{"id":127677,"date":"2017-10-13T14:57:27","date_gmt":"2017-10-13T16:57:27","guid":{"rendered":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/?p=127677"},"modified":"2025-05-02T12:16:04","modified_gmt":"2025-05-02T14:16:04","slug":"fe-e-razao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/ciencias-humanas\/filosofia\/fe-e-razao","title":{"rendered":"F\u00e9 e Raz\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><b>F\u00e9 e Raz\u00e3o &#8211; O que \u00e9<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 antiga a discuss\u00e3o entre\u00a0<strong>f\u00e9 e raz\u00e3o<\/strong>\u00a0e no decorrer da hist\u00f3ria da filosofia s\u00e3o in\u00fameros os fil\u00f3sofos que se propuseram a pensar essa rela\u00e7\u00e3o ora legitimando uma complementaridade (compatibilistas) ora uma polariza\u00e7\u00e3o (incompatibilistas). A inten\u00e7\u00e3o deste texto \u00e9 justamente pensarmos as poss\u00edveis respostas que foram dadas por alguns fil\u00f3sofos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Dentre os que se propuseram a pensar a rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o cumpre citar os seguintes\u00a0<\/b><strong><em>fil\u00f3sofos<\/em><\/strong><b>:<\/b>\u00a0Bo\u00e9cio, Agostinho, Escoto de Eri\u00fagena, Anselmo de Aosta, Pedro Abelardo, Alberto Magno, Mois\u00e9s Maim\u00f4nidas, Tom\u00e1s de Aquino, S\u00e3o Boaventura, Duns Escoto, Guilherme de Ockham, Mestre Eckhart, dentre outros haja vista a lista ser imensa tanto quanto s\u00e3o diversas as suas posi\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o estabelecida entre\u00a0<b>f\u00e9 e raz\u00e3o\/ filosofia e teologia<\/b>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Em\u00a0<\/b><strong><em>Agostinho de Hypona\u00a0<\/em><\/strong><b>(354-430 EC), o mais importante fil\u00f3sofo do in\u00edcio da Medievalidade, tem-se uma intera\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e raz\u00e3o eternizada na c\u00e9lebre frase:<\/b>\u00a0\u201c<em>compreender para crer<\/em>,\u00a0<em>cr\u00ea para compreender<\/em>\u201d, uma refer\u00eancia clara ao preceito b\u00edblico do profeta Isa\u00edas 7,9. Em outras palavras, convida-nos para al\u00e9m de uma mera polariza\u00e7\u00e3o a unir a f\u00e9 e a raz\u00e3o na compreens\u00e3o da vida. Uma esp\u00e9cie de \u201c<em>filosofar na f\u00e9<\/em>\u201d pelo qual a f\u00e9 estimularia a reflex\u00e3o racional e vice-versa numa rela\u00e7\u00e3o de complementaridade. Nesse sentido, a dissocia\u00e7\u00e3o entre cren\u00e7a e intelectualidade n\u00e3o ganha espa\u00e7o na reflex\u00e3o agostiniana, mas antes se complementam para garantir o desenvolvimento pleno da f\u00e9 e da raz\u00e3o, possibilitando pensarmos uma Filosofia Crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro fil\u00f3sofo de extrema import\u00e2ncia para o debate\u00a0<b>f\u00e9 e raz\u00e3o<\/b>\u00a0foi o fil\u00f3sofo e te\u00f3logo italiano\u00a0<strong>Tom\u00e1s de Aquino<\/strong>, representante m\u00e1ximo da Escol\u00e1stica medieval, que defende uma unidade entre a raz\u00e3o e a f\u00e9, haja vista ambas objetivarem a busca da verdade, inviabilizando uma contraposi\u00e7\u00e3o entre Teologia e Filosofia uma vez que ambas teriam campos de atua\u00e7\u00e3o e m\u00e9todos de compreens\u00e3o da realidade distintos, por\u00e9m, nunca contradit\u00f3rios e constituiriam a totalidade da verdade que \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00fanica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, como nem tudo s\u00e3o flores, houve posi\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 uni\u00e3o entre\u00a0<b>Filosofia e Teologia\/ f\u00e9 e raz\u00e3o<\/b>\u00a0e um exemplo bastante conhecido \u00e9 o do cartaginense Quinto Set\u00edmio Florente\u00a0<strong>Tertuliano<\/strong>\u00a0que empreendeu o seu filosofar na tentativa de combater a import\u00e2ncia da Filosofia\/raz\u00e3o no caminho da f\u00e9. A seu ver, o pensamento racional longe de ser uma contribui\u00e7\u00e3o ben\u00e9fica para se chegar \u00e0s verdades de f\u00e9 (como pensava Tom\u00e1s de Aquino, Agostinho) seria antes um obst\u00e1culo, uma blasf\u00eamia ao caminho da salva\u00e7\u00e3o. Destarte, para o aut\u00eantico crist\u00e3o, a f\u00e9 bastaria tornando-se dispens\u00e1vel toda e qualquer Filosofia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o pensamento de Tertuliano date da segunda metade do s\u00e9culo II, h\u00e1 reverbera\u00e7\u00f5es de seu pensamento ainda hoje, no s\u00e9culo XXI, nas falas e discursos de muitos religiosos que entendem que a f\u00e9 basta, n\u00e3o sendo necess\u00e1rio o desenvolvimento do intelecto para a compreens\u00e3o dos fen\u00f4menos que se apresentam ao humano quer sejam eles divinos ou n\u00e3o. Entretanto, como bem assinala Reale, independentemente da posi\u00e7\u00e3o de Tertuliano quanto \u00e0 import\u00e2ncia da Filosofia cumpre ressaltar o seu m\u00e9rito na elabora\u00e7\u00e3o da primeira linguagem da teologia latino-crist\u00e3 e den\u00fancia dos erros da heresia gn\u00f3stica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>F\u00e9 e raz\u00e3o s\u00e3o compat\u00edveis?<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Duas fontes de conhecimento<\/b><\/p>\n<p>Vamos come\u00e7ar fazendo uma distin\u00e7\u00e3o muito importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>A doutrina cat\u00f3lica ensina que o homem tem duas fontes de conhecimento:<\/b>\u00a0a raz\u00e3o natural e a f\u00e9.<\/p>\n<p><b>Por sua raz\u00e3o natural, o homem pode conhecer tudo o que \u00e9 acess\u00edvel ao seu conhecimento natural<\/b>: a natureza, suas leis, o homem, etc. Ele tamb\u00e9m pode conseguir demonstrar que existe necessariamente uma causa primeira do universo, que todos chamam de Deus. Todo esse campo do conhecimento \u00e9 o objeto da filosofia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Este \u00e9 tamb\u00e9m, pelo menos em parte, o objeto das ci\u00eancias experimentais<\/b>: a f\u00edsica, a qu\u00edmica, a biologia t\u00eam como objetivo o conhecimento do mundo que nos rodeia.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 coisas que o homem, deixado \u00e0 pr\u00f3pria sorte, jamais ser\u00e1 capaz de saber. Estas s\u00e3o realidades sobrenaturais, por exemplo, o mist\u00e9rio da Sant\u00edssima Trindade. Para saber que h\u00e1 tr\u00eas pessoas em Deus, o homem precisa de uma nova luz sobrenatural. Essa luz sobrenatural \u00e9 a f\u00e9.<\/p>\n<p><b>A doutrina cat\u00f3lica ensina que o homem tem duas fontes de conhecimento<\/b>: a raz\u00e3o natural e a f\u00e9 (&#8230;) Essas duas fontes de conhecimento, a raz\u00e3o e a f\u00e9, ambas v\u00eam de Deus e, portanto, n\u00e3o podem se contradizer.<\/p>\n<p>Essas duas fontes de conhecimento, raz\u00e3o e f\u00e9, v\u00eam de Deus e, portanto, n\u00e3o podem se contradizer. Este \u00e9 um ponto fundamental. Caso contr\u00e1rio, Deus n\u00e3o seria consistente. H\u00e1 necessariamente uma harmonia entre\u00a0<b>f\u00e9 e raz\u00e3o<\/b>\u00a0e, portanto, uma harmonia entre o ensinamento da revela\u00e7\u00e3o, conhecido pela f\u00e9 e transmitido pela Igreja, e as conclus\u00f5es das ci\u00eancias experimentais, na medida em que estas \u00faltimas s\u00e3o corretas e feitas no seu n\u00edvel pr\u00f3prio.<\/p>\n<p><b>Como disse Jo\u00e3o Paulo II:<\/b>\u00a0\u201cA f\u00e9 e a raz\u00e3o s\u00e3o como as duas asas que permitem ao esp\u00edrito humano elevar-se \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o da verdade\u201d. Chega de teoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Nem discordismo nem concordismo<\/b><\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, as coisas s\u00e3o um pouco mais complicadas, e algumas teorias cient\u00edficas \u00e0s vezes parecem dif\u00edceis de conciliar com a revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Vamos dar um exemplo, escolhido deliberadamente para ser um pouco controverso, para nos ajudar a entender<\/b>: a teoria da evolu\u00e7\u00e3o de Darwin sustenta que o homem apareceu na Terra pela evolu\u00e7\u00e3o de outras esp\u00e9cies vivas, e que a for\u00e7a motriz dessa evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 o acaso. A f\u00e9 crist\u00e3, ao contr\u00e1rio, ensina que a alma humana \u00e9 criada diretamente por Deus. Diante dessa aparente contradi\u00e7\u00e3o, tr\u00eas atitudes s\u00e3o poss\u00edveis.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 a do discordismo, ou dupla verdade. A f\u00e9 me ensina algo em seu dom\u00ednio, e isso \u00e9 verdade para o crente; A ci\u00eancia me diz o contr\u00e1rio, e isso \u00e9 verdade para o cientista. Essa atitude j\u00e1 se encontra entre certos autores da Idade M\u00e9dia, e S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, no s\u00e9culo XIII, combateu com muita energia essa vis\u00e3o das coisas. Na verdade, \u00e9 um verdadeiro suic\u00eddio intelectual. Penso uma coisa quando estou no meu laborat\u00f3rio e penso exatamente o oposto quando penso como crist\u00e3o. Posi\u00e7\u00e3o a ser exclu\u00edda, portanto.<\/p>\n<p>\u201cA f\u00e9 e a raz\u00e3o s\u00e3o como as duas asas que permitem ao esp\u00edrito humano elevar-se \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o da verdade. (Jo\u00e3o Paulo II, Fides et Ratio, 1998)<\/p>\n<p>Segunda possibilidade. Estou convencido de que Darwin est\u00e1 certo. E assim, creio que a Igreja est\u00e1 enganada quando ensina que a alma humana \u00e9 criada diretamente por Deus. Mais uma vez, esta posi\u00e7\u00e3o \u00e9 insustent\u00e1vel para o crente. Para que ? Porque Deus \u00e9 a pr\u00f3pria verdade.<\/p>\n<p>Contudo, outro cen\u00e1rio \u00e9 poss\u00edvel na rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e f\u00e9. \u00c0s vezes, teorias cient\u00edficas parecem confirmar um ensinamento de f\u00e9. Por exemplo, muitos autores crist\u00e3os veem na teoria do Big Bang uma confirma\u00e7\u00e3o da doutrina da cria\u00e7\u00e3o. O problema com esse tipo de abordagem, que tem sua relev\u00e2ncia em sua ordem \u2013 e que \u00e9 chamado de concordismo \u2013 \u00e9 que se d\u00e1 demasiada import\u00e2ncia ao conhecimento cient\u00edfico. N\u00e3o, claro, porque a ci\u00eancia seria desprez\u00edvel, mas porque, devido ao seu m\u00e9todo, h\u00e1 certas conclus\u00f5es \u00e0s quais a ci\u00eancia experimental n\u00e3o pode chegar. Vamos explicar este \u00faltimo ponto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>O trabalho do cientista pode ser dividido em tr\u00eas n\u00edveis, cada um mais complexo<\/b>: experimenta\u00e7\u00e3o por meio de medi\u00e7\u00e3o, desenvolvimento de leis cient\u00edficas e, finalmente, desenvolvimento de teorias cient\u00edficas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Os tr\u00eas n\u00edveis do conhecimento cient\u00edfico<\/b><\/p>\n<p>O primeiro n\u00edvel \u00e9 obtido atrav\u00e9s da media\u00e7\u00e3o de um instrumento de medi\u00e7\u00e3o.<b><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Um grande cientista, Arthur Eddington, d\u00e1 este exemplo<\/b>: ele procura explicar o escorregamento de um elefante em uma colina com declive gramado. Para modelar esse experimento, ele substitui o elefante por sua massa (2 toneladas), o declive gramado por um plano inclinado de 15 graus e a grama por um coeficiente de atrito. E, combinando todos esses elementos, ele poder\u00e1 avaliar a velocidade de descida do elefante. O que isto significa? Isso significa que a ci\u00eancia conhece a realidade matematizando-a, expressando-a por meio de n\u00fameros que remetem \u00e0 medi\u00e7\u00e3o dos meus instrumentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>E assim, o cientista n\u00e3o alcan\u00e7a o ser profundo das coisas (o ser do elefante, a natureza do movimento, etc.), mas alcan\u00e7a apenas um aspecto da realidade<\/b>: uma certa quantidade mensur\u00e1vel.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia diz algo sobre a realidade, e isso \u00e9 muito importante, mas n\u00e3o diz tudo sobre a realidade. Quando os cientistas querem falar sobre uma realidade que escapa \u00e0 experi\u00eancia (a cria\u00e7\u00e3o, Deus, a alma humana), na verdade, eles n\u00e3o est\u00e3o mais tanto em seu pr\u00f3prio campo, mas est\u00e3o se movendo para o da filosofia ou da teologia.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia diz algo sobre a realidade, e isso \u00e9 muito importante, mas n\u00e3o diz tudo sobre a realidade.<\/p>\n<p>\u00c9 isso para o primeiro n\u00edvel. Uma vez que o cientista tenha estabelecido um certo n\u00famero de medi\u00e7\u00f5es, ele pode desenvolver leis cient\u00edficas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Por exemplo, ele ser\u00e1 capaz de determinar que a velocidade de um objeto \u00e9 igual \u00e0 dist\u00e2ncia percorrida dividida pelo tempo<\/b>: V=d\/t, como aprendemos no ensino fundamental. Ou ainda, ele poder\u00e1, sempre a partir da experimenta\u00e7\u00e3o, estabelecer certas leis de funcionamento dos vivos. Ele ent\u00e3o geralmente alcan\u00e7a uma certeza real, que lhe permite entender melhor a estrutura da mat\u00e9ria e o comportamento dos seres f\u00edsicos que o cercam.<\/p>\n<p>Terceiro n\u00edvel. Uma vez que o cientista tenha estabelecido diversas leis, ele procurar\u00e1 relacion\u00e1-las entre si. Ele chega ent\u00e3o a uma s\u00edntese organizada, que chamamos de teoria cient\u00edfica. Mas \u00e9 raro que uma teoria cient\u00edfica possa ser considerada absolutamente definitiva. Muitas vezes, ele precisa ser corrigido \u00e0 luz de novas descobertas e integrado a uma teoria mais ampla. Foi o que aconteceu com a transi\u00e7\u00e3o da f\u00edsica newtoniana para a f\u00edsica einsteiniana. E Einstein estava bem ciente da natureza limitada das teorias cient\u00edficas, e ele explicou isso com o seguinte exemplo. O cientista \u00e9 como um homem que encontra um rel\u00f3gio funcionando, mas n\u00e3o consegue abri-lo. Este homem tentar\u00e1 ent\u00e3o imaginar que tipo de mecanismo pode explicar o movimento das m\u00e3os. Mas, como ele nunca ser\u00e1 capaz de abrir a caixa, ele nunca poder\u00e1 ter certeza absoluta de que sua teoria \u00e9 consistente com a realidade. Pode ser que a explica\u00e7\u00e3o real para o movimento das m\u00e3os seja diferente daquela proposta por sua teoria.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que devemos ser cuidadosos quando queremos defender um elemento da f\u00e9 crist\u00e3 com base em uma teoria cient\u00edfica. Porque pode ser que novas descobertas cient\u00edficas venham a invalidar, pelo menos em parte, essa teoria. Al\u00e9m disso, Santo Tom\u00e1s de Aquino foi, em seu tempo, cauteloso o suficiente para aceitar os resultados das observa\u00e7\u00f5es dos astr\u00f4nomos. Al\u00e9m disso, as teorias cient\u00edficas nunca s\u00e3o filosoficamente neutras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>A maioria dos cientistas concorda com os dois primeiros n\u00edveis<\/b>: experimenta\u00e7\u00e3o e leis. Desentendimentos surgem no n\u00edvel de teorias e s\u00e3o explicados por diferen\u00e7as filos\u00f3ficas (ou teol\u00f3gicas). Portanto, \u00e9 muito \u00fatil, ao discutir essas quest\u00f5es, procurar descobrir os pressupostos filos\u00f3ficos desta ou daquela teoria cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Poderemos assim estabelecer um di\u00e1logo fecundo entre ci\u00eancia, f\u00e9 e filosofia, e contemplar, no universo, a obra da sabedoria divina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>F\u00e9 e Raz\u00e3o &#8211; Filosofia<\/b><\/p>\n<p class=\"imagem\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-127678 size-full\" title=\"F\u00e9 e Raz\u00e3o\" src=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/fe-e-razao.jpg\" alt=\"F\u00e9 e Raz\u00e3o\" width=\"411\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/fe-e-razao.jpg 411w, https:\/\/lab.fabricadelandings.com.br\/portalsaofrancisconovo\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/fe-e-razao-300x153.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 411px) 100vw, 411px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde seus prim\u00f3rdios, a filosofia oferece tanto apoio ao que \u00e9 defendido pela f\u00e9 quanto uma cr\u00edtica \u00e0 cren\u00e7a religiosa. A filosofia contribui para a f\u00e9 na aprecia\u00e7\u00e3o de argumentos a favor e contra a exist\u00eancia de Deus e sobre os atributos divinos. A f\u00e9 e a raz\u00e3o tamb\u00e9m se apoiam mutuamente quando examinam criticamente o problema do mal. Temas doutrin\u00e1rios como milagres podem se beneficiar de uma an\u00e1lise filos\u00f3fica que pretenda ser puramente racional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tradicionalmente,\u00a0<b>f\u00e9 e raz\u00e3o<\/b>\u00a0t\u00eam sido consideradas fontes de justifica\u00e7\u00e3o para a cren\u00e7a religiosa. Como ambas podem supostamente servir \u00e0 mesma fun\u00e7\u00e3o epist\u00eamica, tem sido de grande interesse para fil\u00f3sofos e te\u00f3logos como as duas se relacionam e, portanto, como o agente racional deve tratar as afirma\u00e7\u00f5es derivadas de cada uma delas. Alguns sustentam que n\u00e3o pode haver conflito entre as duas &#8211; que a raz\u00e3o devidamente empregada e a f\u00e9 devidamente compreendida jamais produzir\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias ou concorrentes &#8211; enquanto outros sustentam que\u00a0<b>f\u00e9 e raz\u00e3o<\/b>\u00a0podem (ou mesmo devem) estar em genu\u00edna disputa sobre certas proposi\u00e7\u00f5es ou metodologias. Aqueles que adotam esta \u00faltima vis\u00e3o discordam quanto \u00e0 quest\u00e3o de se a f\u00e9 ou a raz\u00e3o devem prevalecer quando as duas est\u00e3o em conflito. Kierkegaard, por exemplo, prioriza a f\u00e9 at\u00e9 o ponto em que ela se torna positivamente irracional, enquanto Locke enfatiza a razoabilidade da f\u00e9 a tal ponto que a irracionalidade de uma doutrina religiosa \u2014 conflito consigo mesma ou com fatos conhecidos \u2014 \u00e9 um sinal de que ela \u00e9 infundada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros pensadores teorizaram que a f\u00e9 e a raz\u00e3o governam, cada uma, seus pr\u00f3prios dom\u00ednios separados, de modo que casos de aparente conflito s\u00e3o resolvidos pelo lado da f\u00e9 quando a afirma\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o \u00e9, digamos, uma afirma\u00e7\u00e3o religiosa ou teol\u00f3gica, mas resolvidos pelo lado da raz\u00e3o quando a afirma\u00e7\u00e3o em disputa \u00e9, por exemplo, emp\u00edrica ou l\u00f3gica. Alguns fil\u00f3sofos relativamente recentes, principalmente os positivistas l\u00f3gicos, negaram que exista um dom\u00ednio do pensamento ou da exist\u00eancia humana corretamente governado pela f\u00e9, afirmando, em vez disso, que todas as afirma\u00e7\u00f5es e ideias significativas s\u00e3o acess\u00edveis a um exame racional completo. Isso representou um desafio para os pensadores religiosos, que precisavam explicar como uma forma de linguagem reconhecidamente n\u00e3o racional ou transracional pode conter conte\u00fado cognitivo significativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>F\u00e9 e raz\u00e3o na mente moderna<br \/>\n<\/b><br \/>\nTornou-se quase axiom\u00e1tico que n\u00f3s, pessoas modernas, consideramos que\u00a0<b>f\u00e9 e raz\u00e3o<\/b>\u00a0envolvem duas esferas completamente diferentes da experi\u00eancia humana. Essa maneira de pensar \u00e9 frequentemente t\u00e3o verdadeira para pessoas de f\u00e9 quanto para aquelas que n\u00e3o s\u00e3o religiosas. A dicotomia se expressa de diferentes maneiras. \u00c0s vezes, diz-se que a raz\u00e3o lida com o que sabemos, enquanto a f\u00e9 lida com o que sentimos; ou que a raz\u00e3o trata de assuntos que podem ser provados conclusivamente, enquanto a f\u00e9 se refere a conjecturas e suposi\u00e7\u00f5es; ou que a raz\u00e3o \u00e9 objetiva, enquanto a f\u00e9 \u00e9 subjetiva; ou que a raz\u00e3o \u00e9 cient\u00edfica, enquanto a f\u00e9 \u00e9 personalista; ou que a raz\u00e3o leva ao conhecimento genu\u00edno e a f\u00e9 \u00e9 mera opini\u00e3o. Seja qual for a forma como a rela\u00e7\u00e3o entre as duas seja descrita, \u00e9 comumente defendido que a universidade \u00e9 propriamente um lugar para a raz\u00e3o, isto \u00e9, para o conhecimento verific\u00e1vel, e n\u00e3o para a f\u00e9, isto \u00e9, para opini\u00f5es privadas ou sentimentos e atitudes subjetivos. Igrejas podem ser bons lugares, mas universidades n\u00e3o s\u00e3o igrejas, e elas abordam uma ordem de pensamento e esfor\u00e7o completamente diferente.<\/p>\n<p>Se essa vis\u00e3o das coisas for tomada como ponto de partida, a pr\u00f3pria ideia de uma universidade cat\u00f3lica torna-se problem\u00e1tica. De um ponto de vista, a ideia de que cat\u00f3licos possam frequentar uma universidade, ou mesmo fundar e administrar uma, n\u00e3o apresenta dificuldades especiais, assim como a de que cat\u00f3licos possam abrir uma loja de departamentos ou administrar uma empresa de tecnologia. Mas, de acordo com a vis\u00e3o moderna predominante de\u00a0<b>f\u00e9 e raz\u00e3o<\/b>\u00a0apresentada acima, o projeto especificamente intelectual da universidade nada tem a ver com a f\u00e9 cat\u00f3lica, e n\u00e3o pode ter, pela natureza das coisas. Tentar &#8220;impor&#8221; doutrinas ou dogmas que adv\u00eam da f\u00e9 \u00e0 atividade da universidade seria colocar a busca por conhecimento em uma camisa de for\u00e7a. Os minist\u00e9rios universit\u00e1rios, sem d\u00favida, t\u00eam seu lugar, e a Igreja pode estar presente para atender \u00e0s necessidades e desejos religiosos dos alunos que assim o desejarem. Mas a atividade religiosa deve permanecer distinta do projeto intelectual e educativo da universidade, para que esse projeto n\u00e3o seja comprometido. A fun\u00e7\u00e3o da universidade s\u00e3o fatos verific\u00e1veis, n\u00e3o opini\u00f5es pessoais, emo\u00e7\u00f5es subjetivas, nem, enfaticamente, o que \u00e9 classificado como intoler\u00e2ncia ou preconceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Raz\u00e3o e F\u00e9 em Deus<\/b><\/p>\n<p><b>Agostinho e Tom\u00e1s de Aquino, dois dos pensadores mais sutis da hist\u00f3ria crist\u00e3 e ambos defensores da raz\u00e3o, frequentemente faziam coment\u00e1rios como<\/b>: \u201cSe voc\u00ea entendesse Deus, n\u00e3o seria Deus que voc\u00ea teria entendido\u201d (Agostinho, Serm\u00e3o 56). Esta \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o racional. Fil\u00f3sofos de muitas tradi\u00e7\u00f5es chegaram, por meio do racioc\u00ednio filos\u00f3fico, \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que existe um ser al\u00e9m de todos os outros, que \u00e9 o criador de tudo o que existe e a fonte da pr\u00f3pria exist\u00eancia. Se tal ser infinito e ilimitado existe, \u00e9 um corol\u00e1rio necess\u00e1rio que os humanos, possuidores de intelig\u00eancia e experi\u00eancia finitas, n\u00e3o ser\u00e3o capazes de compreender plenamente esse ser. Aquele que diz compreender Deus plenamente est\u00e1 sendo irracional. Portanto, um certo mist\u00e9rio a respeito do ser de Deus e de suas opera\u00e7\u00f5es no mundo \u00e9 uma qualidade necess\u00e1ria do pensamento racional sobre Deus.<\/p>\n<p>Como a mente humana \u00e9 limitada em sua apreens\u00e3o de Deus, nossos poderes de racioc\u00ednio s\u00f3 podem nos levar at\u00e9 certo ponto. Quase todas as grandes filosofias do mundo chegaram \u00e0 exist\u00eancia de Deus de uma forma ou de outra. Mas esse conhecimento tem sido necessariamente obscuro e indistinto. Os crist\u00e3os afirmam que o Deus sobre o qual os fil\u00f3sofos raciocinaram entrou na hist\u00f3ria humana e se revelou a n\u00f3s, informando-nos sobre certos assuntos que n\u00e3o poder\u00edamos ter descoberto por n\u00f3s mesmos. Esse conhecimento revelado de Deus e do mundo, portanto, precisa ser recebido pela f\u00e9; isto \u00e9, vai al\u00e9m do que podemos simplesmente verificar e requer um ato de confian\u00e7a naquele que d\u00e1 a revela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 irracional sustentar que Deus sabe muito sobre si mesmo e sobre o mundo que criou e sustenta. A possibilidade de que ele tenha revelado parte desse conhecimento aos humanos tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 descabida. Mas, assim como precisamos ter bons fundamentos para exercer f\u00e9 em quest\u00f5es da vida cotidiana, tamb\u00e9m precisamos de fundamentos razo\u00e1veis \u200b\u200bpara exercer f\u00e9 em Deus. Uma das tarefas do estudo teol\u00f3gico \u00e9 peneirar e classificar os fundamentos para o ato de f\u00e9 crist\u00e3o. Seria simplesmente ininteligente acreditar em algo sobre Deus se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos nenhum fundamento para tal cren\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Isso seria mera ilus\u00e3o ou se enquadraria no que os cat\u00f3licos chamam de erro de &#8220;fide\u00edsmo&#8221;<\/b>: a nega\u00e7\u00e3o dos fundamentos razo\u00e1veis \u200b\u200bda f\u00e9. Sendo o cristianismo uma religi\u00e3o revelada, empregamos a raz\u00e3o para examinar a plausibilidade da revela\u00e7\u00e3o que nos foi dada. Se, uma vez que chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que temos boas bases para a genuinidade dessa revela\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o a atitude racional a tomar \u00e9 depositar nossa f\u00e9 nela, de forma an\u00e1loga \u00e0 forma como acreditamos no que um amigo nos disse, uma vez que temos boas bases para a intelig\u00eancia e a veracidade dessa pessoa, ou \u00e0 forma como recebemos o relato de uma testemunha ocular de um evento ou de uma conversa em que n\u00e3o estivemos presentes como confi\u00e1vel, porque temos boas raz\u00f5es para acreditar que a testemunha ocular est\u00e1 dizendo a verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>F\u00e9 e Raz\u00e3o na M\u00fasica<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cO m\u00e9rito \u00e9 todo dos santos \/ O erro e o pecado s\u00e3o meus \/ Mas onde est\u00e1 nossa vontade \/ Se tudo \u00e9 vontade de Deus \/ Apenas n\u00e3o sei ler direito \/ A l\u00f3gica da cria\u00e7\u00e3o \/ O que vem depois do infinito \/ E antes da tal explos\u00e3o \/ Por que que o tal ser humano \/ J\u00e1 nasce sabendo do fim \/ E a morte transforma em engano \/ As flores do seu jardim [\u2026] Se \u00e9 ele que cria o destino \/ Eu n\u00e3o entendi a equa\u00e7\u00e3o \/ Se Deus criou o desejo \/ Por que que \u00e9 pecado o prazer [\u2026] Porque se existe outra vida [\u2026] N\u00e3o mostra pra gente de vez \/ Por que que nos deixa nos escuro \/ Se a luz ele mesmo que fez \/ Por que me fez t\u00e3o errado \/ Se dele vem a perfei\u00e7\u00e3o \/ Sabendo ali quieto, calado \/ Que eu ia criar confus\u00e3o \/ E a mim que sou t\u00e3o descuidado \/ N\u00e3o resta mais nada a fazer \/ Apenas dizer que n\u00e3o entendo \/ Meu Deus como eu amo voc\u00ea\u201d A L\u00f3gica da Cria\u00e7\u00e3o \u2013 Oswaldo Montenegro.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta m\u00fasica Montenegro questiona, filosoficamente, a suposta l\u00f3gica da cria\u00e7\u00e3o defendida pela teoria criacionista. Nela vemos claramente o conflito entre a f\u00e9 e a raz\u00e3o na consci\u00eancia do eu-l\u00edrico que n\u00e3o entende a incompatibilidade entre a pressuposta onipot\u00eancia de Deus e a exist\u00eancia de tantos desencontros que v\u00e3o na contram\u00e3o da suposta l\u00f3gica da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cr\u00edtica semelhante \u00e0 de Montenegro, na filosofia, encontramos em Epicuro que v\u00ea a incompatibilidade entre a onipot\u00eancia divina e a exist\u00eancia do mal no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b>Tal pensamento \u00e9 magistralmente arquitetado sob os seguintes termos<\/b>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><b><em>\u201cDeus ou quer impedir os males e n\u00e3o pode, ou pode e n\u00e3o quer, ou ainda n\u00e3o quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e n\u00e3o pode, \u00e9 impotente: o que \u00e9 imposs\u00edvel em Deus. Se pode e n\u00e3o quer, \u00e9 invejoso: o que, do mesmo modo, \u00e9 contr\u00e1rio a Deus. Se nem quer nem pode, \u00e9 invejoso e impotente: portanto nem mesmo \u00e9 Deus. Se pode e quer, que \u00e9 a \u00fanica coisa compat\u00edvel com Deus, donde prov\u00e9m ent\u00e3o a exist\u00eancia dos males? Por que raz\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o os impede?\u201d<\/em>\u2013 Epicuro.<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte:<\/strong>\u00a0Col\u00e9gio S\u00e3o Francisco\/F\u00e1bio Guimar\u00e3es de Castro\/www.collegedesbernardins.fr\/ep.utm.edu\/primematters.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e9 e Raz\u00e3o &#8211; O que \u00e9 \u00c9 antiga a discuss\u00e3o entre\u00a0f\u00e9 e raz\u00e3o\u00a0e no decorrer da hist\u00f3ria da filosofia s\u00e3o in\u00fameros os fil\u00f3sofos que se propuseram a pensar essa rela\u00e7\u00e3o ora legitimando uma complementaridade (compatibilistas) ora uma polariza\u00e7\u00e3o (incompatibilistas). 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