{"id":29792,"date":"2016-05-19T11:43:26","date_gmt":"2016-05-19T11:43:26","guid":{"rendered":"http:\/\/cms.portalsaofrancisco.com.br\/?p=29792"},"modified":"2018-11-08T10:15:32","modified_gmt":"2018-11-08T12:15:32","slug":"naturalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/linguagens-e-codigos\/literatura\/periodos-literarios\/naturalismo","title":{"rendered":"Naturalismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>O que foi o naturalismo?<\/strong><\/p>\n<p>Na Europa, o Naturalismo \u00e9 considerado apenas uma vertente ou tend\u00eancia de dentro do Realismo. Entretanto, no Brasil h\u00e1 a separa\u00e7\u00e3o entre duas escolas liter\u00e1rias como movimentos liter\u00e1rios diferentes. O Naturalismo ocorre em momento quase concomitante com o Realismo \u2013 durante a segunda metade do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p><strong>Contexto hist\u00f3rico<\/strong><\/p>\n<p>O contexto hist\u00f3rico naturalista \u00e9 muito semelhante ao do Realismo justamente por serem movimentos liter\u00e1rios que acontecem, praticamente, ao mesmo tempo. Durante esse per\u00edodo est\u00e1 acontecendo a Segunda Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, h\u00e1 o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico e cient\u00edfico, a burguesia toma o poder, h\u00e1 o aumento das desigualdades sociais e se inicia, dessa forma, a <em>forma\u00e7\u00e3o das periferias<\/em>.<\/p>\n<p>As correntes cient\u00edficas influenciam fortemente a literatura naturalista, assim como influenciou a realista. Essas correntes s\u00e3o:<\/p>\n<ul>\n<li>Positivismo de Auguste Comte: acredita apenas no que \u00e9 empiricamente (cientificamente) comprovado;<\/li>\n<li>Determinismo de Taine: o contexto determina as a\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo (uma das mais importantes correntes para o naturalismo);<\/li>\n<li>Evolucionismo de Darwin: o mais apto sobrevive (aquele que mais facilmente se adequa ao contexto, sobrevive \u2013 diretamente ligada ao determinismo);<\/li>\n<li>Socialismo de Karl Marx: luta de classes (a corrente cient\u00edfica que foi a base do naturalismo);<\/li>\n<li>Psican\u00e1lise de Freud: an\u00e1lise da sexualidade que, no Naturalismo, \u00e9 vista como patol\u00f3gica por retratar estupro, pedofilia. Al\u00e9m disso, \u00e9 a primeira vez em que a homossexualidade ser\u00e1 retratada na literatura..<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Caracter\u00edsticas do Naturalismo<\/strong><\/p>\n<ul>\n<li><em>Romance de tese<\/em>: o romance naturalista possui uma tese a ser comprovado durante a obra e \u00e9 quase um relat\u00f3rio cient\u00edfico, uma quest\u00e3o cient\u00edfica e que traz consigo o descritivismo e o objetivismo. Isso demonstra um engajamento pol\u00edtico e social das obras;<\/li>\n<li><em>Retrata o proletariado e as classes pobres de uma maneira coletiva<\/em>: uma das caracter\u00edsticas do proletariado nessa \u00e9poca que \u00e9 retratada na literatura \u00e9 a zoomorfiza\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o ser humano que passa a agir de acordo com instintos animais, o seu psicol\u00f3gico n\u00e3o \u00e9 aprofundado, \u00e9 raso porque o contexto determina que ele aja de acordo com os instintos biol\u00f3gicos diante da considera\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel de sobreviv\u00eancia;<\/li>\n<li><em>V\u00edcios patol\u00f3gicos<\/em>: as obras naturalistas abordam muito a quest\u00e3o dos v\u00edcios patol\u00f3gicos, como o sexo. O sexo deixa de ser algo prazeroso e passa a ser doentio, como acontece com ninfoman\u00edacos;<\/li>\n<li><em>Dessacraliza\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter<\/em>: o homem agora \u00e9 profano. Diante do contexto em que vivem, ele se entrega aos v\u00edcios humanos. Desse modo, o homem n\u00e3o \u00e9 mais bom e nem \u00edntegro, n\u00e3o h\u00e1 mais nada de sagrado nesse sujeito.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Por<\/strong> Amanda Abreu<\/p>\n<h4>Naturalismo &#8211; Filosofia<\/h4>\n<p><strong>Naturalismo <\/strong>em filosofia, como \u00e9 na ci\u00eancia, \u00e9 a busca de explica\u00e7\u00f5es que envolvem somente da natureza, aqueles que, em particular, n\u00e3o envolvem id\u00e9ias sobrenaturais, ou, mais particularmente, explica\u00e7\u00f5es que envolvem apenas objetos materiais e seus movimentos.<\/p>\n<h4>Naturalismo &#8211; Literatura<\/h4>\n<p>O <strong>Naturalismo<\/strong> foi um movimento liter\u00e1rio ou tend\u00eancia de 1880 a 1930 que utilizaram de forma detalhada o realismo para sugerir que as condi\u00e7\u00f5es sociais, hereditariedade e ambiente teve for\u00e7a incontorn\u00e1vel na forma\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter humano.<\/p>\n<p>Foi um movimento liter\u00e1rio principalmente desorganizado que procurou retratar a realidade cotidiana, em oposi\u00e7\u00e3o a movimentos como o romantismo ou Surrealismo.<\/p>\n<h4>Naturalismo &#8211; Artes<\/h4>\n<blockquote><p><strong>Naturalismo (arte visual)<\/strong>, um estilo de pintura e as artes visuais<br \/>\n<strong>Naturalismo (literatura)<\/strong>, um estilo liter\u00e1rio<br \/>\n<strong>Naturalismo (teatro)<\/strong>, um movimento de teatro e drama que come\u00e7ou no s\u00e9culo 19<\/p><\/blockquote>\n<h4 align=\"left\">Naturalismo &#8211; Defini\u00e7\u00e3o<\/h4>\n<p align=\"left\">O <strong>naturalismo<\/strong> \u00e9 uma obra liter\u00e1ria g\u00eanero que come\u00e7ou como um movimento liter\u00e1rio no final do s\u00e9culo XIX na literatura, cinema, teatro e arte.<\/p>\n<p align=\"left\">\u00c9 um tipo de realismo extremo.<\/p>\n<p align=\"left\">Este movimento sugere o papel do contexto familiar, as condi\u00e7\u00f5es sociais e meio ambiente na forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter humano.<\/p>\n<p align=\"left\">Assim, os escritores <strong>naturalistas<\/strong> escreveram hist\u00f3rias baseadas na id\u00e9ia de que o ambiente determina e governa o car\u00e1ter humano.<\/p>\n<p align=\"left\">Vemos tamb\u00e9m o uso de alguns dos princ\u00edpios cient\u00edficos em obras naturalistas, e os seres humanos lutando para sobreviver na sociedade hostil.<\/p>\n<p align=\"left\">Na verdade, o <strong>naturalismo <\/strong>se inspirou dos teoria da evolu\u00e7\u00e3o de Darwin diz que a vida \u00e9 como uma luta e s\u00f3 os mais aptos podem sobreviver.<\/p>\n<h4>Naturalismo &#8211; O que \u00e9<\/h4>\n<p>Corrente ou estilo liter\u00e1rio e art\u00edstico que busca reproduzir os fatos observ\u00e1veis sem pr\u00e9-julgamentos morais ou est\u00e9ticos. Surgido na Fran\u00e7a nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>O progresso acelerado das ci\u00eancias naturais, o amadurecimento da ideologia positivista e a culmina\u00e7\u00e3o do realismo abriram caminho, no final do s\u00e9culo XIX, para a afirma\u00e7\u00e3o da est\u00e9tica naturalista.<\/p>\n<p>Denomina-se\u00a0<strong>naturalismo<\/strong>\u00a0o movimento art\u00edstico que se prop\u00f5e empreender a representa\u00e7\u00e3o fiel e n\u00e3o idealizada da realidade, despojada de todo ju\u00edzo moral, e v\u00ea a obra de arte como uma &#8220;fatia da vida&#8221;. O ide\u00f3logo da est\u00e9tica naturalista foi o escritor franc\u00eas \u00c9mile Zola, cujo ensaio intitulado &#8220;Le Roman exp\u00e9rimental&#8221; (1880; &#8220;O romance experimental&#8221;) foi entendido como manifesto liter\u00e1rio da escola. Grandes autores do per\u00edodo, como o franc\u00eas Guy de Maupassant, o dramaturgo alem\u00e3o Gerhart Hauptmann e E\u00e7a de Queir\u00f3s se basearam nos princ\u00edpios do naturalismo.<\/p>\n<p>A obra liter\u00e1ria naturalista adotou teorias cient\u00edficas, como a da hereditariedade, para explicar os problemas sociais, contemplados com acentuado pessimismo, e a infelicidade dos indiv\u00edduos. Os romances naturalistas se destacam, tamb\u00e9m, pela franqueza sem precedentes com que tratam os problemas sexuais. Na t\u00e9cnica e no estilo, os naturalistas levaram \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias os postulados do realismo. Acima de tudo, buscaram dar o m\u00e1ximo vigor aos m\u00e9todos de observa\u00e7\u00e3o e documenta\u00e7\u00e3o, e tornaram mais precisa a reprodu\u00e7\u00e3o da l\u00edngua falada. Na cria\u00e7\u00e3o do personagem, o\u00a0<strong>naturalismo<\/strong>\u00a0optou pela generaliza\u00e7\u00e3o de casos excepcionais e escolheu psicopatas e alco\u00f3latras para protagonizar seus romances, marcados por situa\u00e7\u00f5es extremas de degeneresc\u00eancia e mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Na pintura, o\u00a0<strong>naturalismo<\/strong>\u00a0se manifestou especialmente nas obras de Gustave Courbet, \u00c9douard Manet e outros artistas realistas que evoluiriam, mais tarde, para o impressionismo. &#8220;Os comedores de batatas&#8221;, conhecida tela da Van Gogh de 1885, mostra personagens muito semelhantes aos mineiros oprimidos descritos por Zola no romance Germinal, do mesmo ano.<\/p>\n<p>Foi no teatro, entretanto, que a est\u00e9tica naturalista promoveu mudan\u00e7as definitivas. A busca realista da verossimilhan\u00e7a deu lugar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de encenar a pr\u00f3pria vida real, o que teve profunda repercuss\u00e3o sobre as t\u00e9cnicas teatrais. Ao\u00a0<strong>naturalismo<\/strong>\u00a0o teatro deve a adequa\u00e7\u00e3o dos cen\u00e1rios, figurinos e objetos de cena ao texto e \u00e0 atmosfera pretendida pelo encenador, j\u00e1 que at\u00e9 avan\u00e7ado o s\u00e9culo XIX, era freq\u00fcente que o ator escolhesse seus trajes mais ricos para vir \u00e0 cena, qualquer que fosse o papel interpretado, e que os mesmos cen\u00e1rios fossem usados em diferentes pe\u00e7as. Cen\u00e1rios e figurinos adquiriram ent\u00e3o a fun\u00e7\u00e3o de dar um depoimento visual sobre personagens e situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>A ilumina\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m passou pelo crivo da autenticidade:<\/strong>\u00a0nenhuma luz que deixasse transparecer a teatralidade era aceit\u00e1vel, como a luz da ribalta, que ilumina a cena de baixo para cima. O tempo teatral passou a identificar-se ao tempo real de transcurso dos acontecimentos. A encena\u00e7\u00e3o naturalista incorporou a sonoplastia, \u00e0 procura do mimetismo perfeito. Finalmente, o teatro naturalista coincidiu com o aparecimento da figura do encenador, ou diretor, e da no\u00e7\u00e3o de encena\u00e7\u00e3o ou montagem, como uma das in\u00fameras possibilidades de levar ao palco um mesmo texto dram\u00e1tico.<\/p>\n<h4>O Naturalismo<\/h4>\n<p>J\u00e1 sabemos que Realismo e\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0t\u00eam, entre si, semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Se o primeiro procura retratar o homem interagindo no seu meio social, o segundo vai mais longe:<\/strong>\u00a0pretende mostrar o homem como produto de um conjunto de for\u00e7as &#8220;naturais&#8221;, instintivas, que, em determinado meio, ra\u00e7a e momento, pode gerar comportamentos e situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas.<\/p>\n<p>Nas obras de alguns escritores realistas podemos distinguir certas caracter\u00edsticas que definem uma tend\u00eancia chamada\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0enfatiza o aspecto materialista da exist\u00eancia humana. Para os escritores naturalistas, influenciados pelas teorias da ci\u00eancias experimentais da \u00e9poca, o homem era um simples produto biol\u00f3gico cujo comportamento resultava da press\u00e3o do ambiente social e da hereditariedade psicofisiol\u00f3gica. Nesse sentido, dadas certas circunst\u00e2ncias, o homem teria as mesma rea\u00e7\u00f5es, instintivas e incontrol\u00e1veis. Caberia a escritor, portanto, armar em sua obra uma certa situa\u00e7\u00e3o experimental e agir como um cientista em seu laborat\u00f3rio, descrevendo as rea\u00e7\u00f5es sem nenhuma interfer\u00eancia de ordem pessoal ou moral.<\/p>\n<p>No romance experimental naturalista, o indiv\u00edduo \u00e9 mero produto da hereditariedade. Ao lado desta, o ambiente em que vive, e sobre o qual tamb\u00e9m age, determina seu comportamento pessoal.<\/p>\n<p><strong>Assim, predomina o elemento fisiol\u00f3gico, natural, instintivo:<\/strong>\u00a0erotismo, agressividade e viol\u00eancia s\u00e3o os componentes b\u00e1sicos da personalidade humana, que, privada do seu arb\u00edtrio, vive \u00e0 merc\u00ea de for\u00e7as incontrol\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Desse modo, o Naturalismo atribui a um destino inescap\u00e1vel, de origem fisiol\u00f3gica, aquilo que, na verdade, \u00e9 produto do sistema econ\u00f4mico-social:<\/strong>\u00a0a retifica\u00e7\u00e3o do homem, ou seja, a sua transforma\u00e7\u00e3o em coisa (do latim res = coisa).<\/p>\n<p>Para dar vida a toda essa teoria, os autores colocam-se como narradores oniscientes, impass\u00edveis, podendo ver tudo por todos os \u00e2ngulos. As descri\u00e7\u00f5es s\u00e3o precisas e minuciosas, frias e fidel\u00edssimas aos aspectos exteriores.<\/p>\n<p><strong>As personagens s\u00e3o vistas de fora para dentro, como casos a estudar:<\/strong>\u00a0n\u00e3o h\u00e1 aprofundamento psicol\u00f3gico; o que interessa s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es exteriores, e n\u00e3o os meandros da consci\u00eancia \u00e0 maneira de, por exemplo, Machado de Assis.<\/p>\n<h4>O Romance Naturalista<\/h4>\n<p>O\u00a0<strong>naturalismo<\/strong>\u00a0foi cultivado no\u00a0<strong>Brasil<\/strong>\u00a0por Alu\u00edsio Azevedo, J\u00falio Ribeiro, Adolfo Caminha, Domingos Ol\u00edmpio, Ingl\u00eas de Sousa e Manuel de Oliveira Paiva. O caso de Raul Pomp\u00e9ia \u00e9 muito particular, pois em seu romance O Ateneu tanto apresenta caracter\u00edsticas naturalistas como realistas, e mesmo impressionistas.<\/p>\n<p>A narrativa naturalista \u00e9 marcada pela vigorosa an\u00e1lise social a partir de grupos humanos marginalizados, valorizando-se o coletivo.<\/p>\n<p><strong>Interessa notar que a preocupa\u00e7\u00e3o com o coletivo j\u00e1 est\u00e1 explicitada no pr\u00f3prio t\u00edtulo dos principais romances:<\/strong>\u00a0O Corti\u00e7o, Casa de pens\u00e3o, O Ateneu.<\/p>\n<p>\u00c9 tradicional a tese de que, em O Corti\u00e7o, o principal personagem n\u00e3o \u00e9 Jo\u00e3o Rom\u00e3o, nem Bertoleza, nem Rita Baiana, mas sim o pr\u00f3prio corti\u00e7o.<\/p>\n<p>Por outro lado, o\u00a0<strong>naturalismo<\/strong>\u00a0apresenta\u00a0<strong>romances<\/strong>\u00a0experimentais preocupados em formular regras, em conseq\u00fc\u00eancia de seu car\u00e1ter cientifista. A influ\u00eancia de Darwin se faz sentir na m\u00e1xima naturalista, que enfatiza a natureza animal do homem (portanto, no embate instinto versus raz\u00e3o, o homem, como todo animal, \u00e9 dominado num primeiro momento pelas rea\u00e7\u00f5es instintivas particularmente no comportamento sexual, que a falsa moral burguesa n\u00e3o \u00e9 capaz de reprimir). Os textos naturalistas acabam por tocar em tema at\u00e9 ent\u00e3o proibidos, como o homossexualismo, tanto masculino, como em O Ateneu, quanto feminino, em O Corti\u00e7o.<\/p>\n<p>No\u00a0<strong>Brasil<\/strong>, a prosa naturalista foi muito influenciada por E\u00e7a de Queir\u00f3s, basicamente com as obras O crime do Padre Amaro e O primo Bas\u00edlio.<\/p>\n<p><strong>Em 1881 surge o romance considerado o marco inicial do Naturalismo brasileiro:<\/strong>\u00a0O mulato, de Alu\u00edsio de Azevedo.<\/p>\n<p>Pertencem tamb\u00e9m ao\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0brasileiro, entre outros, O mission\u00e1rio, de Ingl\u00eas de Souza, e A carne, de J\u00falio Ribeiro, ambos publicados em 1888. Adolfo Caminha publicou A normalista (1893) e O bom crioulo (1896), considerados boas realiza\u00e7\u00f5es naturalistas.<\/p>\n<h4><strong>Naturalismo &#8211; <\/strong>Hist\u00f3ria<\/h4>\n<p><strong>Origens<\/strong><\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0\u00e9 uma esp\u00e9cie de prolongamento do Realismo. Os dois movimentos s\u00e3o quase paralelos e muitos historiadores v\u00eaem no primeiro uma manifesta\u00e7\u00e3o do segundo. Assim, o Naturalismo assume quase todos os princ\u00edpios do Realismo, tais como o predom\u00ednio da objetividade, da observa\u00e7\u00e3o, da busca da verossimilhan\u00e7a, etc., acrescentando a isso &#8211; e eis o seu tra\u00e7o particular &#8211; uma vis\u00e3o cientificista da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Conseq\u00fc\u00eancia das novas id\u00e9ias cient\u00edficas e sociol\u00f3gicas que varriam a Europa, a vis\u00e3o naturalista ergue-se sobre os preceitos do evolucionismo, da hereditariedade biol\u00f3gica, do positivismo e da medicina experimental.<\/p>\n<p><strong>Hippolyte Taine &#8211; muito lido na \u00e9poca &#8211; afirma que &#8220;tr\u00eas fontes diversas contribuem para produzir o estado moral elementar do homem:<\/strong> a ra\u00e7a, o meio e o momento.&#8221; O maior dos naturalistas, \u00c9mile Zola, delimita o car\u00e1ter dessa jun\u00e7\u00e3o entre literatura e atividade cient\u00edfica, e a subordina\u00e7\u00e3o da primeira diante da segunda: Meu desejo \u00e9 pintar a vida, e para este fim devo pedir \u00e0 Ci\u00eancia que me explique o que \u00e9 a vida, para que eu a fique conhecendo.<\/p>\n<p><strong>O Romance Experimental<\/strong><\/p>\n<p>Zola n\u00e3o esconde a sua admira\u00e7\u00e3o por Claude Bernard, fundador da chamada medicina experimental. O romancista procura se equiparar ao m\u00e9dico. Seu m\u00e9todo de composi\u00e7\u00e3o art\u00edstica pressup\u00f5e uma objetividade e um rigor t\u00e3o absolutos que o escritor se transforma num mero ilustrador dos postulados das ci\u00eancias.<\/p>\n<p><strong>Diz ele<\/strong>: O romance deve ser um estudo objetivo das paix\u00f5es. Devemos observar escrupulosamente as sensa\u00e7\u00f5es e os atos das pessoas. Limito-me a fazer em dois corpos vivos aquilo que os cirurgi\u00f5es fazem em cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>Esta proximidade da literatura com o m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o m\u00e9dica de Bernard leva Zola a designar o romance naturalista tamb\u00e9m como romance experimental.<\/p>\n<p><strong>A pretens\u00e3o cient\u00edfica torna-se cada vez mais obstinada<\/strong>: O romance experimental \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia da evolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do s\u00e9culo. Ele continua e completa a fisiologia; ele se ap\u00f3ia sobre a qu\u00edmica e a f\u00edsica; ele substitui o estudo do homem abstrato e metaf\u00edsico pelo estudo do homem natural, submetido \u00e0 leis f\u00edsico-qu\u00edmicas e determinado pelas influ\u00eancias do meio. Ele \u00e9, em uma palavra, a literatura de nossa idade cient\u00edfica.<\/p>\n<p><strong>SURGIMENTO DO NATURALISMO<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Naturalismo surge como programa e atividade no romance Teresa Raquin (1868), de Zola, que apresenta um pr\u00f3logo muito ilustrativo das tend\u00eancias cientificistas do movimento:<\/strong><\/p>\n<p>Em Teresa Raquin quis estudar temperamentos e n\u00e3o caracteres. Escolhi personagens dominados ao m\u00e1ximo por seus nervos e por seu sangue, desprovidos de livre arb\u00edtrio, arrastados a cada ato de sua vida pela fatalidade da carne. Teresa e Louren\u00e7o s\u00e3o brutos humanos, nada mais. Tratei de seguir, passo a passo, em tais selvagens, o trabalho surdo das paix\u00f5es, as press\u00f5es do instinto, as altera\u00e7\u00f5es cerebrais, produtos de uma crise nervosa&#8230; Que se leia o romance com cuidado e se ver\u00e1 que cada cap\u00edtulo \u00e9 um estudo de um curioso caso fisiol\u00f3gico.<\/p>\n<p><strong>CARACTER\u00cdSTICAS DO NATURALISMO<\/strong><\/p>\n<p>As caracter\u00edsticas espec\u00edficas do Naturalismo resultam da sua aproxima\u00e7\u00e3o com as diversas ci\u00eancias experimentais e positivas.<\/p>\n<p><strong>Poder\u00edamos esquematiz\u00e1-las assim:<\/strong><\/p>\n<p><strong>Naturalismo:<\/strong> todas as caracter\u00edsticas do Realismo + cientificismo (<strong>Cientificismo:<\/strong> ado\u00e7\u00e3o de leis cient\u00edficas que regeriam a vida dos personagens)<\/p>\n<p><strong>Leis sociol\u00f3gicas:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>a)<\/strong>\u00a0determinismo do meio<strong><br \/>\nb)<\/strong>\u00a0determinismo hist\u00f3rico<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Leis biol\u00f3gicas:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><strong>a)\u00a0<\/strong>determinismo da heran\u00e7a, dos temperamentos e dos caracteres<strong><br \/>\nb)\u00a0<\/strong>determinismo da ra\u00e7a<\/p><\/blockquote>\n<p>A quest\u00e3o dos v\u00e1rios determinismos \u00e9 b\u00e1sica para se compreender o esfor\u00e7o cientificista do romance experimental.<\/p>\n<p><strong>Destacamos aqueles que predominam, seja na Europa, seja no Brasil:<\/strong><\/p>\n<p><strong>1. Determinismo do Meio<\/strong><\/p>\n<p>O homem como produto do meio \u00e9 a tese central do movimento. O indiv\u00edduo n\u00e3o passa de uma proje\u00e7\u00e3o do seu cen\u00e1rio, com o qual se confunde e do qual n\u00e3o consegue escapar. Da\u00ed a insist\u00eancia na descri\u00e7\u00e3o do meio, que sempre traga e tritura o homem.<\/p>\n<p><strong>Em O corti\u00e7o, a obra mais importante da est\u00e9tica naturalista brasileira<\/strong>: o ambiente degradado gera seres degradados, a imund\u00edcie do cen\u00e1rio se transfere para as almas humanas.<\/p>\n<p><strong>2. Determinismo dos Instintos<\/strong><\/p>\n<p>Cada indiv\u00edduo traz dentro de si instintos heredit\u00e1rios, que explodem repentinamente em manifesta\u00e7\u00f5es de lux\u00faria, tara, indignidade e crimes. Por mais que cada um desenvolva sua racionalidade, seu dom\u00ednio sobre si pr\u00f3prio, ajustando-se conviv\u00eancia social, nunca ser\u00e1 suficientemente forte para domar as for\u00e7as subterr\u00e2neas que v\u00eam \u00e0 tona, arrastando-o a um universo de anormalidades e v\u00edcios.<\/p>\n<p><strong>Em O corti\u00e7o encontramos a seguinte passagem, que nos pode dar uma id\u00e9ia da for\u00e7a do instinto:<\/strong> Amara-o a princ\u00edpio por afinidade de temperamento, pela irresist\u00edvel conex\u00e3o do instinto luxurioso e canalha que predominava em ambos, depois continuou a estar com ele por h\u00e1bito, por uma esp\u00e9cie de v\u00edcio que amaldi\u00e7oamos sem poder larg\u00e1-lo; mas desde que Jer\u00f4nimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranq\u00fcila seriedade de animal bom e forte, o sangue da mesti\u00e7a reclamou os seus direitos de apura\u00e7\u00e3o, e Rita preferiu no europeu o macho de ra\u00e7a superior.<\/p>\n<p><strong>3. Determinismo da Heran\u00e7a Biol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com teses biol\u00f3gicas ent\u00e3o dominantes, o homem receberia o temperamento por um tipo de heran\u00e7a transmitida pelo sangue. Mais do que uma propens\u00e3o ou tend\u00eancia &#8211; como alguns o entendem hoje &#8211; o temperamento funciona, na ci\u00eancia e literatura naturalista, como suporte decisivo da constru\u00e7\u00e3o da personalidade e mola propulsora do comportamento individual, de tal forma que o homem n\u00e3o passa de um joguete de incontrol\u00e1veis for\u00e7as at\u00e1vicas.<\/p>\n<p><strong>Vejamos um curto par\u00e1grafo de Germinal:<\/strong> Isso revolvia nele todo o desconhecimento apavorante: o mal heredit\u00e1rio, a longa hereditariedade da embriaguez, n\u00e3o bebendo sequer uma gota de \u00e1lcool sem cair no furor homicida. Terminaria como assassino?<\/p>\n<p>Neste mesmo componente &#8220;biol\u00f3gico&#8221; entra a quest\u00e3o da ra\u00e7a. Alguns intelectuais come\u00e7am a forjar os primeiros ensaios sobre as &#8220;diferen\u00e7as naturais&#8221; entre as v\u00e1rias etnias, abrindo caminho para o desprez\u00edvel pensamento racista do s\u00e9culo XX. \u00c9 verdade que nem sempre h\u00e1 uma inten\u00e7\u00e3o preconceituosa nos te\u00f3ricos naturalistas, mas eles acabam invariavelmente celebrando o homem ariano.<\/p>\n<p><strong>Taine, o mais influente pensador do per\u00edodo, associa a id\u00e9ia de ra\u00e7a a certas disposi\u00e7\u00f5es heredit\u00e1rias<\/strong>: Tr\u00eas fontes diversas contribuem para produzir um estado moral elementar: a ra\u00e7a, o meio e o momento. O que se chama ra\u00e7a s\u00e3o estas disposi\u00e7\u00f5es inatas e heredit\u00e1rias que o homem carrega consigo.(&#8230;)<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 naturalmente variedade de homens como de touros e de cavalos<\/strong>: uns valorosos e inteligentes, e outros t\u00edmidos e de intelig\u00eancia curta; uns capazes de concep\u00e7\u00f5es e cria\u00e7\u00f5es superiores, e outros reduzidos \u00e0 id\u00e9ias e s inven\u00e7\u00f5es rudimentares; alguns dispostos mais especialmente para certos trabalhos e dotados mais ricamente de certos instintos, assim como se v\u00ea c\u00e3es com aptid\u00f5es especiais para a corrida ou para o combate, ou para a ca\u00e7a, ou para a guarda de casas e rebanhos.<\/p>\n<p><strong>4. Personagens Patol\u00f3gicos<\/strong><\/p>\n<p>Para comprovarem as suas teses &#8211; primordialmente a da hereditariedade do temperamento &#8211; os escritores valem-se muitas vezes de personagens m\u00f3rbidos, anormais, doentes. \u00c9 uma legi\u00e3o de b\u00eabados, assassinos, incestuosos, devassos, prostitutas, l\u00e9sbicas, etc. &#8220;Ac\u00famulo de horrores cientificamente comprovados&#8221;, afirmou com certa raz\u00e3o um cr\u00edtico europeu.<\/p>\n<p><strong>No pref\u00e1cio de A taverna &#8211; onde pela primeira vez o proletariado emerge como protagonista central na literatura &#8211; Zola registra esta patologia, ainda que lhe atribuindo causas sociais<\/strong>: Quis descrever a trajet\u00f3ria fatalmente em decad\u00eancia de uma fam\u00edlia oper\u00e1ria, dentro do marco corrompido de nossos arrabaldes. A embriaguez e a ociosidade conduzem ao afrouxamento dos la\u00e7os familiares, \u00e0s impurezas da promiscuidade, o esquecimento progressivo dos sentimentos honestos, que acabam tendo como conclus\u00e3o l\u00f3gica a vergonha e a morte. Esta \u00e9 uma obra ver\u00eddica. O primeiro estudo sobre o povo que n\u00e3o mente e que possui o cheiro deste povo. Meus personagens n\u00e3o s\u00e3o maus, apenas ignorantes e influ\u00eddos pelo ambiente de trabalho rude e mis\u00e9ria em que vivem.<\/p>\n<p><strong>5. Cr\u00edtica Social Expl\u00edcita<\/strong><\/p>\n<p>Todo autor naturalista elabora uma cr\u00edtica direta a aspectos da realidade social. No entanto, mesmo sendo um cr\u00edtico implac\u00e1vel, ele n\u00e3o acredita em sa\u00eddas ou esperan\u00e7a para a sociedade, a qual visualiza como um organismo biol\u00f3gico, sujeito \u00e0s leis vitais de nascimento, apogeu, decrepitude e morte. Organismo frente ao qual pouco ou nada pode a a\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos. Por esse motivo, a cr\u00edtica acaba normalmente em pessimismo fatalista. E j\u00e1 que n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de controlar o universo social, o ser humano converte-se em mero fantoche de um destino tra\u00e7ado pelo meio e pela heran\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>6. Forma Descritiva<\/strong><\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o com a verossimilhan\u00e7a levou os naturalistas a um m\u00e9todo de escrever baseado na descri\u00e7\u00e3o. Uma descri\u00e7\u00e3o minuciosa, detalhada ao limite do invent\u00e1rio, precisa e, \u00e0s vezes, in\u00fatil porque ela s\u00f3 funciona num romance como elemento auxiliar da narra\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, devemos ter em conta que, em v\u00e1rias obras, a descri\u00e7\u00e3o lenta e exaustiva de um cen\u00e1rio, de objetos, etc., exerce papel significativo.<\/p>\n<p>A pintura que Zola faz das minas de hulha, ligando-as \u00e0 vida miser\u00e1vel de seus trabalhadores em Germinal, \u00e9 perfeita, mostrando o massacre do meio ambiente sobre o indiv\u00edduo e a explora\u00e7\u00e3o dos donos das minas sobre os oper\u00e1rios. Da mesma maneira, o registro da vida num navio feita por Adolfo Caminha, em O Bom Crioulo, ou ainda os detalhes quase preciosistas da agita\u00e7\u00e3o de uma casa de c\u00f4modos, mostrados por Alu\u00edsio Azevedo, em Casa de pens\u00e3o, s\u00e3o absolutamente necess\u00e1rios para a realiza\u00e7\u00e3o do argumento.<\/p>\n<p><strong>Obras principais:<\/strong><\/p>\n<p><strong>O Mulato<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro texto importante do escritor \u00e9 ainda uma mistura mal resolvida de Romantismo e Naturalismo. O jovem bacharel Raimundo, mulato de olhos azuis, desembarca em S\u00e3o Lu\u00eds, em busca de suas origens familiares e dos misteriosos recursos que sustentaram os seus longos estudos em Portugal. Apesar de sua pele clara, ele desperta o preconceito racial dos provincianos e, ao mesmo tempo, a paix\u00e3o hist\u00e9rica de Ana Rosa, filha do rico comerciante portugu\u00eas Manuel Pedro, que vem a ser o tio e o tutor desconhecido do rapaz. Mesmo n\u00e3o sabendo que Ana \u00e9 sua prima, Raimundo evita-a completamente. Mais tarde, (e de maneira inexplic\u00e1vel) ele acabar\u00e1 por pedi-la em casamento, por\u00e9m Manuel lhe negar\u00e1 a m\u00e3o da filha. A negativa corresponde \u00e0 percep\u00e7\u00e3o do racismo por parte do mulato. Como resposta, Raimundo e Ana resolvem enfrentar o mundo e se amam fisicamente, disso resultando a gravidez da mo\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Os lances melodram\u00e1ticos, mesclados com candentes den\u00fancias sociais, acentuam-se com a descoberta de v\u00e1rios crimes<\/strong>: o assassinato do pai do mulato, tamb\u00e9m ele um rico comerciante portugu\u00eas, a loucura de sua m\u00e3e negra, induzida por b\u00e1rbaras torturas escravagistas, etc.<\/p>\n<p><strong>Por fim, quando o leitor j\u00e1 est\u00e1 confuso com tantas perip\u00e9cias, revela-se o respons\u00e1vel pelo terror<\/strong>: \u00e9 o c\u00f4nego Diogo, padre devasso, sanguin\u00e1rio e racista.<\/p>\n<p>Ao perceber que Raimundo encontrara o fio da meada,o c\u00f4nego convence o caixeirinho Dias, ex-namorado de Ana Rosa, a mat\u00e1-lo. O mulato \u00e9 liquidado e a jovem, ao ver o amante morto, tem uma crise hist\u00e9rica e aborta.<\/p>\n<p><strong>Em seguida, a narrativa projeta-se para seis anos depois<\/strong>: o assassinato fica impune, ningu\u00e9m lembra mais de Raimundo. Dias e Ana Rosa est\u00e3o bem casados, pr\u00f3speros e com tr\u00eas filhos.<\/p>\n<p>O ataque do escritor ao preconceito racial, ao reacionarismo do clero e a estreiteza do universo provinciano, mais o registro fisiol\u00f3gico das paix\u00f5es, sacodem S\u00e3o Lu\u00eds e fazem os leitores esquecer o que no romance havia de disparatado folhetim rom\u00e2ntico. Contudo, esta indetermina\u00e7\u00e3o entre Romantismo e Naturalismo come\u00e7aria a desaparecer no relato subseq\u00fcente.<\/p>\n<p><strong>O Corti\u00e7o &#8211; (Alu\u00edsio Azevedo &#8211; 1890 )<\/strong><\/p>\n<p><strong>Resumo<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rom\u00e3o, portugu\u00eas, bronco e ambicioso, ajuntando dinheiro a poder de penosos sacrif\u00edcios, compra pequeno estabelecimento comercial no sub\u00farbio da cidade (Rio de Janeiro). Ao lado morava uma preta, escrava fugida, trabalhadeira, que possu\u00eda uma quitanda e umas economias. Os dois amasiam-se, passando a escrava a trabalhar como burro de carga para Jo\u00e3o Rom\u00e3o. Com o dinheiro de Bertoleza (assim se chamava a ex-escrava), o portugu\u00eas compra algumas bra\u00e7as de terra e alarga sua propriedade. Para agradar a Bertoleza, forja uma falsa carta de alforria. Com o decorrer do tempo, Jo\u00e3o Rom\u00e3o compra mais terras e nelas constr\u00f3i tr\u00eas casinhas que imediatamente aluga. O neg\u00f3cio d\u00e1 certo o novos cub\u00edculos se v\u00e3o amontoando na propriedade do portugu\u00eas. A procura de habita\u00e7\u00e3o \u00e9 enorme, e Jo\u00e3o Rom\u00e3o, ganancioso, acaba construindo vasto e movimentado corti\u00e7o. Ao lado vem morar outro portugu\u00eas, mas de classe elevada, com certos ares de pessoa importante, o Senhor Miranda, cuja mulher leva vida irregular. Miranda n\u00e3o se d\u00e1 com Jo\u00e3o Rom\u00e3o, nem v\u00ea com bons olhos o corti\u00e7o perto de sua casa.<\/p>\n<p><strong>No corti\u00e7o moram os mais variados tipos<\/strong>: brancos, pretos, mulatos, lavadeiras, malandros, assassinos, vadios, benzedeiras etc.<\/p>\n<p><strong>Entre outros<\/strong>: a Machona, lavadeira gritalhona, &#8220;cujos filhos n\u00e3o se pareciam uns com os outros&#8221;; Alexandre, mulato pern\u00f3stico; Pombinha, mo\u00e7a franzina que se desencaminha por influ\u00eancia das m\u00e1s companhias; Rita Baiana, mulata faceira que andava amigada na ocasi\u00e3o com Firmo, malandro valent\u00e3o; Jer\u00f4nimo e sua mulher, e outros mais. Jo\u00e3o Rom\u00e3o tem agora uma pedreira que lhe d\u00e1 muito dinheiro. No corti\u00e7o h\u00e1 festas com certa freq\u00fc\u00eancia, destacando-se nelas Rita Baiana como dan\u00e7arina provocante e sensual, o que faz Jer\u00f4nimo perder a cabe\u00e7a. Enciumado, Firmo acaba brigando com Jer\u00f4nimo e, h\u00e1bil na capoeira, abre a barriga d\u00f3 rival com a navalha e foge. Naquela mesma rua, outro corti\u00e7o se forma. Os moradores do corti\u00e7o de Jo\u00e3o Rom\u00e3o chamam-no de &#8220;Cabe\u00e7a-de-gato&#8221;; como revide, recebem o apelido de &#8220;Carapicus&#8221;. Firmo passara a morar no &#8220;Cabe\u00e7a-de-Gato&#8221;, onde se torna chefe dos malandros. Jer\u00f4nimo, que havia sido internado em um hospital ap\u00f3s a briga com Firmo, arma uma emboscada trai\u00e7oeira para o malandro e o mata a pauladas, fugindo em seguida com Rita Baiana, abandonando a mulher. Querendo vingar a morte de Firmo, os moradores do &#8220;Cabe\u00e7a-de-gato&#8221; travam s\u00e9ria briga com os &#8220;Carapicus&#8221;. Um inc\u00eandio, por\u00e9m, em v\u00e1rios barracos do corti\u00e7o de Jo\u00e3o Rom\u00e3o p\u00f5e fim \u00e0 briga coletiva.<\/p>\n<p><strong>O portugu\u00eas, agora endinheirado, reconstr\u00f3i o corti\u00e7o, dando-lhe nova fei\u00e7\u00e3o e pretende realizar um objetivo que h\u00e1 tempos vinha alimentando<\/strong>: casar-se com uma mulher &#8220;de fina educa\u00e7\u00e3o&#8221;, legitimamente. Lan\u00e7a os olhos em Zulmira, filha do Miranda. Botelho, um velho parasita que reside com a fam\u00edlia do Miranda e de grande influ\u00eancia junto deste, aplaina o caminho para Jo\u00e3o Rom\u00e3o, mediante o pagamento de vinte contos de r\u00e9is. E em breve os dois patr\u00edcios, por interesse, se tornam amigos e o casamento \u00e9 coisa certa.<\/p>\n<p><strong>S\u00f3 h\u00e1 uma dificuldade<\/strong>: Bertoleza. Jo\u00e3o Rom\u00e3o arranja um piano para livrar-se dela: manda um aviso aos antigos propriet\u00e1rios da escrava, denunciando-lhe o paradeiro. Pouco tempo depois, surge a pol\u00edcia na casa de Jo\u00e3o Rom\u00e3o para levar Bertoleza aos seus antigos senhores. A escrava compreende o destino que lhe estava reservado, suicida-se, cortando o ventre com a mesma faca com que estava limpando o peixe para a refei\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Rom\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Observa\u00e7\u00f5es importantes e textos<\/strong><\/p>\n<p><strong>O ROMANCE SOCIAL<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Desistindo de montar um enredo em fun\u00e7\u00e3o de pessoas, Alu\u00edsio atinou com a f\u00f3rmula que se ajustava ao seu talento: ateve-se \u00e0 seq\u00fc\u00eancia de descri\u00e7\u00f5es muito precisas, onde cenas coletivas e tipos psicologicamente prim\u00e1rios fazem, no conjunto, do corti\u00e7o a personagem mais convincente do nosso romance naturalista.&#8221; (Cf. Prof. Alfredo Bosi).<\/p><\/blockquote>\n<p>Todas as exist\u00eancias se entrela\u00e7am e repercutem umas nas outras. O Corti\u00e7o \u00e9 o n\u00facleo gerador de tudo e foi feito \u00e0 imagem de seu propriet\u00e1rio, cresce, se desenvolve e se transforma com Jo\u00e3o Rom\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>CR\u00cdTICA AO CAPITALISMO SELVAGEM<\/strong><\/p>\n<p>O tema \u00e9 a ambi\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo pr\u00f3prio homem. De um lado Jo\u00e3o Rom\u00e3o que aspira \u00e0 riqueza e Miranda, j\u00e1 rico, que aspira \u00e0 nobreza. Do outro, a gentalha&#8221;, caracterizada como um conjunto de animais, movidos pelo instinto e pela fome.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;E naquela terra encharcada o fumegante, naquela umidade quente e lodosa, come\u00e7ou a minhocar, a fervilhar, a crescer um mundo, uma coisa viva, uma gera\u00e7\u00e3o que parecia brotar espont\u00e2nea, ali mesmo, daquele lameiro e multiplicar-se como larvas no esterco.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;As corridas at\u00e9 a venda reproduziam-se num verminar de formigueiro assanhado.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Da\u00ed a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomera\u00e7\u00e3o tumultuosa de machos e f\u00eameas.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o das criaturas ao n\u00edvel animal (zoomorfiza\u00e7\u00e3o) \u00e9 caracter\u00edstica do Naturalismo e revela a influ\u00eancia das teorias da Biologia do S\u00e9culo XIX (darwinismo, lamarquismo) e do DETERMINISMO (RA\u00c7A, MEIO, MOMENTO).<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;.. depois de correr meia l\u00e9gua, puxando uma carga superior \u00e0s suas for\u00e7as, caiu morto na rua, ao lado de carro\u00e7a, estrompado como uma besta.<\/p>\n<p>&#8216;Leandra&#8230; a \u0091Machona\u0092, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo &#8220;Rita Baiana&#8230; uma cadela no cio&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>A FOR\u00c7A DO SEXO<\/strong><\/p>\n<p>O sexo \u00e9, em O Corti\u00e7o, for\u00e7a mais degradante que a ambi\u00e7\u00e3o e a cobi\u00e7a. A supervaloriza\u00e7\u00e3o do sexo, t\u00edpica do determinismo biol\u00f3gico, e do naturalismo, conduz Alu\u00edsio a buscar quase todas as formas de patologia sexual, desde o &#8220;acanalhamento&#8221; das rela\u00e7\u00f5es matrimoniais, adult\u00e9rio, prostitui\u00e7\u00e3o, lesbianismo, etc.<\/p>\n<p><strong>Observe esta, descri\u00e7\u00e3o de Rita Baiana, e do fasc\u00ednio que exercia sobre o portugu\u00eas Jer\u00f4nimo:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Naquela mulata estava o grande mist\u00e9rio, a s\u00edntese das impress\u00f5es que ele recebeu chegando aqui. ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas de fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras, era a palmeira virginal e esquiva que se n\u00e3o torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o a\u00e7\u00facar gostoso, era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; e\/a era a cobra verde e trai\u00e7oeira, a lagarta viscosa, e muri\u00e7oca doida, que esvoa\u00e7ava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras, embambecidas pela saudade de terra, picando-lhe as art\u00e9rias, para lhe cuspir dentro da sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela m\u00fasica feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cant\u00e1ridas que zumbiam em tomo da Rita Baiana o espalhavam-se pelo ar numa fosforesc\u00eancia afrodis\u00edaca.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>OS TIPOS HUMANOS<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rom\u00e3o &#8220;E seu tipo baixote, socado, de cabelos \u00e0 escovinha, a barba sempre por fazer, ia o vinha de pedreira para a venda, de vende As hortas \u00e9 ao capinzal, sempre em mangas de camisa, tamancos, sem meras, olhando para todos os lados, com o seu eterno ar de cobi\u00e7a, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que ele n\u00e3o podia apoderar-se logo com as unhas&#8221;. . possuindo-se de tal del\u00edrio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras priva\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Dormia sobre o balc\u00e3o da pr\u00f3pria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estepe cheio de palha&#8221;.<\/p>\n<p>Albino &#8220;Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de aspargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe ca\u00eda, numa s\u00f3 linha, at\u00e9 o pescocinho mole e tino.&#8221;<\/p>\n<p>Botelho &#8220;Era um pobre-diabo caminhando para os setenta anos, antip\u00e1tico, cabelo branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo teor, muito macilento, com uns \u00f3culos redondos que lhe aumentavam o tamanho de pupila e davam-lhe \u00e0 cara uma express\u00e3o de abutre, perfeitamente de acordo com o seu nariz adunco e com a sua boca sem l\u00e1bios: viam-lhe ainda todos os dentes, mas, t\u00e3o gastos, que pareciam limados at\u00e9 ao meio &#8230; foi lhe escapando tudo por entre as suas garras de ave de rapina &#8220;. Voc\u00ea tem nestes trechos excelentes exemplos de descri\u00e7\u00e3o realista e objetiva.<\/p>\n<p><strong>A SITUA\u00c7\u00c3O DA MULHER<\/strong><\/p>\n<p><strong>As mulheres s\u00e3o reduzidas a tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es<\/strong>: primeira, de objeto, usadas e aviltadas pelo homem: Bertoloza e Piedade; segunda, de objeto e sujeito, simultaneamente: Rita Baiana; terceira, de sujeito, s\u00e3o as que se independem do homem, prostituindo-se: Leonie e Pombinha.<\/p>\n<p><strong>O DESFECHO DO ROMANCE<\/strong><\/p>\n<p>Delatada por Jo\u00e3o Rom\u00e3o, os antigos donos de Bertoleza diligenciam para capturar a escrava fugida. Procurada pelos policiais, a negra se suicida.<\/p>\n<p>Observe o exagero da cena, e a ironia do desfecho.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;A negra, im\u00f3vel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma das m\u00e3os espalmada no ch\u00e3o e com a outra segurando a faca de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.<\/p><\/blockquote>\n<p>Os policiais, vendo que ela se n\u00e3o despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza ent\u00e3o, erguendo-se com \u00edmpeto de anta bravia, recuou de um salto, e entes que algu\u00e9m conseguisse alcan\u00e7\u00e1-la, j\u00e1 de um s\u00f3 golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado a lodo.<\/p>\n<p>E depois emborcou para frente, rungindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Rom\u00e3o fugira at\u00e9 o canto mais escuro do armaz\u00e9m, tapando o rosto com os m\u00e3os.<\/p>\n<p>Nesse momento parava \u00e0 porta da rua uma carruagem. Era uma comiss\u00e3o de abolicionistas que vinha, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma de s\u00f3cio benem\u00e9rito.&#8221;<\/p>\n<p><strong>RAUL POMP\u00c9IA (1863-1895)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Obra Principal: O Ateneu (1888)<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ainda que tenha escrito poemas (Can\u00e7\u00f5es sem metro), uma novela (Uma trag\u00e9dia no Amazonas), e deixado obras in\u00e9ditas, Raul Pomp\u00e9ia permanece como autor de um romance essencial de nossa literatura<\/strong>: O Ateneu, que traz um enganoso subt\u00edtulo: Cr\u00f4nica de saudades.<\/p>\n<p>Fortemente pessoal, &#8211; mas n\u00e3o a ponto de ser considerado uma autobiografia &#8211; o texto parte das experi\u00eancias do autor num sistema de internato.. Marcado de forma intensa por estes anos, que s\u00e3o para ele de sofrimento e solid\u00e3o, trata de recri\u00e1-los artisticamente, valendo-se para isso de um personagem chamado S\u00e9rgio.<\/p>\n<p>Proje\u00e7\u00e3o do escritor, S\u00e9rgio evoca &#8211; em primeira pessoa &#8211; o in\u00edcio de sua adolesc\u00eancia passada no internato. A narrativa \u00e9 constru\u00edda a partir da perspectiva de S\u00e9rgio j\u00e1 amadurecido. E o leitor tem a vis\u00e3o de um sujeito adulto que lembra os acontecimentos. N\u00e3o a vis\u00e3o que o menino teria ao ingressar no internato.<\/p>\n<p>Assim, o romance \u00e9 a mem\u00f3ria adulta de uma experi\u00eancia juvenil.<\/p>\n<p><strong>Atente-se para o primeiro par\u00e1grafo do texto<\/strong>: Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, porta do Ateneu. &#8216;Coragem para a luta.&#8217; Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilus\u00f5es de crian\u00e7a educada exoticamente na estufa de carinho que \u00e9 o regime do amor dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>V\u00ea-se a\u00ed que o narrador, no presente (a idade madura), analisa os dados do passado. Suas lembran\u00e7as confundem-se com os julgamentos que emitir\u00e1 sobre a vida no educand\u00e1rio. N\u00e3o h\u00e1, pois, uma \u00fanica hist\u00f3ria encadeada, um enredo propriamente dito, e sim um ac\u00famulo de fatos, percep\u00e7\u00f5es, situa\u00e7\u00f5es e impress\u00f5es, que servem para indicar a psicologia e a estrutura social do mundo do internato. O pr\u00f3prio tempo objetivo da a\u00e7\u00e3o dissolve-se na densa subjetividade do narrador.<\/p>\n<p>A inexist\u00eancia de uma intriga, \u00e0 maneira rom\u00e2ntica ou realista, favorece os des\u00edgnios de Raul Pomp\u00e9ia &#8211; ele n\u00e3o quer contar a vida no Ateneu, ele quer desmascar\u00e1-la e interpret\u00e1-la. Os epis\u00f3dios servem como desvelamentos sucessivos da corrup\u00e7\u00e3o e da mis\u00e9ria moral que imperam no col\u00e9gio. O texto denota sempre uma atmosfera de crise. <strong>Sobretudo, a crise das ilus\u00f5es de S\u00e9rgio<\/strong>: Onde metera a m\u00e1quina dos meus ideais naquele mundo de brutalidade que me intimidava com os obscuros detalhes e as perspectivas informes, escapando \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o de minha inexperi\u00eancia?<\/p>\n<p><strong>A Corrup\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sens\u00edvel ao extremo, S\u00e9rgio percebe a queda das apar\u00eancias<\/strong>: &#8220;Cada rosto am\u00e1vel daquela inf\u00e2ncia era a m\u00e1scara de uma falsidade, o prospecto de uma trai\u00e7\u00e3o.&#8221; &#8220;Solit\u00e1rio e solid\u00e1rio&#8221; &#8211; conforme an\u00e1lise do cr\u00edtico Astrogildo Pereira -, procura liga\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas com os colegas. Mas o que encontra \u00e9 a brutalidade, a vontade de poder, a explora\u00e7\u00e3o e o homossexualismo.<\/p>\n<p><strong>Todas as camaradagens s\u00e3o ef\u00eameras e dissimuladas:<\/strong><\/p>\n<p>Um c\u00e1fila! (dizia Rebelo) N\u00e3o imagina, meu caro S\u00e9rgio. Conte como uma desgra\u00e7a ter de viver com esta gente, (&#8230;) A\u00ed v\u00e3o as carinhas sonsas, generosa mocidade&#8230; Uns perversos. T\u00eam mais pecados na consci\u00eancia que um confessor no ouvido; uma mentira em cada dente, um v\u00edcio em cada polegada de pele. Fiem-se neles. S\u00e3o servis, traidores, brutais, adul\u00f5es. V\u00e3o juntos. Pensa-se que s\u00e3o amigos&#8230; S\u00f3cios de bandalheiras! Cheiram \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, empestam de longe.<\/p>\n<p>H\u00e1 no col\u00e9gio uma expl\u00edcita divis\u00e3o entre fortes e fracos.<\/p>\n<p><strong>O relacionamento entre os colegas reduplica os valores do universo social<\/strong>: opressores e oprimidos.<\/p>\n<p><strong>A sa\u00edda dos fr\u00e1geis \u00e9 adquirir a &#8220;prote\u00e7\u00e3o&#8221; de um dos rapazes mais fortes, por\u00e9m o pre\u00e7o \u00e9 alto:<\/strong><\/p>\n<p>Isto \u00e9 uma multid\u00e3o; \u00e9 preciso for\u00e7a de cotovelos para romper. (&#8230;) Os g\u00eanios fazem aqui dois sexos, como se fosse uma escola mista. Os rapazes t\u00edmidos, ing\u00eanuos, sem sangue, s\u00e3o brandamente impelidos para o sexo da fraqueza; s\u00e3o dominados, festejados, pervertidos como meninas ao desamparo. (&#8230;) Fa\u00e7a-se homem, meu amigo! Comece por n\u00e3o admitir protetores.<\/p>\n<p>Dificilmente algu\u00e9m se isenta do homossexualismo sutil que assalta as salas de aulas, os corredores e os dormit\u00f3rios do Ateneu. Exce\u00e7\u00e3o feita a Rebelo, todas as amizades de S\u00e9rgio s\u00e3o amb\u00edguas.<\/p>\n<p><strong>Ele pr\u00f3prio &#8211; por medo &#8211; parece dispor-se a certo tipo de relacionamento<\/strong>:<\/p>\n<p><strong>Depois que sacudi fora a tranca dos ideais ing\u00eanuos, sentia-me vazio de \u00e2nimo; nunca percebi tanto a espiritualidade imponder\u00e1vel da alma<\/strong>: o v\u00e1cuo habitava-me dentro. Premia-me a for\u00e7a das coisas; senti-me acovardado. Perdeu-se a li\u00e7\u00e3o viril de Rebelo; prescindir de protetores. Eu desejei um protetor, algu\u00e9m que me valesse, naquele meio hostil e desconhecido, e um valimento direto mais forte do que palavras. (&#8230;) Pouco a pouco me ia invadindo a efemina\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida das escolas. (&#8230;) E, como se a alma das crian\u00e7as, \u00e0 maneira do f\u00edsico, esperasse realmente pelos dias para caracterizar em definitivo a conforma\u00e7\u00e3o sexual do indiv\u00edduo, sentia-me possu\u00eddo de certa necessidade pregui\u00e7osa de amparo, vol\u00fapia de fraqueza&#8230;<\/p>\n<p>Os v\u00ednculos de S\u00e9rgio com Sanches e Bento Alves est\u00e3o assinalados por esta terr\u00edvel atra\u00e7\u00e3o que, \u00e0s vezes, os dominados t\u00eam pelos dominadores.<\/p>\n<p><strong>O quadro onde se desenha a figura de Bento Alves \u00e9 bem n\u00edtido<\/strong>: o seu poder sedutor reside na for\u00e7a f\u00edsica:<\/p>\n<p>Consideravam-no principalmente pela nomeada de herc\u00faleo. Os fortes constituem uma fidalguia de privil\u00e9gios no internato. (&#8230;) Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quase t\u00edmido, como se n\u00e3o tivesse \u00e2nimo de ser amigo. Para me fitar espera que eu tirasse dele os meus olhos. (&#8230;) Aquela timidez, em vez de alertar, enternecia-me&#8230;<\/p>\n<p><strong>Veja-se tamb\u00e9m a d\u00fabia afei\u00e7\u00e3o do narrador por Egbert:<\/strong><\/p>\n<blockquote><p>Vizinhos ao dormit\u00f3rio, eu, deitado, esperava que ele dormisse para v\u00ea-lo dormir e acordava mais cedo para v\u00ea-lo acordar. Tudo que nos pertencia era comum.<\/p>\n<p>Eu por mim positivamente o adorava e o julgava perfeito. Era elegante, destro, trabalhador, generoso. Eu admirava-o, desde o cora\u00e7\u00e3o at\u00e9 a cor da pele e corre\u00e7\u00e3o das formas.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Aristarco, &#8220;monstro moral&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>A s\u00edntese da dissolu\u00e7\u00e3o de todos os valores \u00e9 Aristarco, o diretor do col\u00e9gio. Para S\u00e9rgio, ele encarna a perversidade do sistema. E o \u00f3dio, que o narrador-adulto guarda do internato, converge para sua figura caricatural e grotesca. <strong>Sem qualquer vislumbre humanista, dirige a escola como se ela fosse uma casa de com\u00e9rcio<\/strong>: Aristarco todo era um an\u00fancio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei &#8211; o autocrata*excelso dos silab\u00e1rios*; a pausa hier\u00e1rquica do andar deixava sentir o esfor\u00e7o, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de empurr\u00e3o, o progresso do ensino p\u00fablico.(&#8230;)<\/p>\n<p><strong>A pr\u00f3pria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia ele<\/strong>: aqui est\u00e1 um grande homem&#8230;(&#8230;)<\/p>\n<p><strong>Em suma, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impress\u00e3o de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha<\/strong>: a obsess\u00e3o da pr\u00f3pria est\u00e1tua. Como tardasse a est\u00e1tua, Aristarco satisfazia-se interinamente com a aflu\u00eancia dos estudantes ricos para o seu instituto. De fato, os educandos do Ateneu significavam a fina flor da mocidade brasileira.<\/p>\n<p><strong>O Mundo Degradado<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio de Andrade reparou que ningu\u00e9m parece escapar \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o que domina o col\u00e9gio<\/strong>: professores, colegas, funcion\u00e1rios, etc. Mesmo Ema, esposa de Aristarco, dada pelo narrador como uma criatura generosa, \u00e9 envolvida num clima de difuso erotismo em seu contato com S\u00e9rgio. Um adolescente, Franco, por sua fragilidade e fracasso nos estudos, torna-se o bode expiat\u00f3rio do col\u00e9gio. S\u00e9rgio aproxima-se dele e descobre que inclusive o fraco est\u00e1 contaminado pela perversidade.<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 mesmo o personagem mais simp\u00e1tico do livro, o Dr. Cl\u00e1udio &#8211; famoso por suas confer\u00eancias, nas quais sempre manifestava um pensamento revolucion\u00e1rio &#8211; revela uma c\u00ednica argumenta\u00e7\u00e3o a respeito do internato<\/strong>: \u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o imperfeita, aprendizagem de corrup\u00e7\u00e3o, ocasi\u00e3o de contato com indiv\u00edduos de toda origem? O mestre \u00e9 a tirania, a injusti\u00e7a, o terror? O merecimento n\u00e3o tem cota\u00e7\u00e3o, (&#8230;) aprova-se a espionagem, a adula\u00e7\u00e3o, a humilha\u00e7\u00e3o, campeia a intriga, (&#8230;) abundam as sedu\u00e7\u00f5es perversas, triunfam as aud\u00e1cias dos nulos? Tanto melhor: \u00e9 a escola da sociedade.<\/p>\n<p>Ensaiados no microcosmo do internato, n\u00e3o h\u00e1 mais surpresas no grande mundo l\u00e1 fora, onde se v\u00e3o sofrer todas as conviv\u00eancias, respirar todos os ambientes; onde a raz\u00e3o da maior for\u00e7a \u00e9 a dial\u00e9tica geral, e nos envolvem as evolu\u00e7\u00f5es de tudo o que rasteja e tudo que morde, porque a perf\u00eddia terra-terra \u00e9 um dos processos mais eficazes da vulgaridade vencedora. (&#8230;)E n\u00e3o se diga que \u00e9 um viveiro de maus germes, semin\u00e1rio de nefasto de maus princ\u00edpios, que h\u00e3o de arborescer depois. N\u00e3o \u00e9 o internato que faz a sociedade; o internato a reflete. A corrup\u00e7\u00e3o que ali viceja, vem de fora.<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m S\u00e9rgio se corrompe:<\/strong> &#8220;Tornei-me um animalzinho ruim.&#8221; Sofre o condicionamento do meio, torna-se v\u00edtima do sistema.<\/p>\n<p><strong>O que n\u00e3o o impede &#8211; conforme observa\u00e7\u00e3o de Alfredo Bosi &#8211; de se converter em promotor<\/strong>: seu texto tem o alcance de uma poderosa acusa\u00e7\u00e3o contra o internato. E na exata medida em que o internato representa a sociedade, sua destrui\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de um inc\u00eandio &#8211; desnecess\u00e1rio para a coer\u00eancia do romance &#8211; assume uma dimens\u00e3o simb\u00f3lica. O fogo que consome o Ateneu consome tamb\u00e9m a organiza\u00e7\u00e3o social que o fizera poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O sucesso de Aristarco origina-se dessa apar\u00eancia de educador. Mant\u00e9m-se gra\u00e7as ao pedantismo, ao brilho e \u00e0 viol\u00eancia de sua ret\u00f3rica.<\/p>\n<p><strong>O discurso encobre e mistifica a realidade, a linguagem serve ao poder<\/strong>: &#8220;Um trabalho insano! [dizia Aristarco.] Moderar, animar, corrigir esta massa de caracteres, onde come\u00e7a a ferver o fermento das inclina\u00e7\u00f5es, encontrar e encaminhar a natureza na \u00e9poca dos violentos \u00edmpetos; amorda\u00e7ar excessivos ardores; retemperar o \u00e2nimo dos que se d\u00e3o por vencidos precocemente; espreitar, adivinhar os temperamentos; prevenir a deprava\u00e7\u00e3o dos inocentes; espreitar os s\u00edtios obscuros; fiscalizar as amizades; desconfiar das hipocrisias; ser amoroso, ser violento, ser firme; triunfar dos sentimentos de compaix\u00e3o para ser correto; proceder com seguran\u00e7a, para depois duvidar; punir para pedir perd\u00e3o depois&#8230; (&#8230;) Ah, meus amigos, concluiu ofegante, n\u00e3o \u00e9 o esp\u00edrito que me custa, n\u00e3o \u00e9 o estudo dos rapazes a minha preocupa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 o car\u00e1ter! N\u00e3o \u00e9 a pregui\u00e7a o inimigo, \u00e9 a imoralidade!&#8217; Aristarco tinha para esta palavra uma entona\u00e7\u00e3o especial, comprida e terr\u00edvel, que nunca mais esquece quem a ouviu de seus l\u00e1bios. &#8216;A imoralidade&#8217;. E recuava tragicamente, crispando as m\u00e3os. &#8216;Ah! mas eu sou tremendo quando esta desgra\u00e7a nos escandaliza. N\u00e3o! Estejam tranq\u00fcilos os pais! No Ateneu, a imoralidade n\u00e3o existe. Velo pela candura das crian\u00e7as, como se fossem n\u00e3o digo meus filhos: minhas pr\u00f3prias filhas!<\/p>\n<p>O adolescente S\u00e9rgio descobre a falsidade da linguagem de Aristarco. O adulto S\u00e9rgio &#8211; inventariando o passado no col\u00e9gio &#8211; leva a hipocrisia das falas de Aristarco at\u00e9 os limites da sordidez. E o diretor nos \u00e9 apresentado em toda a sua hipocrisia e vileza. Ele ama, sobretudo, a si mesmo, ou melhor, ele ama a imagem que fez de si. Os bajuladores, os que refor\u00e7am a imagem do &#8220;grande educador&#8221;, s\u00e3o recompensados. Um professor chega a gritar: &#8220;Acima de Aristarco &#8211; Deus! Deus t\u00e3o-somente; abaixo de Deus &#8211; Aristarco.&#8221;<\/p>\n<p>Na figura, caricaturada ao extremo por S\u00e9rgio, existe algo de megalomania. O seu narcisismo, o sonho com a eternidade de um busto, indica um comportamento anormal. Mas essa anormalidade (segundo o narrador) \u00e9 institucionalizada pelo outros professores que acabam inaugurando festivamente o busto de Aristarco, perante ele mesmo.<\/p>\n<blockquote><p><strong>Autocrata:<\/strong> mandat\u00e1rio com poderes absolutos.<br \/>\n<strong>Silab\u00e1rios: <\/strong>o conjunto que comp\u00f5e a escrita sil\u00e1bica.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Sempre manifestava um pensamento revolucion\u00e1rio &#8211; revela uma c\u00ednica argumenta\u00e7\u00e3o a respeito do internato:<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Linguagem<\/strong><\/p>\n<p>A linguagem de Raul Pomp\u00e9ia filia-se \u00e0 chamada &#8220;prosa art\u00edstica&#8221;, desenvolvida na Fran\u00e7a pelos famosos irm\u00e3os Goncourt. Trabalhada de maneira intensa pelo autor, com grande for\u00e7a pl\u00e1stica e sonora, passa longe da no\u00e7\u00e3o realista de simplicidade e despojamento, encontrando em compara\u00e7\u00f5es, met\u00e1foras e na sofistica\u00e7\u00e3o vocabular a sua expressividade. O tom requintado d\u00e1-lhe, s vezes, certo artificialismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 inadmiss\u00edvel supor tamb\u00e9m que este estilo &#8211; velado e dif\u00edcil pelo refinamento verbal &#8211; corresponda \u00e0 ambig\u00fcidade do escritor, no sentido de simultaneamente desvelar e ocultar as realidades psicol\u00f3gicas e as viv\u00eancias que ele experimentou no col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Trata-se, de qualquer maneira, de um estilo fortemente liter\u00e1rio e, portanto, bastante afastado do tom coloquial que predomina no romance a partir da revolu\u00e7\u00e3o modernista. Em vista disso, h\u00e1 uma natural dificuldade por parte dos alunos para efetivar a leitura de O Ateneu. Por\u00e9m, um bom dicion\u00e1rio e um esfor\u00e7o de concentra\u00e7\u00e3o permitem aos mais curiosos o acesso a esta obra-prima da narrativa brasileira do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p><strong>A Classifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A \u00e2nsia classificat\u00f3ria dos historiadores liter\u00e1rios brasileiros n\u00e3o se reduz a uma mera quest\u00e3o did\u00e1tica. \u00c9 que nossos autores precisam ser catalogados segundo modelos europeus. E quando um artista nacional foge, internacionalmente ou n\u00e3o, dos padr\u00f5es das grandes metr\u00f3poles culturais, arma-se a confus\u00e3o. Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis e Raul Pomp\u00e9ia produzem obras cuja originalidade impede o seu enquadramento em categorias europ\u00e9ias r\u00edgidas. Isso confunde muitos de nossos estudiosos liter\u00e1rios.<\/p>\n<p>O Ateneu, por exemplo, j\u00e1 foi inclu\u00eddo na est\u00e9tica naturalista. A id\u00e9ia da corrup\u00e7\u00e3o desencadeada pelo meio percorre o romance. Mas a dilui\u00e7\u00e3o da objetividade narrativa num angustiante subjetivismo afasta o texto dos princ\u00edpios daquele movimento.<\/p>\n<p>V\u00e1rios cr\u00edticos consideram o relato como realista, usando os mesmos crit\u00e9rios para a classifica\u00e7\u00e3o da obra de Machado de Assis, isto \u00e9, tratar-se-ia de um realismo particular, pessoal, intransfer\u00edvel. Este conceito, como j\u00e1 vimos, possui tamanha abrang\u00eancia que nenhum livro escrito no Ocidente deixaria de ser realista.<\/p>\n<p>Mais recentemente, alguns cr\u00edticos buscaram uma similitude entre a obra de Raul Pomp\u00e9ia e valores do Impressionismo europeu, numa engenhosa aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Um romance impressionista?<\/strong><\/p>\n<p>Com certeza O Ateneu supera a formula\u00e7\u00e3o tradicional do realismo, pois apresenta um narrador cheio de emotividade. O S\u00e9rgio-adulto gostaria de rememorar com isen\u00e7\u00e3o as experi\u00eancias de menino, por\u00e9m \u00e0 medida que submerge no passado, este come\u00e7a a voltar com tamanha vibra\u00e7\u00e3o dolorosa que a objetividade dilui-se. \u00c9 como se o adulto fosse tragado pelas impress\u00f5es do menino que teimam em persistir na sua alma.<\/p>\n<p><strong>Assim, O Ateneu se converte na pura express\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es de S\u00e9rgio<\/strong>: sofrimento do menino e desejo de vingan\u00e7a do adulto. Essa densidade das impress\u00f5es impede que o romance seja objetivo ou neutro.<\/p>\n<p><strong>Teria ele ent\u00e3o um car\u00e1ter impressionista?<\/strong><\/p>\n<p>Ora, o Impressionismo \u00e9 um estilo que tem o seu apogeu durante as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, principalmente no campo das artes pl\u00e1sticas. Seu princ\u00edpio b\u00e1sico \u00e9 o de que todo e qualquer conhecimento racional e objetivo da realidade \u00e9 precedido de uma sensa\u00e7\u00e3o. Ou seja, de uma impress\u00e3o sobre essa realidade.<\/p>\n<p>E se at\u00e9 ali a arte concentrara-se na observa\u00e7\u00e3o detalhada das m\u00faltiplas facetas do real, agora, ao inverso, a arte deve procurar reproduzir as impress\u00f5es do sujeito perante determinados objetos.<\/p>\n<p><strong>Delimitando historicamente o Impressionismo, diz Arnold Hauser<\/strong>:<\/p>\n<p>\u00c9 uma arte citadina, por excel\u00eancia, n\u00e3o s\u00f3 porque pinta a cidade, mas porque tamb\u00e9m v\u00ea o mundo com olhos de citadino, e reage ante as impress\u00f5es exteriores com os nervos superexcitados do homem t\u00e9cnico moderno; \u00e9 um estilo citadino porque descobre a versatilidade, o ritmo nervoso, as impress\u00f5es s\u00fabitas, agudas, mas sempre ef\u00eameras da vida na cidade. (&#8230;) Constitui o ponto culminante da tend\u00eancia din\u00e2mica e da dissolu\u00e7\u00e3o da est\u00e1tica imagem medieval do mundo.<\/p>\n<p>Ainda que alguma aproxima\u00e7\u00e3o possa ser feita entre o estilo impressionista da pintura e o da literatura, e ainda que o relato de Raul Pomp\u00e9ia guarde um tom sensorial e emotivo, este r\u00f3tulo parece t\u00e3o inconveniente quanto os anteriores.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria o caso de abandonarmos ciranda t\u00e3o infernal de etiquetas e classifica\u00e7\u00f5es, e conceber O Ateneu apenas como um romance extremamente singular em nossa literatura?<\/p>\n<p>\u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o imperfeita, aprendizagem de corrup\u00e7\u00e3o, ocasi\u00e3o de contato com indiv\u00edduos de toda origem? O mestre \u00e9 a tirania, a injusti\u00e7a, o terror? O merecimento n\u00e3o tem cota\u00e7\u00e3o, (&#8230;) aprova-se a espionagem, a adula\u00e7\u00e3o, a humilha\u00e7\u00e3o, campeia a intriga, (&#8230;) abundam as sedu\u00e7\u00f5es perversas, triunfam as aud\u00e1cias dos nulos?<\/p>\n<p><strong>Tanto melhor<\/strong>: \u00e9 a escola da sociedade. Ensaiados no microcosmo do internato, n\u00e3o h\u00e1 mais surpresas no grande mundo l\u00e1 fora, onde se v\u00e3o sofrer todas as conviv\u00eancias, respirar todos os ambientes; onde a raz\u00e3o da maior for\u00e7a \u00e9 a dial\u00e9tica geral, e nos envolvem as evolu\u00e7\u00f5es de tudo o que rasteja e tudo que morde, porque a perf\u00eddia terra-terra \u00e9 um dos processos mais eficazes da vulgaridade vencedora. (&#8230;) E n\u00e3o se diga que \u00e9 um viveiro de maus germes, semin\u00e1rio de nefasto de maus princ\u00edpios, que h\u00e3o de arborescer depois. N\u00e3o \u00e9 o internato que faz a sociedade; o internato a reflete. A corrup\u00e7\u00e3o que ali viceja, vem de fora.<\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m S\u00e9rgio se corrompe<\/strong>: &#8220;Tornei-me um animalzinho ruim.&#8221; Sofre o condicionamento do meio, torna-se v\u00edtima do sistema.<\/p>\n<p><strong>O que n\u00e3o o impede &#8211; conforme observa\u00e7\u00e3o de Alfredo Bosi &#8211; de se converter em promotor<\/strong>: seu texto tem o alcance de uma poderosa acusa\u00e7\u00e3o contra o internato. E na exata medida em que o internato representa a sociedade, sua destrui\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de um inc\u00eandio &#8211; desnecess\u00e1rio para a coer\u00eancia do romance &#8211; assume uma dimens\u00e3o simb\u00f3lica. O fogo que consome o Ateneu consome tamb\u00e9m a organiza\u00e7\u00e3o social que o fizera poss\u00edvel.<\/p>\n<h4><strong>Naturalismo &#8211; A<\/strong>rtes Pl\u00e1sticas<\/h4>\n<p>O\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0foi uma tend\u00eancia das artes pl\u00e1sticas, da\u00a0<strong>literatura<\/strong>\u00a0e do teatro surgida na Fran\u00e7a no s\u00e9culo XIX. Manifestou-se tamb\u00e9m em outros pa\u00edses europeus, nos Estados Unidos (EUA) e no Brasil. Baseia-se na filosofia de que s\u00f3 as leis da natureza s\u00e3o v\u00e1lidas para explicar o mundo e na de que o homem est\u00e1 sujeito a um inevit\u00e1vel condicionamento biol\u00f3gico e social. Por suas obras retratarem a realidade de forma ainda mais objetiva e fiel do que o realismo, o naturalismo \u00e9 considerado uma radicaliza\u00e7\u00e3o desse movimento. Se nas artes pl\u00e1sticas n\u00e3o mostra o engajamento ideol\u00f3gico do realismo, na\u00a0<strong>literatura<\/strong>\u00a0e no teatro mant\u00e9m a preocupa\u00e7\u00e3o com os problemas sociais.<\/p>\n<p>Influenciados pelo Positivismo e pela Teoria de Evolu\u00e7\u00e3o das Esp\u00e9cies, os naturalistas apresentam a realidade com rigor quase cient\u00edfico. Objetividade, imparcialidade, materialismo e determinismo s\u00e3o as bases de sua vis\u00e3o de mundo. Desde 1840, as\u00a0<strong>caracter\u00edsticas<\/strong>\u00a0do<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0est\u00e3o presentes na Fran\u00e7a, mas \u00e9 em 1880 que o escritor \u00c9mile Zola (1840-1902) re\u00fane os princ\u00edpios dessa tend\u00eancia no livro de ensaios O Romance Experimental.<\/p>\n<p>A pintura retrata fielmente paisagens urbanas e suburbanas, e seus personagens s\u00e3o pessoas comuns. O artista pinta o mundo como o v\u00ea, sem as idealiza\u00e7\u00f5es nem as distor\u00e7\u00f5es que o Realismo cria para expor suas posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. As obras concorrem com a fotografia.<\/p>\n<p>Por volta de 1830, o grande interesse por paisagens naturais leva um grupo de artistas a se reunir em Barbizon, na Fran\u00e7a, para pintar ao ar livre, uma inova\u00e7\u00e3o na \u00e9poca. Mais tarde essa pr\u00e1tica ser\u00e1 adotada pelo Impressionismo. Um dos principais artistas do grupo \u00e9 Th\u00e9odore Rousseau (1812-1867), autor de Uma Alameda na Floresta de L&#8217;Isle-Adam. Outro nome importante \u00e9 Camille Corot (1796-1875).<\/p>\n<p>Na\u00a0<strong>literatura<\/strong>, a linguagem dos romances \u00e9 coloquial, simples, direta. Para descrever v\u00edcios e mazelas humanos, muitas vezes se usam express\u00f5es vulgares.<\/p>\n<p>Temas do cotidiano urbano, como crimes, mis\u00e9ria e intrigas, mostram-se usuais.<\/p>\n<p><strong>Os personagens s\u00e3o tipificados:\u00a0<\/strong>o ad\u00faltero, o louco, o pobre.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o predomina sobre a narra\u00e7\u00e3o, de tal modo que se considera que os autores, em vez de narrar acontecimentos, os descrevem em detalhes. Fatos e emo\u00e7\u00f5es ficam em segundo plano. O expoente \u00e9 \u00c9mile Zola, autor de Germinal. Tamb\u00e9m s\u00e3o naturalistas os irm\u00e3os Goncourt, de Germinie Lacerteux.<\/p>\n<p>No teatro, as principais pe\u00e7as baseiam-se em textos de Zola, como Th\u00e9r\u00e8se Raquin, Germinal e A Terra. A encena\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo constitui a primeira tentativa de produzir um cen\u00e1rio t\u00e3o realista quanto o texto. Principal diretor de pe\u00e7as naturalistas da \u00e9poca na Fran\u00e7a, Andr\u00e9 Antoine (1858-1943) p\u00f5e em cena animais vivos e a simula\u00e7\u00e3o de um pequeno riacho.<\/p>\n<p>Outro autor significativo do per\u00edodo, o franc\u00eas Henri Becque (1837-1893) aplica os princ\u00edpios naturalistas \u00e0 com\u00e9dia de boulevard, que adquire um tom amargo e \u00e1cido. As principais pe\u00e7as s\u00e3o A Parisiense e Os Abutres. Tamb\u00e9m se destaca o sueco August Strindberg (1849-1912), autor de Senhorita J\u00falia.<\/p>\n<p>No Brasil, a tend\u00eancia manifesta-se nas artes pl\u00e1sticas e na\u00a0<strong>literatura<\/strong>.<\/p>\n<p>N\u00e3o existem textos para teatro, que se limita a encenar pe\u00e7as francesas.<\/p>\n<p>Nas artes pl\u00e1sticas, o\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0acha-se presente na produ\u00e7\u00e3o dos artistas paisagistas do Grupo Grimm. Seu l\u00edder \u00e9 o alem\u00e3o George Grimm (1846-1887), professor da Academia Imperial de Belas-Artes. Em 1884, ele rompe com a institui\u00e7\u00e3o, que segue as regras das academias de arte e rejeita a pr\u00e1tica de pintar a natureza ao ar livre sem a refer\u00eancia dos modelos europeus. Funda, ent\u00e3o, o Grupo Grimm em Niter\u00f3i, no Rio de Janeiro. Entre seus alunos se destaca Antonio Parreiras (1860-1945). Outro naturalista importante \u00e9 Jo\u00e3o Batista da Costa (1865-1926), que procura captar com objetividade a luz e as cores da paisagem brasileira.<\/p>\n<p>Na\u00a0<strong>literatura<\/strong>, em geral n\u00e3o h\u00e1 fronteiras n\u00edtidas entre textos naturalistas e realistas. No entanto, o romance O Mulato (1881), de Alu\u00edsio Azevedo (1857-1913), \u00e9 considerado o marco do\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0no pa\u00eds. Trata-se da hist\u00f3ria de um homem culto, mulato, que vive o preconceito racial ao se envolver com uma mulher branca. Outras obras classificadas como naturalistas s\u00e3o O Ateneu, de Raul Pomp\u00e9ia (1863-1895), e A Carne, de J\u00falio Ribeiro (1845-1890). O naturalismo encontra-se na base do regionalismo, que, nascido no Romantismo, se consolida na\u00a0<strong>literatura<\/strong>\u00a0brasileira no fim do s\u00e9culo XIX e permanece at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Distantes da preocupa\u00e7\u00e3o com a realidade brasileira, mas muito identificados com a arte moderna e inspirados pelo Dad\u00e1, est\u00e3o os pintores Ismael Nery e Fl\u00e1vio de Carvalho (1899-1973). Na pintura merecem destaque ainda Regina Graz (1897-1973), John Graz (1891-1980), C\u00edcero Dias (1908-) e Vicente do Rego Monteiro (1899-1970).<\/p>\n<p>Di Cavalcanti retrata a popula\u00e7\u00e3o brasileira, sobretudo as classes sociais menos favorecidas. Mescla elementos realistas, cubistas e futuristas, como em Cinco Mo\u00e7as de Guaratinguet\u00e1. Outro artista modernista dedicado a representar o homem do povo \u00e9 Candido Portinari, que recebe influ\u00eancia do Expressionismo. Entre seus trabalhos importantes est\u00e3o as telas Caf\u00e9 e Os Retirantes.<\/p>\n<p>Os autores mais importantes s\u00e3o Oswald de Andrade e M\u00e1rio de Andrade, os principais te\u00f3ricos do movimento. Destacam-se ainda Menotti del Picchia e Gra\u00e7a Aranha (1868-1931). Oswald de Andrade v\u00e1rias vezes mescla poesia e prosa, como em Serafim Ponte Grande. Outra de suas grandes obras \u00e9 Pau-Brasil.<\/p>\n<p>O primeiro trabalho modernista de M\u00e1rio de Andrade \u00e9 o livro de poemas Paulic\u00e9ia Desvairada. Sua obra-prima \u00e9 o romance Macuna\u00edma, que usa fragmentos de mitos de diferentes culturas para compor uma imagem de unidade nacional. Embora muito ligada ao simbolismo, a poesia de Manuel Bandeira tamb\u00e9m exibe tra\u00e7os modernistas, como em Libertinagem.<\/p>\n<p>Heitor Villa-Lobos \u00e9 o principal compositor no Brasil e consolida a linguagem musical nacionalista. Para dar \u00e0s cria\u00e7\u00f5es um car\u00e1ter brasileiro, busca inspira\u00e7\u00e3o no folclore e incorpora elementos das melodias populares e ind\u00edgenas. O canto de p\u00e1ssaros brasileiros aparece em Bachianas N\u00ba 4 e N\u00ba 7. Em O Trenzinho Caipira, Villa-Lobos reproduz a sonoridade de uma maria-fuma\u00e7a e, em Choros N\u00ba 8, busca imitar o som de pessoas numa rua. Nos anos 30 e 40, sua est\u00e9tica serve de modelo para compositores como Francisco Mignone (1897-1986), Lorenzo Fernandez (1897-1948), Radam\u00e9s Gnattali (1906-1988) e Camargo Guarnieri (1907-1993).<\/p>\n<p>Ainda na d\u00e9cada de 20 s\u00e3o fundadas as primeiras companhias de teatro no pa\u00eds, em torno de atores como Leopoldo Fr\u00f3es (1882-1932), Proc\u00f3pio Ferreira (1898-1979), Dulcina de Moraes (1908-1996) e Jaime Costa (1897-1967). Defendem uma dic\u00e7\u00e3o brasileira para os atores, at\u00e9 ent\u00e3o submetidos ao sotaque e \u00e0 forma de falar de Portugal. Tamb\u00e9m inovam ao incluir textos estrangeiros com maior ousadia psicol\u00f3gica e vis\u00e3o mais complexa do ser humano.<\/p>\n<h4><strong>Naturalismo &#8211; Movimento<\/strong><\/h4>\n<p>O\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0foi uma tend\u00eancia art\u00edstica prevalecente em toda a Europa, na segunda metade do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0pretende imitar a Natureza com exatid\u00e3o, opondo-se ao idealismo e ao simbolismo.<\/p>\n<p>Os pintores foram-se interessando cada vez mais pela representa\u00e7\u00e3o da vida quotidiana e dos seus acontecimentos triviais. Foi uma tend\u00eancia que tamb\u00e9m teve express\u00e3o na\u00a0<strong>literatura<\/strong>, especialmente nas novelas de Zola e dos Goncourts.<\/p>\n<p>Esta escola procura a inspira\u00e7\u00e3o na observa\u00e7\u00e3o direta da Natureza, que \u00e9 pintada no local, e com toda a autenticidade.<\/p>\n<p><strong>A sua tem\u00e1tica \u00e9 portanto determinada pela pintura ao ar livre (plein air):<\/strong>\u00a0a paisagem, cenas da vida e do trabalho no campo. A pintura \u00e9 executada no local e observando diretamente o motivo a representar, bem como a luz e a cor local.<\/p>\n<p>A \u0093Escola do Barbizon\u0094, d\u00e1 inicio a uma pintura que abandona as formas tradicionais de pintar, a pintura de Atelier.<\/p>\n<p><strong>A PINTURA NATURALISTA<\/strong><\/p>\n<p>Pintar a Natureza na Natureza, as praias da Normandia, a floresta, o artista itinerante permitido pela nova inven\u00e7\u00e3o dos tubos de tinta a \u00f3leo, a cor natural ou \u0093local\u0094, a pintura do \u0093plein air\u0094. Tem\u00e1tica rural e despretensiosa.<\/p>\n<h4><strong>A Escola ou Grupo do Barbizon<\/strong><\/h4>\n<p>A \u0093Escola do Barbizon\u0094, toma o seu nome, de um grupo de pintores franceses paisagistas que viviam e trabalhavam na aldeia de Barbizon, nos arredores da floresta de Fontainebleau de 1835 a 1870. Os seus pintores de maior import\u00e2ncia foram Th\u00e9odore Rousseau, Corot, Millet e Daubigny.<\/p>\n<p>O seu estilo era Naturalista e marca a transi\u00e7\u00e3o entre o Romantismo e o Impressionismo.<\/p>\n<p><strong>O NATURALISMO EM PORTUGAL 1880-1910<\/strong><\/p>\n<p>Em Portugal o\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0chega tardiamente em 1879, por influencia da obra dos bolseiros de Paris, especialmente Silva Porto (e Marques de Oliveira), que tinha estado no Barbizon, tendo assimilado a\u00ed o m\u00e9todo de pintura ao ar livre e a sua tem\u00e1tica caracter\u00edstica. Este estilo imp\u00f5e-se e domina o gosto em Portugal at\u00e9 muito mais tarde do que no resto da Europa.<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o representantes do Naturalismo:<\/strong>\u00a0Silva Porto, Marques de Oliveira, Jos\u00e9 Malhoa, Jo\u00e3o Vaz, Sousa Pinto e Columbano (este com uma obra de\u00a0<strong>caracter\u00edsticas<\/strong>\u00a0muito pessoais e especificas). S\u00e3o temas predominantes as paisagens rurais e marinhas, cenas buc\u00f3licas, cenas de costumes rurais (especialmente Malhoa), ambientes urbanos e, principalmente em Columbano, cenas da vida urbana burguesa e o retrato.<\/p>\n<p>Em Portugal o Realismo e o\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>, \u00e0 semelhan\u00e7a do que ocorre com a\u00a0<strong>literatura francesa<\/strong>, s\u00e3o duas dire\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas com certa independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Saindo do Realismo, a que \u00e9 posterior cronologicamente, o Naturalismo dele se diferencia por conduzir a ci\u00eancia para o plano da obra de arte, fazendo desta como que meio de demonstra\u00e7\u00e3o de teses cient\u00edficas, especialmente de psicopatologia.<\/p>\n<p>O Realismo, mais esteticizante, embora se apoie no que as ci\u00eancias do s\u00e9c. XIX vinham afirmando e desvendando, n\u00e3o vai at\u00e9 \u00e0 profundidade anal\u00edtica do Naturalismo, donde adv\u00e9m a sua n\u00e3o-preocupa\u00e7\u00e3o pela patologia, caracter\u00edstica do romance naturalista. A par disso, enquanto o Naturalismo implica uma posi\u00e7\u00e3o combativa, de an\u00e1lise dos problemas que a decad\u00eancia social evidenciava, fazendo da obra de arte uma verdadeira tese com inten\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o Realismo apenas fotografa\u00bb com certa isen\u00e7\u00e3o a realidade circundante, sem ir mais longe na pesquisa, sem trazer a ci\u00eancia, dissertativamente, para o plano da obra.<\/p>\n<p>O romance realista encara a podrid\u00e3o social usando luvas de pelica, numa atitude fidalga de quem deseja sanar os males sociais, mas sente perante eles profunda n\u00e1usea, pr\u00f3pria dos sens\u00edveis e estetas. O naturalista, controlando a sua sensibilidade, ou acomodando-a \u00e0 ci\u00eancia, p\u00f5e luvas de borracha e n\u00e3o hesita em chafurdar as m\u00e3os nas p\u00fastulas sociais e analis\u00e1-las com rigorismo t\u00e9cnico, mais de quem faz ci\u00eancia do que\u00a0<strong>literatura<\/strong>.<\/p>\n<p>Em suma, realistas e naturalistas amparam-se nos mesmos preconceitos cient\u00edficos bebidos na atmosfera cultural que envolve a todos, mas diferenciam-se no modo como aproveitam os dados de conhecimento na elabora\u00e7\u00e3o da sua obra de arte.<\/p>\n<p>Essas diferen\u00e7as, postas aqui em s\u00edntese e nos seus aspectos fundamentais, n\u00e3o t\u00eam valor absoluto, porquanto existem v\u00e1rios pontos de contato entre Realismo e\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>, por se orientarem pelas mesmas \u00abverdades\u00bb cient\u00edficas e coexistirem numa \u00e9poca saturada de revolu\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p><strong>Mais ainda:\u00a0<\/strong>muito embora se classifiquem os romancistas dessa \u00e9poca em realistas e naturalistas conforme a predomin\u00e2ncia duma dessas dire\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, nos autores portugueses Realismo e Naturalismo acabam muitas vezes por se confundir.<\/p>\n<p>Introduzido o esp\u00edrito realista em Portugal atrav\u00e9s da Quest\u00e3o Coimbr\u00e3 (1865), das Confer\u00eancias do Casino (1871) e do Crime do Padre Amaro (1875) de E\u00e7a de Queir\u00f3s, iniciou-se um movimento te\u00f3rico que iria conduzir ao aparecimento do\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0pouco depois. Assim, J\u00falio Louren\u00e7o Pinto (1842-1907) (Do Realismo na Arte, 1877; ensaios in Letras e Artes, 1883-1884; Est\u00e9tica Naturalista, 1885 ), Jos\u00e9 Ant\u00f3nio dos Reis D\u00e2maso (1850-1895)<\/p>\n<p>(Anjo da Caridade, romance, 1871; Cenografias, contos, 1882; J\u00falio Dinis e o Naturalismo, 1884), Ant\u00f3nio Jos\u00e9 da Silva Pinto (1848-1911) (Do Realismo na Arte, 3.\u00aa ed., in Controv\u00e9rsias e Estudos Liter\u00e1rios, 1878; Realismos, 1880), Alexandre da Concei\u00e7\u00e3o (1842-1889) \u00abRealismo e Realistas\u00bb e \u00abRealistas e Rom\u00e2nticos\u00bb, in Ensaios de Cr\u00edtica e\u00a0<strong>Literatura<\/strong>, 1882), Alberto Carlos (A Escola Realista e a Moral, 1880), Lu\u00eds Cipriano Coe!ho de Magalh\u00e3es (\u00abNaturalismo e Realismo\u00bb, in Notas e Impress\u00f5es, 1890), Teixeira Bastos e outros te\u00f3ricos movimentaram a quest\u00e3o do Naturalismo, que dessa forma se foi impondo ao longo da d\u00e9cada de 80.<\/p>\n<p>A par da atividade teorizante, alguns dos te\u00f3ricos e outros autores lan\u00e7aram-se concretiza\u00e7\u00e3o do ide\u00e1rio naturalista. De pronto, duas foram as rotas seguidas, representadas pelo Realismo e pelo\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>. Ressalvando-se os elementos comuns, \u00e0 primeira pertenceram E\u00e7a de Queir\u00f3s, Fialho de Almeida, at\u00e9 certo ponto Trindade Coelho \u0096 o contista de Os meus amores, cuja po\u00e9tica delicadeza merece lugar \u00e0 parte \u0096, Teixeira de Queir\u00f3s, Lu\u00eds de Magalh\u00e3es (O Brasileiro Soares, 1886) e outros, mais preocupados com os aspectos exteriores da realidade f\u00edsica e humana, n\u00e3o obstante, como no caso de E\u00e7a, a tend\u00eancia para o psicologismo.<\/p>\n<p>Mais descritivos do que anal\u00edticos, excep\u00e7\u00e3o feita de E\u00e7a, e assim mesmo parcialmente, n\u00e3o sondam a alma e o esp\u00edrito das personagens sen\u00e3o para corroborar desvios de comportamento, no geral baseados no exacerbamento dos sentidos e nos apetites carnais. Esse primitivismo, feito de obedi\u00eancia a impulsos anormais superiores \u00e0 vontade, tir\u00e2nicos, patenteia-se em todos eles, excepto ainda E\u00e7a, que n\u00e3o lhe escapa por completo, como se observa na Lu\u00edsa d&#8217; O Primo Bas\u00edlio e na Am\u00e9lia d&#8217; O Crime do Padre Amaro.<\/p>\n<p>Retratistas de exteriores e de epis\u00f3dios do quotidiano fisiol\u00f3gico e rasteiro, at\u00eam-se mais \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o de surpreender coerentemente uma sociedade corro\u00edda que ao prop\u00f3sito de submet\u00ea-la \u00e0 an\u00e1lise fria, imparcial, orientada para um mundo melhor. O naturalismo desses romancistas e contistas est\u00e1 muito mais na posi\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito baseada no rep\u00fadio de qualquer subjetivismo e no desejar para a obra de arte uma orienta\u00e7\u00e3o mental definidamente cient\u00edfica e objetiva. Esse relativo apego ao naturalismo de Zola explica-se pela influ\u00eancia recebida do romance balzaquiano, especialmente, e do flaubertiano.<\/p>\n<p>\u00c9 pouco, por\u00e9m, em face do que se pode observar em romancistas ortodoxamente naturalistas, como Jos\u00e9 Augusto Vieira, J\u00falio Louren\u00e7o Pinto, Abel Botelho.<\/p>\n<p><strong>Do primeiro citam-se:\u00a0<\/strong>Fototipias do Minho, contos, 1879, e A divorciada, romance, 1881. J\u00falio Louren\u00e7o Pinto, te\u00f3rico apaixonado do<strong>Naturalismo<\/strong>, p\u00f4s em v\u00e1rios romances (Margarida, 1879; Vida Atribulada, 1880; O Senhor Deputado, 1882; O Homem Indispens\u00e1vel, 1884; O Bastardo, 1889) e num livro de contos (Esbo\u00e7os do Natural, 1882) um quadro humano colhido ao vivo e, portanto, atual, mas com cientificismo dogm\u00e1tico que rouba autenticidade \u00e0s suas cria\u00e7\u00f5es, pelo intuito de s\u00f3 analisar produtos bastardos e hospitalares. Aqui, como em tudo, se observa a influ\u00eancia de Zola, tomado ao p\u00e9 da letra, e n\u00e3o mesclado a talento e sensibilidade, necess\u00e1rios para o superar e criar romances de maior for\u00e7a e perman\u00eancia.<\/p>\n<p>Ainda sob a influ\u00eancia de Zola, Abel Botelho disp\u00f4s-se a criticar a sociedade do tempo na s\u00e9rie Patologia Social, em outros tr\u00eas romances (Sem rem\u00e9dio&#8230;, Amor Crioulo, Os L\u00e1zaros) e num livro de contos (Mulheres da Beira), mostrando-lhe, justamente os aspectos perec\u00edveis e em flagrante decomposi\u00e7\u00e3o. Sua linguagem, forte, abundante, \u00e1gil, n\u00e3o esconde a vista aguda do homem sens\u00edvel e o teatr\u00f3logo, capaz de perceber e pintar matizes e subtilidades de toda a ordem. Com altos e baixos, a Patologia Social est\u00e1 toda ela dentro dos moldes do\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>, manifestando, al\u00e9m das qualidades do A., reconhec\u00edveis ao primeiro contato, a preocupa\u00e7\u00e3o, em que est\u00e1 quase inteiramente isolado, pela luta de classes e pelas quest\u00f5es sociais em geral (cf. sobretudo Amanh\u00e3, vol. III da Patologia Social).<\/p>\n<p>Sua ortodoxia naturalista deformou em parte o alcance e o poder da sua obra, mas A. B. soube servir-se do magist\u00e9rio, de Zola para criar romances em que o seu talento de escritor vigoroso e fluente est\u00e1 presente a cada instante. N\u00e3o escapou \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de pintar cenas e tipos escabrosos, mas mesmo nesse aspecto, sobretudo pelo modo como o fez, abriu caminho para as obras de Raul Brand\u00e3o, debru\u00e7ado sobre as mesmas chagas sociais, numa atitude de indignado e contemplativo, a sonhar um destino melhor para o Homem. Nesse sentido n\u00e3o se lhe nega valor, em que pese a supera\u00e7\u00e3o do romance naturalista.<\/p>\n<p>Com o advento do romance \u00e0 Zola, o Realismo esgota o seu programa e o\u00a0<strong>Naturalismo<\/strong>\u00a0pouco dura no plano do interesse geral. Entrado o s\u00e9c. XX noutra atmosfera mental, o Naturalismo desaparece, tragado pelo neo-espiritualismo que se vinha impondo a partir da d\u00e9cada de 90. Feito o balan\u00e7o, afora E\u00e7a, Fialho de Almeida e Trindade Coelho, mais realistas que naturalistas, s\u00f3 restam Abel Botelho, e, de certo \u00e2ngulo, Teixeira de Queir\u00f3s, como representantes de import\u00e2ncia da prosa de fic\u00e7\u00e3o do \u00faltimo quartel do s\u00e9c. XIX.<\/p>\n<p>Fonte: \u00a0www.esec-josefa-obidos.rcts.pt\/aroldasletras.no.sapo.pt\/Encyclopaedia Britannica do Brasil Publica\u00e7\u00f5es Ltda<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que foi o naturalismo? 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