o cont\u00e1gio\u201d. Pelo mesmo motivo, os doentes deviam ser isolados; e devia-se evitar tamb\u00e9m confus\u00f5es ou aglomera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deve falar sobre os doentes, nem ir ver nenhum, a n\u00e3o ser estando seguro de que n\u00e3o h\u00e1 doen\u00e7a contagiosa; e a esses de longe. E ao falar \u00e0s pessoas, manter-se um pouco afastado.<\/p>\n<p>Embora a enfermidade venha pelo ar, \u00c1lvares recomenda que se fa\u00e7a varrer as ruas e que se limpem as imund\u00edcies. \u00c9 importante observar que, nessa \u00e9poca, praticamente n\u00e3o existiam esgotos nas cidades.<\/p>\n<p>Os dejetos eram lan\u00e7ados das casas para as ruas. N\u00e3o havia, tamb\u00e9m, coleta de lixo, que era igualmente lan\u00e7ado \u00e0s ruas ou empilhado nas pra\u00e7as p\u00fablicas. O mau cheiro exalado das ruas devia ser terr\u00edvel.<\/p>\n<p>Como se associava as doen\u00e7as a um ar corrompido e podre, tudo o que piorava o cheiro do ar devia ser evitado.<\/p>\n<p>Como se acreditava que o principal meio de transmiss\u00e3o das pestes era o ar, a doen\u00e7a podia ser carregada pelo ar preso \u00e0s roupas. Por isso, \u00c1lvares recomenda a proibi\u00e7\u00e3o de venda de tecidos ou vestimentas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u201cdeve-se manter os porcos longe das casas, assim tamb\u00e9m como os cachorros e gatos; pois eles com freq\u00fc\u00eancia trazem o mau ar\u201d. As roupas tamb\u00e9m deveriam ser periodicamente purificadas:<\/p>\n<p>\u00c9 bom mudar com freq\u00fc\u00eancia de roupas, e faz\u00ea-las passar sobre o fogo, como tamb\u00e9m manter fogo aceso no quarto, sem se aquecer demais.<\/p>\n<p>Como tamb\u00e9m tereis cuidado de que vossa habita\u00e7\u00e3o seja mantida limpa e que os de vossa fam\u00edlia n\u00e3o fiquem descal\u00e7os; pois da\u00ed prov\u00eam muitos males que n\u00e3o se nota.<\/p>\n<p>A freq\u00fcente troca de camisa e roupas \u00e9 tamb\u00e9m extremamente exigida contra esse mal, desde que as que tirardes sejam colocadas no ar, a fim de que se tiverem alguma coisa de mau, o ar, passando em cima, o leve e dissipe sem perigo.<\/p>\n<p><strong>\u00c1lvares d\u00e1 grande import\u00e2ncia ao estado de esp\u00edrito: uma pessoa alegre parecia menos sujeita a adquirir a enfermidade do que uma triste ou receosa:<\/strong>\u00a0Deve-se evitar todo peso do esp\u00edrito, dor, c\u00f3lera, tristeza \u2013 e sobretudo o medo do mal.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma infinidade de outros rem\u00e9dios preservativos da peste da qual poder\u00e1s facilmente coligir os autores. \u00c9 verdade que o principal rem\u00e9dio, \u00edmpar, para esse mal \u00e9 manter-se alegre, e beber de manh\u00e3 antes de sair de sua casa.<\/p>\n<p>Para se proteger do ar maligno, \u00c1lvares recomenda tamb\u00e9m tomar um alho com um pouco de vinho, ou levar na boca um pouco de ang\u00e9lica, zedo\u00e1ria, genciana, ou outras subst\u00e2ncias arom\u00e1ticas. O vinagre, que impede a putrefa\u00e7\u00e3o dos alimentos, era especialmente recomend\u00e1vel contra as epidemias:<\/p>\n<p>Antes de sair de casa, as pessoas comuns lavar\u00e3o as m\u00e3os, o nariz, as orelhas e o rosto com vinagre ou vinho, mesmo no caso de crian\u00e7as pequenas.<\/p>\n<p>Era recomend\u00e1vel tamb\u00e9m adicionar vinagre aos alimentos, e embeber nele uma esponja, para cheirar com freq\u00fc\u00eancia ou colocar sobre o cora\u00e7\u00e3o, \u201ccomo um rem\u00e9dio soberano contra toda corrup\u00e7\u00e3o do ar\u201d.<\/p>\n<p>Pode-se tamb\u00e9m adicionar ao vinagre canela e outras subst\u00e2ncias arom\u00e1ticas.<\/p>\n<p>V\u00e1rios tipos de subst\u00e2ncias podiam ser carregadas em saquinhos, pendurados ao pesco\u00e7o, para proteger da peste.<\/p>\n<p>Por fim, adiciona v\u00e1rios procedimentos m\u00e9dicos preventivos: as pessoas cheias de sangue devem fazer sangrias da veia m\u00e9dia do bra\u00e7o direito, depois usar um purgante leve, e por fim um rem\u00e9dio de acordo com os humores que abundam em seu organismo. Tamb\u00e9m recomenda as \u201cp\u00edlulas de Refus\u201d, \u00e0s quais se adiciona a\u00e7afr\u00e3o, ou amon\u00edaco, ou outras subst\u00e2ncias boas para \u201cretirar o veneno\u201d. N\u00e3o poderia deixar de receitar um ant\u00eddoto tradicional: o rem\u00e9dio de Mithridates, contra todos os venenos, do qual fornece uma receita simples particular \u2013 duas nozes, dois figos, 20 folhas de arruda, um gr\u00e3o de sal. Ou ent\u00e3o, abre-se um figo, coloca-se dentro o cerne de uma noz, oito folhas de arruda e um gr\u00e3o de sal, depois tempera-se com bom vinho; deve-se tomar em jejum.<\/p>\n<p>\u00c1lvares indica uma s\u00e9rie de rem\u00e9dios populares da \u00e9poca, como a teriaga, o \u201copiato vulgar de Salom\u00e3o\u201d, o \u00f3leo de vitr\u00edolo (\u00e1cido sulf\u00farico), etc. Sugere tamb\u00e9m v\u00e1rios outros procedimentos estranhos, como esfregar os pulsos, t\u00eamporas e cora\u00e7\u00e3o com \u00f3leo de escorpi\u00f5es, ou usar presa ao corpo uma pedra de l\u00e1pis-lazuli. E depois de uma s\u00e9rie de regras das mais variadas, termina o seu livro assim:<\/p>\n<p>Fim. Aceite-o quem quiser.<\/p>\n<p>Todas as cren\u00e7as e recomenda\u00e7\u00f5es de \u00c1lvares s\u00e3o t\u00edpicas da \u00e9poca. Algo muito semelhante pode ser encontrado em um folheto publicado em Lisboa em 1569:<\/p>\n<p>\u201cRecompila\u00e7\u00e3o das coisas que conv\u00e9m guardar-se no modo de preservar a Cidade de Lisboa e os s\u00e3os, e curar os que estiverem enfermos de peste\u201d.<\/p>\n<p>Este pequeno livro, composto pelos m\u00e9dicos Tom\u00e1s \u00c1lvares e Garcia de Salzedo, \u201cMedicos do Serenissimo Rey de Portugal, Dom Sebasti\u00e3o Primeiro, nosso Senhor\u201d, n\u00e3o cont\u00e9m qualquer discuss\u00e3o te\u00f3rica.<\/p>\n<p>\u00c9 apenas um conjunto de normas a serem respeitadas contra a peste, compiladas, como o pr\u00f3prio nome diz, de muitas fontes.<\/p>\n<p>A \u201cRecompila\u00e7\u00e3o\u201d d\u00e1 enorme import\u00e2ncia ao ar da cidade. No caso de Lisboa, recomenda-se especialmente que sejam feitas fogueiras pelas ruas, por causa da grande umidade da cidade, \u201cque \u00e9 causa potent\u00edssima desta enfermidade\u201d. S\u00e3o indicados para o fogo as madeiras de cedro, cipreste, oliveria, pinho, aroeira, zimbro, alecrim \u201ce todos os mais bons cheiros que cada um quiser deitar\u201d.<\/p>\n<p>Os fogos devem ser feitos especialmente pela manh\u00e3 e no in\u00edcio da noite.<\/p>\n<p>E estas duas coisas s\u00e3o muito louvadas na f\u00edsica [medicina], tanto para o rem\u00e9dio, como para a purifica\u00e7\u00e3o do ar, no qual consiste grande parte da cura e preserva\u00e7\u00e3o deste mal, porque como o ar corrupto \u00e9 a causa dele, a sua retifica\u00e7\u00e3o ser\u00e1 o rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>Com o mesmo objetivo, a \u201cRecompila\u00e7\u00e3o\u201d recomenda a limpeza das ruas e das pra\u00e7as, e que as imund\u00edcies e excrementos sejam levados \u00e0 noite ou de madrugada para serem jogados ao mar, pois durante o dia o ar ficaria mais impregnado com o mau cheiro.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio tomar cuidados com as roupas: n\u00e3o se deve utilizar roupas com pregas, ao caminhar ou visitar os enfermos, pois elas carregariam mais ar infectado dentro delas.<\/p>\n<p>O Sol \u00e9 considerado muito ben\u00e9fico, recomendando-se que n\u00e3o se saia de casa nem se abram as janelas antes do nascer do Sol. \u201cEm tempo de inverno, e em dia frio e claro, se podem abrir as janelas ao meio dia, em horas em que entre o Sol, e purifique os aposentos, e casas.\u201d<\/p>\n<p>As casas devem ser mantidas limpas, lavadas com \u00e1gua e vinagre, sendo ainda melhor utilizar vinagre e \u00e1gua de rosas, em partes iguais. \u00c9 conveniente tamb\u00e9m perfum\u00e1-las com rosas, benjoim e outras subst\u00e2ncias arom\u00e1ticas. Recomenda-se fazer fogos, dentro de casa, no ver\u00e3o, de noite e pela manh\u00e3, com madeiras de bom cheiro, como cipreste, zimbro, alecrim, murta, oliveira, loureiro, videira; pode-se ir tamb\u00e9m colocando perfume, nas cinzas, quando acabar a chama. No inverno, o fogo pode ser feito a todas as horas. Pode-se espalhar ervas e ramos de bom cheiro pela casa; colocar frutas como laranjas, lim\u00f5es, marmelos, etc.<\/p>\n<p>A \u201cRecompila\u00e7\u00e3o\u201d recomenda, como \u00c1lvares, que se fa\u00e7am saquinhos de subst\u00e2ncias arom\u00e1ticas, que podem ser cheirados durante o dia, ou pendurados sobre o cora\u00e7\u00e3o. Enfim: a maior parte das indica\u00e7\u00f5es se refere \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o do ar e ao combate contra os maus odores.<\/p>\n<p>Os autores da \u201cRecompila\u00e7\u00e3o\u201d reconhecem o perigo do cont\u00e1gio, e por isso proibem bailes, dan\u00e7as e qualquer ajuntamento de pessoas. As casas onde tenha havido tr\u00eas ou mais doentes devem ser esvaziadas; \u00e9 preciso queimar fogos e perfumes dentro dessas casas e mant\u00ea-las vazias \u201cporque est\u00e1 claro que aquele ar est\u00e1 mais danado que outro\u201d.<\/p>\n<p>As roupas de pessoas empesteadas devem ser queimadas ou lavadas com \u00e1gua do mar, depois com \u00e1gua doce, e por fim com \u00e1gua e vinagre, para purific\u00e1-las.<\/p>\n<p>O sangue das sangrias deve ser imediatamente mandado para o mar, pois sup\u00f5e-se que ele tamb\u00e9m pode transmitir a enfermidade.<\/p>\n<p>Os enterros devem ser feitos o mais depressa poss\u00edvel. A \u201cRecompila\u00e7\u00e3o\u201d sugere que se fa\u00e7a uma cova muito alta e comprida para l\u00e1 serem colocados todos os corpos.<\/p>\n<p>O doente deveria ser envolvido no len\u00e7ol ou manta na qual morrer, e o corpo deveria ser coberto primeiro com cal, depois com terra, \u201cseja muito cal\u00e7ado, para que n\u00e3o saia mau vapor; porque depois de Deus, o rem\u00e9dio deste mal consiste na retifica\u00e7\u00e3o do ar, e em impedir que se corrompa.\u201d<\/p>\n<p>Todo tipo de podrid\u00e3o ou mau cheiro precisa ser evitado. Deve-se proibir a venda de carne de animais que morrerem, ou que come\u00e7arem a ter mau cheiro, e o mesmo com pescados e para outros mantimentos.<\/p>\n<p>Recomenda-se dar prefer\u00eancia \u00e0 carne do que aos peixes, especialmente os pescados perto da cidade, \u201conde comem muitas imund\u00edcies\u201d.<\/p>\n<p>Os pobres que tenham feridas pelo corpo devem ser impedidos de andar pelas ruas: deve-se combinar com eles para que recebam alimentos em algum lugar recolhido, de maneira que n\u00e3o andem pela cidade, porque com suas chagas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida sen\u00e3o que ajudar\u00e3o a danar mais o ar.\u201d<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rias regras sobre alimenta\u00e7\u00e3o: deve-se preferir alimentos secos, evitar gordura e todos os produtos de leite, exceto queijo velho, \u201cdo muito bom dalentejo\u201d.<\/p>\n<p>Os doces e misturas de comidas s\u00e3o nocivos. Deve-se preferir vinho branco, bebido com modera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00e1rios cuidados devem ser tomados com a \u00e1gua: buscar \u00e1gua de fonte conhecida, ou de rio que corra por terra limpa, no qual n\u00e3o se curta linho ou c\u00e2nhamo. Deve-se evitar \u00e1gua de po\u00e7o, ou ent\u00e3o ferv\u00ea-la com certas subst\u00e2ncias purificadoras \u2013 no inverno, canela, erva doce, ou cravo; no ver\u00e3o, azedas, ou sementes dela, ou um pouco de vinagre. \u201cAjuda tamb\u00e9m na retifica\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, ou vinho que se houver de beber, apagar na \u00e1gua ou no vinho uma l\u00e2mina ou barra de ouro ardendo\u201d.<\/p>\n<p>Os exerc\u00edcios devem ser moderados, pois al\u00e9m de excitar e aquecer os humores, produzem mau cheiro. Devem ser feitos em aposento fechado e perfumado.<\/p>\n<p>A \u201cRecompila\u00e7\u00e3o\u201d considera muito importante um estado de esp\u00edrito positivo: evitar ira, nojo, tristeza, etc. As roupas devem ser alegres, cheirosas e limpas, sem pregas.<\/p>\n<p>O uso de pedras preciosas em contato com o corpo tamb\u00e9m ajuda a proteger da peste \u2013 principalmente esmeraldas e jacintos. Como fortificantes, s\u00e3o indicadas a triaga e outros rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>Deve-se eliminar do corpo tudo o que \u00e9 sup\u00e9rfluo, atrav\u00e9s das fezes (purgantes). Tamb\u00e9m \u00e9 conveniente fazer sangrias moderadas, especialmente nos que estejam muito vermelhos, ou com excesso de sangue, ou que se sentem pesados, etc. \u201cA estes tais conv\u00e9m a sangria, e se podem sangrar no crescente da Lua das duas veias da arca\u201d, ou nos p\u00e9s.<\/p>\n<p>Se apesar de todos os cuidados, a doen\u00e7a se instalar, h\u00e1 v\u00e1rios procedimentos m\u00e9dicos indicados. Logo no in\u00edcio, indica-se a import\u00e2ncia de grandes sangrias; mas quando a pessoa j\u00e1 est\u00e1 fraca, a sangria deve ser evitada, pois apenas produz a morte mais r\u00e1pida. O sangue deve ser extra\u00eddo do mesmo lado e lugar onde surgem os incha\u00e7os, com o objetivo de ajudar a natureza a \u201ctirar o veneno\u201d, pelo mesmo lado e lugar onde ela opera.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da sangria, recomenda-se purgantes, sempre posteriores \u00e0 sangria. Os purgantes devem ser muito suaves: rosas, violetas em conserva, e polpa de tamarindos. Em alguns casos, aconselha-se o suadouro, que tamb\u00e9m pode eliminar o veneno; mas n\u00e3o \u00e9 muito recomendado, pois \u201co veneno \u00e9 grosseiro e sang\u00fc\u00edneo\u201d.<\/p>\n<p>A \u201cRecompila\u00e7\u00e3o\u201d indica v\u00e1rios medicamentos que devem ser colocados sobre os incha\u00e7os, \u201cpara atrair o veneno\u201d e para aliviar a dor.<\/p>\n<p>E para isto \u00e9 rem\u00e9dio muito conveniente a cebola assada com a teriaga, e azeite de a\u00e7ucenas, pisada, e posta no incha\u00e7o, e tornando a por de duas em duas horas, ou de hora a hora: e ponha-se mais, ou menos assada, segundo for a dor; porque se a dor \u00e9 pouca, asse-se pouco, para que tenha mais virtude atrativa: e se a dor \u00e9 grande, asse-se mais, porque quanto mais se assar, mais mitiga a dor, e sempre tem virtude atrativa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se podia depenar um galo vivo, polvilh\u00e1-lo com sal mo\u00eddo, e colocar sobre o incha\u00e7o, para atrair o veneno. Era recomendado tamb\u00e9m o uso de sanguessugas, capazes de sugar grande quantidade de sangue, de modo indolor.<\/p>\n<p>De um modo geral, os procedimentos curativos pareciam se basear na id\u00e9ia de que havia alguma subst\u00e2ncia nociva no organismo (o \u201cveneno\u201d), que precisava ser retirada atrav\u00e9s de evacua\u00e7\u00f5es, sangrias, ou por \u201catra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>S\u00c9CULOS XVI E XVII: TENTATIVA DE QUEBRA DA TRADI\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Os s\u00e9culos XV e XVI presenciaram muitas mudan\u00e7as na Europa. \u00c9 o per\u00edodo em que se d\u00e1 a inven\u00e7\u00e3o da imprensa, a redescoberta da p\u00f3lvora, as grandes navega\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ocorre um enorme desenvolvimento econ\u00f4mico e cultural.<\/p>\n<p>Embora nas universidades a tradi\u00e7\u00e3o continue a ser respeitada e seguida como antes, come\u00e7a a surgir um amplo movimento de renova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e cultural.<\/p>\n<p>O Renascimento \u00e9 um per\u00edodo durante o qual se percebe uma tentativa de valorizar o homem, a iniciativa individual, o realismo.<\/p>\n<p>No campo religioso, ocorre no s\u00e9culo XVI o movimento de reforma de Lutero, que dividiu a igreja crist\u00e3 e questionou os valores tradicionais. Na mesma \u00e9poca, surge a teoria astron\u00f4mica de Cop\u00e9rnico, que tira a Terra do centro do universo e a transforma em um dos v\u00e1rios planetas circulando em torno do Sol.<\/p>\n<p>A impress\u00e3o de livros permitiu uma maior difus\u00e3o de obras de todos os tipos, incluindo as cient\u00edficas e m\u00e9dicas. Foram publicadas edi\u00e7\u00f5es das obras cl\u00e1ssicas, que antes circulavam apenas sob forma de manuscritos.<\/p>\n<p>Enquanto que antes os estudos nas universidades eram r\u00edgidos, limitados a alguns poucos autores e textos selecionados, torna-se dispon\u00edvel uma grande variedade de id\u00e9ias de diferentes \u00e9pocas e tend\u00eancias.<\/p>\n<p>Tudo isso deve ter estimulado o surgimento de uma renova\u00e7\u00e3o nas ci\u00eancias.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio trabalho de Fracastoro, j\u00e1 estudado, que pertence a essa \u00e9poca, mostra esse tipo de renova\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da influ\u00eancia do atomista romano Lucretius.<\/p>\n<p>No entanto, outros autores do s\u00e9culo XVI e XVII representam melhor a tentativa de revolucionar a Medicina. Nesse per\u00edodo, surgem cr\u00edticas diretas e globais \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o antiga. Andreas Vesalius (1514-1564) funda a anatomia moderna, atrav\u00e9s da cuidadosa observa\u00e7\u00e3o, descri\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica do corpo humano. Seus estudos mostram que Galeno havia povoado a antiga anatomia com muitos erros graves, que durante mil anos foram aceitos como verdade, pois ningu\u00e9m era capaz de se dedicar \u00e0 pr\u00f3pria observa\u00e7\u00e3o da natureza. Mais tarde, William Harvey (1578-1657) ir\u00e1 revolucionar a fisiologia, mostrando que o sangue circula por todo o corpo, bombeado pelo cora\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que se acreditava at\u00e9 a \u00e9poca. Talvez o autor m\u00e9dico mais caracter\u00edstico desse movimento de renova\u00e7\u00e3o seja Paracelso. Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim (1493-1541), que se auto-denominava Paracelso , atacou de modo direto e violento toda a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua ruptura com as autoridades antigas foi mostrada de modo formal quando ele queimou publicamente os livros de Galeno e Avicena, numa pra\u00e7a de Basle, em 1527.<\/p>\n<p>O maior obst\u00e1culo ao desenvolvimento do conhecimento lhe parecia ser o respeito aos livros tradicionais. Era necess\u00e1rio retornar ao \u201clivro da natureza\u201d e adquirir conhecimento pela experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Para diferenciar-se dos m\u00e9dicos da \u00e9poca, que s\u00f3 escreviam em latim, Paracelso redigiu seus livros no idioma popular: alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Paracelso n\u00e3o se tornou o Cop\u00e9rnico da Medicina, no entanto: n\u00e3o conseguiu edificar uma nova teoria que substituisse a antiga. Sua obra foi uma estranha mistura de id\u00e9ias m\u00edsticas, astrol\u00f3gicas, alqu\u00edmicas e m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>O homem \u00e9, para ele, uma miniatura do universo (um microcosmo) e por isso os conhecimentos m\u00e9dicos n\u00e3o podem ser separados de uma filosofia sobre toda a natureza. Ele foi mais um mago do que cientista, no conceito moderno da palavra. Talvez a maior contribui\u00e7\u00e3o que ele tenha dado \u00e0 Medicina tenha sido o impulso para buscar algo novo, atrav\u00e9s de todos os meios dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de Paracelso era alqu\u00edmica \u2013 a qu\u00edmica da \u00e9poca. Familiarizado com muitas subst\u00e2ncias que n\u00e3o eram utilizadas pelos m\u00e9dicos, ele as introduziu em seus tratamentos.<\/p>\n<p>Foi por sua influ\u00eancia que se come\u00e7ou a utilizar chumbo, enxofre, ferro, ars\u00eanico, sulfato de cobre e sulfato de pot\u00e1ssio, dando in\u00edcio a uma farmacop\u00e9ia mais baseada em minerais do que em subst\u00e2ncias org\u00e2nicas.<\/p>\n<p>Paracelso interessou-se pouco pela anatomia, que florescia na \u00e9poca. O corpo humano, para ele, era um tipo de laborat\u00f3rio alqu\u00edmico, regido por um princ\u00edpio vital misterioso, ao qual deu o nome de Archeus.<\/p>\n<p>Esse princ\u00edpio, localizado na regi\u00e3o do est\u00f4mago, dirigia o processamento dos alimentos, separando a parte boa para o organismo da parte mal\u00e9fica.<\/p>\n<p>Esse mesmo princ\u00edpio eliminava as subst\u00e2ncias j\u00e1 utilizadas pelo organismo, atrav\u00e9s das excre\u00e7\u00f5es. Quando ocorria alguma perturba\u00e7\u00e3o do Archeus, a separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era bem feita e o corpo podia se envenenar, ou come\u00e7ar a acumular \u201ct\u00e1rtaro\u201d \u2013 o res\u00edduo dos processos org\u00e2nicos.<\/p>\n<p>Isso seria uma das mais importantes causas das enfermidades.<\/p>\n<p>A \u00eanfase na utiliza\u00e7\u00e3o da alquimia na medicina faz de Paracelso o iniciador de uma corrente que, depois, foi chamada de \u201ciatroqu\u00edmica\u201d \u2013 a medicina qu\u00edmica.<\/p>\n<p>Outro pensador m\u00e9dico pouco posterior, que pode ser enquadrado na linhagem de Paracelso, foi Jan Baptista Van Helmont (1577-1644). Como outras pessoas da \u00e9poca, Van Helmont se decepcionou com a medicina que era praticada e procurou novos caminhos.<\/p>\n<p>Aos 24 anos, antes de se tornar um famoso m\u00e9dico e alquimista, Van Helmont contraiu sarna e procurou a ajuda de dois famosos m\u00e9dicos. Os m\u00e9dicos, como era usual na \u00e9poca, seguiam a corrente humoral e, como o pr\u00f3prio Van Helmont conta, logo afirmaram conhecer a causa do problema:<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos (\u2026) julgaram que existia em mim uma abund\u00e2ncia de c\u00f3lera [b\u00edlis] queimada ou seca, juntamente com uma fleugma salgada, de tal modo que havia se desregulado a capacidade do f\u00edgado de produzir sangue. Alegrei-me, porque essas coisas que os autores haviam me transmitido eram confirmadas por dois mestres experientes, pois eu, que havia aprendido que na ci\u00eancia matem\u00e1tica todas as especula\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito verdadeiras, acreditei que essas coisas eram tamb\u00e9m comuns e insepar\u00e1veis das regras de curar (\u2026).<\/p>\n<p>De acordo com minha antiga credulidade, perguntei que tipo de desregulagem do f\u00edgado podia ser essa que, ao mesmo tempo, aquecia a c\u00f3lera amarela mais do que ela merecia, e tamb\u00e9m gerava mais fleugma do que devia, percebendo que um ato da mesma raiz e da mesma sanguinifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o poderia produzir ao mesmo tempo, no mesmo ventre, um produto duplo ou bifurcado \u2013 ou seja, emitir abundantemente uma c\u00f3lera ardente e tamb\u00e9m uma fleugma fria e aquosa.<\/p>\n<p>Os mestres experientes ficaram em d\u00favida e se interrogaram com suas sombrancelhas arqueadas, olhando um para o outro. Por fim, o mais jovem deles respondeu que a mesma desregulagem de um f\u00edgado inflamado n\u00e3o podia produzir fleugma verdadeira, mas uma fleugma abundando em sal, e a temperatura do sal era quente e fria (\u2026)<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o ficar muito convencido do valor da teoria, Van Helmont precisava se curar da sarna e aceitou o tratamento recomendado: tomar purgativos, para se purificar.<\/p>\n<p>No sexto dia evacuei quinze vezes. Enquanto isso, eles bendiziam minha transforma\u00e7\u00e3o, pois meu corpo havia se tornado \u00e3o fluido.Depois de mais dois dias, como a coceira n\u00e3o havia aliviado sua crueldade, tomei de novo o mesmo rem\u00e9dio, com uma not\u00e1vel revolta de meu est\u00f4mago, e ocorreu um processo semelhante de evacua\u00e7\u00e3o. Eles disseram que a juventude costumava produzir o desenvolvimento da c\u00f3lera.<\/p>\n<p>E quando viram que apesar disso a coceira e as feridas n\u00e3o estavam diminuindo, decretaram que dois dias depois eu deveria tomar o rem\u00e9dio purgativo pela terceira vez.<\/p>\n<p>Um pouco antes da noite, minhas veias estavam exauridas, meu queixo havia ca\u00eddo, minha voz era rouca, todo o meu corpo estava arruinado e fraco. Era dif\u00edcil para mim descer de meu quarto e andar, pois meus joelhos quase n\u00e3o me suportavam (\u2026).<\/p>\n<p>Percebi tarde demais que antes dos rem\u00e9dios purgativos meus intestinos eram saud\u00e1veis; mas que agora, por falta de apetite e digest\u00e3o falha, eu havia adquirido muita fraqueza, embora a sarna se mantivesse firme e segura.<\/p>\n<p>Abandonando o tratamento dos grandes m\u00e9dicos, Van Helmont acabou por se curar utilizando enxofre aplicado ao local da sarna.<\/p>\n<p>Como outros, Van Helmont se dedicou \u00e0 medicina mas afastando-se da tradi\u00e7\u00e3o e procurando chegar a um novo tipo de conhecimento. Estudou Paracelso mas tamb\u00e9m n\u00e3o aceitou suas doutrinas, embora aproveitasse algumas de suas id\u00e9ias.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de Van Helmont sobre as doen\u00e7as \u00e9 bastante obscura. Ele defendia a exist\u00eancia de dois tipos de princ\u00edpios vitais no corpo. O mais importante era chamado por ele de \u201cArcheus\u201d (nome que j\u00e1 havia sido utilizado por Paracelso). O Archeus produz a estrutura, a forma, a imagem do organismo. Esse Archeus, segundo Van Helmont, estaria centralizado no est\u00f4mago ou no f\u00edgado, e governaria todo o corpo atrav\u00e9s de um tipo de alento vital ou ar, que ele denominou \u201cblas\u201d. Esse \u201cblas\u201d n\u00e3o seria exatamente igual ao ar que respiramos, mas algo mais espiritual. \u00c9 semelhante ao conceito grego de \u201cpneuma\u201d ou ao conceito indiano de \u201cprana\u201d, que representava ao mesmo tempo a respira\u00e7\u00e3o, o alento vital, e tamb\u00e9m as for\u00e7as vitais dentro do corpo.<\/p>\n<p>Os processos vitais b\u00e1sicos, segundo Van Helmont, est\u00e3o associados \u00e0 fermenta\u00e7\u00e3o, que transforma os elementos e produz ar. A fermenta\u00e7\u00e3o, para ele, \u00e9 algo produzido por certas part\u00edculas dotadas de vida.<\/p>\n<p>Toda a mat\u00e9ria viva prov\u00e9m de fermentos, que atuam na \u00e1gua e produzem suas sementes. O funcionamento desses fermentos \u00e9 dirigido pelo Archeus. De certa forma, essas sementes s\u00e3o semelhantes \u00e0 id\u00e9ia atual de micr\u00f3bios \u2013 embora diferentes em outros aspectos.<\/p>\n<p>As doen\u00e7as tamb\u00e9m seriam processos vitais regidos por fermentos. Como o funcionamento do corpo \u00e9 regido pelo Archeus, ele \u00e9 um intermedi\u00e1rio no estabelecimento de enfermidades. De certa forma, o Archeus se deixa impregnar por uma \u201cimagem\u201d da doen\u00e7a, que o contamina como um veneno. Ele afirma que essas \u201cimagens\u201d s\u00e3o as sementes dos seres que produzem a doen\u00e7a, ou sementes da natureza corrupta.<\/p>\n<p>Assim como o organismo vivo \u00e9 movido por um \u201cblas\u201d, existe tamb\u00e9m um \u201cblas\u201d que \u00e9 a causa do movimento das estrelas. Todo o universo \u00e9, em certo sentido, um grande organismo.<\/p>\n<p>Como as estrelas atuam atrav\u00e9s do seu \u201cblas\u201d, elas podem influenciar os corpos terrestres. Por isso, as sementes est\u00e3o sujeitas a influ\u00eancias astrol\u00f3gicas. Van Helmont tenta explicar, assim, o efeito dos astros sobre as enfermidades.<\/p>\n<p>Parece haver uma oscila\u00e7\u00e3o entre a id\u00e9ia de que essas sementes sejam algo material e a de que sejam algo espiritual, mas em alguns pontos Van Helmont afirma claramente que s\u00e3o \u201cid\u00e9ias\u201d e, portanto, imateriais. Essas \u201cid\u00e9ias\u201d se implantam no Archeus e passam a controlar os \u00f3rg\u00e3os e a produzir os sintomas das doen\u00e7as.<\/p>\n<p>O calor e o frio, os humores e outras coisas que aparecem nas doen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o causas, mas efeitos.<\/p>\n<p>O Archeus de uma pessoa ou animal conserva o fermento do qual essa pessoa ou animal nasceu. Por isso, cada pessoa ou animal pode formar outra igual a si mesma, pela reprodu\u00e7\u00e3o. No entanto, em uma pessoa doente, o Archeus se altera. As sementes das enfermidades podem se prender t\u00e3o fortemente \u00e0 for\u00e7a vital do organismo, que podem tamb\u00e9m passar aos descendentes (doen\u00e7as heredit\u00e1rias).<\/p>\n<p>A enfermidade pode surgir sem a influ\u00eancia de nenhum fator f\u00edsico direto (calor, umidade, etc.), exatamente por ser causada por uma \u201cid\u00e9ia\u201d: \u201cUm medo da peste cria a peste\u201d.<\/p>\n<p>A cura tamb\u00e9m pode ser feita indiretamente, de um modo \u201cmagn\u00e9tico\u201d, quase m\u00e1gico. Se uma pessoa se fere, pode-se aplicar um rem\u00e9dio \u00e0 sua ferida ou ent\u00e3o aplicar o rem\u00e9dio sobre o sangue de uma toalha com a qual ele se limpou. Nos dois casos, o rem\u00e9dio produz o mesmo efeito.<\/p>\n<p>Existe em Van Helmont um conceito de cont\u00e1gio, mas bem diferente do moderno. Podemos dizer que seu conceito est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do utilizado na magia do que do nosso, pois as doen\u00e7as s\u00e3o causadas por id\u00e9ias imateriais.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo seguinte, Frederick Hoffmann (1660-1742) ir\u00e1 utilizar algumas id\u00e9ias semelhantes \u00e0s de Van Helmont. Ele adota uma vis\u00e3o fisico-qu\u00edmica do corpo humano.<\/p>\n<p>Hoffmann acredita que as doen\u00e7as malignas s\u00e3o causadas por um veneno e \u201csurgem de um princ\u00edpio venenoso diminuto que se multiplica como um fermento, e perverte e atrapalha completamente o movimento do sangue\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que os conceitos qu\u00edmicos iam surgindo, tentava-se utiliz\u00e1-los na medicina. Fran\u00e7ois de la Boe (1614-1672), conhecido como \u201cSylvius de Leiden\u201d, tentou explicar as enfermidades atrav\u00e9s das no\u00e7\u00f5es de alcalinidade e acidez. Para ele, a fonte das enfermidades era puramente qu\u00edmica, podendo tamb\u00e9m ser combatida por meios qu\u00edmicos.<\/p>\n<p>Mas tentativas desse tipo eram prematuras e grosseiras, fracassando completamente.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que a qu\u00edmica (ou alquimia) adquiria import\u00e2ncia na medicina, a f\u00edsica tamb\u00e9m come\u00e7ou a conquistar um espa\u00e7o nesse campo. Este \u00e9 o per\u00edodo em que Giordano Bruno, Galileo Galilei, Johannes Kepler, Simon Stevin e muitos outros pesquisadores est\u00e3o procurando construir uma nova f\u00edsica. O m\u00e9dico Santorio Santorio , de Padua (1561-1636) foi um dos primeiros a estudar alguns dos aspectos f\u00edsicos do corpo humano, procurando medir todos os fen\u00f4menos estudados. Ele inventou o term\u00f4metro cl\u00ednico, para comparar de modo mais objetivo as temperaturas dos doentes e dos s\u00e3os; desenvolveu um rel\u00f3gio para medir a pulsa\u00e7\u00e3o; e \u2013 o aspecto que mais nos interessa \u2013 realizou um estudo sobre a transpira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao longo de experimentos feitos durante 30 anos, consigo pr\u00f3prio e com outras pessoas, Santorio procurou medir os efeitos da transpira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele pesava diariamente todos os alimentos e bebidas ingeridos e todas as excre\u00e7\u00f5es. Observou que, embora o peso da pessoa (adulta) permanecesse praticamente constante, a quantidade de subst\u00e2ncias ingeridas era bem maior do que a quantidade de urina e excrementos. A diferen\u00e7a deveria ser devida \u00e0 transpira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo suas medidas, um homem forte e robusto, que realiza exerc\u00edcio f\u00edsico moderado, que come e bebe oito libras por dia, perde cinco libras de l\u00edquido pela transpira\u00e7\u00e3o insens\u00edvel di\u00e1ria.<\/p>\n<p>At\u00e9 essa \u00e9poca, ningu\u00e9m havia percebido que a transpira\u00e7\u00e3o era t\u00e3o significativa. Baseando-se em sua descoberta, Santorio imaginou que esse processo deveria ter grande import\u00e2ncia para o organismo.<\/p>\n<p>De tanto se dedicar a esse estudo, passou a imaginar que toda a sa\u00fade dependia unica e exclusivamente da transpira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo Santorio, se o corpo retorna todos os dias ao mesmo peso, pois transpira na mesma medida, a sa\u00fade se conserva.<\/p>\n<p>Mas a sa\u00fade declina quando o corpo diminui seu peso ordin\u00e1rio por uma evacua\u00e7\u00e3o mais abundante de excrementos ou de urina do que de costume, ou quando, pelo contr\u00e1rio, o peso aumenta pelo motivo inverso.<\/p>\n<p>Se depois de alguns dias, o corpo n\u00e3o recupera o seu peso ordin\u00e1rio, seja por uma transpira\u00e7\u00e3o copiosa, seja por evacua\u00e7\u00f5es sens\u00edveis, deve-se aguardar uma febre ou qualquer outra doen\u00e7a pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Santorio diz que, cuidando da transpira\u00e7\u00e3o, por controle do peso dos alimentos, das excre\u00e7\u00f5es e do corpo, pode-se manter uma sa\u00fade perfeita e chegar aos 100 anos de idade; deve-se no entanto notar que ele pr\u00f3prio s\u00f3 chegou \u00e0 idade de 75 anos.<\/p>\n<p>De acordo com suas id\u00e9ias, Santorio recomenda purgantes leves para todo aumento de peso. Ele observa que ligeiros purgativos n\u00e3o diminuem a transpira\u00e7\u00e3o, mas \u201cajudam docemente a se descarregar de um peso in\u00fatil\u201d. Pelo contr\u00e1rio, os purgativos violentos impedem a transpira\u00e7\u00e3o e s\u00e3o por isso considerados extremamente perigosos.<\/p>\n<p>Tudo o que possa perturbar a transpira\u00e7\u00e3o \u00e9 prejudicial \u00e0 sa\u00fade. Segundo Santorio, diversas causas contribuem a parar a transpira\u00e7\u00e3o, mas as principais s\u00e3o um frio \u00famido, uma alimenta\u00e7\u00e3o viscosa, o jejum, o pavor, as noites inquietas, e evacua\u00e7\u00f5es muito abundantes. Santorio tenta explicar a influ\u00eancia do clima na produ\u00e7\u00e3o da enfermidade, associando essa influ\u00eancia \u00e0s mudan\u00e7as da transpira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ar frio sempre tende a suprimir a transpira\u00e7\u00e3o, mas se ele \u00e9 seco, n\u00e3o ocorrem perturba\u00e7\u00f5es danosas \u00e0 sa\u00fade. Pelo contr\u00e1rio, em um ar \u00famido e insalubre ou tempestuoso, a transpira\u00e7\u00e3o \u00e9 retida, e a mat\u00e9ria obstru\u00edda pode causar grande desordem e males.<\/p>\n<p>As pessoas robustas transpiram mais durante o dia, no ver\u00e3o, e durante a noite, no inverno. E enquanto que no ver\u00e3o a supress\u00e3o da transpira\u00e7\u00e3o predisp\u00f5e \u00e0s febres malignas, no inverno, pelo contr\u00e1rio, ela tem poucas conseq\u00fc\u00eancias, pois a mat\u00e9ria que se transpira \u00e9 mais azeda no calor do que no frio.<\/p>\n<p>De todas as esta\u00e7\u00f5es, o outono \u00e9 para Santorio o menos sadio, \u201cpois a mat\u00e9ria da transpira\u00e7\u00e3o \u00e9 facilmente interrompida e se corrompe facilmente\u201d. Para evitar esse duplo mal, deve-se andar bem vestido e usar um regime conveniente. Dessa maneira manter-se-\u00e1 o corpo sempre com o peso constante.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s desses estudos, Santorio acaba por reinterpretar a doutrina das epidemias de Hip\u00f3crates. O calor, o frio, a umidade e a secura do ar produzem enfermidades, mas n\u00e3o por agirem diretamente sobre os humores corporais e sim modificando a transpira\u00e7\u00e3o. A vis\u00e3o de Santorio tamb\u00e9m se op\u00f5e \u00e0 cren\u00e7a em venenos ou germes do ar produtores de doen\u00e7as, pois s\u00e3o apenas as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas da atmosfera que produzem a supress\u00e3o da transpira\u00e7\u00e3o e as enfermidades. O processo \u00e9 puramente f\u00edsico.<\/p>\n<p>A teoria de Santorio pode ser considerada o in\u00edcio de uma nova corrente na Medicina, tentando estudar o corpo humano como uma m\u00e1quina, medindo suas propriedades e tentando explicar as doen\u00e7as apenas pela f\u00edsica. Essa corrente foi mais tarde chamada de \u201ciatrof\u00edsica\u201d ou \u201ciatromec\u00e2nica\u201d \u2013 a Medicina f\u00edsica.<\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo XVII, a iatrof\u00edsica recebeu um grande apoio te\u00f3rico pelos trabalhos do fil\u00f3sofo Ren\u00e9 Descartes (1596-1650) e do m\u00e9dico Julian de la Mettrie (1709-1751). Para eles, o corpo humano \u00e9 uma simplesmente uma m\u00e1quina material. Todo o funcionamento do corpo deve poder ser compreendido pelas leis da f\u00edsica. Outro pesquisador da \u00e9poca, Giovanni Borelli, analisa a a\u00e7\u00e3o dos m\u00fasculos a partir das leis das m\u00e1quinas. Como a f\u00edsica estava se desenvolvendo muito, na \u00e9poca, houve certo otimismo com essa corrente de pensamento, mas ela n\u00e3o produziu efeitos relevantes na Medicina.<\/p>\n<p><strong>VERMES E ANIMAIS MICROSC\u00d3PICOS, PART\u00cdCULAS VENENOSAS E MIASMAS<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XVII foram inventados os primeiros microsc\u00f3pios e telesc\u00f3pios, que logo abriram aos pesquisadores novos universos. No mundo astron\u00f4mico, tornou-se poss\u00edvel descobrir que a Lua era cheia de montanhas e que J\u00fapiter tinha sat\u00e9lites. No mundo microsc\u00f3pico, descobriu-se uma imensa quantidade de seres min\u00fasculos, que antes eram invis\u00edveis.<\/p>\n<p>Foi o desenvolvimento desses estudos que levou a novas hip\u00f3teses sobre a causa das enfermidades, no s\u00e9culo XVII.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o poderiam existir vermes ou insetos microsc\u00f3picos capazes de invadir o corpo humano e produzir enfermidades?<\/strong><\/p>\n<p>Um dos mais influentes autores da \u00e9poca que desenvolveu esse tipo de hip\u00f3tese foi o padre Athanasius Kircher (1602-1680). O padre Kircher n\u00e3o era m\u00e9dico: foi um intelectual de interesses muito amplos, que se dedicava a todas as novidades cient\u00edficas da \u00e9poca. Em 1658, ele publicou uma obra denominada \u201cPesquisa f\u00edsico-m\u00e9dica sobre a doen\u00e7a contagiosa, que se chama de peste\u201d. Nesse livro, Kircher assume que todo tipo de subst\u00e2ncia ou objeto est\u00e1 continuamente emitindo em todo seu redor part\u00edculas que cont\u00eam suas propriedades essenciais:<\/p>\n<p>Todo composto natural exala certas emana\u00e7\u00f5es de sua natureza essencial. N\u00e3o se deve supor neste ponto que elas correspondam \u00e0s pr\u00f3prias qualidades, nem a algo propagado pelo objeto em quest\u00e3o como se fosse por acidente. S\u00e3o realmente, falando estritamente, pequenos corpos de tamanho excessivamente pequeno, incapazes de serem percebidos mesmo pela vis\u00e3o mais poderosa. Eles, por assim dizer, s\u00e3o transportadores das propriedades essenciais e n\u00e3o essenciais que emanam do corpo em quest\u00e3o, e s\u00e3o id\u00eanticos em natureza \u00e0 totalidade da coisa da qual eles fluem.<\/p>\n<p>Todos os tipos de emana\u00e7\u00f5es de compostos concordam com a natureza de suas esferas respectivas. Assim, se uma coisa odor\u00edfera, saborosa, com mau-cheiro ou desagrad\u00e1vel atinge os sentidos, deve-se dizer que isso \u00e9 a emana\u00e7\u00e3o de um composto do mesmo tipo.<\/p>\n<p>Kircher sup\u00f5e que a partir de todas as subst\u00e2ncias \u2013 at\u00e9 mesmo metais, pedras preciosas e outros minerais, vegetais ou animais \u2013 saem emana\u00e7\u00f5es com suas propriedades.<\/p>\n<p>Essas part\u00edculas saem principalmente por causa do calor ou fric\u00e7\u00e3o, e podem retornar ao corpo se ele for resfriado.<\/p>\n<p>Apesar dessa evapora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua dos corpos, eles n\u00e3o diminuem de tamanho, pois \u201cas part\u00edculas do ar pr\u00f3ximo substituem as que sairam, por causa de uma certa atra\u00e7\u00e3o natural, e se transformam em um germe da subst\u00e2ncia nativa do composto\u201d \u2013 isso \u00e9, o ar adere ao corpo e adquire suas propriedades, deixando de ser ar.<\/p>\n<p>Kircher aplica essa id\u00e9ia para explicar o cont\u00e1gio das enfermidades. Quando uma pessoa ou animal morre, o corpo \u00e9 dominado pelo poder que causa sua deteriora\u00e7\u00e3o e que produz o aparecimento de vermes e da putrefa\u00e7\u00e3o. Esse poder produz, como todas as outras coisas, um tipo de emana\u00e7\u00e3o em volta do corpo, constitu\u00edda por pequenas part\u00edculas. Essas part\u00edculas possuem o poder caracter\u00edstico da putrefa\u00e7\u00e3o e da produ\u00e7\u00e3o de vermes.<\/p>\n<p>O maior poder desse tipo de cont\u00e1gio se manifesta nos cad\u00e1veres. Pois, depois que o calor nativo se foi e o dom\u00ednio dos esp\u00edritos naturais foi superado, e quando apenas prevalece a destrui\u00e7\u00e3o no corpo sem vida, ocorre a seguinte situa\u00e7\u00e3o: o poder de jurisdi\u00e7\u00e3o sobre o corpo \u00e9 agora exercido por aquela coisa que, expalhando-se a todos os \u00f3rg\u00e3os internos e externos, faz o cad\u00e1ver como um todo se dissolver e destruir.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s dessa destrui\u00e7\u00e3o est\u00e3o as verdadeiras sementes da praga. E estas, ativadas pelo efeito mal\u00e9fico da destrui\u00e7\u00e3o, de dentro e de fora, ou do calor que reside no ar em volta, s\u00e3o propelidas em todas as dire\u00e7\u00f5es pelas emana\u00e7\u00f5es de pequenos corpos acima referidas e logo espalham o cont\u00e1gio em propor\u00e7\u00e3o \u00e0 sua quota de vigor e efic\u00e1cia.<\/p>\n<p>Seja a mat\u00e9ria desses pequenos corpos dotada ou n\u00e3o de vida, logo, pela a\u00e7\u00e3o do calor que os banha e que j\u00e1 est\u00e1 infectado com uma sujeira semelhante, separam-se germes incont\u00e1veis de pequenos vermes impercept\u00edveis.<\/p>\n<p>Com certeza nascer\u00e1 um n\u00famero de vermes igual ao dos pequenos corpos que s\u00e3o transportados com as emana\u00e7\u00f5es e por isso pode-se dizer que a emana\u00e7\u00e3o \u00e9 animada, e n\u00e3o lhe falta vida.<\/p>\n<p>Kircher indica que, embora essas coisas pare\u00e7am inacredit\u00e1veis, quem tiver presenciado experimentos com microsc\u00f3pios, ficar\u00e1 certo de sua verdade.<\/p>\n<p>Mas ele n\u00e3o descre-ve tais experimentos. Pelo cont\u00e1rio: logo em seguida, apresenta como fundamenta\u00e7\u00e3o de suas id\u00e9ias, a men\u00e7\u00e3o da suposta gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de animais. Ele descreve que nas cavernas e por\u00f5es, a partir da corrup\u00e7\u00e3o e de \u201crefugos virulentos\u201d, a terra produz todos os tipos de insetos, animais venenosos como cobras e lagartos, etc. Afirma tamb\u00e9m que o mesmo ocorre pelo efeito do calor sobre \u00e1guas estagnadas, lagos e mares.<\/p>\n<p>\u201cA experi\u00eancia di\u00e1ria ensina, tanto em viagens mar\u00edtimas como entre as paredes de nossas casas, que a \u00e1gua, fechada em um recipiente, logo que \u00e9 exposta se enche de vermes\u201d. Da mesma forma, o aparecimento de vermes nos cad\u00e1veres e nas pessoas doentes seriam evid\u00eancias das id\u00e9ias de Kircher:<\/p>\n<p>Algu\u00e9m ignora que, dentro das v\u00edsceras do corpo humano, a partir da destrui\u00e7\u00e3o causada por alimentos estragados, logo surgem muitos vermes?<\/p>\n<p>Logo em seguida, Kircher retorna \u00e0 quest\u00e3o das enfermidades contagiosas.<\/p>\n<p>Assim que os esp\u00edritos internos de um homem s\u00e3o perdidos, com seu calor natural, o veneno produtor da praga, que ele atraiu e absorveu, dirige seu humor natural \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, por sua virul\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois disso segue-se um fedor pelo qual s\u00e3o corrompidos aqueles que se aproximam do pobre homem ou de roupas j\u00e1 infectadas por essa exala\u00e7\u00e3o. A exala\u00e7\u00e3o, no entanto, nada mais \u00e9 do que uma evapora\u00e7\u00e3o do humor que est\u00e1 sendo destru\u00eddo. Essa evapora\u00e7\u00e3o (composta realmente por in\u00fameros pequenos corpos impercept\u00edveis) logo se expande quando atinge o ar livre e infecta tudo em volta pelo poder virulento de seu cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Esses pequenos corpos ou s\u00e3o respirados para dentro do corpo, ou rastejam para dentro de seus lugares internos mais ocultos entre as roupas, e logo produzem na pessoa os mesmos efeitos que naquele de onde sairam (pois eles possuem o mesmo poder virulento que est\u00e1 na mat\u00e9ria em destrui\u00e7\u00e3o da qual s\u00e3o part\u00edculas).<\/p>\n<p>Em cad\u00e1veres, onde todo o corpo realmente se dissolve na destrui\u00e7\u00e3o, essas emana\u00e7\u00f5es de pequenos corpos n\u00e3o infectam tanto os que est\u00e3o pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Mas eles se transformam em germes animados de pequenos animais diminutos e impercept\u00edveis. Esse germe permanece por um tempo nos objetos de madeira, tecidos e roupas, assim como em outros tipos de mat\u00e9ria porosa ou mat\u00e9ria de baixa densidade.<\/p>\n<p>Respirados mais tarde, eles impregnam o humor latente interno misturando sua pr\u00f3pria subst\u00e2ncia nele. Da\u00ed vem que no pr\u00f3prio contato inicial \u2013 especificamente, no contato com a oleosidade \u2013 ap\u00f3s encontrar seu caminho atrav\u00e9s dos poros das m\u00e3os e dos dedos, eles comunicam sua virul\u00eancia \u00e0quele que estabeleceu contato com eles. Ou ent\u00e3o, quando as pessoas usam roupas contaminadas por tal prole, esses, ativados pelo calor e absorvidos pelos poros da pele em alguma parte do corpo ou pela inala\u00e7\u00e3o do ar, produzem os mesmos exatos efeitos aos quais tais indiv\u00edduos est\u00e3o expostos, por causa da grande periculosidade da praga para eles.<\/p>\n<p><strong>A exposi\u00e7\u00e3o de Kircher n\u00e3o \u00e9 totalmente clara, mas podemos perceber v\u00e1rios aspectos em sua hip\u00f3tese:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>a)<\/strong>\u00a0o cad\u00e1ver de uma pessoa morta por uma doen\u00e7a \u00e9 decomposto e apodrece por causa do veneno que o matou;<strong><br \/>\nb)<\/strong>\u00a0o corpo que come\u00e7a a apodrecer desprende uma exala\u00e7\u00e3o, que se pode perceber pelo seu mau cheiro, que \u00e9 constitu\u00edda por part\u00edculas invis\u00edveis;<strong><br \/>\nc)<\/strong>\u00a0essas part\u00edculas invis\u00edveis representam, em miniatura, o corpo do qual se originaram, e possuem as suas propriedades;<strong><br \/>\nd)<\/strong>\u00a0por isso, essas part\u00edculas possuem as mesmas propriedades virulentas do veneno que matou a pessoa, que est\u00e1 produzindo o seu apodrecimento e que produz o aparecimento de vermes no seu interior;<strong><br \/>\ne)<\/strong>\u00a0essas part\u00edculas podem ser consideradas vivas, pois elas podem tamb\u00e9m produzir novos vermes, nos materiais em que penetrarem;<strong><br \/>\nf)<\/strong>\u00a0as part\u00edculas podem ser inaladas pela respira\u00e7\u00e3o, produzindo o cont\u00e1gio da doen\u00e7a, j\u00e1 que elas cont\u00eam todas as propriedades do cad\u00e1ver;<strong><br \/>\ng)<\/strong>\u00a0ao inv\u00e9s de vermes, as part\u00edculas podem produzir pequenos germes (sementes), que ficam nos corpos porosos (tecido, madeira, etc.);<strong><br \/>\nh)<\/strong>\u00a0esses germes podem depois penetrar nas pessoas pela respira\u00e7\u00e3o ou pelos poros da pele e reproduzir a doen\u00e7a e a morte.<\/p><\/blockquote>\n<p>Kircher parece apenas se preocupar com cad\u00e1veres: ele n\u00e3o menciona que os doentes vivos possam transmitir a peste.<\/p>\n<p>Os vermes invis\u00edveis de Kircher s\u00e3o diferentes dos nossos atuais micr\u00f3bios. Eles n\u00e3o se reproduzem dentro dos doentes: produzem a enfermidade, e essa enfermidade produz uma emana\u00e7\u00e3o de part\u00edculas, as quais, por sua vez, produzem novos vermes.<\/p>\n<p>Embora Kircher tenha se inspirado em observa\u00e7\u00f5es microsc\u00f3picas \u2013 como ele mesmo diz \u2013 n\u00e3o apresenta nenhuma observa\u00e7\u00e3o que mostre essas part\u00edculas do ar, nem a forma\u00e7\u00e3o dos vermes, ou os germes contidos nos corpos porosos e depois penetrando pela pele. Trata-se de uma teoria baseada na imagina\u00e7\u00e3o de Kircher e n\u00e3o em observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O mais importante microscopista dessa \u00e9poca foi Anton van Leeuwenhoek (1632-1723). Foi o primeiro a descrever, em 1675, o enorme n\u00famero de seres vivos microsc\u00f3picos que podem ser observados na \u00e1gua estagnada. Ele os chamou de \u201cpequenos animais\u201d ou \u201canim\u00e1lculos\u201d (animalculum). Observou tamb\u00e9m os \u201canimais do esperma\u201d (espermatoz\u00f3ides) e percebeu em sua pr\u00f3pria boca, em meio ao resto de alimentos, um grande n\u00famero de microorganismos. Leewenhoek, no entanto, n\u00e3o associa os anim\u00e1lculos \u00e0s enfermidades.<\/p>\n<p>V\u00e1rios autores posteriores aderiram \u00e0s id\u00e9ias de Kircher. Em 1699, Nicolas Hartsoeker assim explicou a s\u00edfilis:<\/p>\n<p>Creio que os vermes causam a maior parte das enfermidades que atacam o g\u00eanero humano, e que at\u00e9 mesmo os que possuem os males chamados ven\u00e9reos, nutrem em seus corpos uma infinidade de insetos invis\u00edveis que fazem todos esses danos que conhecemos.<\/p>\n<p>Em 1711, uma peste desastrosa atacou o gado em muitos locais da Europa e se propagou pela It\u00e1lia; ela matou quase todos os grandes animais da Lombardia, do duque de Ferrara, do campo de Roma, e do reino de N\u00e1poles. A peste bovina chamou a aten\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos, das academias e dos governos. Congrossi, um m\u00e9dico de Cr\u00eame, apoiando-se sobre a concep\u00e7\u00e3o de Kircher sobre a peste do homem, admitiu que o princ\u00edpio da enfermidade consistia em uma infinidade de vermes invis\u00edveis. Sua interpreta\u00e7\u00e3o foi adotada pelo naturalista Antonio Vallisneri, que lhe deu a autoridade de seu nome.<\/p>\n<p>Partindo dessa id\u00e9ia sobre a causa, a enfermidade foi combatida por fumiga\u00e7\u00f5es sulfurosas, betuminosas e por rem\u00e9dios antiverminosos, destinados a afastar os animais invis\u00edveis ou a mat\u00e1-los.<\/p>\n<p>Esses pequenos vermes ou insetos, no entanto, eram puramente hipot\u00e9ticos. Ningu\u00e9m sequer tentou observ\u00e1-los. Eram, portanto, semelhantes aos germes de Fracastoro.<\/p>\n<p>Embora essas id\u00e9ias se tornassem conhecidas e fossem aceitas por alguns autores, n\u00e3o foram adotadas pela maioria da comunidade m\u00e9dica.<\/p>\n<p>De um modo geral, continuava-se a aceitar que a atmosfera podia ser portadora de certas part\u00edculas ou emana\u00e7\u00f5es causadoras de doen\u00e7as, mas n\u00e3o se interpretava essas part\u00edculas como germes vivos.<\/p>\n<p>Pouco depois da divulga\u00e7\u00e3o do trabalho de Kircher, Thomas Sydenham (1624-1689) publicou um livro sobre as \u201cfebres\u201d. Nessa \u00e9poca, esse era o nome dado a um conjunto de enfermidades epid\u00eamicas, muitas delas associadas \u00e0 proximidade de p\u00e2ntanos \u2013 incluindo a mal\u00e1ria. Elas eram caracterizadas pela periodicidade: a febre ter\u00e7\u00e3, por exemplo, era aquela que reaparecia a cada tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>Sydenham estudou durante 15 anos (de 1661 a 1676) o clima e as doen\u00e7as de Londres. Concluiu que n\u00e3o era poss\u00edvel explicar apenas pelo calor e frio, umidade e secura, as enfermidades que surgiam a cada ano.<\/p>\n<p>Elas pareciam ter alguma regularidade, mas de outra origem. Sydenham toma ent\u00e3o o conceito de \u201cconstitui\u00e7\u00e3o\u201d utilizado por Hip\u00f3crates para caracterizar as epidemias, e lhe d\u00e1 um novo significado.<\/p>\n<p>Existem diferentes constitui\u00e7\u00f5es em diferentes anos. Elas n\u00e3o se originam em seu calor ou frio, sua umidade ou secura; mas dependem de certas mudan\u00e7as ocultas e inexplic\u00e1veis que ocorrem dentro das entranhas da terra. Pelos seus efl\u00favios, a atmosfera fica contaminada e os corpos dos homens se predisp\u00f5em e determinam, conforme o caso, a esta ou aquela enfermidade.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO 7: A VAR\u00cdOLA E A DESCOBERTA DA VACINA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p><strong>A VAR\u00cdOLA E SUA PREVEN\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>A var\u00edola (tamb\u00e9m chamada antigamente de \u201cbexiga\u201d) era uma enfermidade que hoje se considera extinta em todo o mundo. Foi, no entanto, um terr\u00edvel problema durante s\u00e9culos.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o da var\u00edola se inicia pela febre, seguida pelo aparecimento de muitas erup\u00e7\u00f5es com a forma de pequenos pontos. Eles aumentavam durante uma semana, podendo tamb\u00e9m atingir a laringe.<\/p>\n<p>As p\u00fastulas se espalhavam pelo corpo todo, inclusive pelo rosto. Quando o doente sobrevivia, as p\u00fastulas secavam e caiam duas ou tr\u00eas semanas depois.<\/p>\n<p>O in\u00edcio da var\u00edola era semelhante \u00e0 popular catapora. No entanto, a doen\u00e7a era muito mais perigosa: matava uma grande parte das pessoas atingidas, produzindo danos permanentes nas que se salvavam: deforma\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, cegueira e grandes cicatrizes.<\/p>\n<p>O nome da doen\u00e7a vem do latim \u201cvarius\u201d, usado por Pl\u00ednio e Celsus para indicar uma enfermidade com pontos na pele. No entanto, a var\u00edola propriamente dita n\u00e3o parece ter sido conhecida na Europa, antes da Idade M\u00e9dia. Nessa \u00e9poca, aparecem as primeiras descri\u00e7\u00f5es da doen\u00e7a por m\u00e9dicos \u00e1rabes: Rhazes e Avicena.<\/p>\n<p>Sup\u00f5e-se que os \u00e1rabes tenham espalhado a var\u00edola pela Palestina, S\u00edria, Egito, P\u00e9rsia e depois Espanha. Os cruzados levaram a enfermidade para a Europa, onde ela se tornou comum a partir dessa \u00e9poca.<\/p>\n<p>Posteriormente, os europeus se encarregaram de espalhar tamb\u00e9m a doen\u00e7a. No M\u00e9xico, a var\u00edola foi introduzida por um escravo negro das for\u00e7as espanholas e matou a metade dos habitantes.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a foi chamada Matla-zahuatl. Segundo Torquemada, morreram 800.000 nativos em 1545 e 2.000.000 em 1576. Atribui-se tamb\u00e9m \u00e0 var\u00edola grande parte da redu\u00e7\u00e3o dos \u00edndios da Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p>Mas a enfermidade n\u00e3o surgiu no mundo na Idade M\u00e9dia. Algumas m\u00famias eg\u00edpcias, como a de Rams\u00e9s V, morto em 1157 antes da era crist\u00e3, apresentam erup\u00e7\u00f5es que s\u00e3o atribu\u00eddas \u00e0 var\u00edola. Em muitos povos, a doen\u00e7a era t\u00e3o importante que era associada a divindades espec\u00edficas. Na \u00cdndia, a deusa Sitala Mata era invocada para a cura dessa doen\u00e7a. No Jap\u00e3o, uma figura do her\u00f3i Tametomo, que se contava ter vencido o dem\u00f4nio da var\u00edola, era colocado no quarto dos doentes para ajudar na sua recupera\u00e7\u00e3o. Na China, os deuses Ma-Chen e Pan-Chen estavam associados \u00e0 doen\u00e7a. Na \u00c1frica, o deus da var\u00edola entre os Yorub\u00e1s era Sopona, que foi depois introduzida no Brasil com os nomes de Omolu e Obalua\u00ea.<\/p>\n<p>Na \u00cdndia e na China, a var\u00edola era conhecida desde tempos muito antigos. Ela estava sempre presente, aumentando de intensidade no ver\u00e3o. Nessas duas regi\u00f5es, foi descoberto um modo de evitar a perigosa enfermidade. O processo, que muito tempo depois iria levar \u00e0 descoberta da vacina\u00e7\u00e3o, consistia em produzir nas pessoas sadias um ataque atenuado de var\u00edola.<\/p>\n<p>As pessoas ficavam depois protegidas contra a doen\u00e7a, pois ela s\u00f3 atinge uma vez cada pessoa.<\/p>\n<p>Na \u00cdndia, havia sacerdotes (br\u00e2manes) itinerantes, que se dedicavam \u00e0 preven\u00e7\u00e3o dessa doen\u00e7a. A cada ano, eles cuidavam recolhiam o l\u00edquido que aparecia nas p\u00fastulas das pessoas atacadas pela var\u00edola, impregnando com esse pus pequenos peda\u00e7os de algod\u00e3o. Esse material era guardado durante um ano ou mais.<\/p>\n<p>Antes da \u00e9poca em que a var\u00edola costumava aparecer, os br\u00e2manes iniciavam seu trabalho. As pessoas se preparavam, evitando comer peixe, leite e um tipo de manteiga feita de leite de b\u00fafala.<\/p>\n<p>Os br\u00e2manes escolhiam uma parte do corpo para introduzir o pus da var\u00edola \u2013 geralmente a parte externa do bra\u00e7o, sendo os homens entre o pulso e o cotovelo e as mulheres entre o ombro e o cotovelo.<\/p>\n<p>O operador primeiro esfregava essas partes com um pano seco, durante oito a dez minutos; depois, com um pequeno instrumento feito como um bico de corvo agudo na ponta, fazia em um pequeno espa\u00e7o, do tamanho de uma pequena moeda, v\u00e1rios arranh\u00f5es leves, de modo que aparecesse um m\u00ednimo de sangue.<\/p>\n<p>Aplicava-se ent\u00e3o um pouco de algod\u00e3o impregnado com mat\u00e9ria vari\u00f3lica, depois de ser molhado com um pouco de \u00e1gua sagrada do rio Ganges. Enrolava-se em cima uma atadura.<\/p>\n<p>Seis horas depois a bandagem era removida e deixava-se o algod\u00e3o cair. Surgiam em geral de 50 a 100 p\u00fastulas pelo corpo, pela inocula\u00e7\u00e3o. Essas p\u00fastulas eram menores do que as que surgiam na doen\u00e7a espont\u00e2nea, e embora a pessoa tivesse febre, recuperava-se com relativa facilidade, sem que a enfermidade deixasse marcas.<\/p>\n<p>Um outro processo para proteger contra a var\u00edola foi desenvolvido na China. Conta-se que uma monja chinesa vivia como eremita em uma montanha pr\u00f3xima ao Tibet. Para proteger as crian\u00e7as, ele preparou um p\u00f3 utilizando cascas secas das feridas de var\u00edola, que eram pulverizadas e misturadas com uma planta (Uvularia grandiflora). Em dias prop\u00edcios, especialmente escolhidos, esse p\u00f3 era soprado na narina de crian\u00e7as sadias, utilizando-se um canudo de prata. Para as meninas, era utilizada a narina esquerda, e para os meninos, a direita. Essas crian\u00e7as, ap\u00f3s alguns dias, desenvolviam uma forma branda de var\u00edola, recuperavam-se e ficavam depois protegidas durante o resto da vida contra a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe atualmente como essa monja chegou a tal pr\u00e1tica. A popula\u00e7\u00e3o da \u00e9poca a atribuiu a uma inspira\u00e7\u00e3o divina.<\/p>\n<p>Os procedimentos desenvolvidos na \u00cdndia e na China s\u00e3o diferentes e parecem n\u00e3o ter se inspirado um no outro. Nos dois casos, pode-se supor que as pessoas perceberam que a var\u00edola era transmiss\u00edvel e que o contato com as feridas aumentava a possibilidade de cont\u00e1gio. Devia existir, ent\u00e3o, nas feridas, algum material que transmitia a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Por outro lado, sabia-se tamb\u00e9m que a enfermidade nunca atacava duas vezes a mesma pessoa. Podia-se portanto tentar transmitir a doen\u00e7a a pessoas fortes, sadias, para que elas ficasse protegidas da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>No entanto, era imposs\u00edvel prever o que aconteceria. Poderia acontecer que as pessoas que fossem artificialmente contagiadas morressem. Por sorte, verificou-se que isso n\u00e3o acontecia, e os processos passaram a ser aplicados com sucesso.<\/p>\n<p>A var\u00edola artificial n\u00e3o era totalmente segura. Na \u00cdndia, aparentemente, uma pessoa em cada 500 inoculadas morria. No entanto, a doen\u00e7a era t\u00e3o comum e t\u00e3o grave, que o risco parecia pequeno e valia a pena arriscar-se.<\/p>\n<p>Sistemas semelhantes de inocula\u00e7\u00e3o da var\u00edola foram descobertos independentemente em outros locais \u2013 inclusive na Europa \u2013 mas n\u00e3o tiveram grande difus\u00e3o. Sabe-se que no principado de Gales, muitos s\u00e9culos atr\u00e1s, fazia-se \u201cenxerto\u201d de var\u00edola. O procedimento eram chamado \u201ccomprar bexiga\u201d, pois se pagavam duas ou tr\u00eas moedas \u00e0 pessoa que fornecia a doen\u00e7a aos outros. O procedimento era popular entre os estudantes: a m\u00e3o ou bra\u00e7o eram arranhados, esfregando-se sobre o arranh\u00e3o a mat\u00e9ria da var\u00edola. Na Dinamarca, havia um costume semelhante no s\u00e9culo 15. No entanto, tudo isso parecia apenas supersti\u00e7\u00e3o ou folclore.<\/p>\n<p>A Medicina erudita ignorava o processo.<\/p>\n<p>Em meados do s\u00e9culo XVII, mission\u00e1rios jesu\u00edtas que estavam na China comunicaram aos europeus o m\u00e9todo de inala\u00e7\u00e3o das cascas de feridas para preven\u00e7\u00e3o da var\u00edola. Mas o m\u00e9todo n\u00e3o sucitou muito interesse.<\/p>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca, o m\u00e9todo indiano \u00e9 adotado na Gr\u00e9cia, no Egito e depois na Turquia, e de l\u00e1 acabou chegando \u00e0 Europa.<\/p>\n<p>O processo utilizado nesses locais consistia em passar a doen\u00e7a diretamente de um doente para uma pessoa sadia. Arranhava-se ou perfurava-se o bra\u00e7o ou a testa da pessoa com uma agulha, que estava embebida no l\u00edquido de uma p\u00fastula \u201cmadura\u201d (tendendo a secar).<\/p>\n<p>Na Turquia, os maometanos n\u00e3o aceitaram o processo de inocula\u00e7\u00e3o. Os crist\u00e3o turcos utilizavam o processo, e observava-se uma enorme diferen\u00e7a de mortalidade pela var\u00edola, entre as duas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O fato foi observado e impressionou o m\u00e9dico grego Emanuel Timoni, que estava na Turquia em 1713. Ele enviou uma carta \u00e0 Inglaterra, comunicando suas observa\u00e7\u00f5es, e seu trabalho foi publicado pela principal sociedade cient\u00edfica da \u00e9poca: a Royal Society, de Londres. Mesmo assim, o processo n\u00e3o despertou interesse. Ele s\u00f3 foi difundido gra\u00e7as ao esfor\u00e7o de uma mulher: Lady Mary Wortley Montague.<\/p>\n<p>Lady Montague era esposa do embaixador ingl\u00eas em Constatinopla. Em 1717, diante do perigo da var\u00edola, fez inocular seu filho naquela capital por Maitland, um cirurgi\u00e3o ingl\u00eas. Em 1722 ela retornou \u00e0 Inglaterra e sua jovem filha foi inoculada por uma pequena incis\u00e3o em cada bra\u00e7o. Foi a primeira pessoa inoculada na Inglaterra. A not\u00edcia se espalhou e, gra\u00e7as ao prest\u00edgio de Lady Montague, alguns meses depois, a princesa e outros membros da fam\u00edlia real foram inoculados, com sucesso.<\/p>\n<p>Os m\u00e9dicos ingleses resolveram estudar o m\u00e9todo. Em 1725 foram feitos experimentos com criminosos condenados, em Newgate, que se ofereceram como volunt\u00e1rios, ganhando como pr\u00eamio o perd\u00e3o real, caso n\u00e3o morressem. Sete foram inoculados pelo m\u00e9todo chin\u00eas e seis pelo m\u00e9todo turco. Notou-se que c\u00e9rebro de um dos prisioneiros do primeiro grupo foi afetado; por isso houve um preconceito contra o m\u00e9todo chin\u00eas, que n\u00e3o foi adotado. Come\u00e7ou-se a fazer inocula\u00e7\u00f5es pelo m\u00e9todo turco. O processo foi chamado de \u201cvariola\u00e7\u00e3o\u201d ou de \u201cinocula\u00e7\u00e3o de bexigas\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o devemos chamar esse processo de \u201cvacina\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mais adiante veremos o significado exato da palavra \u201cvacina\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que a not\u00edcia se divulgou pelo mundo, muitos come\u00e7aram a adotar esse processo. No Brasil, um mission\u00e1rio carmelita do Par\u00e1 leu uma not\u00edcia sobre a variola\u00e7\u00e3o e resolveu aplic\u00e1-la, pois a metade dos seus \u00edndios j\u00e1 havia morrido com a enfermidade.Outros mission\u00e1rios seguiram seu exemplo, com bastante sucesso.<\/p>\n<p>No caso da var\u00edola natural, observava-se nessa \u00e9poca que uma de cada cinco ou seis doentes acabava morrendo. Em alguns casos, a metade das pessoas doentes morriam. No caso da variola\u00e7\u00e3o, havia um certo risco.<\/p>\n<p>Estudos publicados em 1727 mostraram que, de 764 pessoas inoculadas, 15 haviam morrido. As v\u00edtimas eram geralmente crian\u00e7as e idosos, que tinham consuls\u00f5es e morriam. A propor\u00e7\u00e3o era muito alta: uma para cada 50 pessoas. Houve tamb\u00e9m acidentes graves, em Boston, em 1723, por exemplo, onde uma grande parte dos variolados morreu.<\/p>\n<p>Qual era a gravidade da enfermidade, nessa \u00e9poca? Em torno de 1700, cerca de 0,5% da popula\u00e7\u00e3o de Londres morria de var\u00edola, a cada ano. Atrav\u00e9s de estat\u00edsticas oficiais, pode-se conhecer a taxa anual de mortalidade por essa doen\u00e7a, em Londres, no final do s\u00e9culo XVII:<\/p>\n<table border=\"0\" width=\"526\" cellspacing=\"1\" cellpadding=\"0\" bgcolor=\"#000000\">\n<tbody>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"91\"><strong>Per\u00edodo<\/strong><\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"396\"><strong>Porcentagem de Habitantes Mortos Por Var\u00edola, em Londres<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1650 a 1660<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">4,8 %<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1660 a 1670<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">3,6 %<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1670 a 1680<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">7,1 %<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1680 a 1690<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">7,4 %<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1690 a 1700<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">5,1 %<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>O risco de adquirir var\u00edola e ficar cego ou deformado devia ser muito maior. Por isso, a maior parte da popula\u00e7\u00e3o achava que era melhor se arriscar com a variola\u00e7\u00e3o do que ser atingido ela var\u00edola natural.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, houve inicialmente forte rea\u00e7\u00e3o contra o procedimento. Uma folheto an\u00f4nimo, denominado \u201cRaz\u00f5es de d\u00favidas contra a inocula\u00e7\u00e3o\u201d, questionava se podia deixar de ser criminosa a inocula\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a sobre um corpo humano. Afirmava que n\u00e3o se conhecia se o processo era realmente antigo ou apenas uma inven\u00e7\u00e3o recente.<\/p>\n<p>O autor do folheto dizia que o procedimento adotado era arbitr\u00e1rio, injusto, falso, irregular. A variola\u00e7\u00e3o era totalmente contr\u00e1ria a tudo o que se sabia em Medicina (ou seja: contr\u00e1ria \u00e0 teoria dos humores), pois n\u00e3o produzia a evacua\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias nocivas ao organismo. Por fim, reprovava o processo por v\u00e1rios motivos: a variola\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9 contr\u00e1ria aos olhos do Criador\u201d; n\u00e3o preserva da var\u00edola natural; \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0s leis civis; e parece mais pertencente \u00e0 Magia, do que \u00e0 Medicina.<\/p>\n<p>Quem se horrorizasse com o processo, na \u00e9poca, n\u00e3o podia ser criticado. Sob o ponto de vista mais intuitivo, \u00e9 repugnante fazer uma ferida no bra\u00e7o e passar sobre ela o pus tirado de uma pessoa doente.<\/p>\n<p>Sob o ponto de vista racional, como se podia entender que o virus (veneno) da var\u00edola produzida artificialmente se tornava mais fraco do que quando era recebido naturalmente, pelo cont\u00e1gio, em quantidade muito menor? E sob o ponto de vista te\u00f3rico: por que motivo a pessoa que j\u00e1 adquiriu a enfermidade fica protegida depois contra ela? Nada era compreendido.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia na Fran\u00e7a foi vencida gra\u00e7as principalmente ao esfor\u00e7o do astr\u00f4nomo e naturalista Charles-Marie de la Condamine, que escreveu a favor da variola\u00e7\u00e3o, em 1755, influenciando muitos nobres a se deixar inocular.<\/p>\n<p>Aproximadamente na mesma \u00e9poca, outros pa\u00edses da Europa aceitaram o processo.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo sofreu v\u00e1rias adapta\u00e7\u00f5es e mudan\u00e7as. Na It\u00e1lia, era seguido o seguinte processo: inicialmente, a pessoa devia se preparar, por alguns dias, seguindo um regime equilibrado, tomando um ou dois laxativos brandos, e, dependendo do temperamento da pessoa, fazendo uma sangria . Depois, fazia-se um corte na pele do bra\u00e7o, com o comprimento de uma polegada.<\/p>\n<p>Nesse corte era introduzida uma linha impregnada pelo l\u00edquido de uma p\u00fastula \u201cmadura\u201d. Depois de 40 horas, a linha era retirada.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o processo se difundia e era utilizado por pessoas mais experientes, o risco foi diminuindo. Na segunda metade do s\u00e9culo XVIII, morria apenas uma de cada 400 pessoas inoculadas.<\/p>\n<p><strong>Seria um risco aceit\u00e1vel?<\/strong><\/p>\n<p>Na segunda metade do s\u00e9culo XVIII, na Europa, um de cada 300 habitantes morria de var\u00edola, a cada ano. Como a var\u00edola podia atacar em qualquer idade, era um risco cont\u00ednuo, para quem n\u00e3o passasse pela variola\u00e7\u00e3o. Parecia portanto v\u00e1lido o processo. Mas nem todos se deixavam inocular: era um processo de uso volunt\u00e1rio.<\/p>\n<p>Depois de algum tempo, no entanto, ressurgiram as cr\u00edticas. A var\u00edola n\u00e3o estava desaparecendo da Europa. Parecia estar at\u00e9 aumentando. Em Londres, por exemplo, os dados mostravam isso claramente:<\/p>\n<table border=\"2\" width=\"538\" cellspacing=\"1\" cellpadding=\"7\" bgcolor=\"#000000\">\n<tbody>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"85\"><strong>Per\u00edodo<\/strong><\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"269\"><strong>N\u00ba de Mortos Por Var\u00edola em Londres<\/strong><\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"128\"><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1701 a 1716<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">22.219<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">Antes da Inocula\u00e7\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1717 a 1731<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">34.448<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">In\u00edcio da Inocula\u00e7\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1732 a 1746<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">29.462<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">Uso da Inocula\u00e7\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1746 a 1761<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">29.165<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">Uso da Inocula\u00e7\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1762 a 1776<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">36.276<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">Uso da Inocula\u00e7\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p align=\"left\">Em 1772, observou-se o m\u00e1ximo de mortes de var\u00edola em Londres: 3.992 em um \u00fanico ano. Agora, a cada d\u00e9cada, 10% dos habitantes de Londres morriam de var\u00edola, um n\u00famero nunca alcan\u00e7ado no s\u00e9culo anterior.<\/p>\n<table border=\"2\" width=\"525\" cellspacing=\"1\" cellpadding=\"7\" bgcolor=\"#000000\">\n<tbody>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"108\"><strong>Per\u00edodo<\/strong><\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"378\"><strong>Porcentagem de Habitantes Mortos Por Var\u00edola, em Londres<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1750 a 1760<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">10,0 %<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1760 a 1770<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">10,8 %<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1770 a 1780<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">9,8 %<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1780 a 1790<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">8,7 &amp;<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1790 a 1800<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">8,8 %<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>O que estava acontecendo?<\/strong><\/p>\n<p>Logo surgiu uma terr\u00edvel suspeita: a pr\u00f3pria variola\u00e7\u00e3o estava espalhando a doen\u00e7a. Antes desse processo ser introduzido, as pessoas estavam sujeitas apenas a se contagiar de pessoas doentes pelo processo natural.<\/p>\n<p>Mas agora, muitas pessoas adquiriam a var\u00edola artificialmente, e as pessoas que n\u00e3o eram inoculadas podiam adquirir o cont\u00e1gio tamb\u00e9m delas. Ou seja: as fontes de cont\u00e1gio aumentaram.<\/p>\n<p>Embora a enfermidade artificial fosse mais fraca, talvez ela mantivesse todo o seu poder quando passasse pelos processos naturais para outras pessoas.<\/p>\n<p>Felizmente, no final do s\u00e9culo XVIII, foi descoberto um modo mais seguro de preven\u00e7\u00e3o da var\u00edola: a vacina\u00e7\u00e3o. Essa descoberta \u00e9 t\u00e3o importante, que merece uma descri\u00e7\u00e3o detalhada.<\/p>\n<p><strong>A DESCOBERTA DA VACINA<\/strong><\/p>\n<p>Foi no final do s\u00e9culo XVIII que o m\u00e9dico ingl\u00eas Edward Jenner (1749-1823) realizou estudos que levaram \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o da variola\u00e7\u00e3o pela vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um artigo publicado em 1802 em um jornal m\u00e9dico, o pr\u00f3prio Jenner conta a sua descoberta. Ele trabalhava com pessoas do campo, e praticava a variola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sua aten\u00e7\u00e3o foi chamada para uma enfermidade parecida com a var\u00edola, chamada em ingl\u00eas \u201ccow pox\u201d, que acometia as vacas:<\/p>\n<p>Minha investiga\u00e7\u00e3o sobre a natureza da var\u00edola das vacas come\u00e7ou mais de 25 anos atr\u00e1s. Minha aten\u00e7\u00e3o para essa doen\u00e7a singular foi excitada observando que, entre aqueles que, no campo, eu era freq\u00fcentemente chamado a inocular [com a var\u00edola], muitos resistiam a todos os esfor\u00e7os de lhes dar a var\u00edola. Estes pacientes, descobri, tinham sofrido uma doen\u00e7a que chamavam de cow-pox, contra\u00edda ordenhando va-cas afetadas com uma erup\u00e7\u00e3o peculiar de suas tetas.<\/p>\n<p>Em suas obras, Jenner descreve um grande n\u00famero de casos desse tipo. O primeiro exemplo foi o de um fazendeiro, Joseph Merrett. Em 1770, alguns cavalos de sua fazenda come\u00e7aram a ter feridas nos joelhos.<\/p>\n<p>Logo depois, as vacas foram afetadas por var\u00edola de vaca, e em seguida apareceram feridas nas m\u00e3os de Merrett, que as ordenhava. Surgiram os v\u00e1rios sintomas, e ele ficou incapaz de trabalhar durante v\u00e1rios dias.<\/p>\n<p>Depois, sarou.<\/p>\n<p>Em abril de 1795, ocorrendo aqui uma inocula\u00e7\u00e3o geral [variola\u00e7\u00e3o], Merrett foi inoculado com sua fam\u00edlia. J\u00e1 se havia passado um per\u00edodo de 25 anos desde que ele tinha tido a cow-pox. No entanto, embora se inserisse repetidamente a mat\u00e9ria vari\u00f3lica em seu bra\u00e7o, descobri que era imposs\u00edvel infect\u00e1-lo com ela, aparecendo apenas uma efloresc\u00eancia na pele, com apar\u00eancia erisipelosa no centro, pr\u00f3xima \u00e0s partes perfuradas. Durante todo o tempo que sua fam\u00edlia teve a var\u00edola \u2013 e um dos seus membros a teve de modo muito forte \u2013 ele permaneceu na casa com eles, mas n\u00e3o recebeu dano pela exposi\u00e7\u00e3o ao cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Jenner testou a resist\u00eancia \u00e0 var\u00edola de v\u00e1rias pessoas. Um viajante chamado John Phillips teve cow-pox aos 9 anos de idade. Quando tinha 62 anos, Jenner o inoculou com a var\u00edola, \u201ctendo o cuidado de usar a mat\u00e9ria em seu estado mais ativo\u201d. Logo se produziu um efeito semelhante ao de uma picada de inseto, que cresceu, tornando-se uma efloresc\u00eancia grande. John sentiu dor, ficando com o ombro endurecido, no quarto dia. Mas logo depois de alguns dias os sintomas desapareceram, sem que surgissem as p\u00fastulas caracter\u00edsticas da variola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ou seja: as pessoas que adquiriam a var\u00edola de vaca n\u00e3o adquiriam a var\u00edola humana no processo de inocula\u00e7\u00e3o . Se isso fosse verificado, seria de grande import\u00e2ncia, pois Jenner sabia que a doen\u00e7a das vacas, embora produzisse feridas nas pessoas, n\u00e3o era t\u00e3o grave quanto a var\u00edola, e nunca era mortal. No entanto, o efeito observado n\u00e3o parecia ser uma regra geral:<\/p>\n<p>No curso da investiga\u00e7\u00e3o desse assunto, que, como todos os outros de uma natureza intrincada e complexa, apresenta muitas dificuldades, descobri que alguns daqueles que pareciam ter sofrido de cow-pox, apesar disso, ao serem inoculados com a var\u00edola, sentiam sua influ\u00eancia exatamente como se n\u00e3o lhes tivesse sido comunicada a doen\u00e7a pela vaca.<\/p>\n<p>Isso me levou a inquirir os praticantes m\u00e9dicos no campo em torno de mim, e todos concordaram com essa opini\u00e3o, que a cow-pox n\u00e3o devia ser confiada como um preventivo certo da var\u00edola.<\/p>\n<p>Por algum tempo isso diminuiu, mas n\u00e3o exting\u00fciu o meu ardor; pois, \u00e0 medida que prosseguia, tive a satisfa\u00e7\u00e3o de aprender que a vaca estava sujeita a certa variedade de erup\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas nas tetas; que elas eram capazes de comunicar feridas \u00e0s m\u00e3os dos ordenhadores; e que todas as feridas transmitidas pelo animal eram chamadas pelas ordenhadoras de cow-pox. Assim eu transpus um grande obst\u00e1culo, e, em conseq\u00fc\u00eancia, fui levado a formar uma distin\u00e7\u00e3o entre essas doen\u00e7as, uma das quais denominei de cow pox verdadeira e as outras de esp\u00farias, pois n\u00e3o possuem poder espec\u00edfico sobre a constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o, como se v\u00ea, n\u00e3o era muito clara. Logo surgiram outras d\u00favidas. Jenner tomou conhecimento de que, de v\u00e1rias pessoas que haviam ordenhado a mesma vaca, na mesma ocasi\u00e3o, e que tinham adquirido a var\u00edola de vaca, algumas depois n\u00e3o mostravam nenhum efeito ao serem inoculadas com a var\u00edola humana, mas outras mostravam todos os sintomas.<\/p>\n<p>Isso, como o obst\u00e1culo anterior, forneceu um cheque doloroso a minhas esperan\u00e7as; mas, refletindo que as opera\u00e7\u00f5es da natureza s\u00e3o geralmente uniformes, e que n\u00e3o era prov\u00e1vel que a constitui\u00e7\u00e3o humana (tendo sofrido a cow-pox) devesse em alguns casos ficar perfeitamente protegida da var\u00edola, e em muitos outros ficar desprotegida, reiniciei meus trabalhos com ardor redobrado.<\/p>\n<p>Jenner logo chegou a uma nova conclus\u00e3o: o efeito da enfermidade das vacas dependia do est\u00e1gio em que ela era transmitida \u00e0s pessoas. Em certas fases da doen\u00e7a da vaca, ela transmitia \u00e0s pessoas uma mudan\u00e7a constitucional que as protegia contra a var\u00edola. Em outras fases, a pessoa podia ficar doente e podiam surgir ferimentos em seu corpo, mas ela n\u00e3o ficava protegida contra a var\u00edola. Jenner interpretou essa diferen\u00e7a a uma mudan\u00e7a do veneno (ou v\u00edrus) da doen\u00e7a:<\/p>\n<p>Os resultados foram afortunados; pois eu agora descobri que o v\u00edrus da cow-pox podia sofrer mudan\u00e7as progressivas, precisamente pelas mesmas causas que o da var\u00edola; e que, quando era aplicado \u00e0 pele humana em seu estado degenerado, produziria os efeitos ulcerativos em um grau meior do que quando n\u00e3o estava decomposto, e algumas vezes ainda mais; mas tendo perdido suas propriedades espec\u00edficas, era incapaz de produzir aquela mudan\u00e7a sobre a estrutura humana..<\/p>\n<p>\u2026que \u00e9 necess\u00e1ria para torn\u00e1-la insuscet\u00edvel de cont\u00e1gio vari\u00f3lico; e assim tornou-se evidente que uma pessoa poderia ordenhar uma vaca um dia, e pegar a doen\u00e7a, ficando para sempre segura; enquanto que uma outra pessoa, ordenhando a mesma vaca no dia seguinte, poderia sentir a influ\u00eancia do v\u00edrus de tal modo a produzir feridas e, em conseq\u00fc\u00eancia disso, poderia sentir uma indisposi\u00e7\u00e3o de extens\u00e3o consider\u00e1vel; e no entanto, como foi observado, tendo sido perdida a qualidade espec\u00edfica, a constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o receberia qualquer impress\u00e3o peculiar.<\/p>\n<p>A partir de todas as informa\u00e7\u00f5es que colheu e de suas an\u00e1lises, Jenner se convenceu de que poderia proteger as pessoas da var\u00edola utilizando a var\u00edola de vaca.<\/p>\n<p>Planejou propagar a enfermidade por inocula\u00e7\u00e3o como no caso da var\u00edola, primeiro da vaca, e depois de uma pessoa para outra.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante assinalar que a id\u00e9ia de fazer inocula\u00e7\u00f5es de outras doen\u00e7as j\u00e1 havia surgido antes, por influ\u00eancia da variola\u00e7\u00e3o. Um professor de Jenner, chamado John Hunter (1728-1793) estava estudando as doen\u00e7as ven\u00e9reas e desejava descobrir se a s\u00edfilis e a gonorr\u00e9ia eram manifesta\u00e7\u00f5es diferentes de uma mesma enfermidade, ou doen\u00e7as diferentes. Resolveu fazer uma experi\u00eancia: inoculou em si pr\u00f3prio o pus das feridas de um doente de gonorr\u00e9ia. Como resultado do teste, adquiriu s\u00edfilis (sem d\u00favida porque o doente tinha, tamb\u00e9m, essa doen\u00e7a) e concluiu que as duas enfermidades tinham uma causa comum.<\/p>\n<p>Em 1796, Jenner se sentiu suficientemente seguro para fazer a sua primeira experi\u00eancia. Atualmente, qualquer teste desse tipo seria feito primeiro com animais, mas n\u00e3o existiam esses cuidados no s\u00e9culo XVIII. Assim, ele resolve fazer o experimento diretamente com seres humanos. Nessa \u00e9poca, ele cuidou de uma empregada de uma fazenda, chamada Sarah Nelmes, que havia acidentalmente adquirido a var\u00edola de vaca.<\/p>\n<p>Seu bra\u00e7o apresentava grandes feridas produzidas pela enfermidade. Jenner utilizou o pus dessas feridas para tentar transmitir a doen\u00e7a a um menino da mesma fazenda, chamado Phipps.<\/p>\n<p>Para observar mais cuidadosamente o progresso da infec\u00e7\u00e3o, eu selecionei um garoto saud\u00e1vel, com cerca de oito anos de idade, para inocular com a cow-pox.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria foi tirada da ferida da m\u00e3o de uma ordenhadeira (que havia sido infectada pelas vacas de seu patr\u00e3o) e foi inserida no dia catorze de maio de 1796, no bra\u00e7o do garoto, por meio de duas incis\u00f5es superficiais, penetrando pouco a c\u00fatis, com cerca de meia polegada de comprimento cada uma.<\/p>\n<p>No s\u00e9timo dia ele reclamou de desconforto na axila, e no nono ele se tornou um pouco frio, perdeu seu apetite, e teve uma leve dor de cabe\u00e7a. Durante todo o dia ele estava perceptivelmente indisposto, e durante a noite teve algum grau de inquieta\u00e7\u00e3o, mas no dia seguinte estava perfeitamente bem.<\/p>\n<p>A apar\u00eancia das incis\u00f5es no seu progresso para um estado de matura\u00e7\u00e3o foram bastante iguais \u00e0s produzidas de modo semelhante pela mat\u00e9ria vari\u00f3lica.<\/p>\n<p>A \u00fanica diferen\u00e7a que percebi foi no estado do fluido l\u00edmpido que surgia da a\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, que assumia geralmente uma colora\u00e7\u00e3o mais escura, e que a efloresc\u00eancia se espalhava em torno das incis\u00f5es, que tinham uma apar\u00eancia mais erisipelatosa do que comumente percebemos quando se usa mat\u00e9ria vari\u00f3lica desse mesmo modo; mas tudo desapareceu (deixando nas partes inoculadas cascas e depois cicatrizes) sem dar a mim ou ao meu paciente o menor trabalho.<\/p>\n<p>Esse era o primeiro passo: tinha sido poss\u00edvel transmitir a doen\u00e7a da mo\u00e7a para o menino, artificialmente, e a enfermidade tinha sido bastante suave.<\/p>\n<p>Mas era preciso verificar se essa var\u00edola de vaca artificial protegia contra a var\u00edola humana.<\/p>\n<p>Para verificar se o menino, depois de sentir uma afec\u00e7\u00e3o t\u00e3o leve do sistema pelo v\u00edrus do cow-pox, estava seguro do cont\u00e1gio da var\u00edola, ele foi inoculado no dia primeiro de julho seguinte com a mat\u00e9ria vari\u00f3lica, tomada diretamente de uma p\u00fastula. Foram feitas v\u00e1rias leves perfura\u00e7\u00f5es e incis\u00f5es em ambos seus bra\u00e7os, e a mat\u00e9ria foi inserida cuidadosamente, mas n\u00e3o se seguiu nenhuma doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Foram observadas nos bra\u00e7os as mesmas apar\u00eancias que comumente vemos quando um paciente tem mat\u00e9ria vari\u00f3lica aplicada, depois de ter tido ou cow-pox ou var\u00edola.<\/p>\n<p>Alguns meses depois ele foi novamente inoculado com mat\u00e9ria vari\u00f3lica, mas n\u00e3o se produziu efeito sens\u00edvel em sua constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este experimento foi muito arriscado, mas deu um resultado feliz. Poderia ter sido uma trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Jenner interrompeu as suas pesquisas at\u00e9 a primavera de 1798, quando a doen\u00e7a das vacas surgiu em v\u00e1rias fazendas. Ele fez, ent\u00e3o, novos experimentos.<\/p>\n<p>No dia 16 de mar\u00e7o de 1798, ele inoculou um garoto de 5 anos de idade, chamado William Summers, com o pus tirado das tetas de uma vaca que tinha a cow-pox. No sexto dia ele se sentiu indisposto, vomitou e surgiu um incha\u00e7o em seu bra\u00e7o, mas no oitavo dia ele j\u00e1 estava se sentindo bem.<\/p>\n<p>No d\u00e9cimo-segundo dia (28 de mar\u00e7o), Jenner inoculou William Pead, um menino de oito anos, utilizando material tirado da p\u00fastula de William Summers. No sexto dia, William Pead queixou-se de dor nas axilas e no s\u00e9timo mostrou os sintomas de pessoas com cow-pox. Depois de mais tr\u00eas dias, sarou.<\/p>\n<p>No dia 5 de abril, v\u00e1rias crian\u00e7as e adultos foram inoculados a partir de material tirado do bra\u00e7o de William Pead. Em sua maior parte, eles adoeceram no sexto dia e melhoraram no s\u00e9timo; mas em tr\u00eas deles houve uma indisposi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria por causa de uma extensa inflama\u00e7\u00e3o erisipelatosa nos bra\u00e7os inoculados. Jenner aplicou merc\u00fario nas feridas e elas melhoraram. Um deles tinha apenas meio ano de idade.<\/p>\n<p>Entusiasmado com o sucesso, Jenner realiza sucessivas transfer\u00eancias da doen\u00e7a de uma pessoa para outras. Verifica que os efeitos s\u00e3o sempre semelhantes, n\u00e3o se tornando nem mais fracos nem mais fortes, com as transfer\u00eancias sucessivas.<\/p>\n<p>Jenner estava t\u00e3o seguro de que essas pessoas estavam todas protegidas contra a var\u00edola, que nem se deu ao trabalho de fazer testes com todas elas. Apenas fez, ap\u00f3s v\u00e1rios meses, a experi\u00eancia de inocula\u00e7\u00e3o da var\u00edola humana no primeiro menino, William Summers, e em mais duas pessoas. Nos tr\u00eas casos, n\u00e3o houve efeitos. Jenner considerou seus experimentos perfeitamente decisivos, concluindo que \u201ca cow-pox protege a constitui\u00e7\u00e3o humana da infec\u00e7\u00e3o da var\u00edola\u201d. Ele divulgou seu trabalho atrav\u00e9s de um folheto publicado em 1798, ao qual se seguiram depois outras obras.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso assinalar que foi o t\u00edtulo dos trabalhos de Jenner que levou ao nome \u201cvacina\u201d:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cUma investiga\u00e7\u00e3o sobre as causas e efeitos da variolae vaccinae, uma doen\u00e7a descoberta em alguns dos condados ocidentais da Inglaterra, particularmente Gloucestershire, e conhecida pelo nome de cow pox\u201d (1798)<\/p>\n<p>\u2013 \u201cNovas observa\u00e7\u00f5es sobre a variolae vaccinae\u201d (1799)<\/p>\n<p>\u2013 \u201cUma continua\u00e7\u00e3o de fatos e observa\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 variolae vaccinae ou cow-pox\u201d (1801)<\/p>\n<p>Essas publica\u00e7\u00f5es, embora escritas em ingl\u00eas, apresentavam em latim o nome da doen\u00e7a das vacas: \u201cvariola vaccinae\u201d, que significa var\u00edola das vacas ou var\u00edola \u201cvaquina\u201d (que Aur\u00e9lio me perdoe essa palavra).<\/p>\n<p>A palavra \u201cvaccina\u201d era portanto um adjetivo latino, que indicava a origem da enfermidade. N\u00e3o representava o procedimento utilizado. Assim como a variola\u00e7\u00e3o era chamada de inocula\u00e7\u00e3o da var\u00edola, passou-se a falar sobre a inocula\u00e7\u00e3o da var\u00edola das vacas, ou seja, da var\u00edola \u201cvaquina\u201d. Como o latim dava um maior respeito ao procedimento, era prefer\u00edvel utilizar a express\u00e3o \u201cinocula\u00e7\u00e3o da variola vaccinae\u201d, que depois foi simplificada para \u201cinocula\u00e7\u00e3o da vacina\u201d e por fim se transformou em \u201cvacina\u00e7\u00e3o\u201d. A palavra \u201cvacina\u201d, isoladamente, \u00e9 um absurdo gramatical, pois trata-se de um adjetivo (\u201cda vaca\u201d) que \u00e9 usado como substantivo. Pior ainda \u00e9 falar sobre as \u201cvacinas\u201d contra v\u00e1rias doen\u00e7as, que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com vacas. Mas a linguagem, infelizmente, \u00e9 assim: quando se esquece a origem das palavras, seu significado muda tanto que elas se tornam irreconhec\u00edveis.<\/p>\n<p>Mas voltemos \u00e0 \u00e9poca de Jenner. A divulga\u00e7\u00e3o desses trabalhos produziu repercuss\u00e3o imediata. Outros m\u00e9dicos logo se apressaram a testar as observa\u00e7\u00f5es de Jenner. No mesmo ano de 1798, George Pearson publicou um estudo em que confirmou a efic\u00e1cia da var\u00edola de vaca para proteger contra a var\u00edola humana. No ano seguinte, o m\u00e9dico Joseph Marshall inoculou 211 pessoas com a cow-pox e depois tentou transmitir-lhes artificialmente a var\u00edola humana. Nenhuma delas contraiu a enfermidade.<\/p>\n<p>Embora houvesse alguma resist\u00eancia ao novo m\u00e9todo, que n\u00e3o era compreendido, muitos m\u00e9dicos aderiram \u00e0 inocula\u00e7\u00e3o da var\u00edola de vaca. O pr\u00f3prio Jenner indica que, at\u00e9 1801, \u201cmais de 6.000 pessoas foram inoculadas com o v\u00edrus da cow-pox e a maior parte delas foi desde ent\u00e3o inoculada com o da var\u00edola, e exposto \u00e0 infec\u00e7\u00e3o de todos os modos racionais que puderem ser imaginados, sem efeito.\u201d Em 1806, o \u201cRoyal College of Surgeons\u201d da Inglaterra fez um inqu\u00e9rito sobre a efic\u00e1cia e os efeitos de vacina\u00e7\u00e3o. Os 426 m\u00e9dicos que responderam haviam vacinado, at\u00e9 essa \u00e9poca, um total de 164.381 pessoas.<\/p>\n<p>Desse total, 56 pessoas tiveram var\u00edola depois da vacina\u00e7\u00e3o, o que mostrava que a prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o era totalmente segura. Houve alguns efeitos negativos da vacina\u00e7\u00e3o: 66 casos de fortes erup\u00e7\u00f5es na pele, 24 casos de inflama\u00e7\u00e3o do bra\u00e7o, e em tr\u00eas desses casos as pessoas morreram.<\/p>\n<p>Havia, no entanto, oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o. Os jornais populares publicavam ilustra\u00e7\u00f5es que ridicularizavam a vacina\u00e7\u00e3o, mostrando pessoas que se transformavam em vacas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m houve resist\u00eancia por parte de muitos m\u00e9dicos, como William Rowley, B. Moseley e John Gale Jones. Por uma lado, era um processo puramente emp\u00edrico, que n\u00e3o era compreendido. Por outro lado, parecia um m\u00e9todo perigoso. Foram descritos casos em que a vacina\u00e7\u00e3o foi seguida por erisipela, em pessoas aparentemente saud\u00e1veis, havendo muitas mortes. Por outro lado, como a doen\u00e7a era passada de uma pessoa para outra, verificou-se que podiam ser transmitidas ao mesmo tempo outras doen\u00e7as, como a s\u00edfilis. Assim, ao tentar se proteger da var\u00edola, a pessoa podia cair v\u00edtima de outra enfermidade transmiss\u00edvel.<\/p>\n<p>Houve muitas falhas iniciais por causa de falta de padroniza\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos e falta de cuidados b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Jenner se preocupou em esclarecer as diferen\u00e7as entre a verdadeira var\u00edola de vaca e outras enfermidades do gado. Descreveu tamb\u00e9m detalhadamente os cuidados a serem tomados: como colher o material das vacas, como guard\u00e1-lo, como inocul\u00e1-lo.<\/p>\n<p>As vantagens do processo descoberto por Jenner eram muitas. Em primeiro lugar, os efeitos secund\u00e1rios e o risco da vacina\u00e7\u00e3o eram menores: apenas 3 mortes em 160.000 pessoas vacinadas, contra 1 morte em cada 500 pessoas \u00e0s quais se tinha aplicado a variola\u00e7\u00e3o. Em segundo lugar, verificou-se que a doen\u00e7a das vacas apenas se transmitia pelo contato, nunca pela proximidade ou pelo ar. Por isso, as pessoas que eram inoculadas com a var\u00edola das vacas n\u00e3o se tornavam perigosas para as demais. Pelo contr\u00e1rio, a var\u00edola humana podia se transmitir sem contado f\u00edsico direto (pelo ar) e por isso as pessoas que adquiriam a var\u00edola humana artificial se tornavam perigosas para as outras.<\/p>\n<table border=\"0\" width=\"518\" cellspacing=\"1\" cellpadding=\"0\" bgcolor=\"#000000\">\n<tbody>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"105\"><strong>Per\u00edodo<\/strong><\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFCC\" width=\"374\"><strong>Porcentagem de Habitantes Mortos por Var\u00edola, em Londres<\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1810 a 1820<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">4,2 %<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1820 a 1830<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">3,2 %<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1830 a 1840<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">2,3 %<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1840 a 1850<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1,8 %<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1850 a 1860<\/td>\n<td bgcolor=\"#FFFFFF\">1,2 %<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Com a pr\u00e1tica da vacina\u00e7\u00e3o, a mortalidade pela var\u00edola come\u00e7a a ser reduzida, durante o s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, aos poucos, foram surgindo problemas. Em 1818 surgiu uma violenta epidemia de var\u00edola na Inglaterra e no continente europeu.<\/p>\n<p>Atingiu e matou muitas pessoas que tinham sido inoculadas antes com var\u00edola e com cow-pox. Isso mostrava que nenhum dos m\u00e9todos proporcionava uma seguran\u00e7a total. Em 1826-7 houve epidemia de var\u00edola na Fran\u00e7a; em 1827, na parte norte da It\u00e1lia. Muitos vacinados foram novamente atacados pela var\u00edola.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, come\u00e7ou na Pr\u00fassia a pr\u00e1tica da \u201crevacina\u00e7\u00e3o\u201d: repetir a vacina\u00e7\u00e3o, com o objetivo de proteger mais as pessoas. N\u00e3o havia nenhuma base te\u00f3rica para essa repeti\u00e7\u00e3o, mas aparentemente o novo m\u00e9todo deu resultado. Na Pr\u00fassia, durante uma epidemia, ocorreu apenas um caso de var\u00edola, em 5 anos, entre 14.384 soldados revacinados, e apenas tr\u00eas casos entre 26.864 civis revacinados.<\/p>\n<p>No dia 16 de mar\u00e7o de 1798, ele inoculou um garoto de 5 anos de idade, chamado William Summers, com o pus tirado das tetas de uma vaca que tinha a cow-pox. No sexto dia ele se sentiu indisposto, vomitou e surgiu um incha\u00e7o em seu bra\u00e7o, mas no oitavo dia ele j\u00e1 estava se sentindo bem.<\/p>\n<p>No d\u00e9cimo-segundo dia (28 de mar\u00e7o), Jenner inoculou William Pead, um menino de oito anos, utilizando material tirado da p\u00fastula de William Summers. No sexto dia, William Pead queixou-se de dor nas axilas e no s\u00e9timo mostrou os sintomas de pessoas com cow-pox. Depois de mais tr\u00eas dias, sarou.<\/p>\n<p>No dia 5 de abril, v\u00e1rias crian\u00e7as e adultos foram inoculados a partir de material tirado do bra\u00e7o de William Pead. Em sua maior parte, eles adoeceram no sexto dia e melhoraram no s\u00e9timo; mas em tr\u00eas deles houve uma indisposi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria por causa de uma extensa inflama\u00e7\u00e3o erisipelatosa nos bra\u00e7os inoculados. Jenner aplicou merc\u00fario nas feridas e elas melhoraram.<\/p>\n<p>Um deles tinha apenas meio ano de idade.<\/p>\n<p>Entusiasmado com o sucesso, Jenner realiza sucessivas transfer\u00eancias da doen\u00e7a de uma pessoa para outras. Verifica que os efeitos s\u00e3o sempre semelhantes, n\u00e3o se tornando nem mais fracos nem mais fortes, com as transfer\u00eancias sucessivas.<\/p>\n<p>Jenner estava t\u00e3o seguro de que essas pessoas estavam todas protegidas contra a var\u00edola, que nem se deu ao trabalho de fazer testes com todas elas. Apenas fez, ap\u00f3s v\u00e1rios meses, a experi\u00eancia de inocula\u00e7\u00e3o da var\u00edola humana no primeiro menino, William Summers, e em mais duas pessoas. Nos tr\u00eas casos, n\u00e3o houve efeitos. Jenner considerou seus experimentos perfeitamente decisivos, concluindo que \u201ca cow-pox protege a constitui\u00e7\u00e3o humana da infec\u00e7\u00e3o da var\u00edola\u201d. Ele divulgou seu trabalho atrav\u00e9s de um folheto publicado em 1798, ao qual se seguiram depois outras obras.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso assinalar que foi o t\u00edtulo dos trabalhos de Jenner que levou ao nome \u201cvacina\u201d:<\/p>\n<p>\u2013 \u201cUma investiga\u00e7\u00e3o sobre as causas e efeitos da variolae vaccinae, uma doen\u00e7a descoberta em alguns dos condados ocidentais da Inglaterra, particularmente Gloucestershire, e conhecida pelo nome de cow pox\u201d (1798)<br \/>\n\u2013 \u201cNovas observa\u00e7\u00f5es sobre a variolae vaccinae\u201d (1799)<br \/>\n\u2013 \u201cUma continua\u00e7\u00e3o de fatos e observa\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 variolae vaccinae ou cow-pox\u201d (1801)<\/p>\n<p>Essas publica\u00e7\u00f5es, embora escritas em ingl\u00eas, apresentavam em latim o nome da doen\u00e7a das vacas: \u201cvariola vaccinae\u201d, que significa var\u00edola das vacas ou var\u00edola \u201cvaquina\u201d (que Aur\u00e9lio me perdoe essa palavra).<\/p>\n<p>A palavra \u201cvaccina\u201d era portanto um adjetivo latino, que indicava a origem da enfermidade. N\u00e3o representava o procedimento utilizado. Assim como a variola\u00e7\u00e3o era chamada de inocula\u00e7\u00e3o da var\u00edola, passou-se a falar sobre a inocula\u00e7\u00e3o da var\u00edola das vacas, ou seja, da var\u00edola \u201cvaquina\u201d. Como o latim dava um maior respeito ao procedimento, era prefer\u00edvel utilizar a express\u00e3o \u201cinocula\u00e7\u00e3o da variola vaccinae\u201d, que depois foi simplificada para \u201cinocula\u00e7\u00e3o da vacina\u201d e por fim se transformou em \u201cvacina\u00e7\u00e3o\u201d. A palavra \u201cvacina\u201d, isoladamente, \u00e9 um absurdo gramatical, pois trata-se de um adjetivo (\u201cda vaca\u201d) que \u00e9 usado como substantivo. Pior ainda \u00e9 falar sobre as \u201cvacinas\u201d contra v\u00e1rias doen\u00e7as, que n\u00e3o t\u00eam nada a ver com vacas. Mas a linguagem, infelizmente, \u00e9 assim: quando se esquece a origem das palavras, seu significado muda tanto que elas se tornam irreconhec\u00edveis.<\/p>\n<p>Mas voltemos \u00e0 \u00e9poca de Jenner. A divulga\u00e7\u00e3o desses trabalhos produziu repercuss\u00e3o imediata. Outros m\u00e9dicos logo se apressaram a testar as observa\u00e7\u00f5es de Jenner. No mesmo ano de 1798, George Pearson publicou um estudo em que confirmou a efic\u00e1cia da var\u00edola de vaca para proteger contra a var\u00edola humana. No ano seguinte, o m\u00e9dico Joseph Marshall inoculou 211 pessoas com a cow-pox e depois tentou transmitir-lhes artificialmente a var\u00edola humana. Nenhuma delas contraiu a enfermidade.<\/p>\n<p>Embora houvesse alguma resist\u00eancia ao novo m\u00e9todo, que n\u00e3o era compreendido, muitos m\u00e9dicos aderiram \u00e0 inocula\u00e7\u00e3o da var\u00edola de vaca. O pr\u00f3prio Jenner indica que, at\u00e9 1801, \u201cmais de 6.000 pessoas foram inoculadas com o v\u00edrus da cow-pox e a maior parte delas foi desde ent\u00e3o inoculada com o da var\u00edola, e exposto \u00e0 infec\u00e7\u00e3o de todos os modos racionais que puderem ser imaginados, sem efeito.\u201d Em 1806, o \u201cRoyal College of Surgeons\u201d da Inglaterra fez um inqu\u00e9rito sobre a efic\u00e1cia e os efeitos de vacina\u00e7\u00e3o. Os 426 m\u00e9dicos que responderam haviam vacinado, at\u00e9 essa \u00e9poca, um total de 164.381 pessoas.<\/p>\n<p>Desse total, 56 pessoas tiveram var\u00edola depois da vacina\u00e7\u00e3o, o que mostrava que a prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o era totalmente segura. Houve alguns efeitos negativos da vacina\u00e7\u00e3o: 66 casos de fortes erup\u00e7\u00f5es na pele, 24 casos de inflama\u00e7\u00e3o do bra\u00e7o, e em tr\u00eas desses casos as pessoas morreram.<\/p>\n<p>Havia, no entanto, oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o. Os jornais populares publicavam ilustra\u00e7\u00f5es que ridicularizavam a vacina\u00e7\u00e3o, mostrando pessoas que se transformavam em vacas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m houve resist\u00eancia por parte de muitos m\u00e9dicos, como William Rowley, B. Moseley e John Gale Jones. Por uma lado, era um processo puramente emp\u00edrico, que n\u00e3o era compreendido. Por outro lado, parecia um m\u00e9todo perigoso. Foram descritos casos em que a vacina\u00e7\u00e3o foi seguida por erisipela, em pessoas aparentemente saud\u00e1veis, havendo muitas mortes. Por outro lado, como a doen\u00e7a era passada de uma pessoa para outra, verificou-se que podiam ser transmitidas ao mesmo tempo outras doen\u00e7as, como a s\u00edfilis. Assim, ao tentar se proteger da var\u00edola, a pessoa podia cair v\u00edtima de outra enfermidade transmiss\u00edvel.<\/p>\n<p>Houve muitas falhas iniciais por causa de falta de padroniza\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos e falta de cuidados b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Jenner se preocupou em esclarecer as diferen\u00e7as entre a verdadeira var\u00edola de vaca e outras enfermidades do gado. Descreveu tamb\u00e9m detalhadamente os cuidados a serem tomados: como colher o material das vacas, como guard\u00e1-lo, como inocul\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Se a var\u00edola humana e a cow-pox tiverem uma origem comum, torna-se mais f\u00e1cil compreender como uma pode proteger contra a outra: porque possuem, essencialmente, a mesma causa, que passou apenas por algumas modifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese de Jenner sobre a origem eq\u00fcina da cow-pox, no entanto, logo foi negada.<\/p>\n<p>Independentemente da origem da doen\u00e7a, o efeito da vacina\u00e7\u00e3o era t\u00e3o misterioso quanto o da variola\u00e7\u00e3o. Por que motivo uma pessoa que j\u00e1 teve uma doen\u00e7a fica protegida contra essa enfermidade?<\/p>\n<p>Por que isso ocorre no caso da var\u00edola e n\u00e3o ocorre no caso de outras doen\u00e7as, que podem atacar v\u00e1rias vezes a mesma pessoa? O pr\u00f3prio Jenner n\u00e3o tenta explicar isso.<\/p>\n<p>Ele se contenta com o estabelecimento de que a vacina\u00e7\u00e3o funciona e \u00e9 segura.<\/p>\n<p>O qu\u00edmico Humphry Davy prop\u00f4s, em 1811, uma explica\u00e7\u00e3o: um veneno poderia combater outro semelhante. Assim, se a pessoa j\u00e1 tivesse dentro de seu corpo um veneno (da cow-pox), esse veneno impediria a a\u00e7\u00e3o da var\u00edola humana. Nessa hip\u00f3tese, est\u00e1 impl\u00edcita a suposi\u00e7\u00e3o de que a var\u00edola \u00e9 transmitida por um tipo de veneno \u2013 o que todos aceitavam na \u00e9poca. Como vimos, o pr\u00f3prio Jenner fala muitas vezes sobre o \u201cv\u00edrus\u201d da var\u00edola e da cow-pox, o que significava, na \u00e9poca, a mesma coisa que veneno.<\/p>\n<p>Davy sugeriu que um processo semelhante \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o poderia ser utilizado com outras doen\u00e7as que tamb\u00e9m sejam transmitidas por venenos. Ele se refere especificamente \u00e0 raiva ou hidrofobia, que tamb\u00e9m passa de um c\u00e3o para outro, pela mordida. George Pearson, por sua vez, havia sugerido, antes disso, que se poderia desenvolver um processo semelhante de prote\u00e7\u00e3o contra a s\u00edfilis \u2013 que tamb\u00e9m \u00e9 contagiosa.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, come\u00e7ou a se formar uma nebulosa associa\u00e7\u00e3o entre essas v\u00e1rias id\u00e9ias: uma enfermidade contagiosa que s\u00f3 ataque uma vez cada pessoa \u00e9 transmitida por um v\u00edrus e deve poder ser evitada por um processo semelhante \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem Jenner, nem os outros autores da \u00e9poca, se preocuparam em explicar como o \u201cv\u00edrus\u201d da var\u00edola se multiplica dentro do organismo. Ningu\u00e9m sugeriu, na \u00e9poca, que a doen\u00e7a pudesse ser causada por microorganismos.<\/p>\n<p align=\"left\">A vacina\u00e7\u00e3o \u00e9 um exemplo cl\u00e1ssico de t\u00e9cnica m\u00e9dica que surgiu sem nenhuma explica\u00e7\u00e3o, mas que funcionou. De certa forma, ela representa um retorno \u00e0 humildade de Hip\u00f3crates, que n\u00e3o pretendia desenvolver uma ci\u00eancia te\u00f3rica e sim uma t\u00e9cnica, uma arte emp\u00edrica de curar.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO 8: MIASMAS OU MICROORGANISMOS<\/strong>?<\/p>\n<p><strong>CHEIROS, GASES E A PREVEN\u00c7\u00c3O DAS DOEN\u00c7AS<\/strong><\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, houve uma grande melhora da sa\u00fade p\u00fablica. \u00c9 curioso que essa melhora n\u00e3o foi produzida por nenhum conhecimento m\u00e9dico novo: ela se deu por medidas sanit\u00e1rias inspiradas pelas velhas id\u00e9ias sobre os miasmas.<\/p>\n<p>Desde o fim do imp\u00e9rio romano, as preocupa\u00e7\u00f5es com limpeza, na Europa, haviam se reduzido muito. A \u00e1gua era obtida de qualquer tipo de fonte, de rios, de chafarizes p\u00fablicos, de po\u00e7os sujos.<\/p>\n<p>Praticamente n\u00e3o existia \u00e1gua encanada. Tamb\u00e9m era rara a exist\u00eancia de esgotos. Quando existiam, misturavam-se \u00e0 \u00e1gua que era utilizada para todos os fins dom\u00e9sticos.<\/p>\n<p>Em algumas cidades, os excrementos eram coletados e transportados para longe em carro\u00e7as, mas era mais comum que fossem simplesmente lan\u00e7ados \u00e0 rua. O pr\u00f3prio ch\u00e3o das casas \u2013 de terra ou de madeira \u2013 ficara impregnado por urina de c\u00e3es e de pessoas, cerveja e outras subst\u00e2ncias. Somente quando ocorriam as pestes, surgiam h\u00e1bitos de limpeza, como o de varrer as casas e as ruas.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo os m\u00e9dicos podiam se mostrar avessos \u00e0s medidas sanit\u00e1rias. Em 1760 n\u00e3o existiam privadas em Madrid. Os excrementos eram jogados pelas janelas das casas \u00e0 noite, sendo removidos no dia seguinte pelos limpadores. O rei ordenou que se construisse uma privada em cada casa, mas o povo se op\u00f4s violentamente \u00e0 medida. Os m\u00e9dicos protestaram, dizendo que a sujeira das ruas era \u00fatil, pois absorvia as part\u00edculas insalubre do ar. Se as ruas n\u00e3o fossem sujas, essas part\u00edculas atacariam as pessoas.<\/p>\n<p>A limpeza corporal e das roupas era rara e prec\u00e1ria. Os perfumes, utilizados pelos ricos, eram um substituto dos banhos, e n\u00e3o seu complemento.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que houve \u00e9pocas em que os banhos p\u00fablicos eram muito freq\u00fcentados, mas com um objetivo especial: serviam de local para encontros sexuais. Proibidos os banhos mistos, o interesse pelo asseio diminuiu muito. Havia at\u00e9 mesmo preconceito contra os banhos, que podiam produzir enfermidades. No s\u00e9culo XVIII, comentava-se que a peste atacava primeiramente as pessoas que lavavam suas roupas com sab\u00e3o.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o era terr\u00edvel nas resid\u00eancias, mas pior ainda em lugares em que se acumulavam muitas pessoas, como pris\u00f5es, hospitais e instala\u00e7\u00f5es militares.<\/p>\n<p>No fim do s\u00e9culo XVII, mais de 1\/4 dos pacientes dos hospitais de Paris e Londres morriam. Ser levado para um hospital era semelhante a ser executado. O fil\u00f3sofo Gottfried Leibniz chamava os hospitais de \u201csementeiras da morte\u201d.<\/p>\n<p>Aos poucos, no entanto, foi ganhando for\u00e7a a id\u00e9ia de que as doen\u00e7as eram causadas pelo mau cheiro. J\u00e1 vimos muitos exemplos disso, em cap\u00edtulos anteriores.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XVIII, torna-se bastante popular a teoria dos miasmas, para explicar n\u00e3o apenas as enfermidades dos p\u00e2ntanos, mas todas as doen\u00e7as produzidas por cheiros de coisas estragadas e podres.<\/p>\n<p>A limpeza n\u00e3o \u00e9 um problema est\u00e9tico: \u00e9 uma quest\u00e3o de sa\u00fade, ou seja, de higiene (no sentido original da palavra). E o melhor guia para se livrar das doen\u00e7as \u00e9 a orienta\u00e7\u00e3o do nariz.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com insetos, ratos ou outros animais, pois ningu\u00e9m imaginava que eles pudessem transmitir enfermidades.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia de afastar os excrementos e o lixo das casas era apenas o seu cheiro.<\/p>\n<p>A \u00e1gua tamb\u00e9m n\u00e3o devia ter cheiro. Esse era o crit\u00e9rio principal, mais do que sua cor. A presen\u00e7a de microorganismos na \u00e1gua era conhecida e encarada com indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o se imaginava que eles pudessem ser nocivos.<\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo XVIII, mantinha-se a id\u00e9ia de que os perfumes podiam combater os efeitos nocivos dos miasmas; mas aos poucos vai-se preferindo eliminar os pr\u00f3prios fedores, ao inv\u00e9s de escond\u00ea-los.<\/p>\n<p>Passa-se a dar grande import\u00e2ncia \u00e0 ventila\u00e7\u00e3o das resid\u00ean-cias, para que seu ar seja renovado e purificado.<\/p>\n<p>Observou-se que v\u00e1rios tipos de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas eram capazes de evitar a putrefa\u00e7\u00e3o e podiam, assim, ser utilizados contra a produ\u00e7\u00e3o de miasmas. Essas subst\u00e2ncias foram chamadas de \u201cantiss\u00e9pticas\u201d, isto \u00e9, contr\u00e1rias \u00e0 putrefa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em torno de 1750, o cirurgi\u00e3o-geral do ex\u00e9rcito ingl\u00eas, John Pringle (1707-1782), conseguiu uma significativa queda da mortalidade nos hospitais militares, atrav\u00e9s da limpeza e de uma melhor ventila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A reforma das pris\u00f5es inglesas foi obra do fil\u00e2ntropo John Howard (1726-1790), que conseguiu diminuir a incid\u00eancia de tifo, tuberculose e febre tif\u00f3ide.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o nos hospitais era escandalosa. Doentes de todos os tipos ficavam misturados, em grandes sal\u00f5es, muitas vezes com dois ou tr\u00eas ocupando a mesma cama. Apenas ap\u00f3s 1780 foram criadas as primeiras alas hospitalares separadas para doentes com enfermidades contagiosas.<\/p>\n<p>Esse amplo movimento higienista, que continuou durante o s\u00e9culo XIX, n\u00e3o dispunha de nenhum conhecimento novo. A teoria b\u00e1sica era a dos miasmas.<\/p>\n<p>Havia apenas um interesse real em utilizar os conhecimentos dispon\u00edveis na melhoria da sa\u00fade p\u00fablica e na preven\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as. Mais necess\u00e1ria do que a pesquisa m\u00e9dica, foi a decis\u00e3o pol\u00edtica de mudar a situa\u00e7\u00e3o existente, fazendo o melhor que se podia fazer. Por isso, os homens que contribuiram para a grande redu\u00e7\u00e3o de mortalidade nos s\u00e9culos XVIII e XIX n\u00e3o s\u00e3o conhecidos por suas teorias ou id\u00e9ias. S\u00e3o m\u00e9dicos, escritores, pol\u00edticos e administradores, muitas vezes desconhecidos, que uniram seus esfor\u00e7os tentando diminuir as enfermidades que matavam o povo.<\/p>\n<p>Foi gra\u00e7as a essa nova atitude que come\u00e7aram a ser escritos livros especificamente dedicados \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da sa\u00fade \u2013 ou seja, \u00e0 higiene, no sentido original da palavra . Antes do s\u00e9culo XVIII, existiam nos tratados m\u00e9dicos men\u00e7\u00f5es aos modos de se conservar a sa\u00fade, mas, em geral, a \u00eanfase era no tratamento e n\u00e3o na preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>A exce\u00e7\u00e3o principal eram os livros sobre os modos de evitar as pestes, que surgiam em meio \u00e0s grandes epidemias. Mas n\u00e3o se considerava que, em condi\u00e7\u00f5es normais de vida, fosse necess\u00e1rio dedicar tanta aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso assinalar que, entre os meios para conservar a sa\u00fade popularizados na \u00e9poca, surgiu o tabaco. Sua fuma\u00e7a parecia servir para proteger contra os ares infeccionados pelas doen\u00e7as e at\u00e9 mesmo pela peste.<\/p>\n<p>Um dos que defendeu seu uso foi o m\u00e9dico holand\u00eas Diemerbroeck:<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o aos ant\u00eddotos, recomenda-se entre os simples (..) o tabaco tomado como fumo, que se expira depois de ter ficado um pouco na boca, como costumam fazer os fumantes profissionais. Nesta peste, eu pr\u00f3prio experimentei sobre mim e sobre outras pessoas, os bons efeitos desse rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante descrever os cuidados que esse m\u00e9dico tomava durante uma epidemia, em meados do s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p>Pela manh\u00e3, \u00e0s quatro ou cinco horas, em jejum, mastigava alguns gr\u00e3os de cardamomo (uma especiaria de cheiro agrad\u00e1vel), depois ia visitar os doentes; depois (\u00e0s seis horas) engolia um pouco de teriaga ou de diascordium, ou tr\u00eas ou quatro pequenos peda\u00e7os de casca de laranja em confeito, ou ra\u00edzes de helenium em confeito. \u00c0s sete ou oito horas, fazia o desjejum com um pequeno peda\u00e7o de p\u00e3o coberto de manteiga ou de queijo verde de cabras, tomando um corpo de cerveja e um copo de vinho de absinto. Parecia-lhe essencial manter-se sempre alegre, sem temor, c\u00f3lera ou tristeza. Para isso, tomava de vez em quando tr\u00eas ou quatro copos de bom vinho.<\/p>\n<p>\u00c0s dez horas, se tinha tempo, fumava um cachimbo de tabaco, e depois da refei\u00e7\u00e3o mais dois ou tr\u00eas outros. Fumava duas ou tr\u00eas antes do meio-dia, nas horas de intervalo. Tamb\u00e9m recorria ao tabaco a qualquer hora, quando se sentia incomodado pelo mau odor dos doentes. Considera o tabaco como o melhor preservativo.<\/p>\n<p>At\u00e9 o s\u00e9culo XVIII, as id\u00e9ias sobre miasmas e sobre a transmiss\u00e3o de enfermidades pelo ar eram apenas hip\u00f3teses. Na verdade, pouco se sabia a respeito da pr\u00f3pria natureza do ar.<\/p>\n<p>Apenas no final do s\u00e9culo XVIII foram feitos os primeiros estudos de car\u00e1ter cient\u00edfico moderno sobre a composi\u00e7\u00e3o do ar e sobre seu papel na doen\u00e7a e na manuten\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de que o ar pode conter subst\u00e2ncias mal\u00e9ficas \u00e0 sa\u00fade ganhou bastante apoio atrav\u00e9s de estudos feitos no final do s\u00e9culo XVIII. Entre 1774 e 1777, o naturalista Joseph Priestley (mais conhecido pelos qu\u00edmicos do que pelos bi\u00f3logos e m\u00e9dicos) fez estudos sobre o ar e a vida.<\/p>\n<p>J\u00e1 se sabia que, quando se coloca uma vela acesa em um recipiente fechado, no qual exista um pequeno animal vivo, a vela logo se apaga e o animal morre. Se um outro animal vivo for colocado nesse ar, ele morrer\u00e1 quase instantaneamente. Priestley estudou esse tipo de fen\u00f4meno. Ele observou que o animal morre tendo convuls\u00f5es, e que o mesmo acontece quando \u00e9 colocado em outros gases recentemente descobertos: \u201car fixo\u201d (g\u00e1s carb\u00f4nico), \u201car inflam\u00e1vel\u201d (hidrog\u00eanio), ar cheio de fuma\u00e7a de enxofre queimado, e tamb\u00e9m ar infectado com mat\u00e9ria podre.<\/p>\n<p>Priestley imaginou que a respira\u00e7\u00e3o dos animais desprendia alguma subst\u00e2ncia maligna:<\/p>\n<p>Como o ar que passou pelos pulm\u00f5es \u00e9 a mesma coisa que o ar impregnado pela putrefa\u00e7\u00e3o animal, \u00e9 prov\u00e1vel que uma das utilidades dos pulm\u00f5es \u00e9 retirar um efl\u00favio p\u00fatrido, sem o qual, talvez, um corpo vivo poderia apodrecer t\u00e3o depressa quanto um morto.<\/p>\n<p>A linguagem utilizada por Priestley \u00e9 a mesma da maioria dos m\u00e9dicos da \u00e9poca: ele acredita que a putrefa\u00e7\u00e3o produz um g\u00e1s ou vapor venenoso, capaz de produzir enfermidades.<\/p>\n<p>Priestley comparou v\u00e1rios tipos de ar entre si, concluindo que o efeito da respira\u00e7\u00e3o animal no ar era igual ao do apodrecimento:<\/p>\n<p>O ar impregnado com putrefa\u00e7\u00e3o animal ou vegetal \u00e9 a mesma coisa que o ar tornado nocivo pela respira\u00e7\u00e3o animal (\u2026). Que esses dois tipos de ar s\u00e3o, de fato, a mesma coisa, eu concluo por eles terem as mesmas propriedades not\u00e1veis em comum, e por n\u00e3o diferirem em nada que eu tenha sido capaz de observar. Eles extinguem igualmente as chamas, s\u00e3o igualmente nocivos a animais, s\u00e3o igualmente desagrad\u00e1veis ao olfato, ambos precipitam igualmente o carbonato em \u00e1gua de cal e s\u00e3o restaurados pelos mesmos meios.<\/p>\n<p>Priestley tentou purificar o ar que havia se tornado mortal, atrav\u00e9s de v\u00e1rios processos. Manteve o ar em contato com \u00e1gua pura ou salgada, durante meses, e ao inv\u00e9s de notar alguma melhora, o ar parecia pior do que antes. Como os raios solares eram considerados benfazejos, imaginou que poderiam purificar o ar mortal. Expondo o frasco com ar nocivo \u00e0 luz, durante meses, tamb\u00e9m n\u00e3o foi notada nenhuma melhora.<\/p>\n<p>Como se acreditava que a queima de enxofre era capaz de impedir a propaga\u00e7\u00e3o das epidemias, Priestley experimentou adicionar um pouco de fuma\u00e7a de enxofre ao ar nocivo, para ver se ele melhorava; mas continuou igualmente mortal. Tentou tamb\u00e9m aquecer o ar a uma alta temperatura, pois acreditava-se que o fogo podia destruir os venenos do ar; mas ele continuava mortal.<\/p>\n<p>Priestley observou, no entanto, que esse tipo de ar n\u00e3o era nocivo \u00e0s plantas. Colocando ramos de menta dentro de recipientes com \u00e1gua e o ar nocivo, ele observou que os ramos se desenvolviam de forma vigorosa, crescendo mais depressa do que no ar comum. Imaginou ent\u00e3o que esse ar putrefato pudesse ser ben\u00e9fico e \u00fatil para as plantas, assim como os excrementos tamb\u00e9m s\u00e3o \u00fateis para elas.<\/p>\n<p>Fez ent\u00e3o um experimento para verificar se as plantas retiravam do ar sua parte nociva.<\/p>\n<p>Para determinar isso, tomei uma quantidade de ar, que se tornara nocivo por ratos que restiraram e morreram nele. Dividia em duas partes. Uma delas foi colocada em um frasco imerso em \u00e1gua. Na outra (contida em um frasco de vidro, de p\u00e9 sobre a \u00e1gua), coloquei um ramo de menta. Isso foi no in\u00edcio de agosto de 1771. Ap\u00f3s oito ou nove dias, descobri que um rato vivia perfeitamente bem na parte do ar em que havia crescido o ramo de menta, mas morria no momento em que era colocado na outra parte da mesma quantidade original de ar e que eu havia mantido sob a mesma exposi\u00e7\u00e3o, mas sem plantas crescendo dentro dela.<\/p>\n<p>Repeti v\u00e1rias vezes esse mesmo experimento, algumas vezes usando ar no qual animais haviam respirado e morrido, e outras vezes usando o ar impregando com putrefa\u00e7\u00e3o vegetal ou animal.<\/p>\n<p>Geralmente houve o mesmo sucesso.<\/p>\n<p>Priestley concluiu que as plantas s\u00e3o capazes de viver no ar p\u00fatrido e retirar do ar o efl\u00favio p\u00fatrido, do qual se alimentam, tornando o ar adequado para a respira\u00e7\u00e3o dos animais.<\/p>\n<p>Os estudos de Priestley tinham como ponto de partida a hip\u00f3tese de que havia alguma semelhan\u00e7a entre os efeitos da respira\u00e7\u00e3o e os efeitos nocivos de materiais podres. No entanto, estudos posteriores levaram simplesmente \u00e0 descoberta do papel do oxig\u00eanio e do g\u00e1s carb\u00f4nico, na respira\u00e7\u00e3o, e da fotoss\u00edntese nas plantas. Esses estudos n\u00e3o levaram, portanto, a nenhum esclarecimento das causas de enfermidades que pareciam se propagar pelo ar.<\/p>\n<p>Apesar disso, o estudo qu\u00edmico do ar e dos diferentes gases, no final do s\u00e9culo XVIII, trouxe uma maior respeitabilidade \u00e0s considera\u00e7\u00f5es sobre diferentes tipos e caracter\u00edsticas da atmosfera.<\/p>\n<p>Compreendeu-se que uma parte do ar puro (oxig\u00eanio) \u00e9 essencial para a vida dos animais e do homem; que a respira\u00e7\u00e3o e a combust\u00e3o consomem oxig\u00eanio e produzem g\u00e1s carb\u00f4nico; que existem diferentes gases, que podem produzir efeitos especiais nos seres vivos. Embora muitas id\u00e9ias antigas permanecessem ativas e influentes, a f\u00edsica e a qu\u00edmica voltaram a ganhar um papel relevante na Medicina.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante observar a influ\u00eancia dessa renova\u00e7\u00e3o parcial de conceitos em obras do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Vamos tomar como exemplo o livro \u201cElementos de higiene\u201d, publicado pelo m\u00e9dico portugu\u00eas Francisco de Mello Franco em 1814.<\/p>\n<p>Note-se, em primeiro lugar, que o pr\u00f3prio t\u00edtulo mostra ser um livro dentro do novo esp\u00edrito: dedicado \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e n\u00e3o \u00e0 cura das doen\u00e7as.<\/p>\n<p>De acordo com as tend\u00eancias da \u00e9poca, Mello Franco discute em detalhe as caracter\u00edsticas do ar, levando em conta algumas das novas descobertas.<\/p>\n<p>Pode-se notar uma mistura de novas e antigas id\u00e9ias e o reaparecimento da cren\u00e7a de que a supress\u00e3o da transpira\u00e7\u00e3o \u00e9 perigosa para a sa\u00fade:<\/p>\n<p>O ar da noite \u00e9 em geral mais \u00famido do que o de dia. Consideramos esta umidade da noite de dois modos; o primeiro \u00e9 quando o vapor aquoso, que se acha no ar, pela frescura, que ela traz, cai \u00e0 maneira de orvalho mui sutil, e lhe chamamos sereno. Este faz mal aos que pouco acautelados o apanham estando mal cobertos, e principalmente parados, expondo-se deste modo a doen\u00e7as catarrosas pelo embara\u00e7o da transpira\u00e7\u00e3o. O segundo \u00e9 quando este vapor, ou orvalho sutil n\u00e3o vem da atmosfera imediatamente, mas que \u00e9 a evapora\u00e7\u00e3o de \u00e1guas estagnadas, e corruptas; a qual chegando a pequena altura, se precipita, e difunde os miasmas malignos, que com ela subiram. A esta umidade chamamos cacimba, t\u00e3o conhecida nas vizinhan\u00e7as de Roma, e em muitos lugares da \u00c1frica, e t\u00e3o receada pelos seus perniciosos efeitos, quais s\u00e3o as febres disent\u00e9ricas, remitentes, e intermitentes muitas vezes de p\u00e9ssimo car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Em Portugal mesmo h\u00e1 s\u00edtios infeccionados destes miasmas por causa da estagna\u00e7\u00e3o das \u00e1guas do inverno; as quais misturadas com as do mar, quando se comunicam, exalam de si veneno ainda mais danoso, do que se fossem simplesmente as da chuva.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante essa sobreviv\u00eancia do conceito de miasma, j\u00e1 que nenhum qu\u00edmico tinha sido capaz de identificar esse tipo de subst\u00e2ncia no ar.<\/p>\n<p>Mello Franco descreve as propriedades do oxig\u00eanio e do azoto (nitrog\u00eanio). Critica ajuntamentos de pessoas em locais fechados, onde o ar n\u00e3o circule, pois a respira\u00e7\u00e3o consome o oxig\u00eanio e produz g\u00e1s carb\u00f4nico.<\/p>\n<p>Mas novamente precisa recorrer aos miasmas para falar do cont\u00e1gio:<\/p>\n<p>Nas masmorras, e nos hospitais mal constru\u00eddos h\u00e1, al\u00e9m da altera\u00e7\u00e3o do ar de que acabamos de falar, os miasmas, que se exalam dos corpos, os quais atacando os nervos, tendem a aniquilar a vida, e d\u00e3o lugar a estas febres malignas, e contagiosas, conhecidas pelo nome de febres de hospitais, de pris\u00f5es etc.; as quais levam mui longe o seu cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>O autor comenta sobre o perigo do ar das igrejas, por\u00e9m sem dar tanta import\u00e2ncia ao n\u00famero de pessoas. O problema principal \u00e9 que, at\u00e9 essa \u00e9poca, era comum enterrar os sacerdotes e fi\u00e9is nos por\u00f5es da pr\u00f3pria igreja ou em volta dela. Mello Franco critica e prop\u00f5e a aboli\u00e7\u00e3o desse costume. \u201cAs exala\u00e7\u00f5es p\u00fatridas, e mef\u00edticas, que lan\u00e7am de si tantas sepulturas, s\u00e3o causas poderosas de muitas mol\u00e9stias, principalmente para as pessoas, que v\u00e3o \u00e0s primeiras missas, logo que se abrem as igrejas, tempo em que o ar n\u00e3o renovado, conserva em si reunidos aqueles vapores, por assim dizer, pestilentes\u201d.<\/p>\n<p>Mello Franco reconhece que o uso de subst\u00e2ncias arom\u00e1ticas ou de vinagre n\u00e3o destroi os vapores nocivos, apenas os disfar\u00e7a e torna, por isso, ainda mais perigosos \u00e0s pessoas desavisadas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m afirma que o fogo \u00e9 in\u00fatil, pois apenas produz correntes de ar; \u201cmas os miasmas pest\u00edferos ficam intactos.\u201d<\/p>\n<p>Embora a id\u00e9ia dos miasmas em si pr\u00f3pria n\u00e3o tivesse evolu\u00eddo com os estudos qu\u00edmicos, haviam sido encontradas novas subst\u00e2ncias, capazes de impedir a putrefa\u00e7\u00e3o e que deviam ser tamb\u00e9m capazes de destruir os miasmas invis\u00edveis. O autor utiliza especialmente os estudos de Louis Bernard, bar\u00e3o de Guyton de Morveau (1737-1816), companheiro de pesquisas de Lavoisier.<\/p>\n<p>Guyton de Morveau estudou \u00e1cidos minerais em forma gasosa, concluindo pela grande efic\u00e1cia antiss\u00e9ptica dos mesmos. Recomendava-se especialmente o \u201c\u00e1cido muri\u00e1tico oxigenado\u201d, obtido pela rea\u00e7\u00e3o de sal comum (10 partes), \u00f3xido negro de mangan\u00eas (2 partes) e \u00e1cido sulf\u00farico (oito partes).<\/p>\n<p>Mello Franco aconselha o uso desse g\u00e1s nas enfermarias dos hospitais e nas casas em que haja mol\u00e9stias contagiosas, como meio de destruir os vapores nocivos.<\/p>\n<p>Ele chega a dizer que esse \u00e1cido gasoso \u00e9 tamb\u00e9m ben\u00e9fico para as pr\u00f3prias pessoas que j\u00e1 estejam doentes:<\/p>\n<p>Este fac\u00edlimo expediente \u00e9 infal\u00edvel, n\u00e3o somente para atalhar o progresso do cont\u00e1gio, mas tamb\u00e9m para diminuir os seus efeitos nos indiv\u00edduos j\u00e1 atacados.<\/p>\n<p>S\u00e3o tantas as experi\u00eancias feitas por homens consumados em Qu\u00edmica, e Medicina a este respeito, que nenhuma d\u00favida pode j\u00e1 restar aos mesmos incr\u00e9dulos.<\/p>\n<p>A certeza, infelizmente, \u00e9 muito perigosa na Medicina. Vapores \u00e1cidos, pelo que sabemos atualmente, podem ser excelentes desinfetantes, mas n\u00e3o s\u00e3o \u00fateis \u00e0s pessoas doentes.<\/p>\n<p>Ao falar sobre as \u00e1guas de lagoas e p\u00e2ntanos, Mello Franco defende uma interpreta\u00e7\u00e3o qu\u00edmica dos miasmas. Ele sup\u00f5e que a causa das febres palustres seriam simples compostos de nitrog\u00eanio (azoto) e hidrog\u00eanio:<\/p>\n<p>As \u00e1guas das lagoas, e charcos s\u00e3o turvas, grossas, amareladas, limosas, e com cheiro semi-p\u00fatrido. N\u00e3o podem servir para a bebida dos animais; mas os agricultores reputam-nas excelentes para a rega. Nestas \u00e1guas, em particular no ver\u00e3o, continuamente apodrecem vermes, insetos, e vegetais; e delas exala-se sempre amon\u00edaco, e g\u00e1s hidrog\u00eanio azotizado, que parece ser o princ\u00edpio das febres remitentes, e intermitentes, e das desinterias biliosas, e podres, que reinam nos s\u00edtios cobertos de \u00e1guas encharcadas.<\/p>\n<p>Embora a interpreta\u00e7\u00e3o puramente qu\u00edmica n\u00e3o nos pare\u00e7a atualmente ser correta, Mello Franco, como outros higienistas da \u00e9poca, apresenta recomenda\u00e7\u00f5es de bom senso: seria necess\u00e1rio, para evitar as enfermidades palustres, acabar com os p\u00e2ntanos, secando-os e cultivando a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante que Mello Franco recomende que se ferva a \u00e1gua impura, quando for necess\u00e1rio utiliz\u00e1-la para beber. Para n\u00f3s, esse tipo de procedimento \u00e9 justificado pela destrui\u00e7\u00e3o dos microorganismos vivos que podem existir na \u00e1gua. Na \u00e9poca, no entanto, a justificativa era outra: libertar a \u00e1gua de s\u00f3lidos dissolvidos nela e, principalmente, produzir a evapora\u00e7\u00e3o dos miasmas.<\/p>\n<p>Resta-nos advertir, que quando formos obrigados pela necessidade a usar de \u00e1guas menos boas, a que costumam chamar cruas, devemos faze-las ferver, e deix\u00e1-las depois ao ar livre por 36 a 48 horas em vasilhas de barro largas, para que a \u00e1gua apresente ao ar uma grande superf\u00edcie. Por este meio os sais se depositar\u00e3o, e os miasmas nocivos se volatizar\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem sempre era poss\u00edvel purificar a \u00e1gua pela fervura. Nas longas viagens de navios, por exemplo, a \u00e1gua guardada durante semanas ou meses em ton\u00e9is de madeira costumava se estragar, ficando com um cheiro podre. Era imposs\u00edvel ferver essa \u00e1gua. Nesses casos havia sido desenvolvido um outro procedimento: a purifica\u00e7\u00e3o por p\u00f3 de carv\u00e3o (ou seja, o \u201ccarv\u00e3o ativado\u201d que se utiliza hoje em dia nos filtros dom\u00e9sticos de \u00e1gua) e a acidifica\u00e7\u00e3o da \u00e1gua<\/p>\n<p>Quando [a \u00e1gua] j\u00e1 est\u00e1 corrompida, joga-se em cada tonel 6 a 8 arrat\u00e9is de carv\u00e3o pulverizado, at\u00e9 que se dissipe o mau cheiro. Depois, coa-se e acrescenta-se \u00e1cido sulf\u00farico (\u00f3leo de vitr\u00edolo).<\/p>\n<p>Novamente, o principal crit\u00e9rio de salubridade da \u00e1gua era o cheiro e o procedimento tinha por objetivo eliminar o mau odor da \u00e1gua (pelo carv\u00e3o) e impedir que a \u00e1gua apodrecesse de novo (pelo \u00e1cido).<\/p>\n<p>O processo \u00e9 igualmente capaz de destruir microorganismos e deve ter sido \u00fatil para a conserva\u00e7\u00e3o da sa\u00fade da tripula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os v\u00e1rios casos aqui analisados mostram que a teoria dos miasmas foi muito \u00fatil, sem ser verdadeira. Ele conduziu a muitas medidas higi\u00eanicas que atualmente consideramos como excelentes \u2013 embora nossas teorias atuais sejam muito diferentes. No fim do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, procurou-se dar uma fundamenta\u00e7\u00e3o qu\u00edmica \u00e0 teoria dos miasmas, mas a tentativa falhou.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi poss\u00edvel encontrar os gases respons\u00e1veis pelas doen\u00e7as dos p\u00e2ntanos ou por outras enfermidades transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>D\u00daVIDAS SOBRE CONT\u00c1GIO NO IN\u00cdCIO DO S\u00c9CULO XIX<\/strong><\/p>\n<p>O s\u00e9culo XIX \u00e9 uma \u00e9poca em que ocorre grande desenvolvimento econ\u00f4mico e cient\u00edfico em todo o mundo. A Europa se industrializa, com todas as conseq\u00fc\u00eancias positivas e negativas acarretadas pelo processo.<\/p>\n<p>H\u00e1 empregos e h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o de bens materiais. Por outro lado, como a industrializa\u00e7\u00e3o atrai para as grandes cidades muitas pessoas pobres h\u00e1 um crescimento desordenado das regi\u00f5es industrializadas.<\/p>\n<p>Algumas delas dobraram ou triplicaram de tamanho, em poucos anos. Formaram-se bairros miser\u00e1veis, nos arredores, sem condi\u00e7\u00f5es higi\u00eanicas: eram locais sujos e \u00famidos.<\/p>\n<p>Em cidades industriais como Manchester e Liverpool, praticamente n\u00e3o existiam sanit\u00e1rios. Os excrementos eram empilhados em montes de at\u00e9 cinco metros de altura, nos bairros pobres. N\u00e3o existia coleta de lixo, a \u00e1gua era geralmente suja.<\/p>\n<p>As f\u00e1bricas tinham p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, os oper\u00e1rios trabalhavam mais de dez horas por dia e crian\u00e7as pequenas eram empregadas por sal\u00e1rios rid\u00edculos para trabalhar durante todo o dia.<\/p>\n<p>A mortalidade nas grandes cidades aumentou muito, nesse per\u00edodo. Os cuidados de desenvolvimento da higiene que haviam progredido muito no s\u00e9culo XVIII, sofreram um recuo. Algumas doen\u00e7as aumentaram muito: febre tif\u00f3ide, tuberculose, difteria. Ocorrem grandes epidemias de c\u00f3lera, que se espalham por todo o mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 durante o s\u00e9culo XIX que se chega \u00e0 compreens\u00e3o da natureza das enfermidades transmiss\u00edveis. Mas o in\u00edcio do s\u00e9culo n\u00e3o era muito promissor, sob o ponto de vista m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Havia grande confus\u00e3o sobre as doen\u00e7as que consideramos transmiss\u00edveis: discute-se at\u00e9 se existem de fato enfermidades contagiosas ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>O conceito b\u00e1sico de cont\u00e1gio era o de transmiss\u00e3o de uma doen\u00e7a de uma pessoa para outra. Normalmente, no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, associava-se o cont\u00e1gio a um virus ou veneno. Como vimos, Fracastoro admitia o cont\u00e1gio pelo contato direto, pelo ar e atrav\u00e9s de objetos materiais (roupas, m\u00f3veis, etc.) que servissem de intermedi\u00e1rios.<\/p>\n<p>N\u00e3o se imaginava at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX que pudesse haver transmiss\u00e3o de enfermidades pela \u00e1gua, nem com o interm\u00e9dio de seres vivos.<\/p>\n<p>A inocula\u00e7\u00e3o era uma transmiss\u00e3o artificial de doen\u00e7a que n\u00e3o era considerada um cont\u00e1gio, propriamente dito.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de infec\u00e7\u00e3o era mais ampla do que a de cont\u00e1gio. Quando se falava sobre lugares com ar infectado, isso significava que o ar era mal\u00e9fico para a sa\u00fade, seja por que motivo fosse: por conter gases como o di\u00f3xido de carbono, por conter miasmas de subst\u00e2ncias podres, ou por conter o \u201cvirus\u201d de pessoas doentes.<\/p>\n<p>Samuel Hahnemann (1755-1843) foi o fundador da homeopatia, e teve consider\u00e1vel influ\u00eancia no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. A principal obra em que suas id\u00e9ias foram divulgadas, o \u201cOrganon da arte de curar\u201d, foi publicado em 1810. Hahnemann acreditava que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conhecer as causas das doen\u00e7as; sob este ponto de vista, sua abordagem \u00e9 de tipo emp\u00edrico. O mais importante, na Medicina, \u00e9 estudar sintomas e procurar a cura \u2013 especula\u00e7\u00f5es sobre aquilo que n\u00e3o se conhece n\u00e3o ajudam muito.<\/p>\n<p>Coerente com essa posi\u00e7\u00e3o, a homeopatia se baseou em certos princ\u00edpios que n\u00e3o possuiam fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, mas que pareciam funcionar. O principal deles era o da cura do semelhante pelo semelhante: se um rem\u00e9dio produz, numa pessoa sadia, certo conjunto de sintomas semelhantes aos de uma enfermidade, esse rem\u00e9dio pode curar aquela enfermidade. A justificativa b\u00e1sica desse princ\u00edpio era a experi\u00eancia: o princ\u00edpio parecia dar certo, independentemente de qualquer justificativa te\u00f3rica que se pudesse procurar.<\/p>\n<p>Embora a teoria fosse, para Hahnemann, algo secund\u00e1rio e \u00e0s vezes at\u00e9 negativo, ele apresenta algumas reflex\u00f5es importante para nosso estudo. Sua posi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 vitalista, ou seja, ele nega que se possa compreender o organismo humano apenas como um aparelho f\u00edsico-qu\u00edmico. O que diferencia um ser vivo de um aparelho \u00e9 algo que ele chama de \u201cfor\u00e7a vital\u201d, respons\u00e1vel por toda a din\u00e2mica do organismo. As doen\u00e7as prov\u00eam de um desarranjo da for\u00e7a vital, que se reflete no corpo como um todo, e na mente.<\/p>\n<p>Essa for\u00e7a vital n\u00e3o est\u00e1 sujeita \u00e0s leis da f\u00edsica e da qu\u00edmica: ela tem leis pr\u00f3prias. A causa das doen\u00e7as n\u00e3o pode ser material, pois deve atuar sobre uma for\u00e7a vital que n\u00e3o \u00e9 material.<\/p>\n<p>Hahnemann lembra que um estado de esp\u00edrito \u2013 como o medo, a irrita\u00e7\u00e3o ou a tristeza \u2013 pode produzir enfermidades, o que parece imposs\u00edvel de se explicar sob o ponto de vista f\u00edsico, mas que se torna compreens\u00edvel sob o ponto de vista do vitalismo.<\/p>\n<p>Tanto as causas das doen\u00e7as, como os rem\u00e9dios, atuam sobre a for\u00e7a vital atrav\u00e9s de um poder ou dinamismo n\u00e3o material. Isso torna compreens\u00edvel, na homeopatia, como um rem\u00e9dio extremamente dilu\u00eddo pode se manter eficaz. Hahnemann \u00e0s vezes fazia com que os doentes apenas cheirassem um rem\u00e9dio j\u00e1 dilu\u00eddo, e isso era suficiente. Por outro lado, as influ\u00eancias m\u00f3rbidas que produzem as diversas enfermidades tamb\u00e9m podem agir sob forma extremamente dilu\u00edda ou rarefeita. Dentro desse tipo de concep\u00e7\u00e3o, torna-se natural aceitar a infec\u00e7\u00e3o e o cont\u00e1gio das enfermidades.<\/p>\n<p>Hahnemann utiliza o conceito de miasma de um modo especial. Originalmente, a id\u00e9ia de miasma estava relacionada \u00e0s emana\u00e7\u00f5es de subst\u00e2ncias em putrefa\u00e7\u00e3o, que se acreditava capazes de produzir doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Esse miasma seria sempre essencialmente de um s\u00f3 tipo, mas poderia levar a diferentes doen\u00e7as, dependendo das condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de sua a\u00e7\u00e3o e da pessoa que sofresse sua influ\u00eancia. Para Hahnemann, o miasma \u00e9 um agente que pode comunicar a enfermidade, e que pode provir do ambiente ou de outra pessoa doente. Todas as doen\u00e7as epid\u00eamicas e o cont\u00e1gio se d\u00e3o pelo miasma. Esse miasma, para ele, pode ser de diferentes tipos, cada um associado a uma doen\u00e7a diferente.<\/p>\n<p>Observamos algumas doen\u00e7as que sempre possuem uma mesma causa, tais como as doen\u00e7as miasm\u00e1ticas: hidrofobia, doen\u00e7a ven\u00e9rea, a praga oriental, febre amarela, var\u00edola, (\u2026) e algumas outras, que possuem a marca distintiva de sempre permanecerem doen\u00e7as de um car\u00e1ter peculiar. E por provirem de um princ\u00edpio contagioso que sempre permanece o mesmo, elas sempre permanecem iguais (\u2026).<\/p>\n<p>O miasma pode afetar uma pessoa, e esta, por sua vez, pode transmitir o mesmo tipo de miasma a uma segunda pessoa. Cada uma das enfermidades transmiss\u00edveis \u00e9 devida a um miasma particular. No entanto, a pr\u00f3pria natureza desses miasmas, para Hahnemann, \u00e9 desconhecida.<\/p>\n<p>Hahnemann afirma que as pessoas podem se acostumar gradualmente \u00e0s influ\u00eancias m\u00f3rbidas e resistir \u00e0 infec\u00e7\u00e3o dos miasmas. Seria por esse motivo que as enfermeiras, os m\u00e9dicos e os coveiros podem lidar com grande n\u00famero de enfermos (ou cad\u00e1veres), sem ficar doentes. Nesses casos, n\u00e3o se notam sinais do miasma nessas pessoas. No entanto, sem serem afetadas, e parecendo totalmente saud\u00e1veis, essas pessoas poderiam transmitir o miasma a outras. Em 1831, durante uma grave epidemia de c\u00f3lera, Hahnemann sugere que a doen\u00e7a n\u00e3o se propaga pelo ar, como todos acreditavam, mas pelo contato entre as pessoas; e que os principais respons\u00e1veis pela sua difus\u00e3o seriam os m\u00e9dicos e enfermeiras: eles desenvolveram uma resist\u00eancia contra o \u201cmiasma venenoso do c\u00f3lera\u201d, mas o passam para outras pessoas. S\u00e3o os \u201ctransportadores sadios do miasma\u201d.<\/p>\n<p>Assim, os m\u00e9dicos e enfermeiras s\u00e3o os propagadores e comunicadores mais certos e freq\u00fcentes do cont\u00e1gio do c\u00f3lera. Apesar disso, todos, mesmo os jornais p\u00fablicos, se espantam de como a infec\u00e7\u00e3o pode se espalhar t\u00e3o rapidamente, desde o primeiro dia, do primeiro paciente de c\u00f3lera em uma extremidade da cidade a pessoas na outra extremidade da cidade que n\u00e3o chegaram perto do paciente.<\/p>\n<p>Evidentemente, essa sugest\u00e3o de Hahnemann n\u00e3o agradou nem um pouco \u00e0 classe m\u00e9dica da \u00e9poca. Hahnemann estava certo: de fato, existem portadores de doen\u00e7as que s\u00e3o aparentemente sadios.<\/p>\n<p>Mas isso s\u00f3 foi de fato estabelecido v\u00e1rias d\u00e9cadas depois, quando o processo de transmiss\u00e3o foi esclarecido.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre o cont\u00e1gio das enfermidades tornou-se muito importante por ocasi\u00e3o das epidemias. Era essencial saber se uma enfermidade era contagiosa ou n\u00e3o, para tomar medidas de seguran\u00e7a contra sua propaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pierre Bretonneau (1771-1862) foi um dos grandes defensores da exist\u00eancia do cont\u00e1gio, no in\u00edcio do s\u00e9culo. Ele considerava a difteria e febre tif\u00f3ide como contagiosas. Ao estudar a epidemia de difteria de 1818-20, Bretonneau prop\u00f4s que as doen\u00e7as transmiss\u00edveis s\u00e3o espec\u00edficas, desenvolvendo-se atrav\u00e9s de um agente que se reproduz. O agente do tifo, segundo ele, seria \u201cum ser miasm\u00e1tico que se prende e adere \u00e0s secre\u00e7\u00f5es m\u00f3rbidas\u201d. Bretonneau compara o \u201cser miasm\u00e1tico\u201d a uma semente vegetal, que consegue reter sua capacidade de germinar durante longos per\u00edodos.<\/p>\n<p>Em 1834-5, Gendron descreveu epidemias de febre tif\u00f3ide e defendeu que ela \u00e9 contagiosa, pois passava de um membro da fam\u00edlia para outro. Concluiu que se espalhava por cont\u00e1gio, \u201cenvenenando por um princ\u00edpio desconhecido e impalp\u00e1vel conhecido como miasma\u201d. Mas Bretonneau, Gendron e outros autores da \u00e9poca n\u00e3o conseguiam mostrar a exist\u00eancia do cont\u00e1gio.<\/p>\n<p>Imaginou-se, na \u00e9poca, um teste crucial para decidir se uma doen\u00e7a era contagiosa ou n\u00e3o: verificar se era poss\u00edvel transmitir a enfermidade pela inocula\u00e7\u00e3o, como no caso da var\u00edola.<\/p>\n<p>Foram feitos testes de inocula\u00e7\u00e3o da difteria e de algumas outras doen\u00e7as, sem nenhum resultado. Isso aumentou muito a descren\u00e7a na exist\u00eancia de cont\u00e1gio. No entanto, o teste n\u00e3o era decisivo, pois sabia-se que, mesmo no caso da var\u00edola, somente era poss\u00edvel transmitir a enfermidade inoculando-se uma pessoa com l\u00edquido tirado das p\u00fastulas em certa fase da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1830, a peste bub\u00f4nica, iniciando-se no Egito, espalhou-se pelos pa\u00edses vizinhos. Discutia-se se ela era contagiosa ou n\u00e3o. O doutor Bullard, que estudava a doen\u00e7a, realizou testes extremamente perigosos, em Esmirna. Vestiu-se com roupas de pessoas que haviam morrido de peste, deitou-se no leito deles, e inoculou-se com o pus dos bub\u00f5es.<\/p>\n<p>Utilizou o mesmo procedimento com dois prisioneiros, condenados \u00e0 morte. Os dois prisioneiros morreram, em uma semana. O doutor Bullard, por\u00e9m, nada sentiu.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o tirada foi de que n\u00e3o existia a cont\u00e1gio e que era in\u00fatil qualquer medida de prote\u00e7\u00e3o contra a peste, como a quarentena.<\/p>\n<p>Era dif\u00edcil tirar alguma conclus\u00e3o a partir desse teste. Por um lado, uma pessoa podia permanecer sadia apesar de todas as tentativas de transmiss\u00e3o da enfermidade. Outras duas pessoas haviam morrido, mas podia n\u00e3o ter sido por cont\u00e1gio. Talvez a atmosfera estivesse infeccionada e algumas pessoas adquirissem a enfermidade e outras n\u00e3o, dependendo de sua constitui\u00e7\u00e3o f\u00edsica, independentemente de ter contato com doentes.<\/p>\n<p>Era igualmente dif\u00edcil testar as hip\u00f3teses sobre a influ\u00eancia do clima ou da atmosfera nas epidemias. Em 1831, a Academia de Ci\u00eancias de Paris, juntamente com a Academia de Medicina, formou uma comiss\u00e3o encarregada de dar um parecer sobre a quest\u00e3o: \u201cSe \u00e9 poss\u00edvel descobrir uma liga\u00e7\u00e3o apreci\u00e1vel entre os fen\u00f4menos meteorol\u00f3gicos e o desenvolvimento ou propaga\u00e7\u00e3o do c\u00f3lera\u201d.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois, a comiss\u00e3o declarou que, no estado dos conhecimentos da \u00e9poca, era imposs\u00edvel chegar a uma solu\u00e7\u00e3o desse problema. Ou seja: n\u00e3o se podia nem afirmar que havia, nem afirmar que n\u00e3o havia rela\u00e7\u00e3o entre clima e epidemias.<\/p>\n<p>A antiga teoria de Santorio, de que a redu\u00e7\u00e3o da transpira\u00e7\u00e3o, causada pela umidade, podia produzir graves doen\u00e7as, foi estudada novamente nesse per\u00edodo. Em 1838, o m\u00e9dico Fourcault realizou experimentos para verificar se a supress\u00e3o artificial da transpira\u00e7\u00e3o podia ocasionar doen\u00e7as. Ele recobriu a pele de animais com verniz e outras subst\u00e2ncias que fechavam todos os poros.<\/p>\n<p>Quando toda a pele ficava recoberta, os animais morriam. Quando apenas uma parte da pele era coberta, surgiam inflama\u00e7\u00f5es, tub\u00e9rculos e outros sinais patol\u00f3gicos. Esses experimentos pareciam confirmar, portanto, a teoria de Santorio.<\/p>\n<p>Paralelamente \u00e0s discuss\u00f5es sobre exist\u00eancia do cont\u00e1gio, o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX presenciou o surgimento de muitos outros estudos m\u00e9dicos. Apenas para citar um exemplo, uma das teorias mais populares do per\u00edodo foi a \u201cmedicina fisiol\u00f3gica\u201d de Fran\u00e7ois Joseph Victor Broussais (1772-1838).<\/p>\n<p>Broussais desenvolveu uma teoria muito simples, conhecida como \u201cmedicina fisiol\u00f3gica\u201d. A causa b\u00e1sica das enfermidades \u00e9 a inflama\u00e7\u00e3o do aparelho digestivo.<\/p>\n<p>As doen\u00e7as infecciosas e contagiosas, segundo Broussais, atuam no organismo por \u201ccorp\u00fasculos daninhos ou vapores irritantes que desenvolvem inflama\u00e7\u00e3o das cavidades a\u00e9reas\u201d e depois provocam inflama\u00e7\u00e3o do est\u00f4mago e do intestino. Conhecida a causa b\u00e1sica de todas as doen\u00e7as, a terapia se torna simples e igual, para todo tipo de enfermidades: todas podem ser tratadas por sangrias, drogas sedativas e jejum.<\/p>\n<p>A terap\u00eautica predileta de Broussais era aplicar um punhado de sanguessugas perto do est\u00f4mago ou do orif\u00edcio retal, de tal modo que o sangue dessas regi\u00f5es fosse retirado e a inflama\u00e7\u00e3o cedesse.<\/p>\n<p>O jejum podia ser absoluto, durante v\u00e1rios dias seguidos. No caso de uma inflama\u00e7\u00e3o recente, a perda de sangue deveria ser continuada at\u00e9 que o paciente ficasse inconsciente, mas logo depois deveria ser interrompida (especialmente em crian\u00e7as pequenas).<\/p>\n<p>O uso de sanguessugas era antigo, mas tornou-se particularmente popular nessa \u00e9poca. Em 1833, a mania desenvolvida por Broussais levou a Fran\u00e7a a importar 41.500.000 sanguessugas. Em 1824, as importa\u00e7\u00f5es foram de apenas 2 ou 3 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que nem toda a medicina da \u00e9poca era t\u00e3o rid\u00edcula assim. Utilizando-se dos conhecimentos anat\u00f4micos, fisiol\u00f3gicos e qu\u00edmicos da \u00e9poca, muitos investigadores tentavam desenvolver uma Medicina bastante sofisticada. Um exemplo dessa abordagem mais cient\u00edfica \u00e9 o de Fran\u00e7ois Magendie (1783-1855).<\/p>\n<p>Magendie estudou a composi\u00e7\u00e3o e as propriedades do sangue \u2013 especialmente sua coagula\u00e7\u00e3o \u2013 e concluiu que a maioria das doen\u00e7as era causada por mudan\u00e7as f\u00edsicas e qu\u00edmicas no sangue. Injetando diferentes l\u00edquidos no sangue de animais, observou o surgimento de enfermidades artificiais. Os \u00e1lcalis (bases), por exemplo, tornavam o sangue mais fluido e davam um efeito semelhante ao tifo.<\/p>\n<p>Segundo Magendie, as caracter\u00edsticas do sangue podem ser afetadas por calor, frio, alimento, bebida, e tamb\u00e9m pela influ\u00eancia qu\u00edmica dos miasmas.<\/p>\n<p>Como essas causas f\u00edsicas e qu\u00edmicas pareciam suficientes para compreender as doen\u00e7as, Magendie se op\u00f4s \u00e0 exist\u00eancia do cont\u00e1gio. Apenas o aceitou em poucos casos \u2013 como na var\u00edola e na s\u00edfilis.<\/p>\n<p>Embora esse tipo de abordagem n\u00e3o tenha contribu\u00eddo para o esclarecimento da transmiss\u00e3o das doen\u00e7as, \u00e9 claro que foi \u00fatil em outro sentido. O trabalho de Magendie foi continuado por seu disc\u00edpulo Gabriel Andral, que foi o l\u00edder da escola de Paris em 1830 e 1840. Andral identificou os principais constituintes do sangue: fibrina, gl\u00f3bulos, mat\u00e9ria albuminosa [prote\u00edna].<\/p>\n<p>Estabeleceu que a constitui\u00e7\u00e3o do sangue sadio sempre se mantinha dentro de certos limites e identificou a redu\u00e7\u00e3o dos gl\u00f3bulos vermelhos na anemia. At\u00e9 hoje, os exames de sangue s\u00e3o um poderoso instrumento no diagn\u00f3stico m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Nesse in\u00edcio de s\u00e9culo, a quest\u00e3o da pr\u00f3pria exist\u00eancia do cont\u00e1gio das doen\u00e7as epid\u00eamicas estava indefinida, embora a Medicina j\u00e1 dispusse de uma metodologia bastante sofisticada de investiga\u00e7\u00e3o. Na d\u00e9cada de 1830, no entanto, come\u00e7am a ser dados passos decisivos para a compreens\u00e3o do papel dos microorganismos nas enfermidades, como veremos a seguir.<\/p>\n<p><strong>DESCOBERTA DE MICROORGANISMOS ASSOCIADOS A DOEN\u00c7AS<\/strong><\/p>\n<p>Antes do s\u00e9culo XIX, como vimos, houve diversas sugest\u00f5es de que algumas doen\u00e7as seriam causadas por seres vivos microsc\u00f3picos. Mas teorias como a de Kircher eram apenas uma hip\u00f3tese sem fundamento, resultante da imagina\u00e7\u00e3o e n\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o dos fatos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se desenvolveu, durante o s\u00e9culo XVIII, o conhecimento de que havia parasitas vis\u00edveis no homem e nos animais \u2013 os vermes intestinais. Algumas vezes esses vermes eram observados durante febres, surgindo a suposi\u00e7\u00e3o de que eles poderiam ser a causa de doen\u00e7as. No entanto, a pr\u00f3pria origem dos vermes intestinais era desconhecida.<\/p>\n<p>Eles pareciam surgir por gera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea dos restos de alimentos que se deterioravam no intestino. Podiam ser a causa de doen\u00e7as, mas podiam ser tamb\u00e9m apenas um efeito ou sintoma.<\/p>\n<p>A partir da d\u00e9cada de 1830, come\u00e7am a surgir ind\u00edcios muito fortes a favor da id\u00e9ia de que parasitas microsc\u00f3picos ou vis\u00edveis podem ser a causa de doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Este foi o in\u00edcio da fase moderna da chamada \u201cteoria microbiana das doen\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>O primeiro caso em que se detectou um microorganismo que ocorria em uma doen\u00e7a foi no estudo de uma praga do bicho da seda. Em 1835, Agostino Bassi estabeleceu que esses insetos morriam quando infectados por um fungo microsc\u00f3pico, que foi mais tarde denominado Botrytis bassiana em sua homenagem.<\/p>\n<p>Bassi compreendeu que a doen\u00e7a dos bichos da seda era transmitida por contato ou por comida infectada e desenvolveu medidas profil\u00e1ticas apropriadas.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o tenha feito estudos de outras enfermidades, na mesma \u00e9poca Bassi desenvolveu a hip\u00f3tese de que as doen\u00e7as contagiosas \u2013 entre as quais incluia o c\u00f3lera \u2013 s\u00e3o devidas a parasitas vivos.<\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o de Bassi permaneceu, no entanto, como um caso isolado e \u00e0 qual se deu pouca import\u00e2ncia, na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Ehrenberg, famoso microbiologista alem\u00e3o (1795-1876), escreveu em 1836 uma obra sobre os seres microsc\u00f3picos que s\u00e3o observados em subst\u00e2ncias em putrefa\u00e7\u00e3o \u2013 os infus\u00f3rios. Nesse trabalho, ele afirma:<\/p>\n<p>Os infus\u00f3rios invis\u00edveis s\u00e3o ocasionalmente daninhos, mas apenas, pelo que parece, matando peixes em tanques, tornando a \u00e1gua turva, produzindo cheiros desagrad\u00e1veis e assustando pessoas supersticiosas.<\/p>\n<p>\u00c9 improv\u00e1vel que eles causem mal\u00e1ria, praga e outras doen\u00e7as \u2013 e isso nunca foi mostrado de modo seguro.<\/p>\n<p>Durante a epidemia de c\u00f3lera em Berlim, em 1832, n\u00e3o vi nenhum fen\u00f4meno anormal nas \u00e1guas nem na atmosfera. \u00c9 verdade que existem min\u00fasculos insetos na sarna e no pus. Mas todas esas coisas, como (\u2026) os animal\u00fanculos do c\u00f3lera, consistem apenas em afirma\u00e7\u00f5es ou suposi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Logo a afirma\u00e7\u00e3o de Ehrenberg seria derrubada pela observa\u00e7\u00e3o. As primeiras rela\u00e7\u00f5es entre doen\u00e7as humanas e microorganismos foram confirmadas pelo estudo microsc\u00f3pico em 1836, por A. Donn\u00e9.<\/p>\n<p>Ele estudou doen\u00e7as ven\u00e9reas de homens e mulheres, analisando ao microsc\u00f3pio as secre\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os sexuais dos doentes. Na s\u00edfilis e na blenorragia (gonorr\u00e9ia), ele n\u00e3o notou nenhum microorganismo.<\/p>\n<p>No cancro ou balanita, observou um \u201canim\u00e1lculo\u201d que identificou como Vibrio lineola. Nas mulheres com vaginite, descobriu a presen\u00e7a de flagelados desconhecidos, para os quais prop\u00f4s o nome de Tricomonas vaginalis.<\/p>\n<p>Observou que o muco do \u00f3rg\u00e3o sexual feminino, que normalmente \u00e9 alcalino, adquiria um car\u00e1ter \u00e1cido e, posteriormente, recomendou o uso de duchas alcalinas contra a vaginite.<\/p>\n<p>Donn\u00e9 procurou verificar se as secre\u00e7\u00f5es das doen\u00e7as ven\u00e9reas possuiam a capacidade de produzir novamente a doen\u00e7a. Para isso, inoculou sob a epiderme as secre\u00e7\u00f5es de diferentes tipos e observou que apenas o pus do cancro (o \u00fanico que apresentava vibri\u00f5es), quando inoculado, produzia p\u00fastulas no local.<\/p>\n<p>Esses resultados sugeriam fortemente que o vibri\u00e3o fosse a causa da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>No ano seguinte (1837), os m\u00e9dicos Beauperthuy e Roseuville confirmaram a presen\u00e7a de \u201cpequenos animais\u201d no pus do cancro e de outras doen\u00e7as ven\u00e9reas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m observaram microorganismos em excrementos de doentes com febre tif\u00f3ide, e na urina de pessoas com c\u00e1lculos renais. Notaram ainda altera\u00e7\u00f5es dos gl\u00f3bulos de sangue, em algumas doen\u00e7as. No entanto, o relato desses m\u00e9dicos \u00e9 muito sucinto, n\u00e3o permitindo perceber exatamente o que eles haviam observado.<\/p>\n<p>Os mesmos pesquisadores estudaram, em 1838, o processo de putrefa\u00e7\u00e3o de animais mortos. Descreveram o gradual surgimento de microorganismos (m\u00f4nadas e vibri\u00f5es), cujo n\u00famero vai aumentando, \u00e0 medida que o organismo se decomp\u00f5e. Quando a quantidade de microorganismos \u00e9 muito grande, o material em decomposi\u00e7\u00e3o se torna alcalino, e surge o cheiro caracter\u00edstico dos materiais podres.<\/p>\n<p>Esses estudos pareciam indicar que a produ\u00e7\u00e3o dos infus\u00f3rios ocorre antes da decomposi\u00e7\u00e3o das subst\u00e2ncias, sendo a causa e n\u00e3o o efeito desta.<\/p>\n<p>O cheiro de subst\u00e2ncias podres poderia ser tamb\u00e9m apenas um efeito da a\u00e7\u00e3o dos microorganismos, o que enfraquecia a id\u00e9ia dos miasmas.<\/p>\n<p>Nessa mesma \u00e9poca (1837 e 1838), h\u00e1 um importante trabalho, que inicialmente n\u00e3o tinha rela\u00e7\u00e3o com doen\u00e7as, mas que logo se ver\u00e1 ser essencial para a compreen\u00e7\u00e3o das mesmas.<\/p>\n<p>Foi um estudo de Cagniard-Latour sobre a fermenta\u00e7\u00e3o da cerveja. Os cervejeiros preparavam inicialmente um caldo de cevada, no qual era colocada certa quantidade de fermento (levedo de cerveja). Esse levedo, visto ao microsc\u00f3pio, parece ser simplesmente um p\u00f3, com part\u00edculas arredondadas. Quando o levedo \u00e9 colocado no caldo de cevada, mantido a uma temperatura adequada, o l\u00edquido come\u00e7a a fermentar e espumar, produzindo-se a transforma\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar em \u00e1lcool e gerando a cerveja.<\/p>\n<p>Nesse processo, produz-se na superf\u00edcie da cerveja uma grande quantidade de levedo, que \u00e9 recolhido para ser usado depois. A quantidade de levedo final pode ser cinco ou mais vezes superior \u00e0 quantidade inicial \u2013 ou seja, o levedo parece se reproduzir. Estudando o processo, Cagniard-Latour conseguiu observar ao microsc\u00f3pio que as part\u00edculas do levedo eram \u201ccorp\u00fasculos capazes de se reproduzir, e conseq\u00fcentemente organizados, e n\u00e3o uma subst\u00e2ncia inerte ou puramente qu\u00edmica, como se supunha\u201d. Como esses corp\u00fasculos n\u00e3o eram dotados de movimento pr\u00f3prio, Cagniard-Latour os considerou como vegetais microsc\u00f3picos. Ele observou que essas part\u00edculas participavam da transforma\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar em \u00e1lcool e que s\u00f3 produziam a fermenta\u00e7\u00e3o quando estavam vivas: podiam ser destru\u00eddas pelo calor, mas permaneciam vivas mesmo a temperaturas negativas ou quando secas.<\/p>\n<p>Em 1838, Turpin confirmou as observa\u00e7\u00f5es de Cagniard-Latour. Discutiu tamb\u00e9m detalhadamente os processos que ocorriam na fermenta\u00e7\u00e3o, observando que o desenvolvimento e reprodu\u00e7\u00e3o do levedo dependia do \u201cterrit\u00f3rio\u201d em que ele era colocado. Alguns \u201cterrit\u00f3rios\u201d podiam ser adequados para o crescimento do fermento, outros podiam ser nocivos e n\u00e3o permitir sua reprodu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora esses autores estivessem preocupados apenas com a pr\u00f3pria fermenta\u00e7\u00e3o, a analogia com as doen\u00e7as n\u00e3o podia deixar de ser notada. Nas enfermidades contagiosas, parecia existir alguma subst\u00e2ncia (o v\u00edrus) que passava de uma pessoa para outra e que aumentava em quantidade, j\u00e1 que podia chegar a atingir milh\u00f5es de pessoas. Essa multiplica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus era semelhante ao que ocorria com os fermentos.<\/p>\n<p>Em 1840, o microscopista Jacob Henle (1809-1885) apresentou o seguinte argumento: como apenas organismos vivos podem se multiplicar, a mat\u00e9ria m\u00f3rbida que causa doen\u00e7as infecciosas deve ser org\u00e2nica.<\/p>\n<p>A causa das doen\u00e7as contagiosas devia ser a exist\u00eancia de organismos min\u00fasculos que penetrariam em nosso corpo e que se desenvolveriam a\u00ed, depois de um per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o mais ou menos longo, durante o qual estariam se reproduzindo. Henle explicou que ningu\u00e9m havia descoberto esses organismos pela imperfei\u00e7\u00e3o dos microsc\u00f3pios.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de propor essa hip\u00f3tese, Henle estabeleceu pela primeira vez as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para provar que um organismo particular \u00e9 a causa de uma determinada doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Seria necess\u00e1rio demonstrar que o parasita est\u00e1 sempre presente; seria preciso isolar o parasita e estud\u00e1-lo fora do organismo doente; e deveria ser poss\u00edvel reproduzir a doen\u00e7a utilizando o parasita isolado.<\/p>\n<p>Algumas d\u00e9cadas depois, como veremos, um aluno de Henle, Robert Koch, reestabeleceu e conseguiu aplicar com sucesso essas regras. No entanto, o pr\u00f3prio Henle n\u00e3o conseguiu observar nenhum microorganismo associado a doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, o qu\u00edmico alem\u00e3o Justus von Liebig (1803-1873) se colocou contra essa hip\u00f3tese, atacando tamb\u00e9m os trabalhos de Cagniard-Latour e Turpin sobre as fermenta\u00e7\u00f5es. Para Liebig, a base de todos os processos fisiol\u00f3gicos era puramente qu\u00edmica. O fermento seria um tipo de catalizador, e n\u00e3o um ser vivo. Gra\u00e7as \u00e0 influ\u00eancia de Liebig, Henle abandonou suas id\u00e9ias.<\/p>\n<p>Embora v\u00e1rios observadores come\u00e7assem a descrever a presen\u00e7a de microorganismos em pessoas ou animais doentes, a atitude geral era cautelosa.<\/p>\n<p>Virchow notou que algumas vezes certos microorganismos podem ser encontrados tanto em pessoas doentes quanto em pessoas sadias (por exemplo, na difteria). Assim sendo, o microorganismo n\u00e3o pode ser a causa essencial da doen\u00e7a, sen\u00e3o todas essas pessoas estariam doentes.<\/p>\n<p>Desde 1830, a Europa estava sendo invadida por sucessivas epidemias de c\u00f3lera. V\u00e1rios autores \u2013 como Hahnemann e Bassi \u2013 haviam sugerido que essa doen\u00e7a era causada por seres microsc\u00f3picos vivos. Mas n\u00e3o havia sido ainda observado nenhum microorganismo associado \u00e0 doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Em 1849, o naturalista franc\u00eas F\u00e9lix Pouchet (1800-1876) detectou microorganismos nos dejetos de doentes de c\u00f3lera. Ao observar no microsc\u00f3pio os excrementos alvinos de quatro col\u00e9ricos, notou uma imensa quantidade de infus\u00f3rios. O tipo observado era conhecido como \u201cVibrio rugula\u201d, descrito por M\u00fcller e Schrank. Era muito pequeno, com 7 a 8 m de comprimento. Tinha movimentos bruscos, r\u00e1pidos, de onde vinha o nome de \u201cVibrio\u201d: vibri\u00e3o, corp\u00fasculo vibrat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Segundo Pouchet, esses vibri\u00f5es s\u00f3 eram observados nos dejetos recentes, com apar\u00eancia de \u00e1gua de arroz. Nos v\u00f4mitos, n\u00e3o eram encontrados.<\/p>\n<p>Pouchet indica que o microscopista Leenwenhoek, no s\u00e9culo XVII, j\u00e1 havia observado microorganismos semelhantes a esses em suas pr\u00f3prias fezes, durante uma disenteria. Indica, tamb\u00e9m, que o m\u00e9dico Donn\u00e9 j\u00e1 havia observado infus\u00f3rios semelhantes nos dejetos de col\u00e9ricos.<\/p>\n<p>As observa\u00e7\u00f5es de Pouchet eram bem descritas e claras. No entanto, n\u00e3o se deu import\u00e2ncia \u00e0 sua descoberta, na \u00e9poca, pois ainda n\u00e3o se aceitava que as doen\u00e7as pudessem ser causadas por microorganismos.<\/p>\n<p>No mesmo ano em que Pouchet publica seu estudo, outros pesquisadores apresentam trabalhos em que explicam o c\u00f3lera como uma doen\u00e7a dos p\u00e2ntanos (como a mal\u00e1ria), sugerindo que deveria ser tratada com o mesmo rem\u00e9dio \u2013 o quinino. Um outro m\u00e9dico indica que fumiga\u00e7\u00f5es com madeiras resinosas \u00e9 um meio excelente para prevenir o c\u00f3lera. Ou seja: ainda se aceitava uma teoria miasm\u00e1tica dessa doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Um outro importante passo ocorre em 1850. Nesse ano, Casimir Davaine (1812-1882) e Pierre Rayer (1793-1867) descobriram um bacilo associado a uma doen\u00e7a: o antraz.<\/p>\n<p>O antraz, tamb\u00e9m chamado de \u201ccarb\u00fanculo\u201d e \u201cp\u00fastula maligna\u201d, \u00e9 uma doen\u00e7a que atinge animais e tamb\u00e9m o homem. Nos s\u00e9culos XVIII e XIX, essa doen\u00e7a produziu v\u00e1rias epidemias no sul da Europa, devastando cria\u00e7\u00f5es de gado. O antraz afeta vacas, carneiros, cabras, cavalos e outros animais \u2013 geralmente herb\u00edvoros. A doen\u00e7a produz tremores, dificuldades respirat\u00f3rias e convuls\u00f5es. Algumas vezes, h\u00e1 hemorragias pelas diversas aberturas do corpo. Podem surgir incha\u00e7\u00f5es escuras em diferentes partes do corpo. A maior parte dos animais morria em poucos dias \u2013 \u00e0s vezes, no mesmo dia do in\u00edcio dos sintomas, outras vezes depois de v\u00e1rios dias. O cad\u00e1ver dos animais mortos apresenta um quadro de infec\u00e7\u00e3o geral, com sangue muito escuro que demora a se coagular. O corpo apodrece muito rapidamente.<\/p>\n<p>Em 1850, Rayer e Davaine observaram o sangue de carneiros mortos pelo carb\u00fanculo. Observaram que os gl\u00f3bulos vermelhos se aglutinavam em massas irregulares; havia al\u00e9m disso no sangue pequenos corpos filiformes, tendo cerca do dobro de comprimento de um gl\u00f3bulo sangu\u00edneo. Esses pequenos corpos n\u00e3o apresentavam movimento espont\u00e2neo. Podiam ser bacilos, mas podiam tamb\u00e9m ser part\u00edculas inanimadas.<\/p>\n<p>Os dois pesquisadores resolveram inocular animais sadios com o sangue de carneiros doentes. Ap\u00f3s alguns dias, os animais inoculados morreram. Examinando o seu sangue, Davaine e Rayer notaram a mesma apar\u00eancia observada antes. Como a quantidade de sangue injetada era pequena e o sangue dos animais inoculados estava repleto pelos pequenos bast\u00f5es, parecia que eles tinham se reproduzido, tratando-se portanto de seres vivos. No entanto, tudo poderia ser tamb\u00e9m interpretado de outra forma. Poderia ser que alguma subst\u00e2ncia do sangue transmitisse a doen\u00e7a, e que a doen\u00e7a, por sua vez, produzisse esses bast\u00f5es.<\/p>\n<p>Eles poderiam n\u00e3o ser vivos e ser apenas um efeito da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Davaine, em um livro que publicou em 1860, mostra-se c\u00e9tico com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 influ\u00eancia patog\u00eanica de microorganismos. Ele afirma que v\u00e1rios pesquisadores procuraram detectar seres microsc\u00f3picos \u2013 especialmente infus\u00f3rios \u2013 em animais contaminados por diversas doen\u00e7as, sem encontr\u00e1-los. Nessa \u00e9poca, ele acredita que apenas os vegetais microsc\u00f3picos, como os fungos, poderiam produzir doen\u00e7as:<\/p>\n<p>Os corpos organizados reconhecidos at\u00e9 agora que causam doen\u00e7as contagiosas pertencem exclusivamente ao reino vegetal; a muscardina que grassa sobre os bichos da seda, a doen\u00e7a da videira e a das batatas, s\u00e3o devidas ao desenvolvimento e \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o de um vegetal. (\u2026) Deve-se crer que se os miasmas contagiosos pertencem aos seres organizados, s\u00e3o vegetais; mas antes de se admitir a influ\u00eancia perniciosa desses seres, deve-se pelo menos reconhecer a sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>A cautela existente nesse per\u00edodo tinha um aspecto positivo: procurava-se evitar a aceita\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses sem fundamenta\u00e7\u00e3o. Era necess\u00e1rio apresentar evid\u00eancias mais s\u00f3lidas, para convencer a comunidade cient\u00edfica e m\u00e9dica da exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito entre seres microsc\u00f3picos e doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Isso s\u00f3 ocorreu mais tarde.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO 9: O PROCESSO DE TRANSMISS\u00c3O DAS DOEN\u00c7AS<\/strong><\/p>\n<p><strong>A DESCOBERTA DE SEMMELWEIS:\u00a0<\/strong>OS M\u00c9DICOS PODEM TRANSPORTAR A MORTE<\/p>\n<p>Enquanto se faziam as primeiras descobertas de seres microsc\u00f3picos associados a doen\u00e7as, uma linha de investiga\u00e7\u00f5es completamente diferente levou \u00e0 descoberta do meio de transmiss\u00e3o de algumas enfermidades.<\/p>\n<p>Neste cap\u00edtulo vamos estudar a descoberta do processo de transmiss\u00e3o da febre puerperal. No pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, a do c\u00f3lera.<\/p>\n<p>\u201cFebre puerperal\u201d \u00e9 o nome de uma doen\u00e7a que ocorria nas maternidades, matando milhares de m\u00e3es e crian\u00e7as. Esse nome descrevia a fase em que a enfermidade ocorria: ela era observada no \u201cpuerp\u00e9rio\u201d \u2013 o per\u00edodo logo ap\u00f3s o parto.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a era conhecida desde a Antig\u00fcidade, mas aumentou muito a partir do s\u00e9culo XVII. Coincidentemente, essa foi a \u00e9poca em que os m\u00e9dicos come\u00e7aram a se dedicar aos cuidados do parto. Antes disso, o nascimento das crian\u00e7as era acompanhado apenas por parteiras.<\/p>\n<p>Entre 1652 e 1862 foram registradas 200 epidemias da doen\u00e7a. Era comum que 1\/10 ou mais das m\u00e3es morressem ap\u00f3s o parto. Freq\u00fcentemente, os beb\u00eas tamb\u00e9m morriam, com sintomas parecidos. Em certos casos, nas fases mais intensas das epidemias, morriam todas as mulheres que entravam nos hospitais. A enfermidade praticamente s\u00f3 ocorria nos hospitais \u2013 os partos realizados em casa, por parteiras, raramente eram seguidos pela febre puerperal.<\/p>\n<p>Atualmente, sabe-se que a doen\u00e7a \u00e9 uma forma de infec\u00e7\u00e3o generalisada, que come\u00e7a no \u00fatero e se espalha por todo o corpo, causada por estreptococos.<\/p>\n<p>A causa inicial da infec\u00e7\u00e3o \u00e9 a entrada de germes por meio de m\u00e3os sujas, instrumentos cir\u00fargicos, contato com roupas sujas, etc. Como o \u00fatero fica ferido ap\u00f3s o parto e o desprendimento da placenta, torna-se f\u00e1cil uma infec\u00e7\u00e3o. Os sintomas iniciais s\u00e3o febre, del\u00edrio, dores muito intensas. A infec\u00e7\u00e3o atinge todos os \u00f3rg\u00e3os e a morte era quase sempre a conseq\u00fc\u00eancia final.<\/p>\n<p>No fim do s\u00e9culo XVIII, havia v\u00e1rias teorias sobre a causa da febre puerperal. Uma delas dizia que a causa era a supress\u00e3o da hemorragia posterior ao parto (isso na verdade \u00e9 um sintoma e n\u00e3o a causa).<\/p>\n<p>Outra teoria dizia que a causa era o ac\u00famulo de leite dentro do corpo da mulher, ap\u00f3s o parto, pois a aut\u00f3psia dos cad\u00e1veres mostrava que muitos \u00f3rg\u00e3os estavam cheios de um l\u00edquido branco (na verdade, n\u00e3o se tratava de leite e sim pus). Outros pensavam que a doen\u00e7a era um dist\u00farbio dos humores \u2013 descrito como uma condi\u00e7\u00e3o g\u00e1strico-biliosa. Tamb\u00e9m se atribu\u00eda a febre puerperal a fatores emocionais como medo, vergonha, etc.<\/p>\n<p>Desconfiava-se de fatores externos, atmosf\u00e9ricos \u2013 miasmas, influ\u00eancias c\u00f3smicas ou terrestres. Tamb\u00e9m parecia existir o cont\u00e1gio: logo que a enfermidade aparecia em uma pessoa, no hospital, ela outras pessoas tamb\u00e9m adoeciam. A febre parecia se espalhar atrav\u00e9s de uma emana\u00e7\u00e3o virulenta, pelo ar.<\/p>\n<p>Na Inglaterra, a teoria mais popular era a do cont\u00e1gio pelo ar. De acordo com nossos conhecimentos atuais, a explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 errada, mas levou a medidas higi\u00eanicas que melhoraram muito as estat\u00edsticas.<\/p>\n<p>Charles White, em um livro em 1773, atribuiu a febre puerperal \u00e0s m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de realiza\u00e7\u00e3o dos partos na Inglaterra. Adotou medidas de limpeza, ar fresco e temperatura ambiente adequada, al\u00e9m de separar as doentes das s\u00e3s. Depois que uma doente morresse ou se recuperasse, devia-se limpar o quarto, lavar cortinas e roupas de cama, passar vinagre no ch\u00e3o e m\u00f3veis, para purific\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Alexander Gordon, em 1795, sugeriu que os m\u00e9dicos e enfermeiras transferiam a febre puerperal das doentes para as s\u00e3s:<\/p>\n<p>Tenho prova inquestion\u00e1vel de que a causa da doen\u00e7a \u00e9 uma infec\u00e7\u00e3o ou cont\u00e1gio espec\u00edfico.<\/p>\n<p>Essa enfermidade ataca apenas as mulheres que s\u00e3o visitadas ou acompanhadas no parto por um praticante ou enfermeira que antes atendeu a pacientes afetados pela doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Toda pessoa que esteve com uma paciente de febre puerperal se torna carregada por uma atmosfera de infec\u00e7\u00e3o, que se comunica a toda mulher gr\u00e1vida que entre dentro de sua esfera.<\/p>\n<p>Gordon recomendava que as roupas de cama e pessoais de pacientes infectadas fossem queimadas; recomendava que os m\u00e9dicos e enfermeiras se lavassem totalmente, e que fumigassem suas roupas. Mas suas id\u00e9ias n\u00e3o foram aceitas.<\/p>\n<p>Houve casos em que se sentiu a necessidade de tomar medidas en\u00e9rgicas contra epidemias de febre puerperal. Em 1829, a mortalidade por febre puerperal era t\u00e3o grande, que Robert Collins, chefe do Hospital de Dublin esvaziou a maternidade, para purific\u00e1-la e eliminar os \u201cvapores da doen\u00e7a\u201d. Encheu os quartos com g\u00e1s clor\u00eddrico, com todas as aberturas seladas.<\/p>\n<p>As paredes e ch\u00e3os foram lavados com cloreto de c\u00e1lcio em forma de pasta. Os m\u00f3veis foram pintados. As paredes e teto foram lavadas de novo com cal.<\/p>\n<p>Roupas de cama foram lavadas e depois tratadas em uma estufa a 120-130 graus Fahrenheit. A mortalidade, logo depois, caiu a apenas 0,53%.<\/p>\n<p>O sucesso da medida parecia indicar que a causa da enfermidade estava impregnada no pr\u00e9dio e nos objetos do hospital, transmitindo-se pelo ar. No entanto, outras pessoas come\u00e7aram a perceber ind\u00edcios de que a doen\u00e7a era transportada pelas pr\u00f3prias pessoas.<\/p>\n<p>Em 1843, o norte-americano Oliver Wendell Holmes (1809-1894) afirmava que \u201cA doen\u00e7a conhecida como febre puerperal \u00e9 t\u00e3o contagiosa que \u00e9 freq\u00fcentemente carregada de paciente a paciente pelos m\u00e9dicos e enfermeiras\u201d.<\/p>\n<p>Holmes sugeriu que os m\u00e9dicos que tratassem de pacientes com febre puerperal n\u00e3o deviam atender parturientes. Se isso n\u00e3o pudesse ser evitado, deveriam lavar cuidadosamente suas m\u00e3os com cloreto de c\u00e1lcio e trocar de roupas ap\u00f3s deixar a paciente com febre.<\/p>\n<p>Em 1855, Holmes se refere ao fato de que muitas vezes ocorreram efeitos perigosos e mesmo fatais ap\u00f3s ferimentos recebidos no exame de cad\u00e1veres de pacientes que haviam morrido de febre puerperal \u2013 o que n\u00e3o ocorria no exame de cad\u00e1veres de outras enfermidades. \u201c(\u2026) \u00e9 irresist\u00edvel a conclus\u00e3o de que se produz um veneno m\u00f3rbido muito tem\u00edvel no decorrer dessa doen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Apesar de todos os argumentos apresentados por Holmes, suas propostas n\u00e3o foram aceitas. Foi apenas pelo trabalho do m\u00e9dico h\u00fangaro Ignaz Philipp Semmelweis (1818-1865) que foram obtidas evid\u00eancias claras sobre o processo de transmiss\u00e3o da enfermidade.<\/p>\n<p>Em 1846, Semmelweis iniciou seu trabalho em Viena. Havia duas divis\u00f5es na maternidade. Ele trabalhava na Primeira Cl\u00ednica Obst\u00e9trica, na qual eram instru\u00eddos os estudantes de Medicina. Em 1846, a mortalidade m\u00e9dia das parturientes, de maio a julho, foi de 12,23%. Em agosto subiu a 18,05%. Em setembro e outubro, baixou para 14%. Em m\u00e9dia, de cada seis mulheres que entravam na maternidade, uma saia morta.<\/p>\n<p>Semmelweis procurou explica\u00e7\u00f5es para a febre puerperal. Atrav\u00e9s de um estudo cuidadoso, ele foi excluindo as v\u00e1rias causas que haviam sido sugeridas.<\/p>\n<p>Uma das explica\u00e7\u00f5es preferidas era a de causas atmosf\u00e9ricas, como miasmas ou varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Semmelweis construiu tabelas de mortalidade, com os dados de v\u00e1rios anos, e observou que havia uma mortalidade grande, constante, em todas as \u00e9pocas do ano, com qualquer tipo de clima. Al\u00e9m disso, sabia-se que as pessoas que preferiam realizar o parto em suas casas raramente ficavam doentes, o que parecia excluir qualquer causa atmosf\u00e9rica, c\u00f3smica ou tel\u00farica.<\/p>\n<p>Quando a epidemia se intensificava e a maternidade era fechada, as mortes diminu\u00edam.<\/p>\n<p>A causa devia estar dentro do pr\u00f3prio hospital. No entanto, mesmo dentro do pr\u00e9dio, ocorria um fato inexplic\u00e1vel. Em geral, a mortalidade na divis\u00e3o de Semmelweis era quatro vezes maior do que na Segunda Cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Como ambas ficavam no mesmo pr\u00e9dio, Semmelweis come\u00e7ou a procurar a causa dessa diferen\u00e7a, convencido de que havia fatores nocivos dentro dos limites da Primeira Cl\u00ednica Obst\u00e9trica.<\/p>\n<p>Era fato bem sabido, na cidade, que a mortalidade na Primeira Cl\u00ednica era grande. Sugeriu-se que o medo da Primeira Cl\u00ednica poderia influir nas pacientes, enfraquec\u00ea-las e produzir a febre puerperal. Semmelweis, no entanto, afasta essa possibilidade. Por um lado, o m\u00e9do s\u00f3 poderia ter surgido ap\u00f3s um per\u00edodo em que a mortalidade na Primeira Cl\u00ednica fosse maior do que na Segunda. Por outro lado, n\u00e3o se podia conceber como o medo poderia produzir uma doen\u00e7a t\u00e3o grave e mortal.<\/p>\n<p>Semmelweis tomava hip\u00f3tese por hip\u00f3tese, analisava as evid\u00eancias, e ia excluindo uma por uma. Mesmo as sugest\u00f5es mais estranhas eram levadas em conta, pois tratava-se de um problema grav\u00edssimo: estava em jogo a vida de centenas de mulheres.<\/p>\n<p>Na Primeira Cl\u00ednica, as doentes de febre puerperal eram isoladas em uma sala especial. Eram visitadas pelo padre, que passava antes pelos quartos onde estavam as mulheres sadias, com um sacrist\u00e3o tocando um sino.<\/p>\n<p>O padre precisava vir muitas vezes ao hospital, durante o dia e \u00e0 noite. Sugeriu-se que isso podia criar um terror muito grande entre as mulheres e aumentar a doen\u00e7a. Na Segunda Cl\u00ednica, pelo contr\u00e1rio, o padre chegava \u00e0s doentes sem passar pelas outras. Para ver se essa era a causa, Semmelweis conseguiu fazer com que o padre desse uma volta por fora dos quartos das parturientes e que o sacrist\u00e3o n\u00e3o tocasse mais o sino. As mortes continuaram, sem mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Notou-se uma outra diferen\u00e7a entre os dois setores da maternidade. Na Segunda Cl\u00ednica, as parturientes eram colocadas de lado, durante o parto. Na Primeira, eram deitadas de costas.<\/p>\n<p>Para ver se isso tinha alguma influ\u00eancia, Semmelweis mudou a posi\u00e7\u00e3o das parturientes na Primeira Cl\u00ednica, apesar de grande resist\u00eancia dos m\u00e9dicos e das enfermeiras. N\u00e3o houve melhora, e retornou-se \u00e0 posi\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Semmelweis obteve a informa\u00e7\u00e3o de que no mesmo hospital, anteriormente, haviam sido seguidos os m\u00e9todos ingleses de higiene e a mortalidade havia sido de 1,3% durante 20 anos. Com a mudan\u00e7a do diretor, que n\u00e3o aceitava a teoria do cont\u00e1gio, os m\u00e9todos foram abandonados e a mortalidade havia aumentado.<\/p>\n<p><strong>O pr\u00f3prio Semmelweis n\u00e3o acreditava no cont\u00e1gio da febre puerperal atrav\u00e9s do ar:<\/strong><\/p>\n<p>Nossa convic\u00e7\u00e3o \u00e9 de que a febre puerperal n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a contagiosa e que n\u00e3o \u00e9 levada de cama para cama por um contagium (\u2026). Basta a observa\u00e7\u00e3o de que, se a febre fosse uma enfermidade contagiosa, os casos espor\u00e1dicos da doen\u00e7a entre as pu\u00e9rperas da Segunda Cl\u00ednica seriam suficientes para transformar os casos espor\u00e1dicos em uma epidemia, pela difus\u00e3o do contagium de cama para cama.<\/p>\n<p>Na verdade, Semmelweis n\u00e3o tinha inicialmente nenhuma id\u00e9ia sobre a causa da enfermidade ou sobre sua transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato que veio lhe trazer uma repentina compreens\u00e3o desse problema foi a morte de um colega. Seu amigo Jakob Kolletschka, professor de Medicina Legal, morreu em mar\u00e7o de 1847. Ao realizar uma aut\u00f3psia, ele se feriu com o bisturi. A ferida havia se infectado e seguiu-se uma infec\u00e7\u00e3o geral, chamada \u201cpiemia\u201d, da qual ele morreu.<\/p>\n<p>Semmelweis ficou chocado com a morte e, ao mesmo tempo, informando-se sobre os detalhes, percebeu que os sintomas do amigo tinham sido id\u00eanticos aos das mulheres com febre puerperal.<\/p>\n<p>Dia e noite essa figura da doen\u00e7a de Kolletschka me perseguia, e com uma determina\u00e7\u00e3o cada vez maior, fui obrigado a reconhecer a identidade da doen\u00e7a de que Kolletschka havia morrido, com a enfermidade de que eu havia visto tantas pu\u00e9rperas morrerem.<\/p>\n<p>A causa que havia excitado a doen\u00e7a do professor Kolletschka era conhecida, ou seja, a ferida produzida pela faca de aut\u00f3psia contaminada ao mesmo tempo por material do cad\u00e1ver. N\u00e3o foi a ferida, mas a contamina\u00e7\u00e3o da ferida pelo material cadav\u00e9rico que foi a causa da morte. Kolletschka n\u00e3o foi o primeiro a morrer dessa forma. Devo reconhecer que, se a doen\u00e7a de Kolletschka \u00e9 id\u00eantica \u00e0 doen\u00e7a de que vi tantas pu\u00e9rperas morrerem, ent\u00e3o nas pu\u00e9rperas ela deve ter sido produzida pela mesma causa geradora, que a produziu em Kolletschka.<\/p>\n<p>Efeitos semelhantes devem ter causas semelhantes. Mas o que poderia haver de semelhante entre uma mulher que fica doente ap\u00f3s o parto, e um m\u00e9dico que se infecciona pela ferida de um bisturi sujo?<\/p>\n<p>Ao longo de dois meses, Semmelweis pensava e repensava sobre a semelhan\u00e7a entre os dois tipos de morte. Por fim, ele concluiu que devem ter entrado \u201cpart\u00edculas cadav\u00e9ricas\u201d no corpo das mulheres.<\/p>\n<p>E isso deveria ter sido causado pelos pr\u00f3prios m\u00e9dicos que as examinaram.<\/p>\n<p>Os estudantes e os m\u00e9dicos da Primeira Cl\u00ednica praticavam com grande dedica\u00e7\u00e3o a disseca\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres. Ap\u00f3s isso, lavavam apressadamente suas m\u00e3os com \u00e1gua (\u00e0s vezes usando sab\u00e3o) e as enxugavam em toalhas sujas ou em seus aventais. Da\u00ed passavam para o cuidado das pacientes, levando consigo um cheiro nauseante.<\/p>\n<p>Por causa da tend\u00eancia anat\u00f4mica da Escola M\u00e9dica de Viena, os professores, assistentes e estudantes freq\u00fcentemente t\u00eam a oportunidade de entrar em contato com cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>As part\u00edculas cadav\u00e9ricas que se prendem \u00e0s suas m\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o removidas pelo m\u00e9todo ordin\u00e1rio de lavar as m\u00e3os com sab\u00e3o, como \u00e9 mostrado pelo cheiro de cad\u00e1ver que as m\u00e3os mant\u00eam durante um tempo mais ou menos longo. Durante o exame das gr\u00e1vidas, parturientes ou pu\u00e9rperas, a m\u00e3o contaminada pelas part\u00edculas cadav\u00e9ricas \u00e9 colocada em contato com os \u00f3rg\u00e3os genitais dessas pessoas e por isso existe possibilidade de absor\u00e7\u00e3o e, por meio da absor\u00e7\u00e3o, deve-se postular a introdu\u00e7\u00e3o de part\u00edculas cadav\u00e9ricas no sistema vascular dessas pessoas. Por este meio, produz-se nas pu\u00e9rperas a mesma enfermidade que vimos em Kolletschka.<\/p>\n<p>Ou seja: na morte de Kolletschka, assim como na febre puerperal, a causa \u00e9 a mesma: introdu\u00e7\u00e3o de material em putrefa\u00e7\u00e3o no interior do corpo \u2013 por uma ferida, ou pelos \u00f3rg\u00e3os genitais.<\/p>\n<p>Note-se que Semmelweis est\u00e1 utilizando algumas id\u00e9ias antigas. A rela\u00e7\u00e3o entre mau cheiro e produ\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as deve ter orientado sua aten\u00e7\u00e3o para a falta de asseio ap\u00f3s as disseca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A no\u00e7\u00e3o de que os materiais em putrefa\u00e7\u00e3o produzem algum tipo de veneno tamb\u00e9m era conhecida. O elemento novo \u00e9 o transporte desse material venenoso pelos pr\u00f3prios m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Note-se que Semmelweis n\u00e3o est\u00e1 supondo a exist\u00eancia de um cont\u00e1gio, propriamente dito. Ele acreditava que o material em decomposi\u00e7\u00e3o de qualquer cad\u00e1ver, independentemente da causa de sua morte, era capaz de produzir a febre puerperal. De certa forma, portanto, sua concep\u00e7\u00e3o era semelhante \u00e0 dos miasmas, que tamb\u00e9m n\u00e3o eram espec\u00edficos.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese de Semmelweis explicava a diferen\u00e7a observada entre a Primeira e a Segunda Cl\u00ednicas. Na Primeira, tinham acesso os estudantes de medicina. Na segunda, eram treinadas apenas as parteiras.<\/p>\n<p>Os primeiros realizavam aut\u00f3psias; as segundas, n\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00e1rios fatos se tornaram significativos, de repente. As pessoas que tinham seus partos em casa eram em geral atendidas por parteiras, ou cl\u00ednicos que n\u00e3o praticavam aut\u00f3psias, e por isso n\u00e3o eram contaminadas.<\/p>\n<p>As mulheres que entravam no hospital j\u00e1 depois do parto, n\u00e3o eram examinadas como as demais, por isso o risco de febre puerperal era muito menor.<\/p>\n<p>Semmelweis percebeu que ele pr\u00f3prio era o respons\u00e1vel pela morte de muitas mulheres. Quase todos os dias, pela manh\u00e3, antes de atender \u00e0s mulheres, ele realizava aut\u00f3psias de cad\u00e1veres e, depois, ia examinar as pacientes. Se a hip\u00f3tese est\u00e1 correta, pensa Semmelweis, o modo de evitar a enfermidade \u00e9 destruir as part\u00edculas cadav\u00e9ricas nas m\u00e3os, por meios qu\u00edmicos. Em maio de 1847, ele come\u00e7ou a usar uma solu\u00e7\u00e3o de cloro, pois j\u00e1 se sabia que o cloro impedia a putrefa\u00e7\u00e3o e eliminava o mau-cheiro. Depois, come\u00e7ou a usar cloreto de c\u00e1lcio, que era mais barato. Essa subst\u00e2ncia, misturada com \u00e1gua, era colocada em bacias no fundo das quais havia areia lavada. A areia era utilizada para esfregar as m\u00e3os.<\/p>\n<p>Todos os estudantes e professores que entravam na cl\u00ednica deviam lavar e esfregar suas m\u00e3os, antes de poderem atender \u00e0s pacientes. Ap\u00f3s essa desinfec\u00e7\u00e3o inicial, considerava-se que bastava lavar as m\u00e3os com \u00e1gua e sab\u00e3o, entre os exames \u00e0s v\u00e1rias doentes.<\/p>\n<p>O resultado foi muito bom. Em maio de 1847, a mortalidade por febre puerperal ainda era de 12%. Em junho, caiu a 2,4%, em julho foi de 1,2% e em agosto de 1,9%.<\/p>\n<p>A mortalidade tornou-se aproximadamente igual \u00e0 da Segunda Cl\u00ednica. Portanto, parecia que Semmelweis havia descoberto a diferen\u00e7a entre as duas divis\u00f5es.<\/p>\n<p>Apesar do sucesso pr\u00e1tico, o superior de Semmelweis, diretor do Hospital, n\u00e3o aceitou suas id\u00e9ias e se recusou \u00e0 proposta de formar uma comiss\u00e3o para estudar o assunto.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m resist\u00eancias entre os estudantes e professores \u00e0 ado\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo de desinfec\u00e7\u00e3o. O cloro produzia forte irrita\u00e7\u00e3o da pele e o cheiro de cloro se espalhava pelo pr\u00e9dio. Em setembro, um estudante ridicularizou o m\u00e9todo de Semmelweis e se recusou a tomar as precau\u00e7\u00f5es indicadas. Nesse m\u00eas, a mortalidade aumentou para 5,2%. Semmelweis descobriu o estudante e o puniu.<\/p>\n<p>A mortalidade diminui novamente.<\/p>\n<p>No entanto, no m\u00eas seguinte, houve novo problema. Embora todos os cuidados estivessem sendo respeitados, doze mulheres que estavam todas na mesma fileira de camas ficaram doentes e onze delas morreram de febre puerperal.<\/p>\n<p>Semmelweis logo entendeu que ainda n\u00e3o tinha conseguido encontrar a explica\u00e7\u00e3o completa nem o m\u00e9todo seguro de prevenir a febre puerperal. Analisando esse caso, ele logo se convenceu de que a doen\u00e7a devia ter sido transmitida \u00e0s m\u00e3os dos estudantes e m\u00e9dicos depois que eles haviam entrado na Cl\u00ednica. Notou ent\u00e3o que, na fileira de mulheres que haviam morrido, a primeira paciente j\u00e1 tinha ingressado no hospital com uma doen\u00e7a do \u00fatero, da qual sa\u00eda um l\u00edquido com odor f\u00e9tido. Ap\u00f3s examin\u00e1-la, Semmelweis e seus estudantes haviam apenas lavado as m\u00e3os com sabonete, e passado a examinar as pacientes seguintes, que depois adoeceram com febre puerperal.<\/p>\n<p>Semmelweis concluiu que o material transmitido da primeira paciente para as outras havia produzido a enfermidade. Embora n\u00e3o se tratasse propriamente de \u201cmat\u00e9ria cadav\u00e9rica\u201d, o l\u00edquido que sa\u00eda da ferida do \u00fatero podia ser considerada como um material em decomposi\u00e7\u00e3o, tendo propriedades semelhantes ao material de um cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Note-se que, a rigor, a hip\u00f3tese inicial de Semmelweis teve que ser rejeitada. A causa da mortalidade n\u00e3o era apenas o transporte de material dos cad\u00e1veres para as pacientes.<\/p>\n<p>Existe uma semelhan\u00e7a entre os dois casos, mas n\u00e3o uma identidade. Apesar disso, Semmelweis continuou a se referir sempre \u00e0 \u201cmat\u00e9ria cadav\u00e9rica\u201d, o que produziu muita confus\u00e3o sobre suas ide\u00edas.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, Semmelweis modificou seu procedimento: era necess\u00e1rio desinfetar as m\u00e3os com o cloreto de c\u00e1lcio depois de qualquer contato com algu\u00e9m que tivesse feridas ou alguma doen\u00e7a de onde pudesse sair algum material p\u00fatrido. Posteriormente, como mesmo essa medida n\u00e3o se mostrou sufiente, ele adotou o procedimento de isolar das demais pacientes qualquer pessoa que tivesse alguma doen\u00e7a que pudesse infect\u00e1-las.<\/p>\n<p>Aparentemente, a febre puerperal havia sido superada.<\/p>\n<p>Note-se que n\u00e3o h\u00e1 qualquer men\u00e7\u00e3o, aqui, a estudos microsc\u00f3picos ou qu\u00edmicos, nem discuss\u00e3o sobre a natureza do material cadav\u00e9rico infeccioso.<\/p>\n<p>Semmelweis n\u00e3o discute se a causa da febre puerperal \u00e9 algum tipo de germe vivo ou qualquer outro tipo de agente. De fato, Semmelweis nunca estudou esses aspectos.<\/p>\n<p>Seu objetivo principal era a preven\u00e7\u00e3o da febre puerperal e, tendo atingido esse fim, sua maior preocupa\u00e7\u00e3o era que o m\u00e9todo se difundisse e fosse usado em outros hospitais.<\/p>\n<p>A recep\u00e7\u00e3o da descoberta de Semmelweis foi muito lenta. Em parte, pode-se entender isso como uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 compreens\u00e3o de que os pr\u00f3prios m\u00e9dicos eram respons\u00e1veis pela morte das pacientes \u2013 e ningu\u00e9m queria admitir isso. Por outro lado, a difus\u00e3o das id\u00e9ias de Semmelweis foi muito imperfeita. Ele pr\u00f3prio demorou v\u00e1rios anos para publicar seu trabalho.<\/p>\n<p>Outras pessoas divulgaram aquilo que ele estava fazendo, mas \u00e0s vezes de modo incompleto. Difundiu-se a id\u00e9ia de que ele explicava a febre puerperal apenas atrav\u00e9s da infec\u00e7\u00e3o por mat\u00e9ria proveniente de cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>No entanto, em v\u00e1rios hospitais europeus, as pessoas que atendiam aos partos n\u00e3o praticavam aut\u00f3psias \u2013 e, apesar disso, havia muitas mortes por febre puerperal. Isso parecia indicar que Semmelweis estava errado.<\/p>\n<p>Na Inglaterra, acreditou-se que Semmelweis havia simplesmente redescoberto a hip\u00f3tese do cont\u00e1gio da febre puerperal. No entanto, as id\u00e9ias de Semmelweis eram muito diferentes das dos ingleses.<\/p>\n<p>Esses acreditavam que a febre puerperal era uma doen\u00e7a particular, como por exemplo a var\u00edola, que podia ser transmitida de um doente de febre puerperal a uma pessoa s\u00e3, atrav\u00e9s de cont\u00e1gio pelo ar. Semmelweis, pelo contr\u00e1rio, acreditava que qualquer material em putrefa\u00e7\u00e3o podia infectar as parturientes e produzir a febre puerperal; e que a transmiss\u00e3o da enfermidade n\u00e3o era, em geral, pelo ar \u2013 e sim pelas m\u00e3os e utens\u00edlios dos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>Em Viena, a oposi\u00e7\u00e3o de importantes m\u00e9dicos fez com que Semmelweis fosse perseguido. Em 1850, ele abandonou a \u00c1ustria e foi para sua terra natal \u2013 a Hungria. L\u00e1, come\u00e7ou a trabalhar no hospital de Budapeste \u2013 inicialmente, de gra\u00e7a. L\u00e1 ele tamb\u00e9m conseguiu reduzir a alta mortalidade a cerca de 1%.<\/p>\n<p>Embora o principal trabalho da vida de Semmelweis tenha sido o combate \u00e0 febre puerperal, ele tamb\u00e9m aplicou id\u00e9ias semelhantes \u00e0 cirurgia. As opera\u00e7\u00f5es simples, como a retirada de p\u00f3lipos do \u00fatero, eram geralmente seguidas pela morte da paciente por piemia. No entanto, tomando os mesmos cuidados de desinfec\u00e7\u00e3o que j\u00e1 foram explicados, ele fazia essas opera\u00e7\u00f5es sem perder uma s\u00f3 paciente. E comenta: \u201cEu atribuo esses resultados favor\u00e1veis apenas ao fato de que opero com as m\u00e3os limpas\u201d.<\/p>\n<p>Como foi mostrado no in\u00edcio deste cap\u00edtulo, outras pessoas antes de Semmelweis j\u00e1 haviam sugerido id\u00e9ias muito parecidas com as suas. No entanto, n\u00e3o basta sugerir uma id\u00e9ia: \u00e9 necess\u00e1rio examinar as v\u00e1rias sugest\u00f5es existentes, test\u00e1-las, ir eliminando as alternativas at\u00e9 isolar uma hip\u00f3tese que explique todos os fatos conhecidos.<\/p>\n<p>Apenas Semmelweis se deu ao trabalho de fazer esse trabalho cuidadoso de experimenta\u00e7\u00e3o e de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Depois que seu trabalho teve sucesso, Semmelweis procurou difundi-lo, mas de forma pouco h\u00e1bil, conseguindo mais inimigos. Seu estilo era agressivo, como se pode ver por esta pequena amostra: uma carta aberta, escrita em 1861, dirigida a um m\u00e9dico, lembrando o que havia ocorrido no Hospital de Viena, onde haviam morrido quase 2.000 mulheres de febre puerperal, depois de sua sa\u00edda.<\/p>\n<p>O senhor, Professor, participou deste massacre. O homic\u00eddio deve cessar, e com o objetivo de terminar com esse homic\u00eddio, eu vigiarei, e todo homem que ousar propagar erros perigosos sobre a febre puerperal encontrar\u00e1 em mim um oponente ativo.<\/p>\n<p>Para mim n\u00e3o h\u00e1 nenhum meio de impedir o assassinato a n\u00e3o ser desmascarando sem piedade meus oponentes. E ningu\u00e9m que tem o cora\u00e7\u00e3o no lugar certo me censurar\u00e1 por utilizar esse meio.<\/p>\n<p>A aceita\u00e7\u00e3o das descobertas de Semmelweis foi lenta. Apenas depois de sua morte, na d\u00e9cada de 1880, se generalizaram os cuidados de limpeza no tratamento obst\u00e9trico. Isso ocorreu lentamente, em geral sem se reconhecer o valor do trabalho de Semmelweis, que foi criticado em vida e esquecido ap\u00f3s sua morte.<\/p>\n<p><strong>A TRANSMISS\u00c3O DO C\u00d3LERA PELA \u00c1GUA<\/strong><\/p>\n<p>Quando se pensava no cont\u00e1gio indireto das enfermidades, quase sempre se imaginava que ele ocorria atrav\u00e9s do ar. Foi em meados do s\u00e9culo XIX que se descobriu que uma das mais terr\u00edveis doen\u00e7as da \u00e9poca \u2013 o c\u00f3lera \u2013 podia ser transmitido atrav\u00e9s da \u00e1gua.<\/p>\n<p>O c\u00f3lera foi uma doen\u00e7a pouco conhecida na Europa at\u00e9 o s\u00e9culo XIX. Existiam not\u00edcias sobre ela na \u00cdndia, onde ocorria sempre, com maior ou menor intensidade. No s\u00e9culo VII, um m\u00e9dico indiano, Sushruta, descreveu uma epidemia de c\u00f3lera. Os portugueses entraram em contato com essa enfermidade durante o s\u00e9culo XVI. No s\u00e9culo XVII, um escritor holand\u00eas, Bontius, descreveu a ocorr\u00eancia da doen\u00e7a na \u00cdndia.<\/p>\n<p>Aparentemente, na regi\u00e3o do Ganges, essa enfermidade sempre existiu, de forma end\u00eamica, com maior ou menor intensidade.<\/p>\n<p>Apesar de ser conhecido, o c\u00f3lera era algo remoto e de pequena import\u00e2ncia para os europeus, at\u00e9 que, em 1814, um batalh\u00e3o ingl\u00eas foi dizimado pela enfermidade, na \u00cdndia. Havia, na \u00e9poca, dois batalh\u00f5es em marcha de Jaulnah para Trichinopoli. Um deles nada sofreu, mas o outro teve grande n\u00famero de mortos pela doen\u00e7a. Na \u00e9poca, os indianos acreditaram que a epidemia era uma conseq\u00fc\u00eancia da ira dos deuses, que haviam sido insultados pela polui\u00e7\u00e3o de certos tanques sagrados na aldeia de Cunnatae.<\/p>\n<p>Esses tanques haviam sido utilizados pelos soldados para se banharem. Dois dias depois, centenas deles morreram.<\/p>\n<p>Em 1817, o c\u00f3lera aumentou de intensidade na \u00cdndia. Em agosto desse ano, houve dez mil mortos na regi\u00e3o do Behar e Jessore. Em setembro, matou 20.000 homens da armada inglesa. Ainda no mesmo ano, o c\u00f3lera matou cerca de cem mil habitantes de Java e Malaca \u2013 um d\u00e9cima da popula\u00e7\u00e3o. Durante o inverno, a enfermidade ficou \u201cadormecida\u201d, mas reapareceu em mar\u00e7o de 1818 por toda a \u00cdndia. Da\u00ed, espalhou-se por outros pa\u00edses da \u00c1sia, atingindo gradualmente, atingindo a China, as Filipinas, o Jap\u00e3o, a S\u00edria e a P\u00e9rsia em 1822; da\u00ed passou para a Turquia e chegou \u00e0 fronteira da R\u00fassia em 1823. No entanto, n\u00e3o penetrou no resto da Europa.<\/p>\n<p>Houve uma grande preocupa\u00e7\u00e3o com essa epidemia de c\u00f3lera, na Europa, pois pela primeira vez se presenciava a expans\u00e3o quase ilimitada de uma doen\u00e7a que se pensava s\u00f3 ocorrer na \u00cdndia, no ver\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o se compreendeu a causa da enfermidade, nessa \u00e9poca. Ela n\u00e3o parecia associada a defici\u00eancias alimentares, pois atingia toda a popula\u00e7\u00e3o de diferentes regi\u00f5es. O clima tamb\u00e9m n\u00e3o parecia ser determinante, j\u00e1 que a epidemia atravessou diferentes \u00e9pocas de v\u00e1rios anos, sem se extinguir. Havia indica\u00e7\u00f5es de que a doen\u00e7a era contagiosa, pois sua expans\u00e3o seguia as rotas comerciais. No entanto, observou-se que a remo\u00e7\u00e3o dos habitantes de uma aldeia atingida pelo c\u00f3lera para um novo local eliminava a epidemia, o que parecia indicar que era o pr\u00f3prio lugar que produzia a doen\u00e7a, e que ela n\u00e3o era transportada com as pessoas. Por esse motivo, imaginou-se que eram in\u00fateis medidas de quarentena. Nessa \u00e9poca, surgiram explica\u00e7\u00f5es como a do m\u00e9dico ingl\u00eas Reginald Orton, que afirmava que o c\u00f3lera era \u201cdevido a uma a\u00e7\u00e3o nervosa deficiente produzida por uma aera\u00e7\u00e3o reduzida do sangue, que por sua vez depende de um clima desequilibrado que se segue a uma defici\u00eancia de fluido el\u00e9trico na atmosfera\u201d.<\/p>\n<p>Outra onda dessa doen\u00e7a se iniciou em 1826 e seguiu aproximadamente o mesmo caminho, espalhando-se depois da R\u00fassia para a Pol\u00f4nia, Alemanha e pelo resto da Europa. Da\u00ed, espalhou-se depois pela Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Essa \u201cpandemia\u201d \u2013 que atingiu o mundo todo \u2013 somente cessou em 1837.<\/p>\n<p>Durante essa segunda pandemia, em Paris, houve 34.000 doentes em 1834. Isso correspondia a 4% da popula\u00e7\u00e3o da cidade. Mais da metade dos doentes morria. Estima-se que, nas duas primeiras grandes epidemias, houve mais de 40 milh\u00f5es de v\u00edtimas, em todo o mundo.<\/p>\n<p>O caminho do c\u00f3lera seguia as vias de comunica\u00e7\u00e3o: aparecia primeiramente nos portos, depois se espalhava seguindo as estradas e rios. Era por isso prov\u00e1vel que estivesse passando de uma pessoa para outra.<\/p>\n<p>Mas ningu\u00e9m sabia o modo exato como essa enfermidade se transmitia, e os lugares onde se estabelecia a quarentena dos navios eram t\u00e3o atingidos como os demais. Acreditava-se que a doen\u00e7a se espalhava pelo ar; tamb\u00e9m se supunha que pudesse haver a produ\u00e7\u00e3o de um veneno no solo, que impedia a transpira\u00e7\u00e3o, congestionava os intestinos e levava \u00e0 inflama\u00e7\u00e3o do corpo.<\/p>\n<p>Seguiram-se outras duas pandemias, de 1846 a 1863 e de 1854 a 1875. Pode-se dizer que nenhum outro tipo de epidemia causou tantas mortes e tanto terror no s\u00e9culo XIX quanto o c\u00f3lera. Durante o per\u00edodo de 1847 a 1848, adoeceram na R\u00fassia 1.700.000 pessoas, havendo cerca de 40% de mortes. Em Paris, em 1848, houve 11.000 v\u00edtimas. A epidemia chegou ao Rio de Janeiro em 1854, matando 3.400 pessoas em quatro meses.<\/p>\n<p>No Brasil, onde esta enfermidade reapareceu em torno de 1990, depois de ter desaparecido por muito tempo, a popula\u00e7\u00e3o sabe hoje vagamente que \u00e9 um problema grave, que pode matar as pessoas.<\/p>\n<p>As campanhas sanit\u00e1rias nunca informam sobre os sintomas dessa doen\u00e7a, por medo talvez de chocar as pessoas.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 importante saber como \u00e9 o c\u00f3lera, para compreender por que \u00e9 t\u00e3o importante evit\u00e1-lo. Vamos descrever a evolu\u00e7\u00e3o dessa terr\u00edvel doen\u00e7a, de acordo com informa\u00e7\u00f5es de obras de 1855.<\/p>\n<p>Uma pessoa acometida por essa enfermidade sente, inicialmente, uma indisposi\u00e7\u00e3o geral, \u00e0s vezes tendo vertigem, desfalecimento sem causa aparente, sensa\u00e7\u00e3o de estar afundando. Logo depois, surgem os primeiros sintomas mais graves: diarr\u00e9ia e v\u00f4mitos. Nessa fase inicial h\u00e1 falta de apetite, fraqueza, sensa\u00e7\u00e3o de frio nos p\u00e9s. Sente-se \u00e0s vezes dores acima dos olhos, dor no ventre sem diarr\u00e9ia, sensa\u00e7\u00e3o de aperto nas pernas, como se houvesse alguma coisa prendendo a circula\u00e7\u00e3o. Essa primeira fase pode durar alguns dias, mas em geral \u00e9 curta.<\/p>\n<p>No segundo per\u00edodo, h\u00e1 uma diarr\u00e9ia abundante, s\u00fabita, sem ardor, sem contra\u00e7\u00f5es. O doente \u00e9 repentimanete atacado e evacua primeiramente as mat\u00e9rias fecais contidas nos intestinos.<\/p>\n<p>Logo depois sobrev\u00e9m uma diarr\u00e9ia l\u00edquida, de cor branca, leitosa, sem cheiro forte, semelhante \u00e0 \u00e1gua em que se lavou arroz e contendo grumos. A evacua\u00e7\u00e3o \u00e9 acompanhada por muitos ru\u00eddos no ventre.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma leve dor e os l\u00edquidos s\u00e3o expelidos de modo quase constante, sem que o doente tenha consci\u00eancia disso. Surgem n\u00e1useas e, \u00e0s vezes, v\u00f4mitos, que tamb\u00e9m s\u00e3o leitosos.<\/p>\n<p>A diarr\u00e9ia e os v\u00f4mitos produzem uma grave desidrata\u00e7\u00e3o do doente, que fica rapidamente magro, como se estivesse secando. Os alimentos e l\u00edquidos ingeridos n\u00e3o s\u00e3o absorvidos pelo organismo.<\/p>\n<p>Os doentes sentem frio e as extremidades dos membros ficam p\u00e1lidas. O pulso se enfraquece, desaparece pouco a pouco e s\u00f3 \u00e9 sentido no meio do bra\u00e7o. O ventre fica mole, vazio.<\/p>\n<p>Podem aparecer c\u00e2imbras muito fortes. H\u00e1 violentas contra\u00e7\u00f5es musculares dos membros e do tronco, que parecem formar n\u00f3s e causam dores muito vivas. O pulso se acelera. A face fica p\u00e1lida, os olhos se afundam, cercados por uma aur\u00e9ola roxa. A voz se torna rouca.<\/p>\n<p>Essa segunda fase pode durar apenas algumas horas, ou prolongar-se por at\u00e9 tr\u00eas dias.<\/p>\n<p>Na terceira fase, continuam as deje\u00e7\u00f5es e os v\u00f4mitos aquosos. Como conseq\u00fc\u00eancia da perda de l\u00edquido do organismo, h\u00e1 uma extrema fraqueza, o sangue se torna espesso e escuro, a circula\u00e7\u00e3o fica fraca, a pele fica insens\u00edvel. H\u00e1 febre, transpira\u00e7\u00e3o, sensa\u00e7\u00e3o de falta de ar, a urina desaparece ou diminui muito. As c\u00e2imbras continuam. O doente sente muita sede e pede bebidas frias. Tenta constantemente se descobrir.<\/p>\n<p>A respira\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil e ansiosa. As m\u00e3os, p\u00e9s e o fundo da face adquirem uma cor azulada. Os p\u00e9s e m\u00e3os ficam frios.<\/p>\n<p>At\u00e9 o h\u00e1lito fica frio. A l\u00edngua fica l\u00edvida e fria. A mucosa da boca e das gengivas se torna fria e arroxeada. A pele das m\u00e3os se enruga como quando \u00e9 deixada muito tempo dentro da \u00e1gua.<\/p>\n<p>O c\u00edrculo em volta dos olhos se afunda mais ainda, tornando-se escuro. Fica dif\u00edcil ver os olhos do doente. Os olhos ficam secos, e se n\u00e3o forem umidecidos, pode-se produzir a cegueira, se a pessoa n\u00e3o morrer.<\/p>\n<p>Essa terceira fase pode durar poucas horas, ou prolongar-se por at\u00e9 dois dias.<\/p>\n<p>Se o organismo n\u00e3o come\u00e7ar a se recuperar, segue-se o per\u00edodo final. A carne fica mole como massa de p\u00e3o, nas m\u00e3os, p\u00e9s e sobre o abd\u00f4men. A pele se torna violeta.<\/p>\n<p>Formam-se equimoses que v\u00e3o aumentando e se reunindo at\u00e9 formar placas escuras. A respira\u00e7\u00e3o \u00e9 demorada, os batimentos do cora\u00e7\u00e3o ficam fracos.<\/p>\n<p>O sangue \u00e9 viscoso, negro, coagula-se lentamente, tem a apar\u00eancia de uma gel\u00e9ia grossa e escura. Quem chega a essa fase n\u00e3o se salva. A morte ocorre em poucas horas.<\/p>\n<p>Toda essa terr\u00edvel seq\u00fc\u00eancia pode durar menos de um dia. Uma pessoa pode se sentir bem ao se levantar, e estar morta \u00e0 noite. Em outros casos, a doen\u00e7a \u00e9 mais lenta, podendo durar mais de uma semana, mas n\u00e3o \u00e9 mais suave. A dura\u00e7\u00e3o m\u00e9dia, desde os primeiros sinais, era de dois dias.<\/p>\n<p>A mortalidade variava entre 1\/3 e 2\/3 dos doentes. Quando a enfermidade surgiu na Europa, eram utilizados os tratamentos conhecidos para outras doen\u00e7as: clisteres para \u201climpar o intestino\u201d, sangrias \u201cpara retirar o sangue doente\u201d. Quando se percebeu que a absor\u00e7\u00e3o de l\u00edquidos cessava e que isso produzia a maior parte dos sintomas, surgiu a id\u00e9ia de injetar diretamente \u00e1gua nas veias dos doentes. Posteriormente, o m\u00e9todo foi aperfei\u00e7oado e levou ao soro moderno.<\/p>\n<p>Atualmente, se o tratamento \u00e9 iniciado logo no in\u00edcio, quase todos os doentes podem ser salvos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se conhecia nenhum rem\u00e9dio eficaz para as pessoas que j\u00e1 estivessem doentes; e tamb\u00e9m n\u00e3o se sabia exatamente como a enfermidade se espalhava, sendo por isso imposs\u00edvel evit\u00e1-la.<\/p>\n<p>Foi durante uma das epidemias, em meados do s\u00e9culo XIX, que se come\u00e7ou a compreender o modo de transmiss\u00e3o do c\u00f3lera. Um dos pesquisadores que contribuiu para essa compreens\u00e3o foi John Snow, m\u00e9dico ingl\u00eas, que descreveu suas observa\u00e7\u00f5es e conclus\u00f5es em um livro intitulado \u201cSobre o modo de comunica\u00e7\u00e3o do c\u00f3lera\u201d, publicado em 1855.<\/p>\n<p>Snow estuda o modo como apareceu e se espalhou a doen\u00e7a, para tentar compreender o modo de transmiss\u00e3o. Ele conta que, em 1832, o c\u00f3lera apareceu em uma aldeia inglesa, em York, aparentemente sem causa nenhuma. No dia 28 de dezembro desse ano, um lavrador, John Barnes, teve forte diarr\u00e9ia, convuls\u00f5es, e no dia seguinte estava morto. A esposa do lavrador ficou doente, mas n\u00e3o morreu.<\/p>\n<p>A sua m\u00e3e, que cuidou dela e lavou suas roupas, ao voltar para casa, sentiu tonturas e caiu. Dois dias depois, ela, o marido e a filha morrem. Aparentemente, a doen\u00e7a de John Barnes havia sido transmitida \u00e0 esposa e \u00e0 sogra, e desta \u00e0 sua fam\u00edlia. Mas como o pr\u00f3prio John Barnes havia adquirido a doen\u00e7a, se ningu\u00e9m na regi\u00e3o tinha tido c\u00f3lera?<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o do caso mostrou que a irm\u00e3 de Barnes havia morrido de c\u00f3lera, 15 dias antes, em Leeds. Como ela n\u00e3o tinha parentes na cidade, suas roupas haviam sido colocadas (sem serem lavadas) em um ba\u00fa e haviam sido enviadas para o irm\u00e3o, John Barnes. Ao receber o ba\u00fa, ele o abriu e examinou as roupas. No dia seguinte ficou doente e, no outro, morreu.<\/p>\n<p>\u201cAlguma coisa\u201d que havia ficado nas roupas deve ter produzido a morte de Barnes, 15 dias depois. E \u201calguma coisa\u201d deve ter depois passado de Barnes para a esposa, desta para a m\u00e3e, etc.<\/p>\n<p>Em seu livro, Snow conta que o primeiro caso de c\u00f3lera em Londres, na epidemia que come\u00e7ou em 1848, foi de um marinheiro, chamado John Harnold, que havia chegado de Hamburgo, onde a enfermidade j\u00e1 havia se espalhado. O marinheiro morreu no dia 22 de setembro de 1848, em uma hospedaria, com todos os sinais do c\u00f3lera. Durante alguns dias, n\u00e3o houve outros casos.<\/p>\n<p>Mas na semana seguinte, uma pessoa que se hospedou no mesmo quarto em que Harnold morreu, ficou doente, morrendo no dia 30 de setembro. \u201cAlguma coisa\u201d devia ter ficado no quarto, produzindo a morte da segunda pessoa.<\/p>\n<p>Nem sempre, no entanto, era necess\u00e1rio um contato direto com um doente ou com seus objetos para que o c\u00f3lera fosse transmitido. Em alguns casos, a doen\u00e7a atingia muitas os moradores de v\u00e1rias casas vizinhas, sem que tivesse havido contato direto entre eles. Parecia que o agente causador do c\u00f3lera podia se transmitir at\u00e9 uma certa dist\u00e2ncia dos doentes.<\/p>\n<p>A partir de muitos casos como esses, as primeiras conclus\u00f5es que se tirava, na \u00e9poca, era que o c\u00f3lera pode passar de uma pessoa para outra; mas nem sempre o contato com um doente, ou ficar no quarto de um doente, produzia a enfermidade.<\/p>\n<p>A partir de alguns poucos casos iniciais, a doen\u00e7a se espalhou pelo pa\u00eds. Em 1849, morreram em Londres 53.000 pessoas de c\u00f3lera, de uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 2.000.000 de pessoas.<\/p>\n<p>O que era essa coisa que transmitia o c\u00f3lera? Ningu\u00e9m sabia exatamente o que poderia ser, mas como a doen\u00e7a pode ir passando de uma pessoa para v\u00e1rias, e atingir milhares ou at\u00e9 milh\u00f5es de pessoas, era algo que podia ir aumentando em quantidade. Para n\u00f3s, isso \u00e9 um sinal evidente de que se trata de um microorganismo que se reproduz e multiplica. Mas, na \u00e9poca, a conclus\u00e3o cautelosa de John Snow era bastante vaga: \u201cDoen\u00e7as transmitidas de pessoa a pessoa s\u00e3o causadas por alguma coisa que passa dos enfermos para os s\u00e3os e que possui a propriedade de aumentar e se multiplicar nos organismos dos que s\u00e3o atacados por ela\u201d.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 vimos, nessa mesma \u00e9poca F\u00e9lix Pouchet havia encontrado os vibri\u00f5es nos dejetos de doentes do c\u00f3lera; mas essa descoberta n\u00e3o teve grande repercuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Surgiu a hip\u00f3tese de que um \u201cveneno m\u00f3rbido\u201d se espalhava pelo ar, em volta dos doentes, transmitindo o c\u00f3lera aos que estivessem pr\u00f3ximos. Snow, no entanto, n\u00e3o considerou essa explica\u00e7\u00e3o boa.<\/p>\n<p>Se a enfermidade fosse adquirida pela respira\u00e7\u00e3o, deveria surgir algum tipo de sintoma ligado aos pulm\u00f5es. Mas o c\u00f3lera se manifesta basicamente no canal alimentar e n\u00e3o no sistema respirat\u00f3rio (ao cont\u00e1rio da gripe, por exemplo). Por isso, Snow sup\u00f4s que o agente produtor do c\u00f3lera \u00e9 introduzido primeiramente no canal alimentar: \u00e9 alguma coisa que \u00e9 engolida acidentalmente, que se reproduz no est\u00f4mago e nos intestinos e que produz todos os dist\u00farbios observados.<\/p>\n<p>John Snow raciocinou que, se essa causa \u00e9 introduzida e se multiplica no canal alimentar, seria razo\u00e1vel supor que ela tamb\u00e9m sai e se espalha com os dejetos (v\u00f4mitos e fezes) dos doentes e n\u00e3o com sua respira\u00e7\u00e3o, suor ou outro ve\u00edculo.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que ningu\u00e9m ingere os dejetos de um doente conscientemente. Mas ocorre que as evacua\u00e7\u00f5es dos doentes de c\u00f3lera n\u00e3o possuem a cor nem o cheio de fezes, podendo passar despercebidas em len\u00e7\u00f3is e roupas brancas. Outras pessoas poderiam sujar as m\u00e3os sem notar e, se n\u00e3o lavarem as m\u00e3os antes de comer, ir\u00e3o ingerir uma pequena quantidade desses dejetos, que ser\u00e1 suficiente para produzir a doen\u00e7a. Snow indica que alguns fatores agravantes da transmiss\u00e3o eram quando v\u00e1rias pessoas dormiam no mesmo quarto, quando comiam no pr\u00f3prio c\u00f4modo em que estava um doente, quando n\u00e3o havia \u00e1gua dispon\u00edvel para o asseio, etc.<\/p>\n<p>Note-se que, embora Snow estivesse se baseando no conhecimento de um grande n\u00famero de fatos, ele n\u00e3o podia ver nem reconhecer a causa da enfermidade, e por isso sua explica\u00e7\u00e3o era apenas uma hip\u00f3tese engenhosa, mas sem possibilidade de comprova\u00e7\u00e3o direta.<\/p>\n<p>Essa hip\u00f3tese de Snow explicava como a doen\u00e7a podia passar de uma pessoa para outra, ou como podia acometer pessoas que tivessem contato com as roupas ou objetos de um doente. Mas, \u00e0s vezes, a enfermidade se espalhava sem contato direto. Como isso poderia ocorrer?<\/p>\n<p>Snow imaginou que a \u00e1gua utilizada na lavagem das roupas sujas dos doentes e mesmo as suas deje\u00e7\u00f5es poderiam se misturar \u00e0 \u00e1gua utilizada por outras pessoas para uso dom\u00e9stico e contamin\u00e1-las.<\/p>\n<p>Isso poderia ocorrer tanto pela infiltra\u00e7\u00e3o dos dejetos no solo, atingindo po\u00e7os; ou pelos esgotos lan\u00e7ados em rios, de onde a \u00e1gua fosse retirada para ser utilizada nas casas.<\/p>\n<p>Isso explicaria o motivo pelo qual as fam\u00edlias que moravam em casas pr\u00f3ximas e que utilizavam a mesma \u00e1gua podiam adquirir o c\u00f3lera ao mesmo tempo, sem contato direto com os doentes.<\/p>\n<p>No entanto, Snow observou que n\u00e3o era apenas pela \u00e1gua que a doen\u00e7a era transmitida. Pessoas que cuidaram de doentes e que n\u00e3o beberam \u00e1gua nem se alimentaram na casa desses doentes adquiriam o c\u00f3lera. Como? Provavelmente, por terem tocado em dejetos do doente e depois, sem lavar as m\u00e3os, em sua casa, terem tocado alimentos.<\/p>\n<p>Baseando-se nessa hip\u00f3tese, Snow e outros m\u00e9dicos come\u00e7aram a agir. Em julho de 1849, houve 80 casos de c\u00f3lera na rua Silver, em Londres, em 15 dias.<\/p>\n<p>Dos 80 doentes, morreram 38 pessoas. Todas as pessoas bebiam \u00e1gua tirada de um mesmo po\u00e7o. Observou-se que o esgoto passava perto desse ponto e que gotejava uma \u00e1gua suja no po\u00e7o.<\/p>\n<p>Esse po\u00e7o foi interditado e acabou o c\u00f3lera naquela rua.<\/p>\n<p>O pior caso desse tipo, que se tornou tristemente famoso, foi o ocorrido em Broad Street, em 1854. Em um trecho de menos de 200 metros dessa rua, em um intervalo de 10 dias, houve 500 mortes (um quinto dos moradores). Verificou-se que todos utilizavam a \u00e1gua retirada de um mesmo po\u00e7o, com uma bomba manual. Pr\u00f3ximo a esse local, havia um asilo de pobres, com 535 pessoas. Somente 5 morreram de c\u00f3lera, no mesmo per\u00edodo, pois utilizavam outra fonte de \u00e1gua. Da mesma forma, os oper\u00e1rios de uma cervejaria no mesmo local n\u00e3o tiveram nenhum caso de c\u00f3lera, pois ao inv\u00e9s de tomarem \u00e1gua s\u00f3 bebiam cerveja.<\/p>\n<p>Todos esses casos pareciam indicar que a \u00e1gua era uma das grandes respons\u00e1veis pela transmiss\u00e3o do c\u00f3lera (embora n\u00e3o fosse a \u00fanica).<\/p>\n<p>Mas a maior evid\u00eancia sobre isso foi obtida por Snow em um estudo estat\u00edstico sobre o fornecimento de \u00e1gua de Londres. Havia, na \u00e9poca, duas grandes empresas fornecedoras de \u00e1gua encanada na cidade: a Lambert e a Southwark &amp; Vauxhall. Durante o ano de 1854, de cada 100.000 pessoas que utilizavam \u00e1gua fornecida pela empresa Southwark &amp; Vauxhall, 114 tiveram c\u00f3lera. No mesmo per\u00edodo, de cada 100.000 pessoas que utilizavam \u00e1gua fornecida pela empresa Lambert, nenhuma teve c\u00f3lera. Em ruas em que algumas casas recebiam \u00e1gua de uma das empresas e outras casas de outra, houve 60 casos de c\u00f3lera para cada 100.000 pessoas.<\/p>\n<p>Portanto, os casos de c\u00f3lera pareciam estar diretamente ligados ao fornecimento de \u00e1gua pela empresa Southwark &amp; Vauxhall. Descobriu-se que essa \u00e1gua era coletada no rio T\u00e2misa, em uma regi\u00e3o que recebia esgotos. A \u00e1gua fornecida pela outra empresa, pelo contr\u00e1rio, vinha de uma fonte pura.<\/p>\n<p>Se a causa do c\u00f3lera era algo que vinha pela \u00e1gua, devia ser poss\u00edvel filtar a \u00e1gua e separar a causa da enfermidade. Em uma penitenci\u00e1ria, em que havia muitos casos de c\u00f3lera, experimentou-se filtrar a \u00e1gua atrav\u00e9s de areia e de carv\u00e3o. Sabia-se que a areia ret\u00e9m a maior parte das impurezas s\u00f3lidas e que o carv\u00e3o absorve cheiros. No entanto, mesmo com a filtragem, continuou a haver o surgimento de novos casos de c\u00f3lera. Quando se mudou a fonte da \u00e1gua utilizada, cessou o c\u00f3lera. Isso confirmava a import\u00e2ncia da \u00e1gua na transmiss\u00e3o da doen\u00e7a, mas ao mesmo tempo mostrava que a causa do c\u00f3lera n\u00e3o era algo que pudesse ser filtrado e separado, por meios comuns, nem era um tipo de miasma, associado ao mau cheiro.<\/p>\n<p>Apesar de todos os fatos coletados por Snow, n\u00e3o se pode pensar que houvesse alguma prova definitiva de que o c\u00f3lera era transmitido atrav\u00e9s da \u00e1gua. Ele pr\u00f3prio cita fatos dif\u00edceis de explicar. Alguns m\u00e9dicos objetaram que nem todas as pessoas que bebem \u00e1gua supostamente contaminada ficam doentes. Por que?<\/p>\n<p>Talvez o tipo de \u00e1gua produzisse uma predisposi\u00e7\u00e3o \u00e0 doen\u00e7a, mas a causa fosse de outro tipo \u2013 vindo, por exemplo, pelo ar. Um caso que era citado foi o de uma pessoa que, por engano, ingeriu o l\u00edquido evacuado por um doente de c\u00f3lera \u2013 e, apesar disso, n\u00e3o ficou doente. Houve tamb\u00e9m experimentos: Thiesch fez com que ratos brancos ingerissem as evacua\u00e7\u00f5es de col\u00e9ricos, mas nenhum dos ratos ficou doente. As pessoas que alegavam esses fatos defendiam a id\u00e9ia de que a enfermidade provinha de emana\u00e7\u00f5es no ar, miasmas.<\/p>\n<p>Mesmo sem conseguir explicar tais fatos, Snow admitiu que eram os dejetos dos doentes que transmitiam a doen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Sugeriu ent\u00e3o v\u00e1rias medidas que ainda hoje s\u00e3o v\u00e1lidas, para a preven\u00e7\u00e3o do c\u00f3lera:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>1)<\/strong>\u00a0asseio: lavar as m\u00e3os ap\u00f3s contato com doentes;<strong><br \/>\n2)<\/strong>\u00a0lavar as roupas pessoais e de cama dos doentes, ou exp\u00f4-las a uma temperatura de mais de 100 graus;<strong><br \/>\n3)<\/strong>\u00a0evitar contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua; se houver suspeita sobre a \u00e1gua, ferv\u00ea-la e depois filtrar ;<strong><br \/>\n4)<\/strong>\u00a0quando houver incid\u00eancia de c\u00f3lera: purificar os alimentos pela \u00e1gua ou fogo, lavar as m\u00e3os antes de comer;<strong><br \/>\n5)<\/strong>\u00a0separar os doentes dos s\u00e3os;<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m de v\u00e1rias outras medidas.<\/p>\n<p><strong>Com certo otimismo, Snow concluiu que:<\/strong><\/p>\n<p>Tenho confian\u00e7a (\u2026) que, observadas as precau\u00e7\u00f5es acima enumeradas, precau\u00e7\u00f5es essas que creio serem baseadas na no\u00e7\u00e3o exata da causa do c\u00f3lera, possa este tornar-se extremamente raro e, por que n\u00e3o dizer, ser totalmente banido dos pa\u00edses civilizados.<\/p>\n<p>Infelizmente, vemo-nos ainda \u00e0s voltas com o c\u00f3lera, no Brasil. Talvez Snow tivesse sido muito otimista. Ou talvez estejamos vivendo em um pa\u00eds que ainda n\u00e3o pode ser considerado como civilizado.<\/p>\n<p><strong>RESIST\u00caNCIAS \u00c0 HIP\u00d3TESE DE TRANSMISS\u00c3O DO C\u00d3LERA PELA \u00c1GUA<\/strong><\/p>\n<p>O trabalho de John Snow descrito anteriormente \u00e9 muitas vezes apresentado como um estudo que estabeleu sem nenhuma possibilidade de d\u00favidas a transmiss\u00e3o do c\u00f3lera pela \u00e1gua.<\/p>\n<p>Para se compreender a din\u00e2mica real da ci\u00eancia, \u00e9 importante mostrar que as coisas n\u00e3o s\u00e3o bem assim.<\/p>\n<p>Nossa tend\u00eancia normal \u00e9 pensar que aquilo que aceitamos hoje em dia foi claramente provado e n\u00e3o pode ser colocado em d\u00favida.<\/p>\n<p>Mas em cada \u00e9poca existem sempre muitas hip\u00f3teses diferentes e pode n\u00e3o se tornar claro qual delas \u00e9 a mais correta.<\/p>\n<p>Os dados apresentados por Snow foram em geral aceitos como reais, mas interpretados de outra forma. A contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua pot\u00e1vel com dejetos poderia ter produzido uma diarr\u00e9ia comum, enfraquecendo as pessoas e preparando seus aparelhos digestivos para receberem a infec\u00e7\u00e3o do c\u00f3lera. Ou seja: podia-se aceitar que os excrementos na \u00e1gua fossem uma causa que predispunha ao c\u00f3lera, sem ser sua causa essencial.<\/p>\n<p>Em meados do s\u00e9culo XIX, Sir James R. Martin apontou a exist\u00eancia de seis explica\u00e7\u00f5es da difus\u00e3o do c\u00f3lera:<\/p>\n<blockquote><p><strong>1<\/strong>. O c\u00f3lera \u00e9 produzido por uma influ\u00eancia atmosf\u00e9rica clim\u00e1tica e por uma suscetibilidade dos habitantes, produzida pelo h\u00e1bito de respirar uma atmosfera impura.<strong><br \/>\n2.\u00a0<\/strong>O c\u00f3lera \u00e9 causado por um contagion: material morb\u00edfico que aumenta no corpo humano e quese propaga por emana\u00e7\u00f5es que saem dos corpos dos doentes.<strong><br \/>\n3.<\/strong>\u00a0O c\u00f3lera \u00e9 causado por um veneno que produz a doen\u00e7a quando \u00e9 ingerido, multiplica-se no corpo humano e sai nas fezes e v\u00f4mito. Esse veneno se espalha principalmente misturando-se \u00e0 \u00e1gua, que \u00e9 bebida.<strong><br \/>\n4.<\/strong>\u00a0O c\u00f3lera \u00e9 devido a um material ou veneno m\u00f3rbido que se produz apenas no ar, n\u00e3o no corpo, sendo difundido pelas condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas.<strong><br \/>\n5.\u00a0<\/strong>O c\u00f3lera \u00e9 o resultado de um tipo de fermenta\u00e7\u00e3o produzida no ar estagnado, impuro e \u00famido; \u00e9 transportado em navios, em roupas e outros objetos e assim \u00e9 difundido pelas a\u00e7\u00f5es humanas.<strong><br \/>\n6.<\/strong>\u00a0O c\u00f3lera aumenta e se propaga tanto pelo ar impuro quanto pelo corpo humano (combina\u00e7\u00e3o de hip\u00f3teses acima).<\/p><\/blockquote>\n<p>A hip\u00f3tese 3 \u00e9 a de Snow, que atualmente aceitamos. Na \u00e9poca, no entanto, Sir James Martin aponta que a hip\u00f3tese 5 (fermenta\u00e7\u00e3o do ar) \u00e9 a \u00fanica que se sustenta com base nos fatos conhecidos.<\/p>\n<p>Outras hip\u00f3teses diferentes tamb\u00e9m surgiram nesse momento. O grande higienista alem\u00e3o Max von Pettenkofer (1818-1901) sugeriu em 1854 que a fonte da enfermidade n\u00e3o estava no ar nem na \u00e1gua, mas na terra.<\/p>\n<p>Se o solo for \u00famido e poroso, ele pode ser penetrado pelos produtos de decomposi\u00e7\u00e3o dos excrementos de animais e do homem. Esse material sofreria um tipo de fermenta\u00e7\u00e3o no solo, produzindo o veneno do c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Esse veneno seria produzido apenas com a presen\u00e7a de um tipo especial de fermento contido nos dejetos dos doentes de c\u00f3lera. A partir desse processo, seria produzido um miasma que se espalharia pelo ar.<\/p>\n<p>De certa forma, essa hip\u00f3tese acabava conduzindo a m\u00e9todos de profilaxia muito adequados: Pettenkofer defendeu cuidados sanit\u00e1rios, destruindo os dejetos dos col\u00e9ricos ou impedindo que eles se espalhassem.<\/p>\n<p>O asseio e a desinfec\u00e7\u00e3o foram um bom m\u00e9todo preventivo da enfermidade.<\/p>\n<p>A maior parte das pessoas que estudaram o c\u00f3lera nessa \u00e9poca aceitava que a doen\u00e7a podia ser transmitida pelos doentes, mas n\u00e3o se chegava a uma acordo sobre o modo como isso acontecia.<\/p>\n<p>Uma pessoa da fam\u00edlia ou uma enfermeira poderia passar v\u00e1rios dias ao lado de um col\u00e9rico, sem adquirir a enfermidade.<\/p>\n<p>Uma das suposi\u00e7\u00f5es que surgiu foi a de que os dejetos do doente n\u00e3o eram diretamente venenosos, mas que depois de algum tempo ocorria alguma transforma\u00e7\u00e3o ou multiplica\u00e7\u00e3o do material l\u00e1 contido.<\/p>\n<p>Um experimento citado na \u00e9poca e que parecia favorecer essa id\u00e9ia havia sido realizado em 1855 pelo m\u00e9dico alem\u00e3o Thiersch. Ele havia alimentado ratos com o l\u00edquido intestinal de col\u00e9ricos, para verificar se havia cont\u00e1gio. Quando o l\u00edquido era fresco, n\u00e3o produzia efeito nenhum. Quando era muito antigo, tamb\u00e9m n\u00e3o produzia efeito. Mas o l\u00edquido com mais de 3 e menos de 9 dias produziu uma doen\u00e7a nos ratos. De 34 ratos que receberam essa subst\u00e2ncia, 30 adoeceram e 12 morreram, com sintomas semelhantes ao do c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Thiersch concluiu que os dejetos dos col\u00e9ricos n\u00e3o produzem cont\u00e1gio diretamente, mas que, alguns dias depois, desprende-se deles uma subst\u00e2ncia t\u00f3xica, n\u00e3o vol\u00e1til, capaz de produzir a enfermidade.<\/p>\n<p>O experimento de Thiersch foi criticado, no entanto, porque ele n\u00e3o havia feito testes semelhantes com dejetos de pessoas normais; poderia ocorrer que a morte dos ratos n\u00e3o fosse por causa do c\u00f3lera, mas simplesmente por causa da ingest\u00e3o de materiais em putrefa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A incerteza era t\u00e3o grande, que muitas autoridades preferiam n\u00e3o manifestar nenhuma opini\u00e3o. Em 1848, a Academia Imperial de Medicina de Paris nomeou uma \u201ccomiss\u00e3o do c\u00f3lera\u201d, encarregada de fazer um relat\u00f3rio sobre os numerosos trabalhos que eram recebidos sobre esse assunto.<\/p>\n<p>Durante 18 anos, a comiss\u00e3o guardou um total sil\u00eancio sobre essa importante quest\u00e3o, apesar das reclama\u00e7\u00f5es reiteradas da imprensa m\u00e9dica. Enfim, esse sil\u00eancio foi rompido, e, na sess\u00e3o de 23 de abril de 1867 da Academia, o sr. Briquet, em nome da comiss\u00e3o do c\u00f3lera de 1840, leu as conclus\u00f5es de seu relat\u00f3rio. Essas conclus\u00f5es nada afirmavam sobre a causa ou sobre o tratamento da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Fazia apenas recomenda\u00e7\u00f5es vagas, indicando condi\u00e7\u00f5es gerais que favorecem a propaga\u00e7\u00e3o do c\u00f3lera como de qualquer outra epidemia, ou seja: a vizinhan\u00e7a dos lugares onde reina a enfermidade, a proximidade de \u00e1guas paradas, locais baixos, sem ventila\u00e7\u00e3o adequada, a eleva\u00e7\u00e3o da temperatura, as varia\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas, a chegada de ventos provenientes das localidades infectadas, as grandes reuni\u00f5es de pessoas, as aglomera\u00e7\u00f5es, a guerra, a mis\u00e9ria, a sa\u00fade fraca, o estado de cansa\u00e7o ou debilidade, as paix\u00f5es que enfraquecem, e enfim o regime alimentar pouco conveniente.<\/p>\n<p>Podemos observar o estado de conhecimentos sobre o c\u00f3lera no Brasil, em meados do s\u00e9culo XIX, atrav\u00e9s de grande quantidade de publica\u00e7\u00f5es da \u00e9poca. Um interessante manual para uso do povo foi publicado em 1855 pelo m\u00e9dico Tom\u00e1s Antunes de Abreu. Era um folheto vendido por 3$000 r\u00e9is juntamente com dois frascos de rem\u00e9dios para o c\u00f3lera. Nesse folheto, o autor indicava v\u00e1rios cuidados higi\u00eanicos que lhe pareciam importantes:<\/p>\n<p>\u00c9 inteiramente nociva a aglomera\u00e7\u00e3o de muitas pessoas dentro de um pequeno recinto, principalmente tendo que fech\u00e1-lo \u00e0 noite; porque o ar muito facilmente se corrompe, e n\u00e3o sendo renovado, causar\u00e1 grande dano: portanto conv\u00e9m, que os Srs. Propriet\u00e1rios fa\u00e7am apartar os seus escravos, dando-lhes acomoda\u00e7\u00f5es mais espa\u00e7osas do que as de ordin\u00e1rio. Estas habita\u00e7\u00f5es devem ser colocadas em lugares secos, elevados, e arejados; devem ser abertas de dia, limpas freq\u00fcentemente, e caiadas; e visitadas por quem possa fazer observar estas regras, tendo o cuidado de n\u00e3o consentir nelas a presen\u00e7a de roupa suja, e nem de qualquer outro objeto, que possa exalar mau cheiro. As tarimbas [camas] devem ter de quatro a cinco palmos de altura do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando se der algum caso do c\u00f3lera, ainda mesmo n\u00e3o fatal, n\u00e3o se consentir\u00e1 que no respectivo aposento habitem outros indiv\u00edduos, sem que seja ele primeiramente desinfetado por meio da \u00e1gua de Labarraque [cloro] posta em bacias com \u00e1gua por espa\u00e7o de 24 horas, findas as quais se caiar\u00e1, e por oito dias se conservar\u00e1 aberto dia e noite, depois do que pode ser habitado sem receiar-se mal algum.<\/p>\n<p>Nota-se que a preocupa\u00e7\u00e3o essencial era com o ar.<\/p>\n<p>O autor explicava o c\u00f3lera como um \u201cenvenenamento miasm\u00e1tico\u201d. Seu desenvolvimento seria favorecido pela umidade, calor forte, tempestades, varia\u00e7\u00f5es bruscas e consider\u00e1veis da temperatura do ar.<\/p>\n<p>Os fatores individuais que predisp\u00f5em ao c\u00f3lera s\u00e3o: indigest\u00f5es, abuso de bebidas, comidas muito gordurosas, frutos, tristeza, terror, c\u00f3lera, \u201cabuso do coito\u201d.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s de Abreu recomendava tamb\u00e9m \u201clavar-se sem abusar dos banhos\u201d; mudar a roupa pelo menos duas ou tr\u00eas vezes por semana e sempre que estiver molhada pelo suor ou pela chuva; n\u00e3o trabalhar \u00e0 chuva e, se tomar chuva, mudar de roupa e tomar um ponche quente, com \u00e1gua fervendo, a\u00e7\u00facar, aguardente (uma on\u00e7a por pessoa), e cascas de lim\u00e3o ou laranja; tomar tamb\u00e9m a mesma bebida pela manh\u00e3, antes de sair para o trabalho (\u00e0s 5 horas da manh\u00e3) e ao deitar-se (entre 8 e 9 da noite).<\/p>\n<p>Como a doen\u00e7a afeta principalmente o tubo intestinal, o m\u00e9dico recomendava cuidados com alimentos: eles deveriam ser de boa qualidade, de f\u00e1cil digest\u00e3o, evitando-se comer demais \u2013 especialmente \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Recomenda aves e sugere que sejam evitados os peixes, especialmente salgados. Bebidas quentes como ch\u00e1, mate e caf\u00e9 s\u00e3o indicados como saud\u00e1veis. S\u00e3o proibidas as frutas, ervas, muita gordura e temperos irritantes. Deve-se evitar o vinho, tomando preferivelmente o do Porto, Madeira, ou Xer\u00eas.<\/p>\n<p>Se, mesmo com esses cuidados, algu\u00e9m adoecesse, o m\u00e9dico recomendava v\u00e1rios tratamentos caseiros e o uso dos dois rem\u00e9dios que acompanhavam o livreto.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que tais medidas n\u00e3o serviam para evitar o c\u00f3lera. Quem se guiasse por esse folheto n\u00e3o tomaria nenhum cuidado com a \u00e1gua ou com os dejetos do doente, ficando presa f\u00e1cil da enfermidade.<\/p>\n<p>Em 1865, a Fran\u00e7a \u00e9 atingida pela quarta epidemia de c\u00f3lera. Os meios aceitos at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o impediram que a enfermidade se espalhasse.<\/p>\n<p>Refletindo sobre o c\u00f3lera, Chevreul assim resume, nesse ano, os conhecimentos existentes: a causa do c\u00f3lera \u00e9 desconhecida; seu tratamento \u00e9 desconhecido.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a ainda n\u00e3o se aceitava a id\u00e9ia de que o c\u00f3lera fosse contagioso. Chevreul relata que algumas pessoas corajosas, para testar a possibilidade do cont\u00e1gio, ingeriram os dejetos dos col\u00e9ricos, vestiram suas roupas e deitaram-se em seus leitos sujos. Nada lhes ocorreu, concluindo-se ent\u00e3o que a doen\u00e7a n\u00e3o era contagiosa.<\/p>\n<p>Chevreul, no entanto, n\u00e3o considera que o teste tenha sido definitivo. Poderia ser que essas pessoas destemidas n\u00e3o tivessem predisposi\u00e7\u00e3o para a doen\u00e7a \u2013 e ela n\u00e3o ataca todas as pessoas. Por outro lado, poderia ser que as subst\u00e2ncias provenientes dos col\u00e9ricos n\u00e3o produzissem a enfermidade enquanto estivessem frescas, mas apenas depois de algum tempo, quando come\u00e7assem a desprender mau cheiro. Como vimos, os excrementos dos col\u00e9ricos n\u00e3o possuem cheiro desagrad\u00e1vel. Chevreul est\u00e1, no fundo, se baseando na teoria dos miasmas, pois imagina que a doen\u00e7a poderia ser transmitida pelo mau odor que se espalhasse a partir da mat\u00e9ria em putrefa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Chevreul defende a id\u00e9ia de que o c\u00f3lera \u00e9 contagioso, por\u00e9m n\u00e3o tem provas disso. Indica que o modo de aparecimento, seu surgimento sucessivo em diferentes cidades, seguindo um trajeto determinado, parece mostrar que ele \u00e9 transmitido por cont\u00e1gio. No entanto, enquanto n\u00e3o se encontrar o tipo de material que transmite a doen\u00e7a, isso \u00e9 apenas uma hip\u00f3tese. Por isso, Chevreul sugere que se fa\u00e7a um estudo detalhado do ar em volta dos doentes, de seus dejetos, e que se procure tamb\u00e9m a exist\u00eancia de microorganismos vegetais (micr\u00f3fitos) ou animais (microzo\u00e1rios) nos dejetos dos col\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Como vimos, Pouchet h\u00e1 havia observado vibri\u00f5es nos dejetos dos col\u00e9ricos, mas n\u00e3o se deu import\u00e2ncia \u00e0 sua descoberta. A id\u00e9ia de que a transmiss\u00e3o da enfermidade se dava pelo ar era muito forte.<\/p>\n<p>A Academia de Ci\u00eancias de Paris formou uma Comiss\u00e3o para identificar o material transmissor do c\u00f3lera. Seguindo a sugest\u00e3o de Chevreul, imaginou-se que a doen\u00e7a poderia ser causada por microorganismos que flutuassem pelo ar. Nessa \u00e9poca, Louis Pasteur havia encontrado seres microsc\u00f3picos no ar, capazes de produzir a putrefa\u00e7\u00e3o de materiais org\u00e2nicos. Ele fez parte dessa Comiss\u00e3o, que durante meses recolheu e analisou a respira\u00e7\u00e3o e o ar em volta de doentes de c\u00f3lera. Nada se descobriu.<\/p>\n<p>O fracasso foi repetido por um grupo ingl\u00eas, que realizou an\u00e1lises qu\u00edmicas e microsc\u00f3picas do ar nas alas de col\u00e9ricos, em hospitais. A partir desses estudos, a id\u00e9ia de que o c\u00f3lera poderia ser causado por seres microsc\u00f3picos foi abandonada, durante d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Em 1866, foi realizada uma confer\u00eancia internacional, em Constantinopla, sobre o c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Os membros da confer\u00eancia reconheceram que a enfermidade se espalhava com o movimento humano e que a \u00e1gua e o alimento podiam ser ve\u00edculos dessa enfermidade, mas n\u00e3o se cheogu a nenhuma conclus\u00e3o sobre as suas causas. As recomenda\u00e7\u00f5es da confer\u00eancia foram simplesmente medidas gerais de asseio, ar fresco, evitar aglomera\u00e7\u00f5es, desinfetar pr\u00e9dios onde ocorressem casos de c\u00f3lera, e desinfetar navios e mercadorias quando houvesse c\u00f3lera a bordo. N\u00e3o houve acordo sobre a validade de quarentena para evitar que a doen\u00e7a se espalhasse \u2013 e talvez as press\u00f5es pol\u00edticas e comerciais tenham sido um fator importante para manter as facilidades de transporte.<\/p>\n<p>O estado geral de conhecimentos sobre o c\u00f3lera na Fran\u00e7a, em 1867, foi descrito pelo m\u00e9dico Jacques Bonjean. \u201cAos olhos da maioria dos m\u00e9dicos, o c\u00f3lera \u00e9 um verdadeiro envenenamento cujo princ\u00edpio escapa \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es mais sutis\u201d. Ele considera, na \u00e9poca, como bem estabelecido que os dejetos dos col\u00e9ricos s\u00e3o o agente mais ativo de transmiss\u00e3o da doen\u00e7a. Afirma, ao mesmo tempo, que essas deje\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o imediatamente perigosas e \u201cpode-se prevenir suas emana\u00e7\u00f5es delet\u00e9rias\u201d por uma desinfec\u00e7\u00e3o conveniente. O veneno do c\u00f3lera se espalha principalmente pelo ar:<\/p>\n<p>Como esse envenenamento age de uma forma geral, \u00e9 mais racional atribu\u00ed-lo ao ar, do que \u00e0 \u00e1gua e aos alimentos, que n\u00e3o passam de causas ocasionais.<\/p>\n<p>Se o mal se torna epid\u00eamico, \u00e9 evidente para n\u00f3s que ele \u00e9 transmitido pelo ar.<\/p>\n<p>No entanto, o pr\u00f3prio Bonjean reconhece a dificuldade em se compreender como esse ar envenenado pode se espalhar e atingir localidades distantes:<\/p>\n<p>O ar viciado que se exala de uma aglomera\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos, de um lugar insalubre, de uma sala de hospital, enfim de uma habita\u00e7\u00e3o infectada, deve favorecer, em um certo raio, a extens\u00e3o do c\u00f3lera do qual ele se torna uma causa ocasional; mas esse ar viciado n\u00e3o \u00e9 o vetor que transporta o c\u00f3lera at\u00e9 acima das montanhas e as florestas mais vastas<\/p>\n<p>Por isso, ele sugere que os doentes podem transportar a enfermidade.<\/p>\n<p>Bonjean cita os estudos ingleses e recomenda evitar fazer uso da \u00e1gua que possa ter sido contaminada, mesmo ligeiramente, pela mistura de mat\u00e9rias excrement\u00edcias. \u201cTamb\u00e9m h\u00e1 perigo em respirar os efl\u00favios de mesma natureza\u201d.<\/p>\n<p>Essa opini\u00e3o, que as diarr\u00e9ia s\u00e3o contagiosas por seu odor e podem dar o c\u00f3lera ao homem s\u00e3o, foi emitida em 1865 e recebida sem contesta\u00e7\u00e3o na Academia de Ci\u00eancias e na Academia de Medicina de Paris.<\/p>\n<p>Os dejetos dos doentes n\u00e3o s\u00e3o imediatamente perigosos, e as roupas que s\u00e3o impregnadas por eles s\u00f3 se tornam [perigosas] depois de alguns dias de fermenta\u00e7\u00e3o do miasma contagioso.<\/p>\n<p>Admite-se portanto de modo geral, hoje, tanto na Fran\u00e7a quanto no estangeiro, que as mat\u00e9rias fecais e dos v\u00f4mitos possuem a propriedade de transmitir a doen\u00e7a por meio da absor\u00e7\u00e3o, sendo incontestavelmente o miasma col\u00e9rico de natureza vol\u00e1til.<\/p>\n<p>O h\u00e1lito dos col\u00e9ricos \u00e9 descrito como sendo uma das fontes de transmiss\u00e3o da enfermidade.<\/p>\n<p>Bonjean, como outros autores da \u00e9poca, d\u00e1 grande import\u00e2ncia a fatores que aumentam ou diminuem a tend\u00eancia a contrair a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A bebida e os excessos lhe parecem ter uma influ\u00eancia maior do que a mis\u00e9ria e a falta de higiene. H\u00e1 tamb\u00e9m diferen\u00e7as individuais, que predisp\u00f5em ou protegem contra a enfermidade:<\/p>\n<p>Disposi\u00e7\u00f5es pessoais. \u201cDe in\u00edcio, as doen\u00e7as, mesmo contagiosas, n\u00e3o o s\u00e3o necessariamente. Felizmente, para muitas delas, e das mais tem\u00edveis, s\u00e3o necess\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de imin\u00eancia que se encontra nos indiv\u00edduos cujo organismo \u00e9 geralmente pobre, e nos quais os miasmas col\u00e9ricos possuem muito mais a\u00e7\u00e3o do que nas pessoas que desfrutam em geral de uma boa constitui\u00e7\u00e3o. H\u00e1 disposi\u00e7\u00f5es individuais que n\u00e3o poder\u00edamos precisar, compreendidas sob o nome de idiossincrasia, e que pelo contr\u00e1rio possuem uma influ\u00eancia indubit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Certas pessoas resistem \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus mais constantes em seus efeitos, como os da vacina; outros s\u00e3o acess\u00edveis \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es miasm\u00e1ticas mais fracas.<\/p>\n<p>Nas condi\u00e7\u00f5es ordin\u00e1rias, o miasma col\u00e9rico n\u00e3o encontra felizmente sen\u00e3o por excess\u00e3o um terreno preparado para sua evolu\u00e7\u00e3o; portanto, nem todas as pessoas que vivem nesse meio infectado sofrem necessariamente sua influ\u00eancia perigosa.<\/p>\n<p>Os cuidados de higiene recomendados por Bonjean consistem principalmente na desinfec\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias fecais pelo sulfato de ferro, e dos leitos, das roupas e outros objetos, por imers\u00e3o em \u00e1gua clorada.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante assinalar que, al\u00e9m do sulfato de ferro, ele recomenda tamb\u00e9m colocar carv\u00e3o pulverizado nos dejetos dos col\u00e9ricos, pois \u201co carv\u00e3o absorve os gases perigosos\u201d.<\/p>\n<p>Apesar de admitir que a \u00e1gua pode ser um ve\u00edculo secund\u00e1rio de difus\u00e3o do c\u00f3lera, toda a descri\u00e7\u00e3o de Bonjean (t\u00edpica do per\u00edodo) enfatiza o papel do ar, dos cheiros \u2013 enfim, dos miasmas.<\/p>\n<p>Algo semelhante ocorre em outros pa\u00edses, na \u00e9poca. Durante as d\u00e9cadas em que o c\u00f3lera produz as grandes epidemias, o movimento sanitarista ressurge, com a mesma base te\u00f3rica do s\u00e9culo XVIII \u2013 a hip\u00f3tese dos miasmas.<\/p>\n<p>Aproximadamente em 1850 surgem legisla\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias em diversos pa\u00edses. Na Inglaterra, o advogado Edwin Chadwick, utilizando dados estat\u00edsticos, estabeleceu a exist\u00eancia de uma correla\u00e7\u00e3o entre condi\u00e7\u00f5es de vida e mortalidade. Seu trabalho procurava mostrar que as doen\u00e7as transmiss\u00edveis eram causadas por miasmas, surgindo de mat\u00e9ria animal ou vegetal em decomposi\u00e7\u00e3o, em lixo, excrementos, etc. O resultado obtido foram medidas de limpeza das cidades, constru\u00e7\u00e3o de esgotos e suprimentos de \u00e1gua livres de contamina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m gra\u00e7as a esse movimento que o rio T\u00e2misa, que atravessa Londres, foi recuperado. Em meados do s\u00e9culo XIX, o cheiro desse rio era t\u00e3o terr\u00edvel que se colocou em quest\u00e3o se o Parlamento (\u00e0s suas margens) poderia continuar a se reunir. Pode-se imaginar que a situa\u00e7\u00e3o fosse semelhante \u00e0 do rio Tiet\u00ea, que atravessa S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, o comerciante Lemuel Shattuck teve um papel pol\u00edtico semelhante ao de Chadwick, conseguindo tamb\u00e9m muitos resultados importantes, em 1850. Os hospitais, escolas e f\u00e1bricas tamb\u00e9m sofrem uma melhora higi\u00eanica consider\u00e1vel. No mesmo per\u00edodo, na Alemanha, Max von Pettenkofer conseguiu aprovar uma legisla\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>S\u00e3o tamb\u00e9m criadas as primeiras c\u00e1tedras universit\u00e1rias dedicadas \u00e0 sa\u00fade (ou seja, \u00e0 higiene).<\/p>\n<p>Todas as medidas do movimento sanitarista (limpeza, \u00e1gua, esgoto) reduziram muito a mortalidade, na \u00e9poca. Mesmo sem que se compreendesse a causa da peste bub\u00f4nica, da lepra e do c\u00f3lera, essas doen\u00e7as praticamente haviam desaparecido dos pa\u00edses mais desenvolvidos. Outras enfermidades, como tifo e tuberculose, n\u00e3o foram no entanto eliminadas.<\/p>\n<p>A teoria dos miasmas foi uma das mais importantes e \u00fateis de toda a hist\u00f3ria da medicina. Em muitas ocasi\u00f5es, levou a importantes cuidados de higiene e a uma redu\u00e7\u00e3o da mortalidade.<\/p>\n<p>Mas ocorreu neste caso aquilo que geralmente sucede quando uma teoria tem sucesso: ela impede o desenvolvimento de novas hip\u00f3teses e, ap\u00f3s dar contribui\u00e7\u00f5es positivas, pode se tornar mais prejudicial do que ben\u00e9fica, levando \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO 10: O DESENVOLVIMENTO DA TEORIA MICROBIANA DAS DOEN\u00c7AS<\/strong><\/p>\n<p><strong>PASTEUR, B\u00c9CHAMP, E AS DOEN\u00c7AS DOS BICHOS-DA-SEDA<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1860, houve importantes avan\u00e7os na compreens\u00e3o do papel de microorganismos em doen\u00e7as contagiosas.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa \u00e9poca que Pasteur desenvolve o seu primeiro estudo que teve rela\u00e7\u00e3o direta com problemas m\u00e9dicos: a pesquisa da causa da enfermidade dos bichos-da-seda. A quase totalidade dos livros indica que, nessa ocasi\u00e3o, Pasteur iniciou o estudo cient\u00edfico da teoria microbiana das enfermidades. Como veremos, a hist\u00f3ria n\u00e3o foi bem essa. Pelo contr\u00e1rio: nesse epis\u00f3dio, Pasteur foi um opositor da teoria microbiana.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o que ser\u00e1 apresentada aqui ser\u00e1 muito diferente daquilo que se costuma descrever sobre o epis\u00f3dio. Por isso, a investiga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a dos bichos-da-seda ser\u00e1 contada com certo grau de detalhe, a fim de n\u00e3o parecer que estamos falseando a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de bichos-da-seda era de grande import\u00e2ncia econ\u00f4mica na Fran\u00e7a. A produ\u00e7\u00e3o de casulos para fia\u00e7\u00e3o da seda atingiu, em torno de 1850, a mais de 20.000 toneladas por ano. No entanto, a partir de 1853, a produ\u00e7\u00e3o caiu progressivamente, chegando a apenas 4.000 toneladas em 1865, por causa de uma enfermidade que dizimava as cria\u00e7\u00f5es. A mesma doen\u00e7a atingiu tamb\u00e9m, na mesma \u00e9poca, os bichos-da-seda da It\u00e1lia, Espanha e outros pa\u00edses vizinhos.<\/p>\n<p>Houve sucessivas tentativas governamentais de debelar a enfermidade. No final da d\u00e9cada de 1850, Academia de Ci\u00eancias de Paris constituiu uma comiss\u00e3o para estudar as causas da morte dos bichos-da-seda e propor meios de preven\u00e7\u00e3o contra a enfermidade.<\/p>\n<p>O relator da comiss\u00e3o foi o naturalista Armand de Quatrefages de Br\u00e9au (1810-1892).<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas antes, como j\u00e1 foi indicado, uma doen\u00e7a dos bichos-da-seda (chamada \u201cmuscardina\u201d) havia sido estudada por Bassi, que descobriu tratar-se de uma enfermidade causada por um fungo microsc\u00f3pico.<\/p>\n<p>A enfermidade que afetava as cria\u00e7\u00f5es na d\u00e9cada de 1850, no entanto, era outra, chamada \u201cpebrina\u201d. Os bichos-da-seda atacados pela doen\u00e7a apresentavam uma s\u00e9rie de pequenas manchas negras na superf\u00edcie, e corp\u00fasculos negros dentro dos diversos \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>Essas part\u00edculas recebiam o nome de seu descobridor: \u201ccorp\u00fasculos de Cornalia\u201d. Os bichos-da-seda doentes se enfraqueciam, morriam e secavam. Algumas vezes, surgiam outras manifesta\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas, que Quatrefages interpretou como doen\u00e7as ocasionais, que ocorriam por falta de higiene e que atingiam os animais j\u00e1 enfraquecidos. Mas os sinais acima indicados da pebrina eram constantes, presentes em todos os bichos-da-seda doentes. Observava-se tamb\u00e9m nos animais doentes uma altera\u00e7\u00e3o da colora\u00e7\u00e3o do sangue.<\/p>\n<p>Quatrefages descreve a enfermidade como possuindo ao mesmo tempo um car\u00e1ter epid\u00eamico e heredit\u00e1rio. A pebrina era epid\u00eamica, no sentido de ser uma doen\u00e7a que n\u00e3o era pr\u00f3pria do local, mas se manifestava durante um certo tempo de modo intenso, atingindo toda uma popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma causa comum.<\/p>\n<p>Como vimos, nessa \u00e9poca, associava-se as epidemias a fen\u00f4menos clim\u00e1ticos ou a miasmas. Era heredit\u00e1ria, no sentido de que os bichos-da-seda doentes produziam ovos \u201cviciados\u201d: \u201c(\u2026) todos eles estavam atingidos pela pebrina, que os matou em parte, deixando os sobreviventes transmitirem aos ovos o germe da doen\u00e7a\u201d . Quatrefages n\u00e3o afirma que os bichos-da-seda j\u00e1 nas\u00e7am doentes; mas sup\u00f5e que eles nascem com uma predisposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pebrina.<\/p>\n<p>A pebrina havia se espalhado de tal forma, que praticamente todos os bichos-da-seda franceses estavam doentes. Embora uma certa porcentagem deles conseguisse se desenvolver, fazer casulos, transformar-se em borboletas e colocar ovos, esses ovos j\u00e1 estavam afetados e produziam lagartas fracas.<\/p>\n<p>Quatrefages utiliza uma compara\u00e7\u00e3o entre a pebrina e a tuberculose. O bicho-da-seda atacado pela pebrina se torna fraco, suscet\u00edvel de ser atingido por outras enfermidades.<\/p>\n<p>Ele deve ser cuidado com precau\u00e7\u00f5es especiais, \u201ccomo se cuida de um tuberculoso cuja exist\u00eancia se deseja prolongar\u201d.<\/p>\n<p>Dada a natureza \u201cheredit\u00e1ria\u201d da doen\u00e7a, Quatrefages recomenda que s\u00f3 sejam aproveitados os ovos de bichos sadios, isso \u00e9, sem manchas.<\/p>\n<p>Para reduzir a \u201cinflu\u00eancia epid\u00eamica\u201d da enfermidade, Quatrefages recomenda que as cria\u00e7\u00f5es sejam pequenas e que sejam tomados todos os cuidados higi\u00eanicos.<\/p>\n<p>Esses cuidados incluiam aquecimento e ventila\u00e7\u00e3o adequada das cria\u00e7\u00f5es de bichos-da-seda, alimenta\u00e7\u00e3o adequada, cuidados com umidade, etc.<\/p>\n<p>No seu trabalho final, publicado em 1860, Quatrefages afirma que \u201ca influ\u00eancia epid\u00eamica pode atingir o embri\u00e3o em desenvolvimento dentro do pr\u00f3prio ovo\u201d.<\/p>\n<p>Recomenda, por isso, que os ovos que eram importados de outros pa\u00edses s\u00f3 fossem trazidos para a Fran\u00e7a na \u00e9poca em que fossem se abrir.<\/p>\n<p>Durante algum tempo, a situa\u00e7\u00e3o da sericicultura parece ter melhorado. No entanto, em 1865 a epidemia \u00e9 t\u00e3o grave que os prefeitos e propriet\u00e1rios agr\u00edcolas solicitam provid\u00eancias ao Senado.<\/p>\n<p>\u00c9 formada uma nova comiss\u00e3o para o estudo da pebrina. Por influ\u00eancia do qu\u00edmico Jean-Baptiste Dumas, Pasteur \u00e9 indicado para fazer parte desse trabalho.<\/p>\n<p>Louis Pasteur (1822-1895) era um qu\u00edmico. Sua forma\u00e7\u00e3o nada tinha a ver com Medicina ou Hist\u00f3ria Natural. A \u00fanica liga\u00e7\u00e3o entre seu trabalho e a Biologia, anteriormente, tinha sido seu estudo de microorganismos respons\u00e1veis pela fermenta\u00e7\u00e3o e pela putrefa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar da falta de preparo na \u00e1rea, Pasteur aceita a indica\u00e7\u00e3o de Dumas e \u00e9 enviado \u00e0 regi\u00e3o de Alais, em junho de 1865, para iniciar o estudo da pebrina. O pr\u00f3prio Pasteur reconheceu que, antes de partir, havia estudado apenas os relat\u00f3rios de Quatrefages sobre a doen\u00e7a. Depois de algumas semanas no campo, Pasteur retorna a Paris e em setembro de 1865 apresenta \u00e0 Academia de Ci\u00eancias suas primeiras conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>A maior parte das id\u00e9ias de Pasteur coincide com as de Quatrefages. Ele admite que os ovos provenientes de bichos-da-seda com corp\u00fasculos devem ser considerados doentes, mesmo se n\u00e3o se nota nos pr\u00f3prios ovos as manchas que assinalam a pebrina. Ele admite portanto, como Quatrefages, que a enfermidade \u00e9 heredit\u00e1ria:<\/p>\n<blockquote><p>Sou levado a admitir que todos os gr\u00e3os [ovos] nascidos de borboletas que possuem corp\u00fasculos, \u00e9 um gr\u00e3o doente. Se as borboletas s\u00e3o pouco carregadas de corp\u00fasculos, seu gr\u00e3o fornecer\u00e1 lagartas que n\u00e3o os mostrar\u00e3o, ou que s\u00f3 os mostrar\u00e3o excepcionalmente, no final de sua vida, e a cria\u00e7\u00e3o poder\u00e1 se comportar bem; mas se o gr\u00e3o prov\u00e9m de pais cujos tecidos ou sucos nutrientes forneceram os princ\u00edpios necess\u00e1rios ao desenvolvimento de uma quantidade consider\u00e1vel de corp\u00fasculos, ele participar\u00e1 ainda mais de sua constitui\u00e7\u00e3o e talvez desde a primeira idade da lagarta o mal se mostrar\u00e1 pelos corp\u00fasculos ou por todos esses sintomas mais ou menos dif\u00edceis de caracterizar que fazem adivinhar que uma cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o dar\u00e1 resultado. Se reun\u00edssemos em um mesmo lugar uma multid\u00e3o de crian\u00e7as nascidas de pais doentes da t\u00edsica pulmonar [tuberculose], eles cresceriam mais ou menos doentios, mas s\u00f3 mostrariam tub\u00e9rculos pulmonares \u2013 sinal certo de sua m\u00e1 constitui\u00e7\u00e3o \u2013 em graus e idades variadas. As coisas se passam aproximadamente da mesma forma para as lagartas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Pasteur repete, com detalhes, a id\u00e9ia de Quatrefages de que a pebrina seria semelhante \u00e0 tuberculose. Desde a Antig\u00fcidade, alguns autores haviam considerado a tuberculose como heredit\u00e1ria, enquanto outros a consideravam adquirida por cont\u00e1gio ou por influ\u00eancia do meio. No s\u00e9culo XVIII, deu-se prefer\u00eancia \u00e0 \u00faltima interpreta\u00e7\u00e3o e por isso foram tomadas medidas higi\u00eanicas para combater a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Apesar dessas medidas, enquanto v\u00e1rios tipos de doen\u00e7as diminu\u00edam no s\u00e9culo XIX, a tuberculose continuou um grave problema na Europa. Em meados do s\u00e9culo, existiam defensores tanto da natureza heredit\u00e1ria quanto da natureza adquirida da doen\u00e7a. Quatrefages e Pasteur, no entanto, adotam a vis\u00e3o de que a tuberculose \u00e9 heredit\u00e1ria enquanto constitui\u00e7\u00e3o org\u00e2nica, podendo se manifestar ou n\u00e3o dependendo das condi\u00e7\u00f5es a que as pessoas est\u00e3o submetidas. Os dois autores aplicam exatamente a mesma id\u00e9ia \u00e0 pebrina<\/p>\n<p>Utilizando essa concep\u00e7\u00e3o, Pasteur prop\u00f5e um modo de selecionar ovos sadios que n\u00e3o difere muito do anterior. Ele prop\u00f5e que se examine todo o corpo do macho e da f\u00eamea, ap\u00f3s a coloca\u00e7\u00e3o dos ovos, para procurar a exist\u00eancia de corp\u00fasculos. Se houver corp\u00fasculos nos pais, os ovos ser\u00e3o declarados doentios, em maior ou menor grau, dependendo da quantidade de corp\u00fasculos dos pais.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o forem encontrados corp\u00fasculos nos pais, os ovos ser\u00e3o considerados sadios.<\/p>\n<p>Quanto aos pr\u00f3prios corp\u00fasculos, Pasteur adota uma opini\u00e3o que j\u00e1 havia sido proposta anteriormente pelo italiano Ciccone: eles n\u00e3o s\u00e3o microorganismos vegetais nem animais, s\u00e3o apenas o produto de um organismo doente.<\/p>\n<blockquote><p>Eu teria desejado poder tratar aqui sobre a natureza dos corp\u00fasculos; mas esse assunto merece observa\u00e7\u00f5es mais amplas do que as que pude fazer. No entanto, atrevo-me a dizer que minha opini\u00e3o presente \u00e9 que os corp\u00fasculos n\u00e3o s\u00e3o nem animais nem vegetais, mas corpos mais ou menos an\u00e1logos \u00e0s granula\u00e7\u00f5es das c\u00e9lulas cancerosas ou dos tub\u00e9rculos pulmonares. Do ponto de vista de uma classifica\u00e7\u00e3o met\u00f3dica, eles deveriam ser classificados preferivelmente ao lado dos gl\u00f3bulos de pus ou dos gl\u00f3bulos do sangue, ou mesmo dos gr\u00e3os de amido, do que ao lado dos infus\u00f3rios ou dos mofos.<\/p><\/blockquote>\n<p>Pode-se perceber que, no in\u00edcio de seu estudo dos bichos-da-seda, Pasteur est\u00e1 longe de apresentar novidades: ele utiliza id\u00e9ias id\u00eanticas \u00e0s de seus antecessores.<\/p>\n<p>No ano seguinte, Pasteur dedica cinco meses ao estudo das cria\u00e7\u00f5es. Ele observa que as lagartas podem j\u00e1 nascer com corp\u00fasculos, ou tornar-se corpusculosas durante o seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>No seu segundo trabalho, apresentado em julho de 1866, ele admite que \u201cum bicho-da-seda pode ser corpusculoso de nascen\u00e7a ou tornar-se [corpusculoso], seja por acidente, seja principalmente por influ\u00eancia da hereditariedade, durante a cria\u00e7\u00e3o\u201d. Ou, inversamente: se uma borboleta do bicho-da-seda \u00e9 corpusculosa, \u201cdiremos que o gr\u00e3o do qual saiu, que o verme do qual proveio, que a cris\u00e1lida que lhe deu nascimento estavam doentes, ou pelo menos muito predispostos a tornar-se [doentes], ou que a doen\u00e7a ocorreu no alojamento durante a cria\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A \u00eanfase principal neste segundo artigo, como no primeiro, \u00e9 dizer que os filhos de pais doentes, corpusculosos, ser\u00e3o doentes e que os ovos de borboletas sadias ser\u00e3o sadios.<\/p>\n<p>Mas Pasteur est\u00e1 apresentando aqui uma nova opini\u00e3o, embora n\u00e3o diga que est\u00e1 abandonando sua hip\u00f3tese inicial. O que significa \u201ctornar-se corpusculoso por acidente?\u201d<\/p>\n<p>Como os bichos podem se tornar doentes durante a cria\u00e7\u00e3o? N\u00e3o havia nada sobre isso no primeiro trabalho de Pasteur.<\/p>\n<p>Nesse segundo artigo, ele descreve que nas cria\u00e7\u00f5es em larga escala (industriais), \u00e9 muito raro encontrar alguma borboleta sem manchas, \u201co que tende a estabelecer a infec\u00e7\u00e3o nos alojamentos\u201d. Indica tamb\u00e9m que, trabalhando em pequena escala, foi poss\u00edvel obter borboletas n\u00e3o corpusculosas, ou seja, sadias, partindo de ovos que tinham corp\u00fasculos. Como isso foi conseguido?<\/p>\n<blockquote><p>Eu o atribuo n\u00e3o apenas ao fato da cria\u00e7\u00e3o pequena, mas \u00e0 precau\u00e7\u00e3o que tomei de afastar todos os dias os bichos mortos sobre a palha ou suspeitos de uma morte pr\u00f3pria para um local pr\u00f3prio, onde se evitava o mais poss\u00edvel os p\u00f3s das camas, das pranchas e das mesas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora Pasteur n\u00e3o seja claro, diz tamb\u00e9m em outro ponto que tomando-se \u201cpequenos cuidados de asseio\u201d pode-se \u201cafastar a infec\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Tudo isso parece indicar que ele acreditava na possibilidade de transmiss\u00e3o da enfermidade dos animais mortos ou doentes para os sadios.<\/p>\n<p>Para descobrir a \u201cfonte de infec\u00e7\u00e3o\u201d, Pasteur analisou a poeira dos alojamentos dos bichos-da-seda do ano anterior, antes que fossem utilizados novamente.<\/p>\n<p>Peneirando essa poeira, encontrou uma grande quantidade de corp\u00fasculos misturados ao p\u00f3. Ele se pergunta se esses corp\u00fasculos podem ser microorganismos, ou esporos dos mesmos, por analogia com a doen\u00e7a que havia sido estudada por Bassi (a muscardina). Mas ele nega claramente essa possibilidade.<\/p>\n<blockquote><p>Quando se pensa que os corp\u00fasculos se parecem muito a esporos de muced\u00ednios, ficar\u00edamos tentados a crer que os alojamentos foram invadidos por um parasita an\u00e1logo ao da muscardina. Isso seria um erro. Essa poeira estava carregada de corp\u00fasculos porque na cria\u00e7\u00e3o houve muitos bichos corpusculosos mortos na palha, que apodreceram, secaram, e os corp\u00fasculos de seus cad\u00e1veres e de seus dejetos se disseminaram por toda parte.<\/p><\/blockquote>\n<p>Deposito sobre a mesa da Academia um pouco do p\u00f3 do alojamento de que falo. Examinando-o ao microsc\u00f3pio, a Academia poder\u00e1 se convencer da assustadora multiplica\u00e7\u00e3o desses pequenos corpos que eu sempre considero como uma produ\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 nem vegetal nem animal, incapaz de se reproduzir, e que deve ser inclu\u00edda na categoria desses corpos de regular que a fisiologia distingue h\u00e1 alguns anos como organitas, tais como os gl\u00f3bulos do sangue, os gl\u00f3bulos do pus, etc.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o serem microorganismos, esses corp\u00fasculos encontrados na poeira s\u00e3o mal\u00e9ficos, pois Pasteur afirma conterem \u201celementos t\u00f3xicos em um alto grau\u201d.<\/p>\n<p>Polvilhando as folhas de amoreira que alimentavam os bichos-da-seda com a peira repleta de corp\u00fasculos, havia uma grande mortalidade entre os animais, em poucos dias, embora eles n\u00e3o ficassem cheios de corp\u00fasculos.<\/p>\n<p>A \u201cinfec\u00e7\u00e3o\u201d dos bichos-da-seda, para Pasteur, n\u00e3o se deve nem a problemas com os alimentos, nem a miasmas delet\u00e9rios no ar, nem a um tipo de c\u00f3lera, nem a uma epidemia misteriosa.<\/p>\n<p>Os restos dos cad\u00e1veres e os excrementos dos bichos doentes, cheios de corp\u00fasculos, seriam a causa dessa infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na verdade, a posi\u00e7\u00e3o de Pasteur nessa \u00e9poca \u00e9 confusa e at\u00e9 contradit\u00f3ria. Ele admite claramente que os bichos-da-seda podem se tornar doentes durante a cria\u00e7\u00e3o; fala em infec\u00e7\u00e3o e chega a se referia a cont\u00e1gio, mas atribui a infec\u00e7\u00e3o a corp\u00fasculos que n\u00e3o se reproduzem, que s\u00e3o apenas t\u00f3xicos e que matam rapidamente os bichos sem torn\u00e1-los corpusculosos.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o ficar\u00e1 mais clara logo depois.<\/p>\n<p>Tr\u00eas semanas ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o do segundo trabalho de Pasteur, Antoine B\u00e9champ (1816-1908) apresenta \u00e0 Academia de Ci\u00eancias de Paris o resultado de estudos que estava desenvolvendo sobre os bichos-da-seda. No in\u00edcio de seu trabalho, B\u00e9champ exp\u00f5e com toda clareza as duas alternativas para compreender a pebrina:<\/p>\n<p>Pode-se fazer duas hip\u00f3teses para dar conta da natureza da doen\u00e7a chamada pebrina.<\/p>\n<blockquote><p><strong>1\u00aa Ela \u00e9 constituciona<\/strong>l. Nesse caso os corp\u00fasculos vibrantes n\u00e3o passam de um sinal patogn\u00f4mico, uma produ\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica. Longe de ser causa da doen\u00e7a, eles s\u00e3o apenas seu efeito.<strong><br \/>\n2\u00aa Ela \u00e9 parasit\u00e1ria<\/strong>. Ent\u00e3o os corp\u00fasculos, se n\u00e3o se descobrir nenhuma outra produ\u00e7\u00e3o organizada, s\u00e3o a causa produtora da doen\u00e7a.<\/p><\/blockquote>\n<p>O trabalho que desenvolvo h\u00e1 quatro meses est\u00e1 fundamentado sobre a segunda alternativa.<\/p>\n<p>Portanto, B\u00e9champ est\u00e1 explorando a possibilidade que Pasteur rejeitou desde o in\u00edcio: a de que os corp\u00fasculos sejam parasitas microsc\u00f3picos vivos, que sejam a causa da pebrina.<\/p>\n<p>B\u00e9champ encontrou sobre a superf\u00edcie exterior de ovos dos bichos-da-seda e do corpo de lagartas, muitos corp\u00fasculos que podiam ser retirados por lavagem com o aux\u00edlio de um pincel.<\/p>\n<p>Observou que as lagartas jovens podiam ter corp\u00fasculos fora do corpo, e nenhum em seu interior. Ele sugeriu nesse trabalho que os corp\u00fasculos viriam inicialmente de fora dos ovos, prendendo-se \u00e0s lagartas e depois introduzindo-se nelas.<\/p>\n<p>Pasteur comenta pouco depois sobre o trabalho de B\u00e9champ. Ele discute especialmente a id\u00e9ia de que os corp\u00fasculos est\u00e3o inicialmente fora dos ovos.<\/p>\n<p>Afirma que mesmo lavando muito cuidadosamente os ovos produzidos por borboletas corpusculosas, e esmagando-os, s\u00e3o encontrados corp\u00fasculos.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 quest\u00e3o geral sobre a causa da enfermidade, colocada por B\u00e9champ, Pasteur prefere n\u00e3o se pronunciar, por se tratar de opini\u00f5es \u201ca priori\u201d, ou seja, que precedem a investiga\u00e7\u00e3o experimental: \u201cCom rela\u00e7\u00e3o a id\u00e9ias preconcebidas, \u00e9 bom que cada um se inspire nas que acreditar mais pr\u00f3prias para conduzir \u00e0 verdade\u201d.<\/p>\n<p>Logo depois, no entanto, s\u00e3o publicados dois artigos de grande import\u00e2ncia, que estudam a natureza dos corp\u00fasculos do bicho-da-seda e defendem sua natureza parasit\u00e1ria. Um deles \u00e9 do pr\u00f3prio B\u00e9champ, o outro \u00e9 do naturalista Balbiani.<\/p>\n<p>Balbiani ataca diretamente a interpreta\u00e7\u00e3o de Pasteur sobre os corp\u00fasculos:<\/p>\n<blockquote><p>Dentre todas as opini\u00f5es contradit\u00f3rias que foram emitidas sobre a natureza dos corp\u00fasculos da pebrina, a mais discut\u00edvel, em minha opini\u00e3o, \u00e9 a que os compara a elementos anat\u00f4micos normais ou mais ou menos alterados, ou a produtos m\u00f3rbidos como os gl\u00f3bulos de pus. H\u00e1 mais de oito anos que essa opini\u00e3o foi refutada pelo professor Lebert.<\/p><\/blockquote>\n<p>Balbiani esclarece que Lebert e ele pr\u00f3prio haviam feito estudos qu\u00edmicos sobre os corp\u00fasculos, concluindo que eles n\u00e3o tinham as propriedades dos tecidos animais. Balbiani afirma que, ao inv\u00e9s de serem produzidos pelo corpo do bicho-da-seda, os corp\u00fasculos invadem gradualmente os seus tecidos, como parasitas.<\/p>\n<p>Ele compara os corp\u00fasculos da pebrina a parasitas vegetais que j\u00e1 haviam sido estudados antes em outros animais (peixes, aranhas, insetos, etc.), e que eram conhecidos pelo nome de \u201cpsorospermias\u201d (nome tirado de \u201cpsora\u201d, sarna, que \u00e9 uma afec\u00e7\u00e3o causada por um pequeno parasita, e \u201csperma\u201d, que significa semente ou germe). Balbiani conclui:<\/p>\n<blockquote><p>Os corp\u00fasculos que se observa na doen\u00e7a descrita sob o nome de pebrina nos bichos-da-seda n\u00e3o s\u00e3o elementos anat\u00f4micos provenientes da altera\u00e7\u00e3o de partes fluidas ou s\u00f3lidas de seu organismo, mas psorospermias, quer dizer, esp\u00e9cies vegetais paras\u00edticas, que se encontra, ali\u00e1s, em um grande n\u00famero de outros insetos e articulados.<\/p><\/blockquote>\n<p align=\"left\">\u00c9 curioso que Balbiani utiliza contra a opini\u00e3o de Pasteur argumentos qu\u00edmicos. Como foi dito anteriormente, Pasteur era um qu\u00edmico por sua forma\u00e7\u00e3o. Seria de se esperar que ele utilizasse m\u00e9todos qu\u00edmicos, para o estudo da pebrina, mas ele n\u00e3o o fez.<\/p>\n<p align=\"left\">B\u00e9champ, por sua vez, utiliza tamb\u00e9m argumentos qu\u00edmicos semelhantes aos de Balbiani mas, al\u00e9m disso, mostra outras fortes evid\u00eancias de que os corp\u00fasculos s\u00e3o vegetais microsc\u00f3picos.<\/p>\n<p align=\"left\">Pasteur, como vimos, havia feito estudos sobre fermenta\u00e7\u00f5es e aceitava que esse fen\u00f4meno \u00e9 produzido por microorganismos. B\u00e9champ, na mesma \u00e9poca, havia chegado a conclus\u00f5es id\u00eanticas.<\/p>\n<p align=\"left\">Aproveitando sua experi\u00eancia com esse tipo de fen\u00f4menos, B\u00e9champ testou os corp\u00fasculos da pebrina para verificar se eles se comportavam como fermentos. Colocando-os em uma solu\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar de cana, verificou que ele de fato produzia a fermenta\u00e7\u00e3o do l\u00edquido, com a transforma\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar em glucose e acidifica\u00e7\u00e3o do l\u00edquido. Como se admitia que os fermentos eram vegetais microsc\u00f3picos, concluia-se que os corp\u00fasculos eram parasitas e n\u00e3o produtos dos bichos-da-seda.<\/p>\n<p align=\"left\">B\u00e9champ fez outros testes que deram tamb\u00e9m resultados muito claros. Se os corp\u00fasculos fossem produtos do animal, eles deveriam de desfazer quando um bicho-da-seda morto apodrecesse.<\/p>\n<p align=\"left\">B\u00e9champ esmagou tr\u00eas bichos-da-seda pouco corpusculosos em \u00e1gua. Observou inicialmente o l\u00edquido e viu que uma gota colocada ao microsc\u00f3pio mostrava tr\u00eas ou quatro corp\u00fasculos de cada vez, no campo visual.<\/p>\n<p align=\"left\">Deixou o l\u00edquido se decompor durante oito dias e notou um cheiro caracter\u00edstico de coisas podres. Examinou ent\u00e3o uma gota do l\u00edquido no microsc\u00f3pio.<\/p>\n<p align=\"left\">Observou uma grande quantidade dos microorganismos que costumam aparecer durante a putrefa\u00e7\u00e3o, como vibri\u00f5es e outros infus\u00f3rios. Al\u00e9m deles, havia uma enorme quantidade de corp\u00fasculos iguais aos dos bichos-da-seda. Eles n\u00e3o haviam se dissolvido ou apodrecido. Pelo contr\u00e1rio: eles haviam se multiplicado.<\/p>\n<p align=\"left\">Isso mostrava ao mesmo tempo que n\u00e3o eram partes dos bichos-da-seda, e que eram seres vivos aut\u00f4nomos, pois haviam se reproduzido.<\/p>\n<p align=\"left\">Outro teste de B\u00e9champ consistiu em colocar os corp\u00fasculos em uma base forte: a potassa c\u00e1ustica (KOH). Uma solu\u00e7\u00e3o de potassa a 10% dissolve quase instantaneamente as c\u00e9lulas animais, incluindo as do pus e de tecidos cancerosos. Pelo contr\u00e1rio: colocando-se os corp\u00fasculos nessa solu\u00e7\u00e3o, eles mant\u00eam a mesma forma durante mais de dois dias. Colocando-se todo o corpo de um bicho-da-seda, esmagado, na solu\u00e7\u00e3o de potassa, o corpo todo se dissolve, exceto os corp\u00fasculos. Isso mostrava que eles tinham uma natureza qu\u00edmica muito diferente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, B\u00e9champ observou que os corp\u00fasculos tinham certo movimento (eram chamados \u00e0s vezes de \u201ccorp\u00fasculos vibrantes\u201d, por causa disso). Quando eram deixados muito tempo na potassa, o movimento desaparecia. A \u00fanica interpreta\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel do fen\u00f4meno era a de que eles eram vivos e que a potassa os havia matado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o dos trabalhos de Balbiani e B\u00e9champ, Pasteur se retrai. Ele n\u00e3o discute os pontos mais importantes desses trabalhos, mas comenta aspectos secund\u00e1rios.<\/p>\n<p>Critica B\u00e9champ novamente por sua id\u00e9ia de que os corp\u00fasculos vem de fora dos ovos e n\u00e3o comenta nenhum outro ponto de seu trabalho.<\/p>\n<p>Quanto ao trabalho de Balbiani, Pasteur se mostra mais cordial e n\u00e3o o critica. Ele afirma que sua pr\u00f3pria opini\u00e3o \u00e9 diferente, mas que ir\u00e1 examinar com cuidado as id\u00e9ias de Balbiani, \u201cpois elas partem de um observador h\u00e1bil e porque sobre esse assunto tenho apenas vis\u00f5es preconcebidas\u201d, que ele n\u00e3o podia fundamentar pela observa\u00e7\u00e3o . No entanto, Pasteur afirma que se as id\u00e9ias de Balbiani n\u00e3o invalidam e sim refor\u00e7am o m\u00e9todo pr\u00e1tico que ele pr\u00f3prio havia desenvolvido para o cuidado dos bichos-da-seda.<\/p>\n<p>Por fim, Pasteur diz que \u201cenquanto n\u00e3o se demonstrar o modo de gera\u00e7\u00e3o desses corp\u00fasculos, a id\u00e9ia de que s\u00e3o parasitas ficar\u00e1 sem base\u201d. No entanto, B\u00e9champ j\u00e1 havia mostrado claramente que eles se reproduziam fora do corpo dos bichos-da-seda.<\/p>\n<p>Outro naturalista, N. Joly, defende Pasteur e se volta contra B\u00e9champ, afirmando que os corp\u00fasculos s\u00e3o uma produ\u00e7\u00e3o do organismo e que a causa da doen\u00e7a \u00e9 constitucional. Joly indica que B\u00e9champ precisaria apresentar uma prova diferente de que os corp\u00fasculos s\u00e3o a causa e n\u00e3o efeito da enfermidade: precisaria produzir a doen\u00e7a em animais sadios, pelos corp\u00fasculos.<\/p>\n<blockquote><p>Para admitir aqui a teoria do parasitismo, seriam necess\u00e1rias, em minha opini\u00e3o, provas mais conclusivas do que as que s\u00e3o dadas pelo senhor B\u00e9champ. Eu gostaria, por exemplo, que ele inoculasse o corp\u00fasculo vibrante em uma lagarta reconhecidamente sadia e que ele produzisse, de modo indubit\u00e1vel, a pebrina, assim como se faz nascer a muscardina inoculando a Botrytis bassiana.<\/p><\/blockquote>\n<p>B\u00e9champ procura estudar o processo de reprodu\u00e7\u00e3o dos corp\u00fasculos. Em mar\u00e7o de 1867, ele publicou o resumo de um trabalho em que mostrava que esses corp\u00fasculos se dividiam por cissiparidade, como v\u00e1rios outros microorganismos. No m\u00eas de abril, B\u00e9champ apresenta \u00e0 Academia de Ci\u00eancias de Paris um trabalho mais desenvolvido sobre o mesmo assunto, com desenhos que mostram o crescimento, mudan\u00e7a de forma e divis\u00e3o dos corp\u00fasculos. Essa era a prova exigida por Pasteur para aceitar que os corp\u00fasculos s\u00e3o parasitas, como vimos antes.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia, Pasteur apresenta tamb\u00e9m \u00e0 Academia um pequeno trabalho em que anuncia ter mudado de opini\u00e3o e aceitar agora que os corp\u00fasculos eram parasitas. No entanto, o motivo da mudan\u00e7a de opini\u00e3o de Pasteur n\u00e3o foi o trabalho de B\u00e9champ. Pelo contr\u00e1rio: Pasteur nem cita o nome de B\u00e9champ, mas anuncia que ele pr\u00f3prio, Pasteur, acaba de descobrir que os corp\u00fasculos se dividem por cissiparidade no est\u00f4mago dos bichos-da-seda.<\/p>\n<p>Na verdade, o trabalho de Pasteur era pouco conclusivo. Suas observa\u00e7\u00f5es foram criticas por Balbiani. Mas, mesmo se suas observa\u00e7\u00f5es tivessem sido perfeitas, a descoberta de que os corp\u00fasculos se dividem dentro do est\u00f4mago dos bichos-da-seda n\u00e3o provava que eram seres vivos independentes, nem que eram vegetais, nem que eram a causa da doen\u00e7a. No entanto, a partir desse momento, Pasteur considerou que havia provado rigorosamente que os corp\u00fasculos eram parasitas e que eram a causa da pebrina.<\/p>\n<p>Nem neste trabalho, nem em qualquer outro posterior, Pasteur admitiu que B\u00e9champ havia defendido antes dele, com excelentes argumentos e observa\u00e7\u00f5es, a natureza parasit\u00e1ria dos corp\u00fasculos do bicho-da-seda.<\/p>\n<p>B\u00e9champ protestou, enviando uma carta \u00e0 Academia de Ci\u00eancias de Paris, na qual indicava toda a sucess\u00e3o de trabalhos dele pr\u00f3prio e de Pasteur, mostrando de forma clara que ele e n\u00e3o Pasteur havia estabelecido a causa da pebrina. De nada adiantou. Dada a grande influ\u00eancia de Pasteur na \u00e9poca, o trabalho de B\u00e9champ foi esquecido. E perpetuou-se, at\u00e9 hoje, a falsa hist\u00f3ria de que Pasteur, estudando os bichos-da-seda, fundou a teoria microbiana das enfermidades.<\/p>\n<p>Sob o ponto de vista sociol\u00f3gico, este epis\u00f3dio que estudamos aqui \u00e9 uma triste amostra de como, muitas vezes, os pesquisadores est\u00e3o mais interessados em si pr\u00f3prios do que na verdade. Os cientistas n\u00e3o s\u00e3o anjos.<\/p>\n<p>S\u00e3o seres dotados de vaidade, de agressividade, capazes de ocultar a verdade, de mentir, de utilizar estrat\u00e9gias pouco dignas para vencer os advers\u00e1rios e sobressair socialmente.<\/p>\n<p>Sob o ponto de vista cient\u00edfico, por outro lado, a descri\u00e7\u00e3o desse epis\u00f3dio permite tamb\u00e9m tirar algumas li\u00e7\u00f5es. Vimos como foi dif\u00edcil estabelecer que a doen\u00e7a dos bichos-da-seda era causada por microorganismos.<\/p>\n<p>Por um lado, n\u00e3o basta observar o corpo do animal e ver dentro dele certos corp\u00fasculos para concluir que esses corp\u00fasculos s\u00e3o microorganismos que causam a enfermidade.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso primeiro reconhecer que esses corp\u00fasculos s\u00e3o vivos; verificar se eles podem viver fora do organismo doente e se reproduzir; se poss\u00edvel, identificar o seu tipo; e estabelecer a rela\u00e7\u00e3o entre eles e a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>No caso estudado, desde o in\u00edcio ningu\u00e9m tinha d\u00favidas de que os corp\u00fasculos eram ou causa, ou efeito da doen\u00e7a. Mas, em princ\u00edpio, poderia se tratar de outra coisa: os corp\u00fasculos poderiam ser microorganismos que invadissem os bichos-da-seda quando eles estivessem debilitados pela enfermidade, ao inv\u00e9s de serem a pr\u00f3pria causa da doen\u00e7a. Por isso, ainda teria sido necess\u00e1rio que B\u00e9champ e Pasteur tivessem aprofundado suas investiga\u00e7\u00f5es, para esclarecer pontos como este.<\/p>\n<p><strong>DAVAINE E O ANTRAZ: O ESTUDO DE MICROORGANISMOS NA D\u00c9CADA DE 1860<\/strong><\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1860, ao mesmo tempo em que ocorreram os estudos de Lister sobre a infec\u00e7\u00e3o das feridas e os de Pasteur e B\u00e9champ sobre os bichos-da-seda, muitos outros pesquisadores se dedicaram \u00e0 pesquisa de microorganismos e sua rela\u00e7\u00e3o com doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 vimos, Davaine havia estudado, juntamente com Rayer, o antraz ou carb\u00fanculo dos carneiros. Eles havia observado a presen\u00e7a de certos microorganismos no sangue dos animais mortos. No entanto, na \u00e9poca em que fizeram esses estudos, eles pr\u00f3prios n\u00e3o deram grande import\u00e2ncia \u00e0 descoberta. Em 1863, Davaine retoma os estudos sobre o antraz.<\/p>\n<p>Durante o trabalho anterior, havia sido observado que o sangue dos animais que haviam morrido pelo antraz mostrava-se cheio de co\u00e1gulos e com a presen\u00e7a de certos bastonetes (bact\u00e9rias). No entanto, esse sangue s\u00f3 era observado quando o animal j\u00e1 tinha morrido. Havia a possibilidade de que fosse apenas um produto da deteriora\u00e7\u00e3o ou putrefa\u00e7\u00e3o do sangue.<\/p>\n<p>Nos novos estudos, Davaine observou que era capaz de transmitir o antraz a v\u00e1rios animais diferentes, com inje\u00e7\u00e3o de uma pequena quantidade do sangue de animais doentes. Inoculou cavalos, bois e coelhos, que morriam depois de tr\u00eas ou quatro dias com os mesmos sintomas dos carneiros e apresentando sempre o sangue cheio de co\u00e1gulos e com os mesmos bastonetes. No entanto, inicialmente os bastonetes s\u00f3 eram observados quando o animal morria.<\/p>\n<p>Davaine fez testes de transmiss\u00f5es sucessivas da doen\u00e7a em coelhos: quando um deles morria, utilizava seu sangue para produzir a doen\u00e7a em um outro, e assim sucessivamente. O resultado era sempre id\u00eantico.<\/p>\n<p>Estudando o sangue dos animais inoculados, dia ap\u00f3s dia, Davaine observou que havia um per\u00edodo no qual n\u00e3o se observava nenhuma bact\u00e9ria; no entanto, no terceiro dia, elas come\u00e7avam a aparecer e seu n\u00famero aumentava muito, antes que surgisse qualquer sintoma da doen\u00e7a. Logo depois, o animal se mostrava doente e morria em poucas horas.<\/p>\n<p>Durante esse per\u00edodo inicial de \u201cincuba\u00e7\u00e3o\u201d da doen\u00e7a (termo usado por Davaine), o sangue n\u00e3o transmitia a doen\u00e7a. Quando os bacilos se tornavam vis\u00edveis, o sangue passava a transmitir a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Davaine concluiu que as bact\u00e9rias eram a causa do antraz, pois surgiam no sangue antes de qualquer outro sinal da doen\u00e7a e porque apenas quando elas estavam presentes era poss\u00edvel transmitir a doen\u00e7a por inocula\u00e7\u00e3o do sangue.<\/p>\n<p>Surgiram, no entanto, obje\u00e7\u00f5es ao trabalho de Davaine. Poderia ter ocorrido que o sangue contivesse alguma subst\u00e2ncia (um veneno) capaz de produzir a doen\u00e7a; enquanto esse veneno estivesse come\u00e7ando a atuar no organismo, o sangue ainda seria incapaz de transmitir a doen\u00e7a; depois, quando o organismo j\u00e1 estivesse doente, o sangue se tornaria carregado de veneno, pela sua deteriora\u00e7\u00e3o e putrefa\u00e7\u00e3o; ao mesmo tempo, surgiriam as bact\u00e9rias, que seriam um dos sintomas e n\u00e3o a causa da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>No ano seguinte (1864), Davaine publica novo trabalho. Durante esse per\u00edodo, ele inoculou 150 animais, sempre com resultados id\u00eanticos.<\/p>\n<p>Observou que guardando durante algum tempo o sangue de coelhos mortos pelo carb\u00fanculo e permitindo que o sangue apodrecesse, as bact\u00e9rias eram destru\u00eddas. Tomando esse sangue apodrecido, Davaine injetou pequenas quantidades em coelhos sadios. Eles n\u00e3o adquiriram o carb\u00fanculo e n\u00e3o surgiam bact\u00e9rias no seu sangue.<\/p>\n<p>Quando a quantidade de sangue podre era grande, os coelhos inoculados morriam, mas com sintomas diferentes dos observados no antraz. Colhendo sangue desses coelhos, logo antes de sua morte, Davaine observou que ele n\u00e3o transmitia a doen\u00e7a a outros coelhos.<\/p>\n<p>Davaine concluiu que o antraz n\u00e3o tinha rela\u00e7\u00e3o com o apodrecimento do sangue e que n\u00e3o era um veneno. A putrefa\u00e7\u00e3o produzia algum tipo de subst\u00e2ncia t\u00f3xica ou venenosa, mas que n\u00e3o se transmitia por inocula\u00e7\u00f5es sucessivas. O carb\u00fanculo, pelo contr\u00e1rio, sempre se reproduzia nas sucessivas inocula\u00e7\u00f5es, comportando-se como um ser vivo.<\/p>\n<p>Neste trabalho, Davaine utiliza a palavra \u201cv\u00edrus\u201d para designar a causa do antraz ou carb\u00fanculo. At\u00e9 essa \u00e9poca, como vimos, essa palavra era aplicada indiscriminadamente a uma grande variedade de influ\u00eancias m\u00f3rbidas ou venenosas, incluindo o veneno das serpentes. No entanto, a partir desse momento come\u00e7ou a surgir uma diferencia\u00e7\u00e3o entre venenos propriamente ditos (que n\u00e3o se reproduzem e propagam de um doente para outro) e os v\u00edrus (que se propagam sucessivamente, como no caso da var\u00edola).<\/p>\n<p>\u00c9 claro que as bact\u00e9rias de Davaine n\u00e3o eram v\u00edrus no sentido atual da palavra. Mas este foi um dos passos pelos quais se chegou \u00e0 conceitua\u00e7\u00e3o atual.<\/p>\n<p>Outra importante linha de investiga\u00e7\u00f5es foi desenvolvida na mesma \u00e9poca por Fran\u00e7ois Jules Lemaire. Como Pasteur e B\u00e9champ, Lemaire era um qu\u00edmico e n\u00e3o m\u00e9dico ou bi\u00f3logo. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1860 ele se dedicava ao estudo de subst\u00e2ncias antiss\u00e9pticas. Observou que a benzina, o \u00e1cido f\u00eanico e o alcatr\u00e3o eram capazes de interromper a fermenta\u00e7\u00e3o e a putrefa\u00e7\u00e3o org\u00e2nica.<\/p>\n<p>Estudou especialmente as propriedades do \u00e1cido f\u00eanico, mostrando que ele servia para destruir os infus\u00f3rios. Utilizou essa subst\u00e2ncia na conserva\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as anat\u00f4micas e de animais. Em 1861, mostrou que o \u00e1cido f\u00eanico dilu\u00eddo a 1% e adicionado ao \u00e1cido ac\u00e9tico curava a sarna, matando o \u00e1caro que produz essa afec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do estudo dessas subst\u00e2ncias qu\u00edmicas, Lemaire foi levado \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o dos microorganismos que produziam a fermenta\u00e7\u00e3o e putrefa\u00e7\u00e3o. Existia a cren\u00e7a de que esses seres podiam se espalhar pelo ar, mas os estudos realizados nessa \u00e9poca n\u00e3o eram totalmente conclusivos. Lemaire desenvolveu um novo m\u00e9todo para capturar microorganismos do ar. Ele colocava gelo dentro de um bal\u00e3o de vidro fechado. O bal\u00e3o, colocado na atmosfera, produzia a condensa\u00e7\u00e3o de vapor d\u2019\u00e1gua em sua superf\u00edcie e, juntamente com o vapor, eram coletados os microorganismos do ambiente.<\/p>\n<p>Lemaire recolhia o l\u00edquido e depois o estudava ao microsc\u00f3pio.<\/p>\n<p>Durante as fermenta\u00e7\u00f5es e putrefa\u00e7\u00f5es h\u00e1 desprendimento de gases da subst\u00e2ncias em transforma\u00e7\u00e3o. Em 1864, Lemaire estudou pelo processo acima indicado o ar acima de materiais em fermenta\u00e7\u00e3o e putrefa\u00e7\u00e3o e observou que, juntamente com os gases, desprendem-se dessas subst\u00e2ncias os seres microsc\u00f3picos que produzem esses processos. Imaginou ent\u00e3o que os miasmas n\u00e3o eram simplesmente odores, mas microorganismos que acompanhavam os cheiros f\u00e9tidos de subst\u00e2ncias em decomposi\u00e7\u00e3o. No mesmo ano, Lemaire estudou um fungo microsc\u00f3pico (o Achorion schoenleinii, j\u00e1 estudado antes por Bazin) que produz uma micose no homem. Bazin j\u00e1 havia sugerido que esse microorganismo poderia se espalhar pelo ar. Lemaire estudou um menino que tinha essa afec\u00e7\u00e3o no couro cabeludo.<\/p>\n<p>Produzindo uma leve corrente de ar da cabe\u00e7a do menino em dire\u00e7\u00e3o a um bal\u00e3o de vidro com gelo, a 50 cm de dist\u00e2ncia, ele verificou que a umidade condensada em torno do bal\u00e3o continha esporos de Achorion.<\/p>\n<p>Esta foi a primeira vez que se detectou no ar a presen\u00e7a de seres vivos capazes de reproduzir uma doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Lemaire realizou v\u00e1rios estudos utilizando sua t\u00e9cnica de coleta de microorganismos do ar. Em 1866, pesquisou o ar exalado na respira\u00e7\u00e3o de pessoas saud\u00e1veis. Para isso, investigou o ar dos quartos de uma instala\u00e7\u00e3o militar. Os soldados dormiam em quartos coletivos, com portas e janelas fechadas. Deitavam-se \u00e0s 9 horas da noite. Durante dez dias, entre as 4 e 5 horas da manh\u00e3, antes que eles se levantassem, Lemaire coletava a umidade do ar dos alojamentos, para estudo.<\/p>\n<p>Os soldados eram todos saud\u00e1veis, jovens e se alimentavam bem. O pesquisador conta que, ao entrar nos quartos, sentia um forte odor desagrad\u00e1vel, \u201csui generis\u201d. Um dos quartos tinha 24 leitos, dos quais 20 estavam ocupados. Outro tinha 38 leitos, com apenas 17 ocupados. Nos dois, Lemaire coletava uma certa quantidade de l\u00edquido condensado do ar. Esse l\u00edquido tinha o mesmo odor desagrad\u00e1vel do quarto.<\/p>\n<p>Observando depois esse l\u00edquido ao microsc\u00f3pio, observou a presen\u00e7a de v\u00e1rios corp\u00fasculos cil\u00edndricos, esf\u00e9ricos e ov\u00f3ides, que se multiplicavam rapidamente, nas horas seguintes.<\/p>\n<p>Identificou v\u00e1rias bact\u00e9rias conhecidas, nesse material. A \u00fanica diferen\u00e7a observada entre os dois quartos foi que o segundo, que tinha menor n\u00famero de leitos ocupados, apresentava menor n\u00famero de microorganismos.<\/p>\n<p>Para compara\u00e7\u00e3o, Lemaire coletou tamb\u00e9m, no mesmo hor\u00e1rio, o ar exterior, \u00e0 mesma altura dos quartos. A \u00e1gua coletada era pura, sem aparentar microorganismos. Guardando-a em recipiente fechado, Lemaire s\u00f3 conseguia perceber microorganismos nela depois de 48 horas, e n\u00e3o eram encontradas algumas das bact\u00e9rias encontradas no ar dos quartos.<\/p>\n<p>Lemaire concluiu que a pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o de pessoas saud\u00e1veis produz um miasma, que poderia ser daninho a pessoas fracas. O estudo mostrava tamb\u00e9m a import\u00e2ncia da ventila\u00e7\u00e3o dos quartos, \u00e0 noite.<\/p>\n<p>De certa forma, Lemaire estava se encaminhando na dire\u00e7\u00e3o de nossos conceitos atuais, mas v\u00e1rias de suas id\u00e9ias eram diferentes das que aceitamos. Talvez por n\u00e3o ser um bi\u00f3logo, ele n\u00e3o dava muita import\u00e2ncia \u00e0s diferen\u00e7as entre os microorganismos que observava. Por n\u00e3o ser m\u00e9dico, tamb\u00e9m n\u00e3o percebia grande diferen\u00e7a entre as doen\u00e7as. Em 1868, ele sugeriu que a peste, a febre amarela, a febre intermitente (mal\u00e1ria), o tifo, o c\u00f3lera e v\u00e1rias outras doen\u00e7as transmiss\u00edveis fossem todas de natureza id\u00eantica, mostrando sintomas diferentes apenas por causa de distin\u00e7\u00f5es entre os indiv\u00edduos afetados, suas alimenta\u00e7\u00f5es, etc. Ele considerou que todas essas doen\u00e7as eram de natureza parasit\u00e1ria, produzidas por infus\u00f3rios, pois haviam sido encontrados vibri\u00f5es no sangue de pacientes com todas essas enfermidades.<\/p>\n<p>A teoria de Lemaire era uma moderniza\u00e7\u00e3o da teoria dos miasmas n\u00e3o espec\u00edficos. Ele sup\u00f4s que tanto as mat\u00e9rias em putrefa\u00e7\u00e3o como os pr\u00f3prios homens e animais saud\u00e1veis, produzem continuamente miasmas, com o desprendimento de vegetais e animais microsc\u00f3picos no ar. Esses microorganismos podem entrar em pessoas atrav\u00e9s de v\u00e1rios caminhos (pela respira\u00e7\u00e3o, pela pele, pela ingest\u00e3o de alimentos) e produzir em seu interior um estado de fermenta\u00e7\u00e3o e putrefa\u00e7\u00e3o que causa as doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Lemaire afirma que as emana\u00e7\u00f5es gasosas de qualquer tipo de material org\u00e2nico podre s\u00e3o capazes de produzir doen\u00e7as graves e a morte de animais sadios.<\/p>\n<p>O mesmo resultado \u00e9 obtido pela introdu\u00e7\u00e3o de material em putrefa\u00e7\u00e3o no animal atrav\u00e9s de inocula\u00e7\u00e3o subcut\u00e2nea, inje\u00e7\u00e3o nas veias e introdu\u00e7\u00e3o no tubo digestivo.<\/p>\n<p>Matando-se os microorganismos do material em putrefa\u00e7\u00e3o pelo \u00e1cido f\u00eanico, ele j\u00e1 n\u00e3o produzia mais esses efeitos.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou tamb\u00e9m a surgir nessa \u00e9poca a id\u00e9ia de que as pessoas poderiam se proteger contra as doen\u00e7as ingerindo desinfetantes e antiss\u00e9pticos. Do creosoto e do alcatr\u00e3o, que tinham poder antiss\u00e9ptico, fizeram-se o \u201crum creosotado\u201d e o \u201cconhaque de alcatr\u00e3o\u201d, que foram muito populares no Brasil at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Lemaire encontrava microorganismos por toda parte. Observou bact\u00e9rias e vibri\u00f5es no sangue de doentes com tifo, var\u00edola, antraz, gangrena e outras doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Quando ele pr\u00f3prio teve c\u00f3lera, coletou seus pr\u00f3prios dejetos e depois os observou ao microsc\u00f3pio, observando grande variedade de microorganismos diferentes. Em estado sadio, observou seu pr\u00f3prio corpo em diferentes situa\u00e7\u00f5es, sempre \u00e0 procura desses seres microsc\u00f3picos. Produzindo em si mesmo uma transpira\u00e7\u00e3o abundante, coletou o suor e nele encontrou v\u00e1rias bact\u00e9rias.<\/p>\n<p>Estudou a saliva de sua pr\u00f3pria boca, depois de 8 dias sem qualquer higiene, e nela encontrou uma multid\u00e3o de microorganismos. Estudou uma camiseta de flanela que usou durante quatro dias: ao umidec\u00ea-la e espremer o l\u00edquido tamb\u00e9m encontrou nele diversos seres microsc\u00f3picos.<\/p>\n<p>Lemaire, como outras pessoas da \u00e9poca, aderiu de forma pouco cuidadosa \u00e0 id\u00e9ia de que os microorganismos podem transmitir doen\u00e7as. Durante a d\u00e9cada de 1860, houve uma explos\u00e3o de \u201cdescobertas\u201d de seres microsc\u00f3picos que causavam todas as doen\u00e7as conhecidas. Em 1867, V. Poulet observou infus\u00f3rios no ar expirado por crian\u00e7as com coqueluche: observou bact\u00e9rias e bacilos e sup\u00f4s que eles eram a causa da doen\u00e7a, que parecia ser contagiosa. Mas seu estudo se reduziu a isso.<\/p>\n<p>Nessa fase, os microorganismos n\u00e3o eram isolados, cultivados, nem se testava se eles realmente transmitiam a doen\u00e7a. Poucos foram os casos em que houve sequer uma identifica\u00e7\u00e3o cuidadosa desses microorganismos.<\/p>\n<p>As descri\u00e7\u00f5es de diferentes observadores eram em geral contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p>O bot\u00e2nico Hallier, de Jena, utilizava um m\u00e9todo simples de estudo. Examinava-se ao microsc\u00f3pio as secre\u00e7\u00f5es dos doentes, depois elas eram semeadas em qualquer meio de cultura e o mofo que surgia era declarado causa da doen\u00e7a. Alegou descobrir a causa do c\u00f3lera, da febre tif\u00f3ide, do tifo exantem\u00e1tico, da var\u00edola, etc.<\/p>\n<p>Seus trabalhos foram atacados por De Bary, especialista em plantas inferiores, que mostrou que os mesmos mofos surgiam tamb\u00e9m espontaneamente pelo meio de cultura em contato com o ar, e que n\u00e3o se repetiam sempre os mesmos efeitos quando o teste de Hallier era repetido. Trabalhos como o de Hallier trouxeram descr\u00e9dito desse tipo de explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Havia boas excess\u00f5es. O estudo de afec\u00e7\u00f5es externas produzidas por fungos \u2013 como as micoses \u2013 conseguiu se desenvolver de modo bastante satisfat\u00f3rio. Em 1867, Robert Wreden estudou doen\u00e7as do ouvido humano, encontrando em alguns casos os fungos Aspergillus flavescens e Aspergillus nigricans. Coletou esses fungos e observou que conseguia cultiv\u00e1-los em uma laranja.<\/p>\n<p>Testou sobre os fungos cultivados a a\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias subst\u00e2ncias, para verificar de que modo era poss\u00edvel destru\u00ed-los.<\/p>\n<p>Verificou que o hipoclorito de c\u00e1lcio dilu\u00eddo e o arsenito de pot\u00e1ssio tinham grande poder contra esses fungos, enquanto que outras subst\u00e2ncias recomendadas na \u00e9poca, como o \u00e1lcool, n\u00e3o destruiam os fungos.<\/p>\n<p>Wreden estudou tamb\u00e9m como esses fungos se espalhavam pelo ar. Em um hosp\u00edcio, observou a ocorr\u00eancia desses fungos em pessoas que ocupavam uma sala que tinha uma parede mofada.<\/p>\n<p>Apenas quando a parede foi lavada com solu\u00e7\u00e3o de hipoclorito de c\u00e1lcio, destruindo o mofo, foi poss\u00edvel curar de modo definitivo as pessoas.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, o estudo mais completo e cuidadoso de microorganismos associados a doen\u00e7as foi, sem d\u00favidas, o de Davaine. Ap\u00f3s as investiga\u00e7\u00f5es que j\u00e1 havia realizado sobre o antraz, ele continuou suas pesquisas, aprofundando-as e respondendo a novas obje\u00e7\u00f5es. Apesar de todos os testes que havia feito antes, permanecia a d\u00favida sobre se eram realmente as bact\u00e9rias que produziam o antraz, ou se alguma outra subst\u00e2ncia do sangue poderia ser a verdadeira causa da doen\u00e7a. Davaine injetou sangue de um coelho doente em uma f\u00eamea, no final da gravidez. A coelha ficou doente e morreu, mas o feto n\u00e3o mostrava sinais da doen\u00e7a e n\u00e3o foram encontradas as bact\u00e9rias em seu sangue. \u00c9 o pr\u00f3prio sangue da m\u00e3e que alimenta e permite a oxigena\u00e7\u00e3o do feto.<\/p>\n<p>Davaine percebeu que esse sangue era filtrado pela placenta, n\u00e3o havendo passagem das bact\u00e9rias.<\/p>\n<p>Isso era uma forte indica\u00e7\u00e3o de que a doen\u00e7a era realmente causada por elas e n\u00e3o por alguma subst\u00e2ncia dissolvida no sangue.<\/p>\n<p>Davaine conseguiu depois reproduzir esse mesmo tipo de fen\u00f4meno artificialmente. Para isso, filtrou o sangue de um animal doente em um filtro de porcelana; verificou que o material retido no filtro, que continha as bact\u00e9rias, transmite a doen\u00e7a; o l\u00edquido que atravessa o filtro e que n\u00e3o cont\u00e9m os corp\u00fasculos n\u00e3o transmite o antraz. Era dif\u00edcil objetar a esses novos experimentos.<\/p>\n<p>Em 1869, Davaine desenvolveu, com o aux\u00edlio de A. Raimbert, um estudo sobre a transmiss\u00e3o do antraz. Embora essa doen\u00e7a fosse, na \u00e9poca, mais comum entre os animais, havia uma doen\u00e7a humana semelhante, chamada \u00e0s vezes de \u201cp\u00fastula maligna\u201d. Os trabalhadores dos matadouros e curtumes eram \u00e0s vezes acometidos por essa doen\u00e7a mortal e diziam que ela lhes era transmitida pelas moscas.<\/p>\n<p>Raimbert estudou os v\u00e1rios tipos de moscas que infestavam esses locais.<\/p>\n<p>Algumas delas se alimentavam de sangue, e ele imaginou que podiam ser realmente o ve\u00edculo de transmiss\u00e3o da doen\u00e7a. Fez experimentos em que colocou sangue de animais doentes de antraz em um recipiente, verificando que esse tipo de mosca se alimentava do sangue. Estudou depois as moscas ao microsc\u00f3pio, verificando que fora de seu corpo e no seu interior havia bact\u00e9rias do antraz.<\/p>\n<p>Esmagando diferentes partes do corpo das moscas, fez experimentos de inocula\u00e7\u00e3o em cobaias, que morreram de antraz.<\/p>\n<p>Isso mostrava que as bact\u00e9rias ingeridas pelas moscas mantinham o seu poder e n\u00e3o haviam morrido. O estudo n\u00e3o mostrou, no entanto, que a picada das moscas realmente transmitisse a doen\u00e7a, nem que esse fosse o modo pelo qual a doen\u00e7a era de fato transmitida.<\/p>\n<p>No mesmo ano, Davaine publicou um trabalho comparando os efeitos de inje\u00e7\u00f5es de subst\u00e2ncias podres com inje\u00e7\u00f5es de sangue com antraz. Anteriormente, ele havia conclu\u00eddo que, no caso de subst\u00e2ncias podres, havia simplesmente um veneno, que n\u00e3o se reproduzia no organismo. No entanto, prosseguindo seus estudos, ele se convenceu de que os microorganismos que produziam a putrefa\u00e7\u00e3o de subst\u00e2ncias org\u00e2nicas eram a causa da morte por septicemia. Em seus experimentos, tomou o sangue contido no cora\u00e7\u00e3o de um boi sadio, guardou-o durante dois dias e, quando observou que estava apodrecendo, injetou-o em cobaias. Elas morreram depois de poucos dias, e no seu sangue Davaine observou a presen\u00e7a de muitas bact\u00e9rias diferentes da do antraz: eram filamentos m\u00f3veis, do tipo chamado de \u201cvibri\u00e3o\u201d, enquanto as bact\u00e9rias do antraz eram im\u00f3veis.<\/p>\n<p>Tomando o sangue das cobaias mortas, Davaine o injetou em novas cobaias e observou que era poss\u00edvel transmitir sucessivamente a septicemia. No caso do antraz, uma gota de sangue era suficiente para transmitir a doen\u00e7a; no caso da septicemia, era necess\u00e1ria uma quantidade maior, mas a doen\u00e7a tamb\u00e9m era transmitida.<\/p>\n<p>Note-se como a pesquisa de Davaine era cuidadosa. Ele procurava investigar todos os aspectos, fazer compara\u00e7\u00f5es, identificar os agentes das doen\u00e7as, fazer sucessivas transmiss\u00f5es a animais sadios, etc.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, pode-se dizer que seu trabalho foi exemplar.<\/p>\n<p>Apesar de todos esses cuidados, o trabalho de Davaine n\u00e3o foi suficiente para convencer os mais c\u00e9ticos. Um deles foi o influente pesquisador Claude Bernard (1813-1878).<\/p>\n<p>Bernard aceitava que diferentes microorganismos podem existir e atacar o homem, mas que o ponto essencial \u00e9 o estado interno do organismo, e por isso esses agentes podem estar presentes sem produzir efeito.<\/p>\n<p>Afirmava que os v\u00edrus se desenvolvem muitas vezes no organismo e por isso podem ser considerados mais como produtos da doen\u00e7a do que suas causas.<\/p>\n<p>Acreditava que as bact\u00e9rias do antraz podem se desenvolver espontaneamente no organismo (sem infec\u00e7\u00e3o externa), embora a doen\u00e7a possa tamb\u00e9m ser transmitida de um animal doente para outros.<\/p>\n<p>De certa forma, as d\u00favidas de Bernard n\u00e3o eram razo\u00e1veis, dado o volume de evid\u00eancias apresentadas por Davaine. No entanto, havia uma grande mistura de bons trabalhos com pesquisas fracas e duvidosas, na \u00e9poca. Era dif\u00edcil perceber a diferen\u00e7a entre eles. Quais eram, afinal, os crit\u00e9rios que poderiam discriminar entre uma investiga\u00e7\u00e3o completa, conclusiva, e uma investiga\u00e7\u00e3o incompleta?<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o estava nem um pouco claro. Foi gra\u00e7as ao trabalho de Koch, na d\u00e9cada seguinte, que foram estabelecidos esses crit\u00e9rios.<\/p>\n<p><strong>A INFEC\u00c7\u00c3O DE CORTES E FERIDAS E O M\u00c9TODO ANTI-S\u00c9PTICO DE LISTER<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 medida que se desenvolvia o conhecimento dos microorganismos e de suas rela\u00e7\u00f5es com enfermidades, esses conhecimentos eram tamb\u00e9m aplicados \u00e0 pr\u00e1tica m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Costuma-se considerar que um dos primeiros resultados m\u00e9dicos desses desenvolvimentos foi o trabalho de Joseph Lister (1827-1912) de preven\u00e7\u00e3o de infec\u00e7\u00e3o de ferimentos.<\/p>\n<p>Lister era um cirurgi\u00e3o, que estava estudando as complica\u00e7\u00f5es que ocorriam no tratamento de fraturas expostas. Quando uma pessoa se feria e fraturava um bra\u00e7o ou uma perna, o tratamento era relativamente simples e satisfat\u00f3rio sempre que o dano era apenas interno. No entanto, quando o acidente produzia uma ferida externa (fratura exposta), surgiam infec\u00e7\u00f5es que eram, geralmente, mortais.<\/p>\n<p>Quando era necess\u00e1rio amputar um membro, era quase certa a morte do paciente, pelo mesmo motivo.<\/p>\n<p>Em seu primeiro trabalho, publicado em 1867, Lister descreve as ocorr\u00eancias comuns nesses casos: parecia que o sangue se alterava, ocorrendo uma putrefa\u00e7\u00e3o no local da ferida.<\/p>\n<p>Vinte e quatro horas depois do acidente que ocasionou a fratura, sai da ferida um l\u00edquido ou soro que tem um odor de mat\u00e9ria em decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse odor se torna cada vez mais f\u00e9tido durante os dois ou tr\u00eas dias seguintes, antes do estabelecimento da supura\u00e7\u00e3o, ou seja, do surgimento de pus. A infec\u00e7\u00e3o muitas vezes se espalhava pelo organismo todo, levando \u00e0 morte.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que desde a Antig\u00fcidade as infec\u00e7\u00f5es em feridas eram um importante problema m\u00e9dico. Hip\u00f3crates recomendava secar as feridas, pois \u201co estado seco \u00e9 mais pr\u00f3ximo do estado sadio, e o \u00famido mais pr\u00f3ximo do estado de doen\u00e7a.\u201d Ele recomendava utilizar em feridas recentes o vinagre ou vinho, com subst\u00e2ncias adstringentes (como o al\u00famen).<\/p>\n<p>Celsus adicionou \u00e0s receitas de Hip\u00f3crates o uso de \u00f3leo, mel e ervas como folhas de oliveira ou alo\u00e9s. Galeno recomendava o uso de vinho, al\u00famen, \u00e1gua de cal, decoc\u00e7\u00e3o de plantas adstringentes e vitr\u00edolo (sulfato de cobre) em \u00falceras malignas com putrefa\u00e7\u00e3o. No per\u00edodo medieval, o m\u00e9dico \u00e1rabe Rhazes obteve \u00e1lcool pela destila\u00e7\u00e3o do vinho e o utilizou nas feridas. Albucasis recomendava o uso de cal viva.<\/p>\n<p>Utilizava-se tamb\u00e9m, na Idade M\u00e9dia, a cauteriza\u00e7\u00e3o de feridas com ferro em brasa ou com \u00f3leo fervente. Mas a cauteriza\u00e7\u00e3o e o uso de c\u00e1usticos (como a cal viva) foram praticamente abandonadas no s\u00e9culo XVII, restando apenas as pr\u00e1ticas mais suaves e tradicionais.<\/p>\n<p>Sob o ponto de vista dos conhecimentos atuais, sabemos que v\u00e1rias das subst\u00e2ncias utilizadas eram ben\u00e9ficas para o tratamento de feridas, destruindo ou dificultando a multiplica\u00e7\u00e3o de microorganismos e evitando desse modo as infec\u00e7\u00f5es. Os tratamentos eram emp\u00edricos, mas bastante eficientes.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, o tratamento de feridas com as subst\u00e2ncias tradicionais tamb\u00e9m foi abandonado. Como n\u00e3o se compreendia a natureza da infec\u00e7\u00e3o, nem havia explica\u00e7\u00e3o para os tratamentos utilizados, tudo foi tentado. Alguns autores ingleses recomendavam utilizar-se apenas \u00e1gua nas feridas. Outros, como Broussais, utilizavam \u00f3leo e farinha de linha\u00e7a. Com as tentativas de inovar, certamente os resultados eram piores do que os antigos. Como resultado, as pr\u00e1ticas cir\u00fargicas do s\u00e9culo XIX tornaram-se mais perigosas do que anteriormente.<\/p>\n<p>Lister conta que ocorriam muitos casos de piemia, erisipela e podrid\u00e3o de hospital entre os internados. Na sala de que Lister cuidava, essas \u201cdoen\u00e7as hospitalares\u201d apareciam principalmente quando a sala estava cheia de pessoas com les\u00f5es abertas. Quando havia fraturas sem les\u00e3o externa, ocorria uma diminui\u00e7\u00e3o dessas enfermidades.<\/p>\n<p>\u201cIsso me pareceu ser uma prova evidente de que as emana\u00e7\u00f5es derivadas de escoamentos p\u00fatridos, distintas das que resultam da simples acumula\u00e7\u00e3o de seres humanos, formam a grande causa de insalubridade de um hospital cir\u00fargico.\u201d A situa\u00e7\u00e3o enfrentada por Lister tinha certa semelhan\u00e7a com a febre puerperal estudada por Semmelweis. No entanto, ao inv\u00e9s de supor que a doen\u00e7a podia passar de uma pessoa para outra, ele imaginou que o problema estava no ar.<\/p>\n<p>Lister se convenceu de que \u201ca causa essencial da supura\u00e7\u00e3o nas feridas \u00e9 a decomposi\u00e7\u00e3o produzida pela influ\u00eancia da atmosfera no sangue ou serum retido nela, ou em por\u00e7\u00f5es de tecido destru\u00eddas pelo dano\u201d.<\/p>\n<p>Havia uma antiga cren\u00e7a de que o ar era prejudicial para a cura de feridas. Arnaldo de Villanova, Paracelso e outros m\u00e9dicos do per\u00edodo medieval e do renascimento afirmavam que era preciso proteger as feridas e cortes cir\u00fargicos do ar. No s\u00e9culo XVI, Joseph du Chesne recomendava lavar as feridas com \u00e1gua, tratando-as tamb\u00e9m com vinagre e \u00f3leo. Justificava esse uso dizendo que o vinagre serve para proteger alimentos contra o mofo e a putrefa\u00e7\u00e3o, tendo igual papel nas feridas; e que o \u00f3leo impedia que o ar entrasse na ferida, protegendo-a da corrup\u00e7\u00e3o. Na mesma \u00e9poca, Ambroise Par\u00e9 indica a import\u00e2ncia de costurar as grandes feridas, unindo suas bordas, para \u201cproteger da altera\u00e7\u00e3o do ar, que prejudica as feridas\u201d. Em torno de 1600, havia um consenso dos m\u00e9dicos, que acreditavam que o ar produzia complica\u00e7\u00f5es e gangrena; mas ningu\u00e9m sabia o motivo disso.<\/p>\n<p>Lister se pergunta como a atmosfera pode levar \u00e0 decomposi\u00e7\u00e3o das subst\u00e2ncias. Ele estava razoavelmente informado sobre as pesquisas recentes.<\/p>\n<p>Sabia que n\u00e3o \u00e9 o oxig\u00eanio que produz esse efeito e sim certas part\u00edculas que flutuam no ar, que s\u00e3o os germes de seres inferiores vis\u00edveis ao microsc\u00f3pio. Lister associou os estudos de Pasteur \u00e0s infec\u00e7\u00f5es, imaginando que os germes da atmosfera penetravam nas feridas e l\u00e1 se multiplicavam e produziam a altera\u00e7\u00e3o do sangue, a putrefa\u00e7\u00e3o, o cheiro e o pus.<\/p>\n<p>O hospital de Lister ficava ao lado de um campo onde, pouco antes, haviam sido enterrados cad\u00e1veres de col\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Lister sup\u00f4s que as complica\u00e7\u00f5es graves das feridas dependiam dos germes provenientes do cemit\u00e9rio, que poderiam ser transportados pelo ar. Elas ocasionariam uma putrefa\u00e7\u00e3o, cujos produtos envenenariam o organismo.<\/p>\n<p>Na verdade, as id\u00e9ias de Lister estavam pr\u00f3ximas das de Lemaire, de um miasma n\u00e3o espec\u00edfico associado a microorganismos produzidos pela putrefa\u00e7\u00e3o. Mas Lister n\u00e3o cita os trabalhos de Lemaire.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos imaginar que o passo seguinte deveria ser o estudo microsc\u00f3pico do l\u00edquido que surgia nas feridas, para verificar se continha microorganismos.<\/p>\n<p>Esse seria o procedimento natural de um pesquisador que estivesse investigando a causa da infec\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o foi isso que Lister fez. Ele n\u00e3o era um microscopista e sim um cirurgi\u00e3o. Seu interesse era pr\u00e1tico e n\u00e3o te\u00f3rico. Ele n\u00e3o procurou testar diretamente essa hip\u00f3tese. Lister a aceitou e partiu da id\u00e9ia dos germes do ar para desenvolver um m\u00e9todo adequado para evitar as infec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Partindo de sua hip\u00f3tese, Lister procurou um modo de tratar das feridas com uma subst\u00e2ncia capaz de matar esses germes e impedir a putrefa\u00e7\u00e3o. A subst\u00e2ncia n\u00e3o poderia ter uma a\u00e7\u00e3o c\u00e1ustica muito violenta, pois iria ser aplicada em uma ferida aberta.<\/p>\n<p>Nas d\u00e9cadas anterior, haviam sido feitos v\u00e1rios estudos sobre subst\u00e2ncias antiss\u00e9pticas (ou seja, que impedem ou dificultam a putrefa\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Fazia-se testes colocando carne ou outros materiais animais e vegetais em diferentes l\u00edquidos e comparando-os para verificar o surgimento da decomposi\u00e7\u00e3o do material.<\/p>\n<p>Estudou-se o vinho, \u00e1lcool, \u00f3leo de terebentina, sal amon\u00edaco, salitre, b\u00f3rax, al\u00famen, alo\u00e9s, mirra e outras subst\u00e2ncias. Magendie e Duroy observaram o grande poder da tintura de iodo na conserva\u00e7\u00e3o de carne, sangue e outros materiais. Angus Smith testou v\u00e1rios gases, observando o poder antiss\u00e9ptico do cloro, bromo, iodo, \u00e1cido clor\u00eddrigo, \u00e1cido sulfuroso e \u00e9ter. Todas essas pesquisas observavam a putrefa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o estudavam seus aspectos microsc\u00f3picos. Autores posteriores testaram o efeito de subst\u00e2ncias sobre os pr\u00f3prios microorganismos.<\/p>\n<p>Lister escolheu a subst\u00e2ncia antiss\u00e9ptica mais poderosa que conhecia e que n\u00e3o produzia muita irrita\u00e7\u00e3o nos tecidos vivos: o \u00e1cido f\u00eanico ou carb\u00f3lico, que havia sido estudado por Lemaire.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio j\u00e1 havia recomendado essa subst\u00e2ncia para evitar a gangrena. No entanto, novamente, Lister parece ter escolhido esse antiss\u00e9ptico sem conhecer os estudos daquele pesquisador, pois afirma:<\/p>\n<p>Durante o decorrer do ano de 1864 fui impressionado pela leitura de um relat\u00f3rio sobre os efeitos not\u00e1veis do \u00e1cido f\u00eanico sobre as \u00e1guas de esgoto da cidade de Carlisle.<\/p>\n<p>A adi\u00e7\u00e3o de uma quantidade muito pequena de \u00e1cido f\u00eanico a essas \u00e1guas retirava todo odor f\u00e9tido \u00e0s \u00e1guas de irriga\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 destruia os entozo\u00e1rios que infestavam ordinariamente os animais que se alimentavam nessas pastagens.<\/p>\n<p>Pareceu-lhe que um antis\u00e9ptico t\u00e3o poderoso poderia ser conveniente para experimentos sobre o assunto. Resolveu assim aplicar \u00e1cido f\u00eanico em fraturas complicadas. A primeira tentativa, realizada na Enfermaria Real de Glasgow, em mar\u00e7o de 1865, foi um insucesso: a ferida se infeccionou e o paciente morreu.<\/p>\n<p>As tentativas seguintes foram bem sucedidas<\/p>\n<p>O procedimento inicialmente utilizado por Lister consistia em embeber um pano em \u00e1cido f\u00eanico puro (\u00e1cido cristalizado, dilu\u00eddo em pouca \u00e1gua), que era introduzido com uma pin\u00e7a na ferida.<\/p>\n<p>Lister colocava sobre a ferida um pequeno peda\u00e7o de tecido tamb\u00e9m embebido em \u00e1cido f\u00eanico, e recobria tudo com uma tampa de em metal male\u00e1vel (estanho), para evitar a evapora\u00e7\u00e3o do \u00e1cido e reduzir o contato com o ar. Em feridas grandes, usou uma pasta feita de gesso, \u00e1cido f\u00eanico e \u00f3leo de linha\u00e7a (uma parte de \u00e1cido para tr\u00eas de \u00f3leo).<\/p>\n<p>Depois que Lister come\u00e7ou a usar o m\u00e9todo antiss\u00e9ptico, n\u00e3o ocorreu mais nenhum caso de piemia em 36 fraturas abertas tratadas. Antes da introdu\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo antiss\u00e9ptico, nos anos de 1864 e 1866, houve respectivamente 17 e 18 amputa\u00e7\u00f5es, com 10 e 9 curas, havendo 7 e 9 mortes (a metade dos casos, quase). Durante o per\u00edodo antiss\u00e9ptico, os resultados foram muito melhores. Em 1867, houve 7 amputa\u00e7\u00f5es, todas bem sucedidas; em 1868, 17 amputa\u00e7\u00f5es, com 3 mortes; em 1869, 16 amputa\u00e7\u00f5es, com 3 mortes.<\/p>\n<p>As feridas assim tratadas n\u00e3o se infeccionavam, mas o m\u00e9todo n\u00e3o era adequado. O \u00e1cido puro utilizado por Lister produzia grande irrita\u00e7\u00e3o dos tecidos, dificultando a cicatriza\u00e7\u00e3o. Aos poucos, ele foi alterando o procedimento e utilizando o \u00e1cido mais dilu\u00eddo. Em per\u00edodos posteriores, fixou-se na concentra\u00e7\u00e3o de uma parte do \u00e1cido para 40 partes de \u00e1gua.<\/p>\n<p>Em 1871, o procedimento utilizado j\u00e1 era bastante diferente. As feridas eram lavadas com \u00e1gua clorada, solu\u00e7\u00e3o de \u00e1cido sulfuroso, \u00e1cido f\u00eanico ou cloreto de alum\u00ednio.<\/p>\n<p>Colocava-se sobre o ferimento uma gaze antiss\u00e9ptica, desenvolvida por ele, impregnada por \u00e1cido f\u00eanico e recoberta por uma fina camada de resina, que diminu\u00eda o efeito irritante do \u00e1cido. Por cima da gaze, ele colocava um tecido impermeabilizado com borracha, para evitar todo contato com o ar.<\/p>\n<p>No caso de cirurgias, as m\u00e3os, instrumentos e objetos utilizados eram todos desinfetados com \u00e1cido f\u00eanico na concentra\u00e7\u00e3o de 1\/40 ou 1\/20. Al\u00e9m disso, durante todo o tempo da cirurgia, era feita uma pulveriza\u00e7\u00e3o de \u00e1cido f\u00eanico dilu\u00eddo sobre o local da opera\u00e7\u00e3o. O objetivo era formar uma \u201catmosfera antiss\u00e9ptica\u201d capaz de destruir todos os germes do ar, para que eles n\u00e3o pudessem infectar o corte cir\u00fargico. Inicialmente, eram utilizadas pequenas bombas pulverizadoras manuais. Mas Lister considerava t\u00e3o importante essa \u201catmosfera antiss\u00e9ptica\u201d, que desenvolveu um novo tipo de pulverisador autom\u00e1tico, a vapor, capaz de produzir uma nuvem cont\u00ednua de \u00e1cido f\u00eanico sobre o local da cirurgia.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo de Lister foi adotado em outros locais, com sucesso. Em M\u00fcnchen, no ano de 1874, a gangrena havia atingido 80% de todas as feridas, fossem acidentais ou cir\u00fargicas, tratadas no hospital. No in\u00edcio de 1875, foi introduzido o m\u00e9todo antiss\u00e9ptico, e n\u00e3o houve mais casos de gangrena. A piemia desapareceu, a erisipela era rara e, quando existia, era leve.<\/p>\n<p>Apesar da boa repercuss\u00e3o inicial, o trabalho de Lister logo foi criticado.<\/p>\n<p>O professor L\u00e9on le Fort rejeitou, em 1882, as id\u00e9ias de Lister. Ele notou que muitos cirurgi\u00f5es que n\u00e3o protegiam as feridas do ar tinham tanto sucesso quanto Lister. Em Zurich, o cirurgi\u00e3o Rose salvava 83% dos amputados, usando curativos abertos. Portanto, a tampa protetora de metal ou borracha utilizada por Lister parecia desnecess\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de acreditar na infec\u00e7\u00e3o pelo ar, Le Fort sup\u00f5e que poderia ocorrer um cont\u00e1gio, pelos instrumentos, esponjas de limpeza, m\u00e3os e objetos necess\u00e1rios ao curativo. Cuidando-se da limpeza dessas coisas, tornava-se desnecess\u00e1ria a prote\u00e7\u00e3o contra o ar.<\/p>\n<p>Deve-se aqui assinalar um aspecto das cirurgias da \u00e9poca que pode nos parecer inacredit\u00e1vel, mas \u00e9 real. As feridas acidentais, as p\u00fastulas, os cortes cir\u00fargicos e todas as outras afec\u00e7\u00f5es externas dos doentes dos hospitais eram lavadas, para se fazer curativos. Para lavar as feridas, utilizava-se uma esponja e uma bacia com \u00e1gua. A mesma bacia, a mesma esponja e a mesma \u00e1gua eram utilizadas para todos os pacientes, passando de cama para cama sem qualquer tipo de desinfec\u00e7\u00e3o. Apenas na d\u00e9cada de 1860, o m\u00e9dico norte americano William Morton prop\u00f4s o uso de um dispositivo port\u00e1til que permitia lavar as feridas em \u00e1gua corrente. Pode-se perceber que, nessa \u00e9poca, havia problemas muito mais graves nos hospitais do que a transmiss\u00e3o de germes pelo ar.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 pulveriza\u00e7\u00e3o de \u00e1cido durante a cirurgia, ela tamb\u00e9m foi duramente criticada: parecia ter um papel m\u00ednimo, ou ser in\u00fatil. Desde que fossem tomados os cuidados de limpeza, as cirurgias eram seguras, sem que fose utilizada a pulveriza\u00e7\u00e3o. Os aparelhos desenvolvidos por Lister eram custosos, al\u00e9m de tornar a cirurgia muito inc\u00f4moda: tudo ficava molhado, o paciente ficava frio, a vis\u00e3o do local operado ficava mais dif\u00edcil. A pr\u00e1tica de pulveriza\u00e7\u00e3o acabou por desaparecer, mantendo-se a mesma estat\u00edstica de sucesso.<\/p>\n<p>Embora o \u00e1cido f\u00eanico parecesse adequado para a desinfec\u00e7\u00e3o das m\u00e3os e de objetos como as esponjas de limpeza, muitos preferiam a desinfec\u00e7\u00e3o dos outros instrumentos pelo fogo ou pelo aquecimento em vapor ou estufas, de acordo com o m\u00e9todo desenvolvido a partir de 1880 por Octave Terrillon em Paris e Schimmelbusch em Berlim.<\/p>\n<p>Para uso local nas feridas, o \u00e1cido f\u00eanico foi em geral substitu\u00eddo por outros antis-s\u00e9pticos, como a solu\u00e7\u00e3o de iodo, a \u00e1gua oxigenada, compostos de merc\u00fario.<\/p>\n<p>O estudo microsc\u00f3pico, ao inv\u00e9s de fortalecer o trabalho de Lister, trouxe uma nova cr\u00edtica: nos seus curativos eram encontrados todos os tipos de microorganismos.<\/p>\n<p>Aos poucos, todos os aspectos do trabalho de Lister foram sendo criticados \u2013 com bons argumentos e total raz\u00e3o. \u00c9 dif\u00edcil indicar algo que tenha sido mantido, de sua proposta inicial. A hip\u00f3tese b\u00e1sica de Lister, fundamentada no trabalho de Pasteur (ou talvez dev\u00eassemos dizer: nas pesquisas de Lemaire), era de que a causa das infec\u00e7\u00f5es das feridas e cortes cir\u00fargicos eram germes que vinham do ar.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia mostrou que a grande fonte de germes eram os instrumentos e m\u00e3os dos m\u00e9dicos e enfermeiras e por isso as pulveriza\u00e7\u00f5es e coberturas dos curativos foram abandonados.<\/p>\n<p>Lister acreditou na necessidade de utilizar antiss\u00e9pticos fort\u00edssimos nas feridas e curativos, para impedir sua infec\u00e7\u00e3o. Posteriormente, preferiu-se utilizar nas feridas antiss\u00e9pticos mais brandos, e gazes esterilizadas, mas sem antiss\u00e9ptico. O \u00e1cido f\u00eanico foi abandonado, substitu\u00eddo por outras subst\u00e2ncias. Ao inv\u00e9s de destruir os germes causadores da putrefa\u00e7\u00e3o (antissepsia), passou-se a adotar medidas que evitavam a presen\u00e7a desses germes (assepsia).<\/p>\n<p>O golpe final contra as propostas de Lister veio, por ironia, do pr\u00f3prio Louis Pasteur, que sempre divulgou e deu apoio a Lister. Depois de muitas tentativas, Pasteur conseguiu identificar e isolar o microorganismo causador das infec\u00e7\u00f5es mais graves \u2013 da septicemia. Descobriu ent\u00e3o que se tratava de um vibri\u00e3o anaer\u00f3bico \u2013 ou seja, que vive e se reproduz sem contato com o ar, sendo destru\u00eddo pelo oxig\u00eanio. A conclus\u00e3o imediata dessa descoberta \u00e9 que os cuidados tomados por Lister para evitar o contato entre o ar e a ferida eram prejudiciais, pois protegiam os vibri\u00f5es contra o oxig\u00eanio que poderia destru\u00ed-los.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que, na segunda metade do s\u00e9culo XIX, houve uma revolu\u00e7\u00e3o nos m\u00e9todos utilizados nos hospitais, levando \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de infec\u00e7\u00f5es hospitalares.<\/p>\n<p>Afinal, o que restou do trabalho de Lister? Muito pouco ou talvez nada. Lister foi mais um s\u00edmbolo de um movimento do que um descobridor da profilaxia da infec\u00e7\u00e3o hospitalar. Por sua influ\u00eancia, estimulou outros m\u00e9dicos a estudarem o problema e desenvolverem os m\u00e9todos que depois se tornaram aceitos por todos.<\/p>\n<p>Por mais que simpatizemos e admiremos a tentativa de Lister, n\u00e3o foi ele quem chegou a uma compreens\u00e3o das infec\u00e7\u00f5es nem quem desenvolveu os m\u00e9todos preventivos adequados.<\/p>\n<p>Trata-se de um caso muito diferente do de Semmelweis. Este conseguiu desenvolver um m\u00e9todo para evitar a propaga\u00e7\u00e3o da febre puerperal, partindo de estudos bastante cuidadosos e de an\u00e1lises que podemos considerar como corretas. Lister partiu de meras hip\u00f3teses e analogias que depois se verificou serem incorretas, e desenvolveu m\u00e9todos pouco adequados para a preven\u00e7\u00e3o das infec\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Apesar disso, por fatores dif\u00edceis de entender, Lister foi bastante respeitado e homenageado durante sua vida, embora todos abandonassem seus m\u00e9todos e suas id\u00e9ias.<\/p>\n<p>Ele \u00e9 lembrado at\u00e9 hoje como o suposto descobridor da causa e dos m\u00e9todos de preven\u00e7\u00e3o das infec\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas. Semmelweis, pelo contr\u00e1rio, foi atacado e esquecido, embora seus m\u00e9todos fossem depois, gradualmente, adotados por todos.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO 11: APERFEI\u00c7OAMENTO E DIFICULDADES DA TEORIA MICROBIANA<\/strong><\/p>\n<p><strong>AS BACT\u00c9RIAS CAUSADORA DE DOEN\u00c7AS E OS POSTULADOS DE KOCH<\/strong><\/p>\n<p>O avan\u00e7o cient\u00edfico \u00e9 gradual e recebe contribui\u00e7\u00f5es de muitas pessoas que s\u00e3o desconhecidas pela hist\u00f3ria. Raramente se pode dizer que um indiv\u00edduo isolado foi respons\u00e1vel por algum passo significativo. No entanto, h\u00e1 certo consenso de que Robert Koch (1843-1910) foi a pessoa que mais contribuiu para criar uma bacteriologia cient\u00edfica, no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Koch foi um m\u00e9dico que, formando-se em 1866, tornou-se um cl\u00ednico rural. Em 1871, fixou-se em Wollstein, uma cidade com 2.000 habitantes. No seu tempo vago, Koch realizava estudos em um laborat\u00f3rio que montou em sua pr\u00f3pria casa. Ele havia sido aluno de Henle que, como vimos, defendeu na d\u00e9cada de 1840 que as doen\u00e7as contagiosas eram causadas por seres vivos microsc\u00f3picos. Koch aceitava essa id\u00e9ia e conhecia os trabalhos que haviam se desenvolvido na d\u00e9cada de 1860. Pensava, no entanto, que Pasteur e outros pesquisadores eram muito apressados, tiravam suas conclus\u00f5es sem o rigor necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o em que Koch morava, o antraz era uma enfermidade conhecida. Com um microsc\u00f3pio que comprou, Koch estudou essa enfermidade, repetindo inicialmente alguns passos b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>Estudou o sangue de animais doentes mortos e sempre encontrou neles os mesmos bacilos. Estudou o sangue de animais sadios e verificou que nunca encontrava esses bacilos.<\/p>\n<p>Realizou, em seguida, testes de transmiss\u00e3o da enfermidade, com ratos. Fez uma pequena incis\u00e3o na raiz da cauda dos animais, esfregando um pouco de sangue de antraz na ferida. No dia seguinte, o rato estava morto.<\/p>\n<p>O sangue do animal morto estava cheio de bacilos, que pareciam ter se multiplicado. Koch usou o sangue do primeiro rato aplicando-o em um segundo, com o mesmo resultado. Faz uma s\u00e9rie de 30 transmiss\u00f5es sucessivas, para se convencer de que o efeito era sempre o mesmo.<\/p>\n<p>At\u00e9 a\u00ed, o trabalho de Koch nada tinha de novo. No entanto, para poder provar que eram esses bacilos que produziam a doen\u00e7a e n\u00e3o qualquer outra subst\u00e2ncia ou microorganismo invis\u00edvel, Koch sentiu a necessidade de isol\u00e1-los do organismo animal.<\/p>\n<p>Se aqueles seres eram realmente vivos, devia ser poss\u00edvel fazer com que eles se reproduzissem em uma cultura. Koch testou v\u00e1rios meios de cultura, utilizando as subst\u00e2ncias a seu dispor e refinando os meios de impedir que a cultura fosse contaminada por outros microorganismos.<\/p>\n<p>Acabou por desenvolver uma t\u00e9cnica de manter uma gota l\u00edquida entre duas placas de vidro. Colocando um pouco do sangue contaminado nesse material e mantendo a temperatura adequada, Koch foi capaz de observar, ao microsc\u00f3pio, a reprodu\u00e7\u00e3o dos bacilos.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s permitir a reprodu\u00e7\u00e3o dos microorganismos, Koch dilu\u00eda o l\u00edquido e separava uma parte para novo processo de crescimento dos bacilos, de tal forma que as outras subst\u00e2ncias do sangue que estavam presentes inicialmente ficassem cada vez mais dilu\u00eddas. Apesar disso, o l\u00edquido sempre produzia os mesmos efeitos nos ratos: eles morriam e seu sangue se mostrava repleto dos mesmos microorganismos.<\/p>\n<p>O estudo de Koch tinha um aspecto que faltava \u00e0s pesquisas de Davaine: ele conseguia estudar os microorganismos em um meio de cultura, fora dos animais, conseguia reproduzi-los, isol\u00e1-los de outras subst\u00e2ncias ou microorganismos, e provocar a doen\u00e7a com esse material.<\/p>\n<p>Com a adi\u00e7\u00e3o desse novo passo, Koch desenvolveu um m\u00e9todo de estudos que lhe pareceu protegido contra qualquer cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Seria poss\u00edvel afirmar que um microorganismo \u00e9 a causa de uma doen\u00e7a nas seguintes condi\u00e7\u00f5es: o mesmo parasita deve encontrar-se em todos os casos da doen\u00e7a; ele n\u00e3o deve ocorrer em qualquer outra enfermidade por acaso, nem como parasita n\u00e3o patog\u00eanico; deve ser poss\u00edvel cultiv\u00e1-lo e isol\u00e1-lo inteiramente, mantendo-o em cultura pura; deve ser poss\u00edvel reproduzir com essa cultura a doen\u00e7a em animais de laborat\u00f3rio; ele deve ser obtido novamente a partir do animal inoculado.<\/p>\n<p>Essas regras j\u00e1 haviam sido sugeridas pelo pr\u00f3prio Henle, trinta anos antes. Mas ningu\u00e9m, antes de Koch, havia sequer tentado completar todos esses passos da pesquisa. Por isso, o estudo do antraz por Koch, publicado em 1876, pode ser considerado como uma revolu\u00e7\u00e3o no estudo cient\u00edfico das enfermidades produzidas por microorganismos.<\/p>\n<p>Em 1890, Koch apresentou uma confer\u00eancia, em que fez coment\u00e1rios sobre o surgimento da bacteriologia cient\u00edfica:<\/p>\n<p>A bacteriologia \u00e9 uma ci\u00eancia muito jovem \u2013 pelo menos no que se refere a n\u00f3s, os m\u00e9dicos. Cerca de 15 anos atr\u00e1s, sabia-se sobre esse assunto quase nada al\u00e9m disto: em casos de antraz e febre recorrente, foram encontrados no sangue certos objetos peculiares, estranhos; e os chamados vibri\u00f5es ocorrem em casos de doen\u00e7as infecciosas de feridas.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia sido fornecida prova de que esses objetos eram a causa das doen\u00e7as respectivas e, com a excess\u00e3o de uns poucos investigadores, que eram considerados como sonhadores, as pessoas os consideravam mais como curiosidades do que como poss\u00edveis causas de enfermidade.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de que os microorganismos podem ser a causa de doen\u00e7as infecciosas j\u00e1 havia sido expressa muito tempo atr\u00e1s por alguns poucos homens, mas a maioria n\u00e3o aceitou a sugest\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, as primeiras descobertas nessa dire\u00e7\u00e3o foram consideradas por eles com ceticismo.<\/p>\n<p>Portanto era ainda mais essencial oferecer de in\u00edcio uma evid\u00eancia irrefut\u00e1vel de que os microorganismos encontrados no caso de uma certa doen\u00e7a s\u00e3o realmente sua causa.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca ainda se fazia corretamente a obje\u00e7\u00e3o de que poderia haver apenas uma coincid\u00eancia acidental entre o microorganismo e a enfermidade e que eles n\u00e3o teriam o papel de parasitas perigosos, mas apenas de [parasitas] in\u00f3cuos, que encontraram em \u00f3rg\u00e3os doentes as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia necess\u00e1rias que n\u00e3o lhes eram oferecidas no corpo sadio. Muitas pessoas admitiram, de fato, as propriedades patog\u00eanicas das bact\u00e9rias, mas consideravam poss\u00edvel que elas tivessem se originado de outros microorganismos in\u00f3cuos, presentes acidentalmente ou regularmente no corpo, tornando-se patog\u00eanicos sob a influ\u00eancia do processo da enfermidade.<\/p>\n<p>Essas regras j\u00e1 haviam sido sugeridas pelo pr\u00f3prio Henle, trinta anos antes. Mas ningu\u00e9m, antes de Koch, havia sequer tentado completar todos esses passos da pesquisa. Por isso, o estudo do antraz por Koch, publicado em 1876, pode ser considerado como uma revolu\u00e7\u00e3o no estudo cient\u00edfico das enfermidades produzidas por microorganismos.<\/p>\n<p>Em 1890, Koch apresentou uma confer\u00eancia, em que fez coment\u00e1rios sobre o surgimento da bacteriologia cient\u00edfica:<\/p>\n<p>A bacteriologia \u00e9 uma ci\u00eancia muito jovem \u2013 pelo menos no que se refere a n\u00f3s, os m\u00e9dicos. Cerca de 15 anos atr\u00e1s, sabia-se sobre esse assunto quase nada al\u00e9m disto: em casos de antraz e febre recorrente, foram encontrados no sangue certos objetos peculiares, estranhos; e os chamados vibri\u00f5es ocorrem em casos de doen\u00e7as infecciosas de feridas.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia sido fornecida prova de que esses objetos eram a causa das doen\u00e7as respectivas e, com a excess\u00e3o de uns poucos investigadores, que eram considerados como sonhadores, as pessoas os consideravam mais como curiosidades do que como poss\u00edveis causas de enfermidade.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de que os microorganismos podem ser a causa de doen\u00e7as infecciosas j\u00e1 havia sido expressa muito tempo atr\u00e1s por alguns poucos homens, mas a maioria n\u00e3o aceitou a sugest\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, as primeiras descobertas nessa dire\u00e7\u00e3o foram consideradas por eles com ceticismo.<\/p>\n<p>Portanto era ainda mais essencial oferecer de in\u00edcio uma evid\u00eancia irrefut\u00e1vel de que os microorganismos encontrados no caso de uma certa doen\u00e7a s\u00e3o realmente sua causa.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca ainda se fazia corretamente a obje\u00e7\u00e3o de que poderia haver apenas uma coincid\u00eancia acidental entre o microorganismo e a enfermidade e que eles n\u00e3o teriam o papel de parasitas perigosos, mas apenas de [parasitas] in\u00f3cuos, que encontraram em \u00f3rg\u00e3os doentes as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia necess\u00e1rias que n\u00e3o lhes eram oferecidas no corpo sadio. Muitas pessoas admitiram, de fato, as propriedades patog\u00eanicas das bact\u00e9rias, mas consideravam poss\u00edvel que elas tivessem se originado de outros microorganismos in\u00f3cuos, presentes acidentalmente ou regularmente no corpo, tornando-se patog\u00eanicos sob a influ\u00eancia do processo da enfermidade.<\/p>\n<p>Mas se puder ser provado:<\/p>\n<blockquote><p><strong>Primeiro<\/strong>, que o parasita \u00e9 encontrado em cada caso da doen\u00e7a em quest\u00e3o, e sob condi\u00e7\u00f5es correspondentes \u00e0s mudan\u00e7as patol\u00f3gicas e ao caminho cl\u00ednico da enfermidade;<strong><br \/>\nSegundo<\/strong>, que n\u00e3o ocorre em outra doen\u00e7a como um parasita acidental e n\u00e3o patog\u00eanico;<\/p><\/blockquote>\n<p>Terceiro, que quando isolado do corpo e propagado atrav\u00e9s de um n\u00famero suficiente de culturas puras, pode produzir novamente a enfermidade, ent\u00e3o, nessas circunst\u00e2ncias, o micr\u00f3bio n\u00e3o pode ser um acompanhante acidental da doen\u00e7a, e n\u00e3o se pode conceber que o parasita tenha outra rela\u00e7\u00e3o com a doen\u00e7a, exceto ser sua causa.<\/p>\n<p>Essas regras constituem os \u201cpostulados de Koch\u201d, que logo se divulgaram e criaram um novo padr\u00e3o na pesquisa microbiol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O antraz foi a primeira doen\u00e7a para a qual Koch foi capaz de desenvolver a cadeia completa de prova. Havia muitas dificuldades nesse tipo de trabalho.<\/p>\n<p>A primeira era a investiga\u00e7\u00e3o cuidadosa dos pr\u00f3prios microorganismos, de tal modo a poder identific\u00e1-los e diferenci\u00e1-los claramente uns dos outros. Isso s\u00f3 foi poss\u00edvel com o avan\u00e7o da microscopia, com melhores lentes, e com o uso de corantes de diferentes tipos, que permitem observar a estrutura de cada organismo.<\/p>\n<p>Assim, v\u00e1rias bact\u00e9rias que pareciam iguais foram distinguidas. O pr\u00f3prio Koch deu grande contribui\u00e7\u00e3o \u00e0s t\u00e9cnicas microbiol\u00f3gicas de observa\u00e7\u00e3o. Ele desenvolveu novos processos de ilumina\u00e7\u00e3o dos microsc\u00f3pios; introduziu a colora\u00e7\u00e3o de bact\u00e9rias por anilinas; desenvolveu um m\u00e9todo de fotografia microsc\u00f3pica e o exame com lente de imers\u00e3o. \u00c9 claro que outras pessoas, ao mesmo tempo, deram importantes contribui\u00e7\u00f5es, mas Koch ajudou muito no desenvolvimento de t\u00e9cnicas adequadas para observa\u00e7\u00e3o, descri\u00e7\u00e3o e registro dos microorganismos.<\/p>\n<p>Por outro lado, era necess\u00e1rio separar e cultivar os diferentes tipos de microorganismos. O desenvolvimento de culturas puras (sem misturas) era muito dif\u00edcil. Era preciso fazer muitas tentativas at\u00e9 descobrir o meio (s\u00f3lido ou l\u00edquido) no qual cada tipo de microorganismo se desenvolvia e reproduzia. Koch testava todo tipo de subst\u00e2ncias que conseguia imaginar para o cultivo das bact\u00e9rias: rodelas de batata, o l\u00edquido do interior do olho de um boi, \u00e1gar, etc. Descobriu que, utilizando um meio de cultura s\u00f3lido, formavam-se pequenas col\u00f4nias separadas, sem mistura, conseguindo ent\u00e3o isolar as bact\u00e9rias que estava estudando.<\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m de um estudo cuidadoso dos pr\u00f3prios microorganismos, era sobretudo necess\u00e1rio mostrar que eles eram a causa das enfermidades, pois muitos alegavam que se tratava apenas de um efeito da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Por isso, o \u00faltimo passo \u2013 utilizar uma cultura pura e conseguir produzir a enfermidade com ela \u2013 era um elemento essencial do m\u00e9todo de Koch.<\/p>\n<p>Foram necess\u00e1rios mais dois anos para que Koch conseguisse identificar um outro tipo de microorganismo patog\u00eanico: o causador da infec\u00e7\u00e3o das feridas (septicemia).<\/p>\n<p>Tentativas anteriores de estudo desse microorganismo haviam falhado pela dificuldade em obter culturas puras. Havia sido at\u00e9 mesmo proposta a id\u00e9ia de que as bact\u00e9rias se transformavam em diferentes tipos (polimorfismo). O trabalho de Koch aniquilou essa suposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1880, Koch identificou o agente causador de uma das mais importantes doen\u00e7as da \u00e9poca: a tuberculose.<\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo XIX, embora as medidas de higiene tivessem reduzido muito v\u00e1rias doen\u00e7as, a tuberculose resistia a tudo e desafiava a Medicina. Como vimos, na d\u00e9cada de 1860 Pasteur acreditava, como outros, que se tratava de uma enfermidade heredit\u00e1ria. Outros achavam que sua causa era a exposi\u00e7\u00e3o a um ar insalubre. Um terceiro grupo pensava que era uma doen\u00e7a transmiss\u00edvel.<\/p>\n<p>Desde o s\u00e9culo XVIII, houve tentativas de transmitir a tuberculose por inocula\u00e7\u00e3o, sem resultado. Em 1843, Klencke induziu tuberculose dos pulm\u00f5es e f\u00edgado em coelhos, por inocula\u00e7\u00e3o de material tirado de tub\u00e9rculos do homem, injetados nas veias do pesco\u00e7o. Em 1865, Jean-Antoine Villemin (1827-1892) fez importantes estudos, inoculando material tirado de tub\u00e9rculos de cad\u00e1veres humanos em diversos animais. Observou que apenas o macaco, a vaca e o coelho adquiriam a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Conseguiu tamb\u00e9m transferir a tuberculose de um animal vivo para outro. No entanto, tentativas realizadas por outros pesquisadores produziam efeitos semelhantes injetando em animais outras subst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o era confusa.<\/p>\n<p>Uma t\u00e9cnica especial de estudo foi desenvolvida por Julius Cohnheim (1839-1884). Depois de v\u00e1rias tentativas, ele inoculou com material tirado de tub\u00e9rculos humanos o olho de coelhos vivos. Observou que, depois de um certo tempo de incuba\u00e7\u00e3o, havia o surgimento de n\u00f3dulos na \u00edris. Eles cresciam, tornando-se vis\u00edveis a olho nu, sem que nenhum outro sinal fosse notado. Depois, a enfermidade se espalha pelo corpo, atingindo as gl\u00e2ndulas linf\u00e1ticas, pulm\u00f5es, p\u00e2ncreas, f\u00edgado e rins, acabando por produzir a morte do animal. Ao fazer a inocula\u00e7\u00e3o com outras subst\u00e2ncias, s\u00f3 ocorria uma irrita\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria. Assim, estabeleceu-se que a tuberculose era transmiss\u00edvel e que era poss\u00edvel diferen\u00e7i\u00e1-la de outros processos semelhantes. Mas n\u00e3o se sabia ainda qual o agente que produzia a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o era apenas descobrir algum microorganismo presente nos doentes: eram descobertos v\u00e1rios diferentes. Era necess\u00e1rio isol\u00e1-los, cultiv\u00e1-los e test\u00e1-los, seguindo o m\u00e9todo de Koch.<\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio comentou:<\/p>\n<p>Julgando os resultados que foram atingido recentemente sobre a etiologia de muitas doen\u00e7as infecciosas, pareceu prov\u00e1vel que a causa da tuberculose tamb\u00e9m pudesse ser encontrada em algum microorganismo.<\/p>\n<p>Para chegar a alguma conclus\u00e3o sobre esse ponto, era obviamente necess\u00e1rio utilizar todos os m\u00e9todos que se mostraram valiosos na investiga\u00e7\u00e3o de outras enfermidades infecciosas, e seguir a ordem da pesquisa que em ocasi\u00f5es anteriores se mostrou melhor adaptada para o fim em vista.<\/p>\n<p>Primeiro, determinar se elementos formados, que n\u00e3o podiam nem pertencer aos constituintes do corpo, nem ter brotado deles, estavam presentes nas partes doentes.<\/p>\n<p>Se a presen\u00e7a de tais elementos estranhos for demonstrada, deve-se em seguida determinar se eles s\u00e3o organizados, e se exibem algum sinal de possuir vida independente. O principal desses [sinais] \u00e9 o movimento espont\u00e2neo, muitas vezes confundido com movimento molecular, o poder de crescimento, aumento e reprodu\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, devem ser trabalhadas as rela\u00e7\u00f5es dessas formas com seu meio, o comportamento dos elementos dos tecidos vizinhos, a distribui\u00e7\u00e3o dessas formas pelo corpo, sua presen\u00e7a em diferentes est\u00e1gios do processo m\u00f3rbido, e pontos semelhantes.<\/p>\n<p>Tudo isso tem uma conex\u00e3o de maior ou menor import\u00e2ncia sobre a rela\u00e7\u00e3o dessas formas \u00e0 doen\u00e7a considerada. \u00c9 poss\u00edvel que os fatos assim trazidos \u00e0 luz forne\u00e7am uma prova t\u00e3o decisiva, que apenas o c\u00e9tico mais extremo ainda manteria que os microorganismos descobertos eram concomitantes \u00e0 doen\u00e7a e n\u00e3o sua causa. Geralmente, no entanto, podem existir fundamentos para esta obje\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A prova completa da rela\u00e7\u00e3o causal exige n\u00e3o apenas uma demonstra\u00e7\u00e3o da coincid\u00eancia dos parasitas com a enfermidade, mas, al\u00e9m disso, deve-se mostrar que os parasitas produzem diretamente a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Para obter essa prova, \u00e9 necess\u00e1rio isolar o parasita completamente do organismo doente, e de todos os produtos da doen\u00e7a \u00e0s quais se pode atribuir qualquer influ\u00eancia patog\u00eanica; ent\u00e3o, excitar de novo a enfermidade com todas as suas caracter\u00edsticas especiais pela introdu\u00e7\u00e3o apenas dos parasitas em um organismo sadio.<\/p>\n<p>As dificuldades, no caso da tuberculose, foram muitas. Os microorganismos que realmente causavam a doen\u00e7a eram muito pequenos, apresentavam-se em pequena quantidade e quase sempre dentro de c\u00e9lulas do organismo. Nos pulm\u00f5es dos doentes eram encontrados outros microorganismos maiores e em maior quantidade, que se pensou muitas vezes serem a causa da enfermidade. Foi preciso observar e testar v\u00e1rios deles, o que era especialmente dif\u00edcil porque a tuberculose \u00e9 uma doen\u00e7a que se desenvolve lentamente.<\/p>\n<p>Foi preciso desenvolver um corante adequado para tornar vis\u00edvel o microorganismo. E, por fim, esse microorganismo n\u00e3o se desenvolvia nos meios de cultura testados, at\u00e9 que Koch experimentou, em 1882, o uso do soro de sangue, esterilizado e endurecido. S\u00f3 ent\u00e3o foi poss\u00edvel cultivar os bacilos e, depois, testar seu efeito, observando que eles de fato causavam a tuberculose.<\/p>\n<p><strong>ESTUDOS PARALELOS<\/strong><\/p>\n<p>Paralelamente ao trabalho de Koch, outras pessoas pesquisavam a causa microsc\u00f3pica das doen\u00e7as. Em 1877, Pasteur estudou o antraz e o c\u00f3lera das galinhas.<\/p>\n<p>Em 1880, conseguiu desenvolver uma \u201cvacina\u201d contra essas doen\u00e7as. A descoberta se deu gra\u00e7as a um acaso. Em 1879, Pasteur estava estudando o c\u00f3lera das galinhas, com a ajuda de Roux, Chamberland e Thuillier.<\/p>\n<p>Uma cultura antiga, deixada na estufa durante as f\u00e9rias, tornou-se inofensiva, embora contivesse ainda microorganismos. As galinhas inoculadas com essa cultura n\u00e3o adquiriam a enfermidade. Inicialmente, os pesquisadores n\u00e3o deram grande import\u00e2ncia ao fato, mas depois, ao conseguir novas culturas do microorganismo, verificaram que aquelas galinhas estavam imunizadas contra a enfermidade.<\/p>\n<p>O que havia acontecido? A interpreta\u00e7\u00e3o, na \u00e9poca, foi que os microorganismos haviam sofrido alguma mudan\u00e7a, haviam se tornados mais fracos, atenuados, e n\u00e3o produziam mais a doen\u00e7a; apesar disso, produziam alguma mudan\u00e7a no corpo das galinhas, que se tornavam resistentes aos microorganismos normais.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia era, de certa forma, semelhante \u00e0s que Jenner havia imaginado quase cem anos antes. Ele havia suposto que o \u201cv\u00edrus\u201d que causava a var\u00edola humana e a var\u00edola das vacas provinha do cavalo mas que, nas vacas, por algum motivo, ele mudava suas propriedades e j\u00e1 n\u00e3o era mais t\u00e3o perigoso quanto o v\u00edrus humano.<\/p>\n<p>Pasteur logo imaginou que o mesmo processo poderia ser utilizado para conseguir \u201cvacinas\u201d contra todas as doen\u00e7as causadas por microorganismos: bastaria atenuar o micr\u00f3bio.<\/p>\n<p>Sabemos atualmente que isso n\u00e3o \u00e9 verdade, infelizmente. Mas pouco depois ele conseguiu desenvolver uma vacina para o antraz.<\/p>\n<p>Koch fez um duro ataque a Pasteur, nessa \u00e9poca. Ele o acusou de n\u00e3o saber nem estudar os micr\u00f3bios, nem de obt\u00ea-los em culturas puras. Pasteur trabalhava apenas sobre hip\u00f3teses, pois n\u00e3o havia provado a atenua\u00e7\u00e3o da virul\u00eancia dos micr\u00f3bios. Em um trabalho que publicou em 1882, Koch afirma que Pasteur \u00e9 incapaz de estudar o assunto.<\/p>\n<p>Na verdade, Pasteur procurava resultados pr\u00e1ticos e n\u00e3o se preocupava muito com os mecanismos da imunidade. Ele sup\u00f4s, nessa \u00e9poca, que a imunidade se dava por uma transforma\u00e7\u00e3o qu\u00edmica do animal.<\/p>\n<p>Quando o micr\u00f3bio do c\u00f3lera das galinhas atingisse os animais de forma atenuada, ele seria incapaz de provocar a doen\u00e7a de forma grave, mas estaria de qualquer forma vivendo e se alimentando das subst\u00e2ncias org\u00e2nicas desse animal. Pasteur imaginou que, dessa forma, os micr\u00f3bios atenuados consumiriam certas subst\u00e2ncias essenciais, impossibilitando que os micr\u00f3bios n\u00e3o atenuados se desenvolvessem depois no mesmo organismo.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o de Pasteur foi criticada. Se ela fosse verdadeira, a imuniza\u00e7\u00e3o seria passageira, pois o organismo acabaria por repor, pela nutri\u00e7\u00e3o e por seu metabolismo, as subst\u00e2ncias que existiam antes.<\/p>\n<p>Na verdade, nem Pasteur nem ningu\u00e9m, em 1880, conseguia entender o que ocorria na imuniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O \u00faltimo resultado importante obtido por Pasteur foi ainda mais discut\u00edvel: a vacina contra a raiva, em 1885. Apesar de muitas tentativas, o grupo de Pasteur n\u00e3o foi capaz nem de ver um microorganismo na saliva dos animais raivosos, nem em qualquer outra parte de seus corpos, nem cultivar esse microorganismo. No entanto, conseguiam transmitir a raiva por inocula\u00e7\u00e3o e, por tentativa e erro, acabaram descobrindo que o l\u00edquido tirado da medulas espinhais de coelhos inoculados com raiva tinha a capacidade de produzir a imuniza\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo de proteger as pessoas que j\u00e1 tinham contra\u00eddo a raiva.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia nem base te\u00f3rica, nem precedentes pr\u00e1ticos que justificassem esse trabalho. Pasteur foi criticado, e com raz\u00e3o. Os resultados iniciais obtidos com a vacina contra a raiva davam resultados duvidosos.<\/p>\n<p>Mesmo quando as primeiras dificuldades foram superadas, ficou uma d\u00favida sobre a honestidade das comunica\u00e7\u00f5es apresentadas por Pasteur. Alguns anos depois, quando Pasteur queria constuir seu Instituto, solicitou a doa\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea p\u00fablica para isso. A municipalidade de Paris pediu para examinar os cadernos de inocula\u00e7\u00f5es antirr\u00e1bidas de Pasteur, antes de ceder gratuitamente o terreno.<\/p>\n<p>Pasteur n\u00e3o concordou e precisou por isso comprar o terreno. Quando, em 1889, o Instituto fica pronto, sobrou pouqu\u00edssimo dinheiro para oper\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Ao longo da d\u00e9cada de 1880, foram descobertos gradualmente os agentes de v\u00e1rias outras doen\u00e7as: o da gonorr\u00e9ia, por Albrecht Neisser, em 1879; o da febre tif\u00f3ide, por Eberth e Gaffky, o da lepra por Gerard Hansen e o da mal\u00e1ria por Alphonse Laveran, todos em 1880; o da erisipela por Fehleisen, e do c\u00f3lera, por Koch, em 1883; o da difteria por Klebs e por Friedrich Loeffler, com a ajuda de Koch, em 1884; o do t\u00e9tano, por Nikolaier e Kitasato, e o da pneumonia, por Fraenkel, tamb\u00e9m em 1884; o da meningite por Weichsel-baum, em 1887 \u2013 e v\u00e1rios outros, nos anos seguintes.<\/p>\n<p>A descoberta dos microorganismos permitiu, por fim, esclarecer se certas doen\u00e7as eram transmiss\u00edveis ou n\u00e3o, e atrav\u00e9s de que meio. Apesar de todos os trabalhos que haviam sido realizados antes, foi apenas ap\u00f3s o trabalho de Koch, em 1883, que se confirmou a exist\u00eancia de um vibri\u00e3o causador dessa doen\u00e7a e sua transmiss\u00e3o pela \u00e1gua. Estudando-se as subst\u00e2ncias qu\u00edmicas que destruiam esse vibri\u00e3o, foi poss\u00edvel, finalmente, desenvolver m\u00e9todos totalmente seguros para a profilaxia dessa doen\u00e7a. Desde o final do s\u00e9culo XIX, o c\u00f3lera desapareceu da Max von Pettenkofer, um dos opositores das id\u00e9ias de Koch.<\/p>\n<p>Europa, depois de matar milh\u00f5es de pessoas. Em outras partes do mundo (como o Brasil) ele ainda produz muitas mortes \u2013 n\u00e3o por inexist\u00eancia de conhecimento cient\u00edfico, mas por falta de medidas p\u00fablicas adequadas.<\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 1880 marca uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o no estudo das doen\u00e7as transmiss\u00edveis. A utiliza\u00e7\u00e3o de um m\u00e9todo rigoroso de investiga\u00e7\u00e3o, desenvolvido por Koch, permitiu chegar a resultados claros e superar a fase em que se discutia interminavelmente sobre o papel dos microorganismos nas doen\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode dizer que atrav\u00e9s do m\u00e9todo de Koch todos ficassem convencidos. O eminente higienista alem\u00e3o Max von Pettenkofer, que tanta influ\u00eancia teve na melhoria das condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade de seu pa\u00eds, jamais aceitou a teoria microbiana. Estava t\u00e3o seguro de que os microorganismos n\u00e3o podem produzir doen\u00e7as, que para mostrar isso bebeu uma cultura de vibri\u00f5es do c\u00f3lera. Por mais espantoso que seja, n\u00e3o adoeceu. Seria ele imune \u00e0 doen\u00e7a? N\u00e3o o sabemos.<\/p>\n<p><strong>EXCESSO DE CONFIAN\u00c7A NA TEORIA:\u00a0<\/strong>A TRAG\u00c9DIA DA DESCOBERTA DAS VITAMINAS<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XIX, ap\u00f3s os grandes sucessos da teoria microbiana das doen\u00e7as, parecia que, depois de mil\u00eanios, a Medicina havia encontrado finalmente um caminho seguro, cient\u00edfico, para seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>Mas o excesso de otimismo, a confian\u00e7a exagerada na teoria microbiana, levou tamb\u00e9m a grandes erros.<\/p>\n<p>O que as pesquisas mais cuidadosas haviam mostrado era que algumas doen\u00e7as eram causadas por microorganismos. O que se passou a acreditar foi que todas as doen\u00e7as s\u00e3o causadas por eles.<\/p>\n<p>Sabemos atualmente que algumas enfermidades s\u00e3o causadas por alimenta\u00e7\u00e3o deficiente. N\u00e3o basta ingerir grande quantidade de alimentos; nem \u00e9 suficiente ingerir alimentos com muitas prote\u00ednas \u2013 como a carne.<\/p>\n<p>Todos hoje sabem que existem certas subst\u00e2ncias \u2013 as vitaminas \u2013 que s\u00e3o essenciais para a sa\u00fade . Mas isso s\u00f3 foi descoberto no s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo das grandes navega\u00e7\u00f5es, como j\u00e1 vimos, tornaram-se conhecidas v\u00e1rias doen\u00e7as. Algumas s\u00e3o atualmente consideradas transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>Outras, como o escorbuto, s\u00e3o de origem alimentar: car\u00eancia de vitaminas.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, acreditava-se que os alimentos podiam produzir doen\u00e7as quando estavam estragados ou quando desequilibravam os humores do corpo. Os portugueses, sofrendo grande mortalidade em terras estranhas, acreditaram que os alimentos desses locais eram incompat\u00edveis com seus organismos. Mas como precisavam comer, imaginaram que havia um modo de superar esse problema: transformando rapidamente o seu pr\u00f3prio corpo, de modo que ele se adaptasse \u00e0 nova alimenta\u00e7\u00e3o. Para isso, ao chegar a novas terras, faziam grandes sangrias, de modo a tentar esvaziar o corpo dos humores antigos e substitu\u00ed-los pelos novos, com os alimentos do local. O resultado era, evidentemente, que enfraqueciam muito e isso aumentava a mortalidade por outras causas.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria pr\u00e1tica mostrou que era poss\u00edvel curar enfermidades com alimenta\u00e7\u00e3o adequada. Antes do surgimento de qualquer estudo m\u00e9dico sobre o escorbuto, os pr\u00f3prios marinheiros j\u00e1 haviam descoberto a sua cura.<\/p>\n<p>Em um trabalho de 1564, escrito pelo holand\u00eas Rousseus, o autor descreve que os marinheiros que fazem longas viagens curam-se do escorbuto por meio de laranjas. Ele conjeturou que os holandeses, atingidos pelo escorbuto ao retornarem da Espanha com uma carga desses frutos, descobriram sua efic\u00e1cia contra a doen\u00e7a por acaso, e logo a not\u00edcia se difundiu.<\/p>\n<p>Em um tratado sobre o escorbuto escrito em 1593, Albertus recomendava o suco de laranja e plantas \u00e1cidas. Ele recomendava que esse suco fosse colocado em sopas, e que a carne, quando estivesse ao fogo, fosse borrifada com ele. No mesmo ano, as virtudes do suco de lim\u00e3o na cura do escorbuto foram descritas por Sir Richard Hawkins, cuja tripula\u00e7\u00e3o, nos tr\u00f3picos, foi afetada por essa enfermidade com grande gravidade. Hawkins descreveu que passou a utilizar com grande sucesso o suco de laranjas e lim\u00f5es \u00e1cidos e um certo rem\u00e9dio chamado \u201c\u00e1gua do Dr. Stevens\u201d.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XVII, o uso de lim\u00f5es foi amplamente empregado pelos holandeses durante o estabelecimento da Companhia das \u00cdndias, sempre de um modo emp\u00edrico e \u00e0s vezes sem apoio dos m\u00e9dicos. Diversas vezes, a efic\u00e1cia dos lim\u00f5es e das laranjas foi redescoberta. Em 1726, a frota inglesa no B\u00e1ltico foi atacada pelo escorbuto. O almirante Wager tinha a bordo, por acaso, grande quantidade de lim\u00f5es e laranjas.<\/p>\n<p>Como ele ouvira falar da efic\u00e1cia dessas frutas contra o escorbuto, distribuiu grande quantidade entre os marinheiros, que comiam e misturavam o suco \u00e0 cerveja. Todos se curaram.<\/p>\n<p>Verificou-se que a utiliza\u00e7\u00e3o de vegetais frescos, em geral, tamb\u00e9m ajudava a curar o escorbuto. Imaginou-se que talvez a alimenta\u00e7\u00e3o que era utilizada nos navios \u2013 carne seca, biscoitos e outros alimentos que podiam durar durante meses \u2013 fosse a causa da doen\u00e7a. No entanto, mesmo transportando-se a bordo animais vivos (como ovelhas) e alimentando os marinheiros com carne fresca, surgia o escorbuto.<\/p>\n<p>Em 1753, essas observa\u00e7\u00f5es dispersas foram analisadas e reunidas em um livro pelo m\u00e9dico James Lind (1716-1794). Ele recomendou a ado\u00e7\u00e3o de lim\u00f5es na marinha inglesa.<\/p>\n<p>Para a preserva\u00e7\u00e3o do suco durante longas viagens, ele recomendava que o suco fosse evaporado em fogo brando, at\u00e9 formar um xarope grosso.<\/p>\n<p>Mas a medida n\u00e3o foi aceita. O escorbuto continuou a matar os marinheiros. Houve graves problemas nos anos de 1780 a 1782. Em 1780, houve 1.457 casos de escorbuto atendidos no hospital de Haslar.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, acumulavam-se mais evid\u00eancias da import\u00e2ncia dessas frutas.<\/p>\n<p>Em 1794, o navio Suffolk partiu da Inglaterra para a \u00cdndia, fazendo a viagem sem manter qualquer contato com a terra. A viagem durou 23 semanas e um dia.<\/p>\n<p>Durante todo o tempo, os marinheiros receberam suco de lim\u00e3o misturado \u00e0 bebida di\u00e1ria. Apenas alguns marinheiros mostraram sinais de escorbuto e esses sinais desapareceram com doses adicionais de suco de lim\u00e3o.<\/p>\n<p>O navio chegou \u00e0 \u00cdndia sem a perda de um \u00fanico tripulante. Ap\u00f3s esse teste, em 1795, sob a recomenda\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos D. Blair e G. Blane, a marinha inglesa passou a adotar o suco de lim\u00e3o.<\/p>\n<p>Para a preserva\u00e7\u00e3o do suco, ele passou a ser misturado com certa quantidade de bebida alco\u00f3lica.<\/p>\n<p>Como resultado dessa medida, o escorbuto desapareceu dos navios. Em 1841, o m\u00e9dico George Budd escreveu um livro sobre o escorbuto, em que contava que muitos m\u00e9dicos da marinha nunca tinham visto um \u00fanico caso da enfermidade.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o se sabia claramente o que era essa doen\u00e7a, nem por qual motivo os lim\u00f5es e outros vegetais \u00e1cidos eram capazes de cur\u00e1-la.<\/p>\n<p>Podia ser que a enfermidade fosse um desequil\u00edbrio dos humores e que os lim\u00f5es curassem a doen\u00e7a por causa de serem \u00famidos e frios. Al\u00e9m disso, desde a Idade M\u00e9dia, acreditava-se que os lim\u00f5es tinham grande poder contra os venenos. Em uma obra atribu\u00edda a Alberto Magno (s\u00e9culo XII) que circulava muito na \u00e9poca das grandes navega\u00e7\u00f5es, conta-se que os dois grandes rem\u00e9dios naturais contra todo tipo de veneno s\u00e3o a arruda e o lim\u00e3o. Atribu\u00eda-se nesse tempo ao lim\u00e3o a capacidade de proteger contra as picadas das serpentes. Como os \u201cvenenos\u201d eram tamb\u00e9m causa das epidemias, o lim\u00e3o parecia tamb\u00e9m \u00fatil nesses casos:<\/p>\n<p>Pareceu-me \u00fatil e necess\u00e1rio provar a excel\u00eancia das propriedades destes cinco preservativos, a saber, o lim\u00e3o, a arruda, as p\u00edlulas cordiais, a mitr\u00eddata e a teriaga, pra serem usados com seguran\u00e7a e sem receio, segundo a maneira que foi prescrita. Porque se t\u00eam tanto poder sobre os venenos, n\u00e3o devem ter menos contra a corrup\u00e7\u00e3o do ar, \u00e0 qual \u00e9 mais f\u00e1cil resistir.<\/p>\n<p>De certa forma, em 1841 Budd j\u00e1 estava pr\u00f3ximo da no\u00e7\u00e3o atual, de que o escorbuto \u00e9 produzido pela car\u00eancia de certas subst\u00e2ncias (vitamina C) na alimenta\u00e7\u00e3o e que pode ser curada por essa subst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ele afirma claramente que apenas os vegetais possuem a propriedade de combater o escorbuto; que diferentes vegetais s\u00e3o mais ou menos adequados para o tratamento, sendo que os cereais e outros vegetais semelhantes n\u00e3o curam a enfermidade; e que o calor destroi o poder anti-escorb\u00fatico. E termina dizendo:<\/p>\n<p>Ignoramos o elemento essencial, comum ao sucos das plantas anti-escorb\u00faticas, do qual dependem essas propriedades.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o seremos considerados muito ousados se predissermos que o estudo da qu\u00edmica org\u00e2nica e os experimentos dos fisi\u00f3logos, em um futuro n\u00e3o muito distante, lan\u00e7ar\u00e3o a luz sobre esse assunto.<\/p>\n<p>No caso do escorbuto, antes da descoberta das vitaminas, a pr\u00e1tica j\u00e1 havia resolvido o problema. Apesar disso, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX havia pesquisas para descobrir o seu microorganismo.<\/p>\n<p>Como alguns dos seus sintomas eram semelhantes aos da s\u00edfilis, tamb\u00e9m se tentava utilizar no escorbuto rem\u00e9dios \u00fateis \u00e0 s\u00edfilis \u2013 sem obter bons resultados.<\/p>\n<p>Em outros casos, a falta de conhecimento das vitaminas levou a conseq\u00fc\u00eancias muito mais graves. O epis\u00f3dio mais terr\u00edvel foi o do estudo do berib\u00e9ri, na passagem do s\u00e9culo XIX para o s\u00e9culo XX. Trata-se, pelo que sabemos hoje, de uma doen\u00e7a grave, causada pela falta de vitaminas. O berib\u00e9ri \u00e9 freq\u00fcente nas popula\u00e7\u00f5es que se alimentam com grande quantidade de arroz polido (arroz branco), pois o processo de polimento retira a pel\u00edcula que cont\u00e9m a vitamina B deste cereal. At\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, utilizava-se o arroz integral, obtido em geral de forma artesanal, batendo-se o arroz com casca e separando apenas a palha. Esse processo \u201cprimitivo\u201d foi substitu\u00eddo pelo polimento industrial do arroz, criando o belo cereal branco que consumimos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Em meados do s\u00e9culo XIX, a produ\u00e7\u00e3o de arroz branco na \u00c1sia aumentou muito, e sua exporta\u00e7\u00e3o atingiu o mundo todo.<\/p>\n<p>O berib\u00e9ri j\u00e1 era conhecido, como o escorbuto, desde as grandes navega\u00e7\u00f5es. Foi descrito por Diogo do Couto, que fala sobre sua ocorr\u00eancia entre os marinheiros da armada de Gon\u00e7alo Pereira, na \u00cdndia: \u201cA nossa gente ia adoecendo da doen\u00e7a que chamam berebere, que \u00e9 incha\u00e7\u00e3o da barriga, e pernas, de que em poucos dias morrem, como morreram muitos, e chegou dia de dez, e de doze.\u201d<\/p>\n<p>Essa doen\u00e7a foi chamada, no Brasil, de \u201cincha\u00e7\u00e3o das pernas\u201d, ou epidemia das \u201cpernas inchadas\u201d, por causa de um dos seus sintomas.<\/p>\n<p>Podemos ver em diversos quadros de Portinari figuras humanas que apresentam a apar\u00eancia de doentes do b\u00e9riberi. Al\u00e9m desse sintoma vis\u00edvel (que nem sempre ocorre), h\u00e1 dorm\u00eancia dos membros, fraqueza, dificuldade de se mover, que pode se transformar em uma paralisia, sensa\u00e7\u00e3o de alguma coisa apertando o tronco, como um cinto muito justo (\u201ccinta epig\u00e1strica\u201d). Pode haver asfixia e morte r\u00e1pida ou lenta.<\/p>\n<p>Embora conhecida e descrita muitas vezes, essa enfermidade s\u00f3 se tornou importante na segunda metade do s\u00e9culo XIX, quando em muitas partes do mundo come\u00e7ou a produzir grande n\u00famero de mortes. No Brasil, em 1858, houve uma \u201cepidemia de pernas inchadas\u201d em um col\u00e9gio em Mariana, matando v\u00e1rias crian\u00e7as. Na d\u00e9cada de 1860, surgem muitos casos, atacando tropas militares no Mato Grosso, que s\u00f3 se salvaram da \u201cpeste\u201d fugindo do local. Na Bahia, a doen\u00e7a surge nesse per\u00edodo de forma espor\u00e1dica, sendo descrita pelo m\u00e9dico Jos\u00e9 Francisco da Silva Lima. De 1863 a 1866, ele tratou ou acompanhou pessoalmente o tratamento de 51 doentes, dos quais 38 morreram. Esse autor acreditava que a enfermidade n\u00e3o era transmiss\u00edvel:<\/p>\n<p>Sem presumir coisa alguma teoricamente acerca deste ponto, isto \u00e9, sem sair do dom\u00ednio dos fatos, direi que a doen\u00e7a n\u00e3o pareceu difundir-se por cont\u00e1gio ou infec\u00e7\u00e3o, e sim depender de causa morb\u00edfica largamente espalhada, de circunst\u00e2ncias ou condi\u00e7\u00f5es higi\u00eanicas gerais desconhecidas.<\/p>\n<p>Silva Lima recomendava para prevenir a enfermidade a higiene pessoal, vinhos, boa alimenta\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7a de ares, banhos salgados. O tratamento era feito atrav\u00e9s de quinino, ferro, vomit\u00f3rios, diur\u00e9ticos, purgantes, etc. Silva Lima intuiu que o berib\u00e9ri tinha rela\u00e7\u00e3o com alimentos, comparando-o com o ergotismo, que \u00e9 produzido pelo centeio estragado. Mas n\u00e3o se fixou em nenhuma causa, sugerindo a exist\u00eancia de uma influ\u00eancia do clima, de miasmas paludosos, de \u00e1guas impuras, etc.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1870, surgiram explica\u00e7\u00f5es para o berib\u00e9ri que o comparavam a um processo reum\u00e1tico produzido pela umidade, j\u00e1 que aumentava sua incid\u00eancia em \u00e9pocas de chuva.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m comparado \u00e0 anemia e \u00e0 mal\u00e1ria. Encontrou-se correla\u00e7\u00f5es entre sua ocorr\u00eancia e a proximidade de rios ou mar. Sugeriu-se que era causado por um microorganismo presente nos peixes, pois a enfermidade ocorria com maior freq\u00fc\u00eancia em popula\u00e7\u00e3o oriental que se alimentava de peixe cru. Em alguns mortos pelo berib\u00e9ri foram encontrados vermes intestinais aos quais tamb\u00e9m se atribuiu a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O berib\u00e9ri surgia com freq\u00fc\u00eancia em pris\u00f5es, hospitais, asilos e navios, sugerindo que se tratasse de doen\u00e7a contagiosa, que se espalhasse facilmente em aglomera\u00e7\u00f5es de pessoas com higiene deficiente. Em 1871, uma grande epidemia de berib\u00e9ri dizimou os presos na Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Recife.<\/p>\n<p>Em Minas Gerais, havia na \u00e9poca um c\u00e9lebre internato: o col\u00e9gio do Cara\u00e7a. L\u00e1 houve graves epidemias de berib\u00e9ri em 1861, 1873 e 1878. Na primeira delas, uma comiss\u00e3o m\u00e9dica atribuiu a enfermidade ao salitre que os padres dissolviam na \u00e1gua dos alunos, para diminuir seus desejos sexuais.<\/p>\n<p>Em 1870, houve no Cara\u00e7a 71 casos de incha\u00e7\u00e3o simples; em 1872, tr\u00eas casos de paralisia; em 1873, dos 230 alunos, 45 foram afetados, 12 sob forma paral\u00edtica, com 2 mortes.<\/p>\n<p>Quando os estudantes eram levados para outro local, a doen\u00e7a era curada. Nessa \u00e9poca, uma comiss\u00e3o m\u00e9dica atribuiu a doen\u00e7a \u00e0 grande umidade do ar, \u00e0 aglomera\u00e7\u00e3o de alunos e \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o pelo arroz (comparando com o ergotismo).<\/p>\n<p>Em um semin\u00e1rio em Diamantina, \u00e0s vezes 20% dos estudantes eram acometidos pelo beriberi. Nenhum professor sofria da enfermidade, nesses lugares. Provavelmente suas alimenta\u00e7\u00f5es eram diferentes.<\/p>\n<p>Em navios, a doen\u00e7a come\u00e7ou a aparecer cada vez mais freq\u00fcentemente. Em 1875, houve 19 casos na Bahia; em 1876, 39 casos. Em 1883, a corveta \u201cNiter\u00f3i\u201d, indo para a Bahia, teve 111 doentes de berib\u00e9ri.<\/p>\n<p>Um caso famoso dessa \u00e9poca ocorreu quando a Marinha brasileira resolveu realizar uma grande viagem de circunavega\u00e7\u00e3o da Terra, na corveta \u201cVital de Oliveira\u201d. A viagem durou do fim de 1879 at\u00e9 o in\u00edcio de 1881, havendo grave ocorr\u00eancia de berib\u00e9ri. Na \u00e9poca, o m\u00e9dico Pac\u00edfico Pereira afirmou:<\/p>\n<p>(\u2026) tudo vem corroborar a convic\u00e7\u00e3o a que tenho chegado pela observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e pelos meios anal\u00edticos e experimentais, de que o berib\u00e9ri \u00e9 devido a uma anoxemia determinada por condi\u00e7\u00f5es climatol\u00f3gicas freq\u00fcentes em muitos pontos das regi\u00f5es intertropicais, especialmente pela a\u00e7\u00e3o prolongada de uma temperatura elevada e de excessiva umidade atmosf\u00e9rica, e tendo ainda por auxiliares quaisquer causas que diminuam a oxigena\u00e7\u00e3o do sangue, deprimindo a escala das combust\u00f5es fisiol\u00f3gicas nos diferentes tecidos do organismo.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o de tal problema se daria pela higiene dos navios, melhor ventila\u00e7\u00e3o, reduzir a umidade, maior asseio pessoal, diminuir o n\u00famero de pessoas no navio, etc.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico do navio, Galdino C\u00edcero de Magalh\u00e3es, fez uma descri\u00e7\u00e3o detalhada de toda a viagem, sob o ponto de vista m\u00e9dico. O navio partiu do Rio de Janeiro no dia 19 de novembro de 1879.<\/p>\n<p>Dirigiu-se para Lisboa, depois percorreu o Mediterr\u00e2neo, passando pelo Canal de Suez no in\u00edcio de abril de 1880. No in\u00edcio de maio, chegaram ao Ceil\u00e3o. O m\u00e9dico indica que havia muito calor e chuvas, surgindo ent\u00e3o muitas amidalites e incha\u00e7\u00f5es: \u201c(\u2026) atribu\u00edmos a uma infec\u00e7\u00e3o miasm\u00e1tica procedente dos por\u00f5es, os quais durante a viagem sempre exalaram um cheiro f\u00e9tido, resultante das graxas apodrecidas nestas partes mais baixas do navio.\u201d<\/p>\n<p>Houve inicialmente dois casos com sintomas de berib\u00e9ri, no Ceil\u00e3o; no final de maio, h\u00e1 mis dois casos da doen\u00e7a. O m\u00e9dico descreve o grande calor e umidade do ar. Magalh\u00e3es utilizou nos doentes o quinino, arseniato de soda, t\u00f4nicos, banhos quentes, fric\u00e7\u00f5es com b\u00e1lsamo, purgantes e outros rem\u00e9dios. Dois dos marinheiros melhoraram, mas os outros n\u00e3o.<\/p>\n<p>Firmado nosso diagn\u00f3stico de beriberi empregamos os gr\u00e2nulos de arseniato de ferro, \u00e1cido arsenioso, sulfato de estriquinina, \u00e1cido fosf\u00f3rico, e quassina.<\/p>\n<p>Decocto de cevada adicionada de digitalis e ac\u00f4nito, laxativos; linimento vol\u00e1til canforado ou terebentinado e b\u00e1lsamo de Fioravanti em fric\u00e7\u00f5es. Banhos salgados, aplica\u00e7\u00e3o de choques el\u00e9tricos pela m\u00e1quina de correntes interrompidas de Gaiffe, vinho de quina nas refei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, o m\u00e9dico diz que \u201cPelo emprego destes meios os sintomas foram cedendo sensivelmente de sua energia.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que, durante essa parte do percurso, passando por diferentes portos, a alimenta\u00e7\u00e3o tenha sido variada e satisfat\u00f3ria, produzindo a melhora da enfermidade. Tudo vai bem at\u00e9 o Jap\u00e3o. No entanto, de julho ao fim de agosto, o navio atravessa o Oceano Pac\u00edfico at\u00e9 a Calif\u00f3rnia \u2013 evidentemente, sem reabastecimento de alimentos. Durante a travessia, aumentaram os problemas com o berib\u00e9ri:<\/p>\n<p>\u201cFoi aterrador o movimento da enfermaria nos 20 dias de agosto\u201d. Os vegetais acabaram e s\u00f3 se comia carne salgada de vaca e arroz, no navio. Apesar de citar esse fato, Magalh\u00e3es atribuiu a doen\u00e7a ao calor e \u00e0 umidade que continuaram durante o trajeto.<\/p>\n<p>Em poucos dias a coberta estava repleta de doentes, n\u00e3o havendo mais um lugar vago na enfermaria! A mol\u00e9stia resistiu valorosamente a toda terap\u00eautica; nem poderia ser de outro modo quando todas as condi\u00e7\u00f5es produtoras dela subsistiam [calor, umidade, chuvas]; achando-nos, al\u00e9m de tudo, baldo de dietas e alimentos reconfortantes; chegando ao ponto de s\u00f3 podermos adietar com arroz.<\/p>\n<p>Houve 29 doentes de berib\u00e9ri. Tr\u00eas morreram na viagem, outros quatro no hospital de San Francisco.<\/p>\n<p>Discutindo a causa da doen\u00e7a, Magalh\u00e3es se refere \u00e0s id\u00e9ias de Silva Lima, que era a mais aceita na \u00e9poca: \u201c(\u2026) o ilustrado pr\u00e1tico considera o beriberi como uma intoxica\u00e7\u00e3o sang\u00fc\u00ednea, produzida pelo interm\u00e9dio de um miasma que se introduz na torrente circulat\u00f3ria.\u201d Magalh\u00e3es concorda com a exist\u00eancia de intoxica\u00e7\u00e3o do sangue, mas n\u00e3o pelo interm\u00e9dio dos miasmas.<\/p>\n<p>Sup\u00f5e que os fatores principais foram: temperaturas quentes e \u00famidas; alimenta\u00e7\u00e3o insuficiente, tanto em quantidade quanto em qualidade; ac\u00famulo de pessoas; impress\u00f5es morais tristes; excessos de qualquer natureza; e cansa\u00e7o.<\/p>\n<p>Ao comentar sobre a alimenta\u00e7\u00e3o, Magalh\u00e3es sugere a introdu\u00e7\u00e3o de batatas inglesas; verduras dessecadas e conservadas em latas; introdu\u00e7\u00e3o da pimenta; uso de demais condimentos; e manuten\u00e7\u00e3o de aguardente nas refei\u00e7\u00f5es. Nenhuma dessas medidas seria \u00fatil contra o berib\u00e9ri, pelo que sabemos hoje.<\/p>\n<p>A enfermidade era grave e tornou-se comum nas cidades. No final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX, no Rio de Janeiro s\u00f3 havia quatro doen\u00e7as que matavam mais do que o berib\u00e9ri: tuberculose, var\u00edola, mal\u00e1ria e gripe. Os casos de tifo, sarampo e desinteria eram menos numerosos do que os de berib\u00e9ri.<\/p>\n<p>Pela sua gravidade, o berib\u00e9ri foi muito estudado, na \u00e9poca. Como era de se esperar, a partir da d\u00e9cada de 1880 as explica\u00e7\u00f5es mais comuns s\u00e3o as que adotam a teoria microbiana das doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Entre muitos outros casos, no Brasil, v\u00e1rios m\u00e9dicos adotaram a nova e vitoriosa teoria, dedicaram-se ao berib\u00e9ri e encontraram seu micr\u00f3bio. Em nosso pa\u00eds, o mais entusiasta defensor da teoria parasit\u00e1ria do berib\u00e9ri foi o diretor do Museu Nacional, Jo\u00e3o Batista Lacerda, que publicou trabalhos sobre o assunto de 1883 at\u00e9 seus \u00faltimos dias (1915).<\/p>\n<p>Embora atualmente possa nos parecer rid\u00edculo que algu\u00e9m tenha descoberto uma coisa que n\u00e3o existe, \u00e9 instrutivo estudar os trabalhos de Lacerda.<\/p>\n<p>No seu primeiro trabalho, de 1883, Lacerda comenta inicialmente as descobertas de Pasteur e de Koch. Ele pr\u00f3prio sabe que o estudo dos microorganismos deve ser cuidadoso:<\/p>\n<p>Certo que \u00e9 mister, em benef\u00edcio mesmo da ci\u00eancia, reprimir as exageradas pretens\u00f5es de alguns esp\u00edritos s\u00f4fregos ou demasiado generlisadores, que entendem que toda a doen\u00e7a \u00e9 produto de parasitismo.<\/p>\n<p>Onde, por\u00e9m, se nota o cont\u00e1gio, a transmissibilidade por v\u00e1rios modos, a epidemia, a importa\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida, deve-se suspeitar com todo fundamento que entra em a\u00e7\u00e3o para produzir a doen\u00e7a um desses seres infinitamente pequenos, que acham na sua natural reprodutibilidade, favorecida e ativada por certas condi\u00e7\u00f5es exog\u00eanicas, ainda mal determinadas, o meio de propagar-se. Assim, tenho para mim como coisa assaz prov\u00e1vel que a febre amarela, a c\u00f3lera morbus, o tifo dos acampamentos e dos ex\u00e9rcitos, a peste do Oriente, a var\u00edola, a escarlatina, a raiva, etc., s\u00e3o produzidas por agentes dessa ordem.<\/p>\n<p>Lacerda conhecia e procurava seguir os melhores m\u00e9todos experimentais. Inicialmente, ele estudou o sangue de alguns doentes e acreditou ver neles alguns microorganismos.<\/p>\n<p>Para verificar o que eram e se eram a causa da enfermidade, resolveu seguir os preceitos de Koch, cultivando-os fora do organismo doente.<\/p>\n<p>Preparava inicialmente um meio de cultura onde pretendia cultivar os microorganismos que encontrasse: caldo de carne de vaca. Ele o cozinhava, neutralizava, filtrava duas vezes, colocava em bal\u00f5es de vidro que eram fechados a fogo; depois, colocava os bal\u00f5es em uma estufa, com temperatura entre 130 e 140 graus Celsius, para esteriliz\u00e1-los. Observando esse procedimento, verificava que o caldo de carne se conservava depois l\u00edmpido e transparente, sem aparecimento de microorganismos an\u00f4malos.<\/p>\n<p>Lacerda colhia ent\u00e3o o sangue de alguns berib\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Eis como procedia eu na colheita do sangue. Come\u00e7ava por lavar uma das extremidades digitais do doente com sab\u00e3o, ou \u00e1lcool. Feito isto, comprimia-se fortemente a polpa do dedo de modo a enturgescer os tecidos e penetrava-se nele com um alfinete previamente passado no fogo.<\/p>\n<p>A gota de sangue surgindo da picada era imediatamente aspirada por um tubo de vidro capilar, previamente esterilisado na temperatura de 180 graus cent\u00edgrados.<\/p>\n<p>Uma vez cheio o tubo, obturavam-se os extremos com lacre derretido.<\/p>\n<p>Enquanto se enchiam assim numerosos tubos, algumas gotas do sangue aproveitavam-se para o exame microsc\u00f3pico imediato. Recebida a gota entre duas l\u00e2minas de vidro, depois de bem apertadas para operar-se a difus\u00e3o do l\u00edquido, proced\u00edamos ao exame microsc\u00f3pico (\u2026). Via-se claramente por entre os gl\u00f3bulos do sangue corp\u00fasculos nimiamente pequenos, de forma esf\u00e9rica ou ovoide, quase todos brilhantes, executando no l\u00edquido movimentos de transla\u00e7\u00e3o e de rota\u00e7\u00e3o assaz acentuados.<\/p>\n<p>Lacerda n\u00e3o tinha d\u00favidas de que esses corp\u00fasculos eram vivos: seu movimento diminu\u00edda quando o l\u00edquido ia secando. A quantidade desses corp\u00faculos variava muito conforme os doentes e os dias; em alguns casos os corp\u00fasculos cresciam em uma dire\u00e7\u00e3o, depois se estrangulavam e formavam a apar\u00eancia de diplococos.<\/p>\n<p>Estas observa\u00e7\u00f5es por muito tempo repetidas, sobre o sangue de v\u00e1rios doentes de beriberi, n\u00e3o nos deixaram d\u00favida alguma de que no sangue destes doentes encontra-se sempre, com mais ou menos abund\u00e2ncia, um micr\u00f3bio, cujas formas ali representadas s\u00e3o as dos micrococos<\/p>\n<p>Com o sangue recolhido nos tubos capilares, Lacerda fazia a cultura dos microorganismos. Ele tomava esses tubos, lavava-os por fora com \u00e1cido f\u00eanico e depois com \u00e1gua para esterilizar seu exterior. Depois, segurando-os com duas pin\u00e7as, quebrava-os ao meio e deixava cair dentro do bal\u00e3o com o caldo de carne (ou outros l\u00edquidos que utilizou depois). Fechava ent\u00e3o o vidro e o levava a uma estufa, \u00e0 temperatura do corpo humano. \u201cNo meio l\u00edquido, formavam-se flocos esbranqui\u00e7ados. No meio s\u00f3lido, surgiam pontinhos brancos formando col\u00f4nias.\u201d<\/p>\n<p>Tirando uma gota do l\u00edquido de cultura e colocando entre duas l\u00e2minas de vidro, via \u201cfilamentos cilindr\u00f3ides, hialinos, soltos, im\u00f3veis, de comprimentos v\u00e1rios, alguns muito longos, chegando a medir de 10 a 15\u201d.<\/p>\n<p>Lacerda descreve v\u00e1rias transforma\u00e7\u00f5es que esses filamentos podiam sofrer, produzindo corp\u00fasculos arredondados, isolados ou em grupos, ou bast\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse microorganismo de forma t\u00e3o vari\u00e1vel foi chamado por Lacerda de Bacillus beribericus.<\/p>\n<p>Segundo Lacerda, a cultura com o sangue de 5 doentes deu os mesmos resultados; depois, estudou um n\u00famero maior de doentes, com resultados concordantes.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m fez culturas a partir da urina dos doentes, observando o surgimento de esporos do Bacillus beribericus.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s conseguir a cultura do microorganismo, era necess\u00e1rio utiliz\u00e1-la para verificar se era poss\u00edvel transmitir a doen\u00e7a. Lacerda faz a inocula\u00e7\u00e3o em porquinhos da \u00cdndia e em coelhos, com sucesso, e em um carneiro, sem resultado nenhum. Em todos os animais inoculados, Lacerda encontrou os microorganismos. No caso de alguns deles, houve perturba\u00e7\u00f5es do movimento, que Lacerda considerou como uma indica\u00e7\u00e3o de que eles estavam com berib\u00e9ri. \u201cEsse micr\u00f3bio, sendo inoculado em porquinhos da \u00cdndia, reproduziu neles sintomas an\u00e1logos aos do beriberi, e causou-lhes a morte no fim de poucos dias.\u201d<\/p>\n<p>Pelo menos aparentemente, Lacerda estava seguindo o m\u00e9todo de Koch. Segundo sua descri\u00e7\u00e3o, ele verificou que os microorganismos sempre eram encontrados nos doentes de berib\u00e9ri; conseguiu cultivar o microorganismo; reproduziu com o mesmo a doen\u00e7a em animais s\u00e3os; e reencontrou nos animais inoculados o mesmo microorganismo. O que poderia estar errado?<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios pontos duvidosos no trabalho de Lacerda. Teria ele de fato reconhecido algum microorganismo, ou observado v\u00e1rios diferentes, que por falta de treino considerou como sendo um s\u00f3?<\/p>\n<p>Seria o microorganismo associado de fato ao berib\u00e9ri, ou seria devido a uma infec\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria e presente tamb\u00e9m em outros casos? Lacerda n\u00e3o fez compara\u00e7\u00e3o com pacientes de outras doen\u00e7as, ou com pessoas s\u00e3s. Seria a cultura pura, ou uma mistura de microorganismos?<\/p>\n<p>Provavelmente era uma mistura. Pode-se de fato dizer que os animais de teste adquiriram berib\u00e9ri? Provavelmente n\u00e3o.<\/p>\n<p>O que existe de mais instrutivo neste exemplo \u00e9 que ele mostra que o m\u00e9todo de Koch n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples de aplicar quanto parece.<\/p>\n<p>Lacerda n\u00e3o se contentou com a descoberta do Bacillus beribericus. Ele procurou tamb\u00e9m indentificar a origem desse microorganismo.<\/p>\n<p>V\u00e1rios autores j\u00e1 haviam suspeitado que o arroz estragado pudesse produzir o berib\u00e9ri.<\/p>\n<p>Lacerda estudou um caso de uma pessoa que teve berib\u00e9ri sem contato com qualquer outro doente e suspeitou da sua alimenta\u00e7\u00e3o. Examinou o arroz e notou alguns gr\u00e3os quebradi\u00e7os, opacos, que se pulverizavam quando apertados; colocados no meio de outros, esses outros ficavam iguais, depois de muitos dias. Na superf\u00edcie havia um parasita microsc\u00f3pico: filamentos que pareciam iguais aos observados nas culturas do sangue berib\u00e9rico.<\/p>\n<p>Lacerda cultivou o parasita do arroz em caldo de carne de vaca esterilisado: surgiram elementos iguais aos que haviam surgido com o sangue berib\u00e9rico.<\/p>\n<p>Lacerda tinha quase certeza de que os microorganismos do arroz eram a fonte da enfermidade.<\/p>\n<p>Com o fito de apreciar os resultados produzidos pela alimenta\u00e7\u00e3o exclusiva desse arroz parasitado, demo-lo a comer a um rato sem adjun\u00e7\u00e3o de nenhum outro alimento.<\/p>\n<p>Ao cabo de seis dias o animal abortou quatro fetos j\u00e1 bastante desenvolvidos. Dois dias depois, os artelhos de uma das patas posteriores apresentaram-se vermelhos e intumescidos.<\/p>\n<p>Em um deles chegou a produzir-se uma exulcera\u00e7\u00e3o, que tornou-se depois mais profunda. O animal no fim de dez dias dava mostras de grande abatimento.<\/p>\n<p>No duod\u00e9cimo dia ele sucumbiu sob as nossas vistas por asfixia e convuls\u00f5es.<\/p>\n<p>No sangue do animal morto, encontrou granula\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s dos doentes berib\u00e9ricos: filamentos, esporos, etc. Culturas desse material reproduziram \u201ctodas as formas do Bacillus beribericus\u201d.<\/p>\n<p>Tr\u00eas porquinhos da \u00cdndia tamb\u00e9m morreram em poucos dias, quando inoculados com a cultura de arroz.<\/p>\n<p>O trabalho de Lacerda foi criticado como precipitado e pouco cuidadoso. Em 1887, ele publicou novo trabalho, mais detalhado, com novos testes. Nessa \u00e9poca, ele afirma que alguns estudos de autores do exterior chegaram a conclus\u00f5es iguais \u00e0s suas e cita Ogata Masanori e Wallace Taylor no Jap\u00e3o (1886), Connelissen e Sugunoya na \u00cdndia (1886). De fato, n\u00e3o apenas esses mas tamb\u00e9m outros autores estavam \u201cdescobrindo\u201d microorganismos do berib\u00e9ri. Cada um, no entanto, observava micr\u00f3bios diferentes.<\/p>\n<p>Logo depois, Lacerda encontra uma confirma\u00e7\u00e3o de seus estudos. O m\u00e9dico Cornellius Pekelharing, de Utrecht, foi enviado em 1887 \u00e0 \u00cdndia pelo governo holand\u00eas para extudar o berib\u00e9ri e propor medidas para combater essa doen\u00e7a. Tomou conhecimento dos estudos de Lacerda e lhe pediu c\u00f3pias de seus trabalhos.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s da embaixada holandesa no Rio de Janeiro, Lacerda acompanhou os trabalho de Pekelharing, que levaram a resultados semelhantes aos seus.<\/p>\n<p>Pekelharing afirma que estudou a possibilidade de que a doen\u00e7a fosse produzida por microorganismos porque ela parecia contagiosa. E confirma a hip\u00f3tese:<\/p>\n<p>Efetivamente conseguimos reconhecer no sangue de berib\u00e9ricos, extra\u00eddo durante a vida, a exist\u00eancia de bact\u00e9rias.<\/p>\n<p>Elas a\u00ed se encontram como gr\u00e2nulos (micrococos) e em forma de bastonetes, por\u00e9m muito menores do que os descritos por Lacerda e Ogata, menores ainda do que os encontrados em cad\u00e1veres de berib\u00e9ricos pelos srs. Cornelissen, e Suguenoya.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, cada investigador encontrava um tipo de microorganismo diferente. No entanto, Pekelharing, como Lacerda e como outros, consegue fazer uma cultura de seu microorganismo, inocul\u00e1-lo e produzir a doen\u00e7a. Al\u00e9m disso, Pekelharing descobriu que suas bact\u00e9rias existiam no ar, nos lugares em que estudou a enfermidade, \u201cexclusivamente onde reina o beriberi\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil imaginar como ele poderia afirmar que em nenhum outro lugar existem essas bact\u00e9rias. Pekelharing se convence de que os micr\u00f3bios s\u00e3o a causa do berib\u00e9ri:<\/p>\n<p>O que legitimamente se conclui de tudo quanto acabamos de expor \u00e9 que produz-se o beriberi por meio da inocula\u00e7\u00e3o dos microorganismos provenientes do sangue de indiv\u00edduos acometidos daquela mol\u00e9stia.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o ainda suficientes os dados de que dispomos para decidir se al\u00e9m dos micrococos j\u00e1 mencionados outras bact\u00e9rias existem capazes de produzir a mesma mol\u00e9stia, devendo notar-se que em outras enfermidades h\u00e1 exemplos disso. Sobre se se deve considerar ou n\u00e3o o beriberi mol\u00e9stia infecciosa, creio que a tal respeito ningu\u00e9m levantar\u00e1 hoje a menor d\u00favida.<\/p>\n<p>As medidas de controle da doen\u00e7a sugeridas por esse autor s\u00e3o, evidentemente, cuidados sanit\u00e1rios, desinfec\u00e7\u00e3o dos locais e dos objetos, etc.<\/p>\n<p>Outro brasileiro que descobriu um micr\u00f3bio do berib\u00e9ri foi Francisco Fajardo. Em 1898, ele observou um hematozo\u00e1rio que se apresentava no sangue de doentes de berib\u00e9ri, sob a forma de granula\u00e7\u00f5es de cor vermelho-escura ou \u00e0s vezes preta. Ele os considerou como semelhantes ao parasita da mal\u00e1ria. Nem seria preciso dizer que seu trabalho n\u00e3o foi confirmado.<\/p>\n<p>Continuaram a morrer milhares de pessoas por todo o mundo, enquanto se procurava o micr\u00f3bio do berib\u00e9ri. Surgiam indica\u00e7\u00f5es que parecem hoje muito claras indicando que era uma enfermidade de origem alimentar, mas ningu\u00e9m percebia claramente qual a defici\u00eancia, na \u00e9poca. Em 1880, o m\u00e9dico Kamehiro Takaki, do Hospital Naval de T\u00f3quio, convenceu-se de que havia algum problema nutricional na Marinha japonesa.<\/p>\n<p>Acreditou que a causa era a pequena quantidade de nitrog\u00eanio ingerida pelos marinheiros, e para solucionar essa defici\u00eancia introduziu mais carne, mais vegetais e, em algumas refei\u00e7\u00f5es, cevada no lugar do arroz. Houve uma grande redu\u00e7\u00e3o do berib\u00e9ri na Marinha japonesa.<\/p>\n<p>Um m\u00e9dico da marinha brasileira, Jaime Silvado, comentou em 1905 esse trabalho de Takaki. Elogia seu \u00eaxito, mas diz que n\u00e3o \u00e9 a falta de nitrog\u00eanio que produz a doen\u00e7a, pois os marinheiros brasileiros recebiam 600 g de carne fresca e 450 g de p\u00e3o por dia, em terra, mas mesmo assim surgia o berib\u00e9ri. Silvado aponta que, ao mesmo tempo em que mudou a alimenta\u00e7\u00e3o, Takaki conseguiu que fossem adotadas medidas de higiene, e que foram elas que eliminaram o beriberi.<\/p>\n<p>\u00c0 vista do exposto \u00e9 intuitivo que o beriberi desaparecer\u00e1 dos nossos navios quando imitarmos os marinheiros do Mikado, fazendo higiene, higiene, higiene e mais higiene.<\/p>\n<p>Algumas pessoas, como o pr\u00f3prio Lacerda, acreditavam que o arroz estragado podia produzir o berib\u00e9ri. Um pesquisador holand\u00eas, Christiaan Eijkman, observou em Java que as galinhas do laborat\u00f3rio, quando alimentadas durante algum tempo com arroz polido, ficaram doentes com sintomas semelhantes aos do berib\u00e9ri. Elas se curavam quando eram alimentadas com arroz n\u00e3o polido, integral.<\/p>\n<p>Sua interpreta\u00e7\u00e3o foi de que havia no arroz polido algum microorganismo ou toxinas produzidas por microorganismos; mas que o arroz integral continha alguma subst\u00e2ncia que anulava o efeito desse microorganismo ou toxina. Foi o sucessor de Eijkman, Gerrit Grijns (1865-1944) que percebeu em 1901 que as galinhas tamb\u00e9m adoeciam com outras alimenta\u00e7\u00f5es como tapioca ou carne de cavalo cozida, e se curavam com arroz integral.<\/p>\n<p>Concluiu que a causa do berib\u00e9ri era a falta de alguma subst\u00e2ncia que existia na pel\u00edcula do arroz integral. Foi necess\u00e1ria no entanto uma s\u00e9rie de estudos, com a contribui\u00e7\u00e3o de diversos pesquisadores, antes que o trabalho de Grijns fosse confirmado e se identificasse que subst\u00e2ncia era essa. Isso demorou mais de dez anos, durante os quais milhares de pessoas morreram de berib\u00e9ri, estupidamente, por causa do arroz polido.<\/p>\n<p>Essa longa hist\u00f3ria do berib\u00e9ri nos mostra como \u00e9 dif\u00edcil a evolu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. Quando uma teoria se mostra valiosa \u2013 como, no caso, a teoria microbiana das doen\u00e7as \u2013 ela chega a cegar as pessoas, impedindo-as de vislumbrar qualquer outra alternativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>OS VETORES DAS DOEN\u00c7AS MICROBIANAS<\/strong><\/p>\n<p>A d\u00e9cada de 1890 foi o per\u00edodo no qual ocorreu um novo importante avan\u00e7o: a descoberta de insetos transmissores de doen\u00e7as (vetores).<\/p>\n<p>Durante quase todo o s\u00e9culo XIX, por mais que variassem as teorias, considerava-se em geral que o ar era o meio de transmiss\u00e3o das doen\u00e7as (miasmas, germes). Desde a Antig\u00fcidade, houve esporadicamente sugest\u00f5es de que as doen\u00e7as pudessem ser transportadas por animais. A mal\u00e1ria, por exemplo, como seu pr\u00f3prio nome indica (mal\u2019aria), era atribu\u00edda geralmente a um mau ar dos p\u00e2ntanos, mas havia especula\u00e7\u00f5es sobre sua transmiss\u00e3o por mosquitos. Tamb\u00e9m no caso da febre amarela, foram feitas associa\u00e7\u00f5es entre a incid\u00eancia da doen\u00e7a e a presen\u00e7a de mosquitos. Mas em geral prevalecia a id\u00e9ia de que a transmiss\u00e3o era pelo ar.<\/p>\n<p>Davaine e Raimbert, em 1869, foram talvez os primeiros a investigar mais cuidadosamente a possibilidade de que as moscas pudesse transmitir uma doen\u00e7a (o antraz). Mas os primeiros estudos considerados decisivos sobre o papel dos insetos como vetores s\u00f3 foram realizados vinte anos depois.<\/p>\n<p>Em 1889, Theobald Smith (1859-1934) iniciou estudos, publicados em 1893, que permitiram identificar os carrapatos como vetores do plasm\u00f3dio da febre bovina do Texas.<\/p>\n<p>A \u201cfebre do Texas\u201d que dizimava rebanhos de gado nos Estados Unidos, era atribu\u00edda pelos criadores aos carrapatos. No entanto, os pesquisadores \u201ccient\u00edficos\u201d consideravam essa id\u00e9ia totalmente imposs\u00edvel. Um autor que estudou o assunto em 1868, chamado Gambee, afirmou: \u201cA teoria dos carrapatos adquiriu grande difus\u00e3o durante o \u00faltimo ver\u00e3o, mas basta pensar um pouco para perceber o absurdo dessa id\u00e9ia\u201d. Outros autores posteriores nem mencionavam tal poss\u00edvel fonte da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1880, foram encontradas algumas bact\u00e9rias no sangue do gado doente e essas mesmas bact\u00e9rias foram tamb\u00e9m encontradas nos carrapatos; por outro lado, elas eram observadas tamb\u00e9m na \u00e1gua, solo, urina, fezes e outros locais. N\u00e3o se sabia se essas bact\u00e9rias tinham alguma rela\u00e7\u00e3o com a doen\u00e7a, nem se sua presen\u00e7a nos carrapatos era relevante.<\/p>\n<p>Theobald Smith liderou uma pesquisa realizada em uma esta\u00e7\u00e3o experimental governamental, perto de Washington. A pesquisa se iniciou em 1889.<\/p>\n<p>Primeiramente, foram trazidas 7 vacas da regi\u00e3o em que a doen\u00e7a existia de modo permanente. Quatro delas foram colocadas em um campo separado no dia 27 de Junho de 1889. No mesmo campo, foram colocadas, no mesmo dia, 6 cabe\u00e7as de gado sadias. Todas, exceto uma, morreram da doen\u00e7a no final de Agosto ou in\u00edcio de Setembro. As vacas iniciais n\u00e3o manifestaram, no entanto, sinais da doen\u00e7a, mostrando que animais aparentemente sadios podiam transmitir a doen\u00e7a a outros.<\/p>\n<p>As quatro vacas iniciais foram retiradas do campo no dia 17 de Agosto. L\u00e1 foram colocadas mais oito cabe\u00e7as de gado, com diversos intervalos. Uma foi colocada no dia 20 de Agosto, outras duas no dia 24, mais duas no dia 6 de Setembro, outra no dia 14, uma no dia 30 e uma \u00faltima no dia 19 de Outubro. Com excess\u00e3o de duas, as demais morreram da mesma doen\u00e7a. Por algum motivo, o campo havia se tornado infectado e era capaz de transmitir a febre do Texas, mesmo tendo sido retirados os animais que haviam introduzido a doen\u00e7a no campo. Casos semelhantes j\u00e1 haviam sido descritos no campo, mas sem controle das condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para verificar se a infec\u00e7\u00e3o do campo era produzida pelos carrapatos, como se supunha, Smith escolheu um outro campo isolado, no qual n\u00e3o haviam ainda sido colocados animais doentes. Espalhou pelo solo alguns milhares de carrapatos coletados de gado da regi\u00e3o onde havia a doen\u00e7a. Nesse campo, no dia seguinte, foram colocadas quatro cabe\u00e7as de gado sadias. Tr\u00eas contra\u00edram a doen\u00e7a. Isso foi uma forte indica\u00e7\u00e3o de que a doen\u00e7a era transmitida pelos carrapatos.<\/p>\n<p>Por fim, em outro experimento, foram colocadas vacas da regi\u00e3o doente em um campo, depois de se retirarem dessas vacas todos os carrapatos. Depois de algum tempo, essas vacas foram retiradas. O gado sadio que foi colocado depois no mesmo campo n\u00e3o ficou doente. Isso indicava que n\u00e3o eram os excrementos do gado doente, a \u00e1gua, o solo ou o capim que transmitiam a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>No ano seguinte, ap\u00f3s o inverno, n\u00e3o foram observados carrapatos no campo infectado. Colocando-se 5 cabe\u00e7as de gado nesse campo, nenhuma delas ficou doente.<\/p>\n<p>Em toda a s\u00e9rie de experimentos, observou-se que bastava a presen\u00e7a de carrapatos provenientes de animais doentes para produzir a doen\u00e7a em animais sadios e que n\u00e3o bastava a presen\u00e7a de animais doentes para produzir a doen\u00e7a. Portanto, ela n\u00e3o era transmitida diretamente por contato, nem pelos excrementos, mas apenas pelo inseto.<\/p>\n<p>Uma vez conhecida a causa e o modo de transmiss\u00e3o de uma doen\u00e7a, torna-se poss\u00edvel uma preven\u00e7\u00e3o bem fundamentada. Com o conhecimento de que a febre do Texas era transmitida pelos carrapatos, foi poss\u00edvel o controle da mesma.<\/p>\n<p>A febre amarela foi a primeira doen\u00e7a humana para a qual se detectou um inseto transmissor. Esses estudos foram publicados em 1884 pelo m\u00e9dico cubano Juan Carlos Finlay y de Barres (1833-1915), embora s\u00f3 fossem confirmados e aceitos vinte anos depois.<\/p>\n<p>Antes de estudar o trabalho de Finlay, vamos no entanto recuar um pouco no tempo.<\/p>\n<p>J\u00e1 vimos que no final do s\u00e9culo XVII e in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, houve uma grande epidemia de febre amarela no Brasil. Durante muito tempo, a doen\u00e7a parece ter desaparecido do pa\u00eds. No entanto, no fim de setembro de 1849, um navio norte-americano, depois de passar por Havana e outros lugares em que havia a febre amarela, chegou ao Brasil. Em outubro, apareceram alguns casos da doen\u00e7a em Salvador.<\/p>\n<p>No m\u00eas seguinte, j\u00e1 havia uma forte epidemia, que atingiu milhares de pessoas. No Recife, morreram cerca de 2.800 pessoas. No Par\u00e1, houve 12.000 doentes e 590 mortos de uma popula\u00e7\u00e3o total de 16.000 habitantes. A doen\u00e7a se fixou na regi\u00e3o, matando mais de 5.000 pessoas nas d\u00e9cadas seguintes. Em Fortaleza, dos 41.000 habitantes, 28.500 adoeceram e 900 morreram, em 1851.<\/p>\n<p>Os navios levaram tamb\u00e9m a doen\u00e7a ao Rio de Janeiro. No ano de 1850, da popula\u00e7\u00e3o de 166.000 habitantes, houve mais de 90.000 doentes, dos quais morreram mais de 4.000. Dessa \u00e9poca at\u00e9 o fim do s\u00e9culo, houve um total de 58.000 v\u00edtimas de febre amarela, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Como os m\u00e9dicos explicavam a doen\u00e7a? Sua causa parecia ser a indigest\u00e3o, ou talvez a supress\u00e3o da transpira\u00e7\u00e3o, pela umidade, pela chuva; ou talvez o sereno da madrugada, ou mesmo a insola\u00e7\u00e3o do ver\u00e3o.<\/p>\n<p>A falta de trovoadas tamb\u00e9m foi considerada uma das causas. Continuava-se tamb\u00e9m a acreditar na exist\u00eancia de miasmas, provenientes da decomposi\u00e7\u00e3o de organismos, que originariam a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>As id\u00e9ias sobre a causa da febre amarela come\u00e7am a mudar ap\u00f3s o desenvolvimento da teoria microbiana das doen\u00e7as. No Brasil, como em outros lugares, os primeiros sucessos da teoria logo fizeram com que todos come\u00e7assem a procurar e encontrar microorganismos causadores de tudo.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, em 1878, um m\u00e9dico chamado Richardson afirmou ter descoberto bact\u00e9rias em forma de halteres, que seriam a causa da febre amarela. Deu-lhes o nome de Bacteria sanguinis febris flavae (bact\u00e9ria sang\u00fc\u00ednea da febre amarela). A descoberta n\u00e3o foi confirmada por estudos posteriores.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, Domingos Jos\u00e9 Freire J\u00fanior, professor da Faculdade de Medicina, anunciou em 1880 que havia encontrado a causa da febre amarela: o Cryptococcus xantogenicus \u2013 nome que significa literalmente: a bolinha oculta que produz a cor amarela. O microorganismo teria sido localizado no f\u00edgado, ba\u00e7o e rins dos doentes. Freire estudou o processo de transmiss\u00e3o do micr\u00f3bio e o encontrou na \u00e1gua, nos alimentos, no ar, nos cemit\u00e9rios e nos hospitais. A partir dessa descoberta, produziu em 1883 uma vacina contra a febre amarela, que aplicou em mais de 10.000 pessoas. Ele alegou ter reduzido a mortalidade da doen\u00e7a em 90%. Em 1885, o m\u00e9dico Ara\u00fajo G\u00f3es estudou essas descobertas e negou a exist\u00eancia dos \u201cCryptococcus\u201d: Freire J\u00fanior havia observado apenas hem\u00e1cias. Sua vacina, por sua vez, era no m\u00ednimo in\u00f3cua.<\/p>\n<p>O mais insistente \u201cdescobridor\u201d brasileiro de micr\u00f3bios da febre amarela foi Jo\u00e3o Batista de Lacerda. Em 1883, ele divulgou a descoberta do Fungus febris flavae e, nos anos seguintes, \u00e0 medida que eram percebidos seus erros, foi sucessivamente \u201cdescobrindo\u201d novos micr\u00f3bios.<\/p>\n<p>Diante de uma seq\u00fc\u00eancia de fracassos e pela import\u00e2ncia da doen\u00e7a, Dom Pedro II convidou Pasteur a vir ao Brasil estudar a febre amarela. A princ\u00edpio, Pasteur pareceu interessado.<\/p>\n<p>Solicitou ao imperador do Brasil permiss\u00e3o para fazer experi\u00eancias com alguns condenados \u00e0 morte. Dom Pedro II disse que isso era imposs\u00edvel, e Pasteur desistiu de vir ao Brasil.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, houve sucessivos pesquisadores que anunciaram ter, enfim, corrigido o erro dos anteriores e encontrado o \u201cverdadeiro\u201d micr\u00f3bio causador da febre amarela.<\/p>\n<p>No caso desta doen\u00e7a, o avan\u00e7o mais importante n\u00e3o ocorreu com a descoberta de um micr\u00f3bio e sim com a descoberta do inseto que transmitia a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia de que os mosquitos podiam ter alguma rela\u00e7\u00e3o com a febre amarela j\u00e1 havia sido proposta em 1848, por Josiah Nott. Mas foi gra\u00e7as \u00e0s investiga\u00e7\u00f5es cuidadosas do cubano Finlay, que em 1881 essa rela\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ser esclarecida.<\/p>\n<p>Sabia-se que a febre amarela produz imunidade: as pessoas que se salvam da doen\u00e7a n\u00e3o a adquirem novamente. Por analogia com outras doen\u00e7as, imaginou-se que era uma enfermidade contagiosa.<\/p>\n<p>Mas os fatos conhecidos eram confusos. Algumas vezes, pessoas que viviam junto a doentes de febre amarela tamb\u00e9m ficavam doentes; outras vezes, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante a \u00e9poca em que mais se discutia o cont\u00e1gio da doen\u00e7a, v\u00e1rios m\u00e9dicos \u2013 Firth, Chervin, Guyon e outros \u2013 que eram firmes opositores da doutrina do cont\u00e1gio, quiseram dar ao mundo uma prova da sinceridade de suas opini\u00f5es. Eles pr\u00f3prios se expuseram ao contato das roupas de enfermos e de cad\u00e1veres, dormindo em suas camas, respirando o seu alento, esfregando as m\u00e3os e o rosto com o v\u00f4mito, ingerindo o pr\u00f3prio v\u00f4mito negro, inoculando-se com o sangue, a saliva, e excrementos de tais enfermos. Nenhum deles adoeceu.<\/p>\n<p>Concluiram que a doen\u00e7a n\u00e3o era contagiosa.<\/p>\n<p>Finlay estava convencido de que a doen\u00e7a n\u00e3o passava diretamente de um doente para uma pessoa s\u00e3. Imaginou ent\u00e3o que pudesse existir algum transmissor da febre amarela.<\/p>\n<p>Como em outros casos, o ponto de partida foi uma cren\u00e7a popular de que os mosquitos pudessem produzir a doen\u00e7a. Para estudar essa hip\u00f3tese, Finlay resolveu testar se era poss\u00edvel transmitir a febre amarela fazendo com que um mosquito picasse uma pessoa doente e, depois, uma pessoa sadia. Buscando esse agente, por exclus\u00e3o, fixou-se no estudo de um inseto sempre presente nos focos de infec\u00e7\u00e3o, em Cuba e outros locais pr\u00f3ximos: um mosquito que picava as pessoas durante o dia, chamado Culex fasciatus (tamb\u00e9m conhecido como Stegomya fasciata e depois chamado de Aedes aegypti)<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Finlay tinha grandes d\u00favidas te\u00f3ricas sobre a possibilidade de que esse fosse o vetor. Afinal de contas, a doen\u00e7a deve ser transmitida por alguma coisa material. Seria poss\u00edvel que o aguilh\u00e3o de um mosquito, compar\u00e1vel a um pequeno cone de di\u00e2metro igual a 1\/30 de mil\u00edmetro, pudesse reter uma quantidade suficiente de v\u00edrus para realizar uma inocula\u00e7\u00e3o eficaz? Isso parecia absurdo. No entanto, ele resolveu fazer o teste.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Finlay tinha grandes d\u00favidas te\u00f3ricas sobre a possibilidade de que esse fosse o vetor. Afinal de contas, a doen\u00e7a deve ser transmitida por alguma coisa material. Seria poss\u00edvel que o aguilh\u00e3o de um mosquito, compar\u00e1vel a um pequeno cone de di\u00e2metro igual a 1\/30 de mil\u00edmetro, pudesse reter uma quantidade suficiente de v\u00edrus para realizar uma inocula\u00e7\u00e3o eficaz? Isso parecia absurdo. No entanto, ele resolveu fazer o teste.<\/p>\n<p>Os experimentos foram realizados perto de Havana, em uma fazenda de jesu\u00edtas, onde os novos padres se \u201caclimatavam\u201d, ao chegar em Cuba.<\/p>\n<p>Finlay coletou inicialmente v\u00e1rios dos mosquitos que eram suspeitos de atuar como vetores. Para isso, ele esperava que surgissem tais insetos e que picassem uma pessoa (\u00e0s vezes, ele pr\u00f3prio).<\/p>\n<p>Dava prefer\u00eancia a mosquitos jovens, \u201cque aparentemente nunca tivessem picado algu\u00e9m\u201d . O inseto era aprisionado em um tubo de vidro, que era tampado com algod\u00e3o. Quando o tubo era destampado, invertido e colocado sobre o bra\u00e7o de uma pessoa, o mosquito imediatamente o picava, e ficava sugando o sangue de 1 a 5 minutos. O tubo era tampado novamente. O mosquito demorava 2 ou 3 dias a digerir o sangue e s\u00f3 ent\u00e3o picava novamente.<\/p>\n<p>No dia 13 de agosto de 1883, Finlay fez um desses mosquitos picar um jovem que estava no sexto dia de febre amarela, em um hospital de Cuba. No dia 15, o mesmo mosquito foi levado a picar uma outra pessoa que estava no sexto dia da febre amarela e que morreu 3 dias depois. Transportado para a fazenda dos jesu\u00edtas, no dia 17 de agosto, o mesmo mosquito \u00e9 levado a picar o padre P. U., como experimento.<\/p>\n<p>No dia 24 de agosto, o padre caiu doente. Depois de 8 dias de doen\u00e7a, descritas detalhadamente por Finlay, ele se recuperou.<\/p>\n<p>Finlay repetiu o mesmo tipo de teste com outros enfermos e novas pessoas sadias. Houve casos em que n\u00e3o houve transmiss\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Finlay acabou por descobrir que era necess\u00e1rio que o doente estivesse em certa fase da doen\u00e7a (entre o terceiro e o sexto dia) e que houvesse um intervalo de tempo entre o contado do mosquito com o doente e a picada da pessoa sadia. Para obter com seguran\u00e7a a transmiss\u00e3o, era necess\u00e1rio utilizar v\u00e1rios mosquitos ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Em estudos posteriores, Finlay conseguiu tamb\u00e9m transmitir a febre amarela atrav\u00e9s de inje\u00e7\u00f5es com sangue colhido de doentes. Fez ainda testes de imuniza\u00e7\u00e3o, tentando desenvolver um processo de transmitir uma forma branda da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A partir de seus estudos, j\u00e1 em 1884, Finlay indicou o modo de evitar a propaga\u00e7\u00e3o da febre amarela: isolar os doentes dos insetos.<\/p>\n<p>Do fato da inoculabilidade da febre amarela por picadas do mosquito se infere a necessidade de preservar os enfermos atacados dessa afec\u00e7\u00e3o contra as referidas picadas, a fim de evitar a propaga\u00e7\u00e3o da enfermidade.<\/p>\n<p>Apesar de seu sucesso nesse estudo, Finlay n\u00e3o conseguiu observar o agente causador da doen\u00e7a, que seria transmitido pelo mosquito. Isso, na verdade, n\u00e3o foi um defeito de seu trabalho, mas mostra que ele era um \u00f3timo investigador. De fato: a febre amarela \u00e9 causada por um v\u00edrus, que nem Finlay nem ningu\u00e9m poderia ter observado com as t\u00e9cnicas existentes na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Seus estudos foram confirmados em 1900 por uma comiss\u00e3o norte-americana, coordenada por Walter Reed. Nessa \u00e9poca, o governo dos Estados Unidos tinha grande interesse no controle dessa doen\u00e7a, pois, al\u00e9m de atingir o pa\u00eds, a febre amarela inviabilizava a constru\u00e7\u00e3o do Canal do Panam\u00e1, que era de enorme import\u00e2ncia econ\u00f4mica. Reed e seu grupo confirmaram a descoberta de Finlay. No entanto, Reed tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiu descobrir um micr\u00f3bio associado \u00e0 febre amarela.<\/p>\n<p>Em 1901, o mesmo grupo descobriu que o soro sang\u00fc\u00edneo, filtrado atrav\u00e9s de paredes de porcelana capazes de reter as bact\u00e9rias, era ainda capaz de transmitir a doen\u00e7a. N\u00e3o se tratava, portanto, de nenhuma bact\u00e9ria ou microorganismo vis\u00edvel ao microsc\u00f3pio. Concluiu-se que a causa da febre amarela era um \u201cv\u00edrus filtr\u00e1vel\u201d, ou simplesmente um v\u00edrus \u2013 no sentido moderno da palavra.<\/p>\n<p>De certa forma, o v\u00edrus invis\u00edvel foi uma no\u00e7\u00e3o muito inc\u00f4moda, nessa \u00e9poca. No caso da raiva, da febre amarela, da var\u00edola e em v\u00e1rios outros, n\u00e3o se conseguia ver nenhum agente microsc\u00f3pico da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o se conseguia cultivar esses v\u00edrus invis\u00edveis em nenhum meio de cultura, fora de animais. N\u00e3o se podia aplicar aqui, portanto, os postulados de Koch.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o se chegar ao agente causal da doen\u00e7a, a descoberta do processo de transmiss\u00e3o foi suficiente para o controle da febre amarela: desde que n\u00e3o houvesse mosquitos, a doen\u00e7a n\u00e3o se espalharia.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o dos mosquitos foi feita atrav\u00e9s de drenagem de \u00e1guas estagnadas e por subst\u00e2ncias que destru\u00edam as larvas dos insetos (como petr\u00f3leo). Com o combate ao mosquito, a partir de 1901, a febre amarela desapareceu de Cuba e do Panam\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante lembrar os processos antigos de preven\u00e7\u00e3o da febre amarela. Como vimos, a grande epidemia do Recife, no final do s\u00e9culo XVII, foi combatida com medidas de limpeza, desinfec\u00e7\u00e3o de casas, roupas e objetos de doentes, fogueiras, tiros de canh\u00e3o, controle da moralidade, ervas arom\u00e1ticas, enterros especiais de cad\u00e1veres, etc.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m se preocupou com mosquitos nem com a exist\u00eancia de p\u00e2ntanos perto da cidade. Quais dessas medidas podem ter sido \u00fateis, no caso? Talvez as fogueiras, as ervas arom\u00e1ticas e os tiros de canh\u00e3o tenham ajudado a espantar os mosquitos. As outras medidas, por mais justificadas que fossem para os conhecimentos da \u00e9poca, foram in\u00fateis.<\/p>\n<p>No Estado de S\u00e3o Paulo, a febre amarela produzia muitas mortes no in\u00edcio do s\u00e9culo. Em Sorocaba, houve 2.300 casos. Diante da situa\u00e7\u00e3o, conhecendo o trabalho de Finlay, Em\u00edlio Ribas iniciou em 1901 o combate ao mosquito, conseguindo controlar a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>No Rio de Janeiro, sucessivas epidemias de febre amarela produziam muitas mortes. De um modo geral, a doen\u00e7a chegava pelos navios. Em 1896, chegou \u00e0 cidade o navio \u201cLombardia\u201d, com 340 pessoas. Dessas, apenas 7 n\u00e3o ficaram doentes. Morreram 234.<\/p>\n<p>Em 1903, Oswaldo Cruz foi nomeado Diretor Geral da Sa\u00fade P\u00fablica, pelo presidente Rodrigues Alves e iniciou o combate \u00e0 febre amarela. Nesse ano, houve 584 mortes por essa doen\u00e7a, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>No ano seguinte, o n\u00famero baixou para 48, mas em 1905 subiu novamente para 289. Nos anos seguintes, o n\u00famero de v\u00edtimas foi caindo para 42, 39, 4 e, finalmente, em 1909, n\u00e3o houve nenhuma morte por febre amarela. Logo depois, a vigil\u00e2ncia diminuiu, e em 1928 ocorreu um forte surto epid\u00eamico. De 1928 a 1929, morreram 478 v\u00edtimas da febre amarela, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Outros vetores de doen\u00e7as foram sendo descobertos, no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX. Em 1897, Ronald Ross descobriu que o plasm\u00f3dio da mal\u00e1ria era transportado por mosquitos \u2013 Anopheles \u2013 identificado por Grassi em 1898. A mal\u00e1ria n\u00e3o era um problema t\u00e3o grave quanto a febre amarela, pois h\u00e1 muito tempo se conhecia um rem\u00e9dio eficaz \u2013 o quinino. No entanto, com o conhecimento de seu meio de transmiss\u00e3o, foi tamb\u00e9m poss\u00edvel control\u00e1-la.<\/p>\n<p>No final do s\u00e9culo XIX, houve epidemias asi\u00e1ticas de peste bub\u00f4nica. Seu estudo permitiu, primeiro, a descoberta do microorganismo causador da doen\u00e7a por Yersin, em Hong Kong, em 1894. Em 1897, Simond e Ogata mostraram que a peste bub\u00f4nica \u00e9 transmitida pela pulga de ratos doentes. A peste bub\u00f4nica se espalha, primeiramente, entre os ratos, por suas pulgas, que n\u00e3o costumam picar seres humanos.<\/p>\n<p>No entanto, quando um rato doente morre e seu corpo esfria, as pulgas procuram outro hospedeiro e se n\u00e3o encontram logo um outro rato, podem picar seres humanos e transmitir-lhes a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca das grandes pestes europ\u00e9ias, j\u00e1 se havia observado que havia grande mortalidade de ratos antes que a doen\u00e7a aparecesse nas pessoas; mas n\u00e3o se sabia a rela\u00e7\u00e3o entre as duas coisas.<\/p>\n<p>O modo de evitar o surgimento e a propaga\u00e7\u00e3o da peste bub\u00f4nica \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o dos ratos, nas cidades. Isso pode ser conseguido, em parte, com medidas de limpeza: redu\u00e7\u00e3o do lixo acumulado pelas ruas e em terrenos vazios, limpezas de por\u00f5es das casas, etc.; ou por medidas dirigidas diretamente ao seu exterm\u00ednio, atrav\u00e9s de venenos. Nas antigas pestes, como vimos, o primeiro tipo de medida era tomada (com o fim consciente de diminuir o mau cheiro) e algumas vezes procurava-se eliminar tamb\u00e9m todos os animais das cidades. No entanto, \u00e9 dif\u00edcil exterminar os ratos; e como \u00e9 muito mais f\u00e1cil matar os gatos, que s\u00e3o mais vis\u00edveis, provavelmente essas medidas eram mais prejudiciais do que ben\u00e9ficas, pois eliminavam os predadores naturais dos roedores.<\/p>\n<p>Depois que se descobriu a rela\u00e7\u00e3o entre os ratos e a peste, em muitos lugares em que essa doen\u00e7a aparecia, as autoridades estimularam a popula\u00e7\u00e3o a combater os ratos, remunerando as pessoas por corpos de ratos que fossem entregues. Essa medida \u00e9 perigosa, pois se o rato j\u00e1 estiver doente, pouco depois de sua morte as pulgas procurar\u00e3o outro lugar para viver \u2013 e escolher\u00e3o, muito provavelmente, a pessoa que matou o rato e o levou para entregar \u00e0s autoridades sanit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Uma outra medida que era tomada contra as pestes era a purifica\u00e7\u00e3o das roupas, colocando-as ao ar livre. Em parte, isso pode ter sido \u00fatil: as pulgas saem de roupas expostas ao calor do Sol. Por outro lado, dentre as dezenas de subst\u00e2ncias arom\u00e1ticas recomendadas para serem usadas nas casas, \u00e9 poss\u00edvel que alguma fosse tamb\u00e9m \u00fatil contra pulgas. Sabe-se que, no Brasil, existem ervas que, colocadas dentro de casas, s\u00e3o capazes de afastar as pulgas. Todas as outras medidas tomadas contra a peste, no entanto, eram in\u00fateis: queimar subst\u00e2ncias arom\u00e1ticas pelas ruas, fazer fogueiras, cheirar esponjas embebidas em vinagre e outras medidas semelhantes n\u00e3o tinham efeito nem contra os ratos, nem contra as pulgas.<\/p>\n<p>Houve descobertas inesperadas de vetores. Durante o s\u00e9culo XIX, havia sido percebido que a transmiss\u00e3o do tifo se dava, como no caso do c\u00f3lera, pela \u00e1gua.<\/p>\n<p>Apesar disso, n\u00e3o se conseguia controlar totalmente a doen\u00e7a, que irrompia \u00e0s vezes entre os soldados, durante a guerra. Em 1909, Charles Nicolle estabeleceu que o tifo \u00e9 transmitido por piolhos, que at\u00e9 ent\u00e3o eram considerados como inc\u00f4modos, mas inofensivos.<\/p>\n<p>Deve-se a um brasileiro, Carlos Chagas, a descoberta de uma nova doen\u00e7a, seu microorganismo causador e seu vetor, em uma s\u00e9rie de estudos realizados no in\u00edcio do s\u00e9culo. Em 1907, estava sendo contru\u00edda uma estrada de ferro no norte de Minas Gerais. Havia muita mal\u00e1ria na regi\u00e3o e Carlos Chagas foi incumbido de organizar as medidas que permitissem proteger os trabalhadores contra a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Durante esse trabalho, Chagas tomou conhecimento da exist\u00eancia de um grande inseto que se alimentava de sangue, chamado \u201cbarbeiro\u201d. Esse inseto, quase do tamanho de uma barata, vive escondido em frestas das casas, durante o dia, mas \u00e0 noite sai de seu esconderijo e suga o sangue dos moradores. Normalmente, quando se acende uma luz, ele se enconde rapidamente.<\/p>\n<p>Conta-se que a mordida n\u00e3o \u00e9 dolorosa e que o inseto ataca em geral o rosto das pessoas adormecidas, sem que elas acordem.<\/p>\n<p>Como estavam sendo descobertos muitos insetos transmissores de doen\u00e7as, Chagas resolveu examinar alguns barbeiros \u00e0 procura de microorganismos. Talvez ele esperasse encontrar um novo vetor da mal\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mas achou dentro de alguns barbeiros um novo tipo de microorganismo: certos flagelados, semelhantes aos que provocam a \u201cdoen\u00e7a do sono\u201d do gado africano. Mais tarde, eles foram batizados como Trypanosoma cruzi<\/p>\n<p>Esses microorganismos pareciam novos e n\u00e3o se conhecia nenhuma doen\u00e7a produzida por eles. No entanto, Chagas prosseguiu sua pesquisa. Experimentou picar diversos animais pelo barbeiro. Observou que, depois de algumas semanas da picada, era poss\u00edvel encontrar os mesmos tripanosomas o sangue desses animais de teste. Nem todos os animais eram suscet\u00edveis. Cruz conseguiu infectar macacos, coelhos, cobaias e c\u00e3es. As cobaias eram especialmente sens\u00edveis ao microorganismo e morriam depois de uma semana.<\/p>\n<p>Posteriormente, examinando o sangue de pessoas da regi\u00e3o estudada, Chagas encontrou o tripanosoma no sangue de alguns habitantes, especialmente crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do estudo desses enfermos, conseguiu caracterizar uma doen\u00e7a nova para a Medicina, que era conhecida pelo povo como \u201copila\u00e7\u00e3o\u201d e que passou a ser chamada \u201cdoen\u00e7a de Chagas\u201d.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as que apresentavam tripanosomas tinham sintomas de anemia, pequeno crescimento, desordens nervosas, aumento dos g\u00e2nglios linf\u00e1ticos e, \u00e0s vezes, f\u00edgado e ba\u00e7o inchados, al\u00e9m de outros sintomas.<\/p>\n<p>Os microorganismos \u00e0s vezes desapareciam do sangue, tornando-se mais f\u00e1ceis de encontrar em per\u00edodos de febre. \u00c0s vezes a doen\u00e7a era grave e levava \u00e0 morte.<\/p>\n<p>Em outros casos, os sintomas mais agudos passavam e a doen\u00e7a se tornava cr\u00f4nica, produzindo gradualmente problemas card\u00edacos graves. No campo, onde a doen\u00e7a de Chagas ocorre mais comumente, \u00e9 grande o n\u00famero de pessoas atacadas por essa enfermidade de forma cr\u00f4nica, muitas vezes sem saber que est\u00e3o doentes.<\/p>\n<p>O trabalho de Carlos Chagas foi posteriormente confirmado, em quase todos os seus detalhes. Pouco se acrescentou ao que ele pr\u00f3prio fez, com seus auxiliares.<\/p>\n<p>Este bom exemplo de pesquisa microbiana no Brasil nos redimiu dos trabalho de Lacerda, Fajardo e outros.<\/p>\n<p>No caso da doen\u00e7a de Chagas, foi poss\u00edvel apenas encontrar um modo de preven\u00e7\u00e3o, pelo combate ao barbeiro. N\u00e3o existe at\u00e9 hoje cura para a doen\u00e7a, nem vacina contra ela.<\/p>\n<p>H\u00e1 suspeitas de que o conhecido naturalista Charles Darwin foi v\u00edtima dessa doen\u00e7a. Durante sua juventude, ele viajou pela Am\u00e9rica do Sul e observou em v\u00e1rios locais um animal semelhante ao barbeiro.<\/p>\n<p>Ele conta que era muito desagrad\u00e1vel sentir esses grandes insetos subindo por seu corpo para pic\u00e1-lo. Darwin diz que os nativos de Iquiqui se divertiam com esse animal, capturando-o e vendo-o sugar o sangue do dedo de uma pessoa, pois, embora fosse normalmente achatado, ele inchava e ficava redondo. Posteriormente, Darwin teve problemas incur\u00e1veis de sa\u00fade com alguns sintomas que concordam com os da doen\u00e7a de Chagas, que era ent\u00e3o desconhecida.<\/p>\n<p>A gradativa descoberta de vetores das doen\u00e7as permitiu controlar males terr\u00edveis, como a peste bub\u00f4nica, a mal\u00e1ria, a febre amarela e outras enfermidades. H\u00e1, no entanto, a necessidade de que as autoridades e a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o estejam conscientes da necessidade de manter uma constante vigil\u00e2ncia para evitar que elas reapare\u00e7am.<\/p>\n<p>Quando se pensa que a luta foi vencida e que n\u00e3o \u00e9 preciso tomar mais cuidado, pode haver o ressurgimento da febre amarela e do dengue, como ocorreu no Brasil na d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p><strong>CAP\u00cdTULO 12: O S\u00c9CULO XX: SUCESSOS E DIFICULDADES<\/strong><\/p>\n<p><strong>AVAN\u00c7OS DO CONHECIMENTO<\/strong><\/p>\n<p>Seriam necess\u00e1rios muitos outros cap\u00edtulos para discutir o desenvolvimento de nossa hist\u00f3ria ao longo do s\u00e9culo XX. N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel fazer isso. As principais li\u00e7\u00f5es j\u00e1 foram apresentadas e, de qualquer forma, \u00e9 imposs\u00edvel fazer um estudo hist\u00f3rico completo. Veremos apenas as linhas gerais que se desenvolveram ap\u00f3s o s\u00e9culo XIX, delineando as tend\u00eancias, sucessos e dificuldades do per\u00edodo mais recente.<\/p>\n<p>Ao longo de todo o per\u00edodo que foi aqui estudado, observa-se um lento processo de avan\u00e7o do conhecimento. A partir de id\u00e9ias vagas sobre o cont\u00e1gio, chegou-se no s\u00e9culo XIX a uma compreens\u00e3o do processo de transmiss\u00e3o de doen\u00e7as: as doen\u00e7as transmiss\u00edveis s\u00e3o causadas por seres vivos microsc\u00f3picos, que se reproduzem dentro dos indiv\u00edduos doentes, podendo depois ser transferidos a pessoas s\u00e3s pelo ar, pelo contato f\u00edsico, por dejetos que se espalham pelo solo ou pela \u00e1gua, por objetos sujos, ou mesmo por transportadores (vetores) animais \u2013 geralmente insetos.<\/p>\n<p>Pode-se evitar a transmiss\u00e3o dessas doen\u00e7as conhecendo-se o modo pelo qual cada uma se transmite e atrav\u00e9s de cuidados com os enfermos (impedindo que eles disseminem os microorganismos causadores da doen\u00e7a), controlando os vetores, tomando cuidados com a \u00e1gua, etc. \u2013 dependendo, em cada caso, do conhecimento do processo de transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Em certos casos, \u00e9 poss\u00edvel tamb\u00e9m proteger as pessoas s\u00e3s atrav\u00e9s de \u201cvacinas\u201d que produzem uma vers\u00e3o branda da enfermidade e d\u00e3o depois imunidade contra ela.<\/p>\n<p><strong>Ao longo do s\u00e9culo XX, prosseguiram as linhas de trabalho iniciadas no s\u00e9culo anterior:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>identifica\u00e7\u00e3o de microorganismos causadores de doen\u00e7as;<br \/>\nidentifica\u00e7\u00e3o de processos de difus\u00e3o desses microorganismos;<br \/>\nidentifica\u00e7\u00e3o de vetores;<br \/>\nbusca de vacinas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Al\u00e9m disso, houve um grande desenvolvimento de novos medicamentos (como os antibi\u00f3ticos).<\/p>\n<p>Os exemplos j\u00e1 mostrados permitem perceber que nada disso \u00e9 simples. A identifica\u00e7\u00e3o correta de um microorganismo costuma ser precedida de muitos erros anteriores; e mesmo no s\u00e9culo XX ocorreram muitas \u201cdescobertas\u201d de microorganismos que n\u00e3o existem ou que n\u00e3o s\u00e3o a causa real das doen\u00e7as estudadas.<\/p>\n<p>Seria in\u00fatil aqui fazer uma longa lista de doen\u00e7as, nomes de microorganismos que as causam, data de sua descoberta, nome dos seus descobridores.<\/p>\n<p>Estar\u00edamos reduzindo a um esquema seco e in\u00fatil as centenas de pesquisas que foram necess\u00e1rias para superar todas as dificuldades e fazer a identifica\u00e7\u00e3o correta, em cada caso.<\/p>\n<p>Houve um avan\u00e7o t\u00e9cnico fundamental, ocorrido no s\u00e9culo XX: a observa\u00e7\u00e3o dos v\u00edrus. No final do s\u00e9culo XIX, j\u00e1 havia sido introduzida a hip\u00f3tese de exist\u00eancia de certos microorganismos ultra-microsc\u00f3picos (os \u201cv\u00edrus filtr\u00e1veis\u201d), que n\u00e3o eram vistos nos melhores microsc\u00f3pios existentes na \u00e9poca, passavam por poros dos filtros de porcelana e n\u00e3o eram cultiv\u00e1veis nos meios de cultura conhecidos. Apenas a partir da d\u00e9cada de 1940, ap\u00f3s o desenvolvimento do microsc\u00f3pio eletr\u00f4nico, foi poss\u00edvel observar, descrever e classificar esses v\u00edrus.<\/p>\n<p><strong>LIMITES E DIFICULDADES<\/strong><\/p>\n<p>Houve grandes insucessos no estudo de microorganismos de algumas doen\u00e7as. Um importante caso desse tipo foi a frustrante busca do v\u00edrus do c\u00e2ncer. Durante d\u00e9cadas, diferentes pesquisadores diziam ter encontrado o \u201cverdadeiro\u201d v\u00edrus dessa doen\u00e7a. Depois de muito tempo, percebeu-se que o caso \u00e9 muito mais complexo. N\u00e3o existe \u201co c\u00e2ncer\u201d, como doen\u00e7a \u00fanica, assim como n\u00e3o existe \u201ca febre\u201d como doen\u00e7a \u00fanica.Os diferentes tipos de c\u00e2ncer se caracterizam por uma multiplica\u00e7\u00e3o anormal das c\u00e9lulas, mas esse fen\u00f4meno pode ter diferentes tipos de causa.<\/p>\n<p>H\u00e1 formas de c\u00e2ncer que se devem a v\u00edrus, como h\u00e1 outras formas que dependem de fatores heredit\u00e1rios \u2013 e muitos tipos possuem causa ainda ignorada.<\/p>\n<p>Muitas vacinas novas foram desenvolvidas durante o s\u00e9culo XX: contra difteria, poliomielite, t\u00e9tano, tuberculose, meningite, etc. No entanto, em muitos casos de importantes doen\u00e7as foi imposs\u00edvel o desenvolvimento de vacinas. A lepra, por exemplo, embora seja uma doen\u00e7a que pode ser tratada, n\u00e3o disp\u00f5e ainda de uma vacina eficaz. No \u00cdndia, onde essa enfermidade \u00e9 muito mais comum do que no Brasil, foram desenvolvidas muitas tentativas de vacinas para a lepra, mas os resultados ainda n\u00e3o foram satisfat\u00f3rios. Talvez, nesse caso, se houvesse interesse dos pa\u00edses ricos e dos grandes laborat\u00f3rios privados de medicamentos, a vacina j\u00e1 tivesse sido obtida h\u00e1 muito tempo. No caso da aids, por exemplo, o grande interesse das na\u00e7\u00f5es mais ricas est\u00e1 levando a um desenvolvimento r\u00e1pido das pesquisas, em dire\u00e7\u00e3o a vacinas que protejam contra a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Em outros casos, apesar de todo interesse, parece de fato imposs\u00edvel desenvolver uma vacina. \u00c9 o caso da gripe, que se apresenta de cada vez com novas caracter\u00edsticas, talvez por causa de muta\u00e7\u00f5es do v\u00edrus que a causa. J\u00e1 foram desenvolvidas muitas vacinas contra a gripe, mas cada uma s\u00f3 funciona para uma variedade espec\u00edfica da doen\u00e7a. Isso pode parecer um problema de pequena import\u00e2ncia, pois estamos atualmente acostumados a pensar na gripe como sendo pouco perigosa. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Exatamente por se mostrar de cada vez sob uma nova forma, a gripe pode ser extremamente perigosa. Em 1918, a chamada \u201cgripe espanhola\u201d se difundiu por todo o mundo, matando cerca de 30 milh\u00f5es de pessoas \u2013 mais do que a primeira grande guerra . N\u00e3o havia e ainda n\u00e3o existe nenhum modo de proteger as pessoas contra uma ocorr\u00eancia desse tipo. Se surgir nova forma mortal de gripe, ela ceifar\u00e1 novamente milh\u00f5es de vidas.<\/p>\n<p><strong>FRONTEIRAS DA INVESTIGA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Houve em nosso s\u00e9culo um enorme desenvolvimento de rem\u00e9dios contra as doen\u00e7as causadas por microorganismos. Todos os antibi\u00f3ticos existentes foram descobertos no s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Mas como estamos centralizando nosso estudo na compreens\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as transmiss\u00edveis (n\u00e3o em sua cura), esse assunto n\u00e3o ser\u00e1 abordado aqui.<\/p>\n<p>Sob o ponto de vista conceitual, houve no s\u00e9culo XX um grande desenvolvimento do estudo da imunologia, para tentar compreender os processos que protegem uma pessoa contra os microorganismos patog\u00eanicos.<\/p>\n<p>Por que uma pessoa n\u00e3o est\u00e1 sujeita \u00e0 mesma doen\u00e7a duas vezes, para certas doen\u00e7as? O que essas doen\u00e7as t\u00eam de especial, e o que ocorre com o organismo da pessoa? Por que certas pessoas s\u00e3o, desde seu nascimento, imunes a certas doen\u00e7as?<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode dizer que as respostas obtidas at\u00e9 agora sejam definitivas, mas a imunologia atingiu um grande desenvolvimento. Se os recursos imunol\u00f3gicos do corpo humano fossem totalmente compreendidos, seria poss\u00edvel desenvolver prote\u00e7\u00f5es mais eficazes contras as doen\u00e7as transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do desenvolvimento da teoria microbiana, acreditava-se que a entrada de microorganismos em um organismo sempre causava a doen\u00e7a. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade, e advers\u00e1rios da teoria apontavam que, se fosse assim, durante as epidemias, todos ficariam doentes. No entanto, algumas pessoas adoecem e outras n\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabe-se, atualmente, que o estado emocional de uma pessoa influi em seu sistema imunol\u00f3gico, podendo aumentar ou reduzir sua resist\u00eancia \u00e0 a\u00e7\u00e3o de microorganismos. A preocupa\u00e7\u00e3o, medo, ansiedade, tristeza e outros estados semelhantes enfraquecem o sistema imunol\u00f3gico, tornando o organismo mais suscet\u00edvel aos microorganismos. O cansa\u00e7o tamb\u00e9m tem o mesmo efeito. Pelo contr\u00e1rio, a tranq\u00fcilidade, seguran\u00e7a, alegria e outros estados semelhantes possuem efeito contr\u00e1rio, protegendo contra a infec\u00e7\u00e3o por microorganismos. De certa forma, os antigos m\u00e9dicos que escreveram sobre a peste estavam certos: o medo e a tristeza contribuem para que as pessoas caiam v\u00edtimas das doen\u00e7as transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>H\u00e1 correntes m\u00e9dicas que consideram muito mais importante o estado geral do organismo do que a eventual presen\u00e7a de microorganismos nele e que por isso procuram preservar as pessoas das doen\u00e7as transmiss\u00edveis por outros meios.<\/p>\n<p>A homeopatia defende a id\u00e9ia de que um organismo saud\u00e1vel \u00e9 resistente aos microorganismos; e que uma pessoa pode se preparar contra cada doen\u00e7a transmiss\u00edvel tomando certos rem\u00e9dios homeop\u00e1ticos espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Desde o s\u00e9culo passado, a homeopatia tem sido muito discutida, mas parece nunca ter sido poss\u00edvel uma avalia\u00e7\u00e3o desapaixonada de sua efic\u00e1cia: os fatos nunca mudam a opini\u00e3o dos que s\u00e3o contr\u00e1rios ou favor\u00e1veis a essa pr\u00e1tica m\u00e9dica. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que aquilo que os homeopatas dizem ser poss\u00edvel \u00e9 algo extremamente desej\u00e1vel, proporcionando um novo modo de proteger as pessoas s\u00e3s das doen\u00e7as transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>Sob o ponto de vista conceitual, houve no s\u00e9culo XX um grande desenvolvimento do estudo da imunologia, para tentar compreender os processos que protegem uma pessoa contra os microorganismos patog\u00eanicos.<\/p>\n<p>Por que uma pessoa n\u00e3o est\u00e1 sujeita \u00e0 mesma doen\u00e7a duas vezes, para certas doen\u00e7as? O que essas doen\u00e7as t\u00eam de especial, e o que ocorre com o organismo da pessoa? Por que certas pessoas s\u00e3o, desde seu nascimento, imunes a certas doen\u00e7as?<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode dizer que as respostas obtidas at\u00e9 agora sejam definitivas, mas a imunologia atingiu um grande desenvolvimento. Se os recursos imunol\u00f3gicos do corpo humano fossem totalmente compreendidos, seria poss\u00edvel desenvolver prote\u00e7\u00f5es mais eficazes contras as doen\u00e7as transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do desenvolvimento da teoria microbiana, acreditava-se que a entrada de microorganismos em um organismo sempre causava a doen\u00e7a. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade, e advers\u00e1rios da teoria apontavam que, se fosse assim, durante as epidemias, todos ficariam doentes. No entanto, algumas pessoas adoecem e outras n\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabe-se, atualmente, que o estado emocional de uma pessoa influi em seu sistema imunol\u00f3gico, podendo aumentar ou reduzir sua resist\u00eancia \u00e0 a\u00e7\u00e3o de microorganismos. A preocupa\u00e7\u00e3o, medo, ansiedade, tristeza e outros estados semelhantes enfraquecem o sistema imunol\u00f3gico, tornando o organismo mais suscet\u00edvel aos microorganismos. O cansa\u00e7o tamb\u00e9m tem o mesmo efeito. Pelo contr\u00e1rio, a tranq\u00fcilidade, seguran\u00e7a, alegria e outros estados semelhantes possuem efeito contr\u00e1rio, protegendo contra a infec\u00e7\u00e3o por microorganismos. De certa forma, os antigos m\u00e9dicos que escreveram sobre a peste estavam certos: o medo e a tristeza contribuem para que as pessoas caiam v\u00edtimas das doen\u00e7as transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>H\u00e1 correntes m\u00e9dicas que consideram muito mais importante o estado geral do organismo do que a eventual presen\u00e7a de microorganismos nele e que por isso procuram preservar as pessoas das doen\u00e7as transmiss\u00edveis por outros meios.<\/p>\n<p>A homeopatia defende a id\u00e9ia de que um organismo saud\u00e1vel \u00e9 resistente aos microorganismos; e que uma pessoa pode se preparar contra cada doen\u00e7a transmiss\u00edvel tomando certos rem\u00e9dios homeop\u00e1ticos espec\u00edficos.<\/p>\n<p>Desde o s\u00e9culo passado, a homeopatia tem sido muito discutida, mas parece nunca ter sido poss\u00edvel uma avalia\u00e7\u00e3o desapaixonada de sua efic\u00e1cia: os fatos nunca mudam a opini\u00e3o dos que s\u00e3o contr\u00e1rios ou favor\u00e1veis a essa pr\u00e1tica m\u00e9dica. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que aquilo que os homeopatas dizem ser poss\u00edvel \u00e9 algo extremamente desej\u00e1vel, proporcionando um novo modo de proteger as pessoas s\u00e3s das doen\u00e7as transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>De um modo geral, pode-se dizer que a teoria microbiana teve uma r\u00e1pida difus\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o, no final do s\u00e9culo XIX. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, apenas por teimosia seria poss\u00edvel ignorar a causa microbiana e o meio de transmiss\u00e3o de certas doen\u00e7as. Houve pessoas, \u00e9 verdade, que mantiveram a cren\u00e7a de que os microorganismos seriam apenas um sintoma e n\u00e3o os agentes transmissores das enfermidades.<\/p>\n<p>Mas essa cren\u00e7a s\u00f3 poderia ser justificada se algumas vezes a doen\u00e7a fosse acompanhada por microorganismos e outras vezes n\u00e3o \u2013 e isso n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p>Houve, como vimos, casos em que a teoria microbiana foi utilizada de forma exagerada ou pouco cr\u00edtica. Por mais estranho que pare\u00e7a, a aceita\u00e7\u00e3o de uma teoria cient\u00edfica passa por processos semelhantes aos da aceita\u00e7\u00e3o de uma religi\u00e3o ou partido pol\u00edtico: nem sempre as pessoas possuem bom conhecimento ou bons argumentos para aceitar ou rejeitar uma nova teoria, mas aderem a ela ou a negam violentamente por motivos de dif\u00edcil compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>As pessoas que aceitaram de forma entusi\u00e1stica a teoria microbiana das doen\u00e7as geralmente n\u00e3o estavam mais bem informadas do que as que a negavam.<\/p>\n<p>A n\u00edvel popular, em todo o mundo, a teoria microbiana foi divulgada e aceita. \u00c9 claro que as pessoas com baixo n\u00edvel de instru\u00e7\u00e3o podem nunca ter ouvido falar nessas id\u00e9ias, mas de um modo geral essa teoria se integrou na vis\u00e3o popular de mundo, assim como as id\u00e9ias de que a Terra \u00e9 redonda. Isso n\u00e3o quer dizer que a popula\u00e7\u00e3o possuam um conhecimento cient\u00edfico dessa teoria.<\/p>\n<p>Para se adquirir um conhecimento cient\u00edfico da teoria microbiana, \u00e9 necess\u00e1rio conhecer os fatos e argumentos em que ela se baseia.<\/p>\n<p>Uma pessoa sem forma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica acredita no poder dos micr\u00f3bios como acredita nos anjos da guarda: simplesmente porque algu\u00e9m diz que eles existem e est\u00e3o \u00e0 nossa volta.<\/p>\n<p>Mesmo pessoas relativamente bem informadas dificilmente saber\u00e3o quais os testes necess\u00e1rios para se estabelecer que certo microorganismo \u00e9 a causa de determinada doen\u00e7a.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a generalisada na teoria microbiana n\u00e3o \u00e9, portanto, uma mostra de evolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica popular: para a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o, essa cren\u00e7a \u00e9 da mesma natureza que qualquer supersti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez exatamente por isso, os conhecimentos m\u00e9dicos modernos coexistam ainda hoje com interpreta\u00e7\u00f5es religiosas e m\u00e1gicas das doen\u00e7as. Quando a aids surgiu, n\u00e3o houve muitas pessoas que afirmaram tratar-se de um castigo divino por causa dos pecados humanos? Quando as t\u00e9cnicas m\u00e9dicas n\u00e3o curam uma pessoa, ela n\u00e3o recorre a ora\u00e7\u00f5es aos santos, benzedeiras ou curandeiros? Os substratos mais profundos de nossa cultura popular n\u00e3o s\u00e3o muito diferentes dos de dois mil anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p><strong>REA\u00c7\u00d5ES CONTRA A VACINA<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o das vacinas foi um cap\u00edtulo \u00e0 parte em toda a discuss\u00e3o da nova teoria. No s\u00e9culo XIX, a aceita\u00e7\u00e3o da teoria microbiana era, em princ\u00edpio, independente da aceita\u00e7\u00e3o das vacinas.<\/p>\n<p>As vacinas n\u00e3o foram uma conseq\u00fc\u00eancia da teoria microbiana nem eram explicadas por ela. Houve uma grande resist\u00eancia contra a obrigatoriedade da vacina\u00e7\u00e3o, por v\u00e1rios motivos.<\/p>\n<p>Um deles foi a falta de compreens\u00e3o do processo de imuniza\u00e7\u00e3o: a vacina\u00e7\u00e3o foi descoberta ao acaso, era completamente emp\u00edrica. Sua \u00fanica justificativa era que funcionava. Por outro lado, a pr\u00f3pria efic\u00e1cia da vacina\u00e7\u00e3o foi colocada em d\u00favida: parecia que nem sempre ela protegia as pessoas da doen\u00e7a. Por fim, em certos casos a vacina\u00e7\u00e3o era perigosa, pois houve muitos casos de pessoas que morreram por causa da inocula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, j\u00e1 existia, desde o s\u00e9culo XIX, a vacina\u00e7\u00e3o contra a var\u00edola. Mas s\u00f3 em 1904 foi proposta a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria de toda a popula\u00e7\u00e3o contra essa doen\u00e7a. O projeto, apresentado e defendido pelo governo de Rodrigues Alves, foi duramente combatido por v\u00e1rias correntes. Os monarquistas, positivistas, oper\u00e1rios, militares e outros grupos se uniram, formando uma \u201cliga contra a vacina obrigat\u00f3ria\u201d. A imprensa se posicionou contra a vacina\u00e7\u00e3o, divulgando \u201ccharges\u201d que ridicularizavam o processo. Apesar de toda a oposi\u00e7\u00e3o, o projeto de lei foi aprovado no dia 9 de novembro de 1904. Seguiu-se imediatamente um motim, que paralisou a cidade do Rio de Janeiro durante uma semana. Uma insurrei\u00e7\u00e3o militar tentou depor Rodrigues Alves, sem sucesso.<\/p>\n<p>N\u00e3o se deve pensar que a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o tenha sido apenas fruto da ignor\u00e2ncia e do preconceito. Vejamos rapidamente os argumentos que eram utilizados pelos dois lados.<\/p>\n<p>Um dos defensores da vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, Vieira Bueno, argumentava que:<\/p>\n<blockquote><p>em todos os pa\u00edses cultos a vacina\u00e7\u00e3o anti-vari\u00f3lica \u00e9 obrigat\u00f3ria;<br \/>\ngra\u00e7as a isso, a var\u00edola n\u00e3o aparece mais onde h\u00e1 vacina\u00e7\u00e3o e revacina\u00e7\u00e3o (por exemplo, na Alemanha);<br \/>\ndurante a guerra franco-prussiana, os franceses n\u00e3o tinham a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria; morrearam de var\u00edola 23.600 franceses e de um milh\u00e3o de soldados alem\u00e3es que atravessaram a Fran\u00e7a s\u00f3 houve 659 \u00f3bitos;<br \/>\nantes atacavam a vacina\u00e7\u00e3o porque ela podia ser o ve\u00edculo da s\u00edfilis e da tuberculose, mas com a vacina\u00e7\u00e3o animal n\u00e3o h\u00e1 mais este perigo.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Respondendo a esses argumentos, um opositor da vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, Horta Barbosa, afirmava:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>a vacina\u00e7\u00e3o n\u00e3o era obrigat\u00f3ria em todos os pa\u00edses cultos: a obrigatoriedade s\u00f3 existia na Alemanha, Fran\u00e7a, S\u00e9rvia e Jap\u00e3o. N\u00e3o existia na Holanda, Su\u00ed\u00e7a, B\u00e9lgica e Inglaterra. Na Su\u00ed\u00e7a, houve rejei\u00e7\u00e3o popular \u00e0 obrigatoriedade (70%) e ela n\u00e3o foi institu\u00edda; na Inglaterra, havia obrigatoriedade e foi revogada por causa da oposi\u00e7\u00e3o que surgiu contra ela ;a vacina\u00e7\u00e3o pode n\u00e3o proteger da doen\u00e7a: no Egito, apesar da vacina\u00e7\u00e3o e revacina\u00e7\u00e3o, o ex\u00e9rcito brit\u00e2nico foi atacado pela var\u00edola: 1,22% contra\u00edam a doen\u00e7a e 0,175% morriam;<br \/>\nh\u00e1 perigos na vacina\u00e7\u00e3o: 1.069 crian\u00e7as morreram pela vacina\u00e7\u00e3o na Inglaterra e em Gales, antes de 1859;<br \/>\nfaltava uma base cient\u00edfica para a vacina, que n\u00e3o era justificada pela teoria microbiana.<\/p><\/blockquote>\n<p>Como se v\u00ea, havia argumentos fortes dos dois lados. Os que defendiam a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria nem sempre reconheciam a exist\u00eancia de limita\u00e7\u00f5es e perigos reais do processo \u2013 e talvez os advers\u00e1rios da vacina\u00e7\u00e3o tivessem mais raz\u00e3o do que os defensores, na \u00e9poca. A longo prazo, a vacina\u00e7\u00e3o venceu e a var\u00edola foi a \u00fanica doen\u00e7a eliminada da face da Terra, at\u00e9 hoje, pela Medicina.<\/p>\n<p>Mas at\u00e9 hoje \u00e9 necess\u00e1rio admitir que as vacinas apresentam riscos, que n\u00e3o oferecem prote\u00e7\u00e3o total e que n\u00e3o se chegou a uma compreens\u00e3o completa de seu modo de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>DIFICULDADES DE APLICA\u00c7\u00c3O DOS CONHECIMENTOS<\/strong><\/p>\n<p>Quanto aos processos de preven\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as transmiss\u00edveis por medidas sanit\u00e1rias e controle de vetores, pode-se dizer que nunca houve uma oposi\u00e7\u00e3o significativa a essas medidas. Algumas vezes, os interesses comerciais foram superiores ao interesse da sa\u00fade p\u00fablica, e n\u00e3o foram aplicadas medidas de controle de pessoas e mercadorias nos portos, alegando-se que essas medidas eram desnecess\u00e1rias e in\u00fateis.<\/p>\n<p>Mas, de um modo geral, aceitou-se a import\u00e2ncia das medidas de isolamento de doentes, controle de dejetos, exterm\u00ednio de vetores, etc. Atualmente, quando tais medidas n\u00e3o s\u00e3o adotadas de forma adequada por algum governo (como o brasileiro), isso n\u00e3o ocorre por ignor\u00e2ncia cient\u00edfica ou por d\u00favidas sobre a efic\u00e1cia dos m\u00e9todos de preven\u00e7\u00e3o: a omiss\u00e3o \u00e9 geralmente causada por falta de interesse pol\u00edtico na preven\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as.<\/p>\n<p>Sob o ponto de vista da popula\u00e7\u00e3o em geral, no Brasil, pode-se dizer que existe pouca conscientiza\u00e7\u00e3o do perigo representado por doen\u00e7as como a febre amarela ou o c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Toda propaganda governamental divulgando os cuidados necess\u00e1rios contra essas doen\u00e7as, na d\u00e9cada de 1980, evitavam toda descri\u00e7\u00e3o dos sintomas da doen\u00e7a. A campanha contra a dissemina\u00e7\u00e3o do c\u00f3lera (que se mostrou ineficaz) divulgava que essa doen\u00e7a se transmitia pela \u00e1gua e pelos alimentos (mas n\u00e3o falava sobre fezes e v\u00f4mitos dos doentes, porque isso seria muito desagrad\u00e1vel). Dizia que o c\u00f3lera podia matar \u2013 mas n\u00e3o dizia que 1\/4 dos doentes podem morrer, se n\u00e3o s\u00e3o tratados imediatamente. Dizia que as pessoas que tivessem in\u00edcio de diarr\u00e9ia l\u00edquida deviam procurar os postos de sa\u00fade \u2013 mas n\u00e3o informavam sobre outros sintomas da doen\u00e7a, nem explicavam como a pessoa definha e morre, desidratada, em poucas horas, por causa dessa doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Como resultado, a vis\u00e3o popular da doen\u00e7a \u00e9 de que o c\u00f3lera \u00e9 um tipo qualquer de diarr\u00e9ia sem import\u00e2ncia, com o qual n\u00e3o precisamos nos preocupar muito. Talvez por isso o c\u00f3lera ainda esteja presente no Brasil, na d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>Mesmo quando se conhece muito bem o processo de transmiss\u00e3o de uma doen\u00e7a, como a aids, pode ser imposs\u00edvel deter o seu avan\u00e7o por motivos sociais e culturais. No in\u00edcio do s\u00e9culo, quando uma pessoa tinha febre amarela, as autoridades eram notificadas e ela era literalmente presa em um quarto, totalmente fechado com tela, para n\u00e3o poder passar a doen\u00e7a a outras pessoas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m discutia se isso violava ou n\u00e3o os direitos da pessoa. Atualmente, ningu\u00e9m pode propor que os doentes de aids sejam isolados ou sequer identificados, pois isso n\u00e3o seria correto.<\/p>\n<p>Pode-se discutir se \u00e9 correto que uma pessoa saiba que est\u00e1 com aids e oculte esse fato daqueles que est\u00e3o \u00e0 sua volta, em situa\u00e7\u00f5es de risco (contato sexual, por exemplo)<em>.<\/em><\/p>\n<p>Seria poss\u00edvel controlar a aids e impedir o aumento que observamos? Provavelmente sim. Mas isso talvez exigisse medidas antip\u00e1ticas e uma conscientiza\u00e7\u00e3o popular de um tipo que se tem evitado.<\/p>\n<p>Como no caso do c\u00f3lera, as campanhas de preven\u00e7\u00e3o da aids s\u00e3o \u201csuaves\u201d, nunca mostram os estragos horr\u00edveis que essa enfermidade causa nem divulgam as assustadoras estat\u00edsticas dessa doen\u00e7a no Brasil.<\/p>\n<p>Apenas aqueles que conviveram com doentes em est\u00e1gio avan\u00e7ado sabem de fato o que a aids provoca. Para os outros, continua a ser um risco obscuro de algo que talvez possa matar, mas que n\u00e3o amedronta, pois a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cprotegida\u201d contra as informa\u00e7\u00f5es sobre os sintomas e desenvolvimento da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Existe uma dist\u00e2ncia entre o conhecimento e a aplica\u00e7\u00e3o desse conhecimento. Entre esses dois elos da Medicina preventiva, existem decis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es de \u00e2mbito pol\u00edtico e governamental, que exigem recursos e interesse.<\/p>\n<p>Mesmo quando h\u00e1 o conhecimento e existem verbas, a incompet\u00eancia ou falta de interesse pol\u00edtico pode ocasionar a morte de milhares de pessoas.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos ser excessivamente otimistas nem pessimistas. Por um lado, a situa\u00e7\u00e3o atual do Brasil, sob o ponto de vista m\u00e9dico, \u00e9 certamente melhor do que o dos pa\u00edses europeus no s\u00e9culo XIX. Houve um avan\u00e7o.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o atingimos o n\u00edvel atual dos pa\u00edses mais avan\u00e7ados. A falta de condi\u00e7\u00f5es higi\u00eanicas, de alimenta\u00e7\u00e3o adequada e mesmo de instru\u00e7\u00e3o da maior parte da popula\u00e7\u00e3o brasileira impede uma adequada preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as transmiss\u00edveis.<\/p>\n<p>Considerando-se o mundo, como um todo, tamb\u00e9m n\u00e3o se deve ser excessivamente otimista nem pessimista. Constatamos que houve avan\u00e7os incr\u00edveis, quando comparamos a situa\u00e7\u00e3o atual com a de um s\u00e9culo atr\u00e1s. Mas o pr\u00f3prio surgimento e dissemina\u00e7\u00e3o da aids mostra que sempre existir\u00e3o novos problemas contra os quais ser\u00e1 preciso lutar.<\/p>\n<p><strong>ROBERTO DE ANDRADE MARTINS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Colabora\u00e7\u00e3o de:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Lilian Al-Chueyr Pereira Martins<br \/>\nMaria Cristina Ferraz de Toledo<br \/>\nRenata Rivera Ferreira<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0www.ifi.unicamp.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria da Preven\u00e7\u00e3o das Doen\u00e7as Transmiss\u00edveis, Cont\u00e1gio, Livro, Teoria, Tipos, Evolu\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancias, Origem, Hist\u00f3ria da Preven\u00e7\u00e3o das Doen\u00e7as 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